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Última atualização em: 28/04/2022
Music Video: Daechwita - Agust D

AVISO: A história que será contada não retrata nenhum dado histórico e é totalmente sem compromisso com a realidade. De fatos reais foi tirada apenas a base como inspiração. E, aqui, a princesa não se parece minimamente com as histórias reais e os contos de fadas com varinhas de condão, beijo de amor verdadeiro e finalizados com “felizes para sempre”.


956 d.C – O Nascimento

A chuva era muito forte do lado de fora daquela tenda no meio de um campo afastado do castelo. Alguns pingos passavam por buracos do tecido de lona que já estava pouco comprometido pelo seu uso frequente, mas o que estava deixando a cama molhada era o suor dela. Até onde se sabia, parir nunca fora algo de fácil compreensão masculina, porém o rei Hwan III estava ali do seu lado, segurando sua mão e rezando para que nada de ruim acontecesse. Do lado de fora, a guarda era feita por muitos homens, mas isso não impediu que a rainha Catarina entrasse e estivesse os acompanhando, com seus olhos cortantes na direção do que estava acontecendo ali dentro.
— Como demoras! Não temos a vida toda para esperar que essa criança dê sua graça — vociferou para a humilde senhora que estava ajudando naquele parto.
— Não precisa ser delicada assim, vossa majestade.
A mulher na cama era como um nada para a rainha Catarina, e ela sabia. Contudo, para Mina, ignorar sua voz, mesmo que afetada pela dor que sentia e o cansaço de seu corpo, não era tão difícil. A rainha sabia de todo o caso que a camponesa teve por anos com o rei e muitas vezes pontuou a sua indiferença com aquele fato. O que provava os contos de que o casamento real fora realizado apenas pelo interesse político.
— Catarina, seja menos-
— Menos dura, Hwan? — Catarina riu fraco, erguendo o rosto para soar mais fria. — Eu não devo nenhuma simpatia a esta dama de companhia. Tamanha deve ser a vergonha de seu povo se descobrir sobre esse caso entre um rei e uma...
— Chega! — Hwan não a deixou finalizar, levantando-se e avançando em sua direção. — Saia daqui, nos espere lá fora, na carruagem. — Viu que ela permaneceu o encarando desafiadora. — Não estou lhe pedindo, Catarina.
A rainha apenas juntou sua saia e saiu, frustrada e completamente aborrecida. Tudo o que fizera por anos havia sido na intenção de proteger a saúde de seu casamento com o rei de Euwun para que o reino não sofresse mais com as fraquezas, deixando o caminho livre para o desbravamento dos estrangeiros que viviam para reivindicar as terras de seu povo. Mas enquanto ela estava preocupada com isso, seu rei ia de vilarejo em vilarejo causar estragos para que ela tivesse de reparar todos eles.
Era cansativo e se não fosse pelo amor ao seu povo, Catarina teria desistido. Principalmente ao saber que a camponesa estrangeira havia engravidado do seu marido. Mina daria à luz a um lindo bebê mestiço, enquanto Catarina era infértil e não poderia dar ao seu rei um herdeiro.
Que todos chamassem aquilo do que quisessem, ela tinha total noção de como estava sendo egoísta.
Mas ela também não deixava de sentir aquele ódio por Hwan e quanto a isso teria muito a fazer. Começando pelo plano de levar o bebê e Mina para o castelo, com a justificativa de que o filho do rei deveria ser criado junto ao pai e que para ela não haveria problemas, pois saberiam lidar muito bem com aquela história perante o povo de Euwun. Tolo seria quem acreditasse naquela narrativa lisa e rasa de uma rainha tão bem conhecida por seu poder de persuasão.
Enquanto ela esteve fazendo seu caminho para o lado de fora, embaixo daquela chuva e amparada por um súdito para subir na carruagem, dentro da tenda Hwan permanecia no mesmo estado nervoso, retornando a segurar a mão de Mina. E ele o fazia com carinho também, visto que aquela mulher deitada à sua frente fora por muito uma companhia que tanto lhe agradava — caso contrário, não teria colocado em risco sua coroa ao se deitar com uma estrangeira do reino inimigo.
Entre força e mais força, o choro estridente foi ouvido, misturando-se ao som dos trovões e da chuva que insistia em cair. Os olhos de Hwan logo se encheram de lágrimas, o deixando completamente cego para aquela situação, diante de todos ele não poderia se expor, não tinha como confiar em ninguém ali. Mas ele não se segurou e beijou os lábios de sua amada como se aquilo pudesse dar a ela toda força necessária para continuar. Conseguia enxergar em Mina aquela exaustão.
— Tem mais um. — Ouviu a voz da parteira, enquanto se levantava para ir até o bebê.
— Mas… O quê?
A voz de Mina soou confusa até demais. Era o tipo de surpresa que ela não saberia lidar com. O que piorou quando notou a entrada repentina de Catarina na tenda, novamente. A rainha lhe encarava totalmente enfurecida, o rei estava perdido e a parteira mais uma vez lhe forçava a colocar um bebê para fora. Mas ela não tinha mais forças. Sentia que seu corpo estava pedindo socorro.
E o segundo choro veio, tão estridente quanto o primeiro. Porém ela percebeu uma movimentação estranha enquanto estava deitada, sem forças para erguer qualquer músculo de seu corpo. Seus lábios se moviam lentamente, sem emitir nenhum som pelo extremo cansaço e esgotamento. Tinha noção de que parir poderia ser árduo, mas não fora ensinada na prática como seria sentir aquilo.
Conforme ouvia o que era dito, seu coração acelerava mais, batia tão rápido quanto o de Catarina, porém por razões diferentes.
— Mas como assim ela deu à luz a dois? — A voz da rainha era dura. — O acordo era sobre um só, Hwan!
— Fique quieta, Mina! Preciso pensar.
— Não há o que pensar! Olhe para esses dois meninos, eles possuem essa cicatriz. Estão marcados. — Novamente ela soava tão preocupada que não parecia medir seu tom, não que filtrar o que e como dizia fosse um forte dela.
O acordo feito com sua rainha incluía um bebê, levar dois para o castelo seria muito complicado para Hwan e Catarina sustentarem qualquer história, mesmo que fosse a real. E sabia que Catarina não gostava de fugir dos planos que sempre eram feitos previamente, causar mais discórdia com ela não era um objetivo e muito menos algo válido.
Catarina deu passos curtos até uma de suas damas de muita confiança que foi levada para ajudar a parteira e olhou o bebê em seu colo, sendo balançado e, agora, totalmente limpo. Ele não chorava mais e ela podia o olhar por aquele tempo sem a repulsa, sem qualquer indício de ódio ou desgosto. Por aquele momento ela se lembrou de que tratava de apenas uma criança indefesa colocada no mundo por consequência de dois adultos irresponsáveis. Agora ela precisava agir para que aquilo não causasse a ruína de seu rei, porque se quanto a um bebê comentariam, outro levaria ele à perda de sua coroa.
A lei era bem explícita: o rei só poderia ter um filho homem. O que Catarina odiava, por incrível que pudesse parecer, aquilo fora constituído em cima de uma ideologia idiota tratada na sorte. Só porque Hwan I e o II tiveram a felicidade do primogênito ser homem e não tiveram mais nenhum outro, inibindo as tentativas de outro filhos, não significava que o III seria da mesma forma. E ali estaria a prova.
Portanto, levar dois filhos de Hwan III para o reino era uma cartada que somente um rei louco daria.
— Escutem com atenção — se dirigiu a todos, tomando sua postura mais séria. Tirou o bebê do colo de Soleil e o ajeitou no seu. — Iremos levar um e ao invés de Mina ir para o castelo conosco, ela será levada para qualquer terra afastada de Euwun.
— Catarina…
— Não há o que argumentar, Hwan! — tentou não elevar tanto a voz para não incomodar o bebê que agora estava quieto em seu colo. — Você perde a sua coroa e nós não seremos aceitos em reino nenhum por ter traído uma lei idiota como a qual seu avô criou.
Ele não tinha o que argumentar, neste ponto ela estava certa. Mas não queria dividir seus dois filhos. Encarou Mina com todo seu pesar, ela estava distante e transparecia a exaustão. Ambos se encararam sabendo que aquele seria o momento de dizerem adeus e que não teriam a menor chance segura de um dia se verem novamente.
Se aproximou da cama e a ajudou a se sentar lentamente.
— Eu vou cuidar muito bem dele.
— Me deixe escolher pelo menos os nomes… — ela o pediu e eles encararam Catarina.
— Desde que não carregue o seu, por mim não há problema — a rainha os respondeu.
— Ele irá se chamar . — Olhou para o que estava no colo da parteira aos seus pés. — E aquele, .
— No futuro, rei Hwan IV. — Hwan sorriu.
— Assim, quando eu ouvir o nome de um rei governando seu povo com tanta generosidade, saberei que é o nosso filho.
Catarina sentiu aquele incômodo novamente, mas desta vez se limitou a apenas sair de cena. Não permitiu que Mina se despedisse do filho, para ela quanto menos contato, seria mais fácil — e humanamente ela pensou neste lado para a mãe que estava vendo seus dois filhos serem divididos e um deles indo para longe dela. Para Catarina, se aquele contato não existisse, o sofrimento para a outra seria menor.
Entretanto, a rainha não tinha noção do que era carregar uma vida em seu ventre e nada sobre o que diziam da ligação que isso trazia para uma mãe e seu filho. Como ela poderia saber se era infértil assim como a realidade da chuva que caía do lado de fora?
Dentro da carruagem, observou aquele serzinho em seu colo, tão pequeno que sobrava espaço em seus braços. Ela pôde visualizá-lo correndo pelo castelo, sendo amparado por seu colo quando sentisse medo e poderia até dormir entre ela e Hwan se tivesse algum pesadelo, e com certeza ele seria o par perfeito para a princesa , nascida poucos dias antes no reino de Minwoo — o que renderia aos dois reinos uma aliança única. Olhando para , Catarina criou muitos planos para o futuro do menino, a começar por chamá-lo de filho.
E ela bateria de frente com qualquer um que ousasse dizer o contrário.
— Garanta que ela estará bem, Catarina, e eu nunca mais a procuro.
Ouviu a voz de Hwan e o encarou pela primeira vez ali na carruagem, não notando que ele havia entrado. Logo o caminho começou a ser feito e ela suspirou, o encarando friamente novamente naquela noite. Estava exausta de sempre cuidar dos problemas causados por ele; estava cansada de ir dormir todos os dias e não ter o marido consigo, queria que tudo fosse melhor como nunca fora. Ela precisaria que ele estivesse com ela naquele caminho, afinal era um problema que ele causou que ela estava consertando.
— Eu te jurei lealdade em nosso casamento, Hwan. Pelo meu povo, pelo seu, pelo nosso. Mina terá uma boa vida e será aceita em algum vilarejo bem afastado, com uma carta assinada por meu nome. — Encarou o bebê novamente. — Mas agora, eu estou jurando lealdade ao meu filho. Ele será nosso se você quiser que seja nosso, do caso contrário, eu e você viveremos pelo resto de nossas vidas em guerra. Porque não pouparei esforços para proteger a ele e a sua coroa deve se tornar sua prioridade.
— Não se preocupe. Estaremos juntos nessa, minha rainha.
Catarina não se convenceu 100%, mas acreditou naquele momento que seu rei não estava mentindo. Hwan não teria motivos para duvidar da lealdade dela, mesmo que tivesse lhe dado inúmeras chances para o destruir.
A partir daquela noite, uma nova aliança entre o rei e a rainha de Euwun havia sido feita.


Parte 1 — A Profecia

O vão da porta aberta fora deixado por alguém não muito atento, o que seria considerado uma falha absurda por parte de tal, se tratava da privacidade da família real, principalmente do rei de Eunwun. Mas a correria dentro do quarto principal de todo o castelo estava tão intensa que ninguém chegou a notar aquele desleixo feito pela última pessoa a entrar no cômodo e aproveitou para cessar sua curiosidade e observar por aquela pequena fresta da porta a movimentação interna. A esposa do filho do rei eunwano gostaria muito de saber como estavam as coisas ali dentro, era de seu interesse comum também ter conhecimento do estado de saúde de Hwan III.
Podia ver que estava parado nos pés da cama, com as mãos colocadas na grade e sua feição séria, a deixando estremecida. Pouco tinha em sua memória sobre as vezes em que o único filho de Catarina Di Frindor e Hwan III demonstrava seu lado sério, era sempre muito alegre e sorridente, de fácil acesso, completamente o oposto de seus pais. O que para ela, na posição de sua esposa, era um ponto muito positivo, já que poderia soar completamente insuportável conviver com alguém à imagem e semelhança de uma pessoa como Catarina, rainha de Eunwun.
Já se faziam mais do que consideráveis anos desde que havia sido inserida na família real de Eunwun por um tratado de interesse político em que ela fora prometida para o herdeiro do trono do reino de maior presença em todo o continente. Logo em seu nascimento tal promessa fora feita, a fim de unir toda a grandiosidade do capital de Eunwun com a majestosidade da força do exército de Minwoo. Era uma união para fortalecer os lados, o grandioso dando respaldo para o majestoso e assim se tornarem duas potências da qual nenhum outro reino, sendo do continente ou não, teria coragem e cacife para bater de frente.
Mas era uma aliança furada e sabia que nenhum dos lados se preocupava de fato em manter aquela união de forma saudável; havia alguns interesses de um lado que sempre sobressaiam o outro, e sua preocupação no fim rondava apenas sobre seu povo minwano.
E ela faria de tudo para manter a integridade deles, pois, a partir do momento que seu pai falecera em batalha e ela já estava casada com , se tornou rainha e representava todo o reino. Infelizmente, existia alguma lei criada por Hwan III de que seu filho não poderia sair de Eunwun e ela governaria do castelo da família real eunwana.
E por isso, naquele momento em que todos estavam extremamente em pânico pelo estado de saúde do rei, ela queria saber muito mais além da vida e morte dele. Queria e especularia sobre tudo e os interesses daqueles que ficariam responsáveis na ausência dele. Sua preocupação, principalmente, rondava a rainha Catarina e os interesses dela que sempre se baseavam no poder e em seu medo de perder a coroa. Era a pessoa com quem mais precisava tomar cuidado.
Seus olhos estavam atentos no vão, não só em como soava tão diferente do que ele normalmente aparentava com seu jeito mais jovial, apesar de ser um rei e possuir muitas preocupações sobre seus ombros. ainda era tão… garoto? Ela diria e sinalizaria para qualquer um que ele era uma boa pessoa e um bom filho, além de fugir do padrão masculino de sua época: não era frágil em seus preceitos e tratava bem toda e qualquer mulher, sendo sempre muito atencioso e solícito com . Ela manteve esse olhar surpresa e admirada nele, mas também estava tentando ler a encenação de Catarina.
A mulher parecia absorta em seu próprio mundo e não saberia dizer se houve alguma vez em que a viu derrubar a película de grandiosidade de si daquela forma, parecendo tão vulnerável. Com certeza não era sobre como Hwan III estava desfalecendo naquela cama de madeira maciça feita sob medida dos luxos da rainha. Quanto a isso, colocaria sua mão no fogo facilmente.
— O que você está olhando aí?
Teria gritado se não estivesse atenta a não fazer nenhum movimento que pudesse denunciar sua presença ali. Porém, apenas pulou no lugar pelo susto ao ouvir a voz de Fedora, sua dama de companhia.
— Como assim o que estou olhando aqui, Fedora? — disse, com a mão no peito, acima do decote quadrado de seu vestido.
— Está aí há bastante tempo, senhora — a dama respondeu, vendo sua rainha virar-se para a direção em que estava, dando as costas para a porta.
— Estou preocupada, o rei não apresentou melhoras.
juntou a saia comprida e deu alguns passos, saindo dali, sendo seguida por sua dama até a primeira janela no extenso corredor iluminado apenas por tochas de fogo.
— A senhora acha que ele… — Fedora parou ao lado dela, que estava parada de forma diagonal, olhando para a lua do lado de fora. Estava uma noite muito linda para pensarem sobre a morte.
— Não. Catarina tem Ceferes, com certeza alguma bruxaria o trará de volta. — A rainha disse, em seu tom comum de alento.
— Mas ele está naquela cama há dias, vossa majestade — insistiu.
A rainha apenas assentiu, ainda olhando para a lua do lado de fora. Ela sabia que Hwan III não resistiria, infelizmente ele havia sido desatento o suficiente no duelo com Janosh, na semana dos soldados, e acabou caindo do penhasco. Os ferimentos eram graves, infeccionaram, e mesmo que Ceferes tivesse todos os apetrechos e meios para tentar curar seu rei com feitiçaria, ele estava passando por um momento da cadeia natural dos fatos da vida.
Ela esperava que Deus o tivesse.
E também esperava que seu povo não sofresse consequências maldosas de sua morte.
— O rei está morto!
Ouviu a voz do general, Min estava na frente da porta do quarto quando ela se virou rapidamente, encarando-o. Seu corpo estremeceu e ao fundo dele, dentro do cômodo, ela viu o olhar perdido de Catarina. Ainda não diria que a rainha estava de luto pela morte de seu marido, de seu companheiro de monarquia. tinha medo, receios e anseios, justamente por conhecer bem a família a qual dividia o castelo em que morava.
Sabia que ali, aquele luto da rainha, era sobre a coroa. Ao falecer, Hwan IV seria coroado rei de Eunwun, automaticamente tornando sua esposa, , a rainha. E seria quase certo dizer que Catarina preocupava-se sobre seu posto, ela não tinha perspectivas quanto a um reino em que não governasse, que seu nome não fosse o principal.
Era como uma profecia: assinaria um atestado de caça de sua sogra, por naturalmente assumir o trono de outro reino além do seu, por adquirir mais poder do que Catarina um dia sequer pensou em ter.

