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Última atualização: 23/06/2021

Prólogo

Estacionei o carro em frente à casa da minha amiga, tentando me animar.
É só uma festa, . Adolescentes bêbados dançando músicas aleatórias. Você consegue sobreviver a isso. — Repeti para mim mesma enquanto descia do carro.
Entrei pela porta da frente e vi muita gente bêbada espalhada pela sala dos e pelo gramado também. Mas o que mais me impressionou ao entrar na sala da casa que fez parte da minha infância é que, mesmo em meio a tanta gente, a primeira pessoa que vejo é .
se esfregando na vadia da Chloe, completamente bêbado, com um sorrisinho cínico nos lábios.

Até bêbado esse desgraçado fica bonito.

Procurei Justin pela sala com desespero nos olhos. Tudo o que preciso é tirar é da minha cabeça.
— Procurando alguém? — Justin sussurrou no meu ouvido, chegando perto.
— Acabei de encontrar. — O abracei forte, depositando toda a minha insegurança nele, lhe dando um selinho em seguida.
Olhei para meu ex-melhor amigo que agora me observava também, sem sair do ritmo de sua dança com Chloe.
— Quer ir para um lugar mais reservado, ? Isso aqui tá lotado demais. — Concordei com Justin, assentindo com a cabeça sem nem ao menos ouvir o que ele disse, ainda com os olhos em .
Justin me puxou pela escada da casa de com rapidez e eu o segui, chegando ao quarto de hóspedes. Mal nos sentamos na cama e Justin começou a me beijar, me apertando em seus braços, esperando que eu retribuísse o beijo, o que eu fiz, mesmo um pouco atordoada com a rapidez de tudo aquilo.
Justin cheirava a bebida, anis e menta. É bom, mas não é o cheiro familiar de .
As coisas começaram a esquentar mais rápido do que eu pude acompanhar e agora Justin acariciava meu corpo com mais vontade, me fazendo soltar gemidos contidos durante o beijo.
As coisas estavam ficando perigosas, mas eu não estava nem um pouco afim de parar. A cena de dançando com Chloe na sala dos serviu de combustível para continuar o que Justin começou.
A cada vez que repasso a cena na minha cabeça, com mais vontade eu retribuo os beijos mal-intencionados de Justin.
Com destreza ele desabotoou o primeiro botão do meu suéter favorito, sem me dar tempo para pensar.

Ele vai me ver nua? Foi a pergunta que me fiz, voltando para a realidade.
Ele ainda vai querer transar comigo depois de me ver sem roupa?

Justin desabotoou mais três botões depressa e dessa vez eu comecei a entrar em pânico.

Eu ao menos quero transar com ele? Que merda estou fazendo?

Os últimos dois botões foram abertos e agora ele conseguia ver meu sutiã rendado em toda sua graça, me deixando mais nervosa. Comecei a ficar desconfortável, tentando diminuir o ritmo dos acontecimentos, mas antes que eu abrisse a boca para falar qualquer coisa, a porta se abriu em um estrondo.
Nos viramos assustados e demos de cara com bêbado e furioso, entrando no quarto acompanhado de .
— Que porra é essa?! — Ele gritou furioso, me encarando como se eu fosse uma criança que fez besteira.
Meu cérebro deu voltas em capacidade máxima e eu pude sentir como se estivesse em um show dos Beatles. Multidões descontroladas, meninas gritando freneticamente... Posso até ouvir George brigando com Ringo no fundo.
, quem você pensa que é para entrar aqui desse jeito?! Não sabe o que significa quando a porta de um quarto está trancada? — Justin perguntou, irritado com a interrupção.
— CALA A PORRA DA SUA BOCA, EVANS! — gritou olhando para ele e passou a mão no cabelo em seguida, tentando se acalmar. — Veste sua blusa, . — Ele ordenou para mim. — Mas que merda!
— Para de dar ordens para ela, cara. — Justin debochou de . — Vocês não são mais um casal, lembra?
, se veste logo, caralho! — falou, ainda mais alto dessa vez, me fazendo estremecer. Eu estava tão chocada com toda essa cena que nem conseguia raciocinar. Comecei a fechar os botões do meu suéter me sentindo a pessoa mais idiota do mundo com me fitando, vermelho de raiva. — Vem, vou te levar pra casa. — me puxou pelo braço, mas em uma fração de segundo, Justin se levantou em um pulo, empurrando e me puxando pra ele.
— Não, você não vai. — Ele vociferou para , perdendo a paciência. — Ela tá comigo agora, . Vê se enten...
Justin não conseguiu terminar a frase, sendo interrompido por um soco de , que acertou em cheio seu maxilar, o fazendo cambalear para trás.

Agora sim estou em pânico.

me afastou de seu ringue particular, me colocando atrás dele.
— NUNCA MAIS ENCOSTA SUAS MÃOS IMUNDAS NELA, ENTENDEU?
, que assistia a toda aquela cena paralisada, enfim resolveu agir, me puxando pelas escadas.
— Temos que achar o Luke antes que mate o Justin, ! — Ela praticamente gritou para mim, me vendo começar a chorar sem nem saber o porquê.
Não sei se as lágrimas eram pela humilhação de ser pega seminua com Justin ou pela porra toda que estava acontecendo lá em cima.
E se deixá-lo desacordado ou algo do tipo? O pior de tudo é que nem consegui reagir a toda aquela merda, fiquei paralisada como uma criancinha, deixando assumir as rédeas da situação.
continuava vasculhando a casa comigo em seu encalço à procura de Luke, torcendo para não encontrar no meio do caminho.

Se ele souber o que está acontecendo, é capaz de matar Justin sem pensar duas vezes.

— Luke! — gritou quando viu Luke na cozinha, enchendo doses de tequila. — Você precisa parar o ! Ele está lá em cima com o Just... — Tentou explicar, mas foi interrompida por um som alto vindo lá de cima, parecido com um tiro, me deixando desnorteada.

Capítulo 1


Here comes the sun, Here comes the sun, And I say, It's all right...

Ouvi minha música favorita tocar — leia-se gritar — e o som ecoar pela minha cabeça, me tirando do meu profundo e precioso sono.

Little darling, It's been a long cold lonely winter, Little darling...

As palavras sendo pronunciadas pela boca de George em Here Comes The Sun foram ficando cada vez mais claras para mim e agora eu conseguia identificar uma por uma, em alto e bom som.
Tateei o aparador à procura do meu lindo e escandaloso celular.
— Merda! — Quem em sã consciência liga para alguém a essa hora da manhã? — Alô?
— Bom dia, flor do dia! — Claro, quem mais seria?
— Uhm... — Resmunguei em resposta.
— Não! , são quase sete horas da manhã! Não acredito que você ainda está dormindo!
É, eu tenho uma amiga muito chata. Sabe, daquelas que te acordam MUITO cedo e não param de falar. é assim, mandona e falante logo pela manhã.
Somos como irmãs, amigas desde que nos conhecemos por gente. Lembro bem dela chegando na minha casa quando me mudei do Wisconsin para Londres... Ela era tão pequena... Mas com uma carranca na cara, mandando em todo mundo.
, meu amor... PARA DE GRITAR! Minha cabeça está latejando! — Falei irritada.
Levantei da cama sem ânimo, com aquela ressaca digna de segunda de manhã, e fiz todo meu ritual de higiene matinal, agora com menos pressa, já que a espertinha me acordou mais cedo. Quando acabei, subi na balança ao lado da pia, sentindo um frio na barriga, rezando para que eu não tenha engordado nenhum grama. Uma parte da tensão se alivia quando vejo os números, que já sei de cor, cintilarem no visor. É... nada mal. Mas preciso de uma dieta nova. Desci da balança e abri meu guarda-roupa sem ânimo, vestindo meu uniforme da St. Mary High School, e penteei meu cabelo para o lado, checando minha aprecia no espelho.
Finalmente consigo vencer a batalha contra o espelho e pego meu suéter favorito na pilha bagunçada de roupas em cima da poltrona, descendo as escadas para tomar café da manhã com o meu irmão.
está sentado à mesa, distraído. O azul do seu uniforme amarrotado combina perfeitamente com seus olhos e fios de seu cabelo amendoado estão despenteados de forma quase natural, isso é, se eu não soubesse as intenções de deixá-los assim, propositalmente.
— Oi, tampinha. — Fiz careta pelo apelido no diminutivo. Como meu irmão consegue ser tão irritante?! — ficou de passar aqui, mas até agora... Que inferno! Como vocês conseguem ser tão atrasados? — Bufou. — Odeio ficar sem carro.
e eu sempre fomos melhores amigos, desde criança. No entanto, não é só por isso que ele praticamente mora na minha casa. e eu, como um bom casal de gêmeos bivitelinos, não dividimos só a barriga da nossa mãe... Dividimos também o melhor amigo de infância.
— Você que lute. — Eu debochei, bebendo o suco do copo dele.
— Ei! Esse suco é meu. — Dei de ombros, limpando a boca. A buzina do carro da nos interrompeu e dei um pulo assustada, vendo rir da minha cara. — Se apressa, eu não quero aquela maluca aqui a essa hora da manhã.
— Eu sei. — Disse passando geleia em uma torrada. — E o nome dela é , irmãozinho.
— Estou falando sério, . — ele rosnou para mim.
— Eu também. Quer que eu soletre?
— Eu disse vinte minutos, ! Vinte! — entrou pela porta da cozinha, pestanejando.
— Maldita porta da cozinha, nunca emperra quando eu preciso — resmungou baixo.
— O que disse? — o questionou, contrariada.
— Disse que odeio ficar sem carro... — massageou as têmporas, de olhos fechados, e revirou os olhos.
O carro dele está na oficina depois de ter batido semana passada, junto com . Ambos bêbados, saindo de um pub.
— Baixem as armas, cavalheiros. — Ironizei e me olhou feio apontando para o relógio caro em seu pulso, batendo os pés no assoalho. — Só preciso pegar um livro e minhas jujubas, aí podemos ir.

Eu já mencionei que sou viciada em doces? Somos o trio perfeito, o açúcar, os livros e eu.

Adentrei o Sportback de e liguei o rádio, sem pedir permissão. A música I Love It, da Icona Pop feat. Charli XCX, começou a tocar e um forte instinto de pular a música surge em minha cabeça, mas antes que eu mande o comando para o meu cérebro, meus olhos se voltam para a loira ao meu lado, que cantarola a música com um sorriso largo nos lábios. Me contenho, dando de ombros.
Tudo por um pouco de bom humor matinal.
— Pensei ter ouvido algo sobre parar com as jujubas, calorias e blá, blá, blá... — me olhou de canto.
— E você acreditou?
— Não mesmo! Onde está Martha? — pergunta, curiosa.
— Onde você acha? Agência. — Minha mãe se parece muito comigo, exceto pelo cabelo muito bem penteado e pelo rosto risonho. Tirando os traços físicos, também temos outras coisas em comum. Um bom exemplo é o fato de fugirmos muito bem dos nossos problemas. Somos tão boas nisso que são raros os momentos em que temos que conviver. O que significa, se for analisar, que somos a pedra no sapato uma da outra, e o que mais queremos evitar é ficamos juntas no mesmo ambiente.
O que acho ótimo, na verdade.
— Ela teria um treco se te visse assim. — me olhou, fazendo careta.
— O que tem de errado comigo? — Finjo estar ofendida.
— Esse seu... Tênis. Ele precisa ver água e sabão de vez em quando. — Desvio o olhar dos meus pés para o dela e entendo o motivo da desaprovação. Ela está usando saltos escandalosamente altos para os quilômetros que precisamos andar naquele colégio. Além das unhas, perfeitamente pintadas num tom rosa, bem delicado.
— Já suas sandálias são... Adoráveis. — Minto com um sorriso amarelo, abrindo meu livro. Sempre fui uma péssima mentirosa, mas estou melhorando, talvez pela frequência.



Vim o caminho todo ouvindo reclamar. Primeiro pelo atraso, depois pelo carro, e o assunto seguinte eu nem me dei o trabalho de ouvir. tem seus momentos, sua personalidade é... Peculiar. Não tenho do que reclamar, sempre fomos amigos e, apesar do visual agressivo, na maioria das vezes, ele é amigável. Geralmente enquanto dorme.
— Olha elas ali. — Apontei com a cabeça assim que vi a loira de que tanto reclamou entrar pelo portão. está longe de ser uma garota calma, principalmente em relação a ele.
desfilava ao passar pelos portões de St. Mary High School, balançando seu cabelo loiro encaracolado com mechas douradas, enquanto eu assistia à cena com atenção. Meus olhos se voltam para a outra garota ao seu lado, distraída. prendia seu longo cabelo amendoado em um coque, usando seus óculos escuros descolados e All Star vermelho de cano com cadarços desamarrados.

Um contraste e tanto...

Não tem um que não olhe para elas agora, o que me deixa incomodado. Como melhor amigo de uma das garotas em questão, e a conhecendo como eu a conheço, é estranho saber que ela faz parte dos pensamentos de grande parte dos garotos.
Me aproximei dela e encostei no armário, a observando enfiar desastrosamente os livros pela pequena porta. Ela bufou quando um deles caiu no chão e bateu a porta com força.
— Seu horário está aqui. — Balancei o papel no ar e a vi dar um pulo de susto. — Bela saia.
— Pessoas normais não se escondem atrás de portas como ratos sorrateiros, deveria saber disso. — Ela ralha comigo, tomando o papel da minha mão e ajeitando a saia em seguida. — Onde achou isso?
— Sabe que já deveria ter decorado isso, né? — Eu a provoco, sorrindo.
— Sabe que é ilegal roubar, né? — Ela retruca, guardando no meio do livro. — Em algum canto do mundo, estaria sem mãos agora.
— Como estão as coisas em casa? parecia estressado.
— Ah, você sabe... e eu não levamos a roupa para a lavanderia desde o acontecimento com o carro, ou seja, três semanas. A boa notícia é que consegui pular a pilha de roupas sujas hoje de manhã e, por um milagre, ainda tinha uniformes limpos.
— Não se pode dizer o mesmo do seu tênis... — Disse, e rolou os olhos em resposta.
— Ah, e meu pai chega na sexta. — Ela fala, dando de ombros.
— Agora entendi o estresse do seu irmão. — Falo, preocupado.
— Cheguei em casa em segurança ontem, caso tenha se preocupado. — Disse ela, um pouco vermelha.
— Eu sei que chegou. — Ri com o comentário, e a vi fechar a cara. — O que foi?
— Nada, ué. — Ela pensa que me engana.
... — Suspirei impaciente. — Fala logo o que tá rolando.
— Chloe? Sério? Você nem me contou! — Ela berrou para mim e eu ri com o mini surto.
— Está com ciúmes, Jelly Bean?
— Ciúmes de você?! — Ela gargalhou. — Vá à merda, ! E não me chame assim.
— Então qual é o problema da Chloe? — Ela já se encontrava levemente vermelha e com cara de brava. Sorri com aquilo.
— Problema nenhum, ela é... Ótima. — Ela mentiu descaradamente. — Mas esperava pelo menos um "tô saindo com a Chloe, arrume outra carona".
— Para de drama, .
— Eu poderia estar morta agora, sabia?
— Mas não está, para o meu azar! Você está mesmo brava por causa do meu lance com a Chloe? É sério?
— Não, claro que não! Eu nunca pediria a você para fazer ou deixar de fazer nada, sabe disso.
— Então se não é esse o problema... — Vi suspirar perturbada com a conversa, e depois de uma longa pausa dramática, ela abriu a boca.
— Queria que você tivesse me contado sobre ela, só isso. Ver vocês se pegando pelos cantos é... Esquisito. — Ela gesticulou, um pouco embaraçada. — E caso isso vire alguma coisa...
— O que quer dizer com isso? Você sabe que o que rolou com a Chloe foi uma coisa de momento, não sabe? Ela queria alguém na cama dela, eu gosto de camas, fim da história. — Expliquei devagar, a encarando. — Foi por isso que não te contei nada, então relaxa.
— Chega, chega, OK! Me poupe das suas intenções sexuais com ela. — Ela tapou os ouvidos. — Só não me largue bêbada em um pub outra vez.
Assenti e a vi se afastar, indo para a sua aula. Sei que não devia tê-la deixado no pub ontem, já que fui eu quem insistiu tanto para que ela fosse, mas também sei que esse não é o real motivo da reclamação dela. Ela não gosta de se sentir de fora de alguma coisa e foi assim que ela se sentiu quando me viu com Chloe. Não tenho motivo nenhum para esconder isso dela, na verdade. Mas também não me sinto confortável para contar. Por que a não pode simplesmente entender isso da mesma forma que eu entendo?



Depois de duas aulas de trigonometria, Philip, meu professor de química, não parava de falar sobre como a matéria está em constante transformação. Eu bocejei, imaginando que meu cérebro estaria em transformação do estado sólido para o estado líquido nesse exato momento. Estou morrendo de fome e o intervalo não chega nunca.
Eu tenho muita fome, o tempo todo para a falar a verdade. Isso sempre foi motivo de piada entre meus amigos, mas ultimamente tenho tentado evitar esse meu lance com a comida. Sou um pouco sem graça e sem muito potencial para moda, então... Em alguma coisa preciso focar para ser mais apresentável.
, por exemplo, tem uma silhueta linda, do tipo que só se vê em capa de revista. Ou num daqueles comerciais da Victoria’s Secret. Ela é daquelas que fazem as outras garotas se sentirem mal consigo mesmas só por estarem no mesmo ambiente que ela. O cabelo dela é dourado, ondulado, até o meio das costas. Daqueles que balança quando ela anda, deixando as pessoas hipnotizadas. Já eu, preciso ler mais livros sobre hipnose. Estatura baixa, cabelo comprido e liso, de um tom amendoado. Olhos da mesma cor e pele clara. Ah, e desajeitada, muito desajeitada.
O sinal finalmente soou e eu saí dos meus devaneios. Me levantei e recolhi minhas coisas, pronta para devorar o meu almoço.
— Qual é, o que custa você ir lá pegar meu almoço? — Luke quase implorou para entrar na fila. Como se fosse adiantar alguma coisa implorar...
— Cala a boca, Luke! Deixa de ser preguiçoso. Você é o que está com mais fome, acho justo pegar para todo mundo.
— Ah claro, já mencionei as vantagens de se ter cinco braços? — Luke fez cara de óbvio e eu ri.
— Caras, eu tô com fome. Levantem essa bunda daí e vamos logo. — se levantou, indo para a fila do refeitório, piscando para mim.
— Traz para mim? — Pedi, com cara de cachorro pidão.
— Traz para mim? — imitou, caçoando de mim.
Vi os garotos se afastarem e morder sua barrinha de cereal, focada no celular. Abri meu livro para ler alguma coisa, mas antes que as primeiras frases do romance de Jane Austen ecoassem pelo meu cérebro, começou a falar.
, você e estão bem? — interrogou. — A conversa parecia meio intensa entre vocês.
— Nada demais. — Dei de ombros, pulando para a outra linha.
— Qual a piranha da vez? — Fechei o livro, desistindo de focar em alguma coisa.
— Chloe Peterson! — Bufei — Dá pra acreditar?
— Não é uma surpresa, pelo menos não para mim. É de que estamos falando e, dado o histórico que ele tem... — me lembrou. — Nós duas sabemos que é assim que funciona.
— Eu sei disso, só...
— Você pode tentar enrolar todo mundo com essa historinha de carona, mas sabe que o nome disso é ciúmes, não sabe? — disse calmamente, dando outra mordida em sua maçã.
— Como é?! — Quase engasguei com a minha própria saliva. — Você só pode estar delirando.
— Se vocês dois querem continuar fingindo, por mim tudo bem. — Ela rolou os olhos, — Só pega leve, vocês são amigos, não namorados. — Fiz uma careta para ela, e assim que abri a boca para responder, colocou a bandeja na minha frente.
— Anh... Obrigada. — Eu ruborizei e riu de mim. A fuzilei com o olhar e comecei a comer, com ao meu lado.
O fitei por um tempo, medindo seus traços, enquanto ele conversava com , distraído. Seu sorriso de canto, com covinhas à mostra o deixa com traços quase infantis. No entanto, seu maxilar marcante lhe dá um ar mais adulto, e é assim que consigo notar o quanto ele mudou desde que nos conhecemos.
Seus olhos castanhos são brilhantes e o cabelo da mesma cor deixam seu rosto único. Não sei se é o jeito que ele sorri, ou se é o perfume amadeirado com toque de menta, mas alguma coisa nele é diferente. Um diferente bom, um diferente... Especial. tem uma coisa que só ele consegue ter. E eu adoro isso nele.
Desvio o olhar depois de um tempo, voltando para a realidade.
Comemos em silêncio, e quando eu estava no último gole do meu suco de maçã, avistei Chloe. Ela vinha em nossa direção, rebolando. Cabelo liso, batom vermelho, perfeitamente desenhado em sua boca sem nenhum descascado e uniforme perfeito. Impecável para falar a verdade. Ela está sentada há horas em carteiras apertadas, como ela consegue?
— Não tô afim, Chloe. Passo. — disse , tamborilando os dedos na minha coxa. Pisquei algumas vezes para a cena, confusa com a situação.
, temos que conversar. — Disse séria, olhando para nós. — Em particular.
Senti um frio na espinha com aquelas palavras. Mas que merda ela quer com que não pode esperar?
— Ah, não! , resolva seus problemas longe dessa fucking mesa. Ninguém aqui vai levantar a porra da bunda do lugar. — Disse , estressada.
, é sério! Precisamos conversar e...
— Agora não. — frisou, a encarando, mas ela não se moveu. — Dá uma circulada, Chloe.
Desviei o olhar e abri meu livro de novo, tentando me livrar daquela cena constrangedora em que me colocou, e quando vi, Chloe já tinha se juntado ao seu bando de cheerleaders de novo.
— Olha quem tá apaixonadinha pelo . — Zombei e vi rolar os olhos.
— Limites, ... — Ele me repreendeu, e eu levantei as mãos, em rendimento. — Sabe o significado dessa palavra?
— Nossa, a noite foi boa assim? — zombou também.
— Vão à merda todos vocês. — mostrou o dedo do meio e nós gargalhamos.
— Olha, eu não tô nem aí para o e muito menos para a vadia da Chloe, então será que dá para dizer logo o que vai ser? — cortou a piadinha, impaciente.
— Bonzo’s depois da aula. — respondeu, indiferente.
— Ótimo! Quero todos no meu carro assim que a aula acabar. Na volta, você pega o seu, . Acho que você não está em condições de dirigir nesse momento. — também zomba.
O Bonzo's é um café que costumamos ir. Mas não é um café qualquer, o Bonzo's é diferente. Mal iluminado na medida certa, aconchegante, o couro vermelho dos assentos com um cintilar opaco, reluzindo o Sol tímido das três da tarde e, claro, o cheiro... O cheiro denso de café, misturado com o das páginas dos livros velhos que preenchem quase que totalmente uma parede imensa te atingem logo ao pisar no tapete vinho com três grandes círculos interligados.
O Bonzo's é mágico. E é o meu lugar favorito no mundo.
O restante das aulas passou rápido, e quando dei por mim, parecíamos sardinhas enlatadas dentro do carro da , e eu conseguia sentir não só , que estava sentado ao meu lado, mas todos grudados em mim.
— Eu vou achar uma vaga, me esperem aqui. — expulsa todos do carro. — , você vem comigo para fazer companhia.
Entrei no carro novamente, recuperando minha cor de costume e tentando esquecer o episódio traumático pelo qual tive que passar dentro da mini sauna que chama de carro. Coloquei o cinto de segurança e ajeitei meu cabelo, mas antes que pudesse sair com o carro, tocou meu ombro.
— Meu celular tá com você? Não estou achando em lugar nenhum.
— Não — Respondi distraída. Continuei olhando para o meu celular, mas depois de ter ainda plantado na minha frente, revirei os olhos e resolvi procurar.
Passei os olhos rapidamente pelo estofado de couro vermelho do banco de trás, e vi o maldito celular de largado no assento. Balancei no ar pra ele ver, e ele concordou com a cabeça. deu partida na mesma hora, não dando tempo de entregá-lo a .
— Vai pedir o quê? Não aguento mais comer panquecas de mirtilo, sério. — resmungou.
— Acho que só café. — Respondi pensativa. — Estou me segurando para não pedir pão doce. Ah, eu amo o pão do... — Não consegui terminar a frase, o celular de começou a vibrar sem parar, mensagem atrás de mensagem.

?
— Chloe.

Onde você está?
— Chloe.

É sério! preciso falar com você!
— Chloe.

Mas que saco! Pelo menos me responde, estou vendo você
on-line!
— Chloe.

Estou grávida 🤰🏼
— Chloe.


Li mais ou menos umas quarenta vezes. As palavras pareciam não entrar na minha cabeça. Grávida.
Grávida? Como ela pode estar grávida? Há quanto tempo eles estão saindo?!

Capítulo 2


? O que aconteceu? — me olha preocupada.
— Ela não pode estar... — Estou em choque, nem consigo falar.
Como alguém pode engravidar aos dezessete anos em pleno século vinte e um? Chloe pode ser vadia, mas não é tão burra. E ... Ele jamais seria tão inconsequente. Ou seria.
— Estar o que, ? Mas que merda está acontecendo?
— Chloe... — Eu sussurro, ainda perdida em pensamentos. Eu não posso contar isso para ela, posso? Isso nem sequer tem relação com a minha vida. Antes que eu possa pensar em qualquer coisa, toma o celular das minhas mãos, lendo as últimas mensagens.
— Não é possível. — Ela fala arregalando os olhos. — Ela só pode estar mentindo!
— Possível é... Você mesmo viu os dois se pegando ontem. — Bato a mão na testa, tensa. — Eles estão se pegando faz tempo.

24 horas antes...
Desço as escadas e vejo jogado no nosso sofá, jogando
videogame com , super concentrado. Rio sozinha. Eles realmente são como criancinhas em corpos de adolescentes.
— Hey, sai pra lá. — Me acomodo ao lado de , colocando os pés em seu colo, mexendo no celular.
— Pensei que não fosse acordar nunca. A noite foi boa? — zombou de mim — CARALHO, ! JOGA DIREITO!
— Vá à merda, ! Nunca mais bebo tequila na minha vida. — Falo com as mãos nas têmporas.
Ontem abusamos um pouco da tequila na festa do Evans, nem sei como cheguei ao meu quarto. Espero do fundo do coração que tenham sido ou os responsáveis por transportar meu cadáver até a cama.
— Aliás, seus pijamas são super fofos. — Cacete, onde se enfia nessas horas?
— Para de dar em cima da minha irmã e presta atenção na tela, porra!
Os meninos continuam jogando e eu fico rolando pelo Instagram, à toa.


Nova notificação
Justin Evans começou a seguir você.

Aperto na foto de Justin e deslizo o dedo pela tela, dando uma checada em suas postagens. Justin é do time, como . E é bem gato, inclusive.
Sabe qual é a melhor parte? Ele não dorme com uma garota diferente por noite. Quer ponto mais positivo que esse?
Sigo de volta.
Será que dei muito trabalho na casa dele ontem à noite? Será que eu cantei bêbada em cima de alguma mesa?! MEU DEUS, EU NEM SEI CANTAR! Nunca mais quero beber em público na minha vida.
A tarde se estende preguiçosa no sofá, sem nenhum sinal da minha amiga mandona. Nem sei o que será dessa noite, mas estou sem um pingo de vontade de me arrumar para sair. Na verdade, estou até apreciando o sumiço dela.
Uma música estridente me traz de volta ao momento. Assim que acho o foco do problema, grito para atender logo o celular, que toca escandalosamente outra vez.
— Não vai atender a Chloe, ? — caçoa. lança um olhar não muito amistoso para e sai para atender.
O que Chloe quer com a essa hora do dia?

20 horas antes...
acaba me convencendo a sair, então levanto a bunda do sofá e me arrumo, a contragosto. Agora estou aqui, no banco do carona da picape, indo para um pub que ele sugeriu. “Beber vodka até sair pelas orelhas e acordar bem reclamona amanhã”, foram suas palavras.
Sou contraditória, eu sei.
Observo dirigir enquanto canta as músicas da playlist que insisti em pôr para tocar, e sorrio com aquilo. Ele é charmoso até enquanto dirige, isso é fato. E eu... Bom, digamos que sedução não é um dom do qual eu posso me gabar.
Não entendo o porquê de insistir tanto em vir nesse pub hoje, mas tudo bem. O importante é que estamos nos divertindo.
Olho em volta para meus amigos e vejo vermelha de tanto rir das piadinhas idiotas do irmão, bebendo uma batida de vodka com morango, sem parar. fuma um cigarro, sentado em um sofázinho, com cara de tédio. E manda centenas de mensagens com um sorrisinho besta no rosto, o que significa mais uma vadia para a lista.
Nada de novo.
— Já volto. — sai de perto da gente e caminha em direção ao banheiro. Estreito os olhos para enxergar com quem ele foi se encontrar. Meu queixo cai quando o vejo dar um tapa na bunda de Chloe.
Desvio o olhar depressa e dou um gole na minha cerveja. Olho para o balcão, disfarçando minhas intenções de espionagem, quando me segura pelo ombro, eufórica.
— Amiga, não olha agora, mas e Chloe estão se pegando perto do banheiro!

Hora atual...

Tudo que tento imaginar agora é uma Chloe grávida, carregando um filho de , com ele ao seu lado. Meu melhor amigo comprando roupinhas de bebê. É algo como os Beatles cantando rap... Inimaginável!
Meu Deus, ele tá muito ferrado.
Quando finalmente consigo chegar até onde eles estão, tiro o celular de do bolso com as mãos trêmulas e suadas de nervoso e o puxo pelo ombro. Ele se vira, dando um pulo de susto.
— Seu celular... A Chloe. — Gaguejo, nervosa.
— Você mexeu no meu celular? — Ele questiona.
— Você tá falando sério? — Pergunto atônita, com a voz esganiçada. — Ela acabou de mandar milhões de mensagens, inclusive uma com a palavra "grávida".
Ele toma o celular da minha mão no mesmo instante, lendo as mensagens de Chloe. Segundos depois fica paralisado, sem expressão.
— Você vai ser pai, ! — Luke zomba.
pega o celular das mãos de em um pulo.
Estou sem reação. Com raiva por ele ser tão babaca e inconsequente, mas ao mesmo tempo angustiada com a notícia. Inquieta.
Na verdade, tudo que eu quero é gritar com ele. Questioná-lo por estar saindo com ela há tanto tempo e sequer ter comentado comigo. Sempre contamos as coisas um para o outro. Sempre. E mais uma vez no dia, engulo a vontade de gritar e sair correndo por não ter motivos lógicos para eu ficar tão irritada.
, ela tá zoando. — tenta amenizar, rindo. Encaro em busca de uma resposta e ele retribui, ainda sem expressão no rosto. Eu conheço melhor do que qualquer um e sei que está aflito demais para uma simples brincadeira.
— Eu não... — Ele começa a falar e o interrompe, esmurrando seu ombro.
— Como você pôde transar com a vadia da Chloe sem camisinha, seu irresponsável?!
— Acho melhor... Eu ir para casa — Solto sem pensar, um pouco enjoada.

Se controla, você não pode surtar agora.

olha para mim e abre a boca algumas vezes, sem conseguir falar.
Me afasto nervosa, sem nem saber para onde ir. Preciso mesmo ir para casa. Isso aqui está ficando bizarro demais para mim.
Me aproximo do tapete vinho e percebo que vem atrás de mim, com a chave do carro.
— Esquece, eu posso ligar para a minha mãe.
está surtando com a notícia, precisamos mesmo ir. — Ela dá de ombros. — Ele precisa ir atrás da Chloe e resolver essa merda. Bom, como viemos todos juntos com meu carro...
Quando enfim chegamos ao colégio, é o primeiro a descer.
... — Ele segura meu braço quando desço do carro para trocar de lugar. — Você pode...
— Acho que você tem muita coisa para resolver agora. — Falo com cautela, desviando de . — Eu...
— Anda logo. — me faz entrar de volta antes dele responder.
Assim que entro, arranca com o carro sem me dar tempo para pensar. O silêncio da viagem até minha casa é ensurdecedor e está começando a me incomodar.
Mas antes que eu possa dizer alguma coisa, toca o Spotify e a música da vez é Impossible, de James Arthur.
Viro para e rolo os olhos.



Na volta do Bonzo’s, me deixa no estacionamento do colégio. Luke e me acompanham.
— É melhor que toda essa merda seja uma brincadeira de mau gosto da Chloe. — Penso alto enquanto caminho até a picape.
— Mano, você transou com ela? — Luke pergunta ansioso, mas não respondo. — Então é claro que ela tá grávida.
Tenho que ir atrás da Chloe o mais rápido possível e resolver essa merda. Puta que pariu, onde eu fui me meter?
— Caras, eu tenho que ir atrás da Chloe...
— Nem vem, pai do ano! Primeiro vai me deixar em casa. — esbraveja. — Tem certeza de que esse filho é seu? Você vai ouvir muita merda da , se prepara.
— Para o inferno, vocês dois. — Respondo, batendo a porta.
Pego a rua Strand, avançando todos os sinais vermelhos a frente sem ouvir reclamações. Preciso me livrar desses dois o mais rápido possível.
Deixo primeiro, olhando para a janela do quarto de , trancada. Ela deve estar tramando um plano diabólico contra mim neste exato momento.
— Até mais, mano. Boa sorte, você vai precisar. — debocha.
Mostro o dedo para ele e, em menos de dez minutos, encosto em frente ao gramado verde dos .
— Até mais, papai. — Luke zomba, descendo do carro.
— Vá à merda, Luke.
Desligo o carro e pego meu iPhone, procurando por Chloe nas chamadas e ligando em seguida.
Até que enfim, zinho. — Ela atende no segundo toque.
— Chloe, eu juro por Deus que se isso for alguma brincadeirinha de mau gost...
, você acha que eu iria brincar com uma coisa dessas? Não sei o que fazer, estou atrasada há uma semana.
— Caralho, Chloe! Você só me conta agora? Onde você tá?
Estou no Westfield Stratford City...
— Chego em vinte minutos.
Passo as mãos pelo cabelo e dou um soco no volante. Puta que pariu, a Chloe está mesmo grávida. Dou partida no carro, cantando pneus.
As ruas de Londres estão um inferno a essa hora, não paro de buzinar. Mesmo desrespeitando dúzias de leis de trânsito, estou dez minutos atrasado. Espero que ela ainda esteja aqui como combinamos.

Onde essa maluca se meteu?

— Onde você tá?
H&M.
— Sai na porta, estou em frente.
Claro que ela está fazendo compras...
— Pelo amor de Deus, Chloe! Como você pode estar fazendo compras numa hora como essa?!
— Nossa, nem um "olá, futura mãe do meu herdeiro, como vai você?" — Estou aqui há menos de 5 minutos e minha paciência já está se esgotando.
— Eu quero ver o teste.
— Eu não fiz teste. — Mas que porra...?
— Como assim não fez? Você nem sabe se está grávida de verdade e enche meu celular de mensagens com seu surto? Não acredito nisso.
— Por isso pedi para você vir, na verdade... — Chloe chega mais perto. — Quero que vá na farmácia e compre o teste para mim.
— Nem fodendo.
— Por favor, . Eu vim com a equipe de cheerleaders e elas não sabem de nada. — Ela me olha com cara de cachorro sem dono. — Não posso comprar um teste na frente de todo mundo.
Estou pronto para pestanejar, mas assim que abro a boca, vejo Evans passar pela gente.
Mas que porra está acontecendo para toda a população adolescente de Londres vir para esse shopping hoje?!
Puxo Chloe depressa e a conduzo para a farmácia mais próxima, antes que alguém me veja e abra a boca para o colégio inteiro.



— Eu já ouvi, mãe. — Não faz nem vinte minutos que cheguei e minha mãe já veio me encher com suas viagens sem propósito, como sempre. Espero que pelo menos me traga uma bolsa da França ou, quem sabe, um Louboutin.
Subo para o meu quarto sem muita pretensão do que fazer. Com essa nova história de " + Chloe = baby", nem existe clima para sairmos todos juntos. estava tão perplexa, que nem conseguiu formar uma frase no caminho. Pego o celular e mando várias mensagens para ela, mas canso de esperar uma resposta.
Inferno, por que ela não responde? Sou obrigada a ligar para o .
Coloco para chamar, mas toca cinquenta vezes e aquele imbecil não atende. Pelo amor de Deus, o que tem de errado com essa família? Ligo por chamada de vídeo para , mas nada acontece. Faço o mesmo com , que finalmente me atende no segundo toque.
Já com saudades?
— Cadê a ? Estou mandando mensagem sem parar e ela nem visualiza! O que aconteceu? Espera, você está de cueca? Meu Deus, pelo menos dá para você fingir ser uma pessoa decente e pôr uma roupa?
Acabou seu chilique de patricinha mandona? — Reviro os olhos.
— Você está surdo ou o quê? Te fiz uma pergunta, seu retardado!
Não, você fez no mínimo cinco. Só sei que ela está no quarto trancada ouvindo música no último volume e sim, estou de cueca na MINHA CASA. Por quê? Prefere que eu tire? — Mas que ousadia desse...
— Claro que não, seu depravado! — Desligo irritada.
Bufo indo para o closet pegar minha maleta de esmaltes. O melhor que posso fazer quando estou entediada é pintar as unhas. Eu fico melhor, minhas unhas ficam bonitas e a humanidade agradece.
Levo um susto com a porta do meu quarto sendo aberta e vejo Luke, sem camisa, se jogar na minha cama.
— Você tá bêbado para entrar no meu quarto assim?! — Será que sou a única dessa casa que entende o termo "privacidade"?
— Já organizou o chá de bebê? Ou primeiro vai ser o casamento? — Mostro o dedo do meio, rindo. Nem que me pagassem eu faria algo do tipo para a vadia da Chloe.
— Será que é mesmo verdade? Tipo, com quantos caras a Chloe já transou?
— Se alguém deveria saber disso, esse alguém é você, Luke. Vive grudado no para cima e para baixo em pubs e festas. Onde e estavam indo no dia em que bateram o carro?
— Eu sei lá... Por que está me perguntando essas coisas? Eu hein... — Luke se apressa para sair, me deixando intrigada.
— Luke, volta aqui agora!



Chego em casa exausta e sentindo um peso na cabeça, como se ela fosse do tamanho da London Eye.
— Onde você estava, ? — Minha mãe me pergunta sobre os óculos, sentada na mesa de jantar e imersa nas coisas do trabalho. — Onde está seu irmão?
— Agora não, mãe. — Ralho com ela, subindo as escadas.
Era só o que me faltava, Martha fingindo ser uma "mãe presente" em plena segunda à tarde.
Entro no meu quarto, deixando a raiva me consumir. Estou com raiva de por ter escondido coisas de mim, raiva da minha mãe por fingir que se importa com os filhos, raiva de Chloe por ser uma vadia... Meu Deus, o que está acontecendo comigo?! Que dia de merda!
Coloco When The Party's Over, da Billie Eilish, para tocar no último volume e vou para o banheiro tomar um banho.

E se ele for o pai, e daí? Chloe vai ser a mãe, e vida que segue. Eu estarei lá, vou segurar o bebê e escolher um nome bem maneiro. Excelente!

Chacoalho a cabeça, espantando os pensamentos. Preciso parar de pensar em tudo isso e me concentrar.
Me dispo totalmente e subo na balança ao lado pia. O visor marca 50,7 kg assim que solto meu peso.
— Mas que merda! — Falo sozinha, frustrada. Me olho no espelho, um pouco triste.
Por que tudo tem que ser tão difícil na porra da minha vida? Dois dias comendo como uma pessoa normal e já estou assim, desse tamanho. Agacho na privada e coloco o dedo na garganta, exorcizando todo o peso do meu dia.
Sinto o gosto metálico familiar se espalhar e aos poucos começo a me sentir melhor.
Sento na privada cansada, esperando a tontura passar, e reflito sobre até quando conseguirei continuar com isso. Queria poder ligar para o para me sentir melhor, mas não sei se é o melhor dos momentos...
Ele deve estar com a Chloe, brincando de casinha.
Apesar da pontada que sinto no estômago, rio com meus pensamentos.
Não consigo me segurar e agacho novamente, nauseada. Sei que vou me sentir melhor depois disso. Depois de, finalmente, pôr tudo para fora.
Limpo a boca, abrindo o chuveiro quente e entrando em seguida. Molhando meu cabelo castanho claro, fecho os olhos com força e repenso tudo que comi no dia.
Eu só queria ser uma garota normal, que come e se sente bem no outro dia... Mas ao invés disso, estou aqui, fazendo listas intermináveis de comidas pouco calóricas.

Capítulo 3


Estou no corredor do shopping há mais ou menos 15 minutos, esperando Chloe sair do maldito banheiro com a resposta que vai mudar definitivamente a minha vida.
Eu nunca vou me acostumar com isso, seria estranho pensar em uma criança me chamando de “papai”, ou em Chloe como alguma coisa além de uma transa de fim de semana.
O futebol, a escola, meus amigos... Pensar que talvez eu tenha que abrir mão das coisas mais importantes da minha vida caso o resultado do teste dê “positivo”, me atinge como um soco no estômago. Quantos jogadores muito bons tiveram suas carreiras arruinadas por causa de um bebê? Estou prestes a ser um deles, e isso não me deixa nem um pouco confortável.
Todas as coisas que estão ameaçadas com a resposta deste teste me deixam nauseado, para ser sincero. Já me acostumei em ter uma família disfuncional, e lido bem com isso hoje em dia, mas como eu vou ser quando a responsabilidade de pai for minha? Chloe sempre quis mais do que eu posso dar, não sabe aceitar um não, e agora com esse lance do bebê não vai ser diferente.
Vamos formar uma família tão disfuncional quanto a minha? O que aconteceria mais para frente? Não sei. Adoraria ter uma resposta para essa pergunta, mas não tenho nenhuma, pelo menos não até ela sair do maldito banheiro.

Cacete, por que tanta demora?

Checo o celular pela milésima vez no dia, e noto uma chamada perdida de Charlie. Que maravilha! Charlie vem daqui alguns dias e sempre que ele aparece, traz uma confusão junto. E eu estou como? Com merda até o pescoço, sem saber como lidar com as consequências das minhas irresponsabilidades. Sou tirado dos meus pensamentos por Chloe, finalmente saindo do banheiro.
— E aí? — Pergunto enquanto ela pega o teste e me entrega, e nesse meio segundo que passa, quase não consigo respirar de tanta ansiedade. O clima está pesado, sufocante, enquanto espero pela minha resposta.
Ela estende o teste para mim sem responder à minha pergunta, e assim o tenho nas mãos, respiro fundo, tomando coragem para olhar para ele. Um único risquinho. Era isso que eu via naquele maldito teste.
— O que isso quer dizer? — Perguntei encabulado, e Chloe riu.
— Que vamos ter um filho ao invés de dois. — Chloe diz animada, e eu sinto meu coração palpitar. Chloe gargalha ao meu lado, e então eu percebo que tudo isso não passa de uma piada idiota.
— Cacete, Chloe! Não se brinca com uma coisa dessas!
— Não vamos ter um bebê, . Pode respirar agora. — Nós dois rimos quando ela terminou a frase. Eu me sinto leve, de um jeito esquisito, mas bom. Abracei Chloe sem pensar, ela riu mais ainda com a minha reação. — A gente pode sair daqui e... Comemorar.
Onde eu estava com a cabeça quando fiz isso com ela? Deveria ter só transado com ela, sem repetir, sem quase a ter engravidado e estragado o futuro de nós dois. Mas não, eu fiz tudo que não deveria, e como as mulheres sempre fazem, agora ela quer fazer parte da minha vida. É uma doida de pedra se acha que isso vai acontecer.
— Chloe, isso aqui. — Aponto para gente. — Não vai mais rolar. Acho melhor você voltar para as suas compras, eu tenho que ir. — Não dou tempo para que ela responda, simplesmente viro as costas, ouvindo protestos atrás de mim. Por um lado, sinto vontade de dizer que não quero ser um cretino, mas que não tem nada que eu possa fazer no momento, já que não sinto absolutamente nada por ela. E isso não é culpa minha. Nem dela.

Nota mental: Nunca mais dormir com essa maluca de novo.

Entro no carro já ligando o rádio, ainda sincronizado na playlist da . Robbers, de The 1975, começou a tocar e eu sorri com aquilo. Ela me apresentou essa música há um tempo atrás, e sempre que ouço, me lembro dela.

Preciso falar com ela.



desligou na minha cara, toda estressadinha, o que me fez rir bastante.
Até que ela é gata, tirando o alto nível de chatice. O nariz pequeno fica bem em seu rosto, e os grandes olhos azuis combinam com a boca delicada. Mas mesmo com todas essas “qualidades”, não deixa de ser irritante, egoísta e mandona.
Balanço a cabeça, tentando afastar da minha mente, e começo a pensar em um jeito de ir buscar minhas coisas com Josh. Me levanto da cama e vou até a mesinha, alcançando meu celular.
— E aí cara, você já tem? — Pergunto sem rodeios. — Estou a três dias sem. Não dá mais para esperar.
Cara, eu consegui. Mas o preço não é dos melhores... ainda vai querer?
— Vou, onde eu posso pegar? — Espero que não seja em nenhum beco no meio do nada de novo, da última vez que saí para buscar, as coisas não acabaram muito bem.

Saudades do meu carro, inclusive.

— Vai ter uma festa na casa do Nate hoje, dá uma passada, vai ter para escolher.
— Ele desliga e saio do quarto. Agora é a hora, preciso aproveitar que que minha mãe está em casa, o que é raridade.
A pior coisa de morar com a minha mãe é que ela é controladora. Usei o que ela chama de mesada até o último centavo, e agora estou sem nada, o que significa que além da carona que vou ter que mendigar, vou ter que pedir dinheiro para ela.
— Preciso de um adiantamento da mesada. — Falo de uma vez quando chego até a sala.
— Adiantamento? Sua última mesada foi há alguns dias.
— Eu sei, mas... — Tentei explicar calmamente, mas ela me interrompeu.
, faz uma semana que fiz a transferência para a conta de vocês! Por que você precisa de dinheiro?
— Tem umas coisas, e...
— Como se já não bastasse o carro que você bateu na semana passada. Você vai me desculpar, mas dessa vez não vou te dar mais dinheiro, filho. — Ela vai para a sala de jantar, jogando as mãos para cima, e eu a sigo.

Estou puto da vida.

Estou irado, principalmente por não estar chapado o bastante para conseguir lidar com essa porra. Que tipo de mãe diz ao único filho que não pode adiantar a mesada por causa da merda de um acidente de carro?!
— O que tem a ver a porra do carro com a minha mesada? Já disse que foi um acidente, mãe. E, para começo de conversa, foi um cara que bateu no meu carro. — Minto, já nervoso com o rumo da conversa.
— Sua irmã agora está sem carro por sua culpa, sabia? Já parou para pensar que suas atitudes possam prejudicar outras pessoas? — Ela nem usa a porra do carro, sempre vai com a para todo lugar! Por que você não dá logo um carro para ela parar de me encher o saco? Você sempre dá tudo que ela quer, não sei porque temos que dividir o MEU carro!
... — Ela começa a falar, pronta para dar o chilique dela.
— Toda essa merda por causa de dinheiro, mãe? É sério? Você prefere que eu ligue para o meu pai e peça para ele? Que caralho!
Não aguento mais essa situação, francamente. Ela trabalha o dia toda na porra daquela agência de seguros, tem dinheiro para esbanjar, e eu tenho que ouvir merda por um amassado na lataria de carro.
! — Minha mãe me repreende, e eu reviro os olhos. Agora é a minha vez de insistir. Antes que ele possa acabar a frase, dou um soco no piano à minha frente. Uso mais força do que o necessário, derrubando o vaso favorito dela. Ela grita alguma coisa, mas não consigo ouvi-la em meio ao barulho do cristal se estilhaçando.

E lá se vai mais um presente de aniversário de casamento.

Eu deveria me arrepender e pedir desculpas agora, mas a minha vontade real é quebrar mais coisas, só para ver mais uma vez a cara de espanto que ela fez.
— Quer saber? Não precisa. — Saio batendo os pés no assoalho e subo as escadas com rapidez, rumo ao meu quarto.
Minha cabeça está rodando, e os gritos que ouço no andar de baixo não ajudam em nada. Pego meu celular e tento ligar para , mas ele não me atende. Ligo para Luke em seguida, que, por sorte, me atende no primeiro toque.
A essa altura, toma meu lugar na sala de jantar, e está em uma discussão tão intensa quanto eu estive momentos atrás, se não pior. Ouço Luke buzinar na minha janela e saio de casa em passos largos, sem olhar para trás.
— Entra aí, cara. — Luke diz, empolgado. Ele olha para mim e me analisa.
— Soube da festa do Nate? — Vou logo para o assunto que me interessa, acendendo um cigarro.

