Yesterday

Por Júlia Bevilacqua e Maria Fernanda Manna
Beta-Reader: Abby (Capítulo 1) – Carol Mello (Capítulo 2 em diante)

Capítulo 1


Como Lennon e McCartney um dia escreveram juntos, “Yesterday, all the troubles seemed so far away, now it looks as though they're here to stay, Oh, I believe in yesterday.” O meu ontem começou há doze anos, no meu casamento. Nem pense que minha história é algo extraordinário, é o mais clichê possível: casamento com o melhor amigo. Não me queixo nem me arrependo, faria tudo de novo, todos os anos de amizade, de namoro e de matrimônio, todos os anos de carinho, companheirismo e principalmente, amor. Lua de mel? Itália, oh, Toscana. Mas sem perder o foco, naquele dia maravilhoso eu me senti completa, como se o “para sempre” realmente existisse e nada iria nos separar. Porém, os anos, o trabalho e as crianças tornaram nossas vidas monótonas, a rotina começou a nos cansar sem que eu nem percebesse.
- Estou com medo, não quero que minha vida fique na rotina, acho que o Hector já está cansando.
mexia distraidamente no seu Frappuccino.
- Relaxa, , vocês estão casados há apenas quatro anos, e ainda nem tem filhos para se cansar.
- Sabe, , não sei como você consegue. Casada há doze anos e dois filhos, e você e formam o casal mais lindo que eu já vi. Além do mais, minhas noites com Hector, se é que você me entende, estão cada vez mais difíceis, duas vezes por semana só, acredita? Meu Deus!
Meus Deus mesmo! Se ela está preocupada com a situação assim, eu deveria estar puxando todos os meus fios de cabelo até ficar careca!
- Também não precisa ficar me olhando com essa cara perplexa, . Agora me diz, você e o ...
- Quase todos os dias, nem me pergunte como eu aguento!
Ri nervosa. Odiava mentir, mas não iria falar “ah que isso, uma vez por mês e olhe lá.”
Tá, realmente mentir nem sempre é a melhor saída e a melhor coisa a ser feita, mas, neste caso, a vergonha acompanhada do orgulho talvez falasse mais alto. Não consigo entender porque a tive, pois eu e a éramos amigas desde quando meus problemas quanto a relacionamentos amorosos e amizades começaram a aparecer frequentemente, ou seja, desde os primórdios da minha adolescência. Só que preferia camuflar a verdade da minha vida sexual e, consequentemente, do meu casamento para assim continuar transparecendo o estereótipo de mulher perfeita.
Eu nunca me considerei uma mulher bonita, mas sim totalmente o contrário. Tachava-me como sendo aquela que só fazia sucesso com pedreiros por ter um enorme par de peitos e um cabelo preto, modéstia à parte, de causar inveja por ser daqueles chapados naturais. E até pouco tempo eu não conseguia entender porque o , aquele característico europeu nato, me enxergou no meio da multidão de fãs histericamente apaixonadas por ele no camarim depois do show dele e de sua banda, McFly, em Manchester.
- Amor, me diz uma coisa que desde quando te conheci tenho esta dúvida... Por que você escolheu a mim para ser sua mulher enquanto você tinha qualquer uma na palma da sua mão?
Não foi uma pergunta fácil para fazer, e acho que muito menos para ele respondê-la. Envolvendo seus braços em mim, enquanto me deitava em seu peito nu depois de uma das maravilhosas noites da nossa lua-de-mel, ele foi firme, sensato e sincero quando, enfim, falou o que a maioria das mulheres pretende escutar de um homem:
- Eu apenas vi por trás daqueles humildes olhos pretos de ressaca que me admiravam, uma menina-mulher com quem eu queria ficar pro resto da minha vida. Sabe , foi àquela sensação clichê de amor à primeira vista.
Naquele momento, eu apenas ressenti as belas palavras que ele teve o poder de construir e me deixar ainda mais perdidamente apaixonada e de quatro por ele... literalmente.
Doze anos depois, sinceramente, queria ter preservado tal sonho. Atualmente vejo que tenho sim filhos maravilhosos e pode se dizer de passagem, como uma mãe coruja, que são os meninos mais fofos e inteligentes que eu tive o prazer de gerar. Além dessa família típica e bem estruturada ao ver dos que estão de fora, ainda habito uma casa com um jardim externo preservado cuidadosamente por um jardineiro e o restante da parte de concreto conservado por mais quatro secretárias e uma governanta. Juro que não ostento coisas desse tipo e que se por desígnios da vida tivesse uma confecção artesanal de pulseiras, colares e anéis em Amsterdam (vulgo hippie), não sentiria a mínima falta de todo considerável poder monetário. Mas também não nego que ter uma vida assim, sustentada por vários tripés, satisfazem todas as manhãs meu ego de acordar e parecer ter o mundo aos meus pés, às minhas mãos e ao meu corpo por inteiro.

YESTERDAY
Lembro-me como se fosse ontem. era apaixonada por uma banda na qual eu não era fã, mas admirava o trabalho e reconhecia como eles eram bons na música e em passar toda a energia para o público. McFly, esse era o nome da banda. Estávamos nas férias de verão e resolvemos viajar juntas pela terra da Rainha, começando por Manchester. Certa noite, vimos o cartaz divulgando o show da banda em um pub bastante conhecido de nome. Lógico que não perdemos a oportunidade de apreciar um bom som e uma boa noite com muita dança, bebida e loucuras. Não me pergunte como, mas quando percebi, pouco tempo depois do término do show, estávamos no camarim dos caras do McFly. Todos falavam ao mesmo tempo e os quatro garotos, , , e eram realmente engraçados, fazendo com que eu, e algumas fãs histéricas também presentes no local não parassem de rir. Como o camarim estava abafado, os meninos abriram alguns botões de suas camisas sociais. Confesso que depois dessa, não pude deixar de reparar nos mínimos detalhes de cada um e ter pensamentos maliciosos. Nem venham me chamar de safada ou algo do gênero, se você estivesse no meu lugar, saberia do que eu estava falando. Um deles, se não me engano, estava sentado em um dos sofás, quieto. Cutuquei ) e o apontei discretamente. A mesma cochichou para mim: “Levou um pé na bunda da namorada esses dias, coitado.”
Olhando o seu perfil concentrado no nada, não pude deixar de perguntar como alguém em sã consciência o abandonaria. Talentoso, lindo, maravilhoso e cheiroso (sim, pude sentir seu perfume quando nos cumprimentamos). Levantei decidida com duas garrafas de Heineken na mão e sentei-me ao seu lado, porém, sem dizer nada.
- Sem querer ser grosseiro nem nada, mas desculpe, hoje não tô a fim de ficar tirando fotos de caretas ou algo do tipo.
- Na verdade, vim só fazer companhia, fico quieta se você quiser. Só acho que quando estamos chateados, a melhor solução é estar com os amigos, porque eles nos deixam fortes e preparados para qualquer coisa.
- Já sei, leu em qualquer site de fofoca sobre o meu namoro e quer me ‘consolar’.
- Na verdade, de novo, acabei de ficar sabendo sobre o seu namoro, porque quem é sua fã é minha amiga e não eu. Bom, lógico que vocês mandam muito bem, mas ainda tem muita estrada para eu os idolatrar como os Beatles ou até mesmo, Queen.
- Um dia ainda chegamos lá.
- Eu tenho certeza disso. Cerveja?
Ofereci uma das garrafas em minhas mãos, e pela primeira vez ele sorriu pra mim, só para mim.
- Desculpa pela forma como falei com você.
- Sem problemas, na verdade acho que te entendo mais do que imagina.
Claro que entendia, também fui abandonada pelo meu namorado, duas semanas atrás.

Não ia entrar em detalhes com ele quanto ao meu considerado “antigo” romance, mesmo porque além de termos acabado de nos conhecer e tal relacionamento ter sido no mínimo constrangedor, eu estava para lá de Bagdá e quase caindo na Babilônia.
- Mas você é a...?
- Ah, eu sou a , mas me chame de , por favor. E você é o , claro.
Nosso assunto se perdia entre as melhores palavras, os conquistadores olhares e os deli(mali)ciosos charmes. Senti-me verdadeiramente atraída por aquele garoto que se conformou em sustentar certos momentos filosóficos de uma bêbada e, consequentemente, acabou por se aproveitar de tal situação. Não que eu não quisesse. Pelo contrário, eu estava completamente excitada com qualquer movimento que ele ousasse fazer. Uma jogada de cabelo ou um simples levantamento das sobrancelhas insinuavam o que ele pretendia, me envolvendo assim de uma maneira mútua. Entre uma frase e outra, fui interrompida calmamente por lábios macios e nem um pouco vorazes. Eles se permitiam sensação de frescor e um leve tom de saudade. Fazia duas semanas que eu não beijava alguém e, sinceramente, eu já estava sofrendo com a minha carência que era preenchida todos os dias durante sete meses.
Quanto mais me deliciava com aquela troca tão saborosa de salivas, parecia estar transmitindo cada vez mais calor com a nossa ficada. Confesso que já sentia o quão excitado ele já estava sem ao menos ter qualquer toque mais ousado sobre o meu corpo ou minhas partes. Suas mãos, um pouco calejadas, acariciavam meu cabelo, minha nuca e tomava rumos que me deixava perplexa e um pouco sem graça diante de todos que ainda estavam ali no camarim. Sim, nós não estávamos sozinhos. Ainda.
Quando percebi a proporção que nosso envolvimento estava tomando, tive que interromper as carícias e me conformar com mais um pouco de conversa não só com , mas com o resto do pessoal da banda e a , que por sinal já estava de gracinha com o produtor.
Ao achar uma brecha, não perdeu tempo e fez o que parecia que ele queria desde o início. Pegou em minhas mãos e nos levou para uma varanda com um jardim de inverno encantador. Nele, além de flores típicas, tinha ainda um ofurô e uma cama meio baixa que mais parecia um colchão de ar. Não era um lugar muito iluminado, fazendo com que assim se tornasse romântico e propício para uma primeira vez. Exatamente isso, eu era praticamente virgem. Apesar de já ter vinte anos e ter namorado o mesmo cara durante sete meses, eu apenas tive relações com o Bernard. Então eu não era virgem! Sim, eu era. Porque na minha concepção a mulher só deixa de ser virgem quando se tem o primeiro orgasmo. E eu confesso que nunca tive este prazer.
pegou mais algumas cervejas não sei onde e ficamos bebendo enquanto brincávamos do “jogo da verdade”. Confessávamos algo e logo em seguida virávamos um bom e saboroso gole de Heineken.
- Primeiro as damas!
O espertinho tirou o corpo logo de cara se insinuando de cavalheiro.
- Já que insiste...Eu terminei meu namoro há pouquíssimo tempo.
E entornei.
- Eu também terminei meu namoro há pouquíssimo tempo.
Como assim? Ele estava tentando me passar a perna sem revelar nada?
- Isso não vale, você é famoso! Eu já sabia disso.
- Ok! Uma vez perdi uma aposta num jogo e tive que dançar “I will survive” pelado no quintal da casa do , na festa de Natal.
Entornou.
- Meu segundo namorado virou gay, passei uma semana bebendo achando que eu era a culpada e ele me disse depois que já sabia de tudo desde pequeno, acho que fui usada...
Entornei.
- Confesso que não sei mais o que confessar.
- Eu nunca fiquei com ninguém de uma banda, mas sempre tive vontade.
Virei, mesmo sem aguentar mais aquele gosto de cerveja na minha boca.
- Eu já fiquei com fãs... Só que nenhuma era tão meiga como você.
Ok, ele estava começando a me ganhar com essa patética confissão que fez com que eu me delirasse ainda mais por ele.
Assim que ele virou seu último gole da terceira garrafa, se aproximou e depositou mais um leve beijo enroscando seus braços pela minha cintura e apertando meu corpo contra o dele, fazendo com que eu me curvasse para trás naquela cama baixa estilo colchão de ar e super barulhenta. Ele ficou sobre mim e eu sentia a força que ele fazia em seus braços para se sustentar tentando o mínimo possível ter um contato direto sobre meu corpo. Enquanto me beijava não só nos lábios mais também ao longo do meu pescoço e ombros, eu, que permanecia sempre de olhos fechados, percebia uma leve pausa em sua respiração um pouco desregulada. Quando em uma dessas vezes eu olhei, apenas mantinha seus olhos fixos a mim. Parecia que me admirava de uma maneira diferente e com toda delicadeza que um homem possa depositar para uma maior satisfação feminina. Juro que me assustei, pois nunca tínhamos nos falado antes daquele dia, mas parecia que já conhecíamos há meses ou anos. Isso de certo ponto foi bom, pois a aproximação, o desenrolar e o desenvolvimento do que estava preste a acontecer foi mais natural.

TODAY
Enxuguei a lágrima solitária que escorria pela minha bochecha. Ter essas lembranças tão boas enquanto eu e enfrentávamos uma crise conjugal, não era fácil. Rolei pela cama me sentindo pesada e sem a mínima vontade de sair da mesma, o lado esquerdo de estava vazio, o que significava que ele já havia partido para a mini turnê pelo Reino Unido. Ouvi uma batida na porta e já imaginei a governanta vindo me perturbar por alguma arte que as crianças cometeram, porém, uma cabecinha apareceu pela porta e depois de um sorriso sapeca, veio logo correndo ao meu encontro.
- Bom dia, mamãe dorminhoca.
- Oi, bebê.
Rapidamente me recompus e tentei manter a melhor expressão em meu rosto. Charlie, meu filho de seis anos carregava em suas mãos um pequeno pedaço de papel dobrado. Pensei que era algum desenho que ele criava a partir de sua imaginação como, por exemplo, ele próprio vestido de astronauta. Mas logo que ele depositou sobre meu coração juntamente compondo sua mão quentinha de uma doce criança, percebi que meu nome estava gravado na parte externa do suposto bilhete.
- Papai deixou pra você...
sempre se mostrou um homem romântico daqueles que acompanhavam a antiga moda de se desculpar com rosas vermelhas, de festejar aniversários de casamentos com champanhe ou de apenas se declarar com um “Eu te amo” no vidro do banheiro com meu melhor batom no dia dos namorados. Bilhetes nunca foram seu forte. Confesso que ele se expressava melhor através de suas letras musicais.
“Julia, estou indo para Manchester começar a turnê com a banda. Te peço que deixe as crianças em casa, pegue a passagem na gaveta da minha cabeceira e venha o quanto antes relembrar nossos velhos tempos. Você sabe mais do que eu, que precisamos de um momento tipo este. Faça isso por nós, .”
Sim, devo ter queimado minha língua. Este bilhete expressou algo que eu pensei que já estava mesmo quase morto dentro de nós: o amor. Talvez eu esteja fazendo tempestade demais em volta de um pequeno momento conturbado depois dos dez anos juntos. também sabia, mesmo sem conversarmos diretamente sobre tais problemas, que nós estávamos nos distanciando a cada dia e que tudo isso estava afetando diretamente nossas vidas, sendo ela conjugal, familiar ou exterior a tudo isso. Nós precisávamos sim de um tempo a dois para que reacendêssemos o melhor sentimento que nos proporcionamos juntos como namorados, noivos e casal. Necessitávamos de uma fuga da nossa rotina pré-estabelecida para nosso subconsciente, sem deixar com que até ele já fosse tomado por todas as piores sensações que eu sentia há dez minutos, quando analisava toda a situação com muita saudade e rancor preso por ter deixado algo mal feito. Tínhamos que ser eu e ele, apenas nós dois. (“Me and u, Just us two!”).
Não consegui ocupar minha cabeça com mais nada de negativo que se propagava em mim. Apenas arrumei uma pequena mala com algumas mudas de roupa que não fazia ideia de quais, peguei a passagem, falei com a governanta que sairia por um final de semana e despedi dos meus pequenos. Foi tudo por osmose até entrar na sala de embarque na estação.
Enquanto aguardava o trem, tomei um bom café e corri os olhos em algumas revistas de política e moda. Observei um casal de velhinhos e me imaginei na cena. Percebi que a ansiedade estava me tomando conta e fazendo com que eu delirasse com imagens minha e de toda minha família vinte, trinta anos mais tarde. Rever o no camarim, como nos tempos que eu ainda seguia a McFly nas turnês, era uma suposição que mexia comigo e me tele transportava para situações contextuais. Tais tempos em que nada me impedia de reverenciar o meu se encaixaram perfeitamente nos meus sonhos durante a viagem para Manchester. Todo equilíbrio de paz e amor que nós carregávamos em uma energia inigualável nos melhores momentos presenciados, estavam apenas ali, comigo.
Assim que desembarquei em Manchester tive a sensação que a cidade parecia seguir o clima sombrio. Nada parecia corresponder a felicidade que eu sentia e, com isso, pude transfigurar uma mudança dentro de mim. Uma premonição talvez. Era noite e fui direto ao auditório aonde a McFly ia se apresentar. O segurança me seguia a cada movimento, pois afinal, eu estava na mídia por ser mulher de quem era. E ter um segurança me “perseguindo”, era o mínimo que eu tinha que aguentar com tal fama.
Quando cheguei ao local do show, observei por trás do vidro do carro a fila imensa de adolescentes gritando histericamente e aguardando pela presença dos integrantes comandantes do espetáculo, sua composição e representação para elas, que se denominavam fãs e loucamente apaixonadas por quatro garotos. Passei por uma entrada restrita e cai direto no camarim. Lá estavam todos curtindo a ansiedade pré-show a um som relaxante de Led Zeppelin. A McFly não era mais a mesma. Eles não tinham aquele ânimo transparente acompanhado de algazarras e festas regadas a muita bebida. Os pensamentos eram outros. O sucesso que eles haviam atingindo era mais que o inesperado e hoje em dia eles se contentavam apenas em agradar o restante da legião de fãs que não paravam de crescer. Isso pareceu preocupante pra mim. A fonte havia de secar, mas ela continuava tendo respingos eternos...
A não aproximação de interrompeu todos esses pensamentos que rondavam minha cabeça. Todos me viram, me saudaram, me cumprimentaram, mas continuou encostado na parede, com uma mão no bolso e a outra fazendo movimentos com a paleta. Intacto até com seus olhares que permaneciam fixos na sua viagem interna. Naquele momento me senti um peixe fora d’água e o que me socorreu do desespero de incompreensão foram minhas jogadas intensas de cabelo acompanhadas de goles ininterruptos de uma bebida quente que os meninos estavam tomando. Sentei-me perplexa na mini-varanda e não conseguia me conformar. Por que diabos havia quase que implorado que eu fosse até lá? Ele estava gostando de me ver sofrer com tudo isso? Nós já não éramos mais adolescentes e nem muito menos recém-casados para parecermos dois desconhecidos! Tinha que ter alguma coisa errada e eu não fazia a menor ideia sobre o que era, já que nós não tínhamos um diálogo nem como amigos e o círculo estava começando a se fechar.
Não sei como eu estava encarando isso de uma maneira fria exteriormente, sendo que lágrimas não ousaram a ser produzidas durante os trinta minutos que tentava desvendar qualquer mistério. Escutei alguns passos e senti um calor interno, porém, sem distinguir se era de atração ou de explosão.
- , a gente precisa mesmo conversar...
A voz era irreconhecível e tinha chegado a hora.
Virei-me contra minha posição e me deparei com os aqueles lindos olhos azuis que me seduziam a cada dia. estava ali, com a maior cara de piedade, mas eu não ia me abater diante daquele meu ponto fraco. Eu precisava e seria firme em todas as minhas palavras.
- Eu pensei que você faria o show, viajaria pra outra cidade e eu continuaria aqui, te esperando até não sei quando junto com alguma resposta ou pergunta.
- Me desculpe. Mas eu realmente não sei explicar o que está acontecendo comigo... O que está acontecendo com a gente.
- Não sei se é tão fácil de explicar tudo isso, . Eu mesma pensei que você tinha me chamado aqui pra nós nos divertimos e quando eu cheguei você não moveu uma palha pra pelo menos me receber com um sorriso.
- Eu pensei que tinha feito a coisa certa ao te convidar...
- E agora acha que não fez?
- Não é isso... Eu só senti uma coisa muita estranha quando você entrou por aquela porta. Parecíamos que nós éramos dois estranhos.
- Ah, e agora você tá me culpando por nós estarmos desse jeito?
- , não é bem assim! Eu te entendo por ser uma mulher toda sentimental e não duvido nada que já imaginou várias hipóteses sobre o que você cometeu de errado no nosso relacionamento. Eu te conheço. Só que não é bem assim.
Eu apenas ressentia o que ele falava como a mais pura verdade. Ele me conhecia e isso era fato.
- Eu só não consigo entender toda essa estranheza entre a gente! , nosso amor está acabando por um motivo que eu não sei qual e eu não sei o que eu posso fazer pra recuperar tudo que você sentia por mim, tudo que nós sentíamos um pelo outro.
- A verdade é que nós mesmos nos desgastamos. Caímos na rotina de frequentar os mesmo lugares, de brincar com as crianças das mesmas brincadeiras, de ter as mesmas manias... Nós nos entregamos ao casamento, . O nosso amor ainda está dentro de nós, porém o casamento o ofuscou de alguma maneira.
- Lógico que nosso amor acabou! Você nem sente mais prazer quando fazemos amor, e nem muito menos quando me beija ou me toca. Se o meu corpo não estiver te agradando, a culpa não é só minha por ter engravidado duas vezes quase seguidas!
- Você não tá bem, ! Nossos filhos não têm nada a vê com isso! Quando fizemos, proporcionamos uma felicidade momentânea e não só sustentadora de um casamento. O que você tem que entender é muito simples...
deu uma pausa antes de concluir sua frase e se aproximou de mim assentando ao meu lado. Eu que já estava suando frio me relutei contra aquilo tudo e, como uma gangorra, me levantei logo em seguida sem deixar nem ao menos sua mão tocar minha cintura e acariciar meus cabelos.
- Nada é simples mais, . Eu não sei mais o que fazer para voltar tudo como era antes...
- , volta aqui.
levantou-se me puxando pelo braço -delicadamente-, e me guiou novamente para onde estávamos sentados antes. Abraçou-me por trás colocando o rosto apoiado nos meus ombros, depositando um beijo no meu pescoço.
- Estamos casados há doze anos, amor. Vamos dar um jeito nisso.
Fechei os olhos querendo acreditar em suas palavras e aproveitei o momento.

