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Última atualização: 14/06/2021

Capítulo 1 – O Presidente

"Hey! Come on! My baby!..." Hey, FLOW

Já era a terceira vez que a música repetia, mas a moça não ouviu. Quando o refrão repetiu pela quarta vez, ela finalmente acordou. A luz que invadia o pequeno apartamento denunciava ser muito cedo, mas, pela quantidade de vezes que o celular dela despertou, logo deduziu que já estava atrasada. Saltou da cama e correu para tomar banho. Se arrumou rapidamente e pegou as chaves da moto. Desceu até o estacionamento de seu prédio, ligou a moto e partiu. Ela preferiu tomar café na padaria próxima ao trabalho. Chegando lá, fez exatamente o que planejava e subiu até o décimo andar do enorme prédio localizado no centro de Tóquio, Japão. A moça tentou passar despercebida em meio aos demais funcionários, porém, logo foi identificada pelo chefe.

— MORI! — gritou o homem, irritado. virou-se e curvou-se para o homem, em sinal de desculpas pelo atraso. Mori, a , este era seu nome. — Isso são horas de chegar ao trabalho? Acha justo com seus colegas que chegaram aqui no horário e estão, provavelmente, fazendo o trabalho que era para a senhorita fazer?! — bradou o homem, os demais colegas de apenas observavam a cena, uns concordando mentalmente e outros achando a cena um tremendo exagero.
— Mil perdões, sr. Tanaka, isso não se repetirá. — disse ela, ainda sem olhar para o chefe. Hiroki Tanaka era o chefe do departamento de marketing, onde trabalhava. Era um homem extremamente exigente, estabelecia metas, muitas vezes inalcançáveis, para os funcionários. Todos têm medo de confrontar o homem, e, por isso, ele se aproveita para descarregar nos subordinados toda a sua arrogância.
— Onde está o relatório que te pedi há três dias? Não me diga que ainda está fazendo? — perguntou ele, olhando-a com desdém.
— Está pronto, senhor. Já levarei em sua sala. — respondeu a moça, as mãos tremendo, mas não de medo do chefe, e sim de raiva.
— Seja rápida pelo menos uma vez na vida. — disse Hiroki e saiu. Os outros funcionários respiraram fundo ao verem a porta da sala do chefe fechando-se com ele dentro. Voltaram aos seus postos. fez o mesmo.
— Bom dia, ! — disse ela, sorridente, disfarçando a vergonha que sentia. é sua colega mais próxima. Amiga mesmo.
— Bom dia, ! Brigou com o despertador? — brincou ela e ambas riram.
— Tive um jantar de família ontem, terminou mais tarde do que eu gostaria. — explicou a moça e sentou-se em frente à sua mesa de trabalho.

imprimiu o relatório pedido pelo chefe e entregou em sua sala. O chefe, como sempre, não estava lá. Ele mal aparecia na empresa, e quando aparecia, era exigindo demais dos funcionários. O horário de almoço chegou e e foram ao restaurante ali perto, comer algo. Após comerem, voltaram para a empresa e continuaram o trabalho de onde pararam. A empresa atuava no ramo imobiliário, possuía grandes prédios no centro de Tóquio e nas cidades vizinhas, sem contar que o atual presidente da empresa estava pensando em expandir os negócios para outros ramos imobiliários, não só na posse de grandes prédios. O novo presidente do grupo é o filho mais novo do sr. , que teve que se afastar dos negócios por conta da saúde. A ideia do presidente é investir em casas para famílias menos favorecidas financeiramente. Com isso, o grupo seria dono de praticamente metade (ou mais) dos imóveis das cidades em que atua. O pai do rapaz não gosta dessa ideia, acha que nunca dará certo e que é "molecagem" do filho. Mas isso não o fez desistir da ideia.
terminava uma arte publicitária para a nova campanha que a empresa lançaria em breve. Ela é formada em Publicidade e Marketing pela Universidade de Tóquio e trabalha há dois anos no ramo. O barulho no departamento de marketing era tão normal, que não percebeu que não se tratava de algo cotidiano.

— O QUE VOCÊ ACHA QUE É ISSO, MORI?! — berrou Hiroki, batendo o relatório que lhe entregou em sua mesa, com força. A moça assustou-se e saltou no próprio corpo. pegou o papel, que havia caído no chão, e leu rapidamente que se tratava de seu relatório.
— O relatório que o senhor pediu, sr. Tanaka. — disse ela, sem jeito, porém a raiva aumentando em seu ser.
— Você chama isso de relatório? — desdenhou ele e completou: — Faça outro, agora! E, dessa vez, faça direito.
— Não há nada de errado neste relatório para que ele seja refeito. — resmungou ela, mais para si mesma do que alto. Infelizmente, seu chefe ouviu e virou-se furioso.
— Como disse, Mori?! — os olhos de Hiroki saltavam de raiva com tamanha ousadia. — Repita agora o que disse, Mori! — gritou ele. levantou o rosto e ergueu o corpo, encarando o homem.
— Não há nada de errado neste relatório para que ele seja refeito. — repetiu ela, calmamente. De repente, Hiroki aproxima-se dela muito rápido e a segura pelo queixo com força. A moça não deixou de o encarar.
— Saia daqui imediatamente! Está demitida! — ele soltou o rosto dela e, então, tomou uma atitude da qual se arrependeu no segundo seguinte. Pegou o relatório, amassou e jogou no homem. Hiroki se virou mais rápido que da primeira vez e segurou os braços dela com força. — Como ousa?! — os olhos arregalados de Hiroki denunciavam toda a sua raiva pela petulância da funcionária. Ele empurrou , que caiu por cima de sua cadeira. Na queda, ela torceu o pé. — Saia agora daqui! Não quero mais te ver na minha frente, Mori! — berrou ele e saiu, sendo seguido de sua secretária. Os colegas de queriam ajudar, mas temiam perder o emprego, assim como acabara de perder.
, você está bem? — ajudou a amiga a se levantar. sentou-se na cadeira e gemeu de dor.
— Acho que não. Torci o mesmo pé que já havia fraturado antes. Ai, tá doendo! — revelou ela, gemendo de dor. agachou e tirou o salto que usava, revelando o inchaço do pé da moça.
— Ai, , tá inchado! — reforçou e levantou-se. — Vou buscar gelo. — disse ela e, já ia saindo, quando viu que todos os colegas estavam em pé, curvados em respeito à presença de um visitante inesperado. arregalou os olhos ao ver de quem se tratava e cutucou a amiga — , levanta! É o presidente! — ouviu aquilo e levantou rápido. Por um instante, se esqueceu da dor que sentia e botou o pé descalço no chão, com força. Logo o ergueu e gemeu de dor, curvando-se para o presidente.

, , como prefere ser chamado, adentrou ao departamento de marketing, seguido por sua assistente pessoal, Harumi, que estava sempre perto dele. completou 30 anos recentemente e é o sênior mais novo entre os maiores grupos de negócios do Japão. É um rapaz muito bonito, sua beleza é realmente indescritível. Metido a galã, sempre foi cercado por mulheres, muitas atrás de sua fama e dinheiro, outras iludidas por promessas de amor que jamais foram cumpridas. caminhou pelo longo corredor do local e sorriu para os funcionários que o retribuíram. Ele não quer que seus funcionários tenham medo dele, quer que o respeitem. Procura sempre ser atencioso e visitar todos os departamentos da sede da empresa que administra. Aquele era o prédio da sede do grupo , a sala de fica no último andar. Enquanto andava, algo chamou a atenção do jovem presidente.

— Está tudo bem, senhoritas? — disse ele calmamente, referindo-se a e que se cutucavam. aproximou-se delas. — Aconteceu alguma coisa? Meu Deus! — espantou-se ao ver o inchaço no pé de . — A senhorita caiu? Por favor, sente-se. — disse ele, educado e ajudou a moça a se sentar.
— Eu torci o pé, perdoe-me pela minha condição. — disse e colocou a mão no pé que parecia estar mais inchado que antes.
— Meu Deus, precisa cuidar disso antes que piore. — disse ele e completou, virando-se para sua assistente: — Harumi, mande os paramédicos do prédio irem até a minha sala, por favor. — Harumi prontamente atendeu o pedido e saiu. virou-se para e a fitou sorrindo. — Perdão, como se chama, senhorita? — os olhos castanhos de tinham algo que não sabia explicar, mas que a faziam perder a fala.
... Mori. Mori, sr. . — respondeu ela, muito tempo depois do que uma pessoa atenta responderia.
— Prazer em conhecê-la, senhorita Mori. Sou . — ele sorriu e depositou um beijo em uma das mãos dela. Os demais em volta não sabiam como reagir. tinha esse poder de hipnotizar as pessoas em volta, seja com o seu lindo sorriso, seja com sua educação. E com a não foi diferente.
Quem era esse tal de ? E por que ele fez o coração da palpitar tão forte?

Capítulo 2 – O último andar

ajudou a moça a se levantar e a levou até sua sala, no último andar do prédio. disse mil vezes que não precisava o incômodo, porém insistiu em levar a moça para ser tratada em sua sala, onde tem mais espaço. E realmente a sala do rapaz era imensa. Se bobear, ocupa quase toda a extensão do andar. Tirando a parte da entrada, o restante da sala é cercada pelos vidros que cobrem todo o prédio. De lá, dá para ver boa parte de Tóquio, uma vista deslumbrante. Quase toda a decoração é preta ou cinza. Tudo muito refinado, é claro. não é muito de esbanjar luxo, mas gosta de ter coisas boas e caras. A decoração de seu escritório, agora que é sênior do grupo, não seria diferente, apesar de a decoração de seu quarto, em sua mansão, ser o avesso do escritório, mas isso não vem ao caso no momento.
ajudou a se sentar no sofá preto, de couro, que havia próximo à porta.

