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Finalizada em: 30/12/2020

Capítulo Único

As paredes brancas da pequena sala eram drasticamente contrastantes com as paredes coloridas e decoradas do quarto de , onde sobrava pouco espaço entre os inúmeros pôsteres de bandas de punk rock que o garoto tanto gostava. Naquela sala, os móveis de madeira clara eram decorados com vasinhos de flores que, no quarto do garoto, seriam substituídos por aparelhos de som e instrumentos musicais. As persianas dariam lugar às cortinas de jeans feitas à mão para bloquear a entrada de luz do sol, e o cabideiro seguraria a jaqueta de couro surrada ao invés do blazer marrom.
Mesmo com todas essas coisas para considerar, a maior diferença entre o quarto do adolescente e a sala da conselheira pedagógica estava em um detalhe: a presença dos pais de . Isso, e Madonna, a estreia queridinha daquele ano, tocando no rádio, é claro. Se fosse para ouvir um lançamento, preferiria os conterrâneos que havia conhecido com o primo Danny, quando entraram clandestinamente num bar da cidade no ano anterior. Como se chamavam, mesmo? The Simons? Schmidts? Smiths? Algo assim…
Os pais de , o Senhor e a Senhora , já estavam na sala da Senhorita Atkinson há quase uma hora, o que era mais tempo do que eles passavam dentro do quarto do filho em uma semana. Haviam sido chamados para conversar a respeito do desempenho do garoto na escola. Começaram a reunião tranquilos, e sessenta minutos depois, a Senhora estava encolhida na cadeira, como se quisesse se esconder, enquanto o marido estava tenso, com o olhar duro e as costas rígidas.
O garoto, sentado entre os dois, estava largado na cadeira, com as mãos nos bolsos da jaqueta, pouco interessado no teor da conversa. A Senhorita Atkinson já não usava mais os óculos com estampa de onça, e a expressão de cansaço e desconforto era nítida por trás da pinta falsa acima do lábio tingido de vermelho. O cabelo quase branco preso no coque alto, em compensação, permanecia no lugar — o fabricante do laquê merecia os cumprimentos.
— Mas, senhorita, eu ainda não entendo como isso seja possível. Nós deixamos na porta da escola todos os dias, e ele vive na casa dos colegas, cheio de trabalhos em grupo para fazer durante as tardes.
A conselheira respirou fundo pela terceira vez em quinze minutos, com os dentes cerrados, claramente contendo a vontade de rolar os olhos com força suficiente para enxergar a parte interna do crânio.
— Senhora , tudo o que nós sabemos é que consta nos registros de aula que o Senhor não tem estado presente na maioria das aulas, e as notas dele comprovam isso. está a um passo de ser reprovado por faltas, e um passo e meio de ser reprovado por insuficiência no aproveitamento das aulas.
— Mas, não é possível, nós… —
— Pelo amor de Deus, Linda, o garoto não tem ido às aulas.
olhou para o pai, que agora tinha as pernas cruzadas e o tronco ligeiramente inclinado para o lado, com uma mão no ar, indicando que a cabeça estava apoiada ali há poucos segundos. Robert não estava bravo com o comportamento do filho, mas irritado por ter que ir até a escola e lidar com a vergonha que isso lhe causava. A maioria de seus colegas de trabalho tinham filhos da mesma idade escolar de , e ostentavam as medalhas e troféus conseguidos nas competições esportivas e acadêmicas, enquanto Robert ficava com os olhares condescendentes a cada vez que o garoto aprontava e virava assunto nos jantares dos outros alunos, quando as mães perguntavam como tinha sido o dia deles.
Linda levantou os olhos do chão, respirou fundo e endireitou a cabeça e os ombros, como tinha aprendido nas aulas de etiqueta na juventude. Olhou o marido e o filho, antes de se dirigir à conselheira.
— Agradecemos pelo seu tempo, Senhorita Atkinson. Tenho certeza de que isso não voltará a acontecer, certo, ?
— Ah, sim, claro. Não vai mais acontecer — deu um sorriso curto para a mulher do outro lado da mesa e não foi retribuído.
Com um aceno rápido de cabeça, a Senhora se levantou e saiu da sala, sendo seguida pelo marido e pelo filho.

Na manhã seguinte, acordou com a luz do sol batendo forte em seu rosto. Antes mesmo de abrir os olhos, ouviu o som irritante dos saltos baixos da mãe ecoando pelo quarto, e se perguntou se ainda estava sonhando. Finalmente tomou coragem de olhar ao redor, e encarando o relógio sobre a mesa de cabeceira, notou que era pelo menos meia hora antes do horário que costumava acordar. Linda estava parada na porta, de braços cruzados, esperando o filho acordar totalmente.
— Levante, tome um banho, coloque a roupa que está separada e desça para tomar o café da manhã. E seja rápido, nós temos compromisso.
O garoto esperou o som dos saltos estar bem longe antes de levantar da cama. Que droga estava acontecendo? Era terça-feira, e ele tinha ouvido o maior sermão na noite anterior sobre ter responsabilidade e não faltar mais na escola. Agora a mãe o faria faltar? E que porcaria de roupa engomadinha era aquela? Ouviu o ronco alto vindo do próprio estômago e resolveu ir logo para o chuveiro. Descobriria o que a mãe estava tramando mais tarde.

