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Última atualização: 31/12/2020

Reencontro

Eu estava parada perto da janela olhando para os prédios da cidade. A noite em Manhattan estava nublada e fria, assim como o inverno daquele ano. Encostei de leve na parede mantendo minha atenção na rua, respirando tranquilamente enquanto esperava meu fiel conselheiro retornar. Ainda era estranho estar naquela situação, era tudo novo para mim. Estar à frente dos Laboratórios Baker não seria fácil. Minha nomeação não tinha se completado uma semana e eu já contava com inimigos fortes na diretoria da empresa para me derrubar. Além de pisar em ovos com minha tutora Allison Baker, a pessoa que me adotou e me tornou o que sou atualmente: uma forte mulher de negócios.

E falando em negócios, além de produzir alguns dos principais medicamentos que contemplavam o sistema de saúde do país. Os Laboratórios Baker tinham suas pesquisas confidenciais e não oficiais. A mais importante era do CN, um soro descoberto por um cientista fundador da Continuum, que pertencia a família Baker. Sendo capaz de deixar os sons mais nítidos na audição de uma pessoa, a visão mais avulsada, podendo chegar até mesmo a uma força elevada. A partir daquele momento eu estaria inteiramente no comando da produção seletiva deste soro, e talvez criaria meu exército particular.

Meu coração pulsou em um ritmo acelerado de repente ao pensar que finalmente era uma das mulheres mais poderosas de Manhattan. Não era mais a criança adotada para ficar no lugar do rebelde incontrolável, apesar de teoricamente Demeter ser o filho legítimo. Allison Baker tinha me dado plenos poderes e deveres sobre os negócios da família, e eu não a desapontaria. Certamente seria difícil reconhecer com rapidez aquele lugar como meu, levaria um tempo para acostumar com a nova realidade. Tinha mudado muito desde que fui adotada e iniciei meu treinamento. E mesmo tendo sido preparada para aquilo, me sentia uma desconhecida completa. Algo que teria que resolver em tempo record. Por fora não me deixava transparecer a insegurança, mas por dentro havia o medo de errar. 

Porém, tinha as palavras de Allison vívidas em minha mente: “Se eles não te respeitarem, faça com que tenham medo de você.” Ela conhecia bem os diretores da empresa da sua família. E mais ainda, ela sabia como era todas as famílias que pertenciam a Continuum.

— Milady. — soou a voz de vindo da porta.
. — eu virei minha atenção para ele, observei rapidamente seus trajes formais, ele sempre se vestia com ternos de grandes grifes masculinas, era um perfeito gentleman — Conseguiu encontrar o que pedi?
— Sim, milady. — ele sorriu de canto e abriu mais a porta mostrando a pessoa que eu tanto procurava caída no chão — Não foi tão difícil assim, ele possui muitas dívidas na cidade.

O homem que tanto procurava, finalmente estava ali em minha presença, caído no chão com vestígios de sangue pelo rosto e grandes hematomas pelo corpo. Respirei fundo e fechei meus olhos imediatamente, não me contive em lembrar do passado. De como o conheci, quando ele se foi, quando o encontrei novamente, mas tive que partir.  Abri meus olhos controlando meus instintos e minhas possíveis emoções, assenti para que meu conselheiro, o trouxesse para mim. o pegou pelo braço direito, o arrastou até o meio da sala e o largou novamente. Eu caminhei lentamente até eles com meus olhos fixos no homem, quando cheguei perto o empurrei de leve com o pé e olhei sua face para me certificar que era mesmo ele. Estava mesmo de dar pena, totalmente machucado e inconsciente. Olhei novamente para que se mantinha em silêncio.

— Como exatamente o encontrou? — perguntei meio curiosa, analisando as expressões faciais dele, que nunca me deixava adivinhar o que pensava.

Silencioso, observador, cavalheiro, charmoso, atraente e misterioso. Esse são os adjetivos que classificavam .

— Tenho meus contatos, milady. — ele deu alguns passos para trás, mantendo um sorriso nebuloso no rosto — Se não precisa mais de mim, irei me retirar.
— Pode ir, se eu precisar o chamo novamente. — assenti com a face de leve mantendo-me séria e fria como deveria sempre ser — Garanta que ninguém me incomode até amanhã.
— Perfeitamente, com sua licença. — reverenciou de leve e saiu do meu escritório fechando a porta.

Fiquei observando aquele homem por um tempo, até que ele começou a acordar. Eu sabia quem ele era. Mas não sabia se ele ainda se lembrava de mim. Afinal na última vez em que ele me viu, eu era bem diferente do que sou agora.

— Urhrgr. — um som de gemido começou a sair dele, deveria estar voltando a consciência, ele abriu seus olhos lentamente com certa dificuldade.
— Você pode me ouvir? — continuei parada em sua frente o olhando com certa superioridade, que estava se tornando habitual em mim — ?
— Onde estou? Quem é você e como sabe meu nome? — ele me olhou meio confuso, parecia ainda estar tonto. 

Aquelas palavras serviram para que eu confirmasse que ele não se lembrava de mim, mas era um fato já que ele tinha me visto pela última vez há 10 anos.

— Me dê sua mão, vou te ajudar a se levantar. — estendi minha mão com um sorriso um tanto singelo, o que era divertido para mim me fazer de boa moça.
— Obrigado. — logo segurou em minha mão e eu o ajudei, ele ficou me olhando ainda confuso e curioso — Você não me respondeu.
— Você está em um lugar seguro, longe das pessoas que te fizeram isso. — eu toquei de leve em seu rosto — E quem sou eu e como te conheço, logo descobrirá.
— O que quer de mim? — perguntou de forma direta.
— Quero te ajudar. — mantive o tom doce e suave me minha voz.

Me afastei um pouco dele e caminhei com leveza até a mesa de trabalho, minha forma de andar estava um pouco sinuosa.

— Quero lhe oferecer uma forma de saldar suas dívidas. — continuei.
— Como? Por que?
— Bem. — eu girei a chave da gaveta e abri, retirando uma seringa com o soro, logo o olhei com malícia — Porque quero lhe proporcionar o que muitos desejam e poucos conseguem.
— Quem realmente é você? — ele perguntou novamente um pouco assustado recuando de leve. 

Eu me aproximei dele novamente e sem que pudesse reagir, enfiei a seringa em seu pescoço de forma rápida e precisa, injetando o soro nele. Aquele momento era um tanto esperado por mim.

— Eu sou o seu futuro! — respondi confiante no que estava fazendo.

“A sombra escura desperta em mim
Fogos de artifício explodem em meus olhos
Todo mundo se afasta do seu lado
Porque eu estou ficando um pouco mais feroz.”
- Growl / EXO



Contato

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Assim como todas as manhãs, fiquei por um tempo parada ao lado da janela observando-a dormir. A face de Rose transmitia serenidade, tão inocente e tão delicada, nem imaginava o passado sombrio que eu tinha. A busca por minha nova vida se deu quando a salvei de um assédio em um beco escuro de Chinatown. Como sempre me metia em encrencas, não pensei duas vezes em socar o homem que a fazia mal. Eu não gostava de partes do meu passado, nem mesmo de quando conheci de fato uma família da Continuum. Pensar sobre o assunto sempre me traziam dor e ressentimento. Agora, só queria distância e viver uma vida normal e tranquila. 

Desviei meu olhar dela para janela, olhando a cortina que Rose havia comprado recentemente. Soltei uma risada espontânea ao me lembrar de como ela me arrastou para a loja de departamento, empolgada por eu aceitar o emprego na mecânica do seu tio e morar com ela naquele loft no Brooklyn.

— Hum! — ela murmurou se remexendo na cama.
— Acordou? — eu disse num tom baixo desviando meu olhar para ela.
— Sim. — ela me olhou erguendo seu corpo — Mas ainda sinto sua falta ao meu lado quando acordo.
— Sabe que não é fácil trabalhar de madrugada. — eu sorri de canto desviando meus olhos para a geladeira — Está com fome? Posso te preparar o café?
— Eu que deveria preparar — ela se levantou sentando na cama, depois bocejou e ficou de pé — Você quem chega cansado pela manhã.

Ela fez um biquinho gracioso e caminhou até mim. Não me contive em beijá-la com suavidade e sorri depois.

— Eu gosto de preparar o café para você. — me afastei e caminhei tranquilamente até a cozinha, abri a geladeira, peguei o pacote de pão e mais alguns ingredientes, comecei a montar sanduíches para nós dois.
— Hum! — ela se sentou na cadeira e ficou me observando atentamente — Apesar de não acordar com você do meu lado, estou feliz em pelo menos ter o café da manhã com o homem que eu amo.
— Digo o mesmo. — eu sorri de leve terminando de montar os sanduíches, voltei até a geladeira e peguei a jarra de suco e mais dois copos. — Bon apetit!?

Ela abriu um largo sorri em agradecimento. Me sentei na cadeira em sua frente sorrindo de volta. Aquela cena era algo que jamais aconteceria na minha antiga vida, principalmente pelo fato de… Bem, deixarei o passado no passado. 

Rose e eu estávamos juntos há dois anos. A considerava minha luz no fim do túnel quando eu quase desisti de viver. Mas Rose era aquela que chegou em minha vida para afastar todos meus pesadelos, sua presença em minha vida me permitia viver tranquilamente. Meus sentimentos perto dela era suaves e calmos. Comemos no café, saboreando os sanduíches com presunto e pasta de amendoim.

— Você está mais pensativo que o normal. — disse ela num tom preocupado — Aconteceu alguma coisa na oficina?
— Não foi nada, está tudo bem. — abri meus olhos e a olhei com ternura — A mesma rotina noturna de sempre, consertando carros velhos.
— Tem certeza? — ela segurou em minha mão — Não está com medo dela te procurar novamente?

Permaneci em silêncio com aquela pergunta. Não queria pensar no nome da mulher que Rose se referia. Não em um momento de tamanha calmaria. Entretanto, ao contrário do que havia lhe garantido, tinha sim acontecido algo naquela madrugada. Ao consertar um chevy impala, me deparei com um bilhete caindo do porta luvas do carro, ao mexer naquela repartição. 

— Se fosse para vir atrás de mim, já teria feito. — respondi — Além do mais, não tenho mais nenhuma dívida com ela.
— Fico feliz por isso. — Rose sorriu novamente de forma graciosa — Sabe que pode compartilhar o que quiser comigo.
— Eu sei. — ergui meu corpo e dei um selinho nela — Agora, vamos esquecer essa pessoa… Você tem que ir trabalhar.

Desviei meu olhar, fingindo estar bem. Mas falar de , era como deixar uma adaga atravessar meu coração novamente. Aquela que eu havia entregado meu o meu amor e me machucou, a mulher que me dera a liberdade e a prisão ao mesmo tempo. Já se contava meses que não pronunciava seu nome, não pelo menos em voz alta. Pois pensar nela era como se alimentar, mesmo que fique dias sem, em algum momento a hora fatídica chega.

Contudo, não posso negar que era o princípio de tudo. Todo o meu tormento vinha dela. Desde o que em que fugiu do orfanato onde morava e se escondeu no sótão da minha casa em Cliron. Quem imaginaria que a doce e corajosa garotinha órfã se tornaria uma das mulheres mais poderosas da cidade. E temida também.

— Não fique preocupado . — Rose me deu um selinho, chamando minha atenção para ela e continuou me olhando com suavidade — não fará nenhuma mal a nós, ela não tem mais como te controlar.
— Espero que tenha razão. — eu sorri de canto e me levantei da cadeira — Se tratando dela, sempre há surpresas indesejadas.
— Vamos viver nossa vida, e esquecer dela. — Rose me beijou com doçura antes de se trocar.

Demorou alguns minutos para que terminasse e saísse correndo. Era engraçado ver ela desesperada devido a seus problemas com pontualidade. Rose sempre se atrasa para seus compromissos, não tinha nenhum senso de organização. Já tinha me acostumado com seu jeito de ser, o gosto por doces e desenhos antigos. Viver com ela era como voltar no tempo. Minha época de ensino médio despreocupado e rodeado pelos amigos. Me lembrava da inocência de Jenie ao tentar me ensinar a dançar, como eu havia lhe ensinado a tocar violão. Lembrava das trocas de farpas entres os gêmeos do nosso grupo de amigos. Até mesmo Taylor, minha namorada do colegial me transmitia lembranças boas e saudades do tempo em que não conhecia a Continuum como conheço atualmente.

Já havia se tornado um hábito fazer faxina naquele apartamento. Minha rotina era chegar a oficina, dormir um pouco e depois faxinar a casa para passar o tempo. Varrer a casa, lavar, passar, cozinhar as refeições que Rose comia… Poderia até ser cansativo, mas tinha que inventar o que fazer para me prender em casa. Eu sabia que se saísse pelas ruas da cidade, poderia acabar arranjando confusão. E o que eu não queria mais na minha vida era encrencas desnecessárias.

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— Boa noite! — disse Rose ao entrar no loft com algumas sacolas na mão e a bolsa caindo pelo ombro.
— O que é tudo isso? — me levantei do sofá indo ajudá-la — Passou em algum lugar?
— Sim, passei em uma papelaria, uma amiga me pediu para ajudar com os convites do chá de bebê dela. — explicou me entregando as sacolas e um pacote.
— O que é este pacote? — perguntei um tanto curioso.
— Não sei. — ela me olhou confusa — O zelador me entregou, disse que chegou para você. Espero que seja algo bom, será que é algo do seu pai? Você disse que ele fez contato com você.
— Talvez, possa ser.

Deixei as sacolas em cima da mesa, junto com o pacote. Com um sorriso no rosto envolvi meus braços em sua cintura e a beijei com ternura e leveza. Ela devolveu o beijo envolvendo seus braços em meu pescoço. Rose era tão delicada que eu tinha medo de ser um pouco mais intenso com ela, tinha medo de machucá-la. Sempre que eu a olhava, era como se uma boneca de porcelana estivesse em minha frente. Sua face angelical despertava a parte boa que eu ainda tinha dentro de mim.

— Então... Vamos abrir o pacote? — sugeriu ela.
— Sim, pequena curiosa.

Ficamos em silêncio nos olhando por um tempo, então eu peguei o pacote em cima da mesa. Fiz um breve mistério antes. Ao abrir, nos deparamos com uma caixa de madeira carvalho envernizada com desenhos de arabescos serigrafados nas laterais da tampa. Dentro havia um envelope preto com meu nome escrito em dourado, parecia ter sido escrito à mão. Claro que eu reconheceria aquela letra de imediato. Rose pegou o envelope, o abriu e retirando um papel dourado com escritas pretas começou a lê-lo.

“Boa noite ,

Surpreso com minha carta?
Ao contrário do que sempre pensou, eu sempre sei onde está e com quem está, seus passos jamais saíram dos meus olhos e estou intrigada com sua nova rotina diária. Mecânico pela madrugada e do lar durante o dia. Sinto-me curiosa para saber se realmente cozinha bem. Peço desculpas por não ter me pronunciado antes, já fazem dois anos não é?! Acha mesmo que sua dívida está totalmente paga? 

Eu estava esperando por um momento mais propício para lhe fazer este convite.

Daqui uma semana darei um baile de máscaras e você é meu convidado de honra. E por mais que eu esteja curiosa para conhecer sua amiga Rose, este convite é individual e intransferível.

Você conhece o caminho e espero que apareça!

Sua doce dona,
Baker.”

Quando Rose terminou de ler, eu já estava sentindo um gosto amargo na boca. Aquela era ela, a mulher que no passado me usou de todas as formas possíveis como bem queria. Sempre mostrando seus piores lados, brincando comigo como gato e rato. Demonstrando superioridade, jogando com a vida das pessoas. Eu peguei a carta bruscamente das mãos de Rose e sem dizer uma só palavra saí pela porta.

Desta vez eu tinha que encará-la, tinha que ver ela, pois todos os meus pesadelos se resumia a ela, nasciam dela.

Eu não quero conhecer o seu jogo
Deixe ela fora disso
Não importa o que você diga pra mim
Não somos iguais.
- Don't Know Why / McFly



Milady Manhattan

Mais cedo naquele mesmo dia...

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Abri os olhos lentamente me espreguiçando, senti um leve desconforto em minhas costas, era o controle da televisão. Havia passado toda manhã deitada em minha cama pensando nas palavras que escreveria no convite que seria entregue a . Me levantei e caminhei até meu closet, passei alguns minutos me decidindo o que usaria naquele dia.

Acabei colocando meu look habitual, uma camisa social feminina branca, uma calça jeans skinning preta e meu inseparável scarpin vermelho. Assim que retornei ao meu quarto, encontrei minha cama já arrumada, sorri de canto e me virei em direção à porta, meu fiel e leal conselheiro e assistente, e muito amigo nas horas vagas. , se manteve parado me olhando.

— Bom dia milady. — pronunciou ele.
— Um belo dia. — eu o olhei sentindo meus olhos brilharem automaticamente — Um belo dia para voltar a vida de certas pessoas.
— Falando assim, já imagino de quem seja. — ele sorriu de canto — E já se decidiu como irá se anunciar?
— Vou convidá-lo para o meu baile de máscaras, sei que está próximo e é a ocasião ideal para isso. — andei até a escrivaninha e me sentei, abri a pasta preta e retirei uma folha dourada e pegando minha caneta de ponta fina comecei a escrever. — Já até pensei nas palavras enquanto descansava esta madrugada.
— Deixe-me adivinhar, algo sutil e delicado. — concluiu ele.
— Sim, como sempre. — demorei mais alguns minutos escrevendo, quando terminei dobrei o papel e coloquei em um envelope preto e escrevi em dourado.
está certa de que é o melhor momento?
— Sim. — eu me virei para ele, me levantei e estiquei o envelope — Quero que embrulhe em uma de nossas embalagens especiais, alguém deverá entregar isso ao entardecer, quando sua… Quando aquela intrusa estiver retornando do emprego.
— Como quiser. — ele pegou o envelope ainda me olhando de forma séria como de costume — Espero que desta vez funcione.
— Vai funcionar, nem que seja transbordando de raiva ele virá. — eu sorri de canto.

assentiu e se retirou fechando a porta. Passei minha mão direita em meus cabelos olhando para janela, caminhei até ela e abri as cortinas deixando o sol entrar com intensidade. Senti aquecer minha pele por um tempo e me afastei. O frescor de Manhattan me deixava animada e estimulada a dar ordens para funcionários incompetentes. Seria complicado me manter focada as minhas reais intenções quanto ao baile de máscaras, mesmo na diversão em despertar a fúria de , eu tinha negócios muito mais importantes.

Me sentei na poltrona ao lado da janela e peguei minha bolsa, conferi se tinha tudo que precisava, peguei o celular e olhei as horas. Me levantei e voltei para porta, antes de sair peguei minha taça de vinho que havia deixado na mesinha ao lado da porta. Eu ainda não havia me acostumado com esta mansão, não trocava minha cobertura de dois andares em frete ao Central Park para morar ali, mas como o baile seria na mansão então eu passaria a semana aqui.

Caminhei pelo corredor enquanto saboreava o Chateau 1987 que me foi servido, desci as escadas tranquilamente vendo já me esperando no último degrau.

— Convite enviado . — informou ele.
— Good. — respondi ao me posicionar ao lado dele, entregando minha taça vazia — Agora vamos aos negócios, não posso perder mais tempo, já fiquei muito tempo fazendo a boa moça.
— Então está pensando em fazer um visita surpresa? — perguntou ele ao pegar a taça.
— Sim. — ajeitei minha bolsa no ombro direito — Te espero na garagem.
— Não quer tomar o café da manhã antes de irmos? — indagou ele.
— Não, estou sem fome. — segui na frente.

Me afastei indo em direção ao corredor leste, desci as escadas até a garagem que era subterrânea, entrei em minha Mercedes preta. Assim que entrou, ele deu a partida e seguimos para nosso primeiro destino, iríamos ao Mount Sinai Hospital. Este hospital era filiado da família Sollary, e permanecia me causando problemas a um tempo já. Confesso que nunca fui de muita paciência para os lacaios da Continuum, mas os Sollary já foram bem mais exigentes quanto a escolha de filiações.

Desde os meus dias de treinamento em minha infância e adolescência, antes de ser transformada na milady Baker de Manhattan... Comecei a traçar minhas estratégias de administração quanto aos hospitais que receberiam os medicamentos das Indústrias Baker. Neste novo mundo que eu pertencia, havia um simples detalhe, se você controla o fornecimento de remédios, controla todo o sistema de saúde de sociedade. E eu havia sido preparada para isso, para controlar a indústria farmacêutica do país.

E por mais que pareça fácil administrar uma empresa, visto externamente, não era tão fácil assim. Desde muito antes de eu ser adotada, os Baker já haviam se estabelecido com renome mundial. Os melhores químicos e cientistas trabalhavam para nós. Seguindo o código de ética e profissionalismo proposto no passado pela dra. Dorothy Baker, a matriarca da família Baker e uma das fundadoras da Continuum.

— Está com uma aparência cansada. — comentou ao me olhar pelo retrovisor.
— Impressão sua. — disse.
— Você tem trabalhado muito e descansado pouco. — retrucou ele.
— Se não fizer o que me foi proposto fazer, as hienas da diretoria me engolem viva. — expliquei.
— Só quero que seja mais atenta com sua saúde. — alertou ele — Não a treinei para morar na praia por negligência.
— Não se preocupe , eu sei me cuidar. — assegurei.

Eu sabia que sua preocupação comigo era válida, mas não poderia me deixar abalar por cansaço físico, não agora. Alguns dos laboratórios Baker passava por uma reestruturação, após minha descoberta de fraudes e lavagem de dinheiro. Eu sabia que havia mais sujeira neste esgoto de corrupção que havia tomado as Indústrias Baker, e eu precisava resolver tudo antes da visita anual da Allison Baker. Eu sabia que poderia contar com para cuidar da minha segurança, já tinha sido ameaçada várias vezes pelos diretores da empresa. Não duvidava que seriam capazes mesmo de tentar me matar.

Quando estacionou, na garagem do hospital, soltei um suspiro cansado. Não queria ter que lidar com o assunto em uma manhã tão alegre como aquela.

. — me olhou.
— Vamos organizar os negócios , já está na hora, não posso mais adiar este assunto. — disse com firmeza.

Ele assentiu e nos direcionamos ao meu elevador privado, subimos diretamente até a sala do diretor geral do hospital. Quando chegamos no hall de entrada, passei direto indo até a porta, lançou seu olhar intimidador para a secretária assim que ela tocou no telefone, um olhar que até eu às vezes me surpreendia com a intensidade.

Ao tocar na maçaneta, já ouvi alguns risos vindo do interior da sala, era a voz do diretor geral Sanches. Girei com cautela e abri de repente, ele deu um pulo da sua cadeira confortável ao me ver, na sala havia uma outra pessoa, usava um jaleco branco, deveria ser algum médico, lancei meu olhar para Sanches fixando ainda mais.

— Surpreso em me vez? — perguntei com um ar inocente entrando na sala.
— Bem. — ele estava com sua mão direita na altura no coração com seus olhos assustados e sua respiração presa.
— Já faz algum tempo que não lhe faço uma visita. — assim que cheguei em frente à sua mesa, percebi entrando na sala.
— Senhorita Baker… — começou ele tentando não gaguejar.
— Pronuncie corretamente Sanches. — desci meu olhar para ele, me lembrei vagamente do dia em que fomos apresentados.
— Milady, eu já estava conversando com o doutor neste instante, dizendo que o relatório que me pediu sobre o uso do soro CN nas cobaias. — explicou ele com medo demonstrado em seu olhar.
— Interessante, mas acho que já lhe dei o tempo suficiente. — entrei mais e caminhei parando em sua frente, lancei minha perna em sua direção cravando o salto do meu sapato em sua jugular — Sabe , eu sempre tive uma curiosidade sobre os médicos.
— E qual é Baker? — estava tranquilo parado perto da porta segurando o médico.
— Dizem que eles conseguem salvar vida. — senti meus olhos ficarem mais negros ainda, nos aproximei da janela — Mas será que conseguem salvar a si próprio?
— Não, por favor, eu juro que não tive escolha. — suplicou ele.
— Não teve escolha, eu pensei que estivéssemos falando de um simples relatório. — disse num tom inocente.

Mas claro que eu sabia que ele estava envolvido no desvios do soro CN.

— Eu suplico milady Baker. — ele me olhou demonstrando sofrimento, porém nenhum pouco de arrependimento.
— Não dou segunda chance. — disse com precisão.

Sem que ele pudesse reagir, movi a minha perna em seu rosto fazendo um corte em sua boca, empurrei com força sua cadeira contra a janela, o vidro se rompeu com o impacto e o seu corpo atravessou para o lado externo, em segundos já estava caído bem na entrada no hospital.

— E você doutor?! — eu me virei olhando para o médico.
— Sim. — ele me olhou com medo, pude sentir pelo seu olhar.

Eu sabia que minha força ao jogar Sanches pela janela tinha algo fora do comum, então me lembrei da taça de vinho. Certamente colocou uma dose do soro CN para que meu corpo ficasse mais forte e meus sentidos mais elevados. Era a lógica para que eu conseguisse ouvir o pulsar do coração do doutor mais alto e preciso.

— Há quanto tempo trabalha no hospital? — perguntei respirando suavemente para que meus sentidos se acalmassem.
— Dois anos. — ele respondeu tentando não gaguejar.
— Suponho se seja um recém formado. — eu caminhei até ele, logo levantou seu corpo — Estou certa?
— Sim, eu era um aluno do centro de pesquisas. — explicou ele.
— Interessante. — eu o olhei atentamente monitorando sua frequência cardíaca com minha audição — Acho que já é o bastante, pode voltar ao trabalho.
— Sim. — ele assentiu.

o soltou e sem demora ele saiu, eu soltei uma gargalhada um tanto sinistra, sorriu de canto me olhando.