— Aceita um copo d'água, srta. Mori? — perguntou ele, educado. estava hipnotizada pela delicadeza com que ele a tratava.
— Não há necessidade, sr. . — respondeu ela, saindo de seu transe momentâneo.
— Pode me chamar apenas de , por favor.
— Imagina, sr. ! Não pegaria bem devido à minha posição na empresa. Chamar o sênior do grupo apenas pelo nome. Não, melhor não, senhor. — explicou ela. a fitou enquanto enchia seu copo com vinho.
— Como preferir, srta. Mori. E eu posso chamar a senhorita pelo nome? — perguntou e deu um gole no vinho sem tirar os olhos dela.
— Como preferir, sr. . — sorriu, sem jeito e ele riu.
— Agora, falando sério. Pode me chamar de . Odeio que me tratem como sr. o tempo inteiro. — falou ele, brincalhão e escorou-se em sua mesa, apoiando apenas uma perna nela.
— Me desculpe, sr. , ainda não me sinto confortável em chamá-lo tão informalmente. — a fitou novamente e assentiu.
— Quando esse dia chegar, não hesite em me chamar assim. Não irei insistir. — falou e levantou do móvel onde estava, deu a volta na mesa e puxou o telefone do gancho. — Harumi, onde estão os paramédicos? Faz quase cinco minutos que estamos esperando! — falou ele de maneira firme. — Mande-os entrar. — falou e segundos depois os paramédicos entraram na sala. Após atenderem , deixaram o local. — Como se sente, stra. ? — perguntou enquanto caminhava pelo escritório.
— Bem, obrigada por tudo, sr. . — levantou-se e curvou-se em agradecimento.
— Não há de quê, stra. . Se quiser, pode tirar o restante do dia de folga. Peço para Harumi avisar ao chefe de seu departamento. — havia parado na parte de vidro da enorme sala para olhar a paisagem, como sempre fazia quando queria pensar.
— Receio que isso não seja possível, senhor. Eu fui demitida pelo sr. Tanaka. — revelou , fazendo girar o corpo para direção dela.
— Demitida? — ele arqueou a sobrancelha e prosseguiu: — Por quê?
— Bem... — pensou se deveria dizer o real motivo da demissão e brevemente decidiu que seria o melhor a ser feito, mas omitiu alguns fatos. — E foi isso senhor. — ela não contou a forma como Hiroki tratava a todos, por exemplo.
— Entendo. Bom, vá para casa por hoje e amanhã venha para o trabalho normalmente. Deixa que eu resolvo isso. — falou e a moça o encarou pensativa. — Há algo de errado?
— Não, não sr. . Eu já vou, então. Obrigada mais uma vez.
— Disponha, srta. .

saiu do escritório, mancando e voltou para a sua mesa de trabalho. Pegou suas coisas e foi embora. Deixou sua moto no estacionamento da empresa e chamou um táxi. Enquanto isso, estava pensativo em seu escritório. Várias coisas sempre pairavam pela cabeça do rapaz, todas ao mesmo tempo. Dessa vez, uma delas era a moça que ele acabara de conhecer. Ele quis saber mais sobre ela, queria saber tudo a seu respeito. Poderia pedir a Harumi para levantar um dossiê completo sobre a moça, mas, dessa vez, quis conhecê-la do modo antigo: perguntando e convivendo com ela.
Outra coisa também intrigava o rapaz: Mori. Este sobrenome não lhe era estranho. Mas de onde o conhecia? Tentou puxar mil vezes pela memória, sem sucesso. Seu celular vibrou, em seu bolso, tirando-lhe um pouco de seus pensamentos.

"Te espero no lugar de sempre, bro!
Te amo <3
"


Era uma mensagem de seu melhor amigo. , filho de um grande empresário do ramo da indústria. e se tratavam como irmãos, se conheciam há anos e faziam praticamente tudo juntos. Eles sempre iam às baladas mais caras e bem frequentadas da cidade. E hoje não seria diferente.

— Vai passar a festa toda com essa cara, ? — reclamou , já era tarde da noite e eles já haviam bebido bastante.
— Acho que vou para casa. Tenho que acordar cedo amanhã. — respondeu já se levantando.
— Hey! — puxou o amigo pelo braço e também levantou. — Está assim por causa da moça da sua empresa? A publicitária?
— Está óbvio, não está? — conhecia bem seu amigo. Melhor amigo.
— E como está! Se ela mexeu tanto assim com você, deveria investir nela, cara. Vai por mim, eu sei dessas coisas. — falou o rapaz, gabando-se.
— Sabe tanto que está solteiro. — riu do próprio comentário. fechou a cara.
— Porque eu quero, ora essa, ! Vamos, você sabe que está apaixonado...
— Apaixonado? Não, eu não estou. Eu literalmente acabei de conhecer ela.
— E já está parecendo um cão abandonado só porque está longe dela.
— Yah, não enche, . Eu já vou, vê se não fica aqui até amanhecer. De novo...

despediu-se do amigo e foi para casa. Durante o trajeto de volta, pensou no que disse. Será que , o cara que sempre estava cercado de inúmeras mulheres, finalmente havia se apaixonado? Não, é loucura. Ele acabara de conhecer a , não existe isso de amor à primeira vista. Existe? Amor... Também não era para tanto. Ele estava encantado por ela, fato. E doido para vê-la novamente. O rapaz não via a hora de acordar cedo para trabalhar no dia seguinte, só para ver a novamente. mal dormiu à noite, pensando em como agir com .

— Mas que droga, , por que isso agora? Reage! Não seja um molenga! — pensou , irritado e ainda deitado em sua cama. Já havia amanhecido e ele continuava pensando nas palavras de e em seus próprios sentimentos.

O que realmente o rapaz sentia por ela? Curiosidade pelo fato de ela sempre fugir dele, quando o comum para o rapaz é ter as mulheres sempre em sua cola? Ele não sabe ainda, mas dentro dele está crescendo um sentimento de admiração muito grande pela moça. E, quem sabe, algo mais forte.

Capítulo 3 – O convite

Alguns dias se passaram desde o dia em que conheceu a . Desde então, ambos se aproximaram bastante. Aliás, se aproximou muito de todos os funcionários de sua empresa. Como ele havia explicado para , ele queria que seus funcionários o respeitassem e vissem nele alguém em quem podiam confiar. E era esse chefe: o confiável e parceiro de sua equipe.
Alguns meses se passaram e chegou uma data importante para : o Natal. Ele é do tipo de pessoa que gosta de passar o Natal com a família. Porém, após a morte de sua querida mãe, há dois anos, ele não faz mais isso. Na verdade, sua família se distanciou após a morte da sra. . , seu irmão mais velho, mergulhou em seus negócios, o homem era dono de sua própria empresa, alheia ao grupo de sua família, e se afastou. A doença de seu pai o tornou um homem ainda mais amargurado e distante dos filhos. nunca se deu bem com seu pai, então esse afastamento não o afetava tanto. Já de ele sentia falta. Sempre foram muito unidos.
pegou seu elevador particular, que dava acesso exclusivo ao seu escritório, e foi até o andar do departamento de marketing, local que ele mais frequentava no prédio ultimamente.

— Olha só quem desceu para sua visita diária! — disse , brincalhona, e apontou com o nariz para a direção de onde vinha. revirou o olhar, mas não conseguiu esconder o sorrisinho de satisfação por ver o rapaz. Ele ainda não havia descido até aquele momento.
— Boa tarde, pessoal! — exclamou , para todos os presentes. Todos se levantaram e cumprimentaram o presidente. — Boa tarde, senhoritas. — disse ele, aproximando-se da baia onde elas trabalhavam.
— Boa tarde, sr. . — disseram ambas ao mesmo tempo.
— Srta. , está muito ocupada? — disse , fitando da maneira que deixava ela desconsertada.
— Nã-Não, sr. . Deseja algo? — se repreendeu internamente pelo gaguejo. Ela ainda não conseguia chamar o chefe apenas pelo nome, então ambos acharam um meio-termo aceitável para comunicação.
— Pode me acompanhar, por favor? — estendeu a mão direita para ela e manteve a esquerda dentro do bolso da calça social. apenas balançou a cabeça confirmando, levantou-se e ignorou a mão do rapaz que ainda estava estendida. sorriu de canto e acenou com a mão avulsa para que ela passasse em sua frente. Eles pegaram o elevador comum e depois o exclusivo que dava diretamente no escritório do rapaz. — Por favor, fique à vontade, srta. . — eles entraram no escritório e acomodou-se em sua cadeira. ficou parada em frente à mesa dele. — Quer crescer mais, senhorita? Creio que esta não seja a melhor maneira. — riu da própria piada. sentiu-se idiota, pigarreou e sentou-se na cadeira. — Bom, srta. , serei direto: a senhorita gostaria de jantar comigo hoje à noite?
— Jan-Jantar? — não entendia o porquê de tanto gaguejo vindo dela, ainda mais na frente dele. — Jantar com o senhor hoje? — repetiu o pedido dele, o rapaz a fitou confuso.
— Foi o que eu disse. — respondeu ele, óbvio, e completou: — Mas, é claro, que caso tenha algum outro compromisso de Natal, eu entenderei.
— Não tenho, quer dizer, normalmente eu passo o Natal com meus pais, mas creio que não seja o caso este ano. — comentou ela, sem entrar em detalhes. Aliás, sempre quando falavam sobre família, e não entravam em detalhes. — Combinei com a que ficaria com ela em sua casa... — ia completando ela, mas foi interrompida pelo rapaz.
— Entendo, bom, percebi que você não se sentiu confortável com o pedido. Então, eu o retiro. — disse ele demonstrando tranquilidade, porém seu interior estava triste com a recusa da moça.
— Sr. , não é isso. Perdoe-me, eu não quis recusar seu convite. Seria bom jantar com o senhor, mas creio que o senhor tenha companhias melhores para um dia tão especial como é o Natal. Sua família, por exemplo. — ajeitou-se na cadeira, sentiu-se desconfortável com a menção da família, mas ignorou o sentimento e não o deixou tomar conta de sua expressão. Deu um sorriso simpático e disse:
— Minha família tem outros compromissos, srta. . — disse ele, simplesmente. — Aceitaria meu convite, então? Posso refazê-lo, se quiser. — o que será que há no sorriso de que deixava tão hipnotizada daquela forma? Era um mistério para a moça nos últimos meses.
— Aceito, sr. . Fico grata pela lembrança. — respondeu ela e completou: — Posso levar a junto? Não queria deixá-la sozinha hoje. — arqueou a sobrancelha. Não esperava que a moça fosse pedir isso, mas não se importou com o pedido.
— Claro. Serão bem-vindas! — sorriu seu sorriso mais encantador. Não estava irritado, mas o convite para jantar não era para ser a três. — Harumi te passará o endereço do local, mas mandarei meu motorista ir buscar vocês. Seria incômodo se a srta. esperasse em seu apartamento? — questionou ele, calmamente. negou com a cabeça — Ótimo, ele passará lá às 19h30, está bem? — concordou e eles se despediram.

voltou para sua baia de trabalho com uma expressão espantada na face. Logo contou para sobre o convite. A amiga gritou sem querer de tão feliz que ficou por . Quando lhe contou que o convite para jantar foi estendido forçadamente para ela também, deu um tapa na cabeça de e disse que ela era uma burra.