Dentro do carro, um Mini Cooper creme que morria de vontade de pintar de alguma cor mais divertida — qualquer cor que não fosse creme, na verdade, — o silêncio era quase mortal. Do banco de trás, o garoto observava as ruas de Manchester começando a ganhar vida conforme a névoa da noite gelada era dissipada por alguns fracos raios de sol. Soltou um grunhido baixo quando o pai estacionou o carro e entendeu onde estavam.
Fechou a porta do carro com mais força do que pretendia, desviando da placa onde se lia “Clínica geral Taylor & Johnson” em letras floreadas. O Dr. Taylor era o médico da família desde que era criança, e se ele bem lembrava, o homem já era idoso naquela época. Na última vez que o garoto viu o médico, ele ainda tinha exatamente o mesmo rosto, como se o tempo tivesse parado de passar para ele. Pensando a respeito, o velho devia ganhar muito dinheiro ensinando o segredo da longevidade aos outros velhos que atendia.
Linda ordenou que ele se sentasse enquanto ela e Robert conversavam com a secretária, e ali se viu novamente preso com os pais em uma sala branca e sem graça. Pior ainda, em uma ante-sala branca e sem graça, que antecedia outra sala ainda mais branca e mais sem graça. O garoto tateou os bolsos e ficou pensando em quais seriam as consequências se ele escapasse por alguns minutos para fumar. Demorou para traçar um plano de ação, entretanto, e logo os pais estavam sentados com ele.
De um lado, a mãe folheava uma revista feminina, disfarçando a curiosidade com a cantora pop que a Senhorita Atkinson estava ouvindo no dia anterior; do outro, o pai lia o jornal, atento às alterações nas bolsas de valores e calculando, mentalmente, quanto dinheiro ganharia ou perderia se tivesse investido na Apple alguns anos antes. A TV exibia um programa de culinária que, irritantemente, era a coisa mais interessante para focar, naquele momento. tentava não arrancar os cabelos ao mesmo tempo em que aprendia a fazer uma bela torta de abóboras, em tempo de aproveitar a receita na temporada de Halloween que vinha nos próximos meses.
— Senhora ? O Dr. Taylor vai recebê-los agora.
A secretária, que devia ter a idade do médico, anunciou numa voz baixinha e trêmula. A família se levantou e entrou na sala do médico. Nesse momento, admitiu para si mesmo que devia um pedido de desculpas à secretária: ela não tinha a idade do médico; tinha era idade para ser avó dele. Obedecendo as instruções do homem atrás da mesa, que escrevia em uma caderneta desde que os haviam entrado na sala, os três se sentaram novamente. Eram nove e meia da manhã, e já estava cansado dessa dança das cadeiras.
, querido, esse é o Dr. Taylor, filho do Dr. Taylor. Você se lembra dele, não é?
O garoto olhou para a mãe, confuso.
— Do Dr. Taylor, ou do… Dr… Taylor?
Antes que Linda pudesse responder, o médico baixou a caneta e encarou o trio.
— Segundo seu histórico médico, Sr. , o senhor está há mais de dois anos sem fazer uma consulta médica, e é por isso que nós ainda não nos conhecemos. Eu assumi a clínica há um ano e oito meses — e virando-se para Linda, continuou: — Senhora , como vai? A dor no nervo ciático melhorou?
— Oh, sim. Me sinto jovem como uma flor desde nossa última consulta.
Robert se remexeu na cadeira, bem percebeu, fazendo com que Linda e o jovem Dr. Taylor quebrassem o contato visual. O médico limpou a garganta, tornando a verificar a ficha da consulta.
— Diga-me, Senhor , o que o traz ao meu consultório depois de tanto tempo?
franziu as sobrancelhas e cruzou os braços. Apoiou uma mão no queixo, entortou a boca e encarou o teto. Já que estava ali, ia entrar na brincadeira.
— Hmm… — o garoto grunhiu depois de uma longa pausa. — Acredito que meus pais pensem que eu sou clinicamente louco, doutor, e precisem apenas de uma confirmação médica para poder justificar o fracasso parental aos amigos e parentes. Provavelmente evitar ser chamados na escola de novo, também, e finalmente me mandar para a faculdade de contabilidade, para ser feliz e próspero no trabalho como o meu pai — e encerrou o discurso com um sorriso largo e inocente.
O Dr. Taylor olhava de Robert para Linda, questionador. Tinha estudado alguns casos psiquiátricos na faculdade e esperava que aquele não fosse um deles. Podia lidar com cirurgias delicadas e extensas, ferimentos graves e famílias desconsoladas, mas gente louca? Não, não. Melhor que fossem internadas logo e parassem de dar trabalho.
Linda encarava o médico, desesperada.
— Sr. , — notou que o médico evitou olhar em seus olhos, e segurou uma risada debochada — eu gostaria de conversar com os seus pais a sós por um instante. Devo pedir que o senhor se retire, por favor.
O garoto deu de ombros, e saiu. Com sorte, ainda conseguiria pegar o resto da receita de torta de abóbora na TV.
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! !
sentiu um peteleco no pescoço e olhou para trás. Já fazia quase uma semana desde a consulta médica, e ainda não havia se acostumado com o efeito dos remédios que foram receitados. Não entendia como os pais achavam que ir à aula dopado daquele jeito era melhor do que simplesmente não ir.
, sentada atrás dele, usando os cabelos escuros amarrados num coque alto cheio de volume e a jaqueta de couro e rebites que havia ganhado de no último aniversário, encarava o amigo, debruçada na mesa para que o garoto a ouvisse sussurrando seu nome.
Não conseguiu se livrar desses remédios ainda?
— Minha mãe fica com eles o tempo todo. Eu procurei o frasco para jogar fora, mas estava na bolsa dela.
— Que droga! Que merda de faculdade esses médicos fazem para sair enfiando remédio em quem não é doente?
grunhiu em concordância e cerrou os olhos com força, xingando a fisgada que sentiu na cabeça. deu uma risada baixa, nasalada, e deu outro peteleco no amigo. — Mas, hey, pelo menos você não precisa pagar pelo barato, agora. Se resolver virar artista, pode dizer que a sua musa inspiradora é a Lucy in the sky with diamonds.
O garoto riu, chacoalhando os ombros e os fios do cabelo rebelde. As pontas avermelhadas já estavam desbotadas e ele tinha certeza que o remédio o faria esquecer de agendar um horário no salão de beleza da mãe de para retocar.
Picture yourself in a boat on a river, with tangerine trees and marmalade skies… — começou a cantar, e não aguentou segurar a risada.
— Senhorita , Senhor , por melhor que o gosto musical de vocês seja, eu devo lembrá-los que ele pouco tem a ver com a nossa aula — o assunto foi cortado pelo Sr. Hastings, professor de química, que tentava continuar a aula sem ser interrompido pelos dois. Essa era uma coisa da qual ele não sentia falta quando não estava presente, e lamentava a amizade dos dois. era brilhante. — Falando nisso, Sr. , como o senhor não estava presente na última aula para a formação das duplas, acredito que o senhor fará o trabalho sobre ligações eletrônicas com o Sr. Hall, que ficou sozinho.
O professor lançou um olhar seco para o adolescente, e seguiu a aula. olhou para o lado e viu Stevie, tímido, sorrindo e acenando para ele por trás dos óculos redondos.
Ah, droga, o filho do Sargento disse baixo para , afundando na cadeira.
Ele tem as melhores notas de química da turma, idiota, aproveita.
— Então me diz, , você não fez dupla com ele por quê? Ah, é, porque ele é o filho nerd do Sargento.
— Estou fazendo o trabalho sozinha porque a segunda melhor nota da sala é minha.

