O Peso da Coroa

Última atualização: 04/05/2019

#1 Diário da Eleanor

Nem toda escolha que fazemos é de fato o que queremos.
Eu precisei deixá-lo.
Eu tive que vê-lo partir.
Eu assumi responsabilidades cedo demais.
Era tudo ou nada. Meus pais se foram e deixaram tudo em minhas mãos.
Pegar ou largar?
Seguir em frente ou deixar tudo para trás?
Eu nunca assumi um compromisso que não pudesse cumprir e era por isso que hoje seria coroada.
Agora eu me tornaria a rainha e era meu dever proteger a todos.
Disse adeus para quem eu não gostaria, mas abracei outros que puderam ficar ao meu lado.
Eu não desistiria.
Eu não seria mais Eleanor, a princesa.
Agora eu sou Vossa Majestade, Eleanor, a Rainha de Atra.




Capítulo 1

Minha imagem refletia no espelho, meus cabelos acobreados estavam todos presos, os grampos agarrando-se no meu coro cabeludo, impedindo que um mísero fio sequer caísse. Minha roupa velha e rasgada me deixaria passar despercebida, assim como o pano que eu havia enrolado na cabeça, formando um capuz. Eu só precisava tomar cuidado, se evitasse a todos poderia ter pelo menos algum vislumbre da vida lá fora.
Eu já tinha feito isso, era só colocar um aspecto sujo na pele e no vestuário que as pessoas não dariam a mínima para mim, afinal, desde quando os outros se preocupam com alguém que parece uma desabrigada?
Enfiei o último grampo — o que agora seguraria o tecido em minha cabeça —, a base que usava em meu rosto me deixava mais morena e as sombras escuras, esquisita. No entanto, era a minha máscara, o meu ingresso para sair daqui.
Pousei a mão no coração, como se o simples ato fosse fazer com que as palpitações pudessem parar, mas não adiantava, o medo de ser pega e que minha mãe descobrisse latejava todas as vezes, independentemente da quantidade de fugas que eu repetisse. Abaixei a minha mão e, ainda trêmula, ergui-a até a maçaneta. Hesitei, porém, respirei fundo e lembrei-me do motivo que havia feito tudo isso em primeiro lugar.
Liberdade.
A única coisa que eu nunca poderia alcançar.
Abri a porta e passei pelo corredor escuro, um caminho que poucos tinham acesso e conheciam, apenas a realeza e soldados de alta patente. O local era estreito e fedia a mofo, mas era a única forma que eu conseguiria chegar ao lado de fora.
Quando criança, eu me perdia no meio dos túneis secretos. Uma vez minha mãe mobilizou todos os soldados do castelo para me encontrar, mas quem me achou foi o meu pai, eu estava em prantos e em pânico, não conseguia voltar e quanto mais eu tentava sair, mais perdida ficava. O choque me fez estagnar, não saía do lugar mesmo que meu pai me chamasse diversas vezes e me balançasse para sair desse transe. Quando viu que nada dava certo, ele apenas sentou-se ao meu lado, me puxou para seus braços e começou a cantar uma canção nos meus ouvidos, até que eu me acalmasse. Lembro com clareza de tudo o que se passou depois, ele me disse “, o medo existe para todos, no entanto, a capacidade de enfrentá-lo só depende de você”.
Não passou muito tempo e eu voltei aos túneis. Não fiz como das outras vezes, entrando sem rumo e direção. Apenas caminhei aos poucos, gravando e transcrevendo o caminho até que eu pudesse dominá-lo e me tornar maior do que o meu medo.
Era por isso que agora, embora ainda sentisse minhas mãos suando ou o frio percorrer a minha espinha, eu poderia caminhar por cada buraco escondido desse castelo, conhecendo cada saída, curva e trajeto.
Após cerca de meia hora, eu estava diante de uma pequena portinha no fundo do palácio, corri por meio dos arbustos, pausando e arfando em cada parada em que eu me escondia, esperando a passagem dos guardas. Outro ponto positivo de ser fugitiva, eu decorei cada horário, com os anos você acaba aprimorando as técnicas e sabe quando cada guarnição passa e os intervalos que eles fazem.
Como a última passagem era um túnel, a saída dava para o lado de fora do castelo, após correr até onde eu sabia não ter mais nenhum guarda, peguei o cavalo que havia selado mais cedo e escondido entre as árvores. Saltei sobre ele, o vento cortando a minha pele e minha boca ressecando com o frio, cavalguei por minutos afins até ouvir o doce som da melodia das canções, os risos ecoando pela floresta, os batuques dos tambores bombeando o meu sangue.
Desci um pouco antes de chegar na vila, amarrei o meu cavalo em um galho e puxei um pouco do pano para cobrir o meu rosto, andei pelas beiradas até entrar no meio das pessoas. Pelo canto do olho ia observando a festa, crianças, jovens e velhos pulando e saltando, outros tocando flautas, percussões e violões. A magia de tudo era intensa, meus dedos tamborilavam em minha coxa enquanto eu cantarolava baixinho as canções entoadas.
— Não fique aí parada, vamos? — uma criança me gritou, puxando a minha mão e me arrastando até uma das rodas cheia dos pequeninos que se formavam ali.
Gargalhei e acompanhei-a, girando e rodopiando com aquelas miniaturinhas de gente que não se importavam se eu parecia uma mendiga, apenas brincavam e riam, acolhendo-me no meio delas. Cantei até meus pulmões arderem, permiti que o suor escorresse em minhas costas e deixei a música me levar. Nesse momento, toda hesitação, medo e angústia se desfez. Era isso o que eu queria, a sensação de liberdade tomando conta do meu ser.
Nessas horas não existiam responsabilidades ou deveres, muito menos manual de comportamento ou rédeas para me restringir, eu apenas me jogava e deixava o meu próprio ritmo me guiar, permitindo que o engano de uma vida diferente me guiasse nem que fosse por pouco tempo.
Parei por alguns segundos, segurando o peito com uma mão e a outra me abanando, sentindo o efeito da quantidade de panos me cobrindo surtirem.
— Eu preciso de uma pausa — murmurei para a criança ao meu lado e sorri para ela.
Demorou apenas dois segundos para ela trocar de par e segurar a mão de outra pessoa, pulando e dançando da mesma forma. Sorri e me afastei, caminhando até a mesa de comidas e bebidas expostas na lateral da festa.
De tempos em tempos as aldeias marcavam seus festejos, reunindo todos para cantar, comer e beber, uma festa livre e dançante, diferente das que eu tinha no castelo, cheio de normas e formalidades.
Peguei um copo e derramei um pouco de água nele, precisava me refrescar e tudo o que eu menos precisava era tentar chegar escondido em casa alcoolizada. Virei-me para poder continuar assistindo a festa, mas assim que fiz o movimento, meu braço esbarrou em um corpo duro e o líquido derramou por toda a roupa da pessoa.
— Ei, você não presta atenção? — uma voz dura e raivosa rugiu contra mim.
Ergui os meus olhos, minha visão pairando no peitoral molhado de um homem bem afeiçoado. Subi mais um pouco até focar no rosto da pessoa que eu havia trombado, o vinco entre os olhos proeminentes e seus glóbulos azuis encarando-me diretamente.
Meu coração disparou e eu dei um passo em falso para trás, esbarrando na mesa e cambaleando até sentir a mão dele segurar o meu braço e me puxar, impedindo que eu tropeçasse.
Eu não conseguia parar de encará-lo. Com tantas pessoas para eu encontrar, por que justo ele estava aqui?
Na minha frente estava a quem eu mais odiava. Aliás, a segunda pessoa que eu mais odiava. , filho do governador Marcus , pupilo e queridinho de toda Lavarelli, principal comunidade da ilha de Artra e, em consequência, capital e local onde o castelo se localizava.
Mas por que ele estaria aqui neste vilarejo?
era o rapaz modelo, desde cedo havia ingressado na política e sempre esteve ao lado do seu pai nas campanhas. Apesar de receber muitos chamados para tentar a liderança de algumas vilas, boatos diziam que ele preferiu esperar um pouco mais para apoiar o seu pai na carreira e com isso poder aprender por mais tempo antes de assumir algum cargo de valor.
Por que eu sei disso?
Pelas inúmeras vezes que minha mãe havia me comparado com ele, mostrando-me como eu deveria ser e como eu não atendia às suas expectativas frustradas.
Eu não podia negar que era bom. Eu já havia assistido inúmeros dos seus discursos e, para alguém tão novo, ele conseguia hipnotizar o público com suas palavras eloquentes e invejáveis.
Em contrapartida, tanto ele como o seu pai aproveitavam de todas as brechas que conseguiam para criticar e desmoralizar a realeza, principalmente a mim, a princesa desafortunada.
Em épocas mais antigas, isso poderia ter levado a morte, no entanto, nos dias de hoje, tal punição já não existia. As pessoas tinham voz e opinião desde que não fossem ofensivos. Claro que, para mim, os seus discursos eram bem daí para pior, mas, ao que parece, para todos os demais, era "apenas" uma forma de mostrar os pontos negativos da administração atual e propor melhorias ao governo.
Desde então eu os odiava.
Acho que era a única coisa que minha mãe e eu concordávamos.
— Desculpa — respondi-o e desviei o olhar para o chão, dei um passo para o lado a fim de me desviar dele e fugir dali, mas ele me bloqueou, acompanhando-me e impedindo a minha passagem.
— Eu não conheço você? — inclinou a cabeça e franziu o cenho, não pude evitar que meus olhos pousassem nele de novo, no entanto, eu não poderia me deixar ludibriar pelo seu cabelo loiro sujo caído por sobre os olhos, ou a barba rala que cobria o seu rosto, e pior, nem mesmo pelos ombros largos atrelados ao impactante azul dos seus olhos.
Se tinha uma boa fama na política, dentre as mulheres, ela era a pior, o que só adicionava ainda mais aos fatores que me levavam a ficar longe dele, seja nas festas no castelo no qual era obrigada a ir ou nos eventos políticos em que eu era arrastada.
— Acredito que não. — Tentei dar mais um passo, contudo, novamente ele me acompanhou, a sobrancelha agora arqueada e uma das suas mãos em sua cintura.
