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Última atualização: 20/10/2020

Capítulo 1

Eu estava muito animada, de mil formas diferentes. Arrumei minha mala tão cautelosamente que nem parecia a garota impulsiva que eu era. Meu irmão apareceu na porta do quarto e por lá ficou.
– Não vai se atrasar, hein.
– Corey, ainda faltam seis horas para o voo.
– Eu sei. – Ele riu de mim e entrou no quarto, sentando na beira da cama. – Leva roupa pra calor e pra frio, lá varia bem.
– Já tinha anotado isso naquelas mensagens que você me passou, separei uma boa quantidade.
– E nada de biquini, só maiô.
– Corey, por que você sempre tem que perturbar sua irmã quando finalmente para casa? – Minha mãe ralhou da porta do quarto.
– É só implicância. – Ele bagunçou o meu cabelo. – Mas leva um casaco na bolsa de mão.
– Casaco, travesseiro de pescoço, manta pequena para me cobrir...
– Você é boa nisso, vou te contratar pra fazer minhas malas quando eu for viajar.
– Deus me livre! – Protestei.
– Você trate de cuidar bem da sua irmã, Corey, ou eu vou me teletransportar até o Marrocos no mesmo instante pra te matar.
– Vai dar tudo certo, mãe. – Ele disse e, saindo do meu quarto, beijou a testa dela. – E não é Marrocos, é Espanha.
– Mas fica depois do Marrocos!
– Já podemos ir. – Eu anunciei, interrompendo os dois.
– A gente tem uma hora ainda. Acabei de checar, o trânsito tá tranquilo.
– Mas e se acontecer um acidente, a pista fechar, um policial te parar e demorar demais para liberar...
– Tá bom, tá bom! – Corey me interrompeu, dando-me razão a contragosto. – Vou pegar minhas malas e te encontro lá embaixo.
Corey era o irmão e filho mais maravilhoso que uma pessoa podia pedir. Depois que concluiu o mestrado em Estética Cinematográfica pela University of Oxford, foi indicado por um professor para um executivo da Netflix e estava trabalhando como assistente de diretor desde então. Com o salário, tirou a gente de uma casa minúscula para uma decente. Depois, reformou, transformando o que eram cinco quartos e três banheiros em três suítes com closet, a sua ainda com um estúdio anexo, no terceiro e mais alto andar da casa.
Seu mais novo trabalho era com uma grande produção. Ele viajaria por algumas semanas para as ilhas Canárias a fim de participar das filmagens de uma série. Eu tinha acabado de me formar – com ajuda dele também – em Engenharia de Software e tinha decidido me afundar na procura do meu primeiro emprego oficial na área, mas Corey insistiu que eu deveria e precisava tirar um tempo para mim mesma antes de começar a trabalhar sem parar. Minha mãe não achava que nossos cursos eram sérios ou que dariam dinheiro, mas dava total apoio. Quando Corey me chamou para ir para o território espanhol com ele, minha mãe foi quem mais insistiu. Ela passaria um tempo com sua irmã, nossa tia Lea, que estaria se recuperando de uma cirurgia na garganta, enquanto estivéssemos fora. Seriam semanas de união fraternal.
Eu estava mais que animada. Antes de Corey conseguir o emprego na Netflix, nós não tínhamos tanto dinheiro disponível em casa. Meu pai largou minha mãe quando ainda éramos pequenos, um grande babaca recheado de ignorância pura, e nós tivemos que nos virarmos para conseguir dinheiro além do que a justiça obrigara meu pai a pagar de pensão. Eu havia saído da Inglaterra para ir a Paris de trem uma vez, em excursão com o colégio onde estudava, e uma vez a Dublin, para conhecermos a família de uma ex-namorada de Corey. Tirando isso, todos os nossos passeios eram dentro do país. Então era de se esperar que eu estivesse uma pilha de nervos – no bom sentido, é claro – para aquela viagem.
Corey já havia viajado um bom bocado a trabalho, então ele não estava tão animado quanto eu, mas entendia como eu estava me sentindo e até incentivava um pouco. Afinal de contas, ele mesmo tinha dado a ideia. E é claro que eu sabia que chegaríamos ao Heathrow a tempo do voo, ainda mais com quase seis horas de vantagem. Se tudo desse certo, não levaríamos nem uma hora até lá. Eu já tinha feito o check in online e o único procedimento necessário no Heathrow seria o de despachar as malas. Para evitar o cansaço desnecessário da nossa mãe – que quase não desistiu da ideia de nos levar –, optamos por pagar um Uber até o aeroporto. Seria mais barato que deixar o carro de Corey lá, estacionado, ou até mesmo do que o combustível e o curto estacionamento do carro de nossa mãe.
– Quanto tempo até a gente poder entrar no avião?
– Você sabe que tá parecendo uma criança, né? – Corey implicou. – Não estamos nem na sala de embarque ainda.
– Não?!
– Não. Nós só vamos pra lá quando nosso voo começar a ser chamado.
– É quanto tempo de voo mesmo?
– Um pouco mais que seis horas.
– Eu nunca ouvi falar dessa companhia aérea. – Apontei para o grande telão que mostrava as informações dos voos que estavam pousando e partindo do Heathrow. – Brussels Airlines...
Corey começou a rir e olhou para mim.
– Você tá precisando tomar remédios pra ansiedade e não to sabendo, mocinha?
– Mamãe, com certeza, teria te alertado.
– Provavelmente, é uma companhia aérea belga.
– Pensei nisso também. – Murmurei e olhei para o meu cartão de embarque, dentro das páginas do meu novíssimo passaporte. – Sem chance de conhecermos Casablanca, né?
– Eu já pesquisei os preços e vou tentar achar uma promoção enquanto estivermos por lá. Talvez possamos passar na hora de ir embora. Mas lá tem bastante coisa pra ver, fica tranquila que você não vai ficar deitada, de perna pra cima.
– A casa lá é legal? – Perguntei.
– Não é a mesma casa que eu aluguei da última vez, então não sei. Quando fomos filmar lá antes, a equipe inteira alugou um lugar, então ficou um monte de gente dentro de um albergue ou coisa do tipo.
– Não vai sair muito caro pra você?
– Eles ainda vão pagar a minha hospedagem. Eu tinha direito a gastar cento e cinquenta dólares por dia com hospedagem, alimentação e aluguel de carro. Vai dar pra bancar o aluguel da casa mais o aluguel dos carros. Aí a gente fica só pagando a alimentação.
– Dos carros?! – Questionei. – No plural?
– É. Eu vou precisar do meu e não vai ser exatamente perfeito pra você se ficar sozinha por lá, dependendo de transporte público, sendo que você mal sabe falar espanhol.
– Tem certeza?
Meu irmão assentiu e checou o celular.
– Onde você vai filmar... Não é próximo da casa, certo?
– Não exatamente, mas a ilha é pequena. Dá pra dar uma volta inteira nela em menos de duas horas de carro.
– Qual a distância do lugar onde você vai filmar pra casa?
– Depende. São cinco locações. A mais longe delas fica a menos de uma hora e meia de distância.
– O que tem de legal pra fazer lá?
– Eu montei uma lista pra você, tá no meio das minhas pastas, que estão na mala principal. Me lembra de te entregar quando a gente chegar lá. Mas tem o aquário, os cânions, as igrejas... A casa lá é colada no mar, de frente pra ele. Inclusive, tenho uma surpresa pra você.
Meu irmão se virou para a terceira bolsa dele, dentre as que iam dentro do avião conosco, e me entregou. Eu estranhei na mesma hora.
– O que é isso?
– É pra você aproveitar direito a viagem. Abre aí. – Ele apontou e olhou para outro lugar, como se quisesse me dar privacidade. – Só toma cuidado na hora de abrir.
Eu deitei a bolsa no meu colo. Não era muito grande, mas também não era pequena. Comecei a abrir o zíper e levantei o tampo da bolsa, revelando um conjunto com corpo, tripé e lentes de uma câmera fotográfica profissional. Eu saí mexendo nas lentes que, mesmo devidamente protegidas, eu reconheceria em qualquer lugar.
– Eu sei que você ficou chateada quando roubaram a sua câmera antiga. Essa aí tem tudo que a outra tinha e mais algumas coisas. As lentes têm estabilizador de imagem, todas elas, e eu comprei aquela 50mm que você tanto queria. Ela tem conexão wireless, então você pode enviar as imagens pra uma conta na nuvem, mas eu comprei alguns bons cartões de memória também caso você prefira ficar com o usual. Ah, e tem os filtros, bateria extra e alguns outros acessórios. Estão no bolso externo frontal e...
Não deixei meu irmão terminar a frase. Colocando a bolsa de lado por um momento no assento ao lado do meu, eu agarrei seu pescoço em um abraço e deixei um beijo com força na sua bochecha direita. Corey ria do meu abraço, mas passou os braços em volta de mim também. Um casal passou por perto, estranhando a situação e quase apertando os passos pra ficarem mais distantes de nós. Eu e meu irmão rimos. Afinal de contas, nós sabíamos o porquê daquele carinho todo e era isso que importava.
– Obrigada, Corey. De verdade. – Eu peguei na bolsa com tudo e comecei a fechá-la em cima do meu colo. – Eu... Eu nem sei o que dizer!
– Não precisa dizer nada. Use pra boas fotos. Quem sabe a gente te transforma numa fotógrafa mundialmente conhecida, ganha mais dinheiro do que eu, me paga o que deve...
Estreitei os olhos e virei para ele de cara feia.
– Esse presente tá saindo muito caro.
Corey riu e apontou para uma máquina do outro lado do saguão onde estávamos.
– Quer pipoca?
– Pode ser.
Ele se levantou e foi até a máquina. Eu olhei o celular. Meu impulso me dizia para postar mil fotos, contar a Deus e o mundo que eu estava indo viajar para longe. Muito longe. Eu estaria praticamente na África! Mas Corey havia me explicado que nada poderia associar-nos ao lugar onde estaríamos, inclusive me fez assinar um contrato de confidenciabilidade que, de acordo com ele, todos da equipe assinavam. Aparentemente, o tamanho da produção era grande demais para ser descoberta aleatoriamente. Se as notícias saíssem para a imprensa pela boca de uma pessoa qualquer, tudo bem. Caso contrário, nós devíamos permanecer quietos a respeito de qualquer detalhe a respeito daquela viagem enquanto a própria empresa não liberasse a notícia para os meios de comunicação.
– Toma aqui. – Meu irmão, de repente, estava de volta, e me entregava uma caixa enorme de pipoca junto a uma garrafa de suco industrializado. – Pipoca dá sede, achei melhor já pegar pra você.
– Tudo bem. Quanto foi?
– A gente acerta isso depois. – Ele disse, sentou ao meu lado e começou a comer a própria pipoca, distraído com qualquer outra coisa que não fosse a minha presença.
– Corey...
– Sim?
Eu hesitei.
– Você não precisava ter feito tudo isso por mim e pela mamãe.
– Eu sou o homem da casa. É claro que eu precisava ter feito.
Olhei para a minha pipoca, peguei um pouco e coloquei na boca.
– Obrigada. – Disse, antes de decidir deixá-lo definitivamente em paz. – Você é o melhor irmão que eu poderia sonhar em ter.
Ele sorriu, me puxou para deixar um beijo na minha testa e voltou à sua distração.
– Ei, Corey...
– Vai comer, sua tagarela! – Ele reclamou e eu ri. – Comprei a pipoca maior pra você calar a boca por mais tempo.
Revirei os olhos por conta de sua palhaçada mas, finalmente, fiquei quieta na minha. Alternei entre a pipoca e um jogo qualquer no celular por alguns minutos, tentando me manter menos ansiosa, mesmo sendo uma árdua tarefa. Não muito tempo depois, fomos para a sala de embarque, de onde eu podia ver os aviões decolando e pousando. Aquilo só piorou meu nervosismo mas, para a felicidade do meu irmão – porque ele ia me jogar do céu se eu continuasse perturbando sua paz –, nós rapidamente fomos parar no corredor retrátil que nos levava para dentro da aeronave responsável por fazer o nosso transporte.
Sentei ao lado dele e afivelei o cinto correndo, quase tremendo de tanta excitação. Ele estava tranquilo enquanto colocava as malas no compartimento acima de nossas cabeças. Peguei o celular, coloquei no modo avião, abri a minha playlist favorita e coloquei para tocar no fone de ouvido. Quase uma hora depois, Londres estava pequenina sob os meus pés e eu estava mais agitada do que nunca na minha vida inteira.