— Não vê que o sr. quer ficar a sós com você?! Pelo amor de Deus, ! É claro que eu não vou com vocês!

ficou irritada com pela recusa, mas não culpou a amiga. Ela percebeu que queria ficar a sós com ela, mas ela não se sentia à vontade com isso. Não por não gostar do ou achar que ele era desrespeitoso, ou algo do tipo. Ela sentia medo de se entregar para ele, sentia que poderia perder o controle de seus atos a qualquer momento, agarrar o pescoço do rapaz e o beijar. Ela não podia fazer isso, não podia se apaixonar pelo presidente da empresa em que trabalha. Ela compartilhou esses sentimentos com a amiga.

— Acho estranho ele querer ficar comigo. Sou apenas uma publicitária. — disse , baixinho para que ninguém além de a ouvisse.
— Será que ele sabe sobre... — iniciou , mas foi interrompida por , bruscamente.
— Não fala disso, ! — repreendeu e completou: — Eu não sei. Não acho que ele saiba, senão já teria mencionado assim que me conheceu. Teria se lembrado de mim. — concordou com a cabeça.
— Já faz anos, será que ainda se lembra? — perguntou ela.
— Duvido que lembre. Não faz tanto tempo assim, mas eu estava diferente e ele também. Definitivamente, este não é o que eu conheci.

encerrou o assunto ali mesmo e voltou às suas atividades. Ela não gostava de lembrar-se daquele dia e preferia deixar o mesmo enterrado em sua memória. Horas se passaram e o expediente acabou. foi para sua casa, enquanto foi para seu apartamento se arrumar para o jantar com . Estava nervosa por ficar mais do que vinte minutos sozinha com ele, ainda mais fora do ambiente de trabalho. Não sabia o que falar ou como se comportar. Ela sentia que a noite seria longa.
O motorista da família foi buscar a moça pontualmente às 19h30. Chegando ao restaurante, já esperava pela moça dentro do local. Puxou a cadeira para ela se sentar e pediu para o garçom trazer o menu. Ele notou, obviamente, que a moça foi sozinha, mas preferiu não comentar a respeito.

— Está muito bonita, srta. . — comentou o rapaz, sorrindo. usava um vestido verde musgo na altura do joelho e os cabelos soltos na altura dos ombros. Um delicado colar cum um pingente de estrela completava o look da moça.
— Obrigada, sr. . O senhor está muito elegante, como sempre. — falou ela, ainda sem graça pelo elogio dele. usava um de seus ternos escuros, uma gravata azul marinho e seus cabelos, que tinham um corte moicano, penteados para trás. Ele agradeceu o elogio. O garçom trouxe o menu e observou o mesmo. fazia igual. Fizeram o pedido.
— E o vinho, qual o senhor prefere? — perguntou o garçom para .
— Qual você me sugere? — perguntou o rapaz de volta. Antes que o garçom pudesse responder, o interrompeu.
— Um Château Lafite Rothschild seria ótimo, por favor. — arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Excelente escolha, senhorita. Com licença. — disse o garçom com um sorriso no rosto e saiu levando consigo os menus. ajeitou-se na cadeira.
— Há algo de errado comigo, sr. ? — questionou ela. encarava a moça como se o rosto dela estivesse sujo.
— Não sabia que conhecia sobre vinhos, srta. . — respondeu ele. suspendeu as sobrancelhas e sorriu.
— Não achou que uma simples publicitária poderia conhecer de vinhos? — perguntou ela, desafiante. pigarreou e disse:
— Me desculpe, não é muito comum. Não quis parecer rude. — desculpou-se ele. negou com a cabeça.
— Está tudo bem, sr. . Fui ríspida com o senhor, desculpe.
— Você apenas se defendeu. Está certa.
— Com licença... — disse o garçom, interrompendo, ele trazia a garrafa de vinho. Serviu ambos e saiu novamente, deixando a garrafa no centro da mesa. A tensão que se formou pelo episódio do vinho, logo se desfez com uma conversa muito agradável que ambos iniciaram. E foi assim pelo resto do jantar.

Horas depois, sugeriu que eles fossem numa boate ali perto. De início, resistiu, mas lhe deu o argumento de que no dia seguinte ela não teria que acordar cedo para trabalhar, pois era Natal, e um sábado. Chegando na boate, foram direto para um dos camarotes exclusivos que a família possuía em algumas baladas da cidade. Pouco tempo depois, eles desceram para a pista e foram dançar. Estavam se divertindo muito dançando próximos um do outro. As duas garrafas de Château Lafite Rothschild que beberam no restaurante definitivamente estavam fazendo efeito. E o efeito era fazer ambos dançarem como se só tivessem os dois naquele ambiente.
De repente, alguém esbarra em , fazendo o rapaz quase cair por cima de . Ele virou-se, levemente irritado, e reconheceu a pessoa que esbarrou nele.

— Ayumi? — perguntou ele, gritando para se fazer entendido. Ayumi encarou e sorriu com os olhos meio fechados.
! É o , olha gente é o ! Que lindo, , este homem é um acontecimento! Que espetáculo! — claramente bêbada, Ayumi gritava e cutucava as pessoas em volta apontando para .
— Você tá sozinha, Ayumi? Vem, vou te levar para o camarote. — falou ele e segurou Ayumi pelo ombro, envolvendo o braço dela em seu pescoço. — Vem comigo, . — a moça ajudou a levar Ayumi até o camarote, onde sentaram ela no sofá. Nem notou que tinha deixado a formalidade de lado, por um momento.
— É melhor levar ela para casa, sr. . — disse ela.
— Vou levar. Vem, vamos conosco, te deixo em casa depois.
— Não precisa, eu chamo um táxi. — respondeu ela e pegou sua bolsa. — Ela precisa ir para casa logo.
— Deixa de besteira, . Eu te levo. — insistiu .
— Não seja teimoso, sr. . Quanto mais rápido o senhor levar a moça para casa, melhor para ela. Eu vou de táxi. — decretou ela. suspirou derrotado.
— Está bem, . Por favor, me ligue assim que pegar o táxi e assim que chegar em casa, está bem?
— Está bem.
— Não se preocupe com a conta, já está paga.
— Eu vou ao banheiro e depois vou embora. Me avisa quando chegar em casa. — disse ela, surpreendendo o rapaz que sorriu vaidoso com a preocupação dela.
— Ligo sim.

levou Ayumi até seu carro e a levou para casa. fez o que disse que faria, mas ao sair do banheiro, teve uma grande surpresa.

Capítulo 4 – O melhor amigo


havia acabado de chegar em sua balada favorita. Além de ser o lugar onde seu melhor amigo tem um camarote exclusivo, é o lugar onde ele sempre encontrava uma companhia para finalizar a noite. Nesta noite, sabia que acabaria com uma bela moça ao lado. Era uma certeza para ele. O rapaz usava uma camisa preta de manga comprida, um colete branco, calça branca e uma bota preta de cano longo. Ajeitou os cabelos, saiu de seu penteado clássico com os cabelos na altura da orelha e os jogou para um lado de seu corpo, finalizando com gel. Entrando na balada, observou o ambiente e foi para o bar, pediu seu drink de sempre, o bartender já o conhecia. Cinco minutos após começar a beber, viu uma movimentação nas escadas que levam até os camarotes. Pelo pouco que conseguiu ver, notou que havia uma moça sendo literalmente arrastada escada acima por dois homens. bebeu seu drink num só gole e avisou ao bartender o que viu, o outro acionou os seguranças, mas precisava ir ver pessoalmente o que estava acontecendo. Seu instinto gritou por isso. Subiu os degraus de dois em dois e logo chegou aos camarotes. Todos continham portas para a maior privacidade de seus ocupantes, e um vidro do outro lado que permitia a vista da pista de dança. abriu porta a porta até finalmente achar a única que continha gente em seu interior, e estava trancada. Ele se jogou na porta, mas não abriu. Irritado e ouvindo gritos vindo de dentro do camarote, pegou um extintor de incêndio que havia ali e investiu na maçaneta, quebrando-a.

— O que estão fazendo?! — disse ao entrar. Havia um homem empurrando algo na boca de uma moça enquanto outro a segurava. sentiu asco pela cena.
— Não atrapalhe, cara! Cai fora! — disse um dos homens. A moça estava meio desacordada.
— Deixem minha namorada em paz! Seus cretinos! — bradou ele e foi para cima deles. Deu alguns socos e recebeu alguns, até que os seguranças da boate finalmente chegaram e levaram os homens para fora. — Eles doparam ela! — revelou . — Chamem a polícia! — completou e os seguranças os levaram embora, chamando a polícia em seguida. aproximou-se da moça que estava caída no sofá. — Meu Deus, é ela mesmo! — exclamou o rapaz e notou que o vestido que ela usava estava suspenso. Com cuidado para não ver nada que se arrependesse depois, abaixou a peça.

conhecia a moça, porém não sabia onde ela morava. Obviamente ele inventou aquela história de que ela era sua namorada para que os homens a deixassem. achou melhor levar a moça para um hotel. Pediu para a recepcionista reservar um quarto ao lado do dela. acomodou a moça na cama e foi para o seu quarto. Que noite! Quando pensou que acabaria a noite com uma linda moça do lado, não imaginou que fosse daquela forma. Sorriu, no quarto ao lado, e adormeceu após mandar uma mensagem para o melhor amigo contando o que houve.

[...]

Na manhã seguinte, ela acordou com uma dor intensa na cabeça. Logo notou que ainda usava a mesma roupa da noite anterior. Notou também que estava num quarto estranho. A porta do quarto abriu-se e ela se cobriu, na defensiva.

— Bom dia! Já acordou? — disse uma voz masculina e logo ela viu o dono dela adentrar ao quarto. — Olá, como se sente? — perguntou ele, de maneira carinhosa. Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Quem é você e onde estou?! — perguntou a moça com os olhos esbugalhados, que demonstravam o medo que sentia.
— Ah, perdão! Me chamo , prazer. Eu te ajudei ontem, haviam dois caras que te doparam e, bom, eles não queriam fazer algo bom com a senhorita. — disse , educado.
— Eu me lembro vagamente. Desculpe, é que eu achei que...
— Não se preocupe. Quer tomar café da manhã? Eles já serviram. — ofereceu ele, a moça o fitou e sentiu seu estômago reclamar.
— Preciso de um banho antes. Se importa se...
— Ah, claro. Vou deixar a senhorita à vontade. Te espero no lobby (saguão) do hotel.

saiu do quarto e caminhou até os elevadores. Já no lobby, recebeu a ligação de seu melhor amigo.

