CAPÍTULOS: [Prólogo][1][2][3][4][5][6][7][8][9][10][11][12][13][14][15]




Última atualização: 04/03/2017

Prólogo


Mais um dia parado em minha vida, uma rotina de tédio e monotonia que realmente parecia que eu viveria o resto da minha vida ali, trancada naquele pequeno espaço sem viver novamente. Jogada na cama olhando para os arabescos que compunham a pintura do teto, eu já havia esquecido quando aquela pintura tinha sido feita, talvez precisasse de um retoque ou algo novo por cima, mas me sentia tão desanimada para isso e outras coisas. Tombei minha cabeça para o lado e suspirei fraco ao desviar meu olhar para os poucos livros que compunham minha biblioteca particular, aquilo me fez lembrar a histórica e monumental de Alexandria.

— Não, não , estes pensamentos não podem tomar conta desta mente. — ergui meu corpo e desviei meus olhos para a mesa de refeições — Bem que este lugar poderia ser um pouco mais espaçoso e divertido.

Durante minha infância sempre ouvi minhas irmãs dizendo que iria passar a maior parte da minha vida sozinha, nunca acreditei nelas até que de fato fiquei sozinha. Sentimentos de solidão estão sendo minha única companhia, se eu pudesse pedir algo neste momento, seria por uma vida mais alegre e animada, por companhia de verdade que me fizesse esquecer os anos de silêncio vividos neste lugar tão pequeno.

— Bem, o que posso fazer hoje? — perguntei para mim mesma me espreguiçando da cama — Acho que vou ler um livro para passar o tempo, de novo. — assim que levantei da cama senti um leve tremor. — Oh, será que?

A cada instante o tremor ficava ainda mais intenso, era estranho estar acontecendo aquilo, já que fazia anos que isso não acontecia, olhei assustada para os móveis se movendo e tudo caindo ao meu redor.

— Oh céus, isso não vai parar?

"Conte-me seu sonho
Conte-me os pequenos desejos em seu coração."
- Genie / Girls' Generation



Capítulo 1


* POV

Horas e vôo, check-in e liberações dos passaportes, estava totalmente cansado de tudo aquilo, mais uma vez eu havia sido a salvação daquela empresa que em certos momentos me tirava a tranquilidade. Mas como um homem com dois filhos e sem esposa, poderia jogar sua carreira profissional no lixo sem pensar em suas responsabilidades? Respirei fundo assim que saí do táxi que tinha estacionado em frente ao prédio da empresa, ainda com minhas malas pois nem poderia passar em casa antes. Deixei as malas na recepção com a senhorita Hayley, que era sempre simpática comigo, não entendia muito porque não tínhamos nenhum tipo de intimidade, mas ela sempre ficava com meus filhos quando eles iam me visitar na empresa.

Meus filhos, ando sentindo a falta deles, mesmo Jullie tendo dez anos e Mike tendo oito anos, eles demonstram ainda sentir saudades da mãe, e para pior não tenho dado tanta atenção a eles. Não os recrimino, pois também sinto falta da minha linda esposa que nos deixou forçada por uma doença, se eu tivesse um pedido para fazer naquele momento, seria para trocar de lugar com ela e sentir sua dor.

?! — disse uma voz grossa vindo atrás de mim.
— Hum? — eu me virei — Ah, Jonh, que bom que está aqui, trouxe o relatório que precisávamos.
— Uah, que bom, e como estava a filial de Los Angeles? — perguntou ele pegando a pasta da minha mão.
— Não muito amigável, a maioria dos funcionários estavam fazendo greve e ouve alguns desvios de recursos que causaram todo o caos. — respondi indo em direção ao elevador.
— Que bom que temos você para resolver estes problemas, você é um cara que sabe solucionar problemas. — ele brincou me seguindo.
— Vou acreditar no seu elogio. — ri apertando o botão do elevador.

Não deixava de ser correto o que ele estava falando, mas depois de sete anos trabalhando naquela construtora eu desejava ser bem mais que o arquiteto que resolvia os problemas com funcionário e gerenciava obras mal iniciadas. E era isso que eu tinha feito em Los Angeles, por acaso descobri que um dos gerentes tinha desviado o dinheiro das obras e por acaso seria eu que teria que resolver este problema e conseguir render o pouco que tinha sobrado. E depois de dois meses longe de casa ainda não poderia voltar sem antes dar as devidas notícias para o diretor geral da construtora, acho que se eu não tivesse toda a responsabilidade e se aquele idiota do não fosse o genro do dono, o senhor Finn, eu realmente já teria socado a cara dele.

— Ah, aí está o homem das soluções. — disse ao se levantar da sua cadeira que parecia mais um trono, sua cara de deboche e ironia era a mesma de quando o conheci na universidade.
— Sabias palavras.  — concordou Jonh ao entrar comigo esticando a pasta para .
— Aí estão todos os relatórios e cronogramas, as obras foram retomadas e os trabalhadores já receberam seus honorários. — disse de forma direta e resumida — Agora vou para casa, se tiver alguma dúvida amanhã chegarei após o almoço.
— Hum, tudo bem. — ele abriu a pasta olhando os papéis — Fez um bom trabalho como sempre.

Eu saí da sala antes que usasse a oportunidade para tirar minha pouca paciência, ele já tinha tirado tanta coisa de mim. Na volta da recepção peguei minha mala e antes de sair, fui parado pela senhora Smith, minha secretária, ela tinha guardado muitas correspondências que chegaram nesses dois meses, mas infelizmente eu não esperaria buscar e chamei um táxi. Vinte minutos parado por causa do trânsito e finalmente estava em frente a minha casa, um pouco modesta e de dois andares, em um bairro de classe média de New York, todas as vezes que olhava para aquela varanda me lembrava de minha esposa Mary e de como ela gostava de cuidar das plantas do jardim, ela era a melhor paisagista que eu conheci.

Caminhei com minha mala e entrei em casa fechando a porta, estranhei o silêncio, mas logo me lembrei que as crianças certamente estavam na escola, olhei para o velho relógio do pai de Mary, que ficava na parede da sala, ainda faltava duas horas para as crianças voltarem. Peguei novamente minha mala e subi as escadas, entrei em meu quarto e a abri, coloquei as roupas sujas no cesto e as limpas no armário, passei alguns minutos meio distraídos em meus pensamentos, mesmo com a morte de Mary tendo feito cinco anos, eu ainda não conseguia deixar de pensar nela e sentir sua falta.

Foi neste momento que percebi que tinha um objeto a mais em minha mala, objeto esse que eu não conhecia sua origem, era uma garrafa estranha e meio arredondada na base, toda roxa com alguns traços rosa, achei estranho a primeiro momento, mas depois vi um bilhete amarrado nela.

— Boas pessoas merecem segunda chance. — li em voz alta — Isso não faz sentido.

E não fazia mesmo nenhum sentido, coloquei a garrafa em cima da escrivaninha do meu quarto, retirei minha camisa indo direto para o banheiro, uma ducha bem quente me esperava e eu demoraria o máximo de tempo que pudesse. Vesti roupas confortáveis e voltei para cozinha, o jantar seria especial para minha volta, dois meses longe dos dois motivos para eu continuar vivo. Passei um bom tempo preparando tudo até que ouvi um barulho vindo da sala, e logo a calmaria que existia foi quebrada por gritos de felicidade de ambos em me ver.

— Papai, estávamos com saudade. — disse Jullie ao me abraçar apertado.
— Sim. — concordou Mike pulando em minhas costas.
— Ah, como estão fortes e animados. — eu sorri para eles um pouco e olhei para a porta da cozinha — Olá mãe.
— Que bom que voltou meu filho. — ela sorriu de leve — Como passou esses meses?
— Sobrevivi. — brinquei e olhei para Mike — E vocês? Espero que tenham se comportado.
— Claro papai. — Jullie fez uma de suas caras de inocente que não me enganava nenhum pouco.
— Mas estamos felizes por ter voltado. — completou Mike — O senhor cozinhou papai?
— Sim, um prato especial para vocês.
— Oba. — disseram em coral.
— Bem, eu vou indo para casa.
— Não vai jantar conosco? — perguntei confuso por sua partida.
— Não, seu pai está me esperando, eu liguei mais cedo para sua empresa e me disseram sobre seu retorno, então vim para trazer eles.
— Mande um abraço ao pai.
— Sim. — ela olhou para as crianças — E vocês? Quero um abraço de cada um.
— Até amanhã vovó. — disseram eles a abraçando.
— Até. — minha mãe sorriu de leve e saiu pela porta da sala mesmo.
— Quero vocês dois no banho e roupas limpas para o jantar. — anunciei — E tem que ser rápido pois está quase pronto.
— Sim senhor. — disse Jullie batendo continência de leve rindo.
— Olha mocinha.

Ela e Mike saíram correndo em direção a escada, eu ri um pouco, estava mesmo com saudades daquela alegria que eles me proporcionavam. Assim que terminei de tirar a travessa de lasanha do forno eles desceram para a cozinha, nos sentamos à mesa, agradecemos pela refeição e nos saboreamos do nosso jantar.

— Então, podem ir me contando tudo que aprontaram nesse tempo que estive fora. — disse servindo nossos pratos com generosos pedaços.
— Hum, não aprontamos nada papai. — Jullie sorri de leve e piscou para Mike.
— Sim, nos comportamos como pediu. — ele segurou o riso concordando com a irmã.
— E eu não conheço vocês. — eu ri me sentando na cadeira — E a escola?
— Tirei A positivo em matemática. — Jullie respondeu mais que depressa pegando seu garfo.
— Parabéns, sabia que esta sua mente fértil não servia somente para travessuras. — brinquei um pouco fazendo ela rir.
— Eu também tirei A. — Mike me olhou — Em educação física, sou o melhor em esportes.
— Olha só o aluno medalha de ouro. — Jullie o olhou como se estivesse o provocando.
— Serei sim, o melhor do time da escola. — ele a olhou de volta e mostrou língua.
— Yah, vocês dois. — eu ri de leve — São boas notícias e estou orgulhoso disso.
— O senhor não vai viajar mais, não é? — perguntou Jullie.
— Não sei querida. — respirei fundo, não sabia mesmo a resposta.
— E quando vamos terminar nossa casa da árvore? — Mike me olhou com uma carinha de decepção — O senhor prometeu que seria antes do meu último aniversário.
— Sei que estou em falta com vocês, mas prometo que vou compensar. — olhei para eles — E nada de cara triste, eu vou mesmo terminar aquela casa.
— Por que será que não acreditamos. — resmungou Jullie.
— Ei mocinha, e desde quando eu deixei de cumprir uma promessa? — perguntei.
— Desde quando a mamãe morreu. — respondeu Jullie.

Desviei meu olhar para o prato, não sabia o que dizer para desfazer aquela má lembrança que pairou em nosso jantar. Eu realmente estava em falta com meus filhos e precisava reparar toda ausência que meu emprego forçava, eu tinha que ser mais presente, só não sabia como. Após o jantar sentamos na frente da televisão e começamos a ver um desenho, minutos depois nós três já estávamos apagados no sono, fui o primeiro a acordar e levei ambos para seus quartos. Senti algumas dores em minhas costas, acho que estava mesmo ficando velho ou meus filhos que estavam crescendo rápido demais.

Entrei em meu quarto e fechei a porta, peguei meu pijama e o vesti tranquilamente, quando fui fechar a janela olhei para a escrivaninha, aquela estranha garrafa estava diferente e tinha mudado de cor, talvez fosse algum efeito por causa da luz ou algo do tipo. Eu a sacudi um pouco para saber se tinha algum líquido dentro, mas não consegui ouvir nada, achei meio estranho e ainda não entendia qual era o significado do que estava escrito naquele bilhete. Deixei a garrafa novamente em cima da escrivaninha e me deitei, assim que apaguei a luz a porta do meu quarto se abriu, liguei a luz novamente, era meus dois filhos.

— Papai. — Mike estava encolhido atrás da sua irmã.
— Venham. — disse, sabia que eles queriam dormir comigo.

Eles pularam na cama, cada um de um lado, me deixando no meio, eu apaguei a luz do teto e deixei o abajur ligado para iluminar um pouco o quarto, ambos se aninharam em meus braços e em poucos minutos pegamos no sono novamente. Eu pedi o sono pouco antes de amanhecer e para não acordá-los antes da hora habitual dele, saí do quarto e desci as escadas, fiquei na sala lendo o jornal do dia anterior durante aquele tempo. Assim que o sol saiu, ouvi um grito vindo do meu quarto, me levantei no susto da poltrona que ficava perto da janela e subi correndo as escadas.

“Ei me diga o que você precisa
Diga-me o que você espera.”
- Genie / Girls' Generation



Capítulo 2


* POV

Eu estava desesperada com tantos tremores em pouco espaço e tempo, até que uma forte luz apareceu e tudo começou a se transformar em fumaça. Eu só havia experimentado aquela experiência uma vez na vida e há muito, muito, muito tempo atrás, com meu coração acelerado e tremendo, estava com medo do que fosse encontrar quando abrisse meus olhos.

— Ahhhhhhhh!!! — duas vozes gritaram em um coral.

Mesmo com receio abri meus olhos e me deparei com duas crianças, meu corpo congelou no mesmo momento, não sabia como reagir nem o que fazer, elas usavam uma roupa estranha, não parecia com as que um dia eu já tinha visto. Ficamos por alguns segundos nos encarando até que percebi a aproximação de uma terceira pessoa, eu fechei os olhos e estalei os dedos, assim literalmente como uma fumaça me transportei para um objeto de madeira guarde que tinha encostado na parede, foi o primeiro lugar pra onde olhei, minha sorte é que estava com uma pequena fresta por onde passei.

— O que aconteceu? — perguntou ele entrando no quarto recuperando o fôlego — Vocês estão bem?
— Sim. — a menina se virou para ele colocando as mãos para trás, percebi que ela estava com minha garrafa nas mãos.
— Tem certeza? — insistiu o homem olhando por todos os lados, tinha traços de preocupação em seu olhar.
— Sim. — o menino que estava com a tampa da minha garrafa também colocou a mão para trás e riu — Só estávamos competindo para ver quem gritava mais alto.
— Hum, por que será que desconfio de vocês sempre. — o homem era alto e tinha uma face até bonita, seus olhos eram profundos mas com leves traços de tristes.
— Pode confiar. — a menina sorriu de leve para ele.
— Papai, estamos com fome.
— Tudo bem, arrumem a cama e troquem de roupa. — o homem sorriu de leve e saiu do quarto fechando a porta.

Eu achei estranho o modo de falar deles, mas estava começando a imaginar que não estávamos mais na Grécia Antiga. A menina se virou para o objeto em que eu estava e caminhou até ele o abrindo, eu respirei fundo e sai dele olhando para eles.

— Uah. — disse a menina — Quem é você?
— Eu? — eu dei uma risada rápida — Vocês tocam minha porta e sou eu quem devo me apresentar?
— Sua porta? — o menino riu — Como assim?
— É essa tampa que está em sua mão. — eu peguei a tampa dele — É minha porta, e essa garrafa minha casa. — eu peguei a garrafa de volta.
— Você mora dentro da garrafa? — a menina me olhou desacreditada e boquiaberta.
— Sim. — assenti com satisfação, afinal minha casa era pequena e apertada, mas era minha.
— E como? A fumaça?
— Ah. — eu suspirei de leve me lembrando dos ensinamentos que tive com minha irmãs, era estranho depois de muito tempo eu ser despertada novamente, nunca fui a melhor filha da família — Bem, me desculpem minha falta de prática, é que esta é minha segunda vez.
— Segunda vez do que? — perguntou a menina fazendo uma cara estranha.
— Eu sou , seu gênio pessoal. — expliquei — E posso te realizar alguns desejos.
— Gênio pessoal? — disseram eles em coral.
— Sim. — confirmei.
— Isso explica essa roupa estranha que você veste. — o menino riu um pouco.
— Hum. — eu fiz cara de novo — Olha só quem fala.
— Nossas roupas são normais. — a garota ainda ria — Mas se você é um gênio de verdade, não deveria conceder somente três desejos?
— É verdade, assim como o gênio do Aladim.
— Ala, quem? — eu olhei para ele.
— Aladim, é um garoto pobre que encontra uma lampada mágica com um gênio. — explicou ele — É um desenho da Disney.
— Ah, bem. — eu fiquei tentando entender sobre o que ele falava — Eu não conheço esse tal de Aladim e nem o gênio dele, menos ainda essa Disney, mas gênios que dizem que só podem conceder três desejos são trapaceiros.
— Uah, verdade? — a menina me olhou impressionada.
— E você pode fazer qualquer coisa?
— Não exatamente, infelizmente todos temos nossos limites. — eu olhei para eles — Mas como vocês acharam minha casa? — estava curiosa.
— Não sabemos, estava com nosso pai. — respondeu a menina.
— Aquele homem que estava aqui com vocês?
— Sim. — assentiu o menino me olhando de forma curiosa — Posso fazer um pedido?
— Claro, faz tempos que ninguém me pede nada. — eu sorri para ele.
— Eu quero um xbox one.
— O que é isso? — perguntei meio confusa.
— Você não sabe? — o menino me olhou com uma cara de indignado como se fosse um pecado eu não saber.
— Ah. — a menina olhou para ele — É claro que ela não vai saber o que é.
— Já percebi que perdi muita coisa nesse mundo.
— Jullie, Mike, onde estão vocês? — a voz do homem soou como um grito.
— Nosso pai. — disse a menina ao olhar para porta, será que era a Jullie?
— Sim, mas o que vamos fazer com ela? — o menino me olhou.
— Como assim o que vão fazer comigo? — eu olhei com um pouco de medo.
— Calma, não vamos te fazer nenhum mal. — a menina riu — Mas se nosso pai te ver aqui, ele vai te mandar embora.
— Eu me apresento para ele. — disse como uma solução para o problema.
— E aí ele liga para polícia. — o menino suspirou fraco, fiquei me perguntando o que seria essa tal polícia.
— Você vai ter que voltar para sua garrafa e ficar nela até pensarmos em algo. — a menina pegou a garrafa da minha mão — É o único jeito.
— Ah, não, não quero voltar para a garrafa. — eu caminhei até a cadeira e me sentei nela — Vou ficar aqui.
— Por favor, antes que o papai volte. — ela fez uma carinha tão fofa que não consegui recusar o pedido.
— Tudo bem, mas terão que me soltar de novo.
— Prometemos. — assentiu ela esticando a garrafa para mim.

Mesmo contrariada fechei meus olhos estalando os dedos e como fumaça me transportei para a garrafa, ao chegar senti a menina colocando minha garrafa em cima de algo e logo o barulho da porta se fechando. Mais uma vez eu estava sozinha dentro do meu pequeno espaço, porém com a certeza que não ficaria ali dentro por muito tempo.

* POV

Eu estava desconfiado da demora das crianças, eles estavam aprontando alguma coisa tinha certeza, arrumei todas as coisas que preparei sobre a mesa e os chamando novamente, ouvi o telefone tocando. Caminhei até a sala e assim que peguei no telefone as crianças passaram por mim correndo.

— Cuidado ou vão derrubar a casa junto. — disse a eles e colocando o telefone no ouvido — falando.
— Finalmente atendeu. — disse Jonh na outra linha.
— O que você quer? — perguntei estranhando a ligação — Disse que só iria depois do almoço, hoje é sexta e vou aproveitar que meus filhos não tem aula para passar a manhã com eles.
— Infelizmente terei que estragar seus planos. — disse ele num tom sério.
— O que aconteceu? — a preocupação estava surgindo em mim — Qual o problema da vez?
— Então, estamos com um problema na obra da galeria de arte, me parece que o engenheiro estrutural fez um cálculo errado e uma das fundações está comprometida.
— E isso quer dizer que só eu posso resolver? — eu perguntei já ficando nervoso — é o arquiteto responsável, não deveria ser ele?
— Sabe que só está nessa empresa para fazer cena. — retrucou ele — Se não fosse mesmo sério nem te ligava, você sabe disso.
— Tudo bem, vou tentar encontrar alguém para ficar com meus filhos. — eu desliguei o telefone e respirei fundo querendo explodir aquela construtora.

Quando entrei na cozinha meus filhos estavam parados ao lado da mesa me olhando com aquele olhar frequente de decepção e a face triste.

— Nós ouvimos. — disse Jullie.
— O senhor tem mesmo que ir? — perguntou Mike vindo me abraçar — Prometeu que passaria a manhã com a gente.
— Tenho. — eu o olhei tentando manter meu lado racional no controle — Adultos tem algumas responsabilidades que devem cumprir.
— Mas papai…
— Não posso. — interrompi Jullie — Vou ligar para babá de vocês e pedi para ela vir.

Não deixei nem mesmo eles insistirem, eu tinha que ser responsável com meu emprego, infelizmente a sociedade exigia que eu tivesse uma boa renda para manter meus filhos comigo, e meu lado racional sempre vencia. Não era fácil deixá-los com estranhos ou com meus pais, mas era necessário, como a babá demoraria uns vinte minutos para aparecer e eu teria que sair naquele momento, pedi para a vizinha ficar com eles até a babá aparecer.

Assim que me despedi deles, entrei no carro e acelerei até o local da obra, tinha que verificar a situação com os meus próprios olhos. Jonh já estava na frente me esperando, alguns trabalhadores estavam em sua pausa para o descanso, estacionei o carro próximo ao local e me aproximei de Jonh.

