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Última atualização: 07/07/2025

1. Joquebede

E foi um homem da casa de Levi e casou com uma filha de Levi.
E a mulher concebeu e deu à luz um filho; 
e, vendo que ele era formoso, escondeu-o por três meses.
Não podendo, porém, mais escondê-lo, 
tomou uma arca de juncos, 
e a revestiu com barro e betume; 
e, pondo nela o menino, 
a pôs nos juncos à margem do rio.
- Êxodo 2:1-3

Nem sempre conseguimos entender os propósitos de Deus. Mas sabemos que um dia ele sempre se cumpre, ainda que haja obstáculos na vida, perseguições, quedas e tropeços. Uma certeza sempre teremos, Ele jamais desiste de nós, mesmo quando nos desviamos do caminho e esquecemos do Seu Amor. Como um filho pródigo, a sede por intimidade que Jesus tem, nos conduz ao arrependimento para termos um relacionamento com Ele.

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Dizem que nem toda casa é um lar, mas todo lar é uma casa...

Havia um lar, que se encontrava em um barraco velho, no morro da Figueira em Santo André, São Paulo. Uma moradia que acolhia uma mulher chamada Célia e sua filha de 9 anos. Externamente, o lugar de gente humilde também era alvo de violência e exposição ao tráfico de drogas. O controlador de tudo? Um traficante chamado Neguinho, alguém que fazia dos moradores seus “inquilinos”, ao cobrar uma taxa de moradia que caso não fosse paga, acarretava na maioria das vezes a morte daqueles que lhe devia. 

Neguinho tinha muitos capangas, que levavam a sério seu trabalho de cobrador. Seguindo diariamente de casinha em casinha cobrando a tal taxa mensal. E mesmo sabendo do quão difícil era a situação financeira das pessoas, no qual algumas não tinham condições de pagar, o chefe do morro se deixava enfurecer quando não recebia. Com isso, os cobradores sentiam o prazer de contar até duas vezes para fazer a cobrança e se não houvesse pagamento... Neguinho se encarregava de ir pessoalmente acertar ou fechar a conta, para “dar exemplo” à comunidade. Seu controle deixava a todos com medo, mas havia aqueles que não se deixavam amedrontar e nem controlar.

No meio de tudo isso, Célia seguia seus dias trabalhando como diarista em casas da Zona Sul da cidade. Por ser honesta e ter princípios, não aceitava aquela situação em que o morro se encontrava. Entretanto, pela segurança e bem estar de sua incompleta família, se desdobrava em dois para pagar as contas da casa e também as taxas que Neguinho cobrava. Apesar de tanta luta e sofrimento, Célia tinha seu consolo nos braços do Senhor. Conhecida pelas redondezas como uma mulher de fé, quem a conhecia sempre via o grande exemplo que dava de gentileza e acolhimento. Não era à toa que sempre se colocava à disposição para ajudar o pastor Jonas e sua esposa, na pequena igreja instalada na entrada do morro. Mesmo com toda a dificuldade que passava.

Sua vida nunca fora fácil, principalmente por vir de uma família muito pobre no interior da Bahia, na qual perdera o contato há anos. Deixada pelo marido, que sumiu no mundo, com sua filha ainda de colo nos braços, contou com os poucos amigos que fez ao longo dos anos no beco em que o seu barraco se localizava. 

— Te agradecemos Senhor Deus, por tudo que nos tem dado, por cada proteção e por seu amor. Amém! — disse a pequena , de joelhos com a mãe na beirada da cama, encerrando sua oração da noite.
— Amém! — concordou Célia ao olhar com carinho para filha e sorri de leve.

Ela se sentia grata a Deus pela vida de sua filha. Principalmente pela pequena não ter se desviado para os maus e tentadores caminhos, que o morro oferecia para as inocentes crianças. As trocas de seus préstimos como mulas para o traficante Neguinho, em troca de pequenos agrados como um tênis de marca, eram presenciados por todos da comunidade. Não que Célia fosse uma mãe superprotetora, mas aprendendo com as escrituras a ser sábia, se agarrava sempre ao versículo 6 do capítulo 22 de Provérbios: Ensina a criança no Caminho em que deve andar, e mesmo quando for idoso não se desviará dele!

Por isso, começou a instruir desde muito pequena, ensinando a menina os princípios bíblicos e mostrando a ela que coisas que vem fácil, pode ir fácil e geralmente há um preço alto a ser pago depois.

— Mamãe, ainda tenho fome. — disse a pequena ao se levantar e se sentar na estreita cama que dividia com a mãe.
— Minha querida, não temos nada na geladeira. — disse a mãe com sinceridade.

Uma das maiores virtudes de Célia como mãe, era de não esconder da filha as necessidades e reais situações de ambas. Há pouco mais de dois meses que Célia vinha sofrendo algumas baixas em seu trabalho como diarista. Principalmente após ser acusada injustamente por ter desaparecido um objeto de afeto de uma das clientes. Infelizmente as calúnias sempre possuem mais repercussão que a verdade, e mesmo a tal cliente tendo encontrado o objeto de posse de seu filho travesso e desfazendo suas palavras de acusação. A semente da desconfiança já havia sido implantada no condomínio para qual prestava serviço, fazendo-a perder a faxina em três casas que considerava importantes.

Com a redução da entrada de dinheiro e coincidentemente o aumento da taxa de Neguinho, Célia se via obrigada a colocar algumas coisas como prioridade. O que levou a cortar as refeições noturnas. Por ter tantas famílias em situações piores dependendo da ajuda da igreja na qual congregava, ela não se sentia bem em pedir ajuda, afinal ainda tinha a benção de ter saúde para trabalhar e o pão de cada dia não lhe faltava, apesar de ser escasso.

— Vamos dormir querida, amanhã bem cedo lhe preparo o café da manhã. — prometeu a mãe com o coração apertado pelo olhar triste da filha.
— Tudo bem. — a menina se deitou ao lado da mãe e fechou os olhos — Boa noite, mamãe.
— Boa noite, querida. — disse Célia ao aninhar a filha em seus braços, segurando as lágrimas.
— Boa noite, Papai. — sussurrou a pequena, para Deus.

Em minutos, elas começaram a ouvir ao longe barulhos de tiros. Era rotineiro esses eventos, dos quais gangues rivais tentavam destronar Neguinho. Na manhã seguinte, como prometido, Célia preparou o café da manhã da filha e a levou para a escola. Seguiu para seu trabalho. Um trajeto desgastante que percorria entre ônibus, metrô e mais alguns metros a pé até a entrada do condomínio e ao longo dele também. Suas alegrias e motivações sempre estavam em saber que por mais que aquele período de sua vida fosse pesado, o amor de Deus por ela a sustentava de pé.

Domingo à noite, pontualmente ela adentrava na igreja, segurando a mão de . A menina trajava um vestido godê usado que a mãe ganhara de uma cliente. A maioria de suas roupas eram assim, ou usadas ganhadas das clientes de sua mãe, ou compradas em bazares pelo morro. Com uma presilha no cabelo e o sorriso singelo, a criança soltou as mãos de sua mãe e correu na frente indo em direção a porta de acesso à igreja Kids. Seu momento mais especial da semana era aquele em que podia estar com seus amigos da igreja, aprendendo mais sobre seu Papai que jamais a abandonaria.

— Olha só, essa menina está crescendo muito e ficando mais linda ainda. — elogiou a pastora Layla, esposa de Jonas, ao se aproximar delas no final do culto.
— Sim, e ficou sabendo que nossa pequena descobriu seu chamado? — a mãe concordou com um olhar orgulhoso.
— É mesmo? E qual é? — perguntou Layla se surpreendendo.
— Sou uma levita do louvor. — disse abrindo um largo sorriso.
— Foi a irmã Rosa que me disse isso, depois que essa mocinha pediu para levar um louvor na célula kids. — explicou Célia.
— Olha só, glória a Deus por sua vida, seu chamado é muito grande mocinha, que Deus possa te proteger e direcionar sempre. — disse a pastora — Nossa mini levita!
— Amém! — disseram mãe e filha em coral.
— No próximo mês para nossa festa, vamos receber a visita de um missionário de fora, que está fazendo alguns trabalhos aqui no Brasil com seu grupo. — anunciou a pastora para Célia — Queria tanto que nos ajudasse a organizar tudo, eu sempre me admiro com tanto capricho aos detalhes que você tem.
— Será uma honra para mim, pastora. — a mulher sorriu.
— E quem sabe essa mocinha participe da apresentação que o kids está planejando fazer. — a pastora olhou para a criança.
— Você quer ? — perguntou a mãe.
— Quero! — disse a menina se empolgando.

Elas passaram mais algum tempo ali, com Célia conversando com algumas pessoas sobre as festividades do aniversário da igreja no próximo mês. Ela estava com o coração grato em poder ajudar e contribuir com a obra do Senhor, mesmo com todo o cansaço de sua rotina semanal de trabalho.

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Noite chuvosa de sexta-feira. 

Célia tinha perdido mais um ônibus após ter feito horas extras a pedido da senhora Souza. Ela precisava desesperadamente de dinheiro para pagar a taxa mensal de Neguinho, e já tinha sofrido dois avisos naquela semana. Suas orações pela madrugada, levantaram essa cliente de última hora para lhe abençoar. Ao chegar em casa, altas horas da noite, seguiu até o barraco de dona Jandira que ficava com a pequena até sua chegada. Seu coração parou ao receber a notícia que a filha estava em casa à sua espera. 

Nunca fora tão desesperador para ela percorrer a distância entre os barracos. Ao abrir a porta, se deparou com a filha sentada no sofá com o olhar fixo na sua direção e um dos cobradores de Neguinho encostado na parede de braços cruzados, deixando sua arma aparente na cintura. A única coisa que conseguia fazer era pedir a Deus internamente para proteger sua filha.

— Boa noite, dona Célia. — disse o homem.
— Boa noite, Zé. — disse ela, mantendo o olhar na filha — Em que posso ajudar?
— A senhora sabe o meu motivo de tá aqui, já que é dia 20 e o chefe tá preocupado com o seu atraso. — explicou ele, mantendo a firmeza na voz — Fica tranquila dona Célia, eu não encostei um dedo na sua criança.
— Eu sei o quanto são respeitadores comigo e com a minha filha. — disse ela voltando o olhar para ele.
— Por isso que estou aqui dona Célia, o chefe cortou os atrasos do morro e não tá deixando ninguém dever mais de cinco dias. — retrucou ele — Mas pra senhora abrimos exceção, o chefe te considera muito e te admira também, sempre foi muito gentil e educada com todo mundo que trabalha no morro.

Isso era mesmo um diferencial em Célia. Sempre que olhava para Neguinho e sua turma, não era com olhar de medo ou condenação, mas sim de compaixão.

— Agradeço por isso, sempre me lembro de vocês em minhas orações. — assegurou ela, agradecida a Deus pelas palavras do rapaz.
— Mas, negócios à parte, né. — reforçou o homem.
— Não se preocupe, eu estou com o dinheiro dele aqui. — disse ela, retirando a bolsa do ombro e abrindo — Ia entregar amanhã pela manhã, antes do trabalho.
— Pode me passar agora. — ele se afastou da parede.

Sabe-se que as coisas boas ou ruins que acontecem na vida das pessoas, sempre possuem um propósito final de aprendizado. E muitas são como base para sermos mais fortes no futuro e nas adversidades da vida. Foi como um piscar de olhos que poderia ter acontecido em câmera lenta. Assim que Célia entregou o dinheiro para o rapaz e o levou até a porta, um motoqueiro desgovernado passou pelo estreito beco com a arma engatilhada na mão. As balas não encontraram somente o cobrador, como também a inocente Célia, que no frio interno de seu corpo, só conseguia orar ao Senhor pedindo proteção a filha que se jogara no chão pelo medo.

— Mamãe?! — foi a única palavra que a pequena conseguiu dizer, com lágrimas se formando no canto dos seus olhos, em meio aos barulhos de trovões em meio a chuva.

Perder uma pessoa nunca foi fácil para o ser humano, principalmente quando esta pessoa representa toda a sua família. Como esperado, houve uma comoção por parte dos moradores. Todos preocupados com a pequena e o que seria dela após a perda da mãe. Apática a tudo que acontecia ao seu redor, seus pensamentos só conseguia manter estático a imagem da mãe caía diante dela.

Nos primeiros dias posteriores, ela passou sendo amparada na casa do pastor Jonas. Sua esposa Layla se esforçou ao máximo para cuidar da menina e acalmá-la nas noites que acordava gritando no quarto ao lado, após um pesadelo recorrente.

— Calma querida! — dizia a pastora, ao abraçá-la com carinho e ternura — Eu estou aqui!

Como cicatrizar a ferida no coração de uma criança? Havia apenas uma pessoa que pudesse fazer isso: o Espírito Santo. E esta foi a oração de Layla naquela noite, que tudo coopere para o bem de , e que seu coração fosse confortado sempre. Não demorou até que o Conselho Tutelar recolhesse a criança e a levasse para um orfanato. Por ser uma criança acima de três anos, certamente seria mais difícil ser adotada, pois a busca maior sempre se concentrava em crianças menores de colo. Quanto mais os dias se passavam com ela naquele lugar, mais o coração do casal de pastores ardia a vontade de ajudá-la.

A direção de Deus, se deu nas festividades da igreja, que ocorreram de forma singela e mais simples possível, em memória a perda da irmã Célia. A visita do casal missionário foi mais do que somente isso, ao ouvirem a história de , se comoveram e em seus corações uma grande compaixão pela criança de formou de forma inexplicável. Resultando na certeza e entrada do pedido de adoção por parte deles. Uma intensa busca e orações de todos para que o governo brasileiro visse com bons olhos o pedido do casal australiano. O que de fato aconteceu, com uma ajudinha de Jesus, fazendo sair os documentos da Vara de Infância e Juventude com a autorização da adoção após alguns meses, com o reforço de não encontrarem os parentes de sangue da criança.

Mesmo com toda a turbulência interna. 

Medos do desconhecido e saudades da mãe, se assegurava na certeza de que Papai ainda estava com ela. E isso foi o ponto central para que a pequena criança aceitasse diante do juiz ser adotada pelo casal que em dias, conquistaram sua confiança de forma surpreendente.

— Pode entrar minha querida, esta é sua nova casa. — disse Annia, ao abrir a porta e deixá-la entrar na frente.
— Esperamos que se sinta confortável aqui. — disse Dimitri ao entrar atrás delas, com as malas de todos.

Como tinha poucas coisas, preferiu se limitar a apenas levar sua mochila cor de rosa que Célia havia comprado com tanto esforço para ela no natal, com alguns objetos de afeto e duas mudas de roupa. A garota permaneceu em silêncio, olhando ao seu redor. Nunca imaginou entrar ou até mesmo morar em uma casa de verdade, bonita e bem decorada, principalmente em outro país e sem sua mãe. Mas agora, esta era sua realidade, a que seguia estampada nas informações do seu passaporte que ficou pronto em tempo recorde por se tratar do caso de adoção por estrangeiros.

Annia lhe apresentou cada cômodo da casa e depois a levou até o quarto de hóspedes que agora pertenceria a ela. O casal que saíra de seu país para fazer um trabalho missionário em uma aldeia indígena no Brasil, jamais imaginaram que regressariam desta forma. O que de fato foi uma surpresa e ao mesmo tempo euforia para Dimitri, que sendo estéril devido a uma doença na infância, já havia desistido do sonho de ser pai. Sua relutância e preconceitos para considerar a adoção foram totalmente quebrados ao ouvir a história de

E agora, a criança que pediu para manter o sobrenome da mãe em sua certidão de adoção, assinaria como da Cruz Miller.

— Este é seu novo quarto, querida. — disse Annia ao entrarem — Se precisar de algo, qualquer coisa, basta apenas me pedir, não precisa ficar com vergonha, essa casa agora também é sua.
— Obrigado. — sussurrou ela, ainda acanhada e tímida.

Annia lhe deu um beijo na testa e a deixou sozinha para se sentir mais à vontade. a passos lentos e pesados até a enorme cama de casal que seria somente dela, se sentou na beirada. Retirando da mochila branca de poá rosa o retrato de Célia, sentiu as lágrimas começarem a descer em seu rosto.

Mesmo depois de alguns meses, a dor da perda ainda continuava internamente.

Your grace abounds in deepest waters
Tua graça é exuberante nas mais profundas águas
Your sovereign hand
Tua mão soberana
Will be my guide
Será minha guia
Where feet may fail and fear surrounds me
Onde meus pés podem falhar e o medo me cerca
You've never failed and You won't start now
Tu nunca falhaste e não o farás agora.
- Oceans (Where Feet May Fail) / Hillsong United

Ensinamento: Proteger aqueles que amamos.


2. Dorcas

E havia em Jope uma discípula chamada Tabita, 
que traduzido se diz Dorcas. 
Esta estava cheia de boas obras 
e esmolas que fazia.
- Atos 9:36
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11 anos depois...

Com o passar dos anos, muitas coisas foram mudando na vida de . Não somente por estar em um ambiente novo, uma cultura nova, um idioma novo... Mas também por ter que viver com as lembranças do dia mais doloroso de sua vida, a mudança mais drástica aconteceu internamente. A criança que sempre sorria e tinha um brilho no olhar, se transformou em uma garota fechada e silenciosa. Agora como uma jovem adulta, não era diferente e se relacionar com as pessoas ao seu redor exigia um certo esforço de sua parte.

— Boa tarde, ! — disse a simpática senhora, ao entrar no estoque de sua loja e ver sua funcionária desempacotando a nova coleção de inverno que chegara.
— Boa tarde, senhora Moore. — disse a jovem quase em sussurro.

Judith Moore tinha anos de experiência como lojista no ramo da moda. Sua paixão pela área a levou a fazer alguns cursos de costura e desenho de croqui. Entretanto, o sonho de fazer um curso de estilista na Parsons, a melhor universidade de moda do país, fora interrompido após a descoberta de uma doença crônica que levaria parte de seus recursos financeiros.

— Estou empolgada para esta estação. — comentou a senhora, se aproximando um pouco mais dela e observando-a trabalhar.
— A senhora deseja algo? — parou o que fazia e voltou sua atenção para ela.
— Sim, desejo um sorriso seu, nem parece que hoje é seu aniversário. — retrucou ela, com o olhar mais preocupado.

Em todos os sete meses que trabalhava em sua loja, a senhora Moore jamais a tinha visto sorrir, nem mesmo após receber qualquer tipo de elogio ou parabenização. Mas o dia em questão era um tanto quanto complexo para . Assim como ela completava 20 anos, também completava onze anos sem a sua mãe. O fatídico dia que ainda lhe causava pesadelos, seguia vivo em sua memória.

— Hoje não é um dia tão importante assim. — manteve o tom baixo em sua voz e voltou a atenção para a sua tarefa.

Externamente ela se mantinha firme e inexpressiva, porém internamente seu coração sentia a tristeza dobrada. Viver o dia do seu aniversário não significava felicidade e um fechamento de ciclo, mas sim, reviver em sua mente a perda de sua mãe pela violência causada pelo tráfico. Por isso, a jovem deixou de comemorar seu aniversário dois anos após ser adotada pelo casal Miller. 

Como já mencionado, as coisas mudaram na vida de , que ao completar a maioridade, obteve dos pais adotivos o apoio para se mudar para a cidade movimentada de New York nos Estados Unidos para estudar. A garota também possuía o mesmo sonho da senhora Judith, em ser uma estilista de sucesso. E receber uma bolsa de estudos em Parsons foi resultado de muito esforço, noites em claro estudando e também as constantes orações de sua agora mãe, Annia Miller.

Na cidade americana, sua rotina diária girava em torno das aulas no turno da manhã. O trabalho de meio período na loja da senhora Moore à tarde e outro trabalho noturno aos finais de semana como cantora amadora em um bar. O custo de vida era bem alto para ela, que não queria incomodar o casal Miller com assuntos financeiros. havia aprendido com sua mãe a ser responsável com seus sonhos e lutar para alcançá-los sem depender de outras pessoas, e era isso que ela tentava seguir.

— Assim que terminar de conferir, quero que troque a vitrine pelos looks novos que chegaram da coleção de inverno. — pediu a senhora Moore.
— Sim, senhora. — assentiu, mantendo a atenção no que fazia.

Assim que a senhora Moore se afastou retornando ao interior da loja, Louise, outra funcionária, se aproximou dela. Um pouco afobada por estar atrasada.

, você não vai acreditar no que aconteceu… — começou Louise a contar, sem se importar se seria mesmo ouvida pela jovem — Estava vindo para a loja, quando fui parada na saída do prédio da universidade pelo coordenador Brown… Fiquei totalmente chocada com sua abordagem, ele começou a me elogiar pelo bom trabalho que eu apresentei, dizendo que meu futuro no ramo da moda era muito promissor…

A garota disparou a contar sobre o ocorrido com ela, até que parou de falar e percebeu a indiferença da amiga com o caso. Talvez pela necessidade patológica de falar constantemente e pela amiga estar sempre em silêncio, a amizade de Louise com a jovem havia se construído de uma forma inesperada e surpreendente para ambas. E mesmo na maioria das vezes não prestando atenção nos diversos assuntos abordados pela amiga, já havia se acostumado com seu jeito extravagante de ser.

— Está tudo bem? — perguntou Louise, ao olhar para ela.
— Sim, porque não estaria? — terminou sua conferência e olhou de volta para ela.
— É que por um momento achei que não estivesse me ouvindo. — disse ela.
— Você contava sobre o coordenador e os inúmeros elogios que ele fez a sua apresentação. — soltou um suspiro fraco e cansado — Parabéns.
— Parabéns a você, nós duas sabemos que não foi eu quem desenhou aqueles croquis. — Louise foi honesta diante dos fatos reais dos bastidores — Se ele descobrisse, eu estaria ferrada de vez.
— Você me pagou pelos desenhos, então são seus. — pegou os looks separados e se moveu para a porta de acesso à loja — Vou fazer a troca da vitrine.
— Já?! — a garota se mostrou surpresa.
— Ordens da senhora Moore. — explicou ela.

continuou sua tarefa ao longo da tarde até o final do seu expediente. Não imaginava que seria tão cansativo ter que organizar a vitrine e recolher todas as roupas da estação passada, com a ajuda de Louise. Pouco antes de ir para casa, a senhora Moore se aproximou dela.

— Está tudo separado? — perguntou Moore.
— Sim, masculinas, femininas e infantil separadas, todas as caixas com etiquetas de identificação. — respondeu .
— Muito bem. — Moore deixou transparecer um brilho diferente no olhar.
— O que vai fazer com as roupas? — perguntou a jovem, curiosa.
— Algumas irei doar ao bazar da igreja, outras já têm destino ao orfanato da cidade. — respondeu ela — Ainda que não tenham sido vendidas, há uma boa utilidade para elas, com pessoas que precisam.
— Curioso, muitos lojistas devolvem as roupas às fábricas para ter descontos na compra da próxima estação e outros reduzem o preço para obter o mínimo de lucro. — comentou ela, a realidade capitalista.
— Ah minha jovem, eu aprendi com a minha mãe que é melhor dar do que receber, se as roupas que sobraram não foram vendidas, é porque existe um propósito para elas na vida de pessoas que precisam mas não possuem condições. — explicou a senhora, com firmeza de seus princípios — Desde o dia em que comecei a agir assim, não me tem faltado clientes nesta loja e nem roupas para serem doadas.
— Hum… — se retraiu um pouco, era como se ouvisse sua mãe Célia dizendo aquelas palavras.
O bem que fazemos ao próximo, sempre volta para nós. — concluiu Moore.

A senhora sorriu de leve para ela e se afastou para voltar à loja. se pegou pensativa por um instante. A frase que Judith Moore acabara de falar era conhecida pela jovem, pois sua falecida mãe Célia, sempre lhe ensinava a ser caridosa com as pessoas ao seu redor, principalmente aquelas que ainda não conheciam o amor de Deus.

recolheu suas coisas, pegou sua mochila e foi para casa. Ela morava em um apartamento pequeno, que dividia com Louise. Próximo ao prédio havia uma plataforma por onde passava o trilho do metrô. Um fato que prejudicava bastante suas perturbadas noites de sono, por ter que conviver com o barulho dos trilhos.

— Finalmente em casa. — sussurrou ela, ao jogar a mochila no sofá e perceber que sua amiga não tinha chegado.

Nas poucas horas que tinha silêncio naquele lugar, eram as que Louise não estava presente. Ela seguiu para o banheiro e tomou uma ducha quente para relaxar o corpo, colocando o pijama em seguida. Passando pela sala, pegou sua mochila e se trancou no seu minúsculo quarto. De segunda a quinta à noite, a jovem tinha um compromisso com seus trabalhos da faculdade que lhe consumiam parte da criatividade que tinha. 

— Como não queria fazer isso. — sussurrou ela, ao olhar para o rabisco em sua frente. 

Como dizem por aí, a necessidade faz a ocasião. E a necessidade de por dinheiro a fez vender seu dom de desenhar croquis de moda para algumas alunas da Parsons. Mas o trabalho de decifrar os rabiscos que recebia de algumas delas, e converter em croquis maravilhosos e bem detalhados, conseguiam ser mais cansativos que as inúmeras exigências de seus professores.

— Mas não tenho escolha. — ela soltou um suspiro cansado voltando seu olhar para cama, que se mostrava convidativa.

Seu olhar encontrou um objeto conhecido embaixo de seu travesseiro, objeto esse que a muito tempo ela se mantinha distante dele. se levantou da cadeira e dando alguns passos, sentou-se na cama pegando-o. O objeto em questão era a Bíblia de sua mãe Célia, o maior referencial de lembrança que tinha dela, além da foto que permanecia na mesa de cabeceira.

— Por que a levou?! — sussurrou ela, sentindo as lágrimas se formarem no canto dos olhos.

O que menos queria era se render a saudade que lhe consumia diariamente. Após a morte de Célia, até mesmo seu relacionamento com Papai mudou. A dor que ainda sentia pela perda, fora o motivo principal para o afastamento. Ela sabia que Deus sempre estaria ao seu lado, mas seu coração ainda machucado não lhe permitia mais se aproximar como fazia antes da tragédia. As lágrimas continuaram descendo, e logo surgiram os soluços causados pelo choro silencioso. 

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— Eu estou bem, não precisavam ter ligado. — disse , mais uma vez ao telefone.

A jovem havia recebido uma ligação de seus pais adotivos, que do outro lado do globo, se preocupavam com ela. Principalmente no dia que se finaliza.

Querida, hoje é seu aniversário, claro que ligaríamos. — disse Annia com seu tom suave de sempre.
E estamos com saudades. — completou Dimitri — Tem certeza de que não precisa de dinheiro?
— Eu tenho dois empregos de meio período e recebo por trabalhos extras, está tudo bem com minhas economias aqui. — assegurou ela, para ambos — Agradeço a preocupação.

se sentia grata por tê-los em sua vida. Ao longo dos anos, um amor singelo nasceu em seu coração pelo casal Miller, o que a ajudou a se sentir de fato filha deles. 

Não se exija demais, querida. — pediu Annia com preocupação — Seu corpo não é uma máquina.
E não hesite em nos pedir ajuda se precisar. — Dimitri tomou a fala novamente — Sabe que estamos aqui por você.
— Eu sei e agradeço muito, estou bem sim e agora tenho que desligar, preciso terminar alguns desenhos para amanhã. — disse ela, se preparando para encerrar a ligação.
Não se esqueça que nós te amamos, querida. — disse Annia — E Jesus também!

Um leve e disfarçado sorriso surgiu no rosto da jovem, ao desligar. Das poucas vezes que sorriu em todos aqueles anos, era por sentir seu coração aquecido pelo gesto de carinho das pessoas que amava.

— Ok, preciso terminar vocês. — sussurrou ao voltar o olhar para os croquis inacabados em cima da bancada de estudos.

No dia seguinte, após a aula, seguiu com sua rotina na loja de roupas da senhora Moore. Entretanto, suas tarefas teriam uma leve mudança, pois ela havia ficado encarregada de levar as roupas de doação para o orfanato local. Ela teve a ajuda de Niall, outro funcionário que ajudava com os serviços externos da loja. O orfanato Light For Orphans era um pouco distante, do centro da cidade, levando mais de meia hora de carro para chegar. Sendo recebidos pelo novo diretor, senhor Dawson, aproveitou o momento para conhecer o lugar. 

Ela sabia bem como era viver em um orfanato. Mesmo que por um curto espaço de tempo tenha passado por um. De repente, algo lhe chamou a atenção, uma garotinha estava sentada no chão desenhando um vestido de princesa. Afastada das outras que brincavam entre si no grande jardim do quintal dos fundos. se aproximou dela e se ajoelhou ao lado.

— Olá. — disse a jovem — O que está desenhando?!
— Um vestido de princesa para minha boneca. — respondeu a criança, concentrada em seu desenho.
— É muito bonito. — elogiou — Posso te ajudar?
— Você sabe desenhar? — a garotinha a olhou com surpresa.
— Sei sim. — respondeu ela, mantendo o rosto mais suave — Eu posso?

A criança assentiu e lhe deu um papel em branco. pegou um lápis verde e começou a desenhar um rápido croqui de um vestido. Deixando o desenho em tons monocromáticos. 

— Você desenha tão bonito. — elogiou a pequena garota.
— Obrigada. — olhou com carinho para ela — Se quiser, posso te ensinar.
— Sério? — a menina arregalou os olhos, com esperança.
— Sim. — assentiu.
— Eu quero. — a pequena sorriu mais abertamente para ela.

voltou ao desenho e começou a explicar coisas básicas para que a garotinha entendesse de forma clara. A criança ficou observando-a desenhar, com atenção e admiração. Até que o breve momento silencioso entre ambas, fora interrompido por uma terceira pessoa.

?! — uma voz conhecida por ela, soou da porta.

Tinha traços de surpresa e espanto. O olhar de se levantou. Seu corpo estremeceu um pouco ao reconhecer aquele olhar que permanecia fixo nela.

. — seu coração acelerou um pouco pela presença dele.

A pessoa que ela jamais esperava ver naquela cidade, estava diante dela. deixou o lápis no chão e entregou o desenho à criança, que agradecida saiu correndo para o jardim. Então se levantou, vendo-o se aproximar dela. 

— Que surpresa encontrá-la aqui. — disse ele, mantendo um sorriso afetuoso no rosto.
— Digo o mesmo. — ela se encolheu um pouco, tentando voltar ao equilíbrio interno e não se lembrar do dia em que pediu para que ele se afastasse dela.

Baker poderia ser considerado seu melhor amigo, o único verdadeiro que conseguiu fazer de forma espontânea e inexplicável, nos anos que morou na Austrália com seus pais adotivos. Entretanto, após uma crise interna, se afastou dele, o medo de perder outra pessoa que amava lhe trouxe mais solidão ainda.

, já descarreguei as caixas. — disse Niall ao se aproximar deles.
— Caixas? — se mostrou confuso.
— Viemos trazer roupas de doação de uma loja onde trabalhamos. — explicou a ele.
— Que legal. — ficou impressionado.
— Niall, pode ir na frente, já estou indo. — disse ela.

Niall bateu continência em um ato de brincadeira e seguiu pelo corredor. manteve seu olhar abaixado, para não encarar .

— Eu… Liguei para seus pais ontem. — iniciou ele, antes que ela pudesse sair — Sua mãe me disse que estava morando aqui agora. Louco que eu não sabia disso quando vim para New York.
— Eu consegui uma bolsa de estudos. — explicou ela.
— Eu também. — disse ele, com um tom empolgado — Estou estudando produção musical na NY University.
— Hum… Fico feliz por você. — ela finalmente levantou o olhar — Eu preciso voltar ao trabalho agora.

se moveu para ir embora, porém ele segurou sua mão, parando-a.

— Todos esses anos, eu pedi a Deus para poder vê-la novamente. — disse ele, deixando a voz mais suave — Estou grato por Ele ter deixado.
… — ela se impulsionou para falar, mas não conseguiu terminar a frase.
— Eu sei… Ainda me lembro de suas palavras. — o olhar dele ficou um pouco mais triste — Mas, não vou desistir de você, nem o Papai.

Por mais que segurasse suas emoções, a primeira lágrima caiu de seus olhos. Ver depois de quatro anos de rompimento de sua amizade, havia causado um considerável impacto interno. 

E suas palavras mais ainda.

"내 백성이 나를 떠나 돌아섰지만
Meu povo Me abandonou, viraram as costas para Mim
내 사랑이 내 백성을 포기 못하니
No entando, Meu amor por eles não pode desistir deles
모든 것 내어주고 나 그들을 얻으리라 
Então, Eu vou dar a eles tudo de Mim e terei Meu povo de volta aos Meus braços.

여호와께 돌아가자, 우린 돌아서도 그는 변치 않네
Vamos voltar para o Senhor, apesar de o trairmos, Deus nunca vai nos dar as costas
여호와께 돌아가자, 우린 넘어져도 그 사랑 영원하네!
Vamos voltar para o Senhor, apesar de falharmos com Ele, oh, Seu amor nunca falhará!"
- Love Never Fails / J-US Ministry

Ensinamento: Ser caridosa.


3. Ana

E sucedeu que, 
perseverando ela em orar perante o Senhor, 
Eli observou a sua boca.
Porquanto Ana no seu coração falava; 
só se moviam os seus lábios, 
porém não se ouvia a sua voz; 
pelo que Eli a teve por embriagada.
- 1 Samuel 1:12-13
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9 anos antes...

Naquele dia se contava pouco mais de 2 anos após a noite fatídica. aos poucos começou a se adaptar à nova realidade em que vivia na Austrália. Até ali, sua educação estava sendo feita em casa, principalmente para se familiarizar com o novo idioma que aprendia diariamente. Bem diferente do português materno, ela obteve a ajuda de Annia e sua enorme paciência, para finalmente dominar o inglês.

querida. — Annia deu dois toques na porta do quarto e abriu.

A menina, que se mantinha sentada na cadeira em frente à escrivaninha, voltou o olhar para a mãe adotiva, encontrando um sorriso gentil.

— Está pronta? — perguntou a mãe.

Ela assentiu com a cabeça.

— Vamos então?! — perguntou novamente.

se levantou da cadeira e pegou sua mochila de tear que havia ganhado de presente do casal de pastores do Brasil, seguindo para a porta. Seria seu primeiro dia de aula na Escola Primária Collin. Uma decisão que foi sendo desenvolvida aos poucos por seus pais após finalmente ela conseguir chegar ao nível avançado de fluência no idioma oficial do país. Internamente, o coração da criança estava ansioso e com medo do desconhecido, mas sabia que tinha duas maravilhosas pessoas para se apoiar agora.

Assim que mãe e filha seguiram pelo corredor dos quartos, Dimitri abriu um largo sorriso, parecia ainda mais empolgado para cumprir seu papel de pai e levar pessoalmente sua filha, no primeiro dia de aula. Annia se aproximou do marido com um sorriso e lhe deu um selinho rápido, então caminhou até a cozinha. ficou confusa pelo brilho no olhar de Dimitri, que se aproximou dela e pegou sua mochila.

— Eu levo para você, querida. — disse ele.
— Eu poderia levar. — disse a menina — Não está tão pesada.
— É seu primeiro dia, me deixe fazer isso, por favor, só hoje. — seu lançou um olhar choroso para ela.
— Tudo bem. — assentiu.
— Tudo bem??! — ele tombou a cabeça como se esperasse ouvir uma palavrinha mágica.
— Tudo bem, pai. — ela riu baixo, se encolhendo de vergonha.

Foram sim, longos dois anos em que Annia e Dimitri trabalharam duro para conquistar a confiança, afeto, carinho e o amor de . Além de tudo, fora muito difícil para a criança chamá-los de pai e mãe pela primeira vez, algo que ocorreu somente há três meses atrás. E depois disso, Dimitri com seu jeitinho de pai coruja e babão, sempre a estimulava a dizer essas palavras para que o afeto e o sentimento entre eles crescessem ainda mais. sabia que Célia jamais deixaria de ser sua mãe, e que pela bênção de Deus ela havia ganhado outra e com um pai acompanhando.

Além de tudo que ela havia aprendido sobre Deus com Célia, e todas as orações e devocionais que fazia sozinha após aprender com a falecida mãe. nunca havia tido a oportunidade de conviver com uma figura paterna física em sua vida. E estava grata por isso. Porém, mesmo assim, ainda havia um vazio dentro dela, na qual somente Papai poderia preencher, mas ela ainda não sabia disso, pois a cicatriz provocada pela morte de Célia, ainda estava aberta.

— Agora sim, nossa garotinha pode ir. — disse Annia, ao retornar para sala com um pacote nas mãos — Seu lanche.
— Lanche?! — se assustou um pouco, seria a primeira vez que levaria um lanche para a escola.

Afinal, em sua realidade no Brasil, felizmente a própria escola fornecia a merenda, e isso era um alívio para Célia que não tinha condições de comprar para a filha. Foi inevitável para a criança não se lembrar de sua antiga vida, e de todas as vezes que passou necessidade. Das noites que dormia com fome, para não faltar alimento para o café da manhã, tido como a refeição principal do dia.

— Sim. — assentiu Annia, esticando o pacote para ela.
— Tudo bem. — pegou o pacote e colocou dentro da mochila, deixando o objeto com o pai.
— Vamos antes que se atrase. — disse Dimitri, retirando do bolso da calça, as chaves do carro.
— Tenham um bom dia, espero vocês no final da tarde. — disse Annia.
— A senhora não vem? — perguntou , estranhando mais ainda.
— Não, hoje não. — respondeu ela — Vou deixar seu pai desfrutar desse momento sozinho.
— Sonhei com isso a minha vida toda. — alegou Dimitri.
— Com o que?! — o olhou, confusa.
— Com o dia em que levaria minha princesa à escola, e mostraria a todos os garotos que ela tem um pai. — ele cruzou os braços, fazendo a pose de pai protetor.

O que arrancou algumas risadas das duas. Era raro rir ou sorrir. Mas sim, seus pais faziam de tudo para manter o clima do lar deles suave e propício a brincadeiras e risadas de todos. Assim, eles seguiram até o carro e Dimitri deu a partida, seguindo para o endereço da escola. O lugar não ficava tão longe da casa deles. Se comparar com a antiga escola de , nesta nova ela poderia ir a pé e gastaria apenas vinte minutos de caminhada.

Mas ali estava Dimitri com todo o seu zelo de pai, levando-a com todo o carinho para seu primeiro dia de aula. aproveitou o caminho para observar as flores da primavera, afinal a nova estação estava dando as caras e mostrando a beleza das cores que proporciona à cidade. Ela não saía muito de casa, talvez por costumes passados. Mas estava aprendendo a se divertir com os pais, em piqueniques no parque aos domingos, depois do culto da igreja. Que por sinal, oferecia almoço aos membros sempre no encerramento, o que estimulava a se aproximar das outras crianças.

— Aqui estamos. — Dimitri estacionou o carro do outro lado da rua e retirou o cinto de segurança — Vamos lá?!
— E se eu não gostar?! — perguntou ela.
— Se não gostar, procuramos outra, até você gostar. — disse ele.
— Mas e se for longe?! — continuou ela.
— Não importa, te levarei com a mesma empolgação. — Dimitri piscou de leve para ela e sorriu — Vamos, vai dar tudo certo, Deus está no controle.

Ela assentiu e saiu do carro junto com ele. 

— Ah… Antes que eu me esqueça. — ele retirou dez dólares do bolso e deu a ela.
— O que é isso?! — perguntou a garota intrigada.
— Sua mãe não pode saber disso, é segredo nosso. — ele piscou de leve para ela — Caso queira comprar chocolate.
— Ok. — ela pegou a nota e guardou no bolso da calça, segurando o riso dele.

Ambos atravessaram a rua e seguiram para a edificação da escola. segurou no braço dele, ao sentir que os olhares dos alunos se direcionaram para ela. Dimitri deixou sua mão escorregar um pouco e segurou a da filha, guiando-a até a secretaria. 

Após alguns minutos esperando, foram atendidos pela diretora Flint. Que analisou com o olhar a garota, assim que ambos entraram em sua sala.

— Muito obrigado por nos receber. — disse Dimitri, ao apertar a mão da senhora a sua frente — Esta é minha filha, .
— Já avaliei os documentos da criança. — disse a mulher, sentando-se novamente em sua cadeira — Confesso que a história dela me sensibilizou um pouco, e estou feliz pela preferência por nossa escola, daremos todo o apoio para que ela se adapte da melhor forma possível. Quanto ao nível do ensino…
— Como pode ver, suas notas foram satisfatórias em todas as provas de nivelamento e ela não precisará repetir nenhum ano. — Dimitri se pronunciou rapidamente quanto às burocracias — A nota do exame de proficiência em inglês também foi alta, o que a qualifica a estudar em uma escola pública do nosso país.
— Sim. — a diretora deu um sorriso forçado — Só tenho a dizer, seja bem-vinda a Escola Primária Collin, a secretária passará os horários para a aluna e os livros podem ser pegos na biblioteca, mediante ao crachá do aluno que ficará pronto até o final da aula.
— Agradeço, diretora. — Dimitri que permanecera de pé, olhou a filha — Vamos querida?!

assentiu e se retirou da sala com o pai. Assim que pegaram o horário de aula e a garota retirou a foto para fazerem seu crachá. Dimitri se ofereceu para ir até a biblioteca com a filha pegar os livros, porém ela recusou a companhia, pois sabia que o pai tinha horários a cumprir no seu emprego. Por mais que fosse dono do próprio negócio, ele tinha suas responsabilidades com sua loja de materiais de construção.

seguiu com seu primeiro dia de aula, se dirigindo para a sala de aula onde no primeiro horário teria aula de geografia. Dois toques na porta foram o suficiente, para a professora Linda Taboni abrir a porta e deixá-la entrar. Após uma apresentação tímida a turma, ela se sentou na terceira carteira que ficava na segunda fileira perto da janela. A única vazia naquela turma. Do seu lado esquerdo havia um garoto que curiosamente passou a aula inteira observando-a com atenção. O que deixou ainda mais nervosa, quando acidentalmente derrubou seu lápis no chão.

O susto da garota fora tão grande, que seu coração acelerou um pouco como se tivesse derrubado um vaso de vidro. Com gentileza, o garoto da carteira à esquerda pegou o lápis e esticou para ela pegar, dando-lhe um sorriso. Ela pegou em silêncio e voltou a olhar para frente, o que deixou o menino um pouco chateado, por não receber nem um mísero “obrigado”.

Enfim, no intervalo para o almoço. Todo o refeitório já estava lotado pelos alunos e se sentiu mais deslocada ainda. Ela deu meia volta e seguiu para a escadaria de acesso ao terraço da escola, o lugar mais isolado e silencioso do prédio. Foi ali que finalmente pode descobrir o que sua mãe havia preparado para seu almoço. Dois sanduíches de frango com queijo e espinafre, e uma caixa de achocolatado. Ela sorriu de leve, era grata por todo o esforço de Annia com ela. Em um suspiro fraco, deu a primeira mordida e saboreou o tempero que sua mãe.

— Não deveria agradecer pelo alimento? — uma voz soou a sua frente.

De imediato ela reconheceu e levantou o olhar. Era o garoto da carteira à esquerda, que mantinha seu olhar observador para ela.

— O que está fazendo aqui? — perguntou ela, no impulso da surpresa.
— Olha, ela fala. — brincou ele, segurando o riso — Pensei que não tivesse voz.
— Hum?! — ela ficou confusa, e baixando um pouco mais sua voz — Porque?
— Você não me agradeceu, pensei que fosse muda, ou tivesse dificuldade em falar. — explicou ele, de forma tranquila.
— Desculpa. — abaixou o olhar.
— Tudo bem. — ele riu — Pelo menos agora eu sei que sua voz é bonita.

Ela o olhou novamente, meio estática.

— Não vai falar nada? — perguntou ele — Eu acabei de te elogiar.
— Minha mãe sempre me disse para não falar com estranhos. — respondeu ela.
— Ah… Mas eu não sou um estranho, eu já até peguei seu lápis do chão. — seu argumento tentou ser convincente.

O que fez ela rir. Mesmo sem entender se tinha alguma graça naquilo.

— Olha, ela ri também. — seu olhar ficou mais curioso ainda para ela.
— Pare de falar com terceira pessoa para mim. — pediu .
— Desculpa, foi engraçado. — ele riu baixo — Meu nome é , e você é a .
— Sim, sou. — assentiu ela.
— Você falou que sua mãe sempre te disse para não falar com estranhos. — comentou ele.
— Sim. 
— Disse e não diz, está no passado, o que aconteceu com ela? — perguntou ele, se sentando dois degraus abaixo dela.

O olhar de ficou mais triste que o habitual. Pois a mãe que ela mencionava era Célia.

— Minha mãe faleceu. — respondeu ela, quase em sussurro.
— Que estranho, eu conheço o missionário Dimitri, e não ouvi que a esposa dele morreu. — retrucou ele.
— Como conhece meu pai?! — perguntou surpresa novamente.
— Meu pai é amigo do seu. — respondeu ele — Mas você não me explicou…
— Eles são meus pais adotivos. — explicou — Minha mãe biológica, era dela que eu falava.

Sua voz falhou um pouco, e o olhar voltou para o sanduíche em sua mão. ficou sem reação do que fazer. Saber daquilo foi inesperado para ele.

— Ah… Que fome… Pena que não trouxe nada para o almoço… — disse ele, tentando mudar de assunto.

ficou um pouco pensativa, até que esticou o pacote para ele com o outro sanduíche.

— Pode comer. — disse ela.
— Sério?! — arregalou os olhos e pegou o pacote.
— Sim. — afirmou.

Se tinha uma coisa que ela havia aprendido com Célia, era dividir com o próximo aquilo que tinha, quando necessário. Um ensinamento que ainda estava bastante vivo dentro da garota. ficou observando o garoto comer como se fosse a refeição mais gostosa que ele tinha comido na vida. Ela segurou o riso e comeu o restante do sanduíche em sua mão.

Passado as horas, Dimitri a pegou pontualmente no final da tarde, em frente a escola. O entusiasmo do pai não esperou até chegar em casa para perguntar como tinha ido o primeiro dia da filha. havia deixado a maioria dos livros que pegara da biblioteca em seu armário, levando para casa somente o de álgebra para fazer a lição de casa.

— Olá querida. — Annia abraçou a filha ao recebê-la novamente, e se aproximando de Dimitri, lhe deu um selinho demorado — Como foi o dia de vocês?
— Cansativo. — respondeu Dimitri — E o seu querida.
— Mais ainda, trabalhar home office consegue ser mais estressante que pegar o trânsito. — respondeu ela, e olhou para a filha com carinho — E você ?
— Acredita que ela não quis me responder no carro?! — Dimitri se mostrou ainda chateado.
— Não combinamos que ela contaria a nós dois? — Annia colocou a mão direita na cintura com o olhar atravessado para ele.

O que arrancou risos da filha.

— Foi normal, eu acho. — respondeu a menina, matando a curiosidade deles.
— Só normal?! — indagou Dimitri.
— Sim, eu vou para o quarto, tenho lição de álgebra. — ela se afastou deles, seguindo para o corredor.
— Tudo bem, daqui a pouco eu te chamo para o jantar. — avisou Annia, segurando de leve no braço do marido para que ele não insistisse mais.

Assim que a menina sumiu no campo de visão deles, Annia sorriu para o marido com um olhar compreensivo.

— Vamos dar espaço a ela, a escola é uma novidade, com tempo ela se abre para nós sobre isso também. — disse Annia.
— Queria poder fazer mais por ela, nossa menina ainda mantém um olhar triste no rosto. — confessou Dimitri, num tom frustrado.
— Já estamos fazendo, estamos orando por ela todos os dias. — Annia segurou em sua mão e entrelaçou seus dedos — Vamos fazer a nossa parte, a Célia plantou, nós regamos, mas quem dá o crescimento é Deus. — disse ela, com referência ao versículo 6 do livro de I Coríntios 3.

Em seu quarto, colocou a mochila na cama e abriu, retirando o caderno e os livros. Ela se sentou na cadeira em frente a escrivaninha e começou a fazer sua lição. Concentrada em seus estudos, nem mesmo sentiu as horas passarem. No fundo, ela sentia que aquilo seria mais uma distração para que ela não pensasse em seu passado de dores.

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Meses foram passando com se adaptando bem à rotina escolar. Isso graças ao amigo que Papai colocou em sua vida para lhe ajudar. Por mais que ela não percebesse, em nenhum momento ela estava sozinha. 

Em um dia nublado, acordou com uma sensação estranha. Após ser deixada na escola pelo pai, seguiu com as atividades planejadas. Era sexta, por tanto aula de educação física. A quadra coberta ficava atrás da escola e havia uma passarela de acesso entre o prédio principal e ela. A aula de esportes terminou ao som do sinal e todos foram embora. por um infortúnio esquecimento, deixou sua blusa de moletom no vestuário.

Ao voltar para buscar, a chuva iniciou do lado de fora, e estava tão forte que até mesmo trovões tinha. Isso causou na garota uma volta involuntária às memórias do passado, quando viu o corpo de Célia ao chão, sendo molhado pela chuva. O corpo de travou de repente, fazendo-a mais uma vez se sentir vulnerável. Ela tinha contraído alguns traumas por sua perda, um deles foi o medo de barulho de trovão misturado a chuva.

A única coisa que conseguira fazer, diante de tantos barulhos que a congelava por dentro, foi esconder-se debaixo da arquibancada de estrutura de metal.

?! — a voz de ecoou na porta do ginásio — Você está aqui?!

A menina queria responder ao chamado dele, mas sua voz não saiu. O menino, vendo a mochila dela no último degrau da arquibancada, se aproximou mais e ouvi sons de choro. Logo, ele a encontrou encolhida no chão, abraçada às suas pernas, em lágrimas.

— Te achei. — disse ele, ajoelhando de frente para ela — O que aconteceu?

Assim que ele falou, o som de outro trovão soou alto e forte, fazendo ela se encolher ainda mais. Assim que ele entendeu que ela estava com medo, a abraçou com carinho, para que ela se sentisse segura.

— Vai ficar tudo bem, Jesus está aqui conosco e essa chuva vai passar. — disse ele, num tom baixo.
— E se não passar? — ela levantou o olhar marejado de lágrimas para ele.
— Que tal pedirmos ao dono da chuva?! — sugeriu ele.

abaixou o olhar, ela sabia que já tinha um tempo que não falava diretamente com Deus. As lembranças ruins sempre vinham em sua mente quando tentava, então ela simplesmente não o fazia. Mas naquele momento, quando começou a orar, ela sentiu uma paz inexplicável em seu coração, a mesma paz que ela sentia quando ouvia Célia orando pelas madrugadas.

levantou o olhar e observou o menino em sua frente de olhos fechados e orando com todo fervor. Logo, ela sentiu seu coração pulsar um pouco mais forte, e notou que pela primeira vez ao se colocar diante de Papai, as memórias ruins não tinham aparecido em sua mente.

