Finalizada em: 30/11/2017
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Parte I


첫눈에 널 알아보게 됐어
Pude te reconhecer assim que te vi
서롤 불러왔던 것처럼
Como se estivéssemos chamando um ao outro


- Nós definitivamente precisamos voltar, . – disse com preocupação na voz. Já se passavam das seis horas da tarde e ambos sabiam, era um péssimo momento para se estar longe de casa. Se é que podiam chamar o lugar de onde vinham de casa.
Eram tempos difíceis, mas nenhum deles conhecia outra realidade, outro mundo além daquele. Não haviam nascido quando aconteceu. Ninguém sabia lhes dizer como, ou por que, mas as coisas eram daquela forma agora e cabia a eles apenas aceitar.
A ordem havia caído, as leis, e em um mundo como aquele, sobrevivia apenas os mais fortes, ou, no mínimo, os mais inteligentes.
Estar longe do esconderijo as seis horas da tarde nem de longe podia ser considerado inteligente, mas sentia que estavam perto, no lugar certo, e não podia simplesmente voltar sem encontrá-la, não depois de tanto tempo procurando.
A garota, quem quer que fosse ela, sabia o que estava fazendo. Nunca ficava mais de um dia no mesmo lugar e isso fazia com que fosse impossível localizá-la, mesmo para Tracy. Quando chegavam até o lugar, ela já não estava lá e não era como se pudessem simplesmente passar a noite longe para continuar de onde pararam no outro dia. A verdade era que, se pudessem, seria muito mais fácil, mas o disfarce que precisava manter lhe impedia de fazer isso e ele precisava estar presente quando encontrassem a garota. Só ele podia garantir que era a certa.
- . – insistiu quando o outro não respondeu e tudo que fez foi desligar o carro ao estacioná-lo em frente a um bar. suspirou, passando as mãos pelos cabelos incomodado. – , o que diabos você está fazendo? – reuniu toda a sua paciência para perguntar.
- Ela está perto. – o outro respondeu simplesmente, abrindo a porta do carro e batendo-a logo após sair. se encolheu com a batida.
- Puta merda, . Dá pra pelo menos fazer silêncio? Quer nos matar? – perguntou inconformado enquanto seguia o amigo de perto, acompanhando-o até a entrada do local. – Espera, você ainda pretende entrar pela porta da frente?! – quis saber, chocado.
- Do que é que você tem tanto medo? – perguntou, voltando-se para ele pela primeira vez desde que aquela conversa se iniciara. – Não é como se alguém pudesse lidar com a gente.
revirou os olhos.
- Essa sua confiança toda é comovente, mas está se esquecendo de que ela também é como nós e não sabemos o que pode fazer. Ela também pode estar em grupo, um onde nem todos são normais como o resto da população e nós seremos os intrusos, . Vão atacar primeiro e perguntar depois, é assim que funciona. É assim que faríamos.
- Você tem andado muito com o , não tem não? – perguntou em resposta. Assim como ele, costumava fazer o tipo imprudente e seu poder era um dos melhores para o ataque. Fizeram amizade em pouco tempo quando e foram encontrados por ele e há alguns anos atrás. , sozinho, manteve os dois vivos por meses graças as suas habilidades e da forma como as coisas iam, sobreviver sozinho era basicamente uma missão impossível. – Acho que está na hora de parar. – completou por fim, passando por ele para continuar seu caminho. subiu o primeiro degrau da soleira, mas antes que pudesse subir o segundo, passou a sua frente, o impedindo de continuar.
- Para. – falou após se por no caminho. – Estou agindo como o porque você está agindo feito um idiota e alguém tem que ser sensato aqui. – esclareceu de uma vez, falando baixo para não chamar muita atenção. – Eu sei como se sente, essa coisa de ligação é assustadora. Ela te chama, te puxa sem que você possa realmente controlar, mas você pode, mesmo que não pareça no início. Você... – se interrompeu quando notou estreitando os olhos em sua direção e a careta feita por ele em seguida deixou claro para que estava certo em desconfiar.
não tinha ligação com ninguém.
Até onde havia contado.
- Como sabe de tudo isso, ? Como pode saber? – perguntou, mas antes que ele pudesse responder o barulho de coisas caindo colocou ambos em aberta, fazendo com que interrompessem o assunto e olhassem para o bar. No primeiro segundo, não fizeram qualquer outro movimento, mas isso só durou até ouvirem o som de vidro se quebrando, seguido por um resmungo alto de dor que, para a surpresa de , ele sentiu, como se fosse ele lá dentro sendo atingido.
Se perguntassem, jamais saberia explicar o que houve. Foi como uma carga de adrenalina injetada repentinamente em sua veia. Em um instante, sentia aquela ansiedade inexplicável de avançar independente de tudo, simplesmente porque sabia, de alguma forma, que ela estava perto, como se o puxasse para si como um imã, exatamente como havia mencionado. No outro instante, no entanto, aquela necessidade virou urgência e ele correu para dentro antes mesmo de pensar sobre o que fazia. Sabia que havia algo errado, ele sentia em cada célula de seu corpo, começando pela leve dor em seu quadril, como um repuxar desconfortável.
E ele sabia o porquê. Para sua surpresa, sabia.
Ela estava lá dentro, e precisava de ajuda. Havia sido ferida e podia sentir exatamente o local como se o seu corpo fosse, literalmente, uma extensão do dela. Era mais do que uma “simples” ligação por DNA, era como se fossem um. Muito provavelmente, se veria incomodado com algo como aquilo mais tarde. Nunca foi o tipo de pessoa que se deixava depender de outra. Era pretensioso demais, orgulhoso demais para se permitir a uma fraqueza como aquela, mas não estava pensando no que fazia quando simplesmente o fez, sendo seguido de perto por .
Quando chegaram onde tudo acontecia, no entanto, a segunda ou terceira surpresa da noite. Apesar de ferida, e ele sabia que estava, a garota se virava muito bem sozinha, contra três homens que eram o dobro do seu tamanho, para se dizer o mínimo. Apoiou-se com as mãos nos dois lados do balcão do bar para pegar impulso e atingir um deles com os pés, acertando-o em cheio no meio do peito. O homem, um ruivo magrelo e cheio de sardas, caiu para trás, contra a estante de bebidas que caiu sobre ele.
- Desperdício. – ela resmungou enquanto o forte cheiro de bebida invadia o local e abaixou-se no exato instante que o segundo homem tentava atingi-la. Era o mais alto, tinha provavelmente 1,90 de altura, mas ela desviou sem dificuldades quando ele se jogou sobre ela. Fazendo-o passar direto, a garota o empurrou com um dos pés assim que se levantou novamente, agora atrás dele.
O segundo caiu sobre a estante recém derrubada, por cima do outro que tentava sair debaixo dela.
- Próximo... – chamou de forma irônica, virando-se para trás a fim de encontrar o outro homem que ela sabia, estava por ali. Infelizmente, seu gesto de procurá-lo foi justamente o que a colocou em perigo quando, devido a ele, perdeu momento em que o terceiro decidiu atacá-la. deu um passo a frente para intervir, desse golpe ela não seria capaz de escapar, mas o puxou de volta pela camisa, o impedindo de prosseguir.
o encarou e negou com a cabeça.
- Vamos ver o que pode fazer antes. – falou ele, baixo o suficiente para que ninguém além de escutasse, mas a garota, de alguma forma, escutou, distraindo-se ao olhar na direção onde os dois estavam.
Poderia até ter perdido o momento do ataque, mas ainda teria chance se não tivesse se distraído.
Enquanto olhava para como se fosse louco, afinal, até então não media esforços para estar ali, a garota era jogada contra a parece. Ela urrou de dor, chamando a atenção de ambos imediatamente, mas não ficou parada esperando outro golpe, acertando o agressor com um murro no nariz. O terceiro homem vacilou, mas quando ela foi acertá-lo novamente, o anterior lhe puxou pelos cabelos, fazendo seu corpo se chocar com o dele por trás.
A garota gemeu de dor e dessa vez, precisou conter a si mesmo para não interferir.
Era ela, ele sabia que era ela, a pessoa com quem tinha a ligação. Até onde tinha conhecimento, isso significava que a garota também tinha algum dom, um que ele precisava saber qual era e só descobriria se ela o usasse. Podia sentir o poder emanando, era algo significante, mas por algum motivo ela simplesmente não usava.
. – o chamou, em alerta. A garota precisava de ajuda e ele também sabia disso.
O homem a jogou contra uma mesa, de bruços, e bateu com sua cabeça ali para desnorteá-la. Ela urrou novamente, em um misto de dor e irritação. Tentou se mover, mas o homem lhe segurou com mais força, chegando muito mais perto do que o necessário para quem queria nocauteá-la.
- Vagabunda. – xingou e ela tentou se esquivar quando ele encostou nela. Não obtendo sucesso, bradou em irritação. – Estava pedindo por isso, não estava? – perguntou, segurando-a com mais força contra a mesa e dessa vez, foi demais para .
Em um acesso de raiva, ele foi a frente para interferir, mas antes que pudesse de fato chegar até eles o homem se afastou dela por conta própria, aos berros, sem que ninguém tivesse feito nada.
parou onde estava. O homem se debatia em completa agonia enquanto a garota se deixava ceder. Sentou no chão, parecendo um tanto quanto exausta enquanto apoiava as costas nos pés da mesa. Seu olhar estava focado no homem a sua frente e desviou o seu para por um instante, como se perguntasse o que estava havendo.
- Cara, o que você está fazendo?! – o terceiro homem perguntou, mas o que se debatia não parou por isso. Estava desesperado, em completa tortura.
- Apaga, apaga! – gritou para o capanga e o primeiro, o ruivo, se voltou confuso para o parceiro.
- Apagar o quê?! – perguntou, claramente assustado. Só não mais do que confuso, afinal, nenhum deles parecia saber o que fazer.
- Fogo! Fogo! – voltou a gritar o segundo, correndo e pulando de um lado para o outro.
- Ele pensa que está em chamas. – falou, pasmo, e apenas concordou com a cabeça ao entender, perplexo demais para dizer qualquer coisa.
Mas a fala de , de qualquer forma, não passou despercebida pela garota no chão.
Novamente os notando ali, ela desviou o olhar para eles e sua atenção foi para imediatamente. Ele pôde notar, sem dificuldade, que ela prendeu a respiração e o impacto de seus olhos nos dele fizeram com que se perdesse por um instante, esquecendo-se completamente do ambiente ao seu redor.
E não foi o único.
- ! – gritou, mas não foi isso que o trouxe de volta, agora para o caos que ele não tinha ideia de quando havia se formado.
O homem que antes se debatia, agora pegava a garota pelo pescoço, tirando-a do chão ao prensá-la contra a parede mais uma vez. Aproveitou-se da distração dela para agir e tudo o que a garota pôde fazer foi levar suas mãos até as dele, tentando se soltar. Evitando que ela o fizesse, o homem levou a mão livre até o quadril da garota, no local exato onde havia sentido a fisgada mais cedo.
Ao ter o local pressionado, ela gritou de dor e fez uma careta, sentindo exatamente o que ela sentia enquanto o brutamonte ria.
Não que ele tenha tido tempo para muito mais que isso.
Em um instante ele se vangloriava, mas no outro, sem qualquer explicação lógica, uma mesa voou sozinha em sua direção, acertando-o nas costas com força o suficiente para se quebrar em mais pedaços do que poderiam contar. Ele, como era de se esperar, desabou desacordado no chão enquanto os outros olhavam pasmos para a cena ao redor.
- Como ela está fazendo isso?! – o terceiro homem perguntou para o ruivo que se limitou em apontar na direção dela.
- Pare-a! – gritou para o outro que, acatando aquilo como uma ordem, tentou seguir na direção da garota que tossia com as mãos no pescoço, sentada novamente no chão. Antes que pudesse avançar muito, no entanto, correu, pulando sobre as costas do homem.
- Não foi ela, otário. – respondeu, enfiando os dedos em seus olhos sem piedade enquanto o homem gritava por ajuda. O ruivo tentou avançar para isso, mas parou de repente, arregalando os olhos em total pavor sem que ninguém pudesse explicar o motivo.
Ou quase ninguém.
- Ops. – provocou, assistindo enquanto o homem, exatamente como ele pretendia, tirava a pistola de seu próprio cinto. – Cara, o que está fazendo? Não vai atirar na sua própria cabeça, vai? – falou com o tom carregado de deboche e como se só então se desse conta do que acontecia, o homem encarou em pânico.
De forma cínica, o garoto apenas sorriu, dando de ombros em seguida.
- O... o que... como? – o homem gaguejou enquanto sua mão subia sem que ele pudesse controlar, levando a pistola até a cabeça. Ele olhou apavorado para a arma, mas o fez apenas de canto de olho uma vez que não tinha controle o suficiente de seu corpo para virar a cabeça.
- Foi mal. – sussurrou de forma divertida, sem se sentir nem mesmo ligeiramente culpado pelo ocorrido. Antes que o homem disparasse, deu as costas, voltando-se para ainda sobre o que restava. – Desce. – falou para o amigo, que o obedeceu no mesmo instante que o outro disparava em si mesmo. Não que qualquer um dos dois se importasse. Como se aquele gesto fosse completamente normal e irrelevante, ambos se focaram no último homem de pé e assistiram quando ele, a comando de , correu em toda a velocidade até a parede logo a frente, batendo com sua cabeça contra ela e desabando desacordado ao lado da garota.
- Vocês... – ela começou, completamente perplexa, e olhou de um para o outro por um breve instante antes de deixar que seu olhar se prendesse ao de novamente. Ele sabia que não era algo que ela podia simplesmente evitar e sabia também que era muito mais concreto do que uma simples atração.
Era um fato mais real do que gostaria que fosse e mesmo não tendo ideia de onde vinha, agora que conhecia, que sabia o quão forte era, preferia nunca ter descoberto, nunca ter procurado por ela.
A respiração pesada da garota, por exemplo, denunciava que bem era a última coisa que ela estava. Parecia muita mais pálida do que quando se juntaram a ela e , em alguns segundos, notara tudo aquilo. Detalhes para os quais jamais se importaria. Isso sem contar aquela parte dele em agonia para simplesmente se aproximar, checar como estava. De cuidar dela, o que era ainda mais absurdo. Aquilo tudo ia contra absolutamente tudo que ele sempre foi e odiava isso.
- Uhm... Está bem... – pigarreou, erguendo uma sobrancelha em direção de que só então notou que estava sendo observado. Tentou não xingar por isso, decidindo que seria ainda pior e apenas se calou, fingindo que nada havia acontecido enquanto voltava a falar, virando-se novamente para a garota. - Não esperava que fosse a única com alguns truques na manga, esperava? – perguntou, mas tudo o que ela fez foi desviar o olhar para ele.
sentiu uma nova fisgada no local exato onde a garota segurava, em si mesma, e ela gemeu baixo, encolhendo-se onde estava. Usou a mão livre para se apoiar no chão, como se precisasse daquilo para manter-se firme, mas seus olhos pesaram sem que ela pudesse controlar, fechando-se em seguida enquanto seu corpo tombava para o lado, inconsciente.
Mais uma vez, precisou lutar contra todos os seus instintos para não simplesmente correr até ela, deixando que o fizesse primeiro por simples questão de aparências. Fechou as mãos em punhos e cerrou os dentes, tentando lutar contra algo que estava, aparentemente, fora do seu controle.
E ele odiava não ter controle de qualquer coisa. Odiava não ter escolha. Sabia que, juntos, seriam mais fortes, mas não valia a pena se aquilo de alguma forma o fazia vulnerável a outro alguém. No final, se ambas as coisas fossem colocadas em uma balança, não havia vantagem. Ele só desejou saber disso antes.
Mataria por ter omitido aquela parte.
, sem notar que o outro não lhe acompanhava, abaixou-se ao lado da garota e da melhor forma possível ergueu sua blusa cuidadosamente, até a altura do umbigo, para ver o que lhe afligia.
não podia ver dali, mas a julgar pela expressão do companheiro, só podia imaginar que a situação era péssima.
- Nós temos... – começou ao se virar para o lado e só então notou que não estava ali. – Mas o que diabos está havendo com você hoje?! – exclamou, muito mais alto do que deveria. – Tudo isso é por causa da droga da ligação?!
Como se só então despertasse de seus próprios pensamentos, voltou a si, negando com a cabeça.
- Não é ela. – mentiu, sem de fato pensar sobre o que fazia. Foi puro instinto, como um rápido sistema de alto defesa. Não queria que os outros soubessem como se sentia e, se suas teorias sobre a ligação estivessem certas, em algum momento todos saberiam.
- Isso importa mesmo agora?! – perguntou, saindo da frente para que , mesmo daquela distância, pudesse ver a ferida no quadril da garota. Ela havia sido esfaqueada, sabe-se lá com qual profundidade, mas o ferimento deveria estar infeccionado há dias, era surpresa que ela ainda conseguisse ficar de pé, que dirá lutar da forma como havia lutado.
- Precisamos levá-la até . – falou e concordou imediatamente. Ele se levantou para erguê-la em seus braços, mas antes que tomasse a atitude, o fez, tomando-a para si e recebendo um resmungo dolorido em retorno, sentindo as mãos dela se fecharem em punhos em sua camisa.
Ela havia acordado e sentiu os olhos dela sobre ele mesmo sem encará-la, como se pudessem queimar sua pele. Ela se mexeu novamente, incomodada, mas o movimento era mínimo devido a sua condição. Havia se saído muito bem há pouco, mas já não tinha mais forças para lutar, como se tivesse esgotado todas as suas reservas de energia. Ela estava tentando, pode perceber pela forma como estava se segurando nele, mas não surtia qualquer efeito, não quando já precisava lutar para manter seus olhos abertos.
- Quem são...? – falou em um sopro, mas quando finalmente se voltou para ela, os olhos da garota voltaram a se fechar e sua mão se soltava da camisa que ele utilizava, pendendo a cabeça para trás. Havia desmaiado mais uma vez e precisou ignorar aquela sensação incomoda crescendo em seu peito, quase rindo da ironia ao perceber que era preocupação.
A ligação era totalmente científica, mas aquilo soava muito como carma. Só não diria ironia do destino porque “destino”, já era demais até pra ele. Aquilo não era coincidência, nada daquilo. Havia sido criado, feito em laboratório. Alguém os havia ligado e, infelizmente, precisaria dela para preencher as lacunas que ainda estavam pendentes.
A ligação era a chave. Ele só precisava descobrir para que.