Os meninos o chamaram porque o show estava prestes a começar, e eu fui direcionada, junto com as outras namoradas/esposas, para a lateral do palco onde teríamos uma visão privilegiada. Os acordes começaram e eu reconheci a música sendo One For The Radio, um ótimo começo e assim correu o resto do concerto, e todos os quatro esbanjaram do seu talento musical. De volta ao camarim, todos suados com toalhas em mãos, comentavam animadamente sobre o sucesso da noite, ao meu lado, entrelaçou nossas mãos com o olhar nas bobeiras que dizia, eu apenas fazia um carinho circular com o meu polegar. Talvez eu estivesse errada ou simplesmente não enxergava o que estava acontecendo com o meu marido, a única certeza era que, ao contrário do que havia dito antes, nosso amor ainda não tinha acabado, eu ainda o amava, muito.
Nem um pouco sem jeito após toda aquela confraternizaçãozinha dos meninos, não hesitou em tomar a frente e conduzir todos para uma boate ou um pub qualquer que seja. Não estava muito no clima de estender a noite para algum outro lugar junto com todo mundo. Preferia ir para o hotel e conversar mais com o , ou quem sabe, não conversar. Mas a minha ida a Manchester foi com um único e exclusivo propósito: ficar o maior tempo possível ao lado do meu marido independente do que ele propunha fazer. Era um lugar típico na Inglaterra e, como de costume, ficamos na área privilegiada juntamente com baldes e mais baldes de bebidas ao gelo. Estranho como tudo vinha muito fácil, mas, querendo ou não, a McFly obteve seu reconhecimento e nada mais era como uma saída qualquer ou uma simples noite com os amigos. Eles eram famosos e todos nós já estávamos muito mais que acostumados a lidar com isso.
Percebi ao longo de toda conversa paralela, vozes aguçadas e sentimentos aflorados, que além de me deixar à deriva desde que me acompanhou à mesa e saiu para jogar papo fora com os meninos e o produtor da banda, continuou permanecendo com este comportamento à medida que os minutos e as horas foram passando.
Me distraí sem querer trocando dicas de beleza com a nova namorada loira do . Ela era simpática, se envolvia na conversa, mas se preocupava de uma maneira extrema com todos seus ângulos. Ou seja, era comercial demais.
Chegou um ponto que cansei. Não suportava mais não ter o do meu lado diante daquela situação em que ele se entretinha com os amigos sem ao menos notar minha presença. Peguei minha pequena bolsa dourada com o meu nome escrito em batom vermelho-paixão que eu odiava, e marchei até a porta de saída do suposto camarote e, consequentemente, do pub.
Pensei que se olhasse em um lance para trás poderia sentir, mas não temer, passos do em minha direção ou um mero olhar enquanto me desvirava ao abrir a enorme porta diante de mim. Pra quê tanta ilusão. Podia ver do lado de fora através dos vidros esfumaçados a permanência de posição que mantinha.
Segui pelas vielas escuras de Manchester até pegar um táxi qualquer em uma esquina e ele me deixar na porta do hotel que sempre que visitava a cidade repousava nele. Era um bom hotel pra quem queria ser lisonjeado e tratado em uma bandeja de ouro. Não ligava nunca para isso, mas como era um dos únicos que tinha conhecimento e que, obviamente, já me conhecia, não perdi tempo em procurar outro e muito menos tinha cabeça para isso.
Assim que abri a porta do quarto, visualizei aquela imensa cama king com lençóis beges que traduziam nitidamente como eu devia está aparentemente. Tomei um banho para ver se me refrescava interiormente e logo depois, ainda enrolada em uma toalha branca, bati de costas na cama que fez dar uns dois quique para cima e peguei meu celular. Mandei uma mensagem para avisando em qual hotel eu me encontrava, mas sem anunciar o número do quarto mesmo sabendo que a recepcionista ia lhe informar.
Me encostei na cabeceira e acendi a leve luz do abajur e comecei a filosofar comigo mesma. Não duraram 10 minutos da minha sensatez e de novo peguei o celular e liguei para a pessoa que mais devia me fazer bem naquele momento que eu realmente precisava de ajuda. Só que para isso, eu tinha precisava abrir o jogo e confessar de vez tudo que eu escondia do meu relacionamento perfeito.
- Oi?
Uma voz totalmente rouca atendeu do outro lado da linha e com certeza a dorminhoca da estava em seu sétimo sono.
e encostei na cabeceira e acendi a leve luz do abajur e comecei a filosofar comigo mesma. Não duraram dez minutos da minha sensatez e de novo peguei o celular e liguei para a pessoa que mais devia me fazer bem naquele momento que eu realmente precisava de ajuda. Só que para isso, eu tinha precisava abrir o jogo e confessar de vez tudo que eu escondia do meu relacionamento perfeito.
- Oi?
Uma voz totalmente rouca atendeu do outro lado da linha e com certeza a dorminhoca da estava em seu sétimo sono.

Capítulo 2

- Oi? – Uma voz totalmente rouca atendeu do outro lado da linha. Com certeza a dorminhoca da estava em seu sétimo sono.
- Ah, , desculpe-me ligar essa hora, estou desesperada. – Disse enxugando as malditas lágrimas que insistiam em escorrer pelo meu rosto e embaçar minha visão.
- O que aconteceu, ? está bem? Seus filhos?
- Eu menti pra você. Meu casamento não é perfeito e está cada vez mais longe de ser...
Então eu desabafei, contei tudo para a minha melhor amiga.
Acordei com a claridade do dia, o que indicava que havia esquecido as cortinas abertas. Senti um peso sobre minha barriga, parecendo um braço. Abri os olhos rapidamente identificando os braços dele, . Não sabia como havia entrado, mas nem uma recepcionista é obstáculo para um bonitão famoso, certo? Fiquei alguns minutos o observando e sentindo meus dedos formigarem para tocá-lo, porém, me contive. Seus cabelos bagunçados caíam sobre a testa que estava um pouco enrugada. Seus lábios não formavam um pequeno sorriso como de costume quando ele está sonhando com algo que o agrada. Daria todo meu dinheiro pelos seus pensamentos. Meu não estava bem, era fato. Queria ajudá-lo, ter a certeza de que estava fazendo-o feliz. Ah, !
Levantei-me com cuidado para não acordá-lo e fui ao banheiro fazer minha higiene matinal. Peguei uma roupa qualquer para vestir e desci para o restaurante do hotel, afim de um digno café da manhã cheio de waffles e café. Quando voltei, já bem alimentada, a cama estava vazia e só se ouvia o barulho do chuveiro. Uma vontade súbita cresceu dentro de mim para caminhar de encontro ao banheiro e, por fim, entrar não somente naquele cômodo, como mais ainda naquele chuveiro com água sugestiva. Mas o que fiz foi apenas seguir direto à minha mala, precisava arrumá-la, pois o trem de volta à Londres partiria em poucas horas. O som da água no chuveiro parou e em questão de segundos. A porta se abriu e o quarto foi infestado por cheiros maravilhosos, uma mistura de sabonete, desodorante, shampoo e perfume masculino. Simplesmente divino.
- Precisamos conversar, .
estendeu a mão, me puxando para sentar ao seu lado na cama, e logo depois, me fez deitar com a cabeça em suas pernas enquanto passava as mãos pelos meus longos cabelos.
- Você consegue ficar mais linda a cada dia, amor.
Arregalei os olhos, não entendendo onde ele queria chegar com isso tudo.
- Sabe... O nosso casamento não é o mesmo de anos atrás. Você sabe disso, eu sei disso. A questão é que eu escolhi você pra viver ao meu lado até o resto dos nossos dias, e a minha escolha continua sendo essa. Não entendo o que está acontecendo, estou tão confuso quanto você, mas quero que saiba que eu jamais vou sair do teu lado, sabe por quê? Eu te amo, e é por isso que vamos enfrentar juntos todos os anos que ainda estão por vir.
- Nossa, , eu...
- Shhh, só quero que você me prometa uma coisa.
- Qualquer coisa!
- Nunca se esqueça, nunca duvide do meu amor por você, . O meu amor por você e pelos nossos filhos é algo além do que eu possa falar aqui, agora. É forte, muito forte e sincero.
Confesso que fui pega de surpresa, mas sem ter o mínimo de orgulho, confesso mais ainda que amei cada palavra que ouvi. Duvidar do seu amor? Como assim? Sempre confiei nele, não é algo que eu deva me preocupar, claro. , não coloque minhocas na sua cabeça dura, mulher! Eu apenas ajoelhei em sua frente, ainda na cama, e coloquei minhas mãos em seu rosto. Não conseguia escolher as palavras perfeitas para aquele momento. "As mais belas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar". Ele entendeu a mensagem porque logo depois me beijou, e como em todos esses anos, me senti completa em seus braços. Passando minhas mãos pelas suas costas, percebi que ele continuava apenas com a toalha na cintura. Puxei seu cabelo úmido parando de beijá-lo para admirar sua estonteante beleza. deitou-se sobre mim e o desenrolar da história todos já devem imaginar. E eu, mais uma vez, me senti a mulher mais feliz do mundo.
Descemos juntos para fazer o check-out no hotel e me levou à estação de trem. Enquanto não chegava minha hora, fomos comprar umas revistas para me distrair nas três, quatro horas de viagem. ficou do meu lado o tempo inteiro, de mãos dadas comigo, às vezes me chamando para um abraço enquanto dizia coisas no meu ouvido ou simplesmente me puxava para um selinho demorado. Toda essa atenção me deixava nas nuvens. Fiquei radiante por saber que nós dois juntos conseguiríamos sair de toda aquela situação.
- , o trem chegou... Me deixa ir logo.
- Isso tudo é pressa para ficar longe de mim?
- Claro, o que eu mais quero é perder o contato com você, que não é digno do meu amor e amizade.
- Sabe, isso de contato... Não foi o que você me disse há umas horinhas.
- Agora é sério, seu bobo. Tenho que ir, nossos filhos precisam de mim, amor.
- Ok, te amo muito. Juízo na minha ausência, .
- Juízo você, que está em turnê. Te amo também, muito.
E depois de um selinho, entrei no trem me sentindo muito mais leve do que naquela manhã que acordei e recebi o bilhete de .
Nenhuma revista conseguia prender minha atenção, e com a cabeça encostada no vidro da janela do trem, me perdi nos meus próprios pensamentos.

YESTERDAY
Foi em um simples final de semana em que a atividade mais excitante para um casal de “melhores amigos” era passar dois dias e meio juntos jogando conversa fora, assistindo a um bom filme ou se embebedando nas noites frias num inverno europeu.
> e eu traçamos nossa “rota” com atividades comuns para aquele que tinha tudo para ser o pior final de semana caseiro. Porém, a física reflexiva contornou algum pressentimento anterior que não se encaixaria com o que realmente se especializou as finitas horas juntos.
Após uma semana cheia de tarefas, não tinha paciência para aturar o mínimo atraso de que, provavelmente, tinha se complicado nos ensaios. Mal o esperei estacionar o carro onde tínhamos combinado de nos encontrar, para rapidamente carregá-lo como um cachorrinho em direção ao mercado da esquina. Tínhamos determinado três atividades para os dias que passaríamos sozinhos em minha casa, já que minha mãe dispensou a governanta e resolveu ir à Londres curar sua depressão pós-morte da sua cadela Maria Valentina, depositando euros e mais euros nos cofres turísticos e contribuindo para a inflação das roupas de marca que subiam mais o seu valor a cada venda. Primeiro, compraríamos cervejas e cigarros para começar com minhas experiências, pois uma garota de vinte e dois anos nunca ter levado um porre ou ressaca digna e nunca ter testado acender pelo menos um papel enrolado com orégano em um quarto escuro, era um atraso. E eu preferia fazer tudo isso com , que apesar de obviamente ser meu melhor e único “amigo” depois da , já tinha certa malícia em todo este ramo.
Pegamos infinitos sanduíches no caminho de casa para abastecermos o estômago com algo que me deixasse forte. Ao cruzarmos uma movimentadíssima rua, vimos de longe uma locadora e decidiu que assistiríamos “Bonequinha de Luxo”. Sério, achei meio gay da parte dele querer assistir a este filme e tinham duas possibilidades para tal escolha: ou ele realmente já acompanhou os mais de cem minutos e se apaixonou pela Audrey Hepburn ou, emocionalmente corroendo-me ao pensar nisso, ele apreciou o enredo clichê e dramático. Julguei tudo isso pelo nome de mulherzinha ou de “mulher da vida” sem nunca ter assistido. Acabou que no final, depois de alguns pré-conceitos meus, alugamos o filme e fomos de braços dados como sempre costumávamos andar, direto para minha casa.
Detonamos em questão de minutos os seis hambúrgueres que havíamos comprado. Parecia que eu estava grávida, apesar de ser impossível, a não ser que fosse psicologicamente. Mas mesmo assim, era impossível, porque eu não queria. Enfim, desossamos a “comida” da noite. Deixei relaxar um pouco e as cervejas gelarem enquanto me deliciava com uma incrível ducha que me revitalizou para uma tão esperada sexta-feira com quem eu tinha um apreço imenso e alguns sentimentos mais aguçados. Fiz do meu banho uma das minhas preferidas sessões de reflexão. Iniciei com uma das perguntas que andavam me atormentando incisivamente: “Porque depois DAQUELA noite, há dois anos, que e eu tivemos um amor à primeira vista ou resgatado de outras vidas, nossa relação esfriou?”. Lógico que ser amiga dele era um presente que eu nunca precisaria pedir e também nunca pensaria em negar. Sua amizade era algo que me fazia ser fiel, ter estima e uma ternura recíproca entre nós. Me alienava do que eu considerava mais importante e me via flutuar em outro mundo quando nós ficávamos juntos. Pra mim, era quem me sustentava em um pilar considerado bem mais forte que os gregos da Acrópole.
Quando ressentia esses pensamentos, a dúvida mais que óbvia vinha em minha cabeça: “Será que minha relação com ia além de amizade?” Se isso poderia ser um fato, preferia fugir dele momentaneamente e deixar que meus neurônios ficassem intactos ao pensar menos. A diversão que me esperava nas próximas horas era certa, e se encaixava bem melhor do que todo este contexto duvidoso.
- A senhorita não acha que está um pouco folgada demais me fazendo esperar esse tempo todo não aqui no sofá?
- Como se você pudesse falar alguma coisa, né? Pelo menos não sou eu que estou desleixada e com os dedos apontados para o céu...
Seu olhar sarcástico me perseguia enquanto eu terminava de modelar ou desgrenhar ainda mais meus cabelos com a tolha úmida, e pretendia, com um olhar e um sorriso malicioso, ser ainda mais superior do que ele.
- Olha que vai nascer uma verruga aí, hein?
Entre uma e outra piadinha no mínimo idiota, não hesitei em pedir a ele que passasse um hidratante corporal por minhas costas enquanto eu me esticava na cama com apenas a parte frontal tampada pela toalha. Se fosse outro menino, ousaria pensar que aquele era o momento perfeito para se aproveitar de uma mulher seminua. Mas como era , para mim era a coisa mais normal entre dois amigos e esperava que, para ele, não soasse como sexy ou algo provocativo. Esperava...
- Nossa Jú, sua pele é tão macia... Agradável...
- Ah, nem vem, ! Até parece que você nunca teve o privilégio de tocá-la antes pra estar falando isso só agora.
Antes não tivesse tocado no assunto “aquela primeira noite”...
- Você sabe que eu sempre reparo nas coisas, mas quase nunca falo. E pode ter certeza que com o passar dos anos, eu te observei e percebi seus gostos e manias. Óbvio que sua pele sempre me atraiu muito...
Tá, aquela não seria a hora de falar nada sobre isso, mas estava forçando para que eu retrucasse com algumas palavras no mínimo nostálgicas. Indiretamente, porém intencionalmente, aquele era o momento. Dei um giro de 180° e me deparei com seu rosto claro e seus olhos claramente vibrantes me fitando como se fosse exatamente naquele momento em que a chegou ao terraço do camarim, há dois anos, e interrompeu nosso envolvimento.
- Será que se a não tivesse nos interrompido, estaríamos juntos até hoje?
- Ah , você acha?
- Você não acha?
- Não. Ou seria coisa de uma noite, acabou e nunca mais iria te ver, ou ficaríamos só amigos.
- O que você quer dizer com isso, ? Você não namoraria comigo?
- Não sei, ! Vamos falar sério... Você é meu melhor amigo, mas não conseguiria namorar sério por muito tempo. Além de que você tem qualquer garota aos seus pés. Então, na verdade, seria você quem não namoraria comigo!
- Lógico que namoraria, você é gostosa.
- Então você só me namoraria porque "eu sou gostosa"?
- Não foi isso que eu quis dizer.
- Mas foi o que disse.
- Você é maravilhosa, e eu namoraria sério com você porque confio em você e mais um monte de coisas que eu não preciso falar agora.
- Ok, . Vou trocar de roupa e vamos ver um filme.
Tentei escapar daquele diálogo, mas segurou meus braços, impossibilitando minha passagem.
- Você não me respondeu. Namoraria ou não comigo, dois anos atrás?
- Isso é passado, certo? Não é como se fôssemos namorar agora... Vamos ver o filme!
Já eram quase onze horas de uma sexta-feira e nós não tínhamos parado de conversar e “discutir”. Enfim, ligamos o DVD e se apossou do sofá, obrigando assim que eu me aconchegasse entre seus braços caseiros. Ao longo do filme, além de risadas recíprocas, carícias foi o ponto forte para que me desconcentrasse da encenada história entre dois amigos. Desconfiei assim que ele, ao alugar aquele filme, já tinha algo planejado em sua cabeça que relaciona Holly e “Fred” conosco. E querendo ou não, “Bonequinha de luxo” se tornou um dos meus filmes preferidos e confesso que até tive vontade de ter um gato chamado Gato. Ao som de Moon River, rolaram-se os créditos e neste instante se encurvou com a intenção de encostar seus lábios nos meus. Fui ríspida e logo me desviei como uma pluma.
- Seu espertinho! Qual é?
Ele apenas sorriu entre os dentes, e por nervosismo, ansiedade ou apenas vontade, acendeu seu primeiro cigarro da madrugada.
Me levantei daquele sofá igual coração de mãe e fui ao encontro de duas deliciosas e geladíssimas Heinekens. De longe, observava apreciando o caminho que a fumaça percorria e seu dispersar ao sair através de seu biquinho fofo.
- Não vai ser dessa vez que vai querer? – questionou direcionando sua mão direita com o cigarro entre o indicador e o dedo médio.
- Acho que já passou da hora de experimentar se realmente tem algo relaxante nesta substância...
Ele apenas riu e, calmamente, foi me explicando o processo “fumar”.
- Só traga um pouco e segura a fumaça antes dela descer por sua garganta. Fica natural e sopre bem devagar, com estilo.
- Ok! Você quer que eu fume como aquelas mulheres dos anos 50 logo de cara, e vire fumante...
- Não é isso, sua boba! Só quero que mais um charme seja acrescentado em você.
não estava perdendo uma frase sequer sem me dar uma cantada e isso já estava me irritando. Traguei, prendi e soltei conforme a regra, e algo leve invadiu minha cabeça que, involuntariamente, caiu sobre os ombros de , que agora acabara de apagar a bituca e dado um gole daqueles na cerveja. Sem ao menos tocar, pude perceber o quão gelada e refrescante sua boca estava naquele momento. No fundo, eu queria. Não esperei mais um minuto para que me entregasse ao desejo e acabasse, por fim, lhe dando um beijo. Pude sentir sua língua tentando perfurar o buraco entreaberto dos meus lábios e, como eu tinha observado, ela estava mesmo congelante e deu um sabor especial àquele beijo e àquele momento, resgatando assim aquela noite em que tudo era para ter acontecido.
Acompanhados de risadas, cócegas e beijos cada vez mais calorosos, rolamos pelo sofá e, consequentemente, caímos no chão coberto pelo tapete persa da minha mãe. De lá realmente acabamos não passando. Suas mãos pareciam cautelosas, mas ao mesmo tempo não conseguiam se conter, pois a vontade de me ter parecia maior. Meus olhos, quando não estavam abertos e fixos aos dele, tinham a sequência de pisca-pisca cada vez mais devagar por causa dos delírios e prazeres que meu melhor amigo estava me proporcionando. Tempo ao tempo, fomos nos despindo como ao bailar de uma valsa, no maior sincronismo possível até que nossos corpos se encaixaram completamente, do melhor jeito e produzindo a melhor sensação que eu poderia ter segurado em relação ao . E ele parecia, assim como eu, estar completamente feliz e vivendo intensamente aquele momento comigo. Nosso movimento parecia que se completava e entrelaçava nossos sentimentos de amor, ternura e carinho do mesmo modo que nossas mãos eram postas uma contra as outras em cima do tapete.
- E aí, gata. Foi bom pra você?
Coberta com a colcha xadrez que cobria o sofá e deitada sobre o peitoral de , não me contive. Soltei uma risada daquelas e fiz o que eu achava melhor do que qualquer palavra naquele momento. Concretizei nossa noite com um beijo de cinema, estilo Audrey Hepburn. E respondendo à pergunta: Sim, eram quatro horas da manhã, eu estava realizada e me sentindo “a garota de sexta”.

