Última atualização: 10/05/2020
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Prólogo

– A senhorita tem certeza?
– Sim. – Respondi, gastando todas as forças que eu tinha parar falar e ignorar a dor nos músculos do meu pescoço. – Não tem nada mais vergonhoso à essa altura.
A perita levantou a câmara até a altura dos meus seios e bateu a foto. Enquanto isso, a médica do Spire Manchester Hospital cortava as minhas unhas. O uniforme do hospital parecia pesar sobre meu corpo e fazer com que eu não conseguisse respirar muito bem.
– Senhorita , tem alguém com quem possa ficar? Amigos, família...
– Tenho uma amiga. Minha família mora longe, não quero que os comuniquem sobre isso.
– Quer que eu ligue pra sua amiga?
– A já está a caminho. – Murmurei.
Um calafrio percorreu o meu corpo e eu não consegui evitar um brusco balançar. Não passou despercebido, nem pela médica nem pela perita.
– Está com frio? Podemos arrumar um cobertor, se desejar.
– Vou ficar bem. – Disse pela milésima vez no dia, mas nem eu mesma acreditava em minhas próprias palavras.
Sentia cada músculo do meu corpo doer. Sentia a vergonha, a sensação de impotência, o desaparecer da minha credibilidade se esvaindo de mim, escorregando por entre meus dedos. Enquanto o exame de corpo delito seguia, eu segurava uma vontade imensa de me desmanchar em lágrimas. Queria voltar no passado e fazer algo para evitar que tudo aquilo acontecesse.
– Terminamos por aqui. Gostaria de mantê-la no hospital por mais um ou dois dias, se possível, para que tenhamos uma equipe apropriada monitorando esses primeiros momentos. Isso, é claro, se a senhorita concordar. – Eu apenas assenti. – Claire, pode pedir que deixem policiais de vigília por aqui?
– Acredito que meus superiores não vão se opor a isso.
– Ótimo. Enquanto isso, vou pedir que a equipe de segurança do hospital permaneça alerta.
– Seria bom mesmo. – A perita disse e começou a desmontar a câmera. – Senhorita , sei que passou por um momento terrível e eu não posso expressar o quanto sinto muito por vê-la nessa situação, mas preciso informá-la que, quanto mais cedo a senhorita falar com nossos detetives, maior será a chance de pegar seu agressor.
Mais uma vez, eu apenas assenti. Não queria falar, não queria pensar. A dor se sobrepunha a tudo. Minha cabeça, pela milésima vez naquele dia, parecia poder explodir a qualquer instante.
– Posso pedir uma coisa? – Perguntei à médica quando a perita deixou o quarto onde eu estava.
– Claro. No que posso ajudar?
– Pode me dar algo pra dormir? De verdade. Eu preciso dormir.
A senhora abriu um sorriso que passava conforto e, instintivamente, acariciou o topo da minha cabeça.
– Querida, infelizmente, não é a primeira que atendo uma jovem como você nesta situação. E eu sei bem que o você precisa de umas boas horas de descanso, então já administrei esse medicamento. No mais, saiba que isso vai passar e o que mais importa é que você se recupere. Você deve se sentir sonolenta em alguns minutos. Se sua amiga chegar depois disso, trarei ela para cá.
Eu assenti, a médica sorriu novamente e se virou em direção à porta.
– Doutora Evans? – Chamei, ao que ela respondeu imediatamente. – Obrigada.
O sono, de fato, veio. Mas isso não me impedia de reviver as cenas na minha mente. Os socos deferidos contra meu corpo, os gritos com palavras detestáveis, o olhar pesado e inquisidor. Tudo por causa de uma palavra fora do lugar. Jack nunca havia se mostrado capaz de tal violência contra mim, o que fazia doer mais ainda cada golpe com o qual ele me vitimava. Havia confiado minha vida a alguém que jamais a protegeria. Enquanto eu apanhava, achava que iria morrer. Até que um anjo apareceu e salvou a minha vida.


Capítulo 01

– Você sabe que esse lugar é uma merda, né?
– Menos, .
– Mas você sabe!
– Pode me ajudar aqui ou vai ficar falando besteira aos quatro ventos?
me deu a mão e eu segurei, usando de seu apoio para passar por baixo dos poleiros improvisados colocados para as galinhas recém adquiridas. Coloquei os ovos na caixa de transporte e a depositei em cima de uma prateleira, logo ao lado do portão do galinheiro.
, isso não é vida.
– Pra quem?
– Pra qualquer um!
– É vida pra mim, oras.
!
– Meu nome. – Respondi, revirando os olhos e pegando a caixa de ovos.
Não por opção e sim por pressão do vento frio que invadia a propriedade, me pus a andar logo em direção à casa principal. bufou, pude ouvir, mas logo correu na minha direção. Parou bem na minha frente, bloqueando meu caminho. Eu respirei fundo e levantei o olhar para ela.
– Eu te conheço desde sempre. Você, , não é mulher pra isso. Um distrito de dez mil habitantes, numa vila com menos de cinquenta habitantes...
– São mais de cinquenta mil, na verdade, no distrito. E Aysgarth tem cento e oitenta habitantes. – Corrigi.
– Foda-se, ! Cacete! Não vê o que to tentando te dizer aqui?
Revirei os olhos, mais uma vez. Respirei fundo, mais uma vez. Então contornei seu corpo e continuei meu caminho, sendo seguida lado a lado por .
, eu não vou voltar.
– Você não pode ficar aqui pra sempre.
– Por quê não?
– Como a empresa vai ficar sem você?
– Posso trabalhar daqui.
– Esse fim de mundo nem tem internet.
– Se não tivesse, você não teria conseguido me contactar até então.
, nós precisamos de você de volta em Manchester.
– Estarei em Manchester semana que vem, pra depor, novamente.
– Você sabe que não to falando disso.
– Tá falando do quê então?
– Não se faça de desentendida.
Então eu parei, subitamente.
, me escuta. Eu não tenho a mínima intenção de voltar a Manchester.
– Eu não acredito.
– Não precisa acreditar, não depende de você.
– Vai fazer isso comigo?
– Estou fazendo isso comigo mesma, , e você entenderia se fosse tão minha amiga quanto diz que é.
– Eu não sou sua amiga. – Ela protestou. – Sou sua irmã.
– Que seja! – Resmunguei e voltei a andar.
– Sinto sua falta, !
– E eu só quero me sentir em segurança. Agora, se me permite, eu gostaria de dar o assunto por encerrado. Pode ser assim?
Ela fechou a cara mas concordou. Jake, meu Setter inglês, veio correndo do bosque atrás do galinheiro quando viu que nós já estávamos nos distanciando. Passou arrastando na minha perna e seguiu na frente. Ao ouvir um barulho por trás das árvores que ladeavam o caminho de volta, saiu correndo. Levou alguns breves segundos para que voltasse com um filhote de marta entre os dentes.
– De novo, não... – Murmurei antes de elevar a voz. – Jake, sentado!
Ele me obedeceu e permitiu que eu me aproximasse, mesmo que receoso. Deixei a caixa de ovos no chão e tirei o pequeno animal da boca dele. Vivo, ainda, graças a Deus. Encaixei a bola de pelos no bolso do meu casaco canguru e, sob a atenta observação de Jake, retomei o rumo.
– Você precisa arrumar uma companhia pra ele.
– Vou pensar nisso. – Respondi.
– To falando sério.
– Eu também estou.
Abri a porta principal da cabana, que dava para um extenso espaço em conceito aberto, mesclando sala de estar, sala de jantar, cozinha e uma mesa de sinuca nas exatas proporções. Deixei a caixa de ovos em cima da mesa. Peguei uma caixa de papelão na despensa, enchi com alguns panos de chão e coloquei o filhotinho lá. Estava imóvel mas, aparentemente, não havia nenhum ferimento grave. A caixa era profunda, então concluí que não seria possível que o pequeno escalasse. No outro dia, iria até o local para verificar se encontrava outros filhotes por ali e o deixaria de volta. Dessa vez, sem Jake. Mas pela noite, talvez fosse o ideal que ele ficasse ali conosco, ainda mais pelos 37,4ºF previstos para a madrugada.
– Sua vó estaria fazendo piada se te visse aqui hoje.
– Por quê?
– A garota “nunca vou sair de Manchester”, “eu adoro cidade grande”, “morar no interior é pra fracos”... A grande virou uma fazendeira.
– Se minha vó deixou isso aqui pra mim, ela queria que eu fizesse algo a respeito, provavelmente.
– Concordo com isso.
Eu liguei a cafeteira e coloquei a água para esquentar.
– Como você tá?
– Bem. – Respondi.
– Mentira.
– Não é mentira.
– Me poupe dessa sua tentativa fajuta de me enganar. – disse, apoiando as costas no balcão entre cozinha e sala de jantar. – Como você tá, ?
Respirei fundo, tirei o cachecol e abri o casaco.
– Eu vou ficar bem.
– Tem tudo o que precisa aqui?
– Vou à mercearia uma vez por semana e me abasteço. Você sabe bem que eu consigo me virar fácil e montar uma receita divina com qualquer coisa que tenha na geladeira.
– Disso eu sei. – Ela deixou um breve riso escapar. – E o braço?
– Novo em folha.
– Alguma notícia sobre o Jack?
– O detetive falou que estão procurando, mas parece que ele sumiu do mapa.
– Ah, o detetive ...
– Para, .
Ela soltou um risinho, dessa vez mais longo e mais despreocupado.
– Desculpa. É que não dá pra evitar. Ele e aquele parceiro dele. O... Qual é o nome dele mesmo?
.
– Isso. Um belo pedaço de mau caminho.
– Quero distância de homem por um bom tempo, . Você parece ignorar por completo o que eu passei.
– Só acho que seria melhor do que ficar falando nisso toda hora. Afinal de contas, a gente tem que celebrar que você tá viva e se recuperando. E de que adianta relembrar? – Ela desencostou do balcão e foi até a cristaleira pegar um copo. – Vou fazer você ficar bem, custe o que custar. Aquele filho da puta do Jack nunca mais vai chegar perto de você.
Respirei fundo e conti um tanto do nervosismo que crescia dentro de mim. Mudar aquele assunto seria a melhor coisa a se fazer dali em diante. Não queria tratar de Jack. Cada vez que pensava nele, a memória se tornava vívida na minha mente. Eu sentia novamente os socos, os chutes, os gritos... Só queria deixar aquilo tudo para trás.
– Você levou quanto tempo de Manchester até aqui hoje? – Perguntei, pronta para deixar o que sofri para trás, ao menos naquele instante. – Preciso me planejar para ir até a delegacia.
sorriu e começou a tagarelar, como sempre era previsível. Nós nos conhecíamos desde o berçário – literalmente. Nossas mães ficaram em quartos vizinhos na maternidade. As duas, boas mulheres que se desafiaram a abandonar um marido babaca durante a gravidez.
A mãe de , Dianne, tinha o apoio dos irmãos e familiares, no geral, porém todos moravam em Londres e nem ficaram sabendo de que ela havia entrado em trabalho de parto. Minha mãe, Rose, era proveniente de uma família extremamente religiosa e foi duramente julgada quando pediu o divórcio, ainda mais por carregar um filho na barriga. As duas saíram de Londres rumo a Manchester para tentarem despistar qualquer tentativa de perseguição do ex marido. Minha avó, , de quem herdei o nome, foi a única a acompanhar e se dividiu, na maternidade, entre ajudar as duas a receberem bem os novos bebês. A primeira era nutricionista. A segunda, engenheira de computação. O que nos levava à pergunta mais óbvia: como eu e havíamos parado no mercado editorial?
Desde pequena, eu era fascinada por escrever. Fui uma criança prodígio e, com boa educação caseira e muito esforço da parte da minha mãe, comecei a identificar minhas primeiras palavras antes mesmo dos três anos de idade. Nós, ingleses, tínhamos muito do que nos orgulhar a nível de escritores. Shakespeare, Jane Austen, J. R. R. Tolkien eram apenas três dos grandes nomes da literatura inglesa que poderíamos exaltar. Próxima da nossa geração, tínhamos J. K. Rowling, que tinha estourado no mundo com o sucesso estrondoso da saga Harry Potter.
Eu, pessoalmente, escrevi meu primeiro romance aos dez anos de idade, chamado Never Stop Dreaming, que era sobre uma menina que se apaixonava pelo amigo do irmão mais velho. Depois de alguns anos e bem mais matura, escrevi A Little Party Girl, No Destiny, Days Of My Life, My Strengh, Unexpected, Right Next Door to Hell, Innocent Seduction¸ Choices, The Wanted, além de contos com enredos baseados em músicas que eu gostava e vários outros títulos que acabaram se perdendo pelo caminho. Obras que não terminei? Eu colecionava. Publicadas? Uma. Unexpected. Escrita no auge dos meus vinte e um anos. Mas eu passei tanta raiva com a editora que escolhi que acabei trocando de curso repentinamente na faculdade e, quatro anos depois, estava abrindo meu negócio. só foi no embalo comigo.
Minha motivação para abrir a editora com , a princípio, foi não deixar alguém passar pelo que eu passei, ter o sonho do primeiro livro publicado ser pisoteado como se fosse uma piada. Com a experiência da minha mãe e da tia Dianne, eu tinha um ideal mais ou menos similar. Prometi a mim mesma que jamais aceitaria viver nas condições que elas viveram, nem passaria perto disso. Mas era até engraçado que eu me encontrasse na situação em que estava, fugindo de um homem que não era bom o suficiente para mim.
Conhecemos Jack na festa de lançamento de um dos nossos livros. O autor, Leo Rice, era dono de uma empresa de logística e escritor no tempo vago. Havia escrito um terror sobre um homem que assombrava um vilarejo na Finlândia e fazia pessoas infames morrerem repentinamente. Jack era amigo de Leo e este nos apresentou. À primeira vista, pareceu um cara normal de Manchester, que talvez me daria o lugar na fila do supermercado por educação. Dois dias depois, ele foi até a editora e me chamou para sair.
Jack parecia o cara perfeito. Era cavalheiro, gentil, carinhoso, não tinha medo de demonstrar afeto e respeitava minha mãe como ninguém. Bonito? É, até que sim, eu achava. Não era nada próximo dos caras de quem eu era fã, como o inalcançável Jensen Ackles, o meu sonho de consumo Daniel Craig ou o galã supremo Brad Pitt, mas Jack era muito agradável aos olhos. Não me deixou pagar uma conta sequer, nunca, e jamais deixou uma porta para que eu a abrisse. Era tudo perfeito, até a noite em que conheci William Forster.
O cara podia ser novo, mas havia conquistado muito mais que eu na indústria. Tinha bastante dinheiro, contrato com escritores famosos. Quando recebi em meu escritório um convite para jantar com ele e conversarmos a respeito da possibilidade de eu me tornar uma parceira, não pensei duas vezes em aceitar. William me levou ao Peter Street Kitchen, um dos restaurantes mais caros da cidade. Estava tão animada com a possibilidade de crescer a níveis desconhecidos até então que esqueci de avisar Jack que chegaria atrasada para sua saída semanal com os amigos do escritório de advocacia onde ele trabalhava.
Trinta ligações perdidas dele no meu celular quando peguei o táxi rumo à minha casa, saindo do restaurante. A minha primeira reação foi imaginar que algo de ruim tinha acontecido a ele e, logo, fiquei preocupada. Tentei retornar diversas vezes, sem sucesso. Mandei mensagem, elas nem foram recebidas pelo celular ele. Fiz o trajeto todo para casa já preparada para trocar de roupa e seguir para seu apartamento. Já estava mandando mensagens para , pedindo apoio, quando vi seu carro estacionado em frente à minha casa assim que o táxi virou a esquina.
Paguei correndo e desci com mais pressa ainda, ansiosa para me certificar que ele estava bem. Fui recebida logo no hall de entrada por um soco na cara. Caí desacordada e, quando voltei a mim, Jack estava me violentando. Dei um grito, que foi o suficiente para que ele parasse o que estava fazendo, mas então sua atenção se direcionou para desferir socos e chutes em meu corpo. Isso e os xingamentos mais pesados possíveis. Ok, que fosse, eu preferia isso do que ser violentada. Mas já estava ciente e estava indo para a minha casa. Deitada no carpete da minha sala, eu me encolhia com cada golpe e concentrava minhas forças em permanecer consciente e guardar fôlego para que, quando minha melhor amiga chegasse, eu pudesse alertá-la. A última coisa que me lembro daquela noite é de pedir a Deus para que eu não morresse ali.
– Vamos fazer o quê amanhã?
– Eu tenho que acordar cedo para colocar comida para as galinhas. – Respondi, tentando despistar meus pensamentos de focarem naquilo.
– Só falta você me dizer que tem que ordenhar uma vaca.
– Na verdade, eu...
– Não. – me interrompeu, levantando a mão aberta na minha direção. – Não precisa falar mais nada, por favor. Se continuar, eu vou pegar meu carro e voltar pra Manchester.
Eu ri. Não era real. Ainda doía em mim, mas eu me agarrava no que havia dito. Eu ia ficar bem, custasse o que custasse.