Essa ansiedade está me matando.

— Claro, eu algum dia já perdi uma festa? — Responde com entusiasmo. Luke sempre topa qualquer coisa, basta ter mulheres com roupas curtas e muita bebida.
— Tá esperando o que então? Acelera. — Digo sem paciência e Luke ri de mim, mas não responde. É mais uma afirmação do que uma pergunta, na verdade, mas espero uma resposta mesmo assim. Só espero que ele pare de enrolar e acelere logo esse carro.

Que falta o meu bendito carro me faz...

— Você falou com o ? — Ele muda de assunto, curioso. Se ele pelo menos atendesse a merda do telefone, teríamos uma resposta agora.
— Não.
— Será que ele vem?
— Sei lá, com toda essa história da Chloe é mais provável que ele esteja montando um berço. — Tiro sarro. — Você pode começar a dirigir logo e ir até a The Long Acre? Preciso sacar uma grana.



Estaciono na casa dos e vou direto tocar o interfone, mas encontro o portão aberto, o que é no mínimo estranho. A primeira coisa que vejo quando entro na sala são cacos para todo lado.

Mas que porra aconteceu aqui?

? — Chamo, mas ninguém responde. — ?
Quando chego ao andar de cima, está gritando em plenos pulmões e Martha ouve tudo com os braços cruzados. Ela é muito irritante, acha que está sempre certa e é muito inconstante. Ela nunca está em casa, e quando está, faz questão de atazanar os filhos.
parece notar minha presença, olha ao redor à procura de alguém e, enquanto a observo, meu telefone toca no bolso. Nem preciso olhar para saber do que se trata, é outra mensagem de texto de , perguntando onde eu estou.
Martha resmunga mais algumas palavras, mantendo a voz baixa. Não sei ao certo o que ela diz, mas pela cara que a faz...
— E SABE O QUE EU DEVERIA TER FEITO? IDO PARA A CALIFÓRNIA COM O PAPAI! — grita quando chega à porta, batendo-a com força. Caramba, é muito pior do que eu imaginei.
Martha suspira irritada e se vira para mim, que observo a cena em silêncio. Os olhos dela estão vermelhos de raiva, e sua aparência é de cansaço. Mesmo assim ela alisa sua roupa, respira fundo e se recompõe.
— Como pôde notar, não está em condições... — Ela tenta manter seu tom calmo. — Como entrou aqui?
— A porta estava aberta. — Respondi brevemente, batendo na porta do quarto à minha frente. — ? — Ela não responde. Vive me acusando de não ser comunicativo, quando ela mesma não fala comigo. — , me deixa entrar.
— Vai embora, . — O tom de voz dela é determinado, e certamente nada que eu faça agora vai resolver.
, por favor... — Eu insisto, mas ela não responde.
— Acho melhor você ir, . não quer falar com você agora. — Martha diz, tentando ser educada.
A amargura em sua voz é evidente. Ela claramente não gosta de mim, mas o pior de tudo é a falta de emoção e o excesso de classe com que ela fala comigo, tentando inutilmente esconder seus reais sentimentos em relação à situação. Entendo os motivos dela, e o sentimento é recíproco, mas forçar a barra é um pouco demais.
Assenti com a cabeça depois de um tempo, e a vi indicar a escada, sugestivamente. Suspiro derrotado e obedeço, um pouco irritado. Eu só queria falar com ela, saber como ela está...
— Ah, ? — Martha me chama, com a voz esganiçada. — Se você vir o , diga a ele que estou o esperando para limpar a sujeira que ele fez. — Assenti, sem dar muita atenção.
Então foi quem quebrou o vaso... Por que raios ele faria isso?
Passo pela sala dando uma olhada nos porta-retratos antigos. O tapete felpudo que fez parte da minha infância deu lugar a um geométrico, claramente sem graça. Um filme se passa na minha cabeça e percebo que o brilho daquela casa se foi, junto com Charlie. Nem dá para acreditar que um dia essa casa foi um lar de verdade, onde eu costumava vir para esquecer do inferno que é ter uma família disfuncional e um pai de merda.

Agora quem tem isso é a ...

Ligo umas quinze vezes para e sou ignorado praticamente todas as vezes. Foda-se, vou para casa.



Resmungando, eu me levanto da cama com desânimo. Olho para o relógio em cima da cabeceira, e agradeço à minha amiga mentalmente. Os vinte alarmes que colocou no meu celular ontem, enfim, serviram para alguma coisa.
Visto meu uniforme preguiçosamente e calço meus tênis de costume, amarrando meu cabelo de qualquer jeito. Hoje estou qualquer coisa, menos afim de me embelezar para um dia maçante de colégio.
Desço as escadas dando pulinhos enquanto revezo entre tentar colocar a mochila nas costas e esconder o cadarço do meu tênis desamarrado, torcendo para não dar um tropeção trágico no fim das contas.
Rolo os olhos quando vejo minha mãe sentada à mesa, tomando seu café, imersa na sua pilha de papéis habituais.
Só por um momento, chego a cogitar a ideia de fingir um atraso e sair correndo daqui, mas o cheiro de café me atinge primeiro, me dando forças para encarar a situação.
— Cadê meu irmão? — Pergunto enchendo minha xícara de café.
— Não dormiu em casa. — Ela responde torcendo o nariz. Minha mãe olha para o meu cabelo, observando meu total desleixo pela manhã, e solta um suspiro dramático. — Aliás, bom-dia para você também. Tem um batom no lavabo, se quis...
— Não enche, mãe. — Pego um pacote de alcaçuz e me levanto, quase ao mesmo tempo em que ouço a minha salvação buzinar do lado de fora.
— Bom dia, gatinha! — sorri para mim, animada. A encaro com ódio evidente no olhar, e, juro que se meus olhos tivessem superpoderes de raio laser, ela estaria mortinha agora.
— O traste do meu irmão dormiu na sua casa? — Pergunto com desânimo.
— No sofá da minha sala, para ser mais especifica. — Ela bufou, irritada. Eu ri da situação, e agora eu é que estou sendo fuzilada com o olhar. — Notícias do ?
— Ele foi lá em casa ontem à noite, mas não falei com ele. — Respondi quase em um sussurro, cutucando o esmalte azul descascado das minhas unhas.
— Como assim não falou com ele?! Esse lance com Chloe é mesmo sério?
— Eu sei lá, . — Bufei. — A Martha resolveu dar uma de louca ontem à noite, e para piorar tudo, chegou bem na hora. Eu não estava em condições de falar sobre chupetas, fraldas ou coisas do tipo.
— Desculpa, não imaginei que tivesse sido uma noite de horror na casa dos .
— Posso dormir na sua casa hoje? — Pedi sem pensar, com as mãos nas têmporas. Preciso de um refúgio da minha própria casa, em que ponto chegamos...
— E precisa perguntar? Claro que pode. — Sua expressão é afetuosa e amigável, e isso me conforta.
Preciso aprender a ficar quieta para não sair ofendendo todo mundo. O fato de não ter um carro torna tudo um pouco mais difícil, já que as pessoas são obrigadas a conviver comigo no meu pior momento. A ideia de sair de casa sozinha, ligar o rádio no máximo e ouvir minha velharia em paz é tentadora, mas não sei se estou disposta a encarar o estresse de ter um carro no momento.
Assim que pisamos os pés no estacionamento, desço já com alguns livros na mão, decidindo qual será a leitura do dia. Caminho para o meu armário ainda entre O grande Gatsby e O conto da aia, quando vejo de cabelo molhado e jaqueta do time, encostado no meu armário. O que me surpreendeu foi ver o semblante tranquilo em seu rosto, sem preocupações.

Como assim? Olhei para ele de novo, e dessa vez ele também me olhou, abrindo um sorrisinho com o canto da boca.

não parece calmo demais para quem vai ser pai em pleno ensino médio? — comenta, tirando as palavras da minha boa. Não respondo, seguindo para o caminho que estava fazendo, ansiosa para saber o motivo de tanta calma.
se afastou do armário, dando espaço para que minha luta com os livros começasse e eu agradeci em silêncio.
— Você vai mesmo me ignorar? — diz, puxando o lacinho que prende meu cabelo, guardando-o no bolso. — Seu pai me ligou ontem, tá tudo bem?
— Já sabe se vai ser menino ou menina? — Devolvi o interrogatório na mesma moeda, e ri. Reviro os olhos, tentando dar um jeito nos fios descontrolados do meu cabelo, o amaldiçoando por ser tão abusado.
— Ela não tá grávida, foi só um mal-entendido. — diz, um pouco mais sério. — E antes que você comece a despejar tudo que pensa sobre isso... Eu deixei bem claro para ela que não vamos ter mais nada.
Ele me encara por longos minutos, esperando uma resposta, mas tudo que consigo é concordar com a cabeça, um pouco atordoada. A sensação que tenho agora é que um muro invisível foi construído entre nós, impedindo a fácil comunicação que sempre tivemos. As piadinhas costumeiras, as respostas afiadas sobre todos os assuntos, o riso fácil que provocamos um ao outro... Tudo simplesmente desapareceu.
Assim que me recupero do clima estranho, me viro para o espelhinho, enfim desistindo da batalha com meu cabelo. Aperto O grande Gatsby nos braços e bato a porta do armário, comemorando por tudo ter ficado do lado de dentro.
— Que bom, porque eu fiquei a noite toda pensando em combinações de nomes e... Se fosse menino, acho que Peterson não soaria muito bem. — ri da minha piadinha, e eu respiro aliviada com a minha habilidade de quebrar o gelo, mesmo muito nervosa com toda a situação.
Caminhamos juntos ao encontro dos nossos amigos, ainda um pouco constrangidos pela situação, e nos sentamos juntos um de cada lado do meu do meu querido irmão.
Ele está com uma cara péssima e seu óculos escuro não fazem o trabalho de esconder as olheiras nítidas em seu rosto. Mordo a língua para não soltar um comentário sobre suas tentativas inúteis de disfarçar qualquer coisa e abro meu livro.
— Por onde você andou? Te liguei umas 50 vezes ontem. — começa o interrogatório, e suspira, irritado.
— Não é da sua conta. — Ele diz em um tom tão carregado de desdém que me dá vontade de atirar um livro na cabeça dele. — Também te liguei. Inclusive, você perdeu o maior festão.
Canto musiquinhas irritantes suficientes para desviar o foco, e olho para o meu pacote de alcaçuz, escolhendo a tirinha da vez. A noite passada me atinge com força assim que coloco na boca e sinto meu estômago revirar.

Que porra eu tô fazendo comigo mesma?!

Estou mesmo comendo açúcar descontroladamente antes das dez da manhã?! Eu só posso estar maluca, isso sim!
Me levanto depressa, pronta para me desfazer do maldito açúcar, mas no exato momento em que me direciono para a lixeira mais próxima, meu lado desajeitado grita mais alto, e em uma combinação de acontecimentos, uma colisão um pouco desastrosa acontece e sinto braços fortes me segurando.
— Vai com calma, gatinha.— Sinto minhas bochechas corarem assim que olho para o dono da voz.
— D-desculpa. — Eu vocifero. Sério que gaguejei na primeira e única frase do meu diálogo com Justin Evans?! Eu sou patética!
Justin abre um sorriso para mim e eu sinto a sensação de como se tudo estivesse em câmera lenta. O cheiro de anis domina o curto espaço entre nós, me deixando completamente atordoada, e seus olhos castanhos me fitam com divertimento. Não tem uma só garota que não se encante por Justin. Ele é alto, tem perfil atlético e a pele negra contrasta com seu sorriso perfeitamente branco e alinhado.
Pisco algumas vezes quando ouço pigarrear, me tirando do transe. Ela me repreendeu com o olhar, com inquieto ao seu lado, observando tudo com atenção. Endireito os ombros e olho para Justin de novo, ainda com as bochechas queimando, e me afasto, um pouco sem graça.
Assim que volto para a mesa, eu me recuso a olhar para . Odeio ver como fica diferente quando algo do tipo acontece.
— Babaca. — resmunga, e eu reviro os olhos. Impressionante como ele consegue achar defeitos em qualquer cara que eu me interesse.



Nada se compara a chegar em casa, principalmente depois de ter enfrentado uma fila interminável de lançamentos da Sephora.
Eu poderia esperar? Claro que sim. Mas sinceramente, ver uma loja lotada de produtos inéditos é demais para o meu coraçãozinho.
— Cheguei. — Grito para as paredes à minha frente. — Como se alguém pudesse me ouvir... — Dou risada comigo mesma, crente de que estou sozinha em casa. Vou para a cozinha e praticamente paro de respirar assim que noto um par de botas pretas em cima do carpete da sala de estar. Apesar de não ter dirigido nenhuma palavra a mim, sua presença me incomoda. Não consigo esconder meu descontentamento e tenho quase certeza de que solto um grunhido.
— Você fala sozinha assim sempre ou...? — Ele debocha de mim, batucando despreocupadamente no meu sofá.
— Com a mesma frequência que você, para ser sincera. — Digo, lembrando do episódio de ontem.
sempre foi um poço de arrogância e ironia, e é impossível não revirar os olhos quando estou no mesmo ambiente que ele. tira um cigarro do bolso, e para o meu total desespero, ele acende.
— Nem pense nisso! — Eu reclamo, tirando o cigarro da boca dele. — Isso é uma sala, não um bordel.
— Quase não deu para perceber. — me olha por um instante, debochando da minha aparência. — Sabe, ser agradável de vez em quando não tira a sua reputação de garota malvada. Que tal tentar, para variar? — Reviro os olhos para ele, jogando o cigarro na lixeira. E antes que ele diga ou faça mais alguma coisa desagradável, me direciono para as escadas. — Inclusive, minha irmã está quase tendo um chilique na biblioteca.
— Ai, meu Deus, eu esqueci de buscar a ! — Volto das escadas, deixando as sacolas em cima na mesa. — Se mexer nas minhas coisas, eu mato você! — Ameaço , que não me dá a mínima, passando os canais com o controle remoto.
Desde nosso primeiro contato, mudou minha vida mais do que qualquer outra amizade que já tive. De repente, eu estava vivendo os filmes americanos, e aquelas tramas ridículas de melhores amigas que não tem nada a ver uma com a outra se tornaram realidade. E não importa o quanto sejamos diferentes uma da outra e o quanto temos foco em um futuro totalmente distante, nossa amizade é para sempre. É a única certeza que tenho na minha vida.
— Você está brincando com a minha cara, né?
— Desculpa... — Eu fiz a minha melhor cara de arrependimento e abri a porta do carro. — E eu tenho crédito, você vive atrasada!
— Francamente, isso não foi um atraso, ! — Ela grita, levemente vermelha de irritação. — Estou aqui a horas, onde raios você estava?
— Não dava para esperar, o lançamento era hoje e tinha uma coleção incrível!
— Você encontra um lançamento de sei lá o quê e simplesmente esquece da minha existência? Eu esperava mais de você!
— Chega dessa conversa, eu estou aqui não estou? Agora vamos, temos uma noite de garotas pela frente. — Eu corto o drama e acelero o carro, voltando para casa.
, sendo a pessoa asquerosa que é, ainda está criando raízes na minha sala quando entramos. Meu irmão anda de um lado para o outro, repetindo nomes de comidas estranhas.
— Que ótimo, teremos companhia essa noite. — Comento com , sentando na bancada da cozinha. Me recuso a sentar no sofá com ele lá. — Só falta o aparecer, aí teremos o quinteto completo. Aliás, onde ele está que não aqui?
— Eu não sei, não nos falamos direito hoje.
— E por que não? Vocês se falam o tempo todo.
— Eu não sei! Ele é muito instável comigo. Ainda estou confusa com a reação dele hoje. Num minuto ele é um doce e busca o meu almoço, e no outro ele é um idiota completo sabe Deus porquê!
— Sabe Deus por quê?! Convenhamos, você sabe muito bem que o motivo disso foram os braços fortes de Justin te agarrando no refeitório. Você ainda não sacou que tem uma quedinha por você?
— OK, chega dessa conversa. — Ela tenta desconversar toda vez em que toca nesse assunto. Ela não sabe mentir, muito menos como agir em momentos embaraçosos, e sabe muito bem que não consegue me enganar. Eu a conheço bem demais para isso, então ela simplesmente foge. Mas como uma boa amiga que eu sou, continuo a conversa, todas as vezes.
— Ah, ! Ele tem visto você passar de uma paixonite para outra, e toda vez ele vem com o mesmo discursinho de que nenhum é bom o bastante para você...
— Ele sai com meia dúzia de meninas todo fim de semana! — Ela protesta.
— Eu ainda não acabei, então me deixa falar. — Eu ressalto, continuando a minha linha de raciocínio. — Enfim, quando você finalmente desencanou de sair com Kyle de tanto ele encontrar defeitos no garoto, você começa a flertar com Justin! O que você acha que ele pensou?
— Eu não estou flertando! — Ela praticamente berrou para mim, nervosa. — Ah você está, sim! Eu vi que se seguiram no Instagram e ele não tirou os olhos de você desde então. E também percebeu! Ele está pensando “Será que ela vai encarnar em todos os caras do mundo antes de finalmente me notar?”
— Ele não é assim! E ele não pensou... Para de viajar!
— Eu já disse, , se vocês dois querem continuar fingindo que nada está acontecendo, por mim tudo bem. Continue flertando com o Evans e saia com ele de uma vez! — Encerro o assunto, assistindo a carranca se formar na cara da minha amiga. — Agora chega desse assunto, as suas unhas estão horríveis e tenho um esmalte que vai ficar perfeito em você.

Capítulo 4


Dou um pulo quando ouço o despertador tocar e olho a hora assustado. Seis e meia, tenho um jogo importante hoje, então é hora de levantar.
Esfrego os olhos olhando para o celular. Fui dormir muito tarde ontem à noite tentando falar com , mas deu caixa postal todas as vezes. O modo como Justin olhou para ela quando se esbarraram ainda não saiu da minha memória, e fica se repetindo sem parar. Nunca gostei muito do cara, mas agora com ele de olho nela, gosto menos ainda.
Talvez isso tenho transparecido, e ela esteja me evitando... Não quero que isso vire um assunto ou uma situação constrangedora entre nós, mas prefiro que ela fale comigo a ficar nesse silêncio esquisito.
Tomo um banho rápido e visto a camisa de treino do time, jogando o que eu preciso na bolsa de qualquer jeito.
Desço as escadas apressado e vejo minha mãe preparando alguma coisa, já acordada. Atravesso a cozinha com poucos passos e me sento, tomando um pouco de café. Quando ela se senta, tomo mais um gole e ela olha para mim, com um olhar claramente crítico.
— Que cara é essa, dormiu tarde ontem?
— Só um pouco... — Confesso, o que faz minha mãe negar com a cabeça.
— Você precisa dormir na hora certa se quiser continuar sendo o quarterback.
— Eu sei, mãe... Eu tinha umas coisas para resolver. — Explico, pegando mais um pouco de café. — Meu pai já acordou?
Pergunto, mas a reação que ela tem me deixa confuso. Ela age como um animal encurralado e a frustração é nítida em seus olhos.
— Seu pai...
— Não dormiu em casa de novo, eu já entendi. — Completo a frase, antes que ela tente explicar. — Por que você ainda insiste nesse casamento fajuto? Ele quase nunca passa a noite aqui e quando passa, te trata mal.
— Filho... É complicado. — Ela tenta amenizar, sem aprofundar o assunto. — Quer uma torrada?
O apelo para mudar de assunto é tão claro em seu tom de voz que acabo cedendo. Acho que concordamos que eu não sei lidar muito bem com esse assunto, principalmente em um dia importante. Apesar de estar demonstrando muito autocontrole ultimamente, esse assunto provoca grandes problemas toda vez que vem à tona.
— Estou indo. — Me levanto, pegando minhas coisas. — Depois do colégio, vou com a no aeroporto, não precisa me esperar para jantar.
— Charlie vem para Londres? — Ela pergunta, me olhando diretamente.
— Sim, vai passar uns dias. — Respondo, observando sua reação. Ela disfarça bem, mas sei exatamente o que ela pensa sobre isso. — Bom, preciso ir.
— Boa sorte no jogo de hoje, meu amor. — Ela alisa minha camisa. — E não chegue muito tarde.
Estaciono o carro e acendo um cigarro para relaxar. Não posso fumar sendo do time, mas ninguém precisa saber.
Com esses pensamentos na cabeça, vejo Chloe passar apressada sem olhar para os lados. Como não estou nem um pouco disposto a ser pego fumando escondido, apago o cigarro e saio do carro, indo para o campo.
Dou uma olhada na arquibancada pouco antes de entrar no vestiário e me surpreendo com a quantidade de pessoas. Procuro entre as pessoas enfileiradas, mas não encontro.

Será que ela não vem?

Ouço o discurso motivacional do treinador começar assim que descanso minha mochila no banco do vestiário, e sinto a adrenalina começar a crescer. Visto o uniforme pesado, amarro o cadarço, repassando todas as jogadas, e calculo o tempo de cada uma. Tudo tem que ser feito com o máximo de precisão nesse jogo, e eu tenho que dar o meu sangue nisso se quiser ganhar.
Repito o grito de guerra três vezes junto com meus parceiros e me preparo, dando mais uma olhada na arquibancada, ansioso para o jogo começar. Vejo sentada ao lado de Luke, que grita alguma coisa animado, e ao seu lado se esconde atrás de seus óculos, nitidamente contrariado por estar em um campo lotado. Aperto os olhos e procuro por mais um tempo, mas me dou conta de que, na verdade, ela vai perder o jogo.



A escola aparentava estar vazia quando eu e chegamos, mas a verdade é que estão todos no campo esperando o jogo começar. O jogo de hoje é importante e sei que vai brilhar, como sempre. A minha vontade é de voltar para casa só de imaginar Chloe pulando com sua equipe de líderes de torcida a essa hora da manhã, com suas roupas minúsculas e toda a maquiagem espalhada pelos rostinhos de Barbie que elas têm, mas estou aqui para apoiar o meu melhor amigo, como manda o figurino.
— Vai na frente, . Te encontro lá. — Encorajo a minha amiga impaciente e vou para o banheiro, um pouco envergonhada pelo real motivo de estar saindo de fininho.
Vasculho na bolsa a procura do potinho de sombra azul que peguei na penteadeira de quando acordei, e respirei fundo antes de abrir.
Passo o indicador pelo pó brilhante e faço dois riscos na minha bochecha esquerda, ansiosa pela reação de quando ver a minha demonstração desastrosa de torcedora. Me posiciono para fazer do outro lado do meu rosto e assim que deslizo o glitter pela bochecha, alguém esbarra em mim, espalhando o tom azul mais do que deveria.
— Ah, me desculpe! — Chloe se pronuncia, falsamente arrependida. — Eu sou tão desastrada...
— Tudo bem, Chloe. — Digo por educação e a vejo virar antes mesmo de eu terminar de falar, continuando sua conversa com Megan.
Como eu estava dizendo, não deu mesmo para aparecer, apareceu lá em casa ontem à noite, e você sabe... — Chloe abafou uma risadinha histérica. — Quando ele está na minha cama, quer atenção o tempo todo.
Paro de respirar por um segundo com a revelação de Chloe, tentando arrumar a parte borrada do meu rosto.
dormiu com ela de novo?! Então aquele papinho de que deixou claro para ela que não teriam nada...

Como ele é mentiroso!

Esfrego o meu rosto com sabão e tento me livrar do glitter, me sentindo a pessoa mais idiota do mundo. Meu rosto agora está vermelho e eu continuo tentando me livrar da cor que pinta minhas bochechas, enchendo minhas mãos de água pela milésima vez.
O jogo começou há algum tempo e ouço tudo do banheiro, as comemorações a cada ponto ganho e a vibração a cada ameaça. Assim, decido não aparecer na arquibancada. Não tenho clima para torcer depois do papel de idiota que fiz, então o máximo que consigo é ouvir de longe, enquanto tento inutilmente desaparecer com o tom azulado que insiste em ficar.
Quando me sinto minimamente apresentável, dou uma espiada de longe e vejo lançar a bola para o último touchdown, fazendo o time da St. Mary vencer, causando alvoroço pela arquibancada. A equipe das líderes de torcida invade o campo, comemorando com os jogadores, animadas, e tudo que consigo ouvir é o grito da vitória. Fico feliz pelo time, mas o meu orgulho é maior, então me encaminho para o meu armário, ignorando a comemoração.
Depois de enfiar tudo no armário, eu ignoro meu pacote de marshmallows e agarro meu livro da vez, pronta para matar o pouco tempo que ainda tenho antes da primeira aula.

Que desperdício de uma boa manhã de sono...

— Ah, aí está você... — encosta ao meu lado, um pouco emburrado. — Gostou do jogo?

Fecho os olhos e respiro fundo, me preparando para ouvir.

— Não consegui assistir. — Respondo quase em um sussurro.
— Não conseguiu? — Ele levanta uma das sobrancelhas, intrigado. — estava lá, seu irmão estava lá... A não ser que você tenha vindo andando, suponho que você tenha chegado a tempo do jogo.
— Eu já disse que não deu, tá legal? — Respondo um pouco mais alto e me olha incrédulo.
— Você não vai nem se dar o trabalho de arrumar uma desculpa?! — Ele aumenta o tom comigo, perdendo a paciência.
— Talvez porque eu tenha perdido tempo demais ouvindo Chloe se gabar do seu desempenho na cama para toda a população feminina de St. Mary essa manhã! — Me viro para ele, também perdendo a paciência.
— Do que você está falando?!
— Desse seu dom de entrar em qualquer calcinha da face da Terra! — eu reviro os olhos, tomada pela raiva. — Passar a véspera de um jogo tão importante com Chloe? Eu esperava mais de você.
— Isso é sério? Você está me julgando de novo, sem ao menos me perguntar a ordem dos fatos? Isso nem é sobre você!
— Não estou te julgando!
— Ah, não? Porque é o que parece.
— Eu pensei que contássemos a verdade um para o outro, que fôssemos amigos!
— Somos amigos!
— Não, não somos! Amigos contam as coisas básicas um para o outro. Eu achei que éramos amigos, mas pelo visto me enganei!
— Sabe, isso não é da sua conta... — Ele retruca comigo, me deixando perplexa.
— Claro que é da minha conta! — Eu grito mais alto. — Porque eu perdi duas horas da minha vida procurando o tom de azul perfeito para desenhar dois riscos idiotas nas minhas malditas bochechas e fazer papel de idiota na frente desse colégio inteiro, isso tudo até descobrir que você é um puta mentiroso, e que na verdade somos completos estranhos um para o outro!
— Não somos estranhos, sabemos mais da vida um do outro do que qualquer outra pessoa! Eu pego a sua comida todos os dias, te levo para tomar café e te ouço reclamar de personagens que nem existem o tempo todo! Se não somos amigos, o que somos então?!
— Eu não sei!
— Eu não dormi com a Chloe, mas se eu tivesse dormido... Por que se importa tanto?
— Porque sim! — Digo com amargura. — Por que se importa tanto com o fato de eu estar flertando com alguém?
— Porque sim. — Ele responde no mesmo tom, passando as mãos pelo cabelo, como sempre faz quando está nervoso.
Depois de um tempo, nós dois suspiramos e demos as costas um para o outro, indo em direção diferentes.
Queria poder ser mais racional em relação a e não me sentir boba toda vez que ele esconde alguma coisa, por mais fútil que seja. Não sei por que me sinto assim, eu sei que somos amigos.
Caminho pelo pátio, tentando me lembrar em que aula estar, mas estou sem energia e prestes a cair no choro, o que dificulta tudo. Ainda é bem cedo, então vou andando em um ritmo mais lento que o habitual.
Quando meu dia começa a ficar mais agradável e paro um pouco de pensar em , me lembro que daqui poucas horas vou estar com o meu pai e a felicidade toma conta de mim outra vez.



Estou no portão da casa dos , esperando sair para buscarmos Charlie no aeroporto, como de costume. É quase que um pacto nosso depois que começou a evitar a presença de Charlie.
Desço da picape pronto para tocar a campainha, mas quando me aproximo do interfone, a mão pequena dela abre o portão, de um jeito muito desajeitado. Dou alguns passos para observá-la e ela desce os pequenos degraus devagar, apesar de estar usando tênis. Sua calça jeans está com as barras dobradas, deixando a blusa surrada com mais personalidade, e seus óculos redondos deixam tudo ainda mais com a cara dela.
Ela abre a porta da picape sem me dizer nada e se senta no banco de carona. Ela está irritada comigo. Dá para perceber pelo jeito que me olha.
Pego a chave no meu bolso e dou a volta, entrando na picape também sem dizer nada. Quando me sento ao lado dela, meus joelhos quase tocam os dela, causando uma situação desconfortável, dada as circunstâncias em que terminamos a nossa última conversa.
— Pensei que não viesse. — Ela comenta, parecendo totalmente desinteressada.
— Eu nunca descumpro uma promessa. — Repondo com rispidez, dando partida. — Deveria saber disso.
Ela não responde e, algum tempo depois, estica o braço para ligar o rádio. Passo os dedos pelos cabelos, nervoso com a situação em que nos colocamos hoje mais cedo, e assim que a música Helter Skelter, dos Beatles, começa a tocar, deixo um resmungo baixo escapar. Estico o braço para passar a música irritante e começo a cantarolar Gimme Shelter, dos Rolling Stones. pestaneja com a minha escolha e, sem pensar duas vezes, volta para Helter Skelter. Repetimos esse processo algumas vezes e cada vez que ela me desafia, eu fico mais irritado.
Suspiro e conto até dez. Estico o braço novamente e aperto o botão com mais força do que deveria. O botão quebra e, para a minha infelicidade, o rádio trava em Helter Skelter.
— Feliz agora? — debocha de mim, acabando com o pouco de autocontrole que ainda me resta.
Dou um soco no rádio, silenciando-o, e me olha com os olhos assustados.
— Você pensa que tudo é sobre você, que tudo tem que passar por você! — Despejo de uma vez, irado.
— Por que está gritando comigo?
— Se eu não te conto alguma coisa, é porque tenho motivos para isso!
— Eu sei. — Ela morde a parte interna da bochecha, atônita.
— Eu não tenho a obrigação de contar nada para você, . Você não tem o direito de me fazer sentir culpa por alguma coisa que nem aconteceu!
— OK! — A voz dela sai trêmula e eu sei que está tentando se controlar para não chorar. Já a conheço bem o suficiente para saber que está pressionando as unhas nas pernas e que seus olhos amendoados estão cheios de lágrimas.
— OK! — Eu rebato, baixando o tom. Quero que ela saiba que não sou nenhum fantoche com o qual ela pode fazer o que quiser, mas agora que a adrenalina está passando, estou começando a ver como fui idiota. — É difícil demais lidar com você.
Depois da minha confissão, fizemos todo o trajeto em absoluto silêncio, e assim que chegamos ao aeroporto, vi os ombros dela relaxarem. O alívio dela foi nítido quando estacionamos, mas eu pude sentir a ansiedade começar a brotar por outro motivo assim que ela se livrou do cinto.
Me sinto mal por ter gritado com ela em um dia como esse, tão cheio de lembranças.
— Desculpa. — Eu a puxo de volta quando ela abre a porta do carro. — Eu não quis gritar com você. — Ela assente ao mesmo tempo em que seus lábios tremem e seus olhos começam a marejar de novo. Ela tenta endireitar os ombros, um pouco encolhidos, e tenta trazer sua postura orgulhosa de volta. — Confia em mim, por favor.
— Eu confio. — A resposta vem como um sussurro. Ela está mais do que chateada com isso, mesmo tentando mostrar o contrário. Ignoro a parte do meu cérebro que questiona como eu me sentiria se fosse o contrário e tento repetir para mim mesmo que ela não tem motivos para ficar chateada. — Podemos, por favor, deixar isso de lado por enquanto e agir normalmente perto do meu pai?
Concordo com um aceno e um abraço. Ela resiste, mas consigo sentir seu corpo relaxando em meus braços, aos poucos.
Descemos do carro juntos, indo em direção à saída de passageiros para esperar por Charlie. Estamos um pouco adiantados, então paro para pegar um café no Starbucks. [N/A. tinha que ter, né? hahahaha]
— Dois expressos duplos e um donuts, por favor. — Peço para a atendente, observando se mexer um pouco desconfortável ao meu lado. — Que foi, quer outra coisa?
— Não, só não estou com muita fome. — Ela responde, mas a frustração é nítida em seus olhos.
— E desde quando você precisa estar com fome para comer donuts? — Eu tento quebrar o gelo, mas ela parece tensa.
Para a salvação dela, os portões de passageiros se abrem e desviou a atenção de mim, procurando por Charlie.
— Pai! — Ela corre para os braços de Charlie, deixando seu donuts quase intocado na mesa. Apesar da minha confusão mental, eu ignoro e a sigo.
— Que saudade, filha! — Ele a cumprimenta, retribuindo o abraço.
— E aí? — Estendo a mão para Charlie, mas ele é mais rápido e me puxou para um braço desajeitado.
— Como você está, garotão? Senti saudade de vocês e do bom e velho clima Londrino.
— Como foi a viagem? — pergunto, depois de um abraço longo.
— Foi boa, na medida do possível. — Ele resmunga. — Esses aviões parecem mais latas de sardinhas. — Gargalhamos. — Você está tão magrinha, filha! Tem comido direito?
— Não exagera, pai! Eu até engordei. — revira os olhos, impaciente. — Tem certeza de que não quer ficar lá em casa? A mamãe viajou. — sugere, eufórica. Observo uma cena já conhecida por mim se repetir e recuo, tentando me concentrar no marrom das malas de couro de Charlie.
— E perder a cama de hotel?! Sem chance. — Desvio o olhar das malas para e seu desapontamento. Olho para Charlie um pouco desconfortável e tento imaginar minha vida se ele não tivesse indo embora. Em como seria a vida dela... Fico maluco por não ter como saber, e o quanto e eu estaríamos envolvidos se ela não tivesse passado por tudo o que passou. — O que acham de pararmos para comer alguma coisa no bom e velho Bonzo's? — Charlie sugere, mudando o assunto.



Depois do meu pai folhear as páginas gastas do cardápio do Bonzo's e fazer muitos comentários sobre tudo o que deixaram de servir, enfim conseguimos pedir. Isso é o que mais gosto no meu pai, ele não se importa de comer hambúrguer em um restaurante estilo café, que fica no centro e não tem a mínima sofisticação. Minha mãe infartaria e ia querer saber até a origem dos ingredientes do molho que servem com a salada.
Depois que todos nós decidirmos os pedidos, continuamos conversando sobre a Califórnia, até a comida chegar.
O fato de estar aqui, com essa calma toda enquanto conversa com meu pai, me anima e me assusta. Espero que esteja tudo bem entre a gente agora. Toda aquela gritaria lá no carro me assustou e me deixou com sentimento de culpa por ter insinuado que não somos amigos. Sei que o que temos é forte e verdadeiro e não quero nunca perder isso.
Quando terminamos, meu pai e discutem quem vai pagar, mas Charlie acaba ganhando. Saímos do Bonzo's e chegamos à rua e a primeira coisa que me vem à cabeça é que eu devia ter trazido meu casaco. Sinto meu queixo bater de frio e olha para mim achando graça.
— Tenho uma jaqueta no carro. — Ele oferece, esfregando as mãos pelos meus braços gelados.
— Bom, eu tenho algumas reuniões marcadas para hoje. — Meu pai olha para o relógio. — O que acha de ir para casa com e combinarmos de almoçar amanhã?
— Posso te deixar no hotel. — se prontifica.
— Eu pego um táxi, não se preocupe. — Meu pai dá dois tapinhas nas costas de . — Se preocupe em levar a minha garotinha para casa.
— Pai! — Protesto, revirando os olhos. ri junto com meu pai, e nos despedimos.
Assim que Charlie consegue um táxi, caminhamos até a picape e ele pega sua jaqueta do time no porta-malas. A jaqueta é surpreendentemente quente e tem o cheiro de . É bem grande, então tenho que arregaçar as mangas até conseguir ver meus dedos.
— Obrigada. — Dou um beijo em seu rosto. — Adoro essa jaqueta.
— Fica melhor em você. — Ele sorri, dando partida na picape. Ficamos em silêncio por todo o caminho de volta. Um silencio bom, mas constante.
— Você vai na festa do Chris? — espera uma resposta, assim que adentramos a rua da minha casa.
está insistindo muito para ir. — levanta uma das sobrancelhas. — Tá, eu também não perderia uma rodada de tequila, então... — ri, satisfeito. — E você?
— Vou. — Ele batuca o volante, sem jeito. — Se quiser, posso pass...
vem se arrumar aqui. — Minto. — Mas obrigada. — Completo a frase.
Preciso ir com calma depois de todos os acontecimentos de hoje. assente, percebendo a distância entre nós.
— Até mais tarde, então. — Ele diz e eu desço, batendo a porta do carro.
— Até.
Entro em casa com pressa e tomo um susto quando trombo com meu irmão na porta da sala.
— E aí, tampinha. — bagunça meu cabelo, ascendo um cigarro. — Tira essa jaqueta horrorosa.
— Papai perguntou de você. — Ele revira os olhos, mas não diz nada. — Vai sair?
— Vou em um pub com o Luke.
— Não vai na festa do Chris?
— Comemoração da vitória? Passo. — Ele faz careta. — Ah, eu tiraria essa jaqueta horrorosa se fosse você.
Mostro a língua para o meu irmão e ele se despede de mim. Subo as escadas para me arrumar, ainda abraçada na jaqueta.
Tiro a roupa e abro o chuveiro, ignorando a balança. Não quero ter que pensar nisso, hoje não. Entro embaixo d'água molhando o cabelo, feliz com o fato de o meu pai estar na cidade. Depois de um tempo embaixo da água quente, desligo o chuveiro, pronta para escolher uma roupa. Quero me sentir bonita hoje, mas tudo que eu olho parece básico demais. Por um momento, me pego desejando ser diferente, mais corajosa. Como Chloe. Se fosse como ela, teria roupas mais ousadas.
Mas não sou Chloe, sou . Então escolho um conjunto preto curto, que marca mais o meu corpo do que minhas roupas de costume, mas mesmo assim discreto. Passo uma maquiagem leve e marco os olhos com delineador da mesma cor, modelando ondas no cabelo. Sei que estou fazendo tudo isso pelos motivos errados, mas preciso me sentir mais atraente, e quero que não só , mas todos me olhem. Termino de passar o rímel, dou uma última ajeitada nos cabelos e assim que pego minha bolsa, ouço a buzina estridente da minha amiga.



Fiquei no mínimo 15 minutos procurando uma vaga para estacionar mais perto da casa dos Judd, mas só encontrei a três quarteirões.

Puta que pariu, isso aqui tá muito lotado.

Caminho pelo jardim da casa, ansioso para comemorar o melhor jogo dos últimos tempos com meus amigos. Assim que entro pela porta da sala, sou recebido por gritos e a primeira pessoa a me cumprimentar é Chloe, usando uma minissaia curta e maquiagem nas bochechas, com as cores do time. Só agora percebo o quanto é frustrante o tempo que perdi nessa garota. Nada disso vai importar em um mês, mais ou menos, e o estresse que tive foi completamente em vão.
Dou mais uma olhada pela festa à procura de Luke e , mas não encontro nenhum rosto conhecido. Hoje é o dia. Minha cabeça já está latejando e fico incomodado com a pressão de tudo que estou tendo que aguentar sem ter meus amigos por perto.
Muito ping-pong de cerveja depois, resolvo ir até a cozinha pegar vodka ou qualquer outra coisa mais forte, para enfim relaxar de verdade, mas paraliso com a imagem que se projeta na minha frente. está rindo de alguma coisa, com um mini copinho na mão. Olho para ela e observo a roupa que escolheu. Está usando um short de couro preto, justo o suficiente para que eu consiga ver o formato de suas coxas e da sua bunda. Caramba.
A blusa é da mesma cor e deixa um pedacinho de sua barriga amostra. Sandálias pretas de salto alto a deixam um pouco mais alta do que de costume e alongam suas pernas, chamando atenção. E percebo que mesmo usando salto alto, ela continua consideravelmente mais baixa que eu.
conseguiu me evitar durante toda a festa. Eu também não olhei na direção dela, mas assim que entro na cozinha, toda a situação estranha desaparece. Dou alguns passos em sua direção e vejo bater palmas, animada, enquanto vira duas doses de tequila de uma vez, eufórica.
— Vira, vira, vira. — Eu a incentivo, pronto para entrar na brincadeira.
— Sua vez, ! Quero ver você virar 3 de uma vez, como nos velhos tempos. — Sua voz sai arrastada e seus olhos estão desfocados.

Quanta tequila essa menina bebeu?!

Pego a garrafa das mãos dela e passo para as de , que parece estar um pouco mais sóbria.
— Acho que você já bebeu tequila demais, Jelly bean. — Digo da maneira mais gentil que consigo, chegando mais perto.
— Seu estraga prazeres! — Ela olha nos meus olhos e não tenta disfarçar o que diz, rindo um pouco. Ela faz bico e tropeça nos próprios pés enquanto caminha para mais perto de mim e eu a seguro, a apertando em meus braços. Solto uma gargalhada com a cara que ela faz e decido levá-la para a casa, antes que eu me arrependa.
— Vou te levar para casa. — Passo o braço dela sobre meus ombros, a conduzindo até a saída. — Quanto de tequila você bebeu?
— Nem queira saber. — Ela abafa uma risadinha, um pouco vermelha. sempre foi boa de copo, nunca a vi ficar tão bêbada, tão rápido. — Acho que essa sala está girando. — Ela fecha os olhos, se concentrando. Preciso pôr ela na cama logo ou ela vai desmaiar aqui mesmo.

Maldita hora em que fui estacionar o carro tão longe.

Quando finalmente abro a porta da picape, coloco no banco do lado, me certificando de que ela está bem. Ela tenta desabotoar as sandálias, pestanejando alto, e dou risada.
Costumamos brincar de apostar em quem consegue beber mais doses de tequila de uma vez e é sempre uma competição acirrada. Eu sempre acabo ganhando no fim das contas, é claro... Ela adora fazer isso, e eu também.
Dou a volta no carro e me sento atrás do volante, observando seu olhar abobalhado. Ela se remexe como se estivesse sentindo desconforto, o carro todo deve estar começando a rodar para ela. Pensar nisso me faz querer rir, apesar da preocupação. Ligo o carro e dou ré, dirigindo para o endereço que sei de cor, sem balançar muito.
fechou os olhos e colocou as mãos no rosto, detestando tudo aquilo.
— Estamos chegando, acorda e para de babar no meu estofado. — Provoco, tentando mantê-la acordada.
— Vai se foder. — Ela responde, sonolenta. — Você parece uma lesma dirigindo.
— Nem bêbada você tem modos. — Digo, aperto a coxa dela com a mão, e ela dá um pulinho de susto. — Já estou na rua da sua casa.
— Estou tonta, quero descer. — Seu rosto se contorce, mudando de cor.
Quando estaciono, parece um pouco incerta em relação à sua casa e observo quando seus olhos fitam a fachada, sem luz.
— Tem alguém na sua casa? Tá tudo apagado. — Pergunto. Seu peito sobe e desce depressa e percebo que ela está prestes a vomitar. — Cadê sua chave?
— Na bolsa. — Ela tenta abrir o zíper, sem muito sucesso. Pego a bolsa e abro com mais facilidade, pescando a chave e passando meus braços em volta dela, ajudando-a a descer.
Pela combinação de sua bebedeira e do meu movimento brusco, ela cambaleia um pouco, e agarra a minha camiseta com mais força, a ponto de suas mãos pequenas tremerem. A seguro com mais firmeza e a desço do carro com cuidado. Abro o portão e, em seguida, a porta da sala, parando em frente à escada.
— Já comentei o quanto adoro esse sofá? — Ela se joga no sofá de couro branco, de sapatos de salto e tudo mais. A princípio, quase chego a achar que é piada. A convicção em sua voz, porém, me diz que ela está falando sério.
— Nem vem! — Eu protesto e ela solta um risinho de deboche. — Como você é preguiçosa... — Eu me aproximo e a pego no colo, delicadamente. Seus olhos grandes se assustam e ouço um resmungo baixo. Estou rindo agora, rindo de verdade, não consigo evitar, e quando olho para a expressão de raiva dela, gargalho ainda mais.
Ela parece tão fácil de entender por fora. É gentil, bonita de um jeito simples e, pelo modo antiquado como fala, qualquer um consegue perceber que passa horas e horas com o rosto enfiado num livro. Mas seu temperamento e a desconfiança que demonstra dizem muita coisa sobre ela.
Destranco a porta do quarto e a abro, com ainda no colo. Eu a levo para dentro do quarto e me sento na cama. Os olhos amendoados dela me observam com intensidade, enquanto desabotoo sua sandália.
— Você precisa dormir. — Antes que ela possa responder, eu continuo. — Vou ligar para o seu irmão e...
— Acho que vou vo... — coloca a mão na boca, correndo para o banheiro.
Merda... — Murmuro, passando os dedos pelo rosto. Não dá tempo e ela coloca toda a tequila de momentos atrás para fora antes de chegar ao banheiro. Saio da cama num pulo, e ao chegar até o vaso, seguro seu cabelo para trás enquanto ela vomita de novo.

Puta que pariu, quanto de tequila essa garota bebeu?!

Respiro fundo, totalmente desprevenido.
— Você já vai melhorar. — Passo as mãos por suas costas trêmulas, enquanto ela coloca toda a bebida para fora, e sinto seu corpo tremer. Ficamos nessa posição por um tempo, e depois que a sua respiração se acalma, eu solto seu cabelo. — Como se sente?
— Mal, muito mal... — Ela responde com a voz arrastada, colocando as mãos nas têmporas. — Quero ir para a cama.
Ajudo ela a se levantar e noto sua roupa um pouco suja.
— Primeiro você precisa trocar de roupa. — Ela concordou, e a guio até a cama. Abro o closet dela e procuro alguma coisa que se pareça com um pijama, mas demoro tempo demais. Quando volto para o quarto, ela está deitada na cama, com os olhos fechados. — ?!
— Ãhn... — Ela resmunga, ainda de olhos fechados.
, acorda. — Murmuro, passando os dedos pelos cabelos. Ela nem se mexe. Não posso deixá-la assim. — Porra...

Vou ter que tirar a roupa dela...

Venço a batalha interna que brota em mim e a coloco sentada. Alcanço o zíper de sua blusa e, delicadamente, vou descendo por suas costas, então passo a alça pelo osso da clavícula. Quando consigo tirar sua blusa, me surpreendo com o que vejo. Um sutiã preto rendado contrasta com a pele clara de seus peitos fartos.
Puta que pariu, estou mesmo tirando a roupa dela.
Tento não olhar muito, mas é impossível. Nunca tinha reparado o quanto o corpo dela é atraente. Os limites entre nós têm se confundido nos últimos tempos e eu não sei exatamente dizer como e quando isso aconteceu, mas tenho consciência de que está acontecendo. Começo a entrar em pânico com meus pensamentos. Depois de hesitar um pouco, abro o botão do short preto de cós alto que ela usa e o tiro devagar, revelando a calcinha da mesma cor.

Cacete... Observá-la assim mexeu com minha cabeça.

Pego uma toalha no armário e a umedeço, passando pelas coxas dela. Espero que ela não lembre disso quando acordar. Olho para ela deitada seminua na cama e tento desviar o olhar, mas não consigo. Caralho, como ela fica linda assim, sem quase nada cobrindo seu corpo.
Balanço a cabeça, afastando esses pensamentos, e a cubro com o lençol. Melhor eu me mandar daqui e esquecer que esse dia aconteceu.
... — Ouço ela chamar, abrindo os olhos. A expressão vulnerável de repente me faz querer ficar perto, me certificar que está bem.
— Tô aqui. — Digo, sentando ao seu lado.
— Você poderia...? Não estou me sentindo muito bem. — Pede. Ela é tímida demais para ser específica.
— C-claro. — Falo rápido, acariciando o cabelo dela. — Pode dormir.
— Deita aqui comigo... — Ela sussurrou, fechando os olhos de novo. Concordo e me levanto, tirando a jaqueta e a camiseta, também suja. Tiro o tênis e me deito ao lado dela, segurando sua mão.
— Tô aqui. — Repito e ela sorri, de olhos fechados.
Fico apreciando seu sono até minhas pálpebras pesarem e eu não conseguir mais manter os olhos abertos, então me entrego a um sono tranquilo, com sonhos um tanto indecentes.
? — Ouço uma voz distante... — Mas que porra você tá fazendo na cama da minha irmã, ?! — Saio da cama num pulo, confuso e em pânico quando ouço entrar no quarto de repente.

