Capítulo 44
Acordei com o gosto de sangue na boca. Tinha mordido a bochecha de novo durante o pesadelo. Ainda sentia o cheiro de gasolina e o som dos gritos ecoando nos meus ouvidos quando os olhos se abriram para o teto alto do quarto do hotel.
Paris.
Estávamos em Paris.
se mexeu ao meu lado antes mesmo de eu respirar fundo.
— Outra vez? — sua voz era áspera de sono, mas as mãos já estavam procurando meu rosto no escuro.
Não respondi. Como explicar que depois de tantos anos, ainda sonhava com o porão da casa do meu pai? Com aquele cheiro de mofo e ferro? Como explicar que mesmo quando devia descansar, meus demônios ainda me rondavam, dançavam em minha mente? Como explicar que, para mim, sonhos e memórias eram a mesma coisa? Que eu carregava cadáveres em todos os segundos que minha mente funcionava?
Seus dedos encontraram minha testa, traçando linhas suaves até meu queixo.
— Vem — ela ordenou, jogando as cobertas para o lado antes que eu pudesse protestar. Seus pés descalços encontraram o carpete enquanto me puxava pela mão em direção ao banheiro.
A porta do banheiro rangeu levemente quando ela abriu. O mármore frio sob meus pés me deu uma pequena preguiça de entrar ali, mas ela não me deu tempo para pensar. Suas mãos encontraram o interruptor, e a luz dourada do lustre se acendeu, revelando o banheiro enorme do hotel, tudo em mármore branco e dourado, com um boxe de vidro tão grande que podia facilmente ser uma pequena sala. Ela não falou. Apenas se virou para mim, com os olhos ainda pesados de sono. Seus dedos subiram até o meu peito, onde a camisa do pijama já estava encharcada de suor.
— Tira — ela ordenou, suave, mas com o tom mandão que ela tinha na maioria do tempo.
Eu obedeci, puxando o tecido sobre a cabeça e deixando cair no chão. Seus olhos percorreram meu torso, as tatuagens, as cicatrizes, tudo que ela ainda estava aprendendo a decifrar. Ela não fez nenhum comentário. Apenas ergueu as mãos e começou a desabotoar seu pijama, deixando o tecido cair sobre os ombros antes de empurrá-lo para trás. Não havia malícia ali. Nada de provocação, nada de pressa. Apenas uma intimidade tão natural que doía.
Ela se virou e abriu a porta do boxe, ajustando a água. O vapor começou a subir quase imediatamente, enevoando o espelho atrás de nós.
— Entra — ela disse, colocando a mão no meu peito para me guiar. Eu entrei, a água quase escaldante atingiu minhas costas primeiro. Ela veio atrás, fechando a porta de vidro, e por um momento, ficamos ali, sob a água quente, sem pressa. Seus dedos encontraram meu cabelo primeiro, ensaboando devagar, como se quisesse ter certeza de que eu ainda estava ali, presente. — Fecha os olhos — ela murmurou, e eu obedeci. Eu obedecia com uma rapidez absurda, mesmo negando, mesmo falando que não obedeceria ninguém. Seu toque era firme, mas não invasivo. Como se ela soubesse exatamente onde eu precisava ser tocado e onde precisava de espaço. Quando suas mãos desceram pelos meus ombros, eu não consegui evitar o leve tremor. — Tá tudo bem — ela sussurrou, com os lábios quase tocando minha nuca. — O que é? — disse, apontando para a caveira com rosas no meu peito.
— Clube dos 21. Todos os homens da famiglia fazem.
Seus dedos desceram para a frase em latim sobre minhas costelas.
— "Sanguinis honor"?
— Honra de sangue. — traduzi automaticamente.
Ela fez que sim, como se estivesse anotando mentalmente, como se fosse normal. Então sua mão parou na mais discreta das seis pequenas linhas atrás da minha orelha esquerda.
— E essa?
Meu corpo ficou rígido antes que eu pudesse controlar.
— .
— . — ela replicou, teimosa para um santo caralho.
Respirei fundo.
— Cada linha é um homem que matei antes dos 18.
O ar entre nós mudou. Ela não recuou, mas seus dedos tremiam levemente quando continuaram o caminho, parando na cruz invertida entre minhas omoplatas.
— Essa?
— Não. — A palavra saiu mais áspera do que eu pretendia. — Essa não.
Ela estudou meu rosto por um momento, então simplesmente acenou com a cabeça e pegou o sabonete.
— Tá bom — murmurou, começando a lavar minhas costas.
— Por que você quer saber dessas coisas? — perguntei, virando-me para encará-la.
ergueu os olhos, gotas d'água escorriam por seu rosto.
— Porque são parte de você — disse simplesmente. — E eu casei com tudo.
Minha mão encontrou seu rosto antes que eu pudesse pensar melhor. Ela se inclinou para o toque, fechando os olhos.
— Você é a coisa mais estranha que já aconteceu comigo — confessei.
Ela riu, sua risada ecoou todo o boxe e foi o melhor som que já ouvi em toda a minha vida.
— E olha que você já foi baleado. — Ela apontou para outra tatuagem, um relógio sem ponteiros no meu antebraço. — Essa significa que seu tempo acabou? — brincou.
— Significa que horários são sugestões. — retruquei, ainda a olhando.
Ela riu, mas então seu olhar ficou sério.
— E a pior? Qual é a que você mais odeia?
Minha mão voou automaticamente para a marca atrás do meu ombro direito, uma tatuagem pequena, quase escondida. Um simples número: 17.
— Essa eu não consigo falar — admiti, a voz mais baixa do que pretendia. — Não hoje.
estudou meu rosto por um longo momento, então simplesmente pegou minha mão e a pressionou contra seus lábios.
— Tá bom — sussurrou. — Mas um dia, você vai precisar me contar.
Eu sorri e concordei, porque, pela primeira vez na vida, eu quase acreditei que poderia mesmo contar.
não parou as perguntas, muito menos a maneira carinhosa com que perguntava sobre tudo que não sabia. Sobre as histórias que eu escondia sob o terno perfeitamente ajustado. Sua mão foi até outra, dessa vez ela escolheu a mais desbotada para saber.
— Essa foi a primeira? — perguntou, voz quase perdida no ruído da água.
— Aos quinze — respondi, os olhos fechados. Meu pai me arrastou para a cadeira como presente de aniversário.
Seu polegar passou sobre os contornos pretos, como se memorizasse cada linha. Então desceu.
A água ainda escorria em rios quentes pelas nossas peles quando os dedos dela encontraram a primeira cicatriz importante, três linhas paralelas no abdômen, grossas e irregulares.
— Arame farpado — disse antes que ela perguntasse. — Eu tinha feito merda e estava fugindo de um carro da polícia. Caí no meio de uma cerca. Foi engraçado na época, acho que eu tinha uns dezessete.
Seus dedos tremeram levemente, mas continuaram. Logo abaixo, uma marca circular queimada, do tamanho de uma moeda.
— Charuto cubano. — expliquei secamente. Ela engoliu seco. — Minha mãe achou engraçado me ver aguentar a dor sem gritar.
A cicatriz mais antiga tinha três linhas finas e profundas, eram quase artísticas.
— Chicote do meu pai. Primeira vez que falhei numa tarefa importante.
Ela ficou imóvel. Virei meu pulso esquerdo para cima, revelando a rede de linhas brancas e finas cruzando os vasos.
— Interrogatório. Tinha dezesseis. Eles queriam informações sobre meu pai.
olhou para aquelas marcas e algo em seu rosto se partiu, eu pude ver a dor em seus olhos, a desilusão ou realidade, talvez.
— Quantos dias?
— Não contei.
Ela me puxou contra seu corpo com uma força que me surpreendeu, seus dedos cavando em minhas costas como se tentasse apagar cada marca através do contato.
A cicatriz veio a seguir, um sulco pálido e irregular entre minhas costelas, do lado esquerdo.
— Faca?
— Canivete. Detroit, 2012.
Ela não fez perguntas. Apenas inclinou a cabeça e pressionou os lábios levemente no local, um beijo que não era de pena, mas de reconhecimento. As mãos dela continuaram, explorando cada relevo da minha pele como um arqueólogo desenterrando ruínas. Quando encontraram a marca de queimadura circular no meu ombro direito, senti meu corpo tensionar.
— E essa?
Eu virei o rosto, encarando-a.
— Quando conheci você.
Seus olhos se arregalaram por uma fração de segundo antes de endurecerem.
— Você estava sangrando naquele dia e eu nem...
— Você estava ocupada tentando me matar e ainda estávamos com um cara tentando nos matar. — lembrei, com um sorriso torto aparecendo. — Foi justo.
Ela me encarou, com gotas d'água escorrendo por seu rosto, então de repente puxou minha cabeça para baixo, nossos rostos ficaram colados sob a água quente.
— Idiota — rosnou contra meus lábios antes de me beijar com uma fúria que fez meus joelhos fraquejarem. Quando nos separamos, ofegantes, suas mãos ainda tremiam onde se agarravam aos meus ombros. — Nenhuma nova cicatriz sem me contar. Nenhuma. Entendeu?
Eu olhei para aquela mulher louca, linda e furiosa, e pela primeira vez entendi o que Lorenzo quis dizer quando disse que sua irmã era a pessoa mais teimosa que ele já conhecera.
— Sim, Donna. — murmurei, puxando-a contra meu corpo marcado.
— Você não é essas cicatrizes, sabia? Você não é o que fizeram com você.
— Então o que eu sou? — perguntei, genuinamente curioso.
Ela pegou minha mão e colocou sobre seu próprio peito, onde seu coração batia rápido e forte.
— Meu . Só meu.
E quando nossos lábios finalmente se encontraram, simplesmente porque queríamos, eu soube que Lorenzo, onde quer que estivesse, estava rindo. Porque sua irmã tinha feito o impossível, encontrado o coração de um homem que acreditava não ter mais um.
Capítulo 45
Ele estava no telefone. Há vinte e três minutos. Eu contei, um por um.
De novo.
Alguém provavelmente ia morrer e ele nem tinha tomado café.
Sentado na ponta da poltrona, com a mão no queixo e os olhos duros mirando algum ponto fixo da parede que só ele parecia enxergar, falava baixo, mas cada palavra dele parecia uma ordem prestes a virar sentença de morte. Eu não entendia italiano tão bem quanto ele achava que sim, mas já tinha aprendido a reconhecer o tom.
Hoje o tom era mais ordem do que negociação.
Ajeitei meu corpo no sofá, puxei o travesseiro pro colo e virei de lado. Suspirei pela quarta vez, bem alto, pra ver se ele notava, tentando desesperadamente chamar a atenção do meu marido em nossa lua de mel.
Nada.
Dei uma exagerada e deixei o braço cair, imitando quase uma cena de morte dramática em filme antigo. Nem uma levantada de sobrancelha por parte dele.