ᛝ ᛝ ᛝ


A luz do sol que invadia o cômodo foi o que despertou . Após um resmungo insatisfeito, tudo o que ela fez foi se revirar no colchão, escondendo-se da claridade para voltar a dormir. Não pensava sobre o que fazia quando tomou a atitude, ainda não estava totalmente consciente para isso, mas antes que pudesse voltar a dormir de fato, sua mente ligou em um estalo, fazendo-a sentar com um pulo na cama ao se dar conta, de uma só vez, do ambiente ao seu redor e do que havia acontecido.
Ela não tinha ideia de onde estava, mas encontrava-se sobre um colchão limpo, diferente de tudo com o que estava acostumada. Não se lembrava quando havia sido a última vez que dormiu em um colchão, o mais próximo que ela chegava disso era no banco de algum carro. não sabia o que era um cobertor desde que perdera sua mãe, mas um lhe cobria até a cintura, fazendo com que estreitasse os olhos.
Lembrava-se luta que havia tido com os três homens no bar, e depois dos outros dois que apareceram. Lembrava, com confusão, da forma como as coisas se desenrolaram depois disso, a cadeira ganhando vida, o homem atirando na própria cabeça e, principalmente, da fala: “Não esperava que fosse a única com alguns truques na manga, esperava?”.
Aquilo significava mesmo o que ela havia entendido?
Curiosa, se levantou. Precisava saber onde estava, como havia chegado lá, mas assim que pensou congelou no lugar, sendo imediatamente atingida pela lembrança dos olhos escuros que lhe tomaram completamente assim que focou neles pela primeira vez. Não tinha ideia do que havia acontecido, mas cada mínimo detalhe dele estava gravado com precisão em sua mente. Se fechasse os olhos poderia imaginá-lo ali e se não o tivesse visto em ação, desconfiaria de que compartilhavam do mesmo poder e ele estava colocando aquilo em sua mente, brincado com ela.
Levou apenas alguns segundos para se dar conta de que isso, na verdade, nem era tão impossível.
Se estivesse certa, se ainda não estivesse delirando com a febre, ele era capaz de mexer com a cabeça das pessoas, controlar seus movimentos enquanto ela podia controlar suas mentes e fazê-las ver e sentir coisas que não existiam. Não eram dons tão diferentes assim e por esse motivo ficou preocupada, suspirando ao se perguntar quem eram e onde havia se enfiado.
Olhando ao redor para se situar, encontrou seus coturnos no canto do que deveria ser um quarto e seguiu até as botas, calçando-as de qualquer jeito. Ainda vestia as mesmas calças de couro, mas sua blusa branca havia sido substituída por outra limpa da mesma cor. Sua mochila e sua jaqueta também estavam no canto e após vestir a peça, jogou a mochila sobre um dos ombros, disposta a ir embora dali antes que alguém decidisse checar se ela já havia acordado.
seguiu até a janela, pronta para pular quando deu falta da dor que a acompanhava há dias. Parou onde estava, erguendo a blusa. Ainda tinha uma mancha de sangue em sua jaqueta, no local onde havia sido esfaqueada, mas o ferimento não estava mais lá, como se houvesse sumido em um passe de mágica.
- Mas que merda... – sussurrou, mais uma vez se lembrando da fala do garoto no dia anterior.
Ela não era a única com aquele poder, existiam outros e andavam em grupo. Se fosse embora agora, jamais saberia o que estava acontecendo. Talvez eles tivessem mais respostas, talvez soubessem porque eram assim, de onde os poderes haviam surgido e pensando nisso, deu um passo para trás, para longe da janela.
Ela não andava em grupo, era independente, se virava sozinha, mas não podia simplesmente ir, precisava de respostas e, pensando nisso, mudou a direção para qual seguia, rumando para a porta já aberta ao invés de pular a janela.
Estava no segundo andar de um galpão e seguiu sorrateiramente pelo corredor, olhando cômodo enquanto passava por eles. Quando se aproximou da escada, pode ouvir vozes exaltadas, duas pessoas discutiam e cuidadosamente ela se aproximou, descendo os degraus.
- Eu falei pelo menos umas quinze vezes que não era pra mexer ali! – uma garota gritou e mesmo de longe, pôde ouvir o bufar de uma segunda pessoa, um homem, que a imitou com a voz afetada de forma um tanto quanto infantil e debochada.
- Claramente não pra mim. – respondeu por fim, tranquilo, e pôde identificar como sendo o garoto do dia anterior. O mesmo que falou sobre não ser a única com “truques na manga” e repentinamente mais curiosa, ela desceu mais alguns degraus, parando apenas ao chegar próximo ao final deles e perceber que a discussão se dava ali. Se terminasse de descer, a veriam, então permaneceu onde estava, limitando-se em espiar o que acontecia.
E notou que os dois não eram os únicos no cômodo.
Havia um outro garoto, que despreocupadamente jogava em um gameboy. Estava largado de qualquer jeito em um colchão no canto do cômodo, vestindo jeans escuros e uma blusa de moletom branca, com o gorro parcialmente sobre a cabeça. Por algum motivo inexplicável, ele usava também uma bandana preta, por baixo dos cabelos, o que ia contra a única função que a bandana tinha de fato.
Mas levando-se em consideração que ele estava gastando pilhas com algo tão inútil quando um gameboy, bom, a bandana parecia o de menos.
- Eu tenho certeza que você estava junto quando ela avisou todo mundo. - falou ele, mostrando que prestava muito mais atenção ao assunto do que demonstrava mesmo sem erguer o olhar para os outros dois presentes ali, que olharam para ele como se, só então, lembrassem que não estavam sozinhos.
Enquanto a loira erguia uma sobrancelha, parecendo um tanto quanto confusa, deu de ombros, cruzando os braços atrás da cabeça.
- Eu claramente ignorei. – devolveu, rindo fraco quando a garota se voltou para ele novamente. - Não costumo prestar atenção quando ela fala mesmo.
- Argh! - ela urrou, irritada, e ele se limitou em encará-la da mesma forma um tanto quanto cínica com a qual estava acostumada.
- O quê? - perguntou ele, fingindo inocência enquanto ela o fuzilava com o olhar, como se fosse capaz de matá-lo daquela forma. Sorte a dele que não, mas deixando claro que não se sentia ameaçado, ele conteve um sorrisinho sacana, claramente divertido com a coisa toda.
- Eu odeio você! – ela exclamou, revoltada, e ele riu.
- Entra na fila. – respondeu em uníssono com o outro garoto e após olhar de um para o outro, ela tirou o tênis do pé, o jogando na direção do que estava sentado. Ela tinha uma péssima mira, mesmo de longe soube que erraria, mas sozinho, como em um passe de mágica, o tênis desviou levemente para a esquerda em um trajeto certeiro.
Se já não tivesse presenciado aquilo antes, no dia anterior, acharia que havia sido apenas fruto de sua imaginação, mas não era. Sabia que não. Seus próprios poderes eram a prova de que coisas como aquela existiam mesmo que não soubesse de outros como ela até então e como se para provar que não era tão especial assim, uma cópia exata do rapaz sentado se desprendeu dele até estar ao seu lado no colchão, colocando a mão na frente para impedir o tênis de atingí-lo sem que o original fizesse qualquer movimento, ou sequer desviasse a atenção do jogo para o casal a sua frente.
- Eu vi isso, . - falou ele com toda a calma do mundo e fingindo estar totalmente chocado com a acusação, o garoto, que agora sabia se chamar , deixou o queixo cair.
- Eu? Mas eu não fiz nada! Foi ela! - apontou para a garota que colocou uma das mãos na cintura para encará-lo com repreensão, a mesma que havia no olhar do clone. O original ainda estava mais concentrado no jogo do que em qualquer outra coisa.
- Nós quatro sabemos que ela não acertaria. - o clone falou e a garota lhe encarou com nojo.
- Não fale de si mesmo como se fosse dois. – o repreendeu, olhando para o original que ainda ignorava a presença deles.
- Somos dois. – falou, junto com o clone dessa vez, e ela bufou, enquanto erguia uma das sobrancelhas achando tudo aquilo no mínimo curioso. Um tanto quanto idiota também, é claro, mas também curioso. Eram as primeiras pessoas como ela que encontrava e todos tinham uma familiaridade invejável com seus dons, uma que ela claramente não tinha.
- Engraçado, de repente eu também estou louco para atirar o tênis. - falou em ameaça e voltou a prestar atenção a conversa, mesmo que ela fosse inútil de qualquer forma. - E sabemos que não vou errar.
Pela primeira vez, o garoto no colchão ergueu o olhar do jogo. Era um claro desafio a , sua expressão deixava isso bem óbvio sem que fosse necessária qualquer outra palavra, mas esquecendo-se do tênis que havia sido desviado há pouco por ele mesmo, caiu na armadilha de , sendo atingido na cabeça por trás. gargalhou com o susto tomado pelo outro, que pulou no lugar enquanto olhava por sobre os ombros como que para averiguar de onde aquilo havia saído.
decidiu que simpatizava com ele, com , mas não vendo qualquer coisa ali que pudesse ajudá-la, simplesmente deu as costas, disposta a sair dali o quanto antes. A intenção era fazê-lo silenciosamente, mas terminou por esbarrar em um taco de baisebol que ela não tinha ideia de onde havia surgido ou do porque de estar ali. Ela revirou os olhos para si mesma ao olhar para o objeto, ciente de que seria descoberta e exatamente como esperado, ouviu a conversa cessar imediatamente, xingando baixo por isso.
Em seu melhor estado físico, se garantia fácil em uma briga três contra um, mas não era como se aquela fosse ser uma briga normal e ela nem sabia se o rapaz no colchão era realmente limitado a um único clone.
Sua única saída era usar os próprios poderes, mas ela, infelizmente, não era muito boa em controlá-los ainda.
se concentrou no garoto sentado. Não sabia mais se ele ainda se mantinha naquela posição, mas foi nele que pensou já que, muito provavelmente, era o que lhe traria maiores problemas. Não tinha muita ideia do que fazer ainda, mas ao sentir que havia conseguido o acesso a sua mente, tudo fluiu. Colocou na cabeça dele que o barulho viera de , tentando lhe atingir com o taco que foi ao chão, desviado pelo clone. Imaginou a cena perfeitamente, precisava imaginar para que o rapaz sentado fosse capaz de ver o que ela queria que ele visse. Por isso as vezes era tão difícil.
- Ficou louco?! – o garoto gritou, seu tom de voz passando bem longe do calmo que ele utilizava antes. Mesmo sem olhar, podia imaginar que havia se levantado e ficou satisfeita consigo mesma por ter feito dar certo.
- O quê? – perguntou e se amaldiçoou mentalmente ao notar a voz dele mais próxima. estava indo ver o que havia acontecido e precisava fazer algo antes que fosse descoberta. Ela precisava continuar e respirando fundo, focou em dessa vez. Precisaria trabalhar na mente dos dois para que aquilo desse certo, precisava que também achasse que tinha jogado o taco, mesmo que o objeto sequer estivesse no mesmo cômodo que eles. Pensando nisso, imaginou outra cena, agora jogando-a na mente de . Ele havia jogado o taco porque mais cedo naquela manhã havia descoberto que o outro, o garoto até então sentado, ia fugir sozinho levando todos os mantimentos que haviam juntado. – Eu que te pergunto se ficou louco! - gritou, agora furioso, e ela sorriu convencida. Se multiplicar era para os fracos. Ela era quase uma expert da manipulação. - Como você pode ficar aqui, agindo como se tudo estivesse bem, quando planeja o que está planejando?!
- Planejando? O que eu estou planejando?! – perguntou confuso e decidiu que aquilo era muito mais divertido do que podia imaginar. Fazendo um esforço gigantesco, voltou para a mente do outro, . Agora sabia seu nome, estava na mente de mesmo que ele não tivesse dito. havia descoberto que era quem fugiria e na discussão que tiveram, o ameaçou dizendo que, se contasse, colocaria todos contra ele. – É mesmo isso que pretende? Como você tem coragem? Vai deixar para trás?! – atacou e mordeu o lábio inferior. Não tinha ideia de quem era , não ficara claro na mente de , mas não era como se ela se importasse. Aquela coisa de criar a discórdia já era o suficiente e ela estava se divertindo muito mais do que deveria.
- Do que estão falando? – a garota com eles falou e sentindo-se protegida o suficiente para espiar, o fez, vendo-a olhar confusa de um para o outro, exatamente no meio deles que se encaravam com raiva contida no olhar.
- Não sei o que está tentando fazer, mas acho bom deixar fora disso. – o ameaçou entre dentes, claramente furioso, e tomando aquilo como uma confissão de seu pronto fraco, decidiu explorá-lo:
amava , o fez pensar e apenas esperou que o resto acontecesse.
- O quê? Como você está fazendo?! – perguntou, agora completamente possesso enquanto avançava na direção do outro. o empurrou e repetiu o gesto.
- Tira as mãos de mim! - gritou e sua reação chamou atenção das outras pessoas no galpão. Ou outra, no caso, que não sabia que estava ali até então. Era outra mulher e só pôde deduzir que aquela era .
- O que está havendo? – perguntou, sendo totalmente ignorada por que voltou a disparar para o garoto a sua frente:
- Não sei o que pretende falando assim dela, mas não pense que eu vou deixar barato o que você está fazendo! - exclamou, mantendo o mesmo tom de antes.
- O que eu estou fazendo? – riu em deboche, voltando a ficar sério um segundo depois enquanto a recém chegada olhava para Tracy, que negou com a cabeça com um olhar assustado no rosto. – Eu vou acabar com você. - ameaçou e as três arregalaram os olhos.
- Boa sorte tentando. – avançou sobre ele, o segurando pela camisa sem que tivesse tempo de assimilar o que acontecia, mas no exato instante que ergueu o pulso para acertá-lo, no entanto, ambos congelaram onde estavam, como se o tempo parasse repentinamente.
se lembrava muito claramente onde havia visto algo assim pela primeira vez, quanto e, principalmente, quem havia sido o responsável.
- Idiotas. – ouviu sua voz, em claro e bom som. Sentiu um arrepio por todo seu corpo e estremeceu com as lembranças que lhe atingiram em cheio. Algumas, inclusive, que sequer sabia que estavam ali. Os braços firmes dele ao redor do seu corpo, o calor, o cheiro. Coisas das quais não havia se dado conta quando o viu pela primeira vez, fraca demais para prestar atenção em qualquer outro detalhe que não fosse a sua dor.
Era ele, o cara do dia anterior, que entrava no galpão. Não estava sozinho, uma garota caminhava ao seu lado, mas ela foi a última coisa na qual reparou. Ele estava totalmente vestido de preto, jeans skinny, camisa fina de botões e mangas compridas e botas de combate. Simples, mas de alguma forma ainda parecia ter tido tempo para saquear uma loja de roupas mesmo vivendo em um mundo pós apocalíptico. desejou poder dizer que só tinha reparado tanto nele por esse motivo, mas sabia que havia mais, uma atração inexplicável que lhe impedia de desviar o olhar ou de sair dali.
E ela precisava sair dali.
O poder de podia ser um problema, mas o dele… Ela não tinha idéia dos seus limites, até onde podia controlar. Se poderia impedí-la de acessar os próprios dons ou se podia usá-los contra ela. Não podia esperar para descobrir.
O recém chegado se colocou entre os dois, empurrando-os para longe um do outro e sendo libertados do que quer que ele fazia com ambos, voltaram a se mexer. tentou avançar em novamente, mas foi afastado mais uma vez, de maneira brusca.
- Você não sabe o que ele está planejando, ! – gritou e revirou os olhos, precisando empurrá-lo mais uma vez.
- Para de dar “piti”, ela está te controlando, babaca. - falou e xingou mentalmente. Já era aquela coisa de fugir.
- Não, ele... – começou, mas então, repentinamente, parou, como se tudo fizesse sentido.
- Porra. - xingou enquanto os outros pareciam apenas confusos, até mesmo depois de tudo que ela havia colocado em sua mente.
- Ela quem? – a loira perguntou e olhou para o ponto exato onde se encontrava.
Ela poderia tentar fugir. Era, inclusive, o mais inteligente a se fazer, mas sempre foi orgulhosa demais e segura demais de si para fazer coisas como aquela, preferindo, ao invés disso, sair de onde estava, dando um passo para frente ao invés de para trás.
Desistindo de se esconder, levantou a mão com um ar debochado.
- Culpada. - sorriu e , sem tirar os olhos dela, fez o mesmo em um sorriso de lado. Era um sorriso sedutor, mas ninguém jamais poderia se confundir achando que aquela era a intenção. Tinha algo ligeiramente perverso ali, algo que fazia seu lado competitivo gritar em desafio, mas não existia qualquer chance para ela. Não precisava da prova que veio depois para saber disso.
Em um instante, tudo estava sob controle. Ou qualquer definição conturbada que tinha sobre controle, mas no outro, tudo se perdeu. Sua mente ainda trabalhava, mas de alguma forma ela não conseguia mais mandar nenhum comando para o seu corpo, como se de repente não fosse mais seu. Ela se sentia como uma intrusa dentro dele, como se tivessem prendido sua consciência em um local ao qual ela não pertencia.
- A sensação é horrível, não é? – perguntou, aproximando-se alguns passos sem tirar os olhos dos dela. Seu tom de voz era um tanto quanto ameaçador, mas ela, que nunca foi de sentir medo, não teria se importado se não fosse a situação. Estava em um ambiente estranho, com pessoas estranhas e igualmente poderosas. Não sabia o que pretendiam e não tinha nem mesmo poder sobre si para fazer qualquer coisa a respeito. Tentou se mexer novamente quando ele parou a sua frente, colocando as mãos nos bolsos da calça, mas não obteve qualquer sucesso e acabou limitada em contemplar seu sorriso presunçoso, como se estivesse se divertindo com a situação. Repentinamente, sentiu sua mão esquerda levantar sem o seu comando e precisou de todo o seu autocontrole para manter a expressão calma diante da situação, inabalável mesmo que não se sentisse assim. – Eu nunca estivesse desse lado, é óbvio. – falou, analisando-a minuciosamente por um instante antes de voltar a andar, agora ao redor dela enquanto fazia com que levasse a própria mão até o pescoço. Mesmo tenebrosa, tudo o que fez foi piscar e ele fez barulho com a boca, voltando a sorrir em seguida como se entendesse exatamente o que ela tentava transmitir. – Eu posso sentir o que as pessoas nessa posição sentem, sabia? No momento, seu corpo é meu e eu posso te colocar para fazer o que eu quiser. – avisou, e contra sua vontade, ela apertou o próprio pescoço. Tentou impedir a si mesma, mas não pode fazer nada além de vê-lo parar a sua frente mais uma vez. - É sufocante, angustiante. Você perde o controle de algo tão natural, tão seu e nem mesmo pode lutar contra isso. A impotência... A sensação de impotência é terrível, saber que se eu não te libertar, você pode simplesmente ficar presa ai. Ou, quem sabe, se matar. Posso fazer você se matar, sabia?
- , já chega. – falou a garota que havia chegado com ele, puxando-o agressivamente para longe de , não que isso a tivesse libertado. Ele sequer desviou o olhar. - ! - ela insistiu e só então ele se voltou para ela, como se perguntasse o que queria. - Já chega. - insistiu e, inclinando a cabeça ligeiramente para o lado, tudo que fez foi estreitar os olhos ao encarar novamente, dando mais alguns passos em sua direção enquanto a mão dela, ao redor do pescoço, o apertava mais, agora finalmente lhe tirando o ar.
- ! - exclamou também. Ele e tentaram seguir até ele, mas congelaram assim como ela.
- Eu só quero deixar claro o que vai acontecer de ela tentar usar esse truque com qualquer um aqui novamente. – ele explicou enquanto ela se desesperava. Não conseguia mais puxar o ar para seus pulmões, sentia sua vista embaçar. podia matá-la sem que ela pudesse fazer nada e se quer conseguia pensar com clareza para tentar usar seus poderes, tentar se safar. Nunca antes tinha se sentido tão inútil, tão sem controle, mas não teve tempo nem mesmo para desprezar a si pelo ato, não quando sentia sua vida se esvair por suas próprias mãos. – Pessoas já enlouqueceram por isso, algumas simplesmente pela preocupação de vivenciar essa sensação de novo. Não queremos te machucar, queremos conversar, mas você é uma contra seis e todos nós temos algo de especial. Tentar fugir não vai ser prudente.
- Tem alguma coisa totalmente errada nessa sua versão de "não machucar". - uma das garotas na sala falou, mas não pode dizer quem.
- Você vai matá-la, ! - a mais próxima dele disse e só então, finalmente, tudo passou. Ou quase tudo.
soube que havia sido liberta no mesmo segundo que aconteceu. Suas pernas cederam contra a sua vontade e ela caiu de joelhos no chão, tossindo enquanto segurava o peito. Seus pulmões clamavam por ar e aquilo foi tudo o que ela fez, puxar o máximo de oxigênio que podia para dentro deles.
A garota que intercedeu ao seu favor há pouco se abaixou ao seu lado para ajudá-la, mas a afastou bruscamente, pondo-se de pé sozinha apesar de ainda estar ofegante. Olhou com ódio para , mas tudo que ele fez foi dar de ombros de forma debochada, a deixando ainda mais furiosa.
podia ameaçá-lo de diversas formas, gritar, ou usar seus poderes sem dar a mínima para a ameaça. Podia incapacitá-lo a ponto de não conseguir usar seus truques para que se vingasse da forma que bem quisesse, mas não era do tipo que fazia escândalo e muito menos do que ameaçava. Ela era do tipo que fazia, agia. E ele estava muito enganado se achava que ia ficar barato.
- Pode pensar na forma que quiser de vingança. Não vai funcionar. - ele falou, de costas para ela enquanto caminhava até o colchão onde estava anteriormente e cerrou os dentes, irritada com o tom divertido em sua voz. Ele se jogou no colchão e, ao notar que ela o encarava, ergueu uma sobrancelha.
- Vamos ver se não. - ela devolveu e ele concordou com a cabeça.
- Vou ficar esperando.
- Na boa, você podia pelo menos colaborar. - se voltou para ele, juntando o polegar com o indicador ao erguer a mão na direção dele. - Sabe, só um pouquinho.
- Essa é a maior colaboração que vai ter de mim. - piscou na direção do companheiro, que revirou os olhos com a atitude.
- Certo, antes que eu me junte com a novata pra dar um murro na cara dele, a gente pode começar a conversa que precisamos ter? - falou a loira, Tracy, e decidiu que talvez simpatizasse um pouco com ela também. Minimamente, é claro.
- A gente consegue ver, bem claramente, que não achávamos a pessoa certa, mas não dá mais pra esperar. - disse uma das outras garotas, que se voltou para em seguida. - A propósito, me chamo .
- Tanto faz. - respondeu sem se importar, não era como se fizesse diferença de qualquer forma e a garota lhe encarou como se estivesse surpresa pela resposta.
A outra, que havia chegado junto com , apontou para a recém chegada antes de encarar .
- O que te faz pensar que é a garota errada? - perguntou, como se aquilo fosse absurdo.
franziu o cenho, completamente confusa quanto ao assunto embora parecesse bem claro que a garota "certa" ou "errada" que mencionavam era ela, mas foi quem respondeu:
- Não é. - falou, sorrindo de forma iônica. - Pode ficar tranquila, .
revirou os olhos também. Ele, aparentemente, causava aquele efeito nas pessoas.
- Por favor, diz que a gente pode parar de procurar com a novata. - perguntou a , seu tom de voz era quase um choramingo. - Estou realmente preocupado de encontrar a versão de saias do .
- Se não é ela, eu também fico. - falou, fazendo uma careta ao olhar para , como se tivesse algo de errado com ela e não com sua mentalidade.
- Essa coisa toda de controlar a mente é ótimo. - Tracy apontou para enquanto falava e ela ergueu uma sobrancelha, se perguntando se, em algum momento, explicariam o que estava havendo ou ao menos parariam de falar dela como se não estivesse ali. - Não precisamos de mais ninguém e também não podemos mais esperar.
- Ela não sabe controlar os poderes. - falou, olhando para que estreitou os olhos em sua direção, se perguntado como ele havia descoberto. Não tinha vacilado em momento nenhum perto dele e se tinha uma coisa que ela sabia, era controlar as emoções e expressões. Vivia sozinha, confiança era o mínimo que precisava demonstrar para não ser um alvo fácil.
- Não? - perguntou irônica para ele, um sorriso brincando nos lábios. - Posso te mostrar se quiser.
- Por favor. - a desafiou no mesmo tom.
- Os dois, será que dá pra parar? - perguntou antes que fizessem qualquer coisa. E estava louca para fazer. Imediatamente, no entanto, se voltou para . - Fica quieto. Você não está ajudando. - disse de forma autoritária.
- Só falei o óbvio. - ele devolveu, dando de ombros.
- Está errado. - o respondeu, segura de si.Tinha certeza que não havia qualquer possibilidade dele ter realmente notado aquilo, mas vacilou com o sorriso que ele deu em seguida.
estava tão seguro quanto ela.
- Se controlasse, e ainda estariam se atacando, mas os dois pararam assim que eu tomei o controle do seu corpo.
- Pense como quiser, só não venha chorar depois. - sorriu, embora por dentro gritasse furiosa.
fez o mesmo quanto a parte de sorrir e se fosse possível odiá-lo um pouco mais, ela o teria feito, mas ele já era odiável demais sem isso, especialmente porque, apesar de tudo, ainda existia aquela parte dela, aquela que ela tentava conter, que se sentia mexida com aquele sorriso desprezível e egocêntrico.
- Você não consegue fazer com que seja permanente. - continuou o rapaz, como se ela não tivesse dito nada. - Também não consegue fazer se não estiver completamente concentrada na pessoa e isso também prova que não consegue agir em mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Se conseguisse, poderia ter se livrado dos três caras ontem imediatamente, mas não fez, lutou no braço com eles e perdeu.
- Lutei no braço porque sou ótima nisso. - devolveu inabalável. - E você? Consegue fazer alguma coisa sem usar os seus poderes? Só é convencido assim porque se esconde atrás deles.
- E por que não faria isso? - ele perguntou, descrente. - São meus e até onde eu sei, não existe nenhuma maneira de fazê-los ir embora. Faz parte do que somos, e tenho o direito de me gabar por isso.
Diferente dele, nunca havia confiado muito em seus poderes simplesmente porque não os entendia, não sabia de onde vinham e, logo, preferiu não se tornar dependente daquilo. Mas, claro, ninguém precisava saber e por esse motivo que ela sorriu largamente. Não era mais um sorriso de deboche, tampouco de ironia. Era um sorriso satisfeito de quem sabia de algo, mesmo que na verdade não soubesse e não teve dificuldade de notar o sorriso, ninguém teve. Só não conseguiram identificar o blefe.
- O que você sabe? - ele perguntou, se levantando, e ela riu.
- É uma sensação maravilhosa essa. Sabe, de saber algo que vocês não sabem. - mentiu. Aquela abordagem nem havia sido proposital, mas no final seria ótimo para conseguir as respostas que queria. - Quem sabe assim essa conversa não começa a fazer sentido? Quando vocês começarem a se explicar, por exemplo.
- Você tem certeza que não é ela? - sussurrou para que revirou os olhos para ele, até porque, todos no cômodo foram capaz de ouvir.
- Sim, eu tenho. - o próprio respondeu.
- Vamos começar por isso. - apontou de um para outro. - Não sou eu o quê? Por que estavam me procurando e, melhor, como acharam?
- Você primeiro… - começou, mas foi interrompido por , que apontou de volta para o sofá.
- Senta. - ordenou e, para a total surpresa de , ele obedeceu após bufar inconformado.
- Não venham pedir minha ajuda depois. - resmungou contrariado e apesar de toda a pose de "macho alfa", de repente ele parecia uma criança emburrada.
- Queremos que ela faça parte da equipe, então precisamos começar contando as coisas.
- Equipe? - perguntou, debochada, e concordou como se não tivesse notado. Deveria ser acostumada mesmo a lidar com aquele tipo de comportamento para conseguir aturar , mas novamente sentiu uma pontinha de raiva ao pensar naquilo, precisando controlar a si mesma para não xingar alto, inconformada pela própria atitude.
fez sinal para que ela fosse em frente e concordou, se voltando mais uma vez para .
- Conheci há alguns anos. A primeira pessoa que vi com poderes além de mim. Nos juntamos e decidimos procurar por outros, queríamos descobrir o porquê disso. - explicou. - Não há qualquer relato de humanos como nós no passado. Tanto quanto existem relatos do que quer que tenha acontecido no planeta, mas existem respostas. E sabemos onde encontrá-las. Só precisamos conseguir chegar lá e por isso que estamos tentando recrutar outros.
pensou sobre o assunto por um instante, concordando com a cabeça de forma quase automática. Não havia muito sobre o que ponderar na verdade, o relato era simples o suficiente para fazer sentido, mas, no entanto, não explicava muita coisa. Faltavam, na verdade, três lacunas.
- E…? - incentivou e viu a expressão de mudar para confusão. revirou os olhos. Se havia simpatizado com Tracy e , havia detestado logo de cara. E não, não tinha nenhuma relação com . Pelo menos era nisso que insistia mentalmente. - Vocês estão falando sobre ser eu ou não e sabiam exatamente onde me encontrar. Não sei vocês, mas eu acho isso um tanto quanto estranho.
- Isso faz parte de uma das coisas que descobrimos recentemente. - foi Tracy quem respondeu e a encarou.
- Que eu descobri. - interferiu e a garota olhou para cima como se pedisse paciência ao além.
- descobriu recentemente. - se corrigiu, sorrindo cínica para ele que concordou como se estivesse muito satisfeito.
- Obrigado.
- Idiota. - resmungou antes de se focar em mais uma vez. - Existe essa "ligação" entre nós. - ela falou e imediatamente sentiu um certo frio na barriga. Sem que ela continuasse, entendeu o rumo que a conversa seguiria e apesar de não ter desviado o olhar para , pode sentir a presença dele em todo seu corpo. Era como se pudesse vê-lo sem de fato olhá-lo e não existia outra forma de chamar aquilo, independente do que fosse, de "ligação". Uma desprezível ligação, mas uma ligação mesmo assim. Sentiu necessidade de saber mais sobre o assunto, entender o que era, o que estava acontecendo, e precisou se conter para não demonstrar mais interesse do que devia.
- Ligação? - perguntou apenas e Tracy concordou.
- É como se fossemos ligados por DNA, pois se encontramos a pessoa certa, aquela com quem temos a ligação, podemos acessar os poderes dela e utilizá-lo desde que estejamos perto.
precisou conter a confusão que se formou em sua mente.
- Só isso? - perguntou sem que pudesse se conter, somente depois se amaldiçoando por tê-lo feito.
- Só isso? - perguntou desconfiada e preferiu, dessa vez, não duvidar da capacidade de dedução alheia, não quando , por detalhes mínimos, havia descoberto algo tão importante sobre ela.
Tentando demonstrar indiferença, deu de ombros enquanto ganhava tempo para pensar em uma desculpa para pergunta. Uma que não envolvesse aquela bolha que sentia se formar entre ela e sem que tivesse o menor controle. Era como se algo a chamasse para ele, estar no mesmo ambiente e não olhá-lo era praticamente um desafio e aquela ligação era a única desculpa que podia ver para isso.
Lembrou da forma como se referiu a versão feminina de e quase suspirou aliviada.
- Vocês falam demais para quem quer falar de menos, definitivamente. - fez pouco caso antes de prosseguir. - Vocês estavam procurando a pessoa ligada a ele. - apontou para . - E sabem que é uma mulher. - apontou para em seguida. Não que ele prestasse atenção em algo, novamente distraído com o gameboy. - Ele mencionou a versão de "saia" do e vocês estão agindo como se isso fosse sinônimo das duas pessoas, com ligações, serem semelhantes psicologicamente.
- Porque são idiotas. - respondeu. - e tem uma ligação e enquanto ela é sensata, bom, olha pra ele.
tinha a língua para fora e, mesmo sem que houvesse necessidade, inclinava o corpo para mover o que quer que precisasse mover dentro do aparelho.
- Eu estou ouvindo tudo. - ele disse, sem desviar o olhar do jogo exatamente como havia feito antes, mas então, repentinamente, jogou o gameboy longe, sem que ninguém esperasse pela atitude. Os que não pularam de susto, arregalaram os olhos. - Ei! - o garoto gritou inconformado, levantando-se imediatamente com um olhar acusatório em direção de , que o ignorou completamente. O jogo, que deveria ter caído no chão, ganhou mais força quando chegou na metade do cômodo e, como se tivesse sido arremessado novamente, chocou-se contra a parede com o dobro de força utilizada por , quebrando-se em diversos pedaços. - ! - o garoto se voltou para o outro que fingiu surpresa ao encará-lo.
- Você enlouquece e a culpa é minha?
- Você sabe o que fez! - gritou, dirigindo-se a logo depois. - Os dois!
- Eu já disse para não gastar baterias com besteira. - respondeu com toda a calma do mundo. - Também disse que não ia avisar de novo.
- E ai você simplesmente decidiu quebrar tudo?! - exclamou e nem se deu ao trabalho de responder, limitando-se a lançar a ele um olhar um tanto quanto sugestivo que fez com que o garoto bufasse antes de cruzar os braços em frente ao peito, emburrado. - Você é desprezível.
- Ótimo. - respondeu antes de gesticular com a mão na direção de Tracy, como se dissesse para prosseguir.
- É, essa coisa da ligação fazer com que as duas pessoas sejam semelhantes é mito. - falou ela.
- A verdade é que não temos como saber realmente. - interrompeu. - Eu e o tivemos isso, mas não encontramos mais ninguém com a ligação além de nós. O que garante que essa coisa não é algo nosso?
- . - a chamou e quando a garota lhe encarou, continuou. - Você não é tão especial quanto pensa, querida. - falou e ela revirou os olhos.
- Querido, faça um favor para todos nós e cale a boca. - ela respondeu, voltando ao assunto logo depois enquanto ia para perto dele, o acertando com um tapa na nuca. Como uma criança, ele resmungou, olhando feio para ela que apenas repetiu o gesto.
- Isso não explica como eu consigo localizar uma segunda pessoa com o DNA de outra. - Tracy falou para e não pode deixar de ficar curiosa. Então foi assim que a encontraram. Utilizaram DNA de e, mais uma vez, precisou conter a vontade de desviar o olhar para ele.
- Consegue? - perguntou. - Não conseguiu localizar a sua ligação e até agora tampouco conseguimos achar a de .
- Por que ela se move sempre que tentamos encontrá-la. - devolveu, soando certa até demais sobre o assunto. não pareceu a única desconfiada.
- A verdade é que não temos como saber realmente. - interferiu, falando sério pela primeira vez. - É justamente por isso que precisamos seguir o plano. - com a afirmação, ninguém mais disse nada e acabou revirando os olhos por isso. Eles eram péssimos nessa coisa de compartilhar informação e suspirou alto, inconformada.
- Alguém pretende me contar qual é o plano, ou...?
- Invadir e conquistar? - a respondeu com outra pergunta e se limitou em erguer uma sobrancelha em sua direção.
- Ele era muito mais legal com o gameboy. - comentou. - Pelo menos não falava. - Mais uma vez, bateu em sua nuca e ele se voltou para ela, chocado. - Ai! Por que fez isso agora?
- Você também é melhor quieto. - respondeu, recebendo dele um bico emburrado muito semelhante com o de há pouco.
- Todos nós temos mais do que os poderes em comum. respondeu sem encará-la, mas dessa vez ela não evitou fazer isso, surpresa com a informação. Não disse nada, mas a pergunta era óbvia e como se sentisse o olhar dela sobre ele, virou a cabeça em sua direção para continuar. - Todos nós nascemos no mesmo lugar.

