CAPÍTULOS: [Prólogo][1][2][3][4][5]




Última atualização: 13/04/2017

Prólogo


A história que vou contar agora pode parecer triste para umas pessoas e surreal para outras, mas independente de tudo o que achar, irá te fazer pensar em muitas coisas. Tudo começa com duas vidas vazias que se cruzam as margens de uma praia na ilha de Jeju, se foi amor à primeira vista eu não sei, mas tudo que parece ser perfeito tem seu defeito, e aquele casal tinha um obstáculo. A garota era cega e mesmo tendo ao seu lado alguém tão apaixonado e disposto a enfrentar os preconceitos, ela ainda era infeliz e se odiava pelo fato de ser cega.

Isso fazia com que seu ódio espalhasse para as pessoas em sua volta, porém o único sentimento bom que a mantinha com esperança era seu amor por seu namorado. Em um dia, com lágrimas escorrendo em sua face, e o coração doendo por não poder ver a face da pessoa que mais amava na vida, ela disse a ele.

— Se eu pudesse ver o que mais amo no mundo, eu me casaria logo com você.

Para aqueles que não acreditam em milagres, devo contar que aconteceu na vida dela, em um dia de benção, ela recebeu a notícia que alguém havia doado um par de córneas a ela. Sem pensar em mais nada e se preocupar em saber quem era o doador, a família da garota assentiu e ajudou com os custos do hospital. Fizeram imediatamente a operação, tudo ocorreu bem e sua reabilitação pós-operatória foi um sucesso na opinião dos médicos. Foi então, na alta do hospital, que o seu namorado chegou com flores pra ela e perguntou:

— Agora que pode ver, você se casa comigo?

A garota estava chocada, quando ela viu que seu namorado era cego. Aquele momento era importante para o namorado, afinal ele havia esperado tanto para que ela finalmente pudesse vê-lo, mas nem tudo são sorrisos e comemorações. A garota devolveu as flores para ele, juntamente com a resposta que ninguém imaginaria sair de sua boca.

— Eu sinto muito, mas não posso me casar com você! Porque você é cego.

O namorado afastando-se dela lentamente em lágrimas, desabafando:

— Por favor, apenas cuide bem dos meus olhos... Eles eram muito importantes pra mim.

______________________________________

Como eu disse é algo difícil de imaginar, poderia ser até uma história de reflexão sobre a vida, se esta história não fosse minha. Sim, sou eu, o namorado que doou as córneas e perdeu o coração.

“As palavras que estou dizendo agora,
Não sei se irão te machucar,
Elas provavelmente farão você me odiar para sempre.”
- Lonely / 2NE1



Capítulo 1


Foi doloroso nos primeiros anos, não somente por ter que me adaptar a nova situação física que me encontrava, mas a parte de ter que aceitar que a garota que eu pensava que me amava, havia me deixado. Admitir que aquelas palavras tão duras saíram de sua boca, fazia meu coração se rasgar em mil pedaços. Me sentia envergonhado perante minha família, eles eram contra o que eu tinha feito, mas não estava arrependido, era uma prova de amor para a garota que eu amava.

Infelizmente, ela percebi tarde demais que ela não me amava na mesma proporção, e toda essa reviravolta me fez ser expulso de casa e ir morar do outro lado do mundo, com a única pessoa da família que me estendeu a mão, meu primo . Morar em Manhattan seria minha salvação e ao mesmo tempo consolo, morando de favor no apartamento do meu primo e sua noiva, mesmo que esse não fosse o único lugar que eu pudesse ficar, tenho certeza que não conseguiria ficar em Seoul.

Estava completando 7 anos na escuridão, passando a maior parte dos meus dias no quarto, ao lado da janela, tentar ouvir os pássaros cantando enquanto os carros passavam era minha distração favorita, e uma forma de elevar ainda mais meus sentidos, já que eu havia perdido um. Minha rotina era quebrada quando me arrastava para os lugares como se eu fosse uma criança. E naquele dia ele me arrastaria para uma cafeteria recém-inaugurada bem em frente ao prédio onde morávamos.

— Posso dizer o quanto não estou com a mínima vontade de sair? — disse pegando minha carteira em cima da mesa de canto ao lado da cama.
— Não. — ele riu com ar meio sarcástico — Já faz quinze dias que você não sai de casa.
— Então, seria uma pena se você não me deixasse bater meu recorde. — expliquei colocando meus óculos escuros — Não quero esbarrar em pessoas, não quero sentir perfumes fortes, não quero que o mundo me veja.
— Yah, pare de reclamar, você é o cego mais normal que eu conheço, as pessoas nem percebem se eu não falo. — retrucou ele como se fosse algo positivo em minha vida.
— Isso é porque eu sei disfarçar muito bem. — dei de ombros encostando minha mão direita na porta — E onde está sua noiva? Deveria levar ela.
— Ah, nem chegou aos setenta e já parece um velho ranzinza. — ele riu seguindo pelo corredor até a sala — Hoje é o dia dos homens, além do mais a está numa viagem a trabalho.
— Hum. — resmunguei o seguindo em direção a porta, porém ao passar pelo sofá esbarrei na mesa de centro batendo minha perna nela. — Yah.
— Oh, aish, eu esqueci de falar que ela trocou os móveis de lugar hoje cedo antes de ir.
— Não diga. — respirei fundo prendendo outro grito de raiva — Ela adora fazer isso quando vai viajar.
— Tenho certeza que logo você se adapta novamente. — senti ele prendendo um riso.
— Vamos, antes que que mude de ideia.

Para minha surpresa a cafeteria tinha um clima agradável e incomum, nada comparado as outras cafeterias que me levava. Assim que nos sentamos, comecei a perceber e distinguir toda a movimentação do lugar através da minha audição. Era um fato, para conseguir sobreviver, tive que evoluir todos os meus outros sentidos, fazendo-os ficarem mais avulsados, principalmente audição e olfato. Mesmo de óculos escuros e agindo o mais normal possível, sempre deixava escapar minha situação, eu sabia que não era má intenção dele, mas ficava com um pouco de amargura por isso.

— Bom dia, desejam fazer o pedido agora? — perguntou a atendente, tinha uma voz fina e um pouco aguda, aquilo machucava um pouco meus ouvidos.
— Claro. — respondi mais que depressa, não queria que ela demorasse, me senti um pouco zonzo pelo forte perfume dela.
— Então vou escolher por nós dois. — disse , senti que ele tinha movido o braço, deveria estar pegando o cardápio.

O perfume daquela atendente e sua voz aguda, estavam me deixando um pouco nervoso, e meu primo não estava percebendo o quanto sua demora era uma agonia para mim. Comecei a bater com meus dedos na mesa em uma sincronia, aquilo era um sinal para ser mais rápido, assim que ele fez o pedido e a atender se afastou, suspirei fundo.

— O que houve? — perguntou ele.
— O perfume dela estava me incomodando. — expliquei, respirei de leve e logo senti um cheiro mais agradável vindo da mesa ao lado.
— Bom dia, desejam mais alguma coisa? — perguntou uma voz diferente vindo da mesa ao lado, pude perceber que não era a mesma atendente, seu perfume parecia ser feito de essência de jasmim.
— Ah, não, obrigado, estamos satisfeitos. — disse uma voz rouca ao tossir um pouco.
— Se precisarem de algo, só chamar. — aquela voz sim, era suave e angelical, eram música para meus ouvidos.
— Quem era? — perguntei .
— O que? — perguntou ele como se não estivesse prestando atenção em mim.
— Perguntei quem era, falando ao lado.
— Uma outra atendente, eu acho. — ele parecia estar se espreguiçando na cadeira — Viva, nosso café chegou.
— Aqui está senhores, mais alguma coisa é só chamar. — disse a atendente de voz aguda, demorado alguns segundos para se retirar.

Seria demais querer que a outra atendesse nossa mesa também? Comecei a memorizar aquele perfume suave que havia sentido, pensando se realmente era dela, ou da senhora que estava acompanhando o homem da mesa ao lado.

? — disse — Está me ouvindo?
— O que? — movimentei minha face para a direção da voz dele — O que foi?
— Estou te perguntando se você vai aceitar a proposta de trabalho da redação. — explicou ele.
— Ainda não sei. — virei minha face, não queria tocar nesse assunto.
— Eu acho que deveria, você está parado há sete anos, precisa voltar a viver.

Fiquei em silêncio, enquanto ele falava, não conseguia mais pensar em nada, além da dona daquele perfume e voz, ela tinha roubado minha atenção. Meu foco era tanto, que assim que ela se aproximou da mesa ao lado novamente, eu acompanhei seus passos de volta até o balcão. No final do discurso de , que eu nem tinha ouvido, eu só concordei novamente dizendo que daria a resposta no dia seguinte, ficamos mais alguns minutos após o café, até que pagou a conta. Nunca fui tão lendo em me levantar e sair de um lugar, mas minha demora até chegar na porta tinha um motivo, aproveitei o “longo” caminho para rastrear a dona do perfume de jasmim.

Foi um tanto inútil, não senti aquele aroma agradável novamente. me deixou na portaria do nosso prédio e seguiu para a redação do jornal onde trabalhava. Mesmo sendo cego, ao longo desses anos eu tinha me acostumado com tudo, a distância dos lugares, o tempo que o elevador levava para subir até o meu andar, a disposição dos móveis no apartamento. Sempre demorava cerca de três dias para me adaptar a uma coisa nova em minha rotina, principalmente quando trocava os móveis de lugar, algo que tinha acontecido nesta manhã.

