Última atualização: 11/10/2023

Prólogo

As mãos estavam geladas e suando, assim como acontecia em todas as vezes em que ela se deparava com uma situação que lhe deixava nervosa. Ela podia jurar que via os dedos tremelicarem um pouco e que isso nada tinha a ver com o fato de não conseguir manter as pernas paradas, chacoalhando-as de um lado para o outro enquanto tomava coragem para sua próxima ação. Fazer login no Skype era uma tarefa simples, mas o que aconteceria a partir daquele momento iria moldar seu futuro. Concretizaria seus planos ou teria de ajustá-los à sua realidade? Embora tivesse um plano B, ela não queria ter de utilizá-lo e isso aumentava ainda mais a sua ansiedade.
Logou-se no aplicativo e seguindo as instruções recebidas pela equipe de recrutamento ela procurou o nome do entrevistador na lista de contatos e começou a digitar uma mensagem.
”Olá, Sr. Smith. Aqui é a . Nós temos uma entrevista em dez minutos e só queria avisá-lo que estou disponível. Estou ansiosa para falar com você em breve.”
Apertou o enter e buscou desesperadamente por sua garrafinha de água que estava repleta de chá de melissa. Ainda tinha alguns minutos e esperava que o chá milagrosamente fizesse efeito nesse meio tempo.
Inspirou.
Respirou.
Repetiu a ação mais algumas vezes até sentir-se mais calma.
Ela precisava tomar as rédeas de seu emocional se quisesse ter alguma chance de ser a escolhida para ser a próxima trainee daquele hotel. Caso fosse selecionada, ela iria participar de um programa de intercâmbio remunerado nos Estados Unidos, focado em hotelaria, sua área de formação e na qual ela já vinha atuando desde que ingressou na faculdade. Se tudo ocorresse conforme o planejado, ela passaria os próximos 12 meses adquirindo experiência profissional em um país diferente, praticando o inglês, ganhando em dólares, conhecendo pessoas novas… Enfim, viveria o sonho americano do seu próprio jeito.
Com isso em mente, ela passou a sorrir antes mesmo de atender a chamada de vídeo de seu entrevistador.
Era hora do show.

Capítulo 01

Embora o voo de oito horas e trinta minutos entre Guarulhos e Miami não tivesse escalas e fosse relativamente curto para um voo internacional, quando apareceu no saguão de desembarque do aeroporto, parecia ter sido atropelada por um caminhão. Se somasse a isso o voo entre Porto Alegre e Guarulhos, as infinitas horas de espera e todos os trâmites na imigração, ela tinha uma justificativa bem plausível para sua aparência naquele momento.
No entanto, quando naquele mar de pessoas ela viu uma jovem aparentando sua idade segurando uma placa com seu nome, todos seus pensamentos evaporaram e seu desconforto muscular desapareceu. O coração foi tomado por uma sensação de orgulho e felicidade e ela sentiu os olhos marejaram um pouco. Entre os amigos e ex-colegas de trabalho, ela era conhecida por ser chorona, mas ali ela tentaria manter a pose por um pouco mais de tempo. Sorriu e continuou empurrando o carrinho com suas bagagens até estar cara a cara com a moça.
— Nem acredito que consegui chegar ao nosso ponto de encontro sem me perder. Eu sou péssima com dire-ções mesmo em ambientes fechados, e aqui é gigante, não é? — ela disparou para quebrar o gelo antes de se apresentar oficialmente. — Prazer em finalmente te conhecer, Bethany — estendeu a mão, tentando já come-çar a deixar para trás o costume brasileiro de abraçar e beijar.
— Prazer, ! Já sabe que eu prefiro que me chamem de Beth e eu também não sou muito boa com direções — ela apertou a mão da outra enquanto ambas sorriram. — Meu carro não está tão longe daqui. Você quer ajuda com as bagagens?
— Não, não. Você já fez muito em vir me buscar, pode deixar que com isso eu me viro — estava de fato extremamente agradecida por não ter que lidar com táxi ou uber àquela hora da manhã no cansaço físico e mental em que se encontrava. Sem interromper a conversa, as duas começaram a andar para fora do aeroporto em direção ao estacionamento descoberto no qual Bethany havia milagrosamente conseguido uma vaga.
— Eles normalmente mandam alguém do RH para fazer isso, mas como hoje é meu dia de folga e nós vamos dividir o apartamento, eu pedi para que me deixassem vir — o olhar surpreso que direcionou à Bethany fez a mulher rir e questionar em tom divertido qual era o problema.
— Uma hoteleira abrindo mão do soninho até mais tarde no dia da folga? Eu não acredito nisso! Vou ter que dar tudo para te recompensar.
— Essa semana eu consegui dois dias de folga, então na segunda-feira eu dormi e hoje estou aqui. E eu nem precisei acordar às 5h, de forma que não considero que tenha acordado cedo hoje.
— Sei bem como é. Mas então quer dizer que os dois dias de folgas semanais que me falaram na entrevista não eram apenas uma forma de me fisgar? É verdade mesmo? — viu Bethany concordar com a cabeça e rir mais uma vez da reação exagerada da outra. — Estou chocada!
— Como funcionava sua escala no Brasil?
— Escala seis por um, com uma folga semanal fixa e um domingo por mês — fez uma cara de desgosto. Amava a profissão que havia escolhido, mas odiava profundamente aquele sistema de escala que não a deixava ter muito pique para uma vida fora do hotel.
— Nossa, que pesado! Aqui é bem melhor, eu te garanto.
— O bom daqui é receber por hora trabalhada... Em dólares! — parou o carrinho e fingiu jogar dinheiro para o céu. — Eu sei que existem alguns momentos em que é praticamente impossível fugir das horas extras e tá tudo bem, mas quando é todo dia isso acaba virando uma regra e não uma exceção e o desgaste acontece.
— Já trabalhei em um lugar assim. Estou nesse hotel há pouco mais de dois anos e até o momento não vivi nada assim. — Fez joinha com os polegares e elas voltaram a se mover.
Caminharam por mais alguns metros antes que a motorista indicasse com o dedo qual era seu carro, em seguida destravando o mesmo. aproveitou para esticar os braços em um alongamento discreto, porém altamente relaxante. Inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos por rápidos segundos, permitindo que os raios de sol batessem em cheio em sua face. Sentiu que poderia chorar de emoção a qualquer momento, então tratou de distrair a mente e a primeira coisa aleatória que lhe atingiu foi o fato de que agora ela morava na mesma cidade do pessoal do Miami Ink, programa que adorava assistir quando ainda era uma pré-adolescente sonhando com tatuagens. Sorriu para si mesma e voltou à posição normal, dando de cara com uma Bethany sorridente.
— Bem-vinda à Miami, .
Naquele momento, a brasileira não conseguiu reprimir a lágrima solitária que caiu de seu olho. Aquela foi sua maneira silenciosa de agradecer Bethany por todo o suporte que ela vinha lhe dando nas últimas semanas.
Quando o gerente de hospedagem anunciou que eles teriam uma trainee de outro país na equipe, a norte-americana logo tratou de unir o útil ao agradável. Ela sabia que o hotel iria oferecer alojamento para a nova funcionária por no máximo duas semanas e depois a pobre coitada teria de lutar sozinha para encontrar um local para morar. Como ela tinha um quarto sobrando em seu apartamento e estava precisando economizar, decidiu contatar a brasileira pelas redes sociais a fim de conhecê-la um pouco mais antes de fazer a proposta.
Entre apresentações e conversas amenas sobre clima, seriados, livros e bandas, o click entre elas foi quase instantâneo e não demorou muito para que Bethany revelasse o real motivo por trás de seu contato. quase chorou de emoção e alívio quando elas acertaram todos os detalhes para se tornarem roommates, afinal, encontrar uma residência fixa era uma de suas maiores preocupações e ela havia resolvido aquilo antes mesmo de deixar o seu país de origem, o que gerou um alívio instantâneo em seus pais também.
— Vamos?
— Vamos, claro!

O trajeto de aproximadamente vinte minutos do aeroporto até o apartamento em Downtown Miami foi um pouco mais silencioso, já que o balanço do carro deixava relaxada ao mesmo tempo em que ela tentava absorver um pouquinho de cada rua percorrida.
Quando o veículo parou do nada e ela viu um portão eletrônico sendo aberto, respirou, aliviada, pois sua bexiga já dava sinais de que estava cheia novamente e ela estava doida para tomar banho e cair na cama. O automóvel foi estacionado em uma das vagas e Bethany a ajudou com as malas até o elevador.
— Sei que pode demorar um pouco até você ter esse sentimento, mas bem-vinda ao seu novo lar. — ela deu ênfase à última palavra e passou a agradecê-la em inglês, português e espanhol, fazendo-a rir.
— Uau, então foi por isso que te contrataram. Quase uma poliglota.
— Se não fosse o quase…
— Tenho certeza de que você consegue o quarto idioma fácil. Mas enfim, aqui é a nossa sala — ela disse estendendo os braços para o cômodo, ao qual passou a analisar com um pouco mais de atenção. Ela não tinha o mínimo gosto para decoração, mas gostou muito da composição do ambiente: o piso era laminado, ou seja, mais fácil de limpar; e fazia um contraste legal com o tapete cinza posicionado no meio do local. Havia uma mesa de centro vazia posicionada ali e na frente dela ficava um sofá preto de três lugares, sendo que nas outras extremidades havia duas poltronas da mesma cor. As paredes brancas eram preenchidas por três quadros decorativos na seguinte ordem: AME, SORRIA, VIVA.
— Nossa, adorei. Você fez um ótimo trabalho aqui.
Bethany agradeceu e a direcionou para o corredor, mostrando rapidamente onde ficava o banheiro, o qual pediu para usar assim que sentiu sua bexiga doer.
Quando saiu, viu que a última porta do corredor estava aberta e seguiu até lá, dando de cara com Bethany e suas malas já dentro do cômodo.
— Esse é o seu quarto. Espero que goste.
— Acredite em mim, eu já amo esse lugar! Será que posso te pedir um favor?
— Claro!
— Será que eu posso...hm...te abraçar? — perguntou, envergonhada. — É uma das minhas melhores formas de demonstrar afeto e gratidão e eu sei que americanos não costumam ser tão calorosos, mas…
— Calma, mulher. Eu venho de uma família de abraçadores, fique tranquila — ela riu e abriu os braços para que a outra pudesse se aconchegar.
— Obrigada por tudo mais uma vez — disse antes de afastar o corpo.
— Já perdi as contas de quantas vezes você me agradeceu em menos de uma hora.
— Mas é que eu realmente estou agradecida e…
! — chamou a atenção da brasileira antes que ela começasse mais uma vez. — Fico feliz em ajudar e você está me ajudando também, aqui é uma via de mão dupla de gratidão. E acho que você pode retribuir fazendo aquele doce de nome estranho que você me mandou uma foto esses dias…
— Brigadeiro! Claro que eu faço! Você vai ver, ou melhor, vai sentir. Parecem pedacinhos palatáveis do paraíso.
— Mal vejo a hora de provar! Mas até lá… Vamos tomar um café da manhã antes que você entre em coma pelas próximas horas — Bethany a guiou até a cozinha, onde uma mesa posta com pães, geleias de fruta e frios as aguardavam.
— Sei que daqui algumas semanas você já vai estar tomando café como uma norte-americana, mas para o primeiro dia e após uma viagem dessas, achei melhor não pegar pesado.
— Awn! — exclamou enquanto juntava as mãos em frente ao peito. — Você acertou em cheio.
Fizeram a primeira refeição do dia com calma e quando acabaram até tentou ajudar a colega a recolher os itens e lavar a louça, mas foi enxotada da cozinha sob as alegações de que precisava tomar banho para relaxar e dormir. Ao ver que aquela era uma discussão já perdida, ela tratou de seguir as “recomendações” e partiu para ter seu primeiro sono em solo americano.

