Betting Her II
Betting Her II
"Betting on us"


Capítulo 1.
"You're acting like you're somebody else"
(Complicated - Avril Lavigne)

Entrar naquele ônibus me pareceu a escolha errada desde o momento em que James retirou as malas de do bagageiro de seu carro, gentil demais, falso demais. Girei sobre meus calcanhares e encostei o case do violão no portão da escola, começando a andar para o lado contrário ao que todos se direcionavam. Eu ia embora, pois eu acabara de ter uma prévia do que aconteceria durante toda aquela viagem. e James estavam juntos, ela havia optado ficar com o cara que fez a escola inteira acreditar que ela sabia como usar um halls durante o sexo oral a me ouvir. Não que houvesse grande diferença entre nós dois... Se é que havia alguma.

- , onde você vai, dude?!
- Embora. - Respondi entredentes, controlando meu nervosismo.
- Não vai, não! - segurou meu braço, tentando me puxar de volta. Empurrei-o sem muito esforço e olhei pra ele de maneira que parecesse ameaçador.
- Eu vou.
- Você quer parar de ser maricas? - Seu tom irritadiço me fez respirar fundo - Huh? Ou você vai embora e vai mostrar pra ela que ela conseguiu o que queria?
- Eu mereço, , não é como se ela estivesse errada! - Olhei para o lado, tentando esconder do meu amigo as lágrimas que tentavam a todo custo umedecer meus olhos.
- , você já tem se auto castigado por muito tempo, vê se relaxa! - Disse , agora de maneira mais calma - É sério, você tem sofrido tanto, e pra quê? Pra ela chegar aqui, pisar em você e te afundar ainda mais? Ela 'tá sofrendo? Ok! Mas se ela fosse tão madura quanto ela diz ser, veria que está sendo ridícula. - Respirei fundo e enterrei minhas mãos nos bolsos da calça jeans.
- Senhor e senhor , vocês vão ou não?
- Eu vou. - gritou, ainda me olhando, depois virou-se e começou a fazer seu caminho.

Olhei para o ônibus e novamente para meus amigos, e olhavam de mim para , que deu de ombros e entrou na fila. Os três tornaram a me olhar com aquela puta cara de decepção, estávamos esperando por aquela viagem desde o ano passado, planejamos tantas coisas e agora eu iria dar pra trás por uma garota? Não, eu não faria isso com meus amigos. E também não deixaria James levar essa vitória pra casa. Se ele queria pra si, ele teria que disputar comigo, e eu sei que tenho pontos a mais... Sempre tive.
Corri em direção a eles, que logo começaram a comemorar, sorri sem jeito e peguei o violão, ajeitando a alça do case em meu ombro. Eu devolveria assim que tivesse a oportunidade. Entramos no ônibus e fomos logo caminhando para o fundo, como de costume. Deixei minha mochila e o violão no compartimento acima das poltronas e me sentei ao lado de , e à nossa frente, Charlie e Matt ao nosso lado e, atrás deles, James e . Fingi não vê-los, continuei olhando pela janela, onde e gritavam e batiam na lataria para acelerar a viagem. Eu ri sem entusiasmo e apoiei um braço atrás da cabeça, fechando meus olhos.

- Cara, você vai ficar assim? - resmungou e eu suspirei alto, sem abrir os olhos.
- Você sabe que eu não queria ter vindo desde o início. - Murmurei entredentes, sem me mover.
- E eu prometi à sua mãe que não deixaria você acabar com a sua vida por causa de uma garota. - Respondeu ele, bufei e abri os olhos devagar - Cara, você não vai deixá-la estragar sua viagem. - Sussurrou, certificando-se de que eles não iriam escutar.
- Eles não vão estragar nada, está estragada desde que se tornou minha viagem.

Tornei a fechar meus olhos, só queria acordar na minha cama e descobrir que tinha perdido o ônibus, que havia se esquecido de ir me buscar em casa e eu não precisaria assistir à todo aquele show de horror que James e fariam da minha semana.

- Pára, James. - Ouvi sua voz murmurar, abri meus olhos lentamente, encarando o banco à minha frente - Pára, aqui não. - Trinquei meus dentes e aos poucos fui cerrando meus punhos - É sério, James.

Levantei-me de meu lugar e esmurrei James até ser expulso do ônibus... Não, mas era o que eu gostaria de ter feito, ao invés disso peguei meu iPod e enterrei seus fones em meus ouvidos, vasculhei um pouco as pastas e deixei na lista de Smile Empty Soul, ergui o som o máximo que meus ouvidos aguentariam e voltei a fechar meus olhos.
Não podia ser que estivesse realmente com ele, era inacreditável pra mim. Ela me disse que não o suportava, então o que estava fazendo ao lado dele? Com aquelas roupas e aquela expressão arrogante? Oh, sim! Ela ainda seria a doce e ingênua se eu não tivesse me metido em sua vida e fodido com tudo, parabéns pra mim, o Oscar de otário do ano vai para: .

- Dude... - Abri os olhos sem vontade, percebi que estive dormindo nas últimas horas - Vamos mijar. - disse, em pé no corredor, notei o ônibus sacolejar enquanto direcionava-se ao posto.
- Você precisa de mim pra isso? - Zombei, buscando senso de humor até no meu intestino, se fosse preciso.
- Preciso, o não quer mais chacoalhar pra mim. - Fez beicinho enquanto ríamos e nos levantávamos, olhei uma vez pra trás, desviou seus olhos rapidamente e eu voltei a seguir os garotos pra fora.

Entrei em uma das cabines do banheiro e por um momento cogitei a idéia de ficar lá, eu poderia deixar que eles me esquecessem, então eu ligaria pra minha mãe, ocultaria a parte de que eu armei tudo e voltaria pra minha casa sem me sentir tão culpado por não ter ido com os caras. Mas tocou insistentemente até eu sair e ainda fui obrigado a ficar ouvindo piadinhas sobre meu intestino solto. Consequências.
e James estavam sentados em um banco do lado de fora. Enquanto ele falava sem parar, ela parecia nem mesmo escutá-lo, dispersa a tudo, até mesmo à fumaça do cigarro dele, que fazia caminho direto ao rosto dela. Respirei fundo, controlando a vontade de ir até lá e roubá-la pra mim. pareceu me reconhecer de alguma forma, então ergueu ligeiramente seu rosto, nossos olhares se cruzaram e meu coração esteve novamente vivo, eu não o sentia daquela maneira há pelo menos três semanas. Mas como se eu fosse algum tipo de conteúdo impróprio, ela virou-se subitamente, olhando para os próprios pés.
Mal entramos na lanchonete e nos avisou, com todo o entusiasmo todo mundo, que havia conseguido "batizar" duas garrafas de refrigerante com vodka e que estava voltando para o ônibus junto com e Antony, nos esperariam lá. e eu compramos os copos e uma lata de Pringles antes de fazer o caminho de volta.

"Mais 2 horas de viagem, 2 horas pra ficar bêbado e nem ver o tempo passar", pensei quando entornei meu primeiro copo de Hi-Fi, mas 7 copos depois e nada havia acontecido, nada além de um pouco de moleza nas pernas e dormência dos lábios. Eu havia bebido muito mais que meus amigos e eles estavam passeando pelo ônibus, contando piadas sem sentido e rindo histéricamente. Qual o meu problema afinal? Minha visão nem mesmo estava turva, até dei uma volta pelo ônibus pra quem sabe a porra do álcool se alastrar, mas certamente havia uma praga muito forte sobre mim. Comecei a reconhecer que a bruxa gostou do meu ombro.
Boa parte do ônibus conseguiu dormir quando meus quatro amigos o fizeram, meia hora antes de, por fim, chegarmos ao resort. O ônibus em que estávamos foi estacionado logo ao lado de outro, em um gramado enorme, também haviam alguns carros e vans, mas não parecia o suficiente para encher aquele lugar. Chacoalhei os caras por alguns minutos até fazê-los levantar e caminhar pra fora do ônibus, completamente bêbados. Que sorte a deles.
Professor Dawson começou a fazer a chamada, nos separando por sexo em duas filas. Ele, junto com a senhora Hale, eram responsáveis por todos os alunos durante nossa estadia no resort. Eu ainda não tinha visto , até seu nome ser chamado. Eu não sabia qual seria minha reação ao vê-la novamente depois daquela noite, mas não foi diferente, meus músculos se contraíram junto aos meus punhos, cerrados. Naquele momento agradeci por não estar bêbado, nem mesmo um pouco, pois eu queria bater em , tanto, mas tanto, que na falta da minha consciência eu acabaria deixando-a deplorável.
Senhora Hale nos explicava que, cada apartamento, ou bangalô, como ela se referiu, tinha 2 quartos, e suportava quatro pessoas, ficou decidido assim. Com um porém, mulheres com mulheres, homens com homens. Isso deu algum problema, já que acabou dando número ímpar e muita dor de cabeça para os professores, ninguém mandou eles serem tão conservadores.
Olhei para os caras, aposto que nem mesmo sabiam do que ela estava falando, então fiz meu papel de amigo e coloquei , e no mesmo apartamento que eu, ainda peguei nossas bagagens e entreguei ao funcionário, que empurrava um carrinho destrambelhado, enquanto eu empurrava três idiotas que riam de tudo. Por um momento me questionei com quem ficaria, ela não tinha muitas amigas na escola, com James era impossível - Graças à Deus -. Virei meu rosto pra trás e a vi caminhar ao lado de , e outra que eu não me recordava o nome, estou certo de que já transei com ela em uma festa, mas nunca cheguei a perguntar. Espero que ela também não se lembre disso.

- Essa é a piscina principal. - Disse o funcionário enquanto passavamos por uma área completamente coberta de coqueiros, a piscina era enorme. Não havia ninguém por ali, portanto a água mal se movia, eu mal podia esperar para pular lá dentro.
- Isso é grande pra caralho. - comentou enquanto atravessávamos uma ponte branca, já ofegantes de tanto andar.
- É sim, vocês vão levar um tempo pra conhecer tudo. - Dizia o rapaz que parecia ser pouco mais velho que a gente - E ainda tem a praia, não há restrição da parte do resort, então pra ter acesso vocês precisam falar com os responsáveis por vocês.

Nós nos entreolhamos e um sorriso entusiasmado estampou nossos lábios, praia sempre foi sinônimo de muita diversão, não podia ser diferente logo desta vez, certo?
Havia um caminho margeado de grama que passava por trás de todos os bangalôs de madeira. O funcionário nos guiou até a porta de trás de um deles. Assim que empurrou as malas pra dentro, ele me entregou a chave e se despediu de nós.

- Isso é o que eu chamo de sala.

Concordei silenciosamente com , isso era uma sala. Tinha uma parte da piscina dentro dela, isso é demais pra mim, vou desmaiar... Não. subiu correndo para escolher sua cama enquanto procurava alguma coisa entre as malas e eu me espreguiçava, já havia se associado à cadeira de balanço, com os pés pra dentro d'água. Ouvi um berro de , rapidamente nos direcionamos para o andar superior, não antes de ter crises de riso por conta do escorregão de , que estava com os pés molhados, e ao tentar andar depressa, deslizou pelo assoalho.
Motivo do berro indignado do ? Havia apenas uma cama de casal em cada quarto. Ótimo, agora eu teria que dormir com macho!

- E agora? - perguntou com a expressão apavorada, olhei-o de esguelha e comecei a rir.
- Calma, ainda temos sofás, podemos revezar. - Dei de ombros.
- Boa idéia!

Eu, como sou um cara de sorte sempre, fiquei com o sofá na primeira noite. também. Bem, tanto faz, os sofás ali pareciam confortáveis, e estaríamos cansados o suficiente caso não fossem. Eu queria dormir o resto da manhã, mas só faltava chorar pra irmos comer e aproveitar o sol. Trocamos nossas roupas por boardshorts e camisetas de tecido mais leve. Assim que saímos do nosso apartamento, pude ver James sair do apartamento ao lado com Matt, Charlie e Lewis. Ele acenou com um sorriso irônico, fingi não vê-lo, apenas coloquei meu óculos de sol e segui os caras para o lado oposto.
Entre brincadeiras e crises de risos, conseguimos chegar ao restaurante onde seria servido o café da manhã, almoço e café da tarde, segundo o itinerário, que recebemos junto ao mapa, e que, à propósito, esquecemos no apartamento.

- Bom dia, alunos. - Disse Sr. Dawson em um microfone, ao que parecia, improvisado - Como vocês já devem ter ouvido falar, todo ano fazemos uma gincana que dura a semana toda - Voltei a atenção para meu prato, igual a todos os outros alunos - Nos dividiremos em quatro grupo de 22 pessoas, a divisão e a primeira tarefa será dita hoje, às seis horas, no quiosque entre os apartamentos onde vocês estão hospedados. - Finalizou seu monólogo, suspirei, remexendo em minha comida com o garfo - Alguma pergunta? - Vi se manifestar - Diga, senhor .
- Podemos descer na praia? - Fiz uma careta, olhando sua boca cheia, os garotos riram quando eu fingi desviar de algo, ele fechou a expressão e me olhou de esguelha.
- Sim, senhor, só não se mate.

e se levantaram e foram saindo, peguei meu copo de suco e os segui, ficou resmungando na mesa por termos deixado-o sozinho. Ao me acercar da porta pude ver, do lado de fora, sentada ao lado de , esta, ao me ver, esbarrou seu cotovelo em e começou a rir, forjou um riso nada espontâneo. Neguei com a cabeça e apoiei minha mão no ombro de , empurrando-o para andarmos mais rápido, assim eu as perderia de visão de uma vez.

- Me respondam uma coisa... - começou assim que nos sentamos em uma mesa ao lado da piscina.
- Fala, filho. - disse.
- Como eu posso gostar da ? - Quis saber, arqueei as sobrancelhas e forcei uma gargalhada irônica - Ela é tão... Cruel. - Agora ríamos de verdade, se acercou e sentou-se na cadeira restante.
- Qual a piada?
- em: O masoquista! - falou com falso entusiasmo, apontando para , que ria encolhido na cadeira.
- Ela 'tá conspirando em cima da , vocês perceberam? - comentou, como se tivesse estado ali o tempo todo, gargalhei olhando de lado pra , que emburrou de imediato. - O que eu disse de errado?
- Como você sabia que era da que estávamos falando? - quis saber, carrancudo.
- Sei lá, relacionei masoquismo a ela. - deu de ombros e voltou-se pra mim em seguida - Você percebeu, ?
- Que ela está controlando a ? - Ele concordou com a cabeça - Na verdade, acho que ela tá tentando, mas tem personalidade forte, se está do jeito que está, é principalmente porque quer.

deu de ombros, como quem não concorda, nem discorda. Olhei para o mar e acabei me distraindo enquanto assistia alguns caras usando um jet ski. Tudo o que pensava era que queria experimentar, pelo menos até pigarrear, olhei pra ele a tempo de ver dar um cutucão nele, que fez a típica expressão de "Quê?!", discretamente apoiei meu braço no encosto da minha própria cadeira e então olhei pra trás. Sob as lentes de meu óculos pude ver , de dentro da piscina, tentar convencer a retirar seu vestido, ela parecia não estar de acordo com a situação, mas ao me ver ali, esperando uma reação sua, obedeceu à prima e expôs seu corpo dentro de um biquini que eu considerava pequeno pra ela... Pequeno demais.

- Sabe qual é minha vontade? - Virei para os caras, tentando ignorar a desordem que aquela cena me causara.
- Comer ela? - murmurou, sem tirar os olhos de , chutei sua canela sem a menor piedade, ele gemeu e esfregou a perna rapidamente.
- Não. É tirar ela dali, do meio daquele covil. - Respondi entredentes, sentindo meus músculos inflarem de raiva - Eu sei porque você gosta da , . - Olhei-o, tirando meu óculos de sol e depois minha camiseta - Porque ela é uma vaca, você economizaria tempo procurando um inimigo com ela ao seu lado.

suspirou e eu levantei, deixando meus chinelos por ali enquanto andava em direção à piscina, pulei pra dentro dela e emergi somente quando meu ar se esgotou, agitei meu cabelo e passei as mãos pelo rosto, andando até a borda da piscina, onde apoiei meus braços. Pedi que jogasse meu óculos de sol, tenho uma grande sensibilidade à luz solar, meus olhos ardem muito, tanto que minhas sobrancelhas começam a latejar, depois minha testa e mais tarde vem uma enxaqueca, bem parecida com aquelas de ressaca de vinho.
Apoiei meu queixo sobre meu braço, eu podia ver encostada na borda da piscina, mas mantendo uma grande distância de onde eu estava. e conversavam sobre alguma coisa, enquanto parecia dispersa. De alguma forma não era tão difícil vê-la sem poder tê-la mais perto, por maior que fosse minha gana de abraçá-la e levá-la comigo um lugar onde ninguém fosse se meter entre nós, eu não estava desesperado. Era como se ela ainda fosse minha, ela ia se divertir com quem quer que fosse durante o dia todo, mas quando chegasse a hora de dormir, era de mim que se lembraria, sentiria falta.

- OUCH, OUCH, OUCH! - Comecei a gritar quando tirou a camiseta, então cobri meus olhos e comecei a andar pra trás - , você está me cegando com o refletor que você tem na barriga! - Nós começamos a gargalhar e eles rapidamente saltaram pra dentro da piscina, se aproximou e avançou em mim, na tentativa de me bater, continuei rindo e o segurei pela nuca, empurrando-o pra baixo d'água.
- Cara, isso 'tá estranho. - me advertiu, gargalhei e continuei segurando a cabeça de com uma das mãos, enquanto ergui o braço livre atrás da cabeça e mordi meu lábio inferior, rolando os olhos sugestivamente, os caras gargalhavam, e quem estava por perto também, comecei a rir e livrei , que se ergueu e rapidamente pulou em minhas costas, tentando me afogar também, meu olhar cruzou com o de , que ria discretamente, depois deixei me empurrar, assim eu me livraria dele mais rápido.
- AQUAMAN! - Ouvi a voz irritante de James gritar antes de sentir seus pés na base das minhas costas, com tanta força que eu bati meus joelhos no fundo da piscina, levantei assim que pude e o encarei com os dentes trincados.
- QUAL É A TUA, IMBECIL? - Ralhei em direção a ele, James riu chacoalhando seu cabelo, tentei correr em sua direção, mas a água quebrava a velocidade dos meus movimentos.
- 'Tá nervosinho, ? Parece até que perdeu mulher pra mim... - Rosnei, aproximando-me ainda mais, James levou a mão na boca com os olhos arregalados - Oh, é mesmo, você perdeu.
- Se você é tão homem de me tirar uma mulher, vem aqui, idiota! - Bati no meu peito com força, mas fui impedido de continuar andando.
- , calma, deixa pra lá, cara. - Sentia me puxar pra trás com facilidade enquanto se metia entre eu e James.
- Se cuida, James! - Exclamei apontando pra ele, que se afastava entrerisos - Não 'tô a fim de ser expulso daqui por arrancar teus dentes fora!
- , dude, você não pode ligar pra tudo que ele faz, 'tá na cara que é por causa dela. - me advertiu.
- Que se foda, ele 'tá achando que pode cantar de galo só porque 'tá com a minha garota, otário!
- Otário é você que a chama de minha, ela não é sua, , tente superar isso!
- Eu 'tô tentando, ! - Exclamei com a voz esganiçada, ouvir aquilo de outra pessoa era muito mais difícil.
- Não é o que parece, cara, na boa! - Ele argumentou - Você fica aí o tempo todo com essa cara de merda, a gente 'tá fazendo de tudo pra ver se te anima, mas você não coopera! - desatou a falar, eu sentia cada um dos meus músculos pulsarem, assim como minha cabeça, que parecia inchar, eu sentia vontade de bater em alguém e seria o sortudo se continuasse me julgando - Você não percebe que não vai adiantar ficar bufando e chorando por todo canto? Ela não vai voltar por isso, se um dia ela voltar, não vai ser porque você tá tristinho ou porra alguma, vai ser porque você foi homem e superou, a hora que ela se der conta que você tá seguindo em frente, ela vai vir no rastro igual uma cadela...
- CALA A PORRA DA SUA BOCA! - Vociferei, empurrando-o para longe, eu sei que ele queria descontar, mas não o fez - JÁ CHEGA, JÁ DEU, MERDA! - O silêncio se instalou por toda parte, dei as costas a eles e tomei impulso na borda, saíndo da piscina e caminhando até a mesa.
- , hey, calma aí, cara. - tentava amenizar, como sempre.
- Calma o caralho! - Exclamei pegando minha camiseta e calçando os chinelos de maneira desajeitada - Vocês não têm idéia do que eu tenho passado, então tenta não foder com a minha cabeça! - Continuei a falar alto, pra que eles pudessem escutar, e quem mais quisesse assistir ao show que eu tinha dado, feito uma garotinha de TPM.

Saí dali andando apressado, tentando não chutar o primeiro que aparecesse na minha frente. Essa era uma sensação nova pra mim, eu nunca fui nervoso, ou o tipo de pessoa que não sabe escutar a verdade, que deixa se levar por provocações, os rapazes até diziam que eu era tranquilo demais, mas desde que ela se foi, eu me sentia como uma bomba relógio, pronta pra explodir a qualquer momento.
Resfolegando e sem saber onde realmente eu estava, sentei sob o primeiro coqueiro que vi, apoiando meus braços sobre meus joelhos e levando meu cabelo pra trás. Fechei meus olhos sentindo o sol queimar meus ombros e minha cabeça, a qual deitei sobre meus antebraços, sentindo latejar lenta e dolorosamente.
tinha razão, eu não estava cooperando com meu bom humor e de nada adiantaria me lamentar, isso iria me desgastar, me tornar um chato e ainda ficaria sem ela, mas ele errou em um ponto. Ela não viria. Nem mesmo se sentisse que estava me perdendo. não viria, e não por orgulho, ou por no fundo saber que eu não desistiria dela por qualquer outra garota, ela não viria por falta de vontade, não viria por estar magoada. Ela não era mais minha e eu tinha de superar isto, apesar de toda a dor.

- Senhor . - Ergui minha cabeça subtamente, minha cabeça pulsou como se fosse explodir e eu suspirei alto ao ver o professor se acercar.
- Oi, sr. Dawson. - Respondi sem graça por ter sido pego em meu momento "pau no cú".
- Tudo bem? - Perguntou, sentando-se ao meu lado.
- Tudo certo. - Murmurei com desânimo, encostando-me ao tronco do coqueiro, o professor me olhava como se examinasse minha expressão.
- Hm... - Assentiu devagar, ele não acreditou em mim... Nem eu. - Te vi brigando com o , algum problema?
- Ah, aquilo? - Sorri sem humor - É só o , a gente briga às vezes. - Expliquei, com falsa indiferença.
- Sabe , eu estava no baile de primavera. - Traguei a saliva e continuei olhando para a barra da minha camiseta, que eu enrolava no dedo - É por isso que está assim?
- Assim como? - Contrai o cenho, rindo sem graça.
- Com cara de quem 'tá fodido. - Gargalhei verdadeiramente desta vez, é engraçado ouvir pessoas mais velhas usando essas expressões, é como quando minha mãe diz "dude" ou "woop woop".
- É, é por isso. - Disse, ainda entre risos.
- Hm... - Assentiu lentamente, como se procurasse o que dizer, ou como se ponderasse se devia dizer algo ou não - Bem, achei que fosse mesmo só uma aposta entre amigos. - Traguei em seco e abracei meus joelhos, olhando pra frente e me perguntando se eu deveria responder.
- Era pra ser. - Murmurei sem vontade - Eu deveria conquistá-la, e de repente eu vi que quem tinha conquistado ali era ela... Eu não esperava me apaixonar, eu... Era pra ela ser só mais uma, igual todas as outras.
- Ela nunca foi só mais uma, , ela não tem o perfil de "mais uma". - Fechei os olhos e assenti devagar.
- Sei disso, eu sempre soube, mas eu não pude evitar... eu a quis mais do que qualquer coisa, ainda a quero, mas eu fiz tudo errado, eu podia ter evitado todo aquele constrangimento no baile, mas eu deixei acontecer.
- Não pense assim, rapaz! - Ele exclamou, com a mão em meu ombro - A culpa não é só tua, é certo que quando percebeu que estava apaixonado você poderia ter rompido a aposta e dito tudo a ela...
- Eu rompi a aposta, eu disse aos garotos que não queria mais, e então não havia mais aposta, eu tentei dizer a , mas ela não se importou com isso, ela só queria foder com tudo, independente de qualquer coisa.
- Você disse isso a ?
- Ela não me deixou explicar, ela não quer me ouvir. - Mordi meu lábio e respirei fundo.
- Você insistiu? - Quis saber.
- Claro que insisti, professor, eu tenho ido atrás dela desde aquele dia, mas ela me pediu por favor, pra que eu não procurasse mais, não dissesse mais nada, eu... Eu acho que eu 'tava fazendo mal a ela enquanto ficava ligando, e eu não quero fazer mais mal a ela, mais do que eu já fiz, o senhor me entende?
- Entendo... - Assentiu com um sorriso gentil - Entendo que você ama essa garota e que se ficar respeitando esse pedido vocês vão sofrer em dobro. - Disse, agora sério, suspirei alto.
- Eu quero, mas não sei o que fazer... - Neguei com a cabeça e umedeci meus lábios secos pelo calor - fica em cima dela o tempo todo, não vou conseguir me aproximar com aquela vadia serpenteando.
- é ótima em persuasão. - Concordei com a cabeça e ri - Apenas pense no que falar e eu vou dar um jeito pra que conversem, ok?
- O senhor... Faria isso por mim? - O olhei com um sorriso sincero e entusiasmado.
- Vou pensar em um jeito, mas você tem que me prometer que vai aproveitar a chance! - Assenti rapidamente.
- Eu vou, vou sim!
- Ok, qualquer novidade e eu te procuro.
- Valeu, professor. - Eu disse estendendo minha mão.
- Torço por vocês. - Disse ele me cumprimentando e se levantando.
- Eu também.


Capítulo 2.
"Somebody made a bet, somebody paid"
(Devil's Arcade - Bruce Springsteen)

Entrei no apartamento e pude ver sentado no sofá, olhando pra fora, parecia estar quase dormindo, ou vegetando. Aproximei-me e me joguei ao seu lado, que sobressaltado me encarou soltando um suspiro alto, voltando a olhar pra fora, fiz o mesmo, deixando minha camiseta no braço do sofá.

- está chateado. - Disse , virando seu rosto em minha direção, continuei fitando a paisagem do lado de fora.
- Eu sei.
- Você deveria falar com ele. - Assenti em meio a um suspiro.
- Eu sei.
- Hm.
- Eu vou conversar com ele. - Olhei pra e respirei fundo - Eu vou tomar um banho, daqui a pouco temos que ir lá no quiosque, o professor disse 6 horas.
- É verdade.
- Hey, , vamos indo? O vai demorar um século até lavar toda aquela banha dele. - Ouvi dizer e virei meu rosto pra trás, ele continuava olhando pra , que se levantava preguiçosamente, entendi que ele não queria falar comigo, mas eu não podia esperar.
- Posso falar com você, cara? - Perguntei.
- Fala. - Respondeu , com uma sobrancelha arqueada.
- Eu espero vocês ali fora, 'tá calor demais aqui. - disfarçou e saiu sorrateiramente.
- , me desculpa ter falado daquele jeito com você. - Comecei e me levantei, continuou parado, como se esperasse mais de mim. - Eu sei que 'tá difícil me aguentar, eu sei... Eu... Mas também 'tá difícil pra mim, tudo isso, eu nunca tive que passar por isso antes, você sabe.. - olhou pra baixo e respirou fundo. - Mas você tem direito de ficar bravo porque o problema é meu, eu não tenho que sair descontando em ninguém, então me desculpa.
- Cara, tudo bem.. - soltou um suspiro e se aproximou, apoiando sua mão em meu ombro, apertou sem força, em sinal de apoio. - Eu sei que você tá passando por uma fase ruim, mas é difícil pra nós ver você, , assim. Você se lembra de todas as vezes que nós nos uníamos, conquistávamos um grupo de garotas, saíamos com elas uma semana e na outra nem nos lembravamos mais o nome delas? - Sorri, concordando com a cabeça. - A gente saía todo fim de semana e acordávamos sem saber nem onde estávamos, você estava sempre cantando alguém, fazendo piada sobre o corpo das garotas, e dude... A gente sente falta disso, sabe? A gente sente falta de sair com você como era antes e é difícil perceber que você tá sofrendo pela ... - Continuei apenas a assentir, agora sem vontade de sorrir. - Eu sei que ela vale a pena, e eu sei que você merece passar por isso, por tudo o que aconteceu, mas, cara, se você quer esperar por ela, espera vivendo, sabe? Não pára tudo por causa dela, porque se você não percebeu, é o que todos eles querem, te afundar, você vai deixar? - apertou meu ombro e me deu um chacoalhão, ergui meus olhos em sua direção. - Vai deixar?
- Não.
- Não? - Ele exclamou e eu ri, rolando os olhos.
- Não, cara, não vou deixar.
- Então, ok... - Deu um tapa na minha cabeça. - Eu e o estamos indo pra lá, a gente se encontra no quiosque.
- Fechado.. - Sorri e foi saindo.
- Ah, o deve estar terminando de lavar as tetas, fala pra ele apressar lá.

Gargalhei, vendo fechar a porta, e subi rapidamente até o quarto, peguei minha mala e a deixei sobre a cama. Sorri, com as lembranças que havia atirado sobre mim. Eu bem me recordava de todas as vezes que acordei em cama alheia, eu nem me lembrava o nome daquele corpo nu sobre o meu, então eu ia embora antes que ele ganhasse vida e eu tivesse que chamá-la de "Linda", não tinha erro, mas isso as iludia. Eu realmente não estava acostumado a passar pela situação em que me meti com , eu posso dizer que nunca havia me apaixonado antes, e nunca havia sofrido por isso, mas juro que nos primeiros dias eu achei que nunca ia passar, que ela seria a única garota pela qual eu seria apaixonado a vida toda, e eu ainda me sentia assim, eu precisava tê-la de volta, mas tinha razão, eu não ia chegar a lugar algum se continuasse sentado, esperando. Eu precisava seguir em frente.
Tomei um banho gelado, tentando me livrar da queimação nos ombros. Vesti um bodyboard branco listrado de verde e marrom, e uma camiseta branca, a de tecido mais fino que eu tinha. Calcei meus chinelos e tentei, em vão, arrumar meu cabelo, ele estava grande demais pra que eu tivesse sucesso nisso.

- Hey, , tá pronto? - quis saber, com a cabeça pra dentro do quarto, enquanto eu enrolava as mangas da camiseta até meu ombro.
- 'Tô, cara. - Respondi, pegando minha carteira sobre a cama, retirei algumas notas e as guardei na borda da minha boxer, já que o jantar era pago. - Por um acaso você não tem um creme desses que alivia queimadura aí não, né? - começou a rir e assentiu.
- Tenho, depois do jantar eu te empresto, cara. Vamos, já estamos atrasados.

Fizemos o caminho até o quiosque, ao que percebi, todos os alunos já estavam lá, pois quando chegamos o professor fez sua melhor cara de repreensão e começou a chamar nossa atenção, pedindo silêncio e proximidade.

- Vou começar a explicar, está bem?

Concordei com a cabeça, como se ele realmente precisasse da minha permissão, cruzei meus braços e deitei a cabeça pra trás, esperando uma corrente de ar aliviar meu calor, mas quando voltei a baixar meus olhos, eles se cruzaram com aqueles dos quais eu sentia tanta falta, meu coração disparou subitamente e eu me senti como se não pudesse respirar. Seu rosto estava delicadamente maquiado, uma das laterais de seu cabelo estava presa por uma flor branca, e seu corpo semicoberto por um tecido leve. pigarreou e eu tratei de voltar minha atenção para o Sr. Dawson.

- Como eu já havia informado, vamos formar quatro grupos, e antes que vocês comecem a se movimentar, eu vou escolher os membros de cada um deles.
- Aaaah, isso é injusto! - Alguém gritou, e em seguida começou o alvoroço.
- Shhh, calem a boca, vocês não são mais crianças! - Exclamou sr. Dawson, batendo palmas, apenas bocejei - Eu decido os grupos, portanto façam silêncio. - Ainda houve suspiros inconformados, ri baixo e neguei com a cabeça - Primeiro grupo é o Vermelho. - Dito isso, ergueu um punhado de lenços da cor citada e os agitou no ar - Alissa Swan, Alex Gear, , Victor Becker, ...

Ergui meus olhos, até então fixos na tatuagem que havia no pé de uma garota a minha frente, e traguei em seco. Eu quis pedir que alguém o fizesse parar e repetir os nomes do grupo, só pra eu ter a certeza absoluta de que ele havia realmente feito isto, ele havia mesmo cumprido sua promessa. Quis não olhar pra , para não dar na cara que eu estava entusiasmado com o ocorrido, mas meus olhos a flagraram imediatamente, falava com ela, mas seu rosto estava virado em minha direção, ela parecia ter perdido um pouco a cor. É, ela teria de conviver comigo, se não por bem, por mal. não podia fazer nada quanto a isso, nem qualquer outra pessoa.

- Grupo Azul! - Gritou o professor, só então ouvi sua voz novamente - James Bourne, , Meg Lutteron, , Sammy Cohen...
- PROFESSOR! - James gritou, com o braço erguido - Não é justo! - Sussurrou pra ao seu lado, ela fechou os olhos e abaixou o rosto - não pode vir para o meu grupo? A gente troca alguém! - Pediu ele, trinquei meus dentes e olhei para o lado.
- , você quer ir para o grupo Azul? - Sr. Dawson a questionou, tornei a olhá-la, agora curioso por sua reação, ela piscou algumas vezes e encolheu os lábios, pressionando-os um no outro. Sem perceber, cruzei meus dedos em uma figa, ela não faria isso, era o que eu dizia pra mim mesmo.
- Não, tudo bem, professor. - Sua voz saiu fraca, James se virou bruscamente, posso jurar que ele ia explodir a qualquer minuto, arqueou as sobrancelhas e disse algo em tom baixo, os dedos de James rodearam-lhe o pulso e eu suspeitei que estivesse doendo, por sua expressão assustada, dei um passo e recuei dois com o puxão de .
- Cara, não faz isso, não vale a pena. - Ouvi-o dizer e concordei com a cabeça, ainda com os olhos vidrados naquela atitude escrota de James. Eu tinha a breve sensação de que ele não sairia daquele resort com todos os dentes.

O professor continuou a falar os grupos, notei que nenhum de nós quatro ficou no mesmo grupo. Afinal, acho que a idéia do professor era desfazer as pequenas "panelas" e nos fazer relacionar com pessoas que ainda sequer sabíamos o nome. Achei a idéia interessante, podia ser muito válido. Ou não, ele deveria ter feito isso antes.
Sr. Dawson pediu que cada grupo se unisse em um canto pra que ele pudesse entregar nossos lenços. Assim fizemos, olhei pra , que fitava os próprios pés, distraída. Ignorei e dei atenção à professora, que nos entregava os lenços, enquanto o professor voltava a explicar.

- Enquanto a professora Hale entrega os lenços, vou falar sobre a liderança. - Disse ele, agradeci à professora que acabara de passar por mim - Cada grupo terá um casal de líderes - Olhei pra ele enquanto tentava amarrar o lenço em meu pulso - Os líderes também serão de minha escolha. Minha e da professora Hale. O grupo Amarelo... - Apontou para o grupo que estava do lado contrário, dele eu só conhecia Rico Lewis e - Os líderes serão Samantha Fox e Patrick Hanson. - Os dois comemoraram entre si e o resto do grupo pareceu completamente insatisfeito, até eu fiquei insatisfeito por eles, Samantha e Patrick, o casal mais antigo e mais imbecil de toda a escola, batemos palmas por obrigação - O grupo Verde! - Apontou para o outro grupo, que fez silêncio, apreensivos - Os líderes serão e . - Assoviei e bati palmas, ouvindo gritar idiotices com a entonação afeminada - Grupo Azul, James Bourne e - Ri sozinho e irônico, enquanto eles se abraçavam, comemorando - E por fim, do último grupo, Vermelho... - Assenti com indiferença e cruzei os braços - e .

Jurei que ia cuspir meu coração naquele momento. e eu nos entreolhamos por automaticidade e, como se algo nos proibisse de quebrar o contato visual, o mantivemos. Meu estômago parecia se encolher a cada minuto que passava, provavelmente assustado com o turbilhão de sensações que me assolavam sem uma gota de piedade. Notei que seus seios subiam e desciam rapidamente, ela estava tão nervosa quanto eu. O professor conseguiu o que queria, que era nos aproximar. Bastava saber se daria tão certo quanto ele achava que sim.

- Escolhidos os líderes, vamos às funções. - e eu desviamos os olhos e encaramos o professor, eu mal podia controlar minha ansiedade - Os líderes terão de me trazer uma poesia, uma composição, ou uma cena. Seja o que for, temos de ter uma prévia na quinta-feira à noite, valerá 40% dos pontos, junto com a apresentação, que será na sexta-feira à noite. - Nós assentimos devagar, não seria tão difícil pra mim - O grupo não poderá ajudar, por isto, eu irei escolher um olheiro de outro grupo para vigiá-los. - Deitei a cabeça pra trás, fechando meus olhos e dando um suspiro alto - Para os líderes do grupo vermelho... - Voltei a olhar para o professor, torcendo pra ele fazer a coisa certa - , do grupo Azu...
- HEY! - interrompeu - Eles são amigos, professor, e são amigos!
- , isto é só uma brincadeira, em primeiro lugar. E depois, não vai querer que seu grupo perca, se ele ver algo suspeito de outro grupo, vai denunciar, estou errado, ?
- Não, senhor. Também quero a vitória. - Disse ele, com um sorriso convincente, é um bom mentiroso e eu nem sabia.
- Muito bem, para os líderes do grupo Azul, , do grupo Amarelo. - Não contive uma gargalhada alta, não ia gostar muito disto e eu não podia evitar minhas palmas - Para os líderes do grupo Amarelo, Alicia Cohen, e por fim, para os líderes do grupo Verde, Max Thorton. - Sorri, alegre com as escolhas do professor, voltei então a cruzar meus braços - Os olheiros não precisam ficar perto dos líderes, pelo contrário, para evitar plágio, é preciso distância e ética... - Disse ele com um sorriso irônico - Os líderes terão apenas duas horas de cada dia para a realização de sua tarefa, então nestas horas os olheiros deverão apenas se certificar de que eles estão trabalhando sozinhos, sem o grupo, e no fim do horário os líderes me trarão o esboço da tarefa, ficará comigo até o dia seguinte.
- Que rígido! - gritou e eu dei risada, concordando com a cabeça, mas achando aquilo tudo muito positivo pra mim.
- Vocês são trapaceiros! - Sr. Dawson acusou com bom humor, nós rimos e ele sorriu, retirando seu óculos de grau - Alguma pergunta? - Ergui minha mão e, subitamente, todos se voltaram pra mim.
- Qual o horário que os líderes de cada grupo poderão trabalhar na tarefa? - Eu quis saber.
- Boa pergunta, sr. . - Disse o professor, assenti uma vez e esperei por minha resposta - Vocês podem escolher um horário entre vocês, o que for melhor para os dois, e vale lembrar que não precisam trabalhar 2 horas consecutivas, vocês podem trabalhar da seguinte forma, das 2 às 3 da tarde, e depois das 7 às 8 da noite, combinado? Só preciso que vocês me avisem e que os olheiros também sejam informados.
- Certo, valeu.
- Mais alguma pergunta? - Olhei para os lados, mas não houve respostas - Então vamos para a prova do dia, professora Hale.
- Ok, crianças. - A professora tomou a palavra - A prova é o seguinte, temos 100 balões naquela piscina, o grupo ficará do lado esquerdo dela, e apenas um dos líderes ficará do outro lado com um saco. - Explicava, gesticulando excessivamente, eu acabava sempre me perdendo na frase - Um por um, do grupo, vai entrar, pegar um balão, jogar no saco e sair da piscina, até acabarem todos os balões, estão prontos?

Sorri e assenti. Saí logo atrás do meu grupo até a borda esquerda da piscina, onde todos os outros estavam posicionados. parou ao meu lado, cabisbaixa, talvez envergonhada, fingia estar distraída com o lenço que segurava entre a ponta dos dedos, ela não queria falar comigo, mas ela não tinha escolha, certo?

- Quer que eu amarre no seu pulso? - Apontei para seu lenço, ela me olhou e voltou a olhar para o tecido vermelho.
- Se quiser. - Disse simplesmente, sorri e estendi minha mão, então ela me entregou a dela com a delicadeza costumeira.
- Você quer pegar os balões ou prefere ficar com o saco? - Questionei, dando um nó frouxo no lenço em torno de seu pulso, ela encolheu os ombros como quem não se importa.
- O que você prefere? - Ergueu sua cabeça em minha direção, parecia um pouco mais segura de uma hora pra outra - Posso ficar com a piscina? - Pediu, sorri e concordei com a cabeça.
- Tudo bem.

Andei até o outro lado da piscina e segurei o saco grande de estopa, abrindo sua boca o máximo que pude, facilitando a colocação dos balões. O professor apitou, dando início à prova. Vi Bill saltar para dentro d'água e segurar um balão com as duas mãos, nadando rapidamente até a borda, estiquei o saco e ele o colocou lá dentro, então o ajudei a subir e assim outro membro do grupo fez o mesmo. foi uma das últimas, saltou e nadou rapidamente até onde eu estava, emergiu e esticou-se, fiz o mesmo com o saco e ela conseguiu depositar seu balão ali, então apoiou suas mãos na borda e tentou erguer-se sozinha, dei risada e estendi minha mão, ela rapidamente a agarrou e se ergueu de lá, o tecido de seu macacão ganhara um tom mais claro, transparente, estava colado ao seu corpo, desenhando cada curva dele de forma perturbadora, suspirei alto quando me dei conta de que ela já estava do outro lado da piscina.

- Vamos à contagem! - Disse o professor, segurando o saco do grupo Amarelo com uma mão, e uma agulha com a outra - Me ajudem... 1! - Começamos a contar, enquanto ele estourava, um a um, os 31 balões.

O grupo Verde havia recolhido apenas 17, o Azul 27 e nós, consequentemente, 25. A equipe Amarela marcou os 10 pontos da primeira prova e as pessoas começaram a se dispersar, ir para seus bangalôs e se arrumarem para o jantar que já estava sendo servido, segundo Sr. Dawson.

- Cara, você espera a gente no restaurante? Vamos precisar ir trocar de roupa, a nossa tá molhada. - Disse , torcendo sua camiseta.
- Eu espero vocês aqui, mas anda logo!
- Tá, a gente já volta.

correu atrás de e , logo eu estava sozinho, exceto pela presença do professor Dawson, cruzei meus braços e andei até ele devagar, certificando-me de que não havia ninguém por perto.

- E então, sr. , o que achou da separação dos grupos? - Perguntou com um sorriso cúmplice, ri e assenti.
- Muito boa, professor. - Entrei na brincadeira por um instante - Agora sério, obrigado pelo que o senhor fez, acho que não teria outro jeito de ficar perto dela.
- Eu sei que não, espero que esteja disposto a ajudar.
- Ele não vai atrapalhar. - Neguei com a cabeça, seguro.
- Certo, eu vou jantar, você não vai?
- Vou esperar os caras.
- Ok, , boa noite.
- Boa noite, professor.

Assim que ele se afastou, acerquei-me da borda da piscina, com as mãos na cintura, aproveitando o vento úmido que parecia soprar por ali. Olhei as ondas leves que água fazia, e no fundo da piscina notei um objeto branco, não tardei a reconhecer a flor que trazia no cabelo mais cedo, provavelmente ela sequer notou sua perda. Olhei para os lados, não havia ninguém ali, suspirei, acho que me atrasaria para o jantar.

- ? - perguntou assim que entrei pela porta de casa.
- Vão indo, vou trocar minha bermuda.

Os garotos foram à frente, como eu havia dito. Troquei meu bodyboard molhado por uma bermuda seca, xadrez em escalas de cinza, e coloquei um cinto de couro preto pra segurá-la no quadril. Vesti a mesma camiseta que usava anteriormente, também os chinelos, agora apenas úmidos, e fiz meu caminho de volta até o restaurante.
Assim que passei pela porta avistei a mesa de meus amigos, não satisfeito, busquei por outra, suspirei alto ao ver sentada ao lado de James, que tinha seu braço colocado ao redor do encosto da cadeira dela, trinquei meus dentes e no caminho até lá controlei meu sistema nervoso, a ponto de explodir. Quando estava próximo o suficiente ouvi James dizer "Se ele fizer isso, acabo com ele". Então apoiei uma de minhas mãos sobre a mesa e o encarei com um sorriso.

- Acaba com quem, James? - Ri debochado e coloquei a mão livre no bolso de minha bermuda.
- O que você quer, ? - Ele quis saber, já se levantando.
- Com você nada, não seja pretencioso. - Sorri divertido e me abaixei lentamente ao lado da cadeira de , novamente seus seios subiam e desciam rapidamente, ela parecia assustada com minha aproximação - Achei isso. - Estendi sua presilha na palma da minha mão, ela sorriu sem jeito e a resgatou com a ponta dos dedos.
- Obrigada.
- Por nada. - Respondi com um sorriso sincero - Nos vemos às 9? - Ela me olhou como quem não entende - Para começar nossa tarefa, disse que ele e se encontrarão às 9, achei um bom horário. - Olhei pra por um momento e voltei meus olhos para , ela parecia angelical naquele instante.
- Tudo bem. - Concordou em um tom de voz quase inaudível.
- Então a gente se encontra aqui em frente ao restaurante.
- , se você ficar de graça...
- Relaxa, . - Interrompi-a, me levantando - Você conseguiu o que queria, aliás, meus parabéns, ninguém sabe ser vadia como você. - Houve uma exclamação muda dos demais, sorri forçado e dei-lhe as costas.
- VADIA É SUA MÃE! - Trinquei meus dentes, girei sobre meus calcanhares e, quando dei por mim, estava com meu indicador apontado frente ao rosto de uma ofegante.
- Lava essa tua boca suja antes de falar da minha mãe, garota, pois faça o que quiser fazer, você nunca vai ser metade da mulher que ela é! - Setenciei entredentes, juntou toda sua petulância e se levantou, dando um tapa em minha mão.
- Não mesmo, sou bem bonita pra ser comparada à metade dela. - respondeu, tentando, em vão, ser ofensiva.
- Uau... Uau! - Bati palmas e soltei uma gargalhada alta, irônica - , você sabe mesmo como deixar alguém arrasado, vou até chorar. - Continuei rindo enquanto andava lentamente até minha mesa, ela havia sido muito infeliz, e ela não teria paz se dependesse de mim.

Sentei, as coisas começavam a clarear de alguma forma. Bastava eu criar uma meta e então eu a alcançaria. Acho que eu precisava dos chacoalhões - no sentido literal da palavra - de para me lembrar que eu era melhor que isso e que eu podia resgatar um pouco de um que eu deixei pra trás para merecer , eu comecei a perceber, de repente, que ser um otário não a traria de volta e não era motivo para que eu me orgulhasse de mim mesmo. Lastimável perdê-la, mas seria muito gratificante recuperá-la.
Depois do jantar, compramos um sorvete e fomos para a beirada da piscina, onde algumas pessoas estavam aproveitando para se refrescar, inclusive , ele tinha certa atração por água, qualquer balde e ele já queria molhar a bunda.
O tempo parecia não passar, exatamente como quando e eu namorávamos e faltava apenas uma hora para nos encontrarmos, era sempre a hora mais longa do dia.

- Hey, caras, eu vou indo. - Saltei da cadeira assim que meu relógio de pulso marcou 20:52.
- Vai, antes que você desenvolva um tipo de TOC de tanto chacoalhar a perna.
É claro que não podia perder a oportunidade, ri forçado e fechei a cara antes de me afastar.

Enquanto eu caminhava até lá, com minhas mãos escondidas no bolso da bermuda, eu sentia meu estômago revirar, como se protestasse a quantidade de comida ingerida, mas na verdade eu sabia que não passava de ansiedade. Eu sabia que eu podia colocar tudo a perder naquele primeiro encontro, bem como eu poderia consertar muita coisa, mas as porcentagens eram exatamente iguais e qualquer deslize ou palavra errada poderia desabar com a minha chance.
O restaurante estava fechado, e suas luzes haviam sido apagadas, então a escadaria estava iluminada apenas por alguns holofotes acesos no jardim, pude vê-la sentada em um dos degraus, com a cabeça encostada no corrimão e os olhos perdidos em um ponto inexistente. Acerquei-me o suficiente pra que ela pudesse notar minha presença, e então obtive sua atenção. Estava adorável, com seus cabelos amarrados em um rabo-de-cavalo, e uma roupa seca.

- Oi.
- Oi. - Respondeu ela, com indiferença.
- Quer ficar aqui? Ou podemos ir procurar um lugar mais claro. - Sugeri, sentindo minhas bochechas arderem, como se eu estivesse envergonhado, mas eu não poderia estar, certo?
- Vamos procurar outro lugar. - Deu de ombros e se levantou, saindo à minha frente, mordi meu lábio e a segui.
- E então, o que achou das tarefas, digo... Desse negócio todo de líder.
- Legal. - Novamente indiferente e minhas bochechas queimavam, como se estivessem em chamas.
- Também achei... Uma boa idéia. - Murmurei, mas no fundo eu sentia que ela não se importava com o que eu achava ou não.
- Hm. - Suspirei e vi ela se encaminhar para um banco de madeira que ficava logo em frente à cerca de madeira, do outro lado havia apenas barrancos de areia e então, o mar.
- O que vai ser? Poesia, composição ou teatro? - Perguntei ao me sentar ao seu lado, ela deixou os chinelos na grama e encolheu os pés sobre o banco.
- Composição. Não é o que você faz? - Perguntou áspera, fechei meus olhos por um instante, apenas para controlar a vontade de deixá-la ali... Ou de beijá-la até fazê-la desistir daquela hostilidade.
- É, eu gosto de compor. - Respondi com indiferença e relaxei contra o respaldar do banco.
- Imagino, tem alguma composição sobre apostas? - Seu rosto virou-se em minha direção e um sorriso sarcástico desenhou-se em seus lábios, umedeci os meus, procurando uma resposta boa o suficiente.
- Não. - Dei de ombros - Mas tenho algumas sobre arrependimento, se quiser ouvir.
- Se ao menos fossem sinceras. - Continuava usando aquele tom que eu já detestava e não iria me acostumar nunca.
- Ok, podemos fazer isso do jeito fácil, ou do jeito difícil. - Eu disse e me ajeitei no banco, olhando-a nos olhos - Podemos deixar nossas diferenças e mágoas de lado e ganhar os 40 pontos, ou podemos ficar discutindo sobre algo que nenhum de nós quer lembrar e afetar o grupo todo por isto. - Falei sem trepidar, pareceu surpresa com minha atitude, mas logo se recompôs.
- Perfeito, , vamos começar logo com isso.

logo cedeu à pressão dos meus olhos e desviou os seus para o mar. Eu não sabia se havia feito o correto, mas eu precisava deixá-la segura antes de começar a me explicar, se eu fizesse isso no primeiro dia, certamente ela não retornaria no segundo, ou se o fizesse, estaria preparada para me atacar de todas as formas possíveis. Respeitei seu silêncio e a única coisa que ouvia agora era as ondas se quebrando não muito longe dali, suspirei e fechei meus olhos, desfrutando da sua presença imóvel ao meu lado.
Olhei para , ela tinha o queixo apoiado em seus joelhos e os olhos fixos na vista à frente, seus cabelos levados fortemente pra trás pelo vento, chicoteando suas costas e o respaldo do banco. Ela estava tão próxima de mim que eu podia tocá-la, mas tão longe que eu mal podia falar com ela.

- Posso te fazer uma pergunta? - Me ouvi pedir e mordi meu lábio em seguida, reconhecendo que havia falado demais.
- Uhum. - Respondeu sem me olhar, aproveitei disto para me sentir mais confortável.
- Eu te fiz feliz? - não se moveu, nada disse também, apenas piscou algumas vezes, lentamente.
- Que diferença isso faz? Minha resposta vale uma palheta? - Respondeu sem hesitar, mas continuou a olhar pra frente.
- Eu te fiz feliz? - Repeti uma vez mais e o faria até obter uma resposta, positiva ou negativa.
- Por que quer saber? - Virou-se pra mim, com os dentes trincados - Isso não muda nada!
- Muda pra mim! - Afirmei, ela tornou a olhar pra frente, notei que seu queixo tremia, eu não queria fazê-la chorar de novo, mas eu precisava saber - Vou te perguntar uma última vez, e se você não respoonder vou considerar como um não. Está bem? - Nem um gesto partiu dela - Eu te fiz feliz? - Traguei com força a bolha de saliva presa em minha garganta, ela não ia me responder - Eu te fiz feliz aquela noite antes que estragasse tudo?
- Você estragou tudo! - Ralhou - Será que não vê?
- Eu te fiz feliz antes disto? Eu quero saber se antes de você chorar tanto por minha causa... Se por um mometo, um único momento, eu te fiz sorrir com os olhos.
Eu falava com a entonação embargada, esperando que ela não notasse o desespero que parecia se propagar em meu peito.
- Eu... Não quero falar sobre isso e se você quer deixar mágoas e diferenças de lado, podemos começar agora.
- Ok, eu entendi.

Calei-me. Eu não ia pressioná-la, até porque eu não havia nada mais a dizer. Se ela preferia ser infantil, eu deixaria que ela fosse sozinha. Eu não entraria em seu jogo a menos que fosse pra ganhar, e pra isto eu precisava ser cuidadoso.
Peguei o bloco de papel e a caneta que eu trouxe no bolso, olhei para as linhas em branco e rabisquei o canto da folha enquanto pensava em algo bom o suficiente pra escrever.

- Finalmente, se nós pudermos apenas ter algum tempo, então você poderia conversar comigo... - Eu senti seus olhos sobre mim enquanto eu lia o que havia sido escrito e reescrito algumas vezes - Você não consegue ver que não temos tempo para disperdiçar nossas vidas? - Terminei de ler e mordi meu lábio, eu não diria que tinha ficado ruim, mas retratava minha realidade, e esta não estava nada boa, o que resulta em tristeza, no final das contas. - Você entrega? - Perguntei deixando o bloco de notas ao meu lado, então me levantei.
- Aonde vai?
- Boa noite, .

Eu precisava sair dali antes que ela reconhecesse meus olhos marejados. Eu não gostava que as pessoas me vissem sofrer daquela maneira, umas porque teriam pena de mim, mas no caso de , ela provavelmente se sentiria satisfeita e eu não permitiria nenhum sorriso dela sobre minhas lágrimas. Eu não sabia bem porque estava me sentindo daquela forma, mas eu precisava ficar sozinho, foi então o que fiz. Arrastei-me até o bangalô, vazio, como eu esperava, e subi até o quarto. Retirei minha camiseta e me dei a permissão de fuçar nas coisas de até encontrar o creme que ele iria me emprestar, despejei uma boa quantidade em meus ombros e nas bochechas, talvez toda a ardência que eu havia sentido fosse efeito do sol. Certo, não enganei a ninguém.
Peguei meu iPod e desci, lancei-me contra o sofá, que pareceu me abraçar. Dali eu podia olhar o quiosque através da parede de vidro, dando-me uma sensação de conforto indecifrável. Coloquei os fones em meus ouvidos e por ali fiquei, sentindo-me seguro. Não havia mais vontade de chorar, apenas de ir pra casa, mas antes que eu planejasse qualquer coisa, adormeci.

Capítulo 3.
"And she comes and goes, and comes, and goes like no one can"
(Neon - John Mayer)

- Melhor acordar ele. - Ouvi de maneira distante a voz de .
- Não sei, e se ele não conseguir dormir de novo? - parecia preocupado, abri meus olhos e vi a silhueta dos três quase sobre mim, como se eu tivesse bêbado, era sempre assim que eu acordava quando tomava um porre e apagava.
- Hey, dude, tudo bem? - quis saber, contraí o cenho.
- Tudo, por quê?
- Não sei, nós chegamos e você 'tava dormindo aqui, e escutando N'Sync. - Ele deu de ombros e eu comecei a rir, retirando os fones do meu ouvido.
- Tem uma função aleatória no iPod, sabiam? - Sorri e cocei meus olhos.
- Bom, já que está legal, eu vou me deitar. - ignorou o que eu havia dito e saiu, fez o mesmo, então me olhou minuciosamente.
- Como foi lá? - Quis saber, indo para a cozinha, sentei no sofá e deixei o iPod sobre o braço dele.
- Não sei. - Bocejei e vi me estender uma cerveja - Onde conseguiu isso?
- Antony, sabe-se lá como ele conseguiu isso. - Dei risada e abri minha longneck, vendo se sentar na cadeira de balanço, anteriormente ocupada por mim, e virá-la em minha direção - Vamos lá, , como se sente sobre isso? - Fez sua melhor expressão compreensiva, gargalhei e clareei a garganta antes de tomar um pouco da minha cerveja.
- Ela não ‘tá economizando na grosseria, mas eu não tiro a razão dela.
- E como você se sente sobre isso? - Tornou a perguntar, arrancando-me uma gargalhada, isso o fez rir também.
- Eu me sinto um merda, mate, mas de alguma forma estranha, eu sei que vai passar se eu apenas não der o que ela quer. - Dei de ombros, convencendo-me do que eu mesmo havia dito.
- Ahn... E o que ela quer? - Arqueou as sobrancelhas.
- Um moleque que entre no jogo dela. - Apoiei meu braço atrás da cabeça e tomei mais um gole da minha cerveja - Ela terá um homem, se quiser.
- Se não quiser... - me olhou de esguelha e sorriu de um jeito feminino, comecei a rir imediatamente - Você sabe que sozinho não vai ficar, não é?
- Olha, , você deveria ser gay, você é muito bom nisso. - Gargalhei, apertando meus olhos e deitando a cabeça pra trás.

Era em momentos como aqueles que eu me esquecia dos problemas, eu preferia deixá-los reservados para mais tarde, quando eu estivesse sozinho. Eu estava decidido a não pirar e não sofrer, eu iria me preservar em uma linha entre o que eu deveria e o que eu queria fazer. E se não desse certo, eu estava pronto para as consequências.
e eu ficamos ali conversando sobre coisas aleatórias até bem tarde e, quando ele foi se deitar, me peguei sem sono. Subi e busquei pelo violão que me havia “dado”. Desci novamente e me acomodei na cadeira de balanço, abrindo o case com um cuidado quase desnecessário. Quase, pois aquele era um Takamine eg560c. Encostei-me ao sofá e continuei olhando-o em meu colo, eu não tinha valor pra pegá-lo, eu não merecia nada que viesse dela, muito menos um violão como aquele. Passei as mãos pelo meu rosto e me rendi ao desespero de tocar suas cordas e saber o som que elas produziam, eu não ia ficar com aquele, mas talvez eu pudesse ao menos afiná-lo... Talvez tocar uma música.

- Que isso?! - Ouvi perguntar.
- Eu vou devolver. - Defendi-me subitamente.
- É o violão que a te deu? - Ele perguntou, sentando-se na mesinha à minha frente.
- É. - Concordei com a cabeça, dedilhando-o ainda.
- Tens de ser um jovem de muita coragem para devolver esse violão. - Ri, concordando com a cabeça.
- E como ainda sou um jovem bem covarde, eu farei o sacrifício de ficar com ele um pouco mais...
- Alguém acorda o , eu desisto. - livrou-se da responsabilidade, espreguiçando-se.
- Eu vou subir pra me trocar e aproveito pra acordá-lo. - Murmurei desgostoso, levantando - , dá uma olhada dentro do case... Só olhar, não toca. - Apontei pra ele, ameaçando-o, depois subi as escadas rapidamente.

Entrei no quarto e vi esparramado de bruços sobre a cama, inclinei-me pra perto dele e enchi meu pulmão de ar antes de dar um grito em seu ouvido, ele pulou assustado para fora da cama, com os olhos saltados e o rosto mais pálido. Sorri abertamente antes de começar a rir verdadeiramente, caminhando em direção ao banheiro. Por que eu não fiquei no mesmo quarto que ? Ele não costuma tomar muitos banhos, o banheiro tinha maiores possibilidades de ficar em ordem. Fiz minha higiene matinal e molhei meu cabelo pra ver se melhorava a situação. Coloquei meu boardshort preto e uma camiseta colorida da Volcom. Calcei meus chinelos e me perfumei antes de sair do banheiro, revirei minha mala até encontrar um boné, então peguei meus óculos e saí, ouvindo pedir que esperássemos por ele.

- Odeio acordar cedo. - Era pelo menos a terceira vez que repetia essa frase.
- Cara, olha pra isso! - o alertou, com os braços abertos - Você vai mesmo ficar dormindo com todas essas garotas de biquini passeando por aqui?
- Mas eu tenho o dia todo pra ver bunda, por que tenho que ver às 10 da manhã?
- Pára de reclamar, sua bicha. - Dei um tapa em sua cabeça.

O restaurante estava cheio, parece que todos tinham seguido nossa linha de raciocínio, acordar cedo pra aproveitar tudo o que tinham a nos oferecer ali, além do mais, era nossa última semana antes de voltar às aulas.
Após colocar na bandeja toda comida que eu achava necessária para me satisfazer, me sentei com os caras. Eu podia ouvir meu estômago comemorar a cada coisa que eu engolia. Mas a fome pareceu se afugentar quando entrou no restaurante acompanhada de James, e Matt. "Oh, que lindo, café-da-manhã em casal", pensei naquele momento. Ela estava tão linda, que eu os invejei por tê-la tão perto. Voltei meus olhos para meu prato, mas o pão já não me atraía, ele não passaria por minha garganta naquele momento, então peguei o copo de suco e me obriguei a tomá-lo.
Eu desejava em silêncio que terminasse de comer logo, assim poderíamos sair dali, mas ele parecia mastigar cada vez mais devagar. Virei meu rosto para o lado e bufei, tentando não fazer muito alarde da minha impaciência. Por um momento era como se eu tivesse entrado em pane, eu e nos entreolhamos, mas isto já não me deixava tão surpreso, o que sumiu com todos os meus sentidos foi o esboço de um sorriso fraco que desenhou-se em seus lábios, contraí meu cenho, permitindo que ela notasse minha confusão, então ela virou-se para frente, eu estava completamente atortoado com suas oscilações de humor, isso era injusto.
finalmente acabou com a montanha de comida que ele havia feito e nós nos retiramos dali, ficar perto dela, mesmo que de longe, me fazia mal, por mais que eu estivesse decidido a não me sentir assim, era incontrolável. Eu queria entendê-la, decifrá-la, mas agora isso me parecia impossível, eu estava até disposto a tentar, mas me sentia incapaz.
Tirei meus chinelos assim que chegamos ao fim da escadaria de madeira apodrecida e abarrotada de montes de areia. Começamos a andar pela praia devagar, olhando as poucas pessoas espalhadas por ali. Era como uma praia privativa do resort, já que ficava distante e praticamente não era visitada por ninguém. Paramos em um quiosque e alugamos quatro bodyboards para nos divertimos enquanto estivessemos ali.
Haviam algumas garotas sentadas na beirada da praia, que ficavam rindo de nossos tombos, na verdade, elas estavam ali apenas esperando nossa atitude. Os garotos se entreolharam e decidiram silenciosamente que queriam conhecê-las e eu os segui. Não poderia passar o resto da minha vida fugindo de mulher, até porque eu nunca tive a menor pretenção de virar gay.

- Hey. - disse ao se acercar, agitei meu cabelo propositalmente, só pra ouvi-las gritar e se encolher da água, ri - ! - Ele fingiu desapontamento e eu ri mais.
- Desculpa, moças. - Pedi apoiando meu braço no ombro de .
- Tudo bem. - Uma delas disse, com um sorriso aberto em seu rosto.
- Eu sou , esses são meus amigos , , e o idiota ali é o .
- Prazer, meninos. - Outra delas disse, levantando-se. Estendi minha mão para ela enquanto via as outras se levantarem também - Sou Abbie, esta é minha irmã Mia, aquelas são Rebecca e Molly.
- O prazer é nosso. - disse, com um sorriso fechado.

Abbie tinha aproximadamente minha altura, cabelo loiro dourado e era magra demais pra mim, Mia era sua irmã gêmea. Só descobri depois que elas disseram, pois Mia tinha bochechas um pouco mais volumosas e seu cabelo tinha um corte diferente, mais repicado, e um tom mais escuro que o de Abbie. Molly tinha cabelos ondulados e tingidos de vermelho, sua pele era extremamente branca e tinha grandes olhos verdes. E por fim, Rebecca, não muito alta, tinha a pele dourada e seu cabelo castanho claro era um pouco acima dos ombros, cacheado, mas não volumoso. Seus olhos tinham formato de amêndoas e cor de mel, seus lábios eram cheios e suas bochechas avermelhadas. Seu corpo era muito bem espalhado, apesar de sua pouca estatura, é, se eu tivesse que ficar com uma delas, seria com Rebecca.

- Então, garotos, vocês são de Londres mesmo? - Perguntou Mia enquanto caminhávamos em direção a um quiosque.
- Não, somos de Bolton. - informou junto a uma careta - Pretendemos ir para Londres logo que terminarmos o colegial.
- Ah... Vocês ainda estão no colegial? - Elas se entreolharam e eu soube que elas eram mais velhas que nós, e isso não era bem um ponto positivo na maioria das vezes.
- Vocês não. - falou devagar.
- Não, estamos terminando a faculdade. - Rebecca respondeu e me olhou, sorri enviesado.
- Legal. Temos uma banda. - contou, tentando reparar seu erro.
- Mesmo?! Como é nome? - Quis saber Molly, pendurada no ombro de .
- McFLY...

Os assuntos surgiam, aleatoriamente. Elas eram divertidas e isso facilitava tudo. Almoçamos em uma lanchonete que ficava na praia e gastamos toda nossa tarde com elas. beijou Abbie... também. Mas nenhum deles sabia desse fato até ficar com Mia e se gabar por ter ficado com as gêmeas, bom, nós só rimos. Molly atacou , sem piedade nenhuma, ele ficava nervoso demais perto de garotas bonitas, mas ela tinha atitude e fez a parte dele também. Rebecca e eu conversamos durante um longo tempo, só nós dois, enquanto os outros se divertiam em casal. Ela era uma garota legal e eu estava feliz por estarmos tendo um bom momento juntos, então nos beijamos. Não havia clima, química, e todas essas coisas que costuma ser necessária. Só nos beijamos, eu a enrolei o dia todo, seria injusto me despedir com um aperto de mão. E no fim das contas valeu a pena, ela beijava bem.

- Vamos nos atrasar! - dizia enquanto subiamos as escadas em direção aos quartos.
- Culpa do . - Acusei, entrando no quarto - E por isso eu tomo banho primeiro!
- Eu não tenho culpa se aquela garota é maluca e só faltava arrancar minhas calças lá mesmo! - Ele se defendeu e nós gargalhamos.
- É bom que você tenha gostado disso, porque eu as chamei pra jantar com a gente, tudo bem? - disse e eu rapidamente o encarei com minha melhor expressão de poucos amigos - , vai por mim, a hora que a te ver com ela...
- Isso não tem nada a ver com a , ok? - Respondi, sem paciência.
- Não? - arqueou sua sobrancelha e eu respirei fundo.
- Cara, relaxa, agora é 8 ou 80, se ela se sentir enciumada, é porque ainda gosta de você apesar de tudo, e essa nova versão, esse rolo com James, isso tudo é fachada, entende? - me mostrou um novo ponto de vista e eu ponderei em silêncio.
- É, faz sentido. - Assenti e joguei toda minha roupa de volta na mochila, jogando-a sobre a cama - Vou escolher algo especial pra essa noite. - Os garotos riram da minha dança ridícula e depois se dispersaram para ver quem ia tomar banho primeiro no outro banheiro.

Escolhida minha roupa, corri para o banheiro. Não que eu achasse mesmo que tentaria ir primeiro, ele estava no sofá tentando se recuperar do furacão Hotlly, haha. Não me demorei muito, começou a dizer que já estava pronto, ou seja, nem banho ele devia ter tomado, mas isso não me surpreenderia, de forma alguma. Coloquei uma bermuda cor nude e uma camiseta preta, apenas pra realizar a prova que nos seria dada, mais tarde eu me arrumaria melhor. Enquanto arrumava meu cabelo, eu ouvia cantar "Same Jeans" do Mika, desde o banheiro. Desci entre risos até a sala, já estava lá, jogando dardos, juntei-me a ele para esperar pelos outros.
Como era de se esperar, fomos os últimos a chegar na piscina principal, a prova já havia sido explicada, então o professor pediu que o grupo explicasse-nos. surgiu entre os membros do meu grupo, trazendo em seu rosto uma expressão singela, estava especialmente delicada dentro daquela roupa.

- Vem, você vai ficar na cadeira. - Disse ela me puxando pelo pulso, sorri e a segui.
- Mas eu não sei o que tenho que fazer. - Murmurei e senti meu corpo cair desajeitadamente na cadeira depois de um empurrão dela, encarei-a, perguntando-me se essa era a hora que ela sentava no meu colo e me beijava... Não.
- Você tem que ficar parado. - Respondeu ao meu comentário e começou a me envolver com uma corrente grossa, então colocou um cadeado grande nela - O grupo vai vir até aqui, um por um, e testar chave por chave desse molho aqui, assim que abrir, você sai correndo, pula na piscina, nada até o outro lado e toca o sino que 'tá preso naquela árvore. - Apontou, assenti prontamente.
- 'Tá, você pode tirar meu tênis? - Sorri forçado, ela suspirou com uma sobrancelha suspensa, depois assentiu e abaixou-se à minha frente.

desfez os cadarços do meu tênis e os retirou, um por um, com a delicadeza que emanava de cada um de seus gestos. Eu já estava descalço, mas ela ainda estava abaixada, contraí o cenho e senti uma cócega quase imperceptivel em minha pele, inclinei-me um pouco e notei que com o indicador ela contornava a estrela tatuada acima do meu pé, ela me olhou e sorriu sem jeito, depois levantou-se e correu em direção ao grupo, mordi meu lábio e me encostei na cadeira, tentando recobrar a lucidez que de repente me foi roubada.
A prova teve início a partir do apito de Sra. Hale. A correria começou, eu apenas sentia pisões em meus pés, era inevitável. Eu estava rindo do tombo de um integrante do outro grupo quando ela se acercou, também rindo, estava descalça, pude sentir seus dedos pisarem sobre os meus, seus cabelos escorregaram e cobriram parte de seu rosto enquanto ela tentava abrir o cadeado com a chave escolhida, frustrada, bufou e soltou o molho de chaves, correndo de volta.
James foi o primeiro a ser solto, depois , então senti a corrente afrouxar, sem esperar que Patrick se levantasse de sua cadeira, agora que também estava solto, saltei na piscina e dei braçadas fortes até a outra borda, por onde saí e corri até o sino, sentindo Patrick pular nas minhas costas. Ri sozinho e ergui meus braços, comemorando com outra das minhas danças.

- 10 pontos para o grupo Azul, 8 para o grupo verde, 6 para o Vermelho e, por fim, 4 pontos para o grupo Amarelo. - Batemos palmas e me acerquei de meu grupo.
- . - Chamei, ela desviou seus olhos de Steven e veio até mim, respirei fundo antes que estivessemos completamente próximos, assim talvez ela não percebesse o quanto ela ainda me deixava nervoso.
- A gente se vê hoje 9 horas?
- Sim, por que não? - Sorriu sem entusiasmo, então a envolveu pelo braço e a carregou consigo.

Olhei pra trás e vi encolher os ombros, fiz o mesmo e depois o segui para perto dos outros dois, para podermos ir até o bangalô nos arrumarmos para o jantar. As garotas provavelmente já estavam por lá e seria interessante a reação de todos ao ver-nos com elas. Mas confesso, havia uma dose de medo que ainda me perturbava, e se eu colocasse tudo a perder de vez? Tentei não pensar mais nisso, acreditei que, ao me ver com Rebecca, talvez percebesse que estava sendo rígida demais comigo, consigo mesma e com nós dois, como um casal.
Troquei minha boxer por uma seca, minha bermuda por uma calça jeans justa e de lavagem preta, mesma cor do cinto de couro que a suspendia em meu quadril, então me perfumei e vesti uma camisa jeans clara de mangas curtas, ajeitei sua gola e calcei meu tênis, novamente arrumei meu cabelo, agora com a ajuda de um pouco de mousse.

- Nossa! Temos um novo homem bem aqui! - exclamou ao me ver descer as escadas, dei risada e passei a mão pelo cabelo, dando meu melhor sorriso.
- Moças, cheguei. - Falei com a voz mais sensual que consegui para depois gargalharmos, saindo de casa para encontrar as garotas em frente ao restaurante.

Assim que nos aproximamos, pudemos reconhecê-las paradas no primeiro degrau, Molly rapidamente se acercou, saltitando sobre seus saltos altos até , que a recebeu com um beijo caloroso, é, nosso garotinho estava crescendo. Fiquei em dúvida, com quem ficaria? Mas foi mais rápido, segurou a mão de Abbie e depositou um beijo sobre ela, ri debochado e detive meus passos, enterrrei minhas mãos nos bolsos de minha calça, vendo Rebecca caminhar lentamente até mim, ela usava um vestido delicado, seus cabelos brilhavam tanto quanto os brincos em suas orelhas, estava bastante maquiada, e notei que também perfumada quando senti seu corpo encostar-se ao meu.

- Você está lindo. - Elogiou após colar seus lábios nos meus por alguns segundos.
- Você também. - Ela sorriu abertamente e eu deixei uma de minhas mãos na base das suas costas, mantendo a outra em meu bolso.
- Hey, vocês, vamos entrar! - chamou, e já estavam entrando junto com as garotas.
- Vamos. - Rebecca começou a andar, fiz o mesmo.

Inflei minhas bochechas com ar e o soltei devagar quando nos aproximamos da porta. Eu queria segurar a cintura de Rebecca, mas ao mesmo tempo algo me impedia. Era incontrolável, eu mal podia esperar pra ver a reação de , enquanto ao mesmo tempo eu temia, de maneira alucinante, que saísse do meu controle de uma vez por todas. Foda-se, era tarde demais.
Assim que pisei para dentro do salão senti como se eu estivesse no palco, o centro das atrações, literalmente. Rebecca me olhou por um instante e eu estava nervoso demais para olhar para os lados, então sorri sem humor pra ela e apontei com o queixo para a mesa que meus amigos haviam escolhido, educadamente coloquei minha mão em suas costas e a conduzi até lá, e só quando puxei a cadeira pra que ela se sentasse, pude ver aqueles olhos perdidos entre os muitos outros, e diferente de todos, estes tinham lágrimas acumuladas sob a pálpebra inferior, um soluço eclodiu em minha garganta, mas me controlei, o máximo que pude, para não ir embora dali e mostrar a ela que não era nada do que ela poderia estar pensando, que eu ainda a amava mais do que qualquer coisa. Eu não podia agir como um idiota, e precisava mostrar a ela que apesar de tudo o que fiz, eu já havia pagado por isso ficando sem ela.
Sabe quando você está em um lugar e tem uma placa de "Proibido a entrada", então tudo o que você quer fazer é entrar? Eu me sentia assim, eu sabia que não podia olhar pra ela, mas eu simplesmente não conseguia prestar atenção na conversa, nem fazer outra coisa que não fosse me policiar para não me virar em sua direção, e ainda assim às vezes eu me pegava esticando o pescoço e buscando-a entre as cabeças à minha frente.

- , está tudo bem? - Rebecca quis saber quando já tinhamos terminado de jantar.
- Sim, por quê? - Olhei-a com indiferença, eu não queria ser grosso, mas também não queria ter de explicar nada.
- Você parece preocupado. - Murmurou, com um sorriso cúmplice.
- Nada de mais. - Dei de ombros e ela riu baixinho, encostando seu queixo em meu ombro.
- Quer dar uma volta? Esse lugar parece estar pesado pra você. - Contraí o cenho e ri, rolando os olhos.
- Ok, você venceu, vamos.
- Hey, eu e vamos dar uma volta, até mais tarde. - Rebecca disse se levantando junto comigo.
- Hmmm! - Eles fizeram e eu senti que novamente todo mundo estava nos observando, soltei um suspiro alto e caminhei até o caixa.

Rebecca segurava meu antebraço enquanto caminhávamos lentamente pelo resort, sem um lugar certo pra ir, mas acabamos chegando a uma das piscinas, apontei para uma espreguiçadeira pouco iluminada e nos sentamos lá, um ao lado do outro, sucumbidos no mesmo silêncio que perdurou todo o caminho até ali.

- Ela estava lá, não estava? - Rebecca questionou - A garota por quem você é apaixonado. - Umedeci meus lábios e estralei meus dedos, então sorri fraco e olhei pra Rebecca - Pode falar, , não é como se fôssemos namorados. - Ri sem graça e olhei pra frente.
- Estava. - Admiti e respirei fundo.
- Hm, e... Qual a história de vocês? - Ela quis saber, olhei pra Rebecca e mordi meu lábio, eu iria contar mais uma vez tudo aquilo que eu tanto me arrependia?
- Havia essa garota, e eu a apostei...

Sim, tornei a contar toda a história para Rebecca, que vez ou outra me interrompia para perguntar algumas coisas. Pacientemente eu respondia e tornava a relatar, como se estivesse escrevendo um livro, cronológicamente, às vezes eu até imitava o jeito como falava comigo, nós riamos disso. Fazia bem falar sobre as coisas boas que passamos juntos, era uma recordação boa, que me deixava mais aquecido e confiante.

- Sabe o que eu faria no lugar dela? - Encarei-a, com os antebraços apoiados em meus próprios joelhos - Mandaria todos à puta que pariu e sairia de lá com você.
- Como assim? Por que você faria isso? - Sorri sem jeito e neguei com a cabeça.
- Porque eu não gosto de finais clichês. - Rebecca riu da minha expressão, provavelmente confusa - , por favor, a gente sente quando uma pessoa gosta da gente, e se eu, que nem participei da história, sinto que você gosta dela, ela provavelmente sente isso muito mais, a gente sabe quando é verdade e quando é mentira, a gente sente... - Ela dizia tudo isso de forma maravilhada, olhando pra cima e gesticulando com exageiro - Eu, no lugar dela, teria dito a todos que poderiam dizer o que fosse, e que você poderia ter cometido todos esses erros antes de se apaixonar por ela, mas que isso não faz diferença nenhuma agora... Eu teria... Teria me preservado, e preservado o relacionamento, porque... Se a prima dela estivesse realmente preocupada com o bem estar dessa garota, ela teria se trancado em um quarto com ela e contado tudo, sem escandalizar porra alguma. - Rebecca me disse e eu concordei com a cabeça - Eu no lugar dela estaria com você aqui agora, e não como eu estou, mas em algum lugar escondido, fazendo sexo, porque, por favor, este lugar é maravilhoso pra deixar passar assim. - Gargalhamos e eu assenti, coçando a bochecha com desconcerto - Por que você não a agarra? Já pensou nisso?
- Não... - Disse com sinceridade e depois ri - Ela iria se afastar.
- Quem te garante? Quando ela descobriu metade das coisas, você me disse que fez isso e ela cedeu. - Deu de ombros, semicerrei meus olhos e me recordei daquele dia, daquela cena, daquele orgasmo.
- Não é má idéia. - Murmurei, assimilando o que ela havia me dito.
- Nossa, que cabelo lindo. - Ouvi-a sussurrar ao meu lado, olhei pra seu rosto e depois para onde ela estava olhando, então parei de respirar, meu estômago parecia-se mais com um grande cubo de gelo dentro de mim, traguei em seco - O quê? É ela?
- Oi, , está atrasado para nosso encontro.


Capítulo 4.
"Only you can cool my desire, I'm on fire"
(Bruce Springsteen)

- Ah... - Foi tudo o que saiu de mim, estava parada na nossa frente com uma expressão congelada, em sua mão, reconheci o bloco de notas que usamos na noite anterior.
- Prazer, sou Rebecca. - Vi a garota ao meu lado se levantar e estender sua mão para , que pareceu cogitar a possibilidade de não cumprimentá-la, mas o fez.
- . - Disse, simplesmente.
- Bom, vocês precisam trabalhar, né? Então eu vou indo. - Rebecca disse e olhou de para mim, sorri sem graça e me levantei devagar.
- Vocês querem que eu saia? - perguntou em um tom irônico que eu nunca tinha a visto usar, olhei pra ela e tudo o que fiz foi dar de ombros, disfarçando minha surpresa.
- Não precisa. - Rebecca disse entre risos, então se aproximou de mim e depositou um beijo demorado no canto da minha boca - A gente se vê. - Disse ela, nos dando as costas e andando um pouco - Ah! - Virou-se, eu e tornamos a olhá-la - Se você conhecer a garota pela qual é apaixonado, por favor, diga a ela que é uma sortuda. - Enrijeci todos os músculos do meu corpo, estático, apenas deixei meus olhos se esgueirarem para o lado e encarei a reação de , ela também parecia petrificada com o pedido de Rebecca, que agora já desaparecia do nosso campo de visão.
- Ahn... O... Professor, ele me entregou a composição. - disse, agora virando-se pra mim, traguei em seco e a examinei seu rosto inexpressivo outra vez.
- Podemos ficar por aqui hoje? - Apontei com a cabeça para a espreguiçadeira, ela assentiu e sentou-se, fiz o mesmo ao seu lado e recebi o bloco de notas.

Li o que eu já havia escrito e notei que ela havia acrescentado uma frase. Dizia: "Honestidade era tudo o que eu sempre quis que você me mostrasse, e tudo o que eu sempre precisei". Trinquei meus dentes discretamente, aquela mesma vontade de sair dali começou a crescer dentro de mim, mas desta vez não o fiz. Eu não ia ceder novamente, não tão rápido.

- Pensei em algo durante o dia, posso escrever? - Pediu ela, dei de ombros e devolvi o bloco de notas.
- Escreve aí. - Dito isso me recostei à espreguiçadeira, esticando minhas pernas ao longo dela e descansando um dos braços atrás de minha cabeça.

me olhou por um instante, fingi não sentir seu olhar pesando sobre mim enquanto eu estralava meu pescoço com calma, com os olhos fechados. Depois voltei a mirá-la, concentrada no que escrevia rapidamente. Com a ponta de seus dedos, arrastou uma mecha de seu próprio cabelo para trás da orelha, permitindo que a pouca iluminação amarelada de um dos postes alcançasse sua bochecha direita. Tão linda como há muito eu não a via, tão minha.
Arqueei meu tronco e apoiei meu pé no chão, arrastando meu corpo para trás do dela, então apoiei meu outro pé no chão, de modo que ela ficasse sentada entre minhas pernas. sobressaltou e parou o que fazia quando encostei meu peito em suas costas, roçando minha bochecha em sua orelha. Fechei meus olhos, sentindo o perfume familiar de seus cabelos e pele.

- , por favor. - Sua voz falha me chamou a atenção, mas seu corpo estava imóvel.
- Come on, , você não sente falta? - Murmurei com rouquidão próximo do seu ouvido, sua mão apertou meu joelho e o bloco de papel escorregou por entre seus dedos, caindo ao chão - Não sente?
- Chega! Você não merece nada de mim! - Esbravejou, levantando-se de uma vez, também o fiz, quase ao mesmo tempo, e segurei seu antebraço, puxando-a de volta em direção ao meu corpo.
- Chega, você, de fugir... Você quer isso tanto quanto eu. - Murmurei, segurando seu cabelo embrenhado entre meus dedos.
- Não... - Ela disse apressada. Sorri e, com a mão livre, guinei seu corpo pra frente, ela tropeçou em meus pés e apoiou suas mãos em meu peito, resfolegando como se acabasse de correr alguns metros - Pára, por favor.
- Resista, se puder.