Capítulo 02

A minha mente viajava longe enquanto eu sentia que estava sendo chamada.
– Senhorita , precisa de ajuda?
– Oi?!
– Perguntei se precisa de ajuda. – O detetive me encarou do outro lado da mesa. – Se quiser, se não estiver se sentindo bem, podemos remarcar.
– Não, tá tudo bem. Pode repetir a pergunta, por favor?
Ele me observou por uns segundos, parecendo não acreditar em mim.
– Ok então. – ajeitou os papeis à sua frente e deu um clique na caneta. – A senhorita tem o contato de alguém da família dele?
– Nós não chegamos a esse ponto, estávamos considerando ainda essa questão de envolver a família. Mas ele disse que os pais moravam na capital, acho que no distrito de Smithfield.
– Você chegou a ver algum documento dele?
Pensei por um instante.
– Acho que não. Por quê?
– Não consta nenhum Jack Avery no banco de dados britânico que bata com ele.
– Merda...
– Mas não se preocupe. – retornou a conversa. – Isso não quer dizer nada, vamos encontrá-lo.
Assenti e abaixei a cabeça, olhando para meu próprio colo.
– Ei. – Ele esticou o braço por cima da mesa e me ofereceu a mão. – Você está bem?
Estava pronta para assentir novamente, mas o detetive irrompeu pela porta, carregando uma bandeja com quatro copos de café nas mãos e um sorriso no rosto.
– Bom dia, madame! – praticamente gritou. – Como vai? Trouxe um café pra senhorita, espero que goste.
E depositou um dos copos à minha frente.
, menos. – ralhou.
– O que foi? – O moreno deu de ombros e se sentou na cadeira restante da sala. – É pra gente ficar aqui com essa cara de bicho morto? De ruim, basta o que ela passou. Agora temos que animá-la. Você concorda ou não, ?
Não consegui evitar um riso rápido.
– Senhorita , perdoe o meu parceiro, por gentileza.
– Não tem problema.
já te contou a novidade?
– Que novidade?
, não.
– Talvez tenhamos rastreado o Avery. Ou sabe lá qual seja o nome verdadeiro dele. Na Cornualha.
– Isso é verdade? – Perguntei a .
– É, mas...
– Por que não me contou?
– Não queria criar falsas esperanças.
Eu respirei fundo de novo, sentindo o peso nas minhas costas.
– Bem... – Comecei. – Ao menos é bem longe de onde estou.
– Que bom que temos um ponto positivo aqui!
, por favor, se comporta...
– Tá tudo bem. – Disse a . – Obrigada por tentar me distrair, detetive. E pelo café.
– Disponha.
Um silêncio constrangedor se instaurou entre nós. Levou um belo minuto até que tomasse a frente da conversa novamente.
– Avery alguma vez cedeu senha de alguma rede social à senhora?
– Não, nunca. Não era algo com o que eu me importava muito.
– E amigos?
– Ninguém além dos colegas de trabalho.
– Em algum momento, ele falou muito insistentemente sobre ir a um local, alguma cidade, qualquer coisa que pudesse servir como refúgio?
– Não que eu me lembre.
– Antes do que aconteceu... – adotou uma voz mais branda. – Lembra se ele disse o que estava fazendo, onde estava, por onde passaria durante o dia...?
– Foi um dia muito cheio pra mim. Ele mandou algumas mensagens, acho que a cópia do histórico de mensagens já está com vocês.
– Tá sim, eu perguntei mesmo a respeito de possíveis ligações ou qualquer coisa fora disso.
– Se teve, eu não me lembro. Posso checar o celular agora e...
– Não será necessário. – me interrompeu. – Tem alguma coisa sua na casa onde ele morava? Vamos fazer uma busca lá ainda hoje. Posso pegar, se quiser.
– Acho que não mas, mesmo que tivesse, não estou precisando e nem quero. Mas obrigada.
– E como andam as coisas em Aysgarth? Você precisa de alguma coisa por lá?
– To levando numa boa.
– Se precisar de qualquer coisa, você tem meu número pessoal. Pode ligar, a hora que for, ok?
– Tudo bem.
– Acho que acabamos por aqui então. – Ele fechou a pasta à sua frente e se levantou, junto com o detetive . – Só preciso que você assine uns papeis pra mim, pode ser?
– Claro. – Forcei um sorriso ao responder.
Peguei meu café e , que tinha ficado quieta até então, pegou o seu. e saíram da sala de interrogatório e nós duas fomos logo atrás. Eles se afastaram e nós seguimos até perto da janela do andar.
– “Você tem meu número pessoal”...
, não começa. Não esquece que você tá aqui como minha advogada.
– Uma advogada bem divertida, você deve assumir.
– Onde eu fui amarrar meu burro? – Bati com a palma da mão na testa.
Meu telefone começou a tocar logo depois. Peguei o aparelho no bolso correndo, ansiosa para cessar o som o mais rápido possível.
– Oi, mãe.
– Querida, quanto tempo vocês ainda levam?
– Acho que uns vinte minutos, no máximo, dependendo do trânsito.
– Bem, Di já chegou e o almoço está pronto. Estamos apenas aguardando vocês.
– Estou só esperando um documento aqui, mãe, já vamos sair. – Eu disse enquanto via se aproximar de nós duas novamente. – Eu ligo pra senhora já.
O detetive esticou uma prancheta com três folhas para mim.
– Você já conhece o procedimento, então...
Abri um sorriso mínimo por educação, tomei a prancheta e a caneta da mão dele e assinei no final das páginas. Devolvi o material logo em seguida.
– Mais alguma coisa, detetive?
– Bem, eu gostaria de te passar as notícias que possamos ter a respeito do seu caso, se essa for a sua vontade.
– É a vontade da minha cliente sim.
...
– Ótimo então. – Ele abriu um sorriso. – No mais, nós podemos remarcar...
! – Alguém gritou, com um tom de urgência na voz.
Ele revirou os olhos antes de tornar a atenção novamente para nós duas.
– Me dá só um segundo?
Nós duas assentimos e observamos ele se afastar novamente, indo direto para a sala do seu superior, cuja porta era visível do nosso ponto. Tomei um pouco do café – que ainda estava incrivelmente quente. olhava para mim com um sorriso travesso.
– Pode parando.
– O detetive – Ela forçou a voz ao pronunciar aquelas palavras. – está certíssimo, sabia? Temos mesmo que te animar, e nada melhor pra isso que...
– Para, .
– Qual é! Dois mais dois são quatro, quatro é um número par... Entende o que eu quero dizer?
– Não entendo e nem quero entender. – Observei a cidade pela janela.
– Eu realmente acho que...
O jeito que a voz de simplesmente travou denunciava que havia algo errado. Eu a conhecia mais do que conhecia a mim mesma, talvez apenas a proximidade fosse suficiente para estabelecer tal conexão. Voltei meu olhar para ela e, depois, para onde ela olhava. O detetive deixava a sala em que havia acabado de entrar com a expressão aterrorizada. Vinha na nossa direção mais uma vez, mas agora tinha o rosto abaixado e o passo ansioso.
– O que houve? – perguntou.
– N-nada. – A voz do detetive entregou a mentira descarada. – Preciso finalizar aqui com vocês. Posso ligar se precisar, senhorita ?
, rápido. – A mesma voz de antes chamou, dessa vez sendo possível localizar seu locutor, que vestia um colete a prova de balas.
– É sobre mim? – Questionei.
O detetive parecia atordoado com a minha pergunta. Quando seus olhos bateram nos meus, senti o corpo inteiro quase desmanchar. Ele hesitou, ainda sustentando o meu olhar com o seu. Parecendo acordar de um transe, tirou um molho de chaves do bolso e me entregou.
– Esquina da Byrom com a Camp Street. É um prédio pequeno, com várias garagens, lado a lado, no primeiro andar. Meu apartamento é o terceiro, contando a partir da esquina. Essa chave preta é a do portão da garagem. Fique lá até eu aparecer. Tenho uma cópia reserva, não atenda ninguém.
– Mas...
– Tem comida na cozinha, pode usar o que quiser. Mas, por favor, faça o que eu to pedindo.
– Detetive, o que tá acontecendo?
, vamos! – O mesmo homem foi mais urgente, agora seguido pelo detetive , também carregando um colete à prova de balas em seu corpo.
– Promete fazer o que eu te pedi agora?
– Se me contar, sim. – Respondi sem pensar.
– Se perguntarem, você nunca ouviu isso de mim. Acharam um corpo, fresco, e a irmã da vítima disse que foi o namorado dela, cujo nome é...
– Jack Avery. – Completei e olhei para .
– Preciso repetir o endereço? – fechou as chaves na minha mão, ao que eu respondi com uma negação. – Vai.
Ele nos deixou sozinha, eu mais perdida que nunca. Demorou uns bons segundos até que meu corpo reagisse por conta própria e eu me juntasse ao frenesi que invadia a delegacia. Não sabia o que decidir, então optei por apenas obedecer ao que o detetive tinha ordenado. Ele era um policial, e policiais eram confiáveis, certo? Eu esperava que sim. Foi só com aquilo estourando nas nossas caras que cedeu à seriedade que o momento solicitava. Nós duas corremos para o apartamento do detetive imediatamente.
– Entre em silêncio, permaneça em silêncio. – falou quando estacionou seu carro na frente do local indicado.
– O quê?! Você não vem?
– Vou atrás de descobrir o que tá acontecendo.
, você é uma advogada, não uma heroína.
– Eu sou sua advogada. Sua e da sua empresa. Aceite isso como uma ordem minha então e faça o que o detetive falou.
...
Tic tac. – Ela ironizou quando viu que eu ia protestar.
Não tive outra escolha a não ser obedecê-la. O local não era luxuoso e um designer de interiores teria um infarto com algumas combinações. O hall de entrada, para onde dava a escada que subia da garagem, possuía duas portas: conjunto de sala de estar, sala de jantar e cozinha ou o que deduzi ser a suíte. Não me aventuraria a invadir o espaço privado de um policial, então fui direto para o sofá preto de três lugares e revestido por couro sintético. As almofadas de estampas aleatórias não combinavam entre si, mas eram extremamente confortáveis. Embaixo das minhas costelas, meu coração parecia querer saltar literalmente. Estava tremendo de nervoso até que lembrei do calmante na bolsa. Fui até a cozinha, busquei um copo de água e joguei o comprimido para dentro. Então me acomodei no sofá de forma que a pressão baixa que viria a seguir, consequência do remédio, não me fizesse desmaiar de qualquer jeito.
Acordei sabe Deus quanto tempo depois. No entanto, havia algo diferente. Um cobertor marrom estava esticado sobre o meu corpo. Do cômodo ao lado, a suíte, eu podia ouvir alguém falando no telefone. A voz era bem característica e eu havia passado tempo demais sendo interrogada por ele para não a reconhecer de primeira. Eu tentei manter silêncio total e apenas aguardar, mas havia alguma coisa naquela coberta que estava atacando a minha alergia. Tentei evitar a todo custo, mas acabei soltando um espirro. apareceu na porta segundos depois.
– Você acordou.
– Desculpa, eu precisei tomar um remédio...
– Não tem problema. Agora vamos, conversamos na viagem.
Só então notei a pequena mala prateada posta ao lado da porta. Olhei da mala para ele ao menos três vezes.
– Vou te levar até Aysgarth e fazer uma vistoria na vizinhança pra ter certeza de que tá tudo bem com você.
– Não precisa, ninguém lá faz ideia de quem eu sou.
– Senhorita ...
– É . – Eu o interrompi. – Por favor, Jack me chamava assim quando nos conhecemos. Eu simplesmente... – Respirei fundo antes de retomar a fala. – Só, por favor, não me chama assim.
– Tudo bem. – Ele abriu um sorriso e fez sinal com a mão. – De qualquer forma, , precisamos ir. Quanto mais cedo, melhor.
Demorei um pouco para assimilar as informações. Levantei do sofá e comecei a dobrar o cobertor. Fui logo interrompida.
– Deixe aí, não tem problema.
– Que isso, é o mínimo que posso fazer.
– Nós realmente precisamos sair de Manchester o mais rápido possível, senhorita... .
Olhei para novamente. Minha cabeça estava banhada em um misto de emoções. Não queria nada de seguranças ou tratamento especial. Gostava do detetive por causa disso. , como era seu primeiro nome, me tratava diretamente quando precisava saber algo sobre o caso mas, fora isso, eu era como qualquer outra ao seu redor. Queria esquecer, queria falar cada vez menos sobre o assunto. Deixar para lá a investigação e correr o risco de Jack se safar? Mas nem fodendo! Só queria minha vida de volta.
– Posso usar seu banheiro, pelo menos? – Pedi. – Por favor.
– Claro. – O detetive apontou para a porta ao seu lado. – É por aqui.
Lavei o rosto e me livrei do pouco de água que tinha na bexiga antes de seguir viagem. Descemos as escadas com ele logo à frente, o suéter contornando as duas armas no cós da sua calça. Eu hesitei antes de dar mais um passo e finalizar os degraus.
– Preciso pegar meu carro. – Murmurei.
– Vou fazer com que levem o carro até você.
– Mas...
Ele abriu o portão da garagem e notei o detetive no meu carro logo atrás. Acenou gentilmente e eu, mesmo tensa, retribuí o cumprimento.
– Posso dirigir, detetive, sei bem o caminho pra casa.
– Pode me chamar de , se for o caso. – Ele disse, caminhando até a porta do passageiro e a abrindo para mim. – Adoraria vê-la mostrar suas habilidades atrás do volante, mas outro dia. Por hoje, precisamos correr. Muito.


