conter12
Última atualização: 26/01/2024

Capítulo 1


This world is so heavy, oh
Don't know if I'm ready, oh
I can feel it like the waves crashing down
I know I need to reach up not to drown

Heavy – Emblem3


Encarei aquela imensidão azul como se fosse à última vez que veria aquilo e, de certa forma, era. Parecia que eu não veria aquilo nem tão cedo. Não quando se tem pais beirando ao divórcio e sua última opção é escolher com qual dos dois irá ficar. Os últimos dias estavam sendo difíceis. Eu não conseguia olhar para minha mãe como antes, muito menos conseguia chamá-la assim. agia da mesma forma, mas com o nosso pai. Ele estava chateado por não ter o cara em quem havia se inspirado desde pequeno. Hector aparentava se sentir culpado por fazer nossa família chegar a esse ponto e sempre estava discutindo com Norah, nossa mãe, mas ela também não cooperava.
Eu sabia que tinha algo de errado desde então, mas tive certeza quando vi Norah chorando baixinho enquanto via um filme qualquer, no sofá da sala. Eu tinha perdido o sono e até cheguei a perguntar o que tinha acontecido. Ela olhou para mim assustada e me mandou voltar a dormir, dizendo que eu não precisava me preocupar, mas eu me preocupei. E também.
Passamos alguns dias calados, em uma rotina monótona. Hector fazia hora extra a maior parte da semana e sabíamos que era para não ficar em casa. Ele não estava com uma das melhores feições e quando chegava, fazia sua refeição e evitava ao máximo falar com um de nós. até tentava puxar algum papo, mas não funcionava. Já tínhamos desistido de concertar algo que só eles podiam resolver.
Eu e meu irmão tínhamos chegado em casa na tarde anterior e Hector estava sentado na sala junto a Norah. Estavam parecendo cansados e nossa mãe tinha olheiras profundas. Já estava se tornando normal. Nos pediram para sentar nas poltronas e começaram um assunto chato sobre viagens e coisas do tipo. Eu não entendi muito bem, então olhei para . Ele parecia ter sacado, sua respiração estava oscilando. Eu queria segurar a mão dele, mas estava longe, então fiquei ali parada, encarando meus pais. Norah olhou para papai, soltando um longo suspiro. Então ele disse de uma vez. Soltou tão rápido que parecia ter vomitado as palavras. Estavam decididos. Realmente iam seguir rumos diferentes. Já haviam pedido o divórcio. levantou e os encarou, querendo dizer algo, mas apenas se virou e saiu pisando firme até seu quarto. Permaneci parada, com o olhar fixado no vão entre os dois em minha frente.
— Você entende, querida? — ouvi a voz da minha mãe um pouco longe, quase como um eco. Automaticamente, minha cabeça se balançou, afirmando. Era como se eu estivesse no piloto automático. Olhei para Hector, esperando alguma explicação a mais, mas nem um olhar reconfortante eu via nele. Pus-me de pé e segui para longe dali.
Passei as mãos pelo cabelo molhado e respirei fundo, sentindo a maresia de encontro à minha pele ainda molhada. Deixei que alguns grãos de areia voassem em meu rosto também, aquilo não me preocupava. Olhei mais uma vez antes de levantar, tirando a prancha, que antes estava fincada na areia, ajeitando-a embaixo do meu braço e comecei a voltar para casa.
O fim de tarde estava pouco quente, deixando à mostra o céu colorido. havia me mostrado a beleza dessas tardes na praia e desde então eu não conseguia voltar para casa nesse horário sem tirar os olhos do céu.
De onde eu estava, já conseguia avistar minha casa e ouvir o som evidente da vizinhança, que por sinal não era lá tão silenciosa. Os motores dos carros eram a trilha sonora daquele horário. Eu já tinha acostumado. Passei pela pequena calçada que separava uma casa da outra e segui até à garagem, depositando a prancha em um canto, segura. Caminhei até a varanda e subi as escadinhas, indo até a porta e me assustando em seguida ao ouvir algo quebrando.
Estreitei os olhos e olhei para os lados, não encontrando ninguém.
— Você é uma estúpida! É isso o que você é! — aquele era o meu pai gritando. Olhei para o corredor e minha mãe vinha em direção à sala, com o rosto completamente vermelho.
, saia daqui. — Hector disse, em tom autoritário. Franzi o cenho, ainda não entendendo o que estava acontecendo. Ele caminhou em minha direção e segurou meu braço com força, o que me fez tentar soltar e assim só me machuquei ainda mais.
— Não machuque a garota, Hector. Você vai deixá-la roxa. — olhei para minha mãe, que havia se aproximado. Dessa vez, seu rosto estava imerso em lágrimas e aquilo partiu meu coração. Norah era tão bonita, sempre tinha um sorriso vívido nos lábios. Vê-la assim era como ver outra pessoa, uma sem vida, desmotivada.
— Cale a boca. Acha que ainda vou te dar ouvidos? Que vou escutar uma vagabunda como você? — puxou meu braço mais uma vez e antes que pudesse voltar sua atenção para mim, ouvi o baque da porta dos fundos. estava com os olhos fixos em Hector e seu olhar transbordava raiva. Hector soltou meu braço, indo em direção à minha mãe. veio até a mim, me segurando pelo ombro.
— Você está bem? — assenti, rapidamente. Ele passou uma das mãos pelo cabelo, olhando para o lado. — Vai para o quarto, agora.
Olhei para ele, sem entender, e ele apenas sibilou que era para eu obedecê-lo, antes de voltar em direção à Hector. Fui andando lentamente em direção ao corredor e me virei. estava de frente para Hector, meu pai estava completamente vermelho e assim que meu irmão ousou falar mais alto, ouvi o barulho do tabefe em . Arregalei os olhos e pus as mãos na boca, sem acreditar.
— Você é um imprestavelzinho de merda. — frizou bem a palavra, olhando para meu irmão. — Eu não quero mais olhar para a sua cara. Não quero mais olhar para você e perceber o filho inútil que tenho dentro de casa. Você e ela. — apontou em minha direção.
— Bêbado maldito. — o ouvi dizer, entre os dentes, enquanto minha mãe estava de pé perto deles, sem saber o que fazer. deus as costas, vindo em minha direção. Segurou meu braço delicadamente.
Seguimos pelo corredor, ouvindo a discussão na sala e paramos em frente à porta do meu quarto. Ia entrar, mas ele me puxou novamente, olhando em meus olhos. Observei seu rosto, a bochecha esquerda marcada pelo tapa de Hector. O choro vinha no mesmo instante.
— Arrume suas coisas. Pegue tudo o que puder. Nós vamos embora.
, não! Não podem... — segurou meu rosto com as duas mãos, interrompendo-me.
— Não questione, por favor... Eu não quero mais isso para mim e eu sei que você também não. — engoli em seco, tentando controlar as lágrimas, o que foi em vão. — Vamos sair daqui.
Balancei a cabeça, concordando com ele. Entrei no quarto olhando para os lados, sem saber por onde começar. Abri um dos armários, pegando a mochila da escola, pondo todas as roupas possíveis ali dentro. Eu sentia que precisava sentar naquela cama forrada e chorar até que tudo aquilo passasse, mas eu não podia. Não agora.
Puxei a mala branca de uma das prateleiras e a coloquei em cima da cama, abrindo-a. Eu não estava conseguindo pensar direito e, como automático, eu ia colocando qualquer coisa que eu via pela frente dentro da mala.
Peguei metade dos meus pertences, os que eu mais usava. Tudo o que eu queria levar não caberia na mochila e muito menos na mala. Tinha que levar pouca coisa. De onde eu estava, conseguia ouvir a voz exaltada da minha mãe.
Fechei os olhos e respirei fundo.
Fui em direção ao espelho na parede do quarto e olhei minha aparência, respirando fundo. Assim como Norah, eu tinha grandes olheiras, minha expressão não era radiante como antes. Engoli em seco, tentando não deixar nenhum dos piores pensamentos vir à tona e caminhei de volta para o centro do quarto. Puxei o elástico do pulso e prendi os cabelos em um rabo de cavalo firme. 
Enquanto observava o quarto, mordisquei o lábio inferior, tentando me lembrar se tinha mais alguma coisa faltando, e virei meu rosto em direção ao armário, avistando a caixa colorida, já que a porta estava aberta. Rapidamente, caminhei até ela, abrindo-a. Fotografias, um diário velho e a pequena bolsinha preta onde minhas economias estavam guardadas. Peguei-a e corri em direção à mochila, colocando-a no fundo.
Voltei para guardar a caixa e me deparei com uma fotografia jogada ao fundo, aproximei-a do rosto e senti que o choro fraco de antes voltaria. Nela, eu e estávamos sorrindo. Norah me abraçava sorridente e Hector tinha um dos braços em volta de , o abraçando. O dia estava bonito e não parecíamos ter nenhum problema para nos preocupar. Era só aparência.
Passei uma das mãos pela bochecha e resolvi me adiantar. não esperaria um minuto sequer naquela casa. Eu também não.
Pus a fotografia dentro do pequeno caderno que eu carregava e fechei a mochila, colocando-a do lado da mala branca no chão. Fui até a porta e olhei pela pequena fresta a sala, que agora estava silenciosa. Algo estava errado. 
Rapidamente, segui até a gaveta e peguei o All Star de cano alto, o colocando o mais rápido que podia. Ouvi a porta abrindo, me fazendo levantar o olhar. entrou, me encarando sentada no chão.
— Precisamos sair agora. — comentou. Tinha uma das mãos apoiada na porta. — Conseguiu pegar tudo?
— Não tudo, mas o necessário. — dei de ombros, me levantando e indo em sua direção. — ?
Ele abria a porta do quarto quando me ouviu, virou o rosto preocupado e me olhou.
— E a mamãe? — minha voz saiu falha. Ele suspirou, passando uma das mãos nos cabelos claros. — Ela não tem culpa...
... — se aproximou, levantando uma das mãos até o meu rosto. Ele me observava, como se eu fosse seu único pingo de esperança. Balancei a cabeça minimamente e ele me abraçou, se afastando em seguida. — Pegue as coisas e me espere. Já volto.
Assim como disse, segui até a mochila e a coloquei nas costas, pegando a mala. Ela estava um pouco pesada, mas aquilo não me preocupava no momento. Segui até o corredor e logo veio atrás com sua mochila, a mala e a bolsa de academia, passando por mim e ficando na frente assim que Hector virou o rosto em nossa direção. Pude ver sua expressão mudar de pesar para ira. Eu estava começando a me assustar. 
— Aonde vocês pensam que vão? — levantou do banco em que estava, perto da cozinha, e parou em nossa frente. — Acabem com essa palhaçada agora e vão para o quarto. Os dois! — gritou, apontando para o corredor. Norah não estava mais na sala, provavelmente trancada no quarto.
— Quem você pensa que é? — perguntou, elevando a voz. — Você acha que pode chegar impondo uma ordem que não existe? — se aproximou de Hector. Eu estava estática, sem conseguir acreditar no que via. — Você sequer foi um pai presente. Seu canalha! — gritou a última palavra, recebendo o soco em cheio no rosto. Pus as mãos na boca e tentei correr até , que havia cambaleado para trás. Desviei meu olhar de meu irmão para meu pai, Hector estava desnorteado.
pôs uma das mãos no rosto e retomou a postura.
— Espero que sinta orgulho disso. – Disse, dando as costas para ele.
Pegou a mala no chão e olhou para mim, seguindo até a porta. Olhei para meu pai pela última vez, ele tinha os olhos vermelhos e sem pensar muito segui até a porta da frente, alcançando no meio da rua. Ele andava sem olhar para trás, estava decidido.
— Vamos para o ponto e em seguida para a estação. O próximo trem não vai demorar muito, pela hora. — assenti, mesmo sabendo que ele não veria. Eu caminhava apressadamente, tropeçando vez ou outra. Minha visão estava embaçada pelas lágrimas, aquilo era demais para mim. Dobramos a esquina e eu já conseguia avistar o ponto de ônibus mais à frente. parou um pouco longe de algumas pessoas, colocou a mala no chão e respirou fundo. Eu já não conseguia conter o soluço e abaixei o olhar assim que ele me olhou. 
Sem dizer palavra alguma, veio em minha direção, podendo sentir seus braços em volta do meu corpo. Eu já não conseguia controlar meu choro mais. Passou as mãos pelo meu cabelo, soltando um suspiro baixo. 
— Não precisa chorar. Estou aqui. — afastou meu rosto, olhando em meus olhos. Observei seu rosto, a lateral machucada sangrava. Não muito, mas sangrava e isso só me fez querer chorar mais ainda. Tentou deixar um pequeno sorriso transparecer, mas eu sabia que ele não aguentaria por muito tempo.
Ficamos abraçados até o ônibus chegar, estacionando perto da calçada. Já tinha anoitecido e o tempo havia esfriado, me pegando desprevenida. Não estava com algum casaco ali. Peguei minha mala no chão, assim que mencionou em pegá-la. Balancei a cabeça negando e fiquei ao seu lado, esperando algumas pessoas entrarem. Subimos em seguida, desviando das pessoas que estavam na frente. caminhava em direção ao cobrador e assim que pus as mãos no bolso para pagar a passagem, o vi pagando as nossas. Respirei fundo, sentando em um dos bancos vagos. se sentou ao meu lado.
O olhei de relance, podendo constatar o quanto ele tinha a expressão preocupada. Os olhos atentos ao trânsito e a mente, provavelmente, com um turbilhão de pensamentos. Ele estava sobrecarregado e eu me sentia culpada por ele ter que, ainda assim, cuidar de mim mesmo que por muitas vezes eu não quisesse isso.
Suspirei, desviando meu olhar da mala em meu colo para , o observando.
? — rapidamente, ele olhou para mim. Ficou alguns segundos me encarando e deixou um sorriso fraco escapar, endireitando o corpo no banco.
— O que foi? — perguntou, com certa delicadeza.
Encostei minha cabeça no apoio da cadeira e respirei fundo, o olhando nos olhos. Ele, agora, me observava atento.
— Nós vamos ficar bem, não é?
Ele deixou o ar escapar, pressionando um dos lábios. Os olhos azuis estavam acinzentados, demonstrando preocupação. Essa era uma das coisas que raramente se via em meu irmão: Aflição.
Pôs um dos braços em volta dos meus ombros e me puxou para perto, beijando o topo da minha cabeça. O seu polegar fazia um leve carinho em meu ombro.
— Eu espero que sim.


Capítulo 2

Depois de algumas horas de viagem — mais do que o esperado —, paramos no terminal de Santa Ana, tendo sorte por logo o ônibus de Huntington Beach estar saindo. Quando saímos do trem, o dia estava clareando, como de se esperar. Eram quase seis da manhã e ainda não tínhamos chegado a Huntington. Era para eu estar preocupada? Claro, mas não me importava. Eu estava longe de casa, longe das discussões e isso era o suficiente para eu estar aliviada.
tinha a expressão mais leve e se não fosse uma impressão minha, poderia até dizer que tinha um sorriso contido no canto dos lábios. Isso me deixava um pouco animada. Se ele estava se sentindo melhor, eu também estava.
Tínhamos saído de Santa Ana fazia uns vinte minutos e como a distância de uma cidade para a outra era pequena, logo conseguia avistar os coqueiros e palmeiras da entrada de Huntington. A paisagem me fez sorrir como uma boba, só de lembrar que nossa infância inteira tinha sido ali. Passamos os melhores nove anos julgando ter uma vida perfeita. Até nosso pai decidir que nos mudaríamos para São Francisco. Desde então, tem sido esse caos.
Tirei a atenção da vista para os cutucões que me dava na lateral da barriga, ele tinha um sorriso ansioso e estava preparando para se levantar. Pus a mochila nas costas e rapidamente fiquei de pé também, percebendo que desceríamos na avenida.
— No próximo ponto, nós descemos. — falou, segurando em um dos bancos. Em poucos segundos, senti o ônibus freando devagar e segui atrás de até a saída, descendo as escadas. Ficamos exatamente em frente à orla, podendo avistar algumas pessoas caminhando e outras na areia da praia. O ônibus partiu e, no mesmo momento, senti o puxão do meu irmão, seguido por um abraço apertado. Não pude deixar de soltar uma risadinha de felicidade, ele fez o mesmo.
— Voltamos para o lugar do qual nunca deveríamos ter saído. — disse, sorrindo de forma diferente, estava contente. Começamos a caminhar pelo calçadão e esperamos alguns carros para poder atravessar e seguir pela rua que, antigamente, era a da nossa avó. Olhei para os lados, tentando reconhecer o lugar, mas realmente havia mudado bastante depois desse tempo. Com um pouco de dificuldade, consegui trocar a mala de mãos enquanto andava, sem tirar os olhos das casas ao redor. O lugar estava completamente diferente.
— Você lembra mesmo onde que nossa vó morava? — perguntei, confusa por não estar reconhecendo a rua direito. As calçadas estavam repletas de palmeiras, o que deixava a paisagem bonita de se ver. olhou de relance para mim e sorriu minimamente.
— Qual é, ! Tudo bem que faz tempo que não viemos aqui, mas isso não significa que esqueci do lugar. Aliás — estreitei os olhos por ele ter me chamado pelo nome. Ele apenas sorriu e voltou a olhar para frente enquanto caminhávamos. — Impossível esquecer aquela cerca branca.
Olhei para a mesma direção que ele e avistei a casa branca, com telhado verde claro. Ela não tinha mudado e vê-la como antes fez com que a saudade crescesse dentro do meu peito. Eu amava aquele lugar.
Apressamos o passo, chegando à calçada, onde tinha uma caminhonete branca estacionada. Não me lembrava daquele carro. Descansei meus braços, pondo a mala no chão e observei a fachada na casa, tinha mudado pouca coisa. A cerca e o portão pareciam ter sido pintados recentemente, assim como o telhado da casa. O portão estava entreaberto, dando para ver a porta da frente encostada. Franzi o cenho, lembrando de algo. Será que a vovó ainda morava ali?
— Tem certeza que ela ainda mora aqui? — perguntei, baixo, por estarmos em frente à casa e, com certeza, ter alguém nela. — Por que eu não lembro do número e muito menos dessa caminhonete branca.
Olhei rapidamente para trás, vendo a caminhonete. Também parecia nova. Voltei o olhar para e ele parecia pensativo, mas ainda assim mantinha a feição leve no rosto. E essa feição me tranquilizava, o que era bom.
— Tenho, . Só precisamos chamá-la. — se aproximou do pequeno portão branco e apertou a campainha pela primeira vez. Ninguém surgiu e eu comecei a me preocupar. Olhei em volta e constatei que a rua estava pouco movimentada. apertou mais uma vez e nada. Percebi o mesmo bufar e me afastei um pouco, indo para a ponta da calçada. Encostei-me à palmeira mais próxima que, por sorte, tinha um pouco de sombra e respirei fundo, olhando para baixo. Marie não estar em casa ou não morar mais ali era o que faltava. Cruzei os braços e ergui o olhar para meu irmão, que ainda insistia em tocar a campainha. Olhei por detrás dele e observei a senhora vir com algumas sacolas nas mãos. Ela andava lentamente e tinha os cabelos grisalhos presos em um rabo de cavalo, assim como o meu.
. — chamei o garoto, que não tinha prestado atenção. — ! — falei, mais alto, fazendo-o olhar em minha direção um pouco confuso. — Aquela não é a vovó Marie?
Apontei com a cabeça para a senhora que se aproximava ainda sem olhar para nós dois e desencostei da árvore, indo até . Desviei meu olhar dele para ela e assim que ela nos viu, arregalou os olhos, andando rápido até nós dois.
? ? — perguntou, incrédula. — O que estão fazendo aqui, queridos? — colocou as sacolas no chão e nos abraçou apertado. — Onde estão Norah e Hector? — olhei para rapidamente e vovó parecia ter captado o que pensávamos. Abaixei o olhar em seguida. — Ah... Venham, vamos entrando.
Foi em direção às sacolas para pegá-las, mas as pegou rapidamente, fazendo com que Marie desviasse e fosse empurrar o portão que estava aberto. Peguei minha mala e segui pelo pequeno gramado, com meu irmão atrás de mim. Por onde caminhávamos tinha um pequeno filete de pedra e em volta, onde era gramado, tinha uma mesa redonda, com o tampo de vidro e várias flores enfeitavam o lugar. Realmente, estava lindo.
Assim que adentrei a sala, esperei ao meu lado. Vovó caminhou afobada para a cozinha e não deixei de soltar uma pequena risada com seu ato. Ela não havia mudado. Deixei a mala em um canto e esperei em pé, no meio da sala, assim como meu irmão.
Marie veio em nossa direção e depositou em cima da pequena mesa, no meio da sala, uma bandeja com alguns biscoitos, um bolo fatiado e uma jarra de suco. Respirei fundo, inalando o cheirinho do bolo de laranja. Eu estava faminta. logo se sentou e não esperou muito para que começasse a comer. Eu estava um pouco tímida, até porque fazia tempos que não a via.
— Como vocês estão, meus amores? — perguntou, se sentando na poltrona, ela tinha um pequeno sorriso nos lábios. — Ah, ... Você está tão crescida! — alisou o rosto, parecendo não acreditar no que via. Sorri de volta, percebendo que sua presença me trazia conforto. Desviou o olhar para e franziu o cenho. — O que houve com o seu rosto, querido?
No mesmo instante, parou. Passou os olhos por mim e os direcionou para vovó, que ainda estava intrigada o olhando. Mordi o lábio inferior e abaixei minha cabeça, me concentrando no copo com suco em minhas mãos. Era um assunto delicado, estava recente e aquela provavelmente não era a hora certa para discutirmos sobre aquilo.
— Marie, eu não... — tentou dizer, sem encontrar as palavras certas. Ela se aproximou, colocando suas mãos sobre as dele.
— Tudo bem, não preciso saber agora. — balançou a cabeça negativamente, deixando um leve sorriso surgir nos lábios. — Vocês estão exaustos. Precisam descansar. Venham, os quartos estão livres.
Esperou que terminássemos de comer e nos guiou para os dois quartos que eu conhecia bem. Mostrou primeiro o de , estava completamente arrumado e as paredes estavam pintadas, menos a azul claro, que continha os posters do meu irmão. Ele era apaixonado e sempre que alguma banda que ele gostava lançava um poster novo, ele comprava. Do lado oposto da cama, bem do ladinho do guarda roupa, estava repousado o violão, o que tanto tocava. Ele tinha o deixado ali quando fomos para São Francisco.
Deixamos meu irmão desfrutar um pouco mais do quarto e segui com minha avó para o meu, ficando estática ao abrir a porta. Nada tinha mudado, estava tudo como eu tinha deixado quando fui embora. As paredes ainda em tons marfim, a cama encostada à parede com o fio com lâmpadas em volta dela. Os porta-retratos permaneciam na prateleira ao lado da cama, assim como alguns em cima da penteadeira. Era como voltar a nove anos atrás.
— Vovó... — falei, sentindo a voz falhar. Ela me olhou, segurando uma das minhas mãos. Olhei em seus olhos e sorri de canto. — Obrigada.
— Sempre estou aqui por vocês, querida.
Acariciou meus ombros com uma mão e com a outra puxou a porta, me deixando sozinha ali. Soltei todo o meu ar e passei os olhos por todo o quarto, deixando a mala em um canto qualquer. Era bom estar em um lugar sem brigas, discussões e agressões. Era bom estar com Marie.
Deixei meu corpo repousar sobre a cama assim que me aproximei dela. Estava exausta, precisando urgentemente de um banho decente, mas meu cansaço não me permitia levantar de onde estava. Fechei os olhos com força e levei uma das mãos ao rosto, passando a mão por ele. À contragosto, pus os cotovelos no colchão macio, dando impulso com eles para me sentar, segui até a mala e peguei uma muda de roupa qualquer. Iria tomar um banho e voltar para a cama, sabendo que não demoraria muito para dormir. Segui rumo ao banheiro no corredor e por sorte ninguém estava o ocupando, assim entrei rapidamente e logo me despi. Deixei a água do jeitinho que eu gostava e entrei no chuveiro, sentindo a água morna cair sobre meu rosto e corpo. Foi, com toda certeza, uma enorme sensação de alívio, era como se eu estivesse limpando minha alma. Resolvi não demorar muito ali, pois meus olhos estavam fechando sozinhos de tanto sono. Enrolei-me na toalha, enxugando o corpo e os cabelos, pondo a roupa rapidamente e segui até o espelho. Precisaria de uma longa noite de sono para repor uma aparência agradável.
O corredor estava silencioso como antes. provavelmente havia pegado no sono assim que ficou no quarto sozinho. Ouvi o barulho da televisão vindo da sala, vovó estava lá e, de onde eu estava, consegui vê-la com os olhos fixos na tela do aparelho. Adentrei o quarto e segui até minha mala, tirando o caderno que trouxera. De dentro dele, puxei a fotografia, deixando um sorriso torto escapar enquanto ia até o porta retrato, a colocando. Não pensei duas vezes para me jogar na cama e respirar fundo, não contendo a vontade de fechar os olhos. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a mais, tudo se transformava em um borrão.

🌴

Abri os olhos rapidamente, assustada com as batidas na porta e levantei o pescoço, podendo ver entre a porta e o batente. Ele me observava e seu olhar transmitia um pedido de desculpas. Espreguicei-me, sentando na cama e o chamei para sentar ao meu lado. Senti suas mãos acariciando meus cabelos e deixei minha cabeça tombar em seus ombros.
— Como se sente? — perguntou, virando o rosto para mim.
— Cansada, mas um pouco melhor. — sorri minimamente, virando meu corpo para ele. tinha os cabelos bagunçados, como normalmente usava. Vestia camisa de manga branca e calça jeans escura, o denunciando que iria sair. — Aonde vai?
Ele abaixou o olhar, encarando suas vestimentas e soltou uma risadinha fraca, voltando a me olhar.
— Vou resolver algumas coisas. Talvez eu demore a chegar. — comentou, passando o polegar em minha bochecha e se levantando em seguida. O segui com o olhar, o mesmo parou em minha frente. — Fique por perto. — beijou minha testa, saindo do quarto em seguida. Ele realmente sabia que eu não iria ficar em casa e que deixaria a curiosidade tomar conta de mim, saindo para explorar o bairro. Não só o bairro, mas de momento eu não me arriscaria. Fui até a mala ao lado da penteadeira, a puxando para cima da cama. Olhei pela janela e pude observar o céu em tons laranja, anunciando o fim de tarde. Era uma das lembranças mais bonitas que eu tinha do lugar.
Tirei um short jeans escuro, junto com a blusa preta e branca de manga três quartos que estava logo em cima, rapidamente havia vestido a roupa, tendo sorte por não estar amarrotada. Virei o corpo, encontrando os tênis jogados perto do closet e os calcei. Soltei os cabelos, desembaraçando-os com as mãos, sem me importar muito em penteá-los, estava bom do jeito que estava. Observei bem meu rosto, percebendo que a olheiras haviam sumido um pouco, mas que ainda permaneciam lá. Rolei os olhos, dando de ombros. Eu não conhecia ninguém naquele lugar, então não estava ligando em não sair maquiada.
Saí do quarto, encontrando Marie na cozinha preparando o que parecia ser a janta, já que o cheiro de carne assada exalava o local inteiro. Dei um sorrisinho e segui até o balcão, me debruçando nele. Ela pegou a travessa e se virou, tomando um susto ao me ver ali. Colocou uma das mãos no peito e riu fraco com meu ato.
— Querida, não apareça assim. Quase me mata de susto. — balançou a cabeça, colocando a travessa em cima do balcão.
— Desculpa. O cheirinho estava tão bom, precisei parar aqui. — dei de ombros, retomando minha postura. — Eu vou sair um pouco, ver o quanto a vizinhança mudou, tudo bem? Se chegar antes, a senhora pode avisar a ele para mim?
— Claro, querida. Só tome cuidado e não volte muito tarde. — olhou, esboçando um sorriso incrivelmente branco. Sorri de volta, saindo da casa e parando na calçada. Olhei para os dois lados, pensando seriamente por onde seguir. Ir em direção à praia ou em direção ao centro da cidade? Virei meu corpo em direção às outras ruas e segui, observando as casas em volta. O bairro não estava tão diferente como eu pensava, apenas as casas haviam passado por uma ótima reforma. Olhei para algumas pessoas que passavam do outro lado da calçada, tentando de uma forma, mesmo que falha, reconhecer alguma. Nem mesmo James, o vizinho com quem eu e costumávamos brincar, parecia morar mais ali. Olhei para trás, precisamente para a casa onde ele antigamente morava e isso me fez lembrar os cabelos negros e o sorriso largo no rosto que ele tinha. Ele era um garoto legal, costumávamos ficar sentados na calçada vez ou outra, jogando conversa fora.
Observei o sol se pôr assim que dobrei a esquina, percebendo que já estava longe de casa. Próximo a mim, estava uma enorme praça e nela muitas pessoas conversavam e se divertiam. Segui meus olhos para vários grupinhos de pessoas que aparentavam ter minha idade. Eles gargalhavam e conversavam entre si e por um momento quis saber do que tanto eles riam. Sorri comigo mesma e balancei a cabeça, seguindo até a calçada da praça, caminhando reto e percebendo que estava me aproximando do que mais parecia o centro da cidade. Já havia anoitecido e as luzes dos postes estavam acesas, iluminando completamente o lugar. Muitas pessoas passavam por mim animadas, me fazendo, no fundo, ficar animada também.
Pus uma das mãos no bolso, a fim de pegar o celular e ver as horas, mas tudo que senti foi o bolso vazio, me fazendo arregalar os olhos. Droga! Eu tinha esquecido o celular em casa.
Olhei ao redor, tentando localizar onde estava, constatando que havia várias lojas por ali. Hurley, Volcom, Subway, Quicksilver... Estreitei os olhos, olhando em volta. Não me lembrava de ter, algum dia, visto aquelas lojas por ali.
Olhei para trás, não lembrando do caminho de casa e sentindo um leve pavor crescer dentro de mim. Calma, você não deve estar tão longe assim — eu dizia, para mim mesma, tentando me acalmar, o que não deu muito certo já que eu estava parada no meio da calçada, sentindo algumas pessoas esbarrando em mim. Olhei para a loja na minha frente, Hurley. Eu podia muito bem entrar e perguntar, claro, mas a loja estava abarrotada de pessoas e aquilo só fez meu nervosismo aumentar. Fechei os olhos rapidamente e soltei o ar com força, olhando para a orla da praia. Eu me sentaria em um dos bancos, conseguiria falar com e tudo acabaria bem. Pelo menos era o que eu pensava.
Atravessei a rua, mesmo sem olhar para os lados, e me aproximei do banco vago, me sentando ali. Olhei para um dos lados e observei as pessoas caminhando lentamente, sem se preocuparem com nada. Queria estar calma desse jeito — pensei. Pus as mãos na cabeça e a abaixei lentamente, apoiando meus cotovelos na perna. Mal tinha chegado à cidade e já tinha me perdido. Incrível.
Enquanto estava concentrada me praguejando mentalmente, ouvi risadas ao meu lado esquerdo. Uma era um pouco escandalosa e as outras mais baixas. Resmunguei, virando meu rosto na direção das pessoas que riam e me deparei com um grupo de garotos alternando o olhar deles para mim. Devia ter uns quatro, cinco garotos em uma rodinha. Alguns estavam em pé e outros sentados.
Balancei a cabeça em negação, rolando os olhos assim que um deles olhou para mim e riu debochado. Aquilo me irritou, mas não quis transparecer e minha vontade foi de sair dali o mais rápido possível. Não o fiz, pois eu não queria me perder ainda mais do que já estava perdida.
Deixei minha cabeça tombar para o lado, observando a loja do outro lado da rua. O que eu poderia fazer àquele momento?
— Ei, está perdida? — ouvi a voz perguntando e olhei para o lado para saber se era comigo mesmo que estava se referindo. Assim que virei o rosto, dei de cara com cinco olhares curiosos em minha direção. O moreno do meio, o que provavelmente tinha perguntado, me encarava com uma sobrancelha arqueada. Estava de boné, vestia uma regata preta, me fazendo observar seus braços torneados e uma bermuda creme. Embaixo dos seus pés, havia um long, ele o balançava de um lado para o outro.
— O que você acha? — perguntei, óbvia. Ele riu, sendo acompanhado pelos amigos. Ao seu lado, tinha outro moreno, mas este estava concentrado no celular. Os outros três estavam de pé, o loiro menor parecia idiota, ria de qualquer coisa que o musculoso falava, o branquinho tinha os olhos castanhos cravados em mim, junto a um sorriso malicioso nos lábios e, por final, o loiro que estava de pé ao lado do de boné parecia não estar nem aí para o que o amigo falava. Ele olhava na direção oposta, sem olhar para mim, as mãos estavam no bolso da calça preta. Tinha o semblante sério e parecia ser o único ali que não estava interessado em olhar para mim.
— Acho que você está um pouco nervosa. — colocou as mãos para cima, indicando inocência. O loiro baixinho riu e eu o olhei com a pior cara possível. — Você parece nova demais para ser tão estressada.
Deixei meu olhar cair sobre ele, arqueando uma sobrancelha.
— E você parece ser um otário e nem por isso eu disse alguma coisa. — rebati, os fazendo rir. Já disse o quanto aquilo estava me irritando?
— Fala sério. — o loiro mais alto resmungou, rolando os olhos. Passou os olhos do musculoso para mim, parando o olhar no meu rosto, logo desceu para o meu corpo, parecendo me estudar. Bufei, levantando e atravessando a rua rapidamente, a fim de achar o caminho de volta para casa. Mesmo estando do outro lado da orla, pude ouvir a risada alta e nítida invadir meus ouvidos, me fazendo resmungar um palavreado baixo.
Você é foda, ! — um dos garotos gritou. Rolei os olhos.
Essa era o tipo de grupinho que eu adorava manter distância, mesmo parecendo um pouco impossível, já que eu parecia ter um ímã em direção a eles. Pus as mãos no bolso do short e continuei caminhando, mesmo não sabendo para onde estava indo. Eu só queria sair dali o mais rápido possível. Não fazia ideia de que horas era, mas deduzia ser quase oito da noite, o que não parecia já que a rua parecia ter ainda mais pessoas e a agitação era enorme. Respirei fundo e encolhi os ombros, percebendo que alguém andava ao meu lado, os passos sincronizados aos meus.
— Não precisa fingir que não sabe que estou aqui. — fiquei tensa ao escutar a voz rouca ao meu lado e virei o rosto surpresa, estranhando e o encarando. O loiro mais alto caminhava vagarosamente, tirou o cigarro dos lábios, sem virar sua atenção para mim, e soprou o ar. — Posso não ter prestado atenção, mas você estava visivelmente apavorada, entregando o quão perdida está. O que denuncia também que é nova na cidade.
Virei o rosto para frente, voltando a observar a rua na qual caminhávamos. O movimento ali era pouco, mas isso não me tranquilizava, só fazia com que eu ficasse mais tensa. Além de perdida, estava sendo acompanhada por um cara que nem conhecia e que parecia, realmente, não ser legal.
O olhei de relance, focando minha atenção nos carros.
— Não sou nova na cidade. — murmurei. Ele ficou em silêncio e balançou a cabeça em seguida. Parecia ser exatamente o tipinho dos amigos, só não entendia o porquê de ter saído do seu grupo e estar caminhando comigo. — O que foi? Pode dizer. — virei meu rosto para ele, o encarando. — Qual é a sua? Tenho certeza que não saiu de lá apenas para me acompanhar. — dei ênfase, observando sua expressão calma. Ele virou o rosto para mim, com uma das sobrancelhas arqueadas.
— E quem foi que disse que vim te acompanhar?
Sua resposta me pegou em cheio, me fazendo até ficar um pouco sem graça, mas não demonstrei. Os olhos verdes passeavam toda a rua, provavelmente olhando para as pessoas que passavam em volta. Por onde passávamos, ele atraía olhares da maior parte das garotas, fazendo com que elas olhassem para mim também, mas ao invés dos olhos brilharem, eles nitidamente expressavam desdém. Óbvio que os olhares brilhantes eram para ele. Apesar de ser um tanto arrogante, ele era bonito. Tinha os cabelos loiros bagunçados, os olhos verdes eram opacos, mas ainda bonitos. Ele tinha o corpo torneado, não como o musculoso. Não era exagerado e isso o tornava mais “normal”, por assim dizer. Poderia até chamá-lo de um pedaço de mau caminho, mas seu ar convencido não me deixava achar isso.
Assim que olhou para frente, virei meu rosto, na tentativa de que ele não percebesse que eu o observava. Talvez tenha dado certo, pois ainda continuava com o semblante calmo, porém sério.
— Então se não está me acompanhando, por que me segue? — arqueei a sobrancelha. Ele soltou uma risada abafada, dando uma última tragada no cigarro, o jogando no chão.
— Vamos rever os fatos, você está perdida. Ou seja, não sou eu quem está te seguindo. — olhou óbvio. Enfiou uma das mãos no bolso da calça. — Aliás, você tem o privilégio de ter minha pessoa ao seu lado. Não devia reclamar tanto assim.
Rolei os olhos, bufando. Um completo idiota.
— Qual o seu problema?
— O meu problema? — perguntou, rindo irônico. — Eu digo algo, você vem com sete pedras e eu que tenho algum problema? Você não devia ser tão esquentadinha, boom.
Olhei para ele com uma sobrancelha arqueada. Boom? Que droga era aquela?
Ele me olhava sério, mas seus olhos estampavam um misto de diversão.
Boom? Você está falando sério? — balancei a cabeça, achando aquilo ridículo. Olhei em volta e pude perceber o quanto estávamos longe do centro dessa vez. E eu, obviamente, não fazia ideia de onde estava. Resolvi apertar o passo, caminhando mais rápido. Talvez assim me livrasse do garoto e tentaria encontrar o caminho de casa.
— Não é como se andar rápido fosse adiantar alguma coisa. — comentou, atrás de mim. — E cá entre nós, você não faz ideia para onde está indo. — se aproximou, olhando para mim. Rolei os olhos, tentando não olhar para ele também. Ainda tinha os olhos cravados no meu rosto e eu tinha quase certeza que se eu não falasse nada mais, ele continuaria me olhando.
— O quê? — virei o rosto de vez, o olhando.
Ele deu um sorrisinho de lado, provavelmente gostando de me irritar.
— Posso te ajudar. — disse.
— Não preciso da sua ajuda. — o olhei com desdém. Ele me olhou de soslaio, rolando os olhos.
— Tudo bem.
Parou no meio do caminho, me fazendo parar também. O ato do garoto me fez entrar em alerta, até então, quando ele estava andando comigo, eu havia esquecido o quão estava perdida, mas assim que ele deu para trás, percebi que estava não só ferrada como muito ferrada. O loiro me olhou com um sorriso vitorioso nos lábios. Ele sabia que eu precisaria da sua ajuda e odiava ter que admitir que era verdade. Engoli em seco, olhando em volta. Não reconhecia o local e só me restava, infelizmente, a ajuda dele.
Brinquei com meus dedos, um pouco nervosa, e olhei para ele, tentando não demonstrar meu nervosismo. Apesar de meus dedos estarem mostrando isso.
Soltei o ar, rolando os olhos. Ele continuava me encarando.
— Olha, eu preciso chegar em casa o mais rápido possível. Provavelmente meu... — soltou um pigarro, me interrompendo. Franzi o cenho, esperando sua resposta, mas ele sequer disse algo e se aproximou.
— Eu vou te ajudar, boom.
— Dá pra parar de me chamar assim? — o olhei irritada. Ouvi sua risada fraca e logo o vi passando por mim, começando a caminhar. Ele estava me tirando do sério com aquele apelido idiota.
O segui, sem pensar muito. Estávamos, agora, em uma rua repleta de casas, bem longe do centro da cidade. Os postes iluminavam pouca coisa, deixando parte da rua escura. Olhei de canto para o garoto e ele olhava para frente, como se estivesse adorando observar as casas ao redor.
Ouvi risadas, virando e vendo algumas pessoas caminhando na calçada oposta.
— Você poderia me dizer se lembra de alguma coisa, para começar. — disse, quebrando o silêncio.
— Se eu lembrasse, não precisaria da sua ajuda.
Touche. — arqueou a sobrancelha. — Não lembra de algum lugar que tenha passado?
Olhei em volta, tentando me recordar de algum lugar, mas nada me vinha em mente. A risada escandalosa invadiu meus pensamentos, me fazendo lembrar de seus amigos e logo pude me recordar do grupinho que conversava na praça que tinha passado.
— Uma praça. Ela estava lotada quando saí de casa mais cedo. — Disse, dando de ombros. Olhei para ele e o mesmo deixou um sorrisinho cúmplice escapar. — O quê?
— Você é a garota nova que disseram.
Franzi o cenho ao ouvi-lo. Eu mal tinha chegado à cidade, não tinha dado nem tempo direito para alguém ter me visto, até porque eu não conhecia ninguém dali. Eu iria retrucar, mas assim que viramos a esquina, avistei minha casa no final da rua. Deixei um grande suspiro escapar, o que fez o garoto me olhar de um jeito engraçado.
— Graças a Deus. — comentei, aliviada. Ele deu de ombros, provavelmente ignorando.
Caminhamos mais um pouco e antes de chegarmos a frente à casa, paramos. Olhou para minha casa e em seguida para mim, com o semblante de antes sério.
— Está entregue. — disse, pondo as mãos nos bolsos da calça. Balancei a cabeça afirmando e ele apenas deu um pequeno aceno, se virando para ir embora. Estava um pouco atordoada ainda, mas consegui chamá-lo. Virou o rosto em minha direção, me observando.
— Bom, eu não sei como te agradecer direito, mas... — desviei meu olhar do dele. — Obrigada.
Ele tinha os olhos fixos nos meus naquele momento e me analisava. Talvez fosse impressão minha. Os cabelos loiros balançavam conforme o vento fraco e os olhos agora estavam escuros, pelo breu da noite. Dei um sorriso fraco e ele deu de ombros.
— Por nada, boom.
Rolei os olhos, quase enfiando o dedo no meio na cara dele, mas assim que pisquei, ele já estava longe, virando a esquina. Deixei todo o meu ar sair e fechei os olhos com força, achando mesmo que por um momento eu não voltaria para casa mais e ao lembrar do meu salvador, me praguejei mentalmente, lembrando também que não havia perguntado seu nome. Ótimo, . O cara te ajuda e você ao menos pergunta o nome dele — pensei.
O quão irônico aquilo podia ser?


Capítulo 3

Meus olhos permaneciam fechados. E mesmo estando a um quarteirão da praia, eu conseguia ouvir o barulho das ondas quebrando. Uma pequena fresta na janela permitia a entrada do sol, que, consequentemente, ia de encontro ao meu rosto, mas aquilo não me incomodava. Era bom. Não conseguia ouvir vozes, o quarto estava imerso em uma paz profunda, apenas os carros que passavam na rua faziam mínimo barulho.
Espreguicei-me ainda deitada enquanto pensava no que iria fazer, mas meus pensamentos não demoraram muito tempo, já que ouvi as batidas na porta do quarto. Não deu tempo de responder, já que consegui avistar a cabeça de dentro do quarto. O olhei, sorrindo.
— Bom dia, dorminhoca. — disse, entrando no quarto. — Você sabe que horas são?
— Não pretendo saber. — ri baixo, me sentando ao seu lado. estava sem camisa, trajando apenas o short azul, nos pés tinha havaianas brancas.
Meu irmão era bem bonito, isso eu não podia negar. Os olhos azuis eram completamente perceptíveis, isso quando estavam azuis e não verdes. Eu tinha sido a única que herdara a íris castanha de meu pai.
— Bom, então é melhor ir se levantando. Marie falou que queria fazer compras e que com certeza iria carregar você. Sinto muito, . — riu da minha cara de decepção.
— Você poderia dizer que, sei lá, iríamos fazer algo juntos. — cruzei meus braços, indignada. Esticou suas mãos, bagunçando meu cabelo.
— Relaxa. Vai ser legal, vai poder comprar algo novo. Quem sabe, talvez, um par de tênis? — arqueou a sobrancelha, sugestivo. Dei de ombros, começando a achar interessante. Não era todo dia que eu tinha a oportunidade de comprar o que eu quisesse e, como conhecia Marie, ela compraria qualquer coisa que eu achasse interessante.
— E você vai fazer o que enquanto ficamos fora? — o vi se levantando e indo em direção à porta. Virou o rosto e sorriu, levantando um dos braços, mostrando o muque.
— O que eu faço de melhor. Você sabe. — piscou e saiu do quarto, me fazendo soltar um grande resmungo e cair deitada novamente na cama. Eu iria fazer compras enquanto ele iria fazer o que eu mais gostava: surfar. Isso só não me deixava mais irritada, pois sabia que ficaríamos ali por bastante tempo.
Levantei da cama, cambaleando um pouco, já que ainda estava com um pouco de sono, e segui em direção à cozinha enquanto vovó preparava o almoço. Ela me olhou esboçando um sorriso aberto e tirou o avental do corpo.
— Bom dia, querida. Dormiu bem? — perguntou, saindo da cozinha. Balancei a cabeça, assentindo. — te avisou que vamos sair? Claro, não precisa ir se não quiser.
E eu não queria, mas não iria fazer uma desfeita logo para minha avó. Balancei a cabeça rapidamente, tentando um entusiasmo e ela sorriu ainda mais.
— Pode almoçar se quiser, logo sairemos.
Deixei-a na sala e fui até o banheiro tomar um banho rápido. Decidi não lavar o cabelo, pois já tinha o feito no dia anterior, então não havia necessidade. Assim que acabei o banho, segui direto para o quarto, procurando uma roupa mais arrumadinha, digamos assim. Do jeito que conhecia Marie, sabia que ela não iria me levar só ao centro da cidade.
Olhei para a janela, observando-a aberta e a cama desarrumada. O sol, provavelmente, estava queimando só pelo tanto que brilhava do lado de fora e isso me fez optar por uma roupa mais levinha. Um short alto claro com uma blusa curta folgadinha branca. E, claro, não podia me esquecer dos tênis, só que, dessa vez, um par branco normal, que já estava um pouco surrado. Segui até a penteadeira e sentei no banquinho, puxando o cabelo para cima.
Foi logo quando terminei de ajeitar o cabelo que ouvi a leve batida na porta. Olhei para o lado e vovó me observava com um sorriso bobo no rosto.
— Você está tão linda, . — disse, me observando. Fiquei um pouco envergonhada, até porque não era acostumada com elogios tão diretos assim. — Você não vai almoçar? — perguntou. Neguei com a cabeça. — Então vamos?
Saí do quarto junto a ela e olhei para os lados, procurando meu irmão, porém ele não estava em lugar algum. Dei de ombros e segui até a calçada com ela, vendo-a ir em direção à caminhonete branca.
— Gostei da caminhonete. Bem legal. — comentei, me sentando no banco ao lado dela. Era uma caminhonete simples, mas completamente limpa e conservada.
— Comprei por um preço ótimo. O antigo dono não a queria mais, então logo se desfez. — olhou para mim rapidamente, assim que íamos em direção à cidade. Abaixei o vidro, sentindo a brisa de encontro ao meu rosto e deixei um sorriso escapar, confortável. Observei as pessoas na rua, obviamente indo para a praia, já que estavam com roupa de banho. Olhei de relance para vovó e ela ainda tinha aquele sorriso no canto dos lábios. Como alguém conseguia sorrir tanto assim?
Passamos por algumas lojinhas até chegar à avenida. Não tinham tantos carros transitando por ali, o que era bom, já que não pegaríamos engarrafamento. Como o carro estava silencioso, resolvi ligar o rádio e os acordes de Levitating invadiram meus ouvidos, me animando. Era o tipo de música que mesmo estando para baixo, instantaneamente, você sentia vontade de sair tentando alguns passos por aí.
Paramos no sinal e como minha janela estava aberta, pude ver alguns carros parando ao nosso lado. O vento estava mais fraco, mas ainda assim continuava fresco. Encostei minha cabeça no canto da janela e ouvi uma música no estilo Paris Hilton ficando cada vez mais alta. Se não fosse ela cantando, com certeza era alguém com a voz tão irritante quanto.
Fechei os olhos, soltando um resmungo assim que a música ficou ainda mais alta e pude ouvir o ronco do carro ao meu lado. Virei o rosto vagarosamente e observei aquela visão do inferno. O carro, que com certeza era muito caro, estava com o teto solar abaixado, duas garotas estavam de pé com as mãos para cima e uma loira estava sentada no banco motorista. Segui meu olhar para o capô do carro que brilhava mais que o sol de tanto glitter que ele tinha. Só podia ser brincadeira.
I'd let you had I known it, why don't you say so?... — elas cantaram tão alto que eu pude sentir meus neurônios explodindo dentro da cabeça. Respirei fundo e observei a garota que tinha os cabelos loiros claros, quase em um tom de branco. Ela tinha uma sobrancelha arqueada, me encarando.
— Fala sério — murmurei. No minuto seguinte, arrancou com o carro, já sumindo no final da avenida. Olhei para vovó e ela ria baixinho enquanto dirigia. Só podia ser coisa de Huntington Beach.
— Não precisa ficar com essa carinha, . Não acredito que você já esqueceu de como a cidade é. — olhou de relance para mim e esticou uma mão, acariciando meu queixo.
— Não é esquecer. Eu só não me lembro... Disso. — fiz uma careta, olhando na direção que o carro tinha ido. Ela parece entender e continua dirigindo, até pararmos em mais um sinal, o qual não demorou muito.
Alguns minutos depois, estávamos estacionando em frente a uma espécie de shopping, era bem colorido e próximo ao mar, apesar de apenas ter passagem pelo píer no final da rua. Vovó desceu do carro numa animação anormal, porque apesar de ter para lá dos seus sessenta anos, ela parecia jovem. Tinha uma disposição que até eu ficava com inveja.
A olhei por alguns segundos antes de entrar no lugar ao seu lado. Tinha a altura mediana, os cabelos grisalhos iam até a altura de seu pescoço, impecável. Ela adorava o tom branco dos seus fios. No rosto havia poucas rugas, mas ela parecia pouco ligar e ainda assim era linda. Pus uma das mãos no bolso do short e observei a fachada do mini shopping. Tinha um enorme letreiro em marrom com o nome Bella Terra. Adentrei o local, sentindo o ar gelado de encontro à minha pele, indicando que o ar condicionado estava ligado. Vovó seguiu na frente, na direção oposta, e fui atrás, observando todo o lugar. Passamos por várias lojas, mas parecia que nenhuma delas a agradou.
— Normalmente, venho para comprar algumas coisas para a casa. — se virou para mim, explicando. Balancei a cabeça, em sinal de que estava prestando atenção. — Mas essa é uma ocasião especial, minha netinha está morando comigo. É maravilhoso!
Passou um dos braços em volta do meu pescoço, me fazendo rir fraco. Realmente, fazia muito tempo que eu não via Marie e estava com saudades, mas Hector sempre era o contra de virmos para Huntington. Então, desde que nos mudamos aos nove anos, nunca mais voltamos. vivia dizendo o quanto nossa mudança tinha sido decepcionante. E, cá entre nós, foi a pior coisa que aconteceu.
Entramos em um departamento. Vovó me acompanhou até o centro da loja e eu não conseguia parar de observar aquele lugar. Além de ser enorme, vendia qualquer tipo de coisa e, claro, a primeira parte que passei era repleta de calçados. Por um instante, achei que minha mandíbula fosse cair, já que desde que entrei no lugar minha boca estava aberta e eu estava surpresa. Bem na minha frente, estavam pares de todas as marcas possíveis. Nike, All Star, Vans, Etnies, Lakai... Observei as duas paredes onde os tênis estavam colocados até escutar Marie e dar um pulo de susto.
— Vovó! — disse, assustada, soltando uma risadinha.
Olhei para ela ao perceber que olhava a prateleira. Parecia observar todos os tênis detalhadamente, assim como eu fazia antes. Tinha as sobrancelhas franzidas.
— Esse vinho é muito bonito. — apontou para um da Nike. — Até porque você tem um azul e um branco. É sempre bom variar, não?
Deixei um sorrisinho escapar e, pela primeira vez naquele dia, me senti verdadeiramente animada. Não era só porque eu sabia que ela ia comprar o tênis para mim, mas fiquei feliz por ela me ajudar com a escolha e, principalmente, por saber que prestava atenção em mim.

🌴

Fechei os olhos instantaneamente assim que senti o sol fraco na calçada. Diferente de quando chegamos, a rua estava um pouco mais calma e vovó também. Depois de termos comprado quase o shopping inteiro — e não era exagero —, seguimos em direção ao carro que não estava tão longe assim. Eu tinha algumas sacolas nas mãos, estavam pesadas e vovó havia achado válido deixarmos as coisas no carro para comer algo. Esperei até que Marie o trancasse e segui com ela para a praça de alimentação ao ar livre, quase ao lado do mar. Paramos na entrada e olhei para a extensão do lugar, observando que não estava tão cheio assim. Sentamos em uma mesa ao fundo, tendo uma vista incrivelmente linda daquela paisagem. O mar estava calmo e as gaivotas passavam ao longe.
Ajeitei-me na cadeira olhando em volta, tentando escolher em qual lugar eu comeria, talvez Burger King, estava morrendo de fome. Esperei um pouco até vovó decidir, até porque quem estava pagando era ela.
— O que quer comer? Hoje você quem escolhe. — me olhou sorrindo. Encolhi os ombros, tentando não ouvir minha mente que gritava batata frita.
— Ah, vovó, pode escolher. Estou morrendo de fome, então qualquer coisa para mim está bom.
— Querida, preste atenção. Estamos rodeadas de ótimas redes de fast food. — olhou em volta, me fazendo olhar também. — O que quer comer? É só me dizer e sairemos daqui cheias.
Dei uma risadinha e abaixei a cabeça, tornando a olhar em volta. Eu realmente estava indecisa, não sabendo o que escolher ao certo. Entortei os lábios e deixei a cabeça tombar para o lado assim que olhei para o Burger King.
— Burger King. Qualquer lanche que venha com a maior porção de batata frita. — disse, com os olhos arregalados. Ela riu e se levantou, seguindo até o lugar.
Observei-a entrar na fila e virei o rosto em direção ao mar, soltando um grande suspiro. Já estávamos em Huntington fazia uma semana, havia passado muito rápido. Tão rápido que logo as aulas começariam. , no dia em que me perdi, havia saído para tentar resolver algumas coisas, como ele disse. E como tínhamos saído de São Francisco, mas não acabamos os estudos, logo resolveu com Marie e ela nos matriculou na escola mais próxima, a Ocean View High. Achei um pouco estranho, claro. Estava e ainda estou receosa com Hector e Norah. Eles podiam nos levar a qualquer momento, aquilo não era definitivo. E apesar de esse ser um dos grandes empecilhos, eu confiava no meu irmão e sabia que, junto dele, poderia fazer aquilo dar certo.
E eu conhecia vovó Marie muito bem para saber que ela não deixaria que eles nos levassem assim, sem questionar. Isso me deixava mais tranquila.
Olhei para a fila novamente e Marie agora vinha em minha direção. Tinha uma bandeja com os lanches, as batatas e dois enormes copos de suco. Meus olhos com certeza brilhavam.
— Eu não sabia se você ia querer refrigerante e, como eu bebo suco, achei que você poderia querer também. Tudo bem para você? Se quiser, posso pedir um refrigerante separado. — se sentou, pondo a bolsa na cadeira do lado.
Balancei a cabeça rapidamente, em negação. Eu não tomava refrigerante fazia anos.
— Não tomo refrigerante. Ótima escolha, vovó. — sorri para ela e dei uma enorme bocada no meu lanche. Sequer havia mastigado direito e já estava dando outra bocada. Esse é o resultado de acordar tarde e não almoçar, você simplesmente sente um buraco crescer na sua barriga.
Ficamos um tempo comendo em silêncio, até que esse começou a me incomodar. O lanche já tinha acabado e eu comia as batatas lentamente enquanto mexia no canudo do suco e observava as pessoas em volta. Marie percebeu, pois soltou um pigarro e pousou os olhos em mim. Por um segundo, achei que iria levar um sermão, apesar dela não fazer isso, mas sua voz doce me tranquilizou em seguida.
— Eu não sei ao certo, apesar de saber que vocês vão me contar na hora certa. — engoli em seco, já sabendo do que se tratava. Ah, não... — Norah me ligou.
Por um segundo, achei que iria começar a chorar, mas pressionei os lábios, focando meu olhar na mesa. Não tínhamos contado para Marie ainda e estava morrendo de medo de que ela tivesse falado com Norah onde estávamos. Isso só colocaria tudo a perder.
Ergui meu olhar subitamente, a olhando nervosa.
— Você não falou nada para ela, não é? Ela está vindo para cá? Você não...
Ela esticou sua mão, segurando a minha por cima da mesa e a acariciou, tentando me acalmar.
, querida, fique calma. — olhou em meus olhos, compreensiva. — Sei que vocês não apareceriam de uma hora para a outra em minha casa, ainda mais sozinhos. Mas também sei que, para isso ter acontecido, vocês tiveram um motivo. — respirei fundo. — Estou certa? — balancei a cabeça, assentindo.
Ela ficou quieta por alguns segundos, ainda com a mão sobre a minha. 
— Ela perguntou se estavam comigo. Eu neguei, e apesar de odiar ter que mentir para a minha própria filha, eu precisei fazer isso. — dei um pequeno sorriso, mas agora era estava séria. Eu sabia que ela estava sendo sincera em tudo que falava. — Ficarão comigo o tempo que precisarem. Um mês, um ano ou o resto da vida. Eu amo vocês, você sabe disso, não é, querida?
Ergueu sua mão para meu rosto, o acariciando com o polegar. Senti os olhos ficarem marejados, mas logo me recompus, acariciando sua mão também.
— Obrigada. Você não sabe o quanto isso significa para mim e para .
Dessa vez, ela sorriu. Um sorriso acolhedor. Pegou sua bolsa e se preparou para levantar, logo fiz o mesmo, percebendo que já estava tarde, pois o céu estava ficando em tons alaranjados. Não pude deixar de sorrir.
Peguei meu copo, que ainda continha uma boa quantidade de suco, e saí atrás dela, ajeitando minha roupa. Saímos da praça de alimentação desviando de algumas pessoas e paramos na calçada. Marie parou em frente a algumas vitrines, analisando-as e enquanto ela fazia isso, me afastei um pouco, levando o canudo do suco na boca. Estando ali parada, pude me lembrar que quase não mexi no celular e o peguei no bolso, aproveitando para ver as horas. Eram cinco da tarde e assim que iria desligar o display, avistei o alerta de uma nova mensagem.
Era de .

"Estou preto! Você trouxe algum hidratante?”

Balancei a cabeça, soltando uma risada alta. Era evidente ele ter ficado preto, já que o mesmo toda vez que ia para a praia esquecia seu protetor.
Troquei o copo de mão e já começaria a respondê-lo, não fosse por um grupo de garotos passando de bicicleta, aquelas pequenas de manobra. Com isso, tomei um susto, deixando o celular quase cair ao chão e o suco tombar para o lado, abrindo sua tampa e espirrando na minha roupa. Arregalei os olhos, não sabendo para o que olhar no momento. O copo do suco virado em minha mão, o celular espremido contra meu peito ou para o bando de idiotas que haviam parado longe de mim.
Assim que ergui meu olhar, uma garota passou na mesma velocidade em um long, sorrindo para mim. Ela tinha uma sobrancelha arqueada, como se achasse graça da situação e quisesse dizer um enorme "bem feito!". A morena parou ao lado dos garotos, me fazendo olhá-los. O sorriso aberto no rosto, o boné na cabeça e a risada escandalosa. O mesmo garoto da orla no outro dia. Musculoso. Ele estava em cima da bicicleta, me encarando na maior cara de pau.
Respirei fundo, sentindo meu sangue borbulhar. Peguei o celular decentemente e fechei as mãos, pronta para ir em direção ao babaca e enfiar todos os meus dedos naquele focinho que ele tinha na cara. Sim, eu queria quebrar seu nariz, mas não faria aquilo. Marie provavelmente me acharia uma louca.
Desviei meu olhar, observando minha avó se aproximando e, ao parar em minha frente, arregalou os olhos, parecendo não entender nada.
— Oh, , o que aconteceu? — segurou meu ombro, olhando minhas roupas. Automaticamente, meus olhos seguiram para o garoto de boné e senti minha vista queimar de raiva. Provavelmente, eu estava aniquilando o garoto com o olhar. Marie olhou na mesma direção e estreitou os olhos. — Foram eles? Você o conhece?
Eu quis dizer que sim. Oh, sim! Só para me aproximar e acabar com o garoto, mas ele estava com quatro pessoas em volta e eu sairia perdendo. Tentei fazer minha respiração se acalmar, o que não adiantou já que senti o suco escorrendo pela minha barriga. Fechei os olhos rapidamente e balancei a cabeça, negando. Eu não poderia fazer nada além de soltar palavrões e resmungar até chegar em casa, então apenas o encarei pela última vez, o vendo soltar uma risadinha para mim.
— Não. Não conheço.


