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Última atualização: 23/11/2020

Capítulo 1

Ser a bruxinha mal desenvolvida da academia realmente era um saco, meus pais tentavam me animar dizendo que era normal a dificuldade em alguns feitiços, mas isso realmente não compensava as brincadeiras e os sussurros toda vez que eu falhava em algum teste. , você esqueceu das palavras?”, “, você está aqui há tanto tempo e não consegue nem fazer o básico.”, “, você realmente não consegue lançar um simples feitiço de proteção?”, “Claramente só está aqui porque seus pais são importantes.”
Talvez eu ainda estivesse aqui por causa da influência de meus pais, mas não sabia porque era tão bloqueada. Até mesmo as mestiças me passavam e olha que diziam que mestiças tinham menos capacidade do que bruxas normais. Talvez eu fosse um caso perdido e não fosse evoluir mais do que isso.
Existiam três espécies de bruxas: as que recitavam feitiços recolhendo poder de outras fontes, as que realmente tinham poderes fora a habilidade de feitiços e as que não precisavam recolher poder de outras fontes para fazerem feitiços grandiosos. Vampiros, lobisomens e outras coisas assim não existiam pelo que todos sabiam, mas por conta de meus romances, eu realmente torcia para que existissem sem o nosso conhecimento.
Enfim, os estágios eram dos menos poderosos ao mais poderosos. E o estágio mais poderoso era das bruxas que não precisavam recolher poder, elas eram muito raras e haviam poucos dessa espécie pelo mundo. O segundo estágio era das bruxas que tinham poderes fora a habilidade de lançar feitiços, também era raro e eu nunca havia conhecido uma, então isso levava a acreditar que a academia era composta somente por bruxos e bruxas do estágio três.
O que era a academia afinal? Ela não tinha um nome fixo porque era meio confidencial, então eu só chamava de inferno mesmo. Um colégio de treinamento para bruxas, eles aceitavam bruxas de todo o mundo e os humanos meio que não sabiam da nossa existência, o que um feitiço de proteção e ocultação resolvia. Só bruxas viam a barreira e somente bruxas conseguiam atravessar. A academia era localizada na Noruega, onde eu havia passado a maior parte da minha adolescência, mas eu sou americana, nascida e tirada de lá com meus 13 anos. Meu grupo de amigos também falavam inglês, composto por australianos, canadenses e americanos, porém, todos conseguiam conversar na academia por causa do feitiço de tradução lançado ali, eu preferia não falar com ninguém além dos meus amigos então não agradecia pelo feitiço.
Eu com certeza não era boa com magia, então lutava para compensar e era muito boa naquilo pelo menos, bruxas com potencial realmente não precisam saber lutar, então lutar era meio que um segredo meu para não ser ainda mais rebaixada. Os únicos que sabiam que eu gastava meu tempo com aquilo eram meus pais e meus amigos.
- Terra para ? Está aí? – questionou balançando as mãos e eu respondi com um resmungo.
- Não sei porque você não está comemorando, não trombou com Alexia o dia todo. É uma vitória! – Marcos disse levando uma batata frita para boca. Estávamos no refeitório e era muita sorte mesmo que Alexia e suas marionetes não tinham vindo me encher o saco.
- Correção, ela não trombou comigo. Ela que vive me seguindo. – Respondi com um tom de irritação e todos na mesa concordaram. – Não sei o que ela tem contra mim, de verdade.
- É inveja, . – Allie disse parecendo ter certeza e eu ri alto.
- Inveja? Ela é a melhor da sala e tem pais ricos. – Rebati seu comentário e Lily também se interessou pelo assunto.
- pense bem, você é linda, seus pais tem uma posição maior do que os dela, e seus amigos são ótimos. Ela tem inveja do tanto de amigo bom que você tem. – Pareceu brincar no final e eu sorri.
- Não acho que seja por isso, mas tudo bem. Ela só me enche o saco porque sou uma bruxa horrível, ela me rebaixando faz com que seus triunfos pareçam ainda maiores. Se chama complexo de inferioridade. – Respondi com a minha lógica e todos na mesa suspiraram.
- Você sabe que Alexia proíbe as pessoas de chegarem perto de você, né? Principalmente os garotos, todos querem te chamar pra sair, mas não tem coragem de enfrentar a vadiazinha. – deixou os olhos fixos no próprio prato e eu ri passando meu braço por seus ombros. De todos ali ela era minha melhor amiga, desde quase sempre.
- está falando a verdade, até eu tinha um crush em você garota. – Lily piscou tentando me animar e eu pisquei de volta.
- Bom, não importa. Minha próxima aula é de Controle de Elementos, vou ter que “trombar” com Alexia. – Respondi um pouco desanimada e Oliver fez uma feição de solidariedade.
- Minha próxima aula é de Compulsão, vou ter que lidar com a Katherine. – Leo fez uma careta e eu ri apontando para ele.
- Isso é o que você ganha por dar o perdido nas garotas. Você já ouviu falar em término amigável? – perguntei sarcástica e Leo olhou para meu rosto sem divertimento nenhum.
- Você sabe que não existe tal coisa. Não se lembra do Liam? – questionou rebatendo e eu perdi um pouco da confiança. Liam era meu ex namorado, que havia me deixado por Alexia.
- Leo, isso foi bem babaca da sua parte. – disse me abraçando como se pudesse me proteger e eu neguei com a cabeça.
- Ele tem razão, eu não deveria ter me intrometido. – falei um pouco baixo e Leo pareceu se sentir arrependido.
- Me desculpe, eu só estou estressado. Vocês sabem como Katherine é louca. – Tentou contornar o momento com uma piadinha e o clima ficou estranho. Era só dar um tempinho, eu conhecia meu grupo de amigos.
Oliver, , Lily, Allie, Marcos, Leo e eu éramos praticamente inseparáveis, a única coisa que me deixava bem naquela academia eram eles, o único motivo de eu ainda não ter desistido. Oliver era australiano, loiro de olhos verdes e magrelo, tinha entrado a pouco mais de um ano na academia, ele era o mais velho de todos, mas quase sempre esquecíamos disso, 23 anos realmente não se encaixava com o perfil de Oliver.
Allie era canadense, seu cabelo era curto e de um castanho como madeira, seus cabelos eram um pouco ondulados e seu sorriso era perfeito, estava na academia já fazia quatro anos e meio, tinha 21, mas tinha o espírito de uma criança, o que amávamos nela. Marcos era canadense também, tinha a cabeça raspada e seu rosto era bem comum, olhos castanhos, branco, nada marcante a não ser a personalidade, estava na academia já fazia três anos e tinha 20. Lily era australiana e tinha os cabelos loiros escuros em um cumprimento médio, seu rosto era praticamente o de um anjo e seus olhos eram cor de mel, estava aqui o mesmo período que Marcos e tinha a mesma idade que Allie. Bom, Leo o mulherengo tinha o cabelo escuro e liso, seus olhos eram azuis e sua pele branca, estava aqui fazia quatro anos também, já havia tentado algo com todas as meninas do grupo, mas infelizmente, não tinha conseguido nenhuma das quatro, tinha 22 anos.
E finalmente , a outra americana e minha melhor amiga, ela tinha uma beleza única e eu sempre a comparava com a Branca de Neve mesmo que seu cabelo não fosse curto. Ela era branca e seus cabelos eram de cumprimento médio também, com cachos pretos. Suas feições eram delicadas assim como seu corpo e seus olhos eram bastante brilhantes, ela estava na academia havia cinco anos e meio, mas fomos nos tornar amigas no segundo ano dela, e agora ela havia completado 20 anos.
Eu era a mais nova do grupo, tinha 19 anos. Eu sempre me pegava pensando que era a mais sem graça, em aparência e em personalidade... mas vamos à minha descrição, eu não era sempre insegura, era uma coisa que variava de dia para dia. Meu cabelo era grande e liso, de uma cor bastante escura, meu rosto era um pouco bronzeado e tinha os cílios bastante grandes, “olhos delineados” como minhas amigas diziam e bochechas um pouco cheias. Meu nariz era o que eu menos gostava no meu rosto, eu achava ele gigante, mas minhas amigas sempre tentavam me tranquilizar dizendo que era coisa da minha imaginação, meu corpo até que era legalzinho e por causa da luta estava em forma, mas eu tinha seios e bunda grandes, o que às vezes me atrapalhava e às vezes me dava bastante confiança, minhas pernas... Eu particularmente gostava delas.
O sinal estava tocando então todos nós fomos para nossas respectivas aulas, quando entrei em minha sala não havia quase ninguém, o que me aliviou na verdade. Hoje estava bastante nublado e eu odiava dias nublados, me trazia uma sensação ruim, como a de solidão. As vezes não entendia o propósito da academia, era para treinamento, ok. Mas para que? Haviam lendas de que antigamente o mundo era infestado de monstros e seres sobrenaturais, mas se haviam sido extintos qual era o propósito de tudo aquilo? Lutar contra algo que já havia sido derrotado soava bastante chato para mim.
Alunos começaram a chegar e os sussurros sobre como seria meu desempenho naquela aula começaram, como sempre acontecia.
- Boa tarde alunos, vamos começar nossa aula de Controle de Elementos agora. – Professora Aimee estalou os dedos e os elementos em potes apareceram em sua mesa. – Primeiro, algo simples. Quem pode me dizer como recitar o feitiço da água?
A maioria das pessoas levantaram a mão, mas os olhos da professora pararam em mim e eu estremeci, sentindo meu coração bater mais rápido. Eu lembrava de como recitar o feitiço, mas se ela me pedisse para tentar fazer, eu iria falhar.
- , você sabe? – questionou com um tom firme e eu concordei com a cabeça lentamente. – Então venha aqui e tente.
- Mas, professora... – tentei dizer sabendo o tamanho da minha sorte, mas só com um olhar de Aimee desisti e parei em frente à mesa.
- Se concentre e desligue tudo nessa sala, fora a água. – Eu não conseguia fazer aquilo, as risadinhas no fundo da sala, a pressão da professora. Eu não conseguia me concentrar.
- Vocabo aqua. – Recitei o feitiço simples tentando focar na água, mas nada aconteceu, então suspirei e tentei mais uma vez. – Vocabo aqua...
- Você tem que se concentrar . – Aimee repetiu e eu quis gritar, ela não estava me ajudando.
- Vocabo aqua. – falei ainda mais baixo e a água estremeceu, não fazendo mais do que isso. - Pode voltar para sua mesa . – A professora permitiu e eu voltei quase correndo, não querendo que o uniforme balançasse.
Eu odiava o uniforme da academia assim como odiava quase tudo nela, o uniforme era bonito, mas eu não gostava de como eu ficava nele. O uniforme era composto de uma saia xadrez com tons de azul e preto, que batia um pouco acima do joelho, uma camisa de botões branca de manga comprida e um blazer azul escuro. Tinha dias em que o uso do uniforme não era obrigatório, o que eu agradecia muito, o problema era que os dias eram pouquíssimos.
- Você não consegue nem fazer um feitiço simples de elemento? Seus pais devem ter vergonha de você. – Alexia sussurrou em meu ouvido e eu me virei sem paciência.
- Alexia, porque você não cala a boca, hein? Meus pais têm muito orgulho de mim porque eu não gasto o tempo que tenho sendo uma vadia com as outras garotas por nenhum motivo aparente. – respondi com uma voz baixa e Aimee aparentemente viu.
- , além de atrasada no conteúdo você quer perder seu tempo brigando com as garotas do colégio? – chamou minha atenção e eu neguei com a cabeça, decidindo que o estresse eu descarregaria mais tarde, em um saco de pancadas.
- Você só late, . – Alexia sussurrou mais uma vez quando a professora se virou e minhas mãos se apertaram ao redor da mesa, com tanta força que eu realmente acreditei que o material pudesse se desfazer.
A aula acabou rapidamente depois de minha humilhação para tentar fazer o feitiço de água, peguei meus livros e me levantei para sair, mas quando atravessei a porta um pé foi colocado na minha frente na intenção de me fazer cair, só tropecei e consegui me manter de pé. Me virei respirando fora do ritmo normal e vi Alexia e alguns meninos rindo, parados na porta.
- Você acha pode ser assim para sempre? Está aqui há seis anos , e não consegue sequer mover água de um potinho. Nem mesmo ser filha de bruxos poderosos irá te poupar. – Alexia ameaçou chegando perto e me empurrando com o máximo de força que tinha, me desnorteei um pouco e meu corpo foi jogado alguns passos para trás.
- Alexia, pare. Isso não é problema seu. – Respondi cansada e ela parou cruzando os braços.
- Pode ter certeza de que é. Você deveria ser expulsa, não vai mais longe do que isso de qualquer jeito. – disse saindo de perto com os garotos e eu suspirei segurando os livros como se aquilo pudesse mudar alguma coisa.
Tive quatro aulas depois daquilo e passei por todas tentando não me colocar para baixo com as palavras dela, cheguei em casa e me joguei no sofá, tentando me acalmar. O terreno que guardava a academia era quase como o tamanho de uma cidade pequena, todos tinham moradia lá, pequenas, grandes, dependia da fortuna. Meus pais tinham dinheiro mais do que o suficiente para uma casa boa.
- Como foi seu dia, filhona? – meu pai apareceu na sala e deu um beijo no topo de minha cabeça. O apelido talvez fosse cafona? Sim. Mas eu não ligava.
- Foi bem. O seu? – perguntei massageando as têmporas com os dedos e meu pai se sentou no sofá também.
- O comitê estava bastante calmo, não tivemos reunião. O problema é que sua mãe está me irritando. – Meus pais eram separados, mas morávamos todos juntos. Todos que sabiam achavam estranho, mas para mim era normal, minha família nunca tinha sido muito funcional, mas nós sempre dávamos um jeito em tudo.
- Eu ouvi isso! – minha mãe gritou do quarto e nós dois rimos. Minha mãe era complicada... preguiçosa e muitas vezes irritante, não cozinhava e só fazia a limpeza da casa.
- Ela foi trabalhar hoje? – perguntei um pouco curiosa e meu pai deu de ombros.
- Foi, mas você sabe como é sua mãe. Ela não vai sair do quarto até amanhã.
- Ela vai sair para comer e ir ao banheiro. – Respondi como piada e ele me deu um beijo no topo da cabeça novamente, se levantando.
- Eu tenho que trabalhar nos relatórios. – nos despedimos e meu pai foi em direção ao escritório, me troquei e peguei uma toalha e uma garrafa de água indo até o lugar que sempre ia para praticar.
Lutar era um dos únicos sossegos que eu tinha, uma coisa que eu era boa, uma coisa que me fazia se sentir o suficiente. Meu treinador era Luke, quem havia me ensinado vários estilos de luta e me ajudado escondendo das outras pessoas de que eu lutava. Eu era grata por ele, muito grata, mas ele não pegava leve comigo nem por um segundo.
– Vamos começar. – Luke chamou minha atenção e eu coloquei minhas coisas na mesa, indo para o círculo em que lutávamos.
- Temos mesmo que lutar? – perguntei sem estar muito no clima, eu preferia socar algo e não alguém, já estava muito irritada e queria descontar, mas não em meu treinador.
- Eu preciso avaliar seu progresso. – respondeu como se fosse óbvio e eu fiz uma careta, me alongando e me preparando mentalmente para aquilo.
- Eu não vou pegar leve. – avisei tentando não soar brincalhona e ele riu.
- Pode ter certeza de que também não vou. – disse rodando o círculo e finalmente paramos em posição de combate.
- Eu andei praticando sozinha, para a sua informação. – falei levantando os punhos e protegendo meu pescoço.
- Lutar contra alguém não é a mesma coisa.
- Vamos descobrir? – perguntei tentando fazer ele dar o primeiro passo e consegui.
Seu punho veio em minha direção, mas desviei, então ele voltou e veio de novo me dando pouco tempo para desviar, peguei sua mão e a torci tentando jogar seu braço e seu corpo para o chão, bom, não foi tão fácil e ele conseguiu se desvencilhar. Meu corpo estava um pouco de lado para o seu, ele conseguia ver minhas costas e isso me deu poucas estratégias de golpe, qualquer movimento brusco que não fosse ao favor da luta e ele conseguiria me imobilizar, então com poucos olhares decidi o que iria fazer e joguei minha perna para trás em uma circunferência perfeita, atingindo sua barriga e voltando para minha posição sem nem mesmo alterar meus batimentos cardíacos. Seu corpo acabou no chão, mas ele se levantou rapidamente, parecendo analisar o que eu faria em seguida.
- Isso foi bom. – elogiou colocando uma mão na região que acertei e eu me aproximei sorrindo, tentando tirar sua atenção.
- Eu te disse, Luke. – respondi como se tivesse me esquecido da luta e chutei mais uma vez, dessa vez frontalmente. Acertou seu peito e ele apenas tropeçou passos para trás.
- Você está ficando espertinha. – sua voz pareceu afetada por causa do chute e eu dei de ombros, aquilo estava sendo divertido na verdade.
Sua mão agarrou meu ombro e eu tentei uma cotovelada em seu braço para me soltar, isso não bastou então girei meu corpo e dei mais um chute em sua costela, um chute apenas também não bastou e eu tive que dar mais uma cotovelada em seu braço, fazendo-o se afastar e ficar parado por algum tempo. Antes que ele sequer pudesse pensar em algum golpe eu me aventurei e corri até ele, pisando em sua coxa que estava flexionada como um degrau para subir e passar minhas pernas por seu pescoço de um jeito como quando eu pulasse para o chão, ele caísse e eu ficasse em pé. Aquilo incrivelmente deu certo e eu me senti como a Natasha Romanoff da Noruega, eu tinha conseguido realizar um golpe de luta incrivelmente difícil.
- Aonde aprendeu isso? – Luke perguntou perplexo e eu ri alto, respirando ofegantemente.
- Com você, cabeção.
- Nunca tínhamos tentado isso antes. Agora estou com medo de você. – Luke se levantou arrumando a postura e eu saí do círculo, indo beber água.
- Quer lutar mais uma vez? – questionei um pouco animada com a experiência e Luke suspirou, se preparando. Ele era um bruxo bastante habilidoso com feitiços, até havia me oferecido ajuda múltiplas vezes, mas ele já me ajudava com a luta e isso era o suficiente.
- Dessa vez realmente não vou pegar leve. Se te machucar, curo você depois. – disse sério e eu fiz uma careta. - Vamos lá. – dei de ombros me preparando e daquela vez eu dei o primeiro golpe, tentando acertar um soco em seu rosto.
A mão de Luke alcançou meu pulso primeiro e ele torceu meu braço fazendo com que meu corpo se virasse e se curvasse para o chão, uma mão segurando minhas costas para que eu não pudesse me virar e a outra ainda no meu pulso, fazendo meu braço ficar imobilizado.
- Ok, me solte. – falei baixo e Luke riu, forçando meu braço.
- Não está mais tão confiante?
- Me solte, Luke. – pedi mais uma vez e senti meu corpo sendo soltado, o que quase me levou a cair de cara no chão.
Estiquei meu braço com dor e deslizei para perto de Luke rapidamente, dessa vez conseguindo socá-lo e segurando seus ombros para atingir sua virilha com meu joelho. Depois disso respirei fundo e dei um chute frontal em seu peito, o jogando para fora do círculo.
- Não está mais tão confiante? – repeti sua pergunta com triunfo e ele se levantou rapidamente, mostrando que a luta não tinha acabado.
Dessa vez começou com uma tentativa de chute de Luke, que desviei indo para trás e quase ultrapassando o limite do círculo, ele deu outro chute com o alvo de minha costela e eu me defendi colocando os dois de meus antebraços na frente, sua perna bateu neles fazendo-o voltar para a posição normal e desistir dos chutes. Seu punho veio de encontro com meu rosto e dessa vez o acertou em cheio me deixando desnorteada por alguns segundos, mas logo voltei o foco e ao mesmo tempo que sua perna levantou para dar outro chute, me abaixei por completo e deslizei minha perna no chão, passando uma rasteira em seu único pé firmado, fazendo com que seu corpo caísse no chão por inteiro.
Antes que ele pudesse se levantar em um pulo como sempre fazia, me levantei primeiro e esperei por seu golpe, que foi uma rasteira também. Para desviar de sua perna joguei meu corpo no ar em uma estrela sem as mãos, conseguindo e ficando sem tempo para ficar impressionada, enquanto Luke se levantava por completo e tentava mais um soco, que desviei jogando meu corpo para o lado.
Nossos corpos se moveram rapidamente e eu me senti em uma luta de verdade, me senti em uma dança mais do que perfeita. Socos, esquivadas, chutes e mais esquivadas, nossa dança estava em uma sincronia inacreditável e nossa música eram os barulhos que nossas bocas faziam involuntariamente sempre que atacávamos. Consegui meu ponto quando o corpo de Luke se virou o suficiente pelo soco que ele tentou me acertar e joguei minha perna em um chute acertando suas costas, fazendo com que ele caísse com a barriga virada para o chão. Ele tentou se levantar então também me sentei no chão e envolvi meu corpo com o seu em um mata-leão.
- Você quer que eu te vença mais uma vez? – sussurrei perto de seu ouvido apertando mais meus braços em volta de seu pescoço e Luke bateu as mãos no chão, desistindo e acabando com a luta.
- Você realmente evoluiu . – Luke elogiou bastante ofegante e eu apenas agradeci, pegando minhas coisas e voltando para casa.
Os estudantes da academia não podiam em hipótese alguma usar os celulares ou qualquer tipo de eletrônico nos dias de semana, eu tinha me acostumado, mas ainda era um saco ter que ir andando até a casa dos amigos para conversar sobre qualquer coisa. Tomei um banho, estudei e saí, indo em direção a casa da única pessoa que me animava em dias nublados: .