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não era do tipo que perdia muito tempo remoendo qualquer coisa, não era do seu feitio. Sabia que, se o fizesse, provavelmente surtaria, afinal vivia sozinha e tinha tempo demais para pensar sem que pudesse desabafar suas frustrações com alguém. Não tinha com quem conversar, não desde a perda de sua mãe. Havia crescido praticamente sozinha naquele mundo, aprendeu a lutar sozinha e não sentia falta de companhia, mas apesar de tudo isso, decidiu ir com eles simplesmente porque queria descobrir o que havia acontecido com o mundo. Precisava de respostas e sua determinação definitivamente era um ponto forte de sua personalidade, um que também havia sido obrigada, pela vida, a criar.
Nunca pensou muito sobre como havia ganhado suas habilidades, ou porque. Imaginava não ser natural, mas levando-se em consideração o mundo em que viviam, aquele detalhe parecia muito como aquilo, um mero detalhe.
Lembrava-se das histórias que sua mãe contava sobre um mundo que, para , parecia um tanto quanto utópico. Não conhecia outra realidade como sua mãe, que viveu nela, mas tinha visto muito em livros, escutado muitas histórias. Ela gostava de divagar sobre o assunto, a cerca do passado e nunca se importou o suficiente para dar ouvidos.
Depois que perdeu a mulher, sentiu falta daquilo, se arrependeu por não ter escutado tudo o que tinha a dizer, mesmo que fosse irrelevante.
queria saber o que havia acontecido por si mesma, pela sua curiosidade, determinação, mas principalmente por ela, porque sabia que a mulher apoiaria a jornada, mas enquanto encarava o teto escuro do galpão, se perguntava onde havia se enfiado.
Lidar com pessoas não era sua especialidade, mas de repente fazia parte de um grupo que tinha que tomar decisões em grupo, sendo uma delas a de partir na manhã seguinte.
Ela não pregou os olhos desde que havia se acomodado no colchão, com as mãos atrás da cabeça totalmente incomodada com o escuro, mesmo que tivesse o costume de gostar dele.
Impaciente, por fim, se levantou de onde estava, incomodada demais para se manter ali. Estava fazendo exatamente o que odiava fazer, pensar demais e o fato de estar entre tantas pessoas a fazia baixar a guarda quando sentia que isso era a última coisa que deveria fazer. No entanto, apesar das três coisas, o que mais lhe incomodava ainda era a presença de , dormindo em um colchão do lado oposto do cômodo. Podia sentir a energia que emanava dele, o poder do rapaz correndo em suas veias como se fosse o seu próprio.
Não sabia porque ele havia mentido para sua própria equipe ao dizer que não era ela quando comprovaria metade das suspeitas que tinham, quando lhes deixariam mais confiantes sobre a missão que tinham, mas entendia, muito mais do que gostaria e ela não queria entender, não queria ter aquilo com ninguém e certamente detestava a forma como seu corpo parecia chamar pelo dele. Olhou ao redor, procurando por mesmo que quisesse negar. Esperava encontrá-lo dormindo. Era o que ele deveria estar fazendo, ela também, alias, no entanto o que viu foram seus olhos abertos olhando em sua direção. Por um momento ambos se encararam em silêncio, mas no instante seguinte desviou o olhar, virando-se para parede de costas para ela. Não disse nada ou teve qualquer outra reação além daquela, mas ainda assim conseguiu deixar sua insatisfação bem clara.
Negando com a cabeça, lutou contra a vontade de retrucar, de criar uma discussão e simplesmente deu as costas como ele havia feito, seguindo para fora do cômodo logo depois.
Pelo que havia descoberto sobre ele, nem deveria estar lá. Tinha outro grupo do qual participava junto com e seu pai, mas algum assunto antigo e mal resolvido lhe fazia odiar o homem. não via a hora de ir embora e preferiu antecipar a sua fuga do outro grupo. Se recusou a voltar para o seu acampamento e ficou com ele.
Decidindo que apenas negar com a cabeça não bastaria agora, a chacoalhou, condenando a si mesma por pensar tanto a cerca daquelas pessoas. Não pretendia ficar com elas de fato, queria apenas as suas respostas para, depois, partir. De preferência sozinha, e essa última frase destacou para si mesma.
Sozinha, repetiu.
não seguia nenhum rumo específico e tampouco se achou capaz de pensar em um com tantas coisas ocupando sua mente, mas as vozes que escutou no andar inferior a fizeram parar onde estava, tentando ouvir antes de continuar. Eram duas garotas, mas não conseguia dizer quem devido ao tom de voz sussurrado que usavam. Não gostava de pessoas sussurrando, sempre parecia que estavam escondendo algo e, apesar de não perder a pose confiante que costumava adotar, se aproximou com cautela, determinada a descobrir o que acontecia independente do que fosse.
Passou pelo primeiro cômodo do andar inferior e não encontrou nada além de uma pequena e fraca luz vinda de trás do balcão que havia ali, separando os cômodos. Deduziu, sem poder vê-las, que se escondiam atrás dele e revirou os olhos uma vez que era, entre todos os lugares, o mais estúpido era aquele. Dali poderiam ser vigiadas sem que soubessem, exatamente como estava fazendo e, de forma despreocupada, apoiou-se sobre o balcão, vendo os pés descalços de ambas as garotas ali.
- Eu preciso saber quem ela é. - falou a primeira voz com convicção, embora também tivesse uma dose de urgência contida ali. estava certa quanto ao "garota", mas não conseguiu identificar quem falava, soube apenas que não era e se odiou por descobrir isso logo de cara, por ter reparado o suficiente nela para saber. E o motivo era bem óbvio, era, inclusive, por causa dele que se odiou tanto, precisando conter a si mesma para não bufar para sua atitude ridícula. - Por favor… - a garota insistiu, aos choramingos, mas não teve dificuldade para notar a impaciência contida ali.
- , eu não posso descobrir quem é, apenas onde está. - a segunda voz disse, e precisou de alguns instantes para identificar a voz como sendo a de Tracy.
Pelo menos ficou mais satisfeita por ter voltado a se focar na conversa e não em , ou em com . Principalmente em com e fez uma careta ao se dar conta de que havia acabado de se focar novamente nisso.
Nunca pensou que seria tão patética.
- Então descobre. - pediu de forma suplicante e franziu o cenho, tentando entender o rumo da conversa. - Para garantirmos de que não vamos passar lá.
- , para com isso. - Tracy respondeu e só percebeu que se levantava quando viu sua cabeça surgir sobre o balcão. Fez uma careta, pronta para se abaixar, mas a loira voltou ao chão rapidamente. não precisou de muito para saber que a havia puxado para baixo.
- Por que nunca me ajuda? - apelou para o lado emocional de forma descarada. - Tracy, eu preciso…
- Não precisa não. - respondeu, interrompendo a companheira. - é louco por você, saber que a ligação dele está por ai só vai te deixar insegura, te fazer sofrer atoa.
Imediatamente, entendeu sobre o que se tratava e não conseguiu conter a surpresa. e , de fato, tinham algo, mas a ligação poderia atrapalhar isso a qualquer momento, destruir.
- Ela já está por ai, Tracy! - a garota exclamou sem que pudesse controlar, esquecendo-se de que deveriam manter o silêncio. - Droga. - resmungou em um novo sussurro. - Tracy, ela já está por ai, assim eu pelo menos saberia quando evitá-la.
- , você precisa confiar no que vocês têm, precisa confiar nele.
- Eu confio nele, mas essa ligação… Isso não é normal. - respondeu e não pode deixar de concordar mentalmente.
- Você não tem como saber.
- Qualquer um que vê e sabe. - devolveu, e pelo movimento de suas pernas imaginou que ela havia se virado de frente para a companheira.. - Eles são como a extensão um do outro, a ligação fez isso.
- Você não sabe se foi isso. - insistiu Tracy e fez uma careta. Esperava, sinceramente, que não fosse. - , eles são os únicos que conhecemos dessa forma, não pode se basear neles. O que te garante que simplesmente não gostam ou do outro? Que a ligação não apenas fortaleceu algo que já existia?
- Por que foi repentino. Foi imediato. Como se não tivessem controle sobre isso. - devolveu, suspirando em seguida enquanto pensava sobre suas palavras muito mais do que gostaria. Não sentia como se tivesse controle pela atração que sentia por e, de fato, foi imediato. Justamente por isso que detestava tanto. - Eu confio nele, Tracy, o problema é que eu não acho que ele possa ter controle sobre o que quer que isso seja e tenho medo de perdê-lo. - continuou, agora soando cabisbaixa.
- Mesmo que essa ligação seja tão forte assim, você realmente acha que o simplesmente viraria as costas para tudo que vocês têm por isso? Acha realmente que ele seria esse tipo de cara? A ligação pode uní-los, mas não atrapalha o julgamento deles de nenhuma forma. continua sendo a e o continua sendo o , eles apenas se renderam a isso porque não tinham mais ninguém. tem você. Deveria confiar mais nele e, se isso te incomoda tanto, talvez devesse conversar com ele também. Tenho certeza que ele vai te ouvir.
não respondeu nada, apenas voltou a apoiar as costas no balcão e pensou se deveria ou não interferir. Antes que tivesse tempo de tomar uma decisão, no entanto, ouviram vozes se aproximar, pessoas rindo e lanternas remexendo-se de um lado para o outro do lado de fora. As duas se levantaram imediatamente, em alerta, mas a atenção de ambas se voltaram para parada ali, olhando para o lado e fora.
- Apaguem a lanterna! - exclamou, mesmo que de forma um tanto quanto alarmada, mas nenhuma delas se mexeu.
- Desde quando está ai? - perguntou, parecendo espantada.
- O suficiente, agora desliga essa merda. - insistiu, arrancando a lanterna de sua mão para que ela mesma fosse capaz de fazer isso.
- Vai acordar os outros, . - Tracy falou para a garota, seu tom de voz agora alarmado, mas não foi isso que chamou atenção de e sim a presença de ao seu lado, mesmo que não fosse capaz de vê-lo. De alguma forma inexplicável, ela apenas sabia que ele estava ali, no meio na penumbra e olhou e sua direção mesmo sem poder saber que ele estava ali.
- Você também, Tracy. Vai. - ele pediu, parando exatamente ao lado de como se não a estivesse evitando até então. - Manda o descer e o ficar, por precaução. Vamos limpar o caminho e depois vocês descem.
- Espera que a gente simplesmente se esconda?! - perguntou, perplexa, e apenas concordou.
- Tirando o , nenhuma de vocês tem poder de ataque.
- Não precisamos de poder de ataque para saber lutar. - Tracy devolveu inabalável. - e certamente ficaria ofendida se te ouvisse falar isso.
- Tracy, porra, tanto faz. - ele devolveu, agora impaciente. - Tem pelo menos umas oito pessoas prestes a entrar aqui. Você quer mesmo discutir isso agora?
- Eu vou ficar.
- Que seja. - ele se voltou para . - O , agora. - imediatamente, ela concordou com a cabeça, correndo disparada para cima novamente.
- Qual o plano? - perguntou, voltando-se para ele. - Eu sempre gosto dessa coisa de atacar primeiro. - disse, recebendo um sorrisinho contido da parte de em resposta enquanto Tracy olhava de um para o outro.
- Nós vamos embora amanhã, podemos tentar argumentar. - interferiu e revirou os olhos.
- Claro, porque a primeira reação de todo mundo é conversar. - respondeu e concordou, mas uma quarta voz interferiu. Voz que reconheceu imediatamente, fazendo uma careta por isso.
- Conversar. - disse ela, juntando-se aos três.
- Que parte do "ficar lá em cima" você não entendeu? - perguntou, voltando-se para ela que optou por ignorar sua atitude.
- A mesma que você não entendeu ainda sobre o "você não manda em mim". - ela respondeu.
- Você não pode curar a si mesma se acontecer alguma coisa e nós claramente precisamos de você, então dá pra ficar na sua?
- Vou ser obrigada a concordar com ele. - Tracy respondeu de forma culpada.
- Ainda bem que eu não ligo.
- Teimosa. - falou com bufar.
- Mandão. - ela devolveu com um revirar de olhos.
- Dá pros dois calarem a boca? - perguntou, interferindo a conversa, e dessa vez nem havia sido por ciúmes ou qualquer coisa semelhante. A verdade era que ela se quer os ouvia, mais preocupada em tentar escutar os passos do lado de fora para saber por onde entrariam.
Mas a questão era que todos os sons haviam parado, não havia mais nada. A única coisa que podiam ouvir eram as próprias respirações e com toda aquela conversa, nem foi difícil saber porque.
entrou em posição de ataque imediatamente, provavelmente chegando a mesma conclusão que ela, mas não tiveram mais muito tempo antes do caos se instalar. Em um instante, tudo estava no mais completo escuro e silêncio e no outro a porta ia abaixo.
não imaginava de onde ele tinha tirado aquela ideia de oito pessoas, mas a conta dele estava bem errada, para se dizer o mínimo.
- São crianças. - a primeira pessoa, um homem branco com tranças no cabelo riu de forma debochada. Ele não parecia nenhum pouco inclinado a pegar leve porque eram "crianças" e apenas invadiu o cômodo junto com os outros, passando direto pelos quadro para rodeá-los.
Sem que qualquer palavra fosse dita, Tracy e se moveram lentamente para acompanhá-los, posicionando-se contra as costas de e , um protegendo a retaguarda do outro.
Instintivamente, levou discretamente a mão para o cinto de sua calça e lamentou-se mentalmente. Estava sem seu punhal. Ela havia saído do quarto sem o seu punhal. Era por isso que nunca, jamais, andava em grupo. Passavam uma falsa sensação de segurança, faziam você pensar que estava seguro o suficiente para fazer coisas como aquela, sair da cama sem a droga de uma arma para se defender em caso de ataque. Foi enquanto se condenava pela atitude que sentiu algo em suas costas, sendo colocado em seu cinto, e não precisou olhar para para saber que era ele pondo seu punhal ali. Seu toque, mesmo que discreto, fez com que a região queimasse, mas não teve muito tempo para se martirizar por aquilo também antes que o grupo recém chegado, que agora os cercava, começasse a falar:
- Tem mais alguém aqui? - perguntou o homem de tranças, olhando para os lados como se averiguasse o local.
- Não, mas não se preocupe que a gente dá conta. - respondeu, mas não ousou olhar para trás para encarar o homem, limitando-se em ouví-lo rir novamente.
- Você não acha que é abusado demais para a idade? - respondeu uma mulher do grupo e deu de ombros.
- É o que dizem. Mas não importa muito.
Voltaram a ouvir passos, e soube que o desafio de havia feito com que o homem viesse a frente. Ele parou de frente para ele com um sorriso nos lábios e , inabalável, ergueu uma sobrancelha, como se perguntasse o que raios ele queria.
- Se está tentando me seduzir com esse sorriso, talvez você devesse considerar essa coisa de escovar os dentes primeiro. - fez uma careta, inclinando-se para trás como se quisesse se afastar do homem. - Sei que tem toda essa coisa de mundo pós apocalíptico, mas ainda tem algumas escovas de dente nos mercados.
- Você se acha muito engraçado, não é? - perguntou, não parecendo se afetar com as palavras, e foi quem o respondeu dessa vez:
- Jamais usaria essa palavra para descrevê-lo, definitivamente. - interferiu e concordou, sem olhar para ela.
- Nunca usaram, acredite.
- Compreensível. - continuou, fazendo bico como se pensasse sobre o assunto.
- Com certeza. - concordou mais uma vez.
- Vocês sabem contar, não sabem? - a mulher os interrompeu, abrindo os braços como se quisesse demonstrar todas as pessoas ao redor. - Somos quatorze e vocês, quatro. Se engolir a arrogância e pedir desculpas, podemos até pensar e deixar que fiquem conosco.
- Ficar com vocês? - riu. - Já temos um grupo fechado, obrigado.
- Não quer pensar melhor? Estão cercados.
- Ah é? - outra pessoa falou atrás do homem, , e o susto que ele levou quase o fez cair para trás, olhando chocado para o exército que agora cercava o seu pessoal. - Olha de novo. - pediu o verdadeiro em provocação.
Bom, pelo menos acreditava ser, não tinha como saber de verdade.
- C… como podem ser tantos? - ouviram em meio as pessoas e todos os "Vs" deram de ombros ao mesmo tempo.
- Pretendem mesmo ficar para descobrir? - perguntou, ainda mais convencido do que antes, se é que aquilo fosse possível. - A gente até estava pensando em deixar o lugar, mas só por causa dessa sua arrogância, acho que vamos ficar.
- Quanto tempo você acha que é o suficiente para que eles saiam daqui, uhm? - perguntou, olhando para de forma falsamente pensativa e ele repetiu o gesto.
- Precisaria de no mínimo uns… Cinco segundos? - ele perguntou, estreitando os olhos de forma exagerada.
- Gosto da ideia de dar dois segundos, então.
- Nós apoiamos! - todos os "Vs" responderam em uníssono e, no instante seguinte, todos se colocaram a correr, afinal, seria pelo menos quarenta contra quatorze.
Assim que saíram, todos os clones começaram a rir de forma quase assustadora devido ao barulho e sorriu enquanto e Tracy riam.
- Vocês foram terríveis. - disse, negando com a cabeça sem parar de rir. - Adorei!
concordou com a cabeça, precisava admitir que fora divertido, mas não tinham mais muito tempo para aquilo.
- De qualquer forma, precisamos ir agora. - falou, quebrando a descontração do momento e concordou imediatamente junto com , enquanto voltava a ser um só.
- Agora? No meio da noite? - o outro garoto perguntou.
- Está quase amanhecendo e não é mais seguro dormir aqui sem portas. - respondeu.
- Quanto mais cedo sairmos, mais teremos avançado antes de precisar buscar outro lugar seguro para passar a noite. - falou, dando as costas para voltar para o andar superior. - Reúnam suas coisas, nós temos que ir.