Capítulo 4

And may the best of your todays
be the worst of your tomorrows
And may the road less paved
be the road that you follow
Have It All - Jason Mraz


Ouvi o barulho da chuva fraca e abri os olhos vagarosamente, soltando um resmungo por não ver os raios de sol invadindo o quarto. Tateei o criado mudo, ligando o display do celular, que marcava seis da manhã. Já havia amanhecido e, naquele dia, aquela era a pior parte. Não por simplesmente ter acordado àquela hora e não poder dormir e sim por ser o primeiro dia de aula dali a uma hora.
Encarei o teto por alguns segundos até que realmente me sentisse pronta para levantar e assim joguei as pernas para fora da cama, me sentando. Senti um leve tremor passar pelo corpo e constatei que aquela manhã estava um pouco fria, o que me deu um pouco de preguiça de sair da cama.
Segui em direção ao banheiro, não demorando muito embaixo do chuveiro, já que a água não estava tão morna assim. Quando saí do banheiro, ouvi o barulho da televisão sendo ligada e quando passei em direção ao quarto, pude de relance ver Marie acendendo a luz da cozinha.
Entrei no quarto sem muita pressa, já que minha maior vontade era de continuar deitada até voltar a dormir. Decidi pegar qualquer roupa que fosse quente e confortável. O dia parecia continuar daquele jeito. Puxei a calça jeans do armário, junto a uma blusa de manga branca e peguei o moletom vinho, o colocando. Deixaria para colocar os tênis depois, então só adiantei colocando as meias.
Saí do quarto bocejando e dei de cara com no corredor. Ele havia parado ao me ver, estava com os olhos estreitos pelo sono. Bocejou e passou uma das mãos no cabelo.
— Bom dia. — passou por mim, bagunçando meus cabelos. Dei um sorrisinho e o segui até a cozinha. Ele ainda estava com a calça de moletom.
— Bom dia, meus amores. — Marie se virou, ajeitando a mesa para o café. Respirei fundo e me sentei em uma das cadeiras. — , você vai se atrasar.
— E que horas são? — perguntou, sonolento, erguendo o olhar até o relógio de parede. Arregalou os olhos ao ver as horas. Eram sete e meia. — Puta merda.
— Cuidado com a boca. — Marie repreendeu, o olhando, mas não deixou de sorrir. Tomei um pouco do café que já estava no copo e comi rapidamente o pedaço de bolo. Ouvi passos rápidos e olhei para trás, vendo puxando as mangas do casaco, já com a mochila preta nas costas. Ele parecia tão animado quanto eu.
Deixou a mochila em cima do balcão e pegou dois grandes pedaços de bolo, os enfiando na boca. Franzi o cenho, rindo do ato do menino. Marie balançou a cabeça, se virando para lavar o que tinha usado. Enquanto o mesmo terminava de comer, corri ao quarto, calçando os tênis e voltei para a sala.
— Já acabou? Eu sei que é uma cena daquelas chegar atrasado ao primeiro dia de aula, mas podemos deixar para depois, certo? — fez uma careta, pegando as coisas e indo em direção à porta. Fiz o mesmo que ele, mas caminhando um pouco mais devagar. Íamos em direção à calçada, mas paramos assim que ouvimos Marie nos chamar.
, segura. — jogou a chave do carro para meu irmão, que a pegou no ar. Ele olhou para vovó sem entender. — Pode levar a caminhonete. Ocean View não é tão perto assim.
O olhei de lado e pude avistar um breve sorriso se formando em seu rosto, eu sabia o motivo daquela felicidade. Apesar de ser maior de idade e ter sua carteira, nunca teve um carro e Hector nunca dava oportunidade para ele.
Entrei no carro, jogando minha mochila no banco de trás e fez o mesmo, colocando a chave na ignição. Respirou fundo e olhou para mim, deixando uma risadinha escapar. Pelo menos aquilo me animou naquela manhã, mas só por alguns segundos, porque em seguida já estávamos indo em direção à escola.

🌴

Desci do carro um pouco assustada com a multidão em frente da escola. Olhei para por alguns segundos e senti meu estômago revirar completamente. Minha maior vontade era de entrar no carro e seguir rumo à casa, aproveitando para voltar a dormir e não ter que olhar para todas aquelas pessoas próximas a mim.
Relaxei os ombros, tentando não transparecer meu nervosismo e observei meu irmão se aproximando, enquanto colocava um dos braços em volta do meu pescoço. Inalei seu perfume suave e aquilo conseguiu me acalmar um pouco.
— Você está muito tensa para quem costumava não estar nem aí para começo das aulas. — comentou, brincando, e balançou meu corpo delicadamente.
— Não dá para estar nem aí quando se é uma escola nova, cheia de pessoas que você nunca viu na vida. — resmunguei.
— Relaxa. Vai ser tranquilo.
O olhei de relance e respirei fundo, voltando a olhar para todas as pessoas que conversavam e comentavam sobre o primeiro dia. Era evidente que a maior parte dos olhares estavam sendo redirecionados a nós dois, me deixando um pouco incomodada. Apertei a alça da mochila, engolindo seco. estava com um sorriso fraco no rosto e não parecia ligar para aqueles olhares. Claro que a maior parte dos olhares para ele eram femininos e provocativos e era óbvio que ele estava adorando.
Observei o outro lado do estacionamento, onde parecia que habitavam os mais reconhecidos daquele lugar. Olhei para todos eles, tentando reconhecer mesmo que inutilmente alguém do grupo. Alguns garotos estavam sentados no capô de seus carros, outros encostados e alguns conversavam animadamente. Eles vestiam um casaco parecido, algo com o símbolo da escola.
Caminhei com até a entrada do colégio e seguimos até a direção, que não estava tão vazia assim. Duas pessoas esperavam no corredor enquanto uma era atendida.
Fiz menção de entrar junto a ele assim que o vi se aproximar da porta, mas sua mão me parou no mesmo momento.
— Eu pego seus horários. Fique aqui.
— Claro. — murmurei, rolando os olhos.
Sem bater, ele abriu a porta e adentrou o local. Olhei para o lado, vendo um dos garotos que antes esperava me encarar. Ele parecia me analisar vagarosamente. Já disse o quanto estava incomodada com isso?
O corredor não estava tão barulhento, mas as vozes do lado de fora do local eram altas e claras. Ergui os olhos na direção da porta e ao ver meu irmão sair com alguns papéis em mãos, soltei um enorme suspiro. Ele me olhou e apontou com a cabeça na direção oposta do corredor, para que eu o seguisse.
— Esses são os seus horários. Eu começo com Matemática e você... — puxou o outro papel, o olhando. — Literatura. Não ficamos juntos por hoje.
Olhei para ele espantada. Eu não podia ficar longe dele, não conhecia ninguém naquele lugar! Puxei o papel da sua mão, constatando que realmente estávamos separados hoje.
— Droga. — praguejei, baixo. Baixo o suficiente para que o sinal indicando o início das aulas me interrompesse. Olhei suplicante para .
— São só algumas horas. Você consegue. — piscou para mim, ficando em minha frente. Olhou para as pessoas ao redor antes de voltar a me olhar. — Vamos. Eu vou te levar até a sua sala.
— Muito obrigada. Isso vai adiantar muita coisa. — rolei os olhos.
Ouvi sua risada fraca enquanto virávamos o corredor, procurando minha sala. Por onde passamos, parecia que o número de pessoas só ia aumentando, fazendo com que os olhares aumentassem também. Paramos em frente à porta branca que estava aberta. Pude ver que poucas pessoas estavam dentro do lugar.
— Nos vemos depois da aula. Você sabe que pode me ligar a qualquer momento, não é? — arqueou uma sobrancelha. Assenti, balançando a cabeça e senti seu beijo em minha testa. Ele se virou e sumiu no fim do corredor, o que me fez ficar nervosa assim que me virei para entrar na sala.
Percebi alguns olhares em minha direção e tentei ignorá—los, seguindo até uma fileira no canto que estava vazia até então. Pus minha mochila em cima da mesa e deixei meu corpo escorregar na cadeira, respirando fundo. Os olhares ainda continuavam, principalmente pelas pessoas que entravam na sala nesse momento.
Não demorou muito para que o professor entrasse na sala, segurando sua pequena mala preta e alguns livros no outro braço. Rapidamente, olhou para todos os alunos e começou a ajeitar algumas coisas em cima da cadeira.
— Bom dia a todos. Sou o professor Daves, de Literatura. Muitos dos presentes hoje já vem me acompanhando por um bom tempo, e aos outros, eu desejo as boas-vindas. — encostou o corpo em frente à mesa e lançou um rápido olhar em minha direção. — Espero que se adaptem bem aos horários e ao colégio.
Rodou novamente a mesa, escrevendo seu nome no quarto. Enquanto ele seguia em direção à sua pasta, olhei de relance para os lados. Observei que algumas pessoas já não prestavam tanta atenção em mim assim e aquilo me deixou um pouco mais aliviada, mas, no fundo da sala, algumas meninas insistiam em olhar e fofocar alguma coisa com as outras. Inclusive, uma entre elas parecia bem a dona do carro cheio de glitter. Inferno! — praguejei.
Risquei algumas coisas no caderno que já estava aberto e ergui meu olhar assim que percebi uma movimentação do outro lado da porta. Prendi o ar no mesmo instante que reconheci o garoto parado atrás do pequeno vidro. Era o loiro que tinha me ajudado quando me perdi. Parecia estar falando com alguém no corredor enquanto ria. Ele passou os olhos pela sala, parecendo não me notar ali. Olhei rapidamente para baixo e percebi a porta se abrindo silenciosamente. O professor continuava concentrado em sua apostila e assim que o garoto entrou completamente dentro da sala, deixei um sorriso fraco escapar, acenando discretamente para ele. O mesmo me olhou com o cenho franzido e desviou o olhar ao ouvir a voz do professor.
— Pelo visto não mudou seu jeito de chegar atrasado aos primeiros dias, .
Engoli em seco ao ouvir aquele sobrenome e mais ainda quando percebi as pessoas me olhando e ouvi as risadinhas ecoarem. Naquele momento, eu só senti vontade de enfiar minha cabeça em um buraco no chão. Nunca me senti tão envergonhada na vida. Envergonhada e confusa. Ele havia me ajudado naquele dia, porque estava fingindo que não me conhecia? Ou pior, tinha me ignorado na frente da sala inteira.
Ignorado igual como fez com o professor, indo se sentar no lado oposto ao que eu estava. Resolvi não direcionar meu olhar um segundo sequer para ele e tentei prestar a atenção na aula e no pequeno discurso que o professor falava. Eu queria olhar para o lado quase sempre, de verdade. E toda vez que eu fingia estar procurando algo no chão ou simplesmente estar observando a sala, eu captava os olhares do loiro levemente sobre mim. E era muito constrangedor.
Assim que ouvi o sinal avisando que a segunda aula havia acabado, catei todas as minhas coisas de cima da mesa e segui para o corredor o mais rápido possível. O lugar já estava cheio, o que me fez olhar para os dois lados sem saber para onde ir. Não conseguia achar em canto algum e aquilo me fez ficar um pouco nervosa. Provavelmente, eu estava parecendo uma louca parada no mesmo lugar há um tempinho. Foi então que decidi seguir até o fim do corredor e o virei, olhando para trás e sentindo um baque fraco contra o meu corpo. Observei a menina se abaixando em seguida.
Olhei rapidamente para baixo e observei alguns materiais espalhados pelo chão.
— Nossa, eu sinto muito. Estava distraída e acabei não vendo você. — disse, enquanto me abaixava para ajudá-la. Ela sorriu amigavelmente.
— Não tem problema. Essas coisas quase sempre acontecem. — pegou as últimas folhas e se levantou, ajeitando os materiais que tinha em mãos. Olhou para mim, me analisando. — Você é nova por aqui, não é?
Balancei a cabeça, afirmando. Ela sorriu mais uma vez e pude perder que ela não era como as outras garotas que observei até então. Os cabelos loiros ondulados caíam sobre o ombro. Era o tipo de garota bem conhecida pela escola, mas não parecia agir como tal.
— Eu cheguei tem pouco mais de duas semanas. Ainda não me situei pela escola, mas espero que não demore muito. — dei de ombros, sorrindo minimamente.
— Entendo. Com o tempo você acaba pegando o jeito. — disse, começando a caminhar pelo corredor ao meu lado. — Eu sou . Você está com seus horários aí? Eu posso te ajudar.
Puxei o caderno de dentro da mochila e peguei a folha dobrada, entregando para ela. Enquanto a garota analisava a folha com atenção, observei o lugar pelo qual estávamos passando. Era um corredor aberto que dava para um grande gramado e ao longe eu podia avistar a quadra de basquete. Parecia ser um ginásio bem grande.
— Nesse momento, você está com aula de Sociologia. Sua sorte é que a professora pega leve com os alunos novos. — comentou, me entregando o papel. — Eu até ficaria conversando, mas eu estou completamente atrasada para minha aula. Sério, e o pior é que vou ter dois horários de Cálculo. A gente pode se falar na saída, o que acha?
— Claro. Por mim, tudo bem.
— Então a gente se vê no final da aula. Até mais... — franziu o cenho, tentando lembrar meu nome. E só então eu percebi que não tinha dito para ela.
. .
Ela assentiu e se virou, caminhando até sua sala. Respirei fundo e olhei para os lados, tentando achar a sala que estava tendo aula. Não demorou muito para que eu a achasse, já que não estava tão longe. Entrei e segui rumo a uma cadeira no canto, sentindo meu corpo relaxar um pouco por perceber que quase ninguém havia notado minha presença.
Passei a aula inteira tentando prestar atenção na professora que falava sobre Cidadania e Política sem nem respirar. Os alunos em volta pareciam estar tão interessados quanto eu, o que chegava a ser loucura da nossa parte, já que era o primeiro dia e estávamos assim. Não me importei com os olhares da professora e senti um grande alívio percorrer meu corpo ao perceber que sua aula já tinha acabado, era hora do intervalo. Deixei que todos saíssem da sala, para que eu pudesse me levantar e seguir rumo ao corredor mais uma vez.
— Não te encontrei no final da primeira aula. — ouvi a voz do meu irmão e me assustei ao sentir suas mãos em meus ombros. — E então, o que tem achado?
— Se quer mesmo saber, eu não vejo a hora de chegar à casa. — murmurei.
Ouvi sua risada fraca enquanto íamos em direção ao refeitório, onde já podia avistar a enorme fila perto da cantina. me guiava para o final da fila com os braços em volta dos meus ombros e agora os olhares estavam ainda mais focados em nós dois.
Enquanto estava parada ao lado do meu irmão, pude sentir que o mesmo cutucava a lateral da minha barriga, me fazendo o olhar com os olhos estreitos.
— O que foi? — perguntei, quase irritada.
— Você conhece? — apontou para o final do refeitório, me fazendo olhar na direção.
Pude ver, em uma mesa ao fundo, sentada com mais três pessoas. Ela tinha um sorriso no rosto enquanto uma das mãos estava para cima, acenando para nós. Ela estava tentando chamar minha atenção. Acenei para a mesma discretamente enquanto sorria.
— Esbarrei com ela no corredor mais cedo. Parece ser uma garota legal.
— E por que não vai até lá? Pelo visto, ela está te chamando. — arqueou uma das sobrancelhas, olhando para a garota. Olhei novamente para ela, que movimentava a boca, dizendo um senta aqui! discreto.
Esperei para pegar alguma coisa para comer, assim como e segui com um copo de suco e uma vasilha com torradas em mãos até onde estava sentada. estava ao meu lado, carregando o sanduíche e um sorriso sapeca nos lábios. Ele, obviamente, estava adorando toda aquela atenção. Nos aproximamos, recebendo olhares das que estavam sentadas com a loira também, as três meninas desviaram o olhar de mim para meu irmão, o olhando de cima a baixo. Reprimi um risinho.
! Pensei que não ia te encontrar no meio dessa gente. — disse, fazendo uma careta ao olhar para as outras pessoas.
. — disse, dando um meio sorriso. Ela parecia não ter entendido. — Pode me chamar de , acho melhor.
sorriu, apontando o banco da frente com a cabeça. logo se sentou e aproveitei para ficar do seu lado, enquanto ele já devorava seu sanduíche. Percebi a outra loira cochichar algo com a morena, olhando por detrás de mim. Não me dei o trabalho do olhar, já que no minuto seguinte estava chamando minha atenção.
— Eu acabei esquecendo de apresentar minhas colegas. Essa é a Jenna Ryland. — apontou para a loira que tinha os cabelos até a cintura, a mesma sorriu mostrando suas covinhas. — Kristen Olen e Erin Harver. — olhou para as que cochichavam. Elas olharam em minha direção, acenando rapidamente.
— Esse é , meu irmão. — olhei para ele, que ergueu o olhar, sorrindo para as meninas. Observei quando Kristen soltou um suspiro, parecendo estar adorando observá-lo e ele sequer voltou a olhá-la, provavelmente não dando a mínima para a garota.
— Vocês são gêmeos? — perguntou, focando sua atenção em nós dois. — São tão parecidos.  estava de frente para mim, mas mantinha o olhar em todo o refeitório. Ele se virou e olhou para a loira, sorrindo de canto.
— Somos sim, gêmeos bivitelinos, com a pequena diferença de duas horas. — olhou de relance para mim e eu sorri. Sim, eu e éramos gêmeos, porém nada idênticos. Enquanto parecia um modelo de tão bonito, os cabelos e olhos claros, eu havia puxado totalmente a família do meu pai, com os cabelos e olhos escuros.
parecia ter ficado surpresa e encantada. Observei engatando em uma conversa com sobre o assunto, enquanto eu mexia em qualquer coisa no celular do meu irmão, que antes estava em cima da mesa. Desbloqueei a tela que não tinha senha e encarei o papel de parede, sorrindo. Era uma selfie onde sorria minimamente de costas para o mar e tinha quase certeza que ele havia tirado esse foto aqui em Huntington. Tinha ficado bonita.
Ergui meu olhar assim que ouvi se direcionando a mim.
— Não sabia que vocês eram de São Francisco também. Eu nasci e morei lá até meus doze anos e então minha mãe acabou recebendo uma promoção aqui. Ela é enfermeira. Nunca mais nos mudamos, eu me apaixonei pela cidade.
— É, nós dois decidimos mudar os ares um pouco. — soltei uma risadinha, olhando de relance para que parecia ter entendido o que eu havia dito. — Não tem como não se apaixonar por Huntington. Eu sou louca por esse lugar. 
balançou a cabeça, concordando.
— Além de ter uma das melhores praias, na minha opinião. 
— Eu nunca vi alguém tão encantando por surf quanto ele. — apontei para . Ele riu fraco, bagunçando meus cabelos. — Se bem que também não posso falar nada... 
, essa garota manda muito. Sinceramente. — cruzou os dedos. Estava sério, me fazendo abaixar a cabeça negando. — Eu a ensinei tudo o que ela sabe, mas, cá entre nós, nunca vi alguém tão focada e destemida quanto minha irmã.
— Modesto, hein?
ria de nós dois e eu fazia o mesmo, voltando a olhá-lo. Ela era uma garota muito legal e parecia não dar muita bola para as outras amigas, não era como se dependesse delas.
— Eu já tentei uma vez, mas não é bem a minha cara ficar de pé em cima de uma prancha, não. Digamos que eu não seja uma pessoa com um bom equilíbrio. — disse, apontando para si mesma.
— Não é tão difícil quanto parece. Quando você percebe, já está lá entre as ondas. É incrível. Eu nem sei te explicar. — dizia, como se imaginasse uma onda enorme, estava sorrindo. 
— Ah, não. É difícil sim. Eu tenho um amigo, meu primo, na verdade, ele ainda não voltou de viagem, mas logo vocês vão conhecê—lo. Tipo, ele tentou me ensinar muitas vezes, e coloca muitas nisso. — soltou uma risadinha, nos fazendo rir também. — Eu simplesmente não consigo me equilibrar. Acho que eu sou o problema. 
Deu de ombros, fazendo uma careta.
— Claro que não. Você sempre encontra o seu jeito. Olha, nós sempre vamos à praia — apontou para mim. — Você pode ir com a gente da próxima. Tenho certeza que na primeira você vai dar um show. 
— Pelo menos um de nós é otimista. — riu.
— Até demais. — o olhei de lado, sorrindo. — O convite está de pé, se você quiser. Podemos marcar um dia.
Observei que as duas amigas de cochichavam o tempo inteiro olhando para alguém do outro lado do refeitório. parecia não ter percebido, muito menos . Assim que os olhares das meninas se redirecionaram mais uma vez, virei meu rosto vagarosamente e, no mesmo momento, não queria ter feito aquilo, já que encontrei os olhos verdes me encarando sem dó. Engoli em seco, voltando minha atenção para e . O que aquele garoto tinha, afinal?
Respirei fundo, percebendo que meu irmão me observava com o cenho franzido, como se me perguntasse o que eu estava fazendo. Apenas balancei a cabeça, indicando que não era nada demais.

🌴

Deixei a sala um pouco antes dos alunos começarem a sair e assim que pisei no corredor, já conseguia me infiltrar entre a multidão que estava lá. Procurei ou até mesmo com o olhar, mas não encontrei nenhum dos dois. Resolvi então, do meu armário, seguir em direção ao estacionamento, o único lugar que eu tinha certeza que encontraria meu irmão.
Caminhei um pouco mais rápido e saí junto a uma galera pela enorme porta de entrada do colégio, logo já avistava a caminhonete branca do outro lado do estacionamento. Passei uma das mãos pelo cabelo e andei um pouco mais devagar até o veículo, já que o lugar era extenso e eu não estava com tanta pressa assim. No meio do caminho, pude ouvir algumas risadas e uma entre elas me chamou atenção. Era uma risada escandalosa. Olhei para o lado, observando aquele sorriso largo no rosto. O garoto musculoso que eu ainda não sabia o nome ria espontaneamente para um garoto ao seu lado e eu até o acharia bonito porque ele realmente era, mas era tão irritante quanto. E isso o fazia menos atraente, pelo menos para mim. Ele virou o rosto em minha direção e assim que me encarou, franziu o cenho como se estivesse lembrando de mim vagarosamente. Piscou algumas vezes e arqueou uma das sobrancelhas, com um sorriso cínico nos lábios.
Bufei, virando para frente e assim que cheguei à caminhonete, senti mãos em meus ombros, achando ser , mas assim que ouvi a voz mais fina eu constatei que realmente não era ele.
— Hey. — disse, ficando ao meu lado. — Você sumiu de vista.
— Eu só quis sair da sala logo. Sabe, estou louca para chegar em casa. — rolei os olhos, sorrindo de lado.
— É o primeiro dia e você já está assim? — riu, colocando a mochila que antes ela segurava, nas costas. saiu pelo portão e começou a caminhar em nossa direção. — Boa sorte, só vai piorar. 
— Obrigada, nossa. E eu nem imaginava. — soltei uma risada fraca, sendo acompanhada pela garota, retomou sua postura assim que meu irmão se aproximou. Ele olhou para e em seguida para mim, sorrindo.
— Então, vamos? 
— Com certeza. — disse, agora, empolgada. — Nos vemos amanhã? — Perguntei para . Ela balançou a cabeça concordando enquanto tinha as mãos na alça de sua mochila.
— Claro. Temos as primeiras aulas juntas. Até amanhã. — sorriu, se virando, indo até um carro preto na direção oposta. me olhou mais uma vez e passou uma das mãos no meu cabelo, dando a volta para entrar no carro. Entrei rapidamente, soltando todo meu ar ao sentar no banco. Não tinha sido tão ruim assim, tirando o fato de ter sido ignorada e encarada pelo cara que eu achava que poderia ser legal comigo. É, não tinha sido ruim.
me olhou mais uma vez, ainda com aquele sorriso no rosto. E estava me incomodando.
— O que foi? — perguntei, virando meu rosto para ele. 
— Nada. Estou apenas te olhando.
— Isso eu percebi. — resmunguei. Ele riu fraco enquanto íamos em direção à avenida. Eu sabia bem que não estava apenas me olhando, tinha algo mais.
Encostei minha cabeça na poltrona, tentando relaxar um pouco o corpo. Deixei minha mente vagar para mais cedo, quando vi o olhar confuso e digamos que até um pouco desesperado do meu "salvador", que com certeza estava mais para babaca agora. 
Fechei os olhos com força e senti um toque leve em minha bochecha. Olhei rapidamente para o lado e encontrei com os olhos na estrada, porém com uma das mãos acariciando minha bochecha. Dei um meio sorriso para ele, que fez o mesmo, sem olhar para mim.
— Fico feliz por ter arrumado uma amiga.


Capítulo 5

“Um grande abraço à você ouvinte da rádio local de Huntington Beach, nesta manhã ensolarada, presenciamos...”.

Desliga isso. — estiquei uma das mãos, apertando todos os botões do rádio da caminhonete. , que ainda batucava os dedos de acordo com a música anterior que tocava, mantinha um sorriso nos lábios.
Olhou em minha direção, soltando uma risadinha fraca.
— Bom dia para você também, irmãzinha.
— Não começa. — resmunguei, cruzando os braços. — Esse seu bom humor me irrita, só para constar.
adentrou o estacionamento, procurando por uma vaga próxima no mesmo instante que o Elantra também se aproximava. De dentro do carro preto, as duas loiras saíram, chamando atenção de algumas pessoas ao redor, porém a que mais arrancava suspiros de todos era a mais alta, Jenna.
Jenna Ryland era o exato tipo de garota a qual é simplesmente fácil de chamar a atenção de qualquer ser dessa escola. Tinha os cabelos loiros claros que chegavam até a metade das costas, lisos e volumosos. Os olhos eram de uma cor escura, um azulado, a pele bronzeada exatamente como as pessoas natas de Huntington e, ao contrário do que sua aparência indicava, era uma garota que aparentava ser simpática.
— Bom dia. — disse, sonolenta, ao se aproximar. Olhei para a mesma, dando um sorriso de canto assim como fez.
— Pelo visto não teve uma noite muito boa. — meu irmão comentou, humorado. O olhei de relance, não tão rápido, pois pude perceber que ele ainda continha o sorriso nos lábios e a expressão leve. Como sempre. Era o tipo de pessoa que eu realmente não entendia como conseguia acordar animado pela manhã.
Os glóbulos azuis do garoto foram rapidamente de encontro ao da outra loira, que riu com seu comentário.
— Hoje tive que arrancar alguém da cama mais cedo. — Jenna olhou de relance para a amiga, sorrindo. — O meu carro não quis ligar de jeito nenhum e acabei ficando sem ter como vir, sorte que consegui falar com ela a tempo.
— O que aconteceu? — ficou ao lado da garota.
seguiu para o meu lado, respirando fundo.
— Ele sempre acorda bem-humorado assim? — a garota o olhou de lado, bocejando. Balancei a cabeça concordando.
— É bem raro o dia em que acorda mal-humorado. — dei de ombros, seguindo junto a eles até a entrada da escola. — Acho que estamos um pouco atrasadas.
— Vocês vão pegar o que agora? — perguntou, passando por algumas pessoas e invadindo nossa frente.
Ele parou no corredor, próximo a uma das pilastras. Jenna parou ao lado do garoto, também sorrindo.
— História. — comentou, tirando a atenção do celular nas mãos. — E vocês?
— Literatura agora. — Jenna rolou os olhos.
— Educação Física. Encontro vocês assim que sair da quadra. Eu vi seus horários e sei que sua próxima aula é a minha agora. — disse, olhando para mim.
— Certo. — balancei a cabeça afirmando, logo me lembrando de algo. — Ei, mas você tem aula logo depois, gênio.
, minha querida irmã, não vou aturar três aulas seguidas de Sociologia. — rolou os olhos, falando naturalmente. Logo, soltou uma pequena risada. — Eu vejo vocês depois.
Deu as costas, pronto para se afastar, mas se virou para nós três, parecendo esquecer algo.
— Ah, Jenna, combinamos melhor no final das aulas o conserto do seu carro. — sorriu abertamente, acenando para nós três. Arqueei a sobrancelha, o observando se afastar. poderia ser o que fosse, sempre teve esse lado prestativo e atencioso querendo ajudar todo mundo e, no fundo, sempre me preocupei de que algum dia isso poderia afetá-lo de alguma forma.
— Ele é sempre tão... Espontâneo? — Jenna perguntou, observando o caminho do garoto até o final do corredor. olhou para a amiga, deixando uma risada escapar.
— Desencana, garota. É o irmão da .
A loira mais alta deu de ombros, rindo em seguida junto à . Não pude deixar de acompanhar as duas.
— Não esquenta, Jenna. — a olhei. — Ele é assim mesmo.
Ela ainda olhava para o final do corredor, como se ele estivesse lá. a olhava, rindo da expressão da garota. Eu não me importei muito, sabia bem o quanto meu irmão deixava suspiros do tipo escaparem por aí.
— Vamos para a sala. Temos que sobreviver a dois horários. — me chamou.
— E eu estou atrasada. — Jenna arregalou os olhos. — Eu vejo vocês depois.
Dito isso, saiu em disparada no corredor em que íamos seguir. Troquei a mochila de ombro, pedindo licença a algumas pessoas para passar, já que vários grupinhos estavam parados no centro do lugar, atrapalhando a passagem. Assim que nos aproximamos da porta branca, provavelmente onde teríamos aula, ouvi risadas e um pequeno falatório do outro lado do pátio. Deixei que entrasse primeiro na sala, virando o rosto na direção das vozes e engoli em seco ao observar as pessoas ali.
Encarei aquele sorriso largo mais uma vez. O garoto, que no dia anterior me encarava descaradamente, agora parecia estar mais contido. Tinha o boné virado para trás na cabeça e fazia graça com a garota ao seu lado, que logo reconheci como a que tinha entornado a bebida em mim. Parecia ser próxima dele. Do lado oposto, de costas para mim, estava . Ele parecia entretido em algo, pois não conversava com os outros dois.
Não demorou muito para que o de boné olhasse em minha direção, um tanto curioso. Inclinou a cabeça levemente para o lado, um sorriso cínico nos lábios. E isso fez com que os outros dois olhassem também.
Mas ao seguir meu olhar para seu lado, pude constatar que aquele não era o pior. Não quando olhava direto para mim.
— Vem, . Só tem você aí. — disse, me puxando para dentro da sala. — Não perca seu tempo
Disse a última frase um pouco mais baixo, fazendo com que eu a olhasse um tanto surpresa. Ela sabia de algo por ali?
Rapidamente, concordei, virando o corpo e entrando junto da menina. Alguns olhares seguiram em minha direção, como se eu ainda fosse a novidade por ali. E de fato era, mas não sentia mais aquele incômodo como nos primeiros dias. Logo, me sentei com em uma das cadeiras vazias, esperando que a aula iniciasse.

🌴

— Onde aqueles dois estão? — a garota perguntou, seguindo ao meu lado em direção ao ginásio. Respirou fundo, olhando para o lado.
— Não sei. — dei de ombros. Os alunos que iriam participar da aula, seguiam no mesmo corredor que nós duas. — disse que iria nos encontrar. Talvez tenha se perdido por aí.
Ela soltou uma leve risada, concordando com a cabeça. Paramos no armário para colocar o material da aula e aproveitei para deixar minha mochila ali também. fez o mesmo, porém continuou a mexer no celular em mãos.
— Jenna está reclamando da aula do Sanders. Português. — balançou a cabeça negativamente. — Normalmente, ninguém aguenta as aulas dele.
— Não tive aula com ele desde que cheguei. Pelo menos estou avisada.
— Então você pode se preparar. — fez uma careta, seguindo ao meu lado. — Podemos ficar nas arquibancadas do ginásio. O professor sempre começa com os garotos da classe primeiro.
Caminhamos em direção ao lugar, onde as vozes dos alunos já começavam a ecoar. Os observei espalhados por todo o ginásio, o mesmo era aberto e bem claro.
Os garotos estavam reunidos no centro da quadra, onde o treinador havia ordenado. Vestiam um uniforme vermelho, devia ser o típico das aulas de educação física. Diferente de um grupo de garotas que se reuniam em um canto do ginásio, que trajavam uma saia curta vermelha mesclada com amarelo e branco. Era um uniforme bonito, não fosse pelos dois palmos de saia e blusa.
— Eu não gosto muito de participar dessa aula. O treinador Heiks costuma sempre colocar o basquete e eu não gosto muito desse esporte. — disse, desanimada. — Tem a ver com o time da escola, eles focam demais.
— Não sabia que Ocean View tinha um time de basquete.
Ela me olhou, balançando a cabeça com um pequeno sorriso.
— Em algumas escolas, é o futebol americano. E bom, aqui é o basquete. Go, Seahawks! — levantou os braços, rindo em seguida. — gosta? O time sempre acolhe alunos novos com potencial. James foi o destaque ano passado e provavelmente ainda é.
— Ele tem certa influência. — balancei a cabeça. — Hector, nosso pai, gostava do esporte. Sempre nos levava aos jogos em LA. — olhei de relance para ela, sorrindo de lado. — James é seu namorado?
— Então temos aqui uma jogadora nata. — estreitou os olhos, sorrindo, logo fez uma careta engraçada. — Não! É meu primo. Ele ainda está viajando, talvez chegue essa semana ou a outra. Ele não costuma avisar.
Balancei a cabeça, concordando com a garota. se concentrou na movimentação da quadra assim que os alunos começaram a jogar. O treinador apitava vez ou outra, pedindo para que recomeçassem e corrigia algumas passadas.
Percorri todo o lugar com os olhos, até pará-los em um ponto no ginásio. Prendi a respiração assim que o vi me olhar no mesmo momento e tentei olhar para outro lugar, o que não deu muito certo já que minha atenção foi voltada para ele. O loiro tinha os olhos pousados em mim e eu tinha a impressão de que ele não pararia de olhar nem tão cedo. Suas mãos estavam no bolso da calça, como de costume, e seu amigo, o que tinha um cigarro nos lábios, estava do seu lado conversando com os outros meninos.
Ouvi um pigarro e olhei para , piscando freneticamente, um pouco desconcertada.
— Você conhece ? — ela perguntou, olhando para o garoto que ainda olhava em minha direção.
? — a olhei, confusa.
— É. O loiro te encarando. Engoli em seco, desconversando.
— Não. Quer dizer... Ele me ajudou um dia desses. Nada importante. Ela me olhou e franziu o cenho, parecendo não acreditar na minha resposta, apesar de ser pura verdade.
Respirou fundo e pousou os olhos nas meninas da torcida. 
— Está vendo aquela garota? De cabelos dourados. — apontou discretamente para a menina que tinha os braços para cima. — É a Debbie. Deve conhecer, é uma das cadelas da April e mais uma das que vivem atrás do . — respirei fundo, assim que ela falava. Eu tentava assimilar tudo, começando por... Quem era April? — Assim que entrou no time da torcida, conseguiu se aproximar do garoto e saiu por aí espalhando que o garoto iria ajudá-la com reconhecimento. E adivinha só? Foi só mais uma da lista, toda a escola ficou sabendo. — soltou uma risadinha parecendo se lembrar. — O cara foi um idiota, mas eu gostei, devo confessar. Deixou a menina com a cara no chão no meio do refeitório. Ela achou que aquilo iria adiante. Bom, achou errado. — deu de ombros, voltando a olhar os alunos que corriam na quadra. 
— Uma lista? Isso é tão...
— Clichê? — interrompeu, rindo. — É sim, mas é como eles costumam dizer por aí.
— Eles? Pensei que era só ele.
— Não. Os outros também. — olhou novamente para o grupo. Acompanhei seu olhar e constatei que o loiro não estava mais lá. O que tinha um cigarro nos lábios conversava com os outros dois ao seu lado.
— O que está com o cigarro é um dos piores. . — arqueou a sobrancelha, o olhando. — April corre atrás do cara sempre que surge uma oportunidade. Eles ficam quase sempre que tem alguma festa, ou algo do tipo. — dizia, gesticulando. Fiquei um pouco intrigada. Como alguém podia saber de tanta coisa assim? — Ou nas salas sem acesso. É, essas são as preferidas. Então, como eu disse, ele é um dos piores e um dos mais babacas. Nada pessoal. 
Arqueei a sobrancelha e ela me olhou, rindo fraco.
Algo me dizia que aquilo ali era mais do que pessoal.
— Nossa, você sabe muita coisa.
Ela deu de ombros, me olhando.
— É o que dizem por aí. Eu só absorvo a mensagem.
Passou o olhar mais uma vez onde estava e virou o rosto, redirecionando até onde os alunos se exercitavam dessa vez.
Só então, pensando em tudo que ela havia falado, pude notar algo no que ela disse. A olhei curiosa, com um vinco formado no meio da testa.
— Eles têm o mesmo sobrenome?
Olhou para mim, como se não entendesse o porquê daquela pergunta.
— É claro. — disse, de forma óbvia. — Eles são irmãos.

🌴

Respirei fundo ao sair da sala com os livros na mão. Depois de ouvir o sinal anunciando o intervalo, o corredor ficou completamente cheio. havia pegado uma aula diferente da minha, assim como e Jenna. A diferença foi que os três ficaram juntos na matéria.
Assim que saímos do ginásio, alguns horários atrás, me avisou que iria procurar Jenna e me encontraria no refeitório. Então, já que estava ali sozinha, poderia procurar por meu irmão. Ele deveria estar tão perdido quanto eu.
Ou não. Ele sabia bem como socializar por aí.
Deixei todo o material dentro do armário e o fechei, tomando um susto ao dar de cara com a figura loira de mais cedo.
.
— Olha quem está por aqui. — disse, sorrindo minimamente. O observei por alguns segundos, percebendo de perto seus olhos, bem mais claros, fixos em mim. — , você me surpreende.
— Andou procurando saber sobre mim, ? — arqueei a sobrancelha, fingindo surpresa.
O garoto riu fraco, endireitando a postura, mas ainda assim com as mãos no bolso e encostado aos armários.
— Eu diria o mesmo de você. — me olhou de cima a baixo, com os olhos estreitos. — Não me lembro de ter dito meu nome da última vez.
— O pessoal por aqui sabe falar muito bem de gente metida e idiota.
Ouvi sua risada nasalada e rolei os olhos, olhando em volta. Seria bom se aparecesse por agora.
— Você é muito afiada, boom.
— Eu já disse para parar de me chamar assim. — virei o rosto para o encarar. ainda tinha o sorrisinho sacana nos lábios.
Pareceu pensativo por alguns instantes, olhando em volta, mas voltou os olhos para mim.
— Não adianta dizer. — inclinou a cabeça, negando veemente. — Eu não vou parar.
Ignorei sua resposta assim que avistei as costas definidas marcadas pela camisa, do meu irmão. Respirei fundo, pronta para começar a caminhar. Quanto mais longe daquele lugar, melhor.
, vem logo! — ouvi a voz gritar e olhei para trás, acompanhando o olhar do garoto também. Observei um de seus amigos com as mãos para cima, olhando em nossa direção.
fez um sinal e se virou para mim, com a mesma expressão de antes.
— Achei que você estaria agradecida pelo ocorrido, mas — fez uma pausa. — Acho que me enganei.
E se virou, seguindo rumo onde seu grupo estava. Pisquei algumas vezes e bufei, caminhando até onde meu irmão estava, porém ele não estava mais no mesmo lugar.
Respirei fundo, olhando rapidamente para trás. não estava mais lá, o que de certa forma me fez respirar de forma aliviada. Naquele momento, consegui perceber que ele conseguia ser mais ridículo do que eu pensava. O que ele queria, afinal? Só porque havia me ajudado, que eu corresse para seus braços o enchendo de agradecimentos por isso? Bom, ele realmente estava enganado.
Andei em passos rápidos até o refeitório, passando os olhos rapidamente pelo local, já me praguejando ao encontrar as meninas. Talvez eu tenha demorado demais.
Pude ver dois braços levantados ao fundo, podendo ver e Jenna. Ao lado delas, estava meu irmão comendo seu sanduíche.
— Eu disse para você não se perder! — falou, fazendo uma careta.
me olhou sem entender.
— Você se perdeu? — ele parou de mastigar. — Podia ter me ligado. Onde estava?
— Eu fui te procurar, para ser sincera. E eu te liguei, pode checar. — apontei para o celular em cima da sua mochila preta. — Não se preocupe, pedi ajuda no caminho. Foi só um contratempo.
Um enorme contratempo.
pareceu entender, assim como Jenna, que tirou um sanduíche e um suco de caixinha da sua bandeja.
— Sorte que salvamos o seu lanche. Iria ficar sem nada. Esse lugar parece até um zoológico faminto. — a loira disse, rindo enquanto me entregava o lanche. Sorri para ela em agradecimento e respirei fundo, digerindo não só o lanche como o que havia acontecido.
Os três começaram a conversar entre si, às vezes mencionando meu nome ou até mesmo tentando me encaixar na conversa, mas eu ainda estava com o ocorrido em mente. Provavelmente passei todo o intervalo dessa forma, me corroendo, até me sentir levemente estúpida por isso. Ouvi o sinal tocar e permaneci sentada, assim como os outros três. De relance, pude ver o garoto, que antes encontrara no corredor, me olhando descaradamente do outro lado do refeitório, os malditos globos verdes em cima de mim outra vez.
— Eu tenho um convite. — se pronunciou, me fazendo olhá-lo. — Com o fim de semana se aproximando, eu achei que podíamos ir à praia. Todos nós. Acho que pode ser divertido.
— Eu acho uma ótima ideia. — Jenna bateu palminhas, olhando para . — O que acha?
— Eu estou mesmo precisando de sombra e água fresca. — arqueou as sobrancelhas, fazendo uma cara dramática.
Ri fraco com sua expressão e os acompanhei assim que levantaram dos bancos.
passou os braços em volta do meu pescoço, me dando um beijo leve na lateral do rosto e se virou para mim sorrindo.
— Então se prepara, praiana, nós vamos surfar.


Capítulo 6

Observei atentamente toda a extensão da sala, o lugar estava vazio. Percorri os olhos por todo o local a procura de meus pais e até mesmo de . O fato do silêncio estar presente na sala da minha antiga casa fez com que um grande vinco se formasse em minha testa.
— Norah! — ouvi um berro, rouco demais para ser do meu irmão. Era Hector.
Estremeci no momento seguinte, assim que ouvi o barulho de algo quebrando e a porta do quarto deles batendo contra a parede. Ninguém tinha saído por ela.
— Mãe? — arrisquei dizer, com a voz trêmula.
O silêncio havia se instalado outra vez. Dei alguns passos para frente, a fim de saber o que acontecia, porém antes de me aproximar do corredor, observei meu pai sair do quarto segurando em um dos braços de Norah. Arregalei os olhos no instante em que vi o rosto da minha mãe com hematomas enormes e o nariz machucado.
— Mamãe! Não! — gritei, como se o ato fosse adiantar algo. Hector se aproximou, me encarando de uma forma completamente estranha. Ele não tinha brilho em seus olhos. Era como a escuridão.
— Saia agora. Ou eu vou machucar você assim como fiz com ela. — olhou de relance para Norah, que chorava baixinho. Pressionei os lábios, tentando segurar as lágrimas que já caíam sem pudor.
— Deixa a mamãe, por favor... Ela não merece isso, deixa ela ir...
, olha para mim! ?


Funguei mais uma vez antes de abrir os olhos e encarar a feição preocupada do meu irmão a centímetros do meu rosto. O encarei mais uma vez e pude sentir seus braços me envolvendo em um abraço apertado. Eu não conseguia conter o choro.
— O que aconteceu, ? — perguntou, visivelmente preocupado. Balancei a cabeça negativamente, encarando minhas mãos enquanto ainda sentia as lágrimas escorrendo. — Por favor, , eu preciso saber. Olha para mim.
Ergueu meu rosto em direção ao seu com as pontas dos dedos. Só assim pude perceber o quanto ele estava preocupado.
A única reação que tive foi o abraçar mais uma vez, no ato de tentar me acalmar.
— Está tudo bem. Eu estou aqui.
Respirei mais uma vez antes de levantar meu olhar para ele.
— Você teve um daqueles sonhos ruins, não foi? — passou as mãos pelo meu cabelo, respirando fundo. Balancei a cabeça, concordando. — São só pesadelos, . Enquanto eu estiver com você, eles não se tornarão reais, certo?
Pisquei algumas vezes, observando os globos azuis me encarando.
— Eu te prometo isso. Nada vai fazer mal à minha garota. — deu um sorriso de lado, fazendo com que eu sorrisse também, cabisbaixa.
Fez um carinho de leve em minha bochecha antes de se sentar corretamente, um pouco sonolento. Observei sua roupa, a calça de moletom preta, apenas e virei o rosto para o despertador, eram quase seis da manhã.
O olhei mais uma vez, percebendo que ele não havia dormido direito.
— Você dormiu aqui?
Balançou a cabeça concordando e encostou o corpo na parede.
— Eu ouvi você resmungar e percebi que não estava tendo um sono muito bom. Resolvi ficar com você até que dormisse melhor. — passou uma das mãos nos cabelos, bocejando.
— Dorme mais um pouco, . Você ainda está com sono. — bocejei em seguida, deixando meu corpo cair novamente na cama. Ele deitou de costas, pousando a cabeça em cima da minha barriga.
— Eu tive que ficar cuidando de alguém. Sabe como é, não é? — soltou uma risada fraca, fechando os olhos. Balancei a cabeça, soltando uma risadinha junto a ele.
— Vê se dorme.
Estiquei minhas mãos em direção aos seus cabelos, fazendo um leve carinho até sentir seu corpo pesando na cama. Respirei fundo e fechei os olhos, sabendo que voltaria a dormir logo, logo.

🌴

Estiquei os braços para frente, ainda de olhos fechados, enquanto permanecia deitada na cama. Pude ouvir o som das ondas quebrando, dos pássaros cantando e pude até sentir o sol aquecendo o colchão, mas o que tirou minha atenção de tudo isso foi a voz que vinha do corredor.

Celebrate life and I'll pay for it
That Cavalli nice next to my Tom Ford
Yeah party all night, let's all aboard
Let's all aboard, all aboard


Estreitei os olhos e segui até a porta, olhando para o corredor e não vendo ninguém por ali. Esfreguei os olhos antes de sair do quarto e caminhei até a sala, onde o som começava a ficar mais evidente. Foi então que eu percebi que era a mistura da música que saía do rádio com a voz do meu irmão.
Não era uma voz ruim, longe disso, mas ele cantava com tanta empolgação que chegava a ser engraçado, mais ainda do que a cena que eu estava vendo.
estava de costas para mim, balançando a cabeça conforme a música que tocava. Vestia uma bermuda branca e o boné estava para trás.

Run away for a few days
Thinkin' bout love, baby touche
Tied up like a shoe lace
I don't like it, I don't like it


O olhei por mais algum tempo e assim que ele se virou, não pude conter a risada. Tinha uma feição engraçada no rosto, uma espécie de careta e segurava o copo de suco em mãos.
— Há quanto tempo você está parada me observando? — bebericou um pouco mais do líquido enquanto vinha em minha direção.
— Tempo suficiente para ver você se remexendo todo.
Tentei mexer a cabeça da mesma forma que ele fazia há minutos, o que não deu muito certo já que pude ouvir sua risada.
— Então isso significa que você acordou bem melhor. — sorriu abertamente, bagunçando meus cabelos. — E isso é bom.
Balancei a cabeça, concordando, e olhei em volta procurando por nossa avó. Ela costumava acordar cedo e ficar pela casa ajeitando as coisas, mas não parecia estar por ali.
Estiquei a mão, pegando o copo das mãos de e segui até a bancada para encher com mais suco.
— Cadê Marie? — o olhei rapidamente, percebendo o mesmo procurar algo com pressa. — E aonde você vai?
— Marie foi ao mercado e disse que vai demorar um pouco para chegar. — ajeitou o boné na cabeça, pegando as chaves da caminhonete. — E eu vou buscar a Jenna. disse que vai vir direto para cá e que nos encontra na orla assim que você estiver pronta.
— Jenna, é? — arqueei uma das sobrancelhas. Ele rolou os olhos com uma expressão divertida e beijou minha testa rapidamente. — Você vai levar minha prancha?
— Ela já está na caminhonete. — piscou, sorrindo de lado. — Qualquer coisa me liga. Vou nessa.
O olhei sair pela varanda, fechando a porta da sala e segui novamente até meu quarto procurando uma muda de roupa para ir à praia. passaria ali a qualquer momento e era melhor eu estar pronta logo.
Praticamente corri até o quarto e alvorocei todo o armário, tirando de lá o biquíni e uma muda de roupa levinha. Antes de seguir até o banheiro, pude ouvir o toque do meu celular. O procurei pelo criado mudo e deslizei o dedo pela tela, atendendo a chamada.
— Alô? — encostei o celular no ombro enquanto desdobrava a regata azul.
! Já está pronta? Dá para abrir a porta para mim? — falou, eufórica. Não pude deixar de rir.
— Espera só um instante.
Desliguei o celular e o joguei na cama novamente, seguindo até a porta da sala. estava parada mexendo em algo no celular. A observei rapidamente com apenas um short jeans e a parte de cima lilás do biquíni.
, menina, eu estou tentando falar com você desde manhã, sorte que seu irmão estava acordado.
— Bom dia para você também, .
— Bom dia? Você já viu que horas são? — ligou o display do celular e me mostrou. Eram quase duas da tarde. — Vai logo trocar sua roupa e me dá essa regata aqui que está calor demais para você ir com ela.
Dito isso, arrancou a blusinha das minhas mãos e seguiu rumo ao meu quarto. Fiz uma careta mesmo sabendo que ela não veria e entrei no banheiro, mudando a roupa rapidamente.
— Pronta? — apareceu no corredor assim que saí, com uma empolgação fora do normal. Balancei a cabeça concordando e senti que também estava ficando um pouco animada. Afinal, não tinha motivos para não estar. Estava ao lado de boas pessoas, em um lugar calmo, sem problemas e fazendo o que eu mais gostava de fazer.
Saímos da casa rapidamente e eu já podia sentir o sol queimando na medida em que caminhávamos até a orla da praia. O lugar estava cheio, um pouco mais do que em dia de semana.
Pessoas paravam para fotografar a paisagem e até mesmo para tirar fotos de si mesmas. Outras andavam de patins, skates, bicicletas... O lugar estava cheio!
— Será que eles já chegaram? — a garota ao meu lado perguntou, olhando ao redor.
— Não sei. disse que iria nos encontrar por aqui.
Dei de ombros e voltei a observar ao redor. Era tudo tão diferente, era uma paz que eu não conseguia sentir em São Francisco. Ali eu me sentia em casa, o lugar do qual não deveria mesmo ter saído.
— Olha eles ali! — a voz de me chamou atenção e ergui o olhar, podendo ver Jenna acenando do estacionamento enquanto terminava de vestir sua blusa de borracha azul.
— Oi, meninas! — Jenna se aproximou, me abraçando de lado. Retribui o abraço sorrindo e fez o mesmo.
, você vai pegar sua prancha agora? — me aproximei de , assentindo. Ele esticou os braços, tirando a prancha branca florida de cima da dele. — Pega aí.
A peguei com cuidado e a posicionei de baixo do braço, esperando apenas por que terminava de se ajeitar e de fechar o carro.
— Vocês surfam há quanto tempo? — Jenna perguntou, animada.
me olhou como se tentasse lembrar e inclinou o rosto enquanto andava junto a nós em direção à areia.
— Tem um bom tempo... Uns sete anos? — se virou para mim novamente, confuso.
— Eu acho que sim, começamos bem cedo. — concordei, sorrindo para ele. — Você sabe? — olhei para Jenna, colocando uma das mãos em cima dos olhos por causa do sol.
nós já sabemos que não consegue manter o equilíbrio nem em solo firme. — disse, a olhando de soslaio, ela fez uma careta para ele, me fazendo rir fraco.
— Ah... não. Apesar de já ter tentado, não é algo que eu goste muito.

Entre conversas, achamos um lugar próximo ao mar e eu finquei a prancha na areia, me sentando junto às meninas. estava agachado, passando parafina na borda de sua prancha. Jenna já começava a passar seu protetor solar enquanto conversava aleatoriamente com meu irmão e procurava alguma música para colocar.
Eles estavam ocupados fazendo algo, então aproveitei para deixar meu olhar cair sobre o mar. O vento estava na medida certa e o calor estava forte, o que me fez sentir falta de um guarda-sol ali. Na parte mais rasa, muitas pessoas aproveitavam o dia com crianças e até idosos, a praia estava lotada.
Passei os olhos por cada uma delas e até nos grupos que caminhavam pela areia com suas pranchas nos braços também, porém uma pessoa entre elas me chamou a atenção.
, não é o ali? — perguntei, com o cenho franzido e virei para ela em seguida. Observei sua feição mudar, estava levemente incomodada.
— É. É ele sim. Por quê?
— Ah, nada, eu só me lembrei dele na escola. — sorri de lado. Ela arqueou a sobrancelha, com certa indiferença e esse ato fez uma pontinha de desconfiança crescer dentro de mim. — , tem algu...
— Ei, , você pode vir aqui? — ouvi a voz de nos interrompendo.
Olhou para e sorriu minimamente, se levantando enquanto ajeitava os shorts.
— O que foi?
— Um dia desses você me disse que não tinha um equilíbrio muito bom e que até já tinha tentado surfar. — ele sorriu, passando uma das mãos na sua prancha. — Quer tentar mais uma vez?
Olhei para os dois sorrindo e vi que Jenna fazia o mesmo que eu, tinha seus braços para trás, apoiando o corpo.
— Eu não sei, não...
— Ah, qual é, ! — falei, jogando areia em seus pés. — Você só vai tentar. Se não der certo, volta para cá e eu te pago uma bebida.
Ela arqueou a sobrancelha rindo e olhou para de relance.
— Com bebida não se brinca, . — fez uma careta. — Mas tudo bem, eu vou. Não custa nada, não é?
— Esse é o espírito, garota! — a empurrou pelo ombro e se virou, tirando a prancha da areia e a pondo debaixo de seu braço. Os dois seguiram em direção ao mar e de onde estava pude ver a loira resmungando ao sentir a água gelada.
Os observei por mais algum tempo até virar o rosto em direção às outras pessoas próximas a nós e pude sentir que estava sendo observada. E não era por Jenna.
A garota estava concentrada em seu celular enquanto seguia as batidas da música que saía do celular de .
Era estranho, ninguém mais estava por ali, mas ao virar para trás eu percebi que estava enganada.
tinha os olhos focados em mim. Parecia estar me observando por um bom tempo.
— O que você está olhando? — tomei um pequeno susto com a voz de Jenna. Ela virou o rosto um pouco mais e pressionou os lábios. — . Sério?
— O que foi? — a olhei.
— Ah, nada. Ele é meio estranho, não acha? Ele sempre fica encarando as pessoas como se soubesse algo sobre elas. — Indagou, dando de ombros em seguida e voltando à atenção ao celular. Respirei fundo e esperei um tempo para me virar novamente. Mas dessa vez ele não estava mais lá.
Pisquei algumas vezes e fiz uma careta, tentando não me esquentar com aquilo.
— Eu vou ao banheiro. Já volto.
Jenna levantou ajeitando os cabelos e o short jeans, deu um pequeno sorriso e seguiu para o calçadão. Relaxei os ombros ao me encontrar sozinha ali, vendo e mais ao fundo, ela sentada em cima da prancha e meu irmão rindo. Pareciam estar se divertindo mesmo.
Fechei os olhos e abaixei a cabeça, tendo em mente a única coisa que eu não queria me lembrar.
Os olhos verdes idênticos aos de .

🌴

Bati os braços na água contra a onda que vinha e dei impulso com as mãos, ficando de pé da prancha. fez o mesmo e assim que viu a sincronia em que estávamos, soltou uma risada, fazendo um hang loose no ar.
Olhei para o lado agachando um pouco mais o corpo e esperei que a onda passasse por mim para poder me sentar na prancha, meu irmão havia se jogado no mar em seguida.
— Essa vai quebrar, mergulha! — gritou, virando o corpo. Olhei para trás e pude ver a onda que já estava se formando, se aproximar. Impulsionei os braços para baixo empurrando a prancha e mergulhei no momento em que ela havia quebrado. Emergi sorrindo.
— Vamos voltar.

O ver daquela forma, com os cabelos molhados e o sorriso estampado no rosto, só me fez perceber o quanto o garoto estava feliz e o quanto aquele lugar realmente era nosso lugar. A água gelada e salgada de encontro à minha pele, de certa forma era nostálgica, mas naquele momento a única coisa que me trazia era leveza. Alívio. Paz.

se posicionou deitado na prancha e começou a remar em direção à beira da praia, resolvi fazer o mesmo e rapidamente já estávamos seguindo em direção às meninas que diziam coisas animadas para nós dois.
— E então, qual a nota? — perguntou, bagunçando os cabelos.
— Vocês são ótimos! — Jenna nos olhava sorridente. — parecia uma criança toda vez que vocês conseguiam uma onda.
— Vocês podiam participar da competição que sempre rola em alta temporada.
A olhei, curiosa. fez o mesmo.
— Não sabia que iria ter uma tão cedo. — indagou, fincando sua prancha na areia.
— Eles levam bem a sério por aqui. No ano passado, tiveram alguns problemas com os patrocinadores, mas pelo visto dessa vez vão voltar com tudo. — a loira mais alta disse, dando de ombros enquanto voltava a colocar seus óculos escuros.
Resolvi deixar minha prancha ao lado da de e respirar um pouco, ainda estava com o coração acelerado pela adrenalina. Precisava urgentemente de algo para beber, uma água geladinha cairia muito bem...
— Ei, , já que está de pé, não quer comprar uma bebida para mim, não? — perguntou, fazendo uma careta.
— Eu ia fazer isso agora. Aliás, aproveitando, alguém também quer? Eu vou... — olhei em volta, procurando algum quiosque por perto e logo avistei o lugar no píer. — Vou comprar lá. — apontei.
— Ah, ótimo! Eu adoro o Ruby’s. — Jenna disse, procurando por sua bolsa e tirando de lá uma nota. — Eu vou querer um refrigerante mesmo. E vocês?
— Eu também acho que vou querer um. — disse, balançando a cabeça. — ?
— Três refrigerantes, por favor!
Balancei a cabeça concordando e ajeitei os cabelos antes de começar a andar entre todas as pessoas que ali estavam. Caminhei pelo calçadão movimentado até chegar à entrada do píer e andar sobre ele até chegar à lanchonete. O lugar não estava cheio, mas uma quantidade boa de pessoas estava por ali passeando e tirando variadas fotos.
Assim que me aproximei do lugar, pude ver que ele era bonito e tinha um leve toque antigo, mas alegre. O telhado era vermelho, um vermelho forte e as paredes eram mescladas de azul claro e marfim.
Entrei no local e o percebi parcialmente cheio, já que a maior parte das pessoas estava concentrada nas mesinhas espalhadas. Era um lugar bem agradável.
Segui até o balcão, ficando ao lado de um senhor e batuquei os dedos até que alguém se aproximasse para nos atender, mas assim que vi o rapaz saindo por uma pequena porta, o observei surpresa.
— Ah, não... — disse, baixo, me lembrando do garoto. — O que faz aqui?
Só então percebi que tinha pensado alto.
Ele me olhou e pareceu tão surpreso quanto eu. Deixou um pequeno sorriso escapar pelos lábios.
— Eu trabalho aqui. — disse, enquanto entregava o pedido do senhor ao meu lado e agradecia gentilmente. Respirou fundo e parou na minha frente, com o mesmo sorriso mínimo de antes nos lábios. — E você, o que faz aqui, ?
Respirei fundo, o olhando.
— Refrigerantes. Quero três e uma água, por favor. — comentei, evitando o contato visual. Ele balançou a cabeça, se virando para pegar as latinhas e voltou, colocando-as no balcão. Estendi o dinheiro e o mesmo o colocou no bolso do avental.
— Não sabia que você surfava. E muito bem, por sinal.
Engoli em seco, dando de ombros.
— Há muitas outras coisas que você também não sabe. — o ouvi rir fraco, ainda próximo a mim.
— Não seja por isso, eu adoraria saber.
Ergui o rosto no momento e senti o mesmo enrubescer totalmente. estaria me cantando? Oh, , claro que não! Depois de toda aquela implicância, ele não faria isso.
— O que foi? — perguntou.
— O que foi o quê?
— Você se calou. — arqueou a sobrancelha. — Achei que rebateria como tem feito.
E eu realmente faria isso, mas minha mente parecia uma grande folha em branco. Então apenas desviei o olhar, observando a paisagem pelas enormes janelas de vidro ao redor.
— Espere aí. — disse, retirando o avental e seguindo para a pequena porta que havia saído antes. Franzi o cenho, tentando entender a atitude do garoto. O que ele iria fazer? A única coisa que eu queria naquele momento era sair dali e ir para o mais longe possível. Não queria lidar com . Já bastava o tanto de problemas que eu tinha em mente...
Em seguida, o garoto saiu do lugar, trajando apenas as roupas normais: uma camisa de manga azul e uma bermuda creme.
Rodou o balcão, se aproximando.
— O que está fazendo? — perguntei, ainda confusa.
— Horário de almoço. — passou a mão pelo cabelo. — Vamos andar um pouco.
Balancei a cabeça em negação, o seguindo até a saída.
— Não, . Eu tenho que voltar. — comentei, olhando em direção às pessoas que estavam na praia. De onde estava, tentava enxergar e as meninas.
Pude sentir de imediato o vento de encontro à minha pele e, por um momento, aquela brisa me arrepiou.
— Você tem ou quer voltar? — questionou, virando o rosto para mim. — Qual é. Qual o problema em tentar conversar um pouco?
O olhei por alguns segundos, observando aquela expressão divertida em seu rosto. tinha os olhos focados em mim e respirava de forma leve. O vento estava um pouco mais forte, o que fez seus cabelos ondulados bagunçarem. Observei um pouco mais o garoto. Ele tinha lá seus traços bonitos, não podia negar.
— O que você quer? — perguntei, quebrando aquele silêncio. — Eu não vejo motivos para você tentar puxar papo comigo. Inclusive, achei até que descobriu um novo hobbie.
— Um novo hobbie? — perguntou, de certa forma, confuso.
— Sim. Me irritar.
O garoto comprimiu os lábios em um sorriso e continuou me encarando.
— Você é nova na cidade. Uma nova amizade nunca faz mal. — deu de ombros.
O encarei por alguns segundos e rolei os olhos. Aquele papo de “querer ser meu mais novo amigo” não iria colar. Não mesmo.
— Eu não preciso da amizade de pessoas como você. — disse, em um tom sério. — Exatamente por você não parecer o tipo que quer só conversar.
O garoto piscou algumas vezes e engoliu em seco ao ouvir minhas palavras. Bom, pelo menos aquilo parecia ter o pego em cheio.
— Qual o seu problema, ? Você é rodeada de arrogância. Isso realmente faz parte de você? — Perguntou, agora sério. Pousei os olhos em seu rosto e percebi o menino me encarando, seus olhos focados nos meus. O silêncio pairou entre nós mais uma vez e aquilo me fez pensar. O baque agora tinha sido em mim e por um instante me perguntei se eu realmente era daquela forma. Eu não era arrogante. Não. Ou pelo menos achava que não.
Eu só não queria problema. Não naquele ponto.
E, bom, me esquivar dele seria um começo.
— Eu... Eu tenho que ir.
Engoli em seco e me virei, apertando as latinhas em minhas mãos. Começaria a andar, não fosse por ouvir a voz de mais uma vez.
? — O olhei de longe, sentindo meu corpo formigar. — Isso não combina com você.
Olhei para baixo por alguns segundos e respirei pesadamente, antes de virar outra vez e voltar para o calçadão o mais rápido que podia.
O que tinha sido aquilo? Nem eu conseguia explicar. Só conseguia sentir que eu precisava sair do meio de toda aquela multidão da orla, sentia meu peito comprimir e o turbilhão de pensamentos em minha mente.
Por um instante, quase acreditei que havia me tornado uma pessoa ruim. Eu só estava fazendo o certo. O certo para mim. Me esquivando do que fosse me fazer mal. Era o certo, não era?
Resolvi não olhar para trás, não queria encarar aqueles olhos de novo nem tão cedo. Desviei de algumas pessoas na frente e senti a areia quentinha de encontro aos meus pés, o que me fez fechar os olhos por alguns instantes.
A sensação me trouxe de volta à realidade.
De longe, pude avistar os três sentados na canga estendida no chão. com certeza falava algo engraçado já que e Jenna não se aguentavam em rir.
Assim que me aproximei, ouvi o estalo que meu irmão havia feito com a boca.
— Você demorou, hein. — comentou. Dei de ombros e estendi as latinhas que tinha em mãos. Cada um pegou a sua.
— Tinha muita gente por lá. — olhei discretamente para o píer e voltei a atenção aos três na minha frente. me olhava de uma forma diferente, parecia querer descobrir algo só pelo olhar.
— Eu acho que já podemos ir. — Jenna disse, fazendo um bico engraçado. a olhou e sorriu.
— Eu concordo. Já estamos aqui por um bom tempo. — olhei para que havia dito ajeitando os cabelos.
— Tudo bem. — se levantou, fingindo se espreguiçar. — Vamos lá.
— Vocês podem ir lá para casa. disse que tem uma sessão de filmes e eu acho que vocês vão gostar. — comentei, e pude ver batendo palminhas. Rapidamente, ajudei a pegar todas as coisas junto à minha prancha e logo já estávamos chegando ao estacionamento. Coloquei a prancha na parte detrás da caminhonete, amarrando-a com a cordinha e esperei as meninas subirem, já que haviam decidido ir ali atrás.
estava cantarolando ao meu lado, como sempre costumava fazer. Tinha suas bochechas rosadas pelo sol e um sorriso radiante no rosto. Eu sabia o que aquilo significava. Felicidade purinha.
Demoramos pouco tempo para chegar à casa. saiu do carro logo depois de mim e esperou que as meninas descessem do mesmo. Enquanto eu os esperava na calçada, percebi uma grande movimentação na casa ao lado. Um carro prateado estava estacionado em frente a ela e, de onde estava, podia ouvir o barulho de pessoas conversando. Foi então que avistei uma pessoa saindo da casa com um sorriso enorme no rosto.
Eu logo comecei a sorrir também e não pude conter a vontade de ir até ele.
— James?