— Quem foi o engenheiro que fez esses cálculos errados? — perguntei.
— Donson. — respondei ele — Mas já foi afastado da obra, acho que ele não está em condições psicológicas para o trabalho, seu filho está no hospital.
— Deveriam ter colocado outro no lugar então. — retruquei sua explicação.

Realmente não era desculpa, a construtora contava com dois engenheiros estruturais, o Donson e a Penny, ambos eram ótimos profissionais, apesar do Donson ter mais tempo de carreira. Porém Penny mesmo sendo mais jovem, era muito competente e
sabendo dos problemas de Donson poderia ter entregado esse projeto para ela. Jonh me levou até o local das fundações com problemas e analisamos as trincas que continha nelas, não poderia ser derrubado, pois gastaria mais do orçamento proposto pelo cliente e não poderia ficar com a espessura errada, então teria que ser feito um estudo para encontrar uma solução eficaz e barata.

O lugar seria um anexo da galeria destinado a expor obras de grafite e arte de rua no geral, teria um médio fluxo de pessoas, podendo variar em dias de grandes exposições. Tirei algumas fotos com a ajuda de Jonh e conversei um pouco com o mestre de obras, deixaríamos a parte do anexo parada por um tempo até decidimos o que fazer, enquanto isso todos os trabalhadores focariam no prédio principal da galeria.

— Então Jonh. — parei perto do meu carro — Vamos para a empresa, preciso das cópias desse projeto para rever os cálculos com a Penny e encontrar a solução.
— Sem problemas, ela já está trabalhando nisso, só falta você. — respondeu ele entrando no meu carro — E tem mais.
— Mais o que? — eu entrei e o olhei — Odeio surpresas.
— Daqui dois meses teremos o aniversário da construtora amigo, e adivinha quem vai estar lá?
— Lá vem você. — eu virei minha face para frente e liguei o carro — Já disse que não quero que me arrume nenhuma namorada.
— Yah, e quem falou em namorada, só uma diversão não mata ninguém — ele riu — você está assim há quantos anos? — ele bufou um pouco — Precisa viver de novo amigo.
— Para sofrer de novo. — acelerei o carro rumo a empresa.

Jonh ficou falando em minha cabeça o quanto eu precisava retomar minha vida sexual de novo, acho que ele se preocupava mais do que eu por não ter me envolvido com nenhuma mulher desde a morte de Mary. Se meu corpo precisava de diversão eu até concordava, tinha este lado que me fazia mesmo olhar para algumas mulheres, até mesmo já pensei em chamar Penny para jantar, mas uma parte de mim insistia em dizer que estava traindo minha esposa.

— Penny. — disse ao entrar em sua sala.
— Ah, que bom que chegou, temos muito trabalho para esta manhã. — disse ela ao me olhar, parecia muito tranquila em meio a mais um desafio frequente do trabalho.

Penny era uma mulher muito bonita de cabelos ondulados e loiros, todos os dias ia para a empresa com vestidos básicos de cores sóbrias e um salto que me fazia me perguntar se nunca ficava cansada com eles, suas pernas sempre a mostra e um batom vermelho nos lábios que arrancava olhares de todos os homens da construtora. Até mesmo o senhor Finn, por mais apaixonado por sua esposa já o observei olhando para as pernas de Penny, uma mulher desejável que só fui perceber seu potencial dois anos após a morte de Mary, mesmo assim não me imaginava com ela ainda.

— Já percebi, acabo de chegar da obra. — eu retirei o paletó ficando somente com a camisa azul que tinha colocado para este dia, arregaçando as mangas — Mais um dia em busca de soluções.
— Com certeza. — ela abriu em sua mesa de projetos a prancha estrutural do anexo para analisarmos melhor.

Ficamos um bom tempo trancados em sua sala, Jonh nos ajudou com alguns palpites de várias pesquisa de materiais para ajudar no caso das trincas e rachaduras. Quando eu pensava que não poderia ter mais notícia louca neste dia, notei que meu celular estava no silencioso e tinha muitas ligações perdidas da babá, me preocupei com isso e liguei para o celular dela, a notícia me deixou meio paralisado.

— Como assim você foi dispensada? — perguntei tentando assimilar o que ela tinha falado — Mas de onde meus filhos tiraram outra babá?

“Aumente o volume, apenas aumente
É isso mesmo, vamos lá.”
- Genie / Girls' Generation




Capítulo 3


* POV

Felizmente não precisei ficar esperando por muito tempo, como prometido Jullie abriu minha garrafa novamente e eu pude sair para a luz. Me espreguicei um pouco após voltar a minha forma normal, quando olhei para eles ainda estavam meio espantados com o que viam.

— Então, o que vamos fazer agora? — perguntei a eles ansiosa para me divertir com meus novos amigos, era meio cedo para isso, mas já considerava eles meus amigos.
— Vou te ensinar o que é xbox one. — disse o menino.
— Não Mike. — a menina o olhou — Temos coisas mais sérias para nos preocupar, depois ela te concede um xbox.
— Mas Jullie… — resmungou ele.
— Não se preocupe Mike. — eu sorri para ele — Vou te dar um xbox one, seja lá o que for isso.
— Viva. — ele vibrou com isso como se fosse uma festa.
— Bem, temos que trocar sua roupa, você não pode ficar assim. — disse Jullie.
— E como eu tenho que me vestir? — perguntei a ela, e pensando um pouco estalei os dedos e logo uma roupa romana apareceu em meu corpo — Assim?
— Não. — disse Mike rindo de mim — Você parece mais estranha ainda.
— Não nos vestimos assim hoje em dia. — explicou Jullie — Espere aqui. — ela saiu correndo do quarto.
— Para onde ela foi? — perguntei curiosa, tudo que eu conhecia era aquele quarto que mesmo não sendo tão grande, era maior que minha garrafa.
— Vai saber. — respondeu Mike levantando os ombros de leve.
— Pronto. — disse Jullie ao entrar no quarto com uma coisa estranha na mão.
— O que é isso? — perguntei olhando meio receosa.
— Isso é uma Vogue, uma das melhores revistas de moda do mundo. — explicou ela abrindo a tal revista e olhando as folhas.
— Uah, esse papel é diferente. — disse tocando de leve para sentir, tinha uma espessura fina e meio escorregadia, brilhava conforme a direção da luz, era interessante.
— É o que chamamos de modernidade. — disse Jullie — Acho que você vai ter que aprender muita coisa, mas agora quero que vista essa roupa. — ela apontou para a imagem de uns pedaços de tecido diferentes.
— Tem certeza que isso é o que vestem atualmente? — eu a olhei confusa.
— Sim, e vai combinar muito com você. — afirmou ela com muita segurança.

Eu não poderia fazer nada além de concordar e trocar para a roupa que ela tinha sugerido, afinal não conhecia nada daquele novo mundo que estava fazendo parte. Estalei os dedos e assim uma roupa igual à da revista apareceu no meu corpo, as crianças fizeram um som de surpresa e riram um pouco.

— Isso é tão legal. — disse Mike.
— Eu também acho. — concordei com ele animada, era a primeira vez que eu me identificava com alguém à primeira vista e essas crianças pareciam tão legais.
— Agora você precisa se passar por nossa nova babá. — disse Jullie.
— Como assim? — perguntei — O que é babá?
— Babá é uma pessoa que cuida de criança, nossa babá está vindo para nossa casa, mas não gostamos muito dela. — explicou Jullie.
— É. — concordou Mike — Ela não nos trata bem.
— Ah, como assim? — eu olhei para eles, ambos faziam uma cara de tristeza — Como não gostar de vocês.
— Então, como você não quer ficar na garrafa e não podemos falar para o nosso pai que você é um gênio, poderia se apresentar como nossa nova babá.
— Legal, gostei dessa coisa de babá. — eu me empolguei ainda mais, não iria precisar ficar na garrafa já era legal isso.
— Mas não vai poder fazer nenhum desejo perto do nosso pai e nem virar fumaça, se não ele surta. — Jullie me olhou séria, mesmo sendo criança ela parecia muito adulta para mim.
— Sim, prometo que vou fazer tudo isso. — assenti sorrindo.
— Legal. — Mike sorriu junto e olhou para a irmã, eu vi uma ponta de felicidade em seu olhos.

Logo a campainha tocou e descemos, Jullie iria distrair a velha senhora que estava com eles, enquanto Mike me levava para os fundos da casa. O plano era simples, eu teria que ir para frente da casa e aparecer dizendo que era a nova babá das crianças, não foi tão difícil fazer isso, porém a garota que ficaria com eles não aceitou muito no início e com muita insistência de Jullie, a garota foi embora. A velha senhora deixou as chaves da casa comigo e voltou para sua casa que ficava do outro lado da rua, eu e as crianças seguramos o riso e assim que entramos na casa eles começaram a festejar.

Eu fiquei por um tempo sem entender o porquê de tanta felicidade, mas estava começando a absorver este sentimento e sentir também, era uma sensação boa que nunca tinha tido antes. Eles me levaram por todos os cômodos da casa, explicando tudo sobre a família e sobre como o pai deles gostava de manter a organização da casa, a única parte que senti tristeza na voz deles foi quando me mostraram as fotos da família de disseram que faltava um membro muito importante, a mãe deles havia falecido.

Para quebrar aquele clima, sorri com brilho nos olhos e pedi para Mike me mostrar o que era aquele xbox one de que tanto tinha falado, a face dele logo melhorou e corremos para seu quarto. Tinha vários brinquedos espalhados e a cama estava bagunçada, ele pegou com aquela coisa chamada revista nas mãos, porém era diferente da revista da Jullie, tinha vários desenhos na capa que me deixaram interessada, na explicação dele aqueles desenhos eram de animes que passava na televisão. Eu não sabia o que era anime e nem televisão, mas eles estava tão empolgado e falava tudo tão rápido, Jullie ria do irmão e me explicava com calma tudo que eles falava com tanta euforia.

— Tudo bem, vou te conceber. — eu fechei os olhos e estalei os dedos, quando abri seu xbox one já estava em nossa frente em cima da mesa que eles chamavam de escrivaninha.
— Meu precioso. — disse ele com uma voz esquisita ao abraçar o xbox.
— Pare com isso Mike. — Jullie começou a rir dele — Só não pode deixar o papai ver isso.
— Não vou. — ele pegou o xbox e abriu o grande objeto de madeira que chamavam de guarda-roupas, mas que guardava mais que isso — Papai jamais verá meu precioso.
— Vamos , temos que pensar o que vamos preparar para o almoço, por que o papai certamente virá assim que a antiga babá ligar avisando da mudança.
?! — eu a olhei e apontei para mim — Eu?!
— É, é um apelido que acabei de pensar para você. — assentiu ela tranquilamente.
— E o que é apelido? — perguntei.
— É uma forma de chamarmos uma pessoa que é próxima e que a gente gosta, pode ser um resumo do nome ou algo que combine. — ela sorriu — E como já gostamos de você, vamos te chamar de .
— Tudo bem. — eu sorri de leve — Mas e o que é almoço?

Ela riu um pouco e me explicou que cada refeição do dia tinha um nome diferente, tinha o café da manhã, o brush, o almoço, o café da tarde, o jantar, a ceia e em alguns momentos o coffee break, mas para quem trabalhava. Eu estava admirada com a mente de Jullie, ela era uma garotinha de dez anos que pensava em tudo, esperta e muito inteligente, a observando um pouco pude perceber que tinha os olhos do homem que era seu pai e o sorriso singelo igual o da sua mãe. Deixamos o Mike no quarto brincando e descemos para a cozinha, seria um desafio para mim cozinhar, mas não queria usar magia para isso, então Jullie pegou um livro de receitas que tinha na gaveta da cozinha, era de sua mãe e segundo ela, tinha muitas anotações precisas nele.

— Tem certeza que é assim que se faz? — perguntei em lágrimas enquanto cortava a cebola, parece até que estou triste.
— Sim. — assentiu ela — A cebola nos faz chorar mesmo, mas você está acabando.
— Tudo bem. — eu lavei minha mão e a faca, colocando-a no escorredor de vasilhas e enxuguei minhas lágrimas — E agora.
— Sua voz está engraçada. — ela riu — Tudo por causa da cebola?
— É que aprendi que as lágrimas representam a tristeza, então tenho que ficar triste. — expliquei.
— Não exatamente. — ela riu mais ainda de mim e esticou um papel para que eu enxugasse as demais lágrimas que escorriam — Às vezes nós temos lágrimas de alegria.
— Sério? — aquilo era novidade para mim, eu e minhas irmãs sempre ouvimos que lágrimas são para a tristeza e o sorriso para a alegria.
— Sim.
— Legal, o seu mundo é totalmente diferente do que eu imaginava. — suspirei fraco desviando meu olhar para a cebola.
— Bem, acho que no tempo em que viveu nele foi bem distante desse. — ela caminhou até o armário e abriu ele — Acho que temos molho de tomate pronto, papai ama espaguete.

Eu tentava o máximo decorar essas palavras novas que iam surgindo pelo caminho de nossas conversas, tinha perdido tanto avanço e mudança durante o tempo que fiquei presa em minha garrafa que não queria que Jullie parasse de contar as histórias. Demoramos um pouco para conseguir idealizar nosso espaguete, mas felizmente após três tentativas mal sucedidas, conseguimos fazer algo que ficasse agradável ao paladar. Jullie me deixou na cozinha colocando a mesa e foi buscar Mike no quarto, passou alguns minutos sem que ela retornasse, achei estranho sua demora e fui até a sala.

— Ops. — sussurrei ao ver as crianças sentadas no sofá e aquele homem me olhando meio furioso com os braços cruzados.

“Você definitivamente tem truques
Em algum lugar na sua manga.”
– Magic / Super Junior



Capítulo 4


* POV

Eu estava transbordando de estresse por causa do meu trabalho e ainda tinha esta nova surpresa, assim que a suposta nova babá entrou pela sala senti que seu corpo havia paralisado ao me ver. Fiquei a olhando por um tempo, tinha uma beleza incomum e um olhar tímido, a olhei dos pés à cabeça, trajava roupas leve de aparência confortáveis com um all star e os cabelos presos.

— Quem é você? — perguntei num tom mais forte e rude.
, sou o gê… A nova babá deles. — respondeu ela se atrapalhando nas palavras.
— Ela é a vizinha da rua de trás?  — olhei para minha filha, tinha pela certeza que se houvesse alguma armação a mente por trás de tudo seria dela.
— Sim papai. — ela balançou a cabeça positivamente e olhou para a .
— Muito bem, vou dar este voto de confiança, eu sou o pai deles. — olhei para a garota — , você não tem cara de colegial, quanto anos tem?
— Bem. — ela respirou fundo, parecia ter que pensar na resposta.
— Papai. — Mike desviou meu olhar para ele — O senhor sempre me disse que não podemos perguntar as mulheres sua idade, soa como algo ofensivo.
— Tem razão. — olhei para novamente, ela suspirou como de alívio, eu achava aquilo tudo muito estranho, mas deixaria passar para ver onde iria dar — Bem, espero que eles não tenha te dado nenhum trabalho.
— Ah, não. — ela sorriu de leve e olhou para eles — Seus filhos são tão fofos e cheios de energia.
— É. — eu olhei para eles também — Ás vezes penso que nunca vai acabar tanta energia — brinquei.
— Ah, o almoço está pronto. — disse .
— Almoço? — olhei surpreso, a outra babá nunca cozinhava, sempre comprávamos comida pronta.
— Sim. — Jullie confirmou — sabe cozinhar.
?! — ri de leve, sabia que minha filha só inventava apelidos para pessoas que realmente gostava.

Fomos para a cozinha juntos, eu ainda permaneceria desconfiado por um tempo, mas estava admirado em ver como meus filhos estavam à vontades e alegres perto dela, era estranho, pois após tantas babás eles nunca haviam se apegado em nenhuma delas. tinha algo de especial que conquistou meus filhos e isso me deixava meio curioso sobre quem era ela.

— Hum, está razoável. — disse ao experimentar a primeira garfada, não conseguia mentir quando o assunto era comida — Falta um pouco mais de sal e o macarrão está muito cozido.
— Hum. — ela se virou para Jullie e sussurrando — O que é sal?
— É aquela coisa branca que colocamos pouco no molho. — respondeu Jullie em sussurros também.

Eu fingi não estar ouvindo, mas achei estranho uma pessoa que cozinha não saber o que é sal, era uma pessoa observadora a primeira vista, mas passou todo o almoço de cochichos com Jullie. Era engraçado algumas perguntas que eu ouvia ela fazendo para minha filha, como um adulto pode perguntar para uma criança como era feito o copo de vidro.

— Já que você foi tão legal preparando o almoço. — eu olhei para — Me comprometo em lavar as vasilhas sujas.
— Ah. — ela assentiu fazendo uma cara estranha.
— Vamos , vamos brincar. — Jullie pegou na mão dela e a levou para a sala.

Mike se levantou da mesa de forma meio apressada e correu trás, atitudes meio suspeitas. Juntei todas as vasilhas e valei tranquilamente, parecia uma terapia para mim após uma manhã com minha cabeça fervendo de problemas para resolver. Assim que entrei na sala, vi sentada no chão com Jullie, aparentemente estavam brincando de professora e aluna. Fiquei por um tempo as observando, Jullie parecia mesmo estar ensinando para ela tudo em seu livro de história e o mais impressionante é que estava atenta as palavras de minha filha.

— Vou para o escritório, trabalharei em casa o resto do dia. — avisei para as duas.
— Tudo bem papai, vamos estar aqui brincando. — Jullie assentiu sorrindo para mim.

Eu sorri de volta e me virei, ouvi de leve perguntando onde ficava meu escritório, como as portas ficavam sempre fechadas as crianças até se esqueciam. Mas enfim, meu escritório ficava no porão da casa, era o lugar mais calmo e silencioso em que eu poderia trabalhar tranquilo em meus projeto, um bom espaço para mim e meus diversos papéis e instrumentos de trabalho. Entrei fechando a porta e desci as escadas me espreguiçando, tinha que me preparar psicologicamente para minhas horas de confinamento.

 

* POV

Confesso que ainda tinha receio do pai deles, tinha um rosto muito bonito mesmo, mas com traços sérios e aquele olhar triste que tinha visto mais cedo. Eu e Jullie passamos toda a tarde com ela me ensinando tudo que tinha acontecido na história do mundo e me apresentando as maravilhas da tecnologia. Descobri finalmente o que era televisão e como eu poderia perder horas na sua frente vendo pessoas vivendo suas vidas de várias formas diferentes, acho que o nome disso era filme ou seriado.

— O que foi? — perguntou Jullie me trazendo para realidade.
— Ah. — eu a olhei — Estava aqui pensando, tem certeza que seu pai não vai desconfiar de nada?
— Tenho sim. — ela tombou um pouco a cabeça me olhando — Está com medo dele?
— Sim, seu pai tem uma voz muito grossa e intimidadora.
— Não se preocupe. — ela riu de leve — Meu pai é inofensivo, depois que você acostuma com o jeito dele acaba gostando.
— Verdade?
— Sim, meu papai é o melhor. — ela sorriu espontaneamente.
— Tudo bem. — eu olhei para o velho relógio da família. — Hum já está quase na hora do café da tarde.
— Sim. — concordou ela — Temos que preparar alguma coisa para comer.

Jullie mais uma vez iria me ensinar a mexer em todas aquelas coisas da cozinha que ainda eram meio perigosas ao meu ver. Por um leve momento me lembrei do comentário do pai dela sobre o espaguete, mal sabe ele que aquela era nossa quarta tentativa na cozinha, eu ri de leve com aquele pensamento. Jullie me perguntou o motivo da minha risada e ao contar ela riu junto, era mesmo engraçado eu tentando me virar na cozinha, não imaginava o quanto era complicado fazer aquela coisa chamada café, um simples pozinho que segundo Jullie mantinha todo mundo acordado.

— Curioso. — disse ao olhar a cafeteira coando o café — Ainda me admiro com todos esses equipamentos que você me mostrou, o mundo parece mais fácil agora e divertido também.
— Ainda tem muita coisa para te mostrar, mas aos poucos. — Jullie colocou algumas xícaras na mesa — Você não chegou nem na metade de tudo que precisa saber.
— Admito, perdi séculos de evolução. — mantive meu olhar para a cafeteira concentrada nas gotas caindo — Mas quero aprender tudo, não importa quanto tempo leve.
— Vou me divertir muito te contando tudo. — ela dei um pulo de empolgação — Podíamos ir ao parque amanhã, assim poderia ver mais lugares novos além dos cômodos da minha casa.
— Boa ideia. — eu a olhei — E o que seria esse tal parque?
— Você vai ver quando formos. — Jullie sorriu, havia um brilho em seus olhos.

Minha animação aumentou um pouquinho, existia um mundo bem grande fora da casa deles e eu iria conhecer, enfim a diversão que eu tanto procurava tinha chegado em minha vida. Jullie me aconselhou a levar uma bandeja de café para o pai dela, assim conquistaria ainda mais sua confiança, assenti nem reclamar a sugestão daquele mente brilhante. Ela abriu a porta para mim e desci com cuidado para não derramar nada, estava um pouco escuro perto da escada, mas andando mais para dentro a iluminação já estava melhor e me aproximei da mesa de trabalho dele.

