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Finalizada em: 02/06/2021

Capítulo único.

I’ll be there when the day comes...
(Eu estarei lá quando o dia chegar...)


O dia estava calmo, assim como o lugar em que estava naquele momento. A claridade e o pouco barulho que inundava o local aberto em que ele ainda se mantinha era perceptível, mas somente para ele, afinal, era o único que estava ali, admirando tudo ao longe. O rapaz nunca se questionou de ser e estar sozinho em todas as missões, gostava de seu silêncio e gostava de sempre observar. Isso era uma das coisas que o fazia ser um bom anjo da guarda.
Sim, era um anjo da guarda, mas, ao contrário de todos os outros, havia tempos em que ele estava em apenas uma missão. Não porque não lhe era dada outra, mas sim porque aquela em especial, o fazia não querer terminá-la. Ele não sabia dizer ao certo quando é que havia sido posto para proteger a moça dos cabelos e pesados, mas soube no exato momento em que a olhou de perto que seria sua missão. A única.
A missão que ele não esqueceria.
Claro que se espantou de início quando olhou nos olhos profundos de ), mesmo ela não podendo vê-lo, sentiu como se tivesse levado um soco na boca do estômago, mas não tão forte como a sensação de que deveria estar ao lado dela em qualquer que fosse o caso, em qualquer situação. Pensou tanto e mesmo chegando a conclusão de que tudo aquilo fazia parte de ser seu protetor, ainda não se convencia, se não claro que sentiria tudo aquilo nas missões anteriores.
Mas era diferente com ela. Ele conseguia perceber.
Costumava estar ao lado de praticamente todo o tempo. Quando a mulher acordava, quando saía de seu apartamento apressada para estar em seu trabalho, quando andava despreocupada pelas ruas de Seul e, principalmente, quando precisava de qualquer ajuda. nunca se cansava de observar cada detalhe da rotina diária da mulher que sempre protegia e cada vez era como se fosse novo e aquilo o fascinava.
Não sabia ao certo como se sentia sobre ela. era uma pessoa incrível, era tão espontânea, uma pessoa gentil e de boa índole. Tudo o que ela fazia era em prol do bem de outras pessoas e para melhorar o dia de qualquer uma que fosse. Ela parecia como um sol em meio a toda a escuridão. Era incrível e ele poderia até arriscar ao dizer que sentia, mesmo sem poder tocá-la ou conhecê-la bem.
Claro que isso o deixava um pouco reflexivo, afinal, como seria poder falar com ? Ou como seria se ela pudesse compartilhar seus pensamentos e planos com ele? Ele não fazia a menor ideia, mas pensar em tudo aquilo era como sentir uma rajada de ar fresco de encontro a si. Era uma sensação muito incrível.
sabia que aquilo não daria certo. Ele não podia se aproximar dela daquela forma, muito menos estar tão vidrado na mulher daquele jeito. O rapaz sabia de tudo e o que mais lhe fascinava eram seus sonhos. Ah, os sonhos de eram tão brilhantes, eram como um ímã o puxando e trazendo um sentimento bom. Um sentimento tão leve... Quase como se realmente pudesse tocá-los.
E aquilo só o fazia se lembrar da sensação que tinha toda vez que se encontrava em um deles, quase conseguindo conversar com ela, quase conseguindo tocá-la... Era a única forma que ele conseguia tornar tudo aquilo o mais real possível, mesmo não sendo.

tinha os olhos fechados, naquele meio termo entre querer dormir mais um pouco e logo acordar para começar seu dia. Conseguia ouvir de forma nítida o canto dos pássaros do outro lado da janela e o pouco do sol que adentrava pela mesma esquentar o colchão aos poucos. Ela adorava a sensação que todas aquelas manhãs lhe passavam, ainda mais ao saber que havia descansado da forma que queria.
Com um pouco mais de preguiça, virou seu corpo para cima já que estava de bruços e em seguida para o lado, deixando um sorrisinho preguiçoso escapar de seus lábios antes de abrir os olhos, e ao fazer isso, conseguiu avistar de primeira o rosto embaçado se tornando nítido cada vez mais.
Era ele.
– Ah, você de novo? – Perguntou, soltando uma risadinha fraca. O rapaz que sempre aparecia em seus sonhos estava ali novamente, deitado ao seu lado, olhando-a de forma calma.
Ele sorriu com a pergunta dela e continuou ali.
– Gosto de te observar dormir. Você parece sonhar com muitas coisas. – Disse, ainda com o olhar sobre ela. se sentia extasiada com os olhos ingênuos do rapaz sobre si. – Adoraria saber sobre, na verdade.
– Eu tenho sonhos bobos demais, nada muito importante. – Colocou uma das mãos no rosto, tentando esconder sua vergonha. O rapaz sorriu com o gesto da mulher e esticou sua mão em direção à ela, quase a tocando.
– Nada é tão bobo a ponto de não ser importante. Seus sonhos dizem muito sobre você.
ergueu seu olhar com as palavras do rapaz.
– Você acha? – Perguntou interessada. – O que você acha que querem dizer?
– Tenho certeza que se eu pudesse vê-los, diria que são exatamente como você. Genuínos, verdadeiros e puros. – Listou enquanto o olhava curiosa. – O que foi?
– Você fala como se realmente me conhecesse.
– E o que te faz pensar que não?
fez uma careta, sorrindo em seguida.
– Eu sequer te conheço.
– Não acho que isso seja importante agora. Só saiba que sempre vou estar por aqui – deu de ombros se remexendo na cama, fazendo assim seus cabelos bagunçarem. – Sempre que puder.
Ao terminar de respondê-la, sorriu de canto observando o olhar da mulher sobre si. franziu o cenho.
– Você realmente existe?
– Em seus sonhos, sim. – Riu fraco, deixando os olhos bem fechadinhos. – Mas em sua realidade, não.
– Isso é uma pena – fez um biquinho que naquele momento achou encantador. – Seria interessante conhecê-lo ou ao menos saber que você existe em meu mundo.
Ele concordou com a mulher, virando seu corpo para cima, assim como ela. Os dois encararam o teto branco do quarto e apreciaram o pequeno silêncio que se instalou.
O anjo queria muito que aquilo fosse possível para se mostrar realmente para ela, mas sabia bem que não funcionava daquele jeito. Com isso, se limitou a suspirar e a fechar seus olhos novamente.
– Seria sim, muito. Eu adoraria conhecer você.


respirou fundo ao se lembrar.
O único problema de tudo aquilo e a única coisa que ele sabia que não poderia acontecer, era se apegar tanto a ela como estava acontecendo. Todos os pensamentos confusos, aquilo não era certo. Ele não podia. era apenas um anjo e sabia muito bem que não poderia ter nenhum outro sentimento se não fosse o de proteção por ela.
Ele tentava colocar em sua cabeça que estava ali para protegê-la, para observá-la e evitar que qualquer mal se aproximasse da mulher, mas não sabia dizer o que é que estava acontecendo. O porquê de se sentir daquela forma, mesmo não conseguindo explicar ao certo o que sentia.
Até porque, bom, como um anjo, não podia se apaixonar. Era quase como se aquele sentimento fosse totalmente bloqueado e excluído por seu Senhor justamente para que não acontecesse o que ele estava pensando, mas por que não parecia estar funcionando daquela forma? Na verdade, parecia não estar funcionando e isso o preocupava. Preocupava porque , apesar de não entender muito bem, sabia que se envolver com algum mortal poderia lhe custar sua vida. Poderia lhe custar tudo.
Mas, por que ele sentia que talvez estivesse disposto a arriscar para estar próximo a ela?