Murmurei em seu ouvido, roçando meu rosto ao seu. Escorreguei meus lábios entreabertos por seu pescoço enquanto sentia seus dedos pressionarem meu peito sobre minha camisa, como se quisesse me afastar, ou apenas foi a maneira que encontrou de não retribuir nada do que eu lhe proporcionava. Quando me dei conta de que ela não sairia dali, parei de pressioná-la contra mim e comecei a excursionar suas costas com minha mão livre, ainda segurando seu cabelo com a outra; Senti o tecido macio de sua saia sob minha palma e apertei sua nádega, puxando-a pra perto com um pouco mais de força, o que lhe arrancou um suspiro ruidoso, contra meu pescoço, onde sua respiração batia pesadamente.
Trilhei um caminho de beijos por sua garganta, então seu queixo, e parei com meu rosto frente ao seu, e naquele momento eu arfava tanto quanto ela, conseqüência da ansiedade que parecia querer me tirar todos os sentidos. Seus olhos se abriram e se cruzaram com os meus, senti suas mãos em meu rosto, seus polegares faziam movimentos circulares em minha bochecha, quase como se pedissem que eu fechasse meus olhos, então o fiz, sentindo a ponta de seus dedos escorregarem até minha nuca. Cerrei meu punho, segurando seu cabelo com mais força, então conduzi seu rosto para mais próximo do meu. Senti seu hálito fazer cócegas em meus lábios antes que eles entrassem em contato com os seus. Não havia paciência, tínhamos saudade, tínhamos urgência, então nos beijamos como se precisássemos daquilo pra nos mantermos vivos. Nos devoramos, um ao outro, ela parecia tão desesperada por isto quanto eu.
Sem dificuldade, amparei suas coxas e suspendi em meu quadril, sentando-me na beirada da espreguiçadeira, já que minhas pernas bambas de ansiedade não me permitiriam ficar em pé.
Minhas mãos percorriam suas pernas sob a saia, apertei sua pele macia entre meus dedos e a puxei para mais perto, como se fosse possível. Nosso beijo se quebrou, mas outro se iniciou. Eu sentia suas mãos percorrerem meus ombros, braços e costas, perdidas como se fosse a primeira vez que fizessem aquilo. Deslizei meus lábios por seu queixo, garganta e colo, deitou sua cabeça para trás, enroscando meus cabelos entre seus dedos e permitindo que eu decidisse o que fazer. Passei minha língua no vale de seus seios e a ouvi ofegar, empurrando seu quadril contra o meu. Enganchei a ponta dos dedos no decote de sua blusa e o puxei, na tentativa falha de expor seu mamilo. O biquíni não era capaz de esconder o bico rígido de seu seio, ele parecia se comunicar comigo, atrair-me pra perto, para lambê-lo e sugá-lo. Seus gemidos alteravam de entonação e freqüência, e por vezes eu podia sentir suas unhas cravadas em meu couro cabeludo.
Sob sua saia, busquei sua intimidade, toquei-a por cima do biquíni, pressionando a ponta dos meus dedos sobre seu sexo, empurrou seu corpo contra o meu, fazendo com que eu perdesse o contato com seu seio, mas ganhasse seu pescoço. Comecei a beijá-lo imediatamente, mordiscando-o e marcando-o com sucções não tão fortes. depositou sua mão sobre a minha e a apertou contra si mesma, friccionando seu quadril contra meus dedos. Notando seu desejo desesperado, passei a ponta dos dedos pela cava do biquíni e o afastei para o lado, o suficiente para que não me atrapalhasse, então comecei a tocá-la, lentamente, como eu sabia que ela gostava. Eu sentia a umidade em torno de meus dedos, desejando estar dentro dela mais uma vez. Massageei seu seio com a mão livre, apertando-o entre meus dedos e ouvindo-a ronronar em meu ouvido enquanto os movimentos de meus dedos em sua intimidade ganhavam velocidade. Eu sentia seu quadril mover-se sobre o meu, em movimentos sinuosos, buscando incessantemente por um toque mais íntimo. Com dois dedos invadi seu corpo, ela pareceu surpresa, sua respiração deteve-se e depois voltou ainda mais descompassada, seus braços rodearam-me, abraçando meus ombros com força. Deslizei a mão livre por suas costas, apertando-a contra mim e pressionando a ponta de meus dedos pela pele levemente suada abaixo de seu pescoço, onde a blusa não cobria. Com meu polegar, comecei a estimular seu clitóris, agora inchado, enquanto sentia suas paredes internas pulsarem em torno de meus dedos, que se moviam cada vez mais rápido. Senti suas coxas pressionarem meu corpo e ela parou de mover-se, apenas tremia entre meus braços, dando um gemido longo e abafado na pele de meu pescoço, sorri e diminui a velocidade com a qual a masturbava, permitindo que ela voltasse a respirar, falhamente.
Eu pensei em beijá-la e depois convidá-la para sair dali, mas, quando me dei conta, estava em pé, pegando seus sapatos antes de sair correndo. Levantei sentindo minhas pernas fraquejarem de imediato.

- ! - Exclamei, mas ela não me ouviu, ou fingiu não ouvir, apenas apressou seus passos e logo eu não podia mais vê-la.

Levei meus cabelos pra trás e apoiei minhas mãos na nuca. Eu precisava de ar, mas senti como se nem todo aquele vento, a brisa e o cheiro do mar pudesse aliviar o que eu estava sentindo. Meu membro pulsava com rigidez dentro da boxer, quase implorando pra que eu o tirasse de lá. Fechei meus olhos e grunhi com raiva, voltando a me sentar. Peguei o bloco de notas e li rapidamente o que ela havia escrito:

"Na sua mente nós seríamos sempre felizes, então agora nós não somos nada além de memórias"

Ri irônico e soltei as folhas ao meu lado, esfregando meu rosto e automaticamente sentindo seu cheiro impregnado em meus dedos, rolei os olhos e olhei pra cima, perguntando à Deus se eu não merecia uma trégua. É, eu merecia.
Levantei e peguei o bloco de notas, saindo dali o mais rápido que pude, encontrei grande parte das pessoas sentadas ao redor da piscina principal, espalhados pela área toda. Andei depressa até e atirei as folhas sobre ele.

- Entrega isso para o professor. - Pedi e olhei para Mia - Onde está a Rebecca?
- Ela não está com você? - Neguei com a cabeça - Então ela deve estar no apartamento.
- Onde é? - Perguntei imediatamente.
- É o último, perto da quadra de tênis.

Por minha cabeça, tudo o que se passava é que não merecia o sofrimento pelo qual eu estava passando. Eu estava cego de raiva e de tesão. Eu não podia acreditar que ela tinha ido embora depois de ter finalmente se entregado à mim novamente. Ela estava sendo fraca e medrosa e eu não conseguia respeitar isto, algo estava muito errado comigo, mas naquela noite o que eu queria era botar tudo aquilo pra fora. Eu não ia chorar, não com os olhos.
Rebecca abriu a porta, mas não teve tempo de dizer absolutamente nada, atraí-a pra perto com minhas mãos e a beijei, empurrando a porta atrás de mim com o corpo e começando a conduzi-la até as escadas. Ela retribuía o beijo da mesma forma ligeira, suas mãos espertas abriam minha camisa rapidamente, deixando-a pelo caminho até o quarto, junto com sua regata cinza. Pressionei seu corpo contra o meu, sentindo seus seios rígidos amassados em meu peito enquanto eu a conduzia até a cama, apertando-lhe as nádegas com força por dentro do short de seu pijama, que logo atingiu seus tornozelos.
Senti o colchão acolher meu corpo quando Rebecca me empurrou contra a cama, ergui meu tronco nos cotovelos, vendo-a livrar-me de meus tênis e calça, minha boxer fez o mesmo caminho e eu a senti escalar meu corpo, enquanto me masturbava rapidamente, com destreza. Segurei as laterais de sua calcinha e a abaixei até onde pude, o resto ficou por conta dela, o mesmo vale para o preservativo que eu havia esquecido.
Virei meu corpo sobre o de Rebecca e ela rapidamente se ajeitou contra os travesseiros, olhando-me, seu lábio inferior preso com força entre os dentes, segurei meu membro e o pincelei contra sua intimidade uma única vez antes de penetrá-la, apoiei uma das minhas mãos firmemente na cabeceira, começando a investir com meu quadril encaixado ao seu. Seus seios saltavam a cada estocada e um novo gemido era reproduzido com a mesma freqüência. Eu sentia as gotas de suor brotarem em meus poros e banharem meu corpo. Fechei meus olhos, tão próximo do orgasmo que eu já começava a tremer, a imagem de me atingiu, como um curta metragem, revivi rapidamente todas as nossas transas e gemi por seu nome ao gozar com meu corpo fundido ao de Rebecca, que gritava, desenhando dolorosamente com suas unhas em minhas costas.

- Nossa. - Ela murmurou sob o fôlego quando soltei meu corpo sobre o seu, depois girei para o lado e fechei meus olhos, apoiando meu braço sob a cabeça - Que boa surpresa, huh? - Ouvi-a dizer e sorri de lado, sentindo-me um pouco amargo.
- Que bom que gostou. - Disse a ela em resposta, sentando com as pernas pra fora da cama, levei meu cabelo pra trás com uma das mãos e senti as suas, delicadamente, acariciarem minhas costas, seu corpo ajoelhou-se atrás do meu e em seguida vieram os beijos em meu ombro e nuca.
- Onde vai? Fica essa noite comigo. - Ela murmurou em meu ouvido, era tentador, mas eu já havia aliviado meu tesão e agora eu precisava beber um pouco para relaxar.
- Hoje não dá. - Respondi com um sorriso forçado, então levantei e entrei no banheiro, livrei-me do preservativo com cuidado e o lancei ao cestinho de lixo, lavei meu rosto rapidamente e voltei para o quarto, sentindo as gotas escorrerem por meus ombros e peito.
- Aaaw, boy, fica aqui! - Choramingava Rebecca, deitada completamente nua sobre a cama, sorri divertido e vesti minha boxer - A gente pode fazer tanta coisa, temos uma madrugada toda. - Continuou a falar, com a voz pastosa, enquanto eu me vestia.
- A gente se vê, Becca. - Mandei um beijo e depois saí do quarto, ouvindo-a bufar uma última vez.

Deixei minha camisa aberta, eu ainda estava suando em bicas e não era para menos, Rebecca era quente, tanto quanto eu achei que fosse. Na verdade não deu pra desfrutar tanto assim, fui direto ao ponto, era o que eu precisava. havia me proporcionado a preliminar, o que me roubou toda a paciência para fazer tudo de novo, até porque Rebecca não era o tipo de garota que eu tentaria agradar, ela se contentava com o que eu havia dado a ela, estou certo que sim.
Logo que me acerquei da piscina principal, vi os caras na água, acompanhados das garotas, eles pareciam estar se divertindo. Sorri e me aproximei um pouco mais, colocando as mãos na cintura.

- E aí? Achou a Rebecca? - Mia me perguntou, sorrindo maliciosamente.
- Achei sim, já... Conversamos. - Garanti, com a expressão debochada, depois gargalhamos.
- Entra aí, cara. - chamou, sendo abraçado por Molly.
- Não, vou comprar alguma coisa pra beber, já venho.

Não vi por nenhuma parte. Vi James, Matt, Charlie, e , mas não estava com eles, nem , deviam estar juntas em alguma parte. Fiz meu caminho até o restaurante e comprei um refrigerante, depois voltei pra perto da piscina, os caras já estavam se despedindo de suas respectivas garotas.

- Então você pegou a Rebecca? - perguntou com sorriso malicioso quando já estávamos jogados no chão da sala do nosso apartamento, Antony também estava ali, e trouxera as bebidas - Deu uma sapecada? - Sua voz infantil e maliciosa nos fez gargalhar.
- Foi, cara. - Concordei, tirando minha camisa - Ela deixou minhas costas em carne viva. - Virei, mostrando pra eles.
- UAU! Sexo efeito mosaico! - exclamou e nós rimos ainda mais, recostei-me à parede de vidro e sorvi um pouco mais da minha cerveja.
- Mas você não 'tava com a , fazendo a tarefa lá? - quis saber, algo me dizia que ele já sabia de algo, só por seu tom de voz falsamente curioso.
- Sim. - Semicerrei os olhos, eu o conhecia muito bem, e ele se entreolharam e eu suspirei alto - O que vocês sabem?
- Então, é que assim... - começou e olhou pra - Fala você, .
- Mas você que viu! - exclamou, rolei os olhos e inclinei meu corpo pra frente, apoiando meus antebraços em minhas pernas, esperando que eles decidissem de uma vez quem ia me contar o que quer que fosse.
- Fala de uma vez, . - rolou os olhos - Nem é negativo. - Olhou em minha direção, como se quisesse aliviar meu desassossego.
- Ok, eu estava com a , estávamos trabalhando na nossa tarefa, e aí de repente a chegou correndo e chorando... - Arqueei as sobrancelhas, surpreso com a revelação - Cara, juro por Deus, na hora eu pensei que alguém tinha feito algo com ela, ela com os sapatos na mão e a saia virada, amassada, a única coisa que me passava pela cabeça era James, e você ia matá-lo, e aí ela começou a falar pra que você, bom, você tinha a beijado...
- Ela disse que eu a beijei à força? - Exclamei com a voz esganiçada.
- Não, cara, calma... Aí a ficou nervosa, disse que ia contar ao James, então explicou o que tinha acontecido...
- Com você lá perto? - Contraí o cenho.
- Cara, ela 'tava transtornada demais, quando me viu ela ficou branca como cera, e aí a disse que íamos continuar amanhã, então eu voltei pra piscina.
- Incompreensível! - Bufei e me recostei à parede - Como isso é possível? Ela não parecia desesperada quando estávamos juntos, aliás, parecia, mas não no sentido negativo! - Eu dizia, mais a mim mesmo do que a qualquer pessoa ali dentro - Ela queria tanto quanto eu, tenho certeza!
- , ninguém acha que você forçou ela a alguma coisa, nós sabemos que você seria incapaz de contrariar qualquer vontade da . - disse com a entonação confortante, suspirei e terminei de beber minha cerveja.
- É, mate, não precisa ficar nervoso assim, ela é garota, deve estar confusa. - Foi a vez de Antony, respirei fundo e olhei pra eles.
- Eu prometi a mim mesmo que eu não a faria chorar novamente, é disso que estou falando, é por isso que estou nervoso. - Trinquei meus dentes e encostei a cabeça no vidro, fechando meus olhos - Sou incapaz de deixá-la ir, mas... Também não consigo fazer as coisas do jeito certo quando ela está por perto.
- ... - começou e eu respirei fundo - Relaxa, cara, só... Tenta não dar tanta importância a isso. - Encarei-o e sorri irônico - 'Tá, eu sei que você já tentou, mas, ah, sei lá, não tenho mais conselhos sobre isso. - Assenti e deixei minha garrafa no chão.
- Já volto. - Murmurei, levantando.
- Onde vai? - quis saber subitamente.
- Vou falar com ela.
- !

Capítulo 5.
"Inside I know it's over, you're really gone"
(I Stay In Love - Mariah Carey)

[N/a: Meninas, caso queiram escutar a música abaixo, aí está o link: http://www.youtube.com/watch?v=2IcWaNLYgBE]

So this is the end of you and me
Então este é o fim entre você e eu
We had a good run and I'm setting you free
Nós tivemos um bom curso, e estou te libertando
To do as you want, to do as you please
Para que faça o que quiser, para que faça o que te agrada
Without me
Sem mim

Caminhava o mais rápido que minhas pernas permitiam enquanto fechava os botões de minha camisa. Embora o vento estivesse forte, eu ainda sentia o suor por baixo de meus cabelos, umedecendo sua raiz e, sem mais delongas, os fios por completo. Apressei-me, já estava tarde e eu sabia o que me esperava quando eu chegasse lá, faria um show, suas amigas tentariam me impedir, mas não desta vez. Eu precisava falar com , eu precisava vê-la depois do que aconteceu, depois do que disse. Eu precisava saber se estava tudo bem, ela precisava saber que eu não faria mais nada que pudesse machucá-la.

Remember when you were my boat, and I was your sea?
Se lembra quando você era meu barco, e eu era seu mar?
Together we'd float so delicately
Juntos flutuávamos tão delicadamente
But that was back when we could talk about anything
Mas isso é de quando podíamos conversar sobre qualquer coisa

Parei em frente ao apartamento onde e aquilo que ela chamava de amigas estavam hospedadas. Respirei fundo e enxuguei meu buço e testa, tentando não parecer desesperado quando na verdade, eu estava, e este era o único real motivo pelo qual eu suava daquela maneira. Fechei os dedos e olhei pra porta à minha frente, ensaiei algumas vezes uma batida, mas não consegui fazê-lo tão já, mais uma vez inalei todo o ar que consegui e o expirei pelos lábios, então fechei meus olhos apertado, tocando três vezes com as costas do meu indicador.

'Cause I don't know who I am
Porque eu não sei quem eu sou
And you're running circles in my head
E você está correndo em círculos em minha cabeça
And I don't know just who you are
E não sei quem exatamente você é
When you're sleeping in someone else's bed
Quando está dormindo na cama de outro alguém

- Já vai! - Ouvi uma voz feminina gritar, mas não consegui reconhecer, certamente não era , a porta se afastou e eu vi atrás dela, rapidamente uniu as sobrancelhas e olhou para trás, depois tornou a me olhar.
- A está aí? - Perguntei, entre algumas ofegadas.
- Olha, melhor você ir pro seu apartamento, . - Aconselhou.
- Não, eu quero falar com a , você pode, por favor, chamá-la? - Pedi, tentando ser educado, quando eu apenas queria estourar aquela porta e procurá-la por conta própria.
- Ela não quer falar com você. - disse, parada atrás de , rolei os olhos.
- Bom, vou explicar uma coisa... - Apoiei minha mão no batente e as encarei - Eu vou falar com ela, então se vocês não chamarem, eu entro e chamo. - Cansado de ser educado, falei com a voz firme, elas se entreolharam.
- Eu vou perguntar se ela quer falar com você. - disse com uma sobrancelha arqueada, afastando-se, olhei pra , que parecia impaciente, com a expressão enfezada, acabei dando risada.
- Cara feia pra mim é fome, . - Ela forçou um sorriso falso e depois bateu a porta na minha cara.

Three whole words and eight letters late
Três palavras inteiras e oito letras atrasadas
That would have worked on me yesterday
Que teriam funcionado para mim ontem
We're not the same, I wish that it could change
Nós não somos os mesmos, eu queria que isso pudesse mudar
But it can't
Mas não pode

Umedeci meus lábios, sentindo o gosto salgado do meu suor. Encostei minha testa no batente, por que as coisas tinham de ser tão complicadas? Como se não bastasse, as pessoas gostam de complicá-las ainda mais. Não seria fácil reconhecer que sente minha falta, me escutar, saber que eu não fiz aquilo por mal, me perdoar e então ficarmos juntos? Soa simples, não é? Uma pena que não escolhemos o que perdoar, o que esquecer, o que superar. Há coisas que fingimos ter deixado pra trás e de repente estamos completamente presos à elas, tanto que mal nos movemos.

And I'll say your name, and in the same breath
Eu direi seu nome, e no mesmo fôlego
I'll say something that I'll grow to regret
Eu direi algo que crescerei me arrependendo
So keep your hands on your chest and sing with me
Então mantenha suas mãos no peito e cante comigo
That we don't wanna believe
Que nós não queremos acreditar

Ouvi o ranger da porta e rapidamente me coloquei de frente para ela, me olhava com a expressão vazia. Uma trança repousava em seu ombro enquanto ela encolhia-se dentro do pequeno pijama. Fitei seu rosto minuciosamente, seus olhos avermelhados como seu nariz e lábios, estes ainda inchados denunciavam o choro recente.

'Cause I don't know who I am
Porque eu não sei quem eu sou
And you're running circles in my head
E você está correndo em círculos em minha cabeça
And I don't know just who you are
E não sei quem exatamente você é
When you're sleeping in someone else's bed
Quando está dormindo na cama de outro alguém

- Você queria falar comigo? - Perguntou, sua voz hesitou em um momento, traguei a saliva e cocei a nuca, desconcertado.
- Eu só... Queria saber se você está bem. - Olhei-a novamente, continuou inexpressiva.
- Estou.
- ... Eu estou aqui porque eu prometi pra mim mesmo que eu não te faria mais chorar, e... - Ouvi-a dar risada e então o rolar de seus olhos me fez sentir patético, parei o que dizia e senti meu estômago se encolher abruptamente.
- , por favor, não acredito mais em uma palavra do que você diz. - Disse, com petulância, assenti devagar, sentindo minha garganta parecer mais seca e ardente.

So it's true what they say
Então é verdade o que eles dizem
If you love someone, you should set them free
Se você ama alguém, você deve libertá-lo
Oh, it's true what they say
Oh, é verdade o que eles dizem
When you throw it away
Quando você joga isso fora

- Certo, mas eu direi mesmo assim. - Dei de ombros - Eu soube que você ficou chateada com o que aconteceu mais cedo e vim me desculpar... Eu entendo que na hora...
- , o que você ‘tá fazendo aqui? - perguntou em tom alto - , vem pra dentro, esse cara não merece sua atenção.
- , não se mete, 'tá legal? - Olhei pra ela e tentei demonstrar o quão sério eu estava falando naquele momento - Se você quiser ser infantil e enfiar coisas na cabeça da daqui a pouco, tudo bem, foda-se, mas agora eu estou conversando com ela e, veja só, não a estou obrigando a me ouvir. - Ergui minhas mãos, livrando-me da responsabilidade - Agora nos dê licença, não vou demorar.
- Olha aqui, ...

I don't know you are
Eu não sei quem você é

- ... - murmurou e olhou para a prima - Por favor, sem mais escândalos, eu vou ouvi-lo e depois vou entrar e descansar. - Disse, com a voz serena, suspirei e olhei pra , que negou com a cabeça e se afastou, encostou a porta atrás de si e voltou a me olhar - O que dizia?
- Eu... Eu estava dizendo que eu entendo que na hora que tudo aconteceu, você acabou se deixando levar e que não era o que você achava melhor pra si, era só o que seu corpo queria, enfim... - Falei tudo de uma vez, como um vômito de palavras que estavam guardadas e eu nem sabia - Me desculpe, eu não queria ter forçado a barra e não queria ter te magoado. - Ela me olhava ainda, seus olhos ameaçaram encharcar, e com isto os meus arderam - Não vai voltar a acontecer. - Murmurei, sem muita vontade de dizer aquilo, sem muita fé no que eu mesmo acabara de sentenciar.

'Cause I don't know who you are
Porque eu não sei quem você é
When you sleep with somebody else
Quando você dorme com outro alguém

- É melhor assim. - Disse ela, e logo seus olhos estavam secos como anteriormente.
- Certo, qualquer coisa que você precisar, conte comigo, eu espero que possamos ser bons amigos... Ou apenas amigos.
- Eu também. - Ela disse e eu forcei um sorriso sem força.

'Cause I don't know who I am
Porque eu não sei quem eu sou
When you sleep with him
Quando você dorme com ele

- Então boa noite, fica bem. - Acerquei-me e senti sua respiração bater rapidamente em meu rosto, descompassada, então encostei meus lábios em sua testa e fechei meus olhos, depositando um beijo gentil sobre sua pele.
- Boa noite, . - Ela sussurrou assim que me afastei, encostada à porta atrás de si, acenei sem vontade e me afastei.

It's true what they say
É verdade o que eles dizem When you throw it away
Quando você joga isso fora

Era como se eu acabasse de retirar um nó preso em meu peito, eu precisava de um término decente com , pois tudo o que havíamos tido ainda significava muito, e sempre significaria, eu estava certo disso. Eu não queria mais que houvesse brigas entre nós, merecíamos algo melhor por todos os momentos bons, todas as confidências trocadas. Tudo ficaria bem, desde que ambos respeitássemos nossos limites, agora impostos por algo bem maior, a amizade que queríamos preservar.

- Dude. - Eu ouvia a voz de , ora parecia distante, ora parecia dentro da minha cabeça, suspirei e abri os olhos sem vontade - Você não vai lá comer? - Eu não sabia do que ele estava falando, mas assenti, com os olhos cheios d'água pela intensidade do sono que eu sentia, mesclado com a claridade inevitável.
- Já é dia? - Perguntei ainda um pouco sonolento, riu, já colocando sua camiseta.
- Já, cara, já são quase dez horas, vamos lá comer. - Ele disse e borrifou o desodorante, suspirei e me virei de barriga pra cima, colocando meu braço sobre os olhos e pensando se queria mesmo sair da cama.
- Vou me trocar e... Já apareço lá. - Murmurei, tentando não voltar a dormir.
- Ok, a gente te espera lá então.

Pensei em ficar ali e dormir um pouco mais, havia sido uma noite cansativa e eu estava com o sono atrasado, mas estava claro demais e calor demais. Arrastei-me para fora da cama e dali para o banheiro. Eu sentia como se houvesse levado uma surra a noite toda, ou como se algo houvesse sugado todas as minhas energias. Bom, pelas marcas em meu pescoço, costas e braços, provavelmente eu havia sido sugado mesmo, e arranhado também. A propósito, não era apenas um algo, eram dois “algos“. e Rebecca.
Terminei minha higiene e arrumei meu cabelo, sentindo o vento entrar pela janela e aliviar meu calor. Borrifei um pouco de desodorante e retornei ao quarto, escolhi um boardshort branco e verde, vesti também uma camiseta branca e cobri meu cabelo com um boné cor de caqui. Peguei meu óculos de sol e limpei-os enquanto calçava meus chinelos. Ao olhar a cama desarrumada, confesso que novamente pensei em desistir e me render ao sono, mas me policiei e me obriguei a sair do bangalô.
Os garotos haviam escolhido uma mesa do lado de fora do restaurante, sob um toldo, talvez ali batesse mais vento. Sentei e relaxei meu corpo sobre a cadeira, sentindo como se a qualquer minuto eu pudesse simplesmente dormir ali mesmo. Quando levantou pra buscar frutas, pedi que ele me trouxesse suco e, se não fosse exigir demais, algumas fatias de queijo. Eu não sentia fome, pelo contrário, me sentia cheio. Talvez fossem as cervejas da noite passada.
Ergui lentamente meu rosto, desviando meus olhos do meu relógio e fixando-os em um belo par de pernas que vinham caminhando lentamente, contraí o cenho ao reconhecê-las e ergui mais meus olhos, então todas aquelas sensações retornaram, não era o que um amigo deveria sentir por uma amiga, certo? Mas faria qualquer um perder a linha dentro daquele short. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto e eu podia vê-la me olhar através da lente não tão escura de seu óculos de sol.

- Uau, , a noite foi quente? - perguntou em tom debochado, desviei meus olhos de para sua prima, encarando-a sem a menor intenção de discutir, mas eu nunca me controlava.
- Sim, pra você ver. - Sorri, assentindo devagar - Uma pena que você não tenha quem faça isso por você, é uma delícia, . - Enfatizei seu apelido, retirou seus óculos e arqueou uma de suas sobrancelhas - Mas caso você queira, eu posso arrumar alguém que faça esse sacrifício, sabe, só por caridade... - Dei de ombros e retirei meus óculos também - Mas um só, porque não quero que você intoxique ninguém com seu veneno, sabe como é. - Sorri enviesado.
- , me faz um favor? Vai-se-foder. - Disse ela, pausadamente, antes de sair andando e rebocando consigo, encarei sugestivamente, riu e deu um tapa em seu ombro, sinalizando apoio.
- Hey, ! - Ele gritou, ri antecipadamente, ela olhou pra trás, automaticamente parando de andar - Vamos nos foder, que tal? - Sorriu abertamente, encolheu os lábios e olhou de esguelha para a prima.
- , você não tem capacidade de foder nem uma égua. - Disse ela, com todo seu deboche.
- Não mesmo, mas uma cadela eu agüento, vem cá, vem! - Ele disse enquanto batia em suas próprias pernas, abriu a boca em indignação e eu não esperei nem mais um segundo, explodi em gargalhadas junto aos meus amigos e algumas pessoas que estavam por perto.
- Nojento, ! - Ela praticamente gritou, depois saiu pisando firme.
- Nojenta está sua calcinha agora! - Ele ainda exclamou, bati minhas mãos na mesa, perdendo o fôlego de tanto rir.

Assim que terminamos de comer, os garotos disseram que iriam descer à praia, eu cogitei a possibilidade, mas a minha preguiça pareceu ainda maior quando eles me disseram que Rebecca também iria, então disse que ficaria por ali mesmo com Antony e depois iria descansar para mais tarde.

- Acho que, no fim das contas, você fez a coisa certa, cara. - Antony disse enquanto eu brincava de fazer ondas com a água em cima de algumas garotas da minha sala.
- Exceto pela parte de que não conseguirei ser só amigo dela, sim, fiz a coisa certa, com certeza. - Murmurei irônico, Antony deu risada e eu suspirei.
- Não existe essa coisa de "amizade pós-relacionamento". - Antony me disse, encostando-se à borda - Veja eu e ... - Contraí o cenho - Nós terminamos numa boa, somos amigos, mas sempre rola segunda intenção, e às vezes nós ficamos.
- Você é ex namorado da ? Quero dizer, a ? - Apontei com o polegar para a rodinha onde estava & Cia.
- Sou, cara, você não sabia? - Neguei com o cenho contraído - Sou.
- Por que vocês terminaram? - Perguntei, sentando em um degrau na piscina, deixando parte do meu corpo pra fora da água.
- Nós tínhamos um relacionamento aberto, sabe? - Assenti - Eu ficava com quem eu queria, ela também, não sei por que diabos fazíamos isso, mas era bom, nunca brigávamos por nada, porque com as outras pessoas era só físico, sabe? Alguns beijos, às vezes sexo, mas a gente se gostava pra valer.
- E então?
- E então um dia ela ficou com o em uma festa na casa da Lindsay Baldwin e depois disso ela mudou comigo...
- Calma aí, de que estamos falando? - Contraí meu cenho.
- , oras... O . - Respondeu Antony em tom óbvio, arregalei os olhos.
- Eu não sabia que tinha ficado com alguma vez! - Exclamei.
- Eles ficaram, tem uns 8 meses, faz 6 que eu e não estamos mais juntos.
- Então calma, me deixa entender, você e terminaram porque ela ficou com ?
- Não. - Antony riu - Terminamos porque desde então ela é a fim dele.
- Ah, tá... - Concordei, mas depois entendi o que ele havia me dito e o encarei novamente com os olhos arregalados - Ela é a fim do ?
- É, cara, eles ficaram, certo? E ela costumava me contar quando ficava com alguém, a gente sempre contou um pro outro, sabe? - Assenti, achando tudo aquilo muito estranho - E aí ela não me contou sobre o , eu fui descobrir duas semanas depois, porque um amigo meu me contou, e eu já tinha notado que ela tava diferente, e aí vi que ela tinha adicionado o no Facebook, perguntei a ela sobre ele e ela meio que ficou balançada, aí eu disse à ela que era melhor terminarmos e sermos amigos.
- Cara, muita informação pra mim. - Gargalhei com as mãos na testa - Caralho, será que desconfia disso?
- Não sei, é discreta quanto a sentimentos, mas agora que eles estão fazendo aquele trabalho juntos, talvez algo possa acontecer.
- Legal... Mas, sei lá, você não se sente estranho? Em relação ao ? Não sente ciúmes?
- Não. - Antony pareceu se divertir com minha pergunta - Ele nem desconfia que nós terminamos por isso, e nem diga nada à ele, não quero que ele se desculpe por algo que ele não tem culpa, só era pra ter sido assim.
- Legal, cara, legal mesmo.
- . - Subitamente virei meu rosto para o lado, eu reconheceria aquela voz em centenas de jardas.
- Oi. - Respondi e notei Antony se afastar um pouco.
- Sobre a composição, podemos fazê-la à noite? - Concordei rapidamente com a cabeça.
- Podemos, nos encontramos onde? - Perguntei, tentando disfarçar meu entusiasmo.
- Em frente ao restaurante, tudo bem?
- Certo. - Sorri sem jeito.
- Ok, então... Até mais. - Acenou, fiz o mesmo e ela se afastou, olhei pra Antony e rolei os olhos, com a mão sobre meu peito, nós dois gargalhamos.
- É, cara, você não sabe disfarçar.

Aproveitei a casa vazia e tomei um banho mais demorado, como estava acostumado. Era bom ficar um tempo embaixo d'água, só pensando um pouco, ou pensando em nada. Coloquei uma boxer e uma camiseta, então me deitei e, sem me permitir pensar em coisa alguma que me fizesse perder o sono, adormeci.
Um estrondo me fez saltar sobre a cama, sentei rapidamente e olhei para os lados, tentando enxergar algo. Aos poucos minha visão se acostumava com o escuro e eu pude ver que o estrondo, nada mais era que um trovão. O barulho das gotas da chuva me fizeram querer deitar e dormir um pouco mais, mas saiu do banheiro, enxugando seu cabelo.

- E aí, cara? - Ele disse, caminhando até sua mala.
- Nossa, quanto tempo estou dormindo? - Contraí o cenho, esfregando meus olhos.
- Não sei, já são quase 7 horas. O professor adiou a prova de hoje pra depois do jantar, vai ser no restaurante mesmo, por causa da chuva.
- Hm... - Assenti devagar - Ok, vou me trocar então.
- É, cara, vai lá.

Levantei da cama vendo sair do quarto ao mesmo tempo. Andei devagar até a sacada e senti as gotas da chuva respingarem em mim, espreguicei-me lentamente e bocejei. Fiquei olhando o resort dali de cima e encostei-me ao batente, apenas esperando coragem para me vestir e tomar chuva até o restaurante. Eu não tinha muita saída, então deixei de adiar e voltei pra dentro do quarto, acendendo a luz até então apagada. Escolhi um jeans claro e uma camiseta listrada horizontalmente de preto e cinza, tinha gola V e mangas curtas, seu tecido era leve, por isso secaria mais rápido e evitaria o calor que ainda fazia, apesar da chuva. Calcei meu All Star branco e fui para o banheiro. Aliviei a bexiga e, entre um verso e outro de uma música que estava em minha cabeça, escovei meus dentes e arrumei meu cabelo. Borrifei o desodorante do e um pouco do meu perfume, ele nem iria perceber.
A chuva estava mais fina quando saímos de casa, mas ainda garoava. Apressamo-nos quando ela começou a engrossar novamente, entretanto já estávamos próximos do restaurante, e logo nos abrigamos lá. Eu e os caras nos entreolhamos, contraí o cenho e voltei a encarar o restaurante. Todas as mesas estavam unidas, exceto por quatro delas, uma em cada canto do ambiente. Nos aproximamos devagar e sentamos nos lugares vagos.

- Bom, agora que estão todos aqui... - Ele nos olhou, mais uma vez com a expressão de repressão e nós rimos - Vou explicar a prova antes do jantar, e ela será realizada durante ele todo, e depois dele também. - Apoiei minhas mãos nas coxas, esperando pela definição da prova - É o seguinte, será uma prova onde os líderes serão testados e ganharão pontos para o grupo todo. - Arqueei as sobrancelhas e levei a mão no peito, ouvi rir - Os líderes irão jantar separadamente e, durante o jantar, precisarão descobrir coisas um sobre o outro, acredito que a maioria de vocês já se conhecem bem, Patrick e Samantha são namorados, e infelizmente já não estão juntos, mas já estiveram... - Traguei a saliva, mas dei meu máximo para não parecer afetado - Enfim, vocês irão descobrir um pouco mais, um sobre o outro, e depois nós faremos um jogo de perguntas, estamos combinados?
- Professor, o que devemos perguntar em si? O que devemos saber? - perguntou e eu voltei a olhar pro professor.
- Perguntem o que a pessoa costuma fazer durante o dia todo, fins de semana, o que mais gosta de fazer, coisas em geral. - Sra. Hale respondeu por Sr. Dawson.
- Respondido, agora vocês podem ir.

Levantei devagar e olhei pela mesa, procurando com os olhos, vi-a se levantar devagar, delicadamente ajeitou o vestido em seu busto e colocou a cadeira de volta no lugar. Andei devagar até ela, vendo-a levar, timidamente, o cabelo pra trás da orelha, sorri e ofereci meu braço, fazendo graça, ela rolou os olhos e entrelaçou seu antebraço no meu, andando ao meu lado até a mesa vaga. Puxei uma cadeira pra que ela se sentasse, agradeceu num sussurro e sentou-se, o fiz à sua frente, apoiando meus antebraços sobre a mesa.

- Então, o que você tem pra me contar que eu ainda não sei? - Perguntei debochado, vendo uma garçonete estender o menu à nós dois.
- Obrigada. - Agradeceu , depois me olhou, abrindo sua pasta - O que te faz pensar que você sabe tanto assim sobre mim? Em um mês muita coisa pode mudar.
- Sei disso. - Sorri, olhando os pratos, olhei para a garçonete - Traz o número 12 e o número 19. - Entreguei meu menu e olhei pra .
- Traz...
- O número 11, e o 23. - Pedi por ela, me olhou surpresa e entregou seu menu, sem tirar os olhos dos meus - Obrigado.
- Como você...
- Bom, em um mês algumas coisas mudam, e outras não mudam nunca. - Dei de ombros, ela calou-se, com um sorriso tímido.

e eu começamos a falar sobre o que poderia ser perguntado no tal jogo. Combinamos algumas respostas, como, por exemplo, cor favorita e coisas do gênero. Parecíamos dosar cada palavra que trocávamos, com medo de nos afetar ou de ser inconveniente, ou este era meu medo e eu acabei refletindo sobre ela.

- Ah, com a chuva não vai dar pra gente trabalhar na composição aqui, nós... Podemos ir para o seu bangalô? - Traguei em seco e assenti devagar, tomando um pouco do meu suco.
- Claro, eu te espero lá, você sabe qual é? - Ela concordou com a cabeça e sorriu sem graça - Tudo bem, então.
- Terminaram, garotos? - Sra. Hale quis saber, parando ao lado de nossa mesa, olhei pra trás e notei que éramos os únicos que ainda estavam fora da mesa principal.
- Já sim, professora. - murmurou, levantando, fiz o mesmo e a segui até os outros.
- Muito bem... - Sr. Dawson se levantou, deixando seu guardanapo sobre a mesa e nos olhando - Lá naquela mesa têm 8 fichas, uma pra cada líder, um de cada vez vai até lá, responde e me traz a ficha que respondeu, e a Sra. Hale vai estar lá vendo se vocês vão tentar olhar as outras fichas. - Rimos, recostei-me à cadeira - Pode ir você, .
- Ok.

Levantei e caminhei até lá, peguei uma das fichas e a virei, para poder lê-la. Haviam 5 perguntas e elas não eram assim tão inofensivas como "Seu prato favorito", gastei alguns minutos pensando em uma ou outra.

P.: Quais são seus planos para o futuro?
R.: Conseguir um contrato com a gravadora e fazer sucesso como músico.

P.: O que você procura nas pessoas com quem convive?
R.: Reciprocidade.

P.: Qual a característica externa e interna que mais lhe chama a atenção?
R.: Externa: Sorriso. Interna: Bondade.

P.: Em uma escala de 0 à 10, qual a importância do sexo em um relacionamento pra você?
R.: 8.

P.: A mais doce mentira, ou a mais dura verdade?
R.: A mais dura verdade.


Dobrei minha ficha e me levantei, seguindo de volta para a mesa e entregando ao professor. Então me sentei e Patrick foi o próximo. Olhei pra , ao meu lado, fazendo um origami com o guardanapo de papel, ri baixo, depois suspirei, confesso que estava um pouco ansioso, e estava buscando algo pra me distrair, talvez origamis, se eu soubesse ser tão garota quanto o . E se eu não soubesse o que responder? Não eram alguns pontos em jogo, era mais que isso, eu queria mostrar à que eu a conhecia muito bem, eu queria que ela e todos ali soubessem a importância que ela tinha pra mim. Que apesar de tudo ter se iniciado com uma aposta, havia se tornado algo muito maior que isso, muito mais valioso que um violão Takamine.

- Bom, vamos começar? - Sr. Dawson sugeriu, em pé, com as fichas em mãos, assenti prontamente - Façamos o seguinte, fiz alguns papéis com o nome de cada grupo e vou tirar, pra fazermos uma seqüência, feito isto, começaremos com as damas, elas responderão as perguntas sobre o seu parceiro e nós iremos ver se é compatível ou não, depois invertemos, combinado?
- Combinado. - Respondemos enquanto ele sorteava.

A seqüência ficou da seguinte maneira, o primeiro grupo a responder seria o azul, depois o grupo verde, em seguida o nosso, vermelho, e por último, grupo amarelo. O jogo teve início, acertou 3 perguntas sobre James, e acertou 4 das 5 questões sobre . Era a vez de , ela parecia ansiosa, parou ao lado do professor e encolheu-se, olhando-o com apreensão.

- , atenção, a primeira pergunta é: Quais são os planos de para o futuro? - Ele questionou, recostei-me à cadeira, ela sorriu subitamente.
- Ele provavelmente respondeu que quer seguir com a carreira musical. - Sorri e o professor também.
- Certo, respondeu que quer fazer sucesso como músico. - Nosso grupo comemorou, eu apenas bati palmas - Segunda pergunta: O que você acha que procura nas pessoas com quem convive? - me olhou com as sobrancelhas suspensas e uma expressão confusa, parecia querer absorver uma resposta em minha expressão, então suspirou e encolheu os ombros.
- Ele me dizia que... Seu lema era tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado por elas, então talvez... Talvez ele busque... Afinidades. - Apertou os olhos, o professor balançou a cabeça negativamente.
- busca reciprocidade.
- Dá na mesma! - Gritei, batendo as mãos na mesa.
- Não é não. - gritou e os grupos começaram a protestar.
- Calma, calma, ordem! - Sra. Hale pediu.
- Me convença de que Afinidade e Reciprocidade podem ter um sentido em comum, sr. . - Exigiu Sr. Dawson, ri e me levantei, passando as mãos por meu peito e adotando rapidamente uma postura autoritária.
- Veja bem... - Peguei o óculos do professor e o coloquei em meu rosto, causando riso geral - disse que eu busco afinidade nas pessoas, afinidade é o que? Coisas em comum, sentimentos em comum... Certo, professor? Professora? - Eles assentiram, entre risos - Certo, e reciprocidade é o que eu busco, ou seja, afinidades, pessoas que me dêem retorno em tudo o que eu penso e o que eu sinto, portanto, pessoas que tenhamos sentimentos e conceitos em comum... Logo, buscando reciprocidade, eu busco também afinidades.
- Achei uma explicação muito coerente. - disse e eu a reverenciei.
- Obrigado, senhorita . - Nós rimos e nosso grupo começou a gritar pelo ponto.
- Muito bem, muito bem! - Sr. Dawson rolou os olhos - Vou contar este ponto para o grupo Vermelho. - Começamos a gritar e pular, como se aquilo realmente tivesse muito valor, coloquei o óculos de volta no rosto do professor, beijando-lhe a bochecha em seguida, gargalhamos enquanto eu retornava para meu lugar - Cheio de graça esse . - Ele disse, ainda rindo - Ok, voltemos ao jogo.
- Certo. - concordou.
- Próxima pergunta: Qual a característica externa e a característica interna que ele mais valoriza? - Ela coçou a bochecha e riu.
- SEIOS! - Gargalhamos.
- MELÕES! - Ouvi a voz de Matt gritar e o fuzilei com meus olhos, ele encolheu-se um pouco, mas James deu retorno ao meu olhar, se eu pudesse, avançaria nele.
- Sorriso. - Ela respondeu, olhei pra ela de súbito, ela me olhou e suspirou - E bondade. Sorriso e bondade, é a resposta. - Tornou a olhar para o professor, segura do que dizia.
- Certo. - Levantei e comecei a dançar, comemorar junto com meu grupo, ria, constrangida da minha performance sobre a cadeira - Danny, por favor, não passa das 8 da noite. - Gargalhamos e eu parei, ainda sobre a cadeira - A próxima pergunta é a seguinte: Em uma escala de 0 à 10, qual a importância do sexo em um relacionamento para ?
- Uau! - disparou e eu ri.
- Vamos lá, , você sabe. - Incentivei, fazendo “figuinha“, ela riu com as bochechas rubras.
- 11? - Ela perguntou e nós gargalhamos - Não, estou só brincando, eu acho que... Ai meu Deus, eu não sei... Talvez... Talvez 9... 8... 8? - Ela me olhou e eu prendi o riso, o professor rolou os olhos - 8.
- Ponto para o grupo vermelho.
- Aaaah! - Ela gritou saltitando, fiz o mesmo sobre a cadeira, rindo.
- Certo, última pergunta. - O professor chamou nossa atenção, estralando os dedos, parei o que fazia e sorri - Para , o que é melhor, a mais doce mentira, ou a mais dura verdade?

não me olhou desta vez, ela não procurou saber a resposta através de mim, ou do professor, ela apenas olhou para o lado oposto, e assim permaneceu. Ela não precisava buscar a resposta para aquela questão em lugar algum, pois ela buscaria em si mesma. Tive medo que ela errasse aquela resposta, e que o fizesse de propósito, para me atingir. Eu confesso que mantive uma doce mentira por um longo tempo, mas foi de onde eu descobri que a mais dura verdade, ainda que doa, vale muito mais a pena, ela tinha que saber isso, embora eu nunca houvesse tido a oportunidade de dizer isto à ela.

- Atualmente... - Ela disse e olhou para o professor - A mais dura verdade.

Gritei com os braços erguidos, depois saltei da cadeira e corri até ela, erguendo-a do chão entre meus braços, começamos a pular todos juntos, em meu colo, gargalhando e esperneando pra que eu a colocasse no chão. Mas logo o professor veio acabar com a graça, e dizer que ainda faltava o grupo Amarelo, e como era de se esperar, Samantha acertou as 5 perguntas sobre seu namorado e nós ficamos empatados, não era pra menos, eles namoravam há pelo menos 2 séculos.
O jogo virou, agora era nossa vez de responder sobre as garotas, e assim James deu início, acertou 1 única pergunta sobre , e com isso foram desclassificados com 5 pontos, apenas. Foi a vez de , e ele sabia mais sobre do que eu esperava, 4, eles tinham 8 pontos agora, ainda podíamos perder.

- , a primeira pergunta é: Em relações amorosas, qual a vantagem de seguir a razão, e qual a vantagem de seguir a emoção, para ?
- Wow! - Disparei, indignado com a complexidade da questão - Espera... Me deixa pensar.

Coloquei as mãos na cintura e olhei para o chão, como se aquilo fosse me trazer a resposta, qual é a vantagem de seguir a razão em uma relação amorosa? Se ela tivesse seguido a razão em relação à mim, o que ela teria feito? Me afastado de si logo de início por todas as brincadeiras sem fundamento que eu já havia feito, e por eu ser de um "mundo" que não condizia com o seu, e pelo contrário, a afetava muito. Ela não teria ficado comigo, se tivesse sido racional.

- A vantagem de usar a razão é... Evitar sofrimento? - O professor fez um gesto pra que eu continuasse, mordi meu lábio - E a vantagem de usar a emoção é... Não sei, espera! - Eles começaram a rir.

Ela usou a emoção, o que ela havia tirado disso? Sofrimento em cima de sofrimento, então o que ela teria respondido? Que não havia vantagem nenhuma em seguir a emoção? Bom, se fosse isto, eu iria errar, mas iria dizer algo que ela precisava escutar.

- A vantagem de usar a emoção está relacionada à arrependimento. Quando você faz algo pensando muito, então você erra em algo, você se culpa o resto da vida, porque aquilo não era bem o que você queria, o que você realmente quer é aquilo que você faz por impulso, é o sentimento repentino, sabe? Então a vantagem é não se arrepender, por mais que não tenha dado certo, você fez o que queria fazer, sentiu o que queria sentir durante o tempo que teve. - Olhei pra depois para o professor, ele parecia surpreso com algo.
- disse em sua resposta da seguinte maneira, posso ler, senhorita ?
- Pode, professor. - Ela concedeu.
- "Seguir a razão te priva de sofrimentos constantes, enquanto seguir seu coração, sua emoção, não permite que você queira voltar atrás em nenhuma atitude tomada, por mais difíceis que sejam as conseqüências".
- Eu acertei?! - Gritei com os braços erguidos em expectativa, o professor rolou os olhos e concordou com a cabeça, comecei a pular, gritando e comemorando - Eu e tivemos um “transmimento de pensação“. - Pisquei pra ela, que ria, e voltei a olhar para o professor - Vai, professor, depois dessa eu respondo o resto, tenho certeza.
- Certo, . - Ele disse, rindo - A pergunta seguinte é: Se pudesse experimentar algo por uma única vez, sem qualquer risco ou conseqüência, o que seria? - Arqueei as sobrancelhas e olhei pra , ela sorriu fechado, com os braços cruzados, olhei para o professor e ri desconcertado, coçando minha bochecha.
- Morrer? - Encolhi-me, com os olhos semicerrados, riu.
- Ponto para a equipe vermelha.
- YAAAAAAAAAAAAAAY! - Gritei, começamos a novamente comemorar, agora faltavam só mais 3.
- A próxima é: tem alguma cicatriz? Se sim, como ela a adquiriu? - Hm, deixa-me pensar em quantas. - Olhei pra com deboche, nós começamos a rir e ela corou - Ela têm uma na barriga... Não, mais pra baixo... De quando ela tirou o apêndice... Ela tem uma outra no antebraço, de uma briga de bar... - Gargalhei junto com ela - Brincadeira, brincadeira, é de quando ela se cortou com um vidro de xarope pra tosse... E acho que só... Não! Não! - Gritei com as mãos estendidas, pedindo que ele esperasse - Ela tem uma atrás da orelha, de quando empurrou ela, sem querer, em uma parede de vidro.
- Certo, temos algo inédito, ele se lembrou de uma a mais, porque só disse uma no ventre e outra no antebraço. - Dei de ombros.
- 'Tá valendo, professor, eu não errei! - Ele começou a rir.
- Certo, vamos para a próxima. - Olhei pra , que tocava, com a ponta dos dedos, atrás de sua própria orelha, sorri e tornei a encarar o professor - É a seguinte: Qual atitude do sexo oposto te faz perder as defesas? - Mordi meu lábio, eu deveria mesmo dar essa resposta?
- Nossa, professor, essa é difícil. - Respondi rindo, coçando a nuca - Não posso sair entregando o ouro assim. - Grande parte de nós gargalhou, encolheu-se, completamente vermelha.
- Quer que eu responda, ? - James perguntou com um sorriso malicioso, trinquei os dentes.
- Tente. - O desafiei.
- Hey, hey! - O professor chamou nossa atenção - Podemos prosseguir com o jogo?
- Não, vamos ver então quem a conhece melhor! - James disse e eu neguei com a cabeça.
- Quer saber? Não vale a pena. - Respondi, olhando-o - Eu a conheço o suficiente pra saber que nesse momento ela está pensando "Não façam isso, não façam isso".
- Uuuh! - Eles exclamaram e começaram a bater palma, olhei pra que suspirou e assentiu uma vez, com um sorriso fraco.
- Eu vou dar minha resposta. - Disse ao professor - O que deixa a sem defesas é olho no olho. - Respondi sem hesitar, o professor sorriu, parecendo incrédulo.
- Com as mesmas palavras. - Ele disse e riu - Ponto para equipe Vermelha e agora vamos para a quinta e última pergunta. - Assenti, esfregando as mãos - Coloque em ordem: Uma relação é constituída de respeito, admiração, confiança, tesão, amor.
- Eu preciso colocar essas palavras em ordem? - Confuso, questionei.
- Sim, você precisa saber qual a prioridade pra ela, respeito, admiração, confiança, tesão e amor.
- Ah, ok... - Suspirei - Em primeiro lugar respeito, depois amor, em terceiro confiança... Admiração e tesão. - Encolhi-me, o professor me olhou e sorriu.
- Feito, , ponto para o grupo Vermelho!
- YAAAAAAAAAAAAAAAY!

Pulei sobre meu grupo, sentindo-os me segurarem e saltarem junto comigo, comemorando nossos novos 5 pontos, completando com os 5 que fizera tínhamos 10, desclassificamos o grupo verde, e agora só faltava saber se Patrick acertaria as 5 como sua namorada, e assim empataríamos, do contrário, seria nossa primeira prova ganha.
Sentei-me ao lado de , ela me olhou e sorriu.

- Parabéns. - Murmurou, sorri e assenti.
- Obrigado, parabéns à você também. - Ela sorriu e então nos voltamos para Patrick.

Ele acertou as 4 primeiras, e era a última, ele só precisava saber qual dos pecados capitais Samantha se considerava mais próxima de cometer. É claro que é vaidade, qualquer um saberia só de olhar pra ela, mas ele provavelmente era cego de amor, então respondeu luxúria. Que pena... Pena o caralho, 10 pontos para nossa equipe!

- Vamos parabenizar todos os líderes, que foram muito bem nas provas, e principalmente à e por se conhecerem tão bem, gostei de ver. - Ele nos sorriu, retribui o sorriso, ainda abraçado à e ao grupo - Esse é o fim da prova de hoje, agora podem ir se divertir, apesar da chuva.

Batemos palmas e começamos a nos dispersar e caminhar para fora do restaurante. Ainda garoava, mas isso não nos fez desistir de aproveitar a noite. Grande parte dos alunos pulou na piscina e, ao meu ver, depois daquela prova, estávamos todos mais unidos. Talvez fosse o clima de chuva, ou por termos ficados trancados no restaurante por mais de uma hora juntos.
Quando meu relógio marcou 9 horas, decidi que eu devia ir para o apartamento e tentar, ao menos tentar, arrumar pra que não parecêssemos quatro macacos. Era como se tivéssemos recebido uma visita muito especial da Katrina, sabe, o furacão? Provavelmente o quarto de e não estava assim. Comecei estendendo melhor a roupa de cama e arrumando suas almofadas. Depois peguei um tapete que estava no banheiro e enxuguei o chão do quarto que eu e acabamos molhando por sair do banho sem nos enxugar, em parte por causa da chuva que havia entrado por termos esquecido de fechar a porta da sacada. Recolhi todos os tênis e chinelos, joguei-os pra baixo da cama, ela não os veria ali. Peguei as peças de roupa espalhadas pelo quarto e pelo banheiro, embolei-as no canto das poltronas e deixei nossas malas sobre elas, isso as esconderia por tempo suficiente. Depois foi a vez do banheiro, caso ela quisesse usar, se assustaria. Peguei todas as boxers e meias espalhadas e as atirei dentro do box, seus vidros embaçados impossibilitariam o reconhecimento das peças e, por fim, a pia, nojenta. Lavei rapidamente e ergui todos os frascos, depois dei descarga e fechei o vaso, enxugando rapidamente o chão com um tapete, sai e encostei a porta.

- , 'tô subindo!
Capítulo 6.
"That kinda lovin' turns a man to a slave"
(Crazy - Aerosmith)

Sentei na beirada da cama e respirei fundo, tentando não parecer ofegante, ou nervoso. Ela inclinou-se e colocou a cabeça para dentro do quarto através da fresta da porta.

- Entra, , não te ouvi chamar. - Disfarcei, passando a mão pelo meu cabelo enquanto ela se acercava, trazendo nosso bloco de papel e uma caneta.
- Eu chamei duas vezes, aí entrei. - Sorriu culpada, ri baixo e bati na cama ao meu lado.
- Sem problemas. - Eu disse e ela se sentou com cuidado, olhando ao redor de si, talvez para aliviar-se do desconcerto que compartilhávamos - Er... Então, o que temos pronto?
- Hm, quase nada. - Suspirou e me entregou o bloco de notas, cocei a nuca.
- Realmente. - Rimos - Vamos terminar isso hoje. - Garanti - Se importa se eu tirar meu tênis?
- Depende, posso abrir as portas da sacada? - Gargalhei e dei um tapa de leve em sua cabeça, ouvindo-a rir também enquanto eu chutava meu tênis pra lá e me recostando a um pilar que havia nos pés da cama.
- Você teve mais alguma idéia? - Perguntei após reler o que já tínhamos escrito.
- Não... Não sei. - Disse, também desfazendo-se de seu All Star e encolhendo-se sobre a cama, encostada no pilar frente à mim.
- Ok... - Murmurei, então reli as primeiras linhas e sibilei algumas vezes uma frase que se formou em minha mente - O que você acha de "Agora você está longe de mim, e como isso aconteceu depois de tanto tempo"? - Ela me olhou parecendo um pouco apreensiva.
- Gosto... - Assentiu, talvez sem graça - Eu pensei em colocar algo como... "Eu fecho meus olhos"... - Encarei-a, concordando com a cabeça e esperando que ela concluísse - "E espero estar fazendo certo". - Assenti, meus lábios pressionados um contra o outro.
- Podemos colocar "Eu hesitei em lhe contar o que estava sentindo, eu tenho medo". - Ela encolheu os lábios e baixou os olhos, ela sabia que eu havia entendido - "Livre-se destas lágrimas e seja forte". - ergueu o rosto e me encarou, então desviei meus olhos dos seus e escrevi tudo o que havíamos dito, antes que eu me esquecesse.
- O que você está escrevendo? - Ela quis saber, alguns minutos depois de um silêncio intenso e constrangedor.
- Hm... - Umedeci os lábios e parei de escrever - "Nada muda quando fazemos as pazes, você só fica em casa quando eu estou na cidade." - Li as frases que eu havia escrito recentemente.
- Gostei. - Ela disse com um sorriso, tentei sorrir também, mas falhei - Tenta isso: "Me desculpe se estou fora da linha".

Meus olhos encararam os de , ela parecia lamentar por algo, mas eu não sabia dizer o que era, então retornei minha atenção ao papel. Enquanto eu escrevia e mudava uma coisa ou outra, fazendo flechas para o melhor encaixe das palavras recentemente acrescentadas, eu apenas ouvia a chuva cair do lado de fora, pesadamente. havia definitivamente recolhido-se, e foi melhor assim. Não sei por quanto tempo mais eu seguraria tudo o que eu tinha vontade de dizer à ela. Ela estava mais diferente do que eu pensava, eu estava começando a vê-la de um ponto de vista distinto, pois com nosso namoro e mesmo após o término, sei que mudei pra melhor, enquanto ela, eu nem sabia mais quem era, ou em quantas ela se dividia.

- Já venho. - Eu disse, levantando e saindo do quarto.

Fui até o quarto de e busquei seu violão, ele o levava pra toda parte então eu sabia que o encontraria ali, e então não precisaria passar pela humilhação de tocar o violão que ela me deu de má fé para finalizar nossa composição. Era ironia demais pra uma noite só.

- Por que não usa o que eu te dei? - Ela perguntou assim que me sentei com o violão no colo, fitei-a, buscando indícios de sarcasmo.
- Porque eu não pretendo ficar com ele. - Respondi com sinceridade e me virei de frente para ela, deixando a letra sobre a cama ao alcance da minha visão.
- Por quê? Ele não é bom? - Ela quis saber, respirei fundo e desviei meus olhos das cordas.
- Ele é perfeito, mas não é meu.
- É sim, eu te dei.
- Ele não é meu, eu não o considero meu, e não o quero pra mim.
- Que mal educado, recusando um presente. - Ela disse, sorrindo, semicerrei os olhos e depois decidi ignorar.
- Você sabe cantar? - Eu quis saber, ela suspirou e negou com a cabeça - Mas você não pode tentar?
- Posso. - Deu de ombros.
- Ok. - Comecei a dedilhar o violão, tentando dar início aos arranjos - Será que o trouxe o teclado? Você sabe tocar, não sabe?
- Sei. - Assentiu.
- Legal.

Retornei ao quarto de e voltei com seu teclado, armei seu suporte em frente à cama e conectei seu fio à tomada, mesmo arrumou o que tinha para arrumar nele e eu comecei a indicar algumas notas, acompanhando-a com o violão e pausando às vezes para anotar tudo no bloco de notas.

- Esse final ficou muito bom! - Exclamei entusiasmado - Se a gente ensaiar mais umas três vezes, acho que conseguimos ganhar os pontos.
- É, ficou muito boa, parabéns. - Disse com um sorriso discreto.
- Obrigado, mas parabéns à você também. - Ela sorriu e deu de ombros.
- Bom, acho que... Devo ir. - Ela murmurou e olhou para a sacada, também o fiz.
- Acho que você deve ficar e esperar a chuva diminuir. - Eu disse e ela riu, concordando com a cabeça.
- Então você pode me dar um copo d'água? - Ela pediu e se abanou.
- Posso, vou ligar o ar também.
- Obrigada.

Levantei e deixei o violão encostado à cama, caminhei até o ar condicionado e o liguei, depois saí do quarto e desci até a cozinha. "Que a chuva não passe, que a chuva não passe", eu repetia pra mim mesmo enquanto pegava um copo e uma garrafa de água. Subi lentamente de volta ao quarto, e notei a falta de claridade provinda de dentro dele quando ainda estava no corredor. Contraí o cenho e me acerquei da porta, empurrei-a devagar com o antebraço e realizei que as luzes estavam apagadas. Entrei no quarto com calma, me perguntando se havia acabado a força. A primeira coisa que consegui ver foi o violão encostado sobre a mesa de centro, com um vestido pendurado em seu braço. Meus olhos rapidamente vasculharam o quarto em busca de , e encontraram-na sentada na beirada da cama, com o teclado à sua frente, vestindo uma lingerie cor de rosa e um sorriso que eu não consigo definir.

There'll be girls across the nation that will eat this up
Haverão garotas pela nação que vão engolir esta
Baby, I know that it's your soul, but could you bottle it up?
Amor, eu sei que é sua alma, mas você pode contê-la?
And get down to the heart of it
E ir direto ao ponto
"No, it's my heart, you're shit out of your luck"
"Não, este é meu coração, você está sem sorte"
Don't make me tell you again my love, love, love, Love
Não me faça dizer de novo, meu amor, amor, amor, amor
Love, love, love, Love
Amor, amor, amor, amor

começou a cantar, sem força na voz, mas com os olhos fixos nos meus e os dedos deslizando delicadamente pelo teclado, fazia aquilo com maestria, como se houvesse ensaiado dias apenas para se apresentar pra mim. Um arrepio percorreu minha nuca. Nem em meus mais loucos sonhos eu poderia fantasiar daquela maneira, seminua, sobre minha cama, tocando uma música que eu nunca havia escutado, mas era completamente agradável aos meus ouvidos.

I am aiming to be somebody this somebody trusts
Estou almejando ser alguém que este alguém confie
With her delicate soul, I don't claim to know much
Com sua alma delicada, eu não exijo saber muito
Except soon as you start to make room for the parts
Exceto logo que você começa a dar espaço para as partes
That aren't you, it gets harder to bloom in a garden of Love
Que não são você, assim fica difícil desabrochar em um jardim de amor
Love, love, love, love, love, love, Love
Amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor

Eu não me movia, sequer tentava. Eu mal conseguia desviar meus olhos dos seus... Seus lábios, seios, dedos. Eu não sabia o que fazer, mas não queria fazer nada, como se qualquer movimento em falso pudesse fazê-la dissipar no ar como poeira. Eu estava um pouco mais seguro de que ela não iria sair correndo desta vez, mas ainda assim, com as costas, empurrei a porta e a tranquei, melhor assim.

Only thing I ever could need
A única coisa que eu poderia precisar
Only one good thing worth trying to be, and it's Love
Uma única coisa boa que vale a pena tentar ser, e é amor
Love, love, Love
Amor, amor, amor
I do it for love, love, Love
Eu faço isso por amor, amor, amor

sorriu, ainda encarando meus olhos como se quisesse entrar em minha mente e absorver cada conteúdo dentro dela, se é que havia algum naquele momento. Eu estava completamente cativado por aquela imagem, aquela voz e a melodia que soava do teclado, mesclado com as batidas do meu coração, que parecia pulsar nas orelhas. Meu Deus, não pode ser real, repeti a mim mesmo algumas vezes.

We can understand the sentiment you're saying to us
Nós podemos entender o sentimento do qual você está nos falando
But sensible sells, so could you kindly shut up?
Mas sensibilidade vende, então você poderia gentilmente calar a boca?
And get started at keeping your part of the bargain
E começar a cumprir sua parte da barganha
Aw, please, little darling, you're killing me sweetly with Love
Aw, por favor, queridinho, você está me matando docemente com amor
Love, love, Love
Amor, amor, amor
Love, love, love, Love
Amor, amor, amor, amor

Acerquei-me alguns passos, sem saber se deveria, mas sem conseguir conter. Deixei o copo e a garrafa sobre a mesa de centro, ouvimos o tilintar do vidro quando o copo tombou, tentei, às cegas, colocá-lo em pé, mas tudo o que fiz foi derrubá-lo no tapete; deixei-o lá, que me importa um copo quando tenho um corpo como aquele se insinuando daquela maneira pra mim? Meus joelhos fraquejaram quando ela riu, dizendo que eu a matava de amor, amor, amor... Amor.

Only thing I ever could need
A única coisa que eu poderia precisar
Only one good thing worth trying to be, and it's Love
Uma única coisa boa que vale a pena tentar ser, e é amor
Love, love, Love
Amor, amor, amor
I do it for love, love, Love
Eu faço isso por amor, amor, amor

sorriu quando eu mordi meu lábio, com tanta força que ele chegara a formigar. Meu corpo começava a dar indícios de que não resistiria muito mais. Eu não queria ter de tirá-la de trás daquele teclado, eu queria deixá-la terminar, só não sei se eu poderia fazê-lo, seria bom que ela se apressasse enquanto eu me ocupava tirando minhas meias e camiseta.

Started as a flicker meant to be a flame
Começou como uma fagulha nascida para ser uma chama
Skin has gotten thicker, but it burns the same
A pele se tornou mais tensa, mas queima da mesma maneira
Still a baby in a cradle got to take my first fall
Ainda um bebê no berço tenho que levar minha primeira queda
Baby's getting next to nowhere with a back against the wall
Amor está se aproximando de lugar nenhum, com as costas contra a parede
You meant to make me happy, make me sad
Você tinha a intenção de me fazer feliz, me faz triste
Want to make it better, better so bad
Quer fazer o melhor, melhor tão mal
But save your resolutions for your never new year
Mas guarde suas resoluções para seu dia de são nunca
There is only one solution I can see here
Há apenas uma solução que eu posso ver aqui

Seus olhos percorreram indiscretamente meu peito e abdômen, agora descobertos. Desafivelei meu cinto e depois desabotoei minha calça, ouvindo-a cantar com a voz um pouco mais fraca e vaga. Avancei mais alguns passos em sua direção, baixando o zíper do meu jeans e aliviando um pouco minha ereção. Eu ainda a ouvia, e ainda admirava sua performance, mas os efeitos de sua semi nudez não passavam despercebidos por meus instintos. Eu mal podia esperar para tocar cada centímetro de sua pele.

Love, you're all I ever could need
Amor, você é tudo o que eu poderia precisar
Only one good thing worth trying to be and it's Love
Uma única coisa que vale a pena tentar ser e é amor
Love, love, Love
Amor, amor, amor
I do it for love, love, love, Love
Eu faço isso por amor, amor, amor, amor
Oh, only gonna get get what you give away, so give love, Love
Oh, você só vai conseguir obter o que você dá, então dê amor, amor
Only gonna get get what you give away, Love
Você só vai conseguir obter o que você dá, amor

Parei à sua frente, com meu quadril próximo ao teclado. Eu podia notar sua respiração acelerada através dos movimentos que seus seios faziam, não a julguei, a minha também estava falha desde o momento em que passei pela porta, tão falha quanto sua voz, a partir da minha aproximação. Eu sentia minha pele aquecida, tanto quanto meu interior, que parecia imerso em chamas. Meus músculos pulsavam ansiosos e meus poros se eriçavam de antecipação, vez ou outra eu tinha espasmos alucinantes. Eu e estávamos conectados de alguma forma inacreditável, como se ela estivesse dentro de mim de alguma maneira, comandando cada movimento e cada pensamento, direcionando-os somente à ela. Eu e estávamos fazendo amor sem sequer nos tocarmos.
Com o polegar, pressionei o botão vermelho no canto do teclado, desligando-o. deslizou seus dedos para fora dele e agora eu podia ouvi-la arfar apesar do ruído do ar condicionado e da chuva. Eu também ouvia meu coração, ou era o seu? Não sei. Afastei o teclado para o lado e ela levantou-se. Sem mais delongas envolvi seu corpo em meus braços, pressionando sua pele contra a minha, eu queria estar dentro dela, por completo. esticou seu pescoço, oferecendo-me seus lábios enquanto eu embrenhava meus dedos entre seus cabelos. Com seus lábios próximos aos meus, sussurrou:

- Minha fraqueza... Você errou. - Então pressionou seus lábios nos meus, depositando um beijo úmido sobre eles - Minha fraqueza é você.

Estremeci e guinei seu corpo contra o meu, pressionando nossos lábios e os apartando com a ponta da minha língua. deixou que eu a beijasse como eu queria, também me concedeu lugar entre suas pernas, agora envoltas em minha cintura, pressionando-me contra si. Ajoelhei sobre a cama e apoiei minhas mãos no colchão, nos deitando na superfície macia e receptiva. Nossas bocas se fundiam uma contra outra, investindo no beijo, na carícia lânguida que nossas línguas faziam. As mãos de arrastavam-se por minhas costas, despertando novos espasmos por minha coluna quando, vez ou outra, arriscavam me arranhar.
Senti seu corpo empurrar o meu e logo havíamos trocado nossa posição. apoiou suas mãos no travesseiro onde minha cabeça descansava, seus dentes seguraram meu lábio inferior e o puxaram, enquanto seu quadril fazia movimentos sinuosos sobre o meu, precisamente sobre minha ereção. Desenterrei meus dedos de suas coxas e os arrastei por suas nádegas, depois por suas costas, soltando habilmente cada um dos colchetes de seu sutiã. Ela ergueu-se, com os joelhos apoiados no colchão e seu quadril pressionado contra o meu, então retirou as alças da peça e livrou-se dela, lançando-a para um canto qualquer do quarto. Seus seios arrebitados fizeram meu estômago dar um tranco, e não me contentei com caricias superficiais, eu queria-os novamente em minha boca, eram meus, eu tinha esse direito.
Ergui meu tronco e agarrei seu quadril, mantendo-a em meu colo enquanto delineava seu mamilo com a ponta de minha língua, sentindo-a arranhar meus ombros e gemer baixo com os lábios pressionados em minha cabeça. Mordisquei cuidadosamente o bico rígido de seu seio e a ouvi arfar, outro gemido veio em seguida, quando comecei a sugar seu mamilo. Eu não me cansaria jamais, mas ela parecia ter urgência em seguirmos em frente, então me empurrou de volta ao colchão e começou a baixar minha boxer. Não a ajudei, não desta vez, ela parecia saber o que estava fazendo, e isso me assustava de um tanto, enquanto me excitava em outros bons tantos.
Senti seus dedos percorrerem meu membro, rodeando-o e acariciando-o com destreza, fechei meus olhos e traguei em seco, pulsando-o contra sua pele macia. De repente foi como se um cobertor úmido e completamente quente envolvesse a glande de meu pênis, não consegui abrir os olhos, apenas contraí cada único músculo de meu corpo e gemi baixo, rouco. Da segunda vez eu me senti mais confortável para olhá-la, ela também me olhava, seus olhos nublados de prazer e seus lábios inchados agora engoliam meu membro, indo e vindo como eu havia ensinado uma única vez. Aprendizagem nunca havia sido seu problema.
Quando já não suportava mais, puxei seus cabelos e a afastei sua boca de meu pênis, puxando-a e lançando-a ao meu lado. Colei nossos lábios e encaixei-me novamente entre suas pernas, embora isso me atrapalhasse na tarefa de retirar sua calcinha, logo ela estava longe de nós e já não havia coisa alguma entre nossos corpos que nos impedisse de fazer o que tanto estávamos desejando. Estiquei minha mão até o criado mudo e de lá retirei um preservativo, rapidamente me protegi e senti segurar meu membro, acariciando-o com uma das mãos, enquanto a outra segurava meus cabelos com força. Ela mesma direcionou meu quadril ao seu e começou a penetração, depois deslizou sua mão por minhas costas, permitindo que eu terminasse de empurrar. Um gemido baixo e abafado escapou de nós dois quando me abriguei por completo dentro de seu corpo. Comecei então a me mover, lentamente, para desfrutar de cada única sensação que percorria por meu corpo, e estou certo de que pelo dela também. Meus movimentos ganhavam velocidade involuntariamente, mas não durou por muito tempo, ela me empurrou para o lado e me fez perder o contato de nossos corpos, então colocou-se sobre mim e sentou-se sobre meu membro. Um gemido esgueirou-se entre meus dentes quando a vi rolar os olhos, suas mãos apoiadas em meu peito ajudavam nos movimentos de seu quadril. Apertei suas coxas e suas nádegas, sentindo-a saltar sobre mim, cada vez mais rápido e mais rápido... Mais, mais... Era tudo o que eu conseguia raciocinar, sentindo como se eu fosse morrer a qualquer momento. O prazer era tanto que o ar foi insuficiente, quando finalmente atingi meu orgasmo.
deitou a cabeça pra frente e seus cabelos fizeram cócegas em meu abdômen, sorri e acariciei lentamente suas coxas, com meus olhos fechados, recobrando as forças e a sanidade. Senti seu quadril afastar-se do meu e logo o colchão se moveu, anunciando sua presença ao meu lado. Abri meus olhos e virei meu rosto em sua direção, ela encarava o teto, algumas gotas de suor escorriam por sua testa, seus seios rígidos subiam e desciam em uma respiração ofegante. Preocupado com o que ela poderia estar pensando, ergui meu corpo sobre meu antebraço e me virei de frente pra ela, desviou seus olhos do teto e fitou meu rosto.

- Ninguém pode saber sobre isso. - Disparou, arqueei as sobrancelhas.
- Qual o problema?
- Eu não quero que ninguém saiba. - Disse firmemente - Se chegar aos ouvidos de ela vai dar um jeito pra que eu não te veja, ou atrapalhar quando estivermos juntos cumprindo as tarefas. - Assenti devagar.
- , sempre ela. - Sorri irônico e me sentei, esfregando meu rosto, antes ela não tivesse dito nada.
- ... - Chamou, senti suas mãos em minhas costas e seu queixo em meu ombro, suspirei - Me dê um tempo, quando voltarmos pra Bolton as coisas vão ser diferentes, mas aqui não temos pra onde fugir dela, você me entende? Não quero mais confusão do que já temos. - Assenti, lentamente.
- Tudo bem, , como você quiser. - Senti um beijo ser depositado em minhas costas e depois ela saltou da cama, começando a buscar suas peças - Fica um pouco mais.
- Não posso, já estamos aqui há bem mais de duas horas, temos que entregar a composição de volta ao professor. - Dizia enquanto se vestia rapidamente.
- Hm, tudo bem.

Levantei e fui em direção ao banheiro, livrando-me do preservativo e, após os procedimentos necessários, atirei-o na lixeira. Recolhi minha boxer no tapete ao lado da cama, vesti-a, depois o resto das roupas e o tênis. tomou um pouco de água e eu também aceitei dois copos, então, aparentemente recuperados, saímos em busca do professor por todo o quiosque. Quando passamos pela piscina principal, vimos que ainda estavam todos por lá, e agora que a chuva havia cessado, eles se divertiam na piscina mais uma vez, se é que haviam saído de lá.

- Sr. Dawson, Sra. Hale. - os chamou gentilmente quando os encontramos sentados em uma varanda, tomando algo que não parecia suco.
- Boa noite. - Eles disseram juntos.
- Boa noite. - Eu disse e estendeu o bloco de notas.
- Viemos entregar a composição.
- Já está pronta? - Ele quis saber.
- Sim, nós só precisaremos pegar amanhã uma última vez pra ensaiarmos, mas ela está pronta.
- Parabéns, garotos, muito bom trabalho. - Sra. Hale disse e nós sorrimos em agradecimento.
- Então nós vamos indo... - disse e encolheu-se - Tenham uma boa noite.
- À vocês também.

Caminhamos em silêncio, encolhida em seus próprios braços e eu com as mãos enterradas no bolso. Estava claro que não sabíamos o que fazer, se devíamos andar mais próximos ou ainda mais afastados que anteriormente. Eu sentia como se todos soubessem e aposto que ela sentia o mesmo. Eu não via problema nenhum em gritar pro mundo que estávamos supostamente juntos, mas se ela via, eu evitaria o quanto pudesse.

- Eu vou... Indo para o apartamento. - Ela disse quando nos aproximamos da piscina principal, fitei-a por um momento, meus passos morrendo aos poucos.
- Tudo bem, eu ainda vou ficar aqui com os caras um pouco.
- Certo... Então boa noite. - Ela me olhou, sem saber o que fazer, retirei minhas mãos do bolso e segurei sua cintura, trazendo-a para mais perto.

não recusou meu beijo, embora tenha sido breve. Depois ela se afastou, e eu, como havia dito, caminhei até os caras, que estavam sentados em uma das mesas. Por mais que eu tenha tentado, não consegui me concentrar em qualquer assunto, eu parecia ouvi-los, mas não entendê-los. Minha cabeça estava em outro lugar, e meu corpo também queria estar.
Voltamos pra casa quando já era bem tarde, antes que começasse a falar, retirei as roupas de cama e expliquei a ele o que havia acontecido, mas pedi que por enquanto isso ficasse apenas entre nós dois, eu contaria aos outros em outra oportunidade. Ele entendeu, e até agradeceu a confiança depositada sobre ele novamente, apesar de tudo o que ele havia feito. Achei graça, pois eu nem mesmo havia me lembrado disto.
Deitado no sofá da sala, olhando gotas espessas de chuva se mesclarem com a água da piscina do lado de fora do bangalô, eu tentava assimilar o que de fato havia acontecido naquele quarto mais cedo. Eu deveria me sentir feliz com aquela transa? Deveria me preocupar com o rumo que as coisas tomariam depois daquilo? Ou com as razões que tivera pra se entregar novamente a mim? Eu estava tão confuso que não quis pensar em mais nada, e manter viva apenas a lembrança da sensação de tê-la em meus braços. Isso me bastava por hora... Por hora.

Capítulo 7.
"I would fall asleep, only in hopes of dreaming that, everything would be like it was before"
(Blind - Lifehouse)

Felicidade, para mim, sempre foi um sentimento relativo. Ninguém consegue ser feliz um dia inteiro, sem que nada faça alterar, mesmo que um pouco, essa sensação. Concluo então que, o que existe, são momentos felizes. Momentos que você se esquece de qualquer coisa que não seja o simples e justo desejo de que os ponteiros paralisem e você não precise nunca mais lidar com outro sentimento, se não aquele. Mas quando estes momentos chegam ao fim - e eles sempre chegam - tudo o que resta é uma vaga e confusa lembrança. Era como eu me sentia, na verdade. Vago, confuso.
Após obter tudo o que mais quis durante todos aqueles dias, havia uma pergunta que me assolava desde então: Será que aquela transa significara para o mesmo que para mim? Afinal, ela me parecia bastante convicta em demonstrar seu ódio e rancor para, de repente, estar tocando teclado completamente nua pra mim... Pra mim. Então dentre todas as possibilidades, a mais cabível, e a que menos me fazia sofrer, era a de que estava por trás de cada olhar cheio de mágoa em minha direção, cada palavra hostil, cada roupa, cada novo movimento da nova , ela estava tão abarrotada de novos falsos trejeitos e falsos vocabulários, que eu mal podia ver minha menina abaixo de tudo aquilo, mas eu sabia que ela estava em algum lugar, despindo-se para tocar uma canção de amor pra mim... Pra mim. Foi isso o que aconteceu, também sentiu-se esmagada por sua outra versão, a nova, que não me agradava em nada, e então retirou-a de cima de si, assim como cada peça de roupa, e livre de tudo aquilo, entregou-se aos meus braços, ela voltou a ser ela mesma, e se tem uma coisa na qual ninguém jamais poderá intervir será essa. , sendo ela mesma, sempre será minha. Minha.

- , acorda. - Eu ouvia, mais uma vez, a voz de . Bufei e me encolhi, eu queria que ele desistisse e fosse sem mim - Vamos, benzinho, vai me abandonar assim? - Suspirei e controlei o riso diante de sua voz afinada - ! - Chamava com a entonação melódica e pastosa, ri, abrindo os olhos e vendo-o sentado na cadeira de balanço em frente ao sofá.
- Você é chato pra caralho. - Murmurei, alongando meu corpo e sentindo meus músculos protestarem aos movimentos, voltei a me encostar e fechei os olhos.
- Eu ainda fui muito gentil deixando você dormir até agora, anda logo ou a gente fica sem almoço. - Falou rapidamente, suspirei, sem querer sair dali - Anda, !
- Já vou, merda!

Ainda que eu houvesse dormido a manhã toda, era como se eu tivesse tido uma noite em claro. Minhas pálpebras mal conseguiam se manter erguidas, mas após lavar o rosto e escovar os dentes, parecia melhor, ou mais fácil ficar acordado. Fiz toda a higiene matinal e saí em busca de uma roupa. Nada mais que um boardshort preto e uma camiseta branca lisa. Calcei meus chinelos e coloquei meu óculos de sol, não queria amedrontar ninguém, certo? Meu cabelo já daria bons sustos.

- Ahhh, até que enfim! - Ouvi reclamar assim que Dougie e eu atravessamos a porta do restaurante.
- Eu disse ao que não era hora pra dar uma, mas vocês conhecem essa putinha. - Respondi com bom humor, eles gargalharam e me abraçou pela cintura.
- Não fala assim, benzinho. - Fazia biquinho enquanto caminhávamos até a mesa, ouvindo os garotos rirem, notei que Mia e Abbie também estavam sentadas ali, as cumprimentei com a cabeça e me soltei de , sentando-me em uma cadeira desocupada.

Enquanto os garotos falavam sobre algo que parecia engraçado, meus olhos começaram a buscar pelos de , que corou ao perceber-me encarando-a, sorri e ela encolheu-se, sorrindo de volta, mas logo desviou seus olhos para , com um falso sorriso espontâneo na direção da moça, que falava sem parar. Suspirei e tentei ignorar o fato de como as coisas estavam diferentes agora, podíamos estar sentados juntos, podíamos, ao menos, não estar escondendo nossa vontade de estar perto um do outro, mas nada era como antes. Podíamos perceber em seu rosto, seus gestos e sorriso, no decote de sua blusa, minha menina nunca usaria aquilo, ao menos não com a intenção de provocar, mas devo admitir... Ela estava linda pra caralho.

- 10 libras a hora.

Grande parte dos alunos haviam descido pra praia depois do almoço, era quinta-feira e todos queriam aproveitar tudo o que podiam antes de termos de ir embora. Os garotos e eu decidimos, finalmente, dar uma volta de Jet Ski, estávamos esperando por aquilo desde o primeiro dia, mas nos distraíamos com outra coisa e acabávamos adiando. Não teríamos outra oportunidade, já que no dia seguinte teríamos de ensaiar, no sábado iríamos ter um lual, onde nós iríamos tocar. Só vim a saber de tudo isso enquanto descíamos até a praia.
Com o colete salva vidas no corpo, subi no Jet Ski e dei partida, ouvindo o instrutor me advertir sobre algumas coisas enquanto meus olhos acompanhavam e avançarem rapidamente. Fiz o mesmo e sem mais delongas comecei a adquirir velocidade. Eu sentia as gotas de água respingarem em mim, por meus braços e rosto, aliviava o calor que aquecia fortemente minha pele devido ao sol a pino.
Olhei de lado para , que havia se distraído com , agora eles faziam curvas fechadas e com isso atiravam água em e Antony. Gargalhei e olhei pra frente, acelerando um pouco mais. Se eu já havia tido sensação de liberdade como aquela, eu não me lembrava. Eu podia ir para qualquer lugar, mas não havia lugar algum ali, só água, uma imensidão de água cristalina.
Pouco tempo depois, e longe o suficiente para já não enxergar a praia, uma estrutura se erguia frente aos meus olhos, e se tornava maior e mais bonita com a proximidade. Não era qualquer tipo de ilha, ao menos não se parecia com uma. Eram apenas montanhas de pedras de todos os tamanhos e formatos, um paraíso rochoso.
Emperrei o Jet Ski na margem e saltei dele. Por pura curiosidade comecei a andar, e embora eu tenha quase caído diversas vezes, eu estava interessado naquele lugar. De longe pude ver a entrada de uma caverna, excitado, andei mais depressa para chegar até lá. Entrei na água e comecei a caminhar caverna adentro. Minha visão limitou-se um pouco pela escuridão, era como um túnel, não muito estreito. A claridade vinha de algum lugar à frente, e logo se tornou maior, conforme eu me aproximava. A essa altura a água alcançava a linha do meu estômago e o salva-vidas começava a me impulsionar pra cima, afetando meus passos. As paredes se abriam e faziam um grande e alto círculo. Arqueei as sobrancelhas e dei um passo, mas notei que ali já não "dava pé" pra mim, o colete me suspendeu e eu dei braçadas lentas até uma rocha grande e achatada que havia ali no meio, dei um impulso e me sentei sobre ela, depois me livrei do colete e dos óculos de sol, deixando-os ao meu lado.
Soltei um suspiro alto, olhando aquele lugar ao meu redor. Eu só queria ficar ali e não pensar em nada, mas falhei. A única coisa que me confortou é que não estava pensando em , não diretamente. Estava pensando em futuro, no futuro que dois ou três anos atrás, planejávamos e pensávamos que tínhamos tempo o suficiente para nos preparar até lá, mas agora tínhamos um semestre, será que estávamos preparados? Será que conseguiríamos finalmente tudo o que queríamos ou assim que o ano letivo terminasse tudo ficaria pra trás, nos perderíamos e iríamos virar coisas que nunca quisemos ser? Quero dizer, o que eu seria se não fosse músico? Profissional do sexo?