Eu não gostava de usar aquela bengala para deficientes visuais, já era triste e vergonhoso demais depender do meu primo, então eu me esforçava o dobro, por isso na maior parte do tempo eu andava normalmente, e torcia para não esquecer a trajetória do caminho e sempre confiando em minha audição. Assim que fechei a porta, caminhei até meu quarto, tocando de leve na parede em alguns pontos para me certificar que , não tinha trocado os quadros de lugar também.

— Mais um dia monótono. — suspirei fraco.

Meus dias eram todos assim, monótonos e solitários, minhas tardes em pelo silêncio e à noite lia alguma coisa para tentar dormir. Em raros momentos, ouvia do quarto os filmes que e assistiam na sala, eu até poderia me juntar a eles, mas me sentia desconfortável em atrapalhar o momento deles juntos. Sentei na poltrona que tinha ao lado da janela, o sol ainda entrava pela janela naquela hora do dia, não deveria ser nem perto da hora do almoço.

Comecei a pensar na dona da voz suave, analisando todas as possibilidades do perfume de jasmim ser dela, consegui ouvir todos que estavam naquela cafeteria, até mesmo o cozinheiro da voz fanha. Uma frustração para mim, que queria ouvir uma única voz, que permaneceu em silêncio a maior parte do tempo que estive lá. Comecei a cogitar a ideia de aparecer na cafeteria à tarde, quem sabe eu não a encontraria novamente. Esperei as horas passarem, até que o despertador tocou, havia programado para que eu não me esquecesse as horas da refeição, era inútil já que na maioria das vezes eu estava sem fome e sem vontade de viver.

Assim que troquei de roupa, respirei fundo, era uma loucura o que estava fazendo, voltaria a cafeteria para encontrar uma pessoa que eu nem poderia ver. Fiquei na frente do elevador por alguns minutos, refletindo se deveria ou não mudar minha rotina de solidão por causa de uma voz que poderia nem voltar a ouvir. Mas aquela voz havia despertado algo dentro de mim, eu queria ouvir novamente, a pouca coragem que me restava, me fez apertar o botão e entrar no elevador. Talvez minhas expectativas estavam altas demais, porém minhas esperanças caíram após três horas sentado em uma mesa ao lado da vidraça lateral, esperando ouvir aquela voz novamente.

Ingênuo da minha parte, jogar toda minha atenção em uma voz que nem sei de quem é, mas para a escuridão que eu estava vivendo, essa voz era como uma luz no fim do túnel. Minha vontade de esperar já estava perdida, assim que a atendente do perfume forte, veio me perguntar se eu queria mais alguma coisa. Paguei a conta com o cartão que tinha me dado para despesas gerais e emergência, demorei um pouco para sair, ainda tinha uma ponta de esperança de perceber sua presença ali, mas os passos até a porta se tornaram pesados e solitários por não ouvir aquela voz.

Respirei fundo após sair da cafeteria, o clima parecia um pouco mais pesado e úmido do que o natural, se eu fosse um meteorologista afirmaria que iria chover naquela tarde. Deu alguns passos até a faixa para atravessar a rua, esperei um pouco, conseguia ouvir os carros passando por mim, de repente meu corpo congelou, era resultado do que eu estava procurando durante aquelas horas todas, senti vindo do meu lado direito aquele perfume de jasmim que me fez sair de casa.

Estava sem reação, como eu iria falar com uma pessoa, que eu estava procurando por ela, por causa do seu perfume? Devagar virei minha face para o lado em que ela estava, e quando tomei coragem para falar, ela deu um impulso e começou a atravessar a rua. Era frustrante aquele momento, poderia não ser ela, mas e se fosse ela? Era uma chance em um milhão, foi então que ouvi bem ao longe um barulho estranho que foi crescendo, parecia um carro desgovernado. Senti uma descarga de adrenalina ao pensar que ela poderia ser atropelada, mas como um cego poderia salvar alguém?

Senti uma raiva imensa de mim naquele momento, se eu enxergasse poderia salvar ela. Assim que senti o barulho do carro ainda mais perto, não me importei mais com minhas condições, corri na direção dela. Como eu disse no início, milagres acontecem e de alguma forma louca e estranha eu consegui, a segurei envolvendo meus braços nela como proteção e lancei nossos corpos em direção a calçada.

— Obrigada. — disse aquela voz que queria ouvir, mesmo ofegante e com vestígios de medo, era ela.

Naquele momento, eu não sabia se meu coração estava acelerado por causa da adrenalina, ou por ouvir a voz dela, e para selar aquele momento, ainda sentados no chão, a primeira gota de chuva caiu em minha face.

“Eu quero saber mais sobre você
Como explorador que se aventura através de sua floresta profunda do mistério.”
- Just One Day / BangTan Boys (BTS)




Capítulo 2


Mesmo debaixo da chuva, muitas pessoas se aproximaram para nos ajudar a levantar, curiosamente estavam mais preocupados com ela do que comigo, uma senhora me entregou meu óculos escuro que havia caído no chão. Coloquei assim que peguei da mão dela, não queria que a moça do perfume descobrisse que eu era cego, apesar de muitas pessoas ao nosso redor, eu conseguia sentir sua respiração ainda ofegante.

— Obrigada. — agradeceu ela novamente — Muito obrigada, por me salvar.
— Ah, que bom que você está bem. — reconheci aquela voz, era a mulher do perfume forte e foz fina — Quando vi o carro vindo de dentro da cafeteria, senti um aperto.
— Não se preocupe Darya, estou bem. — retrucou ela — Graças a ele.
— Oh, o cliente estranho. — sussurrou a tal Darya, eu consegui ouvi, não era novidade — Ah, bem, agradecemos.
— Fiz o que qualquer pessoa poderia fazer. — respondi normalmente mantendo minha face voltada para a rua.
— Mesmo assim, estou grata por isso. — sua voz suave e doce, parecia que estava sorrindo, estava começando a desejar ver seu sorriso.
— Venha , seu joelho está ralado, temos que fazer um curativo antes que infeccione.
— Tudo bem.

Senti elas se afastando de mim, aos poucos aquelas pessoas curiosas foram se dispersando, continuei parado por mais alguns minutos, pensando. Então, seu nome era , estava aliviado por ter salvado ela e por saber seu nome, era como uma confirmação de que a dona daquela voz era real. Meu coração acelerou um pouco, não conseguiria deixar de pensar nela agora, e estava pensando em tomar café todas as manhãs na cafeteria nova.

? — aquela voz era de .
? — me virei para a direção da voz.
— O que faz aqui? Por que está debaixo da chuva? — perguntou ele.
— Bem, a história é meio louca. — eu ri — Vamos entrar que eu te conto.

me acompanhou até o apartamento, assim que entramos ele foi até a cozinha preparar algo para nós dois comermos, aproveitei para ir ao banheiro, tomei uma ducha quente e coloquei roupas confortáveis. Quando voltei para cozinha, comecei a contar minha história do início, quando fomos a cafeteria tomar café da manhã. Enquanto ele preparava o chá, contei a ele sobre meu súbito interesse a garota do perfume de jasmim, continuei falando sobre ter pensado nela durante o resto da manhã e minha aventura ao voltar na cafeteria, até que cheguei na parte mais louca.

— Espera, você a salvou de ser atropelada? — a voz de parecia de surpresa.
— sim.
— Você tem noção do que fez? Se jogou na frente de um veículo em movimento, para salvar alguém que nem conhece. — aquela era voz de repreensão — Não poderia ter deixado outra pessoa fazer isso?
— Eu a salvei, é o que importa, além do mais, meus reflexos e percepção são melhores que de uma pessoa comum, até o momento em que eu cheguei perto dela, ninguém havia percebido o veículo desgovernado. — retruquei de forma coerente.
— Isso é verdade. — ele suspirou fraco — Fico me perguntando se você realmente está cego. — ele riu com ironia — Às vezes faz coisas como se enxergasse ainda.
— Devo levar isso como um elogio? — olhei para a direção da voz dele.
— Viu. É disso que estou falando. — pareceu pegar alguma coisa — Você olha para minha direção como se conseguisse me ver.
— Acredite, são sete anos de prática constante, odeio quando as pessoas me tratam como um cego deficiente. — bufei um pouco sentindo ele encostar a xícara em minha mão.
— Aqui está. — sua voz estava mais branda — Um pouco de chá para alegrar seu dia, só não é de jasmim. — ele se afastou rindo.
— se vai começar com suas piadas, vou me confinar no quarto. — já alertei indo até o sofá.
— Prometo não abusar. — ele riu se sentando ao meu lado — Então, depois de sete anos fechado para balanço, está mesmo interessado em uma garota?
— Não é isso. — eu ainda não tinha definido meus sentimentos por ela — Eu, só me sinto bem quando ouço a voz dela, é como uma luz no fim do túnel para mi.
— Sei. — aquilo era deboche.
— Estou sendo sincero. — retruquei — Nem a conheço, como posso estar interessado.
— Como? — ele riu — Querido primo, é simples, estando interessado. Quando um homem se interessa por uma mulher, ele precisa ver ela, no seu caso foi ouvir.
— Não estou interessado, mas gostaria sim de conhecer ela.
— E já sabe o nome dela?
— Sim. — suspirei um pouco — Ouvi a outra atendente falando, é .
— Nome bonito.
— Sim. — uma ponta de sorriso apareceu espontaneamente em minha face.
— Acho que você ainda se prende muito ao que aconteceu no passado, me desculpe a sinceridade. — ele respirou fundo — Mas, as pessoas não são iguais, e já percebi que a voz dela te atrai, você inconscientemente está interessado, então admita isso de uma vez e se dê uma chance.
— Você está de brincadeira né?
— Não. — ele se levantou — O máximo que pode acontecer é ela já ter um namorado, ou te achar feio. — ele saiu rindo.
— Ha... ha... ha... — tomei um gole do chá.

estava certo, eu realmente estava interessado nela, mas ainda tinha em minha mente as frustrações do passado, ser deixado após dar uma demonstração de amor, foi a pior coisa que me aconteceu. Eu não queria passar por aquilo novamente, não queria ter meu coração estilhaçado como tive, mas eu já estava no fundo do poço, não tinha mais nada para ser tirado de mim. Como sempre dizia, o pior que poderia acontecer e era ter pena de mim.