— Tem certeza? Porque eu posso jurar que eu te conheço de algum lugar.
Minhas mãos começaram a suar, meus olhos se desviaram rapidamente dele e passaram de um lado para o outro, ainda que, ao redor, as pessoas pulassem e dançassem. Era como se eu não conseguisse escutar nada, apenas as batidas desesperadas do meu coração.
Pior do que a minha mãe descobrir sobre as minhas fugas, seria fazer essa descoberta pela boca do nosso pior inimigo. Saber que eu estava aqui seria um prato em cheio para Marcus e eu já poderia imaginar todo o tipo de piada que ele jogaria contra a minha pessoa.
— Eu preciso ir. — Apertei minhas mãos em punhos e dei um passo à frente, determinada a ultrapassá-lo ainda que ele tentasse me deter.
Ele deu um passo para trás, confuso, e deixou seus ombros caírem um pouco em uma postura mais relaxada, sua mão voou até o seu cabelo, jogando-o para trás, mas não impedindo que uma mecha caísse de volta na sua testa.
— Desculpe, acredito que eu tenha sido grosso com você no primeiro momento e talvez tenha te assustado. Foi a água. — Elevou um pouco o lábio em um sorriso e apontou para a camiseta molhada.
Meus olhos foram até o local apontado, mas logo desviei, virando-me para ele e analisando o seu sorriso fácil moldar o seu rosto. Se eu não o conhecesse, talvez pudesse acreditar na inocência e gentileza das suas palavras, contudo, era um articulador e se ele estava desconfiado de algo, era melhor que eu fosse embora já.
— Eu sou , e você? — ele me surpreendeu erguendo a mão e estendendo-a para mim.
Encarei-a sem saber muito bem o que fazer. Se eu saísse correndo agora, chamaria muita atenção e era tudo o que eu menos queria nesse instante. A outra opção era pensar rápido, me apresentar e torcer para que ele me deixasse em paz.
— Mellanie Strith. — Estendi vagarosamente a minha mão e toquei a dele, o suficiente para cumprimentá-lo e ir embora.
Assim que minha pele encontrou a dele e eu tentei puxar de volta, apertou seus dedos em volta e carregou a minha mão até a sua boca, depositando um lento beijo ali. Seus lábios estavam quentes, fato que eu não conseguia entender, pois a temperatura da noite estava mais gelada do que o habitual. Ele permaneceu ali por alguns segundos, até que eu balançasse a cabeça desconcertada e puxasse a minha mão contra o meu corpo, dando um passo em falso para trás.
Pela segunda vez na noite, segurou-me para que eu não caísse, só que dessa vez eu estava dentre os seus braços, tomada por um abraço, sua cabeça um palmo acima da minha, mas o seu rosto inclinadamente para baixo, a boca perto do meu ouvido.
— Prazer, Mellanie. Nunca conheci alguém com este nome, mas continuo pensando que seu rosto é estranhamente familiar — murmurou contra a minha orelha e meu corpo se empertigou em seus braços. Empurrei-o levemente até que eu conseguisse me desvencilhar e apenas a sua mão ainda segurava a minha. — Nós poderíamos dançar e nos conhecer mais, eu não conseguirei dormir enquanto essa dúvida continuar latejando em minha cabeça.
Aquele sorriso fácil surgiu em seus lábios novamente e a cabeça levemente arqueada me estudava enquanto eu não respondia.
— O senhor não vai querer dançar com alguém como eu — respondi da forma mais formal possível, deixando que minha mão escorregasse e criando uma barreira invisível entre nós.
— E por que não iria querer dançar com uma moça bonita como você? — Suas sobrancelhas franziram e ele deu um passo à frente.
estava intrigado e pelo visto não cessaria em seu interrogatório enquanto não se desse por satisfeito. Talvez o melhor que eu poderia fazer era aceitar o pedido, pelo menos enquanto dançássemos, não teria como me interrogar e, se eu tivesse sorte, eu poderia ao final me misturar na multidão e ir embora, já que a presença dele aqui havia estragado todos os meus planos de uma noite livre e divertida.
— Aceitarei o seu pedido só porque eu quero muito dançar, mas fique sabendo que seus elogios vazios não me afetam. — Segurei a barra do vestido e virei-me antes que pudesse ver a sua reação. Ele teria duas escolhas, me deixar em paz ou vir atrás de mim mesmo com a minha má resposta, e pelos passos que eu escutei, provavelmente ele havia escolhido a última opção.
Já que ele estava me importunando tanto, o mínimo que eu podia fazer era dar-lhe uma boa resposta, jamais que eu deixaria pensar que eu havia caído em um dos seus truques de sedução baratos.
Entrei na área onde as pessoas dançavam e virei-me, pronta para ver o garoto prodígio de Atra atrás de mim. Não consegui disfarçar o sorriso satisfatório em meu rosto, no entanto, pelo jeito, ele não se importava tanto também, porque sua boca continha uma leve inclinação e suas sobrancelhas se arquearam de uma maneira que indicava que ele havia entrado bem na “brincadeira”.
inclinou-se para mim em um cumprimento, uma mão pousada sobre o seu coração e a outra estendida para mim. A música que tocava agora era alegre e agitada, levei a minha mão para a dele e ambos nos posicionamos juntos com os demais e começamos os movimentos. As danças em grupo geralmente eram as mais divertidas, dançávamos em pares, mas continha saltos, giros e trocas de pares.
Demos um passo em salto para perto do outro, nossos rostos bem próximos por um segundo até girarmos e darmos um outro passo para o lado. As mãos para cima e depois para baixo, meio giro, um passo para a trás, outro meio giro voltando e de novo para frente. Erguemos as mãos e entrelaçamos os dedos levando-as para cima, depois trocamos de posição, de forma que nossos braços se cruzassem ainda com as mãos unidas, eu virada de costas para o seu peito, depois voltando para a posição original. Uma mão minha foi libertada e me rodopiou até que eu fosse parar com outro par e ele continuasse a dança com uma jovenzinha que estava ao seu lado.
Na hora de dar um passo para frente, a menininha deu um maior que o normal, quase trombando cara a cara com , que cambaleou para trás na tentativa de se afastar. Uma gargalhada saiu pela minha garganta e ele me olhou pelo canto do olho, observando-me rir. Logo ele recuperou a sua postura e piscou para mim no momento antes de estarmos de costas um para o outro. Meu sorriso caiu e uma carranca se formou em meu rosto.
Eu não deveria estar aqui me divertindo ou mesmo rindo do , muito menos recebendo piscadinhas dele em meio a uma dança informal no vilarejo. Nós não éramos amigos.
Lembrar disso me fez estagnar e parar a dança automaticamente, no entanto, era tarde demais e o homem no qual eu dançava já havia me empurrado para retornar ao meu par, ainda que meu corpo estivesse como uma estátua diante dele agora.
— O que foi? — perguntou-me intrigado, com certeza conseguia ver a minha resignação estampada em minha face.
— Nada. — Balancei a cabeça e segurei a saia do meu vestido. — Eu só preciso ir embora agora.
Ficar ali não era mais uma opção, eu não podia vacilar e acabar revelando a minha identidade, muito menos perder meu tempo tentando ser cordial com um cara que detestava a mim e a minha mãe.
— Por que está fugindo tão depressa? — Ouvi a sua pergunta ressoar atrás de mim quando me virei para ir embora, apressando os meus passos para que ele não me alcançasse.
Saí empurrando todos que estavam a minha frente até estar em um local mais afastado, tentando chegar logo onde eu havia escondido o meu cavalo para poder fugir dali. Porém, antes que me desse conta, correu mais rápido do que eu e parou em minha frente, estendendo a mão em um pedido mudo para parar enquanto ele ofegava e passava a outra entre o seu cabelo.
— Por que está fugindo assim?
— Não acredito que seja da sua conta — cuspi e me empertiguei, passando meus braços pelo meu corpo e sentindo a brisa fria saindo de dentro da floresta.
se endireitou com a resposta que eu lhe dei e cruzou os braços diante de mim.
— Eu não sei o que possa ter feito para que você me tratasse com tamanha rispidez, além do que, você foi a única que derramou água em mim, lembra?
Levei as minhas mãos até o meu rosto e esfreguei-o, nervosa com a sua insistência e teimosia em me deixar em paz. Queria gritar para ele todos os motivos que me faziam ter vontade de sumir da frente dele, a começar pelas provocações que ele e seu pai causavam em nossa pequena ilha, Atra. Nós já éramos um povo pequeno e isolado, não precisávamos de discórdias internas provocadas por pura intriga da oposição.
Eu precisei morder a minha língua mordaz antes que falasse demais. Minha mãe sempre dizia que um dia eu poderia ser derrubada por falar pelos cotovelos, por isso, eu não iria dar essa chance para o rapaz em minha frente.
— Veja bem, senhor , eu não sei se você está acostumado a ter tudo do jeito que você quer, mas quando as pessoas não querem conversar ou ficar em sua presença, você não pode obrigá-las, principalmente quando se trata de uma dama. Desde que a lei 1.931 de Atra foi sancionada que, nós mulheres, podemos ir, vir, falar ou não falar com quem nós quisermos. Ou seja, não importa se você fez algo ou não, mas sim o que eu quero, que no caso, é ficar livre de você! — Apontei para ele e puxei o vestido de novo, entrando no meio da floresta apressadamente, certa de que independente do que ele fizesse, dessa vez eu não pararia, só pegaria o meu cavalo e daria o fora dali.
O vento frio adicionado a minha raiva, arrepiava a minha pele até a ponta do pé, continuei caminhando até ouvir um som alto que me fez vacilar um pouco. Era longe, mas eu ainda conseguia ouvir o grito de . No entanto, o problema não era que ele havia me retrucado, mas a frase em questão que ele havia emitido, fazendo meu estômago embrulhar e meus passos continuarem ainda mais rápidos para alcançar o meu cavalo.
Você pode até querer ser livre, mas não sei se tem tanta liberdade assim como diz, princesa .