Capítulo 5


? — Eu sussurro, intrigado. Mas a cabeleira escura que eu vejo no travesseiro me faz estremecer. — Mas que porra você tá fazendo na cama da minha irmã, ?!
, a ... — começa a falar um pouco atordoado, atropelando as palavras. — Eu...
Ele para de falar assim que minha irmã também pula da cama, assustada. Meus olhos se arregalam com a cena à minha frente e sinto meu rosto ruborizar de tanta raiva.
Se eu tivesse um relacionamento normal com o cara que me criou, poderia pedir sugestões a respeito do que fazer ao encontrar a minha irmãzinha em uma cama, seminua, com o conquistador mais barato dessa porra de cidade. Mas como eu não tenho... Posso começar com um murro na boca.
— Minha cabeça dói. — reclama, nitidamente embriagada. Permaneço em silêncio, sabendo que vou perder o controle assim que abrir a boca.
Imagino como uma dessas garotas que leva para a cama todo fim de semana, só por diversão. Sinto meu sangue borbulhar de raiva e cerro os punhos, entrando no quarto depressa. Pego a primeira roupa na pilha bagunçada que minha irmã chama de closet, e jogo para ela de qualquer jeito.
— Veste isso aqui. — Preciso me controlar e colocar os pensamentos no lugar, antes que eu faça uma loucura. — AGORA.
cambaleia um pouco e quando se dá conta do que está acontecendo, arregala os olhos, um pouco vermelha. Ela dá as costas para mim e se tranca no banheiro, batendo a porta.
— Que porra você fez com ela, seu imbecil?! ELA MAL CONSEGUE FICAR DE PÉ! — Eu berro, passando as mãos pelo cabelo, nervoso. Ele franze o cenho e olha para o meu rosto, incrédulo. — Eu juro por Deus que se você...
— VOCÊ PIROU?! — Ele grita mais alto e eu cerro os punhos. Eu vou matar esse cara, ele tá me provocando. — Você não tem noção do quanto ela beb... — Inspiro e expiro algumas vezes, tentando controlar a minha raiva, mas quando ele se levanta e começa a gesticular, eu não me seguro.
Parto para cima dele antes que ele complete a frase e lhe acerto um soco na boca, abrindo um corte. Me preparo para brigar, mas ele não revida. Ele solta o ar com força e segura meus ombros.
— PARA COM ESSA MERDA! — Ele rosna para mim. Solto um risinho de deboche e o empurro para trás, de provocação. Sei que nesse ritmo o autocontrole dele não vai durar por muito tempo.
— AI MEU DEUS! — sai do banheiro aos berros, se posicionando entre e eu. — O QUE DEU EM VOCÊS DOIS?
— O que você tem na cabeça?! — Respondo. Não para ser cruel, só quero ouvir a verdade. — Você estava de calcinha, !
— É só o , . — Ela respira fundo algumas vezes, olhando para todos os cantos do maldito quarto, menos para mim. — Para com esse chilique.
— A passou mal e... — começa a resmungar. Olho feio para ele, preferindo que tivesse ficado quieto. Ele suspira, percebendo que não adianta o quanto se explique, nada vai apagar a cena que eu acabei de presenciar. — Você sabe que não tem motivos para essa merda.
, para! — exclama. — Esse louco tem que parar de ficar se intrometendo onde não é chamado.
— Você não pode estar falando sério... — Rebato irritado e me empurra para fora do quarto. Não me surpreende que ela seja tão teimosa, filha de quem é.
— Some daqui, eu preciso dormir. — Ela ralha comigo, e antes que abra sua boca grande, eu me dou por vencido e dou as costas para eles.
Vinte minutos depois, estou enfiando em um Uber qualquer, indo para a casa dos . O bom senso me atinge com força enquanto encaro as ruas vazias de Londres e percebo que minha atitude foi muito idiota. não é como a maioria das garotas. E , apesar de ser quem é, nunca chegaria a esse ponto com a minha irmã.
Pelo menos é isso que eu espero.



Depois que minha respiração volta ao normal, eu entro no quarto e me sento na cama, queimando de raiva. — Desculpa por essa cena... — Eu começo a explicar, sem conseguir encará-lo. — tem surtos de raiva às vezes, você sabe. — Falo tudo rápido demais e sinto o olhar de sobre mim. Jogo minhas costas na cama e olho para o teto, sentindo minha cabeça latejar. Estou um caco e me sinto um caco.

Eu nem ao menos lembro o que aconteceu!

— Como ele pôde pensar que eu... — Ele deixa no ar, se deitando na cama ao meu lado. — Não que eu não ache você... Mas eu jamais faria qualquer coisa desse tipo, não com você.
As palavras dele me atingem com força e eu fecho os olhos.
, você estava completamente bêbada!
— Eu sei, eu sei! — Exclamo sem paciência, para que ele pare de falar. solta o ar, um pouco irritado, e por longos minutos ficamos em silêncio, ambos olhando para o teto.
— Você se lem...? — O que acon...? — Nós dois resolvemos falar ao mesmo tempo.
se vira para mim na cama, mas eu continuo olhando para o teto, sem ter coragem de encará-lo. Seu silêncio me encoraja a falar, então antes que ele possa abrir a boca, eu continuo.
, como eu fiquei... Seminua?
— Tá com vergonha? — pergunta com divertimento. Consigo perceber o sorriso divertido em seus lábios mesmo sem olhar para ele. — Relaxa, não tenho do que reclamar... Suas pernas nem são tão brancas assim como eu imaginava.

Merda, merda, merda...

Minhas bochechas ganham cor enquanto ouço ele debochar de mim e me viro para o lado oposto da cama.
— Você se acha muito engraçadinho, né? — dá risada e eu também. Mas depois de alguns segundos, ele se interrompe e fica sério.
— Eu não sei quanta tequila você bebeu, mas quando te encontrei na festa do Chris, você mal conseguia formar uma frase. — Flashes surgem na minha cabeça como borrões desconexos, mas nada concreto que eu possa considerar. — Eu te trouxe para casa antes que você perdesse os sentidos, e tudo estava indo muito bem... Mas quando eu coloquei você na cama e disquei o número o seu irmão, você saiu correndo e colocou tudo para fora, antes mesmo de chegar até o banheiro. — Começo a entrar em pânico com as coisas que eu possa ter feito ou falado e meus batimentos começam a acelerar. — Depois de um tempo, você disse que não estava muito bem e concordou comigo que precisava trocar de roupa, mas quando enfim encontrei um pijama decente, você já estava apagada. — Explicou com calma, apesar do embaraço. — Eu te ajudei a tirar a roupa, e...
— Tá bom! Tá bom! — Eu o interrompo e faço um sinal com a mão para que ele pare de falar. Não quero ouvir uma descrição tão detalhada da minha noite desastrosa.
— E depois?
— Foi só isso, eu te coloquei na cama e você me pediu para ficar.
— Você tem certeza de que foi só isso... Certo?
— Eu lembro de tudo, . — Ele franze o cenho. — Quer beber água? Se quiser, posso fazer alguma coisa pra você comer...
— Não. — Respondo com rapidez. — Água tá ótimo. — Amenizo o tom de voz para que ele não perceba minha aversão com a comida.
concorda e se levanta, vestindo a camisa. Ele sai do quarto e encosta a porta devagar, e eu rezo mentalmente para que ele não encontre meu irmão esquentadinho no meio do caminho e comece mais uma confusão.
Não consigo nem acreditar no rumo que esse dia tomou. Passamos de uma discussão intensa no carro para uma tarde agradável no Bonzo's. E como se não bastasse, em menos de doze horas, tivemos a noite mais embaraçosa da minha vida, com direito a cama compartilhada e soco na cara.

Tem como piorar?

— Toma. — surge com um copo e um comprimido, e eu o encaro confusa. — Você vai me agradecer amanhã.
— Obrigada. — Pego o comprimido e coloco na boca, bebendo a água em seguida. Volto a me deitar, assistindo calçar o tênis e procurar sua jaqueta na bagunça que eu chamo de quarto. — Onde você vai?
— Para casa? — Ele respondeu, confuso. — Você sabe que eu não posso ficar. Se com foi assim, imagina quando a sua mãe souber que passei a noite na mesma cama que você. — Reviro os olhos para evitar aquele maldito olhar dele, sem querer admitir que ele está certo.
— Seu covarde! — Reclamo, me ajeitando na cama.
— Acho que todo esse show te fez melhorar, já voltou até a reclamar. — caçoa de mim, sentando ao meu lado. — Vai almoçar com o Charlie amanhã?
— Acho que sim... — Um sorriso brota no meu rosto e sorri também.
— Posso usar sua chave? — Concordo com a cabeça e abre a minha bolsinha, pescando a chave. Ele se despede de mim bagunçando meu cabelo e apagando a luz do meu abajur.



Pago o Uber e praticamente pulo do carro, tocando o interfone da casa do Luke. Apertei repetidas vezes, mas ninguém atendeu. Aquele puto acabou de me deixar em casa, onde foi que ele se meteu agora? Dou uma olhada na fresta do portão que dá para garagem e vejo o carro de perfeitamente estacionado.

Que maravilha!

Vasculho o vaso horroroso que fica do lado do interfone, torcendo para que Luke ainda esconda sua chave reserva lá, e sorrio comigo mesmo quando a encontro.
— Luke? — Chamo abrindo a porta da sala, mas ninguém responde. — Tem alguém nessa porra de casa? — Silêncio total.
Me jogo no sofá e fecho os olhos irritado. Não posso voltar para a casa agora... Não quero ter que lidar com e muito menos com a minha irmã agora.
Dou uma olhada pela sala extravagante dos e noto uma única taça de vinho pela metade, na bancada da cozinha tipo americana. Rolo os olhos e me levanto. com certeza está em casa, o que significa que não posso estar nesse sofá quando ela acordar.
Subo as escadas o mais silenciosamente possível e traço um plano na minha cabeça. Para chegar ao quarto de Luke, vou ter que passar pelo quarto dela, e não quero que ela me veja. Assim que chego ao corredor, porém, levo um susto. Ele está todo ensopado e a água vem do quarto de quem eu temia.
? — Eu bato na porta, mas ela não responde. Forço a maçaneta e percebo que a porta está destrancada.
Em qualquer outra circunstância, eu não entraria. Qualquer coisa que tenha relação com essa garota não é da minha conta. Mas a taça de vinho solitária na bancada indica que ela está sozinha e tem muita água saindo por debaixo dessa maldita porta.
? — Eu chamo mais uma vez, abrindo a porta do quarto. Como eu imaginei, ele é perfeitamente arrumado. As luzes de uma penteadeira extravagante estão acesas, e milhares de produtos de beleza estão perfeitamente organizados sobre ela, estampando para mim o quanto essa menina é metódica. Tudo em seu quarto é claro e extremamente limpo. A roupa de cama está alinhada e as almofadas em cima dela parecem nunca ter sido usadas antes. Passo os olhos pelo resto do quarto e então noto que a água vem do banheiro da suíte.
Abro a porta sem hesitar, mas ela não está no banheiro. A água vem da banheira, que agora transborda. Fecho a torneira e noto que a água está fria, o que significa que já faz um tempo que está ligada.

Mas que porra tá acontecendo?!

Começo a vasculhar o quarto e chamar por ela, mas ela não responde. Entro em um closet que mais parece um segundo quarto e vejo caída no chão, ainda calçando sandálias de salto alto.
? — Eu corro até ela, deixando o pânico me dominar.
Toco seu rosto e dou leves batidinhas em suas bochechas, mas não obtenho nenhuma reação. Ela está pálida e totalmente desacordada. Começo a gritar por socorro, em vão, e caio na real que não tem ninguém além da gente aqui, então pego ela no colo com cuidado e começo a procurar por sua bolsa.
Preciso de documentos e da maldita chave do carro. Onde será que essa maluca guarda esse tipo de coisa.
Desço as escadas devagar, disposto a chamar um Uber para o hospital mais próximo sem porra de documento nenhum, mas quando chego na cozinha, vejo a bolsinha na banqueta. Agradeceria a Deus, se ao menos eu acreditasse em um.
Coloco deitada no banco de trás assim que consigo destrancar o carro e me sento atrás do volante. Minhas mãos estão tremendo e eu não faço a mínima ideia do que fazer.

Por que raios ela não acorda?

Dou marcha ré o mais rápido que consigo, saindo da garagem e discando o número de Luke no meu celular. A chamada caí direto na caixa postal e amaldiçoo meu amigo por sumir em momentos como este. Onde ele está que não atende essa merda de celular?!
Avanço todos os sinais vermelhos, olhando para trás de cinco em cinco minutos para ver como ela está, mas ela continua imóvel.
Tento pensar em alguma pista, alguma coisa que ligue com essa cena, mas nada importante me vem em mente. Me lembro da minha irmã comentar alguma coisa sobre uma festa... Se foi, estava lá. Ela não desmaiaria simplesmente por beber, desmaiaria? Ela provavelmente veio dirigindo, o que torna tudo ainda pior. Ela foi drogada? Alguém pode ter colocado alguma coisa na bebida dela.

Ela poderia estar morta agora...

Um arrepio me atinge e eu acelero mais o carro. Apesar de ser moderno, o carro dela não é muito potente, o que me deixa bem irritado. Avisto o hospital assim que faço a curva e estaciono de qualquer jeito, gritando por ajuda. A pego no colo e entro no hospital, onde enfermeiros e médicos vêm em minha direção com uma maca e a retiram do meu colo.
Vê-la assim me deixa com medo de que eu não tenha vindo rápido o bastante.
Não sei ao certo como agir ou o que falar em uma situação como essa, então sigo os enfermeiros ao lado dela, preocupado. Por mais detestável que seja, não posso deixá-la sozinha agora, tenho que me certificar de que ela esteja bem antes de qualquer coisa. Luke faria o mesmo pela , tenho certeza.
— Você pode esperar aqui ao lado, na sala de espera. — Uma enfermeira me barra, enquanto encaminham para uma sala de emergência.
— O caralho que vou esperar aqui! — Tento me desvencilhar da enfermeira e ir atrás da maca. Eu preciso ver com meus próprios olhos o que está acontecendo.
— Você é da família, querido? — Ela pega uma prancheta e olha para mim, com olhos atentos.
— Sim... — Minto para ela descaradamente. — Sou irmão dela.
— Olha, eu entendo que queira ficar ao lado da sua irmã agora, mas temos que examiná-la e descobrir o que tem de errado... — Ela explica pacientemente. — Prometo que assim que ela acordar, você ficará com ela.
— Se acontecer alguma coisa com ela... — Praticamente cuspo as palavras, parcialmente conformado com a situação. — Vai ficar tudo bem. — A enfermeira tenta me confortar e me deixo levar pelas falsas palavras de conforto. Ela deve dizer isso o tempo todo, sou só mais um “familiar” dificultando seu dia de trabalho.
Me sento em uma das cadeiras desconfortáveis na pequena salinha de espera, posicionando meu rosto entre as mãos. Que noite bizarra foi essa?!
Acordo atordoado, sem saber ao certo onde estou, e assim que vejo o relógio horroroso da sala de espera do hospital, as últimas horas me atingem com força. Já se passaram três malditas horas e nada daquela enfermeira voltar. Dou uma olhada no meu celular, mas Luke não deu nenhum sinal de vida. Suspiro, discando o número que já sei de cor pela milésima vez na noite, mas antes que de terminar, a enfermeira cruza a porta e eu fico de pé imediatamente.
— Sua irmã acordou, gostaria de vê-la?
— Que pergunta. — Ralho com ela, impaciente.
— Nós fizemos alguns exames... — Consigo ouvir a voz do médico em um sussurro abafado, do corredor. Entro no quarto tranquilamente e observo deitada na cama, mais pálida do que o próprio lençol. Ela dá um pulinho de susto quando me vê.
— O que você está fazendo aqui? — Exclamou, interrompendo o médico. Todos olham para mim e eu pigarreio.
— Eu te encontrei desmaiada no closet... Mana.
— Já entendi. — Rosna para mim, irritada. É oficial, ela está bem.
— Bom, como eu estava dizendo... — O médico começa a falar de novo e ainda me encara com uma carranca na cara. — Fizemos alguns exames enquanto esteve inconsciente, para sabermos o porquê do desmaio. Chequei todos os resultados e está tudo bem, como podemos ver. — O médico entrega vários papéis para , que olha tudo com atenção, como se entendesse alguma coisa. — A única alteração foi o beta HCG, que deu acima de 25.
— O que isso significa? — pergunta, com curiosidade.
— Que você está grávida, querida.

Capítulo 6


— A única alteração foi o beta HCG, que deu acima de 25.
— Que significa...? — Eu tento completar a linha de raciocínio do médico, que me encara com compaixão.
— Que você está grávida, querida.


Fico paralisada com a notícia, sem saber como reagir. Não sinto mais o cheiro detestável, típico de hospital em volta de mim. Não sinto mais os lençóis de algodão rasparem nas minhas pernas doloridas. Estou completamente dormente e tudo parece ter desaparecido no exato momento em que ele usou as palavras você e grávida em uma mesma frase.
— Faça de novo! — Exclamo com histeria.
— Perdão, senhorita? — O médico me observa com confusão estampada no rosto.
— Faça um novo exame, esse só pode estar... Errado. — Eu começo a sentir a sala girar, mas continuo firme.
— Eu entendo que possa ser uma novidade assustadora devido à sua idade, mas falsos positivos são muito raros. — O médico tenta me acalmar e sinto meus olhos lacrimejarem. — Pode refazer quantas vezes quiser, mas o resultado ainda será o mesmo.
Jamais pude sequer imaginar passar por isso. Eu... Não posso ter um filho aos dezesseis, um filho de Jack.

Não agora, depois de tudo que aconteceu.

Encaro , me dando conta de que ele recebeu a notícia junto comigo e assim que nossos olhos se encontram, percebo que sua expressão de choque chega a ser quase mais enfática do que a minha.
Como odeio que ele esteja aqui, no pior momento da minha vida.
A cada pensamento que surge na minha mente, a cada reflexão dolorosa que eu faço nesse curto espaço de tempo, o quarto de hospital parece ficar mais apertado. Não consigo respirar e preciso me esforçar para puxar o ar. O pânico começa a tomar conta de mim, causando um alvoroço em meus batimentos cardíacos. Só de imaginar tudo o que pode fazer com essa informação, simplesmente por capricho, eu começo a sufocar.
— Por favor, poderiam nos deixar a sós? — Interrompo meus pensamentos desesperados, olhando para o médico e a enfermeira. Eles concordam e deixam o quarto. — Você não pode contar nada para ninguém, você entendeu? Nem para a . — Eu praticamente cuspo as palavras. me encara com uma expressão séria no rosto e seus olhos piscam algumas vezes, um pouco confuso com a velocidade com que despejei as informações em cima dele.
— Jack é o pai? — Ele me pergunta com cautela na voz.
— Claro que Jack é o pai! — Ralho com ele. acena com a cabeça, mas fica em total silêncio. Nunca me senti tão exposta em toda a minha vida como me sinto agora, e estar ao lado dele ao provar esse sentimento pela primeira vez só piora tudo. — Eu não deveria responder a essa pergunta, para começo de conversa. E você... — Encosto minhas costas na cama, com as mãos nas têmporas. — Nem deveria estar aqui!
— O quê? — me encara, incrédulo. — Você tem noção de que eu te encontrei DESMAIADA?!
— Ah, e agora você quer que eu te agradeça de joelhos? — Começo a apertar o botão da cama para chamar a enfermeira, louca para sumir desse hospital. ainda me encara com incredulidade e consigo perceber seu rosto ganhar um tom avermelhado. Aperto três vezes seguidas e não obtenho resposta, então canso de esperar e começo a me levantar.
— O que você está fazendo?! — vem até mim, pronto para me impedir de levantar. — , você não pode...
— Eu preciso ir embora. — Começo a pestanejar. Ouço a enfermeira se aproximar de nós, enquanto tento inutilmente desviar de . — Graças a Deus! Pode tirar isso? — Aponto para o cateter intravenoso. — Preciso de alta.
— Acalme-se, querida. Precisamos falar com o Dr. Alex primeiro, está bem? Não posso te deixar sair sem autorização. — Ela fala tudo muito devagar, com um olhar piedoso.
— Como assim não posso?! Vocês acabaram de me dizer que não tem nada de errado comigo. Gravidez não é doença! — Ignoro a enfermeira e começo a arrumar as coisas que consigo alcançar, com pressa. , que não saiu do meu encalço nem por um segundo, segura meu braço com cautela.
Mana. — Ele apela, chamando minha atenção. — Você precisa descansar... Para com esse chilique.
O encaro com as sobrancelhas erguidas, mas ele continua a me encarar com o olhar firme, como quem ordena alguma coisa.
— Não se atreva a encostar em mim. — Eu rosno para ele. — Eu não fico nesse quarto de hospital por nem mais um segundo.
— Ah, você fica, sim! E sabe por quê? — Ele me encara, ainda com olhar possessivo. — Porque se eu te levar para casa e você desmaiar de novo, eu juro que ligo para os nossos pais.
— Você ficou maluco? — Eu sussurro, como se meus pais tivessem superpoderes e conseguissem me ouvir. — Você não ligou para o Luke, ligou? — abre a boca para responder, mas eu já sei a resposta. — Claro que ligou.
— Você queria que eu fizesse o quê?! Eu não fazia ideia do que estava acontecendo!
— Você... — Rosno para ele, mas sou interrompida pelo médico, que entra no quarto no mesmo instante em que começo a falar, salvando de uma resposta mal educada.
— Senhorita , a enfermeira me informou sobre a sua preferência... Mas insisto que passe essa noite aqui, só para checarmos como vai se sentir pela manhã. Alguns desmaios são comuns nessa fase da gestação, mas todo o cuidado é pouco nesse primeiro trimestre.
— Não, não, não! — Eu começo a discordar, desesperadamente. — Por que ninguém me escuta? Eu preciso ir para casa! — Lágrimas começam a brotar nos meus olhos e não há nada que eu possa fazer para barrá-las a essa altura.
— Tudo bem, tudo bem. — O médico se rende e assisto revirar os olhos. — Preciso que assine alguns termos antes de ir, e sugiro que procure um obstetra o quanto antes.
A enfermeira entra no quarto e tira o cateter preso ao meu braço e eu desvio os olhos para não ver o tamanho da agulha. Como posso ter um filho se mal consigo lidar com agulhas?! Não entendo como a minha vida chegou a este ponto. Me sinto um pouco tonta e percebe o meu desequilíbrio, chegando mais perto. Não dou espaço para que ele se aproxime e me recomponho, calçando meus sapatos. Saio depressa do quarto, receosa de que ele possa abrir a boca e estragar o meu momento de glória.
— É por aqui. — aperta o passo, me mostrando o caminho certo para o estacionamento assim que saímos pela porta do hospital.
— Já pode me devolver. — Peço, esticando os braços como uma criança contrariada.
— O quê? — Ele me olha sem entender. Essa noite não poderia ser mais exaustiva.
— A chave do carro, ora!
— Nem fodendo! — responde, passando na minha frente.
— Você é inacreditável. Sinceramente, você não está achando que vai voltar dirigindo o meu carro, está?
— Você está de brincadeira, né? — Ele pergunta de volta, abrindo a porta do motorista. — Por favor, diga que está. Porque se acha que vou te deixar dirigir depois de quase desmaiar de novo, só pode estar maluca.
Suspiro derrotada, completamente exausta e acabo deixando dirigir. Entro no carro ainda lamentando meu dia terrível, enquanto assisto aos primeiros raios de Sol clarearem o horizonte.

O dia mal começou e já quero que acabe.

dá a ré e começa a sair do estacionamento do hospital, andando em uma velocidade mais lenta do que o normal. Fecho os olhos e tento limpar a minha mente, desejando que os raios de Sol do lado de fora também possam clarear minhas ideias.



Dirijo devagar, como uma lesma para ser mais exato, parcialmente preocupado com a garota ao meu lado. não soltou nenhum xingamento e nem me insultou nos últimos cinco minutos, o que é um recorde e tanto, tratando-se de nós dois. Observo suas pernas desnudas, graças ao vestido relativamente curto que ela usa, sem ter coragem de encarar seu rosto. Só a mínima possibilidade de ter que lidar com a choradeira dela me dá arrepios. Tudo o que eu consigo pensar agora é em mandar uma mensagem para minha irmã e me livrar dessa situação constrangedora, mas depois de toda a merda que aconteceu, acho que pedir a ajuda dela não é uma atitude muito prudente.
— Quer que eu... — Tento formar uma frase, enfim olhando para ela, mas não consigo concluir. Ela está péssima.
— Só quero ir para casa. — Ouço fungar. Sinto meu coração apertar por vê-la nesse estado. Em toda a minha vida, nunca a vi chorar.

Bom, acho que ser mãe aos dezesseis é mais que suficiente para fazê-la chorar.

Mas sei que depois que toda essa melancolia passar e ela enfim contar aos pais, tudo irá se resolver. é a garotinha perfeita, da família perfeita. E tenho certeza que o ex namoradinho perfeito vai voltar para ela assim que souber da notícia.
e Jack sempre foram um casal modelo, literalmente.
Ela, que de uns tempos para cá tem tido sucesso na passarela, combinava perfeitamente ao lado de um dos alunos mais excepcionais do colégio St Mary. Namoravam desde o primeiro ano e sempre foram a aposta de rei e rainha do baile.
Muitos soluços depois, enfim chego à rua dos e entro na garagem. Estaciono o carro torto demais para os padrões dela, mas ela mal parece perceber e não reclama nenhuma vez sequer.
Suspiro, frustrado por não saber mais o que fazer.
— Quer que eu ligue para alguém? Eu posso tentar o Luke de novo... — Minha voz sai como um sussurro, e antes que eu possa perceber, minha mão se junta à dela. — Ou para a minha irmã, se você preferir.
— Não. — Ela sussurra de volta, limpando as lágrimas. — Você... — Ela, assim como eu, momentos atrás, tenta formar uma frase, mas um soluço rouco escapa da sua garganta e vejo seu rosto se contorcer. Meus dedos apertam os seus, como um estímulo para que ela continue, e então ela respira fundo e abre a boca outra vez. — Você poderia... Ficar mais um pouco?
— C-claro. — Minha voz sai antes que eu possa processar, e quando me dou conta do que fiz, já estou ao lado dela no sofá.

Que palhaçada.

Bom, não posso negar a estranheza de estar dividindo esse sofá com a pessoa que sempre jurei ser a mais detestável da face da Terra. É verdade, eu sempre detestei essa garota. Ela geralmente está fazendo coisas que me deixam com uma raiva fora do normal, como estacionar o carro da maneira mais alinhada e perfeitamente reta que se possa imaginar. Ou como consegue estar sempre impecável com seu par de sandálias Prada em um colégio como o nosso, onde tudo parece ficar a quilômetros de distância. Mas agora que a base que a mantém tão firme ruiu sobre seus próprios pés, eu sinto que preciso segurar sua mão. Talvez seja tolice acreditar que isso basta para que ela não desmorone, mas gosto de acreditar que minha presença a conforta de alguma maneira.
— Eu... — tenta recuperar o fôlego, mas seus soluços continuam tomando o espaço das palavras.
— Você não precisa falar nada agora. — Eu continuo acariciando sua mão, enquanto olho para ela. — Só tenta se acalmar.
— Jack... Ele não... — Ela levanta a cabeça e olha para mim. — Nós...
— Eu sei que não estão mais juntos. — Eu tento concluir a linha de raciocínio dela, falando bem devagar. A intensidade do choro dela aumenta mais ainda e logo as palavras se transformam em sussurros e depois em soluços descompensados. — Olha, você não tem motivo para estar tão... Desesperada. — Tento não soar rude, mas pelo olhar que ela lança em minha direção, não tenho tanta certeza de que a minha tarefa foi bem sucedida. — Sinceramente, nós dois sabemos que quando você der a notícia, ele vai voltar para você como um cãozinho arrependido. Vocês vão voltar a ser o casal modelo de St Mary antes mesmo que o boato se espalhe, e nós... — Aponto para mim e para ela enfaticamente. — Vamos esquecer que algum dia esse momento aconteceu.
— Você é um presunçoso! — recupera a voz, olhando para mim com desdém. — Você faz isso comigo desde que me conheceu. Sempre me julgando e tirando conclusões precipitadas sobre mim. — Ela se levanta, me deixando tonto com a rapidez com que se recupera do choro. — ", a garota perfeita, com a família perfeita". — Ela ri, com incredulidade. — Você ao menos parou para tentar me conhecer antes de me rotular dessa forma?
... — Eu respiro fundo para não dizer algo que torne tudo ainda pior. Sempre acabamos brigando sem parar, eu não sei como acreditei que hoje poderia ser diferente. — Não é como se minha opinião sobre você estivesse errada.
— Você nem me conhece! — Ela seca as lágrimas rapidamente, visivelmente irritada. — E não pode sair falando assim de um relacionamento que... — Ela para de falar abruptamente e eu levanto as sobrancelhas, sem entender o que ela quer dizer. — Um relacionamento que acabou. — Ela respira fundo algumas vezes e consigo ver a vulnerabilidade quase presente em seus olhos. — É melhor você ir embora.
Ela dá as costas para mim e começa a subir as escadas, nitidamente exausta.
— Eu não vou a lugar nenhum. — Grito, esperando que ela se vire para me encarar.
E então ela se vira. Desce as escadas com uma calma quase assustadora, parando entre mim e o sofá.
— Sofá, . , sofá. — Ela gesticula, enfaticamente. — Agora que já estão devidamente apresentados, eu vou dormir.
sobe as escadas novamente, batendo a porta do quarto.



Acordei com as vozes de George e Paul, abafadas pelo meu travesseiro. Here Comes The Sun insiste em ser meu despertador mais uma vez nessa semana. Quando me dou conta de que não estou em um sonho, pego meu celular e aperto o grande botão verde que pisca na tela.
— Isso já está passando dos limites. — Eu resmungo, atendendo o celular.
Eu sei bem que minha filha fica um pouco aborrecida quando está com fome, mas nunca pensei que chegaria a tanto.
— Pai? — Eu salto da cama, batendo o dedinho do pé no canto do aparador. Solto no mínimo três palavrões enquanto pulo pelo quarto, procurando meus sapatos. — Eu não vi que era você.
Bom, eu nem vou perguntar com quem você achou que estava falando.
— Hã... pai? — Eu resmungo confusa, sentando na cama de novo. — Que horas são?
Meio-dia. — Meu pai ri de mim e eu solto outro grunhido. — Pensei ter deixado claro a minha intenção de te levar para almoçar.
— A gente pode se encontrar daqui a algumas horas? — Minha voz sai esganiçada, enquanto massageio meu dedo do pé. —- Me desculpe te fazer esperar, mas eu esqueci completamente.
Te encontro no Bistrô em uma hora. — Meu pai diz, com a voz um pouco mais séria que o normal. — Tenho algumas reuniões marcadas.
— Estarei no Bistrô em uma hora. — Eu dou a minha palavra, indo para o banheiro. Me contentaria com um almoço simples no Bonzo's, mas como ele insiste em me levar ao Bistrô desde a última vez que nos vimos, achei melhor não sugerir hambúrguer e refrigerante de novo.
Abaixo na pia para escovar os dentes e ignoro a sensação de mal-estar no estômago. A verdade é que me sinto destruída depois da noite passada. Meu corpo todo está tremendo, o espelho reflete uma pele tão pálida que quase chega a ser assustador. Estou até agora sem saber que tipo de bebida deliciosa era aquela com gosto de framboesa, mas seja lá o que for, tenho que me lembrar de não tomar outra vez.
Abri meu closet bagunçado respirando fundo. Mesmo em meu estado de ressaca profunda, minha mente começa a se agitar. Achar alguma coisa à altura do Bistrô nessa pilha bagunçada que eu chamo de closet não vai ser uma tarefa muito fácil. Acabo optando por um vestido listrado, que mais parecia um blusão, e o vesti com uma jaqueta de couro por cima, colocando meu All Star de sempre nos pés. Definitivamente não estou apropriada para o lugar, mas esse é o melhor que consigo fazer em tão pouco tempo, no estado que estou. E convenhamos, meu pai não vai dar a mínima para o que estou vestindo.
— Que bom te ver, filha! — Meu pai me cumprimenta animadamente assim que piso na calçada do restaurante requintado que ele tanto insistiu em me levar. Sei que isso não tem nada a ver com ele, do mesmo jeito que não tem absolutamente nada a ver comigo também. Mas velhos hábitos nunca mudam, e era aqui que minha mãe fazia questão de almoçar quando ainda eram casados. — Está com fome?
— Muita! — Eu demonstro animação, retribuindo o abraço do meu querido pai. Que Deus me ajude a sobreviver a esse almoço.
Entramos e nos sentamos em uma mesa perto de uma janela enorme. O restaurante não mudou muito desde que vim pela última vez. Os garçons parecem pinguins dançando uma coreografia muito esquisita enquanto andam de um lado para o outro com suas bandejas nas mãos. Dou risada dos meus pensamentos enquanto meu pai lê o cardápio com atenção. Eu adorava vir aqui com ele quando era criança, adorava fazer qualquer coisa com ele, na verdade, por mais bizarra que a comida fosse.
— O que você vai querer? — Ele me pergunta com um sorriso nos lábios, e só então me dou conta de que nem encostei no cardápio. — Vai ter que se esforçar se quiser comer alguma coisa, aqui não tem hambúrguer e nem comida tailandesa.
— Sem hambúrguer no cardápio? Pelo amor de Deus, existem restaurantes melhores com menos estrelas Michelin! — Eu falo com uma falsa decepção na voz e meu pai ri de mim. — Qualquer coisa que não seja nojento está perfeito para mim.
— Aposto que vai adorar isso aqui. — Meu pai diz, chamando um dos pinguins. Quero dizer, um dos garçons. — E então, quais são as novidades da minha filhinha?
— Nada que valha a pena, acredite... — Eu desvio o olhar do dele, fitando minhas unhas descascadas. — A fase dos Beatles chegou com tudo e tenho comprado muitos livros ultimamente. Preciso de prateleiras novas.
— Eu conheço você, e para o total desespero da sua mãe, eu agradeço todos os dias por você não ser como as garotas da sua idade. — Meu pai comenta, me encarando. — Mas seus gostos peculiares e livros enormes não me enganam. Essa jaqueta de couro e esses óculos escuros, eu já passei por essa fase e sei o que ela significa.
— Estou surpresa de que tenha falado com a minha mãe.
— Não precisei, sinto o cheiro de álcool daqui. — Meu pai debocha de mim, levantando uma sobrancelha. — E mesmo que o meu plano para você inclua te trancar no quarto aos dezesseis e só te deixar sair aos quarenta, ficaria feliz de ouvir detalhes de como tem sido seu último ano de colégio.
— Muitas festas, tequilas e dramas adolescentes. — Eu falo, com tédio na voz. — O ponto alto até agora foi o soco que deu em .
o quê? — Meu pai arregala os olhos e então eu me dou conta da besteira que deixei escapar. Eu estava indo tão bem falando de Beatles e prateleiras...
— Não foi nada de mais, eu nem sei porque te contei isso, na verdade... — Eu tento disfarçar, mas meu pai não se dá por vencido.
— O que exatamente aconteceu? — Meu pai pergunta com preocupação e urgência na voz, e eu sinto meu estômago revirar. Respiro fundo algumas vezes e tento pensar em uma maneira de contar o que aconteceu de uma maneira natural, mas os olhos verdes e intimidadores do meu querido pai não facilitam as coisas.
— Bom, como você mesmo pôde perceber... — Eu desvio o olhar das unhas para ele, antes de continuar. — Ontem eu bebi um pouco mais do que deveria. me levou para casa, e...
— E...? — Meu pai gesticula com as mãos, um pouco impaciente.
— E acabou pegando no sono. — Eu pigarreei, omitindo a maior parte do que aconteceu. — chegou um pouco depois e não gostou muito de vê-lo dormindo no meu quarto, então deu um soco na boca de antes que ele pudesse explicar qualquer coisa. — A última parte saiu como um sussurro, mas meu pai assentiu, provando que ouviu tudo com muita atenção.
— Vocês dois estão... Se relacionando? — Meu pai pergunta, com uma curiosidade quase assustadora.
— PAI! — Eu o repreendo, arregalando os olhos. — É claro que não.
— Filha. — Meu pai diz, pacientemente. — Você não pode culpar seu irmão. Você e não têm mais onze anos...
— Tudo entre mim e está exatamente igual ao que sempre foi. — Ralhei, com um pouco de arrogância. — Vocês andam floreando demais as coisas. Primeiro , depois e agora você. Não é como se fosse uma novidade, sempre dormiu lá em casa! Principalmente depois que... — Paro de falar abruptamente e encaro meu pai com olhos atentos, enfim me dando conta do rumo que a conversa está tomando.
— Principalmente depois que deixei vocês. — Ele completa a frase, jogando o guardanapo na mesa.
De repente me sinto tonta. O ar parece um pouco mais denso que o normal e meus pulmões precisam fazer mais força para respirar. Sinto minhas estranhas quase me sufocarem, e não consigo mais olhar para ele, totalmente envergonhada por trazer um assunto como este à tona depois de tanto tempo.

Eu não podia ter tocado nesse assunto, não aqui. Não agora.

Capítulo 7


— Pai, eu não quis... — Tento me desculpar, queimando de vergonha. — Eu... — O toque estridente do meu celular preenche o ambiente assim que abro a boca de novo, me salvando de uma longa e constrangedora conversa.
— É ele, não é? — Meu pai me olha com uma das sobrancelhas erguidas, me encorajando a atender. Me desculpo com o olhar e pego o telefone, atendendo antes de cair na caixa postal.
— Hã... Oi. — Falo com timidez, ainda encarando meu pai.
Sábado, dia de torta de amora. diz animadamente. — Café e torta de amora.
. — Enfatizo seu nome, torcendo para que entenda o que estou tentando dizer. — Estou no Bistrô...
Almoçando com Charlie. completa a frase. — Merda. Eu esqueci.
— É. — Eu continuo monossilábica, rezando mentalmente para que ele entenda. — No Bistrô.
Acabei de te salvar de uma conversa terrível, não é? — Pergunta, causando uma risadinha. — É, você precisa de muito mais do que um pedaço de torta.
— Exatamente. — Eu respondo, observando um dos pinguins servir o meu prato. Apesar da grande parte de aspargos que o habita, a carne parece apetitosa. — A comida acabou de chegar.
Já vai pensando em qual hamburguer pedir. — Ouço o barulho das chaves e sorrio de novo, tomando um pouco de suco. — Chego em vinte minutos.
Desligo o celular e o coloco em cima da mesa, sem falar nada. Meu pai tem um olhar decepcionado e percebo que a fácil comunicação de antes se perdeu depois da pseudo-discussão que tivemos. Gostaria que ele soubesse que almoços em restaurantes refinados não são a melhor maneira de se aproximar. Eu não sou como a minha mãe e não preciso disso para ficar impressionada ou valorizar nossos encontros, mas essa é a maneira de lidar com as coisas, e como faço parte dessa família, pego o meu garfo e foco na comida, sem falar nada.
Meu pai e eu sempre tivemos uma relação muito próxima, os assuntos sempre fluíram e eu sempre pude contar com ele para qualquer coisa. Mas depois da separação e da mudança repentina para a Califórnia, as coisas ficaram um pouco difíceis. Os telefonemas foram constantes por um ano, mas agora foram substituídos por mensagens de texto. Nossos horários nunca batem, e quando conseguimos atender as ligações um do outro, não temos mais tantos assuntos assim. não é o maior fã de telefonemas, e quando se encontram pessoalmente, farpas são trocadas. E então, aqui estamos. Meu pai vem poucas vezes no ano, e então , que sempre foi muito próximo da nossa família, faz o papel de mediador da situação. Ele sempre está por perto quando Charlie vem, e isso me deixa mais segura depois de tudo que passei nos últimos anos.
— Gostou do cordeiro? — Meu pai enfim puxa conversa. — Eu sei que não é tão bom quanto hambúrguer, mas...
— Estava ótimo. — Eu dou um sorrisinho. — Tirando os aspargos, obviamente.
— Esqueci do seu problema com comidas verdes. — Meu pai ri, chamando um garçom. — Qual sobremesa vai querer? Sei que o bolo de chocolate daqui é o seu favorito.
— Pai, hoje é dia de torta de amora no Bonzo’s. — Eu falo, um pouco sem graça. — Você comentou sobre as reuniões, então ficou de passar aqui para me buscar e...
— Ah, tudo bem. — Meu pai sorri, virando-se para o garçom. — A conta, então.
Charlie pagou a conta rapidamente, sem olhar para mim. Me senti um pouco desconfortável com a situação, mas agi normalmente, e assim que ele se despediu do garçom, saímos pela porta da frente um ao lado do outro. Vi assim que viramos a rua, encostado na picape com as mãos nos bolsos. Sorri quando ele sussurrou um oizinho sem emitir som nenhum, agradecendo mentalmente por tê-lo como melhor amigo.
— Pontual como sempre. — Eu comento, dando um soquinho em seu ombro.
— Tortas exigem medidas desesperadas. — bagunça meu cabelo, desencostando da picape para cumprimentar meu pai. — Charlie.
. — Meu pai cumprimenta de volta, fitando sua boca com atenção. — Soube do que aconteceu.
Meu coração dispara pelo tom frio que meu pai escolheu para dizer aquilo, mas fico calada observando a reação de .
— N-não foi nada de mais. — gagueja, perdendo a cor. Seguro o riso ao me lembrar que não sabe dos detalhes que deixei de fora da conversa que tive com meu pai. — não devia ter feito o que fez, mas creio que as circunstâncias não tenham ajudado muito. — Meu pai começa a falar, com cara de poucos amigos. Sua respiração está controlada, até demais para o tom que está usando, mas sua expressão não condiz com a respiração.
— OK, chega dessa conversa. — Eu interrompo, puxando para a picape. — Te vejo no jantar?
— Às oito, na casa da sua mãe. — Meu pai se recompõe, olhando para o relógio. — Tenho uma reunião importante agora, até mais tarde.
— Até mais tarde, pai. — Eu entrei na picape.

Que bizarrice.

— Que porra aconteceu nesse almoço? — me encara, emburrado.
— Eu meio que... — Eu começo a falar, sem graça. — Deixei escapar algumas coisas.
— Que tipo de coisas? — Ele fala, entredentes. — , ele quase me fuzilou com o olhar!
— Nada de mais, eu juro. — suspira, encostando a cabeça no volante. — Deixei a parte das roupas íntimas de fora.
— Pelo menos isso. — Vejo sua expressão de alívio quando ele levanta a cabeça do volante de novo. — Vê se controla essa sua boca grande no jantar.
— Tá, agora vamos. — Dou tapinhas nas costas dele. — Você me prometeu hambúrguer e torta.



O que ele faz aqui? — Ouço vozes abafadas, misturadas com barulhos aleatórios de louça, e talvez de um liquidificador. — Eu deixei ele em casa ontem.
Eu sei lá. — Consigo distinguir a voz de , e consigo a imaginar revirando os olhos enquanto fala. — Ele é seu amigo, não meu. Abro os olhos um pouco atordoado e sinto meu punho doer assim que estico o braço.

Caralho, eu preciso muito ir para casa.

— Estou ouvindo vocês, então parem de falar. — Eu resmungo, levantando do sofá. — Vocês são muito barulhentos pela manhã.
— São quase três da tarde, seu idiota. — revida meu comentário. Ignoro seu chilique e fico calado. Sei que ela está chateada por causa de um monte de merdas e não quero piorar ainda mais as coisas. Ela nem tem o direito de estar puta comigo, aliás. Eu praticamente salvei a vida dela, e ela deveria me agradecer.
— Cara, como entrou aqui? Eu te deixei na sua casa ontem e... — Luke começa a falar sem parar e eu fecho os olhos com a mão nas têmporas.
— Longa história, Luke — Eu resmungo e ouço ele rir de mim. — Agora para de falar. Você pode me dar uma carona para casa?
— Vou trocar de roupa e já volto. — Ele diz, subindo as escadas e me deixando a sós com . Ela está atrás da bancada da cozinha, preparando um suco ou sei lá o que grávidas comem.
— Como você está? — Eu pergunto, a encarando. Ela parece bem apesar do inchaço em seu rosto e da pele mais pálida que o normal. Vê-la assim, com roupas folgadas e descalça é um pouco engraçado. Nunca imaginei que um dia teria essa visão, na verdade.
— Bem. — Ela responde sem olhar para mim.
— De nada. — Eu ironizo, soltando uma risadinha. Calço minhas botas e volto a olhar para ela, que agora me encara, com raiva. Seu olhar de desprezo passa a ser raivoso em um piscar de olhos e fico impressionado com a expressão assassina com que ela me encara agora, depois do meu comentário.
— Pode parar, , hoje não vai funcionar. — Ela desce da cadeira e ajeita a roupa. Eu abro a boca para fazer mais um comentário idiota, só por diversão, mas ela simplesmente continua. — Esquece o que aconteceu ontem e me deixe em paz. Eu tenho problemas demais agora e você é a menor das minhas preocupações no momento.
Sinto um desagradável frio na espinha e fico olhando enquanto termina sua bebida. Não consigo nem discutir com ela. Ela tem razão, pelo menos hoje, eu sou um babaca. Não basta todos os problemas que ela já tem, ainda fico aqui fazendo comentários insensíveis e tentando provocá-la.
Depois de um longo tempo, concordo com um aceno e pego meu cigarro na mesinha, indo esperar Luke do lado de fora, sem me despedir.
Sinto meu celular vibrar no bolso quando acendo o cigarro, sentado no jardim. É Oliver, pedindo o endereço para levar o meu carro.
Meu adorado Pontiac 1969 enfim está de volta, e nunca mais vou precisar das caronas.