- Ah, velho, que merda, o que tem na cabeça? - Ouvi a voz de ecoar, contraí o cenho.
- Ele deve estar por aqui, o Jet Ski dele 'tá aqui, ele não deve ter ido muito longe.
- , você 'tá vendo ele por alguma parte aqui? Não tem lugar pra ir aqui, ele não está aqui! - dizia depressa, com a entonação cheia de cólera, comecei a vestir meu colete e saltei de onde estava, pegando meu óculos e fazendo o caminho até o túnel.
- , ele têm que estar aqui em algum lugar! - disse esganiçado, prendi o riso, podia ser cruel, mas era muito engraçado vê-los desesperados.
- Calma, gente, vamos ter calma, às vezes esse não é o Jet Ski dele. - ponderou, mas logo depois concluiu - Ok, mas vamos tentar não nos desesperar, ele deve estar por aqui...
- Vocês não entendem? - gritou e eu finalmente pude vê-los, coloquei as mãos na cintura e soltei um suspiro cansado.
- E aí, guys! - Eles se voltaram pra mim subitamente, trincou os dentes e eu agradeci por estar longe dele.
- Onde você 'tava, idiota?! - bradou, levantando-se com a expressão transtornada, ele estava pálido, ri e saltei de onde estava, andando até eles.
- Ali dentro. - Apontei com o polegar - É muito bonito, vocês deveriam ver.
- Ah, que fofa! - exclamou com um sorriso sarcástico - Enquanto a mocinha ficava admirando a paisagem, 'tava todo mundo louco atrás de você lá na praia, seu otário! - Ralhava ele, cocei a nuca fingindo desconcerto.
- Tudo bem, estou aqui agora, não chorem. - Saltei sobre , que deu um tapa em minhas costas, mas depois cedeu às gargalhadas.
- Vamos voltar de uma vez.

Após pegarmos nossas respectivas motos, começamos a traçar o caminho até a praia. Só então notei quão longe eu havia ido. , que vinha ao meu lado, me contou que o instrutor havia sido o primeiro a ir me procurar, havia encontrado um Jet Ski um pouco mais longe de onde eu estava, tombado na água, então retornou, para pedir ajuda na busca esperando que aquela não fosse minha moto, foi quando teve uma queda de pressão, mas os caras não sabiam mais que isso, pois haviam se disponibilizado para me procurar também.
De longe pude ver o aglomerado de pessoas, contraí o cenho. me olhou e apontou com a cabeça, gritando um "se vira". Ri e acelerei em direção à margem, notei que algumas pessoas estavam aliviadas ao me ver, outras rolavam os olhos e se afastavam. O instrutor se aproximou rapidamente, perguntando se eu estava bem e me bronqueando em seguida, o mesmo fizeram os professores. Achei uma reação exagerada, eu não havia passado mais que 2 horas naquele lugar e eles só faltavam ligar para meus pais.

- Eu estou bem. - Afirmei uma última vez ao Sr. Dawson, enquanto Sr. Hale media minha febre com as costas da mão, suspirei e rolei os olhos, livrando-me do colete salva vidas enquanto olhava em outra direção, vi , longe de todos, próxima à escada que dava acesso ao resort.
- Você está quente. - Disse Sr. Hale.
- Eu estava no sol. - Respondi sem interesse, com meus olhos fixos nos de , ela tinha uma expressão rígida, lentamente começou a subir as escadas, quando chegou ao topo, virou seu rosto pra trás e maneou a cabeça.
- Ainda assim, é melhor irmos até à enfermaria... - Sr. Hale sugeriu, espalmei seu ombro em conforto e comecei a andar - , volte aqui!

Andei depressa, ignorando os chamados, até a escadaria. Subi, de dois em dois degraus, o mais rápido que consegui. caminhava a alguns metros de distância, ela olhou pra trás e voltou a caminhar, ligeiramente. Segui-a, o que mais eu poderia fazer? Já havíamos atravessado o resort e ali só se podia ouvir as ondas quebrando no mar, junto com o balançar da folhagem dos coqueiros e o cantar de uns passarinhos. Dispersei-me um pouco, olhando a vista, e quando olhei pra frente não pude vê-la, contraí o cenho e parei de andar, buscando-a ao meu redor, mas não havia sinal de por ali. Andei mais devagar, agora pela grama, e pude avisar uma cabine. Andei devagar até lá, mas antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, senti duas mãos espalmarem meu peito, lançando-me contra uma das paredes de madeira, que chacoalhou brevemente com a colisão. Abri os olhos e identifiquei a figura de à minha frente, seus olhos direcionados aos meus e seus lábios entreabertos. Eu sentia sua respiração soprar meu rosto, mas por pouco tempo, nossos lábios se buscaram. empurrou seu corpo contra o meu e investiu com sua língua na minha, como se estivesse faminta por aquele beijo.
Agarrei sua cintura por baixo da blusa que ela usava, aturdido pela maneira ávida com a qual me beijava. Vez ou outra eu sentia seus dentes beliscarem meus lábios e a ponta da minha língua. Senti suas mãos percorrerem meu peito e barriga, até alcançarem a barra de minha camiseta e trazê-la pra cima e a ajudei a concluir a retirada da peça. Suas mãos alisaram minha pele, e por onde passavam deixavam um rastro mais quente, como se ateasse uma trilha de fogo com a ponta dos dedos. Trinquei meus dentes, sentindo os seus cravarem em meu pescoço, depois no lóbulo de minha orelha, arranhando-o com calma enquanto respirava ruidosamente, resfolegando enquanto eu segurava firmemente seu quadril contra o meu. Eu não costumava ser passivo, mas eu não me importava de deixá-la fazer o que quisesse comigo... Oh, não mesmo.
se afastou alguns centímetros, ainda com meus cabelos preso entre os dedos de uma de suas mãos, ergueu-se novamente na ponta dos pés e com uma calma irritante beijou meu queixo, senti sua língua roçar contra ele e fechei meus olhos, meus poros se eriçaram e eu a puxei com mais força, ouvi seu gemido baixo, longo e um sorriso veio a seguir, aquilo me fez atingir meu limite rapidamente. Apanhei suas coxas e a carreguei até a maca, posicionada atrás de nós, sentei-a lá e sem muita delicadeza puxei o tecido de sua blusa acima. Encarei seu pescoço exposto e encaixei meu rosto na curva dele, começando a beijá-lo e sugá-lo enquanto sentia suas mãos trêmulas lidarem com meu boardshort, logo ele estava em torno de meus tornozelos, e em seguida longe deles.
Segurando as coxas de , eu instigava seu quadril a mover-se contra o meu, podendo com isso pressionar minha ereção nela. Suas mãos trabalhavam para me manter o mais próximo que era possível, agarrando minha pele como se quisesse arrancá-la de mim. Eu sentia meu corpo todo queimar, senti que poderia explodir a qualquer minuto, em todos os sentidos da palavra. Mordisquei sua orelha, abocanhando-a. estremecia a cada nova pincelada da minha língua contra sua pele. E sem poder conter sua excitação, agarrou uma de minhas mãos e a arrastou por sua própria coxa, levando-a pela parte interna da mesma e pressionando-a contra sua própria intimidade. Grunhi entre dentes, começando a desabotoar seu short, retirei-o de seu corpo o mais rápido que consegui. Suas pernas atraíram meu corpo de volta ao seu e um novo beijo teve início, mais sedento do que qualquer outro que eu já havia provado.
Toquei seus seios sobre o biquíni, mas não me permitiu tirá-lo, justificou-se dizendo que alguém poderia chegar, isso poderia me irritar se não fosse a maneira como ela me masturbava e dizia isso no pé do meu ouvido. De repente ela levantou-se e virou-se de costas pra mim, afastou seu próprio cabelo para o lado enquanto eu a abraçava por trás, alisando sua barriga que encolhia-se rapidamente a cada um de meus toques. Fiz uma trilha de beijos de seu ombro até sua nuca enquanto pressionava meu membro contra sua bunda, desamarrando a alça de seu biquíni com uma das mãos. segurou minhas mãos e as arrastou até seus seios, ajudando-me a abaixar parte da peça, seus seios saltaram de dentro daquela prisão de tecido apertado, diretamente para dentro de minhas mãos. Apertei-os e massageei enquanto deslizava a língua por trás de sua orelha, ouvindo-a gemer e arfar, empurrando-se contra mim.
Deslizei uma de minhas mãos até sua intimidade, adentrando com ela na calcinha de seu biquíni e tocando-a com pressa, senti sua pele encharcada, meus dedos deslizavam facilmente, pressionando seu clitóris inchado e ouvindo-a gemer longamente a cada nova fricção. Parei o que fazia e agora seus urros eram de protesto, mas duraram pouco tempo. Baixei sua calcinha até o meio de suas coxas e dali elas escorregaram por contra própria enquanto eu massageava suas nádegas, olhando-a empinar sua bunda em minha direção. Mordi meu lábio com força e notei me olhar por cima de seu ombro, sorri e mordisquei sua orelha, sussurrando ali: você me deixa louco.
riu de maneira travessa enquanto eu conduzia um de seus joelhos até a maca, ela pareceu desconfortável num primeiro momento, mas eu não permitiria que ela se movesse, ela havia me provocado, qualquer desprazer era por sua conta e risco. Abaixei minha boxer apenas o suficiente e segurei meu membro, pressionando-o contra sua feminilidade, estremeceu e apoiou suas mãos na maca, enquanto minha mão livre lhe segurava pela barriga. Penetrei apenas a glande e retirei, eu a ouvia sugar o ar entre os lábios, sua cabeça jogava-se para frente, depois para trás, nada podia me deixar mais excitado do que proporcionar aquele prazer à ela.

- Vamos logo, ! - Protestou, pressionando as unhas em minha mão.

Empurrei meu quadril contra o seu, preenchendo-a. Comecei os movimentos em seguida, não havia tempo a ser gasto. Estávamos completamente impacientes para qualquer outra preliminar. Toquei seu seio, apertando-o e beliscando seu mamilo sem muita delicadeza, enquanto estocava com força, eu não conseguia pensar em mais nada que não fosse o prazer que eu estava sentindo. Apertei sua nádega com a mão livre e depois a arrastei até sua intimidade, começando a estimular seu clitóris o mais rápido que minha coordenação motora permitia. Nossos corpos estavam quentes como nunca, embebidos em suor. controlava os gemidos e tudo o que escapavam de minha boca eram jatos fortes e sonoros de ar.

- ... - Ela me chamou, envolvendo minha nuca com um de seus braços e recostando-se ao meu peito - Camisinha. - Gemeu com os olhos fechados enquanto eu beijava sua orelha, grunhi de raiva e parei o que fazia.
- Droga! - Protestei, sem conseguir me afastar, soltou-me com calma e livrou-se de meu membro, mas segurou-o entre seus dedos enquanto agachava aos meus pés - ... Se você não quiser, não precisa fazer isso. - Meu maior medo era que ela realmente desistisse, mas eu ainda a respeitava.

sorriu despreocupada e começou a lambê-lo, como se limpasse-o de seus próprios vestígios, depois começou a sugá-lo enquanto segurava-o pela base sem depositar força. Meu corpo todo tremia e eu não sabia até quando minhas pernas suportariam meu peso, e a intensidade daquelas sensações. Meus músculos começaram a latejar, era como se eu estivesse inchando, minha cabeça pesou e eu a deixei cair pra trás. Todo o sangue esgueirou-se de meu corpo e ferveu em minha virilha, então meu orgasmo começou a jorrar, olhei para com a visão turva, ela parecia não saber o que fazer com aquilo, e nada gentil da minha parte, mas agarrei seus cabelos e a fiz manter parte de meu membro em sua boca até que chegasse ao fim. Rolei meus olhos e recobrei a respiração aos poucos, desenroscando meus dedos de seus cabelos empapados de suor.
Ela ergueu-se lentamente, lábios e rosto sujos, olhar confuso. Segurei-a pela cintura e a fiz sentar-se novamente sobre a maca, alisando suas coxas e trazendo-as em minha cintura. Com uma das mãos, mais precisamente o polegar, limpei seu rosto e, passado todo aquele furor, me senti culpado. Encostei minha testa à sua, sentindo seu hálito quente percorrer meu rosto. Com os lábios entreabertos depositei um beijo sobre os seus, depois em seu queixo, então fui trilhando um caminho por sua garganta, colo, entre os seios e em sua barriga. Suas pernas se afastavam automaticamente, em um convite direto ao paraíso. Beijei seu umbigo e o contornei com a língua, arrastando-a até sua virilha em seguida. agarrou meus cabelos com uma das mãos, enquanto a outra suspendia seu corpo na maca. Comecei a lamber sua intimidade com calma, depositando beijos lânguidos e sugando seu clitóris com destreza. Seu quadril se movia contra meu rosto, incitando-me a continuar. Pressionei a língua, rígida, para dentro de sua intimidade, depois retirei e substitui por dois dedos, empurrando-os rapidamente para dentro dela enquanto estimulava seu clitóris com a língua. Suas coxas guinaram para dentro e seu quadril petrificou, gemidos altos e longos esgueiravam-se para fora de seus lábios enquanto eu fazia tudo com ainda mais rapidez. Seu corpo relaxou sobre a maca, inclusive seu tronco, até então arqueado, despencou para trás. Ergui-me, olhando sua cabeça jogada para fora da maca, sorri e me inclinei, depositando um beijo em sua barriga.
Ergui minha boxer enquanto ainda a ouvia arfar, com as pernas encolhidas para o lado e as mãos sobre a barriga. Esperei um pouco até que ela se recuperasse e a puxei com cuidado pelos antebraços, ela me olhou com a expressão curiosa, sorri e rocei meu nariz pelo seu, ela rapidamente fechou os olhos e cedeu espaço à minha língua, permitindo que eu a beijasse uma vez mais. Eu sentia que podia sair saltando de felicidade, mas era melhor pular apenas mentalmente.

- Se eu quisesse... - Comecei a falar, afastando-me um pouco - Digamos que... Te seqüestrar esta noite... Você iria?
- Como seria isso? - Quis saber, abracei sua cintura e sorri, olhando-a com uma sobrancelha arqueada.
- Eu iria te pedir para ir até meu apartamento por volta da meia noite, e você iria ficar comigo a noite todinha. - Mordi meu lábio, vendo-a me encarar dispersa.
- Não sei, ... Tem , você sabe. - Ela disse soltando um suspiro.
- , por Deus... - Rolei meus olhos e voltei a encará-la - Vamos lá, diz à ela que vai... Não sei... Ela não tem nada a ver com a sua vida, que droga.
- Calma... - Ela pediu e acariciou minhas bochechas com os polegares - Eu estarei lá, talvez com uns minutos de atraso.
- Tolero até meia hora, nada mais. - Adverti, apontando meu indicador em seu rosto, ela riu e assentiu, abraçando-me pelos ombros.
- Acho melhor irmos. - Murmurou e eu assenti, depositando selinhos gentis sobre seus lábios - É sério.
- Uhum. - Fechei meus olhos e a beijei, riu baixo e depois retribuiu ao beijo. - E nunca... Mais... Me dê... Um susto... Como esse.

Eu não queria ficar longe dela, não mais do que eu já havia ficado. Mas eu devia respeitar seus limites, por isso a deixei ir, e saí em seguida, diretamente para o bangalô. Os caras tentaram retirar qualquer informação de mim, mas eu me tranquei no banheiro e só saí de lá depois de um longo banho, e quando tinha todas as idéias organizadas em minha mente, era só colocá-las em prática, e aquela seria uma noite longa... No bom sentido, é claro.


Capítulo 8.
"Let's go all the way tonight, no regrets, just love"
(Teenage Dream - Katy Perry)

- Hey, caras, eu 'tô indo para o apartamento. - Avisei, deixando meu coquetel sobre a mesa.
- Por quê? 'Tá todo mundo aqui, cara! - protestou.
- Sei disso... - Cocei a nuca - Mas eu vou... Dar uma volta, enfim, qualquer coisa. Não se preocupem, talvez eu só volte amanhã. - Eu disse, levantando-me de minha cadeira e fitando-os com apreensão.
- Espera, como assim só amanhã? - Antony quis saber, um sorriso malicioso surgiu em seu rosto e eu ri.
- Fica assim, então, boa noite. - Acenei e saí andando.
- UUUUH, GARANHÃO.

Gargalhei ouvindo-os gritar enquanto eu atravessava a área da piscina principal. Eu tinha visto pela última vez na hora do jantar. A prova do dia havia sido um jogo de mímicas, nosso grupo ficou em segundo lugar, mas a última coisa com a qual eu estava realmente me importando eram os pontos daquela gincana.
Entrei no bangalô e subi até meu quarto, tirei rapidamente minha calça jeans e troquei por uma bermuda de tecido escuro, tão simples quanto a camiseta branca que eu usava sob a camisa xadrez em escalas de vermelho e cinza. Tirei meu tênis e os substitui por chinelos enquanto dobrava melhor as mangas da minha camisa. Peguei a mochila que eu havia deixado preparada assim que saí do banho mais cedo e a coloquei sobre meu ombro, então desci até a porta do bangalô para esperar por , que não tardou a chegar.
vinha andando depressa, mas de maneira sorrateira, e vez ou outra olhava pra trás, como se pudesse ser pega, ou como se estivesse fazendo algo realmente errado. Ignorei qualquer pensamento ruim, não era hora pra isso. Ela ergueu seu rosto e, ao me ver, apressou-se um pouco mais. Ela tinha um ar angelical aquela noite, talvez pela tiara que segurava sua franja toda pra trás, seus cabelos lisos caíam sobre seus ombros descobertos pelas alças finas do vestido.

- Demorei? - Questionou sob o fôlego, que por sinal parecia lhe faltar.
- Não, chegou na hora. - Afirmei com um sorriso, sorriu e mordeu o canto de seu lábio.
- Vamos entrar? - Quis saber.
- Hm... Não. - Neguei com a cabeça e encostei a porta atrás de mim.
- Não? Como assim? - Estendi minha mão em sua direção, mas ela apenas acompanhou meu gesto com os olhos, depois voltou a me encarar - Como assim, ? Pra onde vamos?
- Você confia em mim? - Perguntei, ainda com a mão esticada.
- Não sei se devo. - Cruzou os braços.
- Come on, , vai ser legal, vem. - Ri de sua expressão momentaneamente emburrada.

Seus braços se desfizeram um do outro e ela entrelaçou seus dedos aos meus, cedendo ao meu capricho. Comecei a andar devagar, com ao meu lado, como nos velhos tempos, quando eu ia buscá-la em casa apenas para dar uma volta. Eu sentia falta de tudo sobre ela. Absolutamente tudo.
Comecei a descer as escadas em direção à praia e ela pareceu querer hesitar, mas não o fez, apenas me acompanhou, segurando em minha mão e com a outra presa em meu antebraço, temendo uma possível queda. Andei devagar, rebocando-a até um pequeno píer de madeira.

- Boa noite. - Saudei o senhor que se encontrava ao fim do tablado de madeira, apertou meus dedos e eu prendi o riso.
- Boa noite, senhor . - Ele disse alegremente, sorri de volta.
- Podemos ir? - Apontei com a cabeça para a lancha que boiava logo ao nosso lado, agora esmagava meus dedos entre os seus, mas sem dizer uma palavra.
- Podem sim, senhor, só peço que levem estes coletes caso seja necessário. - Disse o senhor, nos entregando dois coletes salva vidas, assenti, segurando-os com a mão livre.
- Vamos? - Olhei pra , seus olhos transbordavam terror.
- No way in hell... - Respondeu ela pausadamente - Eu não vou entrar nisso, não mesmo, não com você conduzindo e a essa hora... - Disparou , olhando em torno de si com pavor, comecei a rir.
- , eu sei como fazer isso, você não acha que ele me entregaria uma lancha cara como essa se ele não tivesse certeza que eu posso trazê-la de volta, acha? - Eu disse, de frente para ela, que olhava para a lancha, agora em silêncio - Vamos lá, , você acha que eu colocaria você em risco? - Puxei de leve sua mão para chamar sua atenção, ela fitou meu rosto por um momento - Hm?
- Tudo bem. - Soltou um suspiro longo e olhou para o senhor atrás de mim - Tem certeza que não tem perigo?
- Não, hoje mais cedo eu e ele demos uma volta, ele sabe o que faz, moça. - Ele disse e eu agradeci com um sorriso, depois voltei a olhar pra ela.
- Certo, moça? - Eu disse em tom presunçoso, rolou os olhos e riu baixo.
- Certo, vamos logo.

Sorri divertido e desci primeiro, deixei os coletes sobre um degrau que havia ali, estendendo os braços pra , que segurou ambas as minhas mãos para certificar-se de que não iria se desequilibrar. Novamente peguei os coletes e conduzi ao compartimento superior. Havia uma mesa com um sofá pequeno ali, à frente ficava a parte da direção e uma cama estreita. Deixei a mochila sobre o sofá e tomei meu lugar no assento em frente ao volante e rapidamente acomodou-se em um degrau ao meu lado. Ela parecia completamente amedrontada, e só fez piorar quando eu dei partida no motor, seus olhos se fecharam e ela soltou um suspiro longo, sonoro, gargalhei.

- , pára de agir como se isso fosse um suicídio. - Eu disse, ainda rindo, enquanto começávamos a navegar.
- E não é? - Ela me olhou de soslaio e eu ri ainda mais.
- Com certeza, nada mais romântico que morrermos os dois em alto mar.
- Ai, chega, isso não tem graça, que idéia foi essa? - Ela quis saber, parecendo revoltada com aquele encontro.
- Foi uma ótima idéia, não desdenhe. - Protestei com um sorriso, olhando o mar à nossa frente.
- Ótima onde? Eu mal posso ver coisa alguma na nossa frente, e se a gente bater em alguma coisa e afundar? - Ela quis saber.
- , relaxa, vai. - Ri, esticando minha mão livre e acariciando de leve seu joelho, ela suspirou e mordeu o lábio - O que você disse à sua prima?
- Eles estavam no apartamento do James jogando strip poker, então eu disse que estava com dor de estômago e que iria pro nosso apartamento. - Ela me explicou, assenti, tentando controlar a ligeira imagem de e o resto da turma se despindo em frente à , ou ela mesma fazendo-o na frente de James, soltei um suspiro.
- Ela vai chegar lá e ver que não está.
- Não sei se ela consegue voltar para o apartamento, estava completamente bêbada, mas de qualquer forma eu tranquei o quarto onde estamos ficando, amanhã digo que ouvi barulhos e preferi trancar a porta. - Ela dizia dispersa, olhando para frente, sorri e assenti, acariciando seu joelho com meu polegar.
- Obrigado por ter feito isso, e por ter vindo, sei que não mereço que esteja aqui.
- Não vamos falar sobre nada disso hoje, certo? - Ela me olhou, assombrada, sorri e neguei com a cabeça.
- Não.

Quando estávamos longe de absolutamente qualquer lugar, qualquer margem, onde já não podíamos ver nada além de água, desliguei o motor e soltei a âncora. me olhou, ainda sentada no mesmo lugar, para onde eu voltei em seguida e estendi a mão para ela.

- Não acho que eu queira me mover. - Ela murmurou, segurando meus dedos e se levantando devagar.
- , não vamos virar só por andarmos aqui, ok? - Eu disse em deboche, ela sorriu com sarcasmo e depois voltou a fechar a expressão, ri e abracei de leve sua cintura, encostando minha testa na sua e sentindo o vento levar minha camisa pra trás com certa força - Não quero que você fique aqui com medo só pra me agradar, então se quiser voltar, podemos ir. - Eu disse, sentindo seus dedos acariciarem minha nuca, ela sorriu e negou de leve com a cabeça.
- Não, tudo bem, você preparou tudo isso e... Estou fazendo manha também. - Eu ri e segurei seu lábio inferior entre meus dentes, puxando-o em minha direção.
- Eu já sabia. - Sussurrei, beijando-a em seguida.

O vento empurrava o corpo de sobre o meu, mantendo-a escorada em mim enquanto nos beijávamos sem pressa nem pretensão, apenas nos esquecemos de tudo e nos concentramos em deixar nossos sentimentos transbordarem naquele gesto, que perdurou algum tempo.
soltou-se de mim e abaixou-se para tirar suas sandálias, deixando-as ali enquanto caminhava até a frente da lancha, lentamente. Sorri e a imitei, deixando meus chinelos pra trás enquanto a seguia. Abracei-a por trás lentamente e logo suas mãos pousaram sobre as minhas, sorri, desejando que o tempo parasse.

- Você me fez feliz. - Ouvi-a dizer, meu coração começou a pulsar mais depressa subitamente, apoiei meu queixo em seu ombro, mas me mantive em silêncio - É difícil admitir isso, depois de todas as noites em claro, depois de todo o sofrimento, é difícil dizer isto até pra mim mesma, , mas você me fez muito feliz.
- Eu... Queria ter te contado. - Murmurei, se voltou pra mim e pressionou a ponta de seus dedos sobre meus lábios, impedindo-me de continuar.
- Não vamos falar sobre isso hoje, se lembra? - Assenti, plantando um beijo em seus dedos, ela sorriu - A única coisa que eu precisava que você soubesse, é que você me fez feliz e eu comecei a enxergar isso agora... - Ela murmurou, com seus olhos fixos nos meus - Agora que você está novamente me fazendo feliz, mesmo eu tendo lutado tanto contra isso... - Dizia em um tom baixo, quase inaudível por conta dos assovios do vento e o movimento das ondas - Depois de todas as noites em claro, depois de todo o sofrimento... - Ela repetiu com seus lábios quase colados aos meus, segurando-se em meu pescoço - Você me fez e ainda me faz... Muito feliz.

Nada mais a ser dito, tanto da parte de quanto da minha. Independente de tudo o que eu estava sentindo e tudo o que eu queria que ela soubesse, o mais importante havia sido dito, o que eu mais precisava saber para que parte de minha consciência se livrasse daquele peso, aquela sujeira. Eu havia proporcionado felicidade à e ainda o fazia, era o que me bastava.
Senti seus lábios pressionados contra os meus, secos em conseqüência do vento forte que nos atingia. Envolvi sua cintura em meus braços e a atraí pra perto, delineando seus lábios com a minha língua, sorriu divertida com aquele gesto, entreabrindo sua boca e tocando minha língua com a sua, nos entreolhamos e sorrimos, para em seguida cedermos ao beijo.
pressionava seus dedos em minha nuca, investindo com sua boca na minha enquanto eu espalmava seu corpo sobre o tecido gélido e macio de seu vestido. Senti meu corpo dar um tranco pra frente e ri entre o beijo, também deu risada, seus dedos rodeados em torno do colarinho da minha camisa, puxando-me em sua direção enquanto beijava lentamente meu queixo, tornei a fechar meus olhos, com um sorriso surgindo incontrolavelmente em meus lábios, enquanto eu arrastava minha palma pela lateral de sua coxa, pressionando meus dedos em sua pele e trazendo-a pra mais perto, como se fosse possível.
Senti envolver meus ombros com seus braços, sem muito esforço ela arrastou suas coxas pelas minhas e envolveu minha cintura com elas, sua língua fazendo desenhos abstratos em meu pescoço, sugando-o vez ou outra. Segurei suas nádegas e sem muita cautela me sentei no chão. alisava meus braços, friccionando suas unhas em minha pele, enquanto eu arrastava seu vestido, expondo seu corpo minutos depois. segurou meus cabelos com força e me puxou em sua direção, mordisquei seu lábio e depois seu queixo, depois arrastei meu rosto pelo seu e alcancei sua orelha, onde me distraí enquanto ela alisava minhas costas, erguendo minha regata e me livrando dela no instante posterior.
Desacolchetei o sutiã de e ameacei jogá-lo no mar, apenas pra ouvi-la gritar, depois rir daquele jeito gostoso. Soltei a peça no chão e segurei sua cintura, incitando-a a se aproximar um pouco mais, assim sentando-se corretamente em meu colo, dando-me acesso aos seus seios, agora exatamente na altura do meu rosto. Suguei seu mamilo com calma, sem deixar de olhar para seu rosto, agora distorcido em uma expressão de prazer. Ela lambia os próprios lábios avermelhados, depois mordia os cantos ou os pressionava um contra o outro, seus olhos, ora fechados, ora girando, me faziam acreditar que aquela carícia lhe proporcionava muito prazer.
Senti suas unhas desencravarem de minhas costas e arrastarem-se por meus ombros, peito e abdômen, atingindo o botão da minha bermuda, da qual rapidamente nos desfizemos juntos. levantou-se, mas seus pés ainda estavam paralelos ao meu corpo, apoiei meus antebraços pra trás, vendo-a enroscar os dedos na renda preta de sua calcinha e começar a enrolá-la por suas pernas lindas. Parecendo tímida, voltou a se abaixar, completamente nua, sentando-se sobre meu quadril. Apoiei minhas costas no chão e a trouxe comigo, sentindo seus seios pressionados contra meu peito enquanto nossos lábios voltavam a ter contato. Quebrando o beijo, segurei as coxas de com firmeza e a arrastei, ela me olhou confusa, e eu continuei empurrando para cima, mais próximo do meu rosto. Sua expressão demonstrava curiosidade enquanto eu passava meus ombros por baixo de suas coxas. Acariciei a lateral externa de suas coxas enquanto roçava meu rosto na parte interna delas. Plantei um beijo suave em sua virilha, contornando-a com a língua em seguida. soltou um suspiro alto e suas pernas tremeram quando pincelei sua intimidade toda com a língua, fazendo uma sucção suave ao final.
Senti seus dedos, enroscados em meu cabelo, puxarem minha cabeça em direção à sua intimidade. rebolava contra minha língua, arrastando-se e pressionando-se contra minha boca de maneira lenta. Seus gemidos entrecortados desencadeavam espasmos intensos em mim, não havia nada que me proporcionasse mais tesão que vê-la excitada daquela maneira. Ela soltou minha cabeça contra o chão e arrastou seu quadril por meu tronco, então sentou-se em frente à mim, entre minhas pernas. Comecei a me sentar enquanto sentia suas mãos invadirem minha boxer e puxá-la pra baixo, retirei-a com dificuldade enquanto minha menina massageava gentilmente meu pênis. Alcancei minha bermuda e retirei o preservativo de lá, mas fez questão de colocá-lo em mim enquanto eu beijava seu pescoço de orelha, arfando tanto quanto ela.
Com sentada no chão, com as pernas sobre as minhas, empurrei meu membro para dentro dela com facilidade, segurando seu quadril com um dos meus braços, enquanto com a outra eu acariciava sua coxa rígida. Comecei a levá-la e a trazê-la, e aos poucos ela realizou que os movimentos dependiam mais dela do que de mim. Rapidamente apoiou suas mãos para trás e arqueou seu quadril, começando a movimentar-se em direção ao meu membro, o qual eu pulsava propositalmente, sentindo suas paredes internas retribuírem da mesma forma. Com uma mão apoiada pra trás, a outra eu usava para acariciar o corpo de , ora sua coxa, ora sua barriga ou seio, apertando-o e beliscando seu mamilo arrebitado. Diante do tesão e do desejo veemente que aumentava gradativamente, os movimentos de foram atingindo uma velocidade surpreendente, seu quadril se movia em círculos, às vezes ela diminuía a freqüência, ia de frente pra trás, como se soubesse exatamente o que estava fazendo, ou como se estivesse somente descobrindo qual a forma que nos proporcionava mais prazer. Passei meu polegar por seu clitóris e comecei a estimulá-lo, acariciando e esfregando-o, não levou muito mais tempo até que atingíssemos o orgasmo. jogou sua cabeça pra trás e minha visão turvou, assistindo as gotas de suor contornarem seus seios e os músculos da sua barriga, escorrendo por sua virilha tão próxima a minha.

- É só impressão, ou isso tende a melhorar sempre? - Ela quis saber, ainda com a cabeça deitada pra trás, o vento agitava seus cabelos com força, e logo nossos corpos, antes empapados de suor, começavam a secar. Ri baixo e alisei sua barriga, com a outra mão presa em sua coxa.
- Com você, sim. - Respondi, puxando-a em minha direção, sorriu de forma alegre e envolveu meus ombros com seus braços, da mesma forma que fez com as pernas em torno da minha cintura.
- Com Rebecca não? - Quis ela saber, com a entonação invasiva, ri divertido.
- Não, com ela não. - Respondi simplesmente, e senti um tapa estalar em meu ombro, gargalhei - E James?
- Você sabe que eu não transei com James. - Disse, rolando os olhos.
- E eu espero, com todas as minhas forças, que isso não aconteça. - Ela sorriu e me apertou de leve.
- Não vai.
- Melhor assim. - Selei meus lábios nos seus e depois senti ela se desprender de meus braços, levantando-se.
- Estou com sede.

Fiquei olhando enquanto vestia sua calcinha, distraidamente. Sorri, e por um momento senti falta de quando éramos só nós dois, senti falta da nossa liberdade como um casal, poderíamos voltar para o Resort e mostrar a quem quisesse ver que estávamos juntos, e ninguém mudaria isso nunca.
- Fica melhor em você. - Eu disse quando ela vestiu minha camisa, ela riu.
- Sei disso.
- Aaaaaaah! Como eu sinto falta de quando você corava e dizia "Não seja bobo, ". - Imitei-a, arrancando uma gargalhada de que vinha se sentar em meu colo.
- Continuo com sede. - Ela disse, sugestivamente, sem me olhar.
- Vou pegar algo pra beber. - Ela saltou para o lado e eu me livrei do preservativo corretamente, vesti minha boxer e voltei para a parte inferior da embarcação.

Joguei o preservativo e abri o frigobar, mordi meu lábio e olhei pra , deitada na parte dianteira da lancha. Dei de ombros e peguei a garrafa de champagne, junto com as duas taças que estavam lá dentro. Voltei pra perto dela que me encarou de esguelha enquanto eu me sentava ao seu lado e tirava o lacre da garrafa.

- Quer me embebedar? - Ri, eu sabia que ela perguntaria isso.
- Não preciso. - Respondi, colocando um pouco de espumante em nossas taças e estendendo uma à ela, que se sentou.
- E você vai conduzir isso de volta bêbado? - Ela perguntou, com uma de suas pernas sobre a minha.
- Não, porque eu não vou ficar bêbado. - Respondi, em tom de obviedade - Agora, por favor, pára de ser estraga prazer e brinda comigo.
- Brindar a que?
- À nossa reconciliação.

sorriu e concordou com a cabeça, tocou sua taça com a minha e sorveu um gole ao mesmo tempo que eu. Eu sentia seu rosto deitado em meu ombro enquanto bebericávamos o espumante. E todo o futuro que eu havia planejado durante a tarde começava a se desmanchar, feito castelos de areia em meio a maré alta. Eu erguia novos planos e eles tinham de incluir , pois de uma forma ou de outra, diante do meu sentimento por ela, eu não sabia mais me ver sem ela, em hipótese alguma.

- Quer conhecer um lugar?

não respondeu. Apenas me olhou e eu soube que, naquele momento, ela iria comigo para qualquer lugar, como todas as vezes que ela entrava em meu carro e com o mais bonito e livre dos sorrisos ela dizia “pra onde vamos?”, confiando em mim a escolha do nosso destino, como se soubesse que eu seria incapaz de colocá-la em risco de maneira proposital. Ela simplesmente confiava em mim e, apesar de todos os meus erros, talvez essa confiança, ao menos essa confiança, tenha se mantido viva.
Ancorei a lancha próximo à margem e me levantei, vendo se acercar de mim, pé ante pé, descalços. A água estava geladíssima, pude perceber quando desci da lancha numa parte não tão rasa, a água encharcou-me até a cintura. veio em seguida, agarrando-se em mim pra que eu pudesse carregá-la.
Com uma lanterna recarregável que estava na lancha, fui iluminando o caminho da entrada da caverna. agarrada em mim, temendo o que não conseguia enxergar. A água colidia cuidadosa contra as paredes rochosas, fazendo eco. Nada além disso se ouvia, exceto por nossas respirações desordenadas pela caminhada até ali.
O rosto de iluminava-se com o brilho da lua que adentrava o centro da caverna, ela pareceu finalmente entender a beleza que eu estivera falando ao longo do caminho. À noite era ainda mais bonito, como se houvesse um holofote voltado exatamente para a rocha achatada cercada por água limpa. A natureza nunca me pareceu tão estratégica... Vamos ser sinceros, eu nunca tinha reparado na natureza.

- "Nada muda quando fazemos as pazes, você só fica em casa quando estou na cidade". - Ouvi-a dizer, abri meus olhos lentamente, encarando o céu, como uma manta de estrelas acima de mim - De onde veio? - Ela quis saber, aconchegando-se em meus braços, estávamos deitados na rocha, apenas em silêncio.
- Tem certeza que quer falar disso? - Falei baixo, eu queria que ela negasse, eu não queria falar sobre aquilo.
- Tenho sim. - Murmurou, erguendo seu rosto e apoiando seu queixo em meu peito, continuei olhando pra cima, mas sentindo seu olhar examinar meu rosto.
- São meus pais. - Falei com simplicidade, olhei-a por um minuto, depois voltei a olhar pra cima.
- O que houve? - Ela quis saber, sorri divertido e fixei meus olhos nos seus, que permaneciam atenciosos - Tudo bem se não quiser contar.
- Não, não tem problema... Eles só estão com alguns problemas... Sabe como é, problemas de duas pessoas casadas há mais de 10 anos. - Ela assentiu lentamente, mas ainda esperando por algo mais específico - Nesse último mês eles andaram brigando um pouco... Bastante, na verdade. - Mordi meu lábio e desviei meus olhos para cima, fixando-os na estrela que mais brilhava naquele momento, pisquei no mesmo ritmo com o qual ela cintilava, como se pulsasse - Eu e ... Nós achamos que meu pai tem outra família.

Um silêncio profundo nos engoliu. talvez não soubesse o que dizer, e eu queria me recolher. Eu não gostava de falar sobre os meus problemas pessoais ou familiares, não gostava de dividi-los com ninguém, não sei bem o motivo. Talvez seja porque nunca tive alguém a quem pedir conselhos e acabei me virando sozinho, ou seja, fingindo que nada estava acontecendo. Falar, às vezes, parecia tornar o problema mais real, ou mais doloroso. Eu sei que estava errado, sei que eu só estava adiando sofrimento, mas não é fácil quando tudo começa a mudar da noite pro dia.
Meus pais sempre foram o casal mais unido que já conheci, me orgulho em dizer que ia na casa dos caras e via que nenhum deles tinha a família como a minha. Mas tinha pouco tempo que meu pai começara a faltar com respeito à minha mãe, e a surgir faturas inesperadas no cartão de crédito. Eu e continuávamos cegos, surdos e mudos, não nos meteríamos, era só mais uma fase.

- Mês que vem eu vou pra Paris. - Ouvi-a se pronunciar depois de muito tempo, eu já estava quase dormindo, na verdade.
- Mesmo? - Curioso, perguntei - Fazer?
- Você se lembra da minha pesquisa que foi aprovada? Sobre eletricidade? - Assenti, sorrindo instantaneamente com a lembrança daquele dia - Eu vou apresentá-la em um congresso de Física em Paris. - Arqueei as sobrancelhas, surpreso e contente por sua conquista.
- Nossa, , que bom, parabéns, de verdade. - Felicitei-a, apertando-a em meus braços.
- Estou tão nervosa que às vezes eu não consigo dormir, só pensando nisso. - Rolou os olhos e riu nervosa.
- Vai dar tudo certo, você fala bem. - Sorri e beijei sua testa cuidadosamente.
- Tomara que esteja certo, eu posso conseguir bolsa em uma faculdade boa por lá, e só de pensar nisso, fico mais nervosa. - Apertou os olhos e eu dei risada.
- Não pense em nada disso agora, você vai ter tempo pra se preparar. - Afaguei seus cabelos devagar, olhando-a - Tenho certeza que tudo vai dar certo pra você, , você é a melhor pessoa que eu conheço, pessoas como você vencem fácil. - disparou um sorriso em minha direção, me abraçando com força em seguida.
- Vamos dar um mergulho? - Ela sugeriu, saltando de cima de mim, pisquei devagar, eu estava um pouco cansado, na verdade, mas me sentei e fingi disposição.
- Vamos lá.

Capítulo 9.
"What if you did? What if you lied? What if I avenge? What if eye for an eye?"
(What If - Creed)
[N/a: Meninas, separei uma música para este capítulo: aqui está o link para quem quiser ouvir. Mwah!]

['s POV]

Sorrateiramente, percorri o apartamento, admirando a maneira como a claridade penetrava pelos cômodos, preenchendo-os de uma luz meio azulada. Encolhi-me dentro de meus braços, buscando em mim o calor que antes vinha dos braços de ao meu redor. A brisa matinal fazia meu vestido, agora molhado, parecer ainda mais gélido do que realmente era. Por sorte estava dormindo no tapete da sala, talvez por eu ter trancado o quarto antes de sair, ou talvez não tivesse conseguido se levantar de lá. Eu ainda não estava habituada à rotina deles. Eu não conseguia acompanhá-los em nada, quem dirá na bebida.
Destranquei a porta do quarto e adentrei, voltando a trancafiá-lo para que não desconfiasse que eu estivera fora. Liguei o chuveiro e regulei a temperatura, fechando qualquer possível passagem de vento até que o ambiente estivesse suficientemente abafado e, então, me despi. Eu ia ficar gripada, com certeza ia. Passei um tempo no banho, até me sentir bastante aquecida e não restar nenhum grão de areia em minha pele. Retornei para o quarto e vesti uma lingerie qualquer, junto de uma camisola leve.
Meia hora depois, rolando pela cama e tentando encontrar a posição mais confortável, ou me livrar dos pensamentos que não paravam de retornar à minha cabeça, narrados pela voz grave de , tão nítida que parecia estar sendo sussurrada em meu ouvido. Era a primeira vez, desde que havíamos terminado, que eu me sentia daquela maneira, precisando estar com ele. Talvez antes daquela noite minha mágoa não me permitisse sentir sua falta, não me deixasse enxergá-lo de outra maneira, se não um mentiroso egoísta, agora era diferente, o rancor começava a se dissipar de uma maneira estranha, e não era como se eu pudesse intervir. Quando dei por mim, eu estava em seu quarto, nua, tocando teclado, por querer, e não por nenhum outro motivo.
Eu já não me reconhecia quando me olhava no espelho, aquelas roupas, a maquiagem, os trejeitos. Nada meu, nada eu. Eu não sabia onde eu iria parar se continuasse dando corda às coisas que dizia. Eu não queria ficar com James e eu não queria ser outra pessoa se não eu mesma, mas antes parecia tão certo mostrar à o que ele havia perdido... Agora já não fazia assim tanto sentido... Talvez porque ele não houvesse perdido.
Era como se naquela madrugada tivesse chovido, murchando com isso todas aquelas nuvens escuras que pairavam em minha mente, e agora o tempo começava a limpar. O cheiro do verão, o sol quente. Tudo estava de volta, de repente, e eu podia tomar minhas próprias decisões, então. Eu não precisava de mais planos, mais idéias vindas de minha prima ou de quem quer que fosse, eu tinha meus próprios planos e o futuro só dependia de mim. Eu precisava conversar com e esclarecer, primeiramente, as coisas entre nós. Eu queria, finalmente, ouvir sua versão, e queria sentir que podia perdoá-lo definitivamente, sem que restasse desconfiança ou mágoa, e no fim das contas estaríamos em uma relação tão transparente que não haveria resquício de insegurança.

- ... - Ouvi a voz pastosa de vir do lado de fora da porta, fechei os olhos e fingi que estava dormindo, como se ela pudesse ver - , abre aqui pra mim! - Ela não ia desistir e eu também não queria deixar que ela voltasse para o tapete da sala.
- Já vou. - Tentei fazer uma voz de sono enquanto caminhava até a porta, destrancando-a e dando passagem à .
- Nossa, eu apaguei na sala... - Suspirou, sustentando uma expressão de dor indescritível.
- Você parece péssima. - Comuniquei com cuidado, me lançou um olhar cansado e, ainda assim, hostil - Quer um café? Uma aspirina? - Eu queria ficar longe dela, tinha algo em suas palavras, em sua maneira de falar, que me persuadia sempre.
- Você vai levantar 7 horas só pra ir buscar café pra mim? Sério? - Rolei os olhos, parada aos pés da cama - Claro que eu quero, traz aquelas bolachinhas de leite com chocolate também.

fechou os olhos e pronto, estava dormindo. Pudera eu ter essa facilidade. Vesti um short jeans e uma camisetinha qualquer, calcei um par de chinelos. No caminho até o restaurante, fiz uma trança em meu cabelo, sem muita paciência para arrumá-lo. Embora eu soubesse que estivesse dormindo - o que eu também deveria estar fazendo - eu ainda sentia uma cócega no estômago, acho que isso definia bem a sensação, eu esperava vê-lo, quem sabe poder me aproximar e me aconchegar em seus braços. Fazer algo escondido nunca me pareceu tão errado quanto ter de esconder que ele e eu estávamos novamente juntos, mas eu teria de esperar até estarmos longe daquele Resort, ali eu não teria para onde fugir das acusações de , nem condições para enfrentá-las. Talvez eu estivesse com vergonha de admitir que havia perdoado o que ele havia me feito. As pessoas não costumam se colocar no lugar umas das outras. Da mesma maneira que tive de ouvir uma onda de críticas por não tê-lo perdoado, sem que ninguém tivesse a menor idéia do quanto eu estava machucada, agora, eu também teria de me prender a algo seguro para não ser levada pelas críticas daqueles que nunca amaram a ponto de perdoar um erro como o que havia cometido.
Busquei o café da manhã para , como havia prometido, e depois fui dar uma volta, ainda na esperança de encontrar algo para fazer já que meu sono havia se dissipado há algum tempo, trazendo em seu lugar a ansiedade de poder estar com ele novamente. Ele, ele, ele. Esse era meu medo, que ele se tornasse novamente o centro da minha vida. Eu nunca deixei que ninguém, além da minha família, fosse prioridade em minha vida, que interferisse, mesmo sem saber, em minhas decisões diárias ou coisas do tipo. Mas tudo mudou desde que chegou, tudo, cada único ponto do meu dia. Todos os meus planos eram como frágeis pinos de boliche, foi, para eles, como uma bola. Strike!
Meus pais agora se preocupavam com coisas que antigamente não faziam o menor sentido. Como, por exemplo, minha decisão de talvez mudar de faculdade, esse era um plano que eu tinha traçado desde muito cedo, era como um sonho, que repentinamente me pareceu sem brilho. Eles ficaram completamente assombrados quando eu disse que talvez eu pudesse mudar de idéia, que ainda estava em tempo. De início, pensaram ser um absurdo, já que tudo estava encaminhado para que no ano seguinte eu me mudasse para Oxford, eu até já tinha uma carta de recomendação da diretora do Thornleigh Salesian, tudo indicava que após a minha apresentação no congresso, eu poderia ganhar uma bolsa integral na universidade, mas até onde eu realmente queria isso? Eu não tinha dúvidas do que eu queria até me pegar pesquisando sobre faculdades em Londres, é claro que nenhuma lá podia ser tão boa quanto Oxford, mas eu podia dar meu melhor em qualquer uma que fosse. Eu queria estar perto de , não queria depender de destino para encontrá-lo novamente em minha vida, pois eu sabia que já havia sido sorte demais ele ter aceitado aquela aposta, que embora tenha me machucado, trouxe outro significado a muitos aspectos da minha vida, a maior parte deles.
Eu só fui ver naquele dia depois do almoço, quando estava saindo do restaurante com e e o vi sentado sob a sombra de um guarda sol na borda da piscina, havia um copo de suco em suas mãos e seu óculos de sol não me permitia saber se ele estava, ou não, olhando pra mim, o que me incomodava de um tanto, eu queria que ele estivesse, queria sua atenção, mais hoje do que em qualquer outro dia, pois diferente de todos eles, eu queria que ele notasse meu short não tão curto, minha camiseta não tão justa e a trança frouxa em meu cabelo, eu queria que ele notasse a ausência de maquiagem e acessórios desnecessários. Eu queria que ele sentisse falta de quem eu realmente era, pois eu estava disposta a voltar pra ele, eu era dele.
Passamos ao lado de sua mesa, mas pareceu não notar minha proximidade. Isso nunca acontecia. Era como se estivéssemos, de alguma maneira, conectados e ele sempre sentisse quando eu me acercava, mas dessa vez algo falhou, ele não virou seu rosto em minha direção, continuou rindo de algo que os meninos haviam dito, sem dar a menor importância para mim. Perguntei-me se estava indo pelo caminho errado, se eu deveria continuar me vestindo como achava que eu deveria. Será que eu não podia ser eu mesma e fazê-lo me notar mesmo assim? Funcionava há um mês atrás, não podia ter mudado assim tão rápido, de uma hora pra outra.
Ignorei aquela crise momentânea e me prendi à idéia de que ele não teria me visto. Era isso o que tinha acontecido, sem dúvidas. Fui para o bangalô, apenas pra colocar a roupa de banho e retornar para a área da piscina. Os alunos já haviam tomado conta de cada parte daquele lugar, eles não pareciam desanimados com o fim da viagem mais próximo, mas sim querendo aproveitar absolutamente cada segundo. Eu também não estava desanimada, pelo contrário, estava contente por esta viagem estar chegando ao fim, longe daqui as coisas seriam mais fáceis e eu poderia explicar muita coisa a ele, que estava dentro da piscina, conversando com seus amigos de forma descontraída. Eu queria me esquivar da sensação de que algo estava errado, mas isso não parava de se repetir em minha mente desde que me deitei na espreguiçadeira para tomar sol, não havia voltado seus olhos em minha direção uma vez sequer, e aquela curiosidade "barra" angústia parecia se propagar. Eu ia perder o controle.
Eu sabia ser ignorada, fui obrigada a aprender desde muito cedo. Eu não era o tipo de garota mais legal e interessante. Eu não bebia, detestava cigarros e não sabia dançar música eletrônica. Também detesto mini saia e até muito pouco tempo não sabia usar lápis de olho. Eu não era a garota padrão, nunca fui e tampouco fiz questão de ser, o tipo de garota que eu era não costumava chamar a atenção de ninguém, menos ainda de garotos com dinheiro, carro e popularidade, se tivessem uma banda então, esquece. Foi aí que tudo mudou, me notou, de alguma maneira ele me conheceu e mudou seu conceito sobre mim, e agora, mesmo depois de todos os anos que ele não olhou em minha direção, ele havia me deixado acostumada com outro tratamento, eu não admitiria voltar a ser evitada por ele, de maneira alguma, não por ele.

- E com o James, como vão as coisas, ? - Ouvi me questionar, fechei meus olhos, aproveitando a lente escura do óculos de sol para disfarçar meu asco.
- Não vão, , você sabe que eu não tenho o menor interesse nele. - Talvez eu tenha sido muito hostil, ou prática.
- Credo! Eu achei que você fosse dar uma chance a ele depois de tudo que ele fez por você nos últimos dias.
- Achou errado, não tenho intenção de continuar com isso por mais tempo, quero distância dele, quero me dedicar somente aos estudos, faltam apenas seis meses até nossa formatura. - Apressei-me a explicar.
- Ai, você é dura demais com ele. - reclamou, ela se incomodava muito com minha posição diante de James, pois sabia que Matt iria acabar a abandonando mais uma vez caso eu parasse de sair com James.
- E você é mole demais com Matt, talvez se você tomasse uma atitude em relação à isso, as coisas mudariam na sua vida... - Disparei, sem conseguir controlar o bolo de coisas que estava me sufocando desde... Sempre.
- Credo, , eu 'tô de ressaca e você que fica de mal humor, eu hein?! - Respirei fundo, engolindo de volta a resposta.
- Estou cansada, apenas, me desculpa.

Tentei parar de dar "patadas" em e com isso fazer menos alarde do quanto eu estava estressada com tudo naquele momento. Eu não queria saber de James e não queria falar sobre isso, ou qualquer outra coisa que envolvesse . Eu estava exausta de ter que ouvi-la e seguir seus conselhos medíocres, faltava muito até que ela notasse seus próprios rancores, eu só esperava que fosse a tempo de dissipá-los.
Desisti de esperá-lo me olhar ou dirigir sua preciosa atenção pra mim. Levantei-me, sentindo meu corpo febril pelo tempo que eu havia passado estendida naquela espreguiçadeira, e me estiquei, pegando o short jeans em uma mesa próxima. Vesti-o e calcei meus chinelos, marchando apressadamente em direção à piscina, sem dar ouvidos aos gritos histéricos de .
Não faço idéia do que poderia estar acontecendo comigo, ou de onde havia surgido essa coragem, e cara de pau, mas me aproveitei disso. Cruzei meus braços, parada na borda onde Danny estava encostado. Ele não pareceu se dar conta da minha presença, mas os olhos de me anunciaram e ele rapidamente se virou para trás, a fim de se certificar do que o amigo havia informado silenciosamente.

- Podemos falar? - Vi-o contrair o cenho, fazendo com que suas sobrancelhas se destacassem para fora do óculos.
- Sobre? - Não faço idéia de qual exatamente foi minha expressão, mas não deve ter sido nada boa.
- Sobre a apresentação de hoje à noite. - Respondi automaticamente, concordou com a cabeça, parecendo pouco se importar com o que eu tinha a dizer.

Seus músculos ganharam destaque quando ele firmou suas mãos na borda da piscina e deslizou seu corpo pra fora d'água. Ele era lindo e eu devia admitir que chamava muita atenção de quem quer que fosse, mas eu nunca fui realmente ciumenta, então não me preocupava saber que as garotas estavam, agora mesmo, me praguejando por estar saindo dali com ele ao meu lado.
Conforme íamos nos afastando, eu esperava que o silêncio fosse quebrado por , que seus braços, provavelmente gélidos, fossem me envolver mesmo que eu pedisse discrição. Nada aconteceu. Ele continuou andando distraidamente paralelo à mim, como se estivesse absorto em seus pensamentos, dentro do seu próprio mundo.

- O que você tem? - Atirei, já com o tom de voz acusador, desviou seus olhos do chão e encarou o caminho à sua frente.
- Nada, por quê? - Quis saber, sem dar atenção, ou corresponder, meu olhar sobre ele.
- Não se faça de bobo, você está completamente estranho, não 'tá me dando a menor atenção e nem estamos mais perto das pessoas... - interrompeu o que eu dizia, passando um braço ao redor de meus ombros, sem deixar de andar, ou ao menos responder coisa alguma.
- É impressão sua. - Foi o que ele disse, com um tom de voz quase robótico, como se estivesse dizendo um simples "oi", mas com ainda menos emoção.
- Não, não é! Quer me contar o que houve?
- Eu disse que não aconteceu nada, relaxa! - Exclamou, aparentemente sem paciência.
- Certo, se você diz. - Decidi me calar, sentindo seu braço ao meu redor como se fosse um peso pra porta, apenas jogado sobre meus ombros, sem qualquer delicadeza.
- O que você precisava falar comigo? - Quis saber.
- Eu só queria ficar com você, na verdade.
- Ah.
- ... É comigo? Eu te fiz algo sem perceber? - Eu não conseguia parar de pensar sobre isso, o que poderia ter acontecido pra ele ter mudado de comportamento tão repentinamente.
- Chega, ! - Soltou-se de mim, nervoso com minhas cobranças - Eu disse que não aconteceu nada, se eu tivesse algo pra te dizer, já teria dito.
- Certo, me desculpe. - Envergonhada, murmurei - Se quiser voltar pra lá, tudo bem, vou para o bangalô descansar um pouco, nos vemos no quiosque às 6?
- Pode ser. - Disse simplesmente, para ele não fazia qualquer diferença, percebi.
- Você leva os instrumentos? - Ele concordou com a cabeça e depois começou a se afastar para o lado oposto.

Vi-o se afastar até que, finalmente, desaparecesse em meu campo de visão. Agora não havia dúvida sobre haver algo errado, era um fato. Algo tinha acontecido e feito com que ele se enojasse com minha presença. Ele podia ter me esclarecido o que poderia ser, já que eu não conseguia pensar em absolutamente nada, embora mil e uma coisas passassem por minha cabeça. Será que James havia dito algo? Mentido? não poderia ser, já que estivera comigo desde muito cedo. Eu não conseguia entender. Talvez não fosse comigo, e ainda que não fosse, eu queria saber, eu precisava tomar conhecimento das coisas que estavam acontecendo com ele. Eu sabia que não era o mesmo, mas não era de um todo desagradável, ele nunca havia parecido tão maduro. É claro que suas piadas eram as mesmas, e sua falta de esperteza. Mas estava tomando atitudes mais centradas, sensatas. Eu gostava desse novo e eu o queria pra mim... Talvez fosse tarde demais pra voltar atrás.
Como havia dito a ele, retornei ao bangalô e dormi pelo resto da tarde. veio para me acordar, mas eu preferi fingir que não estava a ouvindo. Meu sono atrasado me permitiu conciliar facilmente no sono assim que ela saiu pela porta. Assim que acordei, por volta das 5, tomei meu segundo banho do dia e comecei a escolher uma roupa que não fosse vulgar como queria, mas que não fosse antiquada como as que eu costumava usar. Eu precisava de algo básico, bonito e que chamasse a atenção de sobre mim.

- Cheguei! - Ouvi a voz animada de , meu estômago deu uma volta e eu controlei um suspiro pesado - O que está procurando?
- Uma roupa pra hoje à noite. - Respondi com simplicidade, ainda vasculhando minha mala.
- Coloca aquele shortinho verde, ele é lindo. - sugeriu, entrando no banheiro em seguida - Já tomou banho?
- Já.
- Ok, minha vez, então.

Enquanto tomava banho, retirei uma lingerie, ainda embalada, e a vesti pela primeira vez. Pareceu ficar bom em mim, constatei ao olhar-me no espelho. Vesti uma blusinha preta justa e o short em seguida, deixando o cós sobre a barra dela. Calcei meu vans e aproveitei que havia deixado o banheiro para me maquiar, dessa vez não carreguei muito meus olhos, na verdade apenas passei corretivo para esconder algumas imperfeições e um pouco de blush, deixei o mais natural que pude, e contornei meus lábios com um batom claro, quase imperceptível. Borrifei o desodorante e depois um perfume não muito forte e, após pentear meus cabelos, coloquei uma tiara delicada apenas para segurar a franja pra trás. Voltei para o quarto e coloquei uma camisetinha sobre a blusinha preta, finalmente, pronta.

- Já disse que odeio esse seu tênis e essa sua tendência a ser emo? - disparou ao me ver, assenti devagar, sem dar muita atenção ao que dizia - O que você tem? Parece triste.
- Estou preocupada com a apresentação, só isso.

Eu não estava mentindo, não queria ter que cantar em frente a todos aqueles alunos e, menos ainda, tocar. Eu não tinha escolha e não queria parecer tão insegura quanto realmente estava, isso me exigia alguma concentração. Saí do apartamento sem esperar por , pelo jeito que as coisas iam, ela ia demorar. Assim que cheguei no restaurante, onde seriam as apresentações, vi sentado no canto do palco dedilhando seu violão. Olhei ao redor e notei que estávamos sozinhos, exceto pelos funcionários do local. Andei até ele e me sentei ao seu lado, ele pareceu notar minha presença, mas a ignorou.

- Tudo pronto? - Perguntei, sem vontade.
- Uhum. - Respirei fundo uma, duas, três vezes, tentando controlar minha vontade de enforcá-lo até que ele me dissesse o que estava acontecendo.
- Que bom. Acha que podemos vencer? - Vi seus ombros guinarem pra cima, indiferente, completamente indiferente - Ok, , eu já entendi.
- Entendeu o quê? - Pela primeira vez voltou-se pra mim, mas por sua expressão julguei que ainda estivesse disperso.
- Você não 'tá a fim de conversar.
- Ah sim, é, não mesmo.
- Tá, e vamos ficar assim o resto da viagem? - Ele negou com a cabeça.
- Aparece lá no meu apartamento depois do jantar, vou estar lá te esperando.
- E os garotos? - Contraí o cenho, mas senti meu estômago revirar de ansiedade, finalmente um indício de que ainda queria me ver.
- Sei lá, eu cuido disso.
- Certo.

O palco, improvisado, estava com todos os instrumentos necessários, supus que todos fossem apresentar uma canção, mas talvez eu estivesse enganada, pois havia sido improvisada uma coxia. As mesas do restaurante estavam todas enfileiradas no centro dele, de frente para o palco. E logo todos preenchemos seus lugares vagos. Os professores tomaram conta do microfone, explicando que o grupo que estava com a pontuação mais baixa iria se apresentar primeiro. Aliviada, relaxei em minha cadeira, entre e James, e esperei por nossa vez. e apresentaram, ao contrário do que eu imaginei, uma cena de uma obra de Shakespeare, Romeu e Julieta, com direito a beijo e tudo. Não sei, mas tive a sensação de aquela não era a primeira vez que se beijavam.
Em seguida foi a vez de e James, que finalmente saiu do meu lado e parou de tentar desenvolver um assunto comigo, não pareceu se importar com isso, nem mesmo quando James colocou sua mão em minha coxa com a intenção de fazer carinho. Ele nem mesmo olhou, apenas comemorando junto com seus amigos o desempenho de e . Os líderes do grupo azul apresentaram uma canção, mas isso não foi uma surpresa, eu já esperava. James cantava bem e arriscou um trecho ou outro da canção, e até que foram bastante aplaudidos.
Eu não achei que estivéssemos na frente, portanto assim que eles terminaram, comecei a me levantar, mas o professor chamou Samantha e Patrick, segurou meu pulso ao mesmo tempo, informando-me que éramos o grupo com maior pontuação até então. O casal representou uma cena do romance Moulin Rouge, e Samantha fez jus aos seus anos de teatro, roubava toda a cena, preenchia todo o palco. Ela era uma ótima atriz, já Patrick...
Era nossa vez, eu sentia um bolo em minha garganta e era como se eu fosse vomitar a cada vez que eu abrisse minha boca pra dizer algo. Nos sentamos nos bancos altos que nos foram cedidos e preparou o teclado pra mim, assim como ajustou a altura do microfone. Me ajeitei no acento e encarei o teclado, sentindo minha respiração falhar só de imaginar todos aqueles olhos sobre mim, eu podia sentir minha pele queimar, febril.

- Está pronta? - Indagou . Neguei com a cabeça, mordendo meu lábio inferior e tentando me recordar qual era a primeira sequência de acordes - A partitura está aí, nada vai dar errado. - Ouvi-o dizer, agora mais perto, o encarei por um momento e concordei com a cabeça, mesmo discordando em teoria.
- Acho que podemos começar.
- Ok... 1, 2... 1, 2, 3...

começou a tocar e, como combinado, eu o acompanhei em seguida, inclusive no vocal para fazer uma introdução simples à estrofe que viria a seguir. Tentei não olhar pra frente, nem para a partitura, ou para o teclado, preferi ficar de olhos fechados um tempo, mas desviei minha atenção para , assim que ele começou a cantar:

Honesty,
Honestidade
Was all I ever wanted you to show to me
Era tudo o que eu sempre quis que você mostrasse pra mim
And all I ever needed
E tudo o que sempre precisei
Now you're gone from me
Agora você se foi
And how did this happen after so long?
E como isso aconteceu depois de tanto tempo?

fechou seus olhos, a letra saía facilmente e sua voz nunca estivera tão limpa. Vez ou outra ele desviava seu olhar para o violão, trocando de acorde com um cuidado e uma habilidade extraordinária. Eu não conseguia tirar meus olhos de seu rosto, sua feição centrada, tranquila, como se nada pudesse dar errado. Como se aquela letra não dissesse nada, não significasse nada.

Finally, if can we just have some time
Finalmente, se nós pudermos ter algum tempo
So you could talk to me, can't you see?
Então você poderia falar comigo, você não consegue ver?

Perguntei-me se não estava realmente se importando, ou se estava tão concentrado em não errar em nada que esqueceu-se da emoção.

That we've no time to waste our lives
Que nós não temos tempo para desperdiçar nossas vidas
And I don't have all the answers
E eu não tenho todas as respostas
So I close my eyes, and I hope I'm doing right
Então eu fecho meus olhos, e espero estar fazendo certo

Quase me esqueci de cantar, perdida no movimento dos lábios de , mas ao reconhecer o refrão, clareei a garganta delicadamente e o acompanhei. Aquela composição podia não significar muita coisa pra quem estava escutando-a naquele momento, mas era absurdamente simbólica pra mim. Tudo o que havia nela, nada era dito em vão, absolutamente nada... Eram conteúdos meus e de , que agora se mesclavam e já nem sabíamos mais quem havia escrito o quê, era uma única letra, um único sentimento.

You and me,
Você e eu,
In your head we were always gonna be happy
Na sua mente nós seríamos sempre felizes
So now we're nothing more than just a memory
Então agora não somos nada além de memórias
So wipe away those tears, and go be strong
Então limpe essas lágrimas e seja forte

Talvez aquela fosse a parte que eu menos gostava em toda a composição, pois tanto na minha cabeça, e agora sei, na de também, nós queríamos que tivesse dado certo. Acreditávamos, quando éramos apenas nós dois, que seríamos felizes todo o tempo, que não havia nada que pudesse desfazer o que sentíamos, mas as coisas haviam mudado repentinamente. E embora eu não quisesse que nos tornássemos apenas uma boa lembrança um para o outro, era o que estava acontecendo. E eu não tinha a força que ele pedia na última frase, não sabia onde encontrá-la... Definitivamente.

I hesitate to tell you what I'm feeling,
Eu hesitei em te dizer o que estou sentindo
Baby, I'm afraid to say
Amor, eu estou com medo de dizer

Não sei bem o motivo, mas naquelas duas frases, e eu nos entreolhamos. Era isso, ambos estávamos com medo do que estávamos sentindo e do que poderia ainda estar por vir. Estaria, então, se retraindo? Por isso estava me tratando mal?

That we've no time to waste our lives
Que nós não temos tempo para desperdiçar nossas vidas
And I don't have all the answers
E eu não tenho todas as respostas
So I close my eyes, and I hope I'm doing right
Então eu fecho meus olhos, e espero estar fazendo certo

Eu queria dizer a ele que não devia temer, eu estava disposta a perdoá-lo e fazer as coisas darem certo, eu faria o que fosse para ter de volta nossos dias e noites, a relação pura e sem jogos que tínhamos há tão pouco tempo atrás, e que agora parecia nunca ter existido.

Nothing ever changes when we make up
Nada nunca muda quando nos reconciliamos
You just stay at my house when I'm in town
Você fica em minha casa apenas quando estou no centro
So, inevitable, we must break up
Então, inevitavelmente, nós devemos nos separar
Sorry if I'm out of line
Me desculpe se estou fora da linha

Recordei-me do que havia dito na noite anterior, sobre seus pais. Rapidamente meus olhos procuraram os seus, mas eles estavam fechados, então decidi cantar, tentando com isso demonstrar que eu estava ali pra ele. Suas sobrancelhas penderam pra baixo e sua expressão expressava sua mágoa. Senti minha garganta trancar, eu queria poder ajudá-lo a superar.

But we've no time to waste our lives
Mas nós não temos tempo para desperdiçar nossas vidas
And I don't have all the answers
E eu não tenho todas as respostas
So I close my eyes, and I hope I'm doing right
Então eu fecho meus olhos, e espero estar fazendo certo Retomamos o refrão e agora ele parecia finalmente mais entregue à música, mas ainda assim não voltou seus olhos em minha direção, eu só queria entender o que eu poderia ter feito de tão grave para aquela raiva, aquele asco repentino. De repente a ansiedade para estar a sós com ele, em seu quarto, aumentou 80%.

But we've no time to waste our lives
Mas nós não temos tempo para desperdiçar nossas vidas
And I don't have all the answers
E eu não tenho todas as respostas
So I close my eyes, and I hope I'm doing right
Então eu fecho meus olhos, e espero estar fazendo certo

olhou pra mim quando deixei que ele cantasse sozinho, acompanhando-o em apenas algumas palavras. Um sorriso bem pequeno surgiu em seus lábios, mas novamente ele se voltou pra frente e fingiu que eu era indigna sua atenção. Que ironia, até alguns dias atrás, era o contrário.

We've no time to waste our lives
Nós não temos tempo para disperdiçar nossas vidas
And I don't have all the answers
E eu não tenho todas as respostas
So I close my eyes, and I hope I'm doing right
Então eu fecho meus olhos e espero estar fazendo certo

escondeu sua voz enquanto eu cantava, eu quis parar, achei até que estivesse errando a continuidade da música, mas minha partitura me certificou de que era apenas uma gracinha do senhor . Tentei equilibrar meu tom de voz e não desafinar até o fim, que estava próximo. Assim que a melodia morreu, as palmas a substituiram. Sorri, sem jeito, e virei meu rosto para , que também me olhou desta vez, com um sorriso um pouco maior, ainda assim desanimado.
Levantei, fez o mesmo e desceu do palco, levando consigo o violão. Desci e voltei para o meu lugar, entre ele e James, que me parabenizou, sorri forçado e agradeci sem a menor vontade. Eu não conseguia me importar com qualquer coisa que não fosse o término do jantar.

- Ok, vamos às considerações finais da gincana... - Começou o professor, sorri ansiosa, soltando minha colher e afastando o prato de bolo - Primeiramente quero agradecer à todos os alunos por terem participado de todas essas provas, nós sabemos que o prêmio não tem grande valor, mas mesmo assim vocês se esforçaram pra cumprir todas as regras e tenho certeza que no fim, foi bastante divertido pra todos nós. - e eu nos entreolhamos, inevitavelmente, depois voltamos a atenção para o professor - Em último lugar, recebendo uma medalha de bronze com a estampa de um bicho preguiça, e também um delicioso saco de pirulitos... O grupo... Verde!

Olhei pra , que fechou a cara imediatamente, mas começou a gritar e pular como se fosse a melhor coisa do mundo, arrancando uma gargalhada de todos. Ele puxou até o palco, onde a professora os esperava com as tais medalhas e o pacote de pirulitos. E então algo inesperado pra mim, e acredito que pra muitos outros alunos, aconteceu.

- Esse aqui é meu prêmio! - gritou no microfone, e de repente, ergueu nos braços, ela exclamou um grito ardido e cobriu o rosto - Nada poderia ser melhor.

Sorri, contente pelos dois. merecia alguém como e ela também merecia alguém como ele. Só agora eu notava, mas eles até formavam um casal bem bonito. A balbúrdia foi interrompida quando o professor retornou a falar.

- Em terceiro lugar, recebendo uma medalha de prata e 1 vale refrigerante pra cada um do grupo... O grupo... Azul! - e James se entreolharam, completamente revoltados com o resultado final, prendi o riso quando ambos se levantaram e pisaram firme até lá, como se fosse a pior coisa do mundo.
- É, acho que vencemos. - Ouvi dizer, virei em sua direção, mas ele continuava com os olhos fixos no palco, assistindo e James receberem seus prêmios.
- Acha? - Ele concordou com a cabeça e me olhou por um instante, tive vontade de beijá-lo, ou abraçá-lo... Quis que estivéssemos a sós.
- Continuemos... - O professor se pronunciou - Em segundo lugar, o grupo que irá receber esta bela medalha de ouro e ainda um baú de trufas para dividir com os membros é o grupo... - Contraí o cenho, talvez fossemos nós, afinal, Samantha e Patrick haviam ido muito bem na apresentação, isso pouco me importava, na verdade - AMARELO!

Arqueei minha sobrancelhas e sorri, me olhou com um sorriso enorme e eu retribui com um não tão grande. Enquanto Samantha e Patrick recebiam seu prêmio, e eu nos encaminhávamos para o palco lentamente, para receber o prêmio do grupo, que eu nem mesmo sabia qual era.

- E o grupo vermelho, como vencedor, receberá, além deste belo troféu de ouro, uma noite na Domino's com tudo pago e os líderes receberão ingressos para a área vip do show que quiserem compartilhar. - O professor disparou, sorri contente com os prêmios, seria bastante divertido, tanto ir à Domino's com o grupo, quanto poder ir a um show apenas na companhia de .
- Obrigada, professor. - Agradeci enquanto o abraçava, estava logo ao meu lado, e longe do microfone o professor nos disse:
- Espero que tenha lhes servido muito mais do que para receber esses prêmios, que vocês tenham aproveitado esse tempo que eu lhes proporcionei para conversar e consertar as coisas... - Eu e continuamos ali, em silêncio - Quando eu tinha a idade de vocês, eu tive a oportunidade de conhecer a mulher da minha vida, mas éramos apenas crianças, eu não achava que fosse passar de um namoro adolescente, e um dia eu a traí... - Mordi meu lábio inferior, tentando controlar a comoção que me assolou repentinamente - Eu a traí e ela sumiu... Eu digo, eu nunca mais a vi em toda minha vida, na época, as únicas pessoas a quem eu podia recorrer eram seus pais, pois ela era um ano mais velha e não estudava mais, eu nunca encontrei um endereço sequer que me levasse à ela, ou um telefone... Tudo o que eu sei é seu nome completo, e a única coisa que me restou dela foi uma carta de despedida...
- O senhor nunca mais foi atrás dela?
- Fui durante alguns anos, mas já tem um tempo que eu desisti, ela já deve estar casada, com filhos... - Ele dizia tudo isso com uma tristeza que trancou minha garganta - Eu quero que entendam que eu a perdi por bobeira, é verdade... Eu mereci perdê-la, e eu não tive como lutar por ela, ou pelo amor que sentíamos, eu não tive tempo, mas vocês têm, então lutem um pelo outro, não deixem que as pessoas se intrometam numa coisa que não lhes diz respeito, o sentimento de vocês ninguém pode tomar e é isso o que importa, o sentimento.
- Eu sinto muito por tudo, professor... - Foi o que eu consegui dizer.
- Não se preocupe, , eu estou habituado a isso, já não dói tanto, só lhes peço que ouçam o que digo, se amam um ao outro, não deixem isso passar despercebido, não finjam que não é amor. A gente sabe quando é amor... A gente sempre sabe.

Sim, a gente sabe, e eu sabia. Meus olhos buscaram os de , esperando retorno pelo menos uma vez no dia, mas ele estava cabisbaixo. Será que ele tinha dúvidas de que me amava? Ou sobre meu amor por ele? Minha garganta pareceu fechar-se, sufocando minha respiração e me fazendo ofegar uma vez, para depois me afastar. Eu queria acabar de uma vez por todas com aquela situação, de alguma maneira eu sabia que quando estivéssemos a sós, em seu quarto, as coisas se esclareceriam.
Saltei do palco e andei apressadamente até meu grupo, entreguei o troféu a eles, que comemoravam como se fosse algo realmente sensacional, não que não fosse ser divertido sair com a turma e poder ir à um show com , mas naquele momento nada me parecia mais interessante do que sair dali.
Eu estava a poucos passos da porta, estava parado lá, parecia esperar que eu olhasse para me dar algum aviso silencioso. Fitei seu rosto impaciente e o notei esfregar os cabelos da nuca, antes de por fim encarar meus olhos, mas antes que qualquer coisa fosse dita, senti minha cintura amparada por dois braços, tentei ver quem era. Tentei entender o que estava acontecendo. Mas nada solucionou-se em minha mente. Meus lábios eram pressionados pelos de James e ele não parecia ter a menor pretensão de romper o beijo. Com asco, empurrei-o, sem muito sucesso, mas o suficiente para virar meu rosto para o lado e procurar por , mas tudo o que encontrei foram os saltos excitados de . Patético, definindo a cena.
Atravessei o resort sem sequer prestar atenção no que fazia. Ignorei os berros de e os apelidinhos ridículos que James atribuía a mim, parados na porta do restaurante.
Toquei duas vezes consecutivas na porta do apartamento onde estava hospedado, mas sem obter qualquer resposta, adentrei. Notei que não havia luz alguma acesa na parte inferior e, no meio do lance de degraus até o segundo andar, realizei que estava tudo apagado. A porta de ambos os quartos estavam fechadas e eu temi o que encontraria do outro lado.
Com o indicador, bati três vezes repetidas na porta, soava como uma melodia tola. Nada. Sem permissão, girei a maçaneta e abri uma fresta, ampliando meu campo de visão, embora a penumbra ainda limitasse o que eu podia enxergar. A luminosidade natural da lua invadia o cômodo, refletindo na pele nua do tronco de em uma nuance de amarelo dourado. Ele estava parado em frente à sacada, olhando para fora como se houvesse algo muito interessante lá fora a ser admirado. Talvez a chuva. Talvez o nada.
Perdi uns instantes admirando o desenho do músculo das suas costas e seus ombros, que enrijeceram ao mesmo tempo em que deixei um suspiro escapar, permitindo que ele notasse minha presença ali. O fato de não ter virado-se em minha direção me fez concluir que não queria me ver. Não retirei sua razão.
Passei para dentro, mesmo assim, e antes que eu pudesse fechar a porta, ele se virou, lenta e graciosamente. Seus ombros brilharam úmidos, as gotas escorregavam pelos cachos curtos de seu cabelo, como se fossem tobogãs. Seus olhos estavam vermelhos, suas pupilas dilatadas e sua íris estava acinzentada, como se nuvens pairassem sobre ela. Estremeci enquanto ele se acercava, agora estava tão perto que eu podia sentir o calor e o perfume que emanava da sua pele e me abraçava, atrapalhando minha concentração. Com seu corpo parado em frente ao meu, estendeu seu braço e apoiou a palma na porta, empurrando para fechá-la. Minha respiração entrecortou quando ouvi um “click” duas vezes enquanto ele girava a chave na lingüeta, trancafiando-nos.

- ... - Minhas cordas vocais tremeram e seu nome soou como um gemido estranho, ao qual ele não respondeu - Eu sinto muito pelo que você viu...
- Não quero conversar. - Esclareceu, sua voz firme como suas mãos, que agora amparavam meu dorso, puxando-me de uma só vez.
- ... - Chamei ao erguer minha cabeça, que colidiu contra seu queixo ao mesmo tempo que eu pisava sobre seus pés, desequilibrando-me sem sair do lugar graças à precisão com a qual ele me mantinha entre seus braços, ele não piscou, não riu, não pareceu afetado ou comovido com qualquer coisa, apenas continuou me olhando de um jeito que me fez apoiar minhas mãos em seus peitos a fim de uma distância segura. Segurança, algo que sempre me proporcionara sem se esforçar - Eu posso explicar...
- Sempre pode, não é? - Ele sorriu com escárnio - Mas saiba, , suas explicações são dispensáveis... E planos são planos, não é?

Não respondi, sentindo meu coração perder a força dentro de meu peito, que parecia diminuir. Meu corpo tremia todo e minha língua parecia dormente, eu não consegui dizer nada, tampouco tive tempo de tentar. Seus lábios foram pressionados aos meus sem delicadeza, e eu, sem entender, retribui o beijo desesperado ao qual se dedicava. Coloquei as mãos em seu rosto, sentindo-o rígido como se me beijar fosse algo horrível. Abri meus olhos e a expressão de fez com que meu estômago se contraísse, seu cenho estava encolhido, suas sobrancelhas baixas, como se sentisse uma dor inexplicável, eu queria entender.
Firmei minhas palmas contra seu peito, quente e completamente rijo. Tentei, em vão, afastá-lo, pois minha força parecia ter sido anulada pelo meu desespero repentino. Inspirei o máximo de ar que me foi possível, quantidade ainda insuficiente para aliviar meus pulmões. Meus olhos e narinas começaram a queimar, trancando minha garganta numa intensidade nada familiar.
Os braços de me libertaram de uma vez só, uma vertigem me fez cambalear para perto da parede, onde me apoiei. Ele se afastara, andando até a cama com seus pés descalços e sua calça caindo pelo quadril. Olhei pra porta, cogitando a possibilidade de ir embora, engolindo em seco a vontade de chorar.

- Vem, não vai se deitar aqui comigo? - Desviei os olhos da maçaneta para , apenas de boxer, sentado na beirada da cama com uma das mãos apoiadas pra trás - Vamos lá, , agora você não quer?
- , por favor, o que pensa que está fazendo? - Perguntei, sentindo-me subitamente enojada com sua expressão sarcástica - Eu sei que as coisas ficaram fora de controle, mas... - Não consegui continuar, ele havia se levantando e estava se acercando - , me deixa ir embora. - Pedi, tentando manter a calma quando suas mãos me seguraram pelos cotovelos e começaram a me conduzir até a cama - , não faça isso.
- Sabe, , eu te tratei tão bem, com tanto respeito... Mas no fim das contas, vocês são todas iguais e não merecem tratamento diferenciado, mais ou menos especial... São todas grandes vadias que se escondem atrás de uma maquiagem de bela moça pra depois fincar o salto agulha em nossos corações confusos e apaixonados. - Ele dizia tudo aquilo entre dentes, com o maxilar trincado e os olhos fixos nos meus, senti seus dedos me soltarem de uma só vez, sentei na beirada da cama e encolhi os ombros, em proteção.
- Por que está dizendo isso? - Sussurrei, sentindo os lábios trêmulos e os olhos encharcados - Não é por causa do beijo que James me deu... É? - sorriu de um jeito que confirmou minha suspeita, não era só isso, afinal, ele estava estranho o dia todo - O que está acontecendo? - Perguntei, vendo-o ajoelhar-se à minha frente com uma expressão sarcástica.
- Não era isso que você queria, me ter aqui aos seus pés? - Apertei o lençol entre meus dedos, apenas encarando-o - Depois de ter traído sua confiança, não parecia a coisa certa ir lá e foder com a minha vida e com o meu coração? Não era isso o que você pretendia? Me atrair até sua cama como se meu sentimento por você se resumisse em tesão? Aqui estou, , aos seus pés, e meu sentimento por você, hoje, é só tesão... Então não quero conversar e nem chorar.

Mas seus olhos brilhavam cheios de lágrimas, denunciando que nem mesmo tesão ele estava sentindo naquele momento, nada além de mágoa. Eu queria dizer algo, queria ter dito algo, mas fui incapaz de fazer qualquer coisa. Eu estiquei minhas mãos para tocar seu rosto, mas com o punho ele as afastou, e num movimento ágil me deitou na cama, com seu corpo sobre o meu e sua boca na minha. Apertei meus olhos, sentindo meus cílios úmidos e uma dor aguda em ambos os pulsos pela maneira como ele os segurava acima de nossas cabeças. Eu não me movi, mas meu interior era todo resistência, demonstrada em lágrimas.
Eu não precisei fazer nada, rompeu com o beijo de repente e se afastou, andando para perto da porta com os próprios cabelos preso entre os dedos. Ele encostou sua testa na parede enquanto eu rolava para fora da cama, caindo ao lado dela, e aos tropeços me levantei e corri, com as pernas fracas, para o lado oposto, perto da sacada. Massageei meus pulsos enquanto meus olhos gotejavam na mesma freqüência com a qual a chuva caía lá fora.
mantinha-se de costas, com os ombros subindo e descendo rapidamente, os músculos contraídos e os dedos enroscados na cabeça, como se estivesse prestes a explodir.

- Eu errei muito, é verdade... - Ele começou a dizer, sua voz embargada e trêmula - Eu errei quando não te contei tudo o que estava acontecendo, errei por ter permitido que você passasse por toda aquela humilhação pelo medo que eu tinha de te perder, eu quis correr o risco... - Fechei meus olhos com força, as imagens do baile de primavera voltando a passar como um filme em minha cabeça - Mas eu esperava algo mais maduro de você. - Sua voz se tornou um pouco menos abafada e quando abri os olhos notei que ele estava de frente pra mim, embora longe, seus olhos cheios d’água - Eu me redimi de todas as maneiras que pude, eu me humilhei e fui atrás, tentei me desculpar... Eu achei que algo estivesse errado quando você fingiu que estava tudo bem... Mas eu nunca imaginei que um dia você seria capaz de agir como... Uma idiota.
- Quem é você para falar de atitudes idiotas?! - Exclamei, sentindo a indignação corroer minha calma.
- Eu sou um merda! - Gritou, duas lágrimas caíram de seus olhos rapidamente e ele voltou a trincar os dentes - Eu sou um grande merda, sempre fui... Até te conhecer, porque por você eu queria ser alguém melhor, eu sempre achei que você merecia estar ao lado de alguém que eu nunca tinha sido, mas que eu tentei e tenho tentado ser desde então... Achei que você fosse boa demais pra mim, mas agora eu não entendo o por quê. - Funguei, sem forças para responder ou reagir - Você agiu exatamente como qualquer outra garota que eu já tenha ficado, todas elas passaram pela minha vida e eu nem senti falta quando foram embora... Era pra ser diferente com você. - Ele assentiu, lentamente, com as lágrimas banhando seu rosto - E eu estou tão chateado que eu nem consigo te olhar sem ter vontade de mandar você ir para o inferno!
- . - Meu tom parecia implorar, e eu não consegui continuar, o choro me arrancou um soluço ao invés de palavras.
- Não quero que diga nada, eu não quero ouvir nada, eu quero que você vá embora porque você não é quem eu pensei que fosse, e apesar de todos os meus erros eu sempre deixei claro que era um idiota...
- Você está sendo egoísta! - Exclamei, ofegando pela dificuldade que eu tinha em respirar com o nariz trancado devido ao pranto.
- VOCÊ FOI UMA GRANDE EGOÍSTA POR QUERER COMPENSAR SUA DOR COM A MINHA! - Ele gritou, com tanta força que sua voz saiu rouca ao final, eu estremeci, sem conseguir me mover.

continuou me olhando, as veias de sua testa e pescoço pulsavam, sua pele estava toda vermelha e já não era só em conseqüência do sol. Ele estava tão nervoso que não devia nem estar percebendo todas aquelas lágrimas, elas pareciam escorrer com tanta facilidade enquanto seus olhos, vidrados em mim, mal piscavam. Solucei e escondi meu rosto entre minhas mãos, envergonhada por tudo o que eu havia feito. estava certo, ele havia sido um idiota sim e eu havia me igualado a ele. Eu havia sido uma idiota quando aceitei fazer com que se sentisse atraído por mim, para depois deixá-lo. Eu havia sido uma idiota por ver que ele havia melhorado e mesmo assim ter continuado piorando, dia após dia, até ser tarde demais.
estava exatamente da maneira como eu desejei no último mês. A sua imagem chorando passava por minha cabeça todas as noites antes de dormir com lágrimas nos olhos, tentando entender o porquê dele ter me escolhido para aquela aposta, tentando entender como ele poderia ter sido tão teatral a ponto de me fazer acreditar no amor que ele fingia sentir. Eu desejei, dia após dia que ele se arrependesse profundamente por aquilo, sem saber que ele já se arrependia há muito tempo, mesmo antes de tudo ter sido descoberto por mim. Eu não sabia, mas não precisava sofrer além do que já havia sofrido. E eu não sabia que diante de sua dor, a minha se tornaria ainda maior. Mas agora eu sabia de tudo isso. E me arrependia por tudo isso.