— Bom dia, seu cretino! — exclamou , o outro riu do outro lado.
Bom dia, seu idiota! — respondeu . — Onde você está? Preciso de sua ajuda.
— Estou num hotel. Cara, você não vai acreditar com quem eu estou aqui. — falou , animado.
Tem como me falar depois? Eu realmente preciso de sua ajuda. — falou , sério.
— Parece preocupado, cara. O que houve? — mudou o tom de voz ao notar a seriedade do amigo.
Lembra da ? A moça que trabalha lá na sede da empresa.
— Claro! A moça que tomou conta do coração do meu melhor amigo! Como eu não saberia? — respondeu , brincalhão. ignorou o comentário e prosseguiu:
Então, eu saí para jantar com ela ontem, fomos àquela boate que sempre vamos, sabe? resmungou um "sim". — Mas aí encontrei a Ayumi lá, lembra da Ayumi?
— Aquela gata! Lembro sim... — ignorou novamente e contou o restante da história até o momento em que não conseguiu mais falar com a .
Eu estou muito preocupado, ela não é disso. — completou , apreensivo.
— Putz, cara. Sabe onde ela mora? Por que não vai lá? — perguntou .
Já fiz isso e não tem ninguém em casa. O porteiro do prédio disse que ela não voltou para casa ontem.
— Estranho. Ah, já sei, ! Fala com o pessoal que trabalha na boate. Podem saber de algo.
Você é brilhante, ! — exclamou , riu vaidoso. — Vamos lá comigo?
— Cara, eu estou no hotel, como disse, com uma baita gata.
Ah, ! Vai me trocar por um par de peitos? Eu também tenho peitos, sabia?! — disse , num tom falso de ofendido.
— Os seus não são macios que nem eu acho que os dela sejam.
Não dormiram juntos? — perguntou , surpreso. Sabia que o amigo não perdia oportunidades assim.
— Não, cara. Ontem foi tenso... — contou rapidamente o que houve na noite anterior — ...e agora eu estou aqui no hotel com a gata da Mori! Nossa, que sorte a minha. — sentiu seu coração parar por um instante.
Quem? Mori? — repetiu ele, confirmou e perdeu um pouco a compostura. — , O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ COM ELA?! Seu cretino, eu vou te matar! não entendeu o motivo do surto do amigo.
? ? — a ligação foi desligada e tentou retornar, mas o amigo não respondeu. Incrivelmente, dez minutos após, entra pelo lobby do hotel, furioso, e se joga no sofá ao lado do amigo.
— Onde ela está?! — os olhos de estavam saltados de raiva e ainda não entendia o motivo.
— A ? — perguntou , receoso.
— Sim! Não me diga que dormiram no mesmo quarto?! , eu juro que te mato afogado na piscina do hotel se você fez algo com ela. Eu juro!
— Calma, ! Eu não dormi no mesmo quarto que ela. Eu juro pela nossa amizade! — apertava o colarinho da camisa do amigo e o fuzilava com o olhar.
— E por que você está aqui com ela? Por que justo ela, ?! — perguntou ele, seu tom de voz variava entre raiva e mágoa.
— Me explica direito, amigo. Juro que não estou te entendendo.
— De onde conhece a ?
— Cara, todo mundo no país conhece ela. Por que eu não conheceria? — disse ele, soltou o colarinho da camisa de que ajeitou a peça em seu corpo. — Não conhece ela?
— Deveria? — olhou para o amigo, muito confuso e ainda irritado.
— Ela é a herdeira do grupo Mori, o grupo de empresas do ramo da construção. Não conhece ela? Achei que tinham se conhecido há dez anos naquela festa. — explicou . sentiu seu corpo pesar como se um enorme rinoceronte tivesse sentado em suas costas. Agora ele conseguiu se lembrar de onde conhecia o sobrenome da moça e sentiu-se um idiota por só lembrar-se agora.
— Não acredito... — estava pasmo com a revelação. — Cara, ela é a minha . A mesma que trabalha no escritório. — revelou , quase chorando. abriu a boca e a cobriu com uma das mãos.
— Sério? — perguntou ele — Ela não te contou isso?
— Não...

sentiu-se muito burro naquele momento. não sabia o que dizer, apenas pousou a mão esquerda nas costas do amigo, que jogou o rosto nas mãos e deixou as lágrimas tomarem conta.

Capítulo 5 – A herdeira

Já mais calmo, quis confrontar ali mesmo no hotel. achou melhor ele fazer isso em um outro momento. Afinal, havia passado por um trauma na noite anterior. concordou e só então percebeu pelo que ela havia passado. Se culpou por tê-la deixado sozinha. O rapaz observou de longe a moça chegando ao lobby do hotel para encontrar o amigo. Ainda estava linda com seu vestido verde musgo e os cabelos soltos, porém seu rosto entregava o cansaço pela noite agitada que teve. aguardou dentro de sua Lamborghini azul-marinho que estava estacionada mais adiante do hotel. Notou que o carro que foi parado na frente da entrada e ficou em alerta. Logo, viu o amigo e entrarem nele e seguirem para a rua. os seguiu e fez um caminho diferente do costumeiro para ir ao apartamento de . Para onde ele estava indo? Curioso, pensou em ligar para ou mandar uma mensagem, mas ignorou a péssima ideia. O carro de entrou numa rua onde, costumeiramente, residem as pessoas mais ricas de Tóquio. Só então, o rapaz lembrou-se da história da herança. Sua garganta deu um nó.

[...]

não quis falar com ninguém. Na verdade, ela nem queria estar naquela casa, mas não teve jeito, insistiu em levar a moça até sua casa, pois seria mais seguro a moça não ficar sozinha. Não quis discutir, então aceitou a carona até a mansão onde seus pais moram. Pelo horário, a moça acreditou que ambos estivessem dormindo. Entrou pela porta principal e foi recebida pela governanta, uma senhora muito simpática, que abriu um enorme sorriso ao vê-la. Fazia tempo que ela não ia lá.
A moça deitou em sua velha cama e fechou os olhos. De imediato, todas as coisas que lhe aconteceram ontem vieram como um furacão de imagens. As batidas na porta a dispersaram do furacão.

— Entra. — respondeu a moça, ajeitando-se na cama.
— Senhorita Mori, com licença, tem uma visita lá embaixo. — disse a empregada num tom de desculpas por interromper o que quer que fosse.
— Acorde meus pais, deve ser alguém querendo conversar com eles. — a moça se levantou e caminhou até seu closet.
— Na verdade, senhorita, é um rapaz chamado e ele deseja falar com a senhorita. — a simples menção do nome de fez se virar de imediato para a moça parada em sua porta.
? — perguntou e a outra confirmou com a cabeça. — Peça para que me espere no jardim, por favor. Eu já vou descer. Ah, diga a todos para não interromperem minha conversa com o senhor , por favor. — disse e a outra obedeceu. Será que finalmente a farsa da moça foi descoberta? Bom, tudo indica que sim. já esperava por isso, pretendia contar para sobre sua família e sobre o título que carregava, só não esperava ser dessa forma. — ? — a voz da moça dizendo somente seu nome foi um som agradável para ele, não conteve o sorriso. Virou-se para vê-la, tinha trocado de roupa, mas continuava muito bonita como sempre.
— Agora consegue falar somente meu nome? — zombou com um sorriso debochado no rosto. revirou o olhar e riu pelo nariz.
— Sempre consegui, apenas me reservei ao direito de não falar, senhor . — rebateu ela e sentou-se na cadeira que havia no jardim da casa. O pai de fez questão de decorar tudo do jeito dele. Ela se lembra da imagem do jardim exatamente como era em sua infância. — Receio que já saiba sobre mim. — falou ela, sem graça.
— Sim, me contou esta manhã. Na verdade, eu acabei descobrindo sem querer. — falou ele e a moça o fitou confusa. Após explicar toda a história, pôde entender direito.
— Então, o é seu amigo? — disse ela.
Melhor amigo. Nos conhecemos ainda crianças.
— Entendo...
, posso te chamar assim, né? — perguntou ele antes de prosseguir. sorriu e afirmou com a cabeça — Então, , o me disse que nos conhecemos numa festa há alguns anos. Mas eu realmente não me lembro. O que seria difícil, pois uma mulher como você é difícil de esquecer. — disse e fitou o chão. Com tantas perguntas para ele fazer, por que justo essa? Xingou mentalmente por ter contado este detalhe.
— Sim, bom...

Dez anos atrás...

não queria ir à festa de inauguração da sede do grupo , preferia ficar em casa. Porém, sua mãe a convenceu de ir dizendo que o filho mais novo do sr. estaria na festa também e eles poderiam fazer amizade. colocou seu melhor vestido, era até o joelho, pois odiava vestidos mais longos que isso, e tinha tons diferentes de vermelho, em dégradé. Os longos cabelos presos num rabo de cavalo realçavam seu rosto quase sem maquiagem. Assim que chegaram na festa, e os pais foram recebidos pelo sr. e seu filho mais velho.

— Prazer em conhecê-la, senhorita . — disse , educado, e depositou um beijo no dorso da mão da moça.
— O prazer é meu. — respondeu ela, sorrindo.

circulou pela festa à procura do filho mais novo do senhor . Não conhecia seu rosto, mas, pela descrição de sua mãe, sabia que se tratava de um belo rapaz. Em um momento da festa, a senhora Mori abordou a filha e apontou para um pequeno grupo de jovens que conversava animadamente.

— Veja, filha, aquele é o jovem . — a mulher apontou para o rapaz que estava de costas, ao centro da roda que se formou em volta dele. — Seu nome é . Deveria ir lá conversar com pessoas da sua idade, querida. — completou a senhora Mori e deixou a filha sozinha mais uma vez. cogitou mil cenários, todos eles malsucedidos à aproximação do jovem . Ela nunca foi boa em fazer amizades. Não sabia o que dizer. tomou um resquício de coragem e num impulso foi até a roda de amigos.
— Oi, com licença. — disse ela, baixinho. Uma jovem moça de cabelos muito pretos e longos a fitou de cima a baixo com certo desdém. Ninguém além dela pareceu notar a presença de ali. — É... , eu me chamo Mori, prazer em conhecê-lo. — disse a moça um tanto quanto baixo, mas suficiente para fazer virar-se e encarar a moça. Olhou para baixo, pois ela é um pouco menor que ele.
Mori? Hm, oi. — disse de maneira seca e completou: — Se nos der licença, estamos ocupados aqui. — a moça, de longos cabelos pretos, entrelaçou seus braços no pescoço de . — Ayumi... — o rapaz deu um beijo em sua boca e depois virou-se para dizendo: — Estamos sem tempo para crianças, você parece muito nova. Não faz meu tipo.

não soube o que dizer. Sua timidez não permitiu que ela dissesse nada, nem fizesse nada. Tanto que continuou parada, estática, olhando Ayumi beijar todas as partes visíveis do corpo de e ver o rapaz gemer com isso. Sentiu seu estômago embrulhar e a garganta se fechar. Um dos amigos do rapaz, que apenas observava a cena, deu um susto em , fazendo a moça sair de seu transe e sair correndo pelo grande salão de festas. Ela ainda pôde ouvir as risadas de deboche vindo do grupo que acabou de deixar.