endireitou as costas, indignado.
Você está sozinha? E eu vou fazer o trabalho com o Stevie Ha-Ha-H-Hall?
rolou os olhos com a imitação estúpida de . Ela era punk, mas não via nisso um motivo para atacar os menos descolados. Além do mais, Stevie era legal, e a gagueira só aparecia quando ele ficava nervoso. Como a escola inteira pegava no pé do garoto, ele estava sempre nervoso.
E você acha que o Hastings ia deixar a gente fazer o trabalho juntos? Deixa de ser idiota, o garoto é na dele, e você precisa de nota.
Sentindo mais um lampejo de dor na cabeça, achou mais fácil concordar com sem discutir. Para não dizerem que foi má vontade da sua parte, ele até tentou se concentrar na aula, mas aquele remédio estava lhe deixando disléxico. Como não conseguia ler nada do que estava no quadro, deixou que a mente vagasse e viajasse para longe. Tomou um susto quando ouviu o sinal tocar, anunciando o fim do período.

?
— Oi?
ouviu a voz falha vinda de trás de si enquanto guardava as coisas na mochila. Olhou por cima do ombro e encontrou Stevie inquieto, tentando elaborar a próxima sentença. Honestamente, como um cara que mal conseguia falar podia ser o cérebro da turma?
— E-eu, é… eu tenho aula nas seg-seg-segundas e quin-in-quin-....
— Cara, calma — colocou uma mão na frente do garoto, fazendo com que ele parasse de falar. Respirou fundo, sob o olhar inquisidor de . — Eu não estou entendendo NADA do que você está falando. Respira e tenta de novo. E calma, eu não mordo. Pelo menos, não sem me pedirem.
Sorriu de lado, fazendo graça, fazendo esconder o rosto nas mãos e, surpreendentemente, arrancando uma risada de Stevie. O filho do Sargento inspirou fundo algumas vezes, e encarou nos olhos, com confiança, os ombros para trás e o peito inflado.
— Eu tenho aulas de mandarim às segundas e quartas, e de piano às terças e quintas, mas estou livre às sextas. Se você quiser, pode ir lá em casa para a gente fazer o trabalho. Eu sei que é só para daqui duas semanas, mas eu já comecei e posso te explicar algumas coisas. Acho que se a gente se organizar, dá tempo de fazer alguns experimentos e um protótipo do projeto, mas se voc—
— Tá bom, sexta-feira na sua casa, então. Combinado.
Stevie ficou confuso por uns segundos, tentando recuperar o raciocínio após ter sido interrompido. Quando conseguiu, acenou algumas vezes com a cabeça e se despediu da dupla. A risada de foi suficiente para tirar do nó mental que aquela conversa lhe deu.