Peguei meu celular. Sem bateria.
Fiquei olhando pro teto. Contando rachaduras invisíveis impossíveis de existir em um hotel como o que estávamos.
Dobrei as pernas.
Estiquei de novo.
Suspirei.
— . — Nada. — … — Ele só virou um pouco o rosto, com aquele cenho franzido, pedindo silêncio com o olhar. — Meu marido, amor da minha vida e minha eterna tortura em forma de homem, você vai falar nesse telefone por quanto tempo mais?
Ele cerrou os olhos, tentando segurar o riso. Eu vi.
Vitória.
Ou quase, já que ele continuou falando.
— Nessuno si muove finché io non dico. Ho detto di aspettare. E voglio dire aspettare. Capito?
Revirei os olhos me recusando a dar-me por vencida, me espreguicei devagar, deixando a camisola curta subir mais do que o necessário, levantei e caminhei até ele. Quando seus olhos ficaram fixos nos meus o suficientemente para que a atenção agora fosse, pelo menos, dividida, sentei no colo dele. Simples assim.
— . — ele advertiu, sem interromper a ligação.
— Continue ignorando a minha existência. — respondi, passando os dedos pelos botões da camisa dele. — Vamos ver quem vence.
O toque da minha unha no pescoço dele fez os ombros ficarem tensos. Dessa vez fui eu que ri. Outra vitória. Quando estava no telefone, o resto do mundo parecia não existir mais. Eu me recusava a ver isso acontecendo.
Hoje, não. Hoje ele não ia terminar aquela ligação com a alma carregada de sangue dos outros. Hoje, eu queria ele. Inteiro. Só pra mim.
Pousei os dedos no ombro dele e deslizei pela clavícula, depois desci lentamente pela frente do peito. A camisa dele estava aberta nos primeiros botões, então desabotoei o segundo, depois o terceiro... Continuei até minha mão ter espaço. nem se mexeu, mas eu vi. O pequeno arrepio que subiu pela pele. A pausa quase imperceptível no queixo antes de voltar a falar.
Inclinei o corpo, colando o meu contra o dele, e deixei meus lábios roçarem atrás da orelha. A barba por fazer me arranhou de leve e isso só me incentivou ainda mais.
— Você vai ficar muito tempo aí? — perguntei baixinho, como quem não quer interromper, mas eu queria. Muito.
Nada. Nem um olhar.
Ah, meu amor, então vamos ver até onde você aguenta.
Desci a mão até o abdômen dele por baixo da camisa. A pele dele estava quente. Comecei a desabotoar o resto da camisa, um botão de cada vez. Meus movimentos eram lentos, preguiçosos até, mas o propósito era muito claro. Continuei os beijos em seu pescoço, em seguida, desci os lábios, lambendo a curva entre o ombro e a clavícula dele. Distribuí pequenos beijos ao longo do peitoral do meu marido, contornando os músculos das costas enquanto me ajoelhava entre as pernas dele.
Quando olhei para ele, o maxilar estava travado e as mãos já estavam brancas da força que ele utilizava para apertar o celular.
— Sbrigati, merda. Mi stai facendo perdere tempo. — ele cuspiu no telefone, mas o tom não era o mesmo. Nem perto.
Ri baixinho.
Afastei a camisa completamente, deixando-a cair pelos braços dele, e beijei o ombro nu. Depois lambi a pele, desenhando um caminho de saliva até a nuca. Senti o corpo dele estremecer. Aproximei a boca bem no ouvido dele, tentando esconder a minha satisfação e suspirei, soltando um gemido baixo e rouco. Os gemidos que eu sabia que ele não suportava ouvir até que estivesse completamente duro.
— Vai continuar fingindo que eu não existo? — Ele não respondeu e, como uma boa esposa, fiz o que qualquer mulher faria no meu lugar. Eu continuei.
De joelhos, eu passei as mãos pelas coxas dele, por cima da calça social. Era impossível não ver o volume grande e completamente duro apertado entre a roupa. Sorri. Eu desabotoei o cinto, então ele segurou o meu pulso.
— … — a voz dele saiu tensa, rouca e abafada pelo maxilar travado.
— Shhh… — sussurrei, lambendo a parte interna do pulso dele enquanto olhava pra cima. — Continua no telefone. Eu soltei o botão da calça, desci o zíper bem devagar, com os olhos fixos nos dele.
não falava mais. Apenas ouvia, como se tentasse desesperadamente se manter presente naquela conversa. Vagarosamente, passei a língua pelo abdômen dele, sentindo os músculos se contraírem sob meu toque.
A calça já estava frouxa e, ainda assim, a ereção dele era impossível de ignorar.
encostei mues lábios bem na base do seu quadril, onde a pele é mais fina e suguei ali forte, vendo um pequeno hematoma começar a se formar. gemeu, baixo, quase inaudível, mas ainda assim ouvi. Passei a mão por cima da sua cueca, apertando devagar e ele soltou um palavrão abafado em italiano antes de finalmente afastar o celular do ouvido. Eu olhei para ele, divertida.
— Desligou?
— Porra, .
— Você demorou demais.
Ele me puxou pelos braços, me fazendo levantar, e me prensou contra a parede mais próxima. O peito dele ficou colado ao meu e os olhos queimavam.
— Você está testando meus limites?
Apertei os lábios contra o sorriso que queria escapar.
— Estou lembrando você de onde está o seu lugar hoje. — levei a mão até o pescoço dele e puxei um pouco mais pra perto. — Comigo. Com a sua mulher.
Ele me beijou com força, como se quisesse me punir por ter vencido.
A boca dele invadiu a minha com posse e, por um segundo, quase me faltou o ar. As mão sdele agarraram minha cintura com força, me esmagando contra a parede como se ele quisesse me fundir a ela. Não era um beijo de carinho, era de retaliação. Ainda assim, sorri contra os lábios dele. Porque mesmo quando ele queria me dominar, eu sabia que era ele que estava perdendo completamente o controle.
— Cazzo, Donna. Você acha que pode brincar comigo assim? — ele murmurou entre os beijos.
— Achei que fosse esperto o bastante pra perceber mais rápido.
Desafiei.
Um segundo.
Só um segundo de silêncio.
Então ele me virou de costas, com brutalidade, prensando meu peito contra a parede fria. Seu corpo colou ao meu por trás e as mãos fortes deslizaram pela lateral da minha cintura até alcançarem a parte interna das minhas coxas.
— Você quer que eu te lembre quem manda? — rosnou contra meu ouvido, mordendo de leve minha orelha.
Senti minha perna fraquejar, mas odiaria ceder. Era uam característica dos Moretti.
— Você acha que consegue?
A risada que saiu do fundo da garganta dele foi sombria. Quase animalesca.
Ele puxou meus cabelos com uma brutal ternura, beijando minha nuca, mordiscando minha pele enquanto suas mãos subiam por debaixo da minha camisola.
— Você acordou pedindo por isso, hm? — As mãos se encaixou em minha calcinha e, apesar de estar de costas, eu pude sentir o sorriso que ele esboçou. — Se você quiser abrir as pernas para me distrair, , vai ter que aguentar as consequências. — Ele segurou meu queixo, forçando meu olhar no dele. — E eu juro, por Deus, que não vou parar até você implorar pra eu deixar você respirar.
Ele virou o meu rosto com uma das mãos, seus dedos marcaram minha mandíbula e minhas pernas fraquejaram no mesmo instante. Senti quando ele se abaixou um pouco atrás de mim. Quando as mãos dele afastaram minhas coxas e os dedos correram pela minha pele exposta, explorando os contornos de meu corpo com uma calma doentia. Ele me tocava com domínio, como se conhecesse cada resposta que meu corpo podia dar e como se soubesse ampliá-las.
E Deus, ele sabia.
Ele deslizou um dos dedos, esfregando-o contra a minha calcinha, em seguida afastou-a para o lado, assim, simples. E,q uando o seu dedo estava molhado o suficiente, ele arrastou mais acima. Mais lentamente.
— ... — falei, com a respiração entrecortada. Eu sabia o que ele estava fazendo.
Ele se aproximou do meu ouvido novamente, com aquele tom rouco e devastador.
— Você está tão quieta agora, amor. Onde foi parar toda sua coragem? — A risada baixa escapou dos meus lábios, mesmo com o corpo todo em alerta. Ele estava testando meus limites agora. Empurrando as barreiras que eu mesma tinha provocado. — Você vai fugir?
— Não.
Ele sorriu contra minha nuca.
— Boa resposta.
Com uma das mãos, ele voltou a me tocar onde eu já estava molhada, pulsando, aberta pra ele. Com a outra ele explorou. Primeiro devagar, com a ponta de um dedo, suave, com cuidado, como se estivesse me mapeando, sentindo a reação do meu corpo ao desconhecido. Eu arfei, ma agarrando mais a parede, meus olhos fecharam-se com força. Meu corpo inteiro tremia, mas não era de medo, era de antecipação. Era de querer aquilo tanto quanto ele, talvez mais.
— Tão apertada. — ele murmurou, com os dedos dançando entre um prazer e outro. — Olha como você treme — sussurrou no meu ouvido. — Nunca foi tocada aqui? Você guardou isso pra mim, ?
Ele soltou um gemido rouco, misturando raiva e adoração, e, então, pressionou os lábios na minha nuca de novo. A mão dele continuava firme no meu quadril, me mantendo exatamente onde ele queria. Com uma paciência perversa, ele usou a mão molhada para preparar, para provocar. Tocava em mim por trás com pequenos círculos, empurrando só um pouco, só o suficiente pra me deixar louca. Enquanto isso, os beijos subiam pela minha coluna e os dentes marcavam minha pele.
Minhas mãos se apoiaram na parede e mordi o meu lábio inferior com força. Parte de mim queria recuar, parte queria mais. Toda parte sabia que era tarde demais pra dizer não.
— Eu disse que era sua. Por inteiro.
A respiração dele ficou mais pesada atrás de mim. Ele se afastou um pouco, só o suficiente pra me abrir com mais facilidade e me posicionar. Uma das mãos pressinou firme no meu quadril, enquanto a outra ficou entre as minhas pernas, me tocando e me distraindo. Quando ele se afastou, por poucos segundos, reclamei, mas não durou muito tempo. Apenas o tempo suficiente para que ele terminasse de abaixar a sua calça.
— Relaxa pra mim — murmurou, num tom de comando e carinho, ao mesmo tempo.
E quando ele pressionou devagar, empurrando, me senti dilacerar. Lentamente. Centímetro por centímetro. As mãos dele não me deixavam fugir, ao invés disso me prenderam mais ali, enquanto seus dedos continuavam, sem parar, deslizando em círculos no meu clitóris. A dor se misturava a uma ardência, mas os dedos dele continuavam tão ágeis que eu não conseguia identificar onde doía e onde me excitava.