Capítulo 03

Levantei com o canto do galo, não era novidade para mim. O sol ainda não havia nascido, mas o céu já estava tomando a coloração alaranjada clássica que previa um dia ensolarado. Decidi que não havia motivo para que eu me prolongasse mais na cama e comecei logo o meu dia. Tomei um banho bem quente, do jeito que eu gostava, até a pele ficar vermelha com a temperatura. Vesti uma calça de malha confortável e uma blusa folgada de algodão. Enquanto as portas e janelas da casa continuassem fechadas, aquilo seria suficiente. Enfiei um belo par de pantufas dos pés e segui para a cozinha.
A rotina já era quase que automática para mim. Ligar a cafeteira era a primeira coisa a se fazer, o que me dava tempo para o resto. Chequei quais frutas eu tinha à minha disposição na geladeira e acabei optando por bananas e um mamão. Sentei na bancada da cozinha enquanto esperava a cafeteira terminar seu ciclo. Coloquei Bon Jovi baixinho no celular para tocar e, enquanto comia um pouco da primeira banana, balançava os pés em falso no ritmo da música.
– Bom dia. – Uma voz grossa ecoou pelo cômodo.
Eu congelei e senti minha alma sair do corpo e voltar. A temperatura – lê-se pressão – baixou de uma vez só. O susto me fez quase cair de onde estava. Havia esquecido completamente de que minha rotina estava sendo quebrada pela inesperada visita. A primeira coisa que fiz foi desligar a música com as mãos trêmulas.
– Perdão, não quis assustar.
– N-não tem problema. – Respondi, procurando disfarçar a falta de fôlego. – Bom dia, detetive. Você toma café?
– Tomo sim, mas não precisa se incomodar.
– É só aumentar a carga da cafeteira, não tem nada demais.
Com isso, desci da bancada e fui até o aparelho. Disfarçadamente, chequei se não havia esquecido de colocar o sutiã como fazia em meus dias de preguiça. Informação confirmada, levantei a tampa da cafeteira, adicionei mais água e coloquei mais café na parte de baixo.
– Eu só tenho açúcar pra adoçar.
– Não tem problema, eu uso açúcar mesmo.
– Que bom então. – Murmurei e me apoiei na bancada, onde anteriormente me sentei. – Podemos conversar agora sobre o que rolou ontem?
– Claro. O que deseja saber?
– Por que a pressa? O que tava acontecendo?
O detetive hesitou. De repente, apontou para a cadeira à sua frente, disposta em volta da grande mesa de jantar da cozinha.
– Posso?
– Claro, vá em frente.
Ele se sentou e colocou as mãos, unidas, sobre a mesa. Devia ser algo como um tique, pois já havia notado fazendo exatamente esse mesmo gesto algumas vezes.
– Se alguém perguntar, você nunca ouviu falar dessas informações, entendeu?
Eu fiz que sim rápido e observei a cafeteira começar a despejar a água no café.
– Temos agentes da Scotland Yard envolvidos, e isso fica só entre a gente, pelo amor de Deus. Eles encontraram um padrão e estão trabalhando com a gente pra tentar cruzar melhor os dados e elaborar uma técnica aprimorada de investigação. Mediante isso, eles concluíram ontem, enquanto você estava no meu apartamento e eu seguia com a minha equipe, que ele estava em um imóvel específico. Encontraram um carro na garagem, tinha GPS. Levamos pra delegacia, nossos técnicos analisaram... Ele esteve na frente do meu prédio enquanto você estava lá.
Eu retesei.
– É, eu sei, é uma merda. Por isso que eu quis tirar você de lá com tanta pressa.
– Você acha que ele pode estar aqui? – Perguntei.
– Contou a ele sobre esse lugar?
– Não que eu me lembre. A morte da minha vó ainda tá bem recente, eu nem pensava muito sobre aqui até... – Eu hesitei na fala. – Bem, só minha mãe e sabem daqui.
– Ele conheceu as duas? Sabe onde elas moram?
– Só a , e não sei se ele tem como saber. Todas as vezes em que eles se viram, estávamos no meu trabalho, na minha casa ou em algum lugar onde marcamos previamente para um encontro casual.
– De qualquer forma, colocamos agentes disfarçados vinte e quatro horas por dia nas residências da sua mãe e dela. Acho que esqueci de te contar isso, com a correria.
– Esqueceu mesmo. – Eu murchei. – Mas se é tão segredo assim que você esteja me contando esses detalhes, por que você tá falando isso tudo?
– Tenho motivos pessoais.
– Como...
A cafeteira interrompeu nossa conversa com o apito que denunciava o fim do seu trabalho. Indiquei ao detetive que vasculhasse a geladeira para ver o que podia e gostaria de comer, sem limitações. Mesmo após eu insistir, ele optou por apenas manter-se com o café. Nós o tomamos em silêncio e, logo depois, partimos para que eu lhe mostrasse o resto da propriedade.
Jake o recebeu com certo entusiasmo quando eu abri a porta do seu canil, onde ele dormia para sua própria segurança. Se eu precisasse de um cão de guarda, Jake com certeza não seria o escolhido. Ele e seu rabinho abanando incansavelmente nos seguiram até o vale onde se encontrava o galinheiro que eu mesma havia, orgulhosamente, ajeitado. Minha vó tinha muito mérito, ela gostava de bater no peito e dizer que ela era responsável por quase tudo o que fazia. Desde que eu me lembrava, ela nunca chamara um profissional de qualquer área. Fosse para colocar pisos, construir móveis ou consertar uma geladeira, minha vó era a mulher maravilha da vida real. E era o exemplo que eu queria seguir, é claro.
– Você vem muito aqui?
– Quatro a cinco vezes por dia. É bom pro Jake, ele caminha um pouco. E eu também tenho que vir mais de uma vez ao dia pra poder retirar os ovos. Não pode ficar muito tempo aqui depois que as galinhas colocam.
– E as ovelhas? – Ele apontou para a porteira atrás do galinheiro.
– Ah, essas são do vizinho.
– Esse vizinho é confiável?
– Bem, minha vó conhece o senhor Giles desde que veio para cá, e isso faz uns vinte e cinco anos. Minha mãe chegou a pensar que eles teriam, depois de tanto tempo sozinhos, um caso. Mas acho que minha vó nem pensava mais nesse tipo de coisa.
– Então você só tem galinhas por aqui?
– Tenho cinco vacas também, com três bezerros e um touro. Tirando os bezerros, todos estavam aqui antes da minha vó falecer, então eu só dei continuidade.
– Alguém vem aqui por causa deles?
– A veterinária vem quando eu preciso, mas foram raras as vezes. Ela também já tinha contato com a minha vó há tempos.
– Mais alguém sabe que você tá aqui, tem acesso à propriedade...? Como é a sua relação com os outros vizinhos?
Eu abri a porta do galinheiro e as galinhas se amontoaram aos meus pés, esperando pela comida que eu trazia na mão.
– A fazenda do outro lado da rua é de gado de corte, ladeia a maior parte da estrada aqui por perto. Tenho esse vizinho que cria ovelhas para lã e um outro que cria cavalos PSI.
– PSI?!
– Puro Sangue Inglês. – Expliquei. – Você realmente não faz ideia de nada disso, não é?
– Não, na verdade.
Eu ri, enchi o comedouro das galinhas e chequei se a água estava fluindo como deveria nos bebedouros automáticos. Peguei alguns ovos nas ninheiras e os separei na prateleira reservada a eles.
– Você faz isso todo dia?
– Desde que eu vim pra cá, sim. – Ele se virou e, com o binóculo que carregava no pescoço, mirou a área além do pequeno celeiro na frente do pequeno galpão para as vacas. – Detetive , o senhor...
– Por favor, me chame de .
Ele olhou para mim uma última vez, tentou forçar um sorriso – que não pareceu nada animador – e voltou a olhar para a área que ele almejava.
– Aquela casinha ali... É de quem?
– É uma casa de hóspedes, mas ficou como a casa do caseiro que minha vó tinha. Quando ela morreu, ele se mudou para New Castle, pra ficar junto da família.
– Desculpa perguntar, mas ela morreu de quê?
– Câncer. No estômago. Mas não foi nada demais. Ela já tinha noventa e um anos, viveu bastante e, quando o câncer decidiu se tornar agressivo, foi bem rápido. Nós sabíamos que torcer pra ela sobreviver era puro egoísmo.
– É bem nobre falar isso.
– Eu gosto de pensar assim.
se aproximou de mim quando eu ameacei sair e me ofereceu a mão para me ajudar com o degrau. Eu aceitei, mesmo que não precisasse, por pura educação.
– Pode me mostrar a área dessa casa de hóspedes?
– Claro. Você pode só esperar eu passar pra checar as vacas?
– Sem problemas. – Ele respondeu.
Eu me encaminhei para o celeiro e comecei a tentar equilibrar quatro fardos de feno entre minhas duas mãos. Já havia tentado antes e insistia, mesmo assim. Bufei e desisti, finalmente.
– Detetive, poderia me ajudar aqui, por favor?
Ele veio se aproximando a passos largos e pesados.
– Do que você precisa?
– Pode levar três desses? É só encaixar o barbante entre os dedos e...
Antes que eu terminasse de falar, ele já havia empilhado os fardos. Ia dizer alguma coisa, mas acabei seguindo mesmo assim, com ele em meu encalço. Fui largando um fardo em cada baia dentro do galpão e, quando os meus terminaram, peguei, aos poucos, os fardos que carregava.
– Tenho que colocar um pouco de ração. – Observei para mim mesma.
– Precisa de ajuda com isso?
– Claro, se o senhor puder...
– Já disse que pode me chamar de . – Ele insistiu.
– É que é difícil. Você é policial e tudo mais, eu sou só...
– Finge que você é minha amiga. – Ele completou quando eu perdi a fala. – Amigos se chamam pelo nome, certo?
– Certo.
– Vamos lá, tenta.
– Tentar o quê?
– Me chama de .
– Você tá falando sério?
– To. – Ele riu.
. – Eu falei. – Não é como se eu não pudesse falar, é só questão de educação.
– Mas a gente fica bom com a prática, né?
Revirei os olhos em segredo.
– Vamos na casa então?
Eu e brincávamos muito de pique esconde naquela casa quando aparecíamos por lá em feriados prolongados escolares. , por mais que tivesse virado uma barbie quando mais velha, já havia se sujado toda diversas vezes nas poças de barro que se formavam próximas a área do galinheiro em dias de chuva. Eu não entrava naquela casa há tanto tempo que eu nem lembrava mais como era.
– Essa aqui é uma das entradas. Tem uma porta na varanda, do outro lado, que dá na cozinha, e outra que dá na sala de jantar.
Abri caminho para que – ou melhor, – passasse. Ele deu uma boa olhada no corredor e foi primeiro até os dois quartos e o banheiro único. Explorou a cozinha em seguida e, por último, a sala de estar e de jantar.
– Acho que seria melhor se você ficasse aqui do que na casa principal.
– Por quê?
– Mais longe das fronteiras e, principalmente, mais longe da rua.
– Bem, eu... – Respirei fundo e deixei os ombros caírem. – Tudo bem, posso fazer a mudança entre hoje e amanhã.
– Pode deixar pra amanhã, eu te ajudo. Hoje, seria bom que eu apenas fizesse reconhecimento da área. Às vezes, eu mudo de opinião.
Eu assenti e deixei que ele observasse tanto mais quanto quisesse. Tive que me retirar para fazer o almoço ou passaríamos fome. Logo à tarde, ele se sentou de frente para seu notebook e começou a pesquisar quem eram, com certeza, os vizinhos. Após identificá-los devidamente, seguiu sua pequena investigação em busca de informações mais detalhadas e específicas. Enquanto isso, eu simplesmente me dividia entre cuidar do necessário na cozinha, ver alguns vídeos no YouTube e ler um livro cujo autor estava tentando contratar os meus, agora precários, serviços.
– Você já notou algo de diferente por aqui à noite? – Ele perguntou enquanto eu recolhia a mesa do jantar.
– Como assim ‘algo de diferente’?
– Barulhos estranhos, sensação de estar sendo observada...
– Ah, isso é o que mais tem por aqui, mas aqui é estranho por conta própria. É uma zona rural extremamente pacata. Nunca dei muita bola por isso.
– É importante notar se tiver algo fora do normal. E não precisa ter medo de me contar algo que você ache infantil ou coisa do tipo, não vou te achar incoerente de forma alguma.
– Pode deixar. – Eu escondi que estava buscando o calmante no bolso do meu cardigã, coloquei um comprimido na boca e tomei um bom tanto de água para conseguir engolir. – Eu vou deixar essa louça pra amanhã. Se você quiser, pode ficar por aqui. Prefiro ir dormir logo, enquanto o meu sono tá fresco.
– Vou tentar dormir logo também.
– Ok então. Boa noite.
– Boa noite. – Ele respondeu.
Eu caminhei até o meu quarto e estava quase fechando a porta de volta quando senti algo de diferente.
?
– Oi?
– Minha irmã. – Ele disse.
– O que tem ela?
– Minha irmã foi morta por um cara com o Avery. A razão pela qual eu estou quebrando as regras e te contando é porque ela... Ela foi atacada, ele escapou. Mas o cara não ia deixar barato e acabou voltando pra terminar o trabalho. Se eu tivesse quebrado as regras, se eu tivesse contado a ela...
– Não é culpa sua, .
Ele levantou o rosto para mim e, por mais que ele escondesse – e Deus, ele fazia isso muito bem –, havia certo sofrimento no fundo dos seus olhos.
– Não quero que outro irmão sinta a dor que eu sinto todos os dias por não ter ela aqui.
– Qual era o nome dela?
– Mollie.
– A Mollie devia ser uma garota de sorte por ter um irmão igual você.
– Gosto de pensar que sim.
– Bem, de qualquer forma, acho que uma irmã não gostaria que seu irmão vivesse sofrendo pelo resto da vida dele. – Eu disse. – Eu sei que parece bem estranho e desumano, mas a gente não pode fazer nada pelo passado. Se eu ficar lembrando de tudo o que aconteceu comigo naquela noite...
– ... não tem mais vida. – O detetive completou a minha fala, ao que eu sorri. – Você está certa, obrigado.
– De nada. – Respondi, sorri mais uma vez e fechei a porta do meu quarto.


