Finalizada em: 30/11/2016

Capítulo Único


- Ei, como está indo? – perguntei, obviamente sem jeito depois de tantos dias sem tentar qualquer contato. Depois da conversa no nosso último encontro, depois do que quase havia acontecido, aquela atitude me parecia totalmente válida, mas ainda assim sentia-me culpado por isso. Apesar da falta de resposta, eu soube, ouvindo sua respiração através do telefone, que estava lá. Ela esperava um pedido de desculpas. Queria que eu dissesse algo que valesse a pena, que a fizesse me perdoar para que tudo voltasse a ser como antes, mas não dava mais para levar aquela situação adiante. Ela, mais uma vez, havia ignorado o problema após receber alta e alguém precisava ser honesto. Alguém precisava ter coragem para dar o primeiro passo e por mais que doesse, eu o faria. Ela precisava seguir adiante e não o faria enquanto eu tivesse em seu caminho. – Ahn... Você pode encontrar embaixo da Rua Adelaide? – tentei novamente. Não podia fazer aquilo por telefone, tão pouco poderia ir até sua casa e por mais irônico que fosse nos encontrarmos lá, parecia a melhor opção. Aquele ainda era nosso ponto de encontro no final das contas. Sempre foi. Mais uma vez, ela simplesmente ficou em silêncio e parei finalmente de andar de um lado para o outro no quarto, olhando as gotas finas de chuva caírem, molhando a janela e o asfalto do outro lado da rua. – Precisamos conversar, . – insisti, já temendo que, na verdade, não fosse ela do outro lado da linha.
Não, o destino não seria tão cruel. Ele já deveria estar satisfeito depois de tudo que a fazia passar.
- Você desapareceu por dias. – respondeu finalmente, com amargura. – O que tem para dizer agora? – perguntou, mas sabia que no fundo ela entendia o que eu havia feito, e porquê. Ela só queria que eu falasse algo que nos permitisse deixar aquilo para trás para que tudo voltasse a ser como era, mas eu não podia deixar aquilo acontecer. Eu queria que o que sentíssemos fosse suficiente, mas não era e aquilo acabaria matando-a.
- , Rua Adelaide. – repeti e pude até mesmo imaginá-la revirando os olhos do outro lado da linha.
- Certo, meia hora. – ela falou antes de desligar e apenas me joguei na cama por um instante, tomando coragem para o que vinha a seguir.