— Olá. — estranhei o fato de ele não estar lá, será que tinha saído sem que víssemos?
— O que está fazendo aqui? — perguntou uma voz grossa vindo de trás de mim.
— Ah. — eu me assustei com aquilo e desequilibrei a bandeja que estava em minha mão.
— Espera. — ele me ajudou a pegar a bandeja, porém a xícara tombou derramando o café, um pouco caiu em uma das folhas que estava em cima da mesa.
— Me desculpa. — disse de imediato torcendo para ele não me xingar.
— Não se preocupe. — ele pegou a bandeja da minha mão — São somente papéis, posso imprimir novamente. — seu olhar era de desaprovação por estar ali.
— Eu pensei que estivesse com fome e trouxe. — disse quase sussurrando, eu me lembrava de como era alguém de olhar com aquele olhar dele.
— Tudo bem. — ele respirou fundo — Vamos lá para cima.

Eu o segui ainda me sentindo chateada por ter derramado o café, assim que chegamos na cozinha, Jullie e Mike já estavam tomando seu café. se sentou à mesa também e tomamos nosso café juntos, enquanto as crianças tomaram leite e eu um suco que existia na geladeira, ele tomou do café que eu tinha feito, sua cara não era de muita aceitação.

— Está um pouco doce e fraco. — disse ele e rindo — Mas vou sobreviver.
— Como assim? — eu olhei para Jullie e ela estava segurando o riso — Quer dizer que está ruim.
— Não. — Jullie respondeu — Mas é que o papai gosta de café forte e sem açúcar.
— Está tudo bem. — ele se levantou — Tenho que voltar para meu trabalho, mas você pode ir depois do café, já que estou em casa não precisa ficar.
— Ir? — eu o olhei meio triste, não queria voltar para minha garrafa tão cedo.
— Pai, deixa ela ficar mais um pouquinho. — pediu Mike — Ela nem brincou comigo, só com a Ju.
— Ela deve ter mais coisas para fazer. — disse ele.
— Não tenho não. — o interrompi.
— Não?! — ele me olhou confuso — Já que não se importa, pode ficar.
— Ela aceitou ir no parque com a gente amanhã. — disse Jullie.
— Parque? — ele olhou para Jullie — Filha, não vamos poder ir ao parque amanhã.
— Mas pai. — ela fez uma carinha tão fofa — Você prometeu que quando voltasse iríamos ao parque todos os sábados.
— Eu posso ir com eles. — disse me comprometendo, nem sabia onde era mas não deixaria eles permanecerem tristes.
— Não quero incomodar. — se virou em direção a porta — Vamos ao parque na próxima semana.

Olhei para eles, tinha uma decepção misturada a frustração no olhar, Mike que estava com o copo de leite na mão colocou na mesa.

— Oh, não fiquem assim. — eu olhei para eles e sorri — Você esqueceram quem eu sou? Gênio pessoal, é só pedir que realizo os desejos.
— Oh, verdade. — Jullie olhou para Mike — Vamos ao parque amanhã.
— Viva! — Mike sorriu animado e se levantou da cadeira e veio me abraçar — Obrigado .
— Não precisa agradecer, vamos nos divertir muito amanhã. 

“Você não está cansado de dias chatos?
Você está enterrado numa vida ordinária?
Pare agora e acorde.”
– Genie / Girls’ Generation




Capítulo 5


* POV

Como previsto por Jullie, havia ficado um bom tempo trancado no porão, nos dando a maior parte da noite para nos divertirmos no quarto sem problemas e interrupções. Assim que ele voltou para o andar de cima, me escondi pelos cantos da casa, queria ver como era realmente a relação que ele tinha com os filhos. Não entendia porque uma pessoa que vivia com duas crianças maravilhosas era tão sério e tão distante, então eu me lembrei do álbum de fotos, será que ele era assim por causa daquela mulher que não estava com eles?

Após o jantar Mike me pediu para voltar para a minha garrafa, mas quanto fomos até o quarto do pai dele não encontramos minha pequena residência, então combinamos que eu iria dormir no quarto de Jullie até encontrarmos. Me escondi dentro do guarda-roupas como de costume para mim, assim seria mais fácil sair quando as luzes forem apagadas. Fiquei um bom tempo esperando até que entrou no quarto com a filha, fiquei observando como eles se interagiam, ele parecia um bom pai, mas ainda um pouco distante dos filhos.

— Jullie, ainda precisamos conversar sobre a nova babá. — disse ele retirando a colcha que cobria a cama.
— O que tem a nova babá? — ela se deitou na cama e ficou olhando o pai a cobrir com um cobertor xadrez alaranjado — Não gostou dela?
— Não é essa a questão filha. — ele sentou ao seu lado, sua face estava mais séria do que o habitual — Eu não conheço essa moça, e fui pego de surpresa pela notícia, se vocês não gostavam da Fellícia deveriam ter me falado.
— Mas o senhor nunca tem tempo para assuntos pequenos. — reclamou ela.
— O bem estar de você e seu irmão não é um assunto pequeno. — ele sorriu de leve — Me preocupo com a segurança de vocês, por isso não fiquei confortável em saber que uma estranha estava em minha casa com meus filhos.
— Ela não é estranha, a é uma pessoa legal, somos amigas agora. — retrucou ela.
— Mas eu não a conhecia Jullie. — ele suspirou forte e desviou seu olhar para o chão — Você é a mais velha conto com você.
— Prometo não fazer mais isso sem falar com você papai. — ela sorriu de leve — E nem vai precisar, é a melhor.

deu um beijo na testa dela e se levantou da cama indo em direção da porta, ele apagou a luz e saiu fechando a porta. Eu estava tão emocionada por ela ter me defendido, e o fato de me considerar sua amiga me deixava ainda mais feliz, Jullie se levantou da cama e veio até o guarda-roupa. Assim que abriu eu sai, ela pegou em minha mão e me levou até sua cama, deitamos lado a lado e ficamos olhando para o teto, o abajur estava ligado e tinha furos em forma de estrelas que deixava o teto iluminado.

— Eu ouvi o que seu pai disse sobre mim, obrigada por ter me defendido. — disse a ela.
— Fiz isso porque é uma pessoa legal, nos conhecemos hoje e já te considero minha amiga.
—Ah. — eu sorri com emoção — É porque você é uma criança muito fofa e eu adoro crianças fofas, e faço amizade bem rápido.
— Não leve as palavras do meu pai a sério, ele tem um bom coração.
— Percebi, mas seu pai me parece ser uma pessoa solitária.
— Ele é assim desde que a mamãe morreu. — senti uma tristeza em sua voz também.
— E como era sua mãe? — perguntei meio curiosa.
— Não me lembro muito, tinha cinco anos quando ela se foi. — ela fez uma pausa e respirou fundo — Não falamos sobre esse assunto também, nosso pai costuma ficar ainda mais triste.
— Ah. — eu me virei para ela — Então não vamos falar sobre coisas tristes, amanhã vamos ao parque.
— Sim. — ela se virou para mim com um sorriso aberto e esperançoso — Agora que conhecemos você, poderemos nos divertir mais.
— Sim, estou ansiosa por isso.

Nossa noite foi tranquila e passou bem devagar, logo pela manhã estávamos dispostas e animadas para nossa manhã no parque. Eu teria que ficar me escondendo pelos cantos da casa para que não me visse, seria fácil já que já estava trancado em seu escritório no porão. O plano de Jullie para sairmos sem sermos visto era bem simples, eu iria criar uma falsa ilusão deles para quando fosse procurar seus filhos não se deparasse com o sumiço deles. Assim teríamos todo o tempo que quiséssemos para ir ao parque, as crianças me ajudaram a arrumar a cesta com comidas que gostavam e a toalha de mesa.

Com todo aquele planejamento pude perceber que Jullie era uma criança extremamente organizada e criativa, era admirável ver como uma pessoinha de apenas dez anos me surpreendia com tanta imaginação. Ela pegou um pequeno mapa da cidade e me mostrou, um ponto em que pudéssemos aparecer sem sermos visto, assim eu segurei na mãos deles e todos fechamos os olhos. Em segundos aparecemos dentro do banheiro de uma cafeteria que ficava em frente ao parque, algumas pessoas que estavam nessa cafeteria acharam estranho nossa presença, mas agimos naturalmente e fomos ao nosso destino final.

Fiquei maravilhada com a paisagem, de nome Central Park cheio de árvores e com muitas pessoas, nós escolhemos um lugar que tinha sombra e estendemos a toalha de mesa, assim começaríamos o piquenique sugerido por Mike. Olhei dentro da cesta e tinha vários pacotes de biscoito e salgadinhos além das latinhas de suco, para minha primeira vez estava muito bom. Comemos alguns pacotes de biscoito para começar, Jullie se encostou na árvore e pegando o livro que tinha levado começou a ler, não queria ficar olhando ela ler nada, eu queria me movimentar, então Mike sugeriu caminharmos pelo parque para procurar uma coisa chamada Pokémon. Fiquei curiosa com essa caçada e quando entendi como funcionava o jogo me animei ainda mais, memorizei em minha memória onde estava nossa árvore com Jullie e seguimos por toda a extensão do lugar.

— Uau, essa coisinha é mesmo divertida. — eu olhei para a tela do smartphone dele — Como aprendeu a jogar?
— O irmão do meu amigo é gamer, ele me ensinou muitos jogos, depois posso te ensinar também. — respondeu ele pegando o aparelho da minha mão e guardando no bolso — O papai não gostou muito da ideia de termos celulares, então deu essa para Jullie, assim poderia falar conosco a qualquer hora do dia e em qualquer lugar quando viajava.
— Seu pai viaja muito? — perguntei olhando para o lago que estava próximo de nós.
— Depende, da última vez ele ficou dois meses fora. — ele caminhou na minha frente — Foi na quinta de manhã que ele chegou e trouxe você.
— Verdade. — só naquele momento que eu me lembrei que o pai dele é que estava com minha garrafa — Gostaria de saber como o pai de vocês achou minha casa.
— Ele viajou para Los Angeles, talvez tenha encontrado sua garrafa lá. — comentou ele.
— O que é Los Angeles? — perguntei meio curiosa, era um nome engraçado.
— É uma cidade muito famosa e fica do outro lado do nosso país. — ele me olhou — Nós moramos na cidade de New York.
— Ah, acho que Jullie me explicou um pouco sobre isso ontem. — sibilei um pouco tentando me lembrar de tudo que Jullie tinha me explicado sobre a nova geografia do mundo moderno.

Comecei a ficar cansada pela caminhada e Mike com fome novamente, então voltamos para nossa árvore cativa, quando chegamos tinha um senhor de cabelos brancos conversando com Jullie.

— Bom dia, posso ajudar? — perguntei a ele ao me aproximar.
— Viu, eu disse que não estava sozinha aqui. — disse Jullie ao segurar em minha mão — , ele é um vizinho nosso.
— Ah. — eu olhei para ela — E estamos com problema?
— Sim, ele pode contar ao papai que nos viu aqui. — explicou ela.
— Então não teremos mais problemas. — eu sorri e soltando a mão de Mike de leve, coloquei em meu bolso e tirando um pozinho brilhante soprei no rosto dele — Pronto, assim que ele sair do parque irá se esquecer que nos viu e não dirá a ninguém.
— Ah? — disse o senhor.
— Senhor Brum, aceita comer com a gente? — perguntou Mike — Podemos jogar bola depois.
— Claro. — respondeu o senhor olhando para ele de forma gentil.

O tal senhor Brum realmente parecia uma boa pessoa, descobri que ele era marido da vizinha que estava com eles na manhã de ontem e que estava dando umas voltas no parque até a hora do almoço. Finalizamos o restante dos pacotes de biscoito, mas eu e Mike ainda sentíamos fome, então o senhor Brum nos deu a ideia de comer uma coisa louca chamada hot-dog. Fiquei intrigada no início, porque uma pessoa comeria um cachorro? Mas me surpreendi quando compramos em uma barraquinha na porta do parque, era tão gostoso que parecia um manjar.

— Ah, estou tão cheia. — disse assim que voltamos para casa.
— Eu também. — Mike se jogou no sofá colocando a mão na barriga — Acho que nem vou almoçar.
— Você comeram muito mesmo. — Jullie olhou para o corredor que dava para a cozinha, e olhou para mim — Ouço um barulho, deve ser o papai.
Eu corri e me abaixei atrás do sofá com a cesta do piquenique na mão, respirei fundo me mantendo calma e silenciosa.
— Ah, aí está vocês. — a voz de estava mais suave, era novidade para mim — Já ia chamar para o almoço, pensei que não sairiam mais do quarto.
— Almoço? — Mike parecia com uma voz desanimadora.
— Mike comeu muito biscoito do café da manhã. — explicou Jullie — Mas eu vou almoçar.
— Hum. — era um tom de desconfiança, aquilo não era novidade — Mesmo assim, vai nos fazer companhia.
— Claro papai. — senti Mike se levantando do sofá e vários passos saindo da sala.

Levantei minha cabeça devagar, eles já tinham ido para a cozinha, dei um suspiro de alívio e subi as escadas, tinha um problema para resolver. Onde estava minha garrafa? Era uma questão para se resolver, não procuraria no quarto das crianças, pois se estivesse com eles eu saberia. O lugar onde havia deixado ela era no quarto de , então era lá que eu procuraria, revirei todos os cantos, sempre deixando tudo em ordem novamente e nada de encontrar minha garrafa. Era muito bom ficar ao ar livre, mas sentia falta das minhas coisas, era pequena e às vezes solitária, mas era minha casa, uma casa que eu estava a séculos.

Nossa manhã foi alegre e divertida, então nossa tarde seria assim também, mesmo com em casa, não deixaríamos de nos divertir. Mike sugeriu vermos um desenho que combinava muito comigo, finalmente conheci o tal Aladim e seu gênio, achei divertido ver como um garoto pobre conquistou uma princesa. Uma história linda que me fazia lembrar do primeiro humano e até então o único, que abriu minha garrafa e me libertou, não foi tão divertido assim ter sido o gênio pessoal dele nos tempos da Grécia Antiga.

Foram horas de desenhos e grandes baldes de uma delícia da gastronomia chamada pipoca, conhece todos os clássicos de uma pessoa chamada Disney, era pessoa mesmo? Bem, não me lembro ao certo, mas chorei horrores quando a mãe do Bambi morreu e aquele leão maravilhoso chamado Mufasa, meu coração se rasgou. Foi emocionante nossa tarde, até eu ter que me esconder no quarto de Jullie novamente, resolveu passar algumas horas com seus filhos, era bonito ver eles juntos.

 

“Mesmo que seu coração exploda
E voe pelo vento
Nesse momento o mundo é seu.”
– Genie / Girls’ Generation



Capítulo 6


* POV

Já tinha se passado uma semana que tinha voltado da última viagem, estava sentindo algo errado acontecendo em minha volta em casa, meus filhos agindo de forma estranha rindo sozinhos com olhares suspeitos de um para o outro e respostas enigmáticas. Tinha que admitir que desde que a nova babá começou a passar as tardes com eles, andam se divertindo mais, não me parecia uma pessoa muito responsável, mas já tinha observado a forma doce de como olhava para meus filhos. Seu olhar me lembrava o de Mary, tirando ela ser um desastre tentando cozinha, se parecia muito com minha falecida esposa, espontânea e sempre alegre.

— Então finalmente conseguimos encontrar uma solução para aquelas rachaduras. — disse Penny ao guardar as pranchas do projeto no tubo.
— Ah, sim. — suspirei com certo alívio — Felizmente menos um problema para nos preocuparmos.
— Você almoçou hoje? — perguntou ela.
— Hum, acho que sim. — eu ri meio sem jeito — Jonh ocupou minha sala pouco antes do almoço e ligou para o serviço de entregas.
— Ah, tem um restaurante novo que abriu aqui perto, estava pensando em reunir todo mundo para ir lá experimentar algum dia. — disse ela de forma coletiva, mas percebi que estava querendo dizer nós dois.
— Seria legal juntarmos todos. — concordei meio sem jeito desviando meu olhar dela para a janela.

Penny tinha um charme que me atraia um pouco, e sempre demonstrava sinais de interesse por mim, seria interessante sairmos juntos algum dia.

— Mas. — eu ainda estava pensando se realmente iria ou não seguir os conselhos loucos de Jonh e me relacionar com alguma mulher — Poderíamos almoçar lá na segunda, só nós dois, assim se for ruim a comida escolhemos outro lugar para levar os outros.
— Nossa, ótima ideia. — ela sorriu demonstrando satisfação — Já que segunda vamos visitar a obra para apresentar nossa solução.
— Então combinado.

Eu peguei algumas folhas com minhas anotações e voltei para minha sala, talvez devesse mesmo dar uma chance para alguém entrar em minha vida. Conhecia Penny há mais de dois anos ela sempre demonstrou estar interessada em mim, então não teria problemas se caso eu investisse de alguma forma e me aproximasse mais dela.

. — disse Jonh ao entrar na minha sala — Está pronto?
— Pronto para o que? — perguntei sem entender a animação dele.
— Para nossa noitada. — ele riu pegando as chaves do meu carro que estava em cima da minha mesa — Acha mesmo que vou deixar você voltar para casa agora? São somente sete da noite.
— Eu tenho dois filhos que estão me esperando e não posso abusar da boa vontade da babá deles.
— Não foi você mesmo que disse que ela até gosta de ficar até mais tarde com eles?  ele me olhou tranquilamente — E por falar em babá, você mencionou que ela não era uma colegial, ela é bonita?
— Fiquei longe da minha babá, seu tarado. — peguei meu paletó e o olhei — Não vai mesmo de dar as chaves?
— Não, eu dirijo e vamos ao um lugar bem legal.

Nada que eu dissesse faria Jonh mudar de ideia e me deixar em paz, então assenti e o acompanhei em sua louca obsessão por diversão noturna. O lugar era bem agitado e tinha um repertório muito bom quanto a músicas, assim que sentamos no banco em frente ao espaço do bar. Jonh nos pediu duas bebidas, passamos algumas horas olhando todo aquele movimento, eu não sabia o que estava fazendo ali, acho que estávamos esperando duas amigas de Jonh, que chegaram um pouco atrasadas, elas se aproximaram de nós cumprimentando com abraços como se fossemos íntimos, eu desfacei minha falta de interesse na ruiva que puxou assunto, me esforcei um pouco para prestar atenção no que ela falava naqueles minutos de que passaram, mas meus pensamentos estavam em minha casa.

— Mas então você é casado. — disse ela olhando para minha mão — Jonh me disse que estava sozinho.
— Ah, bem. — eu olhei para a aliança em meu dedo —  Eu sou viúvo, não consegui tirar a aliança ainda.
— Hum. — ela segurou minha mão tocando na aliança — E você tem filho?
— Sim. — eu desviei meu olhar para o barman e afastei minha mão dela para pegar o copo.
— Homem calado. — comentou ela — Gosta de dançar?
— Não. — respondi rapidamente.
— Mas é claro que gosta. — disse Jonh voltando sua atenção para nossa conversa — era um festeiro nos tempos da universidade.
— Jonh, por favor. — eu olhei para meu amigo — Pare de dizer essas coisas.
— Então vamos dançar. — a ruiva me pegou pela mão me puxando para o meio da pista.

Me senti um pouco desconfortável ali no meio, a mulher dançava de forma sinuosa para mim, seu corpo era atraente e sentia sinais vindo de mim que poderia corresponder, mas quanto mais pensava em levar ela para um canto privado, mais a imagem dos meus filhos invadia a minha mente. No impulso me afastei dela indo em direção a saída, ouvi Jonh gritando meu nome no meio das pessoas, deixei meu amigo para trás e fui em direção ao meu carro, olhei para o relógio já marcava onze da noite.
Assustado com a hora entrei no carro, minha sorte era não ter tomado a bebida que Jonh pediu para mim, dirigi em segurança até minha casa. Ao entrar estava tudo em ordem a primeira vista, olhei para a direção do sofá e fiquei por um tempo admirando a cena, meus filhos estavam dormindo juntamente com entre eles. Peguei o controle e desliguei a televisão, o sono deles parecia tão bom que resolvi não acordar ninguém, primeiro levei Mike no colo para seu quarto e depois levei Jullie, passei em meu quarto peguei uma manta quente e leve e desci as escadas novamente.

Me aproximei devagar para não acordar e a cobri com a manta, sua face estava tão suave que de uma forma louca me passava tranquilidade, percebi que ela sorria ao dormi, e de forma automática sorri junto. Pela primeira vez estava feliz por ter encontrado uma pessoa que fazia o dia dos meus filhos mais alegre, após a morte de Mary.

 

* POV

Assim que subiu as escadas eu abri meus olhos, um sorriso leve apareceu em minha face, era novidade para mim aquele seu lado acolhedor, Jullie tinha mesmo razão, após um tempo eu passaria a gostar dele, e acho que já estava acontecendo. Suspirei um pouco e olhei para a televisão, me senti sem sono realmente estava, senti falta da minha casa e só conseguia dormir bem dentro dela. Me levantei do sofá, como estava mesmo com insônia, iria ocupar aquele tempo procurando minha garrafa, as horas se passaram e o dia clareou, o único lugar que não tinha olhado era o porão.