I see new worlds, these visions, they burn inside of me
(Eu vejo novos mundos, essas visões queimam dentro de mim...)
Just out of touch, but still close enough to be part of me (part of me)
(Fora do meu alcance, mas ainda perto o suficiente pra fazer parte de mim (parte de mim))



Soltou um longo suspiro, colocando uma das mãos apoiando seu queixo e continuou por observar andar de forma calma em direção ao outro cômodo de sua casa. Naquele dia, a mulher estava de folga. Não que isso importasse muito para ela, até porque, mesmo assim, ela insistia em retornar ao trabalho. Ela amava o que fazia, amava dar toda a atenção que podia para os pequenos que corriam em direção a ela na escola em que trabalhava. Não era como um trabalho, na verdade. Para a mulher, era muito mais do que prazeroso.
resolveu por se aproximar, como em um vulto e no instante seguinte já estava encostado à parede da cozinha, a observando preparar algo para comer. Notou a mulher quase na ponta dos pés, estendendo suas mãos para alcançar o pote de pasta de amendoim. Cruzou os braços e soltou uma pequena risada ao ver a cena à sua frente. Ele sabia que ela não era uma das pessoas mais equilibradas e sempre acabava sendo um pouco desastrada, com isso se aproximou quase apoiando suas mãos nas costas dela. Como se pudesse realmente fazer aquilo e, mesmo se tentasse, suas mãos passariam direto pelo corpo da mulher.
E como imaginado, o corpo da mulher deu uma pequena balançada, a levando para trás. Se não estivesse ali, ela certamente levaria uma queda daquelas, mas a pequena movimentação da mão do rapaz fez o corpo da mulher se estabilizar de forma imperceptível.
Foi o que ele havia pensado.
A mulher olhou rapidamente para os lados, tentando entender o que havia acontecido e balançou sua cabeça de forma negativa, rindo baixo da situação, como sempre fazia ao perceber o quanto estava sendo desastrada.
observou a forma que ela reagia, mais uma vez e olhou-a admirado, como todas as outras vezes. Ele não costumava estar tão perto dela e até mesmo evitava, mas as poucas vezes o deixavam extasiado. Aproveitou para se afastar um pouco de onde estava para observá-la de longe, não era tão bom que ficasse próximo do jeito em que estava. Sentia que quanto mais tentava se aproximar, mais fraco ficava. Ele deveria mesmo evitar. Ao vê-la retornar para seu quarto, deixou um suspiro pesado tomar conta de seu corpo. Não que estivesse cansado daquilo, pelo contrário, mas aquele momento o deixava nervoso.
Afinal, o que aconteceria naquela hora, seria a única forma de estar tão próximo dela.
Para , era como alcançar a felicidade aos poucos. O rapaz acreditava que aparecer em seus sonhos era a melhor forma de poder se mostrar para e toda vez que isso acontecia, sentia seu peito arder aos poucos, sem entender realmente o que estava sentindo. Era fato que ele não tinha sentimentos concretos e claros, não os entendia e ao menos sabia se realmente poderia sentir.
Ainda mais por um mero mortal.
Toda noite era a mesma coisa e ele não conseguia enjoar nunca, não que ele aparecesse em todos os sonhos, mas os que podia, estava ali e quando não podia, observava deslumbrado em como a mente de poderia ser brilhante de tantas formas e de como ela se sentia bem consigo mesma, a ponto de em alguns de seus sonhos, até mesmo sorrir enquanto dormia.
notou esse pequeno detalhe quando em um dos sonhos em que ele apareceu tentando mostrar à como ela estava sendo protegida, mesmo sem a mulher fazer ideia de quem ele era ou se ao menos existia, ela deixou escapar um sorriso sincero no canto dos seus lábios. O rapaz pôde sentir o tremor em seu corpo no mesmo instante e aquilo foi o ápice para que notasse que ela poderia ser especial.
E desde então, vivia daquela forma. Enquanto estava longe, ora em seu lugar e ora perto dela, sempre fazia o possível para conhecer cada pequeno detalhe que preenchia.
E sempre com a pergunta que rondava sua mente.
O que aconteceria caso tivesse a chance de cair?