FLASHBACK


Ciente de que , muito provavelmente, não se lembraria de que precisava almoçar, fui até seu escritório no centro. Não gostava de aparecer no seu trabalho, sempre tinha receio de que fôssemos pegos. Mais receio do que ela inclusive, que era quem deveria se preocupar mais com aquele fato.
Mas era o primeiro dia dela de volta e eu tinha certeza que ela não se lembraria de almoçar, preocupada com dezenas de trabalhos acumulados que ela revisaria mesmo sem necessidade.
Sem se preocupar em me anunciar, sua secretária fez sinal para que eu subisse e agradeci a ela com um aceno de cabeça, fazendo uma careta assim que entrei no elevador.
Elas eram grandes amigas, e Luna, mas eu ainda assim não conseguia me ver tranquilo com o fato de alguém saber de nós, especialmente quando esse alguém não gostava de que houvesse um nós. Se ela era amiga de , aquilo fazia sentido, eu colocava coisa demais a perder.
Quando finalmente cheguei em sua sala, as persianas estavam abertas e bati fraco no vidro para me anunciar ao invés de fazê-lo na porta, entrando em seguida. Seu sorriso se iluminou ao me ver apesar dela estar mais pálida do que no dia anterior, provavelmente atarefada com tantas coisas que havia arrumado para fazer de uma só vez.
Ergui a sacola em minhas mãos e ela fechou os olhos, respirando por um instante antes de alargar ainda mais o sorriso.
- Sushi do Don? – perguntou animada mesmo já sabendo a resposta, e concordei com a cabeça. Satisfeita, bateu palmas animadas, levantando-se imediatamente. Parou por um instante, fazendo careta pra o relógio, e acabei rindo por isso enquanto fechava as persianas.
- Sim, já é essa hora. – falei e ela mostrou a língua para mim antes de se sentar de pernas cruzadas no chão, batendo uma das mãos logo em frente pra que me juntasse a ela.
Antes que eu se quer terminasse de fazê-lo, ela tirou a sacola das minhas mãos, a colocando entre nós para ver o que eu havia trazido.
- E eu pensando que essa animação toda era por mim. – ironizei e ela deu de ombros.
- Só me animo com comida. – respondeu, abrindo um sorriso exageradamente largo e fingido em minha direção quando estreitei os olhos para ela. – Talvez você tenha, assim, uns por cento de colaboração. – falou, mandando um beijo no ar antes de se voltar mais uma vez para a sacola, tirando de lá uma garrafa de suco e a sua latinha de chá gelado. Quando mantive a mesma expressão, se fez de desentendida. – O que? Talvez dez?
- Sem graça. – reclamei, puxando a sacola de sua mão, e ela fez bico.
- Trouxe tudo isso e vai mesmo me deixar sem comer? – perguntou manhosa e revirei os olhos, mesmo achando graça. Quando estendi a ela sua bandeja comemorou novamente, a aceitando antes de puxar os hashis da sacola. Entregou um par para mim e ficou com o outro, abrindo o saquinho antes de fazer o mesmo com sua bandeja.
Olhando para ela daquela forma, tão animada e alegre, parecia difícil notar nossa diferença de idade. Mais difícil ainda notar que ela passava por tudo que vinha passando, mas deixei o pensamento de lado enquanto abria minha própria bandeja.
- O que foi? – ela perguntou, já com o hashi na boca, ao notar algo de errado e apenas ri da situação.
- Tenta falar sem isso na boca. Fica mais fácil. – provoquei e ela me olhou feio por isso, poupando-se de responder para morder mais um Uramaki.
- Céus, isso é muito bom. – ela suspirou, ainda de boca cheia. – Comida de hospital é uma droga.
- E lembrar de comer pode ser legal. – comentei. – Sabe, pra não voltar pra lá.
- Eu não me esqueci de comer. – ela respondeu após mastigar, escolhendo animada o que ia comer a seguir. – Só estava faltando um bom incentivo. Sabe, como esse. – ela levantou para mim um Hot Roll, sorrindo, e acabei rindo dela enquanto começava a comer.
- Ainda preferia uma pizza. Ou, quem sabe, comida italiana. – falei, pensando em um enorme pedaço de lasanha, e ela forçou uma careta.
- Ninguém precisa de pizza em um mundo com comida japonesa.
- Graças a Deus que existe pizza em um mundo com comida japonesa. – devolvi e ela apenas me mostrou a língua antes de voltar a comer, acabando com seu prato e parte do meu, cerca de quinze minutos depois.
- Você pode vir sempre me lembrar de comer. – convidou. – Mas só se trouxer comida.
- Certo, pizza da próxima vez. – falei e ela fez bico, virando-se para se deitar no meu colo. A abracei imediatamente e ela fechou os olhos.
- Quanto tempo temos para ficar assim?
- Eu sempre tenho todo o tempo do mundo. – brinquei e ela riu, resmungando logo em seguida.
- Trabalhar é um saco. – falou ela e eu concordei, procurando meus lábios com os seus em seguida. Ela sorriu com o gesto, tocando meu rosto, e aprofundei o beijo, abrindo seus lábios com os meus para isso.
De repente parecendo tão incomodada com aquela posição quanto eu, se levantou, afastando nossas bocas apenas para se sentar em meu colo. Suas mãos foram para meus cabelos, torcendo os dedos dos fios enquanto me beijava e a puxei mais para mim, precisando do seu corpo colado ao meu com urgência quase absurda depois de alguns dias sem poder visitá-la.
desceu uma das mãos para meus ombros, arranhando meu tórax sobre a roupa em seguida, mas o toque de seu celular fez com que pulássemos de susto e rimos ao nos afastarmos.
- Precisa mesmo atender? – perguntei, choramingando quando ela se esticou para alcançar o aparelho sobre a mesa.
O nome “Mark” pareceu brilhar com o dobro de intensidade na tela. Suspirei frustrado e ligeiramente culpado enquanto ela se levantava, o atendendo.
- Boa tarde! – ela atendeu de forma animada, mas sua voz tremeu enquanto ela passava uma das mãos pela nuca, sem jeito. – Sim, eu me lembrei de comer. – ela respondeu a pergunta que ele havia feito e tentando não prestar atenção na conversa, juntei as coisas de volta na sacola antes de me levantar. – Já comi, não se preocupe. – ela continuou. – Amor, acho que a Luna está me chamando. Posso te ligar daqui há pouco? – ela perguntou, rindo para algo que ele havia dito enquanto eu a esperava impaciente para me despedir. – Eu também. – ela respondeu e o “eu te amo” dele para ela se formou perfeitamente em minha mente.
Ela era casada, bem casada e aquele fardo nos perseguiria enquanto levássemos aquilo a diante.