O caminho de volta para casa era sempre uma surpresa para . Ele nunca sabia se chegaria em casa para o almoço ou para o jantar, e no segundo caso, nunca sabia onde estaria e o que estaria fazendo para perder o almoço. Suspeitava que conhecesse Manchester melhor que os motoristas de ônibus da cidade, e se orgulhava disso. Naquele dia, entretanto, sabia o que precisava fazer. Com a cabeça latejando e os sentidos falhando, tudo o que queria era apagar de vez.
Virando mais uma esquina, avistou finalmente o pequeno mercado perto de sua casa. O Madre Nostra era mais uma mercearia do que um mercado, mas Gianpierre gostava mais do segundo nome. Segundo o italiano, impunha mais respeito e demonstrava a solidez do seu querido estabelecimento, que oferecia uma mistura de itens locais e ingredientes tradicionais das vendas italianas, além do macarrão caseiro e a estufa de doces feitos pelos filhos do proprietário. Apesar do tiramisù ser divino, o que interessava a naquele momento era a ala local do mercado. Mais especificamente, o corredor de bebidas.
Depois de se certificar que a área estava limpa, o garoto agarrou uma garrafa de gin, sentindo o nervosismo bater, descontrolado pelos efeitos do remédio, e mais de uma vez teve que se policiar para não derrubar a bebida no caminho até o caixa. Pegou a carteira de identidade falsa e apresentou ao operador, deslizando pelo balcão um par de notas que totalizavam um valor pouco acima do necessário.
— Pode ficar com o troco.
Piscou para o funcionário e abraçou a garrafa. Seguindo para a saída, para sua infelicidade, ouviu seu nome ser chamado em um sotaque extrangeiro forte, apesar dos já muitos anos de residência na Inglaterra. Mas que infernos Gianpierre estava fazendo ali? Ele nunca estava no mercado durante o dia.
! Onde pensa que vai com isso, ragazzo? Tua madre sabe disso?
Linda costumava fazer compras ali, no final do dia, quando podia contar com o carro do marido para carregar as sacolas de volta para casa. Eram clientes costumeiros, e toda a família Migliorini conhecia toda a família . Com a mente sã, jamais teria tentado comprar álcool ali, mas claramente ele não estava com a mente sã. Se xingou baixinho, e tentou pensar em uma desculpa.
— É para o meu pai, Sr. Migliorini.
— Tuo padre não aguentou um belo Lambrusco na degustação de massas que noi fizemos aqui. Não minta para mim. Andiamo, devolva isso e vá para casa, antes que eu chame tua madre aqui.
Contrariado e pisando duro, o garoto colocou a garrafa de volta no balcão, encarando Gianpierre no fundo dos olhos todo o tempo. Arrancou o dinheiro da mão do operador de caixa, e saiu, derrubando uma gôndola pelo caminho. Fora do estabelecimento, cobriu os olhos, agredidos com a claridade do sol. Sentia a cabeça pulsando e uma leve tontura, como se a pressão arterial estivesse caindo, e tentou reparar se estava suando frio, sem sucesso.
Estava irritado. Não tinha pleno controle sobre o próprio corpo, nem sobre a própria mente e a dor constante era quase enlouquecedora. Se sentia doente, e sabia que tentaria arrancar a cabeça do corpo se não conseguisse desligar a consciência em breve. Lembrou que Gianpierre havia atrapalhado seus planos e deixou que a raiva tomasse conta de si, desesperado para descontar toda aquela frustração em alguma coisa.
Atravessando a viela que cortava o quarteirão, tentou chutar alguma fruta velha que encontrou no chão e perdeu o equilíbrio, precisando se apoiar no muro lateral do mercado para não cair. Foi quando ele notou algo. Do lado de uma lixeira, meio escondido, estava um conjunto de latas de tinta spray de cores variadas. sorriu e pegou a que imaginava conter tinta vermelha, mas parecia ter se esquecido que aquele não era seu dia de sorte. Enquanto chacoalhava a lata, se preparando para deixar um recado bem pouco amigável ao dono do Madre Nostra, o garoto sentiu a espinha gelar ao ouvir a sirene da viatura que fazia a ronda do bairro. O carro estava parado na saída da viela, e sabia que estava fodido!

— Então esse é o delinquente número um da área! — O Sargento Clifford Hall tinha os ombros relaxados e as mãos entrelaçadas apoiadas sobre a barriga. Apesar da postura relaxada e o tom debochado, estava sério. Tinha pouquíssima tolerância à desobediência e, como costumava chamar, adolescentes com crise de auto-afirmação. — . Me diga, garoto, qual a sua justificativa?
queria muito mandar o sargento para um lugar bastante desagradável, mas se controlou. Lembrou das dicas do primo, Danny, que já tinha esbarrado com as autoridades algumas vezes, e forçou a mais convincente cara de cachorro que caiu da mudança que pôde.
— Sinto… sinto muito, senhor. Foi um erro, não vai mais acontecer — disse num fio de voz, os olhos fixos no chão, rezando para não soar cínico, como de fato estava sendo. Se ao menos ele soubesse que as aulas de teatro seriam úteis, ele as teria aproveitado melhor.
O Sargento soltou um rosnado em resignação. Por mais que quisesse, não podia prender o garoto por tentativa de pixação, e ele queria muito. era parte ativa dos grupos de arruaceiros da região, sempre perturbando a paz da comunidade e causando conflitos. Eles já haviam se encontrado antes, em patrulhas e denúncias de barulho e baderna, mas nada havia sido motivo para uma punição mais severa, ainda mais considerando que os garotos eram nada mais do que isso, garotos.
Pegou um bloco de papel timbrado e preencheu algumas informações, fazendo uma cópia com papel carbono, as mãos manchadas de azul. Assinou e entregou a caneta para que assinasse também.
— Estou te dando uma advertência, garoto. Pegue e suma da minha frente — o jovem se levantou da cadeira e tentou não sair de lá com muita pressa. Merda, estava morrendo de fome. — E SE EU TE ENCONTRAR APRONTANDO DE NOVO, NÃO VOU SER TÃO GENEROSO.
Quanto a isso, o Sargento podia ficar tranquilo: não pretendia ser pego de novo.
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— CALA A BOCA!
deu um tapa no braço de , desacreditada. Tapou a boca com a mão para abafar a gargalhada que ficou presa na garganta e gesticulou para o amigo, incentivando-o a continuar a história.
— Eu já falei, quase fui preso. Essa é a história. Até parece que a segurança de Manchester anda às mil maravilhas para aquele porco do sistema se preocupar com um adolescente fazendo arte urbana.
estava feliz naquele dia. Tinha conseguido enganar a mãe e achado uma forma de não tomar os remédios. Nunca imaginou que não tomar uma droga o faria se sentir melhor do que tomar.
— Você vai acabar encrencado qualquer dia desses, , e eu quero estar perto para ver e gritar “eu te avisei” bem alto, na sua cara.
— No dia em que eu me encrencar, a cabeça do plano santo vai ser você, .
riu, guardando um livro no armário, e olhou desafiadora para .
— Meu amor, se o plano for meu, não existe chance de você ser pego.
Antes que pudesse retrucar, a dupla foi abordada pela figura magra e enrugada da inspetora Simms. Tinham feito uma aposta de que a velha não duraria até a graduação deles, e ela já tinha aguentado até a metade do ensino médio deles.
— Devo informar aos senhores, Senhor e Senhorita , que os corredores da escola não são um desses becos escuros que os senhores frequentam nas horas indecentes da noite. O uniforme da nossa instituição deve ser respeitado.
Impaciente, ajeitou o decote da camisa enquanto arrumava a calça que estava baixa na cintura e apertava o cinto. Finalizaram com um sorriso inocente, debochado, do qual a inspetora não gostou muito. Com o dedo em riste, a velha se aproximou de e escancarou um sorriso satisfeito e quase sádico.
— O senhor devia tomar mais cuidado com o seu comportamento, Senhor . Receber uma advertência por aparecer na escola vestido como um roqueiro satanista pode causar uma expulsão, e acredito que seus pais não gostariam de ser chamados aqui mais uma vez.
A Senhora Simms saiu se arrastando pelos corredores, chamando a atenção de cada aluno que encontrou pela frente.
— Ignora a diaba, . Vem, vamos almoçar.