Capítulo 2

Sábados. Eu não sabia como me sentia sobre sábados, estavam tão perto de segundas e mesmo assim ainda era um alívio por ter mais um dia de pausa. A pergunta que todos faziam era... Por que não temos três dias de folga e quatro dias de afazeres? Por incrível que parecesse nem as bruxas tinham essa bênção, era uzm sonho ainda muito distante.
- , você fez o trabalho? – perguntou enquanto terminava de escrever suas anotações e eu franzi o cenho.
- Que trabalho? – questionei de volta muito perdida e riu.
- O de sociologia. – respondeu com cautela e eu me tranquilizei.
- Ah sim, mas ainda tenho que terminar o de Rituais. – Me lembrei desse detalhe e ela concordou com a cabeça, mordendo o lábio.
- Você quer fazer alguma coisa hoje?
- Como o que?
- Como jogar ovos na casa de Alexia. – Sugeriu sorrindo e eu me deitei em sua cama, suspirando.
- Eu bem que queria, mas você sabe como os pais dela são. É capaz de eles me denunciarem para o comitê e prestarem uma queixa de homicídio, contra a pintura que custou não sei quanta fortuna. – Respondi levantando as mãos como se montasse uma manchete e concordou.
- Então que tal na casa do Liam? – sugeriu mais uma vez e eu gargalhei, observando .
- Fala sério, o que tá acontecendo com você?
- Ele merece , você sabe. – disse como se fosse óbvio e eu afirmei com a cabeça.
- Mas você não é o tipo de pessoa que joga ovos na casa de alguém.
- Hoje é um dia especial, e eu literalmente odeio ele. Sabe que no caso dele pelo que ele fez a você, sou capaz de jogar alguns ovos. – respondeu dando de ombros e eu sorri, beijando sua bochecha. Tentei puxar na memória que dia era hoje e então foi fácil lembrar, era o aniversário do nosso namoro, o dia em que Alexia havia chamado a atenção de todos no refeitório e proclamado Liam como “seu”.
- Mas você sabe que a família de Liam usa uma barreira que barra feitiços, você não poderia lançar um encantamento e daí seríamos pegas. – Pensei bem e ela sorriu, como se já tivesse planejado tudo.
- Ainda bem que nós corremos rápido, não é? – se levantou da cama e eu resmunguei.
- Você tem certeza? – questionei com um pouco de medo e seus olhos me fitaram.
- É sua escolha, . – respondeu e eu pensei por mais alguns segundos.
- Vamos lá... – sorri também levantando e enroscou seu braço no meu, pegando nossos casacos e uma caixa de ovos na geladeira. – Você não deixou mofar ou algo do tipo?
- Eu não pensei nisso, não sou o gênio do mal da nossa dupla. – Olhou para mim como se estivesse em minhas costas e eu mostrei a língua, em um gesto infantil.
- Foi sua ideia, professor Moriarty. – Respondi sarcasticamente e me deu um tapa no ombro.
- Como você está se sentindo? – voltou com o assunto em um tom sério e eu olhei para seu rosto.
- Bem... Não fique preocupada, você sempre consegue me animar. – Puxei sua mão entrelaçando nossos dedos para tranquilizar as duas. Enquanto eu tivesse , eu realmente achava que as coisas ruins e pequenas da minha vida não importavam.
- Você acha que ele está em casa? – perguntou mudando de assunto e eu me virei e ri.
- É claro que não, hoje é o dia especial dele. Ele provavelmente está fumando em algum canto da cidade, alguma erva encantada por alguma bruxa séculos atrás. – Respondi como Liam era previsível e riu comigo.
- O problema é que hoje não tem reuniões do comitê. Talvez os pais dele estejam em casa. – Supôs e eu concordei com a cabeça, estávamos andando até a casa dele e estávamos no meio do caminho.
- Você quer voltar? – perguntei vendo que já não pensava mais que era uma boa ideia e sua mão se firmou com mais força na minha.
- Não , vamos dar trabalho pra esses desgraçados. – Respirou fundo criando coragem e andamos o resto do caminho em silêncio. Quando chegamos, paramos e nos olhamos por alguns minutos.
- Como fazemos isso? – questionei abrindo a caixa de ovos e deu de ombros.
- E eu vou saber? É você a ex namorada do maloqueiro. Não fez nada parecido com ele?
- Você sabe que se eu tivesse feito você seria a primeira a saber. O mais longe que cheguei com ele em coisas idiotas foi: entregar minha virgindade e fumar maconha. – Pontuei levantando os dedos e suspirou batendo a mão na testa.
- Ainda te acho muito irresponsável por ter fumado com ele.
- Eu sei, eu sei. Foi só uma vez. – Mexi em minhas unhas um pouco nervosa.
- É, mas o ato idiota de transar com ele foi mais de uma vez né? – colocou as mãos na cintura e eu me defendi.
- Não é como se eu tivesse o conhecimento de que ele ia me deixar pela barbie francesa né? Fora que também foi uma decepção pra mim, todo mundo falava de sexo como algo super bom e nem foi tudo isso. – Fiz uma careta e pareceu pensar.
- Vamos ficar conversando sobre coisas aleatórias aqui e esperar que alguém nos pegue com uma caixa de ovos nas mãos? – perguntou retoricamente e eu franzi o cenho, ainda sem saber o que fazer. – Só vamos jogar, eu sei que você é boa de mira.
- Você tem certeza? – questionei mais uma vez e ela pegou um ovo da caixa, levando seu braço para trás e arremessando o ovo na casa. Vi seu sorriso aparecer e o ovo escorrer pelo material foi como ver arte.
- Tente! Vai! – estendeu a caixa para mim e eu peguei um ovo, mirando na janela. Quando acertei quase pulei de tanta alegria, e rimos por nossos feitos. Jogamos a caixa inteira de ovos em toda a casa e então corremos para a casa de , decididas a tomar um banho para tirar o cheiro.
- Isso foi... ótimo. Muito obrigada. – A abracei rindo, sem encostar minhas mãos em seu corpo e ela retribuiu do mesmo jeito.
- Eu também me diverti. – Sorriu lavando as mãos para pegar a muda de roupa e eu fiz o mesmo. Quando saímos do banho sentamos novamente na cama e ela começou sua lição.
- Você quer ajuda com a sua? – perguntou voltando sua atenção para mim e eu neguei com a cabeça. Ela sempre se oferecia quando via que eu não estava fazendo, era um hábito velho porque quando éramos crianças eu sempre pedia ajuda.
- Não tenho problemas com as lições ou trabalhos. Só com a prática. – Respondi frustrada e mordeu o lábio.
- Você já tentou ir em um psicólogo?
- Já. Todos eles me disseram que é um bloqueio meu, toda a besteira de que eu não me permito liberar o poder. – Balancei as mãos em um ato dramático e semicerrou os olhos.
- Você já considerou que talvez seja verdade?
- E qual seria o sentido disso? Talvez eu apenas não tenha potencial para essa coisa toda de bruxas e magia. Talvez eu não seja poderosa o suficiente e é isso o que me assusta, porque eu não tenho controle sobre nada. – Desabafei pensando no assunto e buscou minha mão.
- Eu não me importo com essas coisas , eu não me importo se você é humana, vampira ou uma bruxa com o mínimo de poder. Eu me importo somente com você e por isso quero te ajudar, eu sei que você sofre por esse bloqueio, não tem realmente nada do que possamos fazer? – questionou com sinceridade e eu agradeci silenciosamente por sua presença na minha vida.
- Eu te amo , mas não tem nada que eu já não tenha tentado.
- Eu também te amo e você sabe disso. – Sorriu me abraçando e eu quase me desabei a chorar.
- Eu agradeço você, por tudo. – Minha voz saiu em um fio e uma de suas mãos bagunçou meu cabelo.
- Estou aqui por você bruxinha, assim como você está por mim. – respondeu me deixando deitar em seu ombro enquanto fazia lição e eu adormeci, acordando quando já era noite e vendo guardando alguma coisa em seu armário.
- Você quer ir na festa do Leo? – perguntou pulando na cama e eu franzi o cenho, ainda muito sonolenta.
- Que festa?
- Ele está dando uma festa na casa dele, os pais foram viajar para uma conferência na Alemanha. – explicou abrindo as cortinas e eu tentei raciocinar mais rápido.
- Ah... an... Não sei. – Esfreguei os olhos enquanto acendia a luz e tateei a cama em busca de meu celular. – Você sabe onde está meu celular?
- Aqui, pega. – Pegou da mesa o jogando no ar e mesmo sonolenta consegui pegá-lo. Liguei e vi que as únicas mensagens pendentes eram de Leo me convidando para a festa e de meu pai, já afirmando que me deixava ir.
- A Alexia vai estar nessa festa, não é? – perguntei receosa e concordou lentamente.
- Mas você não pode deixar de ir por causa dela, a casa é grande e a festa tá bombando, provavelmente nem se cruzarão. Se você não for, é esse o tamanho do poder que dá pra ela. – Argumentou chegando perto e eu suspirei, levantando para me arrumar.
- É bom que você tenha feito compras ótimas semana passada, não quero ter que usar nada muito colorido seu, ok? – afirmei que ia e riu, balançando a cabeça negativamente.
Nos trocamos e saímos de casa, andando até a casa de Leo. Quando chegamos perto conseguimos ouvir a música e sentir o cheiro de bebida, não teve tempo para arrependimentos, apenas entramos. optou por uma legging preta, jaqueta da mesma cor e uma camiseta cinza, eu optei por uma saia de couro e uma camiseta um pouco larga igualmente preta, com uma jaqueta de couro com zíper. Leo nos recebeu um pouco bêbado, mas bastante animado e então foi a procura de alguma pobre garota, enquanto eu e ficávamos com Allie, Lily e Oliver. Marcos estava com a namorada e nem tinha comparecido à festa, então tinha perdido toda a “diversão”.
- Uuh, alguém está gata hoje. – Oliver se direcionou a mim e eu dei uma giradinha, brincando.
- Eu sou gata todos os dias. – Encostei minha cabeça na curvatura de seu pescoço e seu braço passou por minhas costas, a mão perto da minha cintura em um gesto de intimidade.
- também está quente. – Lily apontou e piscou em sua direção.
- Quem topa dançar? – Allie perguntou já não aguentando mais ficar parada e eu neguei enquanto Oliver se desvencilhava de mim para ir dançar com Allie.
- Preciso de uma bebida antes. – expliquei para Lily e e fui até a mesa onde tinha variedades de garrafas, passando os olhos por minhas opções.
Eu não era uma expert em bebidas havia bebido em poucas ocasiões, a única coisa que era ciente era de como eu ficava quando estava alcoolizada. Eu acabei escolhendo Akvavit em uma pequena porção porque parecia ser forte e tomei em uma golada só, quase engasgando e me arrependendo, procurando algo como um ponche para tirar o gosto horrível daquilo, eu não gostava de cerveja e fora isso só tinha vodka, então fui em direção ao banheiro para lavar minha boca.
Lavei minha boca e saí do banheiro procurando ou qualquer um dos meus amigos, avistando Oliver e Allie a poucos passos de onde eu estava.
- Resolveu dançar? – Oliver perguntou em um tom alto para que eu entendesse e eu senti meu corpo ficar um pouco mais leve. Será que aquela bebida era forte naquele nível?
- Qual é o ponto da festa se eu não me divertir, não é mesmo? – questionei dando de ombros e Allie se agarrou em mim, aparentemente mais bêbada que qualquer um de meus amigos. Uma música chegou ao fim e outra começou, uma que eu gostava, mas não conseguia me lembrar do nome.
- Me concede? – Oliver estendeu sua mão para que dançássemos e eu sorri, aceitando sua proposta. Eu havia lembrado da música, Feel So Close do Calvin Harris.
- Você já está alterada? – perguntou enquanto dançávamos no ritmo da música. Envolvi meus braços em seu pescoço e neguei com a cabeça.
- Não me sinto alterada! - sorri em uma sensação boa e Oliver riu, dançando animadamente.
Allie já havia tirado outra pessoa para dançar e as mãos de Oliver em minha cintura... Parecia certo quando eu fechava os olhos, era carência e eu sabia, até porque nunca ficaria com Oliver. A música preenchia meus ouvidos e meu corpo, eu me sentia energética ao mesmo tempo que leve e por um momento pensei que estivesse drogada, será que aquela bebida havia sido batizada? Quanto era o teor alcoólico daquilo?
Como a música era eletrônica a parte de batidas chegou, e as luzes piscaram me fazendo sorrir com a sincronia. Meus braços se mexiam enquanto ainda estavam sobre os ombros de Oliver e ele também mexia os braços que estavam na minha cintura, animado.
Eu fechei os olhos e joguei minha cabeça para trás deixando que meus cabelos caíssem pelas costas e meu pescoço se refrescasse, enquanto me movimentava com Oliver. Nós pulávamos e ríamos fazendo isso sempre que podíamos, até cantamos a música até ela acabar. Mais e mais músicas se passaram, até que me cansei e falei para Oliver que iria procurar as meninas.
- , o que você tá bebendo? – perguntei quando a encontrei com um copo na mão e ela deu de ombros, levando o copo para boca.
- Não sei, acho que cerveja. – respondeu girando o copo e eu assenti.
- Você não acha... – algo me interrompeu, algo realmente gelado. Alguém havia esbarrado em mim e jogado gelo dentro de minha camiseta. Acho que eu não precisava nem mencionar, quem.
- Alexia! – gritou percebendo o que tinha acontecido e eu paralisei, um pouco curvada e sentindo o gelo deslizar por minha barriga.
- Oh, me perdoe. Eu não te vi aí. – respondeu batendo as mãos que tinham um pouco de água do gelo derretido e quase avançou para cima dela, mas eu impedi com um braço.
- Você não pode sujar suas mãos com ela.
- Nem mesmo me responder você consegue, precisa da amiga. – disse chegando perto para me tocar e eu agarrei seu pulso.
- Você quer saber Alexia? – perguntei realmente sem paciência e busquei a mão de . – Você pode ficar falando sozinha, não me afeta mais.
- Isso é sua resposta para fugir?! – questionou enquanto eu saía com e apenas mandei o dedo meio, de costas.
- Você foi incrível! Meu Deus. – soltou quando atravessamos a rua e começamos a rir, andando de mãos dadas.
- Você está bêbada. – Toquei a ponta de seu nariz com o indicador e ela seguiu meu dedo com o olhar.
- E você está drogada. – Colocou a mão que não estava entrelaçada com a minha na cintura e eu ri.
- Não estou drogada. – Quase tropecei na calçada e riu histericamente.
- Nós duas estamos alteradas. É isso. – Apontou colocando uma mão na jaqueta e o molhado da minha blusa me agonizou. Estava ventando muito.
- Eu não estou alterada, você está alterada. – Respondi ainda olhando para a marca que Alexia tinha feito e deu de ombros.
- Você vai dormir na minha casa? – perguntou balançando nossos braços e eu neguei com a cabeça.
- Hoje meu pai está de folga surpreendentemente, vou ver algum filme com ele. Amanhã durmo na sua casa. – expliquei e ela assentiu com a cabeça.
- Ok... Seu pai vai trabalhar amanhã?
- Vai, ele disse que tem algo de estranho em nossa fronteira. – olhou curiosa e eu arqueei as sobrancelhas.
- Talvez possa ser algo de interessante nessa cidade.
- Provavelmente é só um animal rondando pela barreira. Não sei porque fazem disso uma grande coisa. – Respondi um pouco indignada.
- E se for alguma coisa?
- Alguma coisa como o que? Um humano fuçando? – questionei a hipótese e ela deu de ombros. – Você sabe o que acontece com humanos que fuçam em assuntos de bruxas, nunca acaba bem.
- Eu sei, mas não seria legal poder compartilhar isso com um humano? – imaginou atravessando comigo e eu suspirei.
- Você está bêbada , você sabe que não podemos nos revelar para os humanos. Mesmo que deixemos eles vivos depois, eles tentam provar para outras pessoas e acabam internados em algum hospício. – expliquei como tudo acaba e bufou.
- Eu sei, eu sei. – Chegamos em sua casa e eu peguei minha bolsa, me despedindo dela e indo em encontro com a minha família. Quando cheguei em casa, joguei minha bolsa no sofá e coloquei a chave na mesa.
- Cheguei! – gritei avisando e meu pai veio do corredor para me abraçar.
- Você está bem? Aconteceu algo? – perguntou parecendo preocupado e eu franzi o cenho.
- Estou bem... Por que?
- Por nada. Sua camiseta está molhada. – Mudou de assunto repentinamente, mas eu me senti cansada demais para perguntar.
- É... Derrubei bebida nela. – Respondi inventando e ele assentiu.
- Não está com cheiro de álcool.
- Eu não bebi álcool. – Respondi dando de ombros, tirando minha jaqueta. – Vamos ver um filme?
- Não, eu tenho que sair. – disse em uma feição arrependida e eu fiquei sem saber o que fazer, mas logo ouvi uma risada e ele veio me abraçar. – Um filme de ação.
- Onze Homens e Um Segredo. – Afirmei e sentamos no sofá, ele me passou o controle e eu selecionei o filme. Havia sido um longo dia, mas eu tinha o passado com a minha melhor amiga e agora iria aproveitar com meu pai.



No dia seguinte:

- ! Você tem que se esforçar! – senti uma ardência nas costas e observei a mulher encapuzada segurar o chicote com que tinha me batido, firmemente. – Você pode fazer tanto... Você tem que aprender.
Tudo o que eu queria era gritar, perguntar o que ela queria de mim, levantar e correr, queria que a dor das chicotadas parassem e que o choro embolado em minha garganta sumisse. Mas eu estava ali, parada e ajoelhada no chão, sentindo a dor e ficando quieta.
- No que seus pais estavam pensando? Você precisa quebrar o bloqueio! – gritou mais uma vez batendo em minha garganta e eu gritei, acordando.
Havia sido um pesadelo, um pesadelo muito estranho. Eu estava melada de suor e a única coisa que queria mesmo depois de acordar era chorar, eu estava com uma vontade enorme de chorar. Me sentei na cama sentindo dores pelo corpo e estranhei, o sonho tinha sido muito realista, mas dores? Aquilo estava me assustando.
Passei as mãos pelo pescoço e pelo rosto para tentar limpar o suor e fiz uma careta, eu precisava de um banho fresco e roupas limpas, já era segunda-feira e eu tinha escola, então saí da cama e separei meu uniforme, tomando um banho um pouco demorado e quase me atrasando.
- Bom dia. – Cumprimentei meus pais correndo para sala e avistei meu pão de café da manhã, o pegando sem me sentar e colocando o blazer enquanto o mordia.
- Bom dia. – Meu pai respondeu e me olhou de cenho franzido.
- Perdi a hora, tive um pesadelo. – expliquei colocando a mochila e ele pareceu preocupado.
- Mais um?
- Sim. – Estava virando algo decorrente e eu não estava tão preocupada quanto meus pais pareciam.
- Quando chegar em casa temos que conversar. – Meu pai segurou meu pulso avisando e eu concordei lentamente com a cabeça, com um pouco de medo.
- Tenho que ir, amo vocês, beijo. – Me despedi dando um beijo em suas bochechas e peguei minha chave, saindo correndo.
Eu me sentia estranha, me sentia esgotada, e tudo no que pensava era o maldito pesadelo, enquanto corria para a escola e desejava que no minuto em que começasse a conversar com esquecesse daquilo tudo por um momento. Eu queria paz, queria não me lembrar toda hora de que não era boa no que supostamente tinha “nascido” para fazer e ser, eu queria me sentir poderosa e no controle das coisas.
- Bom dia . – Ouvi dizer e percebi que estava no portão da escola.
- Bom dia. – Respondi um pouco desanimada e me analisou.
- Outro pesadelo?
- Eu amo o jeito como me conhece. – falei cansada e ela fez uma careta.
- Você tem que dar um jeito nesses pesadelos, vá ao médico. – disse enquanto andávamos para a sala de aula, tínhamos aula de poções juntas.
- São só pesadelos, não tem importância. – Respondi sentindo um calafrio e parou.
- Eu odeio quando você tenta mentir para mim . – disse em um tom sério e eu parei também.
- , são só pesadelos. – Tentei voltar a andar, mas sua voz me parou.
- Você já pensou que esses “pequenos” pesadelos possam ser uma dica de onde vem seu bloqueio? – questionou parecendo não querer largar e eu bufei.
- Você está ficando paranoica.
- Não , você que já está cega a muito, muito tempo. Agora eu tenho que ser honesta com você, me desculpe.
- O que quer dizer com isso?
- Talvez você goste de ser a atrasada, talvez você não queira descobrir de onde vem seu bloqueio e começar a praticar magia, talvez... Você queira continuar como está. – disse quase elevando a voz e eu fechei os olhos e apertei os punhos, respirando fundo.
- Sim , “talvez” você tenha razão. Se é isso o que acha sobre mim. – Respondi voltando a andar e sua mão agarrou meu pulso.
- Espera... Não foi isso que eu... – tentou reverter a situação, mas eu puxei minha mão, com o coração quase explodindo.
- Mas foi o que você quis dizer sim, e eu agradeço pela sua honestidade, mas não preciso dela hoje . – Eu me sentia furiosa e não pensava no momento que eu não tinha o direito, só descontei.
- Eu só quero... – tentou dizer mais uma vez e eu senti meu coração explodir.
- Me ajudar?! Pois é, você não pode! Ninguém pode. – Saí andando sem olhar para trás e senti meu coração bater de novo, junto com o aperto que o acompanhava.
- Você perdeu sua única amiga? – Alexia me parou no corredor e eu a olhei nos olhos, sentindo a raiva crescer ainda mais. Mas como era a vida real e não um filme eu não a soquei ou algo do tipo, apenas continuei andando. – Você vai chorar ?
Andei rápido até a sala e me sentei no fundo, colocando minha bolsa embaixo da mesa e me curvando para cobrir meu rosto com os braços, ainda não havia chegado ninguém, eu estava sozinha. Eu odiava quando ficava sozinha porque assim eu não tinha distração de meus pensamentos e isso me assustava, meus pensamentos eram barulhentos e me batiam com toda a força, ficar sozinha com meus pensamentos me aterrorizava. Como sempre, eu me vi querendo gritar, querendo dormir e simplesmente não ter mais pesadelos, só não acordar mais.
Eu pensava no futuro mesmo que sempre desejasse focar no presente. Como seria daqui tantos anos se eu ainda fosse bloqueada? O que eu faria da vida? Como eu me sentiria? Eu ainda seria amiga dos meus amigos? Eu não queria saber e mesmo assim me preocupava.
Não gostava do meu presente e não esperava que meu futuro fosse diferente, eu perdia meu tempo todo pensando em todas as alternativas ruins e não conseguia parar, simplesmente não conseguia. Eu queria parar de me preocupar, queria não ser por um tempo.
Mas eu era, e as dúvidas e o pessimismo já me eram bastante familiares, queria tantas coisas pra mim sem nem saber como começar a tentar conquista-las. Alunos começaram a chegar na sala, inclusive , ela não tentou mais me abordar porque sabia que no momento não era o melhor a se fazer, a aula passou lentamente e as aulas a seguir também.
Alexia brincou um pouco comigo, tentou me afrontar em muitas aulas e depois de tudo aquilo a hora de ir embora finalmente chegou. me olhou como se viesse falar comigo e eu tentei andar na direção oposta, mas ela me parou.
- Me desculpe. Estou falando sério, eu sinto muito. – respondeu com a voz vacilando e eu olhei para o céu tentando evitar as lágrimas. – Eu só acho que você deveria se cuidar melhor, me desculpe se te magoei e me desculpe por ter te interpretado do jeito errado.
- ... – sussurrei em um tom baixo e ela abriu os braços como se soubesse do que eu precisava, a abracei fortemente e respirei fundo. – ...
- Eu sei, me desculpe. – respondeu retribuindo o aperto e eu deixei apenas uma lágrima escapar. – Você quer ir lá em casa? Podemos ver alguma coisa.
- Quero. – Respondi tentando parar de sentir aquele peso e me lembrei de meu pai dizendo que tínhamos que conversar, bom, a conversa poderia esperar. Me separei de e começamos a andar.
- Eu entendo porque ficou chateada comigo, mas por que está chorando? – questionou em um tom doce e eu pisquei para afastar a água que cobria meus olhos.
- Eu só... Se nem você acredita em mim, quem vai? – respondi e ela sorriu, me deixando muito confusa.
- Eu te respondo, . Você! Você tem que acreditar em si mesma, você tem que saber o quão incrível e suficiente você é. Não pense que eu ou os meninos, ou seus pais não acreditam em seu potencial, nós acreditamos! Mas você é a mais importante, você tem que enxergar isso.
- Você faz me sentir uma pessoa fútil desse jeito. – Sorri brincando e tentou reformular.
- Não... Eu... Eu sei que nós somos importantes para você , mas você também tem que ser importante para si mesma. – disse me olhando e eu apenas concordei com a cabeça.
- Eu vou tentar me cuidar mais. – Respondi sem saber muito ao certo o que dizer e ela passou um braço por meus ombros.
- Nós vamos trabalhar nisso aos poucos...
- Ok.
Fomos até a sua casa e eu fiquei por lá mais do que o esperado. Talvez eu estivesse com medo da conversa, mas teria que enfrentá-la, eu já estava perto de casa e não iria adiar e ficar curiosa. Meu pai geralmente não era tão sério, apenas quando estava bravo, e eu não tinha feito absolutamente nada para ele ter ficado bravo.
Abri a porta de casa com as mãos suando e fechei, gritando o que sempre gritava:
- Cheguei! – joguei minha bolsa e chaves na mesa e tirei meu blazer, um pouco cansada. Surpreendentemente ninguém me respondeu então fui até a cozinha para procurar meus pais.
Quando cheguei perto da porta da cozinha ouvi um barulho de respiração e estranhei, era um barulho horrível, como se alguém estivesse lutando para respirar. Entrei na cozinha e meus olhos se fixaram no chão, eu caí sem perceber e abri minha boca para gritar, mas nada saiu, apenas lágrimas. Meu pai estava deitado no chão próximo de minha mãe, os dois com ferimentos graves nas barrigas, como facadas.
- Filha... – meu pai direcionou seus olhos a mim e eu não soube o que fazer, fui aos tropeços até ele e segurei sua mão, desesperada.
- Pai, o que aconteceu?! – perguntei tateando o chão e tentei racionar. – Eu preciso... Eu preciso do meu celular, vou ligar para a ambulância. Eu preciso, o que eu preciso fazer? Estancar?!
- Filha... – repetiu enquanto eu colocava uma mão em seu ferimento e percebi que não conseguia o ver claramente, tudo estava desfocado por minhas lágrimas. Tentei levantar, mas sua mão me puxou e eu franzi o cenho. – Não chame a ambulância, não chame ninguém até que esteja feito.
- Pai?! Até que... até que? Você vai morrer! Você... A mãe está bem? Mãe?! Por favor! Alguém me ajude. – Balancei o corpo de minha mãe inconsciente e pedi por ajuda aos céus, soluçando.
- Por favor, não chame a ambulância. Você quer desperdiçar nossos últimos minutos juntos? – questionou e eu não entendi, minha mente nunca tinha trabalhado tanto para entender pequenas coisas.
- Mãe! Por favor! – eu ainda soluçava, mas meu pai chamou minha atenção.
- Ela morreu , eu sinto muito. – Vi que meu pai chorava e me agarrei ao seu corpo, desejando mais do que tudo estar em um pesadelo.
- Por favor... Por favor. – Continuei repetindo e não entendi porque não me levantei e chamei uma ambulância, talvez eu soubesse que mesmo com ambulância... Eles não conseguiriam cuidar de seus ferimentos.
- Escute-me bem. – disse tentando manter a voz firme e eu coloquei a mão sobre a boca, tentando parar de tremer. – Você não é bloqueada filha, eu e sua mãe te bloqueamos.
- Pai, isso não é hora para tentar mentir para meu desempenho melhorar. – Respondi totalmente séria e com raiva de mim mesma, por não ter saído de lá e chamado a ambulância.
- Nós colocamos um feitiço em você, mas foi só para o seu bem, ok? Com a nossa morte o feitiço vai se quebrar e você vai precisar sair da cidade... Tem 50 mil dólares em meu quarto, pegue e suma daqui. Vá para Frankfurt e procure por Eileen Lehmann, ela vai saber o que fazer, ela vai saber te orientar para você fazer o que nasceu para fazer.
- Pai, você ficou louco?! Você não vai morrer e eu não irei para a Alemanha! Você não pode morrer! Você não pode! – gritei agarrando seu peito e ele tossiu me fazendo parar, aterrorizada.
- Seus pesadelos, os pequenos momentos em que você sente uma energia estranha como ontem na festa, sua vontade de colocar tudo para fora e não conseguir. Tudo isso tem uma explicação e um motivo, tudo isso são formas do seu poder de se manifestar e tentar quebrar o bloqueio. – Eu não queria saber como meu pai sabia da sensação na festa, eu não estranhei porque estava muito ocupada chorando e com medo.
- Eu vou chamar uma ambulância. – Criei coragem para levantar, mas meu pai me parou mais vez.
- Minha pulsação está fraca , eu já estou morto. Eu já estava morto a muito tempo atrás. – disse quase fechando os olhos e eu neguei com a cabeça, sentindo meu coração se quebrar.
- Você não pode morrer! – tentei abrir seus olhos e ele tentou falar algo.
- Você precisa fazer o que te disse, me prometa.
- Você não pode morrer. – Olhei para o chão falando mais baixo e puxei o ar tentando respirar.
- Me prometa.
- Você simplesmente não pode, não pode morrer. – Repeti encostando minha cabeça em seu peito e ele ergueu meu rosto. – O que eu vou fazer sem você, pai?
- Você vai ficar bem , pode pensar que não, mas é uma sobrevivente, é mais forte que tudo. Eu te prometo que irá ficar bem, e eu estarei com você a cada passo que der, eu estarei com você. Agora... Me prometa que vai fazer o que instrui.
- Eu prometo. – Solucei dizendo e meu pai beijou meu rosto.
- Eu te amo filhona. – disse também chorando e minha boca tremeu.
- Eu também... Eu também te amo pai. Mais do que tudo nesse mundo. – Encostei minha cabeça em seu coração e senti quando ele parou de bater.
Foi a pior coisa que já senti e presenciei na minha vida, eu senti um vazio se formar dentro de meu corpo e solucei, abrindo a boca e balançando a cabeça, percebendo que ele não havia sequer fechado os olhos ao partir. Abracei o corpo de minha mãe e senti o vazio aumentar até que me tomasse por inteira, fechei os olhos de meu pai com uma mão e senti uma dor física aguda que parecia me rasgar por dentro.
Olhei para os dois corpos deitados no chão e para as minhas mãos cobertas pelo sangue deles. Então me permiti fazer o que eu queria fazer há muito tempo, eu gritei com todo o ar dos meus pulmões e senti a casa tremer, tudo chacoalhou, o chão, as lâmpadas, as facas em cima da bancada e os armários também bateram.
Continuei a gritar por um tempo e então abracei os dois corpos, soluçando e esperando acordar do pesadelo em que estava. Mas não acordei porque não era um pesadelo, era real e chorei até a polícia chegar lá e me afastar dos corpos, afirmando de que haviam recebido uma denúncia porque os vizinhos ouviram meu grito. Eles isolaram a casa como cena do crime e quando saí para fora vi meus amigos esperando na rua, preocupados e com os pais também, os pais que me faziam lembrar de que eu tinha acabado de perder os meus. Eu não tinha sequer me despedido de minha mãe.
Virar uma órfã não era nada como se mostrava nos filmes, era muito, muito diferente, e eu sabia que cada um lidava com a perda de sua maneira, mas eu lidaria com a minha perda mudando e me distraindo até quando fosse possível, eu faria o que prometi e sairia da cidade, tinha pegado o dinheiro antes de sair de casa e estava na minha mala com as minhas coisas, peguei poucas roupas e fotos, muitas lembranças da minha família. Até conseguir um vôo pediria para ficar na casa de e depois eu me isolaria do mundo, lidaria com a perda desse jeito. Lidaria com a perda com vingança, porque eu iria achar quem havia feito aquilo e quando achasse, eu iria destroçar de dentro para fora.
Mas era minha culpa, se eu não tivesse chegado mais tarde para a nossa conversa, se eu talvez tivesse chamado a ambulância, era minha culpa porque a morte deles estava ligada com meu bloqueio. Era minha culpa e eu merecia ser destroçada tanto quanto a pessoa que havia feito aquilo.
Senti um baque quando pisei na calçada e vi que me abraçava, eu simplesmente não consegui retribuir, porque ainda sentia o corpo morto de meus pais em volta de meus braços.
- ... Eu sinto muito. – Senti que ela chorava e continuei em choque.
- Eu posso... Eu posso ficar em sua casa por um tempo? – perguntei enquanto ela saía do abraço para pegar minha mão e mesmo percebendo que estava cheia de sangue, a agarrou tentando me confortar como sempre fazia. Eu não merecia aquilo, nunca tinha merecido.
- Você vai ficar em minha casa, vamos para lá agora e você pode tomar um banho e dormir. – respondeu limpando as próprias lágrimas e eu respirei fundo enquanto Marcos, Oliver, Leo, Lily e Allie atravessavam a rua para chegar até mim.
Todos me abraçaram e eu não consegui retribuir nenhum, mas eles não ligaram e disseram que iriam dormir na casa de também como uma reunião, nós fazíamos isso quando éramos menores e era uma forma de me distrair. Chegamos lá e eu fui para o banheiro, entrei no chuveiro e deixei a água escorrer e levar o sangue, tive que esfregar minhas mãos para o sangue sair por inteiro e as machuquei um pouco, talvez propositalmente.
Iríamos dormir na sala, todos no chão em sacos, então me sentei e respirei fundo enquanto todos me olhavam.
- Vamos apenas dormir ok? Não quero conversar e muito menos me distrair com filmes ou comida. – Desabafei e que iria dormir ao meu lado assentiu, indo apagar a luz.
Uma dor aguda ainda preenchia meu corpo e eu não sabia porque, depois de algum tempo tentando dormir abri os olhos e vi que todos estavam realmente dormindo bem e tranquilos. Eu não conseguia dormir mesmo sentindo sono e antes eu achava que aquilo era impossível. Me levantei tentando fazer silêncio e fui até o banheiro, me trancando lá e colocando a manga da blusa sobre minha boca para poder chorar sem fazer barulho. Chorei pela dor física e emocional, chorei pela culpa, chorei pelo cansaço, chorei pela perda, pelo peso, pela bagunça e pela saudade.
Eu chorei por tantos motivos que simplesmente continuei a noite inteira, mas sabia que de manhã teria que parar e fingir, mas eu não sabia se conseguiria de fato parar de chorar. Eu não conseguia sequer respirar sem pensar em como aquilo era louco... Quem havia feito isso? Por que? Eu precisava deles, por que alguém os matariam? Por que eles colocariam um bloqueio em mim? Por que era importante que eu fosse para a Alemanha? O que é que meu pai tentava dizer com “nasceu para fazer”? Talvez ser uma bruxa? Ter o controle dos poderes e feitiços?
Eu senti que era algo a mais, eu senti em minhas veias e na dor aguda que se manifestava em meu corpo de que ele não se referia a ser uma bruxa e sim outra coisa, eu tinha que descobrir e então quando eu tivesse realizado minha busca... Talvez fizesse o que queria a muito tempo, eu me livraria da dor, da preocupação e dos sentimentos ruins. Eu tiraria minha própria vida e acabaria com tudo o que me assombrava.
A manhã chegou e eu tentei parar, me olhando no espelho e lavando o rosto com água fria, meus olhos estavam inchados em um nível que nem mesmo muita maquiagem conseguia cobrir, eles saberiam que eu havia chorado, mas ei! Esse era um dos efeitos de perder os pais. Voltei em passos pequenos e nas pontas dos pés, mas quando pisei na sala percebi que havia acordado e olhava para o meu saco de dormir, percebendo que eu não estava ali.
- Bom dia. – Cumprimentei realmente tentando sorrir, mas não consegui.
- Por que você tem dinheiro em sua mala ? – perguntou vindo até mim e eu franzi o cenho.
- Para não passar fome? – respondi como se fosse óbvio e ela pareceu pensar no que fazer, seriamente.
- Você tem muito mais do que precisa para comer.
- , por que fuçou nas minhas coisas? – questionei ficando com raiva por suas perguntas e ela continuou séria. Todos na sala ainda dormiam.
- Você achou que poderia esconder de mim? Você vai fugir? – presumiu e eu fechei as mãos em punhos.
- Eu não tenho escolha, não tem nada para mim aqui. – Abri o jogo enquanto ela chegava perto para me tocar e recuei.
- Você está falando sério? Seus amigos estão aqui, somos sua família. – Quando ela disse isso a dor aguda atingiu minha cabeça e eu apertei mais minhas mãos. – , você está bem?
- Eu não posso fazer isso agora, ok? Eu tenho meus motivos e vocês vão ficar bem sem mim. – Tentei fazer a dor parar fechando os olhos e se aproximou mais uma vez. – Pare!
- Estamos aqui por você, você queira ou não. Se você for fugir, eu irei junto e não tem discussão. – Pegou minha mão mesmo que eu recuasse e logo se afastou com dor também, me fazendo franzir o cenho. – , você está quente.
- Eu... O que? – perguntei olhando para minhas mãos e logo em seguida analisando se tinha machucado , a palma da mão dela carregava uma pequena queimadura. Isso me assustou mais do que tudo. – Vê o que eu digo? Fique longe de mim.
- , se você for eu vou junto. Você não pode me afastar desse jeito. – Corri para pegar minha mala e coloquei meu tênis planejando sair de pijama mesmo, eu sairia da cidade e procuraria o aeroporto mais próximo. – Pare !
- Saia do meu caminho. – Pedi enquanto ela bloqueava a porta e ela negou.
- Fale comigo. – pediu de volta e eu consegui passar, correndo com a mala de rodas e indo em direção a porta, provavelmente acordando todos que resmungavam e sibilavam.
- Et clauso ostio, hic teneam! – ergueu uma mão e com um feitiço fez a porta se fechar enquanto eu a alcançava, ouvi o barulho das trancas e da barreira e cheguei a ela para a abrir, lutando.
- O que está acontecendo? – Allie perguntou parecendo ter despertado totalmente e eu continuei tentando abrir a porta.
- , pare! Você não irá sem mim. – gritou abaixando sua mão e eu me virei, deixando as lágrimas escaparem mais uma vez.
- E o que você dirá para a sua família?! Você tem uma, diferentemente de mim e não pode sumir desse jeito! – gritei sentindo a dor aguda voltar e tentei me manter de pé.
- Você é a minha família ! E você não pode usar esse argumento porque você também tem uma. Precisa nos contar o que está acontecendo! – gritou de volta e eu deslizei pelo chão, soluçando.
- O que está acontecendo? – Lily perguntou e todos os outros me olharam, vindo ao mesmo tempo até mim.
- É minha culpa... Eles morreram por minha causa. – Sussurrei tentando explicar para os meus amigos e veio e me abraçou, eu não estava mais quente.
- Nada daquilo foi sua culpa. Iremos encontrar o culpado. – respondeu acariciando meu cabelo e eu neguei com a cabeça.
- Você não entende, eles morreram por mim e eu sequer sei o motivo. Deveria ter sido eu. – respondi me agarrando aos braços de e Allie e os outros permaneceram perto.
- Nunca mais se atreva a dizer isso. – Allie respondeu e Lily continuou.
- Precisamos de você.
- Vamos com você a qualquer lugar. – Leo complementou e Oliver foi o próximo.
- Juntos, sempre.
- Nós te amamos . – Marcos disse e deu a palavra final.
- Nós somos a sua família e nada, absolutamente nada vai mudar isso. Você não pode nos afastar. – Com essas palavras a dor aguda passou e eu continuei a chorar sem dizer uma palavra. Eles eram a minha família e mereciam a verdade, mas como eu começaria a contar?
- Não posso arrastar vocês para isso. – Respondi tentando limpar minhas lágrimas e Allie respondeu, com a voz decidida.
- Já estamos nisso. Você tem que nos explicar. – disse e eu respirei fundo, fungando e olhando para cima.
- Eu não posso passar por isso de novo. Eu não posso ser a causa da morte de vocês.
- Você não foi a causa da morte de seus pais e não será a nossa. – Lily respondeu agarrando minha mão e eu neguei.
- Eu fui. Eu os matei.
- Explique-nos ou iremos descobrir por conta própria. – Allie elevou sua voz e eu funguei mais uma vez.
- Meu pai não conseguiu me explicar muito bem, aparentemente eu não sou bloqueada. Eles colocaram um feitiço sobre mim e ele disse que com a sua... morte, o feitiço se quebrou. Ele me disse para pegar o dinheiro e ir para a Alemanha, disse que tinha que encontrar Eileen Lehmann para que ela me ajudasse com tudo. – expliquei soluçando e eles me olharam os olhos arregalados. – Parece que o que levou a morte deles além de mim, é muito poderoso.
- Eileen Lehmann? – Leo questionou e eu assenti com a cabeça. – Ela é uma lenda para as bruxas, ninguém nunca a viu, mas dizem que ela é absolutamente poderosa. Ela é uma bruxa estágio 1, a única que sobrou de seu clã depois da recessão.
- Ah, como isso é ótimo! Como irei encontrar uma pessoa desse nível? – reclamei me estressando e suspirou.
- Nós iremos para a Alemanha com você e vamos encontrá-la. Como eu disse, talvez algo de interessante nessa cidade. – Me abraçou e olhou para os outros com questionamento nos olhos, todos concordaram. – Não pense em tentar algo estupido , não iremos te abandonar, nunca.
Eu aceitei a ajuda com relutância, eles eram minha família e se não iriam desistir, tínhamos que nos juntar.
Se Eileen já era viva no tempo da recessão ela provavelmente era muito velha, bruxas não eram imortais, mas pelo menos as mais poderosas conseguiam sobreviver por muito mais tempo do que os humanos, como 300 ou 400 anos, usando feitiços de preservação e na aparência também. Eu sabia muito sobre a história das bruxas, sempre me interessei mais do que em feitiços e agora aquilo vinha a calhar. A recessão havia acontecido em 1892, em um tempo em que os caçadores de bruxas eram muito reconhecidos pela sociedade, fora eles existiam muitas outras coisas sobrenaturais como espíritos e ameaças ao mundo físico, bruxas escolhiam entre se juntar a essas ameaças ou defender o mundo das mesmas, mas os caçadores eram claramente um obstáculo.
Bruxas naquele tempo se dividiam em clãs, e foi aí que descobriram os estágios entre elas, existiam clãs que eram misturados por suas famílias e clãs que eram separados pelos estágios. Daphnée Bernard foi a caçadora de bruxas mais temida por todas elas, comandava um grupo de caçadores enorme e em um movimento de guerra massacrou quase todas as bruxas durante a recessão, muitos clãs haviam caído e minha bisavó era de um clã que sobreviveu durante toda a guerra, por isso meus pais eram poderosos, como a realeza.
Eu era descendente do clã Gerard, minha bisavó foi uma das 12 e era uma bruxa estágio 1. “As 12” foram as bruxas que se juntaram e mataram os caçadores acabando com a recessão, minha família era muito reconhecida e poderosa e era isso o que fazia meu fracasso ser tão importante, eu era afiliada com as bruxas e bruxos mais importantes daquele mundo e não conseguia sequer fazer feitiços que uma criança consegue, minha bisavó foi mãe da mãe de meu pai e ele era mais importante que minha mãe em termos de título, ele tinha um dom e era muito poderoso mas ainda sim era um estágio 3, um dos mais poderosos de seu estágio... Mas ainda sim um estágio 3. Nem eu e nem meus amigos haviam conhecido alguém que não fosse do estágio 3, bruxos de outros estágios eram como furacões raros.
Minha mãe era descendente do clã Giuseppe, bruxos do estágio 2, foram importantes na reconstrução da sociedade bruxa. Minha avó por parte de mãe era extremamente rica e visitava uma vez por ano, era italiana e morava lá, claramente não se importava e não sei o que aconteceria quando descobrisse que minha mãe havia morrido.
O comitê das bruxas era formado pelos bruxos com os nomes mais importantes, eles decidiam tudo por lá, o que fazer quando algo de preocupante acontecia, cuidavam da nossa proteção e ocultamento, eles tinham fundado a academia e criado a sua reputação. Meus pais eram do comitê e quem assumiria o lugar deles agora eram os pais de Alexia.
- Você não vai tentar fugir escondido, vai? – me fez voltar ao mundo real e eu neguei com a cabeça. – Prometa para nós.
- Eu prometo. – Prometi uma segunda vez naquele dia e lembrei mais uma vez do momento em que o coração de meu pai parou de bater. Me sentia culpada por incluí-los naquilo, mas também grata por eles se importarem ao ponto de lutarem comigo.
- Como nós... – Oliver tentou perguntar, mas fogo se fez no ar de repente o interrompendo... Era uma mensagem. Um papel deslizou do fogo e caiu no chão, Marcos o pegou e leu.
- É uma invocação, eles exigem que você vá para a academia e preste depoimento para o comitê, querem você lá até a noite. – Marcos explicou e eu bufei.
- Ótimo. – Respondi sarcasticamente e Oliver arqueou as sobrancelhas.
- Quer que te acompanhemos?
- Não, preciso fazer isso sozinha.
- É muito estranho que eles tenham te dado um prazo e exigido que você fosse. – disse e eu me levantei.
- São os pais de Alexia, agora que tomaram o poder irão abusar dele. – respondi e todos viram sentido naquilo. – Bom, eu tenho que ir, não é? Não quero ser procurada pela polícia.
- Não vai contar o que seu pai te falou... Vai? – Marcos perguntou e eu suspirei.
- Claro que não.
- Resolvemos o negócio da Alemanha depois. – Lily disse e eu franzi o cenho.
- Falando nisso, o que vocês dirão para seus pais? – estremeci ao dizer aquela palavra e Leo respondeu:
- Que iremos fazer uma viagem para amenizar o impacto de tudo. – Eu assenti e fui até o banheiro, para tomar outro banho. Não estava suja, mas precisava daquilo.
Minha vida tinha virado de ponta cabeça e eu nem mesmo sabia o que faria ou o que viria a seguir.