Capítulo 10.
"Bet you're wondering how I knew about your plans to make me blue"
(I Heard It Through The Grapevine - Marvin Gaye)

Quando criança, eu e os meninos costumávamos apostar corrida todos os dias após o intervalo, toda a vez que o sinal soava, saíamos correndo, de onde estivéssemos, e nosso destino era a sala de aula; quem chegasse por último pagava o lanche dos outros três no dia seguinte. Lembro de uma vez, a última vez. Eu estava na frente e isso não era uma surpresa, eu estava na escolinha de futebol e costumava ser o mais rápido entre eles por isto. Eu olhei pra trás, primeiro vi , rindo, sua camiseta sendo bruscamente puxada por , que competitivo desde cedo, tentava fazê-lo ficar pra trás, mesmo que fosse trapaceando. , bem mais atrás, havia desistido, seu rosto estava completamente vermelho e a franja havia colado na testa, descansava escorado na parede, com as mãos apoiadas nos joelhos. Comecei a rir e gritar coisas como "gordo", e me acompanharam e eu senti minha voz falhar em meio a um gemido quando meu ombro colidiu fortemente com uma superfície rígida. Um ruído preencheu meus ouvidos, irritando meus tímpanos. Num primeiro momento, não senti dor. Mas aos poucos a palma de minhas mãos começou a queimar fortemente, meus joelhos depois, e em seguida uma chuva de partículas do vitral que eu havia atravessado começou a cair sobre mim. As pessoas começaram a se acercar, mas minha visão turva não me permitia reconhecer ninguém. Eu nunca havia me sentido pior, não era só a dor de ter cacos de vidro fincados em minha pele, ou o ruído do vidro estilhaçando sobre mim ecoando em minha cabeça, eu estava com vergonha e com medo. Eu queria chorar, mas eu não queria fazer isso ali na frente, e aquela foi a primeira situação onde eu quis sumir, ou quis que todos sumissem. Eu achei que aquilo nunca mais aconteceria, mas aconteceu muitas vezes mais... A dor, as pontadas, o ruído, a vergonha, o medo... me fez recordar tudo isso de uma só vez, sem nem mesmo saber.
Quando a deixei na porta de seu bangalô, naquela manhã, após a noite mais completa que já havíamos tido juntos, me senti estranho. Era como se eu não pudesse sentir aquela felicidade exorbitante depois de tantas noites mal dormidas, como se uma tempestade se aproximasse e eu pudesse sentir seu cheiro cada vez mais perto. Ignorei a sensação, nomeei-a de sono e fui para meu apartamento; o que encontrei lá me fez ver que isto tinha outro nome: verdade.
estava lá e, de repente, meu sono se dissipou, junto com meu sorriso e qualquer rastro de felicidade. Eu não esperava encontrá-la ali, sentada entre as pernas de , como se fosse bem vinda, quando não era... Pelo menos não por mim. Tratei de ir logo questionando sua presença, como se ela não estivesse ali, e rapidamente ouvi, de sua própria boca, as seguintes palavras:

- Tem algumas coisas que você precisa saber...

Eu já sabia do que se tratava. Não havia nada que ela pudesse me contar que não envolvesse , mas o que? era amiga de e , e daquela outra garota - a que eu já fiquei e não me recordo o nome - então, tecnicamente, se ela tivesse que dizer algo referente à , seria pra me xingar, como todas têm feito desde o baile de primavera. E depois que ela contou o que realmente queria, ser xingado seria adorável.

- Eu não fui ao baile de primavera, eu não sabia o que tinha acontecido, porque da última vez que conversei com antes do baile, ela me disse que tinha pedido que ela não dissesse nada, que iria convencer você a contar tudo o mais rápido possível... - Encostado ao batente, eu a ouvia, fingindo desinteresse, quando meu coração parecia querer saltar pela minha boca só com a lembrança daquela noite, e ansiedade pelo que ela tinha a dizer - Um dia depois do baile, ela me ligou e disse que ia precisar de ajuda com , se eu podia ir até a casa dela, e eu fui, porque achei que íamos ajudar caso déssemos uma solução pra ela...

A solução foi sugerida por , mostraria a mim o que eu havia perdido, o que eu havia apostado e jogado no lixo por não ter dito a verdade. Pelo que foi dito por , só aceitou porque a dor que eu havia causado não permitia que ela tomasse as próprias decisões e provavelmente tenha sido muito mais confortável adotar um plano pronto. Este era o plano, me conquistar e depois me abandonar. Como se isso fosse preciso. Como se eu já não estivesse sofrendo tanto quanto ela.
não se lembrou quando foi que viu James incluído no plano pela primeira vez, mas desistiu de fazer parte de tudo exatamente quando deu-se conta do que realmente pretendia, que segundo ela, era trazer Matt pra perto novamente. Não que eu não tivesse pensado nisso, mas saber que sua amiga pensava o mesmo tornava as coisas ainda mais óbvias. Será que não podia ver? Não, ela não podia. Seu plano não incluía personalidade própria, sentimento ou maturidade. Isso excluía seus olhos, também.

Primeiro estágio: Descrença.

Deitado em minha cama, naquela manhã, ouvindo ressonar ao meu lado, os olhos de me assombraram. Por horas a fio, tudo o que eu conseguia pensar era que eu conhecia aqueles olhos e aquele sorriso que ela esboçou tantas vezes na noite passada. Eu achei que a conhecia bem o suficiente pra não me deixar enganar por ela, mas algo parecia ter me cegado parcialmente. Digamos que eu só via o que queria ver, isso explicaria tudo. Talvez ela até tenha deixado bem claro o tempo todo que aquilo, pra ela, não passava de um jogo. Mas isso me machucaria, então eu fingi não ver. Parecia bem mais claro depois de ouvir tudo de . As idas e vindas, os sorrisos sedutores e, logo menos, tímidos. Os olhares fixos e depois desviados. Ou ela se tornara bipolar, ou estava tentando manter um plano. O plano de me levar ao chão.

Segundo estágio: Revolta.

Levantei na hora do almoço, sem ter dormido nem um segundo. Também não havia sono, ou fome. Mas eu estava disposto, pelo menos. Tomei um banho e vesti uma roupa qualquer. Eu não sabia qual seria minha reação ao vê-la, mas pelo menos eu não precisaria ir cumprimentá-la, já que nossa relação era um segredo. Isso me daria tempo pra pensar no que eu faria, embora eu já tivesse algumas idéias pairando em minha mente, a única coisa da qual eu tinha certeza absoluta era a de que eu não iria deixar aquilo passar em branco. De maneira nenhuma.
Aos poucos, a passividade que eu havia adquirido depois de conhecer começava a se dissolver, como aspirina em copo d'água. Foda-se a bondade e a gentileza. Não fazia sentido ser educado e dócil quando ninguém dá valor a isso. Eu era muito mais feliz quando não me importava com nada, nem ninguém. Eu não me lembrava de ter chorado por uma garota enquanto eu as fazia chorar por mim. Talvez isso resolvesse meu problema. Trazer minha antiga personalidade de volta, talvez, fosse a solução.
Passei a tarde toda a evitando, tentando encontrar um meio de fazê-la pagar pela angústia entalada em minha garganta. Eu não admitiria que ela pisasse em mim, eu nunca havia permitido coisas do tipo e não seria ela a minha exceção. E no fim da noite, depois de termos recebido o prêmio pelo grupo e ter visto James beijar seus lábios - depois de ter meu corpo todo tremendo como se eu estivesse a beira de uma hipotermia e meu estômago ter sido substituído por um bolo de aflição, depois de ter meu coração pronto pra ser cuspido fora - eu decidi, finalmente, o que eu faria. Se queria ser uma outra pessoa, eu seria quem eu costumava ser antes de conhecê-la, antes de me conhecer. Se ela queria agir como uma vadia, seria tratada como tal.
Por um certo momento, quando a vi na porta do quarto, esqueci quem ela era e me esqueci quem eu era também. Qualquer caráter que ainda houvesse em mim, dissipou, fugiu pela porta da sacada. O que restou foi a mágoa, e o desejo de vingança que parecia exalar da minha pele. Deixei isso claro a ela, a cada beijo, cada beliscão e cada roçar de nossos corpos, mas fui tolo ao pensar que conseguiria uma ereção naquele momento. Não que eu nunca tivesse forçado sexo com alguma garota, elas até gostavam de fingir que não queriam pra que eu as obrigasse... Mas não era “alguma garota“ e por mais que estivesse tentando ser, e ainda que eu quisesse fazê-la se sentir assim, fiquei aliviado quando ela, finalmente, saiu daquele quarto.

Terceiro estágio: Tristeza.

Assim que ouvi a porta do apartamento ser fechada, permiti que toda a angústia - que eu havia sublimado até então - me abatesse e, como uma bala, a dor me acertou em cheio, empurrando-me pra beirada da cama. Comecei a resfolegar e eu sabia que em menos de dois segundos, eu estaria chorando. Pelo dia todo, por cada minuto dele desde que soube quais eram os planos de . Chorei tudo o que estava guardado, por todas as vezes que eu quis fazê-lo, mas me distraí. Ainda assim, a agonia parecia não passar, parecia presa firmemente no centro da minha garganta, trancando minha respiração, revirando meu estômago e, quando dei por mim, eu estava na beirada do vaso, vomitando tudo o que eu não havia comido.
Humilhado, era como eu me sentia quando saí do banheiro, de banho tomado e com uma roupa mais leve. Era como se alguém com o triplo do meu peso tivesse me batido, ou pisoteado sobre mim. Minha mente não parava de trabalhar, mesmo com todo o cansaço que a encobria e refletia em meu corpo dolorido. Mas quando me deitei, ainda que algumas pontadas de tristeza me fizessem ter vontade de chorar novamente, acabei adormecendo, sem perceber.
Acordei duas vezes pior do que estava quando adormeci. Minha cabeça pesava como se meu cérebro tivesse sido trocado por uma bigorna. Enquanto escovava meus dentes eu via minha imagem refletida no espelho, meus olhos vermelhos e inchados, eu acho que estava até um pouco enrugado.

- ! - Ouvi me chamar, desviei os olhos do espelho para a porta - 'Tá aí? - Notei que estava mais próximo.
- 'Tô! - Gritei, depois me inclinei e cuspi a espuma que tinha na boca, enxaguando-a em seguida.
- Os meninos já desceram arrumar as coisas para o lual, vim te chamar. - Ele disse, agora provavelmente colado na porta.

Optei por não responder. Enxagüei meu rosto duas vezes e umedeci minha nuca, tentando me livrar da preguiça, que não arredou o pé, continuou se propagando a cada vez que eu piscava. Me enxuguei e saí do banheiro, sem me atrever a olhar no espelho novamente, eu parecia pior a cada vez que via meu reflexo, talvez se eu parasse de olhar, isso parasse de acontecer, certo?
estava sentado na poltrona perto da porta e sua expressão ao me ver foi indescritível, mas ele até que tentou disfarçar. Ri, sem graça.

- Eu sei, parece que fui atropelado... Ou estuprado, sei lá. - Resmunguei, sem ânimo, soltou a risada que estava presa e cruzou os braços.
- Na verdade, parece que você tomou um pé na bunda épico da nerd do colégio - Ele dizia entre risos, mas a graça não chegou até mim e ele percebeu - Desculpa, cara.
- Relaxa. - Disparei, começando a me vestir - Só não quero falar sobre isso.

não só concordou, mas respeitou minha decisão e provavelmente conversou com os caras sobre isso, já que nenhuma piada chegou até mim, e olha que motivos não faltavam. Eu estava de boné, e isso não acontecia com muita freqüência, não publicamente. Também não tirei o óculos de sol, do momento em que cheguei, até quando voltamos para o bangalô.
Enquanto ficamos encarregados de montar os instrumentos sobre o tablado de madeira que havia sido emprestado pelo dono de um dos quiosques da praia, o resto da turma havia se dividido para cuidar da decoração, comida, bebida e o dinheiro que deveria ser corretamente distribuído para que tudo saísse dentro das expectativas. Havíamos proposto uma parceria com o dono deste mesmo quiosque que nos emprestou o suporte de madeira para os instrumentos, ele ficaria encarregado de vender as bebidas e o lucro era totalmente dele, mas ele teria de nos emprestar seus garçons pra tomar conta da nossa mesa de aperitivos.
Com tudo pronto, por volta das seis horas, voltamos para o apartamento, pra descansarmos e estarmos prontos até às 10, pelo menos. Assim como os garotos, dormi por umas duas horas e, quando acordei, ainda não me sentia preparado pra ter uma noite fora. Só de pensar em descer até a praia, minhas pernas pareciam mais fracas e minhas pálpebras mais pesadas. Mas ao ver sair pronto do banheiro, lembrei que eu não tinha outra escolha.
Não sei quanto tempo demorou meu banho, mas quando saí pude ouvir os garotos gritarem, irritados pelo meu atraso. Eu disse que podiam ir na frente, mas eles preferiram me esperar. Coloquei uma calça jeans, a única que restara limpa, e uma camiseta branca, listrada de azul, com uma âncora vermelha estampada na frente. Ganhei de aniversário e essa era a primeira vez que eu usava. Calcei meu vans branco e fui para o banheiro. Travei uma batalha contra o meu cabelo e, no fim, quando estava pronto e perfumado, notei que eu não estava mais tão mal assim, agora até parecia menos apático do que pela tarde.

- Finalmente, hein, mocinha? - disparou assim que cheguei na sala, notei que cada um segurava um copo descartável de 600ml e Antony me entregou um dos seus.
- Whisky com energético, pra ver se você acorda. - Ele disse em tom de voz cômico, ri forçadamente e depois fechei a cara - E quem sabe, de bônus, o álcool leva seu mal humor embora, né? Se formos sortudos... - Dei um tapa na cabeça de Antony antes de sair pela porta, completamente desinteressado em tudo aquilo.

Fizemos o caminho até a praia lentamente, bebendo o conteúdo de nossos copos enquanto Antony nos explicava que havia conseguido algumas bebidas por um preço bastante baixo e que elas ficariam com ele a festa toda, que podíamos dividir entre nós 5 e assim gastaríamos bem menos do que se fossemos comprar no quiosque a noite toda. Não que eu pretendesse ficar na festa até tarde, mas eu iria usufruir do whisky o tempo que estivesse lá. Eu ia precisar estar muito bêbado pra maquiar meu desânimo e fingir, pelo menos um pouco, entusiasmo.
Ao chegarmos lá, meus olhos varreram as pessoas espalhadas pela areia, a decoração, agora iluminada pelas grandes tochas de fogo e pelas luzes do quiosque, ficou muito mais interessante. Havia até uma tenda com algumas almofadas coloridas. Tinha bem mais gente do que estávamos esperando, era bom ver rostos menos familiares naquele dia. Eu acho que estava um pouco cansado de estar sempre na companhia das mesmas pessoas.
Me separei dos caras, pois eu precisava comer qualquer coisa que fosse. Os aperitivos não me pareciam algo que fosse me sustentar, mas era a única coisa que tinha. Passei um tempo na mesa, comendo uma coisa ou outra e desejando estar no meu quarto, não o quarto do bangalô, mas na minha casa. Comendo cereal e assistindo desenho japonês, assim eu não precisaria assistir desfilar sua beleza dentro daquele short minúsculo. Apesar de tudo o que ela havia me feito e do fato de James estar segurando-a pela cintura, foi bom vê-la sorrir. Foi bom saber que eu não havia feito grande estrago noite passada. Se ela queria ficar com James, tudo bem. Se ela quisesse ficar com quem quer que fosse, já não me dizia respeito, pois eu não a queria de volta. Talvez minha antiga personalidade fosse achá-la bastante atraente, mas isso eu mostrei a ela no dia anterior. Eu era outro, e esse estava completamente desinteressado em ter qualquer coisa com uma garota comum. Isso era o que ela havia se tornado... Apenas mais uma garota bonita. E isso não chamava mais minha atenção.
Fui pra perto dos caras assim que notei a aproximação de , com ela, sim, eu não queria qualquer tipo de contato. Quero que ela se foda por ser uma pessoa tão escrota. Preparei outro copo de whisky com energético e logo acabei com ele. O terceiro já me deixou mais maleável à toda situação e até deixei que Rebecca ficasse agarrada a minha cintura. Mas foi o quarto copo que me fez convidá-la pra sair dali comigo depois da apresentação da banda. Ela concordou imediatamente, sem hesitar.

- Hey, . - me chamou, desviei meus olhos do mar para meu amigo - Acho melhor tocarmos agora, está meio bêbado e da última vez ele errou pelo menos um acorde em todas as músicas. - Ri e concordei com a cabeça, flexível aos erros de e a qualquer outra coisa.
- Tudo bem, cara, vamos lá.

Ao subirmos no palco, enquanto nos organizávamos, encarei o cajón no fundo do palco, questionei à pra que servia e ele disse que havia trazido caso quiséssemos fazer uma versão acústica de alguma canção e foi isto que me remeteu a uma em específico.

- Vocês me acompanhariam se eu quisesse tocar uma música?

Preparamos uma setlist apenas com músicas agitadas, era uma festa e não queríamos ninguém desanimados; e não tivemos isto. Exceto por mim, mas isto não vem ao caso. Talvez eu nem estivesse mais tão mal humorado assim. Quando estávamos tocando a última música, Saturday Night, troquei um olhar sugestivo com os caras, que pareceram concordar imediatamente com o que eu queria fazer, e assim que terminamos, eu tomei a liberdade de apresentar a última música.

- Muito obrigado. - Agradeci, sinceramente, às palmas e gritos - Tenham uma boa noite, curtam muito o lual, tomem cuidado aí com bebida e mar... - Vi algumas pessoas concordarem e o professor fazer um sinal positivo pra mim - E então, agora, vamos fazer a última música pra vocês, um cover... - Eu disse, e estendeu-me o case com o violão que havia me dado - É um cover do Marvin Gaye, que eu quero oferecer à pessoa que me deu esse violão, aqui... - Retirei o Takamine de dentro do case, que foi levado por Antony, e ajeitei a alça do violão ao redor dos meus ombros - O nome dessa canção é "I heard it through the grapevine", espero que vocês gostem.

Ooh, I bet you're wondering how I knew
Ooh, aposto que você está se perguntando como eu soube
About your plans to make me blue
Sobre seus planos de me colocar pra baixo
With some other guy that you knew before
Com algum outro rapaz que você conhecia antes
Between the two of us guys, you know I love you more
Entre nós dois, você sabe que eu te amo mais
It took me by surprise, I must say, when I found out, the other Day
Isso me pegou de surpresa, devo dizer, quando descobri, outro dia
Don't you know that
Você não sabe que

Deixei que desse início, cantando a primeira estrofe. Enquanto isso eu apreciava tudo naquele violão, absolutamente tudo o que ele podia me oferecer. Desfrutei do deleite que era ouvir sua melodia limpa, suave, apesar dos toques fortes da música. E só então me lembrei quanta sujeira ele me trazia, quanta merda ele representava. Imediatamente, busquei-a com meus olhos e encontrei os seus, esbugalhados para fora das órbitas.

I heart it through the grapevine
Eu ouvi através de um boato
No much longer would you be mine
Você não seria minha por muito mais tempo
Ooh, I heard it through the grapevine
Ooh, eu ouvi através de um boato
And I'm just about to lose my mind, honey, honey, yeah
E estou a ponto de perder a cabeça, querida, querida, sim

Não hesitei em manter o contato visual, se era o que ela queria. Eu queria mesmo que, além de saber o significado daquela música, ela se visse refletida em meus olhos. Que olhasse, através da minha íris, seu rosto pesado de maquiagem, a blusa transparente que não limitava a visão de seu decote. Que visse o quanto estava irreconhecível e que se arrependesse por isso. Mais por ela do que por mim.

You know that a man ain't supposed to cry
Você sabe que um homem não deve chorar
But these tears I can't hold inside
Mas estas lágrimas eu não posso conter
Losing you would end my life, you see
Perder você acabaria com a minha vida, veja você
'Cause you mean that much to me
Pois você significa muito pra mim
You could have told me yourself, that you love some one else
Você poderia ter me dito por conta própria, que você ama outro alguém
Instead
Ao invés disso

Clareei minha garganta antes de começar minha parte, mas não aliviou minha voz brevemente embargada. Notei seu queixo tremer e o meu cedeu alguns tremeliques também. Eu não sabia que diabos de comoção era aquela, mas fechei meus olhos pra que ninguém, além de mim, percebesse. Talvez fosse o álcool, dando liberdade para que a tristeza retornasse quando eu tinha passado as últimas horas apenas enterrando-a o mais fundo que pude.

I heart it through the grapevine
Eu ouvi através de um boato
No much longer would you be mine
Você não seria minha por muito mais tempo
Yeah, I heard it through the grapevine
Sim, eu ouvi através de um boato
And I'm just about to lose my mind, honey, honey, yeah
E estou a ponto de perder a cabeça, querida, querida, sim

Tornei a abrir meus olhos quando me certifiquei de que não iria chorar. Ela ainda me olhava e eu não conseguia deixar de retribuir. Neguei com a cabeça, tentando mostrar a ela o quanto eu estava indignado com sua atitude e com o que havia acontecido conosco. Eu nunca tinha colocado tanta fé em algo como coloquei em mim e . E eu não conseguia admitir que tudo tivesse ficado tão mal, que estivéssemos dentro dessa bagunça. Era tão dolorido perceber que eu havia nos levado a isto, mas, de alguma maneira, minha consciência eliminou parte da culpa, entregando o restante para , que decidiu esgueirar-se de qualquer explicação de minha parte, qualquer tentativa de conserto e reconciliação. Agora eu sabia que minha amizade também não interessava a ela. Seu rancor era tão grande que havia tragado-a e escondido-a dentro de uma curva de sua mente, sua racionalidade parecia ter sido mastigada, e talvez ainda houvessem lapsos de senso, mas na maior parte do tempo, estava agindo sob a nuvem de vingança que pairava em seu coração.

You could told me yourself, but I heard that from someone else
Você poderia ter me contado por conta própria, mas eu ouvi aquilo de outra pessoa
I heart it through the grapevine
Eu ouvi através de um boato
No much longer would you be mine
Você não seria minha por muito mais tempo
Ooh, I heard it through the grapevine
Ooh, eu ouvi através de um boato
And I'm just about to lose my mind, oh oh
E estou a ponto de perder a cabeça, oh oh

Desviei meus olhos para a corda do violão, sentindo como se toda a tristeza se tornasse raiva, novamente. Na verdade, eu estava revoltado com a capacidade que as pessoas têm de regredir e como a infantilidade pode simplesmente acabar com o caráter de alguém. Olha pra , quem poderia imaginar que alguém estudiosa e esforçada, algum dia, poderia se deixar persuadir por alguém amarga e mesquinha? E , qual o limite do seu egoísmo? Como diria Bob Dylan "a resposta, meu amigo, está flutuando pelo vento", e o vento, tenho de reconhecer, não estava soprando para o meu lado.

I heart it through the grapevine
Eu ouvi através de um boato
No much longer would you be mine
Você não seria minha por muito mais tempo
Yeah, I heard it through the grapevine
Sim, eu ouvi através de um boato
And I'm just about to lose my mind, honey, honey, yeah
E estou a ponto de perder a cabeça, querida, querida, sim

Olhei pra ela e cantei aquela estrofe, deixando claro, ali, meu protesto. Eu me afastaria, não cruzaria mais seu caminho e não exigiria mais nada dela. Ela estava livre de mim. E, naquele momento, eu não achei que algo pudesse me fazer mudar de idéia. Eu, definitivamente, não a queria de volta. Não mais.
Caminhei lentamente até a extremidade do palco, onde pude ficar mais próximo de , que estava encostada no quiosque ao lado de James, e assim que toquei o último acorde, retirei a alça do violão dos meus ombros e, segurando em seu braço com minhas duas mãos, o choquei, com toda minha força, contra o amplificador, uma, duas, três vezes, sentindo-o rachar e despedaçar, ouvindo o ruído ensurdecedor que fazia as pessoas se encolherem. Algumas lágrimas gordas escapavam pelos olhos paralisados de , uma, não tão densa, transbordou do meu - a última - quando deixei o resto do violão cair de minhas mãos. Quando me deu aquele violão, deixou claro que era a recompensa por tê-la apostado, aquele instrumento representava sua presença... E isso era o que ela representava pra mim agora... Pedaços inutilizáveis de algo que já foi importante um dia. Algum dia.
Capítulo 11.
"I can't ignore you, you sent me spinning"
(Boomerang - Plain White T's)

- Você podia ter feito muitas coisas com aquele violão... - dizia enquanto caminhávamos entre as pessoas, tentando encontrar Antony - Você podia ter guardado, penhorado, vendido, me dado... Você podia ter me dado! - Ri de seu tom de voz esganiçado - Mas quebrar foi pecado. Você cometeu um pecado.
- Desculpa, . - Respondi, vendo Antony acenar em minha direção, apressei meus passos, sentindo minha garganta escassa.
- Antony, meu querido! - Exclamei, apoiando um de meus braços em seus ombros.
- Acabou a bebida aqui embaixo, tem que ir buscar lá em cima, você, como parece ser o mais ansioso pra desfrutar dela... Vai buscar. - Ele disparou, suspirei e fechei a cara, olhando para os rapazes que riam histericamente.
- Tudo bem, eu vou. - Dei de ombros, prendendo o riso - Onde está?
- No apartamento que eu estou hospedado.

Concordei com a cabeça e me afastei, seguindo até a escada coberta de areia que levava ao resort. Andei devagar, resfolegando, sentindo minha garganta implorar por qualquer coisa gelada. Atravessei o pátio principal e cheguei a área dos apartamentos, percorri por trás deles e finalmente cheguei ao meu destino. A luz estava apagada, mas me dei a liberdade de girar a maçaneta e entrar. A cena que lá vi não foi das mais agradáveis. Apesar da penumbra, eu podia reconhecer a silhueta de , sua cintura envolta pelos braços de James, que dizia algo em seu ouvido. Sem pensar duas vezes, bati minha mão no interruptor e clareei o cômodo.

- Toc toc... - Cantarolei, irônico. A longneck que tinha entre os dedos, escorregou assim que seus olhos cruzaram-se com os meus, estilhaçando no chão.
- Merda! - James sussurrou e soltou-se dela, que encolheu-se e virou o rosto para o lado oposto - Você não 'tá vendo que queremos ficar sozinhos?
- Vão para o quarto, oras. - Sorri de maneira aberta e fiz o caminho até a caixa térmica, peguei um vidro de whisky e o abri ali mesmo.
- Vamos fazer isso, ? - James convidou, cerrei meus dedos com mais força ao redor da garrafa, inconscientemente.
- Não, eu vou voltar pra festa. - Ouvi seus passos se afastarem e logo estava fora dali, James bufou e a seguiu.

Preparei meu drink e o bebi todo de uma vez, ainda agachado ao lado da caixa térmica, tentando colocar meu organismo em ordem. Isto é, fazer meu coração parar de doer como se estivesse sendo moído, normalizar minha respiração, recobrar a força nas pernas e a coragem para encará-los o resto da noite. Eu queria tanto ser indiferente.
Pensei em levar o litro, mas eu sabia que não duraria e seria mais trabalhoso voltar para buscar. Então coloquei a alça da caixa térmica em meu ombro e voltei pra festa, já com meu copo cheio novamente. Um DJ que eu não conhecia e nem sabia que estaria ali havia colocado uma música de batidas fortes e logo Rebecca se acercou para dançar. Ela ria e me tocava sugestivamente, apertando meus braços, minha barriga, coxa, pênis. Eu só ria, mantendo seu quadril perto do meu com um braço ao redor de sua cintura delicada e exposta pela ausência de roupas.
Pouco depois, ou devo dizer "algum álcool depois", estávamos todos "animados", bêbados, mesmo. era quem estava pior, eu sabia que isso aconteceria só pela maneira como ele puxou Mollie para o palco quando tocamos Please Please. Ele já não conseguia ficar parado, estava dançando por necessidade, pois não conseguia ficar parado sem se desequilibrar. Havia beijado três garotas depois de Mollie, ela não pareceu se importar, mas também não estava ali conosco. sumiu com e eu não via desde que voltei do apartamento de Antony, este último, estava com uma garota desconhecida, transando por osmose na beirada da praia.
Terminei de tomar meu whisky e, sobre o ombro de Rebecca, vi sentada, afastada da festa e das pessoas, estava sozinha, longe o suficiente pra que somente eu a reconhecesse, afinal, eu a reconheceria de qualquer maneira. Mesmo bêbado tal como eu estava.

- Becca, eu já volto. - Avisei, ela me olhou por um momento e depois consentiu, sorri fraco antes de deixá-la ali.

Peguei o litro de whisky, já quase vazio, e comecei a caminhar pela areia. Conforme eu me aproximava, eu notava que não se mantinha parada, seu corpo pendia de um lado para o outro, como se sua cabeça estivesse demasiadamente pesada. Estava bêbada.
Não sei por que diabos eu estava indo até lá, eu nem mesmo tinha algo pra dizer. Cambaleei para mais perto dela, mesmo assim, e soltei meu corpo na areia, ao seu lado. Ela permaneceu encolhida e, só um pouco depois, reconheci um litro de vodka entre seus braços.

- Trocou o James pela vodka... - Comentei, com a voz um pouco borrada - Boa escolha. - Ouvi-a rir e sorri, olhando-a de esguelha, vi-a erguer um copo grande e sorver um longo gole do que quer que tivesse lá dentro - O que está bebendo?
- Hum... - Seus olhos, morteiros, buscaram o copo - Acho que é vodka com... Energético.
- E não 'tá na hora de trocar por água? - Perguntei, com as sobrancelhas arqueadas, um pouco assustado pela situação na qual ela se encontrava.
- Sei lá. - Deu de ombros e riu com fraqueza, tentando jogar o copo para longe, mas a gravidade e o vento, junto com sua pouca força, fizeram com que o copo caísse entre suas pernas e o liquido molhasse seu short e coxa - Quer nadar?
- Não. - Respondi simplesmente.
- Eu não vou te agarrar, nem nada. - Resmungou, parecendo ofendida ao ter seu pedido negado.
- Sei que não, mal consegue se mover. - Ri, divertido pela careta que ela fez.
- Quer conversar?
- Não.
- Por que não?
- Porque quando eu quis falar, você estava magoada demais pra ouvir, agora eu estou magoado demais pra retornar a esse assunto...
- Mas eu quero ouvir agora. - Ela disse, de maneira enrolada, e virou seu rosto em minha direção - Me conta por que fez aquilo? Por que eu?

Eu não suportava mais repetir aquela história e tentar parecer a vítima. Eu não suportava ter que lembrar de tudo o que aconteceu e saber que eu podia ter feito tudo diferente. De qualquer maneira, vi, naquele momento, uma oportunidade de esclarecer tudo e, quem sabe, mudar algo entre nós. Não acreditei que pudéssemos ficar juntos novamente, não depois do último mês e principalmente depois daquela semana, mas eu não queria ter de passar ao seu lado e fingir que não a conhecia, ou travar uma batalha eterna, onde cada vez que nos olhássemos, sentíssemos raiva um do outro. Eu queria tê-la como uma lembrança boa e queria que pra ela significasse o mesmo. Pra isso, ela precisava saber a minha versão.

- Não te escolhi. - Comecei, umedecendo minha garganta com um pouco de whisky, ela virou seu rosto em minha direção, notei isso mesmo com os olhos fixos no mar, então suspirei - A aposta não envolvia você, diretamente... Caso Jessica não aceitasse ir comigo ao baile, eles escolheriam a pessoa que iria, e eles te escolheram... - Mordi meu lábio, me recordando de cada momento daqueles dias, até a maneira como eu me sentia, era como retroceder e viver tudo novamente, sorvi um longo gole do whisky e respirei fundo - Não era pra nada disso ter acontecido, não era pra eu ter me apaixonado, mas eu não pude controlar, desde nossas primeiras conversas, desde a nossa primeira tentativa de beijo, você vê... Eu não corri à toa, eu nunca tinha fugido de um beijo... - Ouvi-a fungar e baixei meus olhos em direção aos meus pés, tentando controlar a velocidade que meu coração ganhava - Eu terminei com você no mesmo dia que eu desisti da aposta, eu paguei o que devia e eu deixei claro que não queria mais fazer parte disto, mas eu não consegui ficar longe de você... - Clareei a garganta uma vez que minha voz falhou - A partir daquele dia, em que reatamos o relacionamento, já não era uma aposta, e não foi mais em momento algum... Se é que tenha sido no começo...
- ! - Ouvi piar seu nome e virei meu rosto em sua direção, a garota vinha apressada e descoordenada, trazendo James em seu encalço.
- Mas que droga! - Resmunguei, mal humorado.
- Eu tenho que ir, podemos conversar amanhã? - perguntou, em tom baixo pra que somente eu pudesse ouvir - Amanhã à noite, depois que chegarmos do resort, passa pela minha casa. - Assenti, vendo-a se levantar e cair mais pra trás.
- O que está fazendo aqui com ele? - James perguntou, ajudando-a a se levantar.
- Ela estava um pouco tonta e eu trouxe ela pra tomar um ar... - Menti por ela, que não parecia em condições de dizer coisa alguma, como se o álcool tivesse circulado todo de uma vez - Eu não vou roubá-la de você, James, você vai perdê-la por conta própria.
- Cala a boca, . - exclamou enquanto se afastava apoiada nos braços de James.

Ao vê-los, já longe, esfreguei meus rosto nervosamente, tentando controlar a imensa gana de me levantar e socar James até enterrá-lo na areia. Levar para o quarto e cuidar dela. Ela precisava de cuidados, será que eles sabiam disso? Será que sabiam que ela estava bêbada demais para continuar ali?
se jogou ao meu lado, caindo deitado, e por lá ficou, sem se mexer, com um sorriso nos lábios. Respirei fundo e me deitei também, vendo um relâmpago estourar no céu, como se rasgasse as nuvens carregadas.

- Que gay, nós dois aqui olhando as estrelas. - comentou, ri, sem muito humor e fechei meus olhos - Mas eu já beijei tanta mulher hoje que posso dizer, eu gosto delas. - Ri, dessa vez achando realmente engraçado o que ele havia dito.
- Eu não sei o que acontece comigo quando se trata dela... - Falei, sem saber se estava entendendo - Eu decido coisas, tomo decisões e crio regras, aí ela chega e desfaz tudo! - Exclamei, em tom revoltado - Eu queria me afastar dela, era pra isso acontecer de maneira natural depois de tudo o que passamos, de tudo o que fizemos um ao outro... Não era pra querermos ficar juntos, mas eu não consigo controlar!
- Acho que sei como se sente. - murmurou.
- Acho que só eu sei.
- Acho que você não é a fim da . - Parei, por um minuto, e comecei a rir.
- Que ironia! Um dos meus melhores amigos, apaixonado pela minha inimiga mor.
- É, ela é uma grande vaca, e isso não muda nada pra mim.
- Eu sei que você adoraria mamar nela. - Nós dois gargalhamos verdadeiramente por um tempo - Sabe, ... Ela ainda vai precisar de mim... A .
- E sabe o que é pior? - Ouvi ele perguntar e virei meu rosto em sua direção, vendo-o bocejar, já com os olhos fechados - Caso ela precise, você ainda não vai negar.
v- É... - Ri, voltando a tampar meus olhos com o antebraço - Somos muito losers, meu amigo.

Aos poucos comecei a me sentir mais pesado, com a mente ligeiramente mais leve. O vento levava de volta o calor que a bebida havia me trazido, a brisa e o som das ondas quebrando próximo à mim ajudavam com que a areia fofa me parecesse cada vez mais aconchegante, e quando menos esperava, me aferrei à um sono pesado.

- ALGUÉM ACORDA ELE! - Ouvi gritos histéricos e femininos, mas não vinham de - ACORDA, MERDA! - Senti meu corpo ser violentamente chacoalhado e me sentei, sentindo meu coração disparado pelo susto, olhei para o lado e vi sentado, tão confuso quanto eu, e molhado, olhei pra minha roupa encharcada, suspeitei que tivesse chovido - Por fim! - Olhei pra cima e vi uma transtornada, com os olhos saltados.
- O que 'tá acontecendo? - Perguntei, sentindo minha garganta arranhar ao que minha voz, rouca, saiu.
- Eu preciso da sua ajuda.


Capítulo 12.
"You'll be unaware, but if you need me, I'll be there"
(I've Got You - McFLY)

- O que aconteceu? - Quis saber, levantando desajeitadamente e tentando manter o equilíbrio, mesmo com a tremedeira se propagando por meu corpo.
- James sumiu com , eles sumiram e eles estavam muito bêbados, eu... Eu não sei onde eles estão e o que eu tenho que fazer... - Disparou a dizer, claramente angustiada, meus dentes se trincaram e senti a mão de em meu ombro - Ele parecia nervoso por ter visto vocês conversando...
- Onde você os viu pela última vez?! - Perguntei, sentindo meu coração se debater sufocado.
- Não sei... Não sei, acho que foi aquela hora que viemos aqui buscar ela, depois ele disse que ia levar ela pra dormir, mas ele estava nervoso e eu 'tô tão bêbada.
- Cuida dela. - Olhei pra e apontei para , vendo-a começar a chorar.

Eu precisava me organizar, mas não queria parar pra fazer isso. Continuei correndo, o mais rápido que meu preparo físico me permitia. Procurando por toda parte, perguntando às pessoas que passavam por mim, fossem conhecidas ou não. A praia era muito ampla, mas caso eles estivessem ali por perto, eu os veria, pois já estava pra amanhecer e não havia mais movimento. Subi rapidamente para o quiosque, sentindo minhas roupas coladas em meu corpo. Eu estava encharcado e isso não ajudava em nada. Meu corpo estava completamente dolorido e minha cabeça parecia pesar mais do que o comum, meu organismo estava afetado pelo álcool, e agora a preocupação se alastrava rapidamente.
O resort era grande demais pra que eu procurasse em todas as partes, mas eu não podia escolher entre um lugar e outro, eu não podia deixar passar, ela poderia estar no lugar menos provável. Eu precisava encontrá-la.
Passei pela academia, mas estava trancada. Pela cabana onde haviam as macas para massagem, vazia. A cada passo eu sentia minhas pernas fraquejarem mais, como se meus músculos estivessem cedendo ao cansaço, causando uma dor intensa em minhas panturrilhas e uma dormência estranha em meus calcanhares. Minha garganta também parecia ainda mais seca, minha saliva estava viscosa, mas isso era devido à ressaca.
Por um momento, após olhar por todos os restaurantes, parei e apoiei minhas mãos no joelho, completamente sem fôlego para continuar correndo, ou andando depressa. Recobrei parte da força em minhas pernas, mas ainda sentia-me trêmulo dos pés a cabeça. Apertei os olhos e traguei a náusea que embrulhou meu estômago. Então voltei a andar, tentando ser rápido quando meus limites me contrariavam.

- JAMES! - Gritei, empurrando a porta do apartamento em que ele estava hospedado, Charlie ergueu-se no sofá com os olhos saltados, Alexa fez o mesmo logo em seguida - Cadê o James? - Perguntei entre dentes.
- Não sei, cara, não o vejo desde as... Sei lá, talvez 2 da manhã. - Mas eu não acreditei, comecei a subir o lance de escadas enquanto Charlie tentava me convencer de que estava falando sério.
- JAMES! - Empurrei a primeira porta, vendo Matt dormindo de bruços na cama. Antony saltou do sofá, me olhando tão assustado quanto Charlie, que estava em meu encalço.
- ... - Charlie começou e eu o segurei pelo colarinho de sua camiseta, ameaçando-o com aquele gesto - Eu juro por Deus que ele não está aqui, se eu soubesse diria, mas eu realmente não sei! - Disparou, senti Antony nos afastar e me olhar confuso.
- O que está acontecendo?
- James sumiu com a e se ele encostar um dedo nela, eu juro que eu mato ele, Antony! - Vomitei as palavras que estavam girando em minha mente desde que me pediu ajuda.
- Calma, tenta pensar pra onde ele pode ter levado ela... - Antony dizia, coçando a própria nuca.
- Eu não faço idéia, eu ‘to rodando a porra do resort já deve ter meia hora, e até agora ninguém os viu, ninguém sabe deles...
- Hey, hey! - Antony apoiou suas mãos em meus ombros e me chacoalhou de leve, tentando fazer com que eu não surtasse - Espera, eu vou te ajudar.
- Se você quer me ajudar, procura em cada um desses apartamentos, em todos eles, em cada quarto... - Eu sentia minha voz vacilar.
- Certo, eu vou fazer isso, confie em mim, nós vamos encontrá-la...
- Eu vou com vocês. - Ouvi Charlie dizer e me surpreendi com sua atitude - Eu vou tentar ligar para o celular do James, qualquer coisa, eu ligo pra você, .
- Ok. - Foi o que consegui responder antes de disparar escadaria abaixo e sair do apartamento.

Saí em disparada e desci a escadaria que me devolveria à praia, eu precisava saber se e tinham alguma notícia, ou alguma idéia de para onde eles poderiam ter ido. Eu tentava correr, mas meu fôlego não permitia. Ao me aproximar deles, vi que estava passando mal, estava pálida e tinha vômito por toda parte ao redor deles.

- Alguma notícia? - Perguntei, quase sem voz, negou com a cabeça, seu rosto sustentava uma expressão de pesar - Eu não os encontro, , não os encontro em nenhuma parte! - Exclamei, esfregando meu rosto e desejando que nada daquilo estivesse acontecendo.
- Calma, dude, e também estão procurando, nós vamos encontrá-los...
- , você tem que ter alguma idéia de onde eles possam ter ido, qualquer lugar que James tenha citado, ou tenha o costume de ir, qualquer lugar daqui, você é a única que pode ter uma idéia! - Falei rapidamente, querendo chacoalhá-la até obter uma resposta, mas ela soluçou, e voltou a chorar, negando com a cabeça.
- Ela não sabe, cara. - murmurou, abraçando-a perto de si.
- Se alguma coisa acontecer com ela... - Ralhei, entredentes, sentindo o bolo de saliva sufocar minha respiração.
- Não vai acontecer nada, cara, tem uma cabeça legal. - disse, tentando me acalmar.
- Ela 'tava bêbada, , completamente bêbada... - Ele ergueu seu rosto e nós trocamos um olhar cúmplice - Você sabe o que fazíamos com garotas assim, você sabe disso, e sabe que todos fazem...

A lembrança de todas as vezes que chegávamos tarde da noite em pubs prontos para fechar, e encontrávamos lá sempre as garotas mais bêbadas, à beira da inconsciência, prontas para abrir as pernas pra quem quer que fosse. Levávamos elas pra qualquer lugar e tínhamos sexo. Era isso o que fazíamos, e embora fosse errado, elas tinham uma parcela de culpa, na verdade, chegamos à conclusão de que elas não se importavam, pois no fim de semana seguinte, quando voltávamos lá, todas elas estavam no mesmo lugar, tão bêbadas quanto antes. Elas não se respeitavam e era impossível respeitá-las, devido a isso.
Senti lágrimas cobrirem minha retina, turvando minha visão, ao imaginar no lugar de cada uma daquelas garotas. Me perguntei se estava pagando por tudo que fiz... Só essa poderia ser a explicação. Apertei meus olhos e senti meus cílios úmidos ao tornar a abri-los, neguei com a cabeça, sentindo-me subitamente mais desesperado, apressei meus passos, de volta para a escadaria, mas antes que eu pudesse começar a subir, trombei com e Charlie, que arfavam, me olhando com preocupação.

- Notícias? - Eles negaram, compadecidos de minha situação, senti meus olhos arderem, aquecidos pelas lágrimas que voltavam a se formar.
- O celular dele está desligado, mas não vamos parar de procurar até encontrá-la, . - Charlie disse, em tom amigável.
- Eles têm que estar em algum lugar, droga! - Gritei, dando um tapa no corrimão de madeira, tentando descontar ali a tensão que se apoderava rapidamente da minha sanidade.
- E aí? - Ouvi a voz ofegante de , que trazia consigo Antony e um Matt sonolento.
- Cadê a ? - O último quis saber, mas eu não respondi, que se foda a preocupação dele, não era quem estava bêbada com James.
- Onde vocês iam? - Disparei, olhando pra Charlie, depois pra Matt - Não tem um lugar que vocês costumassem ir, algum lugar afastado, qualquer lugar! - Matt e Charlie se entreolharam e depois me olharam, encolhendo os ombros - PORRA! TEM QUE TER UM LUGAR!
- , você tem que se acal...
- Pára de dizer isso! - Me livrei da mão de num só tapa e os empurrei, tirando-os da minha frente pra que eu pudesse subir ao resort - Eu vou encontrá-la, com ou sem a ajuda de vocês.

Segui pelo lado contrário ao que eu já tinha ido. O céu começava a ganhar um tom arroxeado, com rajadas cor-de-rosa, trazendo uma claridade que poderia me aliviar, se não trouxesse mais desespero. Temi que James já tivesse feito qualquer coisa à ela, temi não chegar a tempo.
Com o desespero espalhado por cada curva de minha mente, emanando por minha pele, embebida de suor, e meus olhos, prestes a transbordar a qualquer momento, continuei correndo, e buscando-a em qualquer lugar, desde os mais óbvios, aos mais improváveis, repetindo a mim mesmo uma oração breve, eu a queria segura, comigo, em meus braços. Eu precisava que ela estivesse segura.
Trêmulo, tudo o que ainda me mantinha andando era a força de vontade, pois o resto havia me abandonado. Ouvi meu celular tocar e o atendi o mais rápido que pude, esperando mais do que qualquer coisa por uma notícia.
- , só me escuta! - Ouvi a voz grave de Charlie e tentei controlar minha respiração, descompassada e sonora, para que pudesse ouvi-lo - Lá perto do estacionamento, onde os estão ônibus, pouco antes de chegar lá tem uma sauna desativada, tem algumas árvores, coqueiros, quase não dá pra ver... - A essa altura, eu já estava correndo o mais rápido que eu podia - Você vai chegar lá e vai ver um caminho entre as árvores, uma lacuna, lá vai estar a sauna, fica aberta... Esperamos que eles estejam lá... É onde íamos fumar...

Desliguei sem deixar que Charlie falasse mais nada, pouco me importava como ele havia se recordado disso, ou o que costumavam fazer lá. Guardei meu celular sem deixar de correr. Meu fôlego parecia estar todo de volta, ou era a pressa de encontrá-la, e encontrá-la bem. Ao encontrar com o cenário descrito por Charlie, diminui meus passos minimamente e subi os três degraus de madeira escura, empurrando a porta da sauna com força, ouvi um soluço assustado vir de James, minha visão embaralhou por um momento, bloqueando a imagem daquele imbecil, seminu, sentado no chão da sauna com desfalecida em um dos braços, seu maiô estava enrolado até sua cintura, mas a camiseta transparente cobria relativamente seu tronco. Trinquei meu maxilar, vendo James soltá-la imediatamente, levantou-se o mais rápido que pôde, me encarando com terror. Eu sentia meu corpo todo tremer, tão violentamente que eu tive receio de ter um ataque do coração. Funguei, querendo chorar, tamanha a repugnância e asco que eu sentia dentro de mim, fazendo meus poros se eriçarem e meu estômago revirar intranqüilo.

- Como você pode? - Perguntei, sentindo minha voz sair em um sussurro, James negou com a cabeça, sem dizer nada, porém se levantando - Como você foi capaz? - Dessa vez, meu tom de voz pareceu mais firme, ainda assim, borrado - COMO VOCÊ FOI CAPAZ?! - Gritei, James encolheu um pouco os ombros, parecendo assustado, mas eu pouco me importava, queria que ele se cagasse ali na minha frente, me aproximei um pouco, vendo-o hesitar mais alguns passos.
- , calma, cara, eu não fiz nada, não ia fazer... A gente só... - Dizia rapidamente, embolando-se em suas próprias palavras, com as sobrancelhas baixas e o corpo trêmulo.
- Ah, você não ia? - Encurralei-o contra a parede da sauna e prendi seu pescoço com uma das minhas mãos, ele tentou me empurrar e eu cerrei mais meus dedos, pressionando-os em sua jugular - NÃO IA, JAMES?! - Vociferei, sentindo-o tentar se defender, mas seus olhos giraram em desistência quando pressionei, ainda mais, meus dedos ao redor de seu pescoço.
- , n-não... - Ele sussurrou, sufocado, segurei seu maxilar entre meus dedos e choquei sua cabeça contra a parede, ouvindo-o gemer baixo.

Assim que se viu um pouco mais livre de mim, me empurrou, na intenção de revidar qualquer coisa, ou sair correndo, mas eu não permiti. Minha raiva não permitiu. Puxei James e o prendi contra meu corpo com um de meus braços ao redor de seu pescoço, mantive sua cabeça próximo ao meu peito. O primeiro murro o acertou em cheio, e serviu pra que ele ficasse quieto. E os próximos foram por mim, por tudo o que fez, pelo que disse, pelas lágrimas secas no rosto de e por todas que ainda rolariam quando ela retomasse a consciência.
Minha mão estava tão ensangüentada quanto sua boca e nariz, parte de seu rosto começava a inchar imediatamente, mas eu estava longe da satisfação quando o soltei no chão, ouvindo-o urrar quanto chutei seu estômago.

- NUNCA MAIS SE META COM A MINHA GAROTA! - Gritei, sentindo minha garganta arder por conta isso, e enterrei meu pé em sua barriga com mais força - EU NÃO VOU AVISAR DE NOVO, FIQUE-LONGE-DELA! - Continuei a vociferar, pausadamente, vendo-o se contorcer enquanto seu nariz jorrava sangue, sujando o chão de madeira - VOCÊ É UM DESGRAÇADO, JAMES, OLHA PRA ELA, SEU FILHO DE UMA PUTA! - Segurei seu cabelo, virando-o pra ele que pudesse encarar , mas antes que eu pudesse fazer qualquer outra coisa, senti-me ser imobilizado pelos braços de , afastando-me de James, que completamente fodido, soltou-se contra o chão, gemendo de dor. Eu me orgulho daquilo a cada dia da minha vida.
- Calma, , calma, cara! - dizia, mantendo-me firmemente preso entre seus braços, enquanto eu resfolegava, notei, pela primeira vez, que estava chorando.
- Você é louco?! - Matt exclamou ao abaixar-se ao lado do amigo, e minha vontade foi ir até lá e fazer o mesmo com ele, mas continuava me segurando como se eu fosse um tipo de animal. Não que meus instintos não fossem parecidos com os de um naquele momento.
- Tira esse merda daqui de uma vez! - Exclamei, me soltando de - Me solta, porra!
- Cara, chega... - dizia, cuidadosamente, enquanto se prontificava pra qualquer coisa, parado entre eu e James, que era tirado dali por Matt e Charlie.

Vi chorando, com o rosto enterrado no peito de . e ainda estavam ao meu redor, garantindo que eu não ia fugir. Então meus olhos voltaram para , que agora estava segura nos braços de , com uma camisa jogada sobre seu tronco e o rosto pálido. Passei por e me ajoelhei em frente à ela, segurando suas mãos gélidas entre as minhas, medi seus pulsos num gesto automático, e depois sentei ao seu lado, começando a puxá-la pra mim enquanto sentia meu coração bater com uma lentidão dolorosa.

- Cara, deixa a cuidar dela, você não tem condiç...
- Não, ela vai ficar comigo agora. - Ralhei na direção de , sentindo meu nariz escorrer, enxuguei, junto com as lágrimas e voltei a olhar pra ela, que agora tinha a cabeça pesadamente tombada em meu braço. Encostei meus lábios em sua bochecha, apertando meus olhos e embalando-a em meus braços - Me desculpa... Me desculpa, eu nunca mais vou deixar isso acontecer, nunca mais - Sussurrei contra sua pele, e solucei baixo.
- Cara, 'tá frio, vamos levá-la, o que acha? - sugeriu e eu concordei. Com algum custo, me levantei com ela suspensa em meus braços.
- ... - Chamei, negou com a cabeça, mas eu não podia deixar passar em branco - , olha aqui! - Ela virou-se, sem coragem, examinou o corpo de sua prima e depois meu rosto - Você se sente culpada? - Perguntei, rancoroso, e a vi assentir, abafando o choro na palma das mãos - Que bom.

Saí de lá com e vi seus cabelos se agitarem com o vento da manhã. Andei, sem muita força, até meu apartamento, que ficava a alguns metros dali. Entrei no quarto e deixei que encostasse a porta. Depositei seu corpo sobre a cama e me sentei na beirada dela, segurando a mão de na minha, enquanto com a outra, eu arrumava a camisa sobre seu corpo. O cansaço me arrebatou e a vontade de chorar permanecia intacta.

- Cara, ela vai ficar bem. - me disse em tom calmo, apertando meu ombro.
- Eu queria tanto que ela só não se lembrasse de nada disso amanhã. - Fechei meus olhos, respirando fundo.
- Talvez ela não se lembre. - Ele disse.
- Ela vai ver o James daquele jeito, alguém vai contar. - Murmurei, sem esperanças.
- Por falar no James, cara, meus parabéns, ele não conseguia nem abrir os olhos, gostei de ver. - Ri, pela primeira vez, com vontade.
- Ele 'tava do jeito que eu sempre quis deixar. - Disse, e soltei um suspiro ao voltar meus olhos para , desacordada - Eu vou dar um banho nela - Disse a mim mesmo, depois olhei pra - Você pode... Me trazer uma garrafa d'água e... Alguma coisa doce pra que ela possa comer? - Ele concordou com a cabeça e eu sorri fraco.
- Fica tranquilo, eu vou fazer isso.

saiu do quarto, afastei a franja de , antes colada em sua testa, e acariciei a maçã de seu rosto com meu polegar. Respirei fundo e me levantei, finalmente tomando coragem de descobrir seu tronco e, novamente, tomá-la nos braços para levá-la até o banheiro. Ajoelhei-me no chão e apoiei ela em uma de minhas pernas, com a mão livre, regulei a temperatura e abri a torneira. Vi seu corpo começar a ser molhado e me encostei à parede, sentindo minhas pernas cederem e logo eu estava sentado no chão do banheiro, com encaixada em meus braços. Acariciei seu rosto, agora deitado em meu peito, e encostei minha bochecha em sua testa, apenas desejando que tudo ficasse bem.

- Gelada. - Ouvi-a sussurrar e ergui meu rosto, notei que eu estive cochilando e rapidamente examinei seu rosto, ela não estava desperta, e seus lábios, arroxeados, tremiam.
- , acorda. - Murmurei, colocando seu cabelo encharcado pra trás da orelha, ela rapidamente encolheu-se em meu colo, como se quisesse fugir da água.
- ? - Quis saber, estiquei meu braço e fechei a torneira, sentindo-a abraçar-se à mim.
- , você está se sentindo bem? Olha pra mim. - Acariciei seu rosto, tentando fazê-la me responder.
- Hum, . - Murmurou, aninhando-se em meu peito, como um bebê.
- Oi, . - Sorri fracamente, beijando sua testa.
- Uhum. - Ri baixo e, com dificuldade, levantei com ela em meus braços.

permaneceu em silêncio enquanto eu a enxugava e vestia uma boxer e uma camiseta minha em seu corpo trêmulo. Ela apenas olhava pra si própria, encostada à cabeceira, sem conseguir manter os olhos abertos por muito tempo. Pacientemente, penteei seus cabelos e sequei um pouco, usando o secador, pra que ela não ficasse mais doente do que já deveria estar. E depois fiz com que ela tomasse pelo menos metade da garrafa de água que havia deixado sobre o criado mudo. Já o bolo de chocolate, ela não quis nem olhar.
Quando tentei fazê-la se deitar na cama, ela enrijeceu, e me olhou com um misto de pavor e dúvida. Mas aos poucos cedeu e deixou o corpo descansar sobre o colchão. Cobri-a, primeiro com um lençol, e depois com o edredom. Sentei na beirada da cama e fiquei ali, apenas esperando até que ela adormecesse.

- , ela 'tá bem? Como ela 'tá? - perguntou, exasperada, quando desci na sala, já de banho tomado e vestido com uma boxer e uma camiseta surrada.
- 'Tá. - Respondi, sem a menor vontade de olhar pra sua cara, peguei uma garrafa de água e a abri, sorvendo quase ela toda de uma só vez.
- Mesmo? Posso vê-la? - Ela estava mesmo me pedindo pra ver ?
- Não, ela está dormindo, é melhor deixá-la descansar... - Terminei de tomar o conteúdo da garrafa e a deixei no aparador - , você se importa de ficar com o sofá hoje, cara?
- Não, claro que não, dude. - Ele abanou a mão, como se não desse a mínima pra isso.
- Eu vou subir, ela pode precisar de alguma coisa. - Peguei outra garrafa de água e me encaminhei para a escada - Boa noite.
- Boa noite.
- Ah, , me faz um favor? - Ela me olhou e concordou, imediatamente - Não comente nada sobre noite passada com ela, mesmo que ela perguntar, diz apenas que ela passou mal e eu cuidei, não diga nada além disso, e não deixe que ninguém diga... Enquanto pudermos esconder o que James fez... Melhor pra ela.

dormia tranquilamente, segurando o edredom firmemente contra o próprio corpo. Após ingerir toda a água da garrafa, deixei-a sobre o criado mudo e me deitei, cobrindo-me até a cintura. Apoiei meu braço embaixo da cabeça e virei o rosto na direção de . Velei por seu sono durante 10 ou 15 minutos, e então meus olhos se fecharam com a sua imagem projetada nitidamente em minha mente. Eu só queria que aquela noite terminasse, e que tudo ficasse bem dali pra frente...


Capítulo 13.
"I don't want you to say a single word"
(Hush Hush Hush - The Pussycat Dolls)

['s POV]

Minha inconsciência se tornava cada vez mais longínqua, consequentemente emergindo meu estado consciente. Meus olhos queimavam antes mesmo de entrar em contato com a claridade matinal. Eu quis me mover, mas meus membros pareciam bem mais pesados do que eu era capaz de suportar. Consegui, com muito esforço, erguer minhas pálpebas. A luz invadiu meus olhos sem hesitar, contraindo minhas pupilas e criando bolsas d'água em minha pálpebra inferior. Encarei o teto branquíssimo até minha visão entrar em foco, então tentei erguer minha cabeça, sem muito sucesso. Apoiei os cotovelos na cama e arqueei parte do meu corpo, contrariando minha vontade de apenas me encolher e retomar o sono. Um frio percorreu minha espinha quando olhei para o lado e reconheci , deitado de bruços com as costas expostas. Estremeci imediatamente. O que ele estava fazendo ali? Ou como eu vim parar em seu quarto? Meus poros se eriçaram violentamente, outro espasmo estourou em minha espinha e eu apertei os olhos. Minha saliva estava mais amarga do que o comum, notei a caminho do banheiro, quando eu já não conseguia mais tragá-la. Respirei fundo algumas vezes, tentando engolir o nó que havia se centralizado em minha garganta, mas nada funcionou. Um arroto trouxe tudo de volta, toda a bebida que eu havia ingerido na noite passada. Meu estômago parecia dar voltas inteiras, rápida e freqüentemente. Apoiei uma das minhas mãos na parede e entreabri meus lábios, foi o suficiente. O odor do álcool pairava pelo ar a cada fluxo que retornava pelo meu estômago, arranhando minha garganta. Meus dedos pressionados contra a parede para tentar me manter em pé, o que se tornou inútil com o passar do tempo.
Sentada no chão, com a testa encostada na borda do vaso, eu tentava me recordar alguma coisa coerente da noite anterior. Quantos copos de destilado eu havia ingerido para estar daquele jeito seria um bom começo. A única certeza que eu tinha, por hora, era que eu deveria me levantar e sair dali o mais rápido que eu conseguisse. Eu não fazia idéia do que havia se passado, e ao mesmo tempo eu não estava certa de que realmente queria saber.
Meu cérebro enviava comandos para minhas pernas, pra que elas se firmassem, mas elas pareciam ignorá-los, cansadas e trêmulas demais pra qualquer movimento. Ajoelhei-me e dei descarga mais uma vez, depois me levantei, apoiada na pia. Peguei o enxaguante bucal e lavei minha boca com ele algumas vezes, a náusea aliviou 10% com isso. Lavei meu rosto, sentindo a tontura diminuir minimamente. Eu parecia derrotada... Eu estava derrotada.
Respirei fundo e examinei meu rosto, sentindo as gotas percorrerem minha pele. Olheiras enormes, olhos morteiros e avermelhados, maquiagem borrada... Completamente diferente do que eu costumava acordar. Juntei meu cabelo, embaraçado, e enrolei-o num coque mal feito. Então veio o grande choque do dia, vários choques, na verdade, posicionados em meu pescoço. Dei um passo pra trás e fechei os olhos, como se isso fosse mudar qualquer coisa. A ânsia, até então estável, retornou com intensidade e a não consegui chegar a tempo no vaso, devolvendo mais líquido dentro da pia, agarrada à borda de mármore da bancada. Não havia mais nada a vomitar, entretanto, a náusea parecia cada vez mais presente.
Enxagüei meu rosto mais uma vez e o enxuguei rapidamente. Eu não queria ter que olhar para o espelho novamente, eu não queria ver aquelas marcas outra vez, as marcas da noite anterior. Mas lá estava eu, encarando meu reflexo, meu pescoço sugado. Estremeci, dedilhando os hematomas arroxeados e, de repente, as lágrimas umedeceram meus olhos.

Flashback

- Trocou James pela vodka... Boa escolha.

- Sei que não, mal consegue se mover.

- Quer conversar?
- Não.


- , me deixa ir embora?
- Por quê? Não está gostando?


Flashback off

Estava tudo imensamente confuso, as imagens da noite passada e retrasada se embaralhavam e tudo me levava a uma única conclusão. O pranto veio em uma rapidez alucinante, as lágrimas escorriam silenciosamente por meu rosto, uma atrás da outra, apressadamente, enquanto eu corria por toda parte, procurando por minhas peças de roupa. Eu mal podia controlar minha mente, que a todo momento me fazia recordar que não era a pessoa que eu pensava, ele nunca havia sido e eu deveria saber. Ele sabia que eu estaria lá caso ele me quisesse, sóbria... Mas inconsciente? Eu sequer conseguia organizar minha mente entre a noite anterior, e a outra, quando ele tentou me forçar a ir pra cama com ele. A diferença é que desta vez ele parecia ter conseguido. Todas aquelas marcas me faziam acreditar que ele não havia sido nada dócil. Eu estava inconsciente, aquilo havia sido um desrespeito sem tamanho. E, por hora, eu queria apenas ficar bem longe dele.

- ! - sobressaltou na poltrona da sala - Como voc...
- Agora não, ! - Estendi a mão, como se isso pudesse impedi-la de falar, depois subi as escadas o mais rápido que pude.

Fechei a porta do quarto e girei a chave uma vez, entretanto, o alívio só percorreu meu corpo quando me fechei no banheiro. Deixei meus joelhos me levarem ao chão e encolhi meu corpo próximo à pia, entre ela e a parede. Minha cabeça girava e doía. Era uma sensação estranha de leveza e extremo peso ao mesmo tempo. Eu queria chorar, mas lágrimas haviam cessado desde que olhei, pela última vez, a imagem de deitado na cama, deleitando-se em sono profundo, como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse transado com uma pessoa completamente bêbada, como se ele não tivesse feito isso comigo, a quem ele dizia amar. Que valor, afinal, eu tinha pra ele? O mesmo que todas as outras... Nenhum. O mesmo valor que ele tinha pra si mesmo, e pra qualquer pessoa, nada. Ele era um lixo, isso! Um merda a quem eu jamais deveria ter dado a oportunidade de me conhecer, me beijar, me tocar, pois naquele momento, tudo isso me causava ânsia, nada mais.
Não faço a menor idéia de quanto tempo passei sentada ali, apenas girando em torno do mesmo ponto, a transa que eu era incapaz de me recordar. A nossa última transa, pois ele não voltaria a encostar em mim, eu não permitiria isso, não mais.
Tomei um banho lento, ouvindo se esgoelar do lado de fora do quarto. Eu pouco me importava com isso, com ela. Eu não precisava de outro problema, eu tinha o meu. Quando terminei e saí do banheiro, eu ainda tremia e meu estômago ainda estava fraco, mas eu já não sentia vontade de chorar, ou vomitar. tentou falar comigo, perguntar se eu estava me sentindo bem, mas eu apenas agitei a cabeça positivamente, começando a procurar uma roupa em minha mala. Uma roupa minha.

- Você precisa comer alguma coisa. - disse quando, tonta, me sentei na beirada da cama e esfreguei o rosto, apenas com a calça vestida em meu corpo.
- Eu sei. - Respondi, um pouco irritada com tudo - Mas eu não quero ver ninguém.
- Hm... Por quê? - Ela parecia cuidadosa ao perguntar.
- Porque estou com nojo. - Disparei, entre dentes.
- Está falando do James? - Ela tornou a me questionar e eu respirei fundo, sentindo minha cabeça pulsar. James, James, James, o que James tinha a ver com isso? Ela só sabia pensar nele e em Matt.
- Tanto faz, dele também, de todo mundo.

pareceu confusa com a minha resposta, depois concordou e se sentou ao meu lado, começando a fuçar em minha mala, como se buscasse por algo. Tirou de lá uma camiseta, a mais larga e menos vulgar que tinha, e estendeu em minha direção. Aquela foi sua atitude mais estranha nos últimos anos, afinal, aquele dia tudo estava estranho. Me perguntei se a qualquer momento eu ia acordar e ver que era só um pesadelo... Sem chance.
Borrifei o anti-transpirante nas axilas e vesti a camiseta, sentindo-me menos vulnerável ao fazê-lo, sabe-se lá por quê. Ouvi a porta ser aberta e a voz de preencher o quarto, suspirei e notei seus olhos compadecidos sobre mim, como se soubesse exatamente o que eu estivesse sentindo. Ela se acercou e sentou-se ao meu lado.

- Como está? - Ela quis saber, dei de ombros.
- , vamos comigo comprar coisas pra comer, ela não quer sair do quarto. - sugeriu, me encarou e eu forcei o que eu queria que fosse um sorriso.
- Vamos, temos que ser rápidas, daqui a pouco os ônibus vão sair. - disse e eu desviei a atenção delas para os botões da camiseta, fechando-os um a um - , se quiser pegar meu all star de novo, pode usar... Ou vans, eu vou de sapatilhas, pode pegar lá. - Agradeci com um sorriso um pouco maior, ainda sem mostrar meus dentes.

Levantei e saí do quarto junto com elas, entrando na porta ao lado e andando lentamente até a mala de , grata por ela ter trazido os tênis dela, já que os meus me proibiu de usar. Peguei o vans que ela havia me oferecido e retornei para o meu quarto, calçando-os. Tirei a toalha de meus cabelos e os penteei. Ao ligar o secador, uma nostalgia estranha me acometeu, o barulho do secador, o ar quente, era como se uma recordação da noite passada tentasse entrar em meu consciente, mas algo impedia... O álcool, é claro. Desliguei, desistindo de secar meu cabelo, e peguei o kit de maquiagem da , eu precisaria de uma boa camada de base em meu pescoço.
Uma nova dose de angústia pareceu brotar em mim, escorrendo por minhas veias. Eu sentia meu corpo todo tremer com a simples noção do que poderia ter acontecido noite passada. Quando dei por mim, estava chorando novamente. Era como se eu fosse explodir. Eu não tinha pra onde correr, já tinha sido feito, e a culpa era minha, por ter bebido além do que deveria... Por ter bebido. não tinha feito aquilo exatamente à força, eu provavelmente tinha deixado que ele fizesse como quisesse, pois eu não estava sóbria para negar, evitar. A culpa era minha, e isso me trouxe uma sensação de sujeira como eu nunca havia sentido.

- ! - Ouvi exclamar quando me viu ajoelhada na frente do vaso.
- Não tem mais nada aqui... - Murmurei, sem deixar de chorar - Nada.
- Então por que está aí? Já vomitou tudo... - Ela disse, ajoelhado-se ao meu lado e me olhando com preocupação.
- Porque eu 'tô com nojo. - Murmurei, com a voz falha, suspirou e me abraçou fortemente, deitei minha cabeça em seu ombro e deixei meus joelhos escorregarem, sentando-me no piso gelado do banheiro - Eu estou me sentindo tão suja...
- Calma, ... - Ela pedia, afagando meu cabelo enquanto me acalentava em seus braços - Ninguém vai deixar que nada te aconteça, ok? Eu te prometo.
- Já aconteceu, , já aconteceu! - Exclamei, irritada com tudo - Eu não devia ter bebido daquele jeito.
- , todo mundo já tomou um porre na vida, ok? Relaxa. - disse, parada na porta do banheiro, olhei pra ela e funguei - Sério. Agora levanta daí, sua sem dignidade! - Ela e riram, tentando fazer com que eu risse também, esbocei um sorriso fraco e enxuguei meu rosto.
- É, , levanta, lava o rosto e vem comer.
- Eu preciso de ajuda com isso... - Afastei meu cabelo e deixei que elas vissem os hematomas, as duas paralisaram.
- Ah... - soltou e elas se entreolharam como se soubessem sobre aquilo.
- O quê?! - Exclamei, confusa.
- Nada, acho que vamos ter que trabalhar muito nisso. - disse e se levantou, estendendo sua mão pra mim.

As meninas me ajudaram com as marcas em meu pescoço e eu comi um pouco do que elas me trouxeram, embora eu não sentisse nem sinal de fome. Com a ajuda de terminei de arrumar minha mala, mas eu ainda não tinha a menor vontade de ir para o ônibus. Eu não sabia qual seria minha reação ao ver novamente, e se talvez ele viesse falar comigo. Eu não saberia o que fazer, ou se faria alguma coisa. Só de pensar, eu petrificava.

- Vamos, . - chamou, olhei pra e , já sentada na beirada do sofá, apenas esperando que eu me levantasse da escada.

Respirei fundo e, sem responder, me ergui. Minhas mãos transpiravam um suor frio, eu estava nervosa, ansiosa, e com medo. Ajeitei minha mochila no ombro e depois segurei a alça plástica da minha mala, começando a puxá-la em direção a porta. me ofereceu seu braço, e eu o segurei. Por sorte.
Conforme andávamos, eu olhava para os lados, eu não queria vê-lo, mas estava procurando-o, não sei bem o porquê, ou pra quê. Não encontramos ninguém no caminho até o estacionamento, mas ao passarmos por determinado lugar, eu parecia reconhecê-lo. Foi como uma espécie de déjà vu. Eu vi a entrada daquela pequena cabana de madeira e parecia saber o que havia dentro dela, era uma sauna. Um arrepio percorreu minha espinha e fez com que eu estremecesse, me olhou de esguelha e eu suspirei, negando com a cabeça.
O estacionamento estava lotado, o ônibus ainda não havia sido aberto, as malas estavam sendo colocadas no compartimento inferior. As pessoas me olhavam com confusão, alívio, ou pena. Como se eu tivesse sido seqüestrada ou estuprada, mas tivesse sobrevivido à isso.
Matt e Charlie estavam encostados em um carro qualquer do estacionamento, me perguntei onde estaria James. Meus olhos me atraíram para o outro lado, vi se acercar com seus amigos. Novamente foi como se alguém tivesse dado um soco em meu estômago. Respirei fundo algumas vezes, sem olhá-lo, mas automaticamente meus olhos o buscaram, procurando qualquer indício de vergonha em seu rosto. Nada... estava perfeitamente bem. E bonito, dentro de um jeans claro e uma camiseta preta simples, com as mangas enroladas até o ombro.
Ele me fitou, pareceu intimidado e ao mesmo tempo, aliviado. Ou algo do tipo. Deixou sua mala com o professor, que a guardou imediatamente. Vi seus passos se acercarem e imediatamente recuei, me soltando de e saindo de perto, com meu coração disparado e minhas pernas fracas.

- Ela 'tá bem? - Ouvi-o perguntar à enquanto me seguia.
- Está sim, só está perturbada com tudo...

Respirei fundo e parei de andar, fechando meus olhos, senti apoiar seu queixo em meu ombro, abraçando-me desajeitadamente por um tempo. Eu queria minha casa, eu precisava ficar longe de toda aquela maluquice. Desejei, naquele dia, nunca ter tido a oportunidade de ser incluída no meio daquela gente. Eu nem mesmo estaria ali e não estaria levando pra casa aquela carga imensa de angústia, quem me dera.

- ... - me chamou, 15 minutos depois de entrarmos no ônibus e eu fazê-la se sentar comigo em um dos primeiros acentos - Você quer conversar sobre isso tudo?
- Não, .
- Você sabe que eu não tenho sido a melhor pessoa do mundo, mas que se você precisar de qualquer coisa, você pode contar comigo... Não sabe? - Concordei com a cabeça e olhei para seu rosto, eu sabia que ela estava sendo sincera, como poucas vezes havia sido.
- Sei disso... - Sorri forçado e respirei fundo - Mas tem coisas que... Quando a gente fala, a gente torna mais real, mais viva... E é o tipo de coisa que a gente quer esquecer... Pra sempre.

Capítulo 14.
"The day has come and now you'll have to accept"
(Little By Little - Oasis)

- Me ajuda! Por favor, me ajuda!

Sua voz preenchia minha mente e meu cérebro parecia pulsar. Meus pés tropeçavam um no outro, consequência da pressa com a qual eu caminhava. Não havia estruturas, apenas um pátio imenso, a rua constituída de paralelepípedos, e pessoas, rostos desconhecidos e ofuscados por uma névoa acinzentada. A lua estava vermelha, como se fosse um sol em chamas, mas era noite, eu sabia que sim, embora o céu não estivesse tão escuro. Eu corria, corria, e não saía do lugar, como se um cabo de aço me puxasse pra trás a cada passo que eu tentava dar.

- Rápido, ... Mais rápido... Isso!

Sua voz já não parecia pavor, pelo contrário. Parecia transbordar tesão. Continuei correndo, mas sem me mover, como se eu estivesse sobre uma esteira. As pessoas foram sumindo, dissipando-se frente aos meus olhos como poeira, e só restou um casal transando. Os cabelos da moça estavam cacheados, cheios, e úmidos de um suor que prendia mechas por sua pele pálida e lisa como ceda. Vi seu rosto em minha direção e a reconheci, , aquele sorriso excitado de lábios inflados, vermelhos como suas bochechas. Seus olhos estavam cheios d'água, mas ela estava gostando, eu sabia que sim. O rapaz investia com força, fazendo a cama dobrável ranger. James, o rapaz era James, ele me abriu um sorriso cheio de sangue e rapidamente seu rosto todo estava desfigurado, mas ele continuava empurrando seu quadril contra o dela. O sangue pingava de seus lábios e escorria pelo corpo de , contornando seus seios e escorregando por sua barriga até sua virilha. Eu havia parado de correr e repentinamente estava imobilizado por uma camisa de força. Gritei, gritei a plenos pulmões, encobrindo seus gemidos e gargalhadas, gritei até minha voz ficar rouca e depois sumir. Então abri meus olhos, úmidos e ardentes... Fixei-os no rosto do rapaz, que agora não parecia-se tanto com James, os hematomas e feridas ainda estavam lá, mas o rosto era o meu...


Abri meus olhos e rapidamente olhei ao meu redor, certificando-me de que o cenário que ainda estava nítido em minha memória não passava de um pesadelo. me olhou com estranheza, neguei com a cabeça e voltei a me encostar no acento do ônibus, esfregando meu rosto. Minhas mãos estavam geladas, e minha respiração custava a se normalizar.

- O que você sonhou? - Neguei com a cabeça novamente, com os olhos fechados.
- Nada de mais.
- Como nada de mais? Você 'tava se remexendo aí, acordou com essa cara pálida, conta aí. - insistiu.
- Eu não me lembro direito, se eu me lembrar, te conto. - Falei, sem abrir meus olhos.
- Hm, tá.

não parecia convencido disto, mas também não voltou a questionar. Respirei fundo mais uma vez e abri meus olhos, acompanhando a estrada ficar pra trás como um borrão através da janela. Encostei minha cabeça no vidro, observando as gotas escorrerem lentamente por ele. Estávamos chegando, me certifiquei quando uma placa de Bolton passou por meus olhos, enquanto pela minha cabeça a única coisa que passava era o bem estar de . Eu queria saber como ela estava, ou se recordava de algo, até onde se lembrava da noite anterior. Eu estava certo de que o final era desconhecido por ela, pela maneira como me ignorou, muito provavelmente não estava grata pelo que fiz. Eu também não estaria, eu sequer cheguei a tempo. Eu gostaria de poder falar com ela, mas também respeitava seu silêncio. As coisas aconteceriam ao seu tempo agora. Eu deveria ser paciente, e só.
A viagem havia chego ao fim, e minha realidade parecia a mesma de quando saí dali. Eu ainda não estava com , ela provavelmente não queria me ver ou falar comigo e minha casa devia estar indo abaixo junto com o relacionamento dos meus pais. Tudo ficaria bem se eu pudesse simplesmente tomar um banho e dormir na minha cama por uma noite, depois de todas aquelas noites.

- Cara, a gente se vê amanhã. - disse, estendendo sua mão pra um high Five.
- Ok, até amanhã.
- Você não quer carona mesmo? - quis saber, sua mãe o esperava dentro do carro.
- Não, valeu, eu vou andando.

Foi o que fiz. Me despedi dos caras e fui andando, lentamente. Não era muito perto, mas eu senti que precisava ter um momento meu depois daquela semana, e antes de voltar pra casa. Eu estava ciente de que provavelmente as coisas ainda estariam as mesmas. Não é como se eu tivesse criado a ilusão de que tudo estaria bem quando eu chegasse, meus pais teriam se acertado e estaria sorridente outra vez. Pelo contrário, eu sabia que as coisas podiam estar até pior. Mas em nenhum momento imaginei que estariam como realmente estavam.
O silêncio preenchia o hall de entrada e, diferente do que eu estava acostumado, ao chegar na sala de tv, não estava assistindo filme algum. Andei devagar até meu quarto e ao entrar, me deparei com minha cama desarrumada. Deixei minha mochila no canto e fui para o banheiro me aliviar, antes de tentar encontrar uma resposta para aquilo.
Ao sair, procurei por . Me deparei com seus cabelos mais tingidos que o comum assim que adentrei seu quarto. Ela virou-se pra mim, desviando seus olhos da tela do computador, depois voltou a olhá-lo. Sua expressão me assombrou, e naquele momento eu soube que algo ruim havia acontecido. Sentei na beirada de sua cama, próximo à escrivaninha de seu computador, mas ela continuou olhando para a tela, mesmo que não estivesse respondendo ninguém no chat, ou com qualquer navegador aberto.

- Ele foi embora. - Sua voz se sobressaiu à de Janis Joplin, que soava pelas caixinhas de som, continuei encarando seu perfil, tentando entender o que havia sido dito por ela.
- Quem foi embora? - Eu já sabia a resposta, mas eu queria que ela me dissesse com todas as letras.
- Seu pai.

Eu não tinha palavras, ou qualquer reação. permaneceu como estava, também o fiz. De repente, era como se um filme passasse em minha cabeça, com todos os momentos entre meu pai e eu, como fotografias tiradas por uma lente mental. Sempre nos demos tão bem, e nossa família sempre foi tão exemplar. Perguntei-me onde havíamos nos perdido. Ou se em algum momento eu e estávamos inclusos no motivo dessa tragédia. Quis que não, por nós. Mas quis que sim, pois desejei que mamãe não se sentisse culpada por isto.

- Como ela está? - Murmurei, como se estivesse ouvindo meus pensamentos e soubesse a quem eu me referia.
- Não saí do quarto desde que ele se foi... Faz 2 dias. - Respondeu, sem alterar sua entonação.

Novamente as palavras fugiram. estava tão chateada que fazia meu coração doer ainda mais. Levantei e, mesmo sem coragem, fui em direção ao quarto de mamãe. Ao tocar na maçaneta, fui atingido por dezenas de lembranças de quando pequenos, eu e vínhamos depressa pra cá em noites de tempestade. Era hora de vir oferecer conforto, não pedi-lo. Por isso tomei todo o fôlego que pude, junto de toda a coragem que ainda me restava, e entrei. Vi minha mãe em posição fetal, de costas para o lugar onde eu estava. Encostei a porta atrás de mim e caminhei devagar pelo quarto, tentando não forçar meus pés no assoalho e, com isso, despertá-la. Sentei próximo ao seu corpo, vendo seu rosto pálido, com olheiras profundas. Aquela foi a primeira vez, de muitas, que eu tive vontade de bater em meu pai.

- Allan? - Mamãe sussurrou, sem abrir muito os olhos, senti minha respiração falhar e minha angústia propagar rapidamente.
- É o , mãe. - Murmurei, sem coragem.
- Oi, filho. - Ela dizia, me examinando com fraqueza - Ele nos deixou, filho, ele foi embora e nem deixou uma explicação... - Ela sussurrava, com os lábios trêmulos e os olhos encharcados - O que vamos fazer agora?
- Vamos seguir em frente. - Respondi com prontidão - Nós temos um ao outro, mamãe, e vamos superar isso juntos. - Eu tentava convencer à ela e a mim mesmo de que daríamos um jeito, eu queria acreditar nisso - Agora descansa, mamãe.
- Fique aqui um pouquinho comigo. - Ela pediu, e a vontade de sair correndo passou no mesmo instante.
- Não vou sair daqui até que você saia comigo.

Ela sorriu sem força enquanto eu me deitava ao seu lado. Mamãe rapidamente se acolheu em meus braços e só quando me certifiquei de que ela estava mesmo adormecida, me permiti derramar uma lágrima ou outra. Eu estava cansado de tudo aquilo, inclusive, cansado da fraqueza que eu vinha sentindo. Eu podia estar revoltado, era o que eu faria há dias atrás, mas eu estava chorando, e essa não era a saída. Não que me revoltar fosse resolver tudo. Eu precisava apenas encontrar um meio termo entre os dois aspectos. Eu precisava ser forte.
Acabei adormecendo e despertei somente algumas horas depois, quando a noite começava a cair. O quarto estava escuro e mamãe ainda estava encolhida sobre meu peito. Deixei-a cuidadosamente sobre a cama e me levantei. Liguei a TV e escolhi um filme de comédia que começaria em pouco tempo, deixei o volume baixo e saí do quarto. Passei por , também adormecida, e aproveitei aquele momento pra descer e começar a agir.
Louça, lavei tudo o que estava acumulado sobre a pia. Não parecia uma atitude grandiosa, mas era. Aproveitando minha estadia na cozinha, vasculhei os armários e a geladeira em busca de algo para o jantar. Nunca fui muito bom com a cozinha... Na verdade, não tinha tentado muitas vezes. Mas na falta de algo congelado e sem a certeza de que nosso dinheiro poderia ser gasto desnecessariamente, deixei a água ferver para o espaguete, enquanto isso recolhi todos os porta-retratos em família, todas as fotos e coisas que lembrassem meu pai. Joguei tudo dentro de um saco e o deixei na garagem, assim que eu tomasse coragem, levaria ao lixo.
Eu estava certo que dali pra frente as coisas seriam difíceis, mas eu não tinha escolha. Não havia opção. Eu precisava assumir a responsabilidade que me era atribuída. e mamãe precisavam de mim.
Deixei a mesa preparada e subi novamente, , agora, estava no banho, e mamãe estava acordada, olhando para a tv sem parecer entusiasmada com o filme. Acendi a luz, até então apagada, e ela pareceu não gostar muito disso, ignorei seu olhar irritado e andei até seu guarda-roupa. Retirei de lá uma roupa qualquer, junto a uma toalha, depois levei para o banheiro e retornei ao quarto.

- Vai tomar banho, antes que o jantar esfrie.
- Obrigada, filho, mas não tenho fome agora.
- Por favor, mamãe, só um pouco. - Pedi, ela suspirou, baixando a cabeça - Eu posso trazer aqui, se você preferir, apenas tome um banho enquanto isso.
- Tudo bem. - Concordou, levantando-se sem vontade e andando até o banheiro.