A maior regra de era ninguém entrar em seu escritório, e eu iria violar ela para procurar minha casa. Como a porta estava trancada, passei pela fechadura em forma de fumaça, desci as escadas com cuidado para não escorregar e cair, estava escuro. Assim que cheguei comecei a olhar em minha volta, em todos os cantos e finalmente encontrei o tanto procurava, minha garrafa estava em uma prateleira.

A peguei e abracei automaticamente, estava aliviada por ter encontrado minha casa linda, voltei para sala tranquilamente senti uma tontura de repente, acho que estava mesmo cansada e precisava de um banho relaxante. Destampei minha garrafa e entrei dentro dela, eu ficaria por alguns minutos dentro, mas após encher minha banheira e entrar dentro, não consegui pensar em mais nada e acabei pegando no sono ali mesmo. Parecia que tinha levado dias dormindo dentro daquela banheira, mas o que importava era meu corpo descansado, senti um leve balançar em minha casa, não dei muita importância.
Saí da banheira e me enrolei na toalha, foi neste momento que me senti estranha e tudo ficou repleto de fumaça novamente.

 

* POV

Minha noite de sono havia sido tranquila, acordei bem antes das crianças e desci para a sala, tinha que me certificar que estava bem, ou se já tinha ido embora. Ela não estava mais na sala, fiquei impressionado em pensar que acordava cedo, desviei meu olhar para a mesa e vi a garrafa estranha em cima.

— Que louco, eu jurava que tinha te colocado no porão. — disse comigo mesmo pegando a garrafa — Vou levar você comigo lá para cima, ainda preciso saber sua origem.

Voltei para meu quarto e fechei a porta, deixei a garrafa em cima da cadeira que ficava em frente a escrivaninha. Tomei uma ducha rápida e fria para acordar meu corpo, me sequei de leve e enrolei a toalha na cintura, saí do banheiro secando o meu cabelo com a outra toalha. Sem perceber agi de forma automática e joguei a toalha que sequei o cabelo na cadeira, seu impacto fez com que a garrafa caísse no chão, olhei na direção e uma fumaça começou a sair. Era estranho tudo aquilo e mais estranho ainda o que aconteceu depois, em um piscar de olhos aquela fumaça se transformou em uma pessoa, e essa pessoa era .

— Ahhhhhhhh!!!! — gritamos juntos.

Assim como eu, ela estava enrolada em uma toalha de banho se encolhendo toda, aquilo era surreal e ao mesmo tempo perturbador, como podia a babá dos meus filhos sair de uma garrafa como fumaça?

“Imagine a mulher ideal em sua mente
E olhe para mim
Sou seu gênio, seu sonho, seu gênio.”
– Genie / Girls’ Generation




Capítulo 7


* POV

Minha cabeça estava girando com tudo aquilo que estava acontecendo, mesmo assustados um com outro, e eu nos viramos para que pudéssemos nos trocar. Assim que meus filhos acordaram, os coloquei sentados no sofá juntamente com ela, assim em poucos minutos eles me contaram o maior absurdo do mundo, era um gênio pessoal, um gênio daqueles que concede mais de três desejos. Se eu não tivesse visto ela saindo daquela garrafa e fazendo uma xícara de café aparecer bem na minha frente, certamente jamais acreditaria naquela história.

— Então papai, ela pode ficar com a gente? — perguntou Jullie.
— Minha filha, eu não sei. — olhei para , ela de cabeça abaixada — Ela não pode ficar.
— Eu não tenho para onde ir. — ela levantou sua cabeça e me olhou triste — Não conheço ninguém além de vocês, passei toda a minha vida dentro dessa garrafa sozinha.
— Viu pai. — Mike me olhou — Ela só tem a gente, por favor deixa ela ficar.
— Por favor! — acrescentou Jullie com os brilhando de esperança.

Eu não sabia o que fazer diante daquela situação, mas olhar para a cara dos três me fazia me sentir um monstro se não permitisse, então assenti que ficasse em nossa casa por um tempo. Eles se abraçaram com alegria e me agradeceu, ela prometeu que iria ser a melhor babá do mundo e que não iria me decepcionar, quanto a isso eu não tinha dúvidas, só o brilho que estava nos olhos dos meus filhos comprovava o quanto eles gostavam dela.

Daqui para frente seria complicado para mim me acostumar a viver em uma casa com uma mulher, apesar de ser um gênio como sempre repetia, era uma mulher. Meio atrapalhada na cozinha, engraçada e falante com as crianças, de olhar sincero e sorriso gentil, acho que sim, eu conseguiria me acostumar com a presença dela por um tempo.

* POV

Para nossa surpresa, no domingo pela manhã nos levou ao Central Park para um piquenique em família, inocente, nem sabia que tínhamos ido na semana passada. Não era tão estranho assim fazer as coisas com a presença dele, mas evitava um pouco realizar meus truques para que se sentisse mais confortável perto de mim. Jullie e eu preparamos sanduíches para levar, ficaram um pouco estranhos, mas tinham um gosto muito bom segundo Mike.

— Acho que você ainda tem muita coisa pra aprender. — comentou segurando o riso, após comer um sanduíche.
— Ficou ruim, não ficou? — o olhei fazendo uma careta simples e engraçada, fazendo ele rir.
— Ficou estranho. — ele olhou para o sanduíche — Mas com o tempo e prática, você acerta da próxima vez.
— Bem, ainda não tenho muita afinidade com a cozinha. — admiti desviando meu olhar para as crianças que estavam correndo pelo gramado do parque — Mas Jullie tem me ensinado muitas coisas.
— Imagino. — ele riu de leve dando um suspiro fraco — Jullie consegue ser muito madura para a idade.
— Sim. — eu o olhei com empolgação — Ela é tão inteligente e cheia de criatividade, as vezes não consigo acompanhar seu raciocínio, ainda mais quando está me ensinando a usar essas coisas da tecnologia.
— Obrigado. — disse ele desviando seu olhar para mim, havia uma sinceridade incomum misturada a frustração em seu olhar.
— Por que está me agradecendo? — perguntei curiosa.
— Por trazer mais sorrisos para a vida deles.

Respirei fundo, seu olhar de gratidão e a resposta havia me deixado sem palavras, mas feliz por estar fazendo bem a eles. Segurei um pouco a meus sentimentos, acho que estava ficando emocionada por aquilo, desviei meu olhar novamente para as crianças e me levantei.

— Uah, eu também quero brincar. — disse correndo até eles.
— Mas ainda não te ensinamos nada sobre futebol. — disse Mike com uma cara confusa, deixando a bola rolar pela grama.
— Então é uma ótima oportunidade para isso. — parou a bola com o pé direito e sorriu de leve — Que tal, meninos contra meninas?
— Desafio aceito. — disse Jullie ao olhar para mim sorrindo — , você só precisa roubar a bola deles e fazer gol.
— Fazer gol? — estava mais confusa ainda.
— Eu te mostro. — Jullie riu um pouco.

Nossa brincadeira foi um pouco longa e atrapalhada, com algumas quedas e tropeços de minha parte que fazia eles rirem da minha cara, porém no final todos nos divertimos muito. Em alguns momentos eu me paralisava ao olhar para os sorrisos e risos espontâneos de , me perguntava se ele era alegre assim quando ainda tinha a esposa. Na hora do almoço nos levou a um restaurante de comida caseira de um amigo de infância, quando entramos esse amigo ficou um pouco espantado ao me ver com eles. Talvez por nunca ter visto com uma mulher após a morte de sua esposa, segundo sua explicação, mas tudo foi esclarecido quando de forma inocente eu disse que era a babá das crianças.

— Ufa. — disse respirando fundo ao sentar na cadeira — Por um momento pensei que diria que era nossa...
— Não se preocupe. — eu ri o interrompendo — Jamais assumiria sem sua permissão.
— Seria engraçado se ela tivesse dito, ele não acreditaria. — Jullie riu um pouco — E ainda pensaria que estávamos brincando.
— Verdade. — concordou Mike.
— Você querem brincar com a cara das pessoas? — os olhou.
— Seria engraçado papai. — respondeu Jullie.
— Posso fazer uma pergunta? — disse ainda intrigada com algumas palavras daquele amigo de .
— Diga. — assentiu ele pegando o copo com água para tomar.
— O que é namorada? — perguntei inocentemente.

quase engastou com o gole que estava tomando, e após tossir um pouco ele respirou fundo e me olhou sem reação, as crianças riram um pouco da reação deles.

— Não é nada, esqueça essa palavra. — desconverso ele pegando o cardápio e o abrindo.
— Depois eu te explico. — sussurrou Jullie para mim.
— Hum. — manteve sua atenção no cardápio — Que me ajudarem a escolher o que vamos comer.

A tarde passou e quando voltamos para casa, já estava de noite, havia sido um dia muito produtivo e cheio de diversão. Dentro do carro de estávamos aos risos, por causa de algumas piadas que Mike tinha aprendido na escola com seus amigos, e estava nos contando pelo caminho. Assim que estacionou seu carro em frente à garagem da casa e descemos, as crianças correram na frente, eu o ajudei a retirar a cesta do porta-malas.

— Foi um dia divertido. — comentou ele fechando o porta-malas.
— Sim, eles ficaram muito mais agitados com tudo que fizeram hoje. — sorri de leve o acompanhando até a porta — Tenho certeza que quando forem dormir, irão apagar de vez.
— Sim. — assentiu ele.

Ao entrarmos em casa, caminhei para a cozinha para guardar as sobras que ainda estavam na cesta, me ajudou explicando um pouco mais onde ficava cada coisa naquele ambiente. Ao olhar dentro de todos os armários, ele constatou que teria que fazer compras novamente, então me pediu para ajudá-lo a fazer uma lista, iríamos ao supermercado na manhã de domingo.

— O que estão fazendo? — perguntou Jullie ao aparecer na cozinha alguns minutos depois já de banho tomado e vestida com seu pijama.
— Acho que uma lista. — respondi enquanto escrevia o que ele havia acabado de me dizer.
— E meu pai vai entender isso? — perguntou ela pegando o papel fazendo uma careta enquanto tentava ler — O que está escrito aqui?
— Deixe-me ver. — disse pegando o papel enquanto ria, logo o seu sorriso desapareceu dando lugar a uma expressão estática em sua face.
— Desculpa, eu só sei escrever em grego antigo. — expliquei meio sem graça.
— Acho que será mais uma coisa a aprender. — Jullie riu um pouco — Ainda me pergunto como você nos entende e fala nosso idioma.
— Tenho um ótimo senso de adaptação. — expliquei rapidamente, desviei meu olhar para novamente e ele ainda mantinha seus olhos na folha tentando entender.
— Ainda preciso me acostumar com isso. — ele entregou a lista para mim — Jullie ajude ela a reescrever a lista, acho que é somente isso.

Ficamos por um tempo em silêncio olhando ele sair da cozinha, então começamos a rir sem motivo algum. Respirei fundo e olhei para Jullie, eu tinha muito mesmo o que aprender sobre tudo naquele mundo novo. Eu fui ditando para ela todos os elementos da lista, enquanto ela escrevia no idioma deles, demoramos um pouco, pois a cada item da lista havia uma pausa a mais para algumas explicações dela de questionamentos de minha parte.

Assim que saímos da cozinha e fomos para sala, encontramos Mike vendo desenho na tv, Jullie se afastou de mim e se sentou ao lado dele já perguntando o que estava assistindo, acho que era um desenho chamado Divertida Mente, acho que era isso mesmo. Fiquei alguns instantes olhando para a tv, ainda me admirava com toda aquela riqueza nos detalhes dos desenhos e como era lindo as histórias criadas por essa tal Disney. Suspirei de leve e desviei meu olhar para a escada, ainda estava segurando a lista, resolvi subir as escadas e entregar .

Entrei no seu quarto tranquilamente fechando a porta, quando me virei ele estava parado em frente o guarda-roupas, me olhando sério de braços com uma toalha enrolada na cintura. Senti um frio na barriga, sua expressão parecia mais séria que o normal, estava com medo dele me xingar ao algo do tipo.

— Oi. — disse me encolhendo.
— Você deveria ter batido. — ele descruzou os braços e caminhou até mim.
— Desculpa, é que... — eu nem sabia que desculpa iria dar, só conseguia manter meu olhar a linha de seu abdômen, acho que só uma vez tinha visto meu outro mestre em poucos trajes.
Ele desviou seu olhar para minha mão vendo a lista, e respirando fundo se aproximou um pouco mais de mim e pegando a lista de minha mão, abriu a porta e me empurrou para fora.

— Outra regra, nunca mais entre no meu quarto sem bater. — ele fechou a porta com força, me fazendo arrepiar.
— Mas... — suspirei fraco, ele era mesmo mal-humorado quando não estava sorrindo.

Caminhei até o quarto de Jullie, precisava de um banho e lá seria o lugar onde minha garrafa iria ficar, bem na mesa de canto ao lado da cama dela. Fechei meus olhos e em um estalar de dedos me transformei em uma fumaça entrando na minha garrafa, eu já me sentia bem mais confortável, afinal podia entrar e sair sempre que quisesse. Era um alívio saber que não seria mais trancada em minha própria casa, ainda mais convivendo com aquelas crianças.

Após o meu banho relaxante coloquei um pijama de estampa floral, parecido com o que tinha visto em uma revista da Jullie, me espreguicei um pouco e saí da garrafa, parando em frente à janela. No instante em que me virei, Jullie e entraram no quarto, ela estava pedindo para ficar mais um pouco acordada.

— Papai, não estou com sono agora. — reclamou ela vendo ele já retirar a colcha da cama.
— Mas deve ir dormir, sua pilha ainda não acabou mocinha? — brincou ele rindo.
— Mas... — ela olhou para mim — Me ajuda .
— Hum?! — eu a olhei sem saber como poderia ajuda-la, permaneci em silêncio.
— Não adianta. — sorriu de canto — Está na hora de dormir, amanhã você brinca mais.
— Eu faço ela dormir. — disse com um pouco de coragem que tinha juntado.
— Sério? — disse ambos juntos como se duvidassem de mim.
— Sou um gênio pessoal, lembram? — sorri de leve.
— Às vezes me esqueço disso. — ele se dirigiu para a porta — Nada de conversas demoradas, conheço as duas, está na hora de dormir.

Eu e Jullie ficamos nos olhando como duas cumplices de um crime, e rimos logos após ele sair do quarto, mas de fato eu realmente a fiz dormir. Assim que deitamos em sua cama eu comecei a cantar para ela, acariciando seus cabelos, aquilo me lembrava muito meus momentos de afeto com minhas irmãs.

 

“Eu respirei fundo de repente
Quando eu ouvi sua voz
Não importa o quão longe estivermos um do outro,
Se fechar meus olhos,
Veja, nossos corações estão conectados”
- All My Love Is For You / Girls' Generation



Capítulo 8


* POV

Permaneci atrás da porta por um tempo, queria ter a certeza de que ambas iriam mesmo dormir, foi quando aos poucos a voz doce de começou a surgir, eu não entendia certamente o que ela estava cantando, mas conseguia sentir a suavidade em sua voz. Por um momento havia me esquecido de tudo ao meu redor e me lembrado de Mary, minha amada esposa sempre cantava para as crianças antes delas dormirem. Senti uma lágrima cair do meu olho direito, acho que estava ali mais do que o suficiente.

— Ah Mary, você me faz tanta falta. — suspirei fraco ao entrar em meu quarto fechando a porta.

Ela realmente me fazia muita falta, ainda me lembrava do dia em que nos conhecemos, um breve lual na praia da Califórnia que eu nem queria participar, aquele encontro casual após alguns minutos de frustração vendo com minha ex namorada Charlot. Eu iria agradecer meu amigo John por sua insistência para sempre, mesmo hoje não tendo Mary ao meu lado, sinto que faria tudo de novo e a convidaria para um passeio pela orla da praia.

Me joguei na cama e fechei os olhos, deixaria aquela noite passar como ela quisesse, caí no sono no meio da madrugada e logo ao clarear o dia acordei com o despertador apitando ao lado da cama. Como todos os dias queria jogar ele na parede, mas um bom pai acorda cedo para preparar café para seus filhos, me levantei da cama espreguiçando um pouco. Desci as escadas ainda um pouco sonolento e segui para a cozinha, quando entrei senti meu coração parar, minha reação estática ao ver alguns pratos voarem do armário até a mesa. Desviei meu olhar para a geladeira que se abria sozinha, fechei meus olhos pensando ainda estar dormindo e belisquei meu braço direito, estava sim acordado e as coisas estavam sim acontecendo.

— Oh, bom dia. — disse uma voz animada vindo de trás de mim.
— Bom... — eu abri os olhos e desviei meu olhar da caixa de leite que se movia até a mesa, para ela — O que está acontecendo com minha... Eu não estou bem. — segurei no marco da porta tentando me manter de pé.
— Oh, o que está sentindo? — ela me olhou preocupada segurando em minha mão — Acho que ainda não está acostumado com tudo isso.

Ela olhou para as coisas que flutuavam e estalou os dedos da mão esquerda para que parassem, assim tudo se acomodou em seu lugar e a porta da geladeira se fechou. Eu realmente ainda não estava acostumado e nem preparado para ver aquilo acontecendo em minha cozinha.

— Me desculpe. — disse ela meio sem graça.
— Não precisa... — respirei fundo e olhei para ela tentando ser um pouco gentil, apesar de não conseguir — Está tudo em ordem agora, só não faça mais isso que você fez.
— É que eu ainda não me acostumei com tudo. — explicou ela.
— Bem, acho que você poderia acordar as crianças, vamos ao supermercado após o café.
— Tudo bem. — logo um sorriso se abriu em seus lábios e ela se animou novamente, me fazendo dar um sorriso mais discreto.

Eu ri um pouco vendo ela saltitar até a escada e subir cantarolando, era uma mulher com a inocência de uma criança, aquilo a fazia se tornar fascinante aos meus olhos. Assim que eles desceram, tomamos o café juntos e Jullie me ajudou a organizar a cozinha depois, enquanto isso e Mike subiram para o quarto, após trocarmos de roupa entramos no carro e seguimos para o supermercado.

Ao entrar olhei para , seus olhos estavam brilhando como de uma criança, logo Jullie e Mike pegaram ela pela mão e saíram pelos corredores, certamente seria mais um momento de aprendizado para ela. Sorri de leve ao vê-los empolgados, peguei um carrinho e com a lista na mão, entrei no primeiro corredor, foram minutos sozinho até eles se aproximarem de mim novamente.

— Uau, é tudo tão impressionante. — me olhou — Sabia que existe uma coisa maravilhosa chamada chocolate?
— Sim. — eu ri de leve com o forma dela falar, como se fosse a descoberta do século — Vocês deram chocolate para ela? — perguntei desviando meu olhar para Jullie.
— Nós não, tem uma moço fazendo demonstração no corredor dos biscoitos, então nós experimentamos. — explicou Jullie com seu sorriso de menina inocente.
— Hum. — olhei novamente para lista, ainda faltava quatro itens.
— E para onde vamos depois daqui? — perguntou .
— Vamos para casa. — respondi.

Senti um breve silêncio vindo deles e ao olhar para a cara de cada um, vi uma certa decepção. Seria uma maldade de minha parte, mas eles teriam que se divertir em nossa casa mesmo, logo olhou para Jullie e piscou disfarçadamente, aquilo era certamente alguma armação de ambas para planejar um dia cheio de aventura mesmo não podendo sair de casa.

Assim que voltamos para casa, se ofereceu para guardar as compras com a ajuda de Jullie e Mike, olhei para eles meio desconfiado e alertei que não queria nada voando no meio da cozinha. Mas assenti sem problemas que pudessem brincar um pouco no jardim, sorri de leve com a festa que fizeram e me dirigi para o porão, passaria algumas horas analisando os relatórios que me enviaram da obra atrasada de Los Angeles.

 

* POV

Eu realmente tinha um fraco para regras e adorava quebrar elas, assim que se trancou em seu escritório, estalei os dedos e as compras começaram a sair das sacolas e flutuar pela cozinha, Mike se empolgou um pouco e começou a cantarolar uma das canções que havíamos ouvido em um desenho da Disney.

— Juntando tudo cantamos assim, bifit bafiti bum. — ele ria entre as frases que se lembrava e cantava da música.

Jullie entrou na brincadeira e começou a fazer alguns gestos com os dedos indicadores, segundo ela eram gestos que maestros de orquestras faziam, eu não sabia o que era isso, mas ela estava se divertindo e isso era o que mais importava. Demorou um pouco até tudo ficou no se devido lugar, então eles me levaram até o jardim, o sol estava meio fraco e poderíamos brincar um pouco.

— O que vamos fazer? — perguntou Mike.
— Hum, estou sem ideias. — reclamou Jullie — Não consigo pensar em nada.
— Que tal exploração. — sugeri — Temos um ótimo jardim, vamos explorá-lo.
— Como? — perguntou ambos juntos.
— Imaginem se vocês fossem do tamanho de uma formiga. — comecei fazendo eles ficarem curiosos, Jullie me lançou um olhar de já entendi, então sorri de leve para ela — Este jardim é enorme, podemos fazer muitas coisas em nossa exploração.
— Uah, posso conversar com as formigas também? — perguntou ele já se animando.
— Bem, eu não sei que idioma elas usam, mas podemos entrar na casa delas se quiserem.
— Sério?! — Jullie me olhou.
— O que quiserem posso fazer, sou um gênio pessoal.
— Eu queria entrar em uma colmeia de abelhas. — disse Jullie.
— Não, vamos entrar no formigueiro primeiro. — protestou Mike.
— Que tal irmos em ambos. — respondi — Podemos fazer as duas coisas.