Os movimentos começaram devagar. Controlados. E aos poucos, foram ficando mais fundos, mais intensos. A cada estocada, um grunhido escapava dele. E eu gemia, entre a dor e o prazer, com o rosto colado à parede e o coração explodindo no peito. Uma das mãos dele subiu até minha garganta, me fazendo virar um pouco o rosto pra que ele pudesse olhar dentro dos meus olhos mesmo de lado.
— O que foi, querida? Vai gozar sabendo que agora você é só minha, até aqui? — Eu perdi o ar. E perdi o chão. Os movimentos que antes era doloridos se tornaram tudo. Era gostoso ver ele deslizando para dentro de mim, a forma que ele estocava mais forte, me fazendo gemer alto, a maneira que suas mãos apertavam o meu quadril e, céus, eu o sentia indo tão fundo. Gozei com um grito abafado contra a parede. — Agora sim você me tirou da porra da reunião.
Capítulo 46
Ela ainda gemia de forma baixa e sem vergonha alguma, com o rosto colado à parede e as pernas tremendo. Meu nome escapava dela como um pecado e o corpo dela, ainda quente, ainda apertado, me engolia por inteiro.
Eu estava enterrado até o fim enquanto ela me apertava como o inferno. Como se o corpo dela estivesse me punindo por ser o primeiro. Minha mão pressionava a base da sua coluna, forçando a curvatura do corpo dela, a bunda estava empinada na posição exata. A outra mão descia até o meio das coxas dela, tocando devagar, sentindo o clitóris inchado contra meus dedos, sensíveis, causando nela um pequeno choque todas as vezes que eu encostava.
Os joelhos de cederam e, ainda assim, ela não tentou fugir. Ficou ali, aberta, suada, tão fodidamente minha que o sangue parecia ferver por debaixo das nossas peles. Apertei seu quadril com mais força e as estocadas ficaram mais pesadas, mais curtas, mais urgentes. O corpo dela era pressionado contra a parede cada vez que eu empurrava e a bunda dela balançando enquanto me engolia era a porra da visão mais linda que Paris já tinha me dado.
O prazer subiu com tudo, me rasgando por dentro até não conseguir conter. Enterrei até o fim e gozei ali mesmo, dentro dela, com um grunhido rouco contra a nuca suada. Gozei em jatos longos, quentes, marcando o corpo dela por dentro de um jeito que ninguém nunca marcou. Continue assim por mais alguns segundos, sentindo ela aquecer o meu pau, colado nela, sentindo a pele enquanto ela ainda latejava.
Puta que pariu.
Eu conhecia o prazer. Já tive o suficiente pra saber quando é bom, quando é rápido e quando é simples. Mas aquilo? Porra, aquilo me fez ver estrelas.
Tirei devagar, vendo o corpo dela estremecer mais com a ausência. Ela estava cansada, ofegante e mesmo assim mantinha as mãos na parede como se ainda estivesse presa ali, por mim. Aproximei o rosto e beijei o topo da caeça dela. O cabelo estava bagunçado, mas isso conseguia deixá-la ainda mais bonita.
A porra da imagem ia me assombrar depois. Na cama. No carro. Em qualquer merda de reunião que eu tivesse. contra a parede, aberta, fodida, com meu nome escapando da boca dela como se fosse tudo que existisse no mundo.
Me aproximei devagar, enfiei a mão na nuca dela e puxei o corpo dela pra mim.
— Ainda não terminei com você — falei baixo, contra a pele. — Mas vou te dar cinco minutos pra respirar.
— Você está tentando ser generoso, Don Rossi?
O de quem sabia exatamente o que estava fazendo comigo.
Apoiei a mão nas costas dela e a afastei só o suficiente pra me recompor. Vesti a calça com calma, mas a respiração ainda falhava, o corpo ainda estava quente. Vi quando ela deslizou pela parede ese virou, procurando algo para se apoiar. O sorriso que veio em meu rosto, foi imediato.
— Cale a boca — murmurei contra o pescoço dela, com os dentes roçando na pele. — Ou eu volto agora mesmo. — Levanta. — falei, firme.
Ela virou o rosto pra mim, com os olhos pesados de prazer.
— ...
— Agora, amor. — estendi a mão. — Ou eu vou te carregar. — Ela gemeu baixinho, mas colocou a mão na minha. Puxei-a com firmeza. Ela cambaleou, com o corpo mole, e eu segurei pela cintura antes que caísse de novo, mas não disse nada. então eu a levei até o banheiro. Abri o chuveiro com água morna. Não era só carinho, era necessidade. Ela tava fraca. Exausta. E eu queria ela inteira quando fosse minha de novo. — Tire o resto da roupa, querida.
Ela me olhou de lado.
— Vai ficar me observando?
— Não. — cruzei os braços. — Vou garantir que você não desmaie no banho.
Ela soltou uma risada fraca, quase vencida, mas tinha aquele sorrisinho no canto da boca.
Ela riu de novo. Tirou a camisa, depois o sutiã. Por fim, chutou a calcinha de lado. Entrei atrás dela, de cueca ainda. E fiquei ali. Encarando cada parte daquele corpo que agora era meu. Encostei na parede oposta e fiquei ali, observando-a lavar o cabelo, as costas arquearem, as mãos deslizarem pela pele, mas não a toquei. Ainda não, embora estivesse contando os minutos.
Foda-se a reunião. Foda-se Paris.
Tudo que importava agora era . A mulher que me tirava do eixo. Que provocava, que testava, que sorria no meio do caos como se não soubesse o monstro que criava e gostasse dele.
— Depois disso — falei, com a voz baixa e firme. — A gente pode sair. Você quer Paris? Eu vou te dar Paris.
Ela parou de se mover e me olhou por cima do ombro.
— É isso que você quer, me dar Paris?
Caminhei até ela. Encostei o corpo no dela mais uma vez. E quando minha boca ficou colada em seu ouvido de novo, mordisquei lentamente.
— Que você se lembre de quem você pertence. Por dentro. Por fora. Em todo maldito lugar.
Ela tremeu. E sorriu.
Capítulo 47
Paris continuava barulhenta, apesar do barulho ser diferente. Não era como Nápoles, não era como Roma. O caos aqui parecia um pouco mais educado. As pessoas ainda andavam apressadas, mas não se esbarravam. Os carros buzinavam, mas não havia tantos gritos. Acho que, na verdade, as pessoas daqui fingiam que era uma cidade romântica quando, na verdade, era apenas mais uma cidade cansada.
— Isso aqui é um abuso de glicose. — comentei, olhando a sacola que ela carregava cheia de doces. Ela riu e empurrou um pedaço de brioche na minha boca, me obrigando a comer.
— Cala a boca e aproveita, Don azedo. O corpo precisa de açúcar para funcionar com energia. Não te ensinaram isso?
Mastiguei sem reclamar, apesar do pouco tempo com ela eu sabia que, de forma geral, estaria sendo mais sábio se não contrariasse a minha Donna. O gosto era doce demais para o meu paladar, mas o sorriso dela enquanto via a minha expressão compensava todo o açúcar. conseguia tornar qualquer merda palatável, inclusive eu.
Ela puxou meu braço pra um mercado de rua e parou em frente a uma banca de flores, ela se aproximou, sentindo o cheiro das flores e, então, pegou um buquê.
— Você gostou? — Ela acenou com a cabeça, ainda encantada. Por meio segundo me perguntei se ela já teve essas experiências antes, quantas vezes ganhou rosas, de quem ganhou. Antes que ela percebesse, paguei. Se ela pedisse a Torre Eiffel, eu daria um jeito.
— Isso não combina com a imagem de homem perigoso e impiedoso, você sabe, né? — ela debochou, me vendo com o buquê na mão.
— Foda-se a imagem.
Ela me olhou, surpresa e sorriu. Como se tivesse ganhado mais que um buquê. Seguimos andando quando um artista de rua chamou a atenção dela. Em cinco minutos saímos de uma floricultura e estávamos sentados, sendo desenhados por um cara que parecia mais bêbado do que artista. O resultado ficou uma merda, mas ela gargalhou tanto que doeu no meu peito. A risada dela fez com que aquele desenho se tornasse belo.
— Você vai guardar isso? — perguntei, encarando a caricatura ridícula.
— Eu vou mandar emoldurar. — ela disse, com convicção absurda.
Ela encostou em mim, e por alguns segundos, ninguém gritou meu nome, ninguém sangrou nas minhas mãos, ninguém morreu por minha causa. O mundo ficou pequeno. Só ela, eu, o barulho da água e uma Paris que, com ela, era mais romântica do que cansada.
O celular vibrou no bolso. Ignorei.
Segunda vez.
Terceira.
Cazzo.
Na quarta, olhei a tela. Dessa vez não era Vicenzo ou Roman, era Bianca. Não era a Bianca controlada, afiada, que até sob ameaça de morte falava como se tivesse o domínio da situação, era a Bianca quebrando e isso não era bom.
Ela falou de problemas em Marselha, de um velho nome que avisava que o inferno estava com portas abertas de novo e alguns demônios estavam saindo mais cedo do que o esperado.
— Temos um problema. Em Marselha. — a voz dela falhou na metade da frase. — Um dos nomes antigos, , um dos nomes dele reapareceu.
— Quem?
— Angelo Santoro.
Fechei os olhos.
Senti a mão de se apertar na minha, tentando entender pela minha expressão o que acontecia, mas eu só conseguia pensar numa coisa: merda. Merda pra caralho.
Angelo Santoro não era só um nome. Era a porra de uma lembrança, uma sombra, um dos homens mais leais a Giorgio. Um dos únicos que sabiam demais. Que sumiu por vontade própria quando viu que as coisas iam cair pro lado errado, e que se reaparecesse, não seria por acaso.
— Ele está se movimentando?
— Já tem gente seguindo ordens dele em Marselha. Alguns aliados estão sendo aliciados. Uns capos menores, gente que ficou sem liderança com a queda dos Montelli... estão aderindo. Não sabemos se é pessoal, se é pela Famiglia antiga ou se é contra nós. Mas ele ainda usa o nome de Giorgio — a voz dela baixou — Ele está querendo algo grande.
Não respondi de imediato. Santoro era Giorgio nascido com menos poder e em uma outra Família, mas a mente trabalhava doentia igual. Era ele o estrategista por trás de muitas das execuções mais cruéis que a gente viu na juventude. E se ele tava saindo do inferno... era porque alguém abriu a porta.
— Me escuta, Bianca — falei baixo, mas firme. — Não age. Só observa e manda tudo pra mim. Qualquer aproximação dele, qualquer contato, qualquer merda. Eu quero nome, lugar e horário. Entendeu?
— Sim.
— Ele não vai pôr os pés em território Rossi sem sentir o gosto do próprio sangue. — finalizei, desligando. Quando me virei para o lado, percebi uma curiosa, ligeiramente assustada e, ainda assim, ali. — Precisamos voltar.