Passei novamente pelo quarto de , mas estava vazio, como o banheiro. Encontrei-a na cozinha, se servindo. Sorri e a abracei de lado, sentindo-a rígida em meu braço. Ela estava chateada, mais do que eu já havia visto, e isso me machucava. Eu faria qualquer coisa pra poder vê-las bem outra vez. Eu precisava que elas estivessem bem.

- Ela está bem?
- Ela está triste, mas nós também estamos. - Eu respondi, me olhou por um instante - As coisas vão se acertar, eu farei de tudo pra que isso aconteça.
- Sei disso.

Sua confiança em mim fez com que minha segurança aumentasse. Sorri e beijei sua testa demoradamente, pedindo que ela me acompanhasse até o quarto de mamãe, pra que pudéssemos jantar todos juntos. E assim que preparei a bandeja, subimos e fizemos nossa refeição. Não era um momento divertido, era apenas algo que precisávamos compartilhar. Uma demonstração silenciosa de apoio.
Escolhi o terceiro filme da noite e desci para preparar pipoca. e mamãe não falavam nada, mas eu compreendia, pois também não estava afim de falar. Nos deitamos e assistimos ao filme, a pipoca ficou quase toda no pote, mas eu não me sentia ofendido por isso. e eu só saímos dali quando mamãe voltou a adormecer, após tomar um calmante natural que havia sido recomendado por um médico, segundo minha irmã.
Quando deitei minha cabeça no travesseiro, fiz uma rápida retrospectiva dos últimos dias e depois me coloquei em posição indiferente à tudo. Não era a hora para sofrer por ter perdido injustamente, ou ter estourado a cara de James. Era a hora de tomar atitudes em minha vida que não tinham nada a ver com dramas colegiais.

- Posso ficar aqui essa noite? - Ouvi a voz de soar da porta, ergui minha cabeça, vendo-a parada com a cabeça pra dentro do quarto, sorri e estiquei um dos meus braços.
- Vem cá. - Chamei, ela encostou a porta atrás de si e andou rapidamente até minha cama, deitando-se e encolhendo-se contra mim - Você tem dormido aqui? - Ela concordou com a cabeça.
- Eu estava com medo. - Sussurrou, enquanto eu afagava seus cabelos, fechei meus olhos e suspirei.
- E agora, ainda está?
- Não, você disse que as coisas vão se acertar... Eu confio em você.

Continua...


Capítulo 15.
"I've found out a reason for me to change who I used to be"
(The Reason - Hoobstank)

Há um momento na vida de cada pessoa em que ela tem de decidir entre o que quer fazer e o que deve ser feito. Quem quer ser e quem deveria ser. Um momento onde ninguém pode intervir em sua posição, ou ser seu intermediário. É você contra você mesmo, para seu próprio bem e para o bem geral. Quem é que se importa com o bem geral? Eu me importo. Me importo desde que esse momento chegou pra mim.
No dia seguinte, primeiro dia de aula após as férias, me dei conta do quanto minha vida tinha mudado, como eu tinha mudado. Não sei se por necessidade, ou se era natural meu desinteresse em ficar no pátio com os garotos. Eu queria ser diferente e embora eu sentisse que estava sendo radical e começando a ser um nerd otário, eu não tinha vontade de lutar contra isso. Nem motivos.
A primeira semana foi complicada, tanto no colégio quanto em casa. No colégio em consequência do interrogatório insuportável que os caras insistiam em fazer sempre que possível, desde o motivo pelo qual eu estava entrando na classe nos horários certos, até meu comportamento "embocetado", era assim que me chamava agora. Também havia o fato de me ignorar de uma maneira tão intensa que não podia cruzar o mesmo caminho que eu, ela ficava completamente dura todas as vezes que eu me sentava ao seu lado na aula de biologia laboratorial. Já James estava sempre por perto. É. James. O cara que fodeu com ela, talvez até mesmo no sentido literal. Enquanto eu, o maldito guarda-costas, ganhava todo seu desprezo e rancor. Eu não conseguia contestar, questionar... Eu não queria, na verdade, voltar minha atenção para algo infantil, quando na minha casa eu passava por algo mais relevante e sério.
Mamãe não correspondia a nenhum dos meus estímulos. Eu tinha dado o meu melhor e eu não queria desistir, mas eu estava ficando cansado. Após uma bronca minha, decidiu sair de seu quarto e me ajudar. Ela cuidava do salão, junto de outras duas funcionárias, enquanto mamãe dormia o dia todo, ou quase todo. Eu tinha de ficar todo o tempo por perto, controlando-a, ditando regras e obrigando-a a cumpri-las. Era difícil dividir o tempo que eu tinha entre dar atenção à minha mãe, cuidar da casa, ensaiar com a banda e estudar. Mas isso mantinha minha cabeça ocupada o dia todo e ajudava a evitar os pensamentos inoportunos e filhos da puta que sempre se direcionavam à , ou a procurar meu pai para estourar sua cara, assim como fiz com James.
Decidi, no meio da segunda semana após o fim das férias, que deveria procurar um emprego, quando chegou em casa com um bolo de libras amassadas, que era suficiente apenas para as contas de água e luz. O telefone teria que esperar pra podermos fazer a compra do mês. Eu podia pedir ajuda aos rapazes, mas eu não queria contar a eles tudo o que estava acontecendo. Já estava sendo difícil o bastante para ter de lidar com a pena, eu sei que eles sentiriam, eu também o faria se estivesse fora da situação.

- , 'tá tudo legal, dude? - Ouvi perguntar quando errei mais uma vez o mesmo acorde, fechei os olhos com força e respirei fundo - Cara, o que está acontecendo?
- Velho, só 'tô desconcentrado. - Tentei não ser rude, mas vinha ficando mais difícil com o passar dos dias.
- Eu sei, eu respeito isso, mas você tem estado desconcentrado há dias, nós temos uma apresentação depois de amanhã e você não consegue se ligar aqui, dude, deixa a fazer o que ela quiser, esquece isso tudo cara, é a banda!
- A não tem nada a ver com isso, ! - Trinquei os dentes, irritado - Eu não sei se vocês sabem disso, mas minha vida não gira em torno da del...
- Diga isso a si mesmo, porra! - exclamou de maneira colérica - Se você quer destruir sua vida por causa dela, faça isso, mas não leva a banda junto!
- Teu cú pros presos, ! - Gritei, soltando meu instrumento no chão e andando até a porta - Parem de achar que sabem de tudo e parem de querer controlar minha vida, se vocês não estão satisfeitos comigo, procurem alguém melhor, eu 'tô fora!

Não dei tempo pra que eles respondessem. Era a terceira semana depois do fim das férias e no sábado tínhamos uma apresentação importante. Mas já havíamos tido tantas dessas que eu já nem acreditava mais que iria realmente vingar. Eu estava cansado de depender só disto, eu estava com medo ao me dar conta que a realidade era outra.
Enquanto voltava pra casa, naquele dia, ouvi meu celular tocar. Eu não me dei ao trabalho de tirar do bolso da calça, devia ser os caras, e eu não queria atender. Mas ao chegar e ver a chamada perdida não reconheci o número, então liguei de volta.

- Pub Ducati, boa tarde.
- Oi, aqui é o ...
- ?
- Er... É. Esse número me ligou um pouco mais cedo, estou retornando a ligação.
- Oh, só um momento, . - Esperei alguns minutos na linha até uma outra voz soar.
- Alô.
- Oi, com quem falo? - Perguntei, tentando não parecer hostil.
- Boa tarde, sou Angie Crowder, proprietária do pub Ducati. - Fiz um barulho, como se pedisse pra que ela continuasse - Eu gostaria de falar a respeito do currículo que você deixou aqui.
- Ah, sim, sim... O currículo! - Completei com entusiasmo ao me recordar.
- Sim, se ainda estiver interessado no emprego, gostaria de marcar uma entrevista com você ainda amanhã.

Comentei com sobre meu suposto novo emprego, mas não permiti que mamãe tomasse conhecimento, ou ela interviria, diria que eu era um artista e que devia gastar meu tempo com a banda e não com qualquer outra coisa. Eu respeitava esse anseio dela, pois também era o meu. Mas naquele momento não havia escolha.
No dia seguinte faltei à escola, contra minha vontade, por mais estranho que isso possa parecer. Tive que ir à entrevista, pois a tal Angie só poderia estar lá durante a manhã naquela sexta-feira. Respeitei seus horários, eu precisava do emprego, e o consegui sem muita dificuldade. Angie era a típica mulher independente que desperta o tesão de qualquer homem e isso eu devo comentar antes de dizer, com muita felicidade, que ela simpatizou comigo. Não me disse diretamente, mas eu sabia, sentia, sei lá.
Durante a tarde, naquela sexta-feira, decidi ir até a casa de , pois estava decidido que eu iria contar tudo a eles e pedir seu apoio. Mas ao chegar lá e ver um outro cara tocando em meu lugar, me neguei a qualquer relato. Não fiz questão de disfarçar minha mágoa, apenas entrei, andei até minha guitarra e a guardei em seu case, suspendendo a alça do mesmo em meu ombro. Ouvi me chamar, mas o ignorei, também não olhei pra eles ao fazer o caminho de volta até a saída da garagem e então fui pra casa.
A culpa era minha, eu havia explodido e dito para que eles procurassem outra pessoa. Eu não podia julgá-los por querer fazer a banda dar certo quando eu não conseguia se quer pensar em futuro. Eu tinha problemas demais no presente para conseguir vislumbrar coisa alguma para o dia de amanhã, ou para o mês seguinte.
Era sábado, meu primeiro dia no pub. Pedi que ficasse em casa com mamãe, mesmo sabendo que ela não fazia mais questão de sair. Os caras deviam estar se preparando para a apresentação enquanto eu recebia um avental preto, um crachá e minha bandeja. Não parecia a melhor profissão do mundo, mas... "É o que tem pra hoje", eu tinha de aceitar.
Amarrei o avental em minha cintura e olhei o pequeno broche em minha mão, uma placa prateada com meu nome cravado. Respirei fundo e comecei a tentar colocar, enquanto ouvia os saltos de Angie baterem pra lá e pra cá, até virem em minha direção. Parou em minha frente e tomou o crachá de minhas mãos, colocando-o por conta própria antes de me dar um tapinha no peito e ir em direção à porta, girando a placa branca que dizia em letras vermelhas "Open".
A parte mais difícil pra mim, em ser garçom, era equilibrar todas aquelas coisas sobre a bandeja, e ainda saber que eu estava sendo observado. Como Angie mesmo disse, era um teste. Minha permanência dependia daquela noite, então eu estava tentando dar o meu melhor.
Já era aproximadamente 10 pras 11 e as pessoas começavam a pedir a conta para irem embora, visto que o pub fechava todos os dias as 11 da noite. Eu atendia uma das últimas mesas quando Angie se acercou e tocou meu braço. Fitei seu rosto e desconheci a expressão desenhada ali.

- O que fiz de errado agora? - Perguntei, já esperando por mais uma crítica, eu havia recebido algumas ao longo da noite.
- Sua irmã ligou pra cá e pediu que você fosse o mais rápido possível ao hospital Royal Bolton...
- O que aconteceu?! - Exclamei, sentindo a bandeja deslizar pela ponta dos meus dedos, Angie a segurou rapidamente e ergueu seus olhos até os meus.
- Sua mãe está internada.

Capítulo 16.
"Espera, que o sol já vem"
(Mais Uma Vez - Legião Urbana)

O ronco do motor do Ford Maverick vermelho parecia me deixar mais nervoso, eu mal podia esperar que ele deixasse de funcionar. Eu sentia frio. Eu sabia que Angie estava indo o mais rápido que a rodovia permitia, entretanto, eu desejava que já estivéssemos lá.
Gastamos pelo menos 20 minutos na estrada até chegar ao Royal Bolton, assim que entramos, a recepcionista me indicou a sala de espera, e quando cheguei lá, vi minha irmã encolhida em um sofá longo. Dei dois passos em sua direção, foi o suficiente pra que ela se levantasse e disparasse até mim, encolhendo-se em meus braços que a apertavam, tentando passar conforto e buscar conforto.

- O que aconteceu?
- Eu descuidei dela um minutinho, um minutinho e ela...
- Shh, calma... Calma... - Pedi, ouvindo-a começar a chorar de maneira copiosa, respirei fundo e a apertei com mais força entre meus braços - O que aconteceu? Me conta direito, .
- Espere até ela se acalmar, . - Ouvi Angie dizer e estender o copo plástico com água na direção de , minha irmã aceitou e bebeu um pouco, depois devolveu o copo.
- Ela tomou os calmantes, todos os que ainda estavam no frasco... - Fechei meus olhos por um instante, depois voltei a olhar pra , sentindo vontade de parar o tempo e consertar toda aquela porra - Foi o tempo de um banho, , me desculpa, me desculpa, por favor... - retomou o choro e eu a abracei com mais força, negando com a cabeça e sentindo as lágrimas chegarem rapidamente até meus olhos, eu não podia ser fraco agora.
- Você não tem culpa, , não precisa se sentir assim, mamãe só estava se sentindo fraca, e a qualquer momento ela poderia fazer isso, com você por perto ou eu, tudo bem? - Minha irmã assentiu rapidamente, mas seu soluço me fez acreditar que de nada adiantaria meus monólogos, ela se sentiria culpada mesmo assim.

Convenci a se sentar para podermos esperar notícias. Disse à Angie que ela podia ir pra casa, mas ela se recusou, permaneceu ali até um médico se acercar e nos indicar seu consultório. Ele explicou o que podia ser explicado, uma intoxicação grave, mas poderia ter sido pior, caso o frasco estivesse cheio. Ela dormiria por algumas horas a fio e teria soro injetado em sua veia, pela fraqueza aparente. Um psicólogo viria para vê-la assim que ela despertasse, e também para conversar comigo e .
Enquanto observava mamãe dormir, me perguntei o que ela havia sentido, a proporção de seu desespero ao decidir tentar se matar. Minha mãe tentou se matar. Ela ia nos deixar pra trás, pra nunca mais voltar. O que poderia ter passado por sua cabeça? Quão forte era sua dor para ganhar a prioridade que até então era de seus filhos? Eu não conseguia imaginar, não conseguia perdoar. Ela não tinha o direito de tirar a própria vida enquanto eu sacrificava a minha pra vê-la feliz de novo.
Pela manhã, quando eu já não suportava a dor nas costas, chegou acompanhada de uma enfermeira que veio medir a pressão de mamãe e retirar o soro.

- Eu posso ficar aqui se você não quiser ficar... - Disse à , que ajeitava-se na cadeira ao lado da cama de mamãe, ainda adormecida.
- Vai pra casa tomar um banho, dorme um pouco, eu vou ficar bem. - Respirei fundo, hesitante diante da idéia de deixar ali sozinha - Prometo.
- Ok... - Concordei e esfreguei meu rosto - Me ligue assim que ela acordar, 'tá bem?
- Eu ligo.

Beijei a cabeça de minha irmã e olhei mais uma vez para mamãe antes de sair do quarto. Percorri o corredor até a sala de espera, o mesmo corredor que eu havia atravessado várias vezes durante a madrugada, apenas para pegar doses de café quente e, com isso, me manter acordado. Quando entrei no pequeno cômodo, reconheci alguns rostos e, de repente, me senti emocionado.

- Hey, dude! - Ouvi chamar, levantando-se e vindo em minha direção para um abraço, senti seus tapas em minhas costas e fechei meus olhos, sentindo um suporte que até então eu apenas tinha oferecido.
- Valeu. - Agradeci, não sei se ele entendeu pelo quê.
- Não precisa agradecer. - Disse ao apertar meus ombros e depois se afastou, e também estavam próximos, receosos e sem saber o que dizer, como sempre, sorri fraco e cocei a nuca.
- Acho melhor você ir pra casa descansar, mais tarde a gente volta pra ver como ela está. - disse, concordei com a cabeça, sentindo meus olhos arderem de sono, cansaço.

Depois de um banho, tudo o que eu queria era me deitar e dormir. Ficar fora do ar por algum tempo. Fugir. Sem a menor vontade de comer, desci até a cozinha. O omelete que havia preparado despertou parte do meu apetite, e foi rapidamente devorado por mim. Enquanto eu finalizava meu suco, notei que o silêncio entre nós, pela primeira vez, não fora desconfortável. Não tínhamos nada a dizer... Na verdade, tínhamos, mas sabíamos, mutuamente, que não era a hora, e por isso estávamos tão calados. Estávamos respeitando o espaço um do outro, e era esse tipo de coisa que eu gostava na nossa amizade. O tipo de coisa que eu precisava, nossa amizade.

- , acorda. - Abri os olhos, confesso, um pouco assustado, era como se eu nem tivesse dormido - telefonou, sua mãe acordou. - Me sentei, desajeitadamente, e esfreguei meu rosto, tentando recuperar a força em minhas pernas para me levantar.
- Como ela está? disse? - Perguntei e bocejei logo em seguida.
- Ela está um pouco sonolenta e fraca, mas ela estava jantando e muito provavelmente sairá ainda hoje. - me explicou, concordei com a cabeça e me levantei, andando até o banheiro.
- Já volto.

Após me aliviar e escovar meus dentes, voltei para o quarto e peguei uma jaqueta, ouvindo a chuva que caía fortemente do lado de fora. Passei pelo quarto de mamãe e separei uma troca de roupas quentes, coloquei dentro de uma mochila e segui até o carro de , que esperava junto com . Retornamos ao hospital, eles falavam uma coisa ou outra sobre nada e eu me mantive em silêncio, sem vontade de abrir minha boca. Talvez eles desconhecessem aquela tristeza em mim. Eu desconhecia.
Assim que cheguei no quarto, vi sentada em um sofá afastado da cama, olhava para a tv, assim como minha mãe, parcialmente sentada, com uma expressão depressiva. Neguei com a cabeça e encostei a porta, elas notaram minha presença. Deixei a mochila sobre um aparador e controlei minha raiva.

- Filho... - Mamãe murmurou, cuidadosa, ela sabia que eu não conseguiria olhá-la naquele momento - ... - Ela me chamou novamente e eu me virei de frente para onde ela estava, sentindo um nó preso em minha garganta - Posso falar contigo?
- O que tem a me dizer, mamãe? Qual a sua explicação? - Ela calou-se, se levantou com o olhar repressivo.
- Eu sei que eu errei...
- Que bom que sabe, mamãe! - Exclamei, em tom quase irônico - Que bom, pois eu espero de coração que você nunca mais repita coisa parecida na sua vida, independente do que acontecer daqui pra frente, independente de toda a dor...
- Eu fui fraca, sei disso...
- Foi... Foi muito fraca... Muito fraca! - Mamãe baixou a cabeça e sussurrou meu nome, me repreendendo - Eu esperava mais de você, não só por nós, não por seus filhos, mas por si mesma. Foi sim uma falta de consideração com a gente, porque temos dado nosso melhor pra manter as coisas na linha, mas foi ainda mais falta de consideração com você mesma... Você deveria se envergonhar! - As palavras vinham a tona, como um vômito incontrolável que me fazia tremer dos pés à cabeça.
- Eu me envergonho. - Sussurrou ela, de modo quase inaudível.
- Que bom... - Senti as lágrimas queimar meus olhos - Pense em quantas pessoas dariam qualquer coisa pela cura de uma doença, enquanto você enche o cú de calmante pra suportar a partida de um cara que sequer merece! - andou até mim e segurou meu braço com força, pedindo baixo pra que eu parasse - Se você quiser se entregar, muito bem, mas me avise agora, assim eu paro de lutar pra te fazer levantar, eu paro de me desdobrar pra consertar as coisas... - Mamãe agora chorava, mas eu não sentia culpa, ela precisava ouvir - Mas caso você queira superar isso, conte comigo.
Mamãe pôs-se a chorar com mais intensidade enquanto eu me acercava, abracei-a com toda a minha força, e todo o meu perdão. Eu queria que ela se sentisse perdoada e segura. Eu queria poder prometer a ela que tudo ia ficar bem, mas temi não conseguir cumprir tal promessa. Então apenas me mantive em silêncio e deixei que o tempo se encarregasse do resto. Era o único meio.
O médico veio nos trazer sua alta e enquanto mamãe se trocava, contou que nossa sessão com a psicóloga já havia sido marcada. E só depois de todas as pendências resolvidas, fomos pra casa. Mamãe não queria dormir em seu quarto e eu não hesitei um instante antes de oferecer minha cama pra que ela ficasse o tempo que fosse necessário.
Quando eu achei que o dia já havia tido sua carga de angústia ultrapassada e que nada de mais surpreendente poderia acontecer, meu celular tocou. Meus olhos, ainda sonolentos, encararam o teto e depois buscaram o aparelho. Vi que havia chego uma SMS e, curioso, fui ver do que se tratava.

"Preciso falar com você. Me encontre amanhã durante o intervalo no salão de música. , x."



Capítulo 17.
"Eu sou um acidente em câmera lenta"
(Hear Me Out - Frou Frou)
A disposição me tomou logo pela manhã, quando me recordei da mensagem de . A curiosidade sempre me deixava elétrico, e mesmo com tudo o que estava acontecendo, não foi diferente. Levantei e tomei um banho mais demorado do que de costume, estava calor, apesar da chuva que se estendeu por toda a madrugada. Me vesti e desci até a cozinha, deixei o café da manhã preparado sobre o balcão da cozinha, minha nova meta era não mimar mais minha mãe, ela iria levantar e descer se quisesse comer, e eu tinha plena certeza de que ela iria fazer o possível pra melhorar. desceu em seguida, já arrumada para ir trabalhar.
- Eu ainda não consegui entender por que ele levou meu carro. - Eu dizia, inconformado com tal fato. bebericou seu suco e rolou os olhos.
- Sei lá, , isso é o de menos.
- De menos? A gente poderia trocar por um mais barato e guardar o dinheiro caso precisássemos. - Me defendi, deixando os ovos mexidos escorregarem da frigideira para meu prato - Mas tanto faz, nós só precisamos nos concentrar e fazer dar certo.
- Sim, tenta ser simpático pra ganhar gorjeta das velhas. - zombou, gargalhei, dando um tapa em minha própria bunda.
- Sou sexy por natureza, as velhas me adoram.
- Entretanto, a única velha que pode te abraçar e dormir com você, sou eu. - Olhei para trás e vi mamãe adentrar a cozinha, envolvida em seu hobbie cor de rosa.
- Mas é claro, mamãe. - Ri, vendo-a se acercar com um sorriso tímido e o rosto inchado - Senta, você quer ovos?
- Não, filho, obrigada, vou ficar com as torradas.
- 'Tá, tudo bem, então eu vou indo, preciso pegar o metrô. - Mamãe pareceu entristecer-se com esse fato - Estou contente em voltar aos velhos tempos de pegar metrô, além do mais, faltam apenas alguns meses.
- É, você 'tá precisando mesmo de umas aventuras, 'tá virando meio nerd. - disparou e eu sorri com sarcasmo.
- Tchau, qualquer coisa me liguem.

Dei um beijo na cabeça de mamãe e me direcionei a porta, ao que passei por ela pude ver o Maverick estacionado do outro lado da rua. Angie estava encostada nele, com um cigarro preso entre os dedos finos e pálidos, seus cabelos parcialmente presos de um jeito desarrumado e os olhos semi-abertos, pareciam não suportar a claridade. Andei até ela, segurando a mochila em meu ombro.

- Bom dia, menino. - Disse, soprando a fumaça do cigarro praticamente em meu rosto, balancei a cabeça num cumprimento.
- Bom dia. - Respondi, ainda confuso por vê-la ali.
- Quer uma carona até o colégio? - Olhei de seu rosto para seu carro, depois para a estação de metrô na outra esquina.
- Vou aceitar. - Sorri, me virando para ela, que já estava dentro do carro, dei a volta e ocupei o lugar ao seu lado.
- Como está sua mãe? - Ela quis saber, tranquei o cinto de segurança e deixei minha mochila em meus pés.
- Está melhor, hoje ela desceu pra comer com a gente, acho que em breve ela estará recuperada. - Angie concordou com a cabeça, parecendo satisfeita com minha resposta.

Ficamos em silêncio, os dois, o resto do caminho, apenas a voz de Mick Jagger preenchia o carro que, apesar de muito conservado, fedia a nicotina. Angie não parecia se importar com isso, pois da minha casa até o colégio ela havia tragado mais dois cigarros, sem parecer esforçar-se pra isso. Eu confesso que, quando fumava, havia um momento que eu me sentia meio fraco, tonto. Ela já tinha passado dessa fase, muito provavelmente.

- Bom, então é isso, nos vemos mais tarde, boa aula.
- Obrigada, hein, dona Angie...
- Como é? - Gritou, antecedendo uma gargalhada estridente que chamou a atenção das pessoas que passavam na calçada - Dona? Quantos anos acha que eu tenho?
- Não estou te chamando de velha! - Retorqui, com os olhos saltados - Estou sendo educado, só isso.
- Quantos anos acha que eu tenho? - Fitei seu rosto, não havia rugas, apenas marcas de expressão e uma carga de experiência que eu não sabia como interpretar.
- 28? - Chutei, temendo estar julgando alto demais.
- Hum, gostei, fica assim, tenho 28 anos, agora vá, pois você tem só 17 e precisa estudar. - Disse, entre risos, sorri, me divertindo com sua presença despojada.
- Obrigado pela carona, até mais.
- Até mais, menino.

Saí do carro e atravessei o campus, encontrando-me com na porta principal. Fomos conversando até o refeitório, lotado, e seguimos até a mesa que costumávamos ficar. Me sentei e respondi ao interrogatório sobre a situação em minha casa, e também sobre Angie. estava louco por ela, mas deixei bastante claro que não havia chance alguma de conseguir algo, ela era o tipo de mulher que pode ter o cara que quiser, não escolheria logo .

- quer falar comigo. - Comentei ao me recordar de tal fato.
- Sobre o quê? - quis saber, concentrou toda sua atenção em mim.
- Não sei, ela pediu pra que eu encontrasse com ela na hora do intervalo.
- Deve ser algo sobre . - supôs e eu concordei com a cabeça.
- Muito provavelmente, afinal, não temos outro assunto em comum.
- Vai que ela quer casar com o e vai pedir a mão pra você. - Rimos da piada de e depois desviamos nossa atenção pra qualquer coisa.

Vi adentrar o campus, caminhando distraidamente pela grama, que parecia mais interessante à ela do que qualquer outra coisa ao redor. Já não andava tão coberta como antes, e também não vulgar como veio fazendo no último mês. Estava equilibrando-se entre uma coisa e outra, o que a tornava normal. Eu sentia sua falta, mas já não era como antes. Eu me satisfazia em vê-la bem, mesmo que não fosse ao meu lado. Isso parecia incabível antes, mas era diferente agora, e havia passado tão pouco tempo.
As três primeiras aulas nunca pareceram tão demoradas antes. Eu não consegui me concentrar nem por um momento, mesmo que eu tenha tentado ignorar o interesse e a curiosidade de saber o que tinha a me dizer, eu não podia negar que estavam presos ali, em algum lugar, flamejando e, com egoísmo, tomavam toda minha atenção para si.
Assim que o sinal para o intervalo ressoou, saltei da minha carteira e fiz meu caminho até os armários, onde deixei minhas coisas e só então fui até o refeitório, apenas para pegar um sanduíche junto com um pouco de suco, depois me direcionei ao salão de música. Costumava estar sempre vazio desde que o professor de música, Walter Demus, foi assassinado lá. Além de não terem conseguido encontrar outro profissional tão competente quanto professor Demus, os alunos não se sentiam confortáveis estando lá, no local do assassinato de alguém que todos apreciavam.
Entrei no salão e fitei ao meu redor, vazio. Se fosse uma brincadeira de , ela me pagaria por isso. Desci alguns degraus da arquibancada que margeavam o centro do salão, tudo estava como havia sido deixado. Os instrumentos em seus suportes, a madeira clara que revestia o chão, completamente limpa e envernizada, brilhava. As cortinas cor de vinho cobriam as janelas grandes, impedindo que a claridade incomodasse quem estivesse lá dentro. Quase me esqueci do quanto gostava das aulas de música.
Me sentei no banco atrás do piano e ergui sua tampa de madeira gasta, as teclas amareladas e cobertas por uma camada fina de pó. Soprei e senti imediatamente meu nariz inchar, espirrei três vezes seguidas e me arrependi por ter ido até ali. Eu sabia que a limpeza era superficial. Tudo naquela escola era.
Vi atravessar a porta pesada e me procurar com os olhos, ao me reconhecer, desceu rapidamente pela arquibancada e cruzou os braços ao parar em frente ao piano.

- Achei que não viria. - Disse ela, abaixei a tampa do piano e me levantei, espanando minhas mãos em minha calça, me livrando de parte do pó.
- Eu deveria não vir? - Perguntei, com as sobrancelhas arqueadas para demonstrar minha indiferença diante de seu comentário.
- Sei lá, não acho que você confie muito em mim, ou tenha interesse no que eu tenho pra dizer. - disparou, sentando-se em um banco, encostei-me ao piano e examinei seu rosto inexpressivo.
- Acho que o que você tem a dizer pode me interessar, ou não, mas eu precisava vir pra descobrir, então pode começar a falar. - Dei de ombros, cruzando meus braços.
- Ok... - Ela respirou fundo, cruzando as pernas e ajeitando a barra da saia sobre as coxas, umedeci meus lábios e os pressionei um contra o outro, esperando pra que ela finalmente começasse a falar - É sobre . - Assenti, já esperando que o que quer que fosse, tinha a ver com - Eu quero contar a ela sobre aquela noite.
- Oi? - Aquilo me pegou de surpresa, devo dizer.
- Sim, quero contar pra ela que James tentou transar com ela enquanto estava desacordada, ou transou, ninguém sabe... - Comecei a negar com a cabeça, desviando meus olhos pra um ponto que não fosse o rosto de .
- Não, não mesmo. - Neguei imediatamente.
- , ela merece saber, e você também merece que ela saiba! - Retorquiu, - Ela e James estão próximos, e isso me assusta, ele não merece que ela o trate bem depois de tudo o que aconteceu, e você não merece ser tratado tão mal quando não...
- , você não tem idéia do mal que faria a ela se dissesse a verdade!
- Como assim? Pior do que já estão as coisas?
- Enquanto ela acha que eu transei com ela naquela noite, ela se sente mal, mas não tanto, pois não é como se nunca tivéssemos dormido junto antes... - me olhava com atenção - Se ela souber que não era eu, mas James, isso vai tomar uma proporção muito maior!
- Mas ...
- "Mas" nada, , você não vai dizer nada a ela, nem eu. Vamos deixar que ela pense que transamos aquela noite...
- Você se sente bem com James perseguindo-a por todo lado depois de tudo? - Eu não respondi, apenas virei o rosto para o lado oposto, soltando um suspiro - Se sente? Porque eu sinto medo por ela todas as vezes que ele se oferece pra levá-la pra casa, eu não sei do que mais ele é capaz depois de ter feito o que fez, eu confiei nele por muito tempo, mas agora eu me desespero todas as vezes que ele se aproxima dela! - Voltei a olhar para o rosto de , ela parecia realmente exasperada com o que estava ocorrendo.
- Eu... Eu não sei como posso te ajudar nisto...
- Você ainda a ama?
- Não sei.
- Não ama?
- Não sei! - Exclamei, esfregando meu rosto - Eu não sei, tudo está muito diferente, ela está muito diferente... - Desatei a falar e então dei um risada desacreditada, negando com a cabeça - Ok, eu a amo, é claro que ainda a amo, mas é difícil admitir isso pela maneira como ela tem me tratado, me olhado, tudo o que tem feito...
- Ok, é só o que eu preciso de você, que você ainda a ame, eu darei meu jeito pra aproximá-los novamente, mas você tem que estar receptivo... Você me garante?
- Não sei se posso te prometer isto, mas... Eu... Tudo bem, só me diga o que vai fazer...
- Ainda não sei, espere e verás. - Disse , antes de esboçar um sorriso e levantar-se, marchando pra fora do salão.

Contei aos garotos o que havia dito e eles, assim como eu, acharam estranho que ela quisesse e eu juntos. Mas seus motivos pareciam coerentes. Ela também não queria ver perto de James pelo que todos nós presenciamos aquela noite. Mas eu não permitiria que a verdade fosse dita, não queria ver qual seria a reação de diante da notícia de que transou com James, ou quase, tanto faz. Preferia que ela me odiasse, a se odiar.
As últimas aulas passaram um pouco mais depressa, e com minha curiosidade bem nutrida, consegui prestar a devida atenção nas matérias.

- Hey, . - chamou enquanto caminhávamos em direção à saída - Topa ensaiar hoje à tarde? - Controlei meu entusiasmo e encolhi os ombros.
- E o cara lá? - Tentei não parecer irritado ou enciumado, mas começou a rir.
- 'Tá com ciuminho! - Gritou, apenas pra me irritar.
- Nós já dispensamos ele. – me informou.
- Por quê? Ele não era tão bom quanto eu? - Perguntei, segurando o riso - Ah, claro que não, eu já sabia disso, tudo bem, eu apareço lá, mas só porque vocês precisam de mim, não quero vê-los chorando e implorando, está tudo bem, tudo sob controle...

Eu desatei a falar enquanto andávamos e logo, entre gargalhadas, eles me enchiam de tapas na cabeça, só pra não perder o costume. Aquilo me trouxe certa nostalgia, agradável, contudo. Pelo menos algo não havia mudado, meus amigos e minha banda. Eu precisava conservá-los, estava certo disto.
Fui pra casa e ajudei mamãe a fazer almoço, pois quando cheguei ela ainda não havia nem começado, estava distraída com a TV. Eu gostava de cozinhar, então aprender a fazê-lo era uma boa idéia. Após o almoço, fui para a casa de e lá passei o resto da tarde, saí apenas a tempo de tomar um banho, comer um sanduíche e correr para Ducati. O movimento durante a semana era pouco, Angie já havia me dito que seria. Ainda assim ganhei alguma gorjeta, até mais do que eu esperava. Angie me pediu pra ficar depois do expediente, pois precisava falar comigo. Enquanto os funcionários se despediam e saíam, eu erguia as cadeiras e só quando não havia mais ninguém no salão além de mim, fechei as portas e girei a placa.

- Licença. - Pedi, após tocar duas vezes consecutivas na porta de sua sala, que ficava nos fundos do pub.
- Entra. - Assim que ouvi sua permissão, girei a maçaneta e entrei. Angie estava entretida com um livro, mas assim que me aproximei de sua mesa, ela o fechou e o repousou sobre a mesa - Pode sentar, .
- Valeu. - Me sentei em uma poltrona e me ajeitei, com os braços descansados sobre os braços da madeira - Aconteceu alguma coisa?
- Bom, não. - Ergueu os ombros magrelos, desenhei sua tatuagem com os olhos, uma rosa, tingida de um vermelho vivo, ramos esverdeados e cobertos de espinhos escalavam seu braço e ao redor dele, também escondiam-se embaixo de sua regata, minha curiosidade arrancou um riso dela - Gostou? - Indagou, olhando para o próprio ombro.
- É muito bonita. - Elogiei, vendo seus lábios se abrirem num sorriso bonito, seus dentes eram perfeitos, não deixei de reparar.
- Você tem alguma?
- Uma só. - Desgostoso, respondi - Você tem quantas?
- Hum... - Deitou a cabeça pra trás, parecendo querer recordar-se, supus que fossem muitas - Ao todo são 4... Essa no ombro é a mais recente... - Levantou-se e virou-se de lado, erguendo sua regata até a altura do estômago, pude ver que os ramos da rosa do ombro, estendiam-se pela lateral de seu corpo e alcançavam seu ventre, algumas rosas e botões, variavam de vermelho sangue para um vermelho queimado, haviam também algumas borboletas coloridas, algumas pousadas ao longo dos ramos e outras espalhadas pelo canto de sua barriga, sem alastrar-se para o centro dela, mas pude reconhecer uma logo abaixo de seu seio direito - Essa foi a segunda que eu fiz, eu comecei com uma rosa, um pedaço de ramo e uma borboleta... - Ela apontava, mostrando-me e me fazendo sorrir involuntariamente - Mas aí eu comecei a esticar e a esticar e de repente eu tinha ela por toda minhas costas - Ao dizer isto, virou-se de costas e eu vi os ramos se prolongarem e se entrelaçarem, dançando por suas costas ao redor de uma árvore imensa tingida de um marrom escuro, fosco, de troncos torcidos entre si e arqueados para um só lado, sua copa era desprovida de folhas, exceto por algumas pequenas e vermelhas, iniciava na base de suas costas e provavelmente seguia até próximo de seus ombros, eu não podia ver em consequência da blusa, que apesar de estar erguida, ainda cobria parte da imagem.
- Uau! - Exclamei, sem tentar disfarçar minha surpresa e admiração - É muito bonita.
- Obrigada. - Sorriu, contente, e então sentou-se.
- Não falta uma? - Perguntei, curioso, vi seu sorriso tornar-se malicioso e mordi meu lábio.
- Falta. - Foi o que respondeu, mas antes que eu pudesse voltar a questioná-la, apressou-se em mudar de assunto - Bem, te chamei aqui pra te parabenizar, ouvi falar muito bem do seu atendimento e quero que saiba que o emprego é seu, definitivamente. - Fiquei sem o que dizer por um momento, sorri.
- Obrigada, fico feliz. - Cruzei meus braços e chacoalhei um pouco minhas pernas.
- Bom, era só isso. - Após tê-lo dito, levantou-se e começou a recolher algumas coisas sobre a mesa e por dentro de sua bolsa.
- Então eu vou indo. - Me levantei e ajeitei minha camiseta - Até amanhã. - Dei a volta na poltrona e andei até a porta, antes de ouvi-la me chamar.
- Quer carona? - Ofereceu ela.
- Se não for incômodo. - Deixei minha condição e ela sorriu debochada.
- Se fosse, eu não ofereceria.

Ela sabia sempre o que responder, e isso me deixava um pouco intimidado, mas ao mesmo tempo, eu não estava me esforçando pra que ela gostasse de mim, eu não queria impressioná-la, pelo menos não como homem, apenas como funcionário. Já ela, era naturalmente impressionante.
Durante o caminho conversamos sobre coisas aleatórias, nada muito relevante a meu ver. Comentei com ela sobre a banda e ela quase me obrigou a cantar um pouco, mas a convenci de que deveria esperar até uma apresentação de verdade, e assim que houvesse uma, ela já estava convidada.
Mais tarde, depois de chegar, tomar um banho e esquentar a janta, me deitei e enquanto tentava conciliar o sono que, apesar do cansaço, parecia não ter encontrado o caminho pra chegar até mim, algo inédito aconteceu. Angie substituiu , por breves segundos imaginei como seria estar com ela. Durou pouco tempo, mas o suficiente pra me deixar surpreso. Será que, finalmente, eu estava superando ?

Capítulo 18.
"Trying to recall what you want me to say"
(Be Somebody - Kings Of Leon)

Todas as vezes que eu olhava para o relógio, fosse ele de pulso, de parede ou qualquer outro tipo, ele parecia adiantado. Como se o tempo estivesse correndo bem mais naqueles dias, eu mal podia me organizar, e agora eu sentia falta disso. Duas semanas se passaram sem que eu me desse conta. O cansaço era grande, mas eu não me sentia mal, pelo contrário, me sentia útil. A rotina havia sido estabelecida e eu estava dando o meu melhor pra segui-la sem falhas. Eu estava conseguindo acompanhar as matérias, e agora eu tirava duas horas no fim de semana para estudar, já que era o único tempo que eu teria pra isso e eu tinha tantas notas pra recuperar. A banda tinha três shows agendados, e eu já havia informado Angie sobre isto, ela me levava pra casa todos os dias, no começo eu me sentia mal, mas descobri que sua casa ficava no bairro vizinho, e acabei cedendo aos convites constantes. Estávamos nos tornando próximos, nos conhecendo melhor, embora ela falasse muito pouco dela e quisesse que eu falasse muito sobre mim.
não havia dado notícias, e continuava me tratando da mesma maneira, mas parece que naquela sexta-feira, especialmente, as coisas estavam marcadas para virar de ponta cabeça.
Quando cheguei à cozinha naquela manhã, pronto para preparar o café da manhã para mamãe e , me deparei com a mesa posta. Mamãe não vestia seu penhoar, pelo contrário, usava um jeans, camiseta e botas de salto baixo. Seus cabelos estavam presos e havia uma leve camada de maquiagem em seu rosto. parecia tão assustada quanto eu, quando deparou-se com a mesma cena.

- Bom dia. - Mamãe disse, parecendo já saber o quanto estávamos surpresos.
- Bom dia, mamãe. - Dissemos num coro, ela sorriu, e depois voltou sua atenção para sua xícara de café, e eu nos entreolhamos e eu senti como se estivéssemos compartilhando o mesmo alívio.
- , preciso que você me atualize sobre as coisas do salão, eu já liguei para a revendedora de esmaltes, vi uma coleção interessante passando na tv e ela me disse que semana que vem chega às lojas e ela me traz... - sorriu alegremente e sentou-se ao lado de mamãe, logo estavam engrenadas em um assunto do qual eu não entendia nada, mas mesmo assim me deixava muito satisfeito.

Quando desci do metrô, meu celular tocava, era Angie, me convidando para ir à Londres na tarde do dia seguinte, comprar algumas coisas que faltavam na decoração do boliche que iria inaugurar no domingo. Eu estava passando pelo campus enquanto conversava com ela pelo celular quando meu ar foi grosseiramente tirado de mim, foi como se meu estômago tivesse sido acertado em cheio por um soco, a ânsia foi involuntária, quase incontrolável. estava encolhida contra o peito de Charlie, com seu rosto escondido para o lado oposto. James e Matt conversavam, ao lado, e passou por mim feito um moínho de vento, deixando pra trás seu perfume infantil. Assim que estava perto o suficiente, encostou-se atrás da prima, deitando sua cabeça no ombro dela, como quem dá apoio. Quando ergueu seu rosto, umidecido de lágrimas, ignorei os gritos de Angie do outro lado da linha e fechei o celular, deixando-o em meu bolso e, impensavelmente, marchei até o pequeno grupo parado próximo à porta de entrada.

- Algum problema? - Me ouvi perguntar, minha voz saiu mais trêmula do que eu gostaria, mas foi o bastante para chamar a atenção de todos eles pra mim, torceu seu rosto numa careta de choro e saiu andando, fiz menção de ir atrás, mas me impediu, com suas palmas em meu peito.
- Coisa de família, , se ela quiser te envolver nisto, ela vai fazer por conta própria, por favor, não piore tudo. - disparou aquilo tudo sobre mim, e foi exatamente como uma bala em meu peito, me fazendo ofegar diante da insuficiencia respiratória.
- Então... Então qualquer coisa, qualquer coisa você me liga, pode me chamar pra qualquer coisa... - Falei apressadamente, ainda olhando para a porta, por onde havia passado.
- Tudo bem, ela vai ficar legal...
- Ela tem a mim, relaxa. - James soltou, fitei seu rosto já curado e imaginei como seria deixá-lo esfolado novamente, mas respirei fundo e desmanchei a idéia.
- Ok, mas se ela precisar de alguém, uma pessoa e não um animal, por favor, , me procure.
- Procurarei.

Assenti, ignorando as ameaças de James de vir pra cima de mim, e entrei. Passei pelo campus, e até pensei em dividir minha preocupação com os caras, mas eu não estava a fim de falar. Eu queria ficar quieto por um momento, tentando acalmar meu coração, e minhas pernas que pareciam ter vontade própria, remexendo-se na gana de persegui-la e descobrir o que diabos estava fazendo-a chorar.
Mais tarde, na hora do intervalo, a vi passar por nós, sozinha, eu sabia exatamente para onde ela estava indo. Então me levantei, sem obter controle sobre meus atos, comecei a andar, apressadamente. Eu sentia meu coração bater com força, não estava acelerado, mas parecia grande demais, pesado demais. Apoiei minhas mãos na mesa onde estava sentada com e a tal garota que ainda não sei o nome. Respirei fundo.

- Eu preciso de um favor seu. - Pedi, sentindo-me ansioso.
- Fale, ... - Ela pareceu entediada, mas depois sorriu fraco.
- Preciso que você vá atrás dela e fique do lado dela, já que eu não posso ir.
- Eu sequer sei onde ela está! - explicou, esfregando o rosto - Fica calmo, !
- Não, , não posso ficar calmo sem saber o que está acontecendo, não consigo!
- Então quando ela voltar, eu falo com ela, porque agora eu realmente não sei onde ela está!
- Ela está no terraço do bloco 3 - Suspirei, eu não queria fazer isto, provavelmente iria querer me matar, mas já que tudo estava perdido mesmo - Tem uma sala de porta azul, tem uma escada que te leva ao terraço.
- Olha, você é um chato, cara. - disse, levantando-se e puxando consigo.
- Obrigado. - O alívio era visível em meu rosto, sorri fraco, mesmo que sustentasse uma expressão de poucos amigos.
- Mande um beijo ao , . - Disse a amiga de e quando passou por mim, contraí o cenho e me perguntei se aquilo tinha sido irônico, ou se... Aaah ! Seu filho da puta, escondendo o casinho!

chegou atrasada para a aula de química, isso era algo que nunca acontecia, portanto a professora nem mesmo protestou, apenas deixou que ela entrasse e começou a aplicar um simulado. Eu nunca fui bom nessa matéria, tabela periódica, pra mim, era mais incompreensível que tabela de regra menstrual, e olha que eu sou homem. Mas eu sabia responder, pois não tinha perdido uma aula sequer e a matéria não era tão difícil como costumava ser antes. Talvez porque eu comecei a estudar ao invés de pesquisar maneiras de colar.
Faltava bem pouco para finalizar quando olhei para o quadro, a professora costumava deixar algumas fórmulas no quadro, pra nos ajudar. De esguelha, pude ver com os olhos escondidos na palma das mãos. Olhei para a professora, concentrada em limpar a lente de seus óculos. Terminei de responder meu teste e passei as respostas corretas para a folha de rascunho, deixei meu simulado na mesa da professora e me aproveitei de sua distração para esbarrar na carteira de , soltei minha folha no chão e rapidamente fingi que era sua, trocando meu rascunho pelo seu. Ela olhava confusa para minha cena e eu tive vontade de rir, mas apenas me desculpei, olhando-a sugestivamente antes de sair da classe.

- , sabe quem te mandou um beijo hoje? - Perguntei a ele, de maneira debochada, quando estávamos dando um tempo no ensaio.
- Quem? - Perguntou, desinteressado, tomei mais um gole do meu refrigerante e sorri com malícia.
- Aquela menina, amiga da e da . - ergueu sua cabeça rapidamente, me encarando com os olhos semicerrados, dei de ombros e comecei a rir - O que? 'Tá surpreso?
- Ela quem disse que não deveríamos dizer nada a ninguém! - Ele exclamou, eu e os garotos nos entreolhamos.
- Como assim? Quanto tempo? - quis saber.
- Desde o resort, nós ficamos lá e... Estamos ficando desde então.
- está em um relacionamento sério com...
- Harper. - completou. Pelo menos descobri o nome dela, depois de tanto tempo...
- Nossa, hoje a vadia da professora de química deu um simulado pra nossa turma, ela deu pra de vocês também? - me perguntou, concordei com a cabeça.
- Deu, mas 'tava de boa... Eu passei cola pra . - Falando, isso parecia bem mais estranho e eu acabei me sentindo um E.T., e provavelmente aos olhos dos meus amigos, eu era um.
- Meu Deus, chama o padre antes que ele comece a vomitar verde, esse cara 'tá possuído pelo coisa ruim! - falava rápido, se levantando de perto de mim, começamos a rir.
- Sério, seu ódio é tanto que você quis foder a prova da garota? - dizia, ainda entrerisos.
- Não, eu realmente sabia fazer, e ela estava num dia ruim, só quis ajudar. - Dei de ombros, voltando a beber meu refrigerante.
- Como você sabe que ela estava num dia ruim?
- Eu vi ela chorando mais cedo. - Dei de ombros.
- Acho que vocês vão acabar voltando. - comentou, entretido com o cadarço de seu tênis.
- Eu não sei... - Murmurei, com sinceridade - Está tudo muito diferente agora, e logo a gente vai embora daqui, temos planos para a banda, não posso ter um motivo pra ficar, minha família já foi motivo pra eu não ter ido muitas vezes, agora que eles permitiram, não quero ter por que ficar, sabe?
- É, acho que nesse momento a gente precisa estabelecer prioridades.
- É, e minha prioridade, agora, é meu sucesso profissional.


ACapítulo 19.
"But Angie, Angie, ain't it good to be alive?"
(Angie - The Rolling Stones)

Diferente dos meus últimos sábados, acordei mais cedo naquele. Eu ainda estava bastante sonolento enquanto tomava banho e escolhia uma roupa para ir até Londres com Angie. De um dia pro outro, eu parecia um pouco intimidado a fazer esta viagem. Na verdade, eu estava sem vontade. Eu queria ficar e dar um jeito de ver , mesmo que fosse apenas para assisti-la me ignorar completamente. Não adiantava ficar me crucificando por querer ficar com ela, tê-la de volta, e também não adiantava negar ou sublimar meu desejo. Ele estava ali, talvez com um pouco menos de evidência, importância, mas vivo.
Calcei meu tênis e peguei meu moletom que estava pendurado no encosto da cadeira. Eu estava com tanto sono que ainda não tinha certeza se estava mesmo acordado quando ouvi a buzina do carro de Angie. Mamãe e já tinham saído, apenas deixei um bilhete caso elas não se lembrassem de que eu tinha avisado onde estaria, e depois saí.

- Pronto para passar um dia comigo? - Seu convite fedia à malícia, mas eu ignorei esse fato e sorri.
- Claro, vamos às compras, amiga. - Tratei de fazer uma piada enquanto colocava meu óculos de sol, Angie deu risada e me empurrou de leve.
- Bobo.

Angie ergueu um pouco o som, The Rolling Stones. Era o que estava tocando desde que a conheci, todas as vezes. No carro, de vez em quando no pub. No caminho até lá, Angie me contou que seus pais haviam se conhecido em um show da banda e que seu nome vinha de uma música deles. Contou sobre o amor de seus pais e sobre como a ensinaram a gostar de Rock 'n' Roll, também me falou um pouco de sua infância, vivida na Irlanda. Mas não me contou nada sobre como mudou-se para Londres, ou onde estavam seus pais agora. Sobre seus amores, desamores e amizades, que pareciam não existir. Sobre suas tatuagens, ou sobre uma, em especial, que eu ainda não conhecia. Eu não fiquei perguntando, ao contrário dela, que achava que ainda havia algo sobre mim que ela não sabia, estava certa, eu apenas havia contado coisas irrelevantes. Sempre tive esse costume, e por isso consegui facilmente convencê-la de que sabia tudo sobre mim.

- Você já teve algum outro negócio antes do Ducati? - Perguntei, enquanto almoçávamos, interessado em saber um pouco mais sobre ela, quebrar um pouco daquela impressão misteriosa que ela causava.
- Sim, eu tive uma sorveteria na Irlanda. - Respondeu sem pestanejar, contraí o cenho e não consegui controlar o riso - O que foi?
- É que não tem muito a ver com você, uma sorveteria... - Me expliquei, ainda rindo um pouco - É engraçado te imaginar vendendo casquinha pra crianças.
- Isso é porque eu detesto crianças. - Respondeu subitamente e, por algum motivo, a maneira como ela disse aquilo me deixou um pouco hesitante.
- Por quê? - Ousei perguntar.
- Porque elas são chatas e vem pra atrapalhar a vida das pessoas, só.

5 horas depois e eu só queria me sentar e comer uma lasanha inteira, no mínimo. Como é que mulheres tem tanta disposição pra comprar? Eu achava que Angie seria diferente, mas começo a achar que nenhuma é. Afinal, aquelas coisas nem eram realmente para ela, era pra decoração, e mesmo assim ela escolhia como se fosse andar com tudo pendurado no corpo.

- , eu vou entrar aqui nessa galeria, me espera ali no café da esquina pra comermos alguma coisa antes de ir. - Agradeci a Deus, até consegui sorrir depois de tanto tempo mantendo minha cara de tédio.
- Quer que eu te acompanhe? - Não, não, não, não...
- Não precisa, você deve estar cansado. - Suspirei aliviado e ela deu risada.
- Vou indo pra lá, me deixa levar essas coisas para o carro. - Pedi, recolhendo duas sacolas que ainda estavam com ela, junto com as chaves do Maverick.
- Não vou demorar.
- Sem problema.

Andei até o carro, estacionado a uns dois quarteirões e depois fiz o caminho de volta até o café. Levou alguns minutos até Angie chegar, trazendo uma sacola, comecei a rir imediatamente, negando com a cabeça. Eu sabia que ela não ia resistir caso continuasse andando. Ela sorriu esperta e estendeu a sacola em minha direção, contraí o cenho, confuso.

- Oi?
- É pra você. - Fiquei subitamente sem graça, pegando a sacola com um sorriso frouxo.
- Não precisava, Angie.
- Claro que precisa, você me aguentou um dia todo, carregou sacolas e não reclamou nem por um minuto. - Disse, sentando-se à minha frente.
- Obrigado.
- Você não vai abrir? - Sorri.
- Vou... - Desfiz o laço que envolvia uma alça da sacola na outra e retirei de dentro a jaqueta de couro preta, minhas sobrancelhas arquearam imediatamente - Uau!
- Gostou? - Quis saber, sorrindo com curiosidade.
- Claro que gostei, é ótima, obrigado, mesmo. - Eu não fazia ideia do quanto poderia ter custado, mas estava envergonhado por ganhar algo de uma pessoa que eu mal conhecia.
- Não precisa agradecer... - Deu de ombros - E então, o que vamos comer?

Após nossa refeição, pegamos estrada. Angie quis que eu voltasse dirigindo, pois não enxergava muito bem à noite. Apenas quinze minutos depois, a chuva começou a cair, como Angie havia dito que aconteceria. Eu estava grato por dirigir bem, pois a noite trouxe a escuridão e a tempestade não parecia querer cessar. Eu não costumava ter medo desse tipo de situação, mas naquele dia, eu tive.
Estávamos a 80 km por hora e quase não conseguia ver nada a minha frente, ou pelo retrovisor. Angie estava em silêncio, talvez soubesse que aquela não era uma boa hora para qualquer tipo de assunto.
Usamos, para chegar a Bolton, quase o dobro do tempo que levamos para ir até Londres. Quando parei o carro em frente da minha casa ouvi o suspiro melódico de Angie, estava tão aliviada quanto eu.

- Estou tão vivo. – Comentei com sarcasmo, nós dois rimos. – Bom... Obrigado pelo dia, e pela jaqueta. Amanhã nos falamos. – Comecei a introduzir nossa despedida.
- ... – Ela me chamou depois de já termos trocado um beijo no rosto, voltei a fechar a porta, pois a chuva ainda caía pesadamente do lado de fora do carro.
- Oi. – Respondi, simplesmente.
- Será que eu posso entrar pra usar o banheiro? Dois minutos.

Olhei pra minha casa, toda apagada, exceto pela luz do hall de entrada, que sempre ficava acesa até que a última pessoa entrasse e apagasse. Minha mãe e deviam estar dormindo e eu não via motivos para não deixa-la entrar. “Claro”, respondi sem ter tanta certeza do que estava fazendo e dizendo.
Senti minhas roupas encharcarem e pesarem em meu corpo assim que pisei para fora do carro, Angie e eu corremos para a entrada da casa. Retirei a chave do meu bolso e ela puxou do meu pulso a sacola com minha jaqueta, facilitando para que eu conseguisse abrir a porta.
Subimos lentamente, ela logo atrás de mim. Eu mostrei a ela o banheiro social, que ficava entre meu quarto e o de . Ela rapidamente se trancou lá e eu passei as mãos pelos meus cabelos, completamente molhados. Os chacoalhei um pouco e desci o zíper do meu moletom, retirando-o, ali dentro estava mais quente.
Angie saiu do banheiro alguns instantes após ter entrado, seu cabelo cacheado gotejava. Como eu, havia retirado sua jaqueta, e agora eu podia ver claramente seu sutiã preto sob a blusa branca, que ao ser molhada se tornara transparente. Engoli em seco, havia algum tempo que eu não transava e eu me lembrei disso exatamente naquele momento. Ela me sorriu de um jeito aberto, como se soubesse o que eu estava pensando e concordasse. Mordi meu lábio, cogitando todas as possibilidades antes de tomar qualquer atitude... Mas ela deu o primeiro passo antes que eu pudesse concluir meus pensamentos.
Seu corpo se aproximou do meu como se estivesse dançando, ela tinha uma graça sexual... Acho que isso definia bem a maneira bonita como ela era sensual. Suas mãos percorreram ambos os meus braços, úmidos, e se uniram em minha nuca, causando um arrepio suave. Me inclinei para beijá-la, e antes de fechar os olhos ou juntar meus lábios aos seus, percebi seu sorriso vitorioso.
Angie tateava minhas costas sob a camiseta, erguendo-a pelo meu corpo até finalmente retirá-la, enquanto eu tentava, às cegas, dirigi-la até meu quarto. Quando finalmente consegui encontrar a porta correta, empurrei seu corpo pra dentro com o meu e depois nos tranquei ali. Alisei sua barriga com uma das mãos, sentindo a rigidez de seus músculos, provavelmente trabalhados por muito tempo. Retirei sua camiseta e dediquei-me a seu colo, ainda parcialmente coberto pelo sutiã, mas exposto o suficiente para meus lábios. Com minhas pernas entrelaçadas nas suas, caminhamos desordenadamente até a cama, onde cobri seu corpo com o meu. Sua pele estava gelada por causa da chuva, arrepiada, mas continuava extremamente perfumada. Não era um perfume doce, como o que eu costumava sentir em , era forte, sedutor, como tudo o que vinha dela.
Quando me dei conta, Angie estava sobre mim, com os pequenos seios expostos, empinados, lindos. Uma borboleta se perdia entre eles, num azul celeste vivo. Seus seios cabiam por inteiro em minhas mãos, ela parecia desfrutar de minhas carícias, jogando a cabeça pra trás e arrastando seu quadril sobre o meu, com nossas calças abertas, mas ainda atrapalhando a sensibilidade. Segurei os passadores de sua calça e forcei pra baixo, com dificuldade, Angie moveu-se até livrar-se da peça, deixando à mostra sua calcinha pequena e frouxa, da mesma cor do sutiã. Pela cava da calcinha eu podia ver o início de sua tatuagem na virilha.

- Estou em desvantagem. - Ergui meus olhos até seu rosto, um sorriso esperto surgiu em seus lábios enquanto ela abaixava minha calça, até retirá-la junto com minhas meias, depois veio rastejando, roçando seu corpo todo em minha ereção notável mesmo sob o tecido da boxer - Não esperava tudo isso. - Sussurrou, mordendo sem gentileza nenhuma minha barriga, gemi baixo e dei risada depois.
- Você é bem gostosa... Bem gostosa mesmo. - Sussurrei em seu ouvido, com seus cabelos presos entre meus dedos, antes de mordiscar sua orelha e ouvi-la gemer baixo, pressionando seu quadril contra o meu.

Senti sua mão agarrar a minha, guiando-a por seu corpo, debruçado sobre o meu, enquanto nos beijávamos com volúpia. Angie pressionou meus dedos contra a própria intimidade, gemendo com a boca colada na minha. Sorri e mordisquei seu lábio com uma força desnecessária, ela pareceu gostar, intensificando o beijo. Puxei sua calcinha e adentrei com a minha mão, sentindo sua pele lisa, quente e úmida, bastante úmida. Estimulei seu clitóris por um instante, ouvindo-a gemer e agarrar-se ao meu corpo, e depois empurrei dois de meus dedos pra dentro de Angie, que arqueou seu corpo, apoiando suas mãos em meu peito e cravando suas unhas em minha pele.
Sem paciência, Angie ergueu-se e retirou minha boxer, tão rápido que eu mal me dei conta, só percebi por causa do alívio de ter meu membro livre do tecido. Sua boca, experiente, cobria-o lentamente, indo e vindo com uma calma quase torturante. Não durou muito tempo, Angie ergueu-se e retirou a própria calcinha, deixando à mostra o escorpião perfeitamente desenhado em sua pele. Mordi meu lábio, perguntando-me o que ele queria dizer, afinal, mas pouco me importou quando, com maestria, ela sentou-se sobre meu membro, alcançando sua base e descansando seu peso sobre meu quadril. Suas mãos alisaram minha barriga, arrancando de mim suspiros intensos e espasmos alucinantes.
Angie gemia alto contra minha mão, que eu havia usado para cobrir sua boca antes que ela acordasse minha mãe e minha irmã. Eu não podia reclamar, ela era como uma máquina de dar prazer. Ela sabia onde tocar, como tocar, até o timbre do seu gemido parecia proporcional a cada momento em especial. Seus seios me tocaram quando seu corpo despejou-se contra o meu, seus dedos embrenharam-se entre os fios molhados do meu cabelo e seu quadril moveu-se com precisão para que, por fim, atingíssemos o ápice.

- Uf. - Angie soltou, abraçada a mim, sorri, com os olhos fechados.
- Escorpião? - Questionei, acariciando suas costas nuas.
- São tão bonitos e discretos ao atrair, não acha? Tão fortes e venenosos. Como os seres humanos.
- Hum... É muito bonita. - Não, não era como qualquer ser humano... Era como ela.
- Obrigada.

Ficamos ali mais um tempo, apenas curtindo o barulho da chuva e a presença um do outro. Eu quis sentir algo por ela, algo além de atração. Mas nada aconteceu. Eu estava apenas pensando em outra posição mais confortável que poderíamos fazer sexo, o que poderíamos fazer em seu pub, todas aquelas mesas, balcão, sua sala, na pista de boliche... Tudo parecia muito divertido. Eu precisava dizer isso aos caras, eles não iriam acreditar...
- No que está pensando? - Ela quis saber, sorri, abrindo os olhos.
- Que deveríamos testar a resistência da mesa do seu escritório quando estivermos sozinhos no pub. - Comentei, com malícia, e a ouvi dar risada.
- Podemos fazer o que quiser.

Angie levantou-se e começou a se vestir, ela parecia acostumada a não ficar. Simplesmente colocou sua roupa e penteou o cabelo com os dedos, depois olhou pra mim, por cima do ombro, e sorriu, apontando para a porta com a cabeça. Sorri e me ergui, preguiçosamente. Vesti minha boxer e a calça antes de destrancar a porta do quarto e leva-la até a saída. Nos despedimos com um beijo um pouco menos inocente que o que havíamos trocado no carro.
Retornei ao quarto depois de vê-la ir embora. Tomei um banho quente e levei minha roupa molhada até a lavanderia. Quando me deitei e peguei o celular sobre o criado mudo, vi que tinha duas mensagens recebidas. A primeira era de , pedindo que eu falasse com Angie sobre ele, dei risada e respondi "esquece sobre isso, cara". Bastava para saber que eu estava interessado. A segunda, porém, me fez repensar sobre estar mesmo interessado. "Obrigada", era apenas o que dizia, mas sendo enviada por , aquele era o agradecimento mais significante que eu poderia receber. Sem mais.

Capítulo 20.
"Something in the way she moves, attracts me like no other lover"
(Something - The Beatles)

É geralmente no momento em que você se dispersa, se distrai, que as coisas mais surpreendentes acontecem. É como passar o dia todo esperando por um eclipse, e quando você entra no banho, ele acontece. Ou ficar esperando por uma programação na TV e acabar cochilando na melhor parte. Justamente no momento em que eu me deixei envolver nas curvas de uma estrada perigosa chamada Angie, , estranhamente, decide dar o ar de sua graça. Era como se ela soubesse exatamente o momento que devia entrar em cena, justamente quando eu estava tentando abandonar o palco.
Ao ler aquela mensagem foi como se uma imagem minha se projetasse em minha frente, e ela dizia: Ah, por favor, , vai tomar no teu cú. Você a quer como sempre quis, admite! Fica aí, otário, mastigando a inveja do James, como se isso fosse trazê-la de volta. Fingindo que não sente nada enquanto come sua patroa psicótica. Muito esperto.

- , você 'tá se sentindo bem? - Olhei para o lado e vi Angie debruçada no balcão, ao meu lado.
- Estou, por quê? - Ela sorriu, num mescle de diversão e deboche - Estou um pouco preocupado com a apresentação de mais tarde, ensaiamos só pela manhã, sabe como é.
- Vai dar tudo certo, vocês não são bons? - Ri, dando de ombros - Se são bons, não têm o que temer.
- É, acho que somos bons. - Sorri meio confiante, porque no fundo meu problema não tinha nada a ver com a apresentação, nem mesmo a banda em si, havíamos ensaiado pouco, mas o suficiente.
- Então relaxa e vai atender a mesa nove. - Senti sua palma estalar contra minha bunda e dei risada, me afastando do balcão e olhando para a mesa 09.

Foi rápido, meu organismo todo parecia enrolar-se em nós cegos, fiquei imóvel, apenas tentando recobrar meus sentidos, que haviam me abandonado, exceto pela visão, focada na mesa ocupada por James, Matt e . Sim, minha garota ao lado dos caras que, por mim, estariam enterrados na beirada da praia esperando pelo próximo Tsunami.

- , algum problema? - Ouvi a voz de Angie chamar minha atenção, fitei seu rosto por um momento, sem realmente me fixar a isto, mas para fugir daquela cena escrota.
- Não, eu já vou lá. - Avisei, com um desconforto notável.
- Quer que eu atenda?
- Não, tudo bem. - Espera só eu conseguir sair do lugar, Angie, querida.

Vai ser maricas agora? Eu repetia pra mim mesmo enquanto alcançava os cardápios, junto ao bloco de papel, tentando encorajar meu lado bicha a simplesmente ir até lá e ser profissional.

- Com licença. - Pedi, colocando três cardápios sobre a mesa, mas nenhum deles parecia capaz de desviar os olhos de mim, ignorei esse fato, fingindo estar ocupado ao procurar minha caneta pelo avental - Um minuto. - Falei, ainda sem encará-los e saí apressadamente para buscar a caneta... Não, foi para me preparar psicologicamente para aquela situação.
- , o que há de errado? Eu te conheço. - Angie tornou a repetir, quando me acerquei do balcão, e sem dedicar muito da minha atenção no que fazia, comecei a procurar a caneta.
- Eu esqueci a caneta. - Murmurei, disperso.
- Aham, na bandeja de canecas vazias você não vai encontrá-la. - Angie soou o mais irônica que seu tom de voz permitiu - Quem são eles?
- Eles estudam comigo. - Foi o que eu respondi.
- Está envergonhado do seu emprego, ?
- De jeito nenhum! - Falei rapidamente, virando-me para Angie, agora um pouco recomposto - Eu... - Respirei fundo e puxei meu cabelo pra trás - É minha ex-namorada e o novo namorado dela, só preciso ser profissional, nada, além disto.
- Ela é sua ex-namorada? - Angie perguntou e, discretamente, virou-se para a mesa, peguei a caneta dentro do suporte e a tilintei em minha palma, impaciente - Ela é uma graça, devo admitir.
- É... - Sorri fraco.
- Quer um conselho? Vá até lá e seja o mais simpático que conseguir, só.
- Vou tentar. - Rimos e eu marchei de volta pra perto da mesa, postando-me em frente a eles, que novamente desviaram os olhos dos cardápios para mim.
- Ora, eu não sabia que você era garçom, . - James debochou, mantive minha expressão lúcida, me segurando para manter também minha sanidade mental.
- Já escolheram o que vão pedir? - Perguntei, e tentei me concentrar apenas em , que fitava meu rosto e meu avental, alternadamente.
- Traz três Foster's. - James ordenou, encarei seu rosto por um instante e me voltei para .
- E pra você, ? - Perguntei, ela piscou devagar e olhou para o cardápio, levando seu cabelo pra trás da orelha.
- Uma cerveja é pra ela, pode ir agora. - James disse, rispidamente.
- Eu não vou beber cerveja, James. - Murmurou , com a voz espremida entre os dentes.
- Posso dar uma sugestão? - Perguntei.
- Não, você é só o garçom, . - Matt intrometeu-se, ele e James ainda deram risada, mas não me dei ao trabalho de respondê-lo.
- Pode. - permitiu, erguendo seus olhos, que ao encontrarem-se com os meus pareciam enviar-me uma onda alucinante de adrenalina, me perdi por um segundo.
- Abacaxi com hortelã, o suco, de abacaxi com... Hortelã. - Demorei até conseguir concluir a frase corretamente, ela não pareceu se importar com o meu desconcerto.
- Pode ser esse, então.
- Certo. - Anotei os pedidos rapidamente - Já trago, com licença.

Voltei para meu posto, satisfeito. Adentrei pela cozinha e deixei a folha de pedidos colada no mural. Peguei meu celular no bolso do meu avental e liguei para , perguntando a ela por que diabos ela não estava junto com eles. Por mais irônico que pareça eu iria me sentir mais seguro com ela por perto. Ela me disse que sequer sabia que eles iriam sair, mas que daria um jeito de aparecer.
Pouco depois, chegou, junto com e . Sentaram-se nos bancos em frente ao balcão, esperando pelo chope ali mesmo. chegou ao mesmo tempo em que eu deixava os pedidos na mesa de , ela me encarou confusa, examinando minha vestimenta.

- Você trabalha aqui? - Perguntou imediatamente, concordei com a cabeça.
- Já tem um tempo. - Ri fraco - Quer fazer seu pedido já?
- Ah, vou ver o menu, espera aí. - Virou-se para os outros, na mesa.
- Está melhor, ? - perguntou.
- Melhor de quê? - se mostrou confusa, James encolheu os lábios, pressionando-os um no outro, semicerrei os olhos.
- James disse que você não viria porque estava com dor de cabeça. - dizia, seu tom de voz estava baixo, ela parecia abatida.
- Bom, James mentiu, então, porque ninguém ligou pra me convidar. - Me senti intrometido por estar ali, mas não consegui me mover - Me traz um suco de melancia com uma dose de vodca, . - Olhei para e depois anotei rapidamente seu pedido.
- Ok, já trago, mais alguma coisa? - Sem manifestações, voltei para o balcão.

A tarde passou depressa. chegou um pouco mais tarde, para a surpresa de todos, bem arrumado. Há! Acharam que eu diria que ele chegou com , né? Na verdade, ele chegou com ela, mas a surpresa maior foi vê-lo bem vestido. Pelo menos pra mim, haha.

- Olá, boa tarde! - Ouvi a voz de Angie, todos nos voltamos em sua direção, parada sobre o pequeno palco de Karaoke, com o microfone entre os dedos - Quero agradecer a presença de todos, mas por hoje é só... - Contraí o cenho e olhei em meu relógio de pulso - Mas quero convidar a todos para a apresentação da banda McFLY no pub Local J. Obrigada pela atenção.

Sorri, inevitavelmente. Logo as pessoas começaram a acertar suas contas e sair dali. Eu não sei se realmente tinha funcionado, se elas estariam indo para nossa apresentação, mas a intenção de Angie bastou pra mim.

- ... - Ouvi me chamar, pendurei meu avental no suporte e me acerquei dela, parada do outro lado do balcão, ao lado de - Você está de carro?
- Não, por quê?
- James está muito bêbado, não quero ir embora com ele, nem que vá sozinha...
- , tem lugar no seu carro? - Perguntei imediatamente, desenroscou sua língua da de e me olhou atordoado - Tem dois lugares no seu carro?
- Se não tiver, a gente arruma. - Disse, prestativo.
- Espera aqui, , o leva vocês.
- Obrigada.
- , você vem ou não? - Matt perguntou de maneira grosseira, olhei pra ele por cima de e vi James puxando pelo suspensório de seu macacão.
- Ela não vai, não, Matt, e a também não. - Saí de trás do balcão devagar.
- Que foi que disse? - James perguntou, com os olhos semicerrados.
- Olha, James, você está bêbado demais pra dirigir, se quiser ficar, te preparo um café e você vai mais tarde, ou pega um táxi...
- Não fale como se você se importasse... - Protestou.
- Com você não, é apenas um conselho, mas a não vai com você.
- Você não precisa me dizer o que é melhor pra mim. - disparou, contraí o cenho, sentindo meu coração bater mais devagar, eu queria responder, mas de repente fiquei sem o que dizer - Que inferno! - Gritou, depois saiu andando porta a fora, olhei para , que me pediu calma e depois saiu depressa atrás da prima, James e Matt se entreolharam e saíram abraçados, em seguida.
- Hey, cara... - parou ao meu lado e apoiou sua mão em meu ombro - Ela...
- Deixa pra lá, mate. - Neguei com a cabeça - Quero que se foda, eu tentei.
- Agora descansa essa sua mente, você tem uma apresentação e eu dei minha cara à tapa aqui no meu pub... - Angie dizia, se acercando - Se vocês não fizerem valer a pena, ficarei com vergonha. - Rimos, enquanto ela encaminhava-se até a porta de entrada - Mas caso você faça tudo direitinho, ... - Ela me olhou com um sorriso malicioso - Será recompensado.
Capítulo 21.
"And I don't know which way it's gonna go"
(Please Don't Stop The Rain - James Morrison)

"...Like a complete unknown
Like a rolling stone..."


- Hm, alô. - Respondi, ainda sem abrir meus olhos.
- Cara, é o ... e... Cara... - Contraí o cenho, percebendo a entonação esquisita na voz de , ergui meu corpo parcialmente, sentindo os efeitos do porre da noite anterior surgirem aos poucos.
- Oi, , fala. - Murmurei, ainda sem a menor vontade de ouvir o que ele tinha a dizer, independente do que fosse.
- Você tá preparado pra ouvir a melhor notícia do ano? - Rolei os olhos, finalmente me sentando na cama, esfreguei meu rosto e fiz um barulho com a boca, esperando que ele entendesse que era uma resposta afirmativa - Então eu vou te falar...
- Fala logo, imbecil.
- Credo, , que mal humor... Vou ter que contar isso de uma vez pra te fazer feliz...
- , eu 'tô falando sério, diz logo ou eu desligo o celular. - Isso não pareceu funcionar muito bem, já que ele começou a rir; respirei fundo.
- Ok, ok... Então lá vai... - Fechei os olhos e encostei na cabeceira, bocejando e desejando que fosse algo realmente muito bom pra ele ter me acordado logo pela manhã - Temos uma audição em Londres no mês que vem... - Meus olhos se abriram de súbito, encarando o guarda-roupa à minha frente - Uma audição com a Island Records, em Londres, no mês que vem. - Disse ele, mais pausadamente, mas minha mente parecia não conseguir raciocinar isso de maneira alguma, a informação ainda estava muito bruta pra que eu lapidasse, o que me impedia de ter qualquer reação, eu estava imóvel - , você 'tá aí?
- Cara... - Foi o que saiu da minha boca, nada mais, eu queria perguntar como isso tinha acontecido, ou se era uma brincadeira.
- , você 'tá legal, mate?
- ... ... - Repeti, tentando formular uma frase - Cara... Como?
- Eles me ligaram hoje de manhã, e disseram que um agente viu McFLY tocar no Local J e que adorou, e que nós temos uma audição em Outubro, nós só precisamos gravar uma demo pra enviar, e apresentar três músicas pra eles... Foi só o que ele pediu, , só. Nada de vídeos e todas aquelas merdas, eles só querem uma demo e a audição, cara, uma audição!
- Porra, ... Porra! - Exclamei, sentindo o entusiasmo se apoderar de mim rapidamente - É uma audição, cara! Porra! Eu não acredito!
- Vem aqui em casa, vamos comprar algumas coisas pra beber e fazer um churrasco. Chama sua mãe e sua irmã, vem antes do almoço, tchau.

Olhei para o celular, "ligação encerrada". me surpreendia às vezes, ele não costumava ser mal educado assim, sempre. Que se foda, temos uma audição!

- Mãe! - Gritei, descendo as escadas enquanto erguia um pouco minha calça do moletom - Ow, mãe!
- Pra que gritar, ? O que foi? - Ela surgiu na porta da sala de jantar, enxugando suas mãos com um guardanapo.
- Temos uma audição, McFLY tem uma audição na Island Records, em Outubro, mãe! - Falei rápido, mamãe ficou me olhando com os olhos saltados, brilhantes, um sorriso descrente, surgiu ao lado dela, completamente boquiaberta, mas com os olhos sorridentes, se é que isso existe.
- MENTIRA?! - Minha irmã gritou, neguei com a cabeça rapidamente e logo senti seus braços ao meu redor, e os de mamãe em seguida - SEU FILHO DA PUTA, VOCÊ MERECE MUITO, PORRA! - começou a gritar.
- , eu sou a mãe. - Mamãe alertou, e nós começamos a rir.
- Nós vamos dar um churrasco na casa do , se arrumem, vamos todos pra lá.
- Eu também? - Mamãe perguntou, continuei subindo as escadas.
- Claro, todo mundo.

Entrei no quarto e, ao olhar meu celular, a primeira coisa que eu tive vontade de fazer foi ligar para , contar a novidade a ela e chamá-la pra comemorar com a gente. Mas de repente sua voz ecoou em minha mente como vinha fazendo nos últimos dias "Você não precisa me dizer o que é melhor pra mim...". É, ela estava certa, eu não precisava. E não queria. Eu não podia mais fingir que fazia parte de sua vida quando isso não era verdade.

- , é bom que você tenha ligado e me acordado pra dizer que quer me dar uma garrafa de Jack Daniels, porque caso não for isso, eu te mat...
- Temos uma audição com a Island Records, em Outubro.
- 'Tá falando sério? - Sorri, notando a mudança no tom de voz de Angie.
- 'Tô!
- , isso é bom pra caralho, nossa, parabéns, 'tô muito feliz por vocês.
- Valeu, gata. - Sorri, abrindo meu guarda-roupa e começando a escolher uma camiseta qualquer.
- Vamos comemorar isso quando? - Perguntou, transbordando malícia, como sempre.
- Primeiro, quero te convidar para um churrasco na casa do , vamos todos pra lá comemorar... Nossa comemoração particular fica pra mais tarde.
- Bom, eu só poderei comparecer nela, tenho que resolver umas coisas, mas dependendo de quanto tempo me tomar, eu passo pela casa do .
- Mesmo?
- Mesmo, menino.
- Então 'tá, eu vou me trocar, a gente se fala depois.
- Ok, parabéns, de novo. Se divirta.
- Valeu.

Me arrumei rápido e tive que esperar mais uns vinte minutos até mamãe e ficarem prontas, para só então podermos ir pra casa do . Quando chegamos, tive a impressão de que só faltávamos nós três. Nossos amigos estavam todos lá, e assim que os caras me viram, nós imediatamente começamos a gritar e a nos abraçar, feito um bando de macacos. E foda-se o que o resto das pessoas estava achando daquilo, eu poderia chorar de felicidade naquele momento. Eu poderia mesmo.
Estávamos esperando tanto pelo momento que alguém nos cederia uma chance, por uma oportunidade como aquela que tínhamos em mãos, que era como se não houvesse problema algum em nossas vidas, pelo menos naquele dia, não havia absolutamente nada que pudesse atravessar nosso caminho com um pouco de tristeza ou decepção... Eu estava enganado.
A tarde passou rapidamente, até apareceu por lá junto com , para nos parabenizar, e acabaram unindo-se à . Confesso, a esperança de que também viesse parecia me engolir, mas ela não apareceu, não enviou uma mensagem, nem um sinal. Ela não se importava mais com isso, eu deveria saber. Angie também não foi, pelo menos não para ficar, apenas passou por lá para me apanhar, pois eu precisava trabalhar.
O movimento estava fraco aquela noite, talvez pela chuva forte, que parecia não ter a menor intenção de cessar. Não tão cedo. É claro que se a chuva fosse impedir algo na Inglaterra, ninguém viveria, mas quando estava forte demais, desanimava. Não a mim, eu ainda estava energizado pela notícia da audição, levaria um tempo até passar... Ou não.
Eu estava voltando da sala de Angie, após nossa comemoração privada, e antes mesmo de atingir o balcão, meus olhos foram chamados para a entrada do bar, suspirei enfadado, estava quase na hora de fechar quando um homem se livrava de seu sobretudo encharcado, deixando-o sob os cuidados de um funcionário, e chacoalhava seu cabelo, igualmente molhado. Reconheci-o poucos instantes depois.
Sr. veio caminhando em direção ao balcão, sentou-se em um banco giratório e apoiou seus braços ali, ao meu lado. Angie, que chegou pouco depois, me beliscou e apontou para o homem, parecendo disperso. Saí do meu transe e dei dois passos para alcançá-lo.

- Boa noite, Sr. . - Ele ergueu seu rosto abatido e me sorriu sem forças.
- Ora, , que prazer revê-lo. - Sua mão estendeu-se em minha direção, cumprimentei-o imediatamente - Não sabia que estava trabalhando aqui.
- Faz algum tempo, senhor. - Comentei, com um sorriso categórico - Posso anotar seu pedido?
- Me traz uma dose dupla de Black Label. - Pediu, concordei imediatamente.
- Puro, com gelo, cowboy? - Perguntei, já indo buscar a garrafa.
- Cowboy.

Retornei, me perguntando se ele costumava frequentar aquele pub há tempos e só naquele dia nossos horários coincidiram, ou se era a primeira vez que ele visitava o lugar, se era a primeira vez que saía para beber assim, e se sim, por qual motivo? Coloquei o copo sobre o balcão e servi uma dose dupla generosa antes de empurrá-lo na direção de Sr. , deixando a garrafa sobre o balcão caso ele fosse repetir o pedido.

- Por que não me acompanha? - Ele perguntou alguns minutos depois, olhei pra Angie, que mexia no caixa, ela simplesmente meneou a cabeça, me dando o aval.
- Vou pegar um copo pra mim. - Disse a ele, indo buscar outro copo e um banco para me sentar à sua frente, me servi e tomei o primeiro sorvo, sentindo meu corpo todo arrepiar doloridamente.
- Está acostumado a beber whiskey? - Ele perguntou, dei de ombros, ainda com os dentes trincados.
- Não puro. - Ele riu de leve, assentindo e tomando o resto do conteúdo em seu copo, depois o arrastou em minha direção, permitindo que eu o servisse novamente.
- Uma vez um amigo meu me trouxe um whiskey Irlandês, era um Tyrconnel, feito em alambiques de cobre, um dos melhores entre os de cevada maltada, eu tive tanta dó de abrir... - Ele dizia, parecendo divertir-se com a história - Um dia eu cheguei do trabalho decidido a abrir e a tomar uma dose, eu me lembro de me sentar no sofá e pedir que pegasse a garrafa pra mim, e então quando ela entrou na sala, e veio em minha direção, tropeçou na ponta do tapete, a garrafa voou e estraçalhou na mesa de centro, ela chorou por uma hora, sentindo-se culpada por aquilo. - Rimos juntos e eu fiquei um bom tempo tentando imaginar aquela cena.
- Angie é Irlandesa, ela deve ter algum whiskey desses bons em algum lugar aqui...
- Esse é um Jameson, envelhecido 18 anos - Angie surgiu com uma garrafa bonita, abrindo-a - Um dos melhores whiskeys Irlandeses que o senhor poderia experimentar. Posso servi-lo?
- Por favor. - Fiquei olhando-a preparar uma dose no copo do meu ex-sogro e aquela situação me pareceu escrota - Obrigado.

Os dois entraram imediatamente num assunto de bebidas. Eu entendia pouco disso, eu entendia pouco de tudo. Atendi as míseras pessoas que ainda estavam ali, esperando para pedir suas contas e ir embora, e Angie me permitiu fechar o bar. O fiz, e enquanto eu levantava as cadeiras, ela fazia companhia ao Sr. , bebendo junto com ele. Me juntei logo depois. Mas não consegui acompanhá-los na no álcool.

- Bom, vou deixá-los sozinhos, preciso fazer uma ligação, mas fiquem à vontade.
- Obrigado, mas eu devo ir. - Sr. disse.
- Está cedo ainda! - Protestei, tentando ser simpático.
- Vou tomar uma última dose, e depois volto pra casa.
- Bom, boa noite, foi um prazer conhecer o senhor. - Angie rapidamente despediu-se do homem e me deu um beijo no rosto antes de sumir para dentro do corredor.
- Ela é sua namorada agora? - Sr. perguntou, eu não sabia bem o que responder.
- Não exatamente. - Ele assentiu devagar.
- Você e não se falam mais, não é?
- Não mais, nós dois erramos muito um com o outro, agora é difícil ignorar tudo isso.
- Não gosto do rapaz com quem ela está agora. - Disse ele, fechando a expressão de súbito, dei risada e neguei com a cabeça.
- Eu o detesto, mas a sabe o que faz.
- Na verdade, acho que a só tem estado numa fase onde precisa do apoio de alguém, e ele foi a primeira pessoa que esteve ali pra ampará-la. - Contraí o cenho, curioso para saber o que havia por baixo daquela informação.
- Há algo que eu deva saber, Sr. ? está bem? - Perguntei, sentindo meu corpo responder à ansiedade, logo minhas pernas se chacoalhavam sob o balcão e meus dedos se estralavam sem que eu percebesse.
- Sim, o problema é com minha esposa, . - Traguei a saliva, sentindo a tristeza do homem à minha frente exalar e entrar por minhas narinas, impregnando-se em mim.
- O que aconteceu com ela? - Eu não queria parecer intrometido, mas quando me dei conta, já havia escapado.
- Ela tem Câncer, , e isso está matando a todos nós, de uma só vez.