Ele saiu da sala, provavelmente estava indo para o quarto, fiquei mais alguns minutos sentado no sofá enquanto terminava de tomar meu chá. Era difícil não pensar nas palavras dele, eu tinha passado aqueles sete anos criando muralhas para afastar as pessoas e agora queria me aproximar de uma. Quanto mais eu pensava nisso, mais receio eu tinha em continuar, não queria me machucar novamente, mas queria poder ouvir aquela voz novamente.

Terminei o chá e levantei do sofá, caminhei até a cozinha e coloquei a xícara na bancada, fiquei ouvindo o barulho da chuva do lado de fora por um tempo, assim que me virei senti uma movimentação de , logo o barulho dele sentando no sofá e ligando a tv surgiu.

— Vou assistir um filme, me acompanha? — perguntou ele — Adoro seus comentários e observações sobre o que vai acontecer nas cenas.
— Muito engraçado. — bufei um pouco — Para mim não é nada divertido isso, ter que adivinhar o que está acontecendo quando tudo está calado.
— ah, deixa de ser mal-humorado, é divertido, você sempre acerta.
— Porque você sempre vê os mesmos filmes. — era uma realidade, eu já tinha até decorado as falas de os Piratas do Caribe.
— Quer algo novo? — ele parecia surpreso — Sempre achei que você tinha o mesmo gosto que eu para filmes.
— Pelo menos são melhores que os romances que a vê, consigo sentir ela chorando do meu quarto. — caminhei de volta para o sofá.
— O que me diz de um pouco de zombie? — ele parecia segurar o riso.
— Depende do filme e do zombie. — retruquei indo em direção ao sofá — Nada de The Walking Dead novamente, não aguento mais suas maratonas desse seriado.
— Nossa, você é mesmo um chato, nada está bom. — ele trocava de canal.
— Desculpa se não tenho mais perspectiva de vida. — me sentei respirando fundo.
— Você já foi mais divertido, acho que você precisa mesmo conhecer aquela moça, quem sabe assim fica mesmo amargurado.
— Porque será que eu já imaginava que você tocaria nesse assunto. — bufei novamente — Eu já me decidi, prefiro continuar como estou.
— O que? — aquilo era tom de indignação — Você me salva a garota e agora vai desistir.
— Você fala como se eu a conhecesse há tempos. — não contive um riso irônico — Quero te lembrar que eu a ouvi pela primeira vez hoje pela manhã, e na minha falta de sorte, ela atendeu à mesa ao lado.
— Hum. — ele parecia pensativo — Então, agora que estou me ligando, a atendente da mesa ao lado, aish, queria ser um bom fisionomista, não me lembro do rosto dela.
— E isso tem algum relevância? — virei minha face para ele.
— Pare de fazer isso como se estivesse me olhando de verdade, seus reflexos me assusta às vezes. — aquela era a milionésima vez que ele reclamava da forma com que eu agia como uma pessoa normal.
— Você não respondeu. — retruquei voltando ao assunto.
— Respondendo... — ele deu uma risada rápida — É claro que tem relevância, vai que a moça não é bonita.
— Sério isso? — eu não conseguia mais associar os padrões de beleza do mundo — Olha só quem fala.
— Do que está insinuando?
é bonita? — perguntei ironicamente — Porque eu não consigo achar isso.
— Porque não pode ver o quão linda ela é, corpo de modelo. — retrucou com satisfação.
— Desculpa, a voz dela não me transmite nada de belo. — fui mais sincero que o normal.
— O que a voz de uma pessoa tem para definir a beleza dela? — retrucou como se estive ofendido.
— E o que o corpo de uma pessoa tem para definir sua beleza? — ri um pouco me espreguiçando — O que é belo para um pode não ser para outro.
— E a voz da , a faz se tornar bela para você? — gostava mesmo de voltar em assuntos que eu queria distância.

Permaneci em silêncio, ele riu um pouco da minha cara, não que eu não quisesse me lembrar dela, mas não queria falar dela com . Mesmo que eu explicasse meus motivos para me afastar de todos, ele nunca entenderia, era complicado voltar a confiar nas pessoas, principalmente em quem você nunca viu na vida. Com sua insistência em me fazer ficar longe do quarto, o acompanhei em mais uma maratona vendo Resident Evil, em sua franquia de cinco filmes com o mesmo elenco morrendo e voltando várias vezes.

Aproveitei o término do quarto filme para fugir da sala, uma escapada estratégica para ir ao banheiro e me trancar no quarto depois. ficou me gritando da sala algumas vezes, mas acabou desistindo quando parei de responder seus gritos, aproveitei aquilo para trocar de roupa, colocar o pijama e dormir. As horas de sono passaram rápido, até que o sol entrar pela janela e me gritar da porta, será mesmo necessário que eu acorde tão cedo?

?! — ele bateu na porta — Estou indo a cafeteria da sua garota, quer ir também?
— Garota? — sussurrei — Que garota?
?! Está me ouvindo?
— Estou, me deixa dormir.
— E perder a oportunidade de ver você encontrando sua garota? — ele parecia falar num tom debochado.
— Que garota? — eu gritei erguendo meu corpo na cama.
— Então já superou ela? — ele riu — Você se esquece muito rápido das garotas agora.
— Deixe de ironia. — eu me levantei da cama — Se está falando da , ela não é minha garota.
— Nunca se sabe, ela pode vir a ser.
— Me dê cinco minutos.

Em casos assim, era melhor não retrucar, tinha mesmo um objetivo de vida que era me arrumar uma garota, mas eu não queria garota nenhuma, não até aquele momento. Troquei de roupa, coloquei meu óculos e saí do quarto, passei no banheiro antes de chegar na sala, claro que iria brincar um pouco com minha rapidez para me arrumar. Seguimos para a cafeteria com algumas brincadeiras da parte dele, confesso que fiquei um pouco nervoso assim que nos aproximamos da porta, senti um frio na barriga quando abriu a porta para entrarmos.

— Coragem homem. — ele riu de mim, já era normal aquilo.
— Não sei do que está falando. — nego até a morte.
— Sei. — ele continuou rindo.

Eu o segui até a mesa onde nos sentamos, demorou alguns minutos até eu reconhecer o perfume de jasmim, ela estava na cafeteria e estava perto de mim. Coloquei a mão na altura do meu coração de forma discreta, estava acelerado, será que ela seria a atendente da nossa mesa?