TODAY
Saí do trem e rapidamente encontrei me esperando com um menininho no colo e o outro segurando sua mão direita. Ben e Charlie, meus filhos. Fui de encontro aos três com um sorriso de orelha a orelha no rosto.
- Mamãe!
Os dois gritaram em uníssono enquanto corriam para ma abraçar. Depois de todo o momento família seguimos para o carro da , que após deixar meus filhos em casa, me deixaria no trabalho.
- Não esqueça que hoje à noite passo na sua casa para colocarmos a conversa em dia! Vamos pra algum pub tomar uns bons saquês. – disse isto com uma incrível animação enquanto eu já saía de seu carro rumo ao esplêndido prédio empresarial em que eu trabalhava. Se não soubesse da sua imensa afinidade com qualquer tipo de bebida sendo ela alcoolicamente composta ou não, acreditaria que somente uma conversa nos unisse para uma girls night.
Depois de fazer Ben e Charlie dormirem, me arrumei para sair com minha amiga, escolhendo para vestir uma skinny Calvin Klein, jaqueta de couro preta por cima da bata e um peep toe vermelho. Peguei meu iPhone, chaves, carteira e mais alguns acessórios e coloquei tudo na bolsa Guess. Mal tive tempo de me olhar no espelho e pude ouvir o som da buzina do carro da . Dei uma última olhada no quarto das crianças e saí de casa.
- Juro que se meu homem interior não fosse gay, eu te pegava fácil, amiga!
- Engraçada como sempre. Mas gostei do meu visual hoje, até eu me pegaria. – Disse rindo, e entrei no carro. dirigia por um caminho diferente dos nossos pubs preferidos, alegando que tinha escutado sobre um novo lugar que era a nossa cara. Ao chegar ao tão esperado local, me decepcionei com a entrada, porque realmente não havia nada que mostrasse ser um estabelecimento vamos dizer... Badalado. A não ser a placa dizendo "Honolulu". Acho que a frase "Nunca julgue um livro pela capa" nunca fez tanto sentido na minha vida. O interior do lugar era simplesmente ma-ra-vi-lho-so! Em um estilo bem havaiano, o bar fazia um jogo de cores na iluminação, sem contar a estante que cobria toda a parede e era formada de quadradinhos onde se encontravam várias garrafas de bebidas, todas muito coloridas. Além de ser lindo, a harmonia do local fazia você se sentir totalmente à vontade. Eu parecia uma criança querendo tocar em tudo, qualquer detalhe me chamava atenção. Sentamos numa mesa perto do palco onde havia material para karaokê, mas que no momento estava ocupado por mulheres dançando Hula-Hula. Um garçom veio nos atender e pedimos dois Bloody Mary’s e alguns aperitivos. Logo que o pedido chegou, nos foram entregues aqueles colares floridos. Meu Deus! Será que ainda estou em Londres? Enquanto nos deliciávamos com nossos coquetéis, desabafava com a , relatando o que estava acontecendo e sentindo, e ela fazia o mesmo. Há tempos não nos divertíamos tanto assim e uma nostalgia absurda de quando éramos apenas adolescentes e queríamos curtir a vida, me tomava conta.
- Sabe... Acho que precisamos de um pouco mais de diversão!
- Como assim, ? Eu já estou me divertindo muito só de estar aqui com você, amiga! E além do mais, sabia que amanhã ainda é terça-feira? Não podemos abusar.
- Eu sei que terça é o dia que você trabalha no escritório da sua casa, nem venha me enrolar! Sem contar que eu to com três dias de folga.
- Tá! O que você quer?
- Tequila!
Era a sexta dose que eu virava direto, ou a sétima... Talvez a oitava, mas não importava, certo? O líquido já não ardia como antes e o limão e sal só eram necessários porque eu simplesmente amava a combinação, pois no momento, com ou sem eles, não estava fazendo diferença. estava no palco escolhendo uma música para cantar no karaokê e conversava com mais dois homens. Curiosa, fui até eles.
- Vem, ! Esses são Alexander e Pietro, eles são londrinos, mas os pais vieram do Hawai!
- Hey, eu sou a .
- Já sei a música que vou cantar! A nova da Avril, What The Hell!
- , você não acha que está “um pouco” velha pra cantar Avril Lavigne?
- Ah, canta comigo! Hoje temos vinte e um anos de novo.
“You say that I'm messing with your head, boy I like messing in your bed…”. cantava e animava o público do local que agora tinha toda a atenção voltada para nós. Eu podia estar me desequilibrando um pouco pela bebida, mas minha fobia de fazer algo grandioso em frente a um público notável me impedia de extravasar como a minha amiga fazia bem ao meu lado. Eu cantava timidamente os "Yeah, Yeah, Yeahs” da música. O relógio marcava 23h30min e já estava na hora de irmos para casa, afinal, eu era uma mulher casada e com dois filhos. Nenhuma de nós tínhamos condições de dirigir, embora o efeito do álcool já estivesse passando. Alex e Pietro ofereceram caronas e ficamos tentadas em aceitar, mas o meu subconsciente mandava um alerta. Recusamos. Nossa saída foi ligar para o marido da , Hector, nos buscar.
Chegando em casa, passei pelo quarto dos meninos, dando um beijo em cada um e segui para o meu quarto afim de um bom banho e de uma ótima noite bem dormida, precisava disso com urgência. Quando me deitei, mal fechei os olhos e me entreguei à inconsciência.
O despertador tocava com um ruído estridente, me forçando a tapar os ouvidos com o travesseiro, mas mesmo assim eu ainda escutava a música de toque e ao fundo gritos e risadas de crianças. O que me lembrava que eu não podia ter essas atitudes e estava com um longo dia pela frente. Segui para o banheiro e fiz minha higiene matinal, logo depois vestindo meu penhoar de seda e descendo para o primeiro andar. Podia ouvir a risada gostosa do Ben e os resmungos de Charlie. Provavelmente, Benjamim havia feito uma brincadeira de mau gosto com o mais novo. Ao entrar na cozinha, encontrei Charlie com a cara toda lambuzada de chocolate até na testa enquanto Ben ria descontroladamente com uma colher também cheia de chocolate. Me perguntava onde estava Mary, a governanta, quando a mesma entrou no aposento, deixando umas revistas e jornais em cima da mesa. A revista mais famosa por todos os seus assuntos polêmicos me chamou a atenção. Uma foto minha e de estava estampada na capa, com um risco no meio dividindo a foto em duas e uma manchete que fez arder meus olhos. Eu via a muralha - além da privacidade - que havia construído em volta da minha família desmoronando bem na minha frente assim como um dia o mundo parou para ver a queda do Muro de Berlim. Sentia meus olhos marejarem, mas me mantive forte na frente das crianças.
- Hey, vamos comer logo que a mamãe tem que trabalhar e a Mary tem que arrumar vocês pra escola.
Forcei um sorriso enquanto o que mais queria no momento era me trancar no quarto, ouvir uma música bem melosa e chorar. A pergunta da revista ainda ecoava em minha mente: "O que anda acontecendo com o perfeito casal ?"

Capítulo 3

A pergunta da revista ainda ecoava em minha mente: "O que anda acontecendo com o perfeito casal ?"

"SERIA ESTE O FIM DO CASAL?
Como todos que por qualquer interesse de fofoqueiro de plantão ou, se agredido ao chamar por este adjetivo, curioso quanto à vida alheia, para ser mais sutil, devem conhecer apenas por nome e , um dos casais mais invejados do Reino Unido.
, baixista da banda McFly e , sua esposa mantedora do lar e, por que não, socialite, parecem estar em total crise quanto ao relacionamento amoroso consumado há 12 anos.
Ontem, dia 23, terça feira, enquanto estaria em uma turnê movimentadíssima, por sua vez foi flagrada saindo de um Pub mais freqüentado por hawaianas americanas e no caso, surfistas com corpos admiráveis do que por qualquer outra mulher da sua idade, acompanhada assim de sua melhor amiga e mais dois destes homens deslumbrantes em um estado considerado adolescente. Pessoas presentes no local confirmaram tal comportamento ao narrar que , sua amiga e os devidos acompanhantes se empolgaram mais que o normal com as inúmeras doses de tequila e, consequentemente, ao som de Avril Lavigne no Karaokê. Mas para você, caro leitor desta notícia quente que já começa a se remoer de pena do alto, loiro e lindo marido de olhos azuis, trate de gesticular o maxilar para uma maior abertura deste músculo. Pois quem estava ciente que estava realizando um show e logo após indo descansar com os parceiros de banda em um belíssimo e confortável hotel acaba de estar completamente enganado! Após o show em uma cidade do Reino Unido, os integrantes da banda se reuniram em outro Pub para rodadas e mais rodadas de cerveja, mas ao final, algo estranho rondou a mesa da McFly. Fotógrafos, ou melhor, paparazzis confirmaram que um silêncio tomou conta após uma ligação recebida por e, logo após, todos os quatro se retiraram do local imediatamente.
A questão é: estaria rastreando o marido sendo que a própria tinha acabado de chegar aos trancos e barrancos em casa? Talvez vocês, fãs que agouram o fim de um relacionamento famoso, terão algo bom para comemorar além de mais um show da banda: o princípio do fim do casamento que pode estar por um pequeno feixe de luz, ou quiçá, por um triz.”


Sábado. Finalmente não precisei acordar cedo e espalhar sorrisos para todos enquanto o meu interior estava cada vez mais triste. Levantei-me da cama vendo apenas o meu lado com os lençóis de 600 linhas, que mais pareciam de seda, desorganizados e fui para o banheiro. Após a higiene matinal, vesti o meu penhoar e desci para a cozinha para preparar um café bem forte tentando me acordar totalmente e me preparar para, enfim, um dia em paz. Todas minhas ações pareciam automáticas. Ben jogava video-game e Charlie ainda dormia quando ouvi barulho de chaves e a porta principal da casa se abrindo. devia estar em Dublin e os empregados de folga. Devia ser a (sim, ela tem a chave). Curiosa para ver quem estava entrando em casa, segui para a entrada e levei um susto ao ver meu marido parado no hall segurando sua mochila e com profundas olheiras. Mais duas revistas tinham comentado e feito alguma matéria parecida com aquela primeira na qual a bomba estourou para os fãs e, principalmente, para mim. Cheguei a conversar com pelo telefone algumas vezes ao longo da semana, mas o medo da sua reação me impediu que tocasse no assunto, além de querer poupá-lo de qualquer intriga já que estava no meio de uma turnê. O momento para discutirmos as “fofocas” sobre o nosso relacionamento intrometido havia chegado. E esse era o único motivo para ele estar assim, certo? Se eu não fosse melhor amiga do meu marido e casada há 12 anos, poderia ter certeza dessa frase interrogativa. Mas não. não estava bem, eu sentia que alguma coisa o incomodava intensamente e teria que cuidar e amá-lo ainda mais.
- ... Mas... O que está fazendo aqui, amor? Não devia estar em turnê?
- Ah...
Ele largou a mochila em qualquer lugar e me abraçou forte, e pela primeira vez em muitos anos, o vi chorar.
- Ben, vai pro quarto do seu irmão e vê se ele continua dormindo.
O menino apenas abaixou a cabeça e subiu para o segundo andar. Sem esperar ele dobrar a esquerda depois da escada, já puxava para sentar-se ao meu lado no sofá enquanto conversaríamos sobre o que tanto o preocupava.
- Cancelamos os últimos shows da turnê. Estamos acabando.
Levei uns segundos para entender onde queria chegar, o assunto era de longe o que eu menos esperava. E apesar de saber que tudo sempre tem fim, só de imaginar a banda se desfazendo, eu chegava a arrepiar, porque era algo que eu tinha certeza que poderia ser uma exceção.
- Mas... Como isso aconteceu, meu amor?
- Na verdade, a banda não está oficialmente acabada. Terminamos a turnê mais cedo justamente para passarmos algumas semanas refletindo e tomar a melhor decisão.
Após longos minutos abraçados enquanto cada um se perdia em seus próprios devaneios, levantei-me e segui para a cozinha a fim de preparar um bom chá inglês com leite para mim e . Travava uma disputa interna se deveria ou não tocar no assunto das revistas, mas a minha vontade de me explicar diante a situação foi maior.
- , você leu revistas de fofocas esses dias?
- Nem me fale, nem toquei, daqui a pouco vão falar dos shows cancelados, não quero nem ver.
- , falaram de nós dois.
Falei de uma vez e claramente, fechando os olhos e conseguindo lembrar as exatas palavras usadas na matéria. Pode parecer muito drama pra uma mulher casada com alguém famoso que supostamente já deveria estar acostumada com coisas do tipo. Mas ver nossa foto estampada na capa, nosso mundo sendo invadido por suposições e sendo exposto a todos, doía, e lá no fundo saber que estávamos realmente por um triz doía ainda mais.
- O que falaram de nós?
Sem coragem de proferir uma palavra, apenas estiquei a revista já aberta na página certa em sua direção. Bebericava meu chá como se fosse algo muito importante. Alguns minutos de inquietação de minha parte, levantou o olhar para mim. Logo depois, me puxou pela mão em direção à sala novamente.
- Você realmente se embebedou num Pub com desconhecidos? Numa segunda-feira?
Ele ia perguntando sem ao menos esperar uma resposta e apesar da sua voz ainda se manter calma, seus dedos mexiam nervosamente em seus cabelos.
- , olha pra mim. Eu fui ao Pub com a , bebemos, mas não com desconhecidos. Eles apenas ofereceram ajuda na hora de ir embora, e nem aceitamos... , já pedi pra você olhar pra mim! Eu a chamei pra sair porque precisava desabafar, eu queria entender o que anda acontecendo com a gente, eu precisava de ajuda, eu não sabia mais o que fazer.
- Mas isso era motivo pra se embebedar?
- E o que você estava fazendo no Pub, ?
- Fomos comemorar o show, ainda não sabíamos que iríamos cancelar a turnê.
- Na revista diz que você recebeu uma ligação, e não era minha. Quem era?
- Nosso produtor, mas eu ainda não quero falar sobre esse assunto.
Minha cabeça bombeava, e aos fundos ouvi Charlie chorando, provavelmente por causa de um pesadelo, mas como tudo em mim também pesava, não conseguiria ajudá-lo.
- Deixa que eu cuido disso, amor.
Foi a última coisa que ouvi e a última coisa que senti foram os braços de me envolvendo após me levar para o andar de cima. Quando fui posta deitada na cama, já não poderia dizer nem meu nome. Estava perdida no meu mundo de sonhos.
continuou acordado, ajudara Charlie a voltar a dormir, mas o próprio não conseguia pregar os olhos. Ficara chateado com a matéria da revista, claro, mas não era algo que o faria enlouquecer. sabia que revistas aumentavam coisas e tinha plena confiança em sua mulher. Pensou na banda... há tanto tempo juntos, há tanto tempo amigos. Seria mesmo o fim? Antes de dormir, sorriu com as lembranças do início da McFLY.

YESTERDAY
Dificilmente encontra-se um ser anti-musical ou que aliena-se de qualquer estilo dessa arte e ciência de combinar os sons de modo agradável à audição. Sendo assim, presumir que , , e entraram com tudo ao constituir o outro sentido da palavra música, (conjunto ou corporação de músicos), faz o sentido mais cabível para todo retorno do sucesso.
Falam por aí e as próprias personalidades comprovam o fato de que no início de uma carreira profissional há conspirações fortíssimas do destino. E sim, contra! Porque tudo se volta ao contrário e nada que se designa a contratos, shows, eventos, saem da melhor maneira possível.
Os adolescentes do Reino Unido não sabiam cantar outra coisa sem ser a nova banda britânica McFLY. "5 Colours in Her Hair", seu primeiro single, não sairia tão cedo das rádios, junto com seus próximos singles "Obviously" e "That Girl". Todos um grande sucesso. Os rostos jovens dos quatro integrantes estavam estampados em todos os lugares. Moravam juntos e dividiam-se entre si o grande amor pela música, que podia ser visto e sentido apenas de ouvir suas músicas tão envolventes.

's POV
- , como tá o movimento lá fora?
- Cara, tá lotado! Tem muita gente, muita mulher gata, tudo!
- Tô nervoso. – Disse passando as mãos pelos cabelos descontroladamente. Era o primeiro festival de música que participaríamos, e eu sempre fui o mais ansioso. Perdi as contas de quantas vezes andei por aquela sala que eu nem conseguia descrever. Resolvi andar mais um pouco pelo local. Ao descer por umas escadas e entrar num corredor, estava quase na entrada do palco e podia ver tranquilamente a multidão lá fora que de tranquila não tinha nada. Eu podia ver pessoas com cartazes para a banda. Tínhamos conquistados bastantes fãs com nosso primeiro CD. Claro que não chegava nem à metade daquelas pessoas esperando ansiosamente pelo festival, mas já era um começo. Então era mais uma meta para o dia de hoje: conquistar a multidão. E isso só me deixava mais nervoso. Não devia ter vindo ver tudo isso... Qual é o caminho de volta mesmo? Merda.
- Hey, ?! O que está esperando? Tá quase na nossa hora.
- Já?
Gelei.
- Cara, não me diga que você tá passando mal. Você tá passando mal?
- Não, não que isso...
Sorri amarelo e esperei mais alguns minutos para entrar no palco. Quando os primeiros acordes de "5 Colours in Her Hair" soaram no lugar, o nervosismo foi embora e eu podia sentir toda a vibração dos instrumentos, das caixas de som e principalmente da multidão em frente que se mostrava muito animada. Aquilo era o paraíso! Esse era um daqueles momentos que você tem a certeza de tudo, certeza do que ama, certeza do que quer para a vida, e eu não podia negar que era aquilo que eu queria para mim. Eu seria famoso, eu ganharia meu dinheiro fazendo o que mais gosto e com meus melhores amigos. Tem coisa melhor?
Tocamos apenas cinco músicas e a recepção que tivemos foi melhor do que esperávamos. Ao sair do palco, tinha algumas pessoas nos esperando para nos cumprimentar, parabenizar e até algumas mulheres querendo saber algo mais. Eu realmente estava no paraíso. Depois de alguns autógrafos, sentamos nos sofás do camarim ainda estáticos por tudo que estava acontecendo. Como era difícil de acreditar...
- Vocês foram DEMAIS!
Uma menina entrou no camarim, o que não era difícil de fazer, já que não somos tão famosos e não precisamos de seguranças gigantes na porta monitorando a entrada e saída. Não precisamos ainda. Sorrimos para a menina e nos levantamos para cumprimentá-la.
- Qual o seu nome?
- . Cara, eu nunca tinha ouvido falar de vocês, mas vocês mandaram muito aqui no festival! Pode ter certeza que já ganharam uma super fã.
Nós nos olhamos sem acreditar no que realmente estava acontecendo, seria nosso primeiro contato direto com alguma fã, já que ainda não tivemos nenhuma oportunidade de conhecer alguma das que conquistamos com o primeiro CD. Será que eu to dormindo e sonhando com a banda? Será que ela existe ou é meu sonho também? Como sou idiota! Claro que aquilo era real.
- Nós não sabemos nem o que dizer, isso é surreal, mas pode ter certeza que estamos muito felizes! – disse por todos nós.
- Então eu quero uma foto!
- Claro! – Respondemos em uníssono e posamos para a primeira foto com uma fã. Hilário!
- Vocês são demais mesmo, continuem assim, e eu espero ver outros shows logo. Agora eu tenho que ir, minha amiga tá com o namorado lá fora me esperando, então... Adorei conhecer vocês!
E com mais um abraço em cada, a menina saiu do camarim.
- Cara, nós temos que comemorar! – gritou e todos nós concordamos.
- Vocês viram aquela menina que mostrou os peitos?
perguntou rindo e segurando uma garrafa de cerveja. Por que eu não vi essa menina? Merda.
- E a nossa nova "fã"? Será que a veremos novamente? A primeira fã, a gente nunca esquece.
- Nossa, nem lembro mais do rosto dela. – Respondi sincero tentando lembrar da... Qual o nome mesmo? Kate? Beth? Não sei.
- É, seria legal vê-la de novo em outro show daqui uns anos, né?
E um silêncio dominou a mesa, a cara de paisagem dos meninos revelavam que os mesmos imaginavam como seriam suas vidas daqui uns anos, o que aconteceria com eles? O silêncio foi quebrado quando perceberam que na rádio do Pub tocava uma música conhecida.
"E com vocês, That Girl da banda McFLY!"
- Um brinde à nossa amizade e à banda. E que daqui uns anos, ainda estaremos juntos, melhores amigos e melhor banda! – Eu disse e brindamos com nossas garrafas de cerveja. Nosso sonho estava apenas começando.

TODAY
Não tem dia mais entediante que domingo, a depressão pré-segunda é péssima. Mas hoje, incrivelmente, me sentia leve. Desci as escadas encontrando , Ben e Charlie jogando Wii e eu quase gritei "wee" de comemoração, eu simplesmente amava todos esses jogos.
- Eu também quero jogar! – Cheguei dando um beijo na testa dos três.
- Você não pode, fizemos um pacto. – Charlie disse logo depois tampando seu rosto como se tivesse feito uma revelação e tanto.
- Que pacto?
- Lembra do que você fez com o nosso Playstation 3? Depois daquilo, nós fizemos um pacto de que você não jogaria mais. – Ben disse e eu os olhei indignada. Os três homens da minha vida (ou o homem e os dois mini-homens, se preferir) estavam tramando contra mim. E pela minha legítima defesa, o que aconteceu com o controle do playstation não foi minha culpa, foi um acidente.
- Mas aquilo foi um acidente!
- Claro. Você só parou no meio do jogo para olhar se o almoço estava pronto e acidentalmente esqueceu o controle no forno, você não tem culpa.
retrucou e nós rimos enquanto lembrávamos daquele dia... Eu disse que foi um acidente.
- Deixa, vou ter que arrumar uma filha, assim vai ter alguém pra me defender.
- Eu não quero uma irmã, quero um irmão pra ter mais gente jogando futebol.
E de repente, todos pararam de jogar para me olhar e começar uma discussão sobre um novo bebê. Seria melhor se eu não tivesse dito nada...
- Eu sempre quis uma menina nessa casa também, mas você sempre quis meninos, né?
sentou no sofá e me abraçou de lado.
- Mas como vocês vão trazer uma menina pra casa, papai? Vocês vão buscar ela onde? – Charlie perguntou, tinha seis anos e para alguns assuntos ele era extremamente inteligente para a idade, mas era bom ele não saber desse assunto em especial tão cedo, eu agradeço. - Continuem jogando que sua mãe e eu vamos preparar um café da manhã decente.
me guiava pela cozinha e dizia que hoje daria um show e prepararia um banquete para todos nós. Isso não vai dar certo...
- Então você quer uma filha? – perguntou enquanto preparava sanduíches para as crianças. Meu Deus, como ele estava lindo! Às vezes penso que virei uma mulher careta, que caiu na rotina. Mas a rotina chama-se casamento, e se eu tivesse o meu marido do meu lado como sempre tive, junto com os meus filhos maravilhosos, eu não me importaria nem um pouco de ser chamada de careta. É a minha família, minha felicidade. Independente da crise que estejamos passando (eu realmente preciso parar de pensar um pouco sobre esse assunto), só de estarmos os quatro passando o dia juntos, meu coração já transbordava felicidade. E essa felicidade que estava sentindo no momento, nem a pior crise de todas e muito menos o domingo mais entediante de todos poderiam tirá-la de mim.
- ? Tá me escuntando?
- Não. O que disse?
- Obrigado pela sua sinceridade, amor. Mas então, você quer uma filha, hein?
- Não foi exatamente o que eu disse. Na verdade, nunca pensei no assunto.
- É, você sempre quis meninos porque "são mais próximos e carinhosos com as mães" e blá, blá, blá.
- Você queria meninos pra jogar futebol, mas no fundo sempre quis uma menininha pra mimá-la que eu sei.
- Isso é verdade!
- Mas nossa, como eu amo aqueles dois meninos!
- Seria gay da minha parte dizer que eu também amo aqueles dois?
- Idiota.
- Idiota que ama os filhos. – um selinho. – Idiota que te ama. – outro selinho - E idiota que você ama. – um beijo de cinema.

Capítulo 4

A situação estava muito complexa e até tensa, por assim dizer. Não havia uma revista de todo o Reino Unido, Europa e até América que não falava sobre o possível fim da banda. Fazia uma semana que estava em casa, uma semana sem sair direito, uma semana sem encontrar com os outros. A única parte boa dessa história toda, era o tempo que ele passava com os meninos, seja brincando de video-game, ou jogando futebol. O inverno londrino estava chegando e a minha vontade de ficar o dia inteiro em casa com a família só aumentava, mas infelizmente eu devia comparecer ao trabalho, o qual estava a cada dia mais puxado. E agora eu tinha algo a mais para me preocupar, revistas de fofocas me procuravam para saber o motivo da crise tanto na banda quanto no meu casamento, e posso dizer que fui acusada por algumas fãs histéricas de que era a culpada dessa situação toda. Como se e fossem a nova geração de Yoko Ono e John Lennon, me poupem.
Dessa nova situação, o que me preocupava eram os meus filhos, eu não gostaria que passassem por isso, muito menos terem uma imagem pública tão procurada. Era demais pra mim, de uma mulher reservada para em instantes uma mulher e filhos procurados pela mídia. Realmente não queria Ben nem Charlie estampados em revistas e em matérias de websites como Suri Cruise, imaginem: "Ben e Charlie são vistos saindo da Starbucks nesse domingo". Não, não dá, quero que eles tenham uma infância normal, o que é muito difícil, claro, mas pelo menos uma infância próxima ao normal. Deixando claro que não tenho nada contra Suri Cruise, muito pelo contrário, se tivesse uma filha, gostaria que fosse como ela, com menos publicidade e algumas mudanças, obviamente.
Vocês devem estar confusos com esses acontecimentos, mas acreditem, eu também estou, pior até. Mas com certeza vão me entender, porque sei que já passaram por isso. Não estou dizendo que se casaram e tiveram problemas, o que quero dizer é que todos - sem exceções - já passaram por crises. Quando estamos com problemas, a tristeza reina na nossa rotina, nos tornamos mais sensíveis e o pior: qualquer mínimo detalhe serve para nos encher de esperanças, e consequentemente por ser algo de nossas mentes brilhantes de imaginação fértil, na maioria das vezes nos decepcionamos. estava inconstante, bipolaridade estava fora de cogitações, mas era como se todos esses problemas o afetassem de tal forma que em um momento uma decisão estava certa e no instante seguinte, mudava totalmente de ideia. Uma coisa que eu aprendi é que quando um da família enfrenta desafios, todos sentem. Não só família, mas eu me lembro muito bem que em amizades também são assim. Quando fiquei mal, e estavam comigo para me ajudar, e sei muito bem que eles sofreram junto comigo.