+++


Já se passavam das dez horas da noite quando estacionei o carro emprestado onde havíamos combinado. Aos dezoito anos, nem mesmo aquilo eu tinha ainda e até mesmo a chance de entrar em uma faculdade parecia um tanto quanto distante para mim. Apenas mais um motivo para aquilo não dar certo.
Apreensivo e um tanto quando deprimido pelo que tinha que fazer, joguei a cabeça para trás contra o banco do carro e suspirei. A chuva ainda caia do lado de fora, gotículas molhando o vidro do carro. Fazia uma semana que o tempo não melhorava, que ninguém via o sol, e sentia-me tão desprezível quanto as nuvens escuras no céu, me impedindo de ver as estrelas ou de ter qualquer esperança de que alguma coisa, mesmo que fosse apenas que o tempo melhorasse.
Ri sozinho quando me dei conta que divagava sobre meteorologia, passando as mãos pelo rosto e se quer notei o Honda branco estacionar do outro lado da rua até abrir a porta do carro, sentando-se ao meu lado. Ela tirou o gorro vermelho que usava na cabeça, passando as mãos pelos cabelos para organizar os fios .
Ela era tão linda que chegava a ser injusto e com o frio, suas bochechas tomavam um tom levemente rosado no qual eu odiava reparar. Era simplesmente ridículo notar detalhes tão insignificantes como aquele. Só fazia com que as coisas se tornassem ainda mais difíceis.
- Espero que você tenha uma ótima desculpa, . – ela falou, virando-se para me encarar.
Naquele momento eu entendi porque alguns preferiam terminar relacionamentos por telefone. Pessoalmente era terrível demais, especialmente quando aquilo era tudo o que eu não queria fazer, definitivamente.
- Desculpe por isso. – comecei, sem ter ideia de que aquela era a melhor forma de fazer aquilo. Quando ela me encarou novamente, esperando uma continuação, soube que na verdade não era.
Também soube, aliás, que eu não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo da minha vida e aquilo foi até reconfortante de certa forma, já que aquele era um dos motivos para dar um fim em tudo.
-É só isso que você tem a dizer? – ela perguntou, soando até mesmo confusa, e neguei com a cabeça sem encará-la.
Não deveria ser tão difícil quando aquilo era o melhor a ser feito. O certo, e mantendo isso em mente encontrei coragem para encará-la.
- Não podemos mais nos ver. – disse por fim, soando muito mais firme do que me sentia. Talvez até mais firme do que um dia já tivesse sido, mas ela manteve a mesma expressão em seu rosto. Suspirei. – , isso... O que estamos fazendo, nem faz sentido. – continuei, fazendo um esforço absurdo para não desviar o olhar do seu. – Eu queria que tivesse qualquer chance de dar certo, mas não tem.
- Você está terminando comigo? – ela perguntou, desacreditada. Sabia que depois da nossa última conversa ela, em algum momento, deduziria o que estava acontecendo, mas não importava. Eu não pretendia voltar atrás. Não podia. Eu a prejudicava mais do que ajudava. A colocava em risco. Aquilo não podia continuar.
- , eu só estou tentando ser honesto. – falei. - Eu não posso te dar tudo que você precisa. Eu nem sei se um dia vou poder. Você merece muito mais do que eu se quer posso prometer e por mais que a gente tente, nós não temos qualquer... futuro. – falei se uma vez, tentando conter o pesar na minha voz enquanto esperava que ela entendesse que eu, na verdade, estava fazendo aquilo por ela. Aquela era a única coisa que eu poderia fazer por ela. – Só estou tentando ser honesto. – repeti em um tom duas vezes mais baixo, incomodado com seu silêncio.