A lanchonete de segunda categoria não era a melhor opção para uma refeição, mas era a mais próxima da escola. O garoto achava que essa era alguma tentativa do governo de diminuir a quantidade de idosos na futura pirâmide etária da cidade, envenenando os jovens estudantes com aquela porcaria desde cedo. Aquele também era o único estabelecimento da região que fazia vista grossa para vender cigarros a menores de idade, e já sentia a falta da nicotina no organismo.
passou todo o caminho tentando acalmar o amigo, que precisou resistir a um forte impulso de voltar à escola e mandar a inspetora para a terra do pé junto antes do planejado. Suspirou quando entraram no restaurante e encontraram Trevor McKinnon no balcão. Sabia que o amigo e o atendente frustrado de 18 anos não se davam bem, e com já estressado, teria que pisar em ovos durante todo o almoço.
— Oi, Trevor. Não sabia que você tinha voltado para a lanchonete.
O rapaz encarou , inexpressivo, mastigando o palito de dente.
— Gentil da sua parte achar que eu ficaria no jornal por muito tempo.
A garota engoliu em seco. Trevor era filho do dono do jornal local, e foi o assunto da cidade quando não foi aprovado em nenhuma das faculdades de jornalismo para as quais se candidatou. Em desgosto, seu pai não permitiu que ele trabalhasse no jornal, sobrando a lanchonete como alternativa.
— Bom, é.. nós vamos querer o duplo de cheddar, por favor.
— O meu é com bacon no lugar do picles — adicionou, antipático, antes que Trevor registrasse o pedido.
Seguiu com para uma das mesas com bancos acolchoados perto das janelas, apalpando os bolsos da jaqueta e notando que precisaria comprar um isqueiro novo, também. Observou a garota brincando com alguns fios do cabelo crespo, distraída, a fraca luz do sol refletindo em seus olhos castanhos.
— Perdeu alguma coisa na minha cara, ?
— Só queria ter certeza se não tinha sobrando nem um restinho de vergonha nessa sua fuça.
A menina esticou a língua para fora, em resposta, e riu. O tempo que gastaram nessa brincadeira foi suficiente para que os lanches ficassem prontos.
— Aproveitem sua deliciosa refeição, e obrigado por escolher o Bernie & Kline — o atendente entregou os pedidos e recitou o lema do restaurante com a menor vivacidade que conseguiu.
deu a primeira mordida no lanche e sentiu vontade de vomitar. Olhou com atenção e notou os pedaços esverdeados de lixo — nas palavras dele — que deviam ter sido substituídos.
— Hey, McKinnon — o rapaz desviou os olhos da revista de esportes que lia, e encarou o adolescente raivoso, — eu disse que era para trocar o picles por bacon.
— Nós estamos sem bacon — Trevor respondeu desinteressado, como se informasse o tempo a um estranho. , por outro lado, ficou possesso.
— E por que você não me avisou quando eu disse que era para trocar essa merda por bacon?
Trevor esboçou um sinal de cinismo no olhar, o que era o máximo de expressividade que já tinham visto no rosto do rapaz.
— Você nunca perguntou.
rapidamente sacou umas notas do bolso e largou em cima da mesa, pegando seu lanche e agarrando pelo braço antes que ele tivesse tempo de partir para cima de Trevor, arrastando o amigo para fora da lanchonete.
— Você viu a cara de pau daquele desgraçado? Você viu, ?
— Naum gritha com-migo, — a garota terminou de mastigar o pedaço do lanche que havia trazido consigo e respirou fundo. — Eu sei que ele é um babaca, , mas você não pode querer bater em todo mundo que te irrita. Se algum dia você se estressar comigo, vou precisar me preocupar em ser agredida, também?
notou que ficou completamente desconcertado com o questionamento. Sabia que o amigo tinha seus ataques de raiva e que eles estavam ficando mais frequentes e que tinha pouco controle sobre suas atitudes em casos assim, mas na verdade, não tinha medo nenhum do amigo. Podia ser ingenuidade da sua parte, mas confiava no garoto.
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— … e se nós conseguirmos usar os ímãs para exemplificar visualmente como as ligações são feitas, eu acho que a nossa nota pode ser bem mais alta, o que você acha? — Stevie concluiu o pensamento e direcionou a atenção a , esperando uma resposta que não veio. — Ahn, ?
— O quê? — tomou um susto devido à falta de atenção no que o outro garoto dizia. Não tinha ideia do contexto da pergunta, mas sabia que tinha que opinar. — Ah, claro. Tudo bem, o que você achar melhor.
Com o que havia acabado de concordar?
Stevie sorriu, voltando a fazer anotações, e voltou a divagar. Apalpou os bolsos por hábito, se xingando mentalmente por ter esquecido de comprar a droga do cigarro. Constatando uma total falta de algo melhor para fazer, correu os olhos pelas paredes da sala de estudos da casa dos Hall — ou, Quartel General, como era apelidada.
Se surpreendeu com a quantidade de prêmios acadêmicos que Stevie e os irmãos mais velhos colecionavam, além das condecorações do Sargento e as homenagens recebidas por ele e pela esposa nos clubes de lazer da alta sociedade mancuniana. Entre láureas de competições esportivas e medalhas militares, notou uma foto interessante de Stevie em uma feira de química.
— Stevie — chamou, se levantando e indo até a foto, observando-a de perto, — você sabe fabricar uma bomba caseira?
Os olhos de Stevie brilharam.
— Sim, é muito simples. Ganhei um Award Lecturer no Festival Britânico de Ciência, em Bradford, ano passado, pela análise da periculosidade que alguns produtos de limpeza comuns apresentam, então, como você pode imaginar, os ingredientes para a bomba são consideravelmente fáceis de encontrar, e o modo de preparo também é bastante trivial.
— E você pode me ensinar? Digo, quando nós terminarmos o trabalho.
— Claro! Não imaginava que você seria um entusiasta da ciência, .
quase se sentiu mal pela empolgação do garoto. Mesmo assim, sorriu e acenou com a cabeça vigorosamente.
— Sou, sim. Você não imagina o quanto.

