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Última atualização: 16/08/2016

Prólogo


Eu estava parada perto da janela olhando para os prédios da cidade, a noite em Manhattan estava nublada e fria, assim como o inverno daquele ano. Encostei de leve na parede mantendo minha atenção na rua, respirando tranquilamente enquanto esperava meu servo retornar.

Ainda era estranho para mim estar naquela situação, era tudo novo para mim, os sons mais nítidos, minha visão mais avulsada, minha força elevada, um ritmo acelerado além do normal, minha garganta ainda ardia continuamente, ainda não tinha me acostumado com o desconforto que sentia em minha pele com as fortes luzes.

Ainda não reconhecia aquele lugar como meu, ainda nem me reconhecia interiormente, tinha mudado muito desde que nasci de novo e mesmo tendo sido preparada para aquilo, ainda me sentia uma desconhecida sem alma.

— Milady. — soou a voz de Dimitri vindo da porta.
— Hum. — eu virei minha atenção para ele, observei rapidamente seus trajes formais, ele sempre se vestia com ternos de grandes grifes masculinas — Conseguiu encontrar o que pedi?
— Sim, milady. — ele sorriu de canto e abriu mais a porta mostrando a pessoa que eu tanto procurava caída no chão — Não foi tão difícil assim.
O homem que tanto procurava, finalmente estava ali em minha presença, caído no chão com vestígios de sangue pelo rosto e grandes hematomas pelo corpo. Quando respirei de início, fechei meus olhos imediatamente, os sentindo dilatarem automaticamente com o cheio do sangue que escorria de sua boca. Abri meus olhos controlando meus instintos e assenti para que meu fiel servo o trouxesse para mim.

Dimitri o pegou pelo braço direito, o arrastou até o meio da sala e o largou novamente, eu caminhei lentamente até eles com meus olhos fixos no homem, quando cheguei perto o empurrei de leve com o pé e olhei sua face para me certificar que era mesmo ele. Estava mesmo de dar pena, totalmente machucado e inconsciente, olhei novamente para Dimitri que ainda estava em silêncio.

— Como o encontrou? — perguntei meio curiosa.
— Tenho meus contatos, milady. — ele deu alguns passos para trás — Se não precisa mais de mim, irei me retirar.
— Pode ir, se eu precisar o chamo novamente. — assenti com a face de leve mantendo-me séria e fria como deveria sempre ser — Garanta que ninguém me incomode até o entardecer de amanhã.
— Perfeitamente, com sua licença. — Dimitri reverenciou de leve e saiu do meu escritório fechando a porta.

Fiquei observando aquele homem por um tempo, até que ele começou a acordar, eu sabia quem ele era, mas não sabia se ele ainda se lembrava de mim, afinal no momento em que ele me conheceu, eu era bem diferente do que sou agora.

— Ahh. — um som de gemido começou a sair dele, deveria estar voltando a consciência, ele abriu seus olhos lentamente com certa dificuldade.
— Você pode me ouvir? — continuei parada em sua frente o olhando com certa superioridade, que estava se tornando habitual em mim — ?
— Onde estou? Quem é você e como sabe meu nome? — ele me olhou meio confuso, parecia ainda estar tonto, aquelas palavras serviram para que eu confirmasse que ele não se lembrava de mim, mas era um fato já que ele tinha me visto pela última vez há 10 anos.
— Me dê sua mão, vou te ajudar a se levantar. — estendi minha mão com um sorriso um tanto singelo, o que era divertido para mim me fazer de boa moça.
— Obrigado. — ele segurou em minha mão e eu o ajudei sem menor esforço, ele ficou me olhando ainda confuso e curioso — Você não me respondeu.
— Você está em um lugar seguro, longe das pessoas que te fizeram isso. — eu toquei de leve em seu rosto — E quem sou eu e como te conheço, logo descobrirá.
— O que quer de mim? — perguntou de forma direta.
— Quero te ajudar. — me afastei um pouco dele e caminhei de leve até a janela novamente, minha forma de andar estava um pouco sinuosa de mais — Quero lhe oferecer uma forma de fazer justiça a quem lhe fez mal.
— Como?
— Bem. — eu olhei para ele deixando as pupilas dos meus olhos dilatarem um pouco — Posso lhe proporcionar o que muitos desejam e poucos conseguem.
— Quem é você? — ele perguntou novamente um pouco assustado recuando de leve. — Eu sou o seu futuro.

Em um piscar de olhos, já estava em sua frente e antes mesmo que ele pudesse se mover cravei minhas presas em seu pescoço de forma rápida e precisa. O gosto do seu sangue era diferente e significativo, e aquele momento era um tanto esperada por mim!


“A sombra escura desperta em mim
Fogos de artifício explodem em meus olhos
Todo mundo se afasta do seu lado
Porque eu estou ficando um pouco mais feroz.”

— Growl / EXO






Capítulo 1


* POV — *


Assim como todas as noites, eu passei aquela em claro a observando dormir, tão pura e tão viva, o pulsar do seu coração era como música para meus ouvidos. Eu ainda me lembrava de minha vida humana, de como eu era fraco e sempre me metia em encrencas, até o dia em que fui transformado.

Eu não gostava me lembrar daquele dia, não gostava de partes do meu passado, nem mesmo do início da minha transformação, aquele pensamentos sempre me traziam dor e ressentimento. Desviei meu olhar para janela olhando a cortina, a janela nunca se abria por minha causa, o sol não podia tocar minha pele, pois me mataria, eu ainda não entendia porque ela havia se abdicado da sua vida humana para ficar comigo, mas eu me sentia bem e livre ao seu lado.

— Hum! — ela murmurou se remexendo na cama.
— Acordou? — eu disse num tom baixo desviando meu olhar para ela.
— Sim. — ela me olhou — Mas ainda sinto sua falta ao meu lado quando acordo.
— Sabe que não durmo. — eu sorri de canto desviando meus olhos para a geladeira — Está com fome?
— Um pouco, e você? — ela se levantou sentando na cama — Faz tempo que não o vejo se alimentar.
— Não se preocupe, fiz isso esta madrugada. — caminhei tranquilamente até a cozinha e abri a geladeira, peguei o pacote de pão e mais alguns ingredientes, comecei a montar um sanduíche para ela.
— Hum! — ela se espreguiçou se levantando da cama — Como é bom acordar com você aqui.
— Digo o mesmo. — eu sorri de leve terminando de montar o sanduíche, voltei até a geladeira e peguei a jarra de suco e despejei um pouco em seu copo. — Bom apetite!
— Obrigada. — ela se sentou na banqueta e começou a comer.

Eu permaneci encostado na parede a olhando, sua face tão tranquila e seus sorrisos eram como uma hipnose que me deixava paralisado. Annie e estávamos juntos há sete anos, ela foi a minha luz no fim do túnel quando eu desisti de viver, lembranças sombrias do início da minha transformação que persistiam em permanecer me meus pensamentos setenta por cento do dia. Era dolorido pensar nisso, mas sempre que permanecia concentrado em algo, a mulher que me transformou invadia meus pensamentos me fazendo remoer no passado.

Mas Annie era aquela que chegou em minha vida para afastar todos meus pesadelos, por ela eu não dormia mais, só de vê-la dormindo já me descansava, meus sentimentos perto dela era suaves e calmos. Fechei meus olhos e continuei ouvindo os batimentos do seu coração, o mesmo coração que havia me atraído para perto há sete anos quando a salvei de um assalto.

— Você está mais silencioso que o normal. — disse ela num tom preocupado.
— Estou bem. — abri meus olhos e a olhei com ternura — Só um pouco receoso porque voltamos.
— Está com medo que ela nos ache novamente? — perguntou ela caminhando até o banheiro.

Permaneci em silêncio com aquela pergunta, estava tentando entender o que realmente estava sentindo, não queria admitir, mas estar ali naquela cidade novamente me trazia mais ressentimentos e inseguranças do passado. Ela demorou um tempo no banheiro escovando seus dentes e quando saiu me olhou com suavidade.

— Se fosse para nos encontrar aqui, já teria dado sinal.
— Não diga este nome novamente. — eu a olhei com amargura ao ouvi-la dizer aquilo.
— Me desculpe. — ela caminhou até mim e se aninhou me fazendo envolver meus braços em sua cintura — Mas esta é uma parte da sua vida que você terá que resolver um dia , uma dia terá que enfrenta-la de uma vez por todas.
— Sim. — eu encostei meus lábios em sua testa de leve fechando meus olhos.

Não posso discordar com Annie, eu tinha que enfrentar aquela que me transformou, aquela que eu havia entregado meu coração e me machucou, a mulher que me dera pesadelos para o resto de minha eternidade, . Já faziam tempos que eu não pronunciava seu nome, a mulher que me fizera mal e ao mesmo bem, eu ainda não compreendia como ela tinha se transformado em alguém que eu odiaria.

Mas era o princípio de tudo, todo o meu tormento vinha dela, em todos aqueles anos com Annie eu havia jurado para mim mesmo que não voltaria mais a Manhattan, que ficaria o mais longe possível dela e de todos os vampiros que conheci no passado, mas aqui estava eu novamente, onde tudo começou. De volta ao meu passado de dor e sofrimento, eu não temia por mim, mas não suportaria se ela fizesse algum mal a minha doce Annie.

— Então não fique preocupado . — ela me deu um selinho e continuou me olhando com suavidade — Ela não fará nenhuma mal a nós, tenho certeza que nem sabe que voltamos, Manhattan seria o último lugar que ela te procuraria, afinal seria muito óbvio voltarmos.
— Espero que tenha razão. — eu sorri de canto e me afastei dela — Acho melhor se trocar e sair logo, ou chegará atrasada em seu primeiro dia de trabalho.
— Oh, é verdade. — ela riu e correu em direção ao pequeno closet.

Demorou alguns minutos para se trocar, antes de sair ela me deu um selinho e de leve. Era engraçado ver ela desesperada, Annie sempre se atrasava para seus compromissos, era desastrada e não tinha nenhum senso de organização, gostava de doces e ver desenhos antigos na televisão. Viver com ela era como voltar no tempo, mas sempre que eu voltava no tempo minhas lembranças me levavam a ela, .

Já havia se tornado um hábito fazer faxina naquele apartamento, assim como todas as outras moradias que passamos, era um meio de passar o tempo. Varrer a casa, lavar, passar, cozinhar as refeições que Annie comia, era divertido para mim, neste momentos eu não pensava em minhas lembranças, nestes momentos eu não pensava em meu passado infeliz e doloroso. Como não podia sair a luz do sol, os livros eram minha companhia na tarde, e quando a noite chegava, Annie voltaria para mim.

— Boa noite! — disse ela entrando.
— Como foi se primeiro dia? — eu estava sentado na janela, a olhei de leve, ela estava com um pacote em suas mãos.
— Foi muito bom obrigada! — ela sorriu e fechou a porta.
— O que é este pacote? — perguntei um tanto curioso.
— Não sei. — ela caminhou até mim com um sorriso — Mas espero que seja boa coisa.
— Sim.

Eu me levantei da janela permanecendo de pé, com um sorriso no rosto envolvi meus braços nela e a beijei com ternura e leveza. Ela devolvei o beijo envolvendo seus braços em meu pescoço, Annie era tão delicada que eu tinha medo de ser um pouco mais intenso com ela, tinha medo de machuca-la, sempre que eu a olhava era como seu uma boneca de porcelana estivesse em minha frente, sua face angelical despertava a parte boa que eu ainda tinha dentro de mim.

— Então. — ela disse — Vamos abrir o pacote?
— Sim, pequena curiosa.

Ficamos em silêncio nos olhando por um tempo, então eu peguei o pacote de suas mãos, ao abrir nos deparamos com uma caixa de madeira carvalho envernizada com desenhos de arabescos serigrafados nas laterais da tampa. Dentro havia um envelope preto com meu nome escrito em dourado, parecia ter sido escrito à mão. Annie pegou o envelope, o abriu e retirando um papel dourado com escritas pretas começou a lê-lo.


“ Boa noite ,

Surpreso com minha carta?
Ao contrário do que sempre pensou, eu sempre soube onde está e com quem está, seus passos jamais saíram dos meus olhos e estou feliz por ter voltado para casa, ou pelo menos por estar em Manhattan novamente, peço desculpas por não ter me pronunciado antes, apesar de estar aqui há dois meses já, eu estava esperando por um momento mais propício para lhe fazer este convite.

Esta noite darei um baile de máscaras e você está convidado, se quiser pode levar sua humana, estou curiosa para conhecê-la.

Você conhece o caminho e espero que apareça!


Sua doce vampira,
.”



Quando Annie terminou de ler eu já estava sentindo o pouco de sangue que estava em meu organismo fervendo de raiva, aquela era ela, a mulher que me transformou como sempre se mostrou ser, brincando comigo como gato e rato. Sempre demonstrando superioridade, sempre jogando com a vida das pessoas, eu peguei a carta bruscamente das mãos de Annie e sem dizer uma só palavra saí pela porta, desta vez eu tinha que encará-la, desta vez eu tinha que ver ela, pois todos os meus pesadelos se resumia a ela, nasciam dela.


“Eu não quero conhecer o seu jogo
Deixe ela fora disso
Não importa o que você diga pra mim
Não somos iguais.”

— Don't Know Why / McFly





Capítulo 2


Mais cedo naquele mesmo dia



* POV — *


Abri os olhos lentamente me espreguiçando, senti um leve desconforto em minhas costas, era o controle da televisão. Havia passado toda manhã deitada em minha cama pensando nas palavras que escreveria no convite desta noite. Me levantei e caminhei até meu closet, passei alguns minutos me decidindo o que usaria naquele dia.

Acabei colocando meu look habitual, uma camisa social feminina branca, uma calça jeans skinning preta e meu inseparável scarpin vermelho. Assim que retornei ao meu quarto, encontrei minha cama já arrumada, sorri de canto e me virei em direção à porta, meu fiel e leal servo, e amigo nas horas vagas, Dimitri, estava parado me olhando.

— Bom dia milady. — pronunciou ele.
— Um belo dia. — eu o olhei sentindo as pupilas dos meus olhos dilatarem automaticamente — Um belo dia para voltar a vida de certas pessoas.
— Falando assim, já imagino de quem seja. — ele sorriu de canto — E já se decidiu como irá de anunciar?
— Vou convidá-lo para o meu baile de máscaras. — andei até a escrivaninha e me sentei, abri a pasta preta e retirei uma folha dourada e pegando minha caneta de ponta fina comecei a escrever. — Já até pensei nas palavras enquanto descansava meus olhos.
— Deixe-me adivinhar, algo sutil e delicado. — concluiu ele.
— Sim, como sempre. — demorei mais alguns minutos escrevendo, quando terminei dobrei o papel e coloquei em um envelope preto e escrevi em dourado.
— Milady está certa de que é o melhor momento?
— Sim. — eu me virei para ele, me levantei e estiquei o envelope — Quero que embrulhe em uma de nossas embalagens especiais, alguém deverá entregar isso ao entardecer, quando a humana estiver retornando do emprego.
— Como quiser. — ele pegou o envelope ainda me olhando de forma séria como de costume — Espero que desta vez funcione.
— Vai funcionar, nem que seja transbordando de raiva ele virá esta noite. — eu sorri de canto.

Dimitri assentiu e se retirou fechando a porta, eu passei minha mão direita em meus cabelos olhando para janela, assim como todos os dias as cortinas permaneciam fechadas, pela intensidade da claridade do sol que a cortina transmitia, deveria ser na hora do almoço. Eu tentava me manter focada as minhas reais intenções quanto ao baile de máscaras, e mesmo aproveitando para despertar a fúria de , eu tinha negócios muito mais importantes.

Olhei para a poltrona ao lado da janela e caminhei até ela, peguei minha bolsa e conferi se tinha tudo que precisava, voltei para porta e antes de sair peguei minha taça de bebida que Dimitri havia deixado na mesinha ao lado da porta. Eu ainda não havia me acostumado com esta mansão, não trocava minha cobertura de dois andares em frete ao Central Park para morar ali, mas como o baile seria na mansão então eu passaria a semana aqui.

Caminhei pelo corredor, enquanto saboreava minha refeição matinal, desci as escadas tranquilamente vendo Dimitri já me esperando no último degrau.

— Convite enviado milady. — informou ele.
— Good. — respondi ao me posicionar ao lado dele, entregando minha taça vazia — Agora vamos aos negócios, não posso perder mais tempo, já fiquei muito tempo fazendo a boa moça.
— Então está pensando em fazer um visita surpresa? — perguntou ele ao pegar a taça.
— Sim. — ajeitei minha bolsa no ombro direito — Te espero na garagem.

Me afastei indo em direção ao corredor leste, desci as escadas até a garagem que era subterrânea, entrei em minha Mercedes preta, eu não me importava de andar de carro sob a luz do dia, os vidros eram especiais e bloqueavam os raios ultravioleta. Assim que Dimitri entrou, ele deu a partida e segui para nosso primeiro destino, iríamos ao Mount Sinai Hospital, um de meus maiores investimentos em Manhattan.

Desde os meus dias de treinamento em minha infância e adolescência, antes de ser transformada para me tornar milady de Manhattan, eu comecei a traçar meus investimentos e este Hospital estava em minha lista. Neste novo mundo que eu pertencia, havia um simples detalhe, se você controla o fornecimento de alimento, controla toda uma sociedade, e eu havia sido preparada para isso, para controlar todos em minha volta.

E por mais que pareça fácil se alimentar para um vampiro, visto externamente, não era tão fácil assim. Desde muito antes de eu ser transformada, o maior e mais poderoso clã que existe, os Tenebrae, haviam estipulado que nem todos os humanos poderiam ser mordidos, pois assim acabaria de forma rápida e catastrófica nossa fonte de alimento, pelo simples fato de se transformarem ao serem mordidos.

Então a lei suprema foi criada, um humano só poderia ser mordido por dois motivos, para ser transformado ou morto, simples e objetivo. Mas ficou uma questão em aberto, como os vampiros se alimentariam, e este mesmo clã formulou a solução, os vampiros controlariam os sistemas de doações de sangue de todos os hospitais do mundo, e como não teria uma superpopulação, jamais faltaria alimento.

E é aí que meus investimentos primários entram, eu controlava todo o sistema de saúde pública e privada de New York, incluindo hospitais, clínicas e maternidades. Seguindo a lógica dos Tenebrae, eu iria controlar tudo em NY, além de investir em outros setores financeiros também, eu tinha uma rede de cafeterias e pubs, frequentados por vampiros, mas também por humanos, para disfarçar.

Assim poderia controlar o fluxo de indivíduos que existiam em minha cidade e controlando seu alimento. Eu controlava também todo o sistema de segurança, eu tinha a ficha completa do chefe geral da secretaria de segurança pública de NY, todos os policiais trabalhavam para mim e alguns mais eficientes já eram transformados, para facilitar o patrulhamento e garantir o controle absoluto da ordem.

Nenhuma informação ou acontecimento na cidade passa sem que eu soubesse, e neste momento eu estava me preparando para voltar minha um pouco esquecida forma de controle e superioridade, e resolver um problema que estava tendo com a direção do hospital. Quando Dimitri estacionou, na garagem do hospital, já comecei a distinguir as vozes e as movimentações no edifício.

— Milady. — Dimitri me olhou.
— Vamos organizar os negócios Dimitri, já está na hora, não posso mais adiar a voltar ao velho hábito.

Ele assentiu em silêncio e nos direcionamos ao meu elevador privado, subimos diretamente até a sala do diretor geral do hospital. Quando chegamos no hall de entrada, passei direto indo até a porta, Dimitri lançou seu olhar intimidador para a secretária assim que ela tocou no telefone, um olhar que até eu às vezes me surpreendia com a intensidade.

Ao tocar na maçaneta, já ouvi alguns risos vindo do interior da sala, era a voz do diretor geral Sanches. Girei com cautela e abri de repente, ele deu um pulo da sua cadeira confortável ao me ver, na sala havia uma outra pessoa, usava um jaleco branco, deveria ser algum médico, lancei meu olhar para Sanches fixando ainda mais.

— Surpreso em me vez? — perguntei com um ar inocente entrando na sala.
— Bem. — ele estava com sua mão direita na altura no coração com seus olhos assustados e sua respiração presa.
— Já faz algum tempo que não lhe faço uma visita. — assim que cheguei em frente à sua mesa, percebi Dimitri entrando na sala, já não sentia mais a presença da secretária que estava no hall.
— Senhorita… — começou ele tentando não gaguejar.
— Pronuncie corretamente Sanches. — desci meu olhar para o pescoço dele, me lembrei vagamente do dia em que eu havia transformado ele.
— Milady, eu já estava conversando com o doutor neste instante, dizendo que seu relatório está quase pronto.
— Interessante, mas acho que já lhe dei o tempo suficiente. — em um piscar de olhos me locomovi parando em sua frente, peguei em seu pescoço apertando com minha mão direita, senti a pupila dos meus olhos dilatarem lentamente — Sabe eu sempre tive uma curiosidade nessa minha nova vida Dimitri.
— E qual é milady. — Dimitri estava tranquilo parado perto da porta segurando o médico.
— Dizem que vampiros são imortais, mas que o sol pode nos matar. — senti meus olhos ficarem mais negros ainda, nos aproximei da janela — Sempre quis testar esta teoria.
— Não, por favor, eu juro que não tive escolha. — suplicou ele.
— Não teve escolha, passou uma década desviando litros de sangue deste hospital e ainda diz que não teve escolha.
— Suplico milady. — ele me olhou demonstrando sofrimento, porém nenhum pouco de arrependimento.
— Não dou segunda chance. — sem que ele pudesse reagir eu o lancei contra a janela, o vidro se rompeu e seu corpo atravessou para o lado externo, em segundos já estava caindo em chamas, devido ao sol — E você doutor. — eu me virei olhando para o médico.
— Sim. — ele me olhou com medo, pude sentir o sangue correndo em suas veias, logo o pulsar do seu coração voltou a ser perceptível a minha audição.
— Há quanto tempo trabalha no hospital? — perguntei deixando meus olhos voltarem ao normal.
— Dois anos. — ele respondeu tentando não gaguejar.
— Suponho se seja um recém formado. — eu caminhei até ele, logo Dimitri levantou seu corpo — Estou certa?
— Sim, eu era um aluno do centro de pesquisas. — explicou ele.
— Interessante. — eu o olhei atentamente monitorando sua frequência cardíaca com minha audição — Acho que já é o bastante, pode voltar ao trabalho.
— Sim. — ele assentiu.

Dimitri o soltou e sem demora ele saiu, eu soltei uma gargalhada um tanto sinistra, Dimitri sorriu de canto me olhando.

— Como é bom despertar este meu lado dama da noite. — respirei fundo desviando meu olhar para a faixa de sol que estava atingindo o chão.
— Estou feliz que esteja assim milady. — ele abriu a porta novamente — Devemos ir para o próximo compromisso?
— Sim, mas antes quero que ligue para Cassie, quero tudo organizado neste hospital.
— Sim, milady.