Capítulo 2

Eu não sei quando consegui dormir depois que cheguei em casa. Passei horas e horas revirando-me na cama e perpassando em minha cabeça a fala que havia gritado contra mim. Eu sabia que ele desconfiava de algo, mas acreditava estar bem diferente do meu eu habitual para que ele não pudesse me reconhecer, afinal, eu já havia feito isso inúmeras vezes e em nenhuma delas havia acontecido tal coisa.
Se minha mãe soubesse, ela iria me matar.
Eu ainda tinha esperanças que ela me deixaria fazer uma viagem ao exterior enquanto não me tornasse rainha, mas, se isso viesse à tona, eu poderia dar adeus ao sonho de conhecer algo além do que essa ilha oferecia.
Atra era um país esquecido pelo mundo, 7.127 km de água nos separavam da civilização mais próxima, isso é, se as contas estiverem realmente corretas. Nossa energia era racionalizada e não tínhamos praticamente nenhuma das tecnologias que ouvi dizer que os países do mundo tinham. Éramos uma ilha pequena que se auto sustentava, um paraíso natural, mas que, no entanto, era coberto por montanhas rochosas, penhascos e altos recifes em sua costa, impedindo que qualquer tipo de avião ou helicóptero pudessem pousar aqui. O clima costuma ser chuvoso em grande parte do ano, quase 20 dias por mês de água e apenas 10 de pura luz do sol, o que faz com que as viagens para cá em alto mar sejam altamente perigosas e demoradas. Muitos navios não conseguiam chegar e, com o tempo, as pessoas perderam a vontade de se arriscar ou não quiseram demorar quase sessenta dias em alto mar apenas para poder conhecer o nosso lugar.
Por isso, não temos muitas coisas inovadoras e nos consideram um tanto rudimentais. Mas como querer desenvolvimento para um local isolado e com uma cultura quase que intacta? Isso não quer dizer que não somos felizes como somos, a natureza nos provê o que é necessário para a nossa agricultura e mantimentos. Além disso, tudo o que precisamos de extremamente necessidade, minha mãe, como rainha, faz o pedido para a ONU e ela dá um jeito de nos enviar duas vezes ao ano, que é o máximo que eles consideram se arriscar por nós.
Nessas duas únicas vezes que eles aparecem — isso é, se nada trágico acontecer —, o povo tem a oportunidade de poder sair daqui e desbravar novas aventuras. Assim como fica aberto a visita de turistas a nossa região, caso sejam devidamente registrados com antecedência, se não vira bagunça.
Eram poucos que se ousavam a ir. Em gerações anteriores isso era proibido, mas quando a minha família subiu ao poder, tudo mudou, e foi lhes dado a escolha entre ir ou ficar. Não que tenha mudado tanto a realidade, afinal, não é uma viagem muito atrativa. Mas eu queria, havia implorado aos meus pais para me deixarem e eu estava cansada de ouvir o não sair da boca da minha mãe.
Provavelmente ela acha que se eu fosse, nunca mais voltaria. E em alguns momentos, eu também achava o mesmo.
A maioria das pessoas nasciam e tinham toda uma vida para frente para planejar o que quisessem ser, contudo, eu, desde o meu primeiro respiro, estava fadada a uma responsabilidade que nunca escolhi ter.
Talvez para muitos, ser princesa fosse uma dádiva, mas, para mim, soava como uma maldição. Regras para como me vestir, como conversar, como comer, com quem me relacionar… Cada passo meu era supervisionado e cada erro exposto para toda Atra, o que já não era difícil acontecer, pois um lugar pequeno como esse, a fofoca corria como o vento.
Eu não conseguia me conformar com isso. Se todos eram livres, por que não nós da realeza? Estaríamos fadados para sempre em sermos um padrão? E se eu não quisesse? E se eu não gostasse? O peso da dinastia estava em minhas mãos. Mas e se eu não fosse boa o suficiente? A única coisa que me dava forças para continuar era saber todo o empenho que meus avós fizeram pelo povo, ao ponto de morrer por uma causa. Se eu tivesse que fazer alguma coisa e manter o legado, seria por eles.
Eu vi e ouvi coisas no castelo que eu não queria para mim. Minha mãe raramente sorria e sempre tinha uma expressão séria para tudo. Meu pai dizia que nem sempre ela foi assim, apesar do gênio forte. Eu não conseguia imaginar diferente, ainda mais quando algumas atrocidades eram jogadas contra os seus ouvidos, nessas horas, até eu tinha medo do seu olhar.
Algumas pessoas diziam coisas horrorosas, principalmente do fato da minha mãe ter rompido um relacionamento anterior para casar com o meu pai. Palavras como traição e adultério eram recorrentes entre aqueles que eram contra a coroa, até mesmo foi chamada maldosamente de assassina, e, todos os dias, eu precisei ver minha mãe escutar tudo calada, deixando palavra por palavra cair por terra.
Havia uma época que eu perguntava ao meu pai sobre isso, mas ele apenas me dizia que as pessoas eram maldosas demais e preferiam acreditar em vãs mentiras do que apenas ver a realidade. Já a minha mãe, ela limitava-se a dizer que nunca foi noiva de ninguém e que eu esquecesse o assunto, pois fofoca quanto mais se explicava, mais difícil era de ser esquecida.
Talvez fosse verdade. Hoje não se ouve mais falar tanto sobre isso como quando eu era nova. Acredito que as pessoas não gostam de fofoca velha, os anos trataram de colocar assuntos novos no lugar. Mas até onde eu sei, minha mãe tinha um namorado que faleceu no auge da Rebelião dos Portos, mesma época em que meus avós também morreram.
De qualquer forma, pensar em tudo isso me trazia dor de cabeça e ainda mais insônia. Virei-me para o lado, na tentativa de dormir mais um pouco, no entanto, um som alto de socos na minha porta me fizeram pular da cama assustada. Eu escutava o barulho e uma voz ao fundo, contudo, o sono não permitia que meus olhos se abrissem direito e nem que a minha mente conseguisse processar o que estava acontecendo. A impressão que eu tinha é que não havia dormido nem uma hora completa esta noite, minhas pálpebras pregavam e eu fazia um esforço enorme para abri-las.
, abre essa porta agora! — a voz ecoou mais alto, batendo na porta novamente.
— Calma, estou indo — respondi, sonolenta, empurrei meus pés para fora da cama e cambaleei até conseguir me arrastar a porta e abri-la, topando com uma Eleanor furiosa na minha frente.
Suas mãos estavam em punhos em sua cintura, os olhos como fogo em minha direção, no entanto, sua postura impecável, ereta e contida, com exceção da veia proeminente na lateral da sua testa e as sobrancelhas tão franzidas que quase se uniam entre os olhos.
— Onde é o incêndio para esse alvoroço todo? — reclamei e dei meia volta, deixando que ela entrasse no quarto. Caminhando até a minha cama, joguei-me de volta no meu colchão fofo e afundei a minha cabeça no travesseiro.
Os passos da minha mãe soaram forte no chão e, pelo seu barulho, eu podia identificar que ela já estava ao meu lado.
— Quantas vezes eu já lhe falei para não trancar a porta do quarto? Esperamos você para o café da manhã e como não apareceu, ficamos preocupados. Seu pai e eu pedimos para que Lylliane viesse te chamar, mas ela disse que bateu diversas vezes e você não atendeu.
— Se eu não atendi era porque estava dormindo, mãe. E trancar a porta do quarto é o mínimo de privacidade que uma garota precisa para viver.
Minha mãe bufou ao meu lado e puxou a coberta que eu havia colocado sobre as minhas pernas, jogando-a no chão. Resmunguei e virei-me para impedi-la, mas ela puxou o meu travesseiro debaixo da minha cabeça e jogou-o para longe também.
— Protocolos, ! É o mínimo que eu peço para você seguir. Os tempos são outros, mas nunca sabemos quando pode acontecer uma emergência no castelo. Se o pior vier, como os soldados poderão te retirar às pressas se você estiver aqui trancada em seu quarto e hibernando em um sono profundo?
— Pelo menos se eu morrer, vou morrer dormindo. Quer coisa melhor? Partir para o paraíso sem sofrimento? — retruquei-a rindo e balançando a cabeça, enquanto me levantava e sentava na cama, afinal, dormir eu não iria voltar mesmo.
Minha mãe avançou na minha frente, ficando de pé diante de mim, apontou o seu dedo indicador em meu rosto e inclinou a sua coluna para que ficássemos cara a cara.
— Nem ouse brincar com uma coisa dessa, está me ouvindo, ? Não. Repita. Isso. Jamais! Já tivemos mortes demais nesse castelo — disse ela abruptamente e girou de costas para mim, permitindo que eu percebesse apenas suas costas se moverem para cima e para baixo em um movimento longo e profundo.
Eu havia me esquecido que citar a palavra morte era algo delicado por aqui. Minha mãe não era a pessoa mais aberta do mundo, então ficava difícil adivinhar todos os seus sentimentos, lidávamos com as coisas de formas diferentes e se ela não se permitia conversar comigo sobre o que lhe afligia, eu jamais saberia o que poderia a incomodar.
— Desculpa — respondi com um pouco de remorso, mas logo uma pontada de indignação me surgiu. Eu não deveria pisar em ovos dentro da minha própria casa. — Talvez se você me falasse o motivo de uma simples brincadeira te afetar tanto, talvez eu pudesse compreender o peso que isso tem para você — destilei contra ela, farta de tantas omissões.
Levantei-me da cama e caminhei direto para a minha penteadeira, pegando um pente e permanecendo de costas para ela, nem um pouco a fim de continuar essa conversa.
— A morte dos seus avós não é o suficiente para você? — ouvi sua voz carregada de raiva virar-se contra mim.
Virei-me chateada e pousei o pente com força sobre o móvel.
— Na verdade não, eu nunca os conheci! Talvez esteja na hora de você superar isso, seja lá o que tenha acontecido no seu passado que você quer tanto guardar a sete chaves de mim. E não venha me dizer que isso tudo é pelo vovô e vovó porque eu escuto as coisas, eu sei o que…
— Cale a boca, ! — gritou me interrompendo, sua fúria ondulando pelo nosso espaço e batendo diretamente em mim. — Só cale… a boca — terminou arfando e passou a mão por seu rosto, antes de caminhar até mim vagarosamente, como uma leoa age quando vai capturar a sua presa.
Essa era a verdadeira Eleanor, a que todos conheciam. A mulher que exalava uma supremacia poderosa, como se não houvesse ninguém maior do que ela, até eu acreditava que ela era inabalável. Isso é, quando eu me esquecia dos lapsos, dos raros instantes como há pouco que ela mostrava vislumbres de uma fragilidade que quase ninguém sabia que existia. Momentos esses que só apareciam quando lembranças de um passado doloroso surgiam diante dela.
— Você não precisa saber nada, , sabe por quê? Você não está pronta. Se é uma princesa que não compreende a importância de seguir uma simples norma fundamental do castelo, por que mereceria entender qualquer outra coisa do que se passa por aqui? — contra-atacou, suas palavras mais afiadas do que qualquer espada. — E eu não vim aqui para conversar trivialidades, nem mesmo para ouvir sua malcriação contra mim. Seu pai e eu precisamos conversar algo muito mais sério com você, então arrume-se e desça, nós não temos o tempo todo mundo para te esperar.
Assim que completou, minha mãe virou-se e saiu do meu quarto apressadamente, não me dando chance de sequer perguntar nada ou retrucá-la. Não demorou muito para a minha ficha cair… eu havia saído ontem, descobriu a minha farsa e já de manhã meus pais queriam conversar comigo.
Este era o meu fim.
Eu havia sido delatada.
Já podia até imaginar os livros de história contando como o fim da dinastia havia se encerrado com a morte da princesa , porque, com certeza, se minha mãe não me matasse, no mínimo me castigaria até a morte.
Eu poderia pensar em alguma desculpa, inventar alguma mentira.
Eu ainda tinha alguns minutos, não tinha?
Pior era que qualquer coisa que eu dissesse talvez enganasse a minha mãe, mas não o meu pai. Ele me conhecia demais e sabia me ler com excelência. Nunca que eu conseguiria enganá-lo e isso não era algo que eu tinha hábito de fazer. Omitir sim, mentir… não.
Corri para fazer a minha higiene matinal e trocar de roupa, assim que terminei de me aprontar, passei pelo corredor correndo e desci as escadas, chegando rapidamente para a sala de descanso, que é onde meus pais costumavam ficar após o café da manhã.
Chegando lá, meu pai estava sentado sobre o sofá com os pés sobre a mesinha de centro, ele lia uns papéis em suas mãos e tinha o cenho franzido. Seus cabelos compridos e castanhos cobriam suas orelhas e os fios estavam despojados de uma forma que ele parecia que havia acabado de acordar e eu tinha certeza que tinha irritado a minha mãe.