YESTERDAY
Eu e estávamos na casa de show onde McFLY estava se apresentando, era impressionante a rapidez com que nossa amizade havia crescido desde quando ela os conheceu no festival (eu não os vi nessa época porque estava com Bernard), se bem que não ficou amiga deles de uma vez, e sim, em Manchester. Lembro-me dela ter comentado comigo que depois de contar aos meninos a história do festival, eles comemoraram e passaram a chamá-la de fã número 1. Eu fazia parte do grupo de amigos dos garotos há dois anos, eles estavam em turnê pelo Reino Unido e fui chamada para acompanhá-los mas as coisas na faculdade estavam apertadas e só pude ir aos shows de Londres, onde eu estava no momento. O show já estava na penúltima música, então eu e fomos andando para o camarim afim de evitar toda a muvuca logo após o término do concerto. Sentada no sofá e pegando deliciosas guloseimas, recebi um telefonema de um número desconhecido. Após lançar um olhar desconfiado a , atendi o celular.
- Darke?
- Sim, quem é?
- Aqui é do Hospital Saint Patricks, gostaria de inforáa-lhe sobre Orlando Darke. O Sr. Darke foi internado hoje com pneumonia. A senhorita poderia comparecer aqui no hospital?
- Claro, já estou indo.
Mal desliguei o telefone e já peguei minha bolsa, chamei para me acompanhar explicando a situação no caminho. Os meninos que me desculpassem, mas não poderia nem sequer deixar um bilhete. Encontrei Fletch no corredor e dei um aviso breve, saindo do local rapidamente. Sabia que não era apenas uma gripezinha como meu pai mesmo dizia, e ri nervoso de sua teimosia por não concordar em se consultar com o médico de uma vez. Muito bom, pai. Não tinha reparado em como minha mãos suavam frio. Incrível como pessoas com mais de 40 anos ficam tão teimosas.
- Com licença, gostaria de saber sobre meu pai, Orlando Darke.
- Ah, claro. Bom, o Sr. Darke já foi consultado e agora está de repouso. Vou chamar o Dr. Stewart. Espere um momento, por favor.
Saber que meu pai estava de repouso foi um alívio, então sentei naquela sala de espera com a , e fiquei esperando o tal Dr. Stewart tranquilamente até que entrou apavorado. Seus cabelos estavam molhados de suor e eu não sabia dizer se era pelo show ou pela corrida até onde eu estava.

's P.O.V.
Ao sair do show, Fletch nos informou que as meninas haviam saído, na mesma hora me apressei para ir ao hospital. Não suportava pensar no que poderia estar acontecendo com o Sr. Darke, pai da , e o pior: não suportava imaginar como ela estava. Apesar da nossa amizade ter apenas dois anos, conhecia como ninguém, resultado de horas juntos, horas a observando, conversando com ela e sabendo de todos seus sonhos e gostos. Tinha um carinho imenso por aquela menina, uma vontade incontrolável de protegê-la e fazê-la feliz. Por isso, nem pensei duas vezes antes de sair rumo ao hospital. Não foi difícil achá-la, mas o caminho percorrido foi longo e adicionando com o meu estado pós-show, minha aparência deveria estar horrível e minha respiração estava falhando. Cheguei a escutar a conversa entre e um doutor, e sua expressão facial não estava fechada, o que indicava que não era tão sério como imaginei, e com isso, um alívio percorreu todo o meu corpo.
- Bom, primeiramente, o Sr. Darke está bem, chegou a tempo no hospital, e sozinho. Você foi a única que conseguimos comunicar sobre o acontecimento.
- Claro, minha mãe está em Bournemouth esse final de semana. De qualquer forma, doutor, como ele está?
- É claro que esse clima de Londres já é um fator de risco para uma possível pneumonia, o caso de seu pai fumar provocou uma reação inflamatória que facilitou a penetração de agentes infecciosos, que no caso foram as bactérias. Como disse, seu pai ainda não pegou uma situação caótica da pneumonia, então amanhã de manhã já estará bom para voltar para casa. Sua recuperação vai ser por antibióticos, e qualquer coisa, é só voltar para o hospital que eu vou ajudar.
O doutor recebeu um aviso de uma enfermeira e precisou se retirar. disse algo nos ouvidos da , se despediu de mim e saiu. Só de olhar , percebi o quanto estava cansada e magoada.
- Como você está?
- Não sei... Agora é uma pneumonia e não sei o que esperar de amanhã, não aguento mais a teimosia do meu pai.
- Quando a sua mãe volta?
- Também não sei, tia Anne continua mal, mas talvez ela venha para Londres com a minha mãe e fique na casa dela por uns tempos.
- Então vamos para casa e amanhã a gente vem buscar seu pai.
- Cadê a ?
- , ela se despediu de você e saiu junto com o médico, não percebeu? Você tá realmente precisando ir pra casa. Vamos logo, mocinha.

Chegando no apartamento da , que eu já conhecia como a palma da minha mão, a empurrei pelos ombros até seu quarto para que ela fosse tomar banho enquanto eu preparava um café quente para ela. O quão gay isso soou? Preciso parar de andar com os caras, aposto que é a culpa deles.
- , muito obrigada por hoje.
- Não foi nada, você sabe que eu faria muito mais por você.
Sim, faria muito mais, o possível e impossível, mas você não precisa saber disso. Cara, do que eu to falando? é só minha amiga, amiga, minha amiga, só. Que confusão.
- Eu sei... Eu não quero tomar banho, to com sono.
Outch, impressão minha ou ela simplesmente mudou de assunto?
- Você precisa tomar banho, , pra relaxar.
- Vou lá. E capriche no café, sabe como eu gosto.
- Você gosta de Starbucks, e eu não sei fazer desse jeito. Sorry.
- Posso apreciar um café a lá .
Depois de uma piscadinha para mim, ela virou e entrou no banheiro. Essa menina sabe brincar comigo...

Enquanto tomava banho e cantava desafinadamente, eu me dividia entre tentar fazer o café e atender os telefonemas, nunca imaginei que ela fosse tão procurada, e ao atender telefonemas masculinos, percebi que tinha que ficar de olho. Não porque estou com ciúmes ou algo do tipo, mas sabe como é, eu sou homem e sei do que os homens são capazes. Assim como eu não queria que nenhum marmanjo sacaneasse minha irmã, não queria que fizessem o mesmo com a . Afinal, amigos são pra isso, certo? Amigos.
- , querido! Não sabia que estava com a hoje.
Atendi o quarto ou quinto telefonema e era Suzanna, mãe de .
- Olá, Sue, quanto tempo! Como está a viagem? Anne melhorou?
- A viagem está ótima, Bournemouth continua muito boa desde minha adolescência por aqui. Se a Anne melhorou? Ela nunca esteve melhor, estamos nos divertindo muito.
- Isso é ótimo. Achei que tivesse ouvido a dizer que Anne estava doente, ainda bem que entendi errado. Bom, to preparando um café aqui já que de dotes culinários, sua filha não tem nada. Ela está tomando banho, por isso não passo o telefone para ela.
- Claro, querido. Não quero atrapalhar. Então, mande um beijo para minha e diga a ela que ainda não sei quando volto, mas não devo demorar.
- Pode deixar, Sue. Aproveite bastante.
- Você também, . Cuide bem da minha filha, até mais.
Então Anne não estava doente, ou seja, mentiu pra mim, porque é lógico que não entendi errado como disse para Sue. A questão é: por que esconderia algo de mim? E mentiria sobre sua tia? Algo estava estranho. Lógico que não estava feliz por descobrir isso, mas pra esconder algo, é porque é sério. Nunca vi ninguém mais... Como posso dizer? Ninguém mais transparente que a , ela é daquelas que você faz um relatório completo só de passar algumas horas ao lado dela, porque vamos combinar, ela não sabe mentir nem omitir, deixa suas emoções transparecerem até demais. Isso de certa forma era bom, porque era visível a menina maravilhosa e doce que era. Mas por outro lado, ela poderia ser facilmente enganada, iludida... E isso me deixava preocupado, muito preocupado.
's P.O.V. Off

Ao terminar de tomar banho e colocar meu confortável pijama do Bob Esponja, me sentei na beirada da cama pensando no que estava acontecendo em minha vida. Mamãe nem devia sonhar que meu pai fora internado, na verdade, acho que ela nem gostaria de ouvir o nome dele por enquanto. A questão era que a situação estava tensa entre meus pais. Há um tempo as brigas entre eles tornaram-se frequentes, minha mãe sempre fora desconfiada e meu pai, teimoso. A desconfiança da minha mãe combinando com a teimosia do meu pai que insistia em fazer algumas coisas erradas, estavam formando uma bola de neve na relação deles, digo, o que começou com pequenos deslizes no dia-a-dia, foi ligando um ao outro, até formar uma grande bola de neve. Assim, Sue, minha mãe, resolvera passar uns tempos com minha tia Anne em Bournemouth onde as duas moraram quando tinham uns 15, 16 anos. Eu não entendia direito o que estava acontecendo já que tinha um tempo que não morava mais com meus pais, mas como mamãe mesma me disse: eles não me desapontariam, e aquele ainda não era o fim, era um descanso, uma pausa, os dois precisavam refletir. Não sei por que escondia de e o que estava acontecendo, talvez eu só queria adiar o momento de falar isso em voz alta: meus pais estão em crise. Queria que eles se resolvessem e tudo voltasse ao normal, não era pedir demais.
- Hey, o café está pronto. Tentei até fazer uma janta, mas não deu muito certo...
- Obrigada, de novo. Não precisava se incomodar tanto assim.
- De nada. Tá afim de conversar? Eu sei que sua tia Anne não está doente, .
- Como você sabe?
- Sua mãe ligou e quando perguntei da sua tia ela simplesmente disse que Anne não poderia estar melhor. Até quando achou que poderia esconder isso de mim? Vamos ser sinceros, o que está acontecendo?
Então eu contei para ele, desde o início das discussões entre meus pais até a conversa que tive com a minha mãe na noite anterior por telefone.
- Por que não me contou antes?
- Eu não sei, só queria que minha mãe chegasse em casa e depois fingiríamos que nada disso aconteceu. Ninguém precisaria saber de tudo.
- Mas carregar tudo sozinha? , eu to aqui com você, e você sabe disso. Mas uma pergunta, como conseguiu esconder até agora? Você não sabe mentir...
- Eu sei, eu sei, andei treinando, meu caro. Me desculpa?
- É lógico que queria que você tivesse me contado, mas eu te entendo. E é claro que te desculpo, mas agora você precisa descansar, primeiro toma seu café e depois durma. Passo aqui amanhã de manhã para buscarmos seu pai.
- Fica aqui, tem umas roupas limpas suas aqui em casa. Você sabe onde estão as coisas de dormir e sabe que o quarto de hóspedes já é seu.
- Você vai mesmo me fazer dormir no quarto dos hóspedes?
- Mas você sempre dormiu no quarto dos hóspedes, .
- Por que você simplesmente não pode me chamar pra dormir abraçado com você? Eu juro que não te abuso no meio da noite.
- Muito engraçado você, .
- To falando sério, , tá frio.
- É pra isso que tem vários cobertores lá pra você.
Disse apenas para provocar, lógico que não ligava caso ele quisesse dormir aqui na minha cama, seria muito bom na verdade, só estava com vergonha de pedir para ele ficar aqui, confesso.
- Ok, então, estou indo.
- Espera, eu tava brincando, vem cá.
Ele virou novamente para minha direção e sorriu, deitando-se ao meu lado e puxando minha cintura para eu ficar ainda mais perto dele. Sua respiração batia na minha nuca, um de seus braços estava como um travesseiro para mim enquanto o outra envolvia minha cintura. Eu não tinha uma saída caso quisesse mudar a posição para dormir. Mas devo deixar claro que mesmo se tivesse, eu nem ousaria pensar nela. Acabei dormindo após admitir que eram naqueles braços que eu queria ficar.

TODAY
Talvez fosse disso que eu estava precisando... Tirar umas férias da minha vida de casada, passar uns dias com alguma tia, ou até mesmo sozinha no alto de uma montanha sem ninguém para perturbar. Realmente, só podia ser isso. Será que estou tirando conclusões precipitadas? De qualquer jeito, a melhor maneira para descobrir seria conversar com alguém que vivenciou algo parecido, Sue Darke, minha mãe. Isso me animou, depois de adulta, foram poucos os problemas que recorri a ela, o que me deu nostalgia dos primórdios da minha adolescência em que junto com , minha mãe também era minha amiga, minha parceira de segredos e o melhor de tudo: era meu porto seguro. Talvez possa parecer estranho para alguns mas a minha relação com minha mãe sempre fora de grande cumplicidade. E eu agradecia por isso todos os dias. Mas com o passar dos anos, o que eu menos queria era preocupá-la, então a poupava de alguns casos, porém, diante de tudo o que eu estava passando, nesse exato momento, o que eu mais ansiava era o conforto que só minha mãe poderia me passar. Por isso nem hesitei em ligá-la para conversarmos.
- Alô?
- Hey, mãe.
- , minha querida, como está?
- Estou bem e a senhora?
- Muito bem, filha, só a teimosia do seu pai que está me deixando louca, mas isso é normal. Quando vai trazer os meninos para cá? Estou com saudades! E ? Eu li várias coisas sobre vocês nas revistas, como você tá, minha filha?
- Opa, calma, mãe. To ligando pra saber se você quer tomar um café comigo, aí eu te explico tudo que a senhora quiser.
- Claro, querida. Bom, que tal agora? Já estava saindo de casa para fazer uma caminhada, acho que posso deixá-la para depois e apreciar um maravilhoso Mocha.
- Por mim tudo bem, quer que eu passe te buscar?
- Se não for muito incômodo...
- Lógico que não, mãe! Chego aí em vinte minutos. Beijos.
- Estou te esperando, beijos.

- Acho que temos muito o que conversar.
Eu e minha mãe sentávamos em uma mesa mais reservada do estabelecimento com nossos Mochas já em mãos.
- Temos. Mas não vou falar tudo aqui, o resto deixo pra conversarmos em casa. Ok?
Com a nossa conversa, eu tive certeza de que tinha feito a escolha certa ao procurá-la, não havia nada mais confortante que saber que ela me apoiaria qualquer que fosse minha decisão e isso tornava tudo ainda mais acolhedor. Eu ia contando os últimos acontecimentos e deixando claro todos os meus sentimentos em relação a isso enquanto ela apenas me observava, era como se tivesse fazendo um relatório mental para me aconselhar depois e dizer tudo de uma vez, nada mal.
- Então, eu realmente estou pensando em viajar por uns dias, esclarecer as ideias. O que acha?
- Não sei se seria a melhor opção para o seu caso, .
- Qual a diferença entre nossos casos, mãe?
- Preste atenção, quando fiquei uns tempos em Bournemouth foi porque era a minha última opção. Vamos dizer que você e o estão apenas no começo, entende? Como posso explicar... Hm, olhe, vocês estão na fase de que sentem que tem algo errado mas ao mesmo tempo tudo está perfeito como sempre foi. Não há outra razão para as suas decisões inconstantes. O , por exemplo, demonstra algo, mas logo depois age de um jeito completamente diferente. Vocês estão passando por uma fase um tanto quanto confusa.
- Mas o que aconteceu entre você e meu pai, então?
- A gente passou pelo que vocês estão passando, mas isso foi no começo, então te aconselho, minha filha, tente consertar as coisas agora, porque se piorar, a dor é maior. Mas é claro que vocês se amam, e tenho certeza que mesmo se fosse a pior crise do século, as coisas dariam certo no final de qualquer jeito. Mas continuando, as coisas não estavam dando certo, seu pai estava estranho e o medo de perdê-lo me deixou desconcertada, criei milhares de hipóteses para o motivo de tanta estranheza. Isso me deixou mais que louca, desconfiava de tudo e todos. Chegamos a um ponto em que não podíamos olhar nos olhos um do outro. Então liguei para minha irmã Anne e ela me convidou a ficar um pouco em Bournemouth.
- Então você ficou lá por um mês, voltou para Londres e resolveu tudo com meu pai, deu tudo certo. Isso eu sei, mas como fez isso?
- Calma, falando assim até parece que foi a coisa mais fácil, e fácil era uma palavra que estava fora da minha vida naquela época. Eu voltei para Londres e procurei seu pai para conversarmos, estava certa de que queria o divórcio, mas ver o rosto dele depois de um mês foi como se todo o meu sentimento de tantos e tantos anos voltasse ainda mais forte. Eu amava seu pai, eu o amo. E esse tempo que estivemos separados só nos ajudou a vermos o quanto nosso amor era forte.
- Eu poderia ficar um tempo fora e assim nós veríamos como estão as coisas entre mim e , por que não?
- Filha, é como eu te falei, eu e seu pai tínhamos chegado a uma rua com apenas uma opção de saída. Você tem que aproveitar todas as chances que ainda têm. Caso cheguem ao mesmo lugar que um dia eu estive, serei a primeira a te apoiar a tirar umas "férias". Agora você precisa enfrentar tudo cara a cara.
- Eu sei, mas ao mesmo tempo não queria que fosse assim, estou tão perdida, me sinto confusa, não sei mais o que pensar. Estou ficando chata de tão desnorteada que estou, daqui a pouco minha chatice se torna externa e todos vão perceber, e principalmente o que enjoaria de mim fácil.
- Para de exageros, . Isso é normal, e não é como se o fosse te largar por causa de uma bobeira dessas. Mas então, os meninos estão em casa? Estou doida para vê-los!
- Ah, sim, vamos lá pra casa.
- Eles podem dormir lá em casa hoje?
- Ah mãe, eles estão muito agitados, não quero dar trabalho... Sem contar que amanhã eles têm aula.
- Que isso, filha, será o maior prazer tê-los lá em casa e dou uma carona até a escola amanhã, fique tranquila.

Tinha uns vinte minutos desde que minha mãe levara Charlie e Ben para sua casa e nem sinal de . Dirigi-me para o banheiro afim de um bom banho quente e só depois pensaria no que preparar para o jantar, isso se eu fosse fazer o jantar, claro, a preguiça era gigante. A banheira estava brilhante como se me chamasse para aqueles longos minutos de banho terapêutico que uma banheira nos proporciona. A água estava morna, a luz do ambiente estava reduzida e no final ainda liguei o rádio o qual tocava umas músicas lentas. Romântico, eu sei, mas seria um momento só meu, não faz mal um pouco de amor próprio. O cheiro dos óleos relaxantes que havia adicionado ao banho deixava tudo ainda melhor. Estava tudo tão tranquilo que cheguei a cochilar na banheira, e quando acordei, minhas mãos e pés estavam enrugados. Levantei-me e liguei a ducha tomando um banho rápido, passei um creme hidratante, afinal os anos estão passando voando e preciso me cuidar, e me enrolei no roupão. Ouvi o som alto da TV no andar debaixo o que indicava que já havia chegado e tenho duas opções para o que ele possa estar fazendo: 1) Vendo TV enquanto bebe cerveja; e 2) Dormiu no sofá. Mas ao descer as escadas e ver a sala de TV vazia, me surpreendi com o que ele realmente estava fazendo. estava encostado em nossa mesa de jantar segurando duas taças de vinho, vestia calça jeans e uma camisa social preta, duas palavras para descrevê-lo: terrivelmente sexy. Eu estava sem palavras, e apenas de roupão de banho.
- Você sabe como eu amo camisas sociais pretas.
- E você sabe como eu amo seu corpo, por isso está apenas de roupão para facilitar o meu trabalho.
- Claro, tudo por você, certo?
Ele me conduziu até uma das cadeiras e sentou-se no lugar da frente logo em seguida. Eu não ligava se estava com o cabelo embaraçado e molhado, não ligava se estava sem maquiagem e vestindo apenas um roupão e pantufas... O momento estava perfeito e aqueles olhos azuis brilhando só para mim me faziam ter a certeza ainda maior do quanto eu amava aquele homem. Minha mãe estava certa, nem tudo está perdido, eu ainda tenho várias opções a seguir para melhorar nossa situação. E vou deixar claro, farei de tudo, o possível e até o impossível, para ver e minha família felizes.

Capítulo 5

Segunda-feira. Ir ao trabalho. Gostaria de ter uma boa desculpa para ficar o dia inteiro em casa, precisamente na minha cama, junto com que ainda dormia ao meu lado tranquilamente. A noite passada fora simplesmente maravilhosa, poderia passar dias elogiando essa noite com todos os adjetivos possíveis, e o meu sorriso bobo que eu não conseguia tirar da cara, entregava todo o jogo. foi um cavalheiro desde nossas conversas, seu show particular em que cantou para mim até os momentos de casal que passamos ali na sala mesmo e mais tarde, em nosso quarto. Eu queria gritar a todo custo para demonstrar minha felicidade, mas isso ainda seria pouco para mostrar como estava. E finalmente, ao olhar para o meu marido ainda dormindo, pude ver um sorriso que não via há tempos. Isso me deixou mais feliz, e para não acordá-lo, segui para o banheiro e logo depois para a cozinha. Dispensei uma secretária do cômodo e ela foi tomar conta de outro lugar, deixando a cozinha só para mim. Apesar dos meus dotes culinários não serem dos melhores, o pouco que eu faço, eu faço bem. E uma coisa que minha mãe me ensinou foi fazer um café da manhã farto, então preparei todas as delícias preferidas de , um banquete. Eram tantas coisas que não caberiam numa bandeja estragando meu plano de café da manhã na cama. Mas não foi necessário subir para o segundo andar e o chamar, já descia sonolento pelas escadas, vestindo apenas uma calça de moletom, estava sem camisa. Ainda bem que as quatro secretárias e a governanta já eram senhoras de idade senão andando sem camisa pela casa seria algo proibido.
- Uau, amor, que delícia. - Ele disse me dando um selinho enquanto já pegava uns biscoitos.
- Eu ou o café?
- Os dois, mas agora, como estou cansado de ontem e faminto, tenho que escolher esses biscoitos, esse suco, esses pães, esses ovos com bacon, waffles... Mil desculpas, .
- Obrigada pela sua sinceridade, .
- E você não vai comer nada?
- Demorei muito pra preparar isso tudo e agora estou meio atrasada pro trabalho.
- Ah, , vem, come comigo que eu te dou uma carona depois. E você sempre foi exemplar, duvido que um atraso vá atrapalhar muito.
- Ta, você venceu.
Sentei ao seu lado e passamos todo o café conversando e trocando carinhos. Uma coisa que sempre apreciei em minha relação com desde quando começamos a namorar é que nunca perdemos o laço de amizade que criamos bem antes de sequer um dia pensar em ter uma relação romântica. Como o combinado, ele me levou ao trabalho, e depois foi fazer compras. Sempre achei engraçado essa mania dele de fazer compras quando não tem nada para fazer, porque era um papel que devia ser meu, mas sempre fui controlada quanto a isso. Pelo que me disse, ele queria fazer uma surpresa para os meninos e comprar algum jogo tão esperado. Vocês devem achar que por sermos ricos, Ben e Charlie tem tudo o que querem, mas não é assim que acontece lá em casa. Tentamos ao máximo não deixar todo esse dinheiro subir pela cabeça dos meninos, e aproveitamos que eles são crianças para ensiná-los a não serem arrogantes. E o que me orgulha é o fato dos dois serem meninos doces e educados, fico feliz por eu e estarmos indo pelo caminho certo quanto a educação deles. Os dois tiraram notas excelentes na escola, eles mereciam uma recompensa.
O dia no trabalho foi tranquilo, almocei com umas colegas no restaurante em frente a empresa e depois voltei para o prédio. No meio da tarde busquei Ben e Charlie na escola e seguimos para a casa. Deixei uns arquivos no escritório encontrando no computador com uma expressão séria. Pra variar, algum site deve ter publicado algo sobre a banda.
- Aconteceu algo, amor?
- Ah, oi, , não é nada demais, o mesmo de sempre desde que a bomba explodiu. Querem saber quando vamos comunicar a imprensa e coisas do tipo.
- Você não acha melhor não ler essas coisas?
- Não sei, acho que não me afeta tanto assim. Fiz as compras, os meninos vão amar os jogos que comprei, acho que vou entregar pra eles agora.
- Ah, não! Eles prometeram que vão assistir filme comigo e eu não vou deixar você tirar a atenção deles, senão vou ficar sozinha já que eu não sou boa nesses jogos.
- Você fica linda com ciúmes, sabia?
- Não estou com ciúmes.
Realmente não estava com ciúmes, sabia que era uma tática sem falhas para fazer ver filme com a gente, e abraçado comigo. Mas a quem eu gostaria de enganar? É claro que não queria que os três me ignorassem.
- Não vou discutir com você então, ciumenta. Mas eu posso fazer esse favor e assistir um filme com vocês primeiro.
Não disse? O abracei rindo e dando um selinho logo depois.
- Sabia que você não ia resistir. Agora você arruma a sala de televisão enquanto ajudo Mary a fazer um lanche pra gente.