Capítulo 04

– Isso não vai dar certo...
– Qual é! – Eu ri. – Você é todo corpulento, suficiente para atirar em bandidos e tá com medo de uma galinha?
– Ela tá me olhando estranho.
– Ela não tá nada, a Colbie é boazinha.
– Você deu nome pra uma galinha?
Dei de ombros e me aproximei. Com delicadeza, passei a mão esquerda pelas costas da galinha, a acariciando. Usei a outra mão para apalpar o assoalho da ninheira, abaixo dela. Nada.
– Viu? É simples. E mesmo que ela tivesse te bicado, galinhas não machucam.
Ele deu um sorriso tímido. Podia até dizer que estávamos nos dando bem. era um homem educado, definitivamente, por bons pais, isso eu podia ver de longe. Estava ali a trabalho como um tipo de segurança particular mas, mesmo assim, não se permitiu relaxar. Ele me ajudava com tudo, desde lavar a louça até a varrer o chão. Enquanto isso, uma equipe que trabalhava com a Scotland Yard investigava e interrogava, fora de qualquer suspeita, os vizinhos mais próximos. A intenção era que não associassem , de jeito nenhum, com um possível policial. Para os registros, ele devia estar se passando por um namorado. E meu namorado de mentirinha estava afim de me ajudar com os afazeres da propriedade. Mas como ajudar se até medo de galinha ele tinha?
– Você não tem muita experiência com o campo, não é?
– Ficou tão claro assim? – Ele brincou e eu ri. – Na verdade, não. Fui criado em Manchester desde sempre. Meu pai era policial também, sabia?
– Ele trabalha com você?
– Meu pai foi morto durante um assalto a banco enquanto minha mãe estava grávida da minha irmã. Nem de serviço ele estava.
– Meu Deus, . Eu sinto muito.
– Tudo bem, eu era novo demais, nem senti.
– Então... – Eu murmurei, quase que para mim mesma. – Pra quebrar esse clima estranho que eu instaurei, que tal ovos mexidos? É a imperdível especialidade da casa.
– Ovos fresquinhos? Eu não dispensaria!
Nós caminhamos em silêncio até a casa do caseiro, onde estávamos ficando porque ele achava mais seguro. Eu deixei os ovos recolhidos na cesta reservada para eles e fui até a pia lavar minhas mãos. Comecei nosso café da manhã logo em seguida. Comemos e partimos para a segunda rodada de trabalho, com as vacas, do dia. Ele não fazia ideia de que eu havia levantado quatro horas antes do sol e já tinha passado por lá.
– Posso fazer?
– Você quer ordenhar?!
– Não deve ser tão difícil.
Ergui uma das sobrancelhas em estranhamento.
– Presta atenção então.
Eu era péssima para explicar as coisas, mas puxei um banquinho e um balde para mim e entrei na baia de Charlotte, a vaca mais velha ali. Cumprimentei seu bezerro, ainda sem nome, com um breve carinho na fronte muito bem recebido. Cheguei bem próxima do lado dela, coloquei o banquinho e o balde em seus devidos lugares e disparei o primeiro jato de leite. Com as duas mãos, me mantive ordenhando os dois tetos do lado direito sob a observação intensa do detetive.
– Deu pra entender alguma coisa?
– Deu sim, é fácil. Só apertar, não? – Ele gesticulou, fazendo uma mímica no ar.
– Não, , você deixa o polegar e o indicador formando um anel em cima e faz a pressão com os outros três dedos restantes, de baixo para cima. Assim! – Eu gesticulei com a minha mão direita, usando o meu polegar esquerdo como se fosse a teta da vaca.
Levantei do banquinho com certa dificuldade. Quando olhei para ele, estava rindo.
– O que foi? É assim que se faz!
– É que você conseguiu me chamar de espontaneamente.
– Ah... Você pediu, não foi?
Assisti do canto do estábulo enquanto ele se aproximava da vaca mais calma que eu tinha ali. Olhou para as patas traseiras dela repetidas vezes, tenso. Segurei uma gargalhada. Ele chegou mais perto ainda e se ajoelhou ao seu lado.
– Assim é mais perigoso, você vai ter dificuldade pra levantar e desviar se ela decidir te dar um coice.
– Você não disse que ela é a mais mansa?
– Ainda é um animal, ainda pode reagir se você fizer algo errado.
– É isso, eu desisto! – se levantou e bateu as mãos uma na outra. – Eu enfrento as galinhas, mas não dá pra enfrentar um animal de 700kg.
– Ela nem tem isso tudo.
– Quanto ela pesa?
– Em torno de 420kg.
– É perto.
– Perto da metade do seu palpite, você quis dizer, né?
– Ah, dá no mesmo.
– Se a veterinária escuta você falar isso...
Ele riu.
– Bem, mas eu tenho uma novidade pra você.
Fui até a porta no fundo do estábulo e vim puxando um carrinho. ergueu as sobrancelhas quando me viu.
– Um robô.
– Quase. – Eu ri e parei de frente para ele. – Essa é uma ordenhadeira do tipo móvel. Basicamente, ela faz o serviço com mais eficiência e conforto, pra gente e pra vaca. O leite vem pra cá. – Dei um tapinha no galão. – A gente usa uma solução nos tetos da vaca antes e depois, pra manter limpo e sem risco de doença.
– É um sistema à vácuo?
– É sim.
– E não machuca a vaca?
– Não se você mantiver a calibragem correta.
– E ela vai ficar parada?
– Essas vacas, sim. São acostumadas desde novilhas com isso. Vacas leiteiras, no geral, são mais calmas. Afinal de contas, uma vaca estressada dificilmente vai produzir muito leite.
– Você tem certeza de que se formou em Literatura Inglesa e não em Medicina Veterinária?
– Ah, estou aqui há mais de um mês.
– Não é o suficiente pra aprender tudo isso.
– É sim, você vai ver. E antes disso, de qualquer forma, eu vinha muito aqui pra visitar minha vó.
– Então você sempre gostou de campo?
– Quando criança, sim. Com a adolescência, passei a ficar com nojo de algumas coisas, você deve imaginar. Mas aí eu cresci e passei a admirar a paz que esse lugar proporciona.
– Nisso eu não posso discordar, é quase um paraíso.
– Não é você o homem de Manchester?
Ele riu.
– Mas eu poderia me acostumar com isso aqui. – E apontou para fora do estábulo.
O leite foi reservado para que o vizinho, o senhor Giles, fosse retirar para levar à cooperativa. Tirei uma parte para mim e coloquei para ferver. continuava com mil perguntas, sobre ser seguro tomar leite fresco, sobre quais doenças as vacas poderiam ter, quais poderiam passar para nós... Eu estava quase pedindo um tempo.
Depois do almoço, foi ler algumas coisas referentes ao seu trabalho. De uma forma ou de outra, eu também. Havia um cliente nosso, Charlie Grant, que produzira uma coletânea de contos. As cláusulas no contrato que fiz com ele eram infinitas. O problema era que tudo isso tinha acontecido antes da fatídica noite em que fui atacada e, nas condições daquela época, talvez eu não pudesse cumprir com todo o prometido. Não era só com ele que havia esse tipo de problema, mas Charlie Grant era conhecido por render duas coisas às editoras por onde ele já havia passado: renda e dor de cabeça.
A maioria dos contos não eram longos. Na verdade, mal passavam de dez páginas cada em fonte padrão no arquivo. Ter um cliente como Grant era bom porque, se ele gostasse do serviço, sua recomendação valeria muito, mas o risco de acontecer o oposto também estava presente. Para isso, eu havia praticamente instaurado um protocolo para qualquer coisa referente àquela coletânea, para que eu desse conta de fiscalizar tudo antes que chegasse para ele. Estar fazendo à distância, longe da minha equipe e do meu local de trabalho, não estava tornando as coisas exatamente fáceis.
Por volta das seis horas da tarde, quando lá fora já estava escuro, terminei tudo e considerei o trabalho que tinha feito como satisfatório. Fiz todos os ajustes necessários e passei o e-mail para , pedindo que ela imprimisse o arquivo de acordo com o especificado pelo cliente e entregasse em seu escritório – ele era um arquiteto quando não estava escrevendo. O celular que eu estava usando, cadastrado no nome de um conhecido de um conhecido de um conhecido... Bem, era alguém bem distante de mim. Um número fornecido pela equipe de para usar com e continuar trabalhando, outro número para usar com minha mãe e mandar notícias sempre que possível. O telefone com o número de foi o que tocou.
– Oi, .
– Sem simpatia.
Lá vem.
– O que houve?
– Esse e-mail que você...
– Pode parando de dar piti. – Eu a interrompi. – Isso tem que ser feito.
– O Grant pode foder com tudo.
, eu sei mas...
– Você tem que voltar, não tá dando.
– Isso é simples e você tá fazendo tempestade em copo d’água. Se quiser, eu posso ligar pro Hughes que ele resolve.
– Deixa o Hughes fora disso.
– Então faz o que eu to te pedindo, caramba! É só imprimir e levar no escritório dele.
– Você disse ao Grant que tomaria conta pessoalmente de todo e qualquer detalhe referente ao trabalho dele, você vendeu isso pra ele. Agora eu chego lá no seu lugar, e todo mundo sabe como o Grant é chato e consegue acabar com o dia de qualquer um com um simples esporro.
, fala a verdade. Se ele não entender, é um babaca. Aí você tem a minha autorização pra jogar a papelada na cara dele.
– Sério mesmo?
– Seríssimo. – Eu ri. – Mas, pra que isso não ocorra, eu vou me precaver e enviar um e-mail pra ele, explicando por alto as razões e garantindo que, embora não seja eu a entregar o manuscrito, fui em que fiz.
– Ótimo então. Mais alguma coisa, patroa?
– Não, por hoje é só.
– To enviando um e-mail pra você em uma hora, no máximo. Foi um original que recebemos pessoalmente há, mais ou menos, uma semana. Eu escaneei pra você poder ver daí, acho que pode valer de alguma coisa.
– Pode enviar, vou ficar de olho.
– E como vai o detetive gostosão?
– Eu juro que vou desligar na sua cara.
Nesse momento, passou pelo batente da porta da cozinha. Minhas bochechas esquentaram e eu pedi a Deus para não corar.
– Esse paraíso todo aí, só com ele...
, mais alguma coisa para resolver? – Despistei com um sorriso e um tom de voz diferente. – Se tiver, mande pro meu e-mail que eu te retorno assim que possível.
– Mas ...
– Obrigada, tchau. – E desliguei na cara dela.
– Problemas? – apontou para o telefone.
– Só um cliente chato, nada demais.
– O mesmo em quem você tava trabalhando mais cedo?
– Sim, ele mesmo.
cruzou os braços na frente do peito.
– Recebi o relatório da Scotland Yard sobre seus vizinhos hoje.
– E então?
– Não parecem suspeitos de forma alguma.
– Você confia no serviço deles?
– Tenho que confiar, são meus colegas. Muitas das vezes, meu trabalho depende de confiar no trabalho deles e vice versa.
– Entendi. – Falei e abaixei a cabeça. – E sobre o Avery?
Ele se aproximou e apoiou na bancada, quase de frente para mim.
– Sabe que eu não devia estar te contando nada disso, não sabe? – Eu me limitei a assentir como resposta. – Descobriram o nome real dele. É Reece Chambers. Era contador em uma empresa na capital quando um Meriva no seu nome foi encontrado com um corpo dentro. Foi considerado o principal suspeito por muito tempo e chegou a ser foragido da justiça, mas foi dado como morto depois que o apartamento onde ele morava, em Stoke Talmage, foi incendiado com um corpo dentro. Não tinha registro odontológico dele e não encaixou com o registro de nenhum desaparecido que fosse compatível com a altura que o corpo provavelmente tinha, então deram como certo de ser ele.
Eu me encolhi e tentei dar um passo para trás. A vida sempre ia fluindo bem, mas despencava com tudo quando eu sequer pensava nele.
– Você está bem?
Fiz que sim.
– Alguma coisa nessa história te soa familiar de alguma forma?
Balancei a cabeça de um lado para o outro, negando. De repente, como se não tivesse o poder de decidir por mim mesma, comecei a andar na direção do meu quarto, murmurando um pedido de desculpas que eu nem sabia se escutaria.


Capítulo 05

A manhã havia começado de forma pacífica. O sol estava na medida certa, ótimo para deitar em uma cadeira de descanso, ler um bom livro e absorver os raios ultravioletas do tipo certo. O vento soprava fraco ao longe e a temperatura não poderia estar mais agradável. Meus olhos, no entanto, estavam fechados, como se para aprimorar a sensação gostosa do momento. Em algum lugar, eu podia ouvir Bon Jovi tocando baixinho. Escutava também, eventualmente, os sons das galinhas ou das ovelhas. As vacas estavam no pasto. Tudo estava na mais perfeita ordem e não havia nada no mundo que pudesse quebrar aquele momento.
Ao meu lado, uma pequena mesa abrigava uma bandeja com algumas frutas e pedaços de bolos de sabores variados. Um deles tinha a cara do bolo de fubá que minha avó fazia em vida e foi ele que eu peguei. O gosto era maravilhoso, como se fosse a última coisa comestível na terra. Eram quase palpáveis as memórias de infância que me vinham à mente apenas com a ativação de certa parte do meu paladar. Eu estava no céu e não sabia.
Mas de repente, da mesma forma súbita que a boa sensação veio, eu ouvi um som ruim. Abri os olhos e fitei a planície à minha frente: o tempo estava fechando. À distância, já era possível ver as nuvens negras que avançavam ferozmente na minha direção e traziam consigo relâmpagos que estremeciam a terra, mesmo ainda afastados. Poderia jurar que, entre aquelas nuvens, estava começando a se formar um redemoinho. Teríamos um furacão ali? Seria possível?!
Recolhi todo o material da mesa às pressas. Jake surgiu afobado, com medo dos barulhos. Latia correndo, de um lado para o outro, enquanto eu tentava levar tudo para dentro da casa antes que molhasse e estragasse. Já podia sentir os primeiros pingos, grossos, caindo na minha pele. Então lembrei das vacas e dos riscos que elas correriam se estivessem no pasto quando a tempestade atingisse a propriedade.
Corri até a porteira, fazendo som com o sino que ficava próximo a entrada do estábulo. Elas eram extremamente mansas e acostumadas com a rotina então, uma por uma, foram seguindo o caminho que eu precisava que elas seguissem. Tranquei cada uma com seu respectivo bezerro nas devidas baias e corri até o piquete onde o touro estava ficando, já perto de sair pois sabia que precisava entrar. Eu o levei até sua baia e também o tranquei. Quando terminei, um raio estourou acima da minha cabeça e eu me encolhi no chão. Jake veio correndo e se juntou a mim, tremendo de medo embaixo dos meus braços.
Olhei na direção da casa, para o caminho do estábulo até a varanda, e outro raio estourou em uma árvore próxima. O vento parecia estar mexendo com o chão. Nesse momento, eu me convenci de que não haveria momento seguro para sair dali enquanto a tempestade não passasse. Então peguei uma manta que havia junto a alguns equipamentos e ferramentas para o cuidado com o gado e coloquei no chão, perto do feno, trazendo Jake junto de mim e segurando firme seu corpo contra o meu para que ele não ficasse com muito medo.
Senti, aos poucos, que estava adormecendo, mesmo no meio da barulhada que a tempestade estava causando. Era quase como se estivesse, de fato, sentindo minhas forças se esvaindo de mim. De repente, fui tomada por uma sensação horrível. Arregalei os olhos subitamente e dei uma checada em volta. Não havia luz e alguns pontos escuros no estábulo me davam um sentimento desolador. A impressão de estar sendo observada, então, tomou conta de mim. Eu me virei de supetão na direção do canto oposto do estábulo. Podia sentir o coração tentando sair pela minha boca. Jake começou a rosnar.
– Ah, querida ... Como senti sua falta!
– Vai embora daqui, Jack, não tenho nada com você.
– Você tem sim, querida, ou não se lembra de quando disse que não poderia viver sem você?
Eu me pus de pé e tentei correr, ignorando qualquer risco que correria do lado de fora, mas minhas pernas simplesmente não funcionaram.
– Bem, dê seu jeito.
– Por que está tentando fugir de mim?
– Por favor, vá embora. Eu não quero problemas.
– E correr o risco de ser atingido por um raio além de perder a chance de passar um tempo com a minha amada? Não mesmo!
– Jack, por favor. – Insisti. – A polícia já está sabendo, Jack.
A polícia! É isso! Cavill está aqui!
Meu pensamento me colocou em alerta e eu comecei a tentar correr novamente, embora não saísse do lugar. Gritava o nome do detetive a plenos pulmões. Sentia que estava fazendo tanto esforço para chamá-lo que minha garganta iria explodir. De repente, outro raio caiu, dessa vez sendo perto demais, o que estremeceu meu corpo e...