FLASHBACK


- , esse jogo é... ridículo! – exclamou, rindo enquanto brigava com o controle do Xbox.
- Não culpe meu jogo por suas péssimas habilidades, por favor. – respondi, segurando o controle parado a sua frente para que ela se limitasse em apertar os botões, não em sacodi-lo louca e freneticamente como vinha fazendo.
- Solta, deixa de ser chato. – ela reclamou, tentando me empurrar com o ombro mesmo quando estava jogada entre minhas pernas, me usando literalmente como encosto.
- Eu só estou querendo demonstrar que a intensidade com a qual você vira o controle não interfere na curva que o carro faz na televisão. – expliquei e ela acabou rindo do comentário, tentando mais uma vez, sem sucesso, acertar a curva. Ela era realmente ruim naquilo e apenas pude rir mais uma vez, a levando a acompanhar mesmo ciente de que ela era claramente o motivo da minha risada.
Era plena quarta-feira, já estava tarde demais para que ela estivesse ali, em casa, mas para nossa sorte Mark havia tido que fazer uma viagem de negócios as pressas. Não tinha muita certeza se aquilo era uma vantagem ou desvantagem de ser um homem tão bem sucedido, mas tinha certeza que ele não gostaria de saber onde a esposa dele estava.
Não que jogar vídeo-game fosse o problema. Mark provavelmente não ficaria muito feliz, na verdade, em saber o motivo pelo qual ela usava apenas uma camisa para cobrir o corpo. Uma camisa de outro homem. E nem era uma camisa cara como as que ele provavelmente usava, muito menos havia sido eu a comprar.
- Argh, desisto. – ela reclamou, repousando o controle sobre o colo sem, de fato, parar o jogo. Tudo o que ela conseguiu com isso foi fazer com que o carro batesse contra as pilastras de um viaduto, o colocando literalmente abaixo e sobre ela, inclusive. riu quando viu o estrago que havia causado e as palavras “game over” brilharam na tela. – Eu definitivamente não nasci pra isso. Não tem nada mais fácil? – ela perguntou e eu apenas ri.
- Todos eles incluem apertar os botões. – provoquei e ela me beliscou por isso, fazendo com que eu reclamasse de dor enquanto massageava o braço. – Eu só fui sincero. – reclamei, me encolhendo quando ela ameaçou repetir o gesto e ela riu, deixando o controle de lado para se virar de frente para mim, mordendo fraco a região onde ela havia beliscado há pouco. Ergui uma sobrancelha para ela em resposta e subiu para meus lábios, o puxando entre os dentes antes de aprofundar o beijo, passando as pernas ao meu redor.
Por reflexo, levei uma das mãos para as suas coxas enquanto ela me puxava para si e distraídos, nenhum de nós dois notou que não estávamos mais sozinhos até a porta do quarto ser aberta.
pulou para longe de mim com o susto, sentando-se ao meu lado na cama enquanto puxava as cobertas para si, cobrindo as pernas enquanto eu passava uma das mãos pelo cabelo, constrangido com a situação.
Minha mãe era enfermeira no St. Louis e deveria passar a noite por lá hoje. Deveria, pois por algum motivo, estava em casa antes do previsto. Muito antes do previsto, aliás. Pior que isso apenas o fato dela ser enfermeira de e com isso, obviamente, saber que ela era casada. Não comigo.
Provavelmente sem ter ideia do que dizer, tanto quanto qualquer um de nós dois, ela apenas negou com a cabeça, dando as costas em seguida.
- Conversaremos sobre isso assim que você levá-la para casa, . – disse ela, fechando a porta atrás de si. – Você tem meia hora. – completou e eu soube que estava perdido.