Parte II


내 혈관 속 DNA가 말해줘
O DNA nas minhas veias me diz
내가 찾아 헤매던 너라는 걸
Que você é quem eu venho procurando


Estavam em viagem há dois dias, o caminho era longo a percorrer. Dividiram-se em dois veículos e revezavam os motoristas. Haviam levado consigo apenas itens básicos de sobrevivência em uma mochila cada um, o pouco de mantimento que tinham e, claro, todos os galões de combustível, o que naqueles tempos, era difícil de se encontrar.
No banco do passageiro, acordou depois de um cochilo mínimo de no máximo meia hora. Sentia-se exausto depois de tanto tempo dirigindo, dias dentro do carro e passou as mãos pelos cabelos, bagunçando-os sem que fosse a intenção.
Sem que pudesse controlar, seu olhar foi para o retrovisor, conferindo no banco traseiro mesmo que quisesse negar. Ela dormia com a cabeça para trás, no banco, mas rapidamente desviou sua atenção dela, inconformado consigo mesmo pela atitude de apreciar enquanto a garota dormia.
Seria mais fácil ignorar aquela merda toda se ela não fosse tão ridiculamente bonita, ou se não tivesse tido a grande ideia de lhe emprestar aquela blusa praticamente transparente, mas claro que colaborar não condizia com nenhuma das duas, especialmente .
Se o problema fosse só a droga da blusa, a vida seria bem mais fácil.
- Está tudo bem? - perguntou, chamando sua atenção e ele se voltou para o rapaz que dirigia ao lado, concordando com a cabeça.
- Talvez seja boa ideia dar uma pausa. - falou, mesmo que aquela coisa de dirigir sem pausas tivesse vindo dele, contra a maioria, e riu por isso. - Ah, cala a boca. - disse antes que ele se gabasse. Era a cara de se gabar.
- Eu não disse nada.
- Mas pensou. - respondeu, olhando pela janela a procura de um bom lugar para estacionar, não que faltasse espaço. Só precisavam mesmo é de um esconderijo. , alheio a isso, o encarou com falso espanto.
- Lê mentes agora? - perguntou, levando a revirar os olhos.
- Para ali, atrás daqueles arbustos. É um bom lugar. - apontou, inclinando-se ligeiramente para frente. Era, o que parecia, a entrada de uma pequena vila ou cidade. - Vamos procurar mais mantimentos e um lugar para passar a noite. - falou, descendo do carro assim que parou.
O barulho da porta batendo acordou as duas garotas no banco de trás, mas levaram alguns segundos para se situarem e descerem do veículo também, juntando-se ao resto do grupo que estava no outro automóvel: , e Tracy.
- Por que paramos? - perguntou, coçando os olhos e a abraçou de lado como que para lhe dar apoio. A garota encostou a cabeça em seu peito.
- Adivinhem quem decidiu que precisamos encontrar um lugar para passar a noite? - provocou e todos se viraram para com a pergunta.
- Se vocês quiserem podemos continuar também, não tem problema nenhum. - ele devolveu e bocejou, colocando a mão em frente a boca.
- Não, não. - negou o garoto rapidamente. - Parar está ótimo. Adoro parar. Yey.
- Passamos por uma placa há uma meia hora, indicava um centro urbano. - falou, parecia a única totalmente acordada do seu grupo e provavelmente era quem dirigia. - Ai dentro no máximo vamos encontrar bares e minimercados provavelmente já saqueados, isso se a vila não estiver tomada. É um lugar muito pequeno, deveríamos voltar.
- Lugares grandes também tem seus problemas. - observou. - Como o excesso de gente.
- É mais fácil passar despercebido por lugares pequenos justamente por pensamentos como esse. - falou também. - Sempre me mantive neles e estou muito bem.
- Não sei se podemos chamar seu estado quando chegou de "bem". - fez uma careta.
- Eu vivi sozinha por anos e ainda estou viva, então sim.
- Que seja, vamos nos dividir. - interrompeu a conversa, impaciente. - Eu e a novata ficamos para explorar a vila, vocês voltam para a cidade para explorar o centro, dividindo-se depois em outros dois grupos. Nos encontramos aqui em três horas para decidirmos o que fazer.
- Desde quando escolhemos ele para lider? - perguntou para , ainda soando sonolento e confuso demais para ser levado em consideração.
- Se tem uma ideia melhor, por favor, vá em frente. - pediu, mas ele jogou um dos braços para frente como se dissesse: "imagina, deixa para lá". se voltou para os outros, esperando outra sugestão, mas ninguém disse nada. - Ótimo.
- Em três horas vai estar escuro. - falou por fim. - E se nem todos voltarem? Tracy pode nos localizar com precisão, mas o grupo dela pode ser o que não consiga voltar.
- Não vou ficar e esperar por vocês. - a garota se pronunciou rapidamente.
- Se o grupo dela não voltar, nós voltamos e procuramos, mas o ideal é nos mantermos com os rádios, passando a localização a cada dez minutos. Vocês não vão estar tão longe, deve funcionar. - ele sugeriu e os outros concordaram.
- Então, nesse lugar, em três horas. - repetiu e os outros concordaram antes de entrarem no veículo para seguirem caminho, deixando um outro para trás caso e precisassem dele para fuga.

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- Por que não contou aos outros? - iniciou o assunto enquanto andavam lado a lado. tentava ignorar a pose confiante da garota e a forma como o atraia, mas parecia cada vez mais difícil fazer isso sobre qualquer coisa que ela fazia. Nenhum gesto passava despercebido por ele, que tentava ignorar o incômodo que sentia por isso. Racionalmente queria ficar longe para evitar tudo aquilo, mas se via inventando desculpas para não fazê-lo, como aquela que encontrara para estar ali com ela, sentindo-se um tanto quanto ridículo por isso.
- Contou o quê? - perguntou, mesmo estando muito bem ciente sobre o que ela falava. Por que não contou sobre a ligação, ela queria saber. Por que negara. Se ele sentia tudo aquilo, era óbvio que ela também sentia e a prova foi o seu revirar de olhos.
- Por favor, negar só vai te fazer mais patético. - ela respondeu com uma certa dose de impaciência e, pela primeira vez, ele olhou para ela, o fazendo de canto de olho para evitar qualquer outra reação mais exagerada.
- Fingir que não sabe o motivo também faz de você mais patética. - ele devolveu antes de se voltar para a frente novamente. - Você podia ter me desmentido e não fez. Gosta disso tanto quanto eu. - devolveu e ela concordou com a cabeça.
- É, justo. - respondeu e ele ficou surpreso por sua desistência tão rápida, mas não era como se admitir esse tipo de coisa fosse do seu feitio e a resposta que saiu de sua boca foi um tanto quanto diferente do que ele pensava de fato:
- Claro que é. - devolveu e ela soltou o ar pelo nariz no que deveria ser uma risada fraca, como se não esperasse nada diferente dele. sabia, depois de tanto analisar e , que a ligação não mudava quem você era, tampouco fazia com que as pessoas fossem iguais ou ficassem iguais. Era mais como uma atração física, o que ele podia sentir claramente em todos as partes do seu corpo, mas não podia negar que havia sim semelhanças entre eles, mais do que ele gostaria, inclusive, pois sabia que não conseguiria desprezá-la mesmo que quisesse ou se esforçasse para isso.
- Então deixa eu adivinhar. - começou, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta que usava, grande demais para ela. - Nos separou do restante do grupo porque queria testar a ligação, a parte dela na qual tem interesse, mas que ninguém pode saber ou ver já que não contamos sobre isso.
soube que o sorriso de lado que soltou com a afirmação dela o denunciou, era praticamente uma confissão de que o palpite estava certo, mas havia mais ali que ela não sabia, que ela nem ao menos desconfiava e se viu satisfeito por isso, afinal, demonstrava que vinha se saindo muito melhor na utilização dos poderes dela do que ela mesma.
parou onde estava e, confusa, ela espelhou o ato, franzindo o cenho para o sorriso presunçoso em seu rosto.
- Você é realmente péssima nisso, não é? - perguntou, deixando-a ainda mais confusa. Só não sabia se pela sua fala ou pela risada que soltou em seguida. - e não gostam de usar os poderes uns dos outros. Eles dizem que é quando o fazem, seus pensamentos ficam acessíveis um ao outro de forma um tanto quanto incômoda. Eu estava com receio disso quando tentei a primeira vez e confesso que é meio conturbado. É como se tivesse outra pessoa na minha cabeça, mas você nem pareceu notar. - tentou controlar sua expressão, pode notar sem qualquer dificuldade a surpresa que ela tentava conter com aquela afirmação de que ele havia não só acessado como utilizado seus poderes e, pior, sem que ela soubesse ou se desse conta, o que só o deixou ainda mais orgulhoso de si mesmo.
No primeiro dia, tinha feito tomar três banhos seguidos, todos gelados, o que ele costumava detestar. Fez com que procurasse por horas uma corrente que estava em seu pescoço e se divertiu em deixar achar que estava apertado para ir no banheiro quando não podiam parar o carro.
Sem mover um passo, decidiu demonstrar com ela mesma o que falava. Ainda não tinha tentado aquilo, usar os poderes dela contra ela, não sabia se funcionava, mas não custava nada tentar e por isso seguiu adiante com a ideia. Se manteve onde estava, mas o que jogou na mente dela foi outra coisa, fez com que o visse se aproximar dois passos e imediatamente os pensamentos dela inundaram sua mente, suas emoções acenderam-se dentro dele e pode sentir cada reação que o corpo dela teve a proximidade imaginária como se fosse ele em seu lugar. O coração disparado, a tensão tão evidente entre os dois. Deveria ter parado ali, sabia disso, mas não se viu capaz de fazê-lo e como se fosse chamado por ela, também deu dois passos, agora reais, em sua direção, exatamente como havia feito que ela imaginasse de início.
e estavam próximos o suficiente para se tocarem agora e, sem dizer uma palavra, ela se manteve ali como se esperasse por isso. Ele também esperava, não podia negar que esperava. Queria muito tocá-la e desistindo daquele jogo mental ridículo, saiu de sua cabeça para viver aquele momento de uma vez.
Por uns instante, ela pareceu confusa. As pessoas costumavam ficar daquela forma quando saiam do controle mental, mas a de desapareceu de seu olhar assim que a segurou pela cintura, puxando-a para si. Colou seus copos com firmeza e ela segurou da mesma forma em um dos seus ombros enquanto a mão livre ia para sua nuca. olhou em seus olhos e ele fez o mesmo, desistindo de conter o que quer que fosse aquilo. Sentiu a respiração dela em seu rosto e mordeu o lábio inferior enquanto seu olhar caia para a boca dela sem que pudesse evitar. A segurou com mais força, sentindo cada parte de si clamar por ela de forma quase humilhante e, perdidos demais um no outro, não ouviram os passos que se aproximavam até ser tarde demais.
- Vocês não acham que estão expostos demais pra baixar a guarda desse jeito? - ouviram logo a frente e se separaram um do outro imediatamente. Um novo grupo havia se aproximado e estavam em três, um número pequeno perto do que e poderiam fazer. Infelizmente, no entanto, o sexto sentido de parecia gritar que não era só isso. Que mesmo eles sendo apenas três contra duas pessoas com poderes, deveriam se preocupar e com esse pensamento, discretamente, tentou olhar ao redor. Estavam no território deles e, logo, poderia haver outras pessoas ali, escondidas nas casas ao redor. - Somos só nós. - o homem abriu os braços ao continuar, notando o que fazia apesar de seus esforços. - Mas eu tomaria cuidado se fosse vocês, sabe… Nem tudo é o que parece e acho que vocês, mais do que ninguém, sabem que existem algumas pessoas superdotadas andando por ai. - a fala deixou incomodado e quase pode sentir que também. Em uma única frase ele deu a entender que sabia dos poderes deles e que também tinha algum dom, o que era preocupante, para se dizer o mínimo.
- E o que seria uma pessoa superdotada pra você? - perguntou debochada. - Consegue assoviar e cantar ao mesmo tempo?
- Não, isso não. - a respondeu no mesmo tom, mantendo no rosto um sorriso cínico. Não tinha muita certeza de que era bom provocá-los já que estava tão desconfiado, mas não tinha aprendido a lidar ainda com aquela coisa de controlar a língua. - Acho que até isso é demais pra ele. Me pareceu mais com um blefe.
- Se fosse uma votação, escolheria essa alternativa também. - ela devolveu a que concordou com a cabeça enquanto o homem sorria.
- Bem que eu desconfiei de que estavam exagerando quando falaram de vocês. Tem que ser muito amador pra cometer um erro desses e ainda ficar de piadinha. - falou e ambos tiveram que esconder a surpresa.
"Quando falaram de vocês"? Quem falou? Quando? Como? Não tinha como ninguém além do grupo que mantinham saber qualquer coisa sobre eles e estava certo de que nenhum deles seria um traidor, até porque, não era exatamente como se tivesse algo a se ganhar com isso.
Era outra coisa, outro alguém. Talvez estivessem sendo vigiados, não sabia, mas a pergunta que rondava sua mente era: Por quê?
Fingindo não notar nada, diferente de , deu de ombros.
- Se ouviu falar da gente é porque estamos fazendo algo certo, não? - perguntou. - Eu, por exemplo, nunca ouvi falar de você.
- Teria se eu quisesse. - como resposta, ele ergueu uma de suas mãos e em um passe de mágica, uma pequena bola de fogo surgiu ali, na ponta do seu dedo.
Dominação do fogo, esse era seu poder, mas não pareceu preocupado ou ao menos impressionado. Podia tomar o corpo das pessoas para si, obrigá-las a fazer o que queria. Era muito melhor do que uma simples bola de fogo.
- Está tentando nos assustar? - perguntou, totalmente indiferente. O máximo que ele podia fazer era atacar uma vez antes que o impedisse de continuar.
Mas tudo o que o homem fez foi sorrir novamente.
- Eu sei do que você é capaz. Sei também que está pensando que pode tomar o poder do meu corpo em um instante e resolver o problema, mas apesar de adorar se gabar, nós sabemos que seu limite é três.
Dessa vez, não conseguiu conter o choque. Ele nunca, jamais, havia contado aquilo para ninguém, muito pelo contrário. Ele sempre foi ótimo em fazer pensarem que era ilimitado.
O homem riu da reação do garoto, reação que não deixou de notar, mas que fez um trabalho excelente em fingir que sim para tirar o foco de . Precisavam se manter firmes, confiantes, e ter sua fraqueza exposta não colaborava exatamente. Não que ela esperasse que fosse se afetar por isso, ou que se deixaria abalar por algo tão estúpido. Ainda eram três contra um e se ele podia atacar três ao mesmo tempo, podia sozinho resolver o problema.
Se tentasse, ela o mataria por ter acabado com a diversão, mas, bom, não mudava o fato de que ele podia.
- Você provavelmente não achou que aprender matemática fosse importante, mas caso não tenha notado, vocês estão só em três o que basicamente muda o quadro ao nosso favor. - falou o óbvio. Mesmo que todos os três tivessem poderes, não teriam dificuldades para lidar com aquilo se os imobilizasse, por exemplo.
- Eu já disse que não são tão especiais quanto pensam, não disse? Eu tenho quase certeza que disse. - insistiu naquele ponto e dessa vez revirou os olhos, demonstrando o quanto o levava a sério mesmo que, silenciosamente, sentisse todas as suas defesas dispararem como se esperassem pelo pior.
Ele sabia que havia mais naqueles três, especialmente quando, aparentemente, sabiam mais do que deveriam saber.
- O que vocês querem, afinal? - perguntou o que decidiu ser um ótimo questionamento. Ataques de outros grupos eram bem comuns quando um deles tinha algo que o outro queria, mas naquele caso e eram apenas isso. Eles estavam a pé, sem armas, sem mochilas. Estavam apenas explorando o local, não havia qualquer motivo para serem um alvo. Eles não tinham nada e olhou para o homem a sua frente a espera de uma resposta.
Mas novamente, tudo o que ele fez foi sorrir antes de se voltar para os dois comparsas mudos ao seu lado.
- Eu tenho certeza que tínhamos uma ordem sobre isso… - respondeu, fingindo pensar. - Ah, mas quem se importa? - riu como se tivesse acabado de fazer a piada do ano.
Mas só conseguia pensar em uma coisa: "Ordem"?
Sem lhes dar tempo para remoer o que havia dito, o homem simplesmente atacou, formando uma bola de fogo grande o suficiente para acertar ambos simultaneamente.
Por instinto, empurrou para longe, fazendo com que caísse na sacada de um comércio antes de se jogar para o lado, caindo atrás de um barril de sabe-se lá o que. Só podia torcer para que não fosse inflamável. Nenhum dos dois foram atingidos, mas xingou e a ouviu fazer o mesmo enquanto o homem ria. o encarou, e ele entendeu, sem que fosse necessário qualquer palavra, o que ela tentou dizer.
se focou no que atirava fogo e em um dos outros dois, aleatoriamente, para tomar o controle de seus corpos, mas tudo o que ouviu foi outra risada, agora muito mais próxima de uma gargalhada, quando simplesmente não conseguiu o que queria. De alguma forma, não se sentia mais no controle de seus próprios poderes e agradeceu ao barril a sua frente para que os três não pudessem ver o choque em sua expressão, diferente de que formou um "o quê?" inaudível com a boca.
"Não dá.", ele a respondeu, perplexo, enquanto ela franzia o cenho.
Ele não era capaz de usar os poderes, o que nunca havia acontecido antes. Sem que pudesse evitar, lembrou-se do blefe que havia usado para conseguir as respostas que queria. Havia sugerido que existia alguma forma de perdê-los e, mesmo antes de saber que era apenas mentira, não tinha acreditado que ao menos podia ser verdade até acontecer de fato.
Não que ela soubesse isso antes, claro.
- Já deu tempo de descobrirem, não? - o homem voltou a falar, o mesmo de sempre, enquanto dava alguns passos na direção onde estava. - Meu amigo aqui tem um poder bem legal, você não acha? - perguntou, permitindo que os dois entendessem o que havia acontecido.
Um deles era um inibidor e impedia que acessassem seus poderes.
se voltou para novamente, pronto para dizer que era agora que deveriam correr. Podiam até saber lutar, mas não dariam conta de três pessoas dotadas de poderes. Abriu a boca para dizer isso, nem se importava de fazê-lo em alto e bom som, mas a garota já havia agido por conta e se levantava de onde estava.
pegou a arma que levava consigo no cinto da calça, a mesma que havia lhe devolvido no outro dia, e a arremessou contra um dos homens em uma pontaria perfeita. Por um instante, se viu impressionado com a atitude apesar de totalmente imprudente, atraído também, mas no outro o segundo choque da tarde. Como se houvesse uma barreira de proteção ao redor deles, o punhal parou no ar após atingir algo que não podiam ver, o impedindo de acertar a pessoa pouco mais adiante.
- Porra. - ela xingou, olhando perplexa para o local onde sua arma atingira antes de cair.
- ! - gritou quando o do meio com o fogo se preparou para um novo tiro. A garota olhou espantada para o homem por um instante antes de pular para o lado, determinada a sair da mira, mas não foi em sua direção que ele disparou o golpe. Havia sido uma armadilha da qual, por muito pouco, conseguiu escapar. Sentiu o calor passar raspando pelas suas roupas e mordeu o lábio inferior quando a dor lhe atingiu. Era mínima perto do que poderia de fato causar, mas o queimou assim mesmo e ele pôde ver a preocupação na face da garota pouco mais a frente.
negou com a cabeça para demonstrar que estava bem e ela concordou.
- Não pensaram que eu viria aqui desprevenido, pensavam? - provocou, mas o ignorando, apontou para a direção onde estavam. não entendeu suas palavras quando gesticulou com a boca, mas não demorou para entender exatamente o que ela quis dizer, negando por isso.
- Não. - sussurrou, mas não dando a mínima para sua ordem, ela se levantou e correu na direção dos três. - ! - gritou, não vendo outra escolha além de se jogar no meio daquela loucura também. Assim que ele se ergueu, o primeiro jogou outra bola de fogo em sua direção e ele se atirou no chão para evitar, rolando para o lado ante de se por novamente de pé. - Inferno. - praguejou, tirando da cintura o revólver que carregava consigo e sabia, seria totalmente inútil. Ele apenas não tinha outra escolha.
- Espera, o da esquerda! - gritou, pulando sobre ele antes que pudessem fazer qualquer coisa. A barreira, que até então não podiam ver, tremeu. não tinha ideia de como ela soube quem a controlava, mas entendeu o plano e atirou uma única vez, acertando o homem bem no meio da testa enquanto o primeiro, que controlava o fogo, olhava surpreso demais para se mover.
Não que a inércia tenha durado muito.
Antes que pudesse se esconder, ele formou outra bola de fogo e mirou em sua direção, mas ainda mais rápido, disparou em seu ombro, no braço exato que ele usaria para arremessar. Aproveitando-se da distração, ela pulou a mureta de um bar, escondendo-se atrás dela enquanto o homem gritava furioso, disparando sem conseguir acertá-la.
- Eu vou acabar com vocês! - gritou, formando uma nova bola de fogo com o dobro do tamanho, deixando impressionado. Ele olhou para o barril a sua frente e, decidindo que nem em sonhos ele aguentaria aquele impacto, saiu dali, correndo em direção ao local onde estava. Atacou uma, duas, três vezes, mas o tempo das bolas se formarem não era tão rápido quanto o garoto, embora melhorassem conforme o homem se irritava. Quando se jogou atrás da mureta onde estava, outro golpe atingiu sua roupa de raspão, mas esse não foi o suficiente para machucá-lo.
- Não vamos conseguir pegar o outro. - falou, ofegante, e concordou com a fala.
- Tem um rio aqui perto, eu vi as placas. - ela respondeu, mas tiveram que se encolher quando fogo passou próximo demais de suas cabeças, atingindo e esquentando o muro atrás deles.
- Tanto faz, temos que sair daqui. - a respondeu, alarmado, e pegou sua mão, a puxando consigo ao se levantar para correr.
Mais uma bola de fogo passou por eles e se virou para trás sem parar de correr. Assim que viu a arma, ambos os homens procuraram abrigo atrás de uma pilastra. errou o tiro, mas isso não importava quando tinha lhes dado tempo o suficiente para correr.
- Pra que lado? - perguntou a ela, que olhou para esquerda e direita atrás da placa.
- Ali! - ela apontou, mas recolheu a mão rapidamente quando outro ataque foi feito.
- Estou bem feliz que a mira dele seja tão ruim quanto a da Tracy.
- Não é ruim, só demora demais. - respondeu. Como se fosse carma, o próximo golpe veio certeiro e o teria atingido se não fosse por . Ela o puxou para sua direção, fazendo com que caísse sobre ela.
- Desgraçados. - o homem rosnou, e fez com que ambos rolassem no chão para que não fossem atingidos pelo segundo golpe. No instante seguinte, já estavam de pé e voltavam a correr, desviando dos ataques um a um enquanto , em meio a isso, atirava ou outra para lhes dar tempo enquanto o dois precisavam se esconder.
- Ali, o rio! - gritou, apontando para o desfiladeiro a sua frente. A vila ficava no topo dele, só então puderam notar e o rio, no caso, era uma cachoeira. Pelo som que fazia, a queda não deveria ser exatamente o que poderiam chamar de pequena, mas não era como se tivessem muita escolha. Agora estavam em campo aberto e tiveram que soltar as mãos para continuar evitando os ataques.
Mas se caíssem separados, nada garantiria que poderiam se encontrar novamente.
tentou atirar mais uma vez para conseguir, pelo menos, chegar até antes de pular, mas sem munição precisou deixar a arma, jogando-a longe com um palavrão.
- , vamos logo! - voltou a gritar, alarmada quando chegou na beirada. Ele havia ficado para trás quando decidiu recorrer ao revólver e agora ainda precisava alcançá-la. A viu olhar para baixo, consultar o tamanho da queda, mas o fez no pior momento possível. Seus perseguidores haviam notado.
- ! - gritou quando viu o homem se voltar para ela, uma nova bola de fogo se formando em suas mãos. Ela ergueu o olhar, mas a bola de fogo já estava próxima demais.
Sem pensar no que fazia, simplesmente se jogou sobre ela, derrubando os dois precipício abaixo. Não teve tempo de olhar a altura da queda, ou se havia pedras lá embaixo. Não sabia a profundidade do rio, se ela sabia nadar, mas entre suas opções, aquela era a melhor.
a segurou com firmeza contra seu corpo e sentiu o chão sumir sob seus pés. O vento gelado agrediu sua pele e sem saber dizer quando, fechou os olhos, sentindo os cabelos da garota se moverem ao seu redor.
Estavam em queda livre de uma altura da qual não sabia se poderiam sobreviver, mas nenhum deles gritou ou tentou dizer qualquer palavra. Apenas esperaram que a água chegasse enquanto torciam para que a queda não fosse grande o suficiente para matá-los.