- Mãe, eu quero ver Zohan. - Disse Ben emburrado enquanto eu dizia que aquele não era um filme apropriado para Charlie, permanecia quieto porque eu sabia que estava doido para ver o filme junto com filho mais velho. Bem, eu também estava, mas não queria meu pequeno mais novo assistindo o Scrappy Coco, Adam Sandler era show.
- Ben, podemos ver esse mais tarde quando seu irmão dormir, tá? Vamos ver algum de super-herói.
O mais velho bufou e levantou-se afim de subir para seu quarto, mas o impedi. Assim como maiores de 40 anos, era incrível a teimosia de crianças. tentava animá-lo prometendo algumas coisas e o olhei feio, não queria Ben mal acostumado e pior, mimado. Deixando os dois de lado, fui com Charlie até a grande prateleira de filmes ao lado da TV super moderna que comprara, nem me pergunte "qual" que era, não sei nada disso, apenas que era grande e fina, e ah, a imagem era perfeita. Ele escolheu Homem-Aranha e sorri olhando discretamente para Benjamim que já não se mostrava tão contrariado, ele adorava esse filme. Zohan nem passava pela sua cabeça agora.
Finalmente satisfeita, sentei-me no sofá com e os meninos se espalharam pelo chão com cobertas e travesseiros, cada um segurando um balde de pipoca. Eu estava me sentindo completa. fazia um carinho circular na minha cintura e eu estava quase dormindo quando ouvi a risada de Charlie, nem me pergunte por que ele estava rindo, ou em qual parte do filme estava, que eu não saberia responder. Mas o que me chamou atenção na risada do mais novo, era por causa da semelhança com a risada de . E tenho certeza que o último também reparou isso porque logo me cutucou e apontou os meninos com um sorriso de orelha a orelha. Era bom saber que não era a única que morria de amores por aqueles dois. Reparando bem nos meninos, tentava observar qual se parecia mais comigo ou com e isso me fez gastar bons minutos. Benjamim, aos seus 10 anos, tinha mais traços parecidos comigo, seu cabelo era castanho escuro como o meu, mas desorganizado como o do pai, seus olhos e cílios eram notáveis de tão grandes, idênticos aos meus, mas a cor... Era única, bem, não exatamente única, mas um azul que eu só via em quatro pessoas: nele, em , Charlie e em minha sogra. Não era único, mas definitivamente era típico dos Poynters. Já Charlie, tinha os cabelos da cor do pai, bem claros. Como já disse, seus olhos eram também azuis, mas diferente de Ben, eram pequeninos, um charme. Com um sorriso escapando pelos meus lábios de tamanha felicidade ao ficar apenas observando meus filhos, junto com o carinho de que estava me entorpecendo, dormi no sofá.
Apesar de estar relativamente tranquila, o sonho que tive foi perturbador, consequência talvez do meu subconsciente ainda conturbado. Na verdade, não sabia dizer se havia sido um pesadelo ou uma lembrança, de qualquer forma, deixava um resquício de angústia em mim. Oh não, é claro que era verdade, isso realmente aconteceu... anos atrás, mas aconteceu.

YESTERDAY
- ? Ouvi alguém me chamar, mas não reconheci quem era. Ah, mas eu conhecia essa voz...
- ?
- Agora eu tenho voz de homem, mulher?
Arregalei os olhos ao ver que tinha confundido a voz da minha melhor amiga com a de , seu atual namorado. Sim, e estavam juntos. Mas era uma longa história e inapropriada para o momento em que me encontrava. Ok, confesso, eu não estava em condições de contar o que tava acontecendo entre os dois porque simplesmente não me lembrava de como aconteceu, não estou lembrando de nada agora. A única coisa que vinha na minha mente era a cena que havia presenciado há minutos, não, há horas, não tinha como ter bebido tanto em poucos minutos. Não sei, ai, estou sem ideia de tudo. Alguém pode me dar uma luz do que está acontecendo? Porque, bem, o que aconteceu no quarto no andar de cima entre e Scarlette eu havia entendido perfeitamente. Mas por quê? Onde estavam meus amigos nessa hora? Por que ele fez isso comigo? O que tinha errado comigo? O que eu fiz de errado? Opa, desequilibrei. É melhor não pensar porque isso está me desequilibrando. O que estou dizendo? Digo, o que estou pensando?
- Amiga? Você está bem? Está me escutando?
perguntou preocupada, quer dizer, acho que estava preocupada pelo tom agudo que estava usando para falar comigo. Não conseguia enxergá-la direito. Oh não, minha amiga tem uma gêmea e nunca me contou? Engraçado, sempre quis ter uma irmã gêmea e ela nunca me contou isso.
- Qual o seu nome? - Perguntei à garota idêntica à minha amiga.
- .
- Não, amiga, você eu sei, to falando da sua irmã.
- Oh! , estamos sozinhas na cozinha.
Então eu ri. Sim, eu ri, e mesmo não tendo a mínima graça e muito menos sabendo o motivo para tal ato, eu ri tanto que me abaixei apoiando uma mão na mesa da cozinha e com a outra segurava minha barriga como se a mesma fosse cair. Eu gargalhava a ponto de dar rápidos e agudos gritinhos, mas assim como a risada veio, ela foi embora, e ao ver o olhar de preocupação de junto com algo parecido com... Pena, eu deslizei pela parede até sentar no chão com a cabeça apoiada nos joelhos e comecei a chorar. Senti um braço passando pelo meu ombro e encostei minha cabeça na minha amiga. O cheiro forte do perfume de se misturou com o álcool das bebidas espalhadas pelo cômodo e aquilo me incomodou, os cheiros não combinavam e isso embrulhou meu estômago. Se estava sem forças para virar o rosto para o lado contrário da minha amiga, imagina levantar-me. Devia fazer algo ou sujaria meu vestido da forma mais nojenta possível no momento.
- , sai daqui.
- Não, amiga, quero ficar aqui com você.
- Olha, vai lá fora, espere uns minutos e volte. Não quero você aqui nesse momento.
Foi difícil mas consegui esperar ela sair do cômodo, e depois de uma força tremenda, consegui virar para o lado em que ela se encontrava segundos atrás e coloquei tudo para fora. Desculpe, foi o máximo de eufemismo que conseguir utilizar. Odiava passar mal, me fazia chorar. Levantei-me com dificuldade, molhei minha boca que estava com um gosto horrível e peguei um pano de chão para amenizar o estrago. Ainda estava com lágrimas escorrendo pelo rosto e agora não tinha apenas um motivo, eram vários. Em questão de segundos, apareceu do meu lado e me abraçou, como se estivesse presenciado todo o meu verdadeiro vexame apenas à espera de entrar em ação.
- Vem, , vamos para casa.

Abri os olhos e não conseguia distinguir nada por causa da escuridão. Estava deitada em uma cama macia de casal com no mínimo três travesseiros em volta - bem do jeito que eu gostava - mas não era a minha. Arregalei os olhos tentando lembrar onde havia dormido ou qualquer detalhe da noite anterior mas nem flashes vieram à minha mente. O que eu havia aprontado? E como se minha consciência quisesse responder por si só, senti uma pontada forte na minha cabeça me forçando a fechar os olhos novamente com força. Ah, claro, havia bebido demais. Agora eu me perguntava o motivo, porque sempre fui uma garota com limites para bebida, se havia ultrapassado isso, era porque tinha algo fora do lugar. Mas isso eu realmente não lembrava. Comecei a ouvir pessoas falando, melhor, pessoas gritando no lado exterior do cômodo e fiz um grande esforço para entender devido ao meu estado recém acordado.
- Quantas vezes vou ter que repetir que eu não tenho culpa, ?
Reconheci a voz de e minha dor de cabeça aumentou.
- Mas é claro que tem culpa, se não tivesse comido aquela vaca da Scarlette ontem, nada disso teria acontecido.
e Scarlette? Flashes. Lembrei da cena em que entrei no quarto do segundo andar da casa de Tom e encontrei e Scarlette enrolados como se fossem um, apenas de roupas íntimas.
- Mas eu não sabia que ela entraria no quarto e veria aquilo tudo.
Ela? Eu?
- Por favor, , deixa eu entrar no quarto e falar com ela.
- Ela não vai querer te ver, e fale mais baixo, por favor.
Depois disso não escutei mais nada, preferia que continuassem gritando, assim não ficaria sozinha em um quarto escuro presa nos meus pensamentos. Eu simplesmente não queria pensar. Segui a minha melhor opção, voltei a dormir.
- ? Amiga? Acorda.
Abri os olhos e encontrei minha amiga com uma bandeja de café da manhã preparado pela mesma. "Café da manhã" porque não tinha ideia de que horas eram, mas na verdade, acho que ninguém bebe Coca-Cola e come pão com presunto e queijo no café da manhã. Tá, claro que tem alguém que come isso, mas eu não. De qualquer forma, pra mim, nada melhor que uma Coca gelada para ressaca, sem ironias.
- ... o que aconteceu ontem?
- , acho melhor você comer primeiro e depois a gente conversa, né?
Comi tudo num piscar de olhos, não sei se era porque estava faminta ou a ansiedade de entender tudo o que aconteceu, mas é claro que eu já estava com uma certa ideia do ocorrido só de lembrar de e Scarlette. Eu queria entender o que fui fazer no andar de cima e o que fiz depois. Mas para isso, eu precisava da ajuda da minha amiga. deitou ao meu lado na cama e começamos a conversar. Assim que ela ia me contando algumas partes de um modo bem detalhado, vinham flashes na minha mente. Eu estava determinada em me declarar para , sim, o meu amigo. Mas que ultimamente não era visto apenas como amigo por mim. De qualquer jeito, eu estava decidida, e por isso subi para procurá-lo, mas infelizmente, vocês já devem imaginar o que aconteceu. e Scarlette. Quarto. entrando. saindo correndo. Isso era estranho, porque antes da festa, eu já me sentia atraída por e achava que ia além de uma simples atração, mas eu tinha certeza de que não falaria nada com ele sobre isso tão cedo. Oh não... Algo na festa me fez mudar de ideia. Claro! Como havia me esquecido? Quando saía da cozinha com uma garrafa em mãos, vi e encostados na parede da pista de dança e os dois acenaram para mim me convidando a ir até eles. Mas ao chegar lá, simplesmente deu um último olhar para e saiu nos deixando a sós. Isso obviamente me deixou intrigada e com o coração a mil. Depois de conversar coisas aleatórias com e até de arriscar alguns passos de dança com o mesmo, ele se ofereceu para pegar umas bebidas e depois me encontrar no andar de cima. Vi desviar de algumas pessoas em direção a cozinha e o perdi de vista. Sabia o quanto aquela festa estava cheia e que a maioria das pessoas era conhecida pelos meninos, por isso nem me importei com o fato de enrolar alguns minutos antes de subir no andar de cima para encontrar . Formava mil e uma hipóteses em minha mente, e todas me deixavam muito curiosa.
- Mas amiga, por que me faria subir só para vê-lo com Scarlette?
- , isso você vai ter que esclarecer com ele. Mas pelo que andei conversando com , não teve culpa.
- Ora, como não? Mas depois da cena do quarto, o que eu fiz?
- Você não se lembra mesmo, amiga? Dança, John, bebidas, cozinha, isso não te lembra nada?
Ops. Lembrei-me de dançar de um jeito provocante e sempre com um copo em mãos, lembrei-me também já no final da festa com garrafas em volta de mim na cozinha e comigo, ela sempre estava comigo. Agora, quem é John? Não conseguia lembrar, ou era apenas meu subconsciente evitando que eu me envergonhe ainda mais da noite passada.
- Acho que você devia conversar com o , .
- Não, nem pensar! Não vou me humilhar ainda mais em sua frente.
- Mas...
- Sem mas, , quero apagar o ontem da minha cabeça, e esquecer também que eu pensei na possibilidade de ter algo além de amizade com ele. Oh, estou tão envergonhada. Amiga, por favor, me deixe dormir de novo.
- Você quem sabe.
Dizendo assim, minha amiga me deu um beijo no topo da minha cabeça e se retirou do quarto me deixando sozinha com meus próprios pensamentos. Mas é claro que eu não consegui dormir novamente.

TODAY
- ?
sussurou para mim e eu pude sentir seus carinhos no meu cabelo, aumentando ainda mais a minha vontade de ignorá-lo e continuar a dormir. "Hum" foi a única coisa que consegui pronunciar.
- Os meninos foram para o quarto brincar de alguma coisa, o que você quer fazer agora?
Olhei para os lados finalmente notando a ausência dos garotos e na TV que agora só apareciam os créditos do filme. Olhei o relógio e o horário não era tarde para dormir, mas também não era cedo para tal. mudou de canal deixando em um programa de esportes, então ele esqueceria que havia me perguntado o que gostaria de fazer e ficaria assistindo seu futebol. Ri de mim mesma por o conhecer tão bem e fui a cozinha buscar cervejas, uma pra mim e outra pra ele, eu sabia que ele me pediria para pegar as cervejas em questão de poucos minutos. Apesar de toda a mordomia que tinha em casa devido ao nosso poder monetário, gostava de fazer essas coisas simples de ir a cozinha e pegar algo ao invés de gritar por Mary ou qualquer uma das quatro secretárias para pedir um favor. Estávamos os dois sentados no sofá com os pés na mesinha de centro enquanto assistíamos futebol, e eu confesso, adorava essas coisas, digo, muitos me acham apenas uma madame rica e mesquinha, mas eu gostava de tomar uma cerveja e assistir futebol. É por isso que eu digo, famosos fazem uma imagem através de videos, shows, meetings com fãs, mas nenhum fã acaba o conhecendo bem, a não ser que você vire amiga deles como eu fiz. Não estou dizendo que eles fingem ser algo que não são, o que eu quero dizer é que por não conviver com esses famosos, você não sabe tudo sobre ele, apenas uma - pequena - parte de sua personalidade. Tem coisas que nem a mídia consegue capturar.
Eu gostava de futebol, mas assistir ao jogo foi a última coisa que fiz naquele momento, meus pensamentos estavam voltados para o meu sonho (ou seria pesadelo? Lembranças?) com e Scarlette, aquela mulher que eu tanto repudiava. Essa sim era rica e mesquinha, filha de um produtor musical, conheceu os meninos quando os mesmos estavam começando suas carreiras, é claro que ela não perdeu a oportunidade de se aproximar dos futuros músicos já visando todo seu talento, possível sucesso e consequentemente: dinheiro e fama. Scarlette no início foi bem aceita no grupo, tratou todos com educação (inclusive a mim e a ), porém, deixou sua máscara cair meses depois e ninguém a suportava de tão fútil que era, apenas uma pessoa não a via assim, e esse alguém era o meu melhor amigo, . Depois da festa, eles se encontraram mais vezes e em um mês, a pediu em namoro, o relacionamento durou oito meses, e foi o maior período de tempo em que fiquei afastada de depois de nos conhecermos. Aquela bruaca fez a cabeça do meu (dando ênfase ao meu) melhor amigo contra mim, o encheu de asneiras dizendo que eu era falsa e blá blá blá. Vadia. Inquieta com todas as minhas lembranças, subi as escadas indo em direção ao banheiro da minha suíte, afim de um bom e relaxante banho. Depois disso, me sentindo um pouco melhor, fui ao quarto dos meninos dando um beijo de boa noite em cada, voltei para meu quarto e comecei a ler um livro, não aguentei terminar uma página e dormi.
Acordei com o som de algo caindo no chão, apesar do barulho ter sido fraco (o que indicava que fora no andar debaixo), eu acordei, nos últimos meses meu sono se tornara leve. não estava na cama, e o seu lado indicava que ele sequer havia se deitado. Eram 02h10m e ele não havia subido para o quarto, o que ele estava aprontando? Passei pelo quarto de Ben e Charlie, mas eles estava ali em seu décimo terceiro sonho, então desci as escadas procurando pelo meu marido. Não precisei terminar de descer as escadas que eu vi , ainda sentado no sofá da sala, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos escondendo seu rosto, ele só fazia isso quando estava estressado e/ou chorando. O telefone jogado no chão era a razão de todo o barulho, agora eu não queria nem saber com quem estava falando e nem o porquê dele estar assim, eu não conseguia, depois eu perguntava a ele, mas não agora. Sem forças para continuar o caminho ou simplesmente virar e voltar para onde eu estava e nem deveria ter saído, fiquei estática observando meu marido de perfil em frente a lareira. Sem perceber minha presença, tirou as mãos do rosto e seus olhos estavam brilhantes, mas não por causa da alegria que ele geralmente carregava em si, e sim, pelas lágrimas que escorriam pelo seu rosto com velocidade. Seu olhar estava vago, parecia que nem se eu gritasse, ele me notaria ali o observando. Ignorando a vontade de abraçá-lo e chorar junto a ele, corri para subir as escadas e ir ao meu quarto, deitando novamente na cama e cobrindo meu rosto com o cobertor. Parecia uma menininha com medo do escuro, dos palhaços e monstros. Mas naquela hora, eu não era nenhuma menina, nada ali no quarto me perturbava. Eu era apenas , uma mulher casada com medo do futuro.

Capítulo 6

No dia seguinte, depois de acordar e descer para o primeiro andar, vi dormindo no sofá. Em um dia normal, eu o teria acordado, Tomaria café da manhã com ele e diria pra ele descansar no nosso quarto porque ninguém merece dormir no sofá. Eu ficaria preocupada, eu faria o máximo para agradá-lo. Mas, ao levantar da cama, eu já deveria ter imaginado que o dia não seria apenas um dia normal. Desci as escadas dando o laço do meu roupão de seda e segui para a cozinha sentindo um delicioso aroma de café, então fui direto à garrafa térmica o despejando em duas canecas, fui para a sala deixando as canecas na mesa de centro enquanto acordava meu marido.
- ? Hey, acorda.
Passei minhas mãos por seus cabelos o admirando. acordou em um pulo assustado, sentou-se no sofá coçando os olhos e depois de uma olhada ao redor, arregalou os olhos e apenas me encarou. Agora eu quem estava assustada com sua reação, sem um sorriso, sem um simples "bom dia, ". Esperei outra reação, e ele apenas olhou para o chão onde o telefone continuava jogado, me direcionou um olhar cheio de significados e sentimentos, sempre fui péssima com essas coisas, então obviamente não entendi nada do que ele queria dizer. Ele apenas levantou-se, passou reto por mim e subiu as escadas. Fiquei sem reação e sentei-me no sofá, abracei a almofada que tinha o cheiro de e fechei meus olhos fortemente esquecendo dos cafés na mesa. Ao abrir os olhos senti os mesmos lacrimejarem, mas levei um susto ao perceber que não eram meras lágrimas de tristeza, o que estava acontecendo comigo era o famoso choro de raiva. Eu estava com raiva de ser uma fraca por não conseguir admitir que estava em crise conjugal, isso porque eu achava que estava sendo forte. Ah, grande ilusão. Vocês devem me achar uma louca, depois de alguns momentos fofos que passei com depois da minha primeira conversa com quando menti que estava tudo bem. Por que eu estaria reclamando? Certo? Mas parando para pensar em todos esses momentos, logo depois do momento "fofo" vinha algo simplesmente... Errado. continuava com sei lá o que seja que ele tenha, eu só estava aproveitando os poucos momentos que eu via o meu verdadeiro , o meu melhor amigo e marido. Eu ignorei todos os sinais, isso só me deixou com raiva, eu não estava o ajudando, eu estava mergulhando em um lago de ilusões. A raiva transformou-se em tristeza e eu soluçava de tanto chorar. Aproveitei que era uma terça-feira e eu trabalhava em casa na parte da manhã, e que os meninos ainda deviam estar dormindo, e fui para o jardim afim de um tempo só para mim.
Os minutos passaram rápido, logo ouvi risadas e gritos dos meninos, e depois de um beijo na testa de cada um, fui para o escritório trabalhar um pouco antes de ir para a empresa. Acabei não vendo os meninos indo para a escola e sem sinal de , almocei sozinha. Nada que algumas folhas do trabalho ao lado do prato não me fizessem esquecer meu momento solitário. Mesmo com um dia relativamente calmo de trabalho, com direito a alguns minutos perto da máquina de café jogando conversa fora com uma das novas estagiárias, o tempo passou voando. Depois de deixar meu escritório no prédio da Eryem's Company, segui para casa ao som de November Rain do Guns. Depois de estacionar o carro em uma das vagas na garagem, encostei minha testa no volante refletindo sobre o meu dia, na verdade, pensando no meu próximo passo... Como deveria reagir ao ver ? Como eu parecia uma menina idiota nos primórdios da adolescência! Cruzes! Ok, , vamos pensar. Ri de deboche ao pensar numa frase clichê que a sempre diz "o que tiver que ser, será", eu odiava quando ela me falava isso, mas agora eu deixaria rolar, entraria em casa e encontraria , depois disso eu improviso. É, vamos lá.
Entrei pela porta da sala e estava um silêncio, varri o lugar com os olhos e não vi ninguém. Estranho, não era tão tarde, os meninos não dormem cedo. Subi as escadas e ouvi o som da televisão, andei até a sala do segundo andar e vi Ben e Charlie deitados no chão assistindo ao Bob Esponja, meus pés formigaram para ir até lá e assistir também, amo desenhos, mas queria achar . Então apenas mandei um beijo pra eles mostrando que já estava em casa e segui para meu quarto. Meu marido estava com uma peça de roupa em mãos e a toalha jogada no ombro o que indicava que ele estava indo tomar banho, fui em sua direção, receosa, e dei um selinho. Ele murmurou um "desculpa por hoje" e seguiu para o banheiro deixando-me atônita no meio do cômodo. Sentei-me na beirada da cama com os olhos arregalados, ouvi a porta do banheiro abrindo novamente e olhei em sua direção, encontrando apenas a cabeça de para fora da porta.
- Sábado tem churrasco na casa do , aniversário da Chloe.
Depois de dizer isso, fechou a porta novamente.
Ansiava por um banho relaxante, mas toda essa frustração me fazia não querer ver ou conversar com ele, então apenas coloquei meu pijama. Fui à sala onde os meninos estavam e dei boa noite, mandando os dois escovarem os dentes e se arrumarem para dormir. Passei alguns minutos conversando com os dois e fazendo brincadeiras, depois voltei para o quarto. Agradecendo por ainda estar no banho, deitei-me rapidamente. Os lençóis de 600 linhas que mais pareciam de seda, estavam mais frios que o normal.