Ela assentiu sem drama e sem retrucar, mas antes de dar o primeiro passo, me segurou pelo antebraço.
— Vai me dizer quem é?
— Um fantasma. — respondi, sem romantizar. — Um que nunca deveria ter voltado.
E se voltou, alguém vai morrer por isso.
— Vai me contar? — perguntou.
— No caminho. — Falei, porque era verdade. Ela tinha me convencido que se eu quisesse a proteger, precisava manter ela sábia, esperta e dentro. Não fora. — Você sabe que pode viver um inferno, certo?
— E eu sou a mulher do diabo. Eu aguento.
Porra. Eu a amava.
Ela dizia isso como se fosse simples. Como se o que vinha pela frente não fosse sangue, fogo e decisões que queimavam a alma até virar carvão. Decisões que ela própria não lidaria e que eu me amaldiçoaria por arrastá-la pra isso.
Mas ela era a minha mulher agora e se ela queria a verdade, então ela teria.
Quando entramos no carro, já estava com os olhos atentos. Esperta. Lúcida. Preparada para ser a Donna que a famiglia precisava.
— Santoro era o braço direito do meu pai. Um dos poucos que nunca teve medo de sujar as mãos. Enquanto Giorgio mandava, ele fazia. Tinha método. Tinha prazer. Ele mata devagar porque acha que a dor educa. — permaneceu em silêncio, com o cenho levemente franzido. — Ele desapareceu há anos. Quando meu pai começou a ruir. Ninguém sabia se tava morto ou só escondido, mas agora ele tá de volta e está juntando nomes. Gente que a gente deixou viva por escolha ou por estratégia. E essa gente tá com sede.
— Sede de quê? — ela perguntou.
— De guerra.
— E o que a gente faz?
Olhei pra frente, mantendo as mãos firmes no volante.
— A gente dá a eles o que querem.
— Guerra?
— Não. Medo.
— E como se faz isso com alguém como ele?
— Mostrando que eu não sou Giorgio. Eu sou pior quando mexem com o que é meu.
Balancei a cabeça, com um leve sorriso amargo nos lábios.
— Acha que ele vai tentar me atingir?
— Ele vai tentar atingir tudo o que me faz humano. — Falei, sem rodeios. — Você, meus irmãos, tudo. Mas se ele fizer isso, não vai ter buraco no mundo onde ele possa se esconder. Ninguém vai tocar em você e, se tocar, ninguém vai sair vivo. Eu prometo isso.
virou o rosto pra janela e ficou em silêncio por um tempo. Eu conhecia aquele silêncio. Era dela digerindo. Engolindo o medo como se fosse um gole de veneno necessário.
— Não é morte que eu quero, .
A voz dela veio baixa, mas firme. Como se ela estivesse escolhendo cada palavra com cuidado, não por mim, mas por ela mesma. Pela consciência pura que ela tentava manter mesmo depois de ter casado comigo.
— Eu sei — respondi, mas mantive os olhos na estrada, sentindo a pressão invisível do olhar dela sobre mim. — Mas às vezes, não é sobre o que a gente quer. É sobre o que precisa ser feito.
Ela respirou fundo.
— E o que precisa ser feito agora? — perguntou, com aquele jeito calmo que ela tinha de dissecar monstros. — A gente espera ele fazer o primeiro movimento?
— Não. A gente já tá atrasado.
Silêncio de novo. Mas dessa vez, foi diferente. Quando parei o carro no aeroposto, ela ainda me olhava.
— O que foi? — perguntei.
— Nada. Só... você muda quando fala dele. Do Santoro. Fica mais escuro.
— Porque ele é uma sombra. Eu odeio o que meu pai fazia, mas ele aprendeu com Santoro. Ele viveu com os Santoros. Giorgio era impiedoso, mas tinha a famiglia. Santoro não tem pelo que lutar.
— Você tem medo dele? — ela perguntou, direta.
Eu encarei ela por alguns segundos, sem responder.
— Não. — disse, por fim. — Mas tenho medo do que eu vou me tornar pra pará-lo. Ele vai vir por onde achar que somos mais frágeis. — falei, com o olhar voltado pro prédio à frente. — E eu preciso que você seja o oposto disso.
— Eu já sou, . Você só precisa me deixar mostrar. — Ela soltou minha mão devagar, como se precisasse sentir a ausência do toque pra organizar os próprios pensamentos. Então começou, olhando pra frente, mas vendo algo que não estava ali. — Eu só não sei se aguento perder você também, .
Ela não disse “também” à toa.
O nome do irmão dela não foi dito em voz alta, mas estava entre nós dois como um fantasma sentado no banco de trás. Ela perdeu Lorenzo pra guerra de outros homens. Pra um jogo que ele nunca devia ter jogado, era compreensível o medo de que o mesmo acontecesse com o seu marido.
— Você não vai me perder — falei, firme. — Eu não sou o Lorenzo.
— Mas você é um Rossi, o Don deles. E a diferença entre vocês é que ele entrou na sua guerra. Você é a guerra. — Engoli em seco. Porque ela estava certa. Eu era a porra da guerra. A tempestade que arrastava tudo no caminho, e por mais que tentasse proteger quem estava ao meu lado, às vezes, eu também arrastava. Ela olhou pra mim. Séria. — Eu não quero viver pra enterrar outro homem que eu amo.
— Você não vai. Eu não sou o próximo corpo que você vai chorar, . Você me ouviu?
Ela hesitou por um segundo. O bastante pra me fazer sentir o estômago revirar.
— Promete? — sussurrou.
— Eu prometo.
E eu ia cumprir isso. Porque havia poucas coisas no mundo que eu não aguentava, mas, vê-la chorar estava no topo delas.
Capítulo 48
O jatinho estava pronto, com as luzes baixas e os motores já aquecidos para a decolagem. O carro nos deixou na pista, e desceu primeiro, ele estendeu a mão para mim e andei ao seu lado até o jato. Subi a escada atrás dele, sem pressa.
Entramos na cabine luxuosa da aeronave e, logo, se acomodou no assento à esquerda, cruzando uma perna sobre a outra com uma naturalidade que parecia ensaiada. O celular já estava em uma das mãos, e antes mesmo que eu percebesse ou impedisse, as mensagens estavam sendo lidas com foco. Lá estava meu marido, no modo Rossi novamente. Eu sentei ao lado, ajeitando o casaco e a saia com calma. Ele me olhou, como se pedisse permissão para continuar no celular e não pude evitar o sorriso. Concordei de leve com a cabeça, sabendo que sua posição era nitidamente aquela, impenetrável, a que significava negócios.
Poucos minutos depois, a porta que dava acesso à cabine do piloto se abriu e ele andou até nós em passos lentos, mas não me preparei para olhar, ao invés disso, continuei com a cabeça direcionada a janela do avião.
— Buonasera, signori. Pietro De Santis, seu piloto hoje. — A voz era calma, profissional, como eu lembrava. O nome apenas confirmou, me fazendo olhar para cima rapidamente.
Quando o fiz, meu café da manhã quase voltou.
Pietro.
Cinco anos mais velho, com o mesmo sorriso fácil, o mesmo corte de cabelo militar que ele insistia em manter mesmo depois de sair da aeronáutica. Ele cumprimentou com um aceno de cabeça e as mãos firmes atrás das costas em postura militar.
— Grazie, — respondeu sem levantar os olhos do telefone, mantendo aquele tom que fazia até ministros se endireitarem na cadeira.
Pietro fez o briefing padrão de informações, ainda olhando para o meu marido: rota, previsão do tempo e tempo de voo. Então, como se percebesse o meu olhar fixo antes mesmo de mim ou de , ele se virou.
— ? — O sorriso dele foi instantâneo, genuíno, daqueles que faziam os olhos azuis dele desaparecerem em meio às rugas de expressão. Não sei se foi minha demora a responder ou se foi o olhar fulminante de , mas eu vi exatamente o momento em que ele percebeu meu anel, a maneira como deixou o telefone cair no colo de repente e a posse implícita no jeito que seu polegar roçou meu pulso. — Signora Rossi — Pietro corrigiu-se, mantendo a voz um tom mais baixo. — Desculpe, não fazia ideia.
desligou o telefone com um clique audível.
— Você se conhecem? — Ele perguntou naquele tom neutro que eu conhecia bem. O tom que precedia problemas.
— Ex-colega de università. — eu disse rápido, enquanto Pietro, profissional como era, já estava recuando.
— O voo será tranquilo. Por favor, apertem os cintos. — Ele desapareceu na cabine antes que eu pudesse pensar em algo para dizer.
não ligou o telefone de volta.
— Amore... — Tentei, antes mesmo que ele iniciasse.
— Università? — Ele perguntou, os dedos batendo no braço da poltrona.
— Sim, cinco anos atrás. Quase seis.
Ele olhou para mim e eu vi o cálculo por trás daqueles olhos escuros, medindo, pesando, decidindo se valia a pena perguntar mais. O avião começou a se mover.
— Ele te chamou de . — observou, casual demais.
— Sim, é o meu nome.
— Hm.
Ele não perguntou mais nada. Não precisava. Eu já conhecia aquele hm e sabia que ele significava que teríamos uma conversa longa quando pousássemos. Ou antes disso.
Pietro fez um anúncio pelo sistema de som, com a voz perfeitamente profissional novamente. pegou meu copo de prosecco e tomou um gole, deixando a marca dos seus lábios exatamente onde os meus tinham ficado. Então decolamos, eu nervosa por não saber como agir, Pietro provavelmente confuso e se perguntando como me casei com um mafioso e calculando quantas formas existiam de matar alguém em um avião em pleno voo.
fez aquele ruído baixo na garganta, o que significava que eu estava sendo difícil de propósito. O que era verdade.
— Você sorriu.
— Sorrio até para garçons, . Chama-se educação.
Ele virou o corpo inteiro na minha direção, o que numa poltrona de primeira classe era quase uma proeza.
— Você não sorriu com educação, .
— Não sorrio de forma diferente para pessoas diferentes.
— Mentira.
Peguei seu copo de whisky e tomei um gole. Ele deixou.
— Você quer mesmo fazer esse interrogatório a dez mil metros de altitude? — O avião balançou levemente, como se concordasse comigo. olhou para a cortina que separava a cabine, depois para mim.
Ele me olhou, ficou quieto por alguns segundos, então desceu as mãos até a maleta que trouxe e pegou de lá um tipo de caderno. Agradeci mentalmente pelo foco dele tornar-se outro. Pelo menos achei que estaria aliviada, mas o incômodo foi ainda maior quando ele passou trinta minutos, em completo silêncio, sem se mover e, ainda assim, coupandometade do corredor com a presença. Ele fingia ler os relatórios financeiros. Eu dizia "fingia" porque ele estava na mesma página há vinte minutos.