— Como é bom despertar este meu lado dama da noite. — respirei fundo desviando meu olhar para a faixa de sol que estava atingindo o chão — Obrigada por ter colocado o CN no meu vinho sem que soubesse.
— Imaginei que precisaria. — ele abriu a porta novamente para irmos embora — Devemos ir para o próximo compromisso?
— Sim, mas antes quero que ligue para Cassie, quero que ela faça uma inspeção geral e contate o representante dos Sollary, se tem algum membro desta família envolvido nessa corrupção toda, vai cair nem que tenha que derrubar a Continuum toda. — alertei com segurança — Ninguém rouba da família Baker e sai vivo para desfrutar do crime.
— Concordo plenamente.
— E antes que eu me esqueça, confirme o jantar com Sebastian Dominos, estou curiosa para descobrir sobre seu ódio pelos Tenebrae. — continuei.

Uma coisa era certa, se era meu braço direito, Cassie era o meu esquerdo. Era ela quem contratava e guardava a lista de todos que trabalhavam para mim. E também cuidava para que todas as minhas ações não fossem questionadas pela diretoria, que insistiam que eu deveria andar sob comendo deles.

Antes de meus próximos compromissos, eu e fizemos uma parada em uma de minhas cafeterias favoritas: a Coffee House. Como sempre, estacionamos na garagem e entramos pela entrada secundária, alguns olhares vieram em nossa direção de imediato, e por ironia eram todos para .

Tenho que admitir que ele era sim um homem atraente e muito cavalheiro, e tinha alguns olhares que paralisam as mulheres. Felizmente no meu caso, eu era imune aos encantos dele, mas ainda assim o achava charmoso. Eu segurei o riso, e caminhei até minha mesa habitual que ficava mais ao centro do lugar, me sentei.

— Lembre-se que estamos a serviço. — disse.
— Não se preocupe . — ele sorriu de canto e logo ouvi alguns suspiros vindos do meu lado direito.
— Assim espero. — reforcei ao ver o garçom já trazendo dois cappuccinos, nosso pedido de sempre.
— Boa tarde, milady Baker. — ele se curvou um pouco em cumprimento, tinha traços orientais — Aqui está, como sempre pede, seu favorito.
— Chocolate. — pronunciou ao olhar para minha xícara — Só isso para te acalmar.
— Não se envolva com meu chocolate. — completei pegando a minha taça.

Ele riu baixo.

— E a que brindaremos agora ? — perguntou ele levantando sua xícara.
— Ao meu baile de máscaras na sexta. — sugeri erguendo a minha também.

Senti uma ponta de brilho em meus olhos.
Naquele instante eu só conseguia pensar no momento da noite, em que ficaria frente a frente com pela primeira vez, após dois anos de ausência.

Você pode me chamar de monstro.
- Monster / EXO



Baile Baker

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Logo à noite, compareci ao jantar com Sebastian Dominos. Mantive meu olhar sereno e minha face suave, mas por dentro a curiosidade me corroía. Allison havia me contado muito a respeito dos Dominos, principalmente do filho mais velho Sebastian que se tornou o chefe da família. Um homem reservado, elegante e atraente, os primeiro adjetivos que o classifiquei.

— É um prazer senhor Dominos. — disse ao cumprimentá-lo.
— O prazer é meu, e deixemos as formalidade. — ele sorriu de canto ao girar com suavidade a mão dela e encostar os lábios de leve — Pode me chamar somente de Sebastian, é uma herdeira Continuum, tem esse privilégio.
— Privilégio, gostei da colocação. — devolvi o sorriso e desviei discretamente meu olhar para sua sliter — Pode me chamar de também.
— Vamos ao que me traz aqui. — iniciou ele sendo direto.
— À vontade. — estiquei a mão para que nos sentássemos no grande sofá do espaço reservado do restaurante London.

Assim que nos sentamos, Sebastian olhou para sua sliter e piscou de leve. A moça se manteve atenta a nossa conversa, mas não deixando passar o que acontecia ao nosso redor. Eu me lembrava dela. Me lembrava no dia em que juntas chegamos ao orfanato Miral e que juntas saímos. Naquele tempo a inocência nos uniu como amigas, três órfãs abandonadas e ameaçadas de morte por suas famílias originais. Eu, Nalla e Jenie, nossa brincadeira favorita era ser as meninas super poderosas. Três sonhadoras que foram adotadas no mesmo dia, mas infelizmente por famílias diferentes. 

Jenie foi para casa dos Fletcher, ser criada pela filha da diretora Donna, uma sliter disfarçada de boa senhora da sociedade. Senti uma breve inveja ao descobrir que minha amiga de infância havia crescido ao lado de , se formado com ele no ensino médio. Já Nalla, foi adorada pela casa Miller, sua mãe também uma sliter, como a ajuda de Donna a tornou a melhor já vista em toda Continuum. Ela ainda possuía uma certa doçura escondida no olhar, mas agora tudo que passava era seriedade e frieza. Quanto a mim. Allison Baker com ajuda de me deu o mais cruel treinamento físico e mental para suportar as intrigas, corrupção e perigos que eu poderia ser exposta.

— Confesso que estou curiosa para saber sobre seu ataque contra os Tenebrae. — disse a ele.
— Ataque? — ele riu baixo.
— Eu não ataquei ninguém. — assegurou ele — Mas, só estou reavendo coisas que me pertencem.
— Fala das fazendas no Texas? — supus.
— Quando minha família foi atacada, e quase fomos à falência, a Continuum tomou algumas de nossas propriedades de má fé, sob a gestão dos Tenebrae e passou para uma família confiável a eles. — explicou Sebastian com tranquilidade.
— Sabe, estou começando a achar que os Tenebrae não são a única maçã pode do cesto. — admiti os meus pensamentos.
— Divida comigo seus pensamentos então. — ele se mostrou interessado no assunto.
— Minhas indústrias andam sendo vítima de corrupção. — disse diretamente — Temos alguns negócios sigilosos que certamente são do interesse da Continuum manipular e ganhar em cima. 
— Interessante. — ele manteve seu olhar fixo em mim.

Claro que com Nalla por perto, Sebastian não se preocupava com sua segurança ou riscos à parte.

— Sabe que Baker e Sollary possuem uma parceria sólida de anos, mas ando desconfiada que informações preciosas nossas estejam sendo desviadas. — continuei — E que algum Sollary esteja envolvido — Eu também estou sendo roubada Sebastian, por quem deveria ser meu amigo.
— Estamos do mesmo lado então . — concluiu ele precisamente — Como posso te ajudar, para que me ajude quando for necessário?
— Quero encontrar a pessoa que está desviando minhas informações. — desviei meu olhar para Nalla — Sei que pode me ajudar nisso.

Ela certamente era a melhor pessoa para juntar peças e achar o culpado. As habilidades de Nalla eram conhecidas em toda a Continuum. Voltei meu olhar para Sebastian, que mantinha um sorriso de canto discreto no rosto.

— Vamos ajudá-la, se algum Sollary estiver envolvido, vou descobrir e será avisada. — ele olhou para sliter e depois para mim — Com isso podemos selar nossa amizade?
— Claro, pode contar com a família Baker. — disse com firmeza — Só peço restrição com relação a Mia Sollary, ela tem um certo envolvimento com meu irmão mais novo.
— Não se preocupe, Mia é uma grande amiga de minha família, e tenho certeza que jamais se envolveria nisso, pelo contrário, ela poderá nos ser útil para encontrar o traidor.
— Muito bem, vamos selar com um brinde. — disse ao me levantar e olhar para , que também se mantinha ali nos observando — Sei que aprecia um bom vinho, mas hoje lhe servirei o melhor champanhe de Manhattan.
— Agradeço a hospitalidade. — disse ele se levantando também.
— Contarei com sua presença no baile de aniversário na sexta? — perguntei ansiosa por sua resposta.
— Não estava em meus planos estender minha estava em Manhattan, mas comparecerei ao seu baile com prazer. — confirmou ele desviando seu olhar de mim para Nalla.

Meu sorriso de satisfação logo apareceu em meu rosto. A noite do baile tinha tudo para ser perfeita.

--

Momentos antes do Baile de Máscaras...

De olhos fechados sentindo os músculos do meu corpo relaxados, dentro daquela banheira de espumas todos os meus problemas e preocupações pareciam não existir mais, bem ao fundo estava tocando uma música suave. Estava tudo tão calmo, que até meu confronto com Demeter pela manhã não me importava mais. O filhinho mimado da mamãe estava preocupado com sua reputação diante da princesinha Sollary. Eu realmente não iria me fazer a boa moça só porque ele queria. 

Soltei um suspiro forte. Já tinha meus próprios problemas. Mas estava animada. Sebastian havia aceitado o convite para comparecer ao baile. havia me procurado na mesma noite que recebeu meu convite, mas os seguranças não o deixaram passar. Então claro que eu o veria nessa noite. Ansiava por isso.

— Gostaria de ficar mais um tempo aqui. — disse ao perceber a aproximação de .
, está quase na hora, acho que não está em seus planos perder cada detalhe da noite. — argumentou ele com razão.
— Oh, é verdade. — abri meus olhos e o olhei com leveza, eles estava um terno preto de tecido nobre, seu rosto já possuía sua máscara, o formato remetia a mesma máscara de o fantasma da ópera — Sempre aqui para me trazer a minha realidade.
— Sim, como sempre. — ele pegou a toalha que estava na mesa ao lado da porta e a abriu.
— Bem, está na hora da minha transformação, de uma simples garota para a dama de NY. — me levantei e saí da banheira, caminhei até ele e me enrolei na toalha — Certifique que esteja tudo pronto.
— Já está, Cassei disse que será um baile memorável. — garantiu ele.
— Assim espero. — eu sorri de canto.

Passei por ele indo em direção ao meu closet. Eu já havia escolhido meu look da noite há mais de um mês. Queria causar o máximo de impacto possível, principalmente aos homens machistas da diretoria. Assim que coloquei a roupa me aproximei do espelho, olhei para meu reflexo transbordando luxo com o vestido preto de renda que escolhi. O colar de diamantes ajudava.

— Interessante. — eu alisei os diamantes do colar, e sorri de canto.

Voltei para o quarto e caminhei até minha escrivaninha, havia deixado minha máscara em cima. Ela era dourada com detalhes de arabescos com mais diamantes. Coloquei-a no rosto, calcei minha sandália dourada de salto 15 e saí do quarto. Respirei fundo já ouvindo um fundo sonoro vindo do primeiro andar da mansão e muitas vozes conversando entre si, mas nenhum era a que eu esperava. Assim que me posicionei na ponta da escada todos os olhares se dirigiram para mim, desci lentamente deixando fluir de dentro de mim todo meu charme e sedução naquele momento. 

Ao chegar no último degrau, Jared Vidal, o mais charmoso e pouco confiável, veio de imediato me cumprimentar. Sua família tinha se filiado a Continuum a dez anos, e já havia triplicado o patrimônio. Claro que sua influência na política ajudava muito.

— Sua entrada foi exatamente como eu esperava. — disse ele me lançando um olhar de interesse.
— Imagino. — minha máscara era composta por duas partes e até aquele momento estava tomando toda a minha face, porém erguendo minha mão, destravei a parte inferior deixando somente a parte dos meus olhos coberta — É uma honra ter um Vidal em meu baile. 

Deixei escapar um certo tom de falsidade de minha parte, confesso.

— Deve estar sentindo falta de vossa mãe. — comentou ele — Agora que está a frente da família Baker e não a tem por perto para lhe aconselhar.
— Se está falando da Allison, ela me disse que não poderia vir. — respondi olhando em volta e avistando Sebastian acompanhado de Nalla — Agora que está aposentada de suas obrigações, ela prefere se dedicar mais a sua nova atividade de interesse, a vir num simples baile de negócios.
— Hum... Me concede a primeira dança? — ele estendeu sua mão direita.

Eu assenti e fomos para o centro do salão, dançar com o Jared era suave e ao mesmo tempo intenso, suas mãos eram macias e seu toque firme. Após o término da música me afastei dele e caminhei em direção aos sete diretores, com um andar soberano e superior. Jamais abaixarei meu olhar para eles.

— Boa noite senhores. — eu olhei na face de um por um.
— Como sempre surpreendente milady. — disse Marcellus o mais velho e mais ponderado de todos.
— Espero que aproveitem o baile senhores. — eu o olhei.
— Vamos aproveitar. — disse Klaus me olhando de baixo para cima — Até que seja a hora dos negócios.
— Com licença. — eu curvei minha face de leve e me afastei deles.

Esta era a parte insuportável de ser a milady Baker de New York. Meus atos e minhas decisões relacionadas à empresa deveriam na teoria sempre passar e ser aprovada pelos diretores. Isso me deixava um tanto irritada. Eu odiava cada um deles e ainda tinha esperanças que um dia poder cortar a cabeça de um por um. E naquela noite teríamos uma reunião ao final da noite. Já tinha em mente que eles iriam querer explicações sobre a morte de Sanches, mas não estava preocupada com isso.

Cumprimentei mais algumas pessoas consideráveis que estavam na grande sala, logo se aproximou de mim com duas taças em suas mãos, me entregou uma mantendo seu olhar sério em mim.

— Sei o que este olhar significa. — eu tomei um pouco do conteúdo da taça — Não se preocupe, não vou enfrentar os diretores, não hoje, ainda mantenho minha promessa feita a Allison Baker.
— Sempre vou me preocupar com você, . — desta vez ele me olhou como se a palavra milady representasse o meu nome — Te criei como uma filha.
Baker. — disse Sebastian ao se aproximar de mim — Seu baile está muito bem frequentado.
 — Eu assegurei que não perderia seu tempo em vir. — disse a ele sorrindo com satisfação por sua presença — Lhe desejo uma proveitosa noite, e acho que já percebeu a presença de um Vidal.
— Sim, percebi.
— Eles são aliados dos… — continuei.
— Eu sei. — confirmou Sebastian.
— Tenho uma proveitosa noite. — disse me afastando dele com meu conselheiro.

Enquanto todos se divertiam... 
Eu e fomos até o hall de entrada da mansão. Precisava conferir se todos os nomes da minha singela lista de convidados havia assinado sua presença. Alguns minutos depois, eu senti a presença de alguém vindo em minha direção. Respirei fundo e reconheci o aroma que a brisa carregava até mim. Era quem eu tanto esperava: .

— E chegou quem eu esperava. — olhei para frente vendo-o vir em minha direção, logo se posicionou ao meu lado em silêncio.
— O que significa isso? — levantou sua mão direita com o papel preto.
— Um convite. — eu o olhei cinicamente — Confesso que fiquei em dúvidas se viria ou não.
— Vim por que precisava entender como me encontrou. — ele desviou seu olhar para o chão — Mas olhando para você agora, só quero manter distância.
— Ah, . — eu dei alguns passos para frente — Já deveria ter entendido que nada passa sem que eu saiba, você nunca ficou escondido do meus olhos, tenho meus contatos.
— Corrigindo, tem seus lacaios. — disse ele num tom de fúria como se estivesse cuspindo aquela verdade.
— Interprete como quiser. — mantive a serenidade.

Ele se virou em direção a porta, porém se voltou para mim novamente.

— Só mais uma coisa, mande seus lacaios ficarem longe de mim. — disse num tom de ordenança.
— Para agir assim, suponho que ainda esteja com aquela insignificante. — disse para provocá-lo.
— Rose significa muito mais na minha vida do que você. — suas palavras me feriram um pouco.

Engoli seco, ele jogou o papel no chão e saiu transbordando fúria. Eu olhei para taça que estava em minha mão e a joguei na parede tentando controlar minha raiva. Como ousou tentar atrapalhar minha noite com sua raivinha sem propósito. Ele era meu e eu iria mostrar isso a ele da forma mais dolorosa.

. — se aproximou de mim fazendo um gesto para que uma serva que estava perto limpar os cacos da taça — Venha comigo.

Ele pegou em meu braço discretamente e me levou para o jardim de inverno que ficava na lateral direita, fiquei em silêncio olhando para o céu, estava um tanto estrelado aquela noite.

. — sua voz estava mais grossa e séria que o habitual — Sei que seus sentimentos por ele são fortes e reais, mas deve se controlar, foi para isso todos os anos de treino, para que ninguém a desequilibrasse.

sempre cuidava de mim e se preocupava com minhas alterações de humor e personalidade. Ele havia feito um juramento eterno para Allison, que me protegeria de mim mesma se fosse necessário. Só havia dois momentos em que ele me chamava a razão: Quando eu ficava muito triste e me isolava do mundo, ou quando eu deixava minhas emoções afetarem meu lado racional.

— Não sei o que sinto atualmente por ele, . — virei em sua direção e o olhei — Mas de uma coisa eu sei, gosto de estar no controle de tudo que me pertence, e está incluído na lista.
— Eu somente espero que o que aconteceu há alguns minutos não te afete racionalmente, você precisa demonstrar segurança e equilíbrio diante de todos.
— Eu sei. — eu desviei meu olhar para o chão — Fui treinada para controlar tudo o que sinto, as palavras de jamais vão me deixar em desequilíbrio novamente.
— Assim espero . — ele se aproximou de mim — Sei que lá no fundo aquela garotinha que eu resgatei do orfanato Miral, ainda insiste em lutar contra seu lado milady Baker.
— Essa garotinha não existe mais. — assegurei a ele — Aconteça o que acontecer , meu lado órfã e inocente se foi quando fui adotada por Allison Baker.

Respirei fundo e o olhei novamente, meu olhar superior havia retornado, estava me sentindo mais segura ainda. Não demorou muito para que Demeter entrasse ali, ele parecia ainda mais frustrado e raivoso que eu. Fiquei intrigada, será que sua médica tinha descoberto algo.

— Para estar aqui é porque algo deu errado em sua noite. — comentei o provocando.
— Meu deixa . — ele respirou fundo — Só preciso respirar um pouco.

me olhou com seriedade e então se afastou, retirando-se do lugar. O jardim de inverno da lateral era a parte mais restrita da casa. Era nosso lugar de refúgio, tanto meu quanto dele. Demeter e eu sempre quando crianças e ao longos dos anos, nos escondíamos da Allison ali. Era nossa Suíça. O único lugar do mundo onde não havia provocações um do outro, um território neutro para nós.

— Está assim por qual motivo? — insisti — Ainda sou sua irmã mais velha.
— Por que convidou o Dominos? — ele me olhou meio revoltado.
— Porque ele é nosso aliado agora. — respondi.
— Ele?
— Demeter, assuntos da empresa que só deve me apoiar. — o lembrei — Se o Dominos tem algum envolvimento com sua médica, deveria resolver isso sozinho.
— Nenhuma empatia vindo de você. — resmungou ele.
— Seu mimado, eu já estou sendo muito boa em não dizer a sua médica quem é o verdadeiro Demeter, então não estrague tudo. — me aproximei dele — Preciso de Sebastian Dominos para me ajudar a lavar toda sujeira das Indústrias Baker, seja um bom irmão caçula e aproveite a noite com sua garota Sollary, mostre que estamos bem e nossa família é forte e cercada de aliados.
— Quando te olho, só vejo nossa mãe em você. — disse ele num tom frustrado.
— Acredite, preciso ser ainda mais que ela, para que fique em segurança. — eu deixei levar meu lado autoritária e soberana e o abracei — Seja um Baker.

Sussurrei em seu ouvido.

— Um Baker nunca perde o que é seu. — completei ao olhá-lo com confiança — E Mia Sollary?!
— Será minha. — ele sorriu para mim.
— Gosta dela de verdade, arrisque tudo para ficar com ela. — eu pisquei de leve — Não me decepcionei.
— Sua boba. — ele riu — Irmã mais boba do mundo.
— Engano seu. — soltei uma gargalhada — Sou a melhor irmã do mundo!

--

-

Eu estava com mais raiva dela. 
Entretanto, com toda raiva e fúria, a imagem daquele sorriso audacioso e aquele olhar fatal ainda persistem em ficar em minha mente. possuía um ímã inexplicável que sempre me atraía para ela. Após passar 2 anos longe, eu ainda tinha esperanças de ver em seus olhos aquela pequena garotinha que no passado eu salvei em uma noite chuvosa. Caminhei pela rua, ainda relutante para voltar para o apartamento. Não queria que Rose me visse daquele estado. Entrei no Central Park e andei mais um pouco até me sentar em um banco, após algum tempo senti meu celular vibrando no bolso da calça. Era uma ligação de Rose, certamente preocupada comigo.

— Rose.
! — ela suspirou aliviada — Fiquei preocupada, me diga que você está bem.
— Estou. — eu me levantei — Chego em alguns minutos.

Antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa desliguei o celular. Voltei para o apartamento pelo metrô. Quando ia tocar na maçaneta, ela abriu a porta e me abraçou.

. — sussurrou de leve — Fiquei com medo por você.
— Não fique, eu a conheço. — respondi entrando no apartamento — não faria nada contra mim, eu só não deveria ter ido, não consegui falar com ela aquele dia, deveria ter seguido em frente.
— Está mesmo tudo bem? — ela me olhou preocupada.
— Não sei. — desviei meu olhar para o chão — Após ver ela, sinto que aquela fúria se despertou novamente.
— Então esqueça esta noite. — ela tocou minha face me fazendo olhar para ela — Olhe somente para mim, estou aqui com você.

Eu queria sim esquecer tudo aquilo. 

Entretanto, ver naquela noite depois de dois anos sem olhar em sua face, mexeu de alguma forma comigo. 

No momento em que olhei em seus olhos por trás daquela máscara, eu senti que meu coração acelerar depois de muito tempo.

Apesar de gostar de Rose, somente conseguia causar isso em mim.

Basta ficar como esta,
A medida que você só olha para mim,
Eu nunca vou deixar você ir,
Apenas observe. 
- Growl / EXO



Restrição

-

Demeter e eu permanecemos mais algum tempo no jardim de inverno, conversando sobre sua nova vida em Seattle e seu desejo de montar tão sonhada oficina mecânica. Eu ainda não entendia essa paixão dele por carros velhos e antigos, sendo ele eram clássicos. Cassie adentrou o lugar anunciando que os diretores já estavam à nossa espera no escritório da adega. Claro que eu levaria o caçula herdeiro comigo para mostrar que minha gestão jamais deveria ser contestada por eles. Eu troquei alguns olhares com assim que saímos do jardim, em sua face eu percebi a preocupação constante. Contudo, eu jamais faria algo sem pensar, já estava escolhendo as palavras em minha mente.

Nos dirigimos em direção ao escritório, os irmãos Baker na companhia de . Ao entrar, já estavam todos sentados em nas poltronas da adega, a nossa espera, o olhar deles passou de Demeter para mim em uma rapidez impressionante. Aquilo parecia mais um julgamento. Eu odiava quando seus olhares faziam parecer isso. Dei alguns passos me aproximando mais e fiz uma breve reverência, debochada.

— Pensei que quisessem se divertir mais senhores. — disse olhando de relance para o lado direito, vendo se posicionar ao meu lado, de frente para mim com seus olhos fixos nos meus.

Demeter permaneceu pouco mais atrás, encostado na parede e de braços cruzados me observando.

— Por mais que o baile esteja sendo um sucesso, alguns de nós viajará amanhã bem cedo. — disse James, o diretor mais observador, ele tinha uma certa obsessão em avaliar todas as minhas expressões faciais,  meus gestos e passos.
— Vamos ao que interessa. — disse Marcellus me olhando sério e atento — Estamos aqui mais uma vez por causa de seus atos, feitos sem permissão.
— Especifique. — mantive minha postura correta e a superioridade em meu olhar.
— A morte se Sanches, este caso deveria ter passado pelo conselho. — Davis, o desleal dos diretores, me olhou com certa intensidade — Matar um homem não é justiça, o herdeiro sabe sobre isso?

O olhar dele foi para Demeter.

— Não se incomodem com minha presença. — disse meu irmão firme — Tudo que fizer, tem meu apoio.
— Como sempre nada passa despercebido pelo conselho. — me pronunciei olhando fixamente para Davis, depois olhei para meu irmão — No entanto devo acreditar que o que eu fiz, não infringe as leis imposta pelo código da família Baker, dei o final merecido a um traidor. E se eu estiver errada, que a Continuum venha me julgar.

Soltei uma gargalhada alta e maldosa.

— Ah, me lembrei, até mesmo a Continuum tem seus cadáveres mantidos no armário. — mantive o olhar debochado para Davis.

Ansiava pelo dia em que lhe… Melhor não pensar nisso agora.