🏰


O sol era forte, seus raios faziam com que os vestidos com decote fechado de cor preta, véus e chapéus esquentassem o corpo das senhoras que os usavam. Os homens com as várias camadas de peças sentiam que a qualquer momento poderiam desmaiar. Mas seria desrespeitoso reclamar, afinal, estavam velando o corpo do rei de Eunwun — o que para muitos soava estranho, uma situação daquelas, de despedida, deveria carregar o tom máximo de respeito e intimidade, mas acabou por se tornar um tipo de celebração.
Embaixo daquele sol escaldante, pessoas faziam fila no grande pátio do espaço aberto do castelo, organizados e com seus terços, deixando suas preces e orações em cima do corpo falecido e arrumado dentro do caixão descoberto. Muitos choravam a morte do rei que tanto fez pelo povo, que a tanta gente supriu necessidades e que nunca deixou até a população dos vilarejos mais distantes padecer. Hwan III fora, em suma, um grande homem para os eunwanos e tinha o respeito de todos eles.
Entretanto, o ponto alto daquilo tudo, principalmente sob o olhar dos mais curiosos e atentos aos dramas da corte, a presença de Hwan IV no pátio aberto do castelo causou comoção.
Desde que fora anunciado o nascimento de um filho, de uma rainha que a população sequer soube estar grávida, a curiosidade foi crescendo, justamente por praticamente nunca ter sido visto fora do castelo. A primeira vez que o viram foi em seu aniversário de dezesseis anos, uma data pontual para a família real apresentar a coroa ao herdeiro, sendo uma cerimônia que até mesmo os eunwanos julgavam um pouco exagerada. Depois disso, foi visto pelo seu povo em seu casamento com aos dezoito anos e nunca mais saiu do castelo.
Para a população do reino, era estranho não saber sobre seu futuro rei, muito menos o motivo pelo qual ele era tão protegido pelas paredes daquela fortaleza. Houve até mesmo uma vez em que um soldado fora condenado à decapitação por contar para alguém que contou para outro alguém, acabando por fazer uma informação tomar proporções enormes, sobre a cicatriz do príncipe. Uma cicatriz em seu olho direito que pegava de um ponto acima de sua sobrancelha e cortava a pálpebra até um pouco abaixo de seu olho, iniciando a bochecha.
Naquele ambiente, apesar do falecimento de Hwan III ser o motivo do encontro, muitos se faziam curiosos para observar seu filho, na posição de seu sucessor, sentado ao lado de sua esposa. Claro que sabiam que o veriam novamente, pois teria a cerimônia de coroação dele, e certamente ninguém perderia o banquete real e a festa que aconteceria após a coroação oficial dos novos rei e rainha.
Quando ele se movimentou, levantando-se por se sentir desconfortável quanto aos olhares em si, foi seguido pelo olhar de sua mãe, sentada à sua direita, e sua esposa, do lado esquerdo.
— Você tem certeza de que não quer que eu o acompanhe, querido? — Catarina estava preocupada de fato, encarava o filho com o rosto inclinado para sua direção.
— Não, eu quero um tempo sozinho — ele respondeu, caminhando para a saída ao lado de sua esposa.
Antes de continuar o caminho, deixou um beijo na testa de sua rainha e autorizou pelo menos que dois guardas fossem em seu encalço, por medida de segurança. Além dos olhares curiosos de camponeses, artesãos e demais habitantes de Eunwun, sua mãe o olhava.
Catarina ficou por um tempo acompanhando a caminhada do filho, até ele sumir e em seu campo de visão ficar somente o perfil de . A nora estava ereta, na mesma posição que se colocou quando chegou àquele pátio e se sentou sem dizer uma palavra sequer e poderia ser declarada como morta se não fosse pelas suas bochechas levemente coradas.
— Confesso que dentre todos os seus trejeitos, nunca diria que a veria tão quieta assim, princesa — disse, virando seu rosto para frente, mantendo a mesma posição ereta da outra, com as mãos postadas no colo coberto pela saia.
Encarava o horizonte, o mar de pessoas em sua frente, de forma civilizada, caminhando em fila até o corpo de seu marido naquele caixão debaixo do sol, enquanto ela estava sentada em uma cadeira diferente de seu trono, com a estrutura do teto daquele extenso corredor, no qual fora montado o ambiente para a família real e seus membros de corte serem alocados, sob sua cabeça, protegendo-lhes do sol. Se sentia um tanto vazia com aquela ambientação, além de desrespeitada por não estar em seu assento correto, que era ocupado pela esposa de seu filho.
— Rainha — corrigiu, ainda com a mesma feição e posição. — Por mais que não goste de admitir, a esposa de seu filho já é rainha de um povo — completou.
Claramente ela se sentia ofendida, mas não diria diretamente. Sua intelectualidade, porém, ainda não tinha um nível tão impressionante para deixar que o tom provocativo e soberbo de Catarina não fosse respondido — era óbvio que ela sabia sobre a informação rebatida por , mas estava usando de seu perfil megera para iniciar aquele assunto, afinal era quem ela era de fato.
— Uma rainha deve ocupar o trono do qual governa. Minwoo está bem longe daqui — Catarina não tardou em responder.
respirou fundo, mas não se moveu além do peito subindo e descendo controladamente para não transparecer sua irritação.
— Felizmente ou não, tenho dois tronos dos quais ocupar e Minwoo poderá ser governada deste mesmo, no qual estou sentada. Afinal, Eunwun e Minwoo possuem uma aliança forte, majestade.
— Você acha que irá governar este povo tão cedo? — A mais velha virou o rosto para , perguntando grosseiramente, com um sorriso ladinho.
— Por lei. É a ordem natural. — Mas ainda não a encarava.
— E o que você acha que neste reino segue sendo natural, minha criança? — Catarina se moveu em seu assento, ficando menos rígida. — Isso mesmo, nada. Acha que consegue governar? Que ele tem condições intelectuais para isso? — Riu nasalado.
— Não confia no próprio filho, Catarina?
— E você confia? — Virou o rosto para frente, voltando para a mesma posição que mantinha inicialmente. — Onde está essa confiança então? — questionou mais uma vez, após o silêncio da nora. — Quando há confiança, há herdeiros.
Foi como se a mãe de seu marido tivesse lhe apunhalado pelas costas ao citar um fato que tanto trazia cobrança para , ela não conseguia engravidar e vinha tentando há tempos. Seu casamento com já estava caminhando para alcançar o terceiro inverno e eles ainda não tinham um herdeiro. Não se tratava por falta de tentativas, eles se davam bem na cama e tentavam. E isso tudo dava aquele tom de incompetência para ela, porque o problema estava ali e não poderia ser no homem, ela quem deveria ser perfeita para entregar o que toda uma corte exigia.
Era cansativo, principalmente por todo o cenário de como lidava com as coisas. Para ele estava tranquilo, pois parecia mesmo gostar de e entender que o sexo entre eles funcionava, levando a outro motivo para não ter tido um filho ainda com ela. E o modo dele de lidar com isso não era tão agraciado pelos outros, por aqueles que esperavam que o castelo tivesse uma criança.
Quis jogar no colo de sua sogra o que tanto ouvia pelos corredores sobre a fidelidade de Hwan III, que levou ao nascimento de . Por mais que a decapitação de um soldado por passar informações para fora daquelas paredes tenha sido um bom aviso sobre o que aconteceria com quem propagasse os segredos reais ao povo, ainda existiam burburinhos protegidos por aquele concreto.
Ouvia muito que a motivação do aprisionamento de fora por conta de não ser filho legítimo de Catarina e que seus traços diferentes dos dela pudessem causar alguma massa de dúvida em seu povo ao colocar um bastardo abaixo de sua saia. Mas, por maior escândalo que a infidelidade de Hwan pudesse ser julgada, era claro que Catarina também não conseguiu devolver para a corte de sua época o que lhe era exigido.
— Então a senhora não confiava em Hwan — rebateu a última fala venenosa de Catarina, finalmente virando o rosto para a direção dela.
— Do que está falando? — O olhar correspondido lhe trazia um cinismo absoluto. Tão comum para quem o carregava, aliás.
— Herdeiros, sim? Estamos falando sobre herdeiros, vossa majestade. — O sorriso deixou de existir conforme virava o rosto novamente para frente.
Sentindo o peito subir e descer de forma presa, não pelo vestido tão apertado em seu busto, mas por querer controlar as próprias expressões e movimentos para não ser pega desprevenida, Catarina mordeu as bochechas por dentro, querendo praguejar as damas e serviçais de seu castelo que ficavam comentando sobre sua vida e assuntos dos quais eram proibidos. Continuou encarando o perfil de e, usando seu tom mais impassível possível, disse:
— Regra número um para ser uma rainha, princesa: não acredite no que se ouve, as paredes de um castelo são corrompidas por muita sujeira e nem sempre elas possuem certeza na ordem das fofocas. Crie sua própria informação, sua própria parede.
O peito de subiu e desceu em seu breve suspiro e Catarina teria visto o sorriso dela se alargar se pudesse entrar na mente da outra. E também a ouviria comemorar ter deixado a rainha tão majestosa sem seu escudo, com todo seu caráter exposto.
— Aumente a velocidade, por gentileza.
A voz de Catarina novamente foi ouvida, ordenando para que o súdito que lhe abanava aumentasse a velocidade. O calor não era somente por conta do sol queimando sob suas cabeças, mesmo que protegidas pelo concreto, mas sim pelo medo de estar vulnerável.
Catarina não queria perder seu trono, seu poder, e estava assinando sua carta de briga. Se tivesse que entrar na disputa, fosse lá o que a outra tinha em mente para a impedir de assumir o trono, ela o faria e não abaixaria a cabeça. Faria por Minwoo, por seu pai, por si.

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As mãos de apertaram a cintura de , que estava por baixo do corpo dele, tão suada quanto, quando sentiu o ápice chegar. Era incrível como eles possuíam uma promessa silenciosa desde a infância sobre se respeitarem e apreciarem um ao outro, reconhecendo que deveriam aceitar o destino que fora traçado para suas vidas desde o início — de forma literal, inclusive. E apesar do exemplo um pouco desrespeitoso de seu pai, banhado em infidelidades e algumas grosserias, era o oposto. O jeito dócil com a rainha de Minwoo e futura rainha de seu reino não se limitava apenas às quatro paredes da enorme suíte que dividiam no castelo. Pelo contrário, o rei que estava prestes a ser oficializado dava exemplos diariamente de como tratar uma mulher devidamente.
E todos os toques que recebia em diversos momentos a deixavam mais tranquila, menos assustada de estar longe de casa desde os doze anos por ser prometida em casamento dentro do seu cenário já conhecido. Ela sentia, principalmente ao dividir os lençóis com seu marido, que era respeitada e adorada; se sentia muito mulher desde a primeira vez que se uniram em prazer. poderia ser o homem mais confuso, menos adulto por muitas vezes e, ainda assim, a fazia bem.
Não era somente sobre o prazer dele, era em conjunto. Ele se satisfazia também a satisfazendo.
Por dividirem a vida de tal forma, com muita intimidade, podia dizer que havia algo muito estranho nele, que o fez virar-se para o lado e simplesmente, naquele silêncio sepulcral, dormir. Nem um beijo, nem um abraço, muito menos uma conversa banal com ela deitada em seu peito, traçando linhas imaginárias na pele nua dele, nada além das costas de iluminada pelas velas e tochas que estavam acesas. Ela suspirou, levantando-se por sentir a ausência do sono e aquela inquietude desde que Hwan havia sido declarado morto; puxou a camisola para baixo, que estava erguida e dobrada até seu busto, e depois de pegar o pequeno castiçal com duas velas em sua cabeceira, caminhou para fora do quarto.
Fechou a porta com cuidado para evitar o barulho, não queria ser notada e muito menos receber a presença repentina de Fedora em seu encalço, como sempre a dama de companhia fazia. Era admirável e assustador a forma como ela frequentemente aparecia do nada, silenciosamente, como se fosse um despertador natural para se lembrar de algo; normalmente eram situações as quais ela estava imersa em alguma coisa ou não queria ser incomodada. Estava Fedora pontualmente lá, preocupando-se e cumprindo com seu papel ao pé da letra e religiosamente.
Os passos que foram dados para fora do corredor a levaram para próximo da escada que levava para a área de serviços, o caminho usado apenas pelos serviçais do castelo justamente para não se misturarem com a realeza. Sua mente divagava na preocupação constante sobre o bem-estar minwano desde o falecimento de Hwan III, já que ele era o responsável por manter o pequeno reino que seu pai tanto batalhou para manter em pé antes de falecer na última guerra que garantiu aos dois reinos territórios e a paz como fortaleza.
Com ela morando em Eunwun por ter se casado com , Minwoo era governado por Hwan III, mesmo que de longe, até ela ter se casado e ser coroada rainha sucessora de seu pai. O tom de Catarina ainda a preocupava, já que ela não sabia se poderia confiar que os interesses da rainha passavam além de possuir poder e uma coroa para ilustrar sua cabeça.
Parou bruscamente enquanto divagava ao ouvir a voz estridente de alguma serviçal. Se fosse notada, sofreria perguntas e tudo o que menos queria naquele momento era seu espaço pessoal sendo invadido.
— Você sabe que a rainha Catarina não deixará fácil para assumir o trono — ela dizia para uma outra pessoa. Os passos que deu, a mais, ajudaram-na a ver a cena, duas mulheres um pouco velhas paradas uma de frente para a outra, segurando cestos com roupas.
— Mas eu não entendo, Rudith, como a rainha irá impedir? Existe a linha de sucessão e ela deve ser seguida — a outra rebateu.
— Mora há anos abaixo desse teto e ainda não conhece as tramoias da rainha? — Rudith riu irônica, olhando para os lados antes de dizer: — A profecia… Ela não pode deixar que veja a luz fora do castelo enquanto o outro estiver vivo ou corre o risco dele aparecer e reivindicar o trono. E não estamos falando apenas da lei.
— Ah, mas você acredita nisso? É besteira, Rudith.
— E você desacredita? Um não pode viver enquanto o outro estiver vivo, a cicatriz existe por um motivo, sabe disso. — Rudith parecia firme e fiel ao que dizia, também um tanto preocupada. — E mal sabe manusear uma espada, logo, será ele a cair.
Um breve silêncio se fez, tanto que podia sentir a confusão e preocupação evidente na outra que se fazia mais cética.
— Até faz um pouco de sentido essa sua loucura.
— Mas é claro que faz! — Riu, apertando mais o cesto contra o corpo. — Ceferes não viveria por tanto tempo neste castelo se não fosse para proteger , principalmente debaixo da proteção do rei. — Rudith fez o sinal da cruz rapidamente, olhando para cima. — Que Deus o tenha! — disse, suspirando e retornando o olhar para baixo. — E você reparou como ele está estranho desde que o pai adoeceu?
— Acho que reparei como ele tem estado menos… Centrado?
— Ele está perdendo a sanidade. Depois do enterro do rei, o vi falando sozinho dentro do salão real. Parecia que estava brigando com alguém, mas não tinha ninguém além dele!
— Será que Catarina usará disso para impedir que ele suba ao trono? — a mulher que estava cética no início perguntou em tom de dúvida real.
— Não sei… O que eu sei é que tudo está se encaminhando de acordo com a profecia. A morte precoce do rei, não é mais o mesmo homem dócil e gentil, ele está distante. E Catarina não o deixará assumir, ela vai dar um jeito de se colocar entre ele e a coroa.
— E onde entra nisso tudo? Ela já é rainha de Minwoo e deve assumir Eunwun com .
— Eu acho que ela é o menor dos problemas para Catarina. A rainha não vai deixar ninguém no caminho dela… Conhece Catarina há anos, sabe bem do que ela é capaz. — Rudith finalizou, com pesar.
não notou que uma das velas em seu castiçal estava finalizando, causando uma cera quente cair em seu dedo. Se submergiu tanto ouvindo aquela conversa, matutando em sua cabeça sobre o que estavam falando, se realmente tinha alguma ligação extrema com o que já tinha escutado diversas vezes sobre Catarina não ser a mãe biológica de , que se perdeu, voltando à superfície quando sentiu o quente da cera batendo em seu dedo.
Sua exclamação pelo susto e a dor da queimadura leve acabou por chamar a atenção e as duas senhoras viraram para sua direção, encarando-a com confusão. Àquela hora da noite, não era tão comum para um membro da corte estar vagando pelos corredores, ainda mais sendo a futura rainha de Eunwun, e sendo naquele canto do castelo também se tornava extremamente curioso.
— Majestade… — As duas se curvaram, dizendo.
Ela assentiu ao cumprimento respeitoso das duas e, tentando debater dentro de si a seriedade do que ouviu, pensando que talvez estivesse enfeitando demais uma fofoca mal-ouvida, acabou por sucumbir à curiosidade.
A verdade era que estava realmente preocupada com todos os fatores de sua vida após a morte de Hwan III, por mais estranho que pudesse parecer, o rei era um dos poucos homens dos quais ela sabia que podia confiar o reino que seu pai deixou em pé antes de morrer e a ideia de que ele não estaria mais ali para cuidar do pequeno pedaço de terra que possuía a deixava alarmada — sabia que Catarina tinha esse vislumbre por poder e que não se importaria em ter um olhar mais humano diante do povo, e se ela estava mesmo disposta a não deixar que subisse ao trono, então teria de ficar atenta.
faria qualquer coisa para proteger os seus. Estava decidida a investigar a história que fosse, começando pela tal profecia que ouviu as duas comentando com tanta certeza.
— De que profecia vocês estavam falando? — Deu alguns passos, chegando mais perto delas e tomando cuidado para não se queimar outra vez com a cera do castiçal.
As senhoras se entreolharam, parecendo um tanto medrosas.
— Não me façam perguntar outra vez — foi firme, chegando a odiar o próprio tom.
— Nenhuma, majestade — Rudith disse, trocando um olhar árduo com a outra.
— Eu não estou louca, Rudith. Sei bem o que ouvi. — Deu mais dois longos passos, parando próxima a elas, seu rosto sendo melhor visualizado por conta da luz da tocha que tinha ao seu lado, fixada na parede.
Novamente, as serviçais se entreolharam.
— Bem, é um cântico, senhora — a outra, que ela não sabia o nome, disse, sob o olhar decepcionado de Rudith.
— Não me lembro de ouvir um cântico sobre isso em Eunwun.
— Ceferes, ele é o criador dele, majestade — novamente a mesma disse, soando como uma tagarela.
— Não dê ouvidos a ela, vossa majestade. É só um cântico que temos nos vilarejos — Rudith começou, trêmula.
— Então me contem mais sobre este cântico — a rainha pediu, com um sorriso simples nos lábios. — Por gentileza — incentivou, vendo como as duas hesitaram com a troca de olhares.
— Ele conta que uma mulher acabou sendo amaldiçoada em seu ventre por ser usada como objeto de infidelidade para um…
— Um senhor muito rico — Rudith cortou a companheira, olhando diretamente para a rainha em sua frente. — E ela gerou dois filhos dele, porém ele não poderia criar dois filhos, já que só tinha lugar para um. Então as duas crianças nasceram com uma marca, já que pelo destino estava traçado que deveriam ser separados. Esta marca servindo para que fossem identificados quando se encontrassem.
— E nesse encontro saberiam que eram iguais. À imagem e semelhança. — Houve uma pausa e mais uma troca de olhares. — Com isso, na história cantada, eles duelam pelo território. Para um estar vivo, o outro precisa morrer.
— O que é trágico para uma história cantada a crianças, não acha, majestade? — Rudith tentou dar um tom diferente para aquilo, já medrosa por ter contado demais.
— Sim… Talvez eu fale com Ceferes para rever este cântico — a voz de saiu em um alento, antes de pensar que talvez fosse o momento para voltar aos seus aposentos. — Podem ir, estão dispensadas.
Rudith e sua companheira se curvaram diante da rainha antes de saírem para os degraus que as levavam ao andar inferior, o de serviços. A rainha permaneceu parada no lugar, juntando pontos de todas as informações que já havia recebido, assuntos que tinha ouvido e supostos cânticos que sempre traçavam linhas diferentes para o mesmo final: a infidelidade de Hwan.
Teria Catarina usado Ceferes para amaldiçoar uma mulher grávida?
O pensamento a fez arrepiar todos os pelos do corpo, obrigatoriamente a fazendo assumir o medo. Talvez ela não estivesse tendo sorte para engravidar porque a própria sogra a colocara uma maldição, justamente para que sua vida continuasse infeliz e as cobranças da corte pesassem sobre seus ombros. Isso geraria em a desistência do trono e uma vitória para Catarina.
Fez o sinal da cruz antes de pressionar a mão em cima do ventre, suspirando com pesar.
Quando fez o caminho de volta, chegando ao corredor principal, se deparou com Fedora, mais pálida que a lua, caminhando para sua direção.
— A senhora precisa de alguma coisa? — perguntou ofegante.
parou sua caminhada e ficou olhando para o rosto dela por alguns segundos, novamente debatendo dentro de si o que tinha ouvido, até então sucumbir-se mais uma vez e dizer:
— Sim. Preciso encontrar Ceferes.
Não disse mais nada ou esperou pela resposta, Fedora era inteligente e a conhecia muito bem para saber que aquilo era uma ordem para que a ajudasse com tal coisa. Continuou o caminho de volta para seu quarto, deixando a dama para trás com uma garganta fechada em um bolo. Não estava acostumada em ver sua rainha tão determinada e com uma postura menos passiva. Era preocupante.