— Quer que eu vire para você? — perguntei, cutucando o papel com a unha. — Parece importante, já que você está estudando tanto.
Ele fechou a pasta com um estalo.
— Você disse que eram colegas.
— E éramos.
— Colegas não olham assim.
— Como?
— Como se lembrassem exatamente como você fica sem roupa.
Engasguei com a forma direta que ele falou isso e com a maneira indireta que ele tinha razão. Dizer que eu e Pietro tinhamos sido apenas amigos era uma omissão do fato de que, sim, eu havia transado com ele algumas vezes. Algumas vezes antes de ser Rossi, antes de perder Lorenzo, algumas vezes enquanto tudo ainda era normal, mas eu não estava a fim de admitir isso para o meu marido assassino.
— Dio santo, ! — Limpei os lábios com o guardanapo, tentando não rir. — Ele só foi educado.
Ele resmungou, ajustando o relógio Patek Philippe como se o mecanismo suíço de precisão pudesse resolver nosso debate.
— O italiano médio é "educado". Aquele sorriso foi pessoal.
O avião balançou suavemente, mais uma vez e eu aproveitei para escorregar a mão sob o braço dele, sentindo os músculos tensos mesmo através do terno de Armani.
— Meu Deus, você está mesmo bravo.
— Não estou bravo.
— Claro que não. Só está fazendo aquele rosto.
— Que rosto?
— Aquele. — Apontei para sua expressão. — O "vou enterrar você no jardim da minha nonna".
Ele soltou um grunhido que, em qualquer outro homem, seria uma risada.
— Se eu quisesse enterrar alguém, não seria no jardim da nonna. Ela gostava das rosas de lá.
Isso sim me fez rir.
— Foi um semestre, . Ele gostava de aviões, eu gostava de viver às custas do meu pai. Foi mais uma desculpa para faltar às aulas do que um romance.
— Quantas vezes?
— Quantas vezes o quê?
— Vocês dormiram juntos.
— Mamma mia... — Esfreguei os olhos. — Umas seis? Sete?
— Sete. — Ele repetiu o número como se fosse uma sentença de morte. — Onde ele te levava?
— , querido, você realmente quer detalhes?
— Sim.
— Não.
Ele cruzou os braços. O terno Armani esticou perigosamente sobre os ombros. Era quase fofo, se não fosse assustador.
— Pelo menos me diz que ele era ruim.
— Na cama?
— .
Ri, incapaz de resistir.
— Não me lembro.
— Todos se lembram.
— Eu estava bêbada na maioria das vezes.
— Peggio. Pior.
Peguei seu queixo entre os dedos, forçando-o a me olhar nos olhos.
— Escuta aqui, mio marito. Se eu quisesse alguém com menos de 1,90m, teria ficado com ele. Em vez disso, casei com você. Mesmo você agindo, neste momento, como um adolescente.
O canto da boca dele tremeu. Vitória.
Ele finalmente soltou um suspiro, grande e exagerado, como sempre fazia quando admitia derrota sem dizer as palavras.
— Só não gosto de como ele te olha.
— Bom, ele não me olha como você me olha. Então temos um vencedor, certo? — A tentativa de piada foi falha, considerando que ele não sorriu.
— É diferente.
— Porque você é meu marido?
— Porque se ele olhasse para você do jeito que eu olho pra você, ele já estaria morto.
Eu não pude evitar de achar incrivelmanete bonita a forma maníaca que ele falava. Céus, eu estava mais perdida do que nunca.
— Ciúme é feio, Rossi. — Ele não me respondeu, o que me fez respirar fundo e continuar — Amore... — comecei, desenhando círculos no pulso dele com o polegar — você sabe que não existe comparação, né?
Ele fez aquele ruído gutural que eu conhecia tão bem.
— Non è questo il punto.
— Então qual é? — ergui o rosto para encará-lo. — Querido, ele pode me olhar como quiser, pode sorrir, pode até se lembrar de como eu tomava café na faculdade. — Meus dedos traçaram sua mandíbula tensa — Mas você é o meu marido, só você sabe como eu grito seu nome quando estamos sozinhos. Só você conhece aquele lugar na minha nuca que me faz derreter. Só você — baixei a voz — Me faz sentir tão dona de mim e tão sua ao mesmo tempo. — parou de respirar por um segundo. Eu vi seu olhar mudar, a fúria dando lugar para algo mais profundo.
— Amanhã mesmo vou descobrir quem é o dono dessa companhia.
— Vai demitir ele? Esse é o seu plano?
— Ele está dirigindo o nosso avião e eu gosto muito desse jato, sendo assim, infelizmente ainda não posso matá-lo. Então, o mais lógico é comprar essa droga, demitir ele, e talvez — ele inclinou-se para sussurrar em meu ouvido — Fazer com que o único emprego que ele consiga a partir de hoje, seja como motorista de ônibus escolar em Sicília.
Dessa vez, eu não consegui segurar a risada. aproveitou para puxar meu queixo e me roubar um beijo com sabor de whisky caro e possessividade.
— Você não vai fazer isso.
— Sorria menos e eu pensarei. — ordenou contra meus lábios. Ele fecha os olhos por um instante, como se estivesse absorvendo cada palavra. Quando os abre novamente, há uma doçura ali que só eu conheço.
— Você acha mesmo que algum homem no mundo me faz sentir o que você faz? — pergunto, os dedos traçando sua mandíbula tensa.
prende a respiração por um instante.
— Diga — ele ordena, suave, mas firme.
— Ninguém — sussurro, puxando-o para perto. — Ninguém me deixa sem ar como você. Ninguém me faz perder a cabeça assim.
Finalmente seu olhar muda. A rigidez nos ombros diminui, e ele inclina a testa contra a minha.
— Maledizione — ele murmura, quase um suspiro. — Sorrio, sentindo a tensão se dissipar. — Eu não mereço você.
— Não, não merece. — Brinco, esfregando o meu nariz no dele. — Mas você tem muita sorte, porque não vou a lugar algum.
Ele solta um riso baixo, quase rouco, e então me puxa contra ele, envolvendo-me em seus braços. Seu coração bate forte contra o meu, e por um momento, esquecemos do avião, do Pietro, para onde estávamos voltando, esquecemos de tudo.
— Promete? — Ele sussurra contra meu cabelo.
— Prometo. — Respondo, enterrando o rosto em seu pescoço. — Mas você tem que prometer parar de ameaçar comprar empresas só para provar um ponto.
Ele ri, desta vez de verdade.
— Não prometo nada.
O avião balança levemente, e a voz de Pietro ecoa pelo sistema de som, anunciando nossa aproximação a Roma. solta um suspiro exagerado.
— Pelo menos ele sabe pilotar.
Ri, apertando sua mão com força.
— Veja só, progresso.
E enquanto o avião desce em direção a Roma, eu me aconchego contra ele, sabendo que, por trás de toda a frieza e possessividade, existe um amor que só nós dois entendemos.
E eu não trocaria isso por nada.
Capítulo 49
O carro parou em frente à mansão, e por um instante, hesitei em sair dele. Eu ainda segurava a mão de quando respirei fundo antes de abrir a porta. Era estranho pensar que, agora, eu era esposa dele. Do Don. Que agora aquele caos também era meu e, em partes, acho que isso acontecua porque o ar de casa tinha cheiro de lembranças e nenhuma delas era realmente minha. O lugar era bonito, imponente como tudo o que ele fazia questão de manter sob controle, mas mesmo no meio de toda grandez e do conforto que me transmitia com o olhar, eu ainda não me sentia totalmente em casa. Talvez fosse o eco dos gritos contidos, dos segredos enterrados nas paredes. Talvez fosse só a consciência de que, por mais que essa fosse minha nova realidade, eu nunca deixaria de me sentir uma intrusa.
Ele saiu primeiro, vindo até meu lado e abrindo a porta antes que eu sequer pudesse tocar na maçaneta. O chão familiar sob meus pés causava um desconforto estranho, ainda era errado para mim encontrar conforto naquele cenário. Ainda me culpava pelos sangue derramado, mesmo que não tivesse sido em minhas mãos. Eu era parte do que odiava agora.
A porta mal havia se fechado atrás de nós quando o caos se apresentou.
— GRAZIE A DIO! — a voz de Bianca explodiu assim que a porta se abriu, desesperada, carregada de alívio e exaustão ao mesmo tempo. — Se eu precisasse correr mais uma vez com essa barriga, eu ia matar os cachorros. E a criança. E os dois que ainda nem nasceram!
Antes que eu pudesse processar a cena, os meus dois dobermans enormes passaram correndo pela sala, quase derrubando um vaso, e Vicenzo, no caminho. O rosnado brincalhão deles misturava-se aos latidos altos demais para o ambiente fechado. A mansão inteira parecia ter sido engolida por uma tempestade doméstica e descontrolada. Bianca estava encostada na parede, arfando, uma mão apoiada nas costas, a outra segurando firme um controle de TV que aparentemente usava como arma improvisada.
— Bianca… — comecei, mas ela nem me olhou. O olhar dela estava todo voltado para , como se ele fosse a encarnação de todos os seus problemas acumulados nos últimos dias.
— Vocês tiraram férias. FÉ-RI-AS. — ela cuspiu a palavra como se fosse uma afronta pessoal. — E me deixaram aqui sozinha, grávida de gêmeos, com dois cães do inferno e uma criança de seis anos que sobe no lustre e acha que não vai morrer!
passou a mão pelo rosto, respirando fundo, provavelmente tentando lembrar que não devia matar a própria irmã.
— Você não deveria estar correndo com essa barriga, — ele resmungou, com o cenho franzido. — Cadê o Vicenzo? Ele não estava aqui pra te ajudar?
— Você acha MESMO que o Vicenzo é ajuda? — Bianca riu sem humor.
— Ei! — a voz grave ecoou pela escada, e logo depois ele apareceu, com a mesma expressão entediada de sempre. — Primeiro: ninguém pediu minha ajuda. Segundo: quem colocou esses bichos dentro de casa foi o Roman, não eu.
— Ótimo. — Bianca jogou as mãos para o alto. — Ele some por dois dias e ainda me deixa com dois demônios em forma de cachorro. Eu devia ter fugido também. Com o Lucca e o controle remoto. Ninguém ia notar.
apertou a mandíbula. Era sutil, mas eu já aprendia a ler os sinais de quando ele começava a se irritar.
— Roman sumiu há dois dias? — ele repetiu, com a voz mais baixa agora, mais fria.
— Sumiu. — Vicenzo deu de ombros, se encostando no batente da escada. — Mas eu aposto meu carro que ele tá enfiado em algum motel com alguma puta. É a única coisa que ele sabe fazer.
— Não fale assim. — Bianca disse de imediato, o tom cortante. — Eu não gosto quando vocês falam assim de uma mulher.