Atualmente...

Após contar a história de como conheceu , sentiu-se metade aliviada, metade triste. A única que sabia dessa história era a e foi muito difícil contar tudo. Revelar isto para foi ainda mais difícil.

, eu... — começou , mas não sabia ao certo o que dizer. Sentiu-se um idiota. Naquela época, ele não tinha o mínimo de consideração por ninguém, apenas por seu irmão, que era o único que ele respeitava. resolveu dizer aquilo que estava sentindo para ser o mais sincero possível. — Me perdoe por aquele dia, . Eu era um completo idiota sem noção. Atualmente, eu jamais a trataria dessa forma. Nem você nem nenhuma outra mulher. Eu fui um imbecil com você. Meu Deus, se eu soubesse o que eu sentiria agora... — parou de falar e o encarou.
— Sentir o que, ? — perguntou ela. sentiu que falou demais, mas, ao mesmo tempo, ele sabia que não havia (nunca houve) motivos concretos para que ele não dissesse o que sentia. Precisava falar.
— Já faz um tempo que gostaria de lhe falar algo, . — começou ele e fez uma breve pausa, pensando nas palavras certas para falar. Decidiu apenas dizer o que seu coração lhe dizia todo dia. — , a gente tem uma relação muito boa, não é? Eu adoro sua companhia, seu sorriso encantador, até do seu olhar repreendedor eu gosto. — riu pelo nariz e prosseguiu: — Eu gosto muito de você, . Há meses que gostaria de lhe falar isso, mas me sobrava covardia. — desabafou , encarando a moça que o fitava de volta com uma expressão sem definição.
, eu... — ela começou a falar e franziu o cenho. — Por incrível que pareça, eu também gosto muito de sua companhia.
— Só da minha companhia?
— De você. Eu gosto de você, . — revelou ela com um sorriso no rosto. Por essa, não esperava. O mínimo que esperava da moça era uma negativa dos fatos.
— Estou tão feliz em ouvir isso, . — o sorriso dele estava agora mais largo que antes, o que fez seus olhos estreitarem ainda mais. achava este fato extremamente fofo.

a convidou para jantar em sua mansão, não na intenção de apresentar a moça para o pai e o irmão, mas para ser um jantar romântico. Vide os últimos anos, tinha certeza de que apenas seu pai estaria em casa e trancado em seu quarto. aceitou o convite e, antes de irem para a mansão dele, ficaram no jardim da mansão dos Mori, conversando sobre a vida e os sentimentos. Muitos sentimentos.

Capítulo 6 – O anúncio

A mansão dos é tão deslumbrante quanto a dos Mori. achou a decoração ainda mais bonita do que a que tem na casa de seus pais. A falecida senhora tinha um bom gosto. contava somente sobre sua mãe e, às vezes, sobre , seu irmão mais velho. Contou para sobre a relação maravilhosa e de companheirismo que tinha com a mãe e o quanto ele sentia falta disso. E como sentia...
O quarto de era o oposto de seu escritório. Ele demonstrava como ele realmente é: muitos instrumentos espalhados pela parede e encostados em algum lugar (violões, guitarras e até uma bateria estava ali no cantinho do enorme cômodo), pôsteres de bandas de rock colados na parede, uma enorme cama de casal e uma estante com muitos livros. Passando os olhos, por alto, jurou ter visto a coletânea de livros do Harry Potter e se segurou para não olhar livro por livro daquela estante.

— Bem-vinda ao meu quarto, ! — disse o rapaz, percebendo o encantamento da moça.
— Obrigada, . — respondeu ela sem graça.
— É tão bom ouvir você me chamar pelo nome. — sorriu, estava tão feliz em poder compartilhar o mesmo ambiente que a moça sem as formalidades do trabalho. E o melhor: sabendo que ela sente o mesmo sentimento por ele.

e tiveram um agradável jantar de Natal. Conversaram bastante e decidiram tentar algo sério juntos. Um namoro. Se dependesse de , a pediria em casamento naquele instante em que, após um momento de amor, ela dormia calmamente em seu peito. Naquele instante, sentiu um amor tão grande por aquele ser ali aninhado que ele nem sabia ser possível sentir. Teve certeza de que era a mulher de sua vida e nada, a princípio, mudaria isso.

[...]

O dia seguinte veio e, após um café da manhã reforçado, levou para casa. O senhor Mori ficou sabendo da presença, ainda que breve, da filha em casa e solicitou sua presença para o almoço. Contrariada, apareceu na mansão.

— Deveria ver o que seu pai quer, pode ser importante. — disse , antes de ela descer do carro, já na porta da propriedade dos Mori. — Depois vamos falar com ele sobre nós?
— Com certeza, o plano está de pé. — ela sorriu e deu um selinho nele.

Eles combinaram que contariam o mais breve possível sobre o namoro deles para os pais da . Sobre o senhor , disse que "resolveria depois". adentrou a porta principal e deu de cara com sua mãe. A mais velha sorriu radiante ao ver a filha.

, minha querida! Que bom que veio! — caminhou de braços abertos até a filha e abraçou a moça.
— Olá, mamãe, que saudade! — não via sua mãe desde o último jantar que seu pai obrigou a moça a comparecer. — Como vai mamãe? — perguntou a moça ao se afastar do abraço.
— Bem, filha. E você? Me conte sobre seu trabalho na empresa dos ! Vi sua última campanha, estava maravilhosa, querida! — a mãe da sempre apoiou a filha a trabalhar e fazer o que ama. Já seu pai achava este trabalho uma afronta pessoal.
— Que bom que chegou, . — a voz do senhor Mori preencheu todo o espaço do salão principal. — Em breve o almoço será servido. Não se atrase em descer.
— Já estou pronta, meu pai. — respondeu ela o encarando. O senhor Mori a fitou de cima abaixo com desdém no olhar.
— Como queira.

Falando apenas isso, o senhor Mori deixou o ambiente. respirou fundo para não perguntar o que o pai quis dizer com aquilo e voltou a conversar com sua mãe, que estava extremamente feliz por ter a filha por perto. O almoço foi servido e o senhor Mori se manteve em silêncio, apenas e a mãe conversavam. Até que, quando a sobremesa foi servida, o senhor Mori falou, interrompendo uma das histórias que a filha contava.

— ...foi bem tenso de fazer, mas acho que consegui alcançar as expec...
— Vamos direto ao ponto! — o senhor Mori bateu firme na mesa, chamando a atenção da esposa e da filha, que o encararam sem entender. — , estou em negociação com uma grande empresa do ramo da construção da cidade. Pretendemos unir nossas forças para expandir o mercado. Sendo assim, firmamos um acordo matrimonial. — ao ouvir esta palavra, sentiu um frio gélido percorrer toda a extensão de seu corpo e sentiu a boca secar. — Portanto, você se casará com o dono da empresa, o senhor Katsuo Matsumoto. — arregalou o olhar. Conhecia bem a fama de mau-caráter de Katsuo. Eles tinham a mesma idade.
— Isto é um absurdo! — berrou a moça, levantando-se da cadeira. Sua mãe a acompanhou, tentando apaziguar.
— Sente-se! — bradou o homem, irritado.
— Se pensa que farei parte dos seus joguinhos de negócios, está extremamente enganado! Que disparate! — ia saindo, mas seu pai bateu mais uma vez com firmeza na mesa.
— Eu falei para você se sentar, garota!
— Eu não vou me casar com alguém feito o Matsumoto só para alavancar os seus negócios, meu pai! Nunca! Eu amo outra pessoa e não vou jogar fora o meu futuro casando-me com o Matsumoto.
— Ama outra pessoa, filha? — a senhora Mori lhe perguntou.
— Sim, mamãe. Depois te conto quem é. — disse ela. A mãe de já desconfiava de quem se tratava.
Amor?! — disse o senhor Mori em tom de deboche. — Você é muito nova para entender disto. O amor não enche barriga e nem constrói impérios nos negócios!
— O mundo não é feito apenas disso, meu pai. O senhor não pode usar sua própria filha como moeda de negociação. Isso é ridículo! Não estamos mais nos tempos medievais onde isso era visto como algo inteligente.
— Ainda vivemos em tempos em que é preciso fazer tais coisas, . Você jamais entenderia.
— Me explica, então. — disse ela em tom de desafio. O senhor Mori odiava quando a filha o enfrentava dessa forma. De repente, um barulho muito alto invade a sala de jantar. Parecia vir do salão principal. — O que foi isso?
— Que inferno! O que está havendo aí?! — berrou o senhor Mori, esperando que algum funcionário o respondesse. Sem resposta e impaciente, o alto homem caminhou até a entrada da sala de jantar. Ali mesmo ele descobriu de onde vinha tanto barulho.
— Não se mexa, senhor Mori! — disse o homem mascarado e apontou uma arma para o outro, que ficou paralisado.
— O que está havendo? Por favor, não nos machuque! — suplicou ele e ergueu as mãos em rendição. O homem mascarado apontou com a cabeça para que o outro se afastasse. apoiava sua mãe, que estava bastante nervosa e chorava. A moça sentiu o mesmo quando ouviu a palavra "matrimonial", com um adicional de medo muito grande.
— Só viemos buscar uma coisa, quando conseguirmos, iremos embora. — disse um outro homem mascarado que estava logo atrás do primeiro.
— Pegue o que quiser, mas não nos machuque. — repetiu o senhor Mori, agora postado ao lado da esposa e da filha.
— Será um imenso prazer. — falou um deles e aproximou-se, puxando para si.
— Minha filha não! — berrou o senhor Mori desesperadamente.
— O senhor disse para levarmos o que quiséssemos, nós queremos a senhorita Mori. São as ordens. — explicou ele e rendeu a moça. Segurou ela na altura dos ombros e pôs a arma em sua cabeça. — Não se preocupe, senhorita Mori, se a senhorita se comportar, nada acontecerá com seus pais. — ela afirmou com um balanço de cabeça. Seu corpo todo tremia de medo, mas tentou se manter calma. Todo esse controle foi por água abaixo quando ela ouviu a voz dele.
O que pensam que estão fazendo?! — a figura sempre imponente de surgiu no ambiente, roubando a atenção de todos. — Soltem ela!
— Ora, ora se não é o pequeno . — zombou um deles. — Veio se meter nos negócios alheios novamente?
! — gritou , em pânico por saber que ele estava ali correndo risco.
, você está bem? — perguntou sem tirar os olhos do homem que a segurava. Eles agora estavam de frente um para o outro.
— Estou. o que você faz aqui? E que arma é essa? — só agora ela notou que o rapaz empunhava uma arma preta brilhante.
— Depois falamos disso, . Meu assunto agora é com este verme. — o olhar de desprezo de voltou-se para o homem que rendia . — Eu sei quem você é. O que seu chefe quer se metendo na minha área?
— Logo você saberá, .
— Leve-me no lugar dela. — falou , de repente.
— Hm... — o homem pensou se deveria desviar-se das ordens do chefe. — O que ganhamos com isso?
— Não seja burro, Ren. — falou , chamando o homem pelo nome. Mas de onde ele o conhecia? Foi a pergunta que passou pela cabeça da naquele momento. — Seu repugnante chefe irá adorar ter o presidente do grupo e da Seven nas mãos, rendido, eu não vou me opor em ir. Só quero que deixe a e os Mori fora disso. Essa briga é apenas nossa. — quanto mais a conversa avançava, menos e os demais entendiam do que se tratava.
, não! Por favor, não faça isso! — suplicou . Preferiu deixar seus questionamentos sobre tudo aquilo para depois, embora sua mente fervilhasse em teorias malucas sobre o motivo de tudo aquilo.
— Não posso arriscar sua vida, . Depois você entenderá tudo e me dará razão. — disse e ergueu as mãos. Colocou sua arma no chão, com cuidado, e ergueu novamente o corpo. — Eu espero que você me perdoe um dia. — continuou ele, sua voz estava embargada e entendia cada vez menos, mas queria muito abraçar o rapaz e dizer que estava tudo bem. Seja lá o que ele tivesse feito, estava tudo bem. — Espero também poder me perdoar por ter te colocado, ainda que sem querer, nesta situação. — completou e voltou-se para o tal de Ren. — Pronto, Kobayashi, aqui estou eu desarmado e rendido.
— Tentador demais... Está bem, pequeno . Você venceu, vamos te levar. — falou Ren e ordenou que o outro homem rendesse . — Sinto muito, senhorita Mori, outro dia conversaremos melhor.