Meu pai era um homem bonito e era incrível como seus olhos verdes seduziam todas as moças dos bailes que frequentávamos. Difícil alguma que não suspirava por ele, mas, para o azar delas, o olhar dele só se dignava a uma pessoa, e o nome dela era Eleanor .
Ao contrário do meu pai, minha mãe estava sentada elegantemente ao seu lado com uma xícara de chá em mãos. Só precisou de um passo meu adentro para que seu olhar pousasse em mim com fulgor e ela abaixasse lentamente o copo e o depositasse na mesa, colocando-se prontamente para fazer a minha cova.
— Desculpe, mãe, eu prometo nunca mais repetir isso, sei os riscos implicados, mas eu juro que vou consertar. Eu serei uma boa menina e a princesa que você deseja que eu seja, mas, por favor, não me tire a oportunidade de fazer a viagem. Você prometeu pensar. É a única coisa que te peço. A viagem seria uma boa para minha experiência e todo conhecimento obtido será refletido no meu desempenho como rainha um dia. Por favor, mãe, me perdoa — discursei rápido, soltando um monte de frases atropeladas e sem sentido. As lágrimas já se acumulavam em meus olhos, mas segurei o máximo que pude, pois tinha que mostrar que era tão forte quanto ela, apesar da escolha ruim que havia feito ontem à noite.
Assim que terminei, reparei que meu peito arfava em uma respiração acelerada e minhas mãos tremiam. Minha mãe me encarava com uma expressão confusa, a cabeça levemente inclinada para o lado e o cenho franzido em minha direção.
— Do que está falando, ? O que você aprontou?
Empertiguei o meu corpo e enruguei a testa. Ela estava me perguntando o que eu fiz? Mas se ela não havia me chamado porque tinha descoberto sobre a minha fuga…
Nossa! Eu havia feito um furo enorme!
— O que você queria falar comigo? — rebati, curiosa.
… Não brinque comigo. Você chegou aqui baforada pedindo desculpas e agora eu exijo que você me conte o que aprontou!
Se ela não sabia, não seria eu que iria contar. Uma coisa era ela descobrir e eu ter que confessar a minha “versão” das coisas, outra era ela nem imaginar e eu jogar a bomba no seu colo. Não mesmo. Além do que, por mais que eu tenha perdido a minha noite de sono pensando no que poderia amenizar a minha situação, não encontrei nada que fosse plausível. Precisava de mais tempo para preparar o terreno.
— Eu estava pedindo perdão pela nossa discussão lá em cima. Eu sei que errei em trancar a porta e reconheço o quanto é importante não fazer isso, o risco de se manter trancada caso seja necessário uma fuga pelos esconderijos secretos durante uma invasão é alta ou mesmo para a entrada dos guardas para me protegerem. Fora que, se os esconderijos fossem invadidos e meu quarto estiver trancado, seria o fim. — falei, lembrando de todas as aulas de emergência que já tive e quantas vezes isso já havia sido repetido para mim. — Além disso, eu fui longe demais nas coisas que falei com você lá em cima. Me desculpe — terminei de montar a minha historinha, torcendo para que isso fosse o suficiente para corrigir o meu gafe.
Minha mãe me olhou intrigada e se eu a conhecesse bem, ela ainda estava desconfiada de algo, no entanto, não ia muito longe nisso, ela era ardilosa o suficiente para me deixar enforcar com a minha própria mentira.
— Não sei se acredito muito bem nisso, . Mas você sabe o que pode acontecer caso saia dos trilhos. Eu te passei todas as condições para que eu permitisse que você saísse de Atra, no entanto, não é porque você não estaria nos limites do nosso país que deixaria o seu legado de princesa para trás. Não se deixa a coroa, , a coroa é que deixa você. Lembre-se disso. Não se pode fugir daquilo que foi destinada a herdar. Eu acredito em você, mas você precisa acreditar em si mesma e se dar uma chance também. — Suspirou profundamente, os ombros caindo em exaustão.
Já havíamos tido várias conversas semelhantes e em todas elas minha mãe parecia sair frustrada. Um pouco da sua ferocidade se foi e ela aparentava mais calma agora, os vincos da sua testa se suavizaram e ela passou os dedos lentamente entre os olhos antes de abaixar a mão e voltar a falar.
― Sei o que pensa, filha, você acha que a coroa é apenas um peso, um fardo que estamos destinados a carregar. Por um lado você está certa, realmente temos que abdicar muitas coisas e até a nossa própria vida por ela. Nem sempre as escolhas que queríamos fazer são a que realmente devemos fazer, e isso não é fácil de decidir. Perdas, dores, abdicações, aflições, tudo isso é inevitável em algum momento da nossa vida, mas, por outro lado, há muita gratificação. Todo poder que temos nas mãos pode converter-se aos outros, fazer o nosso país crescer, fazer coisas que ninguém mais pode. Podemos transformar vidas! Você não consegue enxergar como isso é importante?! ― exclamou com os olhos brilhando e eram sempre nesses momentos que eu tinha certeza que seja a dor que minha mãe havia passado um dia, ela não se arrependeria de nenhuma das suas decisões.
Respirei fundo e desviei o olhar até meu pai, agora ele já havia largado os papéis sobre a mesa e tinha as mãos juntas e entrelaçadas sobre a perna, observando a interação entre minha mãe e eu.
― Eu só… A verdade é que na maioria das vezes eu só queria ser invisível. Poder ser eu mesma. Eu não posso nem me dar ao luxo de errar, vocês têm ideia de como isso é desgastante? ― consternei, gesticulando com as mãos e colocando para fora a minha frustração.
― Mas sua mãe e eu já não tentamos te ajudar nessa transição? ― meu pai falou, intrometendo-se pela primeira vez na conversa.
― Eu sei… ― Passei a mão no meu rosto e grunhi. ― Vocês têm me permitido sair mais e participar de alguns eventos da cidade, mas é horrível sair com um bando de guarda atrás de você, ou mesmo ter um monte de pessoas te vigiando e esperando qualquer passo falso que dê para te jogar do penhasco ― desabafei, cansada de tudo isso. ― Vocês falam como se parecesse tão fácil, como se todos os contras dessa realidade não afetassem vocês. Como se essa coroa tivesse algo tão bom que isentasse tudo de ruim que ela pode trazer. Como pode falar tranquilamente se eu sei que não é totalmente verdade? Não é fácil assim como você tenta demonstrar ser, mãe ― cuspi duramente.
Eles tentavam colocar algo na minha cabeça que não entrava de jeito nenhum. Não havia justificativa que me dessem que iria mudar a minha opinião. Eu odiava essa coroa maldita, odiava ser princesa e odiava ser filha de quem eu era, porque isso significava ter nascido debaixo de um jugo que eu nunca quis.
Minha mãe respirou fundo e bateu a mão ao lado dela do sofá, balancei a cabeça consternada, mas fui até ela e sentei-me ao seu lado. Senti seus dedos pousarem acima dos meus e um olhar diferente vindo dela em minha direção.
, querida… Eu tenho sim muita noção de como é desgastante e difícil. Só eu sei o que passei para chegar até aqui. Um dia talvez você entenda, talvez um dia você saiba por si só, ou mesmo eu conte a você. Então, se estou dizendo que vale a pena, é porque é verdade. Chega um momento que seria muito egoísmo da nossa parte simplesmente abandonar todo o povo por um sentimento que é só seu. Você pode até achar que não está preparada para o cargo, mas para isso chegará o momento certo. O que não pode acontecer é você querer deixar a coroa para viver sua própria vida e caprichos quando tantos esperam por nós. Quando aprender a usufruir do que é seu, descobrir todas as vantagens e tudo que pode fazer com o poder que lhe é dado, tenho certeza que esquecerá até de si própria para um bem muito maior, afinal, você é uma , está em nosso sangue.
Minha mãe deu dois tapinhas na minha mão e meu pai riu da outra ponta do sofá.
― Engraçado, pai? ― Sorri em falso pra ele, rolando os olhos.
― Acho incrível o poder que vocês duas têm de estarem quase se batendo há meia hora e agora estarem sentadas lado a lado, sua mãe saindo da fera para esse amor de pessoa. ― Piscou para ela e minha mãe sorriu.
― Se eu não soubesse que a minha mãe conta tudo para o senhor, eu acharia que você tinha ouvido nossos berros aqui de baixo ― brinquei, ficando em pé e indo até ele, me joguei para o seu lado no sofá e abracei-o.
― Você está certa, ela me disse, mas, ainda assim, acho que toda Lavarelli devem ter ouvido vocês ― gracejou e passou a mão pelo meu ombro, trazendo-me para o seu peito e me abraçando.
― Engraçadinho. ― Rolei os olhos e vi a boca da minha mãe se inclinar com a nossa interação, ela sempre aparentava satisfação quando nos via juntos.
― Tudo bem, Enrico, agora que colocou a conversa em dia com a , acredito que você possa falar para ela o motivo de termos a chamado aqui. ― Inclinou sua sobrancelha e estendeu a mão para apontá-lo, sinal para que ele seguisse em frente.
Eu havia até me esquecido disso após o alívio de não ser o que eu pensava.
― Ainda não, amor… ― Ele inclinou-se na direção dela e deu-lhe um beijo.
― Enric, Enric… Sempre mimando a nossa filha ― consternou docemente para ele. Minha mãe tinha um jeito completamente diferente de falar quando se travava do meu pai, não sei que poder ele tinha sobre ela. ― Vai deixar para que eu diga para , não é? Medroso… ― completou, balançando a cabeça para ele.
― Você sempre sabe de tudo, meu bem ― meu pai respondeu com um sorriso de orelha a orelha. ― Com certeza a me dobraria facilmente. Eu preciso de você, sempre. ― Deu-lhe outro selinho, olhando para ela com aquela cara de bobo apaixonado que ele sempre fazia.
― Dá para vocês pararem com o mel, por favor, e me digam de uma vez o que tanto querem conversar comigo. Deve ser muito grave ao ponto do meu pai não ter coragem para me dizer ― reclamei, coloquei uma mão em minha cintura e virei meu tronco para eles.
― Filha, você sabe em qual estação estamos? ― minha mãe perguntou.
― Primavera.
― Então… Como deve saber, a primavera sempre é uma estação especial para nós. É quando recebemos o navio, repomos as nossas mercadorias, ganhamos presentes e comemoramos.
― Óbvio que sei. Como esquecer do Famoso Baile Real da primavera de Atra ― respondi, querendo saber onde que chegaria tudo isso.
― Ótimo ― minha mãe prosseguiu. ― O baile, além de ser importantíssimo para a história da nossa família, hoje é um evento muito aguardado por todo o povo. A vinda dos governadores e suas famílias também é importante para estreitarmos os laços com eles. Faz algum tempo que não há ataques e a paz tem se ponderado em nosso reino. Não vou te dizer que as relações estão perfeitas, filha, muito pelo contrário... ― falou, franzindo o cenho e olhando de esguio para o meu pai.
Ele acenou a cabeça para ela e minha mãe respirou fundo, continuando o seu discurso.
― Já tem um tempo que certas coisas têm acontecido e estamos preocupados. Não sabemos realmente se as alianças do conselho estão firmes como antigamente. Por isso, o evento deste ano tem como objetivo estreitar estes laços de novo. Seus avós lutaram muito por isso e eu também. Foi muito difícil chegarmos a um acordo de paz e não será por mesquinharias de um ou de outro que vamos deixar isso acabar ― completou, pensativa.
Atra era composta por cinco governadores, cada um deles responsável por uma região da ilha de Atra. Os cinco compunham o conselho real, que tinha como objetivo apurar as decisões mais importantes da realeza. Por isso era importante manter a harmonia com eles e tê-los ao nosso favor e não como inimigos.
― Ok, mas onde eu me encaixo nessa história? ― perguntei, impacientemente.
Minha mãe não costumava me contar detalhes sobre os problemas do reino. Parte porque eu mesma não me interessava por isso e outra porque, se havia algum segredo embutido, ela faria questão de me deixar por fora.
― Sempre apressada, não é, , não é à toa que nasceu antes do tempo ― Meu pai retrucou-me em gracejo e eu lhe dei um empurrãozinho em resposta.
― Já que você cortou o belo discurso que eu fazia, vou ir direto ao ponto principal. ― minha mãe chamou a minha atenção de volta, agora com uma postura não mais tão relaxada, seus olhos eram sérios e cravaram-se aos meus, de forma que eu não desviasse. Meu pai segurou a mão dela e a olhou antes de se voltar para mim, também esperando que eu finalmente soubesse o motivo daquilo tudo. Toda essa demora e hesitação só me deixavam mais nervosa.
O que estava acontecendo, afinal?
― Seu pai e eu conversamos muito durante essa semana e cremos que já é a hora de você assumir certas responsabilidades por aqui, . Com isso chegamos a seguinte conclusão… ― Fez uma pequena pausa, antes de completar a frase que derrubou o meu chão. ― Queremos que você organize o Baile de Primavera deste ano.