Meu Deus é
Deus de milagres, Deus de promessas
Caminho no deserto, luz na escuridão
Meu Deus, este é quem Tu és.
- Caminho No Deserto / Soraya Moraes

Ensinamento: A oração de um justo pode muito em seus efeitos (Ore).


Débora

Já tinham desistido os camponeses de Israel, 
já tinham desistido, até que eu, Débora, me levantei; 
levantou-se uma mãe em Israel.
- Juízes 5:7
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Atualmente...

Poderia dizer que era perturbador para estar frente a frente com seu amigo do passado. O dia em que ela decidiu se afastar dele ainda estava fresco em sua mente, assim como a saudade que em silêncio sentia em seu coração. de imediato espantou as lembranças tristes de seus pensamentos, o que importava para o rapaz era aquela oportunidade única de tê-la encontrado. 

E não a perderia por nada.

— Me desculpe , mas eu realmente tenho que ir. — ela se afastou dele, um pouco sem graça e seguiu para a entrada do orfanato.

Ao chegar do lado de fora, ficou um tanto perdida por não ver mais o carro da loja. Ela olhou para o senhor que trabalhava no local limpando os vidros da fachada.

— Senhor, sabe me dizer se o rapaz que chegou comigo já foi embora? — perguntou ela.
— Ah… Sim, parece que ele recebeu uma ligação e saiu correndo com o carro. — respondeu o homem.

soltou um suspiro cansado, pensando em esganar Niall quando chegasse na loja e deu o primeiro passo para seguir em direção a estação de metrô.

— Eu levo você. — a voz de surgiu atrás dela.

se assustou um pouco.

— Não precisa. — disse ela, ajeitando a bolsa transversal no corpo — O metrô deve ser aqui perto.
— Ele é um pouco longe, moça. — disse o funcionário, invadindo o diálogo deles.
— Eu insisto, só me diz o endereço. — manteve o olhar confiante.

E era exatamente isso que ela não queria, que ele conseguisse mais qualquer tipo de proximidade com ela naquela cidade. 

— Tudo bem. — sem argumentos, só lhe restava aceitar a gentileza.

deu um sorriso disfarçado e a guiou até seu carro. Na primeira parte do caminho, ambos permaneceram em silêncio. O rapaz tinha muitas perguntas para lhe fazer, curiosidades sobre os anos que ficaram longe um do outro. Mas manteve sua atenção na rodovia. Ela também sentiu uma leve curiosidade momentânea. Foi então que ele quebrou o vazio entre eles ao ligar o som do carro, que propositalmente começou a tocar Oceans.

Spirit lead me where my trust is without borders… Let me walk upon the waters… Wherever You would call me… começou a cantar a canção juntamente com a voz que saía do som do carro, de forma espontânea — Take me deeper than my feet could ever wander… And my faith will be made stronger… In the presence of my Savior…

Quando finalmente percebeu o som saindo de sua voz, seu olhar foi de encontro ao retrovisor da frente, fazendo-a ver um sorriso singelo no rosto de . Aquilo a fez ficar em silêncio de imediato, se encolhendo com vergonha.

— Sua voz continua a mesma, doce e suave. — comentou ele, deixando ela ainda mais envergonhada.
— Desculpa, comecei a cantar e nem reparei o que estava fazendo. — ela se explicou, desviando o olhar para a janela ao lado.
— Por que se desculpa? — ele riu baixo — Sua voz ao cantar sempre transmitiu paz.

Paz. Era algo que não sentia a muito tempo. Mas se surpreendia sempre que alguma pessoa comentava que se sentia bem ao ouví-la cantar. Aquele era seu dom mais visível e o que ela menos usava. Afinal, sempre que abria seus lábios para cantar algum louvor, a tristeza pela perda da sua mãe era imediata e inevitável.

— Posso te fazer uma pergunta? — pediu ela, mudando rapidamente o assunto.
— Sim. — disse ele.
— O que fazia no orfanato? — perguntou curiosa.

Ele já imaginava que em algum momento ela pudesse lhe fazer aquela pergunta. Talvez, fosse a brecha que ele precisava para poder desenvolver alguma conversa com ela.

— Ah… Eu ajudo em uma ong, agora estamos com um projeto de ensinar um pouco de arte para as crianças carentes e de orfanatos. — explicou ele — Somente fui ao orfanato hoje para entregar os papéis de autorização ao diretor, pois algumas crianças de lá querem participar.
— Ah… — ela manteve o olhar para o lado de fora do carro.
— Inicialmente vamos começar com música ensinando instrumentos, até conseguir mais voluntários para outras vertentes como teatro e dança. — continuou ele com naturalidade, demonstrando todo o seu entusiasmo com o projeto — Temos três professores de violão, dois de teclado e piano, um de saxofone, um de guitarra e dois de bateria.
— É uma quantidade boa para iniciar. — comentou ela.

Este era visivelmente um dom de . Seu lado espontâneo e natural sempre lhe permitia puxar conversa com as pessoas e fazê-las se sentir à vontade para passar horas falando sobre assuntos aleatórios sem perceber. E se sentia mais do que à vontade perto dele. O primeiro amigo que fez na Escola Primária Collin, tinha a facilidade de lhe fazer rir e conversar mesmo quando não queria.

— Sim, mas ainda precisamos de pessoas para outras partes da música, como a manutenção dos instrumentos e precisamos de doações também. A ong é bem pequena, mas tem muita pessoa legal que ajuda lá. — continuou ele.
— Hum…
— Você bem que poderia se juntar a nós. — sugeriu ele.
— Eu?! — ela o olhou confusa.
— Sim, poderia ser nossa professora de canto. — continuou ele.
— Ah, não, eu não sei ensinar. — ela voltou o olhar para frente — Sabe que não consigo me comunicar muito bem com as pessoas.

Um ponto fraco que a dor do passado formou dentro dela.

— Bem, você me pareceu bem comunicativa com aquela garotinha do orfanato. — comentou ele — Aliás, o que estava desenhando para ela?
— Estava ensinando ela a desenhar um vestido para sua boneca. — respondeu.
— Então está decidido, você vai ser nossa professora de canto e de desenho. — sua voz saiu com mais entusiasmo.

soltou uma risada baixa. realmente tinha um jeito único de ser que a deixava admirada.

— Você não pode sair decidindo as coisas pelas pessoas. — ela o repreendeu, deixando a voz mais séria.
— Muito bem. — ele parou o carro no acostamento e olhou para ela — Me diga que não quer ajudar e não te incomodo mais.

Olhar nos olhos dele com toda aquela profundidade que o rapaz emitia, a deixava mais insegura e retraída ainda. Ela não sabia se queria ou não, mas em sua mente só imaginava que se aceitasse, seria mais uma forma de aproximação da parte dele. 

— Digo que vou pensar, e depois te dou a resposta. — se pronunciou — Satisfeito?
— Não, mas tudo bem. — ele abriu um largo sorriso para ela — Aceita tomar café comigo? Estou com fome.
— Eu ainda estou no meu horário de trabalho. — alegou tentando fugir dele.

E você sempre está com fome! Pensou ela.

— Bem, se você voltasse de metrô, que é a lógica real, teria que andar uns vinte minutos até a estação, esperar mais uns 15, ficar dentro de um vagão cheio de pessoas suadas e mau humoradas por uns 30 minutos talvez, contando as paradas e mais a distância do metrô até sua loja, você deve ir caminhando também…
— Ok, eu já entendi, . — disse ela.

Ele tinha bons argumentos, era bem convincente e queria muito passar mais tempo com ela. assentiu e ele deu a partida no carro, com o destino traçado em sua mente. Uma pequena e mimosa cafeteria ao leste do Queens, que dividia o espaço com uma livraria também. nunca tinha entrado naquele lugar, e nem imaginava que existia um assim na cidade, entretanto sentiu uma sensação boa no ambiente.

a conduziu até uma mesa aos fundos onde sentaram. Após serem atendidos pelo funcionário. O olhar do rapaz se fixou na amiga que sentara de frente para ele. Seu coração acelerou um pouco, talvez por na sua mente criar uma breve ilusão de que um simples café pudesse ser considerado um encontro. Mas o fato é que gostava de desde o momento em que a conheceu, desde a primeira vez que a viu entrar na sala de forma acanhada e tímida. E ter se afastado dela deixou seu coração praticamente em pedaços, que com muita oração foi cicatrizado por Deus.

— O lugar é bem bonito. — comentou ela, olhando em volta.
— Sim, sempre que venho aqui, não consigo deixar de pensar em você. — revelou ele, após fazer sua oração de  agradecimento pelo alimento — E do dia em que nos tornamos amigos quando te achei na quadra da escola. 
— Eu me lembro daquele dia. — ela moveu seu olhar para a xícara de chocolate quente à sua frente — Você conseguiu uma amiga bem problemática.

Ela brincou, mas ele continuou sério.

— A melhor amiga que eu poderia ter. — a sinceridade soou em sua voz.
— O que estamos fazendo aqui ? — ela voltou o olhar para ele — Não sinto que seja somente pelo café. 
— É por você. — disse ele, de forma enigmática — Eu já falei que não vou desistir de você, e Deus também não, por mais que queira nos afastar da sua vida.
— Eu só não quero passar por tudo aquilo de novo. — confessou ela, mencionando seu passado subjetivamente.

conhecia muito bem a história de . A forma trágica em que ela perdeu a mãe e a causa do seu trauma de chuva. Não fora fácil para o menino conquistar a confiança dela e ao mesmo tempo fazê-la se abrir com ele. Entretanto, sua amizade era um conforto para a garota.

— Não é se isolando que as coisas vão ficar bem. — ele a confrontou. 
— Podemos mudar de assunto? — ela desviou o olhar para o lado, observando um casal se sentar na mesa à frente.
— Está mesmo fazendo moda na Parsons? — indagou ele, fazendo o que ela pediu.
— Sim. — assentiu ao dar a primeira garfada na torta de maçã que havia pedido.
— Não vai me perguntar por que eu mudei minha opção de curso? — instigou ele.
— Hum… Diga. — ela o olhou, estava mesmo curiosa.
— Eu gosto de música e se Deus me deu o dom para isso, não quero perder meu tempo com algo que não vai me fazer feliz e nem ajudar no meu chamado. — revelou ele. 
— Eu sempre pensei que você queria mesmo fazer engenharia. — comentou ela.
— Esse era o sonho do meu pai. — e explicou — E produção musical é maravilhoso, tudo que eu sempre imaginei… Você sabe que nosso chamado é pro louvor, não dá pra fugir.

Ela sentiu a indireta.

— Já faz tempo que não faço isso. — confessou ela — Me deixa desconfortável.
— Fico triste por isso. — ele abaixou o olhar.
— Podemos mudar de assunto? — pediu novamente.

Essa era a estratégia de para fugir dos problemas e não tocar em suas feridas. Mas era paciente e esperaria pelo momento mais propício pra encorajá-la a enfrentar suas dores e deixar o Espírito Santo cicatrizar suas feridas ainda abertas.

— Como se descobriu na moda? — perguntou ele, ao tomar um gole do seu Ice Latte — Se me lembro bem, você queria fazer medicina.
— Era o sonho da minha mãe Célia, que eu me tornasse médica. — respondeu , se lembrando da mãe — Eu consegui bolsa na Monash University, mas depois que visitei os laboratórios e assisti a aula inaugural, senti que realmente não era pra mim. 

Foi uma das mais difíceis decisões que ela havia tomado. Inicialmente se sentiu traindo sua mãe Célia e destruindo o sonho dela. Mas após muita conversa e aconselhamento dos seus pais adotivos, a jovem entendeu que a melhor forma de honrar a memória da mãe, não seria fazendo medicina, mas sim, vivendo de acordo com os ensinamentos dela, sendo uma mulher de caráter honesto. Além de não abandonar a fé em Deus. 

Está última parte, seria ainda mais importante. Pois Célia era uma mulher de fé, sendo um grande exemplo para sua filha até o fim. 

— Imagino que não tenha sido fácil. — comentou ele — Mas o que importa é que está fazendo o que gosta.
— Sim. Me divirto muito, quando não estou estressada por desenhar demais e com o pulso doendo. — ela deu outra garfada na torta.
— Combina com você, sempre desenhou tão bem. — elogiou ele.
— Obrigado. — ela sorriu de leve, espontânea.

Fazendo-o sorrir também. 

Ambos continuaram conversando por mais algum tempo até que recebeu uma ligação preocupada da senhora Moore. a deixou na porta da loja de roupas como prometido e seguiu seu caminho.  A jovem sentiu seu coração aquecido por um momento, ao observar o carro se distanciando da loja, o que a fez ficar parada por alguns minutos apenas repassando em sua mente tudo o que tinha vivenciado naquelas poucas horas com ele.

— Hummm… — Louise se aproximou dela, com os olhos arregalados de curiosidade, despertando sua atenção — Quem é ele?
— Um velho amigo, dos tempos da escola. — respondeu, não dando tanta importância a amiga.

Ela entrou na loja e se reportou à senhora Moore, contando sobre o repentino desaparecimento de Niall. Após organizar mais algumas coisas no estoque e deixar as caixas para o bazar da igreja separadas em uma pilha única com um bilhete para Niall. 

— Nossa que dor na coluna. — reclamou Louise ao se espreguiçar indo em direção ao banheiro.
— Compartilho do mesmo sentimento. — disse , retirando o celular do bolso e olhando as horas.
— Eu ainda não sei como você consegue dormir naquela cama. — comentou a amiga — Eu já troquei de colchão umas três vezes em menos de um mês.
— Não posso me dar ao luxo de gastar dinheiro com isso, além do mais, já estive em situações piores. — disse , se lembrando da velha cama que rangia a madrugada toda, em que dormia no Brasil.

Ela se moveu pelo minúsculo espaço da sala e entrou em seu quarto. Deixando a bolsa em cima da cama, trocou de roupa e se sentou na cadeira, para mais uma noite em claro estudando. Tinha uma prova teórica de história da arte e da indumentária, muito importante no dia seguinte. Para continuar mantendo sua bolsa de estudos, ela não podia se dar ao luxo de relaxar como a amiga ou as outras garotas da sua turma. Ela precisava manter seu nível de qualidade de melhor aluna. 

A forma que encontrou para honrar seus pais adotivos que lhes deram todo apoio. 

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A semana passou e sentiu algo estranho, ao longo dos dias. O motivo? O inesperado silêncio e afastamento de . Após o dia em que o encontrou no orfanato, a garota já esperava por alguma visita surpresa do amigo na loja. Entretanto, não ocorreu. O que a deixou intrigada e um pouco ansiosa também. Ela sabia que seu amigo persistente nunca desiste das coisas. E quando o assunto era a amizade de ambos, sua dedicação parecia ser dobrada. 

Sábado à noite, se dirigiu para o bar onde trabalhava aos finais de semana. De nome Vitrola, o ambiente era bem harmônico em sua arquitetura. A mistura industrial com o rústico transmitia uma sensação agradável aos clientes, que permaneciam horas no lugar desfrutando do momento. 

entrou pela porta de acesso dos funcionários, nos fundos do prédio. Ficou alguns minutos no banheiro fazendo um breve aquecimento vocal.  Por um acaso, o dono do lugar havia entrado dentro da loja de roupa no exato momento em que ela cantava uma música que tocava no rádio. Foi a deixa para ele a convidar a cantar aos sábados em seu bar. Era um dinheiro extra que utilizava na compra de tecidos para as roupas que desenhava em seus trabalhos do curso.

You call me out upon the waters… The great unknown where feet may… não se atentou ao que fazia, mas após assentar na banqueta e começar a dedilhar as cordas do violão, automaticamente sua voz começou a soar a canção OceansThere I find You in the mystery… In oceans deep, my faith will stand...

Somente quando iniciou o refrão que ela percebeu todo o seu corpo trêmulo e seus olhos marejados de lágrimas. A canção estava falando internamente com ela, de forma inesperada e intensa. Não era de costume cantar uma canção gospel, justamente pelo fato de lembrar sua mãe. Mas ali estava ela inexplicavelmente conduzindo com maestria a canção que mais falava ao seu coração.

No final. Ela olhou para as pessoas que estavam no lugar, e notou os olhares impressionados e emocionados para ela. Havia até mesmo uma senhora enxugando disfarçadamente uma lágrima que caía. Foi neste momento de um olhar específico lhe chamou atenção. O rosto sereno de lhe transmitiu uma sensação de aconchego inesperada. O som dos aplausos a despertaram para cantar a próxima música.

— Agradeço a todos por estarem aqui, nesta noite. — disse ela, voltando a dedilhar o violão novamente.

Após quatro canções consecutivas, deu uma pausa e se dirigiu para o balcão de atendimento do bar.

— Hoje você está incrível. — comentou Jack, o Batman da noite — Não sabia que cantava músicas gospel, sua voz fica tão mais suave com esse estilo.
— É, fazer isso hoje tem sido novidade pra mim também. — uma novidade que a deixava temerosa.
— A primeira música que cantou me fez lembrar o coral da igreja da minha mãe. — comentou ele — Que nostalgia da minha época de infância.
— Hum. — ela voltou seu rosto para o lado e percebeu a atenção de em sua direção.
— Vai querer água de côco desta vez? — perguntou Jack.
— Mineral, por favor. — respondeu ela.

Assim que foi servida, ela tomou o primeiro gole. Em instantes, sentiu uma presença do seu lado direito e ao mover seu rosto. Seus olhos encontraram os de

— Então você ainda louva. — disse ele convicto de suas palavras.
— O que faz aqui? — perguntou ela, desviando do seu comentário.
— Acreditaria se eu dissesse que Deus me trouxe até aqui? Só para te ver? — ele deu um sorriso de canto meio bobo.

Porém, deixou seu olhar mais sério. Demonstrando não estar para brincadeiras.

— É sério. — disse ele, rindo um pouco — Eu não sabia que trabalhava aqui também, vim com uns amigos da universidade, é aniversário do Scott.

Explicou ele, apontando para a mesa dos amigos.

— Hum. — ela voltou o olhar para o copo.
— Quando me pediu para me afastar de você, me fez prometer que iria cumprir. — continuou ele — E tenho feito isso todo esse tempo, por isso não voltei naquela loja. Amigos cumprem promessas, por mais que lhes doa.
— Então porque está aqui? — ela se sentiu confusa internamente — Por que agora nos encontramos de novo?

Após quatro anos de distância. 

— Porque em todo esse tempo, oro todos os dias a Deus para que você me deixe voltar pra sua vida. — ele sorriu de leve, bem espontâneo — E seus olhos me confirmam que o Senhor está começando a responder às minhas orações. 

estava mesmo confiante. E de alguma forma poderia estar. Pois internamente a barreira que criara em sua vida estava começando a ser abalada. 

Afinal, Deus jamais desistiria dela.

Meu Deus é
Deus de milagres, Deus de promessas
Caminho no deserto, luz na escuridão
Meu Deus, este é quem Tu és.
- Caminho No Deserto / Soraya Moraes

Ensinamento: Não desistir.


5. Priscila

Saúdem Priscila e Áquila, 
meus colaboradores em Cristo Jesus. 
Arriscaram a vida por mim. 
Sou grato a eles; não apenas eu, 
mas todas as igrejas dos gentios.
- Romanos 16:3-4
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Atualmente...

não conseguiu voltar ao espaço do palco novamente para continuar sua apresentação da noite. Assim como não conseguiu voltar para mesa dos seus amigos da NY University, que ao longe ficaram observando-o curiosos. Os olhares dele para a garota a deixava um pouco constrangida e ainda mais inquieta internamente. Sua mente um pouco cansada pelos dias corridos e desgastantes, apenas desejava um momento de descanso, porém os bombardeios das memórias do passado iniciaram a partir do momento em que ele disse o motivo de estar ali.

— Acho que preciso ir. — disse ela ao se levantar da banqueta e pegar sua mochila.
— Posso te levar? — perguntou ele, se levantando também.

pensou naquela pergunta por três segundos, e antes que pudesse recusar…

— Sim. — as palavras saíram com suavidade de sua boca, deixando-a confusa consigo mesma.

Ela queria recusar, mas espontaneamente acabou aceitando. Respirando fundo, a garota sentiu segurar sua mão, o que fez seu corpo paralisar a primeiro momento, então deixou-se ser guiada por ele até a saída. O carro do rapaz estava estacionado no quarteirão da frente, naqueles pequenos passos até o automóvel o coração de se manteve em constante aceleração. Assim que entraram, deu a partida e perguntou o endereço dela.

— Se não quiser falar, eu posso te deixar próximo. — disse ele, para que ela se sentisse mais confortável.
— Ah, não, eu posso dizer. — ela deu um sorriso fechado.

Voltando seu olhar para a janela ao lado, num tom mais baixo informou o endereço dela, curiosamente conhecido por ele. Minutos de silêncio entre os dois, apenas apreciando o fundo musical proporcionado pela playlist do carro.

So I shout out Your name… From the rooftops I proclaim… That I am Yours… I am yours… começou a cantarolar a música Rooftops do grupo Jesus Culture, de forma espontânea e muito empolgada — All that I am, I place into Your loving hands… And I am Yours, I am yours…

começou a rir de leve do amigo, que continuou sem se importar. Aquilo os fizeram lembrar de vários momentos do passado, quando se juntavam para ouvir músicas e se fazia o astro da música com seus gestos engraçados. Ela parou de rir e voltou a olhar para frente, ficando um pouco mais séria.

— Você também se lembrou, não foi? — ele olhou para ela, através do retrovisor da frente.

O silêncio da garota foi uma confirmação para ele.

— Nem sempre podemos fugir do passado. — comentou ele — E não existem apenas memórias ruins.
— Poderia não começar esse assunto? — pediu ela, mantendo o olhar baixo.
— Chegamos. — ele estacionou o carro em frente ao prédio em que ela morava — Quando você quiser falar sobre isso, sabe que estarei aqui.
— Eu sei, você é um bom amigo, mesmo eu não merecendo. — ela o olhou.

conseguiu sentir a tristeza vinda da garota e pensou rapidamente numa forma de aliviar isso.

— Olha só, ela disse amigo. — ele abriu um largo sorriso, mantendo o olhar como de uma criança que acabara de receber uma boa notícia.

A reação dele, fez ela sorrir junto.

— Você é muito bobo. — ela destravou o cinto de segurança e abriu a porta para sair.
— Posso te ver de novo amanhã? — perguntou ele, mantendo a esperança interna.
— Amanhã é domingo. — alegou ela, achando ser um argumento.
— E o que tem? — seu olhar ficou confuso.
— Tenho trabalhos para fazer. — explicou com mais relevância.
— Que tipo de trabalho? — insistiu ele.

soltou um suspiro cansado, era complicado lidar com o lado insistente dele, mas depois de cinco anos ela sentia falta daquilo.

— Tenho vários croquis para desenhar. — detalhou melhor.
— E não pode fazer isso ao ar livre em um piquenique no Central Park? — perguntou em forma de convite e sugestão.
— Você quer me levar ao Central Park?! — aquilo a deixou levemente desnorteada.
— Sim… E eu acho que a natureza pode ser um bom estimulante para seus desenhos. — ele manteve o olhar sereno para ela, com um sorriso no canto do rosto — Ou vai me dizer que ficar trancada no quarto é melhor?
— Não… — saiu quase um sussurro.
— Que horas te pego? — o olhar dele atento a ela, era um choque de sentimentos para a garota.
— Pode ser às 9? — devolveu a pergunta.
— Fechado. — assentiu.

Ela finalmente desceu do carro e seguiu para a porta. No caminho, encontrou sua amiga um pouco bêbada e bem tagarela. Ela ajudou Louise a chegar ao apartamento e assim que entraram, assentiu a amiga no sofá do que chamavam de sala. E deixando a mochila no chão ao lado, seguiu para a área da cozinha.

— Onde estava que voltou nesse estado? — perguntou , pegando a velha chaleira e indo para a pia.

Para a garota, nada como um café bem forte para fazer o ser humano voltar aos eixos e é isso que ela faria para a amiga. 

— Ai, acho que exagerei um pouco. — resmungou Louise, se despojando mais um pouco no sofá e voltando o olhar para observar a amiga — Fui convidada a uma festa na fraternidade Beta Delta da Columbia University.
— Uau, está tentando entrar para a elite? — perguntou , ao acender a trempe do fogão com o fósforo e se voltar para o armário.
— Se nada der certo, preciso me casar com alguém rico. — brincou ela, sentindo uma pontada em sua cabeça — Socorro, nem amanheceu e eu já estou com ressaca.
— Isso que dá beber demais. — ela riu da amiga, ao abrir a geladeira e procurar algo para fazer um lanche para as duas — O que acha de um sanduíche de queijo quente? Eu estou com fome e aposto que a única coisa que fez nessa tal festa foi beber.
— Adoro seus queijos quentes e sim, eu não consegui comer e olha que tinha uma mesa repleta de petiscos. — Louise se remexeu mais no sofá, se deitando um pouco — E você? Voltou meio cedo do Vitrola.
— A noite terminou mais cedo. — se manteve concentrada nos sanduíches.
— E isso se deve ao garoto do carro que te trouxe? — perguntou ela, deixando soar um tom malicioso — Posso estar bêbada, mas ainda tenho olhos.

Louise soltou uma gargalhada maldosa, que deixou constrangida. A jovem parou o que fazia e olhou para a amiga jogada no sofá.

— Não quero falar sobre esse assunto. — disse ela, voltando ao preparo dos sanduíches.
— Você nunca quer falar sobre nada. — reclamou Louise, erguendo a cabeça e olhando-a com mais clareza — Nem sei como somos amigas.
— Você gosta de falar e eu tenho paciência para te ouvir. — seu argumento resumiu toda a explicação.
— Verdade. — ela riu novamente, mais baixo — Só me responde uma curiosidade, por favor?!

Louise fez o olhar de cachorro sem dono.

— Só uma. — a olhou novamente.
— Esse amigo, é o mesmo da foto na cabeceira da sua cama? — os olhos brilhantes de curiosidade de Louise, deixava a garota abismada.

abaixou o olhar, algo que fez sua amiga ver como uma confirmação. Logo ela deu um pulo do sofá, estranhamente empolgada.

— Eu sabia! — Louise soltou um grito e depois cambaleou — Ai, o álcool subiu aqui.
— Nem comento. — a garota não se importou com o estado dela.
— Mas, me conta, como foi voltar a ver ele? — os olhos curiosos de Louise retornaram para ela.
— Você disse uma curiosidade. — alegou a garota.
— Mas é a continuação da curiosidade. — argumentou a amiga.
— Não vou contar mais nada. — disse com firmeza.
— Nem precisa. — ela deu de ombros e sentou no braço do sofá — Seus olhos já dizem tudo.
— Como assim? — a jovem a olhou confusa.
— Você está com um olhar diferente, desde que esse amigo reapareceu. — explicou ela.

finalmente terminou de preparar o lanche de ambas e após passar o café, chamando a amiga para comerem, continuou em silêncio pensando nas palavras reveladoras de Louise. Assim que lavou a louça suja, seguiu para seu quarto e deixando a mochila em cima da bancada de estudos, abriu o guarda-roupa. Colocando o pijama, se deitou na cama e pegou a Bíblia embaixo do travesseiro. Se contava sete dias desde que reapareceu, sete dias em que algo dentro dela estava sendo trabalhado. 

Mas sua resistência em voltar a falar com Papai ainda permanecia.

Em um respirou fundo, ela voltou o objeto para debaixo do travesseiro e finalmente se deitou com mais conforto. Foi o fechar de seus olhos que caiu em sono profundo. Parecia que seria uma noite tranquila, afinal o dia havia sido proveitoso e surpreendente no final. Porém, na alta madrugada ela começou a ter um pesadelo referente a acontecimentos do passado. O detalhe é que justo nesta hora, em seu quarto, estava de joelhos diante de Deus, orando por sua amiga.

--

— Você está com um olhar triste. — comentou , assim que se encontrou com a amiga na porta do seu prédio, na manhã seguinte — Aconteceu alguma coisa?
— Apenas não dormi bem. — alegou , desviando o olhar para uma criança que passava com seu cachorro.
. — segurou em sua mão — Eu te conheço.
— Só não tive uma boa noite. — explicou ela — Podemos ir?
— Claro. — ele sabia que tinha algo errado, mas não iria insistir.

Quando se trancava internamente, somente Deus para fazê-la se expressar e compartilhar suas dores. tinha esse conhecimento e estava otimista que até o final daquele dia, ela iria se abrir para ele. De carro tudo é sempre mais rápido e não demoraram para chegar ao Central Park. O jovem aspirante a produtor escolheu um lugar pouco sombreado para sentarem na grama. E tinha preparado tudo para aquela ocasião, desde a toalha de mesa de apoio até o lanche que comeriam ao longo do dia.

— Me diz se não é bem melhor esse clima refrescante do que seu quarto apertado e desconfortável?! — indagou ele.
— Como sabe que meu quarto é apertado e desconfortável? — ela o olhou desconfiada.
— Sabendo, não é difícil imaginar. — ele riu — Você não aceita dinheiro dos seus pais, trabalha em dois lugares e desenha em troca de dinheiro, com certeza onde mora é o sinônimo da falta de espaço.
— Hum. — ela fez uma careta — Não precisa ser tão detalhista assim.
— Mas então?! — seu olhar ficou fixo nela.
— Ok, eu concordo, é bem melhor estar aqui do que no meu quarto. — ela ajeitou a mochila ao lado, que estava em cima da grama — Não costumo sair muito.
— Desde quando não faz algo assim?! — perguntou ele, já abrindo a cesta de lanches.
— Desde que… — ela pausou.

Então entendeu. Desde o dia em que se distanciaram.

— Não tem muita graça sem a companhia certa. — alegou ela.
— A companhia certa sempre é a companhia do Espírito Santo. — afirmou ele.
— Não sei se Ele me acompanharia, já que não estamos muito próximos. — não gostava de tocar em tal assunto, mas a forma em que seu amigo lhe puxava as respostas era espontâneas.
— Ele assegurou que estaria conosco até a consumação do século. — usou a referência Bíblica de Mateus 28:20 para ela, algo que mantinha na ponta da língua — Tenho certeza que Ele sente sua falta.

abraçou suas pernas e olhou para frente, observando as pessoas que transitavam pelo lugar. Sentiu um frio passar pelo corpo com as palavras dele. Ela havia se apegado tanto a sua dor que se esqueceu daquele que era a sua cura: Jesus. Mas ali estava , perseverante em mostrá-la que o Amor sempre se importaria com ela.

— Você vem todos os domingos aqui? — perguntou ela, mudando o assunto.
— Sim, continuei nossa tradição. — respondeu ele, abertamente — A natureza também é uma parte do Senhor, além de bela é motivadora.
— Hum…
— E como ficou sua amiga, ela não parecia nada bem?! — abriu o pacote de ruffles e jogou a primeira batata na boca.
— Eu fiz um café forte pra ela, e a forcei a comer também. — respondeu desviando o olhar para o pacote na mão dele — Quando saí de casa, ela ainda estava jogada na cama dormindo.
— Aceita?! — ofereceu ele, o lanche inicial.
— É de salsa e cebola? — perguntou.
— Seu favorito. — afirmou.

sorriu de leve e pegou uma, levando a boca. Porém, parou no caminho.

— Espera… Você não agradeceu. — disse ela.
— Olha só Jesus, ela notou. — abriu um largo sorriso, com os olhos brilhando — Já que reparou, você pode fazer a oração.
— Eu… , por favor… — ela começou.
— Senhor Jesus, agradecemos ao Senhor por este dia, pela oportunidade e pelo alimento, agradecemos também por sua presença aqui, porque tenho certeza que está sentado ao nosso lado. — ele a interrompeu fazendo a oração de olhos fechados e concentrado — Amém!
— Amém. — sussurrou ela.
— Você acabou de orar. — ele abriu os olhos e manteve o brilho — E a confirmação foi quando disse Amém.

sentiu uma brisa gostosa passar por seu corpo, um sentimento de alívio intrigante, mas bom. Não tinha pensado por esse ângulo, mas se sentiu feliz pelo ponto de vista do amigo, que lhe fez refletir um pouco.

— Você trouxe comida suficiente? — perguntou ela, pegando outra batata — Porque você sempre está com fome.
— Trouxe o suficiente para a manhã, vamos almoçar em algum lugar de tarde, e tenho outros planos para nós. — respondeu ele, empolgado.
— Planos? Devo ficar com medo? — seu olhar ficou temeroso.
— Desde quando meus planos são ruins? — se fez indignado — Todos vem de Deus, minha querida.
— Tudo bem. — ela fez um gesto de rendição — Não está mais aqui quem falou.

Eles riram de leve e voltaram a comer. Minutos depois ela lavou as mãos com um pouco da água de sua garrafinha e começou a desenhar. O momento era propício e sua saída com o amigo ainda tinha seu propósito, estudos ao ar livre. se manteve ao lado, observando-a com atenção. Não no desenho, mas no rosto dela que o deixava fascinado. Era raro os momentos em que mesmo séria, a face de reluzia serenidade e brilho, mas ali estava. 

— Vai mesmo passar o dia todo me olhando? — ela finalizou seu vigésimo croqui e o olhou — Não é tedioso? Se quiser caminhar um pouco.
— Não quero caminhar, só quero ficar te olhando. — respondeu ele — Para mim, não é nenhum pouco tedioso, pelo contrário, é fascinante ainda mais depois de quatro anos.
— Você me faz ficar envergonhada assim. — retrucou ela — Pare de dizer essas coisas com tanta sinceridade.
— Me desculpe se não consigo ser menos direto em minhas palavras. — ele ergueu a mão e passou no cabelo dela, colocando-o atrás de sua orelha.
… — ela se encolheu um pouco com o coração acelerado.
— Volte a desenhar, parecia estar se divertindo. — aconselhou ele.
— Não está com fome? — perguntou ela, segurando o riso.
— Não… Acho que ainda podemos ficar mais um pouco aqui, além do mais, trouxe maçãs para ajudar. — assegurou ele.
— Maçãs te dão mais fome ainda. — alegou ela.
— Essa é a ideia. — brincou ele, fazendo-a rir.

o olhou por alguns instantes, não conseguindo encará-lo por muito tempo, voltou a atenção para as folhas em seu colo.

— Como consegue desenhar de tantas formas diferentes? — perguntou ele, intrigado — Os dez primeiros desenhos tem o traço diferente dos outros dez que fez.
— Como você sabe, eu vendo meus desenhos para pagar as contas, e não posso entregar croquis com traços semelhantes, por isso tive que me forçar a variar meu traço, assim não fica igual. — explicou ela sua lógica — Os dez primeiros são os meus, os outros é de uma veterana amiga da Louise e ainda faltam mais dez.
— Bem que eu gostei mais dos primeiros, combinam mais com você, principalmente o estilo da roupa. — sua análise era superficial, mas tinha coerência.
— Achei que estivesse olhando somente para mim. — seu olhar ficou surpreso.
— O conjunto da obra. — brincou ele, fazendo-a rir de leve.

voltou a desenhar. As horas passaram e após o almoço na La Abuelita, um restaurante de comida mexicana, propôs uma caminhada sem direção pela cidade. A maior parte do tempo foi em silêncio, mas só por estar na companhia de , a jovem já se sentia bem e ansiosa, pois ele sempre a deixava surpresa de alguma forma.

No final da tarde, a levou em um estúdio de música onde trabalhava como estagiário. O olhar curioso dela percorreu discretamente o lugar, atenta às movimentações dele, então o rapaz pegou em sua mão e a levou para dentro da cabine de gravação.

— O que está fazendo? — perguntou ela, confusa.
— Quero cantar com você. — disse ele, ao pegar o fone e encaixar na cabeça dela — Vamos testar seu retorno primeiro, ok?!
— Achei que me levaria para outro lugar. — comentou ela — Uma lanchonete.

Sua brincadeira o fez fazer uma careta.

— Sua boba, eu não passo a vida comendo. — resmungou ele.
— Eu nem sei como você consegue ser magro, sempre está com fome. — ela riu.

Ele se posicionou em frente a mesa de comando e começou seus testes. Então voltou à cabine para ajudar o seu. 

— O que vamos cantar? — perguntou ela.

Naquela altura do dia, já havia se rendido às vontades do amigo e não estava mais questionando nada. Apenas vivendo o dia como se fosse o melhor em muitos anos.

I surrender. — disse ele, se preparando — Você pode começar.

A voz de não era um talento nato como a de , mas ele tinha uma técnica boa e orava a Deus para ter a unção também. Quando a garota iniciou a canção, ele sentiu seu corpo se arrepiar de imediato, seguido de um aconchego no coração. Ali estava o dom que Jesus deu a ela, intocado e totalmente ativo. Mesmo com o coração ainda fechado e ferido, as palavras soavam com a brisa do mar que envolvia as pessoas. Tanto que seu amigo até mesmo esqueceu-se de entrar na canção, permanecendo apenas sentindo a doce presença do Espírito Santo naquele pequeno espaço.

I surrender… I surrender… I wanna know You more… I wanna know You more… — ela continuou a canção, como se estivesse apenas ela ali, ou melhor, começou a sentir como se estivesse frente a pessoa na qual a canção retratava —  Like a rushing wind… Jesus breathe within… Lord have Your way… Lord have Your way in me… Like a mighty storm… Stir within my soul… Lord have Your way… Lord have Your way in me.
— Foi lindo. — disse , assim que ela terminou.
— Você disse que cantaria comigo. — ela que estava de olhos fechados, os abriu olhando para o amigo confusa.
— Me desculpa, foi mais forte que eu. — ele sorriu de canto.
— Porque me trouxe aqui? — perguntou ela, diretamente.
— Quer mesmo iniciar este assunto?! — indagou ele.
— Porque o fato de ter aparecido me faz seguir para isso. — respondeu ela subjetivamente — Eu não quero.
— Se lembrar do passado não significa que precise passar pela dor de novo. — segurou a mão dela — , se abre comigo.
— Tenho tido pesadelos… — ela sentiu seus olhos encherem de lágrimas — A uma semana eu tenho tido pesadelos com aquele dia… 

percebeu que desta vez ela não se referia a morte de sua mãe Célia, mas sim no dia em que seu melhor amigo sofreu um acidente e quase morreu. Ele a puxou para perto e lhe abraçou de forma reconfortante lhe transmitindo segurança. 

— Eu não quero passar pela dor da perda novamente. — sussurrou ela, sentindo o perfume dele mais de perto, se aninhando em seus braços.
— Tudo na vida possui um propósito, às vezes perder também significa ganhar. — ele manteve o tom sereno, acariciando os cabelos dela com carinho — Você não perdeu a sua mãe, só está temporariamente distante dela, mas um dia vão se encontrar na glória… Assim como também não me perdeu, mesmo com a distância.
— Mas por que ainda dói?! — perguntou ela, sentindo a voz falhar um pouco.
— Você sabe a resposta. — ele continuou a aninhá-la, em sussurro — Mas saiba que não está sozinha… Estou aqui por você.

sentiu a primeira lágrima cair de seus olhos. Pela primeira vez os muros da resistência que criara começaram a ser abalados, deixando uma pequena brecha para Jesus entrar.

To share this love across the earth
Compartilhar esse Amor com toda a Terra,
The beauty of Your holy worth
A beleza do Teu Santo valor
So I Kneel before you, God
Então eu me ajoelho diante de Ti, Deus
I lift my hands cause You set me free.
Eu levanto minhas mãos pois me libertou.
- Rooftops / Jesus Culture

Ensinamento: Amizade verdadeira.


6. Mulher Samaritana

Mas a hora vem, e agora é, 
em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai 
em espírito e em verdade; 
porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
- João 4:23
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7 anos atrás...

Um ano havia se passado após conhecer o garoto mais faminto de toda a escola. Agora todos os dias no intervalo das aulas, ela dividia seu lanche com ele nas mesmas escadas em que se conheceram. Uma amizade inesperada que se fortaleceu através das orações de , que não desistia em sua curiosidade para conhecer mais a garota do olhar triste. Claro que os pais da menina ajudavam com incentivos a ela ter mais amigos em sua nova vida. E mesmo com seu jeito retraído, se aproximou de mais algumas crianças através da espontaneidade do seu amigo comunicativo e popular.

… — a voz de Annia soou do lado de fora do quarto, em seguida dos dois toques — Já está acordada querida?
— Não. — resmungou a criança, cobrindo mais a cabeça e encolhendo entre as cobertas.
— Se não acordou vai acordar agora. — a voz de surgiu de repente, fazendo-a dar um de susto em sua cama.

Logo a porta se abriu e o olhar animado do garoto pode ser visto por ela. Um sorriso radiante no rosto de a deixou intrigada, principalmente por saber que ele sempre acordava de mau humor, por ter que levantar muito cedo para chegar na escola. Afinal, morava um pouco longe. E somente após uma barra de cereal que voltava a ser o de sempre.

— Eu vou deixá-los à vontade, juízo ein?! — disse Annia com um sorriso meigo — Vai tomar café conosco ?
— Eu nunca recuso, senhora Miller. — aceitou ele, sorrindo também.
— Vou deixar a porta aberta. — disse a mãe ao se retirar.

permaneceu em sua cama, com o corpo erguido, porém sentada. Observando seu amigo entrar no quarto lentamente e puxar a cadeira para assentar bem próximo a ela. Um leve brilho seguia no olhar animado dele, o que chamava a atenção da garota que só desejou dormir até mais tarde em seu primeiro dia de férias de verão.

— O que faz aqui? — perguntou ela, deixando a expressão de emburrada refletida em seu rosto.
— Que pergunta é essa? Estou aqui para aproveitarmos nossas férias. — explicou ele.
, hoje é o primeiro dia das nossas férias, você odeia acordar cedo, não era nem para estar aqui. — argumentou ela.
— Eu vou ser sincero, passei quase a noite em claro pensando em tantas coisas que podemos fazer ao longo desses três meses de férias que acabei não tendo sono. — ele riu de leve.

Porém, ela se manteve séria.

— Ah, por favor, não me olhe assim. — ele cruzou os braços, ficando chateado pela reação dela — Eu só queria me certificar que você não ficaria trancada no quarto as férias inteiras.
— Por que eu faria isso?! — perguntou ela, confusa.
— Eu te conheço. — foi sua única explicação — Porque não foi a igreja ontem?
— Não estava muito bem. — respondeu ela, voltando o olhar para baixo.
— Voltou a ter pesadelos? — indagou ele, se preocupando.

assentiu com a cabeça. 

— Por que não ligou para minha casa? Eu podia ter vindo, não é bom ficar sozinha quando isso acontece. — questionou ele.
— Eu não estava sozinha. — retrucou — Meus pais estavam comigo, eu fiquei bem.
— Hum… — ele voltou o olhar para a janela, o sol estava radiante do lado de fora — Que tal uma volta de bicicleta pelo quarteirão após o café?
— Você não vai mesmo me deixar dormir, não é?! — perguntou ela, em sussurro.
— Não. — ele se levantou da cadeira e seguiu para a porta — Não demore para trocar de roupa, estou te esperando na mesa do café.

soltou um suspiro cansado. Não iria gastar suas forças resistindo as energias de uma criança saudável que seu amigo emanava. Apenas assentiu após a saída dele e se levantou. A passos lentos ela foi até a porta deixada aberta pelo amigo e a fechou. Então aproximando do guarda-roupas, trocou o pijama em seu corpo por roupas leves para aproveitar o frescor do dia. Ao chegar na cozinha, se deparou com seu amigo sentado em uma das cadeiras, já saboreando o café.

— Você não deveria ter me esperado ? — perguntou , indo se sentar na cadeira ao lado dele.
— Eu juro que tentei, mas não resisti ao cheiro das panquecas, elas estavam sussurrando meu nome. — ele manteve um olhar sereno e despreocupado para ela.

A menina riu um pouco. Já era da natureza de não resistir à comida. Não sabia como ele conseguia ser magro mesmo comendo tanto. Talvez por sua hiperatividade, pelo metabolismo rápido, sendo uma criança brincalhona e aventureira, era raro os momentos em que ele se sentia desanimado. 

Após o café da manhã, sugeriu um banho de sol matinal. Ele realmente estava decidido a não deixar sua amiga as férias todas dentro do quarto. Como de fato era o que ela planejava fazer, ficar em seu cantinho lendo livros e mais livros para distrair a mente. Não que ler fosse errado, mas a garota precisava ter uma rotina mais movimentada e com a presença de outras crianças da sua idade.

— Eu não acredito que você me tirou cedo da cama para ficar no sol. — reclamou ela, ao observá-lo se sentando na grama do jardim da frente de sua casa.
— Vitamina D, , faz bem à saúde, pessoas da nossa idade precisam para o bom desenvolvimento. — argumentou ele — Estamos em fase de crescimento e precisamos do sol.
— Falando assim até parece que é um adulto. — comentou ela.

Ele piscou de leve e sorriu. Então voltou o olhar para frente.

— Vai ficar parada de pé me olhando? — perguntou ele. 
— Não. — ela fez uma careta e sentou-se ao seu lado — Como estão seus pais?
— Na mesma, acho que não tem mais solução para o casamento deles. — a voz do amigo ficou mais baixa.

não tinha a vida perfeita como imaginou desde o início. Há pouco mais de um ano, o pequeno garoto vinha acompanhando o casamento de seus pais desabar. Ele tentava se manter otimista, mas diante das brigas constantes, se agarrava a Deus para não ficar ainda mais triste. E sabia que tinha em sua amiga, momentos divertidos. Para ele, ter conhecido fora um presente de Deus. A luz que precisava em meio a tanta escuridão causada pelas brigas dos pais.

? — ela tocou na testa dele conferindo sua temperatura — Você está doente?
— Porque? — o menino olhou confuso.
— Você é sempre otimista e confiante, como pode falar assim do casamento dos seus pais?
— Não adianta eu ter fé para algo dar certo se as pessoas envolvidas não quiserem. — explicou ele, voltando a olhar para frente — Meus pais desistiram de se amar, desistiram da nossa família. 

Ele soltou um suspiro cansado e jogando o corpo para trás deitou sobre a grama. permaneceu em silêncio e pensativa. Admirava o amigo por estar passando por problemas e ainda assim se esforçar ao máximo para ajudá-la com os seus internos. também era um presente de Deus em sua vida.

Eles ficaram algum tempo no jardim, brincando de jogo de adivinhação. Na hora do almoço, voltou para casa e acabou indo almoçar fora com sua mãe que precisava encontrar com um cliente. Ao final do dia, após um banho quente, a garota aproveitou o silêncio de sua casa para desenhar um pouco. Era o momento em que se sentia mais leve e vislumbrava a felicidade. Seus desenhos eram sua forma de expressar o que sentia, e a maioria se referiam a sua falecida mãe, Célia.

As semanas se passaram. 

Ao longo das férias, continuava fazendo com que sua amiga aproveitasse ao máximo aquele tempo se divertindo e longe do silêncio do seu quarto. Na manhã de sábado, os dois amigos combinaram de se encontrar pela manhã próximo à escola. queria apresentar um lugar secreto para a garota. Que seria o refúgio dos dois em dias nebulosos. Entretanto, após uma hora de espera, ficou intrigada pela ausência do amigo e seguiu em direção a casa dele. 

Quando chegou, se deparou com a porta da frente entreaberta. Ela ficou com medo de chamar e os pais do garoto brigarem com ela.  Porém, sua curiosidade sendo maior que o medo, a fez entrar na casa e seguiu até o quarto do amigo. A porta, também entreaberta a deixou observar o que o garoto fazia do lado de dentro. estava ajoelhado em frente a cama, de olhos fechados e muito concentrado. Aparentemente orando.

— Senhor Deus, eu sei que tenho sido egoísta nos últimos dias, pedindo para que não deixe meus pais se divorciarem... Mas hoje, estou aqui para fazer um pedido especial, não é para mim, mas para minha amiga que tanto conhece mais do que eu. — sua voz era nítida para , que permaneceu em silêncio apenas ouvindo — Nossas férias estão acabando, e em breve ela fará aniversário, foi o mesmo dia em que sua mãe voltou para o céu... Eu queria te pedir Senhor Papai, que protegesse o coração da minha amiga, ela tem o olhar mais triste que conheço, mas em alguns momentos eu consigo ver o brilho do Senhor sobre ela, principalmente quando canta. Sei que minha listinha de pedidos está cheia, mas pode passar minha amiga na frente, ela é preferencial... E para não ter dúvidas, o nome dela é . Amém!

Assim que terminou sua oração, levantou-se do chão e virando para a porta, viu a amiga parada de forma estática o olhando.

. — ele se mostrou surpreso — O que faz aqui?
— Você não apareceu. — respondeu ela, se encolhendo um pouco.
— Ah... Desculpa, eu acabei me esquecendo do horário. — seu olhar ficou triste.
— Tudo bem. — ela ainda dá porta, percorreu o olhar pelo quarto dele. 

Era um tanto bagunçado, como imaginou ser. O garoto abriu mais a porta e a deixou entrar, de forma tímida a menina manteve a curiosidade e deu alguns passos até uma prateleira com uma câmera polaroid.

— Você tem uma dessas. — comentou ela.
— Sim, eu gosto de fotos. — assentiu ele — As vezes é bom ter alguns momentos registrados.
— Eu queria ter alguns do meu passado, mas só tenho um. — ela reprimiu um pouco seus sentimentos.
— Hummm... Mas podemos registrar os nossos agora. — ele sorriu, e pegando sua máquina pousou seu braço no ombro da menina, a envolvendo um pouco, para que ficassem mais próximos.

— Diga, Jesus é bom! — disse ele, já batendo a foto.

mal teve tempo para reagir quando se deu conta que a polaroid já estava sendo processada. Minutos com os dois conversando e se divertindo com as histórias de sobre cada um dos seus carros em miniatura, barulho de vozes alteradas surgiram da sala. O garoto sabia o que significava e não deixaria sua amiga presenciar algo assim. Pegando-a pela mão, pularam a janela do quarto dele e finalmente seguiram para seu esconderijo.

O lugar era uma casa da árvore, em um terreno abandonado na região próxima a escola secundária da cidade. Diferente do quarto de , ela se impressionou o quanto estava limpo e organizado o lugar. Que realmente transmitia a sensação de aconchego e refúgio. 

— Aqui é tão bonito. — disse ela, olhando ao seu redor.
— E temos uma vista privilegiada. — brincou ele, abrindo a janela da lateral e mostrando a vista para o lago.
— Sim. — concordou ela, ao se aproximar e ver.