Ren soltou , que caiu ao chão e rapidamente levantou-se. O pai dela, vendo o que a filha faria a seguir, logo correu para segurá-la. berrou por , para ter o rapaz de volta. Porém, tudo que ouviu de volta foi:

— Fala com o ! Avisa para o !

E essas foram as últimas palavras de que ouviu.

Capítulo 7 – O cativeiro

Os olhos dele foram se abrindo devagar e logo o despertaram para a dor que vinha da lateral de seu corpo. Certamente havia sido atingido por um chute ou coisa pior naquela região. A baixa iluminação e umidade do local revelaram algo que ele já desconfiava: ele fora levado para um galpão no porto de Tóquio. Riu com a ingenuidade de seus sequestradores, levar ele para um lugar que ele conhece tão bem é muita burrice ou muita inteligência. Inteligente porque, talvez, seria o último lugar onde procurariam por ele.

— Já acordou, Bela Adormecida?! — zombou Ren enquanto afiava uma adaga no amolador que tinha em mãos. levantou o olhar e viu que estava cercado por mais quatro homens, todos eles desconhecidos.
— Você continua muito engraçado, Ren. Parecem os velhos tempos, em que eu te surrava todo dia. Lembra disso? — rebateu a zombaria e sorriu sarcástico. Ren ameaçou atingir com a adaga. esperou pelo golpe, mas Ren foi interrompido por uma mão em seus ombros.
— Não desperdice seu tempo, Ren. — a voz grave e aveludada do homem, da mesma estatura que e tão bonito quanto, invadiu o local. o encarou e sua feição mudou de imediato para uma cara de raiva.
— Sabia que estava por trás disso, Matsumoto! — falou , com desprezo. — O que pretendia sequestrando a ? — perguntou ele. Katsuo Matsumoto era o presidente e único dono do grupo Matsumoto. Um homem que não media esforços para ter o que queria. Passava por cima de quem quer que fosse para alcançar seus objetivos.
— Não vou contar para você, . Só saiba que você estragou o meu negócio de ouro e isso eu não perdoarei.
— Que bom que eu fiquei do lado de fora aguardando por ela, então. Assim eu pude impedir o sequestro dela. — sorriu debochado e completou: — Mas saiba, Matsumoto, que se você encostasse um só dedo na , você certamente não estaria vivo agora para se gabar.
, sempre provocativo. Deveria ser igual ao seu irmão: um covarde. — perde o controle e se debate na cadeira onde estava amarrado. O outro ri. — Não gosta que fale do seu irmãozinho?
— Lave sua maldita boca para falar do meu irmão! Seu bastardo! — Matsumoto é um velho conhecido da família . Conhecido até demais para o gosto de .
— Você é patético, pequeno . — debochou Ren, rindo da irritação de . — Chefe, posso fazer aquilo que eu queria? Ter finalmente a minha vingança? Por favor, prometo não sujar nada. — Ren sorriu e sua expressão era quase doentia, macabra. O chefe sorriu de canto.
— Pelo contrário, Ren, pode fazer a sujeira que achar necessário.

Esta frase foi o suficiente para fazer Ren soltar uma gargalhada maquiavélica e caminhar em direção a . O rapaz engoliu em seco com a aproximação do inimigo, esperando pelo pior. O brilho doentio que havia nos olhos de Ren naquele momento fez o corpo de paralisar.

[...]

Já era a quinta vez que tentava ligar para , mas ele não atendia. Amaldiçoou o rapaz por isso. Onde será que ele estava que não poderia atender a uma simples ligação? A vida de está em risco e o único que pode ajudar está incomunicável.
O pai de caminhava de um lado para outro na sala, estava pensativo. Quem será que queria sequestrar sua filha? Quem era o rapaz que se entregou no lugar dela para salvar sua vida? E por que ele tinha uma arma? Com que tipo de gente sua filha vem se envolvendo?

— Senhor ?! Finalmente me atendeu! — vibrou , o que atraiu a atenção de seus pais, que estavam pensativos em apreensão.
Quem está me ligando tão insistentemente em pleno domingo? — falou do outro lado da linha com sua grave e sedutora voz.
— Me desculpe, senhor , me chamo Mori, sou a... — ela ia dizer "namorada", porém, ninguém além dela e sabiam disso, por enquanto. — Sou amiga do seu irmão, o .
Ah, então você é a senhorita Mori? fez uma pergunta retórica e completou: — Aconteceu algo? Me parece aflita. — o tom de voz do homem mudou totalmente.
— Aconteceu sim! O foi sequestrado! — A frase atingiu como um tsunami, levando tudo de bom que havia no rapaz. Sentiu o corpo gelar de preocupação e arder de raiva, tudo ao mesmo tempo. O seu irmãozinho sequestrado? Mas quem teria tal audácia?!
Conte-me com detalhes, por favor. O que aconteceu exatamente? disse e contou exatamente como tudo havia acontecido. — Então, o meu irmão chamou um dos homens pelo nome? Qual o nome mesmo?
— Ren Kobayashi. — repetiu. Agora ela entendeu o fato de repetir com tanta ênfase o nome do Ren e pedir para que ela falasse com . Esta informação devia ser importante. E, de fato, era.
Maldito! — resmungou . — , você está em casa agora?
— Sim, estou na casa dos meus pais.
Ótimo. Mande reforçar a segurança. Estou indo para aí. — disse ele e desligou.

não entendeu bem, mas acatou o pedido do cunhado. Mandou reforçar a segurança, mas avisou para deixarem entrar quando ele chegasse e não demorou muito para isso acontecer. Já estava anoitecendo quando o rapaz chegou.

— Olá, com licença. — disse ao entrar. era um ano e meio mais velho que , tão bonito quanto o irmão, porém mais sério. Sua presença deixava o ambiente mais elegante, de fato. Ele era extremamente educado. — Estão todos bem? Sinto muito pelo ocorrido.
— Estamos sim, senhor , obrigada pela preocupação. — respondeu e convidou o rapaz para sentar-se.
— Chame-me apenas de , por favor. Afinal, suponho que tenha um relacionamento com meu irmão. Faz parte da família, agora. — ele sorriu calmamente e corou. Não queria que isso fosse revelado aos pais assim tão de repente.
— Relacionamento? Com um ? ?! — bradou o pai dela, demonstrando a irritação que só crescia dentro de si.
— Depois a explicará, não é, filha? — a mãe da disse e a moça concordou com um aceno de cabeça, extremamente sem jeito. A família não era uma das famílias com quem seu pai gostaria que ela se envolvesse. notou que havia falado demais e mudou logo de assunto.
, meu irmão disse mais alguma coisa que possa ajudar na investigação? Tenho uma equipe cuidando disso e qualquer informação ajudará. — perguntou o rapaz, mudando de assunto.
— Somente sobre o tal de Ren Kobayashi. Ele disse que sabia quem ele era e para quem trabalhava. Ah, ele mencionou algo sobre o Ren estar invadindo a área que era dele. Isso eu não entendi bem... — foi falando tudo de que se lembrava. Estava tão nervosa naquela hora que se lembrava de pouca coisa, mas o suficiente para saber o mandante de tudo isso.
— Eu sei quem e para onde levaram o . — falou e todos prestaram atenção nele naquele momento. — Foi o presidente do grupo Matsumoto, o Katsuo.
— Mas isso é um absurdo!! — gritou o sr. Mori, indignado.
— O Katsuo?! O mesmo homem desprezível com quem o senhor queria que eu me casasse, meu pai?! — agora foi a vez de bradar irritada.
— Ele não é o candidato ideal para um casamento. — falou , quase rindo. Para ele, era cômico alguém em sã consciência achar que Katsuo Matsumoto era o candidato ideal para um matrimônio. — Receio que o senhor não o conheça assim tão bem, senhor Mori. O Katsuo é extremamente desprezível, como a bem descreveu. Acredite, eu o conheço muito bem para afirmar tudo isso. — revelou . O senhor Mori não lhe disse mais nada, apenas encarou, boquiaberto, o mais velho.
— Para onde este verme levou o ? — disse, quebrando o silêncio. a encarou.
— Certamente para algum galpão do porto da cidade. Ele gosta de galpões abandonados. — bem na hora, o celular do rapaz vibra, revelando a mensagem que confirmava a localização atual do irmão. — Confirmado, está no galpão sete do porto da cidade. Minha equipe está se deslocando para lá e eu também já vou indo. Vou resgatar meu irmão, , não se preocupe. Te mantenho informada. — falou ele e levantou-se. fez o mesmo.
— Vou com você. — falou a moça. virou-se para ela.
— É melhor não, . É perigoso.
— Isso não está em discussão, . Eu vou e não se fala nisso. — ela o olhava com firmeza e sentiu um arrepio estranho em sua nuca, arrepio semelhante ao dia em que conheceu a moça há dez anos. Ela era muito diferente do que é hoje, isso ele não poderia negar.
— Filha, é melhor você ficar. Pode ser perigoso. — suplicou a mãe da moça.
— Me perdoe, mamãe. Não posso ficar aqui enquanto o está nas mãos desses vermes. Não mesmo! — encarava a moça com orgulho no olhar. O rapaz sorriu e disse:
— Agora entendo o que encantou meu irmão. — corou com a fala dele. — Está bem, . Mas você ficará no carro, OK?
— Tudo bem, . Obrigada!