Capítulo 2

– Ali é outra ilha?
– Faz parte do conjunto das Ilhas Canárias. – Crowley respondeu.
– A vegetação aqui parece ser bem aleatória. – Observei, apontando da minha extrema esquerda para a minha extrema direita. – Nada é muito parecido com o outro.
– Há diversos fatores climáticos que levam isso a acontecer, mas a variação do solo é o que mais impressiona os especialistas, e isso justifica a variação perfeitamente. Só que isso aqui é o de menos. Você deveria ver como é a vegetação onde seu irmão está.
– O que tem lá?
– Vegetação de deserto em todo o lugar.
– É estranho, porque aqui não é quente.
– Mas é seco, e é sobre isso que um deserto se trata. Temos baixo índice pluviométrico por aqui.
– Mesmo sendo tão perto do mar?
– Tem muitas variáveis que interferem nisso.
Eu levantei a câmera recém-ganhada, presa ao meu pescoço, até a altura dos olhos. Estava com a lente telescópica, então mirei na ilha cujo nome Crowley havia acabado de mencionar. Controlei o foco e bati a foto.
– O que você fez pra meu irmão te colocar de castigo como meu guia turístico particular?
– Eu devia um favor a ele. Os chefões acham que eu estou fazendo reconhecimento de cenário.
– E o que você vai falar pra eles quando esse trabalho não estiver pronto?
– Quem disse que ele não está ficando pronto? – Ele mostrou o próprio celular.
– Você é bom, hein!
Crowley deu de ombros e sorriu.
– Eu tento o meu melhor.
– Onde você aprendeu tanto sobre o lugar? – Eu comecei a caminhar no sentido que ele já havia indicado que seguiríamos a partir daquele ponto.
– Tenho especialização sobre estudos históricos e geográficos, fiz na França. Um amigo conhecia um amigo que conhecia um dos caras envolvidos na produção de uma outra produção, chamada O Guardião Invisível. Não sei se você já ouviu falar.
– Já sim, eu já li todos os livros dessa saga.
– Então... Nesse caso, eu fiz o estudo da floresta, recebi o roteiro para analisar quais os melhores lugares para as cenas necessárias, conversei com o diretor e o roteirista pra entender a visão que eles queriam do momento... E aí eu ia até as possíveis locações algumas vezes, sempre a critério de escolher as posições. Então eu tiro fotos, faço marcações em um aplicativo que eu tenho e, quando a equipe vem, eu a poupo desse trabalho, que leva um bom tempo.
– Mas você vai conseguir fazer isso tudo enquanto fazemos trilha?
– Eu já estive aqui antes, só estou fazendo ajustes finais pras filmagens.
– Então você chegou mais cedo que o resto da equipe.
– Sim, cerca de dois meses mais cedo.
– E você aprendeu a falar espanhol onde?
– Meu pai é filho de uma espanhola e um francês. Sou britânico por parte de mãe.
– O sangue que corre pelas suas veias é um tanto confuso então. – Eu brinquei. – Meu pai é francês.
– E você aprendeu francês?
– Não aprendi nada relacionado ao idioma ou ao país além de que eles são uns grandes filhos da puta.
– Ah, britânicos têm por costume terem problemas com franceses.
– Eu não tenho problemas com os franceses. Os franceses que são o meu problema.
– Ex-namorado? – Crowley chutou.
– Também, – Confessei. – mas meu pai foi a pior parte.
– Então você não gosta de cinquenta por centro de mim.
– Você é velho demais pra mim, Crowley.
– E você é homem de menos pra mim. – Ele brincou e apontou para uma estrutura mais à frente. – Ali é o mirante Big Ravine. Dá pra tirar umas boas fotos de lá.
– Então isso tudo é um vulcão?
– Sim, o vulcão Tejeda.
– Eu pesquisei na internet, li algo sobre um tal de almoragen.
Almogarén. – Crowley me corrigiu. – São lugares onde os ganches, como são conhecidos os povos aborígenes canários, realizavam rituais de adoração aos seus deuses. Isso é de antes do povo hispânico colonizar o arquipélago.
– Parece uma história triste.
– Quase todas as histórias de verdade são tristes, .
Observei o entorno. Havia um cacto cheio de flores. Abri a bolsa da câmera, retirei a lente telescópica da câmera, coloquei na repartição correspondente a ela, peguei a lente macro e equipei a câmera novamente. Configurei o obturador e o diafragma para um ajuste intermediário. Foquei a flor rósea bem de perto e acionei o botão do obturador. Tirei mais três fotos de ângulos diferentes, mesmo que fossem minimamente desiguais.
Cerca de vinte fotos e cinquenta minutos de caminhada em terreno nada confortável depois, nós chegamos ao Yacimiento Arqueológico Cuevas del Rey – se eu repetisse aquele nome várias vezes, talvez minha pronúncia em espanhol ficasse mais fácil do que a trilha rochosa de dificuldade moderada que escolhemos seguir do mirante de Roque Bentayga até ali. Chegar até o conjunto de cavernas foi a pior parte, justamente porque a parte final do caminho era íngreme e com pouco espaço para movimentação. Crowley explicou que aquilo foi feito propositalmente para dificultar o acesso.
– Não são cavernas naturais. – Eu disse.
Crowley riu da minha observação quando chegamos à entrada da primeira delas.
– Não, não são. – Ele começou a explicar. – É um conjunto de oitenta cavernas que foram esculpidas pelos primeiros habitantes da ilha.
– Eles não podiam ter problemas nas pernas, né? – Brincando, apontei para o caminho que tínhamos acabado de percorrer.
– As coisas eram muito melhores naquela época. O tempo deteriorou os acessos. A história conta que tudo aqui era conectado muito bem. Mais à frente, você vai ver algumas das cavernas que eram usadas como verdadeiros silos.
– Então eles praticavam agricultura.
– Numa ilha distante do continente, é esperado que eles cultivassem tudo o que consumiam e que se preocupassem com o armazenamento.
– Quando aconteceu isso tudo?
– Os estudiosos calculam que foi entre quinhentos e duzentos antes de Cristo.
– E eles já tinham tinta naquela época? – Indiquei as paredes da caverna onde estávamos, pintadas de branco, preto e vermelho.
– Ah, essa é a residência do que era chamado de guayre. Era o cara que mandava por aqui.
– Boa definição. – Eu ri, aproximando-me de algumas pinturas na parede do lugar.
Liguei a câmera e levantei até a altura dos meus olhos. Estava pronta para bater a foto quando senti uma mão urgente em meus ombros.
– Não use flash! – Crowley quase gritou. – Desculpa, eu esqueci de avisar.
Troquei a lente, optando por uma com abertura maior do obturador. Fiz alguns outros ajustes e chequei a foto antes de seguir por ali.
– Os buracos...
– Os grandes são para encaixarem mobiliário, por exemplo. Os externos, para portas e janelas. E esses pequenos eram usados, na maioria das vezes, para cozinhar.
– Então eles eram um povo evoluído. – Concluí.
– Por alto, sim, eram. Muito da história do povo que viveu aqui tá no El Museo Canario. Fica a pouco menos de meia hora de onde vocês estão ficando, no centro da ilha. É interessante, você devia visitar o lugar. Nós podemos marcar um dia, se você quiser que eu te acompanhe pra contar mais coisas, mas lá tem ótimos guias que vão saber mais que eu, com certeza. São pagos, mas não é nada muito caro.
– Qualquer coisa anda muito cara pra mim ultimamente. – Brinquei. – Você sabe o porquê do meu irmão ter escolhido ficar tão longe do centro? Foi só por preço?
– Foi porque o pessoal todo tá no centro. Em Arinaga, ele fica escondido. Aí é mais difícil de surgirem na casa onde vocês estão no meio da noite por motivos fúteis.
– Já fizeram isso?
– Ah, o trabalho é bom, mas tem muita gente sem noção. – Crowley riu e mostrou um caminho. – Se nós seguimos por aqui, vamos chegar às rochas Camello, Andén del Tabacalete e Bentayga. Eram usadas como rochas sepulcrais. Você quer ir até lá?
Assenti, fechando a lente da câmera para protegê-la da poeira do local. Nós seguimos com a nossa pequena turnê pelos lugares importantes do Roque Nublo. Crowley, de fato, conhecia muito sobre o lugar e era surpreendente. Não mais que seu fôlego, pois eu estava acabada antes do passeio terminar e ele parecia ainda ter disposição para refazer tudo aquilo no mesmo dia. No fim do percurso, um conhecido dele nos pegou de carro perto de uma das estradas da ilha e levou a gente até o ponto onde nossos carros haviam sido estacionados pela manhã.
Cheguei em casa com o sol quase sumindo de vez. Ia até considerar uma caminhada na beira do mar mas, por já ter caminhado o dia inteiro e por ter visualizado a banheira de hidromassagem, acabei desistindo. Haviam mil planos preparados para serem seguidos em um dia qualquer à noite, mas eu não estava disposta a seguir nenhum deles naquela noite em específico. Estava mais do que exausta. Além disso, não sabia ainda como tinha sido o dia de Corey no trabalho, então ele podia chegar em casa mais exausto que eu – mentalmente –, o que inviabilizaria mais ainda qualquer chance de sairmos por qualquer motivo.
Depois de um bom tempo debaixo da água quente da banheira e após perceber que Corey falara sério quando disse que a temperatura na ilha podia variar violentamente, eu me dei por vencida e optei por não aumentar ainda mais as rugas nas pontas dos meus dedos. Levantei, sequei-me devidamente, botei um moletom que fosse esquentar e desci as escadas.
Na cozinha, fiquei vagando entre as opções de besteira com as quais havíamos abastecido os armários. O micro-ondas ficava em cima da geladeira, o que quase fez com que eu desistisse da pipoca. Mas então eu puxei um dos bancos da pequena bancada anexa ao armário, que dividia a cozinha da sala de estar, e subi nele. Fiz dois pacotes e os despejei em potes que estavam guardados embaixo da pia.
Sentei no sofá, levando uma coberta que estava no quarto térreo, que havia ficado com Corey, para que eu me esquentasse ainda mais. Liguei a televisão e abri a Netflix para dar seguimento a uma série que eu estava acompanhando. Deixei um dos potes de pipoca na mesinha de centro e coloquei o outro no meu colo, começando imediatamente a devorar as pipocas. Alguns bons e longos minutos depois, ouvi o barulho da chave sendo acionada na fechadura da porta principal e, em um segundo, Corey estava entrando.
– E aí, maninha? Como foi o dia? – Ele perguntou enquanto deixava a maleta com os seus equipamentos ao lado do rack.
– Bom. – Eu ajeitei a coberta sobre as minhas pernas. – Pedi pizza pra gente.
– Você aprendeu espanhol a ponto de pedir delivery?
– Dá pra pedir por aplicativo. – Balancei o celular, mostrando-o para Corey.
– O Crowley te tratou bem?
– Sim, ele é legal, educado e sabe tanto sobre o lugar que é surpreendente. – Comentei. – Que favor tão grande deve a você pra ter aceitado ficar de guia turístico assim tão fácil?
– Eu convenci o atual marido dele a aceitar um encontro.
– Ah, sim... – Eu ri da fala dele.
– Qual o sabor da pizza?
– Não sei. Ia pesquisar a tradução do Google, mas fiquei com preguiça. Pela foto, é algo com peito de peru, e você sabe que eu adoro peito de peru.
Corey se aproximou e sentou ao meu lado, pegando um pouco da pipoca que eu tinha comigo.
– Como foi o dia de trabalho?
– Cansativo. O pessoal do figurino atrasou, fizeram medidas totalmente erradas pro ator principal, ele rasgou quase todas as roupas nas cenas de ação... Até reparo à mão em cima da hora tiveram que fazer. E aí mal concluíram uma cena hoje. Tenho até que rever o que temos pra saber se vamos precisar refazer. O Sakharov é bem criterioso e eu não conheço o cara tão bem assim ainda, então talvez o trabalho seja dobrado por agora. Tenho que me adaptar ao tipo de cena que o cara gosta, e ele parece gostar de one shots, o que é lindo de se ver mais difícil de filmar e de editar. Isso sem contar que ele parece um pouco preguiçoso pro meu gosto. Ele gosta das coisas do jeito dele mas não quer se dar o trabalho de dirigir devidamente, e aí sobre muito pra mim.
– Uau, parece excitante. – Ironizei.
– A pizza leva quanto tempo?
– Deram sessenta minutos pra entrega, eu pedi já tem meia hora, pelo menos.
– Então dá tempo de eu tomar um banho e botar uma roupa mais confortável. Você me espera?
Eu apenas assenti e vi enquanto ele se arrastava na direção do quarto no térreo que pertencia a ele.