Reviro os olhos, ainda um pouco irritado com a situação em que ela me colocou, e ligo a picape. Eu não acredito que ela teve esse tipo de conversa em um almoço com o pai. Quem faz uma coisa dessas?!
— Você é mesmo adorável. — Comento, saindo do estacionamento. — E você está faminta demais para quem saiu de um restaurante. — Ela concorda com um sorriso e olha para os pés, um pouco sem graça.
— Aquilo nem pode ser chamado de comida. — Se defende, ainda fitando os próprios pés.
— Porções normais para pessoas normais, mas não para você. — Eu continuo a brincadeira, mas ela não me encara. — A melhor parte de sair com você é o jeito que os garçons te olham quando fazemos o pedido.
— Não exagera... — Ela murmura, descruzando as pernas, se ajeitando no banco. — E talvez eu queria só torta hoje.
— Ei, eu estava brincando. — Me viro para ela, apertando sua coxa enquanto dirijo. — Já fui ao Bistrô, impossível sair daquele lugar sem estar louco por um hambúrguer.
Ela assente, sem falar nada. Pelo que parece, minha piadinha sobre a comida a afetou mais do que deveria, e mesmo depois de ter me desculpado, ela continuou quieta. Sua postura ficou rígida e ela se remexeu no banco algumas vezes, apertando a jaqueta de couro contra o próprio corpo. Não entendi muito bem o que fiz de errado, mas alguma coisa que eu disse a perturbou.
— Você está bem? — Eu pergunto, oscilando meu olhar da estrada para ela.
— Estou. — Ela fala, forçando um sorriso.
Assim que vejo a fachada familiar do Bonzo's no fim da rua, uma paz interior toma conta de mim. Vir aqui faz todos os meus problemas sumirem. A comida é boa, o café é forte e as sobremesas são espetaculares. Sinto que posso deixar meus problemas do lado de fora e esquecer que o mundo existe quando estamos a sós, no nosso lugar favorito.
Adoro nossas tradições idiotas, adoro quando a gente pode ser só e , juntos no Bonzo's, se entupindo de hambúrguer e batata frita. A versão de e que ninguém mais conhece, nem mesmo nossos melhores amigos.
— X-burguer? — Pergunto, assim que sentamos à mesa. — Podemos dividir uma torta com sorvete depois.
— Hã... acho que vou ficar só com a torta. — Ela fala, com o rosto enfiado no cardápio. — Sorvete também é ótimo, principalmente se for de baunilha, eu adoro sorvete de baunilha.
— Você decorou o que tem aí há muito tempo. — Puxo o cardápio e ela fecha a cara para mim, me repreendendo. — O que está acontecendo?
— Nada, só não estou com tanta fome.
— Eu sei que você está com fome, então escolhe logo ou vou escolher por você. — Ameaço e ela suspira, derrotada. — Estou falando sério.
— X-burguer com queijo extra. — Ela finalmente escolhe e me levanto para fazer os pedidos. — E batatas também.
devora o hambúrguer e as batatas em menos de cinco minutos, finalmente se comportando como deveria. Nós pedimos torta e fiz questão do sorvete de baunilha para acompanhar.
— Essa torta está incrível. — Ela comenta, se lambuzando de sorvete. — Senti saudades disso.
— Tem sorvete no seu nariz. — Caçoo dela, tirando uma foto com o meu celular. — O mundo vai adorar ver isso.
— Nem pense nisso! — Ela quase salta por cima da mesa, tentando alcançar meu celular. — Você é um peste, .
— Eu sei. — Deixo o celular no alto, a impedindo de alcançá-lo. — E você também não fica muito atrás.
— Sou bem melhor do que você. — Ela diz, com a voz esganiçada. Está muito determinada, orgulhosa e certa de seu ódio por mim no momento.
— Não vou fazer nada com essa foto, eu juro. — Eu guardo o celular no bolso. — Mas não vou apagar. Um dia vou mostrá-la aos seus filhos, e eles vão saber a mãe comilona que têm.
— Ah, não vai não. Eu nunca vou ter filhos. — Ela se gaba, ajeitando o cabelo. — Vou ser daquelas mulheres magérrimas que acordam meio-dia de uma terça e bebem uísque, fumando um cigarro e lendo livros interessantes.
— Martha vai adorar saber das suas perspectivas para o futuro. — Ironizo, bebendo um pouco do seu café.
— Vai ser como se o pior pesadelo dela virasse realidade. — Diz, fingindo uma careta de preocupação. — E eu vou me esforçar todos os dias para isso.
— OK, eu sei que está muito animadinha com a ideia de ficar para titia, mas precisamos ir. — Eu olho para o relógio na tela do celular. — Fiquei de resolver umas coisas para a minha mãe. E já que você e vão jantar com Charlie...
— Sobre isso, eu estava pensando... — Ela começa a falar, um pouco constrangida. — Em te convidar para jantar. Caso você não tenha outros planos, é claro.
— Eu não sei... — Eu coço a nuca, um pouco desconfortável com a situação.
— Ah, eu já entendi. — coloca a mão na testa. — Você já combinou algo com Chloe, não é? Me desculpe, eu não pensei direito...
, é claro que não! — Eu a interrompi, mas ela não se cansa de falar e se desculpar. Eu sei muito bem o que está acontecendo: Café. A cafeína em excesso é a única explicação para que ela fale de Chloe em uma hora dessas. — Não é que eu não queira ir, só não acho uma boa ideia depois do que aconteceu.
— Não seja idiota, a essa altura meu pai nem se lembra mais do que aconteceu. — revira os olhos, se levantando. — Por que não pede mais uma xícara de café? Eu só preciso ir ao banheiro rapidinho, aí podemos ir.
Concordo com um aceno e fico sentado à mesa, esperando ela voltar. Não sei se quero ir nesse jantar, mas sei que a deixaria bem mais tranquila se fosse, então talvez eu não tenha muita escolha.
Dou uma olhada no meu telefone para ver se recebi alguma mensagem da minha mãe, nada por enquanto. Ela deve estar me esperando e eu mal dei notícias o dia todo. Preciso ligar para ela.
Enquanto procuro nos contatos do telefone o número da minha mãe, quase acabo clicando no nome de . Fico me perguntando o que ela deve estar fazendo. provavelmente ficaria maluco se descobrisse que estou com a aqui, cogitando sentar à mesma mesa em que ele, , Charlie e Martha estarão daqui a algumas horas. Só que ele não está em condições de me dizer o que fazer depois de socar o meu queixo por uma besteira.
Tomei duas xícaras de café e estranhei a demora. Pego minha jaqueta e faço menção de levantar e ir onde ela está, mas me sinto meio idiota e permaneço onde estou. Ela se entupiu de torta, sorvete e café, com certeza deve estar passando mal agora...
Mais alguns minutos se passam e eu tomo coragem para levantar e ir atrás dela.
? — Eu a chamo, perto da porta. — Tá tudo bem?

Capítulo 8


Fechei a porta do banheiro atrás de mim e respirei fundo, tentando organizar o turbilhão de coisas que invadiram minha cabeça. A amargura e a culpa me dominaram no exato momento em que comi a última colherada de sorvete, enquanto calculava cada caloria que colocava para dentro do meu organismo. O pior para mim não é comer, é a culpa que vem depois da comida. É me odiar por um ato tão simples, e me achar desprezível por não conseguir me controlar. É ser motivo de piada por comer um hambúrguer em cinco minutos, e ainda ter apetite para torta e sorvete depois.
E sabe qual a pior parte de todas?! Quanto mais você come, mais quer comer. É uma droga.
Chacoalhei a cabeça como se fosse ajudar, e abri a torneira da pia no último, numa tentativa falha de abafar o som do que eu estava prestes a fazer. Depois de ouvir o ruidoso som da água preencher o ambiente, me preparei mentalmente para o meu ritual quase diário, e para a sensação ruim que o acompanha todas as vezes que precisava fazê-lo.

Eu sei que vou me sentir melhor depois disso, e sei que é o que eu preciso para me sentir no controle.

Prendi o cabelo em um coque e me posicionei no cômodo apertado, tentando acelerar os processos e ser o mais silenciosa possível. Como de costume, posicionei o indicador e meu dedo médio o mais fundo que consegui em minha boca e deixei a ânsia me dominar, trazer com ela o tão familiar gosto amargo e metálico, e, como um passe de mágica, resolver todos os meus problemas. Estar aqui, me livrando de todas as calorias de momentos atrás, é como uma pílula mágica. E todas as vezes que eu a tomo, me sinto segura de novo. Com a ela, apesar da tontura involuntária do meu corpo, posso ter certeza de que as coisas vão estar bem de novo e que eu não tenho com o que me preocupar.
Depois de repetir o processo algumas vezes e me certificar de que estava livre de tudo o que comi, me levantei, pressionando meus dedos no pescoço para sentir meus batimentos cardíacos. Estão acelerados, mas sob controle. Encarei meu reflexo no espelho, pálido e tentei controlar minha respiração descompensada, jogando água fria no rosto.
? — A voz abafada de me assusta, e acabo batendo a cabeça no armário em cima da pia. — Tá tudo bem?

Merda, merda, merda.

— Tudo! — Respiro algumas vezes e tento me concentrar para emitir mais algum som, mas não consigo dizer absolutamente nada. Minha respiração ainda está ofegante e tenho que me controlar para que ele não ouça do outro lado da porta. — Eu... hã... Já estou indo.
Acompanhei ele se afastar por baixo da porta e suspirei aliviada, jogando mais um pouco de água no rosto.
Assim que volto a ficar apresentável, dou alguns beliscões nas minhas bochechas e destranco a porta, procurando por . Ele está fumando um cigarro perto da janela, ainda com uma xícara de café.
— Vamos? — Anuncio, com a jaqueta nos braços. me encara por uns instantes, mas não consigo retribuir o olhar. Todas as vezes em que ele me observa assim, com os olhos castanhos vidrados em mim, eu sinto meu corpo tremer. Sinto como se, de alguma maneira paranormal, ele soubesse de tudo. Como se pudesse ler meus pensamentos. E só de pensar nisso, fico aterrorizada.
— Tá tudo bem mesmo? — Ele questiona, se levantando do lugar. — Sua roupa... — aponta para a gola do meu vestido, um pouco molhada.
— Ressaca. — Eu faço uma careta, tentando ser convivente. — Joguei um pouco de água no rosto para ver se consigo acordar.
— Quando toda a cafeína que você tomou bater, você nunca mais vai sentir sono de novo. — tira sarro, indo para o balcão. — Posso pagar, eu que te convidei.
— Não. — Eu reviro os olhos, pescando o cartão no bolso da jaqueta. — Já sabe o que eu penso sobre isso.
— Como quiser. — sai da minha frente e eu sorrio para Julie, enquanto ela passa o cartão.
— Desculpe, mas deu não autorizado. — Julie diz, um pouco sem graça.
Não faz sentido... Eu não uso esse cartão faz algum tempo e minha mãe sempre transfere uma quantia considerável de mesada.
— Pode tentar de novo, por favor? — Peço, tirando o cartão e limpando no meu vestido. Ela concorda, repetindo o processo, mas a mesma mensagem aparece na tela.
— Pode cobrar junto. — se prontifica, tirando a carteira do bolso. — Você me paga depois.
Uma carranca se forma no meu rosto e deixo que ele pague, ainda questionando os motivos de não ter dinheiro na conta.
— Não precisava ter feito isso. — Eu rebato, rabugenta. — Eu não sei o que tem de errado, tenho certeza de que não gastei com absolutamente nad... — Paro de falar abruptamente, me lembrando do incidente de dias atrás entre minha mãe e meu irmão.
— Você pode me dar depois, tá bem? — bagunça o meu cabelo pela milésima vez no dia. — Agora vamos, eu tenho um jantar daqui a algumas horas e não posso me atrasar.



Depois de me certificar duas vezes que e Luke saíram mesmo de casa, peguei minha bolsa e saí de casa, pronta para talvez enfrentar o momento mais decisivo de toda a minha vida. Pensei e repensei muitas e muitas vezes sobre o que fazer, e depois de cinco horas rolando na cama, tomei a decisão de contar logo para Jack. Afinal, ele é o pai e tem tanta responsabilidade por essa gravidez quanto eu.
Durante minhas longas horas de insônia, me preparei da melhor maneira possível para garantir que tudo corresse como planejado, mas fez questão de estragar tudo, como sempre. Ele não acordava nunca, e meu irmão não parava de perguntar o porquê de ele estar aqui, então tive que aguentar minha ansiedade e atrasar meus planos para evitar especulações.
— Não surta, . Não surta. — Repito para mim mesma, como um mantra. Não consigo evitar a ansiedade que toma conta de mim quando entro no carro, e me concentro para não hiperventilar.
Depois de fazer um exercício ridículo como aqueles de programa de autoajuda, eu consigo ligar o carro e sair do lugar. Agradeço mentalmente por ter ido tantas vezes à casa dos Davies, e saber o caminho decor. Caso o contrário, jamais conseguiria chegar até lá nesse estado. Assim que avisto a charmosa e requintada fachada, estaciono, ordenando que minhas pernas façam o trabalho de chegar até a porta sem falhar.
Emily, mãe do meu ex-namorado e suposto pai do meu futuro filho, atende a porta, elogia a minha bolsa e me oferece um chá tão rápido que mal consigo processar, e tenho que me esforçar para conseguir negar com a cabeça e pronunciar uma frase sem me perder.
— Jack está? — As palavras saem depressa, mas com precisão. — Eu preciso muito falar com ele.

Vir até aqui nesse estado não foi uma boa ideia...

— Está lá em cima, querida. — Ela responde, com um olhar preocupado. — Algo errado?
— Obrigada. — Eu subo as escadas, deixando Emily e sua preocupação para trás.
Bato na porta do quarto de Jack ainda hesitante, sentindo um calafrio percorrer o meu corpo. Estar aqui faz um sinal de alerta soar pelo meu cérebro como uma sirene, e posso ouvir uma vozinha no fundo da minha mente implorando para que eu corra dali. Mas eu já estou aqui e agora não tem mais volta.
? — Jack pisca algumas vezes, atônito demais com a minha presença.
— Podemos conversar um minuto? — Minha voz saí em um tom quase congelante, o que faz Jack assentir depressa e abrir espaço para que eu entre no quarto. — Não vou demorar.
— Não esperava te ver aqui tão rápido. — Jack se aproxima de mim, acariciando o meu ombro desnudo. Eu me estremeço ao lembrar das coisas horríveis que ele fez e disse da última vez que estive aqui, e só de ouvir o tom persuasivo que usa comigo, tenho vontade de sair correndo.
Mas essa não sou eu. não se deixa intimidar por um rostinho bonito.
— Eu tive um desmaio ontem... — Tenho que me esforçar para emitir algum som, e quando minha voz finalmente saí, eu evito olhar para ele e me concentro em continuar firme. — Não estava bêbada nem nada, foi repentino e um pouco preocupante.
— Você está bem? — Jack chega mais perto, e eu consigo sentir a tensão em sua voz. — O que está acontecendo? Precisa que eu te leve ao...
— Estou grávida. — As palavras vêm depressa e mal consigo processar o que estou dizendo. — Eu estou esperando um bebê.
Dizer isso em voz alta pela primeira vez desde que eu descobri é assustador. Deixa tudo mais real e... Assustador.
— Você o quê? — Ele esbraveja, praticamente cuspindo as palavras. — Você ficou maluca?! Não podemos ter um bebê!
— Acontece que ele já existe. — Eu cuspo de volta. — E não sei qual seu nível de conhecimento, mas acredito que saiba como os bebês são feitos.
— Não seja burra, . — Ele começa a andar de um lado para o outro. — Ainda nem entramos na faculdade!
— Jack... — Percebo que ele não está conseguindo controlar a raiva e respira pesado agora, me causando mais calafrios.
— Isso — Ele me interrompe, apontando para a minha barriga. — Não vai acontecer.
— “Isso” já aconteceu! — Exclamo, queimando de raiva. — Vamos ter um filho e estou aqui exclusivamente para te comunicar.
— Não, não vamos. — Ele berra de volta, tirando a carteira do bolso. — Toma, tem dinheiro suficiente para que você dê um jeito nisso.
— Um jeito? — Sussurro, com um fio de voz.
— Pelo amor de Deus, você não é tão inocente! — Balança o dinheiro no ar. — Eu posso te levar, se quiser. Pagamos um pouco a mais para que ela acelere a fila de espera, e com sorte nos livramos disso hoje mesmo. Você pode voltar para a sua vida e eu para minha, sem ressentimentos.
As palavras de Jack ecoam pela minha cabeça, e estranhamente cada vez mais distantes e abafadas. Sinto que vou desmaiar a qualquer momento e não consigo respirar. As palavras estão me sufocando, mas não consigo pôr para fora todos os milhões de xingamentos que gostaria no momento.
Ele é bom nisso, bom em persuadir e me controlar. Foram anos de práticas e ele sabe como fazer isso direitinho.

Mas hoje não.

— Eu vou ter esse filho, você queira ou não! — Me exalto, apontando para ele. — Não preciso de você, muito menos do seu dinheiro. Se você não quer esse filho, ótimo. Mas pare de tentar me forçar a algo que eu não quero fazer.
— Já pensou em como ele vai afetar a sua vida? Adeus passarelas ou seja lá o que você faz todos os dias naquela agência. — Ele continua o discursinho. — , me escuta. Eu quero o melhor para você, o melhor para nós dois...
Jack abaixa o tom de voz, chegando perto de mim. Repulsa é o que eu sinto por ele no momento.
— Não encosta em mim. — Não baixo a guarda. — Você não tem esse direito, então para com isso!
... Não podemos.
— Posso entrar? — A deixa que eu precisava para ir embora finalmente bate à porta. — Eu trouxe chá.
A expressão de pânico toma conta do perfeito rosto de Jack e seus olhos praticamente imploram para que eu não diga nada. As lágrimas enchem meus olhos, mas luto contra minha vontade de começar a chorar e reprimo o soluço que está preso, junto com os milhares de palavrões, organizados por ordem alfabética, que deixei de falar.
— Eu preciso mesmo ir. — Consigo dizer depois de uma longa troca de olhares com o meu ex-namorado. — Foi bom ver você, Emily.
Desço as escadas o mais rápido que consigo, e quando me dou conta, estou dentro do carro, chorando feito uma criança. Estou sozinha agora, sozinha, com uma responsabilidade muito grande sob os ombros.

Repito infinitas vezes o quanto sou forte, e quanto sou sortuda por ter uma família que me ama, mas não consigo me livrar da maldita sensação de solidão.



O trajeto até a minha casa foi silencioso. Minha cabeça está fervilhando com as hipóteses que criei sobre o desaparecimento da minha mesada. Tento sorrir com uma expressão de calma forçada e parece não notar nada, o que agradeço mentalmente.
Minha habilidade em fingir é tão frequente, que chega a ser convivente.
— Chego às oito. — diz, com a voz monótona. — E eu sei o quanto sou um amigo incrível, de nada.
— Você é um convencido, isso sim. — Eu reviro os olhos. — Não se atrase.
Como o cavalheiro que é, faz que sim com a cabeça e se despede de mim. Saio da picape pisando duro e entro em casa com sangue nos olhos. A primeira coisa que vejo quando entro é minha mãe implicando com uma das empregadas, e ordenando para que ela troque a porcelana da mesa de jantar.
Martha é muito dedicada às aparências. Dar festas e jantares é uma grande coisa para ela, mesmo que o convidado em questão seja o meu pai. Ela fica três horas pensando em um cardápio adequado, duas horas escolhendo as porcelanas e talheres perfeitos para a ocasião, e mais uma hora e meia pensando no que de usar, ignorando totalmente a desordem que essa casa se tornou nos últimos anos e o fato de que não levamos a roupa para a lavanderia a semanas.
— É só o meu pai, você sabe que não precisa disso tudo. — Eu comento, subindo as escadas. — Cadê o meu irmão?
— Jantares formais exigem isso , e você deveria saber. — Ela olha para mim com uma careta no rosto. — O que tem de errado com o seu cabelo? Suba e se arrume, eu separei um vestido para você.
— Volume é a última moda em Milão, e você deveria saber. — Ironizo, desistindo de saber qualquer informação do ladrãozinho que eu chamo de irmão.
— Não esqueça dos sapatos. — Martha grita para mim, com uma esperança na voz. Ela sabe que não vou pôr os malditos sapatos.
Paro na porta do quarto dele e não bato antes de entrar, pronta para começar a gritar.
— EU VOU MATAR VOCÊ! — Inclino a cabeça para olhar para ele, dentro do quarto. Ele, que está deitado embaixo do ar-condicionado, olhando para o teto nem parece se preocupar com a minha presença. — Por que mexeu no meu dinheiro?
— Como é? — Ele finalmente olha para mim, com um falso desentendimento na voz.
— Eu sei que foi você. — Digo, me recusando a deixar que a confiança na minha voz falhe. Por um lado, eu estou confiante do que estou acusando, mas por outro, estou envergonhada por estar nesse papel ridículo. — Eu só quero saber o porquê fez isso!
... — Ele suspira, se levantando. — Eu posso explicar.
— Não me venha com “...” — Eu rosno, cruzando os braços.
— Eu vou te devolver. — Ele agita as mãos na minha direção. — Foi um empréstimo, só isso.
— Ah, você não pode estar falando sério. — Respondo, quase rindo da maneira dele de se desculpar pelas coisas que faz. — Eu não sei se alguém já te contou, mas um empréstimo requer um consenso das duas partes interessadas, PRINCIPALMENTE DA PESSOA QUE TEM O DINHEIRO! — O lembro, e ele revira os olhos para mim.

Como ele pode ser tão egoísta?

, para com esse drama. — Ele me encara, com desdém. — Você nem precisa do dinheiro.
Pisco algumas vezes, perplexa demais para reagir. Estou realmente irritada pelas desculpas esfarrapadas do meu irmão. Talvez eu pudesse tê-lo perdoado se tivesse me contado a verdade, mesmo depois de ter pego o dinheiro. Mas ele resolveu esconder tudo de mim, e se fazer de desentendido.
— Para que precisa de dinheiro? — Pergunto, mas ele fica calado. Noto seu rosto empalidecer e suas pupilas se dilatarem, mas isso não me detém. — Sabe qual a pior parte disso tudo? Se tivesse me dito que precisava de dinheiro, eu jamais negaria. Mas não, é mais fácil se aproveitar das regalias de uma conta conjunta e dar fim em tudo antes de a idiota aqui perceber. faz uma careta para mim e continua em silêncio, com sua arrogância transparecendo nos olhos. Inacreditável como ele consegue ser tão petulante e prepotente, mesmo quando está errado. Dou as costas para ele, certo de que não tenho mais o que fazer, e começo a descer as escadas. Em seguida, o ouço em meu encalço, mas continuo o trajeto sem olhar para trás.
— EU JÁ DISSE QUE VOU TE DEVOLVER! — Ele finalmente me alcança, agarrando o meu braço com mais força do que deveria.
— Solte a sua irmã. — Fico atônita com o tom das palavras que interrompem os gritos de momentos antes e me viro depressa em direção a elas. — AGORA.

Capítulo 9


Chego na casa dos dez minutos adiantado, como combinei com algumas horas atrás. A casa está iluminada e apesar do jardim malcuidado, percebo que Martha se esforçou bastante nos detalhes.
Ela sempre faz isso. Sempre que Charlie vem, quer provar que tem tudo sob controle, sendo que a realidade não é bem assim.
— Não sabia que vinha. — Martha comenta assim que entro na sala de estar, com uma garrafa de vinho rosé.
— Nem eu. — Respondo com um meio sorriso. — Trouxe para você.
Estendo o vinho para ela, que me agradece com um sorriso forçado, indo em direção à adega.
. — Charlie me cumprimenta, chegando perto de mim. — Oito horas em ponto, você é mesmo pontual.
— Prometi para a que não me atrasaria.
— Certo. — Ele concorda, me analisando. — Aceita uma cerveja?
— Claro. — Eu concordo, um pouco a contragosto. Em um dia diferente, eu talvez achasse ótimo sentar para conversar com Charlie ao invés de aturar comentários venenosos de Martha, mas na atual situação, Martha me parece uma companhia muito mais fácil de lidar.
— E então, como vão as coisas? — Charlie pergunta, me estendendo uma cerveja.
— Bem. — Eu respondo de imediato. — E Santa Monica?
— Ótima. — Ele brinda comigo. — Soube do campeonato, você parece estar se destacando em campo.
— É, foi um ótimo jogo. — Respondo com uma das sobrancelhas erguidas.
— Um dom de família, presumo. — Ele observa. — Soube que seu pai também sempre levou jeito.
Não respondo. Sinto a mudança no ar e um clima pesado pairar entre nós. Nunca consigo abrir a boca nessas situações. Ouvir Charlie entrar em um assunto como esse é quase uma afronta.
— É bom finalmente ter um tempo para falar com você, afinal, você e minha filha andam tão ocupados... — Ele começa de novo. — está sempre correndo, mal conseguimos conciliar um horário para telefonar. Ela poderia ter identidades secretas que nunca saberíamos.
— Vou procurar alguma pista na bolsa dela, mas não acredito que seja o caso. — Eu respondo, com tom de divertimento.
— Bom, já que está com ela por toda parte, me conte um pouco sobre a vida da minha filha. — Ele me encara. — Sobre a sua vida e a dela, para ser mais específico. O que tem acontecido entre vocês?
— Entre nós? — Pergunto um pouco sem graça, também o encarando.
— Não quero me intrometer, mas você sabe, do jeito que ela é fechada, não saberíamos se ela estivesse de mudança para um trailer, pronta para fazer uma turnê mundial com uma banda hippie... Muito menos sobre um relacionamento.
— Não temos um relacionamento. — Eu o interrompo, finalmente recuperando em parte a minha voz.
Ouço passos rápidos na escada e me levanto imediatamente para olhar para ela, amaldiçoando mentalmente até sua sétima geração por ter me feito vir a esse jantar e ter essa conversa ridícula com Charlie, mas assim que a encontro, vejo sua expressão de fúria e igualmente furioso atrás dela
EU JÁ DISSE QUE VOU TE DEVOLVER! — Ele grita com ela, agarrando seu braço.
Charlie passa na minha frente antes que eu possa pensar alguma coisa, e tento processar os acontecimentos dos últimos dois segundos.
Solte a sua irmã! — Ele exclama. — AGORA.
fica boquiaberto, como se não tivesse certeza do que está fazendo. Mas, surpreendendo a todos na sala, logo se recompõe, enfrentando Charlie, recuperado do baque inicial.
— Você não tem mais o direito de dar palpite em nada que se refere a essa família. — Exclama.
— Não tenho o direito? — Charlie se zanga, encarando o filho com fúria. — Olha o braço dela! — Charlie aponta para , que está perplexa demais para falar alguma coisa. — Eu sou seu pai, e não vou permitir que aja assim com sua irmã. Te amo mais que a mim mesmo, mas não posso permitir que faça isso de novo, com ninguém.
— Corta essa de “pai” preocupado. — ri, falando mais alto do que deveria. — Faz três anos que você não mora mais aqui, não sabe de nada que acontece nessa casa.
— Sei mais do que imagina. — Charlie rebate.
— Sabe mesmo? — revida. — Então já está a par de que peguei sua filha só de calcinha na cama com esse idiota?
As palavras de ardem em mim como uma traição, mas não consigo emitir nenhum som. Charlie, que está mais pálido do que de costume, também não diz nada, apesar de ter aberto a boca algumas vezes.
— Não foi bem assim! — se pronuncia, irritada. — E parem de falar como se eu não estivesse aqui!
— Eu estava lá, sei muito bem como foi. — rebate. — Diferente dele, que é um grande pai de merda.
— Um pai que se importa com você! — rebate. — Pare de agir como se tivesse cinco anos!
— Se importa? — grita. Charlie não demonstra nenhum tipo de reação, e eu muito menos. — Ele fez a sua cabeça, ... Olhe tudo que ele te causou desde que foi embora... Você acha mesmo que o conhece?
. — Charlie o repreende. — o quê? — o enfrenta. — Está com medo de que ela saiba quem você é de verdade?
O quê? se coloca entre o pai e o irmão e sinto um nó na garganta.
— Nem mais uma palavra. — Charlie rosna.
— É fácil fingir, não é? Não foi você que precisou vê-la chorar por dias a fio depois que você a abandonou! Devia estar por aí, bebendo em bares e dormindo com mulheres aleatórias, enquanto eu segurava as pontas.
— CHEGA! — Grito, surpreendendo todos na sala. Não vou deixar que faça isso, não assim. Acabei de perdoar Charlie pelo que fez. Acabei de decidir esquecer tudo e seguir em frente. está bem como nunca esteve antes, e eu não vou deixar esse segredo estragar tudo outra vez.
— Parece que todos aqui têm muito a esconder. — comenta, maldosamente. — Bom jantar para vocês, e cuidado para não se engasgarem com as próprias mentiras. — Ele se despede, pegando a chave do carro e batendo a porta.
— Charlie... — Eu me viro para ele, tentando me explicar.
— Então vocês estão dormindo juntos. — Charlie me interrompe, levemente vermelho.
— Não! — exclama, constrangida demais para me encarar. — Quantas vezes vou ter que repetir?
— Dormimos na mesma cama, foi só isso. — Eu tento explicar, deixando ainda mais constrangida. — Minha filha estava sem roupa! — Charlie se exalta, ainda fitando a filha. — Sem roupa, dormindo com um garoto.
— EU NÃO ESTAVA SEM ROUPA! — berra, com as bochechas em um tom escarlate vibrante. — E não é um garoto qualquer, estamos falando do !
Poderia ser engraçado vê-la assim, mas na atual circunstância, estou tão embaraçado quanto ela.
— Charlie, eu juro que não...
— Eu não quero saber de nada. — Charlie me interrompe, atropelando as palavras. — O que vocês estão tendo... Não me interessa. Só espero que estejam fazendo, o que quer que estejam fazendo, com responsabilidade. — Ele conclui, seguindo o mesmo caminho que . — ARGHHHH! — geme em um acesso de raiva, subindo as escadas.
Fico encarando Martha por alguns segundos, sentada na mesa de jantar com uma taça de vinho rosé na mão. Ela tem uma expressão infeliz no rosto, e me encara com as sobrancelhas erguidas, pronta para me atacar.
Eu não aguento mais nenhum comentário ou interrogatório sobre esse assunto, minha paciência tem limite. Então, com um suspiro teatral, ignoro Martha e seu jantar desastroso e subo as escadas depressa, atrás dela.



Estou dando voltas na cidade há horas, mas nada consegue tirar o evento recente do meu cérebro. Tudo se repete como um filme em minha cabeça, me afastando cada vez mais da realidade.
Como pôde falar daquele jeito... Depois do inferno que me fez passar.
Não tenho o direito?! — Ele exclamou para mim. — Eu sou seu pai, e não vou permitir que aja assim com sua irmã. Te amo mais que a mim mesmo, mas não posso permitir que faça isso de novo, com ninguém.
Uma buzina me traz de volta ao presente e rapidamente viro o volante, encolhendo os ombros, fazendo com que o carro à minha frente buzine para mim. Tudo o que acontece do lado de fora está embaçado, como um borrão. Meus olhos estão desfocados, tudo que consigo enxergar é a expressão de choque da minha irmã e o rosto decepcionado do meu pai. Piscando algumas vezes, levo a mão ao botão do volume do rádio, torcendo para que o som ensurdecedor me tire dessa espiral de pensamentos indesejados.

Preciso parar no acostamento.

Meu peito está doendo e sinto que estou prestes a fazer uma loucura, mas antes que eu possa pensar em alguma coisa, um letreiro em neon pisca para mim, como um sinal.
A boate não é tão ruim. Rostos desconhecidos dançam à minha frente e me impressiona a quantidade de mulheres que vejo em um espaço de tempo tão curto. Rostos bonitos e desconhecidos. — Uma dose de vodka. — Peço para o barman no balcão, apresentando um dos meus documentos falsos. O nome da vez é Thomas. — E não pare de trazer. — O mesmo para mim, por favor. — Uma voz autoritária corta o ambiente e eu paraliso por alguns segundos. Conheço esse tom...
Me viro para o lado e dou de cara com encostada no balcão. Seus cabelos loiros estão soltos, cobrindo os ombros. Iluminada pela luz, ela brilha. Sua beleza é estonteante. Sua expressão, no entanto, não combina com seus traços admiráveis. Ela parece tão decepcionada quanto eu e suas roupas refletem perfeitamente seu humor. Uma jaqueta de couro pesada reflete nela um visual agressivo, apesar da blusa branca e do seu short minúsculo. As sandálias pretas completam o pacote. São incrivelmente sexy, e tem os saltos mais finos que já vi.

Como consegue se equilibrar?!

— Não sabia que frequentava boates, . — Eu a provoco, me repreendendo por olhá-la por tanto tempo, virando a dose de uma só vez.
— Não é só você que sabe se divertir, . — encara o copinho em suas mãos.
Espera... Ela pediu vodka?
— O que pensa que está fazendo? — Tiro o copo de sua mão, virando a dose para que ela não tente tomar de volta. — Você enlouqueceu?
— Não ouse repetir isso, jamais. — Ela reclama, nitidamente irritada.
— Há quanto tempo está aqui? — Eu pergunto, também irritado. — Ou melhor, o que veio fazer aqui? Você não devia...
— Não me diga o que fazer! — Ela exclama, frustrada. — O que eu faço ou deixo de fazer é assunto meu.
— Você não tem o que fazer aqui, não tem nada a ver com este lugar. — Eu continuo, indignado demais para parar. Mas ela me ignora, virando as costas para mim. — Não vire as costas para mim!
— Eu faço o que eu quiser. — Ela grita, indo para a pista de dança.

Quer saber? Foda-se.

Tenho meus próprios problemas para lidar e não estou aqui para ser babá de uma patricinha mimada. é bem grandinha e não é tão inocente. Ela sabe se virar.
Me endireito no balcão e viro a terceira dose de vodka, já me preparando para a quarta. Mas antes, não me contentando com a vista de bebidas alinhadas na parede interna do balcão, viro novamente e dou uma olhada pela pista de dança, à procura dela. O que eu vejo não me surpreende.
É claro que iria acontecer, afinal, eu sou um ímã para problemas.
está visivelmente incomodada, discutindo com um cara que a cerca com um sorrisinho no rosto. Ela gesticula e suas bochechas estão vermelhas, o que indica que está gritando com ele, mas nada do babaca se afastar. Saio do balcão num pulo quando ele toca os braços dela, pronto para me intrometer.
— Ela não está interessada. — Eu me posiciono ao lado dela. Ela arregala os olhos, indignada, mas o imbecil ri da situação, me encarando com divertimento. — Você ouviu ou é burro demais para entender?
— Fica na sua, cara. — Ele responde, puxando ela pelo braço.
— Não encosta nela. — Com os olhos ardendo, e sem dúvida vermelhos, deixo transparecer todo o mal que quero causar a ele. — Estou tentando com todas as forças não socar a sua cara, então cala a porra dessa boca e some da minha frente, se quiser sair inteiro desse buraco.
! — me repreende, puxando meu braço.
— A loirinha aqui não parece querer o mesmo que você... — Quando ele diz isso, meu corpo começa a tremer. Tenho muita raiva dentro de mim que preciso extravasar.
— Cala essa boca! — Viro para ele, segurando seu ombro e acertando um soco onde estava seu sorrisinho presunçoso momentos atrás.
— Ai, meu Deus! — arregala mais os orbes azuis, em pânico.
O grito dela me distrai e o filho da puta revida, acertando um soco no meu nariz. Cambaleio para trás, deixando a raiva me consumir, imaginando todas as maneiras dolorosas de quebrar o nariz dele.
Parto para cima dele e começo a socá-lo com mais força, colocando em prática tudo que minha mente foi capaz de fantasiar, mas braços fortes me tiram de cima dele antes de o estrago, de fato, acontecer.
— Quero vocês três fora deste estabelecimento. — Um dos seguranças exclama, enfurecido.
Suspiro irritado e fuzilo com o olhar, indo para o balcão. Deixo libras suficientes para pagar a conta e saio da boate batendo os pés, com em meu encalço, notoriamente constrangida.
— Onde estava com a cabeça em vir em um lugar como este, sozinha? — Eu a repreendo. — Aquele cara... Imagina como seria se eu não estivesse aqui.
— Eu não preciso de você para me proteger, sei fazer isso muito bem sozinha. — Ela rebate, revirando os olhos.
— Ah, é claro que sabe. — Eu ironizo, debochando dela. — Entra no carro, vou te deixar na sua casa.
— Não preciso de você. — Ela balança o celular, mostrando um aplicativo Uber.
— Nem fodendo. — Eu reclamo, abrindo a porta do carro e a puxando pelo braço. — Já tivemos essa discussão antes, e adivinha? Quanto antes você ceder, mais rápido saímos desse lugar de merda.
— Me solta, ! — Ela ralha comigo, arregalando os olhos. Sua expressão assustada me deixa confuso, e por um segundo eu tenho a sensação de dejavú. — Não toque em mim.
entra no carro e fecha a porta, calada. Observo a cena, atônito pela ordem dos acontecimentos, e sem entender dou de ombros, também entrando no carro.
O caminho é silencioso e extremamente longo. não reclamou de nada, e está encolhida, o que é mais assustador do que quando ela dispara seus xingamentos para cima de mim. Não me importo com essa raiva toda; na verdade, eu gosto. Provocá-la é um hobby para mim, mas tenho a impressão que esse silencio não significa raiva.
— Seu nariz está horrível. — Ele sussurra, quando entro na rua da sua casa.
— Graças a você. — Eu sussurro de volta.
— Apanhou porque quis, e sabe disso. — Revida. Estaciono o carro e olho para ela com indignação.

Ela não tem jeito.

— Bom, garota-auto-suficiente-que-se-defende-sozinha. — Eu passo o braço por cima dela, abrindo aporta ao seu lado. — Está entregue.
Ela não se mexe, e continua olhando para o meu rosto. Arqueio uma das sobrancelhas, ainda olhando para a porta aberta, e então ela solta um suspiro longo.
— Posso fazer um curativo... — Ela diz, em um tom quase inaudível.
Acho graça da situação e deixo um sorriso escapar.
— Eu ouvi direito? — Debocho, a deixando mais embaraçada. — se oferecendo para ajudar alguém?
— Anda logo, antes que eu mude de ideia. — Ela sai do carro depressa, se equilibrando no salto alto, abrindo o portão.
Cogito sair com o carro e fazer pouco do seu momentâneo surto de gentileza, só por diversão. Isso com certeza seria o que faríamos um com o outro. Nos aproveitaríamos de momentos de fraqueza para sair por cima, só por orgulho. Mas eu quebrei esse ciclo hoje, no momento em que levei um soco por ela, naquela maldita boate.
Então eu saio do carro, bato a porta e a sigo.
sumiu pela casa, me deixando na sala, criando raízes. Suspirei e me sentei no sofá, de braços cruzados. A essa altura, eu praticamente faço parte da mobília, já que esse sofá tem sido o meu lar na última semana.
volta com um caixa de primeiros socorros nas mãos e se senta ao meu lado, descalça, cruzando as pernas. Levanto uma das sobrancelhas, desconfiado, mas não digo nada. Assisto-a molhar o algodão com antisséptico, com uma delicadeza fora do normal. Imagens de uma criança loira, chamando-a de mamãe surgiram na minha cabeça e não posso deixar de imaginar como mãe, cuidando de um garotinho.
— Vai arder um pouco. — Ela diz, limpando o meu rosto.
Faço uma careta quando seus dedos tocam minha pele. Tenho quase certeza de que o desgraçado quebrou meu nariz.
— Por que fez aquilo? — Ela sussurra, ainda limpando o meu rosto. — Você não precisava ter me defendido.
— Você já disse isso. — Dou de ombros, sem ter o que falar. Seus olhos evitam olhar para os meus. — Não foi nada demais.
— Não seja idiota, você está com o nariz sangrando. — Ela continua, indignada. — Pensei que me odiasse.
— Não faz diferença se te odeio ou não, só de pensar nele tocando em você... — Meu estômago revira diante da ideia. — Jamais deixaria acontecer.
enfim me encara, e seus olhos azuis me fitam com curiosidade. Ela parece desconsertada e um pouco surpresa pela resposta.
— O que estava fazendo lá? — Eu insisto em perguntar, num tom menos arrogante desta vez. — Boates como aquela não tem muito a ver com você.
— Precisava esquecer. — Ela confessa. Consigo perceber que está tentando ser durona, mas seu tom mudou e seus olhos grandes estão cada vez mais intensos. — Sair da realidade.
— Ter um filho não é o fim dos tempos, você vai conseguir. — Eu tento ser gentil e a vejo sorrir.
— Obrigada pelo apoio. — Ela ironiza.
— Ele já sabe? — Minha curiosidade toma as rédeas da conversa e, antes que eu possa processar, as palavras saem da minha boca.
— Não faz diferença. — Ela responde e noto sua expressão mudar. Seus olhos vermelhos estão intensos, guardando muita coisa que não sei sobre ela. Coisas de que não preciso saber.
— Então ele já sabe. — Afirmo, a encarando. — É por isso que foi àquela boate? — não responde. Continua tentando inutilmente fazer um curativo no meu rosto. Consigo notar seus olhos marejarem, mas ela aguenta firme. — Sei que não sou, nem de longe, um amigo... Mas pode conversar comigo, se quiser.
para o que está fazendo e fecha os olhos, respirando fundo. Ela repete o processo algumas vezes, me deixando nervoso.

Ela está passando mal ou algo do tipo?

— Ou não. Tanto faz. — Eu me apresso em dizer. — Não precisa fazer isso.
— Jack e eu... — Ela começa a dizer, recuperando a cor. — Tivemos um relacionamento conturbado. Você não entenderia.
— Conturbado? — Eu tiro sarro. — Vocês pareciam um casal de revista.
— No começo, nos dávamos bem. Apesar das diferenças de opiniões, ele sempre foi um bom namorado, principalmente em público. — Ela diz roboticamente, fitando as mãos. — Mas com o tempo, as coisas foram tomando um rumo meio torto.
— O que quer dizer com "torto"? — Eu franzo o cenho, intrigado. — Traições?
— Não. — Ela sussurra. — Não exatamente.
Toco seus ombros para que me olhe e a vejo tremer. O que raios esse imbecil fez com ela?
— Ele... — Eu respiro fundo, sentindo o ódio fervilhar dentro de mim. — Te coagiu de alguma maneira?
Meus punhos já estavam cerrados a essa altura, mas eu transparecia calma na voz. Preciso saber o máximo de informações possíveis antes de qualquer coisa.
assentiu, sem dizer nada. Suspirei, imaginando o pior. Como alguém como ela pode ter passado por algo assim?
— Ele tocou em você? — Eu disparo, ansioso por uma resposta.
— Fisicamente não. — Ela se apressa em dizer. A voz dela está trêmula, e consigo perceber que está tentando se controlar para não chorar. — Mas sabia ser bem persuasivo.
, eu preciso saber a verdade. — Insisto, tentando me certificar de que ela está me contando tudo. — Ele, algum dia, ergueu a mão para você?
E então, os pingos de chuva que ameaçavam cair se tornam tempestade. solta um soluço e tenta esconder o rosto entre as mãos. Nesse momento, eu recebo a confirmação de que precisava, me levantando num pulo já com as chaves do carro nas mãos.
Estou cego de raiva. Não consigo enxergar um palmo diante dos meus olhos. Tudo que vejo agora é o rosto de Jack.

Jack com o rosto desfigurado. Jack sangrando. Minha bota chutando o rosto de Jack...

Mas então, fito a garota sentada ao lado de onde eu estava. , que antes parecia uma fortaleza, a garota inabalável e irritantemente perfeita, está completamente desarmada, expondo toda a sua vulnerabilidade. E eu, como o fodido que sou, estou mais preocupado em socar o imbecil do que em ajudá-la de alguma forma.
Respiro fundo algumas vezes e, com relutância, me sento de novo, deixando a chave, a fúria e os punhos cerrados de lado. Ela não precisa de mais confusão. Precisa de segurança.
— Ei. — Eu sussurro, puxando suas mãos do rosto. — Não chore.
Puxo para mim. Mesmo encolhida, a envolvo em um abraço desajeitado. Seu choro se intensifica, então passo minhas mãos trêmulas por suas costas. Estou completamente sem jeito, não sei muito bem o que fazer. Fico em silêncio, ainda acariciando suas costas.
— Não precisa me contar mais nada. — Sussurro, quando o choro parece diminuir. — Mas escute... Você não precisa desse cara. Para nada.
— Ele... — Ela tenta falar, com voz rouca. — Não quer.
— Ótimo. — Eu exclamo. — Ele já fez bem o papel de namorado de merda, não precisa ser um pai de merda.
— Eu não posso. — Ela choraminga. — Não posso ter um filho sozinha.
— Você não está sozinha. — Eu a encorajo. — E ainda que estivesse... Você é . Você intimida qualquer um. — Ela ri, limpando as lágrimas. Encosto meu ombro no topo de sua cabeleira loira, e ela me abraça com força. — Ter um filho é fichinha para você.
— Obrigada. — Ela diz, me fitando. — Por me salvar, de novo.
— Você desperta uma versão boa de mim mesmo. — Eu respondo, mais para mim mesmo do que para ela. — Uma versão que eu não via há muito tempo.
Então, nos encaramos, hipnotizados pela íris um do outro. Consigo sentir o cheiro de cereja nos lábios dela quando aproximo seu corpo do meu. Estamos muito, muito próximos agora, falta pouco para, enfim, nos beijarmos.

Estamos numa linha tênue, entre o ódio e a total devoção.

Pressiono a mão na parte inferior de suas costas e a vejo fechar os olhos, me dando total acesso a sua boca, agora entreaberta. Isso basta para que eu ceda e, por fim, sele nossos lábios de uma vez.
Nosso beijo é desesperado. É quente e cheio de emoção. Consigo ouvir um suspiro de alívio escapar dos meus lábios, simplesmente por tê-la assim, nos meus braços. Pela primeira vez, o ambiente que dividimos está calmo e não se ouve nenhum grito ou provocação. Somos só nós dois, deixando nossas diferenças de lado e nos afogando em um oceano de sentimentos.



Estico o braço até a maçaneta, mas hesito, sem saber ao certo o que fazer. A porta do quarto à minha frente está encostada e sei que a garota dentro dele está tão confusa quanto eu.
A sensação que sinto no estômago agora é tão... assustadora.
É como se nós dois estivéssemos nos perdendo, aos poucos, em um mundo desconhecido. Em um dia ela é a pessoa que mais me identifico no mundo. A pessoa que me deixa à vontade e seguro para ser quem eu sou de verdade. A responsável pelo meu sorriso mais sincero e por todas as coisas mais idiotas que eu já disse em toda a minha vida. Mas de um tempo para cá, me sinto confuso ao lado dela. Sinto que devo satisfações e que ela me deve também. Encará-la me deixa sem graça, e ver qualquer outra pessoa a encarando me deixa furioso.
A verdade é que essa garota sempre foi um paradigma. Ela parece ser tão previsível... E então me assusto com a sua instabilidade. E com a instabilidade dos meus sentimentos em relação a ela.
Passei a vida toda pensando que sabia tudo sobre ela. Mas agora percebo que, ao mesmo tempo que a conheço como ninguém, deixei de prestar atenção em como ela se transformou ao longo do tempo. E em como o que temos também tem se transformado.
Tomei coragem para girar a maçaneta e pigarrei antes de abrir a porta. não se mexeu, nem esboçou reação quando adentrei o quarto. Ela continuou de costas para mim, passando os dedos pela coleção de vinis que tanto adora.
Chego mais perto, e passo os olhos pelos discos, junto com ela. Em um súbito surto de coragem, eu decido abrir a boca.
— E então... O que tá rolando? — Pergunto. me olha com desentendimento e eu solto um suspiro. — Essa coisa toda entre nós.
— Qual o problema com a gente? — Ela arregala os olhos, e se vira para seus vinis. — Eu não sei do que está falando. — Ela sempre faz isso. Sempre foge quando o assunto fica sério e decisivo demais.

Mas não desta vez.

Puxo dois discos da sua coleção e lhe mostro as capas, uma de cada lado, chamando sua atenção. me olha com uma das sobrancelhas erguidas e seus olhos vão da capa do Álbum Branco para a de Sgt. Pepper's em menos de dois segundos, e depois para o meu rosto.
— O que pensa que está fazend...
— A gente costumava ser assim, como o Álbum Branco. Tínhamos sintonia, entende? Éramos previsíveis e totalmente óbvios, de uma maneira agradável. — Eu explico devagar para que não me entenda mal, enquanto me encara. — Éramos coesos.
Faço uma pausa, e ela concorda com a minha explicação, encarando a capa colorida desta vez.
— E então, de repente isso... — Agito a segunda capa. — Nos tornamos Sgt. Pepper's. Uma bagunça. As coisas não fazem muito sentido e não sabemos o que esperar da próxima faixa. Tudo está à flor da pele e os sentimentos tempestuosos surgem quase na mesma intensidade que vão embora.
fica em silêncio por um tempo, para o meu total desespero. Não sei se fiz bem, encurralando ela dessa forma. Mas coisas precisavam ser ditas, e nada melhor que Beatles para fazê-la entender exatamente o que quero dizer.
Seus olhos claros ainda estão me fuzilando com intensidade, e quase consigo ouvir as engrenagens trabalhando em sua cabeça.
— Comparar nossas míseras vidinhas adolescentes com isso aqui. — Ela puxa os discos das minhas mãos e os guarda de volta na estante. — É uma blasfêmia.
puxa Help! da pilha e balança no ar, sugestivamente, como um pedido para que eu acabe logo com aquela conversa. Concordo com um aceno, rindo da sua habilidade em bolar piadinhas que cabem perfeitamente na situação, simplesmente para fugir de qualquer assunto sério que surja entre a gente.
Nós dois sentamos na cama, ela contra a cabeceira, com as longas pernas esticadas, e eu com as pernas cruzadas, na outra ponta. Ficamos nos encarando por um tempo, ouvindo a primeira faixa preencher o silêncio do quarto. cantarolou os primeiros versos de Help! e pude ouvir sua voz se misturar com as vozes de John, Paul e George.
And I do appreciate you being 'round, Help me get my feet back on the ground, cantarolamos juntos e trocamos olhares outra vez. Ela sorriu e eu não pude deixar de sorrir também, chegando mais perto dela.
— Eu gosto disso. — Exclamei.
— De Beatles? — Ela questionou.
— Da gente. — Eu respondi.
— Da gente na versão Álbum Branco ou Sgt. Pepper's?
— Sendo só... A gente. — Respondo com sinceridade.
Estamos tão perto um do outro que nossas vozes agora são sussurros. Consigo sentir sua respiração bater na minha bochecha e acelerar quando toco seu rosto, tão perto do meu. Passo meus dedos por uma mecha fujona e a coloco de volta atrás de sua orelha, encarando seus olhos cor de mel. Tento manter a calma enquanto ele olha para mim com uma expressão totalmente conivente, provocando um frio na minha barriga e fazendo minha respiração acelerar também. Por um momento, penso que estou imaginando coisas, mas o cheiro de baunilha que preenche minhas narinas prova que tudo é real e que estou realmente aqui, prestes a beijar a minha melhor amiga.
Não foi assim que imaginei que seria nosso primeiro beijo. Não sei exatamente o que pensei que aconteceria, ou se sequer ele aconteceria. A última coisa que poderia imaginar é que estaríamos no quarto dela depois de uma constrangedora conversa com o pai sobre roupas íntimas.
Tudo está sendo tão surreal...
E então, quando nossos narizes finalmente se tocam...