YESTERDAY
- Anda, , eu já to pronta há séculos e você ainda não sabe que sapato usar?
- Mas , olha, eu to em dúvida entre dois e você nem pra me ajudar...
- Ok, vai com um de cada par, o tamanho do salto é o mesmo. Mas corre! Quero ir logo, é o aniversário do nosso amigo, não é legal chegar por último.
- É um charme chegar por último, assim todos param pra olhar quando você entra.
- Você fala como se isso fosse a melhor coisa do mundo, cruzes.
- Vai dizer que você não gosta de ser o centro das atenções, ...
- Depende muito, agora numa festa... não, obrigada.
- Você é muito chata, sabia?
Ela reclamou calçando um par de sapatos sem salto diferente dos que ela estava em dúvida. Ri do seu jeito e seguimos para fora de casa onde e nos esperavam no carro do último para irmos juntos ao churrasco na casa do , por causa do seu aniversário.
- Hey , cadê a Scarlette?
Mal havia sentado no banco traseiro e solta a pergunta me fazendo afundar no banco. Nunca lembrava da existência dessa menina até alguém tocar no maldito nome. Ok, claro que eu lembrava, mas tentava apreciar cada momento com sem a assombração por perto. Apenas me dei ao luxo de colocar meus óculos escuros e discretamente ligar o meu iPod. Mas é claro que não conseguir driblar minha curiosidade e fiquei ouvindo a conversa. Foi quem respondeu a pergunta:
- O pai dela foi convidado também, aí eles vão juntos. Acho que é isso, né ?
- É, sim.
Depois disso e engataram uma conversa animada com algumas participações de opinião do , eu fiquei quieta, na minha, pensando no que estava por vir nesse churrasco. Eles namoravam há dois meses e eu ainda não conseguia lidar com isso. Como eu era fraca... E a minha única falha atitude era causar ciúmes em , mas como causar ciúmes em alguém que não sente o mesmo por você? Digo no sentido amoroso. Falha tentativa porque não causava o efeito que eu queria, ele apenas reprovava o fato deu estar saindo com vários caras sem ao menos os conhecerem direito. Deixo claro que não dormi com a maioria, na verdade, não dormia com quase nenhum deles, mas não sabia desse detalhe. Em quinze minutos chegamos na casa de , o som estava alto mas o movimento ainda não era grande, éramos uns dos primeiros. nos recebeu com abraços de urso e entregava uma garrafa de Stella para cada um ao passarmos pela porta. e seu novo affair nos esperavam no jardim dos fundos, ambos com a garrafa de cerveja em mãos. Era mais que fato que o churrasco seria épico como todas as festas que dava, mas eu simplesmente não estava afim de me embebedar, se bem que essa vontade sumiria assim que eu visse com sua namoradinha, mas tanto faz, por um dia eu esqueceria o casal mais estranho do churrasco, estava sendo sincera, eles não combinavam.
Parece que foi só piscar os olhos que a casa já estava lotada de conhecidos e desconhecidos (pra mim) no churrasco, a música estava ainda mais alta e eu pra variar estava perdida dos meus amigos. Fiquei andando sem rumo, parando pra conversar com alguns conhecidos e voltando a andar pela casa. A garrafa vazia não parava nas minhas mãos, sendo sempre substituída por uma nova, mas como eu não estava misturando bebidas, até que não estava me sentindo tão mal. Vi uma movimentação perto do aparelho de som e depois pude ouvir a voz de chamando quem quisesse para cantar no Karaokê, varri os olhos pelo lugar a procura de , já que adoramos cantar juntas por diversão. Logo a achei com a cara emburrada para a parede e percebi quem ela encarava: e alguma mulher encostados na parede. Sabia a música perfeita para cantarmos, ela percebeu que eu a olhava e eu a chamei. Contei minha "ideia" em seu ouvido e ela sorriu. Apesar de uma pequena fila já formada para o Karaokê, depois de ver que nós queríamos cantar também, nos encaixou na fila e fomos as primeiras. Antes de começar, ficamos fazendo brincadeiras no microfone falando coisas que fizeram enrubescer de vergonha.
- Fica tranquilo, , te amamos, mas hoje a música não vai ser pra você.
disse e me olhou com uma cara perversa. Ouvimos um "Uhhhhh" da plateia implicando com . Me digam, quando você quer provocar alguém que está namorando, tem algo mais provocante do que cantar Don't Cha olhando diretamente pra pessoa? Pois é, essa música já é mais que clichê nesse assunto, mas se encaixa perfeitamente. Quando Maria Fernanda cantou "Are you ready? Let's dance" e as pessoas notaram qual era a música a animação aumentou ainda mais, até os casais que estavam se agarrando na parede pararam para olhar (isso inclui e a sei-lá-quem), ri para minha amiga. No final do cômodo (a sala que havia virado pista de dança), consegui enxergar e a você-sabe-quem, o meu amigo olhava para nós com a expressão fechada e eu não consegui decifrar nada, mas só de ver a expressão raivosa de Scarlette, eu percebi que ele não dava atenção pra ela, e isso a estava deixando descabelada. Era hora de cantar e dançar. O verso "Don't cha wish your girlfriend was hot like me?" pediu uma dancinha até o chão com direito à mão livre do microfone deslizando pela lateral do corpo e olhar olho-a-olho com , agora eu via o quanto ele estava desconfortável com a situação, mas eu estava nem aí para isso, queria aproveitar a oportunidade. cantou o outro verso, "Don't cha wish your girlfriend was a freak like me?", e nós duas começamos a dançar balançando os cabelos, parecíamos loucas, mas modéstia à parte, nossa apresentação continuava... Sexy e provocante, do jeito que queríamos que estivesse.
Depois de cantarmos a música, recebemos bastantes aplausos e descemos do mini palco. Desencontrei da minha amiga e não a vi mais, fui para a cozinha procurar mais uma garrafa de Stella.
- Por que você tem que fazer isso? Ficar me provocando desse jeito, nós somos amigos, , não dá pra você agir como uma amiga e ficar feliz pelo meu namoro?
- Eu quero o seu bem, e por ser sua amiga que eu não gosto que você namore uma vadia.
Eu nunca gostei de discussões, sempre fui calma, ainda mais em relação a , mas o alto nível de álcool em meu organismo somando com a reação de , eu estava ficando desconcertada.
- Vadia, ? Não era ela quem estava cantando e dançando que nem uma vadia minutos atrás.
Só pude ouvir o som da minha mão em contato com a face dele, e pela raiva - e tristeza e tudo que te faz querer chorar - que eu senti na hora, achei que um tapa era pouco, porque como sempre disse, dependendo das palavras e da pessoa quem as diz, dói muito mais que um simples tapinha na cara. Nem se compara. Já levantava outra mão para acertá-lo quando segurou meu pulso.
- Desculpa, . Eu não devia ter falado nada disso.
- Mas falou, e falou o que você pensa.
- Porra, , você dançou e cantou Don't Cha na frente de todos aqui, você viu o tanto de homem que te comeu pelo olhar enquanto você tava dando seu showzinho?
- Você sabe pra quem eu tava olhando, pra única pessoa que eu tava prestando atenção.
- Não faz isso comigo, , por favor...
fechou os olhos e jogou a cabeça pra trás. Ele abriu os olhos e me encarou por alguns segundos.
- Isso não é certo, eu vou me arrepender por isso, mas vou me arrepender ainda mais se não fizer isso.
Então ele me beijou, ali na cozinha da casa do nosso amigo, no churrasco de aniversário do nosso amigo, com a namorada dele presente. E é claro que com a minha sorte, ela ia aparecer para arrumar o maior barraco de todos os tempos. É óbvio que ela apareceu, mas não teve o barraco que imaginei, só um olhar mortal, mas isso a gente releva. Eles foram embora da festa logo, não sei o que aconteceu entre os dois quando eles conversaram/discutiram sobre isso, mas o resultado de tudo foi os meses a seguir, os seis meses até o glorioso final do namoro. Scarlette ficou insuportável e tirava cada vez mais do nosso grupo de amigos, eu e quase não o víamos, nem em festas, só quando íamos no estúdio assistir à McFLY ensaiar, mas só. Os piores 6 meses para um coração partido.

TODAY
Quarta. Quinta. Sexta. Enfim sábado, aniversário da Chloe, esposa do , nosso amigo. São casados há 6 anos e têm o sonho de ter uma filha. A semana voou, e graças a uma viagem a trabalho para Brighton, voltei para casa apenas sexta à noite e evitei qualquer tipo de discussão com . Pena que brigas não têm hora para começar nem para terminar, podem ser aquelas de questão de minutos, ou tem aquelas que duram semanas, anos. Eu devia saber que uma viagenzinha não impediria uma discussão com em nossa atual situação. Cheguei da viagem com um pensamento: eu queria reconquistar . Vamos dizer assim... Eu queria trazer de volta aquele amor contagioso do início do nosso casamento, então, eu queria mostrar para ele que ainda conseguia ser a de antes, lógico que não tinha aquele corpo antes de engravidar, mas meu atual corpo não era de se jogar fora.
Acordei sábado de manhã animada, liguei para a chamando para fazer umas comprinhas antes do churrasco. Passei em sua casa de carro e fomos juntas à Oxford Street, a rua comercial mais movimentada e famosa de toda a Europa. Depois de passar por umas 30 lojas que não chegavam nem perto de um terço das lojas da avenida, achei o que procurava, a roupa moldou perfeitamente o meu corpo, como se tivesse sido feita especialmente pra mim. Optei por comprar um short jeans escuro de cintura alta, o que pareceu alongar as minhas pernas me dando a sensação de estar mais alta, um collant tomara que caia de estampa florida, e devido à queda de temperatura nos últimos dias somando com o amarelar das folhas das árvores que indicava o Outono, comprei também um cardigã cinza para completar. Eu me sentia... jovem. Satisfeita com minhas compras, andei mais um pouco com a minha amiga que procurava sabe-se lá o quê, e depois a deixei em casa.
Encontrei Ben e Charlie correndo pelo jardim e sentado na beira da piscina com um violão em mãos. Após verificar o horário no relógio da cozinha e ver que estávamos um pouco atrasados (já que sabia da demora que nós 4 levamos para nos arrumar), chamei os três para dentro de casa. Meus dois filhos vieram ao meu encontro na hora e depois de um beijo estalado na bochecha, os dois subiram para seus quartos. demorou um pouco, dedilhou as cordas do violão, fez algumas anotações e enfim entrou. Deu um beijo na minha testa e subiu. Depois de conversar um pouco com Mary, ajudar a ver o que faltava em casa, subi para tomar um banho e finalmente me arrumar.
Não encontrei no caminho, nem depois de sair do banho. Coloquei minha roupa nova, uma sapatilha, fiz uma maquiagem leve e todo aquele ritual feminino de se arrumar. Ao me olhar no espelho eu ficava satisfeita com o resultado, não estava como a capa da última Vogue como alguma atriz depois de um baita photoshop... Mas eu estava bonita, o que fez minha auto-estima aumentar e a vontade de encontrar crescer. Foi só pensar nisso que o mesmo entrou no quarto, já estava pronto e um charme, como ele conseguia estar ainda mais sexy depois de todos esses anos? Vamos ser sinceras, mulheres ficam bem depois dos trinta com uma ajuda de hidratantes e tudo mais, agora homens nem ligam pra isso e ficam até melhores quando mais velhos, eu precisava dessa receita. Meu marido entrou para o banheiro da nossa suíte sem ao menos parar para me olhar, que ótimo, minha auto-estima perdeu alguns pontos depois dessa. Apenas fiquei o esperando sair do cômodo para falar algo. Assim que ele o fez, lancei aquela famosa pergunta "Como estou?". Ele me deu um selinho, me olhou e disse "Bem".
- Só isso, ? Bem?
- O que você quer que eu diga?
- Alguma coisa que não seja só "bem". Eu me arrumo pra você, e é a única coisa que me diz?
Ele sentou massageando seu rosto.
- Tá, , eu falo o que você quiser.
- "Oh, , me chame de linda e maravilhosa, por favor". É assim mesmo que você quer que seja?
Sentei-me ao seu lado mas sem nenhum contato físico, eu estava prestes a explodir, precisava desabafar, nem que fosse um terço do que estava sentindo, então continuei:
- Eu me arrumo pra você e...Há quanto tempo você não para pra dizer apenas que eu tô bonita, que eu tô linda, sem parecer forçado, ou que eu pergunte? Porque as vezes eu acho, que só eu quero levar a NOSSA vida pra frente.
- É claro que se arruma pra mim, como se fosse se arrumar pra outro e que ele fosse olhar assim.
- O que disse?
- Você não entendeu o que eu quis dizer, olha, não que você não seja linda, mas no churrasco os homens não vão te olhar porque sabem que você é minha mulher e...
- , para de falar, não piore as coisas. Não ligo se não me olharem, mas sim quando a pessoa que eu queria que me olhasse, não olha. Você não me vê mas como antes, eu to cansada.
Meus olhos começavam a lacrimejar mas não quis deixar transparecer. tentou argumentar mas o impedi.
- Eu não quero falar com você agora, não piore as coisas.
- Vamos para o churrasco e depois conversamos em casa.
- Não, vá você com os meninos, pego carona com a .
- Mas vamos chegar sozinhos no churrasco?
- Relaxa, todos sabem que somos casados, eles não vão me "olhar" mesmo.

Capítulo 7

Quando parei em frente à porta da casa de , me perguntei se ela estaria em casa ou se já estaria a caminho do churrasco. Me senti uma tola por ter esquecido desse fator importante: avisar minha amiga de que estava indo para sua casa. A ideia de chegar sozinha na casa do me fez balançar a cabeça em negação, morreria de vergonha. Tomei coragem de apertar a campainha uma, duas vezes e depois de uns quinze minutos, Hector abriu a porta.
- !
Ele disse oitavas acima da sua voz normal, surpreso em me ver. Me senti obrigada a dar uma explicação, sei lá por quê.
- Hey, Hector. Desculpa chegar sem avisar mas me atrasei bastante para me arrumar e os meninos não queriam ficar esperando, aí foi mais cedo com eles. Tem problema eu pegar uma carona com vocês?
Hector parecia alheio a tudo e nem sequer quis esconder o fato de não ter prestado atenção ao que falei.
- Claro, eu tenho um compromisso agora e não vou ao churrasco, está lá em cima se arrumando. Vejo você outro dia, .
Depois de um beijo na bochecha, Hector seguiu em direção ao seu carro estacionado ao lado do meu. Ri de mim mesma por não ter reparado que seu carro estava lá, mas lembrei que minha amiga tinha comprado um carro novo meses antes e eles, talvez, pudessem ter ido ao churrasco nele. Fechei a porta do hall e segui escadas acima à procura de .
Entrei no quarto do casal e a encontrei sentada em sua cama.
- Hey, amiga, o que aconteceu?
Ela levantou seu olhar e pude ver o quanto seus olhos, suas bochechas e até seu nariz estavam vermelhos, sinais de choro.
- Briguei com o Hector. Ele disse... O que eu faço, ?
- Calma. - Disse sentando-me ao seu lado. - Primeiro me diz o que aconteceu para eu te ajudar.
- Eu não sei, começou ontem quando disse que deveríamos tentar ter um filho e ele simplesmente virou pro outro lado da cama e dormiu. Na hora não pensei direito, apenas dormi também. Mas hoje, eu não sei, não acordei bem, e senti raiva ao lembrar da reação dele ontem. Enfim, no café da manhã tentei abordar o assunto de novo mas ele logo me cortou, tentei melhorar a situação e o lembrei do churrasco, mas...
Mais lágrimas surgiram em seus olhos, e apenas permaneci em silêncio esperando que continuasse a falar.
- Ele disse que não iria de jeito nenhum ao churrasco, porque estaria lá, que estaria cheio de riquinhos mimados e metidos, famosos e blá blá blá. Ele falou com ódio, nunca tinha o visto assim.
- Mas amiga, Hector nunca se importou com a nossa amizade com os meninos nem com as nossas festas, ele sempre se mostrou alegre e conversava com todos, inclusive com . Aliás, tem algum motivo ele não querer ver o ? Porque tá, vocês já namoraram, mas foi algo rápido e sei lá, ele nunca teve ciúmes antes, por que ter agora? , tem algo que eu não estou sabendo?
- Não que eu saiba, mas me diga, o que você faz por aqui?
- Ah, tinha até me esquecido, briguei com , pra variar só um pouquinho.
Então contei toda a minha discussão para a minha amiga, com medo dela dizer que eu havia exagerado. Na verdade, esse foi o pensamento que me dominou enquanto eu dirigia vindo pra cá, será que tinha exagerado? Que eu briguei com por capricho meu? Oh não, não pode ser, eu só queria me sentir... Amada.
- Ah , você está certa. Acho que fez o certo, agora, vamos para esse churrasco e você vai mostrar para ele o quanto você continua em forma, linda e maravilhosa. Sua roupa está ótima, mas que tal arrumarmos essa maquiagem?
- Não quero algo forte, porque não estamos indo a nenhuma balada, amiga.
- É claro, deixe comigo. Olha, acho que devíamos arrumar um jeito de realçar seus olhos e lábios, só isso, sem nada forte.
Apenas concordei e deixei brincar com meu rosto. Apesar de sua cara concentrada e seu esforço para parecer forte, eu via em seu olhar o quanto ela estava magoada.
- Quer falar mais sobre aquilo?
- Ah não, , estou bem, só quero esquecer... Mas se você quiser beber algo comigo aqui agora, eu aceito.
- Vamos deixar isso pro churrasco, não quero morrer no caminho por estar dirigindo bêbada.
- Ainda bem que você tem juízo por nós duas, .
Apenas ri e a deixei terminar seu trabalho. E olha, foi um ótimo trabalho, não estava parecendo uma perua, longe disso. O destaque realmente estava em meus olhos, cílios e boca, meus olhos pareciam maiores, bem delineados e na boca, o gloss dava um toque delicado a ela mas ao mesmo tempo sexy. Agradeci minha amiga e a esperei terminar de se arrumar, ela iria sem Hector mesmo. Quando entramos no carro, ela me surpreendeu com uma pergunta:
- , como você suporta tudo isso?
"Eu simplesmente não suporto", quis dizer, por mais que ela tivesse certeza de tudo que estava acontecendo, que eu estava me sentindo acabada, com essa pergunta eu tinha que me mostrar forte. Se ela fosse passar por isso, ela tinha que ter um exemplo a seguir, algo ou alguém para mostrá-la que nem tudo estava perdido e que ela precisava de forças para continuar. Assim como eu tinha o apoio da minha mãe.
- Ah, temos que ser fortes, depois posso te ensinar uns truques.
Encerramos o assunto e passamos o resto do caminho conversando sobre coisas aleatórias.
- Finalmente vocês chegaram, já estava ficando preocupado!
abriu a porta para nos recepcionar.
- Chloe está perto da churrasqueira com os meninos. , onde está Hector?
- Teve que encontrar com a família dele, . Mas ele pediu desculpas e mandou um abraço a todos.
Nosso amigo não teve tempo de nos responder e já foi atender a outros convidados. Nossa festa particular, digo, com nossos amigos mais próximos, sempre ficava para o final quando os convidados já tinham ido embora.
- , não vou aguentar, preciso de uns drinks. Vamos comigo?
- Hum, hoje não, sei que falei mais cedo que beberíamos algo, mas tenho que ficar de olho no Ben e Charlie, e claro, no também.
respondeu rindo:
- Amiga, você é a mulher dele, não a babá.
Nos "despedimos" e cada uma seguiu um rumo, ao passar pela porta da sala que dava direto ao jardim dos fundos e churrasqueira, senti como se nada tivesse mudado e ainda estivéssemos nos churrascos que costumávamos fazer. Ao seguir em direção ao lugar onde e os meninos se encontravam, percebi os olhares vindo de alguns homens ao redor. Me senti poderosa, sabe quando esse tipo de coisa deixa seu ego lá em cima? Então, e pela cara de , vi que ele também percebeu isso, e por vingança talvez, após um sorriso cínico para mim, virou-se para a mulher ao lado e começou a conversar. O choque devia estar estampado em meu rosto.