Capítulo 7

Could you understand me?


Eu podia ouvir o canto dos pássaros claramente do lado de fora e isso só fazia com que eu ficasse ainda mais feliz naquela manhã. Não só pelo dia aparentar estar maravilhoso, mas também por eu estar mais animada que o normal.
Respirei fundo, com um sorriso nos lábios e me sentei na cama no instante em que uma música conhecida começava a ressoar na casa ao lado. Por um instante, quis saltitar pelo quarto por lembrar de algo. Na verdade, alguém.
James Follmann.
Quais as possibilidades de encontrá-lo logo ali, sendo meu vizinho e primo de , minha amiga? Não imaginava que iria encontrá-lo tão cedo.
Ontem, ao vê-lo sair da casa, automaticamente havia chamado seu nome e este olhou em minha direção, confuso. estava exatamente como ele, com uma expressão engraçada no rosto e começou a me bombardear com perguntas. Eu não estava ouvindo nem metade, até porque James vinha em nossa direção parecendo não acreditar na cena. se aproximou, cumprimentando o garoto e dizia que fazia anos que não o via. E era verdade. Não tivemos mais contato com ninguém daqui desde que nos mudamos para São Francisco.
Eu lembro bem de não ter conseguido me despedir do garoto e me senti mal por isso. James era um grande amigo, não só meu como de também.
Éramos um trio.
Depois de muito conversarmos, ele ainda tinha o sorriso enorme no rosto e não conseguia tirar os olhos de mim. Eu me sentia levemente constrangida, ele realmente estava olhando sem parar. E, com isso, não perdia tempo em me abraçar de lado. Era um abraço com gostinho de saudade. Eu sentia isso.
não conseguia acreditar, para ser sincera. Repetia um “que mundo pequeno!” toda vez que falávamos sobre seu primo e ele parecia estar adorando toda a atenção.
Jenna se despediu rapidamente, parecia um pouco incomodada desde o começo, já que estava dizendo poucas coisas. Com sua saída, conversamos um pouco mais antes de dar seus sinais de cansaço, logo o segui sentindo que também estava bem cansada.

Observei a casa ao lado pela última vez e me levantei, caminhando em direção ao corredor. Da cozinha, eu já podia ouvir Marie conversando com meu irmão, os vi assim que parei próximo ao balcão para prender os cabelos. estava jogado no sofá, com o celular posicionado em direção ao rosto, parecia estar se olhando pela câmera.
— Bom dia, . — Marie tinha um grande sorriso nos lábios. — Como dormiu?
— Bem, tirando o cansaço da praia. Eu acho que não passei protetor suficiente. — comentei, fazendo uma careta enquanto apontava para minhas costas que ardiam. Ela balançou a cabeça concordando e se virou rapidamente, depositando um copo de leite e um pote de vidro com biscoitos de chocolate.
— Eu fiquei sabendo que você reencontrou nosso vizinho. É verdade? — comentou, apoiando os braços na bancada. Balancei a cabeça concordando enquanto bebia um pouco do leite. — disse que ele não tirava os olhos de você.
Engoli em seco, quase engasgando. E no mesmo momento ouvi a gargalhada do meu irmão. Um idiota!
— Ela sabe que é verdade. — disse, sorrindo para o celular. Rolei os olhos e rodei o corpo no banco.
— O que é que você está fazendo? — indaguei, curiosa.
— Ele está assim desde cedo. — Ouvi Marie comentar e a olhei rapidamente, voltando meu olhar para . Ele agora fazia uma espécie de pose para o celular.
— Vem cá. — disse, ainda com os olhos no aparelho. Franzi o cenho e caminhei em direção ao sofá, me sentando no braço do móvel. terminava de digitar algo e, assim que terminou, virou o rosto em minha direção.
— Dá para chegar aqui? — bateu no lado vazio do sofá. — Eu estava tirando foto e agora quero tirar uma com você.
— Eu acabei de acordar. — disse, óbvia, apontando para meu rosto. — Não quero ninguém vendo meu rosto inchado por aí.
— Vem logo, . É só uma foto.
E antes que eu pudesse protestar, senti o puxão me fazendo cair de uma forma desastrosa em cima do mesmo. Nós dois rimos e foi o momento certinho em que ouvi o som do celular. Dei um tapa de leve em seu braço e me ajeitei ao seu lado, tentando ver como a foto tinha ficado, mas como estava sendo implicante, tentava tapar a tela do aparelho.
— Eu tenho uma surpresa. — comentou, rindo do meu desespero para ver a foto. — James vai passar aqui em alguns minutos.
— O quê? — perguntei, realmente surpresa. — Por quê?
— Esqueceu que ele é meu amigo, ? Nosso amigo. — disse, me olhando de lado. Respirei fundo e encostei meu corpo no sofá. Pelo visto, a amizade dos dois não tinha mudado. — O que foi? Eu achei que você achava o cara legal...
— E eu acho. É só que faz anos que não o vejo, , e ele nem me olhava dessa forma que você está falando para a vovó... — ele riu fraco. — É sério!
— Eu entendi, . Não se preocupe, ele não vai morder você... — deu de ombros. — Só se você quiser.
Fiz uma careta e joguei a almofada, que estava ao meu lado, em cima dele.
— Idiota.
Ele balançou a cabeça rindo e pude sentir seu beijo na lateral da minha cabeça. Marie já não estava mais ali, provavelmente tinha ido cuidar de suas flores no jardim.
Assim que apoiei minha cabeça em seu ombro, pude sentir seus dedos fazendo um carinho leve em meus cabelos. Se continuasse, provavelmente eu cochilaria, mas pude escutar a campainha tocar e dei um pulo, só então me lembrando que estava completamente descabelada e com roupa de dormir.
Antes de ouvir o questionamento do meu irmão, corri para o quarto, dando um jeito na minha aparência. Não que eu quisesse impressionar James. Não. Longe disso... Eu só tinha que estar apresentável.
Pus um short e uma blusinha leve, deixei o cabelo solto e respirei fundo. Não estava tão ruim assim.
Eu pude ouvir a risada diferente assim que abri a porta e, ao dar alguns passos, o vi de relance. James mostrava algo a meu irmão no celular e os dois pareciam bem entretidos. Os cabelos pretos estavam bagunçados como sempre deixava.
Resolvi caminhar até onde estavam e pude ver James levantando o olhar em minha direção.
— Oi, . — disse, abrindo um sorriso. Droga, eu tinha que agir naturalmente. Ele até podia ser meu tipo de garoto, se é que eu tinha um tipo, mas era apenas meu amigo de infância e eu não sentia nada. Talvez só um pouquinho de atração... James era charmoso, tinha que admitir.
— Hey. — sorri de canto, encostando o corpo no sofá. Ele ainda estava me olhando. — O que estão fazendo?
— James está planejando uma festa bem bolada, não é, cara? — o cutucou com o cotovelo e o mesmo afirmou. — Vai ser aqui do lado, olha que maneiro!
Não pude deixar de rir, meu irmão estava animadíssimo. E eu sabia o motivo, seria nossa primeira festa aqui. Não tinha por que não estar animado.
— Não tem um dia certo ainda, mas é sempre bom ir pensando nos preparativos. é uma das primeiras a se animar, com certeza vai pedir sua ajuda. — disse, soltando uma risada fraca.
— Então vai ser uma festa das grandes? Uau, não vejo a hora! — olhei para os dois, empolgada. estreitou os olhos.
— Nada de bebidas, mocinha. — cruzou os braços. — Não vou ser sua babá.
— Fica quieto. — rolei os olhos, fazendo James rir.
— Bom, eu sou o dono da festa, tenho que estar sóbrio de certa forma. — o olhei rapidamente, sem entender. — Posso ser a sua babá, se quiser.
tinha os olhos pousados em mim, parecendo estar segurando a risada e eu quis atirar a primeira coisa em sua cabeça, mas apenas fiquei em silêncio, sentindo o total constrangimento enquanto eles retornavam com o assunto da festa. Marie apareceu poucos segundos depois, perguntando se queríamos algo para comer e negamos, voltando a conversar. Não ficamos ali por muito tempo, já que James parecia atrasado para algum compromisso.
— Eu tenho que ir, é uma pena. Adoraria ficar um pouco mais. — observei seus olhos pousarem em mim. — Eu volto mais tarde, pode ser? E talvez também venha. Ela estava mesmo pedindo uma carona.
— Tudo bem, cara. Vamos estar por aqui mesmo, você sabe que pode pular o muro, qualquer coisa. — comentou, fazendo graça. Ele estava impossível hoje. James riu e se despediu do meu irmão, se aproximando e dando um pequeno beijo em minha bochecha. Respirei fundo e o vi se afastar.
— Já pode respirar, . — comentou, passando os braços por meu ombro. O soquei na costela e ri fraco.
— Você está uma coisa hoje, hein?

🌴


Deixei o volume da pequena caixinha de som um pouco mais baixo enquanto ajeitava a toalha no corpo. Baguncei o cabelo molhado como se isso fosse tirar o excesso d’água do banho e rapidamente pus a roupa que tinha separado. Um short jeans escuro e uma blusinha de alça fresca. Observei o céu pela janela e pude perceber que estava alaranjado, mostrando o fim da tarde.
But you walk around here like you wanna be someone else... — cantarolei, enquanto passava a escova no cabelo. Ouvi o barulho de um carro estacionando e segui até o corredor, me deparando com próximo à sala. — A chegou?
— Eu acho que sim. — balançou a cabeça, afirmando. — Você vem?
— Só um segundo.
Dei uma última olhada no espelho e segui até o corredor, respirando fundo.
— Onde eles estão, Marie?
Parei de andar assim que ouvi a voz. Não era James, muito menos . Aquela voz, era a voz do meu pai. Eu senti que ia colocar todo o almoço para fora, aquilo não podia estar acontecendo. E se fosse um pesadelo, eu necessitava acordar. O que ele estava fazendo ali, logo agora? Eu sabia que viria uma hora ou outra, mas não tão cedo. passou por mim rapidamente, parecendo não ter me visto parada no meio do corredor e pude ver que parou a uma distância considerável de Hector. Marie estava perto dos dois, como se fosse os separar de uma briga a qualquer momento e só então pude perceber uma pessoa ausente. Norah não estava ali.
— O que é que você está fazendo aqui? — a voz do meu irmão estava carregada de raiva. Engoli em seco e continuei onde estava.
, abaixe sua voz perto de mim. — Hector ordenou, tentando se aproximar, mas pude ver o garoto dar alguns passos para trás. — Vocês não podem simplesmente sair sem dar satisfação alguma. Norah está preocupada.
— Tão preocupada que nem aqui está. — disse, com certa ironia. — E ainda não respondeu minha pergunta. O que você está fazendo aqui?
— Eu quero levar vocês de volta. E vou levar... Onde está a ? — olhou em volta e, automaticamente, dei alguns passos para trás, tentando me esconder. Escorei o corpo na parede e fechei os olhos, sentindo o coração descompassar.
— Não interessa. Você já pode ir embora. — ouvi meu irmão dizer e seu tom era repleto de ódio. — Você não é bem-vindo aqui, então agradeceria se você saísse por aquela porta e não voltasse nunca mais.
, querido, se acalme. — Marie dizia, ainda calma. — Hector, eu disse que eles ficariam aqui por tempo indeterminado. Eles podem e vão ficar.
Respirei fundo, em partes aliviada. Eu sabia que Marie nos protegeria de toda maneira possível e faria tudo para que ficássemos bem.
ainda debatia com Hector e falava mais alto que ele. Estando ali parada comecei a me sentir culpada. Ele estava ali se defendendo, me defendendo e eu estava parada, apenas esperando que tudo acabasse logo. Eu não iria deixar meu irmão sozinho ali. Não dessa vez.
Puxei todo o ar possível e me aproximei vagarosamente, observando encarando Hector de forma mortal. Os olhos castanhos sem vida de Hector se redirecionaram para mim, analisando-me por alguns instantes.
. — pronunciou, ainda parado. me olhou sem entender, como se perguntasse o que eu estava fazendo ali. — Eu vim para...
— Eu sei. Eu ouvi. E não, nós não vamos voltar com você.
Eu o olhei, tentando não demonstrar nenhum sinal de fraqueza. Eu não fazia ideia de onde tinha tirado coragem e segurança suficiente para dizer aquilo.
Pressionei os lábios, sentindo o coração apertar e, por um momento, vi que ele havia ficado sem reação.
— Não é você quem decide as coisas por aqui. Arrume suas coisas e, , faça o mesmo. — virou o rosto para meu irmão. — Vamos sair em uma hora.
— Nós não vamos! Não a ouviu? — disse, quase em desespero. — Não vamos mais voltar para aquela casa, não com vocês dois lá. Você só pode ser um louco ao achar que, depois de me agredir, ainda voltaríamos. Eu não vou! E ela também não. Não ouse nos obrigar, Hector . Não ouse.
apontou para ele e passou as mãos pelos cabelos, descendo pela nuca e virando o rosto para trás. Eu nunca tinha o visto assim.
... — me aproximei dele, tentando acalmá-lo. Ele virou o rosto em minha direção e pude ver seus olhos vermelhos, denunciando que estava se segurando para não chorar.
Engoli em seco, sentindo meu coração comprimir ao vê-lo assim. Marie se aproximou de nós dois visivelmente preocupada.
— Eu acho melhor você ir, Hector. Não vê o mal que está fazendo a essas crianças? — observei minha avó dizer, com tamanha autoridade. Tinha o semblante sério.
— Eu não preciso da sua opinião, Marie. Não nesse momento, então não se pronuncie. — Hector disse, ríspido. O olhei, sentindo minha vista queimar. Como ele podia ser tão estúpido? — Nós vamos embora agora e eu não vou repetir. Vá para o quarto arrumar suas coisas e você — redirecionou seu olhar para mim. — Pare de ser imprestável e vá pegar as suas.
empurrou meu braço bruscamente, dando alguns passos para avançar em Hector. Eu já podia imaginar que aquilo aconteceria. Marie ficou ainda mais alerta e se aproximou do meu irmão, que estava de frente para Hector.
— Cale a boca! — rosnou, alto e claro. Eu não sabia o que fazer naquele momento, além de olhar a cena estática. — Você não tem o direito de falar algo assim da minha irmã. Você não tem o direito de estar aqui. Cale a merda da boca e vá embora, seu desgraçado!
O que aconteceu no instante seguinte seguiu como um déjà vu para mim, porém pior, eu diria. O estalo do tapa no rosto do meu irmão deixou o ambiente em silêncio por poucos segundos. Marie arregalou os olhos, puxando meu irmão para longe quando a única reação que eu tive foi atirar a primeira coisa que estava perto em cima de Hector. Um pequeno vaso de flor. Eu podia sentir meu rosto imerso em lágrimas, mas isso não me incomodava. Eu queria feri-lo. Feri-lo tanto quanto feriu a mim e a meu irmão.
Hector me olhou de uma forma assustadora. O vaso havia batido em seu ombro, se despedaçando por inteiro e caindo ao chão. Olhei para , que estava assustado e um tanto surpreso com minha reação.
Sai daqui. sibilou, ciente do que aconteceria. Hector tentaria fazer algo comigo. Eu não queria deixar meu irmão ali, eu não podia. Mas, de certa forma, se estava falando aquilo, ele sabia que era o certo. Ele sabia o que aconteceria. Não pensei mais e com a pequena brecha que Hector havia dado ao se distanciar um pouco, respirei fundo e tomei todo o fôlego, correndo em direção à rua.
Naquele momento, eu não me importei de o cabelo estar bagunçado pelo vento, não me importei de estar chorando e não me importei de ter pessoas ao meu redor provavelmente me olhando. Eu só precisava sair dali, só precisava estar longe.
E foi isso que eu tentei fazer.
Pedi licença a algumas pessoas, precisei empurrar outras e parei, tomando todo o fôlego que podia. Pude ouvir meu próprio soluço e pus as mãos no peito, como se aquilo de alguma forma fosse me acalmar. O fato era que eu não conseguiria me acalmar assim tão rápido e só tinha um único lugar o qual eu sabia que era capaz de trazer certa paz.
Balancei a cabeça, respirando fundo e tentando fazer meu choro cessar. Não seria fácil, eu estava desesperada àquele ponto. Eu tinha deixado meu irmão naquela casa, tinha o deixado com Hector e eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Eu tinha o deixado e aquilo estava me matando.
Eu podia voltar. Claro que podia. Mas voltar significava encarar os olhos magoados do meu irmão e eu não estava preparada para aquilo. Não naquele momento.
Antes de conseguir atravessar a avenida, parei em frente a algumas pessoas na calçada e puxei todo o ar, sentindo meu coração bater acelerado. Ergui o olhar, reparando a grande movimentação. Muitas pessoas passavam por mim, esbarrando e me encarando, mas não me dei ao trabalho de me desculpar ou algo parecido.
Aquilo não me importava. Eu tinha que sair dali.
Observei minhas mãos trêmulas e as levei em direção ao rosto, tentando limpar os vestígios de lágrimas que escorriam por ali. Pousei-as em meu rosto e fechei os olhos brevemente, já podendo sentir a maresia do outro lado.
Eu sabia exatamente aonde teria que ir.
Estava frenética. Frenética, desesperada e com o coração esmagado. Não podia negar que a minha maior vontade era de voltar e trazer comigo. Era o que eu mais queria, mas eu precisava ficar longe. Precisava entender o que estava acontecendo.
Enquanto seguia em direção à areia, ao tocá-la, pude sentir meu corpo descansar de imediato. E com aquela maresia do fim de tarde, abracei meu corpo, sentindo o vento gelado, mas reconfortante.
Eu não sei dizer ao certo quando tudo havia começado. Quando Hector havia se tornado tão bruto e Norah tão insegura. Ela costumava ser uma mulher forte, eu lembrava bem, mas o tempo fez essa armadura cair e assim mostrou uma mulher impotente e esgotada. Sua aparência a entregava.
Ela amava Hector. Era evidente e eu podia ver no brilho que seu olhar carregava antes. Podia ver que ela queria mudar aquilo para nosso bem, mas não havia conseguido.
Hector a amava também, mas o tempo havia o mudado. E como. Ele costumava ser um pai presente, engraçado e preocupado, mas tudo isso mudou junto com suas atitudes. Ele nunca tinha sido de beber muito e, quando bebia, seu humor não mudava, mas algo tinha mudado naquele homem. Eu não conseguia entender e muito menos. E, com isso, nós ficávamos a mercê de tudo aquilo.
Eu adorava Hector e o idolatrava quando pequeno, mas agora... Ah, agora ele era um homem desconhecido. Ele não era mais meu pai e nunca mais seria novamente. o odiava e eu o temia.
O temia ainda mais pela minha mãe, porque sabia que Norah não merecia nada daquilo. Ela era uma mulher maravilhosa. Uma mãe atenciosa, calma e fazia uma falta enorme.
Eu queria abraçá-la, queria tirá-la de lá... Queria tanto e não podia.
Pressionei os lábios, ainda com meus próprios braços ao redor do meu corpo, tentando me aquecer. Era tão difícil e eu só queria que tudo acabasse, nem que para isso Hector sumisse de uma vez por todas. A única coisa que queria era proteger as únicas pessoas que importavam para mim. e Norah.
E o resto não me importava.
Fechei os olhos, ouvindo as ondas quebrando ao fundo. Eu não podia negar que aquela praia era meu lugar favorito, aquela cidade era minha casa, realmente. tinha toda a razão em dizer que não deveríamos ter saído dali nunca.
Eu parei naquele momento. Não porque o vento estava me deixando mais leve ou pelo fato de precisar ter parado, mas sim por ter ouvido meu sobrenome. Eu não queria me virar, não queria nem saber quem era. Eu não precisava dar satisfações a ninguém naquele momento. Eu sequer estava reconhecendo aquela voz.
.
Respirei fundo e continuei andando, dessa vez, mais rápido. Eu queria fugir, eu precisava fugir! E, droga, tinha alguém me chamando! Eu não podia ficar em paz por pelo menos algum tempo?
Pude sentir meu rosto ainda sendo molhado pelas lágrimas que desciam. Talvez, talvez fosse coisa da minha mente conturbada. Talvez ninguém estivesse me chamando e eu, imaginando. Isso começava a fazer sentido, já que não havia mais alguém me chamando.
Mas, dessa vez, havia passos. Eu ouvia nitidamente. E assim que tentei me afastar, ouvi bem próximo.
!
— O que é?
Eu parei outra vez, bruscamente. Gritei com a voz embargada pelo choro. Eu precisava ter feito aquilo. Oh, como precisava. E como se não bastasse, bati meu corpo contra o da pessoa, sentido suas mãos segurarem meu braço, como se isso me impedisse de cair.
Ao capturar aquele olhar inexpressivo e confuso me encarando, quis correr. Queria tanto ter saído dali e sequer ter dado ouvidos à pessoa, àquela pessoa, mas minhas pernas não me obedeciam. Não conseguia me mover.
. — pronunciou. Ele tinha os olhos pousados em mim e respirou pesadamente. — Aconteceu alguma coisa? Eu te vi e te chamei, mas você não pareceu ter ouvido.
Olhei para trás, desejando que o garoto saísse dali a qualquer momento. Eu não queria que ele me visse assim, afinal, mal me conhecia e eu não sabia suas intenções. E muito menos sabia o porquê de ele estar ali, aparentemente querendo saber o que tinha acontecido.
Eu estava chorando. É claro que havia acontecido algo. O que é que ele estava pensando, afinal?
— Não aconteceu nada. — respondi, firme e impaciente. — Eu só tenho mania de ficar chorando por aí.
não pareceu ter percebido meu sarcasmo, já que ainda tinha os olhos sobre mim e me observava com certa... Pena? Ótimo, era a última coisa que eu precisava no momento.
— Olha, , por que não vai embora? Eu não preciso da sua ajuda e muito menos do seu olhar de pena.
Bufei e virei o corpo, andando a passos rápidos em direção ao píer, que não estava tão longe.
Eu só desejava que o garoto não viesse atrás de mim.
— Eu vi você atravessar aquela avenida sem nem se importar com os carros, . — o ouvi e fechei os olhos brevemente com o susto. Resolvi não o olhar, mas sabia perfeitamente que ele caminhava logo atrás de mim. — E você não para de chorar desde então. Eu tenho algumas suposições.
— Não quero saber das suas suposições.
O olhei significativamente e passei uma das mãos pelo rosto. Virei o mesmo, podendo ver as colunas de madeira do píer. Ele não parou, continuou me seguindo até lá.
— Talvez você esteja chorando por alguém. Essa pessoa pisou na bola com você, mas... — parou alguns segundos. — Você não parece ser o tipo de pessoa que se deixa abater por alguém, ainda mais se foi essa pessoa quem errou. — continuou. Parecia mais falar consigo mesmo, já que eu o estava ignorando. — Ou, talvez, você esteja com grandes problemas e não consegue solucioná-los. — Engoli em seco. Eu não queria encarar aqueles olhos esverdeados novamente. — Estou chegando perto?
O garoto soltou uma risada fraca, sem humor algum e eu não soube o que responder. Então apenas dei de ombros e parei embaixo do píer, com ele ao meu lado. De onde estava, eu podia enxergar aquele pôr do sol em tons alaranjados e algumas nuvens.
Não contive o pequeno suspiro, me arrependendo no instante seguinte, já que redirecionou seu olhar para mim e pareceu ter captado algo.
— Eu sei que, de alguma forma, você parece me expelir toda vez que me aproximo. — iniciou, virando o rosto para olhar o céu assim como eu. — Mas eu também sei que para alguém chorar daquela forma, tão perdida... É claro que tem alguma coisa. Eu sei que você não vai me dizer, afinal, não sou nem um conhecido. — olhou de relance e sorriu fechado assim que avistou o céu. O olhei, aproveitando, e pude perceber sua tranquilidade. Ele estava tentando me passar um pouco dela.
Os cabelos eram bagunçados pelo vento que passava por nós e ele sequer se preocupava em arrumá-los.
Deixei que o silêncio tomasse conta e suspirei mais uma vez. Eu não devia, sabia que não devia falar nada para ninguém, mas eu precisava colocar tudo aquilo para fora, eu precisava me aliviar e tirar todo aquele peso que eu estava sentindo. Eu não sabia se aquilo ia acontecer de novo, muito menos se ia aparecer de novo ou se simplesmente fosse sumir depois. Eu podia aproveitar aquele momento e dizer tudo o que não me cabia mais.
— Eu acho que as duas suposições se encaixam. — comentei, baixo. Ele virou o rosto, aparentando estar surpreso, mas não sorriu. Parecia querer saber mais.
Resolvi me sentar ali mesmo na areia, sem me preocupar em sujar o short. Eu tinha a impressão de que aquilo iria demorar.
logo fez o mesmo e virou o rosto em minha direção, deixando os olhos em cima de mim, como se me incentivasse a continuar.
Respirei fundo e apoiei os braços no joelho, deixando meu rosto encostado neles.
— Eu sempre tive uma família incrível, uma mãe maravilhosa e um pai presente... , meu irmão, o adorava e Hector era como uma fonte de inspiração para ele. — desviei meu olhar do seu, procurando qualquer outro lugar para focar. Eu sabia que ia começar a chorar de novo. — Mas o tempo começou a mudar isso e as coisas começaram a ficar... Estranhas e difíceis. Hector nunca foi de beber, nunca. Nunca foi de chegar em casa bêbado atacando todos nós e isso começou a acontecer com frequência. Ele fazia hora extra no trabalho só para não ir pra casa, acredita? — balancei a cabeça, pressionando os lábios. assentiu, totalmente atento. Ele estava mesmo prestando atenção. — Não tínhamos mais a atenção dele e eu sabia que Norah era a que mais sofria. Então, as coisas começaram a ficar mais sérias. — engoli em seco, tentando não relembrar tudo o que tinha acontecido. — Ele nunca foi bruto, , nunca... — senti os olhos arderem e antes que eu pudesse impedir, já estava chorando outra vez. — Ele bateu tanto nela que eu não... Eu não...
Balancei a cabeça negativamente, tentando continuar. Era impossível com todas as lembranças e sensações ruins à tona. Eu odiava me sentir vulnerável na frente de qualquer pessoa, odiava mostrar que estava sendo fraca, mas não conseguia parar.
Foi então que senti sua mão pousar em meu braço, aquecendo o local. O olhei por um instante, erguendo metade do rosto já que o mesmo estava enfiado entre os meus braços. Ele assentiu, triste, e retirou a mão de onde estava.
— Está tudo bem. — disse, em tom ameno. — Você pode fazer isso se te aliviar.
Pude sentir meu coração palpitar por alguns instantes.
— Desculpa, pode continuar.
estava agindo diferente. Parecia realmente querer compreender minha situação e prestar atenção em toda a minha história. De certa forma, eu ainda estava com o pé atrás. Eu não o conhecia, não sabia ao certo se era confiável.
Respirei fundo, passando uma das mãos pelos olhos, os desviando.
— Ela ficou mal e com isso fiquei pior. Não por ter sofrido alguma agressão, mas por ter presenciado como Norah ficou. Quebrou meu coração. — suspirei, sentindo um aperto enorme no peito. — não aceitou, ele quis debater. Na medida em que ele batia de frente, ele apanhava também e eu não podia fazer nada... Nada. Ele simplesmente não deixava eu me aproximar, ele não queria que Hector colocasse as mãos em mim.
— Creio que ele sabia o que estava fazendo. — interrompeu-me. — Eu devo imaginar que... Seu irmão não iria se perdoar caso acontecesse algo com você. Não é isso?
O olhei concordando e pude me permitir sorrir um pouco ao lembrar do quão protetor conseguia ser.
— Ele sempre ficou do meu lado, até hoje. Eu não queria deixá-lo lá, eu não podia. foi a única coisa boa que me restou no meio de todo esse caos. — assentiu ao ouvir minhas palavras. — Hoje Hector apareceu querendo nos levar de volta e ele simplesmente o enfrentou. Eu achei injusto vê-lo lá, defendendo nós dois, então eu apareci e ele ainda me olhou como se aquilo fosse errado. — balancei a cabeça negativamente, relembrando.
— Da forma que diz, realmente são ligados. — disse, simplesmente. — Isso é bom. Não sou dessa forma com meu irmão.
— Não? — perguntei. concordou e se calou, dando a entender que não comentaria mais sobre o assunto. — Bom, sou muito grata por tê-lo como irmão.
— Ainda bem que o tem. — comentou, sorrindo de canto. O acompanhei. — É uma situação bem complicada, realmente, . Mas, vendo por outro lado... Você tem boas pessoas a seu redor. Seu irmão, que está te defendendo nesse momento, sua mãe, que apesar de tudo ainda quer o bem de vocês, não é? — continuou a me olhar. — É uma questão de tempo até tudo melhorar de verdade.
Balancei a cabeça, concordando com ele, porque, bom... Ele tinha razão.
— Eu sei que não sou bom com conselhos, mas espero ter ajudado. Ao menos um pouco. — virou o rosto em minha direção e sorriu de canto.
— Não posso concordar mais.
O garoto respirou fundo e encarou o mar à frente.
— Você não acha isso incrível?
Pisquei algumas vezes, sem entender sua pergunta.
— O quê?
Ouvi sua risada rouca junto à maresia que passava por nós e, por um momento, achei que aquela combinação seria uma melodia. Balancei a cabeça, espantando os pensamentos.
— Isso. O jeito como conversou e se expressou. É completamente diferente da em que conversei no píer outro dia.
— É estranho, . Eu só precisava desabafar um pouco e você acabou me encontrando aqui. — comentei.
— Eu admito que fui um pouco inconveniente ao te parar. — virou seus olhos em direção aos meus. — Achei que fugiria assim que me aproximei.
— Bom, se você quer saber, minha vontade foi muita. — continuou me encarando. Fechei os olhos brevemente. — Não me entenda mal, em um momento como esse, eu só queria ficar sozinha.
— Como você se sente agora? — perguntou, com seu semblante mais sério.
Desviei o olhar assim que percebi que ele não tiraria os seus de mim até que eu respondesse. Não sabia ao certo o que dizer e ao sentir que aquela força que esmagava meu peito havia sumido, eu me senti... Bem. Eu me sentia muito aliviada.
— Eu me sinto bem melhor. — mordisquei os lábios.
Ele balançou a cabeça e percebi seus lábios se curvando em um sorriso.
— Fico feliz em saber, boom.
Rolei os olhos com aquele apelido e não rebati. Não rebati porque sabia que aquele momento não precisava daquilo. Precisava só de nosso silêncio e o barulho das ondas quebrando ao longe.
Observei o sol quase indo embora. O céu não estava tão claro como antes, mas ainda dava para vislumbrar os raios alaranjados no céu.
— Vou te contar uma coisa. — disse, quebrando o silêncio. Colocou os braços para trás, deixando o corpo apoiado neles, o que, consequentemente, o fez ficar mais perto.
— O que é?
Ele olhou de relance para mim e, com o queixo, apontou em direção ao horizonte, onde o sol se punha e o céu ia escurecendo.
— Cada pôr do sol nasce e se põe de uma forma única. Você pode apreciar quantas vezes quiser, mas sempre é singular. — comentou, como se dissesse mais para si mesmo. — Você não vai ver um igual a esse amanhã e muito menos um igual ao de amanhã nos outros dias. Consegue entender? É excepcional. Como esse momento. Você não vai esquecer. — E assim, olhou em minha direção. Abaixei a cabeça, sem saber como agir.
— Preciso te agradecer por ter me ouvido. Não precisava ter ficado aqui.
Endireitou sua postura e assentiu.
— Pode ser difícil de acreditar, , mas eu realmente quis te procurar. Se lembre que por mais que as coisas estejam ruins e que você ache que nunca dá para aguentar, sempre dá. Você sempre encontra sua âncora. — O encarei repentinamente ao ouvir suas palavras. Aquilo parecia ter sido mais do que sincero. Parecia como se entendesse do que falava e estava certo daquilo. — Você é uma boa pessoa.
Continuou com seus olhos em mim enquanto dizia.
— Pode me chamar de . Se quiser. — disse, baixo, como se parte de mim relutasse ao dizer isso. Mas, de certa forma, era o mínimo que eu poderia oferecer pelo que o garoto havia feito naquela tarde.
. — disse. — De qualquer forma, eu prefiro boom. E eu não vou parar de te chamar assim.
— Tudo bem. Você venceu.
arqueou as sobrancelhas, me fazendo ficar curiosa. O que será que ele estava pensando? Por um instante, a brisa gelada que havia passado por mim fez com que meus pelos arrepiassem, fazendo com que esfregasse os braços levemente. Já havia anoitecido, as estrelas radiavam o céu.
E eu estava apenas com uma blusinha de alça fina.
Eu não fazia ideia de que horas eram. Já estávamos ali há um bom tempo, tanto que podia ver aquela enorme constelação no céu.
se levantou, me fazendo querer questionar seu ato. Ele iria embora? Alertei-me, pois eu deveria ir para casa. Com esse pensamento, meu coração começava a palpitar. Eu pedia silenciosamente para que Hector não estivesse mais lá e para que meu irmão e minha avó estivessem bem.
Pisquei algumas vezes, olhando para o garoto ao meu lado que já estava sentado, mas segurava uma flanela preta nas mãos e me olhava de forma curiosa. Eu não sabia de onde aquela camisa tinha surgido, provavelmente estava com ele todo esse tempo e eu não tinha percebido.
— Você está tremendo de frio. — estendeu a camisa. Eu não sabia se aceitava, de fato. Aquilo significava algo? Eu esperava que não.
— Não precisa, de verdade. Não demora eu vou pra casa e não é tão longe daqui.
— Pode pegar. Não me faz falta. — interrompeu, dizendo calmo. — Não acho que seja justo ver você dessa forma e não fazer nada.
Dito isso, se aproximou, depositando a camisa de leve em meus braços. Eu realmente estava com frio, tinha que admitir, então logo puxei a flanela, ajeitando-a em meu corpo. De imediato, senti me aquecer.
O olhei e ele fez o mesmo, sabendo que eu estava agradecendo daquela forma. Eu não podia imaginar que teria uma tarde daquelas justamente com o cara que eu havia enxotado todo o tempo. Tudo bem, não conversamos o suficiente para que eu agisse dessa forma, mas eu realmente não tinha certeza se poderia confiar em alguém tão cedo.
— Eu vou embora. — franziu o cenho, como se ainda fosse cedo. — Não sei que horas são e não sei o que pode estar acontecendo.
— Tudo bem. Vou com você até a orla.
Balançou a cabeça concordando e se levantou primeiro que eu, ficando de pé em minha frente.
Passei uma das mãos pelos olhos, lembrando de que só ele sabia de toda aquela situação. Ele estava mais a par da situação do que a própria . E ela era minha amiga.
... — virou o rosto, esperando que eu continuasse. — Não fale nada do que aconteceu aqui pra alguém, certo?
Ele pareceu me analisar por alguns segundos e balançou a cabeça.
— Não se preocupe, . Será nosso pequeno segredo.
O olhei, ecoando suas palavras em minha mente.
Engoli em seco. Eu queria tentar esconder o fato de estar me sentindo mais leve depois desse fim de tarde um tanto... Inesperado. era um cara agradável. Só conseguia me lembrar perfeitamente de dizendo que ele não valia. Agora parecia um pouco contraditório, mas, de momento, eu não queria pensar naquilo.
Eu estava bem, mais leve e com o coração menos pesado.
E eu não podia acreditar que era por conta de um .


Capítulo 8

O céu estava azulado e o dia parecia bem diferente. Assim como meu humor. Eu parecia mais aliviada e, de certa forma, estava. O peso do dia anterior parecia ter sumido, assim como toda aquela tensão que eu sentia. Ao chegar à casa, depois daquele fim de tarde meio conturbado, notei que tudo estava mais calmo. estava em seu quarto, bem. Parecia em paz consigo mesmo, apesar de toda a confusão com Hector. E com isso eu só conseguia entender que ele não queria conversar naquele momento. Já Marie, via sua novela e me deu um sorriso reconfortante ao ver que eu havia chegado bem.
Respirei fundo, uma última vez, e observei os pássaros rodopiando pelo céu como se fosse sua única diversão.
Não pude deixar de olhar para meu irmão e, ao ver a cena, sorri automaticamente. Naquele momento, eu percebi que estando quieto em seu quarto na noite passada o garoto se acalmava, de sua forma.
Era bom saber que eu não era a única que transparecia estar mais calma por ali.
, que ainda estava sentado dentro do carro, tinha a cabeça encostada na poltrona e cantarolava baixo a música que saía do rádio. Parecia estar em outro mundo e não era o nosso.
Os olhos azuis se redirecionaram para mim e um sorrisinho de canto surgiu em seus lábios.
Can you feel it, got my head in the clouds and I can´t come down... — balançou a cabeça de acordo com a música e deu uma piscadinha, o que me fez rir fraco. — Can you feel it, no I won’t come down…
O olhei por mais alguns segundos, observando o cabelo desarrumado como de costume e as bochechas coradas pelo calor que emanava àquela manhã. Ele ficava adorável de qualquer forma. Pude ouvir algumas risadas e virei o rosto para o outro lado do estacionamento. Pisquei algumas vezes, observando a cena devagar. Algumas garotas estavam recostadas ao carro prata com outras ao seu redor. Aquele carro me era familiar, não o carro em si, mas o capô cheio de glitter e a garota que estava encostada nele. Podia jurar que conhecia aquela menina.
Virou o rosto em minha direção, tirando uma mecha loira, quase branca, dos ombros e arqueou as sobrancelhas, como se perguntasse o porquê de eu estar a encarando.
Respirei fundo e abaixei o olhar. Se eu continuasse a olhando, seria bem capaz dela vir tirar alguma satisfação. Fazia bem o tipo da garota e eu não queria bater boca com alguém por ali nem tão cedo.
Pressionei os lábios e abaixei o olhar, focando minha atenção na parte aberta da minha mochila, onde uma pequena parte da flanela xadrez estava aparecendo. Eu tinha que entregar de volta a . Aquele pequeno ato me fez relembrar o dia anterior. Ele estava diferente desde a primeira vez em que o encontrei. Não era o garoto arrogante que aparentava ser, nem mesmo o típico garoto que puxava assunto por algum motivo. Eu estava surpresa, admito. Não imaginava nunca que alguém como ele me ajudaria.
Ergui o olhar, procurando o garoto no meio de toda aquela multidão.
.
Ao ouvir meu apelido, virei o rosto, piscando rapidamente ao ver os olhos escuros de James praticamente colados aos meus. Ele soltou uma pequena risada com o meu susto e se afastou minimamente, ainda com o sorriso de canto.
— Eu estava te chamando, você parecia estar com a mente em outro lugar. — disse.
O olhei por mais alguns segundos, até perceber que ele estava, realmente, falando comigo. Dei de ombros, tentando disfarçar e sorri. Por trás do garoto, conversava de forma animada com meu irmão, junto a Jenna.
— Vocês chegaram tem tempo? — perguntei.
— Na verdade, não. Deve ter uns cinco minutos. — apoiou o braço na porta do carro e voltou a me olhar. Balancei a cabeça, assentindo, e desviei o olhar, ficando um pouco envergonhada já que ele parecia não se cansar de manter seus olhos em mim. — Então... Hoje teremos treino depois do intervalo. Se quiser, pode ir com a . Ela não perde um, sabe como é, sempre leva a Jenna. Provavelmente, vai te arrastar também.
Dei uma leve risada, o olhando. Ele sorriu.
— Tudo bem. Vou estar lá. Espero que seja tão bom como ela tem mencionado.
James arqueou a sobrancelha, parecendo não acreditar no que eu havia dito. Em seguida, passou a mão pelo cabelo e riu fraco.
— Você vai se surpreender, . Aliás, todos sabem que sou o melhor por aqui.
— Depois do . — ouvi a voz de Jenna atrás dele, que se virou, a olhando. Parecia estar com certo nojo. — Não faz essa carinha, Jimmy, você sabe que é verdade.
Ela se aproximou, apertando uma de suas bochechas.
quem? — perguntou, saindo do carro.
Jenna riu ao ouvir a pergunta.
— Fala sério, Jenna. Você sabe que o James é bom. O não chega nem perto. — comentou, fazendo cara de poucos amigos no final da frase. Bufou minimamente, parecendo irritada. Esse ato despertou algo em mim. A expressão que James usara ao ouvir o sobrenome do rapaz e o tom de voz com o qual havia dito não era lá aquelas coisas. Tinha alguma coisa estranha relacionada ao . E não parecia ser de agora.
, o armador do Seahawks...
— É um todo musculoso? — perguntei, curiosa. Pisquei algumas vezes, lembrando do rosto do rapaz vagarosamente. Cabelos castanhos bagunçados, olhos castanhos esverdeados e um corpo torneado. Ele era bonito, para ser sincera, mas não fazia nem um pouco o meu tipo.
Ela balançou a cabeça rapidamente e passou os olhos por , que parecia não se interessar no assunto. Ou disfarçava muito bem observando suas unhas.
— OK. — iniciou, parecendo não entender nada. — Nos encontramos na quadra. — fechou a porta do carro e o trancou. — Agora temos aula, então melhor irmos.
Jenna bufou alto, mas sorriu em seguida.
— Certo. Eu tenho aula com James agora e vocês? — perguntou, ajeitando a bolsa em seu ombro.
— Eu vou com a para a biblioteca. Temos filosofia e a professora resolveu inovar. — deu ênfase, o que me fez rir junto aos outros três. — Fala sério, ninguém vai ficar quieto lá.
— Para de reclamar, garotinha. — apertou sua cintura e ela fez um barulho engraçado, rindo em seguida. — Eu fico sozinho. Vejo vocês depois. Olha só, metade da escola já entrou.
Olhei ao redor e pude constatar que éramos os poucos por ali. se aproximou enquanto Jenna puxava James rapidamente.
Rolei os olhos, sentindo um leve puxão de . Não pude deixar de resmungar.
— Ótimo. Eu adoro chegar atrasada! Vamos logo.

🌴


Observei o corredor não tão cheio como costumava ficar, o que era óbvio, já que estávamos atrasadas e os poucos alunos no local também. caminhava apressadamente ao meu lado, comentando como odiava chegar atrasada às aulas, já que assim não encontrava lugares para se sentar. Assim que atravessamos o grande pátio, alcançamos a enorme porta de madeira da biblioteca e pude ouvir a voz alta e clara da professora. — Boa sorte com ela. Procure algum lugar. — disse, segurando a maçaneta e empurrando a porta devagar. Poucos olhares vieram em nossa direção e assim que a professora nos viu, esticou uma das mãos, apontando o lugar onde deveríamos nos sentar. Havia duas grandes mesas redondas de madeira, os alunos estavam sentados ao redor. Por falta de sorte, as cadeiras vazias estavam separadas e em mesas diferentes. bufou e seguiu em direção a uma próxima a professora, se sentando. Passei os olhos rapidamente pelo lugar e avistei a segunda mesa, mais afastada, logo segui até ela, assim me sentando também. Enquanto a professora voltava a retomar o assunto da aula, abri meu caderno e assim comecei a rabiscar qualquer coisa por ali. Com o silêncio que estava ao redor, ergui o olhar minimamente, procurando alguém conhecido e a única pessoa que me vinha em mente era . Pude perceber que ele não estava por ali, mas eu nem sabia se realmente tinha aquela aula comigo. Eu estava o procurando sem motivo aparente além da flanela xadrez, o que não era muita coisa, afinal de contas. E lembrar dele me fazia lembrar do dia anterior, das suas palavras e da forma que havia tentado me aconselhar. Eu nunca imaginaria isso dele e nem mesmo esperava tamanha bondade. Balancei a cabeça, espantando os pensamentos, e tracei mais um risco no caderno, tentando me entreter com alguma coisa já que as palavras da professora não entravam em minha mente. — Ei. Ouvi um sussurro e virei o rosto para o lado, tentando reconhecer alguém, porém todos estavam concentrados na professora e no quadro negro. Vagarosamente, virei para o outro, podendo encarar grandes olhos verdes em minha direção e, por alguns segundos, senti o coração palpitar. me olhava divertido e tinha um lápis nas mãos, parecendo entender bem a aula, já que seu caderno estava cheio de anotações.
O olhei por mais alguns segundos, até que ele apoiou o cotovelo na mesa e se aproximou um pouco mais.
, certo? — perguntou. Balancei a cabeça, concordando. — Eu percebi que você está um pouco perdida. Quer dar uma olhada nas minhas anotações?
Desviei meus olhos dos seus para olhar seu caderno e pensei por um instante. A única imagem em minha mente era do garoto passando com seu long por mim e derramando meu suco. Por que agora estava agindo de uma forma amigável assim?
— Ah, não precisa. Eu vou... — sorri minimamente. E, como um estalo, algo brilhou em minha mente.
Lembrei de comentando do garoto, suas caras e bocas e seu desprezo por ele. Eu já havia percebido que aquilo não era normal e, obviamente, tinha um motivo. E com a aula da professora em que a matéria nem entrava na cabeça, seria ótimo me entreter tentando descobrir.
ainda tinha os olhos em mim, esperando minha resposta.
— Eu vou pegar com minha amiga. . — desviei meu olhar para a garota sentada mais à frente, anotando algumas coisas. Ela parecia estar focada em seu caderno. Voltei a olhá-lo e ele ainda tinha os olhos na garota. Assim que percebeu que eu já não a olhava mais, pigarreou baixo ao ver que eu o encarava.
— Claro. A . — assentiu. — Ela é esperta, sempre entende a matéria com facilidade.
Estreitei os olhos, inclinando o rosto para o lado.
— Vocês já se conhecem?
anotava algo em seu caderno e assim que ouviu minha pergunta parou, como se tivesse acabado de se tocar que havia falado demais.
Negou veemente.
— Todos a conhecem. Não é tão difícil saber quem é por aqui. E agora não é difícil saber quem é você também. — pousou os olhos em mim. — .
Engoli em seco assim que ele pronunciou meu sobrenome.
Agora o rapaz me olhava divertido.
— Não se preocupe. Até agora só ouvi coisas boas a seu respeito. — completou.
— Bom... Eu já não posso dizer o mesmo.
Ele soltou uma risadinha e deixou o lápis em cima de seu caderno.
— Eu presumo que não tenha mesmo. — olhou para frente, focando em apenas uma pessoa. Olhei na mesma direção. nos olhava com uma feição estranha, parecia tentar entender o que conversávamos. Rapidamente, se virou para frente. — Mas, se quer saber, aqui na Ocean há muita gente que curte inventar uma boa história. Não dá pra acreditar em tudo o que falam por aí.
— Ah.
Os olhos verdes do garoto estavam em cima de mim. Idênticos aos de . Logo me lembrei dele.
— Hum... ?
— Sim?
Ele tinha voltado a escrever e sua atenção estava toda no caderno.
— Não que eu esteja realmente interessada em saber, mas seu irmão veio hoje? Eu não o vi hoje e preciso entregar algo a ele.
respirou fundo e balançou a cabeça, negativamente.
— Não. Ele não pôde vir hoje. Quer que eu entregue? — virou o rosto em minha direção, de relance.
— Não, tudo bem. Posso entregar outro dia.
Dei de ombros e abaixei o olhar, esperando ansiosamente para que aquela aula acabasse logo. O estranho de toda aquela conversa foi parecer realmente ser um cara simpático e amigável, mas o mais estranho foi sua feição ter mudado completamente no momento em que mencionei a falta de seu irmão. Será que havia acontecido algo?
Eu não queria saber mesmo — pensei.
Dei uma pequena olhada no relógio que ficava acima do quadro negro e suspirei. Filosofia não era lá uma das minhas aulas preferidas.
Depois de mais alguns minutos, pude ouvir o sinal sendo anunciado. Os alunos se levantaram rapidamente, guardando suas coisas. já estava de pé e assim que terminei e me levantei também, ele se virou para mim.
— Sua amiga devia saber que é feio ficar prestando atenção na conversa alheia. — comentou, rapidamente, e deu uma piscadinha, saindo da biblioteca em seguida. Respirei fundo e revirei os olhos. deveria saber ao menos disfarçar um pouco. Olhei para a garota e ela desviou o olhar para o caderno, guardando-o em sua mochila.
Enquanto a esperava para sair do lugar, tentei pensar em algo que poderia ter acontecido para que os dois não tivessem mais contato. Nada me vinha em mente.
Observei a loira parar ao meu lado e seguimos em direção ao corredor, esbarrando com algumas pessoas.
— E então? — perguntou.
— O quê? — a olhei de relance, piscando algumas vezes. Sim, eu estava fingindo que não havia acontecido nada. Não custava tentar, não é?
— Ah, , eu não acredito que você vai bancar a sonsa comigo. — disse, óbvia. Soltei uma pequena risada com seu ato. — Você e o . O que falavam?
Segui até meu armário, o abrindo e depositando alguns livros que estavam na mochila.
— Por que está tão interessada, hein?
— Só pelo fato de que vocês cochichavam entre si o tempo todo. Isso chama a atenção de qualquer um. — deu de ombros, encostando as costas no armário. Enquanto trancava o cadeado, olhei de soslaio para a garota, que tentava se distrair ao redor, voltando seus olhos em mim.
— Até de você, que estava sentada praticamente ao lado da professora. Qual é, . O que ‘tá rolando?
Fez uma careta e rolou os olhos em seguida.
— Não ‘tá rolando nada, ! Mas tudo bem, se não quer me contar... — levantou os braços, em inocência.
Soltei uma leve risadinha.
— Não estávamos falando nada demais. Ele se ofereceu para emprestar suas anotações, mas eu neguei. Disse que ia pegar com você.
E lá tinha outra careta em seu rosto. Parecia nada contente com a situação. Estreitei os olhos e então resolvi jogar um belo verde.
— De qualquer forma, ele pareceu ser um cara bem legal. Você não percebeu isso também?
Me preparei para ir em direção ao refeitório e a olhei, observando sua expressão. Ela me olhava como se quisesse dizer “Você está louca, garota?”.
— Garotas. — senti um braço ao redor de meus ombros e tomei um leve susto até ver James ao meu lado. Jenna apareceu em seguida.
— Que cara é essa, ? Parece até que comeu algo e não gostou. — comentou, rindo. apenas revirou os olhos e voltou a prestar atenção nas pessoas que passavam, mais uma vez. — O ainda não saiu?
— Não sei. Ele ainda não apareceu.
Jenna varria o local com os olhos, provavelmente, à procura do meu irmão, totalmente inquieta. O que era meio esquisito, porque a garota parecia querer passar mais tempo ao lado dele do que de nós.
James estava parado ao meu lado, mexendo em seu celular. Tinha toda sua atenção focada no aparelho.
— Você não tem aquecimento antes do treino? — se aproximou rapidamente, arrancando o celular da mão do primo. Soltei uma pequena risada, vendo a cara de desentendido do menino.
— Tenho, mas é um horário depois do intervalo. Deixa eu ver que horas são. — avançou até a loira, tentando tirar o celular dela. Ela riu do ato do menino e esticou o aparelho até ele.
— Eu acho melhor você se apressar, gênio. O intervalo é daqui a alguns minutos.
Os olhos do moreno se arregalaram no mesmo instante. Só foi o tempo dele bagunçar os cabelos de e estalar um beijo em meu rosto, antes de sair correndo, dando um esbarrão em Jenna. Certeza que meus olhos estavam arregalados demais para que eu pudesse dizer algo.
— Mal educado! — Jenna falou, alto, rolando os olhos. — Tinha que ser seu primo.
— Cala a boca.
colocou o dedo médio, fazendo uma careta engraçada, o que arrancou gargalhadas de mim e Jenna. Olhei ao redor rapidamente antes de seguirmos até o refeitório. Talvez por lá eu encontrasse meu irmão.
— Não é por nada não, mas eu acho que alguém aqui está conquistando nosso garotão. Vulgo, Jimmy.
Foquei minha atenção em Jenna, observando a garota, que olhava para qualquer outro canto, tentando disfarçar.
— O quê? Você acha que aquele beijo na sua bochecha não foi nada? — agora entrava na conversa, colocando pilha.
Rolei os olhos.
— E foi exatamente isso. Nada. Parem de inventar coisas.
Balancei a cabeça negativamente e entrei no refeitório com elas, seguindo direto para pegar algo para comer. Era estranho ter James de volta à minha realidade. Ainda mais agora, depois de tanto tempo e, principalmente, por conta das olhadas que o menino estava me dando. Nem preciso dizer o quão sem jeito eu ficava, não é?
Resolvi pegar uma fruta qualquer, já que não estava com tanta fome assim e esperei pelas duas, enquanto vasculhava o refeitório atrás de . Onde esse garoto tinha se enfiado, afinal?
Dei de ombros, resolvendo não me preocupar muito. Até porque, já conhecia bem aquela escola, então logo nos acharia.
— Podemos ir para as arquibancadas. É o tempo que o jogo deve começar. — comentei, ainda comendo a fruta em mãos.
— Olha só, está doidinha para ver nosso Jimmy. — ouvi dizer, baixo, e fiz uma careta, não deixando de rir, já que a risada alta de Jenna invadiu o corredor.
Andamos lado a lado até a quadra da escola, apesar de eu particularmente não estar prestando atenção na conversa das duas. O fato era que eu tinha que admitir para mim que não conseguia tirar toda aquela conversa do dia anterior da cabeça. Não conseguia acreditar que havia me aberto daquela forma, sem nem ao menos conhecer mesmo o garoto. Agora ele sabia tudo o que estava acontecendo. Tudo o que tinha acontecido.
E isso, de certa forma, me dava medo. Ninguém além de sabia.
Fechei os olhos brevemente e respirei fundo. Não iria mais pensar em nada daquilo, não agora.
Respirei fundo mais uma vez e abri os olhos, engolindo em seco em seguida, assim que vi aquela cena. Bem ali na minha frente.
James tinha a bola nas mãos e a quicava no chão algumas vezes, até erguê-la no ar, jogando-a para a cesta, mas não era isso que eu estava observando.
Não mesmo.
Follmann tinha a camisa levantada um pouco mais para cima de seu umbigo, o que mostrava, nitidamente, seu abdome definido. Eu conseguia ver todos os gominhos bem definidos. Que visão! Eu devia estar parada como uma estátua na entrada da quadra. Ele tinha mudado bastante, não era mais aquele garotinho de anos atrás mesmo.
— ‘Tá fazendo o que parada aí? — Jenna parou ao meu lado e foi aí que eu voltei à realidade. A olhei um pouco sem graça e balancei a cabeça negativamente. Ela apenas olhou na mesma direção que eu e deu uma risadinha baixa. — Ah, claro. Só não esquece de limpar. Tem um pouco de baba escorrendo.
Pisquei algumas vezes e voltei a olhar para frente, podendo vê-lo virando o rosto e dando um meio sorriso acompanhado de um aceno.
Resolvi ignorar e acompanhei a loira até as arquibancadas, onde estava sentada junto a que, não faço ideia de como, apareceu ali.
Algumas pessoas já começavam a se aproximar e se sentavam um pouco mais abaixo e conversavam animadamente.
Pareciam estar esperando por aquele treino.
— Você demorou. — comentei, me sentando ao lado dele.
O garoto sorriu fraco e abocanhou seu sanduíche.
— Sanders nos enrolou com uma atividade extra. — disse, com a boca cheia.
— Urgh. — murmurou, o que me fez rir.
Encostei o corpo na parede, me ajeitando enquanto observava os outros jogadores se aquecendo na quadra. Jenna parecia fazer o mesmo que eu e, assim que olhou em minha direção, se aproximou, apoiando o corpo na parede também.
— É uma bela visão, não é? — Fiz uma careta, rindo baixo.
— Tenho que concordar. Não achei que encontraria isso por aqui nem tão cedo.
— Sua escola antiga não tinha? — arregalou os olhos. — Que pecado.
Balancei a cabeça ainda rindo e a empurrei pelo ombro. Ela respirou fundo por alguns segundos e se silenciou. Parecia estar pensando em algo.
— Na primeira vez que você viu o James... Tive a impressão de que já o conhecia. — iniciou. — E depois me disse que vocês realmente já se conheciam. Há um bom tempo. — riu fraco, observando o movimento na quadra. — Já chegaram a namorar?
Eu estava terminando a bendita fruta naquele momento e, no outro, um pedaço dela estava voando arquibancada abaixo. Algumas pessoas olharam para trás e Jenna desatou a rir.
— Claro que não! — disse, exaltada.
— Ei, calma! Foi só uma pergunta, não precisava ficar nervosa. Além do mais, quem é que não quer algo com o Follmann? Ele é um pedaço de mal caminho! — Deu de ombros, óbvia.
— Você já...? — Perguntei, curiosa.
— Pode apostar que sim. — fez careta. — Mas acho que não sou o tipo dele. Eu não ligo. Tem a Ocean inteira de novidades.
A olhei por alguns segundos enquanto a garota mantinha os olhos na equipe que se aquecia. Era engraçado como ela falava tão naturalmente sobre aquilo. Parecia diferente de quando viu James ao chegar de viagem.
Resolvi não questionar, afinal, se ela não havia dito, era porque não queria me falar.

Poucos minutos depois, já podia se ouvir o apito do nosso treinador, que naquela ocasião servia como árbitro. Na quadra, os jogadores já estavam posicionados. em um time com mais quatro jogadores e James no outro. Os dois se encaravam e pareciam estar a ponto de um pular em cima do outro a qualquer momento.
Franzi o cenho.
— É sempre assim? — perguntei. Jenna ao meu lado assentiu rapidamente.
— Eles vivem nessa rixa. E não é só no basquete.
Assenti, tentando entender. olhava atento ao jogo. Ele adorava. E , ao seu lado, virou o rosto em minha direção e sorriu minimamente.
O treinador foi ao meio da quadra e lançou a bola para cima, dando início ao jogo.
— James pode ser apenas o Ala, mas ele acaba com o . — os olhos da garota percorriam toda a quadra e assim que James pegou a bola do armador de seu time, vibrou. e Jenna fizeram o mesmo. — Esse é o meu priminho.
— Ele é muito bom. — comentou, mais para si mesmo.
— Eu falei. — sorriu, toda orgulhosa. E não era pra menos, James era mesmo um bom jogador. Um dos jogadores do time de James quicava a bola no chão, passando em seguida para outro jogador. E, em poucos minutos, a bola foi lançada novamente para Follmann, que correu rapidamente até a cesta, marcando ponto.
Isso fez a arquibancada toda se animar.
me abraçava de lado, como se realmente estivesse comemorando pelo seu time. gritava e Jenna a acompanhava, dando risadas.
Durante todo esse alvoroço, James, no meio da quadra, se virou em minha direção, dando uma piscadela. As duas garotas ao meu lado olharam em minha direção, parecendo não acreditar, e tinha um riso contido, como se quisesse me zoar a qualquer momento.
E foi assim que eu virei um pimentão.