You don't realize how much, I need y... yo... yo... yo... yo.

I Need You
começa a falhar e acorda do transe. Agora tudo que vejo em seus olhos é pânico. Em um pulo, ela se afasta, e em menos de cinco segundos está ao lado da vitrola que eu mesmo dei no seu aniversário de treze anos, levantando a agulha e tirando seu precioso disco de lá de dentro.
Tenho vontade de gritar para que ela pare o que está fazendo e volte a se sentar na minha frente. Mas não grito. Pelo contrário, me levanto também. Ela abre a boca para falar, mas volta a fechá-la quando nota que pego minha chave no aparador descascado ao lado de sua cama e me encaminho para a porta, assustado demais para dividir o mesmo cômodo que ela.
Desço as escadas depressa, apavorado ao pensar no que aconteceria se essa maldita vitrola não tivesse engasgado.

Capítulo 10


Meu celular vai despertar a qualquer momento, mas pela primeira vez acordei antes dele. O que é quase um milagre, já que acordar é uma tarefa árdua para mim. Mas aqui estou, rolando de um lado para o outro há mais ou menos uma hora. Para ser sincera, eu não sei se dormi. Fiquei a noite toda repassando o exato momento em que se curvou até mim, com a boca semiaberta e os olhos hipnotizados. Íamos nos beijar ou foi uma alucinação?

Alucinação. Só posso estar alucinando.

Um beijo. Um único beijo mudaria tudo. Emoções descontroladas poderiam surgir, e então, as consequências me arruinariam. Talvez para sempre.
Chacoalho a cabeça, ouvindo o bip do meu telefone soar escandalosamente. Em qualquer outra manhã, eu não ouviria. Ignoraria e continuaria dormindo. Mas não hoje. Saio da cama num pulo, vestindo minhas roupas recém-passadas de qualquer jeito.

Alguém fez uma visita à lavanderia...

Desço as escadas sem ânimo, praticamente me arrastando. Preciso de açúcar. E café, muito café.
— Já acordada? — pergunta, com olheiras quase tão marcadas quanto as minhas. — Posso te levar hoje, se quiser.
— Que ótima maneira de pedir desculpas. — Eu comento, fazendo uma careta para o prato de ovos mexidos do meu irmão. — O que houve com as torradas?
— Acabaram. — Ele diz, sem humor. Solto um suspiro, afundando meu rosto entre as mãos. — E o café também.
— Não. — Eu choramingo. — Danem-se as torradas, mas eu preciso de café!
— Ótimo motivo para a gente sair logo de casa. — faz pouco do meu sofrimento, pegando as chaves do carro. — Posso te subornar com café e panquecas se a carona não for suficiente.
— Feito.
Quando saio de casa, vejo o carro de estacionado na garagem. Sua pintura perfeita brilha contra a luz do Sol e seus detalhes clássicos quase gritam de tão puídos. É realmente um carro lindo e quando o vejo assim, durante o dia, quase consigo entender a paixão que meu irmão tem por ele.
— Não encosta. — Ele me repreende. — Não quero marcas de dedos na pintura.

Eu disse quase.

— Vai ter que se esforçar mais se quiser mesmo que eu aceite suas desculpas.
Entro no carro com uma carranca, dando uma olhada no banco de trás. Tem menos de quarenta e oito horas que ele pegou o carro de volta e já está bagunçado. Cigarros e roupas se misturam com alguns dos meus livros esquecidos e suas apostilas. É, isso é que é ter sangue nas veias.
Mando uma mensagem para , mas ela se junta às outras cinco que mandei anteriormente, todas sem respostas. Onde ela se meteu?
Assim que chegamos ao maldito colégio, começo a saga de escolher o meu livro do dia. O que é quase uma tortura, já que a falta de cafeína me deixa cinquenta vezes mais lenta do que o normal.
— Eu não tenho o dia todo. — resmunga, esperando com impaciência.
Depois de conseguir escolher qualquer coisa e me levantar, tudo bem lentamente, sigo meu irmão para a cafeteria ao lado do colégio. Não é o Bonzo’s, mas tem café.
Peço um expresso duplo assim que chego ao balcão, sentindo o cheiro maravilhoso de café invadir meus sentidos. Abro a boca para pedir panquecas com gotas de chocolate e o famoso donut de baunilha, mas me contenho, me lembrando de todas as piadinhas sobre minha relação com a comida.
— Não vai levar café para o hoje? — me surpreende, estendendo um donut para mim.
— Meu Deus, é uma miragem? — Eu aperto a minha amiga, para me certificar que ela é real. — Onde você se meteu?
— Trabalho. — Ela diz, encarando meu irmão por alguns segundos. — Tive uma campanha incrível nesse fim de semana.
— Te mandei um monte de mensagens. — Eu continuo, em dúvida se dou uma mordida no donut ou não.
— Estou aqui agora, não estou? — resmunga. — Então chega desse drama.
— Não precisa rosnar. — Rebato, dando um abraço na minha amiga.
— Que perfume é esse? — se afasta, fazendo careta. — Meu Deus, me sinto na Disneylândia.
— É o mesmo de sempre... — Começo a cheirar minha roupa e meu cabelo, preocupada. — E o que tem de errado com a Disneylândia?
— Oi. — Antes que possa responder por que odeia tanto a casa do Mickey, se aproxima de nós, com as mãos nos bolsos. Eu pisco algumas vezes e aperto meu café com mais força.

Ele acabou de me pegar cheirando minha própria roupa, como sou idiota.

Chacoalho a cabeça quando o cumprimenta, seguida do meu irmão. Por que estou tão neurótica? É só o .
— E aí. — Bebo um gole do café, abandonando o donut. Não dá para negar, a tensão entre nós é gigantesca. Tenho que me esforçar para me lembrar de que não somos só nós dois nesse café e que ninguém, além de nós, sabe o que aconteceu – ou o que quase aconteceu – no meu quarto ontem à noite.
— Você... está bem? — pergunta, fitando meus olhos com insegurança. Respondo com um aceno e desvio o olhar para o balcão. Não sei como me sinto em relação a ele agora. Acho que nunca serei capaz de questioná-lo, mas também não sei se consigo voltar a agir da mesma maneira perto dele. Não totalmente.
— Qual o problema de vocês? — ri, observando a cena.
— Nenhum. — Falamos em uníssono. — Eu...
— Café. — Eu o interrompi. — Você sabe, sem café o meu raciocínio fica um pouco lento. — Dá para perceber. — Meu irmão comenta. — Bom divertimento para vocês, viciados. Eu tenho que ir.
Vejo revirar os olhos, alisando sua bolsa Prada, enquanto meu irmão sai do café em passos largos. E assim que ele passa pela porta, se levanta.
— Tomara que não seja contagioso. — Ela debocha, saindo também.
Então somos e eu, que, apesar de lado a lado, olhamos para lados opostos enquanto bebemos nossos expressos. Não faço ideia de como nos metemos nessa confusão, e muito menos como sair dela. Ele tinha razão.

De Álbum Branco a Sgt. Pepper’s.



Saio do café um pouco atordoado. Parte pelo choque de ter que encarar tão rápido, depois do momento embaraçoso que tivemos doze horas atrás, parte por ter que lidar com respirando o mesmo ar que a minha irmã.
é um ótimo amigo, diga-se de passagem. É aquele tipo de amigo que sempre está ao seu lado, nas horas boas e nas de merda. E é por isso que ele sempre foi meu melhor amigo, desde criança. No entanto, não é só por isso que ele praticamente mora na minha casa. e eu, como um bom casal de gêmeos bivitelinos, não dividimos só a barriga da nossa mãe... Dividimos também o melhor amigo de infância. Foi assim desde que nós três nos conhecemos. No começo, éramos muito bons juntos, mas com o tempo, estabeleceu um relacionamento muito intenso com a minha irmã, e por mais que ele me considere um irmão, eu sei que o que ele tem com ela é diferente. Os dois parecem viver em um mundinho particular, e isso vai muito além de qualquer relação que eu já imaginei ter com alguém.
Isso não me incomoda. Crescemos juntos e me acostumei a ter ele com ela por todo lado, vinte e quatro horas por dia. Eu sempre achei isso bom, na verdade. Sempre me rendeu tempo, e bastante paz.
Mas a parte ruim é que nós crescemos. E com o tempo, passei a enxergar as coisas por outros ângulos, muito menos inocentes. A raiva tem feito parte de mim. Os problemas simplesmente me encontram, sempre. E a paz que a presença dele ao lado dela me trazia, começou a se transformar em preocupação.
Minha irmã cresceu, e apesar das piadinhas e armadura de garota bem-humorada, ela lida com muitas questões. Por exemplo, os sentimentos que ela nutre por ele. Mesmo não admitindo isso em voz alta... Ainda. Eu não sei, de fato, até onde esses sentimentos vão, mas eles estão lá. E não posso afirmar que seja platônico, já que a coloca em uma redoma de vidro e não sai da cola dela.
também cresceu. E foi de garoto com problemas de autocontrole a quarterback cafajeste em meio segundo. O que tem me tirado a paz, completamente. Só eu sei o que significa para ela. Ele cresceu conhecendo todos os segredos dela. Ele a viu evoluir e permaneceu ao lado dela na maior parte do tempo. Até mesmo quando tudo ruiu e nem mesmo eu tive estabilidade mental para estar.
Ela não aguentaria mais uma perda. Não dele.
— Planeta Terra chamando. — Ouço o som estridente da voz de , e um estalar de dedos irritante entrar nos meus ouvidos. Demoro um pouco para perceber que ela está falando comigo.
— O que está fazendo? — Seguro seu punho, para que ela pare com o barulho irritante.
— Tentando falar com você. — Ela empina o nariz, se desvencilhando de mim. — Eu só vim… esclarecer as coisas.
— Esclarecer? — Eu a encaro, com desentendimento estampado no rosto.
— Esclarecer o que... Aconteceu ontem à noite. — Ela fecha a cara, franzindo as sobrancelhas. — O beijo.
— Ah, isso. — Eu coço a nuca, um pouco embaraçado. — Não pensei que fosse querer falar sobre.
— E não quero. — Ela se remexe, sem jeito. — Mas tenho que ter certeza de que não vai contar nada para ninguém.
— E por que eu faria isso? — Dou de ombros, e ela cruza os braços. — Aquele beijo foi...
Um erro. — Ela diz, prontamente. — Sinceramente, eu não sei o que deu em mim.
— C-claro. — Eu concordo, e desesperadamente tento transparecer indiferença. — Fique tranquila, meu interesse em manter essa informação em segredo é tão legítimo quanto o seu. Se não mais.
— Ah é? — Ela não está acreditando. — Não sabia que cinco minutos no céu com afetaria tanto assim a sua reputação.
— Reputação? — Solto uma gargalhada. — Isso quem tem que se preocupar é você. — Eu chego mais perto, posicionando minha boca bem perto do ouvido dela. Se ela quer agir com superioridade, é assim que vou agir também. — E o que vão pensar de você, garota exemplar, quando souberem que passou cinco minutos no inferno com alguém como eu?
Apesar de ter dito isso para irritá-la, sinto um frio na barriga por estar tão perto dela de novo. Sinto seus ombros ficarem tensos e ela prende a respiração. Deixei desconcertada simplesmente por sussurrar no ouvido dela.
— Ah, ... Garotas como eu não vão para lugar nenhum com garotos como você. — Ela recupera a voz, soltando as palavras de modo esnobe. — Não se esqueça disso.
— Acho que ontem à noite quem se esqueceu disso foi você. — Debocho — Ou talvez não tenha mais certeza de que tipo de garota você é...
não responde. Me dá as costas e entra na sala de biologia, se equilibrando nas sandálias altíssimas. Com um sorriso orgulhoso, entro na sala também, jogando os livros de qualquer jeito em cima da bancada e cumprimentando Trent, o fracassado que faz dupla comigo.
Passo os olhos pela sala, e fixo os olhos nela. está sentada no seu lugar de sempre, umas das primeiras carteiras. Sua postura está impecável, mas consigo notar que está nitidamente contrariada.

Minhas palavras mexeram com ela, afinal.



e eu não trocamos mais do que cinco palavras, todas muito cordiais, desde que saímos da cafeteria. Percebo que ela está evitando me encarar e isso me perturba. Ela me não me olha, não fala comigo, e mal parece respirar na minha presença, mas continua andando ao meu lado. Não digo nada, simplesmente continuo andando no mesmo ritmo, com medo de dizer ou fazer algo que a faça sair correndo. Quando enfim chegamos à sala de biologia, parcialmente atrasados, nos sentamos em dupla, como de costume.
De canto de olho, eu a observo. Ela movimenta as mãos de uma maneira desajeitada, o que me deixa ainda mais desconcertado. Onde eu estava com a cabeça quando fiz isso com ela? O meu papel era entrar naquele quarto, fingir demência sobre todas as merdas que deixou escapar e ouvir Beatles pela milésima vez na semana, como de costume. Sem clima estranho e, principalmente, sem discussão sobre álbuns aleatórios. Só e de sempre.
Mas não foi isso que eu fiz... Eu a confrontei. E como se não bastasse esse meu lapso de insensatez, eu me curvei e quase a beijei.
Isso é assustador.
? — Eu a chamo, sem ter muito que falar. Na verdade, sinto vontade de dizer que não queria ter feito nada daquilo. Gritar para que ela acredite que não queria estar tão embaraçado simplesmente por estar no mesmo ambiente que ela, e que vê-la assim, tão distante de mim, é quase um pesadelo. Mas eu não consigo. Quando olho para ela, nitidamente em pânico, eu travo.
Eu tenho duas opções: cometer o mesmo erro que ontem e confrontá-la por corresponder às minhas intenções repentinas... Ou fingir que nada aconteceu. Porque se não falarmos sobre isso, não foi real.
— Estou ouvindo... — Ela me incentiva, um pouco incerta.
— Er… — Não foi real, não precisa ser real. Só respire. Aja normalmente.
— Como eu disse na aula anterior, hoje teremos uma abordagem diferente. — Lily, nossa professora de biologia, me interrompe. Ela usa uma caneta para escrever “Interações entre os seres vivos” no quadro e, em seguida, volta a falar. — Esse será o tema deste bimestre. Bom, todos nós sabemos que a vida e o meio físico interagem em uma estrutura organizada, um sistema. E compreender a organização sistêmica da vida é essencial para perceber o funcionamento do Planeta. A ideia de que as modificações ocorridas em determinados componentes do sistema interferem em muitos outros, parece um pouca óbvia, mas quero mostrar isso, na prática. Alterando as interações e desorganizando-as definitivamente, às vezes por um longo tempo, causam transtornos catastróficos no início, e até um déficit em determinados grupos. Mas esse caos é só até que todo o sistema se equilibre novamente. Quase sempre de maneira mais eficiente e evoluída.
Com uma pausa, ela sorri de maneira divertida, encarando a gente.
— Conheço todos vocês e sei como cada um trabalha com a sua respectiva dupla. — Ela chega até a minha carteira. — Mas chegou a hora de tirá-los da zona de conforto. E observá-los se reequilibrarem em nichos diferentes. , troque de lugar com Justin, por favor.
— O quê? — Eu questiono, um pouco atordoado.
— Estou ciente de que você e a senhorita trabalham muito bem juntos, mas chegou a hora de mudar. — Ela incentiva. — Todos aqui vão trocar de dupla.
— Mas somos uma dupla desde o primeiro ano... — também questiona.
— O que significa que já evoluíram tudo que era possível. —- Ela continua. — Hora de se readaptar e se tornar mais eficiente.
Com um resmungo, eu recolho meus materiais e respiro fundo, dando lugar para Justin se sentar ao lado de . Ele tem um sorrisinho animado no rosto, o que me deixa completamente irritado. Não consigo gostar desse cara. Simplesmente não consigo.
Encaro minha nova dupla e o cumprimento sem muita empolgação. Olho de novo para Justin, sentado no meu antigo lugar, e para . Ela parece à vontade... Justin disse algo que a fez rir. Seus ombros estão relaxados e seu olhar é tranquilo. Nem um pouco parecida com a maneira como estava momentos atrás, perto de mim. Justin é quase um desconhecido para ela, qual o problema dela? Pisco algumas vezes quando ele se aproxima de seu livro, e ela sorri para ele.
Cacete, com esse tanto de anotações eu vou ficar confuso. — Ele comenta, coçando a nuca. — Que tal estudarmos hoje, depois da aula?
Caramba. Ele é mais rápido do que eu imaginava.



Depois de me despedir de , e Luke, procuro pelo estacionamento, mas ele não está em lugar nenhum. Tão pouco sua picape. Obviamente, está fugindo de mim. Foi nítido que estava tão embaraçado quanto eu hoje mais cedo, e fugir dessa situação é, no mínimo, reconfortante. Para nós dois.
Vejo Justin acenar para mim, encostado em seu Porsche vermelho. Engasgo com a minha própria saliva e começo a tossir, um pouco atordoada com a cena.

Eu sou mesmo patética.

— Oi. — Ele exibe um sorriso perfeitamente alinhado para mim, abrindo a porta do carro.
— Obrigada. — Agradeço, um pouco embaraçada. Quero muito sair daqui, antes que alguém veja. Espero que o motor desse carro seja mesmo potente. — Seu carro é...
— Moderno? — Ele sugere, com um sorriso empolgado.
— Eu ia dizer extravagante. — Completo, sentindo minhas bochechas queimarem. — Mas moderno é uma ótima descrição.
— Foi uma piadinha com o carro do seu irmão, me desculpe. — Ele ri, sem graça. — Pode guardar suas coisas no banco de trás, se quiser.
Concordo com um aceno e me inclino para deixar meus livros no banco de trás. Passo os olhos pelo banco e me impressiono. Com a exceção de um único livro, não tem nada espalhado pelo banco. Nenhum papel de bala sequer. Nenhuma roupa largada, e muito menos copos vazios de café. Estreito os olhos para ler o título do livro e percebo ser algo relacionado à economia.
— Está com fome? — Ele pergunta, me tirando dos meus devaneios. — Podemos comer em algum lugar no caminho. Aliás, acho que não sei onde você mora.
— Minha casa fica no Prince’s, Newburn St, 537. — Falo prontamente — Sobre comer...
— Conheço um lugar no Prince's que tem batatas incríveis. — Ele diz, animado.
Engoli seco e concordei. Mas a verdade é que detestei a ideia. Já estou nervosa demais simplesmente por estar nesse carro. Ter que comer na presença dele só piora mais as coisas.
No começo, achei que ajudaria a esclarecer o repentino problema com meu melhor amigo. Sabe, separar as coisas... Na minha cabeça, me interessar por outra pessoa poderia desviar o foco e deixar as coisas com como sempre foram. Teoricamente, o plano é ótimo, mas no momento que comecei a colocá-lo em prática, o vendo acenar para mim na frente do Porsche mais vibrante que já vi, me dei conta de que não era um plano tão bom assim...

E agora vou ter que comer. Comer na frente de Justin Evans.

— Contanto que tenha milk shake... — Eu suspiro, derrotada.
— Podemos só pegar e comer na sua casa enquanto estudamos... — Ele dá de ombros, percebendo meu desinteresse.
— Perfeito. — Eu me animo, o encarando com um sorriso.
Justin puxou assunto desde que ligou o motor da Millennium Falcon, e foi perceptivo seu empenho em tentar me deixar mais à vontade. Bom, funcionou. Ele é bem engraçado, aliás. E muito gentil. Quando me dei conta, já havíamos chegado à minha casa e minhas bochechas estavam rosadas de tanto rir. Para quem não queria nem comer, eu acho que me saí bem, tagarelando o caminho todo, enquanto comia as famosas batatas fritas do Gregg’s.
— Seja bem-vindo à residência dos , onde tudo parece perfeito, mas na verdade é uma completa bagunça. — Eu faço uma voz de apresentadora de TV, abrindo a porta.
— Nossa. — Justin diz, prestando atenção a cada detalhe. — Sua casa é enorme...
— Eu sei. — Dou risada, colocando o pacote de comida na mesa de jantar.
— E silenciosa também. — Ele completa, olhando para o pé direito alto.
— Minha mãe trabalha até tarde. — Eu explico. — E meu irmão não para muito aqui.
— E seu pai? — Justin pergunta, curioso.
— Ele não... — Respirei fundo antes de falar. — Meus pais são divorciados.
— Ah, eu não sabia. — Justin me encara, se desculpando com o olhar. Dou de ombros, sem responder. — Que tal um tour?
— Já que insiste. — Abro espaço para ele. Apresento cada cômodo da casa com a mesma voz de antes e Justin ri de mim, reparando em cada detalhe da decoração exagerada da minha mãe. Meu celular vibra na bancada da cozinha e vejo o nome piscar na tela algumas vezes.
— Não vai atender? — Justin me encara.
— Ligo de volta depois. — Invento uma desculpa para fugir da ligação, subindo as escadas. Justin sobe em meu encalço, fitando as fotos no corredor. Abro a porta do meu quarto devagar, um pouco envergonhada. Ninguém nunca vem aqui, a não ser . — Bom... esse é o meu quarto.
Justin entra observando tudo. Seus olhos vão das prateleiras lotadas para as pilhas de discos que se espalham pelo chão. Quero desesperadamente tirá-lo daqui, mas ele parece muito interessado na minha grande bagunça. Então, em vez disso, eu me aconchego na poltrona do lado da minha cama.
— Eu não sou nenhum exemplo de organização, como pode perceber. — Tento inutilmente amenizar a situação constrangedora. Ele ainda não está olhando para mim, está concentrado demais no mural de fotos preso na parede azul. — Há quanto tempo vocês se conhecem? — Justin pergunta, apontando para uma foto amarelada no mural. me abraça de lado com o rostinho redondo colado ao meu, enquanto exibo um sorriso banguelo.
— Desde sempre. — Eu sorrio, admirando a foto. — Por quê?
— Só fiquei curioso... — Justin puxa a foto. — Vocês estão sempre juntos e tem fotos dele pela casa toda.
— Nós crescemos juntos. — Eu explico fitando a foto, com um sorriso. — sempre esteve por perto, e não só no sentido literal da palavra. Ele se faz presente, entende? Nessa foto eu tinha sete anos, e estava muito chateada por ter que usar um vestido de princesa no meu aniversário. Minha mãe sempre adorou esse tipo de coisa, mas eu detestava. E então apareceu com um pacote amassado. Era um All Star vermelho de cano alto. Minha mãe quase teve um treco, é claro. Mas depois de muita insistência, ela concordou em me deixar usar com o vestido. Não importa as circunstâncias, ele sempre esteve comigo, nas horas boas e nas ruins.
— Então vocês estão juntos? — Justin faz a pergunta, com os olhos atentos. Começo a me perguntar se é isso que todos pensam de nós dois, quando nos veem juntos por toda parte. Quero desesperadamente transparecer calma, mas não consigo. Minhas mãos estão suando. E não consigo responder com naturalidade.
— N-não. — É o que consigo dizer, encarando Justin. — Eu só quis dizer que ele é importante.
— Ah, não me olhe assim. — Ele se defende, apontando para uma foto mais recente. Nela eu estou em cima dos ombros de , vestindo sua jaqueta do time, com uma garrafa de vodka na mão. — Desde que entrei para o time sei que não deixa ninguém chegar perto de você.
— Isso não é verdade. — Eu rebato, contrariada.
— Ah, é sim. — Ele confirma. — Por que acha que ninguém chega perto de você?
é como um irmão para mim, Justin. Nada além disso. — Eu falo de uma vez, com um amargor esquisito na boca. — E sei que é assim que ele me vê também.
Mal consigo processar o peso das minhas últimas palavras. O ranger tímido da porta interrompe minha linha de raciocínio. Me viro para seguir o barulho, e vejo plantado do lado de fora. Ele usa sua jaqueta azul imponente, a mesma que estou usando na foto que Justin apontou, minutos atrás. Seus cabelos estão molhados e seu rosto bonito agora está carregado.
Sinto minhas entranhas gelarem quando fito seus olhos frios e me dou conta de que ele só ouviu a última parte da conversa.

Merda.

Capítulo 11


Estou estacionado na frente da casa dos há mais tempo do que consigo contar, tentando pensar em uma desculpa plausível para entrar. Estou com a chave reserva no porta-luvas e toda vez que olho para o carro extravagante do Evans estacionado no meio fio, tenho que controlar o impulso de usá-la. Nem eu mesmo sei o motivo de estar aqui, feito um doido varrido, prestes a invadir a casa da minha melhor amiga.

Mas estou.

Desvio minha atenção da pintura brilhante para a janela descascada do quarto dela, louco para saber o que estão fazendo.
Em um ímpeto de coragem, ou melhor, de loucura, apanho a chave e saio da picape. Minha cabeça está latejando e sinto que preciso fazer alguma coisa. Não aguento ficar aqui, me torturando do lado de fora. Abro o portão e atravesso o curto espaço do jardim com passos largos. Nem a grama malcuidada é capaz de me distrair hoje, tudo que eu quero é chegar logo ao lado de dentro.

O motivo? Eu não sei.

O que eu sei é que preciso ver com meus próprios olhos que eles estão vestidos e com os corpos bem distantes um do outro.
Posiciono a chave na entrada da maçaneta, pronto para abrir a porta. Mas o som baixo que esperei ouvir de cada relevo da chave encaixando ao segredo deu lugar a um ensurdecedor bipe de alerta.

O que está acontecendo?!

Me viro à procura da causa do barulho e vejo o portão da garagem abrir. O Corolla imponente de Martha entra na garagem, e no mesmo instante, tiro a chave da maçaneta, guardando-a no bolso da jaqueta.
Aceno para ela, que não se surpreende em me ver.
— Que bom que está aqui, preciso que me ajude com essas caixas. — Martha diz, saindo do carro. Levanto uma das sobrancelhas, sem entender muito bem o motivo do entusiasmo repentino de me encontrar no jardim da sua casa. — Por Deus, o bazar é daqui algumas horas e nada está arrumado. Leve essa caixa para a área da piscina e depois leve essa para . Espero que ela esteja se arrumando.
— Bazar? — Eu pergunto confuso, tirando as caixas do porta-malas.
— Do clube, oras. — ela diz, de um jeito esnobe. — Não é por isso que está aqui?
Meu cérebro parece dar um giro de trezentos e sessenta graus quando ela faz essa pergunta. Agora tenho um motivo mais do que plausível para estar aqui. E melhor, um motivo para interromper seja lá o que eles estiverem fazendo lá dentro.
— C-claro. — Eu minto, esboçando um sorriso amarelo. — Vim para ajudar.
— Ótimo. — Martha concorda, animada. Não que a animação dela seja evidente, mas imagino que isso é o máximo que ela consegue fazer em relação a mim. — Vou buscar a comida, volto em quarenta minutos.
Aceno para ela, observando-a entrar no carro e dar partida de novo, deixando a garagem. Respiro fundo e pego a chave da porta novamente, entrando pelos fundos, carregando a bendita caixa. Deixo a primeira no deque e estranho a falta de barulhos pela casa. Entro na cozinha com a segunda caixa e vejo pacotes de comida do Gregg's em cima da bancada, junto com o celular dela e o suéter azul do uniforme. Acho ainda mais esquisito o fato deles não estarem na sala, ou em nenhum cômodo comum da casa, e subo as escadas com a bendita caixa, um pouco nervoso. Ela não tem motivo nenhum para estar no quarto com um garoto desconhecido, muito menos esse garoto sendo Justin Evans.
Estou parecendo um doente possessivo andando nas pontas dos pés pelo corredor da casa dela, mas não me importo. A essa altura, as coisas já passaram do nível aceitável, não tem como voltar atrás.
Como um rato sorrateiro, me aproximo do quarto dela devagar, tentando ouvir o que eles tanto conversam lá dentro. As palavras estão abafadas e a porta entreaberta não ajuda muito. Consigo ver Justin parado de frente com o mural de colagens da , ele está com uma foto na mão, mas não consigo distinguir qual. Me aproximo um pouco mais e encosto o ouvido na parede fina de gesso.
Ah, não me olhe assim. — Evans debocha, apontando para uma foto no mural. Estreito os olhos, mas não consigo ver nada além de borrões. — Desde que entrei para o time, sei que não deixa ninguém chegar perto de você.
Filho da puta!
Isso não é verdade. — Ouço-a rebater, um pouco contrariada.
Tenho meus motivos para mantê-los longe dela, e todos sabem disso. Posso falar com certeza que nenhum dos caras daquele maldito time tem um pingo de boas intenções quando o assunto é garotas, incluindo o que está bem na minha frente, flertando com ela.
Ah, é sim. — Ele confirma. — Por que acha que ninguém chega perto de você?
Sinto meus punhos fecharem e uma súbita vontade de gritar quase me faz esquecer que estou atrás de uma porta, espiando os dois. Quem ele pensa que é para se aproximar dela assim e envenená-la dessa forma contra mim? Ele nem a conhece! O que o faz acreditar que ela daria crédito a alguma coisa que saísse da sua boca?
é como um irmão para mim, Justin. Nada além disso. desconversa, com indiferença. — E sei que é assim que ele me vê também.
As palavras dela me atingem. Mas apesar da insegurança que me corrói pelas palavras indiferentes, tento ser compreensivo. Se nem mesmo eu sei o que está acontecendo, e por que me incomodo tanto com suas palavras, como posso culpá-la de alguma coisa?
Afinal, somos só amigos...
Solto um suspiro irritado com meus pensamentos. Minha cabeça está girando, me sinto mentalmente exausto. A presença de Justin só me deixa ainda mais perturbado. Preciso que ele pare de envenenar a cabeça dela, mas estar atrás da porta espiando os dois não me dá muito crédito. Estou com raiva. Estou confuso e eufórico. Estou, inutilmente, tentando entender por que ela está se justificando para ele dessa forma.
Sem mais paciência para aquela conversa, me aproximo mais da porta entreaberta. Vejo agora, sentada na poltrona ao lado da sua cama. Seus olhos amendoados se tornam assustados e ela parece desconfortável com a minha presença.
Não consigo disfarçar o meu descontentamento e a encaro com intensidade.
. — Ela me encara, chegando perto. — O que está fazendo aqui?
Abro a boca para responder, mas me calo quando ouço passos na escada.
! — Martha vem em nossa direção e o barulho de seus saltos batendo no carpete se intensificam. — Não acredito que você ainda está vestida assim, o bazar começa daqui a pouco!
— Mãe... — a repreende, revirando os olhos. — É só um bazar.
— Olá, senhorita . — Justin se aproxima da porta, com um sorriso falso nos lábios. — É um prazer conhecê-la, sou Justin Evans.
— Ah, olá Justin. — Martha abre um sorriso radiante, que transborda falsidade. — Não sabia que estava aqui.
— Já estou de saída, não sabia que a estava ocupada. — Ele diz, cordialmente. — Podemos estudar outro dia.
— Você não precisa ir. — se pronuncia, desafiando a mãe. — Se minha vida parar a cada evento desse clube...
— Eu não quero incomodar. — Justin diz, teatralmente.
— Fique, querido. — Martha diz com a voz doce, surpreendendo nós três. — Eu insisto.
— Será um prazer. — Justin responde. Pisco algumas vezes, sem conseguir acreditar em toda essa cena. Não sei quem se saiu melhor na atuação, Martha, com toda essa generosidade forçada, ou Justin, com toda sua formalidade e gentileza ensaiada.
revira os olhos mais uma vez, pegando a caixa das minhas mãos com irritação. Entro atrás dela, também irritado com a situação. O clima não está dos melhores entre nós dois, o que é nítido até mesmo para Martha, que acabou de chegar; mas a última coisa que quero agora é deixá-la aqui, sozinha com ele. Justin levanta uma das sobrancelhas quando me vê do lado de dentro do quarto e desvia o olhar quando Martha pigarreia para chamar nossa atenção.
— Preciso de ajuda de vocês lá fora. — Ela fala olhando para mim, especificamente. — Busquei seu vestido na lavanderia, filha. Está no closet, com sapatos para combinar.
solta um gemido contrariado para toda aquela situação, mas não diz nada. Volto meu olhar para Justin, que mantém a mesma postura cordial desde que Martha chegou, e agora a segue para o andar de baixo. Agora é a minha vez de revirar os olhos antes de segui-los.
Teremos uma longa tarde pela frente...



Tiro praticamente todos os vestidos e roupas extravagantes que ganhei da minha mãe nos últimos anos, jogando na caixa de qualquer jeito. Seria um momento glorioso poder enfim me livrar de todas essas roupas detestáveis que ela adora, mas só de pensar em tomar chá e sorrir com todas aquelas mulheres do clube... Eu sinto vontade de vomitar. Não, na verdade minha vontade real é de sair pela janela e nunca mais voltar. Certo, nunca é uma palavra forte... Poder faltar ao menos a esse bazar já me faria feliz. Só de imaginar poder evitar toda aquela gente fútil falando e falando... Seria um sonho.
Mas eu não ousaria, estaria muito encrencada quando voltasse.
Então vou seguir exatamente o que manda a cartilha. Ir até o closet, vestir o vestido horroroso que ela escolheu e ignorar o par de sandálias caras. Ficar com câimbra nas bochechas de tanto sorrir e tomar chá até não aguentar mais. Finalmente, usar ironia para todo e qualquer diálogo que surgir, sem culpa, já que ninguém além de vai perceber.

.

Desta vez ele não será uma válvula de escape, e sim mais um problema para aumentar a lista. Como se já não bastasse toda essa instabilidade que estamos enfrentando, terei que lidar com ele respirando o mesmo ar que Justin.

Onde eu fui me meter?!

Bom, o vestido é mesmo horroroso. E não combina em nada com as sapatilhas coringa que escondo dentro da minha caixa de chapéu. Não que eu me importe com isso, mas sei que para minha mãe será um problema. Tenho saudade do meu pai em dias como este.

Se ele estivesse aqui, com certeza estaríamos tirando sarro desse bazar idiota que minha mãe inventou.

Depois de vestida, quase ignoro a recomendação sobre as ondas no cabelo, mas resolvo não contrariá-la. Com um resmungo dramático, ligo o baby liss e começo a briga com meu cabelo.

Seu rosto fino exige, no mínimo, ondas no cabelo. Isso é o que ouço dela todos os dias.

Meu cabelo, de fato, não é muito bonito. É liso e sem graça e a cor não ajuda muito. Não é nem de longe como os cabelos loiros de , com mechas iluminadas e ondas perfeitas. Muito menos negros e cheios como os de Megan, a capitã das líderes de torcida. Meu cabelo se classifica entre o castanho claro e o loiro. Sem ondas e sem cor.
Depois de pronta, desço as escadas sem muito entusiasmo, encontrando e Justin na sala de estar. Ambos estão sentados com cara de tédio e levantam assim que me veem na escada.
— OK, parem com isso. — Meu irmão surge pontualmente para debochar da cena. — Ter que aturar mulheres de meia idade na minha sala de estar já é bem bizarro, não piorem isso.
Justin olha para e ri, coçando a nuca. por sua vez, continua me fitando. Nos encaramos com intensidade por alguns segundos e sinto o ar ficar cada vez mais pesado, quase impossível de se respirar. Desvio o olhar dele em busca de uma fuga. Passo os olhos desesperadamente pelas mulheres espalhadas pela casa, à procura de uma saída fácil daquela situação constrangedora, e então vejo . Ela acena para mim, vindo em minha direção, como se lesse meus pensamentos. Solto o ar aliviada, ajeitando a saia do vestido. Ela está perfeita, como sempre. Parece fazer parte deste lugar, vestida com conjunto lilás que mais parece um terninho com saia e um par de scarpins delicados.
— Você está linda. — Ela me abraça, fazendo careta. — Mas ainda está com um cheiro horrível.
— Obrigada pelo elogio. — Ironizo. — Não sabe o quanto estou feliz que esteja aqui.
— Para isso servem as amigas. — Ela sussurra. — Justin, eu preciso muito da sua ajuda!
Consigo ver claramente as intenções da minha amiga e arregalo os olhos para ela. Eu pensei que ela estivesse aqui para me ajudar, mas nitidamente não é o caso.
Não. — Eu sussurro de volta, mas ela me ignora.
— Tenho algumas caixas no carro e elas são muito pesadas... — Ela continua e eu quase não acredito no que ela está fazendo. Justin concorda com ela e antes que eu possa protestar, os dois estão saindo pela porta da sala.
— Até que enfim. — resmunga ao meu lado, visivelmente contrariado.
— O que estava fazendo atrás da porta? — Pergunto de uma vez, um pouco irritada.
— Sua mãe pediu para ajudar com algumas coisas. — dá de ombros, um pouco indiferente. — Não sabia que me via como irmão.
Meus olhos se arregalam mais ainda e eu começo a tossir. Sim, ele ouviu. E pelo visto não gostou muito de como descrevi meus sentimentos por ele. Desesperada para mudar de assunto, resolvo questioná-lo também.
— Não sabia que ameaçava seus amigos por minha causa. — Devolvo na mesma moeda e levanta uma das sobrancelhas.
— Eu não ameaço. — Ele responde, com uma calma forçada. — Se ameaçasse de verdade, Justin não estaria no seu quarto.
— Estávamos só estudando. — Eu me apresso em dizer. — E pare de agir como o .
Na verdade, não estávamos estudando. Justin claramente quer mais do que apenas estudar e uma parte de mim também quer. Ele é bonito, atraente e muito gentil, não tem como não se interessar por ele.
— Ele não quer só estudar com você, acredite. — diz, mal-humorado. — E eu não sou seu irmão. — Ele faz uma pausa, antes de enfim olhar para mim. — Justin Evans, ? É sério? Pensei que fosse mais esperta que isso.
! — Eu o repreendo, com raiva. — Qual é o seu problema?
— O meu problema?! — Ele ri, com deboche. — Eu é que te pergunto. Desde quando deixa pessoas estranhas entrarem no seu quarto e mexerem nas suas coisas?!
— Ele não estava mexendo nas minhas coisas! — Eu defendo, com as bochechas coradas.
dá de ombros, se virando para pegar um canapé. Não sei qual é o problema dele com Justin, sinceramente. Ele sempre implicou com os garotos por quem me interesso, mas com Justin as coisas estão tomando proporções exageradas.
Sem saber como agir, pego uma xícara de chá e me viro para olhar o lado de fora. Minha mãe está sentada, cercada de mulheres cafonas. Seus olhos pousam em mim assim que me notam e ela se levanta. Engulo rapidamente o chá horrível que está na minha boca antes que acabe cuspindo tudo, causando uma cena ainda pior.
— Aí está você! — Ela aparece na sala. Me apresso para tomar mais um gole para ganhar tempo antes que ela me faça falar. — Que sapatilhas são essas?
— As de sempre. — Exibo um sorriso amarelo e a vejo fechar a cara. — Por favor, não crie um caso pelos malditos sapatos de novo.
— Eu sou uma piada para você, não é? — Ela sussurra, perto de mim. — Eu passei horas organizando esse bazar e você não consegue calçar um par de sandálias.
— Fiz ondas no cabelo e vesti o maldito vestido. — Rebato, sentindo meu sangue ferver. agora nos observa, com uma expressão de alerta.
— Então deveria te agradecer por não usar roupas desbotadas e rasgadas em um evento formal? — Ela questiona, com superioridade.
Essa é a minha mãe. A verdadeira Martha , senhoras e senhores, em toda a sua grandiosidade. A pessoa que luta diariamente pelas aparências. Não tem nada no mundo que a deixe mais furiosa do que quando tento afetar sua imagem de mulher perfeita. Se a perfeição viesse em um frasco, ela compraria. E com certeza me enfiaria goela abaixo.
Eu nunca entendi de perfeição. Muito menos de moda, ou todas as coisas relacionadas às expectativas dela. Mas entendo de camuflagem. É fácil e cômodo para mim me disfarçar, não ser vista. Nunca me achei muito bonita e estou sempre quebrando as expectativas da minha mãe. Então eu visto a minha camiseta favorita e finjo que não me importo. Finjo que não sou uma .

Faço exatamente como ela, que esconde todas as suas frustrações em uma vida de aparências e perfeição forçada.

— Para falar a verdade, deveria. — Debocho, pronta para entrar de vez naquela conversa.
Ela me fuzila com o olhar e me arrependo imediatamente do que disse. Não porque tenho medo do que ela vai dizer, mas porque acabei de passar uma hora e meia me arrumando para esse maldito evento só para não contrariá-la e agora estou jogando tudo isso pelo ralo pela simples satisfação de irritá-la.
— A cada dia que passa, tenho mais certeza de que você é uma versão mais nova do seu pai. — Ela diz, com sangue nos olhos. — Olhe só para você! Anda como ele, age como ele e até mesmo fala como ele... — Minha mãe gesticula agora, em um acesso de raiva. — É como se mesmo depois de ter ido embora, ele tivesse deixado uma parte de si para trás para me assombrar.
Ela está mesmo me comparando com o meu pai em público?
Respiro fundo algumas vezes antes de responder, sentindo meus olhos queimarem. Eu odeio quando ela faz isso, odeio que ela tenha que tocar em um assunto como esse para me desarmar.
— Saiba que a parte que ficou... — Explico calmamente, me referindo a mim mesma. — Está tão farta de você quanto a que te deixou? — Completo a frase, fora de mim.
Sinto os braços de me puxarem para longe dali, mas ainda encaro a minha mãe, com amargura. Ela continua com sua postura esnobe, mas a irritação transparece em sua feição carrancuda.
— Vamos sair daqui. — Ele sussurra para mim, com a voz amena. Concordo com um aceno, dando as costas para a minha casa.
Entro na picape sem falar nenhuma palavra e vejo dar partida igualmente quieto. Ele dirige sem olhar para mim, parecendo não ter um destino certo. Não me atrevo a olhar para ele, muito menos a questionar para onde estamos indo. Não sei em que ponto estamos nesse momento. O que sei é que ele está irritado por causa de Justin e eu estou chateada com o ataque dele. Mas também estou aliviada que mesmo depois de uma troca de farpas, ele tenha me resgatado do meu inferno particular.
Depois do que se pareceram horas, finalmente estaciona o carro em frente à sua casa. — Você está bem? — Ele pergunta, me encarando. Seus olhos estão suaves agora e percebo que está tudo bem entre a gente.
— Eu a odeio. — É o que consigo dizer. — Ela sempre estraga tudo.

Capítulo 12


Estou me divertindo com Justin, que tenta a todo custo me impressionar. Ele é bem esperto, sabe que se me tiver ao seu lado, terá muitos pontos a favor.
Mal sabe que estou anos-luz à sua frente. Estou fazendo com que carregue caixas inúteis para mim, enquanto e se entendem.
É óbvio o atrito entre eles. Não sei o que de fato aconteceu, mas sei que alguma coisa tem tirado da zona de conforto. E ter Justin aqui parece ter piorado um pouco mais o clima.
— Você não estava brincando... — Justin conclui, deixando a última caixa no deque. — Isso tudo é seu?
Era. — Comento, olhando para as unhas. — Coisas que não tem mais utilidade.
— Impressionante. — Ele diz, com as sobrancelhas erguidas.
— Acabamos. — Eu digo, satisfeita. — Agora que carregamos tudo, podemos voltar lá para dentro.
Carregamos... — Comenta com uma risadinha. Foram muitas viagens, espero que esse tempo tenha sido suficiente para melhorar o clima.
Passamos entre as pessoas reunidas em volta da piscina e entramos na sala de estar pelas portas francesas. Dou uma olhada pelo lugar, mas não vejo nenhum dos dois. Em vez disso, encontro , fumando seu maldito cigarro irritante.
Torço o nariz e suspiro irritada, desviando os olhos dos dele à procura da minha amiga. Justin está igualmente confuso ao meu lado, e apesar da pose imponente, está visivelmente deslocado.
— Eles não estão aqui. — diz, soltando um pouco da fumaça pela boca.
— Não te perguntei. — Eu rebato, ainda procurando os dois. dá de ombros e continua fumando seu cigarro.
— Onde estão então? — Justin se apressa em perguntar e ri. Reviro os olhos para aquela situação, mas agradeço mentalmente por não ter sido a responsável pela pergunta.
Percebo a maldade crescer em sua feição diabólica, e com um sorrisinho de canto, assisto ele se levantar e apagar seu cigarro no cinzeiro.
saiu com ela depois de uma discussão com a minha mãe. — diz, analisando a reação de Justin. — Tenho certeza de que não voltam tão cedo.

Discussão? O que foi que aconteceu?