🏰


— Onde está sua esposa, afinal?
O tom de Catarina foi exigente, além de carregar o ceticismo de sempre quanto ao comportamento e verdadeiro perfil de . Estavam no salão real, fechados, ela e , aguardando para uma reunião que colocaria em mesa as decisões sobre a coroação dele e da futura rainha euwana. Claro que os planos da mãe sondavam a possibilidade de poder intervir o máximo que podia no governo de seu filho, não confiava o suficiente no intelecto dele para ter segurança de que sua vida permaneceria com o mesmo padrão, as mesmas regalias da coroa, incluindo a paz que tinha em seu reino pelo nome forte e respeitado.
Ela estava inquieta, com certeza, mas ainda conseguia se manter blindada com o véu que tinha sobre si para não permitir que fosse possível observar de perto suas fraquezas e limitações. Nos últimos dias, tinha deixado que isso caísse facilmente, tanto que permitiu a um pouco de soberba no curto diálogo durante o tempo que velavam o corpo de Hwan, o que a deixou bem atenta, inclusive. Desde que a minwana havia ido para seu castelo, logo após o falecimento da mãe e que seu pai entrara para valer em guerra por interesses políticos de seu povo e Eunwun, Catarina notou o potencial de uma boa aliada que ela poderia ser. Entretanto, temia que poderia ter se enganado.
E recusava-se a acreditar que uma jovem como ela pudesse lhe passar a perna ou ser mais perspicaz; sendo rainha de Eunwun, Catarina passou muitos anos aprendendo, antes mesmo de assumir seu papel desde a promessa de casamento com Hwan, e ela se preparou para tudo aquilo, para ser uma rainha que saberia mover seu próprio tabuleiro.
Catarina movia as próprias paredes em seu castelo de cartas e sua nora não seria uma difícil de manipular. Não deveria, na verdade.
Quando ia reclamar mais uma vez, porém, as portas da sala foram abertas e a jovem rainha entrou, acompanhada de sua dama e sob o olhar de todos. Era deslumbrante como flutuava pelos chãos do castelo de forma elegante e parecia ganhar uma confiança crescente com o passar do tempo — para o desgosto de sua sogra.
— Perdoem-me o atraso. — Fez o caminho e se aproximou do marido, que estava sentado na enorme cadeira atrás da mesa de madeira maciça. — Não acordei disposta hoje, deve ter sido o banho de sol excessivo de ontem — completou com sua justificativa, parando ao lado de .
— Devemos criar expectativas quanto a um herdeiro então? — Catarina sorriu falsamente, gesticulando com suas mãos na altura de seu ventre e postadas sutilmente apoiadas ali.
O olhar que recebeu de poderia lhe cortar se fosse uma faca afiada. Contudo, ela não era uma presa fácil, apenas sustentou aquela tensão, mantendo seu sorriso falsamente fino nos lábios. Porém, mesmo que isso tenha durado segundos e soado como horas, foi quem as puxou de volta para a realidade. Seu tom abobado e esperançoso deu uma pontada em de desgosto.
— Será que finalmente seremos agraciados? — disse, virando-se e levando as mãos para a barriga da esposa. O olhar com a cabeça inclinada que foi direcionado a ela trazia toda sua ingenuidade do clima entre as duas mulheres presentes ali.
“Pobre , não reconhece a víbora que tem como mãe…”, pensou.
— Não vamos nos antecipar mais uma vez, querido. — Catarina manteve o sorriso, trazendo-o para o tom ladino ao ouvir a voz falhada de , que levou uma de suas mãos carinhosamente ao rosto do marido. — Me perdoe, majestade… Sei que é um momento em que precisa de notícias boas e um pouco de felicidade para curar o tormento do luto em perder o grande amor de sua vida. — Direcionou o rosto novamente para a sogra, sendo ela agora a utilizar do sorriso falsamente fino, denotando uma falsa compreensão. — Sinto muito não poder lhe dar o mínimo de felicidade…
A mais velha travou a luta interna contra seu próprio inconsciente que queria trazer à superfície a impulsividade do desejo de cruzar o espaço entre elas e decapitar a princesa de língua solta, sem pensar em nada além do seu desejo. Criar para que ela fosse uma adulta à sua semelhança talvez tenha sido um péssimo negócio.
— Agradeço por suas condolências, princesa. — Catarina diminuiu o sorriso, mas ainda o mantendo no falso tom carismático.
— Você tem certeza de que está bem para estar aqui? — Rompendo o momento das duas, alheio ao que uma tentava acertar na outra, se levantou, preocupado com a palidez de sua esposa. — Podemos adiar ou depois eu te falo todos os detalhes…
— Não! — se esquivou do toque dele em seu rosto, arrastando a longa saia de seu vestido para o outro lado da mesa. — Vamos seguir com o protocolo e datas certas, quando seu pai adoeceu muita coisa ficou pendente. Eunwun está segura, mas ainda assim precisa de um rei e uma rainha.
— A rainha já temos, claro.
Virou para Catarina que estava logo atrás, respirando fundo, recebendo o sorrisinho ladino dela direcionado para si. revirou os olhos, voltando a encarar , que voltava a se sentar na enorme e robusta cadeira.
Sabia que aquela reunião era para que a mãe dele colocasse ideias em sua cabeça confusa, e que sua voz tampouco seria ouvida, visto todo o carinho e respeito que tinha por Catarina. Não à toa, apesar de seu jeito egocêntrico, fora uma boa mãe para ele, sempre o protegendo e ensinando. Curioso era que tinha a personalidade mais dócil, educado e um tanto humano do que a própria matriarca daquela família construída com o rei falecido. Em um panorama mais racional, se perguntava qual a origem de todo aquele amargor da rainha, se era algo em sua infância ou o casamento com Hwan III que encontrou um fracasso na infidelidade.
Mesmo que a jovem rainha minwana estivesse se sentindo indisposta naquela manhã, com o mal-estar crescente em seu corpo, acentuado em seu ventre, queria estar ali, no salão real, para discutir sobre qualquer que fosse o assunto da coroação. Sabia que, pela ordem comum, protocolar eram alguns detalhes pífios sobre cerimônia, convidados e os demais plebeus que tinham o direito, mas o desmembramento das pautas levaria a outros detalhes, dos quais ela não queria perder uma vírgula sequer. Não importava o tanto que tivesse de sair do seu papel ingênuo e se forçar a jogar no mesmo tabuleiro que Catarina, ela o faria, sem pestanejar, por seu povo.
Era a história e trajetória de seu pai a ser defendida.
— Bem, podemos prosseguir… — Ignorou o olhar da sogra, virando-se para , que as encarava alheio, como sempre. — Acredito que não sejam detalhes muito complicados de serem traçados, .
— O quê? Uma coroação? — Catarina riu anasalado. — Você acha que é simplesmente uma cerimônia de colocar uma coroa na cabeça de cada um e sentar-se no trono? — Deu curtos passos para poder observar o rosto de , parando um pouco mais à frente e entrando no campo de vista da outra. — Há muitas coisas que você ainda precisa aprender, criança.
umedeceu os lábios de forma serena, entediado com o que estava presenciando. Deslizou os braços no apoio da cadeira, um de cada lado, unindo as mãos à frente de seu tronco e entrelaçando-as.
— Se trata de todos os convidados, porque a tradição do nosso reino exige que ninguém seja deixado de fora — iniciou a explicação, vendo tensionando a mandíbula e a encarando cética. Conhecia ela tão bem para saber que isso era um reflexo de seu mal-estar dos últimos dias.
— Entendo… — ela sibilou, assentindo levemente.
— Sabemos que antes de meu pai falecer, Harthyiad estava exigindo a revisão de todos os tratados já feitos, o que para nós significa, hoje, uma ameaça. Então as medidas protocolares não são apenas para que tudo saia com o luxo de sempre, mas para o que iremos trazer na cerimônia.
O tom de voz de a fez se acalmar, como se não achasse possível encontrar nele tamanha intelectualidade. Era um tanto dificultoso de detalhar e traçar as linhas da personalidade do marido, e embora ela encontrasse algumas pedras neste caminho, pela instabilidade do intelecto dele, ainda se surpreendia com aquele mar de ondas que era seu casamento; hora tranquilo, hora traiçoeiro, hora agressivo… Diversificado em todos os níveis de maré.
— Por isso eu acredito que seja o momento para esperar a poeira diminuir e então realizar a cerimônia — Catarina interveio com seu tom ameno, o qual estava começando a saber interpretar. — Principalmente porque sua esposa ainda não te deu um herdeiro. — Espalmou as mãos na mesa, com os braços abertos e o corpo um tanto curvado, olhando diretamente nos olhos do filho.
— E o que isso interfere nas relações do meu reinado? Ainda somos jovens, um filho logo virá. Não se trata da vontade e tempo do divino? — ele rebateu.
deixaria o sorriso escapar, se não estivesse se sentindo pesada e como se uma faca rodasse dentro de seu estômago, descendo para seu ventre.
— A vontade dos homens sempre prevalece, meu filho. — A rainha voltou o corpo ereto, torcendo os lábios. — Vocês dois precisam entender muita coisa antes de querer assumir uma coroa, porque isso não é brincar de casinha.
— E você sabia de tudo antes de assumir, Catarina? — moveu apenas o olhar para a mais velha.
— Sim, porque fui ensinada desde que nasci a como ser uma rainha… Além de que — se virou para a nora, sorrindo abertamente — também se trata de berço, tem gente que nasce com o dom, seja um ventre fértil ou a capacidade para governar, vem daqui — apontou o próprio peito — e passa para cá — seguindo a cabeça, por fim.
Sob o olhar analítico de , totalmente profundo e carregado de palavras que ela poderia soltar de qualquer forma se não fosse por sua capacidade de compreender o próprio lugar e como uma monarquia funcionava, Catarina caminhou em volta da mesa, mantendo seu discurso.
Ela estava se sentindo voluptuosa de dentro para fora, se estivessem contando, seria mais uma vitória para ela contra a outra.
— Trazer outros monarcas para essa cerimônia, nesse momento, equivale a iniciar um jogo o qual ainda não temos condições de suportar.
— Me surpreende que sua confiança em seja tão frágil assim. — riu fraco.
— Não é sobre confiança, querida, é noção do que vocês irão enfrentar ao assumir esse trono.
Imediatamente uma ideia bateu na cabeça da rainha mais nova: e sua criação totalmente reclusa, escondida atrás das paredes do castelo; teria Catarina e sua relutância algo a ver com isso? Para ela se fez tão certo quanto o nascer do dia e o cair da noite.
— Ou seria o medo de finalmente o povo e outros reinos conhecerem ? — Sem pensar, porém, disse audivelmente. Ao forçar-se proferir tais palavras, sentiu seu ventre vibrar, deixando-a fraca e se apoiou firmemente nos próprios calcanhares.
… — , vendo sua mãe estremecer a mandíbula, sibilou.
— O que foi? — O encarou desafiadora. — Você não tem curiosidade de saber por que foi criado fechado dentro dessas paredes? Não há nada no mundo lá fora que possa ser tão assustador a ponto do único herdeiro do trono eunwano nunca ter visto a vida por outros ângulos.
— Você sabe muito bem que não posso com os raios solares, a minha cicatriz já é um bom lembrete disso — ele rebateu, sério.
tinha suas dúvidas; embora não fosse algo que a chamasse atenção, a partir do momento em que Hwan fora dado como morto, sabendo que Minwoo dependia do governo e supervisão majoritária dele, ela passou a ligar pontos. A conversa que ouviu das duas serviçais no corredor do castelo em uma noite tão confusa pelo comportamento distante de , ainda rondava sua cabeça, mesmo após quase cinco dias passados. E vendo a forma de agir de Catarina, parecendo como um urubu em cima de carniça, tudo parecia ter mais sentido.
Também notava a necessidade da rainha de se colocar de forma prioritária na situação não só por sua inteligência e bagagem, com o conhecimento que tinha, mas pelo interesse individual que massageava o próprio ego. Tampouco conseguia notar que seu povo passava pelo radar de preocupações da mais velha; o desinteresse ainda só não se fazia tão óbvio porque, no ponto de vista cético de , a mãe de seu marido, de alguma forma, estava sendo cautelosa. Entretanto, qualquer um poderia perceber sua necessidade de impedir que o filho tomasse o lugar mais importante do reinado.
— Ah… Com certeza — resmungou, com um mínimo sorriso de lado.
Catarina estalou a língua no céu da boca, encarando a mesa com o pergaminho do mapa de toda Eunwun e reinos subjacentes.
— Eu acho que está um pouco fora de si, talvez o banho de sol realmente tenha feito mal à nossa futura rainha. — Se afastou da mesa, indo para o lado do filho. — Claramente, ela precisa de um descanso, querido. — Virou-se para , sorrindo de uma forma genuína, somente para ele.
— Mas…
, como se fosse em um sobressalto, ficou com o corpo ereto em sua cadeira, olhando estreitamente para ; de fato, ela estava pálida e parecia tentar se segurar nos próprios calcanhares para se manter em pé, o que ele se recordava ser um tanto comum em algumas épocas de suas vidas, principalmente depois do casamento cerca de dois anos antes. Era preocupante, se tratando de sua , a saudável e firme mulher que sempre o acompanhava.
Sim, sua mãe estava certa, ela não parecia bem e realmente deveria estar um tanto fora de seu normal, não se fazendo comum situações como aquela em que rebatia daquela forma, embora fosse sempre uma pessoa de opinião. Entretanto, estava soando bem diferente em sua percepção.
— Fedora, acompanhe a rainha até o nosso aposento e fique atenta, por gentileza. — Virou o rosto em direção à dama de companhia, vendo-a assentir.
— Não, eu estou bem! — rebateu, virando para Fedora e novamente para a direção da cadeira, visualizando sua sogra com o tom soberbo. se levantava, caminhando para se colocar em sua frente, e, quando o fez, encarou o olhar suplicante dela. — … Eu estou bem, por favor… Precisamos falar sobre a cerimônia, sobre os outros reinos aliados… Sobre Minwoo! — disse, ficando ofegante ao fim.
— Claramente sua maior preocupação passa por Minwoo… — Catarina soou impaciente, ainda do lugar que estava. Para o tom era mais provocativo, porém. — Precisa escolher um lado, princesa. Com o falecimento de Hwan e seu pai, acha que ainda existe algum tratado?
— Mas eu estou viva, sou objeto deste tratado, inclusive. — Apesar de odiar o contexto, usou como justificativa para rebater a outra, olhando-a por cima do ombro de ; ele, imediatamente, levou as mãos à cintura dela.
— Agora você é de Eunwun, pensar que os minwanos te observam e aceitam como uma rainha é muita ingenuidade.
Vendo a forma como o corpo de tremeu sob suas mãos, se virou para a mãe, com o cenho franzido e confuso, além de cansado.
— O quê? Não me olhe assim.
— Como não? — indignou-se. — A senhora demonstra total desinteresse para que seja coroada, mas agora a diz que deve escolher um lado.
— Não se trata de coerências, , mas, sim, preocupações. Vocês dois ainda precisam de muito para se sentarem naquele trono com a plenitude que um reino exige de seus líderes, e o primeiro passo é ela escolher um lado. Pensar em qual força é maior, daqui ou de lá.
O peito de subia e descia rapidamente, ela ofegava, tendo sua comprovação de que Catarina realmente não se importava com o reino no qual passou sua infância antes de se mudar para Eunwun e ser preparada para o casamento com . Sentia-se como uma moeda de troca inválida e inútil por não ter suas raízes respeitadas; seu pai fora o maior responsável pela fortaleza que o exército eunwano se tornou, merecia que sua memória fosse válida e, mesmo se tornando um passado enterrado com ele e Hwan III, deveria ter maior reconhecimento na história do majestoso reino.
— Está vendo? Ela não parece bem… — Catarina apontou. — Fedora, leve-a imediatamente, irei pedir que façam um daqueles chás para ela tomar.
Com a visão turva e confusa, tomada pelo incômodo em seu ventre, se deixou ser guiada por sua dama, saindo do grande salão depois de ouvir um “logo te encontrarei” do marido e sentir o beijo em sua testa. Realmente, ainda se sentia mal, com seu corpo incomodado com algo, querendo o expelir a qualquer momento, sendo que ela sequer sabia com exatidão como estava se sentindo e o que eram todas aquelas sensações.
Até porque em seu corpo, além do mal-estar a fazendo sucumbir-se, tinha a mente trabalhando em toda a sequência de fatos, gerada por conversas, atitudes, lembranças antigas, dentre toda e qualquer situação que pudesse ser armazenada para alimentar o que vagava em seus pensamentos recentes. O turbilhão que a fez parar no corredor, apoiada no primeiro vão da janela, observando a luz do dia e, de forma firme dentro do que ainda lhe cabia naquela fraqueza, dizer:
— Fedora, eu quero encontrar Ceferes.
— Mas, senhora-
— Não existe nem meio mas — se esforçou para dizer, sentindo-se cada vez mais fraca e incomodada. — Eu quero encontrá-lo o mais rápido possível e ninguém, absolutamente ninguém, deverá saber disso.
Fedora a apoiou fisicamente, não segurando sua curiosidade.
— Se me permite, o que a senhora pretende conversar com Ceferes?
— Tenho questões que somente ele poderá me ajudar a entender, Fedora. Para o bem de Minwoo, eu preciso começar a agir.