Ambos se debruçaram na larga janela e permaneceram com o olhar na paisagem. Conseguiam até mesmo ver os pássaros cantando, quebrando o silêncio momentâneo. O garoto soltou um longo suspiro, parecia pensativo demais.

— Amanhã é o dia dos namorados. — comentou de forma aleatória. 
— E o que tem? — perguntou ela, voltando o olhar surpreso para ele — Que comentário mais aleatório.
— Não é aleatório, é proposital. — explicou ele.
— Porque? — ela manteve o olhar sob o amigo.
— Porque me peguei confuso sobre o que te dar de presente amanhã — explicou ele com tranquilidade, um olhar sereno voltado para ela — É tão difícil saber os seus pensamentos.
— Nós não somos namorados. — disse , confusa com as reflexões dele — Não entendo o motivo de estar tão preocupado com isso.
— Mas seremos no futuro. — argumentou ele, com confiança — Preciso começar a me atentar a essas datas.

riu de leve, não dando credibilidade às suas palavras.

— Você é muito bobo. — comentou ela.
— Não sou bobo, só quero ser romântico. — explicou ele.
— O que te faz pensar que seremos namorados no futuro? — o olhou curiosa.
— Nossa amizade. — respondeu tranquilamente.
— Hum. — ela ficou pensativa por um tempo, então se afastou dele aproximando das almofadas ao canto em cima do tapete e se sentou em cima de uma delas — Era seus pais brigando, quando saímos do seu quarto?
— Sim. — respondeu ele.
— Eu não quero namorar no futuro se for para ser como eles. — comentou ela, se lembrando das vozes.
— É por isso que tenho certeza que vou me casar com você! — garantiu ele — Somos melhores amigos, gosto dos seus defeitos e das qualidades, acredito que você também, já que nunca me mandou calar a boca.

Ele soltou uma gargalhada engraçada, fazendo-a rir junto.

— Só tem um ano que me conhece , como pode saber meus defeitos. — ela o questionou.
— Você é tímida, sempre que está envergonhada olha para suas mãos, quando está triste se tranca no quarto e é a pessoa mais difícil do mundo pra se expressar, mas faz isso através dos seus desenhos. — ele foi enumerando nos dedos — Tem medo de perder as pessoas que ama, por causa do que aconteceu com sua mãe Célia.

Eles ficaram um tempo em silêncio se olhando. Quando sorriu para ela de forma singela. não se conteve em devolver o sorriso e olhar envergonhada para baixo, exatamente na direção que ele disse. Ela estava envergonhada, mas se sentia aquecida por dentro.

— Promete pra mim que nunca vamos deixar de ser amigos? — pediu ela.
— Prometo. — assegurou ele, cruzando seu dedo mindinho com o dela — Seremos para sempre amigos, até o dia em que formos amigos e um casal.
— Pare de dizer essas coisas , só temos 12 anos, somos novos demais para pensar nisso. — ela riu da careta que ele fez — Tenho certeza que quando formos adultos você vai conhecer uma garota menos problemática que eu, e continuarei sendo apenas sua amiga.
— Engano seu. — ele se aproximou e sentou na almofada ao lado dela — Meu coração sempre vai gostar apenas de você. 

sentiu seu coração pulsar mais forte. Eles passaram todo o dia naquela casa da árvore. Detalhista como todos os dias naquelas férias de verão, tinha levado bastante comida para aquele lugar, assim poderiam passar um bom tempo ali. No final da tarde, ele pegou o violão que estava no canto perto da janela e começou a dedilhar. De forma espontânea, começou a cantar algumas canções da igreja que tinha aprendido com Annia. Aos poucos, começou a falar em sussurros como se estivesse orando, mas a garota podia ouvir. Porém não conseguia entender nada do que ele dizia e sabia que não era inglês. Logo se lembrou das muitas vezes que Célia também orava assim. Então, ela entendeu que seu amigo estava orando em línguas. O olhar de para ele foi de admiração e levemente estático. 

Era mais um traço em seu amigo que a fazia se lembrar de sua mãe sem se sentir triste. Mas apenas com uma saudade carregada de aconchego.

Holy Spirit you are welcome here
Espírito Santo és bem-vindo aqui
Come flood this place and fill the atmosphere
Vem inundar este lugar e encher a atmosfera
Your glory God is what our hearts long for
Sua glória, Deus, é o que nossos corações anseiam
To be overcome by Your presence Lord.
Sermos dominados pela sua presença, Senhor.
- Holy Spirit / Jesus Culture
Ensinamento: Adorador em espírito e em verdade (Ore em línguas).



7. Maria Madalena

Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: 
"Eu vi o Senhor!"
- João 20:18
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Atualmente...

Estar abraçada a era como abraçar o próprio Deus. Algo que lhe transmitia a sensação de conforto e aconchego. Era nítido a forma carinhosa com a qual seu amigo se mantinha a tratá-la, nada mudou mesmo em anos distantes um do outro. Ao se afastar um pouco dele, enxugou suas lágrimas e olhou para a mesa de som tentando se recompor. Afinal a jovem não estava preparada para passar por toda aquela turbulência de emoções. 

— Está tudo bem, ? — perguntou ele, olhando atento.
— Sim, estou bem, pelo menos pretendo ficar. — assegurou ela, voltando a olhar para ele — Você é realmente detalhista em seus planos. 
— Para ser honesto, eu só tinha na cabeça até a parte de te trazer para cá, a escolha da música foi com Papai. — explicou ele sorrindo de leve.

ainda admirava-se por manter a mesma forma de tratamento com Deus, que ela lhe contara que sua mãe Célia tinha. Chamar o Senhor de Papai era a forma mais íntima que poderia ter e que a aquecia por dentro.

— Então sem mais ideias para o dia de hoje? — indagou ela, o olhando desconfiada.
— Hum, que tal improvisamos com pizza? — sugeriu ele, arrancando uma gargalhada espontânea dela — Olha só isso, ela ainda tem essa gargalhada, nem tudo está perdido Senhor Jesus. 
— Só você pra sempre terminar algo envolvendo comida. — explicou ela, o motivo de seu riso — Gostei da ideia da pizza.
— Vamos terminar bem o dia, você fez seus 30 desenhos, tivemos um contemplativo momento de comunhão no Central Park, louvamos ao Senhor e agora vamos comer. — disse ele, resumindo as atividades do dia.
— Sim, foi um bom domingo. — concordou ela.
— Confesse, foi o melhor domingo que você teve nos últimos quatro anos. — ele manteve o olhar bobo para ela.

apenas assentiu com um sorriso singelo e se voltou para a porta da cabine. deu mais algumas risadas dela e a seguiu até chegarem no hall do prédio. Com o celular, o amigo pediu as pizzas pelo aplicativo que tanto usava nos momentos de fome. Não demorou muito até que o entregador aparecesse de moto com as duas caixas que ele pediu. O que deixou a jovem impressionada e confusa. 

— Tem certeza que você pediu para duas pessoas apenas? — indagou ela. 
— Claro que não pedi somente para nós dois. — ele riu — Estou faminto, mas não é pra tanto.
— Então a outra caixa é para quem? — perguntou ela.
— Para os vigias noturnos, eles passam a noite aqui trabalhando, vai que estão com fome. — explicou

Assim o rapaz se afastou dela e seguiu até a sala de segurança para deixar uma das caixas. Quando retornou, ele fez subir as escadas novamente para chegar ao terraço. Segundo , para fechar o dia com chave de ouro, somente uma bela vista da cidade sob o céu curiosamente estrelado. 

— Obrigada. — disse após saborearem a pizza .
— Pelo que? — ele a olhou.
— Eu te agradeço e você me pergunta pelo que? — ela ficou confusa.
— Sim, tenho que saber o motivo, se foi pelo dia, ou pela pizza, ou por minha companhia, ou por ter se aproximando do Papai hoje. — o olho dele tinha traços de curiosidade.
— Pacote fechado, obrigada por ser o melhor amigo do mundo. — explicou ela, de forma objetiva, se levantando da mureta em que sentaram para lanchar.
— Eu que agradeço por nunca ter deixado de me considerar seu amigo. — ele sorriu de leve, se levantando junto — Ah, tenho uma coisa pra você.
— O que? — perguntou ela, virando-se para ele. 
— Isso. — ele retirou do bolso uma caixinha e entregou a ela. 
— O que é? — ela pegou o objeto.
— Abra e veja. — instigou ele.
— Hum... — ela abriu a caixinha e viu dentro o cordão com um pingente em formato de nota musical.

Ela se lembrava daquele cordão, com o nome de ambos serigrafado na lateral e uma referência de versículo escrito: João 14:1. havia lhe dado no primeiro dia dos namorados após se tornarem amigos, aos 12 anos de idade o rapaz já sabia que sua melhor amiga seria sempre a única garota com quem ele desejaria viver por toda a sua vida. Não foi difícil para se apaixonar por ela, amar seus defeitos e suas qualidades. Sua luta mesmo era contra a tristeza que a rodeava fazendo-a se distanciar de todos que queria seu bem. Mas ele tinha esperanças, se renderia à felicidade que somente Jesus poderia lhe dar. 

E seu amigo continuava perseverante em oração pela vida dela. 

— Sempre foi seu, então achei que deveria voltar para sua dona. — explicou ele, pegando o cordão da mão dela e já indo para colocar no pescoço da amiga.
— Você não existe, sabia. — assentiu o deixando colocar o cordão em seu pescoço, segurando suas emoções assim como as lágrimas no canto dos olhos — Estou desconfiada que você tirou o dia para me fazer chorar.
— Engano seu, eu tirei o dia para te mostrar que nunca deixei de te amar, e Deus também. — assim que ele terminou de encaixar o cordão nela, a olhou com carinho.

Eles se olharam por um momento, até que elevou sua mão direita ao rosto dela, acariciando de leve. O toque suave a fez fechar os olhos involuntariamente. Não demorou segundos até que sentiu os lábios de encontrar os seus. Um misto de doçura e sutileza que acelerava seu coração e a deixava aquecida. Nem mesmo o passado amargo que tentava atrapalhar aquele momento teve forças contra tal acontecimento. A mão do rapaz percorreu levemente por seu ombro até chegar às costas e trazê-la para perto, aninhando a garota em seus braços para que se sentisse segura e amada. 

... — ela sussurrou, porém sua voz falhou.
— Você não imagina o quanto tenho sonhado com esse momento. — afirmou ele, em sussurro — Por favor, se permita vivê-lo.

Uma ponta de esperança reluzia em seu olhar que brilhava. Por dentro o rapaz pedia perseverante a Deus para que ela apenas resistisse a tristeza que lhe tentava sufocar. Logo um sorriso surgiu no rosto dela, algo tão natural e espontâneo que até mesmo não esperava esta reação. Apenas deixou seu corpo se aproximar mais uma vez de , aninhando-se em seus braços.

— Obrigada, por não desistir de mim. — sussurrou ela.
— Este obrigado foi para quem? Papai ou eu? — instigou ele com a pergunta.
— Pacote completo. — brincou ela, ao responder.

Um sorriso cativante surgiu no rosto de , que sentiu seu coração acelerar ainda mais. Ali estava mais uma resposta de Deus para suas orações, ainda que ocultamente sua amiga estivesse começando a lutar contra a escuridão que havia tomado sua felicidade...

Era sim uma resposta.

--

A manhã seguinte chegou com um singelo frio para lembrar a todos que mesmo na primavera nem tudo eram flores. Entretanto, havia uma pessoa em especial que acordara com o coração aquecido. enfrentou suas aulas de manhã com os pensamentos voltados para o dia anterior. Seu domingo parecia como um divisor de águas em sua vida, e um fator que contribuiu para isso foi o olhar carinhoso de na despedida em frente ao prédio onde morava. 

Segunda à tarde, a jovem se concentrou apenas em finalmente terminar a contagem do estoque da loja da senhora Moore. Sabia que não poderia contar muito com sua amiga Louise, pois a mesma sempre se perdia nas mensagens do whatsapp ou postagens do Instagram e anotava errado a quantidade das peças. 

— Não acredito que já estou em casa. — comentou Louise ao entrar, já retirando os sapatos.
— Eu que não acredito que você veio direto para casa. — brincou , rindo da careta que a amiga fez. 
— Nem só de festas vive uma universitária. — retrucou ela em provocação a amiga, com uma referência bíblica — Mas de todo descanso na segunda-feira para recarregar as energias.
— Desculpa, mas essa versão não existe em nenhuma Bíblia. — a olhou seria — Não brinque com a Palavra do Senhor.
— Desculpa, foi só um comentário engraçado. — Louise mostrou a língua rapidamente e seguiu em risos para o banheiro.

balançou a cabeça negativamente rindo dela, entretanto não se conteve em refletir sobre o versículo que mencionara a amiga: 

"Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus."  - Mateus 4:4

Era um dos versículos que sua mãe Célia mais recitava para ela. E sim, por mais que a jovem relutasse para abrir a Bíblia de sua mãe que se encontrava embaixo do travesseiro, a Palavra se mantinha em seu coração e de tempos em tempos a cada oportunidade construída, o Espírito Santo trazia em sua mente para que ela pudesse refletir. 

— O Senhor realmente não desiste, não é? — ela olhou para a janela da sala que estava aberta, direcionando seu olhar para o céu — O que viu em mim para insistir tanto? 

Logo sentiu uma brisa suave passando por seu corpo, fazendo-a sentir uma alegria incomum e inesperada. Sim, internamente Jesus já estava trabalhando em seu coração para que ela pudesse enfim sentir o amor que ele tinha por sua vida.

Ela apenas respirou fundo e voltou-se para a cozinha. Um jantar deveria ser feito e não seria pelas mãos de Louise. Assim que terminou o preparo do espaguete com almôndegas, ela e a amiga se reuniram à mesa. 

Louise ficou intrigada e confusa quando se atentou que encarava o prato como se estivesse numa luta interna. E de fato a jovem estava, era um fato que a imagem de agradecendo pela comida no piquenique lhe trouxe um sentido de: Está faltando algo. E o confronto interno se iniciou com a pergunta: Devo ou não agradecer? Estou pronta para voltar a falar com Ele diretamente?

— O que foi? — perguntou Louise. 
— Hum?! — a olhou, despertando de sua concentração interna. 
— Você estava encarando a comida. — disse.
— Me desculpe. — a jovem se encolheu um pouco. 
— Fica tranquila amiga, você só se perdeu por seus pensamentos. — disse ela, tentando descontrair o momento — E o cheiro está gostoso.
— Que bom, espero que goste também. — disse .
— Tenho certeza que está, e minha mãe sempre diz que quando o cheiro está bom, devemos agradecer a Deus, assim o gosto também fica bom se caso não estiver. — ela soltou uma gargalhada boba — Agradecemos Deus por esse alimento, amém.
— Amém. — sussurrou , surpresa com aquilo.

Em todos os anos que conhecia Louise, a amiga jamais tinha feito algo do tipo, menos ainda mencionado um costume de sua mãe. Em resumo Louise não falava muito dos pais por ter saído de casa brigada com eles, mas em raros momentos comentava sobre os costumes de sua família que era bem tradicional na concepção dela. 

Mas o fato é que o gesto de sua amiga, trouxe uma ligeira sensação de paz ao coração de . Principalmente ao se lembrar do comentário de sobre dizer "Amém" após a oração de alguém.

— Hummm, está mesmo gostosa. — elogiou Louise — Que bom que agradecemos.

sorriu de leve e começou a comer também. E realmente a garota tinha se superado no tempero mais do que saboroso das almôndegas. Lhe trazendo um leve pensamento: certamente iria gostar dessas almôndegas. E depois de pensar, ela notou e começou a rir espontaneamente despertando curiosidades na amiga. 

— Hummm... Você tem rido muito sozinha ultimamente, será que tem a ver com seu amigo da Austrália? — Louise manteve seu olhar nela.
— Deixe de ser curiosa, Louise. — voltou a comer, mantendo seus pensamentos para si.

A semana foi se arrastando com a jovem sendo bombardeada por trabalhos de seu curso de moda. Final do semestre, a próxima semana seria praticamente vivendo na biblioteca por causa das provas. Até a senhora Moore da loja tinha a solidariedade de dar dias de folga alternados na semana para as amigas poderem estudar com dedicação.

— Está tudo bem sim, mãe. — disse ela, ao tentar se despedir pela milésima vez dos pais ao telefone.
Tem certeza que você tem se alimentado bem, ?! Nós falamos com o , ele disse que você está tão magrinha. — insistiu a mãe.
— Aquele linguarudo, eu estou me alimentando sim, inclusive tem alguns dias que fiz aquele espaguete com almôndegas.
Ai que delícia. — disse Annia com água na boca.
Hum, estou com saudades de suas almôndegas, sei que vou apanhar, mas são melhores que as da sua mãe. — comentou Dimitri — Ai!

riu ao ver pela videochamada sua mãe bater no braço do pai. Estava com saudades deles e já pensava seriamente em visitá-los nas férias de verão, assim não teria que esperar até o natal para estar com eles. finalmente conseguiu encerrar a ligação e ao sentar em sua cama, retirou a velha Bíblia de sua mãe Célia debaixo do travesseiro e ficou encarando-a por um tempo.

Fim de semestre significava o fechamento de mais um ciclo para iniciar outro. Entretanto havia inúmeros sentimentos e ciclos mal resolvidos na vida de , que contribuía para que sua dor permanecesse em sua vida. 

Contudo, mesmo que a passos lentos as coisas estavam começando a mudar.

Luto contra vozes que me dizem que eu não sou capaz
Contra enganos que me dizem que eu não vou chegar lá
Meus altos e baixos nunca vão medir o meu valor
A Tua voz me lembra e me diz quem realmente sou, oh
- DIZ (YOU SAY) / GABRIELA ROCHA 

Ensinamento: Deus jamais desiste de nós.


8. Mulher Virtuosa

Mulher virtuosa quem a achará? 
O seu valor muito excede ao de rubis.
É esforçada, forte e trabalhadora. 
Conhece o valor de tudo o que faz e trabalha até tarde da noite.
- Provérbios 31:10/17-18
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Atualmente...

— Diga olá para a oficialmente aprendiz do Atelier Matteo! — disse Louise, ao entrar no estoque da loja.

Com um largo sorriso no rosto e algumas sacolas de roupas de marca nas mãos. Parecia uma típica jovem socialite da elite de Manhattan saída da série Gossip Girl, após uma sessão de compras na 5ª Avenida.

— Meus parabéns, Louise, conheço um pouco do trabalho desse estilista. — disse Judith, ao olhar para ela com alegria por sua conquista — Você terá um longo desafio pela frente, ele parece ser muito exigente com seus funcionários.
— Isso é um caso à parte, senhora Moore, o que importa é que agora estou a um passo mais perto do meu sonho de ser a próxima Channel. — ela deu de ombros disfarçadamente.
— Channel sabia desenhar. — resmungou Niall, baixinho.
— O que você disse? — Louise o olhou atravessado, pareceu ter ouvido o comentário dele.
— Eu disse que nem sei como conseguiu isso, você só fica no Instagram o dia todo, vai trabalhar com mídias sociais por acaso? — comentou Niall incrédulo.
— Pare de provocar ela. — disse , segurando o riso.
— Mas é verdade. — Niall continuou.
— Olha aqui seu invejoso, para iniciar eu sou uma excelente digital influencer, e o Instagram é uma ferramenta de imagem poderosíssima, além do mais, eu consegui esse estágio por mérito próprio, ok? — Louise fez uma careta para ele e cruzou os braços indignada com suas insinuações.
— Mérito próprio? Pelo que eu sei, quem faz a maioria senão todos os seus desenhos é a . — retrucou ele, continuando a provocação.
— Isso é um mero detalhe, a ideia das roupas são originalmente minhas, eu não tenho culpa se não nasci com o talento para desenhar como ela, entretanto com a criatividade do tamanho do mundo. — Louise colocou a mão na cintura, então desmanchou sua pose e olhou para a amiga — E por falar em desenho, me salva, por favor.
— Ah não, Louise, não me olhe com essa cara. — que estava com quatro cabides de roupas nas mãos para colocar na arara da loja, se afastou indo em direção a saída do estoque — Eu não tenho tempo para pegar mais nenhum desenho.
— Mas amiga… — Louise foi seguindo ela, quase choramingando pelo caminho para amolecer seu coração — Eu realmente estarei perdida e sem estágio se não levar esses desenhos até amanhã.
— E você me deixa para me pedir isso hoje? — parou no meio do caminho com um olhar sério e repreensivo — Eu não sou uma máquina, sou um ser humano que pode chegar ao limite do esgotamento físico e mental.
— Eu sei, mas é que a doida da minha supervisora pediu esses croquis para a plebe do estágio, no caso eu e mais duas meninas, de hoje para entregar amanhã. — explicou ela, em sua defesa — Acho que ela está fazendo um teste para saber quem aguenta a pressão, oh mulher insuportável.
— Eu sou sua amiga e vou te dar um conselho, você não pode continuar dependendo dos meus desenhos, você realmente precisa praticar seu próprio traço. — aconselhou , chamando-a para a realidade — Você não me terá para sempre.
— Eu juro que já tentei várias vezes imitar seus desenhos, mas eu simplesmente não tenho nenhum talento. — Louise lançou um olhar choroso para ela — Por favor, eu juro que vou me esforçar mais no futuro, mas por agora eu preciso da sua ajuda, não quero perder essa oportunidade.
— Nada que começa com mentira termina bem. — disse , se lembrando dos ensinamentos de suas duas mães — Você fez eles acreditarem que os desenhos são seus, vai ter que se esforçar o dobro no futuro.
— Eu vou, tem minha palavra. — assegurou ela — Você é meu exemplo de vida, sabia?!
— Não adianta me bajular. — disse a jovem se afastando um pouco dela.

soltou um suspiro cansado, já tinha ouvido tantas vezes aquela promessa da amiga que mais parecia de um político em campanha. Ela assentiu com a cabeça para a amiga, afirmando ajudá-la e voltou a sua tarefa de reorganizar as araras de roupas infantojuvenis. Em silêncio e totalmente concentrada, as horas foram passando sem que ela percebesse, quando se deu conta, já estava de noite e seu celular tocando com duas mensagens de .

Bom dia!
Como está sua semana?

Um sorriso espontâneo surgiu no rosto de . Ela pensou por um instante se deveria ou não responder a mensagem de imediato, porém Louise lhe chamou a atenção para que fossem logo para casa. Além do cansaço físico do dia de trabalho, afinal sendo agora a única funcionária as tarefas dobraram, a jovem enfrentaria uma madrugada em claro para ajudar a amiga. Assim que chegaram no apartamento, Louise foi direto para a cozinha preparar um lanche para as duas, ambas estavam famintas.

— Ai amiga, tenho tanta coisa pra te contar… — iniciou ela, seus momentos de monólogos — O prédio do Atelier é imenso, nunca vi um lugar tão espaçoso como aquele e tem quatro andares, claro que o quarto andar é destinado a elite dos funcionários, a plebe como eu fica no segundo andar com a equipe de costureiras e modelistas e a arquitetura é toda moderna, num luxo que brilhar os olhos, mas né o Matteo é o queridinho das atrizes de Hollywood agora…

apenas sentou-se na banqueta e assentiu, ouvindo a amiga com certo desinteresse, mas se forçando a manter a atenção nela. Por alguns minutos até mesmo ela fechou os olhos e se pegou em curtos cochilos sentada, de tão cansada que se encontrava. A jovem tinha criado o hábito de sempre manter sua mente ocupada com trabalhos e afazeres, assim não teria tempo para pensar em suas tristezas. Entretanto, agora quanto mais ela tentava entulhar sua mente de pensamentos aleatórios, de alguma forma inesperada todos se voltavam a apenas um: e Papai. 

— … E quanto mais ela gritava com a gente, mais eu ficava estressada. — finalmente Louise se calou e percebeu que a amiga estava debruçada sobre a bancada cochilando — ! Você está dormindo? ?!
— Não. — sussurrou ela — Só estou descansando minhas vistas.
— Então o que foi que eu disse?! — Louise parou com sua pose indignada, com as mãos na cintura.
— Você estava falando da supervisora das estagiárias, que ela gritou com vocês. — respondeu , erguendo seu corpo e se espreguiçando de leve — Já posso comer?
— Pode. — Louise ficou meio chateada pelo desinteresse da amiga, mas compreendia seu cansaço diário.

No fundo, Louise admirava muito a amiga, por sua história de vida e por sempre se mostrar solícita às pessoas em sua volta. Uma pessoa que se dispõem a ajudar os outros mesmo com tantos problemas pessoais para resolver. Dedicação e esforço foram as primeiras qualidades que ela havia conseguido identificar em , alguém que não tinha medo de trabalhar para conquistar seus objetivos. Depois a paciência por sempre escutá-la nas horas boas e más, finalizando com o perfeccionismo que ainda tinha dúvidas se era ou não uma qualidade da amiga.

Enquanto Louise ajeitou a bandeja de lanches na bancada, se levantou para lavar as mãos na pia e retornando a baqueta, sentou-se novamente e começou a comer. Os simples sanduíches de queijo quente acompanhados de leite puro, foram suficientes para deixar a jovem ainda mais amolecida e tentada a deitar em sua cama e dormir. Contudo, ela tinha um compromisso com os tais desenhos da amiga, que seriam pagos com o primeiro salário da mesma. 

Assim, após a refeição, seguiu para seu quarto, trocou de roupa e se sentou na cadeira para iniciar os desenhos. Felizmente todos os trabalhos da semana já tinham sido entregues, faltava apenas o complexo artigo sobre os efeitos do dandismo na moda atual e como pode ser utilizado em uma coleção primavera-verão. Não que não gostasse da parte teórica de seu curso, como uma aluna aplicada, todos os seus textos eram sempre elogiados pelos professores, assim como suas notas as mais altas de sua classe. 

— O que seria isso? Um babado? — sussurrou ao analisar o que parecia ser um esboço rabiscado por Louise — Ela tem mesmo que fazer aulas particulares, isso aqui está muito estranho…

Ela continuou a analisar o rabisco tentando entender como sua amiga sobreviveria naquele estágio sem saber fazer o mais importante na profissão. Não saber desenhar uma peça em si não era exatamente o problema, o segredo estava em saber explicar a roupa através do seu traço e lhe dar vida por meio do papel. Um dos fatores que contribuíram para que seus desenhos sempre fossem elogiados, mesmo quando não sabiam que eram dela. Sendo por um propósito divino ou não, ela apenas não recebia tanto destaque como sua amiga Louise e as outras colegas de curso, devido sua característica tímida e silenciosa. 

Surpreendentemente, sempre se alegrava à sua maneira pelas conquistas da amiga, mesmo a maioria delas sendo através dos muitos croquis que ela fazia nas altas horas da madrugada. E ali estava ela mais uma vez passando a noite em claro para salvar a pele de Louise.

?! — disse ela, assim que viu o visor do celular acender, mostrando uma chamava de vídeo — Porque ele está me ligando? — se perguntou.

Ela pegou o aparelho e apertou o botão para iniciar a chamada. Seu olhar curioso encontrou o do amigo que parecia entusiasmado. Ela achou estranho a primeiro momento, afinal o que estaria fazendo acordado uma hora daquela e ainda mais com tanta serenidade no rosto. Será que o amigo tinha dito um dia repleto de boas notícias?

— Posso entender essa ligação? — perguntou ela, tomando a cabeça de leve e observando alguns objetos em miniatura no painel da cabeceira da cama dele.
— Estava com saudade. — alegou ele, se remexendo um pouco na cama, não estava completamente deitado, mas suas costas seguiam apoiadas em algumas almofadas pequenas — Como foi seu dia? Você não me respondeu a mensagem…
— E aí, você resolveu me ligar às uma da manhã? — indagou ela, em choque.
— Sorte a minha que não estava dormindo, não é? — brincou ele, rindo de leve.
?! — ela soltou o lápis em sua mão e ficou mais séria — Porque ligou?
— Já disse, estava com saudades, já tem o que? Uns quatro dias que não nos falamos? — ele se mostrou pensativo.
— Quase isso. — concordou ela, ainda desconfiada — Mas não é motivo para me ligar a essa hora, pessoas normais estão dormindo a essa hora.
— E por acaso somos normais? — ele piscou de leve, arrancando uma risada boba dela.
— Não, não somos. — concordou.

Era um fato que sempre funcionou melhor à noite. Ela ainda não entendia muito bem o motivo, mas seus maiores picos de criatividade para desenhar ou estudar sempre eram de madrugada. Talvez pelo costume de quando criança sempre acordar de madrugada com a mãe Célia para orar, ou apenas porque neste horário era tudo sempre mais silencioso e relaxante para executar seus trabalhos. Mesmo não sabendo o motivo ao certo, tinha o conhecimento sobre isso e não havia sido coincidência ele ligar com ela estando acordada.

— Eu vou ser sincero, não estava conseguindo dormir, então comecei a orar e senti uma grande vontade de te ver. — explicou ele com tranquilidade — Foi por isso que te liguei.

sorriu de forma tímida e voltou o olhar para as folhas desenhadas.

— O que está fazendo aí? — perguntou ele.
— Dez croquis para a Louise. — respondeu ela.
— De novo? — achou estranho — Ela não cansa de te dever, não?
— Bem, ela conseguiu ser contratada naquele estágio que te falei, mas agora pediram mais desenhos. — respondeu a garota — Então... Estou quase terminando.
— Sua amiga não sabe mesmo desenhar? — ficou observando atentamente, enquanto ela voltava a desenhar.

Aquela já se contava a terceira vez que o rapaz fazia uma videochamada com a amiga em seus momentos de desenhos para terceiros. já possuía uma boa cartela de clientes em Parsons que a procurava por suas técnicas diversas de desenho. Bom por ter mais uma grana extra e ruim por sempre estar cansada pelo desgaste mental, era cada roupa que ela tinha que desenhar que a deixava perplexa em como conseguia no final da noite. Para era divertido observá-la enquanto desenha e tenta prestar atenção em suas conversas.

— Não, mas ela terá que aprender a desenvolver pelo menos o básico, senão sua carreira na moda não será na área de estilismo. — revelou ela.
— Isso é verdade, eu acho que já vi os rabiscos dela e não entendi nada, é um fato que até seus rascunhos são melhores que aquilo. — ele soltou uma gargalhada maldosa.
— Não fale assim, ela está no quarto ao lado. — disse tentando não rir junto.
— Só estou sendo sincero. — ele soltou um suspiro desviando o olhar para a janela de seu quarto que estava entreaberta — Como tem sido lá na loja?
— O trabalho dobrou com a saída da Louise, mas nada além do que eu não fazia antes com ela lá. — se espreguiçou um pouco, após um leve bocejo — Eu conversei com a senhora Moore hoje quando cheguei, ela vai precisar encontrar outras pessoas para ficarem na loja.
— Você também vai sair? — ele ergueu mais seu corpo, ajeitando as almofadas atrás dele.
— Preciso de um estágio mais específico e prático referente ao meu curso, o coordenador Brown veio conversar comigo sobre isso, ele me deu um mês para organizar meu portfólio. — contou ela — Não sei o que pretende com isso, mas tenho que entregar alguma coisa para ele.
— E isso não é bom?! — ficou confuso pela falta de animação dela — Você é a melhor aluna dele, já era hora desse professor fazer alguma coisa.
— Para ser honesta não queria ter tanta atenção assim dele, eu não sei que caminho seguir na moda, tem tantas opções. — comentou ela, estava mesmo indecisa em suas escolhas.
— O que você mais gosta de fazer? — indagou ele, começando a refletir sobre o assunto para ajudá-la.
— Não sei, eu gosto de desenhar, mas não me vejo passando a vida como uma estilista sob a pressão de desenvolver coleções sazonais para uma marca. — desabafou ela, se mantendo concentrada nos croquis da amiga — Eu gosto de acompanhar o processo, de ver o resultado final e destacá-lo de alguma forma.
— Bem, te conhecendo como eu conheço, já descarto a parte de figurinista, stylist e colunista de revista de moda, sei que seus textos são muito bons, mas não te vejo na carreira de jornalismo. — iniciou ele suas conclusões — Mas acho que você se sairia muito bem como produtora de moda.
— Nossa, desde quando você sabe tanto do assunto? — brincou ela.
— Tenho amigos que tem amigas. — brincou de volta.
— Bom, falando honestamente eu nunca pensei nessa parte de produção de moda, eu fiz alguns freelancers como camareira em backstage de desfiles, até que foram bem legais. — ela começou a considerar a ideia em sua mente, parando de desenhar um pouco — Acho interessante a produção de moda, principalmente a parte da cenografia, é bem desafiador para um profissional expressar a essência de uma coleção em um ambiente.
— Tem certeza que seu curso é mesmo moda e não arquitetura? — brincou ele, olhando-a atentamente.
— Tenho, não quero cálculos na minha vida, a não ser de quanto tecido gastaria para fazer alguma peça de roupa, ou quantos pespontos de borda cabem em um metro de bainha de uma saia godê. — respondeu ela, prontamente num tom de brincadeira.
— Hum, arquitetura não tem só cálculo, tenho um amigo que cursa na Columbia e até que não é tão complexo assim. — defendeu ele.
— E porque você não vai? — ela o olhou.
— Não é minha vocação. — ele riu, fazendo-a rir junto — Além do mais, estou muito bem no meu curso de produção musical.
— Sei.

Ela voltou a olhar seu desenho, passando mais algum tempo fazendo-os com a companhia do amigo do outro lado da videochamada. Parecia que o tempo rendia quando ambos estavam “juntos”. Quanto mais assunto conversavam, mais assunto aparecia para comentar.

— Finalmente terminei. — ela se espreguiçou novamente — Já posso desistir agora?
— Aguenta firme, você não está nem na metade do seu curso. — ele a encorajou.
— Para ser honesta, estou sim na metade. — alegou ela.
— E quanto ao seu portfólio?
— Terei que fazer em algum momento. — respondeu.
— Posso te ajudar, tenho algumas noções de gráfico, podemos montar um digital bem legal. — se ofereceu ele.
— Não sei se ele quer digital, mas a ideia é legal. — ela bocejou novamente,  depois alongou os ombros sentindo dores nas costas.
— É visível o quanto está cansada. — comentou ele, olhando-a fixamente — Já terminou.
— Só mais dois desenhos. — colocando as mãos atrás do pescoço olhou para o teto — E você não vai dormir?
— E te deixar sozinha com essa tortura? — replicou ele.
— Desenhar não é uma tortura para mim. — retrucou ela.
— Nessas circunstâncias está bem claro que é sim. — mantendo-se firme nas palavras, ele ergueu novamente o corpo se ajeitando mais nas almofadas — Vou ficar aqui até terminar.
— Fala assim como se não tivesse uma vida acadêmica também. — ela voltou o olhar para a tela do celular, que havia encostado na bolsinha de lápis —  O que vai fazer amanhã?
— Amanhã estou livre, minha semana de provas terminou e já estou me preparando para a chegada do verão. — respondeu ele com serenidade.
— Quem pode fala assim.

Ele riu de leve e continuou a observar desenhando. Por mais que estivesse cansada, sempre tinha em sua mente honrar com sua palavra. Então finalizou os dois croquis faltantes e juntou aos outros os colocando em um envelope ao lado da bolsa da amiga no sofá da sala. Quando retornou para seu quarto, ainda se mantinha na vídeo chamada, a esperando.

— Agora você pode dormir. — disse ela.
— Agora eu estou com fome. — alegou ele se levantando da cama — E você vai me esperar comer primeiro para depois ir dormir.
, eu tenho que acordar daqui a pouco. — reclamou ela.
— Vai me deixar comer sozinho depois de ter ficado com você a noite toda? — ele fez uma cara de abandonado.

segurou o riso.

— Eu não mandei você me fazer companhia. — alegou ela.
— Nossa que amiga ingrata. — ele fez bico, o que a fez soltar uma gargalhada boba.
— Olha só, ela está rindo com mais frequência. — brincou ele, sorrindo de leve.
— A culpa é sua, o que vai comer? — perguntou ela.
— Estava pensando em macarrão instantâneo, o mais rápido. — respondeu ele, enquanto caminhava pelo apartamento até a cozinha.
— Tudo bem, eu vou te acompanhar nesse lanche, acho que ainda sobrou alguns sanduíches na geladeira. — disse ela, pegando o celular e voltando para a porta.

De alguma forma sabia o motivo de ter ficado todo aquele momento com ela, e se resumia a uma palavra: cuidado. Se ele não estivesse naquela ligação, ela simplesmente dormiria ali mesmo na cadeira debruçada sobre os papeis, e mesmo estando com fome nem ligaria de dormir sem comer. 

Dizer eu te amo pode ser relativamente fácil para uma pessoa, contudo, para era um pouco mais complicado devido ao passado do relacionamento falido de seus pais. Felizmente o divórcio de ambos mesmo lhe causado alguns danos internos, fora curado e superado pelo rapaz, que em sua vida cresceu sem ouvir muito aquela frase dos pais e menos ainda viu neles as ações que pudessem testificar este sentimento. 

Todavia, em sua mente, mais do que apenas palavras uma pessoa tinha que mostrar seu amor nos pequenos detalhes. 

There’s a space in every beating heart
Há um espaço em cada coração batendo
There’s a longing that reaches past the stars
Há uma saudade que ultrapassa as estrelas
There’s an answer to every question mark
Há uma resposta para todos os pontos de interrogação
There’s a name
Tem um nome

Love has a name
O amor tem um nome
Jesus!
Jesus.
- Love Has a Name / Jesus Culture

Ensinamento: Inspirar outras pessoas.


9. Lia

Então disse Lia: 
Para minha ventura; 
porque as filhas me terão por bem-aventurada; 
e chamou-lhe Aser.
- Gênesis 30:13
--

7 anos atrás...

Manhã de primavera, acordou com o cheiro suave das flores que vinham do jardim de sua mãe. Mesmo sonolenta, ela se espreguiçou na cama bocejando um pouco e levantou em seguida. Era a semana de provas na escola e a garota havia passado a noite estudando álgebra e um pouco de revolução industrial. Não demorou muito até que do corredor, alguns passos soaram até uma sombra parar diante de sua porta.

?! — dois toques soaram — Já acordou querida?

Era a voz de seu pai, seguido de um tossido. Era estranho pela estação, mas o mesmo estava resfriado por ter pegado uma inesperada chuva há dois dias na volta para casa. O que acarretou febre alta nos dias seguintes e um atestado de uma semana em casa para se recuperar. Entretanto, o lado bom de se ter seu próprio negócio também era preocupante, pois sua loja dependia de suas decisões diretas para certos assuntos. Para não se ausentar parcialmente, Dimitri decidiu trabalhar em sistema home office assim como sua esposa.

— Sim, acabei de me levantar. — respondeu , seguindo até seu guarda-roupa.
— O café está pronto, estamos te esperando. — disse ele.
— Obrigada, estou indo. — assentiu ela, ao olhar para as peças no cabide, sem saber o que vestiria naquela manhã.

O dia estava fresco, então uma camiseta acompanhada por sua jardineira inseparável foi a escolha mais óbvia. Ela havia ganhado aquela roupa de natal, do pastor Jonas e sua esposa Layla, um presente direto do Brasil com direito a várias cartas recheadas de novidades de alguns membros da sua antiga igreja. Foi um dia cheio de emoção e lágrimas para ela, que ao mesmo tempo que se sentiu amada, também sentiu fortemente a ausência de sua mãe Célia.

Te conhecer e prosseguir em Te conhecer… Este é o alvo da minha vida Senhor… — sem perceber, começou a cantarolar uma canção que Célia sempre cantava quando arrumava casa — Te conhecer e prosseguir em Te conhecer… É tudo o que eu quero pra minha vida… Senhor.

Mais uma espreguiçada para alongar os músculos após amarrar o cadarço do tênis, então seguiu para a cozinha. O cheiro do café se misturava ao do bolo de cenoura recém tirado do forno. se encolheu um pouco na ponta das escadas, ao olhar para a direção da cozinha e ver seus pais em risos enquanto Annia partia o bolo e Dimitri roubava o primeiro pedaço que teoricamente era da filha do casal.

— Ei, não faça isso, não é seu. — reclamou Annia, tentando pegar o pedaço de volta — O primeiro é sempre da nossa princesa.
— Não sabia que toda realeza precisa de um provador para ver se a comida está boa?! — argumentou ele, em tom de brincadeira.
— Você não precisa provar antes. — Annia o olhou atravessado colocando a mão na cintura em repreensão — Seu espertinho.
— Que você ama! — ele se aproximou mais uma vez dela e assim que lhe distraiu com um selinho rápido, pegou outro pedaço da forma.
— Ei! — Annia soltou o grito, fazendo-o rir.
— Você quer?! — ele esticou o pedaço para ela.
— Devolve Dimitri Miller. — ordenou ela.
— Vem pegar. — ele riu de leve dando a volta na bancada.

Annia correu atrás dele aos risos. Após darem algumas voltas pela bancada, Dimitri parou de repente e virou seu corpo em direção a esposa, então a pegou pela cintura, abraçando-a forte.

— Seu bolo está delicioso. — comentou ele, com um olhar carinhoso — Sou grato a Deus por nossa família.
— Eu também. — concordou ela — Mas está na minha lista negra por roubar meu bolo.
— Nosso bolo! — ele deu um sorriso bobo e a beijou de leve novamente.

Algumas risadas de soaram, atraindo a atenção deles.

— Olha só quem chegou para o café! — comentou Annia, um pouco envergonhada pela cena romântica com seu marido — Bom dia, minha princesa.
— Bom dia, mãe. — suavizou mais seu rosto e deu mais alguns passos em direção a bancada de refeições.

Seu pai manteve um sorriso bobo no rosto e piscando de leve para ela, lhe arrancou mais alguns risos.

— Está uma gatinha com esse look. — brincou ele, sentando na banqueta ao lado dela — Tem algo especial na sua escola além da prova de história?
— Sim, tenho prova de álgebra também. — respondeu ela, controlando seu riso.

O que mais gostava em Dimitri era seu jeito bobo de pai coruja que sempre a fazia rir e sorrir todas as manhãs no café, e dentro do carro no caminho para a escola. A doçura de Annia e o cuidado dele, haviam sido pontos chave para conquistar o coração da filha, que agora em sua fase adolescente tímida e duplamente reservada, exigia ainda mais a compreensão e paciência deles.

— Você se arrumou muito para quem tem apenas duas provas. — ele lançou um olhar desconfiado e engraçado, com a sobrancelha direita arqueada.
— Não tem nada demais, pai. — ela riu de novo, quando ele começou a fazer graça movimentando as sobrancelhas alternadamente — Mas…
— Mas?! — Annia olhou para a filha, também curiosa.
— Eu posso ir à sorveteria com o depois da escola? — perguntou ela, sabendo que pontualmente um dos dois certamente iria buscá-la na saída.
— Bingo! — gritou Dimitri — Eu sabia que aquele pirralho estava interessado na nossa princesinha!
é um bom garoto, eu aprovo. — disse Annia num tom de brincadeira.
— O que?! — segurou o riso — Pai, mãe, eu só tenho 12 anos e é somente meu amigo.
— Sei, espero que continue assim por muito tempo. — Dimitri fez um sinal de vigilância com a mão — Estarei de olho em vocês dois.

Annia soltou uma gargalhada boba, servindo um pedaço de bolo para a filha.

— Se você é assim com um amigo enquanto nossa filha é uma adolescente, imagino quando ela for para faculdade. — instigou a mãe, esperando pela reação dele.
— Eu vou para a faculdade com ela. — assegurou ele.
— Pai, que mico. — fez uma careta.

Ele lançou um olhar ofendido para ela, que após segundos de silêncio, a cozinha se encheu de risos e gargalhadas dos três. O momento família da manhã estava completo, regado a carinho, brincadeiras, uma refeição abençoada e saborosa, além de muita gratidão a Deus.

— Antes de comermos, primeiro o agradecimento. — Annia se sentou na banqueta do outro lado da filha e a olhou com ternura — Hoje é seu dia de agradecer querida.

sentiu um frio na espinha. Ela tinha tinha dificuldades quando era sua vez, e seus pais sabiam disso, entretanto mantinham o encorajamento para que ela não perdesse os valores e ensinamentos que não somente Célia lhe ensinou, como também eles. Mesmo em constante caos interno, a menina assentiu com um sorriso meigo e fechou os olhos.

Obrigada pelo alimento e por nossa família, Papai. — sua voz saiu tão baixa que mais parecia um sussurro, entretanto audível o suficiente para seus pais.
— Amém, Deus. — disseram o casal em concordância.

A menina respirou fundo e abriu os olhos. Aquelas palavras eram o máximo que conseguia dizer sempre que a oração era dela. Mas mesmo com toda a dificuldade, o que importava era seu interior, que mesmo com o lado escuro causado pela perda e a saudade, ela se mantinha grata a Deus pela família que ele a presenteou. só não sabia expressar isso em voz alta, ou melhor, ela ainda não conseguia.

--

As horas foram passando e após o estresse de enfrentar duas provas seguidas, finalmente o horário do final da aula havia chegado. Para a felicidade de que não aguentava mais sua ansiedade em levar a amiga ao que ele projetava ser mais um encontro oficial dos dois.

— Calma , a sorveteria não vai sair do lugar. — disse ela, rindo da pressa dele em sair da sala.
— Eu sei, mas é que não aguentava mais esperar. — disse ele, ao ajudá-la a guardar seus livros no armário e pegar sua mochila para carregar também.
— Eu mesma posso levar minha mochila, . — reclamou ela, do gesto inesperado dele.
— Mas eu quero levar para você. — ele segurou em sua mão, deixando-a envergonhada, então sorriu de leve para a amiga.
— Você realmente vai continuar agindo assim? — ela riu de forma descontraída.

ainda se impressionava com a facilidade em que seu amigo tinha de agir como se ambos realmente namorassem. Eles só tinham pouco mais de um ano de amizade, mas parecia que haviam se conhecido na maternidade. Realmente a conhecia melhor que ela mesmo, suas mudanças de humor, suas qualidades, defeitos, inseguranças, tristezas e alegrias. E a explicação que ele sempre dava era: O Espírito Santo me contou tudo sobre você. O que a deixava ainda mais surpresa.

— Assim como? Estou agindo completamente normal. — retrucou ele, com um olhar inocente.
? — ela parou de andar e o olhou séria, então ergueu a mão que ele segurava.
— O que tem?! — seu olhar se manteve inocente — Pare de argumentar o óbvio , agora vamos antes que a sorveteria fique cheia.

Ele a puxou de leve e voltou a andar, não se importando com a timidez da amiga que desejava se esconder dos olhares dos outros alunos. Três quarteirões de caminhada e finalmente chegaram na mais prestigiada sorveteria entre os adolescentes da sua idade. A Ice Cream Cake tinha uma ambientação descontraída em sua paleta de cores rosa, azul, cinza e branco, com diversos desenhos serigrafados nas paredes que sempre deixavam fascinada.

— Uau. — sussurrou ela, ao parar em frente ao desenho de uma árvore de cerejeira — Que lindo.
— Não é?! — concordou ao se colocar ao seu lado com brilho nos olhos — Por isso eu estava ansioso para virmos, sabia que iria gostar.
— Você já sabia o que eles iriam desenhar para o próximo mês? — ela o olhou.

Essa era a parte divertida da sorveteria, todo mês os desenhos das paredes mudam de acordo com a sugestão dos clientes.

— Claro que sim, eu mesmo deixei mil sugestões pedindo para desenharem um jardim asiático com flores de cerejeira. — ele a olhou com um sorriso no rosto — Meu presente de natal antecipado para você.
— Seu bobo, duvido que tenham sido mil sugestões. — ela sorriu junto e olhou novamente para o desenho — Mas ficou realmente lindo , flor de cerejeira é a minha…
— Favorita. — completou ele, interrompendo-a — Eu sei, por isso quis te fazer essa surpresa. Como não podemos ir a um jardim japonês, eu trouxe ele até você.
— Obrigada. — ela manteve um brilho nos olhos, sentindo seu coração aquecido.
— Nós vamos sentar bem aqui, nessa mesma. — disse ele, puxando a cadeira para ela.
— Que cavalheiro. — comentou a dona da sorveteria ao se aproximar deles — Estou feliz que tenham gostado.
— Olá senhora Thompson. — disseram eles em coral, e o menino continuou — Nós gostamos muito, obrigado por considerar minha sugestão.
— Claro, depois de ler mil papeis pedindo por esse tema, não iria negar ao meu cliente especial. — assegurou ela — O que vão querer hoje? O mesmo de sempre?
— Hoje vamos variar, o que acha ? — perguntou ele.
— Por mim, tudo bem. — assentiu a garota.
— Hum… Então queremos o especial do mês.
— Ohhh, sabia que iria querer experimentar, saindo dois especiais de Sakura para vocês. — ela sorriu para eles e se retirou.
— Viu, eu disse que tinha sido mil. — olhou para a amiga de forma serena e satisfatória.
— Ok, não vou duvidar da próxima vez. — assentiu ela, rindo de leve.

Eles esperaram por um tempo até que a senhora Thompson trouxe as duas taças de sorvete. Assim que o menino fez a oração de agradecimento pelo alimento, eles começaram a saborear o doce, tendo como distração as músicas que soavam pelas caixas de som espalhadas pelo lugar. estava animado pela tarde em que passaria com a amiga sem a supervisão de seus pais, tudo milimetricamente calculado até que o impensável aconteceu.

— Olha só quem está aqui! — uma voz conhecida veio da direção da porta.
, ! — outra voz soou chamando a atenção deles.

apenas sorriu de leve e acenou.

— Essa não, o que eles fazem aqui?! — escondeu de leve o rosto — Não acene , eles podem atrapalhar nosso encontro.
— Não estamos em um encontro . — retrucou a menina.
— Que legal encontrar vocês aqui. — disse Loren ao se aproximar com os outros amigos.
— Por que não disseram que viriam aqui hoje? — perguntou Jack, o mais travesso do grupo de amigos e também primo de .
— Aposto que foi ideia do . — comentou Kimberly, já se sentando na cadeira ao lado de .
— Quem disse que você pode se sentar aí? — perguntou , chateado com a aparição deles.
— Ninguém precisa me dizer nada, eu sento e pronto. — Kimberly mostrou a língua para ele e voltou o olhar para — O que está comendo aí?
— O especial do mês. — respondeu a garota, segurando o riso da cara do amigo.
— Não responda ela. — reclamou — Vocês não vão sentar em outra mesa não? Nós queremos privacidade.
— Desde quando existe privacidade entre amigos ? — Jack riu e puxou uma cadeira vaga da mesa ao lado para ele e sentou — Além do mais, a sorveteria está cheia hoje.
— Isso é verdade. — concordou Loren, se sentando ao lado de — Não faça essa cara de emburrado.

apenas bufou de leve e olhou para que abertamente estava achando tudo aqui engraçado. O grupo de amigos passou algum tempo na sorveteria até que e saíram primeiro com a desculpa de ter que passar na escola para pegar um livro na biblioteca. Mas claro que ele só queria ter um tempo sozinho com a amiga.