Capítulo 02

A sensação de abrir os olhos e estar em um lugar que ainda não parecia ser seu era… estranha. No entanto, não era um estranho desconfortável, apenas diferente. Pelo pouco que conhecia de sua colega, sabia que em breve o sentimento de ser uma intrusa passaria e ela conseguiria sentir como se pertencesse ao ambiente.
“Um passo de cada vez”, pensou.
Sentou-se sobre a cama e puxou o celular de debaixo do travesseiro, conectando o wifi em seguida. Esperou que o mesmo parasse de vibrar com as diversas notificações das redes sociais. Abriu o whatsapp e no grupo com suas amigas mais chegadas tirou uma selfie divertida com a cara amassada e os cabelos fora de ordem, e enviou com a legenda: #MiamiJetLagStyle e vários emojis de risadas. Mandou um áudio curtinho avisando que havia dado tudo certo na viagem e que ela recém havia acordado e estava com fome, mas que estava bem, então retornaria mais tarde com novas notícias.
Depois ela imediatamente abriu a conversa da mãe e deu início a uma chamada de vídeo. Por estarem no horário de verão de Miami, a diferença para o Brasil era de apenas uma hora e o fato dos pais serem autônomos que trabalhavam em casa contribuía para que pudessem lhe atender em praticamente qualquer horário.
— Oi! — ela disse, realmente feliz ao ver os rostos que sempre lhe transmitiam segurança e apoio.
— Oi, filha — escutou os pais responderem em coro, como se tivesse sido ensaiado. — Como foi a viagem? — a mãe perguntou.
— O voo em si foi bem tranquilo, sabe? Sem turbulências. Consegui dormir um pouquinho e no resto do tempo me dividi entre assistir e escutar música, estava agitada demais para ler. Não quis tomar Dramin porque vocês sabem que meio comprimido é o suficiente para me deixar bem boba e eu não queria correr riscos na imigração — riu, sendo acompanhada pelos mais velhos.
— E como foi essa parte? — dessa vez o questionamento partiu do pai.
— Então… Apesar de estar com a documentação certinha, eu pensei que meu coração ia saltar pela boca e pensei que meus pés e mãos fossem capazes de me causar uma hipotermia de tão gelados que estavam — ouviu os pais rirem baixinho, aquelas reações físicas foram herdadas da senhora . — Mas o oficial foi legal comigo, fez perguntas adicionais sobre o programa e até me contou que uma sobrinha dele está cursando Hotelaria. Eu tive que me controlar para não me empolgar demais na conversa, mas fiquei feliz demais por ter tirado a sorte grande nessa parte.
— Você atrai aquilo que é, meu amor — a mais velha falou, fazendo o sorriso da filha alargar.
— Eu não vou mentir para vocês que quando ele disse “Welcome to Miami”, eu tive vontade de pular sobre o balcão e abraçá-lo. E depois eu quis chorar e gritar, mas podem ficar tranquilos que eu me controlei, assim como o papai mandou — posicionou uma palma sobre cada lado do rosto em uma pose angelical bem convincente.
— Ainda bem, né, filha? Lembre-se do que eu falei sobre nos envergonhar em outro país. Você sabe que eu sou muito famoso no mundo todo, preciso manter minha imagem intacta — o Sr. debochou e os três gargalharam. — Ai, papito, você é demais — ela mandou um beijo para a câmera e o homem fingiu pegar no ar e posicionar sobre o seu coração. sentiu seu peito fisgar e ficou feliz quando a mãe surgiu com um novo questionamento, pois sabia que se abrisse a torneirinha do choro naquele momento, seria incapaz de fechá-la.
— E a Bethany? E o apartamento?
— Ela é maravilhosa! Me buscou no aeroporto e preparou um café da manhã com pães e frios, exatamente como eu gosto. Se bem que ela disse que em breve estarei comendo como uma americana, vai saber, né? — deu de ombros. — E o apartamento é ainda mais aconchegante do que nos vídeos que vimos — acionou a câmera traseira do celular e começou a rodar pelo quarto para mostrá-lo aos pais. — Ah, mãe, antes que você fale das malas, eu prometo arrumar tudo amanhã. Hoje estou de folga — declarou, rindo sobre os protestos de sua progenitora. — Outro dia eu mostro o apartamento completo para vocês.
Quando sentou-se novamente sobre a cama, voltou para a câmera frontal. Pela cara de ambos, ela já sabia o que estava por vir e dessa vez também sabia que não iria conseguir se controlar.
— A saudade já é grande, minha filha, mas estamos muito orgulhosos de você por não ter medo de encarar uma mudança dessas para realizar seu sonho — antes que o pai terminasse de falar, ela já sentia as lágrimas descendo livremente pela sua face.
— E acima de tudo, nós só queremos que você seja feliz, nunca se esqueça disso, meu amor. Sabemos que as chances de você não se adaptar são mínimas, mas você precisa saber que as portas do ninho sempre estarão abertas, sem necessidade de vergonha — agora ela sorria em meio às lágrimas, bem como os mais velhos faziam. — Também sabemos que se surgir a oportunidade, você pode ficar aí em definitivo, e tem nosso total suporte, sempre lembrando daquelas condições das visitas anuais, hein?!
Assim que conseguiu diminuir a intensidade das lágrimas e controlar a respiração a ponto de falar sem que a voz falhasse, começou a falar.
— O que eu posso falar além de obrigada e eu amo vocês? É sério, vocês são fantásticos. Se eu não tivesse esse apoio, acho que não teria coragem para fazer o que eu ‘tô fazendo agora — declarou, sincera. — Vocês me criaram para o mundo, e agora eu vou conquistá-lo… Por mim e por vocês — sentiu a garganta embolar e decidiu parar por ali.
As demonstrações de afeto entre os três eram diárias, então eles sabiam o quão apreciados eram. Durante alguns segundos, a família apenas ficou se admirando pelo vídeo, até que escutaram uma batida na porta do quarto da filha.
— Olhem quem está aqui! — levantou-se e foi até Bethany, que estava parada na beirada da cama, sorrindo.
Os pais não falavam inglês, mas a americana sabia falar espanhol, então no final eles conseguiam se comunicar sem tanto problema. E caso fosse necessário, serviria como a tradutora para todos.
— Olá, senhor e senhora !
— Oi, Bethany! — eles novamente responderam em coro e a mais nova não conteve o sorrisinho de canto que surgiu em seus lábios.
— Muito obrigada por ter recepcionado nossa menina tão bem, além de tudo o que você já fez por ela — pela voz falha, a matriarca estava lutando para reprimir a emoção. Já o Sr. apenas sorria em concordância.
— Fico feliz em ajudar — sorriu, verdadeira. — E ela também me prometeu aquele doce que eu não consigo dizer o nome.
— Bri-ga-dei-ro — falou pausadamente e Bethany repetiu diversas vezes até acertar, mas já alegando que no segundo seguinte já não se lembraria da pronúncia correta.
Os eram extremamente simpáticos e isso fazia eles se enturmarem com os amigos da filha sem problemas, então a herdeira sabia que se não os cortasse logo, a conversa se estenderia por muito mais e seu estômago já estava resmungando de fome. Despediram-se, e Bethany, sempre preocupada em deixá-la confortável, indagou se ela gostaria de jantar em um pub bem próximo do apartamento ou se preferia comer algo em casa mesmo.
— Ah, vamos até o pub. Vai ser bom dar uma esticada nas pernas. Mas você me promete que é bem perto mesmo? — perguntou, manhosa, e a outra riu.
— Sim, fica a menos de três quadras daqui. Acho que você vai amar! — piscou.
— Olha, se eu amar vai ser um perigo ter um lugar desses tão próximo de casa — riram. — Vou me trocar e já venho.
O Cosmo Pub possuía um balcão central bem extenso, onde os clientes podiam solicitar as bebidas e também fazer os pedidos de lanches ou petiscos caso não quisessem aguardar até serem atendidos na mesa. À frente, ficavam várias banquetas altas - para aqueles que estavam realmente no fundo do poço ou aqueles que gostavam de se sentir desconfortáveis, de acordo com a opinião das duas recém-chegadas ao local. As luminárias suspensas deixavam o ambiente mais claro do que os bares costumam ser, trazendo uma sensação maior de aconchego. O resto do espaço era preenchido por mesas, inclusive algumas com sofás - sendo essas as preferidas de ambas e obviamente onde resolveram sentar.
— Você conhece todo mundo aqui, deve ser cliente VIP — comentou devido ao fato de Bethany cumprimentar todos os funcionários pelo nome.
— Confesso que passei a ser mais frequente depois que meu namorado e um amigo dele compraram o pub — pelo brilho no olhar e o tom carregado de orgulho, a brasileira percebeu que aquele não havia sido uma conquista fácil, então mesmo sem conhecê-los ou sem conhecer outros lugares, ela decidiu que aquele seria seu local de happy hour favorito a fim de apoiar os novos empreendedores.
— Ah, sério? Que legal! E eles ficam por aqui ou ficam escondidos na administração?
— O Albert, que é o amigo, fica mais no back, pois é o gênio da contabilidade, mas ele tá sempre circulando por aí e ajudando como pode, seja no caixa ou anotando e entregando pedidos. Eu acho que já comentei contigo que o meu namorado Darell é bartender há bastante tempo, né? — balançou a cabeça em sinal de concordância, recordando-se de algumas videochamadas que elas haviam feito meses antes da mudança. — Sempre foi a paixão dele, mas ele fazia como uma forma de ganhar dinheiro extra, até que surgiu essa oportunidade. Não faz muito tempo que eles adquiriram aqui, então ele está enlouquecido estudando um novo menu de drinks, e já quero deixar avisado que se me ver alcoolizada, sabe que a culpa é dele por me fazer provar tudo — ela levou as mãos para o alto em sinal de “não tenho culpa”.
— Olha, se você quiser dividir esse fardo comigo eu estou totalmente disponível — fez joinha com ambos os polegares antes de começar a rir.
— Tenho certeza de que ele não irá se opor — ela afirmou e viu a roomie comemorar baixinho. — Ah, falando nele…
— Boa noite, senhoritas — ele saudou a namorada com um selinho rápido. — Você deve ser a famosa — esticou a mão para cumprimentá-la, gesto que foi automaticamente replicado pela intercambista.
— Famosa? Me sinto lisonjeada — riu. — É um prazer te conhecer, Darell. Soube por aí que você está precisando de cobaias para o novo menu de drinks, vim me voluntariar.
— As notícias correm rápido por aqui — ele fuzilou a namorada com o olhar, mas logo riu. — Voluntariado aceito. Pode deixar que a Bethany te avisa quando fizermos uma nova rodada de testes.
— Uhul! Mas como não dá nem para pensar em beber de estômago vazio, o que você indica para uma novata na cidade que está faminta?
— Em breve essa parte do cardápio também será modificada, mas que tal um club sandwich?
— Hmmm, acho que é uma boa pedida.
— Eu também vou querer um — Bethany declarou. — Seria exagero pedir uma porção de batatas fritas com bacon e cheddar?
— Jamais! — prontamente respondeu.
— Vou repassar o pedido de vocês à cozinha e voltar ao trabalho. Espero que vocês aproveitem — ele disse, sorrindo ao se afastar.
— Eu não queria dormir muito tarde para não perder o ritmo, mas sem condições depois dessa jantinha, ainda mais com o mimo de sobremesa.
— Vamos dormir em pé — ambas riram. — Tudo estava delicioso.
— Nossa, sim. Nem comecei a trabalhar e já sei onde vou querer deixar quase todo meu salário.
— Ou você pode marcar todos os seus dates lá e fazer os boys pagarem a conta. Assim aproveita, e se precisar, qualquer coisa o Darell estará por perto e eu em pulo estou lá também.
— Não acredito que você tá pensando nisso — riu. — Mas acho que vai demorar um tempo até isso começar a acontecer, sabe? Muita mudança na minha vida e eu quero estar totalmente focada no trabalho.
— Você está certíssima, mas a ideia foi lançada — piscou. — E como você está se sentindo até o momento? Tudo bem? Sabe que apesar de nos conhecermos há pouco tempo, estou realmente aqui para tudo o que você precisar.
— Argh! Eu odeio ser assim — falou enquanto secava uma lágrima solitária que havia escorrido de seu olho. As palavras de Bethany foram extremamente genuínas e sentir carinho na fala dela lhe deixou emocionada. Era realmente sortuda por ter sido acolhida por uma boa alma como aquela. — Bom, como você pode perceber, estou super sensível… Mas, no geral, estou bem. É um mix de sentimentos, confesso que nem sei explicar direito. Medo, ansiedade, receio, animação, saudade de casa e ao mesmo tempo vontade de fazer tudo acontecer aqui... Eu acho que a ficha só vai cair quando eu começar a trabalhar, para ser sincera. Sei que nem tudo serão flores, assim como nada na vida é, mas saber que já tenho com quem contar faz toda a diferença — abriu um sorriso sincero, desejando que Bethany sentisse a verdade em suas palavras assim como ela havia sentido nas palavras da outra segundos antes.
— Eu nunca mudei de país, mas já mudei de cidade e sei o quão difícil é começar do zero sem ninguém, por isso fico extremamente feliz de poder contribuir com essa nova fase da sua vida.
— Serei eternamente grata por isso e retribuirei, eu juro. E não apenas com brigadeiros — riu e se aproximou da mulher, abraçando-a. — Mas se você não quiser que eu comece a chorar novamente, é melhor mudarmos de assunto.
— Tudo bem, não quero ser a responsável pela sua desidratação — riram. — Então, se isso não for te fazer cair em lágrimas novamente, me conta mais um pouco da sua vida no Brasil.
abriu um enorme sorriso antes de desatar a falar com empolgação na voz e brilho no olhar.

Capítulo 03

Quando o prédio cinza de 14 andares dividido em 208 quartos ficou em evidência, o coração de passou a bater de maneira descompassada e o suor frio nas mãos se fez presente. Ao ler “Courtyard” em verde e “Marriott” mais abaixo em vermelho, ela não conseguiu conter o sorriso de satisfação consigo mesma. Um rápido filme de sua trajetória passou por sua mente e ela lembrou-se que sua atitude com relação a vida passou a mudar a partir de um simples questionamento feito por uma das mais magníficas professoras que teve na universidade: ”Você é incrível, , então por que tanto se esconde?”. Mesmo que elas tivessem passado apenas um semestre lado a lado, a mais velha havia percebido que a aluna mascarava todo o seu potencial nas aulas, então certamente fazia nas demais áreas da vida. A partir de então, a jovem passou a tentar combater sua insegurança, não deixando que ela falasse mais alto do que seus sonhos. Havia aplicado para o programa achando que não fosse ser selecionada logo de cara, mas ela foi aprovada logo na primeira entrevista que havia feito e agora fazia parte da maior rede hoteleira do mundo. Mesmo com medo, ela sempre seguiria em frente.
Piscou pouquíssimas vezes enquanto Bethany fazia a volta na quadra para encontrar um lugar para estacionar. Como o hotel ficava relativamente perto do apartamento que agora elas dividiam, aquele não era o meio de transporte oficial - sempre dava preferência para o transporte público, já que conseguiam chegar e voltar do hotel através de ônibus, trem ou metromover de maneira rápida. No entanto, Bethany quis presentear a colega com o mimo, a fim de tornar o primeiro dia um pouco mais tranquilo.
Desceram do veículo e seguiu em silêncio atrás da norte-americana, que guiava o caminho até seu novo emprego. Algumas vezes, seus amigos brincavam que ela falava mais que o homem da cobra, então aquela quietude não representava seu estado normal, porém, ela estava tentando controlar a respiração ao mesmo tempo em que absorvia tudo que estava acontecendo consigo.
Não havia dúvidas de que era o sonho mais doido que ela ousou realizar. Sabia que seria simplesmente a experiência de sua vida e ela havia batalhado muito para chegar ali, iria aproveitar cada momento ao máximo. Nem tudo seriam flores, mas depois os perrengues virariam lição e alguns até virariam motivo de boas risadas, ela tinha certeza disso.
— Chegamos. Aqui é a entrada dos funcionários — sorriu para o segurança que Bethany cumprimentou enquanto explicava que ela era uma nova funcionária e por isso ainda não possuía a credencial para passar na catraca de entrada.
— Seja bem-vinda. Enquanto você não tiver crachá, vou precisar de um documento de identidade.
— Claro — puxou o passaporte e entregou para o homem, que passou a anotar o nome completo dela e o número de registro. Depois de assinar o local indicado pelo segurança, elas adentraram a área interna do hotel.
— Virando nesse corredor à direita, nós temos os vestiários e o refeitório, mas você precisa ir pela esquerda para ir até o RH. Eu ia te levar até lá, mas pelo visto a Chiara já estava te esperando — apontou para a mulher andando em direção a elas.
— Que prazer finalmente te conhecer, — a mais velha sorriu, estendendo a mão em um cumprimento que foi rapidamente respondido pela mais jovem.
— Acho que essa fala é minha! É muito cedo para lhe agradecer… mais uma vez? — as três riram.
— Você está aqui por seus próprios méritos.
— Concordo! — Bethany se pronunciou. — Bom, já que você está entregue em boas mãos, eu vou correr antes que me atrase — agradeceu rapidamente e desejou um bom dia de trabalho à colega, vendo-a sumir rapidamente no corredor.
— Venha comigo. Vou lhe apresentar aos outros funcionários do departamento e precisamos resolver algumas burocracias e depois vamos dar início ao seu tour.
Depois de conhecer o departamento de Recursos Humanos, assinar alguns papéis e fazer seu crachá, elas foram para a Governança, onde conheceu a gerente do departamento, uma das supervisoras e até algumas simpáticas camareiras. Fez a prova do uniforme e ficou extremamente feliz ao saber que receberia duas camisas, duas calças e dois blazers, evitando correr o risco da lavanderia não aprontar um a tempo ou uma das peças sumirem - ambas as coisas já haviam lhe acontecido no hotel em que trabalhou no Brasil. Ela não reclamava, pois o fato da roupa social ser lavada e passada dentro do próprio local facilitava muito a vida de todos. Lavar ela obviamente sabia, mas passar era um outro nível de habilidade que ela não dominava e nunca havia feito questão de fazê-lo. ”Quem passa roupa hoje em dia?”; ela rebatia a mãe quando a senhora insistia para que ela aprendesse. Por fim, a mais velha desistiu e deixou que a filha se virasse como bem entendesse, por mais que não aprovasse.
— Agora que você já sabe onde fica a Governança e a lavanderia, vamos até o vestiário para que você possa deixar suas coisas no armário. Trouxe um cadeado? — Chiara questionou e viu a outra assentir em concordância. — No momento nós temos o armário 8 disponível, justamente do lado do armário de Bethany — a mulher sorriu, cúmplice.
guardou sua bolsa e sua primeira muda de uniforme dentro do móvel e passou o cadeado, trancando-o em seguida. Bendita seja Beth por lembrá-la daquele detalhe tão importante! Havia anotado a senha em diversos lugares, não queria correr o risco de ter que pedir para a manutenção arrumá-lo com a ferramenta gigante que eles usavam nesses casos. Nada como a experiência para deixar alguém alerta, não é mesmo? — Além dessa área aqui e dos sanitários, ali do outro lado daquela cortina nós temos chuveiros — assentiu. Não costumava tomar banho no trabalho, mas ficava contente em saber que tinha aquela opção, caso fosse necessário como a vez em que faltou água em casa e ela não viu outra alternativa.
O próximo local apresentado foi o refeitório. Mentalmente, a novata torcia para que a comida dali fosse um pouco melhor do que a servida para os funcionários em seu antigo hotel.
— O Sr. Smith me informou que você vai passar pelos três turnos durante o programa de trainee. Quando fizer o turno da manhã, você tem direito ao café da manhã e ao almoço no hotel. O turno intermediário lhe dá direito ao almoço. O turno da tarde lhe permite jantar, e quando fizer o turno da noite poderá jantar e tomar café da manhã. Basta passar seu crachá na catraca e entrar, mesma coisa para sair. Também disponibilizamos um micro-ondas próximo ao buffet, caso queira trazer algo de casa para esquentar
— Certo — sorriu. O fato de estar trabalhando na mesma rede hoteleira em que trabalhou no Brasil trazia algumas similaridades.
Subiram para o primeiro andar interno por onde passaram pelo departamento de Grupos, Eventos e Controladoria. A sala da gerente geral ficava localizada naquele mesmo andar e se surpreendeu positivamente com a simpatia da mulher, que lhe deu boas-vindas e conversou sobre algumas amenidades antes de precisar sair quase que correndo para uma reunião.
No andar acima, ela foi apresentada ao pessoal de Reservas, Guest Service (Serviço ao Hóspede) e conheceu pessoalmente o Sr. Smith, seu gerente imediato, cuja sala ficava naquele andar também.
— Finalmente você chegou! A peça que faltava para esse departamento — o homem disse, sorrindo e estendendo a mão para cumprimentá-la. Um típico gerente de hospedagem, pensou ela com o coração aquecido pelas boas-vindas.
— Prometo não decepcioná-lo — sorriu ao apertar firme a mão dele. — Vocês se importam se eu acompanhá-las no restante do tour? — ele questionou.
— Claro que não. Vamos lá.
Smith puxou uma porta de ferro preta, dando passagem ao lobby recém renovado do hotel. O saguão era enorme e muito bem iluminado. Aos fundos havia uma boarding pass station que os hóspedes podiam usar para checar informações sobre seus voos e também podiam imprimir as passagens. O centro do ambiente era preenchido por dois enormes sofás que pareciam extremamente confortáveis. Notou algumas plantas e outras decorações, mas não se ateve muito a elas, passaria tanto tempo ali que daria tempo de memorizar cada objeto e até enjoar deles. Mais próximo de entrada estavam os balcões dos recepcionistas, posicionados lado a lado.
— Creio que vocês já se conhecem — Sr. Smith falou, divertido, apontando para Bethany. — Este aqui é o Kenneth.
Após receber e agradecer as boas-vindas do mais novo colega, eles subiram para o andar do centro de eventos e depois ela teve a oportunidade de entrar em alguns quartos. Ela amava tudo que envolvia o front office, ou seja, toda a parte que tinha contato direto com o hóspede como a recepção, reservas e o guest service, mas nos últimos tempos a governança estava começando a criar um espaço maior em seu coração e ela mal podia esperar pela chance de fazer inspeções de liberação junto das supervisoras de andares. Sabia que a escala seria puxada e que às vezes ela reclamaria, mas naquele momento ela nunca havia estado tão ansiosa para começar a trabalhar. Abriu um discreto sorriso com seu pensamento e quando deu por si já estava de volta a sala de seu gerente.
— Esse tour foi apenas para te familiarizar com o ambiente, já que as especificações virão ao longo da semana de treinamento e com o dia a dia, é claro.
— A hotelaria é uma caixinha de surpresas em qualquer lugar do mundo, não é mesmo? — ela perguntou e ele riu em concordância.
— Por quanto tempo mesmo você trabalhou no último hotel no Brasil?
— Dois anos e meio entre recepção e guest service.
— Ótimo! O fato de você já estar familiarizada com o padrão Marriott é de grande valia.
— O bom de trabalhar em uma rede internacional é que existe esse padrão para dar o norte — sorriu, nervosa com o que iria questionar em seguida. — Mas quão à risca vocês seguem tudo? Digo, eu entendo que padrões como chamar o hóspede pelo sobrenome e atender o telefone antes dos três toques é algo inalterável, mas existe alguma flexibilidade em outras questões envolvendo a real experiência do hóspede? Espero que não me leve a mal com esses questionamentos, mas a minha antiga chefe adorava pensar fora da casinha, sabe?
— Pode ficar tranquila que eu sigo a mesma linha — ele sorriu e respirou, aliviada. — Na sua entrevista, você deixou claro que a hospitalidade é uma característica intrínseca sua e era exatamente isso que eu buscava nos candidatos.
— É algo que vem do berço… — os olhos brilharam em um misto de orgulho e saudade dos pais. Sr. Smith sorriu e continuou.
— Embora nosso hotel receba alguns hóspedes de lazer, ele é mais voltado ao público corporativo. — agradeceu mentalmente. Ela tinha mais facilidade de lidar com os exigentes do mundo corporativo do que com os hóspedes extravagantes do lazer. — Então nós temos vários hóspedes habitués que ganham mais regalias do que as oferecidas no programa de fidelidade. E eu estou sempre aberto a discutir ideias diferentes, duas ou mais cabeças sempre pensam melhor que uma.
— Ah sim! O hotel onde eu trabalhava era todo não fumante, por exemplo, mas um único hóspede tinha autorização para fumar, então ele praticamente tinha uma suíte específica para ele, só usávamos para outros hóspedes quando estávamos com 100% de ocupação, pois imagina o cheiro… — fez uma cara de sofrimento ao lembrar das vezes em que precisou entrar na suíte em questão.
— Nossa! — o homem estava espantado. — Não temos nada nesse estilo por aqui, mas você vai ver que alguns hóspedes são bem peculiares, para dizer o mínimo. — riram, cúmplices. O gerente abriu uma das gavetas de sua mesa e puxou de lá uma pasta grossa, entregando-a para a funcionária a sua frente.
— Aqui está todo o material que iremos trabalhar com você ao longo dessa semana, além dos treinamentos online. Padrões atualizados, sistema, um apanhado geral de todos os setores, informações específicas sobre nossa propriedade, enfim… Aqui tem um pouco de tudo para darmos o pontapé inicial. Além disso, de brinde, você leva algumas canetas, uma agenda e um bloquinho de anotações — disse, divertido.
puxou os objetos para si, admirada com todo o cuidado e carinho com o qual prepararam sua chegada.
— Por onde começamos?
🦋