☁️


esticou seus braços de forma preguiçosa, como em todas as manhãs que acordava e percebia que havia conseguido dormir bem durante a noite. Isso estava acontecendo com muita frequência e ela não podia mesmo reclamar. Era uma pessoa tão positiva, sempre conseguia ver o lado bom de tudo o que acontecia a seu redor, mas, além disso, tinha algo mais.
Ao se sentar sob a cama desarrumada pelo lençol claro, passou uma de suas mãos no rosto, se lembrando nitidamente do sonho que acabara de ter. Era engraçado como volta e meia conseguia sonhar com ele, mas nunca tinha o visto na vida, isso tinha certeza. Conseguia se lembrar perfeitamente de cada detalhe de seu rosto, os lábios avermelhados, a pele clara e o sorriso tão angelical. O rapaz parecia ser de outro mundo, não era possível que realmente fosse real. Lembrava-se de no sonho o mesmo sorrir para ela, a incentivar e como em um eco, ouvia o resquício de sua voz distante.
– Você é genuína. Tão brilhante como seus sonhos...
A voz era tão nítida, parecia ter sido dita naquele momento de tão vívida que ainda estava em sua vida, mas mesmo dessa forma, seu timbre não conseguia ser bem destoado, quase como se estivesse distorcido. Ela não entendia, mas se sentia curiosa para saber. Será que ele realmente existia? E por que sonhava tanto com o rapaz? Será que havia algum objetivo do mesmo aparecer todas as noites para si?
Com a curiosidade ainda em sua cabeça, a mulher se levantou, pronta para começar seu dia.
Do outro lado do cômodo, observava o amanhecer de dentro da sala de . O rapaz tinha suas mãos livres apoiadas na enorme janela de vidro enquanto, de forma vagarosa e pensativa, notava os raios pouco iluminados do sol naquela manhã. Não era de seu costume ficar tão próximo da jovem daquela forma, mas ultimamente sentia que precisava fazer aquilo, precisava ficar perto daquele jeito. Quase como se estivesse sendo puxado para ela. E enquanto tinha seus olhos focados no nascer do sol, deixou um pequeno sorriso surgir em seus lábios ao perceber que havia acordado e mais ainda, ao se atentar nos pensamentos da mulher. Ela parecia curiosa com o fato de encontrá-lo em seus sonhos e de querer ainda mais, saber se ele existia pessoalmente.
Aquilo era incrível, ele sabia bem, mas da mesma forma que o deixava extasiado e maravilhado de poder conhecê-la através de seus sonhos, rapidamente era como se toda a tristeza tomasse conta de si ao se lembrar que não poderia estar com ela da forma que queria. Da forma que ela precisava e merecia.
nunca desejou tantas coisas durante sua vida e mesmo como anjo. A única coisa que ele sempre havia almejado era proteger da melhor forma seus destinados, mas por que com parecia ser muito mais que apenas proteção? ao menos sabia decifrar quais os sentimentos que tinha por ela.
Com todas as palavras, era frustrante demais para o rapaz.
Antes que pudesse continuar divagando sobre tudo o que havia acontecido com ele nos últimos dias, se virou ao ouvir os passos de se aproximando da sala. Ao ver a mulher passar pelo corredor, sorriu de forma involuntária ao ver como ela transparecia sua energia e sua alma ingênua, praticamente como se fosse o próprio sol e aquilo era inexplicável para .
Ele conseguia ver perfeitamente a aura quase em um tom rosa claro que emanava pelo corpo de , era mais do que fascinante e significava tantas coisas. Ele mais do que ninguém sabia disso. Era como se a mulher tivesse os melhores sentimentos e pensamentos dentro de si. Carinho, ternura, pureza, amor…
Foi impossível não sorrir mais uma vez. Só que da mesma forma em que seu sorriso cresceu, sumiu de seu rosto ao quase notar os resquícios de uma aura acinzentada por volta da rosa clara.
Franziu o cenho, estranhando o fato de estar vendo aquilo. A verdade era que nunca havia demonstrado estar triste, desanimada... Sentindo falta de algo. Não no ponto de fazer aquilo se transparecer daquela forma.
Deveria começar a se preocupar?
Por um instante, iria em direção à jovem que preparava seu café já que uma das coisas que conseguia fazer como anjo era aliviar todo sentimento ruim de seu destinado, mas um pequeno miado chamou sua atenção, o fazendo virar em direção ao animal que, naquele momento, o encarava sentado no sofá.
sorriu de forma involuntária, se aproximando de Bae que assim que o viu mais próximo, se jogou de lado no sofá, ficando de barriga para cima.
O rapaz achou graça na reação que Bae havia demonstrado. Nem sempre mexia com a gata branca de para justamente não fazê-la perceber algo, mas Bae parecia querer lhe dizer alguma coisa.
Ou ao menos, simpatizar com o anjo.
Era fato de que ela poderia vê-lo perfeitamente, poderia interagir com o rapaz e ele com ela, como se fosse um mortal como . Essa era uma das graciosidades que os animais tinham e que ele achava encantador.
Deixou que seu corpo se aproximasse mais do pequeno animal, deixando Bae mais confortável com sua proximidade.
– O que você tanto reclama? – Perguntou, sorrindo ao ver a gatinha rolando de um lado para o outro. Ao vê-la se virar para o outro lado, franziu o cenho. – Ou você não está reclamando?
Meow!
A mesma se espreguiçou, focando seus olhos arredondados e esverdeados no anjo e, assim, o fez sorrir apreciando aquele pequeno gesto.
Oh, claro. Você realmente parece bem à vontade aqui.
E quase que sem perceber, esticou sua mão até a pequena à sua frente. Antes que pudesse tocá-la, recuou. Era claro que ela não sentiria. O que estava pensando, afinal?
Deixou um pequeno suspiro escapar e ergueu seu corpo, só então notando que vinha sorridente em sua direção, o fazendo petrificar ali mesmo. Observou que os olhos da mulher estavam quase focados no seu e por um momento se perguntou se ela realmente estava o vendo.
– O que foi, Bae? – Aproximou-se, fazendo um leve cafuné no topo de sua cabeça. A gatinha miou mais uma vez em resposta e se espreguiçou. – Você não é de miar assim.
O pequeno ato da mulher a fez ficar centímetros próxima de , que a olhava encantado ao vê-la tão de perto daquela forma. estava ao seu lado, com o rosto próximo do seu, sorrindo para Bae.
Aquilo o fez sentir algo estranho na boca de seu estômago, franzindo o cenho sem entender nada do que estava acontecendo ali. Nem mesmo o que estava sentindo, não sabia explicar.
Era quase como se, bom... Tudo aquilo pudesse ser algum sentimento, mas seria loucura se realmente fosse. Ele não poderia sentir aquilo, nem se quisesse.
Deixou seu olhar cair sobre e Bae pela última vez antes de se distanciar, vendo a mulher entretida com seu animal de estimação, sorrindo para o mesmo. respirou fundo e sem pensar duas vezes, se retirou.
O que quer que estivesse acontecendo, era preocupante para ele.