Capítulo 3

Saí do carro bem tensa. Ajeitei a mochila nas minhas costas e peguei o par de muletas para Corey.
– Você tem certeza de que não vai dar merda? – Sussurrei entre dentes de novo.
– Você assinou o acordo de confidenciabilidade. Tirando isso, os grandões não vêm pro set de filmagem quando é assim, no meio da floresta. A maior autoridade aqui depois de mim é são os diretores, e eles não teriam me escolhido como assistente se não gostassem do meu trabalho.
– Tá bom então...
– Ei, fica tranquila. – Meu irmão disse e ficou de pé, equilibrando-se nas muletas. – Eu preciso de ajuda, você é minha irmã e veio comigo, tá tudo bem.
– Não tá bem, eu to em um lugar onde eu não deveria estar.
– Relaxa, .
– E aí, ? – Um homem passou por nós, estava na indo na direção que íamos seguir, mas parou seu curso e veio até eu e meu irmão. – O que houve aí, cara?
– Eu virei uma panela de água fervendo em cima da minha perna ontem, queimou tudo.
– Que merda, hein!
– A propósito, essa é a minha irmã, . , esse aqui é o George, ele é o diretor de fotografia.
O homem estendeu sua mão para mim e eu a apertei logo em seguida.
– É um prazer conhecê-la, .
– Igualmente. – Respondi com um sorriso educado.
– Trouxe sua irmã pra ajudar? – Ele perguntou quando nós começamos a andar na direção de algumas tendas armadas ali.
– Sim. Eu preciso passar uma pomada de três em três horas, não seria exatamente legal se eu pedisse pra alguém daqui fazer.
– Tenho certeza de que a Morgan ia adorar fazer isso por você.
– Ah, claro. – Meu irmão revirou os olhos e riu. – E é bom que eu não preciso confiar os meus equipamentos a uma pessoa qualquer da produção.
– Corey e suas desconfianças... – George falou, irônico.
– Meu Deus, Corey! O que houve? – Era a vez de uma mulher se aproximar correndo, curiosa.
Meu irmão contou a história da perna enfaixada mais de dez vezes até parar em seu lugar de trabalho. No começo, eu estava até me divertindo um pouco. Todos eram receptivos ao serem apresentados a mim, alguns mais simpáticos e outros mais fechados. Não era problema, eu só não queria ser motivo de confusão. Até que paramos perto de uma mulher que, de longe, tinha aura de ser importante ali.
– Bom dia, Charlotte.
– Bom dia, Co... Ai, Meu Deus! O que aconteceu?
– Um acidente doméstico. Essa aqui é a minha irmã, .
– Prazer. – Ela disse, esticando a mão para mim mas sem tirar os olhos da perna do meu irmão.
Eu apertei, segurando a risada.
– Eu trouxe a comigo pra ajudar na locomoção, se eu precisar pegar alguma coisa rápida, carregar meus equipamentos... Sabe como é.
– Sem problemas. Bom que eu estou aqui e não o Sakharov ou o Lopez. Eu sou a diretora legal. – A mulher piscou para mim. – E a melhor também. Você já leu os livros, ?
– Já joguei o jogo.
– Então não gosta de ler?
– Ela é engenheira de software, é mais chegada nos eletrônicos do que nos papeis.
– Que legal! É uma profissão incrível.
– Obrigada. – Agradeci com um sorriso.
– Charlotte, eu já to pronto pra começar. – Ouvi uma voz grossa falar e, de repente, senti um gelado na minha mão.
Puxei a mão rapidamente, achando que era um bicho ou coisa do tipo. O cão se assustou e foi para trás, escondendo-se junto ao dono da voz. Henry Cavill estava na minha frente, caracterizado. O gelado que eu senti era o focinho do cachorro dele.
– Oi! – Ele sorriu para mim e olhou para Corey. – Fez merda, né?
– Tava tentando cozinhar.
– Você é burro mesmo.
– Ah, Cavill, essa é a minha irmã, . – Estava quase colocando uma placa na testa de tanto que tinha escutado aquela apresentação.
– É um prazer. – Ele foi o milésimo a oferecer a mão para mim naquele dia.
– E esse aí é o Kal-El, nosso assistente de produção, mas ele prefere ser chamado só de Kal. – Meu irmão complementou.
– Oi, Kal, desculpa o susto. – Brinquei.
– Acho que Anya não saiu do trailer dela ainda.
Como vi que o assunto ia começar a girar em torno de detalhes produtivos e que eu não tinha nada a ver com aquilo, comecei a andar para mais longe e parar de prestar atenção. Fiquei em pé até oferecerem uma cadeira para mim, que coloquei ao lado da cadeira de Corey. Segundos depois, peguei no celular para jogar. Uma mão apareceu sobre a minha no mesmo instante.
– Celulares não são permitidos no trailer. – Um homem que Corey identificou como Luigi me chamou atenção.
– Disseram que eu podia. – Levantei o celular e mostrei as fitas adesivas que tampavam as câmeras traseira e frontal do meu aparelho.
– Tudo bem então.
Os atores começaram a assumirem posições no meio da área à nossa frente, onde câmeras diversas já estavam espalhadas. Eu até sabia um pouco por alto sobre toda a história daquele universo, mas estava bem com a ideia de ter uma surpresa quando tudo ficasse pronto, então não tinha a mínima intenção de prestar atenção à cena. Abri um jogo qualquer e fiquei concentrada nele até sentir como se fosse um bicho no meu pé. Por sorte, o tamanho todo de Kal estava visível antes que eu tomasse outro susto. O animal simplesmente deitou aos meus pés e ficou ali quietinho, observando o que estava acontecendo. Eu olhei para Corey em busca de uma explicação.
– Ele é muito bem adestrado e já tá acostumado com sets de filmagens. – Meu irmão contou. – Toda vez que nós estamos para começar, o Cavill manda o Kal vir pra cá e ele fica.
– E seu trabalho é ficar sentado, observando tudo à distância e sendo babá de um cachorro? Pagam bem pra isso, hein!
– Na verdade, eu vejo tudo por aqui. – Ele apontou para o notebook que eu tinha montado na mesa que colocaram à sua frente, as imagens das câmeras sendo projetadas na tela dele. – Quem faz o trabalho mesmo é a Charlotte, no caso do episódio que estamos filmando hoje. Eu basicamente dou opiniões e procuro ver erros que passem despercebidos por ela.
– Ainda acho que te pagam muito.
– Você nem gosta dos presentes que ganha pra isso, né, bonitinha?
Eu ri. Corey fez sinal para que eu fizesse silêncio então, começariam a gravar. Realmente fiquei alheia ao que estava acontecendo por ali. Prestava atenção mesmo ao jogo de cartas que estava rolando no meu celular, dando um pouco de carinho para Kal eventualmente com a ponta dos pés, e olha que ele nem parecia se importar muito com a presença de qualquer outro ali.
Cerca de três horas depois, o lugar de filmagem ia mudar. Enquanto uma parte da equipe ia preparando a próxima área, outra ia almoçar. Eu ajudei Corey a levantar e recolher seus equipamentos. Preparei a mochila, joguei por cima dos ombros e começamos a caminhar para o restaurante improvisado sobre uma tenda, um pouco afastado do lugar onde estavam filmando.
– Como vai a experiência até agora?
– A mamãe vai mandar você voltar se souber que você se machucou tanto a ponto de me trazer pra trabalhar com você.
– Foi tudo milimetricamente planejado. Você vem aqui, conhece uns da equipe, faz uma boa propaganda... E aí eu te arrumo um trabalho com a equipe de programação ou efeitos especiais.
– Você tá sonhando alto demais, Corey!
Coloquei meu prato e servi o prato do meu irmão também enquanto ele me aguardava, sentado em uma mesa com alguns de seus colegas de trabalho. Eu fiquei por fora da conversa, mas também nem me importei muito. Era melhor ficar apagada do que dar uma primeira impressão ruim, ainda mais para aquele tipo de gente. Não era o meu sonho trabalhar para a Netflix, mas Corey estava certo, poderia haver uma chance de emprego ali para mim de alguma forma. Só soube que tinha algo errado quando apareceram dois caras de terno e gravata. Nem pisquei quando vi que eles estavam indo na direção da nossa mesa. Quando ouvi a palavra ‘reunião’, não pensei duas vezes, levantei e saí da tenda.
– Oi, você é a irmã do Corey? – Fui abordada depois de um tempo aguardando por ele.
– Sou sim. – Levantei a cabeça e dei de cara com a atriz principal da série.
– Tudo bem? Eu sou a Anya.
Finalmente, alguém estava se apresentando para mim e não sendo apresentado pelo meu irmão.
.
– Ele pediu pra eu te ocupar enquanto o pessoal conversa lá dentro.
– Algum problema?
– Não, é só chatice burocrática desnecessária. Quer conhecer a parte legal dos bastidores?
Eu assenti e acompanhei Anya pelos próximos vinte minutos. Ela me mostrou o trailer de maquiagem e o de figurinho. Mostrou também qual era o trailer onde ela ficava para ensaiar suas falar para as cenas, bem pequeno mas completo. Por fora, mostrou os de outros atores e contou como era o dia a dia ali desde que tinham começado a produzir a série. Ao final do passeio, fomos ao local onde os caminhões que levavam os cavalos usados na filmagem estavam, e então eu fiquei maravilhada.
– Você gosta de cavalos?
– Acho que eles são animais majestosos.
– E são mesmo. Essa aqui é a beldade que interpreta a Plotka.
– Só usam uma égua?
– Na maior parte do tempo, sim. Usam alguns outros, depende da cena. Mas ela é usada pra quase tudo.
– Boa tarde, meninas. – Um homem nos cumprimentou e foi para a parte de trás de um dos caminhões.
Olhei para Anya, curiosa.
– Ele é o veterinário responsável por garantir o bem-estar dos cavalos usados nas filmagens. É meio estranho, mas ele é inofensivo.
– Parece um trabalho cansativo.
– Ser veterinário ou estar envolvido numa produção de uma série?
– A segunda opção.
– Ah, você se acostuma. Paga as contas, e paga muito bem. – Ela piscou e sorriu para mim.
Nesse instante, meu celular tocou, anunciando a chegada de uma mensagem. A reunião entre a equipe de direção e produção havia acabado e meu irmão precisava de ajuda para ir até um dos trailers e trocar as bandagens. Eu ajudei como pude, tendo cuidado para não encostar com pressão demais na pele. Visualmente, estava uma porcaria. A sorte era que minha melhor amiga estava terminando a faculdade de Medicina e, por conta disso, eu já tinha visto algumas cenas bem detestáveis. Felizmente, isso ajudou a não ter tanto nojo do que eu estava vendo.
Para quem quiser crer, eu dormi durante as filmagens após o almoço. As cenas eram monótonas, sem ação. O que divertia eventualmente eram os anões irlandeses figurantes, que estavam fazendo piadas incontáveis em cima das situações a serem gravadas ou de qualquer outra coisa relacionada a nós, britânicos, porque estávamos em maioria ali.
– Por que não dão logo um trabalho para a moça fazer e justificam melhor ainda sua presença aqui? – Um dos colegas de Corey perguntou.
– Porque então ela não poderia me ajudar. – Meu irmão respondeu.
– Ela parece se dar bem com o cão do Cavill, já é um começo.
– Eu me dou bem?
– Ah, bonitinha, esse cachorro não chega perto de ninguém por aqui, e você mal chegou e ele deitou perto de você pra ver as filmagens, então acho que isso é “dar bem”.
– Deveria me sentir lisonjeada então? – Falei e todos rimos. – De qualquer forma, estou interessada nos valores. Não que seja o trabalho que eu sonhei arrumar assim que saísse da faculdade, mas...
– Vou falar pra ele pagar o salário de pet sitter. – Corey brincou.
– Quero vinte libras por hora.
– Careira ela, hein. – O mesmo colega de Corey falou.
– Tá no sangue.
– Definitivamente, ela é sua irmã. Só acho que ela não é tão irmã assim porque ela é linda e você... Bem, você é você.
Eu, é claro, fiquei mais que envergonhada mas fingi estar fluindo junto com a brincadeira. No final do dia, ainda saí do set com alguns convites para reaparecer quando pudesse. Anya me chamou para uma saída de meninas na primeira folga, porque as mulheres eram em muito menor número ali e ela sentia falta de companhia feminina. Não podia negar, eu também sentia e estava adorando o sentimento de ser bem quista em um lugar tão importante como aquele.