— Olha que máximo! Nossa escala até o final do mês é a mesma! — Bethany exclamou, chamando a atenção da brasileira que estava atirada em um dos sofás da sala.
— Garanto que isso tem dedo seu e eu agradeço. Vou me sentir muito mais confiante para iniciar.
— É claro que teve, afinal, sou sua madrinha no trabalho e sua rommie fora dele. Vamos ralar juntas e aproveitar as folgas juntas também. Tem tantos lugares legais para te levar!
— Uma pena que assim que eu deixar de ser um peso morto eles vão mudar nossos horários e nossas folgas conjuntas. — fez beicinho.
— Não fala assim! Você já conhece o sistema operacional e muito dos padrões da marca, além de ter vivência desse mundo louco que é a hotelaria, vai decolar rapidinho e ninguém duvida disso, só você.
— Ai, Bettsie eu tenho até vergonha de ser tão insegura… — mordeu os lábios. — Mas é que todo mundo diz que o inglês “fluente” que a gente fala no Brasil não tem nada a ver com o inglês daqui. Eu atendia estrangeiros todos os dias, mas é diferente do que atendê-los cem por cento do tempo. E se eu já fico sem muita reação com hóspede dando chilique em português, imagina em inglês?! — olhou para a outra com cara de sofrimento.
, se seu inglês fosse ruim, você nem teria sido aceita em primeiro lugar. A gente consegue conversar sem nenhum problema, seja por áudio ou escrita. Segundo, esse lugar está cheio de brasileiros, então você vai arrasar com eles também. Terceiro, você está surtando por antecipação. Para de sofrer por algo que nem aconteceu ainda. Eu e o resto do pessoal estaremos lá para te apoiar, você sabe disso. Por sorte temos um gerente maravilhoso, o Sr. Smith defende a equipe com unhas e dentes. Além disso, o Kenneth já te adorou! E tudo bem que ela não é exatamente do mesmo setor, mas a Jaycee também.
— Mas…
— Mas nada! — Bethany a cortou. — Você terminou sua semana de treinamento teórico, agora vamos relaxar.
— Você tem razão, muito obrigada — sorriu, envergonhada. — Não sou tão fã de álcool assim, mas que tal bebermos algo? — sugeriu, pensando que um pouquinho de bebida não faria mal para aliviar toda a tensão ocasionada pelo longo treinamento que tivera ao longo da semana.
— Leu meus pensamentos! Tenho vodca e mais algumas coisas em casa, se faltar a gente pode assaltar o Cosmo.
— Ui, que perigosa! — riu e Beth jogou uma almofada nela. — Tem limão? — a outra assentiu com a cabeça e a brasileira se levantou, mas seu caminho até a cozinha foi interrompido por batidas na porta.
— Oi, Darell! Chegou na hora certa — ela pronunciou assim que destravou a porta e deixou o homem entrar no apartamento. As duas estavam tão entretidas que esqueceram que ele estava chegando.
— Oi, . Oi, amor. Opa, o que está rolando? — ele perguntou e foi para o sofá junto da namorada, cumprimentando-a com um selinho.
— Vou fazer uma bebida tradicional brasileira para a gente! — falou, animada. — Me aguardem.
Ela foi para a cozinha e seguiu passo a passo da receita que o pai havia lhe ensinado.
Minutos depois, voltou para a sala com o coquetel pronto.
— Eu lhes apresento a caipirinha, uma das maravilhas do meu país. Normalmente é feito com cachaça, que é um destilado da cana de açúcar, mas eu prefiro a de vodca depois de um pequeno incidente que tive com caipirinha de cachaça — riu e ofereceu o copo ao casal a sua frente.
— Vou provar primeiro porque o especialista aqui vai prender o copo para analisar tudo — Bethany rolou os olhos e os três riram.
— Vai com calma, ok? Apesar de eu ter colocado uma dose generosa de açúcar, ainda é forte — advertiu.
— Nossa… Gostei. Combina bem com esse clima de Miami. — Beth declarou e passou o copo ao namorado.
— Vamos lá, ca…
— Caipirinha — repetiu algumas vezes bem devagar para que ele pudesse aprender. Após conseguir acertar, Darell provou o coquetel com toda calma do mundo, como se estivesse praticando mindfulness, mas com a bebida e não com a comida. Assim que finalizou o primeiro gole, os olhos se esbugalharam e ficou apreensiva achando que ele tinha odiado. No entanto, quando ele começou a falar, ela percebeu que ele teve a reação contrária.
— Isso é muito bom! E a Beth tem razão, combina muito com nosso clima aqui — Darell deu mais um gole. — Você, por favor, me ensinaria a preparar? Vai fazer o maior sucesso lá no Cosmo! Através da divulgação disso no cardápio, eu posso atrair o público brasileiro e os curiosos. — os olhos brilhavam de empolgação e as mulheres acharam aquele momento muito fofo.
— Você tá falando sério? — ao vê-lo balançar a cabeça afirmativamente, sorriu largamente. — É claro que eu ensino! Meu pai vai surtar quando souber disso, ele tem muito orgulho da caipirinha dele.
— Então quando a gente terminar esse aqui — ele ergueu o copo — já vamos começar o treinamento — observou a brasileira concordar ainda sorrindo.
— Só uma pergunta... O que a gente ganha com isso? — Bethany interrogou, deixando os outros dois confusos. — A porque vai te ensinar e eu também mereço algo porque se não fosse por mim, vocês não se conheceriam.
— Ah, amor, você me mata! — Darell gargalhava. — Vou dar umas cortesias para a e para você eu consigo uns cupons de desconto — deu de ombros como se fizesse pouco caso. — Opa, cuidado! — quase derrubou um pouco do líquido quando a namorada lhe cutucou, fingindo estar brava.
— Ei, casal, se forem brigar eu suspendo a caipirinha de todo mundo!
— Não faça isso, por favor! — o homem implorou e elas riram. — Vou preparar uns petiscos para a gente comer ou em pouco tempo estaremos todos bêbados.
sorriu, sentindo o coração cheio de alegria e gratidão por aquele pré-folga tão divertido e saboroso ao lado de duas pessoas que estavam lhe acolhendo tão bem desde que colocara os pés na cidade.

Capítulo 04

— Bom dia, raio de sol. — Bethany a cumprimentou assim que viu a rommie adentrando a cozinha. Era quarta-feira e ambas estavam de folga, o que lhes permitiu algumas horas a mais de sono, embora o relógio biológico de ambas funcionasse de maneira parecida: se acostumavam rápido com a rotina, então acordaram alguns minutos após às oito horas daquela manhã.
— Bom dia, flor do dia. Será que nosso corpo se acostuma rápido mesmo ou estamos ficando velhas? — questionou enquanto servia café e sentava-se de frente com a colega para fazer o desjejum.
— Quero e vou continuar apostando na primeira hipótese por um bom tempo ainda.
— Apoiada! Farei o mesmo.
— E quais são os planos para hoje? Ontem eu estava tão cansada que apaguei sem falarmos sobre isso.
— Fica tranquila, eu dormi logo depois. Ser uma sofreleira não é fácil, eu fico me questionando como esse pessoal tipo vigias e o pessoal da saúde consegue aguentar vinte e quatro horas direto, sabe? É humanamente impossível me imaginar nessa situação.
— Concordamos em mais uma coisa! — fizeram um high five no ar. — Digo, eu já fiz turnos que saíram do controle e passei doze ou treze horas dentro do hotel, mas fazer disso uma rotina? Nossa… Realmente não sei se daria conta.
— E de novo nós tagarelamos tanto que desviamos do assunto — riram. — Será que podemos fazer uma coisa mais relax?
— Tipo um almoço com passeio pelo Wynwood?
— MEU DEUS, SIM! POR FAVOR! — a brasileira se empolgou e em seguida se desculpou pelo volume alto. — Estou doida para conhecer lá, principalmente a parte de Wynwood Walls. Um dos murais foi pintado por artistas brasileiros, sabia? Os Gêmeos — a outra concordou, sorrindo em silêncio. — Quem me vê empolgada assim até pensa que eu entendo algo de arte — debochou de si mesma.
— Estou bem longe de ser uma expert também — Bethany admitiu. — Mas sua empolgação é empolgante, então estou doida para voltar lá. O bairro é enorme, podemos dar uma olhadinha no site para escolher os quais mais queremos ver e se der tempo vamos indo nos outros. Ou você prefere contratar um tour guiado?
— Ah, não! Por mais que eu aprecie muito o trabalho dos guias, para o passeio de hoje prefiro algo mais ao nosso ritmo.
— Ritmo de folga, né?
— Exato, minha cara Bethany — elas riram. — Vamos deixar a agitação para amanhã quando voltarmos ao trabalho — completou, dando mais um gole em seu café.
O desjejum era a refeição favorita de e ela amava fazê-lo com bastante calma, o que acabava sendo possível normalmente apenas em suas folgas ou quando entrava no turno intermediário ou no turno da tarde, já que às vezes o cansaço lhe batia forte demais e ela optava por dormir alguns minutos a mais e depois comia correndo enquanto se arrumava - tanto em casa quanto no refeitório do hotel.
As duas mulheres demoraram quase uma hora inteira naquele café da manhã, apreciando não apenas a comida, mas também o papo leve e divertido que levavam. Depois aproveitaram para colocar em ordem algumas coisas do apartamento e quando deram conta já estavam quase próximas da primeira hora da tarde, então largaram tudo e foram se arrumar para mais um passeio que iriam parcialmente riscar da lista já que era impossível conhecer tudo em apenas um dia.