☁️


Já passava de meio dia quando passou por um dos corredores da escola, enquanto carregava em seus braços os cadernos de desenho e a bolsa no ombro com seu material. Claro que ela amava todo seu trabalho e a melhor parte era sobre transmitir seu gosto pelas obras que fazia e por cada detalhe da arte que ela conhecia, mesmo seus alunos, bom, sendo apenas crianças. Aquela, sim, era a parte divertida.
Há dois anos que a mulher dava aulas de artes na escola local Yongsan e a cada dia que acordava, achava prazeroso estar com seus pequenos. Não era como se fosse um grande trabalho, ela simplesmente gostava de acordar todas as manhãs e se lembrar que eles a esperavam, mas naquele dia, algo estava diferente. tinha o corpo cansado, como se algo pesasse sobre si aos poucos, mas mesmo se sentindo dessa forma, tentava não deixar se abalar. Afinal, não queria demonstrar estar dessa forma. Seus alunos perceberiam.
Aos poucos foi se aproximando da sala dos professores, se preparando para mais um turno para, assim, seguir de volta para sua casa. Naquela sexta-feira, tudo o que ela mais precisava era descansar. Por incrível que pareça e por mais que fosse muito ativa, sentia que seu corpo precisava de uma pausa.
Franziu o cenho com seus pensamentos e respirou fundo, passando por sua mente o que de fato estava a deixando daquele jeito, mas não conseguia se recordar de nada. Apenas...
Apenas de uma coisa.
Antes de entrar no local, abaixou a cabeça rapidamente olhando o caderno em seus braços e por alguns segundos, observou uma das folhas que esboçavam a frente do mesmo, com o rascunho. O rosto familiar, os traços delicados e gentis, o olhar generoso e encantador. Com toda certeza ela nunca tinha o visto, mas sentia que o conhecia. Sentia que pelo menos alguma vez, em algum dia, havia visto o rosto daquele rapaz em algum lugar. Somente isso explicava a forma como ela vinha sonhando com ele, em como nunca poderia se esquecer daquela feição. Não era possível que fosse invenção de sua cabeça.
E foi com esse questionamento que ela adentrou o local, pronta para mais uma aula daquele dia, que resolveu por balançar sua cabeça levemente, espantando os pensamentos pelo menos, naquele instante. Até porque, ainda havia muito o que fazer.
Quando colocou os pés para fora do colégio, já se passavam das seis da noite e o tempo estava tão escuro que ela só conseguia avistar as pequenas estrelas brilhantes no céu. E mesmo com todo o cansaço e o corpo clamando por sua cama macia, não pôde deixar de transparecer um sorriso no canto dos lábios ao ver a constelação que marcava no negro do céu. Aquilo era uma das coisas que, por mais simples que fosse, a deixava fascinada e achava engraçado a forma como se sentia atraída por tudo aquilo.
Olhou para os lados, observando alguns de seus colegas de trabalho se distanciando para seguirem seus caminhos e se despediu de outros que estavam próximos, acenando de leve. Apertou a pasta grossa nos braços e com a mão livre, firmou a alça de sua bolsa de ombro, pronta para ir para casa. Assim, de forma calma, caminhou pela calçada pouco movimentada do local.
deixou um suspiro cansado e alto escapar de seus lábios, a fazendo tomar um leve susto ao notar seu ato. Só assim pôde perceber o quanto estava cansada e que, de fato, não era normal se sentir assim. Quase não se sentia daquela forma e eram raros os dias que se sentia indisposta, para baixo e desanimada. Quase sempre estava animada para fazer algo e sempre era agradecida por tudo o que lhe acontecia, mas talvez, quem sabe, aquilo realmente fosse apenas o cansaço cotidiano.
Balançou a cabeça de forma vagarosa, focando seu olhar na rua pouco iluminada em que seguida e olhou ao redor, percebendo que poucas pessoas caminhavam ali. Não percebeu que havia pego um caminho diferente e só então, notou que não parecia estar perto de casa. Piscou algumas vezes, tentando se recordar do caminho que havia feito.
Nada.
Como um apagão em sua mente, não conseguia se lembrar de como havia parado ali. Não se recordava de ter entrado naquela viela, nem mesmo de sequer ter a visto pelo caminho que costumava fazer quando ia para sua casa.
Engoliu em seco e naquele ponto, começava a se preocupar. Puxou todo seu ar, como se aquilo de certa forma a fizesse ter um pouco mais de coragem e olhou novamente para trás, só então percebendo que agora estava um pouco mais sozinha.
Ah, não... Como fui parar aqui? – Murmurou para si mesma, sentindo um pequeno nó se formar em sua garganta. poderia ser tudo, mas a única coisa que ela não conseguia ser era corajosa naquele momento. Aos poucos sentia o desespero tomar conta de si, sem saber o que fazer, nem para onde ir.
Olhou o final da rua, poucos carros passavam por ali e a iluminação ainda estava muito fraca no local. Por alguns segundos, fechou seus olhos e talvez, todo aquele medo fosse coisa de sua cabeça.
Com isso, os abriu novamente e resolveu seguir seu caminho e até faria isso, não fosse por passos rápidos logo atrás da mesma, fazendo seu coração começar a bater mais acelerado que o normal. não queria olhar para trás naquele momento, não queria nem ver se realmente tinha alguém atrás dela, mas teria que fazer aquilo. Não podia evitar.
E assim que virou o rosto, a única coisa que conseguiu avistar antes de apressar seu passo quase em uma pequena corrida, foram dois rapazes altos seguindo em sua direção, como se tivessem apenas uma coisa em mente e não era mesmo a cumprimentar.
A mulher sentiu o corpo gelar na medida que andava apressada pela calçada e, aos poucos, sua garganta ia secando. Naquele ponto, estava pedindo muito para que não acontecesse nada consigo e que aquilo fosse só uma impressão dela.
Mas não era.
– Ei, você. Onde pensa que vai? – Pôde ouvir a voz mais grossa dizer, se aproximando da mesma. Por um momento, quase soltou um grito fino e arranhado pelo susto ao ouvir a voz de supetão, mas só conseguiu andar e andar ainda mais. – É melhor não tentar correr.
Não. Por favor, não... – sua voz saia quase em um sussurro pelo desespero que a mulher sentia.
– Não adianta correr, gracinha. Vem aqui – e aquela era outra voz, essa seguida de uma risada medonha. já sentia o corpo tremer na medida em que corria naquela rua estranha e mesmo querendo gritar, pedir por ajuda, sentia sua garganta trancar e nenhuma palavra passaria por ali, mas o pior de tudo era nunca chegar no fim daquela rua. Nunca chegar próximo a sua casa e muito menos, avistar ela.
Quando apertou seu passo, pronta para correr o mais rápido possível, só conseguiu sentir mãos firmes de encontro a seus pequenos braços e a única coisa que pôde ser ouvida em seguida fora seu grito alto e estridente inundando aquela isolada e escura rua.