Se Dimitri era meu braço direito, Cassie era o meu esquerdo, era ela quem contratava e guardava a lista de todos que trabalhavam para mim, e cuidava para que todas as minhas ações não fossem questionadas pelo conselho de anciões, que insistiam que eu deveria andar sob comendo deles.

Antes de meus próximos compromissos, eu e Dimitri fizemos uma parada em uma de minhas cafeterias, ao contrário dos pubs, a Coffee House era destinada ao público mais sofisticado da cidade. Como sempre, estacionamos na garagem e entramos pela entrada secundária, alguns olhares vieram em nossa direção de imediato, e por ironia eram todos para Dimitri.

Tenho que admitir que ele era sim um vampiro atraente e muito cavalheiro, e tinha alguns olhares que paralisavam as mulheres. Felizmente no meu caso, eu era imune aos encantos dele, mas ainda assim o achava charmoso. Eu segurei o riso, e caminhei até minha mesa habitual que ficava mais ao centro do lugar, me sentei.

— Lembre—se que estamos a serviço. — disse.
— Não se preocupe milady. — ele sorriu de canto e logo ouvi alguns suspiros vindos do meu lado direito.
— Assim espero. — reforcei ao ver o garçom já trazendo duas taças e uma garrafa de vinho.
— Boa tarde milady. — ele se curvou um pouco em cumprimento, tinha traços orientais — Aqui está, como sempre pede, seu favorito. — ele despejou um pouco do líquido nas duas taças e deixando a garrafa sob a mesa se retirou.
— O negativo. — pronunciou Dimitri ao pegar a taça.
— A melhor e mais rara safra de todas. — completei pegando a minha taça.
— E a que brindaremos agora milady? — perguntou ele.
— Ao meu baile de máscaras.

Eu ergui um pouco a taça o olhando sentindo uma ponta de brilho em meus olhos, naquele instante eu só conseguia pensar no momento da noite em que ficaria frente a frente com pela primeira vez após duas décadas de fugas dele e de completar cinquenta anos que ele havia me deixado.


“Lembra—se de uma voz e ouça ele cantar.”
— Transylvania / McFly






Capítulo 3


Momentos antes do Baile de Máscaras



* POV — *


De olhos fechados sentindo os músculos do meu corpo relaxados, dentro daquela banheira de espumas todos os meus problemas e preocupações pareciam não existir mais, bem ao fundo estava tocando uma música suave. Estava tudo tão calmo, até que ouvi alguns passos, pelo doce aroma que entrava em minhas narinas era Dimitri.

— Gostaria de ficar mais um tempo aqui. — disse a ele.
— Milady, está quase na hora, acho que não está em seus planos perder cada detalhe da noite.
— Oh, é verdade. — abri meus olhos e o olhei com leveza, eles estava um terno preto de tecido nobre, seu rosto já possuía sua máscara, o formato remetia a mesma máscara de o fantasma da ópera — Sempre aqui para me trazer a minha realidade.
— Sim, como sempre. — ele pegou a toalha que estava na mesa ao lado da porta e a abriu.
— Bem, está na hora da minha transformação, de uma simples garota para a dama de NY. — me levantei e sai da banheira, caminhei até ele e me enrolei na toalha — Certifiquei que esteja tudo pronto.
— Já está, Cassei disse que será um baile memorável.

— Assim espero. — eu sorri de canto e passei por ele indo em direção ao meu closet. Eu já havia escolhido meu look da noite há mais de um mês, queria causar o máximo de impacto possível, principalmente naquele conselho ridículo de anciões. Assim que coloquei a roupa me aproximei do espelho, por mais que meu reflexo jamais apareceria, era divertido ver a roupa se movendo sozinha nele.

— Interessante. — eu observei atentamente o vestido que estava em meu corpo, era vermelho tomara que caia, com cristais cravejados na região do busto, havia sido feito sob encomenda especialmente para aquele dia.

Voltei para o quarto e caminhei até minha escrivaninha, Dimitri havia deixado minha máscara em cima, ela era dourada com detalhes de arabescos com cristais, a coloquei no rosto, calcei minha sandália dourada de salto 15 e saí do quarto. Respirei fundo já ouvindo um fundo sonoro vindo do primeiro andar da mansão e muitas vozes conversando entre si, mas nenhum era a que eu esperava.

Assim que me posicionei na ponta da escada todos os olhares se dirigiram para mim, desci lentamente deixando fluir de dentro de mim todo meu charme e sedução naquele momento. Ao chegar no último degrau, Vincent Tenebrae, o mais charmoso e menos confiável do clã, veio de imediato me cumprimentar.

— Sua entrada foi exatamente como eu esperava. — disse ele me lançando um olhar de interesse.
— Imagino. — minha máscara era composta por duas partes e até aquele momento estava tomava toda a minha face, porém erguendo minha destravei a parte inferior deixando somente a parte dos meus olhos coberta — É uma honra ter um Tenebrae em meu baile. — disse deixando escapar um certo tom de falsidade de minha parte.
— Deve estar sentindo falta de vossa criadora. — comentou ele.
— Se está falando de Aaliyah, ela me disse que não poderia vir.
— Hum, me concede a primeira dança? — ele estendeu sua mão direita.

Eu assenti e fomos para o centro do salão, dançar com o Vincent era suave e ao mesmo tempo intenso, suas mãos eram macias e seu toque firme. Após o término da música me afastei dele e caminhei em direção aos sete anciões, com um andar soberano e superior, e jamais abaixaria meu olhar para eles.

— Boa noite senhores. — eu olhei na faca de um por um.
— Como sempre surpreendente milady. — disse Marcellus o mais velho e chefe dos anciões.
— Espero que aproveitem o baile senhores. — eu o olhei.
— Vamos aproveitar. — disse Klaus me olhando de baixo para cima — Até que seja a hora dos negócios.
— Com licença. — eu curvei minha face de leve e me afastei deles.

Esta era a parte insuportável de ser a milady de New York, meus atos e minhas decisões deveriam na teoria sempre passar a ser aprovada pelos anciões, isso me deixava um tanto irritada, eu odiava cada um deles e ainda tinha esperanças que um dia poder cortar a cabeça de um por um. E naquela noite teríamos uma reunião ao final da noite, eu já tinha em mente que eles iriam querer explicações sobre a morte de Sanches, mas não estava preocupada com isso.

Cumprimentei mais algumas pessoas consideráveis que estavam na grande sala, logo Dimitri se aproximou de mim com duas taças em suas mãos, me entregou uma mantendo seu olhar sério em mim.

— Sei o que este olhar significa. — eu tomei um pouco do conteúdo da taça — Não se preocupe, não vou enfrentar os anciões, não hoje, ainda mantenho minha promessa feita a Aaliyah Tenebrae.
— Sempre vou me preocupar com você, milady. — desta vez ele me olhou como se a palavra milady representasse o meu nome.

Enquanto todos se divertiam, eu e Dimitri fomos até o hall de entrada da mansão, precisava conferir se todos os nomes da minha singela lista de convidados haviam assinado sua presença. Alguns minutos depois eu senti a presença de alguém vindo em minha direção, respirei fundo e reconheci o aroma, era quem eu tanto esperava, .

— E chegou quem eu esperava. — olhei para a porta e o vi entrando, ele veio em minha direção, logo Dimitri se posicionou ao meu lado em silêncio.
— O que significa isso? — levantou sua mão direita com o papel preto.
— Um convite. — eu o olhei cinicamente — Confesso que já imaginava que viria.
— Vim por que precisava entender como me encontrou. — ele desviou seu olhar para o chão — Mas olhando para você agora, só quero manter distância.
— Ah, . — eu dei alguns passos para frente — Já deveria ter entendido que nada passa sem que eu saiba, você nunca ficou escondido do meus olhos, tenho meus contatos.
— Corrigindo, Dimitri tem seus lacaios. — disse ele num tom de fúria como se estivesse cuspindo aquela verdade.
— Interprete como quiser.

Ele se virou em direção a porta, porém se voltou para mim novamente.

— Só mais uma coisa, mande seus cães ficarem longe de mim.
— Para agir assim, suponho que ainda esteja com aquela humana insignificante.
— Annie significa muito mais na minha existência do que você.

Engoli seco ao ouvi aquilo, ele jogou o papel no chão e saiu transbordando fúria. Eu olhei para taça que estava em minha mão e a joguei na parede tentando controlar minha raiva.

— Milady. — Dimitri se aproximou de mim fazendo um gesto para que uma serva que estava perto limpasse os cacos da taça — Venha comigo.

Ele pegou em meu braço discretamente e me levou para o jardim de inverno que ficava na lateral direita, fiquei em silencio olhando para o céu, estava um tanto estrelado aquela noite.

. — sua voz estava mais grossa e séria que o habitual — Ainda sente algo por ele?

Dimitri sempre cuidava de mim e se preocupava com minhas alterações de humor e personalidade, ele havia feito um juramento eterno para Aaliyah, que me protegeria de mim mesma se fosse necessário. Só havia dois momentos em que ele me chamava pelo meu nome, quando eu ficava muito triste e me isolava do mundo ou quando eu deixava minhas emoções afetarem meu lado racional.

— Não sei o que sinto atualmente por ele, Dimitri. — virei em sua direção o olhei — Mas de uma coisa eu sei, gosto de estar no controle de tudo que me pertence, e está incluído na lista.
— Eu somente espero que o que aconteceu há alguns minutos não te afete racionalmente, você precisa demonstrar segurança e equilíbrio diante de todos.
— Eu sei. — eu desviei meu olhar para o chão — Fui treinada para controlar tudo o que sinto, as palavras de jamais vão me deixar em desequilíbrio novamente.
— Eu espero . — ele se aproximou de mim — Sei que lá no fundo aquela garotinha que eu encontrei no orfanato de Manhattan, ainda insiste em lutar contra seu lado dama da noite.
— Essa garotinha não existe mais, aconteça o que acontecer Dimitri, meu lado humano e inocente se foi quando fui transformada senhora Aaliyah.

Respirei fundo e o olhei novamente, meu olhar superior havia retornado, estava me sentindo mais segura ainda.


* POV — *


Eu estava ainda com mais raiva dela, mais ainda assim com toda raiva e fúria, a imagem daquele sorriso audacioso e daquele olhar fatal ainda persistiam em fixar em minha mente. possuía um ímã inexplicável que sempre me atraía para ela, mesmo querendo ficar longe, após 50 anos de rompimento, eu ainda tinha esperanças de ver em seus olhos aquela pequena garotinha que no passado eu salvei em uma noite chuvosa.

Caminhei pela rua, ainda relutante para voltar para o apartamento, não queria que Annie me visse daquele estado. Entrei no Central Park e andei mais um pouco até me sentar em um banco, após algum tempo senti meu celular vibrando no bolso da calça, era uma ligação de Annie, certamente preocupada comigo.

— Annie.
! — ela suspirou aliviada — Fiquei preocupada, me diga que você está bem.
— Estou. — eu me levantei — Chego em dois minutos.

Antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa desliguei o celular, corri com máximo de velocidade chegando na porta do apartamento em exatos dois minutos, quando ia tocar na maçaneta, ela abriu a porta e me abraçou.

. — sussurrou de leve — Fiquei com medo por você.
— Não fiquei, eu a conheço. — respondi entrando no apartamento — não faria nada contra mim, eu só não deveria ter agido no impulso.
— Mas, está mesmo tudo bem? — ela me olhou preocupada.
— Não sei. — desviei meu olhar para o chão — Após ver ela, sinto que aquela fúria se despertou novamente.
— Então esqueça esta noite. — ela tocou minha face me fazendo olhar para ela — Olhe somente para mim, estou aqui com você.

Eu queria sim esquecer tudo aquilo, mas ver naquela noite depois de duas décadas sem olhar em sua face, mexeu de alguma forma comigo, no momento em que olhei em seus olhos por trás daquela máscara, eu senti que se meu coração batesse, ele teria acelerado naquele momento.


“Estou no lugar errado na hora errada
Sempre o último em uma longa fila
Esperando para algo dar certo, certo.”

— Just My Luck / McFly






Capítulo 4


Três horas para amanhecer



* POV — *


Mesmo tendo voltado a realidade, permaneci mais algum tempo no jardim de inverno, até que Cassie adentrou o lugar anunciando que os anciões já estavam à minha espera no escritório da adega. Eu troquei alguns olhares com Dimitri, em sua face eu percebi a preocupação constante, mas eu jamais faria algo sem pensar, já estava escolhendo as palavras em minha mente.

Me dirigi em direção ao escritório juntamente com Dimitri, assim que entrei já estavam todos sentados em suas poltronas enfileiradas me olhando. Aquilo parecia mais um julgamento do que uma reunião, e eu odiava quando faziam parecer isso. Dei alguns passos me aproximando mais e fiz uma breve reverência.

— Pensei que quisessem se divertir mais senhores. — disse olhando de relance para o lado direito, vendo Dimitri se posicionar ao meu lado, de frente para mim com seus olhos fixos nos meus.
— Faltam algumas horas para o sol nascer, temos que ir em breve. — disse James, o ancião mais observador, ele tinha uma certa obsessão em avaliar todas as minhas expressões faciais e meus gestos e passos.
— Vamos ao que interessa. — disse Marcellus me olhando sério e atento — Estamos aqui mais uma vez por causa de seus atos feitos sem permissão.
— Especifique. — mantive minha postura correta e a superioridade em meu olhar.
— A morte se Sanches, este caso deveria ter passado pelo conselho. — Davis, o desleal dos anciões, me olhou com certa intensidade.
— Como sempre nada passa desapercebido pelo conselho, no entanto devo acreditar que já saibam a causa da extinção dele. — me pronunciei olhando fixamente para Davis.
— Não importa, a lei estabelece que não deve tomar decisões sem antes nos consultar. — frisou Xavier, o silencioso dos anciões.
— Não era preciso consultar, a lei suprema declara que para toda traição a sentença é a morte. — eu olhei para Marcellus — Diante disso, consultar o conselho não era necessário, além do mais, eu não havia ido com a intenção de fazer o que fiz, porém desde antes da minha transformação fui ensinada para não dar segunda chance. — eu desviei meu olhar para Davis — E sigo à risca este ensinamento.
. — Klaus se levantou — Abaixe seu olhar e demonstre respeito pelo conselho.
— Eu tenho. — sorri de canto meio debochadamente — Se me dão licença, vou me retirar, tenho que me despedir dos meus convidados, afinal fui obrigada a participar de uma reunião sem objetivos concretos, espero que tenham um bom amanhecer. — eu me virei.
— Jamais dê as costas e saia sem nossa permissão. — ouvi a voz de Marcellus se alterar.
— Permissão?! — eu ri baixo, senti a mão de Dimitri tocar em meu braço, aquilo era sinal de perigo, me parecia, me virei e olhei para Marcellus sem medo — Acho que não preciso de permissão para sair de algo que nunca deveria ter entrado, espero que da próxima vocês me convoquem para algo que realmente valha a pena. — eu olhei para Klaus — Vocês se enchem de orgulho quando dizem que sempre sabem de tudo antes de mim, estou muito curiosa para saber o porquê durante dez anos, Sanches desviou litros de sangue e vocês não souberam de nada.
— O que é isso, está insinuando que o conselho está envolvido? — Klaus deu um passo para frente seus olhos enfurecidos.
— Longe de mim insinuar algo. — disse com ironia — Não é mesmo Davis?

Eu olhei para Davis, não era de se esperar que o desleal entre eles estaria envolvido, eu havia descoberto isso, só não tinha como provar, isso me deixava irritada e revoltada, pois não poderia fazer nada já que as provas somente denunciavam Sanches.

— O que quer dizer com isso? — Marcellus olhou para Davis.
— Irei me retirar agora, espero que voltem em segurança. — me virei e saí do escritório sendo seguida por Dimitri.

Quando cheguei no hall de entrada da mansão me despedi de alguns convidados que ainda estavam na grande sala, em minutos já estava tudo vazio, Cassie ordenou para que o local fosse limpo de imediato. Eu me afastei de tudo aquilo e caminhei até o jardim de inverno, permaneci parada olhando o pequeno lago que havia lá permanecendo em silêncio ao sentir a presença de Dimitri.

— Pensei que não iria se controlar. — disse ele.
— Eu também, mas felizmente você estava lá. — eu o olhei — Tive mesmo que me conter, olhar para Davis sabendo o que ele fez para me prejudicar e ainda engolir as arrogâncias dos outros.
— Você precisa ser mais cautelosa milady.
— Eu serei, mas não vou abaixar para eles. — eu dei dois passos em direção a porta — Sei muito bem que foi uma armação de Davis que fez com que Aaliyah matasse a outra dama, não vou deixar que ele faça o mesmo comigo só porque não ando conforme seus interesses.
— E o que pretende fazer?
— Ele cairá antes que possa tramar outra coisa contra mim. — eu saí do jardim retornando para o interior da mansão.

Faltava duas horas para o sol nascer e os empregados ainda limpavam tudo, subi as escadas tranquilamente em direção ao meu quarto, abrindo a porta me deparei com uma surpresa.

— Tenebrae?! — eu o olhei sem entender, já entendendo.
— Soube da reunião e resolvi esperar um pouco mais para me despedir. — ele sorriu de canto, Vincent tinha um ar um tanto sedutor.
— Imagino. — eu caminhei até ele sabendo de suas intenções — Foi uma honra ter um Tenebrae em minha festa. — eu passei por ele indo em direção a janela.

Ele segurou firme em meu braço e me beijou de repente, já esperava por isso, mas não com tanta intensidade, eu já havia me acostumado com as investidas e olhares de Vincent, ele era o membro do Clã dos Tenebrae que mais marcava presença em minhas festas. Seu beijo era intenso e profundo, porém se toque macio e suave, as vezes conseguia me sentir um tanto desnorteada, não costumava passar a noite com qualquer pessoa, pois no meio de tudo sempre me lembrava de e isso me irritava às vezes. Porém Vincent conseguia deixar minha mente vazia e meus instintos ainda mais aflorados.


* POV — *


Assim que amanheceu, Annie acordou se espreguiçando na cama, eu estava de pé encostado na parede como de costume a olhando, estava pensando na noite anterior, naquele olhar que me matava e agora me tornava ainda mais vivo, o olhar da milady de NY.

— Bom dia amor. — disse ela dando um sorriso meigo — Como foi a noite?
— Consegui ficar mais tranquilo, sempre fico quando te olho. — sorri de canto para ela.
— Isso é bom. — ela se levantou e caminhou até o banheiro.

Eu continuei onde estava, ouvindo os movimentos dela vindos do banheiro, estava tomando uma ducha. Quando saiu já trajando sua roupa de trabalho veio em minha direção e me deu um beijo de leve.

— Vou te achar aqui quando voltar? — perguntou ela.
— Não sei, preciso me alimentar hoje.
— Tudo bem, se quiser posso me encontrar com você, agora que ela sabe que estamos aqui, não precisamos mais nos esconder.
— Talvez, tenha razão. — eu beijei sua testa de leve.

Annie saiu após tomar seu café. Passei a manhã e à tarde lendo livros e mais livros, ao final da tarde o tempo começou a mudar bruscamente e o céu foi ficando cada vez mais escuro, eu aproveitei isso para sair, precisava me alimentar. Subi em minha moto que estava estacionada na calçada e dei a partida, minha próxima parada seria Obviously Pub, um dos poucos lugares da cidade que tinha o alimento que precisava, e claro era uma dos pontos monitorados por .

Quando entrei, me lembrei imediatamente do dia em que deixei , aquele lugar foi o último que passei naquela cidade e eu estava ali novamente. Notei alguns rostos conhecidos e outros um pouco diferentes, logo um vampiro se aproximou de mim.

— Ei, ?! — disse ao se aproximar de mim — Quando voltou para Manhattan?
— Ah, . — eu o olhei, muita coincidência o encontrar ali — Voltei há dois meses.
— Suponho que milady já esteja sabendo do seu retorno. — ele se sentou na banqueta ao meu lado e olhou para o barmen — Vou querer um A positivo. — disse ao homem.
— Sim, ela já sabe. — eu desviei meu olhar para a pista de dança vendo algumas pessoas se divertindo — Sempre sabe de tudo, não é novidade.
— Bem, verdade. — ele riu sendo servido — A única novidade que ninguém sabe, mas terei o prazer em dizer em primeira mão a você, é que milady em breve se casará comigo.
— O que? — eu o olhei sem entender.
— Mas mantenha isso em sigilo, ainda não fiz o pedido oficial. — ele pegou seu copo e saiu em direção a escada que dava para o espaço vip no segundo andar.

Eu fiquei olhando para a bancada sem reação, não acreditava que se casaria com ele. sempre foi uma pessoa fria e desleal que sempre fez de tudo para derrubá-la, e não conseguia visualizar a união deles, mesmo que isso fosse uma ordem da própria Aaliyah.

Eu não queria me preocupar com tudo aquilo, a vida de não era mais da minha conta, ou pelo menos eu tentava pensar assim, me virei para o barmen e esperei ele terminar de servir a mulher que sentou ao meu lado.

— Pode me dar um B positivo por favor. — pedi a ele.
— Me desculpe senhor, mas não poderei. — respondeu meio sem jeito.
— Como assim? — estranhei aquilo tudo.
— Em todos os ponto foi dada a nova lista de restrições senhor e sua foto está nela.

Lista de restrições, deveria ter imaginado de imediato, sempre que queria eliminar algum vampiro colocava sua foto na lista de restrições, e a pessoa estaria proibida de se alimentar.

— Não acredito. — sussurrei para mim mesmo.

Saí do pub, eu não iria jogar o jogo dela, e se estava fazendo aquilo para que eu mordesse Annie ou qualquer outra pessoa, eu não iria fazer. Passei toda a noite vagando pelas ruas, voltei para casa muitos antes do amanhecer, estava me sentindo fraco e com fome, mas iria ser forte e resistir a tudo aquilo.

Quando entre no apartamento, Annie estava acordada, ela me olhou preocupada em confusa, eu não tinha forças para dizer nada. Estava lutando contra meu lado sanguinário e faminto, olhei fixamente para seu pescoço, conseguia sentir o sangue percorrendo suas artérias. Minha garganta ardia, senti minhas pupilas dilatarem automaticamente, eu estava com fome e Annie estava quase se tornando meu café da manhã.


“Os olhos ficam mais nítidos,
A tensão se sente como ele pudesse cortar alguém.”

— Growl / EXO






Capítulo 5


Após o amanhecer do Baile de Máscaras


* POV — *


Eu havia tido uma noite um tanto divertida com Vincent, ele se foi pouco antes do amanhecer, permaneci no meu quarto até que Dimitri surgiu, ele estava com uma taça em suas mãos, se aproximando de minha cama me entregou a taça.