Estalei os dedos nos fazendo encolher, ficamos mesmo do tamanho de uma formiga, nossa primeira parada seria entre a grama do jardim em uma busca por um formigueiro. Andamos mais do que tínhamos imaginado, realmente a vida de uma formiga não era nada fácil, a distância da casa até onde estava o formigueiro era muito grande, quando se é minúsculo.

— Então, preparados? — perguntei ao chegarmos em frente.
— Sim. — disseram eles juntos.

Claro que teríamos alguns empecilhos, já que não éramos uma formiga, mas tudo se resolveu quando eu retirei do bolso da calça um pequeno dicionário de inseto idiomas, foi muito eficaz. Jullie riu um pouco quando eu tentei falar com a formiga que estava na porta do buraco, Mike ficou boquiaberta quando a formiga me entendeu, era difícil, porém não impossível. Entramos no formigueiro acompanhados por uma formiga guia, seria algo surreal de acontecer se eu não fosse um gênio pessoal, enfim para mim era muito bom ser um gênio daquela família.

As horas se passaram e nós três ainda estávamos nos divertindo pelos túneis do formigueiro, quando voltamos para a frente da casa todos sujos de terra, estalei os dedos e voltamos ao tamanho normal. A porta da cozinha se abriu e saiu para fora, estávamos rindo tanto de nossa pequena aventura e de como Mike estava mais sujo que eu e Jullie, que nem percebemos que ele estava lá.

— O que aconteceu com vocês? Parece até que foram para guerra. — perguntou ele não entendendo nada.
— Estávamos brincando de exploração. — respondeu Mike tranquilamente.
— Exploração? — ele olhou para mim vendo minha roupa toda suja, depois olhou novamente para o jardim — Posso entender o que aconteceu com a roupa de vocês?
— Quer mesmo saber? — perguntei rindo um pouco.
— Acho melhor não. — respondeu ele, talvez por ainda não se acostumar com meus poderes — Acho melhor tomarem um banho antes do almoço.
— Verdade papai. — Jullie me olhou e piscou de leve — Foi divertido.

Nós entramos na casa rindo mais um pouco e comentando sobre tudo que havia ocorrido, enquanto Jullie e Mike tomavam seu banho tranquilamente, eu entrei em minha garrafa. Usaria aquele momento do almoço para descansar, estava mesmo me sentindo cansada, desde que havia descoberto sobre eu ser um gênio, eu comecei a passar menos tempo ainda em minha garrafa, e infelizmente não podia ficar tanto tempo assim fora dela.

As horas se passaram com meu longo cochilo na garrafa, quando saí logo ouvi o barulho vindo da tv, desci as escadas silenciosamente e lá estava os três dormindo no sofá com a tv ligada. Chegando no último degrau, encostei na parede e fiquei olhando aquela cena por um tempo, eles formavam mesmo uma linda família, mesmo faltando um membro. Meu olhar se focou em espontaneamente, eu não o conhecia muito, mas conseguia perceber o quão grande era seu esforço para ser um bom pai, admirável o carinho que tinha por seus filhos, mesmo escondendo atrás do seu olhar sério uma grande perda.

— Vai me ajudar a leva-los? — perguntou ele abrindo seus olhos suavemente.
— Ah. — me encolhi um pouco, como ele sabia que eu estava ali — Te acordei?!
— Não. — ele sorriu de leve — Só estava descansando os olhos, então vai ficar parada aí?
— Não.

Eu me aproximei do sofá meio sem jeito e peguei Mike no colo, enquanto ele pegava Jullie, levamos as crianças com cuidado, cada um em seu respectivo quarto, como minha garrafa estava no de Jullie, deixei o abajur do quarto de Mike ligado e saí. Na minha singela distração, assim que abri a porta do quarto de Jullie e tomei impulso para entrar, senti duas mãos segurando em meus braços.

— Mais cuidado. — disse , me olhando sério.
— Me desculpe. — sussurrei meio atrapalhada.

Era a primeira vez que nos olhávamos tão de perto, seu olhar não estava tão triste como da primeira vez que o vi, respirei fundo e me afastei de leve dele, dando um sorriso tímido.

— Boa noite. — disse direcionando meu olhar para a fechadura da porta.
— Acho que já disso isso. — sua voz estava mais suave e cheia de sentimentos. — Mas, obrigado.

Assenti com a face e entrei no quarto de Jullie fechando a porta, estava feliz, aquilo significava que eu iria ficar mais tempo com eles.

 

“Conte-me seu desejo
Sou um gênio para você, garoto
Conte-me seu desejo
Eu sou gênio para o seu desejo.”
- Genie / Girls' Generation




Capítulo 9


* POV

Pontualmente meu relógio despertou às 6 da manhã, um breve pensamento de virar para o canto e voltar a dormir passou pela minha cabeça, era tentador, mas tinha que me levantar, minha rotina de homem responsável contava comigo. Tomei uma ducha fria e coloquei algo mais casual, não estava animado para usar trajes formais em um simples dia de trabalho.

— Bom dia. — disse ainda sonolento ao entrar na cozinha e vez com a caixa de leite na mão.
— Bom dia. — ela sorriu gentilmente e colocou a caixa na mesa — Dormiu bem?
— Tão bem que quase não acordava. — sorri de canto desviando meu olhar para a cafeteira — Acho melhor acordar as crianças.
— Elas já estão acordadas. — respondeu tranquilamente enquanto pegava a bandeja com panquecas — Daqui a pouco eles descem.
— Posso entender como conseguiu acordar eles pontualmente? — a olhei curioso.
— Tenho os meus truques. — ela piscou de leve sorrindo, me fazendo rir.
— Bom dia papai. — disse Jullie entrando na cozinha e vindo me abraçar.
— Bom dia. — retribui o abraço ainda incrédulo — Então mocinha, agora você acorda cedo sem problemas?
— Hum. — ela riu baixo desviando seu olhar para — Bem.
— Porque não é assim comigo? — aquilo feria meu orgulho paterno.
— É porque acordar com a é mais divertido.

Olhei para que estava tentando segurar o riso, porém não conseguindo. Minutos depois Mike entrou na cozinha com a mesma animação da irmã, nos sentamos à mesa e tomamos o café tranquilamente, como tínhamos , ela se encarregaria de colocar as crianças no ônibus da escola. Aproveitei essa deixa para chegar mais cedo na empresa, assim que coloquei os pés dentro do edifício, trombei de leve com Penny.

— Oh, me desculpe. — estava mesmo distraído pensando em como acordava meus filhos.
— Não se preocupe, eu também fico inativa às vezes. — brincou ela pegando o papel que caiu de sua mão.
— Como foi o final de semana? — perguntei educadamente.
— Cheio de horas extras. — ela sorriu de leve — E a sua?
— A mesma coisa. — ri um pouco ao apertar o botão do elevador.
— Então. — ela mexeu de leve no cabelo — Nosso almoço hoje, está...
— Claro. — respondi tranquilamente — Temos que testar, assim podemos levar todos da próxima.
— Sim. — ela desviou o olhar para o elevador que se abria, parecia feliz com minha confirmação.

Entrei após ela no elevador, com um certa vergonha, já tinha tempos que não chamava uma mulher para um encontro. E agora me pego a pensar se este almoço é um encontro mesmo, ou algo casual entre amigos de trabalho. Trocamos mais algumas palavras no elevador até que ela saiu primeiro, o andar onde trabalhava era dois abaixo do meu.

— Aqui está ele. — disse John assim que entrei na minha sala.
— Posso entender essa euforia toda? — perguntei ele jogando minha pasta no sofá.
— Descobri algumas coisas que podem rolar no aniversário da empresa, estou ansioso. — ele jogou seu corpo no sofá se espreguiçando.
— Só pensa em festa. — balancei a cabeça negativamente — Vamos ao trabalho homem.
— Você que perdeu o jeito meu amigo. — ele suspirou — Onde vamos almoçar hoje?
— Você eu não sei, eu vou almoçar com uma pessoa.
— Uah. — ele ergueu seu corpo de leve — Quem é a felizarda?
— A Penny. — respirei fundo, sabia que se fizesse mistério ele descobriria de qualquer forma.
— Finalmente. — suas palavras soavam como uma realização.
— Nada de piadas pelos corredores, só vamos experimentar a comida de um novo restaurante que abriu aqui perto.

John riu um pouco, mas mesmo com minhas recomendações, passamos o dia com ele e suas piadas ridículas sobre minha vida amorosa. A hora demorou um pouco a passar, e mesmo com minha atenção voltada para o trabalho, não conseguia deixar de pensar como estaria se saindo sozinha me minha casa. Logo uma súbita imagem dela colocando fogo na casa me veio à mente, respirei fundo e peguei o celular, tinha que ligar para saber se estava tudo bem.

?! — disse assim que ela atendeu.
— Sim?! Eu te conheço? — perguntou ela, provavelmente não reconhecendo minha voz.
— Sou eu, . — respondi de imediato — Queria saber como está, se as crianças pegaram o ônibus na hora.
— Ah. — ela riu — Não reconheci sua voz mestre.
— Mestre? — aquilo era novo.
— Oh, eu me esqueci que você não está acostumado com meu lado gênio. — ela parecia meio sem graça — Mas voltando à sua pergunta, as crianças estão estudando com dedicação, estou vendo elas agora.
— Como assim? Está vendo elas? — estava mais confuso ainda — o que está fazendo?
— Nada de mais, só me disfarcei de pássaro para ver eles estudando. — respondeu ela tranquilamente.
— Pássaro. — sussurrei para mim.
— Está tudo bem?
— Sim. — respirei fundo, ainda não tinha mesmo me acostumado com seu lado mágico — Tome cuidado e não se machuque.
— Não se preocupe, fiz alguns amigos por aqui, estão me ensinando a voar direito.
, só uma pergunta.
— Diga.
— Se você está na escola como um pássaro, como atendeu essa ligação?
— Quer mesmo que eu explique? — perguntou ela num tom de brincadeira.
— Não, não quero. — já tinha ouvido loucuras de mais — Vou almoçar no meu trabalho, e as crianças saem da escola após as três da tarde, então não fiquei com fome à toa, almoce em algum lugar.
— Vou sim.

Desliguei o celular meio paralisado com as explicações e histórias dela, um sorriso logo me veio ao rosto, conseguia sentir de longe o carinho que ela tinha pelos meus filhos. Após minutos de distração me lembrando dos momentos que presenciava com meus filhos, voltei a realidade ao olhar para meu relógio de pulso, estava na hora do almoço. Como combinado Penny e eu fomos ao restaurante novo, o lugar era bonito esteticamente falando, muito bem decorado com alguns traços retro. Sentamos em uma mesa um pouco ao fundo e esperamos um pouco para fazer nossos pedidos.

— Eu sei que está longe ainda, mas você vai no aniversário da empresa? — perguntou ela atenta aos meus gestos.
— Para ser honesto, não queria, mas como um funcionário, terei que ir. — respondi desviando meu olhar para o lugar.
— Deve ser estranho estar aqui comigo. — afirmou ela, estava certa.
— Um pouco. — sorri de leve — Faz um tempo que não fico a sós com uma mulher.
— Imagino. — ela parecia tentar me deixar à vontade — Quando comecei a trabalhar na construtora, ficava imaginando se você era comprometido, ou algo do tipo.
— Hum.
— Mas nunca te via acompanhado, até que percebi que usava uma aliança, mas então me disseram que era viúvo, fiquei surpresa.
— De alguma forma não consegui deixar minha esposa ir. — desviei meu olhar para minha mão olhando para a aliança — Por isso é complicado me relacionar com outra mulher.
— Entendo. — ela estendeu a mão dela com suavidade colocando sobre a minha — Não importa o tempo, se achar que podemos nos conhecer, sei esperar.

Aquilo era uma confissão eu acho, sentir a mão dela sobre a minha era diferente, me dava um certo encorajamento, Penny poderia sim ser uma mulher a qual eu pudesse dar uma chance. Ficamos nos olhando por um tempo, até que uma pequena confusão na porta do restaurante, atraiu nossa atenção.

— O que será que está acontecendo lá? — perguntou ela.
— Não sei.

Não sabia até reconhecer um dos rostos que estava no meio do tumulto, me levantei de imediato e me aproximei, Penny me seguiu sem saber o porquê da minha reação.

, o que faz aqui? — disse ao vê-la.
— Mes... Oi. — ela se encolheu e olhou para o segurança que a segurava pelo braço — Me ajuda.
— Me desculpe, o senhor a conhece? — perguntou o gerente.
— Sim, ela é a babá dos meus filhos. — respondi olhando para o segurança que a segurava.
— Oh, George solte a moça. — ordenou o gerente — Me desculpe a confusão senhor.
— Sem problemas.
— Desculpa. — me olhou com medo, deveria estar imaginando que eu brigaria com ela.

Sim, eu queria brigar com ela, mas não seria ali. Voltamos para a mesa com ela nos acompanhando, um almoço que seria à dois, terminou em um triângulo.

— E como são os filhos de ? — perguntou Penny para .
— Maravilhosos, nunca tive amigos tão sinceros e amorosos como eles.
— Posso imaginar, seus olhos estão brilhando. — comentou Penny.
— Sim, meus filhos gostam muito da . — confirmei desviando meu olhar para aquela babá louca.

Mesmo não conhecendo Penny, a tratava como se a conhecesse desde criança, era inacreditável sua facilidade para fazer amigos e se enturmar. Pelo menos nosso almoço foi divertido e cheio de assuntos engraçados, assim que paguei a conta, pensei em colocar em um táxi de volta para casa, afinal ela teria que esperar as crianças. Porém me lembrei que tinha combinado de jantar na casa da minha mãe e as crianças iria direto para casa dela, minha única solução foi levar para a empresa.

— Uhl. — disse John ao me pegar pelo braço e me puxar para o canto.
— O que está fazendo?
— Você sai para almoçar com uma e volta com duas. — disse ele de imediato — Desde quando você é tão....
— Ei, pare com essas insinuações. — eu o empurrei de leve — Aquela é a babá dos meus filhos.
— Nossa. — John desviou seu olhar para — ela não quer ser babá de um homem com mais de trinta anos?
— Mais respeito. — disse num tom sério — Ela vai ficar aqui, até voltarmos para casa.
— Casa?! Ela mora com vocês?! — John me olhou surpreso.
— É temporário. — expliquei para aquela mente poluída.
— Meu amigo, você mora com uma babá dessas e não dividi a informação com os amigos?
— Não vou me dar ao trabalho de responder isso.

Me afastei dele e voltando para o centro o hall onde estava parada me esperando, a peguei pelo braço e a guiei até o elevador. Assim que chegamos em minha sala, fechei a porta para não ser incomodado, ela teria que me explicar suas ações.

— Eu juro que não foi proposital. — disse ela sentada no sofá com cara de inocente.
— E como me explica isso? — cruzei os braços — Eles te encontraram na dispensa do restaurante.
— Bem, eu fiz alguns amigos que... — ela se enrolou um pouco — Eles me pediram para ajudar, em troca me dariam comida.
— Que amigos são esses? — estava pedindo a Deus para que não fosse mais uma história louca.
— Uma família de ratos. — respondeu ela desviando seu olhar para o chão.
— Não. — sussurrei, respirei fundo — O que você ia fazer se chama roubo, isso é errado.
— Mas eles...
. — minha voz estava mais áspera que o normal de quando eu fico nervoso.
— Desculpa. — senti que ela estava segurando as lágrimas.
— Eu é que peço desculpas, acho que me alterei demais. — me afastei dela e saí da sala.

Fui em direção ao banheiro masculino, precisava lavar meu rosto e respirar fundo para conseguir digerir novamente tudo aquilo que estava vivendo. Um gênio, esta era a parte de que sempre entrava em conflito com meu lado racional, e minha era quem aguentava toda a bagunça que isso me causava. Senti minha cabeça doer o resto da tarde, não acreditava que ainda tinha que jantar na casa dos meus pais, só queria ir para casa e deletar tudo da memória.

— Pensei que não chegaria mais. — disse minha mãe com um sorriso no rosto ao abrir a porta.
— Eu também. — concordei sendo abraçado por ela.

Felizmente não precisava explicar a existência de ali, a mente fértil de Jullie havia resolvido tudo antes da nossa chegada. Não consegui prestar atenção em momento algum do jantar, troquei poucas palavras com meu pai, minha atenção estava em outra pessoa. Por mais que seu sorriso estivesse sempre presente, sabia que estava triste pelo que tinha acontecido mais cedo. Quando voltamos para casa, enquanto ela colocou as crianças para dormir, eu fui para meu quarto trocar de roupa. Minutos depois ela bateu na porta, estava com uma bandeja na mão com uma xícara dentro.

— Eu... — ela parecia mais tímida do que o costume — Ouvi você dizendo que estava com dor de cabeça, então pesquisei algo que pudesse melhorar.
— Hum. — caminhei até ela e peguei a xícara, ela tinha feito chá para mim — Obrigado.
— Mais uma vez me desculpe por hoje. — ela olhou para o chão e se virou para sair.
— Espera. — segurei em seu braço a fazendo olhar para mim — Eu não deveria ter gritado com você.
— Não se preocupe. — ela deu um sorriso disfarçado, mas sua voz denunciava tristeza — Estou acostumada com as pessoas gritando comigo, e você é meu mestre, pode gritar o quanto quiser, sei se fiz algo errado agora.
— Não, você não sabia que era errado. — senti um aperto no coração, de força espontânea e automática eu a puxei para perto de mim e a aninhei em meus braços — Eu... Nunca mais... Gritarei com você.

“Assim como o céu é alto, os ventos são frios
E o oceano é grande e azul
Estou com medo de
Não te dar valor.”
- Smile Flower / SEVENTEEN



Capítulo 10


* POV

Passaram algumas semanas, o tempo estava sendo mais rápido do que me lembrava que poderia ser, mesmo com diversões e aventuras pelo jardim com as crianças, eu sempre me pegava pensando na promessa de , aquele abraço foi o primeiro abraço confortável que tive desde que fui criada.

. — disse Jullie entrando na cozinha saltitando — O que está fazendo?
— Hum, estava dando uma olhada no caderno de receitas da sua mãe. — respondi enquanto folheava o caderno — Eu vi no seu calendário um dia marcado, fiquei na dúvida que pudesse ser um dia especial.
— Ah. — ela se sentou na cadeira, sua face fiquei um pouco triste — Acho que sei de qual data está falando.
— O que foi? — deixei o caderno em cima da bancada e dei alguns passos até ela — Por acaso, este dia é um dia triste?
— Mais ou menos. — ela desviou o olhar de mim para o chão — Para muitas pessoas o dia de ações de graças é um dia feliz, mas para nós representa o dia que perdemos nossa pessoa especial.

Eu conseguia sentir a tristeza dela, aquele dia era o dia da morte de sua mãe, eu não conseguia imaginar o tamanho da falta, que eles sentiam dela, queria poder fazer algo para ajudar. Jullie ficou em silêncio por um tempo até que saiu da cozinha, era frustrante para mim, não conseguir fazer ela sorrir quando o assunto era sua mãe, neste momento eu me sentia inútil. Pensei em ir atrás dela, mas desisti assim que Mike entrou dizendo que queria comer bife e batata frita no jantar.

— Tem certeza que seu pai não vai brigar? — perguntei segurando o riso.
— Tenho, vamos comemorar, eu tirei boa nota na prova de geografia. — reforçou ele fazendo cara de gatinho sem dono.
— Tudo bem, então teremos bife e batata frita. — concordei sorrindo para ele.
— Viva! — ele deu um pulo de animação.
— Vai me fazer companhia hoje? — perguntei indo até a geladeira.
— Claro.
— Hum, vejamos o que posso fazer para acompanhar nosso prato principal. — brinquei enquanto olhava tudo o que tinha na geladeira.
, você sabe por que a Jullie estava triste?
— Sim, mas não posso falar.
— Por que?
— Porque não quero que fique triste também. — respondi tranquilamente, me virei para ele e o olhei.
— Então, acho que sei o motivo. — sua face ficou um pouco triste também.
— Viu, por isso eu não queria falar. — mais uma vez frustrada por não saber como ajudar.
— A culpa não é sua . — ele se levantou da cadeira e me deu um abraço apertado — Você foi a melhor coisa que nos aconteceu em muito tempo.
— Ouvir isso me deixa mais aliviada. — eu sorri para ele — Farei o melhor bife que você já comeu até hoje.
— Já estou ansioso para comer. — brincou ele com seus olhos começando a brilhar.

Era divertido ter companhia enquanto cozinhava, principalmente a de Mike, ele me contava histórias divertidas que ouvia de seus amigos na escola. Com a Jullie era mais um momento de descobrir sobre o mundo, mesmo a conhecendo há algum tempo, eu ainda me impressionava como era esperta e inteligente. Assim que terminei de preparar o jantar, chegou, eu e as crianças estávamos rindo na cozinha enquanto colocávamos os pratos na mesa.