— Finalmente nos livramos deles. — comentou ele, respirando fundo o ar puro que passava por eles.
— Foi engraçado ver sua cara  quando eles chegaram. — comentou — E Loren parecia bem animada do seu lado.
— Eca. — ele fez uma cara de novo e virou o rosto para o lado.
— Eu já percebi que ela gosta de você, . — comentou a garota, continuando o assunto — Vocês se conhecem desde sempre, como ela vive dizendo.
— E daí?! — ele parou de andar e olhou para ela — O que tem?
— Não sei… — o olhar de ficou meio triste — Às vezes eu fico pensando, ela te conhece a mais tempo que eu e…
— Ah, deixa de pensar nessas coisas. — ele pegou na mão — Quantas vezes vou ter que dizer, você é minha melhor amiga e não me importo com as outras garotas, um dia, vamos nos casar.
— Se o meu pai deixar. — brincou ela, rindo dele.

Mas por dentro, sentindo seu coração acelerar, mesmo diante do seu disfarçado ciúme.

— O Papai já deixou, é o que importa! — retrucou , com certeza de suas palavras.

Ela assentiu com um sorriso e voltou a caminhar na frente. riu de forma boba e a seguiu, também sentindo seu coração acelerar. Para ele não importava a pouca idade de ambos, pois já tinha a mais pura certeza que seu presente de Deus tinha um nome:

Por mais que fosse acompanhado de várias inseguranças e uma pitada de timidez.

Os meus olhos estão em Ti
A minha alma deseja te adorar
Em tua presença sou como criança
Procurando os teus braços
Pra me entregar
Quero encostar-me em teu peito
Só para ouvir as batidas do teu coração
E transbordando do teu amor
Declarar que te amo Senhor

Santo, Santo, Santo és Senhor Jesus.
- Meu Amado / Ministério Apascentar de Louvor (Toque No Altar)

Ensinamento: Gratidão (Diga que ame Jesus).



10. Mulher Cananéia

E ela disse: Sim, Senhor, 
mas também os cachorrinhos comem das migalhas 
que caem da mesa dos seus senhores.
- Mateus 15:27
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Atualmente...

Amanheceu com um piscar de olhos. 

adormecida estava tão rendida ao sono e ao cansaço que nem mesmo o despertador conseguia ouvir. Quando finalmente seu corpo despertou e os olhos se abriram, a jovem deu um pulo da cama ao olhar as horas e se lembrar que o primeiro horário seria de uma prova de desenho técnico. Uma corrida até o banheiro para lavar o rosto e usar a privada, não demorou tanto quanto se trocar e jogar suas coisas dentro da mochila. Na escrivaninha de estudos ela percebeu um bilhete deixado pela amiga, com o valor em dinheiro combinado pelos desenhos feitos presos com um clipe de papel. 

estranhou a primeiro momento, a se tratar da situação financeira de sua amiga que não estava nada boa e repleta de boletos de cartão de crédito para pagar.

— Ué, Louise disse que não tinha dinheiro por agora? Como será que ela conseguiu? — perguntou ela em sussurro ao guardar o dinheiro em seu cofre privado no guarda-roupa.

Colocando o bilhete no bolso para ler mais tarde, jogou a mochila nas costas e saiu correndo em direção à estação de metrô. Cada minuto que se passava na espera seu coração se apertava ainda mais por não ter ouvido o despertador do celular. Logo seu aparelho vibrou no bolso da calça fazendo-a pegar, era uma mensagem de .

Bom dia, flor do dia.
Dormiu bem?

Ela sorriu de leve pelas figurinhas de flores de cerejeira, que haviam juntamente com a mensagem, suas preferidas. olhou para frente ao perceber a chegada do metrô, e após embarcar no vagão do meio, se encostou em uma das paredes e escreveu a resposta ao amigo.

Acordei atrasada e estou a caminho da Parsons.

Nem mesmo deu um minuto para que ele enviasse outra mensagem.

O que?
da Cruz Miller atrasada? 
você é a pessoa mais pontual que eu conheço.

kkkkkkkkkkk 
a que você conhece é um ser humano no ápice do seu cansaço.

você precisa de férias

também acho
mas não tenho grana para férias 
e nem tempo
esse curso está me matando

nem fale isso, 
você não pode me deixar viúvo

deixa de besteiras

não estou falando besteira
acaso se esqueceu que somos prometidos um ao outro

de onde tirou isso, seu bobo?

foi Deus quem me disse!

Ela soltou uma gargalhada espontânea, então se retraiu ao sentir olhares em sua direção. Em seguida ela guardou o celular novamente no bolso e voltou sua atenção para a janela do vagão. Algum tempo depois e mais uma quadra de caminhada, finalmente seu corpo parou em frente ao prédio da Parsons. Uma pausa para recuperar o fôlego, se espreguiçar um pouco e subir uma pequena escadaria até a porta de entrada. Como de costume, ela cumprimentou os seguranças da porta ao entrar e se dirigiu para o elevador. Já estava atrasada e correndo o risco de não poder fazer a prova. Um pouco chateada por sua amiga não tê-la chamado antes de sair e envergonhada por aquele ser seu primeiro atraso desde o início do curso. 

— Professor!? — disse ao dar dois toques na porta da sala, interrompendo a atenção de todos que faziam a prova.
, achei que tivesse desistido de fazer a prova. — comentou o professor ao se afastar do quadro e seguir até ela — Como suas notas nos últimos trabalhos foram altas e já alcançou a média para passar...
— Me perdoe pelo atraso, senhor Gail. — disse ela, interrompendo a dedução do professor — Tive um imprevisto.

Imprevisto = junção de sono + cansaço.

— Eu gostaria de saber se ainda posso fazer a prova. — perguntou ela, num tom de humildade suavizando mais seu rosto.
— Mas é claro que sim, não precisava pois já está aprovada em desenho técnico, mas pode sim. — o professor controlou internamente sua euforia, com o pedido humilde da moça.

Sua admiração pela melhor aluna da classe era demonstrada de forma sutil de tempos em tempos. 

— Agradeço senhor Gail, eu quero sim. — afirmou ela.
— Pegue um croqui e pode iniciar em seu lugar. — disse ele, apontando para as folhas soltas que estavam em cima da mesa.

assentiu e se aproximou da mesa, ela olhou atentamente para os quatro modelos de croqui realista de roupas disponíveis. Uma era uma jardineira de jeans acompanhada de uma t-shirt básica branca com uma jaqueta de couro. No outro tinha um vestido longo plissado verde musgo, com um cinto de acessório e um sobretudo camurça bege. O terceiro era um pouco formal moderno com uma camisa social branca acompanhada de uma calça social de alfaiataria, um cinto de acessório e casaco cinza escuro de veludo. Por último, um look básico de calça sarja com regata com suspensório de acessório e jaqueta de couro.

— Hum... — ela se manteve focada nos detalhes dos desenhos.

Cada um tinha sua peculiaridade. Por fim, ela escolheu a jardineira e logo assentou em sua cadeira.

— Por onde começo?! — sussurrou ela, analisando os traços do croqui — Vamos pelo mais fácil, t-shirt.

A prova tinha um tempo limite de quarenta e cinco minutos. Para por ter chegado quinze minutos atrasada, o professor havia lhe concedido mais cinco minutos além do tempo restante. Entretanto, não precisou, pois mesmo com seu atraso, também tinha facilidade em interpretar o croqui e transcrevê-lo para desenho técnico.

— Aqui está senhor Gail. — disse ela, ao entregar suas folhas todas nomeadas e detalhadas para o professor.

Todas as outras pessoas que ali estavam, pararam e mais uma vez olharam espantados. Mesmo sendo a melhor, e mesmo podendo ter o maior destaque, a jovem sempre mantinha o mesmo jeito simples e tímido de ser, controlando suas manias de perfeccionismo que em alguns casos mais lhe atrapalhava que ajudava. Contudo, o principal ela sabia, todo o talento e criatividade que possuía não vinha dela, mas de Deus. 

E se fosse para alguém ser exaltado por isso, certamente seria Papai.

Assim que saiu da sala, se direcionou para o ateliê de moulage. A próxima aula seria com a professora mais exigente do seu curso, Miss Peter. Uma senhora de cabelos grisalhos, óculos de grau, echarpe de linho egípcio e scarpin Chanel, que conseguia extrair medo em todos os alunos daquela instituição. se aproximou da última bancada bem ao lado da janela e sentou na banqueta. Como faltavam quinze minutos para o início da aula, apenas colocou fones no ouvido e abriu o aplicativo do Spotify para ouvir a playlist que seu amigo havia enviado. Pegou seu bloco de bolso para desenhar um pouco.

— Poderia até ficar desconfiada, mas eu sei que você tem bom gosto. — sussurrou ela, com um sorriso descontraído e espontâneo no rosto.

Os minutos foram passando, e o restante da turma foi chegando. Assim que Louise adentrou a sala com outra amiga, conversando sobre seu estágio, acenou para ela que não se atentou a princípio.

, amiga que bom que chegou a tempo. — disse Louise ao se aproximar dela, ajeitando sua bolsa no ombro e algumas sacolas na outra mão — Eu saí correndo de casa porque precisei levar os croquis pra supervisora antes da aula, por isso não te chamei.
— Sem problema. — disse ela, mantendo o olhar sereno e a atenção bem distante dali. 

Seu cansaço físico e mental ainda se mantinha presente.

— Bom dia a todos. — disse Miss Peter ao colocar sua bolsa Prada em cima da bancada de trabalho e ajustar o óculos no rosto — Hoje faremos uma moulagem diferente do que costumamos, usaremos os manequins plus size com o propósito de executar peças piloto de roupas para festas.
— Seremos avaliados como na última atividade? — perguntou Louise ao ir rapidamente para seu lugar. 
— Essa pergunta, a essa hora da manhã? Nem parece que estão no segundo ano da graduação. — a professora revirou os olhos sem paciência — Já deveria saber que em tudo vocês são avaliados. 

apenas reduziu o volume da música, mantendo um fone no ouvido esquerdo, para voltar a atenção à professora. Assim que Miss Peter deu o restante das explicações e assentiu para iniciarem, a jovem Miller começou a esboçar no papel um croqui rápido para ter uma base do que ela poderia propor. Aquele era um dos pontos que contribuíam para suas chances de acerto. Todas as ideias que tinha em mente, ela sempre desenhava primeiro, visualizava no corpo do manequim em sua mente, para depois modelar no manequim com o tecido. 

— Clair, sua dobra ficou estranha, desmanche e refaça. — disse a professora, após alguns minutos rodando entre as bancadas de trabalho, observando eles trabalharem — Dylan, não acho que este babado está alinhado ao estilo que está propondo, aconselho rever seu desenho, se é que eu posso chamar isso de desenho… Joy, você não deveria se esquecer que o godê é cortado enviesado, o que pensa que está fazendo com esse tecido? E não se esqueça de verificar o cálculo da medida da cintura, da última vez houve muitos equívocos de sua parte.

Não teve uma só pessoa que não engoliu seco, com todos os defeitos que ela apontava em cada modelagem. Até que a mesma parou em frente a bancada de , e se manteve em silêncio atenta às movimentações precisas e objetivas da aluna. É claro que a senhora Peter a considerava sua aluna favorita, apenas não dizia em voz alta por ser uma profissional bastante orgulhosa.

Em um dado momento, assim que a senhora Peter se moveu para apontar um pequeno defeito na dobra que a jovem modelava, a própria percebeu o erro e desfez. Ela parou por um momento e ficou olhando para o seu desenho, pensando numa forma de deixar a dobra mais sutil e menos marcada como imaginou. 

— Uma dica importante. — disse a professora ao terminar seu movimento, tocando no tecido com suavidade — Você precisa de leveza nas pontas e segurança na dobra, então deve fazer assim...

Era raro os momentos em que a senhora Peter interferia ativamente na moulagem de algum aluno ou aluna. Seu argumento estava no fato de: é errando que se aprende. Por isso, sempre que momentos como aquele aconteciam, todos paravam para aprender mais com ela.

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— Eu não acredito que a megera finalmente nos ensinou algo legal. — comentou Louise ao se aproximar da amiga, que estava tomando um cappuccino na cafeteria do prédio.
— Tudo que ela nos ensina é legal. — comentou , ao assoprar o líquido observando a amiga se sentar na cadeira.
— Eu não acho. — Dominic, outro colega de turma puxou outra cadeira e sentou-se também — Aquela velha um dia ainda vai matar a gente, escreve o que eu estou dizendo.
— Socorro, eu não aguento mais essas aulas de moulagem, eu nem sei costurar direito, tenho que ficar modelando no manequim. — Barbie puxou outra cadeira para ela, sentando em plena frustração — Prefiro mil vezes escrever três artigos sobre a moda na Grécia antiga do que isso.

Era visível as preferências da garota pelos editoriais de moda, afinal seu estágio estava sendo executado na revista W.

— Vocês estão fazendo uma tempestade em um copo de água. — comentou , enquanto saboreava seu cappuccino — A aula de hoje até foi bem produtiva e diferente.
— Fale por você. — Dominic a olhou — Além de que suas considerações nem valem né.
— Por que? — se mostrou confusa pelas palavras dele.
— Verdade. — concordou Barbie — Você é a melhor da turma em tudo, está em um nível bem superior a gente, para você todos os professores são bons.
— É porque todos a tratam bem. — explicou Dominic demonstrando sutis insatisfações — Diferente de nós os mortais que somos sempre xingados por não atender as exigências deles.
— Me desculpem gente, mas eu nunca percebi esse tratamento diferente não, eles me tratam com a mesma educação que eu os trato. — pegou sua mochila tranquilamente, para se retirar.
— Está falando que nós não somos educados com eles? — Dominic a olhou se sentindo ofendido.
— Me desculpe se soou assim. — ela apenas se levantou e seguiu até a lixeira para jogar fora o copo descartável do cappuccino.

Mas o que plantamos nós colhemos! Pensou ela, ao se lembrar do versículo de Gálatas 6:7, que sua mãe Célia sempre mencionava para ela. estava cansada demais para levar em consideração as palavras amargas de Dimitri, e menos ainda se sentia confortável de permanecer ali mediante a tantas reclamações do rapaz. Assim que ela chegou no hall de entrada do prédio, seu corpo paralisou ao se deparar com o coordenador Brown a sua espera na recepção.

— Bom dia, . — disse o homem, com um tom sério, entretanto mantendo o olhar sereno.
— Bom dia, senhor Brown. — ela o olhou um pouco temerosa — Algum problema?
— Todos, mas gostaria que me acompanhasse até a minha sala. — disse ele, estendendo a mão em direção ao corredor principal.
— Sim, senhor. — ela assentiu o seguindo.

A cada passo se encolhia mais e sentia o coração disparado com medo de que o assunto pudesse ser preocupante. Assim que chegaram, o coordenador se sentou em sua cadeira de diretor e estendeu a mão para que ela sentasse na cadeira a sua frente, e o mesmo ela o fez.

— O que o senhor deseja falar comigo? — perguntou ela, controlando sua aflição interna.
— Primeiro, quero lhe perguntar se a senhorita já preparou seu portfólio? — iniciou ele.
— Bem… Eu ainda não encontrei tempo para dar atenção a isso, e como o senhor disse que eu poderia entregar no final deste mês… — ela respirou fundo, sabia que estava em falta com sua própria vida profissional.
— Imaginei. — disse ele, ele soltou um suspiro tentando manter o olhar de compreensão — Pois a partir de agora, quero que sua atenção esteja toda concentrada no meu pedido, e nada de trabalhos extras fazendo desenhos para outros alunos.
— Senhor?! — seu corpo gelou e o coração quase parou com a revelação.
— Não se preocupe senhorita Miller, não será punida por fazer croquis para seus colegas de turma em troca de dinheiro, tenho conhecimentos de sua situação financeira neste país.
— Como o senhor sabe sobre isso? — perguntou ela, de forma inocente.
— Pela forma mais óbvia, você não pode fazer a prova para todos eles, apenas a sua. — explicou o coordenador, ao retirar alguns papéis dos muitos croquis que a jovem havia desenhado para outros alunos — Sejamos honestos, é bem visível a mudança de traço entre os trabalhos e as provas, e somente a sua permanece igual, não precisamos ser do CSI para saber que você já desenhou pelo menos uma vez para a maioria dos alunos daqui.

Por essa não esperava.

— Só me entristeço em saber que muitos conseguiram destaques com algo que você fez. — continuou ele, ao se levantar de sua cadeira — Eu prezo muito pela meritocracia, você é uma aluna dedicada que poderia se destacar com facilidade, se não vendesse seu talento para os outros.
— Me desculpe por desapontá-lo, senhor. — também manteve a suavidade no olhar, por mais que seu coração estivesse acelerado — Mas não acho que esteja vendendo o meu talento, apenas estou ajudando algumas pessoas, enquanto isso, tenho a oportunidade de aperfeiçoar o meu traço.
— Admiro a forma com a qual enxerga as coisas. — ele soltou um suspiro fraco — Mas o que importa é que a partir de agora, está terminantemente proibida de vender suas habilidades e saberemos se você fizer…
— Mas… — ela tentou argumentar, porém desistiu no meio do caminho, assentindo.
— Que bom que entendeu, você está entrando em um nível do seu curso que deve se preocupar com seu futuro e em qual direção da moda irá seguir. — completou o coordenador — Preciso da minha melhor aluna focada em ter o portfólio mais impecável que eu verei na minha vida. Estamos entendidos?
— Sim, senhor Brown. — assentiu ela, se levantando da cadeira também.
— E não se preocupe com a parte financeira, sei que desenhar para os outros para se manter neste curso, então a partir de agora sua bolsa de estudos na Parsons irá cobrir também as despesas com deslocamentos, alimentação e alojamento. — anunciou ele — Não é certo que a melhor aluna não tenha uma base sólida para se dedicar aos estudos e trazer mais orgulho a esta instituição.
— Obrigada, senhor Brown. — a voz de abaixou mais, em quase sussurro.

Ela estava estática pelo anúncio dele, pois nunca imaginaria ser agraciada com algo assim em sua trajetória acadêmica. O diretor lhe deu mais algumas instruções sobre o que ele queria ver no portfólio e então a liberou para se retirar. seguiu a passos lentos pelos corredores, totalmente em choque com o que havia acontecido naquela sala. Seu corpo se moveu sozinho até a saída, onde levou outro susto ao se deparar com seu amigo , encostado em uma moto com mãos nos bolsos da calça e uma pose de modelo vip em capa da revista Vogue.

— O que você faz aqui?! — perguntou ela, ainda surpresa.
— Vim te roubar pra mim. — brincou ele, se afastando da moto com um sorriso bobo no rosto.
— Que loucura é essa ? — ela riu de leve — Me roubar?
— Você precisa de um dia de paz e sua chefe já sabe sobre esse sequestro. — continuou ele, no tom de brincadeira ao esticar um dos capacetes para ela.
— E desde quando você tem uma moto? — perguntou ela, ao pegar o capacete.
— É de um amigo, de um amigo. — ele riu e piscou para ela.
— Bem, contanto que eu não termine em uma delegacia no final do dia, está tudo bem. — disse ela, colocando o capacete.

soltou uma gargalhada engraçada, que a fez rir junto. 

Ele deu a partida, assim que a jovem se agarrou em sua jaqueta. Com um brilho nos olhos, estava com seu coração acelerado, pois havia preparado uma surpresa para sua amiga. No fundo, ele só queria lhe proporcionar mais um dia cheio de alegrias, sorrisos e oportunidades para se aproximar ainda mais de Papai.

Tu és o autor
Aquele que pintou com perfeição a vida
Tu és o senhor, aquele que me amou
E és o meu Deus, meu senhor
Minha vida é pra teu louvor.
- Mais Que Uma Voz / Kleber Lucas

Ensinamento: Humildade.

11. Sunamita

Certo dia, Eliseu foi a Suném, 
onde uma mulher rica insistiu que 
ele fosse tomar uma refeição em sua casa. 
Depois disso, sempre que passava por ali, 
ele parava para uma refeição.
- 2 Reis 4:8
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Atualmente...

era ótimo em planejamentos, ainda que a fama de bagunceiro persistisse em sua vida, um de seus defeitos que menos conseguia lidar, afinal ela era tida como o poço da organização e perfeccionismo. Mas ali estava a garota agarrada à jaqueta do amigo, um pouco trêmula pela adrenalina proporcionada pela moto e em plena curiosidade em saber qual a surpresa da vez.

Seguindo pela via principal, em um piscar de olhos a moto desequilibrou um pouco devido a uma ultrapassagem equivocada do carro ao lado. Aquilo foi um gatilho para que as más lembranças do acidente do amigo fizessem com que a jovem se sentisse angustiada e em pânico.

, para a moto. — pediu ela, tentando forçar a voz — !
— O que? Não te ouvi… O que disse? — perguntou ele, esquinando a cabeça de forma automática, porém voltando a atenção para o trânsito.
— Para a moto! — gritou ela, com mais força.

O que fez o rapaz jogar o veículo para o canto e entrar numa rua menos movimentada para estacionar ao lado da calçada. Mesmo parando, ele manteve o motor ligado, entretanto, já em sua crise de desespero desceu de imediato retirando o capacete, tentando respirar. A princípio não havia entendido o que estava acontecendo com ela, até que sua memória também recordou o passado, foi então que ele desligou o motor e desceu da moto.

… — ele se aproximou dela, e apoiando sua mão direita em suas costas, com a outras segurou a mão da garota — Olha para mim, está tudo bem.
— Não, eu não consigo… — ela continuou de cabeça baixa, puxando o ar para seus pulmões, sentindo um aperto no coração.
, olhe para mim. — insistiu , com a voz suave, agora tocando com suavidade no rosto dela, atraindo sua atenção total — Eu estou aqui, está tudo bem, não vou a lugar nenhum.
… — o olhar dela estava marejado.
— Respira com calma. — pediu ele, entendendo o que ela queria dizer.

O mesmo ela fez, mantendo seu olhar fixo nele. 

— Me desculpe, eu deveria ter vindo de carro. — disse ele, com o olhar compreensivo para ela, acariciando seu rosto — Não imaginei que pudesse te fazer lembrar daquele dia.
— Eu achei que estivesse tudo bem, mas… Não dá, eu não consigo… — as lágrimas caíram com facilidade de seus olhos — Eu não quero passar por aquela dor novamente e as lembranças não ajudam.

Ele apenas a abraçou. 
Onde falta palavra, o silêncio e um abraço apertado garante o sentimento de segurança e conforto. Internamente lutava contra o turbilhão de pensamentos tristes e negativos que surgiram com a brecha encontrada. Era como se estivesse revivendo toda a dor que sentiu quando viu o amigo ligado a aparelhos a um passo da morte, tido como o segundo pior dia de sua vida.

— Eu poderia até te perguntar se quer ir para casa. — sussurrou , num tom brincalhão — Mas como sei que a resposta vai ser sim e que vai preferir passar horas chorando no quarto, não vamos sacrificar este dia.
… — ela se afastou um pouco o olhando — Não sei se estou…
. — ele a interrompeu — Os planos de Deus não são frustrados, e foi Ele quem planejou nossa tarde de hoje.

Ela permaneceu séria, cruzando os braços voltando o olhar para a moto.

— Não vamos nela. — assegurou ele, piscando de leve.
— E como vamos? — perguntou.
— Hum… — ele retirou um lenço de um dos bolsos da jaqueta e limpou as lágrimas do rosto dela, e lhe deu um beijo na bochecha em seguida — Caminhando, estamos quase perto do nosso destino.
— Mas e a moto? — indagou — Não é perigoso deixá-la aqui? Podem roubar.
— Ah… Verdade. — ele riu e pegando o celular mandou algumas mensagens — Logo o dono vem buscar.

Ele abriu um singelo sorriso para ela e segurando em sua mão, a guiou para a direção que seguiriam. Alguns quarteirões de caminhada em silêncio, percebeu que ainda não havia se recuperado do susto, e mesmo não sabendo o que poderia fazer para que ela vencesse as dores do passado e curasse seu coração. A única certeza que o rapaz mantinha era que Papai já estava trabalhando bem no íntimo de sua amiga, e a cada dia que ele investia passando ao lado dela, era uma conquista.

… — sussurrou ele, despertando a atenção dela.
— Sim. — disse a jovem.
— No que está pensando, enquanto estamos caminhando?! — indagou ele, ao puxá-la para caminhar debaixo das sombras das árvores.
— Para ser honesta, estou tentando não pensar. — respondeu ela, soltando um suspiro desanimado depois.
— Eu realmente não queria ter causado isso. — disse ele.
. — ela parou um momento, o fazendo parar também — Sei que não foi intencional, eu só… Como sempre nunca estou pronta para encarar as mesmas dores.
— Não precisa fazer isso sozinha, você sabe disso. — assegurou ele, com confiança — E não falo apenas de mim.

sabia que em tudo o seu amigo sempre se referia a Papai também.

— Eu sei… — ela olhou para o céu, tentando segurar as emoções — Podemos continuar essa conversa depois?

Um largo sorriso surgiu no rosto do rapaz, deixando-a surpresa e confusa.

— Por que está sorrindo?! — perguntou a jovem.
— Esse sorriso não é meu, é do Papai. — também se sentiu emocionado.
— Por que? — ela continuou sem entender.
— Porque você não disse que não quer falar sobre. — explicou ele — Desta vez pediu para adiarmos a conversa.

Só então ela percebeu com clareza as suas palavras e começou a rir de forma espontânea. Afinal, o que mais queria era ajudá-la a superar seus traumas amontoados ao longo dos anos, aquela pequena frase poderia significar muita coisa para ele e apenas uma para Deus: estava se abrindo para a cura.

— A culpa é sua. — disse ela, batendo no ombro dele.
— Eu te amo, e Papai também. — ele sorriu de canto e piscou, fazendo-a rir um pouco mais — Vamos continuar?
— Não chegamos ainda? — ela lançou um olhar cansado — Você disse que era perto e já estamos a tempos caminhando.
— Para ser honesto, já chegamos. — confessou ele — Eu que achei melhor darmos algumas voltas pelo quarteirão.
— Seu mercenário. — ela bateu nele novamente — Bem que eu percebi que passamos pela mesma loja três vezes.
— Ai. — desta vez reclamou fazendo uma careta engraçada — Que carrasca.
— Você que é, me fazendo andar à toa. — ela soltou de sua mão e cruzou os braços.
— Não foi à toa. — ele segurou em sua mão novamente e entrelaçou seus dedos — Deixe de me olhar assim, e vamos aproveitar nosso dia.

Ela não teve outra escolha a não ser assentir com a cabeça e seguir com ele até o prédio do outro lado da rua. Mais uma edificação ao estilo tradicional americano com tijolinhos na fachada frontal e pintado de branco nas laterais. Assim que tocaram a campainha, a porta se abriu revelando a anfitriã com seu olhar curioso e gestos empolgados.

! — a mulher que aparentava seus quarenta anos foi logo abraçando o rapaz, sem cerimônias e nenhum receio — Achei que não fossem mais chegar.
— Se eu disse que a traria. — explicou o rapaz, ao retribuir o abraço e brincando — Sua ansiedade é que está elevada.
— E você, seja muito bem vinda, ! — antes mesmo de serem apresentadas, a anfitriã abraçou a jovem, deixando-a surpresa a primeiro momento.

Tanto pelo abraço quanto por ela saber seu nome.

— Esta é a dona Cristina. — disse o rapaz ainda se impressionando, com o jeito despreocupado e espontâneo da mulher — Ela é brasileira também.

Em segundos, sentindo aquele abraço forte e confortável, que imediatamente lhe remeteu ao abraço de sua mãe Célia, se desmanchou nos braços da mulher e começou a chorar novamente. O que deixou num misto de preocupação e choque, confuso com o que acontecia.

— Me desculpe. — sussurrou , ao se recompor depois de ter ficado longos minutos abraçada a ela.
— Eu posso entender o que aconteceu aqui? — olhou a mulher, boquiaberto.
— Sim, alguns têm o dom de cantar, outros de pregar, o meu é de abraçar. — explicou Cristina, rindo dele — E você minha jovem, não precisa se desculpar, esse abraço está a sua espera há muito tempo.

Agora foi a vez de ficar surpresa.

— Agora, deixe-me me apresentar direito. — a mulher riu com carisma — Meu nome é Cristina da Silva, e você é a famosa .

A jovem assentiu com a face, dando um sorriso singelo. 

— Não vou nem comentar a parte do famosa. — riu de leve, enquanto terminava de enxugar suas lágrimas e voltou o olhar para o amigo.
fala de você desde quando eu o conheci. — confessou Cristina, soltando uma gargalhada boba — Ainda me lembro da primeira vez que o vi, estava tão chateado e deprimido, que quase fiquei pra baixo junto.
— Não precisa contar em detalhes. — disse , se sentindo envergonhado.
— Mas eu não detalhei nada. — a mulher riu dele.
deprimido? — o olhou surpresa.
— Foi naquela época. — explicou ele, baixando mais o tom de voz, se referindo há quatro anos quando eles deixaram de ser amigos.

abaixou o olhar, dando espaço para a tristeza, entretanto não durou nem dois segundos pois Cristina com sua animação a pegou pela mão e a puxou para a cozinha.

— Passado é passado e vamos deixá-lo lá, não quero ver ninguém triste hoje. — argumentou a anfitriã, no caminho — E esta é a minha cozinha, o melhor lugar da casa.
— Pelo olhar brilhando do , imagino que sim. — brincou , dando uma risada rápida.
— Você não tem ideia de quanta comigo maravilhosa que ela faz. — olhou sorridente para a dona da casa — Tem certeza que seu dom é abraçar?!

Ela soltou uma gargalhada boba.

— Tenho muitos, meu filho. — afirmou ela, se afastando de e seguindo até a geladeira — Eu resolvi não preparar nada até vocês chegarem… já sabe das tradições, um brasileiro que se preze recebe as visitas é na cozinha fazendo algo pra comer.
— Estou ansioso para saber o que vai fazer hoje. — disse o rapaz, puxando duas cadeiras para ele e a amiga se sentarem.
— Eu conheço muito bem essas tradições brasileiras. — concordou , se lembrando das muitas vezes que almoçou na casa dos pastores brasileiros com a mãe — A cozinha é sempre o coração da casa.
— Não há nada melhor do que comer. — comentou , piscando de leve para a amiga.
— Dormi é mais interessante. — argumentou , refletindo um pouco sobre o assunto.
— Amar é mais… — dona Cristina suspirou um pouco, com o olhar apaixonado.
— Estou começando a considerar isso. — voltou seu olhar profundo para a amiga, que fez a jovem se encolher na cadeira, envergonhada por tamanha sinceridade.
— Eu disse. — Cristina parou por um momento e manteve sua atenção no casal em sua cozinha.

Ela sabia parcialmente a história deles, das muitas noites que passou conversando e aconselhando em muitos dos seus momentos tristes e saudosos em ver . A doce anfitriã brasileira o havia acolhido há três anos e sete meses em sua casa, o jovem que naquela época morava com o pai na américa, havia saído de casa após uma discussão. Debaixo da chuva, sem ter para onde ir e dinheiro para se sustentar, ele avistou Cristina lutando com o guarda-chuva enquanto carregava algumas sacolas pesadas do supermercado e se ofereceu para ajudá-la com o peso.

Bastou dois minutos de conversa, para que a anfitriã percebesse que era um bom garoto que precisava de apoio e bons conselhos, além de um espaço para dormir. A maior virtude de Cristina é ser hospitaleira, abrir as portas da sua casa para receber jovens como e , que precisam de um ombro amigo e um aconchegante abraço acolhedor. Não foi à toa que fez da casa do seu falecido marido um hostel à sua própria moda, e seu pequeno negócio foi a cada ano com os marketings boca a boca de crescendo e ficando famoso entre os estudantes da cidade.

— E como se conheceram? — perguntou curiosa.
— Ah, essa eu conto. — começou a rir ao se lembrar — Ela estava perdendo de dois rounds para o guarda-chuva enquanto carregava algumas sacolas.
— Ah, eu estava quase dominando ele. — reclamou Cristina, em sua defesa — Mas o senhor cavalheiro ai, me ajudou a trazer as compras pra casa e eu percebi que ele precisava de um teto para ficar.
— O que aconteceu?! — olhou para ele.
— Lembra que eu vim morar com meu pai? — perguntou ele, com ela assentindo — Então, não deu muito certo, bom que Deus me enviou um anjo da guarda para me dar comida e abrigo.

Ele voltou seu olhar para Cristina e piscou de forma travessa.

— Só não me casei com ela, porque já sou prometido a você. — segurou a mão de sua amiga entrelaçando os dedos, novamente deixando ela envergonhada.
— Ata. — Cristina riu de leve e voltou sua atenção na geladeira que ainda estava aberta, então continuou a retirar os ingredientes que listava na cabeça — Sabe muito bem que você não faz o meu tipo.

Ela brincou em descontração, percebendo a intensidade do olhar dele para .

— E vocês? Quando serei a madrinha?! — continuou ela, brincando.
— Não, não brinque com isso. — se encolheu um pouco — é um bobo, com tantas garotas menos complicadas e ele continua insistindo em mim.
— Você não é complicada. — retrucou ele, seguro de suas palavras — E tenho certeza que até a nossa formatura, já terei te desposado.
— Desposado?! — pareceu confusa com o dialeto utilizado por ele.
— Tem gente vendo muito Bridgerton aqui. — comentou Cristina — Vira e mexe esse menino cisma de falar como se estivesse no século XIX.
— É porque minha futura esposa gosta de romances de época. — olhou para a amiga — E falando nisso, te devo uma maratona de filmes da Jane Austen.
— Não tenho tido tempo para isso, sabe que ainda estou devendo um portfólio ao diretor. — explicou ela, sua falta de tempo.
— Hum… — ele fez bico, demonstrando chateação.
— Dona Cristina. — voltou o olhar para ela, atenta aos seus manuseios dos ingredientes.
— Sim?! — Cristina manteve sua atenção onde estava.
— Você disse que o amor é melhor. — afirmou a garota — Você é casada?
— Já fui, duas vezes. — contou a mulher, soltando um suspiro saudoso.
— Uau, e o que aconteceu? — a garota se viu um pouco mais curiosa pela história.
— Bem… Meu primeiro marido foi quando eu tinha 17 anos, eu me casei grávida por uma inconsequência de minha parte e falta de conhecimento da palavra, mas eu o amei muito mais muito mesmo… — Cristina foi contando com o tom suave e tranquilo, que se podia notar seus sentimentos ao detalhar sua história — Mas infelizmente, ele faleceu no mesmo dia em que eu perdi nosso bebê…
— Eu lamento. — forçou a voz, pois quase sussurrou.
— Está tudo bem, é passado aprendi com os erros e acertos daquele relacionamento, Samuel era um rapaz maravilhoso e muito divertido, eu segui com a minha vida e foquei nos estudos, foi quando eu ganhei uma bolsa de estudos na federal de Minas Gerais. — continuou ela, parecendo se empolgar um pouco — Foram os anos mais badalados da minha vida, nunca imaginei que ser universitária pudesse ser tão extraordinário e cansativo ao mesmo tempo, mas estava eu afundada em todas as atividades que me ofereciam até mesmo as que não gostava.
— E por que? — perguntou
— Porque naquela época eu achava que quanto mais eu me ocupasse, menos eu teria espaço para pensar na minha perda e não sofrer de novo. — respondeu ela, ao parar e olhar diretamente para — Até que eu conheci o Joseph, um intercambista despojado e totalmente aventureiro que se tornou meu segundo marido, nos tornamos amigos primeiro e como eu não queria relacionamentos para não perder novamente, ele suor literalmente a camisa para me conquistar.
— Eu entendo muito bem o que é não querer perder alguém outra vez. — sussurrou .
— Mas sabe de uma coisa, foi com o Joseph que eu aprendi que perder faz parte da vida, e sempre que perdemos algo, Deus nos dá a oportunidade de ganhar uma coisa nova… Através do Joe eu descobri o amor de Deus que não sabia que tinha, e me livrei do pensamento de ser desafortunada… Fui uma mulher muito feliz nos meus quinze anos de casada com ele, e me rendeu dois filhos gêmeos. — continuou Cristina, segura em suas palavras abrindo um singelo sorriso para ela — Mas então, eu o perdi para uma doença, acredita?
— Não consigo imaginar quanta dor você teve que aguentar. — comentou , sensibilizada com suas palavras.
— Bem, por algum tempo sim, eu chorei muito… — admitiu  ela — Mas eu já havia aprendido que a perda é uma ferida que deve doer apenas no momento em que acontece, depois devemos curá-la e seguir em frente, assim toda vez que lembramos da pessoa não será com dor e sim com saudade.
— Eu não sei se teria forças para enfrentar a dor. — retrucou , internamente cansada de tanto sofrimento ao longo dos anos.
— Acredite você é mais forte do que imagina. — Cristina sorriu novamente para ela — Basta apenas querer não se lembrar mais com dor e sim com saudade.

A anfitriã voltou o olhar para seus ingredientes satisfeita por ter contado sua história para ela.

— Quem quer aprender a fazer bolinho de chuva?! — perguntou Cristina, mudando de assunto para deixar a reflexão para a jovem.
— Eu quero! — disse , se levantando da cadeira e indo até ela — Você sempre me diz que vai me ensinar, mas nunca faz isso… Preciso aprender para quando eu me casar.
— Ah sim… — Cristina soltou uma gargalhada boba — Só fico com medo de você causar um caos na cozinha, do jeito que é tão organizado.

fez uma careta engraçada, sabendo do sarcasmo no comentário dela. Ele sabia que sua amiga precisava de alguns minutos digerindo o que tinha ouvido e refletindo sobre, então aproveitou o momento para atormentar a anfitriã e de forma atenta aprender a tal receita. 

Os minutos foram passando, e em seu silêncio apenas observava as peripécias de seu amigo em seu momento aprendiz de confeiteiro. Rindo das suas perguntas sem sentido sobre o motivo de colocar uma pitada de sal em algo que é doce, e se a receita também daria certo se não colocasse o ovo. Cristina seguia tirando todas as dúvidas de forma tranquila e paciente, dando algumas gargalhadas pelo caminho. 

— E então? — indagou Cristina, assim que a jovem mordeu o primeiro bolinho que pegou — Cuidado que está quente.
— Gostoso, está muito gostoso. — sorriu de leve, realmente estava bom e com gostinho de saudade — Era exatamente assim que a minha mãe fazia.

Aquela era a primeira vez que ela se lembrava de Célia sem se sentir mal, sem lágrimas ou aperto no coração. apenas começou a rir ao se lembrar de quando sua falecida mãe lhe ensinou a fazer bolinho de chuva, de como ela deixou a cozinha toda branca após uma inesperada guerra de farinha. Os olhos da garota brilharam um pouco com a lembrança, cheios de lágrimas de emoção no canto, deixando-a surpresa consigo mesma.

— Me desculpem, acho que fiquei emocionada. — explicou ela.
— Se lembrou da sua mãe com saudade, não foi?! — constatou Cristina, já entendendo o brilho no olhar dela, recebendo a confirmação com o balançar de sua cabeça — Você acabou de conseguir, isso é se lembrar com saudade e sem a dor… E só conseguimos isso através do amor, e Ele não é um sentimento apenas é uma pessoa com nome e sobrenome.

Ela olhou para , que se mantinha atento a amiga com um sorriso de canto no rosto. Ela sabia quem era essa pessoa que a mulher mencionava: Jesus Cristo. Eles saborearam mais alguns bolinhos, que foram banhados na mistura de açúcar mascavo e canela, tido como o ingrediente secreto de Cristina. Assim que se ofereceu para ajudar a  anfitriã a lavar a louça suja, a mulher expulsou os amigos da cozinha e pediu para que mostrasse seu jardim nos fundos da casa. 

O rapaz, porém, segurou na mão da amiga e a levou para o segundo andar, lhe apresentando o quarto onde dormia. Para a surpresa de , o lugar estava surpreendentemente organizado e perfumado, a garota pode até notar uma fileira de pequenos vasos de suculentas na bancada de estudos embaixo da janela.

— Eu reconheço essa cortina, de nossas videos chamadas. — comentou ela, impressionada — Sempre achei que você morasse em uma república ou no dormitório da faculdade.
— Bem, eu considero aqui meu dormitório, só que com mais benefícios. — explicou ele, num tom brincalhão — Até ganhei uma segunda mãe e essa cama maravilhosa.

riu baixo ao observá-lo apontar.

— A dona Cristina é realmente uma pessoa muito legal, e… — ela parou e suspirou fraco.
— Ela sempre me deu ótimos conselhos. — contou ele, puxando a cadeira frente a bancada para se sentar — Principalmente quando eu pensei em desistir no começo.
— Desistir? De que? — deu alguns passos e se sentou na cama dele — E quem dorme na outra cama?
— Um amigo que ela adotou também, ele é do México, veio de travessia com coyote, foi difícil conseguirmos o visto dele, mas agora deu tudo certo e ele ganhou uma bolsa de estudos na NY University. — contou ele, mantendo a atenção nela, com um olhar carinhoso.
— Você não me respondeu… — insistiu , ela sabia que tinha algo mais profundo que não queria dizer.
— Você quer falar sobre isso agora? — perguntou.
— Não sei… — ela respirou fundo — Você queria desistir de mim?
— Não… Eu queria desistir de mim… — ele manteve a segurança na voz — E ela me ajudou a lembrar que Papai jamais vai desistir de nós, então eu fiz uma promessa.
— Qual? — ela permanecia curiosa.
— Que jamais desistiria de nós, também. — ele se levantou e deu dois passos até ela, ficando de pé em sua frente — Quando você disse que não queria mais ser minha amiga, eu não vi motivos para continuar morando com a minha mãe, então pedi para ficar com o meu pai aqui na América… Foi o pior momento da minha vida, que eu parei de olhar para Aquele que é dono do meu olhar, então fui me sentindo cada vez mais sozinho e…
… — ela se levantou com os olhos cheios de lágrimas — Me desculpa…
— A culpa não foi sua. — ele manteve o olhar de carinho e a abraçou forte e apertado — Sabe, quando o tio Paulo diz em Romanos 8:28 que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus?

Ela balançou a cabeça positivamente, tentando controlar suas emoções.

— Eu aprendi que minha felicidade não vem das pessoas que eu amo, ela vem do Papai, é Ele quem me completa… — explicou , com serenidade — Eu tinha que aprender isso primeiro para depois voltar pra sua vida, assim eu jamais te colocaria acima dEle… No fim, era uma lição da qual eu tinha que passar e aprender.
— Perder a minha mãe foi uma lição? Eu não queria. — suas palavras soaram em forma de desabafo.
— Eu não tenho essa resposta… — confessou ele, aninhando-a em seus braços — Mas, não precisa ser uma dor, deixe Papai fazer disso apenas uma linda saudade.
— Foi para isso que você me trouxe, não é? — perguntou , em reflexão de todos os sentimentos que teve em um único dia.
— Não exatamente… Eu realmente não sabia o que iria acontecer aqui, mas permaneço agradecido por cada detalhe. — ele se afastou um pouco.

A distância foi o suficiente para olhá-la nos olhos por um tempo, até tomar impulso para lhe dar outro beijo doce e sutil.

— Obrigado. — sussurrou ela.
— Pelo abraço ou pela nossa tarde? — indagou.
— Pacote completo. — respondeu ela, rindo.
— Foi obrigado para mim, ou para o Papai?! — perguntou ele, novamente arrancando mais risos dela.
— Pacote completo. — repetiu, sorrindo de forma graciosa e delicada.

contou mais algumas histórias de outros hóspedes do hostel, e dos muitos que já passaram naqueles três anos e sete meses que morava ali. ainda seguia curiosa para saber como estava sendo a relação do amigo com os pais, ela que tinha acompanhado a fase mais conturbada do divórcio, se sentia levemente chateada consigo mesma por tê-lo deixado no momento em que mais precisava. Sua dor na época havia sido tão grande que nem mesmo pensou que pudesse também machucar os sentimentos do amigo. 

Algo que agora descobriu.

Rei de imensurável valor
Ninguém pode expressar
O quanto és digno
Embora eu seja pobre e fraco
Tudo que tenho é Teu
Cada fôlego meu.
- Essência da Adoração / David Quinlan

Ensinamento: Ser hospitaleira.


12. A viúva de Sarepta

E Elias lhe disse: Não temas; vai e faze conforme a tua palavra;
porém faze disso primeiro para mim um bolo pequeno
e traze-mo para fora; depois, farás para ti e para teu filho.

- 1 Reis 17:13
--


5 anos atrás…

A noite que antecede uma viagem importante é sempre a mais longa para se enfrentar, pelo menos era isso que o ansioso pensou ao longo das horas que teve que esperar para ver o sol nascer. A causa disso? O garoto havia conseguido um feito histórico, segundo suas próprias palavras: convencer a amiga a participar de um acampamento de verão. Foi uma surpresa para o casal Miller, quando a filha anunciou seu desejo de participar, seguido de um pedido de autorização, e mesmo com uma crescente preocupação interna, o olhar esperançoso dos pais foi um incentivo a mais para a garota não recuar em sua decisão.

!!! — os gritos de do lado de fora do quarto, enquanto batia em sua porta, despertou-a.

Mal o amigo sabia que ela também havia passado uma parte da noite acordada imaginando como seria um acampamento de verão.

— Não precisa gritar, eu estou acordada. — disse ela, em risos ao se aproximar da porta e abri-la, e olhando-o de cima a baixo — Eu ainda me pergunto como você consegue ser tão pontual para essas coisas, mas chega atrasado todos os dias nas aulas.
— É simples, minha querida , tudo na vida é uma questão de prioridade e interesse. — respondeu ele, adentrando o guardo com singeleza e tranquilidade.
— Prioridade e interesse. — repetiu ela, em reflexão — Então quer dizer que a escola não é prioridade?
— Vamos deixar isso de lado. — ele lançou um sorriso bobo e puxou a cadeira para se sentar — Já arrumou suas malas?
— Malas? , vamos ficar apenas quinze dias, quantas malas está levando? — perguntou ela, curiosa, conhecendo as extravagâncias do amigo.
— Hum… Eu pensei em levar três, além da minha mochila de acampar. — respondeu ele, ao dar um suspiro leve — Mas minha mãe disse que seria muita coisa para carregar.
— E você ouviu os conselhos sábios dela? — indagou a menina, impressionada.
— Sim, reduzi para minha mochila e uma mala. — seu tom de voz demonstrou confiança em sua escolha, algo que fez a menina segurar o riso e voltar sua atenção para a mochila.
— Não ria de mim, você também está levando uma mala e uma mochila. — argumentou ele, em sua defesa.
— Eu queria levar apenas a mochila, mas minha mãe não deixou. — informou ela, já se adiantando ao olhar dele.
— Nunca devemos ignorar os conselhos sábios de uma mãe. — brincou ele, rindo com leveza.

riu juntamente assentindo com a cabeça, então manteve sua atenção na mochila para finalmente conferir se não tinha esquecido nada. Minutos depois, Annia deu dois toques na porta, atraindo a atenção dos adolescentes, para informar que já estava na hora de levá-los. O ponto de encontro era em frente ao portão de entrada da escola, no qual muitos alunos até mesmo de outras escolas já aguardavam.

— Finalmente vamos acampar! — exclamou , com entusiasmo ao voltar seu olhar animado para a amiga.
— Você tem se comportado como se fosse sua primeira vez. — comentou a garota, rindo dele.
— Mas claro que é… É minha primeira vez com você. — assentiu ele, dando ênfase ao ponto central da sua visível empolgação.

As bochechas de coraram com o olhar dele, e principalmente pela presença da sua mãe ao lado. Foram longos minutos de espera para que os organizadores finalmente fizessem a chamada e todos pudessem entrar no ônibus. Annia nunca havia experimentado o sentimento de distância, e para a mãe a breve despedida foi bem mais dolorosa que para Dimitri, porém, menos dramática que a do pai. Para , havia sido uma experiência estranha e engraçada, contudo, extremamente reconfortante sentir-se amada por seus pais e saber o quão cuidadosos com ela eles são.

— Achei que sua mãe não fosse te soltar nunca. — comentou , assim que ambos se acomodaram na cadeira.
— Eu nunca a vi tão emotiva como hoje. — concordou , rindo baixo — Acho que foi um choque para eles quando eu disse que queria ir com você.
— Estou imaginando como eles vão reagir quando você for para faculdade. — observou o amigo, imaginando a situação, então se voltando para ela — Pior, quando nos casarmos.

O olhar curioso dele a deixou confusa e sem reação por sua convicção relacionada à palavra: casamento.

, uma coisa de cada vez. — ela escondeu um sorriso tímido e voltou seu olhar para a janela, a fim de admirar a paisagem do caminho.
— Hum… Então você está de pleno acordo com o nosso futuro, isso quer dizer um sim ao meu pedido de casamento?! — indagou ele, confirmando o que havia entendido.
— Do que está falando?! — ela o olhou confusa.
— Você disse uma coisa de cada vez. — explicou ela.
— Vamos observar a natureza, . — pediu ela, segurando o riso.

A paisagem era mesmo encantadora para todos que a admiravam. Assim que chegaram à região de The Rock Lookout, o organizador geral, senhor Bingle, reuniu todos em volta da demarcação onde ficaria a fogueira para dar as devidas orientações de segurança, sendo entregue também um mapa com informações necessárias para sobrevivência, caso algum imprevisto ou acidente acontecesse.

, ! — a voz de Loren surgiu no meio da agitação dos alunos em suas buscas pelo melhor lugar para barraca dentro do perímetro demarcado — Vocês vieram também.
— Você não sabia?! — Jack, soltou uma gargalhada maldosa, lançando um olhar para o primo — passou os últimos dias apenas falando do acampamento.
— Vocês não estão pensando em montar aqui, não é? — perguntou o garoto, já sentindo seus planos levemente ameaçados.

Naquele ano, o senhor Bingle, professor de geografia da escola Northon em comum acordo com a vice-organizadora professora Linda, da escola Collin, haviam acordado que ao invés de separar meninas de meninos, os alunos iriam escolher onde e próximo de quem seriam suas barracas, para assim estreitar os laços de amizade ou dar oportunidade de criar novos.

