Última atualização: 12/02/2018
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Prólogo

Eu nunca acreditei em pressentimentos, sexto sentido, ou coisas do tipo. Sempre fui cética quanto a isso.

Até o dia de hoje.

Começou de manhã. Acordei atrasada. Isso não acontecia nunca, pois sempre me acordava com um beijo nos lábios antes de sair para trabalhar. Hoje, ele sequer me avisou que já estava indo. Isso só tinha acontecido uma vez. E eu não gostava de lembrar o porque.
Também não achei meu sapato preferido, o qual eu gostava de usar em meus plantões todos os dias. Jurava que havia o deixado ao lado do guarda-roupa na noite anterior.
Além disso, não precisei acordar meu filho pois ele já estava na cozinha, tomando seu café da manhã, vestindo o uniforme da escola.
Minha filha não chutou minha barriga, como sempre fazia todos os dias logo após eu acordar.
Eu também não vi o casal de velhinhos da casa vizinha a nossa regando as plantas de seu jardim quando saí de casa.
E quando cheguei ao hospital, depois de deixar Cooper na escola, me assustei com a calmaria daquele lugar.

Isso só podia significar uma coisa: algo ruim estava para acontecer.

E eu tive certeza, quando, as 18h da tarde, quase no meu horário de ir embora, meu celular tocou.
Era da escola de Cooper.
Seu pai não havia ido busca-lo.

Algo estava errado.
E eu soube o que era assim que uma ambulância parou em frente ao hospital.


Parte I

Ponto de vista: .

O celular que estava em minha orelha escorregou, caindo no chão. Quando dei por mim, já estava correndo em direção à ambulância e gritando por meu marido.

- ! ! - Chamei, desesperada, ao mesmo tempo em que meus colegas de profissão se reuniam ao redor da maca que carregava meu homem.
- , policial, ferido em combate. Dois tiros no peito, perdeu muito sangue no local, conseguimos estabiliza-lo...

Parei de raciocinar após ouvir seus ferimentos.
Meu marido, baleado. No peito.
Tudo o que eu senti durante o dia estava explicado.
Toda a aflição, o sentimento de que algo estava para acontecer, os acontecimentos fora do normal, tudo fez sentido naquele momento.

Os médicos se afastaram, entrando na área emergencial para começar a tratar os ferimentos de . Eu precisava ir lá, precisava ver como meu marido estava, precisava ajudar.
Mas eu não consegui me mover.
Estava em choque.

Senti que cairia no chão a qualquer momento, então instintivamente levei minhas mãos a minha barriga de 30 semanas de gravidez, protegendo-a, ao mesmo tempo em que me encostei à parede mais próxima. No segundo seguinte, minha visão ficou turva. Não conseguia respirar direito, o ar me faltava nos pulmões. Ouvi algumas vozes me chamando, mas elas pareciam muito distantes. Comecei a puxar o ar pelo nariz, expirando-o pela boca, para que me acalmasse. Depois de repetir isso algumas vezes, o ambiente ao meu redor começou a clarear.

- ? - Ouvi uma voz masculina me chamar.
- Dra. ? Você está bem? - Outra voz falou, dessa vez feminina.

Esperei mais alguns segundos até minha respiração normalizar completamente e levantei meu olhar, encontrando Jeff, parceiro de , e Lorna, minha fiel enfermeira, parados em minha frente. Apoiei minhas mãos na parede e ajeitei minha postura, respirando fundo mais algumas vezes. Passei as mãos pelos cabelos e limpei as lágrimas que estavam ao redor de meus olhos, tentando me recompor.

- , nós estávamos... Eu estava... Se eu não tivesse... - Jeffrey falou, se explicando.

Com uma calma desconhecida, levei minhas mãos aos ombros dele, e antes de falar com Jeff, peguei as chaves de meu carro no bolso de meu jaleco e entreguei-as a enfermeira Lorna, que me entregou meu celular que havia caído anteriormente.

- Lorna, busque meu filho na escola. Faça qualquer coisa, leve-o para comer, compre-lhe brinquedos, distraia-o, só não lhe diga que o pai foi baleado. Por favor.

Ela pegou as chaves de minha mão e assentiu, virando-se e indo em direção à saída do hospital imediatamente. Voltei então meu olhar para Jeffrey, que estava com lágrimas nos olhos.

- Jeff, me conte o que aconteceu. Rápido. - Pedi, minha voz saindo um pouco esganiçada.
Guiei-o pelo ombro até mais perto da área de emergência e então ficamos novamente frente a frente.
- Nós fomos atender a um chamado em uma casa, porque os policiais da ronda não estavam respondendo. Quando chegamos lá, encontramos os dois mortos. - Ele fez uma pausa. - Solicitamos reforços. Foi quando um cara apareceu, atirando em nossa direção. estava na frente, então os dois tiros foram diretamente nele.

Meus olhos arderam e eu sabia que estava chorando, mas não me importei. Só precisava entender o que havia acontecido com meu marido.

- Eu consegui atirar no homem a tempo, ele morreu na hora. - Jeff suspirou e passou as mãos pelo cabelo nervosamente, bagunçando-o. - Eu não... Se eu tivesse sido um segundo mais rápido, ... Um segundo...
Abracei-o rapidamente, sem pensar duas vezes.
- Ei. A culpa não foi sua. Tenho certeza disso. - Falei quando me afastei.
- Como você consegue? Eu quem deveria estar te consolando. - Jeffrey falou e deu um sorriso de lado, tristonho, o qual eu retribuí da mesma maneira.
- Oi? Você me viu há um minuto atrás. - Respondi e ele riu fracamente. - Mas eu entendi. É minha profissão, não esqueça. E também porque eu não o vi ainda. - Confessei, soltando o ar pela boca. - Preciso ir. Você vai ficar bem? O resto do pessoal está vindo?
Ele balançou a cabeça em confirmação.
- Devem estar chegando.
- Volto com notícias assim que eu as tiver. - Avisei-o antes de me virar.

Foram só alguns passos até a porta da emergência. Tive que respirar fundo diversas vezes antes de entrar, com medo. E assim que o fiz, o pesadelo começou.

- Ele está perdendo muito sangue!
- Precisamos de duas unidades de sangue aqui, agora!
- Uma das balas está alojada no átrio direito e a outra atravessou a aorta e está no pulmão.
- Precisamos abri-lo agora!

- Dra. ? - Uma enfermeira apareceu em minha frente, colocando as mãos em meus ombros.
Pisquei os olhos algumas vezes, só então percebendo que estava chorando.
- Eu... Eu preciso vê-lo. - Falei, andando imediatamente até a maca onde ele estava.
- Dra. , eu não acho que seja uma boa...
- ! - Dr. Potter me chamou, seu tom de voz alto.
Olhei para ele imediatamente.
- Por favor, eu... - Funguei, respirando fundo. - Por favor.
Ele pareceu pensar por alguns segundos e então balançou a cabeça em confirmação.
- Pode nos acompanhar até a sala de cirurgia. Mas depois, distância. - Ele avisou.

Sem pensar duas vezes, me aproximei de meu marido. Ele estava desacordado, todo sujo de sangue. Meu coração apertou. Me abaixei e inclinei meu corpo contra o dele, debruçando-me. Um soluço escapou por entre meus lábios.
- ... Você vai ficar bem. - Falei com a voz embargada, tentando convencer a mim mesma. Procurei sua mão e entrelacei meus dedos nos dele, apertando-a.

A caminhada apressada até a sala de operações foi a mais difícil de minha vida. Claro que por esse mesmo motivo, pareceu durar uma eternidade.
Naqueles segundos, não pensei em Cooper, confuso e esperando inquieto que alguém o buscasse na escola.
Tampouco pensei em Frankie em meu ventre, mais quieta que o usual, quase como se estivesse paralisada de medo pelo estado de seu pai.
Não. Em minha mente só passavam flashes de quando nos conhecemos pela primeira vez; de quando ele fez uma serenata completamente desafinada no meio da rua para que eu aceitasse sair com ele; de como ele me pediu em namoro e depois em casamento. Em minha mente, eu só via me esperando no altar; só conseguia enxergar a emoção em seus olhos quando descobriu que eu estava grávida e sua expressão admirada quando embalou Coop em seus braços pela primeira vez.

- Sala de operações cinco, doutor! - Berrou um enfermeiro com um pager na mão.
Ao entrar no corredor do departamento cirúrgico, dei um último aperto na mão do homem que amava e, às portas da sala em que seria operado, apoiei uma mão na parede apertando meus olhos para recuperar minhas forças.

Um chute.
A colisão do pézinho de Frankie em minha barriga foi tudo o que precisei para me recompor.
Não era só eu.
Meus filhos precisavam de mim. Precisavam que eu me cuidasse, que eu fosse forte. Não importava como me sentisse, eu tinha que pensar nas crianças.

Foi com esse pensamento em mente, que peguei meu celular de dentro de meu bolso e procurei o contato de Lorna, ligando para ela imediatamente.
- ? Como ele está? - Ela atendeu prontamente.
- Em cirurgia. - Funguei, esfregando meu nariz. - Como está Cooper? Onde vocês estão?
- Trouxe Cooper para a casa de seus pais. Estamos aqui. Não sairei do lado dele, prometo.
Respirei aliviada, e ela voltou a falar:
- Eles estão apreensivos, mas concordaram em manter segredo do menino. Sua mãe queria ir aí, mas convenci-a a ficar aqui por enquanto. Eles avisaram os pais de e a qualquer momento eles devem chegar.
Suspirei, baixinho. Teria que lidar com meus sogros. Como dizer a eles que seu único filho havia sido baleado no peito?
- Muito obrigada, Lorna. - Agradeci. - Se você não tivesse ido buscar Coop, eu não saberia para quem recorrer.
- Tudo bem, querida. Pode contar comigo. Alguma informação sobre como ele está? - Ela perguntou, preocupada.
- Não me deixaram entrar na sala de cirurgia, obviamente, mas estou na sala de observação. Já abriram todos os tecidos exteriores e estão acessando a área do ferimento agora.
- ... - Eu ouvi minha colega suspirando emocionada, ao mesmo tempo em que me repreendia por estar ali.
- A bala no pulmão é o que mais preocupa no momento. - Continuei tagarelando sem parar para pensar no que tudo aquilo significava, mesmo que, no fundo, eu já soubesse. - Ele perdeu muito sangue, já fizeram transfusão de três unidades somente nesse intervalo de tempo. Dr. Potter disse que...
- ! - Me chamou, um pouco alto, fazendo com que eu parasse de falar. - Me escute. Vá para um quarto e descanse. Está me entendendo? Frankie já teve emoção o bastante por hoje. Você e ela precisam repousar. Qualquer novidade você sabe que vão chama-la.
- Mas eu não posso deixa-lo. - Choraminguei, levando minha mão livre até minha barriga, acariciando-a.
- Você não vai deixa-lo e sabe disso. Mas sua presença aí só vai deixar os cirurgiões mais nervosos do que já estão só pelo fato de ser seu marido na mesa de cirurgia!
- Ok. - Suspirei, derrotada.
- E beba um pouco d'água. - Lorna me lembrou.
- Obrigada. De verdade. - Agradeci mais uma vez.
- Se precisar de mais alguma coisa, estou aqui, querida. Cooper está bem. Vá descansar.
Agradeci a ela uma última vez antes de terminar a ligação.

Sair daquela sala foi difícil, mas assim que o fiz, percebi o quanto queria ficar sozinha e dormir. Precisava desligar minha mente de todos os fatos médicos os quais eu tinha conhecimento e que me confirmavam o que eu mais temia: as chances de não eram nada boas. Um tiro já era perigoso, mas dois em locais de risco diferentes eram algo a mais.

Antes de entrar em um quarto de descanso, me lembrei de Jeffrey e dos demais colegas de , que deveriam estar esperando por notícias. Me dirigi, então, até a sala de espera, encontrando cerca de dez policiais. Assim que me viram, eles se levantaram e vieram em minha direção.

- ... - Gerard, supervisor de meu marido, foi o primeiro falar. - Como ele está?
Olhei para cada um dos homens ali presentes e respirei fundo, procurando forças dentro de mim, antes de começar a falar:
- Em cirurgia. - Respondi. - Uma das balas está em seu coração e a outra atravessou a aorta e foi para o pulmão. Ele... - Funguei um pouco alto e no mesmo momento Jeff apareceu ao meu lado e segurou minha mão. - Ele perdeu muito sangue. Não vou mentir, as chances não... - Minha voz embargou. - Não são boas.

Um soluço baixo escapou e senti os braços de Jeff e Gerard ao meu redor imediatamente. Aos poucos, fui me acalmando. Quando eles se afastaram, esbocei um sorriso pequeno.

- Eu preciso descansar. Por mim e por Frankie. - Coloquei as mãos em minha barriga. - Cooper está com meus pais. Os pais de chegarão a qualquer momento. Posso contar com vocês para falar com eles?
- Com certeza. Vá descansar. Estaremos aqui. - Gerard disse a mim.
- Pedirei para que te chamem qualquer coisa. - Jeff afirmou.
Balancei a cabeça em agradecimento para os dois e me virei, voltando a andar em direção aos quartos de descanso.

Entrei no primeiro que vi em meu campo de visão, por sorte estava vazio. Passei no banheiro para lavar meu rosto, mas quando estendi minhas mãos, assustei-me com o vermelho que as manchava. Parte de meu rosto também exibia algo que só podia ser o sangue de . Não me admirava que as pessoas olhassem para mim como se eu fosse a morte enquanto andava pelo hospital. Engoli em seco e abri a torneira, jogando água no rosto em seguida. Fiquei observando o líquido avermelhado que escorria de meu rosto afinar-se até voltar a ser transparente.

Não consegui encarar meus olhos no espelho. Quem eu veria? Não estava disposta a descobrir, ainda.

Cair no sono não foi difícil, mas ao contrário do que eu pensava, dormir não significava ter a mente em branco. Pesadelos são ruins. Quando eu era criança costumava tê-los de todos os tipos. A mente humana me fascinava e isso foi uma das coisas que influenciaram minha paixão por neurologia. Acordar de um sonho ruim não era nada. A realidade era reconfortante. Porém, acordar de um sonho para o pesadelo real, me apavorava.

Acordei com duas mãozinhas ao redor de mim e uma voz infantil me chamando. Logo reconheci como sendo de Cooper.
- Mamãe. - Chamou.
Senti suas mãos em meu rosto, uma de cada lado, e me forcei a abrir os olhos.
Meu filho e minha mãe estavam parados ali, me observando com os olhos atentos.
Apoiei minhas mãos na cama e ergui meu tronco, me sentando.
- Ei. Que horas são? - Perguntei.
Minha mãe olhou em seu celular antes de responder:
- Quase 1h da manhã.
Fiz uma careta para ela e então me voltei para meu filho.
- Ei, Coop. - Falei, puxando-o para que se sentasse ao meu lado. - Como você está?
- Bem. Assustado. Por que ninguém me conta o que 'tá acontecendo, mamãe? - Ele perguntou, com a expressão triste. - Você vai me contar, né, mãe? Eu já tenho idade pra saber das coisas!

Reprimi uma risada, pois não era o momento. Cooper e sua ideia de que já era um adulto. Odiava demonstrações de carinho em público. Odiava que o tratassem como criança e que escondessem as coisas dele. Desviei meu olhar de meu filho e meus olhos se encontraram com os de minha mãe, que me pediu desculpa com o olhar.