Capítulo 4

As férias foram extremamente proveitosas, mas a vida tinha que seguir. Eu estava em casa, sentada na cadeira nova que tinha comprado de presente para mim mesma, procurando possíveis empresas que interessariam-se ao menos em dar uma olhada no meu currículo. Não era uma área fácil de arrumar emprego, disso eu sabia, mas eu podia ser útil de diferentes formas e estava aberta a qualquer uma delas.
– Ei, bebê... – Minha mãe entrou no quarto após bater na porta, sentou na ponta da cama logo atrás de mim e colocou uma mão no meu ombro. – Como vai a pesquisa?
– Não muito bem, a senhora deve imaginar.
– Corey já viu com os tais conhecidos dele?
– Bem, ele pediu meu currículo, eu já enviei, então é aguardar. – Eu bufei e desisti, por um momento, do computador. – A senhora precisa de alguma ajuda?
– Se não for muito incômodo, você poderia passar a vassoura elétrica na casa?
– Claro, mãe.
– Seu irmão tá jogando, eu poderia até pedir pra ele fazer isso, mas você sabe como seu irmão é horrível com a vassoura elétrica.
– Sem problemas, mãe, – Falei e levantei da cadeira, empurrando ela para baixo da mesa. – eu já vou descer. Vou só trocar de roupa.
– Obrigada, querida. Enquanto isso, eu vou ir até o mercado. Planejei algumas coisas pro almoço e acabei de descobrir que não temos tomate pra fazer, adivinha...
– Molho de tomate caseiro! – Completei, rindo. – Mãe, fica tranquila, não tem problema.
– Tem certeza de que eu não to te atrapalhando?
– Ah, mãe, pelo amor de Deus, eu já sou inquilina devedora aqui. Limpar é o mínimo que eu posso fazer.
Ela sorriu, fez carinho na minha cabeça e deu um beijo na minha bochecha.
– Eu já volto, não devo levar nem meia hora.
Assenti e minha mãe deixou o quarto. Fui até meu armário e peguei uma roupa mais confortável para começar com a limpeza. Prendi o cabelo com um rabo de cavalo alto, troquei a blusa do pijama por um top de ginástica e a calça de flanela por uma de lycra. Coloquei o bracelete de suporte para celular no lugar e encaixei o fone nele. Playlist reservada, desci as escadas pulando para o primeiro andar.
No ouvido, o Bon Jovi me ensurdecia com Bad Medicine. Vi que havia louça na pia e decidi começar por lá, independente de minha mãe ter pedido para agir com a vassoura elétrica. O que estava sendo preparado já tinha sujado algumas coisas, que tratei de deixar limpas para quando minha mãe voltasse. O que estava já seco no escorredor ou na máquina de lavar louça foi guardado. Então eu finalmente virei para o restante da casa, fui até a despensa, peguei a vassoura elétrica e comecei.
Coloquei as seis cadeiras da mesa de jantar com o assento no tampo da mesa, para tirar do chão e liberar o espaço. Verifiquei a quantidade de bateria da vassoura, mudei a música no meu celular para uma mais animada e liguei. Balançando a cabeça, eu ia abaixando de dois em dois segundos para checar que estava alcançando todos os pontos necessários. O chão não estava muito sujo, mas minha mãe gostava de manter tudo o mais limpo possível antes mesmo de perceber que havia alguma sujeira por ali.
Fiz a sala de jantar, segui para a sala de estar, recoloquei as coisas que removi do lugar. Na cozinha, vi que não havia nada de água no chão e passei a vassoura elétrica ali também, por precaução. Bebi um pouco de água antes de ir pro hall de entrada. Limpei ali também e, depois, dei dois toques na porta do escritório do meu irmão. Sabia que ele estava ali dentro e sabia que não se importaria se eu entrasse de uma vez, mas eu tinha educação.
Na terceira tentativa, ele gritou um ‘entra’. Abri a porta, Corey continuava fixo no computador. Achei que estava trabalhando, mas usava suas três telas para projetar um jogo de tiro cujo nome eu certamente já tinha escutado mas não lembrava. Mostrei a vassoura, ele entendeu e fez sinal para que eu seguisse em frente. Chegou sua cadeira para o lado e eu já passei na área onde ele estava. Como estávamos os dois de fone de ouvido, não nos preocupamos com trocar palavras.
Antes que eu percebesse, estava dançando pelo escritório de Corey. Balançava a cabeça – não só a cabeça, mas seria melhor manter a descrição assim – de um lado para o outro no ritmo de We Got It Going On e quase usando o cabo como pedestal de microfone. Também não notei quando comecei a cantar em voz alta, podia apostar que as palavras ainda estavam dentro da minha mente. E eu segui animada até a música terminar. Durante o segundo de pausa entre ela e a próxima, consegui ouvir meu irmão gargalhando. Puxei o fone de ouvido no mesmo instante.
– O que houve?
– Você... – Ele parou, respirou fundo ainda gargalhando e apontou para o computador. – To com áudio e vídeo ligado, tá todo mundo te vendo dando um show aí, senhorita Bon Jovi.
Eu queria cavar um buraco no chão e não sair dele nunca mais. Notei a imagem registrada pela webcam no canto de uma das telas, junto a diversas outras imagens que não quis olhar por muito tempo, e senti minhas bochechas ficando cada vez mais quentes. Tive vontade de vomitar. Então, independente de ter terminado o que tinha ido fazer ali ou não, saí correndo. Quando passei pela porta, assustei minha mãe por dar de cara repentinamente com ela chegando da rua. Aí eu reparei que eu estava só de top, sem camisa. Era só mais uma vergonha para constar naquele dia que tinha começado muito bem, não estava nem na metade e já me dava vontade de morrer.
– Crianças, almoçar! – Ouvi a minha mãe gritando do térreo enquanto ainda estava remoendo o que tinha acontecido.
Preferia ter sido chamada de ‘criança’ na frente da webcam. Corey só olhou para mim e riu quando eu estava descendo a escada.
– Ok, o molho está uma delícia e eu vou matar vocês se não comerem duas conchas cada.
– Calma, mãe. – Corey brincou e começou a colocar sua comida.
Eu coloquei um pouco de talharim no prato e algumas almôndegas quando tive a oportunidade. Minha mãe serviu suco de laranja para nós três e eu sentei finalmente ao conseguir terminar de montar meu prato.
– E então, Corey, conseguiu alguma coisa com seus amigos pra sua irmã?
– Mãe, já disse pra não importunar ele com isso que não tem necessidade.
– Não tem problema. – Corey respondeu de boca cheia mesmo e engoliu antes de continuar por causa do olhar atravessado que ganhou de nossa mãe. – As coisas não estão exatamente favoráveis pra acrescentar uma pessoa à equipe com quem eu conheço, mas eles estão cientes de que tenho alguém pra recomendar e confiam em uma recomendação minha.
– Você acha que tem alguma previsão pra se interessarem por ela?
– Gente, eu realmente não queria tratar disso durante o almoço. – Disse, sendo ignorada completamente mais uma vez, e larguei o garfo no prato.
– Ela se deu muito bem com o pessoal da produção em que estou atuando, então estou tentando encaixá-la por lá, mesmo que provisoriamente. Até saíram pra jantar quando eu fiquei em casa trabalhando. Sabia dessa, mãe?
Por um momento, eu lembrei da noite com parte do elenco e da produção da série. Nunca tinha sentido que estava tão deslocada e tão acolhida ao mesmo tempo. Em especial, por Anya, que incluía-me em toda e qualquer conversa que surgisse na enorme mesa montada no Puerto Astur – restaurante cujo nome levei meia hora para conseguir pronunciar, provocando risada em metade dos presentes.
Outra lembrança confortante era Kal, o cachorro da estrela da série. Eu era suspeita para falar, amava todo e qualquer tipo de cachorro com exceção de pinschers e chihuahuas. A nível de cães, para mim, quanto maior a raça, melhor era. Kal era gigantão, cara de mal humorado na maior parte do tempo, e eu me senti a pessoa mais sortuda do mundo quando seu próprio dono confirmou o que um dos membros da produção tinha dito sobre Kal não se dar bem com ninguém mas aconchegar-se aos meus pés sempre que eu estava por perto. A vontade de ter um para mim também só cresceu com aquilo, mas aí eu lembrava do custo de manter um cachorro daquele porte e a vontade passava rapidinho.
– Não, não me contou. – Minha mãe falou e eu voltei para o momento ali na mesa.
– Pois é. Sua tímida filhinha fez amizade com todo mundo como se fosse gente grande, e gostaram muito dela. Inclusive, sentiram falta da no dia que ela não foi mais pro set de filmagem me ajudar. Agora basta saber se ela não estragou a possível oportunidade dela com o show que ela deu mais cedo no escritório. – Corey parou de comer e começou a gargalhar, eu queria dar um soco na cara dele daqueles que arrancariam um dente pelo menos. – Ok, ok, entendi. Assunto terminado. Nós podemos falar sobre a reforma que a mamãe quer fazer nos fundos, é um assunto interessante também.
Eu perdi a fome porque o assunto estava girando em torno de mim, ainda mais sendo um ponto desconfortável da minha vida naqueles dias. Comi metade do prato empurrando garganta abaixo para não jogar comida fora, algo que eu tinha aprendido ser inaceitável. Depois, lavei a louça, voltando com o fone para o meu ouvido a fim de desligar-me novamente daqueles dois insistentes. Confirmei se minha mãe precisava da minha ajuda quando acabei com a pia e, após receber uma negativa, voltei para o meu quarto.
Claro, eu sabia que o mercado de trabalho para mim não era exatamente numeroso, mas era amplo e eu estava atirando em todas as direções. Comecei a montar um site para mim, onde pudesse oferecer serviços como freelancer para, por exemplo, lojas que precisassem de um novo software para controle de caixa ou de estoque ou empresas que quisessem aprimorar o controle de ponto deles. Enquanto eu não arrumasse um emprego fixo, qualquer fonte de renda digna era aceitável.
Enquanto eu estava montando mais um perfil em sites de emprego, ouvi batidas na porta que já estava aberta. Olhei para trás, fiz sinal para que meu irmão entrasse e terminei o campo que estava preenchendo. Tirei um screenshot para preservar as informações caso houvesse algum problema e coloquei meu computador para hibernar.
– Fala. – Girei a cadeira na direção de Corey.
– Quando você fala séria assim, eu quase esqueço de que você já é uma adulta.
– Faz tempo, né...
– Ainda posso te chamar de bebezinha?
– Vou te dar um soco se você não for rápido, Corey. – Ameacei. – Você já me tirou do sério o dia inteiro, não me dê um motivo.
Corey riu e sentou na minha cama, fingindo ignorar minha ameaça.
– Você tem planos pra hoje à noite?
– É claro que não. – Revirei os olhos e respondi, rindo. – Por quê?
– Se arruma pra sair às oito. Noite dos irmãos, vamos ao cinema.
– Pra você criticar cada ponto do filme que vai estar passando? Ótimo...
– Você reclama demais!
– Quando se tem um irmão implicante como você, a coisa mais fácil do mundo é implicar.
– E não, bobinha, não é pra você ficar toda irritadinha porque eu to te ensinando algumas coisas do meu trabalho. – Ele retomou o assunto. – É pra você treinar seu olho crítico.
– Olho crítico pra quê, Corey? – Perguntei.
– Pra filmagens. – Ele respondeu e deu de ombros. – Consegui um encontro pra você com um dos executivos da Netflix. Segunda, às dez horas, no escritório central de Londres. Prepare seus documentos e não se atrase, vou te levar.
Corey piscou o olho para mim e, sorrindo, saiu. Eu fiquei alguns segundos ainda ali, processando a informação. Depois, sorri para mim mesma, não importando que eu estivesse sozinha. Então liguei o computador de novo e continuei o que estava fazendo. Ter uma reunião não fazia diferença, nunca iria dar nada por garantido. Mas é claro que estava uma festa por dentro com aquela notícia.