Capítulo 3


- Eu já expliquei tudo de trás para frente, por que tenho que repetir? Você já escreveu meu depoimento. – Apontei para as mãos da mãe de Alexia que seguravam um papel e ela olhou para os demais integrantes do comitê.
- Precisamos de todos detalhes que você puder dar. Temos que pegar quem fez isso. – disse em um tom sério e eu fechei os olhos para revira-los.
- E você acha mesmo Samantha, de que eu iria ocultar os detalhes? Eu mais do que ninguém quero encontrar quem fez isso. Eu quero justiça mais do que todos! Essa pessoa tirou meus pais! – respondi com a cabeça pesada e Samantha arqueou as sobrancelhas.
- Não tem razão para se exaltar. Estamos apenas fazendo o nosso trabalho. – Largou o papel na mesa e eu respirei fundo.
- Não seja dura com a menina. Ela acabou de perder os pais e ela realmente já contou a mesma história quinze vezes, isso já elimina suas suspeitas. – Daniele me defendeu e eu nem mesmo tive tempo de me sentir agradecida. Daniele era uma das melhores amigas de meus pais, havia cuidado de mim e era praticamente uma tia.
- Daniele, precisamos focar no caso. Seu comportamento apenas prova uma das cenas. – Samantha disse olhando para as pessoas na sala e eu franzi o cenho, mesmo sabendo do que aquilo se tratava.
- Agora eu entendo. Eu entendo totalmente o que você quer moldar, está me fazendo dar o mesmo depoimento continuadamente para ver se ele se modifica. Porque se ele se modificar, então provavelmente estarei inventando. – Fiz a suposição e Samantha continuou séria.
- Tudo aponta para você, . Nossa cidade sempre foi segura, nunca houve sequer um assassinato em 51 anos, a única digital no corpo de seus pais é sua, você não tem uma reputação tão boa e não foi nem você que ligou para a polícia. Não nos culpe por ligar os pontos. – Mexeu em sua caneta e eu quase ri com tamanha obviedade de sua tentativa de me culpar. – Fora que, tudo fica em sua vantagem com a morte deles, você fica com a assinatura da casa, a herança, o renome.
- Eu vou fingir que não ouvi isso, sinceramente. Uma reputação boa? Eu não sou viciada em drogas, nunca fui pega colando, só tive um namorado na vida. Minha reputação, você quer dizer não conseguir usar a magia adequadamente? Você está louca Samantha, digitais não são um problema para bruxas e desculpe-me se não chamei a polícia, não pensei nisso quando ouvi o coração de meu pai parar de bater! – as lágrimas voltaram e eu senti ódio por não conseguir mantê-las longe. Eu sentia ódio por mostrar e ódio deles que não viam o quanto Samantha era manipuladora.
- Ela tem razão Samantha, não temos nenhum motivo para suspeitar dela. – Dorian disse enquanto tentava me reconfortar e eu neguei com a cabeça.
- Eu não aguento mais ficar aqui, posso sair? – questionei fungando e todos concordaram ao mesmo tempo, até Samantha que o fez relutantemente.
Era inacreditável! Agora eu via de onde Alexia tinha desenvolvido o comportamento e o jeito impecável de vadia. Talvez fosse Samantha e Alexia quem tinham planejado a morte de meus pais, eu não conseguia nem começar a pensar porque o ódio fazia a dor aguda voltar. É claro que estava ocultando algumas partes da história, mas o que eles tinham contra mim para me acusar? Apenas más notas na academia?
Eu não aguentaria mais uma besteira daquelas sem explodir, sinceramente. Eu fugiria na primeira oportunidade se aquilo acontecesse de novo, a família dela é que tinha problemas com a minha, mas não tinha mencionado isso porque aquilo só seria mais um ponto contra mim. Samantha era bastante suspeita, mas muito óbvia, se ela tivesse o feito meu pai teria me dito.
Eu não podia me preocupar com as ameaças que ela e Alexia representavam, eu tinha que me preocupar em comprar as passagens e sair logo daqui, para descobrir quem tinha feito aquilo com meus pais. Cheguei na casa de e vi todos reunidos no sofá, olhando para o computador na mesinha.
- Hey, venha aqui. Estamos vendo passagens. – chamou e eu tirei o casaco indo até eles.
- Temos que passar despercebidos, então temos que ir de comercial. Nada de executiva ou primeira classe. – Cliquei no mouse descartando essas opções e Leo olhou um pouco surpreso.
- Ok, esperta. Mas comercial? Sério?
- Sim Leo, como toda pessoa normal.
- Você vê o quanto te amo? Vou passar cinco horas em um avião comercial por você. – Leo brincou e Lily deu um tapa em sua cabeça. Eu não ri e nem vi graça, apenas me lembrei do que eles estavam arriscando por ir.
- Vocês sabem que se fugirem comigo, vão ser possíveis suspeitos de assassinato, não é? – perguntei olhando para todos séria e suspirou.
- Que se foda . Nossos pais acreditam na gente e nós vamos com você, eles podem pensar o que quiser.
- E seus pais? Eles podem ser presos por cumplicidade. – Respondi e Allie revirou os olhos.
- Você sabe que eles são poderosos demais para isso.
- Mas...
- Achei uma trajetória para Alemanha, Frankfurt. Semana que vem. – Lily me interrompeu enquanto clicava nas páginas e eu me aproximei sem falar mais nada.
- Não tem para mais cedo?
- Não, só semana que vem.
- Então compre as passagens. – Instrui e ela comprou com o cartão dos pais de . – Quanto custou? As sete passagens?
- Três mil e quinhentos. – respondeu e eu fui pegar o dinheiro de minha bolsa, colocando três mil e quinhentos da quantia na mão de . – Coloque na conta bancária de seus pais.
- Por que?
- Para eles não perceberem que sumiu.
- Mas... Me deixe pagar.
- Não , isso está fora de cogitação.
- .
- Você quer mesmo discutir comigo? – questionei mal humorada e bufou, pegando a bolsa e saindo de casa.
- As passagens estão compradas, agora tem alguma ideia do que vamos fazer quando chegarmos lá? – Allie perguntou e eu caí no sofá, com uma dor de cabeça insuportável.
- Não, não tenho a mínima ideia.
- Talvez um feitiço de localização? – Marcos sugeriu e eu ri baixinho.
- Como se uma bruxa de 300 anos não conseguisse colocar proteções para não ser encontrada.
- Mas seu pai não deu nenhuma pista? Estranho, se é tão urgente que você a ache. – Lily disse e eu abri os olhos, pensando.
- Não, não me deu nenhu... – antes que eu pudesse completar minha frase, algo me veio à mente. Eu havia pegado o caderno que meu pai sempre carregava consigo, talvez tivesse alguma pista lá. Saí correndo e abri minha mala, procurando.
- O que você está fazendo? – Leo perguntou confuso e eu não respondi, focada demais em jogar tudo da mala para fora e pegar o caderno.
Quando o achei abri na página marcada, que dizia: “É verão, nossa estação preferida. Estamos onde sempre desejamos, ao lado um do outro”. Não era possível que ele tivesse começado a tentar besteiras de poetas, era uma pista eu só precisava descobrir qual era o significado. Então tudo o que fiz foi vasculhar minha mala um pouquinho mais, tentando encontrar outra pista.
O que achei me fez sorrir e sentir meu coração ser esmagado, uma foto, eu lembrava dessa foto mesmo que tivesse a tirado quando pequena. Eu tinha dez anos e estávamos em uma viagem ao Havaí, a foto tinha sido tirada ao mesmo tempo que ele me contava histórias, estávamos sorrindo um para o outro. Naquele mesmo dia eu tinha dito que verão era minha estação favorita e ele havia respondido que também era a sua, ele disse que passaríamos o verão sempre em algum lugar especial, sempre juntos.
Virei a foto e vi que algo estava escrito no papel, então coloquei as mãos sobre a boca para evitar o choro... Era um endereço, um endereço de Frankfurt com o nome da rua, prédio e até o número do apartamento.
- Temos um endereço, agora só precisamos torcer para que ela não se sinta ofendida. – falei com a voz fraca, tentando a piada, mas forcei os olhos a se fecharem antes que as lágrimas viessem.
- Se seu pai te mandou ir até ela, é porque sabia que ela iria te ajudar, . – Oliver respondeu tocando meu ombro e eu coloquei minha mão sobre a sua. Eu tinha perdido meus pais, mas ainda tinha minha família, eu sentiria a falta deles quando tudo estivesse feito.
- Eu sequer mereço ajuda. – Neguei com a cabeça e Lily me abraçou sem falar nada, ela sabia que se falasse algo não mudaria como me sinto sobre o acontecimento. Então estava me reconfortando.
- Tem algo que podemos fazer por você... – Marcos afirmou um pouco relutante e eu olhei ao mesmo tempo que Leo reprovou.
- Nem pense nisso, perigoso nem começa a descrever.
- O que é? – perguntei curiosa saindo do abraço e Leo balançou a cabeça.
- Isso pode nos ajudar Leonardo. – Oliver apoiou e Allie se intrometeu.
- Isso também pode nos matar! – disse e todos menos eu e Lily começaram a discutir, até que eu gritei:
- Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?!
- Tem um ritual...
- Não vamos fazer. – Allie interrompeu Lily e eu bufei.
- Diga.
- Ele permite que bruxas se comuniquem com os mortos, mas exige muita energia e são só por alguns minutos. Nós nem sabemos se funcionaria. – explicou e eu pensei, tudo o que eu mais queria era ver meus pais. Mas e se eu os visse? Apenas por alguns minutos? Eu teria que enfrentar a perda novamente.
- Eu vou... Eu vou treinar. – Respondi sem pegar nada e não planejando me trocar. Mesmo estando de calça jeans, queria me distrair, levantei e limpei as mãos na calça.
- Pelo menos, é inteligente. – Leo disse e eu me virei quando já estava porta.
- Fique tranquilo Leo, ainda não disse que descartei a possibilidade do ritual. Eu só vou sair para pensar sobre. – Abri a porta e saí, tensa e respirando fundo.
Quando pisei na academia senti uma necessidade enorme de lutar, senti como se fosse a única coisa que precisasse para fazer tudo passar, mas não queria machucar Luke. O bloqueio tinha passado e eu não sabia o que eu conseguia fazer agora sem ele.
- Vai ficar parada olhando para o ringue? – Luke apareceu na sala ao lado e eu abaixei a cabeça. – Soube do que aconteceu... Eu sinto muito.
- Todos sentem. – Respondi colocando as mãos nos bolsos e olhando para a frente.
- O que veio fazer aqui? – questionou e eu dei de ombros.
- Precisava de uma distração.
- Então quer lutar? – supôs e eu finalmente olhei para seu rosto.
- Quero desabafar em silêncio. Sim, quero lutar. – Me interrompi então olhei para a prateleira de armas que havia tocado poucas vezes. – Mas quero lutar com armas.
- , não sei se é uma boa ideia.
- E por que? Juro que vou tentar não te machucar.
- Você vai me forçar a ir rápido e eu tenho medo de te machucar, treinamos pouquíssimas vezes com armas e sim, você tem habilidade, mas eu tenho anos de prática. – respondeu brincando e eu percebi, sorrindo forçadamente. Pelo menos fingir eu tinha conseguido, desde o acontecimento.
- Vamos logo, Luke. – Ordenei pegando duas adagas extremamente bonitas da estante e esperando no ringue de luta.
- Você não está com as roupas apropriadas. – Apontou as duas adagas que tinha pegado para si, também se posicionando e eu formei uma resposta em minha cabeça ao mesmo tempo que pensava em como atacar.
- Eu não tive tempo. – Respondi e no meio da frase ataquei, deixei a outra adaga como defesa.
Luke atacou de volta jogando o braço, e a adaga que estava em sua mão quase cortou minha blusa, mas eu pulei para trás e tudo o que ouvi foi o barulho da adaga cortando o ar. Quando começamos a lutar eu senti meu corpo mais rápido e leve, como se eu estivesse ainda melhor naquilo, como se nada pudesse me vencer.
- Seu cabelo pode te atrapalhar. – disse enquanto tentava atacar de novo e eu desviei mais uma vez, sentindo meu cabelo balançar.
- Não tenho como prendê-lo agora. – Respondi enquanto fazia um X com as adagas para impedir a adaga de Luke de me atingir, mas ele só atacou com uma adaga e a outra ele encostou em minha costela mostrando que se estivéssemos em um combate real eu provavelmente estaria morta naquele momento. Então ele tirou e recomeçamos, ataque, defesa, ataque, defesa.
- Como está se sentindo? – perguntou enquanto girava as adagas e eu me abaixei desviando e continuando a conversa casualmente.
- Ótima. – Levantei e logo abaixei de novo porque ele tentou o mesmo movimento e bati minha adaga com a sua, começando a tentar distraí-lo.
- Certeza? – chegou na linha do círculo e colocou uma mão para trás, se abaixando e desviando de mim para voltar ao centro.
- Estou no melhor estado que posso estar. O comitê até suspeita de que eu os matei. – Revelei e a dança parou, então vi a abertura e apontei com a adaga para seu pescoço, acabando com a luta.
- , isso é algo sério. – disse tentando ganhar minha atenção enquanto eu ia pegar outra arma e me virei, reparando em alvos que haviam atrás de Luke.
- Você sabe que não fui eu. – Dei de ombros e ele chegou mais perto.
- Claro que sei, mas ser acusada de parricídio não é exatamente brincadeira. – respondeu e eu suspirei, levantando as adagas e as jogando uma de cada vez no ar para acertarem os alvos. Incrivelmente as duas acertaram o centro dos dois alvos, e Luke se assustou.
- O que foi? Pensou que eu ia te matar também? – perguntei em um tom carregado de sarcasmo e ele balançou a cabeça.
- Não fale desse jeito, .
- Oh me desculpe, eu não sou mais permitida sequer falar? – questionei pegando uma espada e a tirando de sua capa, enquanto voltava para o ringue. Luke pegou uma de outro estilo também e respirou fundo.
- Não quero te machucar. – disse enquanto ainda não começávamos e eu dei o primeiro passo.
- Já estou machucada. – Respondi atacando e bati contra sua espada enquanto duelávamos, minhas duas mãos que seguravam a espada se mexiam com habilidade e pareciam saber o que fazer todo o tempo.
Encurralei Luke mais uma vez no limite e ele desviou apontando a espada para mim em um golpe, mas me joguei para o lado desviando e o chutei na barriga, fazendo ele cair para o outro lado do círculo.
- Tem razão de estar brava, mas não pode desafiar o comitê. – Avisou levantando e eu balancei a cabeça, sem querer falar sobre.
- Eu vou fazer... – ataquei pulando em uma pausa, mas sua espada bloqueou a minha e um barulho agudo se formou na sala. – O que eu quiser fazer.
- Você será presa, . – disse sério e eu desviei de sua espada e ataquei mais uma vez.
- Se eles têm tanta certeza, o que posso fazer? – perguntei duelando novamente e daquela vez ele é quem tinha me encurralado no limite do círculo, me abaixei e apliquei uma rasteira nele, observando seu corpo cheio de músculos cair como eu queria.
- Você pode ficar na sua. Não provoque e nem brinque com isso. – Avisou levantando e eu avancei rapidamente, cortando o ar porque Luke desviou.
Eu me sentia poderosa, mais do que jamais me senti, então avancei mais uma vez e as espadas começaram a se bater novamente, perdi as contas de quantas vezes eu defendia e atacava. Eu tinha raiva e determinação ao invés de insegurança, era incrível se sentir assim em uma luta.
- Não vou ficar quieta enquanto eles me acusam. – Respondi enquanto desviava e Luke se abaixou para dar uma rasteira, mas pulei e me safei andando para trás, levantando a espada para defender seu ataque. Mais batidas de espadas e então Luke finalmente falou:
- Você só vai parecer mais suspeita. – disse enquanto se esforçava para abrir minha defesa e deslizei minha espada pela sua, mudando sua direção.
- Você me acha suspeita? – questionei enquanto o observava para achar alguma falha em seu posicionamento e ele avançou com toda sua força em um grunhido, me forçando a usar a minha também.
- Não vai me distrair com seus jogos infantis. – respondeu e eu franzi o cenho, ele estava me levando pro limite, girei meu corpo batendo minha espada com a sua em um ângulo diferente, começando novamente o combate com as espadas com força. Ele estava no limite agora e parecia estar difícil segurar minha espada, então com um grito abaixei minha espada e o chutei para fora.
- Mais uma vez. – pediu se posicionando e com uma ordem silenciosa começamos de novo, nós dois nos esforçávamos e usávamos tudo o que tínhamos. Usei as duas mãos novamente para sustentar a espada e o ataque de Luke fez com que sua espada passasse quase cortando meu cabelo.
- Uou, eu gosto do meu cabelo, deixe assim. – falei enquanto me distanciava e corri de novo batendo minha espada com a sua.
- Eu acho que precisa de um corte. – Sugeriu dando de ombros e desviou de minha espada, joguei ela por cima novamente e ele desviou mais uma vez.
Bati uma vez em cima e uma vez embaixo, até que quando ataquei em baixo novamente sua espada prendeu a minha no chão por alguns segundos, ele fez um movimento jogando a minha espada para longe e outro fazendo com que eu tivesse que me esquivar curvando as costas em um movimento parecido com o de Matrix, aquilo não era fácil não sei porque todo mundo adorava. Vi a espada passar por cima de meu corpo agarrando o ar e voltei para minha posição normal indo pegar minha espada... Luke tentou dar o ataque inicial.
Abaixei e apareci rapidamente por suas costas, mas ele se virou ficando de frente para mim então em um movimento de lado girei meu corpo segurando a espada e cortei a camiseta de Luke junto com um pouco de pele, me sentindo ofegante. As mãos de Luke soltaram a espada imediatamente e se colocaram no ferimento, eu vi o choque aparente em seus olhos, soltei minha espada também e meu rosto se contorceu em surpresa, não acreditando que havia feito aquilo.
- Eu... Luke, me desculpe. – pedi com receio de chegar perto e ele olhou para mim, saindo do choque.
- Não, eu... Foi só um arranhão, não se preocupe. – disse olhando para as mãos que tinham um pouco de sangue e eu neguei com a cabeça.
- Eu não sei como, eu realmente não sabia o que estava fazendo. – Tentei explicar e Luke colocou as mãos ali concentrando-se, provavelmente para fazer um feitiço.
- Deorum remedium quaerere. – Recitou fechando os olhos e o corte se fechou, deixando o sangue sozinho ali. – Acho que não é uma boa ideia continuarmos lutando, estou um pouco zonzo por causa do feitiço.
- Você... Você tem toda razão! Me desculpe, Luke. – Pedi recolhendo as espadas e as coloquei no lugar certo da estante. Tinha tantas armas bonitas ali, gostaria de treinar sozinha com elas. – Eu vou embora.
- Talvez... Você possa passar por aqui amanhã. – disse um pouco estranho e eu suspirei concordando com a cabeça.
Saí da academia e fui para a casa de , com uma decisão declarada e que não iria mudar. Eu havia cortado Luke, eu já havia cortado ele outras vezes em combates, mas nunca daquele jeito, eu nunca tinha sentido aquela sensação ou ficado em choque depois de o fazer. Pensei nisso o caminho todo e não consegui entender o porquê de aquilo ter acontecido, então cheguei em casa e todos meus amigos ainda estavam lá.
- Vocês não vão para as suas casas? – questionei querendo um pouco de privacidade e todos negaram.
- Só a noite. – Allie respondeu e eu olhei pela janela.
- Já está escurecendo.
- Calma, espera um pouco. – disse fazendo um gesto com as mãos e eu me aproximei.
- Você está suada. – Leo apontou o óbvio e eu respondi imediatamente:
- Eu pensei sobre o ritual.
- E? – Leo perguntou com receio e eu cruzei os braços.
- E quero fazer. – No momento em que as palavras saíram da minha boca, Leo e Allie se levantaram.
- Nós esquecemos de mencionar que é perigoso? – Allie passou de calma para sarcástica e eu bufei.
- Preciso de um banho, depois falamos sobre isso. – Avisei andando em direção ao quarto para pegar uma muda de roupa e os dois me seguiram.
- Você não pode arriscar sua vida dessa forma, é claramente suicida. – Leo disse indignado e também apareceu no meio.
- O que está acontecendo? – questionou confusa e eu neguei com a cabeça.
- Nada. – tentei sair do quarto com a muda de roupas na mão, mas me bloqueou.
- Você vai ficar escondendo coisas de mim agora?
- Eu quero fazer um ritual que eles julgam ser perigoso, você ouviu. – respondi sem muita emoção e ela continuou na porta.
- Eu sei, mas que tipo de ritual? – perguntou como se fosse uma informação essencial e eu bufei.
- Ela quer fazer o ritual que toca o véu entre os mundos, para se comunicar com os pais dela. – Allie respondeu contrariada e olhou para todos ali.
- Você tem noção de quanto poder isso exige?
- Não, mas vou descobrir. Se vocês não me instruírem eu pesquisarei por mim mesma. – havia uma biblioteca na cidade, eu procuraria mesmo que levasse dias.
- , isso esgotaria você e mesmo assim não tocaria o véu. – respondeu cruzando os braços e uma única coisa me veio à cabeça.
- Então tem algo que podemos fazer.
- O que? – Leo questionou.
- Se isso me esgotaria, porque não pegamos energia de todos nós? Assim ninguém morre. – conclui e todos me olharam com receio.
- , não sei se isso é uma boa ideia. – Leo respondeu e eu me direcionei a todos quando falei:
- Vocês não eram minha família? Famílias não se ajudam?
- Eu acho... Eu acho que se todos nós fizermos, conseguimos. – disse com hesitação e eu concordei com a cabeça, indo até a sala.
- Alguém sabe exatamente como se executa esse ritual? – questionei e todos menos Marcos negaram com a cabeça.
- Eu sei de trás para frente, mas tem um preço. – disse e eu arqueei as sobrancelhas.
- Eu sei que suga energia, mas peço para vocês que façam comigo. – falei e Marcos negou com a cabeça.
- Fora a energia, precisamos nos desfazer de uma lembrança e entrega-la para o véu, uma lembrança da pessoa que mais amamos. – explicou e eu estremeci, mas concordei com a cabeça.
- Vocês querem fazer isso? – perguntei uma última vez e todos concordaram.
- Estamos aqui pra te ajudar, .
- Eu sei... Eu amo vocês, só não se decepcionem se a lembrança não incluir vocês hein. – tentei brincar um pouco séria e deu um tapa em meu braço.
- Aham, a lembrança vai ser do Liam. – disse rindo e todos a acompanharam, mas eu só cortei o assunto.
- Tenho que tomar um banho. – falei saindo da sala sem esperar uma resposta.
Eu era uma suposta suspeita de assassinato, eu era a menina que havia cortado o melhor lutador bruxo da cidade e sentido uma energia estranha, eu era órfã, uma bruxa de 19 anos que não tinha nem noção dos poderes. Eu era ... Quem estava prestes a arrastar os melhores amigos para algo bastante e completamente perigoso.