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Nenhum dos dois poderia dizer, com precisão, a temperatura que fazia. Sem qualquer tipo de tecnologia além das proveniente de baterias móveis, não existia exatamente uma forma de possuir aquele tipo de informação, mas tampouco precisava ser um gênio para saber que estavam entrando no inverno e que entrar na água não era exatamente o mais indicado naquele frio.
Pular na cachoeira pareceu uma ideia excelente para fugir do perseguidor antes, mas o ponto de vista mudou assim que tiveram que voltar para a terra firme, sendo atingidos pela frente fria.
Tossindo com a água que havia engolido, se deixou cair de costas na grama seca a beira da água, os braços abertos, mas resmungou quando a brisa soprou. O vento gelado parecia consumir seus ossos daquela forma, molhada como estava
- De repente, ser atingida por uma daquelas bolas de fogo parece uma boa ideia. - ela reclamou e por um momento , que se jogava ao seu lado, acabou rindo de forma cansada, tão exausto quando ela por nadar contra a correnteza.
- Se tivesse realmente sido atingida, não pensaria dessa forma. - respondeu, encarando-a de canto de olho. - Mas usá-lo pra uma fogueira seria realmente muito bom. - disse ele, mas a garota já se sentava ao lembrar que realmente havia se ferido enquanto fugiam. Com os olhos, buscou o local. Lembrava-se de ter sido perto do braço, mas antes que encontrasse, levou uma das mãos para a região, cobrindo-a para que não fosse capaz de ver. - Está tudo bem. - falou de forma impaciente, revirando os olhos ciente do que ela fazia. - Até parece que isso vai me derrubar. - resmungou, levantando-se em seguida enquanto ela repetia sua fala mentalmente, de forma afetada. Não sabia quem era mais patético, ele com aquele egocentrismo todo ou ela, expressando preocupação de maneira tão óbvia. - Vamos, precisamos sair daqui antes que ele consiga descer e encontrar roupas secas. Está fazendo um frio do inferno.
- Precisamos é de um carro. - o respondeu, levantando-se também e olhando para cima. Havia sido uma queda de pelo menos dez metros e precisavam voltar para lá se quisessem se encontrar com os outros.
- Depois vemos isso, precisamos sair do frio primeiro. - insistiu e ela o encarou. Estava pronta para retrucar, mas se calou ao notar o estado em que ele se encontrava. Seus cabelos estavam de pé, bagunçados e desengrenhados depois que ele, em uma tentativa de tirá-los do rosto, passou as mãos pelos fios. Gotículas ainda pingavam e escorriam por sua testa, seu rosto estava molhado e seus lábios, em mistura com o frio, ganhavam uma coloração injustamente avermelhada, como se a camisa preta, colada ao corpo e parcialmente aberta, já não fosse demais para o juízo de qualquer um.
Irritada, desviou o olhar negando com a cabeça, inconformada após ver as gotas de água escorrerem por seu peito. Era ridículo que ele fosse tão bonito sem fazer nenhum esforço e ainda pior o fato dela reparar.
- Não se culpe, você também não está nada mal. - ele falou simplesmente, apontando para a blusa branca que ela, só então, se lembrou de ter vestido com um sutiã vermelho. Não que se importasse para isso, ou para a transparência adquirida pelo tecido.
passou por ela antes que a garota pudesse esboçar qualquer reação ao comentário, esbarrando em seu ombro ao seguir adiante enquanto ela ficava para trás.
riu em pouco caso.
- Você é ridículo. - falou ao se por a andar para acompanhá-lo e não deixou de revirar os olhos. Notou que fazia muito aquilo quando ele estava por perto. Esbarrar nela ao passar? O que ele pretendia com algo tão estúpido?
- Se pretende que eu entenda o motivo por estar falando isso, talvez seja uma boa ser mais específica.
- Ah, não. Só estava tentando constatar um fato. - ela devolveu, cerrando os dentes quando outra brisa gelada passou por eles. - Nós definitivamente precisamos de um carro. - ela falou, olhando de um lado para o outro da rua deserta onde se encontravam e ergueu uma sobrancelha.
- Procure um sozinha, então. Eu só quero roupas secas.
- Podemos procurar roupas secas depois de achar a droga de um carro e ainda sairíamos do frio. - ela retrucou. - Além disso, vamos precisar dele para achar o resto do grupo.
- Tracy pode nos encontrar. – respondeu inabalável, sem parar de andar.
- E você pretende só esperar? – ela perguntou retoricamente, mas a surpresa veio quando ele concordou.
- É exatamente o que eu vou fazer. – respondeu ele e desacreditada, parou de andar por um instante, como se perguntasse a ele se aquilo era mesmo sério. Soava bosta demais para ser sério. - Você pelo menos sabe como voltar lá pra cima? – perguntou, parando também para que pudesse encará-la.
- Se ficarmos parados, eles nos encontram antes de descobrirmos! – devolveu impaciente, mas , nem de longe, se abalou, dando as costas para voltar a andar enquanto ela bufava audivelmente pela atitude.
- Nos mover só vai atrapalhar. Jamais nos encontrarão. – respondeu de forma tranquila.
- Por isso que eu quero achar um carro para que possamos ir até eles ao invés de sentar e esperar. – retrucou. - E se algo aconteceu com eles também, gênio? – debochou.
- Estatísticas. – devolveu como se fosse a coisa mais simples do mundo e ainda teve coragem de dar de ombros. - A probabilidade de todos nós sermos emboscados é minúscula.
- Ah, sério que você está confiando tudo em estatísticas criadas por você mesmo? - ela debochou. - Notou que ele falava de nós como se nos conhecesse, não notou? Já parou pra pensar que ele estava nos seguindo? Usaram poderes bem específicos para nos pegar, o que te garante que não aconteceu o mesmo com os outros?
- Eles não nos pegaram. - respondeu, a deixando confusa por não ser exatamente a resposta para a pergunta que ela havia feito.
- O quê?
- Eles não nos pegaram. – ressaltou, olhando por sobre os ombros para sorrir forçado para ela. - Também não vão ter sorte com eles se, por algum acaso, os emboscarem.
- Acaso? - ela perguntou, descrente. - Não foi acaso, ! - exclamou.
- Ok, que seja. - se deu por vencido, ou pelo menos foi isso que ela pensou, por um instante. - Podemos discutir isso depois de trocarmos de roupa.
- De acharmos um carro. - insistiu, o fazendo revirar os olhos.
- Procuramos pelo dois e o que acharmos primeiro, achamos. - parou de andar para se virar para ela, mas a garota sorriu irônica em sua direção.
Claro, era mesmo assim tão simples, por isso ela estava há minutos reclamando.
- É mais fácil achar o carro na estrada e não vamos encontrar lojas ali, amor. – falou, com a voz propositalmente carregada de sarcasmo.
- Então seguimos o meio termo e vamos para o centro, amor, onde podemos achar os dois. – respondeu no mesmo tom, sorrindo falsamente para ela por um segundo antes de fechar a cara, voltando a andar sem esperá-la.
- Você é totalmente desprezível! - reclamou e ele riu sem humor.
- Ah, então estamos quites porque eu já não aguento mais escutar a sua voz. – resmungou.
- E eu não aguento mais a droga da sua teimosia. – debateu, acelerando o passo para passar a sua frente e fazê-lo parar.
bufou.
- Não sou teimoso só porque não concordo com você.
- Sim, você é. - insistiu e ele revirou os olhos, passando por ela para voltar a andar.
- Que seja. – respondeu simplesmente, não a levando a sério. - Mas anda mais rápido que está fazendo um frio da porra.
Irritada, o xingou mentalmente de todas as formas que conhecia e assim como ele havia feito, lhe deu as costas, andando pelo caminho contrário ao qual havia decidido seguir.
Notando o que ela fazia, ele parou, virando-se para trás.
- Aonde diabos você vai? - ele perguntou, agora impaciente e ela ergueu um dos braços como se dissesse "tanto faz". Era óbvio, afinal. Estavam todo aquele tempo discutindo o caminho a seguir enquanto seguiam o dele. Ela simplesmente decidiu fazer diferente. - Para de ser teimosa e volta logo pra cá. - ele reclamou. - Não vão nos alcançar se estivermos na droga de um carro em andamento, perdidos.
- Vamos ver. – respondeu simplesmente, sem se voltar para encará-lo. – E, ah! Não sou teimosa só porque não concordo com você. – utilizou suas próprias palavras contra ele e sorriu orgulhosa de si mesma pelo feito. Não levou nem um segundo para se dar conta do quão ridículo era aquilo, mas não se importou de verdade. Saber que o estava tirando do sério compensava absolutamente tudo.
- , que porra! - ele reclamou e pode ouvi-lo bater o pé irritado. - É a droga do meu grupo, eu sei como achá-los!
- Não, você está esperando que eles te encontrem, o que não vai acontecer se estiverem mortos.
- Ah, e você ir atrás deles vai ajudar muito nesse caso. - reclamou, aumentando o tom enquanto ela se afastava. - Vocês os conhece há três dias, eu que deveria estar preocupado, não você.
- Não se preocupe, não é preocupação. Só me preocupo comigo mesma. - devolveu sem encará-lo, ainda andando na direção oposta. - Só não posso perder a chance de ter as respostas que quero, o que você está atrapalhando.
- Atrapalhado? - ele perguntou, rindo debochado e pela proximidade ela soube que ele a seguia, deixando que um segundo sorriso satisfeito brotasse em seus lábios mesmo que ele não pudesse ver.
- Estou tentando seguir as regras de segurança que eu e o meu grupo temos!
- Não quero roubar o seu grupo. Para de ressaltar que é o seu. - ela reclamou. - Só está parecendo uma criança mimada.
Mais uma vez, o escutou bufar, mas antes que tivesse tempo para calcular a distância entre eles, no entanto, a puxou pelo braço e ela exclamou com o susto.
a tirou do chão e não teve tempo de fazer mais nada antes de ser jogada por ele sobre seus ombros, como se pesasse menos que uma pena.
- Engraçado eu ser a criança quando é você que está fazendo birra. - resmungou, segurando seus braços para impedí-la de se debater.
- Me coloca no chão, agora! - gritou, tentando chutá-lo, mas não obteve qualquer sucesso. - Você está perdido quando eu colocar minhas mãos em você, ! - o ameaçou e ele riu debochado.
- Vamos ver.
Ela urrou em irritação e em um gesto súbito, o mordeu com toda a força que tinha próximo ao umbigo, único lugar que conseguia alcançar na posição onde estava.
Desprevenido, gritou, não a derrubando por pouco. Com uma mão, permaneceu segurando a garota, mas, com a outra, ergueu a camisa para consultar se ela não havia arrancado um pedaço para levar consigo. Não tinha, mas sua arcada dentária estava tão perfeitamente desenhada na sua pele que poderia muito bem dizer que havia sido utilizada como molde.
- Sua… - começou, furioso, mas não completou a fala, utilizando-se dos poderes, no entanto, para fazê-la parar. - Não queria recorrer a isso, mas… - disse ele enquanto ela era tomada pela mesma sensação de impotência novamente por não conseguir se mover e urrou por isso, já que era a única coisa que ela era capaz de fazer. - O quê? Decidiu ficar quieta agora? - ele provocou enquanto usava tudo de si para tentar recuperar o comando do corpo, debatendo-se mentalmente de toda a forma que podia. - Sabe, se queria me morder podia só ter dito. Tenho certeza que encontraríamos formas melhores para esse tipo de intimidade. - continuou, só porque sabia o quão irritada ela ficaria com a fala. lembrou-se, então, de que ele podia sentir o que ela sentia, todo o ódio e irritação e, por um segundo, tentou controlar suas reações para não lhe dar o gostinho, mas desistiu meio minuto depois ao se dar conta de que jamais conseguiria. Não tinha tanto autocontrole assim.
Se esforçou ao máximo para não urrar novamente em irritação e levou mais um minuto para se lembrar dos próprios poderes para decidir usá-los. Ela tinha problema em controlá-los na maior parte do tempo e quanto mais furiosa estivesse, pior ficava. Precisava de concentração, foco, duas coisas que não conseguia em meio a raiva, mas ali, congelada sem poder se mexer, foi de alguma forma mais fácil. Se imaginou o esfaqueando com o punhal, enfiando-o em sua barriga, mas ao invés de gritar e soltá-la, como imaginava, riu. Ela havia sentido sua mente, seus pensamentos, sabia que havia entrado em sua cabeça, mas ao invés de esboçar a atitude esperada ele apenas riu, a deixando igualmente frustrada e furiosa.
- Sabe, é bem engraçado que eu tenha mais controle dos seus poderes do que você. - ele falou. - Além de usá-los, consigo facilmente bloqueá-los. - explicou. - Na verdade, eu não tinha certeza se conseguiria, tinha apenas essa teoria, mas olha, deu certo. - riu novamente, satisfeito consigo mesmo. - Posso sentir perfeitamente você tentando entrar na minha cabeça, mas não vai rolar. Vamos fazer assim, aproveita esse tempo e tenta praticar. - debochou. - Se conseguir me parar eu faço o que você quiser.
voltou a urrar em alto e bom som, debatendo-se mentalmente muito mais furiosa do que esperava ser possível. Seu primeiro instinto foi o de não fazer nada simplesmente para contrariá-lo, mas decidindo que aquilo seria infantilidade demais, engoliu o orgulho para tentar. Não era por ele, ou por sua sugestão, era porque ela precisava daquilo para acabar com ele assim que estivesse solta.
Ela mudou completamente o foco de seus pensamentos, agora com outro objetivo, e o ouviu rir novamente sem dizer nada. Sabia que ele podia sentir o que ela faria e sabia da desvantagem que tinha nisso, mas o fez mesmo assim. Primeiro, tentou bloquear os poderes dele com toda a força que tinha, mas não obtendo sucesso, mudou o foco repentinamente e tentou acessar os poderes dele para pará-lo.
Por um instante, parou de andar e ela comemorou mentalmente apesar da surpresa. Ela havia conseguido, mas durou apenas alguns segundos antes que ele retomasse o controle novamente.
- Boa tentativa. - ele disse, soando genuinamente impressionado. - Continua tentando, precisa segurar por mais tempo se quiser que eu te solte.
gritou, em sua mente, que o mataria. Céus, ela queria muito matá-lo e a risada que soltou ao, provavelmente, saber o que se passava na mente dela só fez com que tudo aumentasse. Cega pela raiva, só notou que haviam chegado ao centro quando subiu três degraus.
- Talvez eu precise te soltar agora. - ele falou com um sussurro, espiando as janelas. - Não parece haver alguém ali, mas em todo o caso… - começou e ela nunca antes torceu tanto para encontrar outro grupo.
Assim que ele a colocasse no chão, ela era capaz de se juntar a quem quer que os atacasse só para acabar com ele. Nunca antes desejou tanto acabar com alguém. Isso porque eram, supostamente, do mesmo time.
O time que se fudesse, e os planos. Ela só podia pensar em matá-lo.
Com cautela, a soltou, colocando-a de pé próxima a porta, mas cuidou de não cometer ainda o erro de libertá-la de seu poder. estava seca para que o fizesse e ele muito provavelmente sabia, mas em algum momento ele teria que fazer, até porque, sabia que por mais bem treinado que estivesse, usar os poderes por um período muito longo de tempo era exaustivo e por mais que quisessem negar, não estavam exatamente no que poderiam chamar de melhor condição física, especialmente ele com a queimadura que havia ganhado no braço.
Em silêncio, unicamente por falta de opção, ela observou enquanto explorava o local. Estavam em uma espécie de loja de departamento, mas grande parte das coisas já haviam sido saqueadas e o que restara estava espalhado para todos os cantos. Roupas mais no chão do que de fato das araras de roupas, móveis quebrados ou tombados em sinal de luta. Não precisava nem olhar para saber que as prateleiras do setor de alimentos estavam vazias e ela tinha certeza que todas as coisas espalhadas ao redor do balcão deveriam estar sobre o balcão, não no chão.
o teria provocado se conseguisse falar, diria que poderia ajudá-lo se permitisse e a soltasse, mas na falta de escolha apenas continuou olhando, torcendo para que ele pelo menos fosse logo com aquilo para libertá-la de uma vez.
Como se os seus pensamentos tivessem poderes, no entanto, outra brisa do lado de fora fez com que uma rajada de vento entrasse pela janela, movendo as cortinas. O vento estava forte demais, provavelmente indicando chuva e fez com que a janela pendurada batesse contra a parede. A distração fez com que perdesse o foco e seu controle desapareceu quando se voltou para trás, para ela, para conferir o que havia acontecido. Em um movimento rápido, no entanto, puxou o punhal e sem pestanejar o lançou em sua direção.
agiu quase imediatamente, mas o "quase" foi o suficiente para que a lâmina o tingisse de raspão, fazendo uma linha fina de sangue surgir em sua bochecha. Ele soltou uma exclamação em surpresa, levando a mão até a região como que para conferir se havia machucado, mas não teve tempo de conferir o sangue em sua mão. já o atacava novamente, seria um belo chute no meio do peito se , em um movimento rápido, não se recuperasse da inércia que o primeiro golpe havia causado. Ele a segurou pelo tornozelo e a fez virar de costas para ele, agarrando-a por trás e colando seu corpo ao dela.
jogou os braços para trás, segurando-o pela jaqueta ainda molhada que vestia. Ela o puxou para frente enquanto inclinava seu corpo simultaneamente para inverter as posições, fazendo com que ele desse uma espécie de cambalhota sobre ela. conseguiu o que queria e se viu livre, mas seu próximo golpe foi defendido com sucesso e colocou ambos os braços em frente ao rosto antes que ela pudesse golpeá-lo.
- Que porra, estamos da mesma droga de lado. - ele reclamou, atacando-a também apesar disso. desviou do primeiro golpe com maestria, mas ele havia sido apenas uma distração para a rasteira que lhe passou. A garota caiu, mas aproveitou-se disso para recuperar o punhal, rolando no chão uma vez antes de se levantar. entrou no modo de defesa. - Eu vou te congelar de novo, . - falou em tom de ameaça, mas tudo o que ela fez foi sorrir em pouco caso.
- Se pudesse, já teria feito. - ela respondeu, convicta.
- Quer apostar? - ele provocou, mas no instante seguinte ela já avançava novamente com o punha em mãos. desviou uma, duas, três vezes, mas xingou quando foi atingido de raspão novamente, agora no outro braço. - Inferno! – xingou, conferindo o estrago feito. Não tinha sido nada, ainda.
- Parece que alguém não é nada sem alguns truques.
- É? Então vem. - ameaçou, agora também irritado e ela soube ali que ele pararia de se limitar na defesa. Não que isso tenha importado. Essa ordem, obedeceu com todo o prazer do mundo e avançou em sua direção, mas antes que chegasse até ele chutou no ar, acertando a mão que ela utilizava para segurar o punhal e fazendo com que ele voasse. sentiu a dor se espalhar pelo seu braço, não tinha certeza se conseguia mover os dedos, mas isso não a impediu de prosseguir. Tentou atingí-lo com um soco no rosto, mas ele segurou seu punho e, novamente, fez com que girasse, terminando de costas para ele.
- Chega disso. - falou de forma firme e autoritária, próximo demais para que ela ignorasse a respiração dele em seu pescoço e se arrepiasse com o gesto. Odiou seu próprio corpo por isso, por reagir ao dele daquela forma especialmente quando era contra a sua vontade. Sabia que era culpa da ligação, mas não podia evitar, não quando tudo nele parecia gritar por atenção. Tentou se soltar, lutando para ignorar o calor que, repentinamente, se espalhou por seu corpo, mas isso apenas fez com que ele lhe segurasse com mais firmeza, colando ainda mais seus corpos. - Eu sei que está furiosa, mas estamos do mesmo lado. - ressaltou. - Brigar entre nós mesmos não vai ajudar.
- Você deveria ter pensado nisso antes. - tentou se debater, mas ele impediu seus movimentos e ela, em frustração, mordeu o lábio inferior. - Me solta, . Eu não estou brincando.
- É por isso mesmo que eu não vou soltar. - ele respondeu, seu tom de voz assumindo certa calma, diferente da autoridade prepotente e totalmente arrogante. - Vamos nos trocar, procuramos algo para comer e vamos atrás de um carro se você quiser, mas para com isso. - pediu. Ele levou uma das mãos até seu cabelo, o tocando como se fosse afastá-lo do pescoço, mas parou no caminho, repensando a atitude. - Eu vou te soltar. - falou em um sussurro, afrouxando o aperto que mantinha ao redor de seu corpo. - Mas se me atacar, você vai vencer porque eu não estou nenhum pouco afim disso, então decida agora se vale mesmo a pena.
- Ah, com certeza. - retrucou automaticamente, mesmo não estando certa da resposta. Machucá-lo não era exatamente o que queria dele apesar de tudo e, inclusive, se odiava por isso.
- Tudo bem. - ele disse, dando um passo para trás e erguendo as mãos, como se estivesse na mira de alguma arma.
Lentamente, ela se virou para ele com fúria contida no olhar e não ousou desviar. A tensão entre eles era quase palpável, mas isso não era o que mais a incomodava e sim o fato de se sentir mexida com a proximidade anterior. Ainda estava furiosa e bem lá no fundo queria vê-lo sangrar, mas a verdade era que não tinha certeza de que conseguiria fazer algo como aquilo, não com ele. Para começar jamais havia errado a pontaria, ainda mais duas vezes como havia acontecido. Não sabia lidar com tudo que estava sentindo sobre ele, ou com o que quer que estivesse acontecendo entre os dois. Ela sentia aquela mistura de raiva, desejo e cuidado, tudo junto com uma mesma coisa. Era desesperador, tinha aquela vontade absurda de fazer algo quanto ao que sentia, qualquer coisa, mas nada parecia suficiente. Brigar não parecia, machucá-lo não parecia e como se estivesse preso na mesma bolha de frustrações na qual ela se sentia, simplesmente xingou, deixando que os braços caírem ao lado do corpo.
No instante seguinte, era ele quem avançava em sua direção. Havia algo de agressivo em seu modo de andar, em sua expressão, mas não era como se ele fosse atacá-la, pelo menos não na forma literal da palavra, com força bruta. Em um segundo, a distância entre eles simplesmente não existia mais e, em um movimento rápido, colava seus lábios com os dela, segurando seu rosto com uma das mãos enquanto com a outra a puxava para mais perto, afundando seu corpo no dele.
E foi então, só então, que tudo pareceu certo. Como se fosse para ser daquela forma desde o início. Independente da proximidade, dos poderes compartilhados, foi naquele momento que sentiram-se, de fato ligados com em um único DNA, como se fossem um.
segurou com firmeza em seus cabelos, ficando na ponta dos pés como se isso pudesse, de alguma forma, trazê-lo para mais perto. Precisava dele daquele jeito e só então se dava conta do quanto, movendo sua boca com a dele em um ritmo quase ensaiado.
O frio havia passado, dando espaço para um calor imediato que se instalou entre eles. Ela se sentia em chamas e nunca imaginou que poderia ser tão bom, ou tão certo. Sentiu as mãos dele subir por suas costas, sobre o tecido fino e molhado da blusa que usava, mas não teve o mesmo pudor, abrindo de qualquer forma a camisa que ele vestia sem se importar com os botões.
Naquele instante nada mais importava. O local onde estavam, ou o que sentia há pouco tempo atrás. Era como se existisse apenas os dois no mundo, como se fossem o destino ou do outro mesmo que nenhum deles acreditassem nisso.
Não fazia sentido, não tinha explicação, mas era a única coisa que parecia certo.