Pego meu celular da bolsa pronta para discar o número que sei de cor, mas paro quando ouço a voz confusa de Justin.
— Isso é normal...? — Ele alterna olhar de mim para , com confusão estampada no rosto.
— Acontece o tempo todo, relaxa. — dá tapinhas nas costas de Justin. — Você pode ir, se quiser. Provavelmente minha irmã vai passar a noite por lá.
Justin franze o cenho, um pouco confuso. Seguro o riso, apesar de estar um pouco preocupada. fez de propósito para afastá-lo da irmã, e apesar de estar errado, eu fico calada. Gosto de Justin, mas gosta mesmo é de outra pessoa.
Depois de assentir, Justin se despede de mim cordialmente e se retira da sala. o acompanha com o olhar, e assim que ele passa pela porta, começa a rir.
— Esse não vai durar muito. — Comenta, se aproximando de mim.
— Com você e cercando-a desse jeito, ela nunca vai sair com um garoto. — Eu o repreendo. — Vocês parecem cães de guarda.
— Essa é a intenção. — diz sem se importar, se jogando no sofá outra vez.
Como de costume, reviro os olhos para ele, alcançando uma xícara de chá. Eu adoro chá, é a solução perfeita para simplesmente tudo. De inchaço a olheiras.
Costumo experimentar diferentes tipos, e pelo cheiro, concluo que esse aqui é bem diferente. Provavelmente veio de alguma viagem de Martha. Depois de beber um longo gole, torço um pouco a boca. Eu não sei o que exatamente tem nele, mas alguma coisa enjoativa me faz querer cuspi-lo aqui mesmo.
Gostaria de um pouco da atenção de vocês. — Martha começa um discurso, chamando a atenção de todos. — É com imenso prazer que venho agradecer a presença de todos vocês. Dizer que me sinto honrada com tamanha generosidade ao colaborar com este evento, que é o primeiro a ser realizado aqui, na minha casa. Com esta iniciativa, nós do Clube, ampliamos nossas ações voltadas para a captação de recursos a serem aplicados em projetos sociais, voltados para o bem. E embora todas aqui tenham participado conjuntamente, atuando em prol da realização deste evento, cabe a mim fazer alguns agradecimentos para aquelas que se dedicaram de maneira especial.
Martha ajeita sua roupa e acerta sua postura, pronta para ler um rascunho em sua mão direita. levanta uma das sobrancelhas ao meu lado, estranhando um pouco a atitude da mãe. Já eu, consigo supor que depois de uma discussão com a filha, ela queira demonstrar suas habilidades como anfitriã. Como uma das idealizadoras desse bazar, respiro fundo e me preparo para seu agradecimento público.
Agradeço a Ginny, proprietária de um maravilhoso bistrô, que, juntamente com sua equipe de maîtres, garçons e ajudantes, prepararam um cardápio maravilhoso para essa tarde. À querida Lilian, fotógrafa de primeira grandeza, tenho que agradecer pelo trabalho encantador e a sutileza com que o faz. Agradeço também a todas as diretoras aqui presentes, que, junto a mim, trabalham tanto em prol de causas nobres. — Com um sorriso ensaiado, Martha dá uma pausa, recebendo alguns aplausos. — E por último, mas não menos importante, gostaria de agradecer à querida , que por meio de uma postura incomum entre os jovens destes tempos nos mostrou o caminho de um evento bem organizado, focado diretamente para a caridade. Pacientemente, ela idealizou o evento, criando meios para aperfeiçoar e inovar a maneira de desapegarmos do que temos em excesso e, ao mesmo tempo, arrecadar fundos e doações.
— Que bonito, tomando o lugar da filha rebelde. — debocha de mim, com um aceno negativo. — Acho melhor a garota prodígio ir até lá, nos agraciar com suas doces e inovadoras palavras.
— Cale a boca. — Retruco baixinho, enquanto sorrio e cumprimento todas que olham para mim.
O gosto do chá ainda está a amargar a minha boca e o meu estômago está revirando. Sei que a culpa não é especificamente do chá e sim do segredo que carrego, literalmente, dentro de mim. Não havia sentido nenhum enjoo até hoje de manhã, e antes de colocar todo o suco verde que tomei para fora, estava comemorando o fato de não ter nenhum dos sintomas desagradáveis que a maioria das mulheres tem. Por alguns instantes, cheguei até a pensar que seria uma das poucas privilegiadas que têm muita disposição na gravidez. Ledo engano.
Dou risada dos meus próprios pensamentos e torço mentalmente para que Martha não me convide a ir até ela para dizer algumas palavras. Da última vez que me senti nauseada, vomitei antes mesmo de me lembrar o motivo. Quando enfim consegui fôlego para sair do banheiro, a sala girava mais do que a London Eye.
Diga algumas palavras, querida. — Minhas preces não foram atendidas e o pânico tomou conta de mim. O sorriso divertido de se alargou e ele fez questão de acender outro maldito cigarro, encostando no batente para me assistir.
Insuportável.
— Obrigada. — Eu digo para todos que me aplaudem agora, e sinto minhas mãos começarem a suar. — A ideia de fazer um bazar com nossos próprios desapegos, na verdade, não tem nada de muito brilhante. Ela simplesmente surgiu quando me dei conta do tanto de roupas e sapatos acumulados no meu closet que poderiam servir para outras pessoas e ainda arrecadar uma quantia que ajudaria muitas mais.
Esboço um sorriso que mais parece uma careta e forço uma pausa, respirando fundo. Sinto minhas pernas fraquejarem e meu estômago dar mais algumas voltas, mas para todos os lados que eu olho, me sinto mais encurralada. Não posso vomitar agora.
Antes que eu possa me despedir e enfim me retirar, Martha aproveita a deixa para começar a falar de novo, o que me deixa sem opção senão ouvir e concordar para o que quer que ela esteja falando.
— ...É mesmo encantadora a ideia de desapegarmos das nossas coisas e ao mesmo tempo ajudar a... — Respiro fundo algumas vezes quando meu ouvido começa a zunir e minha visão fica turva, prestes a sair correndo dali. Olho para os lados novamente, percebendo que não tem mais nada que eu possa fazer. Preciso interromper este discurso.
— Com licença... — Eu me atrevo a dizer, mas Martha está distraída demais em seu discurso para me ouvir.
Com um suspiro impaciente, eu penso em chamá-la de novo, mas antes que eu faça, sinto dedos longos tocarem o meu ombro. Me viro para saber do que se trata, sentindo tudo girar ao meu redor, e vejo ao meu lado.
— Vem. — Ele sussurra, como se lesse pensamentos. — Ela nem vai perceber, confie em mim.
Sem ter muita escolha, eu concordo e o sigo, sentindo que vou desabar a qualquer momento.
entra depressa em casa e me encaminha para as escadas assustado, prestando atenção nas minhas reações. Ele deve estar traumatizado, depois de me achar desacordada, e com medo de que eu caia aqui mesmo, no meio da escada. A verdade é que não estou muito longe disso e sinto que minhas pernas estão bem bambas. Preciso muito de ar e de um lugar que eu possa descansar.
— Você não vai desmaiar, vai? — pergunta, abrindo a porta atrás de si.
— Eu acho que não. — Digo, com a voz fraca.
Entro no cômodo e percebo pela decoração que se trata de seu quarto. Me surpreendo ao notar que as paredes são escuras como eu imaginei que seriam, e que o quarto não é tão bagunçado quanto o quarto da . Na verdade, ele é claro, e apesar do ar masculino, é um ambiente bem aceitável. Sua cama está desarrumada, mas não tem roupas espalhadas por ela, muito menos meias jogadas por toda parte. O quarto tem um cheiro masculino, que reconheço como o perfume que ele usa, e um skate que nunca vi está logo ao lado do videogame, perto da cama.
— Você pode deitar, se quiser. — aponta para a cama. — Quer alguma coisa?
— Só preciso de ar. — Eu me esforço para falar, sentando na cama. — Você pode abrir a janela?
não responde, e em movimentos rápidos, abre a janela. A brisa gelada que vem de fora do quarto faz com que eu me sinta melhor e fecho os olhos por alguns instantes.
— Até quando vai esconder isso? — pergunta, de braços cruzados. — Você precisa de um médico, ou sei lá do que as grávidas precisam.
— Eu estou bem. — Rosno para ele, sentindo meu estômago revirar mais uma vez.
— Não parece... — Ele observa, se sentando na ponta da cama. — Olha, mesmo que não queira contar, você precisa saber se está tudo bem.
— Não tem nada de errado comigo. — Eu rosno de volta e é quem revira os olhos dessa vez. — Eu só preciso tom...
Antes que eu possa responder, sinto uma vontade incontrolável de vomitar e corro para o banheiro o mais rápido que consigo. vem atrás de mim assustado, e quando percebe que estou agachada, se agacha também. Minha vontade é de gritar para que ele saia, mas estou ocupada demais tendo o momento mais constrangedor da minha existência.
Depois de um tempo, a ânsia diminui e meu corpo começa a tremer involuntariamente. Respiro fundo para controlar a minha pulsação e observo que ainda está ao meu lado. Ele me olha com compaixão e com um gesto hesitante, passa a mão pelas minhas costas, desajeitado. Seu toque traz um frio na espinha e sinto uma descarga elétrica passear pelo meu corpo rapidamente.
Ele tem razão, eu preciso parar de ignorar o fato de que estou grávida e tomar uma providência.
— Eu... — Começo a falar e fecho os olhos, sentindo o amargor do orgulho ferido me corroer, respirando fundo. Não sei se culpo os hormônios, ou se a fragilidade que essa condição me impõe, mas estou prestes a pedir uma coisa muito íntima para o garoto detestável a minha frente, e não estou gostando nada dessa versão de mim mesma.
— Você...? — me fita, confuso. A quem eu quero enganar? Não tenho muitas alternativas no momento.
Preciso-que-vá-ao-ginecologista-comigo. — Falo de uma vez, vendo-o arregalar os olhos.



Ouço vozes ao meu redor, mas não consigo processar nenhuma palavra empolgada que saía da boca de Lilian. Estou muito concentrada nas ervilhas que dançam no meu prato, tão descoordenadas quanto meus sentimentos no momento. Estou agitada e meus pensamentos estão muito confusos. Eles vêm sem permissão e tão rápido que mal consigo processar. A ira se mistura com a adrenalina e tudo parece se tornar uma grande bola de neve, fria e densa demais para suportar.
Por que minha mãe ficou tão exaltada pelo simples fato de eu não ter usado sandálias de salto alto? — As questões começam a surgir na minha mente. — Eu sou mesmo uma cópia do meu pai? Eu devo encarar isso como uma coisa boa, suponho. Principalmente se for analisar que não consigo suportar a ideia de sequer ter a cor de cabelo da minha mãe.
— O que acha, ? — Lilian fica parada na porta por um instante, com um sorriso no rosto.
Nesse momento, apesar de não ter prestado atenção em nenhuma palavra que foi dirigida a mim, eu percebo onde estou. E principalmente, com quem estou. Nos últimos três anos, estar na casa dos tem sido reconfortante. Quando e eu nos conhecemos, ele costumava ir para a minha casa em busca de conforto, e agora sou eu que faço isso. É que estar aqui, sentada em uma mesa pequena e sem nenhuma formalidade, me deixa aliviada. É como tomar chocolate quente em uma noite de inverno inglês, a sensação é que tudo o que você precisa está ali, dentro de uma xícara. O calor te abraça e te aquece internamente.
Lilian continua me encarando, com um sorriso.
— Ãh... — Encaro com confusão estampada no rosto e ele sorri.
— Ela vai adorar, mãe. — diz, com a voz suave.
Então Lilian entra na cozinha, nos deixando a sós. Apesar do tom doce e da expressão suave, parece distante. Seus movimentos estão ensaiados demais, e mesmo se esforçando, sinto que, de certa forma, ele está evitando contato visual. Me concentro no copo de refrigerante de laranja à minha frente e respeito sua decisão de não querer me encarar agora.
— Seu favorito. — Lilian surge da cozinha, com um bolo coberto de glacê branquinho. — Nunca vou esquecer de você pequenininha, choramingando por causa desse bolo.
— O queridinho dos americanos. — zomba, experimentando o glacê.
— Meu Deus, faz tanto tempo que não como isso! — Anuncio animada, cortando uma fatia do bolo. Red velvet é meu bolo favorito de todos e é uma das coisas de que sinto mais falta desde que me mudei para a Inglaterra. — Nenhum red velvet bate o seu, Lilian! Até o meu pai admitiu isso.
— Como seu pai está? — Ela pergunta, de repente. Vejo alguma coisa brilhar em seus olhos, mas desaparece antes que eu consiga decifrar o que é. — Digo, como ficou a relação de vocês depois que ele se mudou para a Califórnia? Vocês eram tão próximos...
— Nos falamos bastante por telefone. — Dou de ombros, dando uma colherada. — Não é a mesma coisa, mas sempre damos um jeito de nos falarmos.
— Ele gosta muito de você, querida. — Ela me observa, com comoção nos olhos. — Tenho certeza de que vão dar um jeito.
— OK, chega dessa conversa. — se levanta, um pouco alterado. Meus olhos o encaram com confusão, dispensando a armadura que ele vestiu para me proteger dessa conversa. Ele parece não notar meu apelo e se encaminha para fora da mesa. Suspiro um pouco insatisfeita. Comi um único pedaço de bolo e sinto que não foi suficiente. Na verdade, não chegou nem perto do que eu gostaria, mas não tenho energia para protestar contra mais um minuto que seja, então me levanto também, agradecendo Lilian pelo jantar e me retirando da mesa.
Subimos a escada em silêncio, e quando chegamos em seu quarto, ele fecha a porta atrás da gente. Sinto o cheiro familiar do quarto do meu melhor amigo e o alívio e a tranquilidade tomam conta de mim. some por alguns instantes e reaparece de dentro do closet com uma roupa entre as mãos. Ele atira para mim uma camiseta surrada e uma samba-canção e se joga na cama.
Um sorriso brota no meu rosto quando noto o que ele atirou para mim. Eu mesma escolhi essa camiseta do Hard Rock Café em um brechó, cinco anos atrás. E mesmo ela sendo absurdamente pequena para ele atualmente, ela continua aqui, exclusivamente para noites como essa. Essa é a única camiseta dele que me serve, qualquer roupa atual de fica enorme em mim, quase como um vestidão.
— Não acredito que ainda tem isso. — Aproximo a camiseta do meu nariz, como se conseguisse voltar no tempo.
— Você sempre diz isso. — Ele ri, me encarando. — Sabe que ela sempre vai estar no lugar de sempre.
Suas palavras me tranquilizam e me trazem de volta dos meus conflitos internos. sempre teve esse poder sobre mim, o poder de me resgatar das profundezas mais obscuras que tenho dentro de mim.
Sem pensar muito no que estou fazendo, visto a samba canção por baixo do vestido e praticamente tiro ele ali mesmo, vestindo a camiseta em seguida. Demora alguns segundos para que me dê conta do que fiz, e quando percebo, já é tarde demais. , que antes me encarava, desvia os olhos de mim para o teto. Me amaldiçoo mentalmente por ter me vestido na frente dele e sinto minhas bochechas queimarem.

Onde eu estou com a cabeça?

E-eu... — Começo a gaguejar. — Não pensei direito.
— Eu não olhei. — Ele diz, ainda olhando para cima.
Nervosa, dobro o meu vestido de qualquer jeito e o coloco em cima da poltrona, indo para a cama. passa por mim, sai do quarto e volta minutos depois com um colchonete, um cobertor e um travesseiro.
— Isso é para mim? — Me apresso em perguntar.
— Não. — Ele responde. — É para mim. Você pode dormir na cama.
Engulo seco e fico sem saber o que falar. Por alguns segundos penso em apenas concordar, mas minha boca grande é mais rápida que meu cérebro e dispara antes que eu consiga me segurar.
— Por que vai dormir em um colchonete? — Começo a falar, rápido demais. — Não precisa fazer isso.
— Não acho que devemos dormir na mesma cama. — Ele diz, baixinho. — Você comeu açúcar demais, sempre fica agitada quando isso acontece.
— Dormimos juntos faz três dias. — Eu ignoro sua tentativa de amenizar a situação. — E estávamos menos vestidos que isso.
. — respira fundo, ajeitando o colchonete. — Só não acho uma boa ideia dormirmos na mesma cama, ainda estou com um corte no queixo pela última vez que isso aconteceu.
Com o cenho franzido, eu concordo lentamente. Não tenho o que dizer, sinceramente. Não posso rebatê-lo, dizer que as coisas estão exatamente como sempre foram, se a verdade não é bem essa.
Afasto o cobertor e me ajeito de um dos lados da cama, afofando o travesseiro. Depois de me acomodar, puxo o cobertor e encaro o teto, assim como em seu colchonete. Ele parece tranquilo, mas sei que por dentro está tão pensativo quanto eu.
— As coisas não precisam mudar. — Eu sussurro, depois de um longo silêncio. — Ainda podemos ser o Álbum Branco.
— Estar em um colchonete ao seu lado não significa grandes mudanças, . — Ele responde, com tranquilidade. — Não precisamos fazer disso uma questão.
— Tem certeza? — Eu pergunto, em um fio de voz.
— Tenho. — Ele diz, mas não sinto segurança em suas palavras.

Capítulo 13


Abro os olhos com a claridade da janela. Em um flash momentâneo, as lembranças da noite passada vêm à minha cabeça. Olho para a cama rapidamente e vejo enrolada no meu edredom, dormindo profundamente. Ela ainda está de um lado da cama, o lado que costuma dormir quando passa a noite aqui.
Me levanto sentindo minhas costas doerem e me amaldiçoo por ter dormido no chão, quando poderia ignorar a minha confusão mental e dormir na cama ao lado dela, como sempre fizemos. Mas não parecia certo. E de certa forma, ter dormido no chão foi uma maneira de deixar a nossa relação em outro campo que não a de “irmãos”.
Eu não sei o motivo disso me incomodar tanto. Por um longo tempo, era assim que eu a encarava também. Mas ter ouvido ela dizer isso para outro cara me deixou furioso. Me deixou com vontade de provar para ela que não tenho essa visão, não mais.
Pensando bem, acho que não olho mais para ela assim há algum tempo, mas tudo ficou realmente claro para mim na sexta à noite, quando tirei suas roupas e prestei atenção em seu corpo. De repente, percebi que a garota com quem eu cresci tinha ganhado curvas e deixado a infância para trás. É estranho dizer isso, mas por baixo de suas roupas surradas e cheias de personalidade, existe muito mais do que a criança com quem eu cresci.
E então parei de só conviver com ela, e passei a vê-la.
Depois de me espreguiçar e voltar a sentir minhas costas, fecho a janela e me sento ao lado dela, a observando dormir. As coisas eram tão mais fáceis para nós quando éramos crianças. Sem dramas familiares, sem confusões metafóricas relacionadas a álbuns dos anos setenta. Só eu e ela, sendo e , os inseparáveis melhores amigos. Mas quando me tornei adolescente, responsabilidades e problemas caíram sobre meus ombros, e percebi como as coisas funcionam. Meus problemas com controle tomaram um rumo difícil de lidar, mas tive que aprender a conviver com isso. Simplesmente não tinha mais espaço para ser um problema. Procurei uma maneira de extravasar, e por acaso acabei fazendo um teste para o time. Deu certo, a vida de atleta me ajudou, mas ao mesmo tempo abriu caminhos menos nobres para outros campos da minha vida. Mergulhei de cabeça nessa versão nova de mim e fiz disso um jogo. Dormi com mais garotas do que consigo contar, e gostei disso. Gostei de estar no controle.
Mas com ela eu ainda pude ser eu mesmo. É como se houvesse sobrado alguma coisa da infância a que eu pudesse me agarrar, e por mais difíceis que as coisas se tornaram com a vinda da adolescência, eu tinha a nossa relação como um escape. Um lembrete constante de que precisava manter a melhor coisa da minha vida intacta. Eu lutei por isso, porque é reconfortante ter alguém que sabe o que você está pensando, só de olhar para você. E nós compartilhamos isso. Ela, de certa forma, sempre soube do porquê do meu comportamento. E eu também sempre compreendi todos os motivos dela para se esconder em sua armadura de senso de humor e indiferença.
Mesmo que não defina quem ela é de verdade.
Mas o que está me matando é aceitar que da mesma forma que eu cresci, ela também cresceu. E do mesmo modo que me relacionei com outras pessoas, ela também vai se relacionar. E isso me assusta mais do que qualquer outra coisa na vida.

Por que tem que ser tão difícil?

— O que está fazendo? — me tira dos meus devaneios, com a voz sonolenta.
— Tentando acordar você. — Minto e ela balança a cabeça, concordando. Não é uma mentira completa, na verdade, eu ia acordá-la mais cedo ou mais tarde. — Aliás, você ronca.
— Não ronco, não! — Ela joga um dos travesseiros na minha cara. — Que horas são?
— Hora de acordar. — Bagunço seu cabelo liso. — A menos que queira ir vestida com as minhas roupas para o colégio, precisamos passar na sua casa.
choraminga, levantando da cama com má vontade. Desta vez ela não tira as roupas na minha frente, só pega o vestido e vai para o banheiro, silenciosamente. Chacoalho a cabeça com os meus pensamentos e pego o uniforme no closet, vestindo-o enquanto ela faz o mesmo no outro cômodo.
Eu preciso controlar os meus pensamentos.
Descemos as escadas rindo do fato de ela estar vestida assim, com mais um dos vestidos que Martha insiste em fazê-la usar, mesmo não combinando em nada com ela. Chegamos à cozinha e nos despedimos da minha mãe, que reclamou interminavelmente por sairmos sem tomar café, já que ela fez o suficiente para um time de futebol inteiro.
Nos apressamos em entrar no carro. Assim que saímos pelo portão, liga o rádio recém-consertado, colocando uma música atual para tocar. Franzo a testa, estranhando o fato que é quase um milagre vindo dela, que passa o dia ouvindo músicas pelo menos vinte anos mais velhas do que ela.
Sorrio ao ouvir ela cantarolar a música, mas fico em silêncio. Um silêncio bom, finalmente.
— Eu já volto. — Ela sussurra, assim que estaciono em frente à sua casa, mas não se move. Fica parada, olhando para um ponto fixo. Olho para o mesmo ponto e vejo que o carro de Martha ainda está na garagem, junto com o de .
Quando, enfim, ela ameaça sair pela porta da picape, um pensamento me ocorre.
— Hey. — Puxo seu braço, chamando sua atenção. — É só ignorar, não deixe ela atingir você.
concorda com um aceno, mas consigo perceber sua insegurança. Solto seu braço e deixo que ela vá, concordando com um aceno também.
Agora só resta esperar e torcer para que Martha não a tire do sério outra vez. Ou vice-versa.
Começo a passar as músicas distraidamente pelo rádio, quando ouço o celular de vibrar no banco de passageiro. A curiosidade toma conta de mim e estreito os olhos para a notificação que pisca na tela.
Levo um susto com as batidas na janela e quase solto um palavrão quando vejo se divertindo do lado de fora.
— Distraído? — Ele zomba, levantando uma das sobrancelhas.
— Estava tentando ouvir uma música decente na playlist da sua irmã. — Eu pigarreio, tentando parecer convincente.
— Você foi bem rápido em acabar com o atrito familiar ontem. — Ele diz, em voz baixa.
— Anos de prática. — Dou de ombros.
— Percebi a tensão entre vocês. — Ele me encara, com traços sérios no rosto. — Evans tem alguma coisa a ver com isso?
— Você está imaginando coisas. — Eu rebato. — Não tinha tensão nenhuma entre a gente.
— Sei que não gosta dele. — continua.
Solto um suspiro derrotado, encarando desta vez.
— Apenas não confio nele em relação a mulheres. — Eu confesso. — Principalmente em relação à sua irmã.
— Eu também não. — diz, acendendo um cigarro. — E isso também se aplica a você.
— Já disse que não aconteceu nad... — Eu começo a falar, mas antes que eu consiga terminar a frase, aparece, devidamente vestida.
Tem algo de diferente nela. Suas bochechas parecem mais rosadas, e seus olhos mais marcados que o normal.
— Até mais tarde, irmãzinha. — se despede, fitando meu rosto com raiva.
— O que deu nele? — pergunta, sem olhar diretamente para mim. — Parece com mais raiva que o normal.
Ainda incrédulo com a raiva matinal de , não digo nada. Observo entrar em seu carro e sair da garagem. Não consigo deixar de pensar como dois irmãos podem ser tão diferentes. Ela é tão sorridente e cheia de vida, e é tão... Raivoso. Ele ainda está remoendo e sustentando uma coisa que aconteceu há quase uma semana, e que na verdade não passou de um grande mal-entendido. E eu não posso fazer nada para melhorar a situação.
sendo . — Eu respondo, sem me aprofundar no assunto. concorda com desinteresse e observo-a sorrir com alguma coisa que vê na pequena tela do celular.

O cabelo... O que ela fez no cabelo? Parece mais volumoso...

— Você está... Diferente. — Eu começo, ignorando a onda de ciúmes que surge em meus pensamentos. — Seu cabelo está bonito.
— Obrigada. — Ela me olha e percebo a timidez surgir em sua feição.
— Isso tem alguma coisa a ver com o Evans? — Eu pergunto da maneira mais controlada que consigo.
. — Ela sussurra, soltando um gemido. — Faz menos de vinte e quatro horas que estamos em paz e eu quero que as coisas continuem assim.
, não é mistério nenhum o que eu penso sobre isso. — Eu começo e a vejo revirar os olhos. — Mas não vou me meter.
— Como é?! — Ela me encara com desentendimento, e então é a minha vez de revirar os olhos.
— A partir de hoje não vou dizer absolutamente nada sobre esse assunto, desde que ele não seja uma babaca. — Eu friso minhas últimas palavras e ela concorda devagar. — Mas se ele magoar você...
— Não vai acontecer. — interrompe meu discurso, com um sorrisinho no rosto. — Obrigada... Por isso. É muito importante para mim.
Assinto, mas não digo nada. Na verdade, os minutos parecem horas enquanto atravessamos a cidade em silêncio. Um silêncio não tão agradável desta vez.
Eu fiz o que tinha que fazer, o que não significa que estou me sentindo bem com tudo que falei. Na verdade, estou me segurando para não gritar, dizer que quero que ela se afaste dele. Mas não posso fazer isso com ela, seria pura hipocrisia impedi-la de ter um relacionamento com alguém, por simples capricho meu.



Estou do lado de fora do banheiro feminino esperando que saia, exageradamente arrumada e com a aparência impecável, como sempre. O motivo disso é sobre a conversa que tivemos ontem, enquanto ela botava tudo para fora, agachada no chão do meu banheiro. Pensei muito sobre tudo que ela disse, principalmente no pedido desesperado que ela me fez antes de sair, e decidi atendê-lo. Não por pena, longe disso. Tenho absoluta certeza de que ela não precisa de ninguém para acompanhá-la em uma consulta idiota. Mas estranhamente me sinto ligado a esse segredo que compartilhamos.

Como se eu fizesse parte de alguma coisa, finalmente.

Sempre fui solitário. Com exceção da minha mãe, assisti a todo mundo gostar mais da minha irmã do que de mim. A garota mandona, meu melhor amigo e até mesmo o meu pai. Mas não os culpo, ela é muito mais agradável do que eu e sempre precisou de mais atenção. Isso nunca foi uma questão entre nós, na verdade. Eu não sou bom em me relacionar e, no fim das contas, tê-la como irmã sempre foi alívio. Mas tudo ficou complicado quando começou a ter problemas com ansiedade. Mesmo cercada de pessoas, eu fui o primeiro a perceber. E ignorei isso, completamente. Eu não podia ser quem ela precisava naquele momento. Tudo o que consegui fazer foi agradecer por estar cercado de pessoas que estavam felizes em fazer esse papel.
Basicamente, eu fui um puta egoísta. Minha vida ainda era superficialmente perfeita, até onde me lembro, e tudo que eu queria era ignorar totalmente a ástrofe que estava por vir.

E ela veio. Assustadoramente devastadora, levando tudo o que eu tinha pela frente.

— Até que enfim. — Provoco e dá um pulinho de susto. — Pensei que não ia sair nunca.
— O que você quer? — Ela rosna, recuperando sua pose de garota mandona.
— O que eu quero? — Dou uma risada sarcástica. — Que eu me lembre, você é que está esperando uma resposta.
— Sobre isso... — Ela coça a cabeça, embaraçada.
— Eu vou. — O desespero começa a tomar conta de mim quando me dou conta da possibilidade dela me dispensar. Ontem, quando ela fez o pedido, a minha resposta imediata foi não. Mil vezes não. Mas agora, tudo que eu quero é que ela me deixe fazer parte disso. — Me diga a hora e o lugar e eu estarei lá.
, sério. — me encara, com seus grandes olhos azuis. — Não precisa fazer isso. Foi um momento de fragilidade, nem sei por que te pedi aquilo.
— Eu quero fazer isso. — Afirmo, sem dar tempo para que ela reflita sobre o que estou fazendo. Sem dar tempo até mesmo para que eu reflita. — Sei que não precisa de mim, mas eu quero. Muito.
— E por quê? — Ela questiona, cruzando os braços.
— Eu não sei. — Confesso, sustentando seu olhar curioso.
— Nós dois sabemos que não temos por que prolongarmos isso. — Ela aponta para nós dois, ainda desconfiada.
— Só me deixe ir com você.
concorda finalmente, enquanto nos encaramos. Ela está receosa. Não acredita em mim, posso ver em seus olhos. Mas não posso culpá-la, se algum dia alguém me dissesse que estaria aqui, implorando para ir em um ginecologista com , eu também não acreditaria.
— Está marcado para sexta. — Ela finalmente diz. — Às quatro e meia. Me encontre na minha casa, vamos com o meu carro. Não se atrase e vista-se como alguém decente.
Acho graça do seu chilique de grávida mandona e não consigo controlar a risada que escapa da minha garganta. Estávamos mesmo sendo civilizados demais um com o outro, e fico feliz que ela nos puxe de volta para a realidade quando as coisas ficam intensas demais.
— Mais alguma ordem? — Eu debocho e ela quase sorri, mas mantém sua pose. — Flores e chocolates não fazem parte do pacote, só para esclarecer.
— Estamos indo a uma consulta médica, não a um encontro. — Ela resmunga, enquanto finjo estar ofendido.
— Sabe, com todas essas exigências, eu quase me esqueci qual era o propósito.
— Se quer fazer parte disso, vai seguir as minhas regras, . frisa a última palavra.
— Em primeiro lugar, vá para o inferno com suas regras. — Eu reviro os olhos para ela, contrariado. — Em segundo lugar, não me chame de .
— Como quiser, . debocha, de novo. Viro as costas para sair, já que já cumpri o que pretendia. — Espera, tenho mais algumas condições.
— É claro que tem. — Ironizo, claramente irritado com a sua ousadia.
— Enquanto estivermos envolvidos nisso, eu proponho uma trégua. — Ela começa a dizer, e engulo seco, virando para encará-la. — Estou grávida, preciso que as coisas sejam calmas. Então, enquanto estivermos em uma consulta, ou falando sobre qualquer coisa relacionada à minha nova “condição”, os diálogos precisam ser tranquilos. Sem sarcasmo, ou qualquer tipo de comentário maldoso. E principalmente, sem provocações.
Ela tem razão. Se quisermos que isso funcione, temos que estabelecer um padrão. Tudo relacionado a esse bebê rodeia assuntos delicados, e sei que ela está nervosa com isso, e essa consulta só consolida tudo. Por mais que pareça uma coisa corriqueira, ter a data da sua primeira consulta torna tudo mais real, inclusive todo o seu relacionamento de merda com o pai do seu filho. Gostaria de poder desvincular isso. De alguma forma, queria poder controlar que, daqui alguns anos, todas as memórias dessa gravidez fossem unicamente felizes e sem o peso de um relacionamento abusivo.

Mas infelizmente isto está longe demais do meu alcance.

Sendo realista, nada vai apagar o que o Jack fez, mas ainda posso causar memórias felizes, começando por essa trégua. Posso fazer com que isso seja bom não só para mim, mas para ela também. Aceitar suas condições vai solucionar dois problemas de uma só vez. Eu me mantenho distraído dos meus problemas e tem alguém para compartilhar os dela, pelo menos por um tempo. No fim das contas, daqui a nove meses quando tudo voltar ao normal, sobrarão boas lembranças, para mim e para ela.
— Trégua aceita. — Eu digo de uma vez, e apesar da euforia que consigo notar em seus lindos olhos azuis, ela assente com tranquilidade.

Capítulo 14


Encaro meu reflexo na frente do espelho do vestiário feminino, enquanto tira suas roupas de ginástica em uma cabine atrás de mim. Passo os olhos da saia amarrotada para o All Star surrado e, pela primeira vez, me incomodo com o que vejo. Aliso a saia, mas nada que eu faça deixa seu aspecto menos amarrotado.
Desvio a atenção para o meu cabelo e tento inutilmente ajeitar meu rabo de cavalo que está totalmente desalinhado. Obviamente não dá certo, então acabo soltando e assisto os fios lisos caírem pelas minhas costas. Não satisfeita com todas as minhas derrotas, pego um brilho labial na bolsa e tomo coragem para passar nos meus lábios finos. Me arrependo no mesmo instante em que fito o resultado no espelho e agacho na pia para me livrar do tom rosado que deixa meu lábios mais volumosos. É óbvio que, mais uma vez, tudo acaba ficando pior que antes. Quanto mais eu esfrego a boca, mais minha pele clara fica irritada.

Sou patética.

Às vezes me amaldiçoo por não ouvir as dicas de . Só às vezes.
finalmente sai da cabine e tento disfarçar o que estou fazendo. Sem nenhuma novidade, desajeitada do jeito que sou, acabo derrubando o gloss labial que ela mesma me deu e minha amiga percebe na hora o que está rolando.
— O que está fazendo? — Ela questiona, olhando para a minha boca.
— Nada. — Eu pego de volta, guardando na mochila de qualquer jeito. — Não sou boa nisso.
— Meu Deus, eu não acredito que vivi o suficiente para ver isso. — diz, incrédula. — Quer que eu te ajude?
Arregalo os olhos com a situação em que me coloquei simplesmente por não saber usar um gloss. Eu quero que ela me ajude? Quero. Mas, ao mesmo tempo, acho isso um pouco ridículo. Essa não sou eu.
— Quero. — Respondo a contragosto, com um suspiro demorado. — Mas não exagere.
— Meu momento chegou! — bate palminhas, animada. Reviro os olhos com sua atitude, mas não falo nada.

Fui eu que pedi, afinal.

De repente, começa a tirar produtos e mais produtos da bolsa, sorrindo feito uma criancinha. Respiro fundo, conformada que não há mais nada que eu possa fazer a não ser torcer para que fique bom.
— Posso perguntar o motivo desse repentino interesse por maquiagem? — Ela começa, enquanto espalha alguma coisa pelas minhas bochechas. Fico sem saber o que responder e dou de ombros.
Não sei se isso serve como explicação para esse meu surto repentino, mas os últimos dias têm sido um pouco caóticos. Tenho me mantido ocupada revezando a minha energia entre Justin e , que estão o tempo todo em uma disputa silenciosa pela minha atenção. Tudo parece engraçado visto de fora, mas a verdade é que isto está me deixando maluca. Basicamente, minha rotina tem sido vir para o colégio com , que me busca pontualmente às sete, e sair dele com Justin, que faz questão de inventar uma desculpa para me levar para casa todos os dias.
faz questão de levar meu café e de pôr a minha playlist favorita para tocar, mesmo não gostando muito dela. Nunca mais fez comentários sobre minha aparência e também não questionou meu gosto repentino por músicas da atualidade. No colégio, ele até finge aturar Justin, apesar de claramente detestá-lo, o que é um avanço gigante. Ele realmente não está se metendo, mas sempre que pode, dá um jeito de estar junto com a gente. Justin finge não se incomodar, é claro, mas percebo que solta o ar toda vez que estamos saindo juntos do colégio, sozinhos em seu carro.
Ao mesmo tempo que fico feliz por Justin não questionar a atitude de , sinto que ele vai se cansar logo da garota sem graça que eu sou. Ele é tão... certinho. Suas roupas estão sempre alinhadas e bem passadas e tudo em sua vida parece estar programado, enquanto eu sou uma bagunça, por dentro e por fora.
— Acabei. — diz, depois de intermináveis minutos. — Vamos, admire minha obra de arte!
Me viro e encaro meu reflexo no espelho, piscando algumas vezes para o que vejo. Não ficou exagerado como pensei que ficaria, e o pequeno risco que ela fez no canto das minhas pálpebras destacou a cor dos meus olhos. Estou realmente muito bonita.
— Você é mesmo muito boa nisso. — Eu sussurro para ela, que ri.
— Eu sei, de nada. — Ela diz enquanto guarda suas coisas, cuidadosamente.
Saímos juntas do vestiário e encontramos , e Luke do lado de fora. Evito o contato visual com o meu melhor amigo, um pouco envergonhada com os comentários que poderiam surgir pela minha aparência incomum, mas mesmo sem olhar, percebo me fitar por um tempo, visivelmente surpreso. Para a minha sorte, ele não diz nada e caminha ao meu lado para fora do colégio. se despede de todo mundo com resmungo e e Luke com um “até amanhã”, deixando e eu sozinhos no estacionamento.
— Você quer carona? — pergunta, com as mãos nos bolsos.
— Não, eu... — Aponto para Justin, que me espera encostado em seu carro, mexendo no celular. assente, ainda olhando para o meu rosto com atenção. Eu não sei o porquê, mas toda vez que tenho que falar de Justin para , acabo ficando nervosa.
— Te mando mensagem mais tarde. — Ele diz, finalmente. E desta vez, eu é que chacoalho a cabeça, concordando. Sigo para o Porsche de Justin, me sentindo um pouco esquisita, e noto que Justin acena para ele.
— Oi. — Justin me cumprimenta, exibindo seus dentes brancos em um sorriso perfeito.
— Bela pose. — Eu debocho, enquadrando-o com meus dedos.
— Se você reparou, é porque funciona. — Ele ri, abrindo a porta do carro. Eu levanto as mãos, em rendimento. Depois de me sentar, Justin fecha a porta com delicadeza e dá a volta para entrar também.
— Finalmente a sós, sem nenhum dos seus cães de guarda. — Justin zomba, dando partida. — Sempre me perguntei por que nunca te vi sozinha e só hoje me toquei de que talvez você não tenha habilitação.
— Eu tenho habilitação. — Levanto uma das sobrancelhas, sem entender onde ele quer chegar.
— Então por que está sempre de carona com alguém? — Ele pergunta com curiosidade.
— Só não gosto muito de dirigir. — Respondo simplesmente. — Tenho meus amigos para isso.
— Não gosta ou tem medo? — Justin questiona, achando graça da minha resposta.
— Eu não tenho medo! — Me exalto, um pouco contrariada. — Só não tenho prática.
— Para ter prática, é preciso praticar. — Justin retruca. — Olha, não que eu esteja reclamando nem nada, na verdade adoro ter essa desculpa para passar mais tempo com você... — Justin diz naturalmente, fazendo meus batimentos acelerarem. Como as coisas tomaram esse rumo, tão rápido? — Mas dirigir não precisa ser um pesadelo, entende? E eu posso te ajudar a praticar, se quiser.

Fico paralisada com tudo o que ele diz, assim, tão rápido.

Primeiro ponto a se pensar,
até onde vou deixar que as coisas entre nós evoluam? Estamos nessa há mais ou menos uma semana e eu ainda estou confusa. Eu quero mesmo isso, certo? Então preciso seguir em frente. Segundo ponto a se pensar, dirigir. Eu tenho carteira por mais pura sorte, diga-se de passagem. Eu sou horrível e tenho um puta medo de ter que fazer isso em uma via cheia de outros carros. Mas se eu negar, vai ser praticamente a mesma coisa que dizer “não estou interessada em você”.
— Você tem certeza de que quer fazer isso? — O encaro de maneira séria. — Tipo, o seu carro é...
— Extravagante? — Ele diz, sugestivamente.
— Eu ia dizer caro, desta vez.
— Relaxa, eu sou um bom professor. — Justin pisca. — E conheço um lugar perfeito para começarmos.
— Tá. — Eu solto um suspiro, derrotada. — Vamos fazer isso.



Hoje é o dia. O tão esperado e, ao mesmo tempo, tão temido dia da consulta. Estou pronta há pelo menos uma hora e ainda falta uma inteira para a hora marcada. Estou andando de um lado para o outro neste exato momento, listando todas as coisas que preciso fazer antes de ir.
Mandei mais de quinze mensagens para nesse meio tempo, o ameaçando de morte caso ele se atrase, mas ele nem sequer visualizou. Será que finalmente caiu em si e desistiu dessa loucura? É bem possível, se tratando de quem é...
Não o culparia, caso ele não aparecesse. Ficaria com raiva, é claro, mas isso não é nenhuma novidade se tratando de nós dois. Ontem, eu tentei afastar ele de todo o caos e o estresse que se tornou a minha vida, mas não consegui. Ele disse com todas as letras que quer ficar e fazer parte disso. Sinceramente, não posso nem culpá-lo por isso. Depois de tudo em que eu o envolvi, é praticamente impossível que voltemos a ser desconhecidos um para o outro. Ele sabe demais e não tem mais como reverter isso.
Às vezes, tenho a impressão de que ele sabe de tudo que estou pensando ou sentindo, a todo momento. E ao mesmo tempo que isso é estranho, é reconfortante.
O interfone toca escandalosamente e dou um pulinho assustada. Olho para o relógio e já se passaram cinco minutos da hora que combinei com , que é quarenta minutos antes do que de fato marquei na clínica.
Pego minha bolsa, já arrumada com tudo que preciso, e desço as escadas fazendo um check list mental. Quando concluo que não deixei nada passar, abro o portão e dou de cara com , encostado no muro da minha casa, fumando seu maldito cigarro.
— Você está atrasado. — Eu reclamo, cruzando os braços. — Eu te mandei um monte de mensagens, , inclusive uma que pedia encarecidamente para que você não tocasse o interfone.
— Que eu saiba, inventaram interfones para isso. — Ele diz, soltando a fumaça pela boca. — E eu estava dirigindo, não é prudente mexer no celular ao volante. Se quiser ser uma boa mãe, vai ter que ensinar isso ao seu filho.
— Por que acha que vai ser um menino e não uma menina? — Pergunto, intrigada.
— Ter uma versão mais nova de você solta por aí não é uma ideia muito agradável.
Reviro os olhos para ele, dando espaço para que entre na minha casa. Mas antes que ele passe pelo portão tiro o cigarro de sua boca, jogando-o na sarjeta.
— Qual é o seu problema? — se vira para mim, incrédulo.
— Você não pode fumar no mesmo ambiente que uma grávida. — Eu friso e ele respira fundo.
— Você é muito dissimulada. — Ele reclama, entrando na garagem.
— Trégua, esqueceu? — Eu continuo, com um sorrisinho forçado no rosto. — Se quiser continuar nessa, dance conforme a música.
Abro a porta do carro para ele, que entra ainda praguejando. Solto uma risadinha para seu ataque de estresse e entro no lado do motorista. Coloco o cinto de segurança e olho para ele sugestivamente, que faz o mesmo, revirando os olhos. Estou adorando poder dizer a ele o que fazer e não receber nenhuma patada em troca.
Apesar do trânsito inesperado, chegamos vinte minutos adiantados. Sinto um frio na barriga ao passar pelas portas de vidro e ver todos os folhetos de grávidas espalhados pelo lugar. Mulheres extremamente grávidas estão sentadas pelas poltronas espalhadas e eu paraliso ao pensar que daqui a alguns meses também estarei assim.

Vamos, você consegue. É só dizer o seu nome e mostrar seu documento.

Depois de repetir esse mantra para mim mesma no mínimo um milhão de vezes, vou para o balcão de atendimento com em meu encalço. Para mim, tudo está sendo totalmente assustador, mas não parece compartilhar da mesma opinião. Ele está calmo e seu semblante é tranquilo.
, . — Eu digo, com a voz trêmula. A moça da recepção faz uma ficha com todos os meus dados e depois de me fazer assinar alguns papéis, diz para eu me sentar em uma das poltronas e aguardar a minha vez. Depois de assentir, me viro para o local indicado e quase tenho um ataque.

Se todas essas mulheres já estiverem aguardando, tenho certeza de que perderei a coragem e sairei correndo daqui antes de chegar a minha vez.

— Nervosa? — comenta, me entregando uma revista.
— Apavorada. — Eu respondo, sem pensar direito. Pego a revista de sua mão e percebo que é sobre moda.
— Você já fez isso antes? — Ele continua.
— Uma vez, quando tinha 14 anos. — Eu respondo, folheando algumas páginas, sem paciência. — Mas não estava grávida, então foi bem menos assustador.
— É só uma consulta, não tem nada de assustador nisso. — zomba de mim, soltando uma risadinha.
— Eu odeio isso. — Confesso, me referindo ao ambiente hospitalar. — Hospitais, médicos... Tenho pavor!
— Você tá falando sério? — franze a testa.
— Muito sério. — Limpo minhas mãos suadas na calça jeans, desistindo da revista. — Mas não conte isso a ninguém, ou eu mato você.
— Você não acha que depois dessa confissão ainda tem credibilidade para botar medo em alguém, acha? — brinca, me fazendo rir. Antes que eu possa responder, ouço a enfermeira chamar o meu nome.
Me levanto devagar, limpando as mãos mais uma vez, e a sigo. Ela me encaminha para a sala onde vou ser atendida e vem logo atrás, sem hesitar. As quatro paredes são cobertas por quadros, e em todos eles tem um bebê ou algo relacionado. Há máquinas enormes e intimidantes por toda a sala, o que me deixa ainda mais nervosa.
— Olá, senhorita . Sou a doutora Emma. — A médica se apresenta, apontando uma poltrona posicionada logo em frente à sua mesa.
. Pode me chamar de . — Eu corrijo.
, vamos realizar alguns exames hoje, tudo bem? — Ela pergunta, eu concordo, devagar. Antes que ela me encaminhe para o exame, tira uma ficha de dentro de sua gaveta e faz muitas perguntas, a maioria me deixa extremamente sem graça. Tenho que contar quando foi a minha última relação sexual e todos os detalhes do meu ciclo menstrual dali em diante. Durante o relato, me forço para não fazer contato visual com , que ouve tudo calado.
— Você pode se trocar ali, querida. — Assim que o interrogatório detalhado termina, a enfermeira me entrega uma roupa que mais parece uma camisola, e um pequeno frasco para que eu realize o teste de gravidez.
Olho para as paredes espelhadas do banheiro e sinto um frio na barriga. Agora é oficial, eu terei um positivo de verdade e tudo vai mudar.
Depois de fazer xixi no potinho, substituo minhas roupas pela camisola que a enfermeira me entregou, seguindo suas instruções. Encaro meu reflexo no espelho e quase tenho um ataque de riso com o que eu vejo.
Na parte da frente, o “avental” está completamente aberto, dando acesso total ao meu corpo. Não tenho problemas com isso, troco de roupa em camarins lotados desde muito cedo, então ficar nua nunca foi uma questão. Mas nunca imaginei ficar assim na frente do irmão irritante da minha melhor amiga, principalmente em um ambiente tão iluminado quanto esse.
Dobro minhas roupas e as deixo em um canto, abrindo a porta do cubículo minúsculo que eles chamam de banheiro. Todos os olhares se voltam para mim assim que a portinha se abre e vejo os olhos de praticamente saltarem das órbitas. Seguro o riso e entrego o pequeno frasco para a enfermeira, que me encaminha para uma maca, já preparada.
— Primeiro vamos fazer um ultrassom transvaginal para ver se tem um ou mais embriões, e se ele está no lugar correto. — Ela diz, calmamente. — A partir de oito semanas de fecundação, seu embrião já está formado e passa a ser considerado um bebezinho. A partir daí, vamos poder ouvir o coraçãozinho e fazer exames mais completos. — Concordo e engulo seco, nervosa. Não sei por que me sinto tão nervosa, é só um exame.
Depois de me pedir para descansar as pernas no encosto, logo acima da maca, ela prepara seu aparelho, ajeitando a tela para que eu tenha uma visão melhor.
— Vamos ver seu útero também e ter uma noção melhor de com quantas semanas você está. — Ela continua falando enquanto “veste” o aparelho de ultrassom. Fico pensando o que se passa na cabeça de , que assiste tudo de uma das poltronas, um pouco distante da maca. — Talvez até uma estimativa para o parto.
De repente, fico sem ar. Não sei o que me deixa mais incomodada, o fato de estar fazendo um exame invasivo que não chega nem aos pés de um parto, ou o fato de que nem contei aos meus pais ainda e já vou sair daqui com uma data estimada para eles se tornarem avós.
Emma passa alguns minutos olhando para a tela e mexendo um pouco o aparelho e logo começa a dizer que está tudo dentro do esperado com a gestação. Para o meu alívio, tudo indica ser um só bebê e ele está implantado no lugar certo. Ela começa a falar também sobre o meu útero e me explica sobre a placenta, até que para abruptamente de falar, focada na tela.
— Olha o que temos aqui... — Ela posiciona o aparelho, apertando alguns botões na tela. — Acho que o seu embrião, na verdade, já é um bebezinho. Temos um coraçãozinho batendo.
E então eu ouço o som mais emocionante da minha vida. Uma batida rápida e desritmada, que de repente faz tudo ter algum sentido. É como se todo o medo, nervosismo e dúvida que eu sentia antes evaporasse. Me sinto forte agora, destemida e pronta para encarar tudo o que for preciso só para poder conhecer esse serzinho que cresce dentro de mim.
— Venha ouvir também, papai. — A médica chama , que se levanta da poltrona e se aproxima de mim, um pouco desconfortável.
— Ele não...
— É o som mais emocionante que já ouvi. — interrompe, apertando a minha mão. Encaro seu rosto um pouco perplexa e ele sorri para mim antes de desviar os olhos para a tela de novo.
Limpo as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, rindo um pouco de tudo o que a médica conversa com , que continua fingindo ser o pai do bebê. Ela explica o porquê de os batimentos serem tão acelerados e compara o tamanho do bebê com um grão de feijão. Depois de tirar o aparelho, ela me pede para levantar e me trocar para que possamos conversar sobre o exame e o que vai acontecer de agora em diante.
Concordo, sem conseguir falar. Acabei de ouvir o coração do meu filho... Ou filha.
Levanto da maca com ajuda de e desço ainda apoiada nele. Me encaminho para o banheiro ainda com lágrimas nos olhos e me visto com calma, ainda atônita com a sensação. Depois de vestida, me sento ao lado de , um pouco mais calma, pronta para ouvir tudo o que a médica tem a dizer.
— Bom, como eu disse, você tem apenas um bebê em seu útero. — Ela circula na foto. — Tudo indica que a idade gestacional seja de oito a nove semanas, um pouco mais do que imaginamos. A data prevista para o parto está aqui, junto com a sua carteirinha de gestante, onde tem todas as informações necessárias caso você precise ser atendida em um hospital.
— E por que ela precisaria ser atendida em um hospital? — questiona, confuso.
— Decorrente de alguma emergência ou sintoma preocupante. — Ela explica, com cuidado. — O primeiro trimestre é um pouco delicado e estou um pouco preocupada com seus quadros de desmaio.
— Preocupada? — Eu que questiono desta vez, com a voz trêmula.
— Por enquanto, nada de anormal. — Ela diz, carinhosamente. — Mas temos que ficar atentos caso aconteça de novo. Você ficou muito tempo desacordada e isso pode causar falta de oxigenação no sangue, o que pode afetar o bebê. Aqui nessa ficha tem tudo que é considerado normal e preocupante em uma gestação, quero que fique atenta e faça o mínimo de esforço possível. Coma de três em três horas e evite estresse.
Concordo com um aceno dramático, dando uma olhada na ficha que ela mencionou. Ela continua falando, mas não consigo processar muita coisa e agradeço mentalmente por estar prestando atenção. Ele acena concordando com tudo que ela fala, questionando quando necessário.
Depois de todas as recomendações e receitas intermináveis de vitaminas e remédios para enjoos, a consulta finalmente termina e nos despedimos. Saio da sala com ao meu lado, com milhões de sentimentos fervilhando dentro de mim. Minhas mãos não param de tremer e tento fazer o caminho de volta para o estacionamento o mais rápido que consigo, mas minhas pernas parecem gelatina. Tudo que eu quero é sair dessa clínica cheia de mulheres com hormônios bagunçados e pés inchados e processar as últimas vinte e quatro horas no meu quarto, debaixo do meu cobertor.
Quando finalmente chego ao carro, dou a chave para , que não diz absolutamente nada. Simplesmente abre o carro e coloca o cinto de segurança sem pestanejar. Faço o mesmo, ainda atordoada, e encosto a cabeça no assento.
— Por que fez aquilo? — Minha voz sai esganiçada.
— Aquilo o quê? — Ele questiona.
— Você sabe o quê. — Eu continuo, no mesmo tom de voz.
abre a boca para responder, mas antes que ele de fato diga alguma coisa, o som estridente do seu celular nos interrompe. Ele franze o cenho quando vê o nome da irmã piscar na tela e atende.
— Fala. — Ele diz, com impaciência. — Evans?
Agora é minha vez de franzir o cenho. Por que Justin ligaria do celular dela para ?
— O que foi que você... — Ele rosna, fechando os olhos. — Tá, agora para de falar e me passa o endereço, estou indo até aí.
Fico sem entender o que está acontecendo e sinto meu coração acelerar. desliga o telefone, nitidamente em pânico, e abre o GPS com o endereço que Justin enviou.
— O que aconteceu? — Pergunto, quase tendo um ataque de ansiedade. da ré no carro em uma velocidade fora do permitido. — Para onde estamos indo?
— Para o hospital. — Ele sussurra. — Minha irmã sofreu um acidente de carro.