— Bom dia, sejam bem-vindos. — disse a voz que eu queria ouvir — Vocês gostariam que eu recomenda-se algum café? Temos ótimas variedades.
— Oh, bom dia, . — cumprimentou , dando ênfase no seu nome de propósito.
— Você está bem? — perguntei ao me lembrar do quase acidente de ontem.
— Estou. — ela respondeu meio sem reação.
— Ah, que bom, fiquei preocupado com você.
— Hum, me desculpe senhor, mas eu não o conheço, como pode estar preocupado comigo? — ela parecia mais confusa ainda, será que não se lembrava que eu a tinha salvado.
— Tem certeza que não o conhece moça? — reforçou achando estranho.
— Sim. — sua voz estava um pouco baixa, mas ainda era a mesma voz doce de sempre — Me desculpe.
— Talvez não esteja me reconhecendo, quando você foi atravessar na rua ontem, eu te salvei, nós dois caímos e você ralou o joelho.
— Acho que o senhor está me confundindo com outra pessoa, isso nunca aconteceu comigo. — ela parecia estar dizendo a verdade, mas não fazia sentido.
— Bem, e como seu joelho está machucado? — perguntou com sua voz de desconfiança.
— Eu, não sei. — ela deu alguns passos para trás esbarrando na outra mesa, ouvi algumas coisas caindo — Me desculpe, eu... Você está me confundindo com outra pessoa.
Senti ela se afastando de nós, em passos largos.
. — a outra atendente se aproximou da nossa mesa — Oh, me desculpem, o mal entendido.
— Porque ela não se lembra de mim? — me perguntei num sussurro meio alto.
— O que aconteceu com ela? Houve ou não um quase acidente.
— É claro que houve. ­— minha voz tinha um pouco de irritação, sim eu estava nervoso com aquela situação.
— Me desculpem, é um pouco complicado de se explicar. — disse a atendente.
— Você é a Darya não é?! — perguntei de imediato — Me lembro de você.
— Sim, eu também me lembro de você. — assentiu ela — Agradeço mais uma vez por ter salvo ela, e sinto muito pelo mal entendido.
— Poderia nos dizer o problema dela? — insistiu .
— Porque é complicado?
— Me desculpem, não posso... — ela se afastou antes mesmo de terminar a frase.
— Senhores. — era a voz de um senhor, possivelmente o dono do lugar — Me desculpem o transtorno, é a primeira vez que isso acontece.
— Não quero desculpas, só quero entender o que está acontecendo. — disse num tom de chateação.
— Senhor, nos perdoe a intromissão, mas meu primo só estava preocupado com a moça e resolveu perguntar se ela estava bem. — estava com a voz branda, porém séria — Não imaginávamos que aconteceria isso.
— Ninguém imagina. — o senhor puxou uma cadeira e se sentou — Não costumamos contar isso a nenhum cliente, mas como seu primo se envolveu um pouco, acho que preciso esclarecer tudo.
— Estamos ouvindo. — minha voz estava mais fria que o normal.
é minha sobrinha, eu a crio desde os sete anos, mas às vezes me culpo por não ter protegido ela como deveria. — ele respirou fundo — Há três anos atrás, ela sofreu um acidente que a fez bater a cabeça gravemente, depois de um ano em coma, ela acordou, mas percebemos que não era a mesma. — ele parecia reprimir um pouco seus sentimentos — Descobrimos que havia adquirido a Síndrome de Goldfield, toda sua memória contraída até o dia do acidente, permaneceu intacta, mas sua mente não consegue mais guardar memórias recentes, tudo que ela vive em um dia, se apaga à noite quando ela dorme.

“Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está) desabando.”
- I Need You / BangTan Boys (BTS)

 

*Síndrome de Golfield: doença fictícia do filme Como se fosse a primeira vez.




Capítulo 3


Eu estava desnorteado com aquela notícia, não sabia o que pensar nem como reagir, era muita falta de sorte a minha me interessar por uma garota que jamais se lembraria de mim no dia seguinte. Me levantei da mesa me afastando deles, precisava de ar puro, estava me sentindo sufocado naquele lugar.

se levantou e me ajudou a sair da cafeteria, quando chegamos na rua eu respirei fundo, permanecendo com minha cabeça abaixada. Ele ficou do meu lado, acho que assim como eu estava tentando digerir toda aquela história louca.

— Você vai ficar bem? — perguntou ele.
— Vou. — assenti levantando minha face — Só quero ir para casa agora, pode tomar seu café, eu quero ficar sozinho.
— Tem certeza? — seu tom de voz era de preocupação.
— Tenho sim, não há nada que fazer. — suspirei fraco — Ela nem me conhecia mesmo, amanhã nem vai se lembrar do cliente inoportuno.

Antes que pudesse retrucar, me afastei dele indo em direção ao meio fio, atravessei a rua e entrei no prédio, passei pelo elevador e entrei pela porta de acesso as escadas. Subi algumas lanças de escada e depois parei no meu andar, ao invés de entrar novamente para o prédio, me sentei em um degrau e fiquei meio estático, acho que só naquele momento que minha ficha tinha realmente caído.

— Não era de se esperar que eu tivesse mesmo essa falta sorte. — eu ri de leve comigo mesmo, segurando minha frustração.
— Me desculpe, mas está tudo bem? — perguntou uma voz feminina, a voz suave que tinha transformado minha manhã em um tsunami — Moço?
— O que? — eu me levantei e olhei para a direção que vinha a voz — O que está fazendo aqui?
— Me desculpe, mas eu é que deveria perguntar isso. — ela riu de leve — É você que estava sentado na escada falando sozinho.
— Estava filosofando. — agi naturalmente, pedindo a Deus para ela me reconhecer — Mas o que você faz aqui?
— Eu vi quando saiu da cafeteria e veio para o prédio, precisava saber quem era você. — respondeu ela — Acho que te devo desculpas por hoje cedo.
— Não, não me deve nada. — desci alguns degraus até chegar ao patamar, onde ela estava — Está tudo bem.
— Comigo não, Darya me disse que não é a primeira vez que acontece isso comigo. — sua voz tinha traços de tristeza — Eu realmente sinto muito pelo constrangimento.
— Tudo bem, eu consigo sobreviver com isso. — sorri de leve para ela, assim ela ficaria mais tranquila.
— Bem, se você está dizendo, ficarei mais tranquila. — ela suspirou um pouco — Quero te agradecer formalmente por ter me salvado ontem.
— Só agi por instinto, fiz o que qualquer pessoa poderia ter feito. — respondi tranquilamente.
— Não exatamente, nem todo mundo se arrisca por um desconhecido. — ela estava meio certa, mas eu fazia parte daquela pequena porcentagem de loucos — Por isso, muito obrigada.
— Disponha. — sorri de leve colocando as mãos no bolso, estava um pouco nervoso por estar diante dela, ainda mais que ela não tinha reparado na minha cegueira ainda — Mas, está tudo bem para você agora? Eu também te devo desculpas por ter te deixado meio desnorteada hoje mais cedo.
— Estou sim, eu meio que esqueci de detalhar o acidente de ontem. — ela riu de leve, com uma naturalidade fora do comum — Acabei só colocando que me machuquei.
— O que importa é que você está bem. — afirmei dando alguns passos até a porta — Hum, posso te convidar para tomar um chá? Se não for muito atrevimento da minha parte.
— Oh, claro. — ela deu uma pausa, imaginei que estivesse sorrindo ou algo do tipo — Eu adoro chá, a propósito meu nome é , mas pode me chamar de .
— Eu sou o , e também adoro chá. — concordei com um sorriso leve, abrindo a porta — Vamos então?!

Ela me seguiu tranquilamente, notei que estava cantarolando alguma coisa, estava sendo complicado acalmar meu coração, estava acelerado desde o momento em que senti seu perfume e ouvi sua voz. Abri a porta do apartamento e a convidei para entrar, ela agradeceu entrando, estava atento a cada passo dela, naquele momento estava tentando ser ainda mais preciso em agir normalmente e não deixar que ela descobrisse que eu era um deficiente visual.

Eu não tinha vergonha, mas para um possível “primeiro encontro”, não queria que ela sentisse pena de mim, caminhei até a cozinha e remexi em um dos armários. Respirei fundo, porque a vida sempre reservava um pingo de má sorte para mim, um passo para frente e quatro para trás, tinha me esquecido que tinha trocado as coisas dos armários de lugar também.

— Está tudo bem aí? — perguntou ela, ouvi seus passos em minha direção.
— Sim, está. — me controlei para não ficar mais nervoso e ansioso que já estava, remexi em um dos armários tentando encontrar o bule que tanto procurava.
— Se quiser posso te ajudar. — disse ela de forma inocente.
— Não eu consigo, não se preocupe. — disse dando alguns passos para trás.
— Mas eu posso... — sem perceber acabamos nos trombando, com o impacto caímos no chão — Oh, Deus.

Meu óculos tinha saído do meu rosto e o que eu menos queria estava acontecendo, eu conseguia ouvir sua respiração meio descoordenada, como se ela tivesse impressionada com meus olhos brancos sem vida. Caídos estávamos e ficamos, até que me levantei primeiro e a ajudei a se levantar também, eu estava frustrado com aquilo, quando pensei que pudesse recomeçar de uma forma legal.

— Eu... Não imaginava que você... — era como se ela relutasse em falar o óbvio, acho que estava impressionada pela forma como eu agia naturalmente.
— Era cego?! — deixei um pouco de frustração sair em minha voz — Você poderia ir embora por favor? E esquecer o que viu. — eu estava controlando também minhas lágrimas.
— Esquece não é o problema. — sua voz também tinha frustração, senti um certo movimento vindo dela — Me desculpe, eu não pretendia te deixar constrangido. — ela tocou suavemente em minha mão direita e colocou meu óculos por cima.

Senti ela se afastando, e após alguns passos o barulho da porta abrindo e fechado soou pelo apartamento. Que grande frustração eu estava sentindo, mais o que mais me deixava com raiva, não era por ela ter descoberto, mas pela forma como ela reagiu, consegui sentir e sua respiração, seu tom de voz, não era difícil sentir os pequenos detalhes de mudança.

Era sempre a mesma coisa, sempre que descobriam que eu era cego, sempre a mesmo mudança, em todos que me conhecia, era isso que eu não queria que acontecesse com ela. Caminhei lentamente até a sala, acabei tropeçando na mesa de centro e me joguei no chão ali mesmo. Seria fraco de mais da minha parte se eu chorasse? Não sei, mas eu já estava tão chateado com tudo que estava acontecendo em minha vida, que senti algumas lágrimas caindo, e isso me fez lembrar da minha ex namorada, Taylor havia sido a primeira pessoa a mudar comigo, uma mudança que ainda se mantinha viva, como uma ferida sem cicatrização.