- Filho... - Comecei, passando a mão por seu cabelo encaracolado, ajeitando-o. - Lembra quando o papai te falava que o trabalho dele não era fácil e ele tinha que ter muito cuidado, por que era perigoso?
Ele balançou a cabeça, concordando.
- Seu pai se machucou no trabalho, meu amor. - Falei, mordendo meu lábio internamente.
- Mas é só limpar bem com álcool e colocar um band-aid, você e ele sempre me ensinaram isso! Por que você não 'tá fazendo curativo no papai? - Perguntou, cruzando os braços, emburrado.
Suspirei e passei a mão pelos cabelos, me sentando na cama logo em seguida. Puxei-o para meu colo.
- Não é tão simples, amor. Seu pai está com machucados mais profundos. Só um curativo não vai adiantar.
Ele ficou quieto por alguns segundos, enquanto eu trocava olhares nervosos com minha mãe, que observava a cena de longe.
- Ele levou um tiro? - Cooper perguntou, fazendo eu me virar para ele imediatamente.
- Como você sabe dessas coisas? - Perguntei, surpresa.
- Mamãe, você é tão lerdinha, às vezes. - Ele disse, revirando os olhos. - Se meu pai é um policial, ele tem uma arma, mesmo eu nunca tendo visto. E eu assisto TV, lembra? - Perguntou, como se fosse óbvio. - Sei que as pessoas levam tiros. Foi isso que aconteceu com meu pai?

Fiquei sem palavras por alguns segundos, me perguntando como aquela criança podia ser real. Extremamente inteligente.

- Sim... - falei.
- No coração? - Questionou novamente.
Balancei a cabeça confirmando. Os olhos dele se encheram de lágrimas no mesmo momento. Eu estava preparada para abraça-lo e consolá-lo, mesmo que me doesse. Mas não precisei. Ao invés de começar a chorar, desesperado, meu filho respirou fundo várias vezes e esfregou os olhos. Depois, se levantou e estendeu a mão para mim.
- Vem, mamãe. Precisamos ser fortes pelo papai.

Olhei para minha mãe, e ela estava como eu: completamente chocada. Segurei na mão de meu filho ao mesmo tempo em que ajeitei meu jaleco com a outra mão. Segui até minha mãe e ela me abraçou de lado.
- Você falou com alguém desde que chegaram aqui? A cirurgia já acabou? - Perguntei a ela um pouco mais baixo.
- Lorna foi atrás dessas informações, junto com seu pai. Acho que ele ficou com o pessoal da polícia, na sala de espera. Os pais de estão aí.
Balancei a cabeça em confirmação e saímos os três do quarto de descanso.

Andamos até a sala de espera e assim que me viu, meu pai veio em nossa direção.
- Querida. - Me cumprimentou, abraçando-me em seguida.
Soltei a mão de meu filho e fiz o mesmo, passando os braços ao redor de meu pai.
- Pai. - Falei, assim que nos afastamos.
Mal nos separamos e a mãe de jogou os braços ao redor de mim.
- ! - Falou, passando a mão em meus cabelos. - Vai ficar tudo bem, não é? Nosso vai sair dessa. - Afirmou, tentando se manter forte.
Confirmei com a cabeça, apesar de não ter certeza. Quebrei nosso abraço e então o pai de veio em minha direção, abraçando-me brevemente, sem falar nada. Ele sempre foi mais reservado.
- Lorna conseguiu informações? - Perguntei ao meu pai.
- A cirurgia está quase acabando. - Foi Jeff quem falou, aproximando-se de nós.
Ele se abaixou em frente a Coop.
- Ei, campeão. - Falou, bagunçando o cabelo dele.
Cooper fez uma careta curiosa.
- Campeão de que? O que eu ganhei? - Perguntou, arrancando risadas baixas de todos nós.
- É modo de dizer, amor. - Expliquei a ele, que balançou a cabeça em confirmação.
- O que acha de irmos comer algo? Você está com fome? - Jeff perguntou e Coop balançou a cabeça em confirmação e depois olhou para mim.
- Mas eu não posso deixar mamãe sozinha. - Ele disse, voltando a segurar em minha mão.
- Eu não vou ficar sozinha, bebê. - Ele fez uma careta ao ouvir a palavra bebê. - Eu não vou ficar sozinha, filho. - Repeti e frisei a palavra filho.
Cooper sorriu satisfeito.
- A gente demora? - Ele perguntou a Jeffrey, que negou com a cabeça. - Então eu quero ir porque estou com fome de três leões. - Exclamou, empolgado.
Ele puxou minha mão e levou-a até sua boca, dando um beijo nela antes de soltá-la. Sorri para ele e então ele se afastou com Jeff.

- Então? - Voltei-me para meu pai, aguardando informações.
- Lorna se foi há alguns minutos e ainda não voltou. - Ele respondeu, colocando as mãos nos bolsos.
Suspirei profundamente e concordei com a cabeça.
- Querida, você comeu algo? Também precisa se alimentar. - Minha sogra disse ao meu lado.
Balancei a cabeça em negação, suspirando em seguida.
- Não. Eu dormi e acordei agora.
- Vou buscar algo para você comer. - Ela disse, se retirando junto com seu marido em logo depois.
- Eu vou até lá. - Avisei. - Preciso ver com meus próprios olhos. - Disse a meus pais, que balançaram a cabeça em compreensão. - Estou com medo. - Confessei.
- Oh, querida. - Minha mãe disse, abraçando-me de lado.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas e respirei fundo.
- Eu preciso ir. Vocês ficam aqui? - Perguntei, e os dois assentiram. - Já volto.
Dei um beijo em cada um e me afastei.

Quando cheguei na sala de operações, higienizei rapidamente minhas mãos para poder entrar. Porém, mal me aproximei da sala de número 5 e Lorna veio correndo até mim, me impedindo de continuar.
- ! - Falou, segurando em meus ombros. - Ele teve uma parada cardíaca, mas você...

Parei de ouvir.
No segundo seguinte, eu já estava me desvencilhando dos braços de Lorna. Corri para a sala e abri a porta em um estrondo, fazendo toda a equipe médica olhar em minha direção.

- Dra. ? - Dr. Potter perguntou, surpreso com minha presença ali.
- Ele... - Fiz uma pausa, respirando fundo entre as lágrimas que já insistiam em descer.
- Ele está estável. Teve uma parada cardíaca há alguns minutos atrás, mas conseguimos estabiliza-lo.
Soltei o ar pela boca e me apoiei na porta, respirando fundo.
- Você não esperou eu terminar de falar. - Lorna disse ao meu lado, repreendendo-me.
- Vamos fechá-lo e ele estará na UTI dentro de uma hora. - Dr. Potter me avisou.
- Me desculpe. Eu... Eu achei que ele havia... Me desculpe. - Falei enquanto dava alguns passos para trás, me afastando da sala de operações.

Me encostei na parede mais próxima, encostando a cabeça na mesma. Levei minhas mãos a minha barriga e acariciei-a calmamente. Lorna apareceu com um copo d'água e estendeu-o para que eu bebesse. Ingeri o líquido devagar, parando para respirar algumas vezes.
- E agora? - Questionei.
- Agora temos que esperar. Infelizmente não tenho nada para te falar que seja diferente do que você já sabe...
- Temos que esperar para ver se ele irá acordar. - Completei, bufando. - E se ele não acordar, Lorna? O que vai ser de mim, de Cooper e de Frankie, que ainda nem nasceu? Meu Deus... - Desesperei-me, levando minhas mãos até meu rosto.
- ... - Ela me repreendeu, parando em minha frente com as mãos em meus ombros.
Suspirei e descobri meu rosto. Abaixei meus ombros, tentando relaxar.
Como se isso fosse possível.
- Vamos voltar, avisar aos seus pais e aos colegas de , tudo bem?
Assenti e balancei a cabeça em confirmação, permitindo que Lorna me guiasse de volta até a sala de espera.

Ao chegarmos lá, meu filho veio correndo em minha direção.
- Mãe! - Chamou, abraçando-me pela cintura.
Não consegui responde-lo, mas retribuí seu abraço.
Meus pais, meus sogros e os policiais vieram em nossa direção, a espera de notícias. Mas, por algum motivo, eu não conseguia abrir a boca. Então, permaneci quieta, abraçada a meu filho, enquanto Lorna falava:
- Houveram algumas complicações, mas ele está bem, por hora. Em 1h estará em um quarto na UTI. Não poderá receber visitas hoje, além dos familiares. - Lorna explicou. - Não sabemos quando ele acordará.
Ou se acordará, completei mentalmente.

Levantei meu rosto, tentando evitar que as lágrimas caíssem. Ao mesmo tempo, senti o aperto dos braços de meu filho ao redor de mim se afrouxar. Abaixei meu olhar para ele e vi seus olhos cheios de lágrimas, mas ele não ousava derrubar nenhuma, ao contrário de mim. Cooper esticou as mãos e eu me abaixei para que ele me tocasse.

- Vai ficar tudo bem, mamãe. - Falou, limpando meu rosto. - O pai é um herói, lembra? Ele já foi homenageado e tudo! - Ele lembrou, deixando um sorriso escapar. - Heróis não morrem, mãe.

Ao ouvi-lo dizer isso, soltei um soluço alto e abracei-o contra meu corpo. Seus braços me envolveram novamente e no mesmo instante, senti Frankie chutar, como se quisesse deixar claro que ela estava ali também, conosco.
Estávamos os três juntos e, mesmo sem ter certeza do futuro, era isso que importava no momento.

Não sei exatamente quanto tempo se passou até que Dr. Potter viesse nos dar notícias. Cooper estava adormecido em meus braços, depois de muito lutar contra o sono. Ele dormia abraçado a mim, com sua mão descansando em minha barriga.
Agora, só estávamos eu, meus pais, os pais de , Jeff e Gerard sentados na sala de espera. Assim que Dr. Potter apareceu, todos se levantaram, menos eu, para não acordar Cooper.

- Ele já está no quarto. Ainda está sob efeito da anestesia, então precisamos esperar ele acordar. - Explicou. - Mas, preciso alertá-los...

Ah, não. Essa seria a pior parte.

- Ele perdeu muito sangue. Teve uma parada cardíaca. Seu corpo sofreu muito com o trauma. É possível que ele leve um tempo para acordar.
Todos ficaram silêncio. Eu já sabia o que isso significava, então não me dei ao trabalho de falar nada.
- Um tempo? - Minha sogra perguntou, abraçada a seu marido.
- Sim, um tempo. - Dr. Potter falou. - O corpo dele precisa se recuperar. É o que chamamos de coma. Pode levar alguns dias ou meses.
Ela soltou um soluço alto e escondeu o rosto no pescoço de seu marido, chorando. Eu mordi meu lábio e olhei para cima, piscando algumas vezes.
- Nós iremos monitorar o quadro de de perto. Fiquem tranquilos. - Assegurou-nos. - , se quiser ir até o quarto dele... Fique à vontade. Somente duas pessoas por vez. Então sugiro que permita que os pais de o vejam antes, para que depois você se acomode no quarto com seu filho.
Assenti para o homem e olhei para meus sogros, incentivando-os a acompanharem o médico.
- Venham comigo, então. - Dr. Potter falou, chamando-os.
Os três seguiram corredor a dentro e logo sumiram de minha visão.

- Filha? - Minha mãe me chamou.
Olhei para ela no mesmo instante, encontrando-a abraçada a meu pai.
- Quer que levemos Cooper para casa para você tomar um banho e descansar? - Meu pai perguntou.
Neguei com a cabeça.
- Ele fica comigo. Prometo que se eu precisar, ligo para vocês. Podem ir. - Avisei-os, ajeitando minha postura na cadeira.
- Você tem certeza? - Minha mãe questionou, preocupada.
- Tenho, mamãe. Cooper vai odiar ficar longe do pai. E vocês sabem que ele é muito esperto e saberá que estamos escondendo algo dele. - Falei, esboçando um sorriso pequeno. - Eu conversarei com ele.
- Tudo bem. Qualquer coisa nos chame, tudo bem?
Meus pais se aproximaram e deram um beijo em minha cabeça, retirando-se logo em seguida.

Suspirei e baixei meu olhar para meu filho, ainda adormecido em meus braços. Levei minha mão livre até seu cabelo e acariciei-o. Ele se mexeu um pouco, então logo parei com o movimento. Quanto mais ele dormisse, melhor. A espera agora passaria de forma lenta, mesmo se não fosse longa.

Algum tempo depois, fomos chamados para ir ao quarto que estava, dentro da UTI. Seus pais já haviam ido embora. Ao chegar lá, aconcheguei Cooper no sofá que tinha no canto do quarto e me aproximei da cama onde meu marido estava desacordado. Vários fios se conectavam a aparelhos, monitorando sua frequência cardíaca e atividade cerebral. Havia um acesso venoso em seu braço direito, para que fosse medicado. Tentei ignorar tudo isso, e levei minha mão até seu rosto, passando os dedos levemente por sua bochecha. Inconscientemente, esbocei um sorriso pequeno. Subi minhas mãos até seus cabelos, ajeitando-os. Passei meu dedo indicador levemente por seus olhos, seu nariz e sua boca. Por fim, abaixei-me e deixei um beijo em seus lábios.

- Estamos aqui, amor. - Disse baixinho contra seu rosto. - Estamos aqui, por você. - Completei, mesmo que ele não pudesse me ouvir.


Parte II

Ponto de vista: Cooper David .


Já faziam quase dois meses que papai estava dormindo. Eu não entendia muito bem, mas sabia que ninguém precisava descansar tanto. Mamãe me explicou que ele precisa dormir para que seus machucados se curem, mas isso não faz sentido. Ele estava em coma. Mas coma me lembra comida, o que me faz ficar ainda mais confuso. O que comida tinha a ver com dormir e curar machucados?

Papai ficava cada dia mais magro. Não que ele não tivesse um corpo saudável antes, mas seus músculos pareciam ter murchado com a falta de uso. Fui perguntar para mamãe se isso tinha alguma coisa a ver com Lamarckismo - algo que aprendi na aula de ciências. Porém, ela estava muito sensível ultimamente, e por algum motivo ficou muito triste. Antes, seus olhos sempre brilhavam ao encontrar os de meu pai, mas agora que ele estava parecendo a bela adormecida, tudo o que dava para ver no olhar de mamãe era desespero e um brilho pequenininho de esperança.

Mesmo que eu não acreditasse mais em contos de fadas - já tinha crescido o bastante para isso -, eu sugeri que mamãe beijasse o papai para ver se isso o acordava, igual o príncipe fez com a Aurora. Mas não importava o que tentássemos, nunca funcionava. Eu gostava de pensar que papai estava ali dentro em algum lugar, batalhando para voltar para nós. E eu ficava muito apavorado quando percebia que ele parecia estar perdendo aquela luta.

Minha mãe tentava parecer forte a nossa frente, e eu fazia o mesmo. Com papai desacordado, eu era o homem que cuidaria de e Frankie, esse era meu dever. Eu sempre conseguia segurar o choro. Eu só ficava muito triste quando mamãe ia ao banheiro no meio da noite, para chorar. Ela pensava que eu não ouvia, mas eu ficava quieto, porque na verdade estava me esforçando para não chorar também.