🦋


— VOCÊ O QUÊ?!?! — Darell não tinha a intenção de gritar, mas sua incredulidade foi tamanha que ele acabou elevando o tom de voz sem querer antes de começar a gargalhar.
— Eu te disse que ele ia morrer de rir — Beth já não sabia se ria mais uma vez da história ou da reação do namorado.
— A culpa não é minha se vocês americanos são frios! — a intercambista tentou se justificar. Mais cedo, quando foi cumprimentar um amigo da americana, ela acabou inclinando o corpo para beijá-lo na bochecha, mas o homem acabou virando para o mesmo lado que ela e as bocas tiveram um pequeno contato lateral. — Às vezes eu me esqueço que não estou no Brasil e vou no automático.
— Amor, você tinha que ver a cara do Finn logo depois do selinho que ele recebeu da !
— Para com isso, Bethany! Eu não dei um selinho nele. Foi no canto da boca e sem querer.
— Mas aconteceu.
— Até tu, Brutus? — questionou, incrédula, ao escutar o comentário de Darell, mas depois acabou rindo. — A partir de hoje, eu nunca mais vou chegar perto de ninguém para me apresentar. Vou dar um oi de longe ou no máximo vou estender a mão — declarou, fazendo o casal rir ainda mais.
— Se você conseguir perder esse nosso costume latino, por favor, me ensine — uma quarta pessoa se juntou à conversa e os outros três se viraram para localizar o dono da voz.
— Tá vendo, gente!?!? É algo que está praticamente no nosso DNA, quase impossível de mudar — a brasileira tentou se defender mais uma vez perante os amigos. — Há quanto tempo você mora aqui? — ela perguntou ao desconhecido.
— Mais ou menos uns cinco anos. — bufou, incrédula com a resposta dele, cruzando os braços em frente ao peito como uma criança birrenta.
— Boa sorte, ! Pelo visto você ainda vai dar muitos beijos sem querer por aí... — ao ouvir o comentário do namorado, Bethany engasgou com a água com gás que consumia, mas logo se recuperou. — Viu, é isso o que acontece quando você ri de pessoas inocentes!
— Desculpa, amiga! Talvez eu nunca consiga superar essa história, mas juro que não é por mal. — lançou um beijo no ar para a brasileira enquanto se distanciava para ir ao toalete.
— Me vê uma caipirinha para ver se eu consigo fazer descer a vergonha.
— É para já — Darell respondeu prontamente e se virou para pegar os ingredientes para o preparo do drink.
— Caipirinha? É sério que tem isso aqui? — o estranho agora estava ao seu lado no balcão do bar, encarando-a em um misto de surpresa e felicidade.
— Se não fosse o sotaque, eu até poderia afirmar que você é brasileiro — confessou, rindo.
— Infelizmente não, mas eu já estive no Brasil duas vezes e gostei muito de tudo que provei, principalmente da caipirinha — ele falou, sorrindo, e ela não pôde deixar de sorrir junto. Sabia que o Brasil, assim como qualquer país, ia muito além do que os turistas conheciam superficialmente, mas era maravilhoso escutar alguém elogiando algo de sua terra natal.
— Darell, faz mais uma caipirinha para o… — chamá-lo de amigo seria brasileiro demais, então ela esperou até o rapaz se apresentar.
. — Certo, então uma caipirinha para o . E essa vai ser de graça também, porque você se divertiu demais com a minha cara! — ela declarou e o amigo apenas concordou, rindo, enquanto pegava mais limões para preparar o segundo drink brasileiro.
— Obrigada então, . Era tão clichê, mas o apelido dela combinou demais na voz dele, que era tão bonita quanto seu rosto.
— Eu ia perguntar como você sabia meu apelido, mas aí lembrei que o Darell falou antes… É, acho que o sol de Miami está afetando meu cérebro.
— Ah, para! Você só deve estar cansada. E sinto em te desapontar mais uma vez, mas provavelmente haverão dias de calor mais intenso. — ele juntou os lábios em um biquinho e a mulher achou adorável, bem como o fato dele ter justificado o momento Dory dela com o cansaço do dia.
— Acho que não quero mais falar contigo, Sr. portador de más notícias.
— Nossa, essa doeu! — ela viu ele tirar o celular do bolso e desbloqueá-lo. Alguns segundos depois, ele virou a tela na direção dela. — Olha aí, não vai chover nos próximos dias e a temperatura até vai dar uma amenizada. Nem só de notícias ruins eu vivo…
gargalhou e agradeceu o rapaz pelo gesto.
— Está bem, vou acreditar em você… por enquanto.
— Obrigado pelo voto de confiança — ele piscou, divertido, e ela podia jurar que o coração errou uma batida. — Há quanto tempo você está morando aqui?
— Quase três meses.
— Ah, então ainda está na fase de adaptação. Tudo se ajeita, fique tranquila.
— Obrigada pelo apoio. Acho que eu não aguentaria mais uma má notícia vindo de você… — dramatizou e ele riu.
— O que está achando da cidade?
— Eu vim por conta do trabalho, então não tinha muita escolha. Era ficar no Brasil ou vir para cá, mas confesso que estou gostando bem mais do que achei que gostaria. Apesar do calor.
— Uma brasileira que não é fã do calor… interessante. — ele arqueou as sobrancelhas como se a julgasse. — Brincadeira! Eu também sou mais do frio, mas é ótimo que você esteja gostando de Miami.
— Parece que viemos parar no lugar errado, né?
— Pelo menos sempre temos desculpa para tomar caipirinhas.
— Boa! — aplaudiu baixinho, arrancando mais risadas do homem ao seu lado no balcão.
— Outra notícia boa: seu drink está chegando — ele apontou para Darell posicionando o copo na frente da mulher.
— Opa, tá melhorando! — foi a vez dela piscar antes de dar o primeiro gole em sua bebida.
— Hmmm, tá muito boa. Espero que você goste.
— Tenho certeza que sim — ele prontamente respondeu, mas não puderam continuar, pois Bethany reapareceu.
— Nossa mesa está liberada e já fiz o pedido de sempre.
— Ah, certo — desceu da banqueta. — Até mais! — ergueu o copo em um brinde sozinha e ouviu despedir-se também.

— Achei que você tinha caído no vaso — debochou.
— Que engraçadinha, senhorita . Para a sua informação, eu fui bem rápida lá dentro, mas vi que estava rolando um climinha entre você e o gatinho e fiquei batendo um papo com os garçons para deixar vocês se acertarem.
— Hoje você tirou o dia para me perturbar, hein!? Não rolou clima nenhum.
— Tem certeza?
— Claro que ele é muito bonito, engraçado e bom de papo, mas não rolou nada demais.
— Não acredito que você deixou passar a vez! Eu não deixaria.
— Bethany!
— Se bem que…. a noite ainda não acabou — a norte-americana provocou mais uma vez.
— Você chegou na hora certa — declarou para o amigo. — A sua namorada está impossível hoje! — rolou os olhos.
— Ela está te zoando por conta do cara do bar? — a intercambista fez um sinal positivo com a cabeça. — Mas eu também senti algo no ar.
— Ah não, cara! Fui fazer amizade logo com dois malucos que cismam com coisas inexistentes.
— Será mesmo? — Bethany provocou mais uma vez.
— Olha lá, Darell… tem cliente esperando no bar, e você — apontou para a amiga —, toma seu drink aí, vai.
— Sim, chefinha — o amigo debochou, mas voltou para o bar. Bethany riu e elas logo emendaram um novo assunto, que não envolvia o rapaz do bar.
Antes de irem embora, no entanto, dirigiu seu olhar à mesa onde ele estava com seu grupo de amigos. Os olhares se cruzaram e levantou seu drink em direção a brasileira, que riu e acenou timidamente antes de deixar o Cosmo.

Capítulo 05

encarou discretamente o relógio em seu pulso. Trinta e sete minutos a separavam do final de seu turno, que naquele dia havia iniciado às 11h e terminaria às 19h20min. O dia foi super movimentado, então ela só conseguiu deixar a recepção para cumprir seu intervalo e algumas pausas rápidas para banheiro e água. Suas pernas doíam pelas longas horas em pé e tudo que ela desejava era um banho e sua cama.
— Estou me desintegrando — ela comentou sussurrando com Kenneth que riu e concordou.
— Não estou tão diferente e ainda tenho que aguentar até às onze da noite! — a expressão do homem se contorceu em sofrimento. — Fazia bastante tempo que não tínhamos tanto movimento assim. Deve ter algum desses eventos corporativos importantes na cidade — deu de ombros. — Bom é o dinheiro que eles trazem.
— Oh, com certeza! — foi a vez de concordar, rindo baixinho. Os upsellings* com certeza a ajudariam muito na questão monetária. Como ela não passaria todos os meses de trainee na recepção, precisava aproveitar cada oportunidade.
Voltaram as feições profissionais quando viram a porta interna do lobby ser aberta e o gerente de hospedagem caminhar apressado em direção a eles. O homem encarou-os, preocupado, e massageou as têmporas antes de começar a falar.
, sei que seu turno está prestes a ser finalizado, mas acabo de receber uma ligação da executiva da American Airlines e temos um layover de um voo que iria justamente para o Brasil. Sei que o dia foi movimentado, mas será que você conseguiria ficar um pouco a mais para ajudar a acomodar esse grupo de última hora? A vontade da mulher era de se jogar no chão para chorar e espernear como uma criança, mas apenas sorriu, cansada, antes de responder. Não era obrigada a fazer horas extras, mas faria de tudo para mostrar o seu valor e sonhar um pouquinho a mais com um I-140, ou seja, um visto de trabalho permanente.
— Claro, Sr. Smith. Mas só uma curiosidade genuína… O normal não seria colocá-los em hotéis próximos ao aeroporto?
— Ah, sim — o homem sorriu. Adorava quando faziam perguntas que ele sabia responder. — Essa cidade está um caos hoje! Parece que vários voos foram cancelados, então os mais próximos de lá já lotaram. Tenho um bom relacionamento com o pessoal das companhias aéreas, então sempre sobra algo para a gente.
— O retorno financeiro acaba compensando, né? — ela comentou, rindo ao ver o chefe assentir positivamente, fazendo o famoso gesto de jogar dinheiro com as mãos.
— A previsão é de que eles comecem a chegar daqui uma hora ou uma hora e meia, então assim que o Connor voltar do intervalo dele, você pode fazer uma pausa para comer algo e se fortalecer para o seu primeiro layover aqui conosco — o tom dele era aconchegante e melhorou assim que ele entregou à brasileira o crachá magnetizado, que lhe daria acesso ilimitado a catraca do refeitório.
— O senhor não quer que eu lhe chame quando for descer? Assim não preciso ficar com o seu crachá, vai que seja necessário utilizá-lo em outra situação… — tentou não tropeçar nas palavras, tamanho era seu espanto com a atitude do superior. O gerente, no entanto, apenas tapeou o ar como quem diz “deixa de bobagem” e se retirou.
Ela estava surpresa com a atitude do homem, porém, feliz de vê-lo demonstrando confiança nela.
— Isso aconteceu mesmo ou estou tão cansada que comecei a delirar? — olhou para Kenneth com os olhos arregalados e o homem riu da atitude dela.
— Você é boa, . A equipe ficou um bom tempo desfalcada e você nem imagina o tipo de “profissionais” - ele fez aspas com os dedos - que apareceram aqui nesse meio tempo. Acho que o fato de você ser sempre pontual e nunca ter faltado, mesmo nessas poucas semanas de trabalho, já trouxeram o alívio que todos precisamos. Porque, sério… a coisa estava feia — a mulher sorriu e agradeceu. Com aquele tipo de apoio, pouco a pouco sua insegurança ia cedendo espaço para a autoconfiança.
— Mas agora vai lá e vê se me traz algo também.
— Depois de tudo que você falou, eu te traria o refeitório inteiro — ela riu enquanto se afastava da recepção.

Poucos minutos depois e com o estômago relativamente abastecido para aguentar as horas extras, abriu a porta que lhe levaria de volta ao lobby. No entanto, o que ela viu - ou pensou ter visto - a fez dar alguns passos para trás, fechando a porta e dando passos rápidos até a sala do Guest Service, não acreditando que realmente iria fazer aquilo.
— Viu um fantasma? — foi questionada por Jaycee assim que adentrou o espaço.
— Acho que sim — sorriu sem graça. — Será que você teria um blush e um batom para retocar minha maquiagem? Vou precisar ficar um pouco a mais hoje e estou um trapo.
— Layover, né? Também vou ter que ficar por conta dos pedidos de room service — rolou os olhos enquanto tirava de sua bolsa os itens solicitados pela colega.
— O pessoal da cozinha deve estar bem feliz.
— Chef Ducan é a personificação da alegria nesse momento — elas riram. O homem era uma ótima pessoa e excelente no que fazia, mas saía um pouco dos trilhos quando as coisas não seguiam conforme seu planejamento.
— Ainda bem que vocês podem trazer as bolsas para cá, salvação rápida — finalizou o retoque e devolveu tanto o batom quanto o blush.
— Mas, então, qual é o número do quarto em que o seu fantasma está hospedado? — arregalou os olhos, fazendo a colega rir — Ah, para! Eu não nasci ontem e só pode ter alguém muito interessante na recepção para você estar se retocando toda.
— FBI está perdendo um talento! Você podia substituir os cães farejadores — Jaycee lhe mostrou o dedo do meio em resposta e ela não conseguiu controlar a gargalhada.
— Lembra do boy do bar que a Bethany fez questão de contar para todo mundo aquele dia no refeitório? — viu a mulher concordar. — Então, eu acho que vi ele na recepção, mas isso não faria sentido nenhum, né? Ele mora em Miami, quer dizer… Eu acho que mora. E mesmo assim, com tanto hotel nessa cidade, como ele ia vir parar logo aqui? Zero sentido, então acho que estou delirando por conta do cansaço.
— Calma lá, metralhadora. No amor tudo é possível — a olhou como se não acreditasse no que havia acabado de escutar. — Você ao menos lembra o nome dele? — Enquanto buscava o nome em sua mente, a tela do sistema já estava aberta no computador de Jaycee e os dedos ágeis estavam prontos para agir.
. .
Em uma busca rápida, Jaycee constatou que havia apenas um hóspede com aquele nome para chegada naquele dia e não havia mais nenhum já hospedado.
— Tem um designado para o 1110… Vai lá e descobre se é o seu — Jaycee piscou, marota, fazendo a brasileira rir.