Capítulo 3

― O quê? ― interpelei, levantando-me consternada com o que estavam me propondo. ― Vocês não podem me pedir isso, aliás, vocês não devem me pedir isso. ― Apontei para eles.
Minhas mãos suaram instantaneamente, meu coração batia forte no meu peito e minha cabeça zumbia. Só de pensar no pedido deles minha pele formigava.
― Posso saber o motivo, ? Você, como princesa e futura rainha, organizará todos os eventos do nosso reino posteriormente, nada melhor do que começar por esse. Na sua idade eu já auxiliava a sua avó e, ainda por cima, arcava com muitas outras atribuições ― minha mãe justificou tranquilamente, como se estivesse pedindo para pegar para ela um copo de café.
― Falou certo, mãe, você auxiliava, agora você quer que eu organize sozinha?! ― retruquei, ainda sem acreditar. ― Você acabou de dizer como o evento é importante e ainda tem coragem de deixar isso nas minhas mãos? Pai.. ― Olhei para ele em súplica. ― Convença ela, pelo amor de Deus. Isso vai ser um desastre!
Meu pai deixou o ar sair do peito em um suspiro e ergueu a sua mão até a minha, apertando-a numa tentativa falha de me acalmar.
― Filha, ouça a sua mãe. Nós conversamos bastante sobre isso e acreditamos na sua capacidade. Você sempre foi muito esforçada e organizada, o seu desempenho nos estudos sempre foi excelente também, só queremos que aplique o seu potencial em algo importante para nós ― justificou, suas palavras saindo em um tom tranquilo enquanto ele passava o polegar no dorso da minha mão.
Eu não podia acreditar. O Baile Real da Primavera era simplesmente, não só o maior evento de Atra, mas o mais importante também. Eu o adorava, o empecilho não era esse. Tínhamos uma semana inteira de festividades, a começar pelas ruas da nossa ilha, toda a população parava para cantar, dançar e comemorar. No meio da semana minha mãe pegava as mercadorias de doações que chegavam e distribuía para que os governadores levassem para seus territórios. Livros, brinquedos modernos, tecidos, entre outras coisas. Era muito variável e nunca sabíamos de fato o que viria. No entanto, era sempre uma grande comemoração. No último dia havia a festa no castelo, que era mais para um fim político, mas não deixava de ser estonteante.
Então, como podem ver, eu amava o evento, o único problema era eu ficar responsável por ele.
E se eu fizesse alguma coisa errada? Não queria ser a responsável por estragar a semana mais esperada de Atra. E se alguma coisa que eu fizesse causasse insatisfação no reino?
Só de imaginar meu peito doía e o ar sumia dos meus pulmões.
Não, definitivamente não.
Eu não poderia tomar essa responsabilidade para mim. Como meu pai poderia ser conivente com esse plano maléfico da minha mãe?
― Não, não e não. Nem pensar! Sério que vocês estão cogitando mesmo isso? ― Arranquei a mão que o meu pai segurava e afastei-me deles.
Minha mãe levantou devagar, mas, sombriamente, do sofá. Eu era um pouco mais alta que ela, no entanto, ainda que fosse menor, a sua postura era intimidante. Sua boca formou uma linha fina e sua veia latejada na lateral da sua testa.
― Chega! ― Sua mão cortou o ar em um movimento de basta e depois pousou em sua cintura. ― Isso não está em discussão! Nós já pegamos muito leve com você, , não queria ter que impor isso como uma obrigação, mas você não me dá escolha. Não há outras opções, somente uma. Ou você organiza o baile ou você organiza o baile. Quer manter as suas regalias? Então faça o que estamos mandando ― ordenou, alterando seu tom de voz e me olhando com a carranca proeminente.
― Lea... ― meu pai tentou interrompê-la, mas ela ergueu a mão para pará-lo.
― Eric, não! Não tente amenizar as coisas ― exclamou para ele e depois voltou o seu olhar novamente para mim. ― Me escute bem, , isso será apenas a primeirade muitas coisas que você fará por aqui. Já cansei de você fugindo das suas responsabilidades. Você nunca parou para olhar para si mesma e ver como é egoísta? E pode adicionar também mimada e ingrata.
Não conseguia abrir a boca para dizer nada, as palavras que ela soltava me chocavam e me tiravam o chão. Minha mãe e eu sempre discutimos, mas nunca ela havia sido tão agressiva comigo ou perdido a sua compostura dessa forma.
Eu fiquei calada e atônita, encarando-a.
― Veja, eu não sei onde posso ter errado com você, mas muita gente se sacrificou até aqui para manter isso tudo de pé e você precisa continuar esse legado. Eu espero muito que em algum momento você possa acordar para vida e ver que temos muito mais responsabilidades e deveres do que simplesmente ter tudo a disposição às nossas mãos. Somos um país pequeno e ilhado do mundo, precisamos racionalizar tudo o que fazemos para não faltar para o povo. Há pessoas que passam fome, sabia? Ou outras que estão desempregadas porque aqui não há muitas opções. Crianças sem lares, idosos abandonados, vícios e violência. Não é porque temos tudo em menor proporção que estejamos isentos.
Minha mãe explanava enquanto sua respiração ia acelerando a cada segundo.
― Eu luto todos os dias para fazer o melhor para Atra, tento manter tudo aquilo que meus pais começaram e trazer ainda melhorias de acordo com as nossas possibilidades, mas eu não faço milagres. Sei que somos limitados e tento com todas as minhas forças fazer a diferença. Mas você, , está tão preocupada em viver a sua vidinha tranquila, com suas pernoites por aí... ― Fez uma pequena pausa e eu senti o meu sangue ser drenado completamente fora do meu corpo nesse instante. ― Ah, não fique surpresa, querida, eu sei de tudo. Não há nada nesse reino que não me passe aos olhos e se você acha que não foi descoberta ainda porque tem disfarces mirabolantes, sinto em lhe informar que foi eu que encobri muito das suas travessuras.
Gesticulou com a mão e depois ambas estavam em punhos em sua cintura enquanto ela dava um passo para ficar mais perto de mim.
― Enfim, o que quero dizer é que esse seu tempo acabou. Chega de olhar para o seu próprio umbigo, fazer o que bem entende e correr das suas obrigações. Não deixe que eu perca o resquício de fé que eu tenho em você. Estamos entendidas? ― terminou com uma interrogação, mas, por acaso, depois de tudo, tinha eu espaço para pestanejar?
Óbvio que não.
Engoli em seco e meus olhos pinicaram, cerrei minhas mãos ao meu lado e mordi o lábio inferior com força, impedindo que qualquer lágrima caísse. Uma mistura de mágoa e raiva subiram pela minha espinha, mas assenti com a cabeça, olhando por último para o meu pai e vendo o rosto dele cabisbaixo, sem nem mesmo me encarar.
― Se me dão licença, vou me retirar, pois tenho um baile para organizar ― despedi-me com a voz embargada, um bolo se formando em minha garganta e a única coisa que eu desejava era voltar ao meu quarto.
Eu não permitiria que ela visse minhas lágrimas caindo e já que era para atuar como uma princesa, então eu seria, e princesas jamais deviam chorar em público.
Caminhei depressa até chegar aos meus aposentos e me joguei contra a minha cama, abraçando o travesseiro e deixando o choro que estava entalado escorrer pelas minhas bochechas.
Eu odiava a minha vida e odiava esse cargo. Tudo o que eu queria era sumir, mas, para completar, vivíamos em uma ilha isolada do mundo que não me dava nem chances de escolher quem eu realmente queria ser.
Escutei passos adentrarem o meu quarto e virei-me bruscamente em direção a porta, vendo o meu pai parado ali, seu olhar perdido e as mãos dentro do bolso.
― Posso entrar? ― perguntou e eu dei de ombros, fingindo não me importar.
Ele caminhou até a minha cama e senti o colchão afundar assim que ele se sentou, sua mão foi até os meus cabelos e ele retirou do meu rosto devagar, colhendo com o indicador uma das lágrimas que haviam escorrido.
― Sua mãe e eu só queremos o seu bem… ― murmurou e eu virei para olhá-lo, a raiva brotando novamente eu meu coração.
― Me obrigando a viver uma vida que eu não quero? ― repeli e depois voltei a enfiar a minha cabeça na cama, evitando o seu olhar.
Ficamos ambos em silêncio, meu pai sabia que conversar comigo nesse instante seria perda de tempo, ainda mais depois dessa briga fenomenal com a minha mãe. Não sei quantos minutos se passaram, mas meu pai continuou ali do meu lado até que o choro passasse e eu fosse me tranquilizando.
Quando eu me senti um pouco melhor, virei-me de lado na cama e dei um sorriso fechado para ele, recebendo um de volta também. Levantei-me e sentei-me com as pernas cruzadas em sua direção, colocando o travesseiro por cima delas para que eu pudesse apoiar o meu braço.
― Ainda quer conversar? ― perguntei.
― Não sobre isso… Acho que hoje já foi o suficiente, não é? ― Sorriu e piscou para mim e eu acabei por acompanhá-lo. ― Que tal aproveitar que o seu humor melhorou e me contar para onde você foi ontem à noite?
― Por que eu suspeitei que essa pergunta viria cedo? ― Balancei a cabeça e me preparei para conversar com ele.
Meu pai, diferente da minha mãe, sempre tinha calma comigo e uma forma diferente de conversar. Eu não sei que poder ele possuía sobre mim, mas sempre me arrancava até os segredos mais sórdidos.
― Não foi nada, pai. Havia uma festa no vilarejo e eu queria muito ir. Eu tenho 19 anos e tenho toda essa energia ainda na minha pele. Nada anormal, a única diferença é que lá fora os jovens podem extravasar e eu não.
Meu pai franziu levemente a sobrancelha e passou a mão por seu cabelo, deixando-a descer sobre o seu rosto, aparentando cansaço.
― Você sabe que eu nunca te castiguei ou briguei com você por querer aproveitar a sua juventude, no entanto, eu seria um péssimo pai se não te pedisse cautela quanto aos perigos lá fora. Por mais que você dê seu jeito para fugir sem ser reconhecida, o risco existe. Ser da realeza nos cobra uma postura diferente que as pessoas não entenderiam se vissem de outra forma, além disso, você é uma pessoa importante, filha, e não podemos confiar que toda a população de Atra, ainda que pequena, tenha um bom coração.
― Eu sei pai, eu sei... Mas eu precisava desse momento. Antes eu tinha a escola para poder me socializar mais e me distrair, mas agora não tenho mais nada. As oportunidades que eu tinha de me sentir um pouco normal acabaram e a qualquer hora eu vou ter que assumir de vez o meu espaço no trono. Eu precisava aproveitar minhas últimas oportunidades! ― elucidei com pesar, lembrando-me das poucas boas épocas que eu havia tido quando convenci a minha mãe que estudar na escola junto com o povo era o melhor a se fazer.
― Eu entendo, , mas, mesmo assim, preciso que tenha cuidado. Acredito que seria melhor você diminuir essas saídas aos poucos para já ir se habituando e, quem sabe, começar fazer uma ou outra coisa que sua mãe te peça. Quem sabe você perceba que nem tudo é tão ruim quanto pensa?!
― Talvez... Mas eu costumo ser bem tranquila nas minhas saídas. Sempre dá certo. Bem… ― Fiz uma pausa recordando-me do ocorrido da noite anterior. ― Pelo menos na maioria das vezes.
… ― meu pai chamou a minha atenção. ― O que aconteceu?
Olhei para os meus dedos e comecei a brincar com eles, uma gotícula de suor frio escorrendo pela minha nuca.
― Você se lembra do ? ― indaguei baixinho, ainda sem encará-lo.
― O filho do governador? ― jogou de volta, sua voz endurecendo um pouco.
Se até o meu pai, que tinha um coração de ouro, ficava assim quando o nome desse homem era tocado, já é de se imaginar que ele não é nem um pouco bem vindo aqui.
― Ele mesmo ― confirmei. ― Eu o encontrei na festa do vilarejo e de alguma forma ele me reconheceu ― contei, lembrando-me da última frase que havia me dito.
― O quê? Mas como?
― A gente meio que se esbarrou, depois ele acabou me chamando para dançar, e… ― parei quando as risadas do meu pai me interromperam.
― Então ele te chamou para dançar, foi? ― A boca dele se ergueu levemente e sua sobrancelha direita foi arqueada.
― Na verdade ele foi bem insistente quanto a isso… ― falei, arrancando os fiozinhos soltos do meu travesseiro enquanto me lembrava da noite embaraçosa.
― Hum…
― Hum o quê? ― Parei o que estava fazendo e franzi o cenho para o meu pai.
― Nada, só acho um tanto irônico logo o filho do , o pior inimigo da sua mãe, se interessar por você ― gracejou.
― Ele não estava interessado em mim, está louco?
― E por que não? Você é linda e nunca te faltou pretendentes. Esse não deve ser ileso a isso também.
― Ai, pai ― murmurei e coloquei as mãos sobre o meu rosto. ― Ele não estava interessado em mim, e se eu estiver certa, ele deve me odiar tanto quanto eu odeio ele. e eu nunca nem sequer conversamos, a gente se evita o máximo que pode. Por que você acha que agora seria diferente? Com certeza ele só me chamou para dançar para me provocar.
― Imagina só se vocês namorassem? Marcus iria enlouquecer. Eu pagaria para ver essa cena. ― Gargalhou com a mão no queixo e olhando para cima, parecendo nem ter ouvido a minha explicação.
― Eca! ― Coloquei a língua para fora. ― Nem que ele fosse o último homem de Atra. Eu fugiria dessa ilha nadando antes de ficar com alguém como o .
― Cuidado, quem muito desdenha... ― brincou e eu abri a boca, ultrajada.
― Você está engraçadinho hoje, não é? ― Rolei os olhos e ele me puxou para os seus braços, sacudindo o meu cabelo como quando eu era pequena, e eu grunhi reclamando até me desvencilhar dele, sorrindo.
― Ok. Vamos voltar a seriedade do assunto. Se sua mãe não ficou sabendo até agora, então é porque ele não contou que te viu. Talvez ele não se importe ou esteja planejando alguma outra coisa. Um suborno talvez?
― Não sei, eu espero de tudo vindo dessa família. Talvez ele só quis me provocar, mas não dá para confiar.
― Sua mãe vai ficar louca se ele usar isso contra ela ― suspirou e segurou a ponte do nariz enquanto cerrava os olhos.
Inspirei lentamente e soltei o ar devagar, querendo evitar até imaginar o que poderia acontecer.
― Você acha que ela vai ficar muito brava? Não é como se ela não soubesse das minhas escapadas. Ela mesmo falou isso agorinha.
Meu pai olhou para mim e arqueou a sobrancelha como se dissesse: “sério?”
― Uma coisa é ela saber, outra é ter Marcus usando isso contra ela.
― Ai, meu Deus… ― Trouxe o meu travesseiro até a minha cara e grunhi contra ele.
Na verdade eu queria gritar, mas não podia.
― Vamos torcer para que guarde isso para si, ok? Talvez nada aconteça e sua mãe não terá mais com o que lidar além do que já tem.
Balancei a cabeça, mesmo sem acreditar em uma única palavra dele. Ainda bem que ele tinha fé por nós dois.
― Agora eu vou tentar colocar um sorriso no rosto da outra mulher que eu mais amo aqui nesse palácio. ― Inclinou, me deu um beijo na cabeça e levantou-se da cama.
Meu pai sempre tinha o poder de acalmar a mim e a minha mãe. Só ele mesmo para trazer paz para casa. E, uma coisa era certa, se tinha alguém que conseguia fazê-la sorrir, essa pessoa era ele.
Várias vezes ele me contava histórias de uma juventude que eu não conseguia imaginar. Um tempo onde minha mãe sorria e era talvez tão aventureira quanto eu.
Eu não conseguia conceber isso, mas meu pai não era de mentir.
― Pai, quem foi? ― questionei e ele se virou, olhando para mim por cima do ombro.
― Quem foi o quê? ― lançou a pergunta de volta com o cenho franzido.
― Quem fez com que a minha mãe ficasse como ela é hoje?
As sobrancelhas dele caíram e ele mordeu levemente a bochecha interna, desviando o olhar por um segundo para o chão.
Ele me deu um sorriso triste e balançou a cabeça. Não fora preciso palavras, ele não ia contar. E, por isso, eu era a única que poderia tentar juntar as lembranças e tentar descobrir mais informações sobre a vida antiga e secreta da minha mãe.