Parte 2 — A Coroa

O corredor iluminado apenas pela tocha na mão direita de parecia extenso demais, dando-lhe tempo suficiente para repensar no que estava fazendo. Havia saído de seu quarto totalmente decidida, apesar de não se sentir bem e ter passado os últimos dias de cama, indisposta e se sentindo cada vez mais fraca; embora fosse muito necessário e estritamente indicado que descansasse para se recuperar fosse lá do que a abatia, não conseguiu controlar seu ceticismo e curiosidade quanto a saber as informações que o encontro com Ceferes reservava naquela noite. Fedora tinha trabalhado duro para conseguir encontrar o tão falado profeta e mago, feiticeiro ou qualquer coisa que ela não sabia muito bem. Morava há muitos anos naquele castelo, mas ainda tinham coisas que ela hesitava em acreditar, muitas pareciam apenas fofocas dos corredores e lendas criadas.
Para a jovem rainha minwana, Ceferes era como o vento: sabia que existia apenas porque ouvia o nome e muitos falavam sobre, mas ver, ela nunca tinha o visto e sequer sabia a feição, também não tinha certeza de ser um homem ou mulher, embora sempre fosse referido com o masculino. Então mesmo que a caminhada já durasse mais tempo do que estava aguentando ficar em pé, não desistiu. No final do corredor de pedra, que tinha entrada pela lavanderia do castelo e uma das saídas levava para o pequeno lago atrás da enorme estrutura, onde as serviçais lavavam roupas, tomavam seus banhos e dentre outras tarefas, encontraria com Fedora, lhe aguardando com um cavalo preparado para sua rota.
Inconscientemente, ela continuava repetindo para si mesma o caminho que deveria fazer pela floresta; não era atenta sobre as canções que corriam pelo reino, mas tinha uma específica que falava bem sobre como encontrar o velho profeta, citado sempre como um homem sábio e protegido, logo, ela compreendia que pela proteção, só poderia ser por Catarina.
Viviam em uma época na qual tudo o que fugisse de um termo mais celestial, etéreo ou divino, era considerado bruxaria. Não só , mas como toda Eunwun sabia que Hwan III abolia qualquer ato considerado advindo das trevas e desrespeitoso contra as crenças da realeza, portanto, tal proteção ao dito profeta, feiticeiro, fosse lá o que de fato era Ceferes — que ela tinha certeza ser o sujeito citado na canção que ouvira —, só podia vir da rainha, sua sogra. Ninguém em todo o continente batia de frente com a autoridade máxima, além do rei — e talvez nem mesmo Hwan tenha tido peito para ir de frente com sua esposa alguma vez durante seu período de vida —, então ela enxergava todo sentido em ser Catarina a detentora da segurança de Ceferes. Obviamente por algum interesse incomum, totalmente pessoal.
E era isso que ela iria descobrir. Embora fosse cética, precisava buscar respostas e começar a se familiarizar com os segredos guardados nas paredes daquele castelo.
Quando finalizou o caminho, finalmente encontrando com Fedora na saída, tomou um tempo para respirar. Em um momento comum e mais saudável de sua vida, não se sentiria tão cansada por aquele caminho feito; tinha uma vida ativa, adorava caminhar pelo campo e aos arredores do castelo, não via sentido em estar tão fraca e mole ultimamente. E em seu sexto sentido, algo gritava que aquilo não era normal e que deveria se preocupar. Entretanto, não tinha tempo naquele momento, primeiro cessaria suas dúvidas e depois prestaria mais atenção em si; o destino futuro de Minwoo valia mais a pena do que sua saúde — era seu dever colocá-los a frente; ao menos fora isso que seu pai sempre lhe pontuou e serviu como exemplo, pois sem aquela classe, que tanto entregava e fazia, seu reino não seria nada, muito menos ela.
Era preocupante pensar por esse ponto de vista, principalmente para , uma amante do pensamento sobre equilíbrio. Do pouco que se lembrava de sua mãe, tinha como um princípio o balanço das coisas; a senhora que lhe criou desde o falecimento da rainha de Minwoo, sempre lhe contava como sua mãe era sábia e gentil, tendo como um mantra a forma que tudo deveria estar sempre estabilizado em um alinhamento. O dar e receber, receber e agradecer, agradecer por ser, de fato, grato. Dentre inúmeros passos. O principal era que, no fim, fosse embasado no equilíbrio, não importando em qual âmbito — por isso se preocupava; pelo o que a senhora Huani lhe dizia, sua mãe não aprovaria essa linha de raciocínio em que o povo estaria em primeiro lugar, para a rainha, ambos tinham que ter interesses e uma caminhada conjunta.
gostaria muito de ter conhecido mais de sua mãe, para além das cinco primaveras que teve com ela. Talvez pudesse ser uma rainha como ela fora, já que se lembrava de um povo minwano que tanto a adorou e a tinha como um grande nome. Ela tinha muitos medos, o que faz parte, por ser um ser humano, porém, o maior de todos ultimamente vinha sendo o receio de se tornar uma pessoa como Catarina. Temia que o restante de sua criação tendo sido feita por ela, acabasse por influenciar em sua personalidade e princípios. E isso estava a assombrando, tirando noites de sono, visto que mal sabia quem era de fato.
Teve o amparo de Fedora ao estar mais próxima, a sua dama pegou a tocha que segurava, com medo de qualquer acidente. Depois do exercício de respiração, recobrou sua consciência e endireitou o corpo, no mesmo instante que uma preocupada Fedora perguntou:
— A senhora tem certeza de que está bem para cruzar a floresta? Não é seguro a essa hora.
— Eu confio em Boo. — a respondeu, se aproximando do cavalo e referindo-se ao animal. — Você o alimentou antes de sair? — esticou o braço para tocá-lo.
— Sim, como a senhora manda e ele gosta. — Fedora sorriu minimamente, observando acariciar Boo em meio a um breve silêncio. Não aguentou por muito tempo, então completou: — Senhora , não vá. Não sabe se irá encontrar Ceferes e se ele é mesmo real. Pode haver qualquer outro mal durante o caminho.
virou o rosto, olhando do cavalo para Fedora, encarando-a sem expressão. Respirou fundo, sentindo-se impaciente com a insistência de sua dama. Segurou firme na rédea para subir agilmente. Esticou uma das mãos para que lhe fosse entregue a tocha e assim Fedora o fez.
— Ficarei bem, Fedora. Volte e garanta que não irá notar minha ausência, a noite mal caiu, logo ele irá para cama e eu volto antes do amanhecer. — Sua voz saiu firme, antes de dar o comando para que Boo virasse em direção a entrada da floresta e iniciasse seus trotes.
Era um caminho escuro, iluminado somente pela luz da lua e o pouco do fogo que a tocha acesa de conseguia alcançar. Entretanto, foi tranquilo. Tinha uma trilha, assim como nas coordenadas da canção, por entre os eucaliptos. Essa tal trilha só poderia ser notada por um cavalo, mas não qualquer cavalo. O feno que compunha o caminho estreito tinha uma erva diferente, dada somente para a realeza. Bem dizendo, para o cavalo do rei e da rainha.
E Boo tinha esse acesso.
Quando avistou uma pequena torre de concreto, com fumaça saindo de seu topo, segurou firme a rédea de Boo, fazendo o cavalo parar devagar. A luz da enorme lua no céu dava claridade suficiente para que enxergasse na estrutura toda a forma feita a mão, as pedras que foram juntas para formar tudo absolutamente alinhado. O chão era de uma grama, que olhando parecia ser extremamente fofa, e mesmo que estivesse ali com o breu da noite, dependente da tocha com chamas que começavam a se apagar e da lua, conseguia sentir ser um lugar longe de qualquer perigo. De certa forma, não se sentia mais hesitante e tampouco cansada como estava, era como se cruzar o caminho pelos eucaliptos tivesse sido um grande responsável por uma melhora que ela não esperava e, ou, sequer sabia precisar. Sentia-se em paz.
Desceu do cavalo, guiando-o até a única árvore do lado da estrutura, tomando cuidado com a tocha em uma de suas mãos — mesmo que o fogo estivesse baixo, ainda precisava prevenir qualquer acidente. Amarrou a rédea de Boo no tronco da macieira, fazendo um carinho rápido em seu cavalo, que já erguia-se para comer algumas maçãs mais fáceis de alcançar. Ao se virar para a direção contrária, atrás de suas costas, viu a luz forte pelas prováveis tochas acesas, transcendendo a única janela na torre. Pela primeira vez ela sentiu um aperto no peito e a vontade de ir embora, talvez estivesse indo longe demais com seu ceticismo e aquilo pudesse ser perigoso — como um lobo na pele de cordeiro, não tinha como saber.
Se Hwan II, sábio como era, bania todo e qualquer tipo de bruxaria e o que quer que fosse oposto de celestial, devia ser porque algum bom motivo ele tinha. E como se estivesse pedindo em palavras altas e claras, a porta fora aberta, lentamente, dando passagem para a luz de dentro e um vento, tão forte como os das tempestades do inverno eunwano, soprou, apagando o mínimo fogo que ainda restava em sua tocha. O mal estar que sentia antes e fora amenizado pelo ambiente, simplesmente voltou como uma avalanche e o vento forte foi se intensificando. Seus cabelos presos se soltaram sozinhos e, parecendo como uma forte tempestade, correu para a direção da torre, ainda que preocupada com Boo — o animal, porém, permanecia intacto no lugar.
Dois passos adentro e a ventania cessou, assim como a porta fora fechada em um estrondoso baque.
Era muita coincidência.
Ajustou a própria roupa, batendo no tecido para que o amassado ficasse mais sutil e ergueu o rosto para encarar o arredor. Era pequeno, apenas o pequeno espaço da entrada com algumas tochas do dobro do tamanho da que usou para o caminho feito até ali, deixando toda a iluminação perfeita para que não houvesse um metro sem ser identificado, em especial a escada espiral que seguia o mesmo material da torre: concreto. Pensando nas inúmeras mãos operárias que muito provavelmente trabalharam ali, seguiu o único caminho, descendo degrau por degrau com toda a sua atenção nos passos dados. O saiote pesava, mas ela sabia que era apenas a sensação do mal estar que vinha sentindo ultimamente, e que achou ter passado alguns momentos antes, mas estava errada.
Ao encerrar o último degrau, observou o corredor extenso, um pouco mais escuro e menos iluminado. Pegou a primeira tocha no suporte acima de sua cabeça, colocado na parede à sua direita ali no início do corredor e continuou, desta vez soltou a saia, deixando-a arrastar-se no chão coberto por algo que parecia muito com feno. Não demorou tantos passos para que saíssem dentro do que parecia ser uma sala com uma enorme mesa e livros, alguns velhos e outros irreconhecíveis por tanta poeira e folhas que tinha em cima. Ficou parada no lugar em que estava, sem saber muito bem qual o próximo passo tomar; parecia estar sozinha, não tendo muita segurança no que fazer. E sem contar o silêncio que preenchia todo o espaço, dando a sensação de que ela havia cometido um enorme erro.
Ou talvez estivesse errada apenas no julgamento.
— Há meses não tinha uma ventania como essa por aqui. — Uma voz ecoou, vindo do outro lado do ambiente, revelando a figura alta e esguia de um homem. — Você tem muita coisa carregada ao seu redor.
Concluiu que deveria ser Ceferes, afinal estava ali para encontrar com o homem e só tinha os dois naquele espaço. Porém, nada disse. ficou observando cada movimento dele, como se a qualquer instante pudesse perdê-lo de vista. Ele se moveu até a mesa, na outra ponta oposta à que ela estava, começando a separar algumas coisas — das quais ela não tinha conhecimento algum. E enquanto isso, ela começou a caminhar em volta, analisando cada canto, estava sendo absorvida pelos próprios pensamentos confusos e perdidos, quando ouviu a voz dele outra vez:
— Muito menos me lembro de uma visão tardia. — Se virou para a direção do homem, mantendo-se em alerta. Entretanto, ele continuava focado no que fazia. — Mas deve ter sido por sua relutância em vir.
Por um momento, ela não compreendeu, até raciocinar. Ele era um profeta, saber sobre o futuro era o que lhe fazia.
— Por que se mantém preso aqui, Ceferes? — foi a primeira coisa que saiu pelo movimento de seus lábios. — Se é um homem poderoso, por que ficar aqui e não lá fora?
— Porque poder não é sinônimo de segurança e tampouco está atrelado ao livre arbítrio, ao contrário do que se acredita.
Embora fosse uma pergunta, não esperava que ele lhe desse alguma resposta, afinal, não se conheciam. Mas se manteve interessada em ouvi-lo. Ele parecia estar confortável em sua presença, sem medo dos riscos que a ida dela à sua torre poderia lhe causar. Caso , ou qualquer outra pessoa do castelo, descobrisse que havia saído àquela hora da noite, poderia ter problemas não muito fáceis de lidar.
— Você tem perguntas, não tem? Nenhuma delas será respondida em meio ao silêncio. — Ele a encarou pela primeira vez, fazendo com que sua fala a trouxesse mais um pouco para a realidade.
se questionava, o que não era incomum. Ter sido criada por Catarina no período de formação de seu caráter, foi um fator responsável para que a fizesse uma pessoa cética. Não acreditava em contos, em ilusões, não podia se dar esse privilégio de ser tão sonhadora e sair de sua realidade; tinha que ser o mais centrada possível, tanto que nunca fora uma grande apreciadora das canções e somente à essa altura se atentou para as histórias contadas em suas letras, com isso, passando a se questionar mais em relação a tudo. Um dos objetos de maior confusão em sua cabeça era sobre como Ceferes, ali em sua frente, parecia tão tranquilo e calmo, como se ela não pudesse significar perigo a ele. E aprendeu ainda muito nova que estar presença de qualquer membro da realeza pode ser tudo, menos seguro — lhe deixando um tanto preocupada em estar trazendo esse risco para o mais velho.
Sentiu-se como se fosse uma bomba relógio.
Ao continuar os questionamentos, recordou de quando seu pai a dizia e ensinava sobre poder. Não teve tanto tempo com ele assim como gostaria de ter tido, mas o que viveu e presenciou durante o período de vida dele, já se fez suficiente para que compreendesse algumas coisas. Uma delas era o mesmo que Ceferes disse: poder nunca estará atrelado ao direito de ir, vir, ficar ou seja lá o que se enquadre no âmbito da escolha. “Não importa o quão grande você seja, maior será o ego do outro.”, ele a dizia.
— E quem tem o poder maior que o seu? — perguntou, se apoiando na mesa, sentia-se um pouco tonta e novamente as dores a atingiam. — Se está aqui, sem o direito de ir com seu livre arbítrio, é porque tem alguém acima e que te mantém aqui.
Ceferes nada disse, o que iluminou na mente de a ideia sobre quem seria. Ela não conseguia se manter muito firme em acreditar no que ouvia pelo castelo, sobre as canções serem verdadeiras, mas precisava dar a chance se queria ter respostas. Todavia, se estava se tratando da pessoa a quem ela tinha rodeando por sua cabeça, então talvez não fosse conseguir as respostas que queria. Lealdade era uma das coisas que sua sogra mais prezava em manter intacta; pelo contexto, se tratando de alguém com informações e dotes para ferir tanto a família real eunwana, com certeza ali existiria um grau altíssimo de comprometimento.
— O quão leal você é à Catarina? — Sua voz saiu lisa, sem nenhuma sombra de hesitação e com muita confiança. Como se estivesse escondendo muito bem o próprio mal estar.
Por outro lado, o profeta apenas a encarou, tão límpido quanto a voz dela.
— Meu compromisso é com a verdade.
E como se uma luz tivesse sido acesa de forma única e exclusiva, compreendeu uma boa parte das entrelinhas. Fazia completo sentido que, por ser uma pessoa que não escondia a verdade, fosse mantido por Catarina ali naquela torre, tão fundo no solo quanto um caixão enterrado.
— Então é por isso que ela te mantém aqui. Como isso funciona?
— Não é sobre como Catarina e eu temos nossa relação que você está aqui, rainha.
Poderia soar ridículo para qualquer um que ela ficasse contente ou menos rígida quando a tratavam pelo título que já tinha, trazendo em superfície o respeito sobre seu povo minwano, o que era mais importante do que qualquer outro ponto que usar a coroa, um dia carregada por seu pai, significava.
— Se sabe porque estou aqui, não preciso perguntar diretamente. — manteve os olhos fixos em Ceferes e ele finalizou o que estava fazendo com as ervas, empurrando o copo na superfície de pedra em direção a ela.
— Não precisa perguntar porque já sabe a resposta, não porque de fato ainda tem dúvidas. — Ele retribuiu o olhar, mas de uma forma menos intensa, mais relaxada. — Tome, é um bom chá para cortar o efeito.
— Efeito de que? — olhou do copo para ele, curiosa.
— Tem consumido sílfio. O que está acontecendo, os motivos pelos quais passa mal, é por estar abortando.

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Estava atordoada. Parecia que em cima de seus ombros tinha uma das armaduras pesadas que usava quando iria para simulações de batalhas ou simplesmente precisava usar para estar em cerimônias devido ao seu lugar de classificação no trono. O caminho feito de volta para o castelo foi inteiramente sob o instinto e memória de Boo. Em sua cabeça não ecoava nada além da voz grossa e serena de Ceferes unindo as palavras “chá” e “aborto” em uma mesma frase, e conforme ela ia se lembrando de todas as coisas que foi aprendendo durante sua fase de educação, tudo começou a se tornar mais aterrorizante. Há alguns anos Catarina a oferecia um chá, dizendo ter propriedades vitamínicas que poderiam ajudar a fortalecer o corpo para quando ela fosse engravidar, estar preparada.
Mas era mentira, ela, na verdade, estava oferecendo e viciando em um chá de uma erva descoberta na colônia grega ainda antes de Cristo.
Pelas histórias conhecidas de forma aberta, sendo lendas ou não, sílfio fora descoberto depois de uma tempestade em Cirene, se espalhando a partir de então, de uma forma abundante em muitas colinas, até chegar aos arredores eunwano. Mas não durou nos anos depois de Cristo, a não ser que uma pessoa a tivesse guardado e fizesse o cultivo proibido, uma vez que se acreditava fielmente na extinção da planta por conta de como ela poderia ser usada no mercado negro; a erva, ressecada, fora vendida por muitos para traficantes, em preços altíssimos, a fim do uso mal feito. Entretanto, nem mesmo Teofrasto, um dos botânicos mais conhecidos filósofos da Grécia Antiga, sucessor de Aristóteles e um exímio botânico, saberia explicar o que de fato o sílfio poderia causar de tão mal.
E mesmo em tantos séculos passados e com a troca de uma era, vivendo em uma era depois de Cristo, ainda não se tinha a real noção do poder da planta. Assim como o porquê Teofrasto fora tão incisivo na necessidade de mantê-la longe e cessar o cultivo.
A pergunta que a assombrava era do porquê Catarina queria tanto que ela não tivesse a chance de engravidar e lhe dar um filho, uma vez que a resposta trazia toda a carga de egoísmo que o âmbito da sua realidade se formava: o egoísmo. Mostrava que seu pai sempre esteve certo, afinal. Quanto mais poder você tiver, maior o ego do outro vai aumentando, querendo engolir o que há de você e se tornando hipócrita. Fazia completo sentido, conforme ela raciocinava, se sentia mais sufocada por como tudo esteve sempre abaixo de seu nariz e ao mesmo tempo, não conseguia enxergar nada. Talvez tenha sido a forma como Hwan III sempre a fez se sentir segura, ocupando o lugar que seu pai ocuparia se ela tivesse passado toda a vida em Minwoo, ao lado dele — da forma como gostaria que tivesse sido.
Essa confusão entre acreditar de fato que era sílfio e sua sogra a querendo por baixo, com não aceitar um desconhecido enclausurado e escondido no subsolo de uma torre muito bem construída, que fez não reparar no próprio caminho. Fedora poderia fazer o que fosse, mas nem toda a sua preocupação trouxe sua rainha para a realidade e ela se perdeu entre levar o cavalo para o estábulo ou segui-la pelo corredor de volta ao interior do castelo. No fim, perdeu de vista.
Somente chocar seu corpo contra o de a fez se acalmar. O peito subia e descia, a respiração não se controlava — embora ela não estivesse racionalizando direito para isso — mesmo que quisesse. Se sentia extremamente atacada, desrespeitada e negligenciada. Se não fosse pelo chá tomado por tanto tempo, poderia ter uma miniatura sua e de correndo pelo castelo, os pais de ambos poderiam ter tido a chance de conhecer pelo menos um neto e muitas coisas quanto ao assunto de sua coroação teriam sido enfrentadas de uma melhor forma. Mas se tratava justamente sobre isso: ser coroada rainha de Eunwun. Catarina não queria que o filho subisse ao trono porque ele parecia não estar centralizado para isso, era sobre e o poder duplicado que ela teria por ser rainha de Minwoo e também sentar-se no trono eunwano, usando a coroa tão reluzente quanto os raios do sol.
Infelizmente, a mãe de meu marido estava cercada pelo próprio castelo de cartas, estas que foram moldadas pelo ego.
E se tinha algo que ainda se lembrava muito bem, porém de ensinamento vindo das palavras de seu sogro, era que um indivíduo consumido pelo ego se torna tão oco quanto a imensidão de sua avareza.
— Onde você estava? — A voz de a fez respirar fundo, como se fosse um mantra para que começasse a acalmar-se. Teve seu rosto erguido pela mão dele, com os dedos colocados em seu queixo de forma carinhosa e sutil.
manteve os braços em volta do tronco do marido, mesmo que ele estivesse um pouco estranho em seu tom, como se estivesse bravo por sua saída. No meio do corredor, parados à frente da porta da suíte, iluminados por todas as tochas colocadas milimetricamente nos suportes das paredes, ele estava vestido apenas com uma camisa branca e uma calça da mesma cor, de seda. Os cabelos loiros e compridos caiam por seus ombros, bagunçados, e ela se perdeu ao encarar a imensidão do olhar de . Nas orbes dele, ela estava buscando encontrar o mesmo homem de todas as noites, o único que ali dentro daquelas paredes sujas lhe dava qualquer mínimo resquício de segurança, mas foi uma busca demorada. demorou a parecer com ele mesmo durante aquele encontro.
Quando isso aconteceu, no exato momento que ela conseguiu se sentir mais calma e aliviada por ele ainda estar ali, a encarando como sempre, ficou na ponta dos dedos para alcançar os lábios dele, beijando-o como se fosse a única forma de se manter viva naquele momento. E, diferente das outras vezes, ele notou como era um encontro desesperado, a tomando em seu colo imediatamente para irem em direção ao quarto.