! , acorda! É um sonho, !
Eu abri os olhos lentamente. O quarto estava banhado no escuro ainda e eu não via nada, só sentia as mãos nas laterais do meu corpo. Recuei e estava pronta para gritar de novo.
– Calma, sou eu, Henry. – A voz calma do detetive soou pelo quarto. – Você está bem?
– E-eu... Eu...
Estava ofegante e parecia ter um peso em cima do meu peito. As mãos deixaram o meu corpo por um instante e, logo, a luz do quarto foi ligada. Demorei para acostumar a visão à súbita claridade, mas consegui focar finalmente em Cavill, em um pijama de flanela.
– Desculpa, eu não sei o que aconteceu. – Disse, por fim, mais calma.
– Acordei com você me chamando e vim correndo. Acho que foi só um sonho.
Respirei fundo e fechei os olhos por um momento.
– É, eu acho também.
– Você está bem? Quer alguma ajuda? Qualquer coisa...
– Eu... – Hesitei na fala. – Acho que estou bem.
– Posso trazer o colchão e deitar na porta do quarto, se isso te deixar tranquila.
Olhei para o lado da cama. Jake estava atônito e eu conseguia entender no seu olhar que ele não estava entendendo muito do que estava acontecendo.
– Vou ficar bem, foi só um sonho ruim.
– Tem certeza?
Respirei fundo novamente e voltei a olhar para o detetive.
– Tenho sim, obrigada. E desculpa ter te acordado por algo tão bobo.
– Não foi bobo, estou aqui pra isso. Pode chamar ao menor sinal de problema. Sempre que precisar, não importa se você achar que pode ser algo bobo ou não. Combinado?
Eu assenti, ele sorriu.
– Então vou voltar pro meu quarto. Qualquer coisa, não hesite em me chamar de novo.
– Pode deixar.
– Apago a luz? – Ele perguntou.
– Sim, por favor.
Eu tentei dormir novamente, mas a escuridão me incomodava demais. Acabei levantando de qualquer jeito. Não havia passado das três da manhã ainda e eu já não tinha mais sono algum. Meu coração, em momento algum, cedeu. Sentia que minha pressão estava nas alturas mas que também não havia muito o que fazer. Então me enrolei em uma coberta fofa e fui para a sala. No computador, eu tinha baixado alguns filmes infantis. Era engraçado e vergonhoso para uma mulher feita da minha idade, mas me acalmava. Coloquei ‘Dinossauro’ para rodar e, com as luzes todas apagadas, sentei no sofá. Na metade do filme, senti o sono voltar e acabei, finalmente, apagando de vez.
?
Acordei com um susto ao ouvir meu nome ser chamado. Já não estava mais escuro. A televisão estava desligada, assim como meu notebook. Depois do meu corpo dar um pulo no sofá, Cavill deu dois passos para trás e riu.
– Acho que não sou muito bom em te acordar.
– Tá tudo bem. O que houve?
– Seu vizinho está aí, disse que precisa falar com você especificamente.
– Que vizinho?
– O senhor das ovelhas.
– Ah, sim, obrigada. Eu só vou... – Parei minha frase ao olhar para o relógio fixado na parede. – Puta merda.
Cavill soltou uma risada quando eu pulei do sofá.
– Desculpa, desculpa, é que...
– Tudo bem, todo mundo pode falar palavrão de vez em quando.
– Só... Desculpa.
Eu saí da casa, me abrigando no casaco leve que vestia. Caminhei até a divisão entre a área geral e o piquete onde as ovelhas ficavam.
– Bom dia, senhor Giles.
– Bom dia, . – Ele respondeu com um sorriso. – Vim trazer o pagamento desse mês.
– Muito obrigada, mas não precisava. O senhor está quase uma semana adiantado.
– Melhor adiantar do que correr o risco de ter imprevistos e atrasar. – Eu sorri em resposta e ele passou o pequeno pacote por cima da cerca. – Você está bem, querida? – Ele perguntou, preocupado.
– Sim, estou.
– Esse homem que está por aí... Você tem certeza de que não precisa de ajuda?
Acabei não conseguindo segurar uma pequena risada.
– Fique tranquilo, senhor Giles. Ele tem medo até de tirar leite, quem dirá fazer alguma coisa comigo. Mas agradeço a sua preocupação.
– Se precisar de alguma coisa, deixe um recado, viu?
– Pode deixar. Obrigada, mais uma vez.
O senhor se afastou na direção das ovelhas, dando alguns comandos para os dois border collies que tinha com ele para ajudar na lida com os animais. Eu me virei para a casa, checando a quantia no maço.
– O que ele queria? – Cavill perguntou, mas logo arregalou os olhos e mudou sua postura. – Acho que me expressei mal. Desculpa, não quero que pense que deve satisfação a mim. Foi só... Não sei, acho que foi um jeito de tentar puxar assunto.
– Tudo bem, namorado. – Brinquei com a palavra. – Só o pagamento do mês, fique tranquilo. Nenhuma ameaça por enquanto.
– A não ser as nuvens, certo?
Era estranho. Eu olhei na direção para onde Cavill estava apontando e parecia uma espécie de deja vú. Diria até que poderia ser familiar por conta do sonho. O tempo estava começando a fechar – claro, a uma velocidade real dessa vez.
– Acho melhor eu ir dar uma geral nos animais antes que a tempestade chegue.
– Vamos lá, eu te ajudo. – Ele disse.
Recolhemos os ovos, fizemos brevemente a ordenha. Guardamos o material enquanto o mau tempo avançava. A lembrança do sonho me deixava cada vez mais nervosa e eu fiquei extremamente feliz quando pude dar meus afazeres por feitos e entrei de volta na casa, trancando a porta atrás de mim imediatamente. Então o telefone dele tocou e, sem dizer nada, Cavill se afastou. Fiquei de orelha em pé com aquela ação. Parecia que ele realmente não queria que eu ouvisse nada ou soubesse, de alguma forma, sobre o que ele estava tratando na ligação.
– O que houve? – Perguntei assim que ele se aproximou novamente.
– Só trabalho.
– Tem a ver comigo?
– Não, outro caso.
– Cavill...
– Sim. – Ele respondeu, arqueando uma sobrancelha ao identificar que algo estava fora do padrão.
– Por que você está aqui comigo?
– Para te proteger.
– Tá, mas por quê? Você é policial, ok, isso eu sei. Mas toda essa proteção? Tem coisa a mais aqui.
– Eu não deveria te contar isso.
– Você já não me contou muito mais do que eu poderia saber, Cavill?
Ele encolheu os braços e reduziu sua postura a alguém muito tenso e preocupado, não sei se foi pelo meu tom de voz, pelo uso de seu sobrenome ao chamá-lo ou pela situação como um todo.
– Os dados cruzaram com o de outros diversos casos. É um serial killer e, toda vítima que sobreviveu, ele voltou para terminar o trabalho.
– Isso quer dizer que... – Murmurei, perdendo a voz aos poucos.
– A outra vítima também está sendo acompanhada por um policial vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Além disso, ele não vem até aqui, .
– Como você pode ter tanta certeza?
– Porque eu estou aqui. Se ele souber que você está aqui, ele saberá de mim também automaticamente. Ou você acha que criar a fofoca entre os vizinhos de que eu sou seu namorado não foi intencional e planejado?
– Mas e se ele vier? Se ele estiver um passo à frente? Enquanto eu durmo, eu...
Nesse momento, um raio igual ao do sonho atingiu a área próxima à casa e eu gritei, caindo de joelhos no chão, próxima de um Jake preocupado. Então Cavill se aproximou rapidamente e, tentando controlar minha tremedeira, envolveu meu corpo com seus braços e chegou a boca perto da minha orelha.
– Nada jamais vai acontecer com você novamente, ok? Não vou deixar. Nunca. Vou fazer por você o que queria ter feito pela minha irmã. Vou te salvar dele, nem que seja a última coisa que eu faça.