ᛝ ᛝ ᛝ


virou o rosto desconfortavelmente, incomodada com o zíper da jaqueta que marcava sua face. Não havia se dado conta disso ainda, na verdade, que era um zíper. Sequer havia notado que estava acordada, ou acordando, no caso. Não havia se dado conta ainda de que estava nua e que o tecido macio ao redor de seu corpo não fazia parte de nenhuma roupa de cama, era apenas a jaqueta que havia usado para cobrí-los durante a noite, não que ela tivesse consciência disso também.
Levou alguns segundos, entre despertar e lembrar-se da noite anterior, para se dar conta de onde estavam ou do que haviam feito, mas não se sentia incomodada. Não era a primeira vez de nenhum dos dois, mas descobriram ser ótimos fazendo aquilo juntos.
Evitando fazer barulho, ela abriu os olhos, passando as mãos por eles antes de buscá-lo ao redor.
estava de pé entre as araras de roupas, de costas para ela, mas ainda assim tinha uma visão um tanto quanto privilegiada de seu corpo. Os cabelos ainda bagunçados, os ombros largos e as costas com marcas de suas unhas. Lembrava-se claramente de mordê-lo algumas vezes e a lembrança lhe aqueceu imediatamente, gostando de ver aquelas suas unhas estampadas em sua carne também. Desceu um pouco mais o olhar, para suas nádegas, e teve apenas um rápido vislumbre delas antes que fossem cobertas pela calça que ele vestia, um jeans claro com aspecto surrado, mesmo sendo novo.
- Não precisa fingir que está dormindo, eu sei que está olhando. Sou bom demais pra ser ignorado. - falou presunçoso e ela sorriu irônica. Daria um desconto só porque ele realmente havia sido bom demais.
- Não sei o que te leva a pensar que eu estou fingindo. - ela respondeu sem se dar ao trabalho de levantar. - Não preciso dizer nada pra apreciar a visão.
- Definitivamente. - ele concordou, puxando um moletom já previamente separado sobre outra arara. Passou a peça pela cabeça e não viu motivo para ignorar seu abdômen. Havia a marca perfeita dos seus dentes próximo ao local onde o havia mordido quando estava irritada e sentiu uma certa satisfação com isso também.
se sentou, levando a jaqueta consigo mesmo que não se importasse muito com aquilo. Haviam feito coisas demais para se envergonharem agora e ela nem era o tipo disso, mas estava enrolada demais na peça para que conseguisse se livrar dela com facilidade. Só então, notou que também dormia sobre uma jaqueta almofadada e não tinha ideia de quando ou quem havia se lembrado de jogar qualquer coisa no chão para deitarem por cima.
- Ah, foi depois. - ele respondeu a pergunta que ela não havia verbalizado, jogando-se sentado ao seu lado enquanto ela lhe encarava com confusão pela resposta. - Ainda não leio mentes, sabe. - sussurrou com humor, inclinando-se sobre ela por um segundo. - Você está olhando para a jaqueta como se ela fosse te atacar. - explicou. - Fizemos isso no chão mesmo, e você só dormiu em cima de mim.
Ela ergueu uma sobrancelha de forma sarcástica ao lembrar.
- Se está tentando conseguir qualquer reação próxima a timidez ou vergonha,vai ter que fazer mais do que isso. - falou e ele riu, deitando-se ao seu lado com as mãos atrás da cabeça.
- E por acaso você é do tipo que sente vergonha? - perguntou retoricamente e ela negou. - Exatamente. - apontou em sua direção antes de gesticular para as araras. - Agora é sua vez de se vestir. - falou ele. - E eu vou ficar bem aqui olhando. - piscou de forma convencida e ergueu uma sobrancelha para atitude. Em provocação, quando se levantou, fez questão de levar a jaqueta junto e o garoto bufou. voltou a se sentar para puxar a peça dela e tentou segurar enquanto corria. Pareceu, de início, que daria certo, mas isso foi apenas até decidir segurá-la pelo braço, a puxando de volta e fazendo com que caísse em seu colo por consequência.
- A gente não precisa de todo esse pano. - ele falou com toda a calma do mundo, encarando-a de forma séria o suficiente para abalar suas estruturas. Havia algo no seu olhar que a deixava psicologicamente abalada, perdendo apenas para a forma como sorria ou pior, a misturava os dois em um sorriso irônico, exatamente como o que ele soltou em seguida.
- O pano fica, já que você fez questão de se vestir. - ela respondeu, juntando seus lábios o máximo que podia sem tocá-los de fato, quase enlouquecendo quando o viu umedecer os seus com a língua.
- Você não reclamou enquanto me assistia fazendo isso. - falou ele, mantendo seus rostos tão próximos quando podia enquanto subia, discretamente, uma de suas mãos pelas coxas dela, não que fosse capaz de ignorar. Ela segurou sua mão para que parasse e ele riu divertido.
- Não reclamei, tudo bem. - ela respondeu por fim, tirando a mão dele do lugar onde estava. - Mas isso não quer dizer que não te prefira sem roupa.
se inclinou para beijá-lo em seguida, mas antes que o fizesse, no entanto levantou-se de seu colo, levando a jaqueta consigo até as araras. bufou, insatisfeito, mas assim que se afastou pôde vê-lo sorrir satisfeito. Fingindo ignorá-lo, ela andou lentamente pelas peças de roupas, como se estivesse realmente muito interessada nelas. Terminaria, muito provavelmente, com jeans rasgado e um moletom masculino que fosse o dobro do seu tamanho.
- , ?! - ouviram gritar do lado de fora e, imediatamente, se colocou de pé. Se até mesmo podia reconhecer a voz de , não seria ele a ter dificuldade.
- Eles estão mesmo deixando que ele grite?! - perguntou, perplexa enquanto espiava.
- Devem estar usando apenas os clones. - ele respondeu e negou com a cabeça mesmo que ele não pudesse ver, vestindo as primeiras peças de roupa. - não vai ser afetado se algo acontecer.
- Continua sendo estúpido. - ela devolveu e ele concordou.
- Definitivamente. - falou, fazendo um bico insatisfeito ao se voltar para ela e encontrá-la já vestindo um sutiã preto. - Isso foi golpe baixo. - protestou e ela deu de ombros, vestindo a última peça em seguida.
- Temos que ir. - disse ela, se abaixando para pegar o cinto da calça onde prendia seu punhal. Não era seu lugar preferido, mas o cinto era importante já que nem sempre conseguiria escondê-lo na roupa.
- ?! - o clone voltou a gritar bem na porta da loja no exato momento que eles saiam e , sem perder a oportunidade, lhe deu uma joelhada, fazendo com que seus joelhos cedessem antes de jogá-lo para frente, fazendo com que caísse dos degraus e desaparecesse.
apareceu com um segundo depois, inconformado.
- Precisava mesmo de tudo isso? - reclamou, fingindo estar muito bravo o que só soava ainda mais idiota vindo dele.
- Você fez clones burros. - retrucou e , o verdadeiro , deixou o queixo cair.
- Passei a noite fazendo isso! Estou cansado!
- Estávamos perfeitamente bem. - falou e concordou.
- Trocaram de roupa? - perguntou, desconfiada, mas os dois eram bons demais em esconder coisas para se entregarem.
- Problemas irrelevantes de percurso, tivemos que improvisar.
- E as roupas se perderam no percurso? - falou com certa dose de malícia que preferiu ignorar.
- Sim, exatamente. - devolveu com um sorriso forçado e irônico. - Agora onde estão os outros? Parecisamos continuar.
- E compartilhar informações. - falou também, certa de que ele esqueceria e concordou com um aceno de pouco caso, de tanto faz, mas ela contou o que havia acontecido ainda assim.
Não conseguia simplesmente ignorar o fato de terem mandado três homens tão perfeitamente treinados para pegá-los, como se fossem todos uma espécie de exterminador do futuro que estivessem lá justamente para isso, que já conhecessem todas as suas fraquezas. Já sabiam mais do que deveriam sobre eles de qualquer forma, e isso era sim intrigante, por mais que quisesse negar.
não sabia o que estava havendo de fato, mas sentia, no mais fundo do seu ser, que havia algo mais ali, a começar pelos três homens que os atacaram.


Parte III


우주가 생긴 그 날부터 계속 (계속)
Desde o dia da criação do universo (e continuando)
무한의 세기를 넘어서 계속 (계속)
Através dos infinitos séculos (e continuando)
우린 전생에도 아마 다음 생에도
Na vida passada e talvez na próxima também