☁️


Desde a última tarde em que esteve com e Bae na ampla e arejada sala daquele apartamento, tentou se manter um pouco distante, apenas observando alguns passos e o que poderia ser prejudicial para a mulher de longe. Não que não quisesse ficar perto dela, jamais iria querer isso e nem poderia ter visto seu cargo como anjo, mas não conseguia entender o que estava acontecendo. Não entendia o que acontecia dentro de si e sentia que cada vez mais, cada vez que se aproximava e se permitia estar mais próximo a ela, sentia o peito arder, sua mente queimar. Não era normal, nem mesmo podia controlar aquilo.
Ele não queria ficar longe por míseros segundos, essa era a verdade, mas não sabia o que fazer. Não sabia o que pensar. Aquilo não era certo. Para , ele estava ali para exercer sua função, era o que pensava que faria todo o tempo, mas parecia ter se enganado ao começar a se sentir daquela forma por ela. Como havia pensado, não era uma missão como qualquer outra.
Naquele dia, observou acordar, conversar com Bae, fazer suas tarefas antes de sair para seu trabalho e até seguiu com ela em direção ao Yongsan, mesmo longe, mas tinha algo que o incomodava. A mulher já não estava como antes, parecia tão cansada e o brilho que antes via exalar de seu corpo, parecia se esvair cada vez mais. Não entendia o motivo de aquilo estar acontecendo, afinal, até o momento não havia nada que a fizesse estar daquela forma. Não que ele conseguisse ver.
Quando a viu passar pelo corredor colorido e agitado da pequena escola, quase que instantaneamente flutuou até a mulher, para ficar ainda mais próximo dela, mas como um estalo, o cenário em que estava mudou de forma repentina.
Tudo havia parado. A escola continuava ali, as paredes coloridas e nem mesmo tinha o som agitado das crianças que corriam ao redor. Não. continuava em Yongsan, mas tudo havia parado.
Não entendia o que estava acontecendo e tudo permanecia em silêncio, vazio. As crianças que corriam ao redor estavam paradas, como estátuas. Perguntou-se o porquê de aquilo estar acontecendo e antes que pudesse ter suas respostas, ouviu um pigarrear ao seu lado.
Irmão.
Ao virar o rosto, pôde observar outro como ele parado próximo de si com os braços para trás e seus olhos estavam focados em . era como ele, um anjo protetor e costumava acompanhar quando o mesmo tinha missões com mais frequência. Sempre que podia, aconselhava o mais novo. Quase como se realmente fossem parceiros.
piscou os olhos e franziu o cenho, sem entender bem o que acontecia.
? – Questionou, confuso. – O que faz aqui? E por que estou aqui?
Uh, eu tenho mesmo que te dizer? Achei que já tinha descoberto – disse, fazendo graça, mas suspirou em seguida se aproximando de . – Eu não queria estar aqui para isso.
– Ainda não entendi.
pressionou os lábios, parando com o corpo ereto ao lado do amigo que ainda tinha o olhar confuso sobre si. Preocupava-se com e, por isso, havia resolvido falar com o mesmo antes que qualquer outro superior dos dois.
– Eu não posso fazer isso por muito tempo, você sabe. A passagem de tempo – apontou para o redor deles, indicando o que acontecia. conseguia parar o tempo, como havia feito e no instante em que estalou os dedos, tudo se movimentou, mostrando que uma das crianças que corriam havia tropeçado, deixando o copo d’água cair e estalando seu dedo novamente, tudo havia parado mais uma vez, fazendo assim, a água parar no ar. – Resolvi por conta própria vir te dizer antes que os arcanjos venham, sabe que nunca é bom quando isso acontece.
balançou a cabeça, concordando com o mesmo e o incentivando a continuar.
– Eu tenho percebido que você não está em uma situação muito boa com sua missão, . E acho que é melhor parar antes que tudo piore de vez.
– O que quer dizer?
E outro suspiro escapou da boca de , olhando para baixo.
– Você tem se aproximado de forma que não deveria de e isso tem influenciado seu objetivo. Já não é o mesmo da missão que fora lhe dada – o rapaz arqueou a sobrancelha, dizendo sincero. ao seu lado engoliu em seco, sabendo bem do que se tratava. – Já comentam entre eles em nosso lar. Você deve tomar cuidado.
– É mais forte que eu, . Eu não consigo... Não posso evitar. – dizia suplicando. Assim, virou o corpo para o amigo. – precisa de mi-
– Todos precisam de nós, . Mas não da forma em que você está se deixando levar. Olhe para dentro de si – apontou para o peito de . O mesmo abaixa a cabeça. – Você entende que não podemos ter sentimentos, certo? Ao menos sabemos o que isso realmente significa.
O anjo assentiu, fechando os olhos brevemente.
– Não se deixe enganar. Somos somente seus protetores. Apenas isso. Entende o que quero dizer? – Olhou o amigo de canto.
– Eu entendo, , mas não é como se fosse apenas ser isso. Vai além de mim. É como se eu fosse puxado para ela toda vez que a vejo. Você tem noção de como é estar próximo a ela daquela forma? Você não faz ideia.
– Realmente não faço, mas as consequências são muito grandes, . Não só para você, como para ela.
– Eu sei delas – rebate, sentindo sua respiração acelerar.
– E por que ainda insiste em continuar? Você só tem a perder.
respira fundo, deixando o olhar cair sobre .
– Nunca se sabe o que pode acontecer. Bom, nunca soubemos realmente se isso já aconteceu a algum anjo... Não acho que seja algo impossível – caminhou levemente para frente, pensando consigo mesmo.
– Você enlouqueceu? – riu baixo ao ouvir o amigo. – Não é assim que as coisas funcionam, . Preste atenção no que você está falando.
O que? Vai dizer que nunca pensou no assunto, ? Não é como se pudéssemos evitar! Eu já lhe disse, não posso e nem consigo ficar longe de dessa forma. – Naquele ponto, já estava se exaltando enquanto gesticulava. – Não espero que você ou qualquer outro superior entenda, mas independente de ela ser minha protegida, quero ficar ao seu lado. Eu preciso disso.
o encarou, digerindo vagarosamente as palavras do amigo. Não entendia o porquê da insistência do anjo, não quando ele sabia bem o risco que poderia correr ao agir daquela forma. Não entendia o amigo, só queria protegê-lo, mas por que sentia que não era o suficiente? daquela forma era quase como... Quase como se pudesse realmente estar sentindo alguma coisa, mesmo sabendo que não era possível.
Respirou fundo, passando uma das mãos pelos cabelos negros, brilhosos e alinhados, antes de olhar para o anjo uma última vez.
– Eu queria mesmo poder te entender, mas não consigo. Eu só espero... Espero que saiba o que está fazendo. Há coisas que você não pode desfazer, irmão – disse próximo o suficiente para que percebesse sua preocupação, mas em seguida o que podia se ver era o cenário da escola novamente, sem mais paredes brancas e sem mais .
Aquilo havia deixado um pouco abalado, para ser sincero. Não era de praxe que visse seus aliados com frequência, até mesmo em outras missões, então a visita de havia o deixado surpreso naquele momento.
A verdade era que o anjo não sabia o que pensar e era como se sua mente estivesse em turbilhão de sensações estranhas e pensamentos.
Colocou uma das mãos em sua cabeça, deslizando-a em direção aos cabelos, bagunçando os fios claros. Era quase como sentir, se é que era possível para ele, o coração palpitar dentro do peito de forma nervosa. O que raios estava acontecendo, afinal de contas?
não fazia a menor ideia.
Piscou algumas vezes, pensando seriamente no que deveria fazer. Ele não poderia continuar agindo daquela forma.
Tentando se concentrar, pressionou as têmporas em seguida e respirou fundo, tentando organizar seus pensamentos, mas naquele momento decidiu não pensar muito no assunto. Talvez, pudesse ser tudo de sua imaginação, um grande mal entendido e deveria esquecer de vez.
Com isso, adentrou a sala de aula junto à mulher ao seu lado, podendo ver os alunos que a esperavam de forma animada, como se tivesse esperado pela querida professora por muito tempo. Aquilo o fazia sorrir, completamente impressionado e fascinado pela admiração que tinham por .
Ela era genuína demais. Não tinha dúvida, como sempre disse a ela em seus sonhos.
E isso havia sido motivo suficiente para que ficasse ali até o final, quase hipnotizado vendo a mulher ensinar de forma clara para que eles entendessem da melhor forma e se esquecendo totalmente do assunto anterior com seu anjo amigo, .