— O negativo? — perguntei pegando a taça.
— Como todos os dias. — assentiu ele desviando seu olhar para a janela.
— Hum, algo que queira comentar? — perguntei degustando do meu café.
— Você e o Tenebrae no final da noite. — ele olhou em volta vendo que meu quarto estava um tanto quebrado — Foi intenso, fiquei surpreso por isso.
— Surpreso pelo que? — perguntei.
— Pensei que estivesse sozinha até este momento, por causa do seu vampiro.
. — conclui — Não posso parar minha vida enquanto ele não volta para casa, ele não parou a dele. Na realidade dos fatos é raro eu encontrar um homem que me desperte interesse.
— Milady. — ele me olhou sério.
— Não se preocupe Dimitri, jamais vou confiar em um Tenebrae que não seja Aaliyah. — eu me levantei da cama — E esta noite jamais irá se repetir, a milady de NY só realiza este desejo uma vez e nada mais.
— Cruel de sua parte. — brincou ele me fazendo rir.
— E por falar em crueldade, já atualizaram a lista de restrições como eu mandei?
— Sim. — ele se virou em direção à porta — , acha mesmo que ele irá preferir a morte?
— Tenho certeza, ele me fez uma promessa quando o transformei, e independente do seu ódio por mim, tenho certeza que ele irá cumprir, ele morre, mas não irá morder sua preciosa Annie ou outra pessoa.
— E conseguirá conviver com a morte dele? — Dimitri me olhou novamente — Está certa de sua decisão?
— Estou certa de que no final ele voltará para mim, custe o que custar, aceitará o obvio, ele pertence a mim e a mais ninguém. — caminhei em direção ao meu closet.

À noite


* POV — *


Mesmo sentindo uma vontade quase incontrolável de cravar minhas presas no pescoço de Annie, fechei meus olhos e me contive, eu não a machucaria, ainda mais sabendo que a causadora daquilo era . Me mantive imóvel de olhos fechados, prendi a respiração por alguns instantes, o cheio de Annie me atraía ainda mais naquele momento de fome desesperada.

? — disse ela se aproximando — Está tudo bem?
— Fique longe, por favor. — sussurrei.
— Mas porquê? O que está acontecendo?

Senti sua mão tocando meu rosto de leve, temia por minhas próximas ações, aquela era a primeira vez que estava naquele estado perto dela. Abri os olhos e a olhei, Annie me olhou assustada e deu um passo para trás.

— Seus olhos estão negros. — sussurrou ela ainda assustada.
— Quero que fique longe de mim a partir de agora. — eu me desviei dela e caminhei até a janela.

Por dentro estava travando uma luta fulminando contra minha parte faminta, cada pulsar do coração dela era como uma adaga atravessando minhas veias, a ardência na garganta aumentava ainda mais com seu cheiro.

— Eu não vou. — ela se aproximou ainda mais — Me diga o que está acontecendo.
— Ela proibiu minha alimentação. — disse diretamente, neste instante acendeu uma fúria dentro de mim que nem consegui dizer seu nome.
. — concluiu Annie — Como ela pôde? E o que vai acontecer agora?
— Quero que se afaste de mim. — disse fechando meus olhos novamente, se meu coração batesse, eu sentiria uma dor terrível.
— Não. — ela me abraçou por trás envolvendo seus braços na região do meu tórax — É isso que ela quer, nos separar, mas eu não vou te deixar.
— Não queria que arriscasse sua vida por mim, mas mesmo assim estou feliz por ficar.

Eu abri meus olhos sentindo o calor do corpo dela, sorri de canto e olhei para janela, meus olhos percorreram a rua até que pararam no terrado do prédio da frente do outro lado da rua. Lá estava ela nos olhando, , ao seu lado o inseparável Dimitri, foquei meu olhar ainda mais e pude ver que ele estava segurando firme em seu pulso. Havia alguns momentos cruciais que Dimitri a continha e aquele era um deles.

* POV — *


Engoli seco sentindo minha garganta queimar como se uma brasa estivesse nela, olhando aquela cena, eu havia ouvido cada palavra. Mesmo Dimitri me segurando sem motivos, eu não iria fazer nada, estava curiosa para ver até onde iria aquela segurança toda da humana insignificante, e quando admitiria que morreria sem mim.

— Milady acho que esta cena é o suficiente por hoje. — pronunciou Dimitri quebrando o silêncio que continha entre meus olhares para e os dele para mim.

Assenti com a face e nós descemos do prédio em um piscar de olhos e entramos no carro, permaneci em silêncio, não queria dar a oportunidade para Dimitri me repreender ou dar seus conselhos preocupados de um pai. Quando cheguei na minha cobertura no Central Park, fui direto para o quarto, sentia tanta raiva que nem meu alimento me acalmaria, eu era capaz de destruir toda aquela cidade em poucos minutos de tanta fúria reunida em mim.

Quatro dias se passaram e continuava a recusar o sangue de Annie, todas as noites eu e Dimitri íamos naquele prédio para que eu o observasse. Eu estava convencida de que ele realmente não iria morder ninguém e morreria, mas não tinha certeza se era isso que eu queria. Aquela preocupação estava mexendo com minha mente, passava horas do dia pensando nele e em como ele estava, isso atrapalhava minha concentração nos negócios, tinha que me manter focada para articular a queda de Davis e do resto dos Anciões.

Em um impulso repentino, peguei algumas coisas coloquei em uma sacola, saí de carro sem que Dimitri visse e segui até o apartamento dele. Assim que parei em frente a porta, me peguei em profunda indecisão, já não sabia mais de bateria ou não na porta, assim que ergui a mão direita, a porta se abriu. Meus olhos encontraram os de de imediato, senti uma brisa fresca e estranha passar pelo meu corpo.

Seu olhar parecia cansado, seu rosto um pouco magro, o que eu havia feito com ele, eu sabia de boatos que vampiros só conseguiam se manter sem alimento por no máximo três dias, era preocupante, mas ele seria orgulhoso o suficiente para se manter de pé sem mim.

— Veio conferir se estou extinto? — ele sorriu de canto meio debochadamente, havia aprendido aquilo comigo, sorrir para seu inimigo em meio a visualização da possível derrota.
— Não. — eu não sabia o que dizer, eu sempre perdia as palavras quando estava adiante dele e sem Dimitri perto era ainda pior — Quer dizer, não sei.

Desviei meu olhar para a soleira da porta, senti uma movimentação se aproximando, virei meu rosto para o lado, era a humana.

— Você. — disse ela surpresa, ela desviou seu olhar de mim para ele — ! — ela se aproximou e apoiou o braço dele em seu ombro, parecia que ele estava caindo de fome.

Fiquei sem reação ao ver aquela cena, desabando diante de mim, estava pensando o que faria com aquilo, se realmente o deixaria morrer ou não. Annie fechou a porta e provavelmente o colocou na cama ou no sofá, ouvi alguns suspiros que pareciam ser de dificuldade.

Permaneci onde estava com meu pensamento, tentando imaginar como seria o mundo sem , se eu estava pronta para perdê—lo para morte, se realmente era isso que eu queria. As palavras de Dimitri ainda ecoavam em minha mente, eu viveria bem se morresse? Essa era uma questão delicada naquele momento.

Finalmente me posicionei firme como uma milady e bati na porta, demorou alguns instantes até que Annie abriu, ela saiu para fora e me olhou com raiva.

— Ele ainda está vivo se é isso que quer saber.
— Não foi para isso, consigo senti a presença dele daqui. — estiquei a sacola entregando a ela — Leve para ele.
— O que é? — ela pegou olhando dentro.
— Agora morrer é uma escolha dele. — eu não iria me rebaixar ou admitir nenhum erro.
Aquele sangue serviria para deixá—lo saudável novamente, mas eu negaria até a morte que estava arrependida ou preocupada com ele, aquele era meu jogo e eu sempre estaria no controle, se morresse não seria mais minha culpa. Sorri audaciosamente para ela e antes pudesse dizer algo, desapareci de seus olhos.

Quando cheguei na rua, Dimitri estava parado ao lado do carro me olhando, sua expressão séria e seu olhar frio, havia desaprovado minha saída, mas quando deixou transparecer um sorriso de canto, entendi que tinha aprovado minha atitude.

* POV — *


. — disse Annie ao entrar pela porta.

Minha visão já estava começando a falhar e ficar um pouco desfocada, mas eu ainda sentia os movimentos dela. Ela se aproximou da cama e sentou ao meu lado, havia uma sacola em suas mãos.

— Temos a solução agora. — disse ela retirando uma embalagem pequena de isopor da sacola.
— O que é isso? — perguntei não entendendo.
— Seu alimento. — ela abriu a embalagem e retirou uma bolsa de sangue de dentro.
— Onde conseguiu isso? — eu ajeitei meu corpo me sentando na cama — Annie como conseguiu?
— Ela me deu. — Annie abaixou seu olhar.
— Eu não quero. — virei minha face com amargura — Não quero nada que venha dela.
, é uma chance, ela disse que agora a escolha era sua.
— É assim que ela joga. — eu a olhei — E não vou participar disso.
, por mim. — ela me olhou desesperada.

Sei que aquilo era a solução, Annie era motivo suficiente para eu me alimentar, mas ainda havia outro ponto. Eu sabia que ela iria ali em meu apartamento, sabia que não conseguiria ir adiante com aquela sentença, e desta vez eu não iria jogar o jogo dela, era ela quem iria jogar meu jogo. Desta vez eu seria o controlador de tudo.


“Eu não queria acabar com sua vida
Eu sei que isso não é certo
Eu não consigo nem dormir à noite
Não consigo tirar isso da minha mente.”

— Man Down / Rihanna





Capítulo 6


Ao amanhecer



* POV — *


Eu estava um pouco mais tranquila, afinal certamente Annie forçaria a se alimentar, não tinha mais o que me preocupar. Naquela manhã eu visitaria uma família muito importante da sociedade vampiresca de Manhattan, eles contavam com minha ajuda para localizar a filha ainda humana, que estava desaparecida.

Dimitri me acompanharia como de costume, havia deixado algumas ordens para Cassie antes de sair. Ao chegar na residência da família Summers, entrei pela passagem vip devido ao sol. Estavam todos na sala me esperando, fui recebida pela senhora Catrina a nova esposa do senhor Summers, ela tinha traços franceses, soube por Dimitri que ambos haviam se conhecido em Monte Carlo, ela tinha um sorriso que não me passava confiança.

— Summers. — o chamei pelo sobrenome como cordialidade — Presumo estar próximo de descobrir o que aconteceu e como aconteceu.
— Não me importo com estes detalhes milady, quero que descubra onde ela está.
— Vou descobrir, mas como sabe não posso deixar passar o sequestro de uma humana que pertence a uma família vampira.
— Só quero minha filha de volta em segurança. — ele se sentou na poltrona ao lado da lareira.
— Meu marido está muito abalado milady, só irá se recuperar quando Molly retornar para casa. — sua voz me enojava um pouco, era fina demais e um pouco baixa.
— Não se preocupe Summers, meu cães estão dando prioridade para seu caso.

Eu não me importava com desaparecimentos de humanos, isso era normal no cotidiano deles, mas quando tinha alguma relação com a sociedade vampírica, eu deveria dar total atenção. Dimitri trocou algumas palavras com Summers, porém voltei minha atenção para a esposa dele, que parecia nervosa com minha presença naquele lugar.

Eu já suspeitava um pouco dela, pois havia sido transformada recentemente, eu observei cada gesto dela, como tremia ao segurar a taça, como desviava seu olhar para o chão, como sorria forçadamente. Mas o que me deixou ainda mais intrigada foi seu suspiro de alívio quando entrei no caro, aquelas atitudes tinham um motivo e eu iria descobrir.


Ao entardecer



* POV — *


O sol já estava se pondo no horizonte, Annie não havia ido trabalhar naquele dia, estava preocupada de mais comigo para isso. Ela tinha deixado o copo com o sangue ao meu lado, assim seria tentador para mim ceder e tomar aquilo, mas eu seria forte ao meu propósito até o final. Passei todo o tempo deitado na cama olhando para as cortinas, estava pensando em meus próximos passos, em como eu faria se arrepender de tudo.

. — Annie sentou ao meu lado — Já se passou mais uma tarde, logo você completará cinco dias faminto, meu coração dói te vendo assim.
— Não vou obrigá-la a me ver assim. — eu me levantei com o pouco de força que ainda possuía.
— E para onde você vai? — ela se levantou parando em minha frente — Não faça isso , que se dane o jogo dela, não deixe de tomar aquilo. — ela apontou para o copo.
— Annie. — eu segurei de leve em sua cintura me aproximando um pouco mais dela — Quero que viva sua vida a partir de agora.

Encostei meus lábios suavemente em sua testa, as lágrimas começaram a escorrer em sua face, ela fechou seus olhos e antes mesmo que pudesse abri-los para me olhar, desapareci de sua vida. Eu sentia algo por Annie, um carinho muito grande que me fazia querer sempre protege-la, porém por mais que eu não quisesse admitir, meu passado, presente e futuro eram de .

Vaguei pelas ruas com um pouco de dificuldade, minhas vistas começaram a embaçar e meus sentidos falharem, escapei de dois atropelamentos até chegar ao Central Park. Fiquei parado atrás de uma árvore olhando para o prédio onde ela morava. Senti a pupila dos meus olhos dilatarem com todo aquele cheiro de humanos, meu corpo sentia uma queimação infernal, minha garganta em brasa, aquilo era pior que a morte.

Passei longas horas olhando para janela da sua cobertura, a cada instante me sentia ainda mais fraco, eu era um louco fazendo aquilo, mas não desistiria a esta altura do jogo. Fechei meus olhos tentando me concentrar, por mais que pudesse começar a ter alucinações naquele momento, dei o primeiro passo, ela teria uma surpresa quando entrasse em sua cobertura.


* POV — *


— Tantos problemas e não consigo achar a solução de nenhum. — soltei um suspiro meio frustrado olhando para a janela do carro.
— Defina os problemas. — Dimitri olhou para o retrovisor para ver minha face — Desvios de sangue, sequestros, .
— Esta última parte já está definida. — retruquei olhando para frente — Ele já tem o que necessita.
— Acha mesmo que ele vai tomar aquilo?
— Tenho certeza que não, mas não será minha culpa. — desviei o olhar para a rua novamente — Se ele quer morrer, é problema dele.
— Como se você fosse realmente conseguir conviver com isso.
— Eu poderia dormir hoje sem este seu comentário. — retruquei vendo ele rir de mim.
— E para onde vamos agora? — perguntou ele.
— Preciso fazer uma visita ao Lord.
— Mais um favor?
— Não. — eu sorri de canto — Desta vez é ele que me deve o favor.

Dimitri seguiu pela Quinta Avenida, até que parou em frente ao Manhattan Palace Hotel, onde se hospedava. Dimitri me acompanhou até sua suíte master e ao entrar, ele estava acompanhado por três mulheres humanas da alta elite da cidade, dei a ele dois minutos para se livrar delas e fiquei esperando na varanda. Dimitri permaneceu parado no hall de entrada da suíte observando os gestos de para comigo.

— Com ciúmes de minhas companhias? — disse ele ao se aproximar de mim.
— Não estamos com tempo para seus devaneios. — me virei para ele o olhando séria — Já descobriu o que pedi?
— Sobre?

Fixei meu olhar ainda mais demonstrando não estar de brincadeira.

— Calma milady, está mais tensa hoje. — ele se aproximou ainda mais de mim me olhando sinuosamente.
— Sinto que Davis está tramando algo contra mim novamente. — me pronunciei — E como você descobriu a participação dele no desvio de Sanches, preciso de alguma forma conseguir derrubar ele de uma vez por todas.
— E o que vou ganhar com isso? — ele segurou de leve em minha cintura.
— Como já foi prometido, um lugar entre os anciões. — fui direta e precisa.
— Preferiria outra coisa. — ele se aproximou ainda mais e me beijou com certa intensidade e malícia — Preferiria que aceitasse meu pedido.
— Já resolvemos esta questão , acho que ser um ancião já está bom o bastante para você.
— Não acha que a união da milady e do lord não seria propício para NY?
— Tenho outros interesses em questão. — eu toquei de leve em seu tórax o olhando sério — Preciso que continue focado em descobrir mais sobre Davis.
— Já estou de olho nele. — assentiu com um sorriso de canto meio frustrado.
— Muito bem. — eu me afastei dele indo em direção a porta — Logo você sentará no lugar de Davis entre os anciões.
— Meus cães já conseguiram a localização para onde enviaram os litros desviados, quer que eu resolva isso?
— Não precisa. — eu me virei para ele — Passe as coordenadas para Dimitri amanhã, eu mesma vou me encarregar disso.
— E quanto ao sequestro? Já soube de mais algo.
— Não. — eu sibilei um pouco, não sabia até que ponto poderia confiar em , mas precisava de sua ajuda — Mas tenho uma pessoa suspeita.
— Quem? — ele cruzou seus braços se encostando no beiral da varanda.
— Preciso que investigue sobre Catrina Summers, a nova esposa do Summers.
— Seu pedido é uma ordem. — ele piscou de leve e sorriu.

Eu me afastei indo para a porta, olhei para Dimitri que assentiu com a face como se estivesse de acordo com minhas decisões. Voltamos para o carro e Dimitri deu a partida, passei todo o caminho em silêncio, pensando em meus próximos passos, porém a cada novo problemas que pensava em uma solução, a imagem de invadia minha mente.

— Chegamos. — disse Dimitri me fazendo voltar a realidade.
— Ah, estava distraída. — eu olhei para frente.
— Pensando em tudo ou em algo específico?
— Estava sendo assombrada por . — disse diretamente.

Nós saímos do carro e Dimitri ficou me olhando, percebi que ele estava segurando o riso, eu parei no meio da recepção e fiquei olhando para ele.

— Pode dizer o que está querendo.
— Não direi nada. — seu olhar estava mais singelo que o habitual — Já disse que não me envolverei mais em sua questão sentimental com , só não misture o profissional nisso.
— Já sou madura o suficiente Dimitri. — eu sorri para ele — Parece até um pai quando fala desta forma.
— De certa forma, eu tenho idade para ser seu pai. — ele brincou me fazendo rir.
— Você tem idade para ser meu ancestral. — retruquei.
— Assim fere meus sentimentos. — ele me olhou como se estivesse ofendido, nós rimos por um momento e assim nos direcionamos para o elevador.

Assim que paramos no meu andar, comecei a sentir um cheiro conhecido e um tanto estranho, não acreditava naquilo, ele estava lá. Ao abrir a porta, senti como se meu coração pudesse bater novamente, seu corpo estava caído no meio da sala, será que ele estava ali para admitir o que eu mais queria?

?! — disse Dimitri lançando seu olhar para mim.

Até aquele pequeno momento, eu estava paralisada na porta sem saber como reagir, um branco estava tomando minha mente e anulando meus movimentos. remexeu seu corpo se virando para nós, havia uma pequena quantidade de sangue escorrida do seu nariz. Ele estava no estágio final, quase agonizando, quando o pouco de sangue que resta no organismo começa a ser expulso pelo próprio corpo, ele estava sentindo a pior dor do mundo e a causadora era eu.

. — eu disse ao me aproximar dele me ajoelhando ao seu lado — O que está fazendo aqui?
— Annie não merece ver minha morte. — ele abriu seus olhos, estavam vermelhos — Você é quem merece ver, não queria isso? Agora terá.
— Você sabe o que eu queria. — engoli seco desejando não presenciar aquela cena — Então prefere mesmo morrer?
— Uma vez… — ele parou por um momento, tinha dificuldades para falar — Prometi a você que sempre faria o que te fizesse feliz.
— Sua morte não me faz feliz. — o olhei segurando as lágrimas que achavam que poderia se formar no canto dos meus olhos, me mantive com o mesmo olhar superior e autoritário, mesmo sabendo que ele queria ver aquela garotinha do passado.
— Eu sei.

Em um movimento rápido e preciso, elevou um pouco mais seu corpo e cravou suas presas em meu pescoço. Dimitri permaneceu parado onde estava olhando tudo aquilo, fechei meus olhos os apertando no mesmo instante, suas presas estavam mais afiadas do que me lembrava que eram, senti intensamente todo o fluxo do meu sangue se movendo para meu pescoço, meu corpo estava ficando um pouco mais fraco e se conectando ao dele de alguma forma.

“Se você não acredita em mim,
Então olhe dentro dos meus olhos
Porque o coração nunca mente.”

— The Heart Never Lies / McFly





Capítulo 7


Madrugada chuvosa



* POV — *


Após dois copos de sangue, eu já estava restabelecida e forte novamente, havia começado a chover e eu tinha convencido a ficar, ele estava tomando banho em meu quarto. Meu corpo estava fervendo de raiva por ele ter me manipulado e voltado o jogo contra mim, era óbvio que ele me conhecia o suficiente para saber que eu não o queria morto e nem o deixaria morrer. Ao mesmo tempo que me sentia derretida com ele perto, meu ódio também permanecia dentro de mim, eu me via o matando de 100 formas diferentes mentalmente.

Dimitri preferiu tirar a noite de folga, ele não queria mesmo se envolver mais naquilo tudo, e suas necessidades masculinas já estavam aumentando, certamente ele teria uma longa noite acompanhado de, vai saber que mulher desta vez. Permaneci encostada na porta do quarto esperando terminar seu banho, ele realmente precisava.

Quando ele saiu, estava com a toalha enrolada na altura da cintura, os pelos do meu corpo se arrepiarem no exato momento em que meus olhos se fixaram nas linhas do seu abdômen. Paralisei por um instante até piscar meus olhos e voltar ao normal, me afastei da porta e me virei para sair do quarto.

— Está fugindo? — disse ele num tom enigmático.
— Não. — eu o olhei — Por que fugiria?
— Por que não ficaria? — ele deu alguns passos em minha direção.
— Tenho outras coisas para resolver. — respirei fundo como se fosse adiantar algo, estava desacostumada a tê-lo tão perto, dei um passo para trás mantendo minha confiança.
— Como o que? Por exemplo. — ele fixou ainda mais seu olhar em mim.
— Como se eu te devesse explicações. — sorri de leve — , desde quando se interessa por assuntos meus?
— Digamos que do jeito como está me evitando agora, estou curioso.
— Não estou te evitando.
— Não é o que parece.

Não sei se era pelo nosso passado, mas conseguia exercer sobre mim um controle inexplicável, e por mais que eu negasse, eu era vulnerável a ele. Ele sorriu de canto e se aproximou ainda mais de mim, não me dando a chance de me afastar ou me mover, ele envolveu seus braços em minha cintura e me beijou intensamente.


* POV — *


No momento em que ela retribuiu meu beijo com mais intensidade, confirmei o que já era óbvio, tanto eu como ela queríamos este momento há muito tempo, só éramos muito orgulhosos e presos demais ao nosso ódio para admitir. Tocar em sua pele era como tocar um veludo macio e suave, sentia falta daquilo, nossos corpos gelados pelo nosso coração frio pareciam se aquecer com precisão.