De volta ao seu posto na recepção e embora não tivesse se ausentado por tanto tempo assim, a mulher se desculpou com Kenneth pela demora, que a tranquilizou informando que estava tudo bem já que Gwen estava lhe auxiliando com os hóspedes que passavam por ali naquele momento e que a outra colega - da qual ela sem querer sempre trocava o nome - recém havia descido para tirar o intervalo.
Quem a visse chacoalhando o pé direito sem parar poderia pensar que ela estava nervosa por receber seu primeiro grupo de layover, mas aquele claramente não era o motivo de sua inquietação. Não iria se julgar por ter ido retocar a maquiagem para o caso daquele ser realmente o rapaz que havia conhecido dias antes no Cosmo, pois ela realmente o achou incrivelmente simpático e bonito, mas ao mesmo tempo ela já estava começando a se irritar com as batidas aceleradas que seu coração dava cada vez que o elevador social indicava que havia chegado ao lobby. Também queria que Beth estivesse trabalhando naquele horário com ela, assim teria mais certeza se era ele ou não.
Por sorte, o gerente apareceu novamente para dissipar a bolha de ansiedade que ela havia criado em torno de si e de descobrir se aquele era o do bar. Focada em adiantar as fichas de registro com as informações que já haviam recebido da companhia aérea e em deixar algumas chaves magnetizadas e testadas para que os clientes não se desgastassem ainda mais, ela mal viu o tempo passar.
— É agora — sussurrou para si mesma e em português ao ver a primeira van estacionar em frente ao hotel. Enquanto os mensageiros corriam para auxiliar os recém-chegados, ela e os colegas se posicionavam em suas respectivas estações de trabalho e vestiam seus melhores sorrisos, tentando minimizar todo o desconforto que um voo cancelado em cima da hora trazia. Os olhares surpresos e os sorrisos que recebia ao falar português fizeram as horas extras voarem.
Após finalizarem os check-ins do grupo, organizava as fichas no arquivo quando escutou alguém chamar.
— Com licença?
Fechou a gaveta e voltou a ficar de frente para o balcão. As pernas balançaram, o coração acelerou e a voz ficou presa por alguns instantes, mas logo a postura profissional voltou a sobressair. Céus, era mesmo ele! Estava curiosa para saber o que ele fazia ali e se ele se lembraria dela.
— Olá, como posso lhe ajudar? — os lábios curvaram-se em um sorriso pequeno pela vergonha e nervosismo, sem deixar a cordialidade de lado.
— Gostaria de agendar chamadas de despertar para os quartos 1109 e 1110, amanhã às 6h, em nome de e .
— Uhum… É claro — foi até o balcão de Gwen pegar a lista e voltou até sua mesa. Passou a preencher com os dados fornecidos por ele, que lhe aguardava com os braços cruzados sobre o balcão. — Prontinho, estão agendadas — voltou a olhá-lo. — Posso lhe auxiliar em algo mais. Sr. ? — ela teve de se contorcer para não rir da careta que ele fez.
— Senhor? — questionou com visível indignação no tom de voz.
— Padrão de atendimento, sr. — ela frisou, sorrindo.
— Tudo bem, senhorita — naquele momento ela não conseguiu disfarçar e abriu a boca, totalmente surpresa. — Você achou que eu não ia lembrar, né? — viu a mulher concordar. — Como esquecer quem me deu caipirinha?
— Ah, então é tudo pela caipirinha… — fingiu estar decepcionada.
— Não, claro que não. É que... hmmm…. — começou a rir baixinho do fato dele estar se enrolando todo.
— Estou brincando, sr. — ele revirou os olhos com o pronome de tratamento. Já havia entendido que era um padrão, e, de fato, era, mas a mulher estava usando para lhe zoar. — Mas então, agora que você sabe onde eu trabalho, será que posso perguntar o que você faz aqui? Está passeando em Miami?
— Tenho um compromisso aqui mesmo no hotel amanhã cedo e como o histórico de atrasos é grande, a gente decidiu já dormir aqui para não correr tanto risco.
— E por isso as chamadas de despertar — ela concluiu e ele riu em concordância. passou a digitar no computador à sua frente, procurando os eventos que ocorreriam ali amanhã e apenas encontrou o M&G e Pocket Show CNCO. Era óbvio que era uma banda e ela lembrava de já ter escutado aquele nome em algum lugar, mas não estava conseguindo fazer a associação. Seu lado fifi estava borbulhando, ela precisava urgentemente saber qual era a relação dele naquilo.
— Eles não deixam os funcionários participarem dos eventos, né? Como expectadores, digo.
— Como você sabe tanto dos procedimentos hoteleiros? — Eu passo muito tempo dentro deles…
— Você trabalha com hotelaria também? — ela estava visivelmente confusa e achou aquilo adorável, porém, não conseguiu evitar a gargalhada alta que ele soltou, fazendo-a sorrir envergonhada para os colegas de trabalho.
— Desculpe — encolheu os ombros. — Eu faço parte de uma banda, então quando estamos em turnê acabamos passando muito tempo nos hotéis.
— Okay, agora tudo fez sentido. E pelo visto é por isso que minha vida de groupie não foi para frente — debochou de si mesma. — Sempre dá para se aprimorar. Posso te dar informações e acessos privilegiados da CNCO — ele piscou e ela sentiu o uniforme ficar ainda mais quente do que já era.
— Tentadora essa proposta, hein? — entrou na onda. — Vou pesquisar depois e te conto.
Viu um rapaz se aproximar e colocar a mão no ombro de , o chamando para subirem de volta ao quarto. O rapaz - que ela não sabia quem era - a cumprimentou simpaticamente antes de se dirigir ao elevador.
— Aguardarei sua resposta! Boa noite, .
— Pode deixar…. Boa noite, sr. — ela disse uma última vez antes de ver o rapaz deixando seu campo de visão, mostrando-lhe a língua.

🦋

— BETHANY! — Entrou em casa gritando e se arrependeu logo depois quando viu a amiga atordoada se ajeitando no sofá. — Aí, me desculpe! Nem imaginei que você pudesse estar dormindo — juntou as mãos em súplica.
— Relaxa, . Eu acabei pegando no sono sem querer enquanto matava tempo até a hora de encontrar o Darell.
— E você pretende encontrá-lo assim?
— Você não acha esse pijama de porquinhos apropriado? — juntou os lábios em um pequeno beiço de decepção, que rapidamente foi desfeito quando as duas caíram na gargalhada.
— O que motivou a gritaria na chegada? — O seu radar de fifi não falhava e ela sabia que a outra tinha algo para compartilhar.
ocupou o assento livre do sofá, cruzou as pernas em cima do móvel e aguardou até que Bethany imitasse sua ação, de modo que elas estavam sentadas frente a frente.
— Quer a história com todos os detalhes ou apenas as partes importantes?
! Você sabe que eu quero todos os detalhes, inclusive os sórdidos — olhou maliciosa para a amiga, que apenas balançou a cabeça em negação.
— Ok, vamos lá. O Sr. Smith apareceu na recepção alguns minutos antes do final do meu turno perguntando se eu poderia fazer hora extra devido a um layover. Amiga, eu queria morrer, te juro! Mas eu não queria desapontá-lo, né? Aí falei que sim e ele simplesmente me deu o crachá dele para descer para o refeitório. Fiquei toda errada, você precisava ver… É provável que amanhã o Kenneth ainda esteja tirando sarro de mim.
— Kennie é meu ídolo! — revirou os olhos com o comentário. — Mas olha para você, chegou cheia de inseguranças e já conquistou o coração do homem! — sorriu, estava sempre reforçando quão importante o apoio da roomie era e o quão agradecida ela era.
— Enfim, desci, comi e quando abri a porta para voltar para o lobby… — ficou em silêncio e Beth bateu em seu braço com uma das almofadas. — Aí, mulher. Se acalma!
— Você sabe que fofoca pela metade quase mata a fofoqueira, né? Quer me matar? Agora para de rir e conta logo!
— Eu vi alguém muito parecido com aquele menino do bar, lembra? — A amiga concordou, visivelmente animada. — Aí meio que entrei em curto-circuito e corri para salinha do Guest pedir socorro pra Jaycee para retocar a maquiagem e ela também viu no sistema que havia um com chegada prevista. Voltei para o meu lugar na recepção parecendo um pouco melhor e enquanto organizava uns arquivos um hóspede me chamou, aí eu me virei… E ERA ELE, AMIGA! E ELE LEMBROU DE MIM! — Foi inevitável não elevar a voz, pois o surto era real e oficial.
Bethany tinha as mãos sobre a boca, mas, pelo olhar, sabia que ela estava sorrindo.
— TÁ, E AÍ? O QUE MAIS? — Agora ela surtava junto com a brasileira.
— Ainda bem que você está sentada, porque a próxima parte....
— Para de enrolar, !
— Ele é famosinho, amiga. Faz parte de uma boyband dessa geração aí e é por isso que eles estão no hotel, vão fazer um pocket show com meet and greet para os fãs.
— MINHA NOSSA, A FANFIC SÓ MELHORA! — Bethany já estava em pé no sofá, eram acontecimentos demais em poucos minutos. — QUAL O NOME?
— Dele ou da banda?
— Os dois! Eu quero pesquisar tudo. — enfatizou a última palavra. — Lembre-se que eu sou igual a Frankie.
— Uma detetive amadora com pouco autocontrole e um computador — citou a fala da personagem do seriado Grace & Frankie que elas estavam assistindo e as duas gargalharam.
— O nome dele é .
— Hmmm. . Já pensou?
— Volta para terra, criatura! — deu um leve peteleco no braço da amiga. — E o nome da boyband é CNCO.
— Esse nome não me é estranho…
— Nem a mim! Mas confesso que não tive tempo hábil de pesquisar.
— Ah, mas isso vai mudar agora! — pegou o controle da TV smart e buscou pelo aplicativo do Youtube. Ao jogarem o nome CNCO na barra de pesquisa, logo a ficha do reconhecimento caiu.
— Não acredito que essa música é deles! Dancei muito nas aulas de zumba e nem fazia ideia — disse se referindo ao hit Reggaeton Lento.
— Meu pai amado, de quando é isso? Ok, 2016. Ainda bem que eles evoluíram! Quer dizer, o evoluiu, temos que ver os outros… Mas garanto que sim.
— Deixa de ser assim, Bethany! Lembra da 1D no começo? — riu e a outra acompanhou.
— Não acredito que vou cair nesse mundo de boyband de novo — a amiga olhou-a, procurando por uma explicação. — Claro, né. Vocês são namorar e eu preciso dar apoio! — sorriu de forma angelical e dessa vez devolveu a almofadada.
— Para de fanficar!
— Não paro não. Agora puxa seu celular aí e vamos stalkear o perfil da banda, dele e dos outros boys enquanto escutamos a playlist deles.
— Ok, sem nenhuma foto de mulher além da mãe por enquanto. Isso é um bom sinal.
— Ou ele é apenas discreto, né?
— Se você não parar com essa negatividade, eu vou te expulsar daqui.
— Você tá agressiva demais hoje. Pobre Darell. Ou não, né… vai saber as preferências de cada um… — deu de ombros e continuou a stalkear o rapaz.
— Nah, não faz nosso estilo — respondeu, rindo.
O clima mudou drasticamente quando soltou um palavrão e jogou o celular no colo da amiga, ficando em pé e mordendo o indicador com toda a força para não gritar. Os olhos estavam esbugalhados em surpresa e aquilo começou a preocupar a norte-americana.
— O que foi, amiga?
— Olha a barra de notificações — assim o fez e dentro de segundos era ela quem estava em pé, gritando.
— ELE TE SEGUIU, ELE TE SEGUIU! AHHHHHH! EU JÁ VOU DAR O FOLLOW TAMBÉM E…. — foi interrompida por , que tomou-lhe o celular.
— Ah, mas você não vai não! Eu vou tomar um banho e assimilar todas essas informações enquanto você, bonitinha, vai se arrumar para encontrar seu bofe.
— Tá incorporando o Sr. Smith? Eu vou te obedecer agora, mas quando eu voltar quero todas as novidades na minha mesa para ontem.
— Mas você nem tem uma mesa…
— Não me testa, garota — Bethany advertiu, meio irritada, e deixou a sala rindo, não sem antes virar para trás para piscar e mostrar a língua.
*Upselling é uma técnica de vendas em que o cliente é convidado a adquirir itens mais caros, atualizações ou outros complementos para gerar mais receita. No caso da hotelaria, pode-se vender uma categoria de apartamento acima da reservada, incluir o café da manhã, etc. *Layover: neste caso refere-se a quando ocorre algum problema, no solo, que impede a aeronave de partir, então os passageiros são acomodados em um hotel pago pela companhia aérea.

Capítulo 06

O choque e a surpresa pelos acontecimentos do dia não foram capazes de superar o cansaço pelo longo turno e o desafio que veio com ele, de forma que assim que finalizou o banho, ela acabou literalmente capotando na cama. Sequer conseguiu avisar os pais que estava em casa e que lhes desejava uma boa noite, como sempre fazia apesar do fuso horário. Precisava de sua folga, mas enquanto a bendita sexta-feira não chegava, ela teria de lutar como conseguia. Pelo menos o gerente havia dito que ela poderia chegar uma hora mais tarde para iniciar seu turno no dia seguinte - somente quem trabalha por escala sabe a diferença que os sessenta minutos adicionais fazem.
Antes de sair de casa, devolveu o follow de no Instagram. Não tinha noção de como o fandom deles era, mas sabia que existiam algumas fãs que cuidavam quando um ídolo dava follow ou unfollow em alguém, e torcia para passar despercebida entre os três milhões de seguidores que ele acumulava. Naquele dia, optou por ir até o trabalho de ônibus, e assim que adentrou o veículo e se acomodou em um dos bancos livres, pegou o celular. Não pôde deixar de sorrir ao ver que havia uma notificação de DM do rapaz.

DM INSTAGRAM
@

Pensei que seria acordado por você, senhorita

Nos seus sonhos hahahaha

Desculpe, Sr. , mas nesse horário eu ainda estava dormindo.



Pensou que a resposta demoraria a chegar, mas, para sua surpresa, ficou online e passou a respondê-la instantaneamente.

DM INSTAGRAM
@

Sr. 🙄🙄🙄

Tudo bem, espero ter outra oportunidade.

Então você não vem trabalhar hoje?

Quem me dera… estou a caminho.

Que horas começa o evento de vocês?

Às 8h30min começam as entrevistas e os fãs irão entrar depois, mas não tenho certeza do horário.

Vou preparar os ouvidos.

Brincadeira, já dei muito show em frente a hotel, entendo elas hahaha

Vou querer saber mais sobre isso

Já pensou naquela oferta de ser a groupie oficial da CNCO?

Primeiro preciso receber uma proposta formal para poder analisá-la… hahahaha

Estou chegando no hotel, . Bom evento para vocês!



Sem aguardar que ele a respondesse, apenas guardou o aparelho na bolsa antes de descer do veículo e caminhar até o trabalho com um sorrisinho idiota no rosto. Ela certamente não queria criar expectativas - Jaycee e Bethany já fariam isso em seu lugar -, mas não podia negar que havia gostado do reencontro e da interação que tiveram, tanto online quanto offline. Também não poderia negar que estava sentindo-se levemente ansiosa e envergonhada para encontrá-lo novamente, principalmente por ambos estarem em um ambiente profissional. Ao olhar o relógio em seu pulso, deixou esses pensamentos de lado e apressou o passo.

🦋


Parecia que a porta que separava o back office do lobby havia se transformado em uma porta de Nárnia para . Quando voltou de seu intervalo, observou e cumprimentou um pequeno grupo que estava espalhado nas poltronas e sofás. Cumprimentou-os cordialmente e antes que pudesse dar mais um passo, viu surgir em sua frente.
— Já solicitei para o pessoal do jurídico preparar a proposta.
— Tudo bem, pode pedir para eles encaminharem para a minha advogada — sorriu, debochada. — Vocês já estão indo embora? — olhou ao redor e viu três pares de olhos masculinos olhando para ela de maneira curiosa e ela podia jurar que a qualquer momento eles iriam começar a fazer barulhos no maior estilo quinta série, tipo “hmmmmm”. Com certeza eram os colegas de banda, mas ela ainda não havia aprendido exatamente quem era quem. Sorriu sem mostrar os dentes e voltou a encarar .
— Sim… e nem tive a chance de ser atendido por você no check-out. Está fugindo de mim?
— Quê? Não, não. Eu só estava no meu horário de almoço… — começou a se justificar até que observou que o rapaz em sua frente ria. — Acho que você acabou de perder a chance de me fazer assinar o contrato.
— Me desculpe, senhorita ! Foi só uma brincadeirinha — ele fez um bico muito fofo e ela teve de reprimir a vontade de apertar suas bochechas.
— Humf. Pode pedir para melhorarem o valor da proposta depois dessa, mas enquanto isso não acontece, eu preciso voltar para lá — apontou sua estação de trabalho. — Espero que tenham gostado da estadia. — declarou, sorrindo, e só ouviu respondendo que eles falariam mais tarde sobre tudo aquilo.
O olhar de Beth sobre si queimava e ela apenas uniu o polegar e o indicador, passando-os sobre os lábios, pedindo para que ela ficasse calada. Logo em seguida, fez o sinal informando que elas falariam sobre aquilo mais tarde e a outra sorriu maliciosa, o que a fez rolar os olhos e fingir que a tela do computador a sua frente era muito mais interessante.

🦋


— Eu me controlei o turno inteiro, mas agora estamos fora do hotel e eu preciso saber de tudo — Bethany disparou assim que elas fizeram os pedidos em uma lanchonete próxima ao local onde trabalhavam.
— E pode contar tudo nos mínimos detalhes — Jaycee completou.
— Vocês sabem que toda essa empolgação não faz bem para a minha saúde mental, né? Não quero criar expectativas de algo que talvez não aconteça. Vai que ele é só simpático e a gente tá aqui viajando?
— Corta essa, ! — Beth ralhou. — Não estou dizendo que vocês irão casar, mas que ele quer dar uns beijinhos nessa tua boca brasileira, ah, isso ele quer! — Jaycee, como sempre, gargalhou e depois completou a linha de raciocínio.
— Concordo! Eu não sei porque ele não tentou algo lá no bar quando vocês se conheceram, esse é um mistério que ainda será desvendado, mas o cara é famoso, te seguiu no instagram, puxou papo… ele quer mais que sua boca, ele quer o seu corpo brasileiro nu, com certeza!
— Jaycee!!! — tentou se manter séria, mas em poucos segundos estava gargalhando com as duas mulheres.
Enquanto aguardavam seus lanches, ela contou tim tim por tim tim da interação que teve com , tanto na rede social quanto pessoalmente no hotel. Passaram mais um tempo ali conversando e comendo, até que Jaycee informou que precisava ir embora, pois ainda teria um date à noite.