🌴


O treino tinha chegado ao fim. O time de James havia ganhado por dois pontos a mais que o de que, irritado, saiu rapidamente em direção ao vestiário. Eu podia imaginar, perder para alguém que não gostava não devia ser fácil.
gesticulava rapidamente com enquanto seguíamos até a saída da quadra. Jenna tinha sumido desde um pouco antes de o jogo acabar. Passou o final dele lendo algo em seu celular e, assim que terminou, disse que precisava urgentemente ir ao banheiro.
— Ele provavelmente vai ficar falando disso por alguns dias, mas nada que algumas bebidas não resolvam. Até porque, a casa dele está lotada por causa da festa... — dizia, parando ao meu lado. — , está animada?
— Para o quê?
— Mais um motivo para a comemoração do Jimmy. Sua chegada à Huntington e, agora, sua vitória. — sorriu abertamente. — Aliás, precisamos procurá-lo.
— Realmente. Preciso parabenizar aquele bundão.
Gargalhei junto a com a expressão de meu irmão. Ele estava bem animado e, com isso, fazia caretas que nem percebia.
Alguns alunos estavam à nossa frente, em uma multidão, logo atrapalhando nossa passagem para fora dali. tinha as mãos em meu ombro e eu tinha os braços dados com .
— Ei, vamos fazer o seguinte. — olhou para a multidão e em seguida para nós dois. — Já que vamos direto à casa do Jimmy, eu procuro a Jenna e vocês, o Jimmy. Pode ser?
Pude sentir minhas bochechas queimarem rapidamente. Não queria encarar James nem tão cedo depois do ocorrido na quadra.
— Eu procuro a Jenna! Afinal, ela tinha me dito que ia ao banheiro. — disse, rápido.
me olhou por alguns segundos, parecia um pouco desconfiada.
— Tem certeza?
— Claro. Podem ir, encontro vocês no estacionamento. É sério. — continuava a me olhar. o puxou pelo braço e sumiu entre o bolo de pessoas. Respirei fundo e passei uma das mãos no rosto, dando as costas para procurar a garota.
Onde é que ela havia se enfiado todo aquele tempo?
Empurrei algumas pessoas, tentando passar por toda aquela aglomeração e segui em direção ao corredor, onde um dos banheiros mais próximos ficava e, como era de se esperar, o local estava vazio. A concentração de alunos estava na entrada da quadra.
Caminhei um pouco mais e empurrei a porta do banheiro, procurando a garota, mas nenhum sinal dela. Respirei fundo e voltei para o corredor, olhando para os lados.
Poucos alunos transitavam por ali naquele momento e nenhum deles era ela.
Resolvi procurar um pouco mais, talvez ela tivesse ido pegar suas coisas no armário do outro corredor. Andei rapidamente pela grama que cobria o pouco espaço entre os corredores e me aproximei dos armários, ao lado das salas. Ela não estava ali, mas pude perceber algo diferente.
No meio de todo aquele silêncio, o que ecoava era um som típico, diferente. E, no mínimo, esquisito.
Olhei para os lados, procurando saber de onde vinham os ruídos. Logo me aproximei de uma das portas mais distantes, tentando enxergar algo. Todas elas estavam escuras e algumas trancadas. Parecia uma parte do corredor em que haviam salas vagas, onde não se tinha aula com frequência.
Aproximei-me de uma das últimas portas e coloquei a mão na maçaneta, ouvindo o ruído mais alto a cada momento. Fiz uma pequena careta, mas que merda era aquela?
Esperava não ser o que eu estava imaginando. Não podia ser. Iria entrar para minha lista de “Coisas ridículas que já presenciei”.
Olhei pela última vez para os lados antes de empurrar a porta. De início, enxerguei a sala vazia, mas, ao final dela, notei duas pessoas um tanto agitadas e ofegantes.
Ali, no breu daquela sala vazia e um pouco bagunçada, estava descabelado e inquieto. Junto a ele, havia uma garota. Essa seguia seus movimentos, suas mãos emaranhadas nos cabelos do rapaz.
Rapidamente, puxei a porta novamente, colocando uma das mãos na boca, como se aquilo fosse resolver algo. Foquei um pouco mais na garota pela pequena fresta que havia deixado aberta.
E com um pequeno movimento seu, eu não pude acreditar.
Por alguns segundos, eu reconheci aquela cabeleira volumosa e entrelaçada aos dedos de .
E era de Jenna Ryland.


Capítulo 9

“Não demonstre suas fraquezas. As pessoas têm o hábito de usá-las contra você.”
— R. Russo.


Ocean View — um dia antes.

Eu tentei fechar aquela porta rapidamente. Juro que tentei, mas no momento em que a puxei, ouvi o ranger da madeira com o piso e os olhares dos dois seguiram até a mim. Jenna arregalou os olhos assim que me viu e tinha uma expressão confusa, como se estivesse tentando entender o que eu fazia ali, provavelmente se perguntando por que eu tinha atrapalhado seu momento, parecia ser o mais óbvio.
? — Jenna me chamou atônita. Puxei a porta outra vez, não me importando com o baque dela no batente. — !
A ouvi outra vez e me virei, andando rapidamente. Aquilo era muito estranho. Eu tinha suposições sobre sentir algo sobre o e, de repente, vejo a amiga da garota aos amassos com ele.
Ouvi passos logo atrás de mim e virei o rosto, ainda caminhando. Jenna saía apressada, endireitando os botões de sua camisa branca, e em seguida atrás dela, ajeitando seus cabelos. A loira me olhava como se quisesse explicar algo. Ela não me devia algum tipo de explicação.
Vi seus olhos se arregalarem e ela parou subitamente, fazendo com que esbarrasse em seu corpo. Seus olhos estavam focados em um canto e assim que me virei, foi impossível não notar o que estava acontecendo.
estava parada a alguns passos de nós, tinha a expressão indecifrável. Deixou os olhos pousados em mim e em seguida para o que vinha atrás de mim. Respirou fundo ao notar Jenna e , antes de sair apressada para longe.


Depois do ocorrido, a procurei pelo ginásio e estacionamento. Nenhum sinal da garota.
Respirei fundo, realmente preocupada. havia demonstrado uma reação um tanto curiosa e, como eu já desconfiava, aquilo havia sido uma conclusão. Puxei o celular do bolso, discando rapidamente o número da garota. Alguns toques e nada.
— Vamos lá... Atenda — sussurrei.
Bufei, passando pelo portão e ao levantar o olhar do celular para o estacionamento, me espantei. A quantidade de alunos que se aglomerava ali era enorme. Eles conversavam animadamente sobre o jogo, o barulho era evidente.
Passei os olhos por todo o local à procura de . E logo em seguida de , ou até mesmo James.
Observei meu irmão rindo de algo que James falava, os dois encostados à caminhonete e, não tão distante, alguns jogadores também conversavam entre si. Eu iria até eles se o caminho não estivesse ocupado por todos que bloqueavam a passagem. Pedi licença a alguns e empurrei outros até chegar à metade do caminho.
Realmente estava preocupada com . Não sabia para onde ela tinha ido e, ao ver e James, tive certeza de que os dois não sabiam o que tinha acontecido.
Olhei novamente para os lados e tornei a ligá-la, mesmo sabendo que ela não atenderia. Resolvi então mandar uma mensagem.

“Me liga de volta. Estou preocupada. xx .”
E antes de voltar minha atenção aos dois encostados ao carro, senti um forte esbarrão no corpo. Um resmungo alto ecoou ao meu lado.
— Desculpe — disse ao erguer o olhar.
Observei a garota com cara de poucos amigos. O cabelo enorme, liso, num tom quase branco. Tinha um batom rosa escuro nos lábios e uma maquiagem forte nos olhos. Parecia ter saído de uma revista. Era bonita. E metida. Uma boneca arrumada para uma boate.
Mas que horas eram aquilo? Quase uma da tarde?
A garota na minha frente não me era estranha.
— Eu te conheço? — perguntou.
Fiz uma careta involuntária com sua voz e ela, ao perceber, arqueou uma sobrancelha.
— Não?
Foi então que uma morena alta apareceu ao seu lado.
— É a nova amiga da e da Ryland. — Seu ar era de desdém. A loira soltou uma risada fraca.
— Claro. — Me analisou por alguns segundos e deu um sorriso que eu poderia até dizer que era falso. — De qualquer forma, eu sou April Smith.
Algo brilhou em minha mente e a voz de ecoou por ela, lembrando-me de algo.
“Deve conhecer, é uma das cadelas da April e mais uma das que babam pelo ...”
“April corre atrás do cara sempre que surge uma oportunidade. Eles ficam sempre que tem alguma festa, ou algo do tipo...”

Contive o riso e apertei sua mão, que até então estava estendida.
.
Ao ouvir meu sobrenome, deu um risinho e olhou em direção a meu irmão. E só então pude perceber que James caminhava em minha direção.
— Nos vemos por aí então... .
Deu uma última olhada e se virou, andando com a mais alta para longe dali.
Preciso admitir que isso foi, no mínimo, estranho. E precisava admitir também que April Smith era esquisita.
— Ei, . — Senti a mãos de James pousarem em meu ombro. — Podemos ir? está esperando por você.
O olhei e sorri minimamente.
— Ah... Claro. Podemos, sim.
Enquanto ia com ele em direção ao carro, dei uma última olhada para onde April estava. Ela olhava para mim, ainda me analisando.
— Então... April Smith? Vejo que já a conheceu.
— Na verdade, nos esbarramos — comentei. — Infelizmente — disse a última palavra baixo, mas ele parecia ter percebido.
Olhou para mim rapidamente e balançou a cabeça, concordando.
Eu queria perguntar se ele sabia sobre , mas ele estava animado demais para saber de algo. Ainda falava sobre o amistoso como se fosse realmente o jogo. Era melhor não preocupá-lo. Não agora...

🌴


“Posso passar aí? Preciso muito falar com você. xx .”
Dei um pulo ao sentir o celular vibrar na cama ao meu lado. Respondi de imediato. Sabia bem que, depois do ocorrido, ela realmente precisaria conversar com alguém.
Prendi o cabelo em um coque firme enquanto ia em direção à sala. Marie estava no jardim, apreciando suas flores e encostado ao sofá. Assistia algo na TV.
— James passou aqui mais cedo. Disse que amanhã vai precisar da nossa ajuda. Ele não vê a hora dessa festa começar — comentou, soltando uma risadinha. Dei um pequeno sorriso e me sentei ao seu lado.
tinha os olhos na TV e, de soslaio, me olhou. Pareceu ter percebido algo, já que abaixou o volume e se virou para mim.
— O que foi? Parece preocupada. Aconteceu algo?
Respirei fundo.
— Não comigo — disse baixo. — Acabou acontecendo algo hoje com a...
Antes de terminar, pude ouvir a campainha e, em seguida, Marie anunciando que estava ali. Desviei o olhar do jardim para .
— Não comenta nada. Bico calado.
Ele riu e assentiu, voltando sua atenção à televisão. Segui em direção à porta e avistei falando algo com Marie e sorrindo em seguida. Antes de ir em sua direção, se enfiou em minha frente.
— Oi, . Hm... A ‘tá aí? — perguntou baixo. Sua voz estava fraca, parecia um miado.
— E aí, loirinha. Está sim, entra aí. — Sorriu abertamente, olhando para mim. Ela assentiu. — Você sumiu depois do jogo. Procuramos por você e nada.
— É. Na verdade, eu precisei fazer uma coisa. — Deu de ombros e olhou para mim rapidamente. Logo entendi o que queria dizer.
, se James aparecer, fala que a está aqui. Preciso conversar com ela agora. Vem! — A puxei pelo braço em direção ao quarto.
Ouvi o resmungo do garoto na sala e soltei uma risadinha enquanto fechava a porta. seguiu em direção à minha cama e se jogou nela, pegando o travesseiro e tapando seu rosto.
Pensei em falar algo, mas ela tinha seu tempo. Não iria forçar nada.
Enquanto a observava murmurar algumas coisas, segui até o puff gigante e sentei, deixando o corpo recostado ali. Percebi quando a loira retirou o travesseiro do rosto, colocou debaixo de sua cabeça e deitou, olhando em minha direção. Por um segundo, pude observar seus olhos marejados.
— Você não deve estar entendendo nada, não é? — Soltou uma risada sem humor.
Inclinei o rosto para o lado e o apoiei em um dos joelhos.
— Para ser sincera, eu já estava observando suas feições e qualquer coisa do tipo sobre o assunto . — Ela desviou o olhar. — Só não sabia que a Jenna...
Ela grunhiu, interrompendo-me.
— Jenna foi uma vaca. Estúpida. Não sei como a chamei de melhor amiga algum dia. Eu nunca esperava esse tipo de atitude dela, entende? Ela sabia. É o . Aquele... Aquele...
Sua voz começou a ficar trêmula. Saí de meu lugar e sentei ao seu lado na cama.
— Ei, por que não me conta tudo desde o começo, hein? Como tudo começou?
Ela respirou fundo e passou uma das mãos pelos olhos.
— Ah, é uma longa história. Você não vai...
— Eu tenho tempo de sobra.
A interrompi, sorrindo de lado. Ela ponderou um pouco e se sentou, ficando de frente para mim. Abriu e fechou a boca algumas vezes antes de começar. Parecia estar organizando tudo que tinha em mente.
— Eu estudo na Ocean desde nova, então tem uns bons anos aí. também. Jenna entrou pouco tempo depois e logo nós nos enturmamos. Jenna sempre foi desse jeito, mas não. Ele não era assim. Ele... Se você visse o de anos atrás, se assustaria com o que ele virou hoje. Ele sempre sorria para todos, sempre fazia suas brincadeiras e nunca deu algum trabalho aos professores. Digo... Ele tinha lá suas rebeldias, sabia pregar uma boa peça. — Soltou uma risada fraca, parecendo se lembrar. Seus olhos estavam focados em um canto qualquer. — Todos o adoravam. Eu o adorava. Eu o... — Suspirou, balançando a cabeça. — Eu me apaixonei pelo , . Eu adorava suas piadas sem graça, a risada escandalosa dele. Ele costumava implicar comigo quase todos os dias e era certo sentar à minha esquerda na maior parte das aulas. Eu tentava ficar emburrada com as coisas que ele fazia, mas no final... No final, ele conseguia tirar um sorriso meu. era um bom amigo. Não nos desgrudávamos.
Pisquei algumas vezes, assimilando tudo aquilo. Eu nunca iria imaginar o sendo esse tipo de pessoa.
— Eu... Nossa. Eu não consigo acreditar. — Apoiei a mão no rosto. — E o que aconteceu?
— Eu já tinha demonstrado parte dos meus sentimentos. Jenna foi a primeira pessoa que eu contei. Ela tinha prometido que esse segredo estava seguro com ela. E eu acreditei. — Fechou os olhos brevemente. — Mas não estava seguro. Pouco tempo depois, veio falar comigo sobre isso. Eu tinha total razão de querer afastá-la de mim, mas aí... Aí o se declarou pra mim.
Espera aí... O gostava da ?
— Uau — falei, soltando uma risadinha. Ela sorriu, contendo-se em seguida. — Impressionante. . Nunca ia imaginar isso.
— É... E com isso, eu acabei não falando nada com Jenna. Voltamos a nos falar normalmente e eu, bom, comecei a namorar o . Namoramos por um bom tempo. E, acredite se quiser, ele era um bom namorado. Até carinhoso era.
Por um momento, imaginei os dois juntos. E, por incrível que pareça, eles formavam um casal lindo. Não conseguia entender como tudo havia chegado àquele ponto.
— E o que aconteceu? — ela me olhou. — Bom, mudou drasticamente. Algo aconteceu.
— Certamente — concordou. — Ele sempre participou do time. E poucos dias depois do jogo contra o Panthers, sumiu. Sem dar nenhuma satisfação. Apareceu uma semana depois, completamente diferente. Quando fui questioná-lo, respondeu com poucas palavras e ao final da aula disse que não podia continuar com aquilo. Com nosso relacionamento. E que era melhor cada um seguir para seu lado.
Respirou fundo e secou uma lágrima em seu rosto.
— Oh, ... Eu sinto muito.
Aproximei-me, dando um rápido abraço.
— Não sinta, por favor. — Deu um meio sorriso, sem emoção. — Ele não era mais o meu . Estava tão diferente... Não só ele. também estava estranho, mas ele sempre foi na dele, então não suspeitei. Não suspeitei até ouvir boatos de que estava se drogando há tempos. E sua aparência realmente comprovava isso. Eu já não sabia mais o que fazer. Então me afastei por completo. E ele também.
Engoli em seco ao ouvir sobre . Será que ele também fazia o mesmo que o irmão?
— E, desde então, estamos assim. Eu sou só a e ele... Só o . Mal nos olhamos. É tão estranho...
— Eu imagino, . Realmente imagino como deve ser estranho. E eu sinto sim, muito por tudo. Você não merecia nada disso. Ele só perdeu a cabeça...
Ela olhou pra mim, observando minha expressão e no mesmo instante, me puxou para um abraço. Eu imaginava o quanto ela estava sentindo por tudo aquilo e ainda mais ver Jenna, agora sua ex amiga, com seu até então ex namorado... Deveria doer.
— Obrigada, . Obrigada por estar aqui. Eu não sei, eu... Eu não consegui pensar direito. Ela foi tão baixa em fazer isso. Sabia de meus sentimentos e detesto admitir, mas ainda há um pequeno sentimento pelo .
— Eu entendo. Não fique assim. — Sequei uma de suas lágrimas e sorri sincera. — Jenna não merecia sua amizade. Desde o começo. E , bom, teve seus motivos. Você sabe como essas coisas são. Talvez ele só precise achar seu caminho de volta.
balançou a cabeça, parecendo concordar com minhas palavras. Respirou fundo e olhou-me, parecendo se lembrar de algo.
, por favor, não conte a ninguém o que te falei...
, eu não vou contar a ninguém! Eu dou minha palavra. Não farei isso a menos que queira. Eu não iria gostar que fizessem isso comigo. Com ninguém. Pode confiar em mim. — Estendi meu mindinho, como àquela antiga forma de selar promessas.
Ela olhou e estendeu o seu, sorrindo abertamente ao cruzarmos os dedos e na mesma hora, nos abraçamos fortemente, caindo na risada.
— Obrigada, . Obrigada por estar aqui.
Naquele momento, eu me senti péssima. Não por estar ali com , mas por ela ter me contado toda a sua história e eu sequer ter contado a minha. Será que aquele seria o momento certo? Não. Aquele era o momento dela.
E quando eu estivesse preparada, iria contar tudo. Ela merecia saber.

🌴


— Espera aí. Vocês se conheciam quando pequenos? — perguntou, não acreditando. Passou os olhos de James para e para mim. Rimos. — Como assim eu só estou sabendo disso agora?
Estávamos os quatro sentados na faixa de areia de praia, próximos ao mar. O céu estrelado irradiava sobre nós e a lua estava tão brilhante que nem parecia ser real. A brisa gelada não incomodava, mesmo bagunçando meus cabelos. O clima ali estava ótimo. Era a única coisa que eu conseguia pensar. Era totalmente familiar.
— Você não perguntou antes — James disse óbvio.
— Certo... Tem mais alguma coisa que eu não sei aqui? — perguntou, fingindo indignação.
James me olhou e começou a rir.
— O quê? Do que vocês estão rindo? — a garota perguntou curiosa. também ria enquanto seus braços descansavam o corpo. — Essa troca de olhares é cúmplice. Tem alguma coisa aí.
Não pude deixar de rir ainda mais.
— Claro que tem... — comentou, me fazendo dar um pequeno beliscão em sua coxa, fazendo-o reclamar. — Ei!
— OK. Tenho uma pergunta. Jimmy e — olhamos em sua direção. — Vocês dois já se pegaram?
Engasguei no mesmo momento. desatou a gargalhar com a acompanhando. Senti meu rosto queimar de imediato. James apenas me olhava com um sorriso discreto no rosto.
não sabia mesmo ficar quieta.
— Não! É óbvio que não! — neguei. — Éramos apenas crianças. Nem sabíamos o que isso significava.
A loira estreitou os olhos, parecendo não acreditar naquilo. Olhei rapidamente para James que tinha um olhar esperto.
— Ah, então quer dizer que agora podemos? Não somos mais crianças, .
— Cala a boca!
Tapei o rosto envergonhada, voltando a rir junto dos três. agora, tinha esticado seus braços para meus ombros, apoiando-os ali. Não podia negar que aquela noite estava sendo agradável. E eu estava adorando passar aquele tempo com os três. Eu estava mesmo me sentindo bem.
O som das ondas quebrando naquela noite parecia diferente.
Observei James ao lado de e dei um pequeno sorriso ao ver o quanto o garoto estava se divertindo. Ele era, realmente, um cara incrível. Adorava nos fazer rir e toda vez que podia, dava uma piscadinha em minha direção. Era óbvio que eu estava adorando, mas não queria demonstrar.
— Tive uma ideia! — disse, se sobressaltando. — Vamos jogar.
— Jogar o que, ? — James perguntou, olhando esquisito. Soltei uma risadinha.
— É mais uma coisa musical. Eu falo uma palavra e vocês cantam uma música que tenha essa palavra — disse, sorrindo.
— E por que você tem que falar a palavra? Bem espertinha.
Fiz uma careta. A mesma deu a língua se ajeitando na rede.
— Posso começar?
— É você quem manda — comentou, sorrindo breve.
— Vamos lá. A primeira palavra é Somebody. E quem começa é você, priminho lindo.
soltou um beijo no ar, rindo em seguida.
— Ah, claro. Tinha que ser. Bom, essa é fácil — ele resmungou, limpando as mãos que estavam sujas de areia. Pareceu pensar um pouco. — So I heard you found somebody else, and at first when I thought it was lie...
Eu queria muito dizer que além de lindo, James tinha uma voz espetacular, mas eu estaria mentindo.
— Ah, não... Para! — começou, gesticulando. — Essa música é triste. E além do mais, sua voz é horrível.
Desatei a rir junto a , assim que James fechou a cara cruzando os braços.
— Não fala assim do Jimmy, vai — comentei abafado, me ajeitando para deitar a cabeça no colo de .
— Obrigado. Pelo menos alguém aqui me defende... — comentou, olhando de soslaio para a prima. — Já que eu fui o escolhido, agora irei escolher. , sua palavra é Love.
— Tão romântico... — disse baixo, porém irônica, nos fazendo rir.
mal precisou pensar e já estava cantando. Fechei os olhos ao ouvir sua voz e involuntariamente sorri.
I was so high I do not recognize, the fire burning in her eyes, the caos that controlled my mind...
Não demorou muito para que só sua voz impregnasse onde estávamos. Parecia ecoar com o vento que passava por nós. o olhava com os olhos brilhando, o admirando. James também o olhava, ele sabia o quanto cantava bem.
This love has taken its toll on me, she said goodbye too many times before...
Continuou por mais algum tempo até parar por vontade própria. Não pude deixar de aplaudir, mesmo que baixo. e James fizeram o mesmo.
— Eu não sabia disso também — comentou, rindo fraco. — Você tem uma voz incrível, . Devia investir nisso.
— Ah, não. É um hobby pra mim. Não levo tão a sério — comentou baixo.
— Pois deveria.
O olhei, sorrindo. Ele sorriu e abaixou rapidamente, beijando minha testa.
A brincadeira continuou por mais algum tempo. As músicas seguiam de Pearl Jam à Justin Bieber, o que chegava a ser engraçado. James cantando Baby havia sido um tanto memorável.
— Infelizmente, eu acho que devemos ir, . São quase dez e apesar de não termos aula amanhã, temos uma festa para organizar — o moreno dizia sorridente, enquanto se preparava para levantar seguida da prima.
Ele realmente estava empolgado com aquilo. fez um bico enorme e se levantou, ficando ao lado do rapaz. Assim, também se levantou e estendeu sua mão, me puxando junto a ele.
— Eu acho que Marie não se incomodaria de vocês dormirem lá em casa. Sabe, James mora do lado e você é prima dele... Acho que não teria problema — dizia olhando-os e olhando para mim em seguida.
— Quer saber? Eu acho uma ideia maravilhosa.
Balancei a cabeça, concordando. Ia ser bem divertido. Ou talvez, interessante. Dessa forma, seguimos em direção à orla.
— E eu acho que tenho algumas roupas extras na sua casa, James. — olhou para o primo, batendo palminhas.
James riu, rolando os olhos.
— Tudo bem. Então vamos. Pode ficar com a enquanto pego suas roupas — o moreno disse, seguindo conosco em direção à nossa rua. Como a casa não ficava tão longe da praia, somente um quarteirão, logo estávamos em frente a ela. havia dado a ideia de assistirmos algo e pedirmos uma pizza.
Assim que adentramos, resolvemos ajeitar alguns colchões na sala, de forma mais confortável possível.
— Eu já volto. Vocês podiam ir pedindo a pizza.
Enquanto se levantava, virou o rosto pra mim, impressionada com algo.
Se abanou como se estivesse com calor.
— Ele é muito gatinho... — sibilou baixo, ainda me olhando.
Balancei a cabeça, segurando a risada.
— Disse algo? — Meu irmão se virou, aparentemente confuso. havia colocado a mão na boca e desatado a rir.
O loiro balançou a cabeça e seguiu em direção ao quarto, rindo também. Ela o guiou com o olhar.
— Você bem que podia descolar seu irmão pra mim, hein? — comentou em tom de brincadeira. Fiz uma careta e joguei um dos travesseiros em cima dela.
Não demorou muito para que James e a pizza chegassem. Foi uma bagunça daquelas, já era de se imaginar. Mal prestávamos atenção no filme que passava e o melhor passatempo ali era irritar um ao outro. James começava a me cutucar toda vez que eu conseguia me prender ao filme. ria escandalosamente quase toda hora, o que me fazia lembrar de . Estranho como combinavam até nesse pequeno detalhe.
De pouco a pouco, cada um foi pegando no sono. Primeiro e junto a , James. Os observei calmamente, percebendo o quanto eles me faziam bem. O quanto os queria por perto. A amizade de James e de estava sendo mais do que importante para mim.
Enquanto analisava toda a situação, tentei pegar no sono também. O que eu não imaginava era que, toda vez que fechava os olhos, um rosto conhecido aparecia, lembrando-me de não o ter visto àquele dia. Nem mesmo no amistoso.
E o que era mais estranho em tudo isso?
Eu não entendia por que não conseguia tirar da cabeça.


Capítulo 10

It's alright, it's okay
To try and hide your feelings today
Been around, been away
But I won't let it stay the same

Still In Love — JAHKOY
Podem colocar essa música para tocar, se quiserem entrar no clima desse capítulo!


O sol adentrava a sala da mesma forma que o barulho das ondas quebrando ao longe inundava o cômodo. Diferente das outras manhãs, aquela estava mais agitada, principalmente pelo fato de que havia um motivo para aquilo.
A tão esperada festa.
Depois de termos arrumado toda a sala e os colchões nos devidos quartos, voltamos para discutir as coisas que faltavam decidir. estava sentado ao meu lado, deixando minha perna descansar sobre a sua, estava sentada no outro sofá e James no chão, encostado nele.
Uma música qualquer tocava na televisão enquanto conversávamos.
— Tudo bem... Nós temos parte da manhã e toda a tarde para ajeitarmos tudo — o moreno dizia calmo, como se aquilo não fosse nada. — Como a festa vai começar lá para as dez, não precisamos ter tanta pressa assim.
o olhou, arrancando o pequeno papel de sua mão.
— Certo. Eu acho que você esqueceu de que temos muita coisa pra resolver. Bebidas, decoração, música, o número de pessoas que vão vir...
— Bom, não precisa se preocupar. Eu convidei toda a Ocean — James a interrompeu, sorrindo convencido, como se aquele fosse um trabalho enorme e ele já tivesse o feito.
— De tudo que falei, você só absorveu isso? — Rolou os olhos, arrancando risadas de ao meu lado. Não pude deixar de rir também.
, relaxa. O garoto mal acabou de acordar. Eu te entendo, bro — disse enquanto fazia um high-five com James no ar.
— Com as bebidas você pode ficar tranquila. Eu tenho um fornecedor conhecido e ele pode trazer em uma hora.
— E a decoração eu acho que pode ser algo meio simples, não é? — o interrompi. — Algumas luzes coloridas, enfeites pendurados... Vai ficar bem legal. O que acham?
James tinha os olhos sobre mim, com um sorriso de lado. Assentiu rapidamente junto a e meu irmão.
— Por mim, acho ótimo. É até bom, Liane odiaria ver a casa totalmente bagunçada na volta da viagem — comentou, bagunçando os cabelos do primo. Olhei para os dois, lembrando vagamente da mãe de James. Era uma morena bonita, alta e seus cabelos eram bem pretinhos, assim como os de James.
O moreno a olhou de cara feia e tirou as mãos da loira de seus cabelos.
— Não vai ficar uma bagunça. Até porque vocês vão me ajudar a limpar tudo até amanhã de tarde.
riu, balançando a cabeça.
— James, você sabe que essa festa provavelmente vai até, sei lá, amanhã de manhã, não é? Tem noção de como vamos estar quebrados? — comentou óbvio.
Tive que assentir, até porque ele estava certo. Não tinha hora para acabar e não teríamos pique para arrumar toda a bagunça ainda.
— Tem razão. Eu não tinha pensado nisso. Droga — resmungou.
o olhou parecendo pensar em algo.
— Nós vamos dar um jeito. Por enquanto, vamos tentar não esquentar a cabeça com esse detalhe. Agora, por onde precisamos começar? — perguntou mais para si mesma enquanto tinha os olhos no papel em mãos.
deu de ombros, parecendo não ligar para os preparativos, e James fez o mesmo. Os dois pareciam não estar nem aí para tudo aquilo. Tudo bem que não tinha lá tanta coisa para arrumar, mas tinha.
E eles deviam começar logo.
— Eu tenho certeza que pelo café da manhã, queridos. Apesar de estar quase na hora do almoço. — Marie surgiu da varanda, com um sorriso no rosto. A olhei sorrindo também e meu irmão logo se animou.
— Não precisa esquentar com a gente, Marie — começou, levantando-se. — Já fomos intrusos até demais, não é, James?
O moreno concordou, num resmungo. Soltei uma risadinha, vendo que ele não queria ir embora tão cedo.
— Não. Não. Eu faço questão. Até porque sei que Liane não está aí. Não se preocupem, podem ficar. Vou preparar o almoço e logo chamo por vocês. — Tirou as luvas de jardinagem, sumindo pela sala. Provavelmente iria guardá-las na garagem.
Nos entreolhamos e James parecia satisfeito em saber que poderia ficar ali por mais tempo.
— Certo. Então, logo depois do almoço, podemos ir à cidade comprar o que falta. Arrumamos e até podemos ir à praia também. O que acham? — perguntei, vendo o sorriso cúmplice que e James deram um para o outro. Aqueles dois não tinham jeito mesmo.
— É isso aí! — disseram alto, levantando os braços, exatamente como duas garotinhas. desatou a rir e eu não fiquei para trás. — Vamos colocar as pranchas na caminhonete.

🌴


— Cadê as chaves? — perguntou para si mesmo, rodopiando pela sala. Avistei o pequeno molho no canto do sofá e o peguei, seguindo até ele. esperava na varanda ao lado de James, que parecia impaciente.
— Tem como ser mais devagar? — o moreno questionou, encostado à pilastra.
... — iniciei.
— Se você estivesse me ajudando a procurar as chaves, não estaria demorando assim — comentou, interrompendo-me. Rolei os olhos, segurando meu irmão pela regata. Ele direcionou os olhos azuis em minha direção. — Que foi?
— São essas. — Estendi em sua direção. — Para de reclamar e vamos logo.
O garoto sorriu enviesado, pegando as chaves. Claro, não antes de bagunçar meus cabelos e me puxar para um abraço desajeitado de lado.
— Essa garota é minha consciência ambulante — disse divertido. Soltei uma risadinha enquanto andava ao lado da loira até a caminhonete.
foi o primeiro a entrar, colocando a chave na ignição. James terminava de colocar seu boné e logo pulou para o banco passageiro, abrindo a janela.
— Posso escolher a música? — disse, correndo em direção ao banco carona ao lado de antes mesmo de respondermos algo. Esticou as mãos até o rádio, escolhendo uma música que lhe agradasse.
Respirei fundo e percebi que o único lugar que restara fora ao lado de James. Pude sentir o coração palpitar levemente. Ele estava encostado ao banco, aproveitando o frescor que entrava pela janela aberta. Seus dedos passeavam pela aba do boné enquanto tinha os olhos focados no céu e cantarolava um trecho qualquer da música que tocava.
É. Não podia negar que James tinha lá seu charme.
— Você não vem? — Pisquei algumas vezes ao ouvir sua voz me chamando.
Imediatamente senti as bochechas corarem e só então percebi que tinha sido pega o observando.
Ops.
olhou de canto, soltando uma risadinha. Balancei a cabeça e não pensei mais em entrar no carro. Ao fazer isso, meu irmão não esperou para dar partida, seguindo em direção à orla da praia.
— Uau. Isso é tortura — comentei, tentando quebrar um pouco daqueles segundos em silêncio. Passávamos na avenida, ao lado da praia, a qual estava completamente cheia. Pessoas embaixo dos guarda-sóis, algumas passavam protetor pelo corpo, crianças brincavam de bola, adultos caminhavam e outros com suas pranchas abaixo do braço... Era uma paisagem e tanto.
— Eu só acho que devíamos parar esse carro agora e cair nessa água geladinha — James comentou, chegando mais perto, mais precisamente para a minha janela, já que quem estava ao lado da praia era eu. — O que acha, ?
Ele virou o rosto em minha direção e sorriu sapeca, divertido.
— Acho que podemos fazer isso mais tarde. Temos coisas pra resolver, Jimmy — comentou, me cortando. Tinha que me lembrar de agradecer à minha amiga mais tarde. — DEUS! Eu amo essa música!
gritou e meu irmão deu um pequeno pulo do banco, a olhando com uma careta. Desatei a rir com James ao meu lado ao ver sua reação. A garota então aproveitou para aumentar o volume. Eu conhecia aquela música e minha vontade era de sair cantando, mas também estava um pouco envergonhada. Ainda não estava acostumada a fazer aquilo na frente dos dois.
So pop it for a pimp, pop, pop it for me... Turn around and drop it for a pimp, drop, drop it for me... — Começou, se remexendo aos poucos. logo entrou na onda, dançando de uma forma completamente desajeitada com as mãos no volante. Eu sabia que ele não perderia aquilo.
Jump in the Cadillac, girl, le's put some miles on it... cantou e James, ao meu lado, fez a segunda voz. Aquela cena estava cômica demais!
Anything you want... — James me olhou, fazendo uma careta. — Just to put a smile on it... You deserve it baby, you deserve it all...
Olhei para todos, cantando e dando risadas. Estavam se divertindo tanto, por que eu não faria o mesmo?
And I'm gonna give it to you! — gritamos juntos, não deixando de gargalhar depois. não se aguentava ao lado do meu irmão e foi necessário respirar fundo para voltar a cantar. E assim continuamos até chegar ao centro.
Algumas músicas tocaram até meu irmão seguir para a entrada de um estacionamento mais próximo do centro. Enquanto esperávamos o próximo carro seguir, observei a rua ao redor, percebendo o lugar bem agitado por sinal. Muitas pessoas caminhavam segurando enormes sacolas, guarda-sóis e até com grandes chapéus na cabeça. Carros e bicicletas transitavam a todo vapor.
Ao estacionar na devida vaga, não esperamos um segundo para pular do carro para fora. Ajeitei o short jeans e a alça do biquíni e segui para o lado de , enquanto fechava o carro e ia com James pagar o pequeno pedágio.
Enquanto os dois conversavam com o operador do local, segui com para a calçada, encostando na parede para desviar da aglomeração que transitava ali.
— Tudo bem. Se vocês querem mesmo ir à praia ainda, precisamos nos separar — dizia gesticulando ao perceber os dois se aproximando de onde estávamos.
James a olhou curioso e seguiu para o meu lado, descansando seu braço em meu ombro.
— Por quê? Acho que dá tempo de fazer tudo juntos e ainda ir à praia. — O moreno deu de ombros. rolou os olhos.
— Assim acabamos mais rápido. Eu e podemos ver as coisas da decoração e vocês... As bebidas e algumas comidas. Pode ser? — perguntou esperando uma resposta.
assentiu.
— Pelo menos vamos nos divertir comprando cervejas — meu irmão comentou animado, puxando James para longe e dando um pequeno aceno. — Nos encontramos aqui mesmo. É só ligar!
Balancei a cabeça, dando uma pequena risada com aquela cena. estava mesmo se sentindo em casa.
Pude sentir um braço se entrelaçando ao meu e pisquei algumas vezes, voltando à realidade. começava a caminhar, me puxando junto. Olhei ao redor, reparando nas lojas e deixei minha mente vagar para São Francisco, lembrando do quão diferente os dois lugares eram. A cidade grande, o aglomerado de veículos e a distância até à praia. E tinha Huntington... Inexplicável e única.
O clima aconchegante e praiano, a calmaria, pessoas hospitaleiras e o mar ao lado. Acho que nenhum outro lugar me faria bem outra vez assim.
Pisquei algumas vezes ao ouvir o barulho da música de dentro da loja na qual estávamos entrando. O lugar não era tão grande, mas tinha dois andares e estava lotado de objetos para decoração. Chapéus e óculos coloridos em uma estante, copos plásticos de cores sortidas embrulhados, marabús pendurados em uma parede inteira... Eu tinha a leve impressão de que aquilo iria ser divertido.
— É uma das melhores lojas de festas aqui do centro. Então, vem logo! Temos muito que fazer...
E não demorou muito para ela me puxar outra vez. Dei uma pequena risada e a segui, pegando uma das grandes sacolas para colocar os objetos que escolhíamos. pegava praticamente o que via pela frente, intitulando como necessário para toda a festa. Copos vermelhos e azuis, luzes coloridas, lança confetes e confetes coloridos, entre outras coisas.
Não demorou muito para que fôssemos direto ao caixa e logo estávamos saindo daquela loja. parecia estar bem pensativa.
— Acho que compramos tudo... Balões, copos neon... — ia enumerando em seus dedos. Foi então que começou a revirar a sacola com os objetos e colocar algo em sua cabeça. — Mas essa foi a melhor compra. Combina comigo. O que acha?
Era um arco vermelho com dois chifres. Um diabinho. A melhor parte? Ele piscava.
Estreitei os olhos, segurando a risada.
— Com certeza. A propósito, continua andando com isso na cabeça. Tem muita gente gostando.
Rapidamente a garota olhou ao redor e retirou o arco, gargalhando junto comigo.
Algumas pessoas realmente tinham passado a olhando com o cenho franzido. Era a cara de fazer algo assim.
— Podemos comprar algo para tomar enquanto isso. Estou morrendo de sede — comentou, se abanando.
Atravessamos a rua, tentando conseguir alguma sombra que por sinal estava difícil de achar.
— Eu também. E precisamos achar os meninos. Temos que guardar essas sacolas na caminhonete. Não aguento mais levar. — Fiz uma careta, trocando uma das sacolas de mão.
Ela assentiu, parando em frente a um quiosque. Enquanto a loira ao meu lado ajeitava suas sacolas, observei a praça de alimentação ao nosso redor. Não estava tão cheia como de costume.
— Ei, vamos nos sentar por aqui. Aproveitamos e descansamos um pouco. Não vejo a hora de irmos à praia — comentei a chamando. Nos sentamos em uma das mesas e pude recostar meu corpo no apoio da cadeira de metal.
fez o mesmo, deixando as sacolas ao seu lado. Havia um grande guarda-sol fincado no meio da mesa, oferecendo uma enorme sombra para nós duas. Não demorou muito para que um dos atendentes se aproximasse, com um pequeno bloco em mãos.
— Boa tarde, senhoritas. O que vão querer? — Agora tinha os olhos focados no bolso de sua blusa, retirando a caneta. Assim que ergueu o olhar, piscou algumas vezes e deu um sorriso torto. Franzi o cenho. Eu o conhecia de algum lugar... — Oi, .
Não demorou para que levantasse o rosto, olhando o garoto. Logo, parei para observá-lo também. Era alto, não tão branco e tinha bonitos olhos castanhos. O cabelo marrom não era tão curto, mas estava jogado para cima, um pouco arrepiado. Havia combinado com ele, estava uma graça. O sorriso branco era tímido.
— Ah... Oi, Kenny. — Sorriu.
Fiquei um pouco confusa. De onde os dois se conheciam? nunca havia mencionado sobre ele.
— Quanto tempo. Quase não te vejo na escola. — Sorriu de lado e só então percebeu minha presença ali. Piscou algumas vezes e se aproximou, estendendo a mão. — Oh, desculpe a falta de educação. Sou Kenny. Prazer.
Ele ainda tinha aquele sorriso fofo no rosto. Parecia uma criança e minha vontade era de apertá-lo.
. Ou só . O prazer é meu. — Dei um meio sorriso, o percebendo relaxar o corpo. — Vocês se conhecem? Desculpe a pergunta, mas nunca vi você pela escola.
respirou fundo. Sua cabeça parecia estar a mil. Meus olhos ainda estavam pousados no garoto. Cacei por toda a minha mente de onde o conhecia. E só então pude lembrar do dia que estava perdida, perto do píer...
— É. Kenny. Nós... Bom, ele era...
Ao perceber a confusão da garota, o rapaz balançou a cabeça e pigarreou, a interrompendo.
— Nós costumávamos ser próximos. Amigos, claro. Mas creio que seja assunto para outro encontro. Ou esbarro. — Riu fraco, olhando-a. Ajeitou o bloco em mãos, um pouco incomodado. — Bom, não quero tomar o tempo de vocês. Já sabem o que vão querer?
Assentimos, fazendo o pedido. O moreno logo anotou, reconfirmando em seguida.
— Certo. A gente se encontra por aí, então. — sorriu para o rapaz. Ele se virou em minha direção. — , foi um enorme prazer te conhecer. Nos vemos por aí também. Não vou demorar a trazer os pedidos. Agora, com licença...
E assim voltou andando para seu devido quiosque. Relaxei o corpo e virei o rosto em direção a , que parecia raciocinar algo. Olhou ao redor e debruçou os braços na mesa, provavelmente pensando em uma forma de começar.
— Eu conheci o Kenny na mesma época que o . Coincidentemente ou não, os dois viraram grandes amigos e hoje ainda são. Kenny comentou que costumávamos ser próximos porque realmente éramos. Paramos de nos falar quando tudo aconteceu. — Deu de ombros. — Deve ter sido por influência. Eu não sei.
Assimilei o que ela dissera e olhei ao redor, avistando Kenny de longe. O rapaz parecia ser uma boa pessoa e era bem simpático, por sinal.
Depois de alguns minutos, o rapaz já havia trazido os sucos e, com um rápido sorriso, se despediu novamente.
— A diferença é que Kenny é simpático — resmunguei, ouvindo o riso fraco de minha amiga. — É um cara legal.
Ela balançou a cabeça, concordando.
— Depois do acontecido, você sabe... Kenny ainda deu indícios de que queria falar comigo. Como antes, mas eu não dei à mínima. Bom, ele estava com o tempo inteiro. Achei que não seria bom manter contato.
Pisquei algumas vezes. tinha algum tipo de retardo? Primeiro que o rapaz parecia ser um amor de pessoa. E segundo, como ela o afastara assim? Ele ao menos tinha culpa.
! — vociferei. — Entenda uma coisa. Kenny não teve culpa do que aconteceu com você e o . E você disse que eram próximos, que eram amigos. Não precisava tê-lo afastado assim. Tudo bem que ele é melhor amigo do ...
— É aí que está, ! — Ergueu o corpo, se aproximando. — Se continuássemos com a mesma amizade, obviamente eu estaria mais próxima do ! E isso não seria nada bom, não é?
Por um lado, ela tinha razão. Iria conviver com o ex diariamente. E, pelo visto, não daria certo. Nem um pouco.
— Certo. Tem quanto tempo que vocês não estão mais juntos? Pouco mais de um ano? — perguntei. Ela pensou um pouco e assentiu, murmurando algo. — Você não acha que algo pode ter mudado? Kenny era um bom amigo para você?
— Sim... Éramos muito amigos, — falou com pesar. Seus olhos pousaram no rapaz e desviaram de imediato.
Dei um pequeno sorriso, o olhando também. Percebi ele dando risada ao comentar algo com um cliente.
— Tudo bem. Você pode brigar comigo depois. — Pisquei.
— O que você...
— Ei, Kenny! — a interrompi, levantando minhas mãos ao chamar o garoto. Os olhos da loira se arregalaram.
Kenny virou o rosto em nossa direção e franziu o cenho, sem deixar de dar um sorriso. Claro, como se não estivesse entendendo nada.
Depositou a bandeja que segurava na bancada de mármore do quiosque e caminhou até onde estávamos.
— Oi... Algum problema, ? — perguntou receoso ao me olhar.
permanecia quieta, me fuzilando com o olhar.
— Não, problema nenhum. — Sorri de canto. — Eu estava conversando com ... Você, por acaso, está muito ocupado agora?
Ele piscou algumas vezes e olhou para trás, constatando algo.
— Ahn... Não, na verdade. É meu horário de almoço. São quase duas. — Deu uma risadinha. Foi impossível não rir junto. Ele era fofo demais.
— Ótimo! — Ajeitei-me na cadeira, puxando a do lado. — Vem, pode se sentar então. Por que não conversamos um pouco? Você e a já se conheciam, certo? É até bom pra atualizar o papo.
Os olhos castanhos do garoto se redirecionaram para a loira, como se pedisse permissão, e automaticamente ela sorriu, apesar de estar incerta por sua expressão.
— Por que não? Pode se sentar, Kenny — disse por fim.
De imediato, senti meu corpo relaxar. Observei os dois ao perceber Kenny puxando um papo qualquer. parecia bem mais confortável, até estava dando um pouco de risada.
— Boa parte do colégio costuma vir aqui. Chega a ser estranho quando não há ninguém de lá, como hoje. Só tem vocês e mais alguns turistas. — comentou, encostado à cadeira. — Mas é até bom, fica completamente mais calmo.
— Você trabalha aqui tem muito tempo? — perguntei, apoiando meus braços na mesa.
O garoto virou o rosto em minha direção.
— Tem alguns meses. Eu já tinha sido chamado antes. É do meu tio e eu precisava de uma grana, então... — Sorriu sem graça.
— Eu sempre costumei passar por aqui, mas nunca vi você — disse curiosa.
— Ah, não é sempre que estou aqui. São só alguns dias.
E lá estavam os dois engatando em outra conversa. Balancei a cabeça, dando uma risadinha e senti meu celular vibrar no bolso. O peguei sem muita pressa e avistei algumas mensagens no display.
e James.

“Já tem cinco minutos que estamos na entrada do estacionamento. Me liga!”
, é sério... Eu estou morrendo de calor e James não para de reclamar no meu ouvido. Se ele continuar, eu juro que vou jogar minha garrafa d’água em cima dele.”
“Eu vou matar o seu irmão!”
Pus uma das mãos na boca, prendendo o riso que viria à tona. Não podíamos deixar esses dois sozinhos por muito tempo.
— Ahn... Desculpa interromper. — Dei um sorriso enviesado. — , precisamos ir. já está no estacionamento com seu primo e eles não param de mandar mensagens reclamando.
riu, balançando a cabeça negativamente.
— Desculpa, Kenny. Podemos marcar outro dia, hm... E nos encontramos? O que acha, ? — Olhou para mim rapidamente.
— Perfeito! O mais rápido possível.
Kenny se levantou junto à menina. tirava suas sacolas do chão e ajeitava em suas mãos.
— Ei, . Você poderia me passar seu número? Caso eu não consiga falar com . — Caso não consiga falar com ela... Sei bem. Quis rir, mas me segurei ao ver as bochechas enrubescidas do menino.
Como ele conseguia ser esse amorzinho de pessoa?
— Claro. Posso? — perguntei, estendendo a mão para pegar seu aparelho. Digitei os números e o devolvi, dando um meio sorriso. — Até, Ken.
Pisquei rapidamente para ele e peguei minhas sacolas, voltando a andar com minha amiga. Por alguns segundos, achei que havia esquecido algo, já que parou bruscamente.
— Kenny! — gritou. O rapaz se virou de imediato e se aproximou. — James vai dar uma festa hoje, em comemoração ao jogo. Aparece por lá!
— Pode deixar! — sorriu abertamente.

🌴


O sol estava escaldante e as ruas pareciam mais movimentadas que antes.
Esperamos o tráfego de carros antes de atravessar e, do outro lado, em frente ao estacionamento, já podíamos avistar James de braços cruzados e com um enorme bico nos lábios. tinha um olhar divertido no rosto.
— Pode se explicar, maninho.
— Eu? Quem estava reclamando era ele. — comentou, seguindo em direção à caminhonete ao meu lado.
— É sério que você jogou a garrafa na cabeça do Jimmy? — comentou, sem acreditar. — Seu irmão é o melhor. Sem mais.
Arqueei a sobrancelha, olhando para os dois. James estava com a boca escancarada, sem acreditar que a própria prima estava defendendo . Não pude deixar de rir.
— Tudo bem, pessoal. O que resolveram? — perguntei aos dois. No mesmo instante, trocaram olhares cúmplices, já se esquecendo que estavam “brigados”.
Caminharam até a parte traseira do carro e levantaram as pranchas, mostrando a quantidade de fardos que tinham ali. E eram muitos.
, ao meu lado, deu pulinhos ao ver tudo aquilo. Era bebida pra caramba!
— Johnnie, Jack, Captain, José... E, claro, algumas Buds.
James sorriu orgulhoso ao dizer metade das que estavam ali.
— Jimmy... Você deve ter estourado o cartão da Liane — comentou apreensiva.
— Talvez — disse sorrindo. Ao ver a feição da prima, se aproximou, colocando uma das mãos em seu ombro. — Qual é, . Ela já sabia. Eu não ia fazer isso sem seu consentimento.
— Vocês vão entornar a noite inteira. Eu não acredito — comentou rolando os olhos.
pulou nas costas de James, que riu e seguimos para dentro do carro. colocou as sacolas em um canto no banco traseiro, ajeitando-as. Meu irmão logo ligou a ignição, saindo do estacionamento e indo diretamente para o próximo e tão esperado lugar.
Praia.
Depois de vinte minutos no trânsito da cidade, conseguimos pegar a avenida. Com todas as janelas abertas, conseguíamos aproveitar todo aquele vento que vinha direto da praia. Até porque estávamos perto da orla, consequentemente colados à praia.
Decidimos ficar próximos à nossa casa. Seriam alguns banhos e logo voltaríamos para arrumar as coisas, sem demorar muito. Tinha tanta coisa e mal sabíamos por onde começar.
O som do carro estava alto. cantarolava baixo, assim como James. O barulho do vento e da música era suficiente para preencher o interior do veículo.
Poucos minutos depois, já conseguíamos avistar a entrada no estacionamento perto da orla. acelerou um pouco mais, fazendo com que levasse um pequeno susto, acordando e tirando os óculos escuros.
— Já chegamos? — perguntou com a voz embolada. James assentiu rindo e tirou o cinto ao perceber o carro sendo devidamente estacionado.
seguiu rapidamente para a parte traseira da caminhonete, retirando o elástico que segurava nossas pranchas. Retirou a sua de cima da minha, colocando-a ao seu lado. Rapidamente peguei a minha, encostando-a na caminhonete para pegar minha blusa de borracha.
, você pode segurar pra mim? — perguntei para ela, que assentiu ao segurar a prancha. Observei a garota ficar maravilhada com os detalhes dela.
Coloquei minha blusa, ajeitando-a. Era preta e cinza, com mangas curtas.
— Obrigada.
Caminhamos pela areia até chegar perto do píer. As ondas quebravam ao longe e alguns surfistas já aproveitavam bem o mar. Este não estava tão violento, mas o vento estava forte.
Aproveitei para colocar a prancha na areia e pegar a parafina do bolso do meu irmão, que estava distraído com James.
— São só algumas ondas. Não podemos esquecer de arrumar as coisas ainda. Em uma hora e meia podemos ir — disse, olhando-me de lado. Rolei os olhos e concordei.
já estava deitada ao meu lado, em cima de uma toalha, os óculos escuros no rosto. Ao perceber nossa movimentação, apoiou o corpo com os cotovelos, se levantando.
— Vocês vão agora? Porque eu quero filmar isso tudo!
Dei uma risadinha, seguida pelos meninos. Agarrei a prancha, tomando cuidado com a kilha ao encostar ao chão. Já tinha amarrado de forma forte o leash ao tornozelo.
— Droga. Devia ter lembrado de trazer a minha — James comentou mal humorado.
Fiz uma careta e dei língua para ele, que deu outra de volta.
Rapidamente, segui com meu irmão para a água, bem gelada por sinal. As pequenas ondas já quebravam em nossas pernas na medida em que íamos entrando. olhou para os lados e para frente, observando a melhor forma de entrarmos direito enquanto guiava a prancha na água.
— Isso vai parecer estranho, mas a água desse lugar é completamente diferente de San Fran — comentou, gargalhando. Joguei um pouco de água no garoto e concordei. Ele estava mais do que certo. Aquele lugar era o paraíso para surfar. — Podemos ir agora.
Passamos das pequenas ondas e de imediato ficamos em cima da prancha, dando braçadas para chegar mais no fundo. estava mais à frente, mas olhava para trás, me esperando.
Rapidamente fui para perto do mesmo e logo aproveitamos das ondas médias para nos posicionar. Olhei para o loiro, que fez sinal para chegar perto dele.
— Podemos pegar aquelas. O que acha?
Apontou para longe. Observei o horizonte e sorri. Eram ondas realmente grandes.
O olhei de lado e sorri abertamente.
E com isso ele já sabia o que eu queria dizer.

🌴


Já havíamos pegado uma boa quantidade de ondas, o que era incrível para o horário. Sentia os respingos da água em meu rosto na medida em que ia me aproximando com meu irmão da faixa de areia. Eu sentia meu rosto arder pelo sol da tarde, mas não estava ligando.
A sensação de desejo realizado era a melhor.
— Eu não acredito! Olha só isso! — comentou animada, chegando perto com o celular em mãos.
O motivo da euforia da garota era que tinha um vídeo meu e de . Surfando. E ela estava admirada com a forma que fazíamos aquilo tão bem. Eu não podia negar. O vídeo estava bom. Estávamos ao longe pegando as melhores ondas daquela tarde.
— Ficou realmente bom, — James comentou, também observando o vídeo.
— Com certeza vai pro Facebook. Não. Youtube. É, o youtube... — ela dizia consigo mesma e ao meu lado riu ao ver a animação da menina.
Guardamos as pranchas na garagem assim que chegamos e voltamos para frente da casa. Dessa vez, retirando as sacolas e as outras coisas para a festa. Vale lembrar que ainda estávamos ensopados de água salgada.
— E a competição anual? Pretendem participar? — a loira perguntou, enquanto estava parada olhando seu celular ainda. Ergueu o olhar. — Acho que já falei sobre.
— Sim. — a olhou. — Mas, talvez. Não conversamos sobre ainda.
Os glóbulos azuis redirecionaram-se para mim, como se esperasse outra resposta. Eu sabia bem o que meu irmão pensava. O surf era um hobby para a família, entrar em uma competição já eram outros quinhentos. Outro patamar. Claro que poderíamos arriscar, mas ainda assim precisaríamos de uma boa conversa, ainda mais com o fato de que não queríamos ser vistos tão cedo novamente por Hector e em uma competição, bom, isso mudava completamente.
— Temos tempo para decidir ainda, não é? Se não me engano, é para o final do ano.
— Eu ouvi dizer que antecipariam, mas sabe como é... Não confirmaram ainda — James disse animado. — De qualquer forma, já podemos arrumar as coisas e depois tomar um banho para voltar pra festa — Jimmy comentou, com um fardo de cerveja em cada mão.
— Uau, James. O que te deu pra pensar agora? — comentou abismada. O primo deu o dedo, de forma desengonçada, já que não podia levantar nenhuma das mãos ocupadas.
Ao descarregar as coisas, os meninos se encarregaram de guardar as bebidas o mais rápido para gelar já que a comida chegaria logo depois. se aproximou, tirando as coisas da decoração das sacolas e entregando para mim. De primeira, penduramos as luzes coloridas ao alto, por toda a casa, inclusive ao lado de fora.
Havia ficado bem legal. As bolas coloridas estavam espalhadas por todo o cômodo, alguns enfeites engraçados também. Os marabus estavam espalhados pela casa, de modo que os convidados pudessem pegar caso vissem. Arrastamos uma enorme mesa, próxima à bancada da cozinha. Lá os copos coloridos estavam espalhados e alguns confetes também. Tínhamos escondido as coisas perigosas e frágeis, já que, é claro, aquela noite não seria uma qualquer.
Havia passado cerca de duas horas. Faltava apenas uma para a festa. As comidas haviam sido entregues e já estavam em seu lugar. terminava de colocar as cervejas junto a James em um freezer alugado na cozinha enquanto um rapaz — o DJ — regulava os equipamentos na sala.
— Certo. Falta pouco para começar. vai se arrumar lá em casa, então já estamos indo. Não demorem! — disse rapidamente, saindo da casa junto à loira. A lua já estava enorme no céu estrelado.
Dei um pequeno sorriso. carregava uma mochila ao meu lado, continha suas roupas.
— Você, por acaso, deu uma olhadinha naquele cara? Uau, que corpo é aquele? — comentou ao passar pela porta da sala comigo. É claro que ela estava falando do DJ. Não contive a risada a olhando. O rapaz até que era bonito.
— Não tinha como não dar uma olhadinha.
Marie estava saindo de seu quarto naquele momento. Parou no corredor assim que nos viu e deu um pequeno sorriso.
— Já está na hora, meninas? — Assentimos, também a olhando. — Espero que se divirtam. E juízo, viu?
Estreitou os olhos e sorriu, colocando uma mão em meu ombro ao passar por nós duas. Dei um pequeno sorriso e adentrei o quarto na companhia da loira, que logo correu para a cama, tirando suas coisas. Assim que separou sua roupa — um conjuntinho acompanhado por uma blusa jeans e salto —, seguiu para o banheiro correndo de forma desastrada, o que me fez rir. De acordo com , tinha muito trabalho a se fazer com seu rostinho ainda.
Enquanto ela estava no banho, parei em frente ao meu guarda-roupa, pensando seriamente no que vestiria. Huntington tinha um clima favorável, até mesmo ao anoitecer, apesar de que à beira mar fazia um pouco de frio pelo vento, mas isso não era algo para me importar. Não iria à praia por hoje mais.
Passei os olhos por todas as roupas ali dobradas e penduradas, tentando formar algum tipo de look em minha mente. Respirei fundo e olhei para a casa ao lado ao ouvir a música aumentar gradativamente. Algumas luzes piscavam, chegando a entrar até mesmo em meu quarto, iluminando as paredes. Dei um meio sorriso com aquilo. Eu esperava me divertir, até porque era minha primeira festa ali.
Ao voltar os olhos ao armário, resolvi optar por algo simples e confortável. Iria ficar um bom tempo com aquela roupa, então seria bom se não me incomodasse. Decidi por um shortinho de couro sintético, um pouco curto por sinal, mas não ligava. Talvez meu irmão ligasse, mas isso não importava muito naquele momento. Uma blusa soltinha branca e de manga, com uma estampa simples na frente e, por fim, um converse nos pés. Não estava tão chamativo, apenas... Da forma certa.
havia saído do banheiro e caminhava para dentro do quarto, dançando conforme a música que já tocava.
I spend it all on you, baby baby, just watch. A BMW, a Bugatti, thick rock... — Balançou a cabeça, cantarolando sem deixar de fazer algumas caretas. — Get you a fancy yacht any chance I got, when I become a zillionaire!
Coloquei uma das mãos na cintura e a olhei com o cenho franzido. Assim que abriu os olhos e me olhou, desatou a rir alto. Olhou para mim mais alguns segundos e voltou a cantar mais alto que o normal. Resolvi a acompanhar. Aquela cena estava cômica demais.
Flo Rida is the best. Eu adoro a playlist do James. Pelo menos nisso ele é bom.
Balancei a cabeça, negando.
— Não fala assim dele, vai. Pelo visto o amor entre vocês é mútuo — comentei, sorrindo de canto.
— Até demais. — Rolou os olhos, pegando suas roupas em cima da cama.
Enquanto recolhia a minha para seguir para o banheiro, a observei rapidamente e percebi que a garota estava parada tempo o suficiente para observar as roupas de forma estranha. Parecia pensar em algo por muito tempo.
— Você acha que o Kenny vem? — perguntou em um fio de voz, ainda sem me olhar.
Já estava perto do batente da porta, me encostei no mesmo e respirei fundo.
— Essa não é a pergunta que você realmente quer fazer, não é?
Ela olhou-me por uns segundos e suspirou, virando para frente para pegar a bolsinha de maquiagem. Antes de começar seu trabalho, negou vagarosamente com a cabeça, dando a entender que a resposta para minha pergunta era não.
Eu já podia imaginar.
— Eu tenho quase certeza de que vem. Bom, não o conheço para saber, mas é o melhor amigo de Kenny, como você me disse. — Dei de ombros, me virando. — E ele não parece ser do tipo que perde uma festa.
Ouvi sua risada fraca e rapidamente segui até o banheiro, fechando a porta. Não esperei para ligar o chuveiro, ainda estava com a água salgada pelo corpo e meu cabelo não estava muito bom por causa dela. Deixei a água gelada escorrer por meu rosto e fechei os olhos, relaxando de imediato. A música alta da casa estava a todo vapor, podendo até mesmo sentir algumas batidas.
Deixei a mente vagar para o acontecimento mais cedo. estranha ao encontrar Kenny e saber depois que o garoto não tinha culpa alguma do que havia acontecido. Era tudo tão... Complicado. Ela não devia tê-lo tratado daquela forma, porque, bom, ele realmente não tinha culpa de nada. Mas, seguindo o pensamento dela, até podia estar certa. Iria se aproximar ainda mais de e não o superaria tão fácil.
Pisquei algumas vezes e abri os olhos, só me dando conta de algo. estava preocupada com o fato de o mais velho aparecer na festa e eu dei certeza de que ele apareceria.
Então, se eu estivesse certa e ele aparecesse... também estaria ali.