Capítulo 5

Eu estava no céu. E não se tratava de eu estar em Richmond, mas sim no Richmond Park. Depois da entrevista bem sucedida com Declan Carpenter, eu fui para a casa de Ruby Peters, uma amiga inusitada que fiz nos anos de faculdade. Ela cursava medicina e sempre ia tomar café na lanchonete onde eu trabalhava. Claro, sua favorecida condição de vida era facilmente notável a partir do ponto onde ela tinha uma casa em Richmond na nossa idade.
Não estava contratada ainda, mas já considerava como ponto vencido. Era isso ou meu lado otimista querendo dar o ar da graça depois de anos sendo a garota que só via as coisas pelo lado ruim da história. Eu queria muito que o desfecho daquela história desse certo porque, além de poder contribuir para dentro de casa como Corey já fazia, eu também poderia começar a ter uma vida por conta própria.
Na manhã seguinte à entrevista, Ruby me deixou sozinha para ir para a residência que estava fazendo no West Middlesex University Hospital. Como a casa dela ficava bem perto do Richmond Park, eu decidi sair para correr. Falando assim, até daria para passar por uma fã de esportes, mas eu estava bem longe disso. A questão era que eu era apaixonada no Richmond Park por diversos motivos.
O primeiro deles era a ausência de turistas em grande quantidade, já que era o parque real mais distante. O segundo era a quantidade de animais que estava sempre visível pelos cantos mais inóspitos do parque, consequência do primeiro motivo. O terceiro era a arquitetura linda e magnífica da The Royal Ballet School, cuja chance de apreciar eu nunca desperdiçava.
Naquele dia, o parque estava particularmente vazio. Estava limpando a minha alma e preparando a minha mente para a viagem de duas horas e meia de transporte público até estar de volta a Biggin Hill. Selecionei a melhor playlist para caminhadas intensas, coloquei meus adorados fones de ouvido e parti da altura do cemitério.
Eu sabia que havia trabalho esperando que eu chegasse em casa para ser feito. Por um lado, era muito bom. Significava que eu tinha dinheiro a receber. Mas, naquele exato momento, eu estava perfeitamente imersa no contexto de curtir um pouco da liberdade prévia antes de passar anos trabalhando intensivamente para a tão sonhada aposentadoria.
Do cemitério, segui confortavelmente até cruzar com a Sawyer’s Hill. Desviei meu trajeto, optando por um caminho mais longe que levasse até o campo de golfe. De lá, diminui o ritmo até a lagoa Pen. Dei a volta nela lentamente porque a música que estava tocando no meu ouvido não era exatamente agitada. Então decidi terminar o que tinha começado.
Estava a menos de duzentos metros da The Royal Ballet School. De onde estava, já podia até ver a construção. A subida um pouco íngreme fez com que eu obrigatoriamente diminuísse o ritmo. Mas então algo muito grande voou por cima de mim e eu caí com tudo no chão. Meu primeiro instinto, é claro, foi gritar, até porque o parque estava mais vazio e demoraria mais para qualquer pessoa escutar e vir ao meu socorro. Foi quando eu senti as primeiras lambidas na cara e abri os olhos, notando o estranhamente familiar cachorro sobre mim.
– Kal, sai daí, já! – Ouvi uma voz masculina gritar rispidamente.
Não podia ser coincidência. Eu estava de bochechas vermelhas antes mesmo de pensar em levantar. O fone tinha saído da minha cabeça e foi a primeira coisa que eu peguei quando estava em processo de recuperação do susto.
– Ei, você tá bem?
Havia uma mão esticada na minha direção. Eu me virei para ele já sabendo quem iria encontrar – não pela voz, mas pelo cachorro. De repente, éramos dois surpresos. Mas, de qualquer forma, aceitei a mão que ele estava me ofertando.
– Você é a senhorita Bon Jovi! – Ele disse repentinamente.
– O quê?! – Eu fiquei, mais surpresa ainda com a exclamação que, para mim, não possuía sentido algum.
– Foi assim que Corey te chamou.
Liguei os pontos. O queixo caiu, a boca secou, o coração acelerou e as bochechas esquentaram mais ainda. Foi como se o meu cérebro tivesse rebobinado todas as minhas memórias até o exato momento. We’ve Got it Going On no fone de ouvido, o cabo da vassoura elétrica na minha mão, a roupa nada decente no meu corpo.
– Não precisa ficar com vergonha, até que o show foi legal. Jon Bon Jovi teria orgulho de uma fã como você. – Ele brincou e sorriu para mim, abaixando um pouco a cabeça para olhar melhor o meu rosto. – Você tá bem? Aconteceu alguma coisa na queda?
– Tá tudo certo.
– Desculpa, eu deixo o Kal sem coleira porque ele nunca faz esse tipo de coisa.
– Não tem problema, tá tudo certo. – Forcei um sorriso, ainda muito envergonhada, enquanto batia a poeira da minha roupa.
– É... Eu... Eu posso te pagar um café? É o mínimo que eu posso fazer depois desse susto.
– Tá tudo bem. Eu tava seguindo no sentido contrário de qualquer forma.
– Poxa, deixa eu... – A frase dele parou no meio do caminho quando ele olhou para o chão.
Acompanhei seu olhar e dei de cara com Kal sentadinho ao meu lado, olhando para o dono com a língua para fora. Parecia estar sorrindo.
– Ele nunca fez isso com ninguém.
– Nunca fez o quê?
– O Kal não gosta de ninguém, ele é bem preso a mim e não se aproxima muito dos outros, mas você... – Ele sorriu sem jeito. – Você fez um milagre com esse monstro.
– Não chama ele assim. – Disse espontaneamente e, de uma hora para a outra, quem estava sem jeito era eu.
– E o café?
– É Cavill, né?
– Pode chamar de Henry. – Ele abriu um sorrisão simpático.
Acho que foi a primeira vez em que pus os olhos propriamente nele. Era bem maior que eu. Tudo bem, eu era baixinha, não era tão difícil assim ser maior que eu. Tinha feições bonitas bem desenhadas que eu não tinha reparado ao vê-lo caracterizado. Na noite em que saímos em um grupo enorme de artistas e membros da equipe de produção, eu mal pude reparar nele porque Anya estava tão animada com fazer de mim parte da turma que fiquei presa essencialmente entre ela, Emma – sua maquiadora pessoal – e meu irmão, que olhava para mim com frequência de uma cadeira um tanto quanto distante de nós. E então eu estava babando.
– Desculpa... Henry. – Respirei fundo e contive a timidez com um sorriso disfarçado de nervoso.
Fiquei encarando de novo. Não sei o que deu em mim, mas estava particularmente idiota naquele dia em específico.
– Um café seria bom. – Disse antes que saísse alguma coisa mais idiota ainda da minha boca.
Nós acabamos caminhando até lá lentamente, até mais devagar do que o ritmo mais lento que eu tinha adotado até aquele momento durante o passeio. Ele perguntava muito sobre mim, mas também falava muito sobre si mesmo sem que eu perguntasse. O assunto, majoritariamente, girou em torno da minha faculdade, de Kal e da série. Quando estávamos chegando perto do trailer onde ficava a lanchonete principal do parque, ele pegou o boné que estava preso no cós de sua bermuda e colocou na cabeça, abaixando a aba tanto quanto pôde. Entendi de primeira que não queria ser reconhecido mas, mesmo assim, ele se aproximou do balcão de atendimento junto comigo.
– O que você vai querer?
– Você não disse que ia me pagar um café?
– Pode escolher uma comida decente. – Henry brincou. – Você tomou café da manhã hoje?
– Não.
– Oi, boa tarde, eu vou querer três cheese burguers, um hot dog, um mocha, uma água sem gás e... – Ele parou de fazer o pedido e virou-se para mim. – Posso sugerir o chocolate quente daqui? É incrível, eu juro.
– Eu sei, já tomei. Mas pode ser um chocolate quente sim.
– E um chocolate quente. – Ele disse para a senhora que estava atendendo-o.
Não dava nem para fazer charme, eu não tinha levado a carteira. Deixei que ele pagasse, ainda receosa de parecer abusada, e enquanto o pedido era preparado, nós nos sentamos em uma das mesas de madeira.
– Eu não sei se você acha que eu preciso comer muito, o que eu realmente não preciso, mas acho que você fez um pedido muito grande.
– O cachorro quente é pro Kal.
Olhei para ele, que pareceu entender o que o dono tinha falado. Kal se ajustou perfeitamente embaixo da mesa entre os meus pés e os de Henry. Quando ele se deu por convencido, deitou a cabeça sobre o meu pé direito. Eu me limitei a sorrir com a cena.
– Ele realmente gostou de você.
– Espero que isso seja uma coisa boa.
– Bem provável que seja sim, já que ele foi com sua cara desde a sua primeira vez do set.
– Espero que seja duplamente então.
– Você gosta da história?
– Da série? – Perguntei e ele respondeu com um gesto afirmativo. – Eu não sei muito, só entendo o que Corey me contou por causa do jogo.
– Então você já jogou?
– Já assisti meu irmão jogar.
– Não gosta de videogame?
– Gosto, claro que gosto. Afinal de contas, seria estranho não gostar tendo a formação que eu tenho. – Brinquei. – Eu só curto outro tipo de jogo.
– Me dá um exemplo.
Battlefield.
– Sério?
– Sim, por quê?
– Acha melhor que Call of Duty?
– Cada um em seu lugar.
Ele riu e eu o acompanhei. Seu nome foi chamado e ele se levantou para pegar os lanches. Comemos entre mais algumas conversas triviais, até que eu percebi que ele havia terminado e Kal também. Sem jeito, comecei a mentalizar como iria embora sem parecer ingrata.
– Você vai pra casa daqui? – Ele perguntou antes que eu falasse qualquer coisa.
– Vou sim. Fiquei na casa de uma amiga de ontem pra hoje, vou só passar lá pra tomar um banho e pego o ônibus.
– Quê isso, eu te levo!
– O café já foi demais, Henry.
– Foi nada, posso te levar. Eu já tava indo pra lá mesmo, vou visitar meu pai.
– Você sabe onde eu moro? – Questionei com a sobrancelha arqueada.
– Sei onde seu irmão mora, pra falar a verdade, e presumo que seja no mesmo endereço.
Relutante, eu aceitei o convite. Afinal de contas, diminuiria meu trajeto em mais de uma hora e aquele tempo seria muito bem-vindo para ser utilizado em diversas outras tarefas, como adiantar o trabalho que eu tinha para fazer ou mesmo tirar uma soneca.
Henry me esperou do lado de fora da casa de Ruby enquanto eu tomava um rápido banho e pegava minhas coisas. Deixei a chave no esconderijo secreto dela e partimos. Nós nos despedimos no carro sem rodeios depois de uma hora de estrada. Ele se mostrou tudo o que eu não imaginava que fosse e, independente de qualquer coisa, eu estava mais leve simplesmente por ter tido uma boa companhia durante o começo daquele dia.
– Alô! – Gritei do hall de entrada.
– To aqui, – Escutei a voz vindo do escritório de Corey. – mamãe saiu.
Deixei a bolsa no chão e fui até ele, que virou para mim.
– Quem veio te deixar naquele carro?
– Se eu te contar, você não vai acreditar.
– Cavill?
Arqueei uma sobrancelha de imediato.
– Como você sabe?!
– Conheço o cara, , sei que carro ele tem, e não é qualquer um que tem aquele Audi. – Meu irmão disse e fechou uma janela em seu computador. – O que houve?
– O cachorro dele trombou comigo no parque, ele me reconheceu por causa do show na webcam esses dias... Aliás, obrigada por me contar que tinha um maldito ator de Hollywood me vendo!
Corey tremeu de tanto rir.
– Eu estava jogando com meus amigos. – Ele deu de ombros como se a informação não importasse. – Mas continua.
– Enfim... Ele disse que ia visitar o pai aqui perto e que me daria a carona.
– Visitar o pai? Tem certeza?!
– Tenho, por quê?
– O pai dele não mora por aqui, mora em Jersey.
Pela segunda vez no dia, meu queixo caiu. Em silêncio, saí do escritório, peguei minha bolsa e subi a escada. Larguei a bolsa de qualquer jeito na cama e fui para o banheiro da suíte. Olhei meu reflexo no espelho e estava de olhos arregalados. A pergunta “o que é que foi isso?” estava praticamente tatuada na minha testa.