— Não importa se ele era um traidor ou não, não deveria ter tomado essa decisão, Sanches sabia muito e poderia ter dito o nome dos envolvidos em troca de perdão. — frisou Xavier, o silencioso dos diretores.
— Perdão?! — ri novamente — Não era preciso para um pessoa corrupta que já havia sido perdoada antes pelos Sollary, o código declara que para toda traição a sentença é o desligamento total. — eu olhei para Marsellus — Diante disso, consultar a diretoria não era necessário, além do mais, eu não havia ido com a intenção de fazer o que fiz, só queria um relatório, porém fui ensinada pela própria Allison Baker a não dar segunda chance. — eu desviei meu olhar para Davis — E sigo à risca este ensinamento.
. — Klaus se levantou — Abaixe seu olhar e demonstre respeito pela diretoria.
— Eu tenho. — sorri de canto meio debochadamente — Se me dão licença, vou me retirar, tenho que me despedir dos meus convidados, afinal fui obrigada a participar de uma reunião sem objetivos concretos, espero que tenham uma boa viagem. — eu me virei.
— Jamais dê as costas e saia sem nossa permissão. — ouvi a voz de Marcellus se alterar.
— Permissão?! — eu ri baixo, senti a mão de tocar em meu braço, aquilo era sinal de perigo, me parecia, me virei e olhei para Marsellus sem medo — Acho que não preciso de permissão para sair de algo que nunca deveria ter entrado, espero que da próxima vocês me convoquem para algo que realmente valha a pena. — eu olhei para Klaus — Vocês se enchem de orgulho quando dizem que sempre sabem de tudo antes de mim, estou muito curiosa para saber o porquê durante três longos anos, Sanches desviou o CN de nossos laboratórios e vocês não souberam de nada.
— O que é isso? Está insinuando que alguém da diretoria está envolvido? — Klaus deu um passo para frente seus olhos enfurecidos.
— Longe de mim insinuar algo. — disse com ironia — Não é mesmo Davis?

Eu olhei para Davis, não era de se esperar que o desleal entre eles estaria envolvido, eu havia descoberto isso, só não tinha como provar. Isso me deixava irritada e revoltada, pois não poderia fazer nada, já que as provas somente denunciavam Sanches.

— O que quer dizer com isso? — Marcellus olhou para Davis.
— Irei me retirar agora, espero que voltem em segurança. — me virei e saí do escritório sendo seguida por e Demeter.

Quando cheguei no hall de entrada da mansão me despedi de alguns convidados que ainda estavam na grande sala, em minutos já estava tudo vazio. Meu irmão se aproximou de sua convidada e a levou para fora da casa, certamente sua noite seria longa longe daqui. Cassie ordenou para que o local fosse limpo de imediato. Eu me afastei de tudo aquilo e caminhei até o jardim de inverno. Permaneci parada olhando o pequeno lago que havia lá, me mantive em silêncio ao sentir a presença de .

— Pensei que não iria se controlar. — disse ele.
— Eu também, mas felizmente você estava lá. — eu o olhei — Tive mesmo que me conter, olhar para Davis sabendo o que ele fez para me prejudicar e ainda engolir as arrogâncias dos outros.
— Você precisa ser mais cautelosa .
— Eu serei, mas não vou abaixar para eles. — eu dei dois passos em direção a porta — Sei muito bem que foi uma armação de Davis que fez com que Allison matasse sua assistente pessoal, não vou deixar que ele faça o mesmo comigo só porque não ando conforme seus interesses.
— Você não é uma assistente, você é filha da Allison. — frisou bem meu lugar — E o que pretende fazer?
— Ele cairá antes que possa tramar outra coisa contra mim. — eu saí do jardim retornando para o interior da mansão.

Faltava duas horas para o sol nascer e os empregados ainda limpavam tudo, subi as escadas tranquilamente em direção ao meu quarto, abrindo a porta me deparei com uma surpresa.

— Vidal?! — eu o olhei sem entender, já entendendo.
— Soube que estava reunião e resolvi esperar um pouco mais para me despedir. — ele sorriu de canto.

Jared tinha um ar um tanto sedutor.

— Imagino. — eu caminhei até ele sabendo de suas intenções — Foi uma honra ter um Vidal em minha festa. — eu passei por ele indo em direção a janela.

Ele segurou firme em meu braço e me beijou de repente.

— Mais do que ter um Dominos?! — insinuou ele.
— Sendo da Continuum, é sempre honrável para mim. — disse me mantendo parcial.

Ele me beijou novamente. Eu já esperava por isso, uma investida dele. Mas não com tanta intensidade, eu já havia me acostumado com os olhares de Jared. O filho herdeiro da família Vidal,  membro que mais marcava presença em minhas festas e recepções. Seu beijo era intenso e profundo, porém se toque macio e suave, às vezes conseguia me sentir um tanto desnorteada. Não costumava passar a noite com qualquer pessoa, pois no meio de tudo sempre me lembrava de e isso me irritava às vezes. Porém Jared conseguiu deixar minha mente vazia e meus instintos ainda mais aflorados.

--

Eu havia tido uma noite um tanto divertida com o Vidal. Ele se foi pouco antes do amanhecer. Permaneci no meu quarto até que surgiu, ele estava com uma taça em suas mãos, se aproximando de minha cama me entregou a taça.

— Suco de laranja logo cedo!? — perguntei pegando a taça.
— Como todos os dias. — assentiu ele desviando seu olhar para a janela — Você precisa cuidar mais da sua saúde.
— Não se preocupe com minha saúde, estou bem fisicamente. Algo mais que queira comentar? — perguntei degustando do meu suco.
— Você e o Vidal no final da noite. — ele olhou em volta vendo que meu quarto estava um tanto desarrumado — Foi intenso? Fiquei surpreso por isso.
— Surpreso pelo que? — perguntei.
— Pensei que estivesse sozinha até este momento, por causa da sua obsessão...
. — conclui — Não posso parar minha vida enquanto ele não volta para mim, ele não parou a dele. Na realidade dos fatos é raro eu encontrar um homem que me desperte interesse.
. — ele me olhou sério.
— Não se preocupe , jamais vou confiar em um Vidal, ele é aliado dos Tenebrae. — eu me levantei da cama — E esta noite jamais irá se repetir, a milady Baker de NY só realiza este desejo uma vez, não vou mais dormir com o inimigo.

Brinquei com a frase final.

— Que cruel de sua parte. — brincou ele me fazendo rir.
— E por falar em crueldade, já instaurou a ordem de restrição como eu mandei?
— Sim. — ele se virou em direção à porta — , acha mesmo que ele irá preferir a morte?
— Ele me fez uma promessa quando me deixou, ando inclinada a querer vê-lo cumprir, segundo suas palavras, ele prefere morrer a fazer um novo acordo comigo.
— E conseguirá conviver com a morte dele? — me olhou novamente — Está certa de sua decisão?
— Estou certa de que no final ele voltará para mim, custe o que custar, aceitará o óbvio, ele pertence a mim e a mais ninguém. — caminhei em direção ao meu closet.

- :

Assim que amanheceu, Rose acordou se espreguiçando na cama. Eu estava de pé encostado na parede como de costume a olhando e pensando na noite anterior. Pensando naquele olhar que me matava e agora me tornava ainda mais vivo, o olhar da milady Baker de New York.

— Bom dia amor. — disse ela dando um sorriso meigo — Conseguiu dormir?
— Consegui. Felizmente acordei mais tranquilo, sempre fico ao seu lado. — sorri de canto para ela.
— Isso é bom. — ela se levantou e caminhou até o banheiro.

Eu continuei onde estava, ouvindo os movimentos dela vindos do banheiro, estava tomando uma ducha. Quando saiu já trajando sua roupa de trabalho veio em minha direção e me deu um beijo de leve.

— Vou te achar aqui quando voltar? — perguntou ela.
— Não sei, preciso resolver alguns assuntos, mas não vou demorar a voltar.
— Tudo bem, se quiser posso me encontrar com você no almoço, agora que ela sabe que está aqui, não precisamos mais nos esconder.
— Talvez, tenha razão. — eu beijei sua testa de leve.

Rose saiu após tomar seu café. Pouco antes do almoço, liguei para o tio de Rose e expliquei que me atrasaria ao chegar na oficina. Para minha surpresa, ele disse que não precisava, pois eu não poderia mais trabalhar ali. Fiquei intrigado com sua palavras e troquei de roupa rapidamente, segui em minha moto velha até lá.

— Senhor Philip, como assim eu não poderei mais trabalhar aqui? — perguntei confuso pela situação.
— Meu jovem, minha oficina foi comprada, e o novo dono não o quer como funcionário. — explicou ele.
— Eu posso conhecê-lo pelo menos? — perguntei.
. — a voz de vindo de trás de mim me fez entender tudo.

Olhei para ele.

— Quer falar com o novo dono? Estou aqui. — o olhar tranquilo dele me dava mais raiva ainda.
— Eu deveria imaginar que tinha algo por trás disso. — disse fechando meus punhos no automático.

A raiva era grande dentro de mim.

— Bem, agora que já sabe, gostaria de dizer que você ficará restrito por tempo indeterminado. — revelou ele — Espero que consiga sobreviver nesta cidade.
— Ela acha que fazendo isso vai me forçar a voltar? — retruquei — nunca me terá de volta, não serei mais seu cachorrinho.
— Bem, boa sorte então. — se virou serenamente e seguiu para seu carro.

Respirei fundo ainda raivoso.

— Eu lamento meu filho, não tive como recusar a oferta deste senhor. — explicou Philip.
— Não se preocupe, não é culpa sua, só peço que não conte nada a Rose, por favor. — pedi a ele.
— Não contarei. — garantiu.

Subi em minha moto e dei a partida. Não podia voltar para casa desnorteado, então minha próxima parada seria Obviously Pub, um dos poucos lugares da cidade que me ajudava a relaxar quando estava de cabeça quente. Eu sabia que pertencia a uma família Continuum que era alheia aos mandados de . Um ponto positivo.

Quando entrei, me lembrei imediatamente do dia em que deixei . O pub foi o último lugar que passei naquela cidade, antes de ir para o Kansas e eu estava ali novamente. Notei alguns rostos conhecidos e outros um pouco diferentes, logo um conhecido do passado como segurança de , se aproximou de mim.

— Ei, ?! — disse Jack ao se aproximar de mim — Quando voltou para Manhattan?
— Ah, Jack. — eu o olhei, muita coincidência o encontrar ali — Voltei há dois meses.
— Suponho que milady Baker já esteja sabendo do seu retorno. — ele se sentou na banqueta ao meu lado e olhou para o barman — Vou querer um joystick. — disse ao homem, pedindo a bebida de martini misturada com gim e frutas vermelhas.
— Sim, ela já sabe. — eu desviei meu olhar para a pista de dança vendo algumas pessoas se divertindo — Ela sempre sabe de tudo, não é novidade.
— Bem, verdade. — ele riu sendo servido — A única novidade que ninguém sabe, mas terei o prazer em dizer em primeira mão a você, é que milady Baker em breve se casará.
— O que? — eu o olhei sem entender.
— Mas mantenha isso em sigilo, não é oficial, mas dizem que Allison quer que ela se case. — continuou detalhando a informação — Ao que tudo indica, com alguém da diretoria, Davis talvez.
— Tem certeza? — mantive meu olhar intrigado.
— É o que estou dizendo. — ele pegou seu copo e saiu em direção a escada que dava para o espaço vip no segundo andar.

Jack fez muitos contatos na época que trabalhava para Allison Baker, segundo , ele era um dos amantes da mãe. Então, se ele havia dito aquilo, é porque tinha fundamentos. Eu fiquei olhando para a bancada sem reação, não conseguia imaginar se casando com nenhum homem. Davis era tida como uma pessoa fria e desleal, que sempre fez de tudo para derrubá-la. Era impossível visualizar a união deles, mesmo que isso fosse uma ordem da própria Allison.

Eu não queria me preocupar com tudo aquilo. A vida de não era mais da minha conta, ou pelo menos eu tentava pensar assim. Me virei para o barman e esperei ele terminar de servir a mulher que sentou ao meu lado.

— Pode me dar uma heineken por favor. — pedi a ele.
— Me desculpe senhor, mas não poderei. — respondeu meio sem jeito.
— Como assim? — estranhei aquilo tudo.
— Em todos os ponto foi dada a nova lista de restrições, sua foto está nela. — explicou o homem.

Lista de restrições. Deveria ter imaginado de imediato. Mas estava intrigado por aquele lugar ter aceitado a lista. Sempre que queria eliminar alguém, ou controlar essa pessoa, colocava sua foto na lista de restrições, e a pessoa estaria proibida de fazer qualquer coisa na cidade. Trabalhar, se alimentar, morar, praticamente viver.

— Não acredito. — sussurrei para mim mesmo.

Saí do pub, eu não iria jogar o jogo dela. Se estava fazendo aquilo para que eu desistisse de Rose e cedesse a sua pressão, eu não iria fazer isso. Passei o resto da tarde e boa parte da noite vagando pelas ruas. Voltei para casa muitos antes do amanhecer, estava me sentindo fraco, abatido e com fome, mas iria ser forte e resistir a tudo aquilo.

Quando entre no apartamento, Rose estava acordada. Ela me olhou preocupada e confusa, eu não tinha forças para dizer nada. 

— Meu tio de contou que vendeu a oficina e teve que te demitir. — disse ela assim que me preparou um lanche e colocou em cima da mesa de centro — Sei que não queria que eu soubesse, mas , esconder de mim não vai melhorar.
— Me desculpe. — a olhei com ternura por seus cuidados comigo — Não queria te preocupar.
— Foi ela, não foi? — indagou.
— Sim. — suspirei fraco caminhando para perto da janela — Mas vai ficar tudo bem, vou sobreviver a isso.
— Se quiser, podemos ir embora novamente, voltar para o Kansas. — sugeriu ela.
— Ordens de restrições correm Rose, a Continuum está em toda parte, pode pedir apoio deles. — conclui — Não há para onde fugir.
— Podemos sair do país. — insistiu.
— Não se preocupe comigo. — sorri de leve.
— Só não quero que isso nos afaste um do outro. — disse ela com um olhar amedrontado — Sabemos do que é capaz.
— Ela não vai te machucar. — assegurei.
— Não a mim, mas é claro que ela quer machucar você. — concluiu ela com precisão ao se aproximar de mim — Não vou suportar.
— Obrigado. — sussurrei para ela.

Senti sua mão tocando meu rosto de leve. Ela sorriu para mim, de forma reconfortante. Senti o calor de seu corpo próximo ao meu. Sorri de volta e olhei para janela, meus olhos percorreram a rua até que pararam no terraço do prédio da frente do outro lado da rua. Mesmo no escuro algo dentro de mim me confirmava, era ela a nos vigiar. , ao seu lado certamente . Foquei meu olhar ainda mais e pude ver que ele estava segurando firme em seu pulso. Havia alguns momentos cruciais que a continha e aquele era um deles.

- :

Engoli seco sentindo minha garganta queimar como se uma brasa estivesse nela, olhando aquela cena. Em minha mente só imaginava o que poderiam estar conversando. De certo que eu era o assunto. Mesmo me segurando sem motivos, eu não iria fazer nada. Tinha curiosidades para ver até onde iria aquela segurança toda da insignificante Rose. E quando admitiria que morreria sem mim.

— Satisfeita com o que viu? — perguntou num tom irônico, quebrando o silêncio que continha entre meus olhares para .
— Sabe que não. — admiti.
— Esta cena é o suficiente por hoje, . — disse ele ao se virar de costas para o apartamento da frente — Vamos seguir para casa.

Assenti com a face e nós descemos para o estacionamento do prédio. Entramos no carro. Permaneci em silêncio todo o caminho, não queria dar a oportunidade para me repreender ainda mais ou dar seus conselhos preocupados de um pai. Quando cheguei na minha cobertura no Central Park, fui direto para o quarto, sentia tanta raiva que nem chocolate me acalmaria. Eu seria capaz de destruir toda aquela cidade em poucos minutos de tanta fúria reunida em mim.

Um semana se passou e até mesmo as compras de alimento foram cortadas para eles. Não me contive em todas as noites ir naquele prédio para observá-lo. Estava curiosa para saber até quando duraria o estoque de sobrevivência de ambos. Até mesmo a tal Rose havia sido demitida do emprego, estavam a um passo de perderem o aluguel do apartamento deles. Meu desejo de ver rendido a mim estava me consumindo por dentro, passava horas do dia pensando nele e em como ele estava. Isso atrapalhava um pouco minha concentração nos negócios, tinha que me manter focada para articular a queda de Davis e do resto dos diretores.

— Você ainda não mencionou sobre a mensagem da Allison. — comentou enquanto permanecemos dentro do carro debaixo da chuva em frente ao prédio de .
— Sobre me casar com o traidor desleal? — perguntei — Não farei isso.

Estava segura.

— Prometi a Allison não decepcioná-la, mas não me casarei com Davis, nem sob tortura, nem se a vida de dependesse disso. — afirmei com segurança.
— Não acho que Allison queira te chantagear para se unir a Davis. — riu com sarcasmo — Mas, é uma boa ideia.
, você deseja minha ruína?
— Claro que não , você é como uma filha para mim.
— Hum… — respirei fundo — Allison acha que este casamento será uma forma de controlar aquele traidor, mas no fundo eu quero é exterminar ele.
— Se você se concentrasse nisso, já teria pensado em como. — aquilo foi um tom de repreensão?
— Se está falando sobre o caso , não se preocupe, eu não perdi o foco. — assegurei — Mas tenho minha vida privada longe dos assuntos da empresa.
— Assim espero. — disse ele.

Ficamos em silêncio por mim tempo. Em um impulso repentino, peguei as sacolas de alimentos que tinha preparado para levar e saí de carro. Sem que pudesse questionar, segui até o apartamento de . Assim que parei em frente a porta, me peguei em profunda indecisão. Já não sabia mais se bateria ou não na porta, assim que ergui a mão direita, a porta se abriu. Meus olhos encontraram os de de imediato, senti uma brisa fresca e estranha passar pelo meu corpo.

Seu olhar parecia cansado, seu rosto um pouco abatido, com olheiras nos olhos, certamente de preocupação. Um pequeno corte na boca podia ser notado também. O que eu havia feito com ele? Eu sabia de boatos que algumas pessoas para quem Rose devia tinham ido lhe cobrar, e quem recebeu a cobrança em forma de surra. Eu havia me esquecido que ela pagava caro as contas da casa de repouso onde a mãe com alzheimer permanecia.

— Veio conferir se ainda estou vivo? — ele sorriu de canto meio debochadamente, havia aprendido aquilo comigo, sorrir para seu inimigo em meio a visualização da possível derrota.
— Não. — eu não sabia o que dizer, eu sempre perdia as palavras quando estava adiante dele e sem perto, era ainda pior — Quer dizer, não sei.

Desviei meu olhar para a soleira da porta, senti uma movimentação se aproximando, virei meu rosto para o lado, era ela.

— Você. — disse ela surpresa, ela desviou seu olhar de mim para ele — ! — ela se aproximou e apoiou o braço dele em seu ombro, ele ainda estava se recuperando da cobrança pela dívida.

Fiquei sem reação ao ver aquela cena. desabando diante de mim. Estava pensando o que faria com aquilo, se realmente o deixaria morrer ou não. Rose fechou a porta e provavelmente o colocou na cama ou no sofá, ouvi as vozes de ambos. Permaneci onde estava com meu pensamento, tentando imaginar como seria o mundo sem . Se eu estava pronta para perdê-lo para morte, se realmente era isso que eu queria. As palavras de ainda ecoavam em minha mente, eu viveria bem se morresse? Essa era uma questão delicada naquele momento.

Finalmente me posicionei firme como uma Baker e bati na porta, demorou alguns instantes até que Rose abriu. Ela saiu para fora e me olhou com raiva.

— Ele ainda está vivo se é isso que quer saber.
— Não foi para isso, é um homem forte, sei que não será um acerto de contas que vai derrubá-lo. — estiquei a sacola entregando a ela — Isto é para vocês.
— O que? — ela se mostrou indignada — Acha mesmo que vamos aceitar suas migalhas.
— Se ele prefere morrer eu já entendi que sim, mas eu não vou deixar. — eu não iria me rebaixar ou admitir as palavras dela — Agora você vai aceitar em silêncio, ou então sua querida mãe pagará por sua arrogância.
— Se ousar… — ela começou.
— Cale-se, e nem ouse me enfrentar. — a interrompi com firmeza — Nem tudo sobre mim, lhe contou, e não vai querer conhecer todos os meus lados.

Minha ameaça foi mais forte. Ela engoliu seco e pegou as sacolas. Sorri audaciosamente para ela e antes pudesse dizer mais alguma coisa, me retirei. Quando cheguei na rua, estava parado ao lado do carro me olhando. Sua expressão séria e seu olhar frio, mas tinha uma ponta de curiosidade ali. Em sua face deixou transparecer um sorriso de canto, entendi que tinha aprovado minha atitude.

- :

. — disse Rose ao entrar pela porta.

Meu corpo estava totalmente dolorido. Tomei alguns analségicos e mantive o olhar nela. Estava com várias sacolas em suas mãos. Não entendi a princípio, mas depois imaginei que fosse coisa da

Suspirei fraco, cansado de lutar contra a Baker que afundou a minha vida.

Nos mandar alimento era a resposta que eu queria. não teria forças para me ver morto. Ela ainda me amava, mesmo que do jeito louco, sufocante e obsessivo dela. O pior de tudo é que eu também ainda a amava. Meu corpo inteiro se arrepiava quando ela se aproximava de mim. 

Vindo ao meu apartamento era a confirmação que não conseguiria ir adiante com aquela sentença. E eu daria meu próximo passo. Para isso, eu teria que abrir mão de Rose, da vida tranquila que eu conquistei. Mas se isso significaria minha possível liberdade no futuro, então era isso que eu faria. Terminaria de uma vez com Rose, para que ela não se ferisse por minha causa.

Então… Eu não iria mais jogar o jogo de , era ela quem iria jogar meu jogo. 

Desta vez eu seria o controlador de tudo.

Eu não queria acabar com sua vida,
Eu sei que isso não é certo,
Eu não consigo nem dormir à noite,
Não consigo tirar isso da minha mente.
- Man Down / Rihanna



Problemas

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Eu estava um pouco mais tranquila. Logo pela manhã, passei na mansão para ser agraciada com a companhia de Demeter e sua convidada no café da manhã servido no jardim de inverno. Estava surpresa por finalmente ele me deixar aproximar dela. Mais ainda por ainda estarem em NY.

— Mia Sollary, é um prazer finalmente conhecê-la mais formalmente. — disse ao cumprimentá-la.
— Sim, eu tentei me aproximar no baile, mas você sempre estava rodeada de pessoa, e depois foi para seu apartamento, achei que voltaria para Seattle sem conhecer de perto a irmã mais velha de Demeter. — comentou ela ao sorrir de leve.
— Meu irmão é ganancioso e quis monopolizar sua presença somente para ele — Brinquei.
— Verdade. — Mia olhou atravessado para Demeter — Ele tem sido muito ousado durante esses dias, só porque está em casa.
— Para ser honesta, esta é a verdadeira forma dele. — voltei meu olhar sugestivo para ele, que não estava nada amigável com meus comentários — Mas vamos falar sobre você.

Tomei um gole do meu café.

— Eu? — ela ficou surpresa.
— Como é ser médica? Soube que salvou meu irmão de um acidente. — comentei olhando-a curiosa. 
— Sim, o dia em que nos conhecemos foi turbulento, Demeter se envolveu em um acidente em que sua moto foi prensada por um carro, ele quase perdeu a perna. — contou ela, seu olhar ficou preocupado — Mas felizmente conseguimos salvá-la, só que meu paciente é um tanto aventureiro.
— Ah sim, meu irmãozinho sempre foi assim, amante de uma adrenalina, teve uma vez… — comecei a contar.
. — Demeter ficou com firmeza — Por favor.
— O que foi? — Mia o olhou intrigada — Quero saber a história, está com medo que eu saiba de algum segredo oculto seu?

Não me contive em soltar uma gargalhada.

— Calma irmãozinho, eu só ia contar da vez que caiu da casa na árvore que tínhamos no Alasca. — disse em provocação a ele — Pensou que eu diria o que?

Ele me lançou um olhar de: Eu te conheço . Me fazendo rir de novo.

— Demeter é muito brincalhão, mas às vezes fica tão chato quando está sério demais. — comentei com ela ao terminar meu café — Bem, terei que deixá-los.
— Mas já?! — Mia olhou confusa por minha partida.
— Sim, tenho compromissos de trabalho. — expliquei — Mas desejo uma boa viagem de retorno a Seattle, as portas da casa Baker sempre estarão abertas a você. 
— Agradeço . — ela sorriu com gentileza.

Eu me retirei. Segui para minha visita a uma família aliada dos Baker e associada a Continuum há vinte anos. Eles contavam com minha ajuda para localizar a filha herdeira, que estava desaparecida. me acompanharia como de costume, havia deixado algumas ordens para Cassie antes de sair. Ao chegar na residência da família Summers, estavam todos na sala me esperando. Fui recebida pela senhora Catrina, a nova esposa do senhor Summers, seus traços franceses, eram visíveis. 

Soube por que ambos haviam se conhecido em Monte Carlo, ela tinha um sorriso que não me passava confiança.

— Summers. — o chamei pelo sobrenome como cordialidade — Presumo estar próximo de descobrir o que aconteceu e como aconteceu.
— Não me importo com esses detalhes milady Baker, só quero que descubra onde ela está. — disse com o olhar aflito de um pai.
— Vou descobrir, mas como sabe não posso deixar passar o sequestro de uma herdeira, que pertence a uma família Continuum.
— Só quero minha filha de volta em segurança. — ele se sentou na poltrona ao lado da lareira.
— Meu marido está muito abalado milady Baker, só irá se recuperar quando Molly retornar para casa. — sua voz me enojava um pouco, era fina demais e um pouco baixa.
— Não se preocupe Summers, meus sliters estão dando prioridade para seu caso.

Eu não me importava com desaparecimentos de pessoas naquela cidade, isso era normal no cotidiano. Mas quando tinha alguma relação com uma família da Continuum, eu deveria dar total atenção. trocou algumas palavras com Summers, porém voltei minha atenção para a esposa dele, que parecia nervosa com minha presença naquele lugar. Eu já suspeitava um pouco dela, seu casamento recente, havia sido apresentada ao Summers por Davis. Eu observei cada gesto dela, como tremia ao segurar a taça, como desviava seu olhar para o chão, como sorria forçadamente. 