O sinal estridente indicava que a aula havia acabado.
Apesar de odiar as segundas-feiras normais, aquele dia estava sendo atípico. Saiu de casa sem ser notado pelos pais (percebeu que eles brigavam no escritório, e entre os gritos do pai e o choro estridente da mãe, ouviu o nome do Dr. Taylor algumas vezes, mas resolveu que não era problema seu) e desviou facilmente dos remédios. Cruzando o portão da escola, prendeu um cigarro entre os lábios.
— Quando você comprou cigarro?
— Estive na Bernie & Kline no final de semana — o garoto desconversou, dando de ombros.
riu e balançou a cabeça.
— O que um maço de cigarros não faz, não é?
mostrou o dedo do meio para a amiga, que riu mais uma vez.
— O que está acontecendo ali? — apontou para as viaturas paradas do outro lado da rua e os policiais agrupados ali, observando a entrada da instituição.
— Não faço a menor ideia, e também não estou interessado — respondeu, acendendo o cigarro e dando a primeira tragada. Ofereceu o fumo para , que aceitou, percebendo uma movimentação estranha da parte dos policiais. Um oficial foi até a viatura que estava estacionada mais à frente e falou com alguém que estava dentro do carro, mas não pôde ver quem era. O policial acenou positivamente e sinalizou para outro oficial, que o acompanhou em direção aos adolescentes.
— Senhor ? — O policial que estava na viatura da frente abordou, mostrando o distintivo.
— Depende de quem pergunta.
O policial deu um meio sorriso sem nenhum humor.
— A Polícia de Manchester pergunta. O senhor está sendo intimado a nos acompanhar até a delegacia a respeito de um incidente ocorrido no sábado. — retesou os ombros, dando mais uma tragada e devolvendo o cigarro para , olhando o policial, desconfiado. — Nós só queremos fazer umas perguntas, garoto, não há nada para se preocupar. Agora, se puder nos acompanhar…
Gesticulou para a viatura, e o garoto não viu alternativa além de seguí-lo. Deram a partida no carro e assim que passaram pela outra viatura, conseguiu vislumbrar Trevor McKinnon dentro do veículo, com um curativo na testa.
Merda! Merda! Merda!


— O que foi que eu te disse na sua visita, Senhor ?
— Ú-última visita? Que última visita, ?
Linda e Robert olhavam exasperados para o filho, na sala do Sargento, tentando entender por quê haviam sido chamados ali.
— E eu achando que não podia ser pior do que receber uma ligação da conselheira pedagógica… Francamente, , se eu soubesse que seria assim, teria reconsiderado a paternidade.
Por um segundo, pensou ter visto Clifford assumir o lugar do Sargento, do outro lado da mesa. O policial analisava Robert com uma certa… curiosidade não era bem a palavra certa, mas algo naquela relação de pai e filho o intrigava. O Sargento desviou os olhos para a fotografia da própria família sobre a mesa e encarou novamente. Reconhecia a feição irritadiça, a vontade de contrariar as regras e a revolta; imaginava que fosse a familiaridade que o fazia tão intolerante a essas coisas.
nos cedeu informações sobre uma investigação que estávamos conduzindo, alguns dias atrás. Eu o disse para tomar cuidado com onde andava, antes que ele se colocasse em perigo — o Sargento Hall tomou a dianteira na conversa, e não conseguiu esconder a surpresa ao ouvir a declaração do policial. — Chamamos vocês aqui hoje porque foi chamado para testemunhar oficialmente, e por ser menor de idade, precisávamos do consentimento dos responsáveis. Se estiver tudo bem por vocês, vou pedir que os senhores assinem o livro ata na recepção enquanto eu converso com o Senhor a sós.
Observando o filho, agora com uma postura completamente diferente, Robert e Linda saíram da sala. Apesar de toda a marra, o garoto não conseguia encarar o sargento nos olhos.
, espero que você entenda a gravidade do que eu acabei de fazer. O senhor foi identificado como culpado pela explosão do banheiro da lanchonete Bernie & Kline no sábado à noite, e eu poderia mandar detê-lo por isso. Espero que você entenda isso como prova de uma paternidade decente, porque eu só estou te dando mais uma chance pela fé que o meu filho tem em você.
O garoto sentiu um arrepio correr por todo o seu corpo, o que não condizia com a temperatura do ar condicionado na sala do sargento. Se sentia exposto, invadido, mas também estranhamente compreendido, acolhido, até. Queria sentir vontade de gritar com o oficial, de dizer que nada daquilo era verdade e que não precisava da pena dele, mas na verdade, não sentia. Estava confuso e precisava aprender a lidar com essa nova situação.
— Essa é a última vez, . Depois, está acima dos meus poderes aqui livrar a sua barra, então que não haja uma próxima vez. Aproveite para repensar algumas coisas, garoto. Acredite em mim quando eu digo que viver desse jeito não vale a pena.
Clifford entregou outro papel timbrado para e o instruiu a entregá-lo na recepção. Buscando o apoio nos pés não muito firmes, o garoto saiu da sala em silêncio.