Capítulo 6

Não sei, Ruby
As coisas acontecem assim pra você
Não pra mim


Já disse que você tem que parar com isso, mocinha
E se for verdade?
Quero dizer
Parece improvável, com certeza
Mas improvável pra mim
Você tem seu irmão como contato direto,
Além do mais, você vai trabalhar lá também agora

Eu não vou ter contato nenhum com artista
Já te expliquei

Verdade, e eu não entendi quase nada porque você é muito nerd
Mas você mesma tá dizendo que não vai ter contato com artista
Então por que tá preocupada?

Ah
Sei lá
É complicado

Você tá de TPM?
Isso pode ser TPM
Pede pro seu irmão parar numa loja de conveniência no caminho
Compra um chocolate

Já estamos quase chegando
Sem chance

Então dá uma olhada no Uber Eats
Vai que tem algum lugar que entrega chocolate por aí

Vou pedir delivery no meu primeiro dia, Ruby?

Por quê não?
Eu pediria
Mas fica tranquila
Acho que você tá um pouco neurótica

Eu tenho certeza de que eu não to neurótica
Foi estranho, Ruby
Você tinha que ver como ele tava
E então o Corey me disse aquilo
Foi como um tiro

Alguém tá apaixonada

Não to não

Tá sim
E eu te entendo
Eu também estaria
É bem fácil

Você tá exagerando

Só to tentando te deixar tranquila
Ele não é ninguém pra você, certo?
Hoje é seu primeiro dia de trabalho
Precisamos que tudo dê certo
E vai dar
Confie em si mesmo, vai lá e arrasa
Esquece ele

Corey tamborilava os dedos no volante ao som de Metallica. Eu forcei um sorriso para ele, que não notou meu olhar.

Eu te mando mensagem mais tarde
Estamos chegando
Aí eu te conto como foi o primeiro dia