— É claro que vamos, e obrigada por ter escolhido um lugar com vista privilegiada do rio. — assentiu Kimberly, enquanto terminava de puxar suas malas, se aproximando de — Posso deixar minha barraca ao lado da sua?
— Pode. — disse a garota, segurando o riso da cara do amigo, boquiaberta demonstrando estar desacreditado daquilo.
— Eu quero deixar a minha ao lado da sua ! — disse Loren, ao se aproximar dele.
— Minha barraca vai ficar ao lado da , não vai sobrar espaço para sua. — alegou ele, criança um argumento rápido para escapar dela.
— Ah. — o olhar de Loren logo demonstrou desapontamento.
— Que tal a Loren ficar do meu lado e você fica do outro lado com o Jack. — sugeriu , tentando contornar a situação.
— Gostei da ideia, meninas para um lado e meninos para o outro. — concordou Kimberly, animada com a sugestão — Posso chamar o Mike, assim fechamos o grupo.
— O Mike é bem divertido. — comentou Jack, olhando discretamente as reações do primo — O que acha ?

O garoto respirou fundo ao olhar para sua amiga, e vendo um brilho especial em seu olhar, deu-se por vencido diante da mudança nos seus planos. Talvez fosse os planos de Papai e ele não sabia o propósito final de tudo aquilo, mas assentiu com a cabeça.

— Pode ser que seja divertido. — suspirou fraco e voltou sua atenção para sua mochila — É melhor montarmos logo as barracas, daqui a pouco o senhor Bingle vai nos chamar para a fogueira.
— Já começou as ordens do escoteiro Baker. — brincou Jack, ao se aproximar de — Vai se acostumando, que o é meio mandão quando o assunto é acampamento de férias.
— Eu não sou mandão, apenas tenho mais experiência que vocês. — explicou ele, ao se defender.

apenas riu de leve, bateu continência de forma engraçada e descontraída, fazendo todos rirem. Aquele momento estava se tornando um marco na vida da garota, abrindo-lhe possibilidades para que seu círculo social pudesse enfim aumentar. Uma experiência única que ela viveria ao lado do melhor amigo, sendo coberta pelas orações dos seus pais que intercederam de casa.

Ao final da tarde, o professor Bingle reuniu todos em volta da fogueira para iniciar suas histórias de aventuras. Por um instante, se afastou de todos para observar o pôr-do-sol, contemplando o horizonte sentindo o perfume da natureza à sua volta. Foi quando sentiu a presença de alguém ao seu lado.

— O que está achando?! — perguntou o garoto, quebrando o silêncio.

voltou seu olhar para o lado, vendo que era Mike.

— Para mim, tudo é novidade. — confessou ela, ainda retraída pela aproximação de alguém não tão próximo a ela.
— Você é mesmo muito tímida. — comentou ele, com uma risada boba, ao olhá-la.
— Por que acha isso?! — indagou curiosa.
— Porque foi a única novata que não quis se apresentar na fogueira. — observou ele, ao relembrar a dinâmica feita horas atrás.
— Não gosto de falar em público. — explicou ela, suas limitações.
— Está tudo bem, grandes gênios são assim. — disse ele, com um toque de elogio.
— Eu não sou um gênio. — ela riu de leve, tentando entender de onde ele havia imaginado aquilo sobre ela.
— Não é o que eu acho. — ele manteve sua atenção fixa nela, deixando um sorriso de canto no rosto — Principalmente sobre seus desenhos.
— Como sabe sobre meus desenhos? — indagou ela, mais surpresa ainda.
— Você ganhou o concurso de desenhos da livraria Sweet Dream, acha mesmo que eu não saberia o nome da garota que me venceu?! — ele arqueou a sobrancelha direita, mantendo o sorriso.
— O segundo lugar. — sussurrou ela, admirada por sua revelação.

Há cinco meses por um incentivo de , a garota havia participado de um concurso de desenhos, onde o prêmio seria a coleção de obras do seu autor favorito. Para , só havia um autor que tinha curiosidades para ler seus livros, C. S. lewis, o autor favorito de sua mãe Célia, que em uma de suas limpezas, encontrou o livro As Crônicas de Nárnia, no qual, por um período de tempo, lia todos os dias na hora do almoço para enfim contar a história para sua filha na chegada do trabalho. A garota nunca havia descoberto o final do livro, pois sua mãe a deixou precocemente.

— Qual foi o autor que você escolheu? Sempre tive curiosidade. — perguntou ele.
— C. S. Lewis. — respondeu ela, ao atravessá-lo com o olhar e ver que o amigo se aproximava — Você ganhou um livro também.
— Não é nada comparado a uma coleção completa. — explicou Mike, rindo de leve de seu prêmio de consolação — Mas, porque escolheu este autor?

Logo, o olhar de se entristeceu ao lembrar de Célia, então, sem maiores explicações, ela se afastou do menino e seguiu em direção ao lado que estava suas barracas.

. — disse o amigo, ao pará-la no meio do caminho — Está tudo bem?
— Sim, só quero ficar sozinha. — pediu a garota, continuando seu caminho.

não tinha entendido, porém, ao tirar satisfações acabou entendendo o que sua amiga estava sentindo. Sua preocupação foi curta, pois Kimberly havia tido a brilhante ideia de juntar todas as três garotas em sua barraca, para terem sua própria festa do pijama. Então, silêncio e solidão era o que menos teria nas noites que seguiria.

Quatro dias depois, logo ao sair do sol, o professor Bingle e a professora Linda propuseram a todos uma pequena caçada ao tesouro. Com os mapas em suas mãos, eles pegaram a sequência de pistas e coordenadas para iniciarem a atividade.

— Agora, quero que todos escolham sua dupla. — anunciou a professora Linda.

Um pequeno caos se instaurou, com a formação das duplas, grupos de amigos em dúvidas sobre com quem fariam.

— Podemos fazer juntos . — disse Loren, ao se aproximar dele.

— Não acho que sou a pessoa certa para fazer com você. — disse ele, de forma fria e seca com ela.

O olhar do garoto se voltou para a amiga, esperando uma reação dela.
v — Nós vamos fazer juntos, não é? — indagou Mike, num tom empolgado ao se aproximar de — Afinal, temos muitas coisas em comum.
— Hum… — ela se encolheu um pouco, não sabia como rejeitaria sua oferta.
— A não ser que… Prefira o sargento . — brincou ele, deixando o ambiente mais descontraído.
— Ficarei melhor com o . — assentiu , voltando seu olhar para o amigo.

Uma ponta de brilho surgiu no olhar dele.

— Eu não sou um sargento. — disse ele, em tom de repreensão.

Então, ao se aproximar da amiga, segurou em sua mão e a guiou para o ponto de partida. Deixando o grupo de amigos para trás.

— Acho melhor você nem pensar em tentar. — disse Jack, ao se aproximar do amigo — Aquele casal já está formado há tempos, e não há nada que possa separá-los.
— É o que eu vivo dizendo para Loren. — Kimberly não perdeu a oportunidade de jogar seu comentário — Mas ela nunca me ouve.
— Os dois estão namorando?! — indagou Mike, admirado.
— Esse é o problema. — reclamou Loren, com o olhar chateado — só tem olhos para ela, mas não é recíproco.
— É ciúmes ou inveja?! — incitou Kimberly.
— Se ambos tivessem namorando seria ciúmes, mas como não estão… — Jack soltou a reflexão no ar, e saiu rindo após pegar na mão de Kimberly para seguirem como uma dupla.

--

Na teoria, os campistas teriam cinco horas para finalizar suas buscas do primeiro dia, e se recolherem para utilizar os vestiários improvisados e irem para as barracas depois do jantar. Na prática, e passaram mais que este tempo rodando em círculos, enquanto desenvolviam conversas aleatórias em meio de suas buscar.

— Então… Sobre o que conversavam?! — indagou ele, de forma espontânea.
— Sobre o que? — indagou ela, não entendendo.
— Você e o Mike. — explicou ele.
— Ah… — riu de imediato, sem saber como parar.

No fundo ela sabia que em algum momento ele faria essa indagação.

— Por que quer saber? — perguntou ela.
— Curiosidade. — ele se encolheu ficando sem graça.

Mas gostando de como sua amiga reagiu sendo espontânea na risada.

— Curiosidade. — sussurrou ela, mantendo o olhar para frente.
— Se não quiser, não precisa falar. — disse ele.
— Se eu não contar, vai passar o ano inteiro imaginando a conversa com diversos assuntos. — contou ela, conhecendo bem o amigo — Eu te conheço, .
— Hum… — ele tentou disfarçar seu olhar.
, olha para mim. — pediu ela.
— O que?! — ele parou de andar e a olhou.

ficou em silêncio por alguns minutos o encarando com o olhar suave e tombando a cabeça, constatou o que presumia.

— Você está com ciúmes de mim?! — disse ela, impressionada.
— Ciúmes? Eu? — ele tossiu um pouco, tentando se recompor — Por que acha isso?
. — ela sorriu com graça e segurou na mão dele — Você é o meu melhor amigo… E um dia, será meu melhor amigo e meu marido, se o Papai assim quiser.

Um brilho surgiu nos olhos dele, ao ouvir aquelas palavras dela. Sentindo-se aquecido por dentro, ao admirar aquele sorriso meigo e tímido, que o encantou desde o início.

, você ouviu o que disse? — indagou ele, com medo de ter imaginado coisas.
— Sim. — assentiu ela.
— Me belisca?! Preciso saber se não é um sonho. — pediu ele.

riu de leve e no rompante, ela ergueu seu corpo e lhe deu um selinho no rosto, o surpreendendo. Logo que o rosto de se voltou para ela, com o olhar de ternura e um sorriso espontâneo, o garoto se inclinou para mais perto dela, deixando seus lábios se encontrarem de forma suave e doce. Um misto de choque e frescor havia tomado conta dos dois, deixando seus corações acelerado.

… — ela se encolheu um pouco.
— Desculpa. — sussurrou ele, também envergonhado — Eu não consegui evitar.
— Acho melhor voltarmos para o acampamento. — aconselhou ela, voltando o olhar para o céu — Já está escurecendo.
— Ah, verdade, temos que voltar. — olhou para o mapa em sua mão tentando entender onde estavam e para onde teriam que ir — Vamos por aqui.

Sua voz soou com confiança, enquanto apontava para a direção. Foram algumas voltas até que sentiu algo estranho.

. — ela o chamou.
— Sim?! — o garoto parou por um momento e a olhou.
— Acho que já passamos por aquela árvore umas quatro vezes. — comentou ela, com o olhar preocupado.
— Não, estamos no caminho certo. — assegurou ele.
… Você sabe que eu tenho boa memória fotográfica, tenho certeza que vi aquela árvore quatro vezes. — insistiu ela.
— Então… — ele olhou novamente para o mapa — Acho que estamos…

Sim, o casal de adolescentes estava perdido em meio à floresta.


— Não estamos nem uma semana aqui e já nos perdemos. — comentou , um pouco apreensiva.
— Calma… Vai dar tudo certo. — segurou em sua mão, com o olhar seguro que a confortou por dentro — O Papai vai nos guiar, só precisamos confiar na direção que Ele nos der.

assentiu. fez uma breve oração pedindo para que fossem direcionados para o lugar certo, então, voltou a olhar o mapa para entender o que tinha deixado passar.

Ele confiava que Papai não os deixaria desamparados.

Só me resta Te Adorar, Te Adorar
Eu só quero Te Adorar, Te Adorar
Eu nasci pra Te Adorar, Te Adorar
Eu nasci pra te Adorar, Te Adorar
E dizer que Te amo, Te amo, Te amo!
- Te Adorar / Fernandinho

Ensinamento: Confie em Deus.

13. Lídia

Tendo sido batizada, bem como os de sua casa,
ela nos convidou, dizendo:
"Se os senhores me consideram uma crente no Senhor,
venham ficar em minha casa". E nos convenceu.

- Atos 16:15

Voltando para o andar debaixo, o amigo a levou para o jardim, a fim de mostrar os canteiros de hortaliças e flores que Cristina cuidava com tanto amor e zelo. Logo a anfitriã os acompanhou contando a história de como conseguiu a muda de cada espécime de vegetação do seu jardim.

— Foi um prazer recebê-la, . — afirmou Cristina, ao abraçá-la novamente em sua despedida — Está intimada a voltar mais vezes.
— Sem problema. — assentiu ela.
— Talvez ela não precise nem ir embora. — disse , pensativo em seus planos improvisados.
— Como assim?! — disseram as duas como em coral, tentando entender o que se passava na mente calculista do rapaz.
me disse que seu contrato de aluguel estava para acabar, e a senhora está com um dos quartos femininos vagos. — explicou ele, com um tom sereno a lógica do óbvio — Este hostel fica mais próximo de onde mora, do que aquele cubículo onde mora.
— Interessante. — Cristina voltou seu olhar para a garota, esperando uma reação dela.
— Eu não sei, não posso deixar a Louise na mão, ela também precisa de um teto para dormir. — respondeu , ainda insegura.
— Nada é mesmo por acaso e tudo é uma direção de Deus. — continuou Cristina, ao analisar a situação — quarto que está vago é duplo, e sua amiga também poderá dormir nele.
— Então está decidido, vamos trazer suas coisas para cá. — disse num tom animado, fazendo-as rir de leve — E mais uma coisa, a mensalidade daqui é bem mais barato do que aquele lugar que não vale o preço que te cobram.

já não tinha mais forças para lutar contra as ideias e perseverança do amigo, apenas assentiu à sua nova realidade de agora morar no mesmo lugar que ele, sendo amparada por alguém tão acolhedora quanto Cristina. Assim, os amigos se retiraram do lugar com a missão de buscar as coisas da garota e contar a novidade a Louise.

A tarde estava refrescante e ainda faltavam horas para o final do expediente no Atelier Matteo, então colocou seu lado improviso em ação, e levou para contemplar uma exposição que estava acontecendo na galeria de arte de um amigo. O lugar nomeado de Mural das Artes, abrigava uma pequena sessão de fotos da fauna e flora brasileira, registrada pelo fotógrafo Joan Grimaldi, um francês que se encantou com a rica diversidade do país.

— É tão lindo… — comentou , após minutos parada, encarando a fotografia de um beija-flor, enquanto se alimentava no néctar de uma flor.
— A natureza? — indagou , tentando entender as palavras da amiga.
— Tudo, toda a criação… Papai fez tudo isso com tanta perfeição, e nós destruímos grande parte da sua criação. — continuou ela, sua linha de raciocínio — Nos preocupamos tanto com nós mesmos e nossas dores que não paramos para observar a beleza de se estar vivo.
— Verdade. — com um sorriso no rosto, segurou na mão da garota, trazendo-a para mais perto — Que tal apenas nos concentrar nisso? Em estar grato por estarmos vivos e contemplar a beleza do Senhor?! O que acha?!

Mesmo permanecendo em silêncio, ele percebeu o olhar da garota assentindo a sua sugestão. estava mesmo cansada de tantas dores, cansada das lágrimas de tristeza e de lutar para afastar todos que amava, com medo de sofrer mais uma vez. Conhecer dona Cristina foi mesmo uma estratégia de Deus, para que a jovem pudesse aprender com o testemunho de outra pessoa que sua vida ainda tinha muitas alegrias reservadas para ela. E que apenas precisava se desapegar da dor e deixá-Lo entrar mais uma vez em seu coração.

— Que tal um lanche antes de retornarmos ao apartamento? — sugeriu , passando a mão na barriga, como se estivesse sentindo fome.
— Você comeu tanto no hostel, realmente está com fome? — indagou ela, segurando o riso, incrédula das palavras do amigo.
— Eu sempre estou com fome, , esse sou eu. — afirmou ele, num tom brincalhão, puxando-a para saírem do local — E você me ama desse jeitinho que eu sou.
— Como você tem tanta certeza?! — indagou ela, rindo baixo das expressões bobas dele.
— Primeiro, seu olhos brilham quando fala comigo, segundo, Deus Papai me confirmou isso. — suas palavras soaram com leveza — Você me ama, assim como eu te amo.

apenas permaneceu em silêncio, sentindo seu coração se aquecer com o olhar do amigo para ela. Não precisava admitir, ela realmente o amava, e seus olhos brilhavam quando o olhava, da mesma forma em que brilhavam quando ela louvava a Deus. Era a forma mais visível que ela tinha de demonstrar seus sentimentos, não era apenas um, mas como um pacote completo, ela amava ambos: e Jesus Cristo!

As horas foram passando e após o lanche reforçado que pareceu mais um banquete, os amigos foram até o apartamento para finalmente juntar as coisas para a mudança. , com sua lista de contatos, pediu ajuda a uns conhecidos da ong, pois tinha bastante coisa guardada no alto do guarda-roupa e em caixas embaixo da cama, o que muito o surpreendeu. Assim que Louise chegou do trabalho, se espantou com a presença de desconhecidos no lugar, entretanto, bastou algumas palavras de explicando o que acontecia, para a aprendiz de estilista se animar com a ideia de morar mais próximo da faculdade.

— Voltamos dona Cristina! — elevou um pouco mais o tom de sua voz, ao notar o hostel silencioso.
— Ah… — Cristina que descia as escadas olhou com surpresa as caixas e bagagens das meninas sendo levadas para dentro pelo rapaz e seus companheiros
— Vocês demoraram tanto, que achei que não fariam isso hoje.
— Ah, é que fizemos uns desvios necessários pelo caminho. — piscou de leve para ela, e depois olhou para a amiga.
— Desvios? Sei! — Cristina cruzou os braços, segurando o riso — Que bom que eu não perdi a viagem organizando o quarto para vocês.
— Dona Cristina, obrigada por nos acolher. — disse Louise, ao se aproximar da escada e se apresentar — Eu sou a Louise, amiga da e colega de quarto.
me contou sobre você, seja bem vinda ao meu hostel. — disse a anfitriã, ao cumprimentá-la inicialmente, dando-lhe um abraço em seguida — Espero que ambas sintam-se em casa.
— Agradecemos. — disse , deixando transparecer um sorriso meigo em seu rosto.
— Bem, já preciso adiantar que o hostel tem regras assim como toda casa, e vai encontrar atrás da porta do quarto de vocês. — anunciou Cristina, deixando seu tom mais sério — O que precisarem, podem falar comigo.

Ambas assentiram e foram ajudadas por todos, a levarem suas coisas para o quarto. Não era tão grande quanto o apartamento que moravam por tempos, porém, mais confortável e aconchegante. Como ainda tinham mais uma semana do vencimento do contrato, deu a ideia para que elas deixassem o lugar organizado para a entrega da chave, assim não precisariam se preocupar nos próximos dias. Aquele era o início de mais um ciclo na vida das meninas.

— O que está fazendo aqui?! — a voz de soou na cozinha, despertando a atenção de .
. — ela respirou fundo e voltou o olhar para ele — Não consegui dormir, talvez por meu corpo não estar acostumado com um colchão tão macio e quentinho.

Ela brincou de leve, mas ele sabia que não era aquilo.

— Algum problema? — insistiu ele.
— Não, apenas estou desenhando um pouco, faço isso quando não consigo dormir. — explicou ela, com serenidade, para que ele não ficasse muito preocupado, voltando sua atenção para o desenho na folha branca — Preciso terminar meu portfólio e acho que aquelas fotos da galeria me deram uma ideia.
— Hum… Que bom que pude te ajudar de alguma forma. — ele sorriu de leve, ao puxar uma cadeira e se sentar ao lado dela.
— Vai mesmo ficar aqui?! — ela o olhou novamente — Me observando?! Não tem aula amanhã?
— Tenho, mas quero ficar aqui com você. — explicou ele, mantendo seu rosto sereno.

Ao pequeno e meio sorriso tímido de , não resistiu ao seu desejo de beijá-la, e inclinando-se com suavidade, tocou seus lábios aos dela, com ternura e carinho, fazendo-a estremecer um pouco. Ele manteve seus rostos bem próximos, após o beijo, sentindo a respiração da amiga.

— Devemos nos lembrar das regras. — sussurrou ela, fazendo-o voltar à sanidade.
— Eu sei, não vou me esquecer. — assentiu ele, afastando-se lentamente, mantendo o olhar para ela — Vou apenas de observar desenhando.

riu baixo e finalmente pode retornar sua atenção ao desenho, pegando o lápis e iniciando os traços de detalhe que faltavam na roupa que construía. Mesmo tendo talento para qualquer área que escolhesse de seu curso, a jovem estava começando a se interessar pelo campo de Produção de Moda. Uma vertente que estava disposta a focar a construção do seu portfolio, e com uma pequena ajuda de que conhecia pessoas do curso de Arquitetura, ela obteve algumas aulas extras de montagem de passarelas, dentre outros.

--

?! — Cristina, que seguia preparando o almoço na cozinha, viu-se surpresa pela presença da jovem em casa, aquela hora do dia — O que faz aqui?
— A semana de provas acabou e eu estou dispensada do meu trabalho, por ordens acadêmicas. — explicou ela, ao se aproximar da mesa e colocar seu material de desenho em cima — Agora, estou numa missão de finalizar este portfolio para entregar ao diretor da faculdade.
— Entendo, e como está indo a construção?! — indagou Cristina, curiosa para entender como era o processo do curso de moda.
— Achei que pudesse ser mais rápido, mas acho que eu mesmo estou dificultando as coisas para mim. — confessou , ao se lembrar das muitas ideias que teve, e não conseguiu se manter focada em nenhuma — Foi tão fácil fazer para os outros, mas sempre quando é para mim, eu dificulto tudo.
— Talvez, pela necessidade de não querer tudo tão rápido. — disse Cristina, ao desligar a trempe do fogão e puxar uma cadeira para se sentar de frente para ela — Sabe, infelizmente o ser humano possui uma ansiedade dentro de si, que o força a querer tudo imediato… Nos esquecemos que é Deus, que está no controle de tudo.

assentiu com a cabeça, permanecendo em silêncio com seu olhar voltado para a pasta de desenhos.

— Sabe, Eclesiastes 3:1 diz que há tempo para todo o propósito debaixo do céu. — continuou Cristina, com suas palavras de sabedoria — Apenas se esqueça que é um dever entregar isso, e se divirta com o processo, vejo nos seus olhos que gosta de desenhar e que isso é uma forma de se expressar, então se permita se divertir e deixe o resultado final nas mão de Deus.
— Como você sempre tem uma palavra de apoio? — perguntou , lembrando-se de suas duas mães e do quanto aprendeu com elas, e ainda aprende com Annia.
— Porque, é o Espírito Santo quem me concede tais palavras de sabedoria. — assegurou Cristina, ao se levantar novamente e retornar ao fogão — Eu te aconselho a fazer isso no jardim, está um dia lindo lá fora, refrescante e inspirador.

havia aprendido que bons conselhos devem ser ouvidos, e assim ela o fez. Pegou seus materiais e saiu para o jardim, assentando-se no degrau da escada para iniciar sua tarde de desenhos. O tempo estava mesmo refrescante e convidativo, naquele momento, ela decidiu se esvaziar de tudo e apenas se divertir fazendo algo que gostava com o dom que lhe fora dado.

Lá no fundo, ela queria apenas sentir Deus ao seu lado, lhe fazendo companhia naquele momento.

You call me out upon the waters
The great unknown where feet may fail
And there I find You in the mystery
In oceans deep, my faith will stand.
- Oceans (Where Feet May Fail) / Hillsong United


Ensinamento: Ser acolhedora.

14. Raabe

"Seja como vocês disseram", respondeu Raabe. 
Assim ela os despediu, e eles partiram. 
Depois ela amarrou o cordão vermelho na janela.
- Josué 2:21

Por um momento, fitou seu olhar no vaso de lírio azul, minutos de contemplação em uma flor tão delicada e complexa de cultivo por sua raridade. Aos poucos, de forma espontânea ela começou a desenhar a flor com traços leves e precisos, não deixando passar nenhum detalhe. Como de costume, em sussurro cantarolava o primeiro louvor do Hillsong United que lhe veio à cabeça, o que involuntariamente trouxe uma inusitada ideia para o conceito do seu portfolio. 

Um sorriso animado escapou em seu rosto.

— Com um sorriso desse, como não me apaixonar… — a voz de a despertou de seu momento de criação.
— Hum?! — voltou sua atenção para ele, logo sentindo constrangimento pelo olhar profundo do rapaz.

Era visível que assim como ela contemplava a beleza da natureza, a própria havia se tornado a breve contemplação dele.

— O que faz aqui? Deveria estar em aula. — comentou ela, surpresa por sua presença repentina.
— Você não é a única aluna nota A, sabia?! — brincou ele, ao dar poucos passos até ela, e se sentar ao seu lado — O que tanto faz aí, que lhe arrancou um sorriso?
— Hum… — ela voltou o olhar para a folha com o desenho — Acho que finalmente tenho uma ideia concreta para meu portfolio, que vai me fazer descartar todos os desenhos que fiz até agora.
— Sério? — a expressão de impressionado em seu rosto, fez ela rir de leve — Você não vai jogar fora, né? Seus desenhos são incríveis.
— Claro que não, vou guardar caso precise no futuro. — ela retornou ao que fazia, antes dele lhe despertar, movendo sua mão com precisão para fazer os efeitos de luz e sombra no desenho.
— E posso saber qual a ideia? Ou é segredo? — indagou ele, curioso.
— Eu me perdi na contemplação da natureza e quando me dei conta, já estava desenhando o lírio azul da senhora Cristina… — começou ela, a contar seu processo criativo — Então fui pensando nas características das flores, ela cada uma tem sua beleza singular e complexidade, ao mesmo tempo que são delicadas, também são fortes e resistentes… E mesmo que seu perfume nos atrai, devemos ter cuidado, pois algumas possuem espinhos como proteção…
— Interessante, nunca parei para analisar sobre as flores, mas faz sentido o que você falou. — comentou ele, pensativo no assunto — É como as mulheres da Bíblia… Como você.
— Hum?! — ela parou de desenhar e franziu a testa, intrigada com seu comentário, principalmente por envolvê-la em sua teoria — Por que diz isso?
— Por é real, cada mulher tem sua beleza singular, e vamos combinar que mulheres são complexas. — continuou ele, explicando mais detalhadamente — Sempre dizem que estão bem, mas no fundo estão tristes e chateadas… Vocês são delicadas, mas são fortes o bastante para todo mês aguentar uma dor insuportável… 

não se conteve na risada baixa, ao se lembrar das vezes que se contorceu de dor com as cólicas menstruais, deixando o amigo louco de preocupação.

— E especialmente você… Seu olhar inocente e cativante me atrai como um perfume, mas… — ele pensou bem em suas palavras, no que diria a seguir — Sua dor foi como um espinho que me afastou para longe.

As palavras de não eram simplesmente uma analogia a respeito de sua reflexão sobre as flores, havia uma ponta que se encaixava perfeitamente a realidade deles.

— E há muitas mulheres na Bíblia que podem ser comparadas às flores. — continuou ele, ao perceber que a amiga continuou atenta a sua explicação — Por exemplo, a flor de maracujá, é considerada uma erva medicinal que pode ser usada para aliviar estresse, ansiedade, depressão e insônia, ela tem ação direta como calmante natural e sedativo… Adivinha quem é a mulher que semelhante a essa flor, foi como um apaziguador para sua casa?!

pensou por minutos, puxando de sua memória todas as histórias que tinha lido na Bíblia que envolviam grandes mulheres que mudaram sua realidade. Entretanto, não conseguia se lembrar de nenhuma em especial para aquela característica apontada por ele.

— Não faço a mínima ideia. — disse ela, envergonhada por não saber a resposta.
— Abigail. — direto e preciso, ele respondeu fazendo-a recordar a narrativa — Quando seu marido Nabal se negou a ajudar Davi, sua família corria risco pela ira que se acendeu no coração de Davi fazendo-o declarar guerra contra sua casa, e como uma sábia auxiliadora, Abigail interviu de ambos os lados trazendo calmaria para sua casa e apaziguando o coração de Davi.

A jovem nunca havia visto as coisas daquele ângulo, mas pensar na representação das mulheres da Bíblia através das flores, havia lhe deixado ainda mais curiosa a respeito do assunto. 

— Desde quando conhece tanto sobre flores assim? — o olhar impressionado de o fez segurar o riso.
— Ainda há muitas coisas sobre mim que não sabe. — brincou ele, externando seu riso.
?! — seu tom foi de repreensão.
— Eu ajudei a senhora Cristina a montar esse jardim. — respondeu ele, com serenidade, ao se lembrar como foi difícil a adaptação de cada planta ali — O lírio azul é o meu favorito.
— Por que? — indagou ela.
— Ele representa a Maria, a única dentre muitas que Deus viu o coração e se agradou, permitindo que trouxesse Jesus a este mundo. — contou ele, parecendo um especialista no assunto que inicialmente foi introduzido por ela — O lírio na Bíblia representa a pureza, beleza, inocência, castidade e o amor de Deus.
— Você fala como um especialista no assunto. — comentou ela, admirada.
— Por que há muito tempo, Deus me deu uma flor para cuidar. — revelou ele, se referindo a ela — Ela tem muitos espinhos, mas vale a pena, pois seu perfume é o melhor de todos que já encontrei.

nem mesmo teve tempo para assimilar o impacto de suas palavras, seus olhos marejados deixaram algumas lágrimas rolarem em seu rosto. Internamente, apenas se sentia acolhida e cuidada, como quando era criança e adormecia nos braços de sua mãe Célia. não se conteve ao secar aquelas lágrimas com sua mão direita, dando um sorriso reconfortante para ela.

— Então eu sou uma rosa? — constatou ela.
— Não. — respondeu ele, serenamente.
— Não?! — ela se viu confusa, já que era a única flor que lembrava ter espinhos.
— Não. — confirmou ele, sua resposta — Você é uma orquídea.
— Você disse que eu tenho espinhos. — argumentou ela, tentando repensar.
— Sim, e não mudo o que eu disse. — continuou ele, certo de sua escolha — Existe uma orquídea bem rara que possui pseudobulbos com espinhos no inverno, o que significa que os espinhos não são eternos… Ela necessita de luz solar direta para florescer de maneira ideal, e Jesus é nossa estrela da manhã.
— Entendi. — sorriu com sutileza e voltou sua atenção ao desenho — Acho que minha ideia pode sofrer algumas mudanças…
— Tem certeza, vai mudar de novo? — indagou ele, confuso.
— Não vou mudar, mas… Agregar informação. — explicou mantendo a sutileza no olhar — Meu conceito será às mulheres da Bíblia representadas pelas flores.
— Interessante. — internamente se sentiu orgulhoso por ajudá-la em algo tão importante em sua vida.

Ele sabia que todas as palavras que usou não eram dele, mas do Espírito Santo, que lhe usou como instrumento para guiá-la na melhor direção para sua vida profissional. 
— E como pretende aplicar este conceito? — perguntou ele, voltando a atenção para o desenho que a jovem desenvolvia.
— Eu andei estudando um pouco sobre produção de moda, e depois da conversa com aquele seu amigo de arquitetura, percebi que este é o caminho que eu quero trilhar profissionalmente. — contou ela — Meu portfolio vai detalhar toda a construção de um evento de moda, desde a concepção das roupas, até o desfile final na passarela.
— Parece ser muita coisa, pelo que sei, produtores de moda só estão responsáveis pela organização do evento, não pelas roupas em si. — não entendeu.
— Eu sei, será mais trabalhoso, mas prefiro assim. — respondeu ela, seus motivos — Primeiro vou desenhar uma coleção baseada neste conceito, então planejar os detalhes da produção de um desfile de lançamento de coleção.
— Hum… E quanto tempo tem para fazer tudo isso? — indagou ele, fazendo-a se lembrar do cronograma apertado.
— Bem pouco, eu perdi muito tempo andando em círculos sem saber o que fazer… Se eu tiver uma semana é muito. — relatou ela, ao suspirar fraco — Mas sabendo o que vou fazer, será mais fácil para desenhar.
— E pretende digitalizar seus desenhos? Precisa entregar o pdf também, não é? — a cada minuto, o rapaz se atenta à lista de exigências do senhor Brown.
— Sim, e vou precisar da sua ajuda para isso. — ela ainda estava pensativa sobre essa parte, se iria ou não apenas digitalizar as folhas, ou se daria o trabalho de fazer o desenho digital delas no computador.
— Quero que me empreste seu notebook, caso eu resolva desenhar no photoshop. — explicou ela, avaliando o tempo que tinha.
— Nem precisa pedir, ainda não somos uma só carne, mas tudo que é meu, é seu. — respondeu ele, com segurança.
. — ela sussurrou meio tímida.

O que arrancou risos do rapaz.
— Estou com fome. — comentou ele, se espreguiçando — Vai demorar muito nesse desenho?
— Não. — ela riu da sua cara faminta. — Estou terminando.
Ao pegar o lápis de cor azul, se concentrou em finalizar os detalhes em azul do lírio que desenhava. Após juntar seus materiais, os deixou no canto em cima de uma mesinha de madeira, para seu retorno à missão portfolio.
— Olha só, finalmente a trouxe para almoçar? — comentou Cristina, assim que notou os passos dele.
— Eu ainda não entendo como ela consegue trabalhar de barriga vazia. — comentou ele, já arrastando a cadeira e fazendo um gesto de cavalheirismo para que a jovem se sentasse — Eu não consigo nem pensar direito quando estou com fome.
— Você sempre está com fome, , nem sei com consegue ser magro assim. — riu da careta do amigo, enquanto se sentava — Pelo tanto que come.
— Meu metabolismo é acelerado, isso é genética. — explicou ele, puxando outra cadeira para ele, e se sentando ao lado dela.

Cristina riu de leve, grata por poder proporcionar aos dois os momentos que teriam juntos em seu hostel. Após ouvir a histórias de suas vidas e de como passaram por tantas lutas e tristeza para finalmente se reencontrarem, ela havia se afeiçoado ao casal e se levantado como uma intercessora para eles. 

— Dona Cristina. — voltou sua atenção para a mulher, curiosa com seu currículo acadêmico, já que foi assim que conheceu seu segundo marido.
— Sim?! — a mulher a olhou.
— Quando me contou sua história, disse que se dedicou muito tempo nos estudos, a senhora chegou a se graduar?
— Claro que sim. — ela riu de leve — Este hostel não é minha renda primária, ele existe para servir as pessoas e honrar o nome de Cristo.
— E se formou em que? — perguntou — Sempre quis te perguntar sobre, mas sempre que conversamos falamos mais de mim.

Ele riu de forma descontraída.

— Eu me formei em publicidade e propaganda. — contou ela, recordando o dia de sua formatura, em que recebeu o pedido de casamento — E por incrível que pareça, exerço minha profissão.
— Que horas? De meia-noite às seis? — a pergunta de foi num tom embasbacado.
— Não. — ela soltou uma gargalhada boba — Esses jovens de hoje em dia… Eu trabalho home-office para uma agência de publicidade da cidade.

Ela observou a reação do rapaz e brincou.

— Não é tudo que sabe sobre mim. — riu novamente.
— A senhora é realmente uma caixa de surpresas. — comentou ele, em choque.
— Olha só quem fala. — sussurrou .

se ofereceu para lavar a louça suja, e não havendo recusa por parte de Cristina, o rapaz se concentrou na atividade, então a amiga retornou ao jardim. Em seu sketchbook que usava como bloco de notas também, começou as inúmeras anotações ao estilo brainstorm de todo criativo. Graças às reflexões com o amigo, ela já tinha 3 flores que usaria como base para suas pesquisas, desenhar para ela não seria o problema e poderia fazê-lo tranquilamente em apenas três dias. Então, suas forças e tempo deveriam ser focados nas pesquisas e no planejamento de tudo que envolvia o lançamento de uma coleção de moda. 

Contudo, sabia que havia um detalhe em seu conceito, que a conduzia para o livro mais importante de sua vida: a Bíblia Sagrada. Por muita vezes a jovem se fechou para lê-lo e agora, ele faria parte de seu portfolio. Ao final da tarde, retornou para seu quarto com a intenção de um banho relaxante, com suas costas já tensas de tanto escrever. Com a água na temperatura certa, se permitiu deliciar a sensação de frescor e descanso, que o antigo apartamento não lhe proporcionava todo dia. 

— Bem, o dia ainda não terminou… — sussurrou ela, ao caminhar até a cama e se sentar próximo ao travesseiro, e retirando o livro que era de sua mãe, soltou um suspiro fraco — Você me trás muitas lembranças… A maioria são boas, mas… Por que apenas consigo me concentrar na mais dolorosa?

Ela havia evitado tanto tempo falar do assunto, como se fosse a solução para não pensar nele, entretanto, sua dor persistia em lhe visitar todos os dias, para arrancar-lhe as lágrimas e matar seu sorriso. não sabia se queria mesmo falar do assunto, mas seus olhos fixos no livro em sua mão, trouxe a imagem singela de sua mãe Célia sorrindo.

— Sei que em tudo temos um propósito, minha mãe sempre mencionava isso, mas não consigo entender o propósito dela me deixar… — as palavras saíam como um sussurro — Ela só queria me proteger…

Aos poucos as lágrimas iniciaram seu trabalho, percorrendo o rosto da jovem até cair na capa do livro. de olhos fechados, revivendo em sua mente a cena da última vez que viu sua mãe com vida, sentia um misto de tristeza e saudade. 

— Jesus fez o mesmo por nós. — a voz doce e acolhedora de surgiu, o rapaz, adentrou o quarto fechando a porta e seguiu até ela.
. — com a voz falha, ela abriu os olhos — Eu não consigo.
— Não precisa fazer isso sozinha, e não estou falando de mim. — com um sorriso, ele se ajoelhou em frente a ela, enquanto segurava em sua mão com o livro.
— Não quero me sentir assim, como se estivesse chateada com o Papai, por tê-la levado. — mesmo sentindo sua garganta arder, ela forçava a voz sair — Eu também o amo… Mas…
— Ele te entende, apenas deixe-o te curar. — o tom compreensivo de , trouxe conforto a ela, aquecendo seu coração.

No impulso de seu corpo, se lançou ao chão, ajoelhando-se também, sendo rapidamente envolvida por um abraço caloroso do amigo. Havia muitas palavras reprimidas e sentimentos ruins que prendia em sua dor, e a cada palavra, seu coração abria ainda mais para ser finalmente curado. Sabemos que naturalmente uma ferida não cura em segundos e leva um tempo para a cicatrização, e assim seria com a jovem. 

Quanto mais ela se permitisse ser preenchida pelo Amor, menos a dor teria forças com ela, e então poderia ter paz em seu interior.

Espírito Santo, ore por mim
Leve pra Deus tudo aquilo que eu preciso
Espírito Santo, use as palavras
Que eu necessito usar, mas não consigo.
- Espírito Santo / Fernanda Brum

Ensinamento: Fé e cura interior - Quando somos curados, nosso passado de dor não nos machuca mais.


15. Miriã

"E Miriã lhes respondia: Cantai ao Senhor,
porque gloriosamente triunfou;
e lançou no mar o cavalo com o seu cavaleiro.”

- Êxodo 15:21

4 anos atrás…



Faltava uma semana para o aniversário de .

não sabia o que presentear o amigo, afinal, todos os anos seu presente era sempre o mesmo, um caderno repleto de desenhos feito por ela ao longo do ano. Pois sempre que perguntava ao amigo o que queria ganhar de presente, a resposta era a mesma, seu caderno de desenhos daquele ano. Pensativa em seu quarto, manteve-se encarando o caderno atual, tinha finalizado mais um desenho com sucesso.

— O que tanto encara esse caderno mocinha? — o tom curioso da mãe, atraiu sua atenção.

A mulher tentava esconder sua curiosidade com um sorriso singelo.

— É que estou pensando no presente do . — respondeu ela, tombando a cabeça, parecendo estar com dúvidas — Todo ano eu sempre dou a mesma coisa.
— Entendo… Sempre foi difícil presentear as pessoas que conhecemos, e quando gostamos muito delas, parece que nada é bom o bastante. — comentou a mãe, entendendo seu dilema.
é uma pessoa simples… Sei que ele gosta de comer… — iniciou ela, sua análise do amigo — Principalmente chocolate, gosta de ver animes e coleciona mangá, gosta de carros de corrida e é muito bom em esportes, apesar dos pensamentos sedentários… Não sei o que fazer.
— Que tal pedir ajuda pra pessoa que mais conhece ele? — incentivou Annia, o óbvio.
— Quem? — perguntou a menina confusa.
— Deus. — com serenidade no olhar, ela deu alguns passos até a filha — Ele é o único que sonda nosso coração e conhece nossos desejos mais profundos.
— Tem sido complicado falar com o Papai. — a menina abaixou seu olhar, que ficou visivelmente entristecido — Sempre que falo com ele, lembro da minha mãe Célia e…

Annia manteve o olhar compreensivo e a abraçou.

— Que tal falarmos juntas com Ele? — sugeriu.

assentiu com a cabeça e fechou os olhos. Foi uma curta e eficaz oração, que acabou dando uma ideia para a menina, que com a ajuda dos pais, poderia colocar em prática. Seu amigo tinha uma fascinação por música e sempre gostava quando a menina cantava, então, pensou que pudesse ser divertido para ele, passar o dia em um karaokê com ela.

Assim, mãe e filha saíram do quarto. Annia não a deixaria passar nem mais um minuto longe do momento de comunhão da família. A atividade para aquela noite de sábado era pizza caseira, e a pequena teria a experiência de colocar a mão na massa juntamente com os pais. Dimitri, que se encontrava na cozinha, estava atento lendo a receita que encontrou na internet, as rugas na esta franzida dizia que eles estava mais confuso do que cego em tiroteio.

— O que tanto lê, aí, querido? — indagou Annia, ao se aproximar com a filha.
— Estava procurando a receita da massa. — respondeu ele, mantendo a atenção onde estava — Mas acho que não consegui uma mais fácil.
— E desde quando você lê manual? — brincou ela, com o lado teimoso do marido — Deixe que eu resolva essa parte.

segurou o riso, ao observá-la se aproximando dele. Em segundos, Annia abriu uma das gavetas do armário ao lado e retirou seu infalível caderno de receitas, abrindo na página certa.

— Nem sempre a internet vai te dar a resposta correta. — disse a mulher, em seu ensinamento, ao piscar de leve para a filha — Então, querido, vamos aos ingredientes.
— Assim eu me apaixono ainda mais, querida. — Dimitri sorrio com gratidão para ela, e lhe roubou um selinho rápido.

Sempre sendo respeitoso em seus momentos de demonstração de intimidade, na presença da filha. por sua vez sempre os achava um casal fofo, e o carinho do pai por sua mãe, a fazia pensar na forma doce que a tratava. Mesmo em seus dias de reclusão e tristeza.

— Hum… Suas palavras não vão te ajudar a se abster do trabalho, mão na massa senhor Miller. — reforçou a esposa, conhecendo-o bem.
— Apenas farei isso se… — ele se afastou dela e caminhou até a menina — Essa mocinha também participar.

O pai abraçou a filha por trás fazendo algumas cócegas, arrancando risos e gargalhadas delas, como também da esposa. Por mais que a vida do casal fosse corrida durante a semana, não deixavam de se esforçar ao máximo para estar presentes na vida da filha, assim como desfrutar das horas de refeição com ela, como o café da manhã e o jantar. Contudo, o momento que estipularam como o da comunhão, era o sábado à noite, em que se reuniam na cozinha para inventar receitas e construir memórias em família.

— Agora devemos amassar bem. — disse Annia, para a filha, que lhe ajudava na mistura.

assentiu com o olhar e se manteve concentrada na atividade. De forma espontânea, ela começou a cantarolar um louvor que sua mãe Célia sempre cantava quando cozinhava para filha. Foram preciosos minutos em que o casal parou para contemplar a sutileza da filha e o brilho nos olhos dela, sentiam que não eram apenas palavras de uma canção bonita, mas um sentimento que vinha do coração.

— O que foi?! — disse , ao parar e perceber que os pais a observavam.
— Nada querida. — disse Annia, com um sorriso no rosto — Sua voz é linda, me emocionou.
— Hum… — ela se encolheu meio tímida.

Dimitri deu uma tossida disfarçada, enquanto se recompunha.

— Acho que está faltando um pouco de farinha. — em um piscar de olhos, ele pegou um pouco de farinha no pacote e jogou na filha.

No susto virou o rosto, sendo atingida no cabelo. Annia segurou o riso e fez um sinal para a filha revidar, aquilo era o sinal de que a pizza iria demorar mais um pouco para ficar pronta. Afinal, eles não iriam desperdiçar a oportunidade de uma singela brincadeira que se juntaria na coleção de memórias da família.

— É uma interessante ideia. — comentou Dimitri, após servir um pedaço da pizza de quatro queijos para ela, demonstrando tê-la ouvido com atenção, sobre o presente do amigo — Eu não sei se temos um lugar assim na cidade, mas acho que posso dar uma olhada.
— Não precisa necessariamente ser em um karaokê, podemos pedir emprestado microfones ao pastor James e improvisar um pouco. — Annia deu a ideia, pois sabia que um ambiente familiar seria melhor do que território desconhecido.
— Então, podemos fazer aqui em casa? — perguntou , ao olhá-los.
— Claro querida. — Dimitri piscou de leve para ela, feliz pela iniciativa da filha.
— Isso me deixou empolgada, podemos convidar seus colegas de turma, é sempre mais divertido quando tem mais gente. — comentou Annia, já pensando no que faria para o lanche da turma.

Afinal, estava sempre com fome, e amava sua comida.

— Conhecendo o , com certeza ele vai querer tornar isso numa competição. — se mostrou parcialmente preocupada.
— Não importa quem cantar, nós sabemos quem ganhará no final. — o olhar de pai orgulhoso de Dimitri, afirmou estar mencionando a filha.

apenas sorriu de forma tímida, sabendo que o amigo acharia o mesmo.

Segunda pela manhã, encontrou o amigo na porta de casa e juntos foram para a escola. Ela ainda se admirava com o esforço dele em acordar cedo para não atrasá-los, agora que seus pais haviam se divorciado definitivamente e sua guarda estando com a mãe, lhe ocasionou mudanças drásticas na rotina diária. O lugar onde cresceu havia sido vendido para a partilha de bens, e o pai se mudou para os Estados Unidos. De uma espaçosa casa, para um apartamento de dois quartos no centro da cidade, próximo ao emprego de Sophie.

A caminhada até a casa da amiga havia se tornado seu desafio diário.

— Quantas vezes eu tenho que te dizer que não precisa vir, vamos para escola de ônibus, você só precisa guardar meu lugar como sempre. — disse , ao notar que ele estava ofegante por ter corrido.
— A última parada do ônibus antes de chegar na escola é na minha casa. — argumentou ele, sobre seu novo endereço — O senhor Flint me disse que não há necessidade de me buscar na esquina de casa, eu moro a dois quarteirões da escola, agora.
— Verdade, eu ainda não me acostumei com sua mudança de casa. — ela ficou sem graça, por ter esquecido do pequeno grande detalhe.
— Não se preocupe, eu precisava mesmo de exercício físico, um pouco de caminhada não faz mal a ninguém. — disse ele, abrindo um largo sorriso para deixá-la confortável.
— Se você diz. — ela assentiu, sorrindo também.

Assim que o ônibus chegou, ambos entraram e sentaram na fileira de sempre. no assento do canto, olhou para janela, observando as pessoas na rua.

— Eu prometi que não ficaria ansioso com meu aniversário desse ano, mas você me deixou curioso quando me disse que queria me dar um presente diferente. — comentou , deixando seu corpo mais relaxado no banco.
— Hum… — ela não disse nada.
— Você já pensou em algo? — perguntou ele.
— Sim, mas não posso te contar, é surpresa. — revelou ela, com uma risada discreta — Terá que esperar até sexta à noite.
, eu vou fazer quinze anos apenas, assim você brinca com meu coração, e se eu for cardíaco? — reclamou ele, fazendo-a rir mais ainda.
— Não é você que gosta de fazer surpresas? — ela o olhou desacreditada.
— Bem… — contra fatos não há argumentos.
— Então, espere até sexta. — reforçou ela.

Não tinha como retrucar.

Entretanto, ao longo da semana o garoto não se reprimiu nos muitos pedidos por dicas por parte dela. Assim, na quinta ao final da tarde, convenceu a amiga a ir na casa de seu primo, pois o pai havia deixado seu presente na garagem do irmão. Quando chegaram, os olhos do garoto brilharam diante do grande embrulho.

— O que seria isso? — perguntou ela, com seu habitual tom baixo.
— Não acredito que ele me deu mesmo. — não conseguia controlar seus pensamentos, e boquiaberto se aproximou do embrulho.
? — a garota sem entender nada, apenas o observou.
— É a moto do meu pai… De quando ele era mais novo. — respondeu ele, desembrulhando e revelando o objeto.
— Seu pai te deu uma moto? — ela se viu confusa — , você não pode pilotar isso, ainda falta um ano para poder tirar sua carteira de habilitação.
— Eu sei… Mas estou chocado. — ele voltou seu olhar para ela.

Só havia uma resposta para os atos do pai, Thomas Baker havia feito aquilo apenas para confrontar a ex-esposa, após perder a guarda do filho, e sabendo a opinião da mãe a respeito de motos.

— Promete que não vai tentar montar nisso agora? — pediu ela, tendo um mal pressentimento repentino.
— Não se preocupe, eu não vou fazer isso. — ele piscou de leve e sorriu para ela.
. — o olhar de reforçou sua preocupação.

Ela sabia que o amigo era aventureiro o suficiente para ir contra as regras.

Na caminhada de volta para casa, continuou com seu monólogo sobre a moto e de como agora desejava ainda mais fazer a idade permitida para dirigir. Sua paixão pela F1 apenas perdia para os campeonatos de motocross que acompanhava sob a influência do primo mais velho. Há três quarteirões da casa de , em um susto de distração do garoto que iniciou uma leve brincadeira com a amiga, após inesperadamente adivinhar o presente que lhe preparou. A menina parou no meio da rua o olhando impressionada pela perspicácia do amigo.

Um piscar de olhos, um alto barulho de ronco de motor e um coração aflito pela situação. Era justamente uma moto que vinha pela rua em alta velocidade, na direção da menina.

--

! — a voz desesperada de Annia soou pelos corredores do hospital, até que avistou a filha sendo amparada por uma das enfermeiras.
— Mamãe! — se levantou da cadeira e correu até ela.

Sendo abraçada de imediato.

— Você está bem querida?! — indagou o pai, aparecendo logo atrás.
— Sim… Mas o se machucou. — respondeu ela, com a voz falha — Por minha causa.
— Não diga isso, querida, acidentes acontecem. — assegurou a mãe, tentando tranquilizá-la — Vamos esperar os médicos trazerem boas notícias.
— E enquanto isso, que tal pedirmos ao Papai para cuidar do ?! — sugeriu Dimitri, com ternura no olhar.

assentiu, fechando seus olhos. Mesmo não conseguindo dizer nada sobre o assunto, seu coração em silêncio orava por ela. Logo a mãe de foi avistada mais à frente, em lágrimas sendo amparada por uma amiga do trabalho, sua preocupação pelo presente do ex-marido, tinha um fundamento. Mas não esperava que o filho se machucasse por causa de terceiros, mesmo sendo pelo mesmo motivo: uma moto. Dias se passaram e felizmente, o estado do garoto estabilizou o permitindo acordar, deixando todos aliviados.