— E eu não gosto de eufemismo, — ele retrucou, com um sorriso torto. — Roman não gosta de mulheres, Bianca. Ele gosta de putas. Tem diferença.
— Você é um idiota, — ela respondeu, cansada, virando de costas e indo até o sofá com dificuldade.
Enquanto o caos continuava a se desenrolar entre eles, uma nova voz surgiu de dentro do corredor, alta e feliz, completamente alheia à tensão
— !
Antes que eu pudesse me virar, senti o impacto. Um corpo pequeno e leve colidiu contra o meu, me envolvendo com braços finos e apertados demais para o tamanho dele.
— Lucca! — sorri, abaixando-me para envolvê-lo melhor. — Meu Deus, como você tá grande!
Ele riu alto, agarrado ao meu pescoço, sem pressa de soltar.
— Você demorou! Achei que não vinha mais!
— Eu voltei, sussurrei. — Tô aqui agora.
Ele se afastou só o suficiente para me olhar nos olhos, o sorriso iluminava seu rosto redondo, ainda infantil. Mas logo franziu a testa ao perceber ali, imóvel, observando a cena com o olhar impassível. Seu queixo se ergueu em direção a , os olhos estavam estreitados com a bravura que só uma criança de seis anos poderia ter diante de um desconhecido gigante com a expressão neutra.
ficou parado, com as mãos nos bolsos, encarando o menino como quem estudava uma peça rara ou se preparando para uma batalha. Acho que a segunda opção era a melhor, considerando que ele olhava Lucca com medo. Como se, de todas as guerras que já enfrentou, essa fosse a mais delicada: ser apresentado ao irmão da mulher que ele mantinha sob o próprio sobrenome.
— Quem é esse homem? — ele perguntou, desconfiado, estreitando os olhos como quem avaliava um inimigo.
Antes que eu pudesse responder, se abaixou devagar, ficando da altura dele.
— Sou o . — Disse com a voz firme, mas não dura. — E você é o Lucca, certo?
Lucca assentiu, mas não tirou o corpo de perto do meu.
— Você mora aqui também? — ele perguntou, sério.
soltou um som quase risonho pelo nariz, depois olhou pra mim antes de responder
— Se você deixar, sim.
Lucca pareceu considerar por um momento, antes de responder e, então, acenou com a cabeça.
— Mas eu durmo com a . E os cachorros são meus amigos.
ergueu uma sobrancelha e se levantou, deixando uma mão descansar de leve nas minhas costas.
— Veremos sobre isso.
Bianca riu do sofá, cansada demais pra se importar com qualquer formalidade.
— Boa sorte com isso, . Ele não divide nem o controle da TV.
— Tudo que eu mais queria era uma creche. — ele murmurou, ríspido, sem nem me olhar direito. — Ótimo. Mais um dos problemas causados por você.
Ele passou direto, deixando o ombro encostar no meu ao passar, e por um segundo eu senti vontade de responder, mas o calor dos braços de Lucca ao meu redor e o olhar de fixo nele seguraram minha reação. Eu ainda não sabia como equilibrar o mundo de onde vinha com o mundo em que me enfiei, mas no meio do caos, do barulho, das farpas afiadas trocadas entre irmãos, e da energia incansável de uma criança que agora fazia parte de tudo aquilo, ficou muito perceptível que a mansão dos Rossi jamais seria tranquila. Mas era segura e, talvez, pudesse ser um lar.
se afastou primeiro, com os dedos deslizando dos meus numa despedida silenciosa. Ele chamou Vicenzo com um aceno de cabeça, e o irmão, ainda irritado comigo, com Roman ou com o mundo, o seguiu até a porta dos fundos.
— Lucca, — chamei, abaixando-me outra vez e ajeitando os fios de cabelo bagunçados da testa dele. — Leva os cachorros pra casinha deles, no jardim? Eles precisam de água e descanso, igual todo mundo aqui.
— Mas eles não querem dormir, eles querem brincar! — ele reclamou, cruzando os braços.
— E você quer que eu fique aqui com você, né? — ergui a sobrancelha, e ele assentiu, convencido. — Então faz isso pra mim. Eles descansam, e eu fico com mais tempo e atenção para você, que tal?
Ele considerou. Lucca era novo demais para entender metade das coisas acontecendo naquela casa, mas não era bobo. Sabia negociar. Ele deu um beijo barulhento na minha bochecha e saiu correndo atrás dos cachorros como se aquilo fosse sua mais nova missão de guerra.
Bianca estava jogada no sofá, com uma das mãos apoiando a parte inferior das costas, a outra repousando sobre a barriga imensa. Sentei-me ao lado dela, com cuidado, e esperei até que ela suspirasse fundo e se rendesse à minha presença.
— Você está bem? — perguntei baixinho, estendendo a mão até encostar de leve na barriga esticada. Os bebês se mexeram sob meus dedos, como se também tivessem me respondendo.
Bianca fechou os olhos por um segundo.
— Tô cansada. Inchada. E se um dos dois chutar minha bexiga de novo, eu vou ser obrigada a tirar eles de dentro de mim a força. — Ela olhou pra mim de lado, com a sombra de um sorriso nos lábios. — Fora isso, tô ótima.
— Eles são fortes — Comentei, tentando aliviar o peso da atmosfera. — Devem puxar a mãe.
Ela riu, mas foi um riso breve, curto demais pra ser leve.
Por um momento, apenas ficamos ali, ouvindo os sons ao fundo: o latido dos cães, a voz distante de Lucca, e o tom abafado da conversa de e Vicenzo do lado de fora, mas não demorou para que a inquietação tomasse conta de mim. Era sutil, mas Bianca estava desconfortável e, por algum motivo idiota, ou talvez pelo motivo lógico do desconforto dela, percebi que aquilo podia se tratar de Roman e do jeito que ela sempre mudava quando falávamos sobre ele.
— Bianca — comecei devagar, mantendo o tom o mais neutro que consegui. — Tem alguma coisa entre você e o Roman?
Ela virou o rosto tão rápido que eu quase me afastei.
— O quê?
— Desculpa — me apressei em dizer, recuando levemente, mas não o suficiente pra parecer menos culpada pela pergunta. — É que… eu vi como você fica toda vez que falam dele. E quando o Vicenzo falou que ele sumiu, você ficou nervosa.
Bianca ficou em silêncio, mas eu não gostava disso. O silêncio dela era sempre mais barulhento que qualquer grito. E então, com uma lentidão perigosa, ela se virou totalmente para mim.
— Você tá insinuando o quê, exatamente? Que eu tô apaixonada pelo Roman?
— Não tô insinuando nada, respondi, tentando manter a calma diante do olhar cortante que ela lançou. — Tô perguntando. Porque se tem algo acontecendo, talvez alguém devesse saber. , talvez.
Bianca me encarou como se eu tivesse atravessado uma linha invisível.
— Ele é meu irmão, . — A voz dela veio baixa, mas havia veneno na entonação. — Não sei como as coisas funcionavam na sua casa, mas na minha, isso não é uma possibilidade. Nem como piada.
— Desculpa. — Sussurrei, baixando o olhar. — Não quis te ofender.
Ela não respondeu de imediato. Passaram-se alguns segundos antes que eu sentisse o toque leve da mão dela sobre a minha.
— Eu tô muito cansada. — ela disse por fim, com a voz mais gentil. — Tô emocional demais. E o Roman é um idiota, mas é meu irmão. Eu cresci com ele. Eu cuidei dele e ele cuidou de mim quando e Vicenzo não eram uma opção. — Ela ia continuar, mas as suas palavras morreram antes de ganharem forma.
— Tá tudo bem, murmurei. — Não precisa explicar.
Bianca assentiu devagar e se recostou no sofá, exausta de um jeito que não tinha nada a ver com gravidez.
Deixei Bianca descansando no sofá e saí pela porta da varanda. Lucca já estava no jardim, correndo atrás dos dois dobermans como se fossem filhotes inofensivos e não duas bestas musculosas que só obedeciam a ordens em italiano ríspido.
— Ei, general. — chamei com um sorriso, cruzando os braços enquanto observava a cena. — Precisa de reforços?
— Eles são bobos. — ele respondeu, ofegante, parando com as mãos nos quadris. — Fingem que não escutam, mas escutam sim. Igual adulto.
— Concordo plenamente.
Me aproximei e dei um assobio curto. Um dos cães, o maior, parou de correr e veio em minha direção. O outro, relutante, logo seguiu. Juntos, levamos os dois até a casa dos cães, uma construção firme no canto do jardim, com espaço, sombra e até almofadas mais confortáveis do que as que eu costumava ter em casa.
— Pronto, disse, fechando o portãozinho de madeira com o trinco de ferro. — Missão cumprida, Capitão Lucca.
— Agora você vai ver meu quarto! — ele exclamou, segurando minha mão com força e já me puxando de volta para dentro. — É meu de verdade, sabia? Bianca disse que ninguém manda nele além de mim. Nem você.
— Nem eu?
— Nem você.
— Hmmm… não sei se foi exatamente isso que ela disse. — brinquei, mas por dentro, meu coração apertava.
O caminho até o quarto dele era uma sucessão de memórias recentes e dores antigas. Era impossível estar ali e não pensar em Lorenzo. Quando Lucca abriu a porta, senti meu peito doer. O quarto era amplo, colorido com bom gosto. Havia brinquedos organizados em uma estante, livros infantis bem cuidados, uma cama com lençóis do Spider-Man, o herói favorito dele desde os quatro anos. E desenhos nas paredes. Vários. Alguns, claramente feitos por ele.
— Você gostou? — ele perguntou, ansioso e com os olhos brilhando de expectativa.
— É lindo. — respondi, ajoelhando para ficar na altura dele. — É mais bonito do que qualquer quarto que eu já vi.
Ele sorriu como se tivesse ganhado o mundo. Em seguida, pulou em cima de mim e me fez cair sentada no tapete felpudo.
— Você não viu a gaveta de doces!
— Você tem uma gaveta de doces?!
— Shhhh, é segredo! O Vizendo disse que a Bianca não sabe.
— Aposto que ela sabe sim. — murmurei, segurando a risada enquanto ele corria até o móvel.
Ficamos ali, sentados no chão. Ele pegou alguns doces e dividiu comigo, mesmo depois de eu dizer que não precisava. Lucca estava mais magro do que deveria para a idade, ainda pequeno demais para carregar os meses de solidão que enfrentamos e as longas semanas em um hospital, mas o brilho nos olhos dele era novo. E bonito. E esperançoso.
— Você brincou com a Bianca? — perguntei, passando a mão pelos cabelos dele. — Foi legal com ela?
— Ela briga mais que você. — ele reclamou com um biquinho. — Mas ela me deu biscoito de noite, mesmo assim.
— E os dias aqui? Como foram?
Ele mastigou o doce antes de responder.