Mas o que me deixou ainda mais intrigada foi seu suspiro de alívio quando entrei no caro, aquelas atitudes tinham um motivo e eu iria descobrir.

-

Manhã de terça-feira. Já tinha tudo decidido em minha mente. Naquela manhã terminaria tudo com Rose, e iniciaria meu plano de vingança. pegaria na mesma moeda a dor que me causa. Esperei até que ela acordasse.

?! — Rose abriu os olhos e ergueu seu corpo — Quando acordou?
— Não tem muito tempo. — respondi mantendo o tom sério e o olhar frio.
— O que aconteceu? — ela se levantou e caminhou até mim  —Seu olhar, você está estranho.
— Tem algo que quero lhe dizer. — afirmei sua constatação.
— O que aconteceu? O que fez desta vez? — perguntou ela.
— A , nada… Mas o que eu farei. — respirei fundo tomando coragem — Rose, eu não posso mais aceitar que saia prejudicada por minha causa.
— Do que está falando? — ela me olhou sem entender.
— Você é uma excelente professora, mas não conseguiu emprego por minha causa, e o que conseguiu perdeu, não posso mais viver assim…
— Não, não diga isso. — ela me interrompeu — Não fale assim…
— Você sabe onde quero chegar. — continuei firme — Não podemos mais ficar juntos.
não… — pediu ela.
— Espero que um dia me perdoe por isso. — encostei meus lábios suavemente em sua testa.

As lágrimas começaram a escorrer em sua face, ela fechou seus olhos e antes mesmo que pudesse abri-los para me olhar, desapareci de sua vida. Eu sentia algo por Rose, um carinho muito grande que me fazia querer sempre protegê-la. Entretanto, por mais que eu não quisesse admitir, meu passado, presente e futuro pertenciam a .

Vaguei pelas ruas com um pouco de dificuldade, uma garrafa na mão e desnorteado. Minhas vistas começaram a embaçar e meus sentidos falharem, escapei de dois atropelamentos até chegar ao Central Park. Fiquei parado atrás de uma árvore olhando para o prédio onde ela morava. Senti a pupila dos meus olhos dilatarem um pouco, me lembrando do dia em que ela enjetou o CN pela primeira vez em mim. Meu corpo sentiu uma queimação infernal, repetindo a sensação daquela noite, minha garganta em brasa, com um grito preso. Aquilo era pior que a morte.

Passei longas horas olhando para janela da sua cobertura, eu era um louco fazendo aquilo, mas não desistiria a esta altura do jogo. Fechei meus olhos e tomei o último gole da garrafa. Por mais que pudesse começar a ter alucinações naquele momento, dei o primeiro passo. 

Ela teria uma surpresa quando entrasse em sua cobertura.

-

— Tantos problemas e não consigo achar a solução de nenhum. — soltei um suspiro meio frustrado olhando para a janela do carro.
— Defina os problemas. — olhou para o retrovisor para ver minha face — Desvios do CN, sequestros, a segurança de Demeter,
— Nós dois sabemos que o acidente de Demeter foi encomendado, e quando eu descobrir o culpado, cabeças vão rolar. — assegurei.
— Isso é um fato. — concordou ele.
— Mas, esta última parte já está definida. — continuei olhando para frente — já tem o que necessita.
— Acha mesmo que ele vai ceder agora?
— Ceder, eu tenho certeza que não, mas... — desviei o olhar para a rua novamente — Se ele quer morrer, é problema dele.
— Como se você fosse realmente conseguir conviver com isso. — cuspiu essas palavras, verdadeiras por sinal.
— Eu poderia dormir hoje sem este seu comentário. — retruquei vendo ele rir de mim.
— E para onde vamos agora? — perguntou ele.
— Preciso fazer uma visita ao sliter favorito de Allison.
— Mais um favor ao Jack?
— Não. — eu sorri de canto — Desta vez é ele que me deve o favor.

seguiu pela Quinta Avenida, até que parou em frente ao Manhattan Palace Hotel, onde Jack se hospedava. Como agora ele tinha sua própria empresa que prestava serviços de segurança sliter para a Continuum, um presente de Allison para ele, Jack tinha associado a família Lins a qual pertencia a Continuum. me acompanhou até sua suíte master e ao entrar, ele estava acompanhado por três mulheres conhecidas da alta elite da cidade, dei a ele dois minutos para se livrar de suas convidadas e fiquei esperando na varanda. 

permaneceu parado no hall de entrada da suíte observando os gestos de Jack para comigo.

— Com ciúmes de minhas companhias? — disse ele ao se aproximar de mim.
— Não estamos com tempo para seus devaneios. Você era brinquedinho de outra Baker. — me virei para ele o olhando séria — Já descobriu o que pedi?
— Sobre?

Fixei meu olhar ainda mais demonstrando não estar de brincadeira.

— Calma milady, está mais tensa hoje. — ele se aproximou ainda mais de mim me olhando sinuosamente.
— Sinto que Davis está tramando algo contra mim novamente. — me pronunciei afiando meu olhar malvado para ele — E como você descobriu a participação dele no desvio de Sanches, preciso de alguma forma conseguir derrubar ele de uma vez por todas.
— E o que vou ganhar com isso? — ele se aproximou mais.
— Como já foi prometido, um lugar entre os diretores. — fui direta e precisa.
— Preferiria outra coisa. — ele se aproximou ainda mais e tentou me beijar, porém foi barrado por que se aproximou sem que percebesse.
— Mantenha-se no seu lugar. — alertou meu conselheiro.
— Já resolvemos esta questão Jack, acho que ser um diretor das Indústrias Baker já está bom o bastante para um ex amante de Allison Baker. — disse firme a sua realidade.

Ele não era nada.

— Eu poderia ser bem mais que isso para você.
— Mantenha o foco, ou então nem diretor você será. — mantive o olhar sério e ameaçador — Preciso que continue focado em descobrir mais sobre Davis.
— Continuo de olho nele. — assentiu com um sorriso de canto meio frustrado.
— Muito bem. — eu me afastei dele indo em direção a porta — Logo você sentará no lugar de Davis entre os diretores.
— Meus sliters já conseguiram a localização para onde enviaram os frascos de CN desviados, quer que eu resolva isso?
— Não precisa. — eu me virei para ele — Passe as coordenadas para amanhã, eu mesma vou me encarregar disso.
— E quanto ao sequestro? Já soube de mais algo. — Jack me olhou curioso.
— Não. — eu sibilei um pouco, não sabia até que ponto poderia confiar naquele Lins, mas precisava de sua ajuda — Mas tenho uma pessoa suspeita.
— Quem? — ele cruzou seus braços se encostando no beiral da varanda.
— Preciso que investigue sobre Catrina Summers, a nova esposa do Summers.
— Seu pedido é uma ordem. — ele piscou de leve e sorriu.

Eu me afastei indo para a porta. Olhei para que assentiu com a face como se estivesse de acordo com minhas decisões. Voltamos para o carro e deu a partida, passei todo o caminho em silêncio, pensando em meus próximos passos. Contudo, a cada novo problema que pensava em uma solução, a imagem de invadia minha mente.

— Chegamos. — disse me fazendo voltar a realidade.
— Ah, estava distraída. — eu olhei para frente.
— Pensando em tudo ou em algo específico?
— Ando sendo assombrada por . — disse diretamente.
— Assombrada? Será que ele já morreu? — riu com seu comentário maldoso.

Nós saímos do carro e ele ficou me olhando. Percebi que meu conselheiro estava esperando alguma reação de minha parte. Eu parei no meio da recepção e fiquei olhando para ele.

— Pode dizer o que está querendo.
— Não direi nada. — seu olhar estava mais singelo que o habitual — Já disse que não me envolverei mais em sua questão sentimental com , só não misture o profissional nisso.
— Já sou madura o suficiente . — eu sorri para ele — Parece até um pai quando fala desta forma.
— De certa forma, eu tenho idade para ser seu pai. — ele brincou me fazendo rir.
— Você tem idade para ser meu ancestral. — retruquei, brincando.
— Assim fere meus sentimentos. — ele me olhou como se estivesse ofendido, nós rimos por um momento e assim nos direcionamos para o elevador.

Assim que paramos no meu andar, de uma forma estranha comecei a me sentir incomodada e ansiosa. Ao abrir a porta, senti meu coração acelerar. O corpo de estava caído no meio da sala, com algumas das minhas garrafas da adega próximo a ele. Será que ele estava ali para admitir o que eu mais queria? Não. Ele queria que eu o visse morrer, só pode.

?! — disse lançando seu olhar para mim.

Até aquele pequeno momento, eu estava paralisada na porta sem saber como reagir. Um branco estava tomando minha mente e anulando meus movimentos. remexeu seu corpo se virando para nós, havia uma pequena quantidade de sangue escorrida do seu nariz. Será que ele havia se envolvido em uma briga por minha causa? O que estava acontecendo?

. — eu disse ao me aproximar dele me ajoelhando ao seu lado — O que está fazendo aqui?
— Rose não merece ver minha morte. — ele abriu seus olhos, e sorriu com deboche — Mas você… Você merece ver, não queria isso? Agora terá.
— Você sabe o que eu queria. — engoli seco desejando não presenciar aquela cena — Então prefere mesmo morrer?
— Uma vez… — ele parou por um momento, tinha dificuldades para falar — Prometi a você que sempre faria o que te fizesse feliz.

Aquilo veio com uma adaga em meu coração.

— Sua morte não me faz feliz. — o olhei reprimindo todas as minhas emoções, que achavam que poderia se formar no canto dos meus olhos, me mantive com o mesmo olhar superior e autoritário, mesmo sabendo que ele queria ver aquela garotinha do passado.
— Eu sei.

Em um piscar de olhos, ele ficou inconsciente caindo em meus braços. Eu não tive como reagir aquilo, estava paralisada pela cena. Eu o perderia? se moveu para socorrê-lo, o levou para meu quarto e depois chamou o médico. 

--

Fiquei o tempo todo parada na porta do quarto olhando o dr. Collins e sua enfermeira atendê-lo. Por sorte, não entrou em coma alcoólico, mas seu estado físico estava preocupante. Ele precisaria manter repouso até que tudo que ingeriu saísse de seu corpo. E voltasse a ficar saudável. Ele também estava com algumas fraturas em seu corpo devido a surra que levou, então seria necessário ir ao hospital depois para tirar algumas radiografias, principalmente das costelas. 

Após a partida do dr. Collins, liguei para Cassie e pedi que comprasse os remédios prescritos. Havia começado a chover pouco tempo depois. Quando finalmente acordou de novo, o convenci a ficar. Ele estava tomando banho em meu quarto. Meu corpo fervia de raiva por ele ter me manipulado e voltado o jogo contra mim. Era óbvio que ele me conhecia o suficiente para saber que eu não o queria morto e nem o deixaria morrer. Ao mesmo tempo que me sentia derretida com ele perto, meu ódio também permanecia dentro de mim, eu me via o matando de 100 formas diferentes mentalmente.

preferiu tirar a noite de folga. Meu conselheiro não queria mesmo se envolver mais naquilo tudo, e suas necessidades masculinas já estavam aumentando. Certamente ele teria uma longa noite acompanhado de, vai saber que mulher seria desta vez. Permaneci encostada na porta do quarto esperando terminar seu banho, ele realmente precisava. Cheirando a álcool daquela forma, tive que trocar pessoalmente os lençóis da minha cama.

Quando ele saiu, estava com a toalha enrolada na altura da cintura. Que mercenário. Os pelos do meu corpo se arrepiarem no exato momento em que meus olhos se fixaram nas linhas do seu abdômen. Paralisei por um instante, até piscar meus olhos e voltar ao normal, me afastei da porta e me virei para sair do quarto.

— Está fugindo? — disse ele num tom enigmático.
— Não. — eu o olhei — Por que eu fugiria?
— Por que não ficaria? — ele deu alguns passos em minha direção.
— Tenho outras coisas para resolver. — respirei fundo como se fosse adiantar algo, estava desacostumada a tê-lo tão perto, dei um passo para trás mantendo minha confiança.
— Como o que? Por exemplo. — ele fixou ainda mais seu olhar em mim.
— Como se eu te devesse explicações. — sorri de leve meio debochada — , desde quando se interessa por assuntos meus?
— Digamos que do jeito como está me evitando agora, estou curioso.
— Não estou te evitando.
— Não é o que parece. — seu tom tranquilo e confiante, me matava por dentro.

Não sei se era pelo nosso passado, mas conseguia exercer sobre mim um controle inexplicável. Controle esse que eu lutava constantemente. E por mais que negasse, eu era vulnerável a ele. Ele sorriu de canto e se aproximou ainda mais de mim, não me dando a chance de me afastar ou me mover. Ele envolveu seus braços em minha cintura e me beijou intensamente.

-

No momento em que ela retribuiu meu beijo com mais intensidade, confirmei o que já era óbvio. Tanto eu como ela queríamos este momento há muito tempo. Só éramos muito orgulhosos e presos demais ao nosso ódio para admitir. Tocar em sua pele era como tocar um veludo macio e suave, sentia falta daquilo. Minha necessidade dela era real demais. Nossos corpos gelados pelo nosso coração frio pareciam se aquecer com precisão.

Mesmo com a chuva do lado de fora, nossa madrugada seria quente e presumo que incendiaria aquele quarto. Eu não precisava ser cauteloso com ela, como era com Rose. Nossa noite seria longa e saborosa, quanto mais intenso eu seria, mais ela iria retribuir no mesmo nível. era a única que me completava em todas as formas possíveis e imagináveis.

Esperei algumas horas após o amanhecer. Me levantei da cama e fiquei olhando-a por um tempo, se ela não estava dormindo, fingia muito bem. Saí do quarto, aquela cobertura era novidade para mim. Ao entrar na cozinha, já estava presente, com uma xícara de café em sua mão, encostado na bancada da pia me olhando com riso preso no canto dos lábios.

— Já presumo seus pensamentos. — me pronunciei.
— Como eu disse a . — soltou um pequeno riso — Não me envolvo mais com o assunto de vocês, só espero que ela não saia abalada como da última vez.
— Abalada?! — eu soltei um riso fraco — Nunca me pareceu abalada.
— Então você não a conhece tão bem assim. — ele retrucou e tomou o restante do café — Ela é e sempre será vulnerável a você, mesmo que não admita.
. — o olhei sério não entendendo, ou melhor, não querendo entender até onde aquela conversa chegaria.
, pode até negar para si, mas nós dois sabemos que você é o ponto fraco dela, e o fato de ter virado o jogo foi uma aprova. — ele riu — Para ser sincero o jogo jamais mudou, de alguma forma você sempre esteve controlando ela, mesmo sem perceber.

Não consegui dizer uma só palavra sobre aquilo, mas certamente passaria o dia todo pensando em suas afirmações. foi até a geladeira, pegou uma maçã, ao dar a primeira mordida se dirigiu para a porta.

— Ah. — disse ao entrar na cozinha — Essa maçã não era para mim, como todas as manhãs? — ela o olhou com seriedade.
— Tenho certeza que precisa mais do que uma maçã para recarregar as energias perdidas. — disse ele num tom sério e frio.

já estava vestida com suas roupas habituais para o dia-a-dia, seu estilo formal era atraente. Ela desviou seu olhar para mim, como sempre era uma mistura de felicidade e fúria, que me deixava ainda mais fascinado por ela.

-

Olhar para ele me fazia entrar em colapso, não conseguia reagir a aquele olhar. Não sabia se me sentia feliz por aquela noite ou raiva por ele ter me manipulado de novo. Era amor e ódio em um fluxo intenso dentro de mim. 

Entretanto, tinha outros problemas para resolver e meus sentimentos por ele deveriam esperar. Elevei meu olhar para erguendo um pouco minha face, seu olhar também estava fixo em mim. Sua face suave com um sorriso de canto presunçoso, que acendia minha parte em fúria.

— Temos assuntos para resolver e uma herdeira para encontrar. — anunciei ao meu conselheiro.
— Que herdeira? — perguntou desviando seu olhar para .
— Filha do Sr. Summers, que está desaparecida há dois meses. — respondeu .
— Onde ela desapareceu? — perguntou ele novamente.
— No estacionamento de um shopping. — respondi dessa vez.
— Proposital. — riu — Geralmente as câmera de estacionamento vivem desligadas por corte de gastos, estão lá somente para intimidar.
— Como sabe sobre isso? — eu o olhei com desdém.
— Um dia eu fui seu sliter, aprendi muita coisa no tempo que Donna Fletcher me treinou para você. — explicou — Deixe-me adivinhar então, mais uma armação contra você? — ele cruzou os braços — Vou adivinhar de novo, Davis?
— Espera. — virou seu olhar para mim — Não tínhamos chegado nessa conclusão, seria mais uma jogada de Davis para destruir você?
— Tão óbvio o envolvimento daquele filho da… — me senti frustrada por aquilo.
— Olha a língua. — me repreendeu com uma risada rápida.
— Só precisam associar uma coisa na outra. — concluiu .

Eu o olhei, ele estava certo, mas Davis era astuto e não deixava provas. De repente meu celular tocou, retirei do bolso e olhei.

— Jack?! — desviei meu olhar para , esperando alguma reação dele — A que devo sua ligação?
Milady, sua ordem foi atendida. — disse ele do outro lado da linha.
— Especifique Jack.
A nova esposa do Sr. Summers realmente tem algo a esconder, mesmo antes de me pedir para vigiá-la, eu já suspeitava dela, e após sua saída da residência deles ontem, ela saiu também.
— Suponho que tenha se encontrado com alguém. — conclui.
Sim, nada menos que a assistente dos diretores. — ele riu — Qual será seu próximo passo?
— Bem, acho que devemos marcar um encontro com ela, mas se certifique que a Catrina Summers não desapareça de nossos olhos.
Não se preocupe milady, te espero hoje à noite no terraço do edifício da minha empresa, acho que se lembra do endereço.
— Claro que sim, ainda espero que envie aquelas coordenadas para . — o alertei.
Chegarão daqui cinco minutos.
— Assim espero. — desliguei o celular antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
— E então? — perguntou .
— Temos um encontro esta noite com a assistente dos diretores e , acho que estou começando a me sentir empolgada por esta noite.
— Que bom. — se aproximou de mim e segurou de leve em minha cintura — Porque eu irei com vocês dois.

Ficamos nos olhando fixamente, aquela sensação de segurança que só ele e me passava havia dobrado. Eu havia ouvido a conversa dos dois, era sim meu ponto fraco. Entretanto, ao mesmo tempo, ele também era meu ponto forte. 

Que me deixava indestrutível.

Meu papai me disse uma vez:
"Estando com alguém que você ama, 
Vai fazer você ser uma pessoa mais forte".
- Indestructible / Girls’ Generation



Passado

Outono de 2003...

:

Eu estava com raiva do meu pai naquela noite, tínhamos brigado mais uma vez e eu desejava fugir de casa, foi o que eu fiz inicialmente. Saí pela janela do quarto e caminhei lentamente pelo telhado até chegar na árvore do jardim, ajeitei a mochila que tinha preparado nas costas e não olhei para trás. Minha mãe já tinha nos deixado mesmo, ninguém sentiria minha falta.

Passei algumas horas vagando pelas ruas de Cliron, senti um pingo cair em meu rosto olhei para o céu, estava começando a chover. Tinha que encontrar um abrigo para mim em algum beco ou casa abandonada. Demorei um pouco até que bem ao longe ouvi uma voz gritar, corri na direção e bem ao fundo de um beco sem saída havia uma garotinha que estava sendo acuada por um homem que pareciam ter mais de vinte anos.

— Por favor, me deixem em paz. — disse ela se encolhendo com suas roupas já encharcadas pela chuva.
— Calma queridinha, só quero brincar um pouquinho com você. — o homem era alto se aproximou dela com um canivete nas mãos — Vai ser uma brincadeira muito legal, eu prometo… Fazia tempos que não achava garotinhas fugitivas do orfanato da cidade, hoje vou brincar muito com você.

Eu não sabia quem era a garotinha, mas não iria deixar aqueles homens machucar ela. Olhei para o lado e vi uma barra de ferro ao lado da lixeira. Eu também era só uma criança de 7 anos fugida de casa, mas tomei coragem me abaixei com cautela e peguei, deixando minha mochila no chão. O homem estava de costas se aproximando mais da garotinha. Aproveitei a distração dele, e reunindo toda a pouca força que tinha, bati com a barra de ferro na cabeça dele.

— Deixa ela em paz. — eu gritei respirando fundo.

Ele caiu desnorteado e antes que pudesse reagir eu bati novamente, o fazendo desmaiar. Eu soltei a barra da minha mão assustado e respirando fundo. Olhei para a garotinha e sem pensar duas vezes, peguei em sua mão e a puxei para sairmos daquele lugar. Corremos o mais rápido que conseguimos e o único lugar que eu conseguia pensar ser seguro para ela, era o lugar que eu não queria voltar. De onde havia fugido. Quando chegamos em frente minha casa, fiz sinal de silêncio para ela e entramos pelo mesmo caminho que eu saí: a janela do meu quarto.

— Aqui estará segura. — eu disse assim que entrei depois dela, já fechando a janela.
— Obrigada. — ela sussurrou tremendo de frio, seus olhos ainda assustados, demonstravam o medo que sentia.
— Eu não vou te fazer mal. — eu sorri de leve — Qual o seu nome?
. — ela se encolheu um pouco.
— Oi, sou . — eu caminhei até meu armário e peguei uma toalha limpa e entreguei a ela — Meu pai tem o sono pesado, você pode tomar um banho quente se quiser, assim não ficará doente.
— Obrigada. — ela pegou a toalha timidamente e me seguiu até o banheiro.

parecia uma garotinha delicada e meiga. Tinha um olhar puro e inocente que me passava tranquilidade. Como se fosse um anjo. Eu deixei uma roupa seca minha na porta do banheiro para ela vestir, e fui para o quarto do meu pai tomar banho no banheiro dele. Eu sabia que ele não acordaria mesmo se a casa pegasse fogo. Assim que terminei e troquei de roupa, passei pelo banheiro e as roupas não estavam mais na porta. Desci as escadas e fui até a cozinha, preparei alguns sanduíches e duas xícaras de chocolate quente.

Assim que abri a porta do meu quarto e entrei, olhei para a direção da minha cama. Ela estava sentada nos pés me olhando, eu fechei a porta e tranquei para que meu pai não entrasse pela manhã.

— Trouxe, caso esteja com fome. — coloquei a bandeja em cima da cama e me sentei de frente para ela.
— Obrigada. — ela pegou a xícara lentamente.

Olhei para suas mãos e vi algumas marcas de machucado e cortes ainda recentes, ela permaneceu em silêncio enquanto assoprava o chocolate quente.

— Vive nas ruas? — perguntei, estava curioso para saber sobre ela, não parecia uma criança com um lar e família.
— Agora sim. — respondeu rapidamente pegando um sanduíche.
— Você tem família?
— Agora não.
— Quantos anos você tem?
— Sete.
— Me desculpe, sou muito curioso, mas se não quiser responder. — eu peguei a outra xícara de chocolate quente.
— Eu… Tinha uma casa, mas não quero falar sobre isso, antes disso, fui abandonada no hospital onde nasci pela família da minha mãe, ela era uma grávida solteira e morreu no parto. — ela desviou seu olhar para janela — Isso foi a única coisa que sempre ouvi da mulher que estava cuidando de mim.
— E porque está nas ruas agora?
— Tenho medo do marido dela. — ela deixou escapar uma lágrima no canto direito.
— Ele te machucou? — perguntei.

Ela assentiu com o olhar em silêncio e começou a chorar. Automaticamente e sem perceber, minha mão direita encostou em sua face de leve e secando suas lágrimas.

— Sinto muito. — sussurrei querendo confortá-la.
— Não é sua culpa. — ela me olhou — Obrigada, por me ajudar hoje.

Eu não sabia o que dizer, então eu a abracei. Queria que ela sentisse que estava segura. Deixei ela dormir em minha cama, enquanto eu dormi no chão, ou melhor, fiquei a noite toda acordado a olhando dormir. Por alguns minutos de cochilo, quando acordei na manhã seguinte, ela já estava perto da janela se preparando para ir embora.

Eu a impedi de imediato, olhei pela janela de relance e meu pai estava voltando de carro do mercado. Precisava ser rápido e ter uma boa ideia. Olhei para o teto e vi nossa salvação, a porta para o sótão ficava no meu quarto, então…

— Tive uma ideia. — eu abri a porta e desci a escada — Sobe.
— Mas.
— Não vou deixar você ir, pensamos em alguma coisa depois, algum lugar onde você possa ficar protegida, mas agora se esconda lá em cima.
— Tudo bem.

Ela assentiu, mesmo demonstrando insegurança, e se escondeu. Meu pai nunca subia no sótão. Era um acordo que eu tinha feito com ele, para ser o melhor aluno da escola. Aquele era o lugar mais seguro da minha casa, assim que fechei a porta do sótão, meu pai bateu na porta do meu quarto, senti meu corpo gelar na hora.

— Pai. — disse ao abrir.
— Bom dia, por que a porta estava trancada? — ele me olhou sério, sua voz sempre áspera.

Parecia ainda raivoso pela briga da noite anterior.

— Porque eu ia trocar de roupa agora.
— E porque sua coberta está no chão? — ele desviou seu olhar de mim para dentro do meu quarto.
— É um experimento do clube de escoteiros.