– E aí, tá pronta?
– Acho que sim. – Dei de ombros e segurei a mochila na frente do corpo.
– Eu falei com o pessoal, disseram que a galera que vai ficar ao seu lado é gente boa. – Meu irmão começou a falar, preparando-se para entrar no estacionamento do prédio. – Tem uma cozinha em cada andar, vou te mostrar. Tem comida de graça ilimitada, pode se afundar. Só não se prende a ninguém ou a nada, porque a empresa tá mudando sempre o tempo inteiro. E não precisa ter medo de ser pró-ativa, todo mundo lá adora isso.
– Anotado.
– Vou ficar perambulando pelo prédio até dar a sua hora de sair, aí vamos juntos pra casa.
– Eu posso pegar ônibus.
– Vai levar o dobro do tempo.
– Mas eu não teria que pegar normalmente? Porque você não vai estar aqui sempre pra me dar carona.
– Posso te dar carona por agora. Tenho um escritório aqui, só trabalhar nele ao invés de trabalhar de casa.
– Não quero te dar trabalho, Corey.
– E quem disse que você tá me dando trabalho? – Ele sorriu para mim quando estacionou o carro.
Peguei a mochila com meu notebook dentro e segurei para sair do carro. Pendurei a mochila nas costas e esperei que Corey pegasse as coisas dele. Nós começamos a caminhar na direção da entrada juntos.
– Se precisar de mim, é só me ligar.
– Não vou precisar, Corey, relaxa.
– Tem certeza?
– É um emprego, não o fim do mundo. – Eu quase gritei. – Você tá muito protetor.
– Acho que esse é o meu papel, não?
– Fica tranquilo.
Nós passamos pela porta de entrada e, de repente, todo o ambiente mudou.
– E aí, Corey? – O segurança cumprimentou meu irmão.
– Qual é, Tommy? Que jogo ontem, hein!
– Você viu, cara? – Eles trocaram um aperto de mão. – Se aquilo rolasse todo dia...
Deixei os dois homens tagarelando sobre assuntos diversos e fui até o balcão principal. Corey estava distraído, seria uma boa hora para abrir minhas asas e voar meu primeiro voo solo.
– Oi, bom dia. – Sorri para a mulher do outro lado do balcão. – Meu nome é , estive aqui na semana passada e fui chamada para assumir a vaga de trainee em engenharia de software.
– Você é a irmã do Corey, certo? – A mulher sorriu para mim.
Voo solo? É, acho que não.
– Isso, sou eu mesma.
– Como vai? – Ela aumentou o sorriso e ofereceu a mão para um cumprimento. – Pode me emprestar algum documento de identificação?
– Claro. – Assenti, tirei minha carteira de habilitação e entreguei para quem estava fazendo o atendimento.
Aguardei poucos minutos enquanto ela fazia um certo tipo de cadastro. Corey olhava para mim eventualmente pelo canto do olho. Descobri que seu nome era Amelie no meio do atendimento. Cadastramos uma foto minha para reconhecimento facial e também a minha digital, para que eu entrasse direto na portaria sem precisar fazer qualquer tipo de identificação antes.
– Seja bem-vinda à Netflix. – Amelie me disse finalmente com mais um de seus sorrisos educados e entregou um crachá com colar.
Eu sorri em agradecimento e Corey se desvencilhou do colega com quem conversava. Seguimos juntos por uma roleta e, então, estávamos de cara com o elevador.
– Fico dois andares acima do seu. Vira pra direita quando sair do elevador, procura pelo meu nome da porta. Mas as paredes são de vidro, então você deve me ver.
– Certo.
– É só procurar por...
! – Meu nome foi gritado quando a porta do elevador se abriu no terceiro andar.
– Cuida dela, Patrick.
– Pode deixar. – O homem do outro lado piscou para Corey e ofereceu o caminho para mim. – Vamos?
Eu sorri educadamente pela milésima vez e assenti, seguindo-o de perto.
– Corey falou muito sobre você, , então sinto que já te conheço. Posso te chamar de , certo?
– Claro.
– Então vamos lá... Meu nome é Patrick Morrison, mas todo mundo aqui me chama de Pat. Vou ser o responsável por te avaliar durante o seu período probatório aqui na empresa, ok? Se tiver alguma dúvida, qualquer tipo de problema, é a mim que você deve vir.
– Certo.
– Já fique com isso. – Ele me entregou um cartão enquanto continuávamos em movimento pelo largo corredor. – Tem meu telefone pessoal aí, além dos dados da empresa. Vou pedir ao pessoal do TI pra criar um e-mail pra você, deve ficar pronto até o final do dia. No final desse corredor, ficam os banheiros e, se virar à esquerda, vai encontrar a cozinha. Temos de tudo, coma o que quiser, mas pode trazer de casa também e deixar na geladeira, por exemplo, que ninguém aqui mexe. De verdade. Corey te explicou como vai ser esse período probatório?
– Disse que eu ia ser submetida a alguns testes para avaliarem meu potencial ou o quanto eu posso ou não ser útil pra vocês e aí, se eu passar, serei terminantemente efetivada.
– Isso mesmo. E você começa agora.
Nós paramos em um ambiente aberto cercado de baias individuais com repartições baixas. De repente, todas as atenções estavam em mim.
– Pessoal, essa aqui é a , irmã do Corey lá do quinto. – Patrick me apresentou aos que estavam ali. – Ela vai integrar a nossa equipe pelos próximos dias e, se tudo der certo, por muito mais tempo que isso. Recebam a bem, ajudem no que for necessário, ok?
Todos assentiram. Alguns até acenaram para mim, sorridentes e educados.
– Essa aqui é a sua mesa, , pode tomar posse dela como quiser.
– Obrigada.
– Sua primeira tarefa é simples. – Ele ligou a tela do computador à minha frente, que já abriu na página da Play Store do aplicativo da Netflix. – Eu quero que você leia os comentários que relatam coisas com as quais nossos assinantes estão insatisfeitos e traga uma sugestão, dentro da sua área de atuação, para melhorar um desses pontos até o final da semana.
– Sem problemas.
– Sem problemas mesmo?
– Mesmo. – Confirmei.
– A minha sala é ali, – Ele apontou para uma das salas ao redor da nossa área. – pode me chamar se precisar. Meu ramal é o 3 no telefone da sua mesa, seu irmão é o 4.
– Ok, Patrick, muito obrigada.
– Mãos à obra! – Patrick apontou o computador e, com um afago no meu ombro direito, afastou-se.
Eu olhei em volta, um pouco sem jeito e envergonhada. Coloquei a minha bolsa em cima da mesa, onde tinha um espaço livre. Pelo jeito, Corey estava certo sobre eu não precisar de um notebook. Havia uma menina na minha frente que não parava de olhar para mim. Eu acabei olhando para ela também e, instantaneamente, ela me ofereceu a mão.
– Oi, eu sou Evie.
. – Disse com um sorriso enquanto apertava a mão dela.
– Você veio como trainee, não é?
– Sim.
– Eu sou estagiária ainda, tomara que seja como você em breve.
– Onde você faz faculdade?
– Em Middlesex.
– Qual curso? – Perguntei.
– Design gráfico.
– Ouvi falar bem do programa de lá. Espero que dê tudo certo pra você aqui dentro.
– Obrigada. – Ela sorriu, tímida. – Se quiser, podemos almoçar juntas.
– Claro, eu adoraria.
Ela parecia simpática ao extremo. Não questionei, era mais nova que eu, talvez sua vida não tivesse dado os mesmos desgostos que a minha tinha e isso lhe proporcionava mais leveza. Parecia ser mesmo uma pessoa legal. Mas eu tinha trabalho a fazer e não poderia estar mais animada.
Comecei a filtrar os comentários, iniciando meu serviço pelos de nota mais baixa. O que foi solicitado de início não parecia exatamente excitante, mas eu estava em uma empresa de proporção mundial, a maior no ramo, então estava extremamente grata pela oportunidade. Saí para almoçar com Evie a fim de melhorar minhas chances de ter um bom relacionamento com os meus colegas, principalmente porque ela sentava na baia logo à minha frente. No final do dia, eu estava eletrizada e com mil ideias passando pela minha cabeça. Corey passou sufoco na carona para cara.
– Mãe, chegamos!
Os passos pesados indicavam a pressa com a qual minha mãe caminhava na direção da porta de entrada. Eu estava tirando a mochila das costas quando ela me abraçou de qualquer jeito, quase desequilibrando nós duas.
– Ai, como eu amo vocês dois! – Ela exclamou. – Como foi o primeiro dia, querida?
– Foi muito bom.
– Só isso? Me conta mais.
– Mãe, deixa a garota respirar.
– Eu prometo contar, mãe, – Disse. – Posso só subir antes? Acabei deixando o celular descarregar, to um pouco cansada e queria tomar um banho antes de comer.
– Claro, querida, vai lá. Estarei te esperando.
Ri do tanto de animação que praticamente pulava do peito da minha mãe. Subi as escadas correndo. Estava cansada mas estava feliz. Deixei o celular na tomada e corri para o banho, saindo cerca de quinze minutos depois porque fiz questão de lavar o cabelo para o dia seguinte no trabalho. Quando liguei o celular, ele vibrou freneticamente e eu ri porque já sabia qual era a causa.

E aí, como foi?
Ei, me conta
, já era pra você ter chegado
Garota, as mensagens não estão chegando pra você
Houve alguma coisa?
Eu to curiosa!
Por favor, não me deixa assim
Você sabe que eu sou ansiosa
Eu preciso saber como você foi
Ai, , espero que tenha dado tudo certo

Eu ri das mensagens de Ruby, prendi meu cabelo dentro da toalha e sentei na cama para respondê-la.

Deu tudo incrivelmente certo
As pessoas da equipe parecem ser muito legais
E eu acho que vou conseguir ser efetivada

Que maravilhoso, !
Você não sabe como eu estava na torcida
Algum gatinho por lá?

Deixa de besteira, Ruby haha

Coloquei uma roupa confortável que usaria para dormir e desci para o andar térreo com o celular na mão. Minha mãe estava terminando de colocar a mesa para jantar, e eu não podia estar mais feliz com comer cedo para dormir cedo também.
– Posso ajudar com alguma coisa, mãe?
– Não, querida, está tudo em ordem.

Ei, não é besteira
Sua amiga aqui tá encalhada
Aceito recomendações

Minha recomendação é que você procure no hospital mesmo
Imagina
Um romance entre médicos
Ui, que tesão

Rindo, eu me sentei à mesa após levar um copo grande de suco de uva comigo. Estava começando a colocar o peixe no prato quando o celular vibrou de novo.

Só tem médico velho lá,

Um sugar daddy não faria mal

Também acho que não
Mas não faria se fosse a cara do JBJ
Os de lá não são parecidos com ele em nada
Triste ☹

Fica feliz
Vou poder te pagar um almoço em breve

– E então, ?
– Ah, mãe, as pessoas foram legais e não parece ser tão assustador como o Corey contou.
– Eu não falei nada.
– Você dizia que o padrão deles é exigente.
Enquanto Corey se defendia, eu peguei no celular novamente.

Uau
Vou até tirar um print
Essa eu quero ver

É
Vou ter que te arrumar alguém lá do trabalho
Quem sabe eu arrume alguém pra pagar almoço pra nós duas?

Respondi e empurrei o celular para o lado, pegando uma boa garfada do suflê.
– Será que poderíamos vender essa casa, filho? – Minha mãe ponderou. – Sei que você colocou bastante dinheiro para ela ficar aceitável para nós, e foi tudo maravilhoso, mas não quero vocês tão longe do trabalho.
– Isso não é incômodo, mãe.
– Podemos ver isso. – Corey falou. – Mas a faixa de preço perto do centro de Londres é mais cara, então a senhora tem ...

Seria melhor do que você pagar, definitivamente
Mas vem cá
O ambiente é legal?

! – Minha mãe brigou. – É a Ruby, não é? Deixe que ela fique falando sozinha.
– Ela também quer saber do meu primeiro dia.
– Todos querem. – Corey brincou.
– Que ela saiba depois, quando você não estiver em refeição.
O telefone vibrou novamente. Eu revirei os olhos, rindo.
– Mas ela é insistente, hein!
– Vou só avisar que respondo depois.
Levantei uma sobrancelha ao ver que o número que havia me enviado as mensagens mais recentes não estava gravado em minha agenda. Como tinha acabado de conseguir o emprego, decidi abrir logo a mensagem porque pensei que poderia ser algo a respeito disso.

Oi,
Tudo bem?
Aqui é o Henry
Peguei seu número com seu irmão
Desculpe o abuso
Ele também me contou que você conseguiu um emprego na Netflix
Meus parabéns 😊
Corey disse que seus finais de semana estão livres por enquanto
Queria saber se você gostaria de sair pra jantar no próximo sábado
O que acha?


Eu só deixei o queixo cair. Mais nada além disso. Não conseguia. Não tinha reação. Não tinha como ter reação.


Capítulo 7

– Pode parar de trocar de roupa, , todas estão boas.
– Você não entende, mãe. – Eu levantei o celular para o espelho e tirei mais uma foto, enviando para Ruby imediatamente.
– Filha, se ele não gostar de você em qualquer um desses vestidos que você provou, ele não te merece.
– Mãe... – Eu respirei fundo e virei para ela. – Ele podia sair com qualquer garota no mundo inteiro, eu não sou páreo pra maioria delas.
– Uma ova que não é! Para de falar bobagens, menina.
– Não é bobagem.
Olhei para o espelho. Eu já tinha colocado aquele modelo antes. Não que eu tivesse várias opções no armário, mas estava realmente confusa, principalmente porque não sabia em qual lugar Henry me levaria. O vestido em questão era de chiffon, com fundo rosa e algumas flores delicadas na barra, alça na parte superior e bem folgado na parte inferior. Era acinturado, o que ajudava a definir um pouco das curvas acentuadas que eu gostava de disfarçar sempre que podia. Toda vez que eu olhava no espelho, via mais um defeito.