Mesmo com a chuva do lado de fora, nossa madrugada seria quente e presumo que incendiaria aquele quarto, eu não precisava ser cauteloso com ela, como era com Annie. Nossa noite seria longa e saborosa, quanto mais intenso eu seria, mais ela iria retribuir no mesmo nível, era a única que me completava em todas as formas possíveis e imagináveis.

Esperei algumas horas após o amanhecer, me levantei da cama e fiquei a olhando por um tempo, se ela não estava dormindo, fingia muito bem. Saí do quarto, aquela cobertura era novidade para mim, ao entrar na cozinha Dimitri já estava presente, com um copo em suas mãos encostado na bancada da pia me olhando com riso preso no canto dos lábios.

— Já presumo seus pensamentos. — me pronunciei.
— Como eu disse a . — Dimitri soltou um pequeno riso — Não me envolvo mais com o assunto de vocês, só espero que ela não saia abalada como da última vez.
— Abalada?! — eu soltei um riso fraco — Nunca me pareceu abalada.
— Então você não a conhece tão bem assim. — ele retrucou e tomou o restante do líquido — Ela é e sempre será vulnerável a você.
— Dimitri. — o olhei sério não entendendo, ou melhor, não querendo entender até onde aquela conversa chegaria.
, pode até negar para si, mas nós dois sabemos que você é o ponto fraco dela, e o fato de ter virado o jogo foi uma aprova. — ele riu — Para ser sincero o jogo jamais mudou, de alguma forma você sempre esteve controlando ela, mesmo sem perceber.

Não consegui dizer uma só palavra sobre aquilo, mas certamente passaria o dia todo pensando em suas afirmações. Dimitri foi até a geladeira, pegou uma bolsa de sangue dentro e uma taça no armário, despejando o líquido na taça se dirigiu para a porta.

— Ah. — disse ao entrar na cozinha — Acho que é para mim. — ela pegou a taça da mão de Dimitri e o olhou com seriedade.

Ela já estava vestida com suas roupas habituais para o dia-a-dia, seu estilo formal era atraente. Ela tomou um gole e desviou seu olhar para mim, como sempre era uma mistura de felicidade e fúria que me deixava ainda mais fascinado por ela.


* POV — *


Olhar para ele me fazia entrar em colapso, não conseguia reagir a aquele olhar, não sabia se me sentia feliz por aquela noite ou raiva por ele ter me manipulado, era amor e ódio em um fluxo intenso dentro de mim. Terminei de me alimentar e entreguei a taça para Dimitri, meu leal amigo e protetor estava com os olhos fixados em mim, presumo que estava preocupado com o que iria acontecer comigo e a partir daquele momento.

Entretanto, tinha outros problemas para resolver e meus sentimentos por ele deveriam esperar. Elevei meu olhar para erguendo um pouco minha face, seu olhar também estava fixo em mim, sua face suave com um sorriso de canto presunçoso, que acendia minha parte em fúria.

— Temos assuntos para resolver Dimitri e uma humana para encontrar.
— Que humana? — perguntou desviando seu olhar para Dimitri.
— Filha do Sr. Summers, é uma humana que está desaparecida há dois meses. — respondeu Dimitri.
— Onde ela desapareceu? — perguntou novamente.
— No estacionamento de um shopping.
— Proposital. — riu — As câmeras não mostrariam se fosse um vampiro.
— Boa conclusão, mas já sabemos disso. — eu o olhei com desdém.
— Deixe-me adivinhar então, mais uma armação contra você? — ele cruzou os braços — Vou adivinhar de novo, Davis?
— Espera. — Dimitri virou seu olhar para mim — Não tínhamos chegado nessa conclusão, mais uma jogada de Davis para destruir você.
— Como não pensamos nisso antes, tão óbvio o envolvimento daquele filho da...
— Olha a língua. — Dimitri me repreendeu com uma risada rápida.
— Só precisam associar uma coisa na outra. — concluiu .

Eu o olhei, ele estava certo, mas Davis era astuto e não deixava provas. De repente meu celular tocou, retirei do bolso e olhei.

. — desviei meu olhar para , esperando alguma reação dele — A que devo sua ligação?
Milady, sua ordem foi atendida. — disse ele do outro lado da linha.
— Especifique .
A nova esposa do Sr. Summers realmente tem algo a esconder, mesmo antes de me pedir para vigiá-la, eu já suspeitava dela, e após sua saída da residência deles ontem, ela saiu também.
— Suponho que tenha se encontrado com alguém. — conclui.
Sim, nada menos que a assistente dos anciões. — ele riu — Qual será seu próximo passo?
— Bem, acho que devemos marcar um encontro com ela, mas se certifique a Catrina Summers não desapareça de nossos olhos.
Não se preocupe milady, te espero hoje à noite no terrado do edifício da minha empresa, acho que se lembra do endereço.
— Claro que sim, ainda espero que envie aquelas coordenadas para Dimitri.
Chegarão daqui cinco minutos.
— Assim espero. — desliguei o celular antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
— E então? — perguntou Dimitri.
— Temos um encontro esta noite com a assistente dos anciões e , acho que estou começando a me sentir empolgada por esta noite.
— Que bom. — se aproximou de mim e segurou de leve em minha cintura — Porque eu irei com vocês dois.

Ficamos nos olhando fixamente, aquela sensação de segurança que só ele e Dimitri me passava havia dobrado. Eu havia ouvido a conversa dos dois, era sim meu ponto fraco, mas ao mesmo tempo, ele era meu ponto forte, ele era o que me deixava indestrutível.

“Meu papai me disse uma vez:
"Estando com alguém que você ama, vai fazer você ser uma pessoa mais forte".”

— Indestructible / Girls’ Generation






Capítulo 8


Flashback - Ano de 1927



* POV — *


Eu estava com raiva do meu pai naquela noite, tínhamos brigado mais uma vez e eu desejava fugir de casa, foi o que eu fiz inicialmente. Saí pela janela do quarto e caminhei lentamente pelo telhado até chegar na árvore do jardim, ajeitei a mochila que tinha preparado nas costas e não olhei para trás, só sentiria falta da minha mãe e do meu irmão mais novo.

Passei algumas horas vagando pelas ruas de Manhattan, senti um pingo cair em meu rosto olhei para o céu, estava começando a chover. Tinha que encontrar um abrigo para mim em algum beco ou casa abandonada, demorei um pouco até que bem ao longe ouvi uma voz gritar, corri na direção e bem ao fundo de um beco sem saída havia uma garotinha que estava sendo acuada por dois homens que pareciam ter mais de vinte anos.

— Por favor, me deixem em paz. — disse ela se encolhendo com suas roupas já encharcadas pela chuva.
— Calma queridinha, só vamos brincar um pouquinho com você. — o homem mais alto se aproximou dela com um canivete nas mãos — Vai ser uma brincadeira muito legal, não é amigo.
— Sim. — o outro homem riu — Fazia tempos que não achávamos garotinhas fugitivas do orfanato, hoje iremos brincar muito com ela.

Eu não sabia quem era a garotinha, mas não iria deixar aqueles homens machucar ela, olhei para o lado e vi um pedaço de madeira ao lado da lixeira, me abaixei com cautela e peguei, deixando minha mochila no chão. Os homens estavam de costas e o mais alto estava mais próximo da garotinha, eu aproveitei a distração deles e bati com o pedaço de pau na cabeça do mais baixo com força.

— Deixa ela em paz. — eu gritei respirando fundo.
— De onde você surgiu? — o homem mais alto me olhou com fúria demonstrando surpresa e depois de olhar para seu cúmplice caído ele veio em minha direção — Vou te mostrar uma lição seu pivete.

Ele deu algumas investidas com o canivete, felizmente consegui me desviar, eu consegui bater o pedaço de madeira que estava em sua mão, fazendo seu canivete cair, porém em um friso de descuido meu, ele me socou forte me derrubando, o pedaço de madeira caiu ao meu lado. Eu estava perdido naquele momento e ele havia pegado seu canivete novamente, quando se voltou para mim com a mão levantada para me perfurar com o objeto, a garotinha acertou ele com alguma coisa desviando sua atenção, eu aproveitei o momento para pegar o pedaço de madeira e acertar em sua cabeça.

Parei por alguns segundos para retomar meu fôlego e pegando na mão da garotinha a puxei para sairmos daquele lugar, corremos o mais rápido que conseguimos e o único lugar que eu conseguia pensar ser seguro para ela, era o lugar que eu não queria voltar, de onde havia fugido. Quando chegamos em frente minha casa, fiz sinal de silêncio para ela e entramos pelo mesmo caminho que eu saí, pela janela do meu quarto.

— Aqui estará segura. — eu disse assim que entrei depois dela já fechando a janela.
— Obrigada. — ela sussurrou tremendo de frio, seus olhos ainda assustados, ainda estava com medo.
— Eu não vou te fazer mal. — eu sorri de leve — Qual o seu nome?
. — ela se encolheu um pouco.
— Oi, sou . — eu caminhei até meu armário e peguei uma toalha limpa e entreguei a ela — Meus pais não estão viajando, minha tia tem o sono pesado, você pode tomar um banho quente se quiser, assim não ficará doente.
— Obrigada. — ela pegou a toalha timidamente e me seguiu até o banheiro.

parecia uma garotinha delicada e meiga, tinha um olhar puro e inocente que me passava tranquilidade, como se fosse um anjo. Eu deixei uma roupa seca minha na porta do banheiro para ela vestir e fui para o quarto dos meus pais tomar banho no banheiro deles. Assim que terminei e troquei de roupa, passei pelo banheiro e as roupas não estavam mais na porta, desci as escadas e fui até a cozinha, preparei alguns sanduíches e duas xícaras de chocolate quente.

Assim que abri a porta do meu quarto e entrei, olhei para a direção da minha cama, ela estava sentada nos pés me olhando, eu fechei a porta e tranquei para que minha tia não entrasse pela manhã.

— Trouxe, caso esteja com fome. — coloquei a bandeja em cima da cama e me sentei de frente para ela.
— Obrigada. — ela pegou a xícara lentamente.

Olhei para suas mãos e vi algumas marcas de machucado e cortes ainda recentes, ela permaneceu em silêncio enquanto assoprava o chocolate quente.

— Vive nas ruas? — perguntei, estava curioso para saber sobre ela, não parecia uma criança com um lar e família.
— Agora sim. — respondeu rapidamente pegando um sanduíche.
— Você tem família?
— Não.
— Quantos anos você tem?
— Nove.
— Me desculpe, se não quiser responder. — eu peguei a outra xícara de chocolate quente.
— Eu cresci no orfanato de Manhattan, fui abandonada no hospital onde nasci pela família da minha mãe, ela era uma grávida solteira e morreu no parto. — ela desviou seu olhar para janela — Isso foi a única coisa que sempre ouvi da diretora do orfanato.
— E porque está nas ruas?
— Trocaram a direção, e o novo diretor começou a abusar de algumas crianças, eu fiquei com medo, então fugi há sete meses. — ela deixou escapar uma lágrima no canto direito.

Automaticamente e sem perceber, minha mão direita encostou em sua face de leve e seco a lágrima.

— Sinto muito.
— Não é sua culpa. — ela me olhou — Obrigada, por me ajudar hoje.

Eu não sabia o que dizer, então eu a abracei, queria que ela sentisse que estava segura. Deixei ela dormir em minha cama, enquanto eu dormi no chão, ou melhor, fiquei a noite toda acordado a olhando dormir. Por alguns minutos de cochilo, quando acordei na manhã seguinte ela já estava perto da janela se preparando para ir embora.

Eu a impedi de imediato, olhei pela janela de relance e meus pais estavam voltando de carro. Precisava ser rápido e ter uma boa ideia, olhei para o teto e vi nossa salvação, a porta para o sótão ficava no meu quarto, então…

— Tive uma ideia. — eu abri a porta e desci a escada — Sobe.
— Mas.
— Não vou deixar você ir, pensamos em alguma coisa depois, algum lugar onde você possa ficar protegida, mas agora se esconda lá em cima.
— tudo bem.

Ela assentiu mesmo demonstrando insegurança, e se escondeu. Meus pais e minha tia nunca subiam no sótão, era um acordo que eu tinha feito com meu e do meu pai para ser o melhor aluno da escola. Aquele era o lugar mais seguro da minha casa, assim que fechei a porta do sótão, meu pai bateu na porta do meu quarto, senti meu corpo gelar na hora.

— Pai. — disse ao abrir.
— Bom dia, por que a porta estava trancada? — ele me olhou sério, sua voz sempre áspera.
— Porque eu ia trocar de roupa agora.
— E porque sua coberta até no chão? — ele desviou seu olhar de mim para dentro do meu quarto.
— É um experimento do clube de escoteiros.

Meus pai deu uma última olhada e se virou, eu fechei a porta respirando fundo, troquei de roupa rapidamente colocando o uniforme escolar e arrumei meu quarto, quando desci o café já estava na mesa, me sentei naturalmente e tomei meu café. Assim que meu pai saiu para o trabalho, pequei um pacote de biscoitos no armário e o saquinho do lanche da escola que minha tia havia preparado e corri até meu quarto.

Subi até o sótão e dei a comida para ela, o lugar era inteiramente limpo, organizado e confortável, era meu espaço de estudos e leitura, tinha uma poltrona inclinável ao lado da estante de livros e uma janela basculante para ventilação. Era ficaria bem temporariamente naquele lugar.

Passaram-se os dias, semanas, meses, eu não conseguia encontrar nenhum lugar para ela, nem mesmo minha primeira opção era a igreja da cidade, mas obviamente a mandariam para o orfanato, a polícia estava fora de questão, pensei até mesmo em esconder ela no teatro abandonado da cidade, mas já havia sido ocupado por uma facção criminosa, cogitei até mesmo a ideia de contar aos meus pais sobre ela e delatar sobre o novo diretor, mas não acreditariam em mim, pelo menos não o meu pai, que por ironia era a pessoa que ditava as regras na minha vida.

Eu comecei a não conseguir ver nenhum futuro seguro para ela longe de mim, havíamos nos tornado amigos. Eu era seu primeiro amigo na vida e ela estava se tornando a primeira garota em meu coração, meu anjo que eu tinha que proteger.

— Já está fazendo um ano que estou aqui no seu sótão. — disse ela de pé olhando pela janela.
— Eu ainda não consegui encontrar uma solução. — eu encostei na parede a olhando — Me desculpe.
— Por que está se desculpando, há um ano você está me protegendo, nunca tentou me machucar. — ela sorriu com doçura — Gostaria de ficar aqui por mais oito anos se possível, assim com maior idade, não me obrigariam a ficar no orfanato.
— Eu também.

Na manhã seguinte eu fui para escola naturalmente, estava feliz por ela querer ficar perto de mim também, logo ao final da tarde começou a chover, voltei para casa no ônibus da escola. Quando cheguei em casa estranhei o carro do meu pai estar parado em frente, ele nunca chegava antes de mim. Quando entrei, estava parada no meio da sala com seus olhos lacrimejados sendo segurada a força pelo meu pai, eu larguei minha mochila ao lado da porta enquanto entrava olhando aquela cena, senti medo naquele momento.

— Pai. — eu sussurrei e olhei para .
— Você a escondeu por tempo de mais.
Minha mãe estava no canto da sala em lágrimas e com um hematoma no rosto, ela havia descoberto sobre , mas manteve sigilo, fazia sentido ela sempre preparar dois lanches para mim toda manhã. A porta se abriu novamente e olhando para trás.

— Pai, por favor não. — eu comecei a entrar em desespero.

O diretor do orfanato estava lá para levar ela embora, assim que aquele homem a pegou pelo braço, eu avancei nele, meu pai me segurou. começou a gritar meu nome e eu o nome dela. Não acreditava naquilo que estava acontecendo, que ela estava sendo levada por aquele monstro de quem ela fugiu antes. Assim que ela entrou no carro, olhou para mim ainda gritando do lado de dentro.

Eu ainda estava sendo segurado pelo meu pai, naquele momento senti que meu coração havia sido arrancado de mim.

“Essas feridas parecem não querer cicatrizar,
Essa dor é muito real,
Há muita coisa que o tempo não pode apagar.”

— My Immortal / Evanescence




Capítulo 9


Atualmente



* POV — *


Eu não sabia até que ponto eu poderia envolver na minha vida novamente, foi por causa da minha condição de milady que tivemos nossa separação no passado, mas estava gostando de vê-lo andando pelo apartamento como se estivesse se sentindo em casa, bem ele realmente estava em casa.

— Por que está me olhando? — eu o olhei meio intrigada.
— Nada. — eu sorriu meio sem jeito — É que… Nada.
— Diga. — eu cruzei meus braços deixando minha face mais séria.
— Não fiquei tão séria. — ele se aproximou — Só, estou tentando me acostumar com isso que está acontecendo, ver você sempre que quero.

Eu ri espontaneamente sem saber como reagir, ele segurou em minha cintura e me beijou com um pouco de malícia, senti meu corpo se arrepiar naquele momento, eu me afastei de leve dele e olhei para o lado. Dimitri estava parado ao lado da porta nos olhando tranquilamente, eu sorri de canto e me afastei mais de .

— Então? — olhei Dimitri de baixo para cima analisando seu novo terno.
— Tudo pronto para daqui algumas horas. — ele desviou seu olhar para por um breve momento, depois olhos para mim novamente — Recebi as coordenadas de , temos que finalizar o assunto dos litros desviados.
— Vamos finalizar, daqui três lua, agora tenho que focar em encontrar a garota humana. — eu me dirigi para a escada — Gentlemen, vou me trocar para nosso encontro de hoje.

Subi as escadas deixando eles sozinhos, não tinha nenhum receio disso, Dimitri não nutria nenhuma desconfiança em , e vice-versa. As horas se passaram, no horário combinado Dimitri estacionou o carro em frente ao prédio da principal empresa de , nos acompanhou como havia declarado pela manhã, ainda tinha receio daquilo, havia partes em mim que ele odiava.

Ao chegarmos no terraço, já estava a nossa espera, a assistente dos anciões estava sentada em pé acorrentada pelos pulsos com uma longa corrente que estava pregada ao chão.

— Boa noite Meredith. — eu parei na frente dela e Dimitri parou ao meu lado — Agradeço por aceitar nosso convite para o este encontro casual.
— Não foi exatamente um convite. — ela me olhou com arrogância, o ódio vindo dela podia ser sentido.
— Então deve imagina por que está aqui. — eu lancei meu olhar superior para ela — Pobre garota, quem é você longe dos anciões?

Eu olhei para trás e vi que encostado na parede que estava distante desviei meu olhar para , ele havia sentado no beiral do prédio, ambos atentos aos meus gestos.

— Então deve saber que sou protegida deles. — ela insistia me enfrentar.
— Não se estiver extinta. — eu levantei minha mão direita e olhei para minhas unhas afiadas — Mas posso te dar o benefício do perdão, sei que Catrina tem segredos com você, diga quais são.
— Não direi nada. — suas pupilar dilataram — Seus dias estão contados milady de Manhattan, você...

Eu arranquei seu coração antes mesmo que ela pudesse terminar a frase, assim que seu corpo caiu no chão, já estava diante de mim, aquilo havia sito surpreendente até para ele.

— Você nem mesmo esperou. — disse ele.
— Ele não iria falar mesmo, e jamais dou segunda chance. — eu olhei para seu coração — Acho melhor guardar isso aqui, estou pensando em mandar de presente para Davis.
— E como pretende encontrar Molly agora? — Perguntou Dimitri direcionando seu olhar para mim.
— Que lugar você acha mais improvável para se esconder uma garota sequestrada por um ancião?
— A mansão deles. — respondeu Dimitri.
— E agora, o que você irá fazer? — Perguntou .
— Uma visita aos anciões, e meu cartão de entrada será este coração. — respondi me virando para a porta de entrada do prédio — Deixe o corpo ser consumido pelo sol, encontro finalizado.

Caminhei até a porta e ao passar por , percebi que ele não estava confortável com o que eu havia feito. Passamos todo caminho de volta em silêncio, quando chegamos no apartamento, entreguei o coração a Dimitri e pedi para que lavasse e colocasse em uma caixinha de presente personalizada.

Meus próximos passos teriam que ser cautelosos e precisos, e passaria as próximas horas pensando em minhas estratégia para que tudo desse certo. Mas seria interrompida por um leve desvio de atenção chamado .

— Fala. — tentei manter meu tom estável ao entrar no quarto — Despeja tudo.
— O que você quer que eu fale? — ele me olhou — Precisava matar ela?
— Está com dó dela? — eu não acreditava no que estava ouvindo.
— Eu pensei que tivesse mudado, mas continua fria como antes.
— Ela estava armando contra mim e você está assim porque a matei? — meu veio uma indignação naquele momento — você tem ideia das suas palavras.
— Não, mas gostaria que você tivesse ideia das minhas. — ele me olhou com mágoa — Não é assim que eu quero você, uma pessoa sem segunda chance.
— Esta sou eu agora, se acha que voltarei a ser aquela garotinha indefesa que encontrou no beco sendo coagida, eu jamais serei fraca novamente.
— Não é questão de fraqueza e sim frieza. — ele olhou para janela — Se fosse eu, me daria segunda chance?
— Você está aqui, não está?
— Não mais. — ele se virou e passou por mim saindo do quarto.

Eu segurei aquela pequena e insistente lágrima de raiva e ódio daquele lado humanitário que ele persistia em manter. Depois de alguns segundos olhei para porta e Dimitri estava parado me olhando, seu olhar enigmático e sua face séria.

— Não fale nada. — minha voz estava mais áspera que deveria.
— Já disse que não me envolverei mais nos seus assuntos com . — ele olhou de leve para a baixo na altura das minhas mãos, eu estava com os punhos fechados — Já marquei uma reunião extraordinária com os anciões para esta tarde, já pensei em tudo.
— Não deveria, este trabalho é meu. — olhei para janela controlando minhas emoções e voltando a minha realidade de milady.
— Não faltará mais oportunidades, porém neste momento somente faça o que eu disser. — de alguma forma Dimitri estava me ajudando ao tirar aquela pequena responsabilidade das minhas costas.
— Então diga como será.
— Enquanto estivermos em reunião com eles, e seus homens farão uma busca na casa, assim que encontrarem a garota ou algo que nos leve até ela, você entregará o presente a Davis.
— Mas ele saberá que suspeitamos.
— Não pode acusá-lo sem provas, mas Catrina será sua testemunha, assim que devolvermos Molly.
— Como queira.

Eu não estava em condições mentais de questionar Dimitri ou propor algo melhor, então deixei como ele havia proposto, enfrentaria os anciões enquanto faria o trabalho sujo.