— Hoje é o dia. — disse ao entrar cantarolando, senti ele parando de repente, certamente estava vendo a personificação da derrota em forma de primo — O que houve?
— Não se preocupe, eu ainda estou vivo. — me levantei colocando meu óculos — Vou para meu quarto.
— Não. — ele segurou em meu braço — O que aconteceu? você está acabado, como se tivesse passado um trator em cima de você.
— Conta uma novidade? Estou assim há anos — me soltei dele não dando importância — Acho que só percebi que não vale a pena esperar hoje, a vida acabou de desistir de mim.
— Por que essas palavras tão duras consigo mesmo? — ele parecia preocupado, mas não importava com isso.

Me desviei dele e segui para o corredor, entrei no quarto me trancando nele, nem mesmo estava me importando com a fome, se ela pudesse me deixar sozinho seria uma grande ajuda. As horas se passaram comigo ao lado da janela olhando para a direção a claridade do céu, senti a mudança do tempo, acho que iria chover aquela noite também. Seria bom que a chuva lavasse todas as minhas angústias e frustrações também, ou só me levasse com a enxurrada.

As horas se passaram e na metade da noite, saí do quarto e ataquei a primeira coisa que peguei dentro da geladeira, para minha não surpresa, era um sanduíche que tinha deixado especialmente para mim, junto com uma garrafinha. Deu um sorriso fechado e fechei a porta da geladeira, me virei em direção ao corredor, por um momento ouvi um barulho estranho vindo da minha barriga. Eu poderia até querer estar sozinho, mas para me livrar da companhia da fome que estava desde manhã, tinha que me render a comida.

— Eu sabia que sairia do quarto em qualquer momento. — disse se remexendo no sofá.
— Sabia que estava ouvindo uma respiração meio silenciosa. — disse não dando importância ao comentário dele.
— Ainda não entendo como consegue perceber os mínimos detalhes. — ele parecia meio revoltado.
— São os detalhes que salvam meus dias, acredite. — segui pelo corredor e entrei no meu quarto novamente.

Entrei fechando a porta, me sentei na cama e comecei a saborear o lanche, assim que terminei de comer, saí novamente do quarto e coloquei as coisas em cima da bancada da cozinha. A televisão já estava ligada e parecia que estava vendo um jogo de basquete, e era um jogo da liga da NBA, Chicago contra Boston se não me engano e Boston estava ganhando por 79 a 75 até o momento.

Me voltei para o corredor e fui até o banheiro, demorei um pouco até voltar para o quarto, desta vez eu iria me render ao sono e me deitar, não tinha mesmo nada de interessante para fazer. Até poderia ficar vendo o final do jogo com , ele narraria todos os lances importantes para mim, mas aquilo não iria mudar meu humor, não iria melhorar minha noite.

Troquei de roupa e deitei na cama, mantive meus olhos abertos como se estivesse olhando para o teto, dei um sorriso de leve, até eu estranhava um pouco de como agia natural como uma pessoa normal. Respirei fundo fechando os olhos, foi difícil conseguir dormir, por mais que eu não conhecesse o rosto de , sua voz ecoava em minha mente, aquilo me fazia imaginar como seria os traços de sua face.

Assim que clareou o dia, acordei com o barulho da porta, a campainha estava tocando repetidas vezes, eu já não gostava de ser acordado e com barulhos era ainda pior. Meu dia tinha tudo para ser estressante e eu já estava mal humorado em menos de um minuto acordado, me levantei ainda um pouco zonzo e com alguns xingos pelo caminho, segui em direção a porta. Tinha certeza que era e sua falta de atenção em não sair com a chave.

— O que foi?! — disse de forma rude ao abrir a porta, senti a pessoa respirando meio sem reação, o que me deixava ainda mais nervoso — Não vai dizer nada?
— Bem... — era ela, a voz era dela — Acho que posso começar com um... Bom dia?
?! — tentei sussurrar mais saiu muito alto, meu coração acelerou novamente, abaixei minha face não deixando ela vez meus olhos — O que deseja?
— Bem... — ela respirou fundo — Primeiro, eu desejo que retribua o bom dia que eu te dei. — sua voz era de uma garota de atitude naquele momento.
— Nossa... — eu estava ficando envergonhado por minha reação ao abrir a porta — Bom dia.
— Agora está melhor. — sua voz voltou a ser mais suave como sempre — Eu... Li sobre você, então pensei que pudesse agradecer de forma mais adequada.
— Leu sobre mim? — eu estava em choque, eu pedi para que ela me “esquecesse” e ela escreveu sobre mim.
— Sim, esta manhã, havia uma página sobre você, no meu álbum de informações. — assentiu ela de forma branda — O que fez por mim foi, você me salvou, não tenho palavras pra expressar como estou grata.
— Eu nem sei o que dizer, achei que fosse se esquecer de mim. — fui sincero e claro com meus pensamentos sobre isso.
— Eu também. — ela riu de leve — Está sendo um pouco estranho para mim, por mais que todo dia seja sempre uma novidade, eu sempre deixo passar muita coisa que não vai fazer diferença na minha vida, mas acho que o meu eu de ontem, não queria te esquecer.

Eu tenho medo de que você vá embora.
Eu não deixaria você ir,
Como eu posso manter-te aqui?”
- All My heart / Super Junior




Capítulo 4


Aquilo caiu como um meteoro no meu coração, o seu eu de ontem não queria me esquecer. Respirei fundo tentando controlar meus batimentos e não criar nenhuma expectativa ou esperança, não queria sair frustrado de novo. Ficamos parados por instante na porta, até que voltei a mim e a convidei para entrar.

— Bem, eu li que você me convidou para um chá. — continuou ela ao entrar e passar por mim, senti que ela tinha algo nas mãos — Não sei se tomamos esse chá ontem, mas trouxe uma torta que fiz agora pela manhã, assim poderemos tomar aquele chá novamente.
— Chá?!

Minha mente estava um pouco paralisada com aquilo, ela estava agindo como se eu fosse normal, agindo como antes de saber sobre minha cegueira, o que me deixava ainda mais confuso e desnorteado. Fechei a porta, tentei me concentrar um pouco e pensar no que iria fazer, a deixei na sala e fui até o quarto, fiquei alguns segundos respirando fundo e tomando coragem para voltar para sala.

Coloquei meu óculos, troquei de roupa rapidamente e voltei, tentei me acalmar um pouco, tinha que me concentrar para saber onde ela estava, mas assim que cheguei na sala, ouvi um barulho vindo da cozinha. O que será que ela estava aprontando?

?! — disse dando alguns passos na direção do barulho — O que está aprontando na minha cozinha?
— Bem... — ela parecia prender o riso — Me desculpa invadir sua casa assim, mas estava procurando uma faca para cortar os pedaços, aí acabei encontrando a chaleira.
— A chaleira?! — só de falar daquele objeto eu já me lembrava do dia anterior.
— Sim, então tomei a liberdade e colocar água para esquentar. — ela caminhou até mim e ficou parada ao meu lado — Mas ainda preciso encontrar a faca.
— Pode deixar que eu assumo daqui. — eu ri um pouco indo em direção a bancada da pia, abri a segunda gaveta onde ficava as facas e estiquei a mão para ela.
— Agora sim. — ela riu — Obrigada pela faca.
— Só tenha cuidado, não quero que se machuque.
— Não se preocupe, não está muito afiada. — retrucou ela, ouvi o barulho de alguma coisa sendo arrastada.

Cruzei os braços mantendo minha face na direção do barulho e fiquei em silêncio, ela começou a cantarolar alguma coisa que eu não entendia bem, segurei o riso várias vezes. Assim que terminou ela me pediu dois pratos, peguei para ela sem a menor dificuldade e terminei de preparar o chá, eu ainda não conseguia acreditar que estava mesmo acontecendo isso.

— E o que está achando do meu chá? — perguntei ao tomar um gole.
— Nem forte, nem fraco, está na medida. — respondeu ela se sentado na banqueta ao meu lado — E você? O que achou da minha torta?
— Maravilhosa, nem sem doce e nem com exagero, está na medida certa. — eu sorri espontaneamente, meio bobo.
— Que bom, eu mesma inventei depois do meu acidente, faço ela todos os dias para não me esquecer. — disse ela — Mas essa foi a primeira vez que fiz sem olhar a receita.
— Uau, que progresso. — elogiei subjetivamente.
— Acho que foi por sua causa. — explicou ela tranquilamente.
— Minha causa? — desviei minha face para a direção da sua voz — Porque seria por minha causa?
— Não sei, eu estava animada de mais para te agradecer, só agora reparei que não li a receita.
— Agora estou mesmo surpreso, estou comendo uma unidade única da sua torta. — brinquei um pouco a fazendo rir e rindo junto.
— Bem, acho que sim. — ela suspirou um pouco, comecei a pensar se ela estava me olhando.

Eu desviei minha face para frente, complicado não imaginar coisas negativas, principalmente quando o silêncio tomava conta, a maioria eram perguntas simples e idiotas para muitos, mas que representava aqueles detalhes, que salvava meu dia. Tentar imaginar como ela me olhava, a cor dos seus olhos, como era seu sorriso, se ela tinha alguma mania como mexer no cabelo ou coçar a nuca quando estava com vergonha.