Já era sexta-feira, meus pais haviam morrido na segunda e eu tentava parar de pensar naquilo toda vez que respirava, mas eu sonhava acordada a cada três minutos. As aulas estavam suspensas até o final da investigação e o comitê não me deixava em paz, investigando e tentando encontrar provas contra mim, mas eu não tinha me alterado desde terça-feira e isso era ótimo.
Já a sensação estranha eu sempre a sentia, eu queria descobrir quais eram meus poderes e do que eu era capaz, mas não tinha nem ideia de como começar a explorar aquilo. Faltavam cinco dias para a viagem e eu estava mais do que ansiosa, estava apavorada, com medo do que aconteceria com os meus amigos.
- Eu soube que tem carne nova na cidade. – Allie me tirou do meu devaneio e eu pigarreei.
- Como assim? – questionei um pouco perdida e Allie olhou para mim.
- Um cara chegou na cidade, os pais parecem ser importantes, mas não consegui muitas informações. – deu de ombros e eu suspirei.
- Bom, temos coisas mais importantes para nos preocupar do que garotos. – respondi e Allie balançou a cabeça.
- Talvez seja uma possível coisa a nos preocupar, se os pais dele são importantes eles podem ser possíveis novos membros do comitê. – supôs e eu franzi o cenho.
- O comitê só aceita pessoas de extrema confiança, e se eles fossem realmente importantes, fotos deles estariam por toda parte nesse momento. – tentei cortar sua suposição, mas Allie apenas ficou quieta, e eu sabia que ela não deixaria para trás.
- O que estão discutindo? – Marcos apareceu na sala de estar e eu direcionei meus olhos a ele.
- A carne nova. – Allie respondeu e eu fiquei quieta, na minha.
- Ah, Devereaux? – Marcos questionou e eu ri em um gesto forçado.
- Pare de brincadeira, nem pensar que está na cidade. – me intrometi cruzando os braços e Allie franziu o cenho.
- Você o conhece?
- Claro que conheço, ele é de uma das famílias mais importantes no mundo bruxo. Você não o conhece?
- Eu conheço por ouvir falar, mas você se referiu a ele com um apelido. Conhece ele pessoalmente? – Allie perguntou mais uma vez e eu dei de ombros.
- Ele é o primo de segundo grau da Alexia, eu conheci ele quando tinha uns 8 anos ele era três anos mais velho. O magrelo e estranho . – respondi o que ela queria saber e ela riu, me deixando confusa.
- Você não o viu desses tempos para cá, viu? Eu nem acredito que ele está na cidade, vou ter uma oportunidade de vê-lo de perto. – disse desacreditada e Marcos cortou sua linha de raciocínio.
- Allie, não sonhe tanto. Ele provavelmente tem namorada.
- Vocês só podem estar brincando comigo, querem insinuar de que ele está lindo agora? – perguntei e Marcos negou com a cabeça, mas Allie concordou freneticamente.
- Ele é tipo um sonho molhado. Ele era feio mesmo, quando criança?
- Ele era estranho, fora que era uma criança horrível. Implicava comigo sempre que tinha a chance. – expliquei quase sentindo um calafrio ao lembrar de nossas brigas e Allie deu um sorriso malicioso.
- Talvez ele fizesse isso porquê gostasse de você.
- Nem pense em romantizar a situação, ele grudou chiclete em meu cabelo porque eu havia tirado a atenção dele, tive que cortar tudo e fiquei parecendo um menino até ele crescer de novo. – contorci o rosto enquanto lembrava do corte horrível e Allie arqueou as sobrancelhas.
- Por que será que ele está aqui afinal?
- Eu não quero saber, já tenho problemas o suficiente. – descruzei os braços tentando parecer indiferente, mas me tornei realmente curiosa. – Talvez ele entre na fila por minha cabeça.
- Não pense assim, talvez vocês nem se vejam. – Allie respondeu e mexi em meu cabelo.
- Acho bem improvável. – levantei do sofá e Allie ficou quieta mais uma vez.
- Vai sair? – Marcos perguntou e antes de ir me trocar lancei uma resposta:
- Vou treinar.
- , não sei se isso é uma boa ideia. Você sequer está comendo direito. – Marcos tentou dizer e me seguiu enquanto eu procurava uma roupa.
- Não se preocupe. – falei tentando fazer ele sair do quarto e ele bufou.
- Mas eu me preocupo, fora que se você desmaiar irá matar todos nós. – respondeu como se fosse bastante sério e eu coloquei as mãos na cintura.
- Antes de sair como uma maçã, satisfeito? – perguntei e Marcos riu com cinismo.
- Você tem que comer, comer de verdade. – disse em uma bronca e eu estralei os braços, cansada.
- Uma maçã e uma banana. – ofereci o trato e Marcos negou com a cabeça, então fui até ele para tirá-lo com as minhas próprias mãos.
- Et clauso ostio, hic teneam. – recitou o feitiço que fechava as portas e eu bufei.
- Vai ser assim? – perguntei recebendo de volta um concordar e então cedi. – Tudo bem, então fique para o show.
- O que... O que está fazendo? – questionou enquanto eu tirava minha blusa e quando eu desabotoei a calça, Marcos se virou para não olhar.
- Você não quer sair do quarto para eu me trocar, então pode ficar enquanto eu me troco. – respondi e ele grunhiu.
- Você enlouqueceu.
- Vocês acham que podem me trancar, acham que podem fazer o que quiserem com os feitiços só porque eu não posso. Então eu vou revidar. – expliquei simplista e coloquei a muda de roupa, virando Marcos para me olhar. – Por favor, destranque a porta.
- Só quero que você coma direito. – respondeu e eu cruzei os braços.
- Abra a porta e comerei o que tiver em casa. – garanti e Marcos não pareceu satisfeito.
- Eu posso pedir comida.
- E eu não tenho o dia todo. – revidei e ele negou com a cabeça, então me virei para porta e levantei um pouco as mãos, tentando me concentrar para tentar executar o feitiço.
- , pare. – pediu já prevendo o que eu iria fazer e eu continuei focada na porta.
- Reserare! – recitei também o feitiço para abrir objetos e a porta se abriu violentamente, me fazendo se sentir orgulhosa. Saí correndo e ouvi Marcos gritar.
- ! Volte aqui! – disse quase como uma ordem e quando eu cheguei a quase sair da casa ele mostrou seu arsenal de feitiços novamente.
- Prohibere! – meu corpo inteiro parou e eu gemi, tentando me mexer até a porta.
- Me solte Marcos, me solte! – tentei gritar, mas a limitação de minha garganta não deixou, então ele veio até mim.
- Você puxa o poder de qual fonte? – questionou e eu me confundi, haviam bruxas que puxavam de lugares ou objetos sagrados, outras bruxas que puxavam de ancestrais poderosos e eu... Eu não sabia de onde havia puxado.
- Me solte. – respondi tentando pensar em algum feitiço para me libertar.
- Aonde fomos parar? Eu só quero que coma. – disse baixinho e eu suspirei, ofegante por tentar me mexer.
- O que está acontecendo? Nosso grupo vai ficar brigando toda hora, agora? – Allie que estava quieta, disse.
- Dimittis me. – consegui mover meu corpo novamente com a distração de Marcos e quando cheguei ao lado de fora, me esforcei em outro feitiço: – Totis viribus tenere clausero!
Os tranquei como eles haviam feito comigo e corri, corri para a academia e torci para que Marcos não fosse burro o bastante para me seguir. Me senti bem por conseguir fazer os feitiços sem hesitação e também por fazer Marcos provar do gosto de como era ser aprisionado, eu sabia que ele conseguiria reverter o feitiço em pouco tempo, mas mesmo assim me senti totalmente poderosa.
Cheguei na academia e senti como se fosse errado entrar ali... Eu havia cortado Luke, e o clima claramente tinha ficado bastante estranho depois do acontecimento, será que ainda estaria estranho?
- O que está fazendo aqui? – uma voz se formou no ar e eu me virei para encontrá-la. Um homem estava apoiado na porta da academia e para me certificar de que era comigo com quem ele estava falando, apontei e franzi o cenho. – Sim, você .
- E você, quem é? – questionei tomando sua postura e ele sorriu, mostrando seus dentes extremamente alinhados e perfeitos. Ele era bonito, os cabelos negros e arrumados, a pele um pouco bronzeada, os olhos com uma cor indefinida... Verde e um toque de âmbar, tinha uma postura relaxada e um corpo esbelto, sem muitos músculos, mas bastante masculino, ele era alto também, mas nada que impressionasse.
- Mudei tanto assim? – questionou me olhando nos olhos e eu me perdi um pouco.
- Então você não é mais magrelo, os boatos são verdadeiros. – dei uma risada fraca para acompanhar o comentário e veio até mim.
- Você luta, agora?
- Por que isso te interessaria? – perguntei piscando lentamente e ele deu de ombros.
- Você não tem noção do quanto me interessa, já que eu vim para essa cidade porque seu pai me pediu. – disse e eu automaticamente agarrei seu colarinho, puxando-o, pronta para aplicar um golpe.
- Pare de brincadeiras , você não sabe do que eu sou capaz. – continuei esperando qualquer movimento de sua parte e ele ficou sério.
- Eu sei do que é capaz, mas não é nada contra mim. – sussurrou e eu apertei minhas mãos em sua roupa.
- Você não mudou nada, continua o escroto arrogante de 11 anos atrás. – respondi e ele sorriu novamente.
- Vamos, me bata. Só vai fazer com que as suspeitas sobre você aumentem. – disse e eu o empurrei com as mãos, ofegante de raiva.
- É claro que isso já está correndo pela cidade. Quem te contou? Alexia?
- Ainda não tive o desprazer de encontrar minha prima, soube por fontes minhas. – cruzou os braços e eu me lembrei de que também odiava Alexia.
- O que você quer comigo, ? – perguntei de saco cheio e ele colocou as mãos nos bolsos.
- Isso você só vai descobrir na hora certa. – tentou fazer um mistério e eu apenas grunhi com a obviedade.
- Eu sei qual é a sua, diz essas coisas para me deixar curiosa, mas adivinhe? Eu não tenho o mínimo interesse em assuntos que envolvem você. – falei olhando para seu rosto e ele sorriu novamente, aquilo já estava me irritando.
- Você já está em assuntos que me envolvem, eu sugiro que cumpra seu papel quando a hora chegar, tudo está muito além de seus interesses. – chegou perto de mim para me tocar e eu agarrei seu pulso com raiva, ouvindo-o gritar e se afastar.
- Você... Me queimou. – disse em uma voz baixa e eu olhei para seu pulso que mostrava um vermelho forte, mais forte que do pulso de da última vez que aquilo havia acontecido.
- Não chegue perto de mim. – me afastei em passos grandes e vi mais um sorriso discreto aparecer em seus lábios. Aquele garoto era retardado?
- Nos vemos amanhã, . – disse meu apelido de modo provocativo e eu já de costas levantei o dedo do meio, ouvindo uma risada. – Como sempre agradável!
- Como sempre um escroto! – respondi no mesmo tom e não ouvi mais respostas. Andei até em casa no extremo frio e quando cheguei, abri a porta e esperei que não houvesse algo tão cansativo na espera.
- Você voltou rápido. – Allie estranhou e eu joguei as chaves na mesa, estressada.
- Não tive como treinar, Devereaux ficou na minha cola. – respondi e Allie se levantou rapidamente, me fazendo revirar os olhos.
- O que? Como? Ele falou com você? Ficou te olhando? – chegou perto e eu neguei com a cabeça.
- Não estou com saco para explicar agora.
- Você não está com saco para nada, nem mesmo para comer. Parece que quer ficar doente. – Marcos interviu e eu ri com escárnio.
- Talvez eu queira, simplesmente não é da sua conta.
- É sim.
- Não, não é! Vocês todos acham que é, porque pensam que eu vou quebrar se me deixarem sem supervisão. Eu estou quebrada, vocês não têm ideia do que está acontecendo comigo e me trancar, me deixar sem escolhas... Não vai me ajudar! – gritei antes que eles viessem como sempre faziam e Marcos me olhou.
- Você quer afastar todos porque se sente culpada, mas nós sabemos a verdade e é por isso não vamos te deixar sozinha. – respondeu e eu bufei.
- Vocês são tolos. Talvez eu tenha mudado. – joguei a hipótese e Allie também pareceu cansada.
- Você mudou, luto muda uma pessoa. Mas não do jeito que pensa , você não é uma assassina, não importa o quanto queira que nós te demos um tempo, nós conhecemos você. Você pode brigar e empurrar, mas você não vai conseguir então está apenas se cansando.
- Eu cansei do discurso sobre me conhecer, nem eu mesma me conheço! Eu vivi em uma mentira por toda minha vida e agora não sei o que era para ter sido de verdade.
- Nós somos de verdade, . Você nos merece de verdade! – Allie elevou sua voz e eu abaixei a cabeça.
- Vocês não sabem de nada.
- E nem você sabe. Pare de inventar coisas!
- Vocês querem tanto que eu ainda seja a antiga , que ignoram todos os fatos! Eu não sou a mesma, parem de fingir que sou!
- Nós aceitamos que você mudou, mas...
- Mas nada! Eu não aguento mais, eu não aguento mais essa cegueira de vocês. – respondi e eles balançaram a cabeça.
- Você só diz isso porque está transtornada. – Marcos tentou chegar perto e eu fechei os punhos.
- Me deixe em paz! – gritei e ele deu mais um passo. – Eu disse, me deixe em paz!
Os segundos seguintes não fizeram sentido, toda a casa tremeu como em um terremoto e o vento foi tão forte que senti meu cabelo ser jogado para frente, ouvi o barulho agudo do vidro balançando e vi que algumas coisas caíram de cima da mesa. Marcos e Allie se assustaram e eu fechei os olhos.
- Vocês percebem o que eu digo agora? Nem eu mesma sei do que sou capaz nesse momento.
- Vamos descobrir, juntos.
- Não, não vamos. – respondi com a dor alfinetando todo meu corpo.
- Por que você não consegue entender que se afastar não vai ajudar ninguém?
- Mas vai, com o tempo.
- Você deveria saber de que o tempo não muda as coisas, as ações mudam. Nós sempre pensamos que é assim porque demoramos para tomar alguma atitude, mas nós somos idiotas. – Allie tentou explicar seu ponto de vista e eu ouvi o que fez sentido, mas eu era um perigo para todos.
- Eu preciso desse tempo sozinha, é o único jeito de descobrir quem eu sou de verdade.
- Você sabe que não é, sabe que isso é só mais uma desculpa que está dando. – Marcos disse e eu neguei.
- Vou sair agora, para espairecer um pouco.
- Agora? Você acabou de voltar, e ainda nem comeu nada. – Marcos pareceu preocupado, então fui até a geladeira e tomei água, pegando uma maçã.
- Preciso de ar fresco. Não tentem me impedir. – respondi e peguei novamente as chaves de casa.
Saí e andei o máximo possível, encontrando uma praça pouco iluminada. Ela estava silenciosa, então me sentei em um banco dela e joguei a maçã no lixo, sem vontade de comer.
- Não te ensinaram que desperdício de comida é algo horrível? – apareceu na praça e eu ri com escárnio.
- Deus só pode estar brincando comigo. – olhei para o céu, enfatizando e ele riu.
- Deus não gosta de bruxas. – respondeu se sentando e eu me levantei. – Não repare em mim, sente-se e fuja dos seus amigos.
- Eu não vou perguntar como você sabe do que se passa. – me sentei novamente cansada de fugir, e ele deu de ombros. – É, você tem suas fontes.
- Você deveria comer.
- E você deveria cuidar da própria vida. Estou bem. – respondi o cortando e ele suspirou.
- É por isso que sua pele está criando feridas? – apontou para minha mão e eu olhei, um pouco surpresa. Como aquilo havia parado ali? – É o que acontece quando uma bruxa acumula poder em seu corpo.
- E o que você sabe? – fui grosseira mais uma vez e ele puxou minha mão. – Me solte.
- Você precisa liberar o poder.
- Tire as mãos de mim.
- Eu não posso deixar você morrer agora, seus pais contavam comigo. – explicou e eu puxei minha mão.
- Não fale sobre meus pais! – estendi a mão de forma reta e uma rajada de ar jogou para longe. Mesmo assim ele conseguiu aterrissar em pé.
- Desconte em mim, quero ver do que é capaz. – chegou perto e eu tentei ir para trás.
- Você é maluco.
- Eu sou seu guardião. – enquanto ele se aproximava, eu me afastava.
- Do que está falando? – eu nunca estive mais confusa em toda minha vida.
- Abaixe-se! – gritou e eu por reflexo o fiz, enquanto recitava um feitiço. – INCENDIA!
Tudo o que aconteceu depois foi muito rápido, havia jogado um feitiço de fogo em algo atrás de mim, eu não havia visto o que era, apenas ouvia gritos esganiçados de alguma criatura. Depois disso, apaguei com a fraqueza e senti braços me envolvendo.


Capítulo 4


Acordei sem mesmo perceber e demorei alguns segundos para abrir meus olhos. A fraqueza dominava completamente meu corpo, além de que acordar e não reconhecer o lugar em que estava me assustou um pouco... Até eu me lembrar do que havia acontecido.
Mas aonde eu realmente estava? Na casa de ? Um hotel? Onde ele havia me deixado?
- Bom dia, flor do dia. – ele abriu a porta do quarto e eu tentei me levantar da cama.
- Onde eu estou? Você sabe que sequestro é um crime, não sabe? – questionei mal humorada por não conseguir levantar e ele deu uma risadinha.
- Não te sequestrei, apenas te ajudei.
- Eu te pedi ajuda? Acho que não.
- Fique calma princesinha.
- Não me chame assim.
- Do que quer que eu te chame? – perguntou e eu vi no seu olhar de que ele não iria atender ao meu pedido.
- Eu quero que você me esqueça. – finalmente consegui pelo menos me sentar e ele chegou perto para me impedir de sair.
- Não posso deixar que se levante.
- Não preciso da sua permissão.
- Você está literalmente sem força alguma, coma antes.
- E desde quando você se importa comigo? Não te vejo faz anos e mesmo quando éramos crianças você me odiava.
- Eu era apaixonado por você. – revelou sério e eu pisquei lentamente.
- O que? – perguntei confusa e ele começou a rir.
- Sim, eu te odiava. Mas isso não é sobre você. – reformulou e eu grunhi.
- Você é um imbecil.
- E você é muito teimosa. É simples, se não comer não vai conseguir andar até em casa.
- Vou perguntar novamente, aonde eu estou?
- Em um quarto de hotel.
- E por que me trouxe até aqui?
- Você não está preparada para a resposta.
- Talvez nem haja uma.
- Acredite no que quiser, mas coma.
- Eu vou comer. – cedi cansada e apontou para a mesa onde um prato estava colocado.
Tentei me levantar e agarrou minhas mãos para supostamente me ajudar, mas me assustei e uma onda estranha se fez no meu corpo, enquanto ele se afastava e eu me apoiava nos cômodos para chegar até a mesa.
- Você precisa desabafar. – ele disse em um tom sério e eu ri, mordendo o pão do prato.
- Certamente não será com você.
- Estou dizendo no sentido de descarregar seu poder. – explicou como se fosse óbvio e eu revirei os olhos.
- E que poder?
- O que você não entende muito bem ainda.
- Suas fontes parecem estar em todo lugar. – usei meu cinismo e ele cruzou os braços.
- Tenho muita mais vantagem além dos meus espiões, seu pai me contou tudo. – respirei fundo e não me exaltei novamente.
- Você pode por favor, parar de citar meu pai? Nem sequer o conhecia direito, está fazendo isso para me provocar. – respondi agarrando os talheres e um silêncio tomou a sala por alguns segundos.
- Eu sinto muito pela sua perda. Ele era um homem bom. – pareceu sincero ao dizer e eu ri.
- Esse é o ponto, você não o conhecia. – repeti e ele veio até mim.
- Eu só tenho como te explicar, quando você abrir sua mente.
- Então esqueça, não vou abrir minha mente para você.
- Não se trata do que você vai ou não fazer agora, se trata do que vai fazer quando for preciso. – disse sério e eu ri baixinho.
- Você não me assusta com suas suposições apocalípticas, sabia?
- Não precisa se assustar com o que eu digo, mas quando acontecer você vai ficar brava por eu não ter explicado.
- Pare com as frases enigmáticas, se quer dizer algo, diga logo.
- Você não está preparada.
- Então tudo bem. – dei de ombros sem me importar e comi a comida, sentindo como se mais um peso tivesse sido colocado em minhas costas.
- Vai voltar para a casa da sua amiga?
- Não posso.
- Eles irão te procurar incansavelmente, fora que você deixou todas suas coisas lá. Um feitiço de localização te entrega em alguns minutos.
- Agora conhece meus amigos também? – perguntei cinicamente e ele me olhou, entrando na brincadeira.
- Eu fiz minha lição de casa...
- Você é um psicopata.
- E você é muito nervosa. Sinta-se lisonjeada por eu ter gastado meu tempo com você.
- Olha, eu agradeço. Agora pode parar de gastá-lo? – juntei as mãos me levantando, apoiada na mesa.
- Tenho obrigações com você.
- E eu quero distância de você.
- Por que? Medo de resistir?
- Só nojo mesmo.
- Ouch. – sorriu fazendo uma careta e eu revirei meus olhos.
- Você não cansa de tentar ser engraçadinho? – questionei com um tom odioso e ele fez biquinho.
- Claro que não, eu amo como seu rosto se contorce quando eu te irrito. – chegou perto para apertar meu rosto e eu tentei afastá-lo, me esquecendo das mãos apoiadas e quase caindo no chão. Mas segurou meus pulsos e me manteve em pé, acidentalmente me puxando para perto... Ele era extremamente irritante, mas por Deus, como era lindo.
- Você precisa comer mais. – sussurrou em um fio de voz e eu me perguntei aonde toda a confiança havia parado?
- Eu preciso que parem de tomar decisões por mim.
- Você acha bonitinho ser teimosa? – questionou e eu arqueei as sobrancelhas.
- Você acha bonitinho ser odioso? – perguntei enquanto ele me soltava e ele revirou os olhos.
- Já provou seu ponto sobre ser independente e solitária, se quiser pode ir embora. – apontou para a porta e eu ri sem vontade alguma.
- Você é retardado da cabeça, só pode ser. Você me sequestra, me prende aqui e agora briga comigo para ir embora. – pontuei franzindo o cenho e ele não disse nada, só continuou apontando para a porta do quarto de hotel. Me direcionei a ela sem me apoiar em nada, sentindo muita dor, lentamente a alcancei e sai.
Procurei algum ponto de vista que conhecia para chegar até em casa, mas o hotel parecia muito distante da casa de . Segui até a rua sentindo uma dor insuportável, mas continuei pelo simples fato de não querer ficar mais perto de . Era de noite e isso dificultava o caminho, talvez um feitiço ajudasse...
- Melius oculis meis. – recitei o feitiço que me lembrava sobre melhoramento de visão. E minha visão realmente ficou mais clara.
Agora eu era capaz de fazer magia, mas provavelmente deveria ser cuidadosa com aquilo. Se eu não puxava a energia de artefatos e nem de meus ancestrais, isso custaria em mim mesma. A natureza tinha leis e tudo tinha um equilíbrio, se você usava a magia tinha que dar algo em troca, talvez fosse por isso que eu estava sentindo dores por todo meu corpo.
Algo interrompeu minha linha de raciocínio, um rosnado extremamente baixo, vindo do bosque ao lado, olhei para o lado, mas continuei seguindo... Até que a criatura se revelou e eu quase caí pelo susto. Era algo horrendo, com chifres e uma pele gosmenta, era enorme e tinha dentes mais afiados que facas, ele parecia querer atacar então aterrorizada andei para trás, caindo quando o mostro pulou em cima de mim.
Ele rosnou mostrando os dentes e eu gritei, ele se aproximou lentamente até que algo cortou seu rosnado e ele caiu duro pro lado. Tremendo, olhei para que aparentemente havia enfiado uma espada no coração da criatura, tentei sair de baixo do monstro e me ajudou, me segurando até depois disso.
- O que... O que era aquilo? – questionei tentando desviar o olhar e ele me vasculhou, para ver se eu tinha sido machucada.
- Precisamos ir, tem mais deles vindo. – revelou puxando minha mão e eu franzi o cenho.
- O que era aquilo? – perguntei mais uma vez enquanto corríamos e sequer virou.
- Era um progium, são extremamente raros nessa época do ano, mas foi atraído pela sua magia. – explicou ainda correndo e meu coração bateu extremamente rápido.
- Extremamente raros nessa época do ano? Me explique exatamente o que era aquilo. – ordenei e ele bufou.
- Era um demônio. – disse sério e eu perdi o ar.
- Demônios... Demônios são apenas mitos. Apenas mitos que nos contam quando criança, para não sermos malcriados. – respondi desacreditada.
- Mitos, como bruxas são mitos também? – lançou o comentário sarcástico e eu suspirei.
- Demônio existem? Como os bruxos não sabem disso?
- Porque nós caçadores, escondemos a existência deles, fazendo nosso trabalho extremamente bem.
- Você literalmente deixou o corpo dele ali, para todos verem. – pontuei.
- Progiums se desintegram quando morrem, ele provavelmente é só pó agora. – explicou e eu pensei mais em fundo.
- Mas você disse que estão vindo mais deles, por que estamos correndo então?
- Eu preciso de reforços e você não pode se envolver. É uma bruxa, esse tipo de demônio se alimenta do poder de vocês, arrancando seu coração como fonte de poder.
- Espere. – parei de correr puxando junto e ficando ofegante.
- Não pare de correr, eles podem ser grandes mas são velozes. – soltei minha mão de sua e o olhei.
- Você não me disse que eu preciso desabafar? Essa é uma situação boa. – apoiei as mãos nos joelhos e ele arqueou as sobrancelhas.
- Não podemos arriscar, vamos. – ordenou com a voz firme e eu continuei parada.
- Por que se importa? É a melhor opção. – supliquei com os olhos e ele jogou a cabeça para trás.
- Seu pai me pediu para protegê-la. – falou sozinho e pela primeira vez, cogitei que ele estivesse falando a verdade.
- Qual era sua conexão com meu pai?
- Ele era um caçador de demônios, como eu. Eu estou encarregado de te proteger e te ajudar a encontrar Eileen Lehmann, fora te ajudar com seu treinamento. – disse apressado e eu me questionei... Por que meu pai nunca havia me dito nada?
- Eu acho que eles estão vindo. – quando senti uma pontada forte, falei pela intuição.
- Vamos correr, por favor. – pediu e eu estremeci com a onda que correu por meu corpo. – Você vai nos fazer ser mortos.
- Me diga o que tenho que fazer e farei. – expliquei como se fosse simples e ele agarrou meus ombros, tentando pensar rápido.
- Conhece muitos feitiços eficazes de ataque? Prestava atenção nas aulas?
- Na maioria delas, sim. – concordei com a cabeça e ele olhou em meus olhos e instruiu.
- Use toda sua energia e recite um feitiço fatal, lembre-se de algo que sempre te deu forças, lembre-se de tudo que já fez você sentir qualquer tipo de emoção. Toda vez que Alexia te ridicularizou, toda vez que falhou em algum feitiço, toda vez que sentiu raiva do mundo e toda vez que amou estar viva. – disse lentamente e eu fechei os olhos, fechando igualmente as mãos em punhos. Quando ouvi os rosnados, abri os olhos e foquei a energia em meu corpo.
- MAXIMUS! – apontei minhas mãos para os monstros e uma rajada incrivelmente forte de poder os fez serem jogados para trás. tinha razão, uma vez que desabafei, me senti extremamente melhor.
- Eles ainda não estão mortos. – ele avisou e eu procurei algo em minha mente. Eram quatro caídos.
- INCENDIA! – gritei assistindo eles queimarem e virarem cinzas vermelhas, que flutuavam no ar.
- Bastante dramático, devo admitir. – disse sorrindo e eu me virei para ele, vendo seu rosto se assustar. – Seus olhos... Seus olhos estão vermelhos.
- O que? – questionei pensando que era brincadeira e ele continuou com a surpresa. Fechei os olhos e os abri novamente, enquanto colocava uma mão em meu rosto.
- Você é mais poderosa do que pensávamos.
- Você precisa me explicar tudo. – sussurrei e ele me puxou pela mão, de volta para o hotel.
- Eu preciso fazer um relato, para que verifiquem se tem mais deles na floresta. – explicou pegando um papel e uma caneta que se iluminou enquanto ele escrevia, quando terminou, fechou os olhos e recitou algo, fazendo com que o papel se desfizesse no ar.
- Wow, e os humanos acham que um IPhone é a alta modernidade. – brinquei e ele me olhou com receio.
- Precisamos ir até Eileen.
- Você precisa me explicar.
- Seu pai era um caçador de demônios, uma sociedade secreta para impedir o Caos de florescer. O legado passa de geração em geração e não tem ninguém que saiba da associação fora a família dos caçadores.
- Por que meu pai nunca me contou?
- Porque ele não queria você envolvida nisso, você era a próxima da linhagem e sua mãe o proibiu de contar.
- Minha mãe... Ela também?...
- Ela não era uma caçadora, seu pai ser um foi a causa do divórcio deles.
- E como sabe disso?
- Todos na associação sabiam disso.
- O que aconteceu com meus pais?
- Nós ainda não descobrimos o que ou quem fez isso, mas temos certeza de que não foi um demônio comum. Precisamos da ajuda de Eileen para entender o caso todo, e você precisa ser treinada para que esteja preparada.
- Preparada para o que?
- Para o que quer que esteja prestes a acontecer...
- Pare de falar em enigmas, estou perdendo minha paciência. – avisei batendo na mesa e apenas continuou.
- Quando seu pai te negou a associação, quebrou a lei da natureza. Isso geralmente gera consequências, sinto que vamos descobrí-las em breve.
- Você quer que eu seja treinada porquê sente “algo” vindo? Meu pais morreram por causa da natureza? – questionei indignada e ele concordou com a cabeça. – Eu não sou a porra de um Jedi! E certamente não serei uma arma para a sua associação de merda.
- Pense bem, você precisa desse treinamento.
- Eu sei lutar, muito obrigada. – tentei me separar dele e ele riu.
- Você sabe lutar combatendo um humano, possivelmente um bruxo. Mas um demônio? Você não sabe do que são capazes.
- Então que eu morra pela natureza, não dou a mínima.
- Pela sua vida não dá a mínima, mas já parou pra pensar nos seus amigos? Fora que, se tiver um treinamento... Poderá se vingar do demônio que matou seus pais. – argumentou e eu pensei por algum tempo.
- Eu não sei como, eu não sei o que fazer. – abaixei a cabeça e ele suspirou.
- Volte para a casa da sua amiga, quando eu tiver tudo pronto, te buscarei para encontrarmos Eileen. – disse e eu concordei, ele me acompanhou até em casa e eu entrei, encarando todos os rostos preocupados, que vieram correndo.
- Onde diabos você estava?! – gritou e veio correndo até mim, analisando meu corpo. – Está machucada. O que aconteceu?
- Eu tenho coisas para contar. – não ligava que a natureza me matasse por aquilo, não deixaria de contar para meus amigos.
- Não pode sair por dias, voltar machucada e agir como se estivesse tudo bem. – Lily apontou e eu estava pronta para rebater.
- Você pode... Você disse dias? Quanto tempo faz que fui embora? – questionei franzindo o cenho e Marcos respondeu:
- Fazem quatro dias. – quatro dias? Eu havia apagado por quatro dias?
- Como você não sabe? O que aconteceu? – perguntou novamente e Leo bufou.
- Vou pegar um kit de primeiros socorros. – disse e subiu para o andar de cima.
- Eu estava com . – revelei me sentando e Allie riu com cinismo.
- ? Devereaux?
- O próprio.
- Continue. – Oliver pediu.
- É melhor que vocês se sentem.