Os pais dela ainda tentaram convencer a moça a não ir, mas ela acabou indo com resgatar . No caminho até o porto, questionou sobre como e sabiam tanto sobre o Matsumoto e suas canalhices e o que exatamente eles tinham a ver com tudo isso.

— Acho melhor o meu irmão lhe explicar isso, .

disse apenas isso. E tinha muito o que explicar, de fato. Mas agora era o momento de salvar o rapaz. Eles não sabiam, mas a vida de estava realmente em perigo.

Capítulo 8 – O resgate

O porto de Tóquio é um local bem assustador à noite, sem toda a movimentação que é durante o dia, bem propício para a realização de negócios proibidos ou qualquer coisa que o valha. O carro que levava e estacionou há alguns metros do porto e ali mesmo eles desceram. sacou uma arma da cintura e checou se haviam balas nela. Mas é claro que havia, jamais deixava sua arma sem munição. estava começando a entender quais eram os reais negócios da família e seu medo pela vida de cresceu ainda mais. Naquele momento, ignorou toda a sua ética e seguiu aquilo que seu coração mandava. E era uma ordem simples: salvar .

— Vamos entrar por aqui... — um homem forte e também armado dizia enquanto apontava para um mapa que parecia ser do porto. — Vocês entrarão por aqui. Qualquer coisa, falem no comunicador. — como um TOC, todos os presentes checaram o comunicador que usavam no ouvido. — Senhor . — falou ele, dirigindo-se ao homem que estava à frente de Li. — Kokomi irá com o senhor. — falou e olhou de esguelha para a jovem mulher postada atrás do homem que lhe falava.
— Tisc. — respondeu resmungando. — Não há necessidade. — disse e guardou a arma na cintura, após travá-la.
— Mas senhor , o senhor pode precisar de...
— Eu disse que não há necessidade. — repetiu ele com um pouco mais de grosseria e completou: — Qual parte desta frase você não entendeu? — era um rapaz muito calmo, mas odiava que insistissem em algo que ele já tinha dado um um veredicto. Ele andou em direção ao porto, mas sentiu uma presença atrás dele. — Aonde você está indo? — falou ele, olhando para que caminhava atrás dele. — Volte para o carro.
— Eu não ficarei no carro, . Não com o correndo perigo.
, se você for, você irá correr perigo. E se eu deixar isso acontecer, eu correrei perigo, pois o meu irmão irá me matar. — explicou ele. bateu o pé, mas voltou para o carro. Um dos homens da equipe de ficou lá para proteger , caso fossem atacados.

estava nervoso. Não era a primeira vez que saía em missão para salvar seu irmão, mas, por algum motivo, desta vez ele estava mais nervoso que das outras vezes. O último encontro de e Katsuo havia sido marcado por muitas ameaças de morte de ambos os lados. Sem contar o fato de Ren Kobayashi ser inimigo declarado do mais novo dos . Se Ren estava envolvido nesse sequestro, sabia que era questão de tempo para que a vida de seu irmão findasse. Ou isso ou uma sessão de tortura por parte de Ren, que adorava torturar as pessoas. No sentido literal da frase.
O mais velho andava sozinho pela escuridão do porto à procura do galpão sete, onde o mais novo estava preso. Conhecia bem o local e não necessitava de iluminação para andar por ali. De repente, ele ouve um barulho. Parou de imediato e sacou sua arma apontando-a para a escuridão atrás de si. Tirou a trava da peça e preparou-se para atirar.

— Apareça! — ordenou ele, então a figura dela surgiu de trás de um dos contêineres que ali existiam. — ! Por Deus, eu disse para você ficar no carro! Quase que eu atiro em você. — bradou ele, abaixando a arma e voltando a travá-la.
— Você sabia que eu não faria isso, . — disse a moça e andou na frente dele. Logo a puxou para trás de si.
— Ao menos fique atrás de mim, por favor. — ordenou. — Você é teimosa igual ao meu irmão.
— Pare de resmungar, . precisa de nós. — revirou o olhar e eles voltaram a andar. De repente, outro barulho estranho. Dessa vez, viu o que era. Ou melhor, quem eram.

[...]

Alguns minutos antes...

sentia dores em partes do corpo que nem sabia ser possível sentir. Até sua orelha doía. Havia levado diversos golpes na cabeça, tórax, barriga, pernas... sem contar nos golpes de adaga que Ren desferiu nele por pura maldade.
O jovem despertou de mais um desmaio após sentir tanta dor. Dores alucinantes. Ren gargalhava ao ver a cena de gemendo de dor e desmaiando em seguida. Foi a vingança que ele desejou por anos e finalmente teve. Seu chefe, Katsuo Matsumoto, assistia a tudo da parte alta do galpão, onde havia um escritório.

— Não cansou de apanhar, pequeno ? — zombou Ren, rindo e voltando a amolar sua adaga de estimação que agora estava suja com o sangue de . Os olhos de Ren exibiam um brilho extremamente satisfeito pelo sofrimento do mais novo.
— E você não cansou de ser um pé no saco? — devolveu , cuspindo um pouco de sangue. Ele tinha várias feridas abertas pelo corpo, mas uma em especial, na lateral de sua barriga, estava sangrando mais e preocupando o rapaz. Tinha certeza de que estava perdendo muito sangue e que, se desmaiasse novamente, poderia não acordar mais.
— Você é ridículo, . Bom, vamos voltar ao nosso trabalho?! — disse Ren e saltitou de maneira caricata, como um palhaço se exibindo para o público, quando um barulho o interrompeu. — O que foi isso? — a equipe de invadiu o galpão e começou um intenso tiroteio.

sabia que era um alvo fácil ali, parado e amarrado. Juntou forças de onde não sabia que tinha e saltou com força no chão, quebrando a cadeira de madeira onde estava amarrado. Gemeu de dor e deixou cair poucas lágrimas de arrependimento pelo ato. Passou as mãos amarradas por debaixo das pernas, o que o deixou livre para andar. Caminhou poucos metros em direção ao fundo do galpão onde sabia ter uma saída, mas logo caiu no chão.

— Que droga, , levanta! — reclamou consigo mesmo e ofegou. A dor alucinante havia voltado com mais força, sentiu sua cabeça girar e a visão escurecer. Antes que desmaiasse, ouviu um grito familiar. — ? — sussurrou para si mesmo e levantou a cabeça. Viu falar algo para e entregar algo para a moça. Depois viu seu irmão correr em sua direção e deslizar, agachando ao seu lado. — , o que a faz aqui? — foi a primeira coisa que perguntou para o irmão.
— Ela é igualzinha a você, . Não pude fazer nada. Ela está bem, se preocupe com você agora, vem. — segurou o irmão pelo ombro e carregou o rapaz. levantou a cabeça e arregalou o olhar, recobrando sua visão, ao ver que Ren surgia na frente dos dois, apontando uma arma.
— Dois Asakawas?! Que dia de sorte o meu! Vou matar os dois de uma vez. Quem quer morrer primeiro? O irmão salvador ou o moribundo que já tá quase lá? — Ren ria, enquanto debochava dos irmãos.
— Ei! — gritou e sentiu seu corpo inteiro tremer. — Deixa eles em paz, seu cretino! — só agora pôde ver qual era o objeto que havia dado a . Virou o olhar furioso para o mais velho.
Você deu uma arma para ela??!! !!! — repreendeu .
— Ela sabe se defender, .
— Sabe se def... eu vou te matar, ! — foi a única coisa que pôde falar antes de ver Ren virando-se para a namorada e apontando a arma para ela. — Não!! — gritou , assustado. Poucas foram as vezes em que ele sentiu medo na vida. Aquele instante era um desses momentos.
! — ao mesmo tempo, e gritaram. Eles ouviram um tiro vindo de perto e o medo cresceu em ambos. correu para ver o que havia acontecido, atrás dele, correndo com muita dificuldade. A distância entre eles e Ren era consideravelmente grande.
— Vadia! — Ren xingou e pôs a mão na perna, no lugar onde fora atingido por . A moça tremia, não sabia se era de medo ou de raiva. Era a primeira vez que ela atirava na vida.
— Eu fico com isso, Kobayashi. — pegou a arma de Ren e foi ao encontro de , que ainda mantinha a arma apontada para a frente.
! — ao ouvir a voz de , a moça pareceu despertar de seu transe e abaixou a arma. pegou a peça de volta e guardou na cintura. — Você está bem? — perguntou segurando os braços dela.
... ah, ... — ela começou a chorar e enterrou a cabeça no peito dele, que afagou seus cabelos com uma das mãos.
— Temos que sair agora. — alertou .

Os três saíram do galpão sete do porto, comandando, seguido pelo irmão e pela cunhada, que caminhava grudada no braço do namorado, com muito medo e preocupação.
Logo os três estavam no carro que trouxe e . foi dirigindo de volta, e no banco de trás. Ele tinha tanto a explicar para a moça, não sabia por onde começar. Pelo começo, é claro! Mas qual começo ele escolheria? O começo como presidente do grupo e, consequentemente, assumindo tudo que lhe diz respeito? Ou o começo dos negócios da família que envolvia muito além do ramo imobiliário? Esta dúvida pairou nos pensamentos de por segundos, tempo em que conseguiu controlar o choro e despejou inúmeras perguntas em cima do rapaz.
Aquela estava sendo uma longa noite e não parecia que acabaria tão cedo.

Capítulo 9 – A revelação

O caminho entre o porto de Tóquio e a casa dos era relativamente curto e poderia ser feito em menos de trinta minutos. Porém, naquela noite especificamente, teve a impressão de que eles estavam há horas dentro daquele carro. não parou de perguntar desde que parou de chorar. resolveu, finalmente, contar tudo, escolhendo o começo mais antigo da história.