Com a permissão dos pais e de Sophie, finalmente pode visitá-lo no final da tarde, após a aula.

— Oli. — ela sussurrou seu apelido ao entrar no quarto — Está acordado?
— Sim. — assentiu ele, mantendo os olhos fechados.
— Eu te acordei? — indagou ela, se aproximando da cama.
— Não. — respondeu prontamente — Só estou descansando minhas vistas.
— Hum… — ela ficou em silêncio por um instante — Me desc…
— Não foi sua culpa. — ele a cortou, antes que pudesse terminar a frase, e abrindo os olhos — Se está se culpando por isso, pare agora mesmo.
— Mas você se machucou. — questionou ela, seus olhos começaram a lacrimejar.
— E estou bem, Papai me deu um grande livramento. — ele abriu um sorriso reconfortante — Você está bem também, vamos focar nas coisas boas.

Para o garoto, era a única coisa que importava. E em seu coração ele sabia que até mesmo naquele acidente, havia um propósito, se não fosse em sua vida e na da amiga, certamente seria algum ensinamento para o homem que causou aquela turbulência. Romanos 8:28 jamais sairia do seu coração: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”

— Mas … — ela tentou insistir.
— Você me deve um presente. — novamente ele a interrompeu.

parou em choque. Vê-lo trocar de assunto tão rapidamente para acalmar seu aflito coração.

— Sim, mas só posso te dar quando sair daqui. — afirmou ela.
— Eu não quero mais a festa do karaokê. — disse ele, com naturalidade.
— Não quer? — por aquilo ela não esperava.
— Não. — confirmou seu desejo — Quero outra coisa, e já sei o que é.
— E o que seria? — perguntou ela, curiosa.
— Que nunca deixe de cantar para o Papai, por mais que se sinta triste no futuro. — disse ele, com clareza nas palavras.
— Mas… Esse presente não é exatamente para você. — sussurrou ela, pensativa no pedido.
— O melhor presente que eu poderia ter, eu já tenho, que é a sua amizade. — explicou ele, seus motivos — E a melhor forma de agradecer a Deus, é me esforçando para arrancar sorriso em seu rosto.
— E o que eu tenho a ver com isso? — ela coçou a cabeça mais confusa ainda.
— Sei que Papai gosta de ouví-la cantar para Ele. — as palavras do garoto a deixou impressionada — Por isso, esse é o meu pedido de aniversário esse ano.

assentiu com um sorriso.

Não apenas por poder realizar um pedido do amigo.

Era um pacote completo.

Formaste, del polvo, mi vida
Mi alma, por ti, fue elegida
Vengo con manos vacías
Mas yo quiero ser tu vasija.
- El Alfarero / Evan Craft feat. Marcela Gandara


Ensinamento: Cante uma canção de louvores para Deus.

16. Marta

"E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta,
Marta, estás ansiosa e preocupada com muitas coisas,
mas uma só é necessária;

- Lucas 10:41

Atualmente…


passou um longo tempo deitada ao chão com sua cabeça apoiada no colo de , tendo seus cabelos acariciados por ele. O rosto sutilmente marcado pelos traços das lágrimas secas, e seu coração parcialmente sereno e aconchegado. Após chorar por mais de trinta minutos consecutivos, finalmente sentiu um breve vislumbre da paz que necessitava, uma sensação de conforto e acolhimento incomum, que nunca havia sentido antes, como se a pegassem no colo e a protegessem de todos os males do mundo.

Era Papai, ministrando seu infinito Amor, naquele angustiado coração.

— Está melhor agora? — o sussurrar de despertou-a de seu silêncio prolongado.

Após a luta interna contra os muitos pensamentos ruins, sendo combatidos pelas palavras de ânimo e motivação do amigo, com versículos pontuais que fundamentaram seus argumentos. Um aceno positivo vindo dela com o movimento da cabeça, o fez sorrir de leve.

— Quer se levantar? — indagou.
— Sim. — ela ergueu o corpo, ficando sentada a primeiro momento.
— Tudo bem. — , por sua vez, se levantou na sua frente e esticou a mão para lhe ajudar.

Com um sorriso de gratidão discreto no canto do rosto, segurou em sua mão e se levantou em seguida. Nem mesmo teve tempo de uma reação, pois os braços de a envolveu por completo em um abraço apertado que transbordava a ternura que ele sentia por ela. Dois minutos reprimindo as emoções ainda afloradas, e os olhos marejados apenas permitiram mais lágrimas rolarem por seu rosto.

… — sussurrou, forçando a voz sair — Está me fazendo chorar novamente.
— Não tem problema chorar, pois agora não está mais sozinha. — continuou ele, não movendo nenhum músculo do corpo — E sim, acompanhada das pessoas que mais te amam no mundo.

E não falava apenas dele e dos pais dela a quilômetros de distância, mas de alguém que habitava em seu coração há muito tempo.

— Obrigado… — sussurrou novamente, sentindo-se aquecida internamente.
— Pacote completo? — indagou ele.
— Pacote completo. — assentiu.

Sutilmente, ele se afastou um pouco e mantendo o olhar carinhoso, ergueu a mão direita limpando de leve suas lágrimas. Um pulsar forte e se sentia grato por estar vivendo aquele momento com sua amiga. Grato por todas as madrugadas em claro orando pela vida dela.

Grato por Papai tê-lo escolhido para cuidar daquela flor de seu precioso jardim.

— Que tal uma volta pelo quarteirão? — propôs ele, percebendo que precisavam de uma brisa inspiradora — O céu também é contemplativo à noite.
, eu preciso voltar aos desenhos, só tenho o final dessa semana e a próxima para terminá-los. — o lembrou de seu compromisso acadêmico — Não se esqueça que estamos chegando ao final do ano letivo.
— Uma semana e três dias é tempo o suficiente para isso, você não tem mais aulas esse mês e estamos em um momento de comunhão com Papai… — argumentou com serenidade, ao segurar em sua mão, com um olhar descontraído e brincando — Marta, Marta, não andeis ansiosa e continuemos com a boa parte.

Ela voltou uma risada gostosa, entendendo a referência.

— Tudo bem. — assentiu com um sorriso singelo — Mas apenas vinte minutos, pois ainda preciso de um banho e dormirei mais cedo hoje, porque eu não tenho aula amanhã, mas vosso senhorio tem.
— Vosso senhorio?! — ele a olhou impressionado pelo dialeto e entrando na brincadeira — Milady, queira acompanhar-me por gentileza.

Ela riu pelo caminho, enquanto permanecia sendo guiada por ele até a rua. Os vinte minutos renderam em mais de duas horas. Não foi apenas uma volta pelo quarteirão, mas uma despojada caminhada até uma cafeteria brasileira, chamada Tropicália, que ele havia descoberto recentemente. E sabendo das origens da amiga, decidiu lhe fazer uma surpresa.

, não acha que já foram emoções demais para um dia só? — indagou ela, diante da fachada do lugar, sentindo a nostalgia crescer internamente.
— Achei que fosse legal vir aqui hoje. — comentou ele, segurando firme em sua mão — Mas se não quiser vou entender… Porém, o pão de queijo daqui é sensacional, dizem que a dona daqui é mineira como você.
— Eu nasci em São Paulo e não em Minas Gerais. — corrigiu, rindo de seu olhar confuso.
— Desculpa… — fazendo um bico fofo, arrancou-lhe uma risada rápida — Vamos entrar?
— Sim. — assentiu.

Acolhedor e aconchegante, seriam as duas palavras para denominar aquele modesto espaço. A um estilo rústico pela presença da madeira, misturado ao minimalismo e escandinavo, tinha um toque tropical em sua decoração que transmitia a cultura brasileira de forma suave e elegante. A vegetação integrada — sendo apresentada pela costela de adão, jiboia e samambaia — era tão representativa quanto as luminárias de palha e treliça, com sua iluminação mais quente e indireta.

— Aqui é tão lindo. — comentou, num tom baixo — Me dá uma sensação familiar, mas… Não é doloroso.
— Isso é bom. — puxando-a de leve, prosseguiram para o mezanino.

Uma mesa bem ao canto, ao lado da vidraça da fachada, parecia estar esperando por eles. E aproveitou a oportunidade.

— O que vamos pedir… — sibilou, ao pegar o cardápio e olhar com atenção as opções.
— Você já comeu aqui? — perguntou ela, desconfiada.
— Não, mas um amigo sim, e me recomendou bastante. — respondeu com naturalidade — Mas o comentário sobre o pão de queijo é verdadeiro, ele comprou um pra mim e me deu.
— Hum. — ela riu baixo — E o que vamos pedir?
— Tenho certeza que vai preferir cappuccino de chocolate para tomar, eu vou ficar com um expresso de caramelo, para comer… — ele continuou folheando o cardápio — Que tal um pão de queijo recheado?
— E quais recheios tem? — indagou a jovem.
— Frango com catupiry, presunto e mussarela… Bolonhesa? — ele fez uma careta engraçada.
— É carne moída. — explicou inocentemente.
— Eu sei o que é, sou quase o soulchef da dona Cristina. — brincou de leve — Temos creme de camarão, calabresa… Goiabada?
— Isso é coisa de mineiro. — desta vez, ela quem fez uma careta.

Ele segurou o riso.

— Continuando… Requeijão com bacon, cheddar, creme de milho e alho poró e… Doce de leite e Nutella. — seu olhar voltou para ela — O que se passa na cabeça dos brasileiros quando misturam as coisas? Não poderia ser apenas o pão de queijo? É a mesma coisa com a pizza, qual o propósito de se colocar ketchup?
— Cada um com a sua cultura. — explicou ela, não respondendo a pergunta dele — Eu gosto de ketchup na pizza.
— Faça isso na Itália e lançará a terceira guerra mundial. — retrucou ele.

Um instante de silêncio, e risadas soaram da mesa, atraindo a atenção de alguns clientes próximos.

— Então, qual experiência vai querer? — indagou com sua fala peculiar.
— Acho que vou do tradicional frango. — respondeu prontamente — Não tem erro!
— Hum… Boa escolha. — disse impressionado com a cautela da amiga — Eu vou inovar, vou pedir esse creme de camarão, e o de creme de milho… E para sobremesa, um de goiabada para mim e o de nutella para você.
— Você vai ter essa coragem toda? Goiabada? — boquiaberta com ele.
— Se estamos na chuva, é pra nos molhar. — brincou com um ditado brasileiro.

Após chamar a funcionária que estava atendendo a mesa ao lado, fez o pedido com riqueza de detalhes, indagando se poderia embrulhar um de doce de leite, para levar para a dona Cristina. Um tempo descontraído de degustação com as caras e bocas dele, arrancando risos da amiga.

— Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. — de forma espontânea, ele segurou em sua mão, assim que saíram da cafeteria — Até que a goiabada não é tão ruim assim.
— Eu passo a vez. — assegurou ela, arrancando uma risada dele..

Havia comido uma vez quando criança e detestou o gosto.

— Agora que eu estou alimentado, acho que podemos ir para casa. — anunciou, transbordando satisfação.
— Jura?! — ela riu.

Ele a olhou meio brincalhão de piscou de leve, então lhe roubou um selinho, deixando-a vermelha de vergonha.

— Você fica mais linda ainda, quando está tímida. — declarou ele, com um olhar apaixonado — Sou grato a Deus, por ter sido bom comigo.
— Seu bobo. — ela bateu de leve em seu ombro — Vamos pra casa.

a puxou com carinho, abraçando-a por trás. O que a fez andar em seu ritmo, com risos pelo caminho por ele não tê-la soltado, vendo os olhares abismados das pessoas que passavam por eles. Assim que chegaram no hostel, dona Cristina estava na sala assistindo a TV, cumprimentando-a, seguiram para seus quartos. Um momento de descanso fazia-se necessário após fortes emoções vividas.

— Você vai dormir bem hoje. — assegurou ele, confiante nas palavras.
— Também sinto isso. — assentiu — O dia de hoje é um dos que quero guardar na memória para sempre.
— Não seja por isso. — retirou o celular do bolso e abrindo a câmera, tirou uma selfie deles — Pronto, temos uma na cafeteria e outra aqui, já podemos montar nosso álbum de fotos de cinquenta anos de casados.
— Não chegamos nem ao primeiro, apressado. — era para soar repreensivo, mas foi mais descontraído do que imaginou — Acho que… Vai ser divertido ser sua esposa.

, que não esperava aquele comentário, sentiu-se estático a princípio. Seu emocional equilibrado o enganou, fazendo seus olhos lacrimejar com rapidez.

— Não vai chorar. — brincou ela, ao perceber a reação dele.
— Claro que não. — disse limpando discretamente — Estou guardando para o nosso casamento… Imagina a emoção que vou estar, com você vestida de noiva seguindo em minha direção.

Ele pegou a mão dela e levou até a altura do seu coração para que o sentisse.

— Ele acelera só de imaginar. — enfatizou a ansiedade pela sua espera.

, não mediu a força de seus atos, e apenas ergueu de leve seu corpo para tocar seus lábios aos dele com sutileza. O beijo que iniciou doce e sublime, foi gradativamente ficando um pouco mais intenso, assim que o rapaz tocou levemente na cintura dela. Foi em uma sincronia intrigante, até que setas maliciosas começaram a bater de forma brusca na porta de acesso para a mente de .

— Acho melhor pararmos enquanto ainda permaneço com a minha sanidade de pé. — sussurrou ele, ao se afastar dela com cuidado, tentando limpar a mente de pensamentos impróprios para o momento.
— Concordo. — assentiu ela, percebendo a situação do amigo.
— Boa noite. — suavizando o tom da voz, beijou-lhe o topo da cabeça.
— Boa noite. — sussurrou ela, de volta, antes de entrar em seu quarto.

Estranhamente, Louise já estava em casa e enrolada nas cobertas assistindo a uma série pelo aplicativo do celular. O olhar curioso da amiga, que pausou seu episódio apenas para indagar-lhe.

— Um date perfeito com seu “amigo”? — um tom sugestivo com aquele ar de, eu sei o que estavam fazendo — Ou já podemos considerá-lo seu namorado?

Um sorriso tímido, que a fez mordiscar o lábio inferior ao se lembrar do último beijo, causando um ligeiro frio na barriga.

— Pode considerá-lo meu namorado. — disse em tom reflexivo — Para ser honesta, acho que ele nunca deixou de ser.
— Ohhhhhhh! — Louise riu um pouco, estava feliz por finalmente vê-la com um brilho de felicidade nos olhos — Que bom que as coisas tem sido mais leves para você…
— Hum… — pelo olhar dela, já imaginava um desabafo vindo em seguida — O que aconteceu no seu estágio hoje? Mais um ataque da supervisora vilã?

tentou soar natural, mas saiu com sarcasmo.

— Eu não aguento mais amiga. — uma cara de choro, e um olhar cansado — Parece que tudo que eu faço não está bom o bastante para a mercenária. Já estamos chamando ela de Cruella.

A jovem riu, mas com respeito.

— Parece que ela sente prazer na dor das estagiárias, não tem lógica nisso. — continuou a amiga, em suas lamúrias — Por mais que eu me esforce, até aulas extras de desenho estou pegando para conseguir me ajustar no improviso, mas…

Ela soltou um suspiro cansado.

— Acho que deveria conversar mais com a dona Cristina. — aconselhou sabiamente — Ela sempre tem uma palavra de incentivo para nos dar.
— Vou fazer isso amanhã. — assentiu — E por falar em amanhã, como estão seus desenhos do portfólio?
— Tenho até sexta, dia quinze, para entregar. — relatou, ao se aproximar de sua cama e sentar para retirar o tênis.
— Próxima semana. — observou, preocupada com a amiga — E vai conseguir terminar a tempo.
— Preciso conseguir. — respondeu.

A jovem retirou o calçado e pegou sua toalha para um banho quente e relaxante. Para um dia turbulento, carecia de horas tranquilas de sono, e foi o que teve após uma rápida leitura do capítulo 14 do livro de João, enviada por na conversa pelo Whatsapp.

— A minha paz eu vos dou… — sussurrou ela, ao fechar os olhos e manter a respiração serena — Não vo-la dou como o mundo dá, não se turbe o vosso coração e nem se atemorize…

--

Passados os dias…

Para muito, a manhã de uma terça-feira sempre foi para ajustar o corpo da ressaca de segunda. E lá estava sentada no segundo degrau da varanda que dava para o quintal, concentrada em sua missão de finalizar o projeto para o portfólio. E já se considerava com setenta e cinco por cento de progresso, com menos de uma semana para a entrega.

— Bom dia, flor do dia. — disse , ao surgir da porta, com uma xícara de café na mão e o olhar curioso.
— Bom dia, dorminhoco. — respondeu, mantendo a atenção no desenho que finalizava no sketchbook — Caiu da cama?
— Acho que sim. — fechando um dos olhos, sentindo a claridade afetando suas vistas.

Foi difícil sair da cama.

— O que aconteceu com você hoje?! — indagou ela, surpresa por estar acordado tão cedo.
— Para ser honesto, nem dormi. — confessou ele, sua noite de travessura.
— Por que?! — ela parou e o olhou surpresa.
— Passei a noite jogando online com o meu primo e o Mike. — explicou, ao se aproximar dela e sentar ao seu lado — Um torneiro maluco que eles precisavam ganhar para garantirem vaga pra outro torneio de uma tal liga americana.
— Desde quando seu primo Jack é um gamer profissional? Eu sabia que o Mike era… — analisou por um momento a informação — Espera aí, desde quando você joga a nível profissional e com o Mike? Você nunca gostou dele, sempre deixou claro.
— Calma, não me olhe assim. — reclamou, tentando argumentar — Eu tinha minha indiferença com o Mike naquela época que ele cismou de jogar charme para você… Confesso que era ciúmes da minha parte, mas agora que ele está noivo da Loren, notei que ele é um cara legal.
— Sei. — ela continuou o encarando, como se não acreditasse nas suas palavras.
— É sério… Já a parte do jogo… — jogou o corpo um pouco para trás, apoiando a mão esquerda ao chão, para se equilibrar, então, bebericou alguns goles primeiro — Você sabe que eu sempre gostei de games e animes, sempre joguei de madrugada escondido dos meus pais.
— Não a nível profissional. — retrucou.
— Para mim, dá no mesmo, sendo ou não, eu só faço por diversão e sempre estou no time que vence. — um sorriso presunçoso e uma piscadela boba.
— Convencido. — sussurrou ela, voltando ao seu desenho.
— O nome disso é talento, e foi Deus que me deu. — argumentou ele, com fundamentos — Visão estratégica, foco, boa memória fotográfica, tino para liderança…
— Ok, já entendi. — disse v E vai continuar jogando?
— Não, só substitui um jogador que estava doente e não tinha condições mentais para ficar sob pressão. — explicou — Não me vejo no ramo… E você? Como está seu progresso?
— Com fé em Papai, estou quase no final. — respondeu.

Alguns instantes de silêncio.

— Espera. — ela parou seu trabalho e o olhou — Você passou a noite em claro e está bebendo café? Não pretende dormir, não?

Havia momentos em que ficava abismada com ele.

— Claro que vou, não agora, pois tenho um compromisso inadiável. — se levantando — Mas após o almoço, meu cochilo me aguarda.
— Olha a saúde, não quero ficar viúva antes da hora. — querendo repreender, soou com descontração.
— Não se preocupe, querida! — ele piscou de leve e se retirou — Está tudo sob o controle de Jesus!

riu baixo, era surreal a forma despreocupada em que tratava certas coisas da vida, mas era isso que tornava tudo ainda mais leve e divertido. A jovem continuou em seu propósito, concentrada nos traços que traçava, na escolha da paleta de cores para cada um dos looks inspirados e uma planta combinada a uma mulher da Bíblia. Vinte e uma para ser exata, com uma de bônus que seria representativo dela mesma, a Orquídea apresentada pelo amigo.

E como havia conseguido chegar na escolha das personagens e da vegetação?

Bastou um dia de estudo profundo ao lado de , para ter a mente expandida e recheada de novas informações e curiosidades sobre a Palavra de Deus que nem mesmo imaginava conhecer um dia. Um tempo precioso para os dois que através das pesquisas para o projeto dela, tiveram seus corações minuciosamente ministrados por Papai.

Fortalecidos e renovados.

As horas se passaram e em seu perfeccionismo em terminar a parte que havia planejado para aquele dia, apenas beliscou alguns biscoitos de polvilho fritos, que Cristina fez para o café da manhã. Sem almoço ao longo do dia e sentindo uma sensação estranha de pressão para terminar antes da data combinada.

?! — a voz surpresa de a tirou do foco — O que faz aqui, assim ainda? Não viu minha mensagem?
— O que? — o olhou inocente no assunto, confusa pela indagação — Como assim? Que mensagem?
— Não viu. — constatou, disfarçando a frustração — Marta, já disse para trabalhar com moderação.

Tentou ser sutil em sua repreensão, trazendo a referência bíblica novamente.

— Chamou minha atenção mais cedo, mas aposto que fez pior que eu. — continuou, suas alfinetadas certeiras — Almoçou hoje?
— Eu não estou em um momento de lazer e diversão. — tentou argumentar, fracamente — É o meu portfólio.
— É a sua saúde. — ele pegou o sketchbook de seu colo, com o olhar sério — Só te devolvo isso amanhã de manhã, agora olhe o seu celular.
— O que me enviou? — perguntou, se encolhendo pelo receio da urgência.
— Te dou dez minutos para se arrumar. — um respiro profundo para não brigar com ela, e se retirou da varanda, seguindo para seu quarto.

Esconderia o objeto no lugar mais improvável.

— O que eu fiz de errado? — se questionou em sussurro, então pegou o celular pousado no chão ao lado e abriu uma conversa.

A imagem de um convite impecavelmente produzido a semelhar-se com uma peça gráfica profissional, para um passeio noturno. Com hora marcada para saírem. Só então ela entendeu os dez minutos estipulados por ele. bufou de leve. Não tinha culpa por se concentrar ao extremo quando trabalhava em algo. Como pedido, seguiu para seu quarto a fim de se arrumar. Uma ducha rápida e poucos minutos para se decidir no que iria vestir. Final de primavera, e a melhor escolha seria um vestido floral que tinha ganhado da mãe de aniversário há dois anos. Era raro vestí-lo, mas sentiu que seria um dia ideal para isso.

— Estou aqui. — anunciou ela, com um olhar meigo e uma postura tímida e fofa, deixando-o encantado.
— Nossa… Bem que a dona Cristina me falou que sempre vale a pena esperar por uma dama quando ela se arruma. — comentou ele, controlando-se internamente.
— Devo levar isso como um elogio?! — indagou, meio confusa.
— Mas é claro, você está maravilhosa, mais do que já é. — ele pegou em sua mão e deu um beijo de leve como um perfeito cavalheiro do século XIX.
!? — um pouco avermelhada de vergonha pelo gesto dele, achou encantador de sua parte, atos de cavalheirismo, como em seus livros favoritos.
— Podemos ir agora. — disse, pegando as chaves de um carro do bolso.
— De onde tirou isso? — perguntou, curiosa.

Pois sabia que ele não tinha um próprio.

— É emprestado do meu pai. — respondeu tranquilamente, enquanto se aproximava da Mercedes azul marinho, estacionada logo à frente.
— Seu pai?! — por aquilo ela não esperava — Mas… Não estavam…

Não sabia como colocar a situação que tinha ouvido dele.

— Brigados? — a olhou, enquanto se colocava ao lado do veículo, e abrindo a porta do carona — Já resolvemos nossas diferenças, com a ajuda do Papai.

Era de se esperar por algo do tipo, sempre foi um garoto de grande fé e muita oração, principalmente por aqueles que ele amava.

— Hum… — um sorriso singelo e entrou no carro, o observando fechar a porta e dar a volta para entrar no lado do motorista.
— Nossa noite será especial, e acho que se preparou para ela de forma involuntário ao escolher este vestido. — e ligando o motor — Não… Não foi involuntário, foi o Espírito Santo que te influenciou.
— Hum. — ela assentiu com a cabeça.

Estava curiosa para saber o que ele havia aprontado para aquela noite.

Minutos dirigindo pelas ruas de New York, até que chegaram em frente a um edifício em que sua fachada combinava a dureza do concreto, a transparência do vidro, a resistência do metal e a resiliência da vegetação formando um jardim vertical em pontos estratégicos. Uma arquitetura industrial, moderna, escandinava minimalista de causar arrepios.

— Uau. — sussurrou ela, movendo seu olhar pela fachada.
— Legal, né. — comentou, ao notar a admiração dela — Imagina trabalhar aqui todos os dias.
— Você trabalha aqui? — indagou surpresa — Mas e a Ong?
— A Ong é um trabalho voluntário. — explicou ele, ao segurar em sua mão, para entrarem no lugar — Aqui é o meu estágio de produção musical.

Impressionada e sentindo-se privilegiada por poder adentrar mais no universo de seu amigo. Ao passarem pela porta giratória, o pé direito duplo do saguão de entrada apresentou o deslumbre e imponência da edificação. O cuidado pela mensagem de sustentabilidade e humanidade, combinado com a seriedade das empresas que alugaram os andares. A produtora Highlight se localizava no sétimo segundo andar, com suas salas de reuniões, estações de trabalho e estúdios de gravação e ensaio, foram milimetricamente acomodados e distribuídos ao longo de todo o andar, com a máxima assertividade no layout, para proporcionar uma rotina de trabalho produtiva. Contando com uma área de lazer e entretenimento bem ao centro do espaço, agraciados com espaço gourmet e mesas de refeição, sofás aconchegantes e puffs espalhados, além de mais vegetação.

— Não vamos para a produtora? — perguntou ela, ao vê-lo apertar outro botão, que não o andar correto.
— Não. — respondeu certo do que fazia — Vamos para o terraço.
— Hum… — ela ficou ainda mais curiosa, pois já tinha ido a um outro prédio com ele — O que aconteceu com o outro estúdio, que me levou daquela vez?
— O dono resolveu mudar para este prédio recentemente, ainda estamos trazendo os instrumentos e o mobiliário. — explicou a origem de sua estranheza — E para ser honesto, estou gostando dessa mudança, a vista é incrível, mesmo sendo no sétimo andar.

Sim, o edifício tinha uma vista privilegiada para o Central Park.

— Que legal. — comentou , ansiosa para saber como era a vista do terraço.

Assim que chegaram, a jovem se deparou com o que poderia classificar, um perfeito jardim encantado. Se a fachada já era nada modesta e deslumbrante, o terraço completava seguindo fielmente a proposta da edificação. lhe deu alguns minutos para explorar toda a extensão do espaço, então, segurou em sua mão e a guiou até o pergolado coberto, onde uma mesa de jantar os aguardava.

?! — um brilho nos olhos dela se formou espontaneamente.
— Eu disse que hoje era um dia especial. — reforçou, orgulhoso de sua preparação para a noite — E fui eu quem fez o jantar, sozinho na cozinha da produtora.
— Não tenho palavras agora… — não conseguia formular a frase de tão impressionada.
— Não digo que está perfeito, porque perfeito só o Papai. — disse alegre por sua reação — Mas o brilho nos seus olhos já falam por si só.
— E isso é para você. — continuou, ao retirar uma caixinha do bolso da calça.
— Um presente? , não é meu aniversário. — retrucou confusa.
— Mas é o nosso, não se lembrar? — seu tom de frustração soou com leveza — Foi no dia doze de junho que te pedi em namoro oficialmente quando completamos treze anos… E curiosamente é a data que comemoram o dia dos namorados no Brasil.
— Andou pesquisando muito sobre meu país de origem. — comentou, comovida por seus esforços.
— Sim. — assentiu com um sorriso mimoso — Não vai abrir.

Assim que abriu a caixinha revelando um anel de noivado dentro, olhou para ele e se deparou com o mesmo abaixado com um dos joelhos apoiado ao chão, como se estivesse prestes a se declarar.

Miller… — naquele momento, um frio na barriga o fazia estremecer de timidez, mas precisava seguir com o plano — Me daria a honra de se tornar a minha esposa? Eterna senhora Baker?

Um largo sorriso se formou no rosto da jovem, que assentiu com a cabeça.

— Sim. — disse em voz alta, confirmando sua resposta.
— Eu te amo! — em confissão, ele se levantou e a beijou no impulso de sua emoção interna.

Doce, suave e levemente moderado.

그가 내 안에
Ele está em mim
내가 그 안에 거할 때
Quando eu habito nele
모든 두려움 사라져 그 사랑 안에 자유하네
Todo medo desapareceu, a liberdade está nesse amor.
- J-US / Your Love Came Into Me


Ensinamento: Mantenha seu foco no Reino, busque mais intimidade com Deus.

17. Rute

"Rute, porém, respondeu:
"Não insistas comigo que te deixe
e que não mais te acompanhe.
Aonde fores irei,
onde ficares ficarei!
O teu povo será o meu povo
e o teu Deus será o meu Deus!”

- Rute 1:16


Atualmente…



a conduziu até a mesa, servindo em seguida o jantar que com algumas dicas de Cristina, conseguiu desenvolver sozinho na cozinha da empresa. Com um cardápio agraciado com salada caprese de entrada, frango ao molho cremoso de ervas finas com purê de batatas de prato principal e torta de sorvete de sobremesa. Um menu que custou-lhe três dias de testes e preparações para que nada saísse fora do lugar.

— Suco de abacaxi. — disse ele, servindo o líquido na taça dela — Seu favorito, milady.

Enfatizou o apelido carinhoso a qual escolheu para ela.

— Agradeço, milorde. — sussurrou, ainda admirada com o capricho dele.

Os olhos de não paravam de brilhar, deixando-o ainda mais motivado com a surpresa que havia preparado. E para um principiante, o jantar se mostrou saboroso e bem temperado.

— Para um aprendiz, você cozinha muito bem. — elogiou, após engolir a segunda garfada que deu do prato principal.
— Que bom que gostou. — com um largo sorriso em seu rosto, sentou na cadeira diante dela e se serviu novamente — Dona Cristina me disse uma vez, que a melhor forma de conquistar uma mulher é cozinhando para ela.

Uma piscada boba e maliciosa.

— Como se precisasse fazer mais alguma coisa para me conquistar. — riu de leve.

Após o jantar, o casal retornou para o hostel. A empolgação de estava estampada em sua cara, tanto que Cristina não se conteve em perguntar o que diferente havia acontecido naquele jantar.

E o anúncio do ano foi declarado.

— Não!!!! — um largo sorriso surgiu no rosto de Cristina, assim que seus olhos foram direcionados a aliança no dedo esquerdo da moça.
— Sim! — disse o casal em conjunto.
— Não imaginam como eu estou feliz por vocês dois. — a mulher abraçou a jovem primeiro, prolongando um pouco como se tivesse transmitindo a ela a emoção que certamente Célia teria, então abraçou o rapaz — E certamente que meu nome está na lista de madrinha.
— É claro que sim. — assentiu , com um sorriso meigo — A senhora e Louise.
— Já quero ajudar na preparação da cerimônia. — avisou de antemão — Tem tantos lugares lindos para realizarem
— Certamente faremos isso no lugar em que nos conhecemos. — assegurou , se referindo ao seu país de origem.
— Na Austrália? — Cristina tentou conter o choque de desapontamento — Por que não aqui?! Imagina uma cerimônia no Central Park?!
— Se eu disser isso aos meus pais, eles nos matam. — ponderou a jovem, ao refletir mais no assunto.
— Hum… — a anfitriã deu de ombros — Já estou vendo que vou competir com sua mãe…

Ela soltou uma risada animada.

— Não se preocupe, ambas vão se dar muito bem. — assegurou ela.
— Acho que estão se esquecendo da minha mãe. — disse , entrando no assunto.
— Ah, sim, é com a senhora Brook, que precisa se preocupar. — segurou o riso, lembrando-se de como a mãe de seu noivo era controladora.
— Senhora Baker. — corrigiu ele, ao voltar o olhar para a jovem.
— Seus pais… — demonstrou surpresa.
— Eles se casaram de novo. — confirmou ele.
, o que mais não me contou? — ao cruzar os braços, o olhou séria.

Ele segurou o riso, fazendo uma cara inocente, e lhe roubando um selinho, a abraçou de leve, para acalmar os ânimos.

— Prometo que vou te contar aos poucos. — assegurou, não querendo jogar uma enxurrada de informações em cima dela.

Afinal, foram cinco anos longe.

Em comemoração da novidade, Cristina resolveu fazer um suco natural de abacaxi com acerola para brindarem o noivado. Louise chegou do estágio no meio dos risos e brincadeiras de dizendo que seria a parte que iria engordar, por causa de seus dotes de culinária. O que levou a muitas outras risadas e comentários bobos da amiga.

— Eu realmente estou muito feliz por vocês. — disse Louise, ao abraçar a amiga mais uma vez — Pelo menos temos boas notícias do seu lado.
— O que aconteceu no seu estágio? — indagou.
— Deixa pra lá, , não vou arruinar seu dia feliz com minhas lamúrias. — ela pegou a bolsa que tinha escorado a alça nas costas da cadeira, e ajeitou no ombro — Vou subir primeiro, preciso de um banho quente e cama.

assentiu com a cabeça. Não iria forçar o assunto, afinal, Louise sempre foi muito explosiva e espontânea com relação aos seus monólogos e desabafos. E se a amiga estava reprimindo as palavras, significava que a coisa era realmente séria e preocupante.

— Vou ser sincero, estou com medo de dormir e o dia de hoje ser apenas um sonho. — confessou o rapaz, assim que eles pararam em frente a porta do quarto dela.
— Deixa de ser bobo, . — ela manteve um sorriso singelo no canto do rosto — Este dia não será apagado.
— Tem razão… Foi o Papai que escreveu para nós, antes mesmo de nascermos. — em um impulso rápido e brincalhão, deu um beijo de leve em seu rosto — Boa noite.

O coração da jovem sempre acelerava com as aproximações dele.

E seus beijos surpresa, desde o mais doce e sutil, até o mais malicioso e intenso. Não sabia ao certo quando aquilo tinha se iniciado, quando seu coração havia aberto as portas para amar seu melhor amigo, mas estava feliz em viver aquela experiência. E grata a Papai, por ter trago para sua vida novamente, mesmo de início ela não querendo.

Ao entrar em seu quarto, Louise ainda não tinha retornado do banho. Aproveitando o momento de solitude, assentou em sua cama e pegando a Bíblia debaixo do travesseiro, abriu o livro em que exatamente na parte em que sua mãe mais lia para ela, nos momentos de desesperança: Eclesiastes 3.

— Há tempos de chorar e há tempos de sorrir. — sussurrou ao ler a parte, e continuou ao sentir seu coração se encher de uma alegria inexplicável — Obrigado por não desistir de mim.

Seus olhos lacrimejaram com a emoção daquele pequeno momento, não sabia explicar ao certo o que acontecia em seu interior, mas conseguia notar algo diferente. Seu período de grande tristeza e angústia, tinha finalmente acabado.

--

Na manhã seguinte, assim que acordou, retornou às suas atividades.

Lhe restavam poucos dias para finalizar seu portfólio. Como não conseguiria desenvolver a versão de seus desenhos digitais na mesa digitalizadora do amigo, a solução seria refinar o traço com caneta nanquim e lápis de cor aquarela para pontuar as cores das plantas em sua paleta de cores final. Após isso, iriam digitalizar os desenhos e a pós produção seria feita no photoshop por .

— Bom dia, para a noiva mais linda do mundo! — disse ele, ao se aproximar dela, abraçando-a por trás, e lhe dar um beijo no rosto.
— Noiva? — ela se afastou dele de leve, o olhando confusa — Do que está falando?
… — sentindo o corpo gelar de leve, ele pegou na mão esquerda da garota, não encontrando o anel de noivado — Tinha um…

Ele parecia tão estático com aquilo, que não conseguiu levar adiante sua brincadeira maldosa, e começou a rir ao retirar o anel do bolso da calça de moletom em seu corpo.

— Desculpa, não resisti. — confessou em risos.
— Não faça isso comigo… Quase me matou de susto. — ele pegou o anel da mão dela e mais uma vez com singeleza, colocou em seu dedo — Promete que somente vai tirar quando colocamos a aliança oficial?!
— Prometo! — assentiu, ao ser ousada o bastante para lhe dar um selinho rápido.
— Só isso?! — indagou incrédulo pela timidez dela — Você quase fica viúva me matando de susto e eu só ganho um selinho de compensação?
— Sabe que não podemos exagerar, e não estou falando das regras da dona Cristina. — o olhar sério de , o fez se lembrar dos muitos sonhos impróprios que tem tido.

Externamente se fazia de forte e equilibrado, mas por dentro, lutava contra seus instintos primitivos de um homem apaixonado que tinha profundo desejo por sua amada. Apenas estar perto da jovem, lhe fazia sentir ondas magnéticas de calor, que instigava suas mente a pensar o que não deveria. Eles tinham um propósito, esperar até o casamento como ensina as Escrituras, que se mantém sendo base de seus princípios. Contudo, quanto mais a ideia do matrimônio se mostrava real e agora palpável pelo noivado, mais veemente seria seu esforço para não avançar o sinal vermelho.

— Verdade. — um suspiro fraco, seguido de um olhar frustrado.
— Te deixo segurar minha mão. — brincou, ao pegar a mão dele com o doçura no olhar — Vai me ajudar a terminar meu portfólio hoje?
— Não era para sexta? — indagou.
— Eu já finalizei os desenhos, e agora preciso digitalizar. — explicou — Além do mais, não vou deixar pra terminar de última hora.
— Hum… — ele refletiu — Tudo bem, então vamos fazer isso lá na produtora, a multifuncional de lá é mil vezes melhor que a da universidade.
— Vou pegar meu sketchbook e a pasta com os desenhos. — disse, ao se afastar para voltar ao quarto.
— Espero que esteja preparada para passar o dia trabalhando. — alertou.
— Eu sempre estou. — retrucou, rindo dele.

Nos dois dias que seguiram de finalização…

se concentrou em diagramar todas as folhas soltas e anotações de forma a ficar esteticamente apresentável e coerente. Com a ajuda de uma designer gráfico da produtora, aprendeu alguns macetes e dicas de pintura digital no Photoshop, que a ajudou a melhorar os desenhos digitalizados, deixando-os com aspecto mais realista, como se tivessem sido desenhados inteiramente no software. O presente de casamento foi antecipado, quando lhe entregou na sexta pela manhã, uma caixa de madeira envernizada, com as iniciais do seu nome serigrafada na tampa e na frente, o versículo I Coríntios 13:13.

— Senhorita Miller. — o tom sério e frio do coordenador, lhe causou um breve arrepio na espinha.
— Senhor Brown. — a jovem caminhou até a mesa e colocou a caixa diante dele — Meu portfolio.
— Interessante. — o homem tentou disfarçar seu olhar de orgulho e satisfação, com uma ponta de surpresa.

Por mais que soubesse a dedicação da jovem em seu curso e acompanhando a apresentação de muitos dos seus trabalhos, não esperava tamanho zelo e capricho para aquela entrega. Ainda com os olhos brilhando, ergueu um pouco mais seu corpo e destampou a caixa com cuidado, desembrulhando o que tinha dentro, mais um momento de contemplação e surpresa, ao se deparar com um livro de capa dura, contendo todo o projeto em seu interior, com os desenhos e anotações feitos a mão.

— Impecável. — sussurrou ele, maravilhado com tamanha maestria de sua parte.

A concepção de um lançamento de coleção de moda, desde o conceito das flores representando as mulheres da Bíblia, a identidade visual da marca das roupas, os croquis dos looks acompanhados da ficha técnica perfeitamente preenchida, até o 3D do cenário do desfile. Todos os detalhes com toda a coerência que necessitava.

— Me impressionou, senhorita, valeu a pena a espera. — concluiu, ao fechar o livro e colocar de volta na caixa com todo o cuidado — E não serão quaisquer pessoas que verão essa versão.
— Agradeço pela oportunidade. — manteve seu olhar humilde, agradecendo também a Deus, pelo talento concedido a ela.
— Enviarei alguns emails com o seu portfólio digital, mantenha atenção ao seu celular, certamente teremos retorno em alguns dias. — anunciou ele, convicto de suas palavras — Mantenha-se atenta ao seu celular e caixa de emails.
— Sim, senhor. — assentiu.
— Pode ir agora, e boas férias. — finalizou em felicitações.

Internamente, se sentia aliviada, com a sensação de dever cumprido.

Seu portfólio estava entregue, as férias de verão próximas e um breve momento de descanso poderia ser aproveitado. Ou não!? Enquanto estava na Highlight, passou o restante da tarde, observando o amigo em seu planejamento do novo projeto musical paralelo, direcionado para a Ong. Com menos de vinte e quatro horas, o aplicativo do gmail de apitou. Final da tarde. Sua expressão estática fora tão inesperada que assustou até mesmo o noivo ao seu lado.

, está tudo bem? — indagou ele, analisando suas expressões.
— Sim… Bem eu… — ela entregou o aparelho para ele ler.
— Hum… — murmurou ele, ao pegar e passar o olho superficialmente na mensagem — Você recebeu um convite para uma reunião com… Espera, Matteo Santoro não é o cara que sua mãe está…
— Sim… — sussurrou ela, desacreditada ainda.
— E você vai?! — indagou ele, preocupado com a reação dela — Está pedindo que compareça ainda hoje.
— Preciso, se não for, o senhor Brown pode me mandar para guilhotina. — respondeu de forma receosa, mas parecendo brincalhona.
— Eu te levo. — declarou ele, sem espaço para recusa.

apenas assentiu, sentindo seu coração apertar estranhamente.

Não pela companhia do noivo, mas pelo assunto que estava reservado para aquela reunião. Ao chegarem diante do prédio, que mais parecia uma galeria de arte que um ateliê propriamente dito, a fachada composta apenas de vidro blindex com a estrutura de metal, permitia ser visto toda movimentação do seu interior. E mesmo com o horário comercial tendo encerrado, o fluxo dos funcionários dava a entender que o expediente estava longe de terminar.

— Boa noite, posso ajudar? — perguntou a recepcionista, com um largo sorriso no rosto, apesar de seu olhar cansado e a falha em sua postura.
— Meu nome é Miller… — iniciou se apresentando.
— Ah, senhorita Miller. — a moça a interrompeu, pois já sabia do que se tratava — Um momento que vou avisar a sua chegada.

manteve-se ao lado dela a todo momento, segurando sua mão para lhe passar tranquilidade e segurança. Cinco minutos depois, a coordenadora dos aprendizes, senhora Smith, apareceu para conduzi-la até a sala de reuniões principal.

— Respira fundo, não deve ser nada de ruim. — encorajou ele, antes dela ir.

Um sorriso assentindo e um suspiro profundo.

seguiu a mulher até a grande escadaria para o mezanino. Ao pisar no último degrau, se deparou com a loucura que era fazer parte de um grande ateliê de moda, rolos de tecido espalhados pelos cantos, estações de trabalhos pelo centro, intercalados com pranchetas e manequins para moulage. Uma visão atordoada que lembrava de um backstage de desfile de moda.

— Entre. — disse a mulher de forma seca e ríspida.

Um respirar profundo, pedindo a Papai para participar da bendita reunião com ela, e passos amedrontados para o interior da sala. O aperto em seu coração continuava presente a todo momento.

— Bem-vinda ao Ateliê Matteo Santoro. — a voz do estilista e designer soou pelo ambiente, após o barulho da porta se fechando — É um tanto óbvio quem eu sou.
— Senhor Santoro. — forçou a voz sair — Agradeço o convite, mas… Não entendo minha presença aqui.
— Vai entender. — ele deu curtos passos até a bancada de apoio para a televisão, então pegou uma pasta e colocou aberta.

engoliu seco, ao reconhecer o croqui que fez para a amiga no lado direito, e do outro lado um croqui impresso do seu portfólio.

— Para os meros mortais que não entendem desse universo chamado moda, certamente não perceberiam a riqueza de detalhes e a semelhança no traçado. — iniciou ele, sua explicação — Mas aqueles com o olhar refinado e treinado como o meu… Não há como enganar.

A jovem não conseguiu esboçar nenhuma reação inicial, permanecia estática com as palavras dele.

— Senhor Santoro?! Mandou me chamar? — a voz reconhecível de Louise, fez sentir um frio na espinha.

Temia mais por sua amiga do que por ela.

— Sim. — assentiu o homem, com serenidade na voz — A senhorita está aqui para passar o seu crachá de estagiária a verdadeira dona destes desenhos.

Em passos lentos, e atordoada com a situação, a mente de Louise não conseguiu reagir a princípio, até que parou ao lado da amiga e sua ficha caiu.

— Senhor Santoro, eu posso explicar. — iniciou ela.
— Não tente, pode piorar a sua situação. — cortou o homem, certo de sua decisão — Entregue seu crachá a ela, e se retire do meu ateliê em discrição.

Os olhos de Louise marejaram com rapidez. Não imaginava que uma situação assim poderia acontecer algum dia.

— Não. — disse , ao finalmente reunir coragem para falar.
— Como?! — o estilista sentiu-se intrigado pela reação alheia.

Afinal, muitas jovens matariam por aquela oportunidade em seu ateliê.

— Eu não quero ser sua aprendiz, e honestamente acho que este lugar está com a pessoa a quem pertence. — continuou , segura de suas palavras — Os traços podem ser meus, mas isso não importa, a ideia em cada detalhe pertencem a Louise, ela é a dona dos desenhos que entregou, toda a concepção do conceito é dela.
— Senhorita, está se ouvindo?! — retrucou ele.
— Sim, senhor, ela pode não ter talento para desenhar, confesso, mas isso não a impede de ser criativa e talentosa em executar cada peça que planeja em sua mente. — prosseguindo com seu argumento, a jovem Miller se manteve firme — Acredite, em três anos que a conheço, nunca a vi se dedicar tanto a alguma coisa como ela se dedica a esse estágio.
— Senhorita Darla?! — o olhar voltou-se pra estagiária.
— Me desculpe, senhor Santoro… — se encolhendo um pouco, abaixou o olhar com vergonha de encará-lo — Eu…
— Volte às suas atividades. — ordenou, mantendo seu tom frio — E de agora em diante, por mais que estejam horrendos e desastrosos, todos os croquis que entregar deverão ter apenas o seu traço.
— Sim, senhor. — assentiu ela, já se apressando para se retirar.

manteve silêncio, enquanto o homem mantinha-se encarando-a por algum tempo.

— Confesso que estou desapontado por meu ateliê não atraí-la, mas quando o senhor Brown me enviou o seu currículo, me explicou seu objetivo de especialização. — pronunciou, quebrando o silêncio — Tenho alguns contatos e tem uma pessoa a qual enviei seu portfólio a ela. Amanhã de manhã…

Retirando um cartão do bolso, colocou em cima da mesa para ela.

— Esteja neste endereço às nove. — por mais que fosse sutil, ainda soou com tom de ordem.
— Sim, senhor. — deu alguns passos até a mesa e pegou o cartão — Obrigado.
— Não agradeça a mim, mas a sua integridade. — retrucou, convicto do que dizia e sua análise sobre — É uma amiga muito leal, bem raro de se ver no universo da moda… Onde um pisa no outro para chegar mais rápido ao topo.

Mais silêncio vindo dela, que dando um sorriso fechado, se afastou com precisão e se retirou em seguida. Do lado de fora, ao chegar no saguão, a jovem encontrou a amiga conversando com seu noivo, enquanto lhe esperava.

! — um abraço de gratidão de Louise, veio em seguida — Obrigado amiga, por me defender.
— Eu apenas disse a verdade lá dentro. — assegurou , diante dos seus princípios — Jamais faria algo para te prejudicar.
— Eu não mereço a sua amizade, tenho certeza que se fosse outra, teria me afundado sem pensar duas vezes. — um sentimento de culpa lhe tomou por completo — Sempre fui uma amiga aproveitadora, e egoísta, e…
— Pare, Louise. — um sorriso meigo e gentil se formou no rosto da jovem — Somos amigas, e existem amigos mais chegados que um irmão.

que estava ao lado, sorriu de canto ao pegar a referência de Provérbios 18:24.

— Acho melhor irmos , sua amiga precisa voltar ao trabalho. — aconselhou , ao segurar a mão da noiva.
— Verdade, as coisas aqui estão longe de finalizar, estamos atrasados com a modelagem e a peça piloto da nova coleção. — concordou a amiga, explicando a situação — Vejo meu casal favorito amanhã.

Louise já sabia que sua noite seria em claro naquele ateliê.

O casal seguiu de volta para o hostel, com ainda mais ansiosa pelo dia seguinte e pela pessoa que encontraria. Se a parte ruim já havia passado, será que ela poderia esperar boas notícias?

— Passou todo o caminho de volta em silêncio. — comentou , assim que desceram do carro, em frente ao hostel — Está tudo bem?
— Acho que sim. — respondeu — Só estou me sentindo estranha pelo que aconteceu.
— Nós dois sabemos que não há nada que fica em oculto por muito tempo. — sua afirmativa tinha fundamento — Lucas 12:2 diz, porquanto não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz.
— Eu sei… Meus pais sempre me alertaram sobre isso. — assentiu, se encolhendo um pouco.

Com um olhar doce, a puxou para perto, abraçando-a com aconchego e conforto.

— Não é errado você vender seu talento, fazendo os desenhos para os outros, mas é errado eles agirem como se fossem deles, e foi isso que aconteceu com a sua amiga. — num tom baixo, mantinha sua mão acariciando os cabelos dela com suavidade.
— Obrigado por ter ido comigo. — sussurrou, se aninhando em seus braços — Obrigado, por não deixar que eu me sinta sozinha.
— Isso foi pra mim, ou para o Papai?! — indagou, entendendo a profundidade dos sentimentos dela.
— Pacote completo. — continuou em sussurro, sentindo o coração aquecido — Eu amo… Os dois!

--

Pontualmente às nove da manhã, adentra a cafeteria Tropicália.

Um ambiente aconchegante e acolhedor, que pertencia a um casal de brasileiros. Sua arquitetura inspirada no estilo rústico combinado ao escandinado e industrial, permitia a leve combinação da madeira clara, paleta de cores em cinza e preto, com a presença de vegetação em pontos estratégicos e alguns ítens de decoração em treliça e telinha. Apresentando uma estética moderna e sofisticada da cultura brasileira.

E desta vez, ela estava sozinha.