* POV — *


Eu estava zangado com ela, aquele era o lado de que me fazia odiá-la, uma lado frio e calculista que havia afastado a doce garota por quem me apaixonei no passado. Faltava poucos minutos para amanhecer, entrei em um pub próximo, por ironia eu conhecia o gerente, que me deixou ficar isolado em seu escritório.

Desejava não ter trago de volta todo aquele sentimento bipolar do passado, representava tudo, mas eu odiava metade dela, aquela metade inserida por Aalyah. Fiquei jogado no sofá por horas, já havia perdido a noção do tempo, foi quando bem ao longe ouvi uma voz conhecida e que não deveria estar naquele lugar. Levantei do sofá e olhei pela persiana da janela, aquela voz era mesmo real, era Annie sentada no banco do bar, conversando com o barman e um homem estranho que estava com a mão na perna dela.

Saí rapidamente e ao chegar perto, peguei a mão do homem pelo pulso e torci com tanta força que pude ouvir o osso quebrando, o joguei no chão e olhei com fúria:

— Nunca toque nela. — olhei para Annie.
— Olha, o vampiro que me deixou. — sua voz estranha, estava embriagada.

Não iria discutir com ela, então a peguei pelo pulso e a arrastei para fora daquele lugar, para minha sorte o sol já estava se pondo no horizonte. Eu a levei para casa, assim que chegamos no apartamento eu a coloquei debaixo do chuveiro e fui para cozinha preparar um café extra forte para ela. Annie saiu do banheiro vestindo uma camisa minha além da lingerie, ela me olhou como uma criança.

— Porque me tirou de lá?
— Porque você estava fazendo uma idiotice. — eu me virei para a cafeteira e encaixando a xícara apertei o botão de preparo.
— Estava lá porque me fazia lembrar você. — ela caminhou até mim — Estava com medo de não ter sobrevivido, mas lá no fundo sabia que ela não te deixaria morrer.
— Prometa que nunca mais fará isso.
— Prometo. — ela abaixou a cabeça olhando o chão.
— Tome isso. — eu peguei a xícara e entreguei a ela.
— Ainda estará aqui amanhã de manhã? — ela sussurrou ao pegar a xícara. — Não.

Eu não sei por quê
Eu deixei passar despercebido
O tempo todo
Eu só queria que você tivesse tentado.

— Don't Know Why / McFly





Capítulo 10


Flashback - Inverno de 1927



* POV — *


Eu estava com medo do que iria acontecer comigo, a imagem de gritando meu nome era a única coisa que doía ainda mais do que voltar para aquele lugar monstruoso. Assim que cheguei senti um frio passar em minha espinha, o diretor me trancou em um quartinho estreito e escuro, a única coisa que conseguia fazer era chorar.

Ele me manteve trancada por uma semana a pão e água, quando saí pensei que seria minha hora do sofrimento, ele me levou para seu escritório a força, tentei me soltar várias vezes e gritava pelos corredores, eu sabia que ele iria me machucar naquele dia. Quando ele abriu a porta, havia um homem dentro da sala, estava vestindo um terno branco, sua face mesmo séria ressaltava suavidade.

— Aqui está a garota que está procurando. — disse o diretor.
— Exatamente como os registros? — o homem abriu uma pasta que estava em sua mão — , sem sobrenome desconhecido.
— Sim, só demoramos um pouco porque um garoto estava escondendo ela em casa. — o diretor confirmou me jogando no chão a poucos passos do homem.

Eu estava com mais medo ainda, até que o homem se abaixou e acariciou minha face, ele sorriu de canto me olhando com carinho e me pegando pela mão me levantou.

— Vamos para casa. — o homem me pegou no colo e me tirou daquele lugar.

Eu não sabia se iria para um lugar melhor ou pior que o orfanato, mas mantinha viva minha esperança de um dia rever . Chegamos em uma condomínio fechado, o carro parou no jardim da frente em frente à mansão, ao sairmos uma mulher estava parada na porta nos esperando, ela era linda, sua pele parecia porcelana e seus cabelos tinham tanto brilho, seus olhos de traços delicados e lábios com um sorriso de canto sinuoso. Vestia um vestido branco que parecia com dos tempos da Grécia antiga.

— Senhora, aqui está a garota. — disse o homem.
— Bem-vinda ao lar . — disse a mulher, sua voz era doce com um toque de firmeza.

Eu não conseguia dizer nada, ainda estava com medo e receio daquele lugar, o homem me levou para um dos quartos, minha primeira reação ao entrar foi ficar paralisada com tanto luxo e conforto, o quarto era enorme e parecia que sabia três quartos do dentro dele. Eu olhei em minha volta fascinada com tudo, me aproximei da cama e a apertei de leve, era tão macia, o tecido da colcha suave, olhei para o homem e o medo voltou a tomar conta de mim, tudo aquilo certamente não sairia de graça.

— Não precisa ficar com medo, ninguém irá te machucar aqui.
— Qual o seu nome? — eu perguntei.
— Pode me chamar de Dimitri. — ele sorriu de leve — Tome um banho quente e descanse, trarei algo para você comer.

Estranhamente eu me senti aliviada pelas palavras dele, eu entrei por uma porta que havia na lateral e descobri que era o closet, nunca tinha visto tanta roupa reunida em um só lugar, eu entrei no banheiro e passei um tempo boquiaberta, era tão claro, limpo espaçoso, tinha até uma banheiro. Não sabia nem por onde começaria, enchi a banheira de água e me joguei dentro, era divertido estar ali pela primeira vez, depois que tomei meu banho voltei ao closet, fui olhando roupa por roupa e coincidentemente todas pareciam caber em mim, coloquei um conjunto simples de moletom que mais me interessou e retornei ao quarto.

Dimitri estava encostado na parede ao lado da porta e havia uma bandeja com sanduíche na escrivaninha ao lado da cama. Caminhei lentamente até a bandeja.

— Obrigada. — eu o olhei.
— Coma e durma um pouco, amanhã será um novo dia. — ele saiu do quarto deixando a porta entreaberta.

Eu caminhei até a porta e fiquei ouvindo ele e a mulher conversarem.

— Então Dimitri, o que acha da garota? — perguntou ela.
— Será a melhor.
— Fala assim por que ela tem seu sangue?
— Também, ela parece ser mais forte do que aparenta.

Eu não sabia o que aquilo de sangue significava e porque ele me queriam, mas pelo menos por aquela noite eu dormiria tranquilamente de novo. Logo pela manhã ao acordar, eu ouvi algumas vozes vindo do corredor, eu as segui até que cheguei na cozinha, meu corpo paralisou ao ver Dimitri mordendo uma mulher loira no meio da cozinha. Eu dei alguns passos para trás, ele ergueu a cabeça e me olhou, suas pupilas estavam muito dilatadas e seus olhos negros.

Eu corri por entre os corredores da mansão até que trombei em alguém e caí, levantei meu rosto e era ela, a mulher soberana.

— Senhora. — disse Dimitri ao entrar, seu rosto sujo se sangue já estava limpo.
— Não se preocupe Dimitri, eu cuido disso, continue seu trabalho com Cassie.
— Como desejar. — em um piscar de olhos ele desapareceu da sala.
— Onde estou? — foi a minha primeira frase dentro daquela casa — O que são vocês.
— Calma, não precisa ficar assim, não vamos te machucar.
— Não foi o que eu vi naquela cozinha.
— Acalme seu coração. — ela se abaixou e pegou em minha mão e me levantou — Ele está muito acelerado.
— Por favor. — eu senti meus olhos lacrimejarem.
— Eu sou Aaliyah, sou sua tutora agora, não vou machucá-la. — se afastou de mim e se sentou no sofá — Eu pretendia ter esta conversa depois do café, de uma forma tranquila e serena, mas acho melhor lhe dar algumas respostas agora.

Sua voz suave era como um método surreal de me deixar calma e envolvida, Aaliyah me contou que ela e Dimitri eram vampiros. Ela era uma poderosa membro de uma das mais antigas famílias de vampiros, os Tenebrae. E era ela que comandava todo o território norte americano, era complicado para mim uma garota de dez anos absorver tudo que ela falava, mas de alguma forma eu entendia que eu estava ali por algum forte propósito.

E estava certa, eu seria treinada por alguns anos para ser a milady de Manhattan, para ser uma vampira. Ela não queria transformar qualquer mulher, pois a última era fraca e fora enganada por um homem mal a quem eu iria conhecer no futuro. Dimitri era contra ela me transformar ainda criança, então eles iriam me treinar até que eu alcançasse a idade adulta. Isso me deixava amedrontada, porém eu não tinha muita opção ou perspectiva de vida, então assenti sem muito esforço.

Os anos foram passando com treinos puxados e dolorosos, eles testavam cada aspecto de mim, físico, mental, sentimental. Para Aaliyah eu deveria me tornar implacável e sem fraquezas, forte, fria, calculista e sem piedade, ela queria que eu me transformasse na futura e soberana milady de Manhattan.

— Ai. — eu me ajoelhei com o impacto do cruzamento entre minha espada e de Dimitri — Eu não aguento mais, por favor, nos deixe parar.
— Não. — respondeu Aaliyah — Até que ela esteja livre de erros nesta etapa, este treino irá se perpetuar por mais este longo dia. — ela se virou e entrou para dentro da mansão.

Eu me descuidei e Dimitri me desarmou, ele passou a lâmina de sua espada no meu braço direito.

— Ah. — eu cai de vez e peguei minha espada novamente — Você me prometeu que não me machucaria.
— Eu não estou te machucando. — ele encostou a ponta da sua espada na minha garganta levantando minha face — Eu estou te tornando mais forte.
— Dimitri, estamos há um dia e meio assim, estou com fome, fraca e cansada.
— Então levante e termine o que começou.

Aquilo era doloroso, mas pior que treinamento físico com Dimitri, era enfrentar Aaliyah no treinamento psicológico, porém ambos me proporcionavam uma dor inigualável. E todos os dias sem descanso eu passava por tudo aquilo sem poder reclamar, tudo que Dimitri dizia e que estava me transformando em uma mulher mais forte a cada dia e que eu jamais abaixaria minha face para alguém, que eu estaria somente abaixo da própria Aaliyah.

Finalmente havia chegado meu aniversário de 17 anos, estava completando a maior idade estipulada pelos vampiros, Aaliyah estava contente pois a fase prática dos treinos concluída em minha vida e agora eu iríamos para Londres com ele e Dimitri, para que eu iniciasse a parte teórica dos meus treinos, iria estudar intensamente por mais alguns poucos anos para me tornar uma mulher culta além de bela e habilidosa.

Ela iria me explicar sobre os negócios que eu tomaria conta com a ajuda de Dimitri e me contar melhor sobre os anciões. Naquela noite estava chovendo, após o jantar Dimitri me levou até o escritório, ele queria ter uma conversa série e um pouco indiscreta comigo, naquela altura dos anos Dimitri havia se tornado meu amigo mais que leal de alguma forma estranha, eu contava algumas de minhas frustrações e já havia mencionado uma vez sobre .

— Bem estamos aqui. — eu o olhei.
— Você está há alguns passos de se transformar em uma mulher, porém falta uma coisa, delicada e íntima.
— Do que está falando? — eu o olhei com receio.
— Aaliyah não quer transformar você, sendo virgem. — ele foi direto e inexpressivo — Eu acho que isso é ir longe demais em sua privacidade, mas ela não aceitou meus argumentos.
— E você vai. — eu me encolhi um pouco, não imaginava Dimitri fazendo aquilo comigo.
— Jamais. — ele me olhou com carinho — Ainda vejo aquela garotinha assustada quando olho em seus olhos.
— E o que vai acontecer?
— Hoje é seu aniversário, o mais importante para os vampiros, a convenci de te deixar escolher a pessoa ideal para você.

No mesmo instante a imagem de veio em minha mente, eu não sabia onde ele estava, o que estava fazendo, se tinha alguém em sua vida ou se ainda estava vivo, mas eu ainda tinha meus sentimentos por ele vivos em meu coração.

. — eu sussurrei sem perceber.
— Imaginei que fosse ele. — disse num tom nem um pouco surpreso.
— Como? — eu o olhei.
— Porque você fala o nome dele enquanto dorme todas as noites, porque seus olhos brilham quando fala o nome dele. — ele sorriu — Estou surpreso por Aaliyah não ter conseguido arrancar o nome dele de você, em todos os treinos com ela, você nunca mencionou ele.
— Ela sabe?
— Somente que havia um garoto, mas seu nome, não.
— Não conte a ela, por favor. — ele sorri de leve — Meu coração ainda bate por ele.
— Então, esta noite irá acelerar.
— Mas hoje? — eu o olhei assustada.
— Sim, vamos para Londres amanhã há tarde.
— Dimitri eu não sei onde ele está.
— Mas eu sei.

Não sabia como Dimitri possuía aquela informação, mas estava feliz que veria novamente depois de setes anos. Apesar do medo de pensar que ele poderia ter me esquecido, eu iria até ele naquela noite chuvosa, a mesma chuva que fez nossos caminhos se cruzarem.

“Quando você chorou, eu enxuguei todas as suas lágrimas
Quando você gritou, eu lutei contra todos os seus medos
Eu segurei a sua mão por todos esses anos
Mas você ainda tem tudo de mim.”

— My immortal / Evanescence





Capítulo 11


Atualmente



* POV — *


Me preparei mentalmente durante todo aquele dia, mas sempre que focava meus pensamentos nos meus próximos passos para acabar com Davis, a imagem de invadia minha mente. Aquele ponto fraco estava me deixando ainda mais irritada, caminhei até o banheiro e enchi a banheira, um dos métodos que sempre funcionava para mim era ficar submersa, assim até mesmo o barulho do mundo acabaria e tudo ficaria em completo silêncio para mim.

Entrei na banheira já cheia de água me deitando no fundo, fechei meus olhos e deixei minha mente se esvaziar aos poucos, minutos depois senti uma movimentação e abri meus olhos, Dimitri estava ao lado da banheira me olhando. Ergui meu corpo e o olhei de forma mais séria, já imaginava que estávamos na hora de seguir com nosso plano, ele esticou a toalha que estava em sua mão e pegando me enrolei nela.

— Estarei pronta em cinco minutos. — sorri de canto e caminhei em direção ao closet.

Dimitri assentiu com a face, demorei exatamente os cinco minutos para me arrumar, quando cheguei na garagem ele já estava dentro do carro me esperando, entrei e partimos para a mansão dos anciões. Assim como planejado já estava em sua posição para procurar alguma pista, uma recepcionista estava a nossa espera na porta de entrada, suspirei forte ao passar pela porta, sabia que se algo desse errado não sairia viva daquela conversa, ainda tendo Davis nela.

— Sempre pontual milady. — se pronunciou Marcellus se levantando da sua cadeira assim que entrei na grande sala.
— Nosso tempo é precioso, por isso nunca me atraso. — mantive meu tom de voz forme porém moderado em sua altura, olhei rapidamente para Dimitri e com o olhar ele assentiu que nosso plano estava se iniciando.
— Quando Dimitri marcou esta reunião, imaginamos que fosse algo muito sério. — disse James ao melhor de baixo para cima — Esperamos que não seja perda te tempo.
— Jamais seria. — direcionei meu olhar para Davis — O assunto que me traz aqui é do interesse de todos.
— E o que seria? — perguntou Davis.
— Nosso precioso sangue desviado. — mantive meu olhar em Davis, estava atenta a cada movimentos facial dele — Foi rastreado e sua localização é próxima de Orlando.
— Sanches mandou todos os litros que roubou para Orlando? — Marcellus tossiu um pouco — Por que enviaria para lá?
— Sanches possuía uma ligação familiar com a milady de Orlando, o que não sabíamos é que estava ajudando ela a disfarçar sua má administração desviando nosso sangue para ela. — Dimitri olhou para Klaus — E com isso prejudicando a administração impecável da milady de New York.
— E agora? Vai reaver o que é nosso? — Davis se levantou sinuosamente com um sorriso de canto presunçoso — Por que essa acusação sem provas é o mesmo que colocar sua cabeça a prêmio .
— Temos sim as provas necessárias. — eu desviei meu olhar para Marcellus para disfarçar minha vontade enorme de cravar meus dentes em Davis — Graças a dedicada Meredith que gentilmente nos deu alguns recibos de Sanches assinados pela milady de Orlando, além de algumas gravações de retiradas de sangue do laboratório geral.
— E você veio aqui para nos pedir alguma permissão? — Marcellus me olhou com a superioridade que achava que tinha sobre mim — Ou para pedir que nossos vampiros façam seu trabalho?
— Nenhuma das opções, estou aqui para comunicar que todas as minha decisões quanto a este assunto não passará por vocês, já que estavam convivendo com uma traidora. — fixei meu olhar em Davis — Isso me admira, os anciões tão intocáveis e deixando que coisas assim passem por eles.
— Está insinuando alguma coisa? — perguntou Xavier se levantando.
— Longe de mim. — olhei para Dimitri, ele olhou de leve para o relógio que estava no seu pulso e me olhou assentindo com a face, estava na hora de finalizar nossa conversa, os minutos que demos ao estavam acabando.
— Tenho um compromisso e não posso dispor do meu tempo, espero que consiga nosso sangue de volta, milady. — Davis passou por mim com um sorriso de deboche na face, eu não deixaria ele permanecer tão tranquilo como estava.
— Era somente este assunto? — perguntou Klaus — Como Davis muito bem disse, não dispomos de muito tempo para conversas.
— Não exatamente, mas acho que podemos encerrar por aqui. — eu me virei em direção a porta, porém voltei a olhar para Marcellus — Só um conselho, escolham melhor a próxima assistente de vocês.
— O que você fez a Meredith? — Klaus me olhou fechando seus punhos, estava se controlando para não se jogar contra mim.
— Dei a ela o julgamento adequado a um traidor. — eu sorri de canto e pegando disfarçadamente a caixinha da mão de Dimitri, me retirei da sala.

Enquanto Dimitri ficou por mais algum tempo para transmitir o recado de Aaliyah sobre tudo o que estava acontecendo, eu fui até o quarto de Davis, quando entrei ele estava colocando seu terno azul marinho. Davis me olhou surpreso em me ver ali, se manteve em silêncio até que me pronunciei.

— Está preocupado com o que eu possa descobrir? — perguntei.
— Falando assim, parece que está me acusando de alguma coisa. — ele deu alguns passos em minha direção.
— Foi uma conversa muito agradável que tive com Meredith. — eu mantive uma atenção em suas expressões faciais — Mesmo Klaus a transformando, ela te obedecia cegamente.
— O nome disso é lealdade. — ele estava se esforçando para manter a tranquilidade.
— Bem. — eu coloquei a caixinha em cima da mesa ao lado da porta — Aqui está o que sobrou dessa lealdade.

Eu me virei e saí, ao descer as escadas Dimitri já estava perto da porta me esperando, assenti com a face confirmando a entrega do presente, ele sorriu de canto e abriu a porta para sairmos. Assim que entramos no carro meu celular tocou, para meu alívio era , com alguns rodeios ele disse que tinha uma surpresa para me dar, marcamos de nos encontrar em sua casa. Dimitri deu a partida e seguiu em direção ao nosso encontro, estava do lado de fora me esperando.

— Diga sem rodeios , quero encerrar este assunto o quanto antes. — avisei ao sair do carro com Dimitri.
— A garota não estava em lugar nenhum da casa, mas encontramos um endereço muito suspeito entre as anotações de Meredith. — iniciou ele tranquilamente.
— E? — eu o olhei desinteressada em informações irrelevantes.
— E que eu estava correto em minhas convicções, apesar de acharmos que o lugar seguro seria na mansão dos anciões. — ele me olhou com satisfação — Eu mandei que alguns de meus homens que maior confiança fossem no local do endereço.
— E encontrou algo? — Dimitri também estava sério e pelo seu tom de voz sem paciência para rodeios.
— Melhor, encontrei mais do que precisávamos. — ele sorriu de canto.

A porta da casa se abriu e duas pessoas saíram sendo seguradas por dois seguranças, o primeiro segurando Catrina que estava com seus pulsos amarrados por uma corrente, e o segundo segurando Molly em seus braços, a garota estava consciente porém fraca de mais para se locomover sozinha.

— Como a capturou? — perguntei.
— O endereço era de uma casa abandonada, no momento que meus homens chegaram ela estava de partida, mas conseguimos pegá-la. — explicou .
— Temos a testemunha e a culpada, só falta o cúmplice. — conclui — Vamos levar a garota para casa.
— E Catrina? — Dimitri me olhou.
— Ela confessará na frente de Summers, assim teremos mais testemunhas. — me virei para Dimitri — Quero resolver isso agora mesmo, assim não darei tempo para Davis fugir.
— Então vamos levá-la para casa. — concordou Dimitri.

Assim que chegamos na mansão de Summers, fomos recebidos por seu mordomo, ao ver a filha ele deixou transparecer suas emoções. Molly foi levada para seu quarto, antes de começar meu interrogatório esperamos o médico chegar e examinar a humana. Para a felicidade de Summers e alívio meu, ela estava bem só um pouco desnutrida e desidratada, mas estava consciente. Revelei tudo que descobrimos para Summers, como ele era um nobre vampiro de suma importância para nossa sociedade, tê-lo ao meu lado e contra os anciões seria uma ótima jogada.

— Aqui está nossa acusada. — a jogou na cadeira e colocando seus braços para trás segurou firme — Faça quantas perguntas quiser.
— Eu juro que não queria. — Catrina parecia desesperada e com medo do que poderia acontecer a ela.
— Summers, como eu disse sua esposa foi encontrada no cativeiro de sua filha, porém em respeito a você, preciso saber se posso interrogá-la na sua presença.
— Ela não representa mais nada para mim. — Summers a olhou com desprezo e se sentou na poltrona ao lado da lareira.
— Summers, eu não queria, por favor me perdoe. — ela o olhou, no canto do seu olho se formou uma gota de lágrima.
— Diga, porque fez isso com a humana? — perguntei fixando meu olhar nela.
— Por clemência milady, não me mate. — ela derramou a primeira lágrima.
— Responda minha pergunta e quem sabe não tenho clemência. — desviei meu olhar para Dimitri e voltei para ela.
— Eu juro que não queria, mas ameaçaram minha família humana. — ela abaixou sua face — Eu tinha que fazer isso, assim sua administração seria questionada.
— Olhe para mim. — ordenei.
— Acha que ela está… — Dimitri me olhou, ele me conhecia e uma história daquela não me convenceria.
— Eu disse, e quando eu mando, devem obedecer. — eu segurei no cabelo dela e puxei sua cabeça para trás, assim ela me olhou — Sua história não me convence, diga a verdade ou arranco seu coração.
— Se me matar não terá o que quer. — ela sorriu com um pouco de deboche.

Eu me afastei e lançando um olhar para para que ele a soltasse e se afastasse, eu lancei minha perna direita em sua cara dando um pequeno giro, ela caiu com a cadeira. Me aproximei sem piedade e pisei de leve com meu pé direito em seu pescoço deixando meu salto fino arranhar sua pele.