— Está bem, . Vou te contar tudo. Eu espero que você não me odeie tanto no fim... — falou ele, lamentando-se. Ele de fato tinha muito medo de ela não querer mais olhar na cara dele. E ele não a culparia se o fizesse.

O rapaz respirou fundo e começou a contar.

A família sempre foi poderosa em Tóquio. não sabe precisar como e quando começou tal poder, mas sabe que é antigo, em tempos antes mesmo de seu tataravô assumir os negócios. Desde criança, foi educado para algum dia assumir o papel de presidente do grupo de sua família, mesmo sendo o herdeiro deste posto por ser o mais velho, esse era o sistema hierárquico estabelecido pela família a gerações. Obviamente, seu pai lhe ensinou tudo sobre os negócios. Quando completou treze anos, foi levado pelo seu pai, juntamente com seu irmão , até um dos locais favoritos de seu pai: o clube de tiro da cidade. Para o pai de e era essencial que os filhos soubessem atirar, para que os negócios não fossem prejudicados...
A família é mandante de uma grande e poderosa organização chamada Seven, composta por inúmeros grupos de empresas que comandam o mundo corporativo de toda Tóquio. Mas para que haveria necessidade de dois adolescentes saberem atirar? Bem, a Seven, que é comandada pela família , que tem este posto por ser a mais antiga, respeitada e rica dentre seus membros, também comanda o crime na cidade. Seria mais uma espécie de controle de todo tipo de negócio da região, incluindo os criminosos. A filosofia era simples: não deixar que o crime de Tóquio interferisse nos negócios da cidade. Caso ocorresse qualquer tipo de interferência, a Seven daria um jeito de controlar o problema. Daí a necessidade de todos saberem atirar, no mínimo.
nunca se importou com o andamento dos negócios da Seven. Achava tudo extremamente exagerado. Somente quando assumiu a presidência do grupo de sua família, há pouco mais de um ano, que ele percebeu a grandeza e importância de sua família para a gestão empresarial e para, literalmente, todos os negócios da cidade e região. Só então ele percebeu o motivo de seu pai ser sempre tão rígido com ele e com . Começou a dar mais valor ao que teve durante toda vida e mudou seu pensamento a respeito do pai.
Ao fim da explicação, não sabia se estava mais confusa ou com mais medo dele. Ela mantinha uma expressão estática que misturava ambos os sentimentos.

? — lhe chamou a atenção e a moça saiu de seu transe momentâneo. Olhou para o namorado, ofegante, e proferiu de uma só vez:
, por que não me contou antes? Por Deus, isso é muito perigoso! , eu te odeio por não compartilhar isso comigo! Achei que fôssemos namorados, companheiros de vida. Estou muito chateada com você, Takeshi! Minha vontade era de socar essa sua carinha linda, ahhh que raiva de você! Eu deveria terminar tudo e nunca mais olhar na sua cara, ! Mas a sua sorte é que eu te amo muito e não saberia o que fazer sem você em minha vida. Sua sorte! E sem contar o fato que eu não poderia ficar longe de você sabendo de toda essa história. E se o Ren for atrás de você para se vingar? E se te sequestrarem de novo? E se tentarem te matar? Ah, , eu...

Desde que ela começou a falar, manteve um sorriso no rosto que foi crescendo conforme ela desabafava toda sua raiva e apreensão. Agora, o sorriso dele expunha seus dentes e a expressão em seu rosto era de alguém que havia acabado de ouvir uma piada muito engraçada. , ao notar a expressão que ele fazia, parou imediatamente de falar

— Que tipo de expressão é essa, ? — disse ela e deu um forte tapa no ombro do rapaz, que gemeu de dor.
— Isso dói, ! Desculpa, hahahaha. — não conseguia parar de rir. Ele bem que tentou, mas não conseguia. notou também que ria enquanto dirigia o carro.
— Para de rir você também, ! Ah, que droga vocês dois! Idiotas! — reclamou ela e ficou emburrada, cruzando os braços.
— Isso é maravilhoso! — falou e arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— O que é maravilhoso, ? — disse ela, séria.
— O fato maravilhoso é você ainda continuar linda mesmo estando com raiva. — ele disse e segurou o rosto dela, que corou na hora. sorriu de leve e ficou admirando a moça.
— Elogios não farão a minha raiva cessar, . E, além do mais, nem dá para ver meu rosto direito nessa escuridão do carro. Está exagerando só para me fazer esquecer da raiva que sinto. — falou ela e, neste momento, acendeu a luz do carro. virou seu olhar para o mais velho e o fuzilou. riu da deixa do irmão e fez um sinal de “ok”, sem a ver. — Desliga essa luz, . Agora! — ordenou a moça, falando entredentes. obedeceu, mas continuou rindo.
— Ei. — apertou de leve o rosto dela, fazendo a moça virar para ele. — Eu te amo. Obrigado por não desistir de mim e ter ido me salvar. — ele disse do fundo do coração. sentiu seu coração se encher de amor e amoleceu, relaxando o corpo, ainda que de leve.
— Jamais desistiria. — falou ela, sorrindo. — Eu te amo, . — observou a cena dos dois se beijando no banco de trás do carro e sorriu feliz por saber que seu irmão finalmente encontrou alguém que entendesse ele e que acalmasse a alma do rapaz.

estacionou o carro na garagem da mansão dos . Antes de sair da casa da , ele pediu para um de seus empregados levar os pais da moça até a mansão dele, lá estariam mais seguros. Não que ele não confiasse na capacidade da segurança dos Mori, mas ele sabia que ninguém seria capaz de fazer mal aos Mori dentro da mansão dos . A fama da família era conhecida por todo o país, ninguém seria capaz de tal audácia. Bem, sabia de alguém que era capaz de tal proeza e este alguém era o mesmo responsável pelos ferimentos de seu irmão.
Ao adentrar a mansão dos , percebeu o quão poderosos eles eram. Era maior que uma mansão comum. Ridiculamente grande e luxuosa. Na primeira vez que entrou lá, na noite de Natal em que passou com , ela não havia notado tal grandeza. Agora, com as informações adicionais sobre a família de seu namorado, ela conseguia dimensionar todo esse poder. ajudou a entrar na casa, com o apoio de , que fez várias gozações com o irmão neste meio tempo. nunca tinha visto fazer uma piada sequer, mas notou que o rapaz estava feliz de alguma forma, só não sabia o motivo. Talvez alívio por ter o irmão são e salvo de novo.
A moça ajudou a deitar-se numa maca e viu o rapaz ser levado por um longo corredor, seu olhar se perdeu na escuridão do local. disse que os pais dela estavam lá e a moça foi ao encontro deles. Ficaram imensamente felizes ao ver que a filha estava a salva e por também. O senhor Mori pediu inúmeras desculpas à filha pelo acordo de casamento com Matsumoto. Por fazer parte do mundo corporativo, o sr. Mori sabia da fama de Matsumoto, porém imaginava ser algo parecido com os métodos usados pelos . Nunca imaginou ser nada além disso. Sequestro? Tortura? Mortes? Jamais passou pela mente do homem que tais coisas fossem cometidas às ordens de Katsuo Matsumoto, o pretendente a futuro marido de sua única filha. O homem se odiou por um dia ter cogitado tal possibilidade e, ainda mais, por quase ter concretizado este desejo.
Depois de algumas horas, já era madrugada, quando entrou na sala onde os Mori estavam. Os mais velhos dormiam no confortável sofá, enquanto ainda estava acordada. Não conseguiu nem ao menos cochilar sem saber notícias de . E foi justamente isso que foi fazer ali. O rapaz acompanhou até o quarto onde estava. Ao chegar lá, sentiu sua garganta fechar e sabia que choraria, mas se controlou ao máximo. Viu deitado na cama, com tubos de ventilação presos ao nariz, uma agulha cravada no braço esquerdo que era ligada a um fino tubo por onde passava um líquido transparente. supôs ser algum remédio. Mesmo sabendo que o rapaz é forte e que logo sairia dali, não conseguia evitar ficar preocupada com ele. Sentiu algo parecido com angústia de perdê-lo. Não poderia perder . Não, não o perderia.

[...]

Não demorou muito para acordar, após algumas horas de cirurgia e mais algumas horas de pós-cirurgia. A primeira coisa que seus olhos viram foi o teto branco do quarto onde estava. Sentiu que estava conectado a aparelhos e que tinha um tubo de oxigênio em seu nariz. Supôs que havia acordado após alguma cirurgia. Ele estava acostumado com tais sensações. Afinal, não era a primeira vez que levava um tiro ou uma facada de algum desafeto. Mas era a primeira vez que o rapaz acordava e via em sua companhia alguém que não fosse sua mãe ou irmão. estava sentada na poltrona ao lado da cama de . O rapaz riu, pois a moça dormia numa posição não muito confortável.

— Isso vai doer depois... — comentou, em voz alta, para si mesmo. ouviu a porta destrancar, se abrir e por ela entrou seu irmão.
— Já está acordado? Que bom, meu irmão! — comentou e fechou a porta atrás de si, caminhando até a cama do irmão. — Como se sente?
— Moído, como das outras vezes. — disse , referindo-se às outras vezes em que ele acordou após uma cirurgia por um ferimento de bala ou faca.
— Ela não saiu do seu lado desde que eu a trouxe após você vir para cá. — comentou , ambos olhavam para que ainda dormia profundamente. — Ela realmente te ama, . Fico feliz por vocês. — disse o mais velho.
— E eu a amo mais, . Sinto que ela é a pessoa para compartilhar o resto de minha vida. — o olhar de não saiu de cima da moça. agora encarava o irmão e via os olhos do mais novo brilharem ao falar e olhar a moça.
— Quando será o casamento? Quero ser o padrinho. — disse , o que fez o encarar.
— Você me deu uma ideia excepcional, . — disse com um olhar de quem aprontaria algo em breve.
— O que pretende fazer, ? — perguntou preocupado.
— Pedir a em casamento, é óbvio.

sorriu. Nunca na vida tinha visto o irmão tão feliz e animado com algo. Quer dizer, a não ser naquele dia em que ele convenceu a praticamente trair seu pai, mas isso é outra história.
Torcia para que fosse a mulher que mostraria ao irmão a pessoa incrível que ele sempre foi. E ele sabia que ela era essa mulher.





Continua...



Nota da autora: Rolou foi coisa hein? 👀
Será que esse pp é um bandido? Um mafioso? Me digam suas teorias (já sei que tem algumas rolando...)
Beijinhos 💕



Outras Fanfics:
Little Sister
In
New FBI


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