Capítulo 22.
"And you won't be alone, I am beside you"
(True Love - Angels & Airwaves)

- , abre aqui pra mim!

Ouvi a voz de Angie, meio distante, do outro lado da porta. A luz do banheiro, com mal contato, deixava a iluminação tremida. Olhei meu vômito escuro dentro do vaso, e na borda dele. Limpei o suor da minha testa e meu buço, tentando controlar a náusea.

- ! Você 'tá me deixando preocupada, o que aconteceu?

O que aconteceu? Estremeci. A mãe de estava doente. Tão doente que eles sequer sabiam se ela conseguiria se curar. Minha mente estava bloqueada enquanto eu tentava pensar em uma saída, ou em uma maneira de aproximação. Eu precisava me tornar presente, mostrar que, apesar de tudo, eu não iria abandoná-la jamais, ela não estava sozinha e precisava saber disso.

Flashback

- Descobrimos há pouco tempo que ela tem câncer de mama, mas as células se espalharam para o pulmão... - Eu não podia responder, eu não queria dizer nada, eu estava assustado - Eles chamam isso de câncer metastático, é quando o câncer se alastra de um lugar para outros. - Eu queria perguntar uma imensidão de coisas, mas não conseguia conectar uma palavra a outra - Ela começou o tratamento de quimioterapia na semana passada, mas precisa passar por uma cirurgia o mais rápido possível... Não é uma cirurgia simples, , e não pode ser feita em Bolton, nosso plano de saúde não cobre os gastos nessa clínica pra onde ela precisa ser levada, e eles nem sabem se ela... - Ouvi Sr. fungar, e então notei que ele começava a chorar, trinquei meus dentes, sentindo uma queimação exacerbada em meus olhos e narinas - Eles nem sabem se minha mulher vai sobreviver à isto.
- Ela vai! - Afirmei, tentando acreditar nisto também, de repente eu parecia bêbado, minha língua dormente e pouco sensível – Nós temos que acreditar que sim, Sr. , temos que ter fé. - Apoiei a mão em seu ombro, apertando-o em sinal de apoio - E quanto ao dinheiro, não se preocupe, nós vamos dar um jeito.
- Não se preocupe com isso, filho. - Respondeu, me olhando - Só quero que esteja ao lado de , pois eu sei que ela vai precisar.
- Eu estou sempre ao lado dela.


Flashback off

Puxei a descarga e enrolei um pouco de papel higiênico na mão, limpei minha boca e os olhos úmidos, depois o rosto. Saí da cabine e andei um pouco desnorteado até a pia, lavando meu rosto pela terceira vez. Após enxugá-lo, abri a porta. Angie estava encostada na parede da frente, com cara de poucos amigos.

- Posso saber o que aconteceu?
- Pode...

Contei à Angie tudo o que Sr. acabara de me dizer. Eu precisava compartilhar aquela informação com alguém, e, de alguma maneira, eu sabia que ela teria a coisa certa a dizer; eu não estava enganado. Eu não devia forçar uma aproximação com , não naquele momento tão conturbado. Eu precisava ser paciente e ajudar por fora, sem que ela soubesse, do contrário, talvez não permitisse, ou achasse até que era apenas para impressioná-la.
Eu precisava daquele dinheiro, não era muito, mas era mais do que eu conseguia em um mês de trabalho, e a urgência não me permitia ter paciência. Eu precisava do meu carro de volta.

- W324 PXL. - Repeti novamente a placa do meu carro ao amigo de Angie, um magricela de cabelos ruivos.

Ela havia me prometido que ele nos ajudaria a encontrar o carro. E de fato, pouco tempo depois, sem ter idéia de como isso havia sido conseguido, eu tinha em mãos o endereço do posto de gasolina onde meu carro era abastecido pelo menos duas vezes por semana. Eu queria ir naquela mesma noite, mas Angie não permitiu. Me levou pra casa e pediu pelo amor de Deus que eu fosse descansar.

- Mãe, posso falar com você? - Perguntei, parado à porta do quarto de minha mãe, que fechou seu livro e retirou o óculos do rosto, concordando levemente com a cabeça.
- Aconteceu alguma coisa? - Concordei com a cabeça, me sentando na beirada da cama.
- A mãe da 'tá muito doente, mãe. - Contei, coçando a nuca - Ela tem câncer de mama, e ele se espalhou, eu não sei como se chama, eu me esqueci, mas... Ela... Ela 'tá mal, e ela precisa fazer uns exames caros, e uma cirurgia mais cara ainda...
- Calma, , calma, fala devagar! - Mamãe pediu, empalidecida.
- Mãe, eu preciso ajudar... - Falei, sentindo que a que a qualquer momento eu poderia chorar, talvez fosse o cansaço mesclado com a má alimentação e o whisky – Preciso ajudar, eu não sei como, mas... Eu não posso fingir que nada aconteceu.
- Calma, filho, olha... - Mamãe umedeceu os lábios, mas ela também não sabia o que dizer, por isso me abraçou com força, fechei meus olhos da mesma forma, eu temia tanto por , eu apenas gostaria de saber como ela estava naquele momento - Nós também não temos muito dinheiro agora, mas você pode falar com a Angie e você pode tocar lá, daria algum dinheiro, como um evento beneficente...

Enquanto mamãe falava, afagando meus cabelos, me livrei do tênis e me encolhi sobre sua cama. Uma angústia ainda maior me acometeu quando passou pela minha cabeça que pudesse ser minha mãe. A vulnerabilidade veio com maior facilidade ao pensar sobre isso, me fez recordar a fase ruim pela qual passamos, a barra que tivemos de segurar. Mas apesar de tudo, por um momento, eu quis estar no lugar de , apenas para poupá-la daquela dor, daquele sofrimento.

- Um evento beneficente! - Exclamei, sentando melhor e olhando para minha mãe, que parecia assustada, notei que eu estava cochilando, e ela provavelmente estava também - Eu posso falar com os caras, e com o diretor, podemos usar a quadra do colégio e fazer um festival de música, e o dinheiro arrecadado vai para a mãe da .
- Viu só? É uma ótima idéia, filho. - Sorriu daquela forma maternal - Por que você não toma um banho, agora, e descansa?
- É, vou fazer isso.

A noite parecia não passar, como se os ponteiros estivessem travados em alguma parte, impedindo que o sol viesse e que eu pudesse me levantar daquela cama e tentar, com a luz do dia, me livrar daquela angústia. Como se isso realmente pudesse acontecer. Pensei em mil e uma maneiras de me acercar de , oferecer-lhe meu apoio, minha ajuda, um abraço, talvez. Mas ela não me daria abertura e eu estava certo disto.

- , posso falar com você? - Pedi, assim que me acerquei o suficiente para que minha voz pudesse ser ouvida por ela, todos eles se voltaram em minha direção, exceto por , que desviou seus olhos para o outro lado.
- Pode? - Respondeu, , com estranhamento - Vamos... - Ela se acercou e eu comecei a andar para o lado oposto, tentando apagar da minha mente as olheiras escuras de - Aconteceu alguma coisa?
- Eu já sei sobre a mãe da . - Murmurei, temendo que alguém pudesse nos ouvir, mesmo que já houvesse alguma distância.
- Sabe? Como sabe? Quem te contou, ? - Ela perguntou, rapidamente, parando de anda.
- Hey, calma! - Pedi, olhando-a de esguelha.
- Calma? A gente tem mantido isso sob os panos porque as pessoas não sabem como lidar o sofrimento alheio, iriam zombar dela, como sempre fizeram e ela já...
- ! - Segurei-a pelos ombros, tentando interrompê-la com isto - O pai dela me disse.
- Ah, por favor, meu tio não conversou com ninguém sobre isso, é como se ele nem soubesse de nada... - Aquilo me pegou de surpresa, mas não permiti que desvirtuasse minha atenção.
- , seu tio foi ontem à noite no pub e ele mesmo me contou, talvez precisasse desabafar, estava um pouco bêbado também, me contou sobre tudo, ok? Eu estou falando a verdade! - Falei pausadamente, ainda segurando-a pelos ombros, como se isso fosse fazê-la entender e manter-se calma.
- Tudo bem, então... - esfregou o rosto - O que você quer saber mais? Se ele te disse tudo...
- Eu quero saber como ela está, se ela 'tá precisando de alguma coisa, eu preciso... Preciso que você me diga, porque ela não vai deixar que eu me aproxime...
- , como você quer que ela esteja? - foi hostil, mas não me senti ofendido por isto - Ela tem sido a pessoa mais forte do mundo dentro de casa, ela está cuidando da mãe, de Ryan, e do meu tio também, então enquanto ela está lá, ocupada com eles, ela se mantém firme, porque ela não pode fraquejar... - Assenti, sentindo o peso do que ela dizia em meus ombros - Mas quando ela sai de lá, ela não sabe o que fazer, ela desaba, , e ela precisa de muito apoio agora, ela precisa se distrair, e foi por isso que ela se apegou ao James, porque ele sempre propõe um programa, então ele a tira de casa, e embora seja difícil convencê-la que ela precisa disso, ela acaba saindo e se distraindo... Entende?
- Eu não confio no James, . - Murmurei, entre dentes, serrando minhas mãos em punhos - Eu não o quero perto dela.
- Nem eu, mas agora não tem nada que possamos fazer, é um momento ruim, não posso dizer a ela o que aconteceu aquela noite...
- Não quero que diga! - Exclamei - Nunca quis... - Deixei claro e esfreguei meu cabelo com uma das mãos - Mas... Deixa pra lá, , eu vou... Cuide dela, ok? Só cuide dela por mim.
- Eu já estou fazendo isso...
- Sim, eu sei... - Fechei meus olhos e respirei fundo, depois voltei a olhá-la - Me mantenha informado, por favor.
- Eu farei isso, , se acalme.
- Ok, obrigado. - Assenti e comecei a andar, devagar, para o lado contrário.
- ! - Ela me chamou e eu me virei pra trás, o sol me fez semicerrar os olhos, contraiu o cenho e engoliu em seco, pude ver - Me desculpa.
- Pelo que? - Neguei com a cabeça, confuso.
- Por ter estragado tudo.
- Não foi você quem estragou tudo... - Sorri, sem humor - Fui eu.

Capítulo 23.
"I said, for you I'm a better man"
(Better Man - James Morrison)

Meu coração parecia inchar, batendo com uma força e rapidez alucinante, meus dentes trincados e meus punhos fechados não me permitiam disfarçar a raiva. Eu podia sentir aquela mágoa pulsar em minhas veias, o mesmo rancor que eu senti quando Hector destruiu meu barco de brinquedo quando eu tinha sete anos. O mesmo asco que tive ao ver James com desfalecida em seus braços. O mesmo ódio que surtiu ao que vi minha mãe naquela cama de hospital. Multiplicado. Ainda não tem nome para o que eu senti ao ver meu pai descer da Tucson para falar com o frentista. Ele estava tão... Bem. Estava mais magro, corado, seus cabelos mais escuros e um sorriso cheio de uma saúde que eu não via em minha mãe. Ah, é! Ele tirou isso dela.
Eu dei um passo em direção à porta de saída da loja de conveniência, mas a mão de Angie me impediu de continuar. Ela tinha outro plano, que deveria ser seguido, mas eu não podia suportar a gana de rodear seu pescoço com as minhas mãos e fazê-lo se desculpar antes de ficar completamente roxo. Eu queria bater nele, tanto quanto queria ir embora e nunca mais ter que olhar pra cara dele novamente.

- , tenta se acalmar, ok? - Angie pediu, daquele jeito que faz parecer fácil - Eu sei que você quer matar ele, eu sei disso, mas nós precisamos usar a cabeça, ok?
- Posso dar uma cabeçada nele, também. - Respondi automaticamente, sem deixar de olhar para aquele que se dizia meu pai, Angie soltou uma risadinha e me abraçou por trás, segurando meus punhos e acariciando-os, era como mágica, ela sabia me desmontar.
- Pode fazer o que quiser quando descobrirmos onde ele está morando, mas agora, nesse minuto, você vai ficar bem aqui, comigo, sendo paciente. - Bufei, rolando os olhos e me voltando pra ela - Não é?
- É. - Rolei os olhos.
- Então ok, prepare-se, ele tá entrando no carro, vamos segui-lo.

Foi o que fizemos. Entramos no carro de Angie e avançamos logo atrás da Tucson. Não levou muito tempo até ele estacionar o carro em frente a uma casa bege. Não era grande, dois andares, janelas extensas, uma varanda aconchegante e um jardim vivo. Um cachorro, grande e peludo, se aproximou de meu pai assim que ele desceu do carro, abanando a droga do rabo. Logo uma mulher, jovem e bonita, saiu pela porta, com um short mais curto que minha paciência e cabelos na cintura. Vê-la beijá-lo na boca encheu a minha de uma amarguidão estranha, como se eu fosse vomitar. Senti a mão de Angie sobre a minha, que estava agarrada fortemente à minha calça jeans, eu tremia dos pés a cabeça. Nunca me senti tão mal pela felicidade alheia... Mas naquele dia, eu desejei ter uma bomba.

- Posso descer agora? - Pedi, me virando para Angie, que sorria com carinho, seus dedos massagearam minha bochecha de maneira confortável, fechei meus olhos por um instante e foi como se tudo estivesse bem, mas a sensação foi mais breve do que eu gostaria.
- Vai lá, e me faz um favor? - Assenti devagar - Tire toda essa merda de raiva de dentro de você, acabe com ele, mas não com você mesmo.

Acatei ao pedido de Angie como um "vai lá e quebra ele ao meio". Desci do carro e comecei a caminhar em direção ao jardim, tão bem cuidado. Só quando eu estava bastante próximo eles se deram conta da minha presença. Meu pai empalideceu, e a menina, sim, era só uma menina, pareceu não saber quem eu era.

- Entre, Marrie. - Pediu meu pai.
- Por quê? - Quis saber.
- Olá, Marrie, sou , tudo bem? - Estendi minha mão em sua direção, ela me sorriu de maneira simpática e me cumprimentou - Então é você, minha nova madrasta? - A piada pareceu não ter humor pra nenhum de nós.
- Você... - Ela murmurou, examinando meu rosto, depois virou-se para Allan, que continuava a me encarar, sem reação.
- Então é aqui que você vive... - Olhei ao redor, assentindo - Belo lugar, bela casa... Bela vadia também.
- ...
- Não me repreenda... - Ordenei, sem titubear - Você não tem direito algum pra isso, você é só um porco pra mim, e eu não costumo obedecer a animais!
- O que você quer aqui? - Ele me perguntou, a resposta estava na ponta da minha língua, mas de repente me fugiu.
- Ver como você está. Ver se sua nova casa e se sua nova mulher vale o que eu tenho passado na casa que você deixou, com a mulher e a filha que você abandonou sem nenhum remorço. - Disparei, sentindo minhas veias pulsarem.
- , eu posso explicar...
- Eu não quero saber! - Exclamei, negando com a cabeça - Nada, absolutamente nada do que você diga vai justificar o que você fez, a maneira como você foi embora sem deixar pra trás uma nota presa na geladeira. Que porra você tem na cabeça, Allan? - Minha voz começava a se alterar e eu não podia evitar - Eu fico me perguntando... Que tipo de coisa essa garota fez pra te tirar da sua casa, da sua mulher, dos seus filhos... Ela deve ter mel na boceta! - Gritei, um baque mudo veio em seguida quando sua palma se chocou contra minha bochecha, meu rosto pareceu inchar instantaneamente, mas eu fingi não sentir dor - Isso não me machuca, Allan.
- , pelo amor de Deus! - Seus olhos se apertaram enquanto ele esfregava o rosto nervosamente.
- Será que você pensou, por um minuto, que eu e não queremos mais olhar na sua cara? - Perguntei em um tom quase embargado - Que seus próprios filhos, as crianças que você viu nascer, criou... Já parou pra pensar que nós queremos que você morra? - Ele me olhou, seus olhos de repente se tornaram vermelhos, úmidos.
- O que você quer, ? - Perguntou de maneira chorosa, ergui minha cabeça, segurando minhas lágrimas.
- Eu queria olhar pra tua cara uma última vez. - Falei, com asco.
- Então você já pode ir embora.

Assenti, sentindo meus olhos cheios d'água, umedeci meus lábios e dei as costas para o homem que eu não conseguia reconhecer. Dei alguns passos em direção ao Maverick, Angie estava parada do lado de fora, com um olhar paciente, mas ao mesmo tempo era como se ela estivesse pronta pra separar uma briga... "Acabe com ele, mas não com você mesmo"... Ela dizia em minha mente, repetidas vezes, eu me perguntei se eu estava aliviado, se meu nojo e minha raiva haviam passado, e descobri que não.
Angie contraiu o cenho quando eu neguei com a cabeça e dei a volta, caminhando em passadas largas até Allan, agora de costas para mim. Eu não o atingiria desta maneira, eu faria como ele mesmo havia me ensinado: encare seus problemas de frente.

- Vire aqui pra mim, papai. - Pedi, sentindo meus lábios úmidos pela saliva acumulada em minha boca, ele virou-se, confuso, mas antes que eu pudesse pensar duas vezes e ponderar o que estava prestes a fazer, segurei o colarinho de sua camiseta polo e acertei meu punho em um de seus olhos.

Ouvi o grito de horror vindo de Marrie, meu pai não disse nada, a princípio, depois eu sufoquei meu próprio nome em sua boca com um murro, seus lábios rasgaram em diferentes pontos, sujando meus dedos. A adrenalina liberava uma força que eu reconhecia em mim poucas vezes, mas naquele momento ela pareceu ainda maior. Nada podia me fazer parar, exceto por seu punho, na maçã de meu rosto, me afastando num único soco. Dei dois passos pra trás e senti minhas pernas cederem, ao que meu quadril tocou o chão, senti o perfume de Angie mais próximo.
Meu pai me olhava como se não me reconhecesse, e naquele momento senti, estávamos quites.

- É seu carro que você quer? - Ouvi sua voz quebrada perguntar, retirou as chaves do bolso e jogou em minha barriga, me levantei, ainda um pouco atordoado e da mesma maneira como veio, a chave voltou, com uma força desmedida.
- Não quero nada de você... Nada! - Gritei, sentindo meu corpo tremer dos pés a cabeça, passada a adrenalina, os efeitos começavam a surtir - Eu odeio você.

Deixei claro, bem perto do seu rosto ensanguentado, antes de juntar toda a saliva que havia em minha boca e cuspir contra ele. Meu pai pareceu mais assustado do que em qualquer outro momento desde que cheguei ali. Segurei Angie pelo braço e a arrastei comigo de volta ao carro. Ela nada disse, apenas entrou e deu partida, me levando pra longe daquele lugar, o qual eu não pretendia me lembrar do endereço mais tarde.
No caminho até em casa tentei não pensar em nada, em nenhum dos problemas, e tentei, também, não ficar tentando encontrar soluções pra tudo. Tentei não me arrepender de nada do que fiz e jurei a mim mesmo que jamais me tornaria alguém como meu pai... Se é que ele pode ser considerado "alguém".

- O que aconteceu? - Mamãe desesperou-se ao ver meu rosto, havia um corte raso, fino, na bochecha direita. Mamãe devia enxergar isso como se eu estivesse sem os olhos, pela sua expressão horrorizada.
- Nada, eu briguei com um cara. - Omiti a verdade, ela não merecia desgosto maior do que já tinha tido.
- Que cara? Por quê? - Perguntava, tirando do armário uma bolsa pequena de primeiros socorros.
- Nada de mais, mãe, rolos antigos. - Tentei acalmá-la enquanto ela embebia um algodão com soro fisiológico.
- Você tem que parar com essa mania de sair socando todo mundo que te contraria, . - Ri, ignorando sua bronca e abraçando-a com força antes que ela começasse a cuidar da minha ferida, fechei meus olhos, agora úmidos, e engoli o choro.
- Eu te amo, mãe.
- Está tudo bem, filho? - Ela perguntou, e sem ver seu rosto, eu sabia que ela estava com aquela expressão preocupada, sobrancelhas unidas, olhos meio arregalados...
- Sim... Agora está tudo bem.
Capítulo 24.
"I hate to look into those eyes and see an ounce of pain"
(Sweet Child O' Mine - Guns N' Roses)

- Bom dia, pessoal... - Minha voz trepidou, rouca, não por causa de toda aquela gente me olhando, mas o frio decidiu dar o ar da graça naquele dia - Estou aqui hoje pra anunciar pra vocês um projeto beneficente que eu estive preparando nos últimos dias... - Enquanto eu pensava em como explicar, notei os cochichos intensos por todo o anfiteatro; eu não os culpava, eu também estaria surpreso de me ver ali, comunicando sobre algo do tipo - Nós, da banda McFLY, em parceria com o pub Ducati e o diretor, estamos organizando um festival de música, será realizado no dia 20 de setembro, aqui na quadra do colégio. Todo o dinheiro arrecadado vai ser destinado a uma instituição que cuida de pacientes com Câncer... - Só quem sabia da verdade éramos eu, Angie e o diretor, ninguém mais precisava saber, desde que eles concordassem - Vocês poderão participar do festival de três maneiras: podem ajudar na organização, entretanto tem um limite, será uma equipe de 25 pessoas, nada mais. - Expliquei e podia vê-los comentar uns com os outros - Vocês também podem montar barracas de comida, bebida, brincadeiras... Vai haver uma renda disponível pra isso, pequena, mas é o suficiente... E por fim, vocês podem se apresentar no palco principal, independente do estilo musical, é só colocar seu nome ou o nome da banda na lista, que vai ficar comigo, ou com os caras, ok? Alguma pergunta? - Ninguém se manifestou a princípio - Então, qualquer coisa é só me procurar, valeu. - Conclui e deixei o microfone ao lado sobre o púlpito, o diretor se acercou e começou um discurso como os de sempre, sobre como é bom ver os alunos dele se dedicando a algo tão gentil e coisas do tipo.
- Cara, que legal, você foi muito bem, tomara que dê certo! - dizia, empolgada; assenti, preocupado com o tempo que parecia correr quando eu pensava sobre a mãe de , sobre a urgência com a qual eu precisava daquele dinheiro.
- Tomara mesmo, .

Sorri fraco para ela e depois me afastei. Ao sair do anfiteatro, vi sentada ao lado da porta, encostada na parede, com um gorro de lã verde cobrindo seus cabelos e suas orelhas, seus olhos estavam fechados, seus cílios úmidos. Suas bochechas estavam empalidecidas, assim como seus lábios ressecados. Meu coração doeu, doeu de uma maneira que parecia me sufocar, tirar toda minha felicidade, toda minha vivacidade. Me senti tão apático quanto ela.

- ... - Chamei seu nome, baixo, agachando-me ao seu lado. Ela demorou até abrir minimamente seus olhos e focalizar meu rosto com eles - Está se sentindo bem?
- Estou... - Soprou, depois passou as mãos finas e trêmulas pelo rosto - Você me assustou. - Disse ela, voltando a me olhar, mas parecendo um pouco dispersa.
- Desculpa... Achei que estivesse se sentindo mal. - Justifiquei, ainda examinando seu rosto - E ainda acho que está.
- Já disse que estou bem. - Até seu tom hostil estava enfraquecido, respirei fundo e arqueei minhas sobrancelhas.
- Acho que vou te levar daqui pra você comer e descansar... - Eu disse, como se falasse comigo mesmo.
- Você não vai me levar pra lugar nenhum, aliás, me deixa sozinha, por favor. - Ela pediu, mas desta vez não respeitei.
- Acho que não. - Neguei com a cabeça e me levantei - Vem, vamos comer alguma coisa...
- Por que você acha que eu vou pra qualquer lugar com você? - Perguntou subitamente, levantando, mas da mesma maneira com a qual avançou, retornou e encostou-se à parede. até tentou disfarçar, mas seus lábios tremeram e suas pálpebras demoraram a se abrir novamente, segurei-a pelos ombros, sentindo minha garganta secar.
- Porque você não está em condições de negar... - Murmurei, passando meu braço ao redor do seu corpo e começando a andar com ela apoiada em mim, mas de repente senti suas mãos me empurrarem, sem força.
- Me solta! - Pediu, encostando-se à parede.
- , que teimosia! - Reclamei, vendo-a andar para o lado contrário.
- Eu não estou muito bem, mas estou em condições de negar qualquer coisa que venha de você, diferente do dia em que você dormiu comigo! - Exclamou, me calei, principalmente porque algumas pessoas começavam a sair do anfiteatro.
- ... - Chamei, me acercando com calma - Eu não fiz nada com você naquela noite. - Esclareci, tentando criar uma história diferente da que realmente tinha acontecido - Não aconteceu nada entre nós.
- Não minta pra mim! - Ela disse, virando-se em minha direção com os olhos marejados, neguei com a cabeça.
- Não estou mentindo, você estava muito bêbada, eu só te levei pro meu apartamento porque você 'tava passando mal, nada aconteceu, nós só dormimos, eu juro, juro por mim, pela minha mãe...
- Não faça isso! - Sua voz saiu mais alta, seus olhos estavam arregalados e suas bochechas ganharam um tom avermelhado, contraí o cenho - Não jure pela sua mãe, não faça isso, ela não tem nada a ver com as idiotices que você comete... - Ela apertou os próprios olhos, derramando algumas lágrimas, senti meu estômago gelar, me arrependendo do que havia dito – Ela não tem nada a ver com as suas mentiras e fraquezas!
- Tudo bem... Eu... ... - Segurei seus braços com cuidado, ela se encolheu instantaneamente - Por favor, me escute... Eu não fiz nada com você, eu seria incapaz...
- Mentira! - Bradou, abrindo os olhos avermelhados, contraí o cenho - Mentira, um dia antes você já tinha tentado!
- ... - Encolhi meus lábios e respirei fundo, ela tinha razão, não tinha motivos pra acreditar em mim - Eu... Eu fiz aquilo porque estava com raiva, mas... Mas naquela noite não houve nada, assim como eu não consegui concluir na noite anterior, , eu seria incapaz de te machucar...
- Eu não posso acreditar em você de novo... - Negou com a cabeça, permitindo-se chorar.
- ! - se acercou, neguei com a cabeça, sem vontade de me explicar ou fazer qualquer coisa que não fosse abraçar - O que aconteceu?
- Explica pra ela que eu não faria isso com ela, , explica que eu não transei com ela aquela noite! - Pedi à garota, que abraçava pelos ombros e me olhava como quem pede clemência.
- Eu vou falar com ela, tá bem? Agora é melhor você ir. - Disse, de maneira gentil.
- Me deixa levar vocês pra casa, ela precisa comer alguma coisa, ela estava passando mal. - Murmurei, olhando de para , que encolhia-se nos braços da prima.
- , vamos? Ele nos dá uma carona até sua casa...
- Não quero ir pra casa. - Ouvi-a sussurrar, com os olhos apertados.
- Vamos pra minha... - Sugeri.
- Você topa? - perguntou a ela, que pareceu descartar imediatamente a possibilidade.
- Por que não vamos pra sua? - Perguntou a , num sopro.
- Porque não podem saber que eu mato aula, . - Esclareceu ela, com um sorriso divertido que fez mudar um pouco sua expressão, não ia sorrir, mas pareceu querer tentar.
- Então por que não vamos até um restaurante qualquer? – Elas se entreolharam, depois depositaram sua atenção para mim novamente – Por minha conta! – Acrescentei.
- Tudo bem. - assentiu, sem vontade, e voltou a encolher-se contra , que me olhou com um sorriso leve.
- Vamos, então.

Falei com o diretor, pedindo sua permissão; ele, por saber de tudo o que estava se passando com , não interferiu. Caso tivesse feito, eu teria como sair, só quis ser legal mesmo. Avisei aos garotos o que ia fazer, ficou de rabinho abanando, mas eu não permiti que ele nos acompanhasse, não queria que parecesse um encontro de casais... Não ainda.

- Que carro é esse? - perguntou quando eu abri a porta da frente do Notchback bege, comecei a rir imediatamente.
- Meu Old Beetle. - Zombei, arrancando uma gargalhada de e um riso fraco de , que optou por ir no banco de trás.
- O que aconteceu com seu carrão? - quis saber, sorri sem vontade, mas nem de longe eu deixava aquela amargura tomar posse de mim.
- Muitas coisas aconteceram, esse aqui nem é meu, é emprestado... - Dei uma resposta que não precisasse explicar o que, realmente, tinha acontecido - Sou um cara pobre agora.
- A gente logo vê, quando você coloca aquele aventalzinho. - zoou, gargalhei.
- Pra você ver, a escapou na hora certa, não posso mais dar um futuro digno pra ela. - ainda ria, mas nada disse, eu já esperava por isso.

Paguei pelo estacionamento do Queen's Park, não haviam muitos carros ao redor, ainda que durante a semana os preços baixassem consideravelmente. foi caminhando na frente, tão próxima da margem do lago que eu temi que ela pudesse deslizar pra dentro dele a qualquer passo.
Senti os olhos de sobre mim, ao retribuir o olhar percebi que ela tentava me transmitir algum tipo de conforto, como se dissesse que ficaria tudo bem caso eu tivesse paciência. Ou era isso o que eu queria que ela dissesse e acabei refletindo nela. Mesmo assim tentei um olhar agradecido, enterrando minhas mãos no bolso da calça.
Atravessamos quase todo o parque até chegar a um restaurante/café que havia situado do outro lado do lago. Apesar do tempo nublado, escolhemos uma mesa do lado de fora, no tablado que ficava acima da água. Duas senhoras passeavam de pedalinhos, eram as únicas por ali.
O silêncio era notável, ainda assim era bom estar ali. Era certo. Até ali parecia encaixar-se ao cenário, mesmo depois de tudo o que havíamos passado, todas as desavenças, eu passei a confiar nela, mesmo sem motivos pra isso. Finalmente eu parecia tê-la perdoado, e isso também me fazia bem. É sempre um alívio deixar de odiar uma pessoa, seja ela quem for.
Eu estava calado, notei. Elas estavam conversando algo sobre ir para Little Lever, uma vila no sudeste de Bolton, para algum tipo de evento como a inauguração de uma biblioteca ou algo assim. Por um momento me esqueci de tudo o que havia acontecido nos últimos meses, todos os acontecimentos tão desagradáveis, era como se eu e ainda estivéssemos juntos, como se eu pudesse puxar minha cadeira para mais perto da dela e enlaçar seus ombros miúdos no meu braço... Era ruim quando essa sensação me perpassava, e isso acontecia com frequência quando estávamos por perto, pois em seguida minha consciência me alertava de que eu precisava reconhecer a realidade, e a realidade era exatamente o contrário: não estávamos juntos e nada disso estava sob meu alcance, por este motivo eu estava sentado tão afastado, apenas ouvindo-as conversar enquanto manuseava o enfeite da mesa.
- Os pedidos estão demorando, né? - Comentei, tentando me incluir no diálogo, ambas se calaram e me olharam por um tempo.
- Sim, já faz 10 minutos que pedimos – ironizou, semicerrei meus olhos antes de rir – Está com pressa, ?
- Não... É que vocês entraram em um assunto de meninas, e eu acabei ficando com fome – Me defendi.
- Não era um assunto de meninas – discordou – Mas então, qual seria um assunto másculo o suficiente pra que você se sentisse à vontade para falar, ? – dizia, com um sarcasmo estampado no rosto, fazendo-me gargalhar.
- Podemos falar sobre o que vocês pretendem fazer no festival de músicas.
- Nós vamos olhar, bem de longe, vocês trabalhando – Respondeu , de imediato.
- Poderiam, ao invés disso, ajudar. – Disse, de maneira irônica – Tem muita coisa pra fazer. – Soltei um suspiro, escorregando um pouco mais meu quadril na cadeira e perdendo totalmente minha postura.
- De qualquer maneira, é muito legal o que está fazendo, ... – disse, e em seguida olhou para – Não é, ?
- É sim. – Disse, em um tom de voz manso – E podemos ajudar no que for preciso. – Acrescentou, sem me olhar diretamente.
- Obrigado, , toda ajuda será bem vinda.

Nossos pedidos não levaram muito mais tempo pra chegar à mesa. Eu, particularmente, não estava com fome. Mas não queria que percebesse que eu estava ali somente por ela, isso faria com que ela se retraísse. Eu tinha de aprender a amá-la menos para ter a oportunidade de amá-la.
No caminho até a casa de , pediu que eu a deixasse primeiro, já que ficaria fora de mão fazer o contrário. A ansiedade me assolou no momento em que eu imaginei e eu, sozinhos no mesmo carro, depois de tanto tempo. Pensei, então, que para ela a sensação devia ser potencializada. Ficar sozinha comigo poderia ser a última coisa que ela queria... Mas não se manifestou.

- Obrigada pelo almoço, , foi bem divertido. - disse ao saltar do carro, depois olhou para - Você vai ficar bem?
- Sim. - Respondeu simplesmente, sentando-se ao meu lado, no banco do passageiro, e colocando o cinto.
- Qualquer coisa me liga, então.
- Ok. - beijou a cabeça de antes de fechar a porta e correr para a varanda de sua casa, tentando se esquivar da chuva fina que caía.
- Hm... Quer escolher um cd? - Perguntei, abrindo o porta-luvas. Como nos velhos tempos.
- Pode ser. - Ela murmurou, pegando a caixa de cds - Damien Rice?
- É um cantor, tem algumas músicas bem legais. - Comentei, ela esticou o cd, colocou-o no rádio e em breve um toque suave começou - Cannonball... - Notei seus olhos me buscarem, procurando explicação - É o nome dessa música.
- Hum... - Seu rosto se voltou para a janela, tamborilei meus dedos no volante, acompanhando a música com a mente, cantando-a em silêncio.
- Vai ter um show dele em Londres no fim do mês, nós podíamos conversar com o professor Dawson e pegar nosso prêmio, ainda se lembra? - Perguntei, arriscando um assunto, ela assentiu, olhando pra fora.
- Tudo bem. - Concordou, sorri, com uma pequena esperança flamejando em meu coração.
- There's still a little bit of your ghost, your witness... - Cantarolei, olhando pra frente e ouvindo-a respirar devagar, profundamente - There's still a little piece of your face I haven't kissed...

O caminho foi mais curto do que costumava ser. Eu queria mais tempo ao seu lado, mesmo que não fizéssemos nada, ou disséssemos coisa alguma, eu não me importaria de passar o dia todo ao seu lado, naquele silêncio nostálgico. Não era incômodo, era confortável.

- Pronto. - Murmurei, estacionando o carro em frente à sua casa, ela não se moveu, não tirou o cinto ou disse coisa alguma, apenas ficou em silêncio, parada ao meu lado.
- Obrigada... - Agradeceu, sem me olhar, sorri.
- Não tem de quê, sempre que você precisar de algo, , você pode me ligar. - Disse livremente o que estava preso em minha mente há horas - Você pode ir até minha casa, quando quiser algum lugar pra ir.
- Posso te pedir o cd emprestado? - Perguntou, parecendo envergonhada. Me estiquei e peguei a capa dele dentro do porta-luvas, depois o retirei do rádio e guardei-o em seu devido lugar, estendendo pra ela.
- Pode ficar. - Ela pegou a capa e assentiu.
- Obrigada, te devolvo amanhã. - Murmurou.
- Não, pode ficar, mesmo. - Repeti, pra que ela entendesse que aquilo era um presente.
- Não, eu só quero ouvir, eu te devolvo...
- ... - Ri, sem jeito - Estou te dando o cd, fique pra você.
- Hum... - Ela me olhou, pela primeira vez, dentro dos olhos e sorriu brevemente - Obrigada.
- Espero que você goste.
- Eu vou. - Ela sorriu de maneira desajeitada e colocou-se pra fora do carro, encolhendo-se como se as gotas da chuva fossem desistir de tocá-la por pena, ou fazer um caminho diferente para longe de seu corpo.
- ... - Chamei, pouco antes que ela fechasse a porta do carro, meu coração batia forte e eu temi que o barulho da chuva, agora mais forte, abafasse minha voz, mas eu precisava dizer - Eu te amo.

Capítulo 25.
"I die when he comes around to take you home"
(Cheers Darlin' - Damien Rice)

- Quer entrar? - Angie chamou, parada em frente ao condomínio.
- Angie... - Talvez fosse a hora de admitir - Algumas coisas mudaram pra mim, e eu... Eu acho melhor sermos só amigos.

Nos últimos dias vinha sendo difícil dar atenção à Angie, mesmo que apenas sexual, eu estava ocupado demais me preocupando com . Tínhamos nos aproximado na última semana, almoçamos juntos pelo menos três vezes depois da primeira, sempre estava junto e, no último dia, , e também foram. Ela parecia se divertir e esquecer um pouco de como as coisas estavam conturbadas dentro de sua casa. Ela não havia falado nada sobre isso e eu também não perguntei, não queria obrigá-la a pensar em coisas desagradáveis, minha missão era fazê-la dispersar-se disto.

- Faz quanto tempo que você está tentando me dizer isto? - Angie perguntou, risonha.
- Ah... Alguns dias, Angie. - Ri, sem graça - Me desculpe ter te enrolado...
- , não é como se eu tivesse esperando um relacionamento sério, relaxa.
- Vou ser despedido? - Perguntei, rindo junto a ela.
- Vai, vai ser despedido se não entrar comigo agora pra gente se despedir.

Assim que entramos, Angie deixou seus casacos sobre o sofá, coberto por uma manta colorida. Pediu que eu ficasse à vontade enquanto preparava duas doses de whisky. Após entregar a minha, ordenou que eu esperasse ali até segunda ordem e sumiu em um corredor. Seu apartamento era pequeno, sala e cozinha juntas, separadas apenas por um balcão de mármore. Era tudo um pouco desajeitado, como se ela não tivesse tempo de arrumar. Tive a impressão que aquilo tudo era intocado, como por exemplo a tv, parecia nunca ter sido ligada.
Ouvi uma música de batidas divertidas começar, sorri, tomando um gole do meu whisky. Senti meu corpo todo estremecer num espasmo intenso, apertei os olhos e respirei fundo, depois tomei outro gole, e outro, até acabar com o conteúdo no copo.

- , vem cá! - Ela gritou, prendi o riso e me levantei, seguindo até o corredor, a escuridão me impossibilitava saber o que me esperava, mas continuei andando.

Senti, pouco tempo depois, Angie me abraçar por trás, em um instante eu não via mais nada, ela havia me vendado e agora me conduzia. Comecei a rir, tentando descobrir o que ela pretendia, mas ela não diria. Eu gostava disto. Senti meu corpo tombar numa superfície macia, logo meu quadril foi pressionado pelo que imaginei ser o seu. Suas mãos excursionavam meu peito, alisando-o sobre o tecido grosso do suéter, que logo não estava mais em meu corpo, fazendo caminho junto com minha camiseta.
Angie segurou ambas minhas mãos nas suas e começou a arrastá-las por alguma parte de seu corpo, lisa, quente, rígida. Talvez suas coxas, ou sua cintura. A curiosidade aguçada me fazia sorrir, ao mesmo tempo em que eu queria tirar a venda e saber o que ela estava fazendo, eu queria permanecer vendado pela excitação que aquilo estava me proporcionando.
Senti os bicos rijos de seu seio sob minhas palmas e tomei a liberdade de trabalhar sozinho com minhas mãos, apertando-os e massageando-os com calma. Eu ouvia os suspiros ruidosos vindos de Angie, enquanto seu quadril movia-se exatamente sobre minha ereção, que se formava pouco a pouco.
Senti seu corpo debruçado sobre o meu, sua língua sobre meus lábios, depois em meu queixo, pescoço, peito, barriga... Sem minha ajuda, retirou minha calça e minha boxer, dedicando-se a me chupar, nada mais. Angie sabia o que fazer, e era boa no que fazia. Eu não precisava conduzi-la, é como se ela sentisse a hora certa para intensificar os movimentos, quando deveria sugar, ou simplesmente lamber. Aw, eu sentiria saudade daquela boca.
Angie desistiu do jogo antes de mim, arrastando-se sobre meu corpo e retirando minha venda. O escuro limitou minha visão sobre seu corpo, mas sua silhueta era o suficiente pra mim. Empurrei meu corpo sobre o seu e grudei minha boca em seu pescoço perfumado, com suas nádegas perfeitamente encaixadas em minhas mãos, guinei seu quadril em direção ao meu. Ela estava completamente nua. Eu deveria saber.
Ligeiramente, Angie escapuliu de mim e virou-se de costas, apoiando suas mãos na cabeceira, me ergui sobre meus joelhos e alisei a lateral de seu corpo, encostando-me em suas costas enquanto beijava sua nuca e orelha, alisando sua barriga, seios... Sua pele completamente arrepiada encostava-se a mim, não diferente. Ela empinava sua bunda, roçando-a pelo meu pau, que pulsava, pedindo abrigo.
Angie o segurou pela base e empurrou-o contra sua cavidade, apertei seu quadril contra o meu, descontando ali a intensidade das sensações. Conforme nos acostumávamos com a posição, eu aumentava a frequência de meus movimentos. Angie implorava que eu fizesse mais força, contorcendo-se contra a cabeceira. Eu assistia as gotas de suor escorregarem desde a raiz de seus cabelos, presos de qualquer jeito, e deslizarem por sua nuca e suas costas, até encontrarem-se com sua bunda, pressionada contra minha virilha. Nenhuma cena poderia ser mais erótica do que aquela.

- Eu estou quase lá, !

Apoiei uma de minhas mãos na cabeceira, junto à de Angie, e com a outra toquei seu sua intimidade, seu clitóris inchado implorava por um agrado. Foi preciso duas investidas mais fortes, em harmonia com os movimentos rápidos de meus dedos, para que Angie atingisse o ápice, junto a mim. Fomos perdendo o ritmo, e a força, até finalmente ficarmos paralisados, abraçados, recobrando a lucidez e a calma dos batimentos cardíacos.

- Quer um pouco mais de whisky? - Ela perguntou, soltando-se de mim e saindo pela porta do quarto, não entendi muito bem, mas deixei que ela fosse.
- Quero, obrigado. - Fiquei ali deitado, esperando até que ela voltasse, e voltou, trazendo junto meu celular, que vibrava entre seus dedos.
- . - Ela disse, contraí o cenho e rapidamente senti meu estômago gelar, sentei, com medo do que ela tivesse a me dizer e, receoso, atendi.
- Alô.
- , é a , onde você 'tá?
- Na casa da Angie, por quê? - Meu coração estava batendo devagar, com força, se algo tivesse acontecido, eu não saberia o que fazer.
- Tô na casa da , quer tentar algo?
- Tentar algo? Tipo o quê? - Contraí o cenho.
- Hoje é aniversário do Charlie, ele nos chamou pra ir em um pub, mas a vai levar o , quer ir?
- Espera, aniversário do Charlie, você quer que eu vá no aniversário do Charlie?
- Sim, o James vai chegar mais tarde, ele tem um jantar de sei lá o quê, a vai com a e o , mas isso pode mudar caso você vá, nós dizemos que o carro do está lotado e que você vai passar pegá-la, o que você acha?
- Não acho uma boa idéia, ela não é tonta. - Rolei os olhos.
- Ninguém está tentando enganá-la, vamos avisá-la sobre você, e ela tem o direito de negar... No fundo todos nós sabemos que vocês querem a mesma coisa.
- Ok, eu topo, mas que horas?
- Às 9.
- Eu vou pra casa agora, fala com ela e qualquer coisa me liga.
- Tá, até mais tarde.

Desliguei o celular e vi Angie sentada no parapeito da janela, olhando para fora, com seu copo de whisky na mão. Suspirei e me levantei, me sentindo um pouco constrangido por ter de dar a notícia de que eu estava indo embora pra sair com minha ex-namorada. Eu sabia que não tínhamos nada, e sabia que ela era uma mulher que não se apegava a nada, nem a ninguém, mas eu sentia que, naquele dia, havia algo diferente.

- Angie...
- Pode ir, . - Ela disse, sem me olhar.
- Não vai ficar chateada? - Ela me olhou, eu estava pronto pro maior riso de deboche da minha vida, mas ela sorriu sem força.
- Vou, na verdade, estou chateada por isso estar terminando e devo admitir que vou sentir sua falta, menino... - Traguei em seco, tentando digerir o discurso breve - Mas aqui não é seu lugar, não é a mim que você pertence, então vá e divirta-se, ok? Não se preocupe comigo.
- Tem certeza? Posso desmarcar com eles, acho até que vai ser um grande desastre essa noite...
- Tenho certeza absoluta! - Respondeu imediatamente - Se virar uma tragédia, você me liga... Adoro tragédias. - Rimos e trocamos um selinho.

Cheguei em casa faltando 40 minutos para as 9. Eu precisava estar pronto em meia hora, isso não era uma tarefa muito fácil levando em conta a chuva que tomei no caminho pra casa. O banho teve de ser rápido, apesar do frio e da má vontade que de repente me assolou. Vesti um jeans escuro, uma camiseta branca qualquer e a jaqueta de couro que Angie havia me dado, ela me manteria aquecido. Calcei meu vans e sequei meu cabelo, mas sem muita paciência pra ajeitá-lo, recorri ao gorro cinza.

- , você falou com ela? - Perguntei, assim que atendeu ao celular.
- Falei, ela disse que tudo bem ir com você. - Respondeu ela, acabando com parte da minha ansiedade, pronto, estava garantido.
- Certo, estou passando lá.
- Ok, não demora, nós estamos esperando vocês pra entrar.
- Tá.

Me despedi de minha mãe, ela e iam a algum restaurante com as funcionárias do salão e eu estava contente por saber que ela estava voltando a sair e se divertir. Às vezes eu ainda tinha vontade de contar a ela que eu sabia onde meu pai estava, como e com quem estava... Mas nunca quis correr o risco de vê-la afundar-se em sofrimento outra vez.
Coloquei meu cd do Red Hot Chilli Peppers no rádio e tirei o carro da garagem. Passei pelo posto de gasolina e em 20 minutos eu estava parado em frente a casa de . Eu não sabia se devia descer e tocar a campainha, ligar pra que ela viesse, ou buzinar. Perdi pelo menos 5 minutos parado, dentro do carro, olhando para o volante firmemente segurado por minhas mãos, eu sabia que se as tirasse dali, eu veria o quanto estava tremendo e isso não era agradável. "Sua mocinha!", me acusei antes de soltar meu cinto de segurança e pegar o guarda-chuva embaixo do banco, seguindo rapidamente até sua porta.
Após tocar a campainha, levou apenas um ou dois minutos pra porta ser aberta, me olhou, timidamente, e levou parte do cabelo atrás da orelha, suas bochechas rubras me fizeram sorrir, o que a fez recuar, baixando os olhos e mexendo em sua bolsa, na lateral de seu quadril.

- Você... Quer entrar? - Neguei com a cabeça, antes de responder:
- Não, eles estão nos esperando, fica pra outro dia. - Eu até gostaria de entrar, ver sua mãe, como tudo estava por lá, mas também sabia que aquele havia sido um convite cordial, nada mais, não era pra ser aceito.
- Tudo bem, então vamos.

fechou a porta atrás de si e eu peguei o guarda-chuva no chão, ela acercou-se, protegendo-se da chuva. Com a mão livre, tomei a liberdade de tocar suas costas, apenas para conduzi-la até o carro, um costume educado. Abri a porta do Notchback e ela entrou, sem hesitar. Ao fazer o mesmo, notei que ela estava nervosa. Com o tempo eu havia aprendido a decifrá-la. Para qualquer um, seria fácil perceber por suas pernas, que agitavam-se de um lado para o outro, mas talvez somente eu notava que, quando ansiosa ou envergonhada, mais precisamente quando não sabia o que fazer ou dizer, ela segurava a própria orelha, como se ajeitasse o brinco ali. Sorri, dando partida e chamando sua atenção pra mim.

- O quê? - Perguntou.
- Também estou nervoso. - Confessei, ela contraiu o cenho.
- Não estou nervosa. - Exclamou, mas sua voz saiu esganiçada, desafinada, como quando ela mente.
- Não? - Ri, com mais deboche e olhei-a de esguelha, rolou os olhos e negou com a cabeça, olhando para o outro lado - Tudo bem, então, mas eu estou.

Ela calou-se, apenas me deu uma olhada breve, percebi. Nos dispersamos, talvez com o mesmo propósito, nos livrarmos da tensão que de repente se instalou dentro do carro. Éramos apenas dois adolescentes, com a cabeça cheia de problemas emaranhados, tentando não pensar no quanto queriam ficar juntos depois de tanto tempo separados por motivos de força maior.
Assim que consegui estacionar o carro, soltou-se do cinto e desceu, fiz o mesmo logo em seguida, vi sair do carro de com ele, e , contrai o cenho e prendi o riso ao reconhecer aquele sorriso no rosto do bichinha. Cumprimentei-os e, apressadamente, entramos no pub.
Charlie pareceu confuso ao ver que nós nos aproximávamos da mesa onde ele estava sentado com seus amigos, dos quais eu só conhecia Matt e mais dois, do time de Cricket, do qual ele e faziam parte. Aos poucos fomos cumprimentando todos, Charlie nos pediu que ficássemos à vontade e ele não precisava nem ter dito. Em dois minutos estávamos acomodados, fazendo nossos pedidos.

- E aí, , tudo pronto pro festival? - Matt perguntou, parecia debochado, mas não tentei decifrar aquele sorriso esquisito.
- Na verdade, não, mas ainda falta tempo.
- Muitas bandas?
- Até agora 6 bandas e 1 cover da Taylor Swift, vamos ver no que dá, cara.
- Que legal! - exclamou, parecendo animada - E as barracas de comida?
- Ninguém se dispôs ainda. - Dei de ombros - Mas se até lá não surgir nada, eu converso com o diretor.
- Se você quiser, eu e a podemos tentar a barraca do beijo. - sugeriu e rapidamente fechou a cara, gargalhei, batendo na mesa.
- Ótima idéia, 2 pounds por um beijo no rosto, 4 um selinho e 6 um beijo de língua, o que você acha, ? - Meu amigo fez uma careta, ainda sem achar graça, ri mais alto, encostando-me em minha cadeira.
- Eu acho que a deveria ser o mascote, vamos vestir ela de pombo e fazer ela ficar correndo no palco. - Ele disse, provocando uma carranca na garota ao seu lado, mas logo estava abraçando-a e tentando agradá-la, o que também me fez rir.
- Agora sério... - deixou sua caneca de chope sobre a mesa e me olhou - Nós podíamos fazer uma barraca de doces, tipo, bolos, tortas, essas coisas... - Sugeriu, eu rapidamente acatei a ideia.
- Seria bem legal. - Concordei.
- A sabe fazer uns doces brasileiros que são muito bons! - exclamou, olhei pra , que pareceu se conectar a conversa somente ao ouvir seu nome.
- Oi? - Sorri, sem conseguir conter uma dose alta de encantamento que foi injetada diretamente em mim quando seus olhos se cruzaram com os meus.
- Estou dizendo que você sabe fazer doce brasileiro, e que podíamos fazer pra vender no festival de música. - resumiu, desviou seus olhos e assentiu, sem entusiasmo.
- Podemos.

Suspirei, entristecido com seu desânimo; embora eu pudesse compreender, era difícil vê-la assim. Eu estava orando todas as noites antes de dormir, às vezes até dormia antes de terminar e acabava acordando de madrugada, me sentindo culpado por isto. Mas Deus parecia estar ocupado para me atender, talvez fosse pecado pensar assim, mas eu mal podia esperar para ver o sorriso de novamente.

- O que eles tão fazendo aqui? - Ouvi a voz de James, deixei minha caneca sobre a mesa e fitei seu rosto indignado, com calma, sem mover um músculo.
- Hey, James, finalmente chegou, junte-se aí, cara. - Charlie convidou, puxando uma cadeira para o amigo, que ainda olhava de mim para , sentada ao meu lado.
- Você convidou ele? - Ele parecia revoltado, ri de leve, pegando minha caneca e tomando mais um gole, depois olhei para Charlie, que contraiu o cenho, dando de ombros.
- Relaxa, cara! - Matt disse, também rindo, James, contrariado, caminhou até a cadeira desocupada e se sentou, ao lado de , quase em frente a mim e , que respondeu delicadamente ao seu aceno.

O clima, de repente, ficou pesado. Ou talvez fosse a raiva que eu sentia por James que me trazia essa impressão toda vez que ele se aproximava. Tentei me distrair, pedi outro chope e fingi não ver a maneira como ele a encarava, examinando seu rosto, como se procurasse um indício de algo que supostamente estava acontecendo entre nós. Não estava acontecendo nada, mas ele não precisava saber. Eu o queria longe, bem longe.
pediu outro Martini e, após terminá-lo, retirou seu casaco. Eu não ia impedi-la ou repreendê-la, não enquanto ela estivesse apenas falando mais e sorrindo mais. Talvez eu viesse a intervir depois, quando ela começasse a ficar ruim. Aproveitando o momento de distração de todos, peguei um guardanapo no suporte e fiz um Tsuru, aprendi a fazer na aula de artes no ensino fundamental e nunca mais esqueci.

- Pra você. - Estendi pra , que me olhou e depois para o passarinho, entre meus dedos.
- Obrigada. - Sorriu de leve, colocando o passarinho de papel na palma e examinando-o - Esse é aquele que dá sorte?
- Sim, é esse. - Ela sorriu, um pouco mais abertamente e me olhou.
- Me ensina como fazer?

Rapidamente retirei dois guardanapos do suporte e entreguei um a ela, começando a lhe dar as instruções. era delicada e não demorou a pegar o jeito, e no fim, o dela tinha ficado até melhor que o meu. Quando finalmente nos desvencilhamos da bolha na qual havíamos nos enfiado, me dei conta dos olhares sob nós dois, James sorriu irônico.

- Que belezinha! - Exclamou, ele - Por que não apostamos quem faz mais passarinhos de origami? - Ele parecia fazer questão de relembrar a maldita aposta.
- James. - Charlie murmurou, repreendendo-o, tomei o resto da minha cerveja.
- Engraçado, até o James chegar o clima estava bom, todos estávamos conversando, nos dando bem... De repente ele chegou e trouxe a discórdia, quem quer que o James vá embora, erga a mão. - Ergui meus braços e sorri irônico; como um belo otário, ele se levantou, de maneira tão violenta que sua cadeira caiu pra trás e chamou a atenção de todo mundo, rapidamente todos os garotos da mesa se levantaram, exceto por mim.
- Se você quer que eu vá embora, venha me tirar daqui! - Ele exclamou, batendo no próprio peito, acho que estava bêbado demais pra se lembrar da última surra.
- James, por favor. - pediu, parecendo exausta daquela situação que se repetia mais vezes do que todos gostariam de presenciar.
- Vou fazer melhor... - Eu comecei, pegando minha jaqueta no encosto da cadeira e vestindo-a, então me levantei - Eu vou pra casa, você pode ficar.
- Vai arregar? - James provocou, assenti, pegando minha carteira e deixando uma nota que cobria meus gatos sobre a mesa.
- Interprete isso como quiser. - Dei de ombros - Alguém vai comigo? - Olhei para , que parecia confusa, mas não se manifestou - Ok, boa noite a todos.

Eu estava decepcionado. Não com , em si. Mas com a situação. Era injusto eu ter de vê-la com ele depois de tudo. Injusto ele me provocar e eu ter de recuar para não piorar a situação entre nós e não estragar a festa de quem sequer sabia da história completa. Era injusto, não por eu dar o melhor de mim e as coisas continuarem dando errado, mas por James fazer tudo errado e, ainda assim, poder levá-la pra casa no fim da noite.


Capítulo 26.
"I'm standing here until you make me move, I'm hanging by a moment here, with you"
(Hanging By A Moment - Lifehouse)

Respirei fundo, uma vez mais. Tentando dedicar a devida atenção ao que a professora dizia, mas me parecia impossível concentrar-me em qualquer coisa que não fosse a carteira ao lado da porta, desocupada. esteve ali nos últimos tempos, mas ela não estava lá naquela manhã. Justo naquela manhã. Era a noite do show do Damien Rice, havíamos usado a premiação da gincana para conseguir os ingressos para a pista Premium, tudo estava combinado... Aparentemente.
Temi que algo ruim tivesse acontecido, talvez sua mãe pudesse ter piorado. Eu não queria pensar sobre isso e tentava o tempo todo não fazê-lo, pois sempre tive em mente que nós atraímos as coisas que pensamos... Tanto as boas, quanto as ruins. É o poder do pensamento, tão forte quanto o poder da palavra. Todo o tempo eu tentava pensar que Sra. escaparia dessa em breve e tudo voltaria ao normal. Eu mal podia esperar por isso. Mas às vezes eu simplesmente não conseguia não me preocupar e depositar todas as minhas fichas em minha própria fé. Talvez ela estivesse abalada, minha fé.

- Com licença, professora Thorton... - Desviei meus olhos desinteressados até a porta, por onde a secretária do diretor adentrava - Bom dia, classe.
- Bom dia. - Respondemos, da mesma maneira indiferente.
- Professora, posso levar o aluno comigo? - Contraí o cenho, endireitando minha postura, mil coisas passaram pela minha cabeça, mas a única coerente é de que tivesse algo a ver com o festival de música, eu esperava que sim. Desta vez eu não me lembrava de ter feito nada errado.
- Claro, fique à vontade Sra. Reagan. - Levantei, confuso.
- Ele está tão acostumado a tomar suspensão que quando é chamado à diretoria já fica assustado, olha só. - Sra. Reagan fez uma piada, gente, riam.

Fomos andando em silêncio até a diretoria, e quando passamos pela porta da sala do diretor, pude vê-lo acompanhado de e Sr. . No mesmo instante meu coração pareceu perder a força e eu definitivamente não conseguia pensar no motivo pelo qual eu havia sido intimado para estar ali.

- Bom dia, sr. . - O diretor saudou, com um riso preso, provavelmente pela minha palidez ou algo do tipo.
- Bom dia. Bom dia, Sr. ... - Estendi minha mão ao meu ex-sogro, que levantou-se para me cumprimentar, e em seguida olhei para uma completamente emburrada - Oi, .
- Oi. - Respondeu, sem se dar ao trabalho de me olhar; respirei fundo, algo ruim estava por vir?
- Sente-se, . - Sr. Valley me indicou a poltrona, ao lado de , e eu a ocupei.
- Aconteceu alguma coisa? - Perguntei de uma vez.
- Bom, foi convidada para um congresso em Paris, para apresentar seu projeto de pesquisa de Física...
- Uhum... - Concordei, ainda sem conseguir ter alguma noção sobre o que eu tinha a ver com isso - Me querem pra cobaia? - Zombei, fazendo com que o diretor e sr. rissem, , porém, continuou emburrada.
- Não, , não é isso... - Sr. Valley concluiu, ainda entre risos - Acontece que o sr. não poderá acompanhá-la até Paris e me informou que a única pessoa em quem confia para fazê-lo por ele, é você. Por isso te chamamos aqui para ver se você pode fazer esse favor à senhorita . - Nada consegui responder, apenas continuei olhando para o diretor, esperando ele começar a rir da minha cara e dizer que eu era um idiota por ter pensado em acreditar nisso... Mas o riso não veio.
- Eu já disse que não precisa disso, eu vou e volto sozinha, ou então pode ir comigo...
- não é um homem, , pode lhes acontecer algo. - Sr. protestou e eu finalmente consegui olhar para .
- Eu posso ir. - Afirmei, sem sequer ponderar - Posso ir.
- Que bom! - Sr. Valley comemorou - A escola vai providenciar o endereço dos hotéis mais próximos da universidade onde estará acontecendo o congresso.
- Diretor, precisamos que o hotel seja em conta... - Sr. começou a falar.
- Diretor, eu mesmo vejo os hotéis, tenho alguns amigos em Paris, eles podem me indicar um bom hotel, e em conta, não se preocupem com nada. - Eu o interrompi, tomando toda a responsabilidade que pudesse preocupá-los, eles já tinham problemas demais.
- Você fica encarregado disso então, .
- Eu não posso opinar em nada? - se manifestou, da maneira mais infantil que conseguiu, achei graça - Posso pelo menos escolher o meio de transporte até lá? Ou a roupa que eu vou usar para apresentar?
- Não seja mal-criada, . - Sr. retorquiu, fazendo-me rir.
- Pode, , é só me dizer como prefere ir e eu compro as passagens pela internet.
- Ótimo. - Ela não poderia ter forçado um sorriso mais irônico.

Assim que o diretor nos dispensou, saímos da sala, os três juntos, e fomos levar Sr. até a saída. Não que parecesse querer minha presença, mas eu estava conversando com seu pai sobre o congresso e, antes de ir embora, ele me perguntou sobre nosso passeio em Londres ainda naquele dia. não disse nada, eu apenas informei sobre como estava tudo planejado e que tudo daria certo, para que ele não se preocupasse tanto.

- Que horas posso passar te pegar? - Perguntei quando nos aproximamos da porta da sala.
- Que horas começa o show mesmo? - Ela parecia mais calma agora, na ausência do pai.
- Às nove.
- Quanto tempo você leva de Bolton à Londres?
- 2 horas.
- Então passa me pegar às seis e meia.
- Às seis estou passando na sua casa, ok? Esteja pronta. - Ela pareceu discordar, mas depois suspirou.
- E seu trabalho?
- Troquei meu horário com um funcionário, não se preocupe.
- Hm... - umedeceu os lábios e, pela primeira vez em muitos dias não tive vontade de simplesmente abraçá-la e confortá-la, mas de beijá-la de forma que a fizesse desejar que eu beijasse seu corpo todo e não apenas sua boca - Não vai te atrapalhar?
- Não... - Neguei, ainda um pouco atordoado sob o efeito de seus lábios úmidos, avermelhados - Não mesmo.
- Ok, então.

Como já era de se esperar, o resto da manhã passou tão lento quanto o início dela. Por que diabos o tempo só decidia correr quando eu estava perto de ? Injusto. Almocei o mais rápido que pude e corri para o pub, antes que eu perdesse o horário. Angie ainda era flexível com meus atrasos e meus erros, porém não tanto quanto antes. Continuávamos conversando e ela me ajudava no que podia, mas não tão próxima, não tão íntima. Eu não lhe tirava a razão, mesmo que ela não estivesse a fim de mim, ninguém gosta de tomar um pé na bunda, vamos admitir.
Eu mesmo nunca me apegava a garota nenhuma, porque elas se apegavam demais a mim. Poucas as garotas que me deram um fora, mas era por elas que eu procurava depois. É claro que isso também passava rápido, era só o tempo de tê-las em minha mão e poder me livrar delas, pronto. Como uma vingança. Eu não admitia perder, e ninguém gosta muito da sensação da perda. É normal, é humano.

- , ainda está aí? - Olhei para Angie, eu acabara de deixar meu avental pendurado quando ela apareceu na cozinha.
- Sim.
- Pode limpar o pub antes de ir? Estou com uma dor estranha aqui na costela, não consigo nem mover direito o braço esquerdo e os outros funcionários já foram. - Angie pediu, entreabri os lábios, pensando em protestar...
- É que eu posso me atrasar... Quer dizer... Tudo bem, eu faço isso.
- Obrigada.

Peguei a flanela deixada na dispensa junto com o produto de limpeza que cheirava à pinho. Limpei todas as mesas, o mais rápido que pude. Praguejando-me por não ter coragem de dizer à Angie que isso era injusto, pois o combinado não era esse, o funcionário com quem troquei de horário faria isso quando o bar já estivesse fechado, no fim da noite, como eu mesmo fazia todos os dias. No entanto, ela estava com dor, eu não podia ser frio a ponto de ignorar isso só porque talvez não desse tempo de ficar bom o suficiente para ... Bem, nem todo o tempo do mundo seria o bastante. Eu não a merecia, de um todo. Mas eu daria o meu melhor.
Quando fui buscar o esfregão, junto com o outro produto químico, olhei no relógio pendurado no corredor. Cinco e dezenove. Respirei fundo, tentando controlar meu nervosismo. Eu precisava limpar aquele chão em dez minutos, no máximo. Eu o fiz, com Angie me observando sentada sobre o balcão. Eu sentia as gotas de suor brotarem em meu couro cabeludo e molhar minha camiseta. Eu já nem sabia se era cansaço ou cólera.

- Agora só falta descer as cadeiras, colocar as toalhas... - Angie dizia, bebericando um gole de seu whisky, por um momento, senti que aquilo estava sendo proposital.
- Tudo bem, Angie. - Respirei fundo, levando o escovão e retornando para começar a estender as toalhas, assim que coloquei a primeira mesa, toalha e o suporte de madeira com temperos variados, senti Angie tomar, sem delicadeza, o suporte de guardanapos de minhas mãos.
- Vai logo, . - Ela disse, sem me olhar.
- Por quê? Você está com dor, posso terminar isso.
- Vai logo, antes que eu me arrependa.

Eu não entendi muito bem sua atitude, mas também não fiquei esperando por explicação. Peguei minhas coisas e sai dali em disparada, eu tinha meia hora pra ficar pronto. Apenas meia hora. A ansiedade começou a aumentar gradativamente conforme eu tomava banho e escolhia uma roupa. Eu precisava estar no mínimo arrumado. Não era o tipo de show que eu estava acostumado a frequentar, não era como se eu pudesse colocar uma calça surrada, uma camiseta qualquer e um tênis sujo. E também não era a companhia que eu estava acostumado a ter para esses eventos. Escolhi um jeans de lavagem preta e uma camisa, também jeans, num azul claro, desbotado. Calcei meu vans e o relógio de pulso do vovô. Gastei os 13 minutos restantes para secar e tentar arrumar meu cabelo, que obviamente não ficou como eu queria, mas também não estava mal. Borrifei um pouco de perfume e peguei a jaqueta de couro, pendurada no respaldar da poltrona, a vesti no caminho até a cozinha, onde me despedi de mamãe e . Já saíndo, agarrei um muffin do prato de minha irmã, eu nem me lembrava qual tinha sido a última vez que comi no dia.
No caminho até a casa de , passei em frente a uma floricultura, pensei em parar e até diminui a velocidade em busca de uma vaga, mas passados dois segundos, percebi que eu não queria que aquilo se parecesse com um encontro. Eu a faria recuar se chegasse lá com flores. Então cheguei acompanhado apenas de uma única coisa: minha ansiedade.
Capítulo 27.
"Throw it away, forget yesterday, we'll make the great escape"
(The Great Escape - Boys Like Girls)

[N/a: sugestão de música para deixar carregando, pessoal: http://www.youtube.com/watch?v=5YXVMCHG-Nk]

Toquei a campainha duas vezes consecutivas, meio sem querer. Depois me afastei da porta, enterrando minhas mãos no bolso. De repente, lembrei da primeira vez que estive ali para levá-la para jantar. Lembrei da maneira como ela abriu a porta sem o menor interesse em sair comigo. Sorri, recordando-me também da encenação ridícula que fiz, falsificando problemas em casa e dizendo que ela me fazia bem... Parabéns, , além de bom ator, você é profeta. Agora sim eu tinha problemas em casa, e só Deus sabe o quanto ela podia tornar as coisas melhores. Como eu queria reviver aqueles dias. Como eu sentia falta de nós.
Ouvi a chave girar e senti fisgadas precisas em meu coração, cerrei meus punhos dentro do bolso da calça e tentei não parecer desesperado. O que só funcionou pelo deslumbre, que me petrificou de uma hora pra outra. Os olhos de buscaram respostas nos meus, obcecados por sua beleza. Ela estava tão linda que eu não conseguia pensar em nenhuma outra coisa que não fosse tal palavra... "Linda, linda, linda".
- Boa linda. - Arregalei meus olhos ao me dar conta do erro - Boa noite... Linda.
- Boa noite, . - Ela pareceu tão confusa quanto eu, suas bochechas ganharam um tom bonito de rosa, prendi o riso - O que foi? - Sorriu, bem humorada.
- Nada, podemos ir? - Rimos de leve, ela assentiu e olhou pra trás.
- Pai, estou indo, qualquer coisa, me liga. - Falou em voz alta e fechou a porta, mas antes que pudéssemos virar as costas, a mesma abriu-se novamente.
- Tenham cuidado, crianças. - Sr. pediu, virei e voltei até lá para cumprimentá-lo - , não deixe que ela beba, por favor.
- não bebe, não precisa se preocupar. - Eu disse, arriscando um sorriso e tentando parecer confiável.
- Não é o que percebi dias atrás... - Disse ele, olhei para com o canto dos olhos, procurando uma explicação - Mas confio em você... Que Deus os acompanhe.
- Amém. - Dissemos juntos, direcionando-nos para o carro.

O caminho até o posto foi silencioso, eu estava tão pateticamente nervoso com sua presença que esqueci até de ligar o rádio. Eu queria que ela dissesse algo, que tivéssemos um assunto para debater naquelas duas horas de viagem. Assim talvez diminuísse minha vontade de ocupar sua boca com a minha. Ou não.
Enquanto eu esperava o frentista abastecer meu carro, recolhi alguns cds dentro do porta-luvas e escolhi uma coletânea qualquer. Depois saquei a carteira de Trident do bolso e abri a embalagem, esticando-a para , que delicadamente retirou o primeiro. Vi o frentista me estender as chaves. Dentro de pouco tempo estávamos na estrada.

- Você está diferente. - me pegou de surpresa com aquele comentário e eu não fiz questão de disfarçar.
- Eu? Por quê? - Contraí o cenho, sem tirar os olhos do asfalto.
- Não sei, tão sério. Você não era assim. - Concordei em silêncio, depois sorri.
- Eu acho que algumas coisas mudaram desde que você me conheceu. - Dei de ombros, olhando-a de esguelha.
- Sim, pra todos nós, mas... Você parece triste o tempo todo agora. - Contraí o cenho, eu não me sentia triste o tempo todo, sentia?
- Deve ser o cansaço, não estou acostumado a trabalhar. - Ri, mas ela não me acompanhou, então supus que ela estivesse esperando por uma resposta mais bem elaborada, ou mais sincera, talvez - Tive problemas em casa, , que tomaram uma proporção grande demais pra mim, de repente.
- Seu pai não mora mais com vocês, não é? - Neguei com a cabeça.
- Como sabe?
- Ouvi rumores. - Concordei com a cabeça, sempre haviam rumores.
- Ele saiu de casa, poucos dias antes de chegarmos daquele resort. - me olhava, eu podia sentir de alguma maneira.
- Por quê?
- Lembra que eu te disse sobre uma outra família? - fez um barulho, afirmando, respirei fundo - Eu não estava errado, ele está com uma garota que deve ser pouco mais velha que eu, e eles tem um cachorro. - Encolhi os lábios, tentando esconder o rancor que aquilo ainda me oferecia.
- Sinto muito, . - Ela murmurou, talvez envergonhada por ter me feito tocar num assunto tão delicado, tão íntimo, mas eu não me importava de falar sobre isso com ela.
- Tudo bem, ele fez a escolha dele. - Sorri, sem vontade, e olhei pra ela por um minuto - E além do mais, isso tudo me fez pensar em quem eu quero ser.
- Quem você quer ser? - Ela perguntou e eu sorri, dessa vez com sinceridade.
- Um homem.

pareceu satisfeita com a resposta abstrata, havia algo entre nós que tornava explicações desnecessárias, uma sincronia, ou algo do tipo. Eu achei que tivéssemos perdido isso, e talvez até beiramos a perda, mas agora os ventos pareciam soprar para o mesmo lado, e era positivo. "Que eu não esteja enganado", rezei.
Chegamos em Londres meia hora antes do início do show. Não havia mais fila, pois os portões abriram às sete. e eu entramos na casa de shows e um segurança nos indicou onde exatamente ficava a pista premium. Exatamente como eu já havia dito, este era um show completamente diferente dos que eu costumava ir, e tomei por base as mesas espalhadas pelo espaço em frente ao palco. Pequenas mesas quadradas, com duas ou quatro cadeiras cada uma. Haviam garçons, passeando e servindo bebidas diversas. Era como um bar, um pequeno pub. Atrás do alambrado ficava a pista comum, abarrotadas de diferentes tipos de pessoa, observei.

- Ali. - indicou uma mesa, havia uma pequena placa apoiada em um pequeno vaso de vidro com nossos nomes.
- Uau! - Meu espanto era tanto que eu não consegui comentar ou elogiar coisa alguma, embora eu quisesse.
- Que agradável, né? - Ela comentou, puxei uma das cadeiras para que ela se sentasse e ocupei a outra.
- Sim, acho que não podíamos ter escolhido show melhor.
- É, acho que não.

O garçom se aproximou, oferecendo-nos um menu. agradeceu, mas deixou o pedido por minha conta. Optei por uma garrafa de vinho branco, apenas para começar a noite. Eu pretendia levá-la para jantar depois do show, caso nada saísse da linha durante as horas que estavam por vir. O mesmo garçom que nos trouxe a garrafa também nos serviu e acendeu as três velas redondas que se encaixavam dentro do pote de vidro, no centro da mesa. Um membro da equipe do show, suspeitei, subiu no palco e colocou um banco alto no centro dele, e acendeu as velas espalhadas pelo chão, também ganhando luz naquele momento.

- Proponho um brinde. - Eu disse, desviando meus olhos até , que também deixou de observar o palco para retribuir meu olhar.
- Hm, ok. - Sorriu, sem jeito, pegando sua taça, até então intocada.
- Quero brindar a você, a mim, a essa noite, e às próximas que estão por vir.

pareceu ponderar um momento se deveria ou não acatar ao brinde, mas ergueu sua taça em direção a minha, colidindo-as com delicadeza antes de compartilhar um gole comigo. Sorri, deixando minha taça sobre a mesa ao mesmo tempo que as luzes baixavam e deixavam que as velas iluminassem parcialmente o ambiente. A penumbra me impossibilitou de observar o rosto de , mas aos poucos as chamas amareladas iluminaram suas bochechas rubras e seus olhos brilhantes. Foi preciso muita lucidez para não fazer uma loucura naquele instante.
Ouvi os acordes suaves, provindos do violão que Damien Rice segurava, já em seu devido lugar, e desviei minha atenção para lá. Ele iniciou o show com Cannonball, e na minha opinião era uma de suas melhores composições. Eu sentia meu corpo arrepiado dos pés à cabeça, uma comoção quase estranha me atingiu em cheio, trancando minha garganta por um momento.
Alguns holofotes de luz azul começaram a se acender. Outros, trazendo uma luz vermelha, ganharam vida logo em seguida. As cores mesclavam-se pelo palco, fazendo com que a iluminação ganhasse um tom bonito de roxo. Eu estava cativado pela estrutura do show, pela música, pelo posicionamento da banda, o palco, as luzes... Desejei um dia poder estar assistindo isso tudo de cima do palco.
A garrafa de vinho estava quase no fim e eu desejei que o show não estivesse nem mesmo próximo disto, aproximadamente 8 ou 9 músicas depois. , naquele momento, já estava sentada mais próxima da ponta da cadeira, seu casaco descansava no respaldar da mesma, junto de sua bolsa. Ela movia o corpo delicadamente ao som de cada música, seu rosto estava cativante, com a parte de cima de seu cabelo presa pra trás, fazendo um topete no topo de sua cabeça. Os fios estavam levemente ondulados, brilhantes, e se eu me concentrasse, tenho certeza que poderia sentir seu cheiro de onde eu estava; que não era tão perto quanto eu gostaria. Não perto o suficiente para tocar suas mãos, ou seu rosto, tão delicadamente maquiado em tons de rosa e cinza. Eu queria seu batom em minha boca e seu vestido sobre minhas mãos, acobertando qualquer carícia em sua pele macia, provavelmente perfumada. Eu queria ser qualquer coisa, naquele instante, menos o rapaz que ela pensava que eu era.

- Quer dançar?

Antes do pedido tornar-se real, tive de travar uma dura batalha contra minha insegurança, que nunca pareceu tão vivida. "E se ela não aceitar?", "e se ela recuar?", "e se ela se afastar de mim?", "e se ela achar que estou forçando a barra?", e se, e se, e se... E se eu me arrependesse pelo resto da vida por não ter tido coragem de convidá-la para algo tão singelo quanto uma dança? Eu não tinha o que temer, quantos 'nãos' vindos de eu já tinha? Uma coleção deles. Por que ter receio de algo cujo a dor já me era familiar? "Foda-se!", disse a mim mesmo, olhando mais uma vez para seu rosto, momentaneamente mais encantador do que eu estava acostumado, com as luzes coloridas dançando por sua pele e seus olhos brilhantes. E então foi automático, sua beleza fez meu coração doer e o pedido subiu por minha garganta, como que com unhas afiadas, arranhando-a por todo o percurso.

- Quando começar a próxima música. - disse aquilo da maneira mais debochada que seu tom de voz permitiu, só então me dei conta do silêncio.
- Sim, quando começar a próxima música. - Retorqui, arrancando um riso divertido de , senti-me instantaneamente aquecido, vê-la sorrir em dias tão difíceis era quase como a chegada do primeiro dia de verão, só que melhor.

And so it is
E então é isso
Just like you said it would be
Exatamente como você disse que seria
Life goes easy on me
A vida corre fácil pra mim
Most of the time
Na maioria das vezes

Assim que a voz de Damien Rice soou, calma, afinada, os olhos enevoados de procuraram pelos meus. Levantei e, embora minhas pernas tremessem como se carregassem meu corpo com esforço, andei decidido até ela, estendendo-lhe minha mão, que foi delicadamente agarrada pela sua.

And so it is
E então é isso
The shorter story
A estória mais curta
No love, no glory
Sem amor, sem glória
No hero in her sky
Sem herói em seu céu

Não nos afastamos da mesa, apenas o suficiente para que pudéssemos nos mover juntos. A mão que ela ainda segurava apenas manteve-se elevada, junto à dela. Enquanto a outra, trêmula, buscou pela base de suas costas, onde descansou. Eu podia sentir meu coração latejar de maneira tão intensa e impiedosa que eu temi que ela percebesse, de alguma maneira.

I can't take my eyes off of you
Eu não consigo tirar meus olhos de você
Just can't take my eyes off of you
Só não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off of you
Eu não consigo tirar meus olhos de você
Just can't take my eyes off of you
Só não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off of you
Eu não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes...
Eu não consigo tirar meus olhos...

Tentei não dar atenção à letra da canção, tentei manter meus olhos longe dos dela, pois eu sabia que no momento em que eles se encontrassem, eu não iria conseguir conter meus instintos. Entretanto, sua visão queimava minha pele, pesando sobre meus ombros, chamando-me sedutoramente. Obedeci, como um cachorro ao ouvir o assovio de seu dono. Lá estava eu, com pouco fôlego e um resto de lucidez, que me mantinha minimamente afastado dela... Não sei por quanto tempo.

And so it is
E então é isso
Just like you said it should be
Exatamente como você disse que deveria ser
We'll both forget the breeze
Ambos esqueceremos a brisa
Most of the time
Na maioria das vezes

Senti os dedos de afrouxarem, soltando-se dos meus e fazendo um caminho silencioso por meu braço, até meu ombro, esquecendo pra trás um rastro em chamas, vívido, quente. Encaixei sua cintura em minhas mãos, conduzindo-a, sem destreza, na valsa mal elaborada. A respiração de , pude notar, tornava-se falha toda vez que minhas pernas esbarravam às suas. Imaginar como seria fazer amor com ela novamente tornou a situação menos suportável. Ainda mais.

And so it is
E então é isso
The cold water
A água gelada
The blower's daughter
A filha do vento
The pupil in denial
A menina-do-olho rejeitada

Foi como se ela ouvisse meus pensamentos mais impuros, suas bochechas enrubesceram de súbito e meu corpo tornou-se mais febril à medida que meu desejo refletiu em seus olhos, mesclando-se com sua própria gana, eu podia reconhecer em seu corpo, que acidentalmente encostava-se ao meu, apenas para me fazer perder o controle, apenas para perder o próprio controle e desencadear aquela força libidinal que não tardaria a me engolir.

I can't take my eyes off of you
Eu não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off of you
Eu não consigo tirar meus olhos de você
Just can't take my eyes off of you
Só não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off of you
Eu não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off of you
Eu não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes...
Eu não consigo tirar meus olhos...

Os lábios de se entreabriram e deixaram escapar um suspiro quando nossos corpos se encostaram, foi como se, por um momento, estivéssemos a sós, despidos... Eu pude imaginar a textura de sua pele, junto à temperatura que estaria tão alta quanto meu prazer. O carro estaria cheio do nosso cheiro, com nossos gemidos e suspiros sonoros ocupando o lugar do som. Os vidros tão suados quanto nossos corpos, tão unidos que não saberíamos quem éramos e, na realidade, perderíamos nossa identidade ali, no momento em que nos afastássemos... Uma dependência que eu não teria problemas em compartilhar com ela.

Did I say that I loeathe you?
Eu disse que te detesto?
Did I say that I want to leave it all behind?
Eu disse que quero deixar isto tudo pra trás?

piscou, de leve, e eu despertei de meus devaneios, sentindo seus dedos embrenhando-se entre os fios de meu cabelo. Perdi parte do sentido quando inalei, mais profundamente, seu perfume, que mesclava-se com seu hálito adocicado, agora mais próximo do que eu poderia resistir algum dia. E então desisti e acabei com a distância torturante entre nós, encaixando minha boca na sua.

I can't take my mind off of you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off of you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off of you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off of you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off of you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind...
Não consigo parar de pensar

Não nos movemos de início, nossos lábios tremiam, eu podia sentir. Firmei uma mão em sua cabeça, por entre seus cabelos sedosos, e investi delicadamente com a minha língua, recebendo, em troca, um suspiro aliviado. Senti seus dedos pressionarem minha pele e seu corpo render-se ao meu, beijando-me de uma maneira que eu não me lembrava de ter sido beijado antes. Nem mesmo por ela. Um beijo encharcado de saudade e desejo, não puro como o perdão que eu esperava dela, mas cedido, como uma tentativa de superação.

My mind... My mind
Minha mente... Minha mente
'Til I find somebody new
Até eu encontrar um novo alguém

A melodia padeceu, junto com a voz do cantor e o beijo que trocávamos. Procurei por ela, mas as luzes se apagaram, as palmas vieram e eu me encontrei sem saber o que fazer ou o que pensar. Talvez eu estivesse me precipitando, mas justamente naquele minuto eu queria saber se podia segurar sua mão, abraçá-la e beijá-la uma vez mais.
Eu ainda sentia seu corpo entre meus braços e podia ouvir, por entre as palmas, sua respiração ruidosa. Ou era a minha? Inesperadamente, as luzes se acenderam, mais claras do que eu gostaria. soltou-se delicadamente de mim e virou-se para o palco, iniciando uma nova salva de palmas para o cantor, que desmanchava-se em agradecimentos e despedidas desajeitadas. Bati algumas palmas antes de andar até minha cadeira e pegar minha jaqueta. , ao se dar conta do que eu fazia, imitou-me, buscando seu casaco para proteger-se do frio e sua bolsa.
Eu era incapaz de dizer coisa alguma, e nessas horas eu gostaria de pedir conselhos a quem eu costumava ser antes de conhecer , ele provavelmente saberia o que fazer em uma situação como aquela.
Quando o movimento, finalmente, baixou, comecei a seguir o fluxo de pessoas até a saída, com em meu encalço. Ela também não esboçou qualquer reação depois do beijo. Eu só queria que ela dissesse qualquer coisa e me deixasse saber, com isso, que eu não tinha estragado tudo.
Notei, ao chegarmos na porta de saída, a chuva fina que molhava as calçadas de Londres. Retirei minha jaqueta e armei-a sobre a cabeça de , não precisei dizer coisa alguma para que ela acompanhasse, em passadas largas, até o carro. Ela entrou primeiro, e eu em seguida, o mais rápido que pude. Estremeci ao me sentir aquecido novamente e dei partida, colocando o cinto de segurança e me perguntando se seria mesmo uma boa ideia convidá-la para jantar. Meu estômago protestou qualquer ideia que não fosse aquela.

- Está com fome? - Distraída com algo lá fora, ou algo bem lá dentro, não ouviu minha pergunta - ? - Chamei e vi seu rosto virar-se sereno em minha direção.
- Oi?
- Está com fome? - Sua expressão trocou por uma mais viva, quase deslumbrada.
- Sim, muita.
- Vamos jantar antes de ir pra casa, pode ser?
- Pode.

O silêncio tomou seu posto e tudo o que podíamos ouvir, agora, era o barulho das gotas gordas de chuva contra a lataria do carro. Tive vontade de desligar o motor, ali mesmo onde estávamos, e me deitar com ela no banco de trás, apenas para ouvir a melodia da tempestade. Quis beijar-lhe a boca novamente, mas me contive um pouco mais. Era mais difícil depois de tê-lo feito uma vez.

- Esse restaurante parece bom. - Julguei pela fachada do local, ela assentiu, sem pressa.
- Se quiser podemos comer um lanche, dentro do carro mesmo. - Neguei com a cabeça.
- Não, faço questão.