Meus pai deu uma última olhada e se virou. Eu fechei a porta respirando fundo, troquei de roupa rapidamente colocando o uniforme escolar e arrumei meu quarto. Quando desci o café já estava na mesa, me sentei naturalmente e tomei meu café. Assim que meu pai saiu para o trabalho, peguei um pacote de biscoitos no armário e o saquinho do lanche da escola que ele havia preparado e corri até meu quarto.

Subi até o sótão e dei a comida para ela. O lugar era inteiramente limpo, organizado e confortável, era meu espaço de estudos e leitura, tinha uma poltrona reclinável ao lado da estante de livros e uma janela basculante para ventilação. Ela ficaria bem temporariamente naquele lugar.

Passaram-se os dias, semanas, meses... 
Eu não conseguia encontrar nenhum lugar para ela. Nem mesmo minha primeira opção, a igreja da cidade, era convincente. De certo que a mandariam de volta para sua casa de onde fugiu. A polícia estava fora de questão, pensei até mesmo em esconder ela no teatro abandonado da cidade, mas já havia sido ocupado por uma facção criminosa. Cogitei a ideia de contar ao meu pai sobre ela e delatar sobre o padrasto, mas não acreditaria em mim. Já era um fardo ser filho do diretor da escola secundária da cidade, já imaginava o que seria meu ensino médio.

Eu comecei a não conseguir ver nenhum futuro seguro para ela longe de mim, havíamos nos tornado amigos. Eu era seu primeiro amigo na vida e ela estava se tornando a primeira garota em meu coração. Meu anjo que eu tinha que proteger.

— Já está fazendo seis meses que estou aqui no seu sótão. — disse ela de pé olhando pela janela.
— Eu ainda não consegui encontrar uma solução. — eu encostei na parede a olhando — Me desculpe.
— Por que está se desculpando, você tem me protegido todo esse tempo, nunca tentou me machucar. — ela sorriu com doçura — Gostaria de ficar aqui por mais anos se possível, assim com maior idade, não me obrigariam a voltar para aquela casa.
— Eu gostei dessa ideia.

Na manhã seguinte eu fui para escola naturalmente. Estava feliz por ela querer ficar perto de mim também. Logo ao final da tarde começou a chover, voltei para casa no ônibus da escola. Quando cheguei em casa estranhei o carro do meu pai estar parado em frente, ele nunca chegava antes de mim. Quando entrei, estava parada no meio da sala com seus olhos lacrimejados sendo segurada a força pelo meu pai. Eu larguei minha mochila ao lado da porta enquanto entrava olhando aquela cena, senti medo naquele momento.

— Pai. — eu sussurrei e olhei para .
— Você a escondeu por tempo de mais.

A porta se abriu novamente e olhando para trás.

— Pai, por favor não. — eu comecei a entrar em desespero.

Uma mulher estranha com um olhar misterioso entrou para levá-la. 

— Pai… — sussurrei começando a lacrimejar.
— Tenho certeza que esta é a garota que procura Donna Fletcher, pode levá-la. — disse meu pai.

Um homem entrou após esta mulher e a pegou pelo braço, eu avancei nele, meu pai me segurou. começou a gritar meu nome e eu o nome dela. Não acreditava naquilo que estava acontecendo, que ela estava sendo levada por aquelas pessoas estranhas. Assim que ela entrou no carro, olhou para mim ainda gritando do lado de dentro.

Eu ainda estava sendo segurado pelo meu pai, naquele momento senti que meu coração havia sido arrancado de mim.

-

Eu estava com medo do que iria acontecer comigo. A imagem de gritando meu nome era a única coisa que doía ainda mais do que ser levada por aquelas pessoas. Assim que cheguei senti um frio passar em minha espinha. Será que aquela mulher me levaria de volta para a casa de onde fugi?

Para minha surpresa não foi isso que aconteceu. Nós entramos em um avião particular dela, seguimos para a cidade de Seattle. Meu novo lar seria o orfanato Miral. Mas não estava sozinha, comigo também tinha mais duas meninas que foram “resgatadas” por essa senhora.

— Aqui será o novo lar temporário de vocês. — disse Donna Fletcher, que se anunciou como diretora daquele lugar.

Nós assentimos e olhamos ao redor para o quarto em que nos instalou.

— Meu nome é Jenie. — disse a menina mais sorridente, assim que Donna se retirou nos deixando sozinhas. 
— Meu nome é . — sorri de volta para ela.

Olhamos para a outra que já tinha sentado em uma das camas, mantendo-se silenciosa.

— Qual o seu nome? — perguntou Jenie.
— Nalla. — respondeu.
— Você também são órfãs? — indaguei indo me sentar ao lado dela.
— Aparentemente sim. — disse Jenie vindo junto — Seus pais morreram também?
— Me disseram que minha mãe morreu quando eu nasci, fui criada por outra pessoa. — contei a elas.
— Minha mãe também morreu quando nasci, vivo de orfanato em orfanato desde que me entendo por gente. — contou Nalla, tristonha.
— Que loucura, minha mãe também morreu quando eu nasci. — Jenie nos olhos surpresa — Será que somos trigêmeas?

Nós rimos com sua dedução.

— Seria legal ter irmãs. — continuou ela.
— Sim. — concordei.
— Podemos ser. — sugeriu Nalla — Como as meninas super poderosas.
— Eu amo esse desenho.  —confessou Jenie.
— Eu também. — me empolguei.
— Eu sou a Lindinha! — Jenie deu um pulo de euforia.
— Eu gosto da Florzinho. — garanti.
— Eu posso ficar com a Docinho então. — Nalla sorriu de leve.
— Seremos irmãs, inseparáveis. — disse Jenie em sua inocência.

Mas é claro que nossa alegria duraria pouco. As meninas superpoderosas foram separadas um ano depois de chegarmos juntas. Todas adotadas no mesmo dia.

— Aqui está a garota que está procurando. — disse Donna Fletcher a um homem parado diante de nós.
— Exatamente como os registros? — o homem abriu uma pasta que estava em sua mão — , sem sobrenome desconhecido, fugida de um lar temporário.
— Sim, demoramos mais para encontrá-la, porque um garoto estava escondendo ela em casa.

Eu estava com mais medo ainda, me encolhendo um pouco. Até que o homem se aproximou de mim e acariciou minha face. Ele sorriu de canto me olhando com carinho e me pegando pela mão...

— Aquele jamais vai te machucar novamente, eu te garanto. — seu olhar passava confiança e segurança — Vamos para sua verdadeira casa agora.

Eu não sabia se iria para um lugar melhor ou pior que o lar temporário. Mas mantinha viva minha esperança de um dia rever . Chegamos em um condomínio fechado, o carro parou no jardim da frente em frente à mansão. Ao sairmos, uma mulher estava parada na porta nos esperando, ela era linda, sua pele parecia porcelana e seus cabelos tinham tanto brilho, seus olhos de traços delicados e lábios com um sorriso de canto sinuoso. Vestia um vestido branco que parecia com dos tempos da Grécia antiga. Atrás dela, tinha uma criança, agarrada ao seu vestido e tão assustada quanto eu.

— Senhora Baker, aqui está a garota que lhe falei. — disse o homem.
— Bem-vinda ao lar . — disse a mulher, sua voz era doce com um toque de firmeza.

Eu não conseguia dizer nada. Ainda estava com medo e receio daquele lugar. O homem me levou para um dos quartos, minha primeira reação ao entrar foi ficar paralisada com tanto luxo e conforto. O quarto era enorme e parecia que cabia três quartos do dentro dele. Eu olhei em minha volta fascinada com tudo, me aproximei da cama e a apertei de leve, era tão macia, o tecido da colcha suave. Olhei para o homem e o medo voltou a tomar conta de mim, tudo aquilo certamente não sairia de graça.

— Não precisa ficar com medo, ninguém irá te machucar aqui. — garantiu ele novamente.
— Qual o seu nome? — eu perguntei.
— Pode me chamar de . — ele sorriu de leve — Tome um banho quente e descanse, trarei algo para você comer.

Estranhamente eu me senti aliviada pelas palavras dele. Entrei por uma porta que havia na lateral e descobri que era o closet, nunca tinha visto tanta roupa reunida em um só lugar. Mais a frente, o banheiro e passei um tempo boquiaberta, era tão claro, limpo espaçoso, tinha até uma banheira. Não sabia nem por onde começaria. Enchi a banheira de água e me joguei dentro, era divertido estar ali pela primeira vez. Depois que tomei meu banho voltei ao closet, fui olhando roupa por roupa e coincidentemente todas pareciam caber em mim, coloquei um conjunto simples de moletom que mais me interessou e retornei ao quarto.

estava encostado na parede ao lado da porta e havia uma bandeja com sanduíche na escrivaninha ao lado da cama. Caminhei lentamente até a bandeja.

— Obrigada. — eu o olhei.
— Coma e durma um pouco, amanhã será um novo dia. — ele saiu do quarto deixando a porta entreaberta.

Eu caminhei até a porta e fiquei ouvindo ele e a mulher conversarem.

— Então , o que acha da garota? — perguntou ela.
— Será a melhor Baker que já viu.
— Fala assim por que ela tem seu...? — disse a mulher.

Hum? O fato de não ter ouvido o final da frase me intrigou.

— Também, ela parece ser mais forte do que aparenta. — ouvi a voz dele  —Será uma boa irmã para o pequeno Demeter.

Eu não sabia o que aquilo significava e porque eles me queriam, mas pelo menos por aquela noite eu dormiria tranquilamente de novo. Logo pela manhã ao acordar, eu ouvi algumas vozes vindo do corredor, eu as segui até que cheguei na cozinha, fiquei admirada ao ver com um avental no corpo cozinhando. A criança que vi no dia anterior estava sentado na cadeira o observando.

— Entre , nos faça companhia. — disse .
— Bom dia. — quase em sussurro.
, quem é ela? — perguntou o menino.
— É sua irmã mais velha. — respondeu ele — quero que conheça Demeter, Demeter, esta é , aconselho que sejam bons amigos e que um proteja o outro, é o que os irmãos fazem.

Eu sorri para Demeter, que sorriu de volta e arrastou uma cadeira para que eu me sentasse.

--

Tudo foi um mar de rosas no início, até que completei 12 anos e Allison Baker, minha aparente mãe, me apresentou aos diretores de sua empresa, dizendo que havia me adotado para que eu ficasse em seu lugar futuramente. Ela tinha visto que Demeter não era adequado ao cargo, seu filho caçula nunca tinha se interessado pelos assuntos da empresa até o momento. Então, para quê lutar, se ela tinha a mim, a filha mais velha que poderia moldar a seu gosto. ainda relutava quando seus planos para mim, entretanto não me deixaria ser treinada por qualquer pessoa. Menos ainda por Donna Fletcher. Isso me deixava amedrontada, porém eu não tinha muita opção ou perspectiva de vida, então assenti sem muito esforço.

Os anos foram passando com treinos puxados e dolorosos. Eles testavam cada aspecto de mim: físico, mental, sentimental. Para Allison eu deveria me tornar implacável e sem fraquezas. Forte, fria, calculista e sem piedade, ela queria que eu me transformasse na futura e soberana milady Baker de Manhattan.

— Ai. — eu me ajoelhei com o impacto do cruzamento entre minha espada e de — Eu não aguento mais, por favor, nos deixe parar.
— Não. — respondeu Allison — Até que ela esteja livre de erros nesta etapa, este treino irá se perpetuar por mais este longo dia. — ela se virou e entrou para dentro da mansão.

Eu me descuidei e me desarmou, ele passou a lâmina de sua espada no meu braço direito.

— Ah. — eu caí, mas fui forçada a me levantar e peguei minha espada novamente — Você me prometeu que não me machucaria.
— Eu não estou te machucando. — ele encostou a ponta da sua espada na minha garganta levantando minha face — Eu estou te tornando mais forte.
, estamos há quase um dia inteiro assim, estou com fome, fraca e cansada.
— Então termine o que começou. — retrucou ele.

Aquilo era doloroso, mas pior que treinamento físico com , para que eu aprendesse a me defender em qualquer situação. Era enfrentar Allison no treinamento psicológico. Entretanto, ambos me proporcionaram uma dor inigualável. E todos os dias sem descanso, eu passava por tudo aquilo sem poder reclamar, tudo que dizia, é que estava me transformando em uma mulher mais forte a cada dia. E que eu jamais abaixaria minha face para alguém no futuro.

Finalmente havia chegado meu aniversário de 18 anos. 
Estava completando a maioridade. Assim como meus treinos, os estudos também foram mantidos em casa, sob a supervisão da mamãe. Agora eu iria para Londres com . Uma vaga na Universidade de Oxford me aguardava, iria estudar intensamente por mais alguns anos no curso de administração. Não seria somente uma mulher bela e habilidosa, mas também minha inteligência seria trabalhada para que pudesse dirigir bem a empresa da família.

Uma semana antes de nossa partida, a noite estava chuvosa. Após o jantar me levou até o escritório, ele queria ter uma conversa séria e um pouco indiscreta comigo. Naquela altura dos anos, havia se tornado meu amigo mais que leal de alguma forma estranha, quase um pai para mim. Eu contava algumas de minhas frustrações e já havia mencionado uma vez sobre .

— Bem estamos aqui. — eu o olhei.
— Você está há alguns passos de se transformar em uma mulher, porém falta uma coisa, delicada e íntima.
— Do que está falando? — eu o olhei com receio.
— Allison não sabe algumas partes sobre seu passado, no futuro talvez você tenha que se casar com alguém que ela escolherá. — ele foi direto e inexpressivo — Eu acho que isso é ir longe demais em sua privacidade, mas talvez esta seja a última chance de vê-lo.
— Ver quem? — eu me encolhi um pouco, não entendia sobre quem ele falava.
. — respondeu diretamente — Hoje é seu aniversário, a convenci Allison a te deixar escolher seu presente sem contestações, um agrado por ter se dedicado tanto até hoje.

No mesmo instante a imagem de veio em minha mente. Eu não sabia onde ele estava, o que estava fazendo, se tinha alguém em sua vida ou se ainda estava vivo. Mas eu ainda tinha meus sentimentos por ele vivos em meu coração.

. — eu sussurrei sem perceber.
— Imaginei que quisesse vê-lo de novo — disse num tom nem um pouco surpreso.
— Eu posso mesmo? — eu o olhei.
— Vamos para Cliron, assim poderá se despedir dele. — assegurou ele.

Não sabia como possuía aquela informação, mas estava feliz que veria novamente depois de onze anos. Apesar do medo de pensar que ele poderia ter me esquecido. Eu iria até ele naquela noite chuvosa, a mesma chuva que fez nossos caminhos se cruzarem.

Quando você chorou, eu enxuguei todas as suas lágrimas
Quando você gritou, eu lutei contra todos os seus medos
Eu segurei a sua mão por todos esses anos
Mas você ainda tem tudo de mim.
- My immortal / Evanescence



O lado oculto

Atualmente...
-

Eu não sabia até que ponto eu poderia envolver na minha vida novamente. Foi por causa da minha condição de milady que tivemos nossa separação no passado. Entretanto estava gostando de vê-lo andando pelo apartamento como se estivesse se sentindo em casa, bem ele realmente estava em casa.

— Por que está me olhando? — eu o olhei meio intrigada.
— Nada. — eu sorriu meio sem jeito — É que… Nada.
— Diga. — eu cruzei meus braços deixando minha face mais séria.
— Não fique tão séria. — ele se aproximou — Só, estou tentando me acostumar com isso que está acontecendo, ver você sempre que quero.

Eu ri espontaneamente sem saber como reagir. Ele segurou em minha cintura e me beijou com um pouco de malícia, senti meu corpo se arrepiar naquele momento. Eu me afastei de leve dele e olhei para o lado. estava parado ao lado da porta nos olhando tranquilamente, eu sorri de canto e me afastei mais de .

— Então? — olhei de baixo para cima analisando seu novo terno.
— Tudo pronto para daqui algumas horas. — ele desviou seu olhar para por um breve momento, depois olhou para mim novamente — Recebi as coordenadas de Jack, temos que finalizar o assunto do CN desviado.
— Vamos finalizar, daqui três dias, agora tenho que focar em encontrar a garota herdeira. Ainda tem as festividades do final do ano… Fomos convidados por Sebastian Dominos para comparecer a recepção deles no réveillon, toda a Continuum estará lá. — eu me dirigi para a escada — Gentlemen, vou me trocar para nosso encontro de hoje.

Subi as escadas deixando eles sozinhos, não tinha nenhum receio disso. não nutria nenhuma desconfiança em , e vice-versa. As horas se passaram, no horário combinado, estacionou o carro em frente ao prédio da principal empresa de Jack. nos acompanhou como havia declarado pela manhã, ainda tinha receio daquilo, havia partes em mim que ele odiava.

Ao chegarmos no terraço, Jack já estava à nossa espera, a assistente dos diretores estava de pé acorrentada pelos pulsos com uma longa corrente que estava pregada ao chão.

— Boa noite Meredith. — eu parei na frente dela e parou ao meu lado — Agradeço por aceitar nosso convite para o este encontro casual.
— Não foi exatamente um convite. — ela me olhou com arrogância, o ódio vindo dela podia ser sentido.
— Então deve imaginar por que está aqui. — eu lancei meu olhar superior para ela — Pobre garota, quem é você longe dos diretores?

Eu olhei para trás e vi que encostado na parede, que estava distante. Desviei novamente meu olhar para Jack, ele havia sentado no beiral do prédio, ambos atentos aos meus gestos.

— Então deve saber que sou protegida deles. — ela insistia me enfrentar.
— Não se estiver extinta. — eu levantei minha mão direita e olhei para minhas unhas grandes — Mas posso te dar o benefício do perdão, sei que Catrina tem segredos com você, diga quais são.
— Não direi nada. — ela tentou me enfrentar com o olhar — Seus dias estão contados milady Baker de Manhattan, você...

Lancei minha perna contra seu rosto a derrubando no chão. Meredith cuspiu sangue. Deu mais um passo para frente e coloquei a parte do salto de meu sapato em sua jugular. Meu olhar de predador para ela, era impagável. Jack já estava diante de mim, aquilo havia sido surpreendente até para ele.

— O que dizia mesmo Meredith. — peguei a katana das mãos de , ele sempre levava para mim.
— Você é uma vadia. — ela cuspiu novamente em meu sapato agora.

Não me contive em mover o braço e passar a espada… Seu corpo caiu diante de mim. Sorri de canto e devolvi a espada para .

— Você nem mesmo esperou. — disse Jack assustado.
— Ela não iria falar mesmo, e jamais dou segunda chance. — eu olhei para seu corpo sem vida — Estou pensando em mandar ela de presente para Davis. O que acha?

Ele engoliu seco.

— E como pretende encontrar Molly agora? — perguntou direcionando seu olhar para mim — Não temos mais a informante.
— Que lugar você acha mais improvável para se esconder uma garota sequestrada por um diretor?
— A mansão dele. — respondeu .
— E agora, o que você irá fazer? — perguntou Jack.
— Uma visita ao diretor, e meu cartão de entrada será ela. — respondi me virando para a porta de entrada do prédio — Mande-a para o escritório de Davis.

Caminhei até a porta e ao passar por , percebi que ele não estava confortável com o que eu havia feito. Passamos todo caminho de volta em silêncio, quando chegamos no apartamento, escrevi uma carta a Davis lamentando pela perda de sua secretária, entreguei a e pedi que enviasse pela manhã.

Meus próximos passos teriam que ser cautelosos e precisos, e passaria as próximas horas pensando em minhas estratégia para que tudo desse certo. Porém, seria interrompida por um leve desvio de atenção chamado .

— Fala. — tentei manter meu tom estável ao entrar no quarto — Despeja tudo.
— O que você quer que eu fale? — ele me olhou — Precisava matar ela?
— Está com dó dela? — eu não acreditava no que estava ouvindo.
— Eu pensei que tivesse mudado, mas continua fria como antes.
— Ela estava armando contra mim e você está assim porque a matei? — meu veio uma indignação naquele momento — você tem ideia das suas palavras?
— Não, mas gostaria que você tivesse ideia das minhas. — ele me olhou com mágoa — Não é assim que eu quero você, uma pessoa sem segunda chance.
— Esta sou eu agora, se acha que voltarei a ser aquela garotinha indefesa que encontrou no beco sendo coagida, eu jamais serei fraca novamente.
— Não é questão de fraqueza e sim frieza. — ele olhou para janela — Se fosse eu, me daria segunda chance?
— Você está aqui, não está?
— Não mais. — ele se virou e passou por mim saindo do quarto.

Eu segurei aquela pequena e insistente lágrima de raiva e ódio daquele lado humanitário que ele persistia em manter. Depois de alguns segundos olhei para porta e estava parado me olhando, seu olhar enigmático e sua face séria.

— Não fale nada. — minha voz estava mais áspera que deveria.
— Já disse que não me envolverei mais nos seus assuntos com . — ele olhou de leve para a baixo na altura das minhas mãos, eu estava com os punhos fechados — Já marquei uma reunião extraordinária com os diretores para depois do natal, já pensei em tudo, teremos que adiar e recuar um pouco para que não seja exposta pela morte de Meredith.
— Não deveria, este trabalho é meu. — olhei para janela controlando minhas emoções e voltando a minha realidade de milady.
— Não faltará mais oportunidades, porém neste momento somente faça o que eu disser. — de alguma forma estava me ajudando ao tirar aquela pequena responsabilidade das minhas costas.
— Então diga como será.
— Enquanto estivermos em reunião com eles, Jack e seus homens farão uma busca na casa, assim que encontrarem a garota ou algo que nos leve até ela, você entregará a carta pessoalmente a Davis.
— Ele saberá por mim. — conclui.
— Sim, apesar e não poder acusá-lo sem provas, mas Catrina será sua testemunha, assim que devolvermos Molly.
— Como queira, mas Summers ficará mais tempo sem a filha. — contestei um pouco.
— Será por uma boa causa, vamos usar Molly como isca para pegar Davis, deixe que ele pense que venceu essa batalha. — era tão estrategista quanto Allison — Além do mais, teremos a ajuda de Sebastian Dominos para conseguir as provas que precisamos.
— Tem razão. — assenti.

Eu não estava em condições mentais de questionar ou propor algo melhor, então deixei como ele havia proposto. Enfrentaria os diretores enquanto Jack faria o trabalho sujo.

-

Eu estava zangado com ela. Aquele era o lado de que me fazia odiá-la, um lado frio e calculista que havia afastado a doce garota por quem me apaixonei no passado. Faltava poucos minutos para amanhecer, entrei em um bar próximo, por ironia eu conhecia o gerente, que me deixou ficar isolado em seu escritório.

Desejava não ter trago de volta todo aquele sentimento bipolar do passado. representava tudo, mas eu odiava metade dela, aquela metade inserida por Allison Baker. Fiquei jogado no sofá por horas, já havia perdido a noção do tempo. Foi quando bem ao longe ouvi uma voz conhecida e que não deveria estar naquele lugar. Levantei do sofá e olhei pela persiana da janela, aquela voz era mesmo real, era Rose sentada no banco do bar, conversando com o barman e um homem estranho que estava com a mão na perna dela.

Saí rapidamente e ao chegar perto, peguei a mão do homem pelo pulso e torci com tanta força o socando depois. Seu corpo foi ao chão. Talvez eu tivesse descontado minha raiva nele.

— Nunca toque nela. — olhei para Rose.
— Olha, o sliter que me deixou. — sua voz estranha, estava embriagada — Cansou de ser o cachorrinho da Baker?

Não iria discutir com ela, então a peguei pelo pulso e a arrastei para fora daquele lugar. Eu a levei para casa. Assim que chegamos no apartamento, a coloquei debaixo do chuveiro e fui para cozinha preparar um café extra forte para ela. Rose saiu do banheiro vestindo uma camisa minha além da lingerie, ela me olhou como uma criança.

— Porque me tirou de lá?
— Porque você estava fazendo uma idiotice. — eu me virei para a cafeteira e encaixando a xícara apertei o botão de preparo.
— Estava lá porque me fazia lembrar você. — ela caminhou até mim — Estava com medo de não ter sobrevivido, mas lá no fundo sabia que ela não te deixaria morrer.
— Prometa que nunca mais fará isso.
— Prometo. — ela abaixou a cabeça olhando o chão.
— Tome isso. — eu peguei a xícara e entreguei a ela.
— Ainda estará aqui amanhã de manhã? — ela sussurrou ao pegar a xícara. 
— Não. — respondi de forma seca e fria.

Eu não sei por quê
Eu deixei passar despercebido
O tempo todo
Eu só queria que você tivesse tentado.
- Don't Know Why / McFly



Presente

-

Me preparei mentalmente durante todo aquele dia. Entretanto, sempre que focava meus pensamentos nos meus próximos passos para acabar com Davis, a imagem de invadia minha mente. Aquele ponto fraco estava me deixando ainda mais irritada, caminhei até o banheiro e enchi a banheira, um dos métodos que sempre funcionava para mim era ficar submersa. Assim até mesmo o barulho do mundo acabaria e tudo ficaria em completo silêncio para mim.

Entrei na banheira já cheia de água me deitando no fundo, fechei meus olhos e deixei minha mente se esvaziar aos poucos, segundos depois abri meus olhos e ergui meu corpo para retomar meu fôlego e enfim voltar a respirar. Percebi a presença de , que estava ao lado da banheira me olhando. Mantive meu olhar sério para ele, já imaginando que estávamos na hora de seguir com nosso plano, ele esticou a toalha que estava em sua mão e pegando me enrolei nela.