enterrou o rosto nas mãos. Estava fazendo uma atividade de dupla com e tentando explicar pela quinta vez o que tinha acontecido no dia anterior.
— Já disse que não foi nada, . Eu só... vi um assalto, e os policiais queriam que eu testemunhasse.
— E o que isso tem a ver com a gente não poder mais almoçar no Bernie & Kline?
— O assalto foi perto. Não é seguro.
O garoto apertou o bolso da jaqueta mais uma vez, e se irritou. Tinha deixado a carteira de cigarros na delegacia depois da revista e agora não podia comprar uma nova. Sentiu a mão de pressionando seu joelho e só então notou que estava balançando a perna, inquieto, há vários minutos.
— Você está bem, ?
— Estou, estou. É só aquela droga de remédio que eu tive que tomar hoje. Minha mãe ficou super feliz por eu estar ajudando a polícia ao invés de causar problemas e deu os créditos para o remédio. Disse que agora que eu estou melhorando, não posso ficar sem, mas a merda da minha cabeça não para de doer — apertou a ponte do nariz, entre os olhos, e suspirou. — Droga, eu preciso fumar.
— Já falei que você precisa diminuir esse negócio, , já está com abstinência — olhou feio para o amigo.
— Eu estou bem, . É só uma dor de cabeça, e eu estou ficando irritado com essa aula que não acaba.
O rosto bonito de estampava a surpresa da garota com o tom de voz usado por . Estava acostumada com as explosões do amigo, mas não gostava nem um pouco quando eram direcionadas a ela. Achou melhor deixar o garoto quieto até o fim da aula.

Quando o sinal finalmente bateu, a atmosfera entre a dupla já estava bem mais leve. O sol estava generoso naquele dia, fazendo suas últimas aparições antes do outono assumir o clima no hemisfério norte, e muitos jovens aproveitavam para ocupar os parques e praças da cidade. Saindo da escola, atravessou a rua, com logo atrás, e parou do lado do Mini Cooper creme que gritava por uma tintura. Tirou as chaves do bolso e balançou no ar, sorrindo para .
— Quer dar uma volta?
A garota sorriu de volta, surpresa e animada.
! A última vez que você pegou esse carro foi quando você tirou a sua carteira de motorista. Aliás, primeira e última — riu, recebendo de um gesto pouco educado com o dedo médio. — Espera aí! O que você está fazendo com esse carro? Você assaltou seus pais, ?
O garoto riu alto, e deixou a cabeça cair para trás.
— Não, . Acredite se quiser, meus pais quiseram me dar um “presente” por ter sido um bom menino e me deixaram vir com ele, hoje — entrou no carro e abriu a porta do passageiro. — Vem, entra logo.
Com no carro, deu a partida e avançou alguns metros. Ouviu os primeiros acordes de Boys Don’t Cry no rádio e acenou, satisfeito. Parou no semáforo no final da rua, esperando a luz verde autorizá-lo a acelerar novamente, quando viu uma figurinha mirrada e desajeitada na calçada. Era Stevie, tentando evitar que a pilha de livros caísse de seus braços para atravessar a rua com segurança. acionou a seta e encostou o carro quando o semáforo abriu.
— Hey, Stevie, quer uma carona?
No banco do passageiro, não disfarçou o choque. Desde quando era legal com Stevie? O que tinha acontecido quando foram fazer o trabalho de química no Quartel General?
A verdade era que se sentia em dívida com o garoto, e apesar de não poder explicar, queria fazer algo por ele em agradecimento. Passou a noite toda remoendo as palavras do Sargento sobre as coisas que Stevie falava a respeito dele, coisas que provavelmente nunca pensou ou ouviu sobre si. Não entendia como o garoto podia vê-lo daquela forma, mas sabia que devia mais respeito ao rapaz.
O filho do Sargento, por outro lado, não sabia por que estava andando com o pessoal descolado agora, mas não seria ele a reclamar. E, de fato, uma carona cairia bem — aqueles livros estavam pesados e as medalhas esportivas na sala de estudos do Quartel General eram dos irmãos mais velhos dele. Respondeu um tímido, porém empolgado, “sim” e entrou no banco traseiro, obedecendo um meneio de cabeça de .
As ruas de Manchester estavam movimentadas, mas não havia trânsito. dirigia tranquilamente, aproveitando a coletânea de , que tocava no carro desde que saíram da escola. Achou engraçado o quão divertido Stevie podia ser, arrancando risadas da dupla nos bancos da frente, descrevendo como ele imaginava que fossem os cantores das bandas de rock que eles ouviam. Passaram por uma praça bastante agradável, e teve uma ideia.
— Stevie, você tem aula hoje?
— Eu ia revisar algumas matérias, já que meu professor de piano está de férias, mas tecnicamente não, não tenho. Por que?
— O que vocês acham de um piquenique?
abriu um sorriso largo, que confirmou a que aquela havia sido uma boa ideia. Com as respostas afirmativas dos amigos, iniciou a rota em direção ao Madre Nostra para uma busca rápida por suprimentos. Dois quarteirões à frente, entretanto, teve a sensação de ter um raio atravessando sua cabeça. Soltou um gemido baixo, tentando não preocupar e Stevie, mas quando viu a própria perna chutar o carro sem que tivesse decidido fazer isso, não pode mais evitar.
, está tudo bem?
Focado em retomar o controle do corpo, fixou o olhar na rua, e viu o mercado logo à frente.
— Sim, tudo bem. Foi só um espasmo, fiquei muito tempo sentado.
— Muito tempo sentado, ? Conta outra. Suas mãos estão tremendo e você está branco. O que está acontecendo, ? O que você está sentindo?
Sufocado com as pontadas na cabeça e o falatório de (agora somado às perguntas de Stevie, também), o garoto virou o volante, entrando no pequeno estacionamento do mercado. Mas, antes que pudesse frear, sentiu mais um espasmo, mais forte dessa vez, e contraiu os braços, jogando o carro no muro da mercearia. Ouviu uma gritaria ao longe, e não se lembrou de mais nada depois disso.