Capítulo 4

10 anos atrás

Os pássaros cantavam e sobrevoavam sobre o jardim florido. A fonte que ficava em nosso quintal estava coberta por trepadeiras e jorrava, tornando-se um manancial para os animais matarem a sua sede. O canto das aves era música para meus ouvidos e o cheiro das flores da primavera como perfume enquanto eu corria pelo jardim.
Minhas pernas doíam e o suor escorria pela minha testa, fazendo meus cabelos pregarem em meu rosto, uma dorzinha lateral na minha barriga me incomodava, mas não era o suficiente para me parar.
A primavera era a minha época do ano preferida, eu corria pela relva, erguendo a mão e tocando as flores enquanto aspirava o aroma e deixava a luz do sol me aquecer. A adrenalina subia em minhas veias e eu me esquecia o quanto era sozinha no castelo. Às vezes eu encontrava uma criança ou outra para brincar, no entanto, ser princesa vinha com um título subscrito de intocável. Nenhum pai queria que seu filho brincasse comigo e acabasse levando a culpa caso eu me machucasse. Ou então, caso eu aprontasse alguma coisa, dificilmente levaria os danos por isso, ao contrário deles.
Contudo, essa semana seria diferente, além do lindo cenário que a primavera nos fornecia, teríamos a grande festa. Muitos convidados viriam, os governantes e suas famílias, pessoas que eram mais próximas a minha realidade e eu poderia me divertir pela primeira vez com menos ressalvas. Se eu tivesse sorte, os governadores trariam sobrinhos e sobrinhas, aumentando meu leque de oportunidades de me divertir, já que poucos eram os filhos biológicos.
Seria meu primeiro baile oficial, já que a realeza só era autorizada a participar quando completasse nove anos de idade. Os demais não poderiam, apenas quando completassem a maioridade, no entanto, esse ano seria diferente, meus pais abriram para que eles pudessem trazer a todos e eu finalmente teria a oportunidade de conhecer mais pessoas.
Corri para dentro do palácio assim que escutei o som das trombetas anunciando a chegada dos convidados. Eu esperava que fosse Katherine, minha única amiga de verdade e a única pessoa que vinha me visitar em outras datas que não fossem o Baile da Primavera. Não que a gente fosse do tipo de fazer pulseirinha uma para outra ou pacto de cuspe, mas era a pessoa mais próxima a mim e eu gostava de dizer que possuía pelo menos alguém no meu rol de amizade.
Apesar da proibição de participar do baile, a mãe da Kath e a minha eram amigas, então ela sempre vinha e a gente ficava no meu quarto brincando enquanto os adultos permaneciam na festa.
Assim que cheguei no local, escondi-me atrás de uma pilastra, pois se minha mãe me visse no estado em que eu estava, ia arrancar o meu pescoço fora. Eu aparentava uma mendiga, suada, os cabelos desgrenhados e a roupa suja de terra.
Ouvi uma agitação do lado de fora e esgueirei meu pescoço para que pudesse ver melhor, dois homens estavam ao lado da minha mãe, cada um deles tinha um menino ao seu lado. Um deles parecia ser um pouco mais velho do que eu, era magro e tinha um cabelo liso escorrido castanho, ele estava meio escondido atrás das pernas do seu pai e encarava o garoto do outro lado, que estava perto de um homem que gritava e gesticulava fortemente.
O homem parecia zangado e seu filho não aparentava ter a cara mais sociável do mundo. Seu cabelo loiro escuro caía sobre a sua testa e seus braços estavam cruzados ao lado do seu pai. Era fácil notar o seu parentesco porque eles eram muito parecidos, até na cara ranzinza.
O garoto sério olhou para o lado e franziu as sobrancelhas assim que pousou seu olhar em mim, eu me escondi rapidamente atrás da coluna, sentindo meu coração saltar pela garganta. Inclinei-me um pouquinho, só para tentar ver alguma coisa de novo e o garoto ainda me olhava, agora inclinando um pouco o lábio antes de voltar o olhar para o seu pai e continuar prestando atenção na conversa.
A sua ação deve ter chamado a atenção do menino magrinho, porque ele também me olhou e logo em seguida puxou a camiseta do homem ao seu lado e este inclinou em sua direção. Ele cochichou algo para o mais velho e recebeu uma confirmação de cabeça dele, que fez com que ele saísse do local e desaparecesse.
Olhei de um lado para outro sem compreender muito bem, mas voltei a prestar atenção na agitação dos adultos.
Você não é obrigado a participar, Marcus, se quiser pode ir embora ― minha mãe exclamou alto.
Meu pai chegou nesse mesmo momento e segurou em seu ombro, ele fez um sinal com a mão, que eu achava que era um pedido de silêncio ou calma, não sei bem. O homem brigão respondeu algo, mas não consegui escutar. Desviei meus olhos para o garoto novamente, mas senti um dedo cutucar meu ombro e eu pulei de susto, caindo de bunda no chão.
O que está fazendo?
O menino magricelo agora estava na minha frente, seu cenho franzido para mim e a cabeça inclinada para o lado, me analisando. De perto agora eu podia notar seus olhos azuis e o cabelo castanho brilhoso. Juro que o dele era bem mais bonito que o meu.
Levantei-me depressa e bati a mão em minha roupa, que ficou mais amarrotada do que já estava. Minha mãe ia me matar e, se ela soubesse que eu tinha encontrado os convidados desse jeito, nunca mais ia me deixar sair do meu quarto.
Você não fala? ― perguntou-me novamente e eu mordi o lábio inferior, pensando em uma rota de fuga rápida que me fizesse chegar a tempo em meu aposento, antes que minha mãe me flagrasse também.
O garoto tinha as roupas impecavelmente passadas, vestia um terno azul escuro, sem gravata e os sapatos pretos brilhantes. Bem diferente do meu estado atual.
Meu nome é Koddy ― ele estendeu a sua mão para mim e sorriu. Quando ele fez isso, seus olhos ficaram pequeninhos e sua feição amigável me coagiu a cumprimentá-lo.
Estendi a minha mão para apertar a dele, mas logo notei as unhas cheias de terra embaixo e a sujeira que a cobria. Meu rosto queimou de vergonha e minhas bochechas esquentaram. Puxei a minha mão de volta em punho e escondi-a atrás das costas, enquanto saía correndo do garoto. Corri o máximo que pude para sair do salão e fui em direção ao jardim.
Olhei para os lados, notando os empregados pararem o que estavam fazendo para me ver como uma louca fugitiva e antes que conseguisse olhar para frente de novo, meu corpo trombou com algo e eu caí, batendo minha lateral no chão.
Rolei e resmunguei de dor, enquanto ouvia uma voz de menino fazer o mesmo. Tentei me levantar e olhei para o lado, notando que havia batido no garoto estranho que estava ao lado do pai briguento. Coloquei-me de pé e pensei em estender a minha mão para ajudá-lo a levantar, mas recordei-me que ela estava imunda, então achei melhor não fazer nada.
Desculpe ― murmurei, olhando para baixo e colocando minhas mãos entrelaçadas para trás.
O garoto tinha o cenho franzido com raiva e levantou-se em um pulo rápido. Ele me esquadrinhou de baixo para cima e depois olhou para o lado, focando a sua visão na pequena tiara real que eu usava, mas que, na queda, havia parado longe.
Ele caminhou até ela, abaixou-se e a pegou, girou-a de um lado para o outro, analisando-a, e depois voltou seu olhar para mim, andando em minha direção. Ele era bem mais alto do que eu e seu olhar de desdenho intimidou-me. Ele levantou o meu adorno e colocou-o em minha cabeça de qualquer jeito, dando um passo para trás em seguida, cruzando os braços e deixando que seu lábio se inclinasse como mais cedo.
Essa é a princesa de Atra? ― soltou, o veneno explícito em suas palavras. ― Eu esperava algo melhor. ― Girou o seu corpo e saiu, como se não tivesse me insultado segundos antes.
Minha boca caiu aberta pelo choque e uma onda de raiva inundou a minha pele.
Quem aquele garoto era para me insultar assim?
Antes que eu dominasse a minha língua ou me lembrasse da minha mãe dizendo que princesas devem manter a compostura, eu já havia soltado o verbo.
Imbecil! ― gritei e o garoto olhou para trás imediatamente.
Minha respiração era pesada e meus punhos estavam fechados ao meu lado enquanto olhava para ele com raiva, o menino me encarou por alguns segundos e depois rolou os olhos, continuando a se afastar.
Bati o pé no chão com raiva e voltei furiosa para o meu quarto, deixando que a porta colidisse e fizesse um alto som ao fechar. Andei de um lado para outro até alguém bater, interrompendo meu momento de fúria.
Cadê a minha princesinha rebelde? ― uma voz feminina gritou do lado de fora e eu saltei para lá correndo, abrindo a porta de uma só vez.
Kath! ― exclamei e abracei-a. ― Já estava achando que não viria.
Katherine Beluzzo era filha da governadora de Swaina, seus cabelos loiros longos e ondulados iam até a cintura e seu olhar pertinente era o que mais chamava atenção.
E você acha que eu perderia a oportunidade de participar do baile pela primeira vez? ― Sorriu assim que eu a soltei e puxei-a até a minha cama para podermos nos sentar. ― Quais as novidades?
O de sempre. ― Balancei a cabeça em descaso. ― Aulas chatas de etiqueta e um monte de “ você não pode fazer isso”. Nada muito diferente do que você já saiba. ― Dei de ombros.
Aí que se engana, a minha vida é muito mais divertida.
Uma pequena e dolorida verdade.
Katherine poderia ser filha da governadora e ter suas responsabilidades para lidar, mas não era como eu. Não era à toa que ela tinha muito mais coragem para se meter em confusão do que eu também.
Enquanto eu tinha medo das represálias, Kath me dava força para enfrentar a lei. Eu era uma pessoa mais corajosa perto dela, não queria ser conhecida como a medrosa e ser chamada de princesinha pela minha amiga, apesar do apelido já ter pegado.
Então, senhorita divertida, o que sua cabecinha mirabolante planejou para nós hoje? ― perguntei, sabendo que ela sempre tinha um plano.
Kath dizia que se fosse para ser princesa e não dominar o mundo, nem precisava carregar, então, a coroa.
Hoje não, princesinha. Hoje vamos somente ouvir as conversas dos mais velhos. ― Deu uma risada maquiavélica, típica de quando íamos aprontar algo. ― Você viu a confusão lá fora? Sua mãe puxou a minha na hora que chegamos e parecia que o assunto era sério. Você não quer saber? ― Esfregou uma mão na outra.
Onde elas foram?
Acho que estão naquela salinha que elas sempre ficam quando vão fofocar.
Ok, mas como vamos fazer isso?
Fácil, . Para que servem todas as passagens secretas de um castelo se não for para ouvir as conversas alheias? ― gargalhou e eu a acompanhei.
Então vamos, o que estamos esperando? ― Levantei-me e ajeitei a minha roupa, sendo seguida por Katherine.
Esgueiramo-nos pelos corredores e fomos direto para a portinhola da biblioteca, que eu sabia que, após um tempo percorrido nos corredores escuros, sairia direto na sala secreta de reuniões onde estavam as nossas mães. Eu ainda não conhecia todas as passagens, mas essa era uma das mais fáceis de decorar.
Com o coração palpitando pelo medo de ser descoberta, abri a portinhola e entramos naquele beco escuro e fedido a mofo que nos levaria a saciar nossa curiosidade.
É aqui. — Apontei depois de um tempo para o local. — Elas estão atrás dessa porta, já ouço até os sussurros. — Coloquei meu ouvido na porta e já podia ouvir claramente uma movimentação por detrás dela. — Kath, o outro lado dessa porta é disfarçado em forma de quadro, mas se não abrirmos não vamos conseguir entender nada. E, definitivamente, eu não vou me arriscar abrindo essa porta e ficando de castigo pelo resto da minha vida. Não mesmo!
Larga de ser uma chata medrosa, . Nossa vida já é um castigo, não sei o que mais poderia mudar aqui. Vamos lá, não precisa abrir a porta toda, só uma gretinha para conseguirmos ouvir o som direito.
Kath passou na minha frente, me deu um leve empurrão e, devagar, abriu um pouco a porta falsa, nos permitindo ver a mãe dela e a minha mãe conversando.
Eleanor, você tem que superar. A vida continua, você não pode viver no passado.
Não consigo, Elza. É como se fosse um pesadelo revivido todas as noites. Eu tentei de tudo, tentei seguir minha vida, tentei fazer tudo direito e nos conformes, mas nada consegue tirar a dor do meu peito.
Lea… Você tem uma filha linda e um marido incrível. Isso deveria ser motivo suficiente para você deixar o passado para trás e olhar para o futuro. Quantos anos já se passaram? Não deixe essa tristeza formar essa barreira gélida em torno de você. Você é uma pessoa formidável, permita que as pessoas vejam isso e não afaste o seu marido. O que tanto te aflige? A tragédia que aconteceu ou o arrependimento por ter deixado aquela pessoa partir?
Eu não entendia o que elas estavam falando, mas imaginava que talvez tinha a ver com a morte dos meus avós. Minha mãe parecia fragilizada, eu nunca tinha lhe visto assim, ela sempre aparentava ser tão forte.
Do outro lado da sala, meu pai entrava cautelosamente, como se não soubesse se seria bem-vindo.
Posso interromper, garotas?
Enric — a mãe de Kath exclamou, sorrindo para ele.
Olá, Elza, você está linda! Stuart é privilegiado por ter tamanha beleza ao seu lado. Claro que perde apenas para a minha querida esposa, obviamente. — Sorriu para minha mãe e olhou-a com encanto.
Meu pai era a pessoa mais carinhosa que eu conhecia. Enquanto minha mãe era o gelo, ele era o sol que derretia qualquer coisa. A forma que ele a tratava, falava e a olhava, transbordava claramente todo o amor que sentia. Eu ainda era criança e não entendia muito bem o amor, mas eu podia compreender que, quando chegasse a minha vez, eu queria alguém que gostasse de mim tanto quanto o meu pai gostava da minha mãe.
Obrigada, Enric. Vou te perdoar por tamanha ofensa porque sei que você é cego de amor pela Lea. Se não fosse por isso, claramente diria que eu sou a mulher mais bela desse castelo. — Elza retrucou-o em meios aos risos.
Você sabe que sou mesmo — meu pai respondeu e sentou-se ao lado da minha mãe, encarando e tocando o seu queixo para que ela olhasse para ele. — Amor?! — perguntou, incerto. — Aconteceu alguma coisa?
Elza pigarreou e levantou-se, caminhando até a porta em seguida.
Acho que devo deixar vocês um pouco sozinhos. Depois colocamos mais o papo em dia, tudo bem? — despediu-se e foi se retirando da sala. Ao chegar na porta, virou-se para minha mãe e disse: — Não se esqueça do que conversamos, Lea. — Piscou e saiu.
Tentei chegar mais perto da porta para entender o que estava acontecendo, mas minha amiga tomava a minha frente e eu não conseguia entender direito.
Dá licença, Kath, são meus pais aí, eu preciso ouvir melhor — resmunguei, empurrando-a e me colocando a frente.
Ai, princesinha! — resmungou. — Cadê a sua educação e gentileza? Assim você decepciona o apelido que te coloquei. — Cruzou os braços, emburrada por trocar de lugar comigo.
Isso ficou lá no meu quarto no momento que você inventou de me fazer espionar as nossas mães.
Já que está reclamando, então vamos voltar. Duvido que você não estava tentada a descobrir o que elas estão falando — Kath me desafiou, presunçosamente.
Ai, cala a boca que eu quero ouvir. — retruquei-a e voltei a colocar os olhos na greta para observar meus pais.
Meu pai estava abraçado a minha mãe e falava algo em seu ouvido. Lágrimas escorriam dos seus olhos, eu nunca tinha visto ela chorar em toda a minha vida. Ela parecia tão frágil…
Eleanor, você sabe que eu te amo e estarei sempre para você, não é? — meu pai perguntou a ela e acarinhou seu rosto. — Eu sei que foram tempos difíceis, você teve que fazer escolhas duras que refletiram em sua vida. A dor do que aconteceu ainda pesa no seu coração, mas lembre-se que também dói no meu. Ele era tão importante para mim quanto era para você. Não deixe as amarras do passado ofuscarem a bela mulher que você é e que eu conheço tão bem.
Me desculpe, Enric, você não merece nada disso. Você sempre foi tão bom pra mim, meu porto seguro. Se não tivesse me ajudado tanto nesse período, eu nem sei o que seria de mim. Me perdoa, Enric, me perdoa. — Minha mãe recostou-se no peito do meu pai e ele passou seus braços por suas costas, trazendo-a ainda mais para si, as lágrimas rolavam pelo rosto dela e, sem perceber, eu mesma chorava sem nem compreender.
Ver ela dessa forma me machucava, eu não queria que ela sofresse. Por que ela estava chorando?
Não tem porque se desculpar, meu amor. Eu te compreendo, o peso da coroa sempre foi maior para você do que para mim. Eu sempre soube disso tudo antes de nos casarmos e, ainda assim, estou aqui, não estou? — Sorriu para ela e beijou a sua cabeça. — Agora respire fundo e enxugue essas lágrimas, pois nós temos uma festa para conduzir e eu preciso mostrar para toda Atra quem é a rainha mais bela desse mundo. — Meu pai riu e abraçou-a ainda mais forte.
Eu não conseguia mais suportar isso, me sentia mal por bisbilhotar um momento como aquele.
Vamos embora. — Virei-me para Kath ainda com os olhos marejados e passei por ela, indo em direção a saída do esconderijo.
Mas, ... — tentou me parar, mas eu apenas balancei a cabeça em negativa.
Eu não queria mais saber, eu não correria mais atrás dessas coisas. Seja lá o que tivesse feito minha mãe chorar daquela forma, se trazia tanto sofrimento, era que melhor que ficasse no esquecimento então.