O anjo não percebeu quando o sinal havia acabado de tocar e permaneceu ali, parado, sentado próximo à janela com os olhos vidrados em que se mantinha agora de pé perto da porta da sala se despedindo de seus alunos. Com cada um, fazia gracinha e desse jeito, arrancava risada de todas as crianças que passavam por ela.
Um por um saíam enfileirados. Notou quando um dos alunos passou pela professora e ao invés de tocar na mão dela, como estavam fazendo os anteriores, correu em sua direção a abraçando na cintura. soltou uma risadinha gostosa, o abraçando de volta e sentiu seu peito arder no exato momento, o que fez o mesmo franzir o cenho, colocando a mão no local.
O que era aquele sentimento estranho?
Assim que ergueu seu olhar, notou que agora a mulher estava com o corpo curvado, suas mãos apoiadas nas coxas e assim, conversava com uma garotinha que tentava falar com ela de forma animada e ansiosa. achava graça em todo o movimento que a pequena fazia para conversar com ela.
– Professora, eu gosto muito quando você mostra seus desenhos para a gente! – Colocou uma das mãozinhas no rosto, sorrindo admirada. – Pode continuar me ensinando?
– Claro que posso, querida. Você vai conseguir fazer desenhos mais lindos que os meus – piscou para a garota.
– Eu tento todo dia quando chego em casa, mas não consegui fazer igual aquele moço que você tem – abaixou as mãos, as segurando enquanto ainda olhava . A mulher franziu o cenho, tentando entender o que sua aluna falava.
– Que moço, pequena?
– Aquele moço, tia, que você tem no caderninho preto. Ele é muito bonito – soltou uma risadinha envergonhada. – Você pode casar com ele, sabia? Vocês combinam muito! Agora eu tenho que ir, tia! Até a próxima aula!
Antes que pudesse responder, a garotinha saiu correndo agitada, não antes de olhar em direção à janela que estava sentado e ele podia jurar que ela havia o olhado nos olhos. Seria possível uma coisa daquelas acontecer? Mas não conseguia pensar em muita coisa, afinal, o que estava fixo em sua mente era o desenho que a pequena aluna havia mencionado. De quem ela falava? Sem pensar muito, o rapaz desceu de onde estava, caminhando em direção à tentando ver sobre o que a garotinha havia falado, mas todo seu esforço havia sido falho já que a mulher guardava seus pertences para ir embora.
– É, moço, se ao menos soubessem que nem te conheço... – disse, sorrindo com seu pensamento, mas de forma cabisbaixa.
olhou curioso para a mulher ao ouvir suas palavras e mais curioso ficou com toda a situação. Não sabia realmente de quem ela estava falando e da forma em que a mulher falava, tinha algo a mais.
No final daquele dia, observou caminhar de forma cansada para fora da escola, acenando em despedida para seus colegas de trabalho. A mulher seguia de forma despreocupada, apesar de estar alerta por estar sozinha logo ali.
Na verdade, queria muito mostrar que ela não estava mesmo sozinha e que sempre poderia estar lá por ela, mas sabia que aquilo seria impossível. Não conseguia pensar em outra forma de mostrar a ela como a protegia se não fosse pelos sonhos. Pela forma que sempre fazia. – Eu sei que você está cansada, mas logo poderá estar em casa – comentou para a mulher, como se ela pudesse ouvi-lo e mesmo ainda caminhando, assentiu, como se aquilo de fato tivesse chegado a ela. sorriu bobo com sua atitude e abaixou a cabeça, a observando de longe, entre as nuvens.
Assim continuou por algum tempo, até sentir que algo estava começando a ficar estranho, mas não com ela e sim com . O rapaz sentiu seu corpo estremecer por alguns instantes e suas asas querendo aparecer de forma involuntária, quase que em forma de defesa. Olhou ao redor e constatou que não havia nada para que aquilo pudesse acontecer, mas se sentia em alerta como se algo fosse acontecer a qualquer momento. E com esse pensamento, observou toda sua visão ficar turva, o cenário borrar como se fosse uma simples pintura e tudo escureceu.
De início se perguntou o que poderia estar acontecendo, não havia entendido o motivo de toda a escuridão. Como automático, sentiu a respiração acelerar e os olhos arderem como se quisessem indicar algo a mais. Só então se deu conta de que aquilo acontecia quando... Quando algo realmente estava errado demais.
Ao piscar os olhos, pôde observar a pouca luz iluminar o lugar em que estava e aos poucos eles foram aparecendo. Um por um, enfileirados à frente de e, naquele instante, o anjo sentiu como se toda sua respiração tivesse sumido. Era claro que ele sabia o que estava acontecendo e o porquê de estarem ali, só não sabia que seria daquela forma, tão rápido e tão desesperador.
Pressionou os lábios de forma séria, tentando recuar alguns passos para trás, mas fora como se uma forma invisível o jogasse para frente novamente. – – ouviu a voz o chamar em forma autoritária e demorou alguns segundos até que pudesse erguer seu olhar para encarar seu superior. Miguel o encarava, como se só com aquele olhar pudesse saber o que pensava. E de fato, talvez realmente pudesse fazer aquilo.
– Sim, mestre – disse. podia sentir todo seu corpo enfraquecer aos poucos.
– Há algo que devemos saber? – Perguntou, ainda longe do anjo. O rapaz engoliu em seco e soltou o ar vagarosamente antes de responder.
Ele até ousaria em erguer seu corpo e levantar, mas permanecia ali, curvando diante de seu superior.
– Estou em uma missão, senhor. Já tem tempo...
– Somente isso, ? – E aquela era outra voz que o anjo pode identificar como sendo a de Rafael, outro seu superior. – Soubemos de algo a mais. Uma situação violada e não autorizada.
– Não permitimos tais atitudes infiéis e mortais em nosso reino, . – Gabriel comentou de forma mais direta que os demais.
– Você faz ideia do que pode lhe acontecer? – Miguel deu um passo à frente, ainda com o olhar erguido em direção ao anjo curvado em direção a eles. sentia como se estivesse sem forças para respondê-los ou até mesmo debater sobre, mas não podia ceder daquela forma. Precisava se explicar e fazer com que eles entendessem.
– Há uma explicação, mestres. Não estou me aproximando desta forma, só... – Começou, tentando buscar em sua mente a forma certa de se explicar. Ele ao menos sabia como... – Eu não entendo exatamente o que está acontecendo, mas sinto que devo estar mais próximo do que devo. Os três arcanjos o olharam como se aguardassem uma explicação melhor que aquela em si. continuava sem conseguir mover seu corpo e sentia a pressão dos seres celestiais que o seguravam.
– Você se deixou levar por seus pensamentos e sua ideologia sobre ter algum resquício de sentimento por esta mortal. Não podemos deixar isso continuar acontecendo. – Miguel o encarou enquanto falava. Os outros dois arcanjos o olharam e assentiram em seguida, concordando.
– Você não pode continuar neste cargo se não consegue lidar com suas ações e objetivos desta missão, .
O que? – perguntou incrédulo. Não era possível que havia entendido aquilo. Não poderia ser...
– Não achamos que esteja preparado para continuar nesta missão.
Disseram em uníssono ao olharem. encarou os três, sem notar que naquele momento estava começando a buscar forças que não tinha.
– Estou sim! – Comentou mais alto, desta vez erguendo seu olhar para os que o encaravam. sentia algo maior que si crescer dentro de seu peito. – Não estou cometendo nenhuma blasfêmia, nem mesmo algum ato profano. Não vejo problemas quanto a isto visto que ainda estou cumprindo minha missão.
– Você não entende o que fala, protetor. – Rafael mencionou, balançando a cabeça em forma negativa.
– Posso não entender o que realmente tem acontecido dentro de mim, mas sei bem o que estou fazendo e com o que estou lidando.
Miguel deixou o olhar cair sobre o anjo curvado em sua frente e, sem mudar sua expressão, apenas continuou a encará-lo, sabendo exatamente qual a decisão tomar.
– Então faz ideia do que acontecerá com você? Será exonerado de seu cargo, . Será designado à outra missão.
Não...
o olhou estático, não acreditando no que havia acabado de ouvir. Não podia ser. Ele não podia ser retirado de sua missão. Ele nunca mais veria .
Começou a sentir o pavor e a agonia tomar conta de si antes mesmo de protestar.
– Não! Mestre. Por favor, me escute.