No caminho para o ponto de ônibus mais próximo, Bethany recebeu uma ligação de Darell e pelas caras que a amiga fazia, ficou até meio preocupada.
— Está tudo bem? — questionou quando a chamada foi finalizada.
— Ah, sim, mas será que podemos dar uma desviada no caminho e dar uma paradinha no Cosmo? O Darell me pediu ajuda com uma coisa. Se você não quiser ir, tudo bem… — jogou verde para colher maduro sem a amiga saber, mas se ela falasse não, estaria encrencada, não saberia como dar a volta por cima na situação.
— Vou junto, assim aproveito para dar um olá para meu amigo americano que não vejo há dias. Vai que rola uma caipirinha, né?
— Essa é a minha garota! — deram um high five. — Se eu soubesse que teríamos que fazer esse desvio de caminho teria vindo de carro.
— Mas qual a diferença? O ponto onde a gente desce é exatamente no meio entre nosso apartamento e o bar.
— Pelo menos a gente chegaria mais rápido…
— É algo urgente? A gente pode pedir um Uber…
— Não, só estou ansiosa — bufou e riu.
— Relaxa, amiga, não é como se tivéssemos muitos compromissos para hoje mesmo.
— Você sabe que me mandar relaxar é a mesma coisa que dizer para alguém não chorar, né? O efeito é sempre o contrário.
— Ótimo ponto, mas mesmo assim a gente sempre fala — deu de ombros. — Olha, aqui no aplicativo está mostrando que nosso próximo ônibus passa em sete minutos, então senta a bundinha aí e aguarda.
— Céus, você tá muito mandona.
— Treinando para ser uma chefinha um dia — mandou um beijinho no ar. — Mentira! Não acho que tenho estruturas para isso.
— Pare de duvidar do seu potencial.
— Isso vai muito além de insegurança, mas enfim… obrigada — sorriu. — Agora faltam 6 minutos — foi a vez de Bethany sorrir.

🦋


— Darell, você não pode sumir assim! Às vezes eu preciso de ajuda para aturar a sua namorada — falou antes de abraçar o amigo.
— Ótima maneira de dizer que sente minha falta, brasileira — riram. — Senti sua falta também, mas os últimos dias têm sido de um movimento absurdo, o que é ótimo.
— A Bethany comentou comigo, fico muito feliz por você e seu sócio. E os funcionários, é claro.
— Ela só está querendo uma caipirinha grátis — Beth bufou, fingindo estar com ciúmes, o que fez com que a amiga lhe apertasse as bochechas.
— Você sabe que é meu amorzinho — fez um coração com as mãos.
— Ah, falando em caipirinha, seu amigo está aí.
— Amigo? — começou a vasculhar o bar até encontrar bebendo em meio a um grupinho.
— Puta que pariu, Bethany! Isso foi uma emboscada, não foi?
Baby I’m sorry, I’m not sorry… — a norte-americana cantou, aumentando mais ainda a incredulidade da outra, que se sentia lesada.
— Não acredito que você montou tudo isso! — agora foi a vez de ralhar com o amigo. — Por isso a ligação, o desvio de caminho… Seus traíras.
— Ei, ei, ei. Traíra por quê? Estamos te ajudando. A Beth me falou que vocês estão de conversinha e tudo mais. Só estamos dando uma ajudinha….
— Nunca vi casal tão fofoqueiro, meu Deus! — passou a mão pelos fios, tentando ajeitá-los um pouco.
— Quando você estiver prestes a casar com ele, vai nos agradecer.
— Mas não foi você mesmo que disse antes que a gente não ia casar?
— Eu disse algo assim: “não é como se vocês fossem casar…” - fez uma pausa dramática - AGORA.
— O futuro é imprevisível… — Darell apoiou a namorada e mostrou a língua para os dois.
— Vocês são impossíveis, sério — balançou a cabeça em negação. — Mas já que estou aqui… — discretamente puxou o batom da necessaire e usou a amiga como “escudo” para passar despercebida. — E ainda bem que eu passei um perfuminho ao sair do hotel… e não coloquei nenhuma blusa rasgada — riu do próprio comentário já que, para desgosto da mãe, ela era campeã em fazer aquilo.
— Tá pronta? — foi questionada pelo amigo.
— Claro que não! Não era para ser assim, mas…
! — Darell gritou para chamar a atenção do homem, mas acabou atraindo os olhares de praticamente todas as pessoas que estavam ali.
Ao ouvir seu nome, rapidamente virou em direção a voz que lhe chamava e abriu um largo sorriso ao avistar junto de Darell e da amiga/namorada do homem que ele não se lembrava de ter sido formalmente apresentado. Após conseguir finalizar o assunto, ele foi até o balcão do bar, onde os três se encontravam.
— Boa noite, — depositou um beijo na bochecha dela, que o respondeu, sorrindo.
— Olá — dirigiu-se à Bethany. — Acho que não fomos formalmente apresentados. Eu sou o , prazer — estendeu a mão.
— Eu sei quem você é — a mulher respondeu com um sorrisinho malicioso brincando em seus lábios, apertando a mão do rapaz a sua frente. — Prazer, . Eu sou a Bethany, mas prefiro que me chamem de Beth.
— Ela também trabalha lá no hotel e é namorada do Darell — , alternando entre fuzilar a amiga com o olhar e sorrir envergonhada, tentou deixar a situação menos constrangedora para o seu lado.
— Que maneiro vocês trabalharem juntas!
— Você diz isso porque não trabalha e nem mora com ela — a intercambista provocou.
— Darell, se você abrir o bico… — Beth alertou o namorado e todos caíram na risada.
— Antes que sobre pra mim, deixa eu ir ali fazer uns drinks.
— E eu vou… andar por aí. — e se olharam e não puderam deixar de rir, já que a mulher nem disfarçou o fato de querer deixá-lo a sós.
— Você sabe que é o mesmo preço para ficar aqui em pé ou sentada? — ele brincou sobre o fato dela ainda estar em pé desde que chegou ao local.
— Nem sei como isso aconteceu porque não posso ver um lugar disponível que já quero sentar… — quando as palavras que haviam saído de sua boca chegaram até seus ouvidos, ela não pôde deixar de ficar um pouco embaraçada pelo duplo sentido e não deixou passar despercebido o sorrisinho de lado que escapou dos lábios de . — Ei, não me julgue! Eu passo muito tempo em pé naquele hotel.
— São quantas horas mesmo?
— Cada turno tem oito horas e vinte minutos, mais as horas extras…
— Nossa, é bem puxado.
— Fazer shows também deve ser cansativo.
— Bastante, mas os shows não costumam durar nem duas horas, nada comparado ao seu trabalho.
— É, mas aí além de ficarem em pé tem a questão dos ensaios, de cantar, dançar, as viagens e tudo mais, né?
— Parece que alguém está interessada em aceitar minha proposta.
— E por falar nisso… você está me seguindo ou apenas gostou do Cosmo? — questionou em tom brincalhão, mas nem ela saberia explicar de onde havia surgido tanta coragem para ser direta dessa forma. olhou para ela por alguns segundos e mordeu o lábio inferior, ponderando a resposta que daria a seguir.
— Hmmm, devo admitir que é um pouco dos dois. Apesar de estar movimentado, aqui não é cheio, sabe? Isso me agrada, achei que seria um bom lugar para fazermos uma pequena celebração. Além da possibilidade de poder te ver… — parecia que a coragem dela havia inspirado o homem, que resolveu ser direto também, mas sem perder a doçura do sorriso que parecia nunca abandonar seus lábios.
sentiu as bochechas corarem um pouco, mas também não abandonou seu sorriso típico e nem deixou de encarar o olhar da figura que estava sentada ao seu lado.
Insegura como era, ela provavelmente ainda iria tirar a prova real com as amigas para garantir que aquilo não era coisa da sua cabeça, mas aquela realmente parecia ser a prova de que ele estava afim dela. A nova informação fez com que uma onda de ansiedade boa se espalhasse por seu corpo, algo que não acontecia há tempos.
— Fato sobre mim: sou curiosa. Então, será que posso saber a razão por trás da comemoração?
— Fato sobre mim: também sou curioso — piscou cúmplice para ela. — Esse foi nosso primeiro evento após a saída do Joel do grupo e apesar de ainda ser um pouco estranho, ocorreu tudo melhor do que imaginávamos.
— Gente, é verdade! Eu lembro de ter visto cinco nas fotos, mas não me atentei que faltava um lá no hotel.. E, sinto muito?
— Obrigado, mas agora já está tudo bem. Claro que no início foi um choque porque realmente não esperávamos isso e admito que todos ficamos meio bravos com ele, mas depois entendemos que ninguém merece ter que ficar num lugar que já parece que não lhe pertence.
— Acho que eu ficaria possessa no início também, mas entendo que cada um tem que seguir o caminho que acha certo… foi assim que eu vim parar aqui — admitiu. — Mas, poxa, eu mal entro no fandom e já temos uma baixa? — o bico formado em seus lábios praticamente obrigou a apertar-lhe as bochechas, apesar dos protestos dela.
— Não se preocupe, nós ainda vamos longe. Estamos no meio da produção de nosso novo álbum e hoje apresentamos lá no pocket show o nosso novo single — bateu palminhas animadas. — Ah, vem comigo que eu vou te apresentar para o pessoal — já foi se levantando, esperando que a mulher fizesse o mesmo, mas isso não aconteceu. Ela continuava sentada na mesma posição de antes.
— Tem certeza?
— Eles não mordem, eu prometo — a piadinha fez ela ceder e logo estava sendo escoltada pelo rapaz até a mesa onde estava o grupinho.
O simples toque dos dedos dele em sua lombar por cima do tecido fez a pele formigar e ela jurava que se tomasse uma caipirinha naquele momento, o corpo iria entrar em combustão. Céus, ela realmente parecia as personagens das fanfics que lia antigamente! Agradeceu pelo homem estar atrás de si, assim não viu a risadinha silenciosa que o pensamento lhe causou.
— Pessoal... — chamou a atenção das sete pessoas reunidas. — Essa é minha amiga, .
Deixando a vergonha de lado, a jovem deu um oi geral bem animado, enquanto sorria individualmente a cada nome que lhe era anunciado.
— Ah, então você é a famosa brasileira da caipirinha que tanto fala — um dos rapazes se aproximou e ela riu ao constatar que ele também tinha um amigo equivalente a Bethany.
— Famosa ainda não, mas vai que um dia, né? — entrou na brincadeira.
— Você não cansa de ser inconveniente, ? — agora foi a vez do cantor fuzilar o amigo com o olhar.
— Sabe que não? — respondeu, debochado, fazendo a mulher gargalhar.
— Com amigos igual ele e a Bethany, quem precisa de inimigos? — rolou os olhos para o divertimento dos dois que acompanhavam a cena de pertinho.
— Foi um prazer finalmente te conhecer de verdade, . Aquele dia no hotel a gente só te viu de relance, já que o monopolizou seu atendimento — riu. — Daqui a pouco falo com vocês novamente, pois preciso de outra dose.
— Ah, acho que vou te acompanhar, também quero pedir alguma coisa.
— Quer algo também, ? Eu aproveito e pego para nós três.
Antes que o rapaz pudesse responder, interviu.
— Imagina, pode deixar que eu vou lá…
— Não tente teimar com esse aí — aconselhou. — Eu quero mais uma cerveja.
— E a senhorita, o que gostaria? — ele fingiu estar com um bloco de pedido em mãos e ela não pôde deixar de rir.
— Ok, vou querer um mojito.
— Anotado, volto em breve com vossos pedidos.
— Ele é sempre assim ou só quando bebe um pouquinho? — assim que o homem saiu, fez o questionamento.
— Ele pode ser até pior do que isso sóbrio — confessou. — E me desculpe pelas piadinhas…
— Então acho que eu deveria me desculpar pela Beth também, né?
— Perto do , a Bethany parece até um anjo. É esse o nome dele, né? — viu o homem concordar e ela comemorou baixinho. — Já decorei dois, só faltam os outros dois — colocou as mãos sobre os lábios ao terminar de falar, como se aquela fosse uma confissão.
— Sabendo quem eu sou, pra mim tá ótimo, o resto não importa — levou uma cutucada de .
— Já está enchendo os ouvidos da moça e apanhando por isso, ? — uma das mulheres na mesa perguntou, fazendo todos rirem. Um pouco mais tarde, descobriu que aquela era Clara Pablo, a manager da banda. E também do Maluma, o que a faz surtar internamente, mas conseguiu manter a pose diante do grupo.
— Para de monopolizar a brasileira que a gente tá cheio de coisas pra perguntar — outro integrante da banda falou e ela acreditava que aquele era .
sorriu abertamente ao escutar aquelas palavras. Aquilo significava que ela estava sendo inserida de maneira natural e muito animada na conversa, então prontamente tratou de se manifestar.
— Podem mandar! — declarou, entusiasmada.

Depois de ter respondido várias perguntas gerais sobre o Brasil e de terem conversado sobre diversos assuntos, anunciou, sob protestos, a sua retirada.
— Infelizmente, eu preciso cumprir minha escala amanhã e já passei muito do horário em que já deveria estar descansando, mas eu me diverti demais essa noite e espero reencontrar vocês — confessou e escutou muitas respostas misturadas, mas pôde identificar palavras positivas.
— Eu te acompanho — mesmo tendo dito isso quase ao pé do ouvido dela, quando eles deram as costas para o grupo, ouviram muitos gritos animados e até alguns “protejam-se”. Apostava que aquilo vinha de . Ele e Bethany se dariam bem demais e ela só podia torcer para que Darell a defendesse um pouco das zoações, mas no fundo não acreditava muito naquilo.
— Oi, norte-americano. Por onde anda a Beth? — questionou assim que se aproximaram do balcão onde ele preparava mais um drink. O homem engoliu em seco antes de responder.
— Vish, brasileira, ela foi embora já faz um tempo.
— Eu não acredito nisso! — o sangue da mulher ferveu. Além de armar, ela ainda a deixava sozinha para ir embora?
— Você sabe que ela é maluquinha… — ergueu as sobrancelhas e olhou para , secretamente indicando o motivo de ter feito o que fez. bufou, ainda não sentia-se totalmente segura para ficar andando por aí sozinha tão tarde da noite, embora o bar fosse realmente próximo de sua casa. — Se me der mais cinco minutos, eu te acompanho até em casa.
— Não seja por isso, Darell. Pode deixar que eu levo a para casa — interviu.
— Não, . Você tá aqui celebrando com os seus amigos, pode continuar. E você - virou para Darell - está trabalhando. É próximo, eu me viro e mando mensagem aos dois assim que chegar.
— Deixa de ser teimosa — revirou os olhos, mas riu para que ela não ficasse com raiva dele também. — O pessoal lá está tão entretido que nem vão sentir minha falta e eu vou ficar muito mais tranquilo.
— Está bem — rendeu-se, bufando. — Tchau, Darell. Tudo estava ótimo como sempre — viu o amigo agradecer e então rumou para a saída com o cantor ao seu encalço.