Esse tá ótimo
Eu já tinha dito antes
Coloca uma sombra marrom
Batom marsala
Vai ficar simples e chique
Confia em mim
Se você pudesse esperar, eu ia até aí


Revirei os olhos. Como se desse tempo de Ruby sair da casa dela e ir até a minha... Mas não havia tempo e a Inglaterra estava particularmente quente naquele verão. Ficar trocando de roupa não ia ajudar em nada. Então corri para fazer o mínimo que eu sabia de maquiagem, enrolei o cabelo em um coque, deixando uns fios soltos de propósito. Olhei no espelho de novo. Não tinha como fazer muito melhor que aquilo.
– Vai ter que dar...
A campainha da casa tocou e meu coração saiu do ritmo. Fui no banheiro correndo, seria um inferno se eu precisasse ir em um banheiro público com aquele vestido. Peguei a bolsa pequena, coloquei o celular e a carteira dentro e saí. Ainda não dava para processar as palavras, mas sua voz grossa ecoava pelo hall de entrada da casa. Não conseguia entender como nem o porquê, mas estava animada demais para aquela noite. Quase hesitei nos últimos degraus, mas senti como se algo do além tivesse empurrado o meu corpo pelos últimos passos.
O rosto de Henry se iluminou quando eu apareci e ele chamou pelo meu nome. Corey deu uma boa olhada nele.
– É minha irmã, hein, cara.
– Fica tranquilo.
– Cuidem-se, ok? – Minha mãe disse, despedindo-se de mim com um beijo no meu rosto.
– Pode deixar que eu vou trazer ela de volta sã e salva, senhora .
Minha mãe só sorriu, parecia mais enfeitiçada do que eu. Henry, então, abriu a porta e deu passagem para mim. Eu me despedi de Corey com um olhar rápido e finalmente saímos. Dei uma boa olhada em Henry, seu estilo estava um pouco casual. Ele sentiu que eu estava observando e olhou para mim também, sorrindo em seguida.
– Eu espero não estar muito vestida. Ou vestida de menos.
– Não se preocupa, você tá perfeita.
– Onde nós vamos?
– Corey me deu umas dicas...
– Ai, meu Deus, isso não pode ser coisa boa. – Eu acabei rindo.
– Não, é bom sim. Mas tenho uma surpresa antes. Alguém que quer te ver.
Henry abriu a porta do banco de trás e Kal pulou de lá imediatamente, vindo para cima de mim sem pena. Eu abaixei à sua altura, seria menos pior do que tê-lo pulando no meu vestido limpinho, mas Kal se comportou como um ótimo menino e parou quietinho na minha frente para que eu lhe cumprimentasse.
– Oi, garoto! – Eu abri um sorriso para ele, acariciando o seu pescoço, algo que eu tinha notado no pouco tempo de convivência entre nós que era amplamente apreciado pelo cachorro. – Como é que você tá?
– Achei melhor trazer o Kal por garantia. Vai que você não gosta do passeio.
– Por que eu não gostaria?
– Não sei também, prevenção nunca é demais. – Ele deu de ombros e sorriu para mim. – Vamos, Kal, pro carro.
O cachorro obedeceu a seu dono sem pestanejar. Eu me levantei e, antes que percebesse, Henry estava abrindo a porta para mim. Nós conversamos majoritariamente sobre mim no caminho sentido centro de Londres. Ele queria saber todos os detalhes sobre como meu emprego estava fluindo, se eu estava encaixada na equipe à qual fui designada e se estava satisfeita com o ambiente.
Quando chegamos a Londres, o rumo que ele estava tomando era incomum. Os grandes restaurantes ou shoppings, que era onde imaginei que Henry me levaria, ficavam em outro sentido. Nem precisei perguntar para ver um sorriso de ‘não vou responder’ em seu rosto. E, em poucos minutos, nós estávamos estacionando na frente de uma casa relativamente grande.
Eu abri a minha própria porta, mesmo que já tivesse visto Henry correndo para dar a volta no carro e abrí-la para mim.
– Espero que não se importe.
– Onde nós estamos? – Eu o interrompi.
– Minha casa. – Ele disse e abriu a porta para Kal sair também. – Seu irmão disse que você é bem caseira e que prefere o conforto de um sofá a um cinema.
– Vamos ver filme então. – Concluí.
– E comer. Seu irmão disse que você gosta bastante de comer também.
– Meu Deus... Eu deveria estar preocupada?
– Foi só isso, não se preocupa. – Henry destravou a porta de entrada e abriu, dando passagem para mim.
Eu entrei notando cada detalhe mínimo, embora não fosse exatamente educado da minha parte. No corredor de entrada, tinha um retrato pendurado cheio de homens. Foi inevitável parar e olhar.
– Eu, meus irmãos e nosso pai. – Henry identificou quando trancou a porta.
– Vocês parecem ser unidos.
– E nós somos. – Ele sorriu para a imagem. – Você é do tipo que gosta de ver álbuns de família?
– Ah... Não, desculpa, é que eu reparei e...
– Eu to brincando, fica tranquila. Mas posso te mostrar fotos, se você quiser.
– Só se você quiser. – Respondi.
Kal passou por nós dois, parados no corredor, e foi direto para sabe Deus onde. Parecia ter um destino específico em mente. Quando eu levantei o olhar de novo, Henry me encarava.
– Não precisa ficar com medo, seu irmão sabe onde eu moro e ele me mataria antes de eu sequer pensar em fazer alguma coisa ruim a você.
– Eu não to com medo.
– Então é o quê?
Hesitei em responder. Segui com passos curtos para mais à frente, ainda prestando atenção aos detalhes.
– Por que você me deu carona naquele dia do Richmond Park?
– Eu te disse, ia visitar meu pai...
– Meu irmão disse que seu pai mora em Jersey.
Fiz questão de olhar para trás na hora que revelei o que sabia. Sua cara era de uma criança. Engraçado que, quando eu o conheci e quando nós nos encontramos, ele tinha pouca barba, o que aumentava sua idade aparente, mas Henry estava de barba feita naquele dia e ficava parecendo quase um adolescente. Sorri para ele e continuei minha lenta caminhada.
– Corey me paga.
– E a minha resposta?
– Eu achei que deveria.
– Por quê?
– Estou sendo interrogado? – Ele riu. – Kal não gosta de ninguém, não se aproxima de ninguém... Mas foi diferente com você, quase como se fosse um sinal.
– Então seu cachorro escolhe seus encontros?
– Você é a primeira.
– Diz isso pra todas?
O som estridente de um timer nos interrompeu.
– Salvo pelo gongo, literalmente.
– Pode me perguntar o que quiser que eu respondo, não preciso fugir. – Henry brincou. – Vem, vou te mostrar a cozinha.
A decoração era um pouco rústica, mas era bonita porque tudo combinava muito bem. Henry pegou um par de luvas térmicas e foi até o forno, tirando um refratário com lasanha de lá de dentro. O cheiro estava incrível e estava dando água na boca.
– Você deixou ligado enquanto foi me buscar?!
– Eu tenho um dispositivo na tomada que posso programar pra ligar em tantos minutos, ou desligar, como eu quiser.
– Me arruma um emprego com você pra eu pagar um desses também.
– Custou dez libras. – Henry disse, rindo e virando-se para um armário aéreo, tirando dois pratos de lá. – Mas posso arrumar o emprego.
– Não vou reclamar!
Eu servi nossos pratos enquanto Henry fazia questão de pegar um suco de uva integral para nós dois, colocando em um belo par de taças. Nada de álcool, de acordo com ele, pois estava em um certo tipo de dieta que não permitia – mas eu recebi a opção de tomar vinho, neguei por educação e para acompanhar o dono da casa. Comemos à ilha da cozinha, que era bem grande, conversando sobre todo tipo de assunto possível. Eu lavei a louça logo depois, era o mínimo que eu podia fazer, mesmo que Henry insistisse que eu não deveria.
– E o filme? Você tá afim? – Ele perguntou quando eu coloquei o pano de prato no gancho dele.
Dei de ombros e seguimos para a sala de estar no cômodo logo ao lado. Deixei a sandália rasteira no chão, fora do tapete que ocupava a frente do sofá. Sentei de lado, dobrando um pouco as pernas mas mantendo os pés fora do assento. Como estava de vestido longo, não ia ficar com uma postura desagradável.
– Olha só... O que eu vou te mostrar hoje é segredo de estado, hein?
– O que é?
– Um filme meu que vai estrear só ano que vem.
– Enola?!
– Alguém se informou.
– Bem, eu sou da mesma empresa que você agora, teoricamente, além de usar as redes sociais, então... – Eu ri enquanto ele me observava, curioso. – Mas é sério isso?
– É sim. As filmagens já acabaram, mas o pós-produção tá demorando bem, além da Netflix ter uma agenda que eles querem seguir do jeito deles, o que faz atrasar a estreia.
– Então você vai me mostrar um protótipo?
– Tipo isso. – Ele falou enquanto fazia a configuração necessária para espelhar o celular na televisão gigante à nossa frente.
– Acho que eu devo um agradecimento então. – Falei e atraí seu olhar mais uma vez. – Por confiar em mim tão de repente.
– Você é irmã do Corey, é claro que eu confiaria em você.
– Só por causa do meu irmão então? – Fingi estar ofendida.
– Não, não é nada disso... – Henry disse, rindo e chegando mais perto do sofá. – Você tem tudo pra ser uma pessoa em quem eu vou confiar e não vou me arrepender disso.
Após sua fala, que poderia ter sido ensaiada e eu não iria notar, ele se sentou no sofá, ao meu lado. Perto. Perto demais. Tudo estava evoluindo tão rápido e tão bem que eu nem sabia como tínhamos chegado ali, com aquela atmosfera leve e gostosa de sentir. Em sinal de ansiedade, eu acabei mordendo meu lábio inferior.
– O Kal foi pra onde?
– Pro quarto dele.
– Ele tem um quarto?!
– Tem. – Henry deixou uma risada curta escapar e aproximou-se mais de mim sem sequer tentar disfarçar. – Você vai me xingar muito ou me bater se eu fizer isso?
– Isso o quê?!
Não teve aviso. Sua mão puxou meu rosto para perto enquanto, no escuro, o filme começava a rolar. Não fazia sentido que começasse tão intenso, mas o beijo que Henry me deu tirou o meu fôlego desde o primeiro segundo. E tal como todo o resto do nosso encontro, a rápida fluidez me colocou ajoelhada no sofá, com um joelho de cada lado do seu corpo, suas mãos segurando meu quadril de uma forma quase possessiva e meus dedos embrenhados no seu cabelo.
O vestido limitava os meus movimentos, e eu não lembro se fui eu ou se foi ele quem levantou a peça até certa altura, ainda não reveladora, para que eu ficasse mais livre. Suas mãos enormes percorriam as minha costas, promovendo um calafrio gostoso que começava no topo da minha espinha e ia descendo, passando pela boca do estômago e indo até as minhas pernas. Eram encaixes perfeitos que faziam com que eu me questionasse sobre o sentido naquilo tudo. Nem um filme de Hollywood faria um primeiro encontro daqueles, e eu não podia estar mais satisfeita.
, desculpa, eu não quero que você pense que eu te acho...
– Eu não to achando nada, Cavill.
Quando o seu sobrenome escapou dos meus lábios, os olhos dele se irrigaram de pura luxúria. O carinho nas costas passou a um nível mais intenso. Eu nem lembrava da última vez que tinha estado com um homem daquele jeito – eu tinha estado? – e estava tão tranquila que mal conseguir reconhecer a mim mesma.
– Diz... – Ele respirou fundo, a respiração entrecortada. – Diz que eu posso te levar pro quarto. Por favor.
Sob a luz fraca da televisão, eu fiz questão de procurar seus olhos. Primeiro encontro. Astro da Netflix. Quarto. Em que merda que eu me meti mesmo?
– Tenta a sorte.
Sem a menor dificuldade, ele me sustentou e levantou do sofá, o que foi preocupante de início. Mas eu estava nos braços do Superman e do Geralt de Rívia, não fazia sentido preocupar-me se ele me aguentaria ou não. Por isso, não vi caminho, não vi quarto, não vi nada. Só senti suas mãos percorrendo o meu vestido. Durante uma pausa rápida e mínima, tudo o que eu fiz foi pegar o celular na cara de pau de enviar uma mensagem mentirosa cuja interpretação nem me importava mais.

Ruby tá com problemas
To indo pra casa dela
Mando notícias


Continua...



Nota da autora: Era pra ser um capítulo soft, a culpa é do Cavill.





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