— Pai. — disse Mike ao vê-lo.
— Que animação. — disse ele encostado na parede nos olhando — Podem me doar um pouco?
— Claro. — Jullie sorriu indo abraça-lo — Pai, você demorou para chegar hoje.
— Estava fazendo algo que os adultos são obrigados a fazer. — ele deu um suspiro fraco — Trabalhar.
— A é adulta e não faz isso. — retrucou Mike cruzando os braços.
— A cuida de vocês. — explicou ele desviando seu olhar para mim.
— Mas isso não é um trabalho para mim, eu gosto de ficar com eles. — eu sorri espontaneamente o fazendo sorrir junto, era raro quando ele sorria, mas seu sorriso era bonito.
— Tudo bem, eu vou tomar um banho e volto para nosso jantar. — disse ele se virando.
— Vamos te esperar. — eu disse olhando para Jullie.
— Não demora papai. — ela gritou rindo.

Estranhamente a comida estava mais saborosa desta vez, tanto que elogiou, fiquei surpresa com seu elogio, mas me fez ficar mais feliz. Todas as vezes que eu tentava cozinhar por conta própria, não saia nada de bom, decepcionante, mas daquela vez estava bom. Acho que era resultado das minhas horas de estudo gastronômico dentro da minha garrafa, enquanto eles dormiam, para mim cozinhar para , era uma forma de agradecer por ter me deixado ficar com eles. Após o jantar, ficamos um tempo vendo tv até que as crianças pegaram no sono, como sempre levava Jullie que era mais pesada, enquanto eu me encarregava de colocar Mike na cama.

— Você vai dormir agora também? — perguntei a ele ao sair do quarto de Mike.
— Ainda não. — ele fechou a porta do quarto de Jullie e se virou para a escada — Estava pensando em ver um filme, me acompanha?
— Claro. — inocente eu, pensando que veríamos mais um daqueles desenhos fofos da Disney, o segui.
— Vejamos. — ele abriu a lista de filmes e começou a escolher — O que podemos ver.
— Não sei. — sentei no sofá — Eu acho que já vi todos os filmes do senhor Disney.
— Disney?! — ele riu e me olhou — Disney não é uma pessoa, bem o criador era uma pessoa, mas. — ele riu mais um pouco.
— É, Jullie já me contou sobre isso, mas não consigo me acostumar. — suspirei fraco desviando meu olhar para a tela na tv.
— Não vamos ver nenhuma desenho. — ele voltou sua atenção para a tv.
— E o que vamos ver?
— Algo que não seja tão adulto para você, mas não tão criança para mim. — ele riu mais um pouco.
— Não entendi. — sussurrei para mim mesmo.
. — ele caminhou até o sofá e se sentou ao meu lado — Você ainda é muito inocente para certos assuntos, e espero que permaneça assim.
— Continuo sem entender. — resmunguei desta vez mantendo minha atenção na televisão.
— Não precisa entender. — ele tocou de leve em minha cabeça bagunçando meu cabelo, rindo de mim — Vamos ver algo divertido.
— Hum. — desviei meu olhar para ele por um momento, era a primeira vez o via tão animado com alguma coisa.

Eu estava intrigada com suas palavras, porque ele me achava inocente? Era um fato que eu não conhecia muita coisa do mundo moderno, mas parecia até que eu era uma criança. Pelo menos o filme que ele escolheu era legal e engraçado, e tenho que admitir que a pessoa que fez o personagem do capitão Jack Sparrow, me fez realmente acreditar que aquele pirata era real, fizemos uma breve pausa para a pipoca, no final eu gostei muito de ter visto filme com .

 

* POV

Os dias passaram e a cada avanço das obras da galeria, uma preocupação a mais com os cálculos estruturais, isso me dava ainda mais dores de cabeça. Minha sorte era ter uma profissional tão competente quanto Penny, ela estava mesmo empenhada a consertar todos os cálculos errados e todas as plantas estruturais da obra inteira. Uma contagem que demorou certa de uma semana e custou muitas pausas na obras, nosso tempo que entrega estava apertado, porém iríamos entregar um projeto seguro e bem estruturado.

— Finalmente acabei. — disse Penny entrando em minha sala — Aqui estão as últimas pranchas da parte estrutural do galpão.
— Você não sabe o quanto estou grato por ter me ajudado. — disse pegando as pranchas da mão dela — E aliviado.
— Não precisa agradecer, é meu trabalho. — ela sorriu — E, devo admitir que gostei de ter feito isso, eu pude passar mais tempo com você.
— Hum. — me senti um pouco tímido com aquela declaração, apesar de saber o interesse dela por mim — Nem sei como reagir a isso.
— Pode reagir passando o dia de ações de graças comigo. — sugeriu ela, mordendo seu lábio inferior — Minha família mora longe e não tenho companhia.
— Ah. — não sabia o que responder — Bem, você pode passar comigo e minha família.
— Sério? — ela parecia surpresa com meu convite.
— Sim. — eu sorri meio sem jeito — A menos que você se sinta desconfortável.
— Ah, não. — ela sorriu — Agradeço o convite.

Eu não poderia passar longe dos meus filhos, e não me sentiria bem em deixar Penny sozinha, já que ela morava longe da família, acho que seria uma boa oportunidade para meus filhos conhecerem ela. Eu e Penny estávamos saindo juntos com uma certa frequência, ela era uma boa companhia e nossos assuntos eram diversos e agradáveis, até a parte em que eu pensava em e me esquecia de tudo ao meu redor.

? ? — disse ela me fazendo voltar a realidade — Está tudo bem?
— Sim, Penny, só me distrai. — dei um riso fraco, mais uma vez estava com minha atenção naquela babá louca — O que dizia?
— Estava perguntando se devo levar algo.
— Ah, não sei, se quiser levar.
— Posso fazer uma sobremesa, receita de família. — sugeriu ela.
— Claro, meus filhos adoram doce.
— Combinado então. — ela sibilou um pouco, desviando seu olhar para a janela — Bem, eu estava pensando se poderia me dar uma carona hoje.
— Carona? Claro. — respondi tranquilamente.
— Obrigada, meu carro está na revisão.
— Não é nenhum incômodo para mim.

Era um fato, todas as vezes que eu dava carona para Penny, eu chegava bem mais tarde em casa que o normal, ela sempre me convidava para tomar uma taça de vinho. Isso era pretexto para conversarmos um pouco mais sobre nossa vida, eu sempre ficava mais calado enquanto ela contava sobre sua infância e seus tempos na universidade. Foi entre essas taças de vinho que ela me beijou de surpresa, foi estranho para mim, mas consegui não demonstrar isso a ela.

— Boa noite. — disse ao chegar em casa, estava sentada na escada com um livro na mão.
— Boa noite. — ela fechou o livro e se levantou — Tudo bem?
— Sim. — tentei disfarçar, mas eu estava um pouco tonto pelo vinho — Só preciso de um banho quente.
— Hum. — ela se encolheu um pouco — As crianças tentaram te esperar, mas acabaram dormindo.
— Imaginei. — dei alguns passos até a escada e subi o primeiro degrau.
— Elas dormiram na sua cama. — continuou ela.
— O que? — eu a olhei, minha visão estava ficando meio embaçada.
— Tem certeza que está bem? — perguntou ela colocando a mão no meu ombro.
— Sim, estou. — me afastei um pouco dela — Vou tomar banho, não se preocupe que eles não vão acordar.

Ela assentiu com a face, entrei no meu quarto e fui direto para o banheiro, aquela ducha quente me ajudou um pouco, coloquei o pijama e voltei para a sala, não queria mesmo atrapalhar o sono dos meus filhos. Estranhei não estar na sala, mas não dei importância, me joguei no sofá deitando e fechei os olhos, minutos depois senti ela colocando uma coberta sobre meu corpo, não consegui deixar de sorrir.

— Boa noite. — disse mantendo meus olhos fechados.
— Boa noite. — respondeu ela, sua voz estava mais baixa e parecia um pouco triste.

“Eu apenas desejo esses pequenos confortos
Você não sabe do meu coração, que sempre quer fazer mais por você.”
- No Other / Super Junior



Capítulo 11


* POV

Eu não acreditava que estava mesmo acordando cedo em pleno feriado, mas meus pais iriam chegar bem cedo para aproveitar a manhã com as crianças. Como sempre já estava acordada terminando de preparar o café da manhã, por mais que eu achava muito para ela fazer todas as tarefas de casa, cuidar das crianças e ainda cozinhar, para ela era como uma diversão.

— A quanto tempo está acordada? — perguntei a ela vendo a mesa arrumada.
— Para dizer a verdade, eu não dormi. — ela me olhou tranquilamente — Estava tão ansiosa, seus pais disseram que chegariam cedo, não consegui dormir.
. — eu sorri de leve — Não fique assim novamente, é só mais um dia comum.
— Hum. — ela desviou seu olhar para o chão, talvez eu tivesse jogado gelo em sua animação.

Logo a campainha tocou, era meus pais, eu iria aguentar mais duas pessoas animadas com aquele dia, acho que não conseguiria sobreviver até o anoitecer. Minha mãe resolveu acordar as crianças, assim poderíamos tomar café juntos, claro que para meus filhos ter a casa cheia e estar rodeado por pessoas que amavam naquela data seria muito bom, espantaria os pensamentos tristes, ainda mais tendo com eles.

— Estou ansiosa para aprender a fazer aquela torta de maçã que me falou. — disse animada.
— Ah, sim, minha torta é bem famosa mesmo. — minha mãe sorriu para ela — E é bem fácil de se fazer.
— Nem passamos o café e já estão falando no almoço? — eu ri desviando meu olhar para meu pai — Viu, elas querem nos engordar.
— estou vendo meu filho. — meu pai riu um pouco — Mas é o que sua mãe sempre tentou fazer desde que nos casamos.
— Ei, você nunca reclamou da minha comida.
— Porque é a melhor do mundo, não me importo se engordar. — ele a olhou com carinho.
— Vocês são um casal muito bonito. — elogiou .
— Vovó e vovô são os melhores. — completou Jullie.
— Você também é uma moça muito bonita. — disse minha mãe — Você tem namorado?
— Namorado? — ela fez uma careta estranha como se não soubesse muito bem o termo — Acho que não.
— A não tem vovó. — respondeu Jullie.
— Ah, que pena, uma garota tão bonita e sozinha, mas também, meu filho fica te escravizando, nem te deixa ter uma vida social.
— E a culpa sempre cai sobre mim. — disse respirando fundo.
— Ah, não, eu gosto de ficar aqui com as crianças, não me importo. — ela olhou para Jullie e sussurrou — O que seria vida social?
— Depois te explico. — Jullie riu baixo.
— Mas e sua família ? — perguntou meu pai.
— Estão viajando. — respondeu Jullie novamente — Lembra que eu te disse isso vovô.
— Ah, sim. — meu pai desviou o olhar para minha mãe — Me esqueci, é a idade.
— O senhor parece ser bem jovem ainda. — disse com sua inocência.
— Agradeço suas palavras sinceras. — meu pai sorriu para ela.
— Sim, você é uma pessoa muito sincera mesmo. — minha mãe suspirou — Que pena que não convivemos com pessoas assim, as pessoas te hoje em dia se tornaram tão artificiais.
é a melhor. — Mike vibrou da cadeia.
— Você que é. — sorriu para ele, devolvendo o elogio.

As horas se passaram, enquanto meus filhos viam televisão na sala, e minha mãe na cozinha preparando o almoço, eu e meu pai ficamos no jardim conversando. Eu estava fugindo um pouco disso, não queria que ele tocasse em assuntos que ainda me machucavam.

— E como está se sentindo hoje? — perguntou ele parando no meio da grama e olhando para a árvore que tinha ao lado da cerca.
— Bem. — uma resposta rápida e precisa.
— Tem certeza? — insistiu ele — Sabemos o que aconteceu nesta data.
— Hoje faz seis anos. — respirei fundo desviando meu olhar para o céu — Ainda sinto falta dela.
— É claro que sente, ela foi seu grande amor por muito tempo, mãe dos seus filhos, seria estranho se não sentisse, mas está conseguindo conviver com isso?
— Não sei, às vezes penso que superei, então vejo que ainda dói. — segurei algumas lágrimas que começaram a aparecer — Mary ainda me faz falta.
— Eu e sua mãe, sempre vamos nos preocupar com você, é normal de todo pai e mãe. — ele fez uma breve pausa — Ficamos conversando um pouco nessa madrugada, sobre você, se algum dia você conseguiria refazer sua vida.
— Estou tentando, mas fico pensando se será bom para meus filhos, eu ter outra pessoa.
— Tenho certeza que eles entenderão, uma nova esposa não jamais ocupará o lugar da mãe deles, mas pode acrescentar sorrisos na vida deles.

Não consegui deixar de pensar na presença de em nossas vidas, ela acrescentava sorrisos na vida dos meus filhos, comecei a imaginar se Penny conseguiria fazer isso também. Entramos novamente, meu pai passou direto para sala, eu fiquei um pouco mais na porta para o corredor vendo elas se movimentando na cozinha. parecia feliz por aprender e ajudar minha mãe, seus olhos brilhavam como os de uma criança. Me afastei um pouco e ouvi a campainha tocar, de certo era minha convidada especial.

— Olá. — disse Penny assim que abri a porta, ela estava com um pequeno embrulho nas mãos.
— Oi, chegou bem na hora, o almoço está quase pronto. — abri a porta para que ela entrasse e peguei o embrulho de suas mãos.
— Fiquei em dúvida se a sobremesa ficaria mesmo boa, mas acho que está agradável de se comer. — ela riu um pouco.
— Não precisava ter trago, mas agradeço. — sorri de leve.
— Boa tarde. — disse ela ao entrar.
— Boa tarde. — meu pai sorriu educadamente.
— Penny, esses são meus filhos, Jullie e Mike e meu pai. — eu olhei para as crianças e depois para meu pai — Bem, esta é Penny, uma amiga do trabalho, eu a convidei para passar o dia aqui.
— É um prazer conhecer vocês. — completou ela.
— Oi. — disseram meus filhos juntos.
— Para aqueles famintos o almoço está pronto. — disse minha mãe ou entrar na sala — Oh, temos visita.
— Mãe esta é Penny, uma amiga do trabalho.
— Boa tarde senhora. — ela sorriu.
— Boa tarde. — minha mãe parecia sem reação — Bem, não nos disse que tinha convidado alguém.
— Bem-vinda. — disse com um sorriso largo — Que bom te ver de novo.
— Obrigada .
— Você a conhece ? — Jullie a olhou.
— Sim, almocei com ela e uma vez. — me olhou — Quer que eu guarde?
— Ah. — Penny olhou para o embrulho — É uma sobremesa que trouxe, receita de família.
— O que é? — perguntou minha mãe.
— Baked alaska, um bolo com recheio de sorvete. — explicou Penny.
— Que legal, Mike adora sorvete. — veio até mim e pegou o embrulho — Então eu acho melhor deixar na geladeira, assim o sorvete não derrete.
— Eu te ajudo . — disse Jullie a seguindo até a cozinha.
— Você trabalha em qual departamento na construtora? — perguntou minha mãe.
— Sou engenheira estrutural. — respondeu.
— Ah, engenheira estrutural. — minha mãe desviou o olhar para mim, parecia estar analisando Penny.

Fiquei um pouco desconfortável com tantas perguntas, que minha mãe fez a Penny, durante o almoço, parecia até que eu estava no ensino médio e Penny era a primeira garota que levava em casa. Eu percebi uma certa mudança de humor em Jullie, com a presença de Penny, não queria imaginar que minha filha estava com ciúmes de mim. A comida estava saborosa como sempre, fiquei admirado de minha mãe ter falado que a maionese foi feita pela , ela estava mesmo se superando na cozinha. Foi um alívio meus filhos terem comido a sobremesa que Penny levou, acho que isso se deve a , que me mostrou muito empolgada por comer bolo e sorvete ao mesmo tempo, foi divertido ver isso.

— Bem, obrigada por hoje. — disse Penny ao chegar perto do seu carro — Estou feliz por não ter passado esse dia sozinha.
— Se quiser pode ficar mais um pouco. — disse a ela olhando para o céu — Está começando a escurecer agora.
— Não, eu percebi que seus filhos não ficaram tão à vontade comigo. — ela desviou o olhar para o carro — Mas, não vou forçar, é a primeira vez que eles me vê, mas foi bom passar a tarde com você e sua família.
— O que importa é que veio. — sorri meio sem graça — Te vejo no trabalho então.
— Até. — ela entrou no carro e deu a partida.
— Nós também já vamos. — disse meu pai ao se aproximar de mim.
— Hum. — desviei meu olhar do carro de Penny que estava se aproximando da esquina e o olhei — Tem certeza?
— Sim, sua mãe precisa descansar. — ele riu um pouco — Ela se empolgou tanto na cozinha, que agora está sentindo algumas dores nas costas.
— Como o senhor diz, é a idade. — eu ri junto.
— Falando de mim? — perguntou minha mãe parando ao meu lado.
— Estávamos falando o quanto a senhora é maravilhosa na cozinha.
— Sei. — ela olhou para meu pai — Querido, vai indo na frente, preciso trocar algumas palavras com Kyu.
— Claro. — eu pai bateu de leve no meu ombro sorrindo e se afastou de nós.
— Qual mais pergunta irá fazer? — fui direto com ela.
— Quem é realmente essa Penny? — ela foi mais direta ainda.
— Uma amiga...
, sou sua mãe e te conheço, vamos pular a parte do amiga. — me interrompeu ela.
— Ela ainda é uma amiga. — refiz minha resposta — Estamos nos conhecendo.
— Conhecendo, quanto?
— Sério que terei que responder?
— Não, mas você percebeu que seus filhos não ficaram à vontade com ela? — retrucou — Sei que não tenho direito de me meter na sua vida.
— Como eu disse, só estamos nos conhecendo, afinal...
— Afinal?
— Foi a senhora e o papai que sempre disseram para eu refazer minha vida amorosa.
— Verdade. — ela deu de ombros — Mas, eu não imaginava com uma mulher como a Penny.
— O que tem a Penny?
— Ela não combina com você, me parece uma mulher oferecida.
— E o que a senhora imaginava para mim?
— Hum. — ela olhou para minha casa por um momento e desviou o olhar para mim — Eu imaginava alguém como a .
— O que? — aquilo era novo para mim — Não.
— Por que não? — minha mãe colocou a mão na cintura me olhando séria — Ela é uma moça gentil, simples, divertida, bonita, faz seus filhos sorrirem com facilidade.
— Ela, não poderia ser, não a vejo dessa forma. — eu realmente não sabia como reagir aquela sugestão da minha mãe, durante todo esse tempo convivendo com , nunca tinha cogitado a ideia.
— Decepcionante. — minha mãe suspirou fraco — Ela nem parece ser tão mais nova que você.
— Pare de criar esses pensamentos mãe. — estava mesmo confuso com aquilo, a babá dos meus filhos era um gênio e não uma mulher, bem, eu nunca a tinha visto como uma mulher — Não, esqueça, a não poderia...
— Ela não tem namorado. — retrucou minha mãe — Eu gostei dela.
— Vamos encerrar esse assunto mãe, não é uma opção e Penny é só uma amiga, não se preocupe, eu sempre penso no melhor para meus filhos.
— Se pensasse mesmo, colocaria a não como uma opção, mas como a decisão final. — ela se afastou de mim e entrou no carro.

Agora eu estava desnorteado, as palavras da minha mãe fizeram uma bagunça em minha mente, de uma forma que seria complicado organizar. Realmente, nunca tinha visto como uma mulher, até aquele momento, ela era sempre a garota inocente, que era babá dos meus filhos, e não achava aquilo um trabalho. Uma garota que tinha o sorriso mais sincero que já tinha visto na vida, que os olhos brilhavam quando descobria alguma coisa nova, que sempre me deixava nervoso com suas histórias de gênio e me chamava de mestre.

Uma garota que me fazia me sentir bem e sorrir no final do dia.

“Mesmo com você na minha frente
Eu não sei o que fazer
Para as pessoas que estão apaixonadas
Por favor, me diga como você começou a amar.”
- Hello / SHINee




Capítulo 12


* POV

ficou mais um pouco de tempo na frente da casa conversando com sua mãe, eu levei as crianças para a cozinha, nossa tarefa era deixar tudo organizado, como sempre eu iria fazer daquela tarefa algo divertido para eles. Arrumamos tudo em meio algumas bolhas de sabão que voavam pela cozinha, era quase uma festa para Mike e Jullie. Parei por um momento e desviei meu olhar para a porta, estava encostado na parede nos olhando, fiquei um pouco envergonhada, minha cara estava molhada pelas bolhas.

— Agora entendi. — disse ele.
— Entendeu o que papai? — perguntou Jullie.
— Porque gostam tanto de arrumar a cozinha com a .
— Com a é mesmo mais legal. — Mike sorriu.
— Assim vocês ferem meus sentimentos. — ele riu desviando seu olhar para uma bolha de sabão que se aproximava dele — Mas vou deixá-los se aproveitando.

Nós rimos um pouco, enquanto ele se afastava, era engraçado quando ele se mostrava traído, pelas crianças gostarem de fazer as coisas comigo. Terminamos tudo e fomos para sala, já estava vendo um filme, nos juntamos a ele, em silêncio, mas segurando o riso. Jullie me explicou que era uma comédia romântica, era o gênero cinematográfico que sua mãe mais gostava. Naquele momento eu me lembrei que aquele dia fazia seis anos, que eles estavam sem ela, e estava vendo seu filme preferido. Acho que o nome era De repente 30.