+++


- Tentando ser honesto? – ela falou finamente e só de encará-la, soube que estava magoada. Ela era ótima em fingir que estava tudo bem. Conseguia se manter firme sobre qualquer circunstancia. Com tudo que ela passava, não era surpresa que fosse uma mulher tão forte, mas eu a conhecia bem o suficiente para enxergar embaixo daquela máscara. – A gente sabia disso desde o início.
- Que eu não sou bom o bastante? – perguntei e ela revirou os olhos.
- Que isso não importa, . – ela devolveu. - Se ele fosse o bastante com tudo que tem a oferecer, eu não estava com você.
- É com ele que você é casada. – a lembrei, mas ela não pareceu se abalar.
- Mas estou com você.
- Está comigo. – concordei. – Isso parece justo? Comigo ou com ele?
- Você quer que eu escolha? – ela perguntou, soando surpresa, e neguei com a cabeça, passando as mãos pelo rosto. O ponto era justamente aquele. Mesmo que ela escolhesse e mesmo que fosse eu, eu jamais poderia oferecer a ela o que ele oferecia. E ela precisava do que ele oferecia. Ela dependia dele de uma forma que jamais poderia depender de mim.
Eu não podia pedir que ela escolhesse, seria egoísta e totalmente cruel, especialmente na posição em que ela se encontrava.
- Eu nunca disse isso. – respondi cabisbaixo. – Você não pode perdê-lo e eu estou atrapalhando isso, colocando você em risco.
- Você sempre soube disso, . E nunca pareceu ser um problema. É isso mesmo que está havendo? – ela perguntou e levei alguns instantes para entender ao que ela se referia.
- Acha que eu tenho outra pessoa? – perguntei, tão surpreso que quase ri. não parecia achar muita graça, ela falava sério, e obriguei-me a engolir o riso, mesmo com aquela afirmação um tanto quanto absurda. – , é claro que não!
- Então por que isso agora? – ela insistiu. – Eu não entendo como tudo... Como você pode só querer acabar com tudo assim, como se nunca tivesse sido nada!
- Como se nunca tivesse sido nada? , você acha que foi fácil para mim tomar essa decisão?
- Parece! Você... – ela gesticulou em minha direção. – Você está aqui na minha frente, tentando terminar com a maior calma do mundo! Eu não entendo.
- eu juro por Deus que não há outra pessoa. Você pode até dizer que eu estou mentindo, mas... – eu ri, nervoso, e passei uma das mãos pelos cabelos enquanto voltava a apoiar a cabeça no banco. – Tudo que eu sempre disse foi sincero. Tudo o que eu fiz, todas as vezes que nos beijamos. Eu sei que vou me arrepender disso, do que isso vai fazer comigo, do fundo do meu coração, mas você precisa dele muito mais do que precisa de mim e esse é o único motivo por estar fazendo isso. Você pode viver sem mim. Não sem ele. E o mais triste disso é ser tão literalmente verdade.