— Estarei pronta em dez minutos. — sorri de canto e caminhei em direção ao closet.

assentiu com a face, demorei exatamente o tempo que disse a ele. Quando cheguei na garagem, ele já estava dentro do carro me esperando. Entrei e partimos para a mansão de descanso dos diretores. Lugar este fornecido pelas Indústrias Baker como um refúgio, para que eles pudessem dar festas e recepções pessoais. Cassie, minha assistente já havia marcado uma reunião de urgência com eles naquela tarde. Assim como planejado Jack já estava em sua posição com seus sliters, para procurar alguma pista que levasse a herdeira desaparecida. 

A governanta da mansão nos aguardava na porta de entrada. Suspirei forte ao passar pela porta, sabia que se algo desse errado, eu possivelmente não sairia viva daquela conversa. Ainda tendo Davis nela.

— Sempre pontual milady Baker. — se pronunciou Marcellus se levantando da sua cadeira assim que entrei na grande sala.
— Nosso tempo é precioso, por isso nunca me atraso. — mantive meu tom de voz firme porém moderado em sua altura, olhei rapidamente para .

Com o olhar ele assentiu que nosso plano estava se iniciando.

— Quando Cassie marcou esta reunião, imaginamos que fosse algo muito sério. — disse James ao melhor de baixo para cima — Esperamos que não seja perda te tempo.
— Jamais seria. — direcionei meu olhar para Davis — O assunto que me traz aqui é do interesse de todos.
— E o que seria? — perguntou Davis.
— Nosso precioso CN desviado. — mantive meu olhar em Davis, estava atenta a cada movimento facial dele — Foi rastreado e sua localização é próxima de New Orleans.
— Sanches mandou todos os frascos que roubou para New Orleans? — Marcellus tossiu um pouco — Por que enviaria para lá?
— Descobrimos por uma simbólica ajuda de Sebastian Dominos e Mia Sollary, que Sanches possuía uma aliança com Derek Sollary, o que não sabíamos é que ele estava ajudando o Sollary a disfarçar sua péssima gestão no Sollary New Orleans Hospital além como outras fraudes e desvios financeiros. — explicou e voltou seu olhar para Klaus — E com isso prejudicando a administração impecável de Baker sobre a fórmula do CN.
— E agora? Vai reaver o que é nosso? — Davis se levantou sinuosamente com um sorriso de canto presunçoso — Por que essa acusação sem provas é o mesmo que colocar sua cabeça a prêmio, .
— Temos sim as provas necessárias. — eu desviei meu olhar para Marcellus para disfarçar minha vontade enorme de cravar minhas unhas no pescoço de Davis — Graças à sliter dos Dominos que gentilmente nos deu recibos de Sanches assinados por Derek, conseguimos também gravações perdidas das câmeras de segurança retiradas do laboratório interno.
— E você veio aqui para nos pedir alguma permissão? — Marcellus me olhou com a superioridade que achava que tinha sobre mim — Ou para pedir que nossos sliters façam seu trabalho?
— Nenhuma das opções, estou aqui para comunicar que todas as minha decisões quanto a este assunto não passará por vocês, já que estavam convivendo com um traidor como Sanches e foram vocês que o indicaram para o cargo. — fixei meu olhar em Davis — Muito me admira, os diretores tão intocáveis e deixando que coisas assim passem por eles.
— Está insinuando alguma coisa? — perguntou Xavier se levantando.
— Longe de mim. — olhei para

Meu conselheiro olhou de leve para o relógio que estava no seu pulso e me olhou assentindo com a face, estava na hora de finalizar nossa conversa, os minutos que demos ao Jack estavam acabando.

— Tenho um compromisso e não posso dispor do meu tempo, espero que consiga nosso CN de volta, milady Baker. — Davis passou por mim com um sorriso de deboche na face, eu não deixaria ele permanecer tão tranquilo como estava.
— Era somente este assunto? — perguntou Klaus — Como Davis muito bem disse, não dispomos de muito tempo para conversas.
— Não exatamente, mas acho que podemos encerrar por aqui. — eu me virei em direção a porta, porém voltei a olhar para Marcellus — Só um conselho, escolham melhor a próxima assistente de vocês.
— O que você fez a Meredith? — Klaus me olhou fechando seus punhos, estava se controlando para não se jogar contra mim — Notamos sua ausência.
— Por estar envolvida no caso do desvio, dei a ela o julgamento adequado a um traidor. — eu sorri de canto e pegando disfarçadamente a caixinha da mão de , coloquei sobre a mesa de centro e saí da sala.

Enquanto ficou por mais algum tempo para transmitir o recado de Allison sobre tudo o que estava acontecendo, eu fui até os aposentos de Davis. Quando entrei, ele estava colocando seu terno azul marinho. Davis me olhou surpreso em me ver ali, se manteve em silêncio até que me pronunciei.

— Está preocupado com o que eu possa descobrir? — perguntei.
— Falando assim, parece que está me acusando de alguma coisa. — ele deu alguns passos em minha direção.
— Foi uma conversa muito agradável que tive com Meredith. — eu mantive uma atenção em suas expressões faciais — Mesmo Klaus tendo-a contratado, ela te obedecia cegamente.
— O nome disso é lealdade. — ele estava se esforçando para manter a tranquilidade.
— Bem. — eu coloquei a caixinha em cima da mesa ao lado da porta — Aqui está o que sobrou dessa lealdade.

Naquela caixa havia um presente especial para ele, o anel com o brasão diretores que pertencia a Meredith. Eu me virei e saí, ao descer as escadas, já estava perto da porta me esperando, assenti com a face confirmando a entrega do presente. Ele sorriu de canto e abriu a porta para sairmos. Assim que entramos no carro meu celular tocou, para meu alívio era Jack. Com alguns rodeios, ele disse que tinha uma surpresa para me dar, marcamos de nos encontrar em sua suíte no hotel. deu a partida e seguiu em direção ao nosso encontro, Jack Lins estava no estacionamento do hotel me esperando.

— Diga sem rodeios Jack, quero encerrar este assunto o quanto antes. — avisei ao me aproximar com .
— A garota não estava em lugar nenhum da casa, mas encontramos um endereço muito suspeito entre as anotações de Meredith. — iniciou ele tranquilamente.
— E? — eu o olhei desinteressada em informações irrelevantes.
— E que eu estava correto em minhas convicções, apesar de acharmos que o lugar seguro seria na mansão dos diretores. — ele me olhou com satisfação — Eu mandei que alguns de meus homens que maior confiança fossem no local do endereço.
— E encontrou algo? — também estava sério e pelo seu tom de voz sem paciência para rodeios.
— Melhor, encontrei mais do que precisávamos. — ele sorriu de canto.

Assim que a porta do elevador vip abriu, duas pessoas saíram sendo seguradas por dois seguranças. O primeiro segurando Catrina que estava com seus pulsos algemados disfarçadamente, e o segundo segurando Molly em seus braços, a garota estava consciente, porém fraca demais para se locomover sozinha.

— Como a capturou? — perguntei.
— O endereço era de uma casa abandonada, no momento que meus homens chegaram ela estava de partida, mas conseguimos pegá-la. — explicou Jack.
— Temos a testemunha e a culpada, só falta o cúmplice. — conclui — Vamos levar a garota para casa.
— E Catrina? — me olhou.
— Ela confessará na frente de Summers, assim teremos mais testemunhas. — me virei para — Quero resolver isso agora mesmo, assim não darei tempo para Davis fugir.
— Então vamos levá-la para casa. — concordou .

Assim que chegamos na mansão de Summers, fomos recebidos por seu mordomo. Ao ver a filha, ele deixou transparecer suas emoções. Molly foi levada para seu quarto, antes de começar meu interrogatório esperamos o médico chegar e examiná-la. Para a felicidade de Summers e alívio meu, ela estava bem só um pouco desnutrida e desidratada, mas iria se recuperar logo. Revelei tudo que descobrimos para Summers. Como um importante homem de negócios e familiar da Continuum, tê-lo ao meu lado e contra os diretores seria uma ótima jogada.

— Aqui está nossa acusada. — Jack, jogou Catrina na cadeira e colocando seus braços para trás segurou firme — Faça quantas perguntas quiser.
— Eu juro que não queria. — Catrina parecia desesperada e com medo do que poderia acontecer a ela.
— Summers, como eu disse sua esposa foi encontrada no cativeiro de sua filha, porém em respeito a você, preciso saber se posso interrogá-la na sua presença.
— Ela não representa mais nada para mim. — Summers a olhou com desprezo e se sentou na poltrona ao lado da lareira — Esta mulher não pertence mais a minha família.
— Summers, eu não queria, por favor me perdoe. — ela o olhou, no canto do seu olho se formou uma gota de lágrima.
— Diga, porque fez isso com a garota? — perguntei fixando meu olhar nela.
— Por clemência milady Baker, não me mate. — ela derramou a primeira lágrima.
— Responda minha pergunta e quem sabe não tenho clemência. — desviei meu olhar para e voltei para ela.
— Eu juro que não queria, mas ameaçaram minha família na Espanha. — ela abaixou sua face — Eu tinha que fazer isso, assim sua administração seria questionada.
— Olhe para mim. — ordenei.
— Acha que ela está… — me olhou, ele me conhecia e uma história daquela não me convenceria.
— Eu disse, e quando eu mando, devem obedecer. — eu segurei no cabelo dela e puxei sua cabeça para trás, assim ela me olhou — Sua história não me convence, diga a verdade ou arranco seu coração.
— Se me matar não terá o que quer. — ela sorriu com um pouco de deboche.

Eu me afastei e lançando um olhar para Jack para que ele a soltasse e se afastasse. Eu lancei minha perna direita em sua cara dando um pequeno giro, ela caiu com a cadeira. Me aproximei sem piedade e pisei de leve com meu pé direito em seu pescoço, deixando meu salto fino arranhar sua pele.

— Última chance, fale tudo o que sabe ou conhecerá uma dor tão profunda que vai implorar pela morte. — fixei meu olhar nos olhos dela, para que soubesse que eu não estava brincando.
— Davis. — ela disse sem sussurro, o nome que eu tanto queria ouvir, porém nunca mencionavam — Todos os problemas recentes eram ele, seus planos eram para que o conselho a vissem como fraca e sem controle nas Indústrias, assim Davis pediria sua cabeça por má administração a Allison Baker.
— Conte tudo. — disse forçando ainda mais meu pé.
— Ele prometeu que eu me tornaria a milady em seu lugar se o ajudasse, assim depois que ele se livrasse de você, eu apareceria com Molly e meu nome seria indicado a Allison. — ela me olhou — Eu faço o que quiser milady, só não me mate. — a lágrima que saía de seus olhos eram verdadeiras e ela estava mesmo com medo de morrer.
— Que inocente, achando que em apenas um resgate, se tornaria chefe da família Baker. — ri de sua cara, ao me lembrar de tudo o que passei em meus anos de treinamento.

Catrina contou tudo o que sabia na presença de três testemunhas, e vendo filmada por . Davis utilizou da ambição de Sanches e do desespero de Derek Sollary para me prejudicar e desviar o CN dos laboratórios ganhando em cima da nossa fórmula, além de outras pequenas armações. Porém a cartada final de Davis, seria o sequestro de Molly. Eu ficaria desacreditada entre os diretores e Summers se não encontrasse a garota. Ele poderia pedir minha cabeça a Allison por não realizar minhas tarefas, afinal se eu não consigo manter a ordem na empresa, não sirvo como uma herdeira Baker.

— Quais são seus próximos passos agora? — perguntou Jack — Vai levá-la até os diretores?
— Sim, só assim terei a cabeça de Davis em uma bandeja. — eu o olhei dando alguns passos para frente — Posso deixá-la na sua responsabilidade?
— Sem problemas, ela vai no meu carro. — Jack pegou Catrina peço braço.
— Summers. — eu o olhei — Lamento que sua filha tenha sido usada como uma peça para uma cópia de golpe de estado.
— Agradeço por tê-la trago de volta, tem meu total apoio contra os diretores. — ele me olhou com firmeza em sua voz e no seu olhar.
— Fico honrada, agora tenho que terminar de resolver este assunto.

Saí acompanhada por . Como combinado Jack levou a acusada em segurança para a mansão dos diretores, entrei na grande sala em ser anunciada. Marcellus e Klaus se assustaram com minha presença repentina, olhei para fora da janela, a lua tão iluminada que parecia dia, certamente já era próximo da meia noite.

— O que faz aqui? — perguntou Marcellus — Já te ouvimos o suficiente por hoje.
— Vim para anunciar que a garota Molly foi encontrada e com ela a culpada.

Jack que estava segurando Catrina pelo braço a jogou para frente, seu corpo caiu diante dos diretores. Klaus a olhou com cuidado parecia reconhecer seu rosto.

— Esta é a esposa de Summers. — concluiu ele.
— Não mais. — o corrigi — E ela não é a única, Davis é a mente por trás de muitas coisas que andam acontecendo nos últimos cinco anos.
— É uma acusação muito grave. — Marcellus me olhou sério e inexpressivo.
— Catrina confessou diante de três testemunhas. — confirmei minha palavra — , Jack Lins e o próprio Summers.
— Então deixe que ela confesse perante a diretoria. — disse James, entrando acompanhado por Tyler e Xavier.
— É verdade, Davis queria destronar a milady Baker, e me ofereceu o lugar dela em troca de ajudá-lo. — Catrina estava exausta e sem forças.
— Davis quebrou o propósito da diretoria e como queria controlar as Indústrias Baker por si só, se viu impossibilitado por ser leal a Allison. — se pronunciou, mesmo sendo meu braço direito, subjetivamente, ele ainda representava a própria Allison na cidade — Sem direito a julgamento, Davis deve ser extinto da diretoria e da Continuum.
— Acho que não teremos objeção quanto a isso. — olhei fixamente para Marcellus — O propósito dos diretores é auxiliar e não controlar.
— Se ele errou deve pagar. — Marcellus engoliu seco — Quanto a Catrina, o conselho decide pela prisão perpétua e exclusão da sociedade sem o direito a revogar a pena.
— Ela será enviada para a Penitenciária Feminina Madre Celestes, em Saragoça na Espanha. — completou Klaus — Sem julgamento.
— Não. — ela me olhou e rastejou até mim suplicando — Você prometeu que me perdoaria.
— Eu disse que pensaria, mas como você optou por se unir a um diretor para estar em meu lugar, deve desfrutar da parte negativa também.
— Peça para chamarem Davis. — disse Klaus a James — Ele deve pagar por seus atos também.
— Sim. — assentiu.

Após alguns minutos, James voltou com sua face enfurecida. O quarto de Davis estava vazio e ele tinha desaparecido. Controlei minha raiva fechando meus punhos, segurou em meu braço me olhando de forma tranquila. Ele queria que eu mantivesse minha mente focada.

— Colocaremos todos os sliters atrás dele, Davis não pode ter ido tão longe. — Klaus me olhou.
— Será que ele já suspeitava sobre sua descoberta? — perguntou Xavier.
— Senhores. — disse Ruby a governanta ao entrar — Mataram o senhor Uictor.

Era só o que faltava. Uictor era o tesoureiro leal da diretoria.

— Como? — Marcellus se levantou da cadeira.
— Seu corpo está ensanguentado no quarto. — explicou a senhora.
— Me parece que ser leal a diretoria não é mais seguro. — disse debochadamente.
— Após resolvermos o caso de Davis, resolverei o de vocês. — olhou para eles.
— Davis pagará por seus atos e da pior forma. — Marcellus num tom de juramento — Ainda mais se for o culpado pela morte de Uictor.

Estava acontecendo o que eu mais queria. A supremacia da diretoria estava em queda e sendo questionada. Finalmente eu me livraria deles com certeza, mas antes disso tinha que colocar Davis na lista de espécie extinta de uma vez por todas. Não tinha mais nada para se fazer lá. Voltei para meu apartamento acompanhada por

Tempos conturbados pedem medidas provisórias e rápidas, por isso antes de partir pedi para que Jack cuidasse do assunto do CN desviado. Eu precisava que fossem recuperados e mais rápido possível e temia não ter tempo para isso ou serem desviados novamente. Afinal, Davis estava à solta, não podia arriscar.

— Temos que ser cautelosos agora Jack, não sabemos onde Davis está e preciso recuperar o que me foi roubado. — o olhei transmitindo a confiança que tinha nele.
— Não se preocupe, seremos rápidos e precisos. — ele sorriu de canto — Para dizer a verdade, neste exato momento meus homens estão chegando as coordenadas.
— Como? — estava surpresa com a rapidez.
— Sei que tem andado muito ocupada livrando seu pescoço das armadilhas de Davis, e estava muito preocupada com esse sequestro da garota Molly, então resolvi tomar a frente desse assunto, já que fiz quase tudo, deveria finalizar. — ele riu de leve.
— Um perfeito lord. — elogiei — Sabe então onde deve deixar todo o carregamento.
— Sim. — assentiu de leve com o olhar também.
— Excelente. — eu me afastei um pouco dele.
— Baker. — ele segurou de leve em meu braço — Você vai ficar bem com Davis foragido?
— Claro. — eu me virei para ele o olhando — Não sou uma garotinha indefesa.
— Ela está preparada para qualquer situação. — me olhou.
— Ei sei, porém não devemos subestimar o inimigo, sabemos que todo mundo tem um ponto fraco. — Jack retrucou.
— Ninguém sabe meu ponto fraco, além de . — afirmei.
— Tem certeza? — insistiu ele.
— Não se preocupe Jack, apenas se mantenha responsável pelo que pedi e finalize esta questão, quero todos os envolvidos extintos, sem segunda chance.
— Como quiser. — ele assentiu e entrou em seu carro.
— A preocupação de Jack tem fundamentos. — disse .
sabe se cuidar. — eu o olhei — E para todos eu o odeio, não acontecerá nada, Davis está com medo.
— É por isso que devemos ser atentos, um homem como ele quanto está com medo é capaz de qualquer coisa para sobreviver.
— Vamos para casa , lá pensaremos melhor. — entrei no carro.

Chegamos no estacionamento do prédio na alta madrugada. Assim que passamos pelo hall de entrada, o porteiro me entregou uma caixa que tinha chegado por meio de um entregador no final da tarde. Peguei meio desconfiada e levei comigo, ao entrar no apartamento abri a caixa, era uma garrafa de vinho, tinha um bilhete escrito “Uma lembrança de mim para aquela que sempre teve o que queria.” Achei estranho aquelas palavras, mas me lembrava a forma como se retratava a mim em alguns momentos.

— Um presente? — me olhou curioso.
— Parece que uma pessoas está arrependida. — eu sorri de leve e entreguei a para que abrisse.
— Vai mesmo tomar? — ele abriu a garrafa ainda desconfiado — Não deveria.
— E por que não? — eu peguei a garrafa da mão dele e caminhei até a cristaleira e retirei uma taça — está arrependido e não sabe como se desculpar, ele sabe que gosto de vinho rosé, aposto que antes do amanhecer ele aparece para uma noite de amor.

Eu estava confiante em minhas palavras.

— E tem certeza que é dele? — insistiu em suas desconfianças.
— E de quem mais seria?

Eu despejei um pouco do líquido na taça e olhei para , assim que encostei a taça nos lábios, a porta tocou. 

— Não disse, com certeza é ele. — disse.

se afastou e foi abrir, mesmo longe e sem visão de quem estava do lado de fora, podia ouvir sua voz e sentir seu perfume. Era mesmo ele, certamente querendo se desculpar. Sorri de leve ao imaginar que estava arrependido e tomei um gole do vinho tranquilamente.

. — disse — Então era mesmo você.
— Era mesmo eu? — sua voz parecia confusa — Está falando do que?
— Do presente de reconciliação. — respondeu.
— Me desculpe , mas não estou entendendo.
— Da garrafa de vinho que mandou em sinal de desculpas. — explicou.
— Eu nunca mandei nenhuma garrafa.

Eu comecei a me sentir estranha, a taça que estava em minhas mãos caiu. O barulho veio em minha audição como um estouro, senti minhas pernas falharem e desabei. Antes do meu corpo encostar no chão eu já estava nos braços de , minha voz não saía e minha garganta ardia como se estivesse sendo rasgada. Senti uma dor insuportável, meus olhos embaçaram, o gosto amargo e estranho em minha boca e comecei a tossir e cuspir sangue. Voltei meu olhar para lacrimejando, com meu corpo se contorcendo por dentro.

Eu sabia que isso os deixariam ainda mais agoniados, em me ver naquele estado. Precisava ter controle pelo menos sob as reações do meu corpo. Se fosse para sofrer, sofreria sozinha, porém era mais forte que eu... 

! — ouvi ao longe a voz desesperada de me chamando — Fala comigo .
Baker… — desta vez de .

Com as vistas embaçadas, fechei os meus olhos e me concentrei me lembrando e todos os treinos mentais. Pensando em tudo aquilo que estava acontecendo, confirmei de imediato minhas suspeitas silenciosas que aquilo ela a última cartada de Davis. 

E eu tinha me deixado cair na armadilha.

Someone call the doctor.
- Overdose / EXO



Lembranças do Natal

-

— O que está acontecendo com ela? — eu estava desesperado. 

Segurando em meus braços, agonizando enquanto sangue saía de sua boca involuntariamente, não sabia o quanto ela estava sofrendo, mas conseguia sentir um pouco através das lágrimas que escorriam de seus olhos fechados.

— Davis. — sussurrou indo até a mesa e pegando a garrafa.
— O que ele fez? — perguntei — O que ele deu a ela?
pensou que era um presente seu. — ele cheirou o líquido — Deve ser algum tipo de veneno, precisamos levá-la para o Laboratório Interno urgente.

Ele pegou as chaves do carro e me olhou.

— O que isso significa? — senti um nó na garganta e a olhei com carinho e arrependimento, talvez se tivesse ao seu lado isso não teria acontecido — Ela vai morrer?
— Talvez. — a voz de estava seca e amarga — Não sabemos o que ele deu a ela, mas vou levar a garrafa junto para análise.
— Então ela não vai morrer. — eu o olhei com esperança e levantei meu corpo com ela em meu colo — Vamos.

O corpo de se moveu involuntariamente pela última vez. Num suspiro que parecia ser de socorro, ela perdeu a consciência. No canto, senti meu corpo transbordar de raiva, o olhar inocente que tanto queria ver foi com ela naquele estado. Ele dirigiu o mais rápido que podia enquanto falava ao telefone com alguém do laboratório. Ao chegarmos, virou para trás e me olhou sério.

— Leve ela para a dra. Irina Baker, agora, estão esperando. — disse.
— Você não vem? — perguntei.
— Vou atrás de quem fez isso, cuide dela. — respondeu com fúria na voz.

Assenti sem questionar. 

Sabia que faria o possível para reverter aquela situação e trazer nossa de volta. Peguei ela no colo novamente e segui até as pessoas que nos aguardavam. Irina Baker era prima de Allison e uma das mais brilhantes cientistas de sua geração, eu sabia que com a equipe médica que tinham ali, poderia ajudar minha . Entreguei a garrafa de vinho para um dos funcionários e segui com eles para dentro da instalação.

Ao esperar na área de convivência qualquer notícia que seja, as palavras de invadiram a minha mente. Eu era o ponto fraco de e por minha causa ela estava naquele estado. Se não tivesse achado que o vinho envenenado era um presente meu, ela não teria tomado. Desejava naquele momento salvar ela assim como a salvei quando era uma garotinha.

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Lembranças do Natal Passado…
Los Angeles, Inverno de 2013

Sete anos se passaram desde a última vez que a vi, sempre tinha pesadelos com aquele dia, ver sendo levada por aquela mulher misteriosa. Seu olhar triste e amedrontado, seus gritos por socorro, quando me lembro de não poder ter feito algo para mudar sinto como se estivesse em uma guilhotina. As lágrimas em seus olhos eram minha última imagem dela.

Durante todo aquele tempo não havia perdoado meu pai. Minha ideia de fugir definitivamente tinha se desfeito por um pedido da minha tia, ela me acompanhou escondido do meu pai até o orfanato para visitar depois de muito insistir. Mas a única coisa que nos disseram, é que ela já tinha sido adotada. Minha única esperança de vê-la tinha ido embora completamente com a sua aparente adoção. Saí de casa assim que fiz dezoito anos, e não olhei para trás, minha relação com meu pai não melhorou e minha tia precisou ir para o interior devido ao tratamento de uma doença.

Precisei de muito conselho de Jenie para não me arriscar demais, então resolvi seguir para Los Angeles, onde tinha familiares. Minha amiga Fletcher sempre foi sensata, porém, assim como eu era sempre oprimida por sua mãe adotiva. E agora, depois do ensino médio e se recusar a cursar em uma universidade desconhecida, estava de malas prontas para NY University. Não era de todo uma má ideia se mudar para a movimentada NY, e talvez faria isso também no futuro. Quanto mais longe do meu pai, melhor.

! — gritou uma voz vindo atrás de mim — !?
— O que? — me virei era o dono da oficina onde trabalhava.
— Está tudo bem? — notei que está mais aéreo hoje.
— Estou. — coloquei a chave de grifo na bancada e me aproximei da moto — O carro do senhor Johnson está pronto, se não se importa vou embora mais cedo hoje.
— Vá em paz meu jovem, é véspera de Natal, nem deveria ter vindo trabalhar hoje, e tente se manter saudável, notei que ultimamente não tem parado nem para o almoço, muito trabalho também faz mal. — advertiu ele.