Não podia permitir que o noivo matasse o dia do estágio para lhe acompanhar dessa vez. E no fundo, precisava encarar aquele desafio sozinha. Ou melhor, apenas ela juntamente com Papai.

— Bom dia, senhorita Miller. — disse uma mulher, ao se levantar da cadeira em que estava sentada.
— Bom dia. — com um sorriso leve no rosto, assentiu ao gesto dela e se sentou na cadeira em frente.
— Que bom que não aceitou a proposta do Matteo. — direta ao ponto, pois para pessoas de sua área, tempo era dinheiro — Meu nome é Katherine Petrova, e nossa produtora se interessou muito pelo seu talento, devo confessar que ver seu portfólio físico foi ainda mais impressionante que o digital.
— Agradeço a oportunidade. — em sua timidez, se encolheu na cadeira.
— É uma jovem de muito talento, e estou aqui em nome da InHouse Studio Design para te convidar a participar de nossa equipe como nossa estagiária de produção cenográfica. — continuou, com o olhar sério, porém o tom sereno e cordial
— Somos uma empresa muito conceituada no ramo da arquitetura, design e cenografia, e tenho certeza que preenchemos seu requisito de preferência em estágio…

Foram mais algumas palavras sobre a empresa mencionada, e não sabia como reagir a informação. Sua mente não sabia lidar com o fato da empresa que tinha pesquisado semanas atrás e se interessado de imediato, estava lhe oferecendo um estágio exatamente com as atividades da qual queria se especializar:

Cenografia em Produção de Moda.

A jovem não sabia como seu curso de moda havia lhe conduzido para a área de Arquitetura, e menos ainda para o Design Cenográfico, contudo, ali estava ela com a oportunidade construída por Papai, para seu futuro profissional e acadêmico. Ela aceitaria o desafio, seria uma estagiária dedicada que honraria a Deus com seu trabalho e talento. Seus olhos se encheram de água, ao imaginar a reação de seus pais diante da novidade.

Mais ainda… Ao imaginar Célia vendo o quão longe sua filha chegou.

Ao contrário das outras vezes, foi preenchida com um sentimento de nostalgia e saudade, um sorriso discreto e sutil surgiu no canto do seu rosto, e percebeu que lembrar-se da sua mãe não estava sendo doloroso como das últimas vezes.

Pelo contrário…

Havia uma intrigante sensação de esperança.

"There's nothing worth more
Não há nada que valha mais
That will ever come close
Que nunca vai chegar perto
No thing can compare
Nenhuma coisa pode comparar
You're our living hope
Você é a nossa esperança viva
Your presence lord
A Sua presença"
- Holy Spirit / Jesus Culture


Ensinamento: Lealdade.

18. Maria

"E Maria escolheu a boa parte,
a qual não lhe será tirada. ”

- Lucas 10:42


2 anos atrás…


Bem ao centro do Bronx…

Em meio a tempestade repentina de início de estação, lá estava uma senhora com sacolas pesadas nas mãos, lutando contra seu guarda-chuva que parecia não querer cooperar. Do outro lado, a observava com estranheza, segurando o riso da cena diante dele, esquecendo-se por um instante, a raiva e frustração que martelavam em seu coração por semanas. Seu desejo nunca havia sido se mudar para os Estados Unidos com o pai. Entretanto, após o rompimento da amizade com Miller, a própria mãe havia lhe aconselhado a tal decisão.

— O que ela está tentando fazer? — se indagou, ao retirar as mãos dos bolsos da calça e dar o primeiro passo para se aproximar.

Enfrentando a chuva e atravessando a rua, no impulso das sacolas caírem das mãos da mulher, às pegou com precisão. Então, tomando o guarda-chuva de sua mão, o abriu com a maior facilidade, erguendo-o para cobri-la. Ela com as roupas já molhadas pela chuva, mostrou-se impressionada pela destreza do rapaz que certamente, foi enviado por Deus para lhe socorrer. Contudo, ao perceber o olhar triste e caído dele, um aperto em seu coração, mostrou-a que certamente, não era ela que precisava de ajuda.

— Ah, obrigado. — disse ela, soltando um suspiro cansado — Eu estava quase conseguindo, mas sua ajuda veio em uma boa hora.
— A senhora está indo para alguma direção específica? — indagou ele, percebendo o peso das sacolas.
— Moro há duas quadras daqui. — relatou, analisando a expressão séria, com traços de amargura em seu rosto — Acho que preciso te agradecer adequadamente pelo socorro… Aceita uma xícara de café, ou chá?!

Ele assentiu com o olhar.

Deveria ter recusado, era o que sempre fazia quando alguém lhe oferecia ajuda, mas daquela vez parecia diferente. O olhar singelo da mulher lembrava o de sua avó, a quem sempre teve como uma grande referência de fé, amor e bondade. Assim como o aprendiz de Paulo, Timóteo, que tinha sua mãe Eunice e a avó Lóide, duas mulheres de coragem que serviam ao Senhor com alegria e dedicação. Ao chegarem diante do prédio indicado, se deparou com a arquitetura tradicional dos anos 90 em sua fachada, e uma sutil placa indicativa da construção, ao lado da porta. Sweet Home Hostel.

— Lar doce lar. — disse ela, ao destrancar a porta e abri-la — Pode colocar as sacolas na mesa da cozinha.
— Sim, senhora. — assentiu seguindo para o corredor indicado.
— Por favor, não me chame de senhora, não sou tão velha assim. — ela riu, ao fechar o guarda-chuva e o acompanhar — Eu sou Cristina Silva, mas pode me chamar apenas de Cristina, ou dona Cristina se preferir manter a formalidade.
— Hum… — assentiu, colocando as sacolas em cima da bancada da pia — Eu sou o .

Sua voz, mais baixa que o habitual.

— Prazer, . — Cristina manteve sua concentração em procurar a chaleira para fazer um chá.

Pelo olhar triste evidente no rapaz, certamente seria a melhor pedida, principalmente diante do estado físico de ambos.

— Veja só, estamos encharcados de água. — riu de leve, enquanto enchia a chaleira de água, e lhe orientando — Porque não vá até o banheiro do segundo andar e tome um banho quente? Ao lado da porta do banheiro tem um armário embutido com toalhas limpas e em uma das prateleiras vai encontrar uma sacola com roupas masculinas para doação, veja se encontra algo que lhe caiba.
— Não precisa… — deu um sorriso fechado, disfarçando a necessidade.

Já se contavam três dias fora de casa, dormindo na biblioteca da universidade, e sem perspectiva de melhora ou direcionamento. O rapaz havia desistido de tudo, dos seus sonhos, do lindo futuro que Papai havia projetado para ele e principalmente da esperança em voltar a ver . Seu coração havia se fechado para todos no dia em que a menina o pediu para não ser mais seu amigo. E foi neste dia que experimentou a sensação mais amarga do mundo…

Estar sozinho, mesmo rodeado de pessoas.

— Mas é claro que sim, você enfrentou a chuva para me ajudar. — reforçou ela — Agora vá, que vou preparar um bom chá para nós.

Não iria relutar, estava mentalmente cansado demais para isso.

Ele apenas assentiu a ordem dela e seguiu para a direção indicada. Após alguns minutos sentindo a água quente tocar suas costas, desligou o chuveiro e permaneceu mais alguns minutos encarando seu reflexo no espelho, com a toalha enrolada na cintura. Em seu interior, iniciava uma luta entre os pensamentos negativos que aumentavam a frustração, contra as palavras de promessa das Escrituras, que mantinha sua esperança viva, ainda que respirando por aparelhos.

— Aí está você. — Cristina manteve um sorriso no rosto, assim que percebeu sua entrada na cozinha — Nada como um banho quente para nos deixar confortáveis.

se reprimiu de início, não queria enchê-la de perguntas e nem dar liberdade a sua curiosidade.

— Como a senhora trocou de roupa tão rápido? — indagou ele, não se segurando.
— Hum… — soltando uma gargalhada boba, o olhou com ternura, parecia uma das perguntas que seus filhos fariam — Nem todas as mulheres passam a vida no banheiro.
— De desculpe a indelicadeza. — alguns passos até a mesa, puxou uma cadeira para se sentar — Obrigado pelo banho.
— Não precisa agradecer. — ao pegar as xícaras, colocou-as em cima da mesa e serviu o chá que preparou em tempo hábil.
— Tem limão aqui?! — indagou ele, ao sentir o leve aroma.
— Gengibre, limão e mel. — respondeu por completo os ingredientes, puxando uma cadeira para ela se sentar também — Ótimo para tirar o resfriado e nos aquecer por dentro, principalmente quando estamos chateados com alguma coisa.

O silêncio continuou da parte dele.

Não queria começar nenhum tipo de assunto que se transformasse em desabafo de sua parte, se sentia ferido demais para falar sobre o que lhe causava dores, as feridas ainda estavam abertas e sangrava de tempos em tempos. A última vez, foi na noite em que discutiu com o pai, saindo de casa sem direção certa e apenas ansiando pelo findar da sua respiração. ainda não conseguia entender como havia chegado no fundo daquele poço, e não sentia que teria forças para sair dele algum dia.

— Seu silêncio consegue me dizer mais do que se estivesse falando. — comentou Cristina, ao bebericar um pouco do chá em sua xícara.

Mais silêncio.

— Que tal fazermos o seguinte… Termine seu chá e descanse um pouco, amanhã você me ajuda a consertar a calha. — um sorriso final acolhedor, que o deixou sem reação.
— Mas eu não tenho dinheiro… — tentou recusar.
— E quem disse que é para pagar algo? — retrucou, se levantando da cadeira e indo até o armário para pegar um pote de rosquinhas.

Servindo em uma bandeja, o ofereceu um pouco.

O sentimento de aconchego e pertencimento que a muito tempo não sentia, preencheu nos dias que seguiram com sua mudança inesperada para o hostel. Pegando suas coisas na casa do pai, apenas deixou um bilhete pedindo desculpas e dizendo que precisava se afastar para criar maturidade e organizar o caos interno que se encontrava nele. No hostel de Cristina tinha um quarto duplo vago, uma seria do rapaz e a outra foi oferecida a um amigo da universidade na mesma situação.

Este era um dos muitos propósitos daquele lugar.

A pequena construção deixada como herança por seu falecido marido, atualmente servia de apoio e dormitório para universitários necessitados. E Cristina sentia-a bem por ajudá-los, como se estivesse fazendo parte de uma grande obra orquestrada e direcionada por Deus. A cada jovem que se abrigava ali, era uma história de superação diferente, um coração ferido que precisava de amor e compreensão para cicatrizar, um novo propósito de vida que se iniciava.

— Dona Cristina… O que está fazendo?! — indagou , ao adentrar a cozinha e observá-la organizar alguns ingredientes em cima da mesa, juntamente com uma bacia média.
— Torta de frango. — respondeu de imediato, ao voltar o olhar para ele — Quer aprender?!
— Não acho que levo jeito para cozinha. — fazendo uma careta, se aproximou com sutileza.
— Sabe de um segredo? — pronunciou ela, com ar de mistério.
— Hum… — seu olhar confuso, a fez rir.
— A melhor forma de conquistar uma mulher, é cozinhando para ela. — revelou, deixando soar baixo, e piscando de leve no final — Acredite, é muito atraente ver um homem cozinhando para nós… Foi assim que meus dois falecidos maridos me conquistaram.
— Nossa. — por aquela informação ele não esperava — A senhora já foi casada duas vezes?
— Sim. — assentiu com descontração, ao despejar os ingredientes secos na bacia e misturá-los — E ambos partiram muito cedo, mas aprendi muito com eles e principalmente a cozinhar.
— Uau. — sussurrou, em choque.
— E agora, eu vou te ensinar. — ela deu uma piscadela boba e riu — E sabe qual é o melhor momento para desabafar?
— Não. — respondeu.
— Quando estamos cozinhando. — o olhar sério e sugestivo dela, lhe fez entender suas intenções.
— Não acho que estou… — iniciou.
— Está sim. — o interrompeu, lhe passando coragem pelo tom de sua voz — Está aqui há quanto tempo? Cinco meses? Acho que já somos próximos o suficiente para me chamar até de tia.

Aquilo arrancou uma risada boba dele.

— Por que fugiu de casa, quando nos conhecemos? — direto ao ponto, Cristina manteve o olhar nos ingredientes que media, porém, atenta às palavras dele — O que causou a briga com seu pai?
— Acho que… Começou bem antes disso. — seu tom baixo, quase em sussurro, o fez forçar a voz para sair — Eu tenho… Tinha uma amiga, a qual fazia meus dias serem divertidos e motivadores, mas… Seu coração é tão triste que, acho que fui contaminado por sua tristeza quando ela deixou de ser minha amiga.
— Por que aconteceu?! — Cristina pegou um frasco de álcool em gel e esticou para ele.

Sua sugestão era do rapaz ficar em seu lugar mexendo na massa.

— Ela perdeu a mãe biológica quando criança, e foi dotada depois, acho que nunca conseguiu superar a perda e por isso seu olhar é sempre triste. Queria poder ajudá-la, mas… — os olhos de lacrimejaram, a ponto das lágrimas começarem a escorrer.

A lembrança do adeus lhe consumia por dentro.

— Sabe … Você tem um bom coração.
— comentou sua percepção, ao salpicar um pouco do leite por cima da farinha — Mas, só podemos curar quando somos curados.
— O que quer dizer com isso?! — indagou, confuso.
— Que Deus claramente quer te usar para alcançar o coração da sua amiga, mas antes, Ele quer alcançar o seu coração por completo. — explicou, com mais clareza.
— Mas Ele sempre teve o meu coração. — questionou o rapaz, ainda não entendendo o teor daquelas palavras.
— Está certo disso?! — sua entonação parecia forçá-lo a reflexão — Em Gênesis 22, Deus não estava apenas testando a fé de Abraão, mas queria mostrá-lo que seu coração não deveria estar em seu filho Isaque, e sim, naquele que lhe deu a vida.
— Então, Deus me tirou ela, porque meu coração não estava nEle? — era muito inteligente, e conseguia ver nas entrelinhas.
— Acho que não precisa de uma confirmação minha, já tem sua resposta. — seu tom ficou mais sereno, como de uma mãe aconselhando um filho — No início, você disse que seus dias eram alegres ao lado dela, mas… Sua amiga não pode ser o foco da sua alegria.
— Eu nunca vi por esse ângulo. — sussurrou, mantendo o olhar na massa grudada em seus dedos.
— Sabe quando o Senhor permitiu a Jó, perder quase tudo? No final, no capítulo 42, versículo 5, ele declarou que apenas o conhecia de ouvir falar, mas agora os seus olhos o viram. — continuou, destrinchando mais sua explicação — Sua amiga se foi, te aconteceu muitas coisas estranhas a partir daí, e agora você brigou com o seu pai… O que mais precisa perder para entender que Deus quer que o conheça verdadeiramente?

Ele manteve-se em silêncio.

Após finalizarem a montagem da torta, e Cristina cronometrar o tempo de forno, a anfitriã pegou sua Bíblia e abrindo no primeiro capítulo do livro de Jó, entregou para ele.

— Dona Cristina?! — pegando o livro, a olhou confuso.
— Que tal escolher a boa parte e conhecê-lo através do lugar mais assertivo do mundo? — explicou, em seu tom sugestivo — Apenas as Escrituras nos revelam quem é Deus, e Ele quer se revelar a você.

O olhar de se voltou para o livro em sua mão, pensativo por tudo o que o havia ouvido da parte de Deus, através dela. Ele tinha mais uma vez a oportunidade de conhecer melhor o Espírito Santo, e desta vez, não iria deixar passar.

Se entregaria de corpo, alma e espírito, em busca de ser um verdadeiro adorador.

--

Aproveitando que seu colega de quarto passaria as férias de verão na casa de parentes distantes. trancou-se no quarto, e se colocando de joelhos na lateral da cama, manteve a Bíblia em cima da cama na sua frente, aberta exatamente na página definida por Cristina. Sua leitura do livro de Jó foi profunda e silenciosa, contando com uma caderneta ao lado, em que ele pode fazer suas anotações.

Tinha aprendido uma lição valiosa naquele dia.

— Papai… — iniciou sua oração, em um sussurrar sereno e quebrantado — Me perdoe por não notar o que estava acontecendo… Pelo tempo que passei distante do Teu Amor… Pelas decisões erradas que tomei no passado… Peço apenas que blinde meu coração, para que futuramente, eu não seja traído por minha emoções novamente e coloque pessoas ou qualquer outra coisa ocupando Teu lugar em mim…

Seus olhos cheios de água, e seu coração acelerado, deram espaço a uma sensação de paz e calmaria interna. Para alguém que passou as últimas semanas em completa turbulência interior.

— Quero estar no centro da Tua vontade e o Senhor no centro da minha vida, sendo sempre minha primazia… Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei, que os meus pés estejam em Tua casa para todo sempre, e que eu possa contemplar a beleza de Vossa Santidade… — continuou, de olhos fechados e sentindo as pequenas gotas escorrerem pelo seu rosto — Eu te amo, Papai!

“Como Maria
Que estava aos Seus pés e dissestes a ela
Essa é a boa parte que nunca,
Que nunca será tirada
[…]
Eu encontrei o meu tesouro
Eu encontrei o bem mais precioso.”
- A Boa Parte / Florianópolis House Of Prayer & Nívea Soares


Ensinamento: Escolha a boa parte, leia a Bíblia.

19. Jael

"Bendita seja entre as mulheres,
Jael, mulher de Héber, o queneu;
bendita seja entre as mulheres nas tendas.”

- Juízes 5:24


Atualmente…



A primeira semana de estágio sempre é a mais difícil de todas…

E estava passando por um leve choque de adaptação. Mesmo com algumas dicas de Louise para fazer amizades mais fácil, e algumas mensagens de ao longo do dia com versículos de encorajamento e frases motivacionais, ela ainda se mantinha acanhada e nervosa.

, terminou a tarefa que te pedi?! — indagou Katherine, ao se aproximar da sua estação de trabalho.

Mesmo com uma indicação, a jovem teve que desenvolver um projeto completo em uma semana, para um evento fictício de lançamento de uma marca de perfumes. No qual precisou desenvolver desde a embalagem do produto, até o layout do estande no qual seria apresentado. Um pequeno teste para os estagiários, com a intenção de testar seu rendimento em momentos de trabalho sob pressão, com prazos apertados.

— Sim, senhora Petrova. — assentiu a jovem, ao pegar as planilhas impressas e entregar a ela — Acabei de enviar para o seu e-mail, com os três orçamentos que enfatizou que deveria ter.
— Nossa. — a mulher a olhou impressionada, enquanto pegava os papeis — A maioria dos estagiários sempre pedem mais dois dias, estou impressionada.
— O briefing estava bem detalhado, o que facilitou o desenvolvimento. — assentiu, prontamente.
— Tudo bem, então. — ainda com o olhar desconfiado, pensou na próxima tarefa que daria a ela — Quero que vá até o andar dos designer e ajude a equipe ômega com os desenhos finais para a apresentação de amanhã. Você me disse que sabe mexer com Photoshop para finalização, estou certa?!
— Sim, eu aprendi recentemente, mas consigo fazer. — confirmou, suas habilidades.
— Pode ir, então. — ordenou.

assentiu ao se levantar de sua cadeira, e caminhou em direção ao elevador.

O monumental edifício comercial em que o estúdio se localizava, coincidentemente era o mesmo que trabalhava. Algo que lhes dava a oportunidade de se encontrarem na hora do almoço e voltarem juntos para casa. Assim como a Hightlight ocupava todo o sétimo andar, a InHouse, como um estúdio voltado para a construção civil, apresentado pela estrutura cenográfica, temporária ou permanente. Ocupava os andares dez a doze. Sendo o décimo destinado aos estagiários e aprendizes, funcionários temporários de todas as três equipes, além de se localizar a cozinha gourmet e o espaço de convivência dos funcionários. O décimo primeiro era destinado aos designers, arquitetos e criativos contratados designados para as equipes alpha responsável pelos projetos arquitetônicos, beta pelos projetos gráficos e de publicidade, e por fim, a ômega pelos projetos de cenografia. E chegando ao décimo segundo, todo andar se dividia entre as salas do administrativo, a presidência e as três salas de reuniões localizadas ao centro do andar.

— Bom dia, a senhora Petrova me pediu para ajudá-los. — se reportou a líder da equipe.
— Você é a estagiária novata, não é? ? — indagou a mulher, com traços asiáticos, parecendo ser a responsável por todos.
— Sim. — assentiu.
— É bom ter alguém de moda na nossa equipe. — disse com um sorriso gentil — Principalmente para nos ajudar nas produções de desfiles.
— Eu espero poder contribuir. — estando grata pela oportunidade, olhou com discrição para os outros três integrantes.
— Que bom que está motivada, vou te apresentar nossa equipe Ômega. — continuou a líder, apontando para eles — Este é Ramon nosso designer gráfico, pois sim, precisamos de um para nossos projetos em específico, Stella nossa designer de ambientes especializada em paisagismo e este é Gregori, nosso design de produto e fotógrafo. Eu sou Hana, a arquiteta e líder da equipe.
— Prazer conhecer a todos. — com sua timidez, deu um sorriso singelo.
— Bem-vinda a equipe de cenografia, estávamos mesmo precisando de reforços. — comentou Stella, a loira de traços delicados, vestindo um suéter azul marinho e óculos no rosto.
— Legal mesmo, mas vejo um defeito na nossa estagiária… — brincou Ramon, com seu jeito latino de exalar charme — Ela é comprometida.
— Ah?! — a princípio não entendeu, até se lembrar do anel de noivado em seu dedo.

Ainda não tinha se acostumado com a nova realidade.

— Que bom, amiga, acabou de se livrar das cantadas baratas do Ramon. — Stella riu de leve, da careta feita por ele.
— Ok, gente, voltamos ao trabalho, pois temos uma apresentação para finalizar. — Hana os puxando para o foco no trabalho — Ramon, a vai te ajudar com a finalização das artes e a montagem da apresentação. Stella preciso da planilha de custos pronta e impressa, e Gregori, nosso 3D precisa estar renderizado até o final da tarde.
— Está quase pronto chefe. — disse o rapaz ruivo com sardas no rosto, e uma vibe profunda de nerd — Só preciso de mais duas cenas para terminar.
— Eu estou esperando o retorno de dois fornecedores para acrescentar a lista e já finalizo minha parte. — relatou a moça, seu progresso — Quanto as pranchas técnicas, também já estão prontas e subi para o drive, para você conferir se falta algo.
— Ok, preciso ir à reunião da diretoria agora. — anunciou Hana, já sentindo que as coisas não seriam tranquilas até o final da tarde — Vossa majestade está aí hoje, então é possível que cabeças rolem pelas escadas de emergência.

A líder pegou a pasta de sua mesa individual, que ficava em frente à estação de trabalho dos demais, e se retirou rapidamente para seu compromisso. ainda estática pelas palavras dela, permaneceu de pé por um tempo.

?! — Ramon a despertou, então puxou uma cadeira para perto — Pode sentar aqui e mexer nesse computador ao meu lado, era do último estagiário.
— O que aconteceu com ele? Acabou o contrato? — indagou a jovem, ao sentar no lugar indicado.
— Não, ele está na equipe do lado, pertence aos arquitetos agora. — soou com preconceito de Stella.
— Não gosta deles? — atenta a moça.

Um suspiro cansado veio como resposta.

— Digamos que a equipe alpha se acha a alta aristocracia, enquanto nós somos a burguesia intrusa e a equipe beta os camponeses. — explicou Gregori, com sua analogia digna dos romances vitorianos.
— Entendi. — voltando o olhar para a tela do computador — E quem é a vossa majestade, que a Hana mencionou?
— Dimitri Petrova. — respondeu Ramon, fazendo uma careta estranha — Os estagiários apelidaram ele de “O imperador”.
— E o que ele tem demais? — enrugou a testa, não entendendo.
— Ele é o nosso CEO e dono, juntamente com a irmã Katherine. — Stella explicou com mais clareza.
— Acho melhor voltarmos ao trabalho, para não complicar a vida da chefinha, com atrasos na entrega. — aconselhou Gregori, concentrado em sua tarefa.

A tarde de foi divertida graças aos muitos assuntos que soaram na estação de trabalho, e engraçada devido às brincadeiras de Ramon, principalmente quando jogava suas cantadas para Stella. No final do dia, a jovem encontrou seu noivo no saguão do hall da recepção do edifício, estava jogando pelo celular, sentado ao chão com as costas apoiadas na vidraça da fachada. Ela ficou alguns minutos o observando de longe, com um sorriso bobo no rosto.

Seu noivo parecia uma criança diante de um game.

… — a voz dela despertou sua atenção.
— Bom dia, flor do dia. — um sorriso largo no rosto, levantou-se do chão e guardou o aparelho no bolso — Como foi o estágio hoje? Não pude almoçar com você.
— Foi tranquilo, aparentemente, mas… — ela ponderou suas preocupações — Não se preocupe por não termos almoçado, eu também tive muito trabalho, não imaginei que o Photoshop tivesse tanta função assim e travasse tanto.

Ele riu, porém, ficou sério novamente.

— Hum… — instantes de análise profunda da noiva, pegando em sua mão com o olhar de conforto e segurança — Tem algo te preocupando, conta pra mim.
— É que… — um respiro fundo, para lhe dar a coragem de se abrir com ele — Fui designada para a equipe de cenografia, vou poder trabalhar diretamente com produção de moda e…
— E?! — insistiu.
— Eu entrei na equipe hoje e não acho que o projeto que irão apresentar amanhã para a diretoria, está de acordo com o briefing preenchido pelo cliente. — continuou seu relato — Mas não sei se…
— Se deve opinar, por ser apenas a estagiária que entrou na equipe hoje. — completou, entendendo a real situação — O projeto é sobre o que?
— Produção de moda diretamente, estamos projetando todo o cenário e evento completo para o lançamento da nova coleção de calçados da marca United Nude. — explicou, ao se lembrar com riqueza de detalhes do briefing.
— O que significa que você é a pessoa mais experiente no assunto. — sua afirmação, apenas demonstrou a realidade dos fatos — Se acha que o projeto não está bom, deveria dar sua opinião, pelo que me contou sobre os outros membros da equipe, você é a especialista em moda.
— Sou apenas uma estagiária. — resmungou ela, não se achando capaz — E só tive dois semestres de produção de moda.
— Uma estagiária de grande valor e talento. — reforçou ele, ao acariciar seu rosto com um sorriso gentil — Seu portfólio fala por si só.

Ela respirou fundo, não sabia o que fazer.

— Que tal irmos para casa, a dona Cristina deve estar nos aguardando com um jantar maravilhoso. — sugeriu ele, sentindo sua barriga reclamar — Comer e dormir é a melhor pedida agora, amanhã, certamente você estará renovada e cheia de coragem para ajudá-los a seguir o caminho certo.
— Como consegue fazer parecer fácil? — indagou, desacreditada.
— Mas é fácil, sabe por que? — ele sorriu, recebendo um olhar curioso de resposta — Papai está ao seu lado, te ajudando.

Ela respirou fundo.

Errado ele não estava. E após um abraço motivacional, ambos seguiram para a saída. O jantar estava sim pronto, e Cristina havia preparado strogonoff de frango acompanhado de arroz e batata palha caseira, com uma deliciosa salada caprese. precisava mesmo de uma longa noite de sono para recarregar as energias e clarear sua mente. Por mais que soubesse em que ponto a equipe estava equivocada e errando no projeto, ela precisava mais que apenas sua noção de moda para argumentar.

Precisava apresentar não apenas o problema, como também a solução.

?! — a voz de ecoou na cozinha, surpreso por encontrá-la ali — São quatro da manhã, o que faz…

Parou ao se aproximar dela, e vê-la desenhando.

— Acordei às três, orei um pouco e não consegui voltar a dormir. — explicou, voltando o olhar para ele — Então…
— Tudo bem. — sorriu de canto, puxando uma cadeira e sentando ao seu lado — Te farei companhia como sempre.
, você trabalha amanhã também. — questionou ela, a decisão dele.

Em silêncio, ele apenas debruçou sobre a mesa, e continuou a olhá-la com carinho. sabendo que não conseguiria fazê-lo mudar de ideia, apenas riu e voltou ao seu desenho. Papai havia lhe dado algumas ideias e inspirações para o famigerado projeto.

— Sabia que fica ainda mais bonita, quando está concentrada? — brincou ele, tirando o pouco que restava de sua concentração.
. — o olhou com seriedade e reclamou — Preciso me concentrar.
— Desculpa. — dando impulso no corpo, roubou-lhe um selinho doce.

Uma risada espontânea soou dela.

— Agora sim, menos tensa e mais descontraída. — piscou de leve, mantendo um sorriso de canto.
— Seu bobo. — fez um bico, o olhar meigo e inocente.

Olhar apaixonado.

As horas se passaram e após chegar no estágio, a jovem pediu para conversar em particular com Hana sobre o briefing e o desenvolvimento do projeto. Porém, a líder de equipe estava agitada e levemente estressada por causa da apresentação, impedindo-a de falar, pediu a todos que se dirigissem para sala de reuniões e finalizaram a apresentação lá. No horário agendado, a reunião iniciou e permaneceu de pé, próximo a porta, enquanto os diretores comercial e de marketing, sentaram de frente para os membros da equipe.

E nas cadeiras das pontas…

Os donos da InHouse, sempre faziam questão de acompanhar cada detalhe de cada projeto que produziam. Assim iniciou a apresentação pela equipe, que a cada palavra, Hana sentia seu coração sendo apertado pelo olhar de desaprovação do senhor “imperador” Petrova.

— E acham que vamos apresentar isso para nossos clientes mais antigos? — perguntou ele, no seu habitual tom arrogante.

O que fez se encolher de medo.

— Senhor Petrova… — Hana respirou fundo, parecia entrar em surtos internos — Nós tentamos fazer de acordo com o que eles pediram.
— Sério?! — Katherine lançou um olhar de reprovação — Tem certeza que entenderam o briefing, pois o que estão nos apresentando não tem nenhuma ligação com o conceito da coleção deles.
— Senhora… — a líder não sabia como argumentar, em sua mente, a equipe estava seguindo o caminho certo.
— Se a equipe ômega não consegue projetar algo conforme o especificado, o que estão fazendo aqui?! — Dimitri levantou da cadeira e seguiu em direção à porta.
— Vocês perderam tempo em algo que não está conforme o solicitado, se tinham alguma dúvida poderiam ter me perguntado, sabe que dou liberdade para isso, Hana. Agora, terão apenas dois dias para nos apresentar algo que valha a pena oferecer ao nosso cliente. — ordenou Katherine.

O irmão assentiu sua decisão com o olhar.

E ao passar por , o nervosismo da jovem em arredar para lhe dar passagem, a fez trombar no vaso de plantas ao lado. Consequentemente, caindo ao chão, juntamente com seu sketchbook, que caiu aberto justo na página que ela passou a madrugada desenhando. O olhar de Dimitri se fixou no desenho e depois para ela, nunca a tinha visto em nenhuma das reuniões anteriores.

— Quem é você?! — indagou ele, ao pegar o sketchbook e analisar o desenho com mais cuidado.

Seu olhar impressionado era visível.

Em instantes, conseguiu identificar que se tratava de um possível esboço de layout da passarela totalmente inspirado no conceito da coleção de sapatos, um impecável desenho em 3D, feito à mão e colorido, contendo algumas linhas de anotações ao redor.

— Esta é Miller, a indicação que recebemos do senhor Brown da Parsons, e do Matteo também. — respondeu Katherine, ao ajudá-la a se levantar — Se machucou?
— Não, eu estou bem. — respondeu, se encolhendo um pouco, com medo do que o homem poderia dizer a respeito dos seus croquis.
— Interessante. — disse o homem, ao passar para a página seguinte — Devo presumir que esta é a sua percepção do briefing?
— Sim, senhor. — assentiu.
— Deveria promovê-la a sua aprendiz irmã, será um desperdício tratar uma indicação do senhor Brown, como uma estagiária comum. — Dimitri esticou o sketchbook para Katherine, que pegou de imediato — Você possui um diamante bruto, deve saber como lapidá-lo.

Assim que ele se retirou, seguiu para o seu próximo compromisso profissional.

— Quando fez esse desenho, ? — perguntou Katherine, mais uma vez, admirada com o talento dela.
— De madrugada. — soou em um sussurro acanhado e tímido.

Uma risada nervosa da diretora de projetos.

— Parabéns equipe, a estagiária em uma madrugada conseguiu fazer algo que vocês não conseguiram em três meses de produção. — continuou a diretora, soltando um suspiro cansado — A partir de hoje, a direção deste projeto retorna para mim, quero que se concentrem no planejamento da execução da exposição da galeria Holtz, e no planejamento do evento de abertura do restaurante Plaza, junto com a equipe alpha.
— Sim, senhora. — disseram a equipe, em coral.
— Venha comigo , quero que me explique a sua ideia. — finalizou com o olhar ameaçador, de alguém que detesta ser contrariada.

O dia rendeu e as horas de trabalham que seguiram, foram longas para a jovem Miller, que após explicar tudo o que estava pensando para o projeto, mostrou para a diretora como no mundo da moda, o conceito de uma coleção de roupas, ou acessórios e calçados, deveria se alinhar e harmonizar com a arquitetura de passarelas.

Algo do qual explorou muito em seu portfólio.

--

— Só acho que minha noiva deveria estar dormindo! — a voz de , a despertou de seus pensamentos.

estava encolhida e enrolada na coberta, sentada no sofá da sala com os olhos fixos na janela.

— Minha mente está cheia de pensamentos, aconteceu muita coisa no estágio hoje.
— contou ela, ao perceber sua aproximação.
— Quer compartilhar?! — perguntou, sentando ao seu lado.

sabia que era sempre uma tarefa árdua fazê-la contar sobre seu dia.

— Quer mesmo saber?! — o olhou confusa.
— Claro, segundo dia sem almoçar com minha noiva, e hoje não foi por minha causa. — sua explicação não tinha muita lógica — Temos que colocar a fofoca em dia.

Brincou, e ela riu baixo.

— Eu tentei falar com a líder de equipe… Mas a Hana não quis me ouvir, disse que eu ainda estava aprendendo e certamente não tinha entendido a proposta deles… No final, foi horrível o feedback da diretoria. — iniciou, seus relatos — Então, aconteceu um pequeno acidente e o senhor Dimitri, viu o meu desenho.
— Você não queria que ele visse?! — indagou, tentando entendê-la.
— Não da forma que aconteceu. — respondeu prontamente, ao tombar a cabeça apoiando-a no ombro dele — Os irmãos Petrova não gostaram da apresentação da equipe, e a senhora Katherine falou exatamente o que eu percebi, ontem… Não consegui ajudar e não queria que a equipe saísse prejudicada.
— Por que eles saíram prejudicados? — insistiu.
— A senhora Katherine voltou a ser a responsável pelo projeto, e… — um respiro profundo, sentindo-se culpada, mesmo não sendo — Agora eu serei sua aprendiz, e vou trabalhar diretamente com ela.
— Resumindo… — concluiu ele, o óbvio — Mais uma vez você iria deixar que roubassem seu talento.
— Não coloque nessas palavras. — pediu, ao olhá-lo.
— Sério?! Se essa tal Hana, tivesse te ouvido e mudado tudo para sua ideia, ela seria ética o bastante para lhe dar os devidos créditos? — perguntou, com seriedade — Afinal, você tinha apenas um dia na equipe.
— Não sei… Mas no final da tarde, ela nem quis olhar pra mim quando descemos no elevador juntas. — respondeu, chateada.
— Já vimos então o caráter dela. — constatou, o noivo, certo do que dizia — , você precisa aprender que… Não adianta se esconder, quando Papai quer te colocar em evidência.
— Mas… Quem sou eu, na fila do pão?! — sua indagação soou num tom descontraído.

Arrancando uma risada suave dele.

— É por esse olhar humilde que Ele te promove. — assegurou o noivo — E por esse coração dependente.
— Mas eu não sinto que consigo. — sussurrou, com o olhar baixo.
— Sabe o que está escrito em Josué 1:9? — perguntou ele, a resposta que ela precisava.
— Seja forte e corajoso. — manteve o tom baixo, reflexivo no versículo mencionado.

Com um sorriso doce e singelo, ela se aninhou ainda mais em seus braços, confiante que tudo ficaria bem. Afinal, tinha sim, muitos desafios a enfrentar em seu estágio, porém…

Todos seriam na companhia de Papai.

Na manhã seguinte, com o tempo livre antes do estágio, graças ao findar das aulas no ciclo letivo, a jovem acompanhou seu noivo até a Ong. por várias vezes a incentivou a participar, não apenas por contar pontos de méritos para a universidade, como também para participar de um projeto que contribui com a comunidade. Entretanto, com suas preocupações em finalizar o portfólio e iniciar o estágio, o assunto acabou se perdendo entre os afazeres.

— Harmony. — sussurrou , ao ler o nome da ong em um letreiro de metal na entrada do prédio, localizado ao sul do Brooklyn.

A jovem havia permanecido parada na recepção, olhando discretamente cada detalhe do espaço em sua volta. O noivo havia se afastado por um momento para descarregar algumas caixas de instrumentos doados, que chegaram junto com eles.

— Estamos em reforma, então, não repare na bagunça. — pediu Lise, a coordenadora geral do projeto.

havia comentado sobre ela, o que a levou a se lembrar assim que leu o nome escrito no crachá de identificação.

— Tudo bem. — olhou-a com atenção.
— Você é voluntária nova? — indagou, tentando puxar da sua memória — Nunca te vi aqui antes.
— Ah… Não, eu vim acompanhando o . — explicou, um pouco envergonhada.

Por um instante, teve a sensação de estar invadindo o lugar.

— Ah, que legal, você deve ser a . — soou com certa empolgação.

O que fez a jovem se encolher de timidez.

falou muito sobre você e seus dons. — explicou ela, percebendo — Seria bem legal se juntar a nós, as crianças adoram aprender, principalmente a desenhar bem.
— Eu ainda estou organizando meus horários pra ver se posso ajudar… Mas já adianto que sou péssima me comunicando. — ainda não entendia como tinha conseguido fazer os amigos que tinha.

Menos ainda como conseguia dialogar com segurança, diante dos profissionais do seu estágio. De fato, todas as conquistas de em relação a sua timidez, ou melhor, todas as conquistas em geral, eram sempre graças a Papai e seu apoio e incentivo.

— Tudo bem, você pega a prática com o tempo. — Lise riu um pouco — E as crianças são uns amores, riem de tudo que você faz.

riu junto.

— Lise! — a voz de soou da porta.

Adentrando juntamente com mais dois rapazes.

— Com essas caixas, terminamos. — anunciou — O que vem depois?
— A montagem dos instrumentos. — respondeu a coordenadora, prontamente — Já separei três salas para eles, podem montar hoje, que a partir da próxima semana, as aulas e oficinas de verão vão iniciar.

Eles assentiram e seguiram para o local indicado.

Enquanto isso, Lise arrastou-a para a sala de reuniões, onde mostrou à jovem todos os projetos ativos e futuros que a ong estava planejando para o calendário do segundo semestre do ano. Conhecer um pouco melhor sobre, foi como uma sementinha germinando no coração de , que começou a considerar verdadeiramente, fazer parte da equipe de voluntários.

— Só de termos uma instrutora para as oficinas de artes, já vamos ganhar bastante viu. — assegurou Lise, ao mostrar alguns desenhos de crianças do orfanato Light.
— Prometo pensar com carinho. — disse, dando um sorriso singelo.
— Aqui estão as senhoritas. — adentrou a sala e se aproximou da noiva, dando-lhe um beijo no rosto — Vossa pessoa será senhorita, por enquanto…

Ela riu de leve, corada por seus gestos.

— Verdade. — disse Lise, abrindo um largo sorriso ao casal — Meus parabéns a vocês.
— Obrigado. — disse o casal, em coral.

acompanhou o noivo em suas atividades na Ong, até seguirem juntos para o estágio. Mesmo não dando uma resposta positiva final, a ideia de ser instrutora de artes começou a queimar no seu coração, principalmente pela oportunidade de honrar Papai de alguma forma, através de seus dons e talentos — enfrentando sua timidez e medo.

Afinal…

Quem não vive para servir, não serve para viver.

Um dos muitos ensinamentos que Célia lhe deixou.

Seja forte e corajoso
Não temas e não desanimes
Eu sou teu Deus
Te escondo em mim.
- Seja Forte / Isadora Pompeo


Ensinamento: Iniciativa e coragem.

20. Abigail

"e o nome de sua mulher Abigail;
e era a mulher de bom entendimento e formosa;”

- I Samuel 25:3


Atualmente…


Férias de verão…

Um momento de recarregar as energias para os árduos universitários. Exceto é claro, aqueles que possuem estágios, projetos de pesquisa ou atividades complementares para executar. Sexta à tarde, no frescor da última semana da estação, ao final da tarde, conseguiu a liberação de Katherine para sair mais cedo.

O motivo? Seu jantar de noivado!

Um evento extremamente aguardado pelos envolvidos, que resultou até mesmo no deslocamento dos pais da jovem para a cidade mais acelerada dos Estados Unidos. Cristina, por sua vez, estava no ápice da empolgação ao ver seu hostel movimentado por pessoas queridas do casal, tanto amigos quanto familiares. E a presença dos pais de também foi uma surpresa para o filho, já que o casal seguia morando em Seattle, onde Thomas trabalha atualmente.

— Parabéns!!! — disse Kimberly, ao abraçar a noiva com empolgação — Finalmente se rendeu ao .
— Sim. — concordou , corada de vergonha.
— Tanto fez que conseguiu. — comentou Loren, tentando controlar sua ponta de dor de cotovelo, por não ter alcançado o afeto do rapaz como almejava.

Por mais que estivesse em um relacionamento com Mike, Loren não conseguia esquecer sua paixonite rejeitada da adolescência.

— Somente um evento assim para me tirar da Austrália e me fazer atravessar o oceano. — continuou Kimberly.
— Mas vamos combinar que seria estranho ver meu primo e , se casando com pessoas diferentes. — brincou Jack, em provocação.
— Eles definitivamente ficam bem juntos. — assegurou Mike, ao segurar com gentileza na mão da sua noiva.
— Agradeço as felicitações, mas preciso roubar minha noiva por alguns instantes. — disse , ao pegar na mão da jovem — Meus pais chegaram.

Ele a guiou até a porta de entrada, onde o casal conversava com Cristina.

Os pais de já se encontravam no hostel, haviam chegado na noite anterior. Um abraço amigável de bandeira branca vindo da parte da senhora Baker, que ainda tinha receios do relacionamento dela com o filho. Sophie havia acompanhado de perto as primeiras semanas de após o rompimento da amizade, a forma revoltada e conturbada de como ele ficou e as muitas noites em claro que passou preocupada com as más amizades que haviam surgido no período turbulento.

— Senhora Baker… — forçou sua voz a sair.

Havia conduzido a sogra até o quintal para conversarem à sós. Elas precisavam desse momento, para colocar a casa em ordem.

— Eu sei que… — prosseguiu, tomando coragem para continuar o assunto que estava propondo.
— Fique tranquila. — interrompeu a sogra, com um sorriso gentil, ao pegar em sua mão — Vocês possuem a minha benção.
— Hum?! — seu olhar confuso e surpreso era nítido — Achei que a senhora não gostava de mim.

Sophie respirou fundo.

— Inicialmente, confesso que realmente não gostava. — sincera e franca — Mas… Eu vi o que aconteceu ao meu filho quando se afastou, e depois entendi o propósito de Deus para ele… Para ambos como um casal.
— Obrigado, por me contar isso. — sorrindo sutilmente, com um pequeno brilho nos olhos.

Mesmo não sabendo como reagir à timidez de , a sogra lhe deu um abraço apertado, em gratidão por ela ter retornado a vida do filho.

— Eu entendi que o amor de um pelo outro é genuíno e puro. — finalizou a sogra.
— Vai mesmo monopolizar minha noiva, mãe? — o tom de reclamação de , às despertou daquele momento.
— Vamos logo , antes que esse menino impaciente brigue com a gente. — brincou ela, rindo junto com a nora.

Cristina aproveitou a casa cheia para contar como conheceu , e posteriormente sua noiva. Para a anfitriã, foi uma honra conhecer Annia e Dimitri, e ouvir um pouco mais da história da jovem. O que lhe deu ainda mais certeza do pedido de Deus, para ser sua intercessora. Acompanhar o processo de cicatrização das dores de , e ter contribuído para isso com seu testemunho de vida, a fez entender que onde mais somos machucados, quando sarados, é onde Papai nos usa para curar outros.

— Discurso… Discurso… — disseram todos em coral, quando os noivos se posicionaram ao centro da sala.
— Acho que serei eu a falar. — disse num tom brincalhão, ao voltar o olhar para a noiva — Ou você quer…

com seu jeito acanhado, balançou a cabeça negativamente.

— Imaginei. — disse ele, voltando a olhar para os convidados — Primeiro, quero agradecer a Deus, pelo propósito de unir nossas vidas… E por ter me ensinado muitas lições enquanto estávamos longe um do outro. Agradecemos nossos pais pela paciência e amor, aos amigos pelo apoio e por último e não menos importante, a dona Cristina, pelos conselhos de madrugada... Obrigado a todos.

Seu coração estava grato por tudo, em especial ao Espírito Santo!

Segurando a mão de , entrelaçou seus dedos e olhou-a com carinho, sentindo o coração aquecido com o brilho dos olhos dela. Depois, voltando a atenção para seus pais, notou ambas as mães contendo suas emoções, enquanto limpavam as lágrimas escondidas no canto dos olhos.

Os meses se passaram…

Entre trabalhos voluntários na Ong, horas de estágio, aulas cansativas e provas desgastantes, os noivos universitários dividiam seu tempo entre as responsabilidades do dia a dia e o planejamento do casamento. Auxiliados por suas mães e Cristina, a data agendada havia sido uma semana após a formatura dos dois. Assim, poderiam iniciar a vida conjugal, sem a preocupação com a universidade, sabendo que tinham um emprego garantido em sua vida profissional.

--

— É amanhã… — sussurrou , ao abraçá-la por trás, encaixando seu queixo no topo da cabeça dela.

se manteve imóvel, apenas sentindo o calor que emanava do corpo dele.

No final do dia, ambos estavam no terraço do edifício onde trabalhavam. O olhar da jovem se manteve no horizonte, enquanto sentia a respiração dele e as batidas aceleradas do seu coração.

— Sim… — assentiu, se aninhando no abraço dele — Como está se sentindo?
— Honestamente?! — em descontração.

Ela balançou a cabeça positivamente.

— Estou enfrentando uma mistura de ansiedade e alívio. — um respiro profundo, sentindo o perfume do shampoo nos cabelos dela — Não imagina o quanto tenho reprimido alguns pensamentos que me veem à mente.
— Acho que imagino… — segurou o riso, lembrando-se de alguns ocorridos passados durante aqueles meses que seguiram — Principalmente depois que propôs o jejum de beijos.

Um suspiro fraco vindo dele, que sentiu a boca salivar.

O intrigando.

— Admito que não tem sido fácil olhar pra sua boca e não poder… — deu uma pausa fechando os olhos, porém, os abriu rapidamente ao imaginar a cena — Você sabe.

A cada dia mais próximo da cerimônia, era um dia a mais de luta para o rapaz.

Nunca havia sentido tanto desejo assim por sua melhor amiga. Tocá-la parecia tanto uma necessidade básica para seu dia, que até mesmo quando segurava em sua mão, sentia o corpo se eletrizar. Química essa que o enchia de pensamentos inapropriados e maliciosos, fazendo-o sentir ainda mais atração por ela.

— Até que você tem se comportado muito bem. — brincou ela, com uma risadinha boba.
— Ahhh… É?! — se afastando de leve, começou a lhe fazer cócegas.

O que arrancou muitas gargalhadas.

Em instantes, fugiu dele, fazendo-o correr atrás. Os únicos no espaço com toda a privacidade que poderiam ter. Em um dado momento, ela tropeçou e antes que seu corpo em desequilíbrio chegasse ao chão, o rapaz amparou-a com sua mão, puxando-a para perto. Na aproximação de dois corações ansiosos e acelerados, o rosto dele se manteve próximo o bastante para sentir o vapor quente da respiração de sua noiva. Um crescente apetite por seus lábios, o consumia por dentro de uma forma que parecia quase incontrolável.

Um arrepio pelo corpo como descarga elétrica.

— Acho melhor não abusarmos… — sussurrou ela, como se sentisse o magnetismo formado ao redor deles.
— Tem razão. — um passo para trás, deslizou sua mão até se afastar por completo, mantendo o olhar sereno — Precisamos ir pra casa, ter uma longa noite de sono, porque vai ser corrido quando acordarmos.

De mãos dadas, retornaram para o hostel caminhando, enquanto relembraram alguns momentos da infância e adolescência, quando dizia que um dia se casariam. Sua fé e perseverança ao longo dos anos, tinha conduzido-os até aquele momento, até o tão sonhado dia.

— Agora, quando eu te ver novamente, será diante do altar. — comentou, ao se despedir dela, parando na porta do seu quarto.
— Prometo que não vou fugir. — brincou, para descontrair o momento e sussurrando — Obrigado… Por não desistir de mim.
— Foi pra mim? Ou para o Papai? — indagou, como sempre fazia.
— Pacote completo. — respondeu, dando um sorriso meigo e singelo — Amo os dois.
— Nós também te amamos! — afirmou ele, ao encostar de leve, seus lábios na testa dela.

Em um momento de ternura e singeleza, que durou alguns minutos até cada um adentrar o seu quarto. E a noite não foi de longa e relaxante sono, pois ambos em ansiedade e empolgação, passaram a madrugada em claro. em seus desenhos para descarregar a tensão, pois no dia seguinte seria a noite em destaque. , com seu coração carregado de felicidade, ajoelhou na beirada de sua cama, não para pedir, mas sim para agradecer a Deus por todo o processo que passou até chegar aquele momento.

Na manhã seguinte…

Enquanto se arrumaria na casa de um amigo da produtora, com ambos os pais para lhe dar apoio e conselhos no grande dia. A jovem passou a manhã em risos provocados por Cristina, com acréscimos da sogra e da mãe. As três mulheres que tinham sua admiração e respeito, e lhe transmitiam a ternura e afeto que certamente receberia de Célia. E em um momento tão feliz como aquele, o único sentimento que se permitiu sentir de sua falecida mãe, foi o de saudade nostálgica, por saber que ela também estaria tão feliz quanto a filha, no dia do seu casamento.

— Você está linda! — comentou Annia, com os olhos marejados, ao contemplar o reflexo da filha no espelho.
— Obrigado, mamãe! — o olhar com uma ponta de brilho demonstrava o quão contente estava, e grata por ter sido adotada por ela.
— A noiva mais linda e singela que já vi. — comentou Cristina, com sua admiração e brincando — E olha que eu casei duas vezes.