- Eu acredito em você. – afirmou sendo a primeira a dizer algo depois que contei minha história.
- Você vai ser treinada? – Marcos perguntou e eu dei de ombros, era a melhor resposta que tinha no momento.
- Antes de tudo, vocês arrumaram as coisas para o ritual? – questionei me levantando e Leo interviu:
- Você ainda continua com essa ideia maluca?
- Vocês concordaram em ajudar, não me digam que estavam mentindo. – meu tom se tornou indignado e Allie negou com a cabeça.
- Temos tudo pronto, amanhã de manhã iremos para a floresta e executaremos o ritual. – explicou me acalmando e eu franzi o cenho.
- De manhã?
- Sim, algum problema com o horário? – Marcos parecia estar furioso, então tomei uma postura mansa. Apenas para não piorar a situação.
- Sou uma possível suspeita de assassinato, só acho que se me pegarem fazendo um ritual proibido, terão motivos para me condenar. – expliquei meu ponto calmamente e Marcos bufou.
- É mais seguro de manhã. – respondeu e eu levantei as mãos.
- Então de manhã será.
- Por que você não está se curando? – Oliver questionou, apontando para meus braço que apesar dos curativos colocados em cima, ainda sangrava. Bruxos se curavam mais rápido do que os humanos.
- Não sei, mas estou me sentindo bem. – não era verdade, estava sentindo um pouco de dor desde que havia notado os machucados, mas não era motivo de preocupação.
- E se foi o veneno do demônio? – Lily presumiu preocupada e eu ri, deixando aquilo de lado.
- Ele não me tocou. – afirmei tranquila e Marcos lançou um olhar cauteloso para mim.
- Você tem certeza absoluta disso? Sua cabeça estava a mil, era uma coisa que nunca havia visto antes. Pode não ter reparado. – eu tentei voltar no momento em que fui atacada, mas não consegui me lembrar de nada.
- ... teria me avisado se houvesse algo com que se preocupar, o demônio não me tocou. – firmei o fato mais uma vez e Allie franziu o cenho.
- ... Se o demônio não te tocou, como chegou aqui machucada? – perguntou o que todos queriam saber e eu abri a boca para responder, mas um grito agudo se fez presente, eu mesma tinha gritado de dor quando algo se cravou em minha pele.
- ! – exclamou preocupada e eu senti mais uma garra se cravando contra meu outro braço. Gritei cada vez que senti a garra rasgar minha pele, em resultado disso cai no chão por falta de equilíbrio.
- O que está acontecendo? – Oliver deixou a pergunta pairar no ar e antes que ele me tocasse, eu gritei mais alto.
- Não se aproxime! – adverti, me contorcendo.
- O que está acontecendo?! – Lily repetiu a pergunta de Oliver e Marcos pareceu entender.
- Ele não tocou em você, ele te amaldiçoou. – explicou tendo certeza e eu que já chorava gritando, arranquei os curativos dos braços. Agora podíamos ver cada arranhão ser feito em minha pele.
- Eu não sei... Eu não sei como fazer parar! – berrei batendo as mãos no chão e o chão chacoalhou-se, junto com os vidros que se quebraram, reproduzindo um som horrível.
- , você vai destruir a casa! – Leo gritou contra o vento forte que passou por todos nós.
- Faça parar! Por favor, faça parar! – quando as garras atingiram minhas costas, não consegui mais formular palavras então apenas gritei, e continuei gritando.
- ! – ouvi a voz de em disparada e me virei para a porta onde ele acabava de entrar.
- Me ajude, por favor... – minha voz falhava e eu já não tinha mais forças.
- Statim somnum. – mexeu uma mão para executar o feitiço e de repente eu senti um sono profundo, caindo no chão e apagando.

...

Acordei com a sensação de algo gelado entrando em contato com a minha testa, quando abri os olhos percebi que era um pano molhado em água. Estava toda suada, mas os cortes haviam sumido, não sentia mais dores e sim muito cansaço, o lugar onde eu estava era desconhecido para mim, mas olhando em volta pude reparar em vários rostos familiares, misturados com rostos desconhecidos.
- Não tente levantar-se. – uma mulher advertiu, sentando perto de onde eu estava deitada e tocando em minha testa, logo voltando a colocar o pano depois de me “examinar”. – Ela está bem agora, mas certamente precisa de muito repouso.
- O que está acontecendo? – questionei quando o avistei e ele que estava de braços cruzados, continuou onde e como estava.
- Você foi amaldiçoada. – afirmou e eu franzi o cenho, de um jeito mal humorado.
- Muito específico, será que tem mais detalhes? – minha voz estava um pouco rouca, mas isso não deixou que a raiva passasse despercebida.
- Conseguimos dar um jeito na situação, está livre da maldição. Por agora tudo o que tem que fazer é repousar para que possamos encontrar Eileen e te treinar, você só foi amaldiçoada porque o demônio encontrou uma brecha, sua mente não tem a preparação certa. – explicou e eu continuei séria.
- Essa é a parte em que você me diz onde estou.
- Está na associação dos caçadores de demônios. É como um castelo, mas sem chance de um tour agora. – usou seu humor usual e eu sorri forçadamente.
- Um castelo? Surpreendentemente clichê! O nome aliás, é magnífico. – zombei e olhei para os meus amigos que estavam em silêncio. – Como chegamos aqui?
- Um portal, extremamente difícil de realizar. Estou esperando o agradecimento por salvar sua vida. – descruzou os braços e eu ignorei a última parte.
- Aonde estamos geograficamente? País? Se for generoso, pode revelar a cidade também.
- Alemanha, Berlim. – revelou e meu sorriso se desfez.
- Alemanha?
- Sim, isso mesmo.
- Quanto tempo é de viagem daqui até Frankfurt? – presumi que ele não iria fazer um portal apenas para ir de uma cidade para outra, então perguntei.
- De carro, seis horas. Com uma parada. – disse e eu olhei para meus amigos.
- Vocês ainda cismam em ir?
- O que você acha? – perguntou retoricamente e eu dei um pequeno sorriso.
- Acho que isso arruína nossos planos para o ritual. Como vamos fazer agora? – direcionei a questão para Marcos e ele suspirou.
- Só fico feliz que esteja viva, depois pensamos no ritual.
- Não vai fazer o ritual, nem ferrando. – interviu e eu franzi o cenho.
- Já te disse que você não manda em mim.
- Você vai morrer, tem noção disso? E nem mesmo é comprovado que você consiga se comunicar com os mortos. – pareceu se alterar e eu continuei séria.
- Preciso tentar, preciso de direções. – justifiquei e ele apontou para si mesmo.
- Olhe ao redor, ! A associação é sua direção, eu sou sua direção. Seu pai trabalhou aqui a maior parte da vida dele, qual lugar poderia te dar mais informações?
- Ele mesmo poderia me dar mais informações.
- Você sabe que só está fazendo isso pela mínima probabilidade de ver seus pais novamente. Não vale a pena, aquilo não os trará de volta, em fato provavelmente irá matá-la.
- O que eu posso fazer? Eles me deixaram, sem nenhuma explicação sobre tudo isso! – gritei com o pouco de disposição que eu tinha e ele balançou a cabeça.
- Não faça isso, estou te pedindo. – juntou as mãos com um olhar suplicante e aquilo me deixou confusa.
- O que mais eu posso fazer? – questionei olhando para todos e Leo tomou a frente:
- Você pode viver o agora e honrar a memória de seus pais fazendo o que eles queriam que você fizesse. Encontrar Eileen, primeiramente.
- Mas eu não acho que mereço viver. – respondi em um fio de voz desabando em lágrimas e todos vieram até mim.
- Não foi sua culpa e você vai punir o culpado. – disse segurando minha mão e eu solucei.
- Vocês são os melhores amigos que eu alguém poderia ter. – enxuguei meu rosto com uma mão e Leo balançou as mãos.
- Você está sendo melosa demais agora.
- Imbecil. – xinguei séria e ele sorriu.
- Assim está melhor. – sorri de volta, pela primeira vez desde o acontecimento eu sorri de verdade.
- Obrigada. – falei de um jeito significante e todos assentiram.
- Vamos de van para Frankfurt, eu vou dirigir. – avisou, se intrometendo no momento e Marcos franziu o cenho.
- Não vamos de portal?
- Só usamos portais para viagens longas, eles exigem magia e magia atrai demônios, não precisamos dessa dor de cabeça no momento.
- Isso quer dizer que vocês evitam usar seus poderes? – Allie questionou e assentiu.
- Usamos na maioria das vezes armas de fogo ou lâminas.
- Vocês se comparam a humanos?
- Isso seria impossível, mesmo sem usar magia os bruxos são mais rápidos que os humanos, e somos muito bem treinados. – disse em seu tom convencido e eu dei um sorriso.
- Quem diria que o Esquisitão seria tudo isso?
- Não enche, Joãozinho. – se referiu ao meu apelido pelo acidente com o cabelo e eu grunhi.
- Escroto.
- Teimosa.
- Ei! – aumentei meu tom para que ele parasse e ele apenas saiu andando, mas relaxado.
- Meu Deus, ele é mesmo bonito. – sussurrou quando ele já estava longe e eu arqueei as sobrancelhas.
- Você bateu a cabeça? – questionei, já que não era do feitio de falar que um garoto era muito bonito. Às vezes ela falava “bonitinho”, mas nada mais.
- Ele é praticamente um Deus grego. – Allie concordou e eu olhei para Lily buscando reforços, mas ela deu de ombros como se as duas tivessem razão.
- Ele é bonito, mas é um babaca. – respondi baixinho com medo dele escutar e sorriu.
- Esse é o tipo que mais tem no mundo. Deveria saber, já namorou um.
- Pensei que você achasse o Liam feio. – olhei desconfiada para e ela se manteve com a mesma postura.
- Eu acho, mas ele é padrão então muitas meninas o acham bonito.
- é mais bonito que Liam. – Lily se intrometeu e eu fiz uma careta.
- Os dois são dois babacas arrogantes.
- , você acha que se ele fosse tão ruim assim seu pai seria amigo dele? – Allie questionou me fazendo pensar e eu neguei com a cabeça, meu pai era sempre seletivo com os amigos.
- Então talvez ele só seja desse jeito com você. – complementou e eu franzi o cenho.
- Eu nunca fiz nada para ele!
- Nós sabemos, mas talvez seja um mecanismo de defesa.
- Contra mim?
- Contra se aproximar de você. Já parou para pensar que também sente falta do seu pai? Já parou pra pensar que eles eram amigos e ele também o perdeu? Você representa tudo pelo o que seu pai lutava e é o espelho perfeito dele. Talvez apenas esteja de luto e não quer virar muito próximo de alguém que lembra tanto seu pai, por que ele sabe que nessa situação a possibilidade de ele perder mais alguém é grande. – presumiu e eu abaixei a cabeça. Fazia muito sentido, mas eu não sabia se queria acreditar naquilo.
- Porque estão tentando adivinhar os sentimentos de ? Não conhecemos ele, não precisamos pensar nisso agora.
- , eu te conheço e sei que você odiaria que uma pessoa boa sentisse tal dor.
- Esse é o ponto, não sabemos se ele era amigo do meu pai, ou se ele é uma pessoa boa.
- No fundo você sabe que não era a única pessoa próxima do seu pai, você acha que nós também não sentimos a perda dele? – pareceu ficar triste e eu quis voltar a situação.
- Me desculpem, eu sinto muito. – abracei enquanto os outros entravam no abraço coletivo e quando saímos eu suspirei fundo. De repente tudo o que era calmo se transformou em tumulto e alarmes estridentes foram disparados de todos os lugares, me assustei, mas apareceu correndo e eu franzi o cenho.
- Que porra está acontecendo?
- Algo adentrou o perímetro, não é um de nós. – saiu de vista e logo voltou com armas de fogo, uma em seu corpo e uma em sua mão. – Algum de vocês sabe como usar uma arma?
- Eu sei. – disse estendendo a mão e eu também me manifestei. havia aprendido a atirar com seu pai, uma habilidade que ela sempre achou bastante desnecessária, mas agora tinha vindo a calhar.
- Algum tipo específico de arma? – colocou um código em um dispositivo que ficava na parede e uma estante completa de armas de todos os tipos apareceu, completa e escondida.
- Glock. – respondeu rapidamente e ele olhou para mim enquanto eu analisava minhas opções.
- Beretta 92F. – respondi olhando para a belezinha prata e preta e ele nos entregou.
- Boa escolha. – respondeu e eu sorri sem olhar para sua arma, já tendo reparado.
- Cale a boca, você tem uma Armatix iP1. – respondi e ele deu um sorriso convencido.
- To boiando aqui, o que é isso? – Allie perguntou e eu pensei em como explicar.
- Essa pistola só atira se for empunhada pelo “dono”. – apontei para e para seu relógio logo em seguida. – Vê esse relógio? Ele emite um sinal de comunicação com a arma, se os dois gadgets não estiverem conversando, ou seja, alguém desarmar o portador, um LED na pistola fica azulado, e a arma trava.
- Não sabia que gostava de armas. – Lily disse e eu dei de ombros.
- Quando você é inútil nos feitiços acha outra forma de se proteger.
- Você não era inútil. – Allie tentou me reconfortar e eu ri.
- Eu acho que essa é a hora perfeita para irmos para Frankfurt. – de repente disse e Marcos deu um sorriso sarcástico.
- No meio disso tudo?
- Só precisamos chegar até a van, tenha um pouco de fé. – fechou o compartimento de armas e eu o parei.
- Em que andar estamos? – questionei e ele parou para pensar.
- No décimo primeiro. – disse e eu ri baixinho.
- Só pode estar brincando comigo.
- Não estou, consegue se levantar?
- Consigo. – afirmei ficando de pé e me sentindo até que bem. O cansaço ainda estava lá mas eu estava bem.
- Você tem adagas ou alguma espada? – perguntei passando os olhos pela sala e ele andou até mim me examinando rapidamente.
- Não é a hora para tentar se mostrar .
- Você tem ou não?
- Tenho, mas não vejo porque é necessário se você já tem uma arma. – apontou e eu bufei.
- As adagas são para eles, você espera que eles fiquem sem nenhuma proteção? E eu me dou bem com espadas. – expliquei e ele abriu outro compartimento entregando o que eu pedi.
- Eu quero um taco de beisebol. – Allie pediu e franziu o cenho.
- Eu jogo beisebol, acho que seria mais eficiente do que uma adaga. – explicou e ele foi para outra sala e voltou a entregando um taco de beisebol.
- Isso tudo foi porque ela gosta da Arlequina. – Leo disse e todos menos riram.
- Vocês não estão com medo? – perguntou confuso e Oliver deu de ombros.
- Você não é bom no que faz? Vai nos proteger, certo?
- Errado, vamos nos proteger e ele vai nos guiar e ajudar. – respondi e concordou. – Vocês são bruxos inteligentes não precisam depender de ninguém.
- Mas não podemos usar magia. – Marcos disse como se não tivesse sentido.
- Vocês não são sua magia, são extremamente inteligentes também.
- O discurso motivacional acabou? Precisamos descer. – interrompeu e fomos atrás dele enquanto ele checava o perímetro.
- Já identificaram o que é? – perguntei baixinho e ele continuou prestando atenção no corredor.
- Caçadores com seus capangas demônios. – disse com um tom de nojo na voz e Marcos respondeu antes que eu pudesse.
- Caçadores? Capangas demônios?
- Como eles conseguiram entrar? Vocês não têm um feitiço de sangue ou algo que deixa humanos afastados? – Lily perguntou por cima e enquanto andávamos não se abalou com as perguntas.
- Caçadores não são exatamente humanos, alguns são mestiços e outros fazem pactos demoníacos por proteção ou poder. Tudo para matar os bruxos.
- Teremos que enfrentar humanos fanáticos e demônios? – reafirmou e eu respirei fundo.
- Você sabe qual é o tipo da espécie?
- Ainda não, mas tudo ficará bem se não trombarmos com nenhum. – respondeu e literalmente dois segundos depois estávamos cercados por humanos e monstros. Haviam 4 humanos e o resto eram demônios, aqueles eram bastante diferentes de Progiums, eram do tamanho de uma pessoa normal e eram verdes com a pele escamosa, os dentes também eram afiados mas não tinham garras.
- Muito cedo. – Allie afirmou e ficamos todos de costas um pro outro, cada um analisando a situação. Todos sabíamos que atirar não era a primeira opção porque, 1: poderia deixar os caras maus irritados e 2: não sabíamos se eles tinham proteção ou se podiam sugar aquele tipo de material.
- Achamos o peixe dourado. – um dos humanos disse feliz e eu vi que olhava para . – Soube que é um dos melhores.
- Eu tento. – deu de ombros e eu revirei os olhos.
- São Abctaes. Demônios que são conhecidos por sugar toda a vida de seu corpo em um toque. – deu o relatório e eu apenas concordei com a cabeça. Quem precisava de garras quando se tinha aquela habilidade? – Nem sempre quando te toca leva tudo, mas precisamos tomar cuidado.
- Alguma fraqueza? – Leo questionou e a resposta demorou alguns segundos a chegar.
- Água e como todo demônio, você pode atravessar o coração, cortar a cabeça ou queimá-lo.
- Muito fácil. – sorri sem que ele pudesse ver, mas minha voz transmitiu o sarcasmo que eu gostaria de passar.
- Não podemos mesmo usar magia? – Marcos resmungou.
- A menos que estejam entre vida e morte, não.
- Eles estão esperando enquanto conversamos? – questionou bastante confusa e eu também franzi o cenho.
- Extraindo informações. – um dos caçadores disse com um sorriso no rosto. – Não viemos apenas para matá-los, mas podemos fazer vocês sofrerem um pouco.
- Ótimo, então os monólogos de vilões são ainda piores do que na televisão. – Lily murmurou e nessa deixa um dos caçadores fez um gesto para que os demônios atacassem.
Eram muitos e não consegui me concentrar para contar a quantidade, um deles tentou vir para cima de mim e eu mirei em sua cabeça porque não tinha muita certeza de onde ficava seu coração, atirei várias vezes e o demônio caiu no chão... Parecendo morto para mim. Atirei no máximo que podia, até que as balas acabaram e me fizeram ficar um pouco desesperada, um dos caçadores correu até mim e eu abaixei meu corpo para desviar de seu golpe.
Logo a seguir o mesmo conseguiu me machucar com um chute e eu cambaleei para trás esbarrando com que lutava com um demônio somente com as próprias mãos.
- Você pode tentar não atrapalhar? – perguntou mal humorado enquanto eu me esquivava mais uma vez.
- Não é como se eu tivesse muito controle sobre o que acontece aqui. – respondi e quando o caçador tentou me acertar um soco segurei seu punho, mas ele o puxou rapidamente.
- Preste atenção na sua luta. – alertou e eu quase revirei os olhos, mas sabia que não poderia porque assim perderia a visão sobre o caçador. Com um golpe certeiro o homem conseguiu agarrar meu pescoço e eu perdi o ar por um segundo, numa tentativa de sair de seu aperto apliquei uma joelhada em sua barriga e ele cedeu.
Logo se recompôs e eu soquei seu rosto sem hesitar, enquanto dessa vez era ele quem cambaleava e tropeçava no corpo morto do demônio em que atirei, ele pareceu um pouco lento por conta do tropeço então em um ato um pouco impensável busquei minha espada e segurei seu ombro para que ele parasse onde estava, atravessei minha espada em sua barriga e tudo o que ouvi foi sua carne sendo cortada, puxei a espada rapidamente e o homem caiu no chão cuspindo sangue e logo fechando os olhos. Eu soltei minha espada e o impacto dela com o chão fez um barulho estridentemente irritante.
Minhas mãos estavam cheias de sangue novamente, a substância um pouco grudenta me assustava e pequenos flashes de meus pais corriam pela minha cabeça. Eu tinha sangue nas mãos, sangue de um corpo, do corpo o qual eu havia tirado a vida... Eu havia tirado uma vida, simplesmente em poucos segundos havia matado alguém. Não sabia se ainda haviam demônios ou caçadores para enfrentar porque minha atenção estava em minhas mãos, minhas mãos que estavam ficando secas enquanto o sangue tornava minha pele avermelhada, o cheiro forte me nauseava e eu esfregava as mãos uma contra a outra, tentando fazer aquilo sumir.
- ! – chamou por meu nome e eu me virei em choque, enquanto assistia um Abctae tentar pular em cima de mim, porém ele não chegou a me tocar, antes que tivesse a chance de me machucar uma rajada de energia o jogou para longe. Senti a rajada como fonte de meu poder, mas não tive tempo para me impressionar porque meu olhar se voltou para as minhas mãos.
- Olhe para mim! – gritou, mas eu não consegui desviar os olhos, até que tocou meu ombro. Olhei para seu rosto e vi que tomava conta do último caçador, assim o corredor ficou livre de ameaças.
- Precisamos ir, . – disse enquanto segurava minhas mãos sem se importar com o sangue que pairava ali.
- Eu... Eu não sei como... – senti meus olhos lacrimejarem e fiquei desnorteada, o peso da verdade ainda não tinha me acertado.
- Precisamos ir, não estamos seguros aqui. – me puxou pela mão e correu me levando a fazer o mesmo. Chegamos a van e saiu dirigindo rapidamente, me abraçou com força e vi que o sangue de minhas mãos a sujava.
- O que eu fiz? – perguntei olhando para fora das janelas que pareciam me sufocar e o silêncio caiu sobre a van, deixando que o peso da verdade me atingisse: Eu havia matado alguém. Eu havia tirado uma vida.