O senhor Phil era um homem muito bom, e por ser amigo de um tio-avô distante, ele me deu o emprego em sua oficina e ainda conseguiu um loft para que morasse. Apesar de sua preocupação com minha saúde, meu propósito de ganhar dinheiro para sair de Cliron era mais importante.

— Obrigado pelo conselho, mas estou bem. — assegurei a ele —Feliz natal para o senhor.
— Feliz natal garoto. — respondeu ele com um sorriso gentil.

Natal, há muitos anos que essa data já não fazia sentido para mim. 

Coloquei minha jaqueta e montei na moto, dei a partida e segui meu caminho. Me perdi em meus pensamentos enquanto seguia pela rodovia secundária, parei no semáforo e fiquei esperando. Mantive meu olhar no sinal até que o desviei por alguns instantes, uma pessoa que estava entrando em um carro me chamou a atenção, por um minuto achei que fosse ela, seus cabelos longos sendo bagunçados pelo vento. Meu corpo arrepiou involuntariamente.

No olhos de qualquer pessoa, ela era apenas uma linda garota tendo sua beleza contemplada pelo pôr do sol ao entrar em um carro. Entretanto, nos meus olhos, eu insistia que era , mesmo mais velha sua face era suave como a dela. O sinal abriu e tinha a escolha de seguir, mas virei a esquina e segui o carro que a garota tinha entrado, alguns quarteirões depois ele parou em uma rua escura e entrou no que parecia uma garagem subterrânea.

Estacionei minha moto do outro lado da rua e fiquei olhando por alguns minutos, então desci e caminhei até a rua. Não tinha nada de diferente ou estranho, mas conseguia sentir um clima pesado e obscuro vindo de uma porta que estava ao fundo. Caminhei lentamente e bati na porta. Um homem alto e magrelo abriu a porta, seus olhos era negros e intimidadores, passei por ele em silêncio adentrando o lugar. Parecia um pub americano com traços de cabaré francês, porém não tão iluminado como a maioria tende a ser. Aquele lugar dava uma sensação de escuridão e frieza mesmo movimentado. Não me lembrava ter um lugar assim em Los Angeles, mas a cidade sendo muito grande, com certeza poderia ter sim.

Havia mulheres dançando em um palco como uma apresentação, várias pessoas espalhadas por todo o lugar com taças de vinho na mão, a música sendo misturada nas conversas de todos. Me aproximei do bar e sentei em uma das cadeiras, fiquei por alguns instantes olhando todo o movimento ao meu redor até que uma mulher se sentou ao meu lado.

— Está sozinho? — perguntou ela.
— Por que o interesse? — eu a olhei, era uma bela moça em um belo vestido vermelho, um decote que chamava a atenção de qualquer homem.
— Pelo seu olhar. — ela depositou sua mão direita na minha perna — Você me parece perdido, se quiser posso lhe fazer companhia.
— Não acho que seja a companhia certa para mim. — eu olhei para a mão dela — Mesmo sendo tão atraente.
— Me dê uma chance e eu te faço esquecer ela. — ela arqueou a sobrancelha direita dando um sorriso presunçoso.
— Porque acha que tem outra mulher envolvida? — perguntei curioso.
— Quando me recusam assim, é porque a mente já está ocupada, ou o coração. — explicou ela, se insinuando mais.
— Você está certa, porém, não conseguirá me fazer esquecê-la. — eu me levantei me virando para sair.
— Espera. — ela pegou em meu braço me virando — Você não entendeu, não vai sair daqui tão fácil.
— Do que está falando? — eu a olhei confuso pelas suas palavras.
— Nenhum homem nega a mim. — ela deu um sorriso de canto.

Logo senti a movimentação de dois homens próximos. Quem era aquela mulher? Ambos os homens fortes e brutos me seguraram pelos braços me arrastando para os fundos do lugar. Tentei me soltar, me debatendo sem sucesso. Descemos alguns degraus de escada até o porão, e eles me soltaram no chão. Um deles chutou meu estômago. Ouvi alguns risos da mulher, parecia se deliciar com a cena. Fechei os olhos sentindo dor, e quando os abri, a mulher de vermelho estava imóvel, com a lâmina de uma katana encostada em seu pescoço. Consegui notar seu desespero.

Senti um frio passando por mim, quando a mulher do carro me olhou séria e inexpressiva. Ficamos nos olhando por um tempo, até que ela ergueu a espada para atacar a mulher de vermelho.

— Você... — perguntei em um sussurro.

Foi tudo o que consegui dizer naqueles poucos segundos, até que senti o impacto de algo em minha nuca. Instantaneamente meu corpo desabou e perdi a consciência. Aos poucos comecei a ouvir barulhos estranhos parecendo trovões, lentamente o movimento do meu corpo começou a voltar e abri meus olhos. Os barulhos que ouvia tinham uma explicação, olhei para a janela e vi que estava chovendo naquela noite, não me lembrava de como tinha voltado para casa e me deitado, só me lembrava daquela garota com a espada.

— Não foi um pesadelo, se é isso que está pensando. — disse uma voz feminina vindo da porta — Eu sou real.
— Você... — eu a olhei, me levantei erguendo meu corpo, era ela — .
— Então me reconhece. — ela sorriu de leve, seu sorriso continuava o mesmo, mas sua voz parecia mais firme e maliciosa.
— Como chegou aqui? Como me encontrou? — eu tentava analisar cada expressão do seu rosto, mas ela se mantinha tão inexpressiva com a face suave — Onde esteve todos esses anos?
— Muitas perguntas de uma só vez. — ela deu alguns passos em minha direção, porém parou no meu do quarto e lançou seu olhar para janela — Se lembra da primeira vez que nos vimos, estava chovendo como hoje.
— Sim, estava. — concordei me levantando da cama — Você sempre ficou assustada com a chuva, mas te vendo agora.
— As pessoas crescem. — ela desviou seu olhar para mim — Como passou todo esse tempo?
— Sentindo sua falta, preocupado com você. — caminhei até ela e peguei em sua mão — Você é mesmo real?
— O que você acha? — respondeu ela suavizando mais ainda sua face e seu meigo olhar, aquela pequena garotinha ainda estava ali na minha frente.
— Ainda estou sonhando? — eu toquei de leve em sua face acariciando-a — Ou você está mesmo aqui?
— Sendo sonho ou não, vamos aproveitar esta noite. — ela sorriu com malícia — A propósito, feliz natal.

Ela me beijou de surpresa, me paralisei por um momento até que meus braços se envolveram na cintura dela automaticamente. Seu beijo era doce e intenso ao mesmo tempo. Quanto mais ela se entregava, mais eu retribuía na mesma intensidade. Mesmo com a chuva do lado de fora e todo aquele frio da noite, nosso amor manteve meu quarto aquecido e em chamas. Se aquilo era realmente um sonho eu iria fazer o possível para não acordar e tê-la em meus braços por muito tempo. Havia sonhado com aquele momento por muitos anos e estava vivendo ele, sendo real ou fantasia da minha mente, nossos corpos estavam conectados naquela noite.

“Você não pode escapar de mim
Porque você é meu destino.”
- Destiny / INFINITE



Futuro

Atualmente...

- :

Eu tinha que me manter calmo e concentrado, havia poucas horas que Davis tinha fugido e eu não o deixaria escapar assim tão fácil. Liguei para Cassie e ordenei que convocasse todos os sliters dos Bakers em Manhattan, faríamos um safári em meio a selva de concreto como diria Allison. Já se aproximava da hora do almoço, devido a demora em começar as buscas teríamos que ser mais cautelosos e precisos ainda, por isso acionei a polícia de Manhattan para cobrir todas as entradas e saídas da cidades. A cabeça de Davis estava a prêmio e a pessoa que dissesse onde ele estava, ganharia uma generosa recompensa.

. — Cassie se aproximou de mim — Estão todos reunidos no estacionamento.
— Então vamos.

Cassie assentiu caminhando em minha frente, para muitas coisas ela era exemplar exceto quando tinha que ser fria e calculista. Uma das qualidades que a Baker adotiva gostou nela.

— Prestem atenção todos vocês, começaremos em imediato esta caçada, vasculhem cada canto desta cidade e principalmente as fronteiras, ao pôr do sol quero aquele traidor vivo. — olhei para cada um deles parados em minha frente — Ele tem que estar vivo, pois nossa milady é quem irá lhe dar o destino que merece.

Todos assentiram sem hesitação e saíram correndo para cumprir sua tarefa. Eu não poderia participar de tudo aquilo, por dois motivos: o primeiro, tinha que ficar o mais perto de possível, mesmo estando com , eu ainda não confiava plenamente nele e segundo, tinha que encontrar uma solução para trazê-la de volta. Entrei no carro e segui direto para a biblioteca particular da matriz da Continuum. O lugar onde guardávamos livros raros sobre a sociedade, e no cofre pessoal da família Baker, as muitas descobertas científicas de seus talentosos cientistas. Havia também uma sessão reservada a documentos da família, e era nessa seção que eu precisava entrar.

A dra. Irina havia me enviado uma mensagem com o resultado dos testes feitos no vinho. Eu precisava ser rápido em minhas pesquisas. A bibliotecária ainda era Lunna, havíamos tido um relacionamento conturbado no passado e eu sentia que ela guardava ressentimentos. Contudo, não deixaria que isso fosse incômodo para que me ajudasse. Ela me levou até a seção reservada aos documentos. Algumas horas depois, entre alguns documentos antigos da adoção de , encontrei o que tanto procurava.

— Você acha que isso pode ajudar? — perguntou Lunna sentando-se ao meu lado no sofá.
— Nem tudo tem uma resposta, mas desta vez eu tenho a solução. — respondi friamente enquanto mantinha meus olhos nos documentos em minhas mãos.
— Lamento que tenha acontecido isso com a milady Baker, espero que consiga reverter seu quadro. — ela me olhou.
— Como soube tão rápido? — perguntei mantendo minha atenção no livro.
— Cassie me ligou. — ela fez uma breve pausa — Disse que certamente viria aqui pelos documentos relacionados ao... Allison já sabe?
— Ainda não, não sei. — coloquei os documentos na pasta e fechei — Estou tentando focar em uma coisa de cada vez.
— Espero que consiga pegar Davis o mais rápido possível.
— Eu vou, nem que eu tenha que procurá-lo pessoalmente, ele pagará pelo que fez.
— Vou fazer minhas buscas também, talvez consiga saber de algo com alguns amigos. — ela me olhou — Sabe que a Continuum sempre irá ajudar em casos assim.
— Agradeço por isso.
— Não precisa agradecer. — ela sorriu de leve — Você vai conseguir trazê-la de volta, tenho certeza.
— Disso eu também tenho.

Sorri de canto para ela e me afastei. Segui para a saída, entrei no carro e fiquei por um longo tempo pensando nos documentos e nos próximos passos que daria. Não voltaria para o apartamento enquanto não encontrasse uma forma mais sutil de resolver tudo, mas tinha que manter meus olhos focados em outras coisas como o último pedido de para Jack. Peguei meu celular e liguei para ele.

— Jack na linha. — disse ele ao atender. 
— Já completou o que se comprometeu a fazer? — me pronunciei.
, se fosse uma voz feminina diria que era a milady me fazendo essa pergunta, ambos se parecem muito. — ele riu do outro lado — E falando nela, como ela está? Soube do golpe de Davis.

Liguei pouco depois do almoço para o celular dela e atendeu, mas não tinha muita informação precisa.

— Não sei de seu estado, estou longe dela desde o nascer do sol. — respondi — Agora responda o que perguntei.
— Não se preocupe, tudo que pertence a Manhattan já está a caminho de Manhattan, em algumas horas será entregue no endereço que nossa milady solicitou. — garantiu ele.
— E onde está agora?
— Participando da sua caçada, mesmo que não tenha me convidado. — ele riu de leve — Espero que não fique irritado.
— Não ficarei, quanto mais pessoas atrás daquele traidor melhor. — assenti sem maiores preocupações.
— E não está preocupado por ela ficar com ? — instigou ele.
— Conhecendo-a como a conheço, está com quem ela sempre quis estar. — desliguei o celular antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa.

Segui com meu carro até a Estação Central e fiquei mais algumas horas esperando o pôr do sol, me distrai um pouco olhando as pessoas passando. Até que um homem passou por meu carro despertando minha atenção para ele, eu o conhecia de um passado muito distante, um passado que estava voltando a minha memória naquele momento sem que eu entendesse o motivo.

— O que estou fazendo? — perguntei para mim mesmo — Se esta pessoa que acabei de ver for a resposta, Allison saberá e vai me matar.

Peguei meu celular e olhei para a tela por um momento. O que eu iria fazer acabou acontecendo primeiro por parte dela, era o número de sua mansão em Barbados.

— Allison. — disse primeiro.
— Quando pretendia me ligar? — perguntou ela de imediato.
— Assim que encontrasse uma resposta, porém elas sempre me levam a você. — respondi com honestidade.
— E qual resposta está procurando? — perguntou ela novamente.
— Se me ligou é porque já sabe o estado de . — disse.
— As notícias correm rápido.
— Não se preocupe, sua cidade está em ordem.
— E o culpado? — perguntou ela num tom preocupado.
— Está sendo caçado neste momento. — eu suspirei — O conselho foi corrompido, e o que aconteceu com a só nos prova que todos eles podem se voltar contra suas vontades.
— Então que este conselho seja destruído, assim que o traidor for localizado.
— E quanto a minha resposta? — insisti, sabia que ela já teria pensado em algo.
— Orfanato Miral. — disse ela com tranquilidade — Porque pergunta se já pegou a resposta?

Sem que eu respondesse, ela desligou o telefone. Coloquei o celular no painel e abri a pasta novamente. Eu sabia onde estava, sabia quem era e sabia como poderia ajudar . Agora só faltava executar tudo no menor tempo possível.

— Como ela está? — disse ao entrar no quarto do Laboratório Interno, onde ela estava internada.
— Não se moveu desde o momento em que chegamos aqui. — estava parado perto da cama, mantendo seu olhar nela.
— Encontrei uma forma de ajudá-la. — disse cruzando meus braços e encostando na parede.
— Qual? — ele me olhou, em seus olhos pude ver que ainda mantinha a esperança dentro de si.
— Segundo Irina Baker, uma fórmula combinada à transfusão de sangue pode dar resultado, mas não seria qualquer sangue. — desviei meu olhar para o chão, escolhendo as melhores palavras.
— Como assim?
— Precisamos de um sangue compatível com o dela, não somente no tipo sanguíneo, mas também no fator biológico. — revelei ele.
— Quando você diz fator biológico? Está falando sobre a família verdadeira de ? — seu olhar ficou temeroso e preocupado.
— Talvez, não sabemos se vai ou não dar certo, é somente uma experiência testada há anos e que pode dar certo contra este veneno utilizado, vai ajudar a rápida recuperação dela. — respondi ponderadamente.

Eu não queria deixá-lo preocupado, entretanto contar a verdade do passado seria algo delicado. Leve ironia do destino, somente Donna Fletcher sabia quem eram os verdadeiros pais de e duvido que revelaria. Porém, havia um segredo na qual eu deveria mexer para garantir que voltasse a vida, e o homem que eu vi passando na estação, como eu havia imaginado era a resposta.

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Segredos da Primavera de 2014…

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Havia passado alguns meses da minha noite com , eu já estava morando na casa de Allison em Londres. Apesar do meu irmão caçula ter permanecido em Manhattan, eu sabia que estava ali para completar meus estudos. Não queria desapontá-la, menos ainda , por ter me concedido a oportunidade de ver novamente.

— Muito bem, já está acordada. — disse ao aparecer na porta do meu quarto.
— Acho que meu corpo não quer se preparar mais para o meu futuro. — comentei desviando meu olhar da janela para ele, estava me sentindo cansada aquele dia.
— Esteve o dia todo distante em seus pensamentos. — observou ele — Devo presumir um nome que está dentro deles.
— Não passei o dia pensando em , não somente nele. — admiti.
— Durante todos estes anos, a maioria dos seus pensamentos foi nele, em se o veria novamente.
. — deixei meu olhar mais sério.
— Não negue, existe uma conexão entre vocês que eu jamais vou entender, mas admiro muito o que sentem um pelo outro. — ele me olhou de baixo para cima — Só temo que ele venha se transformar em seu ponto fraco.
— Mais ninguém além de você e agora da Allison conhece essa parte de mim. — eu respirei fundo — Não se preocupe, isso não irá atrapalhar os planos da minha... Mãe.
— Não me preocupo com os planos dela, Allison sempre tem uma carta a mais na manga.
— E está assim por mim? Eu serei mais forte do que já sou. — afirmei a ele.
— Não, tem algo a mais aí. — ele olhou fixamente para minha barriga — Dentro de você.
. — eu comecei a me sentir enjoada e com náuseas, não entendia o que estava acontecendo mais corri para o banheiro.

Passei alguns minutos trancada, não ouvi mais sua voz. Quando voltei para o quarto, estava parado em frente a porta e Allison ao seu lado.

— Observe você mesma. — disse ele num tom frio e preocupado — Dois corações batendo.
— Oh, não. — disse ela lançando seu olhar da minha barriga para meus olhos.
— O que ouve? — eu olhei assustada para — O que está acontecendo? Por que me olham assim?
— Você está grávida. — respondeu ele.
— Tire esse coração de dentro dela. — disse Allison se virando para a porta.
— Não. — eu gritei colocando a mão na minha barriga, meus olhos que nunca nestes anos viram lágrimas, começaram a lacrimejar — Não, , por favor.
— Allison. — disse ele — Precisamos conversar.

saiu acompanhado por ela. Contive minhas lágrimas e me mantive calma, se estava mesmo grávida de , não deixaria que Allison fizesse algum mal ao meu bebê, nem que para isso eu tivesse que fugir. Entrei no closet e pegando uma mochila comecei a enfiar algumas peças de roupa dentro. A cada pensamento sobre como eu fugiria daquele lugar uma lágrima a mais saía dos meus olhos.

— Onde pretende chegar com essa mochila? — perguntou ao aparecer encostado na porta de braços cruzados.
— Vou proteger esse coração, custe o que custar. — ajeitei a mochila no ombro e passei por ele, senti sua mão segurar em meu braço — Sempre admirei a coragem de uma mãe ao salvar um filho, mas vendo você agora protegendo apenas um coração batendo, estou ainda mais fascinado.
, por favor. — eu o olhei já em lágrimas.
— Se quer mesmo protegê-lo, não será com lágrimas menos ainda atitudes tolas. — ele me olhou com frieza — Guarde suas roupas no armário, não precisará ir para que o coração em sua barriga continue a bater, apenas mantenha seu foco em ser a milady daqui nove meses.
— Então ela deixou?!
— Com a condição de se manter forte e inabalável, mesmo neste estado, não deixará os estudos.
— Estou grávida . — questionei.
— Sim, e não significa que está morta, não é uma doença e seu corpo continua saudável. — ele se virou para a porta — Suas aulas voltam a partir de amanhã.

Eu já imaginava que Allison não deixaria barato. Respirei fundo e deixei minha mochila na porta do closet, tinha que manter meu ritmo de aprendizado, mas isso era realmente uma estratégia para que eu abortasse. Segurei minhas lágrimas durante toda a noite, uma coisa tinha razão, eu não iria proteger aquele coração com lágrimas e sim com minha força.

O tempo passou rápido após voltarmos para Manhattan. Pensei que aqueles nove meses demorariam a passar e a cada mês que via minha barriga crescendo me sentia ainda mais feliz. Era um momento de uma vida normal que estava tendo.

— De algumas semanas para cá estou me sentindo mais pesada. — comentei me sentando no sofá.
— Existe um ser crescendo dentro de você. — ele riu.
— Passou rápido o tempo, hoje se completa oito meses, mais quatro semanas ele nasce. — eu passei a mão na minha barriga de leve — Será um lindo menino.
— Sim. — concordou ele.
, o que vai acontecer assim que ele nascer? — eu o olhei — Não vou poder ficar com ele, não é?
— Não posso responder, mas só se preocupe com o hoje, amanhã resolveremos. — odiava aquelas suas respostas enigmáticas.

Eu comecei a me sentir estranha e desconfortável. Olhei para o sofá que estava molhado, comecei a negar o que parecia estar acontecendo, minha bolsa tinha estourado e as contrações estavam chegando fortes e precisas. Antes mesmo do meu primeiro grito de dor já havia me pegado no colo, não podíamos sair da mansão por ordem de Allison, então os médicos foram até lá. Após horas em trabalho de parto, muita dor e lágrimas, eu vi de relance o meu filho nos braços de uma enfermeira, eu ouvi o médico dizendo que ele não estava respirando direito. Comecei a me desesperar, estava ao meu lado preocupado com o tanto de sangue que eu estava perdendo, perdi minha consciência antes que pudesse ouvir o choro do meu filho.

. — ouvi uma voz ao longe — .
— Hum. — abri meus olhos sentindo um certo desconforto com a claridade — Meus olhos.
— Vou fechar as cortinas. — disse a voz, demorei um pouco para reconhecer que era de .
— O que aconteceu? — sussurrei, minhas vistas estavam meio embaçadas ainda.
— Está conseguindo me ver com clareza? — perguntou ele.
— Aos poucos, sim. — olhei para sua direção, notei que meu coração ficou um pouco acelerado de ansiedade talvez — , preciso te perguntar uma coisa.
— Imagino o que seja.
— Onde está meu bebê? — desviei meu olhar da taça para ele, suas expressões eram rígidas e frias.
— Não sobreviveu, seu parto foi complicado, você perdeu muito sangue e… Lamento.

Naquele momento, meu coração quase parou de vez. Engoli seco, sentindo uma ponta de amargura dentro de mim. Por mais que meu corpo latejava de dor física, e meus sentimentos à flor da pele, nem mesmo uma lágrima saiu dos meus olhos. Acho que era assim que minha mãe esperava que reagisse a notícias como a que tinha recebido. Não havia mais nenhuma parte dentro de mim que quisesse manter meu lado sensível e puro, a partir daquele momento eu seria a pessoa que Allison e tanto treinaram, seria a milady de Manhattan.

“Os olhos ficam mais nítidos,
A tensão se sente como se ele pudesse cortar alguém.”
- Growl / EXO



Herdeiro Baker

Atualmente…

- :

Contavam cinco dias com naquela situação, induzida ao coma e entubada no quarto vip do Laboratório Interno. Além da dra. Irina Baker e sua dedicada equipe Darko, o próprio Gregori Sollary, um dos melhores médicos da Continuum e chefe de sua família, se ofereceu para cuidar de nossa milady. Sentado no banco do meu carro, me preparava para fazer tudo que eu poderia para salvá-la. Quebraria minha promessa de me manter longe da história entre e , contudo, uma parte desta história iria salvá-la, de acordo com os estudos da cientista Baker. Suspirei de leve saindo do carro e seguindo para o edifício de apartamentos tradicionais do Brooklyn. A edificação era velha, porém forte em sua estrutura. Os corredores com as paredes descascadas e cheirando a mofo. Parei em frente à porta daquele velho apartamento que pensei nunca voltar, bati três vezes e logo uma senhora abriu.

— Mary Fletcher. — disse já reconhecendo seu rosto.
Lancaster, pensei que nunca mais veria seu rosto novamente. — disse ela abrindo a porta um pouco mais para que eu entrasse.

Seus cabelos grisalhos me trouxeram a memória no dia em que a conheci.

— Digo o mesmo e continua sendo a única que pronuncia meu sobrenome. — disse ao entrar.
— Não entendo o motivo de não gostar dele, seus antepassados foram importantes na história. — ela me olhou com atenção — Mas diga o que o trouxe.
— Preciso de um favor seu. — direto e preciso.
— Imaginei que fosse algo parecido com isso. — ela respirou fundo indo em direção à cozinha, já deveria imaginar o que eu queria — Eu te ofereceria um chá, mas sei que não aceitaria, seu olhar parece preocupado e esperançoso.

Ela sorriu de leve.

— Não gosto muito de chá. — eu sorri junto, olhar para aqueles cabelos brancos e presos me fazia lembrar mais ainda daquele passado que deveria se manter em sigilo.
— Então, em que posso te ajudar? — ela me olhou com sua xícara de chá nas mãos, sua respiração estava um pouco mais fraca do que me lembrava.
— Preciso do sangue do seu neto. — a olhei tranquilamente para que pudesse confiar em mim.
— O que aconteceu com a milady Baker? — perguntou ela sentando em sua cadeira de balanço que ficava ao lado da janela — Se precisa, é por causa dela.
— Ela está a um passo da morte, em coma induzido para amenizar a dor, com um veneno raro em seu organismo. — desviei meu olhar tentando não me emocionar demais — Sabe que ele é o único que pode salvá-la, precisamos do sangue de um familiar para fazer o antídoto.
— Quando te conheci, achei mesmo que seria um bom marido para minha filha, ela era louca por você e desistiu de sua vida quando se foi. — Mary tomou um gole e respirou um pouco mais fundo, reprimiu suas emoções — Mas então, você retornou anos depois e me pediu o maior de todos os favores, que criasse aquela criança longe dos olhos da Continuum e da Allison Baker.
— Sim. — sussurrei concordando.
— Tudo isso porque você precisava manter escondido e seguro, o filho de Baker e dar continuidade ao seu sangue. — ela me olhou com um pouco de suavidade — Tenho que te agradecer por isso, a criança que chegou aqui tão indefesa foi a maior alegria que esta casa teve em anos de tristeza, meu filho e sua esposa concordaram em adotar a criança, e com sua ajuda estamos bem financeiramente e seguros.
— Então, sabe que esta felicidade você deve a ela, não a mim. — desviei o olhar para alguns móveis da sala, vendo os porta-retratos espalhados pelo lugar, e voltando novamente para ela — Ele tem o sangue da , tenha a certeza que não farei nenhum mal a ele.
— Eu sei, pedirei ao meu filho que leve a criança para doar seu sangue. — garantiu ela — Mesmo com o passado conturbado que teve com minha filha, não lhe guardo ressentimentos, Clair sempre soube que não poderia tê-lo, por causa de Allison Baker.
— Agradeço por entender, e peço que seja o mais rápido possível. — me virei em direção a porta.
— Diga a Cassie que amanhã de manhã ele estará no laboratório do Hospital de Manhattan.