Eu e mamãe estávamos dormindo juntos nos últimos dias. Ela reclamava um pouco, porque eu me mexia muito e, às vezes, quando acordávamos, minhas pernas estavam quase em cima da barriga dela. Mas mesmo assim era muito bom, porque quando eu acordava assustado no meio da noite, chamando por meu pai, ela me abraçava para me acalmar.

Ultimamente eu tenho lembrado muito dos momentos felizes com papai. Minha avó disse que isso é normal; quando algo assim acontece, nosso cérebro automaticamente nos traz as melhores lembranças com a pessoa. Eu estava adorando, mesmo que meu coração doesse de tanta saudade.

“Parabéeens, pra você! Nessa daa-taa que-ri-daa. Muitas fee-li-ci-da-des. Muitos anos de vidaaa!

Acordei resmungando ao ouvir o coro de meus pais, sentados na beira de minha cama na manhã de meu aniversário. Ao invés de abrir os olhos, tentei ignorá-los pondo o travesseiro em cima de minha cabeça. Ouvi uma risada leve e alguns cochichos cúmplices. Levantei minha cabeça desconfiado, bem a tempo de ver meus pais vindo para cima de mim com mãos de cócegas.

- 'Tô acordado, 'tô a-cor-da-do! - Gritei, falando pausadamente, com as mãos estendidas enquanto buscava por ar entre minhas risadas.
Depois de alguns segundos, finalmente eles me deram uma trégua.
- Bom dia, meu amor. - Disse mamãe, enquanto passava a mão em minha testa afastando o cabelo caído em meu rosto.

Tentei esconder meu sorriso, abrindo uma careta encabulada. Não tinha mais idade para receber carinhos desse tipo de minha mãe ou de quem quer fosse. Agora eu já tinha sete anos, e não podia mais ser tratado como criança.

- Bom dia, Coop. - Papai falou, colocando uma de suas mãos em meu ombro e dando um aperto.
Sorri abertamente para ele, agradecido pelo cumprimento de gente crescida.
- Bom dia. - Respondi, bocejando enquanto me espreguiçava.

Papai devolveu meu sorriso com um olhar de "eu te disse" para mamãe. Ela, por sua vez, revirou os olhos e bateu uma palma para chamar nossa atenção.

- Vamos começar o dia, Cooper?
- Eu 'tô com sono... Não posso dormir mais? - Perguntei, deitando de novo em minha cama.
- Não. - respondeu, séria.
- Mas... Mas, mãe, é meu aniversário! - Implorei.

O olhar da mulher permaneceu irredutível, e foi a minha vez de revirar os olhos, sabendo que ela ficaria irritada. Meu pai tentava segurar o riso, o que só piorou a situação. Ela cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.

- É isso mesmo? Estão os dois contra mim, então? - Perguntou com um biquinho nos lábios.
Não resisti e joguei meus braços ao seu redor, para lhe dar um abraço apertado. Puxei sua cabeça e cochichei em seu ouvido:
- Eu te amo, mamãe.

Satisfeita, ela estalou os lábios e correu em direção à mesa de meu quarto. Meu pai cobriu meus olhos com suas mãos e fiquei tentando tirá-las. Porém, era inútil, pois elas tinham três ou quatro vezes o tamanho das minhas.
Fiquei ainda mais maluco quando senti cheiro de chocolate.
Ouvi alguns cochichos e quando meu pai finalmente me libertou, vi minha mãe aproximando-se com o maior pedaço de bolo de chocolate que eu já tinha visto. A cobertura escorria por toda a sua extensão exatamente do jeito que eu gostava. Salivando, peguei o prato que mamãe estendeu e em poucos minutos já tinha comido tudo.
Não tive chance terminar antes que meu pai tirasse uma foto completamente embaraçosa de mim, com o cabelo todo bagunçado, cara de sono e o rosto todo sujo de chocolate. Ele não só capturou esse momento, como fez questão de mostrar-me que era seu novo plano de fundo do celular. Para completar, aproveitou a careta de desgosto que fiz e arrumou seu próprio plano da tela bloqueada.

Fazer o quê se não eu não tinha como trocar de pais? Os meus com certeza vieram com um - ou vários - defeito de fábrica. Dei de ombros balançando a cabeça para os bobões a minha frente.
Bobões esses que eu amava, e amava muito.”


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- Filho? - Mamãe me chamou, fazendo eu voltar para a realidade.
- Oi, mamãe. - Respondi, me virando na cama para olhá-la.
- Vamos? Está na hora de ver seu pai. - Avisou.
Eu balancei a cabeça dizendo que sim e me levantei. Fui correndo calçar meus sapatos e pegar minha pasta de desenhos.

Eu amava desenhar. Passei os últimos dias desenhando vários desenhos para mostrar a ele no hospital. Mamãe e o Dr. Harry Potter me disseram que ele não podia ver, mas talvez pudesse ouvir. Todos os dias eu sento ao lado dele e digo tudo o que tem em cada desenho, em voz alta. O tempo todo eu fico olhando para sua mão, porque minha mãe disse que quando uma pessoa acorda do coma, elas mexem as extremidades primeiro. Eu não sabia o que era isso, então pesquisei no Google, e descobri que são os pés e as mãos. Depois disso, passei a segurar a mão de meu pai sempre que estava falando com ele.

- Pronto? - Minha mãe perguntou e eu balancei a cabeça de novo.
Fui até ela e segurei em sua mão. Saímos juntos de casa, mas eu fechei e tranquei a porta. Era sempre papai quem fechava, mas como agora eu era o homem da casa, essa tarefa também era minha. Eu só não podia dirigir, ainda, porque não sabia, então isso eu continuava deixando mamãe fazer. Não sei como ela consegue dirigir com aquela barriga enorme! Eu acho que a Frankie vai ser muito gordinha. Ou ela vai ser um gigante!

O caminho até o hospital foi rápido. Mamãe ficou em silêncio o tempo todo e ás vezes eu via uma lágrima ou outra escorrer pelo seu rosto. Quando chegamos lá, fomos direto ao quarto de papai. Agora ele não estava mais na UTI - eu até hoje não sei o que isso significa -, mas sim em um quarto normal. Ainda tinham todos aqueles fios e aparelhos ao redor dele, mas agora mais pessoas podiam estar com papai ao mesmo tempo.

O aniversário de mamãe estava chegando e eu sugeri a ela outro dia desses - já que agora podíamos entrar em mais pessoas no quarto -, que fizéssemos sua festa de aniversário ali, para que meu pai pudesse participar. Ela ficou muito brava, disse que isso era impossível e que era para eu parar de ter ideias malucas. Fiquei quieto o resto do dia.

Quando entramos no quarto, meus avós estavam lá. Corri na direção deles.
- Vovó ! - Me joguei em seus braços e fui envolvido de volta rapidamente.
- Oi, Coop! Que saudade, anjinho. - Falou, passando a mão por meu cabelo.

Sorri para ela. Eu não me importava se vovó me chamasse de bebê, anjinho, menininho, pequeno, ou o que fosse. Não sei exatamente porque, só não ligava para isso.

- Você está cuidando bem da sua mãe e de sua irmã, moleque? - Vovô perguntou e eu balancei a cabeça em confirmação no mesmo instante.
- Sim! - Respondi, orgulhoso, e levantei a mão para enumerar nos dedos tudo que eu fazia. - Eu ajudo mamãe a fazer o café da manhã, dobro minhas roupas, arrumo nossa cama, faço massagem nos pés dela quando ela reclama que eles estão enormes, tranco a porta de casa e até fico na janela igual papai fazia pra ver o movimento da rua!

Os dois riram do que eu falei e juro que ouvi até mamãe rir baixinho.

- E você, ? - Vovó falou, se aproximando de mamãe. Eu fui junto. - Como andam as coisas?
Mamãe suspirou e baixou seu olhar, com uma expressão triste. Me aproximei dela e segurei sua mão com força, mostrando que eu estava ali com ela. Ela me olhou e deu um beijo em minha cabeça.
- As coisas não estão fáceis. A senhora sabe. - Falou, recebendo um sorriso triste de minha vó. - Mas eu e Cooper estamos indo muito bem.
- Frankie está quase chegando, não é? - Vovó perguntou e mamãe balançou a cabeça, confirmando.
- Eu estou apavorada. - Confessou. - Não sei como fazer isso sozinha.
- Oh, querida. Você não está sozinha. - Vovó disse, sentando-se ao lado de minha mãe.
- Mamãe, eu já disse que vou te ajudar em tudo! Tudinho! Até vou aprender a trocar fralda. - Eu disse e não segurei uma careta ao falar a última parte.
Meus avós e mamãe riram.
- Você não existe, filho. - Minha mãe disse, abraçando-me fortemente.
- Existo sim, eu 'tô aqui. - Retruquei.

Não sei bem como funcionam essas coisas de gravidez. Pesquisei no Google e descobri que uma gravidez dura nove meses, mas as vezes pode acabar um pouco antes. Outro dia, quando mamãe me deixou sozinho no quarto de papai com o Dr. Harry Potter, eu conversei com ele. Fiz algumas perguntas e ele disse que quando chegar a hora, minha mãe vai sentir dores muito fortes e, se estivermos em casa, eu vou precisar chamar uma ambulância e ligar para ele. Por isso, eu estava ao lado dela o tempo todo.

Não podia acreditar que estava quase na hora de ver minha irmã. Ah, eu me lembro ainda de quando eu descobri que mamãe estava grávida! Sim, porque fui eu quem descobri, antes mesmo dela. Meus pais são tão lerdos que as vezes me irritam...

”- ... Estou grávida! - Minha mãe falou, enquanto encarava seu reflexo no espelho com uma expressão animada, treinando para quando fosse contar ao papai a grande notícia.

Não sei como papai era tão lerdo. Até mesmo eu descobri antes dele. Fazia semanas que minha mãe passava mal durante o café da manhã, todo santo dia. E ela vivia tão cansada, que uma vez perdeu o horário de me levar para a escola e se atrasou para uma grande cirurgia que estava marcada.

Claro, naturalmente, eu primeiro achei que seria câncer, mas uma busca mais profunda no site "qualéaminhadoença.com", revelou que provavelmente era gravidez. Quando perguntei certa manhã, se mamãe ia ter outro bebê, ela engasgou com o suco que estava tomando e ficou pálida. Depois, ficou pensativa e gritou me puxando para fora de casa com ela para ir a uma farmácia. A confirmação veio só quando ela pegou um instrumento que parecia um termômetro e fez xixi nele. Esses procedimentos médicos estão cada dia mais estranhos.

Peguei a caixinha do instrumento estranho e observei a mesma. Aparentemente, a imagem de uma cegonha segurando uma bolsinha significava que um bebê estava por vir, e que era ela mesma quem traria a coisinha ranhenta. O que não fazia o menor sentido, já que eu aprendi na aula de ciências que os bebês são feitos quando o espermatozoide do homem - nesse caso o papai -, que parece uma cobrinha nojenta, vai para o óvulo da mulher - nesse caso a mamãe. A professora não explicou muitos detalhes, só sei que parece ser algo muito desagradável.

A campainha tocando fez com que minha mãe se levantasse da poltrona e começasse a andar de um lado para o outro, desesperada. Revirei os olhos, me levantei e peguei sua mão, arrastando-a para a porta de casa. Girei a maçaneta da porta, abrindo-a e papai entrou no mesmo instante, a princípio com uma expressão derrotada. Imagino que estava assim por algo que aconteceu em seu trabalho.

Um herói, o meu pai. Saía para proteger a gente todos os dias. Minha mãe brincava que ambos formavam um time: ele era o anjo da guarda e ela a fada da cura.

Meus pais amavam falar de personagens míticos comigo, como se eu tivesse cinco anos. Qual é?! Eu já tinha sete, não precisava mais disso. Não existe esse tipo de coisa. Coelho da páscoa, fada do dente... Tudo mentira. Só existe o Papai Noel, por que ele é um humano, e tenho evidências a partir dos presentes extras que encontro todos os anos debaixo de nossa velha e torta árvore de Natal.

Uma vez eu reclamei com mamãe e pedi uma árvore nova, mas ela simplesmente começou um discurso sobre abraçar as diferenças ou algo do tipo. Na verdade, acho que era por que na época não tínhamos muito dinheiro. Depois, assim que minha mãe terminou sua residência e começou a trabalhar de verdade, muita coisa mudou aqui em casa, inclusive nossa velha árvore que foi direto para a caridade e ela prometeu comprar uma nova para o próximo Natal.

A apreensão de minha mãe para contar a notícia me deixou irritado. Afinal, o que tem demais no meu futuro irmão ou irmã? Decidi, então, acabar com a angústia dela. Corri até meu pai e lhe abracei, cumprimentando-o.

- Papai, como foi o trabalho? - Perguntei, esperando o momento certo.
- Complicado, filho. Hoje o papai fez de tudo para voltar para vocês dois, não via a hora. - Respondeu e eu sorri imediatamente, sabendo que aquela seria minha deixa.
- Três, papai. - Eu disse, fazendo com que os olhos de minha mãe se arregalassem. - Voltar para nós três.
- O que quer dizer, Coop? - Papai perguntou, confuso, desviando o olhar de mim para mamãe em uma clara indagação.
- A mamãe está gravida. - Respondi finalmente, me cansando daquele assunto.

Me virei e fui até as escadas, para subir para o meu quarto. Antes de ir, virei-me e vi ambos de joelhos se beijando de forma nojenta. Usaram até a língua! Qual é a necessidade que eles têm de ficarem trocando saliva babada vinte e quatro horas por dia?”


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- Mamãe? - Chamei, mas ela não me olhou e continuou encarando meu pai adormecido.
- Hm? - Resmungou ainda sem me olhar.
- Podemos ir pra casa? - Perguntei, me espreguiçando no sofá.
- Já vamos. - Ela respondeu baixinho.

Só então percebi que ela estava chorando. Me levantei e fui até meu pai, parando ao lado de mamãe. Subi no banquinho que tinha ali no chão e segurei a mão de meu pai, junto com minha mãe. Ficamos quietos durante algum tempo, só olhando para ele.

Ele parecia tão em paz, como se não estivesse sentindo dor alguma. O Dr. Harry Potter falou que ele não sente nada, mas as vezes eu não acredito. Já tentei beliscar papai mais de uma vez. Minha mãe brigou tanto comigo quando me viu fazendo isso que eu chorei durante uma hora.

- E se ele não acordar? - Perguntei, quebrando o silêncio.
Mamãe virou seu rosto para mim no mesmo instante, surpresa com a pergunta.
- Ele vai acordar, filho. - Ela colocou a mão em minha cabeça, acariciando meu cabelo. - Temos que pensar positivo.
- Eu sei, mãe. Mas e se ele não acordar? - Repeti a pergunta e ela desviou o olhar novamente para meu pai, suspirando baixinho.
- Se ele não acordar... - Mamãe começou, baixinho. - Vamos ser só eu, você e Francesca. Nós vamos ficar bem, querido.
Olhei para meu pai novamente e esfreguei meus olhos. Mamãe soltou um soluço alto ao meu lado e escondeu seu rosto nas mãos, chorando baixinho. Minha boca se retorceu para baixo e eu não consegui mais segurar o choro. Fiquei de joelhos no banquinho e deitei minha cabeça na cama, ao lado de meu pai. Meu corpo começou a sacudir com meus soluços e mamãe se abaixou e me abraçou de lado. Foi a primeira vez que chorei de medo de perder meu pai.