Capítulo 5

- Filha, o que você fez? – meu pai perguntou com repreensão nos olhos e meu cenho se franziu.
- O que quer dizer? Não fiz nada. – toquei seu ombro e percebi que meu braço todo estava banhado em sangue. Puxei minha mão, mas meu pai a prendeu em seu ombro.
- Não te criei para ser uma assassina! – gritou e sua voz reverberou por todo o quarto, coloquei minha outra mão para ajudar a soltar meu braço de seu ombro, mas o outro braço também se encheu de sangue, sangue viscoso e vermelho.
- O que está acontecendo? – questionei com a voz falha e meu pai olhou para baixo me levando a fazer o mesmo, uma ferida de esfaqueamento se formava ali jorrando mais sangue em cima de mim. Minhas mãos se soltaram de seu ombro, mas não estavam vazias, na mão direita havia uma adaga empunhada em sangue, sangue do meu pai.
- Você sentiu prazer? – levantei o olhar para o rosto do meu pai, mas não era mais o rosto dele, era o rosto do caçador.
- O que você quer de mim? – questionei assustada e me apressei a andar para trás, o problema era que para trás não tinha mais chão então o que fiz foi cair, a queda foi dolorosa e lenta me levando a um mar vermelho de sangue.
- Eu quero que perceba que vai matar todos nós. – a voz de preencheu meus ouvidos e eu me virei reconhecendo minha mãe.
- Eu sempre soube que você tinha rancor de mim, mas me matar? Você pode me culpar por ter sido distante? – seus dedos tocaram meu cabelo e me empurraram para que eu me afogasse no mar. Eu tentei gritar, mas embaixo de tanto sangue era impossível então impulsionei meu corpo para frente e acordei, no mundo real.
- Você está bem? – Allie apareceu na minha frente e eu balancei a cabeça, sentindo frio.
- Tive um pesadelo. – limpei minha garganta e olhei para que dirigia.
- Você sabia que pesadelos podem ser visões do futuro? Para bruxas. – como se soubesse que o olhava, ele disse.
- Eu espero que meus pesadelos sejam apenas pesadelos. – respondi com a voz ainda rouca e ele deu de ombros. – Estamos perto?
- É uma viagem de seis horas, passamos por apenas duas. – olhei para os meninos e vi que todos dormiam menos Allie e Oliver. A van era enorme para nos abrigar, mas provavelmente não tinha um feitiço de ocultamento por conta de que desse jeito poderíamos ser rastreados.
- Você tem habilitação?
- Habilitação humana? Claro que não. – caçoou e eu arqueei as sobrancelhas.
- O que vai fazer se formos parados pela polícia?
- Então lidaremos com a polícia humana. – fez descaso e realmente não parecia nem um pouco preocupado.
- Você quer chamar atenção para nós?
- Pode relaxar, eu sei como humanos funcionam. São irrelevantes.
- Você é tão arrogante a ponto de pensar assim?
- Não sou arrogante, tudo o que eu prometo eu cumpro.
- Você não é tão perfeito quanto acha que é. – afirmei com certeza e ele olhou para mim pelo retrovisor.
- Princesa, você já olhou para mim? – seu tom foi provocante e realmente me atingiu, eu facilmente ficava irritada com .
- Eu já te disse mais de uma vez. – avisei sobre o apelido e ele não ligou.
- Eu te salvei mais de uma vez, isso não prova minha competência?
- Eu certamente não preciso da sua proteção. – olhei para a estrada e ele bufou.
- Pode estar certa sobre isso, mas precisa da minha orientação.
- Correção: eu preciso da orientação de Eileen Lehmann. – cruzei os braços.
- E como chegaria a ela sem mim?
- Você me irrita tanto, por que me irrita tanto? – fechei as mãos em punhos e ele sorriu mostrando seus dentes perfeitos e brancos, o que me irritou ainda mais.
- Porque eu posso.
- Seria ótimo se você falasse isso depois de levar um chute nas bolas.
- Você chegaria perto para tentar a sorte? – sugeriu ainda olhando para a estrada e eu dei uma risadinha sem humor.
- Pergunto o mesmo para você, esquisitão.
- Só a promessa de que você chegará perto do meu saco já me anima muito. – respondeu provocador e eu fingi vomitar.
- Claro que te anima, sua última ação antes de não poder usá-lo. – retruquei fazendo uma sugestão com os olhos.
- Você está me propondo sexo, senhorita ?
- Estou te propondo uma vasectomia de graça.
- Quem diria que você seria tão generosa? – apelou puxando o ar e eu concordei com a cabeça, jogando nas palavras construídas em sarcasmo:
- Por você? Claro que sim, você é uma lenda! – coloquei as mãos sobre a boca em exagero e Oliver deu uma risadinha.
- Alguém já disse pra vocês que são ridículos? – se intrometeu na nossa discussão e eu dei uma cotovelada em seu estômago.
- Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. – Allie também respondeu e eu sorri antes de agarrar sua orelha e beliscar. – Au! Você sabe que eu odeio quando me bate!
- Não te bati. – dei de ombros tirando a acusação de mim.
- Marido e mulher, soa bom pra mim. – brincou mais um pouco e eu apenas não o empurrei por segurança própria.
- Não vou me casar com um esquisitão.
- Acho que acabei de ouvir meu coração quebrar.
- Ah não, fique tranquilo. Ele só quebra se ferirem seu ego.
- Isso é uma tarefa difícil. – fingiu se perder nos próprios pensamentos e eu rolei meus olhos.
- Eu já imaginava.
- Eu sempre ocupo sua mente, não é? Tudo o que você faz é imaginar situações comigo, o dia todo. – sua voz saiu arrastada e lenta.
- Não sou tão desocupada assim, não se preocupe comigo.
- É sempre ótimo conversar com você. – encerrou a conversa com um sorriso e eu soltei um grunhido grosseiro.
- Isso pareceu um flerte para mim. – Allie sussurrou e eu franzi o cenho.
- Ficou louca?
- Vai me dizer que não flertaria com ele se estivéssemos em circunstâncias melhores? – continuou com o tom baixo.
- Acho que ele preferiria flertar com um espelho.
- Pode ficar tranquila Allie, eu prefiro loiras. – disse em um tom firme e ela se assustou.
- Era de se esperar.
- Não posso nem ter uma preferência?
- Você pode fazer o que quiser, é previsível.
- Só por você meu amor. – fiz silêncio por estar cansada. Algum tempo se passou e a viagem se estendeu, era de madrugada provavelmente, uma viatura policial apareceu na traseira da van e tivemos que parar na estrada.
- Ótimo. – Oliver resmungou e eu pensei o mesmo, meu alemão era enferrujado, mas provavelmente saberia o que dizer.
Depois de uma conversa pequena com um policial teve que sair do carro, xinguei baixinho por causa da complicação, mas tudo aconteceu rápido demais. Quando o policial pegou o braço de o mesmo agarrou a parte de trás da cabeça do homem com a outra mão e a bateu na van, deixando-o inconsciente. Outro policial saiu da viatura e levantou a arma gritando para que levantasse as mãos, ele obedeceu, mas quando o policial chegou perto o bastante para o algemar ele juntou o dedo indicador ao médio e acertou a base de sua garganta entre os ossos da clavícula com força e rapidez, o que apagou o outro policial.
Eu abri a porta e pulei pra fora da van, abrindo os braços em indignação enquanto levantava um dos corpos inconscientes e levava para o carro, sentando-o no banco do motorista.
- Você disse que não queria chamar atenção! – gritei emburrada e peguei o outro corpo para ajudar.
- Eu não disse isso, eu disse que lidaríamos com eles e lidamos.
- Agora você será procurado pela polícia. – repreendi e ele riu.
- Sou procurado pela polícia em mais estados do que posso contar. – revelou e eu franzi o cenho.
- Isso era para ser tranquilizante? – fechei a porta da viatura e me voltei para ele.
- Era pra ser sincero. – seguimos normalmente com a viagem e sequer pareceu cansado ao viajar seis horas com apenas uma parada.
- É aqui? – Leo indagou e respirou fundo.
- É o endereço que seu pai deixou. – olhou para mim e eu assenti.
- Vamos bater? – Lily sugeriu.
- É o que podemos fazer.
- Não tem nenhum feitiço de proteção? – questionei curiosa, olhando para o prédio do outro lado da rua. Não tinha como haver um feitiço por todo o prédio.
- Talvez tenha proteção humana. Como alarmes. – Marcos considerou e eu bufei.
- Vamos apenas bater na porta, não vamos assaltar. – tomou a voz da razão e saímos da van. Entramos no prédio e subimos até o andar do endereço.
- Será que não é estranho oito pessoas batendo na porta? – Allie hesitou por todos nós e eu dei de ombros.
- Ela é uma bruxa, não é convencional. – se estendeu para bater na porta, mas eu o fiz primeiro. Ninguém atendeu e eu cheguei perto da porta para ouvir melhor, no momento em que me aproximei a porta se abriu e revelou uma mulher na faixa etária dos trinta, ela apontava uma arma para mim.
- Quem são vocês? – fez um gesto para que levantássemos as mãos e obedecemos.
- Você é sempre receptiva assim? – usou seu tom irônico e ela sorriu ainda apontando a arma para minha cabeça.
- Eu fiz uma pergunta, criança. – colocou o dedo no gatilho e meu coração acelerou.
- Eu sou um caçador. – não precisou explicar do que exatamente, mas a mulher não cedeu.
- E quem é a bonitinha? – se referiu a mim e eu considerei se era melhor abrir a boca para falar ou deixar que respondesse por mim.
- Estamos aqui para tratar assuntos com você.
- Quem é a bonitinha? – perguntou novamente com a voz áspera.
- Meu nome é . . – foi isso o que bastou para que ela abaixasse a arma. Me olhou com fascínio e então abaixamos as mãos.
- Meu pai me enviou para cá. – fechei a mão em um punho apenas para beliscar minha pele, para que me lembrasse de que ainda estava viva e tinha uma missão.
- Eu sinto muito. – disse juntando as peças e eu mordi minha língua, todos sabiam que ele estava “destinado” a morrer e mesmo assim ninguém havia feito nada. – Entrem.
- Meu pai disse algo sobre...
- O seu treinamento. – deduziu e eu concordei com a cabeça, ela andou um passo em minha direção e eu recuei. – Deixe-me vê-la.
- Você é Eileen? – perguntou enquanto olhava ao redor e ela assentiu. – Está conservada para alguém com um pouco mais que um século.
- E você tem a aparência cansada. – retrucou enquanto me tocava e analisava meu corpo superficialmente.
- Ossos do ofício. – se fez indiferente e ela se afastou de mim.
- Está em forma, mas precisa melhorar, o feitiço de bloqueio se desfez, porém você passou muito tempo sem seus poderes normais. O que se manifestou em você até agora? – eu parecia estar em um exame, mas pensei. Só ali percebi que ela era a primeira bruxa estágio um que havia visto na vida.
- Desde que o feitiço se desfez, eu sinto dores agudas pelo corpo, um dia antes dos meus pais... – não consegui terminar a frase então continuei já que todos haviam entendido. – Eu senti uma sensação incrível, pensei que minha bebida tinha sido batizada, mas tudo o que tomei foi um pequeno gole.
- Sua magia é parte de você, não é algo como um acessório que usa quando precisar. Essa parte de você ficou adormecida por anos e agora quer se manifestar, pense como um braço, se você parar de usá-lo ele vai atrofiar então precisa de mínimos exercícios todo dia. – explicou e eu assenti entendendo. – Você precisa libera-la em feitiços simples todo dia, assim ela se aprimora e cresce. Há bruxas que acreditam que se passarem algum tempo sem usar a magia ela vai explodir eventualmente, mas na verdade ela só diminui.
- Não é uma coisa que eu controlo muito bem ainda. – respondi me beliscando novamente. A maioria das bruxas do estágio três não pensavam assim porque a magia não era algo forte, elas precisavam puxar de algum lugar.
- Você não pode focar sua atenção em controlá-la, lembre-se que é parte de você e que vocês precisam trabalhar juntas. – eu fiz silêncio e ela me olhou com interesse. – Você tem medo dela, não tem?
- É desconhecido para mim, não sei como lidar. Não sei sequer de que estágio eu sou.
- Vamos descobrir. – ela disse, firme como sua postura. – Quais feitiços executou desde que o bloqueio se desfez?
- No dia em que o bloqueio se desfez o poder dela se manifestou de uma maneira estrondosa, ela chacoalhou a casa inteira. – reportou e eu mordi minha língua, ele estava lá? As fontes dele estavam lá?
- Isso é interessante, o que mais?
- Usei um feitiço para abrir objetos, um para me soltar de outro feitiço, para trancar portas, para melhoramento da visão, para jogar um demônio para trás e para incendiar. – terminei achando que era tudo e acrescentou:
- Ela me queimou. – levantou a mão como um aluno e eu revirei os olhos.
- Se faz diferença ela também me queimou. – levantou a mão como e eu me encolhi.
- Eu juro que foi sem querer, até para o .
- Você também me jogou para trás com um gesto de mãos. – observou e eu me lembrei daquilo.
- Isso é incomum. Alguma sensação estranha? – Eileen tentava analisar a situação e Luke me veio à cabeça.
- Eu cortei meu instrutor enquanto estávamos treinando, por um momento entrei em êxtase, mas voltei a mim mesma depois.
- É perigoso, bruxas com poder demais podem ser levadas à loucura pela própria magia. Descartamos que seja estágio três.
- Temos que achar um hotel. – Marcos sussurrou ao fundo e assentiu.
- Eu tenho três quartos de hóspedes, se quiserem ficar aqui. – disse um pouco de má vontade e eu reparei no apartamento, era enorme de fato. Ela deveria ser rica, é claro.
- Adoraríamos. – respondeu com um sorriso provocador no rosto.
- Quem vai dormir na sala? – Lily perguntou e Leo franziu o cenho. – O que? É para melhor distribuição.
- Eu durmo na sala. – respondi ao mesmo tempo que e arqueei as sobrancelhas, eu só havia escolhido o sofá para não pegar um quarto com outra pessoa.
- Só assim vai ficar proporcional. – explicou e eu bufei.
- Três metros de distância, a sala é grande o suficiente. – adverti colocando as mãos na cintura e ele deu uma risada que eu aceitei como entendimento.
- Quem é seu guardião? – Eileen perguntou para e sua risada sumiu do rosto. Eu lembrava dele ter mencionado algo sobre guardiões.
- O que é um guardião? – Marcos como sempre curioso, fez o trabalho de questionar.
- Um guardião é algo que todos caçadores tem, é alguém que te protege a todo custo e alguém que tem uma ligação com você até o último segundo do seu final suspiro de vida, vocês podem mesclar os poderes ficando mais fortes mas nesse processo se um morre o outro vai junto. Toda ligação de guardião e protegido passa pelos fios da vida então os dois são conectados a ponto de às vezes chegarem até a sentir as mesmas coisas.
- O guardião pode ser qualquer pessoa? – também entrou no assunto.
- Desde que seja mágico, sim.
- Então bruxas também podem ter guardiões? – Allie perguntou.
- É raro, mas sim.
- O que diferencia bruxas e feiticeiros de caçadores? – finalmente botei para fora minha dúvida e foi quem respondeu:
- Bruxas e feiticeiros tem sua magia “própria”, caçadores são bruxos que foram modificados geneticamente desde pequenos para serem os melhores. – girou sua faca no ar e eu assenti.
- O nome da ligação entre guardião e protegido é Vorchuzt, quando encontra seu Vorchuzt vocês fazem juramentos, principalmente de sangue. – terminou de explicar e se voltou para novamente. – Quem é o seu?
- Ele morreu. – respondeu em um tom baixo e eu pisquei.
- O que acontece se... – abri a boca, mas me arrependi por ser tão insensível.
- Você nunca arruma outro guardião, mas pode se tornar o guardião de outra pessoa.
- Isso é praticamente impossível, quase ninguém tem dois Vorchuzt na vida. Eu mesma nunca conheci alguém que teve.
- Você... – direcionei minha pergunta para e ele assentiu com a cabeça.
- Sim , somos Vorchuzt. – disse em voz alta e quase todos franziram o cenho.
- Quem era seu guardião? – perguntei mais uma vez e não teve coragem de me olhar nos olhos.
- Era seu pai. – revelou, brincando com a faca e eu funguei olhando para cima para não começar a chorar.
- Meu pai... Meu pai era seu Vorchuzt? – foi retórico.
- Ele me instruiu, ele me treinou. Tudo o que queria era que eu te protegesse e vou cumprir minha promessa com a minha vida.
- Precisamos encontrar um lugar para treinar com você. – Eileen interrompeu o clima que ficou e eu apenas limpei o canto dos olhos.
- Lohr Park é perfeito, de noite não tem tanta gente. – sugeriu. Eu nunca tinha ouvido falar desse parque.
- O mínimo de gente já é arriscado demais. Precisamos de uma floresta afastada de tudo.
- Vamos dirigir e apenas encontrar uma? – perguntou e deu de ombros.
- Vamos. – descemos e entramos na van, dirigiu e eu preferi ficar em silêncio.
- Além de demônios, tem mais algum mito que na verdade é real e as bruxas não tem conhecimento sobre? – Leo puxou o assunto olhando para Eileen e ela assentiu.
- O mundo está cheio de coisas sombrias e diversas, criança. – sua voz tomou um tom misterioso. foi quem ousou continuar:
- Existem hydras, esfinges, sereias, licantropos, elfos, dragões foram extintos mas uma vez existiram.
- Licantropos como em licantropia? Lobisomens? – questionei bastante intrigada e olhou pra mim.
- Não. Licantropos como em gnomos. – foi ignorante como sempre e eu mostrei o dedo do meio.
- Sereias? – Allie perguntou também.
- Dragões?
- O que elfos fazem? – franziu o cenho e Eileen tirou sua dúvida.
- São uma minoria, mas são imortais e a velhice não pode matá-los. Sua magia é completamente diferente da nossa mesmo que tenha grande ligação com a natureza, eles têm o poder de cura e alguns até da metamorfose.
- Só eu que quero saber sobre as hydras e esfinges? – Marcos sussurrou, mas isso chegou aos ouvidos de Eileen.
- Hydras são criaturas com o corpo de dragão e cabeças de serpente, se você corta uma, duas nascem no lugar. – fez uma pausa para a compreensão de Marcos e logo explicou as esfinges. – Esfinges são criaturas traiçoeiras e impiedosas, o corpo é um leão e o rosto é uma mulher, eles contam enigmas e quem não é capaz de os responder é morto e devorado.
- Quais dessas espécies você já encontrou? – pareceu curiosa.
- Todas exceto dragões, foram extintos antes de eu nascer.
- Quem são os alvos dessas criaturas? Humanos?
- Certamente. Elas também atacam bruxas sem clãs.
- Então todas as espécies são inclinadas para o mal?
- Não podemos colocar desse jeito.
- Então, sereias? – Allie perguntou novamente.
- Metade humanas, metade peixes, atraem pessoas solitárias para o mar e os afogam. – já tínhamos ouvido a lenda da sereia, de todas as formas possíveis.
- Lobisomens são criaturas com a aparência humana como a nossa, eles se transformam em lobos e nascem com tal gene. Humanos já se transformaram por mordida, mas é extremamente raro. – esclareceu antes que alguém pudesse perguntar.
- Quão raro?
- Uma em cada mil pessoas. – encerramos o assunto e no meio da estrada conseguimos achar uma floresta que não mostrava sinais de humanos por perto.
- Precisamos testar até onde consegue ir. – Eileen explicou e eu assenti. – Glacies!
- Praesidium! – a tempo fiz um escudo para impedir o gelo e Eileen respirou fundo.
- Isso foi bom, mas precisa fazer melhor.
- Você vai me atacar? – questionei indignada e ela deu de ombros.
- Se quer ser treinada bem, vai ter que seguir minhas regras. – esclareceu e eu bufei.
- Você precisa mesmo me atacar?
- Não vai ter a motivação certa se eu não te atacar. – levantou dois dedos sussurrando algo e eu levei uma rasteira do ar, caindo no chão de costas. – Deveria ter previsto isso.
- Claro. – grunhi me sentando.
- Tenere. – tentei me levantar, mas algo continuou me pressionando para baixo. – Incendia!
- Espere! – gritei em um reflexo e coloquei o braço em frente à minha cabeça para que o fogo não a atingisse, nada aconteceu e aos poucos eu ergui meu olhar. – O que...
- Você fez um escudo sem precisar recitar feitiço algum. – observou surpresa e eu franzi o cenho.
- Não... Ela não ia me queimar de verdade, ia?
- Eu sabia que sua magia se manifestaria.
- Você quase me matou por um palpite?! – gritei levantando e Eileen continuou com a postura rígida mas com uma frieza de indiferença aos meus gritos.
- A probabilidade de eu estar certa é acima da média na maioria do tempo.
- Ótimo, eu achei alguém mais convencido que Devereaux. – cochichei e revirou os olhos.
- Vamos parar de resmungar e começar a trabalhar. – Eileen disse e mesmo relutante começamos a treinar. Ela me atacou de várias formas com feitiços que eu nunca nem havia ouvido falar, a maioria eu defendi com feitiços de proteção mas ela era muito forte e minha magia se manifestou por si só sem eu precisar recitar nada. Eu me senti melhor, como se cada vez que usasse ficasse mais forte.
- Você precisa aprender a se defender fisicamente. – interrompeu enquanto eu estava concentrada em bloquear a magia de Eileen e mais uma vez fui pro chão, grunhindo pela pancada.
- Babaca… Eu sei me defender. – apoiei minhas mãos no chão para levantar e ele deu uma rasteira nelas me fazendo cair de novo. – Você chuta quem já tá no chão, quanta classe Deveraux.
- Estou esperando você mostrar essa defesa que tanto fala sobre. – cruzou os braços me olhando de cima e eu bufei, apontando para atrás dele em uma estratégia, ele olhou para onde eu apontei e como eu estava no chão puxei seu pé fazendo que ele caísse de costas. Ele sorriu e se levantou rapidamente. – Vai ter que fazer melhor que isso se quiser sair viva em uma luta contra um demônio.
- Está me dizendo que eu sou páreo para você mas não para um demônio? Isso saiu mal , acho até que afetou toda essa masculinidade sua. – finalmente levantei também e ele riu tentando me distrair mas atacou, eu havia previsto porque era o truque que eu sempre usava. – Eu já não te passei a mensagem de que seu charme não funciona comigo, gatinho?
- Quem está se achando agora hein? – ele era rápido demais eu percebi, principalmente quando conseguiu acertar o soco que tentou antes.
- Ei! – meus amigos gritaram preocupados e eu levantei a mão para afastá-los, meu lábio sangrava e eu estava um pouco surpresa.
- Tudo bem, deixem ele, tentaram me ensinar. – até achei que seria divertido e ele avançou sem mais nem menos, tentando me dar outro soco.
Seus pés se moviam sobrenaturalmente mas me lembrei de que eu também estava mais forte e mais rápida. Desviei de seu punho com um passo para o lado e ele tentou um golpe por cima mas eu o bloqueei com um braço, ele jogou o outro e eu levantei mais um para me proteger. Nós dois estávamos bloqueados então o que poderíamos usar eram as pernas, olhamos para baixo no mesmo instante mas ele atacou primeiro me chutando então eu fui jogada para trás mas rolei e aterrissei bem.
- ! – Allie gritou preocupada e eu neguei com a cabeça, determinada a acabar com a raça do desgraçado. Me coloquei em pé e fui correndo para atacar, o rosto dele estava impassível como sempre parecendo prever tudo o que eu faria.
Testei minha sorte e mirei seu rosto com o punho mas ele o segurou então me desvencilhei e mirei mais para baixo na barriga, ele pegou também. Observei seu peito porque daquela forma se ele tentasse dar um soco eu preveria um pouco antes e ele continuou com a respiração normal sem nem mesmo se esforçar. Ele atacou jogando o braço no ar para acertar minha cabeça mas eu abaixei desviando, e como seu corpo também girou minimamente junto do seu braço bati em suas costas e ele cambaleou para frente, virou para mim em segundos e como me levantei de costas isso deu oportunidade para ele passar seus braços em volta de mim e me segurar, dei uma cotovelada em seu rosto e ele soltou. Quando se recuperou e tentou me chutar eu desviei, chegando perto e dando um chute baixo que acertou a parte de dentro do seu joelho fazendo ele cair com um joelho no chão.
Ele jogou sua perna e me deu uma rasteira fazendo com que eu caísse feio também, senti o impacto quando minhas costas bateram no chão e soltei o ar tentando me recuperar o mais rápido possível. Ele levantou e tentou me segurar no chão com seu pé mas eu rolei para o lado e levantei acertando seu rosto com meu antebraço e fazendo um estrago, seguindo com uma série de socos que consegui acertar em seu rosto e barriga. Pela primeira vez tive o vislumbre de não tão confiante e até… Cansado. Tínhamos uma distância considerável agora então deslizei para perto com uma joelhada forte e abaixei para acertar um soco em sua barriga com mais acesso, levantei e tentei dar um golpe mais complicado, subi em cima dele e girei as pernas até conseguir subir em seus ombros mas de frente para o seu rosto, dei cotoveladas em sua cabeça para o apagar, mas ele conseguiu me derrubar no chão e eu firmei minhas pernas em seus ombros. Eu estava deitada no chão com as pernas apoiadas em cada ombro dele e ele levantou a mão a em volta de meu pescoço, apertei minhas pernas para pressionar sua cabeça e ele colocou mais força no meu pescoço me fazendo perder o ar.
- EXPELLIARMUS! – gritou e eu e fomos jogados para lados opostos pelo feitiço com potência, meu corpo bateu na árvore com o máximo de agressividade. Não assisti fazer o mesmo mas ouvi o barulho do impacto de seu corpo com a árvore, grunhimos juntos e ficamos no chão por um tempo antes de conseguirmos levantar. – Vocês iam se matar, por Deus!
- Não íamos nos matar, . – respondi tossindo e ela semicerrou os olhos para mim.
- Não ouse discutir comigo, não aja como criança.
- Foi um treinamento. – ele interferiu e se colocou em pé, seu rosto estava uma bagunça. Eu tinha dado uma surra nele. – Você é boa, mas precisa melhorar.
- Vai se foder. – ri sentindo dor e me ajudou a levantar.
- Vamos para casa. – instruiu e eu franzi o cenho, eu não tinha mais uma casa.