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Os dias nunca tinham passado tão devagar como os últimos. Enquanto tudo era montado e preparado para a cerimônia de coroação, se preocupava em manter-se atenta a tudo que estava acontecendo em seu entorno, fazendo questão de que a única pessoa a se manter próxima fosse Fedora. Nenhum outro serviçal esteve diretamente ligado em seus cuidados, acabando por sobrecarregar a dama de companhia, infelizmente. Mas ela estava acostumada a trabalhar para sua rainha e não fazia conta alguma de se encarregar com atividades extras, tudo, no fim, se tratava de mantê-la segura e confortável, afinal era para isso que Fedora tinha o título que carregava.
Uma das coisas que Fedora ficou incumbida de fazer, sem importar quem ou o quê, foi fiscalizar tudo o que se tratava da alimentação e , já era algo que ela deveria estar sempre atenta, mas com o surgimento da informação sobre sílfio, isso precisou se intensificar. Não foi fácil, mas Fedora conseguiu. Embora fosse Soleil, a dama de Catarina, quem normalmente se atentava sobre as refeições da família real dentro do castelo, ela encontrou uma forma de se misturar e no horário exato em que tudo era servido, estar perto o suficiente para ter certeza de que Soleil não derrubaria o conteúdo de dentro do seu vidrinho, em cima da louça que seria usada por . Quanto ao chá, fora trocado, a mando da própria.
Houve os olhares esquisitos e muito questionamento vindo de — e ela respondia mesmo sabendo que era fruto do que a sogra estava colocando na cabeça dele, porque Catarina poderia enganar a qualquer um, manipular quem quisesse, exceto por , ela despertava a cada dia que passava. Com seu corpo apresentando melhoras, sua disposição retornando e o mal estar deixando de a atormentar, assinou embaixo do que apontava diretamente para a rainha eunwana como culpada de tudo aquilo. E o que fez se sentir mais enjoada, foi por ainda se surpreender. Conhecia-a há muito tempo para que aquilo fosse levado como uma simples situação pontual, não, fazia muito bem o estilo de Catarina, era digno de pena aquele que se deixasse levar por seus meios de manipulações.
O que para , já não existia mais.
Estava parada em frente à enorme porta do salão real, local em que todas as cerimônias e festas eram feitas e onde ficava o trono real. Aguardava se colocar ao seu lado para que entrassem os dois formalmente, cruzando todo o caminho aberto para que parassem acima dos degraus no ponto a frente de todos os convidados. Em seu peito, somente a angústia se fazia presente, era para ele estar ali ao seu lado há tempo, mas estava demorando. Quando cogitou a hipótese de ir verificar se estava tudo bem com o marido, foi barrada pelos guardas que sempre andavam ao lado dele, como uma ordem do próprio.
Então o que pôde fazer foi parar ali e esperar.
Ao sentir a presença de alguém parando ao seu lado, respirou fundo. ergueu o rosto, olhando para a feição pálida de . A cicatriz que marcava a pele dele nunca havia a assustado ou chamado sua atenção de alguma forma, mas naquele instante que o encarou, de forma ladina, sentiu um arrepio por todo seu corpo, como se estivesse longe de qualquer superfície segura e sim em cima de uma corda fina e bamba. não a passava segurança como em todas as vezes anteriores, desde que se conheceram tão novos, já prometidos um ao outro — quando se mudou para o castelo eunwano —, ele estava parecendo como qualquer outra pessoa que ela não conhecia e não tinha tanta certeza sobre os traços de personalidade. Era como se estivesse distante e isso estava acontecendo a cada dia que passava, desde o falecimento de Hwan.
Sabia que ele tinha preocupações quanto ao estado em que ficaria o reino devido o falecimento do pai; ele precisava se preocupar com as alianças, como todos os outros em reinos aliados iriam agir, o que seria exigido de Eunwun, enfim, toda a parte que carregava o peso da coroa, mas parecia que ali tinha muito mais que isso, que nenhuma preocupação parecia ser razoável o suficiente para que o distanciasse de quem era. E ela sabia que Catarina não estava ajudando.
— Você está bem? — perguntou, tentando agir normalmente e não transparecer o receio que tinha. Ele apenas a olhou com um único movimento ocular.
— Por que não estaria? — A voz saiu séria demais para o que ela estava acostumada.
— Parece tenso. — esticou o braço, alcançando a mão dele e a apertando suavemente, em um ato de demonstração de companheirismo. — Não precisa se preocupar, querido, tudo dará certo. Temos aqui quem respeita Eunwun e isso é o que importa. Os outros sentirão posteriormente a consequência das escolhas feitas.
virou o rosto para a direção de , olhando-a com uma feição vazia.
— Respeitar Eunwun não é uma opção, deve se tornar um dever — disse ainda com a mesma entonação.
Ela não pôde respondê-lo imediatamente, engoliu a seco, lembrando-se de como aquela mesma frase havia a aterrorizado dias antes durante uma breve reunião ainda sobre a coroação e seus convidados. Para Catarina, Minwoo não era um reino aliado e sim um sub reino de Eunwun, como um servo pronto para eles, e era contra. Se tratava de seu povo, suas raízes e sua coroa.
— Você falou igual à sua mãe. — Não conseguiu reprimir a resposta, diminuindo o volume da voz ao notar que dois guardas se colocavam às laterais da porta. Iriam entrar.
— Deve ser porque sou filho dela, não acha?
Outra vez não respondeu, porém desta, não teve nem mesmo uma resposta tardia.
A porta foi aberta e logo a frente a primeira figura nítida que ela viu foi a sua sogra, parada ao lado do trono em que ocuparia. Elas se encararam, parecendo não existir qualquer distância as separando fisicamente, e todo o caminho feito desde a porta até o ponto final, nenhuma das duas desprendeu o olhar da outra. Apesar de ser uma batalha intensa, não era possível a ninguém ao redor notar qualquer coisa ou estranhar como as duas se olhavam com superioridade daquela forma. Talvez a pessoa mais atenta, que não estivesse preocupada com os detalhes do vestido, do cabelo e qualquer item que estava presente no conjunto todo que compunha a rainha a ser coroada, ainda acreditaria que aquela troca de olhares incessante se tratava de uma ligação que poderia ter com sua sogra, uma vez em que fora criada por ela em grande parte de sua vida.
Como se tratasse de uma filha.
Mas não era muito bem assim.
Catarina poderia ser ou ter qualquer grau de ligação com ela, mas nunca seria como o de uma mãe. Pode ser que em algum momento em sua vida, tenha tentado colocá-la neste degrau e manter, mas não conseguiu e nem mesmo teve motivos para isso. Aprendeu sim muitas coisas boas com a mãe de seu marido, mas as demais, o que sobrou como contrário, sobressaíram. E isso também ficou mais claro depois do encontro com o profeta que sabia sobre tudo e todos, principalmente a profecia e os segredos de Catarina que envolviam os outro — ele não a contou nada que fosse puramente pessoal da rainha, apenas o que envolvia , fosse por tabela ou diferente; era um ser de dom etéreo, Ceferes possuía amarras, nada que pudesse ser julgado como errado deveria ser feito, não cabia à saber de todo o âmbito de Catarina se não fosse a colocar em meio à situação, direta ou indiretamente.
Ceferes não podia mentir, ele era um ser cujo dom fora dado por meios divinais, embora fosse confundido com bruxaria pelos mais ignorantes — o caso do rei falecido —, então mesmo que tenha levado alguns dias e sido necessário a existência de alguma prova para acreditar no que ele a disse, finalmente estava certa de que dividia castelo com uma pessoa egocêntrica e que não a daria e ao menos se esforçaria para dar segurança. Para Catarina se tratava de poder, consumir tal de forma desenfreada, sem importar qualquer ser que fosse. Mas ela não queria agir à imagem e semelhança de sua sogra, seria diferente, usando de um perfil mais maduro e que lutaria para carregar dia após dias, a fim de mostrar à sua sogra que não era mais nenhuma criança e que teria capacidade absoluta para manter dois reinos alinhados, assim como não colocar em risco nada do que ela conquistou com Hwan.
Sobre essa parte, poderia agir, mas quanto ao restante, não tinha nada o que poderia fazer, principalmente ao se tratar da profecia e de com sua cicatriz.
Durante toda a cerimônia os olhares se confundiam entre a beleza da rainha e o brilho das duas coroas que foram colocadas em cima da cabeça de seus reis, coroados naquele instante, com a feição de , marcada pela cicatriz — que naquele dia estava mais vermelha que nunca, parecendo ter sido um arranhão recebido por um urso de uma única garra afiada. Sobre isso ela não poderia fazer nada, ao menos que tudo começasse a se desenhar da forma como era citado em toda a tal profecia. E se isso acontecesse, teria uma carta em sua manga.
Para não se manter rígida durante toda a cerimônia, tentou evitar o transtorno em sua mente, focando nos cumprimentos após a coroação, sentada em seu trono de forma confortável. Ao seu lado, em uma das cadeiras de muito luxo, estava Catarina. Não haviam trocado nenhuma palavra além do que seguia o protocolo até aquele momento, quando a fila de cumprimentos cessou e tudo no salão começou a se encaminhar para a tão aguardada festa.
— Esteve muito calada hoje, está se sentindo bem? — A voz de Catarina ecoou e as duas permaneciam na mesma posição, eretas, com as mãos postadas em seus respectivos colo e com o rosto para frente.
— Estou bem. — foi simples em sua resposta.
— Bem, então estou certa… Você mudou, não era quieta assim — insistiu.
respirou fundo, comprimindo os lábios.
— Parece distante. — Catarina novamente iniciou, desta vez, porém, virando-se para encarar o perfil da outra. — Entenda, os assuntos que envolvem a questão da convivência entre os reinos não devem entrar no meio de nossa relação. Você é a esposa do meu filho, a jovem minwana que eu terminei de criar-
— Você terminou de me criar com um único interesse, Catarina. — a cortou, sem alterar o volume da voz ou ser rude. — Não precisa vestir uma falsa armadura para forjar nossa relação — riu fraco, se mantendo na mesma posição.
Catarina emitiu uma sílaba assoprada, umedecendo os lábios e virando o rosto novamente para frente.
— Realmente, você não é mais a mesma — proferiu audivelmente, com seu tom de surpresa.
— É bom se acostumar, Catarina. — virou o rosto para a sogra, olhando-a de forma superior. — Agora eu sou uma rainha e não mais a criança que você ofereceu uma moradia em troca de alimentar uma aliança fajuta. — Seus lábios se fecharam em uma linha reta, tendo a atenção novamente da outra. — Muitos irão sentir falta da princesa frágil, mas infelizmente, ela não volta mais.
Sem dar a chance de resposta, se levantou, caminhando friamente pelo salão, com Fedora logo atrás de si, movendo-se tão depressa quanto para que não a perdesse. Uma vez no corredor, fora do grande centro de pessoas falando e ouvindo sobre tudo, se apoiou na primeira parede que viu, olhando o céu claro do lado de fora. Fora um péssimo momento para que tivesse decidido criar qualquer laço com o rei da Inglaterra, Etereldo II, e a deixado sozinha. Sua cabeça estava tão cheia, que conseguiu passar por cima da decisão de não confrontar e agir normalmente perante à Catarina.
— Majestade?
Ouvindo a voz de Fedora atrás de si, não tardando, como de costume, reuniu forças dentro de seu corpo para endireitar-se e proferir uma ordem, não um pedido:
— Quero que falsifique uma carta vinda de Minwoo, com a informação de que minha presença fora solicitada. Sem questionamentos, Fedora, apenas faça. — Antes que a dama pudesse questionar qualquer coisa, ela acrescentou: — E eu preciso que encontre pólen, não me importa como, mas quero isso para ontem.

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— Mantenha sempre a postura, majestade.
Sidorf indicou para , com sua voz grossa ecoando por todo o pátio, enquanto a encarava de modo disciplinado; o general era sempre muito frio e mantinha sua postura estritamente à sua posição, levando a sério o cargo que levava com muito orgulho e paixão. Ela seguiu o comando, estufando mais o peito e erguendo o rosto, deixando-o ereto. Sua mão apertou firmemente a bainha, puxando a arma pesada para fora, sem muita dificuldade devido ao costume que já tinha de carregar a espada de prata. Não era recomendado e bem pouco fora foi visto mulheres carregando o objeto e aprendendo a utilizar corretamente no século X, assim como a rainha tinha aulas semanalmente desde que completara vinte primaveras. Isso fora resultado de uma imposição de seu pai, quando voltou de uma batalha, com a filha ainda perto de completar quinze anos, acreditando que seria muito importante convencer Hwan III de que era primordial as mulheres saberem, ao menos, se defender.
Então ali estava a recém coroada rainha, uma semana depois de ter sido oficialmente apresentada ao seu povo com seu marido em uma cerimônia voluptuosa, aprendendo em sua segunda tarde no pátio externo dos fundos do castelo. Fedora observava de longe, atenta ao que sua rainha fosse precisar de repente; havia saído cavalgar pelas redondezas e Catarina estava desaparecida — naquele dia parecia mais nervosa e preocupada do que nunca, até mais do que esteve na coroação. tinha notado como a sogra estava inquieta e isso a deixava as histórias que contavam sobre a profecia ficassem mais reais. Entretanto, manteve seu foco durante aqueles dias que se passaram, ela tinha os próprios planos para colocar, de uma vez por todas, a história totalmente a limpo.
— Nunca abaixe sua guarda e deixe que seu oponente veja o quão cansada está. — Sidorf tornou a dizer. Eles estavam em uma “caminhada” circular, lenta, fazendo parte de uma forma dele para mostrá-la como deveria ser sempre atenta e manter as estratégias. — Se o der essa oportunidade, nem mesmo o mais rápido dos golpes poderá lhe salvar — aproveitando a oportunidade de desatenção, notado por ele de forma calculada e devido sua experiência, Sidorf a desarmou antes mesmo que pudesse manter o aperto firme no cabo com a espada para cima. — Um único movimento, majestade — disse encarando-a nos olhos, com a ponta de sua espada no meio do peito de , um pouco abaixo do decote quadrado de seu vestido.
A rainha respirou fundo, torcendo os lábios. Preparou-se para pegar a espada, quando, ao fazer o movimento de abaixar-se no chão, ouviu a voz tão conhecida dizer seu nome. Além do timbre, saberia que era Catarina se aproximando por trás, uma vez em que Sidorf fez sua reverência.
— Majestade.
— Nos dê licença, Sidorf. Eu mesma irei praticar com , é bom, temos a mesma força feminina. — Catarina ordenou.
estava se endireitando novamente, segurando a espada ao lado de seu corpo, enquanto a sogra fazia a volta para parar no lugar de Sidorf e tomar a arma que ele tinha em mãos. Pegar no cabo, para Catarina, não parecia nada difícil, ela muito bem deveria estar familiarizada com aquilo e se sentiu incomodada com o fato de não se lembrar muito bem em já ter visto ela praticar. Isso a frustrava, porque a cada dia que passava começava a notar ter sido cega em muitas coisas por muito tempo.
Parecia que estava descobrindo um novo mundo com o passar dos dias, como se sua vida tivesse um divisor muito importante para seu passado do que estava acontecendo no presente e iria gerar de consequência no futuro. E esse divisor era o falecimento de Hwan.
— Achei que estivesse ocupada com seus interesses, estava sumida. — disse, decidindo a manter um diálogo, talvez pudesse ser o primeiro que teriam sem respostas monossilábicas e com ela, de fato, cumprindo com o desejo de se mostrar imparcial.
Estava dando muita abertura para Catarina notar sua mudança. Isso não era aceitável. Principalmente naquele momento, que se desenhava desde a coroação, quando ordenou Fedora à duas atividades primordiais.
— Muito bem, contei nove palavras nessa frase. Estamos evoluindo? — Catarina respondeu com o tom sarcástico. apenas continuou a encarando. — Vejo que está bem disposta. Erga sempre a espada assim, à altura exata de seu corpo, de forma um pouco inclinada. Isso te dá o preparo para golpear seu adversário de forma menos limitada.
A mais velha fez o movimento, usando apenas uma mão para segurar no cabo da espada, enquanto a outra repetiu o mesmo disciplinadamente. Ao redor, Fedora e Sidorf, lado a lado e um pouco afastados das duas, observavam e ouviam a conversa. A dama se sentia um pouco apreensiva, tornando- se cada vez mais complicado de se manter distante daquele assunto da família real, principalmente com o fato de sua senhora a colocar naquela posição de cumprir atividades em extremo segredo. Ela temia que o rei tomasse conhecimento dos segredos de , o que parecia próximo de acontecer a cada minuto que via a forma como Catarina estava a tratando, sempre desconfiada de algo. Na nova estrutura, algum tempo depois do luto pelo falecimento do rei Hwan, o filho parecia diferente e Fedora notava, além de ter visto inúmeras vezes o próprio sozinho em salas, falando com as paredes e em momentos de desespero.
Em um outro cenário, talvez não temesse a reação dele, mas na atual conjuntura dos dias da realeza eunwana, não poderia afirmar com certeza.
— Deve saber se defender muito bem para os dias que irá passar em Minwoo, rainha.
As palavras que saíram da boca de Catarina deixaram em alerta, mas ela obrigou o próprio corpo a não se mover de forma que entregasse sua surpresa ao ouvi-la falar.
Fedora, em meio a formigamentos, adiantou-se rapidamente, decidida a entrar no meio e inventar alguma coisa que pudesse trazer outra rota para aquele assunto, mas foi mais rápida:
— Estarei indo para o lugar em que cresci, não um reino com sintomas odiosos.
— Você continua acreditando que os minwanos ainda a respeitam? Eles não sabem nada sobre você, criança. Não a viram crescer e ao menos tem conhecimento sobre qualquer respeito que tenha por eles. — Catarina dissertou, não evitando o sorriso em deboche. — O que eles sabem é que seu pai a usou como uma moeda de troca para uma aliança que você já sabe ter sido enterrada ao fracasso.
— Deveria duvidar menos de sua rainha, Catarina.
— Não é minha rainha. É a esposa do meu filho. — Ela a rebateu. Em nenhum momento as duas abaixaram as espadas e diminuíram o espaço que as separavam. — já sabe sobre a carta?
— Isso não lhe cabe saber.
Antes que Catarina pudesse rebater com mais uma fala ou pergunta atravessadas, uma tosse seca a atingiu. não demonstrou nenhuma reação e nem mesmo Fedora se moveu, estavam mantendo-se firmes em suas posições. Mas, mesmo que fosse de sua intenção ajudá-la, não teve tanto tempo, a sogra foi mais rápida em iniciar o primeiro golpe, travando o começo daquela luta com as espadas. O tilintar dos metais batendo-se, com as lâminas afiadas e preparadas para causar o estrago que fosse, pelo mais mínimo golpe dado, se tornou intenso. Sidorf tinha seu cenho franzido para a rainha que parecia saber muito bem como usar o objeto, tendo uma mão no cabo de forma extremamente perfeita, usando o guarda-mão como limite de movimento, para que seus dedos não deslizassem para cima, enquanto a outra usava de apoio no pomo.
Inicialmente, Catarina teve sua vantagem. Ela era ágil e prática em seus movimentos. Elas andavam pelo pátio, de forma circular, trocando os pés — demorou um certo tempo para que se acostumasse com o ritmo e até se viu próxima à tropeços por não ter uma coordenação motora correta para aquilo. Por fim, não tinha uma ou outra em desvantagem, os golpes estavam sendo do mesmo nível e afinco. Porém, de uma forma inesperada, Catarina vacilou em um movimento que trazia sua espada de baixo para cima, sendo a oportunidade perfeita para que tivesse tempo e ângulo em sua sequência de golpes. Somente parou quando os passos para trás de Catarina cessaram ao bater as costas contra o concreto e seu corpo caiu ao chão, fraco e em meio às tosses secas.
— Mãe!
A voz de fora ouvida e deu um passo para trás, vendo-o se aproximar. Ele não usava mais a armadura que tinha vestido para sair naquele dia mais cedo, estava limpo e tão lindo como ela sempre se lembrava. O seu jeito desesperado por preocupação, porém, a deixou triste, pois passou reto por seu corpo, abaixando-se até a mãe.
Se sentiu culpada por um certo momento.
— O que vocês duas estão fazendo? — Ele disse alto e rude.
— Querido… estava ensinando . — Catarina respondeu, parecendo um pouco fraca e com sua voz profunda. — Ela irá até Minwoo amanhã e deve estar preparada — completou, tendo o respaldo dos braços de para se levantar, com o corpo um tanto mole.
O olhar de sua sogra foi muito bem sugestivo. não sentiu nada, apenas aquele sentimento negativo misturado, sabendo que a sogra tinha total conhecimento do que foi que aconteceu durante aquele embate e que a fez começar a passar mal. Estava sendo falsamente cuidadosa com a forma de responder ao filho e ela sabia que no momento que desse as costas para Eunwun e fosse em direção ao seu objetivo, só poderia voltar com ele cumprido. Caso contrário, poderia considerar sua cabeça na guilhotina por tentar envenenar a mãe de seu rei.
— Minwoo? Você não me disse nada! — Ele se virou, ainda dando apoio para a mãe, olhando-a com sua feição de desagrado.
Se sentia mal a cada vez que ele a olhava daquela forma. Era como um pesadelo notar que seu sempre doce , de uma hora para a outra, parecia se distanciar mais e mais de seu jeito comum e atingir aquele perfil desagradável que ela via em outros reis do continente afora.
— Ela ficou sabendo hoje, querido. Agora há pouco, na verdade.
Não sabendo se deveria aceitar a desculpa de Catarina, ela apenas esperou pela resposta de .
— A senhora está bem para ficar no comando de Eunwun enquanto estivermos fora?
O desespero no peito de a fez se colocar novamente entre o assunto, de forma rápida e precisa.
— Não precisa, . Eu vou sozinha, foi solicitado a minha presença. Você pode ficar aqui, sua mãe não parece muito bem. — Seus olhos miraram diretamente os dele, que pareciam confusos e ao mesmo tempo desgostosos.
— Você não pode ir sozinha.
— E você não pode deixar ela aqui, assim. — manteve o tom suave, unindo suas forças. — Levarei comigo os guardas que forem necessários e tentarei não demorar. Não precisa se preocupar, meu bem — tocou no ombro dele.
Um breve silêncio se fez entre os três e, após alguns segundos naquela troca de olhares de e , após ele mover suas orbes do toque dela em seu ombro até seus olhos, a voz de Catarina, tão doce como nunca, soou de forma audível:
— Escute a sua esposa, filho.