🌴


, vem logo! Já tem bastante gente chegando!
falava alto da varanda da casa enquanto eu ainda arrumava meu cabelo em frente ao espelho. Ajeitei a blusa em meu corpo, apesar de que sentia que algo estava faltando para completar. Deixei os cabelos soltos, como de costume, e prendi a franja para cima, fazendo um pequeno volume ali.
Era melhor do que nada.
Rodopiei pelo quarto, procurando um batom qualquer e parei ao ver certa flanela jogada em cima da cadeira. O tecido um pouco embolado estava “pendurado” no encosto da cadeira de madeira. O peguei ainda o observando. Era do e eu estava pensando seriamente em usá-lo.
Por quê? Era uma boa pergunta. E eu poderia dar uma resposta simples, como “combina com meu look”, mas não era bem assim. Eu não sabia ao certo o porquê de querer usá-lo.
Mas eu iria.
O amarrei na cintura rapidamente, no mesmo instante em que a sombra de meu irmão apareceu pela porta, me fazendo olhá-lo. Dei um sorrisinho enquanto o observava. estava impecável, apesar de não estar tão arrumado. Trajava uma bermuda jeans e uma blusa listrada preta e branca. Os cabelos estavam bagunçados para cima e os olhos pareciam mais azuis que antes. O perfume exalou praticamente pelo quarto inteiro.
— E então, minha madame já está pronta? — perguntou, observando-me com um sorriso, mas este sumiu rapidamente. — , que short é esse?
Eu falei.
Dei uma risadinha, terminando de passar o batom claro e segui em sua direção.
— E eu posso saber por que você está tão arrumado? — indaguei, semicerrando os olhos. Começamos a caminhar para fora da casa.
— Não vem mudando de assunto, eu nem estou tão arrumado assim... — Rolou os olhos, deixando um sorriso divertido transparecer. — Estou de olho em você.
— É claro... E ?
Passou um dos braços em meu pescoço assim que passávamos pelas pessoas em frente à casa. Na medida em que entramos pelo jardim, o número de pessoas parecia ter aumentado. Muitas já bebiam e conversavam animadamente entre si, também dançando.
— James a carregou tem alguns minutos.
Concordei, observando todo o lugar assim que adentramos a casa. A decoração tinha realmente ficado boa. O cômodo estava repleto de luzes coloridas, balões pendurados e flutuando. Os copos já estavam espalhados por todo canto da mesma forma que as pessoas. Algumas sentadas no sofá, encostadas na parede e até mesmo já tinha improvisado um beer pong.
Uma versão remixada de Five More Hours inundava o local por todas as caixas de sons espalhadas. Tinha mais da metade de Ocen View ali e aquilo era surpreendente. Como se a ficha de que James era realmente muito conhecido naquele lugar caíra agora.
se remexia ao meu lado e, assim que avistou o amigo, andou até ele ainda dançando.
Olhei James de onde estava e não podia negar que ele estava bonito. Os cabelos pretinhos arrumados de sua forma, o sorriso grande nos lábios. Estava com uma calça jeans rasgada, uma blusa azul clara e Air Force pretos nos pés. Ah, e vale lembrar que tinha um copo transparente com uma bebida azul acompanhando o neon da base. Absinto.
Five more hours we're just getting started... — o moreno sibilou ao ver se aproximando e riu. Ainda não tinha percebido minha presença no lugar e conversava animadamente com meu irmão. Mas não durou muito tempo. Os olhos castanhos do garoto desviaram me avistando e assim os arregalou gradativamente.
Olhou para meu irmão mais uma vez e o entregou o copo, vindo em minha direção. deu uma risadinha e um gole, saindo de onde estava.
— Ei, . Como você está? — perguntou mais próximo.
Dei um pequeno sorriso.
— Você fala isso como se não tivesse me visto há uma hora.
— Ah, você sabe... O costume. — Riu fraco, passando uma das mãos no cabelo. — Quer alguma coisa pra beber? Podemos ir lá na cozinha, o freezer está completamente lotado.
Disse animado enquanto se aproximava ainda mais. Pude sentir suas mãos encostando-se às minhas e logo estava entrelaçando seus dedos aos meus. O olhei rapidamente, percebendo-o me guiando até o local. Senti o coração palpitar com aquela aproximação e com o pensamento de James dando em cima de mim descaradamente.
Contive o sorriso e o segui de bom grado, parando para dar passagem a algumas pessoas. O calor que fazia ali dentro era anormal.
Encostei o corpo da bancada de mármore e, sem pensar muito, dei impulso com os braços, me sentando nela. James havia ido pegar os copos vermelhos e, assim que virou para me entregar, sorriu de canto, estendendo um dos que estava em suas mãos.
Procurou uma das bebidas no freezer e retirou de lá a garrafa de Jose Cuervo.
— Eu ia pegar algo mais elaborado, mas achei melhor deixar para mais tarde. Você sabe, é um clássico e serve para uma ocasião certa.
Ocasião certa?
Franzi o cenho, perguntando-me. O que ele estava aprontando?
Colocou um pouco em seu copo e estendeu a garrafa, se oferecendo para colocar no meu. Assim que encheu, guardou novamente e se aproximou, encostando seu corpo no freezer, que consequentemente ficava de frente para mim. Deu um pequeno gole e respirou fundo, sorrindo de canto.
— O que está achando? Para ser sincero, não achei que ia bombar.
Olhei ao redor, vendo as pessoas se divertindo e dançando.
— Para uma primeira festa em Huntington, eu estou achando incrível. Obrigada, James. — O olhei por alguns segundos e abaixei o olhar, remexendo o copo em mãos. Eu estava sentindo meu rosto queimar de leve.
Algumas pessoas passaram por nós, já que a cozinha era aberta. Seguravam seus copos e se desculpavam por algo que nem eu sabia.
James fez uma careta e um barulho estranho com a boca, deixando seu copo em cima do objeto.
— Primeira festa? Eu não acredito. — Se aproximou, pegando minhas mãos. Olhei para as suas, tentando entender o que queria fazer. — Tem que ser memorável. Vem. Vamos dançar um pouco.
E assim desci da bancada, sendo guiada por James pela festa e entre as pessoas que nos rodeavam. Olhei em volta, tentando achar ou até mesmo meu irmão, mas era impossível procurar um deles no meio daquela multidão que eu me encontrava. Fechei os olhos por alguns segundos. Era melhor eu nem me preocupar.
James se posicionou na minha frente, se aproximando para dar espaço para um casal que também dançava perto de nós dois. Eu podia sentir sua respiração bem perto do meu rosto, apesar de estar receosa para levantar o meu. Remexi meu corpo de acordo com as batidas da música, mas meu olhar ainda estava focado nos meus tênis. Eu estava tentando criar coragem para levantar o rosto e com isso pude ouvir uma risada fraca.
— Você está com vergonha, ?
Ergui meu olhar no mesmo instante em que o ouvi e aquele foi o ápice para minhas bochechas tomarem a cor avermelhada. Pude sentir um sorriso surgir em meus lábios e ele também sorriu com isso. Neguei com a cabeça, respondendo sua pergunta.

Girl, you're the one
I want to want me
And if you want, then girl you got me


— Não precisa...
Disse mais baixo, colocando uma de suas mãos na minha cintura. Pisquei algumas vezes, olhando em seus olhos. Eu estava um pouco atordoada, confesso. James era ótimo comigo, mas estar agindo dessa forma, demonstrando interesse... Era confuso. E novo demais para mim.
— James, eu...
Sh, . Por favor, não acabe com isso, não agora — falou quase implorando. Os olhos focados nos meus. — Não precisa me beijar se não quiser, não precisa mesmo. Só... Só fica por um tempinho. Comigo.
Como negar a um pedido desses vindo logo dele? Pus uma das minhas mãos em seu rosto e dei um sorriso pequeno, acariciando o local rapidamente. Ele fechou os olhos e suspirou, como se aquilo fosse grande coisa. Talvez, para ele, realmente fosse.
Dançamos um com o outro por um tempo bom. James parecia estar extremamente bem com minha presença e eu não podia negar que gostava de estar com ele. O sorriso em seus lábios não sumia e, com isso, se tornava mais divertido ainda. Uma música diferente e agitava tocava, e seus movimentos eram engraçados de propósito, me fazendo gargalhar.
Continuaria ali com ele praticamente a festa inteira, não fosse por sentir alguém agarrando meu braço. Olhei para trás, avistando o olhar confuso e desconfiado de .
Observei minha amiga com um copo pela metade nas mãos.
— Jimmy, dá licença um minutinho. , preciso falar com você — disse arqueando as sobrancelhas.
— E eu com você — disse mais baixo.
James piscou como se dissesse que estava tudo bem ir com ela. Dei as costas, passando pelas pessoas com a garota me puxando. seguiu para a parte externa da casa, a varanda, e parou, passando uma das mãos no cabelo.
— O que foi, ? Você parece nervosa. — Dei uma risadinha fraca. Ela assentiu, tomando um pouco da bebida e olhou ao redor como se procurasse alguém.
— Eu não achei o Kenny, mas o vi, — disse baixo. Pisquei algumas vezes, confusa. E só então me dei conta de quem ela estava falando.
— O... Você o viu? O veio? — perguntei atônita. Ela balançou a cabeça concordando arduamente e olhou para trás, para a rua. Olhei para a mesma direção que ela e o vi também.
estava na calçada, com alguns meninos ao redor. Ria alto, como de costume, e bebia como se aquela bebida fosse água. O que, cá entre nós, não era mesmo. ainda mantinha o seu olhar no garoto, tendo sorte por estar num lugar escuro, sem toda aquela iluminação colorida.
O garoto parecia relaxado até demais. Passou as mãos pelo boné cinza, o firmando na cabeça, e pude perceber suas roupas. A camisa de manga branca e a bermuda creme. Estava arrumadinho.
— Isso tudo é uma droga, sabia? — comentou amarga. Deu o último gole e encostou-se à pilastra. Aproximei-me um pouco mais. — Depois de tanto tempo, de tanto achar que superaria, estive errada o tempo todo. Ele tem ficado cada vez melhor...
— Ei, ... — fiz menção de abraçá-la, mas ela me parou, balançando a cabeça negativamente.
— Não. ‘Tá tudo bem, de verdade, . Eu não posso continuar mentindo pra mim mesma e não posso mais lembrar disso. Preciso de uma bebida. Mais uma...
— Garota, vai com calma. Você acabou de terminar um copo cheio. — A impedi, puxando-a novamente.
, qual é. — Deu uma risada fraca. — Vou me cuidar. Aliás, James vai fazer isso por mim.
Balancei a cabeça em negação, vendo sua afirmação. Ela ia dando as costas, mas pareceu se lembrar de algo.
— Ah, — chamou. Ergui meu olhar, observando-a. Ela parecia mais animada agora. — Uma moto. Embaixo da árvore.
Franzi o cenho, estranhando sua reação. A loira agora tinha sumido dentro da casa, deixando-me atordoada. O que ela queria dizer com aquilo? O que uma moto tinha a ver com toda aquela conversa? provavelmente já estava bêbada demais.
Passei uma das mãos pelo rosto e cabelo, me arrumando de uma forma inútil. Olhei em volta, tentando achar meu irmão. O loiro tinha sumido desde que chegamos. Devia estar ficando com alguém pela casa, era o mais provável.
Respirei fundo ao sentir a brisa gelada da noite de encontro à minha pele e andei um pouco mais, pronta para voltar e encarar James. E até faria isso, se não fosse por um olhar em cima de mim.
Direcionei meus olhos para a rua e de onde estava eu vi.
Uma moto clássica encostada à calçada. Era prateada, mas sua maior parte era vermelha. Nunca tinha visto uma daquelas, era muito bonita.
estava encostado a ela, entretido com seu celular. Parecia estar ali obrigado. De onde estava, pude o observar por completo e percebi que tinha alguma coisa diferente.
Apesar de vestir uma roupa aparentemente normal — uma blusa jeans de mangas curtas, regata branca por baixo e uma bermuda escura —, tinha algo a mais.
O percebi retirando seu boné também cinza, como o do irmão, e meus olhos se arregalaram vagarosamente. O cabelo, antes ondulado e maior, agora estava cortado de uma forma completamente sexy. Bagunçado para cima.
E uau.
Colocou o boné novamente e mexeu em algo na boca que, pela distância, não pude saber o que era. Bufei.
Eu devia me aproximar? Não sabia. Não éramos próximos o suficiente para engatar numa conversa assim, do nada. Mas precisava admitir que estava morrendo de vontade de chegar mais perto, de vê-lo mais perto.
Que merda estava acontecendo?
Deixei minha mente trabalhar e logo um pequeno estalo me fez ter uma ideia.
Rapidamente segui até a cozinha, pegando um copo de bebida. Talvez eu devesse levar um para ele... Não. Seria oferecido demais. Bebi um gole e saí da casa novamente, sem dar a entender que estava o procurando ansiosamente.
O garoto continuava no mesmo lugar, mas agora uma de suas mãos estava no bolso da bermuda. Os olhos ainda vidrados no celular.
Desci os primeiros degraus da escada da varanda, dando licença a algumas pessoas. Percorri pelo gramado, desviando de algumas garotas e fui para a calçada.
Tinha muita gente por lá, então não seria estranho ir direto a ele. O grupo de continuava no mesmo lugar e tinha muita gente do outro lado da rua também.
Engoli em seco, sentindo meu coração bater forte dentro do peito. Por mais um pouco, eu recuaria, mas já estava perto demais. Um leve arrependimento estava crescendo em mim.
Caminhei um pouco mais, agora estava a poucos passos de mim. Ainda não tinha percebido minha presença. Será que dava tempo de sair correndo ainda?
Droga, droga, droga...
?
Ouvi a voz e abri os olhos, percebendo então que estava com eles fechados por um tempinho. tinha o rosto virado em minha direção, curioso.
— Ah... Oi, — disse um pouco mais baixo. Ele olhou para as pessoas ao redor e voltou a pousar seus olhos sobre mim. Mas, diferente de antes, tinha um sorriso contido no canto dos lábios. — Não tinha te visto aí.
— Claro. Eu também não. — Ajeitou-se no veículo e me olhou mais uma vez. — Gosta de conversar a distância?
— O quê?
Pisquei algumas vezes, tentando assimilar. Ele sorriu um pouco mais.
— Você. Parece que está com medo de se aproximar. Tudo bem por mim.
Quis me dar uns belos tapas naquele momento. Apesar de não estar tão longe, eu estava. E era estranho falar quase gritando com ele.
Respirei fundo e me aproximei lentamente, ficando ao seu lado na moto. Bebi um pouco mais, tentando disfarçar meu constrangimento e só então percebi o que tinha de diferente além do cabelo.
Ele tinha colocado um piercing.
Nos lábios.
E tinha ficado extremamente sexy. Droga.
— E então, você não vai entrar? — perguntei, desviando o olhar. Deixei os olhos focados na casa à nossa frente. Ele pigarreou baixo, me fazendo olhá-lo. Negou com a cabeça.
— Não curto muito festas assim. acabou me obrigando, então vim para acompanhar. Não é como se ele fosse voltar completamente sóbrio. — Deu de ombros, ainda com suas mãos no bolso. Olhou para a festa por alguns segundos e abaixou seu olhar em direção ao meu. — E você? Pelo visto está aproveitando.
— Se aproveitar é beber um pouco enquanto não há muito o que fazer por aí... É, estou aproveitando bastante.
Ele deu uma pequena risada rouca. Balançou a cabeça, concordando com o que eu dissera. Resolvi beber o resto do líquido que tinha ali e jogar o copo fora.
— É uma droga, realmente. Pelo visto, estamos de plateia, o que é pior ainda.
Balancei a cabeça, concordando com ele, e, sem que eu percebesse, já estava encostada na moto, da mesma forma que . Estávamos mais próximos, ao lado um do outro.
— Mas acho que podemos resolver isso.
Pude sentir um arrepio ao ouvir sua frase. O olhei de imediato, avistando os olhos verdes também me olhando.
— Como? — perguntei, percebendo minha voz falha. Talvez pela proximidade, ou talvez por apenas ter saído mais baixa.
Ele sorriu, deixando uma risadinha escapar. Deu impulso, retirando o corpo da moto e ficou de frente para mim. Preciso comentar que meu coração estava bem mais rápido. O que ele estava fazendo?
Piscou vagarosamente e se afastou um pouco, para perto do guidão da moto. Um vinco se formou em minha testa, sem entender.
... — disse parecendo pensar. — Você já andou de moto, certo?
Por um instante, senti minha respiração entrecortar. É claro que já tinha andado de moto. Bom, fazia muito tempo, mas já tinha.
Observei seu olhar divertido e uma das mãos retirando um molho de chaves de seu bolso.
— Já. Algumas vezes quando mais nova.
Disse, dando de ombros. Tentei transparecer que aquilo não me preocupava muito, quando na verdade eu estava nervosa.
— Bom... Tenho um lugar melhor que essa festa para ir. — Rapidamente passou uma das pernas, se sentando na moto. Colocou a chave na ignição, retirando o capacete do guidão. Ajeitou o boné em sua cabeça e se virou, dando um sorriso aberto e, por Deus, ficava ainda mais bonito com aquele piercing. — Você vem?
Era uma pergunta tentadora, vale lembrar. Pensei por alguns segundos. Nenhum dos três na casa sabia onde eu estava e meu celular havia ficado no quarto. provavelmente piraria se soubesse que saí de moto com , um cara que ele não conhece. E , pior ainda. Saber que saí com o irmão de seu ex-namorado.
Mas eu devia aproveitar. Isso não aconteceria outra vez. E, pra ser sincera, talvez fosse melhor que aquela festa, realmente.
Devolvi seu sorriso e subi em sua moto, me sentando. Por trás dele, percebi um sorriso se formando em seu rosto e aquilo me animou ainda mais. Passou o capacete de suas mãos para mim e assim o coloquei.
Quando ouvi o barulho da moto sendo ligada, outro arrepio percorreu meu corpo.
— Eu acho melhor você se segurar... — Fiz menção de segurar nas laterais da moto. Ele riu e completou, arrancando. — Em mim.

🌴


O vento bagunçava meus cabelos de forma rápida e, junto dele, o perfume de impregnava minhas narinas. E preciso acrescentar que o perfume dele era muito bom.
Eu estava abraçada ao seu corpo, um pouco forte demais. Podia perceber a blusa marcando sua barriga. Era o tipo de pensamento que eu queria tirar da cabeça, mas não conseguia e eu não sabia se isso era ruim.
A moto seguia veloz pela avenida não tão cheia assim. Algumas pessoas caminhavam na orla e outras estavam sentadas perto do mar.
O corpo quentinho de estava colado ao meu. Não tinha como não estar naquela situação e não posso mentir dizendo que aquilo não estava bom, porque estava, sim.
Enquanto as palmeiras passavam por nós dois como um borrão, ergui o olhar um pouco mais para avistar a lua, grande e reluzente no céu, sendo rodeada de estrelas. Esta sendo refletida no mar era uma paisagem maravilhosa.
Estávamos nos aproximando do centro da cidade, completamente iluminada e, naquele momento, um pouco cheia. O píer já estava à nossa vista e algumas pessoas caminhavam por ele até sua ponta, onde o Ruby’s se localizava. O local estava fechado.
estacionou a moto não tão longe da entrada e respirou fundo, tirando a chave da ignição. Ajeitou seu boné na cabeça e olhou para o lado, esperando que eu descesse e só então me toquei que ainda estava abraçada com ele.
Em cima da moto. Meu Deus.
Pigarreei baixo, soltando-me dele rapidamente e desci do veículo, retirando o capacete e o esperando. Ele ainda tinha um sorriso divertido nos lábios quando desceu da moto.
O entreguei o capacete e ele o pegou, prendendo-o à moto e dando uma última olhada antes de caminhar ao meu lado até a entrada do píer.
Suas mãos novamente estavam no bolso da bermuda e, olhando-o de lado, pude perceber como ele estava tranquilo, aproveitando o vento fraco que estava naquele momento e me toquei que era a única que emanava nervosismo purinho.
Praguejei-me mentalmente por isso. Eu parecia uma garotinha.
Observei as pessoas ao redor debruçadas no píer, provavelmente admirando toda aquela paisagem. Apesar de o mar estar escuro, assim como o céu, ainda era bonito de se ver. Vários postes iluminavam o píer, fazendo-o ficar ainda mais aconchegante.
Percebi que o loiro se afastou, indo para um canto mais afastado, quase vazio, e apoiou os braços na barra de ferro, olhando para mim. O segui também, fazendo o mesmo que ele.
— Gosto daqui. O mar costuma ficar mais calmo esse horário e dá pra perceber quase toda vez... — comentou baixo, apontando levemente para as ondas fracas que quebravam abaixo de nós.
Olhei para onde apontava e vagamente assenti com a cabeça. parecia longe, os olhos focados na água salgada. Piscou algumas vezes e virou o rosto, sorrindo minimamente.
— Vi você surfando hoje de novo. Não vou repetir o que disse da outra vez, mas ainda acho o mesmo.
Abaixei a cabeça, dando uma risada fraca com seu comentário. Ergui o olhar, mirando seus olhos verdes.
Claro que ele não diria outra vez que eu surfava bem.
— Tudo bem, . Não precisa admitir outra vez que eu sou ótima fazendo isso.
Ele arqueou uma das sobrancelhas e também riu, desviando o olhar. Estávamos próximos um do outro, de forma que nossos braços roçassem levemente.
— Você também surfa, não é? — perguntei.
Ele assentiu.
— Costumava praticar mais quando não trabalhava. Fazia isso a maior parte da minha tarde. — Deu de ombros.
E então o silêncio se instalou outra vez, mas, diferente de antes, virou o rosto, olhando-me por completo e deu uma pequena risada divertida ao focar os olhos em minha cintura.
Olhei para o mesmo local e meu rosto queimou de imediato ao ver o que era.
Sua flanela xadrez. Tinha esquecido completamente dela.
Assim que levantei o olhar, dei de cara com o seu, observando-me como se aquilo fosse um grande hobby, o que chegava a ser um pouco estranho, mas nada incômodo. Ter aqueles olhos pousados em mim era até... Bom.
Pisquei algumas vezes e olhei para baixo novamente, procurando algum argumento, mas tudo o que eu conseguia fazer era abrir e fechar a boca algumas vezes, sem dizer nada.
— Eu te procurei no colégio. Pra devolver. E desculpa por estar usando agora, eu só achei que...
— Não precisa se desculpar. Não precisa me devolver agora — interrompeu-me, dando a entender que não se importava com aquilo. Franzi o cenho, perguntando-me o porquê daquilo. — Combinou com sua roupa.
— Não... Precisa? Por quê? — Ainda estava confusa.
Ele balançou a cabeça, abaixando-a um pouco e redirecionou seu olhar para mim.
— Digamos que combinou mais com você do que comigo. — Deu uma piscadela.
Ainda estava atônita, tentando entender. Percebi sua movimentação e o olhei, vendo-o virando o corpo e mantendo agora suas costas encostadas no píer.
— Você não se importa?
Ele riu fraco e deu impulso com o corpo.
— Você faz perguntas demais, boom. — Passou os dedos por meu cabelo, bagunçando-o, e começou a andar. — Vem. Vamos andar um pouco.

Can't let it get to me
Oh no, lord knows
The way I let it get to me


Rolei os olhos lembrando aquele apelido, mas não pude deixar de rir. Era como lembrar que antes me irritava, mas que agora não fazia muita diferença.
O segui, ficando ao seu lado e consequentemente mais perto.
— Eu não sei muito sobre você, .
— o interrompi, fazendo uma careta. — E nem eu sobre você.
Riu fraco e colocou uma das mãos no bolso da bermuda.
— Justo — comentou, assentindo. — E então, , se mudou para Huntington tem quanto tempo?
— Pouco mais de um mês. Meu primeiro dia foi quando me perdi.
— E eu te ajudei. Vale lembrar. — Deu um sorriso, olhando-me.
Balancei a cabeça, dando uma risadinha.
— E você? Mora aqui há muito tempo?
— Bom... Desde que me lembro. Ou seja, desde pequeno. — Deu de ombros, olhando para o lado, para a avenida.
Continuou a falar, mesmo que pouco, sobre sua vida na cidade e de como gostava de morar ali. O observei todo esse tempo, percebendo que ele era diferente dos demais, de uma forma boa. Era excêntrico, divertido, mas na sua medida certa. Sabia fazer o tempo passar.
Na medida em que conversávamos, resolvemos ir para um pouco mais longe do píer. Caminhamos pela areia e nos sentamos próximo ao mar, de modo que a onda que quebrasse quase chegasse perto de nossos pés. O vento calmo me fazia relaxar, fechando os olhos rapidamente.
— Eu não tenho do que reclamar. Não mudaria daqui. Tenho tudo o que preciso — concordou consigo mesmo e tirou algo do bolso. Era um maço junto a um isqueiro. Retirou um cigarro, virando-se para mim. — Você se importa?
O olhei por alguns segundos e engoli em seco, querendo dizer um grande sim.
— Não... — falei mais baixo. O loiro deu de ombros, aproximando o isqueiro do cigarro em seus lábios. Em um impulso, me aproximei. — Na verdade, me importo sim.
— O que...
E em segundos havia retirado o cigarro, jogando-o para longe. se aproximou, de forma falha, tentando pegá-lo, deixando seu corpo mais colado ao meu.
Dei um sorriso contido, sentindo-me bem com aquilo.
Ainda com seu corpo próximo, virei o rosto, o olhando, e o garoto abaixou seu olhar em direção ao meu. Os olhos verdes iluminados pelo luar, pertinho dos meus.
De fato, senti um grande frio na barriga. Aquele frio quando alguma coisa boa está prestes a acontecer, mas eu não sabia se aquele era o momento.
Observei seus lábios se curvando em um sorriso.
E assim se afastou. Os olhos agora estavam voltados para o mar e um misto de confusão emanava meu olhar. Respirei fundo e me afastei minimamente, só então percebendo que estava fazendo algo em meio a uma risadinha.
O olhei e automaticamente prendi a respiração ao ver seus braços retirando a blusa jeans, seguindo para a regata branca.
— O que você está fazendo, ? — perguntei sem entender.
Ele olhou-me de lado, ainda com aquele sorriso de canto nos lábios.
— Eu não sei você, mas... Eu estou com calor — comentou despreocupado, tirando agora sua blusa. Pisquei algumas vezes ao ver seu corpo, não excessivamente malhado, mas torneado.
— E o que pensa que vai fazer, ? — Olhei ao redor, avistando pessoas ao longe.
— Eu vou mergulhar. — Ergueu o corpo e ficou de pé em minha frente. Os cabelos estavam sendo balançados pelo pouco vento que soprava, seus olhos sorriam.
Arqueei uma das sobrancelhas e apoiei o corpo com os braços, tentando entender o que ele queria.
— E o que está esperando?
Ele riu, virando o rosto para o lado e voltou a me olhar, agachando-se minimamente. Agora ele estava apenas com a bermuda e seu boné. Os olhos bem mais brilhantes que antes.
— Você.
— O que...
Ele continuou ali, parado, esperando uma resposta concreta minha.
— E se não se levantar, eu vou te pegar e você pode dar adeus às suas roupas.
— Eu não vou tirar minha roupa na sua frente! — Gesticulei exasperada. Estava nervosa.
Ele continuou me olhando por mais alguns segundos e deu de ombros, parecendo convencido de que eu não faria aquilo, mas em vez de se levantar, esticou seus braços e os colocou em minha cintura, dando impulso e me levantando.
, não...
Ouvi sua risada e rapidamente eu já estava no ar, sendo colocada em seus ombros.
Soltei um grito ao mesmo tempo em que era impossível não rir daquilo. também estava rindo.
— Você quem pediu por isso.
Começou a caminhar em direção ao mar e eu ainda soltava alguns gritinhos de forma falha para que ele me soltasse.
— Tudo bem... ! Eu vou tirar!
Ele parou e olhou para o lado. Respirou fundo e vagarosamente, arrisco até dizer que de forma delicada, me colocou na areia. O olhei e dei um pequeno sorriso, retirando a blusa de minha cintura. Desci as mãos até a barra da blusa branca e ergui o olhar, encontrando de olho em meus movimentos.
Arqueei as sobrancelhas, fazendo-o despertar e ele riu, assentindo e se virou, olhando
na outra direção.
Retirei a blusa e respirei fundo, abaixando os shorts. Olhei ao redor, dando graças a Deus por não ter ninguém por perto.
— Eu vou precisar te arrastar? — perguntou, se virando e eu percebi o sorriso contido.
— Não mesmo.
balançou a cabeça e sorriu, indo em direção ao mar. Segui ao seu lado, ainda incerta de entrar. A água devia estar geladíssima para aquele horário.
Fiz menção de voltar e virei meu corpo, sentindo as mãos quentes de puxando-me de volta enquanto sua risada inundava o local. Por um instante, ele correu até o mar me segurando e senti o impacto da água com meu corpo, rindo junto a ele.
Não demorou muito para que ele mergulhasse e eu seguisse nadando para mais fundo. Devo admitir que a água estava uma delícia, apesar de um pouco fria.
ainda não tinha submergido, o que era estranho. Olhei em volta, o procurando, e respirei fundo. Ele devia estar brincando.
Abaixei o corpo, de forma que só minha cabeça estivesse para fora. No mesmo instante, senti algo passando por meus pés e dei um pulo, soltando um grito.
havia emergido em minha frente, gargalhando. Ele estava bem pertinho e tinha abaixado da mesma forma que eu, deixando nossos rostos bem próximos.
— Você se assusta fácil demais — falou mais baixo. Rolei os olhos, jogando um pouco d’água nele.
— E você é irritante, .
Soltei sem querer e logo o olhei, desviando o olhar para longe. O loiro tinha percebido, tanto que seus lábios se curvaram em um sorriso de canto. Ele me observava de forma calma.
— Você sabe o que está fazendo? — Soprou ainda com os olhos sob mim. O olhei da mesma forma. — Por que está se aproximando assim?
Franzi o cenho, tentando entender o porquê daquela pergunta. Não dava para entender o que ele realmente estava querendo com aquilo.
— Porque eu... Eu... — Engoli em seco. — Eu não sei. — Abaixei o olhar, mexendo na água minimamente.
Ficou em silêncio por um tempo. Ele estava ainda mais perto.
— Eu também não sei... — Senti suas mãos encostando-se a meus braços, por baixo d’água. Era uma pequena carícia. Pisquei algumas vezes, tentando decifrá-lo. — Não sei por que quero isso. Dá mesma forma que sinto que é tão errado...
Deixou seus olhos caírem para meus lábios, subindo para o resto do meu rosto até encontrar meus olhos. Uma de suas mãos subiu, passando por meu ombro e parando em meu queixo.

I remember when you lit me up with your touch
The fire within me
When I'm feeling empty
You fill me up right up baby


Seu rosto estava a centímetros do meu, praticamente colado. Os lábios rosados estavam entreabertos, esperando por algo. ainda me observava como se aquela fosse uma atividade interessante.
Deixei que minhas mãos seguissem para sua nuca, depositando-as ali de forma delicada. Ele fechou os olhos e respirou fundo, aproveitando o momento. Vê-lo daquela forma, pouco vulnerável, era tão diferente. Cedendo à sua vontade, sem hesitar em dar um passo à trás.
... Eu não quero fazer isso com você.
Ele se aproximou e pude sentir meu coração indo a mil. Ainda com sua mão em meu queixo, lentamente se aproximou e encostou os lábios nos meus num pequeno selinho e se afastou, parecendo pensar o suficiente para não fazer aquilo mais.
Era no mínimo decepcionante.
O olhei como se perguntasse com os olhos o porquê de ter se afastado.
— Eu não posso fazer isso com você, mas droga... Eu não vou aguentar por muito tempo.
Olhou por uns segundos até fazer o que queria.
O que ele queria.
O que eu queria.
E então seus lábios estavam juntos aos meus outra vez.
passeava com suas mãos por minha cintura e rosto, parecia pedir por mais.
Dei passagem para sua língua, sentindo um frio bom percorrer minha barriga. Não era um beijo sedento, rápido ou algo do tipo. Era um beijo... Necessitado. Como se já tivéssemos nos beijado antes e precisávamos daquilo de novo. O que chegava a ser estranho.
Mas isso não me importava naquele momento.
Não importaria.
Deu mais alguns selinhos e me permiti sorrir com aquele pequeno momento.
se afastou, pressionando os lábios e engoliu em seco, olhando para mim como se fosse a última vez que faria aquilo. Estranhei seu ato e, como se ele estivesse se arrependendo, respirou fundo e segurou meu rosto outra vez, avaliando-me.
— Eu acho melhor levar você pra casa.
E, com isso, encostou sua testa na minha e soltou-se, passando por mim até a beira do mar. Pisquei algumas vezes, tentando entender tudo aquilo.
O que tinha acabado de acontecer?


Capítulo 11

Bocejei mais uma vez.
Como se esse pequeno ato me fizesse acordar para valer naquela manhã, só então percebendo o quanto eu estava com preguiça. Ao abrir os olhos levemente, pude observar que o céu já não estava mais tão azul, como nos outros dias em que o calor bronzeava minha pele. Não.
Ele estava com algumas nuvens acinzentadas e o sol estava bem escondido entre elas, mesmo mostrando algumas partes azuladas perdidas. Não estava tão ruim, já que não parecia que ia chover.
Mas não era isso que me preocupava naquele momento e sim a feição contrariada que estampava o rosto do meu irmão desde a noite anterior e insistia em continuar lá, completamente visível.
O problema de tudo foi que assim que cheguei à casa na manhã seguinte, quando os pássaros começavam a cantar, logo depois de uma carona de , pude notar com clareza o quanto a casa estava uma bagunça e que levaríamos um bom tempo para arrumá-la. Encontrei meu irmão caindo de sono, mas ainda sentado, no sofá da casa de James. , mesmo cansado e com sono, parecia não se render facilmente a ele.
E logo depois eu fui descobrir o porquê disso.
Ele havia me esperado chegar desde a hora em que tinha sentido minha falta na festa e, para completar, assim que me viu entrando por aquela porta, o sermão estava pronto.
— Você pode me explicar onde se meteu?
Sim, foram suas exatas palavras. Nem mesmo um bom dia, mas eu o entendia. Toda aquela preocupação excessiva de irmão mais velho — alguns meses, vale lembrar, e a postura de que havia algo errado era evidente.
Eu tive que dar uma boa explicação, realmente, mas não omiti o fato de que estava com outra pessoa. Nem ao menos ainda sabia. Não seria o primeiro a saber. Apesar de ser meu irmão, ele caçaria para tirar alguma satisfação também de qualquer que fosse a coisa que tinha acontecido naquela madrugada.
A única coisa que eu tinha certeza era de que não ia querer uma confusão com . Não com daquele jeito e o melhor talvez fosse nem falar com ele. Pelo menos nem tão cedo.
Eu não conseguia entender. De verdade, era indecifrável. Em um momento, ele aparentava querer algo e, aos poucos, conseguia se mostrar um pouco mais, mas em outro, da mesma forma, parecia não querer e eu não conseguia entender o que ele realmente tinha em mente. Não sabia ao certo o que pensar sobre ele.
E, de preferência, agora, preferia não pensar.

estava sentado, como em todos os outros dias, no banco do motorista, mas com suas pernas para fora do carro. Os braços estavam descansados em cima do joelho enquanto ele tinha o fone nos ouvidos e a atenção nos alunos naquele estacionamento. Por sua expressão, eu tinha certeza de que ele estava pensativo demais. Os lábios franzidos e a testa enrugada indicava tudo.
Rolei os olhos e me aproximei, ficando ao seu lado, mas antes que pudesse agachar perto dele, observei o carro que adentrava a entrada do estacionamento àquele momento e avistei a cabeleira loira de dentro dele.
. É sério? — Questionei, ficando em sua frente. O rapaz respirou fundo, virando seu olhar para o meu.
— Eu que devia dizer isso, não? , você saiu de madrugada com uma pessoa que provavelmente sequer conhece direito e nem levou seu celular. Tem noção de como me deixou preocupado? — O loiro dizia exasperado, enquanto gesticulava. Pausou, ainda me olhando, e respirou fundo antes de continuar. — E quem é essa pessoa? É um cara, não é? De onde o conhece?
Em seguida, cruzou os braços torneados, deixando suas tatuagens visíveis. Eu não soube o que falar naquele momento. Presenciar esses pequenos ataques do meu irmão era raridade, mas tinha que admitir que sua feição estava um tanto engraçada. Então, a única coisa que consegui fazer foi soltar uma risadinha de leve, sem conseguir controlá-la.
E observar sua feição incrédula logo depois.
— Eu disse alguma piada? — Grunhiu entre os dentes.
... Eu estou bem, não estou? Não precisa ficar assim. Afinal, não é a primeira vez que chego tarde à casa, certo?
O olhei. O loiro revirou os olhos, como se eu tivesse dito besteiras.
— Claro. Porque para você é algo normal a se fazer.
Oh, pare. Você está agindo como o papai — disse, começando a me irritar, mas, naquele momento, vi a postura do garoto mudar. agora me olhava sem acreditar que eu havia dito aquilo. O rosto completamente sério.
— Não ouse dizer isso.
Ele respirou fundo, engolindo em seco e manteve seu olhar sobre mim. Só então soube que havia dito algo extremamente errado àquela hora.
Suspirei, abaixando meu olhar.
— Desculpe — sussurrei. — Não devia ter dito isso.
Continuou calado por alguns instantes até que a voz de interrompesse aquele silêncio que pairava entre nós dois. , que ainda me olhava, desviou o olhar para a garota.
— E então, como vocês estão? — A loira resmungou. — Porque eu não estou nada bem e minha cabeça está latejando.
James soltou uma risadinha e me olhou de soslaio.
— Bom dia — disse baixo, como se fosse só para mim.
O olhei, sentindo meu rosto ruborizar rapidamente. James hoje estava mais bonito que o normal, apesar de tímido naquela hora, e suas bochechas também estavam coradas.
— Bom dia, Jimmy — respondi, ficando ao seu lado. O rapaz colocou seus braços ao meu redor e sorriu de forma calma, quase que me hipnotizando. Pisquei algumas vezes, até vê-lo rir de algo que falava.
— Prontos para a próxima?
James perguntou, ainda com o sorriso largo no rosto. No mesmo momento, nós o olhamos em surpresa.
O quê?
E essa era falando mais fino que o normal.
— Relaxe, só estou brincando. — O moreno riu. — Adorei sua expressão, priminha.
Ah. Muito engraçado. Nem parece que você tomou um porre daqueles. E olha que isso já tem quarenta e oito horas... — A loira cruzou os braços, com uma careta. Pareceu pensar alguns segundos. — Não. Vinte e quatro. Você bebeu ontem.
— E você também. Não adianta falar nada. Sua feição te denuncia.
James continuou, achando graça na reação que a garota esboçava. A verdade era que ele adorava a tirar do sério, tanto que parecia orgulhoso em mostrar as fotos da prima das formas mais loucas e inimagináveis possíveis daquela noite. Uma delas foi em seu ombro, a qual estava quase de ponta cabeça e, bom, realmente não parecia nada legal.
— Eu acho melhor você ficar quieto e parar de mostrar essas fotos — ameaçou, enquanto apontava o indicador para o primo.
Dei um pequeno sorriso com a cena que presenciava e olhei para o lado, observando meu irmão e notei que ele já tinha trancado o carro com sua mochila nas costas, quase como se nos esperasse para entrar no colégio. E sua expressão continuava a mesma, o que só me fez bufar.
havia percebido.
Começamos a andar e enquanto James puxava um papo qualquer com , senti as mãos de minha amiga nos meus braços, puxando-me para perto.
— Quando é que você vai contar o que está rolando com seu irmão? Ele não falou um A desde que eu e Jimmy chegamos — dizia um pouco mais baixo, já que os dois estavam praticamente colados em nossas costas. — E olha que realmente costuma a falar.
Pensei um pouco antes começar a contar toda a situação para ela. Eu não tinha contado a o que realmente estava acontecendo ou o que tinha acontecido na madrugada da festa. Tudo bem, todos tinham que para estar daquela forma, algo tinha acontecido, mas depois do ocorrido na casa de James, apenas a limpamos e começar a fazer outra coisa que não envolvesse tocar no assunto.
A olhei e voltei a encarar o corredor no mesmo instante, mas não fez o mesmo. Ela continuou me observando, como se eu fosse falar a qualquer momento. Parecia mesmo querer saber.
— Eu diria que é sensível demais. E tudo bem, mas eu acho que não é assunto para eu te contar na sala de aula.
Ela revirou os olhos, dando de ombros como se tivesse aceitado o fato de que esperaria até um horário vago para descobrir o que aconteceu, mas foi aí que paramos bruscamente, ao sentir dois garotos esbarrando em nós duas. e James acabaram batendo de leve em nossas costas, soltando um, provável, palavrão.
— Qual foi, ? — James reclamou, confuso. piscou algumas vezes, mas não disse nada. Eu até reclamaria, de fato, mas deixei para fazer isso depois. Na frente dele.
— Opa. Foi mal. — O rapaz loirinho que havia esbarrado em mim tinha dito, com um sorriso contido. Assim que nos olhou bem, pareceu lembrar de algo. — Ah. Vocês são da classe do senhor Daves, certo? Ele não vai poder vir, nos deixaram com dois horários vagos agora.
E antes que pudéssemos agradecer, seu amigo havia o puxado, fazendo com que ele soltasse alguma piadinha de longe. deu uma pequena risada e antes que pudéssemos dizer algo, meu irmão e James já estavam longe, seguindo para suas salas.
respirou fundo e me olhou, deixando um grande sorriso transparecer.
— Agora sim eu acho que é hora para você me contar.


🌴



And I know from the first time, the first time
I seen your love, you got me baby...


O pátio não estava tão cheio. Nele continha nossa turma, espalhada. Alguns estavam na quadra, outros sentados no gramado e os últimos, como eu e , sentados em um dos bancos que dava vista tanto para o resto da escola como para o corredor principal de entrada. A loira ao meu lado dividia os fones de ouvido comigo enquanto mexia em suas unhas, fazendo alguns comentários aleatórios.
— E, bom, você sabe como essas coisas são e é chato demais. Eu não tenho visto mais ela por aqui. Acho que evaporou como tanto desejei.
comentava sobre Jenna, o que não me surpreendia, já que dava para perceber o ressentimento vivo em seu tom de voz, mas mesmo com todo seu discurso sobre não ter mais paciência para a menina que considerava sua amiga, minha mente divagava sobre qualquer outra coisa.
E só piorou quando eu avistei aquela cena.
, você está me escutando?
Aham.
Como em automático. Eu estava tão concentrada naquela visão que sentia meu corpo estático, exatamente como se tivesse sido anestesiado. Não era como se eu pudesse tirar minha atenção do que estava vendo.
ainda me observava, esperando alguma resposta sobre o que falava, mas ao perceber minha reação, olhou para a mesma direção em que eu encarava.
E ficou tão boquiaberta quanto eu.
Ok. Não era nada tão extraordinário, mas vê-los entrar daquela forma era quase como colocar tudo em câmera lenta. caminhava pelo lugar, seguido de , Kenny e mais alguns garotos que eu conseguia reconhecer de algumas aulas que já tivemos juntos e, principalmente, do meu primeiro dia em Huntington.
A única diferença ali era que o que chamava atenção era . Com certeza era ele. Não que eu estivesse hipnotizada pela beleza do rapaz, mas era impossível não prestar atenção em cada passada, cada gesto e isso incluía suas mãos no bolso da calça junto dos cabelos sendo balançados pelo pouco vento que passava pelo lugar. Ele tinha seu olhar centrado, mesmo olhando algumas pessoas ao redor, e eu só conseguia notar que se aproximava mais.
E um sorrisinho foi crescendo no meu rosto, como se eu estivesse esperando por algo. Ou pelo menos algum reconhecimento por parte dele.
Eu havia passado a noite anterior com , mas claro que ele lembraria do que aconteceu. Passaria por mim, falaria comigo e seguiria seu rumo. Era isso o que tinha que acontecer, certo?
Errado.
Não foi o que aconteceu.
se aproximou com seus amigos, passou seus olhos por todos que ali estavam e assim que parou nos meus, ingenuamente sorri para ele, que sequer ousou em manter seu olhar e passou reto sem falar uma palavra. Como se não soubesse quem eu era e como se nem ao menos tivesse ido à praia comigo.
Ele simplesmente saiu andando com seus amigos, como sempre fazia.
Pisquei algumas vezes, murchando ali mesmo, mas não antes de soltar um resmungo em frustração.
— Fala sério. Por que ele não falou nada? — Sussurrei para mim mesma, sem perceber que havia dito alto o suficiente para que pudesse ouvir.
E foi aí que avistei a boca escancarada de ao meu lado, me encarando.
— O que foi isso? O que foi essa olhada? E esse comentário? Piscou algumas vezes, passando uma das mãos pelo rosto e soltou um suspiro, deixando o corpo cair pesado em cima de sua mochila.
— É sério, ?
— É sério o quê?
— Você acha mesmo que vou acreditar que não aconteceu nada? Ou que você não está me escondendo alguma coisa? — Questionou.
— Eu acho que não tenho muito o que esconder de você, não é? — Dei um pequeno sorriso amarelado e a olhei. — Você vai me bater muito se eu te disser que o cara que passei a noite da festa foi o ?
Os olhos de pareciam não ter mais para onde se arregalar, assim como sua boca, e a única coisa que ela havia conseguido balbuciar haviam sido palavras desconexas.
Eunãoacredito.
Disse pausadamente e baixo, mesmo que sua expressão indicasse que ela queria gritar. Respirei fundo, fechando os olhos rapidamente.
— E por que você não me contou isso antes, ? — fechou sua mão e me levou um pequeno soco de leve no braço. — Preciso dizer que estou um pouco surpresa. nunca chegou a se envolver com alguém daqui. Bom, só alguns casos que comentavam por aí. Boatos, você sabe..., mas... Nossa! ? O !
Ela riu fraco, colocando uma das mãos no rosto.
— Não é como se estivéssemos tendo um caso, . Nem ao menos nos beijamos! — Mentirosa! Eu conseguia ouvir minha mente gritar.
me olhou por alguns segundos e foi estreitando seus olhos vagarosamente, sua típica expressão desconfiada.
— Você está mentindo para mim. Oh, fala sério, . Você beijou .
E mesmo que quisesse, não havia conseguido esconder sua risada. Franzi o cenho, tentando entender a reação da garota.
— E isso é engraçado? olhou para mim e respirou fundo, só então balançando a cabeça em forma negativa.
— Não. Só que agora estamos no mesmo barco, . A diferença é que sou apaixonada pelo irmão mais velho e problemático. — Deu de ombros, suspirando. — E você, bom... Acho que teve alguma sorte, pelo menos.
— Eu não estou apaixonada por .
Disse aquilo mais alto que o normal, de forma exasperada. Eu estava parecendo uma desesperada, enquanto gesticulava para ela, tentando me explicar. Após dizer a seguinte frase, suspirei, parecendo um pouco aliviada por me dizer aquilo, mas só naquele momento.
Porque pude ouvir a voz que tanto conhecia logo atrás de mim.
? — Perguntou. — Quem é ?
No mesmo instante, engoli em seco. Rapidamente, virei meu corpo, observando meu irmão bem de pé atrás de mim. Ele segurava uma das alças da mochila, seus olhos estavam mais azuis do que costumavam ser e seu olhar parecia bem interessado no que eu dizia anteriormente.
, percebendo minha feição, soltou uma risadinha, tentando disfarçar a situação.
— Ah, não é ninguém, . É só um carinha que conhecemos e que eu adoro ficar zoando a . Não esquenta, não — afirmou, olhando para mim rapidamente.
Ele pareceu comprar aquela desculpa, já que olhou para mim por alguns segundos e balançou a cabeça, assentindo. Pude sentir uma dorzinha bem no fundo do peito. ficava péssimo quando brigávamos. Ele conseguia mesmo me ignorar de uma forma absurda.
puxou assunto com o garoto, que parecia mais entretido em contar sobre suas melhores ondas e quedas que teve em Fort Point. Eu o observava discretamente, percebendo que seu bico havia desmanchado e agora o meu que estava enorme.
Na maioria das vezes, eu queria muito conseguir estar brigada daquela forma com meu irmão. Não tinha por que me ignorar assim, mesmo sabendo que eu ficava insana toda vez que isso acontecia, mas eu não conseguia.
Cruzei os braços, ficando por ali e observei a aglomeração de alunos que surgia até sentir meu corpo ser envolvido por braços torneados. E fortes...
— Ei, !
James.
— Ei. — Dei um meio sorriso. — Sua aula já acabou?
— Sim. Eu tive que aguentar duas horas do Sanders com a Ryland do meu lado. — Se sentou ao meu lado, entre e . Deu de ombros ao terminar a frase, o que me fez olhar para rapidamente ao ouvir o nome de sua ex-amiga. A loira fez uma careta e encolheu os ombros, como se aquele assunto fosse ruim demais para ela.
— Não era isso o que você achava da sua garota — alfinetou, o fuzilando com o olhar.
James balançou a cabeça, sorrindo para a prima.
— Você precisa superar. — Colocou as mãos no bolso da bermuda jeans, o que fez com que os músculos de seu braço se sobressaltassem. — Além do mais, nós dois sabemos que ela não é minha garota preferida mais.
Os olhos do moreno se redirecionaram para mim e tão rápido havia desviado. Pisquei algumas vezes, tentando entender o que havia sido aquilo. ainda o olhava, mas pareceu se dar por vencida, dando de ombros.
Antes que pudéssemos engatar em uma outra conversa, ainda com quieto, próximo de nós, ouvimos o sinal indicar o término daquela aula vaga.
— Eu te encontro daqui a pouco? — dizia, enquanto se acomodava nos braços no primo, que a abraçava de lado. — Pelo visto não vamos nos juntar na próxima aula.
— É verdade. Não pegamos mais nenhuma juntos — comentei.
— Vou com vocês três. Tenho aula no mesmo corredor. — abriu a boca e até me espantei ao ouvir sua voz outra vez. Ele ainda estava sério, o maxilar marcado e os olhos focados nos dois à nossa frente. — Qualquer coisa você manda uma mensagem.
Rolei os olhos, o olhando incrédula em seguida. Não era possível que ele continuaria daquela forma por mais tempo.
Bufei, ouvindo a risadinha de e me virei.
— Tanto faz.
Nem dei oportunidade para qualquer um deles se despedir e só consegui ouvir a voz de um deles me chamando. Se queria ficar mesmo naquela... Que ficasse então. Eu que não iria ficar atrás o tempo inteiro, certo?
Ajeitei a mochila nas costas e segurei uma de suas alças, enquanto caminhava determinada a achar minha sala, aguentar as últimas aulas e estar de volta à minha casa.
Respirei fundo, ainda andando. Eu odiava tanto quando ficava daquela maneira... Achei mesmo que ele deixaria a história de ter chegado tarde de lado, mas, pelo visto, não. E tudo bem, eu poderia ter falado algo que não devia, mas não era para tanto também.
Respirei fundo, ainda caminhando pelo corredor e até continuaria, não fosse por alguém ter esbarrado em meu ombro. Por alguns instantes, eu estava prestes a me virar, pronta para despejar todo o incômodo que eu estava sentindo, até encarar os olhos castanhos focados em mim. Kenny tinha uma expressão divertida em seu rosto, apesar de preocupada.
— Opa. — Ouvi sua voz, se desculpando em seguida. — Desculpe.
— Ei — disse, o olhando. — O que faz apressado assim? Por acaso está perdendo alguma aula?
Ele afirmou, apenas balançando a cabeça. Parecia estar mesmo atrasado pela pressa.
— Com certeza estou. É Geografia e já não tenho uma ficha muito boa em ser pontual.
Bagunçou os cabelos rapidamente, seguindo seu olhar para as salas de aula. Pude perceber suas bochechas avermelhadas. Pelo visto, era natural do garoto ficar assim e chegava a ser uma graça.
Só então percebi que minha matéria era a mesma que a dele e que também estava tão atrasada quanto ele.
— Não brinca, a minha também.
— Então acho melhor corrermos.
Assim que disse, colocou uma de suas mãos em meu braço, puxando-me junto a si de forma delicada enquanto andávamos quase correndo. O olhei rapidamente, o analisando. Kenny parecia ser um cara interessante e eu custava a aceitar que havia o afastado.
Nos aproximamos na porta de madeira e, de onde estávamos, já era possível ouvir a voz de nossa professora no meio de alguma explicação.
Kenny deu dois toques na porta e a abriu, arrancando a atenção da maior parte dos alunos. Rapidamente, dei um passo para trás do rapaz, como se aquilo me fizesse ficar invisível. Engoli em seco ao ouvir a voz da professora.
— Kenny... Sua sorte é que acabei de começar com a matéria. — Balançou a cabeça negativamente e ergueu seus olhos para onde eu estava. — E quem é essa atrás de você? Senhorita ? Não se acanhe. Podem se sentar.
Antes que um dos dois pudesse dizer mais alguma coisa, me dirigi para o meio da sala, me sentando em uma das cadeiras vagas por ali. Kenny se sentou ao meu lado e sorriu com sua cadeira praticamente colada à minha.
— Não foi tão ruim.
— Não, tirando o fato de mais de quinze olhares em cima de nós dois. — Rolei os olhos, soltando uma risada fraca. O olhei antes de pegar meu caderno e percebi que o rapaz já tinha pegado o dele, já com a caneta em mãos. Kenny parecia um rapaz estudioso, diferente de seus amigos. Ele estava atento à aula, os olhos fixos no quadro brancos. Parecia mesmo ser um bom aluno.
— Você e se conhecem há quanto tempo? — Perguntei, quebrando o silêncio entre nós. Ele balançou a caneta em seus dedos antes de responder.
— Desde o fundamental. Foi na mesma época em que ela começou a namorar.
Balancei a cabeça, assentindo. Era bastante tempo.
— O , certo? — Perguntei. Ele olhou para mim.
— Sim, foi o único relacionamento sério que ela teve. Confesso que apoiava os dois. Eles se mereciam. — Sorriu de canto, parecendo se lembrar. Não pude deixar de sorrir.
— Mas acho que não mereceu tanto. Sabe, o que aconteceu — continuou. Franzi o cenho, tentando entender o que ele queria dizer com aquilo. O moreno pareceu notar minha expressão. — Não entenda mal, , mas é um dos meus melhores amigos. Ele gostava mesmo da .
— E por que fez o que fez? Conseguiu a magoar, você pode ver — rebati no mesmo tom de voz que ele.
— Eu sei que a magoou, não estou defendendo o de toda forma. — Ergueu suas mãos, de forma inocente. — É só que... Você sabe como um relacionamento pode ser complicado, não é? Ele teve seus motivos. Não é como se tivesse feito por fazer.
O ouvi e respirei fundo, ficando em silêncio por mais algum tempinho. Kenny ainda tinha seus olhos em cima de mim, esperando por alguma resposta.
— Eu tenho que dar ênfase no fato do não ter merecido tanto, mas não mereceu a — Kenny disse baixo, dando de ombros. — Ela é uma garota incrível e ainda lembro de como costumava ficar em nosso grupo. Acho que você iria gostar.
Kenny deu um meio sorriso nostálgico, dando uma piscada para mim em seguida. Com isso suspirou, olhando para o quadro negro novamente.
Por alguns instantes, ficou dessa forma.
— Tenho certeza de que as coisas vão voltar a ser como antes.
Ele me olhou e sorriu, agradecido.
— Obrigado, — assentiu. — Mas sabemos bem que isso não é comigo. E nem com você.
O olhei por alguns segundos e balancei a cabeça, assentindo, sabendo que aquilo era mais do que verdade. Eu não iria resolver, muito menos Kenny. Era apenas e . Apenas os dois.
Resolvi voltar a prestar atenção na aula, apesar de logo estar no horário do intervalo, e Kenny puxar papo vez ou outra. Precisava admitir que a companhia do garoto era confortável e ele sabia sempre o momento certo para conversar. Parecia ter sido mesmo um grande amigo para .
Ah, as coisas eram tão complicadas...
— Eu até te chamaria para passar o intervalo comigo, mas você tem seu irmão e seus amigos... Creio também que ficaria um pouco incomodada com isso logo de cara — comentou, enquanto colocava seu material dentro da mochila.
Dei uma risadinha e olhei, levantando junto a ele.
— Na verdade, acho que seria interessante. Você não vai ignorar a garota, não é?
Os olhos castanhos de Kenny se arregalaram e logo fez uma careta com minha pergunta.
— Claro que não. Não dá para ignorar a . É mais provável que ela faça isso comigo.
Deu de ombros e soltou uma risada, me fazendo rir junto. Apoiei meu caderno em frente ao peito e caminhei para o corredor ao seu lado. O lugar já estava aglomerado e o falatório era evidente. Procurei por meu irmão ou até mesmo e James, mas não vi nenhum ali.
Avistei um pouco distante e voltei meu olhar para o rapaz ao meu lado. Ele olhava na mesma direção que eu e assim que percebeu meu olhar, sorriu de forma calma.
— A gente se encontra por aí então, .
Piscou um dos olhos antes de se virar na direção oposta à minha. Com isso, resolvi por seguir em direção a e só então percebi James se aproximando com meu irmão.
— Fala aí, bro — James dizia, enquanto tinha uma de suas mãos levantadas, como se fosse um de seus amigos e fosse o cumprimentar. Dei uma risadinha ao perceber a expressão da menina para ele.
— Podemos ir? Estou morrendo de fome — resmungou.
— Também estou — ao meu lado comentou, seguindo suas mãos para o cabelo da garota, pronto para bagunçá-lo. Já seguiríamos para o refeitório, mas ao passar uma das mãos no bolso da calça, notei que algo estava faltando.
Droga! — Resmunguei um pouco mais alto. Os três olhares se viraram em minha direção.
— O que foi? — James perguntou.
— Esqueci meu celular em algum lugar, provavelmente na sala. Encontro vocês no refeitório.
Disse e não esperei uma resposta para sair apressada de perto deles. Enquanto andava pelo corredor da Ocean, olhei para os lados, pedindo licença para algumas pessoas, assim me aproximando da sala, não esperando muito para empurrar a porta de madeira. Fiz o caminho até a cadeira em que estava sentada, procurando pelo aparelho.
— Eu não acredito... — murmurei, começando a ficar decepcionada. Se tivesse o perdido, não teria outro tão cedo.
.
Antes de continuar procurando, pude ouvir uma voz pouco conhecida me chamar, mas não me importei ao virar o corpo e me limitei ao murmurar apenas um “já estou indo” para quem quer que fosse a pessoa.
— Procurando por algo?
Com a voz mais próxima, resolvi me virar, só então dando de cara com os olhos esverdeados que havia admirado na noite da festa de James.
tinha seu corpo encostado no batente da porta, sua roupa estava simples, a camisa branca de manga e a calça jeans surrada, e o rapaz tinha uma expressão leve no rosto.
Respirei fundo, me arrependendo em seguida de ter o observado daquela forma. estava irritantemente bonito.
— Ah, perdi meu celular. Achei que estava por aqui, mas acho que me enganei. — Dei de ombros, passando uma das mãos nos cabelos. Já era nítida minha expressão de frustação, o que mais eu faria ali se não havia encontrado meu telefone?
Sem pensar muito, resolvi seguir até a porta, pronta para voltar ao refeitório. Se não tinha feito questão de falar comigo mais cedo, eu que não iria continuar esperando que falasse mais alguma coisa.
— Aqui — disse, assim que me avistou passando por seu lado. Deixou o corpo ereto, se aproximando. — Encontrei em cima da mesa logo depois que você saiu. Foi sorte ninguém ter encontrado.
Observei meu celular em suas mãos e o peguei, erguendo o olhar em seguida. — É, foi sorte. De qualquer forma, eu agradeço, . Realmente achei que tinha perdido. — Curvei os lábios em um sorriso contido e assenti.
— Não precisa agradecer. — ainda estava sério, parecia querer dizer algo mais, mas, da mesma forma, lutava contra essa vontade. Ele tinha suas mãos no bolso na calça. — Bom, nos vemos por aí, então?
Poderia até ser uma impressão, mas o rapaz parecia incerto de algo. Parecia querer transparecer algo que não podia. Com isso, deu de ombros, balançando sua cabeça antes de caminhar para a porta da sala.
Pisquei algumas vezes, sem entender seu ato. O mais estranho em tudo aquilo era que ele realmente parecia não fazer questão de se lembrar do que havia acontecido.
Pensei em pará-lo por alguns instantes e confrontá-lo, o perguntando qual era o real problema, mas ao mesmo tempo eu não queria dizer nada e apenas o ignorar, porque ele realmente merecia aquilo. Mas por que eu sentia que havia algumas pontas soltas no que dizia ou fazia?
Respirei fundo, pronta para voltar ao refeitório e procurar por meus amigos. De longe, avistei a cabeleira loira e os cabelos bagunçados de James e .
— Você demorou.
James comentou assim que ergueu seu olhar para mim.
— Achou mais alguma coisa além do celular? — disse rapidamente, pressionando os lábios e a olhei, percebendo que aquilo havia sido uma piada e que ela queria rir.
— Sim. Isso aqui. — Coloquei uma das mãos no bolso da calça e a tirei, dando o dedo do meio para ela, o que a fez gargalhar junto dos outros dois.
— O que vamos fazer hoje? — Perguntei, tentando mudar de assunto.
— Eu queria ir no Ruby's comer algo. Faz tempo que não vou lá.
Ao ouvir o nome do local, soltei um suspiro imperceptível. Era impossível não lembrar de passar pelo local na madrugada da festa.
— Acho que seria melhor fazermos algo em casa — comentou, comendo seu lanche.
— Por que não o Ruby's? Eu gosto do lanche de lá. — James fez uma pequena careta, olhando a prima. Ela apenas deu de ombros, voltando a saborear o que comia.
— Bom, vão ser três contra um se a também concordar. Você já sabe qual vai ser — disse, olhando-me de soslaio. Foi inevitável não rolar os olhos e com isso joguei o corpo no encosto da cadeira do refeitório, quase fuzilando meu irmão com o olhar.
Cruzei os braços e antes que pudesse contrariar sua resposta, senti o celular vibrar em meu bolso, fazendo com que eu o pegasse de imediato. , assim que ouviu o vibrar do meu telefone, manteve o olhar sobre mim, mas não tive muito tempo para questioná-lo, já que só consegui franzir o cenho ao ler o nome que estampava a tela.
Não era possível.