Havia acabado de amanhecer quando, dias depois, chegaram ao local. Ninguém tinha muita ideia de como era até então, mas não foi difícil de achar o enorme laboratório. Era grande o suficiente para que pudesse ser visto de longe e, definitivamente, grande demais para ter sido apenas uma clínica de fertilização.
Pararam os carros com dois quarteirões de distância e se dividiram em dois grupos para explorar o lugar. Dessa forma, assim que entraram, , , e foram para um lado enquanto , Tracy e iam para outro. Não parecia dois grupos balanceados a primeira vista, mas podendo utilizar os poderes de mudava o quadro completamente. E não era também como se ela já não tivesse poder de ataque.
Do lado de dentro, o local era como uma espécie de labirinto. Paredes e mais paredes de vidro cortavam os ambientes. Corredores e mais corredores, escadas e mais escadas e elevadores que não funcionavam devido a falta de eletricidade. Era um prédio imenso, ainda maior visto de fora, mas não podia deixar de se sentir decepcionado.
Não sabia o que esperava de verdade, mas definitivamente não era toda aquela calma e monotonia. Nenhum deles havia nascido quando aconteceu, quando o mundo simplesmente parou. Sabia que as coisas eram daquela forma agora, lutar para sobreviver, mas no fundo acreditava que ainda podia haver ordem em algum lugar. Quando descobriu ter feito parte de uma experiência genética, inicialmente, ficou com raiva, especialmente pela forma como as coisas aconteceram, mas depois teve certa esperança de que isso poderia significar que alguém estava tentando fazer algo pelo mundo de algum lugar. Aquele lugar. Sim, ele queria respostas quanto a si mesmo, como haviam conseguido dar poderes a eles, como funcionava essa coisa de "ligação" e porque haviam feito isso, mas ainda mais ele queria entender o que havia acontecido com o mundo que via nas revistas e livros que encontrava.
Mas então, ao chegar lá, o lugar estava simplesmente deserto. Não havia qualquer sinal de vida humana há tempo demais. Estava tudo de pé, ninguém havia invadido ainda para destruir o prédio ou colocá-lo abaixo, mas as paredes um dia brancas já não eram mais assim, o chão estava coberto de poeira assim como os móveis. Não havia qualquer rastro ou sinal de que alguém havia passado por ali. Era simplesmente um prédio abandonado e a cada passo sentia a frustração lhe consumir ainda mais.
Era isso, então? Não havia mais nada a se fazer além de sobreviver naquele mundo completamente perdido? Os poderes e a ligação, não eram nada demais? Eles não eram especiais? Não existia nenhum plano para eles? Haviam sido a experiência de alguns cientistas loucos que morreram como todo mundo e deixaram um projeto inacabado para trás? Eles eram apenas isso? Um estudo inacabado que jamais descobriria a verdade?
Sentindo a falta de esperança lhe consumir como nunca antes, olhou de canto de olho para e mordeu o lábio inferior, a sentindo tão incerta quanto ele. Era de se esperar, um sentia o que o outro sentia, um começava onde o outro terminava e todas aquelas inseguranças que ele jamais teve a estavam afetando.
Ele passou tempo demais achando que tinha um caminho a seguir. Era o tipo de pessoa que precisava de um objetivo na vida para conseguir levantar todas as manhãs, mas de repente o seu não existia mais e não via propósito em nada daquilo.
- Não deveríamos começar a entrar nas salas? - perguntou aos sussurros após mais alguns minutos andando, parecendo receosa. Mesmo sem poderes sempre foi muito boa em ler as pessoas e aquele desânimo jamais teria passado despercebido. mesmo, ele não era o tipo de ficar calado, mas não escutavam sua voz desde que entraram ali. Podiam nunca ter falado sobre o assunto, mas sabia que compartilham daquela mesma ideia. - O que quer que estejamos procurando, só vamos encontrar nas salas. - sugeriu em meio tom de voz.
- Não estou certo de que o que estamos procurando está aqui. - resmungou e ela se voltou para ele como se esperasse uma explicação. - Não tem ninguém aqui. Nós erramos. - falou. - Nascemos depois que tudo aconteceu e para que tivéssemos sido feitos aqui, precisaria ter pessoas nesse lugar.
- Mas nascemos aqui. - insistiu. Tinha certeza dessa parte. Havia lido o diário de sua mãe, relatando tudo que havia passado contra a sua vontade. Ela tinha sido obrigada a participar disso pelo seu pai, submetida a diversos testes e exames, alguns dolorosos. Era por isso que odiava tanto o homem, por tudo que havia feito a mulher passar. Ela mudou seu ponto de vista com o tempo, deu uma chance para a esperança e sabia, no fundo, que parte do que sentia era por isso. Jamais poderia perdoar o pai por não ter ficado do lado dela, por tê-la obrigado a fazer algo contra a sua vontade, algo que a tinha matado, mas ela, sua mãe, morreu acreditando que a experiência podia mudar o mundo e ele quis acreditar nisso também. Que sua vida tinha um outro propósito além de apenas sobreviver. Passou anos sendo consumido por aquele dilema, o de odiar as pessoas que mataram sua mãe pela ciência e o de acreditar que eram a única chance do mundo exatamente como ela havia acreditado. O fardo dessa indecisão, grande parte das vezes, era difícil de se carregar. Sentia culpa sempre que tinha esperança, sentia culpa sempre que não tinha, mas de repente nada mais existia.
Não era possível que não existisse.
- Se um dia teve alguém nesse lugar, não tem mais. – falou, soando tão decepcionado quanto se sentia e negou com a cabeça.
- Pode existir. Isso daqui é enorme. Eles podem estar em algum lugar. - falou ela, sem perder a fé, mas negou com a cabeça.
- Olha para o chão, . Somos os únicos aqui há décadas.
- Nessa ala. - ela insistiu.- Não estamos aqui dentro nem há dez minutos. Levamos dias pra juntar pessoas o suficiente para fazermos isso. Levamos dias pra chegarmos aqui e vocês querem resolver tudo em alguns minutos! – exclamou, agora perplexa. – Mesmo que não tenha ninguém, que tenham ido para outro lugar, deve haver alguma pista se procurarmos. Precisamos procurar. - falou com convicção e soltou o ar pela boca, tentando decidir se era seguro ou não acreditar nas palavras da garota. Sim, ela estava certa, estavam desistindo rápido demais, mas já sabia o peso de perder as esperanças, não tinha certeza de que deveria acreditar novamente.
Como se procurasse por ajuda, buscou com o olhar mais uma vez, só então notando seu completo silêncio. A garota olhava atentamente ao redor, os olhos estreitos como se desconfiasse de algo e não demorou muito para que ele sentisse também. Sim, ela desconfiava de algo e embora não pudesse saber do que, sentia como se aquilo partisse dele, não de outra pessoa. A ligação ficara muito mais forte depois que se renderam a ela, mas ele não se incomodava mais. Jamais poderiam ser vencidos daquela forma, sentindo o que o outro sentia, compartilhando dos mesmos poderes. Sabia, no fundo, que não se sentia satisfeito com aquilo simplesmente pela força que tinham juntos, sabia que era, em grande parte, porque sempre saberia onde estava e se estava bem. Uma preocupação que definitivamente não condizia com ele, mas que estava lá também, por mais que quisesse negar.
- O que houve? – perguntou a ela de uma vez e, lentamente, se voltou para o grupo.
- Qual é o maior dilema de todo sobrevivente? – perguntou repentinamente, deixando todos confusos, sem entender de onde aquilo havia saído. – O que todos nós precisamos buscar? Pelo que todos nós lutamos e precisamos para sobreviver?
- Do que você está falando? – ele perguntou, ignorando a pergunta, e se voltou para , como se imaginasse que ela fosse a mais propícia entre eles a um acerto.
só pensava que talvez tivesse enlouquecido então deveria estar certa.
- Dependemos de duas coisas para sobreviver, brigamos por elas diariamente. Quais são? – reformulou a pergunta e, como o esperado, parou para pensar em uma resposta. Assim que ela descobriu, sua face se iluminou, como se tudo fizesse sentido mesmo antes de dizer em voz alta.
- Procuramos por comida e abrigo. – respondeu ela, voltando-se para em seguida. - Abrigo. – assim que ressaltou a palavra, o entendimento se caiu sobre também.
Aquele laboratório era o tipo de lugar que teria as duas coisas e muito mais. Qualquer pessoa sã naquele mundo o teria como objetivo e, no entanto, estava tudo intacto, como se tivesse estado lá há décadas.
Mas não havia qualquer barreira os impedindo de entrar quando chegaram. Não enfrentaram qualquer dificuldade. Na primeira tentativa a porta simplesmente abriu e não fazia sentido que ninguém nunca tivesse tentado explorá-lo antes.
O fato de serem os primeiros a estarem ali só faria sentido se todo o lugar estivesse muito bem trancado até então. Trancado o suficiente para que ninguém conseguisse arrombar e entrar. Mas se estava, bom, alguém tinha aberto para que entrassem e se alguém tinha aberto...
- Alguém nos quer aqui. – sussurrou ao se dar conta e , por sua vez, concordou.
- Alguém que sabe sobre nós, como os três que tentaram nos impedir de chegar. – continuou, mas ela mesma franziu o cenho ao se dar conta da contradição que havia entre uma coisa e outra.
- A mesma pessoa que nos quer aqui, tentou impedir a gente de chegar? – verbalizou a dúvida e arregalou os olhos de súbito. Também só havia uma forma daquilo fazer sentido: Uma cilada, afinal, se não os queriam ali, porque diabos os deixariam entrar?
Se eram os primeiros a conseguir tal feito, os primeiros a terem permissão para estarem lá, tinha que ter um motivo e ele lhe preocupava se fosse combinado com o cuidado que haviam tido em manter o local. O que escondiam para valer a pena tanto trabalho? Continuavam com as experiências? Jamais deixariam qualquer um entrar lá depois de tudo aquilo para proteger o que quer que estivessem fazendo lá. sabia que tinha mais, todos os seus sentidos gritaram em alerta, mas se fosse uma cilada não podiam simplesmente esperar cair nela. Tinham que encontrar os outros e sair de lá imediatamente.
se voltou para os companheiros alarmado e viu assumir sua mesma postura quando se deu conta do que acontecia. Ele abriu a boca para dar a ordem, tinham que correr, mas como se estivem de fato sendo vigiados, como se realmente tivesse alguém ali, acompanhando o desenvolvimento de sua linha de raciocínio, todo o prédio tremeu em uma explosão que os fez vacilar. apoiou para evitar que caísse, se segurou em uma mesa ao lado das portas do elevador e abriu os braços para se equilibrar onde estava.
- O que aconteceu?! - perguntou alarmada no exato momento em que sirenes começaram em sinal de alerta, ressoando por todo o prédio e confusos eles olharam ao redor. Podiam nunca terem lidado com algo como aquilo, mas sabiam que era necessário que o prédio tivesse energia elétrica, uma novidade depois de tanto tempo. As primeiras lutas quando o mundo caiu foi atrás de fontes de energia, geradores, os equipamentos necessários para se utilizar energia solar. Não viam as duas coisas há mais tempo do que podiam contar, mas as luzes vermelhas que piscavam e a voz mecânica que pedia evacuação do prédio eram um claro sinal de que aquele prédio ainda estava muito bem equipado mesmo depois de anos.
Mais um indício de que havia sim algo mais lá. Algo importante, pessoas importantes, mas já não tinha mais tanta certeza de que eram os mocinhos. Era normal naquela realidade atacar primeiro e perguntar depois, mas com tantos recursos que tinham, aquilo era mesmo necessário?
- O que é isso? O que está acontecendo? – perguntou alarmado e negou com a cabeça, sentindo o pior pressentimento que podia sentir sobre aquilo.
- Temos que ir embora. - falou simplesmente. - Temos que achar os outros e irmos embora agora.
- Não descobrimos nada! - protestou, perplexo. - Não podemos ir embora sem nada!
- , eles sabem que estamos aqui e estão atacando! - exclamou. - Sabem sobre os poderes de cada um de nós e estão deixando claro a posição deles sobre isso!
- , nós precisamos de respostas e só aqui podemos encontrá-las!
- Não vai adiantar se morrermos por isso! - o respondeu, exaltada. - Precisamos ir, ! Agora! - ela o segurou pela jaqueta que usava, pronto para arrastá-lo, mas se soltou, parando por sua vez.
- Os outros podem ter causado a explosão em uma luta. Podem ter encontrado alguma coisa. Precisamos procurar a fonte.
- Ficou louco? - perguntou. - O prédio está caindo e ao invés de fugir você quer ir até a fonte?
- São nossos amigos! - ele exclamou. - Não que você entenda!
- , para! - se colocou entre os dois. - Atacarmos uns aos outros não vai ajudar, que inferno! - disse ele, negando com a cabeça enquanto tentava pensar rápido em uma solução. Não que houvesse muitas.
Ele estava certo, os outros podiam ter achado algo que os jogou em risco. Ou, se não fosse isso, poderiam estar precisando de ajuda e mesmo que uma divisão de equipe, agora, não fosse o melhor, era tudo que tinham, a única chance.
- Saiam daqui, os três. - falou ele. - Façam o caminho que fizemos para chegar até aqui, é o que farão tentado nos encontrar se estiverem bem, se não precisarem de ajuda.
- Ficou louco?! – gritou, nenhum pouco disposta a ceder para a possibilidade. - Você só pode ter enlouquecido mesmo!
- Eles podem estar precisando de ajuda tanto quanto podem estar bem e, nesse caso, todos nós morreríamos por uma suposição.
- Ah, e você acha que não vão todos atrás de nós também? - perguntou. - É muito mais fácil reunir o grupo se formos todos! Vamos todos nós. - impôs.
- Você está mesmo disposto a arriscar a vida da por isso? - perguntou e viu toda a determinação de se esvair imediatamente. Havia sido um golpe baixo, ele sabia agora mesmo que odiasse saber e era só nisso que pensava quando sugeriu de ir sozinho. - Eu vou, e vocês saem daqui fazendo o mesmo caminho pelo qual chegamos. - disse, dando as costas ao decidir, sozinho, que a conversa terminava ali.
riu em deboche.
- Você só pode estar louco se acha que vamos te deixar fazer essa merda. - falou e ele se voltou para ela com uma sobrancelha erguida e uma expressão cínica nem mesmo próxima a realidade de caos na qual se encontravam.
- O quê? Preocupada? - debochou, mesmo estando satisfeito por isso na verdade, mais do que gostaria de admitir.
- Que você faça ainda mais merda? – ela perguntou, exaltada e claramente revoltada. – Sim, eu estou. - falou, avançando em sua direção para impedí-lo de prosseguir.
Outra explosão soou, essa mais forte que a anterior. Novamente, o prédio inteiro tremeu, mas nem de longe foi isso que chamou a atenção do grupo. Ouviram a propagação das chamas mesmo que nunca tivessem imaginado que fosse possível e tiveram tempo apenas de encontrar o local por onde se alastraram antes da porta do elevador explodir ao lado deles.
Ninguém precisou pensar sobre o que fazia, se jogar no chão foi puro reflexo, instinto de sobrevivência. passou um dos braços pelos ombros de , encolhida no chão, como se pudesse protegê-la daquela forma enquanto as chamas invadiam o local.
- Você ainda quer descer?! - gritou, o empurrando para se levantar assim que as chamas altas, causadas pela explosão, baixaram, voltando para o lugar de onde haviam saído. Frangalhos da porta queimavam no chão, o fogo começava a consumir o forro do teto e bastou um olhar para cima para que soubessem que aquilo ia desabar logo. - Temos que sair daqui e torcer para que eles não estivessem lá. - falou, a revolta dando lugar para a mais genuína preocupação.
- Eles estão bem. – falou, mas ficou claro pelo seu tom de voz que dizia aquilo muito mais para si mesma do que para qualquer um deles e sentiu sua dor imediatamente. Sentiu medo e olhou para o alçapão do elevador como se fosse possível ver do outro lado para garantir que estavam bem.
Era culpa dele que estivessem ali e sentiu-se responsável por jogar todos no meio daquilo.
Se tivesse ficado quieto seus amigos estariam bem, provavelmente procurando um novo esconderijo depois da última invasão que parecia ter acontecido há meses, não há poucos dias. Poderiam nunca ter a chance de encontrar respostas, mas estariam seguros e vivos, o que ele já não sabia mais se todos estavam.
- Não, . - falou com os olhos marejados. Ela pensava o mesmo que ele e sabia disso, estava, inclusive, ciente da possibilidade. - Não. - repetiu. - Eles estão bem.
- Vamos ter que ver isso depois. – insistiu ao ver petrificado no local. A dor era perceptível em sua voz, mesmo ele lutando para controlá-la, mantendo-se são pela equipe. - Não dá mais tempo. Precisamos ir enquanto ainda podemos ou ficaremos presos aqui. Temos que ir, .
voltou a se aproximar, o fazendo com toda a calma do mundo apesar da situação. Ela segurou em sua mão para puxá-lo, fazê-lo andar, mas com um novo tremor a estrutura do prédio começou a ruir e gritou com o estalo que soou próximo demais. a puxou para trás quando a rachadura apareceu entre eles, separando-os em duas duplas e arregalou os olhos ao se dar conta disso.
- ! - gritou, mas uma fenda já se abria no chão, fazendo com que os dois do outro lado, e , se desequilibrassem. - Segura a minha mão! - exclamou ao ir até a beirada, mas já era tarde demais.
Com um novo tremor o piso ruiu e foi a primeira a ser puxada, soltando suas mãos sem que tivesse tempo se segurá-la com mais força. Imediatamente, ele se jogou na fenda para impedí-la de cair no fosso do elevador, mas não teve tempo de suspirar aliviado por ter conseguido alcançá-la. O peso dos dois na beirada foi demais para a estrutura fragilizada e teve tempo apenas de ver abrir a boca em um grito que não foi capaz de ouvir. O companheiro avançou em sua direção, independente da fenda entre eles para resgatá-lo, mas foi impedido por que o envolveu com os braços. jamais conseguiria pular daquela distância para chegar até eles e, mesmo que conseguisse, nada garantiria que seria capaz voltar.
sabia que não tinha mais nenhuma chance, mas olhando uma última vez para o amigo, sorriu antes de cair para a escuridão, tentando afastar o pensamento de que tudo havia sido em vão afinal. Tinha levado os amigos para a morte e pagaria por isso com a própria vida. Parecia um preço justo a pagar. Se as chamas não os matasse a queda provavelmente mataria, mas foi tomado pela surpresa quando o que deveria ser a morte finalmente chegou.
Nenhum deles era expert no assunto, mas não precisava para saber que a queda não tinha durado, nem de longe, o tempo que deveria ter durado. Haviam subido andares demais apesar do pouco tempo que passaram ali simplesmente porque não haviam parado para explorar as salas, mas a dor que sentiu ao se chocar com o chão, rápido demais, não parecia exatamente com a morte, por pior que fosse.
Desconfiava de ter torcido ou quebrado o pé esquerdo. Sentia sangue escorrer de um dos seus braços e sua cabeça latejava tanto quanto suas costas, mas estava vivo, sabia disso. Preocupado com a garota, se sentou com cuidado, sentindo o corpo reclamar no percurso e estreitou os olhos para o ambiente poluído ao seu redor em uma mistura de poeira e fumaça das chamas.
tossiu e ouviu fazer o mesmo ao seu lado. Não podia vê-la direito, seus olhos ardiam quando tentava abrí-los, mas pode sentir seu movimento quando ela o fez, soltando suas mãos para se sentar também.
- O quê… onde? - ela começou, soando tão confusa quanto ele e negou com a cabeça, mesmo ciente de que ela não veria. - Longe de mim reclamar, mas não deveria ser pior? - quis saber, esforçando-se para levantar.
sentia-se meio zonzo e somente quando a garota se voltou para ele notou que ela não estava tendo tanta dificuldade assim para enxergar em meio a fumaça. As coisas pareciam mais claras para ela, como se sua cabeça que estivesse criando aquele estado de confusão. Viu a expressão de assumir um semblante ligeiramente preocupado e se apoiou no chão para levantar. vacilou e ela se adiantou para ajudá-lo, fazendo com que passasse um dos braços por seus ombros.
- Está tudo bem? - perguntou e ele concordou. Além da confusão e do pé dolorido, tudo parecia em ordem e ele ergueu o olhar para tentar entender o que havia acontecido e a distância que haviam caído. Pela lógica, ao cair em um fosso de elevador você só para quando atinge ao fundo, mas terminaram em uma sala que não tinha porta de elevador, apenas um buraco sem muito sentido no teto. Quando notou o que ele fazia, fez o mesmo, acompanhando o seu olhar e estreitou os olhos quando, como ele, provavelmente não chegou a qualquer conclusão que fizesse sentido. - Parece um andar secreto escondido entre dois andares. - falou e levou mais tempo do que o normal para entender como ela havia chegado àquela conclusão. Estavam a meio caminho de um andar para o outro, o que o fez se sentir até mesmo meio ridículo por ter conseguido de fato se machucar com a queda.
Pior que isso apenas os pensamentos de autopiedade, mas seria autopiedade de martirizar por isso também. E nem era como se tivessem tempo.
Ouviram mais tossidas vindas de algum lugar no cômodo e se calaram imediatamente, acompanhando o som com o olhar. Não estavam exatamente em um cômodo, era mais como um lob de entrada com um balcão de recepção ao lado. As tosses vieram do corredor, provavelmente de uma das salas mais adiante que não conseguiam ver direito em meio as chamas.
- Ótimo, a gente com certeza precisava disso ainda. - reclamou, olhando para cima novamente. A queda podia não ter sido assim tão grande quanto esperava, mas não se podia dizer, de forma alguma, que escalar aquela altura seria fácil, ainda mais com um dos pés comprometido.
- Temos que sair daqui. - ela falou e não podia concordar mais. Seria apenas muito útil que soubessem onde diabos era aquele aqui para que pudessem se livrar dele e, de preferência, em um tempo hábil o suficiente que os impedisse de morrer queimados ou soterrados. Nada muito urgente. - Mesmo sendo uma sala secreta, tem que ter outro acesso além desse elevador.
- Tem a que explodiram há uns cinco minutos. – uma voz familiar respondeu e não levou nem meio segundo para identificar como sendo de , mesmo que a inalação de fumaça tivesse prejudicado sua fala. Ela tossiu em seguida e tentou dar um passo a frente para chegar até ela. Não conseguiu devido ao pé machucado que o desequilibrou, mas não importava. Já sentia um enorme alívio lhe invadir. Esperava que e tivessem conseguido, e estavam vivos e inteiros na sua frente e, dessa forma, só faltava Tracy para que ficasse mais tranquilo.
Por pior que fosse a situação, não havia matado os companheiros, havia uma chance para todos eles, precisavam apenas sair dali.
- Vocês estão bem? - perguntou, mesmo que ainda desconhecessem uma enfermidade que não pudesse curar. - Cadê Tracy? Por que ela não está com vocês?
- Ela conseguiu sair antes da explosão. – respondeu, juntando-se a eles lado a lado com um coberto de ferrugem.
- Como? - perguntou, confuso, mas acompanhou com o olhar quando esta, sem que fosse necessário dizer qualquer coisa, se abaixou a sua frente e tocou o tornozelo do pé que mal encostava no chão. Inicialmente, ele fez uma careta quando, como o costume, sentiu a sensação incomoda de formigamento, mas fez um trabalho excelente em distraí-lo ao responder, por , a pergunta que ele havia feito:
- Tracy tem ligação com o . - disse, fazendo arregalar os olhos em surpresa.
- O quê?! - perguntou, perplexo, mas imediatamente foi tomado pela lembrança de descrevendo perfeitamente a sensação de estar conectado a alguém. - Puta merda. - falou, chocado, e encarou com interrogação no olhar assim que ela voltou a se levantar. Ele se quer notou quando ela terminou, perplexo demais com a informação para se dar conta do alívio de não sentir mais a dor em seu tornozelo. - Você sabia disso?
- Desconfiava de que tinham tido com alguém pela forma como falavam sobre o assunto às vezes, mas jamais um com o outro. - ela respondeu, tomando seu braço em seguida para curá-lo também. Um corte se estendia do seu cotovelo até metade do braço, mas ele negou. Curar era mais exaustivo para ela do que usar as reservas para o ataque e não sabiam ainda o caminho que teriam que percorrer até estarem seguros do lado de fora.
- Posso lidar com isso, obrigado. - agradeceu e ela olhou para , que negou com a cabeça.
- Está tudo bem. - falou e concordou.
- O mais chocante é que ela nem gosta de homens! - exclamou, voltando ao assunto. Como ela pode ter ligação com um cara se não gosta de caras? A ligação não é isso?
- A verdade é que não sabemos o que é essa ligação, ou como funciona. - respondeu. - Só nós quatro estamos lidando com isso e não é como se tivéssemos qualquer parâmetro de comparação.
, , e Tracy já eram quatro, dois casais com a ligação, mas soube imediatamente que não era a Tracy e que ela se referia, sorrindo de lado para ela que deu de ombros, ciente de que ele havia entendido.
- Desde quando? - perguntou e revirou os olhos. Fazia isso sempre que e se comunicavam daquela forma, como se começassem a conversa pela metade.
- Eu sabia sobre os dois? - perguntou e deixou o queixo cair em surpresa, assim como .
- Eles dois? - o garoto apontou de um para o outro. - Eles têm mesmo a ligação? - perguntou, mas foi ignorado pela garota:
- Desde que você apareceu com ela nos braços. - respondeu como se fosse óbvio. - Ah, por favor, como se você fosse se dar ao trabalho de fazer isso por alguém.
Outra explosão soou de algum lugar naquela andar, os lembrando de que tinham que sair dali o quanto antes. Não havia tempo para conversar, o prédio estava ruindo e ninguém pretendia morrer ainda.
- Precisamos subir o fosso. - falou rapidamente, voltando ao seu tom alarmado e todos correram para o local.
- Estão tentando nos prender aqui dentro, nos matar. - falou alarmada e ele se voltou para ela.
- Como assim?
- A primeira explosão nos derrubou aqui e a segunda fechou a passagem. Foi uma cilada.
Sem dizer nada, negou com a cabeça.
Infelizmente, já tinha desconfiado da cilada, mas não conseguiu ser rápido o bastante para impedi-los de cair nela.
- , vamos com isso. - falou, indicando o buraco a frente e, rapidamente, o garoto o seguiu, criando um clone para ajudar com a mesa que colocaram ali. Mesmo com ela ainda faltava cerca de cinco metros para sumir.
- . - a chamou e suspirando, ela foi a frente para subir na mesa. se abaixou para que ela pudesse subir em seus ombros e assim que ela conseguiu, ele se levantou, materializando outro clone para ajudá-la a ficar de pé ali. Precisaria pular se quisesse alcançar o fosso.
- Isso é uma péssima ideia. - ela reclamou, aceitando a mão que o clone estendia para ajudá-la já que a parede estava muito longe para ser usada como apoio. se segurou nos cabelos dele e parou por ali, meio abaixada e meio de pé enquanto tentava se equilibrar.
- O quão cruel eu vou ser, em uma escala de zero a dez, se torcem para que outra explosão balance o prédio agora? – perguntou, mas por pior que fosse a ideia, não pode deixar de rir.
- Eu ouvi isso, desgraçado! - xingou, quase caindo com a distração.
Mesmo sem ter ideia de como a mesa poderia aguentar tanta gente, foi até lá, empurrando o clone para fazer com que se abaixasse. Subiu ele mesmo em seus ombros para ficar alto o suficiente para poder ser utilizado como apoio e só então a garota conseguiu, faltando poucos centímetros para poder se segurar nos cabos.
Novamente, ela choramingou.
- Vai ter que pular. - falou, sem precisar ver para entender seu receio. - O máximo que vai acontecer se você não conseguir alcançar é cair, mas não é como se eu fosse deixar. - ergueu a cabeça para sorrir para ela e, depois de suspirar, fechou os olhos, preparando-se para pular. - Não, não! De olhos abertos, de olhos abertos! - exclamou e com o susto tomado, ela pulou repentinamente.
Foi uma sorte que tivesse agarrado os cabos de primeira, pois seu salvador, , caiu com o impulso, reclamando ao bater a cabeça na parede.
- Realmente, um herói. - ironizou, subindo na mesa em seguida. – Vamos logo. – o chamou e xingando baixo, materializou outro clone para ajudá-la ao invés de ir ele mesmo. O clone se abaixou para que ela pudesse subir em suas costas e assim que conseguiu ficar de joelhos em seus ombros, estendeu a mão para ela que negou. - Posso fazer isso. - disse e ele, por sua vez, ergueu as mãos como se pedisse rendição. Sem dificuldade, ela conseguiu pular, agarrando-se nos cabos de primeira assim como havia feito.
- Agora sua vez. - o verdadeiro , agora recuperado, falou a . Devido aos clones, precisava ficar por último. Apenas ele poderia ajudar a si mesmo.
se aproveitou do clone do qual já estava sobre os ombros e ficou de pé ali, pulando até o cabo de aço. Ele olhou para cima, já estava quase no topo e a seguia de perto. Sabia que aqueles cabos haviam sido feitos para suportar o peso de um elevador para cerca de seiscentos quilos, mas não era como se um único cabo fizesse tudo isso. Olhou para baixo, para , prestes a lhe pedir que esperasse, mas não foi necessário quando ele já o fazia.
Apenas quando e chegaram ao topo é que começaram a escalar, abrindo espaço para quando uma nova explosão soou, agora ao longe.
- Se apressem! - gritou, levantando-se apreensiva e não precisava ser um gênio para saber o que se passava em sua mente. Era o mesmo medo que consumiu quando a primeira explosão se fez audível, o de perder os companheiros em culpa daquele plano estúpido.
Se quer era um plano na verdade e por isso era tão estúpido.
O mais rápido que puderam, terminaram de subir pelos cabos. primeiro, estendendo a mão para ajudar a ficar de pé.
Sem trocar mais nenhuma palavra, se colocaram a correr. Não havia o que dizer, ninguém precisava mais verbalizar o óbvio. Precisavam sair dali e, de preferência, encontrar com os outros quando chegassem lá fora.
O prédio, antes completamente intacto, agora parecia ter sido uma zona de guerra. Partes do forro caiam no chão em chamas. Vigas desabavam, rachaduras se estendiam ao longo das paredes e o calor era quase tão insuportável quanto a fumaça que os fazia tossir. Correr naquelas condições era terrível, mas o fizeram por necessidade enquanto ignorava aquela sensação terrível de que havia algo errado. Algo mais errado.
A verdade era que, apesar das explosões, estava tudo muito fácil. Haviam mandado três homens como eles para pará-los, mas então simplesmente decidem por o lugar abaixo com eles dentro, sem nenhum esforço extra para garantir que ficariam lá?
Como se seus pensamentos tivessem alguma espécie de poder maldito, o teto cedeu bem a frente deles, pouco antes de passarem e, dessa vez, bloquearam o caminho por completo, impedindo-os de continuar por ali, justamente o caminho que conheciam. Havia outro em meio aos corredores, sabiam que sim, mas não era como se pudessem descobrí-lo sem se perderem antes e amaldiçoou mentalmente, desviando a rota por falta de opção.
E foi ali, então, que tudo ficou pior. Terem se perdido com certeza teria sido melhor.
O corredor escolhido como caminho terminava em uma grande câmara ligada a diversos outros corredores.
Assim que chegaram até ela, todos os corredores começaram a se fechar.
Haviam sido guiados até ali a presos como ratos em uma ratoeira.
- O que está acontecendo?! - perguntou em um grito frustrado. Não tinham tempo para perder tentando descobrir como sair de mais um lugar.
- Não para, não para! - gritou, tentando correr até a próxima porta, mas esta fechou antes que chegassem, fazendo com que ele urrasse em frustração ao trombar-se com ela.
- Inferno! - gritou também, a esmurrando em seguida. - O que diabos está acontecendo agora?! - perdeu o controle, esmurrando-a novamente, e outra vez depois dessa.
- , não está ajudando! - gritou, tentando em vão pará-lo. - ! - insistiu, voltando-se para logo depois. - Faz alguma coisa!
- O que você quer que eu faça? - perguntou, tão exaltada quando ou o próprio . - Ajude ele?
- Pare-o antes que se machuque! – gritou para ela, tão frustrada quanto qualquer um.
- Vamos nos machucar de qualquer forma, quando morrermos! – devolveu, também aos berros, e deu um passo em sua direção.
- Não vamos morrer aqui!
- Você tem alguma ideia? – retrucou, rindo em deboche. - Se tiver, por favor, compartilhe!
- Não, eu não tenho, mas gritando não vamos encontrar uma! – respondeu, como se ela também não gritasse.
- Podemos sair pelo teto. - sugeriu e as duas se voltaram para ele enquanto soltava o ar pela boca, negando com a cabeça desacreditado.
- Isso, vamos. - respondeu. - Ai a gente aproveita e derruba a porra do prédio na nossa cabeça!
- Foi uma sugestão! – exclamou. - Pelo menos eu dei uma!
- Foi idiota, não dê! - respondeu irritado antes de chutar a porta de vidro.
- Será que tem como parar de gritar pra pensarmos em algo? - pediu novamente e dessa vez suspirou para tentar recobrar o controle. , por sua vez, apenas bufou em indignação, mas optou por pelo menos não falar nada. - Ótimo, o que podemos fazer agora? - começou, mas foi interrompida por uma nova voz:
- Absolutamente nada. - disse a mulher e todos voltaram-se pra ela imediatamente, de pé em frente a uma das portas. Deveria ter cerca de quarenta anos e ela escondia os olhos atrás de uma franja cumprida demais. - Não podem fazer nada.
- Quem é você? - disparou e ela gesticulou com a mão como se disse que não importava.
- Isso não é realmente relevante. - respondeu. - Meu nome não vai dizer nada a vocês.
- Eu não estou nem ai pro seu nome. - retrucou bruscamente. - Foi uma pergunta má formulada pra saber que porra você quer, ou que porra está fazendo. De que porra saiu também serve.
Com seu ataque verbal, ela sorriu.
- É por esse tipo de comportamento que todos vocês do D1 precisam ser eliminados e eu vou garantir que aconteça, nem que eu tenha que morrer junto. – disse, calma o suficiente como se falasse do tempo e não em suicídio e assassinato.
- Vai morrer sozinha. - falou, cuspindo as palavras. - Quando eu abrir essas portas, vou te matar e você vai morrer sozinha.
- Essas portas só abrem por fora. - ela falou claramente satisfeita e deu um passo para mais perto, dando duas pequenas batidas no vidro. - E também não permitem que utilizem seus poderes, por isso estou aqui.
- Por que não tem coragem de nos enfrentar sem um escudo? - desafiou e ela somente sorriu outra vez.
- Por que eu queria que soubessem porque precisam morrer. – devolveu em uma tranquilidade irritante. - Só estão no mundo por minha causa, criei vocês, e nada mais justo do que levar todos para o túmulo.
- Só tem uma falha nesse seu plano, querida. - falou uma segunda voz, vinda do mesmo corredor onde ela estava e só levou alguns segundos para poderem ver o dono dela. Um homem grisalho com cerca de cinquenta anos que, definitivamente, parecia muito bem conservado. - Foi eu o responsável, não você.
- Eles só existem porque eu permiti! - ela gritou, perdendo completamente a calma ao se exaltar de forma quase assustadora enquanto apontava para si mesma. Em questão de segundos era como se tivesse virado outra pessoa e o grupo, preso do outro lado do vidro, se entreolhou. - Fui eu quem aceitou fazer isso, quem deu a ordem! Foi eu quem atraiu todas aquelas mães desesperadas para isso, fui eu! – continuou e recebeu aquela afirmação como um soco no estômago. Não precisava ser um gênio para entender ao que ela se referia, que sua própria mãe era uma daquelas “mães desesperadas”.
- E isso adiantaria de algo se não tivesse a fórmula correta? – o homem respondeu com toda a serenidade do mundo.
- Não era correta! – ela gritou apontando para trás, para eles. - Eles são um erro! Tentamos criar uma raça para combater aquilo e apenas os fortalecemos! Eles fazem parte da raça que tentamos destruir!
O homem apenas sorriu dócil, mas os jovens que ouviam a conversa sentiram o impacto daquelas palavras. Era verdade, haviam surgido como resultado de alguma experiência maluca, mas a segunda parte ainda não fazia qualquer sentido.
Sem ao menos notar o que fazia, deu dois passos lentos em direção a porta, engolindo em seco enquanto esperava para ouvir mais. Finalmente estava tendo a resposta que por tanto tempo buscara.
- Eles são humanos, apenas humanos. – respondeu o grisalho suavemente. - São crianças.
- São monstros! – ela o interrompeu em um ataque histérico, como se repentinamente tivesse perdido completamente o juízo. - A condição deles os faz mais fortes, jamais conseguimos criar outros! Jamais conseguiremos porque são aberrações! Precisamos matá-los agora antes que dominem o que restou do mundo!
- Eles são o futuro do mundo, os únicos que podem reconstruí-lo. – o homem respondeu enquanto tentava decidir que lado deveria ouvir. A mulher parecia completamente fora de si, sim, mas o que garantia que, na verdade, não fosse o impacto da verdade afetando seu juízo? Suas palavras não faziam sentido: Aberrações, dominar o mundo, mas o fato do homem parecer tão familiarizado com aquilo tudo só o deixava ainda mais intrigado. E confuso. – Trisha, eles são os únicos que podem brigar de frente com a ameaça justamente por terem um pouco dela. – continuou, dando um passo em sua direção. - Cumprimos nosso objetivo a partir do momento que criamos pessoas capazes de combater o problema, mesmo quando ainda não temos certeza do que é de fato.
- Não! - ela gritou, cobrindo os ouvidos para não escutá-lo mais. - Não, não, não!
- O que é que está acontecendo? – perguntou em um sussurro, como se falasse consigo mesma, e negou com a cabeça.
- Trisha, abre as portas, eles precisam sair. – pediu o homem e ela negou com a cabeça repedidas vezes, rápido o suficiente para ficar tonta.
- Não! - gritou novamente, agora segurando o controle em suas mãos com mais força. O homem deu mais um passo para a frente, mas agora ciente disso, ela ameaçou jogá-lo no chão. - Não se atreva!
- Trisha, por favor. Você vai matar todos nós… - tentou, mas ela continuou negando.
- Ninguém está te obrigando a ficar! Vá embora!
- Não posso deixá-los aqui. – insistiu, entendendo a mão como se pedisse a ela o controle.
- Não pode porque é um monstro como eles! Você fez aquilo com aquelas mulheres para poder criar sua raça perfeita e agora os defende por mais coisas erradas que façam!
- Eles nunca fizeram nada de errado, Trisha. – defendeu, mas foi uma péssima escolha de palavras:
- ELES NASCERAM! – gritou, puxando os próprios cabelos. - ELES SÃO UM ERRO! ISSO ESTÁ ERRADO!
- Trisha, se escute. – falou, mantendo uma calma quase invejável diante da situação. Outra explosão soou vinda de algum lugar e por um instante, desviou a atenção para o teto como que para confirmar que não desabaria sobre ele. - Fomos nós que fizemos isso, não eles. – o homem continuou e voltou a prestar atenção, receando perder qualquer detalhe que fosse fazer aquela bagunça ganhar algum sentido.
Ainda não conseguia entender a principal parte, a raça a qual a mulher se referia, o motivo pelo qual queria tanto matá-los insistindo que eram um erro, mas temeu que isso tivesse relação com o que quer que tivesse acontecido com o mundo. Ficara claro, pelo ritmo da conversa, que esse foi o objetivo pelo qual as experiências foram feitas: Criar pessoas com poder o suficiente para combater esse mal, mas não conseguiu entender qual.
E isso era o que mais queria saber.
- Não, não… - a mulher voltou a negar, mas começou a chorar em seguida, claramente exaltada. Aproveitando-se disso, o homem se jogou sobre ela, pegando o controle em mãos. Com um grito, Trisha tentou tirar dele, mas ele já abria as portas, liberado os dois casais.
- Vão embora, vocês precisam ir! – gritou para eles, gesticulando para que fossem de uma vez. – Rápido!
- Não! - a mulher voltou a gritar, com o dobro de força. Tentou se jogar sobre , mas o homem a impediu.
- Vão! – insistiu, mas negou, sedento demais por respostas para simplesmente virar as costas para elas dessa forma. Não sabia se teria outra chance, especialmente agora que a única pista estava caindo.
- Precisamos saber mais! – insistiu enquanto o homem segurava Trisha com mais força ao vê-la se debater aos berros.
- Não há tempo! – exclamou alarmado, finalmente perdendo a calma. – Você precisa ir.
- Tem que haver! – não vacilou. - Do que ela está falando? Que raça?!
- Vão!
- Os parasitas do espaço! - a mulher gritou em resposta a , que se voltou para ela no mesmo instante, preocupado com o que aquilo podia significar. - Filhos dos parasitas do espaço!
- Espaço? - perguntou vacilante, mas sua voz foi abafada pelo som ensurdecedor do prédio que começava a ruim.
- Temos que ir! - gritou, segurando pelo braço, mas ele se soltou, avançando da direção do homem em um último ato desesperado.
- Essa ligação entre nós, como fizeram isso? – perguntou, segurando-o pelo colarinho da camisa. Era um gesto agressivo, mas nunca antes havia soado tanto como um garoto assustado.
- Ah, não fizemos essa parte, meu rapaz. - o homem respondeu com um sorriso quase bondoso nos lábios. - Isso foram eles, os parasitas do espaço. - falou simplesmente antes que a placa de gesso sobre o teto se desprendesse.
- ! – gritou em pânico quando ele, sem reação, não se moveu. A garota avançou em sua direção imediatamente, o puxando no último estante quando a placa caiu sobre o homem, esmagado-o junto com a mulher enquanto o sangue de ambos respingava para todos os lados, especialmente sobre o casal. escondeu o rosto no ombros de para não ser atingida, mas tudo o que ele fez foi olhar perplexo para a cena, tentando assimilar o que diabos havia acontecido ali.
- , precisamos ir! - voltou a gritar e saindo da inércia, segurou a mão de enquanto , de mãos dadas com , tomava a dele.
O prédio desabava e o tempo era curto se pretendiam sobreviver.
Eles pretendiam sobreviver.