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”- Taylor?
- Não.
- Calliope?
- De jeito nenhum.
- Rebecca?

Revirei os olhos ao ouvir mais uma tentativa do papai de encontrar um nome para a chatinha que ia nascer. Eu não estava ajudando nos nomes, só nos apelidos. Eu mesmo tinha minha busca pessoal de melhor insulto para nossas futuras brigas, que eu sabia que seriam inevitáveis.

Por algum motivo, mamãe mantinha-se em negativa a cada nome que papai falava, e ela mesma ainda não havia sugerido nenhum. Isso estava levando papai aos nervos, o que neste momento, no supermercado ao lado de nossa casa, fez com que ele bufasse e dissesse:
- Vou buscar o açúcar. - Anunciou, afastando-se emburrado.

Mamãe se manteve com o humor imperturbável, cantarolando enquanto escolhia entre duas marcas de detergente. Suas emoções estavam muito descontroladas desde a gravidez. Em um dia ela podia ser a pessoa mais doce do mundo e estar com um humor tão bom que ninguém conseguia chateá-la. No outro, ela ficava deprimida e sensível durante o tempo todo. Acredite ou não, os piores dias eram os que ela combinava os dois. Isso queria dizer uma coisa: bomba nuclear.

Aproveitei sua tranquilidade para testar novos apelidos para a bebê. Me aproximei de minha mãe e fiquei em sua frente.
- Boba. - Falei concentrado para a barriga da mamãe.
Não sei o que esperava, mas não tive resposta ou sinal, então passei para o próximo.
- Frankenstein! - Gritei, empolgado.
O rosto de minha mãe virou-se para mim rapidamente, surpresa. Ela colocou minha mão em cima de sua barriga.
- Repete o que falou, Cooper!
- Frankenstein? - Repeti, mesmo sem entender onde ela queria chegar.
Fiquei ainda mais confuso quando senti algo colidindo com o lugar abaixo do umbigo de mamãe onde minha mão estava encostando.
- MAMÃE, O QUE É ISSO? - Berrei, assustado.
- Ela chutou, meu amor. - Exclamou, seus olhos brilhando em animação. - Estive esperando por semanas para que ela reagisse com um nome que seu pai sugerisse, mas parece que o seu foi o escolhido.
- Frankenstein? - Perguntei e comecei a rir alto. - Vo-cê quer chamar minha ir-mã de Frank.... - A gargalhada saía de mim descontrolada, me fazendo falar pausadamente.
Quando eu estava quase ficando sem ar e comecei a tossir, papai chegou fazendo uma careta confusa.
- O que está acontecendo? - Ele perguntou.
- , quero que nossa filha tenha um nome com F! - Minha mãe falou.
- Ok... - Murmurou, sem entender. - Aconteceu algo?
- Só vá falando os nomes que vierem à sua mente. - Mamãe pediu.
- Faço melhor, pesquiso no Google. - Papai disse, pegando o celular em seu bolso. - Felicity, Freya, Florence, Faith, Frankie... - Parou assim que viu os olhos de mamãe se arregalarem. - Ah, não, desculpa. Frankie é masculino segundo o site. Nossa, esse próximo eu nem consigo pronunciar. Também tem: Francesca, Freyer, e...
- Para! - Minha mãe gritou, com as mãos em sua barriga novamente.
Eu sabia o por que, mas papai estava tão perdido que fiquei com pena.
- Freyer? - Perguntou ele com uma careta torcida em um sorriso forçado.
- Francesca! - Mamãe repetiu o nome que meu pai havia dito anteriormente, olhando para sua barriga e sorrindo com o rosto iluminado.
- Perfeito. - Eu falei, surpreendendo a ambos. - Assim posso chama-la de Frankie sem vocês dois me colocarem de castigo.
Ambos riram de mim como se o que eu falasse fosse a coisa mais engraçada que eu já tinha dito. Onde estava esse bom humor quando eu tentava contar uma piada? Fechei a cara cruzando os braços e segui o exemplo de meu pai.
- Estarei no corredor de biscoitos. - Anunciei e me afastei, já não mais pensando em apelidos, mas sim em qual biscoito escolher.”


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Era de noite. Mamãe e eu estávamos em casa, com os pés esticados na cama, olhando álbuns de fotografias antigos. Já havíamos passado por todas as fases: namoro dela e de papai, o casamento dos dois, a lua de mel, eu bebê, eu criança e agora estávamos olhando fotos da minha fase adulta, ou seja, a atual.

- Eu odeio essa. - Apontei para a foto onde eu estava de pijama, com o cabelo bagunçado, todo sujo de chocolate por conta do bolo que estava comendo.
- Seu aniversário. - Mamãe disse e me olhou, sorrindo.
- Sim. Mas você e papai tem mania de tirar fotos nos piores momentos. - Resmunguei, cruzando os braços.
Ela riu e bagunçou meu cabelo, passando para outra página do álbum de fotografias.
- Olha! Essa foi há três meses atrás, mais ou menos. - Eu falei, sorrindo. - Gosto desse dia...

”- COOPER DAVID ! SAI DESSA PISCINA, AGORA!
- Mas, mãe...
- Está chuviscando, filho! Você vai pegar um resfriado e não quero ouvir chororô depois!
- Eu não costumo ficar doente, mamãe. E sim, sei que isso não tem nenhuma base científica. - Argumentei, mas me aproximei da escada da piscina na parte mais rasa.
- Ahn...- Mamãe murmurou, limpando a garganta e abrindo a boca em um "O" surpreso. - Bom, está na hora do jantar, de qualquer jeito. Seu pai está chegando, me ligou há poucos minutos.
- Tudo bem... - Resmunguei, enfezado.

envolveu-me com uma toalha e se agachou à minha frente, passando-a em minha cabeça para secar meu cabelo. Fiz um biquinho de chateação que só serviu para que ela sorrisse e beijasse minha testa.

- Sabe o que eu fiz hoje? - Mamãe perguntou, com um sorriso empolgado, enquanto entrávamos em casa.
- Abriu o crânio de alguém e tirou um tumor? - Perguntei, sem esconder minha empolgação.
- O quê? Não! - Respondeu rapidamente e me olhou assustada. - Quer dizer, sim. - Corrigiu-se, balançando a cabeça em seguida. - Onde você aprende essas coisas?
- No Google. - Respondi, dando de ombros. - Papai me disse que você é Neulologista.
- Neurologista, querido. - Repetiu o que eu disse, com os olhos brilhando em admiração.
- Ah... Foi isso que eu disse! - Falei sem entender.
- Mas enfim, eu quis dizer de jantar, Coop. Seu prato preferido. - Abriu um sorriso orgulhoso e eu soube o que era no mesmo instante.
- MACARRÃO COM ALMÔNDEGAS! - Berrei, erguendo os braços para o ar, empolgado.
- Sim. - Mamãe falou, rindo de minha reação. - Agora, vá já tomar seu banho! - Apontou para as escadas e eu segui o caminho que ela indicou.

No mesmo instante em que voltei para a sala, já vestido em uma nova muda de roupas, ouvi o barulho de chaves na porta e me preparei, me escondendo atrás do armário. Assim que a porta se abriu, pulei com as mãos em formato de arma, e berrei exatamente como eu havia visto Woody fazer no filme Toy Story.

- Mãos ao alto!

Papai tomou um susto, levantando suas mãos em rendição. Mas, assim que me viu, seus olhos brilharam em divertimento.

- Temos um xerife nessa residência? - Perguntou, aproximando-se de mim.
Inclinei a cabeça para o lado, confuso.
- O que é resiência?

Ele ignorou minha pergunta e abaixou suas mãos, largando seu coldre, suas chaves e seu distintivo no cofre ao lado da porta. Depois, foi sua vez de me surpreender. Ele deslizou em minha direção e me pegou em seus braços, erguendo-me.

- EI! - Gritei, rindo histericamente.
- Vamos ver o que posso fazer com esse xerife! - Papai falou, sorrindo e caminhando até a cozinha.
- ! - Mamãe falou, sorrindo ao ouvir a voz do marido.

Assim que se virou começou a gargalhar ao ver a cena: eu, com uma expressão irritada, sendo carregado por meu pai, como se fosse uma metralhadora. Ela pegou seu celular e imediatamente começou a tirar fotos.

- Mã-nhê! - Berrei. - Faz ele parar!

Ela deixou seu celular na bancada e, ao invés de me ajudar, ela simplesmente pôs suas mãos na pequena elevação de sua barriga, provavelmente sentindo mais um chute da Frankie. Ou era isso que eles diziam. Como minha irmã podia estar jogando futebol dentro da barriga da mamãe eu não entendia, mas fazia sentido ela confundir a barriga de nossa mãe com uma bola. Falei isso para ela outro dia, mas acho que mamãe não gostou muito, já que fechou a cara em uma carranca até a hora de levar-me para a escola, antes de sua própria ida ao trabalho. Acho até que vi lágrimas em seus olhos, mas ela disse que era um cisco em seu olho.

Não acreditei, já que eu usava essa mesma desculpa desde quando caí no ginásio durante a aula de educação física. Kimberly tinha me derrubado durante o futebol misto, e eu acabei ralando o joelho e sangrou como nunca antes. Não era mais um bebê, então tentei engolir o choro. Só uma lágrima escapou, mas por sorte Kimmie limpou-a antes do resto da classe se aglomerar ao meu redor. Foi assim que nos tornamos melhores amigos.

Voltando àquela tarde chuvosa, papai torceu os lábios com a risada de mamãe e resolveu - como sempre - provoca-la. Eu realmente não entendia como tinham se casado se amavam tanto irritar um ao outro. Deviam ser os hormônios. Kimmie havia me falado um pouco sobre eles, e o resto pesquisei no Wikipedia. Papai ajeitou-me em seu colo e começou a fazer barulho de tiros enquanto mamãe voltava até a bancada. Quando ela finalmente encostou-se, ele me pôs sentado em seu colo e aproximou-se para beijá-la.

- Eca! - Falei tentando separar seus rostos com minhas mãos, enquanto era esmagado entre o casal apaixonado.

Definitivamente eram os hormônios.

Papai sentou-me na bancada ao mesmo tempo em que mamãe me abraçou de lado, e então ele se ajoelhou para cumprimentar minha irmã. Ele sempre o fazia, eu só não entendia qual era o ponto já que Francesca não podia responder. E mesmo que ela pudesse, nos Rugrats, a irmã mais nova do Tommy só sabe fazer sons esquisitos e babar todos os seus brinquedos. Ainda bem que não vamos dividir um quarto...
- Oi, filha! - Papai falou, encostando a cabeça na barriga da mamãe. - Papai voltou de novo. Por vocês três, meu amor. - E beijou o ventre dela, encoberto pelo vestido largo.
- 'Tô com fome. - Falei querendo interromper aquela conversa estranha do papai com uma parte do corpo da mamãe.

Quem sabe que outras coisas estranhas aqueles dois gostavam de fazer... Depois eu que era esquisito.”


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Minha mãe tinha uma fascinação muito grande por sonhos. Acho que era por conta de sua profissão. Ela sempre se interessou pelos mistérios do cérebro humano e tudo que ele era capaz. Isso sempre a deixou com uma pulga atrás da orelha. Certa vez, ela obrigou meu pai a dormir com eletrodos para ajudar com seu estudo de monitoramento da atividade cerebral durante os sonhos. Se na época eu fosse um pouquinho mais velho, já entraria no seu espectro de pesquisa. Ainda bem que não era.

Eu nunca fui muito de ter sonhos. Eu sempre apagava e só ouvia as risadas de meus pais em seu quarto na manhã seguinte. Porém, pesadelos eu tinha, algumas vezes. Quando acontecia, eu era sugado para um pesadelo que me deixava nervoso por dias. Mamãe ficaria muito triste se soubesse deles. Eu sempre escondia dela.

Acordei de uma soneca na poltrona da sala. Olhei a minha volta, encontrando vovô e vovô Wright conversando e minhas avós assistindo a novela que passava àquela hora da noite. Quase não percebi mamãe em um canto mais afastado, tricotando na cadeira de balanço.

- Mamãe, o que houve com sua barriga? - Perguntei, estranhando como agora seu ventre estava tão enorme que ela poderia apoiar uma bacia de pipoca em cima e alcança-las com sua boca. Guardei essa ideia em minha mente pensando na genialidade dela. Isso seria algo inesquecível de se ver.

Ela não me respondeu, continuando a tricotar um cachecol vermelho sangue, que descia por seu colo até o chão, contrastando com o azul do enorme casaco que ela usava. Mas não fazia sentido, estava calor. Por que ela estaria usando uma roupa de frio? Mamãe suspirou de contentamento, continuando a me ignorar sem tirar os olhos de seu trabalho, como se nem tivesse percebido minha presença.

Desviei os olhos para o vovô , vestido em uma roupa de policial, enquanto polia uma arma parecida com a que meu pai sempre carregava. O nome era algo parecido com Gulak ou Glock.

- Ei, vovô! Pensei que você estivesse aposentado...
Ele virou-se para mim com um sorriso que mostrava seus dentes alinhados e muito brancos.
- Claro, Cooper, mas precisamos ter ao menos um policial na família.
- Por quê? - Perguntei confuso. - Espera... Mas e o papai?
- Seu pai? - Desdenhou com uma risada sarcástica. - Seu pai não serve para isso. Ele morreria no primeiro tiroteio.
- Mas... - Comecei, mas desisti ao ver que ele não me dava mais atenção.

Fui até mamãe e dei um berro tão alto que ela não poderia ignorar.

- ONDE ESTÁ O MEU PAI?

Todos continuaram em silêncio.

- ONDE ESTÁ MEU PAI? - Repeti com mais ênfase, sentindo minha garganta começar a doer e lágrimas começarem a escorrer por minhas bochechas.

Gritei por tanto tempo que, quando finalmente recebi uma resposta, me assustei.

- Já se acalmou, querido? - Perguntou mamãe, finalmente levantando o olhar para mim. - Seu pai está lá embaixo.
- Lá embaixo? - Questionei sem entender. - Vou atrás dele.
- Pode ir. Aproveite e veja se ele conseguiu apagar o fogo.

Só então percebi que haviam chamas lambendo as extremidades das paredes, subindo até onde estávamos. O laranja que saía delas fazia meus olhos arderem. O calor que antes era um mero incômodo, agora queimava a pele dolorosamente.

- O quê? Mamãe, precisamos ir! - Gritei, desesperado.

Puxei os braços de minha mãe, mas ela continuava estática. Me virei para meus avós e eles nem se mexiam. O barulho de dois tiros vindos do andar de baixo me fizeram correr para lá. Precisava me certificar de que papai estava bem. Nossa casa estava destruída. Haviam escombros por toda a parte. O fogo já não estava mais em plena força, mas a fumaça tornava difícil respirar e enxergar. Continuei correndo até a porta da frente, abrindo-a em busca de ar puro. Virei estátua no mesmo lugar.

Os tiros que antes ouvi, haviam atingido meu pai. Ele estendeu a mão para mim enquanto caía de joelhos a minha frente. Metade de sua face fora destruída pelo fogo.
- Me ajude! - Pediu, deslizando ao chão inconsciente em seguida.
Tentei estender a mão para papai, mas tudo que consegui foi dar um soco em algo macio que descobri ser meu travesseiro.