.

“Interessante alguém que não coloca senha em seu próprio telefone.”
Pisquei algumas vezes e ergui meu olhar, observando todo o refeitório a procura de . Procurei por seus cabelos loiros e bagunçados, o encontrando ao lado de , me observando do outro lado do lugar.
Parecia ter uma expressão divertida nos lábios.
? ! abanou uma das mãos na minha frente, puxando minha atenção. — Garota, em que mundo você estava?
— Ah, nenhum. Pode falar. O que foi?
— Tudo bem. Nós estamos comentando sobre irmos juntos neste fim de semana ao...

E a voz dela foi sumindo outra vez assim que foquei minha atenção novamente no celular em minhas mãos.

“É interessante como algumas pessoas conseguem ser tão enxeridas a ponto de saber isso sobre outra pessoa.”
Respondi, arqueando uma das sobrancelhas com a audácia do rapaz. O olhei novamente e assim que pareceu ter recebido a mensagem, soltou uma risadinha, voltando a digitar.

"Você é muito afiada. De qualquer forma, não achei que seria de todo ruim você ter meu número. Sabe, para caso se perca ou queira ir à praia novamente."
Foi impossível não paralisar ao ler o que ele havia dito. Então era isso, se lembrava do que tinha acontecido naquela noite. Ele lembrava, mas aparentemente não fazia questão de demonstrar isso. Por quê?
De forma leve, senti minha respiração falhar e respirei fundo, tentando tomar todo meu ar de volta. Por que ele estava fazendo aquilo? Era tão necessário agir mesmo dessa forma?
— Quem é?
Ouvi a voz do meu irmão e o olhei de forma rápida, quase deixando o aparelho cair sobre a mesa.
— Quem é o quê? — Indaguei, fingindo não saber. apontou com os olhos para o aparelho.
— Você não para de digitar desde que se sentou aqui. Fiquei curioso.
Era claro que perceberia aquilo e mais claro ainda era perceber que havia algo diferente.
— Não é ninguém importante, não.
Permaneceu seu olhar em mim por alguns segundos e em seguida deu de ombros, voltando a conversar com os outros dois. Só então notei que havia falado comigo normalmente, não parecendo estar mais irritado como antes.
Dei um pequeno sorriso, resolvendo deixar meu celular de canto e dar atenção aos três à minha frente.
— Foi exatamente isso que aconteceu. Você se lembra, não é, ? — James olhou para a prima e ela assentiu, tomando um gole de seu suco. — comprou a briga como se fosse dele. Tudo para defender o mais velho, mas sabe qual foi a parte mais interessante da festa?
O olhei enquanto prestava atenção junto ao meu irmão. Eles realmente estavam falando dos irmãos ?
saiu de lá aos pedaços. O cara brigou com vários ao mesmo tempo e eu não sei dizer como é que ele conseguiu ir embora daquele jeito.
disse, arqueando as sobrancelhas como se não acreditasse ao se lembrar.
— Ele mereceu. Ninguém pediu para que ele tentasse defender .
A prima o olhou e balançou a cabeça, negativamente.
— E você nem gostou de ver a cena, não é, James? Eu achei ter sido demais. Não tinha necessidade. — Apontou para o rapaz ao seu lado e suspirou. James a encarou e fez uma careta.
permanecia em silêncio, parecia estar pensando em algo.
? — Disse, quebrando o silêncio. — Como ?
— Exatamente, cara. Como .
Dito isso, olhei de James para e a única coisa que recebi foi um olhar de seriedade, como se só agora ele tivesse entendido tudo.


🌴


O último sinal havia tocado alto e claro, anunciando o final da última aula, me fazendo soltar um longo suspiro de alívio ao segurar a alça de minha mochila no ombro. Juntei os cadernos no braço e segui em direção ao corredor, procurando pelo restante dos meus amigos. Não havia sinal de nenhum dos três e na medida em que os minutos iam passando, o lugar só ia ficando mais aglomerando ainda. Peguei o celular em mãos, relendo mais uma vez a mensagem que havia enviado e respirei fundo, tentando entender ao certo o que se passava na cabeça do rapaz.
Por que parecia que ao mesmo tempo que ele queria se aproximar, também queria me expelir para longe? Odiava toda a incerteza que ele transparecia.
Desliguei o display e coloquei o aparelho no bolso até sentir alguém me segurar meu braço de forma delicada, me fazendo erguer o olhar de forma assustada. Ao encontrar os olhos azuis claros de meu irmão, senti meu coração apertar vagarosamente ao notar que mesmo que me olhasse com ternura, sua expressão ainda se mantinha séria como antes, só que desta vez também cansada.
— Podemos conversar? — Perguntou baixo.
Balancei a cabeça em forma afirmativa e resolvi o seguir em direção a algum lugar mais vazio e calmo para aquilo. Passamos pela entrada, onde alguns alunos estavam espalhados e caminhamos até a caminhonete branca ao final do estacionamento. abriu o carro, colocando sua mochila dentro e fechou a porta, encostando seu corpo no veículo. Ainda de pé em sua frente, apertei a alça com um pouco mais de força pelo nervosismo.
Ele ainda tinha seus olhos em mim.
— Você pode me explicar tudo isso? De forma verdadeira e sem mentiras? — Questionou ainda com os olhos presos em mim. — Eu sou seu irmão, quero que confie em mim. Para ser sincero, achei que confiava.
, olha o que você está falando. É claro que eu confio em você. — Pisquei algumas vezes, me aproximando dele. — Mas não posso simplesmente chegar para você e contar tudo o que me acontece. E tem coisas que você não entenderia. Eu te conheço e é exatamente por isso que não dá.
Falei um pouco mais baixo, abaixando meu olhar. Era insuportável olhar para daquele jeito, tão chateado.
— Por quê? — Indagou. — Por que você não pode chegar para mim e conversar? Eu não preciso saber tudo, , mas preciso saber se algo te aconteceu ou se algo te preocupa. Por que não quis me contar com quem estava naquela noite? Por que acha que vai ser melhor esconder as coisas de mim?
gesticulava, demonstrando o quanto não conseguia entender o motivo de tudo aquilo. Olhei seus olhos claros, estavam brilhando quase como se aquilo estivesse mexendo mesmo com ele.
— o chamei um pouco mais baixo e aproximei meu corpo, colocando uma das mãos em seu braço. Ele desviou o olhar de minha mão em seu corpo e voltou a olhar para mim. — Eu sei que você sente que precisa me proteger de tudo a todo custo, mas já te falei que não precisa de tanto assim. Eu preciso aprender a me cuidar.
— Não é assim que funciona, . Você não sabe o que está falando — murmurou, olhando para o lado e soltou um suspiro pesado em seguida. — Eu não posso te impedir de fazer muita coisa, mas eu preciso, me ouça, , eu preciso que você se afaste dele.
Pisquei algumas vezes, sentindo minha respiração trancar. Então ele sabia. O tempo todo.
— O quê? — Disse quase em um sussurro. mantinha seu olhar preocupado em mim. — O que quer dizer com isso?
— Eu não vou agir como se não soubesse, porque eu soube sem você ao menos me contar. — Ergueu o rosto. Com isso, colocou uma das mãos no bolso da bermuda e me encarou. — Você vem andando com esse cara, , e não sabe quem ele é. Eu já ouvi muita coisa por aqui e nada foi bom sobre ele.
— Você não o conhece para falar assim. Não pode ser influenciado por boatos que espalham pela escola — respondi na defensiva, ainda observando o olhar carregado de .
— E você o conhece? — Questionou, soltando uma risada falha. Balançou sua cabeça, sem acreditar no que estava acontecendo. — E não é ser influenciado, . Metade da Ocean fala sobre os irmãos , são piores do que você pode imaginar e por isso quero que você se afaste. Por completo. — Pressionei os lábios, o vendo daquela forma. agir com tanta seriedade não era normal. — Entenda que viemos de São Francisco para tentar uma vida melhor, longe de qualquer outro problema. Não quero que se meta em mais nenhum. E não venha falar para eu não me preocupar, você sabe bem que não funciona dessa forma.
O olhei por mais alguns segundos e soltei o ar que segurava, sentindo a garganta fechar. Eu não queria mesmo agir daquela forma com e não queria que ele agisse da mesma comigo, mas ele não podia chegar impondo algo que ao menos sabia direito.
— Você precisa parar — respondi de forma leve, como se aquilo o fizesse se acalmar. — Eu te falei que não precisa ser assim, . Não precisa agir como...
— Como o quê? O papai? É isso o que você quer dizer? — Interrompeu-me, cortando exasperado. Passou suas mãos nervosas pelos cabelos, puxando-os para trás e virou o rosto. — Cacete, . É tão difícil para você entender que não posso deixar que nada te aconteça? Nós estamos passando por um perrengue do caramba e você ao menos considera nossa situação? Fugimos de casa por um problema gravíssimo e você quer me dizer o que agora? Que não se importa e que é para eu deixar você quebrar a cara? Isso é sério? — Balançou sua cabeça, dando a entender que aquilo era demais para ele. — Qual é o seu problema? Me diz. Eu não consigo entender. Não consigo entender você. Eu só quero que você fique longe, foi a única coisa que pedi e vou repetir pela última vez. Fique longe de .
Disse por fim, olhando-me pela última vez antes de entrar e bater com a porta do carro. Eu já podia perceber que não estávamos passando despercebidos ali. O olhei rapidamente pela janela. Não dava para acreditar naquilo. olhava para frente, cansado e frustrado com o que estava acontecendo. Tinha poucas olheiras, mas eram perceptíveis e seus olhos claramente estavam estampados pela decepção que sentia.
Eu queria e poderia me aproximar para dizer que tudo iria ficar bem. Queria abaixar a guarda ou pelo menos tentar, mas eu não conseguia. Não naquele momento, já que sentia meus pés fincados no chão, como se estivessem presos ao cimento e aquilo me impedisse de ir até meu irmão o confortar.
Eu não conseguia, não podia. Por que , meu irmão, só queria me proteger.
E, pela primeira vez, eu não podia aceitar.


Capítulo 12

You're the one who puts life in me
So bright in me, yeah
I said i want to delay
I gotta stay true and hold on to the ones i call my...
True Friends — Emblem3


“Você nunca sabe que resultados virão da sua ação. Mas se você não fizer nada, não existirão resultados — M. Gandhi”.


O teto do quarto parecia interessante naquele momento, como se todos os acontecimentos passassem pela parede clara e minimalista dele e eu pudesse ver explicitamente tudo o que nos últimos meses e momentos tinha ocorrido em minha vida. Alguns erros, alguns acertos, e, vai por mim… Pouquíssimos acertos passavam por ali.
Não era como se nas últimas vezes eu colocasse na balança tudo o que havia, de fato, acontecido desde que retornei para Huntington e não era mesmo como se eu me preocupasse com isso na maioria das vezes, mas… Por que naquele momento incomodava tanto? Por que eu não conseguia deixar que tudo evaporasse como normalmente ocorria para que eu pudesse continuar vivendo como também fazia?
Eu sabia o porquê, era claro que sabia. Eu só não queria entender.
Não queria entender que eu tinha errado e, caramba, aquilo doía mais que qualquer coisa. Saber que estava do outro lado daquela casa, provavelmente tão chateado como eu também estava, partia meu coração.
E era um dos piores sentimentos a se sentir depois de tudo.
Mesmo no dia anterior, levando um sermão de meu irmão, depois de tudo o que ele havia descoberto, depois de tudo o que eu havia camuflado e que nem em um segundo pensei que poderia ter alguma consequência…
Bufei, deixando um suspiro alto escapar de meus lábios.
havia ficado de um jeito que eu nunca tinha visto, nem mesmo imaginado. Não era como se ele ficasse com um sorriso no rosto para mim na maioria das vezes em que algo acontecia, mas senti-lo tão distante a ponto de mal conversarmos durante o dia me deixava incomodada. Eu sabia que tinha errado e que não deveria agir pelo impulso, mas se ele ao menos soubesse como era sem toda a superficialidade que o rondava…
Se soubesse, talvez entendesse o porquê de eu estar me aproximando e o sermão dado no dia anterior não seria considerado válido, mas algo ainda me atormentava por dentro. Não parecia certo.
Não quando eu ainda tinha seu olhar pesado sobre mim.


Flashback, estacionamento da Ocean View.

— Qual é o seu problema? Me diz. Eu não consigo entender. Não consigo entender você. Eu só quero que você fique longe, foi a única coisa que pedi e vou repetir pela última vez. Fique longe de .
Deixei que meus olhos pousassem sobre meu irmão por um bom tempo antes que pudesse dizer qualquer outra coisa. Não sei dizer exatamente quando foi que sua feição havia mudado de imediato, nem mesmo quando pude notar seus olhos em um azulado mais escuro, evidenciando o quão chateado ele estava naquele instante.
A única coisa que senti nos breves segundos ainda com seu rosto em meu campo de visão, foram meus olhos marejando gradativamente, anunciando que não conseguiria guardar para mim toda a confusão que havia dentro do peito. Naquele ponto, ele devia ter entendido alguma parte, ou pelo menos esperava que sim.
Ele sabia que aquele ato havia mexido comigo de alguma forma, conseguia notar por sua expressão. nunca fora de se exaltar ou até mesmo aumentar o tom de voz comigo, mas ali, parado em minha frente, evidenciando toda sua angústia e aborrecimento, pude sentir a que ponto toda aquela situação havia chegado.
E já tinha ido longe demais.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa ou até mesmo continuar aquela discussão, ouvi passos se aproximarem de nós dois. olhou de mim para , assim como James, que chegava por detrás dela.
— Ei, — iniciou, tentando fazer com que o clima que ali pairava se dissipasse um pouco. — Tudo bem por aqui?
piscou algumas vezes, como se aquilo o trouxesse para realidade, e sorriu minimamente, quase inexpressivo. Ele balançou a cabeça, dando a entender que sim.
Por que ele tinha que agir daquela forma?
— Ah, sim. Tudo bem, sim — afirmei. Desviei meu olhar do dela, buscando o de meu irmão, mas ele ao menos parecia querer olhar para mim naquele momento. Suas mãos tateavam o bolso da calça jeans e assim que retirou a chave da caminhonete, a abriu sem falar qualquer outra coisa.
Aquilo só fez com que tudo ficasse ainda mais estranho do que já estava.
— E aí, , hoje ainda está de pé? — A voz de James ecoou pelo local, assim que se aproximou de meu irmão na janela do veículo. Ele apenas maneou a cabeça, respirando fundo.
— Depois conversamos melhor.
Murmurei para minha amiga, baixo o suficiente para que nenhum dos dois pudessem ouvir e assim desviei o olhar do dela para o veículo, acenando em despedida minimamente e então adentrando a caminhonete em um silêncio absoluto até que chegássemos à casa.



Deixei que minhas mãos tampassem parte de meu rosto, em frustração. Depois do ocorrido, de todo o caminho em silêncio até nossa casa, não nos falamos mais. Nem mesmo um pequeno bom dia.
E isso me corroía de uma forma que eu não conseguia explicar.
Eu já sabia perfeitamente que não aguentaria ficar dessa forma com ele por muito tempo. Não podia deixar que as pequenas coisas que estavam acontecendo nos distanciassem dessa forma, ainda mais depois de tudo o que havíamos passado para chegar onde tínhamos chegado.
Respirei fundo, virando o rosto em direção ao despertador apoiado na escrivaninha. O objeto ainda marcava o quão cedo o dia estava e que nem mesmo os raios de sol, que eu tanto estava acostumada a sentir aquecer o colchão, haviam aparecido ainda. O que só deixava claro que eu não tinha conseguido dormir direito, não com todos os pensamentos fervilhando em minha mente e mesmo sabendo que ainda teria aula naquele dia, aquilo não me incomodava, nem mesmo me importava diante do que acontecia.
Eu podia continuar ali, sofrendo, me lamuriando por estar daquela forma com meu irmão. Podia me praguejar o resto do dia e não dar o braço a torcer, exatamente como ele também estava fazendo, mas… Eu não podia deixar isso prolongar.
Não podia deixar que ficasse daquela forma por saber que quem tinha pisado na bola, na verdade, tinha sido eu. Eu havia sido o motivo de toda aquela confusão, de o deixar nervoso, de esquecer todos os problemas anteriores que havíamos tido.
Esse pensamento doeu um pouco mais. Doeu porque me fez lembrar de que ele fez de tudo para que conseguíssemos sair de São Francisco em segurança, para longe das discussões, dos gritos, das… Agressões.
não pensou duas vezes para que saíssemos de casa, sem nem olhar para trás, com apenas a coragem que tomava conta por conta da adrenalina e por ter certeza de que não merecíamos passar por nada daquilo.
No fundo, por mais que eu não quisesse entender, ele só queria meu bem. Sempre quis.
A situação em si me fez perceber o quão errado tudo estava, que não poderíamos permanecer assim e eu tinha que consertar as coisas de alguma forma. Eu precisava.
E com um impulso determinado, deixei que meu corpo ficasse ereto, seguindo em direção à porta, a abrindo vagarosamente, mas, antes de completar meu ato, pude ouvir o som que tanto reconhecia e identificava. Os acordes do violão.
Por um instante, senti meu corpo paralisar no lugar em que estava, me deixando levar pela melodia que ecoava pela casa enquanto se misturava com os assobios dos pássaros ao lado de fora. Algo tão calmo e sereno que fez com que eu pudesse sentir o corpo esquentar no minuto seguinte, por saber quem era o responsável pelo que acontecia.
Deixei que meu corpo se espreitasse um pouco mais já no corredor e, em passos lentos, quase inaudíveis para que não o atrapalhasse, pude avistar parte do cômodo em que ele estava. Reconheci seus braços apoiando o violão, deixando à mostra suas tatuagens, enquanto apoiava o violão em seu colo, deixando claro o quão confortável ele estava ali, focado em seu pequeno trabalho. O rosto abaixado voltado para os acordes que dedilhava, sem perceber que eu o observava por todo aquele tempo. O jeito que ele estava no momento, sem camisa, totalmente absorto no que fazia, me fez perceber que não poderia pedir por alguém melhor em minha mente e todos esses questionamentos só evidenciaram que não dava para continuar daquela forma.
dedilhava a música com tanto sentimento que cheguei a me perguntar se ele sentia o mesmo que eu naquele instante. Talvez estivesse tão chateado ou magoado como eu me sentia e, por mais que eu não soubesse ao certo, era nítida a forma como ele estava no momento, parecendo não existir um mundo à sua volta, deixando transparente o quão imerso estava no próprio.
Engoli a seco, podendo sentir meus olhos arderem levemente com a cena, assim como meu peito que se comprimia gradativamente, quase como se eu pudesse sentir o arrependimento crescer mais do que deveria.
Para ser sincera, não achei que um pedido de desculpas pudesse ser tão doloroso como estava sendo, já que cada pequeno ressoar do violão invadia meus sentimentos abruptamente, sem pedir permissão. E quando começou a cantar, sua voz tão tranquila, carregada de emoções, só deixou evidente que tudo estava errado, que eu precisava fazer alguma coisa, não me deixando perceber que naquele ponto eu já estava chorando, nem mesmo que o som havia parado pela sala.
A única coisa que consegui focar naquele instante foram os olhos de meu irmão em minha direção, parado assim como eu, em surpresa e, principalmente, preocupação.
? O que…
Ele não terminou sua frase, já que seu ato fora apenas o de levantar rapidamente de onde estava sentado, deixando o instrumento de lado e caminhou em minha direção, sem pensar muito antes de envolver seus braços ao redor do meu corpo. Eu podia sentir seu corpo me afagando um pouco mais forte, aquecendo não só o meu, como meus sentimentos e, ao notar que ele se preocupava mais do que o fato de estar chateado comigo, deixou claro o quão boba eu estava sendo todo aquele tempo.
— Ei, o que foi? , olhe para mim. — disse, um pouco mais baixo e abafado, com o rosto próximo de minha cabeça. — Olhe para mim…
Seus dedos depositaram um carinho leve em meus cabelos, caminhando em direção ao meu rosto em seguida, o levantando em sua direção.
— O que houve para você estar assim?
— Eu não… Não pude… — O encarei, tentando explicar em meio às lágrimas. Ele suspirou, pressionando os lábios.
— Tudo bem, calma. Vem cá, vamos sentar e você me conta o que aconteceu.
dizia cauteloso a maior parte do tempo, ainda com seus braços ao meu redor enquanto me guiava em direção ao sofá, se sentando comigo. O carinho não havia cessado, assim como seu olhar preocupado que caía sobre mim.
— O que foi? Você pode me dizer. — Aproximou um pouco mais seu rosto, procurando por qualquer coisa que houvesse iniciado o que acontecia. Os olhos de meu irmão brilhavam, deixando evidente a forma como estava nervoso. — Você está me deixando preocupado,
Deixei que meus olhos observassem os dele um pouco mais, ainda respirando fundo tentando conter todo aquele turbilhão de sentimentos que afloravam cada vez mais. Coloquei uma das mãos no rosto, escondendo, mesmo que de forma falha, o rosto avermelhado pelo choro.
— Eu sinto muito… Desculpe ter sido tão cabeça dura com todos esses acontecimentos e principalmente por ter feito você se estressar com algo que não tinha necessidade. Eu não imaginava que isso pudesse acarretar uma discussão e não suporto a ideia de ficar sem falar com você como está acontecendo… Você é meu irmão e fez de tudo para que…
O choro que tentava ser contido havia voltado novamente, fazendo com que minha voz falhasse aos poucos antes de terminar o que eu realmente queria lhe dizer. continuou em silêncio, passando seus braços por mim mais uma vez, em um abraço um tanto desengonçado, mas acolhedor.
— Você sabe que não precisa se desculpar, nem mesmo chorar assim — murmurou, deixando um suspiro fraco escapar. — Você é minha garotinha, sempre vai ser, . Uma briga ou discussão não vão me fazer ficar longe de você, nem pense em algo assim. — Se afastou brevemente, fazendo com que eu o olhasse mais uma vez, desta firmando nosso olhar. Deixou que seus dedos seguissem em direção ao meu rosto, limpando os vestígios das lágrimas. — Confesso que fiquei um pouco chateado, achei que compreenderia nossa situação depois de tudo o que nos aconteceu… — Balançou a cabeça, fazendo com que eu concordasse junto a ele. — Mas, independente de qualquer coisa, de qualquer atitude tomada, eu nunca vou deixar de ficar ao seu lado, muito menos deixar que algo de ruim te aconteça, mesmo que não esteja falando comigo mais. — Piscou algumas vezes.
E assim, deixou um sorriso transparecer em seus lábios, quebrando todo e qualquer sentimento ruim que estivesse pairando entre nós dois. Vê-lo tão leve bem na minha frente, me confortando e acalmando, só me fez compreender que não poderia ser um irmão melhor e que precisava dele mais do que tudo em minha vida.
— Entendeu, sunshine?
— O que…
Afastei meu corpo do dele ao ouvir o apelido que não ouvia há tempos e engoli a seco, encarando seu rosto. olhava em minha direção, curioso com meu ato e parecia se perguntar o que havia de errado por ali. Por alguns segundos, pude sentir o coração acelerar rapidamente com a lembrança que eu sabia que só machucaria um pouco mais.


— Garotinha, cadê o seu boné?
A voz de Hector ecoou pela sala de estar da residência, me fazendo olhá-lo agitada e encantada por vê-lo sorrir daquela forma enquanto se curvava em minha direção. Não era a primeira vez que costumávamos fazer passeios como aquele, mas toda vez era a mesma bagunça pela casa, procurando por sua bola de basquete e Norah deixando sua risada ressoar pela cozinha no mesmo instante em que preparava os lanches para que pudéssemos levar.
— Não vou precisar do meu boné na praia, papai.
— Ele disse que nós vamos ao jogo do Golden State Warrios primeiro, sua bobinha! — se aproximou, levando as mãos em direção à minha bochecha em um aperto leve.
— Não me chama assim! Mãe!
— Vocês vão brigar logo agora, crianças? O que o pai de vocês disse sobre discussões antes de sairmos?
Norah apareceu na sala com um sorriso de ponta a ponta em seu rosto, se mostrando tão linda como ela já era de costume, mostrando o que havia preparado em uma das mãos antes de levar em direção ao carro.
— Que não vou poder aprender a surfar…
— E que eu não vou poder ir ao jogo…
Dissemos juntos e em uníssono, podendo sentir um carinho leve em nossa cabeça assim que passou por nós. Olhei de soslaio para meu irmão, deixando um sorrisinho de canto transparecer, o vendo fazer o mesmo.
— Isso mesmo. Agora, rapazinho, para o carro. — Nosso pai apareceu, ajeitando seu boné na cabeça enquanto segurava outro, fazendo cócegas em , que de imediato correu para o lado externo da casa. Hector se aproximou, depositando o outro boné em minha cabeça enquanto um sorriso aberto crescia. — E você, sunshine, vai aprender a ficar de pé em uma prancha logo, logo…



— Você sabe… O papai costumava me chamar assim. — Engoli a seco, sentindo a voz falhar mais uma vez ainda com a lembrança vívida em mente. segurou minha mão, levando a outra em direção aos meus cabelos em um carinho leve. O sorriso ainda permanecia em seus lábios.
— Esqueça isso. O papai não importa mais. — Balançou a cabeça. — Desde que eu tenha meu raio de sol comigo, é tudo o que importa.
Eu não sabia o peso que aquelas palavras teriam sobre mim, a única coisa que consegui fazer no momento foi jogar meu braços sobre ele, em um abraço apertado e acolhedor, deixando um suspiro alto escapar de meus lábios.
deixou uma pequena risadinha escapar, deixando os dedos brincarem em minhas costas. Ele parecia muito mais aliviado agora, assim como eu também estava.
— Você não vai querer me matar sufocado, não é?
O empurrei levemente, afastando meu rosto do dele assim que minha atenção focou novamente no instrumento do outro lado e no caderno de composições que meu irmão tinha.
Franzi o cenho.
— O que estava tocando? Não me lembro de ter ouvido trechos como aquele algum dia… — Levei uma das mãos ao queixo, pensativa e curiosa. , no mesmo instante, levou uma das mãos à nuca, a coçando inteiramente sem graça, ajeitando sua postura.
— Ah… Não é nada interessante. São só alguns rabiscos e pensamentos, algo que compus, nada demais.
Saber que ele estava voltando a escrever suas composições havia aquecido meu coração de uma forma que não soube ao certo explicar, sabendo que ele havia parado desde que a confusão em nossa vida se tornou presente. Aquilo significava que meu irmão se sentia muito mais confortável do que antes, na cidade em que morávamos, e que agora as coisas seriam um pouco mais diferentes.
— Você escreveu uma música? — questionei, delicada. Ele deixou os olhos em minha direção e um sorriso discreto no canto de seus lábios transpareceu.
— Talvez. Quando estiver pronta, quem sabe posso te mostrar. Não seja curiosa.
Deixei uma risada ressoar pela sala e balancei a cabeça.
— Então fique de olho nesse caderno. Ou acha que não sei onde o guarda?
Dito isso, me levantei de onde estava rapidamente, sentindo seu olhar queimar sobre minhas costas enquanto caminhava em direção ao meu quarto novamente. E a única coisa que ouvi antes de bater a porta, foi sua voz ecoando de forma mais alta, me fazendo gargalhar.
!


🌴


— Eu não sabia que íamos nos atrasar tanto.
— Acho que James vai nos matar.
murmurava ao meu lado, da mesma forma que eu respondia, me praguejando mentalmente por termos esquecido do amistoso que teria naquele dia. Deixei que minhas mãos passeassem pela alça da mochila, enquanto meu irmão pedia licença a algumas pessoas que já aglomeravam o corredor da Ocean View. O barulho dentro do lugar era mais do que evidente, assim como os comentários e gritos dos alunos ao redor.
Parecia loucura demais para um jogo que não era oficial.
— Já não fomos ao Ruby’s ontem e agora ainda esquecemos o jogo dele.
— Não esquecemos! — rebati, olhando para ele. — Talvez só momentaneamente. E foi você quem quis ficar em casa ao invés de irmos nos encontrar com eles.
bufou, virando seu rosto em minha direção e deixou uma risadinha fraca escapar. A verdade era que nem eu queria ter ido à lanchonete. Não queria encontrar por lá, já que agora meu irmão sabia quem ele era e eu tinha plena certeza de que aquilo não daria certo.
— Você é uma mesmo.
Assim que avistamos a entrada da quadra poliesportiva, a surpresa não foi a única coisa que nos deixou de boca aberta. A quantidade de pessoas que se encontravam ali parecia surreal e na medida que íamos adentrando, quase era impossível de avistar ou até mesmo James pelo lugar. Pude perceber como o ginásio parecia maior com toda a iluminação e pelas pessoas que já se encontravam sentadas nas arquibancadas.
— Vem. Encontrei . — Senti a mão de meu irmão em minhas costas, me guiando pelas pessoas que se encontravam a nosso redor. De pé, logo nos degraus um pouco mais altos, acenava afobada para o primo no meio da quadra, que tentava não focar muito no que ela fazia naquele momento. Chegava a ser engraçada a forma como eles interagiam entre si.
Deixei que meus olhos caíssem sobre ele por alguns segundos, observando os braços torneados e a pele bronzeada pelo sol de Huntington, fazendo com que a blusa branca do time contrastasse com a cor dela.
— Eu sei que vocês tinham aula vaga, mas não achei que perderiam logo o começo do amistoso — a menina resmungou, dando um pequeno abraço rápido em nós dois. Olhou brevemente de mim para meu irmão e sorriu. — Tudo bem com vocês dois?
— Nós realmente perdemos a hora — comentou, dando de ombros e passou por mim, se ajeitando ao lado de , que parecia mais animada do que antes.
— E sim, está tudo bem. Não se preocupe. — Dei uma piscadela.
Ela sorriu mais uma vez, balançando a cabeça consigo mesma e voltou a focar seus olhos nos dois times que se aqueciam espalhados pela quadra enquanto comentava sobre com . Pelo que pude entender, o aquecimento havia começado para que assim o jogo se iniciasse. Vaguei os olhos por todos o lugar, sentindo um friozinho de leve na boca do estômago, provavelmente pela euforia de todos que estavam ao redor.
— Aquele ali. — Observei meu irmão apontar para um ponto específico na quadra. parecia mais agitado que normalmente eu podia ver, seus braços balançavam de trás para frente e seu rosto estava um pouco avermelhado enquanto seus olhos seguiam em direção ao outro lado, onde a equipe de James estava. — O que tem de errado com ele?
soltou uma risada alta, passando uma das mãos pelo rosto.
— Provavelmente muita coisa errada, para começar. Não queiram saber. — Deu de ombros, se levantando de supetão. — Vai, Follmann!
Gritou assim que o apito ressoou pela quadra, se misturando com a gritaria dos alunos. se animou assim como ela e eu fiz o mesmo que os dois, me levantando para torcer por James.
O amistoso havia começado acirrado, por mais que fossem os jogadores do mesmo colégio. Quem visse de fora, poderia jurar que eram escolas diferentes, já que a implicância era transparente entre os dois. continuava com aquele olhar no rosto e James continuava da mesma forma, ainda o encarando, como se a qualquer momento fossem cometer algum erro na quadra.
Pude observar o moreno inteiramente suado, os fios de seus cabelos negros grudando em sua testa mesmo que ele passasse suas mãos por ali vez ou outra, impossível não olhar.
Mas algo me incomodava.
Por mais que parte do tempo eu estivesse focada em estar com meu irmão e , prestando atenção no jogo que acontecia, minha mente parecia vagar para longe, procurando apenas uma pessoa no meio de toda aquela multidão.
não parecia estar ali.
Droga. Os amistosos sempre me tiram do sério — resmungou, fazendo uma careta ao compreender que naquele momento estavam empatados. Deixei uma risadinha baixa escapar com a cena.
— Relaxe, não perca a cabeça, deixe para isso acontecer na final. — a empurrou pelo ombro, arrancando outro resmungo da garota, o que só nos fez dar mais risadas enquanto o jogo ainda continuava. Os gritos se tornaram mais evidentes quando recebeu a bola de um dos jogadores de seu time, a quicando pelo chão no mesmo momento que James chegou apressado, bloqueando o garoto. Quando os dois se encararam mais uma vez, notei que deixou transparecer como havia ficado apreensiva e até mesmo nervosa com aquilo.
continuou batendo a bola no chão, sem tirar os olhos do rapaz à sua frente.
— Vai, James, que saco!
dizia como se ele pudesse ouvir de alguma forma. parecia observar a mesma coisa que ela
Olhei atenta para a cena que se encontrava na quadra, percebendo o quão inquietos cada pessoa estava por ali e a tensão continuou por breves segundos, até James decidir que deveria avançar, mas algo parecia diferente. A expressão no rosto de se tornou mal-humorada em questão de segundos enquanto ainda encarava o garoto à sua frente. Parecia ter ouvido algo, mas não tinha como saber. Ninguém poderia perceber. Os braços de James se esticaram, prontos para que suas mãos encostassem na bola alaranjada e ele até faria isso, não fosse por virar seu corpo inteiramente, passando a bola para outra mão, mas deixando o braço livre para trás, que acertou o rosto do outro em cheio, o jogando para trás.
Os burburinhos começaram a tomar conta de todo o lugar no mesmo momento que o apito do treinador ressoou, anunciando uma pausa. Os jogadores se aproximaram, preocupados com o que havia acontecido, mas não havia dado tempo de verificarem, já que James se levantou enfurecido, partindo em direção a e, sem que o outro esperasse, desferiu um soco em seu rosto.
— James!
gritou, não pensando muito em descer os degraus rapidamente para o meio da quadra. Olhei para , ainda surpresa com o que havia acontecido, e assim que meu irmão trocou o olhar comigo, resolvemos seguir a menina.
Parei um pouco atrás dos outros jogadores, assim como , e conseguimos ouvir a discussão dos dois.
— Qual é o seu problema, ?
James dizia exaltado, seu braço sendo segurado por um dos meninos. continuou a olhá-lo, levando uma das mãos ao rosto e voltou a olhá-la, só então notando que havia se machucado. Ele continuou com o rosto inexpressivo, ainda encarando James, porém sem falar nada.
— Você não vai falar nada, imbecil?
E mais uma onda de burburinhos começara a se instaurar por ali. bufou alto, tentando pedir licença para ir em direção ao primo. tentou ultrapassar assim como ela, sendo impedido por algumas pessoas.
— James, pare com isso! — Era a voz de .
aproximou o corpo do de James, ainda com seus olhos sobre o dele e a única coisa que demonstrou foi um suspiro pesado, ao passar por ele, parando brevemente. Desviou seu olhar de James para antes de seguir para longe dali, ainda tendo os olhos de todos sobre si.
Franzi o cenho com aquela cena. Algo parecia estar muito errado, principalmente na troca de olhares que os dois haviam tido naquele momento. Parecia ter algo a mais.
caminhou em direção ao primo, parando em frente a ele antes de puxá-lo para longe, segurando em seu braço.
— Não fala mais nada. Vamos sair daqui.
Observei ela o levando para a entrada da quadra e segui em direção a eles junto de meu irmão, ainda ouvindo as vozes com questionamentos ao nosso redor. A maioria dos alunos que ali estavam já comentava sobre o que tinha acontecido entre eles, mas algo que me chamou a atenção foi que, no meio de todos, um olhar queimava sobre mim.
E quando olhei para o lado, tinha seus olhos em direção aos meus, como se quisesse dizer algo, mas logo se virou, provavelmente para procurar seu irmão.
Não entendi ao certo o que havia acontecido, muito menos o porquê de me olhar daquela forma, mas não era algo que eu queria me preocupar naquele momento.
Quando nos afastamos da multidão, mesmo que algumas pessoas ainda nos seguissem pela curiosidade de saber como James iria ficar, se pronunciou.
parecia mais focada no que pensava do que para onde estavam indo.
— James, qual o caminho para a enfermaria?
— Eu não vou para a enfermaria por conta disso — resmungou, retirando o braço da mão de . A garota pareceu voltar à realidade, bufando alto com a atitude do rapaz.
— Cala a boca, James. Você cortou o supercílio, provavelmente vai precisar de pontos, então não começa com isso agora. — a loira disse, parecendo se segurar o bastante para não começar uma discussão com o primo.
— Não desconta em mim se o é um babaca. Isso só me faz questionar ainda mais como você conseguiu namorar alguém como ele — comentou como se não fosse muita coisa. parou abruptamente, já próximo à enfermaria, e virou o corpo em direção ao rapaz.
Ele a encarou.
— O que foi que você disse para ele?
— O quê?
arqueou uma das sobrancelhas.
— Você acha que estou brincando?
— Não, , mas estamos falando do escrúpulo do , cara — respondeu, dando de ombros. se aproximou minimamente dos dois. — Não precisa falar alguma coisa para ele virar um louco. E, qual é, você não deveria estar falando que eu deveria ter o socado mais uma vez?
Ele até tentou deixar uma risadinha escapar, mas o olhar sério da garota sobre si o fez desistir da ideia. ainda o encarava.
— Eu te conheço muito bem, Follmann, não é à toa que sou sua prima. Sei de cada problema que você causou e sei reconhecer outro quando acontece. — Aproximou seu corpo do primo. lançou um olhar preocupado em minha direção. — E você acha mesmo que não conheço o também? Namorei anos com aquele babaca e escrúpulo, como você bem sabe e, para ele ter agido daquela forma, tenho certeza de que não foi sem motivo.
James continuou com seus olhos sobre o da prima e, por fim, suspirou alto, balançando a cabeça veemente.
— Eu não falei nada, — murmurou. — E acha mesmo que ele não mudou? Sério? Depois de tudo o que ele fez com você?
— Controle suas palavras, James. — Por um momento, podia jurar que a garota havia rosnado para ele. — Eu sei que ele mudou. Bastante. Mas reconheço um temperamento como o dele de longe e, vai por mim, esse detalhe não mudou nem um pouco.
O moreno continuou com os olhos fixos ao de , dando a entender que não tinha mais o que dizer. Deixei que meus olhos caíssem sobre a menina que desviou seu olhar do dele, para qualquer outro.
— É melhor você dar um jeito nesse olho. ‘Tá horrível. — olhou em minha direção, forçando um sorriso. — Você vem, ?
— Claro.
Dei uma pequena olhada em direção a , para que ele entendesse que era para ficar com James e caminhou pelo corredor junto a , que se encontrava mais pensativa do que o normal.
Com isso, achei melhor não falar muito coisa. Era bom que ela refletisse sobre o que ocorreu consigo mesma, até porque sua mente provavelmente deveria estar uma confusão naquele instante.
Resolvi por ficar em silêncio.
— A situação é um pouco estranha — disse, erguendo seu olhar. — Você sabe, e James, eles nunca se estranharam assim.
— Bom, não sabemos ainda ao certo o que houve para ter acontecido isso — respondi, pensativa como ela. — Você mesma disse como pode ser esquentado e James, bom… Ele também não é fácil.
balançou a cabeça, concordando.
— Você tem razão, mas, ainda assim, algo não se encaixa. Exatamente por eu conhecer James, sei que deve ter tido algum fundamento. Ele sempre foi doido para confrontar , você sabe, por todos os motivos.
Respirei fundo ao ouvir suas palavras. Não parecia mesmo ter sido sem razão.
— Não podemos ter certeza disso também, não é? É melhor não começarmos com o julgamento agora.
— Eu nem quero pensar mais nisso, para ser sincera.
— Então não vamos. Ainda temos a última aula antes da saída. — Dei um pequeno sorriso em direção a ela, que pareceu um pouco mais animada agora.
— Nos vemos depois então. Até, .
E assim acenou, se despedindo.


🌴


Encaixei os fones no ouvido enquanto seguia em direção à mesa em que me sentaria naquela aula. Naquele momento, eu não queria trocar algum tipo de conversa com alguém, já que, provavelmente, por eu conhecer , perguntariam o que realmente havia acontecido na quadra, nem mesmo estava com paciência para acompanhar as explicações daquela matéria em específico.
A única coisa que ainda rondava minha cabeça era a cena de parando ao lado de James e os olhos expressivos de sobre mim. Eu não sabia explicar ao certo tudo o que percebi dentre aquela confusão, o nervosismo evidente que estampava o rosto de , a impaciência e repulsa que transparecia através dos atos de James. Queria entender ao certo o que havia acontecido. O porquê de toda a mudança de comportamento vindo de e o jeito misterioso que ele e o irmão se portavam a maior parte do tempo.
Por mais que James tivesse passado de seus limites, ainda tinha algo. Mesmo que , há alguns anos, de acordo com , não fosse daquela forma. Nada explicava o porquê da mudança brusca de atitude de comportamentos do rapaz, nem mesmo o jeito com que James havia reagido.
Algo havia mudado, estava diferente, mas não conseguia decifrar o que era. Qual motivo teria sido tão grande a ponto de mudar alguém daquela forma?
Eu até conseguia entender o lado de James por ter presenciado toda a situação com a prima quando aconteceu, quando terminou sem explicação alguma aparente, a vendo sofrer por um bom tempo.
Porque, mesmo que ele não tivesse a traído, tinha a deixado.
Aquilo com toda certeza seria motivo suficiente para que James não deixasse de lado. Será que, mesmo que eu não quisesse acreditar muito, ele poderia ter dito algo para provocar a fúria do ?
Respirei fundo, apoiando a cabeça em uma das mãos.
Não dava para saber, era um tanto indecifrável.
Os olhos verdes me vieram à mente.
. A verdade era que eu não conseguia entender parte de seus atos. Por que demonstrar que me queria por perto ao mesmo tempo que dava a entender que me queria longe o suficiente para evitar qualquer coisa?


— Você sabe o que está fazendo? — soprou, ainda com os olhos sob mim. O olhei da mesma forma. — Por que está se aproximando assim?
Franzi o cenho, tentando entender o porquê daquela pergunta. Não dava para entender o que ele realmente estava querendo com aquilo.
— Porque eu... Eu... — Engoli em seco. — Eu não sei. — Abaixei o olhar, mexendo na água minimamente.
Ficou em silêncio por um tempo. Ele estava ainda mais perto.
— Eu também não sei... — Senti suas mãos encostando-se aos meus braços, por baixo d’água. Era uma pequena carícia. Pisquei algumas vezes, tentando decifrá-lo. — Não sei por que quero isso. Da mesma forma que sinto que é tão errado...

se afastou, pressionando os lábios e engoliu a seco, olhando para mim como se fosse a última vez que faria aquilo. Estranhei seu ato e, como se ele estivesse se arrependendo, respirou fundo e segurou meu rosto outra vez, avaliando-me.
— Eu acho melhor levar você pra casa.



Por que ele fazia aquilo? Parecia ser tão complexo dizer o que realmente queria, da forma correta e sem controvérsias, mas, assim como , tinha alguma coisa.
Como na hora em que me olhou na quadra pareceu querer dizer alguma coisa e toda vez parecia ser assim, sempre querendo dizer algo, mas não dizendo nada ao final.
E aquilo só me deixava ainda mais curiosa, mesmo sabendo que não deveria fazê-lo, ainda mais depois do que havia acontecido comigo e meu irmão.
Eu não deveria arrumar mais problemas do que já tinha.
Respirei fundo, só então percebendo algo ecoar em minha mente.
“Fique longe dele…”
Será que sabia de algo? Sabia de alguma coisa que os envolvia e mesmo assim, achou melhor não me contar sobre? E se ele realmente estivesse certo ao dizer isso por ter algo sobre e ? O que também não poderia ser duvidoso, já que metade da Ocean comentava coisas sobre os dois.
Eu não sabia o que pensar. Parecia louco demais para ser verdade, mas algo que me incomodava era o fato de que não se incomodaria com aquilo se não houvesse motivos.
E foi o que aconteceu em relação a Hector.
Respirei fundo mais uma vez, desta já sentindo minha cabeça latejar pelas informações. Não fazia ideia de quanto tempo havia ficado ali, imersa em minhas dúvidas e questões, só pude voltar à realidade quando senti meu celular vibrar, anunciando uma nova mensagem, o que despertou minha atenção.
Mais ainda ao ver o nome de estampado no display.

“Não quero parecer invasivo, mas… Você está bem?”


E isso importa? Quis responder.
Passei uma das mãos pelo rosto, pensando seriamente se deveria responder àquela mensagem. Depois de toda a confusão e de todas as perguntas que haviam se passado por minha mente, a última coisa que eu queria era conseguir algum outro problema para resolver.
Pude ouvir o vibrar do aparelho mais uma vez.

“Sinto muito pelo meu irmão, mesmo você não sendo diretamente afetada. Se quiser conversar melhor, podemos nos encontrar.”


O que raios ele estava querendo daquela vez? Por que estava fazendo aquilo depois do que aconteceu? Será que o peso em sua consciência estava ficando nítido ao ponto de que se sentisse incomodado para tentar amenizar a situação? Ou será que ele queria se aproximar para, mais uma vez, se afastar de novo?
Deixei o corpo virar minimamente para o lado, pousando os olhos sobre o lugar que ele estava sentado e pude o observar também com os seus sobre mim. tinha parte de seu corpo sentado, enquanto suas pernas estavam despojadas abaixo da mesa, como se nada daquilo pudesse incomodá-lo àquele ponto.
Rapidamente virei o rosto para frente, tentando ignorar a forma com que ele me olhava e ouvindo, finalmente, que a aula havia terminado.
Sem voltar a olhá-lo e muito menos focada em respondê-lo, recolhi meus pertences, pronta para sair da sala e seguir em direção ao local onde meu irmão provavelmente estaria com e James, mas pude sentir um toque leve em meu braço.

— O que você quer? — o cortei, desviando meu olhar do dele. parou por alguns instantes, parecendo avaliar minha atitude.
— Tudo bem?
— Isso realmente importa, ? Por que a pergunta? — suspirei, passando uma das mãos pelo rosto, ainda sem manter meu olhar sobre o dele. Quanto mais aquela conversa fosse curta, melhor seria.
— Eu falei sério quando disse que se quiser conversar, podemos…
Arqueei uma das sobrancelhas com sua pergunta, o que fez com que a voz do rapaz fosse diminuindo gradativamente.
— Isso vai diminuir o peso na sua consciência, por acaso? — Soltei uma risada fraca, sem humor. — Não quer que eu tenha a impressão errada sobre vocês dois? Porque se for isso, eu sinto muito, não vai adiantar. E se quer mesmo saber, estou ótima, não digo o mesmo sobre a . — Apontei para ele, murmurando. — Você não acha que vai ser melhor, para nós dois, se você parar com essa aproximação? Podemos até fingir que não nos conhecemos.
— Não é isso que quero — rebateu, colocando uma das mãos no bolso do jeans. — Por que acha que estou fazendo isso para ter alguma recompensa? É essa a ideia que tem sobre mim?
— Quer mesmo que eu responda a essa pergunta?
virou o rosto para o lado, pressionando os lábios.
— Não precisa. Eu só queria mesmo saber se estava tudo bem. — Balançou a cabeça, mexendo o corpo veemente. — E eu sinto muito pelo , mais uma vez. E por qualquer outra coisa.
Com isso, deixou os olhos sobre mim por mais algum tempo antes de sair caminhando para longe. Pude sentir minha garganta secar, sentindo o corpo paralisado no mesmo lugar em que estava. O turbilhão de pensamentos e sensações havia retornado e a única coisa que se passava por minha mente era o fato de que parecia diferente, parecia sincero em tudo o que falava.
Aquilo me fez virar o rosto em sua direção, já não o avistando mais no final daquele corredor, nem mesmo entendendo o que suas ações queriam dar a entender.
O que deixou um pouco mais evidente o quão surpresa eu havia ficado naquele instante.
Resolvi por esquecer um pouco daquele pequeno evento e caminhar para fora do colégio, onde eu já conseguia avistar meu irmão junto a e James conversando agitados enquanto me esperavam dentro do carro.
Ao me aproximar, acenei quase imperceptível.
— Você demorou, quase fui te procurar. — A ouvi pronunciar enquanto entrava no carro e ouvia dando partida. Deixei um pequeno sorriso surgir.
— Precisei pegar algumas anotações. — Dei de ombros. — Qual era o assunto?
— Parece que James que ir ao Ruby’s mesmo com um hematoma no olho. — A garota rolou os olhos, encostando o corpo no estofado. — E ele sabe como está ridículo.
— O que posso dizer? Não me incomoda. — Pude vê-lo olhar para através do retrovisor e pressionei os lábios, segurando uma risada pela atitude dos dois dentro do veículo. Pareciam duas crianças. virou a esquina de nossa rua. — E, vem cá, você não tem mais casa, não?
— Qual o problema? O lugar não é só seu.
— Vocês vão continuar? — fez uma careta, olhando para os dois pelo espelho interno. — Se essas alfinetadas permanecerem, melhor nem fazermos algo hoje.
— Eu só estou brincando, não é, priminha? — James rebateu, puxando a garota pela lateral, fazendo soltar uma reclamação alta, o que só nos fez rir ainda mais. Assim que estacionou em frente à nossa casa, com todos descendo, pudemos perceber o céu um pouco mais claro e como se tornava um pouquinho mais especial ali.
— Se bem que poderíamos ir à praia ao invés do Ruby’s — o garoto mencionou.
— Não vamos à lanchonete hoje, James. Deixa de história.
o olhou de soslaio, fazendo com que o rapaz estampasse um enorme bico no rosto que, de certa forma, havia ficado encantador.
Pude avistar Marie na varanda da entrada com um sorriso aconchegante nos lábios ao nos ver.
— Boa tarde, queridos. Como vocês estão? — perguntou, ao se aproximar. Assim que colocou seus olhos no rosto de James, franziu o cenho. — Oh, o que foi isso em seu rosto?
— Ah, não foi nada demais…
— James se meteu em uma briga hoje — o cortou, deixando um sorrisinho convencido transparecer em seu rosto ao ver a expressão do primo. Aquilo parecia que não ia acabar tão cedo.
Enquanto iniciavam um assunto qualquer, se despedindo no momento seguinte, caminhei em direção ao quarto, preparada para tomar um banho e descansar até que resolvêssemos o que iríamos fazer durante o anoitecer.
seguiu também em direção ao seu quarto e não demorou muito para pegar no sono, já que, assim que saí do banho, pude vê-lo jogado de qualquer forma, com os olhos fechados.
E assim que me deitei na cama, não deixei que os pensamentos anteriores voltassem a tomar conta de minha mente, apagando sem pensar duas vezes.


🌴


Quando espreguicei o corpo, podendo o sentir inteiramente descansado, deixei que meus olhos se abrissem, avistando os tons alaranjados que tornavam a paisagem ainda mais bonita daquele fim de tarde pela minha janela.
Resolvi por logo me levantar, esticando os braços para cima e caminhando em direção à porta do quarto, percebendo que naquele instante a casa estava um pouco mais silenciosa. Deixei o corpo inclinar para o lado, avistando o interior do quarto de e este estava vazio, denunciando que meu irmão não estava ali e muito provavelmente também não estava em casa.
Inclinei a cabeça para o lado, estranhando o fato dele não ter avisado, mas logo avistei o display do celular aceso em cima da escrivaninha, mostrando algumas mensagens, a dele mais evidente, avisando que estava tinha saído com James e alguns meninos do time para comer alguma coisa em Fountain Valley.
Dei de ombros, mas deixei um pequeno sorriso crescer em meus lábios, era bom ver o quão confortável estava se sentindo na cidade.
Decidi por ver as outras depois que comesse algo, já que minha barriga já dava indícios de estar vazia. Caminhei em direção à cozinha, percebendo que Marie já havia deixado meu prato pronto só para que eu esquentasse, assim o fiz. Antes de dar a primeira garfada, liguei a televisão que já estava programada em algum canal de competições de surf, provavelmente estava vendo anteriormente.
Aquilo me fez lembrar um pouco de como nós gostávamos do esporte, em como havia sido presente durante toda nossa infância, mesmo que parte disso tivesse sido responsabilidade de Hector. Ele podia não ser a mesma pessoa agora, mas antigamente tinha a aura de um jovem que passava a maior parte de seu tempo conosco, ensinando o máximo de coisas que pudesse, e uma delas, bom, fora o surf.
Havia se tornado uma das únicas coisas que tinha orgulho de ter aprendido com ele.
Engoli a seco, não deixaria aqueles pensamentos invadirem minha mente mais uma vez.
Enquanto a voz do locutor ressoava pelo cômodo, resolvi por ver o restante das mensagens que ainda permaneciam na notificação.

“O que você está fazendo? Te liguei duas vezes, mas não consegui falar. Eu e James fomos para casa mais cedo e ele provavelmente vai sair com mais tarde. ‘Tô pensando em fazer alguma coisa, mas eu te ligo quando resolver!”


Deixei uma risadinha escapar, pronta para discar os números da menina, mas uma mensagem mais abaixo, específica, me chamou atenção.
O mesmo número que havia enviado notificações na sala de aula.
Pisquei algumas vezes, tentando entender o intuito do que realmente estava escrito ali.

“Eu sei o quão louco isso pode parecer, mas… Pode vir aqui fora?”
, 5 min ago.


Por um momento, quase tive certeza de que ele havia errado o destinatário de sua mensagem, mas, pela curiosidade, espiei pelas cortinas das janelas de entrada e, em questão de segundos, senti o coração descompassar.
Não sabia dizer ao certo o que sentia, se era a dúvida que crescia vagarosamente, a ansiedade de saber o porquê e a surpresa de ver que estava realmente ao lado de fora de minha casa.
Um vinco se formou em minha testa. O que ele estava querendo agora? Achei que tivesse ficado claro o que tínhamos conversado mais cedo, mas ele aparecer ali, sem motivo algum, aparentemente não tinha muita lógica.
Nada se passava em minha mente, apenas o fato de que ele ainda estava ali, parado, esperando pela minha presença.
Pensei por alguns segundos no que deveria fazer e resolvi por ajeitar rapidamente os fios bagunçados de meus cabelos, assim como a blusa que eu usava no instante. Por mais que não me interessasse o motivo dele estar ali, a curiosidade falava um pouco mais alto.
Assim que abri a porta, percebi seus olhos esverdeados sendo redirecionados para mim pelo barulho. Ele virou o corpo e eu pude perceber suas mãos dentro do bolso da bermuda jeans, dando a parecer que estava, de certa forma, acanhado, se perguntando a mesma coisa que eu.
Desci os pequenos degraus, caminhando até o portão de entrada e o vi se aproximar, desviando os olhos rapidamente.
O que voc…
— Não pergunte. É insano demais para ter alguma resposta, mas… — Respirou fundo, mordiscando os lábios. Parecia pensar seriamente no que e em como falar. Por mais que eu quisesse negar e dizer que poderia ficar o mais longe possível, vê-lo tão próximo, com os cabelos bagunçados e os olhos brilhantes me fazia querer outra coisa. — Eu acho que começamos da forma errada, e eu não quero que você tenha a mesma impressão de todas as outras pessoas sobre mim. Então… — Passou uma das mãos no cabelo, parecendo um pouco nervoso. — Você quer dar uma volta?