#2 Diário da Eleanor

22 de fevereiro de 2000

Duas vezes por ano chegavam coisas novas a Atra. Dentre elas, alguns livros velhos e usados, doados para nós. Os que vinham repetidos, iam para a biblioteca nacional, os exemplares únicos, para o palácio. Eu gostava de me aventurar por lá, lendo histórias de cavalheiros, princesas, fantasias e sapos que viravam príncipes. Mas, o mais legal de todos, era o que contava a história de três jovens, os três mosqueteiros.
Eu gostava porque me identificava com aquele tipo de amizade. Eu também tinha meus parceiros e os intitulei como os meus três mosqueteiros. Enquanto éramos adolescentes bobos e cheios de energia, foi fácil lidar. Éramos sempre nós contra o mundo. Eles eram o que eu precisava para viver. Paz, razão e coração. Cada um me completava de uma forma.
Éramos sonhadores e risonhos, achávamos que eu dominaria o mundo e eles seriam os cavalheiros que trabalhariam ao meu favor. Um por todos e todos por um, para sempre.
Mas como sonhos bobos da infância, a gente cresce e as coisas mudam.
Como o vento que não sabe sua origem ou destino, fraco, forte, ou destruidor.
Aí você começa a ver que os sonhos morrem, a realidade aparece e tudo muda tão bruscamente que fica impossível voltar.
Nada nunca mais foi o mesmo.
Nada nunca mais voltaria.
E dos meus três mosqueteiros, só me restou um.