FLASHBACK


havia tido uma recaída, estava de volta ao St. Louis e como sempre, eu era o último a saber. Havia apenas três pessoas com conhecimento o suficiente sobre nós para decidir que eu me importava com qualquer coisa que acontecia a ela e, infelizmente, duas delas não estavam satisfeitas com nosso caso e a outra, claro, era ela, o que basicamente complicava um pouco.
Para evitar ser visto, esgueirei-me pela recepção, aproveitando-me do fato de não haver ninguém lá para procurar seu nome nos registros, descobrir seu quarto. Graças a minha mãe, sabia como funcionava o sistema do hospital, mas isso não precisaria ser útil se, graças a ela, eu também não estivesse proibido de ver . Não precisaria estar entrando escondido se não fosse por ela, mas não podia culpá-la. era casada, bem casada, enquanto eu se quer sabia ainda se conseguiria terminar o colegial.
Ouvi a voz de Mary, a recepcionista, se aproximar e batuquei apressadamente na mesa, esperando que o computador me mostrasse de uma vez o que eu queria saber. Assim que consegui, fechei a tela as pressas e dei as costas, tentando disfarçar para não ser visto.
- ? – pude ouví-la me chamar, mas fingi que não era comigo, apressando-me para o próximo corredor ao invés disso.
estava na ala B, quarto 308, e o mais depressa possível segui para o elevador, suspirando aliviado apenas quando consegui chegar lá. Pelo que havia conferido no sistema, ela estava sem visitas no momento, o que era ótimo já que eu não tinha mais tantas oportunidades assim de vê-la.
Segui até o quarto olhando ao redor, temendo ser reconhecido por algum funcionário. Quando cheguei na porta, parei ali por alguns instantes, preparando-me psicologicamente para o que iria encontrar.
Após duas batidas leves na porta, a abri lentamente em seguida e virou o rosto em minha direção para conferir quem era. Tentou sorrir, mas parecia fraca demais até mesmo para isso, frágil. Estava ainda mais pálida que o normal, seus lábios rosados estavam sem cor, os fios da peruca que usava, não estavam mais em sua cabeça e não havia qualquer vida em seu olhar. Parecia ainda pior do que na última recaída e me aproximei lentamente da cama, puxando comigo a cadeira ao lado da porta.
- Como você está? – perguntei, segurando sua mão enquanto me sentava ao lado de sua cama e ela deu de ombros.
- Meu último exame... – ela começou, mas fez uma careta quando sua voz, já demasiadamente baixa e sem forças, falhou. Ela tentou suspirar, mas acabou gemendo baixinho de dor, fechando os olhos por alguns instantes para tentar se recuperar. Só de olhar para ela eu sabia, ela tinha piorado. Os médicos tinham medo que o câncer de espalhasse e eu soube, sem que ela precisasse terminar a frase, que aquilo havia acontecido.
- Vai mudar o tratamento? – perguntei enquanto olhava para nossas mãos juntas, mas precisei levantar o olhar para ela, ter certeza que havia escutado quando minha voz soou como um sussurro.
- Eu não quero, ... – choramingou. Ela estava tentando, ao máximo, evitar o novo tratamento que seu médico vinha propondo. Era ainda mais agressivo que o anterior, mas no momento, era a única coisa que podia salvá-la. A única e última esperança, mas ela tinha medo do resultado e não era a única.
- E se essa for a única chance, ? – perguntei cauteloso, temendo pressioná-la. Aquela decisão deveria ser dela e somente dela.
- Do que? – ela perguntou. – Eu tenho recaídas, mas... pelo menos por algumas semanas, eu consigo me sentir um pouco normal. Isso vai acabar se eu começar o tratamento. Se eu agüentar vão ser os piores meses da minha vida. Meses. – ela ressaltou. – Isso se eu agüentar.
- Você pode agüentar. – falei com convicção enquanto apertava seus dedos nos meus. – E então você vai estar bem, sem mais recaídas.
- Vou ter que me mudar para outra país, . – ela falou e por mais que eu soubesse daquilo, senti meu coração se apertar.
- Isso é o de menos se for para que você melhore, .
- Não nos veríamos mais.
- Se esse for o preço para a sua melhora, prefiro que seja assim.
- Não tem qualquer garantia de que vá funcionar.
- Mas tem uma possibilidade, mesmo que pequena. Uma possibilidade que você não tem hoje.
- Mark quer que nos mudemos para lá. Pretende administrar as empresas na cede em Nova York para que eu possa fazer o tratamento. – falou e senti meu estômago se embrulhar. Se não fosse por ele, não teria conseguido nem ao menos pagar pelo tratamento mais comum. Se não fosse por ele, certamente, não teria vivido tantos anos e menos ainda teria a chance de participar de um programa como o que ele havia conseguido para ela em Nova York. Programa que ele iria bancar, independente do preço. Estava disposto a se mudar com ela para lá, levar a empresa consigo enquanto considerava a ideia de não ir porque não poderiam se ver mais. Era ridículo que ela ao menos cogitasse aquela possibilidade, especialmente por mim, mas lá estava ela fazendo exatamente aquilo. Arriscando tudo aquilo por um garoto que não podia lhe oferecer absolutamente nada.
Se eu tivesse pelo menos o mínimo de vergonha na cara, deveria terminar com ela e quase ouvi, em sua cabeça, as palavras de minha mãe ao dizer exatamente aquilo. devia tudo a Mark e só tinha uma chance por ele. Uma chance que ela arriscava todos os dias por estar junto comigo.
Com um enorme pesar, eu soube o que deveria fazer e voltei a desviar o olhar para nossas mãos juntas por um instante, perfeitamente encaixadas uma na outra.
- Eu te amo. – falei com um novo sussurro. – Você sabe disso, não sabe? – perguntei e ela concordou, tentando sorrir novamente.
- Eu também te amo. – respondeu e sorri para ela, abaixando-me para beijar sua testa.
segurou minha camisa quando tentei me afastar e colei minha testa na dela, fechando os olhos enquanto sentia sua respiração misturar com a minha.
- Me beija. – ela pediu e colei nossos lábios ao invés de responder, mas pulei para trás, de susto, quando a porta foi aberta.
Mark estava ali e soltei nossas mãos imediatamente, sentindo meu corpo inteiro congelar com pavor de termos sido pegos. Aquilo não podia acontecer, especialmente agora. Ela não podia perdê-lo, era sua única chance, não podia e tiver pavor de ao menos cogitar aquela possibilidade enquanto encarava o homem, esperando alguma reação, qualquer uma, que indicasse se ele havia nos visto ou não.
- Você é...? – ele começou, olhando para a esposa enquanto estendia a mão em minha direção. Precisei me controlar ao máximo para não suspirar aliviado, estendendo a mão para cumprimentá-lo também.
- . – expliquei, decidindo que usar alguns pontos da verdade poderiam ser a melhor desculpa. – Sou filho da enfermeira. Eu estou sempre aqui e como a também, ahn, nos conhecemos um dia desses.
-É bom ter uma companhia. – falou também e Mark se aproximou dela, beijando sua testa.
- Desculpe não poder estar aqui, amor.
- Eu entendo, não se desculpe.
- Obrigado, . – ele falou com um sorriso e concordei com a cabeça.
- É bom ter com quem conversar aqui. – respondi, acenando para em seguida. – Vou deixar os dois a sós. Foi um prazer te conhecer...
- Ah, desculpe! Mark Cohen. – respondeu e meneei positivamente mais uma vez.
- Foi um prazer Mark Cohen. Até mais.
Com isso, dei as costas pra ambos certo do que precisava fazer. Mark era um bom homem acima de tudo e o que estávamos fazendo, o que eu estava fazendo, era errado em todos os sentidos possíveis.