— Última chance, fale tudo o que sabe ou conhecerá uma dor tão profunda que implorará pela morte. — fixei meu olhar nos olhos dela, para que soubesse que eu não estava brincando.
— Davis. — ela disse sem sussurro, o nome que eu tanto queria ouvir, porém nunca mencionavam — Todos os problemas recentes era ele, seus planos eram para que o conselho a vissem como fraca e sem controle na cidade, assim Davis pediria sua cabeça por má administração.
— Conte tudo. — disse forçando ainda mais meu pé.
— Ele prometeu que eu me tornaria a milady em seu lugar se o ajudasse, assim depois que ele se livrasse de você, eu apareceria com Molly e seria nomeada. — ela me olhou — Eu faço o que quiser milady, só não me mate. — a lágrima que saía de seus olhos eram verdadeiras e ela estava mesmo com medo de morrer.

“Algumas pessoas riem
Algumas pessoas choram
Algumas pessoas vivem
Algumas pessoas morrem.”

- The Heart Never Lies / McFly



Capítulo 12


A cabeça do inimigo



* POV — *


Catrina contou tudo o que sabia na presença de três testemunhas, Davis utilizou da amizade de Sanches e do desespero da milady de Orlando para me prejudicar e desviar o sangue dos meus hospitais para ela. Assim como também todos os ataques que aconteceram com frequência nos pubs há dois anos também era ele, além de outras pequenas armações, porém a cartada final de Davis seria o sequestro de Molly. Eu ficaria desacreditada entre os anciões se não encontrasse a garota, ele poderia pedir minha cabeça por não realizar minhas tarefas, afinal se eu não consigo manter a ordem na cidade, não sirvo como milady.

— Quais são seus próximos passos agora? — perguntou — Vai levá-la até os anciões?
— Sim, só assim terei a cabeça de Davis em uma bandeja. — eu o olhei dando alguns passos para frente — Posso deixá-la na sua responsabilidade?
— Sem problemas, ela vai no meu carro. — pegou Catrina peço braço.
— Summers. — eu o olhei — Lamento que sua filha tenha sido usada como uma peça para uma cópia de golpe de estado.
— Agradeço por tê-la trago de volta, tem meu total apoio contra os anciões. — ele me olhou com firmeza em sua voz e no seu olhar.
— Fico honrada, agora tenho que terminar de resolver este assunto.

Saí acompanhada por Dimitri, como combinado levou a acusada em segurança para a mansão dos anciões, entrei na grande sala em ser anunciada. Marcellus e Klaus se assustaram com minha presença repentina, olhei para fora da janela, a lua estava no meio do céu tão iluminada que parecia dia, certamente já era meia noite.

— O que faz aqui? — perguntou Marcellus — Já te ouvimos o suficiente por hoje.
— Vim para anunciar que a humana Molly foi encontrada e com ela a culpada.

que estava segurando Catrina pelo braço a jogou para frente, seu corpo caiu diante dos anciões, Klaus a olhou com cuidado parecia reconhecer seu rosto.

— Esta é a esposa de Summers. — concluiu ele.
— Não mais. — o corrigi — E ela não é a única, Davis é a mente por trás de muitas coisas que andam acontecendo nos últimos dez anos.
— É uma acusação muito grave. — Marcellus me olhou sério e inexpressivo.
— Catrina confessou diante de três testemunhas. — confirmei minha palavra — Dimitri, e o próprio Summers.
— Então deixe que ela confesse perante o conselho. — disse James, entrando acompanhado por Thyler e Xavier.
— É verdade, Davis queria destronar a milady, e me ofereceu o lugar dela em troca de ajudá-lo. — Catrina estava exausta e sem forças.
— Davis quebrou o propósito do conselho e como queria controlar a milady, se viu impossibilitado por ser leal a Aaliyah. — Dimitri se pronunciou, mesmo sendo meu braço direito, ele ainda representava a própria Aaliyah na cidade — Sem direito a julgamento, Davis deve ser extinto.
— Acho que não teremos objeção quanto a isso. — olhei fixamente para Marcellus — O propósito dos anciões é aconselhar e não controlar.
— Se ele errou deve pagar. — Marcellus engoliu seco — Quanto a Catrina, o conselho decide uma morte lenta e dolorosa.
— Não. — ela me olhou e rastejou até mim suplicando — Você prometeu que me perdoaria.
— Eu disse que pensaria, mas como você optou por se unir a um ancião para estar em meu lugar, deve desfrutar da parte negativa também.
— Peça para chamarem Davis. — disse Klaus ao James — Ele deve pagar por seus atos.
— Sim. — assentiu.

Após alguns minutos James voltou com sua face enfurecida, o quarto de Davis estava vazio e ele tinha desaparecido. Controlei minha raiva fechando meus punhos, Dimitri segurou em meu braço me olhando de forma tranquila, ele queria que eu mantivesse minha mente focada.

— Colocaremos todos atrás dele, Davis não pode ter ido tão longe. — Klaus me olhou.
— Será que ele já suspeitava sobre sua descoberta? — perguntou Xavier.
— Senhores. — disse Ruby ao entrar — Mataram o senhor Uictor.
— Como? — Marcellus se levantou da cadeira.
— Seu corpo está ensanguentado no quarto. — explicou a moça.
— Me parece que ser um ancião não é mais seguro. — disse debochadamente.
— Após resolvermos o caso de Davis, resolverei o de vocês. — Dimitri olhou para eles.
— Davis pagará por seus atos e da pior forma. — Marcellus num tom de juramento — Ainda mais se for o culpado pela morte e Uictor.

Estava acontecendo o que eu mais queria, o poder do conselho estava sendo questionado e eu me livraria deles com certeza, mas antes disso tinha que colocar Davis na lista de espécie extinta de uma vez por todas. Não tinha mais nada para se fazer lá, antes do nascer do sol voltaria para meu apartamento acompanhada por Dimitri, porém tempos conturbados pedem medidas provisórias e rápidas, por isso antes de partir pedi para que cuidasse do assunto dos litros de sangue desviados, eu precisava que fossem recuperados e mais rápido possível e não temia não ter tempo para isso ou os livros serem desviados novamente, já que Davis estava à solta não podia arriscar.

— Temos que ser cautelosos agora , não sabemos onde Davis está e preciso recuperar o que me foi roubado. — o olhei transmitindo a confiança que tinha nele.
— Não se preocupe, seremos rápidos e precisos. — ele sorriu de canto — Para dizer a verdade, neste exato momento meus homens estão chegando as coordenadas.
— Como? — estava surpresa com a rapidez.
— Sei que tem andado muito ocupada livrando seu pescoço das armadilhas de Davis, e estava muito preocupada com esse sequestro da humana Molly, então resolvi tomar a frente desse assunto, já que fiz quase tudo, deveria finalizar. — ele riu de leve.
— Um perfeito lord. — elogiei — Sabe então onde deve deixar todo o carregamento.
— Sim. — assentiu de leve com o olhar também.
— Excelente. — eu me afastei um pouco dele.
— Milady. — ele segurou de leve em meu braço — Você vai ficar bem com Davis foragido?
— Claro. — eu me virei para ele o olhando — Não sou uma garotinha indefesa.
— Ela está preparada para qualquer situação. — Dimitri me olhou.
— Ei sei, porém não devemos subestimar o inimigo, sabemos que todo mundo tem um ponto fraco. — retrucou.
— Ninguém sabe meu ponto fraco, além de Dimitri. — afirmei.
— Tem certeza? — insistiu ele.
— Não se preocupe , apenas se mantenha responsável pelo que pedi e finalize esta questão, quero todos os envolvidos extintos, sem segunda chance.
— Como quiser. — ele assentiu e entrou em seu carro.
— A preocupação de tem fundamentos. — disse Dimitri.
sabe se cuidar. — eu o olhei — E para todos eu o odeio, não acontecerá nada, Davis está com medo.
— É por isso que devemos ser atentos, um vampiro quanto está com medo é capaz de qualquer coisa para sobreviver.
— Vamos para casa Dimitri, lá pensaremos melhor. — entrei no carro.

Chegamos no estacionamento do prédio junto com o amanhecer, assim que passamos pelo hall de entrada o porteiro me entregou uma caixa que tinha chegado do correio ao final da tarde do dia anterior. Peguei meio desconfiada e levei comigo, ao entrar no apartamento abri a caixa, era uma garrafa de vinho, tinha um bilhete escrito “Uma lembrança de mim para aquela que sempre teve o que queria.” Achei estranho aquelas palavras, mas me lembrava a forma como se retratava a mim em alguns momentos.

— Um presente? — Dimitri me olhou curioso.
— Parece que uma pessoas está arrependida. — eu sorri de leve e entreguei a Dimitri para que abrisse.
— Vai mesmo tomar? — ele abriu a garrafa ainda desconfiado — Não deveria.
— E por que não? — eu peguei a garrafa da mão dele e caminhei até a cristaleira e retirei uma taça — está arrependido e não sabe como se desculpar.
— E tem certeza que é dele? — insistiu Dimitri em suas desconfianças.
— E de quem mais seria?

Eu despejei um pouco do líquido na taça e olhei para Dimitri, assim que encostei a taça nos lábios a porta tocou. Dimitri se afastou e foi abrir, mesmo longe e sem visão de quem estava do lado de fora, podia ouvir sua voz e sentir seu perfume, era mesmo ele certamente querendo se desculpar. Sorri de leve ao imaginar que estava arrependido e tomei um gole do vinho tranquilamente.

. — disse Dimitri — Então era mesmo você.
— Era mesmo eu? — sua voz parecia confusa — Está falando do que?
— Do presente de reconciliação. — Dimitri respondeu.
— Me desculpe Dimitri, mas não estou entendendo.
— Da garrafa de vinho que mandou em sinal de desculpas. — explicou.
— Eu nunca mandei uma garrafa.

Eu comecei a me sentir estranha, a taça que estava em minhas mãos caiu, o barulho veio em minha audição como um estouro, senti minhas pernas falharem e desabei. Antes do meu corpo encostar no chão eu já estava nos braços de Dimitri, minha voz não saía e minha garganta ardia como se estivesse sendo rasgada. Senti uma dor insuportável, meus olhos embaçaram, mas mesmo assim eu conseguia ver o movimento deles, meu corpo se debatia involuntariamente.

Eu sabia que isso os deixariam ainda mais agoniados, em me ver naquele estado, precisava ter controle pelo menos sob as reações do meu corpo, se fosse para sofrer, sofreria sozinha. Fechei os meus olhos e me concentrei me lembrando e todos os treinos mentais, pensando em tudo aquilo que estava acontecendo, confirmei de imediato minhas suspeitas silenciosas que aquilo ela a última cartada de Davis, e eu tinha me deixado cair na armadilha.

* POV — *


— O que está acontecendo com ela? — eu estava desesperado olhando gemer, não sabia o quanto ela estava sofrendo, mas conseguia sentir um pouco através do seu olhar.
— Davis. — sussurrou Dimitri indo até a mesa e pegando uma garrafa.
— O que ele fez? — perguntei — O que ele deu a ela?
pensou que era um presente seu. — ele cheirou o líquido — Sangue de pessoa morta. — concluiu.
— O que isso significa? — senti um nó na garganta e a olhei com carinho e arrependimento, talvez se tivesse ao seu lado isso não teria acontecido — Ela vai morrer?
— Talvez. — a voz de Dimitri estava seca e amarga — Esta é a pior e mais dolorosa morte para um vampiro, apesar do seu corpo ficar imóvel e vivo, ela passará o resto dos seus dias em agonia e dor.
— Então ela não vai morrer. — eu o olhei com esperança.
— Não até não conseguirmos mais vê-la nessa situação. — ele fechou seu punho direito e socou a parede — Como eu deixei isso acontecer.
— A culpa não é somente sua.

O corpo de se moveu pela última vez até num suspiro que parecia ser de socorro, e então parou. No canto do seu olho esquerdo escorreu uma lágrima, senti meu corpo transbordar de raiva, o olhar inocente que tanto queria ver estava sendo naquele momento, com ela naquele estado. Dimitri pegou as chaves, olhei para ele sem entender.

— Onde vai? — perguntei.
— Atrás de quem fez isso, cuide dela.

Assenti sem questionar, sabia que Dimitri faria o possível para reverter aquela situação e trazer nossa de volta. Peguei ela no colo e coloquei seu corpo suavemente na cama em seu quarto, fechei as cortinas, ajeitei as cortinas para que nenhuma fresta de sol entrasse, me sentei ao lado dela segurando minhas emoções, as palavras de Dimitri invadiram a minha mente, eu era o ponto fraco de e por minha causa ela estava naquele estado, desejava naquele momento salvar ela assim como salvei quando era uma garotinha.

“Se você quiser lutar,
Eu ficarei bem ao seu lado,
No dia que você cair,
Eu estarei bem atrás de você,
Para recolher os pedaços.”

- The Heart Never Lies / McFly




Capítulo 13


Flashback - Primavera de 1935



* POV — *


Sete anos se passaram desde a última vez que a vi, sempre tinha pesadelos com aquele dia, ver sendo levada por aquele diretor que lhe causava medo. Seu olhar triste e amedrontado, seus gritos por socorro, quando me lembro de não poder ter feito algo para mudar sinto como se estivesse em uma guilhotina, as lágrimas em seus olhos eram minha última imagem dela.

Durante todo aquele tempo não havia perdoado meu pai, minha ideia de fugir definitivamente tinha se desfeito por um pedido da minha mãe, ela me acompanhou até o orfanato para visitar depois de muitos meses, mas ela já tinha sido adotada. Minha única esperança de vê-la tinha ido embora completamente com a sua adoção. Saí de casa assim que fiz dezoito anos, não olhei para trás, minha relação com meu pai não melhorou e minha mãe havia falecido por causa de uma doença.

! — gritou uma voz vindo atrás de mim — !?
— O que? — me virei era o dono da oficina onde trabalhava.
— Está tudo bem? — notei que está mais aéreo hoje.
— Estou. — coloquei a chave de fenda na bancada e me aproximei da moto — O carro do senhor Jhonson está pronto, se não se importa vou embora mais cedo hoje.
— Vá em paz e tente se manter saudável, note que ultimamente não tem parado nem para o almoço, muito trabalho também faz mal.
— Obrigado pelo conselho, mas estou bem.

Coloquei minha jaqueta e montei na moto, dei a partida e segui meu caminho, me perdi em meus pensamentos enquanto seguia pela rodovia secundária, parei no semáforo e fiquei esperando. Mantive meu olhar no sinal até que o desviei por alguns instantes, uma pessoa que estava entrando em um carro me chamou a atenção, por um minuto achei que fosse ela, seus cabelos longos sendo bagunçados pelo vento.

No olhos de qualquer pessoa, ela era apenas uma linda garota tendo sua beleza contemplada pelo pôr do sol ao entrar em um carro, mas nos meus eu insistia que era , mesmo mais velha sua face era suave como a dela. O sinal abriu e tinha a escolha de seguir, mas virei a esquina e segui o carro que a garota tinha entrado, alguns quarteirões depois ele parou em uma rua escura e entrou no que parecia uma garagem subterrânea.

Estacionei minha moto do outro lado da rua e fiquei olhando por alguns minutos, então desci e caminhei até a rua. Não tinha nada de diferente ou estranho, mas conseguia sentir um clima pesado e obscuro vindo de uma porta que estava ao fundo caminhei lentamente e bati na porta. Um homem alto e magrelo abriu a porta, seus olhos era negros e intimidadores, passei por ele em silêncio adentrando o lugar, parecia uma discoteca americana com traços de cabaré francês, porém não tão iluminado como a maioria das discotecas, aquele lugar dava uma sensação de escuridão e frieza mesmo movimentado.

Havia mulheres dançando em um palco como uma apresentação, várias pessoas espalhadas por todo o lugar com taças de vinho na mão, a música sendo misturada nas conversas de todos. Me aproximei do bar e sentei em uma das cadeiras, fiquei por alguns instantes olhando todo o movimento ao meu redor até que uma mulher se sentou ao meu lado.

— Está sozinho? — perguntou ela.
— Por que o interesse? — eu a olhei, era uma bela moça em um belo vestido vermelho, um decote que chamava a atenção de qualquer homem.
— Pelo seu olhar. — ela depositou sua mão direita na minha perna — Você me parece perdido, se quiser posso lhe fazer companhia.
— Não acho que seja a companhia certa para mim. — eu olhei para a mão dela — Mesmo sendo tão atraente.
— Me dê uma chance e eu te faço esquecer ela. — ela arqueou a sobrancelha direita dando um sorriso presunçoso.
— Tenho certeza que não. — eu me levante me virando para sair.
— Espera. — ela pegou em mu braço me virando — Você não entendeu humano, não vai sair daqui tão fácil.
— Do que está falando? — eu a olhei confuso pelas suas palavras.
— Nenhuma homem nega a mim. — ela deu um sorriso de canto, mostrando a ponta do seu dente, parecia mais afiado que o normal.

Eu me assustei ainda mais e tentando me afastar dela, seus dentes estavam estranhos e parecia presas de morcegos, olhei ao meu redor e vi algumas pessoas mordendo outras. Era uma cena um tanto surreal para mim, a mulher que estava na minha frente pegou em meu pescoço, seus olhos estavam negros, eu fechei meus olhos pensando que seria meus últimos momentos de vida até que senti ela soltando minha garganta.

Abri meu olhos e olhei em minha volta, estavam todos mortos com seus corpos caídos no chão, sangue espalhado por todos os lado. Olhei para o balcão e a cabeça da mulher de vermelho estava lá, eu me movi no susto e tropecei em um corpo que estava atrás de mim, antes que caísse uma pessoa me segurou, olhei para o lado e era ela, a garota que havia entrado no carro. Senti um frio passando por mim enquanto ficamos nos olhando por um tempo, desviei meus olhos para sua mão esquerda ela segurava uma espada ensanguentada.

— Você fez tudo isso? — perguntei em um sussurro.

Foi tudo o que consegui dizer até que senti o impacto de algo em minha nuca, instantaneamente meu corpo desabou e perdi a consciência. Aos poucos comecei a ouvir barulhos estranhos parecendo trovões, lentamente o movimento do meu corpo começou a voltar e abri meus olhos. Os barulhos que ouvia tinha uma explicação, olhei para a janela e vi que estava chovendo naquela noite, não me lembrava de como tinha voltado para casa e me deitado, só me lembrava daquela garota com a espada.

— Aquele pesadelo não foi real. — disse uma voz feminina vindo da porta.
— Você. — eu a olhei, me levantei erguendo meu corpo — .
— Então me reconhece. — ela sorriu de leve, seu sorriso continuava o mesmo, mas sua voz parecia mais firme e maliciosa.
— Como chegou aqui? Como me encontrou? — eu tentava analisar cada expressão do seu rosto, mas ela se mantinha tão inexpressiva com a face suave — Onde esteve todos esses anos?
— Muitas pergunta de uma só vez. — ela deu alguns passos em minha direção, porém parou no meu do quarto e lançou seu olhar para janela — Se lembra da primeira vez que nos vimos, estava chovendo como hoje.
— Sim, estava. — concordei me levantando da cama — Você sempre ficou assustada com a chuva, mas te vendo agora.
— As pessoas crescem. — ela desviou seu olhar para mim — Como passou todo esse tempo?
— Sentindo sua falta, preocupado com você. — caminhei até ela e peguei em sua mão — Você é mesmo real?
— O que você acha? — respondeu ela suavizando mais ainda sua face e seu meigo olhar, aquela pequena garotinha ainda estava ali na minha frente.
— Ainda estou sonhando? — eu toquei de leve em sua face a acariciando — Ou você está mesmo aqui?
— Sendo sonho ou não, vamos aproveitar esta noite.

Ela me beijou de surpresa, me paralisei por um momento até que meus braços se envolveram na cintura dela automaticamente. Seu beijo era doce e intenso ao mesmo tempo, quanto mais ela se entregava mais eu retribuía na mesma intensidade, mesmo com a chuva do lado de fora e todo aquele frio da noite, nosso amor manteve meu quarto aquecido e em chamas. Se aquilo era realmente um sonho eu iria fazer o possível para não acordar e tê-la em meus braços por muito tempo, havia sonhado com aquele momento por muitos anos e estava vivendo ele, sendo real ou fantasia da minha mente, nossos corpos estavam conectados naquela noite.

“Você não pode escapar de mim
Porque você é meu destino.”

- Destiny / INFINITE



Capítulo 14


Atualmente



* POV — Dimitri *


Eu tinha que me manter calmo e concentrado, havia poucas horas que Davis tinha fugido e eu não o deixaria escapar assim tão fácil, liguei para Cassie e ordenei que convocasse todos os meu cães de caça, faríamos um safári em meio a selva de concreto como diria Aaliyah. Já se aproximava da hora do almoço, devido ao sol mais intenso daquele horário teríamos que ser mais cautelosos ainda e por isso acionei a polícia de Manhattan para fazer suas buscar ao ar livre, a cabeça de Davis estava a prêmio e a pessoa que dissesse onde ele estava ganharia uma recompensa.

— Dimitri. — Cassie se aproximou de mim — Estão todos reunidos no estacionamento.
— Então vamos.

Cassei assentiu caminhando em minha frente, para muitas coisas ela era exemplar exceto quando tinha que ser fria e calculista, era por isso que não tinha sido uma candidata a ser a milady. Como Aaliyah queria, era preciso encontrar alguém que crescesse com o sentimento de soberania e liderança, alguém que jamais se corrompesse, alguém como .

— Prestem atenção todos vocês, começaremos em imediato esta caçada, vasculhem cada canto desta cidade e principalmente as fronteiras, ao pôr do sol quero aquele traidor vivo. — olhei para cada um deles parados em minha frente — Ele tem que estar vivo, pois nossa milady é quem irá lhe dar o destino que merece.

Todos assentiram sem hesitação e saíram correndo para cumprir sua tarefa, eu não poderia participar de tudo aquilo, por dois motivos, o primeiro tinha que ficar o mais perto de possível, mesmo estando com , eu ainda não confiava plenamente nele e segundo tinha que encontrar uma solução para trazê-la de volta. Entrei no carro e segui direto para a biblioteca da noite o lugar onde guardávamos livros raros sobre seres sobrenaturais, aquela era minha segunda vez e não me lembrava o caminho correto para estacionar, mas consegui parar o carro na rua lateral que havia sombra o suficiente e entrar pela passagem vip.

A bibliotecária ainda era Lunna, havíamos tido um relacionamento conturbado no passado e eu sentia que ela ainda guardava ressentimentos, mas não deixaria que isso fosse incômodo para que me ajudasse. Ela me levou até a sessão reservada dos Tenebrae, algumas horas depois entre alguns livros que me fizeram perder tempo, achei o livro que procurava, “Sangue de morto” escrito pelo doutor August Tenebrae um dos primeiros vampiros dessa família e como o retratavam um cientista nas horas vagas.