— Olha, realmente não precisava. Viu como é pertinho? — foi a primeira a falar algo assim que eles pararam em frente ao prédio em que ela residia. Durante o curto trajeto, eles falaram sobre amenidades, parecia que assunto era algo que nunca faltaria a eles.
— Minha nossa, quanta teimosia em um só ser.
— Pior que eu não posso nem tentar me defender dessa acusação…
— Então esse é mais um fato em comum que temos — piscou novamente para ela naquela noite. — Já que naquele dia em que nos conhecemos eu estava meio aéreo com tudo que estava acontecendo com a banda e já que eu não ia fazer isso no seu lugar de trabalho, eu queria perguntar se… você aceitaria sair comigo qualquer dia desses — a mordida que ele deu no lábio inferior fez quase suspirar de desejo, mas ela conseguiu se recuperar ao subir o olhar para os olhos dele, que a encaravam em ansiedade.
— Olha, eu tenho que ver se consigo te encaixar nessa minha agenda de hoteleira, sabe como é, né? — ambos riram. Ele adorava aquele jeito dela de perder o amigo, mas não perder a piada, pois era igualzinho. — Eu adoraria, .
Ela podia jurar que os olhos dele brilharam naquele momento e o sorriso que recebeu foi um dos mais bonitos e verdadeiros.
— Quando é sua próxima folga?
— Eu já tive minha folga essa semana, mas, espera aí… — ela rapidamente puxou o celular para procurar uma foto de sua escala. — Parece que você está com sorte, meu domingo mensal de folga já é nesse próximo.
Ele fez uma comemoração a la Chandler Bing e a mulher gargalhou.
— A gente vai se falando para combinar o horário, mas até domingo, — ele se aproximou e depositou um beijo na bochecha dela.
— Até, — ela se despediu, sorrindo, desejando que o domingo chegasse o mais depressa possível.

Capítulo 07

As mãos frias e suadas - as fiéis companheiras de sua ansiedade - estavam presentes naquele momento enquanto ela abria a portão do prédio para encontrar . Ele estava escorado no carro, vestindo uma calça jeans preta e uma camiseta branca. A cabeça era coberta por um boné com a aba virada para trás, os olhos eram protegidos por um óculos escuro. O vans old skool preto completava o look e ela riu ao se lembrar de que quase escolheu usar o seu, mas mudou por um par de tênis brancos que combinaram mais com o macacão jeans longo que ela usava. Ele estava um baita de um gostoso lindo e a temperatura de Miami pareceu subir ainda mais quando ele sorriu na direção dela.
— Estou adequada? — Apontou para o próprio corpo já que ele havia combinado apenas o horário, não divulgando o local para onde iriam.
O cantor olhou-a de cima a baixo e deixou um sorriso de aprovação brincar em seus lábios e aquilo fez com que as bochechas dela esquentassem um pouco.
— Está adequada e linda. — Ele respondeu se aproximando dela, depositando um beijo em sua bochecha direita.
… obrigada. Mas é sério, se eu passar vergonha ou me sentir desconfortável esse será nosso primeiro e último encontro. — Falou séria e pensou em se explicar pela frase já que não sabia se ele gostaria de ter um segundo encontro, mas toda vez que tentava consertar uma situação, apenas a deixava pior, então optou por manter-se calada.
— Confia em mim, brasileira. — abriu a porta carona do carro e fez sinal para que ela entrasse, esperando que ela se acomodasse no banco para fechar a porta e ir até o banco do motorista. Colocaram os cintos e o carro partiu pelas ruas da cidade. A atmosfera que cercava o rapaz ao seu lado era incrível e já se sentia um pouco menos nervosa, embora a apreensão do primeiro encontro ainda se fizesse presente.
— Nossa, o dia está lindo.
— Está mesmo. Eu olhei a previsão do tempo antes de combinarmos, então pensei que seria um bom horário porque já está mais fresco e ainda nos dá a chance de aproveitar a tardezinha antes do pôr do sol.
— Muito bem pensado, Sr. .
— Ah não, ! Não começa com isso ou eu mudo o trajeto e vou para um lugar não apropriado para o seu look. — Ameaçou.
— Não está mais aqui quem falou. — Ela ergueu as duas mãos em sinal de rendição e ele riu.
O trajeto que durou menos de trinta minutos foi preenchido por conversas do dia-a-dia sobre o trainee dela e coisas sobre a banda dele.
Quando local do date foi revelado, voltou a ficar um pouco nervosa ao imaginar como aquilo estava programado para ser um desastre iminente, mas não falou nada naquele instante, apenas acompanhou até a recepção. Ele havia feito uma reserva e o recepcionista simpático forneceu as instruções necessárias que eles precisavam para encontrar o campo 110. Chegando lá, ela resolveu quebrar o silêncio.
— Bom, não é a roupa que está me deixando desconfortável e sim o fato de eu simplesmente nunca ter jogado mini-golfe na vida.
— Não acredito nisso!
— Hey! Isso não é nada comum no Brasil, sabe? Quer dizer, para os ricos pode até ser, mas para minha humilde pessoa não é. — De todos os lugares que ela e Beth cogitaram, aquele nunca esteve na lista.
— Eu pensei que boliche seria clichê demais e quis inovar. — Ele admitiu.
— Poxa, quis fugir do clima de Reggaeton Lento? gargalhou ao escutar a pergunta. — Tá, isso é mais comum por lá, mas é outra coisa que eu nunca fiz. Ele arregalou os olhos ao escutar a nova declaração.
— Tem certeza que você é humana?
Algumas respostas maliciosas brotaram na cabeça dela e ali morreram, pelo menos por enquanto.
— Não posso negar nem afirmar nada, você vai ter que descobrir.
— Tudo bem, eu aceito o desafio e já temos o lugar para o nosso próximo encontro. — Piscou. — Para ser sincero e para fazer você se sentir melhor, eu joguei isso umas três vezes no máximo. — Ainda assim está em vantagem.
— Mas por jogar eu quero dizer errar a tacada e dar risada.
— Ah, isso eu também consigo fazer. Vou ser a campeã! — Ela comentou bem humorada. — Vai lá, você começa. — Incentivou, afastando-se para deixar a bolsa sobre o sofá disponível para eles atrás da pista. O Topgolf de Miami Gardens era diferente dos outros lugares que ela havia assistido em filmes e seriados norte-americanos. Haviam vários campos no local, mas os jogadores não pisavam em nenhum deles. Ao longo de cada campo havia várias mini pistas e uma base onde ficava o suporte para a tacada. Também havia uma tela com informações sobre o campo, o nível de dificuldade do jogo escolhido e afins, e por ali era de onde também eram jorradas automaticamente as bolinhas para as tacadas. Atrás, além de uma mesa com banquetas altas e dos sofás, havia um monitor que dava informações após cada jogada. se posicionou atrás da linha vermelha traçada para os espectadores, conforme o indicado.
Por ser domingo o local estava bem cheio, mas até o momento o popstar havia passado despercebido. De um lado do painel deles haviam quatro adolescentes e do outro lado um casal, mas ninguém ali parecia saber exatamente o que estavam fazendo, então relaxou e decidiu que iria aproveitar cada segundo ao lado de .
— Ainda bem que não vamos passar vergonha sozinhos. — Ele riu ao errar a primeira tacada, acertando apenas o ar e vendo que um dos rapazes ao lado fez a mesma coisa repetidas vezes.
— Que o universo me perdoe por estar rindo, já que eu sei que serei pior.
— Tá tudo bem, . Pode rir, estamos aqui para nos divertir. Após mais algumas “jogadas”, trocou de lugar com ela.
— Se em alguma das tentativas eu conseguir acertar a bolinha tenho certeza de que ela vai para o lado contrário de onde deveria ir. — Riu da sua profecia, pois foi exatamente o que aconteceu.

—-


— Aí, cansei de tanta humilhação. — guardou o taco em seu devido lugar e praticamente se jogou no sofá ao lado de .
— Mas está divertido, não está?
— Fazia tempo que eu não ria tanto, mas isso também me lembrou que eu preciso me exercitar mais, tenho certeza de que amanhã estarei com os braços todos doloridos.
— Own, coitadinha. — Ele apertou as bochechas dela, que instantaneamente fechou os olhos e mostrou-lhe a língua. — Eu posso fazer uma massagem, vira aí.
Ela não se mexeu, pois pensou que ele estivesse brincando. Só quando o cantor passou a fazer um sinal com o indicador para que ela se virasse foi que ela entendeu que ele iria mesmo fazer aquilo ali.
— Não precisa não, eu estou brincando.
— Vai, teimosa.
Ela riu ironicamente, já que um estava demonstrando ser mais teimoso que o outro. No entanto, o pensamento de tê-lo tocando sua pele falou mais alto e ela ficou de costas para ele, agradecendo por já estar com o cabelo amarrado, o que facilitaria o trabalho dele.
Os dedos de se posicionaram nos ombros dela enquanto movimentos circulares eram feitos e os músculos da mulher relaxavam um pouquinho. Ela abaixou a cabeça e fechou os olhos, permitindo-se aproveitar cada sensação que preenchia seu corpo e que era proporcionada pelo pequeno contato feito por ele. Se não estivessem em um local público talvez ela até emitiria sons não muito polidos, porém se conteve. Depois de alguns minutos naquela posição, tocou as mãos dele por cima de seus ombros e ele parou os movimentos, mas ela o sentiu se mexer atrás de si.
— Ajudou? — Questionou sussurrando e quando a respiração quente dele bateu contra a nuca da mulher, que se arrepiou por inteiro.
— Uhum. Mas estou cogitando jogar mais um pouquinho, sabe… A gargalhada gostosa dele preencheu o ambiente e ela não pode evitar de sorrir junto. — Jogue o quanto quiser, eu não me importo de ser seu massagista particular. — Depositou um beijo rápido na voltinha entre o pescoço e o ombro dela e um novo arrepio surgiu no lugar. estava adorando descobrir as sensações que causava nela, ansiando por desvendá-la por inteiro, bem como ansiava para descobrir como seu próprio corpo reagiria ao ser desvendado. Ele já havia imaginado aquilo em segredo algumas vezes, mas sabia que nada iria se comparar ao momento em que transformaria toda sua imaginação em realidade. Durante vários primeiros encontros ficava na dúvida se o cara correspondia ao seu desejo, mas ali com tudo estava claro como um cristal. Ela queria muito beijá-lo e sabia que seria correspondida, porém ele ainda era uma figura pública e ela teve de recompor-se. Voltou a ficar sentada de lado com ele e sorriu quando os olhares se cruzaram.
— Que tal um drink antes da próxima rodada?
— Siiim! Não sei o que exatamente vou pedir, mas com certeza quero um que vem naqueles copos imitando uma bolsa de golfe com luzinhas no fundo. — riu e viu a mulher levantar-se para pegar um menu sobre a mesa, voltando logo em seguida. — Ótimo, eles só possuem duas opções nesse estilo de copo. Pedimos um de cada e dividimos, o que acha?
— Perfeito. Vou lá embaixo buscar e já volto.
Devido ao alto movimento, ele acabou demorando um pouco mais do que o esperado.
Quando retornou, no entanto, não voltou apenas com as bebidas em mãos, mas também havia substituído o boné por uma boina de golfe preta e trazia uma pequena embalagem de papelão pendurada no pulso. posicionou o copo do pineapple punch em frente a jovem e deixou o turf monster a sua frente, embora eles fossem dividir posteriormente.
— Eu não sou muito de fazer isso, mas esse aqui merece. — Ela disse com o celular em mãos, abrindo o aplicativo do Instagram para fazer um boomerang. Assim que finalizou, ela postou, mas sem marcá-lo. Viu que ele fazia o mesmo e esperou que ele concluísse antes de se pronunciar novamente. — Cadê o resto do uniforme? A calça social bege, os sapatos específicos e o suéter listrado?
— Vou providenciar para a próxima, mas por enquanto vamos nos contentar com as boinas. — Dito isso, ele entregou a pequena embalagem para , de onde ela tirou uma boina igual a dele. Ela começou a rir enquanto se negava a colocar aquilo na cabeça.
— Vamos, ! Cadê seu espírito esportivo?
— Ficou no Brasil junto com meu time de futebol.
Ele deu um tapa no ar como se disesse “deixa disso”.
— Por favorzinho? Para a gente entrar ainda mais no clima do jogo. — Ela rolou os olhos já que o jogo deles consistia em errar praticamente todas as tacadas, mas fez o que ele estava pedindo, mesmo sob o protesto de que estava muito calor e aquilo faria o cérebro deles derreterem.
— Agora sim! — Comemorou ao conseguir convencê-la. — Combinou com o seu look. — Debochou e ela mostrou-lhe o dedo do meio, fazendo-o rir mais ainda.
Conversavam enquanto bebiam os drinks e decidiram que iriam jogar mais uma rodada em homenagem às boinas recém adquiridas.
— Pronta para ver a magia acontecer? — Ela riu e se posicionou atrás da linha vermelha. Cruzou os braços em frente ao peito e arqueou as sobrancelhas quando o viu errar a primeira tacada.
— Vish, acho que a boina veio com defeito.
— Espere e verá, minha cara. — respondeu sério. No entanto, toda sua seriedade foi levada embora quando ele tentou e errou novamente.
— Vai ver é a peça embaixo da boina que está com defeito mesmo. — O homem não se aguentou ao escutar o deboche da mulher e caiu na gargalhada junto dela.
— Deixa eu tentar. Eles trocaram de posição e conseguiu acertar o taco na bolinha, mas obviamente a direção foi bem contrária ao buraco no campo.
— Isso foi sorte de principiante!
— Deixa de ser um mau perdedor, ! — Riu. — Agora meu próximo objetivo vai ser fazer a bolinha chegar perto do buraco pelo menos, já que entrar é impossível a menos que eu entre lá e coloque manualmente. — É mais fácil a gente fazer isso na sinuca. — Ele comentou sorrindo sapeca e ela não pode deixar de balançar a cabeça em afirmação.
Passaram mais um tempo jogando e bebericando os enormes drinks até que a fome e o cansaço falaram mais alto e eles concordaram que era hora de encerrar o jogo e jantarem.
— Ei, antes de subirmos, será que podemos tirar uma selfie?
— Quê? Não deveria ser ao contrário? Você é o famoso aqui e eu estou a caminho de me tornar a groupie oficial da banda. — Ela respondeu divertida, mas estava curiosa com o pedido inusitado dele.
— Eu sinto que devemos registrar esse momento. Suados, com as bochechas rosadas, meio descabelados, porém alegres. — Ele concluiu e ela concordou, aproximando-se dele. posicionou uma mão sobre a outra por cima do ombro dele e apoiou o rosto ali, sorrindo abertamente. Pela câmera, ela viu um igualmente sorridente e depois que registraram o momento ela pediu para que ele compartilhasse a imagem com ela. Obviamente não iria postá-la, mas queria guardar aquela lembrança de seu primeiro encontro com ele e esperava que muitos mais estivessem por vir.