🏰


Fedora estava preocupada. Nunca havia sentido tamanho aperto em seu peito com alguma situação envolvendo sua rainha; dentre todos os anos ao lado de , desde o dia em que ela se tornara oficialmente uma mulher, não teve um momento como aquele em que se sentiu extremamente preocupada e com medo da situação. Ver a carruagem em frente ao castelo, pronta para a partida de , estava a deixando apreensiva. A decisão de levar Nahari como a dama de companhia a ficar do lado da rainha durante o período em que visitaria minwoo, passou despercebida por qualquer um, mas Fedora colocaria sua mão no fogo para apostar com quer que fosse, que Catarina, mesmo em uma cama e completamente derrubada por, fosse lá o que havia acontecido, estava atenta sobre aquele detalhe mais do que simples.
— Você não deveria estar tão preocupada, Fedora. — parou ao lado de sua dama, ao final da escadaria do castelo. — Pode ir, Nahari, preciso de um momento com Fedora — ordenou à dama e assim ela a obedeceu.
— Senhora , não vá. — O pedido saiu como uma súplica. — Não é seguro. Se o rei descobrir que a carta foi forj-
— Não diga essa atrocidade! — a cortou imediatamente. — Você deve esquecer isso, ouviu?
— Mas, majestade…
— Não tem outra alternativa, Fedora. Estou indo em busca de uma solução para que nosso povo não sofra. — A rainha suspirou. — E fique tranquila, garanto que ninguém saberá sobre seu conhecimento de todos os detalhes. Também há coisas que não passaram por seu conhecimento, você está segura.
Fedora engoliu a seco, olhando para os lados.
— A senhora já é rainha, não se faz suficiente?
— Não enquanto Catarina tiver seu castelo de cartas em pé — respondeu certa. — Estou indo descobrir o grande segredo dessas paredes, Fedora, e tentar entender no que eles podem ser úteis para eu proteger Minwoo dos pecados que este reino cometeu e nos gerou toda a balbúrdia.
O olhar de Fedora não mudou, continuava o mesmo, demonstrando todo seu medo.
— Só me faça um favor, cuide de . — O pedido da rainha conotava seu sentimento, também soava como um medo. — Eu não sei se o que vou descobrir irá mantê-lo de pé e ele não é mais o mesmo, então… Garanta que ele ficará bem.
ergueu o rosto para cima, vendo, na sacada, o marido. Os fios loiros compridos, que passavam da altura dos ombros, bem penteados e com uma parte presa no topo de sua cabeça, recebiam a brisa leve, causando um movimento esvoaçante. O olhar de era direcionado à ela e parecia que aquele era um último momento em que ela podia vê-lo como era de fato, ainda que estivesse um tanto distante do verdadeiro homem que havia conhecido mais nova. Seu peito se apertou só com a lembrança de que qualquer decisão tomada a partir daquele momento colocava mais em risco a relação que tinha com ele e não podia negar em como isso a torturava, se tratava do homem que amava e o único do qual havia tido em toda sua vida. Embora a relação fosse resultado de uma aliança entre dois reis em busca de poder, o sentimento que nutria por era genuíno e sabia que o inverso era recíproco.
Se lembrar das letras e do que dizia a profecia, fazia com que ela tivesse calafrios. Precisava encontrar um meio de protegê-lo também, mas ao ser obrigada a escolher por suas estratégias, o destino de ficaria em um outro plano.
Afinal, governar deveria ser isso. Não deveria?
Sorriu com os lábios fechados, recebendo a carranca dele. Os olhos estreitos em sua direção não se movimentaram e ele permaneceu na mesma posição: apoiado no concreto que fazia o pequeno muro daquela sacada simples. Seus dedos se movimentavam em sintonia, demonstrando sua impaciência — não estava nem um pouco feliz com a decisão dela de ir sozinha para Minwoo, mas nada pôde fazer, acatando ao que sua mãe lhe dissera. Por fim, engoliu o bolo em sua garganta.
Estava decidido. Ponto final.
O que aconteceria a partir dali traria consequências e ela deveria estar preparada para isso.
— Eu só espero que ele possa me perdoar um dia. — Se virou de volta, suspirando. — Adeus, Fedora.
— Senhora
A despedida foi rápida e finalmente terminou a caminhada para a carruagem. Antes de entrar, Fedora a viu se virar outra vez para trás e sua decepção foi tão enorme ao ver que não estava mais ali, que a dama pôde notar estar estampada na feição da rainha. Observou a única e solitária lágrima rolar por sua bochecha direita, denunciando sua tristeza. Sem a limpar, usou da mão oferecida pelo guarda para subir e sentar-se confortavelmente em seu lugar ao lado de Nahari. Lugar este que deveria ser ocupado por ela.
Assim que viu a carruagem se afastar, Fedora retornou para o interior do castelo. Os corredores nunca se fizeram tão grandes e extensos como naquele momento. Não conseguia parar de pensar em como seriam seus dias a partir de então, até o retorno de sua rainha — a esta altura ela já se via mais do que ansiosa para tal. Estava se sentindo um tanto sem rumo, não saberia o que fazer e como preencher seus dias, todas as coisas de se mantinha organizadas e não lhe foi deixado nenhuma indicação. Ela ao menos sabia de fato tudo o que sua senhora havia planejado e tramado.
Era como rodar e rodar, mas não parar em nenhum lugar.
Estava tão sem rumo e confusa, que somente notou para onde seus passos a guiaram, quando reparou na enorme porta de madeira do quarto de Catarina. Conseguia ver parte do cômodo e os cabelos inconfundíveis do rei denunciaram sua presença ali. A voz, tão logo, se fez presente e quando deu por si, prestava atenção na conversa dos dois pelo vão da porta aberta por um descuido do rei.
— Ela já foi? — A voz de Catarina foi a primeira a ser ouvida. Era estranho vê-la tão abatida e com o volume baixo, mesmo que não a deixasse menos firme em suas escolhas de palavras; a sogra de sua rainha havia passado muito mal na tarde anterior depois do embate com as espadas e até então ninguém sabia como e nem o motivo. Somente tomavam cuidado com a saúde da mulher.
— Acabou de ir. — respondeu sereno. — A senhora parece estar querendo me dizer algo.
… Tinha pólen naquela espada.
— Pólen? Mas meu pai havia mandado cortar todas as árvores e tudo o que fosse fonte disso! — O tom nervoso do rei deixou Fedora em alerta. Isso se tornava cada vez mais comum. — A senhora estava com a espada de quem?
— De Sidorf, mas não foi ele quem colocou pólen no cabo.
— Quem teria sido? Quem iria querer fazer mal à senhora, minha mãe?
Um breve silêncio foi suficiente para que Fedora tivesse tempo de refletir. Era mais do que óbvio e ela se sentiu traída, ao mesmo tempo muito inocente: para que hesitasse entre ir ou ficar, ela precisava de um motivo e este fora a mãe de seu marido, e o que poderia abater Catarina era sua alergia a pólen.
Ela havia encontrado grãos de pólen.
— Sua esposa tentou me matar, filho. Ela trama algo e nós precisamos descobrir. Escute sua mãe, mande guardas de sua confiança para Minwoo.
Foi preciso que Fedora levasse a mão à boca ao ouvir a última fala de Catarina, ou então sua presença seria denunciada.
De uma coisa ela tinha total certeza: fosse lá o que tinha em mente, ela deveria atingir seu objetivo ou então, o que lhe atingiria seria a guilhotina.


Parte 3 — Vida Longa À Rainha

“E se a floresta entrar,
Durante a noite sua dor irá cessar,
Porque nela estará aquele que a nós pode curar
E da cicatriz resguardar”


963 d.C

O choro do bebezinho no enorme salão real lhe irritava, mas não podia sair do lugar que estava, era proibido a princesa minwana se mover enquanto a rainha e o rei não entrassem para o café da manhã, e ela, certamente, odiava essa espera, parecia fazer seu corpo todo doer em ansiedade e inquietação. E com aquele barulho estridente em seus ouvidos fazia tudo ficar pior, ela só sabia encarar os próprios pés e suspirar, pedindo clemência por tamanha demora de seus pais, envolta de sua inocência infantil que a impedia de saber a realidade de todos os fatos que cercavam seu reino e, consequentemente, sua história.
— Se você continuar curvada assim, irá sentir suas costas doerem.
Virou o rosto para a direção da voz ao ouvir a fala serena. Era Agnus, seu primo, como sempre tão cuidadoso em suas sentenças, soando mais preocupado em como a princesa receberia seu tom do que qualquer intenção em a informar, sabendo do seu papel de primo pelo lado materno sendo três anos mais velho.
— Eu não aguento mais esperar! — respondeu imediatamente, arrancando uma careta do menino ao sentar-se no banco e apoiar-se com os cotovelos na superfície de madeira grossa que compunha a marcenaria da extensa e majestosa mesa, colocando sua cabeça entre as mãos.
— Princesa… Seus pais… — ele sussurrou, ao ver os olhares duros que recebeu dos demais adultos naquele ambiente; por mais que fosse uma criança como ela, ainda era visto como um bom responsável para servir de conselheiro. Desgraçada a hora em que ele foi moldado em seu caráter como um bom rapaz. Talvez, se fosse como seu irmão chorão, poderia estar livre de tal responsabilidade; e ele tinha certeza de que o bebê iria crescer e ter uma vida menos controlada e planejada que a dele.
não demonstrou mudar seu posicionamento, continuou emburrada, balançando suas pernas curtas que não tocavam o chão pela altura em que estava naquele assento. Isso intensificou o desespero de seu primo, fazendo ele se ver obrigado a abaixar-se ao lado dela, dizendo em sussurros:
— Por favor, princesa… levante-se. Seus pais logo chegarão.
— Não quero, estou cansada! Minhas pernas doem, Agnus — ela relutou em tom firme, decidida como poucas crianças da sua idade se demonstravam.
Outros olhares estavam sendo direcionados aos dois, mas nenhum adulto parecia querer tomar uma atitude, a falta de tal servia como um aprendizado para Agnus.
— Quando o rei e a rainha chegarem, você poderá se sentar outra vez — insistiu.
Ela ergueu apenas o olhar dócil a ele, contrariada e demonstrando sua infelicidade com o bico formado em seus lábios. Manteve sua tentativa de convencer o menino com seus olhos brilhantes, a feição pincelada de inocência, mas não deu certo, pois Agnus já tinha aprendido bastante com o tempo e começava a ser mais firme com o passar dele; sua mãe sempre lhe dizia para não deixar ser confundido pelas intenções da realeza, por mais puras que elas pudessem ser, e ele estava aprendendo, embora devesse estar nas ruas dos vilarejos ou até mesmo nos corredores do castelo com outras crianças para brincar e viver sua época infantil, livre de qualquer responsabilidade a qual não deveria se preocupar.
Não durou por mais tempo a tentativa falha da menina, ela suspirou pesado e se rendeu, porém era tarde. As portas foram abertas e o casal real entrou, observando tudo e em todos os detalhes, e o susto das duas crianças foi tamanho que sequer notaram o choro do bebê ter cessado, deixando o ambiente completamente quieto.
— Mamãe… — se atrapalhou ao levantar-se, correndo para a direção dos seus pais.
Agnus encarou o olhar do rei em sua direção, curvando-se para ele com afinco, mas não recebeu nenhum tom severo, para seu alívio.
, o que falamos sobre a disciplina? — o rei repreendeu a menina.
— Não seja rude com ela — a mãe o repreendeu em sequência, abaixando-se diante da princesa. — Nossa princesinha hoje pode tudo, não é mesmo, meu amor? — Lançou para a filha o melhor e mais caloroso sorriso.
Ao dizer isso, o rei pareceu diminuir muitas camadas de sua postura, abaixando-se para ficar na altura de . Ele e a esposa olhavam a filha com muito carinho e Agnus não compreendeu de onde havia saído aquela comoção tão incomum nas manhãs da realeza. Não era acostumado a ver o rei e a rainha demonstrarem tanto afeto publicamente, mesmo já tendo noção de que não eram dois tiranos.
— Mamãe, eu vou poder usar meu vestido rosa hoje? — perguntou de forma melódica.
— Sim, meu amor. — A rainha sorriu de forma mais aberta, pegando na mão dela e desviando o olhar brevemente para o marido.
— Você será a princesa mais linda que Eunwun já viu.
E como em um estalo muito forte, Agnus olhou para a direção de seus pais, lembrando-se da conversa que haviam tido não fazia muito tempo, sobre a promessa de casamento da princesa e futura rainha minwana para o filho do rei de Eunwun, causando a partida dela na primeira tarde da sua quinta primavera.
deveria ir embora naquela tarde e seu vestido rosa era a roupa da despedida. Mas ele sabia que aquele sorriso de sua tia escondia uma grande tragédia, embora ela estivesse sendo forte demais combatendo o que ninguém conseguia desvendar e estava levando sua saúde embora.