– Não há mais o que ser conversado. Você tomou sua decisão – disse firme.
O anjo não queria entender, nem ao menos aceitar aquilo daquela forma. Ele não poderia sair do cargo que ocupava, não poderia deixar de ver como estavam propondo e como em um impulso, mesmo sendo segurado, reuniu o que tinha de força para se levantar, sem pensar muito ao ir em direção aos três.
– Eu não posso permitir que isso aconteça. Não posso aceitar. Mestre Gabriel, por favor... – Dizia ao seguir em direção aos arcanjos.
– Não há lamúrias. Não ouse tentar qualquer coisa, .
– Eu não vou aceitar isso – repetiu, desta com a voz carregada de nervosismo e prontidão. Sabia que estava correndo riscos ao agir daquela forma, sabia que não resultaria em nada e que o próximo passo ao debater com eles, era cair ou até mesmo... Sucumbir.
– Você não tem que aceitar alguma coisa. Ainda lhe demos uma chance de se redimir corretamente. Aceite este fato e faça como ordenado. – Miguel posicionou-se em frente à , dizendo de forma absoluta.
sentiu seu corpo ser puxado e dessa vez, não era por nenhum ser celestial que ali estava presente. Algo estava acontecendo. Olhou a seu redor, tentando entender. O que estava acontecendo?
No mesmo instante em que estava ali com seus superiores, a imagem da sala foi distorcida para Seul, próximo à Yongsan. sentia sua visão queimar, sua cabeça girar em entender o que ocorria.
Começou a se sentir estranho, era quase como se uma mistura de sentimentos tomasse conta de si. Se sentia assustado, desesperado, com medo. Observou no instante seguinte a imagem de caminhando preocupada ao olhar ao redor, mas não conseguia ter alguma ação sobre isso. Sabia que era inútil tentar algo daquele jeito.
Com um pouco de dificuldade, colocou as mãos ao lado do rosto, o segurando para tentar conter o que acontecia. E no mesmo instante que conseguia ver , também conseguia observar Miguel, Rafael e Gabriel, que o encaravam.
– Você entende o que está acontecendo agora? – Disseram em coro, o puxando para o lugar novamente. – Você a afeta. Suas ações a colocam em perigo. Não podemos deixar isso continuar desta forma.
– Não. Não é isso! Eu preciso voltar, preciso estar com ela! – Disse elevando seu tom ao sentir a cabeça pesada de forma como se quase fosse explodir. – Lhe demos uma opção e da mesma forma, contesta. Não temos outra escolha – os três se aproximaram dele, com os olhos fixos em sua direção. – Será exonerado, destituído de seu cargo. Não irá fazer parte de nenhuma outra missão até entender como realmente deve agir como um anjo.
– Eu não me importo! Eu não- – gritou sentindo uma força maior que si tomar conta de seu corpo. Não sabia o que estava acontecendo, mas precisava dele naquele momento. Ele não podia continuar ali.
, você sabe o que irá acontecer. – Miguel colocou uma das mãos em seu rosto, o levantando em direção a ele. Naquele momento tinha o rosto avermelhado e imerso em lágrimas, a expressão era de pura dor, como se não fosse aguentar por muito tempo. Quase como se fosse seu fim. – Se não fizer como ordenamos, será expulso e irá cair. Pela eternidade.
O anjo, mesmo com todo a confusão e dor que sentia dentro de si, deixou o olhar sobre o de Miguel e mesmo vendo que poderia não existir mais depois de tudo aquilo, depois de toda a revolta, ele sorriu.
sorriu como se não fosse pensar muito para ter sua resposta. Ele sabia o que fazer.
Então eu cairei.
Aquela havia sido sua resposta final, fazendo com que Miguel soltasse o rosto do rapaz, percebendo que não havia mais salvação para o mesmo. Já estava decidido. Com isso, observou o mesmo voltar para junto dos outros dois arcanjos, de costas para ele. Não entendeu ao certo sua reação, mas não precisou já que o que ocupava sua mente eram as visões que o atormentavam. Ora estava ali, esperando o momento e ora aparecia, apavorada. Conseguia ver alguns traços do que acontecia no lugar, os dois homens atrás dela, tentando pegá-la, conseguiu até mesmo ver a mulher tentando se defender ao jogar sua bolsa nos dois, fazendo milhares de papéis voarem por ali.
Ele queria gritar, urrar, pedir para que aquilo parasse, mas no instante em que ouviu o grito de inundar seus pensamentos, foi exatamente como se tudo tivesse parado e foi só notar o que iria acontecer que sentiu todo seu corpo arder. Aquela sensação era como tocar o fogo. Como ser queimado aos poucos e não conseguir evitar. Não sabia o que estava acontecendo ali, sentia o alerta o invadir e a visão que agora era nítida para ele, eram de dois homens que se aproximaram de . Naquele instante, pôde perceber o objeto que um deles segurava.
Era uma arma.
Os olhos do anjo brilharam de forma tão nítida que seria quase como se pudessem vê-lo, mesmo de longe.
ainda estava no mesmo local de antes, sentia seu corpo preso ali, mas não continuaria por muito tempo. Ele sabia que não. Não aguentaria ver tudo acontecer e não poder impedir, mas não precisou pensar muito sobre isso, já que no instante seguinte pôde sentir seu corpo ser lançado para baixo, em uma pressão que nem ele mesmo sabia explicar. O anjo conseguia ver o reino ficando longe, a claridade que emanava do lugar que era seu lar se distanciar e no mesmo instante, suas asas abertas que antes eram tão brancas, agora se tornando em um degradê acinzentado na medida em que as penas claras iam saindo. Podia sentir o corpo em chamas e a única coisa que havia a seu redor naquele momento e o que podia notar era que estava imerso em uma bola de fogo.
O corpo do anjo foi direcionado para o lugar em que estava e mal podia sentir o impacto do mesmo no chão, mas pôde ver que este fez algumas rachaduras abrirem no concreto em que pisou, entre ela e os dois homens. Foi praticamente como um instinto e suas asas, enormes e agora escuras se abriram protegendo a mulher, a protegendo de forma inimaginável. Notou que os dois o encaravam, sem entender, mas se praguejaram quando viram os olhos em chamas do anjo e pelo susto, acionaram o gatilho da arma.
Em míseros segundos, as asas de se abriram mais ainda e os jogou para longe com o vento que se formou.
A bala bateu em uma das asas do anjo, explodindo ali mesmo sem que o mesmo sequer sentisse o impacto em suas penas.
Aquele era o poder que o anjo continha, mesmo caído.
De forma lenta, levantou seu olhar para encará-los. Os dois homens já estavam desmaiados àquele ponto.
não sabia explicar, ele mal conseguia respirar. Só conseguia sentir o corpo arder, o peito comprimir e a respiração ofegante tomar conta de si. E não percebeu mesmo quando estava ali sozinho com a mulher atrás de si. A verdade era que ele não conseguia focar em muita coisa a não ser o que sentia naquele momento e algumas penas de suas asas caindo pelo lugar.
Não era normal, não era comum.
Mas algo lhe chamou a atenção. Em uma das folhas espalhadas que saíram da bolsa de e entre as penas que caíam, ele pôde ver. podia ver exatamente seu reflexo naquela folha, era seu desenho. havia o desenhado esse tempo todo.
Os sonhos... Haviam funcionado?
Por alguns segundos, era como se seu próprio mundo estivesse parado, como se seus sentidos estivessem anestesiados e não soubesse como reagir. O que era estranho naquele momento, já que uma das coisas que não podia realmente sentir e estava acontecendo.
não tinha sentimentos. Por que, naquele momento, ele sentia que estava nervoso? Agitado, como se somente a adrenalina invadisse seu corpo?
Fechou os olhos por breves segundos até se dar conta de que ainda poderia estar ali, mas antes de se virar, pôde ouvir tão claro como o dia, a voz que ele tanto costumava escutar.
– Q-quem é você? – Perguntou com a voz falha e o corpo trêmulo, o encarando. Não sabia o que estava acontecendo, nem mesmo da onde aquele rapaz havia surgido.
virou o corpo naquele momento, sentindo o mesmo latejar, mas com um turbilhão de pensamentos em sua mente. O rosto de , tão próximo quase o fez esquecer o que estava acontecendo e começaria a guiá-la para casa, mas a pergunta da mulher ecoou novamente em sua cabeça, o fazendo congelar ali mesmo onde estava.
Com os olhos parados no rosto da mulher, quase achou que a mesma estava delirando, mas não. o olhava, assustada, mas o olhava. Ela havia perguntado diretamente para ele.
E isso foi o suficiente para que entendesse tudo.
Você consegue me ver?