— O que foi? — perguntou ela — Ficou calado de repente.
— Nada, só me perdi nos meus pensamentos. — disfarcei minha voz melancólica e comi outro pedaço da torta.
— Se eu estiver atrapalhando, posso ir se quiser. — disse ela.
— Não. — peguei automaticamente em sua mão, nem imaginava que conseguiria ser tão preciso assim — Não vai.
— Tudo bem. — assentiu ela mantendo sua voz serena — Eu não queria mesmo ir.
— Fico aliviado em ouvir isso. — disse respirando fundo.
— Você parece estar meio tenso. — comentou ela — Tem algo te incomodando?
— Não, é que não estou acostumado em ter companhias. — direto e sincero — Isso me deixa meio desnorteado.
— Mas, você vive aqui sozinho? — perguntou ela confusa.
— Ah, não. — eu ri de nervoso — Eu moro com meu primo e a namorada, noiva dele.
— Hum, seu primo. — ela suspirou um pouco, parecia tentar lembrar de algo — Ele é cliente da cafeteria?
— Sim, certamente ele passou lá antes de ir para o trabalho. — assenti.
— E você trabalha com o que? — perguntou ela.
— Hum. — comecei a cogitar a ideia de mentir para ela, mas não seria um bom jeito de iniciar nossa quem sabe futura amizade — No momento não há nada que eu queira fazer da minha vida.
— Nada?! — sua voz de surpresa ecoou — Nossa, que estranho, é a primeira pessoa que me diz isso de forma tão frustrada.
— Me desculpa se te choquei, mas é a realidade. — respondi respirando fundo.
— Não há nada que te chame a atenção e te faça querer investir seu tempo?
— Não. — agora sim senti aquela frustração na voz — Porque não paramos de falar sobre mim, e falamos de você?
— O que quer saber sobre mim? — ela perguntou curiosa — O mais importante você já sabe, corro o risco de te esquecer amanhã.
— Não corre não. — retruquei tranquilamente — Você já disse que não quer me esquecer, tenho certeza que vai escrever sobre mim.
— Ah, eu não deveria ter contado sobre isso. — ela riu de leve — Você gosta de chuva?
— Nossa, que pergunta mais aleatória. — eu ri desviando minha face para sua direção — De onde veio essa curiosidade?
— Darya me contou que choveu no dia que você me salvou, eu ouvi o barulho da chuva nessa madrugada, fiquei curiosa em saber se gosta de chuva.
— Uau, que explicação mais detalhada. — sorri para ela, eu gostava disso, detalhes.
— Desculpe se expliquei de mais.
— Não. — senti meu coração pulsar mais forte — Eu adoro quando as pessoas detalhas seus pensamentos para mim.
— Você é um psicólogo? — perguntou ela num tom confuso.
— Não. — eu ri — Não, só gosto que as pessoas se expressam sem esconder nada de mim.
— Hum. — ela ficou um tempo em silêncio, senti que estava balançando a perna — Você não me respondeu.
— Não, mas sim.
— O que? — ela riu — Não entendi.
— Não gosto de chuva, mas sempre que chove eu me sinto bem e renovado.
— Hum. — ela pareceu gostar — Eu gosto de chuva, mas gosto mais da neve no inverno, guerras de bolas de neve, me faz lembrar da infância.
— Estou sentindo pela empolgação na sua voz. — eu ri um pouco — Também gosto do inverno, é um período de calmaria e ao mesmo tempo celebração.

Ficamos conversando por mais algum tempo, tanto que nem senti as horas passarem, foi estranho quando eu a levei até a porta e nos despedimos. Uma parte de mim, ou melhor, eu por inteiro não queria que ela fosse embora, ela tinha transformado meu dia de uma forma inexplicável. Fiquei me perguntando se aquela garota do perfume de jasmim, voz doce e suave, chamada , realmente existia.

A cada passo que ela dava para perto do elevador, sentia meu coração acelerar, me veio um sentimento de perda que não conseguia entender, uma junção de insegurança e angústia. Pensamentos sobre eu não vê-la no dia seguinte, ou ela me apagar do seu álbum e nunca mais saber sobre mim, a parte negativa dos meus sentimentos tinham retornado para mim. Difícil ser otimista com um histórico de decepções como o meu.

— Finalmente cheguei. — disse ao entrar pela porta, ele parecia estar carregando algumas caixas, pelo barulho que estava fazendo.
— Quer uma ajuda? — perguntei desviando minha face para ele.
— Não, não precisa, são só duas caixas. — disse ele tranquilamente, então parou de repente — Como sabia que eu estava carregando algo?
— Com esse barulho todo. — suspirei voltando meu olhar para a televisão — Não tinha como eu não imaginar isso.
— Você bem que poderia agir como cego pelo menos por um dia, ainda me assusto com sua precisão sobre as coisas. — reclamou ele indo em direção a cozinha.
— Me desculpe querido primo, mas agora mais do que nunca, vou ser a pessoa mais normal do mundo. — retruquei.
— E a que se deve essa mudança toda? — ele parecia admirado.
— A veio aqui hoje de manhã, ficamos um bom tempo conversando. — expliquei mantendo minha empolgação para mim mesmo — Eu até descobri que ela é alérgica a bichos e pelúcia.
— Uau, e como isso tudo aconteceu enquanto eu estava trabalhando? — perguntou ele voltando para a sala — Ela se lembrou de você?
— Bem, ela disse que leu sobre mim no seu álbum de fotos, que talvez o eu dela de ontem não queria me esquecer.
— Uau, que profundo. — brincou ele — E você disse para ela que está interessado?
— O que? — desviei minha face para a direção dele — Não.
— Olha, friendzone não combina muito com você.
— Yah, fiquei calado , não vou me declarar para ela, eu nem sei definir meus sentimentos por ela ainda. — reclamei — A única coisa que consigo admitir é que essa tarde, eu me senti vivo de novo, como se pudesse ver mesmo no escuro.
— Essa garota realmente tem algo especial, para te fazer sentir isso. — concluiu ele.
— Sim, eu me senti livre com ela aqui. — assenti me levantando do sofá — Depois de todo esse tempo, pela primeira vez eu agradeci pela hora não ter passado de forma rápida.

Passei por ele e fui até meu quarto, uma guerra interna estava começando dentro de mim, surpreendente que ao mesmo tempo que eu queria nutrir a esperança de repetir aquele dia com , eu queria apagar esse dia com medo de nunca mais viver algo parecido com ela. Me deitei na cama pensando sobre isso, quanto mais a voz dela ecoava em minha mente, mais eu sentia vontade de vê-la, ver seu sorriso, ou a forma como olhava para mim.

A noite passou e logo pela manhã, bateu na porta do meu quarto, demorei um pouco para assimilar que era mesmo ele e não um sonho, ergui meu corpo me espreguiçando.

— O que você quer? — gritei.
— Eu nada, mas você tem uma visita inesperada. — disse ele rindo — E acho que deveria se levantar de bom humor.
— Visita?! — meu coração acelerou novamente, será que era ela?

Me levantei, troquei minha roupa rapidamente, coloquei o óculos e segui em direção a sala, logo que entrei consegui sentir o perfume de jasmim, mantive minha respiração tranquila e minha face baixa, estava tentando localizar sua posição na sala.

— Bom dia. — disse ela, estava perto da porta.
— Bom dia. — respondi me lembrando do dia anterior — Você veio, de novo.
— É, acho que sim. — ela riu de leve — Eu li sobre você, eu não sabia se tinha agradecido, então...
— Veio agradecer. — completei, desviei minha face para o lado da cozinha — Você não tem que ir trabalhar ?
— Ah, yah, eu estava terminando meu café. — reclamou ele com uma voz de chateação, certamente queria ficar vendo minha conversa com — Vejo você mais tarde, e foi um prazer te conhecer .
— Igualmente. — respondeu ela de forma simpática.

Assim que eu ouvi a porta se fechar, voltei minha face para onde sentia a respiração dela, estava escolhendo as palavras certas.

— Você veio mesmo para agradecer de novo? — perguntei de forma séria, porém serena.
— Sim. — assentiu ela convicta — Por mais que eu possa pensar que já te agradeci, ou que leia sobre isso, está sendo mais forte que eu, ler sobre você e querer te agradecer.
— Bem, você já agradeceu. — tentei não ser áspero, mas comecei a imaginar que aquilo não se tornaria real, ela sempre iria somente para me agradecer, porque eu a salvei, nunca seria mais que isso — E sei o quanto sempre será grata por isso, acho que se você escrever assim, vai conseguir imaginar que já me agradeceu o suficiente.
— Se é isso que deseja. — seu tom parecia de decepção, talvez por eu ter agido meio friamente.

Ela me agradeceu mais uma vez por eu ter salvado ela, não era sua culpa, mas era a minha, eu estava tão preso ao meu sofrimento de anos, que era difícil não imaginar que poderia sair magoado novamente. Às vezes pensar negativamente era mais atraente e menos doloroso que pensar positivos, criar expectativas me fazia ficar frustrado quando não eram realizadas.

Era isso que eu estava sentindo com , e imaginar que ela pudesse bater na minha porta todas as manhã só para agradecer, não conseguia ver algo positivo nisso, nem mesmo para me beneficiar e não passar algum tempo sozinho. Eu queria ter a companhia dela por mim e não porque a salvei, esse desejo era egoísta de minha parte?

Enfim, após ela sair e fechar a porta, senti que minha vida tinha voltado a escuridão de antes, melhor assim, me sinto tão acostumado com a escuridão que tenho medo de me render a luz.