🏰


977 d.C

Se dissesse que tinha alguma lembrança totalmente viva de Minwoo, ela estaria mentindo. Entretanto, conforme a carruagem cruzava o caminho em direção ao palácio, ela sentia o estômago se revirar com o que via; os civis paravam qualquer atividade que estavam fazendo para encarar sua chegada com o olhar perdido e profundo em uma extrema repulsa que, mesmo impessoalmente, ela estava conseguindo sentir e notar conforme passava. Não sabia dizer exatamente por que estava sendo recebida de tal forma, mas qualquer um em uma breve interpretação de ambiente saberia. O vazio da fartura em diversos pontos, não só em alimentação, mas também no sentido de perspectivas, era absurdo e aquela sombra da miséria gritava em seus ouvidos e brilhava como diamantes sob seus olhos.
Esperava encontrar um lugar diferente, não negaria. Não tinha memória de como era antes, na época em que viveu ali ainda criança, mas tinha certeza de que deveria ser completamente diferente, era impossível o contrário. Seu pai nunca deixaria Minwoo padecer assim, seu reinado de abundâncias havia sido contemplado com o interesse eunwano, o maior reino de riquezas no continente, e isso dizia muito sobre como os minwanos eram banhados em bênçãos, sendo uma grande fonte de força e manufatura no continente. Era dali que saía para os outros vizinhos toda a cartela da agricultura com os trabalhos braçais. Certamente, não existiam reis e rainhas perfeitos e impassíveis de erros, pecados e interesses, ela vivia em um teto que colocava muito disso a prova, mas afirmaria com sua vida que Minwoo não estava miserável daquele jeito por qualquer erro absurdo de seu pai.
Ou pelo menos era o que acreditava por ora.
Foi um caminho demorado pela estrada que a carruagem percorreu até parar na enorme entrada do palácio e estava exausta, não era um cansaço da viagem, mas de tudo o que seu corpo estava enfrentando, abarrotado em traumas que foram sendo acumulados durante os acontecimentos de sua vida. Precisou ter a ajuda de Nahari para descer da carruagem e conseguir se equilibrar, sentindo uma vontade absoluta de arrancar o vestido que usava e entrar em um rio com cachoeira alta o suficiente para ter uma queda d’água violenta; se colocaria debaixo dela para tentar lavar tudo o que impregnava em seu físico, deixando-lhe menos pesada. E assim que se endireitou, com os pés firmes no concreto, observou o seu arredor, sentindo um aperto no peito, passível de fazê-la desmaiar e cair sobre os próprios joelhos trêmulos. Em sua rasa lembrança alimentada pelas histórias de seu pai durante visitas esporádicas: o palácio de Minwoo era colorido até mesmo durante a noite, diferente do vermelho e ouro fortes em Eunwun, mas à sua frente tinha uma sombra de abandono que sequer sabia ser possível existir. Era o reflexo dos rostos que encontrara durante seu percurso até ali, o alto da colina.
Teve o amparo do braço de Nahari, pois a dama notou que sua rainha parecia atordoada.
— Isso… Isso… — gaguejou, tentando limpar o nó em sua garganta. Não conseguindo formular algo coerente, se soltou de Nahari e deu passos à frente, subindo os degraus da escadaria.
Ninguém teve coragem de segui-la, os guardas que a acompanhavam e a única dama ficaram parados no lugar, petrificados, observando a rainha absorta em sua incredulidade enquanto trocavam olhares curiosos entre si.
Os dedos de tocaram a parede da primeira pilastra que alcançou, sentindo o áspero da estrutura sob seus dígitos, tão maltratada e esquecida, completamente cinza para além da cor do concreto que formava a construção. Parecia um corpo morto, sem vida, sem memórias. Ela tinha poucos flashes de sua versão infantil correndo por aquele lugar, sempre sendo seguida por alguém que ela tinha em sua lembrança como uma figura próxima, parecendo um pouco mais velho do que era. Entretanto, não estava preocupada com a confusão em sua cabeça sobre o que se lembrava ou não, ela queria entender como um lugar que parecia ter sido tão vívido estava apagado e imerso em uma escuridão; as tochas espalhadas pela estrutura só iluminavam a opacidade das paredes do castelo.
Seu pai batalhou por muito tempo, muitas lutas, para que sua fortaleza vivesse o oposto daquilo. O rei minwano sacrificou uma liberdade ao selar-se em acordo com Eunwun e agora a lembrança dele se misturava ao triste abandono do seu palácio, de seu povo.
virou o rosto para a direção da vila, em uma elevação abaixo de onde estava. Dali da escadaria do castelo, ela conseguia visualizar toda a extensão dos vilarejos de Minwoo e estava tudo tão apagado quanto o castelo abandonado. Ela conseguia sentir em seu corpo inteiro a decepção, percorrendo suas articulações e causando um formigamento distante de genuíno. Era um ódio puro e sem bordas, sem chance de conseguir medir o tamanho de tão imenso que se tornava. O bolo em sua garganta parecia ser capaz de sufocar até a morte, o desrespeito que aquilo mensurava lhe consumia. Soava como um recado infame de que tudo o que sua família fizera por seu povo havia sido em vão, que a morte de seu pai, ajudando um reino a crescer mais para que pudesse colher frutos do resultado que ele, em maior parte, buscava, tivesse sido em vão.
Nenhum membro da corte Eunwana se importava com algo além dos muros do reino. A intenção de Catarina pelo poder era mínima em volta de toda a sujeira que o restante do trono guardava, por anos, enquanto tentava se tornar o maior modelo de superioridade dentre todos os reinos no continente. Mas ela não deixaria isso acontecer, não poderia sucumbir ao que estava acontecendo e deixar que a memória das suas raízes, da sua história, fosse pisoteada daquela forma.
Espalmou a mão firmemente no concreto, servindo de apoio para manter-se no lugar com o mal-estar que passou a sentir, seu coração estava tão acelerado que poderia afirmar vê-lo saindo do peito e galopando em queda livre do penhasco em que sentia estar além do literal. Nahari se aproximou apressadamente, sem saber se deveria interferir e mostrar-se preocupada ou continuar deixando que a rainha ditasse todos os movimentos feitos. Tão rápido quanto subiu os degraus, segurando o saiote de seu vestido, a porta dupla da entrada do castelo se abriu, fazendo com que a luz densa de dentro clareasse mais aqueles que estavam ali fora. E estava de costas para aquilo, tendo a feição de Nahari como um alerta para o que vinha detrás de si.
A dama de companhia ficou parada, faltando dois degraus para alcançar a rainha por definitivo e prostrar-se ao lado dela, com seu rosto inclinado para ver melhor quem estava saindo pela porta que fora aberta bruscamente. Parecia que a jovem serva estava petrificada e ela não saberia dizer se sua dama tinha sido atingida por alguma visão de terror, intimidação ou simplesmente pelo susto de ver que alguém estava habitando aquelas paredes abandonadas. Saberia se tivesse forças para virar-se, mas não queria, não conseguia mover os calcanhares e encarar o que lhe aguardava dali por diante e, por aquele momento, pareceu ser mais fácil continuar acatando com o rumo ditado de sua vida desde o princípio.
Entretanto, era mais doloroso e odioso pensar assim.
Se moveu, finalmente, para além do peito que subia e descia pelo movimento da respiração ofegante. Endireitou a postura e se afastou da parede, virando-se com sua elegância de anos em prática e observando cada centímetro da figura em sua frente. O rosto tinha algum traço que parecia familiar depois de um tempo o encarando, além de uma beleza impactante. Era impossível não ver aquela face e estar distante de qualquer sentimento atrativo. Além de esbanjar uma atraente simetria, como a de um anjo.
— Oh… — Foi a primeira coisa dita pelo homem bem trajado e armado com uma espada em sua bainha. — Vossa alteza! — Curvou-se educadamente, fazendo se sentir respeitada.
Era notório em si todas as vezes que a tratavam com o título sabendo devidamente por que, por ser a rainha e não o automático de uma herdeira. Validava a informação a qual ela estava tentando tornar absoluta: ser quem deveria de fato ser.
— Olá — ela disse, sem saber muito bem como deveria iniciar o diálogo com um estranho em seu castelo. — Quem é você?
Rapidamente, Nahari se colocou ao lado dela, sendo mais uma sombra refletida no espaço que a luz que emanava do interior, vazando pela porta aberta. O cavalheiro não pareceu levar a pergunta de muito bem, abrindo e fechando a boca algumas vezes, assim como se tivesse sido ofendido ou pego de surpresa enquanto era encarado pelas duas mulheres em sua frente, esperando sua resposta. Os braços que estavam esticados para segurar cada uma das portas caíram às laterais do corpo e ele deu os poucos passos à frente. Entretanto, quando parecia estar organizado o suficiente para se apresentar, uma criança surgiu, correndo por seu lado e parando diante de , a olhando com seus olhos brilhantes e arregalados.
— Aslani! — o homem repreendeu, tentando puxá-la. Mas foi uma ação frustrada.
— Ela é mesmo tão linda quanto o quadro! — A menina o encarou empolgada, voltando-se para a rainha e curvando-se com as mãos na saia do vestido, esticando o tecido formalmente como deveria ser com todos que se aproximassem de alguém da realeza.
— Perdão, vossa majestade, Aslani ainda está aprendendo como se comportar.
— Para Agnus é mais fácil falar, minha rainha, ele cresceu tendo a família real aqui. Teve contato com a beleza da realeza. — Aslani se ergueu, assumindo a postura ereta, dizendo de forma acusatória e engraçada para . — A senhora veio para ficar, não veio?
— Aslani!
olhou firme para o tal Agnus, sabendo que aquele nome, somado à feição dele, era familiar demais e morava numa lembrança distante. Tinha algo no olhar dele que estava lhe passando conforto, soando como uma zona segura e livre de toda e qualquer mentira do lugar em que havia crescido.
— Perdão, majestade… — Ele se curvou em resposta à maneira como foi encarado.
— Levante-se — disse suavemente, virando-se para a criança em seguida. — Você é uma menina muito esperta, Aslani.
— Obrigada, majestade. — Aslani a reverenciou. — Então… A senhora irá ficar? Mamãe e papai foram para a caça, mas amanhã cedo devem retornar. Ela sempre deixa tudo arrumado, embora papai diga que é perda de tempo porque ele diz que a senhora nunca retornaria à Minwoo — tagarelou, para o terror de seu irmão. — Mas ele estava errado! Agnus — se virou para ele, empolgada —, nossa mãe ficará muito feliz! — Outra vez voltou-se para a rainha. — Vossa majestade não sabe o quão bom é vê-la! Muito obrigada por vir! — E, por fim, se ajoelhou em sua frente.
O peito de se apertou em um pânico ao ver uma criança em sua frente, mostrando tamanha devoção e respeito. Ainda que fosse a rainha e isso fizesse parte do tratamento esperado, não conseguia assimilar que fosse tratada de tal forma, com devoção — ela só buscava o respeito. Principalmente por uma criança eufórica com sua presença. Queria entender o que estava acontecendo e por que Aslani se mostrou tão feliz e genuinamente agradecida pela sua chegada, pois o modo como ela se expressou parecia ser alguém vendo uma luz no final de um longo túnel, que por muito não parecia ter saída.
E a julgar pela forma que Minwoo estava, diria com convicção que ali não existia nenhuma esperança.
Ela se abaixou, tocando o ombro de Aslani com delicadeza e um cuidado genuíno. A menina ergueu a cabeça, olhando-a com o mesmo brilho no olhar que não diminuía ou mudava de forma alguma. sorriu fino para ela, colocando a mecha insistente de cabelo atrás da pequena orelha da criança.
— Eu vou ficar, não por muito tempo, mas prometo ser o suficiente para compensar a espera. — Sua voz saiu baixa, somente para que ela ouvisse.
A reação natural e rápida foi Aslani a abraçar forte pelo pescoço.
— Céus! — Agnus exclamou, entrando na mira do olhar de , e se aproximou, tentando tirar a irmã dali. — Aslani, por favor… vamos.
não teve reação, ficou petrificada no lugar e sequer conseguiu retribuir o afeto que pouco recebera em anos de vida. Não tinha costume de dar abraços em pessoas que não fossem seu marido, nem mesmo com seu pai pôde ter essa troca. Mas respirou fundo e, quando Aslani se afastou por ser puxada pelo irmão, manteve o mesmo sorriso para não deixar a criança se sentir mal e rejeitada. Se levantou e ajeitou a própria saia.
— Me perdoe, majestade. Meus pais devem retornar logo pela manhã, mas temos empregados à disposição no castelo… — Agnus dizia, segurando a irmã ao seu lado. — Nós moramos aqui para cuidar do castelo na sua ausência. Sua dama pode pedir para Hariet organizar os aposentos reais e lhes acomodar por esta noite, eu cuidarei dos seus guardas…
Ela assentiu, olhando para Nahari em um rápido aviso pelo olhar de que deveria cumprir com o que fora dito.
— Aslani, mostre para a dama onde encontrar Hariet, por favor — ele pediu para a menina.
— Por aqui…
— Com licença. — Nahari fez uma breve reverência e seguiu ela.
— Fique à vontade, o castelo é da senhora.
Agnus ficou de lado, movendo o braço para mencionar o caminho pela porta e respirou fundo, erguendo minimamente sua saia para começar a caminhada.
Engoliu o bolo seco da garganta ao passar pela porta e seu coração se espremeu com o mínimo de lembrança que começou a ter. Não conseguia lembrar de seu primeiro lar, mas sentia-se conectada com ele.