Capítulo 15


Justin cantarola uma canção qualquer que toca em seu rádio e eu fito a paisagem que passa depressa na janela, sentindo meu estômago revirar. Não reconheço absolutamente nada do lado de fora e não faço a menor ideia de onde fica o lugar a que ele está me levando, mas já que concordei, então tenho que ir até o fim.
— Estamos chegando. — Ele diz, olhando para mim. — Nervosa?
— Talvez. — Respondo, ignorando o frio na barriga. — Para ser sincera, ficaria mais nervosa se eu fosse a dona do carro em questão.
— Eu confio em você. — Ele diz, com um meio sorriso.
— Não deveria. — Retruco, dando uma risadinha. — A menos que tenha seguro.
— Ninguém te daria habilitação se você não fosse capaz de dirigir. — Ele continua, parando o carro. — Chegamos.
Justin sai do carro, me incentivando a fazer o mesmo. Estamos em uma espécie de estacionamento no subsolo do que parece ser um prédio comercial abandonado. O lugar é bem grande, e tirando alguns pilares, não tem nenhum outro obstáculo.
— Como é que você conhece esse lugar? — Pergunto, curiosa.
— Esse prédio é do meu pai. — Ele diz, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Arregalo os olhos com a possível encrenca em que ele está nos metendo e Justin ri de mim. — Fica tranquila, ninguém nunca vem aqui.
Concordo com um aceno, cruzando os braços. Justin analisa minhas reações, enquanto passo os olhos pelo lugar, um tanto desconfortável.
— Você não está amarelando, está? — Ele zomba, levantando uma das sobrancelhas. — , não tem carros aqui, nem avenidas ou placas de trânsito. Em um lugar desse tamanho, é impossível algo dar errado.
Respiro fundo e concordo mais uma vez. Ele tem razão, esse lugar é enorme e só tem nós dois aqui, não tem como dar errado. Antes que eu possa processar o fato de que estou prestes a pilotar a própria Millennium Falcon, Justin joga a chave para mim e abre a porta do motorista, me encorajando a entrar no carro. Depois de trocarmos alguns olhares, eu entro no carro e me sento no assento de couro, vestindo o cinto de segurança. Encaro o painel moderno à minha frente e percebo o quanto estou encrencada. Mal sei onde devo colocar a chave, e tudo parece muito distante da picape de , que é um dos únicos carros que dirigi na vida.
— Pronto, agora ligue o carro. — Ele diz, depois de também colocar o cinto de segurança. Franzo a testa procurando onde pôr a chave, e quando encontro, faço o que ele pediu. — Agora pise na embreagem e coloque em primeira marcha. Depois solte a embreagem devagar, enquanto pisa de leve no acelerador.
— Eu sei as regras básicas de como ligar um carro. — Minto, seguindo à risca tudo que me lembro das minhas primeiras aulas de direção.
— OK, senhorita sabe tudo. — Ele ri, observando o carro sair do lugar. — Quero que contorne os pilares do meio.
— Isso é um desafio? — Levanto uma das sobrancelhas enquanto faço uma curva, cuidadosamente.
— Encare como quiser. — Ele ri, analisando meus movimentos.
Apesar da ansiedade que estou sentindo, tenho um repentino surto de autoconfiança e sorrio para ele, virando o carro bruscamente. Vou em direção aos pilares sem medir muito bem o que estou fazendo, e contorno um deles. Solto o ar aliviada quando noto que a tarefa foi bem-sucedida, e ouço Justin comemorar com um assobio, inflando um pouco mais o meu ego.
Antes que ele me dê mais algum desafio, eu acelero mais o carro para contornar o pilar da outra ponta. A velocidade me dá uma sensação incrível de liberdade, e pela primeira vez nessa semana, sinto que estou no controle de alguma coisa.
Quando enfim chego mais perto do segundo pilar, viro o volante para fazer a curva, mas a alta velocidade me atrapalha e acabo perdendo o controle do carro. Justin, que antes estava rindo, percebe o meu descontrole repentino e tenta puxar o volante para outra direção, o que não dá muito certo. Antes que ele possa consertar a burrada que eu fiz, o carro bate em um dos pilares, e, a partir daí, tudo se torna um borrão.
É como se tudo acontecesse mais rápido do que eu posso processar. Mesmo com o cinto de segurança, o impacto do carro àquela velocidade impulsiona meu corpo para frente, e de repente sinto minha testa se chocar ao volante. Uma forte dor na cabeça me atinge.
? — Justin chama, com preocupação presente em sua voz. — Você está bem?
— Estou. — Digo, sem muita convicção. Justin olha para um ponto fixo, acima da minha sobrancelha esquerda e imediatamente levanto uma de minhas mãos para examinar o local. Me assusto com a dor aguda e noto o sangue escarlate manchar meus dedos.
— Merda. — Justin arregala os olhos, revezando o olhar da minha testa para os meus dedos. — Você está sangrando.
Respiro fundo, sentindo meus batimentos cardíacos cada vez mais acelerados e minha garganta se fechando aos poucos. Tento respirar fundo para que eu não deixe o medo me consumir e a onda de pensamentos ruins me engolir, mas o ar parece cada vez mais denso, e os pensamentos mais indomáveis.
— Precisamos ir para um hospital... — Justin, que aparenta estar quase no mesmo estado que eu, puxa meu celular da bolsa com as mãos trêmulas. — Você tem documentos? Precisamos ligar para a sua mãe.
Suas palavras demoram para serem processadas, disputando o pouco que resta da minha sanidade com um trilhão de pensamentos ruins que invadem o meu cérebro. Quando enfim as palavras conseguem ser processadas, sou puxada de volta para a realidade.
— Ficou maluco?! — Tiro o celular das mãos dele, discando o número de . Porém, antes que eu aperte para concluir a chamada, um lapso de consciência clareia minhas ideias.
Se eu meter nisso, as coisas vão ficar pelo menos dez vezes pior do que já estão. Ele vai culpar Justin por me trazer até aqui, e as coisas vão sair do controle. Tirando o corte na testa e o meu quase ataque de pânico, nada de mais aconteceu, e não tem por que criar uma cena.

Tudo o que eu preciso é organizar minhas ideias e agir com a razão.

. — É o que consigo formular, entregando o celular para Justin. — Ligue para o meu irmão e conte o que aconteceu, ele vai saber o que fazer.
— Tem muito sangue na sua testa... — Justin diz, beirando o desespero. — Vou chamar uma ambulância antes.
Concordo com um aceno, e fecho os olhos. Eu estou muito encrencada.
Justin sai do carro com o telefone e depois de algumas ligações, entra de novo, preocupado. Tento tranquilizá-lo, mas é quase impossível dada a briga interna em que me encontro no momento.
Não sei se pela pancada na cabeça ou pelo meu total estado de choque, mas as coisas acontecem muito rápido a partir daí. Logo ouço uma sirene de ambulância e um paramédico me tira do carro, limpando o sangue na minha testa.
Depois de alguns testes, ele conclui que todos os meus sentidos estão funcionando como deveriam e me deixa ir sentada para o hospital, o que eu agradeço mentalmente.
Justin não solta a minha mão por nenhum segundo sequer e vez ou outra tenta fazer uma piada para me manter distraída. Eu tento rir das coisas que ele fala, mas o cheiro de éter dentro da ambulância me deixa nervosa demais para esboçar alguma reação.
Acho que ele consegue estar mais apavorado do que eu, e ainda nem encarou o meu irmão.
Quando chegamos ao hospital, somos levados para o ambulatório e depois de um interrogatório, Justin e eu somos encaminhados para salas diferentes. Como fui eu quem bateu com a cabeça, me levam imediatamente para uma sala de exames mais específicos. Depois de ser examinada por um médico, me colocam em uma máquina de raio-x e tiram uma tonelada de chapas da minha cabeça. Acho tudo muito exagerado para um simples corte na testa, mas não ouso abrir a boca.
— Acabou. — A enfermeira me comunica. — Pode esperar na outra sala, querida. Vou encaminhar tudo para o doutor Walter e logo ele vai falar com você.
Concordo com um aceno e me encaminho para a sala de espera. Só quero que esse dia termine e que eu possa chegar em casa.
Caminho pelo corredor à procura da tal salinha, imaginando ser onde Justin está. Ele parecia muito apavorado e imagino que parte seja pelo belo estrago que fiz em seu carro. Sou tirada dos meus devaneios ainda no corredor, quando ouço vozes alteradas vindas da recepção. Quase ignoro o tumulto, mas uma das vozes chama minha atenção.
— Eu já disse que não tem nada que eu possa fazer. — Uma enfermeira explica com a voz esganiçada.
— Eu já disse que estou pouco me fodendo para o que você pode ou não fazer! — rosna em resposta.
, pare com isso! — Ouço mais uma voz familiar e isso é o que basta para me fazer mudar de ideia sobre a sala de espera.
Passo pelas portas da recepção apressada, e a primeira pessoa que vejo é o meu irmão, ao lado de e uma enfermeira muito irritada.
— Graças a Deus! — vem em minha direção, me apertando em seus braços antes que eu possa hesitar. — Você está bem?
— O que aconteceu com a sua testa? — examina meu rosto, com uma expressão raivosa. — Cadê o Evans? Eu vou matar aquele...
— Eu estou bem, não foi nada demais. — Interrompo meu irmão. — E você vai ficar na sua, ele não fez nada. Eu estava dirigindo o carro dele, a culpa foi minha.
— Você bateu um Porsche?! — exclama, ainda exaltado. — Cacete, !
— O que importa é que está tudo bem agora. — olha feio para o meu irmão. — Você levou pontos? Vamos dar um jeito nisso, e com os cremes certos, a cicatriz vai ficar imperceptível.
O celular do meu irmão toca escandalosamente, interrompendo o surto de e causando olhares feios das enfermeiras. solta um suspiro irritado, balançando a tela para que eu veja do que se trata, o que quase me faz perder o ar. O nome de pisca na tela, e então eu me lembro de que combinei de falar com ele depois de “estudar” com Justin.
— Ãn... — Um frio percorreu minha espinha. — Acho melhor que ele não saiba do acidente, pelo menos não ainda.
— Acho que tá meio tarde para isso. — diz, sem graça. — Eu meio que... mandei uma mensagem.
— Você contou para ele? — Agora é a minha vez de me exaltar. Minha amiga assente, sem graça. — Merda...
Procuro o celular no bolso no meu casaco e quando encontro, vejo catorze chamadas perdidas do meu melhor amigo.
, foi mal. — se desculpa, um pouco arrependida. — Eu só pensei que ele devia saber.
— Resolva isso logo, antes que ele apareça aqui. — diz, ignorando a chamada. — Ou as chances de vida do Justin vão ser ainda menores.



Estou andando de um lado para o outro enquanto ouço os intermináveis toques que soam do outro lado da linha. Desde que recebi a mensagem de mau gosto de , estou tentando ligar para qualquer que me atenda, mas parece que todos resolveram me ignorar hoje.
Não é possível que esteja mesmo falando sério... Desligo o celular e abro novamente a caixa de mensagens, para ter alguma informação que me ajude a entender o que está acontecendo.

Tudo que eu sei é que ela estava com Justin quando aconteceu.
.

Estou no hospital, posso te mandar o endereço se quiser.
.


Não me dou o trabalho de responder, ou tentar extrair algum outro tipo de informação, só abro a localização que ela compartilhou imediatamente, e ativo a rota no GPS. Tudo o que eu consigo pensar enquanto desço as escadas rumo à garagem é em acidentada em uma maca de hospital.
Essa preocupação começa a tomar conta da minha mente, que agora só consegue projetar imagens do suposto acidente de carro, que antes aparentava ser só uma piada de mau gosto. Não sei como ela está e nem a magnitude do acidente. Não sei se trata de uma batida simples em um poste ou se o carro capotou três vezes antes de ser atingido por um caminhão. E isso está mexendo ainda mais com o meu autocontrole.
Ter informações pela metade também não ajuda em nada minha mente fértil, que agora impulsiona meus pensamentos para Justin. Eu não sei detalhe nenhum sobre o que aconteceu, mas sei que se ela sofreu um acidente de carro, foi depois que nos despedimos, e é no carro dele que ela entrou. Enquanto dirijo para o hospital, consigo imaginar pelo menos umas sete situações diferentes que possam ter ocasionado um acidente, e em todas elas Justin é o culpado, o que não ajuda a amenizar a minha vontade de socá-lo.
O que me conforta é a lembrança de que minhas condições de manter a paz eram válidas desde que ele não fosse um babaca, o que obviamente ele não conseguiu cumprir. E isso me dá total liberdade para afastá-lo dela, sem hesitar, e de quebra ainda socar seu sorrisinho fingido.
Junto com minhas reflexões raivosas e possessivas, não consigo deixar de me culpar também, por mais ridículo que pareça. Isso tudo porque eu aceitei pegar leve, mesmo detestando o cara. Eu aceitei e assisti ele cortejar a garota com quem eu mais me preocupo no mundo, mesmo abominando a ideia. Mesmo sabendo quem ele é e toda a merda que ele poderia causar se aproximando dela. É isso que acontece quando coloco panos quentes numa situação que claramente é um problema iminente.

Se ela tiver alguma única complicação por causa desse babaca...

Começo a entrar em pânico com tudo que surge na minha cabeça, mas meus pensamentos todos se perdem quando a vejo de pé no estacionamento do hospital. Tirando um curativo na testa e um pouco de sangue em sua camisa branca de uniforme, ela parece bem. Está saindo do hospital com Justin ao seu lado. Logo atrás vejo e .
Paro de qualquer jeito em uma vaga do estacionamento do hospital e saio da picape em passos apressados. Meus sentimentos estão todos misturados. Minha raiva está aumentando, minha irritação está crescendo e minha visão está ficando cada vez mais borrada. Olho para Justin, que ao contrário de mim, parece muito tranquilo com toda a situação, enquanto mexe no seu telefone despreocupadamente. Isso só serve de combustível para a minha ira, que não se desfaz simplesmente pelo fato de ela estar bem.

Só aumenta.

— O que foi que você fez? — Rosno, marchando para perto de Justin. Ele me olha com confusão e posso notar o quanto se segura para manter a pose.
— Tá atrasado, guarda-costas. — Ele diz, tentando amenizar a situação.
— Você é um puta irresponsável do caralho, Evans! — Continuo, chegando ainda mais perto. — Você tem noção do que fez? Eu não sei quem em sã consciência te fez acreditar que você pode ter um carro, quando é óbvio que nem permissão para dirigir você deveria ter.
. — tenta ter minha atenção e tenho que me controlar para não olhá-la. — Não foi culpa dele.
Suas palavras não soam convincentes, e mesmo que soassem, eu não tenho o mínimo interesse em saber o lado dela da história. Depois de todo o deboche com que Justin se dirigiu a mim, a minha vontade de partir para cima dele triplicou.
— Não se mete. — Eu respondo. Enquanto toda a cena acontece, assiste a tudo com um sorrisinho no rosto e parece achar graça do meu descontrole, o que por alguns segundos me faz repensar toda a situação.
— Você já percebeu que sempre acha que sabe tudo sobre a vida dela, quando ainda é o único aqui que não faz ideia do que aconteceu? — Ele continua debochando, o que faz a raiva vir com ainda mais intensidade para mim.
— Não preciso de uma bola de cristal para imaginar os motivos pelos quais você bateu o carro. — Retruco, tentando não cair em seu joguinho.
— Você nem me conhece! — Ele ri agora, o que me deixa ainda mais no limite. Cerro os punhos involuntariamente e espero mais uma de suas gracinhas.
— Eu estava dirigindo. — confessa, roubando a atenção. A voz dela está trêmula, e consigo notar o desespero em seus olhos enquanto tenta controladamente contar o que aconteceu. — Eu estava tentando fazer uma curva e perdi o controle. Foi um acidente. — Sua tentativa de manter a calma falha miseravelmente, e no fim de suas palavras eu já consigo notar que está prestes a começar a chorar.
Eu não sei o que ela pretende com essa confissão, mas o resultado é muito pior do que quando meus pensamentos ainda estavam presos em Justin batendo o carro em um poste. Tudo que ela diz faz a adrenalina atingir o pico outra vez. A raiva vem com ainda mais intensidade e eu volto a atenção para Justin.
— O que você tem na cabeça? — Eu o empurro, pronto para começar uma briga. — Ela mal tem carteira!
— Você consegue ver o que ele faz? — Ele diz sem se alterar, mas vejo que está se irritando. reveza sua atenção agora, com olhos arregalados. — Te coloca em uma redoma de vidro e amedronta todo mundo ao seu redor.
Perco a paciência e agarro seu ombro, pronto para acertar seu queixo, simplesmente furioso por sua tentativa de envenená-la desta maneira. A raiva se mistura com a adrenalina de estar brigando pela primeira vez em anos, e estranhamente gosto da sensação. Mas antes que eu possa seguir com minhas intenções, vejo se afastar. Ela caminha para o carro de , nitidamente irritada, e toda a raiva irracional que eu estava sentindo começa a diminuir.
— Não chega perto dela de novo. — Solto seus ombros, desistindo da briga. — Já avisei uma vez e não vou avisar de novo.

Capítulo 16

Do you hear me? I'm talking to you
Você me ouve? Estou falando com você
Oh my, baby I'm trying
Oh meu amor, eu estou tentando
They don't know how long it takes
Eles não sabem quanto tempo leva
Waiting for a love like this
Esperar por um amor como este
Lucky I'm in love with my best friend
Sorte, estou apaixonado pela minha melhor amiga.




Vou enlouquecer. Nem consegui me recuperar do estado traumático após passar por um acidente de carro e, em menos de duas horas, já chega para tornar tudo mais embaraçoso. Todos os esforços que fiz a semana toda agora não valem nada, com os dois quase se socando em um estacionamento de hospital.
Estava mesmo muito bom para ser verdade, todo aquele comportamento controlado de ambas as partes. fingindo me dar espaço com Justin, Justin fingindo não se importar com a presença de . Mas tudo está desabando agora e não tem mais nada que eu possa fazer.
Apresso o passo em direção ao carro de , irritada demais para assistir a essa cena. parece um homem das cavernas, brigando pela minha honra. E Justin não fica atrás, tentando a todo custo provar sua teoria de que é o possessivo. Isso tudo está me deixando nauseada e com vontade de gritar para que parem de agir assim, como se eu fosse uma posse.
Agora, já longe dessa guerra, ouço os gritos cada vez mais distantes. Preciso sair daqui antes que note minha ausência e venha gritar comigo também. me encontra no carro seguida do meu irmão, que nem sequer escolheu um lado para defender.
Como se lesse meus pensamentos, começa a se aproximar, aparentemente menos raivoso, ainda que a irritação pinte suas bochechas. Não dou tempo para ele falar comigo, fechando a porta. — Espera. — Ouço sua voz abafada do outro lado do vidro. — , fala comigo!
Não quero ouvi-lo, não agora, e quase suplico para que ligue o motor. Meus pensamentos estão confusos e misturados e não consigo deixar a mágoa de lado. Ele acabou de fazer uma cena em público, como se fosse meu dono.
Como boa amiga que é, entende minha súplica. Ela liga o carro e acelera, deixando um furioso para trás. Olho pelo retrovisor e quase consigo ouvir os xingamentos que ele solta, enquanto entra na picape. ri da cena e, só então, noto que ele está sentado no banco de trás.
— Onde está o seu carro? — Pergunto ao meu irmão, enfim dando lado ao estranho fato de ter ele e aqui, juntos.
— Eu... — Meu irmão começa a gaguejar.
— Está na minha casa. — diz, com uma calma quase forçada. — Ele não estava em condições de dirigir. Justin não deu nenhum detalhe do que aconteceu e você sabe... Seu irmão é muito frágil quando se trata de você.
— Eu não sou frágil. — Ele rosna. — é uma intrometida e insistiu muito para dirigir, como a garota irritante que é.
— Há cinco minutos, quando você insistiu, não me achava irritante. — Ela retruca.
— Que ilusão... — Ele debocha — Para mim, você nunca deixa de ser irritante.
Ainda estou meio tonta por tudo o que aconteceu, mais gritaria e palavras agressivas não ajudam em nada.
— Eu acabei de levar pontos na cabeça. — Envolvo meu corpo com os braços, arrependida de ter questionado alguma coisa. — Será que vocês dois podem fingir que são civilizados ao menos até chegarmos em casa?
Meu discurso parece comover os dois, que só concordam com um aceno. Não consigo lidar com eles agora, brigando por coisas inúteis. Acabei de adicionar à minha vida uma cena dramática no estilo anúncio de separação dos Beatles, com direito a plateia e fuga pelos bastidores. Só quero aproveitar o silêncio, antes de mais turbulência.
Assim que estaciona em frente à minha casa, respiro fundo. Sei que provavelmente estacionou logo atrás e esse é o momento em que a minha paz chega ao fim.
— Ele é incansável. — diz, olhando para o retrovisor. Só pelo seu comentário, sei que profetizei o que, de fato, está acontecendo, e então tenho certeza de que ele está mesmo do lado de fora.
— Preciso buscar o meu carro, motorista. — anuncia para e depois se vira para mim. — Por favor, não se matem.
Reviro os olhos para o meu irmão e desço do carro, evitando olhar para . Não quero viver este momento. Sei como age quando está com raiva e não é nada que eu goste de presenciar.
costuma ser muito racional e, na maioria das vezes, consegue lidar com a raiva. Mas sei que hoje Justin conseguiu atingi-lo e isso acabou com todo o seu autocontrole. Percebo pela maneira como está lidando com a situação, e tenho medo das coisas que ele pode fazer ou falar, como no dia do incidente com seu rádio.
Aquilo foi uma pequena demonstração da sua perda de controle, apesar das coisas terem entrado no eixo rapidamente. Hoje foi diferente. Eu vi toda a fúria com que ele confrontou Justin e isso me deixou assustada.
. — chama, saindo do carro. Seu semblante beira o arrependimento, mas isso não me detém.
— Vai embora. — Retruco, exausta dessa situação. — Não quero ter que ver você agora.
— Eu não vou embora. — Ele diz, e continuo ignorando-o enquanto tento abrir o portão da minha casa. A chave parece estar brincando comigo, de jeito nenhum consigo encaixá-la na fechadura.
, me ouve. — Ele insiste.
Quando finalmente consigo abri-lo, entro depressa. vem em meu encalço e me contenho para não começar a gritar. Alcanço as escadas e começo a subir o mais rápido que consigo, mas me alcança e me puxa pelo braço, antes que eu possa pestanejar.
— Ouvir o quê? — Eu quase berro em resposta. — Você já disse o suficiente lá no hospital, enquanto acusava Justin por algo que nem aconteceu!
— Ele não é quem você pensa, ! Tudo que ele demonstra perto de você não passa de fingimento. — Ele cospe as palavras. A princípio, quando desceu da picape e me chamou com a voz amena, cheguei a pensar que ele estava arrependido. A convicção presente em sua voz agora, porém, me diz que ele ainda está em um de seus picos de fúria.



— Falou o perfeito babaca. — Ela me afronta, com palavras rudes.
— Ele só quer transar com você! — Eu solto, sem o mínimo filtro. — E você sabe disso.
No instante em que me dou conta do que acabei de dizer, me arrependo. agora me olha com os olhos arregalados e consigo notar a confusão de sentimentos crescer ainda mais por sua íris amendoada.
Ela está irritada. Mas o que mais me preocupa é o feixe de insegurança que atravessa seus olhos.
Ela entendeu que não é suficiente para despertar o interesse genuíno de alguém. Ela entendeu tudo errado.
— Só porque você não me acha boa o bastante, não quer dizer que Justin não ache. — Ela diz, nitidamente ofendida. — Nem todo mundo é como você, que mesmo sem estar interessado, já dormiu com toda a população feminina num raio de cem quilômetros.
, não foi isso que eu quis dizer. — Tento consertar a besteira que fiz, sem deixar que suas palavras me atinjam. — Eu te acho...
— Boba? — Ela pergunta, ferozmente. — Você me acha patética, não é? Eu não entendo por que você fica me cercando tanto, já que me acha tão...
— Incrível? — Eu completo, levantando uma das sobrancelhas. — Porque é isso que eu acho de você.
... — Ela tenta subir as escadas, um degrau de cada vez. Mas eu a seguro antes que a sensatez que me atinge se desfaça.
, eu te acho... — Continuo, com a voz trêmula. — Incrivelmente linda. — Noto seus olhos encararem os meus, com uma intensidade que só ela tem. Ela está visivelmente assustada, e a raiva que antes coloria suas bochechas, deu lugar à ansiedade. — Quando você sorri, é como se todas as outras pessoas perdessem a cor. — Eu me aproximo, e deixo as palavras que por tanto tempo mantenho em segredo enfim sejam reveladas. Para ela e, principalmente, para mim. — E então só você brilha. Como uma estrela do rock. Incomum, mas ofuscante.
Sem ter mais o que dizer, me aproximo mais, encurtando o espaço que há entre nós. Meus olhos, que antes fitavam os dela, agora fitam seus lábios. Por tanto tempo eu os evitei... Por tanto tempo proibi meus sentimentos por ela desabrocharem assim.
Sinto o tremor que percorre todo o seu corpo com a proximidade. Sinto também a confusão de seus pensamentos se acalmar e noto seus olhos seguirem para os meus lábios, hipnotizados. Essa foi a permissão que eu tanto almejei.
Ela entreabriu os lábios.
Eu os calei.
Seus lábios tímidos reagem aos meus, tão impetuosos e desesperados por mais daquilo. Nos movemos como uma canção eloquente dos Beatles, e de repente nenhum dos álbuns tão amados por ela é capaz de nos definir.
É íntimo. Como se já tivéssemos feito isso antes, muitas e muitas vezes. Mas também é novo, como todo primeiro beijo deve ser. Mas nitidamente não é um primeiro beijo comum. Não é desengonçado, muito menos genérico. É único e extremamente fora de todos os padrões.
É como um alvoroço de mariposas que comemoram finalmente a chegada da luz. A luz que só essa garota consegue ter, e que agora me ilumina também.
Parto o beijo totalmente inebriado pela sensação. Quando abro meus olhos, percebo que ela ainda os mantém fechados. Um frio percorre todo o meu corpo ao pensar que a hora decisiva havia chegado e agora tenho que lidar com as consequências daquilo.
Quando ela finalmente abre os olhos, consegui vê-los escurecerem e uma tempestade se formar. Ela não emite som algum. Sua expressão é de mais puro choque, como se finalmente o transe houvesse passado e a realidade enfim tomasse conta de seus pensamentos. Eu continuo imóvel, concentrado demais em suas reações para fazer ou falar qualquer coisa, o que só parece deixar tudo mais devagar, como se estivéssemos parados no tempo.
Enfim, ela reage. Vira as costas para mim ainda em silêncio e sobe degrau por degrau como havia ameaçado momentos atrás, antes de nossos lábios se tocarem. Eu continuo parado, observando-a sumir. Abusando do autocontrole que me resta para não correr até ela e pedir a confirmação de que sentiu o mesmo que eu.
É cômico. Depois de todos esses anos, um simples olhar conseguiu expressar tantas palavras não ditas. Sempre fomos apegados à ideia de que nunca precisaríamos de muito para saber o que o outro estava pensando. Mas isso só funciona até um ponto.

O superficial.

Agora, por exemplo, eu entendo perfeitamente que ela precise de um tempo para absorver. Pude ver ao encarar seus olhos que ela suplicou para que eu não a seguisse, que a desse espaço. Mas por outro lado, seu olhar foi incapaz de mostrar seus sentimentos verdadeiros em relação ao que aconteceu.

E isso está me deixando apavorado.

Depois de um tempo fitando a porta, me dou por vencido. Também preciso de tempo para absorver. Mesmo com absoluta certeza dos meus sentimentos, tudo aconteceu rápido demais. Acabei de me declarar para minha melhor amiga e a beijei. Preciso lidar com as consequências disso conscientemente. Não posso estragar as coisas, por mais eufórico que eu esteja agora.
Uma parte de mim quer gritar muito. Quer comemorar e anunciar para o mundo inteiro que eu beijei a garota mais incrível que existe. Mas a outra parte tem tanto medo das consequências, que incessantemente arma fugas dessa situação. O risco desta loucura dar errado e me rejeitar é grande. Quando a beijei, eu não pensei nisso. Não pensei em um “plano B”, ou em tudo que estaria em jogo caso ela me estapeasse ali mesmo, na escada que acompanhou nosso crescimento.
Eu pensei somente em mim e em todos os sentimentos que venho reprimindo.
Enquanto dirijo para a minha casa, só consigo pensar que posso ter estragado a única relação duradoura da minha existência.
Preciso resolver isso agora. Onde estava com a cabeça quando pensei em dar tempo para ela? Eu não posso beijá-la e ir embora. É demais para ela processar, principalmente quando não sabe ao certo quais são meus pensamentos.
Tiro o celular do bolso e digito seu número, nervoso. Ouço os toques soarem, quase certo de que vai cair na caixa de mensagens. Tento uma, duas, quarenta e quatro vezes. Depois de me frustrar, envio uma mensagem.

“Fala comigo.”

Depois de digitar e apagar muitas vezes, é o que envio. Mas obviamente sem resposta.
Entro em casa ainda atordoado, e vejo minha mãe na sala de estar, assistindo a um programa qualquer na televisão. Ela fala comigo, mas sua voz parece tão distante que não me dou ao trabalho de ouvir. Tudo que eu faço a seguir é mecânico. Desde tomar banho a sentar à mesa para o jantar. Estou alheio, como se tivesse deixado uma parte de mim lá com ela, depois de nos beijarmos.
O que ela está fazendo agora?
Pelo que conheço da minha melhor amiga, se é que ainda posso chamá-la assim, deve estar ouvindo um disco, à procura de respostas. Ou provavelmente está em algum universo fictício, fugindo da realidade. Difícil dizer qual opção é mais sua cara, mais difícil ainda tentar adivinhar o que se passa em sua mente cheia de ideias.
Subo as escadas para o meu quarto e deito na cama, sem concentração para fazer outra coisa. Tiro o celular do bolso mais uma vez, mas nenhuma mensagem aparece. Nenhuma ligação e nenhum recado na minha caixa de mensagens. Com um suspiro, envio outra mensagem.

“Por favor, diga alguma coisa.”

Nada. Ela simplesmente me ignora, o que começa e mexer com meus sentidos.

“Preciso pelo menos saber que está tudo bem.”

Eu quase imploro, mas ela nem sequer visualiza.

“Conversa comigo.”

Envio novamente, cansado de me controlar. Continuo olhando para a tela por um tempo, com esperança que ela resolva quebrar esse maldito silêncio.

Digitando...

Meu coração quase sai pela boca quando enfim vejo essa palavra. Me levanto da cama, ansioso para ler o que ela tem a dizer, mas depois de um longo tempo, ela para. Fico esperando que ela recomece, mas nada acontece.
Estou beirando a loucura por uma simples mensagem. O que raios essa garota fez comigo?!
Irritado pela maneira como estou lidando com a situação, apago a tela do celular e fecho a janela, pronto para fechar também os olhos e deixar esse dia para trás. Eu não sou assim. Não sou o tipo de pessoa que fica feito um doido varrido por um beijo fora de contexto.
Segundos depois, o celular vibra em cima do aparador e abro os olhos no mesmo instante, apanhando e desbloqueando em tempo recorde. Tudo parece dar errado nesse momento e acidentalmente abro várias conversas, menos a única que me interessa. Quando enfim consigo acessar, preciso ler pelo menos umas sete vezes para conseguir processar.

“Pode me encontrar? Precisamos conversar.”

Capítulo 17


Já se passaram três horas desde que o beijo aconteceu, mas ainda não consigo respirar. Simplesmente não consigo. Forço meu cérebro a dar o comando para meus pulmões puxarem o ar, mas o trabalho parece difícil demais para ser executado com sucesso. De repente, sinto medo de que meu coração entre em colapso de tão rápido que bate. À beira de um ataque, checo imediatamente meus batimentos com muita atenção e só me acalmo quando repito o processo para acreditar que está tudo sob controle. Me certifico de que estão batendo em um ritmo aceitável e chacoalho a cabeça, tentando me livrar das minhas paranoias.
Levo as mãos para meus lábios, ainda lembrando da sensação. Não consigo parar de repetir a cena na minha mente, infinitas vezes. E a cada vez que a projeto, é mais surreal. me beijou. Depois de um grande ataque de ciúmes, ele se declarou e me beijou.

“Quando você sorri, é como se todas as outras pessoas perdessem a cor. E então, só você brilha. Como uma estrela do rock. Incomum, mas ofuscante.”

Começo a andar de um lado a outro mais uma vez, para organizar meus pensamentos.
Eu não sei exatamente o que é, mas sempre teve um certo poder sobre mim. E posso dizer que isso aumentou umas dez vezes quando me beijou. É como se de repente tudo tivesse parado e nós não fizéssemos mais parte do mundo real. Éramos só nós, em um mundo paralelo bem distante da realidade. Enquanto seus lábios deslizavam nos meus e minhas mãos travavam uma batalha contra seus fios de cabelo escuro, nada parecia errado. Quando ele partiu o beijo, ainda senti como se estivesse flutuando, e demorei para deixar aquele mundo. Mas, infelizmente, aos poucos o zunido em meu ouvido voltava e, junto com ele, eu podia ouvir uma vozinha que dizia “você vai estragar tudo”.
Eu demorei a abrir os olhos porque sabia que quando o fizesse, tudo se tornaria real demais para suportar. Não seria como em um conto de fadas, em que simplesmente nos declaramos um para o outro e depois vivemos felizes para sempre. Afinal, estamos no mundo real, onde tudo é complexo e maculado. Então, quando consegui unir forças para encarar a realidade, abri os olhos e fitei o rosto perfeito de . Ele me encarou com um brilho diferente no olhar, até mesmo sua íris parecia ter mudado de cor. Tinha expectativa neles. Tinha medo também, mas nem se comparava a toda certeza que transbordava de sua feição confiante. Eu não consegui falar, nem encará-lo depois daquela ação. Para mim, a única reação plausível naquele momento era ordenar que minhas pernas continuassem funcionando tempo suficiente para subir as escadas até o meu quarto. Foi uma tarefa difícil, considerando que grande parte do meu cérebro estava em parafuso. Quando consegui concluir o trajeto, me assegurei de trancar a porta.

Uma fuga clássica de um .

Mas agora, três horas depois, enquanto espero que ele bata na porta do meu quarto, a fuga não soa mais como uma escolha inteligente. Estou praticamente abrindo um buraco no chão, de tantas vezes que fui e voltei de um lado a outro.
Preciso pensar.
Uma semana atrás, quando as coisas ameaçaram sair do controle, eu tracei um plano. Era meio maluco no começo, mas tudo pareceu se encaixar quando Justin se tornou a minha dupla em biologia e rapidamente deixou bem claras as suas intenções de se aproximar. Ele é uma ótima distração e mantém as coisas no lugar em que devem ficar. Mas o destino riu da minha conspiração e tratou logo de colocar um acidente, uma briga e um beijo no caminho, só para mostrar quem é que manda.

Mas eu ainda posso seguir o meu plano.

e eu sempre fomos amigos. Os melhores amigos. Nada disso deveria estar acontecendo conosco, se pararmos para pensar. Melhores amigos não deveriam se beijar, muito menos se apaixonar. Era para isso ser uma regra. Mas agora que nos beijamos, o que fazemos a respeito?!
Não posso fingir demência, infelizmente. Muito menos fingir que o beijo não me afetou. Mas eu sei muito bem quais seriam as consequências de anunciar aos sete ventos que gostei de tudo aquilo.
Seria o fim.
E eu não suportaria perdê-lo assim.
Saio correndo para o banheiro quando a náusea ameaça surgir, mas percebo que na verdade estou apenas sentindo um misto de ansiedade, medo e as famosas borboletas no estômago. Sempre achei essa expressão boba, mas agora percebo que não tem maneira mais apropriada para explicar. E as sensações esquisitas não param por aí. Desde que unimos nossos lábios, meu corpo não para de tremer. Mas não um tremor comum. Um tremor interno, quase sinto meus ossos tremerem também. Meus pensamentos estão bagunçados e não consigo acessá-los de maneira ordenada. Isso explica eu ter chamado para cá, quando o mais coerente é tomar a maior distância possível de seus encantos.
Mas é impossível manter distância. Somos e , a distância definitivamente não faz parte de nós. Exatamente por isso preciso acertar as coisas, e com urgência. Quanto mais rápido eu encarar essa situação, mais rápido voltaremos a ser e outra vez.
Eu nem ao menos sei o que ele sentiu. Talvez nem tenha tido relevância e eu estou aqui, cheia de teorias de como tudo seria se me permitisse ser levada por tais sentimentos. Mas eu vi coisas nos olhos dele. Nuances desconhecidas, o que significa que talvez ele tenha sentido também as mesmas coisas que eu. Conhecendo-o como conheço, com toda a sua sensatez ele tentaria me convencer de que poderíamos fazer funcionar, de que nada mudaria e de que, no final, tudo ficaria bem entre a gente.
Mas é arriscado demais.
Não posso deixar que nada desestabilize a perfeita ligação que temos, ou não me restará mais nada.
Depois de ter certeza de que não vim para vomitar, volto para o quarto e me sento perto da janela. Já é um pouco tarde, o que significa que minha mãe provavelmente está dormindo e meu irmão está no quarto, vidrado no videogame. Não quero chamar suas atenções para o fato de ter aqui, a essa hora da noite. Sou tirada dos meus devaneios com a luz forte da picape iluminando minha janela antes de apagar definitivamente.

Chegou a hora.

Desço as escadas devagar, tentando não fazer nenhum barulho. Acendo a luz da sala antes de girar a maçaneta. Quando abro a porta, está parado do lado de fora, suas mãos nos bolsos do jeans, como sempre fica quando está receoso. Usa uma camiseta branca desta vez, diferente da camisa do uniforme que vestia quando tudo aconteceu. Percebo pelo aroma amadeirado que, diferente de mim que mal concluí a missão de marcar o chão com meus passos insistentes, ele tomou banho. Quando finalmente fito seu rosto, nossos olhos se encontram e, mais uma vez, sinto como se o tempo parasse. Sem muito autocontrole, desço meus olhos para sua boca e um frio na barriga me atinge novamente. Minhas bochechas coram de imediato e para disfarçar todas as minhas reações, afasto meu corpo da entrada para que ele entre. Com um sussurro, peço para que faça silêncio e recebendo seu aceno positivo com a cabeça enquanto avançamos pela sala.

Eu o chamei aqui, agora preciso seguir todo o monólogo que criei em minha cabeça.

Apoio no corrimão para subir as escadas e logo percebo em meu encalço. Ele sobe os degraus com passos leves e atravessa o corredor quase na ponta dos pés, assim como eu. Passamos pelo quarto da minha mãe, já com a luz apagada, e em seguida pelo quarto de , de onde ouvimos barulho suficiente para saber que ele está acordado. Por último, chegamos ao meu. esteve aqui tantas vezes nos últimos anos que nem é possível contar. Por todo lugar que eu olho, tem algo que me lembra dele.
As paredes, por exemplo. Ele me ajudou quando resolvi pintá-las de azul, e foi nesse dia que percebemos não termos vocação nenhuma para o lado artístico. Grande parte dos discos que compõem a minha coleção também tem a ver com ele. É bem difícil achar discos com data de lançamento original em bom estado, principalmente considerando que minhas bandas favoritas também são as favoritas de outras pessoas, pessoas que passaram horas em filas de lançamentos quarenta anos atrás. Resumindo, tive que visitar muitas lojinhas e sebos para encontrar estes aqui, e esteve comigo em praticamente todas as vezes.
O rangido que a porta faz quando a fecha atrás de si me traz de volta e rapidamente percebo minha tensão. Minhas mãos estão suadas e eu estou tentando ao máximo organizar meus pensamentos antes de começar a falar. Mas antes de concluir meu raciocínio, se vira e abre a boca, prestes a iniciar uma conversa. O desespero toma conta de mim e meus pensamentos se agitam. Não posso deixar que ele fale, não antes de me deixar falar, ao menos.
— Não podemos fazer isso. — Eu falo de uma vez. fecha a boca, atônito com meu quase surto. Percebo que o deixei desarmado e que suas expectativas foram quebradas por minhas palavras emboladas.
, respira. — Ele diz, recuperando sua postura confiante. — Vamos conversar com calma.
— Levei quatro pontos na testa, não me peça para ter calma. — Aponto para o meu curativo e vejo desviar os olhos do meu rosto para a minha testa. — O dia foi um caos! Eu bati um carro! Você tem noção do quanto estou encrencada? E não é qualquer carro, o que piora ainda mais.
— Aquele carro com certeza tem seguro, então para de pensar nisso.
— E como se não bastasse, no meio de toda confusão... — Eu puxo o ar antes de continuar, tentando aquietar o enxame de borboletas no meu estômago. — Você me beijou.
— Ei! Você me beijou também. — Ele observa.
— Sabe, depois de ter sangue escorrendo pelo meu rosto, eu quase tive uma crise de ansiedade. — Confesso, e acompanha atento. — E eu fiquei assustada, muito assustada. Você não estava lá, e foi horrível a sensação de não poder te ligar.
— Você sempre pode me ligar. — rebate. — Não interessa o que aconteça, e você sabe disso.
— Você diz isso agora. — Respondo com convicção. — Mas tudo vai mudar se continuarmos com isso. — Aponto para nós dois. — Isso o quê? — Ele diz, me desafiando. Engulo seco com sua intenção de me fazer confessar alguma coisa e desvio os olhos. — Eu conheço você e sei o que está fazendo, , então para.
, esse beijo foi um erro. — Eu acuso, ferozmente. se aproxima mais de mim e por um segundo, sinto meu coração errar uma batida. Como posso querer soar convincente se mal consigo respirar perto dele?
— O beijo é só a superfície e você sabe disso. — Ele conclui. — O que aconteceu hoje é o resultado do que vem acontecendo há tempos.
— Não precisa ser assim. — Eu continuo confiante. — Não pode ser assim.
. — olha para mim, demonstrando toda sua paciência. Desvio os olhos novamente e sinto o colchão afundar quando ele se senta ao meu lado. — Do que é que você tem tanto medo?
— Essa situação pode ser uma coisa corriqueira para você, , mas não é para mim. — Eu despejo. — Eu não posso arriscar quem somos por alguns beijos.
— Alguns beijos?! — Ele franze a testa, ofendido. — Você não pode estar falando sério.
— Você tem sido tudo para mim, . — Passo as mãos pela saia de pregas, sem conseguir fitar seus olhos escuros. — Tudo está tomando um rumo incerto demais. A cada passo que eu dou, fico mais assustada.
...
— Eu não posso viver com o medo constante de perder você. — Eu confesso, ruborizando. — Se nos envolvermos desse jeito, tudo vai afundar.
— Você nunca vai me perder. — segura uma das minhas mãos e solto o ar preso em meus pulmões. Mal tenho tempo de me acalmar quando já percebo nossa repentina aproximação. Sinto um arrepio subir pela minha espinha e seguro o ar novamente. — Nós mudamos, .
sobe sua mão, que antes estava na minha mão, pelo meu braço, passando por meu ombro e, por fim, afastando uma das mechas de meu cabelo para trás da orelha.
Você mudou. — Sinto minha pele queimar quando percebo nossas respirações se misturarem e pisco os olhos algumas vezes. Noto que ele vai me beijar a qualquer momento. Fito seus lábios imediatamente, ignorando todos os alertas que soam na minha cabeça. — O que sinto por você não tem nada a ver com “alguns beijos”. É muito mais do que isso.
— O que é, então? — Ouço minha voz perguntar, surpreendentemente, e fico com medo da resposta. me dá um meio sorriso enquanto nos encaramos, e sinto que também está tentando entender seus sentimentos.
— No começo, eu estava confuso. Minha raiva atingiu o pico quando vi vocês dois juntos no seu quarto. — Ele confessa, reflexivo, e então para de falar, como se lidasse com uma batalha interna. — Tentei justificar isso de todas as formas possíveis. Pensei que meus sentimentos em relação a você se resumiam em proteção, e que podia me controlar, mas hoje, quando te vi saindo do hospital... — Para a minha agonia, ele faz mais uma pausa antes de continuar. — Eu gosto de você, . Gosto de verdade.
Não sei o que tem me deixado mais desestabilizada, as palavras doces de sua confissão ou seu perfume inebriante, que agora está impregnado no curto espaço que diminui entre nós dois. Minha confusão é tamanha que antes que diga mais alguma coisa, eu mesma uno nossos lábios de uma vez.
parece confuso com meu súbito momento de impulsividade, mas logo está me puxando para mais perto dele. Estava enganada quando pensei que nada poderia ser tão perfeito como nosso primeiro beijo. Muito enganada. O primeiro beijo foi incrível, mas este consegue ser ainda mais cheio de emoção.
Desta vez, eu é que peço permissão para aprofundar o beijo, sentindo o alvoroço de borboletas triplicar na boca do meu estômago. aprova meu ato de coragem e me agarra com mais intensidade. Não há mais nada que eu possa fazer, esse beijo contradiz tudo o que declarei minutos atrás. E partiu de mim.
Quando sinto que não tem mais como melhorar, diminui a velocidade do beijo e com alguns selinhos, o parte. Nos encaramos ofegantes e tenho certeza que meu rosto está corado quando ele abre os olhos, encostando nossas testas.
— Acho que também gosto de você, . — Eu sussurro rendida, fechando os olhos. — Gosto de verdade.

Capítulo 18


O rosto de é a primeira coisa que vejo quando meus olhos se abrem, o que de início me causa uma breve confusão mental. Antes que as lembranças tomem conta da minha consciência, sinto todas as sensações de ontem virem com força e prendo a respiração. Acidente, hospital, briga... beijo.
Fecho os olhos com força, tentando amenizar a enxurrada de sentimentos que surgem em minha cabeça numa velocidade maior do que posso acompanhar, mas tudo parece demais para processar, principalmente antes de ter cafeína facilitando o meu raciocínio. Quando enfim crio coragem para abri-los, fico observando o rosto de por alguns segundos, encantada pelo semblante tranquilo que esbanja serenidade. É esquisito vê-lo assim tão de perto, e tenho que resistir à vontade de tocá-lo, enquanto sinto seu cheiro familiar se impregnar no quarto.
Não que seja uma novidade tê-lo assim, deitado ao meu lado na cama. Mas, de fato, é a primeira vez que dormimos tão enroscados um no outro, com nossas respirações se misturando desse jeito.
Antes que eu faça uma loucura, separo nossos corpos, tirando seus braços da minha cintura e me levanto devagar, sem chamar sua atenção. Em passos silenciosos, me afasto da cama lentamente e caminho em direção ao banheiro, com os pensamentos fervilhando na minha cabeça. Fecho a porta atrás de mim, contraindo os lábios, como se isso abafasse de alguma maneira os ruídos que provoco ao passar a chave para trancar o cômodo. Depois de assistir a chave dar uma volta completa na fechadura, espero alguns segundos para ter certeza de que ele não acordou, colocando o ouvido na superfície de madeira. O silêncio do outro lado soa como música para os meus ouvidos, então deixo meus ombros relaxarem e enfim solto o ar preso nos meus pulmões.

— No começo eu estava confuso. Minha raiva atingiu o pico quando vi vocês dois juntos no seu quarto. Tentei justificar isso de todas as formas possíveis. Pensei que meus sentimentos em relação a você se resumiam em proteção, e que podia me controlar, mas hoje quando te vi saindo do hospital... — Para a minha agonia, ele faz mais uma pausa antes de continuar. — Percebi que gosto de você, . Gosto de verdade.