Parei o carro embaixo de um toldo, na entrada do restaurante, e desci, entregando a chave ao manobrista antes de abrir a porta para que saísse. Andamos devagar, próximos um do outro, encostando nossos braços e mãos vez ou outra, acidentalmente. O maitre nos indicou uma mesa desocupada, uma das poucas. Tomei a liberdade de segurar-lhe pela cintura, conduzindo-a até nosso lugar.
Apenas para fazer os pedidos pude ouvir sua voz, logo estávamos calados novamente. E quando finalmente decidi dar um fim àquela situação, fez o mesmo...

- Não gosto desse silêncio. - Ela reclamou, sorri, pois meu peito ainda estava estufado pelo ar que eu tomei para começar a falar.
- Eu ia dizer isso agora. - Concordei e sorri, mais abertamente - Parece quando eu contei ao que fumei maconha, ele não disse nada e nós passamos o dia todo em silêncio, até hoje nunca tocamos no assunto... - Ri, relatando a ela uma história meio desconexa - Quero dizer, fumar maconha foi errado, mas o que nós fizemos não, então é bobeira ficar assim. - Conclui.
- Concordo. - Disse , depois sorriu com candura, proporcionando-me um alívio que há muito tempo eu não sentia.

O vinho veio junto do jantar, que devoramos em poucos minutos. Pedimos pela sobremesa, e agora os assuntos aleatórios fluíam com maior facilidade. Estávamos novamente à vontade um na presença do outro, como se nunca tivéssemos nos separado, como se ela nunca tivesse sabido da aposta, nem tivesse se relacionado com James... Como nos velhos tempos, quando éramos só ela e eu, em um mundo só nosso.

- Está chovendo muito, , não é melhor parar e esperar passar? - Ela perguntou, com a voz baixa, tensa.
- , é muito mais perigoso ficarmos no acostamento nesse horário. - Expliquei, esticando-me para desembaçar o vidro por dentro - E além do mais, essa chuva não parece a fim de diminuir, não é?
- E-então... Então paramos em algum desses hotéis, já vi vários. - Pediu, encolhendo-se contra seu assento.
- Eu acho que não tenho dinheiro pra isso, , me desculpa. - Suspirei, sentindo-me mal pelo fato de não poder lhe proporcionar conforto.
- Eu tenho, , isso é o de menos agora! - Ela parecia cada vez mais exasperada, uma de suas mãos apertava fortemente o cinto de segurança e eu reconheci que talvez fosse melhor pararmos em um dos hotéis que ficavam na beirada da estrada.
- Tudo bem, fica calma, no próximo hotel eu paro, ok?
- Sim, sim, está bem.

O pior, talvez, nem fosse a chuva, cada vez mais pesada, mas os relâmpagos que rasgavam o céu escuro, e em breve um trovão, tão alto que parecia estremecer o carro. Talvez realmente fosse capaz disto. Mais chuva, o vento soprava forte, e as gotas caíam em diagonal, contra o sentido para o qual íamos.

- Está vendo ali? Tem algo ali, tem um posto ali, , logo ali!
- Mas está fechado, .
- Não importa, paramos o carro e esperamos ali, por favor. - Sua voz, de repente, estava entrecortada, decidi não contrariá-la.
- Tudo bem, estou entrando. - Segui o caminho asfaltado até as bombas de gasolina, mas passei reto por elas, procurando um lugar menos visível.
- Onde vai? - Ela sussurrou, entrei com o carro no lava rápido e desliguei o motor, puxando o freio de mão.
- Aqui, mais quente, mais seguro. - Tranquei as portas, de qualquer maneira, e acendi a luz no teto do carro.
- Me desculpa, você deve estar cansado, querendo ir pra casa. - lamentou e eu sorri, negando com a cabeça.
- Eu devo estar querendo te ver bem, pra ficar bem. - Soltei o cinto de segurança e deitei um pouco mais meu banco, descansando meus braços sob minha cabeça - Eu estou completamente confortável.
- Posso ver. - Riu de leve, soltando-se do cinto e deixando sua bolsa no chão do carro.
- Por que não liga para o seu pai e diz que estamos esperando a chuva diminuir?
- Ele deve estar dormindo, não quero acordá-lo. - Sua expressão pareceu triste e eu me arrependi imediatamente de ter trazido sua família como assunto.
- Entendo. - Murmurei, ligando o rádio - Vamos ver o que podemos ouvir.
- Posso ouvir você? - Olhei de esguelha para ela, que tomou a liberdade de desligar o rádio.
- Me ouvir?
- Sim.
- Você quer que eu cante? - Ela negou com a cabeça e a confusão me assolou.
- Quero que me conte o que aconteceu na última noite no resort.


Capítulo 28.
"Laughing with your pretty mouth, laughing with your broken eyes"
(When The Stars Go Blue - The Corrs feat. Bono Vox)

Prendi a respiração, sem saber ao certo o que fazer naquele momento. O que eu deveria dizer? Contar tudo e vê-la se torturar por ter bebido demais naquela noite a ponto de não afastar James? Eu conhecia e eu sabia quão suja ela se sentiria caso tomasse conhecimento do que realmente aconteceu, mas eu não podia admitir a culpa e entregar os pontos mais uma vez. Era sentimento demais pra sacrificar.

- Por que não falamos sobre coisas boas? - Perguntei, encolhendo meus lábios em seguida.
- Porque agora é sobre o que eu quero falar. - Irredutível, sorri e assenti, vendo-a livrar-se dos sapatos, encolhendo as pernas sobre o assento.
- Até onde se lembra?
- Claramente? - Riu - Até o momento em que você quebrou o violão que eu te dei, e depois é como se houvessem lacunas, sabe? Lembro de estar com James em algum lugar, e então você chegou, e mais tarde estávamos conversando, você e eu, me buscou lá e me levou até a piscina principal, ficamos lá um tempo, nós três, eu, ela e James... - Ela parecia esforçar-se para lembrar, enquanto meu estômago revirava, ansioso e enojado pelo fim da história, o qual ela não conhecia - disse que ia buscar algo doce pra mim, James e eu, nós ficamos lá um tempo, não sei quanto tempo, esperando , e então ele disse que podíamos dar uma volta para talvez encontrá-la, e então tudo o que sei é que acordei... Do seu... Na sua cama. - Foi difícil para ela ter que dizer aquilo. Foi difícil pra mim ter que ouvir aquilo.
- Era quase de manhã quando vi você com James, passando muito mal, então te carreguei no colo até o meu apartamento, te dei um banho, por isso você estava com a minha roupa e te deixei dormir na minha cama, deitei junto para o caso de você voltar a passar mal e acabei adormecendo...
- ... Eu tinha chupões por todo o meu pescoço...
- Não fui eu! - Me defendi, interrompendo-a - Não-fui-eu. - Repeti, pausadamente, com os olhos cravados nos seus, na tentativa de convencê-la - Você e James ficaram muito tempo juntos naquela noite, ele provavelmente não poupou esforço na tentativa de te levar pra cama, , mas não fui eu. - Ela parecia desconcertada com a minha convicção, respirei fundo e esfreguei meu rosto.
- James... Ele estava desfigurado no dia seguinte...
- Aquilo fui eu. - Meu tom de voz ainda soava orgulhoso – Eu faria tudo outra vez se o visse com você bêbada daquele jeito. - Voltei a olhá-la, parecia surpresa pela minha honestidade, eu queria contar tudo naquele momento, mas perdi a coragem - Olha, você ao menos se lembra o que conversamos antes da ir te buscar?
- Um pouco. - Admitiu com honestidade.
- Eu jamais estragaria tudo... Eu jamais faria algo pra te desagradar sabendo que você me daria uma chance de esclarecer as coisas no dia seguinte. - Falei, com meus olhos fixos nos seus, que brilhavam mareados - Eu nunca faria aquilo, de qualquer maneira, e eu não exijo que você acredite em mim, eu mesmo não acreditaria depois do que tentei fazer na noite anterior àquela... - Ela engoliu em seco, pude observar, voltando seu olhar para as próprias mãos - Eu estava tão bravo naquela noite, tão decepcionado com você, mas isso não justifica o que eu fiz e eu sei disso, ...
- Você me assustou naquele dia...
- Eu sei... - Minha voz saiu como um sopro e então esfreguei meu rosto com mais força, levando meus cabelos pra trás, em seguida - Eu sei disso, eu também fiquei assustado comigo mesmo... Não era eu.
- Eu sei. - murmurou, fungando de leve - Por isso eu tive medo, porque em você eu confio, mas não na pessoa que você se tornou naquele momento... - Estiquei minha mão e toquei seu rosto, acariciando sua bochecha com calma.
- Me desculpe por isso? - Pedi, vendo seus olhos se fecharem e sua cabeça pender em minha mão, cedendo ao meu afago.
- Sim.

Estranho como quando o perdão é sincero, nós sentimos isso de alguma maneira. parecia ter tirado com a mão parte de todo o rancor que eu tinha de mim mesmo por causa daquela noite. Eu mal podia expressar meu alívio, apenas pressionei meus lábios nos seus, macios, quentes. Senti meu rosto amparado por ambas suas mãos, gélidas, pequenas... Mantive minha boca na sua, desejando com toda minh'alma que aquele momento durasse pra sempre. De maneira clichê. Eu realmente quis que ficássemos juntos pelo resto dos meus dias, pois a sensação que me perpassava era a de que eu nunca mais poderia me sentir daquela maneira com outra pessoa.
afastou-se minimamente, seus olhos, ainda mareados, passearam por meu rosto enquanto um sorriso suave surgiu em seus lábios. Seu polegar delicadamente delineou minha boca, uma carícia tão leve que se tornava quase imperceptível, se eu não estivesse com os sentidos tão aguçados pela ansiedade de tê-la ali, novamente entre meus braços. Ela continuou o caminho com a ponta do dedo, contornando minha bochecha, uma, depois a outra, meu queixo, o maxilar... Fechei meus olhos e continuei a sentir, mais intensamente... Sobrancelha, olhos, nariz. Seus lábios, trêmulos, substituíram a função do polegar, arrastando-se suavemente pelo meu rosto, distribuído beijos pela minha pele, instantaneamente aquecida por sua presença. E então novamente: bochechas, pálpebras... Um arrepio e outro ao passar pelo queixo... Testa, a ponta do nariz, me arrancando um riso leve, frouxo. Meu coração disparou de antecipação, sua respiração mesclando-se com a minha, seu hálito soprando meus lábios esperançosos, breves segundos antes de começarmos a nos beijar preguiçosamente.
O tempo que estivemos afastados se dissipava a cada movimento leve de nossas línguas, a cada investida de nossas bocas. Ainda era a mesma coisa, o mesmo encaixe, e de repente fui capaz de acreditar, novamente, que nada nunca poderia nos afastar, por mais longe que estivéssemos. Algo nela pertencia à mim, e algo meu também pertencia à ela... Meu coração, e a razão do meu sorriso mais sincero.
Mordisquei seus lábios, queixo e pescoço, sentindo-a estremecer sob minhas mãos, que acariciavam ora sua cintura, ora suas costas, inclinada em minha direção. Segurei seu quadril e, da maneira como pude, tentei trazê-la pra mais perto, colocando-a sobre minhas coxas. O assento, embora não muito espaçoso, era o suficiente para que ela apoiasse os joelhos e encaixasse, perfeitamente, meu corpo entre suas pernas.
Enquanto beijava sua boca, batalhava contra meu instinto vivo e sagaz que pretendia rasgar seu vestido e o que mais me impedisse de estar junto dela. Cuidadosamente, baixei o zíper em suas costas, e tentando manter a mesma delicadeza falha, baixei as alças por seus ombros, até seus braços estarem livres. Senti seus lábios provocarem meu tesão, acariciando minha orelha com a língua. Agarrei o tecido de seu vestido com a força que eu queria usar para estocar meu membro dentro dela. Me controlei, enquanto suas mãos agitadas desabotoavam minha camisa, deixando-a abaixo dos meus ombros para que eu mesmo terminasse. Quase não consegui, desconcentrado pela caricia enérgica de suas mãos em meu abdômen, completamente contraído.
Retirei seu vestido, sentindo-a abrir minha calça ao mesmo tempo em que retribuía avidamente meu beijo. Tínhamos pressa, urgência... Tínhamos tanta saudade um do outro que não podíamos mais perder tempo, já bastava todos aqueles dias sem poder nos tocar, nos beijar, mal nos olhar.
Sua língua, perspicaz, contornou a minha antes de sugá-la e arrancar um suspiro sonoro de mim, quase exigindo que eu terminasse logo com aquilo. Ou era meu desejo veemente que me induzia a acreditar nisto.
Soltei os pequenos colchetes de seu sutiã e deixei que ela mesma dispensasse a peça. Sem me preocupar com qualquer outra coisa, alcancei um de seus mamilos com a boca, distribuindo alguns beijos ao redor dele antes de delineá-lo com a ponta da minha língua. Massageei o outro livremente, sentindo-o preencher minha mão. arqueava suas costas e suspirava mais alto a cada sucção que eu fazia, por mais delicada que fosse. Arrastei uma de minhas mãos até sua intimidade quando notei que, por mais auto controle que eu tivesse, eu estava pronto há algum tempo, e eu precisava fazê-la alcançar meu nível de desejo antes que eu não conseguisse mais suportar o meu.
Afastei a meia calça e comecei a tocar sua intimidade por sobre o tecido gélido e macio de sua calcinha branca. Senti suas mãos agarrarem meus braços, suas unhas enterravam-se mais conforme meus dedos trabalhavam, sentindo o inchaço e a umidade cada vez maior, mesmo através do tecido. Meu membro pulsava antecipadamente dentro da boxer, querendo rasgar o algodão, e eu quis rasgá-la da mesma maneira, por pior que isso soe... afastou os lábios dos meus e seus olhos me disseram o quanto eu estava errado, enquanto, entre meus dedos, o tecido fino e delicado de sua meia-calça se desfazia, abrindo uma fenda desde sua cintura até seus pés, era tão fácil e prazeroso ver aquele pedaço de pano preto aos farrapos... E era ainda melhor e mais bonito ver suas coxas expostas, claras como porcelana, porém macias como veludo.
Boxer e calça na altura dos joelhos, os lábios de brincando de devorar meu pescoço e sua mão envolvendo meu membro de maneira gentil, proporcionando-me um prazer tão intenso que eu não conseguia se quer parar de tremer para conseguir abrir a embalagem do preservativo entre meus dedos enfraquecidos. Deitei a cabeça pra trás, deixando claro minha desistência depois de tanto insistir, em silêncio, que ela me desse um segundo para rasgar o pequeno plástico no dente. Ela não me atendeu, mas tomou a camisinha de mim para abrir por conta própria. Acompanhei seus gestos, sentindo meu corpo vibrar de tesão quando suas mãos voltaram a me tocar, deslizando o plástico lubrificado pelo meu pênis, rígido o suficiente para o que estava por vir.
ergueu seu quadril e eu segurei meu membro, ajudando-a na penetração que não foi demorada, apenas aconteceu. Tão fácil, íntima e prazerosa, como tudo que envolvia nosso sexo. Seu corpo movia-se sobre o meu, timidamente num primeiro momento. Sinuosamente, desde a glande até a base, para depois atingir a velocidade e a precisão perfeita. Minha respiração entrecortada e a maneira como nos buscávamos com ardor não permitiam que um beijo se mantivesse completo, mas nossas línguas se procuravam, se envolviam, transavam por conta própria.
E então aconteceu, pouco tempo depois, o tesão e o prazer se desprendiam de cada cédula do meu corpo, excursionando até minha virilha, concentrando-se ali para em seguida jorrar em forma de gozo. Agarrei suas coxas, que tremiam violentamente, alisando-as e massageando-as enquanto ouvia seus grunhidos altos, sedutores, e sentia seu quadril se empurrar contra o meu de maneira entrecortada até finalmente perderem a força. Seu corpo caiu lânguido sobre o meu, seus lábios ressecados pressionaram minha boca e minha língua rapidamente buscou abrigo, iniciando um beijo um tanto quanto ofegante. Foi assim que permanecemos por incontáveis minutos. Nos beijando enquanto nossos corpos, ainda completamente em contato, dizia um ao outro o quanto haviam sentido falta daquela intimidade.

- Vamos pro banco de trás? - Convidei, desenterrando meu rosto da curva de seu pescoço e sentindo um frio repentino.
- Vamos.

encolheu-se e escorregou seu corpo por entre os assentos dianteiros, buscando conforto no banco de trás. Fiz o mesmo após ligar o rádio em uma estação qualquer. Deitei-me junto dela e recolhi uma manta de lã que estava no chão do carro, nos cobri, tentando afastar o frio que nos assolou conforme nossos corpos esfriavam.

- Senti tanto sua falta. - Murmurei, fechando meus olhos e me deleitando com sua carícia suave na curva abaixo do meu umbigo.
- Eu senti falta de nós, do que éramos, de quando ninguém estava por perto. - Ela dizia, em tom baixo, brando, despretensioso - Sabe que... - Ela ergueu a cabeça, apoiando seu queixo em meu peito, seus olhos, grandes, piscaram uma vez - Eu sabia que este seria o fim desta noite.
- Que iríamos acabar transando num lava rápido? - Perguntei, debochado, rolou seus olhos e riu, batendo em meu rosto com a ponta de seus dedos - Brincadeira... Você sabia que eu não te levaria embora sem conseguir um beijo antes disso? - Deixei um sorriso esperto desenhar-se em meus lábios enquanto ela ainda ria, de leve.
- Sim, eu sabia que você iria ficar me provocando a noite toda. - Assentiu, com uma expressão falsamente ingênua.
- Agora a culpa é minha? Você vem com esse vestido curtinho, toda perfumada e cheia dessa porra de magia que te segue pra todo canto e queria que eu ignorasse?
- Que magia? Do que está falando? - ria, notei que ela não conseguia parar de fazê-lo, desenhando, com a ponta do indicador, formas abstratas em minha bochecha.
- Deve ser magia, ou alguma coisa bem encantadora, um feitiço, sei lá. - riu mais alto, parecendo se divertir com as minhas bobeiras - Você ri, mas é sério, tem alguma coisa em que você que seduz as pessoas, faz elas ficarem bobas por você.
- Bobo é você, de ficar massageando meu ego à toa, assim. - Rimos e trocamos um selinho demorado, depois outro, que demorou um pouco mais.
- No fundo, é seu bom coração, essa sua ingenuidade, alguma coisa que me faz querer me casar com você, faz com que eu queira você como mãe dos meus filhos... Sabe? - Ela contraiu o cenho, negando levemente com a cabeça - Eu quero dizer que eu renunciaria qualquer coisa pra ficar com você, e por todo tempo que a gente passou separados, e todas as brigas, os desentendimentos, eu achei que isso tinha mudado, mas agora, assim, quando eu olho pra você, e quando eu vejo seu coração através dos seus olhos, não sei, não mudou nada, você ainda é a garota mais linda que eu já conheci.

Os olhos de ficavam mais aguados a cada uma de minhas palavras, então decidi parar, não queria fazê-la chorar mais uma vez, mesmo que apenas de emoção. Ela também não disse nada e demorou um pouco para corresponder ao beijo suave que eu propunha. Acariciei suas costas de leve, depois abracei seu corpo miúdo contra o meu, sentindo suas pernas entrelaçarem-se com as minhas. O desejo me atingiu como uma bala de canhão, era inevitável tê-la tão perto, tão nua, e não querer estar ainda mais próximo, mais dentro.
Ela cedeu, à princípio. Retribuiu os beijos, os carinhos, e até permitiu que meu corpo cobrisse o seu, mas, sem motivos aparentes, empurrou-me de leve. Notei seu rosto banhado em lágrimas que escorriam com uma facilidade assustadora e me perguntei, subitamente, o que eu havia feito de errado. Sentei, desajeitadamente, olhando-a afundar seu rosto entre as mãos e chorar copiosamente. Seus soluços me deixavam sem ar e eu não soube o que fazer, mais uma vez.
Fiquei ali, parado na sua frente, vendo-a se encolher com sofreguidão. Meu coração doía, mas eu não conseguia mover um músculo sequer. Pensei em desligar o rádio, não era hora para ouvir Avril Lavigne e suas melodias depressivas. Mas desisti, não quis sair do lugar, não quis perder nada. Não quis, acima de tudo, que ela se sentisse sozinha, então permaneci ali, sentado, esperando até que ela estivesse pronta para falar.
Eu esperei que ela fosse me contar sobre a situação de sua mãe e comecei a tremer desde já. Eu provavelmente não saberia o que dizer, mesmo já tendo conhecimento de tudo, e me preparando para aquele momento, eu estava certo de que iria abraçá-la e manter o mesmo silêncio, talvez eu conseguisse dizer que sinto muito, mas só talvez.
Mais choro, mais soluços, alguns gemidos.
Eu não sabia, mas o motivo pelo qual chorava não tinha nada a ver com sua mãe, o que ela tinha pra me dizer não era algo que eu já soubesse, e talvez eu até preferisse nunca ter ficado sabendo, mas ela fez questão de contar.
Primeiro parou de chorar, não completamente, mas os soluços diminuíram, entretanto, seu corpo tremia como se estivesse à beira de uma hipotermia. Ela estendeu sua mão, pedindo pela minha, que eu ofereci prontamente. Senti seus dedos, úmidos e frios, rodearem os meus com força e então ela suspirou alto, demoradamente.

- , eu preciso que você saiba de algo. - Murmurou ela, com a voz borrada.
- Tudo bem, , pode falar. - Incentivei-a a continuar falando, ela chorou um pouco mais de uma maneira que ela fazia parecer fácil, sem careta, eram apenas lágrimas gordas, pesadas, escorregando e caindo de seu queixo para seus seios parcialmente expostos, contornando-os e escondendo-se atrás da manta - Vamos, me diga, eu estou aqui. - Patético, estar ali tornou-se patético diante do que ela disse em seguida:
- , eu fiquei com o James... E se não fosse ele ter se contido, teríamos feito... Teríamos...

Capítulo 29.
"You made me feel like our love was not real, you threw it all away"
(See No More - Joe Jonas feat. Chris Brown)

Depois de conhecer e deixar que ela me encantasse completamente, eu não podia imaginar um momento onde eu simplesmente não fosse querer abraçá-la, por menor que a vontade fosse, nunca imaginei que ela fosse deixar de existir. A última coisa que eu pensei que um dia chegaria a sentir por ela é asco, mas por hora era só o que me atingia quando eu tinha de vê-la passar pelos corredores da Thornleigh Salesian.

Flashback

- Como é? - Perguntei, sem a menor vontade de ouvi-la repetir, mas precisando disto para assimilar a informação.
- , não significou nada pra mim, eu juro... - Ela dizia, de maneira entrecortada, eu não sabia se ela tremia de nervoso ou se era apenas frio, mas eu deixei de me importar, automaticamente.
- Você quase transou com o James, é isso? - Perguntei, ainda descrente.
- Eu não queria...
- Então por que fez? - Perguntei, sem deixá-la terminar, com meu rosto rígido e meu coração mais ainda - Quando? Quando foi?
- Foi depois do aniversário do Charlie, quando ele foi me levar embora. - Apertei os olhos, sentindo meu coração disparar, soltei minha mão da sua e cerrei meus punhos, virando o rosto para o outro lado - Eu estava um pouco bêbada, eu, eu, não foi nada demais, não mesmo, eu...
- Cala a boca, , pelo amor de Deus! - Pedi, num tom alterado, com a adrenalina pulsando por todo meu corpo, notei que eu tremia dos pés a cabeça, eu queria quebrar alguma coisa, eu queria quebrar e James.
- .
- Cala a boca! - Aquilo foi um grito, ela se encolheu e soluçou, chorando com mais força - Cala essa sua boca e não me conte mais nada, eu não quero saber mais nada, não tente se justificar, também! - Olhei pra ela, vendo-a soluçar com as mãos pressionadas contra a boca - Eu não esperava isso de você, apesar de tudo, eu não esperava isso de você.
- Você também fez isso com outras garotas...
- Eu fiz isso com muitas outras garotas a minha vida toda, mas você não é assim, ! - Exclamei, sentindo minha garganta arder e meus olhos queimarem, não sei se de raiva, ou mágoa, ou as duas coisas - Eu achei que você se desse mais valor, só isso, mas você mudou muito, e essa sua nova versão, eu não faço questão de ter por perto.


Flashback off.

Faltava apenas um dia para a viagem que eu tinha prometido acompanhá-la e eu não estava com a menor disposição para fazê-lo. Mas sr. me ligou pela manhã, perguntando se tudo estava preparado, e estava, exceto pela minha boa vontade que pareceu ficar nas lágrimas que eu deixei escorrer naquela noite, enquanto levava pra casa. A última vez que chorei por ela, e prometi a mim mesmo que isso não voltaria a acontecer.
Cheguei ao colégio e reconheci parada na porta principal, andei devagar até ela, vendo-a rapidamente enlaçar seu braço no meu. Começamos a andar e ela a tagarelar sobre como as coisas estavam indo com a barraca de doces, o festival estava muito perto agora e eu tentava me concentrar somente nisto e nos ensaios da banda.
Havíamos composto uma música e eu estava trabalhando em outra. As demos também já estavam gravadas, a audição estava agendada para o dia 02 de Outubro e eu não sei pelo quê eu estava mais ansioso. Eu apenas queria que as coisas dessem certo, mas em meio à época de provas, era difícil ser otimista.
Apesar disto, minhas notas estavam boas, altas como nunca estiveram antes. Os professores vinham me parabenizar por isto, dizer o quanto estavam felizes com a minha mudança. Eu tentava não ser grosso, mas às vezes eu não conseguia. Isso se aplica em qualquer aspecto, com qualquer pessoa que não fosse minha mãe. Bem, até mesmo ela não escapava do meu súbito mal humor em alguns momentos. Era natural, eu estava tão rancoroso que isto me cegou completamente, devo admitir.

- E aí, como estão os preparativos para a viagem? - quis saber, sentando-se ao meu lado, meus amigos me olharam, interessados, cumprimentei-os com um aceno de cabeça e apoiei meus antebraços na mesa, semicerrando os olhos para protegê-lo dos fracos raios de sol.
- Bem. - Deixei claro minha resistência quando o assunto envolvia , eles sabiam que não estávamos nos falando, mas não faziam ideia sobre o motivo, talvez soubesse, mas acho que se isso fosse verdade ela teria vindo falar comigo, ela não consegue se segurar muito bem.
- Ah, qual é? Você vai viajar com a , há uma semana atrás você estaria dando o cu na esquina pra ter essa oportunidade. - falou, afetado pela minha resposta curta.
- E hoje eu me castraria pra não ter que ir.
- Quando você vai nos contar o motivo desse ódio todo? - perguntou, curioso.
- quase transou com James. - Aquilo fez meu estômago guinar de uma maneira tão intensa que eu achei que fosse vomitar, prendi a respiração por um tempo, sem me mover - É por isso que ele está assim.
- Isso é verdade, ? - perguntou, com a voz baixa.
- É. - Dei de ombros.
- Porra, cara, sinto muito. - soltou, talvez arrependido por ter insistido no assunto.
- Relaxa. - Falei, sem entusiasmo, ou qualquer entonação.
- Relaxa nada, , você tá sendo muito injusto. - disse, e antes que eu pudesse me defender, ela continuou - Talvez eu nem tenha direito de te dizer qualquer coisa, mas você não vai conhecer pessoa mais sincera que eu, e eu te digo, você tá sendo injusto e infantil.
- Eu sou o infantil, ? Ela queria dar pro James! - Exclamei, sentindo toda a revolta da notícia me atingir - Logo pro James, ela sabe quem ele é, não é como se ela fosse ingênua...
- , você não comeu a Rebecca? Não comeu a Angie? E deve ter se deitado com muitas outras que você nem sabe o nome... - dizia, tão colérica quanto eu mesmo - Ela estava bêbada e nem aconteceu, além do mais, dê graças a Deus que só aconteceu com uma pessoa diferente de você, que já dormiu com garotas que nem se lembra e que depois ficam comparando o tamanho do seu pinto com a lista de 6 outros caras que elas dormiram no fim de semana...
- Mas nenhuma delas é minha ex namorada, nenhuma delas teve minha confiança e minha admiração...
- Ah, você não namorou a Kendra, então? - Trinquei os dentes - Pelo amor de Deus, você tá sendo hipócrita! Pode perguntar pro time todo de Cricket, de Polo, de Hockey... Pode ir lá e perguntar, se algum deles não comeu a Kendra é porque é novato ou gay... Você sabe disso, sabe que eu 'tô certa.
- É diferente, . Quando eu conheci Kendra ela já era assim, ela nunca prestou, eu estava consciente disso, mas não é assim...
- Ela teve um deslize, você nunca teve um deslize?! - gritou, com as veias de sua testa saltadas, a pele vermelha - Você é um idiota!
- ...
- Nem vem, não tem justificativa, pensa se você tá sendo maduro, você sabe tudo pelo que ela está passando, você também sabe o que acontece quando bebe, e você sabe melhor ainda como é o instinto sexual, o James é insuportavelmente persistente... Vocês nem estavam juntos! Tente se colocar no lugar dela por um momento, e tente, também, não pensar tanto só nesse seu pinto.

não me deixou responder, levantou-se e se afastou. Respirei o mais fundo que pude e fingi não perceber o olhar debochado dos garotos à minha frente. Levantei e peguei minha mochila sobre a mesa, saindo de perto deles que explodiram em gargalhadas quando ainda estava apenas a alguns passos da mesa. Rolei meus olhos, exaurido.
Talvez estivesse certa, mas só talvez. Eu ainda não conseguia imaginar , minha menina, que mal sabia o que fazer, que dependeu de mim pra cada pequeno passo na cama e agora, agora havia cedido uma tentativa de seus poucos conhecimentos, provindos da minha experiência, à James... Logo à James, que nunca mereceu um olhar vindo dela. Eu não iria me conformar tão cedo com o fato de seu corpo tão próximo de ser de outra pessoa. E só de imaginar as mãos de James excursionando algo que era meu, eu sentia vontade de estrangulá-lo. Não no sentido figurado, eu realmente não conseguia suportar a raiva, era maior do que eu.

Flashback

A chuva não havia cessado, apenas diminuído muito pouco. Eu sabia que , no banco de trás, estava com medo, mas provavelmente seu choro era por outro motivo. Eu não queria saber, por mim ela teria ficado lá, sozinha naquele posto que havíamos deixado pra trás há mais ou menos uma hora, agora já estávamos perto de Londres e eu mal podia esperar para vê-la fora do meu carro e do meu alcance.
- , podemos conversar amanhã? - Ela choramingou, quando estacionei em frente à sua casa.
- Não...
- ...
- Não, , não vamos conversar, amanhã ou qualquer outro dia, eu não quero conversar. - Não olhei para seu rosto, continuei com os pulsos apoiados no volante.
- , você está nervoso, tente me entender, não aconteceu nada, de fato, foram só... Você sabe... Podemos conversar quando você estiver mais calmo, quando achar que pode me ouvir...
- Isso não vai acontecer! - Encarei-a, vendo seu rosto de anjo tentar me amolecer, não funcionou - Entendeu? Não vai acontecer! Agora desce do carro, eu não aguento mais olhar pra sua cara.
- Tudo bem. - Soprou, entre uma lágrima e outra - Boa noite, .
- Você já acabou com ela.


Flashback off.

Retirei a mala que estava guardada em um compartimento no alto do guarda-roupa. Deixei-a sobre a cama e comecei a retirar as peças de roupa, jogando-as de qualquer jeito sobre a cama. Mamãe, que havia me dispensado do almoço, entrou no quarto e, com aquele olhar curioso, começou a dobrar algumas peças e a guardá-las organizadamente dentro da mala.

- Quer conversar? - Mamãe murmurou, receosa, neguei com a cabeça - Aconteceu algo entre você e , não é? Não quer ir à essa viagem?
- Mãe, eu disse que não quero conversar. - Resmunguei, minha mãe me conhecia muito bem, e eu estava certo de que ela sabia o quanto eu estava chateado com alguma coisa, mas deveria saber também que esse era o último assunto do qual eu gostaria de tratar agora.
- Tudo bem. - Ela disse, em tom baixo, voltando a guardar minhas roupas, suspirei, sentindo-me mal por ter sido estúpido.
- Desculpa, mãe. - Cedi - Eu não quis ser rude, é só que... Todo mundo quer saber, falar disso, e eu não quero tornar isso mais real.
- Isso? - Rolei os olhos - Ok, se você não quer dividir isso comigo, não tem problema, mas saiba que se precisar de qualquer coisa, é só pedir.
- Tudo bem, mãe, obrigada.

Ela permaneceu ali, em silêncio, apenas me ajudando a selecionar tudo o que seria necessário para aquela viagem. Deixei separada duas trocas de roupa no respaldar da minha cadeira, uma para ir trabalhar mais tarde e a outra para ir viajar. Por várias vezes, durante o banho, o jantar, e enquanto atendia as mesas do pub sob o olhar casual de Angie, perguntei-me como seria passar os próximos três dias em Paris com . A única imagem, inflada, que não saía de minha cabeça era a de minha ex namorada tentando se explicar por ter ficado com o pior cara do colégio e, com isto, conseguir meu perdão. Não iria funcionar desta vez.


Capítulo 30.
"Give me reason, but don't give me choice, 'cause I'll just make the same mistake again"
(Same Mistake - James Blunt)

- ! - Abri os olhos, mas não me movi, era como se eu tivesse acabado de fechá-los para dormir - , acorde, já está atrasado! - Meu raciocínio lento tardou a me lembrar do meu compromisso.
- Já estou acordado. - Falei, sem a menor vontade de me levantar da cama, mas mesmo assim afastando o edredom e o cobertor de cima do meu corpo.
- Ande logo! - Minha mãe exclamou enquanto eu caminhava lentamente em direção ao banheiro - , seja rápido.
- Calma, já vou!

Não sei o que foi mais difícil, entrar ou sair do banho. Enquanto escovava os dentes e tentava dar um jeito no cabelo, eu pensava no frio que devia estar fazendo lá fora. Eu podia ouvir os assovios do vento e a chuva não havia parado desde a noite anterior. Falando na noite anterior, Angie não fora nem mesmo um pouco complacente, não me liberou nem um minuto mais cedo, como eu havia pedido para poder descansar, pelo contrário, me pediu ajuda para fechar o pub. Eu não sabia o que podia estar acontecendo, mas às vezes, por mais absurdo que isso possa parecer, eu achava que Angie estava com ciúme de mim. Se eu não a conhecesse e não soubesse que ela é fria em questão de sentimentos, eu com certeza diria que não passava de ciúme.
Saí do banheiro carregando comigo minha escova de dentes, o desodorante, um frasco de perfume e uma pasta para o cabelo, joguei tudo em cima da cama e me apressei um pouco mais. Vesti primeiro a camiseta, tentando me livrar do frio no peito e nas costas, depois a calça jeans e o sweater com listras largas horizontais que variavam de cinza gelo para azul claro.

- Coloca um casaco mais quente, só esse sweater não vai dar pra nada, está frio lá fora. - Mamãe dizia, encostada ao batente da porta.
- Vou por uma jaqueta, mãe.
- Põe um sobretudo.
- Vou por a jaqueta, já guardei o sobretudo na mala, não quero abri-la pra mais nada, se não vai ser outra luta pra fechar. - Falei rápido, enquanto calçava as meias e meu all star o mais rápido que eu conseguia.
- Ok, calma. - Ela defendeu-se, suspirei, guardando o que faltava na bolsa de fora da mala.
- Estou calmo. - Peguei a jaqueta de couro, pendurada sobre o respaldar da cadeira, e a vesti, ajeitando-a no corpo enquanto procurava, com os olhos, meu gorro cinza.
- Parece ansioso agora. - Dizia ela, eu tentava não me irritar, mas era inevitável que meu estômago queimasse com raiva por ela estar certa, eu estava ansioso, não uma a ansiedade boa, uma ansiedade angustiante, que me remetia a ter que passar três dias ao lado de alguém de quem eu queria distância naquele momento.
- Estou bem, mamãe. - Falei, quase com cólera, já colocando o gorro na minha cabeça e indo buscar minha mala para sair - Vou ligar para o táxi...
- Já está na porta... - Contraí o cenho - Eu chamei.
- Ah, ok. - Mamãe me seguiu escadaria abaixo, e tenho a impressão de que só não foi até o táxi por estar chovendo.
- Boa viagem... - Disse ela ao me abraçar de maneira confortável - Se cuide, e não se esqueça de ser gentil e educado, acima de qualquer coisa.
- Ok, mamãe. - Beijei sua testa - Farei o possível pra não me esquecer disso.
- Certo, qualquer coisa me liga.
- Ligo.
- Deus lhe acompanhe.
- Amém.

O taxista me ajudou com a mala e dirigiu com cuidado até a estação de trem. É, não queria ir de avião, iriamos de Eurostar. Não vi problema nenhum com isso, não fazia grande diferença pra mim. A tortura, na verdade, seria a mesma. Mas, de alguma maneira, a ansiedade foi ganhando uma proporção ainda maior no caminho, por um breve momento desejei que ela tivesse escondido de mim o que havia feito com James, pois aquela viagem tinha sido muito bem planejada antes disto acontecer. Não era pra ser assim.
Desci do táxi somente quando o taxista já segurava minha mala do lado de fora do carro, entreguei a ele seu pagamento e comecei a me arrastar para dentro da estação, sentindo uma desordem momentânea em meu organismo, e em meus instintos. "Apenas seja firme", eu dizia a mim mesmo enquanto meus olhos procuravam por . Havia um trem parado e eu suspeitei que fosse o nosso. Não devia demorar a partir e eu ainda estava perdido entre a multidão que andava de um lado para o outro, confundindo minha visão. E então, foi como se as pessoas desaparecessem, uma a uma, primeiro tornando-se borrões, e depois deixando de existir. Meu coração deu uma pausa, como se precisasse pegar impulso para, em seguida, palpitar ansioso. Lá vinha ela, atrapalhada entre andar, puxar suas malas e esticar seu pescoço fino, com os olhos estalados, buscando por mim, desconfiei. Havia algo diferente em seu cabelo e em seu ar. Algo leve, encantador. E não fazia nem um dia inteiro que eu a havia visto pela última vez.

- Ouch! Finalmente te encontrei, achei que ia ter de embarcar sozinha! - Ela disparou, quando se aproximou um pouco mais, seus cabelos chacoalharam e brilharam com mais força, corte diferente, notei, talvez também tivesse mudado a cor - Tome, sua passagem. - Ela me estendeu o bilhete e eu tentei dar atenção a ele, tomando-o entre meus dedos que antes estavam escondidos no bolso da minha jaqueta - Vamos!

Saiu andando, sem me dar tempo de responder qualquer coisa, ou mesmo de me oferecer para carregar suas malas. "Carregar as malas dela, seu imbecil? Por que James não vem até aqui carregá-las?”, eu me culpava pela gentileza repentina, a qual ela não merecia, em minha concepção magoada. Com algum custo, retirei minha carteira do bolso e, de lá, minha identidade, entreguei ao fiscal junto com a passagem, que me devolveu em seguida, levando minhas malas e deixando meu documento junto com fitas de identificação da minha bagagem.
Havia alguém à minha frente, e depois , que ia andando pelo corredor, ora olhando sua passagem, ora as poltronas do trem, provavelmente procurando pelos nossos lugares. Ela se acomodou em um dos assentos e eu o fiz, em seguida, no lugar vago à sua frente, finalmente podendo respirar tranquilamente.
deixou uma pasta cinza sobre a mesa, plantada entre nós, e ao lado, uma pequena maleta prateada. Sem fazer a menor questão de me desejar bom dia, abriu a pasta e começou a retirar um maço de papéis, os espalhou na superfície bege e começou a olhá-los, organizá-los, ou seja lá o que ela estivesse fazendo. Apoiei minhas próprias mãos sobre a mesa e comecei a tamborilar os dedos, impaciente. Se ao menos eu tivesse comprado uma revista em quadrinhos...

- Você pode, por favor, parar com isso? Está me desconcentrando. - Ela disse, sem erguer os olhos, mas parando de anotar o que quer que fosse.
- Ah, me desculpe, mas eu paguei o mesmo preço que você. - Disparei, notei suas sobrancelhas se unirem, seus olhos se ergueram sob os cílios, mas sua cabeça continuava baixa.
- Isso não tem nada a ver com dinheiro... - Disse e finalmente ergueu seu queixo, adotando uma expressão sábia - E sim com respeito e educação.

Fingi que não queria dar continuidade à discussão quando, na verdade, eu não tinha o que dizer. Então recolhi minhas mãos e cruzei firmemente meus braços sobre o peito. agradeceu com os olhos, eu não sei como ela fazia aquilo, mas funcionava. E então voltou-se para seus papéis, rabiscando aqui e ali com uma concentração invejável. Eu não conseguia se quer pensar em outra coisa que não fosse as batidas pesadas do meu coração e o suor que brotava em minhas palmas, mesmo com o frio estridente.
Uma hora e meia, o silêncio dela estava me matando. Ao contrário do que eu pensei, ela não estava tentando puxar qualquer tipo de assunto comigo, não estava preocupada com o meu desdém, que a essa hora, já nem existia. Será que ela ao menos se importava com o quanto eu estava magoado? Mil coisas começaram a passar pela minha cabeça. Coisas como: Talvez ela e James estivessem realmente juntos, agora ele sabia que podia conseguir o que queria. Quem sabe ela tinha gostado de estar com ele, nada me garantia o contrário...
Suas mãos, delicadamente, trabalharam para juntar todos os papéis, empilhando-os e devolvendo-os à pasta, que empurrou para o canto da mesa. Abriu um pouco sua cortina e puxou a maleta prateada pra perto de si, a abriu e retirou de lá um espelho pequeno, junto de um suporte para que ele ficasse em pé na mesa. Então retirou um tubo, dentro dele havia um tipo de creme de uma cor que não sei definir, mas que cobria perfeitamente suas olheiras. estava se maquiando, eu não sabia se estava assustado, surpreso, ou apenas desacostumado. Eu sabia que ela se maquiava agora, mas nunca havia o feito na minha frente.
Eu não conseguia deixar de prestar atenção em seus gestos, mesmo que eu tentasse disfarçar e me distrair, não funcionava. Com uma esponja que parecia macia, espalhou um pó da cor da sua pele pelo rosto e um pouco pelo pescoço. Depois pegou o rímel, acho que é esse o nome daquilo que, para mim, é uma arma. Espalhou a tinta preta em seus cílios, dando a impressão de que eles eram bem maiores. Borrou delicadamente as maçãs de seu rosto com um pó cor-de-rosa e contornou, atenciosamente, os lábios com um batom da mesma cor, mas bem mais claro. Guardou tudo e se desfez da maleta, encostando-se no respaldar de sua poltrona e olhando pela janela. O dia estava nublado, mas a claridade atravessou o vidro da janela, iluminando seu rosto, e eu pude notar o quanto ela estava adorável. Simples, mas tão bonita que eu me senti culpado por não elogiá-la.

- O que temos que fazer quando chegarmos lá? - Perguntei pouco depois de me certificar de que devíamos estar chegando.
- O check in no hotel, você pode dormir, se quiser, eu vou assistir ao congresso.
- Eu também fui inscrito no congresso? - Perguntei, notando sua expressão indiferente.
- Foi, o diretor pagou pela sua inscrição, a minha eu ganhei, pois vou apresentar.
- Ah... - Assenti, devagar - Ok.

O trem adentrou na estação, as pessoas começaram a se levantar e recolher suas coisas para sair, me levantei, sentindo meus músculos protestarem ao movimento repentino. Me inclinei, forçando minhas mãos contra meus joelhos, tentando, de alguma maneira, fazê-los parar de doer. Me alonguei um pouco enquanto , calmamente, juntava sua pasta e maleta, levantando-se para seguir o fluxo de pessoas até a saída. Caminhei em seu encalço todo o tempo, mesmo após pegarmos nossas bagagens.

- Sabe, você não precisa ficar andando atrás de mim como se fosse um guarda-costas.
- Se você parar de correr, talvez eu consiga andar do seu lado. - Reclamei, resfolegando em cansaço pela quantidade de malas que eu carregava comigo.
- Eu disse que não precisava trazer minhas malas, você insistiu. - Disse ela, de maneira mal agradecida. Bufei e soltei as alças de suas malas, com força o suficiente pra que elas desequilibrassem e caíssem ao chão, depois saí andando à frente - Oh, meu Deus do céu, quanta maturidade! - falou alto, voltando para pegar sua bagagem, depois andou depressa atrás de mim.
- Quem é você pra falar de maturidade, ? Pessoas maduras não ficam se pegando com qualquer um no fim da noite.
- Não? E que tipo de pessoa faz isso? - Ela perguntou, de forma sarcástica, andando ao meu lado - O tipo de pessoa que aposta que vai transar com a nerd do colégio? Ah, não, esse é você, desculpe.

Trinquei os dentes, controlando a raiva desgraçada que me acometeu ao ouvir seu tom transbordando ironia. chamou um taxista, que guardou nossas malas e nos levou até o hotel. Nos demoramos um pouco no check in, mas finalmente a hora do descanso se aproximava e eu a vislumbrava cada vez com mais ansiedade.
Nosso quarto ficava no mesmo andar, na verdade, uma porta era quase em frente à outra, mas eu fingi não notar isto. Ela sumiu para dentro de seu quarto e fechou a porta com uma força desmedida. Bufei, estupefato com as atitudes dela. Será que ela acha que tem razão? Me perguntei enquanto deixava as malas no canto do quarto, que por sinal, não se parecia nem um pouco com o quarto que eu vi no site.
O carpete de cor indefinida fazia o quarto parecer forrado de estrume, e as cortinas deviam ter sido brancas algum dia, talvez um amarelo claro, creme, mas agora estavam encardidas, gastas, e não pareciam suficiente para impedir os raios solares, assim como a colcha azul sobre as duas camas de solteiro não parecia quente o bastante para me proteger do frio francês. Fui ao banheiro e quando retornei me sentei na beirada da cama, escolhendo entre comer e dormir, e tentando ignorar a densa camada de poeira que me sufocou quando soltei meu peso sobre a colcha.

- Alô. - Ouvi a voz de do outro lado da linha, mas continuei segurando o telefone longe do rosto, ele fedia à nicotina.
- O seu quarto é uma bosta? - Perguntei, sem pestanejar.
- Inabitável. - Reclamou, e eu sabia que não estava sendo fresca.
- Espero que você tenha trazido seu anti alérgico, vamos precisar.

Apesar de tudo, decidi descansar um pouco. Deitei desajeitadamente sobre a cama, um pouco desconfortável pela instabilidade da madeira e o aroma de naftalina. Eu não sentia esse odor desde que minha avó se mudou da casa onde vivia com meu avô... Ou seja, muito tempo atrás.
Ao despertar, demorei algum tempo até reconhecer o quarto. Me sentei, num espirro, e ergui meu pulso frente aos meus olhos, que lacrimejavam à espera de outro espirro. Meu relógio de pulso marcava meio dia e onze. Eu havia dormido a manhã toda, devia ser esse o motivo dos roncos do meu estômago. Liguei para a recepção a fim de pedir que chamassem o telefone do quarto de , mas a recepcionista me disse que ela havia saído por volta das 9 e até agora não havia retornado.
Deixei minha curiosidade de lado e calcei meu tênis. Passei pelo banheiro apenas para aliviar a bexiga e fazer a higiene bucal, mas acabei tendo de gastar um tempo para arrumar meu cabelo, caso contrário não me deixariam entrar no congresso. Demorei mais um tempo até encontrar a folha onde estava anotado o endereço da universidade e, só então, saí do quarto. Parte de mim estava aliviada e grata por isso, e outra parte estava esperando ansiosamente que houvesse coffee break.
A universidade era imensa, havia gente por toda parte, subgrupos espalhados pelo campus, não estava fazendo muito sol, mas eles não pareciam incomodados com isto. Peguei o celular e liguei para , que me atendeu na segunda vez.

- Oi.
- Onde você 'tá? - Perguntei à ela, ouvindo o movimento do outro lado da linha.
- Acabei de sair do anfiteatro, agora estou indo comer, por quê?
- Eu 'tô aqui na universidade e não sei pra qual lado ir. - Confessei, parando e me recostando a um pilar.
- Você 'tá aqui? - Ela perguntou - É o . - Ela disse, mais baixo, contrai o cenho.
- 'Tô, 'tô aqui. - Respondi, sem paciência.
- Estou indo pra lanchonete principal, é um lugar de paredes de vidro no meio do campus, não é difícil de achar.
- Obrigado.

Desliguei o celular e ajeitei o gorro em meu cabelo, então comecei a andar, ficar parado ali não ia solucionar meu problema: fome. Suspirei, olhando de esguelha para uma dupla de meninas bonitas que passavam ao meu lado, de braços dados, falando de mim. Arqueei as sobrancelhas e ajeitei minha postura. Eu até poderia parar e perguntar onde era a lanchonete, mas eu não queria que elas descobrissem que eu era um colegial, e não um universitário.
Encontrei a lanchonete depois de uns minutos rodando pelo campus, e aquilo sim pode-se dizer que estava abarrotado, se estivesse comigo ele certamente diria "isso 'tá peidando gente!".
Agucei meus olhos e comecei a procurá-la no meio daquele tumulto, por um breve momento tive medo, ainda me passava uma imagem frágil demais, não conseguia imaginá-la entre aquelas pessoas sem estar completamente vulnerável. Talvez eu estivesse enganado e estivesse muito maior e muito mais madura do que eu tinha pra mim, mas só percebi isso ao vê-la sentada em uma mesa, junto com algumas outras pessoas que eu nunca tinha visto na vida, três meninas, dois meninos. Eles não pareciam ter acabado de se conhecer, o que me deixou alarmado. Quem eram eles? E o que queriam com ela?
Aproximei-me depressa e só quando parei ao lado de minha presença foi notada por todos, que rapidamente viraram seus olhos em minha direção, examinando-me com mesma meticulosidade que eu fazia com eles. notou algo de estranho e virou seu rosto pra trás, quase esbarrando-o em minha barriga, tamanha era minha proximidade, ergueu o queixo e me encarou com os olhos estalados, confusos.

- Algum problema? - Perguntei, voltando a olhar para as pessoas ao seu redor, uma das garotas me sorriu amigavelmente.
- Er... - contraiu o cenho - Gente, esse é o , , esses são Denis, Lundy, Julien, Camille e Oriel. - Pessoas estranhas, nomes estranhos.
- Prazer, ! - Oriel, a garota que me sorria simpática e tinha nome de homem se levantou e estendeu sua mão ossuda em minha direção, cumprimentei-a brevemente e várias mãos se esticaram em seguida.
- Prazer. - Soprei, sem entender de onde os conhecia.
- Sente-se, ... - Julien, um garoto que, de repente, achei bem parecido comigo, disse, apontando para uma cadeira vaga.
- Valeu. - Murmurei, puxando a cadeira pelo encosto e me sentando ao lado de , desconcertado pela situação.
- Então, como eu dizia... - Ele continuou a falar - Você pode até tentar entrar para outras universidades, , mas nenhuma vai te oferecer o que você já tem aqui, os professores são ótimos e você já nos conhece...
- Sei disso, Julien... - Disse ela, meu estômago embrulhou subitamente, eu fingi não entender o motivo - Mas minha família está lá, não quero e não posso me afastar deles.
- Certo, mas pra qualquer universidade que você for, você vai ficar longe deles, e terá os fins de semana livres. - Ele insistiu - Você tem que pensar grande, , porque se você não se afastar dos teus pais agora, quando eles mais precisarem, você não terá como ajudá-los. - Ele estava jogando baixo.
- Não sei, vamos ver... - Ela quebrou o assunto, eu sabia que ela estava desconfortável, e eu também estava. Nerd do caralho.
- E você, , pretende fazer o quê? - O outro rapaz me disse, com uma expressão indiferente.
- Eu tenho uma banda. - Minha resposta os deixou calados por mais ou menos 10 segundos - Vou viver de música. - Meu sorriso alargou-se com a cara deles, era como se me dissessem "oh, pobre coitado", mas eu não me importava mais com isso já tinha um tempo.
- E por que você não faz... Uma faculdade... De música? - Julien hesitou.
- Porque eu não preciso. - Respondi com um resto de tolerância e virei meu rosto para , que parecia envergonhada com a situação - Você já comeu?
- Não... - Murmurou, sem virar seus olhos em minha direção.
- O que vai querer? Vou lá fazer os pedidos.
- Pode ser um pedaço de torta, ou a salada do dia. - Ela disse, mas eu não me movi - Eu não estou com fome.
- Eu ouvi que você quer um bife com purê de batatas e legumes refogado?
- Não, não ouv...
- Eu já sabia, com licença.
- Ele é seu namorado? - Ouvi um deles dizer com desdém.

Não é que eu considerasse o ensino superior desnecessário, não sou tão imbecil a este ponto. É essencial pra quem quer trabalhar com alguma ciência, seja qual for. Mas nem por um minuto em toda minha vida pensei em entrar para uma. Meu futuro não estava ligado em sala fechada alguma que não fosse um estúdio. Minha profissão estava no palco, eu nunca estive tão certo disto como naquele momento, dentro daquela universidade, com aquelas pessoas que, de tão inteligentes, ficaram arrogantes.
Após conseguir pegar nossas bandejas, voltei para a mesa. respirou fundo ao dar-se conta da quantidade de comida em seu prato. Fingi não perceber a má vontade com a qual começou a comer e devorei o que tinha em meu prato, sem me preocupar com o que eles poderiam estar pensando sobre isso. Certamente não era bom, mesmo.

- Você vai entrar para assistir o próximo projeto? - Olhei pra ao notar que ela falava comigo, deixei minha taça de milk shake, agora vazia, sobre a mesa e assenti.
- Vou.
- Dura duas horas. - Advertiu, com a expressão confusa.
- Tudo bem. - Dei de ombros - Não tenho nada pra fazer.
- Ok, então vamos.

Eu não queria parecer arrependido de ter tomado a decisão de entrar naquele salão junto daquele bando de nerds, mas provavelmente estava estampado em minha expressão completamente confusa e entediada. Eu não conseguia entender nada do que era dito, e o pior: eu não queria. Eu não estava interessado no assunto e isso fazia com que minha atenção ficasse fraca. Bem fraca.
Pouco antes de pegar no sono, por sorte, as palmas começaram e isso me despertou. Bati algumas palmas também, já me levantando para sair dali. até me acompanhou até o lado de fora, com seus amigos estranhos, mas quando comentaram entre si o nome do próximo assunto a ser tratado eu desisti, nem mesmo por ou Sr. eu ficaria ali. Combinei que passaria para buscá-la às 17h, horário que supostamente terminaria a última apresentação, para acompanhá-la de volta ao hotel.
Bem, no caminho até qualquer lugar – já que eu não sabia pra onde ir, encontrei um pub, entrei para conhecer e assistir ao jogo que estava passando no telão. Era um pub interessante, de luzes baixas, que produzia o próprio chop, diferentes tipos dele. Com o cardápio em mãos, iniciei um jogo, experimentar todos os chops antes de ir embora. Comecei pelo de café, depois veio o de vinho, e depois menta, e depois... Eram 15 opções, mas não me lembro todos os sabores, me lembro de ter repetido a rodada apenas com os que mais gostei, quando eu já não sabia distinguir qual estava bebendo.
Paguei pelo que havia consumido e fui ao banheiro antes de decidir ir para o hotel. Me surpreendi ao notar que já havia escurecido e que já devia ter saído há algum tempo... Ou há muito tempo.
Eu sentia meu corpo meio dormente conforme eu caminhava, meus joelhos, principalmente. Eu estava meio fraco, meio leve, e meu senso de direção parecia nunca ter existido antes. O elevador veio a calhar, ao mesmo tempo que me deixou bem mais zonzo do que eu já estava. Encostei-me à parede e respirei fundo algumas vezes, tentado recuperar parte da minha lucidez.
Atravessei o corredor, e não sei o motivo, mas a porta do meu quarto não era aquela na qual bati. Encostei-me ao batente, tentando me manter equilibrado nele enquanto eu esperava me atender. Eu podia estar completamente bêbado, minha visão um pouco embaralhada, mas eu não estava alucinando, não ainda. Julien estava parado à minha frente, por pouco tempo. Meu antebraço voou em direção a sua garganta, lançando seu corpo magricelo pra longe enquanto eu dava longas passadas pra dentro. segurava alguns livros nos braços, seus olhos estalaram ao se dar conta da situação.

- O que ele 'tá fazendo aqui? - Perguntei em um tom elevado - ME RESPONDE!
- Ele veio me trazer enquanto você, aparentemente, estava bebendo! - retorquiu, com a expressão séria.
- Como sempre, não é? Eu saio e você procura por outro! - Acusei, sentindo meu coração bater pesadamente.
- , por favor... - fechou os olhos.
- , eu acho melhor eu ir... - Ouvi a voz trêmula de Julien dizer, atrás de mim.
- Nããão! O que é isso! - Falei, de maneira irônica, virando pra ele e marchando até a porta - Não queria ter atrapalhado, fiquem a vontade.
- !

Ignorei o berro de e segui para o meu quarto. Enquanto eu me esforçava para encaixar a chave na lingueta, ouvi Julien agradecer pelos livros e seguir para o elevador, e antes que eu conseguisse abrir a porta, senti meu corpo ser empurrado pra frente, colidindo contra a porta de maneira brusca, apertei os olhos, sentindo minha cabeça e boca latejar com a batida.

- Você não tem o direito de me tratar assim! - exclamou, parada atrás de mim, ergui minha mão e passei pela boca ao sentir o gosto amargo do sangue, mas a dor não veio, o álcool a deteve - Você tem sido um idiota esse tempo todo e eu mantive distância porque não acho que mereço, mas agora chega, chega de insinuar que eu sou uma vadia! - Virei-me lentamente, os olhos de , cheios d'água, chamaram a atenção dos meus - Eu sei que o que eu fiz não foi certo, mas não por você, porque não estávamos juntos... Por mim... Não foi certo por mim, eu devia ter me respeitado, mas já foi! - Traguei em seco, tentando me esquivar das imagens que minha mente projetava, James e juntos - Se você não consegue suportar a ideia de eu ter ficado com outra pessoa, se isso te faz pensar que não sou digna do seu amor e do seu perdão, ok, suma da minha vida, então! Eu não preciso de você, não preciso do seu rancor e do seu desrespeito... - Ela dizia tudo com tanta segurança que eu me senti incapaz de responder, minhas narinas queimaram, úmidas, e eu funguei - Mas se tem alguma chance, por menor que seja, de que essa viagem não fique pior, entre no seu quarto, tome um banho e durma, amanhã é meu projeto e eu não quero ver tua cara pelo resto da noite.

Seus olhos brilharam mareados, suas lágrimas cheias de mágoa atraíam as minhas. De fato, eu não choraria em outra situação, porque o ódio tomou proporções avançadas, que conteve todo aquele sentimentalismo que costumava estar envolvido quando se tratava de e eu. No entanto, eu estava bêbado. Eu estava completamente ébrio e vulnerável a todos os sentimentos, com direito a bônus. Tudo estava me matando. Tudo o que eu fiz a ela, eu também havia errado tanto com , e ela estava ali, me pedindo por favor que eu entrasse e me curasse da bebedeira. Senti raiva de mim mesmo, e depois dela, e depois de todo aquele maldito drama adolescente no qual estávamos imersos, eu tive a certeza que algum dia eu olharia pra trás e riria histericamente daquela cena, não sei se riríamos juntos, ou se ela seria uma lembrança boa de um amor colegial... O fato é que eu queria que ela entrasse no meu quarto comigo, só por ter sua presença. Ela não precisava nem tirar a roupa, nem chegar muito perto, ou ficar acordada... Eu só precisava sentir um pouco do seu calor, pra acalmar meu coração traído.

- , está tudo bem? - Ela sussurrou, percebi que estávamos parados ali há algum tempo e eu ainda não havia dito nada.
- Nunca dormimos juntos em uma cama de casal. - Comentei, com a língua enrolada, soltou um sorriso, sei que foi sem querer, mas salvou minha noite.
- Por mais convencionais que tenhamos sido... - Neguei com a cabeça, cambaleando um pouco e querendo me deitar – Você está passando bem?
- Eu estou bêbado, um pouco bêbado... - Ela se aproximou um passo e levantou sua mão, minha respiração se conteve sentindo enquanto com os dedos ela examinava meus lábios, contraí meu cenho, sem entender muito.
- Acho que eu te machuquei – Comentou baixinho, entretida – Vem, vamos entrar, tem gelo no frigobar, vou dar um jeito nisso antes que inche.
- Você não precisa fazer isso – Mas eu queria tanto que fizesse, completei mentalmente.
- Vem logo, , antes que eu desista.

Acompanhei-a pra dentro do seu quarto, me lembrei de Julien e de como ele parecia querer chorar quando o empurrei, dei risada, não deu atenção a isso, mas eu sei que ela sabia do que era. Sentei na beirada da cama, depois, ainda com os pés no chão, deitei o corpo pra trás. Imediatamente foi como olhar através de um caleidoscópio, o teto se desfez em um redemoinho e meu estômago se enjoou bruscamente. Fechei os olhos tentando amenizar a sensação, senti uma suave pressão no colchão e o perfume adocicado invadiu minhas narinas, sua pele toda tinha um cheiro delicioso, se eu estivesse em condições gostaria de beijá-la por inteiro... Mas nada aconteceria aquela noite, nada que envolvesse uma ereção, pelo menos.

- Você está pálido – Comentou ela, sorri, sentindo-me idiota.
- O Julien também – Dei risada novamente, ela suspirou alto.
- Você tem que parar de querer bater em todo mundo! - Imediatamente me recordei de minha mãe e sorri com sinceridade, mas a lembrança me remeteu a surra em meu pai, e meu sorriso morreu ali. Abri meus olhos e, com dificuldade, me ergui em um dos cotovelos, demorando um pouco até conseguir focalizar seu rosto exausto.
- Eu sou capaz de qualquer coisa quando alguém machuca as pessoas que eu amo, – Falei em um tom sério, ela não entendeu num primeiro momento, mas percebeu que eu não estava me referindo somente àquela situação com Julien.
- O que fizeram com você, ? - Murmurou, de um jeito que me fez querer chorar, outra vez, porque eu sabia exatamente o que ela queria dizer – Onde foi parar aquele humor ridículo? Aquele risinho pateta sempre aqui no cantinho da sua boca? - Seu polegar tocou meus lábios, depois seus dedos subiram até meu cabelo e o afagaram, meu cotovelo cedeu e eu quase caí deitado, mas me ergui a tempo – Eu sei que eu te magoei muito com o que aconteceu, , eu sei porque o amor que sentimos um pelo outro não permite que vacilemos, qualquer pequeno passo em falso machuca mais do que deveria, e me desculpe por isso, me desculpe por meter os pés pelas mãos e te fazer mal quando você já está em uma fase tão conturbada... - Neguei com a cabeça, pois eu não queria falar sobre isso, eu não queria ouvir sobre isso – Mas não deixe que ninguém, nem mesmo eu, roube de você aquela vitalidade linda que você sempre teve... Eu te invejei tanto por ela e agora... Oh, não, ... - Ela se debruçou sobre mim e acolheu meu rosto contra seus seios, o calor da sua pele me fez lembrar de um conforto que eu precisei muito – Não chora... - Sussurrou, e eu percebi que, por fim, estava mesmo chorando – Por favor.

Eu não disse nada, não sei se havia algo a ser dito. Eu estava me sentindo aquecido e acolhido como se tivesse voltado para o útero, acho que essa seria a sensação, uma proteção colossal e reconfortante. afagava os meus cabelos e eu queria acreditar nas palavras que ela não dizia, mas que estavam em seu jeito de me abraçar. “Vai ficar tudo bem”, seu coração sussurrava a cada batida, mas era difícil de concordar, quando nada dava certo.
Não sei se perdi a consciência por um tempo, mas me dei conta do vômito em minha boca, tentei me afastar dela para não sujá-la, o que foi inútil, porque ela me segurava com uma força que, naquele momento, eu não tinha.

- Tava demorando – Disse ela, mais pra si mesma que pra mim, eu ri, entre um arroto e outro – Não ria, você tá vomitando em mim – Ela não estava brava de verdade, enquanto tentava me levantar da cama – Vem, tenta levantar, vamos ao banheiro – Eu estava me esforçando, mas eu parecia ainda mais bêbado naquele momento – Eu não acredito que você está fazendo isso comigo um dia antes da minha apresentação – Aquilo me atingiu em cheio, me senti um idiota.
- Me desculpa – Falei, da maneira que consegui e tentei recuar um passo para longe dela – Eu vou pro meu quarto, você precisa descansar.
- , por favor... - Ela me olhava e tentava me arrastar para o banheiro – Vem, ainda é cedo, eu vou cuidar de você. Não foi isso que fez por mim?

Então agora ela acreditava em mim. Sorri, por entre a ânsia, e deixei que ela me ajudasse a chegar no banheiro. Sentei perto do vaso e olhei pra dentro dele, depois para .

- Acho melhor você ir me esperar lá no quarto, isso vai ser nojento – Ela riu, sentando-se atrás de mim, sobre os próprios calcanhares.
- Têm vomito seu nos meus seios, nada pode ser mais nojento – Ela disse, entre risos, depois posicionou uma mão nas minhas costas e outra em minha testa, como minha mãe fazia quando eu era pequeno – Não vou sair daqui.

A princípio a náusea amenizou, ao menos até apoiar sua mão sobre meu estômago e começar uma massagem que parecia chamar o vômito. Conforme eu devolvia o álcool, minha consciência retornava e eu começava a me dar conta de quão humilhante estava sendo aquela situação. Apoiei meu braço na borda do vaso, sentindo como se estivesse vazio por dentro, o que enfraquecia meus movimentos e pesava minhas pálpebras.
Fechei meus olhos e respirei fundo. “Eu poderia explodir agora”, pensei, já que eu não sabia o que fazer a seguir, agora que eu não estava mais tão bêbado e, automaticamente, minha espontaneidade havia baixado. Eu deveria dizer algo, mas o que? “Obrigado, boa noite”? Não parecia a coisa certa. Nada parecia certo naquele momento. Talvez eu devesse fingir que ainda estava bêbado, ou estava dormindo.
se levantou e caminhou para fora do banheiro, voltando com uma troca de roupas e uma toalha, livrou-se das peças em seu corpo e adentrou o box. Eu não estava impressionado por vê-la passear de calcinha e sutiã, éramos tão íntimos que estranho seria ela pedir que eu saísse ou tentasse se esconder.
Já de banho tomado e vestida, acercou-se novamente e agachou-se atrás de mim, passando a mão pelos meus cabelos, afastando-os da testa.

- ? – Sua voz soou preocupada, o que me fazia querer sumir com mais intensidade – Você está se sentindo melhor?
- Uhum. – Tá, e agora? – Obrigado.
- Vem... – Senti enquanto ela se afastava, apenas abri os olhos, acompanhando seus movimentos, abriu as portas do armário, parecia procurar por algo – Deve ter uma escova nova aqui em algum lugar – Falava, mais consigo mesma do que comigo, me mantive em silêncio – Aqui! – Ergui um pouco minha cabeça, o banheiro parecia girar ao meu redor, mas não havia nada para vomitar, apesar da náusea constante – Levanta, , toma um banho, você vai se sentir melhor.

Fiquei olhando para a parede, sem coragem de encará-la embora eu soubesse que seus olhos estavam sobre mim. Apoiei ambas as mãos na borda do vaso para conseguir me levantar, cambaleei um pouco pra trás e fechei os olhos, tentando estabilizar meus sentidos e recobrar a força nas pernas. passou por mim e adentrou o box. Andei descoordenadamente até a pia, ela havia deixado a escova de dentes com a pasta, não contive um sorriso, mesmo que pequeno. Escovei meus dentes enquanto, pelo espelho, a vi deixar uma toalha limpa pendurada no suporte e sair do banheiro, encostando a porta. Eu estava sozinho, e aliviado por isso.
O que eu diria a ela quando saísse dali? Me perguntava, com a testa encostada no ladrilho, sentindo a água em queda livre sobre minhas costas. Talvez eu não devesse dizer nada, quem sabe eu pudesse apenas colocar minha roupa, dizer a ela que precisava descansar para a apresentação de seu projeto, agradeceria e iria para o meu quarto dormir. Seria ideal, se eu tivesse a garantia de que conseguiria encontrar as palavras certas para dizer isso.
Me enxuguei, tudo da maneira mais lenta possível. Virei a boxer do avesso e a vesti, depois a calça, mas a camiseta e o sweater fediam a bebida, vômito e cigarro. Respirei fundo, com a mão na maçaneta. Tamborilei meus dedos nela antes de, por fim, girá-la e sair, encolhido pelo frio que me acometeu. Apenas as pequenas luzes do canto do quarto, acima da cabeceira da cama, estavam acesas. estava sentada, usando um pijama longo que parecia limpo e macio, lia as mesmas folhas que estava organizando no trem. Havia uma troca de roupas sobre o aparador que ficava próximo à porta...

- Tomei a liberdade de ir até seu quarto e buscar uma roupa confortável pra você dormir – Ela disse, meu coração disparou, eu deveria saber o que dizer, mas eu só conseguia pensar no quanto eu não queria me deitar ali.
- Obrigado – Murmurei, abraçando minhas peças de roupa suja com um dos braços e pegando a camiseta de manga longa e o short sobre o aparador – Eu... Vou indo, . Desculpa qualquer coisa.
- ? – Ela me chamou, olhei pra ela por um instante, depois para a porta – Você nunca vai me perdoar?
- Vou! – Respondi imediatamente, e acreditei em mim, então olhei pra ela com pesar, eu sabia que ela estava esperando mais de mim, e eu sabia que deveria tentar corresponder a isso – Mas essa noite eu preciso ficar um pouco sozinho, me desculpe mesmo por tudo, e descansa, amanhã é sua apresentação, é seu dia...
- Boa noite, – Entendi, assenti um pouco com a cabeça e andei até a porta, antes de sair olhei pra ela novamente, com o rosto escondido atrás de suas folhas.
- Boa noite, .

Capítulo 31.
"How long can I go on like this, wishing to kiss you, before I rightly explode?"
(If It Kills Me - Jason Mraz)

Uma pontada forte quando retomei a consciência. Uma ainda mais aguda quando abri meus olhos e, quando me sentei, senti que minha cabeça podia estourar a qualquer instante. As batidas na porta se mantiveram, era como se estivessem dentro de mim, mais especificamente em meu crânio.
Levantei da cama e, sem o menor entusiasmo, fui atender. estava parada no corredor, com sua pasta em mãos, vez ou outra os papéis escorregavam e seguiam uma corrente de ar, aterrissando no carpete cor de vinho. Encostei-me ao batente e sorri fraco, esquecendo, por um momento, de todos os mal entendidos e do que havia acontecido na noite anterior. Notei a pouca maquiagem, o penteado delicado, sofisticado e a roupa tão séria. Não achei que fosse combinar com ela. Eu estava enganado. E ela, linda.

- Você pode me ajudar? - Perguntou ela, inclinando-se desajeitadamente dentro de sua saia justa para recolher alguns papéis, fiz o mesmo, com maior facilidade, e quando endireitei minha coluna, senti uma fisgada quase insuportável na minha cabeça, apertei os olhos, respirando fundo para não soltar um palavrão - Obrigada.
- De nada. - Respondi, empilhando novamente as folhas dentro de sua pasta.
- Pelo jeito você não vai sair desse quarto hoje, não é? - Disse ela, e eu senti um rastro de decepção em sua voz.
- Claro que sim, que horas é sua apresentação? - Perguntei, já rezando pra que não fosse a primeira, ou eu teria que correr.
- Às 11, depois do primeiro coffee break. - Respondeu, crispando os lábios em seguida.
- Estarei lá.
- Ok, eu estou indo, preciso me organizar ainda. - Eu sabia que ela já estava com tudo pronto, mas sua ansiedade não permitia que ela também se desse conta disto.
- Certo, eu vou tomar um banho. - Resmunguei, já pensando no frio que eu iria passar.
- Faça isso. - Seu sorriso foi divertido enquanto me olhava de cima a baixo, semicerrei meus olhos em uma expressão irônica.
- Tchau, .

Ouvi sua risada gostosa invadir o corredor pouco antes de ter a porta fechada em sua cara. Não contive um sorriso, era estranho essas nossas mudanças repentinas de humor e comportamento. Mas talvez a noite anterior tenha me mostrado que merecíamos uma trégua, cedendo ao seu pedido de tornar a viagem menos ruim... Mesmo sem me lembrar conscientemente de seu pedido naquele momento.
Abri minha mala e me perguntei se eu deveria usar uma camisa, talvez um blazer... Mas desisti quando descobri que eu não tinha nada do tipo ali comigo. Deixei separado sobre a cama um jeans de lavagem preta, uma camiseta branca e um casaco grosso marrom acinzentado. Escolhi uma boxer branca qualquer e me arrastei até o banheiro, quase desistindo. Se eu não soubesse que iria me ajudar a curar a ressaca, talvez eu tivesse mesmo deixado passar.
Meu banho não durou mais que 15 minutos. O frio não ajudava em nada. Eu poderia passar mais de meia hora sob o chuveiro em outra situação. Sequei meu cabelo e pensei em fazer a barba, mas a vontade passou rápido. Borrifei um pouco do anti transpirante e saí do banheiro, quase correndo. Me vesti o mais rápido que consegui diante da tremedeira da ressaca. Meu estômago roncava alto e eu precisava de uma aspirina antes que minha cabeça explodisse.
Tirei meu óculos de sol da mochila, o aviador marrom, já que o outro o fez o favor de sentar em cima. Minha mãe ficou contente, não gostava muito dele. Mas esse me fazia parecer gay enrustido.
Calcei meu tênis e coloquei minha carteira no bolso. Fechei meu casaco a caminho da porta do quarto. O corredor estava tão vazio quanto o restaurante, pude escolher uma mesa do lado de fora, aproveitar o pouco sol. Engoli dois pães de batata com uma xícara de café preto, a tremedeira cessou, mas minha cabeça ainda latejava e meu estômago também não havia aceitado muito bem a comida. Tomei uma aspirina e, ao me certificar de que ainda não passavam das nove e meia da manhã, decidi subir e descansar um pouco mais, esperar a dor passar.

Everybody's got a hungry heart...
Everybody's got a hungry heart...
Lay down your money and you play your part...
Everybody's got a hu-u-ungry he...


- Alô. - Murmurei, sem abrir os olhos.
- E aí, cara! - exclamou, parecendo entusiasmado, respirei fundo.
- O quê?
- Ué, como estão as coisas?
- Ah, , você me acorda pra ficar fazendo fofoca como uma mocinha, cara?
- Ih, que mal humoor!
- Estou de ressaca... - Abri os olhos, sentindo minha garganta um pouco trancada, talvez pela quantidade de pó que eu já havia inalado.
- A noite foi boa assim ontem?
- Nossa, surpreendentemente boa. - Ironizei, girando meu relógio de pulso para poder olhar a hora - Puta que pariu! - Gritei, saltando da cama - , obrigado por ligar.

Desliguei antes que ele dissesse qualquer coisa e guardei o celular no bolso junto com a carteira, que eu tinha deixado no aparador próximo à porta. Saí do quarto e andei depressa até o elevador. Eu tinha exatos 9 minutos para chegar até a universidade a tempo de assistir a apresentação de . Talvez, em algum lugar de mim, ainda houvesse um bocado de consideração por ela, um lugar onde eu não queria decepcioná-la.
As pessoas me olhavam com confusão enquanto eu corria, serpenteando entre elas. Até pensei em pegar um táxi, mas o tempo que levaria para eu encontrar um disponível era o mesmo tempo que eu levaria pra correr três quadras.
O campus estava relativamente vazio quando passei por ele, eu mal conseguia respirar sem sentir dor no peito. Minha garganta seca chegava a arranhar e tive uma breve tontura quando, por fim, adentrei no anfiteatro. Pude ver as pessoas acomodadas, conversando entre si. O palco estava vazio. Fechei os olhos e respirei fundo algumas vezes, sentindo meus joelhos tremerem pelo esforço. Quando tornei a abrir meus olhos, pude ver todos olhando pra mim como se eu fosse um idiota. Bom... Nesse caso...
estava na beirada do palco, segurando sua pasta e um laser pequeno entre os dedos, conversava com um homem alto, sem muito cabelo na cabeça. Umedeci meus lábios, completamente ressecados, e comecei a passar entre as fileiras de cadeiras, procurei uma que estivesse próximo ao palco, e só então me sentei. Meus músculos agradeceram, eu ainda estava resfolegando. Enxuguei algumas gotas de suor que brotavam em minha testa e buço, me olhou e eu reconheci um alívio em seus olhos, sua expressão. Sorri fraco e acenei com a cabeça, sibilando um "good luck" sincero.
Quando subiu no palco e se apresentou, esqueci completamente de quem ela costumava ser quando a conheci e até mesmo nos últimos tempos. Estava completamente segura e permaneceu assim pelo resto de sua apresentação. Ela sabia o que estava falando, ela havia estudado por aquilo dia após dia, pude perceber quando os slides travaram e ela continuou perfeitamente sem eles por um longo tempo, até conseguirem consertar. Ao final, eu queria beijá-la. É, eu quis beijá-la quando ela abriu um sorriso de gratidão pelas palmas. Eu quis beijá-la como eu disse não querer durante aqueles últimos dias, e talvez eu realmente não tenha querido até a noite anterior... Naquele momento não existia nada além do sentimento que eu sempre tive por ela. Talvez mais carregado, mais machucado... Mas era o mesmo, estivera escondido por uns dias, agora estava de volta.
Me repreendi, reprimi o que estava sentindo e vesti minha indiferença quando ela desceu do palco. Levantei quando notei que ela vinha em minha direção, tentei parecer apenas feliz por ela, tentei não parecer completamente admirado com sua performance. Tentei, por fim, não parecer o cara cedido de sempre... Falhei em seu sorriso.

- O que achou? - Perguntou ela, com o mesmo sorriso esperançoso nos lábios.
- Você foi ótima. - Saiu como um sopro de pura surpresa.
- Obrigada... Deu errado os slides, você percebeu? Ai, claro que percebeu, todos perceberam... - Ela dizia rapidamente, espremendo os próprios dedos, com os olhos indo de um lado para outro, fugindo dos meus.
- Hey! - Chamei sua atenção, pousando minhas mãos em seus ombros magrelos, ela ergueu seu rosto com a expressão apreensiva - Você foi ótima, de verdade, o erro dos slides não foi culpa sua e você se saiu muito bem sem eles. - Minha voz emanava conforto e eu sabia que estava sendo dócil, ela parecia surpresa, eu também estava.
- Obrigada. - Agradeceu novamente, com um sorriso pequeno, tímido.
- Bom, acho que podíamos ir almoçar... Em comemoração. - Dei de ombros, ela murchou sua expressão e encolheu-se um pouco.
- Se importa se formos com meus amigos? Era o combinado... Sabe...
- Não tem problema. - Enrijeci novamente, afastando minhas mãos do seu corpo para cruzar meus braços.
- Mesmo? - Eu sabia que tinha problema, ela também sabia que sim, mas ninguém disse nada.
- Claro.

Encontramos seus amigos do lado de fora, eles a parabenizaram, mas de alguma forma pude sentir a inveja exalando de cada um deles. Julien me olhou com receio e eu não fiz questão de cumprimentar ninguém. Eles já não me consideravam simpático e eu não me interessava em parecer legal pra eles, então ignorei completamente os bons modos.
estava tão feliz entre seus colegas que me senti culpado por estar detestando aquela situação. Os assuntos variavam, mas eu nunca me sentia confortável o suficiente para abrir minha boca pra outra coisa que não fosse comer. Foi o que fiz o tempo todo, comi. Depois da sobremesa eu já me sentia melhor, minha dor de cabeça tinha passado e eu estava bem mais disposto do que quando acordei naquela manhã.
Nada havia sido dito sobre o ocorrido da noite anterior, Julien nem sequer olhava na minha direção, talvez estivesse com medo de mim e isso me dava uma sensação ambivalente, ao mesmo tempo que eu queria que ele tivesse mesmo medo de mim, isso o manteria longe de , eu me sentia mal por ter feito o que fiz, talvez ele realmente só estivesse sendo gentil em levá-la pro hotel enquanto eu me divertia num pub.

- Bom, então fica combinado, hoje mais tarde nós vamos à um pub no centro da cidade. - Dizia Oriel, controlei-me para não dar uma bela girada de olhos bem típica de quando discordo de algo.
- Certo, até mais tarde então. - respondeu, acenando pra eles e vindo em minha direção, coloquei meu óculos de sol e comecei a andar - Que saco. - Ouvi-a dizer.
- O que?
- Não quero ir a esse lugar com eles.
- E por que disse que sim? - Perguntei, confuso.
- Porque não me sinto a vontade pra dizer que não, sinto que vou parecer chata.
- Você não deveria se importar com isso.
- Não consigo ser como você, ser estúpido sem me importar com o que estão pensando. - Dei uma risada divertida, achando realmente engraçado o comentário dela.
- Realmente não me importo. - Encolhi os ombros, ainda sorrindo - E se você não quer ir com eles mais tarde, não vá... E pode dizer que a decisão foi minha, porque eles já conhecem meu lado estúpido.
- Você não vai com a gente? - Ela perguntou, neguei com a cabeça.
- Nem fodendo, . - Respondi simplesmente - Se eles são chatos sóbrios, imagine bêbados.
- E o que você vai ficar fazendo? - Perguntou, confusa.
- Sei lá, qualquer coisa que não envolva nerd.
- Está me ofendendo. - Retorquiu, dei risada, negando com a cabeça.
- Você sabe que você é uma exceção na minha vida.

Ela pareceu surpresa com o que eu disse, talvez comovida. Calei-me imediatamente e ela também não disse mais nada. Apenas continuamos andando lentamente.

- Nossa, meus pés. - resmungou, olhei de esguelha pra ela, que mancava discretamente, desviei meu foco para seus saltos e arqueei as sobrancelhas.
- Nem quero imaginar a dor que você 'tá sentindo. - Comentei e rapidamente olhei ao meu redor, procurando por um táxi.
- Vou tirar... - Virei meu rosto em sua direção, vendo-a inclinar-se e retirar os sapatos com uma naturalidade invejável.
- , você sabe que é perigoso ficar andando descalça pela calçada, não sabe?
- Sei, mas você vai conseguir um táxi pra gente. - Prendi o riso quando ela parou e estendeu seus sapatos pra que eu segurasse, as pessoas não disfarçavam a curiosidade, ri e neguei com a cabeça, voltando-me para a rua com seus calçados em mãos.

Demorou um pouco até um táxi disponível aparecer, abri a porta do carro pra , que pisou com a ponta dos pés sobre a ponta dos meus tênis, depois saltou pra dentro do veículo, entrei em seguida, quando ela já tinha dito o endereço ao homem. Olhei de esguelha pra ela, que tentava se acomodar dentro de sua saia, umedeci os lábios e olhei para o outro lado, tentando não pensar em como suas coxas estavam ainda mais bonitas compactadas naquele tecido justo.

- Mal posso esperar pra tirar essa roupa... - Eu sei que era um comentário inocente, mas imediatamente meus hormônios se manifestaram e eu pensei "quer ajuda?".
- Essa saia... Deve incomodar. - Comentei e virei meu rosto em sua direção, olhava pra si mesma, alisou levemente as pernas e concordou com a cabeça.
- Ela aperta um pouco, mas agora até que está confortável porque eu emagreci... - Ela dizia, olhando pra si mesma enquanto arregaçava as mangas de seu sobretudo, respirei fundo, sem conseguir tirar meus olhos dela, com a mente trabalhando a todo vapor, lançando-me diferentes imagens de nós dois... Com aquela saia erguida.
- Percebi que emagreceu. - Murmurei, depois aclarei a garganta e tomei minha postura de volta.
- Nessas últimas semanas eu perdi 2 kg, eu estava precisando ganhar dois, não perder.
- Sim, tem que comer melhor. - Comer, comer, comer... Eu precisava de um banho... Gelado.
- Chegamos! - Exclamou, contente. Peguei minha carteira no bolso e paguei pela corrida antes de descer do carro e segurar a porta aberta pra ela - Me dá carona.
- Como? - Comecei a rir desde já.
- Nas costas. - Explicou, sentada na ponta do assento.
- Tá, mas como? - Tornei a perguntar.
- Ai, ... De cavalinho! - Resmungou, impaciente, puxando a barra de sua saia até o meio das coxas, minha respiração falhou e meu corpo todo se aqueceu subitamente, ela estava fazendo de propósito, não é? - Anda!

Me agachei perto dela, que subiu na beirada do táxi e se agarrou aos meus ombros com os braços, passando suas pernas pela minha cintura. Fechei a porta do táxi e agradeci com um sinal positivo, depois comecei a andar em direção à entrada do hotel, sentindo seu coração bater contra minhas costas. Suas pernas enlaçadas ao redor do meu quadril não me deixavam andar direito, ou essa foi a desculpa que eu dei pra poder segurá-la. Apalpei suas coxas e as segurei firmemente, permitindo que descruzasse seus pés e segurasse apenas em meus ombros, facilitando meus passos.
Assim que entramos no elevador, ela disse que eu podia colocá-la no chão, soltei lentamente suas pernas, sentindo seu corpo arrastar-se pelo meu até alcançar o chão. Meu coração estava disparado de ansiedade. Encostei-me na parede contraria e fiquei vendo-a abaixar a saia e arrumá-la no corpo, depois juntou seus cabelos pra trás com uma das mãos, usando a outra pra segurar os sapatos.