— Acho que dormiram. — disse ao olhar para as crianças.
— Sim. — ele respirou fundo — Obrigado por hoje.
— Eu não fiz nada. — e não tinha mesmo feito nada, agi da mesma forma que faço todos os dias.
— Pode pensar que não, mas fez. — ele se levantou do sofá — Estou aliviado por eles terem sorrido hoje.
— Tenho certeza que eles vão acordar sorrindo amanhã também. — eu estava confiante quanto a isso.
— O que você aprontou? — ele parecia curioso.
— Eu posso não conseguir tirar os pensamentos tristes deles, e nem sei como ajudar sobre isso. — desviei meu olhar para Mike — Mas posso transformar esses pensamentos tristes em sonhos felizes.
— Você pode fazer eles terem bons sonhos?
— Claro, sou um gênio. — respondi tranquilamente.
— Às vezes, me esqueço disso.
— Posso fazer isso por você hoje, também.
— Isso, o que?
— Transformar seus pesadelos em sonhos. — expliquei.
— Ainda diz que não faz nada. — ele sorriu de canto me olhando com serenidade, era bom ver que seu olhar não estava mais triste.
— Bem, acho melhor levar eles. — desviei meu olhar para Mike — Assim poderão dormir mais confortável.

Colocamos as crianças em seus quartos, como eu disse, eles teriam sonhos maravilhosos aquela noite. foi para seu quarto trocar de roupa, quando eu passei pela porta ele me chamou, ele estava ao lado da cama, ele estava só com a calça do pijama, sem a camisa. Era interessante acompanhar as linhas do seu abdômen, era a segunda vez que via aquelas linhas, só agora conseguia analisar cada curva, tentei disfarçar um pouco meus olhares, mas era como um imã.

— Estou pronto. — disse ele meio sem jeito.
— Para que? — perguntei um pouco receosa.
— Para dormir. — explicou ele — O lance do sonho, você precisa jogar algum pó mágico em mim?
— Ahn?! — eu comecei a rir da cara dele — Não, não sou o Merlin, sou um gênio. — ri mais um pouco — De onde tirou essa de pó mágico?
— Desculpa minha falta de conhecimento. — ele estava com um ar de ofendido.
— Não precisa fazer nada, apenas deite, feche os olhos e durma.
— Boa noite então. — ele cruzou os braços, aquilo me fez tombar a cabeça, porque aquela pose o deixava tão diferente, faziam meus olhos não se desviassem dele.
— Boa noite. — fechei os olhos e saí do quarto rapidamente.

era o segundo homem com quem eu convivia, o primeiro foi o meu antigo mestre, mas ele sempre me deixava presa na garrafa, então eu não o via muito, só quando queria que eu fizesse pedras preciosas aparecerem. Mas com era diferente, eu o via quase o dia todo, e quanto não estava perto dele, pensava em como eu poderia fazer ele sorrir. Ele era um homem muito bonito, mas tinha uma face triste, por isso sempre tentava deixar ele alegre, mesmo que por poucos segundos.

Mas esta noite todos naquela casa teria sonhos felizes, todos acordariam sorrindo e eu me sentia muito satisfeita em conseguir isso, afinal os gênios são feitos para realizar desejos e fazer seus mestres felizes. Definitivamente, meu objetivo era fazer e as crianças felizes, e daria o meu melhor para conseguir.

No dia seguinte, acordei as crianças um pouco mais tarde, era feriado prolongado, então só teriam aulas na próxima semana. Assim que saiu do quarto, foi direto para a cozinha, o café já estava pronto, não era mais novidade, afinal eu já estava me acostumando com todos os instrumentos que tinha na cozinha e já tinha decorado todas as receitas do caderno de Mary.

— Bom dia. — disse ele aparecendo na porta com um sorriso disfarçado.
— Bom dia. — eu sorri naturalmente como sempre — Como foi sua noite.
— Como você disse que seria, sonhos bons me alcançaram. — respondeu ele indo até a cadeira e se sentando.
— Fico feliz por isso. — caminhei até a mesa com o a caixa de leite, assim que cheguei tropecei no pé da cadeira me desequilibrando.
— Cuidado. — disse se levantando e me amparando.

Senti sua mão em minhas costas, me segurando, fiquei um pouco paralisada, nunca tinha me aproximado tanto de um homem assim, nossos olhos se encontraram e ficamos nos encarando por alguns segundos. Eu que tinha prendido o ar, respirei fundo erguendo um pouco mais meu corpo, me afastando dele.

— Me desculpa. — disse sem saber como reagir.
— Você quase cai e pede desculpas? — ele riu — Apenas seja mais cuidadosa.

Aquele era o que eu conhecia.

— Bom dia papai, bom dia . — disseram as crianças ao entrarem na cozinha.
— Bom dia. — respondi sorrindo para eles.
— Bom dia queridos.
— Eu tive um maravilhoso sonho. — comentou Jullie se sentando na cadeira.
— Aposto que meu sonho foi melhor. — disse Mike se sentando na outra cadeira.
— Teremos o dia todo para vocês me contarem seus sonhos. — disse desviando seu olhar para mim.
— Você não vai trabalhar hoje? — perguntou Jullie.
— Não. — ele sorriu — Hoje sou de vocês.
— Viva. — Mike deu alguns pulos da dadeira enquanto festejava.
— Isso é legal. — disse me sentando — Mas, você vai ficar no porão?
— Não, hoje eu realmente sou dos meus filhos. — ele olhou para Jullie — A menos que vocês prefiram ficar com a .
— Para de ciúmes papai. — Jullie riu dele — Será mais legal com o senhor e a .
— Podíamos fazer algumas explorações. — sugeriu Mike.
— Hum, tive uma ideia, que tal voltarmos no passado?
— Passado? — me olhou meio desconfiado — O que está tramando?
— Surpresa, apenas confie na sua guia turística da história.

Nosso café da manhã foi tranquilo e cheio de perguntas de sobre nossa expedição ao passado, mal ele sabia que iríamos a fundo no passado. Esperamos alguns minutos após o café, no estalar dos meus dedos troquei a roupa de todos, seríamos escoteiros por um dia em uma terra de seres ferozes. Em um piscar de olhos voltamos para a era dos dinossauros, foi engraçado ver a cara do quando um braquiossauro passou por nós.

— Como? — ele me olhou espantado.
— Sou um... — comecei a explicar.
— Nem ouse terminar. — ele olhou novamente para o braquiossauro — É surreal e lindo ao mesmo tempo.
— Viu papai, é assim que brincamos todos as tardes com a . — disse Jullie rindo dele.

parecia mesmo muito admirado com tudo que via, seres que integravam os livros de história, estavam diante dele. Exploramos os arredores do lugar onde aparecemos, para nossa sorte era uma área de ninhos deles, acho que estavam no período de acasalamento, tinham muitos ovos espalhados pelos ninhos.

— Uah. — disse Mike ao se aproximar de um centrossauro, e sem medo começou a acariciar ele — Toca nele Jullie.
— Incrível. — Jullie tocou no dinossauro — Eu sinto como se fosse real.
— Mas é real. — conclui rindo.
— Você não traz eles para cá todos os dias né? — perguntou .
— Não. — eu ri — Essa é a primeira vez, mas está sendo divertido.

Foram sim horas de diversão até que apareceu um grupo de velociraptors baderneiros, seguido de uma dupla faminta de tiranossauro rex, aqui nos fez correr um pouco até que eu consegui levar todos de volta para casa. Quando chegamos, estávamos um pouco cansados pela corrida, sentou no sofá, ele parecia o mais assustado de todos.

— Definitivamente, vocês estão proibidos de voltar na era dos dinossauros. — disse ele.
— É, tenho que concordar que é muito perigoso. — sentei no último degrau da escada e olhei para ele — Mas foi legal, tirando a parte final.
— Foi fantástico. — Mike deu um pulo — Quero voltar ao passado de novo.
— Podemos ver as pirâmides egípcias? — perguntou Jullie.
— A única coisa que vocês podem é tomar um banho e trocar de roupa. — disse se levantando do sofá — Já está ficando tarde, hoje eu faço o jantar.

Eu não tinha reparado, mas tinha trago eles com um atraso nas horas, estava escurecendo, deveria ter calculado melhor o tempo de retorno. Mas estava tão ocupada correndo de um dinossauro. Segui até a cozinha e fiquei olhando ele fazer o jantar, era chato estar ali e não fazer nada.

— Tem certeza que não quer ajuda? — perguntei pela quarta vez.
— Não. — disse ele concentrado na panela.
— Nem para trocar de roupa? — perguntei tranquilamente.
— O que? — ele me olhou assustado.
— É que está sujando a cozinha. — eu estalei os dedos e nossas roupas ficaram limpas — Assim está melhor.

ficou me olhando ainda estático, será que ele tinha interpretado mal minha pergunta?

 

“Você realmente existe?
Você parece apenas fantasia,
Estou vagando entre sonhos e além?”
- Black Pearl / EXO



Capítulo 13


* POV

Eu não entendia o grau da sua inocência, mas à vezes dizia coisas que me faziam paralisar, talvez por não pensar que suas palavras possam ter duplo sentido. Respirei fundo tentando juntar as palavras certas para explicar a ela a forma correta de se comportar perto de um homem.

— Eu disse algo errado? — perguntou ela se encolhendo um pouco.
— Digamos que foi estranho, eu entendo que você não deve ter convivido muito tempo com um homem, mas existem certas coisas que não se deve dizer, podem soar de forma negativa. — disse quase me embolando com as palavras — Jamais, jamais se ofereça para ajudar um homem a trocar de roupa, não é algo que se pergunte.
— E porque não? Tentei ser prestativa. — ela me olhou meio confusa.
— Primeiro, mais ninguém pode saber que você é um gênio, então não pode sair perguntando isso para as pessoas, e segundo, os homens possuem um certo grau de malícia no pensamento, suas palavras podem ser mal interpretadas.
— E como elas poderiam ser interpretadas?
— Bem. — respirei fundo, não sabia como responder, ela parecia uma adolescente na puberdade e eu um pai que teria que falar sobre coisas da vida — Acho melhor você não saber, não fará diferença, só não quero de repita isso.
— Me desculpa. — disse ela olhando para o chão.
— Não se desculpe, não estou brigando com você, só estou te pedindo para não repetir.
— Tudo bem. — ela concordou se sentado na cadeira.

Fiquei a olhando, logo percebi que tinha um sorriso no canto do meu rosto, respirei fundo e voltei minha atenção ao jantar, não demorou muito até as crianças aparecerem na cozinha afirmando estarem morrendo de fome. Eu ri um pouco, mantendo minha atenção no que estava fazendo, depois que apareceu em nossas vidas, eu tinha me distanciado um pouco dos meus filhos, sem perceber. Mas ali preparando o jantar para eles, senti que estava mais próximo, já que sempre passava mais tempo trancado no escritório do porão.

Após o jantar, nos reunimos na sala para ver um filme, após muitos pedidos tive que me render e ver pela milionésima vez O Rei Leão, pelo menos pude confirmar que era o filme preferido de . As horas se passaram e os três tinham dormido, eu carreguei as crianças até seus quartos uma a uma enquanto estava desmaiada no sofá. Fiquei pensando um pouco se deveria deixa-la lá ou leva-la para dormir na minha cama que era mais confortável.

Balancei a cabeça negativamente, que pensamento era aquele? Ela não era uma mulher, eu não deveria pensar nela assim, como estava pensando em leva-la para dormir no meu quarto? Pequei uma manta no armário e desci até a sala, tombei um pouco o corpo dela, para se deitar melhor e a cobri. Era difícil não ficar a olhando, ela sorria enquanto dormia, como uma pessoa que chegou a pouco tempo podia significar tanto na minha vida e nas dos meus filhos.

Suspirei um pouco e me espreguicei indo em direção ao escritório, a cada degrau que eu descia lutava contra mim mesmo para focar meus pensamentos em outra coisa que não fosse ela, a gênio louca. Tinha certeza que aquilo era culpa da minha mãe, por que ela tinha que me fazer tentar enxergar como uma mulher? Me sentei na cadeira e fiquei olhando para os papéis que estavam em cima da mesa, comecei a imaginar o que Mary faria em meu lugar, minha esposa sempre foi mais sábia que eu.

Os dias se passaram e segunda de manhã cedo eu já estava chegando no prédio da construtora, tinha deixado preparando o café para as crianças, elas teriam aula hoje. John já estava no saguão me esperando, estava transbordando entusiasmo, já poderia imaginar que seu feriado prolongado tinha sido cheio de companhias femininas.

— Aí está o funcionário do ano. — disse ele com aquele jeito espalhafatoso dele.
— Yah, pare de escândalos, não sou o funcionário do ano. — segurei o riso seguindo até o elevador com ele ao meu lado — E como foi seu feriado?
— Ah, foi maravilhoso. — ele deu uma risada estranha — E o seu? A Penny foi mesmo na sua casa?
— Sim, como uma amiga, então não perca seu tempo fazendo piadas. — entrei no elevador.
— Que isso. — ele me seguiu rindo da minha cara — Eu jamais faço piadas, só comentários irônicos.
— Sei.

Entramos na minha sala e já demos início a revisão dos últimos detalhes do projeto da galeria, que estava nos dando mais do que dores de cabeça. Não demorou muito até que Penny chegou para nos ajudar, John segurou o riso e as piadas, mas seu solhares sarcásticos para mim era visíveis. Poucos minutos antes da hora do almoço ele foi convocado para uma reunião sobre a construção de um novo prédio de uma cliente nosso.

— O John estava estranho essa manhã. — comentou Penny enquanto revisava a prancha estrutural que tinha consertado.
— O John é estranho sempre. — ri de leve — Mas hoje ele se superou mesmo.
— E como foram seus dias em casa?
— Bons, pude passar mais tempo com meus filhos. — coloquei a prancha na pasta e a olhei — Almoçamos juntos hoje?
— Nossa, claro. — ela sorriu de leve — Podemos voltar naquele restaurante da última vez.
— Sim, a comida de lá é muito boa.
— Hum. — ela dobrou a prancha e colocou na outra pasta — Podemos ir então, já terminamos por aqui.
— Boa ideia, felizmente não tem mais nenhum erro nesse projeto. — respirei fundo — Obrigado por ajudar.
— Não precisa agradecer, mesmo não tendo sido convocada, só fiz meu trabalho. — ela pegou sua bolsa — Vamos?

Sorri um pouco e a acompanhei, nosso almoço foi tranquilo e em alguns momentos silencioso, era diferente já que da primeira vez o furacão estava presente. O horário do almoço passou rápido, porém não voltamos para o escritório, Penny deu a ideia de visitarmos a obra da galeria. Apesar do atraso e complicações, estava caminhando num ritmo bom, e os operários era muito competentes e trabalhavam com muito cuidado e precisão.

— Acho que agira posso respirar aliviado. — disse olhando para a fachada.
— Foram dias de tensão revendo as plantas, mas esta galeria vai sair dentro do prazo, tenho certeza. — Penny parecia mais otimista que eu, isso era legal.
— Também espero, seria ruim para a imagem da construtora se ocorre um atraso grande, essa está sendo o projeto mais importante dos últimos meses.
— Bem, acho que não vamos precisar voltar para a construtora. — sibilou ela olhando para o céu — Ficamos tão concentrados nos detalhes daqui que não vimos a hora passar.
— Sim, já está ficando um pouco tarde. — ri rapidamente — Que uma carona?
— Não seria uma má ideia. — ela mordeu de leve os lábios inferiores.

Não sei se estava fazendo aquilo para desviar alguns pensamentos impróprios, mas focar em Penny e tentar avançar com ela, me fazia não pensar em e nas palavras absurdas da minha mãe. Acho que sim, eu estava começando a me convencer de que Penny poderia ser a mulher certa para mim, ou pelo menos era o que eu queria acreditar.

— Chegamos. — disse assim que estacionei em frente ao prédio onde morava.
— Não quer subir? Podemos tomar uma taça de vinho, em comemoração ao trabalho bem sucedido. — sugeriu ela.
— Não seria uma má ideia. — sorri desligando o carro.

Subimos para seu apartamento no quarto andar, não era grande, mas tinha um tamanho modesto e confortável para uma pessoa que morava sozinha, Penny tinha bom gosto no quesito decoração. Ela pegou uma garrafa de vinho e abriu, me dando um pouco em uma taça, agradeci com um sorriso e me sentei no sofá, ela se sentou ao meu lado.

— Espero que eu não tenha causado nenhum desconforto para sua família. — disse ela após tomar o primeiro gole — Já que de intrometida participei do dia de ações de graças com vocês.
— Ah, não pense assim. — sorri gentilmente — Você foi como convidada e é uma grande amiga, trabalhamos a muito tempo juntos.
— Seus filhos não gostaram muito de mim.
— Eles só não te conhecem, são crianças maravilhosas, só precisam te conhecer melhor.
— Seria um prazer passar mais tempo com seus filhos, eles parecer ser muito espertos.
— Ah, sim. — eu ri me lembrando deles — São muito, principalmente a Jullie.
— Imagino. — ela se aproximou um pouco mais de mim — Mas, que tal falarmos de nós.
— O que quer falar? — perguntei curioso.
— Bem, estou curiosa para saber se está confortável perto de mim.
— Como?
— Uma vez nós conversamos e você tinha dito que ainda sentia falta da sua esposa, você ainda pensa muito nela?
— É difícil não pensar em alguém importante, mas atualmente estou pensando um pouco menos. — a olhei com sinceridade — Mas acho melhor não falarmos sobre isso, se não foi pensar ainda mais nela.
— Claro, vamos manter nossa atenção em outra coisa.

Ela pegou minha taça e colocou em cima da mesa de centro junto a dela, e se aproximando ainda mais ela me beijou, em minha mente tinha muitos pensamentos sobre aquele beijo, se eu deveria continuar, ou ir para casa. Era visível o que a Penny queria, e se dependesse dela nossa noite seria longa e quente, porém uma coisa estava martelando em minha mente.

Seria certo passar a noite com uma mulher, estando com outra presente em seus pensamentos? Eu conseguiria me concentrar em Penny, tendo a na minha cabeça?

 

* POV

Eu estava preocupada, não só pelas crianças, mas por mesmo. Será que ele tinha sofrido algum acidente ou estava preso, ou algo pior? Não queria pensar em coisas ruins, tinha que manter a esperança pelas crianças.

— O papai ainda não chegou? — perguntou Jullie ao descer as escadas.
— Ainda não querida, mas ele já deve estar chegando. — sorri disfarçadamente para ela — Por que está acordada?
— Fiquei com cede. — respondeu ela esfregando um pouco o olho.
— Vamos pegar água então.

Me levantei do sofá e a acompanhei até a cozinha, após pegar um copo com água, levei Jullie novamente para o quarto e fiquei ao seu lado até ela adormecer novamente. Era estranho estar ali com eles sem , era a primeira vez que ele demorava tanto para voltar para casa, aquilo me preocupava ainda mais, foi assim que me pedir do meu primeiro mestre, uma noite ele saiu e nunca mais ouvi sua voz de dentro da garrafa.

 

 

“Eu nunca me senti assim antes,
Como se minha respiração fosse parar.”
- My Answer / EXO



Capítulo 14


* POV

Passei a noite em claro esperando por ele, estava sentada no sofá cochilando quando as crianças me acordaram, Jullie tinha acordado sozinha preocupada com o pai que não tinha aparecido até aquela hora.

— O papai não voltou? — perguntou Mike.
— Não, ele deve ter dormido na construtora. — disse a ele numa suposição — Mas tenho certeza que ele deve voltar agora de manhã.
— Estou com um mal pressentimento sobre isso. — Jullie cruzou os braços pensativa.
— O que você acha? — Mike a olhou.
— Pelo que sempre vejo nos filmes, acho que papai tem uma namorada. — respondeu ela com certeza.
— Não, papai não pode.
— O que é uma namorada? — perguntei meio confusa.
— E o que queremos que você seja do nosso pai. — Jullie me olhou — Ele não pode namorar outra pessoa, só você.
— Eu? — ainda estava confusa com aquilo, o que era ser uma namorada?
— Aposto que é aquela amiga do trabalho dele.
— E o que vamos fazer? — Mike parecia meio preocupado.
— Não sei, tenho que pensar, mas agora temos que ir para a escola, quando voltarmos pensarei em algo. — Jullie respirou fundo.

Era incrível como ela lidava com as coisas como um adulto, teve ser assim pela perda da mãe, fiquei um pouco pensativo enquanto preparava o café deles, a palavra namorada não saia da minha cabeça, já era a segunda vez que eu ouvia ela. Assim que as crianças entraram no ônibus da escola e eu entrei em casa, chegou, dei alguns passos até ele e o toquei de leve.