Sinto um frio na barriga ao lembrar de suas palavras. Pego a escova perdida em uma das gavetas e começo a desembaraçar os fios emaranhados do meu cabelo, enquanto repasso todas as cenas de ontem mais uma vez. Dou-me por satisfeita quando a escova desliza sem enroscar, então minha saga com a escova de dentes começa, enquanto repito um mantra em minha cabeça, desesperada para me lembrar de respirar em sua presença. Depois de repetir o processo algumas vezes, conto até dez e abro a porta, vendo se espreguiçar ainda de costas para mim. Chego a pensar que meu coração erra uma batida e o ar some instantaneamente, como um lembrete de que meus esforços para me controlar foram completamente inúteis.
— Pensei que tinha pulado a janela. — Ele diz convicto, notando minha presença no quarto.
— A ideia passou pela minha cabeça... — Ironizo, tentando parecer razoável. — Mas aí lembrei que você faz panquecas deliciosas e o quão trágico seria perder o café da manhã.
— É. — concorda, teatralmente. — Não dá para perder a melhor refeição do dia.
Rimos juntos pelo comentário, enquanto nos encaramos. Quando a risada acaba, entretanto, um silêncio quase ensurdecedor se instala. É como se uma tensão se estendesse pelo quarto, deixando o ar denso. Pigarreio e desvio o olhar depois de um tempo, indo para o closet. Temos muito o que conversar, mas o receio de tudo virar uma confusão de novo é cortante. Por um instante, sinto medo de que tenha se arrependido e esteja sem jeito de falar como se sente.
. — Dou um pulo de susto, sendo tirada dos meus devaneios. Será que ele vai me dispensar?! — Er... Você não está arrependida, está?
A voz dele está perturbada, apesar da calma forçada. Solto o ar preso em meus pulmões, aliviada por ele estar se sentindo da mesma maneira que eu em relação a essa situação.
— N-ão. — Respondo, sentindo minhas bochechas queimarem. — Você está?
— Não, claro que não. — Ele diz, e consigo saber que está sorrindo mesmo sem vê-lo.
Pego meu par de tênis surrados e uma roupa aleatória, atravessando o quarto de novo, indo para o banheiro. Troco de roupa com rapidez, me sentando ao lado de na cama. Ele ainda está com o rosto amassado pelo jeito que dormiu, mas sua beleza continua intacta. Chego a ficar boquiaberta com seu talento em conseguir ficar ainda mais bonito do que já é, mesmo em situações como esta, onde pessoas comuns ficam horríveis. Ele está descabelado e com cara de sono, e mesmo assim suas covinhas conseguem chamar atenção.
— Devia ter vindo preparado para os socos que vou levar. — comenta, caindo de costas na cama. Noto que apesar da nítida preocupação, ele sorri com divertimento. — A reação do seu irmão vai ser impagável.
De repente, sinto como se acordasse de um transe. Eu estou mesmo inserida demais na ideia de estar em um mundo particular, pois nem me dei ao trabalho de pensar nas pessoas ao redor. São tantas explicações e confusões que estão por vir que me sinto em pânico só de pensar.
— Eu não sei se é uma boa ideia... — Digo, temerosa. parece notar minha regressão, mas percebo que ainda não se deu conta dos motivos, franzindo o cenho.
, ele vai se acostumar. — explica, ainda sem entender o motivo da minha postura arisca tão de repente. — No começo vai ser estranho, mas é só o choque inicial.
— Estranho?! — Eu debocho. — vai surtar.
parece não se importar, o que quase me deixa irritada. Como pode estar tão tranquilo em relação a uma coisa dessas?!
— Não só ele. — Continuo minha linha de raciocínio. — Já imaginou a reação da minha mãe? , Luke... Até mesmo o meu pai vai surtar.
— Não me olhe com essa cara. — Ele diz, me encarando. Sei o que está pensando, pois estou pensando a mesma coisa. tem uma maneira muito calma de lidar com situações complicadas, o que é oposto do meu jeito. Eu detesto conflitos, por isso sempre fujo deles. — Não podemos esconder isso, .
— Esconder não... Mas podemos adiar. — Sugiro, receosa. analisa minhas expressões, calado. — É tudo muito novo para anunciarmos assim. Acho que precisamos entender primeiro como isso funciona.
Isso? debocha do meu embaraço. Imediatamente, me sinto muito desconfortável, mas o olhar de sobre mim tem tanto divertimento que acabo sorrindo.
— De tudo o que eu falei, foi nisso que prestou atenção?! — Eu jogo uma almofada em seu rosto, ouvindo sua gargalhada abafada encher o quarto.
— Por mais bonitinho que seja quando está embaraçada, não quero que sinta assim. — Ele responde, enquanto me encara. Sinto minhas bochechas esquentarem e me amaldiçoo por ser tão boba perto dele. Até ontem essa era uma situação absolutamente normal entre nós. Acordar, conversar, discordar... Mas depois do beijo, só o simples fato de tê-lo me encarando me deixa constrangida e envergonhada. — Não precisamos de rótulos, .
— Eu sei disso, só não quero ter que dar explicações. — Sussurro exasperada, certa do quão patéticas minhas palavras soam.
— Tudo bem, sem pressão. — Ele concorda. — Podemos esperar.
Concordo com um aceno e me deito ao seu lado, sentindo o embaraço diminuir um pouco. Os olhos de me acompanham enquanto ele sorri, despreocupadamente. Aos poucos, apesar da cor ainda presente em minhas bochechas, sinto o alívio dissolver toda a tensão que antes me consumia e acompanho seu riso, feliz em saber que ainda podemos sorrir como amigos.



As manhãs de sábado têm tudo para serem tranquilas, repletas de paz e silêncio. Depois de uma noite inquieta, cheia de bebês e carros amassados passeando pelo meu cérebro, era o mínimo que eu esperava. Mas hoje cheguei à conclusão que ter paz e tranquilidade é demais para um .
, tem farinha por toda parte! — Reviro os olhos ao ouvir risos estridentes vindo da cozinha.
Dou uma olhada no relógio extravagante na parede, prestando atenção nos ponteiros. Já passa das onze e insiste em ficar, como se morasse aqui. Minha mãe nem sequer saiu do quarto ainda, o que não consigo decidir se é algo bom ou ruim. Se ela estivesse aqui, com certeza já estaria implicando com a minha irmã. Isso está longe de ser algo positivo, mas meu nível de irritação no momento inibe minha coerência e dá muito combustível à minha fértil imaginação, então antes que eu possa me controlar, cenas se projetam na minha cabeça. Em meus pensamentos, consigo ouvir com clareza toda a discussão, seguida do som seco da porta da cozinha batendo com força. Como em um passe de mágica, todos estariam dando o fora e a paz retornaria junto com o meu bom humor.
Uma gargalhada me faz voltar para a realidade e não consigo conter os xingamentos que saem desenfreados pela minha boca. Levanto do sofá, irritado, indo para a cozinha pronto para resgatar a minha paz interior. A cena que eu vejo, no entanto, me deixa ainda mais zangado. segura uma frigideira e uma espátula, enquanto a farinha se espalha pela cozinha toda. Uma caneca de café pela metade está sobre a bancada, onde assiste a tudo sentada, devorando um pote de pasta de amendoim.

Quem come pasta de amendoim com café?!

— O que estão fazendo?! — Rosno, levantando o saco de farinha espalhado pela pedra de mármore. — Isso aqui está uma bagunça. — Cozinhando, oras. — Minha irmã responde, fazendo pouco do meu acesso de raiva. Reviro os olhos para ela, logo desviando minha atenção para . Ele percebe e imediatamente endireita sua postura relaxada.
— Estou fazendo panquecas. — Ele comenta, sustentando o olhar. A tensão é nítida entre nós e por um instante quase sinto saudade da época em que não bancava o cão de guarda da minha irmã o tempo todo, reservando algum tempo para mim. — Posso fazer para você também, se quiser.
— Passo. — Respondo com desdém, deixando claro que não estou a fim de simpatizar.
levanta uma das sobrancelhas, descendo da bancada e se posicionando ao lado de . A cena é patética e me esforço para não me enfiar no meio deles. Minha paciência está por um fio e tenho vontade de xingá-los por estarem estragando minha manhã de paz, mas quando abro a boca para falar, o som escandaloso do toque do meu celular interrompe o momento. Não me dou ao trabalho de olhar o identificador de chamada e atendo, mas assim que ouço a voz estridente de , me arrependo.
Eu preciso de ajuda. — Ela berra, me deixando alerta. Saio da cozinha direto para o corredor e fecho a porta atrás de mim, antes que os berros da garota histérica do outro lado da linha chamem atenção demais. — AGORA!
— O que aconteceu? — Pergunto alarmado, apanhando a chave do carro.
Não consigo nem olhar. — Ela ameaça falar enquanto ligo o carro. — Acho que vou vomitar...
— Olhar para o quê, ? — Pergunto, incerto de que estou preparado para ouvir a resposta.
Eu...
— Estou chegando. — A interrompo de uma vez, decidindo parar de me torturar e prestar atenção no trajeto que tenho que percorrer para chegar em sua casa.
Venha rápido! — Ela resmunga, balbuciando mais algumas coisas antes de desligar.
Sinto todos os músculos do meu corpo ficarem tensos enquanto dirijo depressa pela via expressa, imaginando todas as obscuras possibilidades daquela ligação ser só a superfície do problema que terei de enfrentar quando chegar à casa dos . Em meio ao pânico, uma reflexão negativa me ocorre, e percebo quão irônico soa pensar que teria paz ao afugentar e da cozinha. Paz nunca fará parte da minha vida e eu deveria saber disso. Chacoalho a cabeça e percebo que a cada maldito quilômetro percorrido, mais distante de tranquilidade estou, o que reforça mais a vontade de dar meia volta e me afastar de tudo. Mas sem dar atenção aos meus velhos hábitos, continuo acelerando, diminuindo cada vez mais a distância segura entre a paz e o caos.
Quando avisto a fachada da casa luxuosa dos , estaciono o carro de qualquer jeito no meio fio, pronto para usar a chave reserva do vaso outra vez. Procuro entre as pedrinhas que se misturam com as folhagens do vaso, suspirando de alívio ao encontrar o pedaço de metal reluzente. Passo para dentro e quando chego na entrada principal, abro a porta com as mãos trêmulas, ainda despreparado para lidar com a situação que me aguarda, oculta pela parede à minha frente. Quando tenho a visão da sala, porém, a situação é contrária à qual esperei encontrar. Surpreendentemente, o ambiente emana paz e tranquilidade e posso até ouvir o som baixo de um programa de culinária que passa na TV.
Procuro com o olhar e logo a encontro sentada de costas em uma das banquetas estilosas de sua ilha de mármore.
— Graças a deus você chegou! — Ela diz, com histeria. Percebo que tem um pote de vidro em sua frente, junto a um prato de porcelana e talheres refinados.

— Que merda está acontecendo?! — Não contenho minha fúria. — Pensei que estivesse parindo!
— Estou quase! — Ela continua, beirando o desespero. Seu rosto se contorce em uma careta nauseada, me fazendo revirar os olhos.
— Estou vendo. — Solto meu peso no sofá, com as mãos nas têmporas. Eu só pedi uma manhã tranquila. O quão possível isso será para mim daqui para frente?! Quando pensei ter tudo sob controle, chega como um furacão, pondo tudo de cabeça para baixo.
Fito a encrenca à minha frente e percebo que continua a me encarar com os orbes azuis prestes a saltarem para fora, em um pedido de socorro silencioso.

Qual é o problema dessa garota?!

— Por que me ligou? — Pergunto, realmente curioso.
— Estou com um desejo. — Ela diz, soltando um gemido frustrado.
— E...? — Eu levanto uma das sobrancelhas, lhe lançando um olhar sugestivo. — Não me diga que fez todo esse estardalhaço para me forçar a ir atrás de uma comida esquisita.
— É claro que não. — Agora é ela quem revira os olhos. — Posso muito bem ir atrás dos meus desejos sozinha.
— Então qual é o problema? — Eu pergunto, ainda sem entender o motivo de tanta aflição. — Que coisa é essa que você quer tanto comer?
— Acordei morrendo de vontade de comer... — Ela fecha os olhos, em uma pausa dramática. — Picles.
Franzo o cenho, ainda mais confuso do que antes. Quando noto que ela não tem mais nada a dizer, resolvo fazer o óbvio, me levantando do sofá. Caminho até a bancada, pegando o pote de picles e ofereço a ela. por sua vez, tapa o nariz enquanto encara o pote, como se eu a oferecesse algo radioativo.
— Picles, . , picles. — Repito a piadinha que ela me fez uma vez e lhe estendendo o garfo, incentivando que ela coma. — Agora é só comer.
respira fundo, enquanto tira o garfo de minhas mãos. Ela parece realmente estar dando muita importância para aquilo, enquanto eu a fito com irritação. Depois do que se parecem horas, observo ela espetar um, esperando que ela dê uma mordida, mas previsivelmente ela coloca o picles em seu prato e o corta ao meio com a ajuda de uma faca.

Ela realmente é uma pessoa muito esquisita.

— Você não pode estar falando sério. — Debocho, segurando o riso. — Não é assim que se come picles.
Tiro o garfo de suas mãos, pescando outro picles dentro do pote e colocando em sua frente, esperando que ela coma. desvia de mim, visivelmente enjoada, me fazendo recuar. Qual é a porra do problema?! Por que ela simplesmente não come e acaba logo com isso? Está tornando tudo mais difícil do que precisa ser, sem ao menos ter motivo para isso.
— O que foi agora? — Pergunto com impaciência.
— Isso é muito nojento. — diz, choramingando. — Por mais que eu queira comer, não tenho coragem.
— Pelo amor de Deus, é só um picles! — Comento, achando graça de seu ataque. suspira irritada, e consigo notar o quanto está frustrada consigo mesma.
— Já percebi que foi um erro te ligar. — Ela comenta com o rosto entre as mãos. — Você é um ogro.
— Tá bom, princesinha incompreendida. — Debocho, ignorando seu comentário ofensivo. — Feche os olhos.
— O que vai fazer? — me encara com desconfiança, arqueando uma das sobrancelhas. Com um meio sorriso, chacoalho o garfo entre meus dedos. Minhas palavras tiveram exatamente o efeito que eu esperava que tivessem.
— Lembre-se, o que os olhos não veem...
— O coração não sente. — completa, temerosa.
Assisto ela se virar para mim, enquanto suas mãos se movem debaixo da mesa, em pura aflição. Chego a cogitar que talvez não seja uma boa ideia fazê-la comer e que talvez devesse assumir que, de fato, não foi uma boa ideia ela ter me ligado, mas me surpreende com um último suspiro antes de fechar os olhos, enfim cedendo aos meus comandos. Capto o momento exato em que seus lábios se entreabrem e, devagar, aproximo o garfo de sua boca.
Um sorriso brota em meu rosto, enquanto aproximo o garfo da sua boca. Mas algo no jeito que seus lábios se movem, me faz parar abruptamente. Um milhão de pensamentos cruzam meu raciocínio enquanto a observo assim, cheia de vida e coragem. Ela está prestes a morder e acabar logo com o motivo de precisar de mim aqui, o que parece ótimo e perturbador ao mesmo tempo.

Ela tem coragem e a força de um furacão. Enquanto eu, não tenho absolutamente nada além de covardia.
Enquanto ela abraça seus desafios com determinação, eu insisto em recuar dos meus, o que deixa cada vez mais clara a minha fraqueza.
sempre foi um paradigma para mim, confesso, mas se tem uma coisa da qual sempre tive certeza, é que ela é a personificação da perfeição. As coisas mudaram muito ao longo dos anos. A vi mudar de uma criancinha chorona para uma garota cheia de personalidade. Eu a vi crescer, criar curvas e mudar em muitos aspectos. Mas ela continua , apesar de tudo.

E sempre será sinônimo de força e perfeição.

Chega a ser irritante, e provavelmente isso é um dos motivos que me fazem odiá-la tanto. Soa egocêntrico, mas em minha defesa, posso afirmar que todo meu rancor não tem relação com suas inúmeras virtudes, mas sim com a falta das minhas. É difícil conviver com sua excelência desfilando por mim, como um lembrete constante da minha imperfeição.
Mas quando ela se abriu para mim, escancarando toda a sua vulnerabilidade, eu me senti próximo dela. Senti, de alguma forma, que tínhamos algo em comum. Apesar de sua força, também tem seus momentos de fraqueza. E por mais assustadora que seja a ideia de tê-la me procurando em momentos assim, me distrai o suficiente para esquecer dos meus. Até arrisco dizer que ter seus problemas para lidar me dá um motivo para criar coragem.

Somos bons juntos.

Sem pensar muito, abaixo o garfo, desistindo da minha ideia inicial. Ela está aqui, bem na minha frente com os olhos fechados, muito, muito perto. Se parar para prestar atenção, consigo até ouvir sua respiração ansiosa batendo contra a minha pele. Respiro fundo, controlando todas as contradições por trás do que estou prestes a fazer, me aproximando mais dela. Com as mãos trêmulas, passo o indicador por sua pele pálida, passeando por suas bochechas. abre os olhos, imediatamente. Ela me encara surpresa, mas não me deixo intimidar. Continuo passeando meus dedos por seus traços delicados, perfeitos, encarando-a de volta.
Ela parece sentir a eletricidade que irradia do contato de nossa pele, uma contra a outra, pois não tira os olhos dos meus por nenhum segundo sequer. Seus lábios não emitem som nenhum, apesar de entreabertos, o que eu já considero uma grande coisa. E no exato instante em que eu chego em seu queixo, ela fecha os olhos, como se entendesse o que estou fazendo, me dando uma prova de seu consentimento.
Então a distância entre nós tem um fim.
E o sabor da minha boca com a dela é de promessa.
Promessa de um novo começo.

Filha? — Vozes abafadas começam a preencher o silêncio, me trazendo de volta, aos poucos. — Encontrei esses papéis na sala e...
E de repente tudo parece ficar em câmera lenta. Louise, mãe de , entra na cozinha com muitos papéis nas mãos, enquanto sua filha pula da banqueta, quase em desespero. Estreito os olhos para ver do que se trata, então paraliso.
Eu reconheço esses papéis.
— Mãe. — Gabriel sussurra, com os olhos arregalados. — O seu voo...
— Filha, esses exames... — Louise diz, devagar. Observo suas reações e, talvez por costume, fico esperando que gritos comecem a preencher a sala. Mas ela parece calma, apesar de perplexa. — Você está grávida?
Desvio os olhos da mais velha, pronto para medir as reações de . Assim que ouve a palavra grávida, empalidece e percebo que está prestes a desmaiar. Em alerta, desço da bancada também, me posicionando ao seu lado.
— Como é que... — Louise diz, sem esperar uma resposta da filha. Ela enfim parece notar minha presença ao lado da filha e quase consigo ouvir as engrenagens trabalhando em sua cabeça. — Vocês dois estão juntos?
— Estamos. — Antes que eu possa negar, entrelaça nossas mãos, respondendo por mim.
— Então ele é... — Ela conclui de repente, e quando me dou conta do que está acontecendo, arregalo os olhos.
— É. — responde por mim mais uma vez. — é o pai.

Capítulo 19


Encho meus pulmões de ar, tentando transparecer confiança. , por outro lado, tem os olhos presos em mim e parece prestes a desmaiar. Não me deixo intimidar. Está claro que ele foi pego de surpresa e sua expressão beira o pânico enquanto afirmo com todas as letras que ele é o pai do meu bebê. Minha mãe, igualmente surpresa, arregala os olhos assim que se dá conta do que estou dizendo. Quase consigo ouvir seus questionamentos sobre como troquei de namorado tão rápido, enquanto ela se ocupava em fazer compras em lojas caras de Paris. Engulo seco, resistindo à culpa que ameaça me consumir, enquanto mantenho a pose.
Louise , minha mãe, me conhece como ninguém. Ela sabe que tem algo errado, posso ver em seus olhos. e eu não temos nada em comum, então é óbvio que ela está sentindo o cheiro da mentira.
A incerteza toma conta de mim, mas a necessidade de sustentar essa mentira é quase uma questão de vida ou morte. Se eu der para trás agora, vou ter que contar tudo o que aconteceu, além de tudo que escondi sobre o meu relacionamento com Jack. Antes que eu possa contornar, meu pai vai iniciar uma caça por Jack e obrigá-lo a assumir essa criança, o que vai gerar um problema maior do que eu posso suportar.

E se já é ruim tê-lo longe, mal consigo imaginar o quão intragável seria tê-lo perto.

Milagrosamente, com um aceno ensaiado, tenho a confirmação da minha mãe. Ainda com seus olhos sobre nossas mãos entrelaçadas, inesperadamente, ela esboça um sorriso. Um sorriso breve, mas um sorriso. Solto o ar devagar, quase aliviada por conseguir convencê-la de algo tão absurdo.
Entretanto, meu alívio não dura muito. Ao ouvir o som áspero do atrito das rodinhas da mala sobre o cimento da garagem, dou um pulo, soltando as mãos de imediatamente, com medo da reação do meu pai. Agradeço mentalmente por ter sido minha mãe a entrar primeiro e ter encontrado os papéis que dormi folheando. Caso contrário, ouso dizer que meu pai expulsaria daqui o perseguindo com sua espingarda de caça.
— Conversamos depois. — Minha mãe sussurra com o rosto em meus cabelos, beijando o topo da minha cabeça.
— Como foi a viagem? — Esboço um sorriso amarelo ao ver meu pai cruzar a sala.
— Longa. — Ele responde entre um bocejo. No entanto, diferente do que imaginei, ele não nota o clima pesado na sala. Muito menos a presença de e suas botas pesadas sobre o carpete. Então, quando ele se encaminha para a escada, minha mãe e eu soltamos um suspiro, igualmente aliviadas.
— Despeçam-se, antes que seu pai questione. — Ela olha de mim para com uma expressão preocupada. — Conversamos depois.
Apesar do choque inicial, me sinto melhor agora do que me senti nas últimas semanas, enquanto escondia esse segredo. Lidar com a minha mãe foi mais fácil do que imaginei. Pelo que parece, ela acreditou. E fico feliz de não ter questionado nada, pelo menos por enquanto.

Mas agora chegou a hora de encarar a pior parte do meu surto momentâneo.

Fecho os olhos e respiro fundo, tentando acalmar meus ânimos antes de me virar para , mas antes que eu possa concluir, ouço o barulho de sua chave passeando por seus dedos.
, espera. — Chamo, indo atrás dele.
— Não fala comigo. — Ele rosna, atravessando a sala. — Não quero nem ouvir a sua voz.
— Onde é que você vai?! — Encosto em seu braço, mas ele se afasta, como se meu toque fosse capaz de queimar sua pele.
— Para casa, de onde eu nunca deveria ter saído. — Ele grita chegando na varanda. — Me fala, qual é a porra do seu problema?
— Foi só... Uma mudança de planos. — Agora ele me encara, e quase posso ver a fumacinha que sai de suas orelhas.
— Mudança de planos?! — Ele debocha, transtornado. Noto que ele está se controlando para não surtar, enquanto passa as mãos pelos cabelos, freneticamente. — Faz duas semanas que eu não faço outra coisa a não ser tentar te ajudar, , e olha só onde eu vim parar.
— Eu só quis... — Tento dizer, mas ele me interrompe.
— Você acabou de ferrar com a minha vida. — Dou um passo para trás com o tom rude de suas palavras e o encaro com decepção. — Por que disse aquilo para a sua mãe?
— Porque as ameaças dele não vão funcionar mais comigo. — Eu sussurro. — Ele fez uma escolha, , e eu não quero ter que repetir para os meus pais tudo que ouvi naquela noite.
— Acontece que não é uma escolha, . — diz, com amargura. — Ele é o pai dessa criança, não eu.
— Eu pensei que... Na clínica... — Eu tento dizer, mas o nó na minha garganta impede que as palavras saiam. Minha mente está girando a mil e meu coração dói, acelerado. Nem consigo respirar, quanto mais organizar os pensamentos.
— Eu não tenho culpa que seu ex-namorado é um babaca que não assume as merdas que faz. — Ele diz, entrando no carro. — Conta a verdade para os seus pais, ou eu mesmo faço isso.
Assisto arrancar com o carro, me deixando para trás. Quando o assunto é magoar alguém, não tem limites. Enquanto nos beijávamos na cozinha, eu quase me esqueci do quão cruel ele pode ser com as palavras. E isso tudo me faz desejar que ele fosse diferente. Que fosse só a parte doce, como nas vezes em que me lembra o quanto sou forte, ou me encoraja a seguir em frente.



Estou deitado na cama de , ainda tentando absorver a cena de minutos atrás. tem ido longe demais com essa discussão, o que está começando a me afetar. Nunca me importei com sua instabilidade antes, mas também nunca estive nessa posição. Estou, de fato, tendo alguma coisa com a irmã dele, o que significa que seus temores têm sim fundamento. Mas diferente do que ele espera, não é só diversão.

Não quero ficar com mais ninguém além dela.

Passo os olhos pelo quarto à procura da razão dos meus devaneios e a encontro sentada de qualquer jeito na janela, folheando um de seus livros antigos. Os raios de Sol que atingem a janela iluminam seus olhos, que hoje estão de um tom âmbar perfeito. Seu cabelo quase da mesma cor cai sobre seus ombros, e apesar da pose descontraída, o jeito como passa suas mãos suadas pelo jeans transparece seu desconforto. Um frio na barriga me atinge ao me lembrar dos acontecimentos de ontem e não posso deixar de sorrir. Minha vida está perfeita pela primeira vez, até onde me lembro. Ignoro totalmente o que está por vir com a revelação do nosso pseudo-relacionamento e me concentro no agora. E, por enquanto, tirando toda essa situação constrangedora de começo, o agora é perfeito.
Apesar da minha euforia, também estou um pouco embaraçado. Não tanto quanto ela, mas estou. A verdade é que nenhum de nós sabe muito bem como agir, principalmente agora que as coisas mudaram. Se fosse em um sábado normal, estaríamos fazendo exatamente a mesma coisa, já que sempre fizemos tudo como um casal, mas sem dúvida o ar estaria mais leve de respirar.
— O que tem aí de tão interessante? — Puxo assunto, sentando na cama.
— Mr. Darcy lembrando Lizze de toda a sua insignificância. — Ela responde, sem tirar os olhos das páginas amareladas.
— Você já não leu esse livro um milhão de vezes? — Eu pergunto, intrigado.
— Sabe que gosto de reler...
— Trechos de livros que combinam com a ocasião. — Eu completo suas palavras. — Mas o que a arrogância de Mr. Darcy tem a ver com nós dois?
— Não é sobre a arrogância. — Ela sussurra, fechando o livro. — E sim sobre como Darcy tentou, de todas as maneiras possíveis, negar o que sentia por Elizabeth.
— Elizabeth também não tornou as coisas fáceis. — Lembro-a, dando espaço para que ela se sente ao meu lado.
— É, mas foi Darcy que a afastou. — Ela continua, sorrindo. — Por não suportar contar a verdade.
Suas palavras atingem minha consciência em cheio, me desarmando. Mentiras. Ela não faz a mínima ideia de como é tê-las entre nós e o quão difícil é sustentar todas elas. Tento imaginar como se sentiria ao saber tudo que escondo dela há três malditos anos. Como se sentiria ao saber que sei tudo sobre o motivo que desencadeou os piores anos de sua vida.

Até quando vão esconder isso dela?
Até quando eu vou compactuar com isso?

Sinceramente, no começo eu achava que manter esse segredo era a melhor opção. Achava que chegaria uma hora em que as coisas se acalmariam, e que talvez o que aconteceu não fosse mais do que passado. Um passado maculado, do qual ninguém precisaria lembrar.
Mas hoje vejo que ter esse segredo escondido dela é como se, de alguma maneira, eu não estivesse sendo quem sou verdadeiramente. E não posso arriscar o que temos por um erro dos nossos pais.
. — Fico apavorado ao pensar no que acontecerá quando eu contar, mas ela merece saber. Precisa saber. — Eu preciso te contar uma coisa.
Seus olhos se prendem aos meus, ansiosos por minha confissão. Os meus, por sua vez, não conseguem ajustar o foco, perdidos entre sentimentos. Meu peito está doendo, meu coração acelera em uma batida constante e forte dentro de mim. Eu preciso medir minhas palavras, pois se eu disser alguma coisa errada, ou qualquer coisa que seja, posso acabar...
— O que foi isso?! — Minha linha de raciocínio é interrompida pelo som imponente da porta sendo batida com força no andar de baixo. espia pela fresta do quarto e, mesmo afastados, consigo ouvir nitidamente os passos pesados contra o carpete dos degraus.
. — Eu afirmo, vendo o rosto de empalidecer.
— Se esconde. — Ela diz, convicta. — Ele está vindo para cá.
— O quê? — Eu pergunto, sem entender.
— Se esconde no closet, rápido! — Ela gesticula, irritada. — Se na cozinha foi todo aquele show, imagina como vai ser se ele te vir aqui, no meu quarto.

Merda, ela não está brincando.

Me levanto depressa, caminhando até o closet em passos largos. fecha a porta de correr, tão fina que mal pode ser chamada de porta, e volta para a cama, abrindo seu livro. Uma de suas camisetas impede que a porta se feche totalmente e, pela pequena fresta, consigo ver o momento exato em que entra no quarto, visivelmente irritado.
— Preciso de dinheiro emprestado. — Ele diz, logo de cara.
— De novo? — questiona, fingindo naturalidade. — Para que precisa?
— Você disse que me emprestaria caso eu pedisse. — Ele rebate. — Não pensei que o termo para o empréstimo incluísse um interrogatório.
não parece aceitar bem a ideia, a desconfiança e a raiva são claríssimas em seu rosto e ela revira os olhos para o irmão. Agora que estou diante dos dois, algo dentro de mim muda e me dou conta do que estava prestes a fazer. A culpa está me arruinando, mas contar isso assim, só para me livrar da culpa, é egoísta demais. Preciso me acalmar e parar de pensar nisso. não precisa de problemas, não agora.
— Tudo bem, eu empresto. — confirma. — Desde que pare de entrar no meu quarto assim, feito um doido varrido.
— Como se você fizesse algo de interessante. — revira os olhos, mal-humorado. — Onde está ?
— Na casa dele. — Ela afirma, confiante. , no entanto, não parece muito convicto, olhando ao redor. Não sei quando nem como ficou assim, tão neurótico. Quando as coisas ficaram difíceis, eu praticamente morei aqui. E não havia todo esse drama. — Não gasta tudo, preciso comprar umas coisas.
— Obrigado, irmãzinha. — bagunça o cabelo dela, saindo do quarto.
se certifica de que já se foi e em seguida abre a porta do closet, me libertando do esconderijo improvisado. Saio um pouco atordoado pela rapidez com que as coisas aconteceram e por quão perto estive de acabar com toda a paz que estamos tendo. Como se me esconder de pudesse ser encarado como "paz''.

Mas se tratando de nós, e de tudo o que passamos nos últimos anos, esse é um momento sublime.

— O que ia me contar? — me fita, curiosa. Depois de passar a chave duas vezes pela porta, ela se joga em sua cama, nitidamente feliz por ter evitado uma confusão.
— Eu... — Preciso pensar em alguma coisa rápido, antes que ela desconfie de alguma coisa e comece um interrogatório sem fim. — Queria te contar que tem um filme ótimo em cartaz.
não diz nada e continua me encarando com as sobrancelhas erguidas. Está confusa com minha resposta, quase decepcionada. Certamente imaginou algo mais impactante.
— Pensei que poderíamos ir ao cinema juntos. — Eu completo mais confiante, tentando impressioná-la. — Talvez eu possa te buscar e nós dois podemos fingir, só por algumas horas, que somos um casal normal indo ao cinema.
— Tipo um... Encontro? — completa a frase, segurando o riso.
Um primeiro encontro. — Eu afirmo, convicto. , que antes parecia debochar da minha ideia, agora me olha com os olhos arregalados, enfim se dando conta do quão sério estou falando. — Aceita ter um primeiro encontro comigo, senhorita ?
está estática e suspeito que esteja quase em um colapso nervoso. Mas logo se recompõe, entrando na brincadeira. E antes que eu possa dizer mais alguma coisa, ela se levanta e faz uma reverência, incorporando a personagem. Como Elizabeth, em seu livro favorito.
— Sem dúvidas, Mr. . — Ela afirma. — Será uma honra.

Capítulo 20


Sentado em frente à persiana da janela, assisto às nuvens cor-de-rosa que preenchem o céu azul se misturarem ao tom alaranjado do horizonte. O Sol está nascendo e os primeiros raios trazem oficialmente vida à manhã de domingo. Para mim, entretanto, a noite de sábado ainda é um borrão. Eu não fechei os olhos um minuto sequer, tenho todos os acontecimentos de doze horas atrás frescos em minha memória.
Me lembro de ir ao quarto da minha irmã com dois propósitos em mente. O primeiro, basicamente, consistia em conseguir algum dinheiro. Depois de assistir ao que era para ser um dia normal e agradável se tornar um caos, eu precisava de um alívio. E foi o que eu fiz, quando me dei conta de que o segundo propósito seria impossível de concluir. Eu estava esperando que estivesse no quarto. Eu o provocaria e esperaria até que me dissesse alguma coisa idiota que servisse de desculpa para socá-lo. Porque, afinal, se eu não posso mais tê-lo como amigo, pelo menos posso arrumar maneiras de brigar com ele.

Mas ele não estava lá.
Então eu fui em busca de outra coisa na qual poderia descontar minhas frustrações.


A cocaína geralmente tem esse poder. São horas de euforia, pensamentos aleatórios e uma falsa sensação de poder. Poder sobre mim, sobre meus pensamentos e minhas escolhas. Além da sensação de prazer, que vem junto à inibição do sono, me tornando mais agradável e mais comunicativo com as pessoas ao meu redor. Infelizmente, isso acaba e, devagar, eu volto a ser o de sempre. Resmungão e antissocial.

E é aí que a festa termina.

A boate onde costumo encontrar Josh e seus amigos drogados só tem graça se a cocaína estiver correndo por minhas veias. Depois que o efeito começa a perder força, a conversa chata na mesa vai e volta. Em pouco tempo, sei que está na hora de ir embora para terminar o que comecei. Lidar com os problemas que me levaram até ali. Infelizmente, eu sempre me esqueço de como é essa parte. E estar sentado aqui na janela, observando o nascer do Sol enquanto a minha dor volta lentamente, me fez lembrar como é difícil voltar para a realidade depois de estar fora dela. De como é difícil lidar com as lembranças vindo à tona de novo, depois de terem ficado esquecidas por algumas horas.
Por dias, os problemas de têm me tirado da realidade. A sensação de tê-la por perto é quase tão inebriante quanto me drogar, apesar de ser menos avassalador. é como um furacão na maioria das vezes, mas os efeitos dela sobre mim são de calma. Com ela eu consigo deixar de lado a minha escuridão, mas sem me esquecer dela. Eu consigo encontrar um pouco do meu próprio Sol, enquanto estamos em busca do seu. E tudo fica quase perfeito, pelo menos até a próxima tempestade que antecede a chegada do furacão.

Ela é um vício com o qual eu poderia lidar, caso não fosse um furacão.

Os furacões são imprevisíveis. Vêm mesmo em dias ensolarados e deixam uma terrível devastação pelo caminho quando vão embora.
Deito na cama, a fim de fechar os olhos e dormir um pouco. Ao menos por algumas horas, quero poder apagar da memória a imagem fixa que tenho de mim mesmo, olhando para o meu reflexo no tampo de vidro enquanto inalava com facilidade a minha fuga da realidade. Quero poder esquecer também o assunto que me atormenta, e a decepção estampada no rosto de quando despejei todas as palavras rudes que conscientemente calculei apenas para deixá-la mal.

Acordo algumas horas depois, entre imagens nebulosas de , um bebê e a figura do meu pai dizendo o que devo fazer. Minha camiseta encharcada de suor e uma música irritante vinda do quarto da minha irmã são suficientes para que a dor de cabeça comece, como um lembrete de que dormi demais. Está na hora de acordar e lidar com meus problemas outra vez.
Ignorando a dor latejante no meu cérebro, posso considerar que estou melhor depois de ter descansado um pouco. Apesar dos sonhos perturbadores, recuperei um pouco da consciência e do bom humor. A melancolia enfim se foi e agora posso até pensar com clareza, sem odiar tudo ou todo mundo.

Pelo menos para os meus padrões.

Dou alguns socos na parede que divide o meu quarto e o da minha irmã e, como resultado, ouço ela aumentar ainda mais o volume de sua música. Ignorando sua tentativa de me irritar, procuro meu celular pelo quarto. Quando o encontro, pressiono o botão para ligá-lo, com medo do que posso encontrar. Mas nenhum recado aparece e, por fim, tudo que me resta é lidar com o fato de que eu perdi o domingo todo.
Levanto da cama ao ouvir meu estômago roncar, decidindo mentalmente qual restaurante chinês faz o melhor rolinho primavera. Minha mãe provavelmente está enrolada em uma pilha de papéis importantes, o que significa que, por ela, eu posso morrer de fome. Ao passar pelo corredor, dou uma espiada no quarto da minha irmã. Sem dar a mínima ao limite imposto por ela, empurro a porta e entro sem rodeios. A cena com a qual me deparo ao entrar é pior do que os xingamentos que esperei ouvir por entrar sem aviso.
Tem uma pilha de roupas amontoadas em cima da cama, o que seria normal se ela não estivesse em frente ao espelho posicionando peças aleatórias em frente ao seu corpo. Maquiagens e coisas de cabelo também compõem a bagunça, e posso notar que apesar do All Star surrado, ela está mais arrumada.
— O que está fazendo? — Pergunto, entrando definitivamente em seu quarto. — Aliás, essa música é horrível.
— Tentando ser por um dia. — Ela resmunga, frustrada. — Como estou?
— Perto. — Eu brinco, observando um leve traço semelhante ao que costuma fazer no canto dos olhos. — Onde vai?
— Sair. — Ela diz, simplesmente.
— Com a ? — Especulo com curiosidade.
— Não, ela está ocupada hoje.
— Ocupada? — Questiono, atordoado.
— É, ela vai desfilar. — Ela dá de ombros. — Estava bem animada, mas felizmente não me deixou ir.
Ela vai desfilar grávida? Minha cabeça dá voltas enquanto tento imaginá-la em um camarim, participando de toda a rotina pré-desfile com outras garotas que não fazem a mínima ideia de seus enjoos, tonturas e desmaios repentinos. Sem que eu possa me controlar, as palavras da médica ecoam pela minha mente, enquanto calculo o tempo exato que levo para me arrumar e chegar até o evento.
— Você está bem? — questiona, olhando para mim. — Ficou mudo de repente.
— Estou. — Respondo, ainda preso em todos os meus devaneios.
Mas que raios estou pensando?! Algumas horas atrás eu a humilhei e a deixei falando sozinha, não posso simplesmente sair correndo como se estivesse interessado em fazer parte de algo a que fiz questão de declarar minha repulsa. Fora que a essa altura, depois de todas as minhas palavras rudes, provavelmente já contou a verdade para os pais, que provavelmente estarão lá, prestigiando a filha perfeita.
não precisa de alguém como eu, ela só acha que precisa. E apesar de ter rejeitado fazer parte do que ela propôs, uma parte de mim aceitaria facilmente se as coisas tivessem sido diferentes. Mas naquele momento, tudo que despejei para cima dela foram palavras de mentira. Palavras friamente calculadas para me defender de algo que, inevitavelmente, acabaria sendo retirado por ela.
Foi horrível ouvi-la confessar os reais motivos pelos quais propôs aquilo. Eu quis deixar toda a raiva momentânea de lado e concordar, exatamente naquele momento. Mas eu não pude. Simplesmente não tive coragem de voltar atrás. Porque sei que quando se der conta da força que tem, eu já vou estar fodido demais para suportar voltar para a realidade.

Eu fiz a escolha certa.
Só preciso me acostumar com ela.


— Seja você mesma. — Volto a atenção para minha irmã, estendendo um jeans surrado e uma de suas camisetas simples. — E divirta-se.
Saio do quarto ainda com os pensamentos à flor da pele, destinado a pedir comida e jogar videogame pelo resto do dia. Mas quando ameaço descer o primeiro degrau, ouço a voz familiar de Matt no andar de baixo. O namorado da minha mãe enfim voltou de Nova Iorque, o que significa que teremos uma mesa regada a porcelana cara esta noite. Volto para trás e me encaminho ao meu quarto, fechando a porta atrás de mim, com pensamentos nebulosos pairando pela minha cabeça.
Se antes me faltava um motivo para ir ao desfile, agora tenho a desculpa perfeita.



Com uma de minhas camisetas pretas e meu jeans favorito em mãos, eu encaro a porta do meu quarto, desnorteada. “Seja você mesma” foram as palavras do meu irmão para mim, antes de sair calmamente pela porta e me deixar aqui, cheia de pensamentos torturantes e inseguranças bobas. Encaro meu reflexo no espelho mais uma vez, fitando o tecido leve que cai suavemente sobre meu corpo esguio. O tom claro realça a cor dos meus olhos, e o jeito que ele marca a minha cintura me deixa quase feliz com o que vejo. Mas as alças finas que, teoricamente, teriam o papel de me trazer sensualidade, na verdade só servem para destacar meus ombros largos e deixar as poucas sardas que aparecem entre elas ainda mais evidentes.
Cansada de me torturar e tentar ser uma pessoa que não sou, resolvo seguir o conselho do meu irmão e vestir logo jeans e camiseta. Eu vou sair com , e apesar de estar muito nervosa, sei que ele já se acostumou com minhas roupas esquisitas. Não preciso impressionar, muito menos tentar ser algo que não sou perto dele. Posso simplesmente sair e fazer o que quiser, porque é assim que funcionamos. E não é o peso de um primeiro encontro que vai mudar isso.

É só cinema.

Vamos nos sentar em poltronas do meio, misturar jujubas na pipoca e dar conta de comer tudo antes mesmo do filme começar. Vamos assistir aos primeiros vinte minutos em silêncio, mas basta um de nós fazer o primeiro comentário que logo vamos tagarelar sem parar. Depois de reclamar bastante dos personagens e da ordem das cenas, vamos acabar comprando mais pipoca e, consequentemente, mais jujubas. No final do filme, vamos estar enjoados o bastante para voltarmos para casa reclamando da pipoca, e claro, das jujubas também. A única diferença é que ao nos despedirmos, vamos nos beijar. E desta vez vou ter de aprender a lidar com todas aquelas sensações de ontem à noite. Tudo parece normal, seguro. Mas a verdade é que tudo está muito diferente do que sempre foi. É essa a parte que me deixa nervosa.

É como se depois do beijo tudo estivesse de cabeça para baixo.
As coisas estão no mesmo lugar, mas em um ângulo diferente.


Ouço o motor da picape do lado de fora, ao mesmo tempo em que noto a luz reluzir no vidro da janela, o que indica que chegou. Exatamente às seis, como combinamos. Apago a luz, pronta para descer as escadas e encontrá-lo do lado de fora sem que ninguém veja, mas ao chegar no corredor, ouço músicas bregas no andar de baixo. Espiando pelo corrimão, vejo Matt sentado à mesa, com minha mãe ao seu lado, e uma louça de porcelana chinesa perfeitamente posta à mesa. Se eu descer por essa escada, terei de me sentar à mesa, ou inventar algo urgente o bastante que me faça escapar desse jantar horripilante. Sinto meu estômago revirar e a única coisa em que consigo pensar é em chegar à porta sem ser vista.

Mas como vou fazer isso?

Com um grunhido, dou meia volta e entro no meu quarto outra vez, discando o número de . Logo nos primeiros toques, observo pela janela que desliga o motor e apaga o farol antes de atender.
Não está pronta? — Ele questiona e, mesmo por telefone, consigo notar que está sorrindo.
— Estou. — Murmuro, contrariada. — Mas não posso sair agora.
E por que não? questiona, sem entender.
— Ao que tudo indica, Matt voltou de Nova Iorque. — Resmungo. — E tem porcelana chinesa por toda parte.
Posso entrar, se quiser. — Ele diz, simplesmente.
— Você ouviu sobre a porcelana? — Enfatizo. — Se você entrar, vamos ser obrigados a jantar e sabe Deus mais o quê.
Então pule a janela. — Ele diz, tão baixo que preciso me aproximar para ouvir.
— O q-quê? — Gaguejo, incerta se ouvi direito.
Eu seguro você. — Ele continua, e consigo vê-lo sair do carro.
— Você só pode estar maluco. — Digo, ainda atônita com sua proposta. — É muito alto.
Silenciosamente, ainda segurando o celular junto à orelha, abre o portão da minha casa com cuidado, chegando ao jardim. Eu o fito da janela, perplexa demais para falar ou fazer qualquer coisa. Já tem um olhar divertido, quase infantil. Sua covinha, que raramente aparece, está no canto direito de sua bochecha, enquanto seus lábios se curvam em um meio sorriso sedutor. Fico realmente tentada a pular enquanto ele me incentiva com um olhar sugestivo, mas felizmente seus encantos ainda não são capazes de inibir meu medo de altura.
Vem, eu pego você. — Ele diz, confiante.
— Impossível. — Eu digo, com descrença. — Você não consegue me sustentar, vamos cair.
, confie em mim. — Ele continua. — Além do mais, pego o dobro do seu peso nos meus treinos.
Seu comentário faz com que um milhão de perguntas passem pela minha cabeça, mas apenas sorrio, evitando pensar no porquê dessa comparação. Mas é impossível cessar meus pensamentos, e antes que eu possa interromper minha linha de raciocínio, eles invadem minha mente. quis dizer que sou muito leve ou muito pesada? Do jeito como se gabou, provavelmente insinuou que sou pesada. Isso explica todas as piadinhas com a gula, e o motivo de sempre me levar a lugares cheios de comida.
— Desculpe, esqueci o quanto você é atlético. — Debocho, chacoalhando a cabeça para afastar meus pensamentos inoportunos.

Pare de pensar nisso, pare de pensar nisso, pare de pensar...

Vamos logo. insiste. — O filme está para começar.
— Nunca assistimos inteiro mesmo, não faz diferença pegar do meio para frente. — Provoco, e mesmo da janela consigo vê-lo revirar os olhos.
Se não pular logo, vou entrar. ameaça. — Estou falando sério, não estou nem aí para a louça chinesa.
— Você não ousaria. — Digo incrédula.
Você tem cinco segundos para pensar. provoca, se afastando do jardim em direção à entrada principal. — Um... dois... três...
— ESTÁ BEM! — Grito de uma vez, desligando o celular. sorri e volta para perto da janela, também guardando o celular no bolso do seu jeans. — Eu juro que se você não me segurar...
— Sabe que não vou te deixar cair. — Ele diz, simplesmente.
Então, respiro fundo e concordo com um aceno. Encaro o parapeito da janela, sentindo a adrenalina me dominar. Em seguida, me apoio para dar uma olhada na altura. É muito alto.
— Não olhe para baixo. — me repreende, me fitando com atenção. — Você precisa se sentar e passar uma perna de cada vez.
Concordo mais uma vez, em mais pura aflição. Não tenho ideia do que estou fazendo, mas continuo confiando piamente nas palavras de , dando impulso para me sentar no parapeito. Meu corpo todo parece estar tremendo, enquanto me equilibro e me preparo para passar um pé de cada vez para fora da janela. Devagar, passo o primeiro, me apoiando para passar o segundo em seguida. me olha como quem pergunta se vai ficar tudo bem enquanto fico completamente virada para o jardim. Faço um gesto afirmativo com a cabeça, enfim me preparando para pular.
Nunca me senti dessa maneira antes. Minha mente não está mais no comando. Uma sensação gelada passa pela minha espinha, e sinto meus batimentos acelerarem em uma frequência assustadoramente alta. Mas quando o pânico ameaça me dominar, os olhos de me encorajam a continuar. Eles estão atentos e posso notar sua concentração ao medir cada movimento que ameaço fazer. Seus braços estão preparados para me segurar, e estranhamente isso me dá coragem.
Nesse momento, eu o vejo com novos olhos. Diferentemente das minhas reflexões de hoje mais cedo, o que temos não é mais a mesma coisa. Não somos melhores amigos que se beijam, simplesmente. Somos mais do que isso. Estamos descobrindo coisas juntos, e a cada novo momento que compartilhamos, estamos aprendendo mais sobre nós mesmos e sobre quem somos juntos.

Então, sem pensar muito, eu pulo.
Feliz dessa vez, mesmo ciente dos riscos.





Continua...



Nota da autora: YAY! Como estão depois desse capítulo? Obrigada a todas vocês que estão lendo LF, espero não decepcioná-las <3
Beijinhos e até a próxima att!


Nota da beta: Ai, gente, será que...
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