As semanas foram se passando, tinha retornado da sua viagem e o apartamento voltou a ser barulhento com ela, pense numa pessoa que não conhece a palavra privacidade, ou o termo respeitar o espaço alheio. Infelizmente eu estava ali de favor, mas ainda queria um pouco de respeito a minha solidão, o que me levou a ter uma percepção bem maior do tempo, afinal agora trabalhava aos finais de semana, e era uma manhã ensolarada de sábado.

Eu acordei tão bem disposto que até fiquei assustado, acho que era o silêncio que reinava naquele apartamento, tinha saído para jogar basquete com uns amigos e eu estava solitário mais uma vez. Me espreguicei um pouco e fui para a cozinha, assim que coloquei a mão na geladeira para abrir a campainha tocou, senti um frio na barriga e ainda intrigado fui atender.

?! — disse ao abrir a porta.
— Bom dia. — ela suspirou um pouco — ?!
— Sim. — assenti mantendo meu olhar abaixado.
— Acho que já deve ter ouvido isso, mas ver você é meio novo para mim. — disse ela meio sem jeito — Mas já tem uma semana que quero te ver.
— O que? — eu não estava entendendo mais nada.
— Eu li sobre você, li que me salvou, sobre meus agradecimentos, sobre você não querer que eu agradeça mais. — sua voz ficou um pouco triste — Eu não sei o que houve, mas estava escrito que eu não podia te ver, e isso me fez querer te ver ainda mais.

Coloquei a mão na altura do meu coração, era para ele estar acelerado, mas naquele momento não estava sentindo nada, nenhuma pulsação. Meu corpo todo estava estático e paralisado, mas de alguma forma aquecido por dentro.

 

“Ouça meu coração,
Ele está chamando você com vontade própria,
Porque você é luz dentro,
Dessa imensa escuridão.”
- Save Me / BangTan Boys (BTS)




Capítulo 5


Eu respirei fundo e a convidei para entrar, estava tentando pensar no que iria dizer, como iria reagir. Ter ela ali era como a vida me dando uma terceira chance ou algo do tipo, pelo menos era isso que eu estava pensando na hora, a convidei para se sentar e me sentei na poltrona ao lado. Tentei me acalmar internamente e fiquei em silêncio, estava me concentrando na respiração dela, parecia um pouco tranquila, mas percebi que estava balançando a perna direita, acho que demonstrava um pouco de nervosismo ou ansiedade.

— Está tudo bem? — perguntei.
— Sim. — respondeu ela — É que estava com medo de você me mandar ir embora.
— Bem, eu, me desculpe, não queria passar essa impressão. — disse meio sem graça.
— Não se preocupe, está tudo bem. — ela riu de leve — Se você me xingar hoje, provavelmente não vou me lembrar amanhã.
— Verdade, mas jamais xingaria você. — concordei segurando o riso.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro.
— Por que usa óculos escuros dentro de casa?
— Hum. — era de se esperar que ela me perguntasse aquilo, mas não queria que fosse tão rápido — Bem, eu tenho, meus olhos são um pouco sensíveis a luz.
— Ah, você é um vampiro? — seu tom era sério e um pouco inocente.
— Não. — eu ri baixo, mas logo minha face ficou série e automaticamente sussurre — Apesar de viver no escuro.
— O que disse? — perguntou ela.
— Nada. — eu respirei fundo e me levantei do sofá — Você aceita um chá? Ou água?
— Não. — senti a movimentação dela se levantando — Eu queria te convidar para tomar café da manhã comigo.
— Hum?! — acho que já estava se tornando comum minha falta de reação perto dela.
— Você aceita? — insistiu ela.
— Eu...
— Não aceito uma resposta negativa, e por mais que o sol esteja bonito, acho que somente seus olhos são sensíveis a ele. — ela sabia como me deixar sem resposta.
— Já que insiste. — eu sorri para ela — Só preciso pegar minha carteira.
— Tudo bem, eu espero.

Eu caminhei até o quarto, ainda não acreditando no convite dela, troquei minha roupa de forma rápida e peguei minha carteira que estava na cômoda ao lado da porta, coloquei no bolso e voltei para a sala. estava cantarolando algo que não identifiquei, já estava perto da porta de saída.

— Estou pronto. — disse ao me aproximar dela.
— Ah, quando disse que iria buscar sua carteira, fiquei preocupada. — disse ela segurando o riso.
— Por que?
— Pensei que não trocaria de roupa. — ela deu um riso rápido — Fiquei imaginando como seria nós dois andando na rua e você com o pijama.
— Por um momento eu realmente esqueci que estava de pijama. — eu ri junto — Mas acho que agora estou com roupas mais apropriadas para um passeio.
— Eu não me sentiria nem um pouco incomodada se você estivesse de pijama, quando eu era mais nova, um dia fui para a escola de pijama.
— Nossa. — eu virei minha face para sua direção — Uau.
— É uma roupa qualquer como todas, a única coisa que muda é que usamos à noite e dormimos com ela.
— Pela lógica está certa. — eu ri — Mas vai explicar isso para sociedade.
— Verdade. — seu riso era espontâneo — Um dia te faço sair de casa de pijama junto comigo.
— Um dia? — aquelas palavras me assustaram um pouco.
— Sim, por que?
— É que, quer dizer que você não quer se esquecer de mim?!
— Por que eu iria querer me esquecer de alguém como você?! — a pergunta era séria, mas sua voz sempre permanecia suave.
— Diz isso somente porque te salvei. — a amargura estava novamente em minha voz.
— E se não for somente por isso? — retrucou ela — Se quiser posso apagar essa parte.
— O que? — ela apagaria que eu a salvei?
— Não pense que estou aqui só porque me salvou. — disse ela — Você não é a primeira pessoa que me salva de um atropelamento, e acho que não será a última.
— Então, você já...
— Sim, não é a primeira vez. — ela respirou fundo — Além do mais, se fosse para me interessar por alguém só porque essa pessoa já me salvou, eu ficaria com o paramédico que me socorreu da primeira vez.

Ela abriu a porta e saiu rindo.

— Vamos, antes que o café esfrie. — disse num tom um pouco mais alto do lado de fora.

Aquela garota estava se tornando ainda mais maravilhosa e incrível a cada instante que eu a conhecia. Seria isso algo para eu me agarrar e jogar minha parte negativa no lixo? Eu sorri de canto e saí do apartamento, caminhamos lado a lado por todo o caminho, e sempre que parávamos de falar, ela começava a cantarolar.

me guiou até sua casa que ficava atrás da cafeteria do tio dela, era um pequeno loft, eu fiquei um pouco com receio ao entrar. Era um lugar novo para mim e não sabia nada sobre a quantidade de móveis e onde estavam todos, decoração e o layout, eu estava desesperado por dentro.

— Está tudo bem? — perguntou ela ao perceber que eu estava paralisado na porta de entrada.
— Sim. — eu ainda não conseguia me mover por medo dela perceber que eu era cego, acho que não suportaria ver a reação de espanto dela novamente.
— Oh, me desculpe, que mal educada eu. — ela se aproximou de mim e pegando no meu braço — Tenho que fazer direito já que é sua primeira vez aqui, e como uma boa anfitriã, seja bem-vindo a minha casa. — ela impulsionou meu corpo me fazendo entrar.
— Obrigado.
— Me desculpe pelo corredor ser pequeno, mas o loft é bem amplo, ainda mais depois que coloquei o mezanino, assim consegui mais espaço para montar um quarto decente.
— Ah, que bom. — concordei sem saber como reagir.
— Venha, vou te mostrar minha pequena grande casa. — ela riu de leve me puxando, mas após três passos paramos — O corredor nem é tão grande assim, mas pelo menos ao lado dele coube o banheiro, pensei que não daria certo, mas no final as dicas de arquitetura da Darya funcionaram.
— É sempre bom ter amigos que dão dicas boas. — assegurei gravando em minha mente que o banheiro ficava no corredor da porta de entrada.

— Darya é ótima com dicas de decoração. — ela respirou fundo — Mais ainda acho que a cozinha poderia ter ficado maior, ela me puxou para o lado e senti a bancada na minha frente — Olha só esse espaço, é tão pequeno, logo para mim que sou uma patissier.

Aquele “Olha só” foi uma facada no meu coração.

— Tenho certeza que mesmo com esse tamanho você consegue fazer coisas maravilhosas. — disse tentando me concentrar em memorizar o layout do loft.
— Mas pelo menos minha sala é ampla e espaçosa. — ela me puxou até a sala, parecia mesmo ser espaçosa — Você gosta de...
— Poucos móveis? — perguntou ela — Sim, eu sempre gostei de coisas mais simples, como diz a Darya às vezes menos é mais. Entretanto, eu não consegui convencer ela com a escolha das cores.
— hum. — e agora, cores, estava me remoendo de vontade de saber pelo menos que cores tinham nas paredes.
— Ela achava que eu não conseguiria combinar laranja, marrom e bege, mas o resultado final ficou melhor do que o esperado. — disse ela com ar de satisfação.
— Acho que neste caso se você está feliz, ela deve aceitar, é você que mora aqui.
— Concordo plenamente, e no final eu ainda surpreendi a todos, ela achava que eu pintaria todas as paredes de laranja, eu jamais faria isso, é claro que todas as paredes bege e uma em destaque de marrom ficaram mais harmônico e elegante com alguns pontos de alaranjado.
— Tem certeza que é a Darya que entende de decoração? — eu virei minha face para a direção da sua voz, não sei se estava aliviado ou apreensivo com tudo aquilo.
— Acredite, isso é efeito de tutoriais no youtube. — ela riu me fazendo rir também — Mas vamos a última parte, meu quarto.