Capítulo 06

Escutei os passos chegando cada vez mais perto, no entanto, estava com a atenção focada na médica veterinária que analisada uma das vacas, que estava prenha. Pelos nossos cálculos, aquele acontecimento poderia se tratar do parto. No dia anterior, a vaca não quis comer e mal bebeu água. Como achei que pudesse ser alguma coisa ligada ao próprio parto, deixei para lá, já que elas mesmas faziam o processo todo. Porém, quando cheguei para fazer a ordenha pela manhã, a encontrei caída e mugindo muito. Liguei para a veterinária responsável por elas imediatamente, que veio ao meu socorro logo.
– Algo mais que eu possa fazer, doutora? – Perguntei.
– Eu acho que está tudo bem por aqui. – Ela se levantou. – Bem, não está tudo bem, mas é fácil de resolver. Agora quer a boa notícia?
– Boa notícia?!
– Gêmeos!
– Uau. – disse atrás de mim. – Isso explica o tamanho.
– Na verdade, nem tanto. Eles parecem bem pequenos, e isso significa que vão requerer cuidados especiais nos primeiros dias de vida. Digamos que eles têm em torno de setenta por cento do tamanho de um bezerro normal. Mas a gente conversa sobre isso quando trouxermos eles ao mundo, ok?
Ela pegou um instrumento com correntes e puxadores e, após enfiar a mão dentro da vaca mais uma vez – é, dentro –, saiu com duas patinhas, ambas presas pela corrente.
, se importa de me ajudar aqui?
– Claro. O que devo fazer?
– Segure e puxe quando eu falar, nessa direção. – Ela apontou para um gancho na parede do celeiro, desenhando uma linha para eu seguir.
Eu assenti. Ela fez uma contagem regressiva e nós nos empenhamos em puxar com o máximo de força possível. Procurei, sobretudo, aplicar o que achava que ela estava aplicando, para que fosse igual.
– É isso, já chega, deu pra mim. – quase vomitou e saiu de perto correndo, gritando logo em seguida. – Se precisarem de apoio moral, podem vir aqui que eu digo palavras encorajadoras!
Eu e Rebecca nos olhamos e caímos na gargalhada. Mais uma sessão de força e o primeiro filhotinho saiu. Queria parar no tempo e ficar observando o quão gracioso ele era, mas ela logo me chamou a atenção.
– Vamos, temos mais um pra tirar.
Os dois filhotes nasceram relativamente saudáveis. Por conta de serem dois, o próprio corpo da mãe se preparava para fazer o parto antes do tempo total de gestação porque, se ambos crescessem o tanto que podiam crescer no útero, podia acontecer do parto se tornar inviável. Bem... Pelo menos, isso foi o que eu entendi da explicação que Rebecca pacientemente fez para mim.
– Olha, isso aqui é um suplemento vitamínico pra mamãe, tá? Eu sei que você gosta de deixar a água corrente nos bebedouros porque dá menos trabalho, mas queria pedir pra você travar a água dela, pelo menos. Aí você enche e coloca um vidrinho desse. – Ela colocou um caixa relativamente grande nas minhas mãos. – Aí tem quatorze deles, mas você pode comprar mais depois. Eu vou deixar a receita. Esse suplemento vai pros bezerros no leite, então não precisa fazer nada especificamente com eles quanto a isso.
– Por quanto tempo?
– Um mês.
– E quanto eu posso soltar ela no pasto? Uma semana?
– Como é parto gemelar, tem como você esperar quinze dias?
– Tudo bem.
– Ficou alguma dúvida, ?
– Acho que não.
– Ok. – Ela disse e me entregou uma folha de papel com um sorriso. – Aqui estão todas as recomendações, mas você sabe que pode me ligar se precisar.
– Pode deixar, Rebecca, obrigada.
– Eu que agradeço.
– Você é realmente muito boa nisso. – disse, se aproximando.
– Não é a primeira vez que eu vivencio um parto de vaca.
– Quando foi a outra vez?
Outras. – Frisei o plural e voltei a andar na direção da vaca e dos novos bezerros. – Era normal aqui na minha vó, ela tinha bem mais vacas do que agora. E você sabe... Crianças adoram coisas curiosas.
– Você achava um parto curioso?
– Sim. Por quê não?
– Porque é nojento.
– Você vê corpos mas não vê partos? – Falei, zombando dele. – Que ultrajante.
Ele deu de ombros, riu e enfiou as mãos nos bolsos da calça que estava usando.
– Posso ajudar com alguma coisa hoje?
– Você tem pavor das vacas, corre de uma galinha... Sabe lavar a louça?
– Não, na verdade, tenho uma máquina em casa pra isso.
– Então retira o lixo, por favor.
assentiu e foi na direção da casa. Imediatamente, senti que havia alguma coisa estranha naquele pedido. Eu me esforcei até lembrar que estava menstruada e que havia uma grande caixa de absorventes extragrandes no latão principal. E se eu não tivesse coberto ela com outras coisas? Deus me livre passar por aquela vergonha com o detetive. Então quase corri na frente dele e contornei a situação. Dois dias depois, eu ainda estava rindo sobre aquilo com no telefone.
– Tenho certeza de que ele adoraria saber qual é o seu período fértil.
, não fala besteira.
– Inclusive, estou com saudades da maravilhosa vista que tínhamos quando eu te levava na delegacia. Cruzei com o parceiro dele outro dia no mercadinho aqui perto de casa. Te contei?
– Você comentou por mensagem. – Respondi e olhei pela janela, estava do lado de fora, também em uma ligação. – Como estão as coisas na empresa?
– Estão fluindo bem, mas quase pedem você de volta. Não é fácil lidar com funcionários, eu não nasci pra isso.
– Tenho certeza de que você está sendo bem útil. E obrigada, , eu nem sei como agradecer.
– Sou tão dona quanto você, . Se uma está mal, a outra cobre. Não é por isso que abrimos a editora em sociedade?
– É, mas...
– Tire o tempo que precisar. – insistiu. – Pensa nisso como férias. Você, o gostosão...
, ele só tá aqui pra me proteger.
– Do quê? Do Jake? – Ela ironizou e eu fiz carinho no cachorro, que estava aos meus pés. – Aí não tem nada. Nem o filho da puta do Avery iria aí. Eu não vou!
– Que comparação maravilhosa, hein.
– Aliás, precisamos marcar uma visita.
– Mais fácil eu ir até você. É complicado deixar a editora sozinha, mesmo que seja por um dia.
– Eu vou no final de semana.
– Tem eventos grandes pra cobrir nos próximos três finais de semana.
– Você não está facilitando, ! – reclamou. – Eu vou dar folga pra todo mundo na segunda e na terça da próxima semana e vou aí, verificar de perto como estão as coisas com o bonitão.
– Olha lá o que você vai fazer, .
– Fala pra ele chamar o parceiro, podemos passar um dia agradável juntos, nós quatro. Que tal?
– Não mesmo! – Falei, rindo.
– Se você não falar, eu mesma vou na delegacia e o convido pra ir comigo. Nós dois, a carona até aí... Seria sensacional.
– Não inventa de fazer mais besteira. Você anda com umas ideias horríveis ultimamente.
Cada uma suspirou de seu lado. Eu fiquei em silêncio, absorvendo os últimos raios solares do dia, que entravam pelo vidro da janela.
– É bom te ouvir rir. – Ela quebrou o silêncio uns segundos depois, a voz bem mais suave. – Fiquei com medo de perder minha amiga.
– Eu ainda estou aqui.
– Sei disso, mas tudo o que aconteceu foi tão... Tão... Ah, , você sabe. Não sabia como você ia reagir, tive medo de não ser suficiente pra te ajudar a superar... Desculpa não reconhecer a mulher forte que você é. Eu deveria saber que você ia ser forte pra passar por isso sem a minha intromissão.
– Que papo sentimental é esse, dona ?
– Ah, e desculpa por ficar te empurrando pra cima do detetive . De verdade. Eu sei que a última coisa em que você deve estar pensando a essa hora é em se envolver com outro homem. Só achei que pudesse ser uma distração, qualquer coisa pra te fazer se sentir melhor.
Deixei um sorriso escapar.
– Relaxa, , obrigada. Você é uma amiga e tanto.
– Não sou nada.
– É sim, e sem teimosia. Caso contrário, eu te demito.
Ela gargalhou, nós finalizamos a ligação. Ia ligar para minha mãe também, mas já estava ficando tarde e eu precisava dar início aos preparativos para a janta. Além disso, ela provavelmente já estaria se preparando para dormir, pois gostava de ir para a cama cedo. Então coloquei um lembrete no celular para que, no outro dia, eu fizesse a chamada.
Fui até a cozinha e separei algumas coisas em cima da bancada. Coloquei uma libra de macarrão tipo parafuso para cozinhar em água fervente com um pouco de sal e óleo. Peguei um pedaço de muçarela e outro de cheddar e, com a ajuda do processador, ralei tudo. Fatiei uma cebola em pedaços irregulares grandes, jogando-os em uma panela que já tinha um pouco de azeite e alho em grande quantidade. Liguei o fogo, deixei refogando. Preparei o escorredor de massa propositalmente embaixo da torneira da pia e fiquei ali, esperando o macarrão ferver.
Belisquei mais queijo do que gostaria de assumir, tanto dos que eu havia ralado quanto do parmesão extra para a cobertura do prato. Talvez para me dar uma oportunidade a mais para saciar minhas necessidades culinárias, o macarrão demorou a ferver. Chequei meus e-mails enquanto isso. Havia um processo de plágio contra um cidadão alemão, que copiara uma de nossas obras, que finalmente tinha acabado, com vitória para o nosso lado. Mais um motivo para me encher de queijo, por quê não?
Quando o macarrão pegou o ponto certo, joguei no escorredor, lavei para cortar o cozimento e o transferi para uma travessa de vidro, misturando junto a ele os dois queijos que eu havia ralado e um bom tanto de creme de leite. Joguei parmesão por cima e coloquei tudo no forno. O frango já estava começando a dourar, o que era bom. Coloquei alguns legumes na panela com ele, adicionei uma boa quantidade de água e tampei para que fervesse mais rapidamente. De repente, tudo ficou escuro.
Eu não gritava quando faltava luz, muito embora estivesse recriando nos últimos dias o pavor absurdo do escuro que eu tinha quando era criança. O meu coração acelerou imediatamente. Sabia que o celular estava por cima da bancada em algum lugar, só não conseguia me lembrar de onde. Jake, que estava por perto, rosnou em um certo momento, me deixando mais desesperada ainda. Quando finalmente consegui alcançar o celular, liguei a lanterna dele rapidamente, tomando um susto ao me deparar com . Só de toalha.
– Desculpa, eu devia ter me anunciado antes.
– Tudo bem. – Falei, tentando me recuperar e não parecer tão ofegante.
– Acho que foi um problema daqui, tem luz nos postes da rua e no caminho para a casa principal.
– Tudo bem, vou chamar um eletricista.
– Deixa eu dar uma olhada, às vezes eu consigo dar um jeito no que for. Você tem algumas ferramentas?
– Sim, ficam embaixo da escada.
– Posso pegar?
– Claro.
– E onde fica o quadro de energia?
Fiquei extremamente incomodada com ele estar daquele jeito, mas não de um jeito ofensivo. Talvez fosse a falação de besteira que partia de me fazendo a cabeça. Mas Deus... Como aquilo tudo era possível? até colocou uma bermuda que conseguiu achar com o auxílio de uma lanterna, mas eu ainda estava afetada. E mesmo desconcertada, eu tive que botar pé na frente de pé para podermos chegar à área externa, na lateral da casa, onde ficava o quadro geral de energia que a alimentava.
– Pode segurar a lanterna na direção do quadro, por favor?
Eu assenti e fiz o que ele pediu. Assim que ele abriu a portinhola, um cheiro forte de queimado veio até nós. deu dois passos para trás, abanando o rosto para afastar o ar.
– Não parece coisa boa.
– O que é?
– Provavelmente, algum fio torrou. Ou pior, um disjuntor.
– Dá pra consertar?
– Depende. – Ele disse e estreitou os olhos para tentar ver alguma coisa. – Se for o fio, talvez sim. Pode aproximar a luz um pouco mais, por favor?
Eu cheguei mais perto dele, colocando o celular exatamente onde ele havia pedido. Não faço ideia da razão por trás daquilo mas, em um certo instante entre afastar os fios com a ponta de uma chave de fenda e tentar religar um disjuntor em específico, se virou para mim. Fez menção de falar alguma coisa, mas ele simplesmente fechou a boca logo depois e não voltou a abrir.
Foi involuntário e inevitável, como se tratasse de um ímã atraindo um metal. Nem precisaria dizer que alguém deu o primeiro passo, porque não havia mais passo algum entre nós. Fiquei presa no seu olhar de alguma forma e, enquanto assistia se aproximar em slow motion – ou ele estava sendo realmente muito lendo mesmo? –, não tive reação. Apenas fechei os olhos quando senti a ponta do nariz dele no meu. E do mesmo jeito que o clima foi criado, tudo acabou com um par de faróis apontados para nós dois. Nós nos afastamos desajeitados.
– Oi, ! – Rebecca gritou, acenando ao lado do carro. – A porteira tava aberta, eu estava passando e vim ver os bezerros.


Capítulo 07

Eu acabei deixando escapar um ‘eu fiz algo de errado?’. negou mil vezes, é claro, mas eu não estava convencida. Aquela história de ‘preciso ir na delegacia resolver assuntos sérios que não posso resolver daqui’ não me comprou nem um pouco. Também não questionei. Nem deveria ter feito aquela pergunta, na verdade, e estava arrependida de ter deixado ela escapar pela minha boca. Tudo estava muito confuso para mim. Eu tinha certeza absoluta de que o súbito afastamento do detetive tinha a ver com o nosso quase-beijo.
Não liguei para para contar sobre isso, ainda mais porque o queridinho dos sonhos dela tinha ido para Aysgarth ficar no lugar do . Eu não tinha nada contra o detetive , mas era estranho. Quer dizer... Não dava para dizer que era confortável ter uma espécie de segurança. Com , pelo menos, eu já tinha criado um certo tipo de vínculo. E não, não era sobre o que havia acontecido na noite anterior. Era sobre ele já estar tão intruso na minha rotina que eu até sentia como se ele já fizesse parte dela.
era brincalhão mas concentrado em fazer seu trabalho. Chegou sorridente mas adotou uma postura séria em seguida. Parecia até prestar mais atenção que em pequenos detalhes durante o pequeno tour que eu fiz com ele pela propriedade. Ele sabia, por alto, da situação geral pelas coisas que falava com ele mas, mesmo assim, quis ouvir de mim. Se eu falasse para que ele tinha perguntado da ‘amiga bonitinha’ que me fizera companhia na delegacia algumas vezes, eu escutaria um grito pelo telefone, certeza.
Por um lado, não ter era parcialmente bom. Eu sentia como se pudesse respirar. Às vezes, sentia que ele estava perto demais de mim. A sensação parecia com um dia de muito calor quando uma pessoa encosta em você. Não era exatamente boa. Ver uma cara nova dava uma falsa sensação de renovação.
Embora tudo isso estivesse passando pela minha cabeça, eu havia deixado algo para trás em Manchester que precisava recuperar: o controle da minha empresa. A editora não estava indo mal sob o poder de , mas nós estávamos naquela vida havia anos, então éramos boas em cada função e não conseguíamos suprir tanto assim a responsabilidade uma da outra. Sinceramente, não tinha concluído ainda se voltaria definitivamente para Manchester, mas seria uma sacanagem se eu não desse conta de devolver a a grande ajuda que ela estava me dando.
A editora havia recebido sete originais na semana anterior àquela situação. Desses sete, cinco eram romances e, desses cinco, três eram policiais. Não era exatamente o que eu pretendia fazer, mas me vi regredindo alguns anos mentalmente quando coloquei estes em primeiro lugar. Ajeitei uma boa refeição, coloquei uma música ambiente e sentei no escritório improvisado para começar a trabalhar no que eu tinha recebido.
Ao fim do primeiro romance, eu estava tonta de tanto ler. Precisava de descanso para a vista, então simplesmente recostei na cadeira e fechei os olhos enquanto ponderava sobre o que tinha acabado de analisar. Era uma história até boa, mas não tão promissora assim, e o enredo não iria exatamente ajudar a vender. Quando calculávamos o preço para passar para o cliente, isso sempre era levado em conta. Havia risco em toda negociação. Nossa equipe de marketing era muito boa mesmo, mas nem sempre dependia só deles para uma estreia alavancar. Às vezes, simplesmente não era o momento.
Os leitores não estavam desaparecendo, como todo mundo falava. O hábito de leitura estava, na verdade, ganhando força nos últimos anos. A questão era que o mercado da literatura sempre fora muito variável, então era sobre o momento. Em 2015, por exemplo, quando o filme ‘Fifty Shades of Grey’ estreou nos cinemas, nós tivemos um boom de vendas na área de romances eróticos, além de recebermos um bom bocado de originais novos com essa temática também. E uma coisa era certa: o mercado da literatura não seguia qualidade, seguia apenas a tendência. Quando Jamie Dornan encantou todas as mulheres do planeta como Christian Grey, nós ganhamos dinheiro simplesmente por termos material disponível dentro daquela temática, não necessariamente porque nosso material era bom.
Eu fazia questão de ler tudo o que chegava na editora para nós. Claro, antes do incidente com Avery. não conseguia separar as coisas, mas eu compreendia perfeitamente a diferença entre gostar do que estava lendo ou apenas aprovar a qualidade técnica da escrita. Li histórias que, para mim, pareceram uma grande porcaria. Romances, por exemplo, onde o casal principal se apaixonava em duas páginas, menos de uma hora depois de se conhecerem. A crítica não gostava muito, mas o que importava era que vendia e trazia lucro para nós.
A pior parte da editora talvez fosse lidar com autores. Mulheres e homens, separados, tinham suas particularidades. Homens comumente ditavam regras de como queriam todo o processo editorial feito, mas ficava claro que eles não faziam ideia de como funcionava. Mulheres não aceitavam negativas e, quando recusávamos um original ou outro feminino, acontecia de ou recebermos um e-mail cheio de palavrões ou um e-mail implorando pela aceitação. Só havia uma coincidência entre ambos os sexos que sempre me tirava do sério: ninguém sabia receber críticas construtivas.
Nunca gostei de falar mal do serviço dos outros porque não gostava que falassem mal dos meus mas, com o tempo, aprendi que críticas eram a melhor parte de se fazer algo como o que eu fazia. Quem escrevia tinha que ter como premissa que as críticas – quando feitas a partir de boa índole, claro – eram as melhores coisas que se podia receber como feedback. Ninguém aprendia com elogios, mas certamente aprendia com um ‘senti falta de detalhes’ ou ‘os capítulos estão muito longos’. Diferenciar uma crítica construtiva de uma crítica maldosa era fácil, mas pareciam tornar difícil com tanta destreza que me assustava.
Enquanto eu pensava sobre o trabalho e tudo mais que o envolvia, tinha que lidar com o serviço de manutenção da propriedade, como pegar os ovos ou tirar leite. O detetive , ao contrário de , não fazia perguntas. Apenas alguns comentários engraçadinhos aqui e ali eram suficientes para ele, aparentemente, mas acabava sendo estranho ter que fazer tudo sozinha depois de tanto tempo tendo a ajuda de .
Não era como se eu estivesse tranquila com a situação. Meu dia estava sendo extremamente tenso porque, a todo momento, eu lembrava do que havia acontecido na noite anterior e minha mente repetia, com certeza absoluta, que havia se afastado propositalmente. Eu me perguntava que mensagem ele queria passar com aquilo. Era algo tipo ‘tire seu cavalinho da chuva’ ou ‘você fez merda’? Era um castigo? Se fosse um castigo, ele seria bem infantil. Eu estava tentando me comportar como a adulta coerente que deveria ser, mas o tempo passando sem muita ocupação estava tornando aquilo difícil.
Jake, como sempre, estava me fazendo companhia. A história sobre os animais sentirem a energia dos donos e tudo mais? Eu acreditava muito naquilo. Ele costumava sair quando eu abria a porta de manhã, correndo para um lugar aleatório. Naquele dia, ele ficou por perto, todo carente e quase exigindo colo, como se desconhecesse o próprio tamanho. Nem perturbar as galinhas ele perturbou quando fomos fazer as checagens nelas. Tinha que ter uma coisa positiva naquele dia que, a meu ver, estava nublado de tantos detalhes sem conexão.
Enquanto eu tentava me convencer de que não havia nada que eu pudesse fazer, o diabinho no meu ombro colocava teorias absurdas no meu cérebro, só para tirar minha paz interior. Não que houvesse paz definitiva desde o acontecimento que me colocara naquela situação toda, mas eu tinha momentos em que conseguia me sentir bem comigo mesma. Eram curtos, mas existiam. Naquele fatídico dia, eles pareciam uma realidade bem distante.
Após o almoço – resto do macarrão da noite anterior, porque nem eu nem tivemos fome depois do que aconteceu entre a gente –, sentei para redigir o e-mail em resposta ao primeiro romance, criticando os pontos necessários e estipulando as condições do contrato. Enviei o e-mail, copiando , e mandei uma mensagem para ela, mesmo que eu soubesse que a notificação do e-mail chegaria em seu celular também. Abri, então, o arquivo do próximo romance. Jake estava insistente em ficar perto demais de mim, então puxei a outra poltrona que havia além da que eu estava utilizando para que ele ficasse bem próximo. Enquanto lia, conseguia escutar Jake roncar.
O detetive ficou por perto o tempo inteiro, dando eventuais checadas na parte externa da casa. Parecia legal, mesmo que tivesse como hábito a estranha variação entre uma pessoa muito séria e um brincalhão. não o havia notado sem razão. Ele possuía uma beleza admirável para os padrões de beleza britânicos. Era surpreendente, na verdade, que não tivesse feito um movimento na direção dele ainda, porque minha melhor amiga era totalmente o oposto de mim: descarada e decidida.
Estava quase me convencendo de que era melhor daquele jeito, de que era um idiota por ter saído correndo, fugindo do que tinha acontecido, e de que o clima estranho que ficou depois do que aconteceu era um claro sinal de que nada daquilo deveria ter acontecido. Mas então eu fechava os olhos e lembrava imediatamente de como tinha sido ficar tão perto dele. Até aquele momento, eu nem tinha reparado direito que os seus olhos eram azuis mas, de repente, a lembrança das íris me encarando de volta era límpida como cristal.
Comecei a questionar minha própria sanidade. Eu nunca havia estado perto de alguém que sofrera um ataque sexual como eu havia sofrido. Escutava que cada pessoa reagia de um modo diferente, mas parte de mim ficava achando que eu estava indo bem até demais. Mas aí eu pensava isso e, no outro segundo, me sentia completamente desprotegida. Era difícil lidar comigo mesma. Com base nisso, eu culpava o que tinha acontecido comigo pelas reações. Aí eu li uma frase em específico no romance e percebi duas coisas: 1) eu poderia estar me deixando afetar pelas leituras; 2) eu estava lendo mas não estava prestando atenção.
Vi que já estava na página trinta e seis e não estava, de fato, me atentando a todos os detalhes. Respirei fundo e levantei, indo até a cozinha para beber água e pegar um cacho de uvas na geladeira. Levei as uvas junto comigo, massageei meu pescoço e minhas têmporas e me decidi. A partir daquele instante, até eu terminar meu serviço, nada mais de na minha cabeça. Eu nunca tinha deixado homem algum atrapalhar a qualidade do meu serviço antes e , definitivamente, não seria o primeiro.
Consegui finalizar o segundo romance, mas não tinha cabeça para fazer mais nada, ainda mais se fosse seguir pelo caminho das biografias que eu tinha que analisar também. Percebi, àquela altura, que estava deixando de lado minhas próprias produções, mas estava realmente sem saco para usar o cérebro para qualquer coisa. Verifiquei com o detetive se estava tudo em ordem com a propriedade e com ele. Após uma resposta positiva, me dei por vencida e fui para o banheiro da minha suíte, pronta para perder quanto tempo fosse necessário na banheira.
Eu realmente não esperava que fosse voltar, então só aceitei que ficaria para a noite e me permiti relaxar. Tínhamos resto do almoço, o outro quarto estava preparado... Eu precisava de um tempo para mim. Exigi muito de mim mesma de uma hora para a outra e estava na hora de pausar o tempo, só um pouquinho, e respirar sem obrigação nenhuma.
Quando, no final do dia, depois do sol já se por e a escuridão tomar conta do lugar, o par de faróis iluminou a frente da casa, fiquei realmente surpresa. me viu pela janela assim que saiu do seu carro e abriu um sorriso contido. Não sabia se aquilo era bom ou mau sinal, mas o recebi como se nada tivesse acontecido. Fiz questão de insistir para que o detetive passasse a noite ao invés de voltar as quase duas horas de estrada para Manchester e segui minha rotina. Com Jake em meu encalço, é claro.