— Você acha que isso pode ajudar? — perguntou ela sentando ao meu lado no sofá.
— Nem tudo tem uma resposta, mas eu espero que para essa tenha. — respondi friamente enquanto folheava algumas páginas daquele livros de 957 páginas.
— Lamento que tenha acontecido isso com ela, de todas que já teve, foi a mais íntegra. — ela me olhou.
— Como soube tão rápido? — perguntei mantendo minha atenção no livro.
— Cassie me ligou. — ela fez uma breve pausa — Disse que certamente viria aqui pelos livros.
— Tudo que sabemos sobre os efeitos do sangue de um morto está aqui. — conclui — Assim espero.
— Aaliyah já sabe?
— Ainda não, não sei. — fechei o livro e a olhei — Estou tentando focar em uma coisa de cada vez.
— Espero que consiga pegar Davis o mais rápido possível.
— Eu vou, nem que eu tenha que procurá-lo pessoalmente, ele pagará pelo que fez.
— Vou fazer minhas buscas também, talvez consiga saber de algo com alguns amigos. — ela me olhou — Poderia me passar a garrafa como líquido? Talvez analisando o sangue poderemos ter mais respostas.
— Pedirei a Cassie para te entregar. — me levantei — Obrigada.
— Não precisa agradecer. — ela sorriu de leve — Você vai conseguir trazê-la de voltar, tenho certeza.
— Disso eu também tenho.

Sorri de canto para ela e me afastei, entrei no carro e fiquei por um longo tempo lendo algumas páginas do livro. Não voltaria para o apartamento enquanto não encontrasse uma solução, mas tinha que manter meus olhos focados em outras coisas como o último pedido de para , peguei meu celular e liguei para ele.

na linha. — disse ele ao atender. — Já completou o que se comprometeu a fazer?
— Dimitri, se fosse uma voz feminina diria que era a milady me fazendo essa pergunta, ambos se parecem muito. — ele riu — E falando nela, como ela está? Liguei pouco depois do almoço para o celular dela e atendeu.
— Não sei de seu estado, estou longe dela desde o nascer do sol. — respondi — Agora responda o que preguntei.
— Não se preocupe, tudo que pertence a Manhattan já está a caminho de Manhattan, em algumas horas será entregue no endereço que nossa milady solicitou.
— E onde está agora?
— Participando da sua caçada, mesmo que não tenha me convidado. — ele riu de leve — Espero que não fiquei irritado.
— Não ficarei, quanto mais pessoas atrás daquele traidor melhor. — assenti sem menores reocupações.
— E não está preocupado por ela ficar com ? — instigou ele.
— Conhecendo-a como conheço, está com quem ela sempre quis estar. — desliguei o celular antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa.

Segui com meu carro até a Estação Central e fiquei mais algumas horas esperando o pôr do sol, me distrai um pouco olhando as pessoas passando. Até que um homem passou por meu carro despertando minha atenção para ele, eu o conhecia de um passado muito distante, um passado que estava voltando a minha memória naquele momento sem que eu entendesse o motivo.

— O que estou fazendo? — perguntei para mim mesmo — Se esta pessoa que acabei de ver for a resposta, Aaliyah saberá.

Peguei meu celular e olhei para a tela por um momento, o que eu iria fazer acabou acontecendo primeiro por parte dela, era o número da casa dos Tenebrae.

— Aaliyah. — disse primeiro.
— Quando pretendia me ligar? — perguntou ela de imediato.
— Assim que encontrasse uma resposta, porém elas sempre me levam a você. — respondi.
— E qual resposta está procurando?
— Se me ligou é porque já sabe o estado de .
— As notícias correm rápido.
— Não se preocupe, sua cidade está em ordem.
— E o culpado? — perguntou ela num tom preocupado.
— Está sendo caçado neste momento. — eu suspirei — O conselho foi corrompido, e o que aconteceu com a só nos prova que todos eles podem se voltar contra suas vontades.
— Então que este conselho seja destruído, assim que o traidor for localizado.
— E quanto a minha resposta? — insisti, sabia que ela já teria pensado em algo.
— Página 777.

Sem que eu dissesse mais alguma palavra ela desligou o telefone, coloquei o celular no painel e abri o livro novamente na página que ela tinha dito. O doutor August estava falando de suas experiências que tinha feito no século XV com transfusão de sangue humano, substituindo do organismo do vampiro o sangue infectado por sangue puro. Porém esta experiência era um pouco complexa devido a todos os testes bem sucedidos o humano ser compatível com o vampiro doente, ou seja, teria que ser um descendente pertencente à família humana desse vampiro.

— Como ela está? — disse entrando no apartamento.
— Não se moveu desde o momento em que você saiu. — ele estava parado perto da parede de vidro que compunha a fachada do prédio olhando para as luzes noturnas da cidade.
me disse que ligou. — comentei.
— Sim, queria falar com ela sobre o sangue recuperado. — mantinha seu olhar para fora — Contei a ele o que havia acontecido.
— Encontrei uma forma de trazê-la de volta. — disse cruzando meus braços e encostando na parede.
— Qual? — ele me olhou, em seus olhos pude ver que ainda mantinha a esperança dentro de si.
— Uma transfusão de sangue pode dar resultado, mas não é qualquer sangue. — desviei meu olhar para o chão.
— Como assim?
— Precisamos de um sangue puro para ela, ou seja, um sangue que seja da sua família de verdade, a família humana que a abandonou.
— Então precisamos encontrar. — ele suspirou fraco — Mas pelo seu tom, não me parece esperançoso para isso.
— Talvez, não sabemos se vai ou não dar certo, é somente uma experiência do passado que não foram registrados muitos sucessos ou fracassos dela.
— Mesmo que não tenha nenhuma certeza, não podemos deixar de tentar. — sua voz parecia firme e segura.
— Tem razão. — eu o olhei — Reúna tudo que precisamos para o procedimento, peça para Cassie te ajudar nisso, eu trarei o sangue.
— Você sabe onde está a família dela? — perguntou.
— Não, mas conheço alguém que sabe.

Eu não queria deixá-lo preocupado e nem contaria a verdade do passado, mas a família de não existia mais, pois ela mesma tinha matado todos membros alguns anos depois que se tornou uma vampira. Leve ironia do destino pois agora ela precisava do sangue de um deles para viver novamente, porém havia um segredo na qual eu deveria mexer para garantir que a milady voltasse a vida, e o homem que eu vi passando na estação, como eu havia imaginado era a resposta.

“Algumas pessoas correm
Direto para o fogo
Algumas pessoas escondem
Todos os seus desejos.”

- The Heart Never Lies / McFly




Capítulo 15


Flashback - Segredos de 1935



* POV — *


Havia passado dois meses da minha noite com , eu já estava morando na casa de Aaliyah em Londres, apesar da maioria dos Tenebrae não aprovarem ela ter me adotado para que eu fosse a nova milady, ela estava determinada a esse propósito e confiava que eu iria ser a melhor. Para mim era como uma segunda chance na vida e havia prometido a Dimitri que jamais decepcionaria os dois.

— Muito bem, já está acordada. — disse Dimitri ao aparecer na porta do meu quarto.
— Acho que meu corpo já está mais preparado para o meu futuro. — comentei desviando meu olhar da janela para ele.
— Estava distante em seus pensamentos. — sibilou ele — devo presumir um nome que está dentro deles.
— Não estava pensando em , não somente nele.
— Durante todos estes anos a maioria dos seus pensamentos foi nele, em se o veria novamente.
— Dimitri. — deixei meu olhar mais sério.
— Não negue, existe uma conexão entre vocês que eu jamais vou entender, mas admiro muito o que sentem um pelo outro. — ele me olhou de baixo para cima — Só temo que ele venha se transformar em seu ponto fraco.
— Mais ninguém além de você e agora da Aaliyah conhece essa parte de mim. — eu respirei fundo — Não se preocupe, isso não irá atrapalhar os planos da nossa soberana.
— Não me preocupo com os planos dela, Aaliyah sempre tem uma carta a mais na manga.
— E está assim por mim? Eu serei mais forte do que já sou. — afirmei a ele.
— Não, tem algo a mais aí. — ele olhou fixamente para minha barriga — Dentro de você.
— Dimitri. — eu comecei a me sentir enjoada e com náuseas, não entendia o que estava acontecendo mais corri para o banheiro.

Passei alguns minutos trancada, não ouvi mais a voz de Dimitri e quando voltei para o quarto Dimitri estava parado em frente a porta e Aaliyah ao seu lado.

— Escute por você mesma. — disse ele num tom frio e preocupado — Dois corações batendo.
— Oh não. — disse ela lançando seu olhar da minha barriga para meus olhos.
— O que ouve? — eu olhei assustada para Dimitri — O que está acontecendo comigo?
— Você está grávida. — respondeu ele.
— Tire esse coração de dentro dela. — disse Aaliyah se virando para porta.
— Não. — eu gritei colocando a mão na minha barriga, meus olhos que nunca nestes anos viram lágrimas, começaram a lacrimejar — Não, Dimitri, por favor.
— Aaliyah. — disse ele — Precisamos conversar.

Dimitri saiu acompanhado por ela, contive minhas lágrimas e me mantive calma, se estava mesmo grávida de não deixaria que Aaliyah fizesse algum mal ao meu bebê, nem que para isso eu tivesse que fugir. Entrei no closet e pegando uma mochila comecei a enfiar algumas peças de roupa dentro, a cada pensamento sobre como eu fugiria daquele lugar uma lágrima a mais caía dos meus olhos.

— Onde pretende chegar com essa mochila? — perguntou Dimitri ao aparecer encostado na porta de braços cruzados.
— Vou proteger esse coração, custe o que custar. — ajeitei a mochila no ombro e passei por ele, senti sua mão segurar em meu braço — Sempre admirei a coragem de uma mãe ao salvar um filho, mas vendo você agora protegendo apenas um coração batendo, estou ainda mais fascinado.
— Dimitri, por favor. — eu o olhei já em lágrimas.
— Se quer mesmo protegê-lo, não será com lágrimas. — ele me olhou com frieza — Guarde suas roupas no armário, não precisará ir para que o coração continue a bater, apenas mantenha seu foco em ser a milady daqui nove meses.
— Então ela deixou?!
— Com a condição de se manter forte e inabalável, mesmo neste estado, não deixará de treinar.
— Estou grávida Dimitri. — questionei.
— Sim, e não significa que está morta, não é uma doença e seu corpo continua saudável. — ele se virou para porta — Seu treino volta a ser praticado amanhã pela manhã, não se atrase.

Eu já imaginava que Aaliyah não deixaria barato, respirei fundo e deixei minha mochila na porta do closet, tinha que manter meus treinos, mas isso era realmente uma estratégia para que eu abortasse. Segurei minha lágrimas durante toda a noite, uma coisa Dimitri tinha razão, eu não iria proteger aquele coração com lágrimas e sim com minha força.

Na manhã seguinte cheguei ao campo de treinamento antes de Dimitri, era uma grande quadra fechada e pouco iluminada, ele iria testar meus reflexos a um nível alto e extremo. Eu teria que manter minha mente tranquila e pensar em alguma forma de manter meu nível de habilidade da forma que ele queriam sem me esforçar muito, seria difícil, porém não impossível.

— Muito bem para o primeiro dia. — disse Dimitri ao me dar uma copo com água.
— Ela disse para você ser mais agressivo não disse? — perguntei.
— Por que me pergunta se já sabe a resposta e já planeja o contra-ataque em sua mente. — retrucou ele — Está mantendo seu nível, mas ainda assim se poupa em alguns momentos.
— Ela quer causar um aborto espontâneo. — afirmei — Você disse que lágrimas não protegeria, então tenho que pensar antes dela.
— Agindo com uma milady. — ele sorriu de leve.
— Parabéns, . — Aaliyah se aproximou de nós — Às vezes proteger alguém também é demonstrar força, além de raciocínio rápido.
— Senhora. — eu mantive meu olhar nela deixando minha face erguida.
— Muito bem, é assim que uma milady deve olhar para as pessoas, talvez este bebê que está dentro de você seja algo positivo. — concluiu ela me deixando confusa — Dimitri, amanhã bem cedo vocês voltarão para Manhattan, esta criança nascerá no país onde foi feita.
— Sim senhora. — assentiu ele.
— Modere os treinos físicos e aumente os treinos mentais, conclua todos os estudos dela em nove meses, assim que esta criança nasce, ela será transformada.
— Como desejar. — ele assentiu novamente.

Eu respirei aliviada, não sabia se estava feliz por ela agora permitir ou insegura por voltar a Manhattan, porém não deixaria que meus pensamentos me tirassem o foco e o equilíbrio. O tempo passou rápido após voltarmos para Manhattan, pensei que aqueles nove meses demorariam a passar e a cada mês que via minha barriga crescendo me sentia ainda mais feliz, era um momento de uma vida normal que estava tendo.

— De algumas semanas para cá estou me sentindo mais pesada. — comentei me sentando no sofá.
— Existe um ser crescendo dentro de você. — ele riu.
— Passou rápido o tempo, hoje se completa oito meses, mais quatro semanas ele nasce. — eu passei a mão na minha barriga de leve — Será um lindo menino.
— Sim. — concordou ele.
— Dimitri, o que vai acontecer assim que ele nascer? — eu o olhei — Não vou poder ficar com ele, não é?
— Não posso responder, mas só se preocupe com o hoje, amanhã resolveremos. — odiava aquelas suas resposta enigmáticas.

Eu comecei a me sentir estranha e desconfortável, olhei para o sofá que estava molhado, comecei a negar o que parecia estar acontecendo, minha bolsa tinha estourado e as contrações estavam chegando fortes e precisas. Antes mesmo do meu primeiro grito de dor Dimitri já havia me pegado no colo, não podíamos sair da mansão por ordem de Aaliyah, então os médicos foram até lá. Após horas em trabalho de parto, muita dor e lágrimas, eu vi de relance o meu filho nos braços de uma enfermeira, eu ouvi o médico dizendo que ele não estava respirando direito. Comecei a me desesperar, Dimitri estava ao meu lado preocupado com o tanto de sangue que eu estava perdendo, perdi minha consciência antes que pudesse ouvir o choro do meu filho.

. — ouvi uma voz ao longe — .
— Hum. — abri meus olhos sentindo um certos desconforto com a lua — Meus olhos.
— Vou abaixar a intensidade da luz até se acostumar com sua nova visão. — disse a voz, demorei um pouco para reconhecer que era de Dimitri.
— O que aconteceu, estou com sede. — sussurrei, minhas vistas estavam meio embaçadas ainda.
— Está conseguindo me ver com clareza? — perguntou ele.
— Aos poucos sim. — olhei para sua direção, notei que não conseguia ouvir meus batimentos, e que alguns sons começaram a ficar mais perceptíveis, como as pessoas que estavam no corredor — Dimitri.
— Sim, esta é sua nova realidade. — disse ele num tom brando — Você perdeu muito sangue e não tive escolha.
— Então, explica a ardência em minha garganta a sede não é por água. — conclui sentindo um cheiro incomum e agradável perto de mim, não imaginava o que seria, estava tão atordoada naquele momento.
— Você tem que fazer sua primeira refeição. — assim que ele disse apontou para o lado esquerdo da minha cama, me fazendo seguir com meus olhos.
— Então é disso que vou me alimentar para sempre? — perguntei pegando a taça e olhando aquele líquido grosso e vermelho que fazia as pupilas do meus olhos dilatarem com facilidade.
— Deve controlar esta sede. — disse ele se aproximando da cama e sentando ao meu lado me olhando fixamente, certamente lendo minhas reações internas e externas — Mas pode se alimentar.
— Antes de concluir a transformação, preciso te perguntar uma coisa.
— Imagino o que seja.
— Onde está meu bebê? — desviei meu olhar da taça para ele, suas expressões estavam rígidas e frias.
— Não sobreviveu, seu parto foi complicado, lamento.

Naquele momento se meu coração ainda batesse teria parado de vez, engoli seco sentindo uma ponta de amargura dentro de mim. Por mais que minha garganta ardesse e meus sentimentos estivessem mais intensos, nem mesmo uma lágrima saiu dos meus olhos. Acho que era assim que uma milady reagia a notícias como a que tinha recebido, não havia mais nenhuma parte dentro de mim que quisesse manter meu lado humano e puro, a partir daquele momento eu seria a pessoa que Aaliyah e Dimitri tanto treinaram, seria a milady de Manhattan.

“Os olhos ficam mais nítidos,
A tensão se sente como se ele pudesse cortar alguém.”

- Growl / EXO



Capítulo 16


Atualmente



* POV — Dimitri *


Aquele era o segundo dia com naquela situação, eu estava me preparando para fazer tudo que eu deveria para salvá-la, quebraria minha promessa de me manter longe da história entre e , mas uma parte desta história iria salvá-la. Suspirei de leve parando em frente a porta daquela velha casa que pensei nunca voltar, bati três vezes e logo uma senhora abriu.

— Mary. — disse já reconhecendo sua face.
— Dimitri, pensei que nunca mais veria seu rosto novamente. — disse ela abrindo a porta um pouco mais para que eu entrasse.
— Digo o mesmo, mas preciso de um favor seu. — disse diretamente entrando.
— Imaginei que fosse algo parecido com isso. — ela respirou fundo indo em direção à cozinha, já deveria imaginar o que eu queria — Eu te ofereceria um chá, mas sei que não aceitaria. — ela sorriu de leve.
— Não gosto muito de chá. — eu sorri junto, olhar para aqueles cabelos braços e presos me fazia me lembrar mais ainda daquele passado que deveria se manter em sigilo.
— Então, em que posso te ajudar? — ela me olhou com sua xícara de chá nas mãos, sua respiração estava um pouco mais fraca do que me lembrava.
— Preciso do sangue do seu neto. — a olhei tranquilamente para que pudesse confiar em mim.
— O que aconteceu com a milady? — perguntou ela sentando em sua cadeira de balanço que ficava ao lado da janela.
— Ela está a um passo da morte, com o sangue de um morto em seu organismo. — desviei meu olhar tentando não me emotiva de mais — Sabe que ele é o único que pode salvá-la.
— Quando te conheci, achei mesmo que iria me transformar, eu era louca por você. — ela tomou um gole e respirou um pouco mais fundo — Mas então você me pediu o maior de todos os favores, que me casasse com uma pessoa e tivesse uma vida normal com filhos e tudo mais.
— Sim. — sussurrei concordando.
— Tudo isso porque você precisava manter escondido e seguro o filho dela e dar continuidade ao seu sangue. — ela me olhou com um pouco de suavidade — Tenho que te agradecer por isso, por que enquanto meu marido foi vivo, eu fui a mulher mais feliz do mundo, tive um filho e agora tenho um neto que se formou na universidade de medicina.
— Então, sabe que esta felicidade você deve a ela. — olhei para alguns móveis da sala voltando meu olhar para ela — Por que ele tem o sangue de , tenha a certeza que não farei nenhum mal a ele.
— Eu sei, pedirei ao meu neto para doar seu sangue, como desculpa falarei que é para uma amiga que muito precisa.
— Agradeço por isso, e peço que seja o mais rápido possível. — me virei em direção a porta.
— Diga a Cassie que amanhã de manhã ele estará no laboratório do Hospital de Manhattan.

Assenti com a cabeça e saí da sua casa, então aquele era o segredo que eu e Aaliyah guardávamos. O filho de e não tinha morrido no parto como fiz parecer, mas não tinha outra escolha a não ser mentir, para que suas habilidades e suas funções como milady não fossem atrapalhadas no futuro, por estar procurando seu filho. Convenci Aaliyah a não matá-lo de verdade depois de nascer e permitir que eu dissesse que havia morrido, mas levasse a criança para longe dela, com isso poderia ter seu filho, mas no fim não poderia ficar com ele.

. — disse ao descer do meu carro no estacionamento indo até ele.
— Chegou rápido. — ele sorriu de canto — Pensei que viria correndo.
— Estava resolvendo outro assunto. — expliquei rapidamente — Onde está?
— Muito bem algemado.

Eu o segui indo para dentro do elevador de sua empresa, entramos em alguns corredores até chegar no subsolo, em uma sala um pouco escura e úmida que cheirava mofo. Lá estava o traidor acorrentado com seus braços pendurados e ensanguentado, havia muitas marcas de garras em seu corpo.

— Onde o encontrou? — perguntei.
— Nosso amiguinho estava tentando pegar um jatinho particular com destino para Orlando.
— Então, Davis. — parei em sua frente — Finalmente está aqui.
— Veio me matar? Fazer o que ela não conseguirá. — ele riu de leve.
— Está enganado, virá aqui pessoalmente arrancar sua cabeça. — eu sorri de leve e me virei de costas para ele — E vou me diverti vendo ela fazer isso.
— Ela não vai conseguir sair dessa. — gritou Davis.
— Veremos.

Me afastei e voltei para a entrada do prédio, me acompanhou, ele parecia muito preocupado com o futuro. Então estava na hora de fazer o que Aaliyah havia me ordenado, eliminar todos os membros do conselho de uma só vez, convidei para me acompanhar como futuro ancião. Quando chegamos ao final da tarde, todos estavam reunidos na piscina com algumas mulheres presente, olhou impressionado com a cena.

— Então é assim que vive um ancião? — perguntou num breve sussurro.
— Não eles, não mais. — senti uma aspereza em minha voz, mas estava mesmo unindo toda a minha raiva.
— Ah, Dimitri. — Marcellus me olhou — Espero que tenha trago boas notícias.
— Para mim sim. — fiz as pupilas dos meus olhos dilatarem — A partir de hoje o velho conselho de anciões de Manhattan está extinto.

Antes mesmo que eles pudessem reagir ou questionar minhas palavras, eu e precisamente arrancamos os corações deles da forma mais brutal que conseguimos arrancar. No meio de todos aquele banho de sangue as mulheres que estavam acompanhando eles começaram a correr aos gritos, deixei Marcellus e Klaus por último para que vissem que meu olhar representava . Ela iria se divertir mais que eu naquele momento, mas não faltaria diversão para seu retorno já que Davis estava a sua espera na prisão de .

* POV — *


Não queria, mas estava contando três dias com ela naquela situação, me movia por todo o apartamento tentando conter minha ansiedade e sempre acabava na porta do quarto a olhando.

. — disse Dimitri ao subir as escadas, carregava uma caixa de isopor em suas mãos. — Conseguiu?! — olhei fixamente para caixa, conseguia sentir de leve o cheiro do sangue.
— Vamos iniciar a transfusão. — ele passou por mim indo em direção a cama.

Todos os aparelhos necessários já estavam lá, Cassie chegou dois minutos depois e fez todo o procedimento. Tivemos que tirar todo aquele sangue contaminado do organismo dela, ver seu corpo seco e sem vida era como uma corrosão dentro de mim, demorou algumas horas até que nenhuma gota daquele sangue restasse dentro dela, então lentamente o novo sangue começou a invadir suas veias através da agulha injetada em seu corpo.