Acordei com minha mãe me balançando com uma expressão desesperada.
- Mamãe? - Perguntei, esfregando os olhos. - Que horas são? - Olhei para o céu escuro através da janela.
- Coop. - Ela falou baixinho, parando para suspirar. - Você me assustou. Eu não conseguia te acordar, você estava se remexendo e...
Olhei para ela, esperando que se recuperasse.
- ... gritava sem parar! Eu não sabia o que fazer! Sinto muito, meu amor. Eu sinto muito. Eu sei que estou falhando... com vocês dois.
Um soluço saiu de meus lábios e comecei a chorar desesperadamente, abraçando-me a minha mãe. Eu chorava por meu pai, por ela, por Frankie e por mim. Estava lamentando por ela e por meus próprios sentimentos de tristeza.
- Ah, querido... Vai ficar tudo bem. - Falou contra minha cabeça, depositando um beijo em meu cabelo.
- Você não 'tá falhando, mamãe! - Falei um pouco alto. - Você é a melhor mãe do mundo. Você não 'tá falhando! Eu te amo muito, por favor... - Minha voz morreu novamente quando recomecei a chorar.
Ela me abraçou com mais força e ficou balançando seu corpo, levando-me junto com ela. Ficou assim por alguns minutos, até que eu finalmente me acalmei.
- Tudo bem? - Questionou, e eu balancei a cabeça, confirmando. - Seu pai é forte, filho.
- Um herói! - Interrompi-a.
- Sim. E sabe o que os heróis fazem? - Perguntou, enquanto se deitava na cama e me aconchegava junto com ela. - Eles sempre voltam para casa. Nunca abandonam a quem amam.
Sorri para mamãe e dei um beijo em sua bochecha. Ela ajeitou a coberta em cima de nós dois e voltou a desligar a luz.
- Agora volte a dormir, querido. Está de madrugada. Amanhã temos que visitar seu pai no hospital.
Deitei mais perto de mamãe e abracei Francesca através de sua barriga. Antes de apagar completamente, sussurrei para minha futura irmã:
- Tudo bem, Frankie, vai ficar tudo bem. Vamos cuidar da mamãe, você e eu, até o papai voltar.
Pensei ter ouvido uma leve risada vinda de mamãe, mas acho que foi coisa de minha mente sonolenta.

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Abri os olhos, semicerrando-os para me acostumar a meia luz em que se encontrava o quarto de minha mãe. Hoje era seu aniversário, mas acho que com toda a confusão com papai ela nem se lembrou. Esfreguei os olhos para despertar e me sentei na cama devagar. Levantei e fui andando na ponta dos pés, para sair do quarto sem acordá-la, assim como os ninjas fazem nos filmes que eu via com o papai na tv.

Cheguei à cozinha dando pequenas risadas de felicidade. Ela não iria desconfiar de nada. Eu a acordaria com um café na cama digno de uma rainha. O único problema era que eu não sabia fazer café. Acho que suco irá servir. Peguei um copo na bancada e abri a geladeira, pegando o suco de laranja. Enchi o copo até a borda e acabou respingando um pouco, mas eu aprendi na escola que o suco tem água, e como água evapora, ele também iria evaporar, então eu não precisava limpar.

Aproveitei para me livrar de algumas das frutas que mamãe insistia que eu comesse para ser mais saudável. Sem frutas, eu poderia comer meu cereal em paz. Depois eu peguei um prato de plástico e coloquei nele uma maçã, uma pêra e duas torradas. Puxei um banco para perto do armário e subi, pegando uma bandeja. Em cima dela, coloquei o prato com as comidas, um pote de manteiga, talheres e o copo de suco. Tudo pronto.

Saí da cozinha com a bandeja em mãos, levando-a para o quarto. Tremendo com o peso, acabei derramando um pouco de suco nas torradas, mas se as pessoas conseguiam comê-las com aquela pasta esquisita e fedorenta de berinjela, com certeza ficariam ótimas com um toque de laranja. "Fiz torrada doce pra você, mamãe", eu diria. Meu plano estava indo exatamente como o planejado.

Empurrei a porta do quarto com o pé e deixei a bandeja em cima da bancada. Sentia-me como um garçom de restaurante chique, parecido com aqueles que eu vi no filme Ratatouille. Era legal.

Me aproximei da cama e escalei-a, me esgueirando para o lado de mamãe. Mas quando sentei, senti o colchão molhado a sua volta. Levantei a coberta que a cobria e encontrei uma poça enorme de xixi embaixo de minha mãe. Reprimi uma risada. Mamãe fez xixi na cama? Essa era ótima. Eu poderia rir disso pelo resto da vida.

Me lembrei do café da manhã e dei um empurrão de leve no ombro dela. Nada.
- Mamãe. - Chamei, mas ela nem se mexeu.
Empurrei seu ombro com mais força, repetindo o gesto algumas vezes. Finalmente ela se mexeu e abriu seus olhos em minha direção.
- Coop? Está tudo bem? Que horas são? - Perguntou, virando-se na cama.
- Mamãe, er... - Cocei a cabeça, segurando o riso. - Eu não quero te deixar envergonhada, mas acho que você fez xixi na cama.

Ela franziu a testa em confusão e então se sentou, observando a área molhada no colchão.

- Ai meu Deus! Coop, minha bolsa deve ter estourado! - Exclamou, alterada.
Fiz uma careta e aproximei minhas mãos de seu rosto, colocando-as em sua testa com uma expressão enigmática.
- Mãe, você 'tá doente? A sua bolsa 'tá ali na bancada, intacta, não 'tá vendo? - Apontei para a bolsa, confuso.
Só então me dei conta que a bandeja de seu café da manhã surpresa estava ali também. Dei um tapa em minha própria testa e me levantei. Fui correndo até a bandeja e peguei-a, estendendo para ela.
- Feliz aniversário! - Desejei, com um sorriso enorme nos lábios.
Mamãe alternou seu olhar de meu rosto para a bandeja em minhas mãos várias vezes.
- Você fez isso? - Perguntou.
Balancei a cabeça em confirmação, orgulhoso de mim mesmo.
- Ah, Coop, você é tão lindo! - Falou alto, tirando a bandeja de minha mão e me abraçando em seguida. - Obrigada meu amor! Obrigada, de verdade!
Agradeceu várias vezes e encheu meu rosto de beijos, me babando. Fiz uma careta quando ela se afastou e passei a manga de meu pijama pelo rosto, me limpando.
- Eu amei, mas agora preciso da sua ajuda, tudo bem? - Mamãe disse.
Assenti imediatamente.
- Chame uma ambulância para me levar ao hospital. Ligue para o vovô Wright e peça para ele e sua avó nos encontrarem no hospital. Frankie vai nascer!


Parte III

Ponto de vista: .


- Trauma... Não... Meses.
- Mas Dr... Tem que... não pode...
- Volte... Amamos.
- Papai... Desenho... Policial... Crescer.

Na casa em que eu ocupava com e Cooper, havia uma piscina. Não era sempre que eu resolvia dar um mergulho, mas após um dia ruim no trabalho, nadar até o fundo era a única forma de silenciar minha mente turbulenta. Lá embaixo só havia a calmaria; tanto sonora, quanto mental.

Estar em coma era muito similar. Às vezes os sons chegavam a minha mente, mas eu simplesmente não conseguia interpretá-los. Em outras, eu conseguia distinguir palavras, mas tal como um aluno desatento em uma aula de física, elas não faziam sentido.

Por fim, tinham as vezes em que as vozes eram tão familiares que conseguiam despertar pequenos lampejos de memórias...

”Se pudesse, eu provavelmente mataria Jeffrey.
Era por sua causa que estávamos perdendo o jogo dos Seattle Seahawks, o qual eu tinha conseguido dois ingressos na faixa para nós dois.
Sabe quando isso aconteceria de novo?
Pois é: nunca.
Estávamos os dois no hospital, porque o babaca do meu amigo simplesmente esqueceu que era alérgico a camarão - porque só havia comido uma vez na vida. Quem diabos esquece isso?

E agora eu estava sentado, esperando a médica - extremamente linda, por sinal - terminar de medica-lo, enquanto Jeff estava deitado em uma cama ainda sentindo os efeitos de sua alergia. A TV do hospital estava ligada no jogo dos Seahawks, e isso me deixava mais puto ainda, porque eu poderia estar lá. A bola passava de mãos em mãos e quando finalmente um gol foi marcado, eu me levantei, comemorando empolgado.

- Senhor, por favor... Você está em um hospital. - A médica extremamente linda me repreendeu, levantando seu olhar para mim rapidamente.
Balancei a cabeça em concordância e me levantei, aproximando-me da cama onde Jeff estava. Parei do outro lado, em frente a médica. Meu amigo me olhou, curioso.
- Sabe o que é, Dra... - Procurei seu nome no jaleco que ela usava, mas não encontrei.
- Wright. - Respondeu, sem tirar o olhar de sua prancheta.
- Dra. Wright. - Confirmei e abri um sorriso de lado. - Graças ao meu amigo aqui - dei um apertão no ombro de Jeff - estamos perdendo aquele jogo que está passando na TV. - Expliquei.
Ela continuou a fazer seu trabalho, anotando alguns dados na prancheta, sem olhar diretamente para mim.
- E o que eu tenho a ver com isso? - Questionou.
Jeff riu baixinho ao ver a careta que fiz.
- Aliás, o que o hospital tem a ver? Porque não entendi até agora onde o senhor quer chegar. - Completou, ainda sem me olhar.
- Primeiro favor, pare de me chamar de senhor. Meu nome é . E segundo...

Ela guardou sua caneta em seu bolso, abaixou sua prancheta e finalmente ergueu o olhar para mim.
Nossa, como era linda.
Cabelos castanhos, um pouco abaixo do ombro. Seus olhos, também castanhos, eram provavelmente um dos mais lindos que eu já tinha visto. Sua boca...

- E segundo? - Ela perguntou, fazendo com que eu parasse de analisa-la.
Só então percebi que havia cortado a frase no meio.
- Não tem segundo. - Cocei a cabeça, sem jeito.
Ela revirou os olhos e voltou-se para Jeff.
- Vai levar um tempo até suas vias aéreas voltarem ao normal, então preciso que fique em observação até que isso aconteça, tudo bem? - Dra. Wright avisou a ele, preparando-se para se retirar.

Jeffrey balançou a cabeça em concordância e sorriu para ela, que retribuiu seu olhar e me lançou um olhar - que eu interpretei como misterioso - antes de se virar e ir atender outro paciente. Meu amigo me olhou com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso de lado.

- Você gostou dela. - Falou, sua voz saindo baixa por conta de sua garganta.
Me sentei na cadeira ao lado de sua cama novamente.
- Achei ela linda. - Comentei. - Extremamente linda.
- Chame-a para sair. - Ele disse.
Eu ri um pouco alto e balancei a cabeça, incrédulo.
- Claro, claro. Porque ela com certeza vai aceitar sair com um estranho. - Respondi, irônico, fazendo-o rir.
Voltei minha atenção para o jogo e Jeff acabou cochilando um tempo depois.

- Então está tudo bem, está liberado. - Dra. Wright falou, com suas mãos nos bolsos de seu jaleco.
- Obrigado, Dra. - Jeff agradeceu a ela.
Ela sorriu brevemente para nós dois e se virou, afastando-se.
- Não vai nem tentar descobrir o nome dela? - Jeff questionou, empurrando-me pelo ombro em direção a Dra. Wright.
- Será? - Perguntei, meio inseguro. Ele revirou os olhos, me empurrando novamente.
Dei alguns passos apressados em direção a médica extremamente linda e, quando eu menos esperava, ela parou no meio do caminho, fazendo com que eu batesse minhas costas em seu corpo. Ela se virou, assustada, mas sua expressão logo se tornou irritada.
- O que foi isso? - Perguntou.
Eu dei dois passos para trás e cocei a cabeça nervosamente.
- Me desculpe. Eu só queria falar com você.
Ela ergueu as sobrancelhas em sinal de surpresa.
- Falar comigo? Você está doente ou algo do tipo? - Seu olhar varreu meu rosto e corpo, procurando por algum sintoma.
- Não, eu... Só queria saber o seu nome.
- Meu nome? - Franziu o cenho. - Sou a Dra. Wright.
Não reprimi um sorriso de lado.
- Esse é seu sobrenome. Eu gostaria de saber o seu primeiro nome. - Esclareci, vendo-a abrir um sorrisinho irônico.
- E porque eu lhe diria meu nome?
- Porque eu preciso saber o nome da mulher que levarei para jantar amanhã a noite.

Ela começou a rir. Rir, não. Gargalhar.
Eu costumava ter jeito com as mulheres, mas com ela, estava sendo tudo mais difícil. E depois dessa reação, eu pensei seriamente em deixa-la para lá. Quando eu já estava começando a ficar irritado por sua reação e quase indo embora, ela finalmente parou de rir e limpou algumas lágrimas de seus olhos.

- Me desculpe. Essa foi realmente boa. - Dra. Wright disse. - Ai, obrigada por me fazer rir.
Fechei a cara e revirei os olhos. Me virei e comecei a andar, dando alguns passos na direção oposta a ela.
- Ei! - Ouvi sua voz chamar e parei no meio do caminho.
Pensei alguns segundos e depois me virei para ela, que estava com um sorriso no rosto.
- Tente outro dia. Talvez eu lhe diga meu nome. - Deu uma piscada em minha direção, antes de me dar as costas e continuar seu caminho pelo corredor do hospital.

E ali estava eu, três dias depois - depois de muito pensar se valeria a pena - novamente no hospital. Não, eu não estava doente, mas havia dito a recepcionista que estava com fortes dores abdominais e queria ser atendido pela Dra. Wright. Em minha mente, eu tinha pensado em tudo. Diria que estava com dor, ela viria me atender, se surpreenderia ao me ver ali, iria me examinar, descobriria que eu não tinha nada, depois riríamos, ela finalmente me diria seu nome e aceitaria jantar comigo. Só não pensei no que faria caso ela não estivesse trabalhando. E adivinhem? Ela não estava trabalhando. E agora um médico estava me examinando, sem encontrar nada de errado comigo.

- Exatamente em que região é a dor que você está sentindo? - Ele questionou.
Eu revirei os olhos e me sentei na cama, cansado daquela situação.
- Não estou. - Respondi, descendo da cama.
- Pode repetir? - O médico perguntou confuso, tentando impedir que eu saísse dali.
- Não estou com dor. - Esclareci.
O médico bufou e abaixou a prancheta que tinha em mãos.
- Você está de brincadeira?
- Não. Vou te explicar, Dr... - procurei por seu nome em seu jaleco - Dr. Potter.
Ele cruzou os braços, impaciente, e fez sinal com a cabeça para que eu continuasse.
- Eu vim aqui por causa de uma médica. Mas ela não está. Então já estou indo embora.
Desculpe te fazer perder tempo. - Expliquei-a ele, me virando em seguida, pronto para ir embora, mas ouvi-o gargalhar.
- Você está falando sério? Está fingindo sentir dor para ver uma médica? - Perguntou, ainda rindo.
Eu balancei a cabeça em confirmação e me virei novamente para ele.
- Sim. Dra. Wright, você a conhece?
- ? - Então era esse seu nome? - Wright?
Balancei a cabeça novamente.
- Fazemos o internato juntos. O turno dela só começa mais tarde.
Baixei os ombros, derrotado.
- Ah. Bom, foi mal, de novo. Até mais. - Acenei com a cabeça para o médico e me virei, começando a andar em direção a saída do hospital.