Capítulo 6

Ainda era completamente estranha a sensação de ter perdido meus pais.
Como se tudo fosse falso e eles fossem entrar no ambiente para me dizer que estavam brincando com a minha cara. Eu nunca havia me sentido tão solitária mesmo com os meus amigos por perto, nunca senti tanto medo sabendo de que eles poderiam morrer a qualquer momento, porque a morte não é algo previsível.
Eu não conseguia dormir mesmo quando uma das únicas coisas que eu queria fazer era aquilo e ainda tinha que dividir o “quarto” com , que também estava acordado pelo visto.
— Pare de me encarar — sussurrei, ainda olhando pro teto e ele bufou uma risada.
— Relaxa, princesinha, não vou tentar te beijar nem nada do tipo. — Olhei de relance e reparei que ele também olhava pro teto, com os braços cruzados abaixo da cabeça.
— Aposto que sabe o que aconteceria se tentasse me beijar.
— Você não conseguiria me bater, princesinha — usou seu tom convencido usual e eu revirei os olhos no escuro.
— Pare de me chamar de princesinha. E eu já te bati, se refresca sua memória. — Nas três semanas em que vínhamos treinando eu tinha ficado ainda melhor.
— Por que não consegue dormir?
— Pelo mesmo motivo que você.
— Ah é? E por que não conseguimos dormir então? — Pareceu se interessar pela minha suposta teoria e se virou para me olhar.
— É a única hora do dia onde não temos para onde fugir, temos que ficar deitados pensando em tudo o que está acontecendo, e se dormirmos, os pesadelos vão acontecer.
— Como você está?
— Sem sono.
— Você sabe o que eu quero dizer.
— E por que se importa?
— Porque sim. — Esperou pacientemente pela minha resposta e eu senti que poderia conversar com ele, porque naquele momento era mais fácil conversar com alguém que eu não gostava.
— Estou cansada e com medo. E você?
— Também estou exausto... E com medo — disse, me surpreendendo e eu virei meu rosto para olhá-lo.
— Você acabou de admitir que está com medo? Para mim?
— Pensei que estivéssemos tendo uma conversa honesta — riu baixinho e eu percebi que gostava do som de sua risada, não era tão irritante.
— Você sente falta dele? — perguntei, séria e não precisei nem ouvir para sentir que engoliu seco.
— Todo dia — esclareceu e nossos olhares se cruzaram, estava escuro, mas a luz da lua batia na sala já que as cortinas estavam abertas. Eu não precisei dizer nada e ele também não, foi a primeira vez que nos entendemos desde o dia em que nos conhecemos.
— Parece que ele ainda vai voltar e chegar contando alguma piada ruim esperando que nós achemos graça — refletiu, e eu ri lembrando de várias piadas ruins dele.
— As piadas eram piores do que o humor estressado — respondi, e ele concordou freneticamente com a cabeça. — Se bem que era difícil vê-lo de bom humor.
— Ele amava dançar Earth Wind & Fire quando estava num dia bom.
— Sempre, chegava a ser irritante.
— Ele sempre falava sobre você — soltou, de repente, e meu corpo resetou, meros ossos, mera carne.
— Falava?
— Claro que sim, quantas filhas você acha que ele tinha?
— Eu não era uma boa filha.
— Você era a pessoa que ele mais amava no mundo — sussurrou, com certeza. — Depois de mim, é claro.
— Idiota — sorri e ele arqueou as sobrancelhas.
— Isso é um avanço. Pelo menos você me xingou sorrindo e não fazendo cara feia.
— E qual a sua avaliação sobre mim com base no que ouviu do meu pai?
— Você é bastante parecida com ele, na verdade. Teimosa, determinada, estressadinha. — Gostei de ouvir o elogio sobre ser determinada, mas não demonstrei. — E você... Como ficou quando nos reencontramos?
— Allie comentou sobre você estar na cidade, disse que você era o sonho molhado entre as meninas, mas eu não acreditei. Esquisitão, o sonho das garotas?
— E quando me viu acreditou?
— Ainda não acho que você seja tudo isso, mas certamente está irreconhecível. Eu não mudei tanto desde a última vez que nos vimos — menti, sobre sua aparência. Ele realmente estava lindo, mas dizer aquilo para ele não tinha sentido a não ser se eu quisesse o deixar ainda mais arrogante.
— Claro que mudou, seu cabelo cresceu, Joãozinho. — Com o comentário, perdi a paciência e joguei meu travesseiro em direção a , ele pegou no ar mesmo que no escuro e o segurou.
— Nunca falamos sobre isso e você nunca entendeu como eu senti falta do meu cabelo.
— Nós não precisamos de uma conversa porque seu choro foi o suficiente.
— Eu ainda não entendo por que você me odiava tanto.
— Porque você era bonita e amada por todos. Eu era o esquisitão que os pais esqueciam no aeroporto — revelou, e eu fiquei sem fala por alguns segundos.
— Você me achava... Bonita? — tentei brincar e ele sorriu olhando pra mim.
— Pra ser justo, eu sou mais bonito que você agora.
— Que ultraje! Eu sou mulher, isso deve valer bônus adicionais.
— Certamente, vale. Espera aí... Você acabou de fazer uma piada? Sem ser altamente ofensiva? Para mim? — Eu observei ele analisar a situação e assenti.
— É. Acho que sim.
— Você sabe que amanhã tudo volta ao normal, né? Voltamos a ser inimigos mortais — disse, sério e eu copiei sua feição.
— Nunca paramos de ser, apenas demos uma pausa.
— Poderíamos pausar com mais frequência.
— Tem razão, é cansativo demais brigar com você.
— Concordo com você, princesinha.
— Argh! Você conseguiu ‘despausar’. — Virei para o outro lado, mas percebi que meu travesseiro estava nas mãos de , então levantei e me aproximei com cautela, já que poderia tropeçar no escuro.
— O que foi? — perguntou, confuso e eu agarrei a ponta do travesseiro, ele se tocou do que eu queria, e quando eu puxei, ele levou o travesseiro para o lado oposto, fazendo com que eu caísse em cima dele.
— Bem engraçadinho. Agora me dê o travesseiro. — Estiquei ainda mais minha mão, mas ele o jogou longe. Eu me mexi involuntariamente e senti o corpo de debaixo de mim, o senti também sorrindo e espremi meus lábios em nervosismo, seu corpo parecia ser feito de mármore.
— Aposto que você nunca pensou que estaria em cima do Alex Esquisitão, e quase nua ainda por cima. — Tocou a parte inferior do meu joelho, subindo sua mão por minha pele e eu estremeci.
— Primeiramente, você me derrubou. E, segundo, eu não estou quase nua. — Eu sempre dormia daquele jeito no calor, camiseta e shorts. Ele gostava mesmo de me provocar, para sexualizar um shorts.
— Eu imagino... Sexo deve ser um perigo com você — soprou, em meu ouvido e minha consciência gritou com meu corpo, perguntando por que ele ainda não tinha se levantado. Mas algo me atraía para , a magia nos conectava.
— O que quer dizer?
— Você tem liberações de magia de acordo com sensações fortes. O que será que acontece se tiver um orgasmo? — Eu senti meu corpo esquentar e ri baixinho para não ceder às provocações de .
— Você acha que pode me proporcionar um orgasmo? Eu duvido muito.
— Ah é? Me conte o motivo de sua descrença. — Suas mãos estavam em minha cintura e deixavam minha pele fervendo.
— Você é um desses caras que só se importa com o prazer próprio — sussurrei também e ele sorriu.
— Nada é mais excitante do que proporcionar um orgasmo a outra pessoa... Me diga, princesinha, você já fodeu com alguém? — O jeito que aquela palavra brincou em seus lábios me fez suspirar, incrivelmente, aquilo não me incomodou.
— Já fiz sexo, se é o que quer saber.
— Não, eu perguntei se já fodeu com alguém — reforçou sua pergunta e eu arqueei as sobrancelhas.
— Se me explicar qual é a diferença, eu posso responder.
— Você já arqueou seu corpo inteiro e gritou de prazer? Um orgasmo de verdade. Já sentiu que tudo o que precisava era de alguém satisfazendo e tocando cada parte do seu corpo? — Tocou minha pele com a ponta dos dedos enquanto explicava e, sem perceber, prendi minha respiração. Eu já havia tido um orgasmo, mas nunca através de sexo.
— Sim, eu já tive um orgasmo de verdade. Tinha um namorado. — Mentira, a maioria das coisas que eu falava quando estava perto de era mentira.
— É mesmo? Como ele te chamava quando vocês transavam? — Certamente, não princesinha, me passou pela cabeça. — Onde ele te tocava? — Acariciou minhas costas, ameaçando descer suas mãos, elas eram enormes e era fácil para que me envolvessem.
— Ok, vamos parar com os joguinhos. — Apoiei minhas mãos em seu peitoral para levantar, mas ele me segurou mais um pouco.
— Eu adoraria te mostrar o que é foder de verdade — sussurrou, e eu arqueei as sobrancelhas.
— Apenas em seus sonhos.
Como vou sonhar se não me atrevo a dormir? — Ouvi sua voz me dizer, mas seus lábios não se mexeram, o que sinceramente me assustou. Era como se ele estivesse dentro da minha cabeça.
— Como fez isso? — Saí de cima dele desacreditada e ele riu.
É uma coisa que Vorchuzt fazem — a voz se manifestou novamente em minha mente e eu chacoalhei minha cabeça.
— Fique longe da minha mente — respondi, em voz alta e ele sorriu.
— Fique tranquila, eu não consigo ler seus pensamentos. Apenas consigo sentir o quanto estava aproveitando minhas provocações.
— Como consegue fazer isso se ainda não fizemos juramentos de sangue?
— Os juramentos de sangue apenas servem para que mesclemos poderes, mas a ligação ainda está lá. É algo inegável.
— Quer dizer que eu estou conectada a você para a vida toda? — indaguei, indignada e ele arqueou uma sobrancelha.
— Agradável, não é?
— Como isso é possível? Eu te odeio, sempre te odiei. — Minhas palavras pareceram irritá-lo.
— E eu sempre te achei uma menina mimada, que sequer se dava o trabalho de tentar treinar para se sair bem na academia e que, mesmo assim, mesmo sem seus poderes, foi bajulada por todos. — Virou seu rosto em aparente desprezo e eu franzi o cenho com fúria.
— Então você implicou comigo por achar que eu tinha uma vida perfeita? Você me julgou por anos e me infernizou por inveja? Você não tem ideia do que eu passei! — Me levantei em prontidão, com raiva demais para continuar a conversa.
— Durante anos, seu único problema foi o mal desenvolvimento, deveria ter parado de se fazer de vítima por alguns segundos e aproveitado tudo o que ainda tinha. — Se recusou a me olhar e eu ri com escárnio.
— Eu te aconselho a parar por aí.
— O que irá fazer?
— Por anos, eu estive no escuro, sem saber quem eu realmente era ou o que meu próprio pai era. Eu me culpei por não conseguir fazer coisas simples e como bônus sua prima me infernizou todos os dias, um constate lembrete de que eu era uma decepção para todos. Eu acabei de perder meus pais para uma coisa que não entendo e que pode a qualquer momento matar meus amigos, a única coisa que me resta. Então pare e nunca mais, NUNCA MAIS se ache no direito de me julgar. — Apontei o dedo para ele como se pudesse machucá-lo e ele também se levantou.
— Não haja como se fosse a única que perdeu alguém — me advertiu, e eu quase avancei em , parando com a mão fechada em seu pescoço.
respirou fundo enquanto eu respirava ofegantemente e sua mão se fechou em meu pulso, delicadamente, tirando minha mão de seu pescoço. Eu poderia ter apertado a região ou simplesmente o arranhado ali, mas foi como se uma força me impedisse de machucá-lo, mesmo que eu quisesse impiedosamente.
— Não pense que nossa ligação muda as coisas, eu te odeio e meu trato com seu pai é a única coisa que me impede de te matar, mas ainda assim posso te machucar — contrariou meu pensamento e soltou meu pulso, foi como se uma grande parte da energia do meu corpo tivesse sido cortada e eu me senti muito estranha, incompleta.
— Estamos presos juntos? — perguntei, decepcionada mais uma vez, como se aquilo fosse mudar, e ele já deitado virou de costas para mim.
— Conectados para a vida toda — sussurrou, em miséria e eu fui até a cozinha, ciente de que não conseguiria dormir.
Abri o armário de cima da pia e peguei um copo de vidro, o fechando e colocando água no copo. Estava escuro, mas como meus sentidos estavam melhores eu tinha uma noção de onde tudo estava, fora a ajuda da minha visão. Encostei na bancada, psicologicamente exausta e trouxe a borda do copo até meus lábios, suspirando depois de engolir um gole grande de água.
Eu nunca havia sentido tanta dor, eu estava perdida em um território desconhecido, completamente incapaz de fazer qualquer coisa. As coisas tinham saído do controle e a pior coisa era descobrir que eu nunca estive nem mesmo perto de obter o controle de nada na minha vida.
Eu não sabia quem eu era, do que eu era capaz. Eu sequer me reconhecia, todos aqueles anos vivendo dia após dia em uma mentira bonita, uma mentira embrulhada por meus pais.
Eu sentia raiva dos dois quando meu coração não era completamente preenchido pela falta deles, raiva por me deixarem sozinha para descobrir por si só como usar meus poderes depois de dezenove anos sendo limitada deles.
Para falar a verdade, eu sentia raiva de tudo e todos, inclusive de mim, principalmente de e regularmente dos meus amigos por serem teimosos e se arriscarem para tentarem me proteger.
Então eu estava sofrendo, confusa, perdida, exausta, irritada, com medo e solitária.
Meus sentimentos transbordavam do meu corpo, sem espaço para se hospedarem sem criarem uma total bagunça. Eu estava aterrorizada com a possibilidade de que eles se hospedassem ali para sempre, me seguindo aonde quer que eu fosse e ficando ao meu lado lealmente, não se importando com quem eu estivesse.
“Tudo passa e se cura com o tempo.” Palavras ditas por várias pessoas, bocas diferentes, palavras que nunca tem o impacto desejado... Eu nunca conheci alguém que se sentiu verdadeiramente confortado por aquelas palavras.
Porque quem realmente tem o luxo do tempo? Como você diz essa exata frase para alguém que acabou de perder alguém? Quando essa pessoa sabe que a crença do precioso tempo que ela imaginou que tinha com a pessoa amada foi levado de si?
As perguntas que martelavam em minha cabeça e na de muitas pessoas que haviam perdido alguém importante era... O que eu faria se tivesse mais um dia? Uma hora? Ou até um mísero minuto?
O que eu diria?
E se eu pudesse salvá-la?
Você não pode. Você não tem a dádiva de mais um dia, mais uma hora ou um minuto.
Mas como você segue depois de aceitar isso? Como você aceita que...
— Eu sinto muito — a voz de preencheu o recinto e eu interrompi meu pensamento.
— Por ser um idiota?
— Você tem razão, eu não posso julgar o que você passou sem nem mesmo te conhecer direito — pareceu sincero e eu me senti um pouco melhor por aquela confissão. — Eu estou com tanta raiva, é como se não coubesse em mim.
— Eu sinto falta dela — minha voz se tornou falha, quebrada e ele levantou sua cabeça para tentar mostrar que prestava atenção em mim. — Ela não era nem de perto uma ótima mãe, mas eu sinto tanta falta dela. Eu sempre brigava com ela, a tratava cinicamente...
— chamou minha atenção e eu deixei uma lágrima escapar. — Não se culpe pelo que não pode mudar agora, lembre-se dos bons momentos. Eu posso ver que você a amava e ela também sabia.
— Eu... — tentei dizer, mas me engasguei com as palavras. se aproximou lentamente e me olhou como se me desse o apoio que eu precisasse.
— Diga.
— E-eu nunca mais vou vê-la — estremeci, deixando as lágrimas caírem e cambaleei, mas me segurou. — Eu nunca mais vou vê-la.
— Respire. — Me abraçou, não me deixando cair e eu solucei.
— Eu nunca mais vou vê-lo — neguei com a cabeça freneticamente e tirou os fios de cabelo que caíam em meu rosto.
— Respire.
— Eu n-não consigo.
— Respire.
— Eu não consigo!
, respire.
— EU NÃO CONSIGO! — gritei, me debatendo em seus braços e ele me segurou com mais firmeza, permitindo que eu batesse nele.
Sem conseguir me expressar em palavras, eu gritei novamente, um grito longo que acompanhou minhas lágrimas caindo. Encostei minha cabeça em seu ombro e continuei gritando. Eu senti o chão tremer e logo todo mundo estava na cozinha conosco, mas eu não conseguia sequer respirar, imagine me mover ou dizer que tudo estava bem, eu só queria parar de me forçar a fingir, por isso tinha certeza de que a única coisa que me mantinha em pé era .
— Eles se foram... E eu nunca mais vou poder abraçá-los o-ou conversar com eles. — Espremi meus olhos, forçando as lágrimas a se apressarem e senti uma grande pressão no meu peito. Eu não pensei nos vizinhos ou na tremedeira que estava causando no apartamento.
— Você pode sentir agora. — acariciou meus cabelos, mas eu não consegui abrir meus olhos.
— Eu fui a causa da morte dos meus próprios pais. — Minha respiração tinha se normalizado, mas eu me desesperei novamente.
— Você não foi a causa da morte deles, mas vamos encontrar quem foi — sussurrou, e eu pude ouvir no fundo e os outros tentando segurar as lágrimas.
— Como? Não temos nenhuma pista, não temos absolutamente nada.
— Eu não vou desistir até te ajudar a punir o culpado. Eu estou aqui com você — a voz se manifestou em minha cabeça e meu coração se acalmou um pouco.
— Está doendo... Está doendo tanto — sem pensar, consegui me comunicar de volta pela nossa ligação e foi como se eu tivesse amarrado um nó entre e eu. Senti uma forte vibração de poder e a onda de energia pareceu atingir os outros na sala.
— O que foi isso? — Allie questionou, limpando suas lágrimas e eu abri os olhos, os arregalando.
— Seus olhos estão vermelhos... — Eileen pareceu fascinada e eu chacoalhei minha cabeça.
— Os olhos dele também — Marcos sussurrou, e meus olhos encontraram os de , mas a ligação ricocheteou e nós dois cambaleamos passos para trás, nos separando.
— Eu nunca senti um poder assim e ainda tão reprimido. É como sentir palpitações e perceber que vai ficando mais forte. — Eileen levantou sua mão e abriu sua palma, a mostrando reta e deitada. Um ar vermelho flutuava por cima, mas logo se desfez em faíscas.
— Como você consegue segurar ondas de poder? — Lily questionou, e Eileen fechou sua palma.
— É um truque, exige disciplina e foco... Mas trezentos anos de prática também servem.
— Não estamos nem perto de achar quem assassinou meus pais. — Funguei, limpando minhas lágrimas com os dedos e me passou um olhar reconfortante.
— Quem quer que tenha feito isso, alguma hora vai tentar vir até você. Só precisamos estar preparados. — Fazia sentido, porque o que tinha matado eles era relacionado a mim.
— Você está brincando, né? Esse é seu plano, deixar eles virem atrás dela? Não temos noção do que são ou quão perigosos podem ser — Leo interferiu, e cruzou os braços.
— Se eles a querem, vão tentar encontrá-la não importa o quê. Precisamos nos preparar para isso.
— Não quer usá-la como isca então? Para atrair o que matou o seu Vorcrux? — Leo usou seu sarcasmo, aparentemente desconfiado de . quase avançou em meu amigo, mas eu coloquei o braço na frente.
— Eu nunca deixaria essa coisa chegar perto o suficiente para machucar . Eu sou o guardião dela — pareceu realmente irritado com a declaração de Leo e eu me surpreendi, há cinco minutos ele me insultava e agora dizia que iria me proteger.
— Ele tem razão, Leo, vai vir me caçar de qualquer jeito. Eu preciso estar preparada. — Respirei fundo, mas aquilo não me ajudou a recuperar meu fôlego. Eu estava me afogando, desde que havia perdido meus pais não tinha ar, estava sem ar há semanas.
— Amanhã temos treinamento logo cedo, vamos dormir — Eileen aconselhou, saindo da cozinha e meus amigos olharam para mim.
Allie me abraçou forte, o que me ajudou um pouco, Lily apertou minha mão e beijou minha testa, olhando para mim do jeito que nos olhávamos quando queríamos nos comunicar silenciosamente, um olhar para dizer que estava aqui comigo mesmo sem dizer nada em voz alta. Eu fechei meus olhos quando seus dedos tocaram meu cabelo e uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Eu não sabia o que faria se perdesse mais alguém, se perdesse algum deles. Se perdesse , não conseguiria suportar, não conseguiria forçar meu coração a bater ou meus pulmões a funcionarem como havia fazendo, me arrastando para andar. E eu tinha certeza daquilo, porque mal conseguia ficar em pé naquele momento em que ela me tranquilizava.
— Vamos dormir — pediu, e eu assenti, ela foi comigo e deitou no colchão, me levando a fazer o mesmo e abraçando meu corpo de lado, fazendo cafuné em minha cabeça. Meus olhos se recusaram a fechar, mesmo estando inchados e doloridos.
, eu estou aqui. — Suas mãos acariciaram meu cabelo.
— Eu não consigo dormir, os pesadelos...
— São apenas pesadelos. Eu estou aqui com você, você pode dormir — sussurrou, e eu tentei respirar fundo mais uma vez.
— Eu te amo. — Fechei meus olhos e senti concordar.
— Eu também te amo.

...


— Não pode distribuir sua magia desse jeito — Eileen repreendeu meu modo de cortar a madeira e eu parei.
— Estou cansada.
— Eu percebi, sua magia vai ficando mais fraca a cada corte. — Ela arrumou minha postura e virou meu rosto para que meus olhos centrassem o tronco derrubado.
— De novo — ordenou, e eu continuei cortando, deslizando minhas mãos como se elas fossem facas.
— Você tem que ter técnica o suficiente para conseguir fazer sem manusear as mãos. — Ela perambulou ao meu redor e, de repente, um tronco foi cortado ao meio, ela não precisou levantar as mãos ou recitar feitiço algum, a árvore simplesmente caiu em um corte limpo e reto.
— Você vai replantar essa árvore? — a questionou, com cinismo em seu tom, ela olhou de canto, como se o alertasse que poderia fazer o mesmo com ele, e este levantou as mãos. — O nome disso é desmatamento, precisamos cuidar melhor do nosso lar, a Terra.
— Estou tentando me concentrar aqui — o repreendi, e ele deu de ombros.
— Você não precisa de concentração, precisa de prática, precisa fazer isso ser como respirar. — Olhei para Eileen esperando que ela discordasse, mas ela ficou ao seu lado.
— Em uma luta, não terá tempo ou clima para se concentrar, precisa aprender. — Revirei os olhos e ouvi um barulho estrondoso, o que me assustou. Eu me virei para observar a árvore caída no chão e todos pareciam querer arregalar os olhos.
— É... Assim.
— Co-como? — questionei, para o ar, e foi checar a árvore enquanto as meninas vinham em minha direção, elas também estavam treinando com para estarem mais preparadas.
— Não chegue mais perto de mim — ele sibilou, e eu não respondi, ainda surpresa.
— Eu consigo fazer isso com uma pessoa? — direcionei minha dúvida para Eileen e ela desviou o olhar da árvore.
— Depende de você. Humanos são bastante frágeis e um bruxo seria mais difícil, mas é provável que sim.
— Você me ouviu? Não quero você perto de mim. — fingiu tropeçar nas folhas espalhadas pelo chão e eu dei um sorrisinho, era isso, ele me fazia sorrir agora? Ele fingia tropeçar para me fazer sorrir?
Então, de repente, como um flashback do dia em que perdi meus pais, tudo mudou, o céu se encheu de nuvens cinzas e algo se projetou perto das árvores caídas, eram chamas de fogo azuis, um portal... Eu havia lido muito sobre portais, sobre como eram imprevisíveis se executados erroneamente e sobre como era necessário energia para criar um portal apenas para atravessar de uma calçada para outra.
Eu, aparentemente, tinha viajado por um com , mas estava inconsciente e não tinha sequer visto ele. O que eu via agora era extraordinário, não tinha como descrever a onda de poder que ele emanava.
Mas eu não tive tempo para o contemplar porque demônios saíram das chamas e atrás deles bruxas deslizaram, ou andaram? Não parecia ser tão diferente para elas, bruxas todas vestidas com o mesmo manto. Os demônios pareciam estar em coleiras invisíveis e elas seguravam e puxavam mesmo que eles ficassem de cabeça baixa perante a presença das três. O portal desapareceu e eu olhei para os garotos, tentando achar alguma estratégia ou distração para que pudéssemos agir, estava longe, mas atento como nunca vi antes e meu coração batia tão forte que meu peito doía.
Um barulho começou a ruir em minha cabeça e era tão alto que parecia ressoar em todo lugar, minhas mãos pressionaram meus ouvidos como uma tentativa boba de diminuir o barulho constante e agudo, mas ele ruía dentro e não fora. Meus joelhos se dobraram e inevitavelmente encontraram o chão, minhas mãos ainda seguravam minha cabeça e era difícil ficar de olhos abertos para observar o que acontecia. Os outros não pareciam ouvir e nem sentir aquela dor latejante, mas mesmo assim tentaram me ajudar e entrou em minha frente incrivelmente rápido para alguém que estava a seis metros de distância.
— Pare! — ele gritou, preocupado e eu ofeguei, com a cabeça palpitando.
— O que irá fazer a respeito, Damien Deveraux? — sua voz era mais macia do que seus passos que se aproximavam, era como um sussurro presente, acariciando meus ouvidos.
— Pare, agora! — gritou, mais uma vez, e a dor ficou maior, me fazendo gritar mais.
— Parem! — deu um passo para frente, mas foi erguida no ar com magia, seus braços esmagados ao redor de seu corpo. Eu tentei levantar um joelho, mas uma delas levantou sua mão, intensificando a força imposta em mim e eu não consegui me levantar. Os demônios foram soltos e lutavam contra meus amigos, que usavam seu arsenal curto de feitiços.
avançou em uma delas, mas foi jogado para trás com um movimento suave de mãos e Eileen jogou seu braço no ar para dar potência a qualquer feitiço que planejava fazer. Quando finalmente o executou, os demônios caíram e uma das bruxas teve sua garganta cortada, um corte tão profundo que sua cabeça quase se separou do corpo e com o corpo dela morto no chão o ruído em minha cabeça finalmente parou.
Foi difícil levantar, mas, quando vi que a bruxa ainda segurava , meu poder se manifestou sozinho. Como meu braço faria distribuindo um soco caso eu me sentisse ameaçada, eu levantei minha mão e deixei meu poder me guiar, um ar vermelho rodeou a bruxa e eu senti seu corpo em minha mão levantada, fechei a palma em um punho e ela soltou , que caiu no chão, a bruxa sufocava e seu ar se esvaía de seus pulmões enquanto eu apertava cada vez mais. Eu sentia, eu sabia, eu ansiava.
A bruxa que havia jogado para longe tentou me atacar também, mas Eileen desviou a magia direcionada a mim. Minha magia sussurrava em meu ouvido, transmitindo à vontade para todas as partes do meu corpo, que latejavam para terminar o trabalho e esmagar a bruxa que estava em minhas mãos, mas uma grande força jogou todos para trás.
Eu sabia que não tinham sido as bruxas, foi algo totalmente inexplicável, não estava lá estando em todo lugar.
As duas foram soltas e aproveitaram os segundos para pularem no portal, que havia aparecido novamente, mas antes uma delas virou seu rosto e rosnou, um som gutural e extremamente animal:
— Ela te espera, , e quando ela te tiver em mãos, vai desejar que ela te esmague como tentou me esmagar. — E então desapareceu, me fazendo urrar de raiva. Eu soquei o chão e soltei todo o ar de meus pulmões, sentindo a terra tremer como das outras vezes.
! — Allie gritou, e eu olhei em sua direção, ela ajoelhava diante de Lily, que estava desacordada. Em pé, corri até as duas e os outros também observaram desesperados.
! — gritei, virando meu corpo e reparei que ele já estava levantado, parte do meu desespero desapareceu e ele veio até nós. Seus dedos encontraram o pescoço de Lily para checar sua pulsação e ele concordou com cabeça, afirmando que ela estava viva.
— Ela está respirando, provavelmente apenas sofreu uma concussão — nos tranquilizou, e Eileen também se aproximou, seu braço tinha um corte enorme, mas ela não parecia ligar.
— Você está bem? — me abraçou fortemente e eu assenti, percebi que ela mancava.
Todos estávamos machucados, Leo com um corte no supercílio, Marcos com um hematoma no rosto, Oliver com um corte na perna direita, Allie com o cotovelo esfolado. não mostrava nenhum machucado, mas deveria estar com pancadas principalmente nas costas e parecia sujo com a terra, já que foi jogado para longe duas vezes. Não era seguro ali, então corremos para a van para ir para casa.
— Quem eram elas? — Leo perguntou, em voz alta e Eileen suspirou.
— Não quem, mas o quê. Elas usavam mantos Thanatos — explicou, e eu vasculhei em minha mente.
— Thanatos? Como na mitologia grega? — questionei, desacreditada. Demônios eu havia visto, mas Deuses?
— É um culto formado pelas bruxas e bruxos mais poderosos do mundo. Aquelas eram bruxas estágio dois. — Bruxas que tinham seus próprios poderes... Uma delas tinha erguido com magia, talvez tivesse o poder de controlar o elemento Ar, a outra tinha infligido dor em minha mente e a última conseguia arremessar coisas pelos ares.
— Eles acreditam que Thanatos os guia, mas ninguém de fora sabe o verdadeiro propósito — também disse, prestando atenção na estrada.
— Bruxas e bruxos mais poderosos do mundo? E a realeza? A rainha... — questionou, e Eileen riu baixinho.
— São apenas uma fachada, a única bruxa realmente poderosa da família real foi a princesa Victoria, mas ela morreu aos cinco anos de idade. — Eu lembrava da princesa, sua morte devastou o mundo bruxo inteiro. A causa de sua morte havia sido febre tifoide, o que era um mistério porque...
— Acha que o culto a matou? — Franzi o cenho chocada e Eileen apenas assentiu.
— Por que acha que eles tentaram encobrir desse jeito? Bruxos não ficam doentes como humanos.
— Mas, se ela tinha apenas cinco anos, como perceberam seu poder a ponto de a enxergarem como ameaça? — Marcos perguntou.
— Havia rumores de que os Deuses tinham abençoado ela com dons e que desde que era um bebê já tinha poder o suficiente para devastar uma aldeia inteira.
— E por que encobriram? — Oliver cruzou os braços.
— O culto é um mito, assim como os demônios. Se a família real reconhecesse que o culto existe, seria como dar poder a eles e iria abalar o mundo bruxo mais do que simplesmente dizer que ela morreu de uma doença mundana — presumi e concordou. — Mas existem provas de que Thanatos existe? Ou que qualquer um dos Deuses existe?
— Nenhuma, apenas lendas e poemas. Muito provavelmente, Victoria apenas era poderosa por causa da natureza. — Uma bruxa com o poder de Deuses, quanto poder seria aquilo?
— Ela — repeti, e todos olharam para mim, então fiz questão de reformular. — Uma das bruxas disse “Ela te espera, .”
— O que o culto de Thanatos iria querer com você ou com seus pais? — Leo disse, baixo, parecendo aterrorizado.
— Eu não tenho a mínima ideia.


Capítulo 7

— Ela acordou! Ela acordou! — gritou do quarto e meus pés se apressaram a chegar até ela. Quando entrei no quarto, vi Lily com os olhos abertos e soltei um suspiro de alívio enquanto dava um abraço na mesma, apertando forte.
— Você não sabe como fiquei assustada — sussurrei e ela me olhou nos olhos, muito séria.
— Fique com ele, — ordenou, segurando meus ombros e eu franzi o cenho.
— Como assim? Quem?
— Fique com ele e poderão superar tudo isso — sussurrou e eu fui puxada para trás, as mãos me viraram e eu vi minha mãe, com a pele brilhante e os cabelos mais escuros que nunca.
— Mãe... — chamei e ela me puxou mais uma vez pelo braço para que eu prestasse atenção.
— Fique com , ele é seu destino.
— O que vocês estão dizendo? — Me virei para questionar Lily, mas sua garganta estava cortada, manchando os lençóis com seu sangue.
— Mãe! — gritei, tentando puxar sua mão e ela negou com a cabeça.
— Ele é sua única saída. Ele é seu destino.
Então eu acordei no mundo real, no mundo em que Lily ainda estava desacordada depois de dois dias e no mundo em que minha mãe estava morta.
Você sabia que pesadelos podem ser visões do futuro? Para bruxas.” Foi o que me disse uma vez, mas era idiota. Aquilo não tinha sentido algum.
— Você acordou. — me assustou e eu me sentei esfregando os olhos.
— Boa observação. — Abaixei a cabeça e ele se sentou, virando para mim.
— O que aconteceu?
— Anh?
— No pesadelo — respondeu obviamente e eu soltei o ar dos meus pulmões, me questionando se contava ou não.
— Minha mãe... Ela me disse que...
— Continue.
— É idiota.
— Pode ter sido uma visão, diga — pediu interessado.
— Ela me disse que você é meu destino e que eu tenho que ficar com você — admiti e ele ficou quieto por alguns segundos, se levantando sem dizer nada. — O que foi?
— Nada.
, diga algo. — Me levantei, andando atrás dele e ele parou.
— Eu também tive um pesadelo.
— Me conte.
— Seu pai apareceu e me disse a mesma coisa. — Colocou as mãos na cintura e eu bufei.
— Não estou para brincadeiras hoje, .
— Estou sendo sério.
— Ah, você espera que eu acredite?
— Pense, . Talvez seja um aviso de fato.
— Pare de brincar. — Me virei para desistir e ele puxou meus pulsos para que eu olhasse para ele. A nossa proximidade me dava calor e me aconchegava de um jeito que eu não sentia desde a morte dos meus pais.
— Talvez... Talvez nós sejamos a salvação um do outro. — Olhei seus olhos, que me puxavam também, e pigarreei, tentando sair daquela distração. Suas mãos soltaram meus pulsos e eu balancei a cabeça.
— Foi apenas um pesadelo.
— Não foi coincidência.
— Não importa de qualquer forma. — Saí andando, tentando achar uma saída daquela sensação e ele me deixou ir.
Algo me empurrava até ele e minhas tentativas de odiá-lo se tornavam cada vez mais falhas quando eu me lembrava que estávamos lidando com coisas parecidas. Eu entendia por que ele me infernizava quando crianças, mesmo que não justificasse, e eu não poderia culpar as ações dele naquela época.
Tínhamos uma ligação muito forte. Ele sabia quando eu tinha pesadelos e agora ele tinha experienciado um pesadelo idêntico ao meu? Era quase impossível de acreditar no que estava acontecendo.
— Não tem nada que possa ajudá-la? — indaguei enquanto observava Lily inconsciente e Eileen negou.
— É uma magia antiga, poderosa demais para mim — disse ponderando e Oliver andou de um lado para o outro.
— Você pode... Rastrear a magia, não pode? — sugeriu e Eilleen fez uma careta.
— Eu precisaria da energia de vocês, mas...
— Pegue. — Estendi minha mão e ela hesitou.
— Não sei se isso adiantaria.
— Lily está desacordada. Se acharmos quem jogou o feitiço nela, podemos acordá-la — interrompi seu raciocínio.
— Você tem que entender que isso é maior do que qualquer coisa que já viu ou imaginou.
— Eu não ligo. Não posso deixar ninguém morrer por causa de mim.
— Ora, e eu aqui pensando que tinha visto a seguidora de Thanatos jogar o feitiço em Lily — interrompeu sarcástico e eu bufei.
— E de quem foi a culpa disso? — rebati com raiva e ele abriu a boca, mas Allie interrompeu.
— Não briguem, precisamos tomar uma decisão.
— Sim, eu digo que precisamos rastrear essa magia o mais rápido possível.
— Você vai ser morta por seus atos imprudentes — avisou e eu cruzei os braços, o ignorando.
— É o único jeito. Não vou ficar esperando sentada e com medo de que ataquem novamente.
— Mas é isso o que eles querem, é uma armadilha.
— Eu não ligo! — Olhei para Eileen e ela se preparou, colocando a mão aberta em cima da testa de Lily e sugando um pouco de magia de lá. A magia fez com que o apartamento tremesse como eu fazia e era como uma sombra negra. Era escuro e frio.
Eileen agarrou minha mão como se fosse muito para aguentar e foi como se meu corpo todo tivesse batido em uma parede de concreto, a pressão foi enorme.
segurou minha mão, me ajudando a segurar o poder, e eu percebi que ele também sentiu o impacto.
— Se puder ser mais rápida... Eu vou agradecer — grunhiu e Allie deu a mão para ele, mas isso apenas pareceu fazer o poder crescer.
— Está sugando nosso poder — disse, sentindo meu corpo enfraquecer e Eileen tentou puxar sua mão.
— Solutu fuisse affirmat! — Ppuxou sua mão com mais força e caímos para trás, tentando recuperar nossas forças.
— Você conseguiu? — Allie perguntou, tentando se levantar e Eileen bufou.
— Ela está em Veneza — revelou e também pareceu irritado.
— Ótimo, Itália.
— O que você tem com a Itália?
— É história para outro dia.
— Acho que vamos para a Itália então. — Aceitei a ajuda de para me levantar e ele assentiu.

...