— Nossa, olha essa vista! — estava deslumbrada com a vista do bar no terraço do local. O sol estava se pondo, o céu havia adquirido um tom alaranjado e aquele era um dos mais lindos cliques mentais que ela havia registrado em sua memória. Lembrou-se dos pores do sol que assistiu ao lado dos pais e dos amigos na orla do Guaíba em sua cidade natal e por um breve momento o coração apertou de saudade. Tratou de afastar aqueles pensamentos; lidaria com eles depois, por enquanto queria aproveitar a deliciosa noite que estava tendo ao lado de .
— Confesso que você deixa tudo isso ainda mais bonito.
Pega de surpresa pelo elogio, ela apenas o encarou sorrindo e agradeceu baixinho. Ainda era difícil aceitar que ela tivesse despertado interesse em um homem como . Por mais que às vezes anulasse as qualidades que tinha, ela sabia que as mesmas existiam, porém, quando se tratava da aparência física, as coisas desmoronavam. Estava trabalhando naquilo e talvez a experiência com viesse para somar.
— Qual o tamanho da fome da bela dama à minha frente? — Ele questionou divertido notando que ela ficou um pouco distante após as últimas palavras dele.
— Preciso revelar outro segredo. Está preparado? — Brincou e viu ele assentir positivamente com a cabeça. — Eu estou sempre com fome.
— Agora estou voltando a acreditar que você é humana. Então os petiscos estão descartados, vamos para algo que sustente mesmo. — Ele passou a analisar o cardápio a sua frente e ela fez o mesmo.
— Vou querer o smoke house burguer. — Ambos falaram juntos e riram da coincidência.
— Curiosos, teimosos e com ótimo gosto para escolher hambúrguer… interessante. Quais serão as próximas similaridades? — Colocou a mão sobre o queixo e olhou para cima, fingindo realmente estar pensando naquilo.
— Depois a gente pode fazer o jogo de perguntas e respostas de coisas específicas, vamos ver se descobrimos mais algumas coisas. Só espero que não existam muitas decepções aí no meio…
— É um risco que se corre, né . — Ela deu de ombros.
— Eu vou pagar pra ver. — Ele piscou. — Mas falando sério, essa ideia idiota de que os opostos se atraem pode até ser verdade no início, mas nenhum relacionamento se sustenta se os dois não tiverem gostos e objetivos em comum.
— Também já teve a experiência? — estava surpresa. Pelo que Bethany havia lhe dito, não havia muita coisa profunda sobre a vida pessoal dele. Ela stalkeou o Instagram de cabo a rabo, mas se recusou a ir além disso, queria conhecer o verdadeiro e não o do CNCO que estava na mídia.
— Sim. Foi péssimo, mas serviu de aprendizado.
— Digo o mesmo. — Ela fez um joinha com o polegar e viu um garçom aproximar-se deles.
— Boa noite. Posso ajudá-los?
— Nós vamos querer dois smoke house burguer’s completos e eu vou querer uma coca-cola. E você, ? — Ele questionou enquanto o garçom lançava a primeira parte do pedido no tablet.
— Também quero uma coca-cola. — Ela riu baixinho. — Junkie food sem uma coquinha geladinha não dá!
— Estou de acordo. — fez um high five com ela no ar.
— Concordo com vocês. — O garçom comentou simpático. — Assim que estiver pronto trago o pedido.
Ambos agradeceram e voltaram a ficar a sós.
— Apesar de estar sempre com fome, eu não sabia que estava com taaaanta fome até olhar o cardápio. — A brasileira foi quem tomou a iniciativa de quebrar o gelo.
— Eu estou aqui torcendo para a minha barriga não começar a roncar alto.
E pela milésima vez naquele curto espaço de tempo, a fez rir com seu comentário espontâneo. Não se lembrava da última vez em que havia tido um primeiro encontro tão bom e agradeceu as deusas fanfiqueiras por aquilo, por mais que ela não fosse fã da banda antes de conhecê-lo. Bom, ainda não era uma fã, mas não podia negar que a playlist “This is CNCO” estava tocando bastante em seus fones de ouvido nas últimas semanas.
Felizmente, os lanches foram servidos com pouco tempo de espera e eles aproveitaram cada minuto daquela refeição juntos. Poderia não fazer bem para o coração, mas fazia bem demais para a alma, aquilo era inegável.
— Acho que vou precisar tomar um chá antes de dormir. — Ela declarou após finalizar seu lanche. já havia terminado e estava relaxado na cadeira, aguardando-a.
— Não conte para a minha mãe, mas meu corpo já está tão acostumado aos lanches que não preciso mais apelar para essa técnica. — Admitiu rindo.
— No próximo a gente fica na salada e na água. — Riu poucos segundos depois de seu comentário. — Eu jamais sairia de casa pra comer isso. — Justificou.
— Mais uma similaridade. — Ele piscou. — Que horas você começa a trabalhar amanhã?
— Obrigada por me lembrar disso. — Imitou uma expressão de sofrimento. — Começo às 7h. Ele consultou o horário no celular antes de prosseguir.
— Hmm, ainda é relativamente cedo. Topa mais um passeio?
— Desde que não envolva exercícios, tô dentro.
— Pode ficar tranquila. — Ele garantiu e chamou o garçom para que trouxesse a conta. Após acertar tudo, eles voltaram para o carro e partiram rumo à segunda aventura daquele dia.

Diferentemente do primeiro lugar, daquela vez tinha noção de onde estavam indo. Depois de bons minutos pela estrada, quando os prédios imponentes começaram a surgir, ela sabia que eles estavam se aproximando da orla de Miami Beach. A playlist de reggaeton que ela havia escolhido animava o caminho e às vezes eles cantavam uma parte mais alta e se olhavam rindo. Por fora ela estava mantendo a pose, mas por dentro de sua mente os fogos de artifício explodiram sem parar. O seu desejo secreto de viver um “date tipicamente hollywoodiano” podia ser riscado de sua lista, e ela estava ali há pouco mais de três meses, não podia imaginar o que iria acontecer até o final dos seus doze meses vivendo o seu sonho americano. — Do que você está rindo? — Ele questionou em tom curioso ao parar no sinal vermelho.
— Meus pensamentos são muito valorizados, sabe? Quem sabe depois eu compartilhe… — Ela respondeu rindo e ele balançou a cabeça negativamente, logo voltando a prestar atenção ao trânsito.
— Não se faz isso com um curioso. — Alegou.
— Mas o curioso também precisa lembrar que a curiosidade matou o gato.
— Ah não! Não acredito que você usou essa comigo. — riu. — Vamos ver se até o final da noite eu arranco isso de você. — sorriu e deu de ombros, se seus pensamentos se realizassem, ela ficaria feliz em compartilhar.
— Prontinho. Isso vai ajudar a fazer o hambúrguer descer. — Comentou divertido quando finalmente encontrou uma vaga para estacionar o carro. Desembarcaram e caminharam lado a lado até a faixa de areia, quando ela parou. já havia dado alguns passos para frente e estranhou não tê-la próxima de si e quando se virou para procurá-la encontrou a mulher tirando os tênis e as meias para caminhar sob o solo fofo. Sorriu com o ato, adorando a leveza que ela emanava. Ele não era nenhum ex One Direction no quesito de ser reconhecido por praticamente todo mundo, mas tinha alguma fama e aquilo obviamente acabava atraindo todos os tipos de pessoas. O fato dele ter entrado na vida dela como um total desconhecido e dela não ter mudado em nada o jeito de agir depois de descobrir que ele era relativamente famoso só fazia crescer sua empolgação com relação a ela, àquele encontro e aos futuros encontros que ele torcia para que acontecessem. Abaixou o corpo para imitar o gesto dela e quando subiu o tronco novamente ela já estava posicionada ao seu lado novamente.
— Bem melhor assim. — Ele declarou quando passou a caminhar com menor dificuldade sobre aquele solo.
— Cola na minha que é sucesso! — Virou-se para ele dando um beijinho no ombro.
— Tenho certeza de que sim. — riu diante da resposta do homem. Ah, se ele soubesse o poço sem fundo que eram suas inseguranças, mas ela não iria dar corda para aquele tipo de pensamento, não naquele momento. A noite quente de Miami estava agradável demais. Haviam várias pessoas nos bares e restaurantes da orla, mas na areia mesmo haviam poucas e ambos mentalmente agradeceram por aquilo enquanto caminhavam e sentiam a leve brisa bater em seus corpos. — Então, brasileira, como seus pais reagiram à notícia do seu intercâmbio?
— Apesar de serem superprotetores em algumas questões, meus pais sempre me criaram para o mundo. Eles sabiam que esse momento iria chegar mais cedo ou mais tarde, pois sempre foi um sonho desde que eu comecei o cursinho de inglês, ainda criança. Quando eu descobri sobre esse programa de intercâmbio voltado para a hotelaria, eles me deram todo o apoio do mundo durante todo o processo. É claro que nós três choramos muito conforme o embarque foi se aproximando e a saudade aperta de vez em quando, mas eles sempre colocaram minha felicidade acima de tudo, então… — A voz falhou um pouco no final, ela sempre se emocionava ao falar dos pais.
— Duas pessoas incríveis se juntaram e fizeram outra melhor ainda. — Ele apontou para ela, que riu. — O apoio da família faz toda a diferença em qualquer que seja o processo, né? — Ele comentou sorrindo e ela concordou. — E você consegue falar com eles regularmente? — Logo que cheguei eu mal dava um passo sem mandar mensagem para eles, mas agora está meio complicado conversar direito. Trocamos mensagens rápidas todos os dias, mas chamadas de vídeos normalmente uma vez por semana e na minha folga, quando estou raciocinando direito e posso me dedicar totalmente a eles.
— Eu te entendo! Quando estamos em turnê ou em viagens de divulgação minha mãe sempre reclama que não ligo mais para ela, mas além do cansaço mental às vezes tem o fuso horário e eu juro que tem dias que eu nem sei mais quem sou.
— Profissões bem diferentes, mas com efeitos colaterais parecidos. — Yep. Juro que não quero que isso se pareça com um interrogatório, mas são as perguntas padrões que fizeram pra mim e eu vou fazer para você. — Ele comentou rindo. — Como está sua adaptação à cidade?
— Devo confessar que está bem melhor do que eu pensei. É claro que muito disso se deve ao fato de eu ter um ponto de apoio tão forte como a Bethany. Desde que começamos a conversar quando eu ainda estava no Brasil, ela sempre me tratou como uma amiga e quando cheguei aqui... nossa! Realmente parece que somos amigas há anos, sabe? — Sorriu abertamente. Ela realmente era muito grata por tudo que a mulher vinha fazendo por ela e não perderia nenhuma oportunidade de exaltá-la. — E de quebra eu ainda ganhei o Darell, né? O combo perfeito. — Riu e viu fazer o mesmo. — Ah, o pessoal do trabalho é incrível. Meus colegas do Front me receberam de braços abertos, tiveram paciência de me treinar, espero que seja assim nos outros setores por onde eu passar também.
— Fico feliz em saber disso, . Mudar para outro país, mesmo que temporariamente, é algo gigante. Sei bem disso e também sou grato pelas pessoas que me ajudaram quando cheguei aqui e agora estou na posição de ajudar, então se precisar de algo é só me chamar. — Ele parou de andar e em seguida ela fez o mesmo, para poder encarar os olhos brilhantes dele à sua frente. — E eu não digo isso da boca para fora, ok? — Ele ergueu o mindinho em direção a ela que rapidamente entrelaçou o seu mindinho ao dele em uma pinky promise.
Enquanto separavam os dedos, jogou seus tênis de qualquer jeito na areia e levou a mão recém livre até a cintura da mulher, que apesar de surpresa com o toque não quebrou o contato visual. Exercendo uma leve pressão sobre o local, ele fez com que desse um passo à frente, fazendo os corpos se encostarem. A mão desocupada dela espalmou o tórax dele e ela livrou a outra mão dos tênis que segurava, deixando-os caírem de qualquer jeito sobre a areia. subiu o polegar até o rosto dela e passou a acariciar sua bochecha. O gesto era tão gostoso e delicado que ela teve de brigar com a enorme vontade de fechar os olhos já que não queria perder a visão de ter o homem sorrindo para ela, enquanto o olhar dele percorria toda a extensão de sua face. O toque dele sobre seu corpo era cuidadoso e carinhoso, porém firme ao mesmo tempo. Uma combinação perfeita para ela. Por um segundo ela se perguntou se ele era daqueles que transa violentamente e dorme fofinho. Nem haviam se beijado ainda e ela já estava pensando muito além. Sorriu sem mostrar os dentes e a partir daquele momento os olhos do cantor fixaram-se naquele exato ponto. Ele desceu o polegar e passou a acariciar os lábios dela e a ansiedade de tocá-los com a própria boca cresceu ainda mais. Se tinham aquela textura macia sobre seus dedos, imaginou como seria quando as bocas estivessem uma sobre a outra e também quando a boca dela tomasse outros rumos. Ele mordeu o lábio inferior em um gesto que não passou despercebido pela mulher, e ela reagiu jogando o braço livre em cima do ombro dele e entreabriu a boca, tamanha era sua ansiedade para acabarem logo com aquela distância incômoda. Dos lábios, a mão foi levada até a nuca dela e os olhos de ambos foram se fechando aos poucos, bem como o espaço entre eles foi diminuindo até ser totalmente cessado. Embora o mar estivesse agitado e as ondas fossem a trilha sonora perfeita, o primeiro beijo deles era calmo. deixou conduzir o ritmo e as línguas se exploravam sem pressa enquanto ela acariciava cada pedaço descoberto do corpo dele. Ansiando por tocar os fios do rapaz, ela levou uma das mãos até a aba do boné, tirando e colocando o acessório sobre sua própria cabeça de forma meio desajeitada pelo rabo de cavalo alto que usava. sorriu entre o beijo, dando um pouco mais de intensidade quando sentiu os dedos dela enroscarem em seus cabelos.
Ela obviamente não possuía o mesmo fôlego que o cantor, então quando sentiu que precisava respirar profundamente, quebrou o beijo com vários selinhos.
— A gente pode fazer uma pinky promise para fazer isso sempre?
!!! — Ralhou. — Não acho que isso seja apropriado… — Ela riu da forma infantil como ele caiu na areia, fingindo estar emburrado pela negativa dela.
— Vem, senta aqui. Assim que se acomodou ao lado dele, o homem a abraçou pelos ombros e ela aproveitou para descansar a cabeça sob o ombro dele.
Enquanto estava sendo , a hoteleira, ela conseguia gerenciar melhor suas ações e palavras, porém na vida pessoal ela costumava ser transparente até demais em alguns pontos, por isso decidiu compartilhar com ele aquela informação.
— Quer saber do que eu estava rindo antes? — Isso está em segundo lugar da minha lista, atrás apenas de te beijar novamente. — Ele declarou e ela riu, inclinando um pouco mais o corpo até conseguir depositar um beijo rápido sobre os lábios dele.
— Eu sempre quis ter um encontro desses que a gente vê nos filmes adolescentes de Hollywood, sabe? — a olhava com curiosidade enquanto aguardava pelo resto da explicação. — Esses que o cara busca a mocinha em casa, leva pra jantar, depois caminham na praia e enfim… é idiota, mas é uma coisa a menos na minha listinha boba. — Ela afundou o nariz no braço dele, não desperdiçando a oportunidade de inalar o cheiro gostoso que ele emanava.
— Se faz sentido para você, então não é bobo. — Acariciou as costas dela. — E eu estou me sentindo até um príncipe por ter te proporcionado isso.
— Agora vai ficar se achando. — Ela rolou os olhos.
— É claro! Não é todo dia que tenho a oportunidade de realizar sonhos de uma princesa. — gargalhou por alguns segundos ao escutar aquela frase, mas logo foi silenciada pelos lábios dele sobre os seus.

Embalados pelos deliciosos sons do mar, eles ficaram mais algum tempo sentados na areia enquanto conversavam e trocavam carinhos. Não muito mais tarde, entretanto, teve de quebrar o clima de conto de fadas ao anunciar que já estava tarde e era melhor eles irem embora. Sacudiram a areia da roupa, os pares de tênis anteriormente jogados de qualquer maneira foram recolhidos e eles caminharam até o carro de mãos dadas e seguiram nesse entrelaço até chegarem em frente ao prédio da mulher.
— Pelo menos a história da Cinderela vai até meia-noite… — Ele comentou assim que abriu a porta do carro para ela descer.
— A Cinderela da hotelaria não aguenta, me desculpe. — Retrucou divertida. — Mas se você quiser repetir num dia pré-folga… — Deixou a frase morrer no ar e sorriu maroto, aproximando-se dela e enlaçando sua cintura com os braços.
— Me envia uma foto da sua escala, assim fica mais fácil fazer a programação, tá?
— Você é uma figura. — Os braços dela envolveram o pescoço dele e eles deram início a um beijo não tão curto de despedida.


Continua...



Nota da autora: Não acredito que levei 7 meses para aparecer, mas a vida do outro lado do oceano não é moleza… Enfim, esse é um dos meus capítulos favoritos e eu espero que vocês gostem tanto quanto eu! ❤️
E bem-vinda, minha beta Mary! Agora estou te dando mais um motivo para me xingar hahaha

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