nunca esteve pior.
Cada músculo do corpo doía, e as luzes brancas do hospital agrediam seus olhos recém abertos. Tinha vaga memória de um acidente de carro. Teria sido atropelado? Por um caminhão, talvez?
Virou a cabeça de lado e viu sentada na maca à direita, com o braço ajeitado em uma tipóia. Ao ver acordado, ela sorriu, e ele se tranquilizou: ela estava bem. Perto da porta, assinando alguns papéis, estavam o Sargento e Stevie, que também parecia bem, apesar de nervoso. Virando a cabeça para o outro lado, evitando lâmpadas que brilhavam bem acima de sua cabeça, viu Linda e Robert conversando com o médico. Forçou um pouco a concentração para ouvir o que eles diziam.
— Sinto muito, senhora , todos os exames que nós fizemos indicaram o mesmo resultado. Checamos o histórico médico dele e identificamos o remédio prescrito pelo Doutor Taylor — Linda soltou um miado, decepcionada, quase envergonha. — O remédio que estava tomando era experimental e usava a cocaína como estimulante para evitar uma possível parada cardíaca causada pelos altos níveis de substâncias calmantes. Segundo o relato da senhorita , a cocaína deve ter sido responsável pela perda de controle dos membros motores, que levou à batida.
O garoto fechou os olhos de novo, e soltou uma risada soprada e sem humor. Parece que todos os punks eram mesmo drogados incorrigíveis, como diria a Senhora Simms, de um jeito ou de outro. E já que era para entrar no personagem, ficou decepcionado: sua primeira visita ao hospital não tinha sido causada por uma briga de bar, nem por excesso de álcool. Divagando em pensamentos, não percebeu quando uma enfermeira trocou a medicação acoplada à agulha em seu braço, mas sentiu-se ficando sonolento e as pálpebras pesando. Antes de se entregar ao sono, ouviu a voz do pai falando baixo, porém firme e com certa irritação.
— Chega, Linda. Tentamos como você queria, e veja no que deu. Agora é do meu jeito, como devíamos ter feito desde o princípio.
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mal conseguiu aproveitar o tempo fora do hospital antes de se ver trancado no carro — outro Mini Cooper creme, sem graça, injustiçado — naquela viagem de quase uma hora até Burnley.
Pensando nas coisas no porta-malas, se perguntou o que os pais queriam na cidadezinha de herança industrial, perdida no meio de Lancashire, mas sabia que não era nada de bom. Teve certeza absoluta quando se afastaram do centro da cidade e tudo começou a se confundir numa mistura de mato, casarões e melancolia. Sentiu o frio que se aproximava com a tempestade iminente percorrer seu coração quando o pai finalmente estacionou e pôde ler o nome fundido ao grande portão de ferro: Reformatório S. C. Dawson para Jovens Amotinados.
— Pai, o que nós estamos fazendo aqui? — o garoto questionou, duvidando que aquilo fosse verdade.
— O que nós devíamos ter feito há muito tempo, , entregando você em mãos competentes.
Robert acenou rapidamente para o senhor de cabelos brancos que veio abrir o portão. Ele trazia um carrinho para as malas e estampava no rosto a tristeza que sentia, como se sofresse junto a cada novo menino e menina que chegava ali.
— Mas, pai, o senhor não pode…
— Vamos Linda, se despeça logo. Não quero pegar essa tempestade na estrada.
A mulher, resmungando baixo, chorosa, abraçou o filho, lhe dando um beijo desajeitado na testa. Não teve coragem de olhar para trás antes de entrar no carro. De Robert, recebeu apenas uma expressão dura e vazia, como se o garoto fosse só um dos pedintes que o pai julgava nas ruas. O carro partiu, e foi tomado por uma onda de pânico e raiva, e antes que pudesse perceber, havia esvaziado os pulmões em um grito longo, constante, que estava preso na garganta.
O senhor dos cabelos brancos amigáveis, que viria a descobrir que era o zelador daquele imenso casarão, passou o braço pelos ombros do garoto, que chorava pela primeira vez em muitos anos.
— Venha, garoto. Sei como você está se sentindo, mas é melhor se sentir quebrado e miserável lá dentro, perto do fogo e com uma xícara de chá do que aqui fora com essa tempestade.
Com um sorriso reconfortante, familiar, o bom velhinho conseguiu fazer com que finalmente se movesse. Pararam novamente na soleira da porta, e encarou o alto casarão, ainda com medo de entrar.
— Como é lá dentro?
— Ah, meu rapaz — o senhor deu dois tapinhas leves nas costas do jovem, e empurrou a porta para abri-la, — se eu contar as histórias desse lugar.



Fim...?



Nota da autora: OI-Ê!
Obrigadinha por terem lido até aqui ♥♥
Espero que vocês tenham gostado desse PP meio Gerard Way, meio Yungblud hahah
O que será que vai acontecer com esse garoto no reformatório, não é? Quem sabe a gente descubra num futuro…
Se vocês quiserem ler outras fics minhas e falar comigo, vocês podem encontrar a minha página de autora e redes sociais aqui
J’adore,
Gior!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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