Elas riram para descontrair.

Por mais que não demonstrasse, internamente estava sim um pouco nervosa. Pois sabia que o casamento seria um grande passo em sua vida, e por mais que fosse paciente com seu jeito tímido e retraído, ter maturidade para encarar a nova realidade, fazia-se necessário. Diante da porta de entrada, da modesta igreja do pastor James, sendo conduzida por ambos os pais, Annia a direita e Dimitri a esquerda, a passos lentos e cautelosos a noiva entrou.

A pedido do noivo, a marcha nupcial foi substituída por uma melodia doce e suave composta por ele próprio. E seu olhar permaneceu fixo no sorriso que lhe encantou antes mesmo de ser tão presente no rosto da jovem. Um filme lhe passou pela cabeça, sendo focado em cada momento importante de ambos juntos, principalmente naqueles em que Papai tinha lhe usado para levar consolo e conforto a ela. Assim que foi entregue a ele pelos pais, e ambos se colocaram diante do altar, o olhar grato de fixou-se na cruz vazia.

Grato por tê-la conhecido…

Grato por tê-la perdido…

Grato por ter sido resgatado por Papai e o conhecer verdadeiramente…

Grato por tê-la reencontrado…

Grato por estarem ali…


Miller, é de livre e espontânea vontade que recebe Baker como seu legítimo esposo? — perguntou o pastor.
— Sim. — num tom baixo, porém, o suficiente para ouvirem.
Baker, é de livre e espontânea vontade que recebe Miller como sua legítima esposa? — continuou.

Com os olhos marejados e o coração acelerado.

— É o que eu mais desejo. — respondeu, com um sorriso bobo — Sim.
— Pela autoridade concedida a mim, por nosso Senhor Jesus Cristo, eu vos declaro esposo e esposa. — concluiu o pastor, com um sorriso de satisfação por ter a honra de celebrar aquela união.

Pois após uma longa conversa com o casal dias antes da cerimônia, teve o privilégio de conhecer a história de ambos em seus mínimos e dolorosos detalhes. Vendo sempre a mão de Deus os guardando e conduzindo a todo momento. Algo que lhe aqueceu o coração.

E brincando para descontrair o nervosismo dos noivos.

— O noivo pode finalmente encerrar o jejum e beijar a noiva. — completou, pastor James, segurando o riso.

Ao som caloroso dos convidados com risos envolvidos, em um respirar suave, controlando o caos interno, inclinou-se com leveza encostando com doçura, seus lábios aos dela.

Um beijo singelo e regado a ternura.

De sutileza inicial com uma pitada de malícia da parte do noivo, que não perdeu a oportunidade para envolvê-la em seus braços, pousando as mãos na cintura da agora esposa. Uma breve pausa para retomar o fôlego, mantendo os rostos próximos, e um sorriso discreto no canto de seu rosto, para iniciar um segundo beijos.

— Hum… — o pastor James tossiu um pouco, interrompendo o momento com cordialidade.
— Desculpa. — disse o noivo, esquecendo-se por instantes de onde estava — Acho que fiquei empolgado.

Uma onda de risos soou pela igreja.

Com o encerramento da cerimônia, os noivos receberam os cumprimentos dos convidados na porta. Um almoço simples e modesto para a família e amigos próximos, havia sido preparado por Cristina e servido no hostel. Até mesmo a senhora Moore, da loja em que trabalhou por meses, foi convidada por , em gratidão pelo tempo de acolhida e confiança.

— Parabéns , estou muito feliz por você. — disse Judith, ao abraçá-la.
— Agradeço por ter vindo, senhora Moore. — um sorriso no rosto, retribuindo o abraço quentinho — E por toda a ajuda que me deu desde quando eu cheguei na América há anos atrás.
— Foi um prazer tê-la conhecido e fazer parte da sua caminhada. — assegurou a mulher, dando espaço para Louise, que se aproximava.
— Vou sentir sua falta… — disse a amiga, ao abraçá-la toda emotiva — Vou sentir falta até do seu silêncio ao ouvir meus monólogos.
— Louise… — retribuiu rindo de leve — Ainda vamos nos ver, não é como se eu fosse mudar de país.
— Vocês vão continuar morando aqui no hostel?! — indagou Louise, curiosa.
— Não. — respondeu , ao surgir na conversa, abraçando sua esposa por trás com carinho — Nós temos a nossa casa.
— Temos?! — se afastou de leve e o olhou surpresa.
— Pacote completo, lembra? — respondeu, de forma enigmática, algo que apenas ambos entendiam — A boa obra jamais fica faltando parte.

Ele piscou de leve, arrancando um sorriso meigo dela.

— Minha querida! — disse Annia, ao vir abraçar a filha — Que esta nova jornada dos dois, possa ser repleta de bençãos.
— E nos traga muitos netos. — brincou Dimitri,ao abraçar a filha, desejoso por crianças correndo pela casa nas férias de verão.
— Pai?! — o tom de repreensão de o fez soltar uma risada boba.
— Não se preocupe sogro, disposição e vigor é que não vai faltar da minha parte. — brincou, rindo junto.
?! — o olhar repreensivo da noiva, misturado a suas bochechas coradas de vergonha, fizeram todos em volta rirem.
— Eu concordo com Dimitri. — disse Thomas, ao abraçar o filho e dar um leve beijo no topo da cabeça da nora — Quero netos sem demora.
— Eu já estou tricotando a roupinha. — reforçou Sophie, entrando na brincadeira.
— Esses pais… — Cristina interveio em defesa da jovem — Deixem o casal se curtir, os primeiros anos são os melhores.

Uma piscada boba da anfitriã, para deixar ainda mais constrangida.

— Amo vocês família, e agradeço pela presença de todos, mas… — iniciou , ao segurar a mão da esposa.
— Ah, não, não diga que já vão. — reclamou Cristina, surpresa com a rapidez.

Afinal, não tinha completado nem uma hora após o almoço ter sido servido.

— Temos voo marcado e passagens sem reembolso. — explicou o rapaz, já com todo o esquema arquitetado.
— Para onde vamos? — indagou , estática pela novidade.
— Vai descobrir apenas quando chegarmos lá. — informou ele, deixando o mistério no ar.

tinha uma surpresa para sua esposa.

Preparada após muita reflexão, jejum e oração, marcaria um momento de extrema importância. A despedida do casal foi regada a lágrimas emocionadas, felicitações e muitas promessas de envio de fotos para as mães chorosas. Como havia sido pega de surpresa, precisou da ajuda da mãe para organizar sua mala em tempo recorde e seguir com o marido para o Aeroporto Internacional de NY. Um pequeno engarrafamento no caminho, devido a hora do rush. Com o vôo agendado para decolagem às oito da noite, após dez horas de viagem finalmente o avião aterrissou no lugar em que ela menos esperava.

Aeroporto Internacional de Congonhas.

?! — sussurrou ela, ao se agarrar no braço do marido, assim que seus olhos leram o letreiro de informações.

Até o momento, nem mesmo as passagens ele havia lhe deixado ver, assim como os fones de ouvido propositais não lhe permitiram se atentar às informações de voo do piloto e comissários.

— Eu sei. — assentiu ele, ao tocar em sua mão e fazê-la deslizar para segurá-la.
— Por que viemos para o Brasil?! — indagou ela, lutando contra um aperto que sentia no coração.
— Pacote completo. — respondeu com precisão — Ainda tem algumas gavetas no seu interior que Papai quer arrumar, apenas deixe.

Ela assentiu com o rosto, deixando um vislumbre de sorriso surgir com sutileza.

— O que prefere fazer primeiro? Check-in no hotel, ou café da manhã? — perguntou, com o olhar mimoso de quem já estava com fome.
— Não podemos andar por São Paulo com essas malas. — argumentou com validez e sugeriu — Que tal fazer o check-in e tomamos o café no hotel?!
— Tudo bem. — assentiu.

Chamando o uber, seguiram para o Glória Plaza Hotel, bem ao centro do bairro Liberdade. Com uma diária em bom preço, quartos confortáveis, serviço de qualidade e boa localização, o quarto de casal reservado ficava no segundo andar e tinha sua decoração condizente com o bairro em que estava inserido.

— Você pensou em tudo. — disse , ao entrarem no quarto — Primeiro o apartamento e agora a viagem de lua de mel… Desde quando tem planejado isso?!

Uma risada fofa vindo dele, que terminava de colocar as malas para dentro e fechar a porta em seguida. Voltou-se para olhá-la com carinho, se lembrando da trajetória que percorreu até finalmente seu planejamento se tornar realidade vivida.

— Desde os doze anos, quando Papai me confirmou que seria minha melhor amiga e esposa. — respondeu, ao se afastar das malas e se aproximar dela com o olhar carinhoso.
… — sussurrou sem reação — Doze anos?!
— Sim. — assentiu com um sorriso no rosto — Durante nossa adolescência, todos os meses guardava o restante da minha mesada no banco, após retirar o dízimo… Quando você foi embora…

Ele parou por um momento, relembrando em sua mente.

— Parei por um tempo e me arrependo um pouco, não foi uma época da qual me orgulho em contar, mas aprendi com meus erros… — continuou ele, ao envolvê-la em seus braços — E voltei ao propósito inicial… Com a bolsa de estudos e a universidade dando auxílio moradia, continuei juntando cada centavo e destinando meus recursos financeiros para nosso lar e nossa lua de mel… Longos anos de economia para estarmos aqui, onde tudo começou.

Por mais que o ambiente a lembrava de seu passado de dores, não as sentia mais. Sua ligação com Papai estava mais forte agora, e as lembranças tristes da perda de Célia, haviam perdido suas forças.

— Você é incrível. — manteve o tom baixo.
— Eu não. — afirmou ele, seguro de suas palavras — Papai que é, incrível e bom, nosso bom Pai!

assentiu com um largo sorriso, e os olhos marejados. Não eram lágrimas de tristeza, mas sim de emoção pelo momento.

— Hum… Acho que ainda temos um café da manhã para tomar antes de uma caminhada pela cidade. — sinalizou sua fome presente.
— Você sempre está com fome. — brincou a esposa, em risos.

Um selinho roubado por ele e mais risos.

O café ainda estava sendo servido no restaurante do hotel. Após a degustação satisfatória do casal, com o rapaz elogiando o simples e modesto pão de queijo que comia. Após um cochilo de algumas horas, com a finalidade estratégica de um rápido descanso, iniciaram seu passeio pela cidade.

— Já adianto que não conheço nada daqui. — alertou , assim que entraram na estação de metro.
— Não se preocupe, milady, vosso marido possui habilidades específicas para lhe guiar nesta bela cidade. — brincou ele, com seu dialeto vitoriano.

Uma risada descontraída vindo dela.

— Esplêndido, milorde, vossa esposa segue ávida por contemplar tamanha aventura ao vosso lado. — entrou na brincadeira, enquanto segurava o riso da piscada dele.

Algumas estações aleatórias depois.

— Para onde estamos indo? — indagou ela, curiosa.
— Logo verá… Já estamos chegando. — segurando sua mão, com os dedos entrelaçados, manteve a serenidade no olhar, para lhe transmitir segurança e conforto.

Passado algum tempo, finalmente eles desceram no endereço memorizado pelo rapaz, seguido de minutos de caminhada, chegaram ao seu destino final. A igreja em que ela e sua mãe, Célia, congregavam no passado. A fachada estava diferente, mais bonita e toda revestida de porcelanato amadeirado, com o piso feito de cimento queimado e as paredes pintadas em cinza grafite. Na porta, um casal os aguardava, pareciam mais ansiosos que por aquele momento.

Foi questão de segundos para reconhecê-los.

— Senhor Jonas, senhora Layla. — disse a jovem, forçando a voz sair.
. — a mulher deu o primeiro passo, para se aproximar dela e lhe abraçar de imediato — A quanto tempo, querida.

Logo, o coração da jovem se encheu de emoção que transbordou em lágrimas.

Um misto de felicidade por ver um rosto tão familiar de sua infância, combinado a nostalgia de se lembrar dos poucos momentos de sorriso que teve em seu passado. Um abraço tão reconfortante e aconchegante, que poderia até dizer que estava recebendo diretamente de Célia. E não houve nenhuma dor detectada, apenas a sensação de saudade calorosa e esperança de que um dia a veria na Glória com Cristo.

— Sim. — assentiu, com um sorriso.
— E você é o ?! — comentou Jonas, ao se aproximar e esticar a mão em cumprimento — Conversamos ao telefone.
— Sim. — confirmou em cumprimento.
— É muito bom que tenham conseguido vir. — continuou Jonas.
— Desejamos felicidades pelo casamento. — complementou Layla — Vamos entrar?! Temos muito assunto para colocar em dia.

Assentados na sala pastoral, as curiosidades do casal de brasileiros começou perguntando como havia sido a infância dela e de como tinham se tornado amigos. As poucas palavras da jovem, levou o marido a contar com empolgação e em riqueza de detalhes, toda a história, desde o dia em que se conheceram. Entre momentos de risadas com comentários engraçados de , contando sobre as muitas vezes que sua esposa duvidava do futuro de ambos juntos.

— Mas… E como está esse coração? — indagou Layla, chegando ao assunto de interesse — Eu e Jonas, passamos todos esses anos intercedendo por sua vida… Sabemos que uma ferida muito profunda foi aberta aí dentro, pela forma que perdeu sua mãe.

Um momento de silêncio.

— Eu… Foi difícil no início, achei que nunca conseguiria lembrar dela sem chorar, mas… — iniciou ela, se retraindo um pouco, contudo, sendo amparada pelo marido, que continuava segurando em sua mão com um sorriso singelo — Papai fechou a cicatriz e… Não sinto mais dores.
— Papai?! — Jonas olhou confuso.
— Deus. — esclareceu .
— Meu coração se alegra em saber disso… — Layla que estava sentada próxima, pegou em sua outra mão com um sorriso no rosto — Tem uma pessoa, que quando soube que viria nos visitar, pediu para lhe ver também.
— Uma pessoa?! — o olhar intrigado de , se voltou para o marido ao lado.

E a informação era novidade até mesmo para ele.

— E quem seria, senhora? — indagou .
— Marcos?! — o olhar de Layla atravessou o casal, até chegar no homem encolhido na passagem da porta para o corredor.

O coração de se apertou no instante em que girou o corpo e viu o homem.

Não o conhecia, mas algo dentro dela já lhe deixava em alerta por sua presença. A passos lentos e cautelosos, Marcos foi adentrando o espaço, até chegar na cadeira que propositalmente, Layla tinha reservado a ele. Um longo instante de silêncio, até que o homem encontrou a coragem para proferir as palavras corretas.

— É um prazer te conhecer, . — nem mesmo conseguiu terminar a frase, e seus olhos encheram de lágrimas, sentia-se culpado internamente, e estava em busca de rendição — Imagino que os anos, devem ter sido dolorosos, e me sinto culpado por isso… Em uma época de escuridão em minha vida, as pessoas me chamavam de Neguinho… E por causa de escolhas erradas que fiz na minha vida, muitas pessoas sofreram com isso, e você foi uma delas com a perda da dona Célia…

Os olhos de também estavam marejados, e sem perceber, ela apertou a mão do marido. Internamente, seu coração seguia lutando para não abrir a porta para a tristeza que parecia chutá-la com força. Ela não queria reviver a dor da perda novamente, voltar a escuridão da raiva e amargura, da qual havia sido resgatada. E se perguntava o motivo de ter que passar por aquilo, se aparentemente estava tudo aparentemente bem.

Mas logo lembrou-se das palavras do marido.

Pacote completo.

Sua presença ali tinha propósito.

— Me perdoa… — pediu Marcos, ao escorrer a primeira lágrima, com o coração queimando de arrependimento — Por favor.

Um ador se formou na garganta de , acompanhado das lágrimas que escorriam sem cerimônias de seu rosto. Aquele era o propósito real de Papai para a viagem de lua de mel. Antes de desfrutarem do que Deus havia escrito para aquele tempo, ainda precisava passar pela última fase de seu processo de cura interior.

A fase do perdão.

— Marcos… — o balançar positivo de seu rosto, veio juntamente com as lágrimas que escorriam com precisão — Eu te perdoo… Se perdoe também!

Não era apenas um coração que estava sendo transformado e restaurado naquela tarde, mas de ambos as vítimas das circunstâncias da vida.

--

— Você sabia que tudo isso ia acontecer?! — indagou ela, assim que chegaram na estação Liberdade.
— Para ser honesto… Não. — respondeu , enquanto caminhavam de mãos dadas
— Mas estou feliz pelo que aconteceu… Em tudo Papai trabalha.
— Sim. — assentiu com um sorriso — Me senti ainda mais leve, depois de conversar com o Marcos… A infância dele foi tão difícil quanto a minha.
— Quando se nasce em um lar agressivo, você se torna assim. — comentou , sua percepção da história — Um produto do meio.
— Estou feliz que Papai tenha resgatado ele, também. — um suspiro esperançoso.

Instantes de silêncio.

— Que tal voltarmos ao hotel? — sugeriu a jovem, ao olhar o céu estrelado, e num tom melódico — Estou sentindo minhas forças indo embora…

Fazendo referência a um louvor brasileiro.

— Não se preocupe, seu marido fará uma oração fervorosa por você. — piscou ele, com certa malícia.

O que lhe arrancou uma gargalhada engraçada.

— O que eu menos vou deixar nessa viagem, é a senhorita descansar. — brincou, quanto a abraçava por trás, acompanhando seu ritmo de andar.
— Seu pervertido. — sussurrou, rindo baixo.
— Calúnia e difamação. — reclamou, fazendo o ofendido — Sou apenas um homem apaixonado que deseja sentir o calor do corpo de minha esposa.
?! — em um tom repreensivo.
— O que?! — questionou, segurando o riso.
— Está me deixando constrangida. — explicou, se encolhendo um pouco, ao senti-lo beijando seu pescoço de leve.

Desta vez, ele soltou uma gargalhada boba e descontraída.

Quanto chegaram ao hotel, enquanto desviou para um mercadinho perto para comprar o jantar improvisado, aproveitou o momento de solitude para tomar um banho quente e relaxante. Quanto retornou ao quarto, com seu pijama confortável, o marido já estava presente, ajeitando as sacolas em cima da mesa e retirando as bandejas de sushi que tinha comprado, juntamente com as outras coisas.

— Você foi rápido. — comentou, ao dar alguns passos até a cama e se sentar o observando.
— Deixei para comprar mais coisas amanhã com você. — explicou ao terminar, e olhá-la com carinho — Como foi o banho?
— Quentinho. — respondeu, observando sua aproximação — Te aconselho a experimentar…

Um sorriso sugestivo vindo dele.

… — ela se encolheu um pouco, ao senti-lo tocar em seu rosto — Não deveria tomar banho antes?!

Ele riu baixo.

— Você não imagina o quanto eu estou me segurando… — comentou, fazendo uma cara de criança abandonada — Só tinha a permissão para tocá-la, após a nossa visita de hoje.

Aquela informação a impressionou.

— Não está cansado?! — indagou a esposa, sentindo o coração acelerar com a aproximação sinuosa dele.
— Você está?! — retrucou, ao se inclinar ainda mais e beijá-la no pescoço.
— Horas de voo, fortes emoções?! — continuou ela, sentindo cócegas com os lábios dele bem próximos do seu pescoço.
— Você dormiu no avião, lembra?! — argumentou, ao observar o corpo da esposa tocar a colcha da cama — E teve aquele cochilo depois do café da manhã…

O olhar manhoso de era praticamente irresistível.

Um sorriso de canto vitorioso que arrancou risadas de , e um olhar profundo que a fez sentir um breve arrepio pelo corpo. As mãos quentes de a tocou com delicadeza, em um deslizar sutil que lhe transmitia respeito e aconchego. Um silêncio doce pairava pelo quarto, com o fundo sonoro de dois corações acelerados e ansiosos por descobertas mútuas.

— Posso te confessar uma coisa?! — manteve seu tom sério, com um toque de serenidade.
— Sim. — assentiu ela, intrigada.
— Queria poder dizer que é a primeira em minha vida… — sua voz falhou, arrependido pelos erros de sua fase de amargura — Me perdoe por…

Com um brilho sutil nos olhos, sorriu ao sentir verdade em seu olhar, e erguendo de leve a mão, tocou em seu rosto.

— Tudo bem… — afirmou ela, demonstrando não estar chateada com a informação, apenas levemente surpresa — O que importa é que agora, eu serei a única.

assentiu, retribuindo o sorriso com outro, enquanto se aproximava para tocar seus lábios aos dela, em um beijo terno e regado a malícia, que tanto reprimia internamente. Com a crescente veemência, em um gosto doce que definia o sabor, o tom e a intensidade que seguiria naquela noite.

O sabor do amor…

O tom da entrega…

E a intensidade do desejo.


— Posso considerar um game over?! — sussurrou ele, intencionalmente.

Em certa entonação que lhe causou arrepios involuntários.

, pode não ser a sua primeira vez, mas… — ela ambicionava relatar sua inexperiência, ainda que envergonhada com o assunto — É a minha.
— Não se preocupe… — assegurou, ao deslizar sua mão direita pela cama até encontrar a dela, entrelaçando seus dedos — Serei o mais sutil que conseguir.

Outro beijo no pescoço de sua amada…

sabia que precisava ir devagar, contudo, quanto mais tentava se segurar para não assustar sua esposa, mais desejo ele sentia sendo externado nas muitas carícias que lhe propunha. O que começou com sutileza e toque delicados, gradativamente foi sendo preenchido com a intensidade que o rapaz guardou todo aquele tempo. Como um sagaz explorador, com a missão de mapear cada centímetro da mulher que tornava seus sentidos mais aguçados.

Enquanto , se permitia ser amada da forma mais sublime e vigorosa, que nunca imaginou ser. E sentia-se grata por aquele momento, realizada por ter se casado com seu melhor amigo, um homem que a compreendia e conhecia suas limitações. Físicas, emocionais e sentimentais. A jovem estava entregue aos braços do marido que perseverou bravamente para que aquele momento fosse possível em suas vidas.

— Eu te amo. — sussurrou , após sentir um leve gemido soar de sua esposa.

A ferocidade pelas inúmeras descobertas que lhes aguardavam, crescia a cada segundo, enquanto finalmente compreendiam a expressão “dois se tornando um”.

Como de fato se tornaram.

El pasado es un mal sueño que acabó
Un incendio que en tus brazos se apagó
Cuando estaba a medio paso de caer
Mis silencios se encontraron con tu voz.
- Creo En Ti / Reik

Ensinamento: Sabedoria e gratidão a Deus.

21. Ester

"Não comam nem bebam durante três dias e três noites.
Eu e minhas criadas jejuaremos como vocês.”

- Ester 4:16 2 anos depois…

Ao contemplar a natureza, vemos e observamos seus detalhes…

Como pode um planeta vivenciar duas estações diferentes e distintas ao mesmo tempo? Assim é a nossa vida em sua luta da carne contra o espirito, dois pólos opostos em sua guerra diária para declarar quem direciona nossas ações e decisões. Enquanto em Manhattan, o frescor do outono se apresenta através das folhas secas das árvores, em São Paulo, o jovem casal Baker — que desfrutava de duas semanas de férias premium — vivenciava a beleza da primavera. A cidade brasileira em suas cores radiantes, sendo liderada pelo majestoso Ipê Amarelo.

— Está pronta?! — indagou , ao olhar para a esposa, tentando descobrir seus muitos pensamentos.
— Sim. — assentiu, ainda nervosa pela situação.

Aquela visita ao país não era meramente um passeio.

Tinha uma finalidade, um propósito de extrema importância do qual mudaria a vida das pessoas envolvidas. Ao longo dos dois primeiros anos de casados, por influência do marido e em sua busca de alegrar o coração de Papai todos os dias, aceitou fazer parte da Ong e ser instrutora de artes para as crianças. Um projeto pequeno e singelo que rompeu as fronteiras da distância, sendo implementado no Brasil, através de uma parceria com a igreja do pastor Jonas. Iniciando com as crianças da comunidades, até alcançar as crianças do orfanato Lar de Paz — denominado formalmente como o Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes. O lugar, situado na região de Santo André, que abriga atualmente cerca de trezentas e trinta e cinco, entre crianças e adolescentes, já chegou a marca de quinhentas e sete.

E foi em uma visita de para treinar os instrutores brasileiros com a companhia do marido, que seu coração bateu forte por uma história em específico. Um menino pequeno e temeroso, com olhar triste e assustado, que por um gesto gentil da jovem, assentiu a uma breve experiência de desenhar juntos. Com isso, uma semente foi plantada no coração dela, crescendo e se tornando a ideia que jamais imaginou ter.

Adotar uma criança.

sabia o quão importante havia sido para ela a experiência de ser adotada por um casal amoroso e temente a Deus. E no fundo, entendia que Deus queria usá-la da mesma forma para alcançar outra criança que necessitava receber amor e carinho, como ela recebeu um dia. Uma criança que assim como ela, de origem humilde, perdeu os pais aos quatro anos de idade de uma forma trágica e dolorosa, rejeitado pelo restante da família e, após mais três anos naquele lugar, continuava sem perspectiva de ser adotado por seu considerável grau da síndrome do espectro autista.

— Senhor Baker e senhora Baker. — o som da voz da assistente social, fez o coração da jovem acelerar um pouco.

Mesmo com o apoio do marido…

Mesmo sabendo que era uma vontade do Papai, mesmo após seis meses de jejum e orações contínuas, seu interior continuava em conflito. A confiança em Deus lutando e blindado-a contra as ondas de dúvidas que batiam na porta do seu coração. Um respiro profundo, a mão quente e encorajadora de segurando firme na sua, com um olhar sublime e sereno que transmitia segurança a esposa, mesmo o rapaz também estando em plena ansiedade internamente.

Afinal, a missão dele era ser seu porto seguro.

— Finalmente chegamos a fase final deste processo. — disse a mulher, assim que ambos entraram na sala e sentaram nas cadeiras.
— Sim… — assentiu ela, apertando de leve a mão do marido — Não imagina o quão ansiosos estamos.
— Conseguimos a permissão para adotar o Jeremy?! — indagou o marido, em oração internamente pela resposta.

Naqueles seis meses, ele havia ousado na fé e estendido o jejum de Daniel de vinte e um dias, para todo o tempo de oração. Sabendo que não seria fácil pela burocracia da justiça brasileira, e dos desafios futuros que enfrentariam, devido ao histórico sócio-familiar e psico-mental da criança.

Um breve silêncio regado a suspense da assistente social.

— Sim. — afirmou a decisão final do juíz — Vocês conseguiram a adoção do pequeno.

Um suspiro de alívio vindo de , que ao olhar para o esposo, recebeu um abraço apertado e emocionado do mesmo. Com o coração grato a Papai, por lhe permitir ter uma família, como também lhe usar para abençoar e amar um pequeno ser de passado tão sofrido quanto o dela.

— Podemos levá-lo pra casa hoje? — indagou , tentando controlar a ansiedade pela boa notícia.
— Sim e não. — respondeu a mulher, rindo de nervoso — Vocês podem buscá-lo no centro de acolhimento, porém, a criança ainda não pode deixar o país.

Um minuto de silêncio para o choque de realidade.

— Eu não me lembro de ter sido tão demorado quando fui adotada. — tentou controlar seu tom de reclamação.
— Bem, algumas regras foram mudadas e precisarão de mais quinze dias no país para adaptação da criança com vocês, principalmente considerando ser uma criança especial. — explicou a assistente — E se eu não me engano, é o tempo que levarão para fazerem o passaporte dele.

O casal assentia a realidade, esperançosos de que nada iria atrapalhá-los.

— Não se preocupe, querida. — disse , ao aninha-la passando o braço envolta de seu ombro, enquanto seguiam para a saída — Lembre-se de Romanos 8:28.

Em silêncio, ela assentiu.

Não se deixaria abater por um simples obstáculo, que Papai tinha o poder de resolver. Assim, seguiram de Uber para o orfanato, com as funcionárias já informadas da decisão judicial, a criança se encontrava na sala da diretora, esperando o casal chegar. O encontro dos novos pais com o pequeno foi de grande emoção para os envolvidos, tanto que não conteve suas lágrimas assim que, por uma surpresa, recebeu o abraço espontâneo do filho, quando lhe entregou um lápis de cor para atrair sua atenção.

Até mesmo sentiu os olhos marejados no canto.

— Gostaria de ir embora com a gente, dessa vez? — perguntou ela, em seu tom baixo e doce, com um sorriso singelo no rosto.

A criança balançou a cabeça positivamente.

A forma em que o casal Baker havia se conectado com o pequeno, tinha sido uma surpresa até mesmo para os funcionários do centro de acolhimento. De todas as pessoas que se aproximaram do menino, havia sido a única a despertar sua atenção e afeto em um curto espaço de tempo, o que ajudou e reforçou a decisão do juíz.

— Você pode escolher então… Vai andar de mãos dadas com a mamãe, ou quer que o papai te carregue? — propôs , ao se abaixar, para ficar da sua estatura.

Segundos de reflexão em silêncio…

Até que Jeremy deu um sorriso para seu novo pai e o abraçou em resposta. Um quentinho se instalou no coração do rapaz, o deixando ainda mais emotivo, por saber que a criança também o havia aceitado em sua vida, não apenas a esposa. No final, sua preocupação em não conseguir conquistá-lo havia se dissipado com aquele pequeno gesto da criança.

— Um a zero para o papai! — brincou ele, num tom orgulhoso, ao piscar de leve para a esposa.

Fazendo-a soltar uma gargalhada espontânea.

e seu famigerado lado competitivo.

Assim que chegaram ao Gloria Plaza Hotel, com apenas uma mochila com três peças de roupa que a criança possuía, os deixou seguir para o quarto, enquanto desviou seu caminho para a loja de roupa infantil mais próxima que tinha. A finalidade era apenas comprar um pijama e outra peça mais casual, para poderem vesti-lo no dia seguinte. Afinal, não poderia negar a esposa a função de escolher as roupas do filho.

— Voltei. — disse ele, assim que abriu a porta do quarto.
— Onde você foi? — indagou, não compreendendo sua ausência repentina. — Improvisar. — respondeu, erguendo a mão direita e mostrando três sacolas grandes.
— O que comprou? — pegando as sacolas, ela adentrou mais o quarto, em direção a cama de casal.
— O básico para hoje, e amanhã podemos ir às compras. — explicou sua lógica de pai.
— Não acho prudente comprar nada aqui no Brasil, é tudo muito caro. — argumentou ela, com sabedoria, cortando os planos dele — Além do mais, tenho certeza que nossas mães já estão cuidando do guarda-roupas dele… O que significa que podemos economizar.
— Pensando assim… — refletiu por um instante — Tem razão.

Com um sorriso bobo no rosto, deu alguns passos até ela.

— Uma mulher sábia que edifica a sua casa. — piscando de leve, lhe roubou um selinho rápido.

No susto, se encolheu, constrangida pela presença da criança ali.

… — em tom de repreensão, apontou com o olhar para o motivo.
— Milady… — com um olhar malicioso, ele envolveu os braços ao redor dela — Não se preocupe, eu sei ser discreto.

Ela não se conteve em soltar uma risada leve, mantendo o olhar no filho.

— Obrigado. — sussurrou .
— Hum… — ele se mostrou pensativo — Este obrigado foi por eu ter aceitado embarcar neste desafio com você, ou por Papai ter planejado tudo isso?
— Pacote completo. — respondeu, com segurança.

Mais um selinho roubado por ele.

— Então rapazinho… — ao se afastar da esposa, seguiu até a cama de solteiro que tinha ao lado no canto — Que tal um banho e desfrutar das delícias que compramos para comer?

Jeremy que estava concentrado no cubo mágico em sua mão, voltou o olhar para ele, atento.

— Que delícias? — indagou .
— Estão na sacola, milady. — respondeu ele, esticando a mão para o filho — Vamos tomar um banho, Jeremy.

Após segundos assimilando seu novo nome, a criança deixou seu cubo mágico em cima da cama e se levantou, seguindo com o pai para o banheiro. pegou uma toalha limpa e deixou em cima da tampa do vaso, com tranquilidade, explicou a ele como funcionava o chuveiro e o deixou sozinho no banheiro para lhe dar privacidade.

— Encontrou nosso jantar? — perguntou ele.
— Não acho muito certo um festival de Elma Chips para o jantar. — questionou ela, se referindo aos muitos pacotes de salgadinhos que ele comprou — Jeremy é uma criança em fase de desenvolvimento, não deveria comer algo mais saudável?
— Milady… — passou lentos e cautelosos até ela — Hoje é um dia especial, vamos abrir uma exceção.
Baker?! — seu tom repreensivo soou com leveza.
— Te amo… — sussurrou ele, não se importando com os protocolos e a beijou com ternura e malícia.

Um beijo longo e demorado, que lhe transmitiu todas as intenções obscuras do marido em relação às intimidades do casal.

… — soou num tom ofegante, com o acelerar do seu coração — Sabe que não podemos… Não nessas circunstâncias.
— Eu sei… — assentiu, mantendo seu rosto próximo o suficiente para sentir a respiração dela — Mas isso não me impede de desejá-la ardentemente.

O toque do marido em sua cintura, fez seu corpo arrepiar.

— O chuveiro desligou. — anunciou , ao assimilar.

O rapaz apenas afastou-se dela, e sentou na beirada da cama. Precisava acalmar o caos interior e controlar seus instintos primitivos, aflorados pelo beijo. Em silêncio, observou o retorno do filho ao quarto, agora de banho tomado e trajando o pijama de dinossauros que comprou.

— Gostou do banho?! — indagou , ao se aproximar com um sorriso no rosto.

Jeremy balançou a cabeça positivamente.

— Está com fome?! — continuou a mãe.

Mais uma resposta silenciosa, porém, afirmativa.

Entrando na proposta de , o jantar foi regado a salgadinhos variados com suco de uva natural, acompanhado de uma divertida sessão de cinema com alguns desenhos esquecidos e pouco prestigiados como Dinossauros, que se mostrou ser o favorito da criança. Na metade do terceiro filme, mãe e filho já estavam em sono profundo, e a forma em que Jeremy havia se aconchegado nos braços de sua esposa, o fez não atrapalhar e apenas desligou a televisão. Aproveitando a deixa, para espantar seus pensamentos impróprios para menores de dezoito anos — que manteve seu corpo em oscilações todo aquele tempo — seguiu para o banheiro, em busca de um banho gelado para acalmar seus ânimos.

— Perdestes o sono, milady?! — o tom baixo, porém firme de , soou pelo banheiro, ao sentir o corpo da esposa encostar ao seu, enquanto lhe abraçava por trás.
— Não, meu senhor… — respondeu ela, mantendo o dialeto vitoriano que sempre usavam em seus momentos de descontração — Vossa esposa apenas sentiu vossa ausência.

Um sorriso de canto formou-se no rosto dele, que se virou de imediato para olhá-la.

As pupilas dos olhos dele se dilataram ao testificar a falta de roupas na esposa, lhe transmitindo sugestivamente a proposta silenciosa dela. Um toque malicioso do marido em sua cintura, para que sentisse seu corpo arrepiar, assim como o coração em crescente aceleração pela sutil aproximação dele.

… — sussurrou ela, num tom temeroso.

Havia uma criança no ambiente ao lado.

— Não se preocupe… — sussurrou ele, de volta, ao encostar os lábios em seu pescoço por segundos tendenciosos — Eu sei ser silencioso.

Intensidade e êxtase que havia proposto mostrou a ela novos lados do marido que ainda não conhecia. Deixando-a surpresa e parcialmente intrigada por espontaneamente desejar mais das carícias que lhe eram apresentadas.

--

Os dias determinados para a espera finalmente se completaram.

Com um pedido de urgência para a confecção do passaporte de Jeremy, o visto da criança para os Estados Unidos da América foi um mero detalhe do qual não houve burocracia, pelo histórico dos pais morando no país a anos. Com trabalho formal e moradia fixa, o casal não teve nenhum problema com a volta para casa. Tendo uma calorosa recepção de boas-vindas dos familiares e amigos íntimos como Louise e Cristina.

— Ele é tão fofo… — disse Cristina, ao olhar com carinho para a criança — Já sou a madrinha dele.
— Como assim, dona Cristina? Quer chegar sentando na janela?! — reclamou Louise.

Fazendo-os rir.

— Eu sendo a avó, não tem como ninguém tirar isso de mim. — brincou Sophie, deixando soar seu tom frustrado pela falta de empolgação do neto — Mesmo que ele não demonstre tanto afeto assim.

O olhar de todos se voltou para a criança, que se mantinha alheia aos adultos, concentrado no cubo mágico em sua mão, enquanto embaralha as cores pela sétima vez, para resolvê-lo em seguida.

— Pare de drama, mãe. — pediu , balançando a cabeça negativamente — Nós explicamos por telefone a condição dele.
— Eu sei, filho ingrato. — reclamou ela, sua falta de empatia — Me deixa desabafar em paz.

Uma careta surgiu dela, que logo foi amparada pelo Thomas, com um olhar paciente.

— E já sabem como vão fazer?! — indagou Cristina, voltando a atenção para o casal jovem — Criar uma criança já não é fácil, imagina sendo uma criança especial.
— Sabemos do desafio, mas… — se mostrou confiante — Não há dúvidas do propósito de Deus para nossa família, a forma em que Jeremy se apegou a nós é inexplicável.
— Sim. — concordou , com o olhar alegre — É como se ele fosse nosso filho biológico.
— Seus pais já estão em surto a caminho pra cá. — avisou Louise, ao abraçar a amiga mais uma vez — Sua mãe ligou hoje de manhã, antes de chegarem do aeroporto.
— Imagino que ela esteja trazendo um caminhão de malas com roupas de criança e brinquedos com ela. — comentou , rindo da cena que passou em sua mente.
— Não vou recriminá-la. — confessou Sophie — deixou a chave do apartamento de vocês comigo, o guarda-roupa não cabe mais nenhum alfinete.
— Mãe, eu disse pra senhora não exagerar. — um tom repreensivo dele.
— Já disse, deixa de ser chato, é meu primeiro neto. — reclamou mais uma vez — Não sabe o quanto eu orei por isso.

Eles riram.

— Estou curiosa para saber qual era o nome do nosso pequeno antes. — indagou Cristina, sabendo que por nascer no Brasil, certamente seu nome não era originalmente americanizado.
— Jeremias. — respondeu , explicando — Decidimos não mudar, apenas trocar para a versão em inglês.
— Uma nova vida, um novo nome. — completou — Porém, mantendo o mesmo significado… Nosso filho será um grande profeta.

Todos concordaram com as suas palavras.

— Estamos muito felizes com a chegada do Jeremy em nossa família. — anunciou Thomas, orgulhoso do crescimento e amadurecimento do filho.

Principalmente, após o curto espaço de tempo em que o rapaz se perdeu na vida.

— Mas ainda quero mais netos correndo pela casa. — continuou o avô apressado, em seu desejo de família grande — Vocês são jovens e vigorosos.
— Pai?! — franziu a testa embasbacado com ele.

Mesmo acostumado com as alfinetadas dos pais e sogros sobre os netos, e fazendo brincadeiras com o assunto, naquela vez ele sentiu o constrangimento de sua esposa lhe afetar sutilmente.

— Desculpe… — disse o homem, se recompondo — Me desculpe, , sei que fica envergonhada com esses assuntos.
— Tudo bem. — assentiu, voltando o olhar com discrição para o marido.

entendendo o recado.

— Família, temos que ir agora. — anunciou ele — Mal chegamos do aeroporto e viemos para cá, precisamos descansar.
— Sim, Jeremy ficou bastante cansado da viagem. — esclareceu a mãe.

Mesmo contrariados, os sogros, Cristina e Louise se despediram deles.

Em mais felicitações pela conquista da adoção e chegada da criança ao novo lar, o jovem casal seguiu de Uber para o apartamento onde moravam. Uma modesta cobertura a oeste do Bronx, um bairro mediano que lhes proporcionava uma localização estratégica para o trabalho e para o hostel. O prédio de cinco andares, lhes dava uma vista privilegiada para o Jardim Botânico de New York, totalmente preparado por Papai. Três quartos com dois banheiros, sala e cozinha em conceito aberto e o terraço que havia se transformado no espaço home-office do casal, com um estúdio em estrutura de metal e fechamento todo em vidro blindex montado ao canto perto da porta de passagem, e um caprichado jardim ao longo do restante de sua extensão. Contemplado por um projeto de paisagismo executado pela própria , em seus conhecimentos adquiridos por sua pós-graduação em design de ambientes.

— Ele dormiu. — comentou , assim que entraram no apartamento, e notou a criança desmaiada nos braços do pai.
— Estava cansado. — concordou seguindo para o corredor dos quartos — Vou colocá-lo na cama.
— Me sinto grata por seus pais terem nos ajudado com a montagem do quarto dele e na compra dos móveis. — contou ela, o seguindo — Mesmo a hipoteca do apartamento sendo moderada, teremos mais gastos a partir de agora.
— E eu grato por seus pais nos ajudarem com as passagens de última hora e a estadia no Brasil. — completou ele, grato pela família que os apoiava.

Com cuidado, colocou o filho na cama e o cobriu com carinho.

Um beijo na testa de ambos os pais, e mais um momento de contemplação pela conquista. Um recomeço para Jeremy e uma sensação de dever cumprido do casal, por abrir o coração para receber aquela criança e prometer cuidar e amá-la como Papai pediu.

E honrá-lo com essa tarefa.

— Estou sentindo minhas forças indo embora... — cantarolou , ao se jogar no sofá da sala — O que vem agora?!
— Mais jejum e oração. — brincou , de falar sério ao se sentar do seu lado — Temos a responsabilidade sobre ele agora, de exercer Provérbios 22:6.

Enfatizando a missão deles.

— Ensina a criança no caminho em que deve andar. — sussurrou ela, lembrando-se do versículo, aninhando nos braços dele.
— Me sinto grato… — continuou, mantendo o tom baixo — Grato por Papai não ter desistido de nós, pela nossa família… Pelo propósito dele em nossa vida.
— Eu também. — concordou ela, com o sentimento ardendo em seu coração — Sou grata por Papai não ter desistido de nós… Por você não ter desistido de nós… Por sermos uma família agora… Pacote completo!

não conteve sua emoção e felicidade pelas palavras dela.

Deixando externar a gratidão que sentia através de um beijo singelo e doce, que a fez sentir um quentinho aconchegante no coração. Ambos passaram algum tempo abraçados no sofá, contemplando a vista da natureza que tinham através da porta de passagem para a varanda. Até que se levantou primeiro para tomar um banho relaxante, do qual tanto precisava. Assim que retornou ao quarto, a jovem se deparou com o marido sentado na cama com o notebook aberto, parecendo estar concentrado em algo.

— O que tanto digita aí?! — indagou ela, intrigada.
— Estou enviando alguns emails que esqueci. — respondeu, mantendo a atenção no trabalho.

Com a ajuda e intercessão de Papai, ambos tinham conseguido a liberação de suas empresas, para trabalhar em estilo home-office até conseguirem se adaptar à nova realidade da família, com a presença de uma criança especial.

— Hum… — dando mais alguns passos até a cama, parou no seu lado e se ajoelhou na beirada para agradecer pelo dia que se encerrava.

entendeu o recado e pegando o notebook, retornou à sala para finalizar sua tarefa esquecida. Duas horas depois, o rapaz voltou ao quarto e notando a esposa em profundo sono, seguiu para o banheiro. Era sua vez de um banho quente para relaxar os músculos e clarear a mente, separando as informações importantes e excluindo as desnecessárias. Ao se deitar na cama, logo sentiu a aproximação involuntária de , se aconchegando em seu corpo, pedindo para ser aninhada.

Não teve como resistir.

No meio da madrugada, a jovem despertou de seu sono e sentiu a cama vazia ao lado. Intrigada, abriu os olhos e constatou a ausência do marido. Levantando em plena curiosidade, saiu do quarto para procurá-lo e, antes de sair do corredor, abriu com sutileza a porta do quarto de Jeremy, vendo-o dormir tranquilamente, abraçado ao seu dinossauro de pelúcia, com o cubo mágico ao lado.

Um sorriso espontâneo se formou no rosto da mãe.

— Perdeste o sono, milorde. — num tom baixo, se aproximou do marido que estava encostado na porta para a varanda.
— Não. — respondeu, com um sorriso singelo para ela, observando-a se aproximar com graciosidade — Apenas acordei para orar e não quis voltar para cama, para não acordá-la.
— Pior é acordar e não vê-lo ao meu lado. — reclamou, com o olhar chateado — Poderia ter me acordado para orarmos juntos.
— Era necessário fazer isso sozinho, milady. — retrucou ao pegar com leveza em sua mão, e puxá-la para mais perto — Mas agradeço vosso comprometimento em auxiliar com sabedoria o vosso marido… Minha lady virtuosa, mais valiosa que muitos diamantes!

Um sorriso singelo vindo dela, que em ousadia lhe roubou um selinho rápido.

— Eu que vos agradeço, milorde, por vosso comprometimento em ser um sacerdote honrado que ora por vossa família. — completou ela, com uma ponta de brilho no olhar — Eu vos amo e…

Nem mesmo conseguiu terminar a declaração, sendo interrompida por um beijo apaixonado e intenso de . Em uma pitada de malícia, que lhe deixava a entender as intenções do marido, com as carícias provocantes originadas de seus toques precisos ao corpo da esposa.

… — sussurrou ela, ao retormar seu fôlego.
— Não precisa dizer… — pronunciou, ao imaginar o que ela falaria — Me lembro perfeitamente que temos uma criança no nosso lar, agora.

Ela deu uma risada baixa e boba.

— Não era isso que eu ia dizer, mas… — rindo novamente — Que bom que não se esqueceu.
— E o que ia dizer, então?! — indagou, curioso.
— Tenho algo para te contar… — prosseguiu, escolhendo as palavras com delicadeza — Algo que descobri em nossa viagem ao Brasil.

Um breve silêncio pairou entre eles, chegando a ser perceptível a audição o barulho dos carros que passavam ao longe nas ruas laterais. O olhar atento a esposa, esperando pelo restante de sua fala.

— O que quer me contar? — perguntou, tentando não demonstrar preocupação prévia.
— Lembra do dia em que tive um mal estar? — continuou ela.
— Sim. — assentiu — O que tem?!

Sem que houvesse mais nenhuma palavra, pegou na mão direita do marido e a colocou em sua barriga, na altura do útero, mantendo o olhar sereno e intencional. Alguns instantes de reflexão para assimilar o gesto dela, até que finalmente entendeu o recado.

— Não está falando sério, está?! — indagou, sentindo-se desnorteado por segundos — … Você está…
— Minha menstruação está atrasada há três meses, e com a ajuda da senhora Layla, fiz o teste em um laboratório sem que soubesse. — esclareceu ela, sem mais detalhes.
— Nunca confie em um passeio das garotas. — pensou em voz alta, ainda estático com a notícia.
, você está bem?! — perguntou a esposa, se preocupando com a reação estranha dele.

Um riso a princípio nervoso, que virou animação.

O rapaz se inclinou para beijar a barriga da esposa. Não sabia expressar em palavras o que sentia, mas externou com mais um beijo regado a profundidade e sutileza. Deixando seus rostos colados por um tempo, enquanto acalmava o coração em euforia pela notícia.

— Eu te amo, sabia?! — disse ele, em êxtase.
, eu não terminei. — manteve a serenidade no olhar, ao se afastar um pouco para olhá-lo.
— Como assim, não terminou? — indagou, confuso — O que mais teria para contar?
— Como eu posso te dizer… — ela respirou fundo, pensando — Acho que já sei.

Rindo um pouco.

— Milady, estás a deixar o vosso marido nervoso. — reclamou ele.

Arrancando outra risada dela.

, como um bom leitor da Bíblia, me responda… — instantes de coragem, formulando a charada na cabeça — Quantas nações haviam na barriga de Raquel?

Mais alguns instantes para ele absorver e traduzir a informação.

… — o sussurro dele veio acompanhado de um olhar marejado — Gêmeos???!!!

O assentir da esposa com um sorriso, fez seu coração preencher cada espaço de gratidão a Deus, por tudo que estava vivendo. Mesmo sabendo que não seria fácil lidar com a adaptação de Jeremy e a gravidez repentina da esposa, que no futuro seriam três crianças para dar amor incondicional e atenção mútua sem favoritismos, os desafios e pressões no trabalho, suas responsabilidades como o sacredote daquele lar, sem deixar que tudo aquilo prejudique seu casamento.

tinha a certeza que seu equilíbrio e apoio, estava em Cristo, o sumo sacerdote daquela família.

— Não imagina o quão feliz e grato estou… Mesmo com receios de falhar com vocês… — iniciou ele, externando suas preocupações momentâneas.
… — interrompeu ela, com o olhar de quem confiava no marido — Você não vai falhar, porque tudo o que faz… E tudo o que fez por nós dois, foi através da direção do Papai.

No impulso do coração aquecido pelas palavras da esposa, a beijou sem cerimônias, e com a intensidade de sempre, em uma forte veemência e desejo pela esposa.

… — tentou repreendê-lo, ao ser pega no colo — Precisa ter mais cuidado a partir de agora.
— Milady… Não vos preocupais, vosso marido é especialista em manter o cuidado. — e sussurrando em seu ouvido — E sei ser sutil também.

Aquelas palavras intencionais lhe arrancou uma risada boba e descontraída.

O olhar profundo de , a faz lembrar da primeira vez que o viu… Em um filme que passou em sua cabeça no curto espaço de tempo no percurso da sala até o quarto do casal. Toda a trajetória que percorreram até ali, não tinha apenas a finalidade de uní-los como um casal, mas de formar uma família com o acréscimo de Jeremy e dos gêmeos que em breve chegariam.

Mas ainda não seria a conclusão de tudo…

Ainda havia um longo propósito a ser cumprido…

Para finalmente chegar em II Timóteo 4:7

"I am yours
Eu sou seu
Not because of who I am
Não por causa de quem eu sou
But because of what you've done
Mas por causa do que você fez
Not because of what I've done
Não por causa do que eu fiz
But because of who you are.
Mas por causa de quem você é."
- Who Am I / Super Junior


Ensinamento: Jejue e cumpra seu propósito.



FIM!



Nota da autora:
Bom dia! Minha segunda longfic cristã, baseada em grandes mulheres da Bíblia e seus ensinamentos sobre fé, coragem, ousadia e confiança. Além de agora ser de outro grupo gospel que amo, o Hillsong United! Espero que tenham gostado e sejem ministrados por mais essa história.
Bjinhos...
By: Pâms!!!!
Jesus bless you!!!




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