Capítulo 08

Eu estava tomando meu cereal de café da manhã em paz, checando coisas aleatórias e fúteis no celular, mas sentia que estava sendo constante e profundamente observada. Aquilo me incomodava e muito. Haviam tantas perguntas a serem feitas que eu nem sabia por onde deveria começar, mas fiquei quieta e me contive em minha excitação por respostas que eu julgava serem necessárias. Estava dominada por sentimentos que, até então, eu desconhecia. Sempre havia sido tão dona de mim mesma que estar naquela posição soava completamente desconfortável para mim, e o estranhamento estava cobrando o seu preço.
– Como foi a viagem até Manchester? – Quebrei o silêncio, esperando que o cravar dos olhos azuis em mim pudesse cessar com o questionamento.
– Foi boa. – respondeu, contido.
– Conseguiu resolver o assunto que você foi definir?
– Sim, consegui.
Achei que ia melhorar meu humor com aquelas perguntas, mas só piorou. Ainda sentia os olhos fixos em mim, e então tinha que lidar com um subitamente monossilábico. Estava a ponto de cuspir fogo, me sentia no direito de estar passando por aquilo. O desgraçado havia quase me beijado e achava mesmo que estava tudo bem passar a me tratar como se nada tivesse acontecido e muito mais formalmente do que antes? Ah, ele estava muito errado se achava que aquilo estava certo.
Levantei da mesa e fui direto para o balcão da cozinha. Joguei na lixeira abaixo dela o que restava comer do meu cereal, perdi a fome com aquela cena ridícula. Jake observava tudo cautelosamente, quase soltando um “por que você está jogando comida fora quando eu poderia estar comendo?”. Não queria ser rude com Jake também, ele não mereceria um tratamento daqueles, então ignorei por um momento. Enchi o pote com água e deixei dentro da pia. Sem dizer mais uma palavra sequer mas ainda sentindo os olhos queimando as minhas costas, eu saí da casa com o meu único companheiro fiel naquelas semanas de isolamento.
Entrei no galinheiro com Jake em meu encalço, como sempre. Ele observava atentamente enquanto eu pegava os ovos que estavam nas ninheiras vazias e verificava as ninheiras que estavam com alguma galinha. Juntei o que havia conseguido na prateleira, dentro das caixas de e=isopor, e segui para o curral. Ali, me sentiria melhor ainda. tinha, definitivamente, um medo tão grande quanto infundável das vacas. Eu queria proteção emocional, queria distância dele. Soltei todos os animais no pasto, então, e entrei.
Fui para um dos pontos mais afastados e sentei no mato mesmo, com zero preocupação se alguma formiga ou qualquer outro inseto ia me atacar. Jake sentou ao meu lado, deitando a cabeça no meu colo. Não demorou muito até que as vacas começaram a se aproximar de mim, mantendo a distância que achavam segura para continuarem se alimentando em paz. Eventualmente, um dos bezerros mais novos, atiçado pela curiosidade, chegou mais perto. Ele cheirou o meu entorno, os olhos bem presos a Jake. Levantei uma mão para acariciá-lo. Em um primeiro momento, ele se assustou com o movimento e deu um passo para trás mas, logo depois, voltou a avançar na minha direção, encostando por vontade própria o focinho na mão que mantive erguida. Eu o acariciei finalmente e me distraí com a vista da planície que se estendia à minha frente.
– Podemos conversar?
Ou a voz de reverberava incrivelmente bem em um local aberto ou ele estava dentro do piquete. Claro que acreditei mais na primeira opção, pois toda e qualquer experiência mínima com vacas que ele tivera ali, ao meu lado, foi vergonhoso para sua imagem. Não olhei. Apenas me levantei, cortando subitamente meu momento, e eu e Jake fomos caminhando para a cerca. Ele estava perto da porteira, eu podia ver pelo canto do olho, mas eu sabia muito bem pular o arame farpado e utilizei isso para manter distância.
...
– Não temos nada para conversar. – Respondi, ríspida.
– Eu não acho isso.
De repente, fui salva pelo gongo. Pelo portão da propriedade, vi o Sonata chegando. Abri um sorriso e disparei em passos largos e apressados para a frente da casa. havia chegado para sua primeira visita em um bom tempo.
– Eu acho melhor você não ter começado a plantar trigo ainda porque eu vim preparada hoje. – Ela disse enquanto saía do carro.
Dei uma olhada nela de cima a baixo. Geogia estava calçando uma bota sem salto, vestindo calça jeans e blusa de flanela quadriculada com um nó na frente e, como cereja do bolo, usava um chapéu de palha feminino. Eu não consegui aguentar e caí na gargalhada.
– Isso não pode ser possível.
– Ah, mas é sim! – fechou a porta e veio até mim, puxando uma risonha para um abraço. – E aí? Como você tá?
– To bem, e você?
– Cansada da viagem. – Ela observou.
Logo depois, abaixou ao meu lado e fez carinho em Jake, que prestava atenção em tudo. Sentia que ele se lembrava dela, mas a lembrança devia estar bem distante. Fazia tempo desde sua última visita e Jake havia aprendido a estranhar muito facilmente.
– Você deve estar doente. Cumprimentando o cachorro...
– To fazendo novas amizades.
– Ah, tá! – Revirei os olhos.
– E então... O que temos para hoje? Arar a terra? Limpar galinheiro? Remexer em cocô de vaca? Brincar com as ovelhas do vizinho?
– Você pode até gostar de fazer isso, mas nós temos assuntos a resolver.
Vi que olhou por cima do meu ombro e notou alguma coisa. Eu, é claro, já sabia do que se tratava. Ela escondeu um sorrisinho e olhou para mim.
– Olha só quem vem lá... – Murmurou.
– Senhorita , – parou ao meu lado e estendeu a mão para ela enquanto eu permanecia sem manter contato visual. – é um prazer revê-la.
– Igualmente, detetive . – Ela abriu um sorriso cheio de dentes.
– Pode chamar só de .
– Claro, .
, acho melhor irmos lá pra dentro logo. – Interrompi a cena patética à minha frente. – Não temos muito tempo antes de você ir embora e precisamos rever muitos assuntos.
– Ah, sim... Claro, você está certa. Vou só pegar a bolsa com o notebook e os documentos no carro.
Eu assenti. Não tinha um espelho mas, provavelmente, a tensão entre eu e estava visível à primeira vista. Aquilo não era da minha conta. estava ali para me proteger. Ponto final. Que protegesse então e me permitisse esquecer que aquela noite havia acontecido.
Quando eu e nos viramos para dentro da casa, senti que estávamos sendo seguidas. Meu humor estava no limite da educação e eu realmente estava tentando controlar meus pensamentos e minhas palavras. O problema é que eu realmente cheguei no limite quando tentou adentrar o escritório improvisado que eu havia montado para mim na sala. Eu simplesmente dei meia volta.
– Só para meninas. – Disse e fechei a porta na cara dele
Quando me voltei para , ela estava boquiaberta e surpresa.
– O que foi isso? – Ela sussurrou imediatamente.
Eu me arrependi de não ter programado a minha mente para montar um teatro em cima daquilo tudo. Não que eu fosse boa atriz – tinha uns poucos espetáculos estudantis na carreira, mas nada que chamasse a atenção de um produtor de Hollywood. Só que eu estava tão focada em ficar com raiva de pela atitude infantil que esqueci completamente de que não estava afim de passar pela crise exagerada que fazia em cima de qualquer assunto. Eu sentei na cadeira ainda me perguntando se iria mentir, se iria contar ou se iria falar uma meia verdade. Era minha melhor amiga, mas era escandalosa como uma maritaca.
e eu quase nos beijamos. – Falei.
– O quê?! – gritou, ao que eu reagi imediatamente com uma cara fechada, chamando sua atenção.
– Você é retardada mental ou o quê? Eu hein! – Resmunguei e levantei a tampa do meu notebook. – Foi isso que você ouviu.
– Por que você não me contou nada disso?
– Talvez porque você não tenha me ligado desde que aconteceu.
– Você podia ter me ligado também. Além do mais, nós trocamos mensagens o tempo inteiro.
– Talvez eu não quisesse falar sobre isso.
– Você sempre quer falar sobre alguma coisa comigo.
– Aí é uma mentira que você tenta dizer a si mesma há anos, torcendo pra virar verdade.
... – olhou para mim por cima de seu próprio notebook e deixou os ombros caírem. – Tá tudo bem?
– Tá tudo ótimo. Eu só precisava te contar isso porque, caso contrário, você não me deixaria em paz. Ou pior! Iria falar com ele.
– Desculpa, tá? É que eu...
– Você não sabe lidar com o que tá acontecendo, eu sei. Mas eu to bem, caramba. Por que as pessoas têm tanta dificuldade em acreditar nisso?
– Porque você ainda tá aqui, enfiada e se escondendo no fim do mundo.
– Não é o fim do mundo, , é Aysgarth, na casa que era da minha vó.
– Você não é uma menina do campo!
– As pessoas mudam.
– Tá, mas você é minha amiga. Eu te conheço, , e sei que isso aqui não é o seu normal.
– Talvez eu queira mudar.
...
– Acho melhor a gente resolver logo as pendências sobre a editora. – Eu a interrompi. – Nós realmente precisamos botar isso em ordem o mais cedo possível. E eu vou falar sobre o assunto quando estiver pronta, , não precisa insistir.
Eu quase sentia muito por ter sido dura com ela, mas parei para pensar no assunto e cheguei à conclusão de que estava sempre pensando em não deixar ninguém desconfortável mas não olhava para mim mesma. Eu tinha que ficar desconfortável para que os outros não ficassem? Essa ideia não parecia muito certa quando raciocinei o contexto completo dela. Por isso, eu não estava exatamente arrependida da minha atitude.
Nós almoçamos com um clima bem estranho pairando entre nós. Eu tinha comida do dia anterior e não fiz questão de preparar algo fresco para a refeição. Até Jake estava sentindo que tinha coisa errada ali, tanto que nem insistiu – como sempre costumava fazer – em tentar conseguir um pedaço de alguma coisa com quem estava à mesa. Mais uma vez, eu quase me senti culpada. Quase. Mas não deveria ter sido um idiota ao ir embora do nada no dia anterior e ao me dar respostas curtas e atravessadas na manhã daquele mesmo dia. E não deveria ter sido babaca ao tratar da minha vida e de situações pessoais e íntimas minhas como se fossem uma fofoca qualquer aleatória que tivesse surgido durante o dia. Eu queria tempo para mim, eu queria estar sozinha. Eu sentia saudade do me fazendo companhia.
... – cautelosamente me chamou enquanto eu estava sentada à mesa, fazendo ajustes em um arquivo html para o site da editora. – Eu acho que vou indo. Tá ficando tarde, você sabe que eu não gosto de dirigir no escuro, ainda mais que eu não conheço tão bem a estrada daqui pra casa ainda.
Levantei o olhar até o relógio acima da lareira. Tinha ficado tão concentrada em ocupar minha mente que não vi a hora passar.
– Tudo bem. Já tá tarde, você já deveria ter ido.
– Eu queria conversar com você antes de ir.
...
– Sério, . Eu... Eu vou tentar para com isso, vou tentar não ficar forçando quando você não quiser falar sobre o assunto.
– Não importa, tá tudo bem.
– Você vai ficar zangada e vai ficar remoendo isso.
– Mais cedo, você disse que me conhece, então sabe que eu não vou ficar remoendo.
– Tem certeza, ?
– Tenho. E, de qualquer forma, você ainda tem muito tempo até Manchester. É melhor que você vá logo.
– Ok então... – Ela pegou a mochila, sem jeito, e pendurou no ombro. – Eu aviso quando chegar.
– Avisa sim, por favor.
– Pode deixar que eu fecho o portão quando passar por lá. Tá frio, não tem necessidade de você ir lá fora.
– Tem certeza?
– Tenho sim, pode deixar.
Mais um pouco de clima estranho e veio me abraçar para se despedir também. Mandou um tchau para Jake no ar e saiu pela porta. Eu fiquei olhando pela janela até que ela saiu de vez. Menos de um minuto depois, entrou na sala. Tratei de fechar meu notebook, puxar o carregador da tomada e levar tudo nos meus braços.
– Nós podemos conversar agora?
– Sem tempo. – Respondi e saí andando para o meu quarto.
, por favor...
Eu me virei para ele uma última vez naquele dia. Estava bufando e não tinha gostado de como ele tinha me chamado. Tentei fechar a porta do quarto na sua cara – de novo –, mas foi mais rápido que eu e colocou sua mão no caminho. Não tinha como eu disputar força com ele, então nem tentei.
– Solta. – Ordenei.
– Me escuta.
– Não vou escutar porra nenhuma. – Falei e arregalou os olhos, surpreso. – Você faz o que você quiser da sua vida, inclusive pode ir embora a hora que quiser, mas você não tem o mínimo direito de me impedir de fechar a porta do meu quarto. Se for assim, não vejo o menor motivo pra você continuar aqui.
– Eu não deveria ter continuado aqui depois do que aconteceu duas noites atrás.
– Então tivesse ficado em Manchester ontem, caralho! – Gritei e Jake, assustado, latiu. – Não precisava ter voltado. Eu não queria você aqui. Não precisa se sentir desconfortável, detetive. Pode ir embora tranquilamente que eu não vou reclamar pra ninguém e nem contar que você é a porra de um moleque infantil que não sabe lidar com a dona da boca onde você quase enfiou sua língua.
Com a minha fala, consegui surpreendê-lo mais ainda, o que acabou fazendo com que ele liberasse a porta e eu finalmente pudesse batê-la com tudo e me trancar sozinha.