Oh, I can be there, yeah
(Oh, eu posso estar lá, sim)
I’ll be there, be there for you
(Eu estarei lá, estarei lá por você)



Epílogo.



Observar tudo aquilo era seu mais novo trabalho. Não questionou quando foi chamado, nem mesmo quando soube o motivo de ter sido convocado, mas entendeu sobre quando viu o que deveria fazer. E assim, resolveu seguir com sua mais nova missão.
havia salvo a vida de no dia do assalto, se mostrando para ela e ficando surpreso ao perceber que ela conseguia vê-lo parado em sua frente, mesmo questionando quem ele era e desmaiando em seguida. Sabia que mesmo caindo, não desistira de protegê-la mesmo não tendo os mesmos recursos de um anjo divino, mas faria o possível para continuar próximo à mulher.
E assim o fez, se aproximando de aos poucos. De primeira esbarrou com a mesma no caminho para o trabalho e nos dias seguintes, foi conseguindo a confiança da mesma até ser seu amigo como agora. Claro que sabia que seu plano teria chances de não dar certo, mas seguiria firme até conseguir ao menos ter o contato mais próximo possível para continuar a protegendo.
não havia entendido muito bem o que tinha acontecido naquela noite, mas se lembrava de ter acordado confortável em sua cama com o frescor da janela invadindo seu corpo. Por incrível que pareça, sentia a sensação de ter sido protegida de alguma forma e aquilo havia sido suficiente para acreditar em algo mais.
Passou seus dias mais alerta em seu caminho, mas em um deles esbarrou com um jovem rapaz que a fez sentir aquele famoso frio na barriga. Ao olhá-lo, sentiu como se todos os seus sonhos tivessem se tornado realidade e o desenho que tinha estava ali, exposto à sua frente. Não acreditava muito em coincidências, mas depois de tudo o que havia passado... Não podia duvidar de muitas coisas, certo? E assim, passou a conhecê-lo cada vez mais, se encantando pela gentileza e pureza do rapaz.
Era inexplicável, os dois sabiam bem. sentia como se tudo o que pudesse querer estivesse se tornado real aos poucos e todos os sentimentos que ele achava que não poderia sentir, começaram a invadi-lo de forma intensa. Afinal, o rapaz nunca havia sentido nada daquele tipo antes.
Ao longe, ele continuou observando. Gostava de vê-los daquela forma, apesar de como tudo havia terminado e vendo o olhar encantado e confortável de , pôde entender muito mais do que acontecia ali.
Cruzou uma das pernas, ainda entre as nuvens e sorriu para si mesmo, assentindo com a cabeça vagarosamente.
– Espero que não apronte muito daí, . Não vou ser um anjo da guarda tão bom como você foi. – cruzou os braços, observando o amigo em sua rotina. Era claro que não havia concordado com que o mesmo havia feito, era uma loucura, mas saber que o amigo estava bem era o que importava, até porque, ele sempre continuaria sendo seu aliado. Independentemente do que acontecesse.
E aquilo era tudo o que ele precisava saber.




Fim.



Nota da autora: Primeiro de tudo eu queria dizer que essa short tomou meu coração todinho e agora estou apaixonada sobre esse tipo de assunto. Gostaria de agradecer de coração a Laís que me ajudou muito na construção do roteiro, obrigada de coração, amiga!
Sei que talvez não esteja perfeito, mas adorei toda a história e perdoem se escrevi algo divergente no decorrer da fic sobre anjos!
Uma pequena observação: A shortfic foi inspirada na música A Brand New Day do BTS, caso queira ler escutando ;)
Espero muito que vocês gostem! <3



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