Capítulo 5

Eu poderia começar a minha semana de diversas formas, no entanto, aqui estava eu, a coroa na cabeça, um belo e formal vestido longo com adornos bordados nas mangas e no colarinho e um salto alto nos pés, ainda que todo esse vestuário nem combine com Atra, contudo, éramos da realeza, precisávamos destacar dos demais.
Meus pais e eu havíamos acabado de descer da carruagem, aqui na ilha não tínhamos o costume de usar outros tipos de veículos além dos animais. As estradas eram rústicas, no intuito de não mudar a ambientação e preservar a naturalidade do ambiente e também, para que teríamos carros ou motos? Os combustíveis teriam que ser importados e, nas duas vezes que já vinham as cargas para Atra, tínhamos coisas mais importantes como trazer o diesel para gerar energia.
Hoje seria a inauguração da Casa do Turismo e um grande número de pessoas haviam se reunido para prestigiar esse grande passo para Atra.
Normalmente éramos autossustentáveis, no entanto, ainda precisávamos importar coisas como medicamentos ou contratar profissionais externos como alguns professores, médicos, dentistas ou até mesmo financiar que alguns cidadãos pudessem sair do nosso país para estudar e se capacitar no exterior, voltando em seguida para atuar aqui, devolvendo o conhecimento para a ilha. Era o sistema de bolsas de estudo que o meu avô havia implantado.
Tudo isso custava dinheiro e, apesar da minha mãe ter lutado por parcerias, ainda não era o suficiente para conseguir tudo o que precisávamos.
A ideia da casa da cultura era aproveitar os talentos dos artesãos de Atra para confeccionar coisas que pudessem ser vendidas e exportadas, aproveitando os navios cargueiros para levar a mercadoria. As praias da nossa ilha possuíam conchas raras que só eram encontradas por aqui, assim como outras especiarias. Minha mãe esperava que isso pudesse elevar a nossa renda e nos trazer benefícios, arcando com as despesas que tínhamos.
Eu não gostava de participar dessas formalidades, mas não é como se hoje eu tivesse escolha, pior ainda depois do final de semana que tive. Agora eu precisava estar ali como a filha modelo, sorrindo e acenando.
No ano passado meu tio Otto havia voltado da sua expedição à Dinamarca, ele era um aventureiro, vivia indo para o exterior e voltando, trazendo novidades e auxiliando minha mãe nas necessidades que ela precisava. Ele era o nosso porta voz no mundo lá fora, o braço direito da minha mãe e a pessoa que nos representava diante do restante dos países. Além disso, na época que ele estudou na Inglaterra, ele fez um curso de fotografia ― o que eu achava o máximo com aquela máquina que conseguia captar a nossa imagem. Ele vivia trazendo-me fotos das suas viagens e eu costumava colecioná-las em meu quarto, sonhando pelo dia que eu mesma poderia visitar cada um desses locais.
A vida que o meu tio Otto tinha, era o que eu queria para mim. Mas como filha única, isso era um sonho distante que a cada dia ia se apagando.
No final do ano passado, o meu tio havia voltado, por isso ele estava aqui no evento, tirando as fotos que, segundo ele, serviria como propaganda para nós. Após a semana da primavera, ele iria embora no cargueiro e eu já chorava internamente por sua ida. Tio Otto era a pessoa mais divertida da minha família e eu o adorava.
Mas como não amar o meu tio?
Aquele ruivo divertido conseguia dobrar até a minha mãe se bobeasse.
O início do discurso se daria daqui uns minutos ainda, antes minha mãe iria socializar com alguns representantes do comércio, artesãos e alguns governadores que haviam vindo para o evento. Meu pai a acompanhou e eu, que não tinha muito saco para conversa chata de política, resolvi aproveitar para dar uma volta no local ― que ainda estava fechado ― e conhecê-lo.
A casa do turismo era como um grande local comercial cheio de lojinhas internas. Cada uma tinha produtos específicos. Havia o setor dos perfumes, comidas, entalhes de madeira, artesanatos de coco, entre outros. Eu entrei no de adereços, os balcões tinham colares, brincos e anéis, um mais lindo que o outro, o que só não me trazia inveja porque nós sempre recebíamos algumas dessas regalias.
Passei meus dedos por alguns dos objetos que estavam lá expostos, admirando como as pessoas conseguiam produzir artes tão belas através das coisas naturais. Estendi minha mão e toquei em um colar que estava no fundo da exposição, ele era diferente dos demais e estava dentro de um pequeno baú de joias aberto, destoando de todos a sua volta. Ele era fino e delicado, feito de uma das nossas conchas mais raras. Seu aspecto era metalizado, como uma mistura entre o prata e o dourado e, dentro dele, havia uma pequena pérola, rodeada por mini conchas internas, que adornavam a concha maior.
― Não sabia que além de vigarista a princesa ainda era uma ladra ― uma voz soou atrás de mim e eu pulei com o susto, recolhendo a minha mão instantaneamente.
Girei o meu corpo para trás e deparei-me com e seu sorriso presunçoso no rosto, as mãos cruzadas para trás e os olhos encarando-me em meio as frestas do seu cabelo.
― O que está fazendo aqui? ― retruquei, recuando um passo e trazendo a minha mão para o meu peito.
― Bom... ― Ele deu um passo à frente. ― Eu que deveria perguntar, não fui eu que estava furtando os colares da exposição da Casa da Cultura. ― Inclinou a cabeça na tentativa de observar atrás de mim.
― Eu não estava roubando nada!
olhou-me de soslaio e abriu um pequeno sorriso, ignorou-me e caminhou até onde eu estava. Afastei-me, tentando manter a distância dele e ele passou por mim, parando em frente ao balcão que eu estava e fitando o mesmo colar que eu. Seu corpo se empertigou e ele franziu o cenho duramente, linhas de expressões profundas vincando a sua testa.
Sua postura durou alguns segundos, até que se lembrasse novamente de mim e virasse seu corpo, apoiando seu braço esquerdo no balcão em uma postura relaxada e voltando a me encarar.
― Não sei se dá para dar credibilidade a uma pessoa que costuma se fantasiar para andar no meio do povo e se autointitula Mellanie Strith.
― Você não sabe nada sobre mim! ― cuspi.
― Realmente... ― Balançou a cabeça e riu. ― Depois do nosso encontro eu fiquei meio na dúvida. Como devo chamá-la? Vossa alteza? Srta. ? Ou melhor... Mellanie, não é? Você se apresenta de tantas formas que fica difícil escolher.
Meu sangue ferveu em minha pele enquanto ele usava o seu tom de desdenho para comigo. Eu nunca deveria ter aceitado dançar com ele e provavelmente enxotá-lo ou sair correndo teria sido alternativas bem melhores a serem feitas.
― Para você, Sr. , Vossa Alteza é o suficiente. ― Tentei usar a mesma feição apática que ele, mostrando que o desprezo era mútuo entre nós.
desencostou do balcão, deu um passo à frente e passou seus olhos lentamente pelo meu rosto, sua língua molhou seus lábios e ele abaixou um pouco a cabeça para baixo, fitando-me entre os cílios e mordendo o lábio inferior para segurar o sorriso.
― A gente precisa parar de ter esses encontros escondidos, sabia? ― entoou baixo, sua voz saindo um pouco mais grave.
Engoli em seco e pisquei, um calafrio deslizando pela minha pele. Meu pai sempre dizia que o diabo nunca ia se mostrar na sua forma original, feia e assustadora. Sua aparência seria sempre bela e atrativa, pronta para nos seduzir. Nesse momento eu tinha a certeza absoluta que era a personificação do diabo, porque só isso explicaria porque uma pessoa tão intragável poderia vir em um pacote tão lindo.
― O que quer comigo? ― rosnei, apoiando-me no balcão e o segurando com força.
― E por que acha que eu quero algo com você? ― Abriu um sorriso travesso e deu mais um passo em minha direção.
― Não sei, talvez porque me perseguiu na festa? Ou porque me convidou para dançar? Ah... ― Olhei para cima e coloquei o dedo em meu queixo, fingindo pensar. ― Talvez porque está aqui nesse exato momento conversando comigo quando parece claro que não me suporta. Então, quais das três opções quer responder? ― Apontei para ele e depois cruzei os braços, um sorriso vitorioso nos lábios.
Eu acreditava que talvez isso o intimidaria, mas estava errada. O sorriso de ficou ainda mais largo e ele aproximou-se mais, caminhando com toda a sua elegância, como se estivesse pronto para devorar uma presa. Seu corpo parou bem a minha frente, ambos quase colados, a ponto de eu poder sentir a sua respiração na altura dos meus olhos. Ele inclinou-se até o meu ouvido, erguendo a mão para tocar o meu cabelo e colocá-lo para trás lentamente, abrindo espaço para o que ele queria dizer.
― Talvez, princesa, eu só queira provocar você ― sussurrou e deu um passo para trás, recuando.
Meu estômago se revirou com a adrenalina e a raiva cultivada pelo ser ultrajante na minha frente. Empurrei-o com força para que ele se afastasse ainda mais e passei por ele com passos fortes, parando assim que cheguei na abertura que dava para fora daquela sala.
Virei-me para ele, ainda tinha aquele sorriso presunçoso, o corpo escorado no balcão e os braços cruzados. Deixei que ele visse os meus olhos, todo gelo e ódio que eu tinha naquele momento transpassado em sua direção.
― Você pode achar que é engraçado provocar-me, . Mas não se esqueça que eu ainda sou a princesa de Atra e é melhor que você saiba bem quem está enfrentando antes de entrar nessa batalha.
Segui direto a saída, topando com meu pai logo em seguida. Ele estava sozinho e seus olhos voavam de uma direção a outra.
― Onde estava? ― perguntou assim que me viu.
Abri a boca, mas resolvi deixar para lá. Engoli as palavras e dei de ombros, como se não fosse importante.
― Já está na hora do discurso? ― perguntei, evitando o seu questionamento.
Meu pai franziu o cenho, mas olhou para trás, apontando com a cabeça na direção onde minha mãe estava. Ao lado dela estavam alguns governadores e ela se postava para começar. Fomos andando até perto, a fim de apoiá-la, e admiramos a sua eloquência assim que começou.
Minha mãe era uma líder nata, seus olhos emanavam firmeza e convicção de cada sílaba que soava. Talvez seja a sua couraça dura que tenha conquistado o povo afinal. Ela não era sociável, divertida ou cativante como meus avós eram. Eles eram a sensação da realeza, talvez a geração mais amada que já passou por Atra. Era difícil competir. Já a minha mãe, justamente o oposto. Fria, contida, porém, firme. Uma liderança diferente, oposta e difícil de se acostumar. Mas ela conseguiu dar a volta por cima e segurar as pontas por aqui.
Enquanto ela discursava, aproximou-se e parou ao lado do meu pai e eu. Olhei-o pelo canto do olho e lutei contra a vontade de torcer o nariz e me afastar. Contudo, estávamos na área exclusiva, era um direito dele ficar ali tanto quanto nós, já que o seu pai também estava no palanque com a minha mãe e deveria falar logo após ela.
Ficamos lá por algum tempo até que terminasse as solenidades, a faixa vermelha do local foi cortado, dando oficialmente a abertura e inauguração da Casa do Turismo. Minha mãe olhou para nós e fomos até ela, juntando aos demais políticos. Passamos alguns minutos sendo apresentados para cada sala interna com os produtos e conhecendo os departamentos. Ao entrar onde e eu estávamos anteriormente, eu jurava ter ouvido um pequeno riso dele perto de mim, mas preferi não virar para conferir, adotando a ignorância para manter a minha serenidade perto dele.
Sair de lá foi como um refresco e tudo o que eu queria era voltar para casa, mas, como tudo na vida, nem sempre é como desejamos, assim que deslizei pela porta a fora, fui abordada por cinco senhores me cercando e impedindo a minha passagem.
― Ei, princesa, não vai falar com seus súditos? ― Um deles estendeu o braço, impedindo minha passagem, e eu olhei para ele furiosa.
― O quê? Você é muito importante para falar com o povo? ― outro cuspiu, fazendo uma reverência estúpida e desleixada.
Meu coração começou palpitar e um frio percorreu a minha coluna. Tentei ultrapassá-los, empurrando-os com o ombro, eles abriram passagem, mas apenas o suficiente para que me afastasse um pouco. Logo eles estavam em meu entorno novamente, agora mais pessoas se unindo a eles.
― Estúpida! ― uma voz do fundo gritou e meus olhos se arregalaram.
― Mimada!
― Volte para o seu palácio!
As palavras sambaram em meio à multidão que se formava, enquanto aqueles homens me cercavam e riam da minha cara. Vozes e mais vozes zombavam enquanto eu tentava fugir entre eles e acabei sendo arremessada para trás novamente.
Senti uma pancada em meu braço e levei minha mão a ele instintivamente, olhei para baixo e vi uma laranja rolando. Meus olhos lacrimejaram e eu os fechei, a dor irradiando pelo meu músculo.
O pavor começou a tomar conta de mim, senti-me sufocada enquanto o ar se esvaía dos meus pulmões. As lágrimas salpicaram os meus olhos e quando vi uma onda de novas coisas serem arremessadas contra mim, levantei o braço até o meu rosto para tentar me proteger, ao mesmo tempo que me encolhi, girando para trás. Contudo, as pancadas não me atingiram e, no lugar delas, senti um corpo quente me abraçar e grunhir contra mim.
Ergui as minhas mãos para afastá-lo, trêmula e assustada com a invasão, no entanto, percebi que era . Seu corpo alto e forte me cobriu e me impediu de ver a multidão atrás dele, sua mão estava em minha nuca, empurrando o meu rosto contra o seu peito enquanto sua pele tremulava.
Não tive tempo para pensar, logo fui arrastada por entre as pessoas, a voz dele saindo como um trovão. Eu não consegui entender, estava atordoada com o barulho. Meus olhos cerrados pelo medo e assustada com o que havia acontecido. Não demorou muito até que eu sentisse o silêncio e suas mãos pousassem no meu rosto, pude sentir os dedos trêmulos dele me tocar, mas eu ainda não conseguia abrir os olhos.
― Está tudo bem, . Está tudo bem... ― A voz dele saiu entre suspiros e, lentamente, eu pude abrir meus olhos e vê-lo.
Sua roupa estava uma bagunça, os cabelos loiros grudados na testa suada e o peito subindo e descendo sem parar. Quando olhei para baixo, vi os restos de tomate mancharem sua camisa.
Não sabia o que dizer a ele.
Ainda estava estupefata.
― Que bagunça, hein? ― A voz de roubou a minha atenção e eu o olhei imediatamente, um pequeno sorriso cobria a ponta da sua boca, contrastando com seu rosto cansado.
― O que foi isso? ― perguntei, levando a mão ao meu coração e olhando em volta até um corredor vazio onde ele havia me trazido.
― Acredito que sejam alguns desafetos, nem todo mundo gosta da realeza, princesa. ― Seu olhar fugiu de mim e perpassou ao redor, observando atentamente se estávamos sozinhos.
A verdade crua fez com que a bile subisse a minha garganta, trazendo um gosto amargo. Eu sabia que nem todo mundo era obrigado a amar-nos, mas...
Aquelas palavras, aquelas pessoas... elas foram cruéis.
Eu estava mais que habituada com o desafeto do governador Marcus, ou mesmo com , porém aquilo... aquele tipo de agressão...
Minha mão voou até onde o meu braço fora atingido e eu senti os olhos de sobre mim. Ele se aproximou e tocou-me, levantando um pouco o meu membro, a mancha vermelha marcada na minha pele.
― Droga... ― praguejou baixinho antes de me soltar. ― Acho melhor você procurar o seu pai e ir embora, precisará colocar um gelo ou isso vai ficar feio.
se afastou rapidamente e encostou-se no muro, cruzando os braços e mantendo uma distância considerável.
Franzi a testa para ele.
― Por que me ajudou? ― indaguei-o com o questionamento que me atormentava.
Eu jamais imaginaria que alguém como ele faria isso por mim, se colocar a frente para me proteger assim... Eu não conseguia compreender.
A expressão dele mudou imediatamente para zombeteira e ele balançou a cabeça, pousando um sorriso irônico nos lábios.
― Você ainda é uma princesa, eu ainda sinto um resquício de dever como cidadão em honrar os meus monarcas. ― Piscou, tirando por menos.
Não engoli suas palavras, mas também não quis perder tempo com elas. Ainda estava assustada e tudo o que eu queria nesse momento era ir embora. Meu braço latejava e se estivesse correto, além de uma bolsa de gelo eu precisaria de um belo analgésico.
― Vamos, vou te levar embora. ― Ele desencostou-se de onde estava e pousou as mãos nas minhas costas.
Nesse momento eu pouco me importava que ele fosse um ou um dos nossos desafetos. Aproveitei-me por um instante da sua gentileza para poder partir. Amanhã eu lidaria com isso, pois agora, qualquer intriga entre nós era muito pequena, eu só conseguia pensar no quanto o meu próprio povo me odiava.





Continua...



Nota da autora: Esses dois ainda vão dar muito pano para manga! É fogo viu!
A princesa já está vendo que não é tão simples lidar com o pp, mas ela também não deixa barato. Mas, o que ela deveria realmente começar a se preocupar é com aquilo que ela não quer enfrentar. O povo está insatisfeito e mudanças precisam ser feitas. Será que a princesa vai conseguir lidar com isso?
Próximo capítulo teremos a atualização dessa confusão.
Até mais!




Nota da beta: O povo não está gostando do jeito frio que a mãe dela governa, complicado… Mas confesso que ameei o pp protegendo elas em seu braços, foi muito fofo e nobre! Ansiosa pela continuação <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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