Capítulo 09

Eu não fazia ideia de que era possível sentir tanta falta de um abraço quanto eu sentia falta do abraço da minha mãe. Sentir seus braços em volta do meu corpo, me apertando como se eu ainda fosse uma criança de cinco anos, era tudo o que eu precisava naquele dia. Entendia perfeitamente que não era tão simples para ela pegar um carro e ir até Aysgarth. Minha mãe já não era mais uma criança, tinha problemas de saúde que limitavam sua locomoção. Além disso, não era desejável que ela simplesmente contratasse um motorista para dirigir até lá, porque eu estava de fato escondida e meu endereço não era para se tornar uma informação alcançável a qualquer um. Nem a mãe de sabia onde eu estava, por questão de segurança. Enquanto não pegassem Avery – ou qualquer que fosse o nome daquele filho da puta –, eu não me sentiria a salvo.
– Ai, minha filha, me desculpe por ter demorado tanto para aparecer.
– Não tem problema, mãe. – Eu disse a ela enquanto nós nos encaminhávamos para dentro de casa.
– Sabe, aquele problema na coluna que eu te falei piorou. O doutor Andrew queria que eu ficasse de repouso o tempo inteiro, então ele me proibiu de dirigir.
– Mas a senhora está liberada mesmo agora?
– Estou.
– Tem certeza, mãe? – Insisti.
– Sua mãe não está mentindo, .
– Ah, eu tenho que checar, porque teimosia é seu nome do meio.
– Por que você tá usando a casa do caseiro em vez de usar a casa principal, ?
– O detetive – O nome saiu quase arranhando a minha garganta. – disse que era melhor ficar aqui porque é mais distante da pista principal.
– E onde ele está? Eu deveria ao menos conhecer o homem que tem protegido a minha filha durante essas semanas todas.
– Deve estar dentro da casa.
– Mas ele não deveria estar te protegendo?
– Mãe, ele não é pra ficar colado em mim o dia inteiro.
– Você parecia gostar dele nas ligações que fez pra mim antes.
– A senhora deve ter se enganado.
– Então você não gosta dele?
– Não é isso, mãe, eu só não to nem aí.
– Quando vou conhecê-lo?
– A qualquer momento, imagino eu.
– Jake! – Minha mãe gritou e se abaixou quando meu cachorro chegou perto. – Oi, menino. A vovó também estava curiosa para te conhecer.
Jake aproveitou a atenção recebida e lambeu o rosto da minha mãe diversas vezes. Era surpreendente ver aquela cena. Quando eu era mais nova, ela disse mil vezes que não aceitaria animal de estimação nenhum em casa porque era anti-higiêncio. E ali estava ela, deixando um cachorro que rolava na lama diariamente lamber seu rosto.
– Ele é um amor!
– E levado também, mas estou conseguindo educar aos poucos.
– Você também era bem levada quando era criança. – Minha mãe riu.
Nós entramos na casa e ela deixou a bolsa em cima do aparador que ficava no hall de entrada. Olhou em volta e suspirou. Segundos depois, apareceu. Eu só tentei disfarçar meu ainda presente desgosto.
– Senhora , é um prazer conhecê-la finalmente.
– Ah, querido, pode me chamar de Rose. – Minha mãe disse e apertou a mão que ele ofereceu. – É um prazer conhecê-lo também. falou muito de você.
– Espero que ela tenha falado boas coisas. – Ele disse e olhou para mim.
Aquele diálogo era clichê, ridículo e patético de tantas formas que eu nem saberia descrever metade delas, mas eu precisava manter as aparências para minha mãe. Minha vida inteira depois que saí de casa era daquela forma: é só fazer com que ela pense que você não poderia estar melhor que ela vai achar que fez o trabalho de mãe muito bem. Não que eu achasse que ela havia sido uma má mãe, muito pelo contrário, mas ela tinha tendência a pensar que algo sempre estava me faltando e que era dever dela suprir as minhas necessidades. Eu já havia dito diversas vezes que eu era independente, tinha meu próprio negócio e estava com tudo em ordem, mas o instinto materno dela era maior que toda a verdade. Por mais orgulhosa que ela estivesse da posição que eu havia alcançado relativamente cedo na vida, ela sempre queria fazer mais por mim, mesmo que não houvesse mais nada a ser feito.
– Você fez umas boas mudanças por aqui. – Minha mãe observou enquanto caminhávamos para a sala de estar.
comprou alguns papeis de parede e trouxe em uma das visitas dela. Depois de alguns vídeos no YouTube, eu consegui colocar sem fazer besteira.
– Se sua vó visse isso, diria que você está gastando muito dinheiro à toa.
– Pra qualquer coisa, ela iria isso. – Nós duas rimos. – O que o doutor Andrew disse sobre a senhora dirigir até aqui?
– Ah, ele não sabe que eu vim, é claro. Você disse que não poderia contar a ninguém.
– Isso é desculpa, mãe, a senhora poderia ter dito que dirigiria por duas horas para visitar um familiar. Não revelaria nada e ainda teria a opinião médica dele.
– E se ele me dissesse para não vir?
– A senhora não deveria vir então. Precisa recuperar sua coluna cem por centro antes de sair se aventurando por aí, mãe.
– Você, Dianne e deveriam parar de me tratar como se eu estivesse paraplégica ou coisa do tipo. – Minha mãe resmungou mas, logo depois, olhou por cima dos meus ombros na direção do corredor que levava aos quartos. – bem disse que esse tal de detetive era um bom partido. Vocês dois combinam!
– Mãe!
– O que foi? Não falei nenhuma mentira.
– Ele é o policial do meu caso e só isso.
– Você está tensa.
– Claro que estou, sendo questionada dessa forma por coisas sem sentido...
falou que você estava incomodada com ele. – Ela deu de ombros e sentou no sofá. – Como você está, querida?
– Estou bem.
– Tem certeza de que esse distanciamento da cidade está te fazendo bem, filha?
– Eu não estou em território estranho, mãe, estou na propriedade onde vivi a maior parte da minha infância.
– Sua vó sabia que você detestava esse lugar na sua adolescência.
– Ah, eu não pensava direito naquela época. Costumava vir muito aqui antes da vovó morrer, e não viria tanto se não fosse por amor a ela e se eu detestasse mesmo esse lugar.
– Sabe, me surpreendeu muito que ela tenha deixado isso aqui para você, mas até que não discordo. Afinal de contas, meu tempo aqui não vai se prolongar muito mais. Você tem muito mais vida pela frente do que eu.
– Não fala assim, mãe.
– Querida, você sabe que isso não é mentira.
– É exagero, sim, senhora.
– Você está recebendo atendimento psicológico?
– Não precisa.
– Precisa sim. Você sabe que mais de vinte por cento das mulheres vítimas de agressão nem registram queixa por medo de retaliação?
– Mãe, o que nós conversamos sobre essas informações que a senhora encontra no Google?
– Mas, querida, não podemos ignorar o que você viveu. Preciso me preocupar com você. Se eu não me preocupar, quem vai?
– Estou grandinha, mãe, e estou tão bem que eu mesma estou surpresa. A senhora poderia confiar em mim por, ao menos, um momento?
– Com licença. – falou da entrada da sala de estar. – , posso trocar uma palavra com você rapidamente?
Segurei a revirada de olhos e me levantei, fazendo sinal para que minha mãe esperasse um momento. Fui até o corredor com o olhar preso no chão.
– O que você quer? – Sussurrei.
– Você está precisando de alguma coisa?
– Eu já precisei de alguma coisa de você?
, por favor...
Bufei e ele parou de falar.
– Olha só, , – Finalmente olhei para ele. – minha mãe finalmente veio me visitar desde que eu vim parar aqui. Minha mãe só vai ficar de hoje para amanhã e ela é o ser humano mais perfeito do mundo, nunca incomodou ninguém. Então não me importa que diabos você tem pensado e feito ultimamente, eu só quero uma coisa. Por favor, vamos fingir que nada passou perto de acontecer entre a gente e que a nossa relação é estritamente respeitosa mediante o que é necessário aqui.
– Eu...
ficou inquieto de repente. Ele ia continuar o que estava falando, mas pareceu desistir. Fiquei quieta no meu lugar, esperando que ele se decidisse.
– Ok, , como você quiser.
– É pra você. – Rosnei.
– Desculpa.
Eu saí de perto dele sentindo algo de diferente no tom de voz que ele havia usado, mas decidi ignorar qualquer que fosse aquele sentimento. Minha mãe estava levantando correndo na hora em que eu voltei ao cômodo onde eu a havia deixado.
– O que houve, mãe?
– Ah, querida, quase esqueci. Trouxe lagarto recheado, daquele jeito que você gosta. O cooler está no carro.
– Eu posso pegar, senhora . Onde está?
– No banco do passageiro, querido. Está embrulhado em uma espécie de saco de tecido. Tome cuidado quando for carregar. Deve ser carregado no mesmo nível que está no carro para não entornar o caldo.
– Sim, senhora, vou tomar cuidado.
Minha mãe e eu observamos sair para a porta onde o carro estava. Ela foi direto para a bancada da cozinha, levantando as mangas do casaco que usava. Eu a acompanhei e apoiei as costas na bancada. Comida da dona Rose? Meu Deus, eu não dispensaria aquilo por nada.
– E tia Dianne, como vai?
te falou que ela está se preparando para operar a vista?
– Sim, comentou.
– Ela marcou a data da cirurgia, será daqui a duas semanas, na primeira terça do mês que vem.
– Quem ficará com ela?
– Eu vou ficar, já que está ocupada com a editora de vocês.
Eu senti o impacto daquela frase. Minha mãe, é claro, não deixou passar despercebida a mudança na minha postura.
– Querida, não foi isso o que eu quis dizer.
– Tá tudo bem, mãe.
– É uma cirurgia boba, a recuperação será rápida. Antes de você saber que ela operou, já vai estar recuperada. Você vai ver só!
– Aqui está a carne. – entrou na cozinha com o pacote em mãos.
– Muito bom, querido, obrigada. Posso pedir mais um favor?
– É claro.
– Você poderia colocar no forno para mim? – Minha mãe disse e se apressou em abrir a tampa do forno imediatamente. – Sabe que já cozinhei nessa cozinha aqui mais vezes do que saberia dizer? Foi aqui que fez o primeiro macarrão dela.
– É verdade? – Ele deu corda.
– Sim, ficou uma porcaria.
– Detetive, o senhor pode me fazer o favor de verificar se eu fechei devidamente a porta do galinheiro enquanto eu ajudo minha mãe com o começo do almoço? – Usei um tom que certamente entenderia. – Algo me diz que eu esqueci de fechar devidamente.
Ele hesitou, arqueou uma sobrancelha mas se deu por vencido.
– Claro, eu vou já. – forçou um sorriso e saiu.
– E então, filha... Ainda lembra de como fazer aquele sauce bechamel que sua avó lhe ensinou? – Minha mãe me perguntou com um sorriso de orelha a orelha.
Durante a tarde daquele dia, caminhamos pela extensão da divisa da propriedade enquanto minha mãe e sua coluna, já desgastada com a idade, aguentavam. Ficamos conversando até tarde, relembrando situações que havíamos vivido com minha falecida avó. Havia muita saudade naquelas palavras, mas também havia uma sensação de paz que eu não sabia descrever. O suficiente para esquecer de ? Sim, o suficiente.
Na manhã seguinte, quando ela partiu após o café da manhã, foi como se tivesse levado um pedaço de mim junto. Eu não lembrava da sensação de saudade ser tão forte como aquela, nem quando minha avó se foi. Estava feliz por ter tido minha mãe comigo, queria que ela ficasse mais, mas também entendia que ela não podia simplesmente abandonar sua vida em Manchester, sobretudo quando se tratava da agenda médica importante que ela tinha. E eu não conseguia parar de pensar em quão importante havia sido a minha decisão de não apresentar Jack a ela prematuramente.
– Você parece muito com ela. – disse quando surgiu ao meu lado.
– Me poupe. – Resmunguei. – Ela já foi, podemos parar de fingimento.
– Podemos conversar, por favor?
– Eu não quero conversar.
, por favor...
– Já pedi pra não me chamar desse jeito! – Gritei.
– Se me permitir falar, eu prometo que não perturbo mais.
– Ok, , você tem sessenta segundos. – Cruzei os braços e me virei para ele. – Contando.
– Tudo bem. Eu só queria começar dizendo que... – Sua fala foi interrompida pelo barulho do telefone tocando. – Eu queria dizer que...
desviou a atenção para o celular. Eu bufei e descruzei os braços, pronta para ir embora.
falando. – Ele atendeu. – O quê?! , pra dentro!
– Mas que porra...
Ele simplesmente me empurrou para dentro de casa e tirou uma arma do cós da calça.


Continua...



Nota da autora: Chega de enrolação! Vamos botar um pouco de ação pra justificar o porquê do casal maravilhoso não ter ficado junto ainda haha

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