Subimos a escada até o mezanino, todo corrimão era de metal e tinha um guarda-corpo de vidro que cercava a parte que dava vista para a parte de baixo do loft, eu tentei a máximo não me locomover muito e deixar ela falando sobre como decorou seu quarto. A primeira vista para muito aquilo era desnecessário e tedioso, mas para mim era incrível ouvir todos aquele detalhes, e a cada palavras que saía eu sentia ainda mais a sua empolgação.

Até que em um breve momento, pegou em minha mão e me puxou para sentar na cama ao seu lado, paralisei de imediato tentando entender o que ela estava tramando.

— E este aqui é meu álbum. — disse ela colocando em meu colo.
— Uau, está meio pesado. — disse não me desesperando, ela me mostraria seu álbum e eu não iria ver.
— Sim, tem muitas fotos aí. — ela suspirou fraco — Só não tenho uma sua.
— Minha? — elevei minha face direcionando para ela.
— Bem, eu só tenho coisas escritas sobre você, mas não tenho como te ver, acho que isso me fez querer ver você ainda mais.

Suas palavras pareciam o que eu estava sentindo, eu só tinha a voz e seu perfume para me dizer que era ela, e isso me fazia querer vê-la ainda mais.

— Eu entendo. — disse dando um sorriso disfarçado.
— Então, posso tirar uma foto com você? — perguntou ela.
— Hum, você tem foto daquele paramédico que te salvou? — perguntou meio curioso.
— Não. — ela riu — Eu acho que tive por um tempo, pelo menos o que estava escrito é que ele não era interessante, mas por que a pergunta?
— Curiosidade. — eu ri um pouco.
— Hum.

Ela riu um pouco mais e se levantou, eu me levantei também, não sabia o que fazer, mas permaneci parado. Após alguns minutos, eu senti ela encostando seu corpo no meu de leve e batendo a foto, o barulho e a luz do flash estava acionado, ela tirou mais duas fotos e se afastou novamente. Eu acho que aquela câmera era uma polaroide, porque a cada foto que tirávamos ela me entregava o papel da polaroide para que eu “olhasse”, como se fosse realmente possível.

— Nossa, estou aqui só falando e ainda não tomamos café da manhã. — ela riu pegando minha mão e me puxou para a escada de novo.

se dirigiu para a cozinha, enquanto isso eu encontrei umas banquetas que ficavam do outro lado da bancada da cozinha, bem próximo aos puffs da sala. Fiquei sentado me atentando aos movimentos dela naquela cozinha apertada, seus passos eram poucos mais suas mãos se moviam bastante.

Ás vezes eu tinha a impressão que ela fazia barulho de propósito, além de sempre cantarolar quando eu ficava em silêncio. Ela não demorou muito para preparar tudo, e logo depois de colocar tudo na bancada, ela se sentou ao meu lado e me serviu um cappuccino e torta de morango, o cheiro estava muito bom.

— Espero que goste. — disse ela — É uma receita nova que estava testando ontem à noite.
— Bem, o cheiro está bom. — disse sentindo o aroma do morango como se fosse fresco — Tenho certeza que o gosto também.
— Tomara, eu finalmente consegui acertar o ponto da calda de morango, nunca fiquei tão feliz na vida.
— Pela sua empolgação, imagino que sim. — eu sorri automaticamente e me virei para o prato — Hum, eu gosto de morango.
— Sério? Eu também. — ela parecia estar feliz com meu comentário — O que mais você gosta?
— Bem, maracujá também, acho que uma sobremesa com as duas frutas ficaria muito bom. — respondi.
— Interessante, nunca pensei em fazer nada além de vitamina com essas duas frutas, mas acho que posso tentar inventar algo.
— Sério? — eu ri de leve — Eu estava brincando.
— Mas não seria divertido juntar duas coisas que gosta em uma só? — ela me perguntou num tom sério, porém descontraído.
— Sim, seria. — e mais uma vez ela estava me deixando sem argumentos — Não é estranho para você uma pessoa desconhecida na sua casa?
— Não. — respondeu ela.
— Não?!
— Não é qualquer pessoa que eu trago aqui, e você não é uma pessoa desconhecida para mim, tenho páginas sobre você no meu álbum. — sua explicação era tão espontânea e convincente.
— Devo ficar feliz por isso? Estar em algumas páginas de um álbum? — acho que tinha saído como algo inconformado, e eu estava, acho que não queria ser somente páginas de um álbum pra ela.
— Acredite, antes de estar nas páginas do meu álbum, precisa me convencer que pode estar no meu coração também. — ela respirou fundo — Meu álbum são meus pensamentos.

estava realmente se tornando mestre em me deixar sem palavras, suspirei um pouco fraco, estava pensando nas suas palavras, aquilo me fazia ficar esperançoso e ao mesmo tempo inseguro. Ela era incrível, mas e eu? Eu era um homem que vivia preso em sua escuridão e que tinha medo da luz, mas estava gostando dela, estava gostando de ficar perto dela.

Tomamos nosso café tranquilamente, ao longo daquela degustação me contava como tinha feito a torta de morango, eu tentava imaginar como tinha acontecido a cada palavra que ela falava. Mais uma vez os seus detalhes estavam se tornando um brilho para me guiar, o que me deixava ainda mais admirado com ela.

— Me parece que você gostou mesmo da torta. — disse ela recolhendo os pratos.
— Você é muito boa na confeitaria. — a elogiei sorrindo um pouco — Sua especialidade se espalha para outros lados da gastronomia?
— Obrigada, bem, eu cozinho desde muito nova. — ouvi os pratos sendo colocados na cuba da bancada da pia — Minha mãe era chefe profissional, tenho ela como uma referência.
— Hum, mas vejo que sua especialidade é doce.
— Digamos que o doce consegue despertar mais sorrisos, e é um desafio maior para os profissionais.
— E você gosta de desafios? — perguntei.
— Adoro. — ela riu de leve — Eu estava no terceiro ano da universidade, mas depois do acidente tive que sair, não dava para memorizar todo um semestre em algumas horas de leitura.
— Entendo, lamento por não poder continuar. — disse tentando dosar meu tom por estar frustrado por ela.
— Agora eu estou um pouco menos chateada e mais conformada, não cursar gastronomia não quer dizer que não vou mais cozinhar, eu somente não terei um diploma para provar que sei fazer algo que já faço.
— Você é incrível. — disse num quase sussurro — O modo como vê as coisas, torna positivo o que é negativo.
— Eu só acho que mesmo no escuro, ainda existe um interruptor que possa fazer uma luz se acender. — ela se aproximou de mim e pegou em minha mão — Assim como não haveria a noite sem o dia, não existe algo negativo sem o positivo. — ela entrelaçou nossos dedos enquanto explicava — Só é preciso achar o equilíbrio e não deixar que as coisas ruins se tornem maiores que a boas.
— Não consigo achar coisas boas, há muito tempo. — senti meus olhos encherem de lágrimas, felizmente tinha meus óculos para disfarçar — Eu acho que preciso ir.
— Já?!
— Sim. — soltei minha mão da dela com suavidade e me afastei me virando para a porta — Obrigado pelo café.
— Eu fiz alguma coisa de errado? — ela perguntou num tom meio apreensivo.
— Não. — eu me virei para ela — Você é maravilhosa, o problema sou eu, me desculpe.

Eu dei alguns passos até chegar na porta.

— Espera. — disse ela correndo até mim e colocando a mão dela em cima da minha na maçaneta da porta — Me deixe abrir, para você voltar.

Eu senti que naquele pequeno corredor, nossos corpos estavam de frente um para o outro, a proximidade era tanta que conseguia sentir o vapor da sua respiração, respirei fundo sentindo meu coração um pouco acelerado. Era a primeira vez depois que fui dispensado pela minha ex, que eu estava com um enorme desejo de beijar uma garota. Eu queria, mas deveria? Tomei impulso para beijá-la, porém parei no meio do caminho, estava pensando que se fizesse isso, poderia me machucar de novo e me arrepender.

Na minha mente o lado negativo estava vencendo, foi quando senti os lábios dela tocarem os meus, um beijo doce e ao mesmo tempo molhado pelas minhas lágrimas.

 

"Não vamos nos apaixonar, ainda não nos conhecemos muito bem,
Na verdade, estou um pouco assustado, me desculpe,
Não vamos fazer promessas, você nunca sabe o que te espera amanhã,
Mas estou sendo sincero, quando digo que gosto de você."
- Let's Not Fall In Love / Big Bang




Continua...



Nota da autora:
(04.03.2017)
Mais uma fic, agora um esperimento que estou fazendo a partir de duas músicas do BTS: I Need You e Save Me! Espero que fic legal.
Ask PM² - Grupo Pâms Fictions - Página Autora no FFOBS

Bjinhos...
By: Pâms!!!!

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Cold Night
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