YESTERDAY
Ah sim, como eu disse, depois que Scarlette viu e eu nos beijando, ela se tornou mais insuportável do que já era, e distante, claro. A vimos quando fomos algumas vezes ver os meninos gravando no estúdio, e me lembrando bem agora... Nos vimos em uma festa, mas apenas uma festa. Que foi um completo desastre.
- Hey meninos, muffin ou donuts?
Perguntei deixando aquela "bandeja" ou seja lá o que for de papelão da Starbucks com cafés e bolinhos em cima da mesa. Os meninos logo a atacaram, e cada um pegou seu café, seu bolo ou rosquinha.
- , você é um anjo!
disse de boca cheia, o que me fez rir. Pensei em fazer um agrado aos meninos, já que estavam gravando no estúdio desde as quatro horas da manhã, sim, esse horário mesmo.
- Vocês não acham que já tá bom por hoje? Devem estar cansados...
Comecei a tentar persuadi-los a irem pra casa, mas me explicou a situação.
- Estamos mortos de cansaço, mas vamos pra casa tomar um banho e depois iremos a uma festa de alguma banda aí que o nosso produtor está ajudando.
- Nem sabemos que banda é. Tá afim de ir com a gente?
perguntou e pensei nos prós e contras, era uma sexta-feira e não tinha nenhum compromisso, não tinha trabalho da faculdade porque só começaria em duas semanas, no final do período... estava visitando sua família no Norte... "Claro, minha noite tediosa não pode ficar pior mesmo".
- Claro, por que não?
Devia ter ficado em casa, isso sim.
À noite, liguei para me dar carona, e em trinta minutos eu me arrumei. Não sei como fiz isso tão rápido, talvez porque decidi não exagerar na maquiagem e ir com algo bem básico. Escolhi um short vermelho de cintura alta com uma blusa soltinha mas presa dentro do short. Por cima, minha inseparável e amada jaqueta de couro.
passou na casa de e depois , e nós quatro fomos juntos à festa.
A primeira surpresa da noite foi ver Gregory, um amigo de infância, e olha, preciso dar ênfase no quanto ele estava maravilhosamente bem e muito melhor desde a última vez que nos vimos.
- Greg? No way!
- ! Quanto tempo, você parece ótima, tá linda como sempre.
- E você não tá nada mal hein, Doutor?
Brinquei com seu apelido que referia ao personagem Gregory House da série House. Greg, meu amigo, era fascinado por medicina e House era sua série preferida, ele tentava imitar algumas características do médico, por isso o seu apelido.
- Não acredito que você lembra disso, Little Star.
E pronto, meu apelido, "fofo", não é? Antes de escolher o curso da faculdade (que não tem nada a ver com música), eu queria ser cantora e cantava em algumas festas da escola e em alguns bares, o "little" era porque eu era a mais baixa da turma, mas não me considero tão baixa assim.
Enfim, tinha me esqueci do quanto Greg era legal e conversamos e bebericamos uns drinks por longos minutos. Quando olhei para o Hall da casa, vi e Scarlette chegando. Senti meu rosto esquentar.
- Pelo jeito esse cara aí conquistou o seu coração, só não sei em quanto tempo, mas com certeza menos tempo do que eu tentei te conquistar e você nem percebeu.
Olhei espantada pela sua súbita revelação e senti meu rosto esquentar ainda mais, eu devia estar ficando roxa já.
- No way!
- Pode acreditar, , e eu até hoje não entendo como você não percebeu, eu devia ser um galanteador de quinta mesmo, ainda bem que com o tempo eu melhorei nesse quesito, eu acho.
- Tenho certeza que sim.
"Tenho certeza que sim?" Fica quieta, . Corei pelo meu atrevimento, eu sempre fui muito sociável mas muito tímida quando o assunto era homens. Então pensei em como deveria estar se divertindo com Scarlette, mas o peguei me observando do outro lado da sala. Fiquei com vontade de simplesmente usar Greg para fazer ciúmes em , assim como o show que tinha feito no último churrasco, mas não deu certo. E ao olhar no sorriso sincero de Greg, eu lembrei de todas as coisas boas que passamos em nosso tempo de escola, o nosso último ano de high school... Tinha sido perfeito, e isso me atingiu em cheio com saudades dos nossos amigos, a única que mantive contato fora . Uma dose de arrependimento passou por mim. Gregory Smiths talvez fosse na verdade, a solução dos meus problemas. E se tudo desse certo, o meu sentimento por voltaria a ser apenas aquele que um amigo sente pelo outro. Assim espero.
Conversamos mais um pouco, dançamos até Greg sair para buscar cervejas para nós. "Vai lá no jardim que eu já te encontro."
Não deu três minutos e vi caminhar em minha direção, sem sua sombra chamada Scarlette.
- Ele está te usando.
- E por que você acha que ele estaria fazendo isso?
- Porque eu sei.
- Você nem o conhece.
- E você não sabe o efeito que tem, mas ele não tá na sua, ele tá obviamente te usando pra fazer ciúmes em alguém, porque qualquer uma aqui sentiria ciúmes só de ver o cara passando ao seu lado.
Sem querer ouvir mais suas palavras, dei as costas e fui para o jardim onde Greg me esperava.
- Você estava conversando com seu "amigo".
- Pois é, ele tava procurando os outros da banda.
Conversamos mais um pouco e comecei a suspeitar da ideia de , já que Greg não tentou nem um beijo sequer. Será que ele é gay? Mas parece que ele ouviu meus pensamentos, porque em menos de um segundo, senti seu rosto se aproximar. Foram beijos calmos, mas não senti... Nada. Depois de um certo tempo, Greg foi ao banheiro e eu fiquei pensando no que aconteceu. O "nada" que eu digo, foi que não teve nada que me fizesse pensar que ele era o certo pra me ajudar a esquecer . Então, apesar do meu fracasso de estar super afim dele, eu queria continuar a tentar. Porém Greg estava demorando a voltar, e uma aglomeração estava se formando perto do lugar aonde ele havia ido. Corri até lá a tempo de ouvir a voz de .
"Você acha que eu não sei o que você tá tentando fazer, cara? Eu sei que esse empurrão na saída do banheiro não foi simplesmente sem querer, seu filho da puta."
- , você tá bêbado, vamos parar com isso.
Ouvi dizer ao amigo.
- Você tá falando isso tudo, , porque você tá com ciúmes, ficou me vigiando a noite inteira doido pra arrumar confusão comigo. E olha, esse não é o jeito mais fácil de conquistar uma garota, sabia?
- E você acha que usar uma garota pra fazer ciúmes nessa que tá ai do seu lado, é legal? Pode ser o mais fácil, mas só mostra como você é um canalha.
Passei pelas pessoas e entendi o que falava, vi Greg sendo segurado pelo braço por uma garota da nossa idade mais ou menos, bem mais baixinha que eu, e bonita. Quando Greg me viu, não soube decifrar o que seu olhar queria dizer, me senti usada mas não com raiva, já que cheguei a pensar em fazer o mesmo... Só é horrível quando esse tipo de coisa acontece com a gente. continuou a falar asneiras e eu conseguia ver o momento em que ele passaria a implicar com outros e isso não seria legal. Ele precisava sair dali. Olhei em volta procurando por Scarlette, mas não a vi, quer saber? Foda-se também. Puxei pelos braços que, sem hesitar, me seguiu para fora da casa. Ia levá-lo para casa até me lembrar que estava sem carro, deixei meu amigo sentado na calçada e peguei a chave do carro emprestada com o .
- Você tem noção do que acabou de fazer?
- , não to afim de conversar agora.
O caminho foi silencioso, estava tão distraída que nem me lembrei de ligar o rádio pra amenizar o péssimo clima instalado. Estacionei o carro em frente a casa de , com a vontade de descer junto com ele e ajudá-lo, fazer um chá e depois assistir a um filme como sempre fazíamos, sem segundas intenções... só e , melhores amigos. Mas isso estava longe de acontecer no momento.
- Obrigado.
disse e saiu do carro, o esperei entrar em casa para sair. Cheguei a pensar em voltar para a festa, mas não tinha a mínima vontade de fazer isso. Apenas segui para minha casa. Depois de um banho quente, e com a mente já vazia dos acontecimentos, tive uma noite de sono tranquila e sem sonhos.

TODAY
Aproveitei meus últimos segundos antes de chegar perto dos dois para me recuperar do susto, os quatro anos de aula de teatro quando eu era adolescente tinham que servir para alguma coisa, estampei meu melhor sorriso.
- Scarlette, querida, quanto tempo!
Dei um abraço na mulher e fiquei abraçada de lado no enquanto continuava minha atuação:
- Não sabia que você viria, como andam as coisas?
- Nem eu sabia que ia vir, . Chloe ligou me convidando no começo da semana, e coincidentemente eu estava em Londres a trabalho. Vejo que perdi muitas coisas que aconteceram por aqui, hein?
Ela disse apontando para a própria mão esquerda que não havia uma aliança, diferente de mim e . Para completar o momento, Charlie veio correndo em minha direção e abraçou minha perna direita.
- Mamãe, posso entrar na piscina? Por favor, por favor, por favor?
Abaixei pra ficar na sua altura, e perguntei se Ben iria nadar também mas o mesmo estava jogando futebol. Não queria deixar meu filho de apenas seis anos nadando sozinho naquela piscina gigante da casa do , então, depois de uma brilhante ideia, sorri para o meu pequeno e disse:
- Por que você não chama o papai pra nadar com você? Tenho certeza que ele vai adorar.
- Papai, nada comigo?
Charlie perguntou fazendo manha e puxando pelo braço.
- Só se a mamãe for junto.
respondeu e sorriu cínico para mim.
- Eu vou daqui a pouco, tá bom? Eu prometo.
Dei um beijo no topo da cabeça do meu filho e o empurrei com o pai em direção à piscina. Foi questão de poucos minutos para esquecer todas as provocações e passar a se divertir com Charlie na piscina, na brincadeira, os dois pareciam ter a mesma idade. Eles estavam rindo e jogando bola um para o outro, eu sorria abobalhada observando toda a cena.
- Seu filho é lindo, .
Escutei Scarlette falar ao meu lado, e levei um susto ao reparar em sua voz e não perceber um resquício sequer de ironia ou sarcasmo.
- Obrigada, aquele de blusa azul jogando futebol é o nosso mais velho, Benjamin.
- É lindo também, o que tá jogando futebol é mais parecido com você do que com .
Sorri com a observação e depois de um aceno de cabeça, fui me juntar ao meu marido e Charlie. Olhei apreensiva ao redor e ninguém estava reparando em mim, percebi que o banheiro estava longe demais da piscina para o meu gosto. Apesar de estar com o corpo em forma, depois de ter dois filhos, eu achava mais defeitos que o normal em minha barriga, seios e pernas. Então, estava com medo sim de ficar apenas de biquíni no meio de todas aquelas pessoas, por isso, em um movimento rápido, tirei meu cardigã, colã e shorts, e entrei na piscina. Sem puxar assunto no início, só fiquei fazendo brincadeiras com Charlie, mexendo nos seus cabelos e rindo das suas piadas sobre um pintinho que chamava Piu, também estava quieto até então.
- Hey, vocês três. Olhem pra foto.
Ao ouvirmos dizer isso em voz alta e atraindo um bocado de olhares para a foto da família, segurou minha cintura e Charlie no colo, o máximo que consegui foi um sorriso sem nem mostrar os dentes.
- Mesmo depois de todos esses anos, seu corpo continua perfeito, .
Ele disse antes de me soltar. Minha surpresa foi grande, não fui capaz nem de responder, apenas me encostei na beirada da piscina e fiquei observando o churrasco. Observei umas pessoas que eu nem conhecia, enxerguei conversando animadamente com e a namorada dele, me lembrei de quando ele namorava minha amiga e o quanto aquela época era boa, olhei com a noiva dele e por fim, observei Chloe e , conversando aos cochichos, tão apaixonados. Por fim, olhei para , o quanto ele estava lindo mesmo depois de tantos anos, ele ainda me deixava sem ar, me perguntei onde eu havia errado e pedi que alguma coisa me fizesse enxergar o que eu poderia fazer pra inverter toda aquela situação. Charlie brincava animado no colo de , os dois riam baixinho, eu tinha tudo que sempre sonhei, meus filhos lindos e saudáveis, um marido que por anos foi o mais atencioso de todos, tinha meus amigos, meu emprego... tudo. O que estava errado? O que eu estava deixando escapar? Senti um nó na garganta e meus olhos arderem, minha visão começando a ficar embaçada.
- Hey, campeão, por que você não vai jogar futebol com seu irmão?
perguntou a Charlie e o ajudou a sair da piscina. Depois, me abraçando pela cintura, ele começou a falar:
- Olha, se você está assim pelo que eu disse hoje mais cedo, por favor, me desculpa. Não era o que eu queria dizer.
- , você acha mesmo que eu ficaria assim só por causa disso? É por tudo.
- Então me fala, me explique o que tá acontecendo, não esconda as coisas de mim.
- Eu não tenho nada escondido, , você que não repara no que eu to passando ou sentindo, mas isso não quer dizer que eu esteja mentindo ou algo do tipo. Na verdade, acho que tá na hora de você ser honesto comigo e me explicar o porquê dessas suas mudanças ultimamente.
- Eu não posso, longa história.
Passei as mãos pelo meu rosto mostrando toda minha indignação com a situação.
- Quer saber? Ok, pelo menos eu vou ser sincera nessa história. Eu não to entendendo mais nada, na verdade, cansei de tentar entender o que passa na sua cabeça. Seja lá o que for que está te perturbando, está prejudicando a sua família. Se o problema sou eu, , se você não me ama mais, por favor, pare de fingir e me diga logo. Assim eu te deixo em paz, vai ser a coisa mais difícil da minha vida, mas se for pra você ser feliz, comigo ou não, eu vou ter que ficar feliz também.
Uma vontade devastadora de chorar tomou conta de mim, eu tentava ser forte há tanto tempo, eu queria esconder minhas fraquezas há tanto tempo, que hoje eu percebi que meu trabalho havia sido em vão. E falando aquilo para , eu via o quanto era fraca quando o assunto era ele, e eu fui sincera quando disse que só queria a felicidade dele, só de vê-lo chorar, triste ou o que for, eu já me sentia despedaçar por dentro.
- Calma, não chora, . Vamos conversar em algum quarto lá em cima. Vem.
Abaixei um pouco, ficando submersa por alguns segundos. Depois segui com para dentro da casa.
- Você disse a maior besteira lá embaixo.
O olhei sem entender.
- Você acha mesmo que eu não te amo mais, ? Mas é lógico que eu te amo. Olha pra mim, .
Tirei os olhos dos meus pés horríveis e mirei por um instante.
- Eu te amo, , me desculpa pelo que eu tenho te feito passar. É que... eu realmente não posso falar, mas não tem nada com você.
- Sendo ou não sobre a gente, isso tá afetando o nosso casamento. Você não vê?
- Deita ali na cama um pouco, descansa que eu vou olhar os meninos lá embaixo um pouco. Daqui a pouco eu subo pra gente ir embora, ai a gente conversa com calma em casa, tá?
Eu apenas concordei com a cabeça, não estava afim de pensar mesmo... Sem contar a dor de cabeça que ganhava espaço e eu não conseguia manter meus olhos abertos. Apaguei antes de desligar a luz do quarto e fechar a porta.
Acordei descansada, como se tivesse dormido as oito horas necessárias para uma boa noite de sono, mas eu sabia que não era o caso. Fui andando às cegas a procura do interruptor, mas antes de chegar perto da porta escutei vozes do lado de fora do quarto. Pelo tom de voz dos dois, eu percebia que o assunto era sério, não consegui controlar minha curiosidade.
- , seja lá o que você estiver fazendo, você tem que parar. Você não vê como a sua ESPOSA está? Você tá acabando com o seu casamento, seu merda.
- Você é o que menos pode falar do que eu tô fazendo, .
- Ah é, e por que? Eu não tô agindo estranho com meus amigos e nem ignorando a minha mulher.
- O que você faz é pior que isso e você sabe. Eu sei de tudo, , e na verdade, não sou o único que sabe.
- Do que você tá falando? Você sabe o que? Quem te disse?
- É tudo o que eu posso falar, . Mas, por favor, trate de consertar logo essa merda, e se você não contar, eu conto.
- Você não faria isso.
- Será que não?
Antes que eu sequer absorvesse tudo que escutei, corri de volta para a cama e fingi que estava dormindo. Céus! O que aquilo queria dizer? Ainda bem que dormi um pouco porque eu conseguia prever a péssima noite de sono que eu teria.

Capítulo 8


- Hey, , acorda... Você tem que descer um pouco.
Fiz toda aquela encenação; abri os olhos devagar, forcei um bocejo, olhei para os dois lados, e fiz aquele "Hã?" do tipo "Quê? Onde estou? Acordei, mas vai com calma aí."
- Acho que você tem que descer um pouco. – repetiu.
- Ah...
Joguei minhas pernas para o lado de fora da cama, cocei os olhos ainda atordoada com o que tinha escutado minutos antes. Estava sem coragem de encarar meu próprio marido. Com a curiosidade ao máximo, estava quase jogando todas as cartas na mesa, mas tive que me controlar, eu tinha que pensar melhor sobre isso. Apenas calcei os sapatos e segui ao andar abaixo. A casa estava praticamente vazia, diferente de como estava quando subi para o quarto dos hóspedes. Agora, os únicos convidados restantes eram os amigos mais próximos, ou seja, os integrantes da McFly e sua família, e já tinha ido embora.
Segui até a ampla cozinha da casa, que estava impecavelmente limpa. No churrasco apenas a cozinha perto da churrasqueira fora usada.
- E aí, dorminhoca! – brincou e todos direcionaram seus olhares a mim.
Ri sem graça e sentei na cadeira vaga ao lado de , não deu um minuto até que Charlie sentasse no meu colo, com a aparência cansada. O pequeno brincou o dia inteiro, e apostaria qualquer coisa que em menos de vinte minutos ele estaria dormindo. Fiquei alheia ao assunto enquanto fazia carinho no cabelo do meu filho o observando lutar contra o sono e os olhos que teimavam em fechar.
Minha atenção foi chamada de volta à conversa quando escutei as palavras "reunião" e "McFly". Era um assunto que eu estava curiosa para saber, e que não comentei muito com porque sei que era algo que mexia com ele. Se bem que nem o mesmo sabia qual rumo esse assunto tomaria. Até que enfim os quatro criaram coragem para conversar sobre isso. Claro que não resolveriam todos os problemas da banda ali poucas horas depois de um churrasco. Mas com certeza aquela iniciativa era importante.
Observei o rosto de Chloe, Claire – namorada de – e Lizzie – noiva de . Elas estavam como eu, ansiosas. Mas sabíamos que eles precisavam de espaço para uma conversa. Então com um aceno de cabeça, as chamei e fomos para o cômodo ao lado, a sala. achou melhor Charlie, que já estava dormindo, ficar com ele, já que não atrapalharia e "vai te deixar com dor nos braços e problema na coluna, ", palavras do meu marido. E pelo que entendi, Ben já tinha ido embora com , iria dormir na casa da mesma, que é sua madrinha.
Olhei a mini adega que tinha na sala e com a permissão de Chloe, peguei um vinho seco para apreciarmos enquanto jogávamos conversa fora.
- Espero que eles se resolvam logo, não aguento mais o andando rabugento pela casa.
- Até que o está tranquilo. Quer dizer, claro que quando o assunto é a banda, ele fica tenso, por isso nem falamos muito sobre isso...
- também está assim. Já tentei perguntar como as coisas estão, mas ele muda de assunto. A coisa tá feia... E o , ?
- Mesma situação, tranquilo até o assunto chegar na banda.
A conversa entre e horas atrás continuava voltando na minha mente para dizer "olá", e estava difícil me concentrar em uma coisa só. Trocar ideias com elas era uma ótima coisa, já que, obviamente, uma parcela do que estava passando – tenho certeza que tinha mais coisas envolvidas –, os outros também estavam.
- Alguém sabe pelo menos um motivo plausível para isso com a banda? – Chloe perguntou apreensiva. Aparentemente, ninguém sabia mais do que eu. Pelo menos não era a única perdida nessa situação toda.
- "Na verdade, a banda não acabou. Terminamos a turnê pra refletirmos melhor e tomar uma decisão". – Falei tentando, inutilmente, imitar o tom de voz de .
- Ele falou algo parecido na noite que voltou para casa.
- Tive a mesma resposta quando perguntei o que tinha acontecido. – Claire disse e as outras duas concordaram com ela.
Eu estava curiosa, até demais, queria saber se a conversa que escutei antes tinha alguma relação com a atual situação. E pra eles terem resolvido dar um tempo na banda, é porque teve alguma situação que foi a gota d'água. Quem teria sido o principal causador? E se fossem os quatro os causadores disso tudo? O melhor: qual seria o verdadeiro motivo?
Continuaríamos a conversa se não tivesse aparecido na sala carregando Charlie no colo e com uma expressão facial fechada. Logo depois veio , e . Os quatro parados nos encarando, os últimos três com os braços cruzados. Sentindo o clima pesado, sem graça.
Eu e as outras mulheres levantamos, e com um aceno de cabeça nos despedimos e seguimos para fora da casa com nossos homens.
- Eu dirijo. - Disse a e peguei as chaves em sua mão. No caminho permaneci em silêncio, esperando que o meu marido iniciasse o assunto, queria dar o espaço que ele precisava. Mas não demorou para ele pigarrear e, sem jeito, começar a falar.
- Vamos marcar a reunião da gravadora essa semana. – O olhei, esperando-o continuar a falar. Ele não continuou.
- Então... Como estão os meninos?
- É complicado. – Ele simplesmente encerrou o assunto.
Ok, . Calma.
O resto do caminho foi silencioso, eu estava prestes a explodir, e essa sensação estava virando rotineira. O carro mal foi estacionado e eu já estava pegando Charlie no colo e o levando para seu quarto. Depois de um beijo de boa noite, segui pensativa para a sala no andar inferior. Peguei um vinho na nossa mini adega; era leve e tinha um sabor frutado, perfeito para o meu momento nostálgico que eu estava prestes a viver. Parece que foi ontem, mas na verdade, essa época está tão distante agora que eu me pergunto como tudo passou tão rápido. Como tudo era tão... fácil, os problemas tão distantes. A primeira reunião na gravadora para combinarem algumas coisas para o primeiro CD do McFly foi inesquecível. Não, eu não estava lá. Mas escutei a mesma história milhões de vezes. sempre a contava com um sorriso contagiante no rosto.

YESTERDAY

Vou contar a história que escuto desde quando conheci os garotos em Manchester. Os meninos, amigos desde a infância, sempre tiveram o sonho de ter uma banda famosa. Começaram no High School, com uma banda de garagem chamada Back To The Future. Eles eram simplesmente mais que viciados no filme. Mas o nome é gigante, certo? Imagina para a fã ter que gritar "Back To The Future! Back To The Future!" ou apenas "B.T.T.F."? O último ficaria pequeno, mas eles não gostaram. Então, a partir de uma conversa depois de várias cervejas e de ver o famoso filme, algum dos quatro deu a grande ideia.
McFly. Simples, "maneiro" e era algo sobre o filme.
Começaram a escrever suas músicas, gravaram demos em CDs e mandaram para todas as gravadoras de Londres. Corriam atrás até do faxineiro da gravadora para fazê-lo entregar uma cópia aos seus chefes. Depois de tanta correria e persistência, e de um teste, claro, começou a preparação para o CD e foram chamados para o festival. Foi um sucesso, claro, vocês já sabem da história.
Entrar na vida musical não é fácil. Talvez seja se você for filha do Will Smith, mas pra quem não tem um parente sequer relacionado à música, é difícil demais. Mais uma vez, se você tiver contatos, o desgaste não é tanto. Mas nem todos têm essa sorte. Se você mora longe de um grande centro e não tem contatos, só o talento não basta. Sorte. Tem que ter muita. A história é de quatro garotos, sem contatos, recém formados no High School, sem dinheiro, melhores amigos e uma banda. Eles formavam McFly, e estavam hospedados em um hotel no centro de Londres à procura de uma chance para mostrar o que realmente amavam fazer: música.
- Agora o que precisamos fazer é entregar esse CD pra alguém da gravadora.
- Eles têm que gostar desses demos.
Os quatro estavam dentro de uma Starbucks, se protegendo contra o inverno londrino enquanto resolviam o que deveriam fazer primeiro naquele dia.
- Vamos direto à gravadora, então. – disse não entendendo a dificuldade dos outros tomarem a decisão.
- , você sabe que não é tão fácil assim. Bandas vão lá o dia inteiro fazer a mesma coisa. Mas né, não custa tentar.
Então a banda resolveu ir até a gravadora. Depois de olharem o caminho que devia ser feito, pegaram dois ônibus e o trem e chegaram à rua que procuravam. Com olhares confiantes, entraram no local e foram barrados por uma recepcionista. Ao falarem seus interesses em mostrar o CD, a mulher começou um discurso de como várias bandas os procuravam pra fazer o mesmo e que a única coisa para facilitar era colocar o CD deles junto com todos os outros à espera. Ninguém poderia dizer quanto tempo isso iria durar. Depois de um educado "não, obrigado" e ver um homem de terno seguindo para o estacionamento, os meninos entenderam que precisavam mais do que uma ida à gravadora. O melhor a ser feito seria procurar pessoas com cargos lá em cima que poderiam ajudá-los de verdade.
A primeira tentativa falhou, a segunda de falar com o homem de terno também. Mas estavam confiantes. Depois de quarenta minutos em frente à portaria do prédio da gravadora, viram uma mulher de uns trinta e sete anos saindo apressada e falando no telefone. Sorriram com as informações que escutaram. Pelo jeito, Blake, um cara com um cargo alto, estaria num jantar no restaurante mais famoso de Londres à noite. Era a oportunidade perfeita para eles entregarem o CD com as demos.
À noite, arrumados com suas melhores roupas, o quarteto seguiu para o restaurante. Sentaram-se numa mesa nos cantos, não foi difícil ver a mesma mulher que saíra às pressas da gravadora junto com mais três homens. No canto em que estavam era fácil observar quem chegava e conseguiram ouvir perfeitamente quando um senhor de idade perguntou ao gerente onde estava a mesa com seus amigos, era o tal Blake. , o escolhido para conversar como homem, aproveitou enquanto o mesmo não chegava em sua mesa ainda, e o parou logo na entrada.
- Mr. Blake, quanto tempo!
O senhor parou por um instante para observar e, meio sem graça, respondeu:
- Ah, claro...
- .
- Isso, , o que faz aqui?
sorriu antes de responder, fingir que já conhecia o homem estava dando certo.
- Estou comemorando com a minha banda. Ah, falando nisso, estou com o CD das demos aqui, lembra que o senhor falou que queria dar uma olhada?
- Que maravilha, muito obrigado. Vou escutar hoje mesmo. – o senhor disse sorrindo educado e pegando o CD.
- Mas tenho que ir agora, a gente se vê por aí... Drake.
estava radiante, com um sorriso no rosto voltou a mesa. Agora sim a McFly estava comemorando, e com razão.
Depois de exatos nove dias, os quatro receberam uma ligação. Estava marcada a primeira reunião com a gravadora.
- Hey, dude, não precisa ficar nervoso.
implicava com o amigo , que estava com o rosto na cor entre o vermelho e roxo.
- Cara, nós vamos conseguir gravar o CD. Ou então, por que nos chamariam aqui? – completou. Mas continuava com aquela expressão estranha no rosto, como se com um passo falso, ele desabaria no chão.
- Eu sei, eu sei, tá? Mas não consigo. Eu não tô me obedecendo, se é que isso é possível.
Os amigos apenas riram e mudaram suas atenções para outras coisas aleatórias enquanto esperavam para entrar na sala de reunião.
- Agora é a hora, guys. Boa sorte para nós. - disse ao ver a secretária os chamando para segui-la pelo corredor. Ao entrar na sala, aquele cheiro de ar condicionado só fez ficar mais nervoso ainda. "Relaxa, você é o cara", dizia ele em pensamentos. Os chefões da gravadora estavam lá, inclusive o senhor Blake com um semblante amigável, parecendo o Papai Noel, com mais algumas pessoas que ele não saberia dizer quem são ou o que fazem. A reunião começou, e o nervosismo passou, para a sorte de todos. Com relaxado, eles não corriam o risco dele falar merda, como sempre fazia quando estava nervoso.
Depois de três horas a reunião foi finalizada. Os meninos respiraram aliviados, mas não conseguiam levantar das cadeiras assim como os outros funcionários. Era difícil de acreditar, a McFly ia mesmo gravar o ansiado CD. Um olhava para o outro, e chorou demais, apesar de negar todos esses anos depois da reunião. Mas na verdade, todos ali queriam chorar, talvez estivessem esperando um momento sozinhos para fazê-lo de verdade. Depois de um aperto de mão com os chefes, eles foram para casa onde moravam juntos. No caminho, ligaram para todos os familiares e amigos próximos. A casa dos quatro não era daquelas mansões, mas com certeza teria um espacinho para todos os convidados, tinham que comemorar.
Conversaram com todos, era evidente a animação e felicidade dos meninos e dos convidados. Eles tinham talento e mereciam, e, vamos combinar, entrar nesse ramo não é nem um pouco fácil, uma coisa que ajuda muito é sorte. Eles se achavam os mais azarados até aquele momento, mas até isso estava mudando. Ainda bem.
Fizeram até um show particular, tocaram as músicas e até improvisaram umas paródias. Essa sim era o verdadeiro McFly, cheios de energia e mostrando para todos o seu talento, o que eram capazes de fazer naquele mini palco montado na sala. Todos foram dormir com um sorriso no rosto. E depois de acordar e ver toda a bagunça que teriam que arrumar, eles nem ligaram. Aquilo era a prova de que não fora apenas um sonho. Era a prova de que o sonho saiu de suas mentes e estava tornando realidade.