Então era isso. Eu costumava pensar que, se era para algo acontecer, o universo daria uma ajudinha. Nesse caso, entendi o recado: não iria rolar. E eu não costumava insistir nessas coisas.

Já estava totalmente conformado e decidido a ligar para Jeff para que fossemos a algum bar a noite, quando, já fora do hospital, esbarrei em alguém, parando para pedir desculpas logo em seguida.

- Ah, me desculpe, senhor. - A pessoa falou, levantando-se depois de pegar sua bolsa que havia caído no chão.
Quando olhei para o rosto dela, não reprimi um sorriso. Ah, universo...
- Ah, é você. - Ela disse, com um sorriso divertido, me fazendo rir baixinho.
- Sim, sou eu, . - Frisei seu nome e ela ergueu as sobrancelhas, surpresa.
- Como você...? - Perguntou, ajeitando sua bolsa em seu ombro.
- Não importa. - Respondi. - O que importa é que agora sei o seu nome e posso te levar para jantar.
Ela riu, balançando a cabeça em negação.
- Eu não disse que quando você descobrisse meu nome poderia me levar para jantar. - respondeu.
- ... - Falei, tentando convence-la.
- Tchau... - Franziu a testa ao perceber que não sabia meu nome. - Você. - Finalizou, despendido-se e virando-se para continuar seu caminho.
- Você vai realmente me obrigar a fazer isso? - Perguntei, fazendo com que ela se virasse para mim, confusa.
- Fazer o que?

Não sei o que me deu.
Nunca fiz nada parecido por mulher alguma antes. Mas eu estava sentindo aquela coisa clichê: ela não é qualquer uma e não é como as outras.
Então eu me abaixei, ajoelhando-me no chão. Ela arregalou os olhos, chocada.

- O que você está fazendo? - Perguntou, olhando para os lados, provavelmente sentindo vergonha da cena que eu estava criando.
- You're just too good to be true... - Comecei a cantar, totalmente desafinado. - Can't take my eyes off you!
- Para com isso! - Ela pediu, sua voz saindo baixa.
escondeu o rosto em suas mãos, mas eu podia vê-la rindo.
- You feel like heaven to touch, I wanna hold you so much! - Estendi os braços, em uma cena clássica de dramatismo.
As pessoas passavam me olhando como se eu fosse maluco, mas eu não estava ligando. Só queria que aquela mulher aceitasse sair jantar comigo.
- SIM! - Ela falou um pouco alto. - Sim, eu aceito jantar com você! - Tirou sua bolsa de seu ombro e começou a bate-la em mim. - Mas pelo amor de Deus, para com isso!
Eu abri um sorriso enorme e me levantei, ficando em sua frente. Peguei sua bolsa, impedindo-a de bater em mim mais uma vez.
- Sim? - Perguntei, sorrindo enormemente.
Ela rolou os olhos e balançou a cabeça em confirmação.
- Sim. - Ela pegou sua bolsa de minhas mãos, colocando-a em seus ombros novamente. - Mas eu ainda não sei seu nome.
Eu ri e abri um sorriso esperto.
- Bom, tente outro dia. Talvez eu lhe diga meu nome.
Ela revirou os olhos, mas logo abriu um sorriso lindo, enquanto colocava seu cabelo atrás da orelha.
Não pude deixar de sorrir ao observa-la.
Extremamente linda.
E havia aceitado jantar comigo.”


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Estar em coma não era como hibernar. Mesmo que na maior parte do tempo eu estivesse completamente apagado, tinham momentos pequenos de consciência. Eram esses pequenos momentos que me lembravam que eu ainda estava vivo e que eu deveria continuar lutando para acordar. Fossem os murmúrios de um médico com termos que não compreenderia nem estando acordado, fosse o cantarolar da enfermeira no que devia ser o período de todas as manhãs. Esses eram os pequenos fragmentos de convivência com algo diferente do vazio das profundezas de minha mente.
E também tinha a voz de ...

- . - Minha esposa me chamava repetitivamente. - Volte para nós. Você prometeu. - Foi a última coisa que que consegui ouvir antes de tudo apagar novamente e eu voltar para o fundo da piscina.

O tom de voz autoritário de minha mulher me deu vontade de sorrir e é o que faria, se meu corpo respondesse as minhas vontades.
! Minha mente parecia berrar de volta. Mas mais uma vez eu era nocauteado em direção a lembranças que insistiam em voltar...

”Apertei as unhas na palma de minha mão, extremamente nervoso com o que estava por vir. Pela milésima vez nos últimos trinta minutos, levantei o punho discretamente para checar a hora. Para a minha decepção, nem ao menos um minuto havia se passado desde a ultima vez em que eu tinha olhado para meu relógio.

Que bicho mordia as noivas no dia do casamento fazendo com que se atrasem tanto? Tudo bem que entre esperar plantado no altar improvisado diante de todos os convidados ou passar por uma gravidez, por exemplo, inchando como uma bola e carregando outra pessoa dentro de mim, eu escolhia exatamente o que estava fazendo.

- Que tanto ela precisa se arrumar, meu Deus?! Já me conquistou, acho-a linda de qualquer jeito!
- Está aguentando bem aí, homem? Pronto? - Jeff perguntou em tom provocativo.
- Quem não está pronta é a ! - Resmunguei, fazendo uma careta ansiosa. - Por que foi que te chamei para ser meu padrinho, mesmo?
Jeff riu e deu um soco em meu braço como resposta.
- Estou brincando, cara. Obrigado por isso.
Ele ignorou meu momento de gratidão e eu recebi outro soco no ombro.
- O que foi, caramba?! - Sussurrei impaciente.
- Olha! Ela chegou.

Olhei para a porta a tempo de ver o carro que traria a noiva e as damas de honra parando em frente a igreja. E quando finalmente a porta do carro se abriu revelando minha futura esposa, meu coração quase parou em expectativa. A música começou a tocar ao mesmo tempo que ela deu o primeiro passo. Sua caminhada até mim pareceu demorar séculos. Minha careta de impaciência e nervosismo devia estar cômica, pois o Senhor Wright riu de mim enquanto depositava a mão de sua filha entre as minhas.

- Se não fosse eu te diria para cuidar bem dela, mas como conheço bem minha filha, acho que devo dizer: deixe que ela cuide bem de você, meu rapaz. - Meu sogro disse a mim.
abriu um sorriso iluminado para o pai e apertou o braço do senhor antes de soltá-lo, aproximando-se de mim e colocando sua mão sobre a minha.
- Nunca esteve tão linda, querida. - Eu disse a ela, levando minha mão até seu rosto e tocando-o levemente.
sorriu abertamente para mim e depositou um beijo em minha bochecha antes de dizer:
- Eu diria o mesmo sobre você, mas seus uniformes me atraem muito mais que um terno.
Ri baixinho e antes de virarmos para o padre, cochichei em seu ouvido algo que a deixaria corada pelo resto da cerimônia:
- Que bom, amor, porque você me verá de uniforme até se cansar. No trabalho, em casa, na cama... - Deixei a frase morrer e ela riu, balançando a cabeça.
- Shh, ! - Ela pediu, ainda sem jeito com o que eu disse.
- O que?! - Me fingi de desentendido.
- A cerimônia, meu amor, sossega aí.
- Ah, é... - Torci a boca, mas abri um sorriso em seguida.
Nós dos nos viramos para o padre em expectativa. Ele nos observava atento, com um sorriso nos lábios, parecendo encantado com o casal que via a sua frente. Ele piscou para nós dois e então a cerimônia se iniciou.
- Estamos reunidos aqui hoje...

Meu casamento.
Meu casamento com .
Eu não podia acreditar que estávamos os dois ali, ouvindo o padre descrever nossa trajetória, desde a primeira vez que nos vimos no hospital, passando pela serenata desafinada que fiz no meio da rua até chegar ao dia em que a pedi em casamento. Nossos padrinhos nos prestando homenagens, nossos familiares e amigos emocionados... Por mais que nunca tivesse feito aquilo, eu sabia exatamente o que fazer. O padre falava, eu ria. Os padrinhos referiam-se a nós, eu sorria para eles. apertava minha mão e eu lhe mandava um beijo. Estava extremamente feliz. Parecia até estar no piloto automático. Isto é, até o momento em que o padre me pediu para pegar as alianças.

- Repita comigo. - Ele disse sussurrando para mim as palavras que me dariam a dádiva de ser o marido de Wright.
- Eu, , aceito você, Wright, como minha esposa, e prometo lhe amar e respeitar, na saúde e na doença, até que a morte nos separe.
- Eu, Wright, aceito você, , como meu esposo, e prometo lhe amar e respeitar, na saúde e na doença, até que a morte nos separe. - disse, com os olhos brilhantes, provavelmente um espelho dos meus, que estavam quase rompendo com lágrimas de pura alegria.

Enquanto falávamos, fomos colocando as alianças nos dedos um do outro. Discretamente, conseguimos mostrar um para o outro as inscrições gravadas nas alianças, que decidimos fazer surpresa. O rosto dela iluminou-se ao ler "You're just too good to be true", fazendo referência a música que eu cantei quando a chamei para sair. Minha reação foi parecida quando li a gravação escolhida por ela "I can't take my eyes off you". O momento que marcou o início de nossas vidas juntos estava gravado no ouro de nossas alianças, para todo o sempre.”


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- Como está nosso menino? - Ouvi a voz de minha mãe perguntar.
- Estável... A enfermeira Jones acabou de lhe dar o remédio matinal. - Respondeu , sua voz saindo cansada. Provavelmente estava bocejando.
- Que bom, querida, mas quis dizer o Cooper. Como ele está lidando com toda essa bagunça?
Era de meu filho que estavam falando, então. Reuni todas as poucas forças que eu tinha para continuar ouvindo.
- Ah... É complicado. Às vezes sinto que ele está sendo mais forte do que eu, sabe? - falou. - sempre foi o herói dele. Eu não quero nem pensar como reagiria se... Se o pior acontecesse.
O silêncio que se instaurou foi tão pesado que eu teria certeza que estava novamente desacordado, se não fosse o barulho de meu monitor cardíaco.
- Pobrezinho. - Minha mãe disse.
- Sim! E o Coop é só uma criança... Não sei o que eu diria a ele. Muito menos a Frankie que nunca nem teve a oportunidade de... - A voz de minha mulher morreu e eu ouvi algumas fungadas em seguida.
- Estaremos juntos, , é isso que importa. - Assegurou-lhe minha mãe.
Essa afirmação deu-me a tranquilidade que precisava para finalmente voltar a descansar.

”- Amor, tem certeza que não é nada que você comeu? - Perguntei a , que estava abraçada no vaso, vomitando pela terceira vez no dia.
- Nós comemos a mesma coisa, . Você também estaria passando mal. - Ela disse, limpando sua boca e virando-se para mim.
- Você comeu aquela torta que eu não comi.
Ela ficou pensativa por um segundo e deu de ombros. Aproximou-se da pia do banheiro e lavou a boca.
- Vamos ao hospital agora. - Declarei assim que saí do banheiro.
Ela fez uma careta, mas concordou com a cabeça.
- Uma médica que não consegue nem mesmo curar sua intoxicação alimentar em casa. - falou, me fazendo rir.

Estávamos os dois em um quarto, esperando o colega de , Dr. Potter, retornar com os resultados dos exames que ela havia feito. estava deitada na cama, com acesso venoso e um balde ao seu lado, para vomitar caso sentisse vontade. E eu estava sentado próximo a ela, em uma poltrona. Estávamos os dois assistindo a um programa entediante na TV quando Dr. Potter finalmente retornou com os resultados em mãos.

- , . - Cumprimentou assim que se aproximou da cama.
ajeitou sua postura, sentando-se e me estendeu a mão para que eu a segurasse.
- Já eliminamos todas as possibilidades quando te perguntei o que consumiu no dia de ontem. - Dr. Potter falou, abrindo o grande envelope que segurava. - Eu pedi diversos exames... - Ele rolou os olhos pelas folhas que tinha em mãos. - e não encontrei nada fora do normal.
Eu e nos entreolhamos, confusos.
- Com exceção, é claro, de um exame apenas, que vou deixar você ver por si mesma. - Ele estendeu as folhas em direção a minha esposa, que as pegou prontamente.
passou seus olhos pelos resultados e então arregalou os olhos. Ela olhou para Dr. Potter, que tinha um sorriso no rosto.
- Você tem certeza? - Perguntou a ele.
Eu não estava entendendo nada. Ela estava doente?
- , o que é? Você está me deixando nervoso! - Exclamei, passando a mão pelo cabelo em um claro gesto de nervosismo.
Dr. Potter riu baixinho e apontou para a porta, indicando que iria nos deixar a sós. Olhei para minha esposa e a encontrei com os olhos cheios de lágrimas.
- , por favor... - Pedi, sem aguentar mais aquela situação.
- Eu não estou doente, amor. - disse, levando sua mão até meu cabelo, acariciando-o.
- Não? - Questionei novamente, ainda achando aquela situação muito estranha.
- Parece que além de não saber curar uma intoxicação alimentar em casa, eu também sou uma médica que não percebe quando está grávida.

Espera aí. O quê?
Era isso? Ela estava grávida? Os vômitos foram causados pela gravidez? Por um ser minúsculo que estava crescendo e se desenvolvendo dentro da barriga de minha mulher? Ela não estava doente?

- Fala alguma coisa, . - pediu, visivelmente nervosa.
Levantei meu rosto para ela e abri um sorriso imenso.
- Nós vamos ser pais! - Me levantei e abracei-a, emocionado.
passou os braços ao redor de meu pescoço e retribuiu meu abraço.
- Nós vamos ser pais. - Confirmou, dando um leve beijo em meu pescoço.
Quebrei nosso abraço e olhei para ela, segurando suas mãos em seguida e levando-as até minha boca, deixando um beijo em cada uma.
- Eu te amo, . - declarou.
- Eu também te amo, . E já amo nosso filho ou filha.
Nossa vida nunca mais foi a mesma depois desse dia.
Mudou muito.
Para melhor.”


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Voltei a mim novamente, mas dessa vez consegui perceber a escuridão do quarto através de minhas pálpebras. Também senti algo que há muito não conseguia. O frio. Meu corpo estava arrepiado com o ar gélido do ar condicionado. Só um lugar de minha pele não se encontrava dessa maneira: minha mão direita. Ela estava morna. Não sabia descrever o que era a sensação esquisita, talvez o contato de outra mão? Eu sabia que havia algo envolvendo-a, mas não sabia exatamente o que, até que ouvi o choro suave de uma criança e reconheci ser Cooper.

O calor que eu estava sentindo em minha pele, deveria ser sua mãozinha, mal conseguindo encobrir a minha por completo. Saber que meu filho estava chorando por minha causa foi de quebrar o coração. E quando eu achei que aquilo seria o máximo de contato que eu sentiria, a sensação da pequena cabeça de Cooper recostando em meu braço me fez perceber que estava errado.