+++


Ela desviou o olhar para o vidro do passageiro e não soube dizer se uma lágrima havia escorrido por seus olhos ou se era apenas reflexo das gotas de chuva no vidro.
- Eu odeio te machucar. – sussurrei. – Também não quero te ver chorar. Mas eu estou tentando fazer o certo, . – ao invés de responder, ela apenas concordou com um aceno mínimo de cabeça. – Só estou tentando fazer o certo. Não posso te dar o que precisa.
- Já entendi. – ela respondeu e sua voz soou embargada. – Você podia só... me pedir para fazer o tratamento. – falou, se voltando para mim finalmente e pude ver seus olhos marejados. Ela havia entendido qual era realmente o ponto em questão, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Aquilo só deixava ainda mais claro que aquele era o fim. Precisava ser o fim.
- Fazer ou não é escolha sua, só não quero interferir nisso. Menos ainda, colocar tudo em risco.
- Você sabe que sem você... Sem você nada me prende aqui. – falou e concordei com a cabeça. – Então vai ser assim? Você vai simplesmente terminar comigo?
- Não é nada simples, . Eu te amo, mas sim. Eu vou terminar porque é o certo a se fazer. Por que você é casada, porque precisa dele e porque precisa ir embora. Eu quero que vá embora.
- Isso porque você não quer interferir. – ela riu sem humor enquanto segurava com firmeza na maçaneta do carro, pronta para abrir a porta, mas não o fez quando voltei a falar.
- Você já teria escolhido o tratamento se não fosse por mim.
- Não, eu não teria, ! – ela falou, levantando o tom de voz. – Não teria porque eu estou apavorada! Eu tenho medo e estava feliz em pelo menos ter você para me distrair de toda essa merda!
- Eu sinto muito, ...
- É, eu já ouvi. – ela retrucou, finalmente abrindo a porta. – Você sente.
Sem dizer mais nada, ela apenas saiu novamente para a chuva e eu quis, mais do que tudo, puxá-la de volta. Ela se quer havia se afastado e eu já estava arrependido, mas me contive.
Não era por mim, era por ela. entenderia aquilo em algum momento, assim como havia entendido meus motivos. Ela só precisava que um dos dois fosse honesto o suficiente para terminar o que tínhamos e eu só esperava, com aquilo, estar fazendo mais bem do que mal. Tinha esperanças disso.


Fim.



Nota da autora: Olá! Espero que tenham gostado. Normalmente, me acho péssima com shorts fics. Sempre fico nessa de achar que as coisas não fizeram sentido, ou ficaram confusas demais, então sintam-se a vontade para dizer o que acharam.
Por favor, digam. Adoro comentários. <3 Hahahaha
Quem quiser conhecer minhas outras fics, vou deixar o link de todas abaixo. E prometo que as longs são melhores. Tentem. Hahahah
Sem mais delongas, um grande beijo e obrigada para quem leu e chegou até aqui.
Xx
Mayh.



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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