Assenti com a cabeça e saí de seu apartamento. Então aquele era o segredo que eu e Allison guardávamos. O filho de e não tinha morrido no parto como fiz parecer. Não tinha outra escolha a não ser mentir, para que suas habilidades e suas funções como milady não fossem atrapalhadas no futuro, por estar procurando seu filho. Convenci Allison a não matá-lo de verdade depois de nascer e permitir que eu dissesse que havia morrido. Contudo, levei a criança para longe, com isso poderia ter seu filho, mas no fim não poderia ficar com ele.

— Jack. — disse ao descer do meu carro no estacionamento do edifício de Jack, indo até ele.
— Chegou rápido. — ele sorriu de canto — Pensei que iria demorar mais.
— Estava resolvendo outro assunto, porém, gosto de manter a pontualidade. — expliquei rapidamente — Onde está?
— Muito bem algemado.

Eu o segui indo para dentro do elevador de sua empresa. Entramos em alguns corredores até chegar no subsolo, em uma sala um pouco escura e úmida que cheirava mofo. Lá estava o traidor acorrentado com seus braços pendurados e ensanguentado, havia muitas marcas e hematomas em seu corpo.

— Onde o encontrou? — perguntei.
— Nosso amiguinho estava tentando pegar um jatinho particular com destino para Moscou. — explicou ele v Parece que um Tenebrae o ajudava.
— Que Tenebrae? — perguntei intrigado.

Se não bastasse um Sollary envolvido, agora tínhamos um Tenebrae na jogada de corrupção.

— Andrei Tenebrae. — revelou Jack.
— Então, Davis. — parei em frente ao inimigo, me segurando para não matá-lo eu mesmo — Finalmente está aqui.
— Veio me matar? Fazer o que ela não conseguirá. — ele riu de leve com deboche.
— Está enganado, virá aqui pessoalmente arrancar sua cabeça. — eu sorri de leve e me virei de costas para ele — E vou me divertir vendo ela fazer isso.
— Ela não vai conseguir sair dessa. — gritou Davis.
— Veremos.

Me afastei e voltei para a entrada do prédio. Jack me acompanhou, ele parecia muito preocupado com o futuro. Então estava na hora de fazer o que Allison havia me ordenado, eliminar todos os membros da diretoria de uma só vez. Para isso, convidei Jack para me acompanhar como futuro diretor. Quando chegamos na mansão deles ao final da tarde, todos estavam reunidos na piscina com algumas mulheres presentes. Jack olhou impressionado com a cena.

— Então é assim que vive um diretor? — perguntou Jack num breve sussurro — Com sua milady entre a vida e a morte, e eles seguem desfrutando dos prazeres do cargo.
— Não eles, não mais. — senti uma aspereza em minha voz, mas estava mesmo unindo toda a minha raiva.
— Ah, . — Marcellus me olhou — Espero que tenha trago boas notícias.
— Para mim, sim. — fiz as pupilas dos meus olhos dilatarem e ergui minha katana com todo prazer — A partir de hoje a velha diretoria das Indústrias Baker de Manhattan está extinta.

Antes mesmo que eles pudessem reagir ou questionar minhas palavras, eu e Jack precisamente cortamos seus corações da forma mais brutal que conseguimos. No meio de todos aquele banho de sangue, as mulheres que estavam acompanhando eles começaram a correr aos gritos. Deixei Marcellus e Klaus por último, para que vissem que meu olhar representava . Ela iria se divertir mais que eu naquele momento. Entretanto, não faltaria diversão para seu retorno, já que Davis estava a sua espera, na prisão de Jack Lins.

- :

Não queria, mas estava contando os dias com ela naquela situação. Me movia por todo o Laboratório Interno tentando conter minha ansiedade e sempre acabava na porta do quarto a olhando. Observava cada pessoa que se aproximava para cuidar dela. E fiquei surpreso ao ver a presença do chefe da família Sollary ali também.

. — disse ao aparecer na área de espera onde eu estava, ele carregava uma caixa de isopor em suas mãos. — O que é isso? — olhei fixamente para a caixa, não entendia nada.
— A cura. — ele passou por mim indo em direção a Irina Baker, que já apontava no corredor.
— Aqui dra. — disse ele entregando-lhe a caixa.
— Vamos rápido Olga, não há tempo a perder.

Eu já não entendia mais nada, porém sabia que não estaria brincando com a vida dela. Cassie chegou dois minutos depois e se aproximou dele. Demorou algumas horas até que a dra. Irina Baker conseguiu fazer a fórmula e iniciar a transfusão para o organismo de . Eu acompanhei de longe todo o procedimento com meu coração apertado. Segurando as lágrimas que se formavam. Só queria poder dizer a ela o quanto a amava apenas mais uma vez.

— Espero que funcione. — sussurrei olhando Olga, a assistente da dra, trocar pela quinta vez o soro de .
— Vai funcionar. — ficou da porta olhando para a direção dela também — Nossa é forte.
— Nossa?! — eu sorri de leve — É estranho te ouvir falar assim.
— Mesmo que não goste de algumas partes do relacionamento de vocês, ainda assim admiro o sentimento de um pelo outro. — admitiu ele.
— Esse sentimento a fez ficar assim. — desviei meu olhar para o chão.
— Se fosse para acontecer seria com ou sem você ao lado dela. — se aproximou da cama — Então dra. Baker?
— As próximas horas serão decisivas, para sabermos se esse antídoto é ou não eficaz. — ela olhou para a paciente e depois se afastou — Olga voltará para aplicar a última dose ao amanhecer.
— Tenho que resolver alguns problemas. — saiu do quarto juntamente com a dra. Baker e sua assistente.

Eu me aproximei da cama e me sentei ao seu lado. Pegando sua mão a olhei com suavidade, sua face estava tranquila, mesmo com os olhos fechados parecia tão conectada com tudo que estava acontecendo. Me perguntava se ela realmente estava ouvindo tudo. Seu corpo não se movia, não reagia a nada, olhei para a bolsa de sangue e depois para o soro. Me senti esperançoso.

. — a chamei pelo apelido, vazia um longo tempo que não a chamava assim e senti falta disso — Não sei se pode me ouvir, mas vendo você deitada nestas condições, me fazem lembrar do nosso passado e me arrepender por todos os anos que fiquei longe de você. — suspirei fraco contendo minhas emoções — Só quando pensei que te perderia para sempre, percebi que não posso lutar contra essa parte da sua vida que me distancia de você, acho que a garota meiga e inocente que conheci em 2013 não vai voltar, ou talvez ela continue aí e eu que não consiga ver, mas sei que você ainda é ela, mesmo tendo mudado tanto, não vou mais lutar contra isso, não vou mais lutar contra essa parte da sua existência, mesmo que isso me custe ver aquele olhar frio que possui em alguns momentos. — e sussurrando em seu ouvido — Eu te amo Baker.

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Ainda me sentia meio zonza e fraca, mas estava plenamente consciente. Foi minha jogada final, arriscando minha vida e tomei aquele vinho. Admito, eu sabia que era de Davis, sabia que minhas chances de não voltar eram altas, mais ainda assim o fiz e consegui o que queria. Finalmente admitiu que não viveria sem mim. E agora se declarou que me ama. Aquela batalha eu havia ganhado, mas tinha algumas questões que deveria esclarecer, questões que envolviam como me trouxe de volta. Se eu sou adotada, como ele conseguiu o sangue de um familiar meu para fazer o antídoto?

— Está mesmo se sentindo melhor? — perguntou se aproximando da minha cama.

Já se contavam três dias acordados em recuperação, sendo observada de perto pelo dr. Sollary com a supervisão de Irina Baker. Eu havia perdido a festa da Continuum, oferecida por Sebastian Dominos, porém, meu irmãozinho mega preocupado comigo havia aparecido em meu lugar representando a nossa família, juntamente com nossa ilustre mãe, Allison Baker. Queria ter visto a cara de Mia ao conhecer sua sogrinha.

— Sim. — o olhei de forma séria porém deixando minha face tranquila, erguendo um pouco meu corpo — O que aconteceu enquanto estive ausente?
— Fala tão tranquila como se tivesse saído de férias. — ele desviou seu olhar para a bolsa de soro — Poderia mesmo ter morrido.
— Eu sabia que você não deixaria. — eu sorri de canto — Veja pelo lado positivo, meu ponto fraco está de volta.
— Conhecendo você como conheço, guardarei meus pensamentos sobre o que acabou de fazer.
— Você realmente me conhece?! — mantive meu olhar nele — Não me respondeu.
— O conselho foi extinto como sempre sonhou. — respondeu ele mantendo o olhar sereno para mim.
— Não acredito que perdi a festa. — respirei fundo, frustrada.
— Não se preocupe, o melhor foi reservado para o final. — ele sorriu de canto — Davis está à sua espera para as últimas palavras.
— Será sublime este momento. — sorri com empolgação — E quanto ao CN desviado?
— Todos devidamente onde devem estar.
— Que bom, aproveite e mande Cassie enviar uma lembrancinha de agradecimento aos Dominos por sua ajuda. — pedir.
— Não se preocupe, já enviamos.
— Muito bem, parece que tudo funcionou muito bem enquanto estive fora. — eu fixei ainda mais meu olhar nele — Mas existem alguns pontos soltos.
— Quais?
— Sabe por que o meu sangue é O negativo? — perguntei propositalmente.
— Por que este é tipo sanguíneo muito raro. — respondeu rapidamente, sabia que ele seria cauteloso, pois assim como ele me conhecia, eu o conhecia também.
— Sim, este não é um sangue muito fácil de se encontrar, mas a questão é outra, e você já deve saber onde quero chegar.
— Prefiro ouvir suas teorias. — retrucou ele.
me contou como conseguiu me salvar, com uma leve ajuda de uma Fletcher, Mary Fletcher. — estava tentando analisar suas expressões, mas assim como eu ele era ótimo em olhares enigmáticos — Para funcionar o antídoto, Irina Baker assegurou que tinha que ser um sangue puro, sangue da minha família.
— Sim.
— Mas a questão é, a minha família não existe, sou adotada e você não os conhece. — olhei para a bolsa de soro, já estava na metade, então olhei para o meu braço com a agulha inserida — Se funcionou, devo presumir que…
— Sabe que não posso afirmar nada, mas também não posso desmentir suas suspeitas. — ele manteve o olhar em mim — Você nunca contou sobre isso a ele, não é?
— Não. — eu me mantive atenta aos movimentos dele se afastando mais — Quero que me mostre a pessoa dona desse sangue.
— Tudo que fizer quanto a isso, deverá ser longe dos olhos de Allison. — ele abriu a porta, estava do lado de fora.
— Me desculpe, não queria atrapalhar a conversa de vocês. — entrou tranquilamente.
— Não atrapalha. — disse enquanto saía do quarto fechando a porta.

Logo Olga entrou no quarto e com precisão, retirou o soro da minha veia. Ela me passou algumas instruções sobre como me alimentaria. Então se retirou logo depois. Ficamos nos olhando por um tempo.

— Eu ouvi a conversa de vocês. — ele foi direto e preciso — Evitarei pensar que beber aquele vinho foi alguma forma de me manipular.
— Bem, como eu poderia colocar minha própria existência em risco?! — o olhei cinicamente com um sorriso nos lábios.
— E ainda pergunta por que te odeio. — ele desviou seu olhar para a porta.
— Mas também me ama, eu adoro quando fica assim, estressado. — eu ri de leve estendendo a mão para ele — Acostume-se, vou levar suas palavras quando eu estava imóvel como uma declaração de amor.
— Você conseguiu ouvir? — ele se virou para mim me olhando surpreso.
— Estava agonizando, mas não estava morta. — mantive o olhar sereno nele — Vai me dizer que não está aliviado por eu estar de volta?!
— Se quer mesmo saber, gostaria de te matar agora. — ele se aproximou da cama e sentou na beirada.
— Ressentimentos à parte, você sempre vai me amar. — antes que ele pudesse retrucar, ele se inclinou para mim e me beijou com intensidade.

E mesmo que estivesse ressentido comigo, a intensidade com que retribuía meus beijos afirmava o contrário, ele era meu e de mais ninguém. O sol e a lua foram testemunhas daquela noite trancados no quarto. Nem mesmo se atreveu a interromper nossa consumação do amor, um tanto selvagem por sinal. Mesmo me convalescendo, não me importava em me entregar totalmente a .

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Uma semana de espera para me restabelecer. Porém, foram precisos dez minutos e eu estava pronta para rever meu inimigo mais estimado, Davis. como previsto foi também, nos levou para a empresa de Jack. Entramos por alguns corredores até chegar em uma espécie de porão de casa mal assombrada. A ansiedade ardia em meu coração.

— Davis. — disse ao me aproximar dele, os três ficaram parados perto da saída me olhando.
— Olha. — ele me olhou, estava com uma péssima aparência e meio desnutrido — Então ela realmente sobreviveu.
— Devo afirmar que você está péssimo. — comentei com um sorriso sarcástico, olhando para as correntes que mantinha seus braços estendidos — Mas gosto dessa tua imagem de derrotado, não imagina o quanto esperei por isso.
— No final o que escrevi é uma realidade, sempre consegue o que quer. — admitiu ele.
— Eu sou a milady Baker. — eu olhei fixamente para ele e sem que pudesse dizer mais alguma coisa, passei minha katana por seu corpo sem piedade, em um movimento rápido e forte, me virando de costas para ele — O que eu quero eu tenho.
— Deixamos com você o trabalho de limpar essa bagunça. — disse para Jack.
— Foi rápido, mas consegui sentir o sabor da vitória. — olhei para , porém meus olhos se voltaram para , eu consegui ver nos seus olhos o reflexo dos braços de Davis dependurados.
— Vamos, temos outro assunto para resolver. — disse — E vocês dois devem vir também.
— Ela está aqui? — perguntei.
— Sim.

- :

Antes de irmos para a mansão dos diretores onde Allison já estava nos esperando, peguei pelo braço e a puxei para o canto longe de Jack e . Eu tinha que confirmar minhas suspeitas e não podia deixar para depois.

— Fale rápido, Allison não gosta de atrasos. — disse ela.
— Passei todo esse tempo pensando na pergunta que te fiz há dias, então me lembrei da noite que tive um sonho com você, havia anos que não sabia nenhuma notícia sua. — a olhei de forma confusa, mas um tanto decidida — Não foi mesmo um sonho.
— Admirável sua conclusão, continue. — seu olhar me dizia que ela queria que eu desvendasse tudo até o fim.
— A sua afirmação de não saber sobre sua família biológica, fica a pergunta de como está viva agora. — eu segurei sua mão cruzando nossos dedos — Então uma família não se faz somente com pais, ou irmãos, isso me leva a acreditar que existe um membro que simboliza nós dois.
— Chegou a sua resposta? — perguntou ela.
— Por que não me disse que tínhamos um filho? — respondi com outra pergunta.
— Por que até o momento não sabia que estava vivo, então para que iria te fazer sofrer à toa. — seu olhar tranquilo como sempre, tinha razão — Posso contar isso como outro ponto positivo em ter tomado aquele vinho. — sibilou ela com um sorriso.
— Como pode dizer isso com tanta tranquilidade?
— Você precisa aprender a conviver com este meu lado. — ela suspirou fraco desviando seu olhar para frente — Pelo menos nosso filho teve uma vida normal e feliz.

Não consegui dizer mais nada, fazia sentido suas palavras. se aproximou de nós para nos apressar. Enfim voltamos para a mansão onde Allison estava nos esperando, era a primeira vez que eu a veria após anos. Não tinha medo, mas raiva por ela ter transformado e afastado nosso filho.

— Estão atrasados. — disse a mulher de azul sentada na poltrona central que era dos diretores, ela se levantou mantendo seu olhar fixo em — Estou admirada pela forma em que solucionou seus problemas , sei que foi com algumas ajudas, mas manteve seu olhar erguido.
— Foi assim que me treinou. — estava fria e mantinha sua face enigmática, não havia nenhuma fração de medo em seu olhar.
— Devo presumir que estes homens serão os próximos diretores? — sugeriu ela.
— Sim. — afirmou — Assim como eu, e Jack serão leais aos Bakers.
— Não duvido. — ela se aproximou de nós — Então você é o famoso .
— Sim. — eu mantive meu olhar destemido para ela.
— Você me trouxe algumas preocupações ao longo do tempo, mas minha filha conseguiu o que queria. — ela se aproximou de — Venha, temos muito o que conversar sobre a nova diretoria.
— Como deseja. — ele assentiu a seguindo para fora da grande sala.
— Havia me esquecido do quanto ela transpassa opressão e medo. — comentou Jack — Não consigo imaginar como foi para você conviver com ela.
— Já estou acostumada com o jeito da Allison. — me olhou de leve — Está tudo bem?
— Agora entendo por que é assim. — disse a olhando, eu conseguia sim imaginar ela convivendo com Allison.
. — disse ao aparecer na porta — Venha por favor.
— Claro.

Ela passou por mim indo em direção a porta. Jack ficou me olhando por um tempo, acho que estava decidindo se iria comentar sobre meu relacionamento com ou não, e como eu esperava.

— Ainda fico me perguntando como você conseguiu conquistar ela. — disse ele indo se sentar em uma das cadeiras dos diretores.
— O que tenho com ela vem muito antes de você tê-la conhecido. — sorri de canto olhando-o.
— Ah, amor juvenil. — ele riu — Não consigo imaginar ela como uma garotinha inocente, apesar de nunca ter conhecido seu lado malicioso.
— E nem irá conhecer. — eu sorri de canto — é minha.

Me virei indo em direção a porta. Ouvi alguns risos de Jack, mas ele sabia que não seria de mais ninguém além de mim. Comecei a caminhar pelos ambientes da mansão até que cheguei na porta para o jardim. Vi de longe conversando com , foquei minha visão na direção dos dois para saber sobre o que estavam falando. Eu tinha um básico conhecimento de leitura labial.

— Ela sabe que eu descobri? — perguntou.
— Se sabe, Allison disfarça muito bem. — riu — Mas convenhamos que com a sua recuperação, seria questão de tempo para nosso segredo ser desvendado.
— E o que vai acontecer? — ela parecia preocupada.
— Todos iremos continuar a viver normalmente, sua descendência continuará longe de todo esse mundo sombrio da Continuum.
— Posso pelo menos vê-lo?
— Agora no Central Park às quatro da tarde, estarão recolhendo os vestígios de um piquenique em família. — respondeu ele.
— Você pensa em tudo, e como vou reconhecê-lo?
— Ele possui o mesmo sinal de nascença que você, uma pinta no pescoço.
— Obrigada. — disse ela.
— Teoricamente, eu não disse nada a vocês dois. — olhou em minha direção fazendo olhar para mim também — Apenas observem sabiamente.

se afastando dele, se aproximou de mim. Pegando em minha mão, me guiou até o carro, eram raros os momentos que ela dirigia, mas era perfeita no volante. Ela estacionou em frente ao prédio do seu apartamento, seguimos para a entrada do Central Park que ficava em frente. Caminhamos um pouco tranquilamente como se não tivéssemos procurando ninguém. me contou um pouco de como foi sua gravidez, e de como se fechou para os sentimentos quando pensou ter perdido nosso bebê. havia contado a ela sobre a vida que o nosso filho tem tido.

Avistamos uma senhora de cabelos brancos e xale de crochê nas costas, certamente era Mary Fletcher. Michael, era o nome do nosso filho. Uma linda criança que corria próximo a eles e brincava com uma mulher. Ficamos em choque assim que vemos o rosto dela, que elevando seu olhar, nos reconheceu. Rose aparentemente era bastante próxima da pequena criança. O que me causou um súbito sentimento de inveja dela. Queria poder abraçá-lo também.

— Não acredito que aquela… — segurou forte em minha mão, parecia com raiva.
— Me parece que de alguma forma Rose continuou ligada a nós. — brinquei rindo.
— Não gostei. — ela me olhou de forma séria.
— Talvez seja o destino. — olhei para .
— Vou relevar então. — ela me beijou doce e maliciosamente, me tirando o foco e o fôlego.

Não importava se Rose ou outras pessoas eram próximas do nosso filho, sua vida não poderia ter nossa intervenção. Uma regra de Allison para que a segurança dele continuasse. Tudo o que a soberana Baker queria era que a sua filha adotiva continuasse sendo o que foi treinada para ser, indestrutível. Uma coisa tinha que concordar com Davis, realmente conseguia tudo o que queria. E de uma forma perigosa, conseguiu me jogar de vez em seu mundo sem direito a volta.

Eu já não me importava com essa parte, desde que a tivesse em meus braços para sempre, eu me inclinaria e seria um Baker ao seu lado. 

Baker, o homem cujo o coração de Baker pertencia.

Te segui,
E você reescreveu o meu futuro,
É aqui,
Meu único lugar seguro.
Acredito em você e neste amor,
Que me tornou indestrutível,
Que impediu minha queda livre.
- Creo En Ti / Reik



Lancaster

- :

Eu estava um pouco distante em um ponto estratégico do Central Park, observando o casal mais instável e confuso do mundo. Estava feliz por ter conseguido o que queria, satisfeito por ela ter descoberto sobre seu filho e agradecido por não terem feito nada que pudesse me deixar preocupado. Finalmente conseguiu a minha confiança.

— Devo te parabenizar por sua estratégia arriscada? — perguntou Allison Baker ao parar do meu lado. 
— Defina qual delas. — mantive meu olhar em e .
— Não foi à toa que escolheu o nome dela naquele orfanato. — afirmou ela.
— Não. — assenti.
— O homem que seduziu a mãe de , pertencia a família a rara e desconhecida família Lancaster. — percebi que seu olhar também estava fixo no casal — Ele era o último membro vivo, que escapou por sorte do ataque da família Ahlberg, e mesmo marcado para morrer, viveu um intenso amor.

O gosto da inveja transbordava em sua voz. Allison sempre ansiou ter meu coração para ela. Entretanto, eu só havia amado intensamente uma única mulher em minha vida. Graças a um Ahlberg, senti meu coração ser arrancado quando ela morreu, após o parto complicado de . Esconder minha pequena garotinha não tinha sido fácil, e para protegê-la só havia uma solução. Ser sliter de uma família da Continuum e fazê-los adotá-la. E Allison Baker foi o alvo perfeito, conquistá-la foi a parte mais fácil de todo o meu plano.

— Sim. — assenti.
— Os dois homens no beco acuando trabalhavam para você. — continuou ela.
— Sim.
— Você fez com que o caminho dos dois se cruzassem e instigou o pai dele a encontrar ela, quando estava escondida. — sua linha de raciocínio estava impressionante.
— Sim.
— Você a treinou impecavelmente para ser a milady Baker, e em uma noite de natal, sabia que ela estava no período fértil, você sabia que ela tinha altas chances de engravidar.
— Sim. — eu desviei meu olhar do casal para a família do pequeno Michael.
— Me manipulou para deixá-la ter o bebê e prometeu que daria um destino para a criança longe dela, pensando que o filho tinha morrido seria a melhor, sem falhas.
— Sim. — eu estava ansioso para que ela chegasse ao final de suas teorias.
— Você só não contava com o amor dos dois, mais mesmo assim se viu beneficiado, pois com ele, se torna mais forte ainda, apesar de um ponto fraco, também é seu ponto forte. — concluiu com precisão.
— Sim. — eu sorri de canto mantendo minha atenção nas movimentações do Central Park.
— Vejo que em uma estratégia com algumas ironias, o seu maior objetivo foi manter vivo o sangue e a linhagem da sua família. — agora ela havia chegado no ponto exato e central de tudo — Lancaster, o que anda planejando a mais?
— Qual o objetivo em saber sobre isso? — eu voltei meu olhar para ela com serenidade.

A Continuum não era a única sociedade de famílias influentes. E seu poder era apenas ameaçado pelas famílias Draconis, seu maior rival.

— Só estou curiosa com uma coisa. — ela me olhou — Por que o ? De tantas crianças naquela época, por que ele? Eu sei exatamente quem é o pai dele, apesar de não ter descoberto sobre a mãe…

Ela me olhou desconfiada.

— Se é sua filha… ?! — seu olhar demonstrava que ela estava tentando resolver aquele quebra-cabeças em sua mente.
— Allison. — eu mantive um sorriso de canto enigmático — Me desculpe, mas esta é outra história.

Você sorri um sorriso estranho,
Pode ser que você também sinta isso estranho?
- Growl / EXO

História: O fim é apenas o começo.” - by: Pâms



FIM?! Continua em Continuum...



Nota da autora:
Espero que tenham gostado da nossa milady Baker... Eu reescrevi essa história, e é a primeira em que na maior parte da história a protagonista é vista como a vilã, estilo meu malvado favorito kkkkkk... uma coisa desafiadora e divertida de escrever. Acompanhem também minhas outras fics da saga Continuum.
Bjinhos...
By: Pâms!!!!
Jesus bless you!!!




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*as outras fics vocês encontram na minha página da autora!!


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