Capítulo 13

Tell me that you're shook up like I am,
Tell me how you feel I need an answer…
Does It Feel Like Falling — Alex Aiono ft. Trinidad Cardona


Deixei que meus olhos pousassem nos cabelos loiros e ondulados de mais uma vez, que naquele momento estavam sendo bagunçados pelo pouco vento que
passeava entre nós dois enquanto o sol se punha pelo fim de tarde. Já havia perdido as contas de quantas vezes havia feito a mesma coisa enquanto caminhávamos por ali, só conseguindo ouvir a maresia não só assobiando pelo horizonte, mesmo que através das residências ali, mas como também acariciando nossa pele. E, diferente de antes, em que todos os passeios eram em direção ao mar, esse era em direção ao centro de Huntington Beach.
Ou pelo menos eu achava que era.
Havíamos trocado algumas palavras desde que viramos a esquina da rua de minha casa. Ainda assim, sentia aquele leve nervosismo esquentando meu coração dentro do peito. parecia disposto em manter a conversa e também, parecia estar se esforçando para tentar conhecer um pouco mais sobre mim. E era exatamente isso que fazia meu peito arfar, já que, convenhamos, não era exatamente o que eu estava imaginando para o término daquele dia. Não imaginava que o mais novo apareceria bem na varanda da minha casa e muito menos que teria a vasta ideia de me convidar para um passeio, sem qualquer outro motivo aparente. Mesmo que aquela situação me deixasse inteiramente nervosa, ainda assim, não conseguia achar nada mais do que estranho. Excêntrico.
Mas, bem no fundo, eu estava gostando.
E precisava admitir que a presença do rapaz conseguia mexer comigo, apesar de qualquer coisa. tinha lá seu charme singular, aquilo não podia ser negado. O olhei de canto mais uma vez. Ele permanecia com seu corpo relaxado, assim como seu rosto que demonstrava o mesmo. Dava a impressão de estar tranquilo, como se nada em sua mente pudesse perturbá-lo.
Só o admirando daquela maneira que eu conseguia ter a plena convicção de que não havia encontrado, em nenhum momento da minha vida, alguém que portava uma beleza como aquela, por mais simples que fosse. Os olhos esverdeados, hoje aparentando estar mais claros, fazendo conjunto com sua pele clara, corada pelo sol recente que provavelmente tinha pegado. E até mesmo o nariz afilado que…
— Tem algo de errado? Pude ouvir sua voz me trazendo de volta à realidade e aquilo fez com que meu rosto voltasse a tomar cor. Rapidamente, o virei para o lado contrário como se aquilo fosse resolver alguma coisa.
riu fraco.
— Não. — Ele continuou encarando. — O que foi? — Você não tirava os olhos de mim. Achei que poderia ter dito algo errado.
Balancei a cabeça, negando. Pude sentir a vergonha crescendo vagarosamente.
— Não disse — afirmei. — Só estava pensando em algumas coisas. Não é nada. pareceu pensar um pouco. — Você pode compartilhar comigo, se quiser. — Deu de ombros, voltando a olhar para frente. — Se não tiver problemas para você.
Engoli em seco. Talvez realmente não fosse um problema desabafar um pouco sobre o que me incomodava. A questão da com o , ainda mais com James e de como parecia mudar de humor nas variadas vezes em que estava comigo, mas… Será que valeria a pena contar sobre tudo isso? Será que ele entenderia?
— Ah. Não acho que seja algo com que deva se preocupar. — Pressionei os lábios, sorrindo de canto. — Sabe… Fiquei pensando sobre o ocorrido de hoje. Já tinha acontecido alguma vez antes?
Ele negou, balançando a cabeça e colocou as mãos novamente no bolso da calça.
— Para ser bem sincero, não. Claro, eu sabia que meu irmão e James nunca se deram muito bem, acho que todo mundo consegue perceber isso mesmo sem conhecê-los. Mas não achei que algum dia pudesse chegar ao ponto de machucarem um ao outro. Não fisicamente. — Respirou fundo, engolindo em seco. — Até porque… Bom, sempre teve um gênio muito forte. Esquentado, um pouco nervoso, mas nunca foi de perder a cabeça com pouca coisa. O olhei por alguns segundos, tentando assimilar tudo o que estava dizendo. Não conhecia seu irmão, mas o que havia dito sobre ele parecia bater com o que dizia. Respirei fundo, assentindo.
Decidi por não dizer mais nada. Aquilo já havia sido informação demais para tentar absorver. também pareceu ter pensado no mesmo que eu, já que também permaneceu quieto nos minutos seguintes. Com isso, caminhando um pouco mais, até perceber ao longe o píer e o centro da cidade já iluminado pelas luzes ao redor, deixando a paisagem ainda mais bonita pela noite que caía.
Podia ser percebido nas ruas em que passávamos que algumas pessoas ainda estavam na praia, pegando algumas ondas, aproveitando o vento calmo e até mesmo conversando entre si sentadas na areia. Um grupo de garotos saíam com suas pranchas ao fundo e o restante caminhava pelo calçadão arborizado pelas palmeiras.
ainda me guiava. Não era como se eu ainda não estivesse adaptada ao centro da cidade, mas não conhecia muito bem, ainda mais depois de tanto tempo sem visitá-la. Ele virou em uma das ruas, dando diretamente para a avenida, e esperamos um pouco mais para atravessar, seguindo também para o calçadão.
Olhei ao redor. Aquilo me fez sorrir. Eu não conseguia descrever de outra maneira como Huntington Beach conseguia me fazer sentir em casa. Como deixava claro que aquele era meu lar. E o céu azulado, pintando o horizonte, só fazia com que eu tivesse ainda mais certeza de tudo aquilo. Era incrível. parecia perceber o mesmo que eu, já que seus lábios denunciavam um
minucioso sorriso de canto ao também olhar para a paisagem à nossa frente.
— Gosto daqui — disse, quase em um sussurro. — Gosto das cores, o clima ameno e até o ar parece diferente de qualquer outro lugar.
Olhou em minha direção, atento a tudo o que eu dizia. Sorriu minimamente.
— Não é à toa que é apelidada de City Of Angels. — Deixou uma risadinha escapar. — Certo que Los Angeles é dona desse emblema, mas tenho certeza de que consegue se encaixar perfeitamente aqui também.
Assenti, não podendo concordar mais.
Claro! Olha só pra esse lugar! — Deixei os braços abertos, dando uma pequena voltinha como se aquilo não fosse nada demais. Fechei os olhos brevemente, mas a tempo suficiente para sentir o toque de em minha cintura, puxando meu corpo para o lado, próximo a ele. Não entendi de primeira o que havia acontecido, então o olhei com o cenho franzido. Só então percebi que mais à frente um ciclista se distanciava. não olhou em minha direção. Ele parecia um pouco sem graça. Pude ouvir um leve pigarro.
— Cuidado. Pode se machucar — soltou, quase inaudível. Continuei o observando, mas não demorou muito para que logo mudasse de assunto. — O que tem achado de Huntington desde que chegou?
Respirei fundo. Queria lhe dizer que desde que havia colocado meus pés na cidade, um misto de sentimentos indecifráveis havia tomado conta de meu coração e que boa parte daquilo, de fato, era inteiramente por culpa dele. De .
Mas, claro que não diria isso. Pelo menos, por enquanto. — Eu não sei muito bem como responder a essa sua pergunta sem deixar um sorriso grande aparecer — comentei, tentando conter o mesmo no canto dos lábios. Ergui o olhar e entrelacei meus dedos. — Aqui sempre foi minha casa. Fui acostumada desde novinha a estar com o pé na areia, caminhando justamente por essa orla — apontei. me observava. — Então estar aqui novamente, apesar de tudo, é motivo de alívio para mim. Ele continuou com os olhos esverdeados sobre mim, como se analisasse vagarosamente tudo o que eu havia dito. Quando voltou a olhar para frente, um sorriso contido também ocupava seu rosto.
— Você olha para a cidade e toda vez parece como se estivesse a vendo pela primeira vez. Seus olhos brilham. Nunca vi isso antes, com ninguém. — Ouvi sua voz um pouco mais leve. Aquilo fez com que eu o encarasse. realmente tinha percebido aquilo? — O que foi? Não é tão difícil de perceber.
— Não, é que… — Pressionei os lábios, os mordiscando. — É que depois de tanto tempo longe assim, é impossível passar por qualquer cantinho e não perceber o quanto você sentia falta de estar aqui.
assentiu, concordando.
— E como estão as coisas? — O olhei novamente, com o cenho franzido. — Na sua casa, com seu irmão, sua família... Você sabe.
Há poucos passos já estávamos no centro da cidade. Agora as estrelas já estavam mais nítidas e a lua iluminava boa parte do lugar. Próximo a nós dois, havia alguns bancos de cimento e não demorou muito para logo estarmos sentados ali, de frente para o mar. Um pouco mais à frente, estava o píer que dava para o Ruby’s.
— O mesmo de sempre. Hector foi embora, mas prometeu que voltaria a qualquer
momento. ficou um pouco sistemático depois do acontecido, mais preocupado que o normal. — Dei de ombros, tentando não deixar tão claro como aquilo me afetava. — E é isso. Vivemos esperando que ele reapareça a qualquer momento e que tenhamos que fugir. Outra vez.
O vento voltou a sussurrar um pouco mais alto. Pude sentir alguns fios de meus cabelos teimando em alcançar meu rosto.
— Hm, eu entendo. — O ouvi. Decidi manter meu olhar nas pessoas que passavam ali. — Nem sempre a vida é justa. Isso torna tudo mais complicado.
— Nem me fala — murmurei. — Você disse que seu irmão ficou um pouco sistemático — soltou, voltando a conversar. Ele também observava ao redor, assim como eu. — Isso tem prejudicado em algo?
— Na verdade, não. — Ajeitei o fio teimoso atrás da orelha, soltando um suspiro. — Nós
nos desentendemos esses dias, no colégio. Tem sido um turbilhão de coisas nos últimos dias e eu entendo. não quer que eu me meta em mais problemas do que já temos.
E você é um deles, pensei.
— Se desentenderam? — Virou o rosto em minha direção, com a expressão confusa. Eu assenti. — Normalmente, quando eu e meu irmão perdemos a cabeça um com o outro, é porque ficou bem sério mesmo. Você quer falar sobre?
Respirei fundo. E contar que você havia sido o ápice para a confusão com meu irmão? Não.
— Eu acho melhor não entrarmos nesse assunto agora — soltei, tentando não parecer tão rude. Ele balançou a cabeça. — É muita coisa e eu não quero te alugar com isso. Acho que já fiz demais.
deixou uma risadinha fraca escapar. Eu o olhei. — Não vai me alugar, Sum, pode ter certeza disso — mencionou, também olhando em minha direção. — Também não quero te pressionar, então se não quiser falar, não tem problemas.
Ele agora estava um pouco mais sério, sua expressão parecia a mais compreensiva possível. Seus cabelos loiros estavam balançando conforme o vento e, mesmo bagunçados, pareciam no lugar certo. Quase como se não houvesse uma forma de diminuir sua beleza.
Olhar para ele daquela forma me fez pensar. estava diferente naquele dia. Parecia estar realmente querendo entender o que acontecia, querendo me ajudar de alguma forma e se preocupar, também. E só me fez perceber um pouquinho mais que, talvez, bem talvez, a imagem que eu tinha configurado do rapaz em minha mente, poderia estar errada. parecia ser uma boa pessoa, apesar dos pesares.
— Está fazendo aquilo de novo.
Soltou, me fazendo piscar algumas vezes. De imediato, mudei a direção do meu olhar, mesmo sabendo que agora tinha seus olhos pousados em mim, curioso.
Não era pra menos. Eu o encarava sem qualquer pudor.
— Desculpe. Não foi de propósito.
— Não precisa se desculpar. Só me encarou como se eu tivesse dito algo errado. E se eu disse, você pode falar. — Voltou a me olhar.
— Não foi isso. Não se preocupe, .
Ele rolou os olhos. Aquilo me fez rir fraco.
. Acho que já conversamos sobre isso — mencionou, arqueando uma das sobrancelhas. — Você quer comer alguma coisa? Já estamos na melhor parte da cidade. Olhei ao redor. Havia alguns restaurantes abertos, algumas lanchonetes e até mesmo foodtrucks espalhados por ali.
— Hm, acho que quero sim. O que me recomenda?
Minha pergunta havia sido o impulso certo para que deixasse um sorriso fraco transparecer em seus lábios, como se soubesse exatamente onde me levar.
— Eu tenho um lugar em mente. E tenho certeza de que você vai gostar.
Ele estava próximo o suficiente para sussurrar a frase perto de minha nuca. Não
preciso nem mencionar que pude sentir o corpo arrepiar.
fazia de propósito, exatamente para me tirar dos eixos.
Ele só não fazia a menor ideia de que eu também adorava fazer aquilo.


🌴


O lugar não estava tão cheio como eu havia pensado, mas havia uma quantidade considerável de pessoas espalhadas por ali, mesmo sendo meio de semana. Uma música acústica soava por ali e parecia notar o mesmo que eu, estando ao meu lado e deixando sua atenção focada em seu celular.
— Você se importa se for escolhendo o que comer? Preciso fazer uma coisa. Não devo demorar — perguntou, me olhando. Sua expressão estava séria.
Só deu tempo para que eu balançasse a cabeça, assentindo enquanto o via dar as costas, se distanciando. Deixei que meus olhos permanecessem nas costas do rapaz ao longe, me questionando o que é que ele havia ido fazer.
Resolvi não ligar muito para o que ocorria e não era como se o que acontecia ali fosse como um encontro. não tinha qualquer responsabilidade comigo, estávamos apenas passeando juntos e aproveitando um pouco o fim de tarde, mas… Por que é que a situação me incomodava minimamente?
Bufei. Deixei os olhos caírem sobre o local atentamente, pensando no que comer. Tudo ali parecia bem atrativo, deixando-me mais confusa do que antes. Não conseguiria escolher sozinha.
Pude sentir o celular vibrar no bolso do short e resolvi por pegá-lo, me sentando em um dos bancos mais próximos de onde estava. Enquanto permanecia ali, observei o display do celular piscando algumas vezes, indicando as mensagens que recebia.

2 notificações de .
3 notificações de .


O último fez com que meu coração acelerasse, deixando claro o leve nervosismo e como em automático, olhei ao redor, tentando ter certeza de que meu irmão não estaria por ali para ver o que eu fazia. Suspirei. Rapidamente percorri a tela com meus dedos.

‘o que está fazendo agora? acabei de terminar uma série e, sinceramente, estou morrendo de tédio…’ — , 25 min ago.
‘onde foi que você se meteu, hein?’ — , 5 min ago.

‘acabei de acordar e não te encontrei pela casa. onde está?’ — , 10 min ago.

‘ tentei falar com , mas não consegui. está com ela? — , 5 min ago.

?’ — , 2 min ago.


Fechei os olhos brevemente, deixando um suspiro escapar mais uma vez. Para ser sincera, não queria esconder nada de nenhum dos dois. Não queria ocultar de que estava na companhia do irmão de seu ex-namorado e muito menos esconder de que andava pelas ruas de Huntington com o cara que ele julgava ser um problema. O que poderia fazer?
Ergui o olhar, procurando por na multidão que ali continha. Ele ainda não estava por ali. Nem perto da praia, muito menos próximo ao píer. Será que havia acontecido algo? Ou ele simplesmente tinha me deixado ali, mostrando ser o cara que havia me dito desde o começo?
A última opção fez meu coração acelerar. Será que realmente faria aquilo?
Desbloqueei o display mais uma vez, resolvendo por responder as mensagens pendentes.

‘não pergunta nada agora, mas se te ligar, só confirma que estou com você. te explico tudo depois!’ — mensagem enviada ✓

‘eu tô bem, . estou com a na casa dela e esqueci de colocar o celular para carregar. não devo demorar para voltar, não precisa me esperar!’ — mensagem enviada ✓


Deixei o celular nas mãos após terminar de digitar e respirei fundo.
Estava começando a me preocupar, principalmente por ter sido deixada ali, sozinha e muito menos sem conhecer o lugar direito. Não podia avisar ao meu irmão, ele seria a última pessoa que eu contaria onde estava e com quem eu estava. não entenderia nada e me encheria de perguntas até finalmente resolver me ajudar.
Comecei a balançar a perna com meu nervosismo. Odiava me sentir daquele jeito, como se estivesse insegura e incapaz de fazer algo. Olhei novamente ao redor e procurei atentamente, só então conseguindo enxergar, bem ao fundo.
estava longe. Bem mais afastado do local em que eu estava e falava com alguém freneticamente. Parecia mais sério que o normal e poderia até arriscar dizer que nervoso também, além de argumentar firmemente com a pessoa com quem falava.
Estreitei um pouco mais os olhos, conseguindo ter uma visão melhor de quem seria a pessoa com quem ele estava.
E essa pessoa era seu irmão, .
O mais alto passou uma das mãos no rosto, parecendo pensar e em seguida disse
mais alguma coisa com , indo embora logo depois. O loiro pareceu respirar fundo, olhando para cima e não demorou muito para voltar em minha direção. Resolvi olhar para o outro lado, como se não tivesse visto nada do que havia acontecido. — E aí, decidiu o que vai pedir?
Perguntou, transparecendo tranquilidade. Fiquei alguns segundos em silêncio, o olhando e pisquei algumas vezes, tentando voltar para realidade. Como ele conseguir aparentar tamanha calma mesmo com a situação anterior? — Ainda não sei. Acho que… — Fiz uma careta, olhando ao redor. Não conseguia decidir o que queria ao certo. — Eu não sei. O que você escolheria?
me observou, deixando uma risadinha fraca escapar. — Eu tenho uma comida preferida, mas não sei se você vai gostar — comentou, parecendo um pouco mais animado que antes. — Burritos. Já experimentou?
Fiz outra careta. Ele riu um pouco mais. — Você não gosta ou nunca comeu? — Para ser sincera, nunca comi. E pela aparência não me parece muito bom — comentei, desviando o olhar. Percebi arregalando seus olhos. — Você só pode estar brincando… Não é? — perguntou, sem acreditar. No fundo, acho que queria que eu estivesse brincando. Balancei a cabeça e pude ouvir sua risada. — Céus, não posso acreditar. Precisamos dar um jeito nisso.
— Eu não vou experimentar isso, — debati. Ele negou com a cabeça, olhando ao redor.
— Ah, você vai sim. E é uma das melhores coisas que você vai provar em Huntington.
— E quais são as outras? — soltei, sem pensar.
virou o rosto em minha direção, deixando os olhos caírem sobre os meus, descendo para minha boca. Pude sentir o rosto queimar levemente com sua olhada e desviei o olhar para qualquer outro lugar.
Ele sorriu de canto, contendo uma risadinha fraca.
— Você logo vai descobrir.
Eu queria xingá-lo, chamá-lo de qualquer outra coisa que me viesse em mente, mas a única coisa que eu conseguia pensar com clareza era em como seus lábios saboreavam extremamente bem quando estavam juntos dos meus.
Droga. Por que ele fazia aquilo?
Não demorou muito para estarmos em frente à lanchonete, onde algumas mesinhas ficavam espalhadas pela calçada, sendo iluminadas por lâmpadas amarelas ao alto. logo se sentou, pronto para fazer seu pedido.
Me sentei ao seu lado, o observando ficar um pouco mais em silêncio. puxou o celular do bolso e começou a digitar algo.
Sou uma pessoa curiosa. Isso não posso negar. E não foi difícil notar que, depois que apareceu, ficou um pouco mais aéreo do que anteriormente.
Então, talvez não custaria nada perguntar o que havia acontecido. Certo?
— Posso te perguntar algo? — Foquei minha atenção no rapaz. ergueu o rosto, concordando. — veio te encontrar também?
O quê? — perguntou, com a voz quase falha. Ele pareceu não ter entendido muito bem de primeira e piscou algumas vezes, parecendo cair em si. — Ah. Não, ele estava com alguns amigos e precisava falar comigo.
— Entendi. — Encostei o braço da pequena mesa e, com a mão, apoiei meu rosto. parecia querer cortar o assunto o quanto antes. — Mas está tudo bem?
Deixei um sorriso compreensivo escapar. Ele ficou me estudando por alguns segundos e balançou a cabeça em afirmação, mas não parou de me olhar.
Não estava incomodada com seus olhos sobre mim, nem mesmo com a forma com que ele me observava, mas parecia ter um turbilhão de pensamentos na cabeça que não conseguiam ser solucionados e, de certa forma, aquilo me intrigou.
Ele respirou fundo e o mínimo sorriso no canto de seus lábios desapareceu. Ele parecia mais pensativo que o normal.
— Você é uma boa pessoa, . Eu tenho plena certeza de que já devo ter dito isso a você — comentou. Continuei o olhando sem entender ao certo onde é que ele queria chegar com aquilo. — Por que não fica longe?
Engoli em seco.
— Longe do quê?
tinha a íris focada em mim, como se quisesse deixar claro sua intenção. Mesmo que estivesse dizendo aquilo, algo em seu olhar parecia querer demonstrar o contrário.
— De mim.
— E por que eu deveria ficar longe de você, ?
O uso de seu sobrenome o fez deixar uma risadinha seca escapar, como se esperasse por aquilo.
— Porque, pelo que todos falam, eu não sou uma boa pessoa. — Deixou o corpo ereto, o aproximando. Apoiou seus braços na mesa, fazendo com que seu rosto ficasse um pouco mais próximo de mim. — E você, obviamente, é o oposto de mim.
Deixei que suas palavras ecoassem por minha mente por alguns segundos e, assim como ele, continuei com o olhar sobre seu rosto. Com isso, deixei um sorriso fraco crescer.
— Você acha que não é uma boa pessoa porque é isso o que todos falam. E acaba se convencendo de algo que não é verdade. É a saída mais fácil, — disse seu apelido um pouco mais fraco ao final da frase e foi impossível que não olhasse para meus lábios. — Você é bom. Só não entendeu isso ainda.
O observei um pouco mais, sentindo o calor da aproximação do rapaz. Ele parecia ter sido pego por minhas palavras, já que ficou um pouco tempo calado, sem responder alguma coisa.
— Você…
Iniciou, tentando continuar, mas foi interrompido pelo garçom que havia acabado de chegar. Mordisquei os lábios, tentando conter a excitação que havia tomado conta de mim e observei a comida acima da mesa. — Acho que tem que ter uma apresentação decente — comentou, levando suas mãos até o prato à sua frente. Franzi o cenho, tentando entender. parecia estar fugindo do que havia acontecido entre nós dois. — Isso é um burrito. Burrito, . , burrito. Prazer.
Ele levantou a comida no ar brevemente e aquilo me fez rir. Não pude deixar de gargalhar. sorriu de canto.
— Carne, pimenta e queijo. O resto não importa. Vai, experimenta. Você vai gostar.
, olha só a cara disso. Se eu não gostar, eu juro que faço você comer o
meu.
Ele riu um pouco mais, dando de ombros.
— E isso é um castigo?
Ele deixou os olhos caírem sobre mim e balançou a cabeça, voltando a se concentrar em seu lanche. Parecia estar comendo a melhor coisa do mundo.
Olhei para o enrolado em minhas mãos. Não parecia tão tão esquisito como eu achava, mas não dava mesmo para adivinhar o gosto daquilo.
Resolvi então por experimentar. Nos primeiros segundos, o gosto de todos os ingredientes começou a impregnar minha boca, principalmente o da pimenta.
Era exótico. E era muito bom.
— Eu não vou nem comentar a sua expressão — mencionou, me fazendo segurar uma risada para não acabar pagando um mico. Ele piscou. — De nada, gatinha.


🌴


Era fato de que nada daquilo estava saindo como eu havia imaginado ao pisar fora de casa naquele dia. Precisava enfatizar o quão aquela noite estava sendo memorável e que conseguia ser uma companhia e tanto. Não esperava a presença, o sentimento, nem mesmo a harmonia em que nós dois nos encontrávamos.
era ótimo. Divertido, engraçado e leve. Ele conseguia ser mesmo incrível.
Continuamos a caminhar, conversando sobre coisas aleatórias enquanto a maresia vinha de encontro a nós dois. O calçadão agora estava mais vazio e poucas pessoas transitavam por ali. — Sempre surfei, desde pequeno. Cresci fazendo isso e foi uma das melhores coisas que pude aprender. Eu sempre quis ser igual a um desses caras que nasceram e competem aqui. Dane Reynolds, Kolohe Andino. Tom Curren é um ícone, cara — explicava e era nítido o quanto ele gostava daquilo. — E acho que é sorte também. Eles são muito bons.
— Eu nunca vi você surfando. Pelo menos não desde que cheguei aqui. — Pensei um pouco alto e aquilo mexeu um pouco com o rapaz. ficou em silêncio por alguns instantes.
— Eu tenho trabalhado muito mais do que antes. Sempre que dá, tento estar na água. — Deu de ombros, como se não fosse nada. Agora tinha seus olhos no céu estrelado.
Balancei a cabeça, assentindo, e involuntariamente já estávamos com os pés na areia, caminhando próximos ao mar. O céu parecia mais bonito do que antes.
Resolvi tirar os calçados e fez o mesmo, voltando a caminhar.
— o chamei.
— O que, ?
Fiz uma careta e o olhei.
— Não me chama assim.
— Então também não me chame de .
Deixamos uma risadinha acanhada escapar.
— Tudo bem, — disse, mais baixo. — Tenho outra pergunta.
— Sim.
Brinquei com a areia enquanto andava ao seu lado e tentei formular a pergunta em minha mente. nunca falava de sua família. De seus pais, do convívio com eles, nada. Parecia que não o conhecia como deveria.
— Você nunca fala de sua família — sussurrei.
Ele olhou em minha direção.
— Isso não foi uma pergunta — respondeu no mesmo tom. Sua expressão havia mudado, mas ainda continuava calmo. Os olhos estavam focados no mar e os lábios estavam comprimidos.
— Eu sei. É só que... Por quê? Eu não sei muita coisa além de que tem um irmão chamado e que gosta de surfar — tentei explicar. Ele suspirou.
— E isso importa, ?
OK. O uso do sobrenome. Parecia que eu tinha tocado em um assunto proibido.
— Bom, eu acho que importa se estamos querendo nos conhecer melhor. E é sua família, . Por que não importaria?
deixou seu olhar cair em mim e caminhou um pouco mais à frente, virando o corpo de frente para o mar. Balançou os cabelos com a mão livre. Ele não parecia muito
confortável com o assunto.
— Escuta... Você não faz ideia de como eu me importo com isso. Eu só não... É
complicado, entende? O tempo muda e as coisas mudam junto. Nada é perfeito, nunca
é e sempre tem os problemas. Você deve me entender bem. Muita coisa acaba
surgindo e você fica perdido — disse de uma vez, respirando fundo ao final. O encarei. Não pude deixar de engolir em seco.
estava se abrindo. Ele estava se explicando, desabafando aos poucos.
Era um lado totalmente diferente do que eu havia pensado em conhecer.

I wanna be honest with you
Real love in your eye
Got passion to follow
No hiding tonight
Honestly I’m yearning for you…


virou o rosto em minha direção, como se quisesse me mostrar tudo o que se passava em sua mente. Ele parecia pensar em tanta coisa, parecia estar em um conflito consigo mesmo.
— Olha, , você não precisa continuar se…
— William saiu de casa quando eu tinha quatorze e , quinze — iniciou, num
sussurro. Sua voz se misturava com o vento gélido. Resolvi me aproximar um pouco mais. — Na época, nossa família estava bem e o que aconteceu foi um susto para todos. Ninguém entendeu o que se passava na cabeça dele. ficou transtornado, ele ainda namorava a , mas começou a se meter com gente pesada. Acho que você consegue imaginar o que aconteceu. A cabeça do meu irmão mudou. Eu não sei te dizer o que ele estava pensando. — Engoliu em seco, voltando a observar o mar. — Eu fiz de tudo para continuar firme. Para continuar lutando por e minha mãe. Pelo que restou da minha família. Precisava ter alguém ali para aguentar tudo o que acontecia e continuar. Independente de qualquer coisa. — Deu de ombros, mordiscando os lábios. Aquilo chegava a doer. Podia sentir meu coração apertando vagarosamente no peito. — E eu realmente achei que o pior estava passando e tudo estava voltando aos lugares. Sabe, nós sempre pensamos que tudo pode voltar a ser normal de novo.
... — tentei o interromper, mas ele não parecia me ouvir.
— No final daquele ano, minha mãe descobriu que tinha câncer. Leucemia crônica.
Foi a pior notícia que já pude receber, sendo bem sincero com você. Destruiu o restante de fé que eu ainda tinha em algum lugar aqui. — Apontou para sua cabeça. Eu já podia sentir os olhos lacrimejando. — Então, precisei deixar o surf para trabalhar. Loraine, minha mãe, não pôde mais trabalhar por conta de alguns sintomas e eu acabei sendo o responsável pelas despesas da casa. não consegue encará-la por se achar impotente e fraco demais para aguentar tudo — pigarreou. — Enfim, descobri há pouco tempo que meu pai faleceu. Eu nem faço ideia de onde e do porquê. — Deixou uma risadinha fraca, sem humor, escapar. — Soube também que você perguntou de mim para quando não fui à escola esses dias. Precisei acompanhar Loraine ao médico. E, bom, é isso. Agora você sabe um pouco da minha vida.
abriu os braços, com os cabelos ainda sendo bagunçados pelo vento e, ainda assim, depois de tudo aquilo, tentou sorrir, mesmo sua expressão demonstrando tamanha tristeza.
Mas, assim que me olhou, um vinco se formou em sua testa.
, você... Hm, está chorando? — perguntou, um pouco mais baixo. Neguei, balançando a cabeça, tentando fazer com que ele percebesse que não era nada demais, apesar de meus olhos já estarem lacrimejando naquele ponto. Sabia que não conseguiria aguentar por muito tempo. Eu não fazia ideia de que tudo aquilo tinha acontecido com . Ele aguentou e suportava tanta coisa que era impossível imaginar que alguém como ele pudesse ser uma pessoa má, como todos diziam.
— Você... . — Ergui meu olhar em sua direção. Agora ele parecia preocupado. — Eu sinto muito. Sinto muito mesmo. Não fazia ideia de que tudo isso tinha lhe acontecido e…
Coloquei uma das mãos em meu rosto, desviando meu olhar do dele. Não queria que me visse naquele estado.
E eu só conseguia pensar em uma única coisa.
era inteiramente diferente do que costumam espalhar.
era inocente, era apenas mais uma vítima de uma vida infeliz, exatamente como a minha. E ninguém sabia.
— Não fica assim. Você não tem que sentir nada, . — Se aproximou um pouco mais. — Você não precisa ter pena da minha situação, muito menos de…
Não o deixei continuar. Sem pensar duas vezes, o puxei para perto.
Deixei que meus braços enlaçassem seu corpo, bem próximo ao meu e pareceu não entender nada naquele instante. Seu corpo permaneceu ali, parado, estático.
Era um abraço reconfortante, acolhedor, necessário. O abraço que eu sabia que ele sempre havia precisado.
Não precisávamos falar nada. O sentimento ali era mútuo.
— Você não merece passar por nada disso.
Resmunguei contra seu peitoral. Ele abaixou a cabeça, deixando o queixo apoiado acima da minha.
— E quem disse que o mundo é justo, ? — comentou, exalando um suspiro alto.
O afaguei um pouco mais pelas laterais de seu corpo e, com a ponta dos meus dedos, depositei em suas costas um pequeno carinho. Ele pareceu perceber e se remexeu um pouco, parecendo não estar acostumado com aquilo.

It’s so hard from just one touch
Baby, I surrender…


Não queria largá-lo. Não queria deixar de sentir seu corpo próximo ao meu. Estar ali, abraçada a , parecia o lugar certo de estar e nada mais, nenhum outro problema, parecia importante o suficiente para me manter longe dele.
Ele também parecia querer o mesmo, mas aos poucos ergueu suas mãos e
afastou meu rosto. Eu até questionaria seu ato, mas não precisei de motivos para tal.
Porque, no segundo seguinte, seus lábios iam de encontro aos meus, em um beijo calmo, sem qualquer pressa.
parecia precisar daquilo tanto quanto eu.
Deixei que minhas mãos o acariciassem um pouco mais e ele fez o mesmo em meu rosto. Demonstrou tamanho carinho que eu ao menos imaginei que aconteceria.
se afastou, com seus olhos perdidos em meu rosto.
— Desculpa — iniciou. Meu coração palpitou com medo de que ele achasse um erro. — Não pude evitar.
Sussurrou contra minha boca, o que me fez sorrir.
Ele também fez o mesmo.
Sorriu de uma forma tão inocente e única. E aquele friozinho na barriga me invadiu.
— E que bom que não evitou — respondi, o beijando outra vez.
passou as mãos por minha cintura, a apertando vagarosamente e com todo
o cuidado que podia. O beijo continuava devagar, como se só de pensar em acabar
com aquele momento fosse torturante.
Dei um pequeno selinho em seus lábios assim que nos separamos e pude sentir seus braços ao redor de meu corpo mais uma vez.
Sorri com aquilo. Ele parecia confortável.
— Obrigado por ter ouvido um pouco da loucura que é minha vida — disse quase em um sussurro. — Você deve ter saído para lugares bem melhores, mas...
— Não se preocupe. Foi muito bom. Até que gostei de ter experimentado algo diferente — disse, fazendo graça. Ele riu fraco. — Sério, . Não pediria por algo melhor.
— Fico feliz em saber disso.
— Bom… — iniciei, tentando não quebrar o clima que havia se instaurado ali. — Temos aula amanhã, certo? Acho melhor irmos.
Ele concordou, se desvencilhando de meu corpo, mas antes de nos separamos, me olhou mais uma vez.
— chamou. Virei em sua direção. — Obrigado. Não digo isso da boca para fora, agradeço por ter me ouvido.
— Ei — sussurrei, chegando um pouco mais perto do garoto. — Não me agradeça. Você merece o mundo, . E tudo o que há de bom nele. O olhei mais uma vez, roubando um beijo de seu rosto e deixando um sorriso sincero estampar meus lábios. Aquilo era o mínimo que merecia ser lembrado.
Ele ficou ali parado, me observando como se estivesse tentando me decifrar.
Encurtou a distância e pude sentir os braços do garoto voltando a abraçar meu
corpo, dessa vez mais forte do que anteriormente. Ele encostou o rosto no topo da minha cabeça e suspirou, afagando meu corpo levemente.
Mas, naquele instante, percebi que não era só seu abraço que estava diferente, mas sua feição.
Ao olhar para cima, mesmo que um pouco enviesado, pude ver sorrir. Como se estivesse sorrindo de verdade pela primeira vez. Ele parecia mais leve e acolhido, como se tivesse muito tempo que não se sentia daquele jeito. Como se não tivesse recebido aquilo de ninguém. E aquilo me fez querer fazer um pouco mais de esforço para trazer para perto.
Mesmo com todos os problemas que, consequentemente, viriam junto.


Capítulo 14

Yeah (Good), I'm in my summer feelings
And I'm trying to keep it co-oo-oo-ol
Wait (Up), here in my summer feeling
And I found a piece of me that I never knew…
Summer Feeling - Lennon Stella feat. Charlie Puth


Pude ouvir a porta do carro bater e aquilo fez com que eu voltasse minha atenção ao barulho ao redor. Pisquei algumas vezes e olhei para o estacionamento da Ocean View.
Meu irmão recostou o corpo no capô do carro, despreocupado e eu, como de se esperar, começava a me sentir mais uma vez culpada por omitir parte das coisas que aconteceram comigo desde a última vez.
Meu coração palpitava. me esperava sair do carro e assim o fiz, ainda em silêncio, sentindo apenas o vento da manhã acariciar meu corpo levemente. Não queria iniciar alguma conversa, já que tinha a impressão de que tudo o que eu falaria levaria ao assunto do que eu havia feito na noite anterior e se tinha aproveitado com , o que também era mentira.
Droga. Odiava fazer aquilo. E odiava ainda mais saber que, se eu falasse a verdade, ficaria inteiramente chateado comigo. Mais ainda do que o último ocorrido.
Respirei fundo. Coloquei a mochila no ombro e fiquei ao seu lado, sendo salva por , que vinha andando rápido em nossa direção. Não precisei falar muita coisa, ela já havia entendido tudo.
— Ei, , bom dia! — saldou, com o mesmo sorriso matinal que ela sempre tinha. Olhou de relance para meu irmão e ele a cumprimentou do mesmo jeito, com o típico sorriso acolhedor e as bochechas rosadas pelo sol que costumava pegar.
— Você parece mais animada hoje — comentou. Continuei quieta.
olhava para mim, desviando o olhar de sempre que podia e aquilo me deixava um pouquinho mais ansiosa.
Primeiro que eu sabia que minha amiga viria com milhares de perguntas sobre o que havia acontecido. Segundo que se meu irmão notasse qualquer coisa suspeita e, principalmente, que estivesse relacionada a , eu estaria ferrada.
Incrivelmente ferrada.
— Nem tanto. Na verdade, estou um pouco cansada. Ficamos conversando até tarde ontem — mencionou, se aproximando de mim. Pressionei os lábios e concordei. — Posso roubar sua irmã um pouquinho?
— Ela é toda sua.
piscou para mim e sorriu. Pegou sua mochila e preparou para se afastar.
— Nos vemos mais tarde.
Respondi. Ele assentiu e caminhou para longe.
Não demorou muito para que segurasse meu braço, me dando um susto de leve e me olhou como se me esperasse começar. Parecia mais curiosa do que tudo e precisava confessar que a cena estava engraçada.
— O que foi?
— Como assim o que foi, ? Você sumiu ontem, sua louca! — respondeu, aumentando o tom de voz a cada palavra que falava. Rapidamente coloquei minhas mãos em sua boca, olhando ao redor.
— Fala baixo, garota! Se ouvir ou suspeitar de algo, eu ‘tô ferrada.
rolou os olhos, voltando a ficar do meu lado.
— E falta o que para você começar a dizer? Vai, conta tudo. Onde é que você estava? Você estava com , não era?
Dei um beliscão de leve em seu braço e um bico começou a se formar em seus lábios. Olhei para os lados mais uma vez. Nenhum sinal de James, e muito menos e seus amigos.
Soltei um suspiro aliviado. Com isso, voltei a olhar para ela.
— Parece que você já sabe.
— Claro que eu sei. Mas quero ouvir de você — respondeu, óbvio. Foi impossível não rir. — Você é doidinha, sabia? Se seu irmão descobre que você passou parte da noite, de novo, com , nem sei o que pode acontecer.
— Nem eu. Por isso vou pedir para você manter isso em segredo.
— Só se você me contar tudo o que fizeram — rebateu, sorrindo orgulhosa. — Menos os detalhes sórdidos, claro.
Deixei uma risada alta ecoar e ela me acompanhou, voltando a cruzar seus braços nos meus. Atravessamos parte do corredor do colégio e nos sentamos em um lugar afastado dos demais alunos.
— Não aconteceu nada demais, para ser sincera. Ele apareceu na minha casa, depois das aulas, e perguntou se eu queria sair um pouco — iniciei, me lembrando vagamente dos olhos esverdeados de me observando ao esperar uma resposta. — Fomos até o centro da cidade, conversamos bastante. não parece ser a pessoa mal-encarada que todos falam.
olhava em minha direção. Seus olhos estavam semicerrados, como se milhares de questionamentos se passassem por sua mente. Pude sentir minhas bochechas queimarem com sua análise.
— Você ‘ caidinha por ele, não é?
— Não é isso — me apressei a dizer. Ela assentiu. — É só que, todo mundo alerta sobre ele como se fosse algum perigo estar por perto. é o contrário do que dizem. Ele é alguém bom.
— Eu não sei, … Não tive uma experiência muito boa com os e eu conhecia de perto. Ele sempre foi meio retraído, na dele. Nunca foi de se meter nos problemas do irmão…
Enquanto dizia, minha mente vagava para bem longe.
A única coisa que eu conseguia focar era em tudo o que ele havia passado e me contado. Os problemas de sua família, de seu irmão, pai e mãe. De como ele fazia o possível para manter tudo de pé enquanto as pessoas com quem ele mais podia contar desabavam.
Respirei fundo. Não tínhamos uma realidade muito diferente, por sinal.
— Olha só ela. — Ouvi a voz de minha amiga um pouco mais alta. parecia me olhar um tanto divertida. — Não ouviu uma palavra do que eu disse.
— Claro que ouvi. Você disse…
— Eu disse...?
Fechei os olhos com força e coloquei a palma das mãos nos olhos. deixou uma risada escapar.
Parecia se entreter com minha situação.
— Certo. Olha, , se você acha que o certo é conhecer um pouco mais, do jeito que julgar ser correto, tem todo meu apoio. Se o irmão dele é um panaca, não quer dizer que ele também seja. — Deu de ombros, colocando uma de suas mãos nos meus. — Mas não quero que se machuque. E magoar seu irmão não parece ser uma boa ideia também.
— Eu sei… Só, parece ser tão complicado. Sabe? Consigo entender perfeitamente o que pensa sobre termos uma vida tranquila agora, mas eu queria tanto viver um pouco. Não que eu não esteja fazendo isso, mas…
— Acho que entendi o que você quer dizer. Você quer toda a adrenalina, pessoas novas, romances surpreendentes… — começou, sonhadora. Tanto quanto a mim. Sorri fraco. — Vou te apoiar no que quer que decida.
— Obrigada — respondi, sincera. me abraçou brevemente, voltando a comentar sobre qualquer outra coisa aleatória. Franzi o cenho, me lembrando de algo que também havia visto no dia anterior. — , tinha algo estranho que esqueci de mencionar.
— Algo estranho? — Ela virou o rosto para me encarar. Assenti.
— Quando anoiteceu, eu e resolvemos comer algo e, nesse meio tempo, ele precisou sair. Sabe, como se precisasse fazer algo rapidamente. E eu pude jurar ter visto falando algo com ele, preocupado.
ficou quieta por poucos minutos, parecendo assimilar tudo o que eu havia dito. Pressionou os lábios e suspirou.
— Não deve ser nada demais. Provavelmente perguntando a o que vocês faziam juntos. — Riu fraco, mas não descontraída o suficiente para que eu não pudesse notar sua minuciosa desconfiança.
— Você acha?
— Acho que sim. Não se preocupe com isso. Eles são assim mesmo.
Deu de ombros. Ficamos em silêncio por breves segundos até ela despertar, em um pulo.
— Você não me contou o principal.
— O quê? — Franzi o cenho. Ela pressionou os lábios.
— Vocês se beijaram outra vez?
Quase me engasguei com sua pergunta. Olhei para os dois lados com rapidez e as poucas pessoas ali olharam em nossa direção.
Balancei a cabeça em negação.
!
Ela gargalhou. E antes de pegar sua mochila, se virou para mim.
— Você é danadinha, viu? Quero saber tudo!


🌴


Todas as aulas pareciam ter demorado mais que o normal para terminarem. O dia percorria lento, sem muitas novidades e eu só precisava de uma única coisa, já que o calor que aquele horário emanava parecia surreal demais para ser verdade.
Praia.
Precisava sentir a água gelada molhando todo meu corpo, meu cabelo embolado pela maresia e colocar a prancha fincada na areia, esperando baixar a excitação para fazer tudo outra vez. E até parecia que eu não havia ido surfar há séculos pela vontade que sentia.
Deixei um sorrisinho escapar. Era mais do que evidente o quanto eu gostava de estar ali, feliz, livre e sem qualquer preocupação.
As vozes e os passos começaram a ficar mais nítidos quando saí pela porta da sala de aula por conta do intervalo, deixando ainda mais claro como havia uma grande quantidade de alunos naquele lugar.
De primeira, não consegui avistar nenhum dos que eu conhecia por ali. Nem , James ou . E, na verdade, eles não eram as pessoas exatas que eu queria procurar. Mesmo que eu quisesse achá-los ainda assim, meu coração batia forte só de pensar que eu poderia encontrar em algum momento por ali.
Foi impossível não lembrar de seus olhos verdes. Do olhar curioso em minha direção. E mais impossível ainda de não querer repetir o que fizemos na noite anterior.
Respirei fundo. Rapidamente caminhei até o refeitório, ainda notando a quantidade de pessoas que ali estavam e antes que pudesse escolher uma mesa qualquer para me sentar, pude sentir meu braço sendo puxado e a figura de , junto de meu irmão e James, apareceu em minha frente.
Os meninos pareciam ocupados demais conversando sobre algum assunto interno enquanto parecia entrar em colapso a qualquer momento. Seu rosto estava um pouco avermelhado e as sobrancelhas franzidas em uma expressão não muito boa. — O que foi que você ‘tá com essa cara? — perguntei.
Ela rolou os olhos e a atenção de James se voltou para mim.
Naquele dia em específico, o garoto parecia um pouco mais bonito do que já costumava ser. Seus cabelos escuros aparentavam estar um pouco mais brilhosos do que de costume e o sorriso enviesado também parecia querer me conquistar de alguma forma.
Eu sabia que, se não fosse por , James tinha um potencial e tanto para chamar minha atenção.
— Jenna — respondeu pela prima, se aproximando levemente. — Parece que não pode respirar no mesmo lugar que ela, que isso acontece.
deixou uma risadinha escapar e eu o olhei, rindo do mesmo jeito.
— O que você acha? Aquela sem noção de outro mundo. Ainda me pergunto como consegui manter amizade há tanto tempo sem suspeitar de nada.
cruzou os braços, ainda parada no mesmo lugar. O bico em seus lábios estava muito mais evidente que antes e a garota não parecia nem um pouco feliz com a situação.
E só piorou quando o grupo das líderes passou ao nosso lado.
— Para ser sincera, acho que seria saudável você tentar ignorar a existência dela. Jenna não está nem aí. Você deveria fazer o mesmo — mencionei, dando de ombros.
Os meninos pareciam concordar, mas , de alguma forma, estava decidida a fazer algo que, bem no fundo, eu tinha receio do que fosse ser. Sua expressão entregava isso completamente.
— De qualquer forma, acho melhor nos sentarmos em algum lugar ou vamos ter que comer do lado de fora. — Ouvi a voz de meu irmão tentando apaziguar a situação em que nos encontrávamos. — Não vale à pena, , esquece isso.
Pude ver a mão de indo de encontro ao braço desnudo de , em um aperto leve. A garota olhava em uma direção, fascinada. Seus olhos pareciam quase sair das órbitas.
— Seria muito mais fácil esquecer se ela não estivesse me encarando, como agora — resmungou, caminhando assim que James a impulsionou. Olhei para a mesma direção que ela. Jenna tinha os braços apoiados à mesa em que estava sentada e parecia estar se divertindo ao ver que se sentia incomodada com a situação. O sorriso no canto de seus lábios deixava claro como ela queria zombar da outra. — Se Jenna continuar me olhando assim, não respondo por mim. Já estou avisando.
Aquilo foi o suficiente para que James se sentasse à sua frente e segurasse as mãos da prima. se sentou ao lado dele e observou rapidamente do outro lado do refeitório, onde o grupo de garotas que Jenna estava inclusa se sentavam e, por coincidência, onde o grupo de também estava.
Meu irmão parecia analisar cada pessoa atentamente e aquilo fez meu coração palpitar.
Deixei que meu olhar também fosse até o mesmo lugar que ele observava. De primeira, avistei Jenna comentando algo com suas amigas e olhando vez ou outra para nós quatro, sendo mais precisa, para . Depois, percorri o olhar até a outra direção, a qual continha , alguns de seus amigos que eu pude reconhecer brevemente da primeira vez que estive no centro de Huntington e, um pouco mais na ponta, .
Antes mesmo de olhá-lo com atenção, pude sentir meu corpo aquecer aos poucos. conseguia causar aquele efeito somente existindo e eu me praguejava toda vez que sentia os arrepios, sem mesmo encostar no garoto.
Mordisquei o lábio inferior. Observei seus cabelos ondulados, as bochechas avermelhadas e os lábios inteiramente convidativos. Como ele conseguia ser tão gostoso daquele jeito?
Ao menos percebi quando saiu da mesa e se aproximou rapidamente, me dando um minucioso susto.
— Eu sei que você não contou nada para seu irmão, mas se continuar olhando para cá desse jeito, ele vai perceber.
Só foi tempo de eu arregalar os olhos gradativamente e sem qualquer delicadeza, virei o rosto para frente, podendo notar com os olhos em cima de mim. Ele parecia querer dizer algo. Sua expressão estava um tanto tensa para quem parecia apenas querer me olhar.
Engoli em seco.
— Não sei o que fazer. Falar com ele está fora de cogitação.
— Manda uma mensagem. Sei lá. Ou inventa uma desculpa e vai encontrar ele em algum outro lugar. — deu de ombros, ainda cochichando. — Não quero que arrume algum problema, não depois do que aconteceu.
— Eu sei. Também não quero.
— Você sabe que não vai dar para esconder isso para sempre, não é?
Olhei para , sem saber muito o que dizer. Ela estava mais do que certa. Não tinha como manter segredo daquele jeito por muito tempo e, uma hora ou outra, meu irmão descobriria, o que só dificultaria ainda mais as coisas.
Coloquei uma das mãos na testa e deixei a cabeça apoiada no braço. Naquele momento, minha mente parecia um turbilhão. O celular nas minhas mãos deixava ainda mais convidativo o fato de tentar encontrar , mas no fundo eu sabia que iria contra tudo o que eu sentia ao pensar no quão errado era fazer aquilo.
Quando voltei a erguer o olhar para qualquer outro ponto no refeitório, o que encontrei não havia sido e seus olhos esverdeados.
Mas sim, James.
Mesmo próximo, ele me observava com o cenho franzido, como se tivesse acabado de notar algo que não havia enxergado há muito tempo. E sua mente parecia estar bem similar à minha, já que era o que sua feição demonstrava.
Deixei um sorriso de canto escapar, disfarçando toda minha confusão mental e respirei fundo, podendo sentir meus cabelos serem bagunçados.
Era .
— Vocês querem fazer alguma coisa depois da última aula? Vamos sair mais cedo — mencionou, voltando a se sentar.
— Pode ser. Podíamos aproveitar o dia hoje.
— Acho que você leu minha mente. Acordei morrendo de vontade de ir à praia — respondi para , um pouco mais descontraída. — Você vai, James?
— É claro que vou! Acham mesmo que eu perderia as ondas de Huntington?
— É isso aí, cara.
ergueu a mão, batendo na de James em um toque que os dois haviam inventado e aquilo rendeu um pouco mais de assunto até o intervalo acabar por completo.
Antes de sair do refeitório, dei mais uma olhada no local. Nada de .
Aquilo fez uma chama de curiosidade crescer dentro do meu peito.
Será que ele queria mesmo dizer alguma coisa?


🌴


Não demorou muito para que eu logo pudesse alcançar a porta de saída da Ocean View junto aos demais alunos.
O sinal já havia tocado, indiciado o término das aulas daquele dia e eu não parecia ser a única que estava doida para ir embora também, já que pude avistar, um pouco mais à frente no corredor externo, meu irmão junto de James, conversando algo que os dois pareciam entender bem. E eu não duvidava nada que fosse sobre o que mais gostavam de fazer; surfar.
Ajeitei a mochila nas costas e me aproximei.
— Você ‘tá brincando, cara? Quer comparar mesmo Tom Curren com Kelly Slater? — James disse, agitado, dando um tapinha de leve no braço de . Meu irmão riu.
— Não quero comparar ninguém. Os dois são ótimos profissionais, mas em relação à disputa do semestre passado, você sabe…
— Na minha opinião, Kolohe Andino leva o pódio com todos os troféus do mundo — cortei os dois, dizendo com convicção. James e ficaram quietos. — E não vou ouvir o contrário.
O silêncio demorou poucos segundos. A risada dos dois ecoou pelo lugar, me fazendo balançar a cabeça.
— Você ainda insiste no Andino, irmãzinha?
— Aquele surfista norte-americano? Pff. Qual é, — James respondeu, colocando o braço apoiando em meu ombro. Fiz uma careta. — Por que vocês não aceitam que Tom é melhor do que esses dois?
olhou de canto para o amigo, dando um empurrãozinho de leve em seu corpo e tirando o braço de James de cima de mim.
Não pude deixar de rir fraco.
— Por que ele não é.
Meu irmão respondeu, simples. Concordei, voltando a olhar ao redor.
— Cadê ? Achei que ela sairia junto com vocês.
— Eu também achei — James respondeu, franzindo o cenho. Olhou para o colégio, assim como eu fiz, à procura de sua prima. — Deve estar enjoando alguém em algum lugar.
— Não fala assim. Você vive enchendo o saco dela também — rebati. sorriu.
— É diferente. Ela é minha prima, tenho esse direito — tentou se justificar. Deixei o olhar cair sobre ele, pronta para continuar com aquela pequena discussão sem sentido, não fosse pelo falatório que começou a se aproximar de nós três.
De primeira, não observei as pessoas que vinham em nossa direção. Pude avistar algumas líderes de torcida, os garotos do time de basquete e os demais alunos espalhados por ali. As líderes estavam um tanto dispersas entre si e fofocavam sobre algo que parecia bem interessante.
— Qual é a fofoca da vez? Fiquei curioso.
Ouvi a voz de James, um pouco mais baixo.
Dei de ombros e voltei a focar a atenção no que acontecia, só me dando conta do que poderia ser ao ouvir um diálogo bem perto.
— Ela deveria entender que se não foi suficiente, a culpa não é da Jenna.
— Você acha mesmo que iria querer ter alguma coisa com aquela garota?
— O quê? Ela pegou Jenna e juntos?

Pude sentir meu corpo congelar. Claramente estavam falando de e não podia ser outra pessoa e aquilo só deixava claro o motivo das encaradas de Jenna em sua direção.
Olhei de para James e, sem falar qualquer outra coisa, voltei em direção à entrada do colégio e, mesmo um pouco longe, consegui avistar a cabelereira de em meio às pessoas que ali estavam, observando toda a cena que acontecia.
Será que se deixaria levar a ponto de arrumar alguma confusão?
— O que você pensa que ‘tá fazendo, Jenna? — questionou. A loira mais alta a observava, com o olhar ingênuo que, se não soubesse o real motivo daquilo, acreditariam nela. — Sério que precisou trazer isso à tona outra vez?
— Eu não fiz nada. Quem quer alguma desavença aqui é você.
O quê? soltou, sem acreditar. — Você espalhou coisas pela escola toda. Como posso ficar tranquila com isso?
— Ai, . Esquece isso. Por que você ‘tá tão ofendida que eu fiquei com assim? Vocês nem estão mais juntos. Ele terminou com você e mesmo assim você ainda fica atrás del...
— Eu não fico atrás de ninguém! — a garota vociferou, começando a perder a paciência. Engoli em seco e me aproximei minimamente, notando que , assim como , também se aproximavam dali.
, vem pra cá. Ignora essas pessoas.
James iniciou, tentando acalmar a prima de alguma forma.
— Isso, , obedece ao seu priminho. Ele parece ser mais sensato que você.
Fechei as mãos involuntariamente ao ouvir Jenna provocá-la. Ver todas as pessoas observando aquele tumulto sem motivo me deixava ainda mais irritada por saber que quem estava causando aquilo era Jenna e, ainda mais, por saber o quanto aquilo poderia machucar .
pareceu notar o que se passava em minha cabeça, já que pude sentir seu toque morno em meu braço. Ele estava tão sério quanto James.
— Sua vaca infel...
— James a repreendeu. Não precisou que respondesse, ele logo se virou para a outra. — Jenna, para com isso. Se tem algum problema com ela, resolvam entre vocês duas. Não na frente da escola inteira.
— Mas foi ela que...
— Jenna, já chega. Sai daqui.
Aquela era a voz de .
Franzi o cenho ao olhar para o rapaz, tentando entender o que ele estava fazendo. parecia pensar o mesmo que eu. se esforçava ao máximo para não deixar seus olhos caírem sobre , mesmo ela o encarando sem qualquer constrangimento. Ela parecia realmente olhar para ele, como se o estivesse vendo depois de muito tempo.
Jenna continuou parada, a poucos centímetros de , como se ao menos tivesse ouvido o pedido do mais alto. Pude notar que todos que estavam ao redor esperavam por algo pior da parte das duas e isso só me deixava ainda mais enraivecida.
Antes de tomar qualquer atitude, observei meu irmão se aproximando e ele, sem qualquer alvoroço, encarou .
— É melhor você tirar ela daqui.
Disse, firme.
Ou o quê? rebateu. — Vai me bater igual sua dupla fez?
Lançou um olhar breve em direção à James que, sem pensar muito, avançou em cima de . A única coisa que pude fazer foi puxar o corpo de James em minha direção, sentindo o impacto sobre o meu e pude sentir meu coração batendo rapidamente.
De relance, observei surgir dentre as pessoas, olhando de James para mim e, em seguida, para o restante como se perguntasse o que raios acontecia ali. E aquilo pareceu suficiente para que o mais velho voltasse à realidade, cessando toda a confusão ao virar as costas para ir embora, sem dizer qualquer outra coisa.
Deu para notar quão irritado ele havia ficado com a atitude de meu irmão e aquilo só me deixou ainda mais apreensiva com o assunto. Certamente não ajudaria.
Olhei para , James e, por fim, para . Parecia magoada o suficiente para não querer contato visual e seguir em direção ao carro.
Não pensamos muito para ir atrás.


🌴


Diferente da parte da manhã, o sol não estava muito forte de tarde.
Algumas nuvens passeavam pelo céu, quase em frente a ele, demonstrando que talvez pudesse chover a qualquer momento. Mas, ainda que estivesse daquele jeito e até mesmo pelo vento gélido que passava por ali, nenhum deles seria suficiente para me fazer retirar o wetsuit do corpo.
Observei fazer o mesmo, enquanto James já preparava sua prancha, não tão longe de nós três.
— Você quer conversar?
Perguntei, assim que puxei o zíper, fechando minha roupa, e me sentei ao seu lado, na esteira.
olhou em minha direção e sorriu enviesado.
— Não precisa se preocupar. Para ser sincera, minha única vontade é de puxar os cabelos de Jenna até ela não ter mais um fio.
Uh, agressiva. — James se aproximou, arrancando uma risadinha minha. — Esquece ela. Você sabe como Jenna é.
— Exatamente por isso que não posso esquecer.
Ela o olhou, com a sobrancelha arqueada. permaneceu em silêncio, apenas ouvindo a conversa em que estávamos. A verdade era que, desde que havíamos saído da escola, depois da minuciosa troca de palavras entre ele e , meu irmão parecia mais pensativo que o normal. Parecia repassar em sua mente o que havia feito, milhares de vezes.
E aquilo, de certa forma, estava me deixando com uma pulga atrás da orelha. Ele parecia estar muito mais observador do que de costume.
— Tudo bem. Então o que você pretende fazer? — James perguntou, agachando em frente à prima. Ela o olhou e soltou um suspiro derrotado, como se soubesse que fazer qualquer coisa não resolveria o problema. — Pois é, priminha. Isso não vai resolver nada.
— Eu sei. Que saco, viu? Pelo menos eu me saí bem?
Olhou para nós três e foi impossível não rir. Ela tinha um sorrisinho no canto dos lábios ao nos observar.
— Você foi ótima. Jenna mereceu ouvir tudo o que você falou e, por um momento, achei que você avançaria nela. — Ouvi a voz de meu irmão e ergui o olhar em sua direção. agora parecia mais focado em estar conosco ali, na praia. Quando olhei para , ela tinha suas bochechas coradas. — Agora, vou concordar com seu primo. Fazer qualquer coisa em relação a ela só vai piorar a situação. Melhor você esquecer e, principalmente, ignorar a existência da Ryland.
— Acho que vocês têm razão.
Aos poucos, ela foi ficando um pouco aliviada. Na medida em que jogávamos conversa fora, ainda que o foco de ter ido à praia fosse pegar algumas ondas, íamos esquecendo o que havia acontecido mais cedo. começava a ficar mais animado ao entrar em um assunto qualquer com James e vê-lo daquela forma me deixava inteiramente contente. A última coisa que queria era ter meu irmão cabisbaixo e preocupado, como quando chegamos à cidade. Com os pensamentos voltados a nossos pais, à inquietação por não saber se teríamos que passar por aquilo outra vez… Eu sabia que tudo aquilo se passava em sua mente.
Observá-lo sorrir, tão espontâneo e com o olhar brilhante como se não existissem outras coisas que o deixassem transtornado, era algo que enchia meu coração de satisfação.
Deixei meus olhos pousarem na água agitada, há poucos metros de onde estávamos. O mar não estava tão claro e as ondas batiam com força, fazendo um leve arrepio percorrer meu corpo. Gostava daquela sensação e gostava ainda mais da adrenalina que começava a surgir.
Mas não estávamos sozinhos.
Meu coração se descompassou no exato momento em que o vi. Os cabelos molhados e parte do corpo apoiado na prancha de surf. estava junto de seu irmão e mais alguns amigos.
E olhava em nossa direção.
— Fala sério. Nem aqui temos paz — resmungou.
e James olharam na mesma direção que eu assim que ouviram a garota. Pude notar James rolando os olhos e meu irmão ficando um pouco mais tenso do que costumava ficar.
— E você esperava mesmo isso? — James arqueou a sobrancelha. — Esses idiotas vivem aqui. Infelizmente, como a praia é pública, não temos muito o que fazer, não é?
Infelizmente concordou.
— Acho que não tem muito problema. Eles não estão atrapalhando, certo? — disse, um tanto receosa. Afinal, o grupo de meninos que estava na água até o momento não havia feito nada que pudesse nos irritar.
olhou em minha direção e voltou a encarar o restante.
Danem-se eles. Vocês estão fazendo o que aqui ainda? Vão lá mostrar que são os melhores!
— Você podia fazer isso também, priminha.
O moreno esticou o pé, jogando um pouco de areia da garota e ela deu um gritinho engraçado, fazendo uma careta logo depois.
— Sério, Jimmy? Saber como posso fazer isso? Surfando. E, olha só! Não sei surfar.
Cruzou os braços, fingindo chateação, o que só arrancou ainda mais risadas de nós. A implicância que os dois tinham era cômica, mesmo sendo apenas por brincadeira.
Balancei a cabeça, resolvendo por deixá-los ali. Ele e não pareciam ter muita pressa em entrar na água, mas como estava tão ansiosa, não pude evitar logo prender o cabelo e correr para passar a parafina na prancha de uma vez. Só precisava daquela água gelada e nada mais.
Depois de alguns minutos, a ajeitei debaixo do braço, tomando cuidado pelo peso e olhei para trás uma última vez antes de sentir meus pés sendo tocados pelo mar. Pude ver meu irmão me observando, com os olhos atentos e reluzentes. Ele tinha um brilho diferente no olhar e o sorriso contido nos lábios.
Parecia mais do que feliz em me ver ali. E eu podia sentir que ele realmente estava.


🌴


O tempo nublado me deixou um alerta, não só pela chuva como pela velocidade que as ondas passavam por mim e quebravam ao início da faixa de areia.
Alguns fios de cabelos colavam em meu rosto, mas não era algo que me incomodava. Na verdade, a única coisa que tirava minha atenção era do quão prazeroso aquele momento estava sendo, ouvindo o barulho das gaivotas e sentindo o cheiro da maresia me impregnar.
, por algum motivo, ainda não havia entrado no mar. Aquilo me deixou mais receosa do que antes. Ele não querer fazer algo que tanto gostava era sinal de que alguma coisa o estava incomodando profundamente e, o que me deixava ainda mais incomodada era saber que, bem no fundo, eu tinha uma mínima noção do que poderia ser.
Eu tinha as mãos paradas acima da prancha. Meu corpo se movia para todos os lados pela agitação do mar. Por vezes, precisava me segurar com força para não cair ou ser engolida pelas ondas que se formavam ali. E aquilo me deixou impressionada.
Me deixou impressionada porque não me recordava de ter visto ondas tão grandes e movimentadas como aquelas, nem mesmo me lembrava de como era a sensação de estar ali, quase em meio ao nada, sendo cercada apenas de água, vento e tendo ampla visão do horizonte.
Não dava para explicar.
Respirei fundo, deixando o corpo se movendo pelo ritmo da água e, ao ver a imensa onda que se aproximava, me preparei. Comecei a bater os braços, dando impulso para que a prancha fosse para frente, pegando velocidade. Olhei para trás mais uma vez e, assim que tive a oportunidade, lancei o corpo para cima, ficando de pé. Não tinha muito tempo para trocar um pé pelo outro, precisava ser habilidosa. Com isso, equilibrei o corpo e com o movimento das minhas pernas, deixei a prancha ir para frente e para trás, me levando para ainda mais perto daquela onda.
Meu coração batia frenético. Aquilo era sensacional.
De relance, vi meu irmão e meus amigos vibrando por mim na areia. A emoção junto da adrenalina de estar ali, fazendo algo que eu sabia bem, me fez rir.
Deixei que minhas mãos fossem até o rosto, tirando os cabelos alvoroçados, ainda sorrindo. E aí pude ver , também na água, em sua prancha.
Ele sorria em minha direção, não tão longe de mim, como se estivesse admirado com o que via.
Aquele era um dos momentos em que eu conseguia esquecer completamente todas as coisas que haviam me acontecido. Todos os sentimentos ruins e inoportunos que tentavam me colocar para baixo sumiam. Ali, em cima da prancha de surf, com o corpo molhado pela água, por poucos segundos, eu me sentia livre.
Desimpedida de qualquer coisa.
Era apenas eu e o mar. E nada mais importava.
Pude sentir alguns respingos em meu rosto e posicionei o corpo para tentar continuar na mesma onda em que eu estava mesmo sabendo que aquilo seria um tanto difícil, já que ela quebraria a qualquer momento. Deixei o corpo ser levado pelo movimento que a prancha fazia e tentei me arrumar o melhor que pude, evitando qualquer perda de constância.
Eu ainda podia sentir meu coração descompassar.
Mas não tive muito tempo para continuar desfrutando daquela sensação.
Uma sombra momentânea tomou conta não só de todo meu corpo, como fez reflexo na água abaixo da prancha. Franzi o cenho e olhei para cima.
Não tive muito tempo para raciocinar. Só senti o impacto acima de mim, me fazendo perder a estabilidade enquanto meu corpo era abraçado inteiramente pela onda que, antes, eu surfava intensamente.
Minha respiração oscilou. A prendi o máximo que pude durante o tempo em que afundava, me sentindo ser jogada de um lado para o outro pela agitação debaixo d’água. Meu pé estava preso ao leash amarelo e, mesmo tentando soltá-lo naquela confusão em que me encontrava, ele não queria soltar.
Eu estava presa à prancha de surf, sendo sugada para baixo junto dela.
Aquele era um dos momentos que paramos para pensar em todas as coisas que nos aconteceram durante toda a vida, se havíamos aproveitado como deveríamos e se havia valido à pena.
Pensei em meu irmão e minha avó. Pensei em minha mãe.
Pensei em como eu e ele havíamos sofrido até chegar a Huntington, como eu havia chorado por ter medo do meu próprio pai e em como minha maior vontade era a de sair de casa.
Por um pequeno momento, quase quis me deixar levar por toda aquela água.
E talvez eu estivesse delirando também. Não sabia dizer certamente quando minha visão começou a escurecer e quando foi que senti meu corpo sendo puxado para cima, deixando bem evidente o rosto de debaixo d’água, abraçado a mim.
Sim, abraçado a mim.
Exatamente como se tivesse toda a pressa do mundo em estarmos fora do mar o quanto antes. Como se quisesse evitar que qualquer coisa ruim pudesse me acontecer.
Mais do que já estava acontecendo.