TODAY

Ri com a lembrança. Tinha umas coisas que me contava daquele dia, mas vamos combinar que homem exagera. Ah, quem diria que os quatro nadaram pelados na frente de todos? Ok, eles realmente fariam isso, é, devem ter feito.
- Do que você tá rindo?
Pulei de susto ao ouvir a voz dele ao meu lado.
- Nada, só tava tentando imaginar a festa de comemoração que vocês fizeram depois da reunião pro primeiro CD.
Embolei nas palavras até conseguir dar um sentido a ela. deu um sorriso de lado como se estivesse lembrando do dia.
- É, a água da piscina tava gelada.
Nos olhamos por alguns segundos sem conseguir abrir a boca para falar algo. Ele parecia tão... Calmo. Mas não seria eu que tocaria no assunto de hoje.
- Você quer conversar? – ele perguntou.
- Sobre...?
- Você sabe, . A minha conversa com os meninos.
- Só se você quiser falar sobre isso, você quer?
- Não é o meu assunto preferido, mas... Tá difícil. Tipo, a situação da banda tá bem complicada. Estamos com alguns problemas entre a gente, na amizade. E isso não seria bom pra banda nem para os fãs.
- Mas tava tudo tão bem antes no churrasco... – falei sem entender nada.
- Isso foi antes de colocarmos alguns assuntos na mesa.
- Tudo?
- Não. Tem coisas que cada um precisa resolver sozinho antes de falar com os outros.
Na hora me lembrei de sua conversa com . Fiquei numa disputa interna se eu deveria ou não perguntar.
- Você não vai me perguntar sobre a minha conversa com ? - perguntou e eu o olhei, assustada. - Eu lembro que já te falei que você é uma péssima atriz e nem fingir que tá dormindo você sabe.
- Oh, , desculpa, eu... É sério, eu, desculpa, eu não queria ter ouvido, mas só ouvi o final. Eu...
- Relaxa, não era pra você ouvir a conversa, mas fazer o que né?
- Mas você não vai me falar sobre o que é?
- Não.
- Droga, . Tem algo errado e você nem me fala. Como vou ser uma boa esposa sem te ajudar? Merda.
- Você já é uma boa esposa. Mas isso é coisa minha e dos caras.
- Mesmo assim. Que merda.
colocou sua mão em cima da minha mais próxima dele antes de começar a falar.
- Já que você ouviu tudo, deve ter percebido que eu sei algo que o fez.
- Sim.
- Então, . É assunto do meu amigo, eu não posso contar pra ninguém.
- Mas eu sou sua esposa.
- Eu sei, amor... Mas tudo tá ficando bem, fica tranquila.
Eu não sabia o que falar, nem o que pensar, então não hesitei quando ele me abraçou de lado. Tudo estava... Tranquilo, não bem, até que o celular de tocou e eu senti seus braços rígidos. Depois de respirar fundo, ele pediu licença e saiu para atender. Eu imaginei que seria a mesma pessoa que o liga já tem uns tempos, e apesar da curiosidade de ir escutar a conversa dele, eu apenas me dirigi para o andar de cima, ia ler uns emails do trabalho antes de dormir. Tinha quase uma hora que eu lia e relia arquivos que me mandaram para resolver, e nada de . Resolvi ligar para :
- Tá difícil, .
- O que aconteceu?
- Tudo, oras. Mas... Eu to chegando no limite. Eu não aguento mais. Eu cansei dessa merda que tá acontecendo na minha vida. tá feliz comigo, tá bravo comigo, é fofo comigo, é um ogro comigo. Cansei. Chega.
- Não diga isso, .
- Mas é a verdade, eu não sei o que tá acontecendo pra ele ficar tão agitado e ao mesmo tempo tão quieto, o que será que ele fez de errado, amiga?
- Ah, ... Olha, eu li um texto na internet há um tempo e queria que você desse uma lida, tá?
Antes que eu pudesse responder, entrou no quarto com o rosto vermelho. Queria que fosse raiva, porque não quebraria tanto o meu coração como ver ele entrando com o rosto vermelho e inchado de tanto chorar. O segui com o olhar até ele se deitar ao meu lado na cama, dar um beijo na minha testa e fechar os olhos. Nem reparei que eu tinha um novo email. Quem dera se eu não tivesse lido aquilo nunca.
- , por que você me mandou um texto sobre isso? – perguntei cochichando sem querer falar sobre o que realmente o texto falava. Louca! Isso sim que minha amiga era, louca! Talvez nem tanto assim, mas eu conhecia muito bem esse assunto, só não queria acreditar que ela havia me mandado aquilo. "Drogas e traição". Não era o nome do texto, mas falava sobre isso.
- ? - repeti em vão, minha amiga tinha desligado o telefone há tempos.

Capítulo betado por Tami Tifer

Capítulo 9

Deixei o telefone no criado-mudo, com uma inquietação crescente dentro de mim. Massageei meu rosto, cansada de toda essa situação. Eu me imaginava viajando para algum lugar, sozinha, só para pensar na vida. E isso não parecia longe de acontecer, uma fuga. Sempre fui medrosa, sempre. Mas por outro lado, sempre tentei parecer forte. Toda essa mistura de acontecimentos e sensações estava me destruindo pouco a pouco. Eu me olhava no espelho às vezes e via outra . Aquela no reflexo não podia ser eu, como eu deixei chegar a esse ponto? Me virei para o lado dando de cara com , era outro que estava acabado. Se ambos estávamos sofrendo, por que isso acontecia? Digo, por que brigarmos se isso machucava nós dois? Aí eu penso nas coisas a mais que estavam envolvidas e que eu nem sequer sabia sobre o que eram. Se o assunto era sobre , eu me perguntava o porquê de estar sofrendo tanto. Pelo que eu saiba, nenhum dos outros casais estão em crise. Só nós dois. Justo nós dois. Me peguei pensando no email que minha amiga havia me mandado. Outro assunto para me perturbar. Outro assunto que eu gostaria de manter esquecido em minha mente.
Vocês devem imaginar, mas eu te garanto: vida de famoso não é fácil. A falta de privacidade é de deixar qualquer um louco, sem contar as calúnias contadas em revistas, programas de fofoca na televisão, etc., já foi alvo dessas notícias, inúmeras vezes. Ele não soube administrar no início. Então vocês já devem imaginar o recurso que muitos famosos usam pra se esquecer um pouco da realidade. Sim. Drogas. Meu marido não é nenhum santo, eu não sou nenhuma santa.
Quando o conheci no camarim, e até no início de nossa amizade, eu não fazia a mínima ideia de que isso realmente acontecia com o meu melhor amigo. Apesar de parecer meio rebelde às vezes, apesar de sair com para bares e apreciar uma boa bebida alcoólica, eu nunca havia experimentado uma droga ilícita sequer. Na verdade, eu odiava qualquer tipo de droga, por isso, talvez, fazia questão de esconder seu vício de mim. Até que eu decidi "aprender coisas novas", esquecer as coisas que eu odiava, ter novas experiências, enfim, tudo uma grande merda. Comecei por aquele final de semana em que me ensinou a fumar, e semanas depois, meu melhor amigo me apresentou seus amiguinhos, ou melhor, seus vícios. A minha maior felicidade nisso tudo foi que eu realmente odiei tudo que experimentei. Mas a história era diferente com o integrante da McFly, que usava as drogas pra esquecer os problemas da fama. Depois de um choque da realidade, um banho de água fria, decidi que iria fazer de tudo para que ele acabasse com o vício. Foi difícil, mas eu consegui, antes mesmo do nosso noivado. E só de imaginar que toda aquela situação podia estar acontecendo de novo, me dava arrepios. Não podia estar acontecendo. Eu não aguentaria tudo outra vez, eu não aguentaria mais isso em toda essa crise. Eu tinha medo por , pelos meus filhos, e por mim. Mas acima de tudo, eu pensava em Charlie e Ben, os meus "bebês" vinham acima do meu casamento, até de e com certeza, acima da minha própria vida. Caso a situação das drogas voltasse, o que eu espero que não aconteça, eu desistiria de tudo, menos dos meus filhos. Talvez eu largasse meu marido, se fosse necessário, apenas para garantir que Ben e o Charlie tivessem uma vida digna sem precisar presenciar qualquer coisa contra essa arma que acabava com tantas vidas.
Resolvi tirar o dia de folga dos problemas, sabia que se acordasse e visse que estava sozinho em casa, ele iria pra casa de um dos meninos. Era assim até com os outros, que de vez em quando apareciam por aqui porque acordaram sem suas mulheres em casa. Decidida, troquei de roupa rapidamente, fiz um café da manhã e acordei os meninos.
Charlie comia suas torradas com geleia tão distraído que eu podia imitar todos os personagens da Disney e ele nem me notaria. Já Ben parecia tão irritado e impaciente, que piscou um alerta em minha mente com medo de algo ter acontecido na escola.
- Ben, amor, tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Ele me ignorou completamente, ainda com a cara emburrada.
- Onde você vai depois que deixar a gente na vovó?
Charlie perguntou e eu até levei um susto.
- Tava pensando ainda, talvez eu chame a pra ir ao shopping. Vocês querem ir?
Charlie acenou com a cabeça mostrando que queria ir, já Ben apenas olhou nos meus olhos e disse um "não" seco e sério. Eu precisava ter uma conversa séria com esse menino.
- Bebê, por que você não vai no seu quarto escolher uma roupa bem bonita pra gente ir no shopping então?
- Só se você não me chamar mais de bebê, já sou um menino grande. - Disse Charlie fazendo um bico gigante e aumentando minha vontade de ir apertar sua bochecha. "Relaxa, amor da mamãe, até quando você tiver 37 anos e com seus filhos pra criar, eu vou te chamar de bebê", eu quis dizer isso mas imaginei as horas que ele ficaria emburrado.
- Então tá bom, campeão. Vai lá que a mamãe tem que ter uma conversa séria com seu irmão.
Esperei Charlie sair correndo para o andar de cima enquanto dizia que ia escolher a camisa de algum super-herói e me virei para o mais velho.
- O que tá acontecendo, Benjamim?
- O que tá acontecendo, ?
Um, dois, três, quatro, cinco...
- O que você disse?
- Nada, mãe.
- Olha, Ben... Eu realmente não sei o porquê desse seu showzinho barato, mas se for pra continuar com essa cara, você nem vai sair com a gente e fica hoje com o seu pai.
- Não queria sair com você mesmo.
Dito isso, o menino saiu subindo as escadas. Eu fiquei atônita, procurei algum motivo para a reação de Ben, mas na minha atual situação, não iria me preocupar com isso, não agora. Chamei Charlie e fomos para a casa da minha amiga, havia perdido toda a vontade de ir ao shopping. Sem contar que aproveitaria a privacidade da casa de para conversar com ela.

YESTERDAY

Devia ter no mínimo uns vinte e cinco minutos que eu tentava ligar para . Eu estava desesperada, como já devem ter percebido. Tive que deixar o meu orgulho e raiva de lado, para prestar o meu papel de melhor amiga. Mas já deixo claro que é minha última tentativa, e não estou me referindo aos telefonemas. O poço é bem mais fundo do que parece. Era minha última tentativa de salvar , sim, salvar. Aquele idiota, que merece palavras muito piores do que essa, sumiu, desapareceu, evaporou há três dias. Um alerta piscava em minha mente, mas eu tentava ignorar a hipótese mais óbvia: meu melhor amigo não aparece porque está drogado. Eu andava de um lado para o outro na pequena sala do meu apartamento, estava tentando falar com os outros meninos, mas eles não tinham ideia do paradeiro de . Por que você faz uma coisa dessas com a gente, ? Desgraçado. A campainha tocou uma, duas, três, quatro vezes seguidas, assustando a mim e a minha amiga. Depois de respirar fundo, andei até a porta temendo a pessoa que estaria do outro lado. Ansiava que fosse para acabar logo com esse sofrimento, mas temia o estado em que ele se encontrava, e se ele realmente estivesse drogado, seria difícil de aguentar. Eu estava atônita diante da seguinte cena: encostado na parede em frente ao apartamento, seus olhos vermelhos, seu cabelo bagunçado e barba mal feita. Nada sexy, pela primeira vez o vi sem estar nada pouco sexy, na verdade, só consegui pensar em duas palavras: pena e nojo. Ele tentava se comunicar comigo, mas eu o evitei e nem olhei em seus olhos, apenas o direcionei ao banheiro e o deixei lá. Depois de avisar aos meninos e pedir que eles viessem buscá-lo, deitei em minha cama e comecei a chorar. Aquilo estava insuportável, e já tinha meses que eu tentava ajudá-lo, sei que não é algo que muda da noite para o dia, mas eu estava cansando. Sempre soube que ele usava essas coisas, e sempre falei que ele devia parar com isso. sempre foi meio fraco em relação à fama, precisava muito do apoio dos amigos e família, porque não sabia lidar com certas coisas. A última matéria em uma revista, que foi justamente sobre ele e o uso de drogas, publicada há umas semanas, só fez piorar a situação. Eu já não via meu amigo constantemente, ou então ele me ligava no meio da madrugada pedindo ajuda, carona, falando coisas sem nexo ou até mesmo pra falar "te amo" e desligar na minha cara.
- Eu não quero ir embora, meu lugar é aqui.
Ouvi falar e saí do meu quarto para entender o que estava acontecendo. , e estavam sentados em cadeiras enquanto estava quase deitado ocupando um grande espaço no sofá e estava em pé de braços cruzados, parecendo uma mãe furiosa, e olha que nunca havia visto minha amiga tão séria.
- , nós só queremos que você fique com a gente até você melhorar, depois você volta pra cá. Você não acha que a merece descansar um pouco? Ela estava tão preocupada, todos nós estávamos. Estamos.
falava sério e devagar, como se estivesse conversando com uma criança. Argh, estava tão difícil. Foquei meu olhar na parede branca da sala, ou eu desabaria ali mesmo e naquele exato momento.
- Ok...
A voz de foi falhando, parecia que ele não dormia desde a última vez que o vi, há exatos três dias, depois de uma briga nossa. Ele tentava lutar contra o sono, piscava os olhos frequentemente e cada vez mais lentamente. Depois de fazer um sinal com a mão para eu me aproximar, consegui fazer uma leitura labial, ele não emitiu som algum, mas foi bem claro o que disse pra mim. Meu coração apertou depois de suas palavras: Save me, please. Depois disso, ele fechou os olhos e dormiu. Então, como já devem imaginar, aquele famoso clima tenso e silencioso se instalou pelo cômodo. Cada um, a seu jeito, se mostrava preocupado, seja passando as mãos descontroladamente pelos cabelos como e faziam, ou passar a mão no rosto numa tentativa falha de massagear o local como e . Ou então, tinha eu, que não conseguia evitar as lágrimas que escorriam pelas minhas bochechas, sem emitir um soluço sequer. Devo ter perdido a conta de quantos minutos ficamos desse jeito, mas o silêncio foi quebrado com o telefone tocando. Era a mãe de . Todos se olharam por um tempo, mas é claro que se voltariam para mim e eu que teria que comunicá-la sobre o estado do seu filho. Passei a mão nas bochechas violentamente, tirando todo o resquício de lágrima.
- Alô?
Não sabia que minha voz estava tão trêmula. Merda, vou assustá-la.
- , querida? Tá tudo bem? Acharam o ? Oh meu Deus, o que aconteceu com ele? Por favor, me diga.
- Calma, Mrs. , está aqui, o achamos, na verdade, ele apareceu aqui em casa mas agora está dormindo.
Esperei um pouco porque já imaginava a reação da mãe do meu amigo, e em poucos segundos, pude ouvir seus soluços.
- Ele... Estava... Naquele estado?
Lutei internamente entre dizer a verdade ou mentir.
- Ah, não estava em perfeitas condições, mas não tão ruim quanto daquela vez. Pode ficar tranquila que os meninos estão aqui, mas se a senhora quiser, podemos levá-lo para sua casa depois.
- Ah, por favor, era mesmo o que eu queria pedir. Mas não precisa ter pressa, deixe-o descansar, e depois peça para algum dos meninos trazê-lo para cá.
- Pode deixar.
- Muito obrigada, . Você sabe que sempre a adorei e não sei como agradecer tudo o que faz pelo meu filho. Sei que ele pode ser difícil às vezes, mas eu sei que ele se importa muito com você, eu sei. Obrigada.
E sem esperar eu ao menos agradecer pelas palavras, ela desligou. E ao olhar para ainda deitado no sofá, eu só conseguia me perguntar: O que vamos fazer agora, ?

Continua...

Nota da Autora: Hola! Depois de TANTO tempo, resolvi aparecer... Não vou pedir desculpas pela demora, na verdade, vou pedir desculpas pela qualidade do cap... que tá horrível, eu sei, então, desculpa! É tanta coisa que eu tenho que falar nessa n/a que eu to até confusa por onde começar... Tive o pior bloqueio da minha vida, eu não escrevia desde >>> Janeiro, j a n e i r o, j-a-n-e-i-r-o. Então vou falar o pq: Tem alguém ai no terceiro ano? Tem alguém ai que já passou do terceiro ano?? Então vocês vão me entender, terceiro ano é uma merda, os professores só sabem falar de vestibular, você só PENSA em vestibular, a aba de favoritos do mozilla só tem coisa de vestibular, é uma loucura!!! E tem mais: moro numa cidade pequena q n tem um cursinho decente, ou seja, vc tem q estudar por conta própria. Mas qm dera se isso fosse meu unico problema, e as outras coisas que tão acontecendo, tão me impedindo de estudar pq to sem cabeça. Desculpa pelo desabafo, mas sei lá, precisava me explicar... Enfim, to com dois, três, quatro, cinco problemas meio sérios e pessoais. Minha cabeça/vida tá uma loucura... Então desculpa pela ausência E pela péssima qualidade dessa primeira metade do capítulo 9. N sei se tem alguém lendo isso, mas se tiver, só peço que tente me entender, não vou abandonar Yesterday, nunquinha, mas a minha situação não tá fácil, então talvez eu continue demorando com as atualizações, mas prometo tentar, pelo menos, melhorar a qualidade da história. É pedir demais pra que 2012 acabe????? Já tava quase no final do cap. 9, ia mandar ele inteiro, mas o final n tá saindo do jeito que eu queria, então resolvi mandar a primeira parte.
No geral, obrigada a TODOS que estão lendo, que não desistiram da fic, que gostam dos personagens, que acham o Charlie e o Ben super fofos, que têm raiva do principal e da principal e quer que tudo acabe logo hahahhahah Obrigada tb a todos que comentaram, eu abro um sorriso de orelha a orelha quando leio <3 Sei que falei que ia responder os comentários em todas as att, mas achei melhor responder na próxima att, quando o cap. 9 estiver completo.
Ah, alguém me indica um livro bom??? Eu acabei de ler Liberte Meu Coração, da Meg Cabot e to apaixonadissima pela história, é um livro de época e nhonhonho <33333333333 #apaixonadissima
O engraçado foi a coincidência que justo quando eu terminei de ler a fic A Cortesã (q eu tb to apaixonadissima pela historia), eu comprei o livro sem saber q era de época tb, e enfim, to viciada em historias de época pq é mt amor <3
Outra coisa (ultima coisa, prometo hehe), leiam a fic Smiles, da Mah Guidella, pq é tão lasdklçaskd qque dá vontade de apertar.
BY THE WAYYYYY, Yesterday finalmente vai ter uma capa <3 Espero que na proxima att, ela já esteja pronta. Então... MUITO obrigada Mariah e Thamyres.
Acho que é só isso :3 Vejo vocês logo (espero hehe), e comentem, nem q seja pra me xingar hahahhahahhaha
Hasta La Vistaaaaaaaaaaa
Ju



Nota da Beta: Qualquer tipo de erro encontrado nessa atualização, contacte-me por e-mail, não utilizem a caixa de comentários. Obrigada, espero que gostem da fic. XX

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