— Você está bem? Se machucou? Estávamos preocupados.
— Calma. — ele segurou na minha mão e me afastou um pouco dele — Estou bem sim, deveria ter ligado avisando que não dormiria em casa, mas agradeço por ter cuidado deles.
— Estou aqui para isso. — respirei fundo — Pensei que não voltaria mais, as crianças até pensaram em chamar uma tal de polícia, mas Jullie disse que tínhamos que esperar vinte e quatro horas.
— Não precisa disso, eu vou tomar um banho. — ele se espreguiçou indo para a escada — Onde estão eles?
— Já foram para a escola. — hesitei um pouco em me aproximar dele, parecia estranho sua forma de me tratar, como se quisesse me afastar — Você quer que eu faça algo para comer?
— Não, eu já tomei meu café. — sua voz estava fria e áspera — Faça o que quiser, só não entre no meu quarto.
— Tudo bem. — caminhei até o sofá e me sentei.

Ele estava mesmo muito estranho, não tinha olhado para mim nenhum minuto sequer, será que eu tinha feito alguma coisa de errado? Passei todo aquele tempo sentada no sofá, enquanto esperava as crianças chegarem da aula, ficou em seu quarto trancado. Assim que Jullie e Mike chegaram, ele desceu as escadas dizendo que queria ter uma conversa séria conosco, senti meu coração parar naquela hora, estava com medo de que não fosse algo bom.

— O que eu vou dizer é um pouco difícil, mas é preciso. — ele respirou fundo.
— O que aconteceu papai? — Jullie o perguntou.
— A não vai mais poder ficar aqui, conosco. — disse ele.
— O que? — disseram as crianças junto.
— Eu fiz algo de errado? — perguntei meio desnorteada, não queria pensar que ficaria presa na minha garrafa de novo.
— Não, mas...
— Porque ela tem que ir? — Jullie o olhou — A faz parte da família agora, é por causa da sua namorada?
— O que? — sua face estava meio surpresa — Que namorada? Não é por isso, Jullie.
— O que é então papai? — Mike se levantou — Por que a tem que ir?
— Não é certo que ela fique, eu não sei de onde veio a garrafa dela, talvez seja de outra pessoa e foi misturada as minhas coisas, de qualquer forma, ela não pode ficar mais.
— Mas...
— Jullie. — eu a olhei e sorri — Seu pai tem razão, talvez eu devesse estar em outro lugar e estou aqui por algum desvio, eu não me importo de ir.
— Mas eu sim. — Jullie começou a lacrimejar — E o Mike também.
— Sim. — Mike concordou.
— Não fique assim, ainda seremos amigos.
— Papai, deixe ela ficar até o natal. — disse Jullie — Não queremos passar o natal longe dela.
— Natal? O que é Natal? — olhei para .
— Papai, não temos a mamãe, nos deixe passar o natal com a . Por favor?! — pediu ela.
— Tudo bem, só até o natal.

Jullie se levantou do sofá e pegando na minha mão me levou até seu quarto, Mike nos acompanhou em silêncio, eles estavam tão tristes quanto eu, mas era de se esperar que uma hora eu teria que partir. Jullie secou suas lágrimas e me olhou, mesmo triste eu desconfiava que alguma coisa estava se passando naquela mente criativa.

— Confirmamos o que eu temia, papai está mesmo namorando aquela Penny. — disse ela indo fechar a porta.
— Então deve ser por isso que ele quer que a vá embora.
— Vocês estão com um tom estranho, estou começando a achar que namoradas são pessoas más como as madrastas da Disney.
— Sim. — disse Jullie — Namoradas são mesmo assim como as madrastas, você é uma exceção.
— Eu não posso ser uma namorada, já sou um gênio.
— Você pode ser os dois, não queremos que o papai fique com outra pessoa.
— Você já se perguntou se seu pai gosta dela? — a olhei séria, mas com suavidade.
.
— Jullie, eu sou um gênio, não posso fazer nada que prejudique meu mestre, que é seu pai, e não poderei deixar vocês fazerem também.
— E você vai aceitar ir embora? — Mike me olhou com uma carinha fofa.
— Tenho que atender o pedido do seu pai, com um gênio, mesmo não querendo, ficarei até o natal, seja lá o que for isso.
— Natal é a melhor data do ano. — Jullie me abraçou — Eu não vou desistir, mesmo que tente me impedir, é você que nós queremos.

Meu coração estava mesmo apertado com tudo aquilo, por mais que eu continuasse a sorrir e tentar fazer todos sorrirem, o clima estava um pouco pesado, evitava um pouco de se aproximar de mim e estava sempre chegando mais tarde. Faltava dois dias para o natal, Jullie e Mike estavam um pouco tristes, então eu tive a ideia de levar eles para visitar o túmulo de Mary, já que não tinha levado no aniversário da morte dela.

Fiquei um pouco afastada olhando as crianças de pé em frente a lápide dela, eles choraram um pouco e depois começaram a conversar, como se ela pudesse responder eles. Segurei um pouco minha emoção, mas estava tentando guardar na memória todos aqueles últimos momentos com eles, desde o dia em que saí da minha garrafa quando Mike a destampou, até o natal.

Ajudei Jullie e Mike a decorar a casa e montar a árvore de natal, estava animada com tudo aquilo, foi um momento de diversão que eu poderia usar para fazer eles se esquecerem que eu iria embora em pouco tempo. Jullie havia me dito que as pessoas se presenteiam no natal, eu não tinha dinheiro e não poderia comprar nada, nem faria isso. Eu queria dar algo que realmente pudesse fazer eles sorrirem como nunca sorriram antes, foi então que tive uma ideia.

— O que você está pensando? — parecia confuso.
— Bem. — respirei fundo — Você foram as primeiras pessoas que realmente me trataram como parte da família, por mais que eu não possa ficar, eu queria fazer algo por vocês, algo realmente significativo.
— Algo significativo? — Jullie me olhou sem entender — Você já é significativa para nós.
— Sim. — Mike concordou.
— Eu sei, também tenho um carinho muito grande por vocês, por isso quero dar o maior de todos os presentes.
— Se é um presente, porque vai falar agora? — se levantou — Não deveria ser surpresa?
— Não. — eu sorri — Desde que conheci vocês, percebi que falta uma parte muito importante na vida de vocês, infelizmente mesmo sendo um gênio, não posso trazê-la de volta, mas posso dar a chance de vocês se despedirem de uma forma mais serena.
— Do que está falando? — me olhou.
— Estou falando que posso dar a vocês o melhor natal do mundo, amanhã você não me terão aqui, ao invés disso, terão a presença do membro que falta.
— A mamãe? — Jullie me olhou — Você pode trazer a mamãe para o natal?
— Pode? — me olhou.
— Sim, por um dia, acho que posso fazer ela estar com vocês. — eu sorri — Este é meu presente de natal para vocês.
— Mas e você? — Mike me olhou — Estarei acompanhando um pouco de longe.

Este era meu presente para eles, um dia com Mary, mesmo não podendo trazê-la de volta dos mortos, eu acho que poderia me passar por ela, por um dia. Aquela era a primeira vez em dias que havia realmente me olhado nos olhos, ele parecia confuso e ansioso, certamente meu presente não era exatamente para as crianças, mas para ele, eu sentia que ele tinha que se despedir da sua esposa de forma apropriada. Eu aproveitei aquela noite para invadir as memórias de e das crianças, tinha que extrair o máximo de lembrança que tinham de Mary, assim eu poderia ser perfeita ao me passar por ela.

As horas se passaram e logo pela manhã, me olhei no espelho do banheiro, em um piscar de olhos eu já estava com o rosto de Mary, olhei para minhas mãos, meu corpo estava muito mudado. Era estranho me olhar no espelho e ver a face de outra pessoa, mas estava feliz em fazer aquilo, manhã de natal e a família estaria completa, mas que este completo não contasse comigo.

Desci até a sala, num estalar de dedos tudo estava arrumado no lugar, fui para a cozinha e organizei a mesa do café, todos os ingredientes do almoço já estavam preparados e reservados. Respirei fundo e voltei para sala, não demorou muito até que ouvi o barulho das portas dos quartos se abrindo, eu estava preparada para dar o meu presente a eles com perfeição. Fiquei de costas para a escada olhando para o portarretrato que estava na mesa de centro, tinha a fotos deles juntos, aos pouco ouvi o barulho deles descendo as escadas, meu coração estava acelerado.

— Mary. — disse , deveria estar reconhecendo pelos longos cabelos da esposa — É você?
— Bom dia, meus amores. — sorri para eles, que estavam embasbacados ao me ver.

Estava tudo milimetricamente calculado, até mesmo minha voz estava idêntica à dela, eu não deixaria passar nenhum detalhe. O sorriso leve e meigo, o olhar sereno, a suavidade e doçura na voz, naquele dia que tinha se iniciado, eu não seria mais o gênio, eu seria Mary o membro mais importante daquela família.

 

"Conte-me seu sonho,
Conte-me os pequenos desejos em seu coração."
- Genie / Girls' Generation



Capítulo 15


* POV

Era difícil de acreditar, mas ela estava ali diante de mim e das crianças, minha Mary estava parada no meio da sala sorrindo para mim, senti meu coração acelerar, dentro de mim eu não conseguia segurar minhas emoções. Sorrir ou chorar, eu estava fazendo os dois. Jullie e Mike se aproximaram e a abraçaram, ela se abaixou e retribuiu o abraço com seu sorriso doce de sempre, ela se levantou e deu alguns passos até mim.

— Bom dia. — seu olhar era o mesmo de quando a conheci.
— Mary. — eu a abracei forte, não queria soltá-la mais — Por que me deixou.
— Eu não te deixei, sempre estive em seus pensamentos, agora estou aqui.
— Está, até o final do dia. — me afastei um pouco dela — Não quero de perde de novo.
— Você jamais me perdeu. — ela sorriu — Vamos apenas esquecer o que passou, quero que este dia seja especial para todos nós. — ela olhou para as crianças — Quem está com fome?
— Nós. — Jullie deu um sorriso largo — Vamos tomar café com a mamãe.

Ter Mary ali era como se tudo tivesse voltado ao normal, até o gosto do café era o mesmo de quando ela estava viva. Eu não conseguia parar de olhar para ela, suas mãos delicadas quando passava no cabelo, seu olhar atento para as palavras das crianças, seus sorriso singelo para mim. Meu coração acelerava toda vez que nossos olhares se encontravam, após o café nos sentamos na sala, Jullie e Mike queriam mostrar seus cadernos escolares, queriam contar tudo a ela.

— Que lindo. — disse Mary ao olhar o caderno de desenho de Jullie — Você desenha muito bem, é lindo.
— Eu também sou a melhor aluna da escola. — disse Jullie.
— E como não seria, você é tão inteligente e criativa, estou orgulhosa de você. — ela olhou para Mike — Estou orgulhosa dos dois, são os melhores filhos que eu poderia ter.
— Você é a melhor mãe que poderíamos ter. — Mike sorriu e a abraçou — Mamãe, eu sou o melhor jogador do time, queria que tivesse visto o primeiro gol que eu fiz.
— Eu vi, você estava com medo de bater aquele pênalti, mas foi corajoso e fez um lindo gol.
— Como a senhora viu? — ele a olhou surpreso, todos estávamos.
— Eu estou sempre com vocês, mesmo não podendo estar fisicamente, eu estou bem aqui. — ela tocou no peito dele na altura do coração — Estou vivendo dentro de vocês agora, sei que eu deveria estar presente.
— A culpa não é sua mamãe. — Jullie a olhou — Estamos felizes por morar dentro da gente.
— Eu estou feliz por morar dentro de vocês. — ela os abraçou de leve — Eu amo vocês, amo muito.
— Nós também te amamos. — disse eles.

Eu estava admirado em presenciar aquilo, meus filhos e Mary juntos, eu sempre sonhei com isso, não queria que eles tivessem perdido a mãe tão novos. Ficamos na sala por algum tempo conversando, Jullie e Mike estavam entusiasmados em contar tudo mesmo para Mary, até mesmo sobre eles contaram.

— A senhora iria adorar conhecer ela, nós nos divertimos muito. — disse Mike.
— Sim, temos um novo motivo para sorrir. — completou Jullie — Ela nos levou na era dos dinossauros da última vez, foi muito legal.
— Olha, e vocês não ficaram com medo? — Mary os olhou admirada.
— Não, só o papai. — respondeu Mike rindo.
— Verdade. — eu sorri de leve desviando meu olhar para a mesa de centro.
— Estou feliz que tenha uma pessoa para cuidar de vocês agora. — disse ela.
— Sim, mas o papai expulsou ela. — Jullie parecia frustrada, e com razão.
— O pai de vocês deve ter algum motivo para isso. — ela respirou fundo olhando com carinho para Jullie — Não fique triste, amigos de verdade nunca vão embora para sempre, eles vivem dentro da gente também.
— Mamãe...
— Por que não brincamos um pouco, estou ansiosa para brincar com meus filhos, só não tenho poderes para ir no passado ou fazer explorações, mas acho que posso convencer o papai a fazer guerra de travesseiro, que tal?
— O que? — eu a olhei — Traves...
— Deixa papai? — Mike me olhou — A gente sempre quis fazer isso.
— Mas é claro que ele vai deixar. — ela se levantou me olhando com charme — Afinal hoje é natal e eu estou aqui, não é?
— Sendo pressionado por minha própria esposa. — eu ri de leve — Você sempre soube como me controlar.
— Só queremos nos divertir.

Eu assenti fácil, não iria negar um pedido dela, as crianças comemoraram um pouco e logo correram para meu quarto, Mary pegou em minha mão e me puxou junto. Foi mais que uma festa, as penas sintéticas do travesseiro voaram pelo quarto, não me importava com isso, meu olhar estava no sorriso de Mary. Seus olhos brilhando como os dos meus filhos, estávamos mesmo nos divertindo, de forma simples mas sublime.

— Ah, eu me rendo, estou cansada. — disse ela se sentando na cama.
— Te pegamos mamãe. — Mike pulou em cima dela — Nós vencemos.
— Sim, vocês venceram, são os melhores em guerras de travesseiro. — ela riu erguendo seu corpo e me olhando.
— No que está pensando? — perguntei, aquele olhar era pensativo demais.
— Estou pensando que vocês poderiam arrumar essa pequena bagunça, enquanto eu preparo o almoço.
— Ah, sabia que nossa diversão iria terminar assim. — Jullie fez cara triste.
— Mãe são sempre assim. — eu ri um pouco olhando para Mary — Vamos arrumar senhora Mary.
— Não demorem.

Mesmo com desejo de passar o máximo de tempo perto de Mary, demoramos um pouco arrumando o quarto, porque sempre parávamos para brincar um pouco mais no meio das penas. Quando chegamos na cozinha a mesa estava posta e o almoço quase pronto, o cheiro estava maravilhoso, eu me lembrava do gosto da comida de Mary, o tempero era suave, mas o sabor era incomum e maravilhoso.
E sim, tinha o mesmo sabor que eu me lembrava, Mary tinha feito um tender assado, com purê de batata, ervilhas e salada, fiquei impressionado por ela ter feito até a sobremesa, sua torta de morango com chocolate, uma receita de família. Aquele dia estava sendo muito precioso para mim, era sim uma boa forma de me despedir de Mary, acho que estava começando a aceitar a morte dela.

Complicado, mas eu realmente precisava estar novamente na companhia da minha esposa para aceitar sua morte e deixá-la ir de verdade. Tinha certeza que depois de hoje eu sempre iria me lembrar dela, mas não com tristeza e sim com alegria por ter me casado com alguém como ela. Eu ajudei Mary e retirar a mesa, enquanto isso as crianças foram para sala ver um filme, era estranho estar ali com ela no mesmo ambiente sozinho, mas era bom ao mesmo tempo.

— Eles cresceram muito. — disse ela ao fechar a geladeira — Você tem cuidado muito bem deles.
— Sim, apesar de sempre falta alguém muito importante. — disse me referindo dela.
— Tenho certeza que não farei mais falta, eles sempre me terão por perto de alguma forma.
— Obrigado. — disse a ela segurando minha emoção.
— Pelo que? — seu olhar sereno parecia confuso.
— Por estar aqui hoje.
— Está me agradecendo por estar aqui com vocês? Minha família que eu amo muito?
— Acho que sim. — eu ri de leve — Você aqui, está sendo o melhor presente, sei que amanhã será difícil para eles.
— Porque? — ela deu alguns passos até mim — Algo te preocupa?
— Ando tomando alguns decisões que podem fazer eles ficarem tristes, é difícil sem você aqui.
. — ela sorriu — Sei que você sempre irá fazer o que é melhor para eles, jamais haverá um pai melhor do que você.
— Eu te amo. — eu me aproximei mais dele para lhe beijar.
— Eu sei, e sempre senti o mesmo. — ela desviou sua cabeça se afastando de mim — Vamos para sala, temos que abrir os presentes.
— Sim.

Respirei fundo, a segui até a sala, as crianças já estavam sentadas perto da árvores nos esperando, não tinha muitas caixas, mas os poucos presentes que abrimos significaram muito para nós. Jullie e Mike deram um presente para Mary, o cordão que era dela e tínhamos guardado depois da sua morte, Mike a ajudou a colocar no pescoço, Mary parecia muito emocionada.

— Você realmente guardaram bem, não vou me esquecer. — ela alisou o cordão de leve — Foi o melhor presente que poderia ganhar.
— Que bom que gostou mamãe. — Mike sorriu — Foi minha ideia.
— Ah, que lindo. — ela o abraçou — Eu adorei, só lamento não ter trago nada para vocês.
— Você estar aqui já é um presente mamãe. — disse Jullie — Foi o melhor natal que tive até hoje.
— Eu também. — concordou Mike.

Eu assenti com a face concordando também, aquele natal estava maravilhoso, nos sentamos na sala para assistir mais uma vez o filme favorito dela, Mary sempre se emocionava ao ver aquele filme. A cada hora que se passava, aproveitávamos ainda mais aquele momento com ela, aos poucos foi escurecendo e o tempo foi passando, as crianças começaram a lutar contra o sono, pois sabiam que quando acordasse não teriam mais a mãe.

— Mamãe. — disse Jullie assim que a colocamos na cama.
— Sim querida?! — Mary se sentou na beirada da cama — O que deseja?
— Eu vou te ver de novo? — perguntou ela com sua voz já sonolenta.
— Sim, sempre que quiser me ver, basta fechar os olhos que estarei em seus sonhos. — Mary beijou sua testa de leve — Agora durma.
— Boa noite mamãe.
— Boa noite querida.

Passamos no quarto de Mike para que ele pudesse se despedir também, Mike pediu para que ela contasse uma história para ele, Mary assentiu e pegou seu livro preferido para ler, a incrível história do Gato de Botas. Antes da metade da história Mike adormeceu, mas Mary continuou contando até o final, ela fechou o livro lhe deu um beijo na testa de se levantou, deixamos a luz do abajur ligado e saímos do quarto.

Mary me acompanhou até meu quarto, eu senti que aquele era o adeus, eu não queria que fosse tão rápido, queria poder voltar ao início do tia e repetir tudo que fizemos todo aquele tempo.

— Queria poder ter mais tempo para me despedir. — disse assim que entramos no quarto — Queria mais tempo com você aqui.
— Bem, acho que não seria bom, um dia apenas era tudo que precisavam. — ela sorriu me olhando tranquilamente — Sabe que não posso ficar, mas estou feliz por estar aqui também.
— Mary. — eu me aproximei dela, desta vez não a deixaria fugir — Obrigado por ter me amado.
— Também sempre serei grata por seu amor, mas agora deve me deixar ir. — ela segurou em minha mão — Sei que você ficará bem, pessoa boas merecem uma segunda chance.

Suas palavras me fizeram lembrar da frase que estava escrita na garrafa de , senti meu coração pulsar mais forte, eu não iria me segurar, a beijei de surpresa sem ressentimento.

* POV

Eu estava estática com aquilo, segundo o que havia aprendido, aquilo era um beijo, estava me beijando de forma tão intensa e apaixonada, tanto que eu conseguia sentir nossos corações acelerados. Seus braços envolveram em minha cintura, aproximando ainda mais meu corpo do dele, era uma experiência nova e embaraçosa para mim, era a primeira vez que eu beijava alguém. Eu estava confusa com aquilo, ele estava me beijando, mas eu ainda estava como Mary, será que ele pudesse imaginar que era eu ali e não ela?

 

“Conte-me seu desejo
Sou um gênio para você, garoto
Conte-me seu desejo
Eu sou gênio para o seu desejo
Conte-me seu desejo
Eu sou gênio para o seu sonho
Conte apenas para mim
Eu sou gênio para o seu mundo.”
- Genie / Girls' Generation



Continua...



Nota da autora:
(18.10.2016)
Mais uma fic minha aqui no FFOBS, espero que gostem dessa também, fiquem à vontade para deixarem seus coments,
críticas e elogios sempre serão bem-vindos!!
Deixo também aqui o link das redes sociais, lá vocês poderão encontrar mais fics escritas por mim
e ficar por dentro de novidades e atualizações das fics aqui no Fanfic Obsession!!!
Ask PM², Grupo Pâms Fictions e Fanfic's University
Bjinhos...
By: Pâms!!!!

Minhas fics no FFOBS:
Cold Night
Crazy Angel
Destiny's
Electrick Shock (Especial Challenge #18)
Genie
I Am The Best (mixtape Girl Power)
I Need You... Girl
My Little Thief
Piano Man (mixtape Girl Power)
Photobook
Promise
Smooth Criminal
The Boys (mixtape Girl Power)
TVXQ: Tohoshinki




comments powered by Disqus




TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE FANFIC OBSESSION.