🏰


Por dentro parecia menos abandonado e triste do que por fora, trazendo um certo alívio para o coração de . Mas ainda não era o que ela esperava tanto encontrar. O jeito frio e distante que Hariet se demonstrou ao alocar ela no quarto passou uma imagem de que não era bem vinda nem mesmo dentro do próprio castelo, no próprio reino. E talvez não fosse mesmo, sendo uma clara evidência de que estava plantando a falsa promessa de seu pai para aqueles que dependiam do governo da família real; mesmo não tendo culpa de como tudo tinha se desencadeado ao decorrer dos anos, com o interesse egoísta eunwano, ela sabia que qualquer justificativa seria em vão para quem quer que ouvisse qualquer discurso. Era responsabilidade de sua família cuidar daquele povo, não o contrário.
O débito deixado para trás teria de ser cobrado e recuperado por ela.
Assim que terminou de vestir a camisola reta e lisa, com ajuda de sua criada, também penteou os cabelos, deixando-os soltos e caídos pelos ombros, de maneira uniforme. Enquanto ela observava o arredor, Nahari organizava as coisas que foram usadas para que não ficasse qualquer bagunça, já tendo secado o chão que havia sido molhado pela água caída da banheira usada no breve banho da rainha.
— Nahari, pode ir para seu quarto. Descanse, amanhã será um longo dia — lhe disse suavemente. Queria que a criada saísse de perto para que pudesse matar sua curiosidade das paredes daquele castelo. Sentiu uma conexão que precisava ser mais reiterada e faria sua expedição sozinha.
A dama de companhia estava curvada para frente, pegando as toalhas caídas no chão, e se levantou com a feição confusa. Fedora tinha sido extremamente incisiva em suas palavras quanto ao tempo que ela deveria se manter ao lado da majestade, evitando toda e qualquer distância desnecessária — e Nahari não era como ela, que tinha seu lugar vitalício na realeza, tampouco havia sido sortuda o suficiente de ter os pais ocupando qualquer posto em algum cargo próximo; ela era sozinha e prezava pela oportunidade que ganhara de substituir a dama da rainha que tantos diziam ser superior em altos níveis. Ela se viu no dilema: acatar o que a sua rainha dizia ou viver assombrada por não ter seguido todas as regras de Fedora?
Parecia até mesmo um absurdo que ela estivesse tão perdida ou dissesse em voz alta que estava demonstrando inseguranças, talvez se sentindo do mesmo jeito que ela. O que não deveria acontecer em seu próprio reino, afinal, fora ali que ela nasceu e era seu próprio povo.
E Nahari sabia somente o que era passado para os reles mortais como ela, então sentia que estava se metendo em uma corda bamba, porque deveria existir um grande motivo para tudo o que estava vendo abaixo de seus olhos, além do clima tão fora de contexto em cada uma das situações. Por isso, sentir-se perdida até mesmo com um simples pedido de sua rainha lhe fez sentir o estômago revirar.
— Mas, minha rainha… Fedora foi… — Limpou a garganta, apertando a toalha de fiapos ralos contra o corpo. Desviou o olhar, sendo friamente encarada por , abaixando a cabeça para encarar os próprios pés. — Ela me disse para não sair do lado da senhora por nenhum momento.
— Nem mesmo para dormir? — Pôde perceber um certo humor no tom da resposta e notou os passos da rainha em sua direção. — Escute, Nahari. Com atenção, ok?
Ergueu o rosto, assentindo e apertando mais ainda o tecido embolado em seu braço.
— Fedora não está aqui e são as minhas ordens que você deve acatar. — O mínimo sorriso de lhe deixou um pouco menos confusa. — Agora eu quero que você vá para seu quarto e descanse, amanhã irei precisar muito da sua energia e disposição.
— Sim, senhora. — Nahari assentiu novamente, reverenciando a rainha. — Obrigada, majestade.
— Não me agradeça, apenas vá.
Nahari a reverenciou mais uma vez, saindo apressada.
Quando a porta do quarto fechou e se viu sozinha no cômodo, apenas na companhia das inúmeras velas e tochas acesas para que pudesse ter uma iluminação, respirou fundo, decidida a vestir o longo e pesado tecido por cima de sua camisola. Assim que sentiu os ombros mais pesados e amarrou a corda em sua cintura, ajeitou os cabelos por cima dos ombros de novo e não esperou muito pelos próprios questionamentos, saindo pela única porta dupla.
Levou consigo uma tocha, não imaginando que o corredor ainda estava com a iluminação igual à de quando havia chegado. Talvez nem mesmo um dia ensolarado iria iluminar tanto assim aquelas paredes descuidadas.
Conforme caminhava por entre o concreto selado em rochas, deixou que seus pensamentos crescessem à medida que seus passos eram dados. Não teria como esconder-se das ideias que lhe estavam assolando dia após dia desde o falecimento do seu sogro, sempre incerta do cenário que vinha vivendo desde com inícios em sua primeira memória registrada. Parecia que vivia uma ilusão e muita coisa já não fazia sentido algum; se perdia de si e o que Ceferes tinha lhe dito em sua visita à torre dele no meio da floresta mais sombria que pudera conhecer até então, entrava por suas veias, porque sua cabeça já não era tão suficiente para que armazenasse tudo. Ainda que fossem informações das quais ela precisava e iria tirar a prova de realidade, eram pesadas demais para que sua mente suportasse.
Beirava ao absurdo a noção de que sua sogra, ao mesmo tempo que lhe estendia uma mão e reclamava sua indiferença repentina, pudesse usar a outra para lhe esfaquear pelas costas e a impedir que pudesse, ao menos, soar digna do trono pelos olhos comuns.
Estavam se tornando difíceis os tais passos curtos. Mas agora que havia começado, sabia que não poderia parar. Muito provavelmente aquilo só teria um final favorável para seu lado se ela conseguisse reerguer o próprio reino ou a tal profecia — que agora tinha uma outra forma em seu conhecimento — fosse real.
Dos males, ela iria sempre preferir o que não levasse sua cabeça à guilhotina.
Quando finalizou o último degrau da escadaria, ainda acreditando estar sozinha com seus pensamentos, continuou a caminhar sem uma direção exata. Começou a mergulhar em outra camada, tirando o presente de evidência e da zona de grande importância, para colocar seu passado em pauta. Talvez os diversos metros do pátio da entrada do castelo pudessem lhe reservar alguma memória importante; seu pai sempre lhe dizia que as coisas importantes e que ferisse a essência estariam sempre reservadas com o coração, por ser o sentimento a maior causa da criação de lembranças. Para ele: a mente só trabalhava no que queria, não no que sentia.
Partindo com esse pressuposto, parou no centro do pátio, de frente com a escada, segurando sua tocha e observando as paredes. Atrás de si tinha a porta e nas laterais da escadaria, respectivamente, os caminhos que deveriam levar para os outros cantos. Parecia silencioso demais, solitário e abandonado, haja visto que a imagem do abandono que viu do lado de fora estava prevalecendo em sua cabeça. Não se lembrava muito bem como havia ficado o resguardo de seu palácio após o falecimento de seu pai, pois nunca teve total liberdade de mediar os interesses minwanos estando em Eunwun; e naquela época acreditava cegamente nas boas intenções de seus sogros perante o papel monárquico que lhes mantinham no poder — além de toda a boa visão que o continente tinha de Catarina e seu falecido rei.
— A senhora precisa de alguma coisa, majestade?
Se assustou com a voz baixa ecoando, mas não se moveu além dos olhos, vendo Agnus aparecer pelo lado direito da escada. Ele a reverenciou brevemente, finalizando sua caminhada ao ficar parado poucos passos à sua frente.
Manteve sua postura, respirando tranquilamente ao responder:
— Estou bem. Achei interessante tomar um ar.
— Não é como se as paredes desse castelo permitissem, mas entendo seu desejo. — Ele sorriu simples, como se ela pudesse entender perfeitamente o tom do que estava dizendo. — Aqui é muito mais quente durante o dia por estarmos na colina mais alta do continente. Espero que consiga se acostumar — Agnus complementou.
— Também espero. — Seu tom não foi extremamente seco, mas estava livre de qualquer modo caloroso e fora do segmento que deveria existir entre ela e um criado; ainda não sabia muito bem quem era ele e o que fazia ali, mas precisava manter sua postura firme se quisesse resgatar o respeito o qual nunca lhe fora concedido em verdade.
— Oh, perdoe-me pela indelicadeza, majestade. Não sei ao menos se a senhora irá ficar por muito tempo aqui. — Levou a mão ao peito, com suas bochechas corando mais do que a iluminação alaranjada das tochas naquele breu da noite causava.
— Infelizmente minha passagem é rápida, porém, espero fazer valer a pena o período em que estiver aqui. — Ela olhou novamente para a direção que caminhava, querendo o fim da conversa, entretanto, Agnus parecia disposto a uma conversa longa.
— Veio em um momento muito oportuno, rainha. Estamos no período da última colheita, é sempre muito adorável ver como o povo gosta e se une nesse período.
Na mente de , tal fala foi como uma faca muito bem afiada, advinda do vilarejo mais distante que ela sabia existir — e do qual tinha como sua próxima parada em seus planos —, produzida pelo armeiro que ninguém sabia o nome, mas que tinha uma ótima avaliação perante os soldados, cozinheiros e cozinheiras, ou quem quer que fosse usuário de armas brancas. Ela não tinha como controlar sua própria reação automática a cada fala que ouvia, lhe servindo como um lembrete insistente de que ela nada sabia sobre Minwoo, lhe dando mais medo sobre a reação de seu povo ao recebê-la.
Eles poderiam odiá-la e com a mais pura razão nisso. Afinal, esteve absorta e ausente, não iria importar para eles o trato que foi feito do rei que já não era mais vivo com um outro que também estava enterrado a sete palmos do solo. A monarquia tinha uma linha de sucessão e para o povo que dependia disso, esses detalhes passavam após alguns dias revivendo o luto.
O que ela fez, sendo a última na linha de sucessão, foi dar as costas para tudo o que Minwoo era e, em seu mais íntimo, sentindo ou não como se fosse, de modo algum poderia chamar o lugar de seu lar.
Não se abandona um lar, pelo menos em seu conceito.
— Se a senhora quiser, posso levá-la para caminhar lá fora. Assim poderá ver a noite lá fora. É lindo — Agnus continuou a dizer, notando o curto espaço de tempo que ela permaneceu em silêncio, ainda olhando para a mesma direção, de onde a luz da lua entrava e iluminava em contraste com as chamas.
Era uma linda invasão lunar, do ponto mais alto da colina.
se virou para ele, ainda sem nenhuma resposta por estar lidando internamente com demônios demais. Um formigamento em seu estômago estava lhe servindo como alerta de que aquela face ainda tinha traços familiares a cada vez que o encarava. Estava com medo de perguntar, embora fosse soar mais prudente e responsável de sua parte, já que não tinha ideia de quem eram os pais deles que Aslani falou quando foi lhe cumprimentar em sua chegada. Mas pela forma como foi bem recebida por eles e tratada por ele e a irmã — sem mencionar o ultraje dos poucos criados pelos quais passou —, se esqueceu do primordial.
Uma falha que não deveria ocorrer, diga-se de passagem. Não deveria acreditar fielmente somente no que via em superfície.
— Houve um período em que esse lugar era, no mínimo, paradisíaco. Mas não perdurou… Porém, ainda é lindo — Agnus tornou a falar. Parecia que ele tinha palavras bem armazenadas para aquela conversa e que estava distante de qualquer fim.
— Você parece conhecer muito bem Minwoo. Cresceu aqui? — resolveu questionar.
— Sim. — Agnus a encarou, com um olhar parcialmente caído, parecendo envergonhado. — Minha família ficou aqui para que pudéssemos cuidar do castelo enquanto o rei estava em batalhas.
— E sua família é…
— Nossas mães são irmãs. — Ele sorriu minimamente e a face dela se contorceu. Então Agnus explicou: — Quando seu pai ainda era vivo, ele nomeou os meus pais como conselheiros, tornando-os membros da corte.
Ela uniu uma informação à outra, compreendendo o cenário dali.
— Como não tinha ninguém para assumir Minwoo sem ser você, ficamos aqui para pelo menos tentar manter a história do reino viva. Não são muitos que acreditam por causa da profecia, mas a maioria achava que as trevas chegariam antes do seu retorno.
A profecia.
Até ali, até Agnus, e provavelmente Aslani, sabiam de algo que ela passou a descobrir há pouco tempo.
— Que profecia? — Preferiu se vestir de desentendida, olhando-o confusa.
Agnus encarou a tocha na mão dela, que já parecia estar alcançando uma camada a menos, e, preocupado, engoliu a seco, ponderando até qual rumo deveria tomar diante de sem a presença de seus pais. Por mais adulto que fosse, ainda existiam assuntos que Kyia e Ruffus deveriam ser a fonte direta para toda e qualquer história que tivesse acontecido durante o tempo fora da rainha e que ela devesse ter conhecimento sobre.
Optou por sair pela tangente, sendo sutil em apontar a tocha na mão dela e, sorrindo simples, sinalizar:
— Daqui a pouco já irá queimar sua mão.
Ela desviou o olhar para a madeira em chamas que segurava e assentiu. suspirou, notando que não iria conseguir tirar algo mais profundo dele, então tentou retornar ao segundo assunto.
— Se nossas mães são irmãs, isso te faz meu primo… então… — Não conseguiu evitar um esboço de sorriso ao ter sua mente acesa na lembrança. Uma das poucas que tinha de parte da sua infância vivida em Minwoo. — Você era o meu conselheiro mirim.
Ele sorriu em reflexo.
— Amanhã ainda pela manhã meus pais já estarão aqui e minha mãe pode sanar todas as suas dúvidas de uma forma melhor, majestade. Me desculpe. — Agnus a reverenciou.
— Não tem pelo que se desculpar.
Então Kyia seria a sua fonte naquela primeira parada de sua viagem.
estava mais curiosa ainda, além de querer saber a realidade sobre seu reino, iria desvendar outro ponto de vista quanto a profecia que envolvia seu marido e um suposto irmão, que era um bastardo. O que ela descobriu, pela boca de Ceferes durante sua visita a ele, fora que Catarina não era a mãe biológica de e a tal cicatriz que seu marido possuía em sua face era parte de uma maldição lançada.
Custou muito a ela para acreditar, mas a cada passo que foi dando, tudo passou a ter um outro sentido, principalmente após ter sido comprovado por sua melhora que o chá sempre que lhe era oferecido por sua sogra fazia parte de um ato proposital para causar abortos, sem ao menos ter a chance de saber se dentro de seu ventre uma vida jazia — partindo desse ponto, soube reconhecer e digerir passo a passo que sua vida eunwana era controlada, não podia ao menos ser chamada de sua, porque tudo lhe fora podado e limitado ao que Catarina Di Frindor achava que deveria ser.
Estar em sua casa, mesmo que fosse exigido a ela que recriasse um laço com solo minwano, seria de extrema importância para que tomasse a rédea de seu destino, casamento e o que queria para seu futuro.


🏰


Era escuro, em volta de tinham crianças. Mas não eram crianças normais, saudáveis, não pareciam nem um pouco com as miniaturas que sempre corriam pela corte, brincavam em volta do trono e queriam pegar a coroa de Catarina, como bem lembrava, na visão que ainda tinha dela sentada ao lado de Hwan III. E o cenário se completava com o chão banhado em uma lama vermelha, com os pingos d'água caindo, vindo de algum lugar que ela não conseguia identificar onde, pois o teto do salão real estava fechado e não tinha nenhum furo ou buraco para dar vazão para as goteiras — ao menos chovia do lado de fora para ser motivo de molhar por dentro. Estava confuso e tenebroso, porque ela não conseguia enxergar nada, nem mesmo ver o rosto de seu marido, ainda que tivessem algumas tochas acesas.
Não conseguia alcançá-lo e, em um estalo a despertando, reparou que estava sentada em cima da lama, com seu vestido branco de véu e grinalda banhado na lama. Imediatamente, ainda confusa na junção das poucas informações, porém, se desesperou porque sentia o corpo pesado, não conseguia mover os pés e a luz da lua, irrompendo o ambiente pela vidraça, começou a iluminar mais. Mas compreendeu que não era algo que estava faltando no cenário diante de seus olhos e sim a sua consciência que foi se formando aos poucos, começando a ser mais perturbador conforme ia se situando no ambiente. A dor em seu peito, então, também foi aumentando, como se o que estivesse acontecendo ao redor pudesse ter qualquer ligação consigo.
Em um lapso de desespero, tentou gritar, mas nada saiu por sua boca, somente lhe causando mais dor no ventre e parecendo aumentar a intensidade que a lama avermelhada corria pelo chão. À frente, se aproximava com as crianças atrás de seu corpo e as faces delas, centradas e fechadas em uma obscuridade, tiraram qualquer lapso de coragem que poderia existir em para respirar fundo e juntar dentro de si forças para continuar combatendo fosse lá o que estivesse mantendo seu corpo preso ao chão, sobre aquela gosma nojenta parecida com lama. E seu desespero só intensificou quando viu o rosto dele, iluminado pela luz do luar.
Desejou que fosse somente um sonho e que aquela perturbação em sua cabeça sumisse logo, pois o que viu, em , lhe deixou impactada negativamente.
A cicatriz brilhava e suas bordas pareciam estar molhadas com gotículas de sangue pisado, assim como seu rosto todo manchado por sangue, como se tivesse sido arranhado por garras afiadas e me simétricas.
Foi arrepiante.
? — Conseguiu ouvir sua própria voz sair sussurrada ao chamá-lo.
Quando o nome dele foi ecoado pelo espaço que os separava, as crianças atrás de si começaram a cantarolar parte de uma canção que ela não conhecia e conforme as palavras foram intensificando em suas vozes misturadas, sentia seu ventre queimar e a lama abaixo de si, que sujava seu vestido, passou a ter um cheiro forte. Era sangue, seu sangue.
… Me ajuda… — o chamou, desesperada, mas ele se afastava e apenas as crianças, que foram se multiplicando, a rodearam, com ele logo atrás.
… Mas se insistir em procurar, nenhuma verdade irá encontrar… Pois aqueles que contra a profecia decidirem lutar, nenhuma vida irão proliferar…
Além da melodia bem cantada, haviam gargalhadas e choros infantis, numa mistura confusa de bebês e crianças. Mesmo com o nojo do que estava abaixo de si, usou suas mãos para apoiar-se ao levantar do chão.
Cambaleando, perdida, totalmente zonza ao mesmo tempo que tentava controlar a dor em seu ventre, saiu pelo meio das crianças, se esquivando delas. Embora parecesse complicado e como se fosse um imã para que elas continuassem lhe cercando e impedindo que chegasse perto de . Ao menos conseguia encontrá-lo naquele cenário do salão real, conforme a chuva se intensificava ali dentro e do lado de fora ela podia ouvir, ao fundo da canção que se repetia no coral infantil, o barulho de raios e trovões se sucedendo um ao outro. E a cada clarão que acometia o ambiente pelos raios do lado de fora, ela buscava pelo espaço a figura de , mas ele havia sumido misteriosamente.
! — gritou o máximo que pôde, sentindo o bolo em sua garganta fechando toda a sua passagem de respiração, ajudando seu peito a se comprimir e batendo de frente com a dor que ainda continuava sentindo. — ! Por favor! Onde você está?
… Mas se insistir em procurar, nenhuma verdade irá encontrar… Pois aqueles que contra a profecia decidirem lutar, nenhuma vida irão proliferar… — Novamente a mesma estrofe se intensificou e as crianças se fecharam em círculo à sua volta.
Se permitiu prestar atenção nos rostos misturados de meninas e meninos de diversos tamanhos, vestindo a mesma sequência de vestimentas: seu vestido de noiva e a roupa do casamento que tinha usado. Entretanto, o que mais lhe chamou a atenção foi que eles tinham as mesmas marcas e expressões vazias de seu marido, do mesmo jeito maltratado e ensanguentado. Levou a mão à boca e sentiu as lágrimas de pânico rolarem por suas maçãs faciais, erguendo o rosto novamente para a direção de onde estava procurando por ele; certamente seu corpo se comprimiu quando continuou sem encontrá-lo, sentindo a pressão em sua cabeça, transpassada pela dor inferior que estava lhe assolando.
Queria sair dali, queria correr, fugir… Mas não sabia como e nem por onde.
— Por favor, eu só preciso de você… — , esgotada, se sentou no chão, ignorando lama de sangue, a dor no ventre e o quão pesado seu corpo estava naquele momento.
Abraçou suas pernas dobradas como se estivesse sendo o suficiente para cessar qualquer perturbação, fechando os olhos para ignorar a ausência do seu porto seguro e o distanciamento que ele tinha colado entre eles naquele momento. Focou somente em centralizar que estava passando por um pesadelo e nada mais, logo passaria, assim que abrisse os olhos e visse a luz do dia iluminando seu quarto no castelo de Minwoo.
Talvez tudo fosse um sonho desde o início e quando acordasse teria seu marido ao seu lado, abraçando seu corpo com cuidado e carinho, como era acostumada a receber dele — antes do falecimento do rei e ele começar a mudar suas atitudes de forma estranha. Se fosse nada além de uma ilusão em um longo período que teve dormindo, iria aproveitar e nunca mais soltaria de , continuaria o respeitando e amando como deveria ser e como era, como ela se sentia mediante o casamento que tinha com ele, porque colocando de lado o trato que seus pais tinham feito no passado envolvendo o futuro de ambos os filhos, ela não mentia quanto ao sentimento que tinha por .
Chorou de soluçar, ignorando as palavras da canção, até notar que a última frase foi seguida de um silêncio.
… Nenhuma vida irão proliferar.
Ergueu o rosto e viu que não tinha mais ninguém, estava sozinha embaixo da chuva corrente e totalmente ensopada, com seu vestido branco misturando-se em cores, completamente sujo e manchado. Ao focalizar sua vista, viu, no lugar do que estariam os dois tronos de rei e rainha, um caixão em cima de duas pequenas pilastras de concreto.
Seu coração acelerou e foi o causador principal de movimentar suas pernas na mesma velocidade, correndo até o altar real e subindo os curtos degraus para se prestar diante do caixão.
— Não! — berrou, ao ver o corpo de ali, limpo, seco e bem vestido. Seu rosto estava pálido e livre de qualquer resquício de marcas e arranhões, os quais tinha visto há pouco, causando em sua espinha um arrepio do mesmo teor perturbador que já estava se sentindo.
Era no mínimo assustador.
! Acorda! Querido, por favor… — Começou a tocá-lo, tentar chacoalhar seu corpo embalado em flores e uma fina camada de lençol. — Não, não pode ser… Ai! — Uma pontada em seu ventre lhe fez cambalear para o lado e, pelos olhos marejados, sua vista ficou embaçada. não conseguiu se segurar em algo firme e, ao cair para trás, acabou puxando a caixa que mantinha o corpo de seu marido.
caiu em cima de seu corpo, morto. E, caído por cima de si, com o rosto a centímetros de distância, ela viu que a cicatriz estava tão seca como uma colheita sem frutos no mais quente verão do campo.
Ouviu um berro estridente, não saindo de seus lábios e, antes que pudesse ver a origem da voz feminina que gritava a morte de seu marido — soando igual à sua —, perdeu os sentidos.
Seus olhos se abriram e estava deitada em sua cama, suada e embolada nos lençóis. Aos pés tinha a figura de Nahari, parada como uma estátua e extremamente pálida. Imediatamente, quando abriu os olhos assustada, se sentou, ofegante.
— Majestade! — Nahari deu a volta na cama, parando ao seu lado com uma toalha úmida. — Está tudo bem? A senhora estava gritando o nome do rei…
— Há quanto tempo estava assim? — questionou em um tom exigente, ainda ofegante e com dificuldades para respirar. — Há quanto tempo o sol nasceu?
— Majestade… — A dama hesitou, abaixando o olhar.
— Me responda!
— Eu acabei de entrar no quarto… Não há muito que o sol nasceu. — O olhar de Nahari não conseguia se encontrar com o de , receosa e sem saber esconder seu medo.
— O que está me escondendo? — a rainha novamente exigiu em sua pergunta.
— Os guardas do castelo de Eunwun chegaram no mesmo momento do amanhecer. O general Guwan disse que vieram a mando do rei…
sabia que não era . Ela não teria deixado motivos para que ele mandasse outra massa de soldados reais para lhe acompanhar. Tinha levado consigo o suficiente.
— E tem mais… — Nahari estendeu um pergaminho dobrado em pedacinhos. tomou de sua mão, fazendo a troca com pedaço de pano úmido. — Um deles disse que foi enviado por Fedora.
Ela examinou a embalagem e viu que a cera não havia sido cortada, portanto o que quer que tivesse escrito ali não tinha corrido o perigo de ter sido lido por ninguém. Abriu com cuidado, vendo que Nahari se afastou imediatamente, e leu a letra bem desenhada de sua criada de confiança.

"Catarina já sabe que o pólen foi colocado na espada pela senhora, majestade. Tome muito cuidado… Consegui colocar Joah com os soldados escolhidos a dedo pelo rei, mas nenhum deles é de confiança. Seja lá o que esteja planejando, só existe um meio: que dê muito certo.”

Respirou fundo, rasgando o papel em vários pedaços, enquanto tentava se livrar do acúmulo de informações e trabalhar tudo por partes. A principal ideia que deveria trabalhar naquele instante, antes de qualquer coisa, era que seu casamento não existia mais e não poderia voltar para Eunwun sem cumprir com o seu plano inicial.
Seu começo não tinha sido lá e, na verdade, seria em Minwoo, pois seu meio era no vilarejo mais distante de todo o continente. Deveria procurar , como Ceferes tinha lhe mencionado em nome, para voltar até Eunwun rezando que o fim não fosse sua cabeça na guilhotina.
Havia iniciado uma guerra sem volta. O próximo passo era resgatar o famigerado “vida longa à rainha” do povo ao qual pertencia de fato.


Continua...



Nota da autora: Olá! Espero que tenham gostado e a espera tenha valido a pena, por ora. Me acompanhem no @mhobiautora e, NÃO ESQUEÇAM, o comentário é muito importante.
Vou começar a colocar meta de comentário para sair atualização, hein…
Um beijo! <3



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