Ah, Coop... Uma criança espetacular. Extremamente inteligente, o primeiro de sua turma. Orgulho de seus pais. Lembro de quando o vi pela primeira vez, pelado, com seu corpo ainda um pouco sujo... Naquele momento eu tive certeza de que eu desconhecia amor maior.

”Estava concentrado em meu trabalho. Eu e Jeffrey havíamos sido designados a um caso importante pela primeira vez, como investigadores. Várias pastas estavam espalhadas pela mesa, contendo todas as informações possíveis sobre o suspeito. Nós dois estávamos prontos para sair e prender o bastardo, quando meu celular tocou.

- . - Atendi, sem nem olhar o nome no visor.
- , querido! - Era minha sogra.
- Sra. Wright, o que aconteceu? Está tudo bem?
- Oh sim, querido, está tudo maravilhoso! Cooper vai nascer! Seu filho vai nascer!
Não sei como consegui raciocinar para lhe responder, mas o fiz:
- Encontro vocês no hospital. - E desliguei.
Virei-me para Jeff, que me olhava com expectativa.
- Está na hora? - Ele perguntou, levantando-se.
- Sim. Eu preciso ir. Eu preciso... - Comecei a andar em círculos, nervoso.
Meu coração batia em expectativa e eu não sabia se esperava alguém para me levar até o hospital ou arriscava dirigir. Só parei de andar alguns segundos depois, quando meu chefe, Gerard, apareceu.
- Mas o que diabos está acontecendo aqui? - Gerard questionou, sua expressão séria.
- O filho dele vai nascer e ele entrou em parafuso. - Jeffrey falou e deu um tapa em minha cabeça, me fazendo parar no lugar.
Olhei para ele e para meu chefe, e ambos me encaravam com certo humor e expectativa.
- Meu Deus, o que vocês estão esperando? - Gerard praticamente gritou. - Leve-o ao hospital, Jeffrey. Agora!

Quando chegamos ao hospital, depois de eu quase fazer Jeffrey bater o carro três vezes de tanto que gritei para que ele fosse mais rápido, encontrei tão calma que nem acreditei. Eu estava suando, minhas mãos tremiam e eu agradecia mentalmente por ela estar calma, porque eu não sabia como seria capaz de ajuda-la estando como estava.

- Por Deus, , acalme-se! - pediu, irritada ao me ver andar para lá e para cá dentro do quarto.
Me aproximei dela e baguncei meu cabelo, nervoso.
- Como você consegue? - Perguntei a ela, que fez uma cara confusa. - Estar tão calma assim! Ele vai sair de dentro de você! Por Deus! Você devia estar surtando!
Minha esposa riu alto, levando sua mão até a minha e entrelaçando nossos dedos.
- Amor, nós treinamos para isso, lembra? E não adianta eu ficar nervos... - Ela parou de falar e seu rosto se contorceu uma expressão de dor.
Provavelmente outra contração. O intervalo estava cada vez menor. Ela apertou minha mão, respirando fundo algumas vezes. Demoraram alguns segundos para a dor cessar e quando aconteceu, ela voltou a me olhar, sorrindo.

- O que eu estava falando? Ah, sim! E não adianta eu ficar nervosa, amor, porque isso só vai dificultar para o bebê. - E sorriu novamente, fazendo carinho em minha mão com seu polegar.
- Meu Deus, você não existe. Eu te amo tanto, tanto, tanto, tanto... - Aproximei meu rosto do seu, enchendo-a de beijos antes de beija-la na boca.
Ficamos alguns segundos nos beijando, até que a médica de entrou na sala, interrompendo-nos.
- Como estamos? - A médica perguntou, puxando um banquinho e sentando-se em frente a cama que estava deitada.
- Bem. Tive uma contração há pouco... - Minha mulher falou, sem soltar de minha mão.
- Vou verificar como anda sua dilatação, com licença. - Pediu e abriu as pernas para ela.
A médica permaneceu concentrada por alguns segundos e por fim sorriu para nós dois.
- 10cm, ! Você está pronta! Vou chamar a equipe e faremos o parto! - Ela anunciou e se dirigiu até a porta do quarto, retirando-se em seguida.
Olhei para em expectativa e me surpreendi ao vê-la com os olhos cheios de lágrimas.
- Meu Deus do céu, meu Deus do céu, meu Deus, meu Deus... - Ela falava baixinho.
- Ei, amor. Acalme-se, lembra do que me disse há pouco? - Perguntei, levando minhas mãos até seu cabelo, tirando-o de seu rosto. - Você conseguiu me acalmar, então agora é sua vez de...
- Não é minha vez de nada, ! Você não sabe como é estar no meu lugar e nunca saberá! - Esbravejou, interrompendo-me.
Ergui as sobrancelhas, surpreso.
- Vá avisar nossos pais, por favor. - Pediu, cobrindo o rosto com as mãos, e eu assenti prontamente, já me dirigindo a porta. - E NÃO DEMORE! - Ouvi-a gritar antes de me retirar do quarto.

Quando retornei depois de avisar nossos pais, a equipe da médica já estava a postos. estava chorando, desesperada. Assim que me viu, chamou por mim imediatamente.
- ... Amor, eu não vou conseguir. - Disse, segurando com força as laterais da cama em que estava.
- Ei. - Me aproximei dela, segurando seu rosto entre minhas mãos. - Você vai, sim. Eu vou ficar aqui o tempo todo. Vai dar tudo certo e antes que você perceba, Cooper já vai estar em seus braços.
Ela tentou sorrir entre as lágrimas, mas não conseguiu.
- Prontos? Pronta, ? - A médica perguntou, já posicionada para retirar o bebê.
balançou a cabeça em confirmação e segurou minha mão, apertando-a.
- Respire fundo e comece a empurrar...
Minha mulher puxou o ar algumas vezes e então fez força, empurrando o máximo que podia. Isso se repetiu várias vezes, junto com gritos de dor e mais algumas instruções da médica. Quando finalmente ouvimos o choro de Cooper, tudo pareceu sumir. começou a rir, emocionada, enquanto limpava as lágrimas em seu rosto. Alguns segundos depois, uma enfermeira se aproximou de nós com nosso filho e colocou-o nos braços de .

- Meu Deus. Ele é a coisa mais perfeita desse mundo. - Minha esposa disse, sem tirar seus olhos de Cooper.
- Ele é, sim. - Concordei, aproximando-me dos dois para vê-lo melhor. - E ele é nosso. balançou a cabeça, sem desviar o olhar dele.
- Eu estou apaixonada. - Ela comentou, passando o dedo levemente pelo rostinho dele.
- Eu também. E não é por você, amor. - Eu disse e ela riu baixinho, concordando.

Ela virou seu rosto para mim e sorriu abertamente, e então me estendeu nosso filho. Eu estendi os braços um pouco desajeitado, mas logo o peguei e aconcheguei-o junto a mim. Cooper abriu sua boca, bocejando levemente. Eu levei meu dedo até sua mãozinha e ele o agarrou imediatamente. Abri um sorriso abobalhado e ouvi rir baixinho de minha reação.
Nosso filho, finalmente em nossos braços.
Cooper David .”


xxx


- Mamãe, eu não entendo!
- O que, Coop? - Perguntou , curiosa.
- Por que a Preguiça Fêmea não gostou do Sid? - Indagou, referindo-se provavelmente a um de seus filmes preferidos: A Era do Gelo.
- Ah, filho, é que algumas pessoas levam a aparência como o critério mais alto na escolha de um parceiro.
- Mas mamãe, mesmo que ele seja muito engraçado?
- Mesmo assim. - assentiu. - Mas você não deve e não pode pensar assim, Coop! A beleza não é tudo, e o tempo acaba por levá-la algum dia.
- Então eu devo escolher uma namorada se ela for legal independente de ser bonita ou não?
- Exatamente, meu amor. - Pude ouvi-la rir. - Mas está um pouco cedo ainda para você pensar nisso.
- Mas mamãe, você vive dizendo que o papai é bonito e comparando ele com comida. Isso quer dizer que ele não é legal?

O que raios estava ensinando para Cooper enquanto eu estava "fora"?

- Claro que não, Coop! - Tive certeza que ela tinha rolado os olhos. - Seu pai felizmente é os dois e você também... Mas como assim comparando com comida?!

Oh, não... Querida, não pergunte isso!

- Outro dia, ouvi você chamando ele de gostoso. Papai me disse que você estava falando do almoço que comeu, mas eu sei que ouvi direito. O doutor Harry Potter checou meus ouvidos e disse que estão muito bem.

Se eu pudesse, teria rido. Doutor Harry Potter? Essa era ótima.
ficou em silêncio, provavelmente percebendo que caiu em uma teia sem retorno e que teria de respondê-lo agora.

- Hm... Coop... Quando um homem e uma mulher se gostam você sabe o que acontece?
- Eles têm bebês! - Falou ele, animado. - E você e papai se amam muito! Devem tentar fazer bebês toda a hora. Vocês tentam muito, mamãe?

Ai. Meu. Deus.
Com essa pergunta saindo da boca de meu filho eu quase fiquei feliz que estava em coma e não precisaria responde-lo.

- O papai e eu... Nós... Cooper, conversamos disso quando o papai acordar! Ele vai amar te explicar tudo sobre isso.
AH, NÃO, WRIGHT, VOCÊ NÃO FEZ ISSO! Nem em coma eu escapo dessas coisas!
- Tudo bem, mamãe. Agora o papai tem mais um motivo para acordar!
- Isso mesmo, meu amor.
- Mamãe, o que é Elecocardiograma?

Nesse momento tenho certeza que pensou: Essa vai ser uma longa tarde. Eu pensaria o mesmo se a fala de Cooper não tivesse me despertado uma lembrança...

”- Papai! Vete!
Olhei para meu filho, confuso com seu vocabulário restrito por conta de seus 3 aninhos de idade.
- O quê, Cooper? - Perguntei a ele, me abaixando para ficar de sua altura.
Ele cruzou os bracinhos, irritado. Mal tinha crescido e já era todo decidido e dono de si. Não havia nada que odiasse mais do que não ser compreendido.
- Vete, papai! - Repetiu, fazendo um biquinho e apontando para a loja de sorvete na rua de sua escola.

Cooper tinha as vontades mais esquisitas. Devia estar fazendo cinco graus, ele estava todo envolto por casacos e ainda assim estava implorando por um sorvete. Muitas crianças fazem isso, você poderia argumentar. Mas meu filho não toma sorvete no calor, ele realmente gosta de tomar só quando está frio. Algo me diz que aquela criança cresceria para ser um menino muito peculiar.

- Coop, já conversamos sobre isso, filho! Está frio, você vai ficar doente. - Argumentei, ajeitando sua toquinha em sua cabeça.
- Mentila! Eu não fico dodói nunca! - Falou emburrado ao mesmo tempo que tentava puxar meu braço na direção da loja.
- Filho... - Comecei, revirando os olhos um pouco sem paciência, mas ao ver a carinha dele, acabei abaixando os ombros, derrotado. - Escuta aqui, pestinha... Só hoje! E não conte para sua mãe!
Cooper deu um pulinho animado ao me ouvir.
- Bigado, papai! - Agradeceu, colocando a mão na boca escondendo seu sorriso, como se estivesse me dizendo "meus lábios estão selados".

Voltamos para casa e, como eu esperava, Coop estava elétrico graças a bomba de açúcar que ingerira. Ao pararmos em frente a porta, ele começou a correr envolta de mim babulciando melodias sem sentido, me fazendo ter certeza de que ele não dormiria tão cedo hoje. Foi aí que eu soube que, ao contrario do que sempre pensei, eu não morreria pelo tiro de um bandido, mas por algo bem mais perigoso: a ira de minha mulher, se caso Cooper abrisse a boca.

- Filho, lembra-se do que combinamos? - Perguntei enquanto procurava as chaves de casa.
- Sim, papai! Segredodo! - Respondeu rindo e pondo suas mãozinhas na boca.

Não sei o que me fez gelar mais. Se foi o som da porta se abrindo ou a visão das mãozinhas do Coop todas cheias de chocolate passando por seu casaco.
Sim, eu estava frito.
Eu era um policial treinado, meu Deus! Era de se imaginar que eu percebesse a sujeira antes de chegarmos em casa!

- Meus amores voltaram para mim! - disse encostada na porta, alheia a meu nervosismo.
- Oi, querida. - Me aproximei dela e lhe dei um selinho. - Que tal um vinho? Você parece tensa! Como foi seu trabalho? - Continuei a falar sem parar, empurrando-a para dentro de casa enquanto massageava seus ombros.
- Meu amor, deixe-me falar com Coop também. Combinamos de ver um filme antes do jantar hoje, sabe aquele dos dinossauros? - perguntou, virando-se e procurando Cooper com o olhar.
- O quê? Não querida, ele está cansado! Né, Coop? - Perguntei desviando o olhar para meu filho, que ria saltitando pela sala.
virou sua cabeça, sua testa franzida em preocupação.
- . - Falou olhando nos meus olhos.
Eu desviei o olhar para baixo.
- ! - Ela colocou suas mãos em meus ombros, apertando-os. - Acalme-se. O que aconteceu? Foi algo no trabalho? - Perguntou.
Soltei o ar pela boca, aliviado.
- Não amor, tudo bem. Foi tudo ótimo no trabalho. - Sorri rapidamente para e lhe dei outro selinho, me virando para meu filho em seguida. - Coop, vem que vou te dar um banho!
- Quero banho com mamãe! - Ele cruzou os braços, emburrado.
Nem me dei ao trabalho de argumentar, pois já sabia que aquela era uma batalha perdida, ainda mais quando pegou-lhe no colo sorrindo.
- Vem com a mamãe, querido.

Não pude impedir o que veio a seguir.
Cooper David levantou suas mãozinhas sujas e fez carinho no rosto da mãe, sujando a cara de uma - muito surpresa - de chocolate.
Não me contive e comecei a rir da situação e da expressão de minha esposa para mim.

- O que é isso, filho? - Perguntou ela com a voz um pouco irritada.
- Vete! Papai deu vete! Segredodo! - Colocou as mãozinhas sobre a boca, cobrindo-a.

Foi aí que essa criança operou um milagre.
Fez Wright começar a rir, esquecendo sua irritação. Até parei de gargalhar por uns momentos, observando a cena confuso. Minha mulher cochichou algo no ouvido de Cooper e ambos olharam para mim com sorrisos misteriosos. Foram se aproximando devagar de forma que quando vi Coop estendendo suas mãozinhas para minha face, foi tarde demais. Abracei ambos aceitando minha penitência e suspirei aliviado devido a paz que minha pequena família me trazia.”


xxx


Começou como um formigamento no meu pé direito.
Uma coceira em meu peito veio em seguida, o que foi uma tortura já que eu não conseguia mover meus braços para aliviá-la.
Senti também o peso dos lençóis encobrindo a parte inferior de meu corpo, o cheiro forte de antisséptico e sobretudo, o silêncio - ao menos a princípio.
Um barulho crescente, como o som de passos no corredor, deixou-me ainda mais alerta. O som foi ficando mais alto e chegando mais perto, misturando-se com outros sons.