— Eles me chamam de "bambino". O Vicenzo me ignora, mas o Roman me ensinou a jogar cartas. — Ele sorriu. — Eu ganhei dele, sabia?
— Duvido!
— Ganhei sim!
— Vou ter que perguntar pra ele depois.
— Ele sumiu. — A expressão dele caiu um pouco. — Mas eu gostei daqui. É grande. E tem meu cheiro agora. E meu quarto é bonitão, né?
— É o quarto mais bonitão que eu já vi. — Segurei o rosto dele entre minhas mãos. — Faz tanto tempo que eu queria te ver. Tantos dias que eu só conseguia ouvir sua voz pelo telefone…
— Você chorou alguma vez?
— Várias.
Ele se aproximou, como se aquilo pedisse urgência, e se jogou no meu colo mais uma vez. E ali, com meu irmão no colo, agarrado a mim como se o tempo perdido pudesse ser recuperado com força, eu fechei os olhos.
Respirei.
Pela primeira vez em meses, respirei fundo, sentindo que ele era meu de novo. Meu Lucca. Meu irmão. Vivo. Saudável. Comendo doces num quarto só dele. A salvo.
Graças ao homem que agora eu carregava o sobrenome.
Graças a Rossi.
— A gente vai morar aqui agora? — ele perguntou, com a voz abafada contra meu ombro.
— Vamos. — respondi, sentindo o nó na garganta crescer. — Você nunca mais vai voltar pra aquele hospital, Lucca. Eu prometo.
E quando ele sorriu, mesmo com chocolate nos dentes, eu soube: tudo o que suportei até agora, tudo que ainda teria que suportar, valia. Eu odiava as coisas ruins que fazia, mas também tinha que valorizar as boas. E estava pronta para isso, para estar com meu marido, apoiar ele, reconhecer ele e, além disso, aceitar também o que ele fazia.
— Você pode dormir aqui hoje? — ele perguntou, deitado agora no tapete, a cabeça encostada na minha perna. — Só hoje.
— Posso, sim. — respondi sem hesitar, afagando os cabelos macios dele. — Mas se eu dormir aqui hoje,… então amanhã é você que dorme comigo no meu quarto, combinado?
— Só se o não roncar igual urso.
Soltei uma risada abafada e olhei em volta. As paredes coloridas, a estante arrumada, os desenhos colados com cuidado. Era o tipo de carinho que alguém teve por ele, ou mandou que tivessem.
— Fica aqui um pouquinho — sussurrei, me inclinando para deixar um beijo demorado no topo da cabeça dele. — Vou só ver o que os grandalhões estão aprontando e já volto.
Ele assentiu, com os olhos fechando, já quase dormindo e o corpo relaxado como se soubesse, pela primeira vez, que estava seguro.
Me levantei devagar e saí do quarto, fechando a porta com cuidado. O corredor estava em silêncio, exceto por um leve barulho vindo de uma das salas laterais, onde e Vicenzo tinham ido conversar.
Andei devagar até a beira da escada. A primeira que ouvi foi a de .
— Ela está grávida, cazzo. Você não pode deixar a Bianca sozinha daquele jeito.
— Eu não deixei. Só não grudei nela como um cachorrinho. E também não sou babá de criança.
— Você é tio e ela é nossa irmã. Com uma barriga de oito meses e dois dobermans correndo soltos. Ela podia ter se machucado.
— Ela também é a mulher mais teimosa que eu conheço. — Vicenzo respondeu, irritado. — Não quis que ninguém ficasse enchendo o saco dela. E eu tenho outras coisas pra cuidar também, . Tipo o Roman, sumido há dois dias
Houve uma pausa. Senti meu estômago revirar ao ouvir aquele nome.
— Ele já desapareceu antes — disse, mais baixo. — Mas nunca por tanto tempo. Nem com ela assim.
— Talvez ele não queira ver ela com essa barriga.
— Abbastanza! — ralhou, firme. — Não falo de mulher assim nem quando odeio uma.
— Roman não gosta de mulher — Vicenzo provocou, rindo abafado. — Ele gosta de puta. Tem diferença. E quanto mais vazia, melhor pra ele.
Houve um silêncio longo e desconfortável.
— Marco está vindo e espero muito que Bianca não mate ele ou ele não mate ela.
Dei um passo para trás, sem perceber que estava prendendo a respiração. Me afastei em silêncio, voltando pelo corredor até a sala onde Bianca ainda estava sentada. Ela olhava para o vazio, com a mão sobre a barriga, e a testa franzida.
— Está tudo bem? — perguntei, me aproximando com cuidado.
Ela ergueu os olhos na minha direção.
— Não sei se já estive bem esses dias. Mas agora, com vocês aqui, talvez fique um pouco melhor.
Me sentei ao lado dela e, num impulso, estendi a mão até sua barriga, acariciando de leve pela segunda vez nos últimos minutos. A barriga estava firme, pesada, viva. Era estranho como algo tão pequeno ainda podia ocupar tanto espaço.
— Você vai ser uma mãe maravilhosa, Bianca.
Ela riu com um som quase seco.
— Vou ser uma mãe surtada. isso sim. — Suspirou e recostou melhor no sofá.
— Precisa de ajuda com alguma coisa? — perguntei, me aproximando.
— Com uma máquina do tempo talvez. — ela murmurou, exausta. — Ou com um tranquilizante pras crianças também, já que estamos pedindo milagres.
Ri baixinho e me sentei ao lado dela. O silêncio entre nós foi confortável por alguns segundos, até que minha curiosidade falou mais alto.
— Bianca… — comecei devagar, tentando parecer casual. Eu sabia que não devia falar sobre o que escutava, principalmente pelo tom de voz de , mas também sabia que Bianca estava grávida. E uma surpresa não tão boa não era viável naquele momento. — Você conhece alguém chamado Marco?
Ela congelou. Não só parou de se mexer, foi como se o ar ao redor dela tivesse se tornado mais pesado. Os olhos castanhos se arregalaram, as mãos deslizaram instintivamente para a barriga como se quisessem protegê-la de algo e então ela me olhou.
Pálida.
Assustada.
— Marco? — repetiu, como se o nome tivesse vindo de um pesadelo.
Assenti, observando cada mínimo movimento dela. O rubor que subia devagar pela pele do rosto, a forma como os dedos começaram a apertar o tecido da blusa sem que ela percebesse.
— O comentou — expliquei, mantendo o tom neutro. — Ele ouviu algo sobre Marco. Disse que está vindo. Que alguém o mencionou entre as famílias. Eu achei estranho porque nunca ouvi falar.
— Você tem certeza? — Bianca sussurrou, a voz bem mais fraca agora. — Tem certeza que era esse nome? Não ouviu errado?
— Marco. — Eepeti. — Foi o que disse. Achei que talvez fosse alguém conhecido seu.
Ela desviou o olhar. Rápido demais. E quando voltou a me encarar, tinha uma muralha de ferro por trás dos olhos.
— Não conheço nenhum Marco importante — disse firme demais.
A resposta veio rápida, fria e ensaiada.
Apenas assenti, fingindo acreditar.
Bianca se recostou novamente, tentando recuperar a pose de sempre.
— Você acha que ele, esse Marco, é perigoso? — perguntei, apenas testando as águas.
Ela demorou para responder.
— Depende — disse por fim, e havia uma nota de dor sob o sarcasmo. — Perigoso pra quem?
O silêncio se estendeu entre nós. Mais denso do que antes. E eu soube que havia muito mais naquela história do que ela estava disposta a me contar.
— Se precisar conversar... você sabe que pode falar comigo, certo?
Bianca assentiu, mas não me olhou.
Marco.
Quem quer que ele fosse, tinha acabado de abrir mais uma porta nesse labirinto que era a família Rossi.
Capítulo 50
A mansão estava quieta. Um silêncio raro, quase irreal, considerando o caos que reinava horas antes. As luzes baixas do meu escritório refletiam nos vidros de bourbon alinhados na estante, e eu mal tinha tocado no meu copo. A bebida estava lá mais por hábito do que por vontade. A porta se abriu sem bater. Bianca entrou com a postura de quem já estava exausta antes mesmo de começar a discussão. A barriga avantajada a obrigava a andar mais devagar, mas nada diminuía a ferocidade no olhar faminto daquela Rossi.
— Don — ela disse, com um sorriso amargo.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Bianca nunca me chamava de Don e, sempre que chamava, era anunciando um caos maior do que eu gostaria.
— Sente-se, Bianca. Você não deveria ficar em pé tanto tempo.
— Não me trate como uma inválida.
— Bianca, não é o momento.
— Não? — Ela encostou as mãos na cintura, com os dedos pressionando a parte inferior das costas como se sustentassem o peso do mundo. — Então me diz qual é o momento certo pra descobrir que Marco está voltando. Porque eu achei que a gente tinha um acordo.
Arqueei os olhos, mirando a expressão raivosa de minha irmã.
— Quem te contou sobre ele? — perguntei, mantendo a voz firme.
— A — ela respondeu, sem hesitar. — E antes que você pense em culpar ela, saiba que eu a obriguei a falar.
Meus dedos se fecharam em torno do copo.
. Claro. Ela estava aprendendo rápido demais a navegar pelos segredos dessa família.
— Ele não é um problema seu — falei, evitando o olhar dela.
Bianca riu, sem humor.
— Não é um problema meu? — Ela avançou até a minha mesa, apoiando as mãos na madeira polida. — Então me explica, , por que diabos o nome dele surgiu agora? Por que ele está voltando? E por que caralhos ninguém me avisou?
Ergui o olhar, enfrentando a fúria nos olhos dela.
— Porque não é da sua conta.
Ela ficou imóvel. A respiração estava acelerada e o rosto levemente ruborizado.
— Tudo que envolva ele é da minha conta — sussurrou. — Eu sou sua consiglieri, . Minha opinião deveria ser ouvida.
— E é, mas algumas decisões são minhas. Sozinhas. — Eu pausei, percebendo que talvez estivesse sendo grosso demais. — Ele não vai te procurar.
— Como você sabe?
— Porque eu não deixarei.
Bianca apertou os lábios, com um desdém típico, mas não me respondeu. Ela contou mentalmente, respirou fundo e com uma calma que eu não sabia de onde vinha, respondeu.
— Você não controla tudo, .
— Controlo o suficiente.
Ela balançou a cabeça, desacreditada.
— Eu não quero ele perto dos meus filhos.
— E não estará.
— Você prometeu isso antes.
— E cumpri.
— Então por que ele está voltando? — A voz dela quebrou, e pela primeira vez em anos, vi Bianca vulnerável.
Segurei o copo com mais força, sentindo o cristal gelado contra a palma da mão.
— Negócios. Nada mais.
— Negócios. — Ela repetiu, como se a palavra fosse um veneno. — Tudo sempre se resume a negócios, não é?