Usamos um portal e a sensação foi absolutamente nauseante. Eu tive que me segurar para não vomitar na Basílica de São Marcos.
— Precisamos de um lugar para dormir, venham. — Nos guiou pela cidade e eu arqueei as sobrancelhas. — Nem venha com essa cara, . Precisamos de um plano.
— Você tem casa na Itália? — Marcos questionou e ela negou.
— Tenho amigos na Itália.
— Amigos ricos? — disse sugestivamente e ela deu de ombros.
— Eu diria que eles vivem confortavelmente. — Andamos até a casa do amigo de Eileen. O ponto onde aterrissamos tinha sido escolhido justamente porque era perto da casa dele.
— Amore mio! — Foi assim que ele recebeu Eileen e, sinceramente, eu nunca tinha visto ela falando tão informalmente com alguém como falava com ele.
— Florenzo! Come stai? — O abraçou e ele sorriu largo.
— Bene bene. E quem são esses? — começou a falar inglês e ela cruzou os braços.
— Ela é filha dele, Florenzo. — Revelou e ele pareceu surpreso.
— Eu sinto muito... Seu pai...
— Era extraordinário, agora precisamos de um plano. — Tentei não me abalar e Florenzo compreendeu, mudando de assunto.
— O que aconteceu?
— O culto de Thanatos está atrás de nós — Eileen informou e ele arqueou as sobrancelhas.
— Ele existe?
— Sim, e está tentando nos matar.
— Quantos vão trazer?
— Vinte dos melhores — respondeu e eu fiquei um pouco confusa.
— Do que estão falando?
— Não espera que enfrentemos o culto de Thanatos sem ajuda, espera?
— Isso... Não vai chamar muita atenção?
— Ah, claro. Você tem razão. É melhor se formos sozinhos enfrentar as bruxas mais poderosas do planeta — respondeu sarcasticamente e eu revirei os olhos.
— Ainda precisamos de um plano. O que você viu quando tocou no poder?
— Eu vi muito pouco, a dor me confundiu. Mas tenho certeza de que estão na igreja de San Giorgio Maggiore.
— San Giorgio Maggiore? Precisaremos ir de barco.
— Você tem certeza de que não é uma armadilha? — Leo perguntou e ela colocou as mãos na cintura.
— Eu não tenho como ter certeza, por isso é muito arriscado. nem tem o treinamento...
— Mas eu tenho algo, eu sinto sob minha pele. E vocês também sabem, meus pais tinham tanto medo do meu poder que o bloquearam.
— Não adianta de nada se não sabe acessá-lo.
— E se eles o bloquearam, tinham um bom motivo para fazê-lo. Se o culto absorver seu poder... — trouxe a possibilidade e eu neguei.
— Se não fizermos nada, Lily vai continuar assim.
— Você sequer sabe de que estágio é.
— Precisamos nos dividir — sugeri pensando em estratégias e desistiu de me contradizer.
— Por quê? — Allie perguntou e eu apertei as mãos juntas.
— Se ficarmos todos juntos, será mais fácil de nos encurralarem e usar o fato do quanto nos importamos um com o outro contra nós.
— Duplas.
— Não é um número muito baixo?
— É uma missão suicida de qualquer forma. — jogou seu veneno, olhando de um jeito sério. — Podem ter centenas deles lá.
— Eu vou com Marcos, Oliver vai com Allie e Leo vai com — Eileen decidiu e se opôs.
— Por...
— Isso não é uma excursão escolar. Não pode fazer dupla com porque te é conveniente. é guardião dela — a interrompeu e eu concordei.
— O que vamos fazer com Lily?
— Vamos deixar ela aqui — disse óbvio. — O que pretende fazer se ficarmos vivos por tempo o suficiente?
— Eu preciso de respostas e esse é o único jeito de conseguir algumas delas.
— Se elas precisam de você para algo maligno...
— O que eu deveria fazer? Fugir pelo resto da minha vida? Me esconder e assistir todos se arriscando por mim e morrendo com facadas na barriga, ou com feitiços desconhecidos?
— É tudo muito complicado.
— Oh, acredite em mim, eu sei que tudo é muito complicado! As imagens me assombram, . Quando eu fecho os olhos, ainda posso ver meus pais no chão da cozinha e sentir o coração dele parando de bater, posso ouvir o som horrível da respiração dele.
— Você tem razão... — Isso era algo que eu nunca pensei que ouviria de Deveraux. — Me desculpe, você tem razão.
— O quê?
— Não vou te culpar por querer ajudar sua amiga, ou estar indignada pelo o que aconteceu. Se precisa de respostas, eu irei para te ajudar.
— E por que diz isso?
— Porque seu pai me designou a tarefa de te proteger — disse com o tom profissional e eu fiz uma careta. — E eu aprendi a não completamente odiar sua companhia.
— Então me proteja — apontei como se fosse simples e ele deu um sorriso mínimo, que me fez abrir um próprio.
— Precisamos treinar o quanto pudermos e ter uma boa noite de sono — Eileen interrompeu e eu mexi em meu cabelo.
— Ainda não entendi por que...
— Como eu já disse, a magia é parte de nosso ser e, se nosso corpo não funciona bem, nossa magia também não.
— Eles vão chegar aqui daqui a pouco. Pedi para que eles viessem com urgência — relatou.
— Parece uma festa — Florenzo brincou suspirando e eu segui Eileen até o quintal.
— Você está pronta? — perguntou e eu franzi o cenho. O que iríamos fazer?
— Não...
Mas, antes que eu pudesse formular a frase, ela atacou com um feitiço de paralisação, a pronunciação foi sussurrada e eu não tive tempo de bloquear o mesmo. Era como se a paralisação subisse lentamente e de repente meus músculos e nervos não conseguissem se mexer mesmo com o comando do meu cérebro.
Tentei muitas vezes sequer mover meus lábios, mas nada aconteceu. Eileen me olhou como se já estivesse impaciente.
— Un. — Desfez o feitiço e eu tropecei para frente, me sentindo estranha pela paralisação. Consegui virar o pescoço e vi que meus amigos e observavam. — Você precisa estar atenta, sempre. Tudo o que te falarem em uma luta é mentira, não pode se dar ao luxo de se distrair com palavras ou se irritar com elas.
— Impetus! — gritei, jogando a magia em direção a Eileen e ela levantou a mão calmante.
— Praesidium. — Criou um escudo e riu.
— Ignis. — Foi rápida e eu pensei na mesma velocidade, bloqueando o feitiço de fogo.
— Tenere. — Segurei o fogo, jogando a bola de volta para Eileen e ela dissipou a transformando em fumaça.
— Você tem que se esforçar! — gritou e eu senti uma ardências nas costas, confusa. — Você pode fazer tanto... Tem que aprender.
— O-o quê? — questionei e ela tentou jogar outro feitiço, mas minha magia se manifestou sozinha e um escudo se formou ao meu redor, fazendo com que a magia dela a atacasse, a jogando para trás no ar. Andei para frente, ainda confusa, e minhas mãos se levantaram, o ar vermelho já familiar e o cheiro de magia preencheram o quintal. Meus poderes a levantaram do chão e eu respirei fundo.
— O que disse?
— Me solte — ordenou e minha magia envolveu seu pescoço.
— O que foi que você disse? — Eu via vermelho e sabia que a cor dos meus olhos era essa no momento.
— disse meu nome com cautela e minhas mãos se fecharam, apertando seus ossos.
— O que você disse? — gritei e me puxou, quebrando o estado hipnótico e fazendo com que Eileen caísse no chão.
. — Segurou meu rosto com as mãos e eu senti a magia se aquietar sob minha pele. Pisquei algumas vezes e me apoiei nos braços de , respirando fundo.
— E-eu, eu não sei o que...
— Não pode deixar seu poder te controlar, vai acabar enlouquecendo — Eileen avisou, massageando a garganta e eu balancei a cabeça.
— Eu não sei o que aconteceu. A magia me guiou e eu...
— E você obedeceu — completou e eu assenti. — Talvez venha a calhar amanhã, mas precisa manter controlado.
— Eu sei...
— Vamos treinar. — Ele me puxou para longe e eu não questionei. Eileen se recuperou e começou a treinar com os garotos.
— O que foi aquilo? — sussurrou e eu neguei.
— Eu não sei — repeti e ele concordou sem entender também.
— A raiva é boa, ela te lembra que você tem um motivo. Um motivo pelo qual lutar. Mas não pode deixá-la afetar seus julgamentos.
— Você soa como Eileen. Na verdade, é isso o que ensinam no clube de caçadores de demônios?
— Eu senti, . Eu senti sua raiva e senti sua dor quando eles morreram — revelou e eu me choquei por um momento.
— Como?
— Eu senti.
— Como eu não sinto você? — Toquei seu peito e a respiração dele mudou de ritmo.
— Porque eu sou seu guardião. Nem sempre protegidos sentem algo pela conexão.
— Então por que sou puxada por você? Por que não consigo te machucar? — Bati de leve em seu peito e ele não moveu um passo do lugar.
— Você está me pedindo para te entender? Quando nem você consegue fazer isso? — Sua risada me tranquilizou e eu tirei a mão de seu peito.
— Você acha que vamos morrer?
— Talvez.
— E o que acontece se morrermos antes de conseguirmos descobrir metade disto tudo?
— Talvez seja o único jeito de acabar.
— E você aceita?
— E se tivermos uma oportunidade de ver ele de novo? — questionou pensativo e eu olhei em seus olhos.
— É estranho dizer isso, mas acho que o Esquisitão me entende.
— Vamos lutar, — disse com determinação e eu suspirei.
— Eu não lembro de como era minha vida antes disso tudo — confessei um pouco assustada.
— Eu também não. — Sua compreensão me deixou menos agitada e começamos a treinar de verdade.
A noite foi difícil e mesmo estando exausta depois do treinamento com o sono se recusou a chegar. Eu tentava dormir, mas era como se minha mente estivesse muito atenta para permitir. Olhando para , que também estava com os olhos pregados, eu tive uma ideia maluca, mas segui com ela e me levantei, aproximando meu colchão do dele para deitar novamente.
— Eu estava curiosa. Quantos tipos de DST diferentes uma pessoa pode ter ao mesmo tempo? — sussurrei, os outros estavam em quartos, mas eu e ele tínhamos concordado em dormir na sala. Tinha se tornado algo confortável o chão de uma sala.
— Está interessada em testar alguma teoria comigo? — Sorriu de leve e eu senti meu coração se acalmar.
— Você teria que provar que é mesmo esse espetacular Deus do sexo para me convencer a arriscar minha saúde.
— Você se esquece que somos bruxos e não contraímos doenças humanas.
— E quem disse que todas as DST’S são frutos dos humanos? Bruxos são bem mais poligâmicos.
— E por que estamos discutindo sobre doenças sexualmente transmissíveis? — Cruzou os braços abaixo da cabeça e eu dei um sorrisinho.
— Porque eu estou louca para falar sobre sexo com você.
— Eu sabia! — Arregalou os olhos em uma atuação forçada e eu ri, reformulando:
— Porque eu queria te distrair.
— Por que não tenta tirar a camiseta? Talvez funcione melhor — brincou, me olhando com interesse e eu devolvi o olhar.
— Eu não entendo por que apenas faz piadinhas sexuais. Seria muito mais fácil dizer que eu sou feia e me desprezar.
— Porque as piadinhas te irritam muito mais e porra... Você é linda, — confessou e eu senti meu coração pular uma batida. Eu nunca tinha esperado um elogio tanto quanto esperava dele. E eu não sabia de onde vinha aquele sentimento, já que uma semana atrás eu teria ignorado se ele me dissesse algo parecido. — Mesmo que seja muito difícil de se lidar às vezes.
— Me conte, como tinha tempo de namorar estando em treinamento para ser um caçador de demônios? — Mudei de assunto e ele deu de ombros.
— Acho que deve ter sido por isso que nenhum dos relacionamentos durou.
— Falta de sexo maravilhoso que não foi — complementei e ele sorriu, aprovando minha piada.
— Eu conheci Liam — de repente disse e minha feição fechou.
— Jura?
— Sim. Você o amou? — Suas palavras foram diretas e me deixaram desnorteada, já que desde que eu havia parado de chorar por Liam nunca tinha me perguntado aquilo.
— Acho que... Amor só é amor quando é verdadeiro pelas duas partes, não é? Foi um namoro adolescente. Ele segurava minha mãos nos corredores da escola, mas não era amor. Não do tipo que você está disposto a lutar por.
O silêncio pairou, me deixando um pouco desconfortável e eu desviei os olhos de . Eu me sentia um pouco idiota pelo que disse e a falta de resposta dele apenas reforçou esse sentimento.
— E você, já amou alguém? — O encurralei como ele mesmo fez e ele pigarreou.
— Como você mesma disse, eu não tinha tempo. — Pareceu se distanciar e eu me sentei sorrindo.
— Ah, jura? Certeza que não é por causa do seu coração de pedra? — Cutuquei sua barriga, entrando em seu colchão e ele não mostrou se agradar com a brincadeira. — , o quebrador de...
Então minha mão foi puxada por ele e meu rosto tomou uma proximidade ridícula do rosto dele, me fazendo esquecer do que estava tentando dizer.
— Você pode parar de me puxar como se quisesse me beijar? — Puxei minha mão de volta, mas seu braço envolveu minhas costas.
— Você pode parar de me cutucar como se quisesse me tocar? — rebateu e eu concordei.
— Fechado. Agora me solte — ordenei e sua mão adentrou meus shorts, fazendo com que minhas unhas arranhassem seu peitoral por cima da camiseta.
— Acho que não é o que você quer de verdade.
— E como você sabe o que eu quero de verdade?
— Se quisesse que eu te soltasse, não estaria me segurando de volta — sussurrou em meu ouvido e eu suspirei. Minhas mãos saindo de cima dele.
— Precisamos dormir.
— Eu não consigo dormir — disse agora adentrando minha calcinha e eu puxei seu braço.
— Vamos fazer um trato. Vamos dormir juntos.
— Era com isso que eu estava contando. — Riu óbvio e eu revirei os olhos.
— Vamos dormir e não transar — repeti e ele pensou por alguns segundos.
— Ok, volte para o seu colchão — pediu e eu ignorei, virando de costas para ele e buscando seu braço para que me abraçasse. — O que está fazendo?
— Tentando dormir.
— Então sua tentativa de me induzir ao sono é esfregar essa deliciosa bundinha em mim? — sua voz rouca soprou em meu pescoço e eu quase pulei pela urgência que agora se mostrava no meio das minhas pernas. Soltei o braço de e voltei a deitar no meu colchão, ouvindo uma risadinha dele.
— Foi o que pensei.

...


Tudo estava uma bagunça. Armas e uniformes sendo jogados no ar e agarrados por pessoas diferentes. Vinte soldados. Dava para perceber pelo jeito que andavam e agarravam qualquer coisa jogada na direção deles em como eram treinados. Preparados para tudo. Preparados para demônios. Isso deveria me tranquilizar, mas não tranquilizou.
Eu vesti o uniforme, que era uma espécie de macacão de legging, ele não me apertava e não atrapalhava meus movimentos, mas também não era algo de couro e sexy como a maioria dos filmes de ação mostrava as mulheres usando.
Tínhamos que esperar até escurecer por causa dos barcos de turismo que iam até San Giorgio Maggiore. De noite era mais discreto, mesmo que ainda tivessem vários. E eu particularmente não ligava para humanos no momento, mas aceitei esperar.
— Você não está com medo? — questionei e ele cruzou os braços. Ele tinha um arco e flechas em suas costas.
— Estou aterrorizado. — Suas palavras saíram carregadas de sinceridade e eu senti que ele dizia a verdade, como se eu pudesse sentir o que era mentira e verdade vindo dele. — E você?
— Eu pensei que estivesse pronta para morrer, mas...
— Você se lembrou que tem 19 anos?
— É errado pensar em viver minha vida bem com tudo isso que vem acontecendo e eu sequer sei quem eu sou, se sou maligna ou se sou boa.
— Você não é maligna. — Descartou a possibilidade e eu não discuti. — Você tem que viver sua vida para descobrir quem é. Todos esses anos enfiada em uma cidade do tamanho de um bairro e fazendo a mesma coisa todos os dias... Se sobrevivermos, ficaria honrado em te mostrar o que o mundo realmente tem a oferecer.
— Eu ficaria tentada a aceitar. — Cruzei os braços também. Se eu pensasse naquilo duas vezes, minha mente diria que era impossível, que tudo estava mudado e ferrado demais. Mas estava tudo bem sonhar antes de entrar na toca do leão.
— Allie chamou por meu nome e eu virei a cabeça, andando até ela quando suas mãos pediram para que eu fosse até lá. — Estou com medo.
— Eu também estou. — A abracei, aconchegando sua cabeça em meu ombro como sempre fazia e passei as mãos por seu cabelo. — Você não precisa ir...
— Claro que preciso. , claro que preciso.
— Então pense assim, Allie, vamos fazer isso por Lily. A Lily que sempre esteve conosco quando queríamos sair escondidas e que enfiou duas cartas de Uno na sua boca no Natal. — Ri me lembrando e senti ela tremer.
— Faz três dias, três dias que ela não está aqui. E eu sinto tanta falta dela, não acho que conseguiria viver 200 anos sem ela. — Soluçou desesperada e se sentou também, reconfortando Allie.
— Vai ficar tudo bem — minha voz tinha confiança e certeza enquanto meu coração era um vazio tão grande que ecoava o sentimento para o resto do meu corpo, mas sorri tentando tranquilizá-la e olhou para mim com dor, como se visse através do fingimento.
— Tudo vai ficar bem — repetiu. Ela era a pessoa mais honesta que eu conhecia e, mesmo não acreditando no que dizia, ela falava para ajudar Allie.
— Vai ficar tudo bem.
Então a noite chegou e os caçadores forneceram o barco e uma forma de chegar até lá sem chamar atenção. Meus amigos carregavam adagas em coldres e eu carregava uma espada nas costas. O encantamento de ocultação funcionou e antes de entrarmos na igreja eu abracei meus amigos e me segurei para não chorar ali com o peso de tudo esmagando meu corpo.
— Eu amo vocês, mais que tudo nesse mundo. — Baguncei o cabelo de Leo e ele fungou, sorrindo.
— Nós também te amamos, mais que tudo. — Todos se abraçaram, formando um círculo e antes que se prolongasse fomos separados em duplas em cada entrada possível.
Meu coração disparou como nunca e segurou minha mão antes de assentir para que entrássemos.

Narrador onisciente

Todos entraram, quatorze duplas separadas. Demoraram minutos para que todas as duplas fossem cercadas e encurraladas juntas. Não havia centenas de bruxas, apenas trinta delas foi preciso para assustar, cada uma comandava um demônio de estimação diferente. Solo sagrado não os afetava aparentemente.
Era amedrontador as criaturas monstruosas nas coleiras e as criaturas com capuzes formando um círculo fechado.
buscou as mãos de e Allie e entrelaçou a direita com a de Allie e a esquerda com a de enquanto ficava de frente para as criaturas, mantendo uma distância considerável.
queria desviar seus olhos para ela, mas não podia, então apenas ficava mais à frente, com um braço levantado como se aquilo pudesse protegê-la.
Leo, Marcos e Oliver tentavam chegar mais perto, mas os caçadores estavam espalhados entre eles, impedindo o deslocamento.
Em um movimento sincronizado, todas as bruxas tiraram os capuzes e revelaram seus rostos. Pareciam mulheres normais — de todos os tamanhos, idades, cores e descendências —, mas a verdade era que cada uma era mais poderosa que a outra. Estágios 1 prevaleciam ali e estágios 2 eram as que restavam.
— Eu disse que eles viriam. — A mesma bruxa que uma vez atacou e seus amigos disse, se sentindo vitoriosa. — Estão aqui para conseguir acordar a garota.
— Ela não está muito bem para receber visitas hoje. Principalmente visitas tão rudes, por que estão apontando armas para nós? — outra delas se manifestou, fazendo um biquinho e fingindo decepção.
... Vocês nos entregaram o pote de ouro.
— Quietas. — Passos cortaram o vento, abrindo tudo pelo caminho e deslizando pelo piso da igreja. O arrepio que subiu pela espinha de todos no recinto teve uma razão, lá estava “Ela”. — Vocês não cansam de tagarelar, não é mesmo?
Um trono estava posto abaixo da estátua de Cristo, um trono grandioso e negro no qual a criatura se sentou com graciosidade, como se sua carne e ossos fossem feitos de ar. As bruxas se curvaram em uma reverência baixa.
Ela tinha asas que se mantinham abaixadas, a pelagem preta linda e em um formato nunca visto.
Usava um manto com o tecido fino que mostrava o corpo aparentemente humano. O cabelo igualmente escuro se estendia até as coxas e escondiam um pouco seu rosto. Sua pele era um lindo tom de castanho avermelhado.
Os olhos redondos, nariz fino e arrebitado e os lábios cheios. Ela era exuberante, todos perceberam, mas também era de dar medo.
— É um grande prazer finalmente estar cara a cara com o grupo de adolescentes — soltou com escárnio, as mãos acariciando o trono. — O gato comeu suas línguas?
tremia. Sem muito orgulho do ato, tentava controlar o medo enquanto engolia a seco. Lembrou-se de todas as vezes em que havia visto filmes do tipo e imaginado que não aguentaria passar por uma situação daquelas... Bom, ela tinha que aguentar.
— Como acordamos ela? — Sua voz saiu baixa e quase inaudível, sem confiança aparente.
— O que te faz pensar que sairão daqui vivos para ajudar a amiga de vocês? Vocês têm que perceber que foi um movimento extremamente tolo. — suou frio ao ouvir sua voz sendo direcionada a ela.
— Você me quer, não é? Acorde-a e eu...
— Você se rende? — perguntou com diversão em sua voz. — Não está em posição de fazer exigências.
O que pensa que está fazendo?” se comunicou com ela e foi difícil para ela não olhar em seus olhos.
Estou fazendo o que preciso fazer.” Ela respondeu pelo laço.
Pensei que iríamos lutar. Eu pensei que você fosse lutar.”
Acha que temos alguma chance? Eu preciso salvá-la, . Eu não posso deixar que ela morra.”
O que você acha que acontece quando Ela colocar as mãos em você?”
— Deve ter algo com que eu possa barganhar, você sabia que eu viria. Me diga, o que fez com ela? — Forçou sua voz para que saísse mais alta e a criatura no trono deu um sorriso com seus dentes pontudos.
— E acabar com toda a diversão? — Arqueou as sobrancelhas em um ato sugestivo. — Que tal pularmos para a parte em que lutamos?
— CRUCIATUS! — Rápido assim uma das bruxas lançou o feitiço, direcionando ele a três duplas de caçadores, o feitiço da tortura.

[N/A: Recomendo que coloquem Black Sea da Natasha Blume para tocar até o final do capítulo].

Eles se contorceram e berraram enquanto tentavam se agarrar a alguma coisa, tentavam encontrar uma saída da dor excruciante que corria pelos seus corpos. Alguns choravam enquanto gritavam e outros apenas se contorciam, tentando expelir o feitiço de seus corpos.
quase gritou para que ela parasse, quase implorou para que os poupassem, mas soube que implorar não adiantaria, chorar diante da cena horrível também não, ela tinha que lutar. Ela tinha que proteger seus amigos.
A criatura do trono fez um sinal com as mãos e as bruxas avançaram, entrando em conflito com os caçadores e os jovens bruxos.
A bruxa que lançou o feitiço da tortura caiu e percebeu que aquilo era o preço da maldição que ela aplicou aos caçadores também mortos no chão. Era um feitiço que exigia algo em troca e mesmo que a bruxa fosse poderosa ela tinha que pagar.
Por outro lado, bruxas do estágio 2 tinham poderes próprios, mas a habilidade de fazer feitiços exigia grande doação da energia deles.
Demônios atacavam os caçadores, mas estes eram a parte fácil, a parte em que caçadores eram especialistas e vinham lidando há muito tempo.
Uma das bruxas arremessou uma adaga em direção a . , que combatia um demônio, o eliminou rapidamente e deslizou para perto, a puxando e fazendo com que ela se separasse bastante das amigas. A adaga passou raspando no cabelo de e lançou um olhar inexpressivo para .
Este, sem tempo de devolvê-lo, voltou a lutar com as bruxas. Ele era de fato um dos melhores caçadores, mas isso ainda assim não era o suficiente.
Outra seguidora tentou atacar Leo com gelo, mas sem nem mesmo pensar levantou a mão, a jogando para a direita e a estaca de gelo se moveu da mesma forma caindo no chão e se quebrando em pequenos pedaços. A seguidora levou seus olhos para a jovem bruxa e franziu o cenho, jogando outra estaca feita de gelo em direção a Oliver, falhando novamente quando formou um escudo em volta dele.
Ninguém teve tempo de ficar surpreso, nem mesmo ela própria. Ela não tinha nem ideia do que estava fazendo, seu poder a guiava e ela obedecia.
O caos instalado na igreja crescia cada vez mais, os gritos de dor e esforço cada vez mais altos e a estrutura do recinto sendo destruída para que a luta continuasse.
Cansada das tentativas de ataque, levantou as mãos, envolvendo o corpo da bruxa com sua magia. Seus olhos vermelhos faziam com que a cena parecesse uma pintura de arte. Uma mão segurou seu corpo para que ficasse parado e a outra se torceu, criando o barulho dos ossos quebrando. Com esses pequenos gestos, ela quebrou o pescoço da seguidora, ouvindo claramente quando o corpo da mulher caiu no chão já sem vida.
Ela não sentiu arrependimento ou pena diferentemente de quando matou o humano. Ela se sentiu gloriosa e até mesmo satisfeita por ter sido capaz de fazer aquilo, de proteger seus amigos.
Mesmo que os demônios fossem as criaturas mais inofensivas, na luta, eles estavam em grande número, o que dificultava tudo. não conseguiria atacar todos com sua magia de uma vez, então teve uma ideia um pouco maluca, uma ideia movida pelo instinto.
“Vorchuzt conseguem mesclar poderes com juramentos de sangue ou promessas com grandes atos dramáticos. Amantes Vorchuzt geralmente se beijam.”
A lembrança da brincadeira de passou por sua cabeça e mesmo sabendo que poderia não passar disso, uma brincadeira, ela arriscou. Respirou fundo, correndo até ele, que estava um pouco afastado de todo o caos, também pensando no que fazer.
— Et ego non promitto na se enkataleípso* — ela sussurrou quando se aproximou do mesmo e selou sua promessa com os lábios, beijando e mesclando seus poderes. O juramento que aconteceu ali sem necessidade de cortes ou grandes frases em latim foi estrondoso, quando os poderes se mesclaram uma grande explosão aconteceu, arremessando os demônios para longe e os matando. A igreja tremeu e eles se olharam com tantos sentimentos ocultos que doeu não falar nada.
Por um tempo, ele não a soltou, não conseguiu fazê-lo.
Os olhos se conectaram por pouco tempo, já que mais luta os esperava. Então se distanciaram, quebrando a magia que sentiram quando encostaram um no outro, voltando a prestar atenção no que acontecia ao redor.
Os demônios tinham sido derrubados, o que eles precisavam enfrentar eram as bruxas restantes.
Uma delas focou sua atenção em Allie lançando um feitiço para paralisá-la e quando chegou perto para atacá-la , apareceu atrás da mesma e passou a adaga por seu pescoço com força, rasgando sua pele e abrindo sua garganta. Com a bruxa morta o feitiço se quebrou e Allie conseguiu se mover, aterrorizada.
— Você está bem? — correu até Allie e olhou para as próprias mãos, que estavam cheias de sangue, mas Allie as segurou e assentiu.
— Estou bem, obrigada. — Os jovens olharam em volta. Havia um amontoado de caçadores mortos no chão e Eileen cuidava de algumas bruxas enquanto tentava distraí-las. Olhando para os corpos sem vida no piso, se perguntou quantos deles morriam tão rápido assim, resignados para missões das quais nunca voltavam.
A criatura no trono observava os caçadores, demônios e bruxas caírem respectivamente. Sem expressão, sem nenhuma emoção aparente. Ela apenas observava, até um pouco entediada.
Uma das bruxas restantes apontou uma espada para Oliver, chegando perto para machucá-lo, mas antes que isso acontecesse, Marcos, em um impulso, a apunhalou com sua adaga, empurrando a lâmina na barriga da seguidora. Oliver, tendo uma chance, o ajudou e rasgou sua garganta, inevitavelmente espirrando sangue nos dois. Marcos puxou a adaga, tirando-a da pele da bruxa e respirou ofegantemente.
— Natura auxilium mihi! Infernus quaeso! — Finalmente a bruxa que uma vez atacou o grupo avançou, com um feitiço forte, invocando o fogo do inferno e o direcionando para . Contanto, não permitiu e parou o fogo, tomando controle e a atacando com ele.
A bruxa foi dizimada, gritando palavras em latim e implorando para que a natureza a salvasse. O fogo era poderoso e a derreteu em poucos segundos, uma cena dramática e muito intensa.
Ela havia sido a última seguidora a cair e os caçadores restantes e grupo de bruxos se virou para o trono, todos com sangue em mãos. se aproximou de e Eileen se pôs do lado deles.
— Eu esperava mais, acho que não tiveram a motivação necessária. — A criatura sibilou, estalando os dedos e criando um clarão, do qual Lily apareceu ainda apagada. O corpo flutuava envolta de um campo de magia. — Que tal se tentarmos de novo?
tentou avançar para o trono, mas foi impedida pelos braços de , que a seguraram, não deixando que corresse.
Me solte!” Ela gritou pela ligação sem nem mesmo pensar, a comunicação foi tão natural como pensar.
Se acalme.” Pediu, a segurando com mais firmeza e ela respirou fundo parando de se debater.
— Por favor, eu te imploro. Eu farei qualquer coisa... — ela se viu dizendo enquanto a criatura arqueava as sobrancelhas. Depois de alguns segundos de suspense, ela fechou a mão, fazendo com que a magia deixasse Lily em pé e a acordasse, deixando-a retornar aos seus amigos.
— Não preciso dela... Por enquanto. — Mexeu as mãos novamente e uma marca se formou na pele de Lily, a queimando. — Você quer respostas, não é? Eis sua resposta. Quando a Lua de Sangue aparecer, o aço tilintará e a lâmina atravessará o amor dando assim uma abertura para que a natureza revogue o que é seu.
— O quê? — perguntou confuso.
Era um enigma, uma maldição.
— Você tem sua resposta. Agora permita-me questionar. — Fez uma pausa se levantando e deslizando em cima das sombras até . Ela parou de respirar e seu coração acelerou, mas ela tentou se acalmar prevendo que a criatura sentiria seu medo patético. — O que você daria para ver seus pais novamente? Abraçá-los? Ter uma conversa com os dois?
, você sabe que isso é uma armadilha — disse pedindo cautela a bruxa, mas ela não prestou atenção.
— Eu...
— Não caia nessa — repetiu e finalmente ganhou sua atenção.
— Eu sou a deusa da morte, posso trazê-los de volta. — Mexeu as mãos compridas, como se fosse algo simples de providenciar.
— Você sabe que o preço será mais alto. — continuou e a criatura continuou com seus olhos focados em até se virar e andar até o trono novamente.
— Até onde irá para honrar seus pais? — questionou de novo e não disse uma palavra antes que mais dois discípulos entrassem na igreja. Todos se preparam para combate, mas os discípulos apenas riram e tiraram seus capuzes.
— Não é possível. — Lily murmurou e olhou para os rostos mais uma vez, desejando que fosse uma ilusão ou um feitiço.
— O que está acontecendo? — questionou para ninguém em particular e também franziu o cenho.
— Quem são eles?

Et ego non promitto na se enkataleípso.*: Eu misturei latim e grego pra essa frase, significa “Prometo não deixá-lo.”


Continua...



Nota da autora: Oi, meus amores! Demorou, mas chegou. Me desculpem pelo atraso, eu tô bem ocupada no momento com os estudos e me enrolei com quatro longs agora. Espero que tenham aproveitado esse capítulo de hoje! Amo vocês, beijinhos!



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Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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