Um bebê chorava, fazendo minha cabeça pulsar pelo barulho, enquanto a voz de uma mulher parecia acalantá-lo. Só percebi que era no momento em que os passos cessaram ao meu lado. Eu podia sentir sua presença novamente, assim como antes. Sempre que minha mulher estava presente, eu prendia minha respiração, sem acreditar que ela aceitara sair comigo pela primeira vez e que já estávamos casados.

Apesar de amar muito , e de ter acreditado esse tempo todo que estive apagado, de que era a sua voz que me tiraria do coma, não foi isso que aconteceu.
Não.
Foi o conjunto do conteúdo de sua frase, que me fez entender que minha filha estava ali. Minha filha havia nascido.

- Conheça seu pai, Francesca! - Ouvi dizer.

Eu havia perdido seu nascimento, mas e daí? Agora eu sabia que poderia segurá-la e olhar para seu rostinho. Eu sabia que estava saindo daquele estado quase vegetativo em que eu me encontrava. Eu iria sobreviver.

Sabe como antes de morrer, sempre falam que sua vida inteira passa por sua mente em um flash? Isso aconteceu durante aqueles meses em que ruminei sobre inúmeras memórias. Algumas eu nem me lembrava, outras foram os momentos mais felizes de minha vida.

Eu estava me preparando para morrer. Aliás, eu estava certo de que isso aconteceria. Até aquele momento.

Assim que ouvi minha filha pela primeira vez, algo extraordinário aconteceu. Comecei a imaginar todas as ocasiões em que ela não me teria presente. Se eu não acordasse, nunca poderia me vangloriar para de que a primeira palavra de Frankie fora "papai", porque era óbvio que seria essa. Nunca poderia assustar o garoto que se atrevesse a levá-la ao baile de formatura. Nunca a ensinaria a se defender dos maus indivíduos. Não poderia dar a ela e a Coop conselhos sobre como escolher que carreira seguir. Não veria Cooper se formar em primeiro lugar de sua turma. Não poderia levar Frankie ao altar para entregar sua mão a um bastardo sortudo que provavelmente não a mereceria. Não veria meus netos. E além disso, eu não veria mais o sorriso de minha esposa ao acordar, todos os dias de manhã. Não sentiria mais o seu cheiro, o calor de sua pele contra a minha, não ouviria mais a sua risada...

Frankie chorava, em seu clamor de bebê; o choro da necessidade. A necessidade de ter um pai em sua vida.
E sim. Meu coração pulou uma batida. Mas fora só para voltar a bater mais forte. Nessa hora eu soube que estava pronto. Não só por Francesca, mas por Cooper, por , por meus pais, meus sogros, por Jeffrey e por meus colegas de trabalho. Eu estava pronto para abrir os olhos.

Não foi na primeira e nem na segunda tentativa que eu consegui. Tentei mexer meus dedos, mas também não fui capaz. Contudo, após mais alguns momentos tentando, finalmente senti a claridade penetrar minha íris, após tanto tempo. Meus olhos não estavam mais selados. Eu acordara.

- ?!
- Papai?!


Epílogo

Ponto de vista: Francesca .


Meus pais só podiam estar brincando comigo.
Havia muito tempo que não fazíamos uma viagem em família, mas naquele verão as férias de minha mãe acabaram combinando com as de meu pai, então eles não pensaram duas vezes em planejar uma viagem. Tudo para e após o coma de papai era obra do universo ou algo relacionado com o sexto sentido. Quando falei disso com Cole, meu melhor amigo, ele disse que isso era coisa de hippie. Mandei ele calar a boca na hora, mas às vezes me pergunto se ele não está certo.

Mas esse não era o problema, não, nem de longe. O problema era que Cooper trouxe a grudenta da nova namorada dele; a primeira, aliás, como eu gostava de lembrar. Como ele se contentava com aquilo? Não acreditei quando meus pais deixaram que ele trouxesse Alexis, a nojenta. Quando eu pedira para trazer o Cole, papai começou um discurso de como férias em família tinham que ser em família e o Cole tinha a dele para passar o feriado.

No fundo acho que papai só estava com ciúmes. Ele até sugeriu depois que eu levasse uma amiga, quando eu fiz greve de fome por três dias. ficava para morrer quando via que eu só tinha meninos como amigos. O que eu podia fazer se as meninas da minha idade não gostavam das mesmas coisas que eu?

- Aí você inclina e toma cuidado para o peso ficar concentrado na parte da frente... Isso! Boa, Alex. - Disse meu irmão enquanto tentava ensina-la a surfar.

Eu observava tudo de minha cadeira de praia através de meus óculos escuros, enquanto folheava a revista Teen Vogue. Eu descobrira que era isso que mulheres de classe faziam, então resolvi comprar uma revista para disfarçar meus olhares. Porém, em dez minutos eu já estava cansada de todas aquelas fofocas e não aguentava mais ficar no sol observando Alexis cair e ficar toda "Coop, vem me ajudar".

Olhei para o lado e vi mamãe e papai deitados em suas espreguiçadeiras, conversando baixinho. Eles provavelmente estavam em seu próprio mundo, como sempre acontecia quando estavam juntos. Acho que eles só não esqueciam que eu e Cooper existíamos porque nós dois não deixávamos eles em paz.

Resolvi levantar e peguei minha própria prancha, andando em direção as ondas, para tentar mostrar o que aprendi na colônia de férias do ano passado.
- Espera Frankie, o mar 'tá inquieto hoje... - Cooper disse.
- Já disse pra me chamar de Francesca, Cooper! - Esbravejei. - E se vocês estão aí, por que eu não posso?
Coop revirou os olhos para mim e fez um gesto de vá em frente, voltando sua atenção para a namorada.

Subi em minha prancha e remei até uma área mais funda, esperando uma onda. Consegui pegar uma alguns segundos depois, e assim que terminei, ouvi palmas sendo batidas ao longe, encontrando meus pais em pé me aplaudindo. Trabalho cumprido.

Dei um sorriso convencido na direção de Alexis, que estava boquiaberta admirada com meus talentos.
- Acho que não é pra todo mundo. - Gritei quando passei por ela, voltando para a areia.
Virei bem a tempo de ver uma carranca formar-se em sua face. Meninas Malvadas e Gossip Girl me ensinaram o que eu precisava saber para lidar com o drama de ter alguém indesejado entrando na família.

xxx

Era fim da tarde. Eu já havia tomado banho e estava na cozinha da casa que havíamos alugado, servindo um copo de suco para mim. Tomei um susto ao sentir uma mão em meu ombro, e assim como meu pai me ensinou, agarrei o punho da pessoa que estava me tocando e o torci. Cooper soltou um gemido e ao perceber que era ele, eu soltei seu punho, envergonhada.
- Você é demais! - Alexis disse para mim, parada ao lado dele, parecendo sincera.
Ela devia ser muito boa em fingimento, isso sim.
- Não agora, Lexie. - Cooper pediu a ela e então se voltou para mim. - Frankie... Francesca, posso falar com você? Agora.
A expressão dele estava séria e eu ergui as sobrancelhas, surpresa.
- Ah, tudo bem. - Respondi.
Cooper deu um selinho em sua namorada e ela se retirou, resmungando algo sobre tomar banho enquanto eu e Coop conversávamos.
- Maninha, você sabe que eu te amo, certo? - Ele perguntou.
Balancei a cabeça afirmativamente, sem entender onde ele queria chegar.
- Sim... Eu também, Cooper.
Ele abriu um sorriso gentil e me abraçou de lado.

Sempre fomos muito próximos, mas assim que ele foi para a faculdade, as coisas mudaram um pouco. Eu sentia muito a sua falta, todos os dias. Éramos nós dois o tempo todo e agora eu estava sozinha. No início, quando ele vinha nos visitar, era tudo igual. Passávamos horas conversando sobre várias coisas, eu lhe contava tudo sobre a escola e sobre como Mike não saía de meu pé porque queria ter seu primeiro beijo comigo. Coop até me fez prometer que não beijaria ninguém antes dos 18 anos de idade. Por enquanto eu ainda não tinha quebrado essa promessa, porque só tinha doze anos e não passava pela minha cabeça enfiar a língua na boca de um garoto.

As coisas começaram a mudar quando, em uma de suas visitas, ele trouxe Alexis. Não gostei dela de cara. Parecia que tinha saído de uma capa de revista e sua voz era irritante. Cooper não passava mais tanto tempo comigo e não tínhamos mais nossas conversas até de madrugada. Mamãe disse que isso era normal, porque era a primeira namorada dele, então logo eu me acostumaria e seríamos até amigas.
Não acostumei. E continuei achando ela chata e enjoada.

- Se você me ama, precisa ser mais gentil com a minha namorada, querida. - Ele pediu, seu tom de voz calmo.
- Mas ela vive me provocando! - Retruquei, cruzando os braços e sentando em uma cadeira ao redor da mesa da cozinha.
- Francesca, você é a menina mais esperta que eu conheço. Não minta. - Cooper falou, olhando-me com repreensão. - E não importa quem eu namore, você sempre vai vir em primeiro lugar! Achei que você soubesse disso!
Ouvir isso me levou a abrir um sorriso enorme, mas logo fechei a cara de novo, disfarçando meu momento de fraqueza.
- Você sempre foi tão doce com todo mundo, o que 'tá acontecendo?
Rolei os olhos e inclinei a cabeça para trás, olhando para o teto por alguns segundos.
- Você me prometeu, Coop! - Falei, voltando meu olhar para ele. - Quando foi pra faculdade, você disse que eu poderia te visitar e que ainda passaríamos tempo juntos! Mas isso não aconteceu, porque você nunca pode ficar comigo durante o fim de semana. - Fiz uma pausa, olhando para baixo e brincando com a barra de minha blusa. - Quando o papai falou das férias em família, achei que seríamos nós dois... Que eu teria um tempo com meu irmão.
- Ah, foi mal, Frankie... - Coop disse com uma expressão tão culpada que eu nem liguei por ele ter usado meu apelido.

Peguei raiva desse apelido depois que um garoto idiota da escola ficou me irritando com ele, me chamando de Frankenstein. Mamãe me falou que ele devia estar me irritando só porque gostava de mim e queria que eu lhe desse atenção, mas isso não fazia nenhum sentido.

- Eu prometo que isso vai mudar. Eu vou lembrar de nossa promessa daqui pra frente, tudo bem? - Perguntou, puxando a cadeira ao meu lado e se sentando de frente para mim. - Mas eu preciso que seja legal com a Alex. Você vai ver que ela se parece muito com você, vocês podem se dar bem!
Eu fiz uma careta ao ouvi-lo, mas me obriguei a sorrir quando vi a expressão reprovadora de meu irmão. Internamente eu estava gargalhando com a possibilidade de sermos parecidas.
- Prometo tentar, Coop. - Fui sincera.
Blair Waldorf e a Arte da Guerra me ensinaram a ter meus amigos perto e inimigos mais perto ainda. Não custaria nada fazer um esforço.

Depois de um jantar estranho, em que fui extremamente dócil com Alexis e realmente consegui conversar com ela, fomos comer marshmallows em volta da fogueira no quintal, assim como nos velhos tempos. Coop tinha um de seus braços envolvendo Alex e o outro a mim, enquanto papai e mamãe dividiam um banco improvisado.

Gostava muito de observar meus pais. O amor deles era algo quase palpável, tamanha a intensidade o que sentiam um pelo outro. Eu não costumava me imaginar no futuro, com um namorado, marido, ou algo do gênero, mas as poucas vezes que fazia, me imaginava com alguém que me tratasse como papai trata mamãe. Alguém que me olhasse como ele olha para ela.

Meu pai estava contando uma história sobre o último caso em que ele e o tio Jeff foram investigar.
- A suspeita era de que um cara estava escondendo algo em seu armazém. - Começou ele, desviando o olhar para nós, fazendo um suspense. - Achamos que eram drogas, mas quando chegamos lá... BUM! - Ele imitou o barulho de algo explodindo, fazendo com que nós nos sobressaltássemos e mamãe lhe desse um tapa no ombro pelo susto. - Era só uma coleção rara de miniaturas de elefantes que o tal sujeito havia recebido de herança da avó. - Papai deu de ombros e nós rimos. - O pobre coitado mandou a gente levar tudo, estava louco para se livrar daqueles "malditos bonecos".

Depois foi a vez de mamãe contar um caso engraçado que ocorrera no hospital, algo sobre um peixe minúsculo ter entrado na uretra de um homem enquanto ele nadava em um rio na América Latina. Enquanto Coop fazia suas perguntas intermináveis de medicina, me recostei no banco e tive uma realização.

Meus pais passaram por muita coisa - grande parte dos problemas vieram antes de eu nascer - e mesmo assim conseguiram manter nossa família unida com o amor que nutriam um pelo outro. Foi aí que entendi que eles deveriam estar certos sobre aquela coisa de sexto sentido, universo e destino. Se não fosse obra do destino ou uma benção do universo, eu não sabia o que era. Aquele casal não podia ser comum, pareciam ser ligados por uma força maior que confluiu para que eles acabassem juntos. A cadeia de eventos que fez com que esbarrasse com quando estava saindo do hospital; o pressentimento que mamãe teve ao ter aquela sensação de que algo estava errado no dia em que meu pai chegou baleado no hospital; o fato de papai ter acordado ao ouvir meu choro quando eu ainda era bebê... Tudo isso, só poderia ser obra de algo muito maior, algo guiado pelo universo que os especialistas chamavam de sexto sentido e destino. Cole estava certo, essa bobagem hippie deve ser contagiosa.



FIM



Nota das autoras:
Kari:
Bom, acabou. Essa fic foi uma das mais gostosas de escrever. A idéia surgiu de repente, e em menos de sete dias eu e a Gabi já havíamos escrito ela inteirinha. Nossa sincronia deu muito certo. Encaixamos, sabe? Eu com os diálogos, a Gabi com as descrições… Foi maravilhoso. Espero que vocês tenham gostado der ler tanto quanto nós duas gostamos de escreve-la! O que posso dizer no momento, é que mais parcerias já estão sendo preparadas, hihihi. Muito obrigada a quem acompanhou a história e leu até o final. E obrigada a você, Gabi, mais uma vez, por tudo! <3 Beijos!

Gabi Heyes:
Oi pessoal! Agradeço muito por terem lido, viu?! Sixth Sense de certa forma foi obra do destino. Acredito muito no que foi escrito, nesses pressentimentos, sinais e que algumas coisas devem acontecer. Fiquei muito satisfeita com o resultado, acabou saindo muito mais do que eu tinha pensado inicialmente que seria. Acho que a parceria ter sido com a Kari teve muito a ver com isso. Tivemos tanta sincronia... Cresci muito e aprendi muito com ela. Recomendo muito todas as fics da Kari e sou muito fã. Isso só fez nossa parceria ser ainda mais emocionante para mim. Não digo um adeus, mas um até mais! Não se esqueçam de comentar, por favor. ❤ Beijinhos de luz!



Kari:


Gabi Heyes:


Outras Fanfics:
Kari:
A Place to Call Home (Restritas/Outros/Em Andamento - Longfic)
Outer Space (Restritas/Outros/Em Andamento - Longfic)
9/11 (Outros - Shortfic)

Gabi Heyes:
One More Dream (Outros/Em Andamento - Longfic)
Hazel’s Serendipity (Outros/Em Andamento - Longfic)
You Give Love A Bad Name (Outros - Shortfic)
05. I’m not the only one (Ficstape Sam Smith)


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