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CINCO MESES DEPOIS


Já fazia cerca de vinte minutos que andava, para cima e para baixo, atrás de . Havia perguntado sobre ele para pelo menos metade das pessoas na base e ainda não tinha encontrado qualquer sinal de que estava ali, como se tivesse desaparecido.
Não que tivesse.
Tinham descoberto coisas interessantes quanto a ligação nos últimos meses, embora ela ainda fosse a pior naquilo assim como era com seus próprios poderes.
podia encontrar onde quer que ela estivesse, sem qualquer esforço, utilizando-se apenas daquilo enquanto simplesmente passava nervoso sempre que precisava achá-lo em um lugar tão grande. Sabia que ele fazia de propósito, sumia para que ela treinasse ao tentar encontrá-lo e isso apenas a deixava ainda mais furiosa.
Quando finalmente o avistou, parou onde estava, não podendo deixar de apreciar a visão de tê-lo de frente para o mar, refletido na água sob a luz do luar. vestia uma camisa branca que o deixava ainda mais visível e ela perdeu o ar simplesmente porque ele tinha aquele poder sobre ela na maior parte do tempo. E não era só devido a ligação.
Outra coisa que aprenderam era que o desejo pela outra pessoa não necessariamente fazia parte ligação. Ela unia as duas pessoas, mas não as obrigava a ficarem juntos. Descobriram isso com e Tracy, mas o ocorrido se repetiu com mais dois outros casais que encontraram ao longo ao tempo. Todos que hoje faziam parte da base que haviam fundado.
Graças aos irmãos gêmeo Connor e Cohen, puderam desenvolver tudo que precisavam para começar uma nova vida, uma nova civilização. Os rapazes tinham o poder de usar uma maior parte do cérebro e eram como gênios natos capazes de absolutamente tudo.
Tinham os encontrado quando buscavam respostas capazes de preencher as lacunas criadas pelos cientistas há cinco meses atrás, na explosão do laboratório. Tracy roubara materiais que não imaginavam como ler ou acessar, mas que sabiam, era tudo que precisavam. Foram até lá procurando entendimento e saíram com mais dúvidas, quase enlouqueceram por isso, tentando entender o que tinham escutado sem possuir todas as informações.
Foi sem querer, nos fundos de uma loja de jogos de vídeo game, que encontraram as pessoas capazes de ajudá-los. Levaram dias para superar o que escutaram nos áudios gravados, tinha um para cada um deles.
se lembrava claramente do que aquilo havia causado em . A esperança no diário de sua mãe os levou até o laboratório, mas aquela esperança nunca havia existido de fato. A mulher nunca fugiu com o diário da clínica, o diário havia ficado e sido adulterado. só o encontrou porque o cientista os queria lá para terminar o que havia começado.
Eles eram projeto DNA 1. O único que seu 100% certo. Ele queria testá-los, descobrir o motivo, enquanto os outros queriam apenas exterminá-los por terem dado poderes ao que mais queriam destruir. Não que essa parte tenha ficado muito clara de qualquer forma.
Ninguém podia provar o que havia dizimado a população ainda, mas aconteceu junto com uma luz misteriosa vinda do espaço. Força cósmica? Alienígena? Divina? Jamais saberiam dizer. Aquela parte era um mistério tão grande quanto tentar entender de onde surgiu a ligação que tinham, especialmente quando ambas as coisas possuíam a mesma energia.
- Levou dez minutos a mais dessa vez. - disse sem virar-se para encará-la, ciente de que estava ali mesmo sem isso. Não era necessário, ela sabia, mas bufou ainda assim antes de se aproximar. Nunca podia se esconder dele, nunca podia mentir. Ele sempre sabia a verdade mesmo quando queria mentir sobre o quão saco era tudo aquilo.
- Você se escondeu melhor também, idiota. - xingou e ele lançou a ela o mesmo sorriso cínico que sempre lhe tirava o ar.
- , você não está fazendo isso direito. - ele falou, com toda paciência do mundo, e ela o imitou com a voz afetada.
negou com a cabeça, encarando-a com divertimento no olhar e mesmo tendo um vislumbre o que ele pretendia fazer, não teve tempo de fugir antes de ser puxada para o colo dele.
- Babaca. - ela o esmurrou, não usando nem um terço da força que usaria para esmurrar alguém por querer e ele riu, limitando-se em concordar com a cabeça antes de juntar seus rostos, roçando o nariz em sua bochecha e a fazendo fechar os olhos por reflexo. - Porra, . - ela reclamou e ele abriu um sorriso com os lábios em sua bochecha, a mordendo em seguida antes de abrir os olhos ao se afastar minimamente, encarando-a sem dizer uma palavra.
Não era preciso.
O mundo que liam nos livros podia não existir mais. O passado de todos eles podia ser manchado com o sangue de uma experiência aplicada contra a vontade dos envolvidos, mas apesar disso, apesar de todo o medo, havia sim esperança, havia chance de uma nova civilização porque, por mais doloroso que fosse, a verdade era que mesmo erroneamente os cientistas haviam alcançado o ponto que queriam, haviam conseguido sim criar uma nova raça capaz de sobreviver as dificuldades de um mundo iniciado novamente a partir do zero.
Podiam odiar todos os envolvidos na experiência o quanto quisessem, mas algo que o homem havia dito estava certo, eles eram o futuro. O único futuro. Tinham a inteligência para restaurar o mundo com os irmãos, de curá-lo com , o de buscar novas pessoas para ele com Tracy e, principalmente, o de comandá-lo com .


Fim.



Nota da autora: Aaaaaaaaaaaah eu estou tao orgulhosa dessa fic! <3 Deu um trabalho tipo do tamanho do universo TODINHO, mas eu fiquei feliz com o resultado e espero que tenham curtido também.
Comentem, pls! <3
Xx
Mayh.



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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