— Bianca…
— Não. — Ela se afastou da mesa, erguendo uma mão. — Eu não quero saber. Só quero que você lembre de uma coisa: se ele pisar aqui, se ele sequer olhar para os meus filhos, eu mesma arranco o coração dele.
Eu respirei fundo, dessa vez mais pesado que o normal. Ela apertou os lábios, controlando o incômodo como sempre fazia.
— Está tudo bem com eles? — perguntei.
— Estão se mexendo muito. Massimo está cada vez mais forte. — Ela olhou para mim de relance. — Vai nascer com o temperamento do Vicenzo.
— Deus nos livre de mais uma maluco nesta família. — Me aproximei dela devagar, como se estivesse lidando com um animal assustado, e me ajoelhei no tapete persa, nivelando meu olhar ao dela. Coloquei a mão sobre sua barriga, sentindo o movimento vigoroso de dentro.
Bianca não sorriu.
— Por que deixar Marco voltar, ? — A voz dela era firme, mas eu conhecia minha irmã o suficiente para perceber o tremor escondido.
— Não vi motivo pra recusar. — Suspirei, mantendo a mão onde estava. — Ele tem laços em Palermo que não podemos ignorar. Homens leais a ele, informações valiosas — Meus dedos se apertaram levemente no tecido do vestido dela. — Alguém está tentando me matar. De novo. Preciso de todas as armas que puder ter.
— Ele não é uma arma. Ele é um risco.
— Todo homem nesse mundo é um risco, Bianca. — Suspirei, passando o polegar sobre o tecido do vestido dela, em um gesto inconsciente de conforto. — Mas ele tem informações. E considerando que depois de tantas tentativas de me assassinarem, alguém pode acertar...
— Não fale assim. — Ela cortou, com os olhos escurecendo. Ela desviou o olhar. Respirou fundo. Os olhos marejaram, mas ela piscou antes que caísse qualquer lágrima. — Você acha que ele é o pai, não é?
— Ele acha que é — acrescentei.
— Eu nunca menti pra você, .
— E nunca disse a verdade também, sorellina. — Ela não respondeu. Só ficou me encarando, como se procurasse as palavras certas em algum lugar dentro dela. Mas não encontrou. Ao invés disso, apenas virou as costas. — Bianca — chamei. — Ele é o pai?
Bianca trincou o maxilar. A resposta que ela estava tentando engolir quase escapou, mas ela a engoliu mesmo assim.
— Eu escolhi não dizer quem era o pai, e você respeitou isso.
— Respeitei, sim — confirmei. — Quando não havia suspeitas desses meninos serem de Marco. Isso muda as coisas, você sabe disso.
— Isso é problema meu.
— Não. — Minha voz cortou o ar. — Não é. Você é a porcaria de uma Rossi. E se esse cara for pai das crianças, ele entra automaticamente na nossa mesa. No nosso sangue. Nos nossos segredos. Eu não me importo com o que aconteceu entre vocês. Não me importo com o que você sentiu por ele, você é adulta e dona de todas as suas escolhas, mas se ele for o pai, ele entra pra essa família. E eu preciso saber se posso confiar nele. Porque se ele for uma ameaça, Bianca, não importa o passado. Ele vai cair. Você acha que pode fugir disso pra sempre? — perguntei, encostado à porta.
Ela não se virou.
— Não estou fugindo, .
— Está, sim. Desde o dia em que vomitou na nossa sala de reuniões e fingiu que era por causa do café da manhã. Eu sou seu irmão. Eu sou o chefe dessa família. Eu consigo lidar com o que quer que Marco vá representar nisso tudo.
— Mas eles não. — Ela respirou fundo, caminhando até a janela e colocou as mãos sobre a moldura. — Marco não tem nada a ver com os bebês, .
— Isso precisa acabar, Bianca.
— O quê?
— Esse jogo de não dizer. De se esconder. Você está grávida de gêmeos. E o pai dessas crianças vai ter um lugar à mesa. Vai ter poder, voz. E pra isso, eu preciso saber se é um nome confiável.
— E se for um inimigo? — disparou, firme. — Se for alguém que você considera um traidor, você ainda deixaria ele sentar à mesa só porque vou ter filhos dele?
— Se for um inimigo — eu pausei, olhando fundo nos olhos dela. A pergunta era tola porque, no fim, ela já sabia o que aconteceria. — É morte. Você sabe disso. Um traidor não tem mesa. Tem cova. — Ela engoliu seco. — Mas você não se deitaria com um traidor — completou. — E muito menos com um inimigo.
— Eles têm o meu sangue. Isso basta.
— Não basta. — Cruzei os braços. — Eu conheço essa casa. Conheço o mundo em que a gente vive. O sobrenome tem impacto, sim, mas o que protege de verdade é quem senta com a gente. Quem come do mesmo prato e quem sangra pelo mesmo lado. Você acha que tá protegendo alguém escondendo quem é o pai, mas está colocando os bebês no meio de um jogo político que não entenderiam nem se tivessem dez anos. Se for o Marco, você tem que me dizer e se for, ele vai ter um lugar na mesa. Goste você ou não.
— Você quer dar lugar a um homem só porque ele transou comigo?
— Não. Quero dar lugar a um homem que carrega sangue da próxima geração da nossa família.
— Não importa quem seja, . Eles são meus. Eu vou criar esses meninos com ou sem o pai e você vai ter que aceitar isso.
— Talvez eu aceite. Mas o mundo lá fora não vai, esses meninos vão crescer perguntando quem é o pai deles. E se a resposta for fraca, o nome deles também será.
— Você não entende.
— Então me faça entender.
— Não posso.
— Então torça pra eu não descobrir sozinho.
Ela não me responde e não me olha antes de dar as costas e sair.
Ouço a porta bater duas vezes antes de abrir. É leve, então não é um soldado.
— ? — A voz dela ecoa, quando levanto os olhos vejo a silhueta perfeita da minha mulher e, do lado dela, a criança. — Procurei você pelo lugar inteiro — ela diz com um meio sorriso. — Tá se escondendo?
Me levanto devagar, mas meus olhos não estão nela. Estão no garoto que segura a mão dela com firmeza. Baixo, magro, o cabelo escuro como o dela e os olhos de Lorenzo.
O garoto me encara com desconfiança. Como se soubesse que aqui dentro não é lugar pra gente pequena. Ele aperta mais forte a mão da , mas não se esconde.
Corajoso.
Me aproximo um passo. Ele não recua. Só me acompanha com os olhos grandes e sérios demais pra alguém tão pequeno.
Cinco anos, ela havia dito, no entanto, o menino ainda carregava mais peso emocional do que a idade. Ele fica calado, me encara mais um pouco. Depois olha pra como se pedisse confirmação silenciosa de que tá tudo bem.
Ela se abaixa, passa a mão pelos cabelos dele.
— Tá tudo bem, Lucca.
Eu não sei o que ela falou antes disso, mas o menino dá um passo à frente.
É estranho.
Eu já encarei homens armados, líderes de cartéis, traidores com um sorriso nos lábios e veneno na fala. Mas isso... isso aqui? Eu não sei lidar.
— Ele se parece com o Lorenzo — falo baixo, quase sem pensar. — me olha quieta, observando Lucca, percebo que aquilo toca nela também, ela fecha os olhos por um segundo. Lorenzo era o melhor dos Rossi. O único que nunca deveria ter morrido. Ela sorri, por fim, mas é um sorriso triste e doído.
Lucca olha de um pro outro, por alguns segundos.
— Você gosta de dinossauros?
Demoro dois segundos pra entender a pergunta. Outro pra responder.
— Não sei.
Ele franze a testa, como se isso fosse inaceitável.
— Você devia gostar, tem um que come outros dinossauros. Ele é o mais forte.
Dou um meio sorriso.
— E você gosta desse?
Ele assente, firme.
— Gosto. Eu tenho um desenho dele. Quer ver?
Dou de ombros.
— Pode trazer.
Ele se anima, puxa pela mão e sai correndo com ela. A risada dele ecoa no corredor, quebrando toda a gravidade da casa e, consequentemente, o padrão inconsistente da conversa que tive com a minha irmã há alguns minutos atrás.
Lorenzo, se pudesse ver isso, teria sorrido.
Não sou um homem que costuma esperar. Mas por alguma razão, eu fico ali, de pé no meio da sala, observando a porta por onde os dois saíram. e o irmãozinho dela. Lucca é pequeno demais pra esse mundo e, com toda certeza do mundo, ele não devia estar aqui, com gente como eu, mas está. E agora, de um jeito ou de outro, isso é responsabilidade minha. Eu sempre fugi de qualquer possibilidade de ter uma criança, agora tinha uma. Uma miniatura de Vicenzo com a personalidade forte de .
Merda.
Quando eles voltam, Lucca vem correndo e com um papel amassado na mão, como se fosse um contrato valioso e entrega pra mim com os olhos acesos.
— Esse é o Indominus Rex — ele diz com orgulho. — Ele come todos os outros, mas ele também protege o irmão menor no final.
Olho pro desenho composto por rabiscos e traços bagunçados, mas dá pra ver o esforço.
— Forte — murmuro. — E esperto.
Lucca sorri, satisfeito. Como se eu tivesse passado em algum tipo de teste.
permanece atrás dele, observando. Os olhos dela estão em mim, mas não é cobrança.
Lucca volta a falar dos dinossauros, de como o dele derrota todos os outros, mas poupa o irmão. Fico olhando pra ele e me perguntando se eu teria feito o mesmo. Se com oito anos eu teria protegido meus irmãos, se tivesse escolha.
A resposta é sim.
E também é não.
Depois de um tempo, o leva até o jardim. Diz que ele precisa gastar energia antes de jantar e quando ela finalmente volta sozinha, fecho a porta da biblioteca.
— Ele é esperto — falo. Ela sorri, orgulhosa, se aproxima de mim e se aninha em meu corpo. Me permito envolver os braços ao redor de sua cintura, mantendo-a próxima a mim. — Isso muda as coisas.
Assinto, olhando para a porta por onde ele saiu.
— O quê?
— Ter alguém assim na casa. Tão pequeno, vulnerável. É estranho.
Ela engole seco.
— Eu sei. Mas confio em você.
Eu rio. Baixo.
— Talvez não devesse.
Ela se aproxima, devagar. Passa os braços ao redor dos meus ombros, como se o gesto não fosse mais uma barreira, mas um porto.
— Você pode não saber o que fazer com ele ainda, mas ele já te escolheu como o Dinossauro dele, .
Me inclino e beijo a testa dela, depois os lábios bem devagar.
Por um instante, o mundo fora da biblioteca deixa de importar.
Continua.
Nota da autora: Ei, meu amor!
Se você chegou até aqui, antes de qualquer coisa… obrigada. De verdade. Cada leitura, cada comentário, cada mensagem, cada emoção que você compartilha comigo faz tudo valer a pena. 🖤
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