— Espero que funcione. — sussurrei olhando Cassie trocar a bolsa de sangue.
— Vai funcionar. — Dimitri ficou da porta olhando para a direção dela também — Nossa é forte.
— Nossa. — eu sorri de leve — É estranho te ouvir falar assim.
— Mesmo que não goste de algumas partes do relacionamento de vocês, ainda assim admiro o sentimento de um pelo outro.
— Esse sentimento a fez ficar assim. — desviei meu olhar para o chão.
— Se fosse para acontecer seria com ou sem você ao lado dela. — Dimitri se aproximou da cama — Então Cassie?
— As próximas horas serão decisivas, para sabermos se esse método é ou não eficaz. — ela olhou para a bolsa de sangue e depois se afastou — Volto para trocar a última quando essa terminar.
— Tenho que resolver alguns problemas. — Dimitri saiu do quarto juntamente com Cassie.

Eu me aproximei da cama e me sentei ao seu lado, pegando sua mão a olhei com suavidade, sua face estava tranquila, mesmo com os olhos fechados parecia tão conectada com tudo que estava acontecendo. Me perguntava se ela realmente estava ouvindo tudo, seu corpo não se movia, não reagia a nada, olhei para a bolsa de sangue e sorri ao ver O negativo escrito, ela sempre tomava aquele tipo de sangue.

. — a chamei pelo apelido, vazia um longo tempo que não a chamava assim — Não sei se pode me ouvir, mas vendo você deitada nestas condições, me fazem lembrar do nosso passado e me arrepender por todos os anos que fiquei longe de você. — suspirei fraco contendo meu lado meio humano sem lágrimas — Só quando pensei que te perderia para sempre, percebi que não posso lutar contra essa parte da sua vida que me distancia de você, acho que a garota meiga e inocente que conheci em 1927 não vai voltar, ou talvez ela estava aí e eu que não consiga ver, mas sei que você ainda é ela, mesmo tendo mudado tanto, não vou mais lutar contra isso, não vou mais lutar contra essa parte da sua existência, mesmo que isso me custe ver aquele olhar frio que possui em alguns momentos.

Passei alguns minutos olhando para sua face e logo senti seu corpo emitir algumas vibrações, olhei para sua mão em que segurava e seus dedos começaram a se mexer.

, alguma novidade? — perguntou ao entrar acompanhado de Dimitri e Cassie.
— Os dedos dela se mexeram. — sussurrei olhando para eles.
— Acho que é bem mais que isso. — Dimitri manteve seu olhar fixo nela.

Desviei meu olhar para novamente, sua pálpebras começaram a se mexer até que seus olhos se abriram juntos com um suspiro forte e profundo.

Quando você chorou, eu enxuguei todas as suas lágrimas
Quando você gritou, eu lutei contra todos os seus medos
Eu segurei a sua mão por todos esses anos
Mas você ainda tem tudo de mim

— My immortal / Evanescence




Capítulo 17


Voltando dos mortos



* POV — *


Ainda sentia meio zonza e fraca, mas estava plenamente consciente, como uma jogada final arrisquei minha vida e tomei aquele sangue, sabia que era de Davis, sabia que minhas chances de não voltar eram altas, mais ainda assim o fiz e consegui o que queria. Finalmente admitiu que não viveria sem mim, aquela batalha eu havia ganhado, mas tinha algumas questões que deveria esclarecer, questões que envolvia como Dimitri me trouxe de volta.

— Está mesmo se sentindo melhor? — perguntou Dimitri se aproximando da minha cama.
— Sim. — o olhei de forma séria porém deixando minha face tranquila — O que aconteceu enquanto estive ausente?
— Fala tão tranquila como se tivesse saído de férias. — ele desviou seu olhar para a bolsa de sangue — Poderia mesmo ter morrido.
— Eu sabia que você não deixaria. — eu sorri de canto — Veja pelo lado positivo, meu ponto fraco está de volta.
— Conhecendo você como conheço, guardarei meus pensamentos sobre o que acabou de fazer.
— Você realmente me conhece. — mantive meu olhar nele — Mas não me respondeu.
— O conselho foi extinto como sempre sonhou.
— Não acredito que perdi a festa.
— Não se preocupe, o melhor foi reservado para o final. — ele me olhou — Davis está a sua espera para as última palavras.
— Será sublime este momento. — sorri com empolgação — E quanto aos litros de sangue?
— Todos devidamente onde devem estar.
— Que bom, aproveite e mande Cassie enviar uma lembrancinha a milady de Orlando.
— Não se preocupe, já enviamos.
— Muito bem, parece que tudo funcionou muito bem enquanto estive fora. — eu fixei ainda mais meu olhar nele — Mas existem alguns pontos soltos.
— Quais?
— Sabe por que eu gosto de sangue O negativo? — perguntei propositalmente.
— Por que este era seu tipo sanguíneo. — respondeu rapidamente, sabia que ele seria cauteloso, pois assim como ele me conhecia, eu o conhecia também.
— Não é um sangue muito fácil de se encontrar e muito caro em nosso meio, mas a questão é outra, e você já deve saber onde quero chegar.
— Prefiro ouvir suas teorias. — retrucou ele.
— Assim que foi levar até a porta, me contou como conseguiu me salvar, com uma leve ajuda de Aaliyah. — estava tentando analisar suas expressões, mas assim como eu ele era ótimo em olhares enigmáticos — Para funcionar tinha que ser um sangue puro, sangue da minha família.
— Sim.
— Mas a questão é, matei a minha família há muitos tempo atrás. — olhei para a bolsa de sangue, já estava em suas últimas gotas olhei para o meu braço — Se funcionou, devo presumir que…
— Sabe que não posso afirmar nada, mas também não posso desmentir suas suspeitas. — ele retirou com cuidado a agulha de minha veia e se levantando afastou a barra de ferro que sustentava a bolsa de sangue — Você nunca contou sobre isso a ele não é?
— Não. — eu me levantei olhando os movimentos dele — Quero que me mostre a pessoa dona deste sangue.
— Tudo que fizer quanto a isso, faça longe dos olhos de Aaliyah. — ele abriu a porta, estava do lado de fora.
— Me desculpe, não queria atrapalhar a conversa de vocês. — entrou tranquilamente.
— Não atrapalha. — disse enquanto Dimitri saía do quarto fechando a porta.
— Eu ouvi a conversa de vocês. — ele foi direto e preciso — Evitarei pensar que beber aquele sangue foi alguma forma de me manipular.
— Bem, como eu poderia colocar minha própria existência em risco?! — o olhei cinicamente com um sorriso nos lábios.
— E ainda pergunta por que te odeio. — ele desviou seu olhar para a janela.
— Adoro quando fica assim, estressado. — eu ri de leve indo até ele — Acostume-se, vou levar suas palavras quando eu estava imóvel como uma declaração de amor.
— Você conseguiu ouvir? — ele se virou para mim me olhando surpreso.
— Estava agonizando, mas não estava morta. — envolvi meus braços no pescoço dele — Vai me dizer que não está aliviado por eu estar de volta.
— Se quer mesmo saber, gostaria de te matar agora. — ele me olhou sério.
— Ressentimentos a parte, você sempre vai me amar. — antes que ele pudesse retrucar algumas coisa eu o beijei com intensidade.

E mesmo que estivesse ressentido comigo, a intensidade com que retribuía meus beijos afirmava o contrário, ele era meu e de mais ninguém. O sol e a lua foram testemunhas daqueles dois dias e uma noite trancados no quarto, nem mesmo Dimitri se atreveu a interromper nossa consumação do amor, um tanto selvagem por sinal.

— Não imaginava que o amor dava fome. — ri ironicamente do meu comentário olhando ele deitado na cama.
— Sua ironia me impressiona. — ele me olhou sério.
— Sua falta de senso de humor também. — aquele meu jeito debochado de falar estava de volta e isso me deixava ainda mais animada — Vou me alimentar.

Saí do quarto rindo dele indo direto para a cozinha, estranhei a ausência de Dimitri e abrindo a geladeira retirei uma garrafa de vinho e despejei em uma taça, era bom me alimentar daquela forma, apesar de ainda sentir vestígios do sangue que transplantaram em meu organismo. Tinha que reabastecer e saciar minha sede, assim que tomei meu segundo gole tive minha taça retirada de minha mão, olhei para o lado e estava com um sorriso de canto me olhando fixamente enquanto tomava meu alimento.

— Realmente, O negativo é o melhor. — ele me estava mais atraente do que nunca, isso me deixava um tanto desconcentrada.
— Sim. — concordei pegando outra taça para mim.
— Você tentou me distrair, mas ainda não terminamos nossa conversa. — ele colocou a taça em cima da bancada.
— Podemos pular para a parte da distração novamente. — sugeri dando um sorriso malicioso.
— De quem vocês estavam falado? — sua voz estava mais firme e áspera seu olhar sério e concentrado.
— Defina o assunto.
— Se matou sua família, de quem era o sangue? — perguntou ele.
— Continue pensando nessa questão e ache a resposta por si mesmo. — eu tomei todo o sangue que despejei na taça a coloquei na bancada — Vou encontrar Dimitri, preciso arrancar um coração.

Saí da cozinha o deixando confuso, porém pensativo de alguma forma ele ainda pensava que quando tivemos nossa primeira noite junto ainda era um sonho. Bati na porta do quarto de Dimitri esperando algum barulho ou sussurro vindo de dentro, alguns minutos depois ele abriu, para a minha não surpresa ele estava enrolado na toalha e molhado.

— Olha, vampiros tomam banho. — brinquei segurando o riso.
— Como vocês não saíam do quarto, resolvi me divertir também. — tranquilamente ele abriu de leve a porta para que eu visse três mulheres deitadas em sua cama.
— Não conhecia esse seu lado Dimitri. — admirava não, mas atordoada com aquilo.
— Voltamos as responsabilidades? — perguntou ele.
— Sairemos em dez minutos.
— Muita coisa pode ser feita em dez minutos. — ele sorriu de canto.
— Vou fingir que não ouvi, não se atrase.
— Jamais milady.

Voltei para o quarto e tomei uma ducha rápida, ao sair enrolada na toalha e secando meus cabelos, estava sentado na janela me observando.

— Vai ter estômago para se juntar a nós desta vez? — perguntei.
— Você disse dez minutos. — ele caminhou em minha direção — Só preciso de cinco.

Ele caminhou em direção ao banheiro, confesso que achei que ele faria outra coisa, mas fiquei animada por querer ir também. Os dez minutos foram precisos e eu estava pronta para rever meu inimigo mais estimado, como previsto foi também, Dimitri nos levou para a empresa de . Entramos por alguns corredores até chegar em uma espécie de porão de casa mal assombrada.

— Davis. — disse ao me aproximar dele, os três ficaram parados perto da saída me olhando.
— Olha. — ele me olhou, estava com uma péssima aparência e meio desnutrido — Então ela realmente sobreviveu.
— Devo afirmar que você está péssimo. — comentei com um sorriso sarcástico, olhando para as correntes que mantinha seus braços estendidos — Mas gosto dessa tua imagem de derrotado, não imagina o quanto esperei por isso.
— No final o que escrevi é uma realidade, sempre consegue o que quer. — admitiu ele.
— Eu sou a milady. — eu olhei fixamente para ele e sem que pudesse dizer mais alguma coisa arranquei seu coração sem piedade, em um movimento rápido e forte com minha perna lancei seu corpo ao chão, me mirando de costas para ele — O que eu quero eu tenho.
— Deixo com você o trabalho para jogar o corpo dele onde quiser. — disse Dimitri para .
— Foi rápido, mas consegui sentir o sabor da vitória. — olhei para Dimitri, porém meus olhos se voltaram para , eu consegui ver nos seus olhos o reflexo dos braços de Davis dependurados.
— Vamos, temos outro assunto para resolver. — disse Dimitri — E vocês dois devem vir também.
— Ela está aqui? — perguntei.
— Sim.

* POV — *


Antes de irmos para a mansão dos anciões onde Aaliyah já estava nos esperando, peguei pelo braço e a puxei para o canto longe de e Dimitri, eu tinha que confirmar minhas suspeitas e não podia deixar para depois.

— Fale rápido, Aaliyah não gosta de atrasos. — disse ela.
— Passei todo esse tempo pensando na pergunta que te fiz mais cedo, então me lembrei da noite que tive um sonho com você, havia sete anos que não sabia nenhuma notícia sua. — a olhei de forma confusa, mas um tanto decidida — Não foi um sonho.
— Admirável sua conclusão, continue. — seu olhar me dizia que ela queria que eu desvendasse tudo até o fim.
— A sua afirmação de ter matado toda sua família, mas fica a pergunta de como está viva ainda. — eu segurei sua mão cruzando nossos dedos — Então uma família não se faz somente com pais, ou irmãos, ou tios, isso me leva a acreditar que existe um membro que simboliza nós dois.
— Chegou a sua resposta? — perguntou ela.
— Por que não me disse que tivemos um filho? — respondi com outra pergunta.
— Por que até o momento não sabia que estava vivo, então para que iria te fazer sofrer à toa. — seu olhar tranquilo como sempre, tinha razão — Posso contar isso como outro ponto positivo em ter tomado aquele sangue. — sibilou ela com um sorriso.
— Como pode dizer isso com tanta tranquilidade?
— Você precisa aprender a conviver com este meu lado. — ela suspirou fraco desviando seu olhar para frente — Pelo menos nosso filho teve uma vida normal e feliz.

Não consegui dizer mais nada, fazia sentido suas palavras, Dimitri se aproximou de nós para nos apresar. Enfim voltamos para a mansão onde Aaliyah estava nos esperando, era a primeira vez que eu a veria, não tinha medo, mas raiva por ela ter transformado e afastado nosso filho.

— Estão atrasados. — disse a mulher de azul sentada na poltrona central que era dos anciões, ela se levantou mantendo seu olhar fixo em — Estou admirada pela forma em que solucionou seus problemas , sei que foi com algumas ajudas, mas manteve seu olhar erguido.
— Foi assim que me treinou. — estava fria e mantinha sua face enigmática, não havia nenhuma fração de medo em seu olhar.
— Devo presumir que estes homens serão os próximos anciões? — sugeriu ela.
— Sim. — afirmou — Assim como eu, e serão leais a senhora.
— Não duvido. — ela se aproximou de nós — Então você é o famoso .
— Sim. — eu mantive meu olhar destemido para ela.
— Você me trouxe algumas preocupações ao longo do tempo, mas a milady conseguiu o que queria. — ela se aproximou de Dimitri — Venha, temos muito o que conversar sobre os novos anciões.
— Como deseja. — ele assentiu a seguindo para fora da grande sala.
— Havia me esquecido do quanto ela transpassa opressão e medo. — comentou — Não consigo imaginar como foi para você conviver com ela.
— Já estou acostumada com o jeito de Aaliyah. — me olhou de leve — Está tudo bem?
— Agora entendo por que é assim. — disse a olhando, conseguia sim imaginar ela convivendo com Aaliyah.
. — disse Dimitri ao aparecer da porta — Venha por favor.
— Claro.

Ela passou por mim indo em direção a porta, ficou me olhando por um tempo, acho que estava decidindo se iria comentar sobre meu relacionamento com ou não, e como eu esperava.

— Ainda fico me preguntando como você conseguiu conquistar ela. — disse ele indo se sentar em uma das cadeiras dos anciões.
— O que tenho com ela vem muito antes de você ter nascido. — sorri de canto o olhando.
— Ah, amor juvenil. — ele riu — Não consigo imaginar ela como uma garotinha inocente, apesar de nunca ter conhecido seu lado malicioso.
— E nem irá conhecer. — eu sorri de canto — Ela é minha.

Me virei indo em direção a porta, ouvi alguns risos de , mas ele sabia que não seria de mais ninguém além de mim, comecei a caminhar pelos ambientes da mansão até que cheguei na porta para o jardim. Vi de longe conversando com Dimitri, foquei minha audição na direção dos dois para saber sobre o que estavam falando.

— Ela sabe que eu descobri? — perguntou.
— Se sabe, disfarça muito bem. — Dimitri riu — Mas convenhamos que com a sua recuperação, seria questão de tempo para nosso segredo ser desvendado.
— E o que vai acontecer? — ela parecia preocupada.
— Todos iremos continuar a viver normalmente, sua descendência continuará longe de todo esse mundo sombrio.
— Posso pelo menos vê-los?
— Agora no Central Park às cinco da tarde, estarão recolhendo os vestígios de um pique-nique em família. — respondeu ele.
— Pensa em tudo, e como vou reconhecer?
— Ele possui o mesmo sinal de nascença que seu filho, uma pinta no pescoço.
— Obrigada. — disse ela.
— Teoricamente eu não disse nada a vocês dois. — Dimitri olhou em minha direção fazendo olhar para mim também — Apenas observem sabiamente.

se aproximou de mim e pegando em minha mão me guiou até o carro, eram raros com momentos que ela dirigia, mas era perfeita no volante. Ela estacionou em frente ao prédio do seu apartamento, seguimos para a entrada do Central Park que ficava em frente, caminhamos um pouco tranquilamente como se não tivéssemos procurando ninguém. me contou um pouco de como foi sua gravidez, e de como se fechou para os sentimentos humanos quando pensou ter perdido nosso bebê.

Dimitri havia contado a ela sobre a longa vida do nosso filho teve e que tinha morrido no ano passado com oitenta anos, mesmo não tendo conhecido ele senti uma certa tristeza por não poder ter visto seu rosto, mas segundo Dimitri nosso bisneto era como sua cópia mais jovem. Quando menos esperávamos encontramos ao longe a família que de alguma forma era nossa também.

A senhora de cabelos brancos e xale de crochê nas costas certamente era Mary, a amiga humana de Dimitri que se casou com nosso filho, seu nome de registro Joseph. Havia um homem que aparentava seus cinquenta anos ao seu lado de mãos dadas a uma mulher, seria esse nosso neto. E mais atrás estava o jovem que havia doado seu sangue a , nosso bisneto Charlie, ao seu lado tinha uma pessoa com um rosto bem familiar, uma pessoa que nem eu e nem imaginaríamos ver ali.

— Não acredito que aquela humana… — segurou forte em minha mão.
— Me parece que de alguma forma Annie continuou ligada a nós. — brinquei rindo.
— Não gostei. — ela me olhou de forma séria.
— Talvez seja o destino. — olhei para — Ela só conheceu o membro errado da família, afinal teoricamente não era nem para existirmos.
— Vou relevar então. — ela me deixou doce e maliciosamente, me tirando o foco e o fôlego.

Não importava se era com Annie ou outra garota, a vida deles não poderiam ter nossa intervenção, era uma regra de Aaliyah para que a segurança deles continuasse. Tudo o que a soberana Tenebrae queria era que a milady de New York continuasse sendo o que foi treinada para ser, indestrutível. Uma coisa tinha que concordar com Davis, realmente conseguia tudo o que queria, e de uma forma perigosa conseguiu me jogar de vez em seu mundo sem direito a volta.

Eu já não me importava com essa parte, desde que a tivesse em meus braços para sempre.

“Quando você estiver deprimido e confuso
E precisar de uma mão para ajudar,
E nada, nada estiver dando certo,
Feche seus olhos e pense em mim
E logo eu estarei lá
Para iluminar até mesmo suas noites mais sombrias.”

- You've Got a Friend / McFly



Epílogo


O fim é só o começo



* POV — Dimitri *


Eu estava no alto do prédio observando o casal mais instável e confuso do mundo, estava feliz por ter conseguido o que queria, satisfeito por ela ter descoberto sobre seu filho e agradecido por não terem feito nada que pudesse me deixar preocupado.

— Devo te parabenizar por sua estratégia arriscada? — perguntou Aaliyah ao parar do meu lado. — Defina qual delas. — mantive meu olhar em e .
— Não foi à toa que escolheu o nome dela naquele orfanato. — afirmou ela.
— Não. — assenti.
— O homem que seduziu a mãe de , pertencia a sua família de origem. — percebi que seu olhar também estava fixo no casal — Ele era o último e estava marcado para morrer.
— Sim.
— Os dois homens no beco acuando trabalhavam para você. — continuou ela.
— Sim.
— Você fez com que o caminho dos dois se cruzassem e instigou o pai dele a encontrar ela quando estava escondida.
— Sim.
— Você a treinou impecavelmente para ser a milady e na noite do seu aniversário sabia que ela estava no período fértil, você sabia que ela engravidaria.
— Sim. — eu desviei meu olhar do casal para a família humana que teoricamente era de .
— Me manipulou para deixá-la ter o bebê e prometeu que daria um destino para a criança longe dela, pensando que o filho tinha morrido se desligaria totalmente da humanidade e seria a melhor de todas, sem falhas.
— Sim. — eu estava ansioso para que ela chegasse ao final de suas afirmações.
— Você só não contava com o amor dos dois, mais mesmo assim se viu beneficiado, pois com ele, se torna mais forte ainda, apesar de um ponto fraco, também é seu ponto forte.
— Sim. — eu sorri de canto mantendo minha atenção nas movimentações do Central Park.
— E agora fez com que o bisneto deles conhecesse a humana Annie, justo a mulher de um dia esteva entre e .
— Sim.
— Vejo que em uma estratégia com algumas ironias, o seu maior objetivo foi manter vivo o sangue e a linhagem da sua família. — agora ela havia chegado no ponto exato e central de tudo.
— Só estou curiosa com uma coisa. — ela me olhou — Por que o ? De tantas crianças naquela época, por que ele?
— Aaliyah. — eu me virei e a olhei com um sorriso de canto enigmático — Me desculpe, mas esta é outra história.

“Você sorri um sorriso estranho,
Pode ser que você também sinta isto estranho?”

- Growl / EXO




The End!!!



Nota da autora:
(17.04.2016)
Espero que estenham gostando...
Mais uma fic minha finalizada, confesso que gastei uma semana pra conseguir isso e espero que tenha ficado legal.
Esta fic foi a primeira em que na maior parte da história a protagonista foi considerada a vilã, uma coisa desafiadora e divertida de escrever,
no final tudo deu certo e o final foi da forma em que eu esperava. Agradeço minha ex-beta Fabi por nossa parceria, sempre vou estar agradecida a você!
Ask PM², Grupo Pâms Fictions e Fanfic's University

Bjinhos...
By: Pâms!!!!

Ps.: Me desculpem se encontrarem alguns erros de ortografia, às vezes nós ficwriters ironicamente só encontramos depois que a fic é postada, kkkkk!!!

Minhas fics no FFOBS:
Cold Night
Crazy Angel
Destiny's
Electrick Shock (Especial Challenge #18)
Genie
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My Little Thief
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Photobook
Promise
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The Boys (mixtape Girl Power)




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