🌴


Eu ouvi as gaivotas.
E, além delas, o desespero de meu irmão.
Não conseguia abrir os olhos e sentia os pulmões pesados, ardendo inexplicavelmente. Não tinha forças para ao menos esboçar qualquer reação que pudesse indicar para todos que provavelmente ali estavam, que eu estava bem. Ou, pelo menos, estava tentando ficar.
Notei que alguém estava me carregando. Meu corpo estava sendo segurado com força, quase como se a pessoa estivesse com medo de me deixar cair.
! !
Era a voz de misturada com e James.
A verdade era que eu queria chorar. Queria chorar pelos sentimentos anteriores, por todas as coisas que estavam me acontecendo e por ter que fazer passar por aquilo, depois de tudo.
, por favor, acorda! Por favor…
continuava a dizer, deixando claro o desespero em seu tom de voz.
Meu corpo foi balanceado e, com aquilo, pude sentir a água voltando por minha garganta em um engasgo alto. Comecei a expelir todo o líquido que podia e, assim que abri os olhos, também ardendo pela claridade, me agarrou.
Ele me apertou tão forte que quase tive que pedir que ele me afrouxasse um pouco.
Deixei os olhos percorrerem vagarosamente por seu rosto assim que ele se afastou, colocando suas mãos trêmulas nos meus. Notei que seu olhar, além de preocupado, estava angustiado. Seus olhos estavam avermelhados, indicando que certamente estava quase chorando.
— Ela vai ficar bem. Consegui me aproximar a tempo e acho que não foi nada demais…
iniciou, um pouco baixo. Seus olhos ainda estavam em mim. Ele não olhava para meu irmão ao falar.
ergueu o rosto em sua direção e se distanciou minimamente.
— Deu para perceber. Agora, se não se importa, você pode sair daqui — disse, um tanto ríspido.
Franzi o cenho, não entendendo ao certo o motivo de sua atitude. Achei que ele iria agradecer, já que era o mínimo a fazer.
arqueou a sobrancelha, também não entendendo como eu. Seu irmão vinha logo atrás.
— Só queria me certificar, . Foi uma queda e tanto.
Respirei fundo, fechando os olhos brevemente. Pude sentir o corpo arrepiar ao lembrar do momento anterior, em que a água me abraçava sem qualquer pudor.
— Você não precisa se certificar de nada. Conheço seu tipo e não é porque ajudou minha irmã que te devemos alguma coisa.
Soltou, sem rodeios. Arregalei os olhos, olhando para . Por que ele estava daquele jeito?
… — tentei dizer, mesmo minha voz quase não saindo.
— Se é tão importante para você ouvir um agradecimento por isso, então, obrigado — meu irmão dizia com desdém. Aquilo só piorava tudo.
Notei que todos ali estavam sem reação, incluindo . Ela nos olhava tentando assimilar tudo o que estava acontecendo e parecia tão assustada quanto James.
Olhei uma última vez para , tentando pedir desculpas de alguma forma, já que sabia que ele não tinha culpa de nada, mas logo me puxou para perto, me colocando em seu colo com toda a afabilidade que podia.
Não pude dizer qualquer outra coisa além de lhe lançar um olhar.
parecia ter entendido.
— Vamos para casa, . Por hoje, chega.


Capítulo 15

I'm afraid to start,
Don't wanna break your heart,
Just finished pickin' up the pieces from this mess…
Stained - Tori Kelly


O som das ondas quebrando ao longe da avenida era perceptível, mesmo que eu estivesse há algumas ruas da orla da praia; o que, de fato, tentava me deixar tranquila, já que a última coisa que conseguia ficar era calma.
Não conseguia parar de pensar no dia anterior. Nas ondas sobre meu corpo, na água espantosa acima de mim. Nos pensamentos intrusos e erráticos, e nos olhos verdes de .
Não conseguia deixar para lá o fato de que quase havia morrido. E, ainda mais, no fato de que havia sido completamente desnecessário com alguém que havia me salvado.
Respirei fundo.
Minha mente parecia uma confusão indecifrável.
Deixei o controle da TV de lado e, em um impulso, caminhei até a porta da sala que se encontrava semiaberta. O céu estava azul, pintado por poucas nuvens enquanto o sol irradiava por todo ele.
Parecia ser o dia perfeito para ir à praia, mais uma vez.
E antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, ouvi a música fraca vindo da garagem e, ao virar o rosto, avistei meu irmão concentrado em polir sua prancha de surfe.
estava de costas, sem a camisa e deixando suas tatuagens à mostra. O bronzeado de Huntington estava muito mais perceptível em seu corpo.
Meu irmão parecia concentrado demais no que fazia para perceber minha presença se aproximando aos poucos.
De primeira, não falei nada.
Deixei os olhos passearem o local, algumas coisas espalhadas pelo chão e a melodia ressoando por ali, mas aquilo não parecia importar tanto para ele, já que a única coisa que captava sua atenção era o brilho metálico da prancha que ele insistia em lustrar.
Aquilo era uma das coisas que admirava em meu irmão; sua dedicação em um hobby que tanto gostava.
A situação do dia anterior ainda vagava em minha mente. Não queria voltar ao mesmo assunto, já que estava evitando qualquer que fosse a discussão, ainda mais sendo por um motivo que já havíamos conversado, mas a atitude de havia me incomodado.
Ele não era daquele jeito. E tratar daquela forma só por rumores que havia escutado parecia mais errado ainda.
Aproximei o corpo um pouco mais e o escorei no arco da garagem.
— Ei, .
Ao me ouvir, meu irmão ergueu o corpo e se virou para me olhar melhor.
Suas bochechas estavam vermelhas pelo calor.
— disse. Deixou um sorriso ameno transparecer. — Tudo bem? Como está se sentindo hoje?
Soltou, casual. Como se o acontecimento anterior ao menos tivesse acontecido.
Franzi o cenho.
— Me sinto bem. Apesar de tudo. — Cruzei os braços. manteve seu olhar sobre mim, limpando suas mãos em um paninho que já estava sujo. — Mas acho que precisamos conversar.
Ficou alguns segundos me observando e respirou fundo. Não demorou muito para que erguesse a prancha, a colocando no apoio e voltou a me encarar.
parecia decifrar o que se passava em minha cabeça.
— E sobre o que, exatamente?
— Sobre . — Ponderei por um momento. Precisava escolher bem como começar o assunto para evitar que algo saísse de controle. — Por que agiu daquele jeito, ? salvou minha vida.
pressionou os lábios, evitando uma careta. O simples nome de parecia tirá-lo do sério gradativamente.
Com isso, voltou a olhar para a prancha como se o ato fosse acalmá-lo.
— Quer mesmo falar sobre isso agora? — questionou. — Achei que tinha entendido o que conversamos sobre esse cara.
— E eu achei que você tinha entendido o que falei sobre ele — rebati, com a cabeça pensando em mil coisas para falar ao meu irmão. — Não posso esquecer isso, . Quando precisei, apareceu. E você… — Apontei para ele. Já conseguia sentir minhas bochechas ardendo pela adrenalina da conversa que começava a ficar um pouco mais calorosa. — Você ao menos conseguiu agradecer sem soltar alguma faísca.
pareceu pensativo por um momento. Sua cabeça parecia tão cheia quanto a minha.
A verdade era que eu queria que tudo fosse um pouco mais ameno que a última vez. Queria que entendesse meu lado, assim como entendi o dele com toda a bagunça que existia em nossa vida.
Ele voltou a me olhar, desta vez com os olhos expressivos. Pareciam refletir chateação e desconfiança.
— Só estou tentando te proteger, . é um encrenqueiro. O irmão dele é. Não duvido nada que a família toda seja — soltou, sem ao menos pensar. Foi impossível não sentir o peito apertar com sua fala. não merecia aquele tipo de coisa. — Desculpe, eu só… Só fiquei chateado com tudo isso e com as coisas que falam dele.
Engoli em seco, desviando meu olhar do dele.
Como havia se tornado aquele tipo de pessoa? Julgando alguém por boatos ditos?
— Você não pode decidir por mim. Sei tomar minhas próprias decisões. — Pressionei os lábios. — não é essa pessoa deplorável que você está fazendo ele parecer.
Soltei, sem ao menos perceber que aquilo já se tornava um troca de farpas. Algum tempo atrás, ao menos imaginaria que chegaríamos àquele ponto.
era alguém que sempre conseguia ver o lado bom de qualquer que fosse a coisa. — , você não entende. pode ter mudado, como você acha que ele mudou, mas o passado não desaparece assim. Só estou tentando proteger você — disse sincero.
Bufei.
— Proteger? Ou me controlar? Não acha que já está bom o suficiente?
— Não quero que se machuque, . Por favor, só… Só tente entender.
A tensão se instalou mais uma vez. ao menos disse alguma palavra.
Sentia meu coração apertar. Queria que meu irmão pudesse me apoiar pelo menos uma vez em algo que, depois de tudo, estava me fazendo minimamente feliz.
Balancei a cabeça, em negação pelos meus próprios pensamentos.
— Às vezes, , é você quem me machuca mais.
Pressionei os lábios, realmente me sentindo magoada.
E, com isso, a única coisa que se passou em minha mente foi sair dali o quanto antes.
Antes de me chatear ainda mais com meu próprio irmão.


🌴


A brisa marinha e salgada acariciava meu rosto na medida em que eu pedalava pela orla de Huntington, deixando evidente como o sol ainda estava quente e como minha cabeça parecia tão cheia que a única coisa que eu conseguia pensar e fazer era pedalar o mais rápido que pudesse.
Os pensamentos pareciam ser mais turbulentos e irritantes que anteriormente. E a conversa que havia tido com não parecia ter ajudado em muita coisa.
Só conseguia me sentir magoada. Decepcionada.
Depois de tudo, a única coisa que passou em minha cabeça foi sair de casa o mais rápido possível.
Precisava espairecer. Precisava pensar direito.
Sentia meu peito apertado, pesado.
Talvez fosse pela adrenalina de simplesmente estar correndo sem um destino em mente, ou pelo fato de que me sentia tão desapontada que ir para longe se tornava a única opção e a única forma de extravasar aquilo de algum jeito.
Cada pedalada parecia um esforço para deixar para trás o peso emocional.
Podia sentir meus olhos arderem. Por que tudo tinha que continuar sendo tão difícil? Nos mudarmos para Huntington Beach deveria ter sido um alívio, não um compilado de decepções.
Respirei fundo, apertando os dedos no guidão e antes de tentar continuar indo para longe, senti o encontrão da bicicleta na calçada da orla e pude ouvir o barulho do pneu se esvaziar.
Bufei em frustração.
Ótimo! Era só o que me faltava.
Só consegui sentir a raiva, a frustração e a tristeza tomando conta de mim por inteira. E a única coisa que consegui fazer foi descontar tudo o que podia na bendita bicicleta que eu segurava.
— Bicicleta idiota! — exclamei, batendo minhas mãos em cada parte que podia daquele objeto.
Sendo bem sincera, não estava pensando muito bem.
E fazer aquilo talvez me ajudasse a acalmar o furacão que se encontrava dentro de mim.
Sacudi um pouco mais o veículo e fechei os olhos com força, enquanto abaixava a cabeça. Aquilo começou a me fazer sentir idiota, gradualmente.
Idiota, imatura, sem noção.
Mas não tinha como evitar e conter todos os sentimentos que eu sentia ao pensar em todas as coisas que havia acontecido até ali.
Não havia também como controlar toda a situação.
Parei por um momento e respirei fundo mais uma vez.
A frustração ainda ardia, mas a visão das ondas quebrando no horizonte começou a ajudar a acalmar meus ânimos.
Involuntariamente, caminhei até a beirada do calçadão, quase encostando os pés na areia, ainda que empurrando agora a bicicleta.
Talvez nada estivesse tão ruim como eu estava fazendo parecer.
— Precisa de ajuda aí?
Dei um pulinho ao ouvir a voz atrás de mim e virei o corpo sem pensar muito.
Para minha surpresa, a pessoa que estava parada à minha frente não era alguém que eu imaginaria conversar tão cedo.
.
? — questionei, confusa. Olhei para os lados, procurando por sem ao menos perceber. — O que… posso te ajudar?
— Eu que pergunto, novamente. Pareceu que a bicicleta queria te atacar de alguma forma.
Deixou um sorrisinho de canto escapar. tinha a expressão tranquila, como se nada fosse o abalar.
O que era estranho.
Dei de ombros, tentando ignorar o rapaz.
— O que quer? — soltei, com a voz fraca. Direta.
Não queria conversa. Muito menos com alguém que estava sendo um dos motivos para que agisse daquela forma.
— Só estava dando uma volta. E, bom, vi que você estava tendo problemas. Pensei em ajudar.
Engoli em seco, me sentindo um tanto tola. Não precisava ser tão ignorante também.
— É. Parece que a vida decidiu me testar hoje. — O olhei de canto. parecia estar atento a tudo o que eu dizia. — Mas acho que só preciso de um tempo para respirar e colocar a cabeça no lugar.
— Você quer, hm… conversar?
O olhei por alguns instantes e franzi o cenho.
querendo conversar? Essa era boa.
— Isso é sério?
— Tudo bem. Foi péssimo. — Deixou uma risadinha escapar. Sorri com sua leveza. — Mas o que falei antes é sério. Quero ajudar de algum jeito.
ainda tinha a mesma expressão de antes; parecia não estar com pressa para nada e nem mesmo mantinha a sobrancelha arqueada, como costumava fazer quando queria ser irônico ou sarcástico.
Ele parecia não querer confusão com nada.
Seus cabelos castanhos estavam sem o boné, jogados para o lado, mas sendo bagunçados pelo vento. Trajava uma regata branca minimamente estampada, bermuda cáqui e sandália nos pés.
O olhei por alguns segundos antes de voltar a encarar o mar.
— Sabe, , às vezes o mar pode nos ajudar a clarear a mente. Mas algo me diz que não é só a bicicleta que está causando problemas. — Pousou a mão no selim da bicicleta e pressionou os lábios.
Suspirei. O que eu tinha a perder em despejar todos os meus sentimentos e frustrações em uma conversa como aquela? Com ?
Bom, talvez muita coisa. Mas sentia a cabeça tão cheia que aquela seria a menor das minhas preocupações.
— Parece que você está certo. Quer saber? — Tirei os fios teimosos do cabelo que insistiam em atrapalhar minha visão e encarei . — Tive uma conversa tensa com meu irmão. Ele simplesmente não aceita o seu e não aceita o fato de que não é uma pessoa ruim. E aí, tem alguma ideia de como faço para ajeitar essa bagunça toda?
Aquilo pareceu ter pego de jeito, já que ficou em silêncio por alguns segundos. Parecia ponderar suas palavras antes de falar algo.
voltou sua atenção para mim, falando com seriedade.
— Não sou a pessoa certa para você conversar sobre esse tipo de situação, mas… lidar com questões familiares é sempre complicado. Ainda mais quando se trata de algum — disse, tentando fazer graça. Relaxei os ombros e resolvi me sentar na beira da orla, depois de apoiar a bicicleta ali mesmo. se sentou a meu lado. — Algumas vezes, as pessoas simplesmente não conseguem enxergar além das diferenças. O que você precisa entender é que, no final das contas, a única pessoa que pode mudar a percepção do seu irmão é ele mesmo.
Balancei a cabeça, compreendendo a verdade nas palavras de .
Querendo ou não, sabia que, no fundo, tinha suas razões.
No entanto, a lacuna entre ele e parecia impossível de ser preenchida.
— Hoje tentei conversar com ele. Sobre o que aconteceu ontem. Fiz o possível para explicar que não é o monstro que ele pensa — disse, sem pensar muito. Pude sentir o olhar de sobre mim e logo me arrependi das palavras que havia dito. — Desculpa, só…
— Tudo bem. Muita gente pensa o mesmo sobre nós dois. — Deu de ombros.
Senti o peito apertar e involuntariamente a culpa por deduzir o mesmo que o restante das pessoas que não os conhecia.
não parecia ser de todo ruim até aquele momento.
é teimoso, , assim como eu. E não quer ouvir.
Ele continuava a me olhar, mas algo em seu olhar transmitia calma. Como se tivesse experiência em lidar com situações assim.
— Talvez ele só não esteja pronto para aceitar o que é diferente. Especialmente quando se trata de família. — Arqueou a sobrancelha, dando de ombros. agora tinha seus olhos distantes. — Às vezes, seu irmão está apenas tentando proteger a si mesmo. É mais fácil manter distância do que encarar algo que não se entende.
Engoli em seco, sentindo um nó se formar em minha garganta.
Não queria acreditar que talvez tivesse razão em manter longe, mas as palavras de ecoavam uma verdade incômoda.
Será que eu estava sendo insistente em algo que não valeria à pena?
— Olha, , eu sei que é difícil de ouvir isso. Mas, para algumas pessoas, é mais fácil seguir em frente sem esperar aceitação. pode estar acostumado com a rejeição, com olhares estranhos e julgamentos. No fundo, ele não espera outra coisa.
Minha respiração ficou presa por um momento.
Não queria aceitar aquilo, mas parecia que uma pequena parte de mim começava a compreender as palavras de . Será que ele realmente estava certo em tudo o que falava?
Será que, depois de tudo, as palavras de estavam mesmo fazendo sentido naquele ponto da minha vida?
— Mas isso não significa que você deva desistir de tentar unir as coisas. Talvez tudo só precise de tempo para se encaixar — continuou, deixando sua frase se perder no ar.
Balancei a cabeça, concordando. Assim como sua frase, deixei meu olhar se perder na paisagem que a cidade tinha naquele horário.
Tudo parecia tão tranquilo e tudo o que eu mais queria era que dentro de mim também estivesse daquela forma.
Não conseguia parar de pensar em todas as palavras do mais velho. Por mais que não acreditasse que aquilo acontecia mesmo, parecendo uma miragem justamente por ser ele, agradecia mentalmente.
Mas, ainda com todo o conselho, uma sensação de derrota pairava ao meu redor.
Talvez a situação fosse mais complicada do que eu imaginava.
— Essa sua expressão não está muito legal. Você não vai passar mal, não é?
Rolei os olhos com sua pergunta e foi inevitável não deixar uma gargalhada escapar.
Ele me acompanhou.
— Não, . Sabia que estava demorando até você voltar à sua personalidade natural.
— Foi só para descontrair. — Piscou. Respirou fundo e manteve seus olhos em mim. — Seu irmão só está tentando proteger você e o próprio coração da maneira que consegue. Não estou falando para você aceitar tudo o que ele diz, mas tente ser mais maleável. No final, vocês sempre terão um ao outro.
Um silêncio tenso se estabeleceu entre nós enquanto eu tentava processar as palavras de .
Aquilo, de alguma forma, acertou meu coração em cheio.
Ele não poderia estar mais certo.
Mas parecia se tornar ainda mais difícil aceitar que a solução para meu problema estava fora do meu controle, que eu não podia simplesmente consertar as coisas com algumas palavras. A sensação de impotência era esmagadora.
— Tenho que agradecer. Não imaginava que teria uma conversa como essa justo com você. — Balancei a cabeça, sorrindo de canto. me observou. — Você sabe. Não somos próximos assim.
— Não quer dizer que não posso ser um bom ouvinte. — Passou uma das mãos no cabelo. Respirou fundo e encarou minha bicicleta. — E se precisar de ajuda com a bicicleta, também posso dar uma olhada nela. Ri, sentindo a tensão diminuir um pouco.
— Acho que a bicicleta já teve sua cota de xingamentos por hoje. Quem sabe da próxima?
riu junto de mim, balançando sua cabeça.
Se eu contasse a qualquer pessoa sobre aquele momento, ninguém acreditaria.
Muito menos .
Mas não me preocuparia com aquela questão naquele momento.
Talvez, com o tempo, as águas turbulentas da minha vida se acalmassem. Poderia ser difícil, mas não impossível.


🌴


Os tons alaranjados pintavam o céu da Califórnia mais uma vez.
Mesmo que meus olhos estivessem focados nos riscos e formas diferentes acima de mim, minha mente só conseguia focar em uma única coisa; a conversa com .
Por mais que eu estivesse muito mais aliviada do que anteriormente, várias questões rodeavam minha cabeça.
Continuei empurrando a bicicleta.
Queria entender o que se passava nos pensamentos de , mas, ainda assim, queria que ele entendesse os meus sentimentos confusos e desordenados. Como meu irmão, queria que me apoiasse em qualquer que fosse a decisão.
Mas será que estava certo no que dizia?
poderia estar com medo e receio de que algo pudesse me ocorrer e eu entendia perfeitamente, mas não era a garotinha que ele vivia protegendo quando era mais novo.
As coisas haviam mudado e eu tinha plena certeza de que conseguia tomar minhas próprias decisões.
Coloquei a bicicleta cuidadosamente no quintal, próxima à garagem onde ela pertencia e me aproximei, ainda sem muito ânimo de encarar meu irmão outra vez.
Quando coloquei os pés na varanda, consegui ouvir uma mistura de vozes sendo mescladas por risadas que eu conhecia bem.
, e James estavam reunidos, imersos em uma conversa animada e um assunto que só eles pareciam entender.
Suspirei, forçando um sorriso ao vê-los. Os olhares curiosos dos três vieram em minha direção.
— Ei, ! Por onde você andou? Sumiu parte da tarde! Fiz o possível para que minha expressão continuasse suave.
— Fui dar uma volta na orla da praia de bicicleta. Precisava fazer alguma coisa diferente e arejar a cabeça.
tinha seus olhos azuis cintilando curiosidade e preocupação.
— E onde foi que você encontrou uma bicicleta? — meu irmão questionou.
Deixei uma risadinha escapar.
— No fundo da garagem, no meio de toda aquela bagunça. — Fiz uma careta. — Pelo menos estava direitinha, mas não durou muito tempo. O pneu furou.
Meu irmão continuava me observando, o mesmo olhar perspicaz de sempre.
Desviei a atenção.
— Que bom que chegou bem.
Respirei fundo. Algo em estava diferente. Ele parecia tentar colocar toda sua atenção em mim, como se qualquer movimento que fizesse fosse me chatear.
Ou colocar tudo a perder de vez.
— Parece que um pessoal do colégio vai fazer um churrasco na praia. O que vocês acham de irmos? — James perguntou, se animando gradativamente. Seus olhos pararam em mim.
Deixei um sorriso de canto surgir.
— Quando foi que organizaram isso? — questionei, curiosa.
riu.
— Essa semana. Acho que você estava ocupada com outras coisas. — Piscou, achando graça.
Rolei os olhos.
— Só não prestei atenção.
— E quem está por trás disso? — perguntou. Deixei meus olhos caírem sobre ele por alguns instantes. — Fiquei sabendo, mas depois caiu no esquecimento.
Deu de ombros.
— Parece que um grupo no colégio se animou e resolveu chamar todo mundo. — James deixou o corpo descansar no sofá, enquanto ainda mantinha seu olhar em todos nós. — Acho que seria bom para nos divertirmos. — Legal, então! Vai ser uma boa oportunidade para relaxar um pouco e aproveitar um tempo juntos. — bateu palminhas, animada. — Vai ser incrível. E quem sabe, talvez role até uma fogueira! Será que dessa vez vão fazer?
A questão pareceu animar todos nós. e James engataram em uma conversa que só os dois pareciam entender, agitados. Com isso, caminharam até a cozinha, procurando por algo para beber.
Enquanto permaneci ali, sentada, lembrando vagamente da conversa com o mais velho, o estalar de dedos de me puxou para a realidade.
— OK. Tem alguma coisa muito estranha na sua feição. — A garota apontou para meu rosto, franzindo o cenho. Parecia mais curiosa que o normal. — Você está realmente bem? Se precisar conversar sobre alguma coisa…
Deixei um sorriso de canto escapar com sua preocupação. estava sendo a amiga que realmente precisava com toda aquela confusão.
— Não precisa se preocupar. Eu estou bem — respondi, desta vez, apoiando as costas no encosto do sofá macio. — Só precisei de um tempo para pensar. Minha cabeça tem estado um pouco… pesada demais.
— Aconteceu alguma coisa, ?
Seu tom de voz era apreensivo.
Mordisquei os lábios, querendo contar tudo o que havia acontecido até ali.
O motivo de ter saído de São Francisco, das brigas com , da conversa com
, eu só…
A voz de James invadiu a sala.
— E aí, vamos para praia? Porque eu estou doido para… — E assim abriu um sorriso largo. Contive uma risada com a expressão que havia feito. — O que foi?
se aproximou logo depois.
— James, às vezes você é muito chato. Sabia?
— O que foi que eu fiz?
Apontou para si mesmo.
olhou para mim e foi impossível não soltarmos uma risada com a situação.
Os dois viviam em pé de guerra, apesar de se admirarem tanto.
— Tudo bem, vocês dois. Vamos deixar as rivalidades de lado por um momento — meu irmão interveio, ficando entre os dois. Olhou para eles e em seguida para mim. — Praia?
Praia!
Nós três dissemos, em uníssono. Não demorou muito para que uma minuciosa bagunça se instaurasse na sala da casa da vovó Marie e, com isso, todos os pensamentos intrusivos e incômodos que haviam se apossado de minha mente todo esse tempo desaparecessem.
Pelo menos era o que eu achava.


🌴


A brisa gélida da maresia acariciou minha pele assim que desci à orla e caminhei pela faixa de areia branca e fina de Huntington Beach.
Já era de se esperar que seria recebida com um alvoroço anormal e risadas calorosas por todos os alunos da Ocean View, mas o cenário que avistava era melhor do que havia imaginado há muito tempo.
Gargalhadas, música e o aroma irresistível da carne sendo grelhada preenchiam o ar.
Haviam muitas pessoas ali que eu também nunca tinha visto na vista e, por alguns instantes, senti um arrepio percorrer meu corpo ao ver tanta gente diferente espalhada naquela área da praia.
A fogueira no centro do círculo que haviam organizado era grande, projetando várias sombras dançantes nos alunos. Além dela, também haviam espalhadas várias lanternas pequenas ao lado dos enormes travesseiros depositados na areia.
Era uma paisagem bonita, algo realmente diferente de qualquer outra coisa.
soltou alguns gritinhos animados ao meu lado, enquanto James conversava com ela. Os dois pareciam estar mais calmos e tranquilos, sem trocar qualquer que fosse a faísca.
estava quieto. Andava junto de mim e seus olhos, agora um pouco mais escuros pela noite que caía, focados na mesma paisagem que a minha. Havia algo profundo em sua expressão, algo que escapava das palavras. Percebi que seus pensamentos estavam longe, talvez em um espaço onde as preocupações cotidianas não o alcançassem.
Me peguei pensando o que estava se passando por sua mente.
Será que ele pensava em todos os problemas que haviam acontecido recentemente? Será que ele ainda estava chateado com nossas discussões que antes quase não aconteciam e se tornaram tão recentes?
— Um centavo por seus pensamentos — murmurei, tentando romper o silêncio entre nós.
piscou, como se despertasse de um transe. Seus lábios se curvaram em um sorriso breve, mas seus olhos ainda carregavam um peso que não passava despercebido.
— Só pensando na vida, sabe?
Respondeu, desviando o olhar para as pessoas que estavam mais próximas.
— Parece ser um assunto profundo demais para uma noite tão animada como essa — ironizei. riu. — Quer me dizer?
assentiu, como se concordasse com a contradição entre o ambiente agitado e seus pensamentos mais sérios. Parecia ponderar querer me contar também.
— Às vezes, me pego pensando na vida que deixamos para trás, sabe?
A chama da fogueira refletia em seus olhos, criando um brilho quase mágico para a noite que caía.
Percebi que ele estava disposto a compartilhar um pouco mais do que se passava dentro de si e sem pensar duas vezes, me dispus a escutar.
— Em São Francisco, antes de tudo ficar complicado demais. Difícil demais — suspirou. Suas mãos estavam no bolso da bermuda. Sabia exatamente o que queria dizer. — Sinto falta da época em que as coisas eram um pouco mais simples, antes de todas as complicações começarem. Consigo me lembrar de quando a casa costumava ficar imersa em risadas, principalmente por conta da mamãe. Parece que foi há uma eternidade.
Respirei fundo.
Nossa infância havia sido marcada por muitos momentos felizes, marcantes. Mas, da mesma forma, também por sombras que se tornaram mais densas com o tempo.
A figura do que Hector havia se tornado pairava como uma sombra sobre nossas mentes.
Senti o peito apertar.
A saudade de como tudo era tão calmo antes começava a aparecer.
— Mamãe era a âncora que segurava tudo junto, . Não sei o que aconteceu…
Por um instante, notei os olhos de meu irmão reluzirem como se lágrimas quisessem surgir ali.
E foi aí que meu coração apertou ainda mais.
— Queria que tudo tivesse sido diferente também — murmurei. Um nó se formava em minha garganta.
olhou para mim, seus olhos revelando a tristeza que ainda residia dentro de si. Sua expressão era triste, mas algo em seu olhar se preocupava em não querer me deixar com o mesmo sentimento que o dele.
Como se quisesse me proteger dele de alguma forma.
— Quase sempre me pergunto como teria sido se tivéssemos conseguido trazer ela também. Sabe? Se eu tivesse conseguido proteger ela também e…
Ele parou por um momento.
A memória de Norah era um farol de amor e compaixão em meio à toda tempestade que enfrentamos anteriormente. Seu sorriso gentil e sua paciência infinita eram as lembranças que mais se impregnavam em minha mente.
As que mais faziam falta.
parecia carregar um fardo tão grande que aquilo me doía só de pensar.
Ele não merecia.
— Ei, . Não pense assim. — Me aproximei, colocando a mão em seu braço. Ele olhou para baixo. — Mamãe vai ficar bem, tenho certeza. E sei que ela vai nos encontrar também, alguma hora… — Pressionei os lábios. Queria acreditar mais do que tudo que aquilo realmente fosse acontecer. — Sei que a vida nos levou por um caminho difícil, mas… estamos aqui, juntos, tentando construir algo melhor. Acho que isso vale de algo, não?
pousou seus olhos em mim, me observando atentamente.
Piscou algumas vezes e assentiu, sorrindo minimamente pelo canto dos lábios.
Não queria vê-lo daquele jeito.
— Vale de tudo, sunshine.
Sem falar qualquer outra coisa, me puxou para um abraço apertado, caloroso.
Não era apenas um abraço de conforto, apoio. Mas também o peso de todas as lembranças e desafios que a vida havia imposto.
Podia sentir sua respiração, agora, mais leve.
Parecia um misto de alívio e gratidão, assim como eu também sentia.
Alívio por ter alguém como ele do meu lado.
Gratidão por podê-lo chamar de meu irmão.
Com o abraço, senti um beijo morno em minha testa. E um sorriso carinhoso logo após.
— Acho que é melhor tentarmos curtir essa noite animadíssima, não? — ironizou, assim como eu havia feito anteriormente.
Deixei uma risada escapar e assenti, o empurrando pelo ombro levemente.
— Com certeza! Vamos, quero ficar louca!
— Ei! — repreendeu e eu não pude deixar de gargalhar com sua feição. Ele me acompanhou. — Que seja uma loucura controlada, então. Não precisamos de mais confusão para lidar depois!


🌴


O crepitar das chamas da fogueira dançava ao ritmo da música que ecoava pelas caixas de som espalhadas pelo lugar.
Acomodei o corpo, de forma confortável, em uma das almofadas que estavam espalhadas e uma cerveja gelada descansava em minhas mãos.
se acomodou logo depois, bebericando seu energético e jogando um pedaço de carne na boca. Parecia confortável demais.
Um pouco mais distante, conseguia avistar meu irmão, junto de James, imerso em uma conversa animada junto de seus amigos do time de basquete.
Aproveitei um pouco do momento para respirar fundo e tentar relaxar.
Queria que, pelo menos naquela noite, nada me tirasse do sério ou pesasse minha mente.
Observei com os olhos sobre mim por alguns segundos e franzi o cenho, sem entender seu ato.
Ela parecia me analisar. Pareceu ter percebido minha expressão pensativa por muito tempo.
, tem alguma coisa te incomodando? — perguntou, com certa delicadeza. — Desde mais cedo, quando chegou, te achei um pouco aérea. Como se algo ocupasse seus pensamentos mais do que deveria.
Suspirei, pensando bem antes de responder. Já era hora de deixar de omitir coisas justo de , que fez questão de me contar tudo o que se passava dentro dela.
Mordisquei os lábios e tomei um gole da cerveja, tentando tomar coragem.
— Tive uma discussão com pela manhã. E alguns dias atrás. Ele simplesmente não consegue aceitar que pode ser uma pessoa boa, e isso está me deixando maluca.
Suspirei.
franziu o cenho, parecendo pensar em muitas coisas. Assim como eu.
? — disse, retórica. — Mas aconteceu algo? sabe de alguma coisa?
— É complicado. tem essa visão fixa de que é o vilão da história só pelos boatos que ele já ouviu falar. — Beberiquei a bebida mais uma vez. — Não o vejo assim. Você sabe o que penso sobre o .
— Sei. Mas seu irmão não o conhece como você, talvez seja por isso todo o receio que sente.
Assenti.
— Exato. Mas não acho que isso seja motivo para destratar alguém que salvou minha vida — resmunguei, a olhando rapidamente.
— Você tem um ponto.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, frustrada só de me lembrar do acontecimento do dia anterior.
— Se quer saber, tive que ouvir dizer que é um encrenqueiro e que ele não duvida nada que o restante da família também seja. — Balancei a cabeça, em negação. Não conseguia tirar suas palavras da minha cabeça. arqueou uma das sobrancelhas.
— Ouch. pegou pesado.
— Nem me fala.
— Mas, , tem gente que tem dificuldade de aceitar algumas coisas. Como seu irmão. Talvez por você estar conhecendo alguém diferente, em um lugar diferente, isso o deixe mais preocupado. — Deu de ombros, como se falasse algo simples. — Pode ser só o receio de não querer você machucada.
Aquilo foi exatamente o que havia me dito.
E também.
— Talvez — murmurei. — O problema é que isso acaba afetando nossa amizade. E isso é a última coisa que eu quero que aconteça.
Olhei para meu irmão, ao longe, mais uma vez.
O amor que sentia por meu irmão era inegável, mas também percebia que estava em uma encruzilhada delicada entre ele e o desejo de me aproximar de .
O que só me fez lembrar, como em um estalo, que ainda não o tinha visto por ali.
Nem seu irmão.
— Quando saí para espairecer mais cedo, encontrei .
Disse, de repente, percebendo que ainda não tinha mencionado a sobre o encontro com o irmão de . O nome dele fez paralisar por um momento, seus olhos capturando os meus novamente com surpresa.
A garota piscou algumas vezes, ponderando minhas palavras. Sua expressão oscilou entre a compreensão e a reflexão.
Deu de ombros, como quem tentava simplificar algo complexo.
? — repetiu. — Devia estar aprontando algo.
Sorri ao ouvir a observação de sobre .
Já era esperado que ela fosse reagir de tal forma, tentando ignorar a existência do ex-namorado em nossas vidas.
— Na verdade, o contrário — mencionei. continuava a me olhar. — Acho que estava tão frustrada que acabei desabafando sobre a situação. E surpreendente me aconselhou.
fazendo isso? Agora quem se surpreendeu fui eu.
— Foi inesperado. Imaginava qualquer pessoa ali, menos ele. — Respirei fundo. Pude sentir a maresia acariciar meu rosto e fechei os olhos brevemente. — Conversamos sobre mudanças e sobre como a vida nos molda. Ele me aconselhou sobre a situação com e , de uma maneira que eu não esperava. Nem parecia o que vejo na escola.
— Você falando assim, até parece o que eu conhecia…
Sua voz foi sumindo aos poucos. pareceu entrar em uma bolha que só ela entendia.
Com isso, notei sua expressão entristecer aos poucos.
Era mais do que evidente que, por trás da postura descontraída, ainda guardava sentimentos e muitas lembranças da época em que ela e eram um casal.
A saudade pairava no ar nitidamente.
— Ei, . Não fique assim. — Afaguei seu ombro. Preocupada com a súbita mudança de sua expressão.
Ela piscou algumas vezes, como se estivesse voltando de um distante devaneio, e forçou um sorriso.
— Não se preocupe, estou bem. — Gesticulou. — Só estava pensando... Na vida, nas mudanças.
— Sei que o é uma parte importante do seu passado, . Se precisar conversar sobre isso, estou aqui para você.
Seus olhos caíram sobre mim, de forma sincera. Parecia mais do que agradecida.
— Obrigada, . De verdade.
esticou seus dedos, apertando minha mão levemente.
Sorri, tentando transmitir conforto e apoio.
— A vida nos leva por caminhos inesperados, mas isso não significa que as memórias e as pessoas queridas se tornem menos importantes.
Disse, sem pensar muito.
Só depois me dei conta que aquilo não valia só para . Mas para mim também.
E antes que pudéssemos dizer qualquer outra coisa, um barulho conhecido soou ali por perto.
Ao virar o rosto, senti o coração descompassar, assim como a respiração oscilar.
Ali estava , em sua Royal Enfield vermelha.
E seus olhos não poderiam estar mais focados no lugar onde eu estava.


🌴


não havia percebido.
Só quando virei o olhar em sua direção e logo o desviei, que ela se deu conta do que estava acontecendo.
Quando virou o seu rosto em minha direção, notei a palidez surgindo.
?
Chamei, tentando desviar sua atenção.
Ela piscou, como se estivesse voltando à realidade mais uma vez e balançou a cabeça em negação.
— Acho que agora é hora para uma outra cerveja — levantou o copo vazio, se levantando também. — Acho que vou dar uma olhada por aí. Te vejo depois?
— Claro, . Vê se não some!
Brinquei.
— Eu que devia dizer isso, não?
Ela me olhou uma última vez antes de se misturar com os demais alunos ali, se afastando rapidamente.
Foi só quando andou para longe que notei o quão cheio o lugar estava. Praticamente toda a Ocean View se encontrava ali.
A música alta, as risadas e o burburinho das conversas criavam uma atmosfera animada, mas, ao mesmo tempo, aumentavam a sensação de solidão.
havia sumido. James também.
Decidi não continuar mais ali.
Assim que me levantei, ajustei os shorts jeans e respirei fundo, antes de encarar toda a multidão. Decidi caminhar, tentando me perder no meio da multidão.
Procurei por James, e meu irmão mais uma vez, mas parecia que todos estavam dispersos em algum lugar daquela aglomeração estudantil.
A agitação dos alunos tornava cada passo uma luta para tentar passar entre eles.
Tentei manter a calma, mas a busca por rostos familiares só aumentava minha sensação de isolamento.
Mesmo em meio a todas as pessoas ao meu redor, de relance, o notei.
se encontrava distante da fogueira, junto de seu irmão e mais alguns amigos, os quais costumavam andar sempre juntos.
E mesmo tentando não fixar meu olhar por muito tempo, senti meu corpo esquentar.
O tipo de calor de quando se está sendo observado por alguém.
me observava, curioso. Os cabelos loiros estavam mais escuros ao anoitecer. Usava uma blusa clara, realçando ainda mais o vermelho de suas bochechas.
No primeiro instante, tentei disfarçar, focando em qualquer outra coisa.
Mas, no entanto, a sensação persistente de ser observada permanecia, fazendo meu coração bater mais rápido.
Respirei fundo. Precisava sair dali o mais rápido possível e, de preferência, sem ser observada por .
Não queria arrumar qualquer tipo de problema naquela noite.
Muito menos com . Nem mesmo com meu irmão.
Sem pensar muito, virei o corpo. E o mesmo trombou em algo.
Duas vozes irritantes invadiram meus ouvidos. Uma delas eu conhecia bem.
Jenna.
! — chamou. Tentei ignorar e dar meia volta, mas sua mão me impediu sutilmente. — Sei que a música está alta, mas não é possível que não tenha me escutado.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
A olhei.
— Só estou tentando aproveitar um pouco, Jenna. Você deveria fazer o mesmo — comentei, deixando um sorrisinho de canto surgir.
Ela estreitou os olhos. Só então percebi que April me encarava, um sorriso plastificado no rosto.
A mais baixa se aproximou suavemente, ajeitando uma parte dos cabelos loiríssimos alvoroçados pelo vento.
— Acho que você está precisando de um pouco mais de animação, . Não seja tão antissocial.
Deixou uma risadinha escapar.
Era óbvio que tinham segundas intenções. E não era mesmo me fazer enturmar com as duas.
— Se me dão licença, preciso procurar meus amigos.
— Quem? ? — Jenna arqueou a sobrancelha. — É melhor tomar cuidado para ela não querer roubar alguém de você.
— Acho que quem roubou alguém aqui, foi você. Ou vi outra pessoa agarrando na escola? — mencionei, fingindo desentendimento. A expressão da garota mudou. — Por favor, Jenna. E April. Só esqueçam da minha existência, ok?
Pedi, ainda tentando manter a calma e postura.
Dei as costas a elas, mais uma vez, decidida a continuar minha busca pelos meus amigos.
Onde é que aqueles três haviam se enfiado?
Antes que pudesse voltar a caminhar, Jenna e April voltaram a insistir.
E agora era April que interviera.
— Fiquei sabendo que você veio fugida de algum lugar. Isso é verdade, ?
Perguntou, fingindo desentendimento assim como eu havia feito.
Senti o corpo gelar. E, dessa vez, não havia sido pela brisa do mar que passeava entre nós.
April tinha atingido um ponto sensível e me vi momentaneamente sem palavras.
O impacto da sua pergunta reverberou dentro de mim, criando uma sensação de vulnerabilidade.
Aquilo começou a ecoar em minha mente. Como ela sabia?
Minha mente começou a girar em várias direções, pensando em todas as possibilidades e, principalmente, em como aquilo poderia vir ao público da pior forma possível.
April não podia…
Antes que conseguisse responder, alguém havia feito por mim.
— Isso não é da sua conta, April. Nem da sua, Jenna. Deveriam parar com essas provocações sem sentido e voltar para a festa.
.
April mencionou, surpresa com sua presença.
Pisquei algumas vezes e virei o rosto, o observando rapidamente.
tinha sua expressão mais séria que o normal. Os olhos estavam semicerrados e sua postura estava ereta.
— reafirmou. — Melhor ainda, que seja apenas para você.
— Mas… , eu…
— O que está fazendo aqui ainda, April?
Interrompeu, sem muita paciência.
Sua expressão nitidamente indicava que não estava disposto a tolerar mais provocação.
April e Jenna trocaram olhares desconcertados, se sentindo claramente desconfortáveis com a presença assertiva de .
A tensão pairava entre nós quatro e eu me via dividida entre a gratidão por ele ter intervindo e a curiosidade sobre o que acontecia ali, entre os dois.
— Era só uma brincadeira. Nada demais. Não é, ? — Jenna interveio, tentando amenizar.
A encarei.
Respirei fundo outra vez, pensando seriamente na situação.
— Isso não parece uma brincadeira para mim — rebateu.
April olhou para com um misto de desconforto e surpresa.
Parecia que, dessa vez, havia encontrado alguém que não estava disposto a ceder às suas provocações.
— Vamos, April. — Jenna segurou o braço da amiga, falando mais baixo. — Não vale a pena.
Senti meu coração acelerar.
O peito doer.
Qual a intenção das duas em querer me provocar? Qual a intenção de April em dizer aquilo?
Como ela sabia?
Conforme as duas se distanciavam, senti o clima amenizar. Ao menos me lembrei que ainda estava parado ao meu lado.
Engoli em seco. Ao menos consegui me defender sozinha.
Pressionei os lábios e olhei para cima, em direção aos olhos de .
— Não precisava ter feito isso. Eu…
— Você iria lidar com a situação sozinha? Imaginei — cortou, desviando o olhar. — Mas quis ajudar. Não precisa lidar com tudo só você mesma.
Suspirei.
não precisava ter feito aquilo por mim.
Só deixava tudo ainda mais complicado.
— Obrigada ainda assim.
— Não precisa agradecer — mencionou, dando de ombros. Por um instante, deixou os olhos sobre mim. Seu olhar demonstrava certa preocupação. — Tudo bem?
Demorei um momento antes de responder, ponderando sobre como expressar o que estava sentindo naquele momento.
— Sim. Tudo sim, só… Surpresa, talvez.
— Por quê? Não esperava isso de mim? — Riu fraco.
Balancei a cabeça, pressionando os lábios.
— Não é isso. Desculpe. Acho que te interpretei mal agora. Não foi surpresa de uma maneira ruim, apenas… não estou acostumada com isso. Muito menos com chantagens imaturas.
pareceu ponderar minhas palavras e seu rosto assumiu uma expressão mais séria.
— Não precisa se desculpar. E sobre a situação com Jenna e April, não leve a sério. Gostam de provocar. Como estava por perto, quis garantir que não deixassem um momento desagradável estragar sua noite.
O olhei.
Aquele era um lado de que ainda estava conhecendo e, de certa forma, algo em suas palavras me deixou mais admirada que o normal.
— Obrigada, .
Disse, sincera.
Ele continuava a me olhar.
Havia uma conexão silenciosa entre nós, como se entendêssemos algo além de todas as palavras trocadas. Ia além da compreensão, do querer entender um ao outro.
Quase como se pudéssemos ler o pensamento um do outro.
Depois de um tempo, piscou algumas vezes. Desviou o olhar para o mar, com suas bochechas mais vermelhas.
Aquilo me fez sorrir.
— Acho melhor voltarmos para…
— Quer sair daqui?
soltou, rapidamente. Seus olhos buscaram os meus, esperando uma resposta imediata e seu ato havia me pego de surpresa.
Parecia ter urgência em sair dali o mais rápido.
A intensidade na pergunta de era palpável. Havia algo em seus olhos que ainda estava tentando entender, apesar de indecifráveis. Pensei em meu irmão.
Pensei em todos os problemas que aquilo me traria no dia ou na semana seguinte. Em todos os questionamentos que ele me faria.
Mas não hesitei em responder.
— Quero, .


🌴


A noite se desdobrava diante de nós, na presença das luzes cintilantes da Pacific Coast Highway.
Enquanto estava na moto de , pela segunda vez, conseguia sentir algo diferente. Era mais do que o vento fresco que acariciava meu rosto ou o rugido do motor ecoando na escuridão da estrada; uma mudança na intensidade dos sentimentos que permaneciam entre nós dois.
Segurei em , desta vez, as mãos em seus ombros. Em uma forma natural.
A primeira vez foi um turbilhão de emoções, uma montanha-russa de novidades.
Agora era como se estivesse mais confortável, cômodo.
No lugar que deveria estar.
A sensação de estar na estrada, cortando a costa, era diferente desde aquela primeira vez após a festa de James. Não era mais uma aventura desconhecida.
A brisa marítima brincava com meus cabelos e a única coisa que conseguia pensar era no fato de como aquele momento, e a sensação, eram singulares demais.
quebrou o silêncio, falando por cima do barulho do vento.
— Se lembra da primeira vez que fizemos isso?
— Como poderia esquecer? — rebati, rindo. — Foi como estar em um filme e eu estava tentando não parecer uma personagem desajeitada demais!
Ele riu. Um som que se misturava ao rugido da Royal Enfield.
— Sente a diferença, ?
Sua pergunta pareceu assertiva demais. Quase provocante.
— Sim, mas… é familiar. Como encontrar alguém depois de muito tempo.
Senti o coração descompassar. Talvez estivesse me entregando demais, mas em um momento como aquele, aquilo não parecia ser importante.
respirou fundo, pude sentir a vibração de seu peito.
— É exatamente como isso.
Respondeu, sua voz se misturando ao vento e ao barulho do motor do veículo. Nada mais precisava ser dito. Tudo pairava no ar.
decidiu acelerar, mas não para muito longe.
Pouco tempo depois, senti o vento diminuir e logo estávamos descendo próximo a algumas ruas pouco movimentadas da cidade.
A moto deslizava suavemente pelo asfalto.
Ao estacionar, tirou o capacete e, pouco depois de me aguardar, já estávamos caminhando pelo lugar, lado a lado.
O cenário era composto pelo pouco comércio e luzes tênues que iluminavam as calçadas vazias.
— Acho que sair de lá foi a melhor escolha da noite — comentei, retomando o assunto.
Pude ouvir a risada baixa, rouca, de e senti o peito aquecer.
Seus olhos encontraram os meus.
— Definitivamente. Não sou de festas assim, acho que já conversamos sobre isso — brincou. Suas mãos estavam no bolso do jeans. — E você também, pelo visto.
Assenti.
— Festas barulhentas nunca foram meu ponto forte.
Continuamos a andar lado a lado, nossos passos em sincronia com o pouco barulho da noite. O silêncio era confortável, como se estivéssemos nos entendendo mesmo sem muita conversa.
— Acho que você não me contou muito sobre o que gosta de fazer, além de surfar, implicar com seu irmão e a composição de sua família — mencionei, descontraída.
me olhou de relance, ainda com o sorriso nos lábios.
Sabia que ele havia contado um pouco mais sobre sua vida e família, mas não parecia ser suficiente.
— Bom, você quer saber mais sobre o incrível ? — brincou, colocando a mão no peito como se estivesse prestes a revelar segredos.
Ri, o encorajando.
— Claro. Quero descobrir todos os seus segredos mais profundos.
riu junto de mim.
— Além de surfar, gosto de música. Toco violão e componho algumas coisas. Nada muito interessante. — Deu de ombros.
— Não subestime o poder da música, . Cada nota conta uma história — comentei, percebendo que sua modéstia talvez escondesse algo mais profundo.
Ele sorriu, como se apreciasse meu pensamento.
— E você, ? O que gosta de fazer?
— Gosto de surfar — disse, direta. riu fraco. O olhei. — Sério. Surfar é a minha vida. Desde pequena fui ensinada a estar sobre as ondas e não me vejo fazendo outra coisa.
A expressão de mudou, como se ele tivesse percebido a paixão genuína que eu tinha pelo surf.
— Isso é incrível. Conseguir estar em sintonia com o mar não é para qualquer um. Admiro isso.
Sorri.
Ele entendia.
— É mais que uma paixão. Não dá pra explicar, é como se cada onda tivesse sua própria história, e eu sou apenas parte dela.
Olhei rapidamente para o mar no começo da rua em que estávamos.
Caminhávamos para dentro da cidade, sem pressa e objetivo.
assentiu. Nós dois estávamos um pouco mais próximos e o entendimento mútuo entre nossas paixões estava nos aproximando ainda mais.
— E, além do surf, há mais alguma coisa que faz seu coração bater mais forte?
Sua pergunta quase me fez parar.
pousou os olhos claros em mim, curiosos. Quase como se estivesse ansioso pela resposta.
Parei por um momento, querendo responder a primeira coisa que havia iluminado em minha mente.
Você.
Respirei fundo.
— Não acho que tenha outra coisa que mexa comigo como o esporte.
— Tem certeza? — questionou, interessado.
Dei uma rápida olhada para .
Sentia meu coração palpitar rapidamente dentro do peito. Como eu iria dizer que nos últimos meses a única coisa que mexia com minha cabeça e coração era justamente estar com ?
Será que deveria confessar?
Mordisquei os lábios, sentindo o olhar do rapaz queimar sobre mim.
— Talvez tenha uma coisa.
Antes que pudesse continuar, já sentindo o peito acelerar, o toque de seu celular interrompeu. o tirou do bolso e franziu o cenho ao olhar o display.
— Desculpe, . Preciso atender.
Assenti, tentando esconder uma pontada de decepção.
Parecia bom demais para ser verdade.
— Tudo bem, . Assuntos surgem.
O vi se afastar o suficiente para que eu não conseguisse ouvir a conversa muito bem.
Continuei o observando e sua expressão mudava a cada frase que parecia falar. não parecia muito contente. Com isso, andou de um lado para o outro e respirou fundo antes de desligar.
Quando se aproximou, seus olhos encontraram os meus e um lampejo de frustração e preocupação passou por eles.
— Sinto muito. Era querendo encher minha paciência um pouco mais — comentou, tentando parecer descontraído. — Onde estávamos? Você estava prestes a me dizer sobre aquela "coisa" que faz o seu coração bater mais forte, talvez?
Senti as bochechas queimarem. sorriu de canto ao notar minha reação.
Confesso que torcia mentalmente para que ele esquecesse a conversa que estávamos tendo.
— Ah, isso? Não era nada demais. Besteira! — desconversei.
O brilho em seus olhos verdes era persistente, indicando que ele não estava mesmo disposto a deixar o assunto de lado.
— Hm. Pareceu bem interessante. Não quer mesmo me contar?
Inclinou a cabeça levemente, ficando desta forma, mais perto do que eu poderia esperar.
Meu coração descompassou.
era louco se pensava que uma atitude como aquela não me abalaria.
Desviei o olhar e suspirei, me dando por vencida.
— Tudo bem, então. Ia dizer que a única coisa que faz meu coração bater mais forte ultimamente é…
O celular tocou outra vez, me interrompendo.
Dessa vez, a expressão de ficou ainda mais tensa do que antes.
Parecia não acreditar que aquilo estava lhe acontecendo.
, eu…
— Vai lá, . Pode ser algo importante — mencionei.
Não o culpava por ter um irmão insistente.
hesitou por um momento, deixando os olhos em meu rosto. Parecia tentar encontrar uma solução em seus pensamentos.
Suspirou pesado e assentiu, pegando o celular outra vez.
— Parece que a noite não está do nosso lado hoje. — Forçou um sorriso, se afastando outra vez.
Fiquei ali, o observando ir para mais longe.
Deixei os olhos caírem ao redor e me aproximei de um banco amadeirado, já desgastado, decidida a me sentar e aguardar. O som abafado da conversa de com seu irmão chegava até mim outra vez, mas não conseguia discernir as palavras. Aquilo me deixava ainda mais curiosa.
O que parecia ser tão importante para o mais velho ligar duas vezes?
Pouco tempo depois, ouvi os passos de se aproximando.
E quando o olhei, não tinha mais a mesma expressão leve que antes.
Parecia preocupado demais. Inquieto demais.
, preciso ir — comentou. O uso do sobrenome mais uma vez. Aquilo me deu um sinal de alerta. Alguma coisa havia acontecido e não parecia ser algo bom. — precisa de minha ajuda com algo e… é complicado.
Passou as mãos pelos cabelos, visivelmente impaciente.
Suas ações começaram a me incomodar. Começaram a me deixar em alerta, pensando em milhões de coisas que poderiam ter acontecido.
, vai ajudar seu irmão. Sua família vem em primeiro lugar.
Disse, com sinceridade. A frase pareceu ter o despertado.
assentiu, mais para si mesmo e olhou ao redor.
— Só me fala exatamente próximo ao que nós estamos que eu…
— Não vou deixar você sozinha aqui — negou, parecendo pensar ainda mais. Depois, deixou seus olhos caírem sobre mim. — Também não consigo te deixar em casa agora, então… Você poderia ir comigo e ficar perto da moto enquanto resolvo as coisas? Não é ideal, mas prefiro isso do que você voltar sozinha.
Sua pergunta me surpreendeu.
realmente estava preocupada com minha segurança?
parecia sincero no que dizia, mas, ainda assim, parecia inacreditável.
Por um instante, a indecisão apareceu e a voz de reverberando em minha mente ficou mais alta.
Aquilo poderia ser um problema e tanto.
Mas a ideia de recusar e ficar naquela rua deserta até conseguir ir para casa não parecia muito atraente. Principalmente pelo fato que ao menos sabia em que bairro estávamos.
— Não quero atrapalhar, . Não precisa se preocupar comigo e…
, eu disse que não vou deixar você sozinha aqui — reforçou, um pouco mais sério.
A firmeza em seu tom de voz não deu margem para qualquer outro argumento.
Só então deu para perceber o quão séria a situação era.
Respirei fundo, decidida a acompanhá-lo.
— Tudo bem. Vou com você.


🌴


A placa de Oak View se tornou nítida quando passou por ela.
Pude sentir um arrepio percorrer por meu corpo e não foi exatamente pelo vento frio que eu sentia. O bairro em que estávamos parecia envolvido por sombras e o silêncio que se tornava evidente, deixando apenas o ronco do motor da moto de ecoar, era quase palpável.
Segurei firme nas laterais do veículo, como se aquilo fosse me proteger de algo e aquilo fez com que meu coração tamborilasse um pouco mais.
A sensação de desconforto aumentava à medida que seguíamos ainda mais para dentro do subúrbio mais afastado de onde eu morava. Nunca havia estado naquele lugar.
As luzes fracas dos postes de rua apenas realçavam o que eu sentia.
Por que estava ali? O que havia feito? Por que precisava de tão rapidamente assim?
desacelerou a moto assim que viramos em uma das ruas e, ainda no silêncio, senti meu celular vibrar no bolso do jeans.
Rapidamente, peguei o aparelho, e o visor iluminado mostrava o nome de .
O dilema instantâneo se tornou presente.
Deveria atender? Será que estava me procurando ou já havia pensado mil e uma coisas? Será que ele sabia que eu estava com ?
Respirei fundo. E, com peso na consciência, decidi ignorar e guardar o celular outra vez, justificando para mim mesma que resolveria tudo mais tarde.
estacionou a Royal Enfield em uma rua tranquila, apesar de não ser tão iluminada, e uma sensação estranha se instalou no ar.
O silêncio era absoluto, sendo quebrado apenas por alguns ruídos distantes da cidade e alguns cachorros que latiam por ali.
Descemos da moto e rapidamente olhei para .
— Não parece ser um lugar muito amigável, não é? — comentei, tentando aliviar toda a tensão.
soltou um suspiro, deixando um sorriso de canto transparecer. Mas sua expressão permanecia séria. Parecia perdido em seus próprios pensamentos.
, eu…
Iniciou, suas palavras se perdendo no ar.
Era a primeira vez que via tão preocupado.
O celular vibrou em suas mãos, o display acendendo e logo atendeu.
Seu cenho franzia ao ouvir o outro lado da linha e suas mãos pareciam não encontrar um lugar certo para ficar.
Inquieto demais.
— Preciso resolver isso. Fique aqui, perto da moto. Certo? Não saia até eu voltar.
— Isso é sério, ? Olha esse lugar! — disse, quase exasperada. Ele continuava a me olhar. — Não é como se fosse o melhor lugar para ficar sozinha.
— Eu sei, mas preciso que você me escute. Não vou demorar.
Sua seriedade era espantosa.
Só consegui concordar, assentindo brevemente, ainda que dentro de mim houvesse uma mistura de apreensão e nervosismo.
Não demorou muito para que saísse de perto e sumisse no beco seguinte, desaparecendo por completo.
A noite parecia ainda mais densa estando sozinha ali.
Só conseguia focar no quanto a rua permanecia deserta e minha mente tentava processar todos os acontecimentos que haviam acontecido desde que tinha saído de casa.
Era pra ser um churrasco normal — pensei.
Deixei o corpo encostar no veículo de e assim que o fiz, o celular vibrou outra vez.
Uma parte de mim queria atender, explicar onde estava e o que estava acontecendo. Queria ser sincera com meu irmão como havíamos conversado, mas só de lembrar do olhar magoado em seu rosto meu peito afundava.
O coloquei no bolso e abracei meu próprio corpo, como se aquilo fosse me proteger de algo.
Mas onde raios eu estava me metendo?
A cada segundo que passava, a preocupação só tendia a aumentar.
E a única coisa que conseguia fazer era manter meu olhar fixo no lugar onde havia entrado.
Foi aí que notei algo diferente.
Eu não parecia estar sozinha. Os barulhos à minha volta começaram a ficar mais intensos, como passos rápidos e vozes abafadas.
Uma sensação estranha de alerta tomou conta de mim. Só consegui pensar em algo para me defender e foi quando vi correr.
Ele corria como se sua vida dependesse disso, em minha direção.
Seus cabelos bagunçados, o rosto vermelho e os olhos arregalados.
E aí o desespero começou a tomar conta de mim.
! — disse, a voz trêmula. — Rápido, temos que sair daqui agora!
, o que aconteceu?
Questionei, sentindo a garganta fechar.
Quando olhei em seu rosto, meu coração disparou. tinha um corte na bochecha.
Sem responder, me puxou pelo braço, deixando sua moto para trás.
Corri junto de sem ao menos saber para onde estávamos indo e, antes de raciocinar qualquer coisa, adentramos por ruas estreitas e becos, buscando uma saída rápida.
Ouvi passos atrás de nós e me alarmei. Só então, quando olhei para trás, mesmo com os fios atrapalhando minha visão, o vi.
corria da mesma forma que nós dois.
Senti outro puxão. havia achado algum lugar mais escuro e escondido do que o beco anterior.
Não pude falar qualquer outra coisa. colocou seu corpo em frente ao meu, como se aquilo fosse me esconder ainda mais.
— Eu sinto muito. Isso não era pra acontecer… — iniciou, sua voz sumindo aos poucos.
Ele parecia tenso, como se estivéssemos no olho de um furacão.
Engoli em seco. Ainda tentava entender a gravidade da situação.
Quando tentei formular algo para responder, se aproximou.
Os cabelos alvoroçados como os de e o rosto tão vermelho quanto.
Seus olhos pararam em mim, desacreditados. Desviou para .
— Por que trouxe ela, ? — A voz de era pesada, ainda que baixa. — Você enlouqueceu? Que merda é essa? Quer arrumar mais problema ainda?
Senti meu coração descompassar.
Não o conhecia bem, mas ver o mais velho daquele jeito só me fez lembrar de dizendo o quanto ele havia mudado.
— Quem arrumou algum problema aqui foi você, ! Droga! O que você tinha na cabeça? — se afastou, aproximando o corpo do irmão. Parecia aflito, exausto.
passou suas mãos pelo rosto, demonstrando uma mistura de desespero e irritação.
Eu não sabia o que pensar. Minha cabeça parecia pifar a qualquer momento com todas as informações e acontecimentos.
Os dois ficaram em silêncio.
Mas os olhos de agora estavam focados em mim.
— Você não deveria estar aqui, — soltou, ao balançar a cabeça. — Para o seu próprio bem.

Continua...


Nota da autora: Ei, praianas. Demorei, mas cheguei! E parece que com bastante emoção, não é mesmo?
Espero que vocês gostem! Deixe seu feedback, vou adorar saber o que achou!
Agradeço muito a cada leitor(a) dessa história!
Com carinho,
Isy.



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Nota da beta: AI, SOCORRO! Tantas emoções nesse capítulo!
Não aguento ver esses irmãos brigando assim, eles precisam se acertar logo e o irmão da pp tem que parar de ser cabeça dura!
Os pps sendo interrompidos DUAS VEZES me fez gritar. AFFEEEEE! NÃO CREIO QUE NÃO ROLOU MAIS BEIJOS!
E essa confusão do final? O que aconteceu? No que eles estão metidos? PRECISO DE RESPOSTAS!
Trate de atualizar logo, amiga. Te amo. ♥


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