- Esquentou, né? - Comentou, segurando os cabelos no alto, concordei com a cabeça, com os olhos vidrados nela através do espelho.
- Bastante.
- Amanhã eu quero ir ao Louvre, você me acompanha? - Ela perguntou, vi a porta do elevador abrir e esperei que ela saísse pra poder fazer o mesmo, não foi proposital, mas meus olhos rapidamente examinaram o movimento do seu quadril, o que estava acontecendo comigo? Eu parecia um cachorro!
- Vou. - Respondi, ela me olhou de esguelha.
- Você está bem? - Concordei com a cabeça e respirei fundo.
- Um pouco cansado, acho.
- Ah... - Sorriu de leve, peguei minha chave, abrindo a porta do meu quarto antes que eu a seguisse pra dentro do outro.
- Bom... Até mais, então.
- Até, .

sorriu e entrou no quarto, encostando a porta depois de fixar seus olhos nos meus com um convite explícito... Ou eu estava alucinando. Deixei os óculos sobre o aparador, junto à chave do quarto, o celular e a carteira. Desabotoei minha jaqueta e deixei ela sobre a cama onde estava minha mala, fui ao banheiro e quando voltei, pensei em me deitar.
Meus pensamentos borbulhavam, assim como o sangue que parecia se amontoar em minha virilha. Só de pensar em ir até lá meu corpo todo correspondia por puro instinto. Sentei na beirada da cama e pensei em James, no envolvimento de ambos, talvez com isso eu desistisse. Mas de repente, tudo era motivo pra eu ir até lá, estarmos em um país diferente em uma situação incomum, poderíamos nunca mais ter uma oportunidade de viagem como aquela. Qual era o problema?
Sem pensar nem mais uma vez, levantei e passei pelo aparador, tirei a fileira de preservativos de dentro da carteira e sai pela porta, em dois passos eu estava em frente à porta dela, foi necessário um toque na madeira para que surgisse, com os cabelos completamente soltos e a respiração entrecortada.

- Isso não quer dizer que eu te perdoo. - Eu disse, envolvendo sua cintura com um dos braços e fechando a porta atrás de mim, onde eu empurrei seu corpo com o meu.
- Não quer... - Concordou, com os olhos fechados e os lábios entreabertos.
- Não. - Sussurrei, sentindo meu estômago revirar ao mesmo tempo em que encaixei minha boca na sua.

Nossas línguas se buscavam, árduas, investindo num beijo intenso. Nossos toques eram precisos, as carícias cada vez mais urgentes. Nossas mãos pareciam se multiplicar e a força era desmedida em cada uma das massagens. Suas nádegas se comprimiam entre meus dedos, que eram arranhados pela madeira cada vez que eu empurrava seu corpo contra a porta, pressionando-o com o meu.
A voz irritante que até então soava da TV foi substituída por uma música, observei. Os dentes de arranharam meus lábios, nos encaramos um tempo antes que ela agarrasse o tecido da minha camiseta entre os dedos e a puxasse desajeitadamente pelo meu tronco. Antes que eu tomasse qualquer atitude, ela puxou a própria blusa até tirá-la de dentro da saia, depois a deixou cair no chão.
Minhas mãos alisaram a lateral da sua cintura, apertando-a com força mesmo sobre o tecido grosso da saia. Atraí seu corpo pra perto e senti seus lábios acariciarem meu pescoço e minha orelha, ao alcançá-la. Pressionei meus dedos com mais força e ofeguei, sentindo minha pele quente como se eu tivesse passado horas sob o sol.
Empurrei meus tênis para o lado e avancei alguns passos até o aparador, com devidamente presa entre meus braços. Trilhei um caminho de beijos ávidos de seu ombro até seu maxilar, mordiscando seu queixo e invadindo sua boca com a minha língua conforme, com dificuldade, eu erguia sua saia por suas coxas. A sentei sobre o aparador e senti suas coxas rodearem meu quadril, eu podia sentir a região interna delas mais quente em contato com a lateral da minha cintura. Seus lábios sugavam minha língua e suas mãos alisavam meu peito, barriga, ventre. Seus dedos, espertos, desafivelaram meu cinto e desabotoaram minha calça, baixando o zíper e empurrando o jeans pra baixo. Apertei suas coxas a pressionei minha ereção entre suas pernas, que se afastavam, cada vez mais receptivas.
Precisei me afastar minimamente para terminar de tirar minha calça, aproveitando também para me livrar das meias; quando ergui meu rosto, notei que segurava o sutiã entre os dedos, pronta para lançá-lo ao chão. Meu membro pulsou, olhando seus seios empinados, os bicos rijos, estalados... Os massageei, ouvindo-a suspirar em meu ouvido e puxar meus cabelos a cada vez que meus dedos exerciam pressão em sua pele macia e eriçada.
Suas pernas rodearam minha cintura quando suspendi seu corpo no meu, carregando-a até a cama, onde ela se espalhou, olhando-me com um desejo quase palpável. Apoiei minhas mãos na cama e me inclinei sobre ela, beijando seu colo e arrastando meus lábios pelo vale entre seus seios. Beijei a região de seu estômago e depois sua barriga, vendo-a arquear as costas a cada aproximação da minha língua. Para chegar ao seu ventre, precisei me erguer novamente, podendo retirar sua saia.

- Você sabia que eu viria? - Perguntei, com um sorriso prepotente, alisando sua coxa e observando sua calcinha pequena, de renda preta, perfeitamente encaixada em seu corpo.
- Aqui é seu lugar.

Sua resposta me fez sorrir, ergueu seu corpo parcialmente, o suficiente para me envolver nos braços e me atrair para um beijo. Nossos corpos se encostaram e foi o suficiente pra que eu atingisse um prazer imensurável. Sua mão tocou meu membro sobre o tecido da boxer, e depois sob ele, de maneira precisa, alucinante. Retribui o toque, sem muita delicadeza, por cima da calcinha, sentindo a renda encharcada sob meus dedos.
Sem mais preliminares, ela estava tão pronta quanto eu. Retirei as peças que ainda nos mantinham afastados e busquei o preservativo no chão. arfava, ansiosa pelo que estava por vir. Ofereci minha mão, que ela aceitou para se apoiar, sentando-se na cama. Envolvi-a em meus braços e a trouxe aos joelhos, beijei seu rosto, sua orelha e seu pescoço, acariciando suas nádegas e suas costas nua, e em um pedido silencioso, a induzi a virar-se de costas pra mim. Ela não parecia assustada, apenas constrangida, inexperiente. Beijei seu ombro e sua nuca, um gemido escapou de quando massageei seus seios. Encostei minha ereção em sua bunda, posicionando meus joelhos próximo dos seus. Arrastei minhas palmas por sua barriga e estimulei seu clitóris, enquanto com a mão livre alisei a base de suas costas, depois comecei a incliná-la, sem pressionar, para deixá-la à vontade para resistir. Mas ela não o fez, apoiou suas mãos no colchão e me olhou por cima do ombro, com o lábio preso entre os dentes.
Segurei meu membro e o masturbei um instante antes de posicioná-lo em sua cavidade, úmida, pude notar. Comecei a pressioná-lo para dentro e pisquei com dificuldade, quase cedendo ao instinto e desistindo daquele cuidado. Empurrei-o todo contra sua intimidade, que contraiu ao acolhê-lo. Mordi meu lábio e pude ver as unhas de arranharem o lençol quando eu comecei a mover meu quadril.
Alisei suas nádegas, apertando-as entre meus dedos conforme eu ia e vinha com meu membro dentro de . Seus gemidos eram baixos, quase como um sussurro, e seu corpo reagia ao meu, movendo-se de maneira sinuosa, proporcionando-me ainda mais prazer. Segurei seu quadril pelas laterais e comecei a intensificar as investidas. Meus polegares pressionavam a pele das suas nádegas, e vez ou outra eu tomava a liberdade e acariciar superficialmente o vale entre elas, jogava a cabeça pra trás e estremecia a cada toque diferente e eu não podia suportar muito mais tempo.
Meu auto controle se dissolveu quando ela soltou o corpo pra frente, apoiando-o nos antebraços. Seu quadril ficou em total evidência, à mercê do meu. Minhas estocadas ganharam intensidade, frequência. Nossos gemidos se completavam e nossas respirações ruidosas se mesclavam, anunciando a chegada do ápice.
Meu corpo desabou ao lado do seu, que estava de bruços. Fechei meus olhos, sentindo o suor brotar em minha pele, fazendo-a pinicar. Talvez fosse minha consciência, que retornava após ter o tesão baixado.

- O que você acha de uma pizza? - Ouvi a voz de , abri meus olhos e examinei seu corpo sentado na beirada da cama, com os cabelos colados por suas costas.
- Você não ia sair com seus amigos? - Perguntei, sentando parcialmente e encostando-me na cabeceira.
- Mudança de planos. - sorriu em minha direção, mas eu ainda não me sentia à vontade para fazer o mesmo.
- Eu disse que isso não quer dizer que te perdoo, então não é uma reconciliação, sabe disso, não sabe? - Perguntei, piscou devagar, umedecendo seus lábios, antes de se levantar, completamente nua e andar pelo quarto, eu podia vê-la abrir a porta e me enxotar aos gritos, mas ela apenas pegou uma toalha na cômoda e andou até a porta do banheiro.
- Eu sei disso... - Concordou, sorrindo sem pretensão - Não estou te pedindo perdão.



Capítulo 32.
"You see, she hides 'cause she is scared"
(I Could Have Lied - Red Hot Chilli Peppers)

Mais tarde, naquela mesma noite em Paris, e eu transamos novamente e uma nova vez... E outra. Passamos o tempo todo trancados naquele quarto, nosso humor oscilava como se estivéssemos sob o efeito de alguma droga, e se isso fosse verdade, certamente seria algo que despertasse nossa libido. Qualquer toque bastava, era o suficiente, ou até mais. Era como se o mero contato de nossas peles desencadeasse uma onda de calor e atração, então, com todo apetite do mundo, devorávamos o auto controle.
Ao retornarmos à Bolton continuamos nos vendo em horários que variavam de acordo com nossa disponibilidade. Quando meu expediente tomava a tarde, nos víamos no período da noite. Quando não, só nos víamos depois que eu saía do pub e geralmente tínhamos de fazer com cautela para seu pai não percebê-la saindo depois das onze da noite. Na maioria das vezes que nos encontrávamos, parecia mais como uma "foda fixa", eu não conseguia recuperar por ela o carinho de antes, eu ainda estava magoado demais para que minha frieza se dissolvesse da noite pro dia. Ela parecia entender, pelo menos nunca tinha reclamado, e isso me deixava livre para perdoá-la no meu tempo, e sim, eu podia perdoá-la.

- Alô – A voz de , do outro lado da linha, parecia sonolenta.
- Te acordei? – Perguntei, imediatamente, enquanto jogava a toalha sobre a cama e me inclinava pra procurar uma boxer.
- Não... – Respondeu com simplicidade, contraí o cenho automaticamente, ela não costumava demonstrar entusiasmo, mas dificilmente era fria.
- Você... Quer ir onde hoje? – Peguei uma boxer cor-de-rosa da Calvin Klein e tentei vesti-la sem usar as duas mãos.
- Acho que vou ficar em casa hoje, . – Ajeitei o cós da boxer no quadril e me sentei na beirada da cama.
- Está tudo bem?
- Sim.
- É sexta-feira... E eu saí mais cedo, recebi meu pagamento, podíamos ir a algum lugar legal comer.
- Eu estou cansada, .
- Hm... Tudo bem, eu vou comer algo por aqui mesmo, então.
- Ok.
- Boa noite, – Murmurei, esfregando meu rosto com a mão livre – E qualquer coisa que precisar, me liga.
- Tudo bem, boa noite, .
- Fica com Deus. – Falei em tom baixo, sem saber se ela ainda estava ouvindo, mas quando tirei o telefone de perto do rosto ouvi sua voz me gritar do outro lado – Oi? ?
- Passa aqui quando estiver pronto.

Vesti um jeans escuro e um moletom branco sobre uma camiseta cinza de mangas longas. Enquanto eu vestia meu vans, mamãe apareceu na porta e encostou-se ao batente, quando cheguei ela não estava em casa, e olhando pra ela naquele momento percebi o quanto estava arrumada, sorri.

- Onde estava? – Perguntei, apoiando as mãos nos joelhos e vendo-a balançar a cabeça e rir – Quem te embebedou?
- Sai com as meninas, meu filho, ninguém me embebedou. – Ainda ria, aproximando-se de mim – E você, onde pensa que vai?
- Vou sair pra comer algo. – Ela concordou com a cabeça, sentando-se ao meu lado na beirada da cama.
- Vai se embebedar? – Perguntou, deitando a cabeça em meu ombro, alcei os seus com meu braço e plantei um beijo entre seus cabelos, sorrindo em seguida – Ou embebedar alguém?
- Não, mamãe, hoje não. – Ela riu baixinho e eu me levantei, andando até a mesa do computador, alcançando meu perfume.
- Vai sozinho? – Quis saber, dei de ombros, de costas pra ela ficava mais fácil ignorá-la – Você está namorando de novo?
- Não, e não. – Dei de ombros e coloquei minha carteira no bolso, peguei o celular sobre a cama e comecei a digitar uma mensagem para , avisando que já estava saindo de casa – Não vou sozinho, mas também não estou namorando, é só uma pizza, mamãe.
- Hm... E você volta hoje? – O sorriso dela me fez gargalhar – Eu sei que não, então não minta pra sua mãe, não é só uma pizza, é uma pizza e uma transa casual...
- Mãe! – Exclamei, com as palmas pressionadas nos olhos.
- O quê? – Ela ria de um jeito escandaloso que fez Vicky reclamar do quarto ao lado.
- Eu vou indo, e devo voltar hoje. – Virei para sair, mas senti seus passos ligeiros atrás de mim, logo seus braços estavam ao meu redor e seu rosto deitado em minhas costas.
- Vai, não se atrase... Cuide-se, tá? E espero que ela seja especial.

Sorri, despedindo-me de minha mãe antes de sair de casa. O trânsito estava rápido para uma sexta-feira, as ruas, no entanto, estavam cheias. Havia tanto tempo que eu não saía. Principalmente naqueles dias, em que os caras estavam namorando, exceto por , que costumava ficar em casa jogando videogame. Eu também não tinha tanto entusiasmo depois de trabalhar a noite toda, mas naquele dia eu quis ir para um bar qualquer, encher a cara e cantar Born To Run no karaokê.
estava me esperando na varanda quando cheguei, encolhida dentro de uma calça jeans e um sweater de lã cinza que deixava a mostra a gola polo e a barra arredondada de uma camisa listrada de azul e branco. Ela vinha caminhando rapidamente sob a fina chuva, que naqueles meses eram uma constante no Reino Unido. Seu all star branco parecia brilhante sob a pouca iluminação da rua enquanto ela se aproximava do meu carro. Sorri, ela parecia tão pequena naquele dia.

- Oi. – Disse categoricamente ao fechar a porta atrás de si – Está chovendo de novo.
- Sim – Concordei, ela manteve seu rosto virado para a janela, o maxilar rígido de quem não quer conversar – O que quer comer? – Perguntei, dando partida e seguindo até o sinal na esquina, que estava fechado.
- Eu já comi, vou só te acompanhar. – Respondeu, comprimiu os ombros, encolhendo-se no assento gasto do carro que meu avô havia me emprestado até eu conseguir comprar um... Ele sabia que isso não aconteceria do dia pra noite, mas insistiu pra que eu aceitasse.
- Tudo bem, o que acha de comer uma pizza e irmos àquele motel no caminho para Londres, podemos ficar por lá hoje...
- , hoje não estou a fim, se você me trouxe com essa intenç...
- Hey, shhh, calma! – Pedi seu silêncio, com a mão sobre a sua – Não precisamos fazer nada, eu sei reconhecer a hora de manter o zíper fechado – Ela desviou os olhos para nossas mãos e soltou um suspiro – Podemos simplesmente passar a noite juntos, assistindo qualquer coisa, e se eu te chamasse para ir pra minha casa você diria não.
- Eu diria não. – Repetiu, sem me olhar – Tudo bem, vamos pra esse lugar.
- Eles têm ótimos quartos, , eu não te levaria a um pulgueiro.
- Sei disso.

Eu não diria a ela que já tinha levado algumas garotas àquele motel antigamente, isso seria inconveniente, mas eu não mentia, os quartos eram ótimos, os melhores que já visitei. Havia algum tempo que eu não tinha dinheiro disponível para me dar esse tipo de luxo, agora eu tinha e queria que ela estivesse junto.
Passamos por uma pizzaria. , que havia se negado a comer, acabou aceitando um pedaço e me ajudando com a garrafa de refrigerante. A noite estava fria e eu queria poder me sentar mais perto e mantê-la entre meus braços, no entanto eu sentia como se houvesse uma película entre nós, e por mais fina que fosse, impedia que nos tocássemos.
Dirigi aproximadamente quarenta minutos até chegarmos ao motel. Paguei pela noite em uma das melhores suítes que eles tinham a oferecer. Eu não a conhecia, mas se o quarto simples era bom, supus que a suíte não fosse nos decepcionar.
Estacionei o carro na garagem indicada. Abri a porta do quarto sentindo , encostada atrás de mim, se esticar para ver o que a esperava. Sorri, acendendo um dos jogos de luzes pequenas e amareladas, que passavam a sensação de conforto. Adentrei e permiti que fizesse o mesmo. Ela olhava ao seu redor, parecia aliviada. Tranquei a porta e deixei as chaves no aparador, junto com as do carro, minha carteira e celular.
sentou-se na beirada da cama, que era grande, maior do que qualquer cama na qual eu já houvesse me deitado, sua cabeceira era feita de espelho, contornado com madeira branca. Tinha um criado-mudo de cada lado, em um deles havia um abajur e no outro um telefone. Em frente à cama fora colocado um raque de madeira preta, onde haviam DVD's cuidadosamente organizados, um hometheater e alguns controles. A TV de plasma estava suspensa na parede. Andei até la e procurei pelo controle que a ligasse, depois o entreguei à .

- Veja algo que queira assistir, ou dê uma olhada nos filmes... Vou ao banheiro.
- Tudo bem.

Atravessei o quarto. Era mais amplo do que parecia olhado da entrada. Havia um segundo ambiente, que não ficava exatamente separado do quarto, mas as luzes que eu acendi na entrada não iluminavam aquela parte. Havia um bar no canto, com bancos giratórios na altura do balcão, taças penduradas e variados tipos de bebida, que ficavam trancadas em um armário de vidro até que você pedisse pela chave na recepção.
No centro da sala havia um palco de cor magenta com pole dance, contornado por um sofá preto que parecia tão macio quanto o tapete bege sob ele. Em outro canto, quase imperceptível, havia uma cadeira pendurada no teto, eu não sabia pra que ela servia, mas não seria dessa vez que eu descobriria.
O banheiro era grande, com uma ducha atrás do box de vidro preto, vaso sanitário e bidê de porcelana branca e aparentemente limpa. Havia um gabinete branco sob a pia, que ficava sobre uma pedra de mármore. Do outro lado do banheiro haviam três degraus de madeira, que davam acesso à jacuzzi.
Após aliviar minha bexiga voltei ao quarto. A princípio não vi na cama, onde eu a havia deixado. Olhei para o lado e a percebi, olhando ao redor do pole dance e a cadeira suspensa.

- Pra que serve isso? – Perguntou, apontando para a cadeira, me acerquei dando risada.
- Não sei. – Ela me olhou com desconfiança, encolhi meus ombros – É sério! Não sei!
- Deveria ter um manual em algum lugar. – Gargalhei, mexendo na corda e balançando a cadeira, o assento era feito de faixas de tecido.
- Parece um balanço... – Comentei, ainda examinando como aquilo poderia ser usado por um casal – Talvez seja para casais deixarem suas crianças, não sei.
- ... Não seja idiota. – usou todo seu desprezo e eu comecei a rir, ela negou com a cabeça e encostou-se em mim, também rindo – Deve ser coisa de gente sadista. – Concordei com a cabeça, envolvendo seus ombros em meu braço.
- Deve ser coisa de gente safada, como não somos isso, vamos lá assistir TV. – Eu a ouvia rir enquanto a conduzia de volta ao quarto – Você viu se está passando algo que preste?
- Não reconheci nada que parecesse interessante – Ela dizia, engatinhando pela cama e jogando-se contra os travesseiros, fiz o mesmo depois de tirar meu vans, só então reparei que ela já estava só de meias.
- Nem um pornô tipo princesa? – Perguntei, ajeitando-me perto dela, me olhou de esguelha.
- O que seria um pornô tipo princesa? – Ela perguntou, percebi que estava querendo rir, eu sabia que seu dia havia sido difícil, mas eu estava ali para fazer com que ela esquecesse disso.
- Ah, você sabe, sexo calmo, romântico, sem violência, igual a gente faz. – Expliquei, girou os olhos e cobriu o rosto.
- Você chama isso de sexo princesa? Você é bem gay. – Gargalhei e me aproximei para beijá-la na bochecha.
- Então tá, da próxima vez vou te dar uns tapas, você vai ver o gay... – Eu dizia com a boca encostada em sua bochecha, ria com uma das mãos em meu rosto.
- Não, eu gosto do sexo de princesa, então. – Ela dizia, com o polegar massageando minha bochecha.
- Eu sei, eu faço isso muito bem, sou ótimo como príncipe...
- Aw, cala a boca! – Gargalhamos e nos arrumamos novamente na cama, abraçados. Havia algum tempo que eu não me sentia à vontade para isso. Estávamos mais próximos aquela noite.

Peguei o controle da TV e comecei a procurar por algo interessante. deitou sua cabeça mais próximo da minha, com sua testa apoiada em minha bochecha. Acariciei seu braço, deixando em American Pie. abriu os olhos depois de um tempo e ajeitou sua cabeça para poder assistir. Com uma de suas pernas entre as minhas, ela encaixou seu corpo ao meu, devia estar sentindo frio pela maneira como tentava colocar seu pé embaixo da minha panturrilha.
Quando acabou o filme eu percebi, pela respiração de , que ela havia adormecido. Estiquei-me com cuidado e apaguei as luzes, depois desliguei a TV, eu estava mesmo cansado. Eu mal havia dormido na noite anterior quando cheguei do Ducatti, pois tivemos simulado na escola e eu precisava estudar, era minha chance de recuperar minhas notas em todas as matérias. Aparentemente eu tinha me dado bem. À tarde eu poderia ter dormido, mas mamãe havia me feito ir ao salão cortar o cabelo. Quando cheguei em casa já estava sem sono e quase na hora de ir me arrumar para trabalhar. Então bastou fechar os olhos e o silêncio fez seu trabalho.

- ... – Abri os olhos, ainda estava escuro – ?
- Oi... – Ergui um pouco minha cabeça, esfregando meu olho, ainda embaçado – O que aconteceu?
- Nada, estou com frio, vamos arrumar a cama direito. – Ela dizia, já se levantando, concordei com a cabeça, retirando alguns travesseiros e puxando a colcha e o lençol.
- Você não vai ligar para seu pai avisar que você vai dormir fora? – Lembrei, tirando meu moletom.
- Não, ele já deve estar dormindo, deixei um bilhete na geladeira, dizendo que estava com a .
- Um dia ele vai descobrir suas mentiras, aí eu quero ver neguinha me ligar pedindo abrigo! – Falei enquanto caminhava em direção ao banheiro.
- Ele não anda muito preocupado comigo. – Comprimi meus lábios, dando-me conta de que não deveria ter entrado em assunto de família.

Eu gostaria que ela me contasse sobre o que estava passando e, mais do que isso, eu gostaria de saber por que ela não me dizia. Era algum tipo de falta de confiança? Poderia ser, já que eu não tinha dados muitos motivos pra que ela confiasse em mim ao longo da nossa relação. Mas James sabia sobre tudo, aparentemente todos os seus amigos também, então por que esconder de mim? Não fazia qualquer sentido. Na primeira oportunidade que tive, desabafei sobre a situação que me atormentava em casa, e no fundo eu tinha a intenção de que ela se sentisse a vontade para fazer o mesmo, mas nunca aconteceu.
O fato é que ela não me disse, tampouco diria naquela noite, onde tudo o que ela parecia querer fazer é dormir, talvez pra fugir da realidade. Eu não podia exigir que ela agisse diferente, eu mesmo não saberia o que fazer. Eu mesmo não conseguiria desviar meus pensamentos disso. O máximo que eu podia fazer por ela, todas as noites quando saíamos juntos, era oferecer a ela minhas piadas idiotas e prazer descompromissado, talvez isso fizesse com que ela se sentisse livre.
Quando voltei ao quarto notei a TV novamente ligada, estava tocando uma música que eu não conhecia. estava encostada à cabeceira, entretida com o show que passava.

- Kings of Leon, já ouviu? – Ela perguntou, sem me olhar, parei na beirada da cama com as mãos na cintura, olhando pra TV.
- Não sei, talvez... Mas não conheço essa música. – Ela concordou com a cabeça, sem tirar os olhos da TV.
- Estou com sede. – Comentou, virando seu rosto em minha direção.
- Quer água ou refrigerante? – Andei até o frigobar.
- Água. – Peguei uma garrafa pequena de água, notei que se aproximara enquanto apoiei um copo no balcão do bar para servi-la – Obrigada.
- De nada. – Me servi e tomei um longo gole de água, depois me encostei no balcão para olhar ao redor – Que horas deve ser agora?
- Três. – Respondeu, sentando-se no banco ao meu lado – Perdi o sono – Olhei para ela e passei a mão no topo de sua cabeça, bagunçando um pouco seus cabelos – Mas se você quiser deitar, você deve estar cansado, trabalhou a noite toda.
- Não, estou bem. – Sorri em sua direção, encostou sua cabeça em mim e sorriu, com os olhos fechados.

Uma nova música começava no show, eu podia ouvir de onde estávamos. Tomei o resto da minha água e me afastei lentamente de , que ergueu a cabeça e abriu os olhos. Andei até o palco de pole dance, ela começou a rir assim que eu subi lá e comecei a examinar o cano. Parecia seguro. Olhei de lado pra , que soltou uma gargalhada e negou com a cabeça.

- Não faça isso. – Disse, entre risos, enquanto eu girava ao redor do cano – Ai Deus, não!
- Não sou sexy o suficiente? – Perguntei, rebolando desajeitadamente enquanto ameaçava erguer minha blusa.
- Não.
- Nem com essa música?
- Só se eu fechasse meus olhos. – Gargalhei sonoramente, também deu risada, se acercando e pulando no sofá, sentou-se nele com as pernas encolhidas, logo abaixo de mim – Mas você pode começar tirando as meias, só pra me ajudar.

Ri, tirando as meias e jogando-as atrás do sofá, depois me virei de costas pra ela, mexendo o quadril de um lado para o outro no ritmo da música, eu podia ouvi-la rir e bater palmas às vezes, quando eu puxava a barra da blusa pra cima, até finalmente retirá-la, olhei pra com a sobrancelha erguida, ela deitou a cabeça pra trás, rindo verdadeiramente da minha performance, o que também me fazia rir, era bom vê-la assim.
Ainda rebolando, de um jeito que não parecia certo, abri o botão e o zíper da minha calça, ergueu os braços, fingindo entusiasmo. Ri, segurando-me no cano e tentando dar um giro, nós dois gargalhamos. levantou-se e correu na entrada do quarto, eu fiquei esperando por ela, que voltou com algumas notas na mão, chacoalhando-as como uma velha tarada. Ainda rindo alto, abaixei minha calça até o início das coxas, senti ela segurar o cós da minha boxer e colocar as notas presas ali, depois depositar um beijo rápido abaixo do meu umbigo. Soltei um riso tenso e fiquei olhando enquanto ela retornava ao sofá.

- Eu acho que agora é sua vez. – Sugeri, negou subitamente com a cabeça, rindo – Por que não? Não há nada mais justo.
- Porque não, oras. – Desci do pequeno palco e me sentei ao seu lado, deitando a cabeça no encosto.
- Ah, , estamos só nós aqui, o que tem demais?
- Eu tenho vergonha, , não vou dançar pra você.
- Come on! Não há razão pra ter vergonha de mim!

ficou em silêncio, apenas sorria. Depois se levantou e começou a andar ao redor do palco, olhando-o em seus mínimos detalhes. Abaixou-se do outro lado e de repente luzes ao redor dele se acenderam, contraí o cenho e ela me olhou satisfeita antes de subir. Eu não estava acreditando naquilo, era demais pro meu pobre coração.
Ela ria enquanto girava com uma das mãos ao redor do cano, não deixava de ser sexy. Seus cabelos estavam ondulados e caiam perfeitamente por seu rosto. Agora não estava apática, nem parecia triste. Isso era lindo pra mim. encostou-se ao cano e levou suas mãos nele, atrás de si, movendo o quadril de madeira delicada e tímida, sorri e apontei para suas meias. Ela soltou uma gargalhada alta e espontânea, enquanto abaixava-se para tirar e jogá-las em mim, dei risada, deixando-as ao meu lado no sofá.
virou-se de costas e começou a abaixar a própria calça, conforme enrolava o jeans pelas coxas, inclinava seu tronco, sem dobrar os joelhos, o que pra muitos seria impossível, mas ela fazia parecer fácil. Eu estava entretido com seu quadril, vestindo com uma calcinha parecida com um shortinho, toda de renda branca, quando senti o jeans contra meu peito, ri, segurando a calça em meu colo. girou ao redor do cano e, surpreendentemente, suspendeu-se a ele, com as pernas dobradas ao seu redor. Arqueei as sobrancelhas e sorri abertamente, achando tudo aquilo um máximo. Ela gargalhou ao que seus pés tocaram novamente o palco, de frente pra mim, depois me deu um olhar que dizia “Viu? É assim que se faz!”, e eu concordei, é exatamente assim, baby.
Ela girava ao redor do cano, de maneira realmente graciosa, retirando o suéter e deixando-o sobre o sofá, do lado oposto ao que eu estava. Sua camisa social estava um pouco amassada. A diversão começava a perder sua intensidade, deixando espaço para o desejo sexual. Umedeci os lábios e sorri ao perceber que ela estava me olhando enquanto desabotoava os primeiros botões da camisa, começando de cima pra baixo. Traguei em seco e mordi meu lábio. Meu membro começava a ficar ereto, o que tornava a boxer algo incomodo.
deixou a camisa aberta até o início dos seios, dançava ao redor do cano, pendurava-se nele sem muitos movimentos exagerados, apenas divertindo-se livremente. Levantei e me aproximei, ela parou o que fazia e riu, percebi que estava ofegante e sorri, puxando-a delicadamente pelo pulso pra que ela saísse de trás do cano e se encostasse a ele. segurou o cós da minha calça e me atraiu pra perto, sem força. Intercalei minhas coxas nas suas e apoiei uma de minhas mãos no cano frio acima dela, com a outra envolvi sua nuca, massageando sua bochecha com meu polegar. sorriu, com suas mãos firmemente presas no jeans, esticando-se um pouco com os lábios entreabertos, esperando pelo beijo. Rocei meu nariz no seu, contornando-o de um lado para o outro e sentindo sua respiração morna e entrecortada mesclar-se com a minha. Segurei seu lábio superior entre meus dentes, depois fiz uma carícia suave nele com minha língua, fechou os olhos tentando me beijar, afastei-me no primeiro momento apenas para vê-la bufando, depois ri, baixo, antes de encaixar minha boca na sua.
Mantendo um beijo calmo e intenso na mesma proporção, uni ambas as minhas mãos em sua camisa, começando a desabotoá-la. sorriu contra minha boca, depois quebrou o beijo e arrastou sua coxa pela minha, mordiscando meu queixo suavemente antes de começar a distribuir beijos ternos pelo meu pescoço. Pressionei meu quadril contra o seu, sentindo minha ereção pulsar desejando qualquer contato mais próximo.
Terminei de desabotoar a camisa de e segurei o tecido, afastando-a por seus ombros e retirando-a por completo por seus braços. Segurei sua cintura com uma força considerável, sentindo sua pele macia e morna preencher minhas mãos, e ergui seu corpo. Suas pernas alçaram meu quadril e suas mãos buscaram apoio em meus ombros. Alcancei o cano, onde ela estava encostada, e me segurei ali com uma das mãos, enquanto a outra acariciava sua coxa. Com seus seios a altura do meu rosto, comecei a trilhar um caminho de beijos desde a curva abaixo de sua orelha até a parte de seus seios que o sutiã não cobria. segurava meus cabelos firmemente, empurrando seu corpo contra o meu.
Desacolchetei seu sutiã e o retirei por seus braços, lançando-o para qualquer lugar longe de nós. Sem delongas massageei um de seus seios enquanto delineava o mamilo do outro com a língua, acariciando o bico com meus lábios entreabertos antes de depositar um beijo lento e úmido sobre ele, depois ao redor, adiando as sucções que vieram a seguir.
agarrou meus ombros e arrastou suas palmas por minhas costas, me puxando pra mais perto, como se fosse possível. Afastei-me um pouco, pois ainda restavam algumas peças que precisavam ser retiradas. segurou-se no cano e se soltou de mim, abaixando as pernas e alcançando o chão. Com um sorriso desses inesquecíveis, segurou minha calça e começou a abaixá-la, agachando-se junto, à minha frente. Enquanto segurava minha boxer pelo cós e, lentamente, a rolava pra baixo, mordia a lateral do meu quadril e roçava seus lábios em minha virilha. Minha respiração irregular chamou sua atenção, ela riu e começou a arrastar-se para cima, com os lábios passeando por minha barriga, estômago, peito, pescoço. Agarrei seu rosto entre minhas mãos e exigi um beijo.
Conforme sentia sua língua acariciando a minha, segurei sua calcinha, a renda macia fazia cócegas em meus dedos, e apesar de ser uma calcinha que cobria quase todo seu quadril, ficava extremamente sexy. Tudo nela ficava surpreendentemente bom, e ficava ainda mais linda quando vestia somente a si mesma, completamente nua, com suas adoráveis imperfeições.
Voltei a suspender o corpo de entre o meu e o cano, no qual estávamos apoiados. Seus lábios buscavam pelos meus com maior urgência conforme eu investia com meu membro dentro dela. Seus dedos beliscavam minha pele sem se dar conta. Eu podia sentir seus suspiros contra meu rosto, e seus gemidos, que eram quase inaudíveis, ecoavam dentro da minha boca.
Indo e vindo, com meus pés firmemente fixos ao chão, minhas pernas começavam a ficar doloridas e trêmulas, minha mão, em contato com o cano metálico, começava a suar e eu estava quase desistindo da posição quando segurou-se no pole dance, com suas mãos sobre a minha. Eu sentia seu quadril mover-se de encontro ao meu, completando minhas estocadas. Olhei para o encontro de nossos sexos, a maneira como meu quadril encaixava-se perfeitamente entre suas coxas. Meu pênis ganhava um brilho úmido e só então me dei conta da ausência de camisinha. Bufei e imediatamente pausei o que fazia, erguendo meus olhos para o rosto de , seus olhos se abriram um pouco, pesados e nublados de prazer.

- O que está fazendo? – Perguntou, com a voz entrecortada.
- Esqueci do preservativo. – Retirei-me cuidadosamente de seu corpo e segurei sua cintura, ajudando-a a alcançar o chão, soltou um suspiro longo e desanimado.
- Eu quero morrer quando isso acontece. – Ela confidenciou e eu gargalhei, tendo o mesmo pensamento enquanto voltava, vestindo a camisinha.
- Então somos dois.

Ela sorriu, na beirada do palco, e apoiou as mãos em meus ombros, empurrando-me delicadamente até o sofá, onde me obrigou a sentar. Seu corpo debruçou-se sobre o meu e logo nossos quadris estavam novamente encaixados. acariciava meu peito e ombros, subindo e descendo. Agarrei seus seios, massageando-os e apertando-os dentro de minhas mãos, depois deitei minha cabeça pra trás e fechei meus olhos, apenas sentindo todas as sensações que ela me proporcionava.
Era difícil controlar meu prazer visando o seu, eu queria esperá-la, e isso exigia um esforço tremendo de minha parte, principalmente quando ela começava a gemer baixinho, contido. Às vezes eu podia ouvi-la sussurrar meu nome, desencadeando ondas alucinantes de desejo incontrolável. acercou-se de mim, abraçando meu tronco e encostando sua bochecha na minha, com os lábios encostados em minha orelha sussurrou “I'm coming”. Ergui meu rosto e segurei seus cabelos com força, um gemido rouco me escapou quando seu quadril começou a mover-se com mais precisão, minha garganta secou e eu sentia meu corpo todo corresponder ao ápice, aproximando-se cada vez mais. estava toda agarrada a mim, seu corpo, embora muito quente, estava coberto por uma camada de suor frio. Suas coxas pressionavam minha cintura, trêmulas. Um instante depois estávamos nos fundindo com tanta intensidade que eu poderia rasgar sua pele em minhas mãos da maneira como eu a apertava, ela fazia o mesmo, com a boca enterrada em minha bochecha, gemendo tão alto que eu não tinha certeza sobre alguém ter nos ouvido, já que eu também deixei escapar murmúrios roucos.
desabou sobre mim, com seus braços ao redor dos meus ombros, respirando pesadamente. Beijei seu ombro e pescoço, acariciando suas costas úmidas. Ficamos um tempo apenas abraçados, nos recuperando. Eu não me lembrava da última vez que nosso sexo havia sido tão bom, talvez desde nossa última noite em Paris.

- Acho que meu sono está voltando agora. – Ri baixo, vendo-a erguer-se um pouco e sorrir em minha direção – Estou com fome também.
- Vamos tomar um banho e ver o que tem aqui pra comer.
- Vamos.

se levantou e buscou sua calcinha e sutiã, depois pegou sua camisa e caminhou para o banheiro, segui-a com minha boxer em mãos. Tomamos um banho não muito demorado, agora que a adrenalina havia baixado, o frio retornava. Assim como a chuva, ficamos ouvindo-a cair do lado de fora, abraçados sob a água quente da ducha.
Após nos enxugarmos, vestiu sua lingerie e a camisa, eu coloquei minha boxer e só quando deixei o banheiro coloquei minha camiseta. Ela fuçava no pequeno armário que tinha acima do frigobar. Pegou um tubo de Pringles e uma garrafa pequena de refrigerante para dividirmos. Comemos um pouco, mas o sono começava a ficar mais intenso que a fome, então apagamos tudo e nos deitamos. foi quem desligou a TV e veio se aproximando. Acalentei seu corpo entre meus braços e senti seu nariz gelado em meu pescoço, e então me deu vontade de dizer que a amava. Depois de muito tempo sem saber se aquilo era verdade, eu quis dizer a ela que sim.

- Eu te amo.

Eu senti sua respiração se conter por um segundo, seu corpo estava rígido e demorou até que ela voltasse a relaxar seus músculos e correspondesse de alguma maneira ao que eu havia dito, acariciando meu rosto com a pontinha dos dedos.

- Eu te amo, .

Sorri, encaixando melhor meu rosto ao seu. Nos cobri melhor e soltei um suspiro longo, com todo o alívio que, de repente, fez-se em mim. Beijei seu ombro, depois sua bochecha, e então a ouvi rir baixinho, aconchegando-se em meu peito. Fechei meus olhos e os senti arder, de repente o sono aumentou e meu corpo começou a ficar pesado, minha consciência longínqua. Mas antes que eu me esquecesse de dizer:

- ?
- Hm, ? – Respondeu, parecendo impaciente, sorri.
- Eu te perdôo.

Capítulo 33.
“And I don't wanna lose you, even though we got issues”
(Don't Let It Go To Waste – Matt Willis)

Estava tudo bem, quando eu parava pra pensar. Não era como se a vida estivesse perfeitamente fácil, mas quando restava um minuto do meu dia para mim mesmo, eu me sentia bem. O que dava pra mudar, havia sido mudado. Meu pai não estava em casa e não deixou nem um pound para ajudar, mas estávamos nos virando e descobrindo, aos poucos, que não precisávamos dele, e não havia sensação melhor que essa. Mamãe estava saindo, Vicky estava namorando um cara a cada semana, mas agora elas pareciam melhor, mais fortes. A banda tinha tudo para dar certo, desta vez, e estávamos tentando não ceder ao medo e pensar que, finalmente, seria diferente e valeria muito a pena. e eu, bem, estávamos juntos, de alguma maneira. Não pedi que ela voltasse a namorar comigo, nem que deixássemos nada exposto frente a escola ou a quem quer que fosse. Estávamos nos encontrando quando tínhamos tempo e aos poucos recuperaríamos nossa relação. Eu não sabia muito sobre sua mãe, quem me dava informações, e tudo parecia não sair do lugar, embora tenham sido feitos alguns exames que a família conseguiu pagar com um dinheiro arrecadado na igreja a qual frequentavam, todos davam o mesmo resultado, a cirurgia precisava ser feita, a quimioterapia não solucionaria o problema por completo.
O dia do festival chegou, eu mal consegui dormir e antes das oito estava em pé. Ajudei mamãe com o café da manhã enquanto trocava mensagens com Angie, estávamos esperando um caminhão alugado para levar o que faltava para a escola, a maior parte das coisas já tinha sido deixado lá na noite passada, o palco também havia sido montado e decorado. O lugar onde ficariam as barracas já tinha sido definido e o material estava todo lá, teríamos de montar tudo até as quatro, horário em que abririam os portões para o público. Tudo parecia bastante organizado, embora houvesse muito trabalho a ser feito.
Acordei os caras pra irmos com Angie até a escola, alguns membros da equipe também apareceram lá por volta das 10h e, por volta do meio dia, o campus estava quase todo pronto, a maioria das pessoas que tinha dado o nome na lista para participar estava realmente lá, ajudando em tudo o que era possível. Pedimos o almoço no restaurante mais próximo e aproximadamente 14hrs o diretor chegou para ver como estavam as coisas. Depois me chamou para conversar, explicando que parte do lucro ficaria para o colégio, já que ele estava emprestando o espaço e a energia.

- Olha... Sr. Dawson... – Cocei minha nuca e depois minha bochecha, sem saber direito como falar que ele estava sendo um filho da puta sacana – Não era o que tinha ficado combinado...
- , concorda comigo que estamos gastando com todo esse projeto...
- Sim! E o senhor concorda comigo que não foi esse o combinado? – Eu não queria me alterar, mas o dinheiro não era pra mim e eles não precisavam daquele lucro, era a escola mais bem remunerada de Bolton.
- Concordo, é claro, mas eu andei fazendo umas contas...
- Quanto por cento o senhor quer? – Perguntei, com os dentes trincados.
- 50%? – Arqueei as sobrancelhas e apoiei minhas mãos na mesa, levantando.
- De jeito nenhum! – Ele pareceu assustado.
- , por favor, sente-se, vamos negociar.
- Não, não vamos, se o senhor for ficar com 50% do dinheiro eu saio daqui e desmancho tudo aquilo, nem que seja sozinho! Se o senhor quiser 20%, tudo bem, eu não tenho o que fazer, já que a autoridade não é minha, mas nada além disso... O senhor sabe muito bem pra que serve esse dinheiro, o senhor sabe que tem grande importância e que a escola não precisa...
- , eu obviamente vou precisar explicar aos proprietários da escola as diferenças no orçamento...
- O senhor me disse que o projeto tinha sido apresentado a eles, aquelas assinaturas são falsas? – Meu tom transbordava sarcasmo, ele engoliu em seco e respirou fundo.
- Tudo bem, 30%, apenas para ajudar nos gastos.
- 20%! – Insisti.
- 25%.
- 25% – Concordei – Sabe, Sr. Dawson, eu fui egoísta por muito tempo, fiz isso com maestria por longos anos e nunca me senti mal, mas quando eu me deparei com a realidade, fiquei sem dormir por noites... Espero que o mesmo aconteça a você.

Ele não parecia querer responder, seus olhos desafiadores perderam o brilho e desviaram em direção à janela de sua sala. Empurrei a cadeira para o lado e saí, querendo arrancar aquela porta e jogar em cima dele. Continuei andando, com passos rígidos e punhos cerrados. Vi a distância, ela andava desajeitadamente, carregando uma caixa de papelão grande que me pareceu pesada. Aos poucos meu coração adotou um ritmo calmo, receptivo.

- Psiu! – Ela, que parecia ainda não ter me visto, virou seu rosto em minha direção e deu um sorriso aliviado – Quer ajuda?
- Por favor! – Exclamou, andando depressa até mim e me entregando a caixa.
- Nossa, o que vai na receita de seus doces? Tijolos? – riu, passando seu braço pelo meu e me acompanhando até a barraca dos doces, não demonstrou dar importância ao olhar surpreso de todos, agiu com tanta naturalidade que quem se incomodou fui eu – Oi, .
- Oie! – Exclamou, acenando alegremente enquanto arrumava alguns doces dentro de uma estufa de vidro – Toma, prova um! – Estendeu uma bolinha que aparentava ser de chocolate.
- O que é isso? Chocolate? – Perguntei, sentindo o cheiro forte e adocicado.
- Se chama brigadeiro. – quem respondeu, encostada à barraca com os braços cruzados dentro de um sweater listrado.
- Brigad... êuro? – As duas gargalharam e eu dei de ombros, colocando o doce todo na boca – Hhhhhhhmm... Hmmmmmm! – Fechei os olhos, rebolando e fazendo graça, senti o tapa ardido da mão de em minhas costas, depois seus braços ao redor da minha cintura – Isso é muito bom! – Falei, sentindo o rosto de deitado em meu peito.
- Obrigada. – Sorriu, fechando os olhos, olhei pra sem entender muito, ela deu de ombros e eu retribui o abraço de , afagando seus cabelos.
- Bom, vocês querem a ajuda de um macho aqui? Daqui a pouco tenho que ir lá abrir os portões.
- Acho que não precisamos de macho nenhum aqui. – respondeu, riu e ergueu seu rosto em minha direção, sorri e me inclinei um pouco para poder depositar um beijo em seus lábios.
- Então eu vou resolver o que falta e depois passo por aqui, se sobrar bigradeurno guardem pra mim.

e gargalharam mais uma vez enquanto eu me afastava, sorrindo e me sentindo repentinamente aquecido. Passei pelas barracas, agora prontas para começar as vendas, e depois pelo palco, onde e verificavam uma última vez a afinação dos instrumentos.
Eles decidiram que deveríamos fazer não somente a apresentação final, mas também a abertura. Eu estava sujo e com cara de cansado, aliás, eu estava cansado, mas não tinha como recusar e fingir que eu não era membro da banda, além do mais eu já ia ter que dar o discurso inicial, o que seria tocar uma ou duas músicas?

- Olá, pessoal, boa tarde – Ouvia alguns assovios e palmas, sorri, com os polegares erguidos em agradecimento – Venho dar boas-vindas a todos os que estão aqui hoje, tanto a equipe de colaboração quanto ao público que veio assistir esses músicos incríveis que irão passar pelo palco hoje, espero que vocês tenham um momento muito divertido conosco! – Esperei até que os aplausos cessassem para nos apresentar – Eu sou , e nós somos a banda McFLY! – Alguns gritos fez com que eu e os meninos dessemos risada, acompanhei a contagem das baquetas e então começamos a introdução de That Girl.

Assim que desci do palco comecei a verificar se tudo estava correndo bem nas barracas. As vendas pareciam estar acontecendo, principalmente para Angie e seus barris de chopp. O diretor também estava lá, observando se as identidades eram apresentadas corretamente antes da venda da bebida.
Parei ao lado de , vendo uma banda de rock clássico se apresentar. Eles eram bons, quis comentar, mas me mantive em silêncio.

- Nossa audição é daqui duas semanas. – Ouvi-o dizer, meu estômago guinou ansioso e eu cruzei meus braços sobre o peito – Está com medo?
- Não... – Neguei, ainda olhando para o palco – Acho que sabemos exatamente o que queremos agora, , e nós somos bons, não há o que temer.
- Nunca imaginei você me dizendo isso... – Nós rimos e eu dei de ombros.
- Acho que o que faltou esse tempo todo e confiança em fé em nós mesmos, todos acreditavam em nossa capacidade, exceto nós.
- não está incluso, ele sempre se achou o melhor do mundo. – Dei risada e abracei pelos ombros.
- E ele é, nós somos os melhores do mundo... Se não acreditarmos nisso, ninguém apostará em nós.
- Você tem razão... Tem toda a razão.

O festival durou exatas cinco horas, todos os tipos de música foram apresentadas, para todos os gostos. Subimos no palco novamente por volta das 8 horas da noite, quando já não havia tanta gente, mas o pouco que estava lá nos bastava, fazia valer a pena.

- Bom, pessoal, quero agradecer muito a presença de todos, a colaboração e a boa vontade... Ao respeito, principalmente. Podem acreditar, isso tudo vai valer muito a pena, então muito obrigado! – Sorri, ouvindo os aplausos isolados, então comecei a dedilhar o violão – Quero me despedir com um cover, que eu ofereço a muitas pessoas aqui, hoje, pessoas por quem tenho muita admiração e ofereço toda minha lealdade... Mas principalmente a uma pessoa, que não é surpresa pra ninguém, mudou minha vida e todas as minhas escolhas, quero oferecer essa música do bom e velho James Taylor à , e dizer que em momento algum da sua vida você estará sozinha, não enquanto eu estiver vivo.

Pelos seus olhos, ela não esperava por aquilo, sorri em sua direção, ela fez o mesmo. O pessoal assoviava e gritava frases de entusiasmo e apoio. Introduzi You've got a friend. Eu e os garotos raramente tocávamos esses covers em festas, eram geralmente apresentados quando estávamos reunidos só entre amigos, depois de muita bebida. As pessoas pareciam ter gostado, e tanto quanto , ao seu lado, estavam emocionadas, o que fez com que eu me sentisse realizado.
Por volta das nove e meia o gramado estava quase todo vazio, não fosse por algumas pessoas que recolhiam suas coisas da barraca e passavam para nos entregar a parte do dinheiro que pertencia à doação.

- Uau! – se acercou, afastei meu cabelo pra trás, sentindo-o suado e oleoso – Foi ótimo.
- Sim, deu tudo certo, nem acredito. – Sorri, sentindo-a envolver meu quadril entre seus braços – Estou completamente suado e sujo, .
- Não tem problema, estava com saudade. – Sorri e rocei meu nariz em sua bochecha.
- Eu te convidaria para sair, mas hoje eu preciso dormir. – Ela me olhou e acariciou minha bochecha de leve.
- Vamos pra sua casa, podemos colocar um colchão na sala onde sua mãe possa ver que não estamos desrespeitando seu lar e dormimos, só dormimos.
- Por mim está ótimo, eu vou precisar ficar aqui mais um tempo para resolver a questão do dinheiro com o diretor, mas quando eu sair daqui passo te buscar, pode ser?
- Tudo bem, eu te espero lá, boa sorte por aqui e qualquer coisa me liga.

Sorri e segurei seu rosto entre minhas mãos, pressionando meus lábios contra os seus, sorriu após retribuir o beijo rápido. Plantei um beijo em sua testa e depois me afastei, pegando a mochila de dinheiro na escada do palco e me encaminhando para a sala do diretor, onde ele já me esperava.
Começamos a contagem do dinheiro, era mais do que eu costumava ter em mãos, percebi. Muito mais. A cada novo monte de mil libras eu sentia um alivio indescritível. O cansaço, a dor de cabeça e nas panturrilhas, os riscos que corremos, havia valido a pena. Totalmente. Havíamos arrecadado £13.129,00. Era muito dinheiro. Descontando a (maldita) porcentagem do diretor restava £10.500,00. Torci para que aquelas três mil libras não fizessem falta e devolvi o dinheiro na mochila, me despedi do diretor, ainda com aversão e deixei sua sala, era quase onze da noite. No estacionamento só havia meu carro, o do diretor e de , ele e estavam lá dentro, encostada na porta, do lado de fora. Contraí o cenho, adotou uma expressão que queria me dizer algo, mas eu não sabia exatamente o que... Só sabia que algo havia acontecido.

- , posso falar com você um minuto? – Ela pediu, sua voz não parecia a mesma daquela garota que estava sugerindo uma noite de sono juntos.
- Pode, claro. O que aconteceu? – Ela se acercou, deixei a mochila no banco do passageiro do meu carro e depois fechei a porta, me encostando a ela e sentindo meus músculos doloridos.
- Eu é quem pergunto, o que aconteceu na última noite no resort? – Respirei fundo, deitando minha cabeça pra trás com as mãos sobre o rosto. De novo, pensei.
- , já não conversamos sobre isso? – Perguntei, demonstrando toda a minha exaustão em meu tom de voz.
- Eu quero que você me diga a verdade, ... Pelo menos uma vez, tente me dizer a verdade, quero ouvir da sua boca! – Meu coração batia com força, como se tivesse maior e mais pesado, traguei a seco e olhei para meus pés.
- O que você sabe? – Ergui meus olhos, sem fazer o mesmo com a cabeça, examinando seu rosto enfezado.
- O que você sabe? – Ela repetiu minha pergunta, cruzando os braços abaixo dos seios.
- Tudo bem, você não quer entrar no carro...
- , o que aconteceu naquela noite?
- Ok... – Engoli em seco e, depois de esfregar meu rosto e meus cabelos, imitei seu gesto e cruzei meus braços de maneira apertada, defensiva – Estávamos conversando, depois que você saiu de lá com , se aproximou e nós deitamos na areia, acabei dormindo por lá, só acordei quando a própria veio me chamar, aos berros, dizendo que você e James tinham sumido e que ela temia por você, porque James estava bêbado e você ainda mais... – quis desviar os olhos, mas os meus continuaram fixos nos seus, era difícil contar que eu novamente havia mentido, mas eu estava anestesiado pelo cansaço e a felicidade de ter conseguido uma quantia considerável para ajudar sua mãe, era o que eu podia fazer por ela naquela noite – Eu rodei o resort três vezes, procurei em todos os cantos possíveis, invadi apartamentos, acordei todo mundo que te conhecia pra me ajudar, eu nem sei por quanto tempo fiquei te procurando sem ter sucesso algum, até Charlie se lembrar que eles costumavam ir à uma sauna interditada pra usar droga ou algo do tipo, e quando cheguei lá... – Pisquei com força, recordando-me da cena com uma nitidez impressionante, fazia parecer que eu ainda estava lá – Você estava com James lá, com seu maiô abaixado até a cintura, desacordada... – Os olhos de estavam úmidos há algum tempo, e naquele momento transbordaram com facilidade – Eu não sei o que aconteceu antes de eu chegar lá, eu não sei se ele fez algo contigo ou não, eu fiz o que estava ao meu alcance. O meu ódio era tanto, , que se os caras não tivessem chegado lá eu não sei o que teria feito com James, eu destrocei o rosto dele, e poderia ter feito pior se tivesse tido tempo... – Ela negou com a cabeça e apertou as palmas contra os olhos.
- Por que você não me disse nada disso? – Sua voz estava embargada, desafinada.
- Porque eu não queria ver você sofrendo assim... – Falei, meu tom saiu baixo, dolorido – Eu preferia que você pensasse que tinha dormido comigo, não é como se nunca tivéssemos dormido juntos antes, eu não queria que você se sentisse culpada pelo o que James fez... – retirou as mãos do rosto, estava chorando, seus olhos pareciam cansados.
- Eu não suporto mais suas mentiras pra me proteger... – Crispei meus lábios, pressionando-os um contra o outro, sem saber o que dizer ou como me desculpar, eu só queria ir pra minha casa.
- Quem te contou?
- James. – Arqueei as sobrancelhas – Ele disse que me levou pra lá com a intenção de transar comigo, mas que não fez isso... Quando eu dormi ele parou e estava bêbado demais pra me carregar de volta ao quarto, então ficou lá esperando até que eu acordasse, ou que ele dormisse... – Um alívio inundou meu corpo, eu quase sorri, se não fosse uma situação tão complexa.
- Fico feliz que ele não tenha feito nada, o que não faz com que eu o odeie menos, mas também achei legal da parte dele ter te contado. – Admiti, envergonhado.
- Coisa que você não fez. – Neguei com a cabeça, eu queria dizer que eu sabia de tudo o que ela estava passando e não achava justo trazer mais problemas e assuntos que a deixariam perturbada.
- Eu não fiz e, de fato, foi com a intenção de te proteger, sinto muito que não tenha funcionado, , eu sinto muito mesmo. – Ela concordou com a cabeça, depois fungou.
- Eu vou pra casa, nos falamos outra hora... – ameaçou virar-se e se afastar, mas antes que pudesse fazê-lo me desencostei do carro e segurei seu pulso.
- E nós? Como ficamos depois disso? – Ela me olhou com pesar, depois soltou um suspiro longo.
- Sinceramente? Não sei... Me deixa ir pra casa, quando eu achar que devo, te procuro.
- Tudo bem... – Concordei com a cabeça e soltei seu pulso, sem confiar que ela realmente me procuraria – Me desculpe.
- Vou tentar, .


Capítulo 34.
"Pois quando eu penso em você, eu não me sinto tão sozinha"
(Vanilla Twilight - Owl City)

['s POV]

Com os olhos cansados, fechei o livro em meu colo e o deixei na mesa ao lado do sofá, junto ao meu óculos de grau. Alonguei meu corpo, ouvindo alguns estalidos. Peguei o controle, enterrado entre o estofado, e desliguei a TV. Peguei a xícara com o resto do chá de camomila e andei, em passos curtos e lentos, até a cozinha, lavando-a e guardando-a no armário após tê-la secado. Subi e, sorrateiramente, andei até o quarto de meus pais. Abri um pouco a porta e os olhei na cama. Admirei o sono tranquilo de meu pai, mas meu coração se contraiu ao que meus olhos alcançaram minha mãe. Encostei-me ao batente, sentindo-me tão fraca quanto ela aparentava estar. Sua respiração irregular, seu rosto ossudo ficava evidenciado pela cabeça, recentemente raspada. Assim como todos os dias nas últimas semanas, certifiquei-me de que ela estava bem, de alguma forma. Se ainda estava respirando, para ser honesta. Depois encostei a porta e, ainda sem nenhum sono, fui para o meu quarto.
Tive vontade de tomar banho, mas sabia o porquê estava fazendo isso desde que soube sobre James. Sujeira inconsciente. Então me esforcei para não ceder à pressão da minha mente, aliviei a bexiga, escovei os dentes e voltei ao quarto. O incômodo era enorme, era como se algo ruim fosse acontecer caso eu não retornasse ao banheiro e tomasse mais um banho, mas não o fiz. Ajoelhei-me aos pés de minha cama e orei. Orei durante sabe-se lá quanto tempo, até o sono dar indícios de sua chegada, e então, quando finalmente decidi me deitar, a campainha soou. Num sobressalto, olhei em meu relógio de cabeceira. Onze e dezessete, marcavam seus ponteiros. Quem poderia ser a essa hora? . Seu nome apitava, como uma sirene em minha cabeça, mas não dei atenção. Ele não viria me procurar. Não àquela hora. Não depois de nossa última conversa, no sábado anterior... Já havia uma semana.
Eu não sabia dizer como me sentia em relação a ele, a James, a situação toda. Foi, honestamente, terrível saber sobre aquela noite, foi dolorido e eu me senti enjoada durante toda aquela semana. Na verdade, eu estava um caos por dentro, pois, além de tudo, eu estava confusa sobre as atitudes de . Eu me sentia grata por ele ter me procurado e tentado me proteger de todas as maneiras possíveis, na verdade eu me sentia tão grata que estava envergonhada por ainda não tê-lo procurado para dizer isto. Ao mesmo tempo eu queria que ele tivesse sido honesto comigo e me dito desde o princípio, afinal, ele me viu com James todo o tempo depois que retornamos do resort, e ele nem tinha a certeza se havia ou não acontecido algo na sauna, como ele pôde não intervir? E então vinha a memória das minhas próprias acusações sobre ele, todas as vezes que me esquivei e o julguei, desconfiei de sua conduta... Minhas teorias, ideias, sentimentos, tudo se parecia muito com um novelo de lã naqueles dias, eu sabia quem poderia retirar os nós. O mesmo que, consequentemente, os havia amarrado. Entre meus pensamentos mais embaraçados eu desejei que tivesse sido ele, apesar de tudo. Meu Deus, antes tivesse sido ele.
Ouvi os passos pesados do meu pai pelo corredor, mas me mantive sentada na cama, na expectativa de saber quem estava lá embaixo. Ouvi o abrir e o fechar da porta, mas não conseguia ouvir voz alguma. Suspeitei que fosse alguém pedindo informação, mas depois de 15 minutos meu pai ainda não tinha retornado ao quarto, então comecei a me preocupar.
Calcei minhas pantufas e me levantei, seguindo lentamente pra fora do quarto. Desci, em silêncio, o lance de escadas e pude ver a luz da sala de visitas acesa. Quem poderia estar nos visitando àquela hora?
Conforme me aproximava, eu podia ouvir a voz baixa de meu pai. Encostei-me à parede, ao lado da porta, me concentrando para poder ouvir.

-... Mas os médicos disseram que tem chance de recuperação, mesmo que seja pouca, então estamos com a esperança de que tudo fique bem... - Meu pai dizia, fechei meus olhos, devia ser a terceira vez que eu o ouvia falar sobre minha mãe à alguém. Ele nunca falava com ninguém sobre isso.
- Sr. , eu não sei se é suficiente... - Meu estômago gelou e minha respiração se conteve. Abri os olhos subitamente, tentando não exclamar qualquer tipo de barulho - Mas eu arrecadei algum dinheiro na semana passada, no festival de música, e eu gostaria que o senhor aceitasse essa ajuda... - dizia, de maneira calma... Calma que não passava perto de mim. Meu corpo já não tremia, vibrava. Dos pés à cabeça.
- , não posso aceitar, esse dinheiro é seu...
- Não, eu fiz o festival com esse propósito... - Minha garganta escassa começou a arder, assim como minhas narinas e olhos, agora úmidos. Ele sabia de tudo! - Por favor, aceite.
- , não sei o que dizer... Não sei como te agradecer por isso. - Meu pai murmurou, cobri minha boca com as mãos, contendo um soluço - Obrigado, de coração.
- O senhor não tem que agradecer, eu faria isso mais mil vezes se fosse preciso pra que sua esposa ficasse bem... Eu não tive muito tempo de conhecê-los, mas sei, através de , como são pessoas especiais, e eu quero mesmo que tudo fique bem nessa casa, porque gosto muito de todos vocês. - Meus joelhos enfraqueceram, mas continuei escorada na parede, ali, ao lado da porta.
- Você é um bom rapaz, , estou feliz que minha filha goste de você... Sempre tive medo que se envolvesse com alguém que não a merecesse... Eu e minha esposa estivemos o tempo todo criando-a da melhor maneira possível, talvez tenhamos exagerado e tornado alguém rígida demais consigo mesma... Mas acho que ela vê, e tem em você, uma liberdade que nós não demos a ela, uma liberdade que ela sabe usar e que merece ter... - Eu mal podia ouvi-los agora, meu coração batia tão forte que atrapalhava todos os meus sentidos.
- Eu acho que... Talvez, eu não seja a pessoa certa pra ... - Traguei o bolo de angústia que havia se formado em minha garganta e apertei meus olhos - Eu a amo tanto, e quero protegê-la tanto, que acabo metendo os pés pelas mãos...
- Eu, como pai, mesmo que um padrasto, acho que você é a pessoa certa para , e acredite, pra um pai isso é quase como ter a filha roubada. - Ao ouvir a risada de preencher a sala da minha casa, meu coração aqueceu-se de tal maneira que eu me peguei sorrindo, mesmo que de leve, com o rosto, ironicamente, banhado em lágrimas.
- Bom, eu vou indo, Sr. . - O sofá rangeu, indicando que havia se levantado, senti-me petrificada, cimentada ao chão, ele estava indo.
- Tudo bem, , muito obrigado por tudo. - Meu pai agradeceu e eu pensei em sair correndo. Talvez eu conseguisse se não estivesse completamente trêmula e extasiada - ... - Os passos até a porta se detiveram e eu abafei um suspiro na palma da mão - Posso contar à o que você fez?
- Não... Quero pedir ao senhor que mantenha isso entre nós... - Disse , com a voz calma - Não quero que ela pense que fiz isso porque quero me desculpar por qualquer coisa... Eu fiz isso pela felicidade e pelo bem-estar de todos vocês, não por qualquer outro motivo, mas a tá magoada, e não vai entender...
- Tudo bem, como quiser. - Neguei com a cabeça e, sem a menor ideia do que estava fazendo, adentrei na sala, meu pai enrijeceu e o sangue esgueirou-se do rosto de - Filha...
- Pai, eu quero conversar com o . - Ouvi-me dizer, sem tirar os olhos do rosto empalidecido do rapaz à minha frente. Culpei-me por aquelas olheiras e pela maneira como ele pareceu desesperado ao me ver.
- Tudo bem, vou deixá-los a sós.

Meu pai passou por nós e saiu pela porta, encostando-a atrás de si. Eu podia sentir a atmosfera pesada, densa. e eu tínhamos tanto a conversar que iríamos gastar bem mais que uma noite na minha sala de visitas. Eu tive ainda mais certeza disso ao perceber que nenhum de nós estava disposto a começar a falar, pelo menos não naquele momento.
Não nos sentamos, não nos movemos. Ficamos parados, um em frente ao outro, nos olhando como se isso fosse solucionar todas as questões entre nós. Talvez isso pudesse não acontecer. Mas foi ali, olhando para aquele garoto de cabelos desordenados, roupas sujas e olhar cansado de quem havia acabado de sair do pub. Foi olhando dentro de seus olhos que reconheci o perdão. O meu e o dele. Ele havia me perdoado e eu o perdoava também. Não era pelo que ele havia feito por mim e por minha família, mas porque isso me fez lembrar de quem ele era, de quem poderia ser, e do quanto eu o amo e o admiro, apesar de tudo.

- Eu... - Tentei dizer algo, mas o choro embargou minha voz e eu me calei, contorceu sua expressão, baixando a cabeça - ... - Chamei, num sussurro e ele voltou a me olhar, seus olhos estavam vermelhos, não sei se de sono ou de quem quer chorar - Obrigada. - Minha voz era quase inaudível, tudo o que saiu foi um gemido borrado e acompanhado de lágrimas gordas.
- Você não precisa me agradecer. - Murmurou com rouquidão - Era tudo o que eu podia fazer.
- Desculpa eu não ter te contado... Eu queria que você não precisasse me ver assim...
- Você não tinha a obrigação de me contar, mas eu gostaria que você tivesse feito, porque eu poderia tentar te ajudar de outras maneiras...
- Você ajudou. - Sussurrei - Todos aqueles dias, os piores dias, você me levava pra almoçar, e você aceitou a dentro da sua casa mesmo depois de tudo... Isso me fazia bem, me fazia pensar que caso... Caso... Minha mãe... - O pranto me atingiu antes do fim da frase, não hesitou em se acercar e me tomar em seus braços, segurando-me com força contra seu peito.
- Shhh, shh... Isso não vai acontecer, ok? Não tão cedo. - Ele me dizia aos sussurros, prendendo meu corpo trêmulo entre os braços - Calma... - Pediu, mas de repente tudo veio à tona, os últimos meses, a dificuldade que tive para lidar com tudo, de todas as noites que eu apenas quis estar ali, em meu lugar, no seu abraço, e chorar, desabafar.
- Eu 'tô com medo. - Admiti pela primeira vez em todo aquele tempo, num sussurro, com o rosto afundado em seu peito e o receio de que eu mesma descobrisse sobre essa fraqueza.
- Eu sei... - Ele murmurou, com os lábios próximos do meu ouvido, afagando meus cabelos de uma maneira aconchegante - Mas também sei que você é forte. E que quando você não conseguir se manter em pé, pois pode acontecer, estará rodeada de pessoas prontas pra te segurar. - Ele dizia de maneira quase melódica, acalmando o ritmo do meu coração e o temor que me fazia ter espasmos.
- Não me deixa sozinha. - Pedi, com os olhos doloridos pela intensidade de choro.
- Nunca. - Murmurou, apertando-me ainda mais.

Busquei pela mão de e entrelacei meus dedos aos seus, puxando-o até o sofá, onde me sentei e indiquei o estofado pra que ele fizesse o mesmo. Seu corpo foi como um leito, que me acolheu e me acalentou. O silêncio reinava sem objeções de nossa parte, precisávamos daquele momento. Precisávamos pensar juntos, sem dizer nada.
Abri os olhos, sentindo-os inchados e, lentamente, olhei ao redor. A escuridão do meu quarto fez com que eu me perguntasse se eu estava sonhando. Afastei os cobertores e me esgueirei até a beirada da cama. Olhei o relógio, que marcava 04:04. Será que não estivera ali? Será que eu estava dormindo aquele tempo todo?
Bati a mão no interruptor e fui ao banheiro, quando retornei vi, embaixo da luminária, uma folha dobrada. Peguei-a com cuidado e me sentei na beirada da cama enquanto a desdobrava, e então comecei a ler o que dizia ali:

Quando você estiver deprimida e perdida, e precisar de uma mão para ajudar. Quando você estiver deprimida e perdida pelo caminho, apenas tente um pouco mais, tente seu melhor para atravessar o dia, e apenas diga a si mesma "eu ficarei bem"... Você não está sozinha.
Xx .


['s POV off]

Capítulo 35.
"I just feel complete when you're by my side"
(If It Means A Lot To You - A Day To Remember)

- Até que enfim, acordou. - Virei para a porta ao ouvir Sr. se pronunciar, adentrava a cozinha com os cabelos emaranhados e o óculos de grau suspenso nos olhos, sorri subitamente com suas bochechas rubras ao me ver.
- Bom dia. - Falei, vendo-a se aproximar para me dar um beijo no rosto.
- Bom dia. - Ela murmurou, cumprimentando o pai e o irmão - O que você está fazendo aqui logo cedo? - Ela quis saber, com as mãos na cintura, ri baixo, encostando-me à pia.
- Vim te convidar pra um passeio. - Dei de ombros, ela olhou de soslaio para o pai e depois voltou a me olhar.
- Hm, e onde vamos? - Encolheu-se minimamente quando estiquei minha mão a fim de ajeitar uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.
- Na fazenda dos meus avós. - arqueou as sobrancelhas.
- Você nunca me falou deles.
- Acho que não. - Sorri, entrelaçando meus dedos aos seus - Hoje é aniversário da minha avó.
- Ai, ... Que desagradável você me levar num dia festivo...
- Por quê? - Encolhi os ombros, negando com a cabeça - Eles vão adorar, e nem vai ter tanta gente assim.
- Hm... - suspirou longamente e deu de ombros - Tudo bem, o que devo vestir?
- Qualquer coisa confortável, vamos passar o dia todo lá.
- Ok... Vou só levar o café da manhã pra minha mãe... - Concordei com a cabeça, depositando um beijo em sua testa - Quer vir?
- Posso? - Ela assentiu e eu sorri - Vamos, me deixa levar isso aqui. - Peguei a bandeja de madeira e saí em seu encalço.

parou em frente à porta do quarto e soltou um suspiro longo, pesaroso, notei. Segurei mais firme à bandeja de madeira e esperei até que ela adentrasse para fazê-lo em seguida.

- Bom dia, mamãe.
- Bom dia, querida.

Ergui meus olhos da bandeja para Sra. e tentei não parecer surpreso ou qualquer coisa do gênero. Estava notavelmente mais magra, apática. Havia um lenço bonito e colorido ao redor de sua cabeça, que supus estar raspada. Os ossos de sua bochecha estavam saltados e seus olhos fundos, eu poderia dizer que estava mais enrugada, como se tivesse envelhecido 3 anos em um mês.

- Bom dia, Sra. . - Saudei, acercando-me com um sorriso sincero.
- Bom dia, . - Olhou em minha direção e não parecia surpresa pela minha presença, como se já soubesse que eu viria.
- Onde deixo a bandeja? - Perguntei à , que abria as cortinas.
- Pode deixar sobre a cama. - Respondeu ela, e então fiz o que havia sido dito, deixei a bandeja sobre a cama, ao lado de sua mãe, que me sorriu agradecida.
- Como a senhora está? - Perguntei, da maneira mais sutil que consegui.
- Com câncer. - Disse ela, com um bom humor invejável, rimos juntos, mas bufou - Estou mal hoje, como pode ver. Não é todos os dias que tomo café na cama, mas ontem eu tive uma sessão de quimioterapia, e não tem parado nada no meu estômago desde então.
- Mas logo a senhora melhora. - Sentenciei - Além do mais, eu e o seu marido preparamos o café da manhã, está uma delícia, tenho certeza que nada vai voltar.
- Veja só! - Exclamou de maneira risonha - Que bom genro eu fui arrumar, obrigada, .
- Mamãe. - rolou os olhos, enrubescida - não é mais meu namorado.
- Ah... Não? - Ela me olhou e eu dei de ombros, olhando pra .
- Não? - Perguntei, ela examinou meu rosto por um tempo e depois fechou a cara, como uma criança que acaba de ser contrariada.
- Eu vou me arrumar, licença. - Eu e Sra. rimos enquanto víamos marchar para fora do quarto.
- Estão ou não? - Perguntou a mulher, olhei pra ela por um tempo, sem saber o que dizer.
- Acho que estamos nos reaproximando, sem compromisso. - Respondi, incerto do que dizia.
- Sem compromisso? - Ela me perguntou, novamente, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela tornou a falar - , não posso dizer isso a eles, pois não quero assustá-los, e sei que você não diria, mas não sei quanto tempo de vida ainda tenho...
- Não dig...
- Estou dizendo a verdade, só quem sabe o que se passa aqui dentro sou eu, . - Ela prosseguiu - Não sei quanto tempo ainda suporto o tratamento, estou enfraquecendo a cada dia, sinto isso em meus ossos, sinto dor, e de uns dias pra cá, se eu andar daqui até a janela, preciso fazer inalação... Meu filho, eu preciso partir com a certeza de que minha família ficará bem. - A angústia me calou e eu apenas pisquei - Me prometa que vai cuidar de como quem cuida da própria vida. Eu sei que quando eu for, meu marido não conseguirá ser o pai que tem sido, eu sei que Ryan irá precisar de , e ela precisará de você. - Eu sentia minha garganta mais seca e meus olhos mais úmidos - Me prometa, por favor.
- Eu prometo. - Murmurei, sinceramente - Enquanto me permitir estar ao seu lado, prometo que estarei aqui para o que for preciso, sempre.
- Obrigada, . - Agradeceu, com um sorriso fraco - Bendita seja a hora em que Deus decidiu te colocar em nosso caminho.

Ryan entrou no quarto saltitando com uma maleta fina embaixo do braço. Sentou-se na cama e a abriu, tirando de lá folhas em branco. A maleta guardava inúmeras canetas de tinta colorida, pincéis, tintas e gizes de cera. Enquanto não ficava pronta, ele me ofereceu uma folha e suas canetas. Ficamos desenhando um tempo, eu era péssimo, mas seus desenhos eram realmente bons, o que me deixou impressionado.

- Estou pronta. - disse, ao entrar pela porta com um vestido delicado e sapatilhas, seus cabelos soltos, naturais, levemente ondulados.
- Vamos? Preciso passar em casa pra me trocar. - Levantei devagar.
- Vamos. - Concordou, olhei para Sra. , que parecia sonolenta.
- Bom, então nós vamos indo, mais tarde eu trago . - Inclinei-me e depositei um beijo demorado no rosto de minha sogra, que sorriu, com os olhos fechados - Ryan, quer ir?
- Onde vocês vão? - Ele perguntou, olhando de para mim.
- Na fazenda dos meus avós, tem uma piscina aquecida enorme lá. - Eu chantageei, riu baixo e o menino saltou da cama.
- Posso ir, mamãe? - Exclamou, com os olhos arregalados.
- Pode, filho. Contanto que não te deixe sozinho na piscina. - Disse a mulher, antes de me lançar um olhar repressor, ri com os ombros encolhidos.
- Eu cuido dele. - Respondi, Ryan deu um pulo, animado.
- Vai pegar suas coisas então, Ryan.
- O que eu preciso levar? - Perguntou ele, confuso, e então olhou pra sua irmã.
- Vem, eu te ajudo. - disse, pegando a mão dele e levando-o pra fora do quarto, andei devagar até a porta.
- . - Sra. me chamou, olhei pra trás e a vi de olhos fechados.
- Oi.
- Obrigada. - Murmurou ela, sorri, segurando a maçaneta - Deus te abençoe.
- Amém.

Desci lentamente até a sala de TV, onde Sr. lia o jornal, e sentei na poltrona desocupada. Ficamos conversando até e Ryan descerem, trazendo uma mochila extra. Nos despedimos de meu sogro e seguimos até meu carro. Ryan perguntou imediatamente o que havia acontecido com a Tucson, com dor no coração disse que estava com meu pai. Ele ainda quis saber se meu pai não morava comigo e eu disse que não mais, então o repreendeu por sua curiosidade.

- Mãe, ! - Chamei assim que entramos.
- Oi. - desceu as escadas correndo, e só então viu , depois Ryan - Oi, .
- Esse é o Ryan, irmão da . - Eu disse e ela andou até ele, abraçando-o como tias costumam fazer, neguei com a cabeça e riu, encostando seu corpo ao meu - Vou me trocar, você espera aqui embaixo com a minha irmã?
- Espero. - Ela respondeu, beijei sua cabeça e subi até meu quarto.

Tirei a camiseta que estava vestindo, borrifei o anti transpirante e coloquei uma malha cinza, meio desbotada e sem barras. Peguei minha mochila da escola e tirei o que havia dentro dela, dando espaço para um short, chinelos, toalha e uma jaqueta que, com certeza, eu precisaria mais tarde.
Após aliviar a bexiga e me perfumar, peguei meus óculos de sol e o presente de minha avó, que eu havia deixado sobre a cama, então desci. Mamãe também já estava na sala, todos prontos para ir.
A fazenda de meus avós maternos ficava a meia hora, entre Bolton e Little Lever. Não estava um dia muito quente, como se o sol estivesse longe demais pra que seus raios aquecessem o Reino Unido, e por vezes ele não podia ser visto entre as nuvens que oscilavam entre diferentes tonalidades de cinza.

- Tomara que não chova. - Mamãe sabia exatamente o que eu estava pensando.
- É, ou aquilo vai virar uma lamaceira só. - Lamentei, sem tirar os olhos da estrada.
- O que você comprou pra vovó, ? - quis saber, olhei-a através do retrovisor.
- Um vaso daqueles que ela gosta. - Dei de ombros, dirigindo - E você?
- Nada, vou falar que o vaso é nosso.
- Ok, então amanhã você me dá metade do dinheiro. - Falei, segurando o riso.
- Fale com a sua mãe, ela não está me pagando. - disse e nós rimos, olhei para , pelo retrovisor, e vi que ela sorria de leve, com o rosto levemente virado para a janela, a claridade deixava sua pele mais clara e eu senti meu estômago guinar, eu estava aliviado por tê-la ali.

desceu do carro para abrir os portões pra mim. Adentrei no grande espaço de grama e estacionei ao lado de um carro grande, bonito, que eu suspeitei ser de tia Margareth, ela estava sempre trocando de carro.
Assim que descemos, se acercou e encostou-se em mim. Tranquei a porta do carro enquanto, com o braço livre, rodeei seus ombros, confortando-a. Andamos lentamente até o lance de quatro degraus de madeira que nos conduzia a uma varanda longa que tomava toda a frente da casa de meus avós. As mesas haviam sido postas ali e minha família rapidamente se voltou pra nós. , eu e Ryan estávamos no fim da fila. Mamãe começou a cumprimentar a todos e foi direto abraçar minha avó, entregando a ela o vaso que eu havia comprado.
Segui os passos de minha irmã, acercando-me de vovó, que sorriu em minha direção. Inclinei-me para abraçá-la ao mesmo tempo que soltava-se de mim. E então me ergui.

- Vó, gente... - Chamei a atenção de todos - Essa é , e esse é seu irmão Ryan. - Ouvi um suspiro vir de que sorriu e acenou desajeitadamente para minha família, que a examinava minuciosamente com entusiasmo, suas bochechas foram ficando cada vez mais vermelhas, isso me fez rir - , essa é minha vó.
- Oi, prazer em conhecer a senhora, feliz aniversário. - se acercou, cumprimentando-a educadamente - Me desculpe não ter trazido nada, só me avisou agora.
- Não precisa, querida, é bom tê-la aqui.

Cumprimentei o resto de minha família, com em meu encalço, apresentando-se devidamente a todos, que pareciam encantados. Não sei se por ela ou pelo fato de eu finalmente ter apresentado alguém à minha família. não precisava saber, mas isso representava muito.
Puxei uma cadeira para e outra para Ryan, depois peguei a mochila das costas dele e levei, junto com a minha, para a sala. Quando retornei, minha irmã estava colocando cerveja no copo de , prendi o riso e debrucei-me, com a cabeça entre as duas.

- , não bebe cerveja. - Falei baixo, pegando o copo pra mim, então olhei para , que sorriu agradecida - Quer um coquetel? Ou prefere refrigerante mesmo?
- Pode ser um coquetel, não quero ficar desencaixada. - Ri baixo e neguei com a cabeça.
- Você bebe o que quiser, está bem? Eles vão te adorar de qualquer maneira.
- Hm... Ainda quero o coquetel. - sorriu abertamente, ri e depositei um beijo em sua bochecha.
- Ryan, quer refrigerante? - Ele apenas olhou pra , encolhido em sua cadeira.
- Ele quer. - Ela respondeu, rindo baixo, peguei um copo e o enchi com refrigerante, entregando nas mãos do garotinho.
- Sem interrogatórios, ok? - Falei, às minhas tias e primas, que riram - , se encherem muito seu saco, me grita. - Murmurei de maneira teatral, que a fez rir divertidamente, com as bochechas rubras.

Fui até a cozinha preparar um coquetel de frutas para e quando retornei meus primos me convidaram para uma partida de poker. Chamei Ryan para vir comigo e, mesmo com a timidez estampada em seus olhos arregalados, ele me acompanhou até uma mesa mais afastada, para assistir ao jogo.
No intervalo entre uma partida e outra, eu fingia que ia buscar cerveja, mas na verdade ia monitorar , certificar-me de que não estavam questionando-a demais, ou saber se ela queria algo que não tinha coragem de pedir a outras pessoas, mas ela parecia estranhamente confortável entre minha família, conversando com minhas primas e irmã.
O almoço foi servido. Preparei meu prato e o de Ryan, que se sentou entre eu e para comer. Ela fazia comentários sobre assuntos aleatórios que surgiam na mesa e me deixava feliz saber que ela estava sendo bem aceita por todos, era crucial que ela se desse bem com meus amigos e minha família, eu poderia ficar com uma pessoa que minha mãe não aceitasse, mas firmar relacionamento seria bem mais complicado.

- , o pé de amoras está carregado. - Minha avó disse, após termos estourado algumas garrafas de champagne e cantado o parabéns.
- Se eu for lá buscar, a senhora vai fazer torta pra mim? - Perguntei, com minha melhor expressão infantil, eles riram.
- , isso só funcionava quando você tinha 6 anos. - disse, entre risos.
- Eu faço. - Vovó disse, também rindo.
- Viu, ? Eu não perdi meu encanto ainda. - Levantei imediatamente, afastando minha cadeira - Vou por um short.

Quanto retornei, já vestido com um desses shorts de jogar futebol branco, Ryan levantou-se e veio até mim, pedindo pra ir junto. Concordei imediatamente, pois já tinha a intenção de convidá-los. O pé de amora não ficava muito perto, então eu poderia mostrar a fazenda a eles no caminho. Chamei por , que sorriu em concordância e se levantou, pedindo licença àqueles que ficaram na mesa. Ri com a expressão maravilhada de meus parentes.

- Aposto que vocês acharam que eu nunca encontraria alguém assim, admitam! - Saí falando e logo eles explodiram em gargalhadas histéricas, é claro que eles nunca imaginaram, nem eu poderia.
- É enorme aqui. - comentou quando chegamos à grama, Ryan caminhava um pouco à nossa frente.
- Sim. Meus aniversários, quando criança, costumavam ser aqui. - Contei enquanto avançávamos lentamente.

Havia um grande espaço de grama, baixa, bem cuidada. Do lado esquerdo havia uma margem de Oliveiras altas, que deixavam inacessível a visão do barranco e do córrego logo adiante. Do lado direito, havia o jardim de inverno do vovô, ele gostava tanto da minha avó quanto de flores, e ele mesmo fazia questão de deixar isso claro. Entre um beijo dela e uma tulipa, ele pensaria duas vezes para se decidir. E logo ao lado havia uma estrutura de vidro, parecida com uma estufa, onde ficava a piscina. Antigamente costumava ser descoberta, mas vovô decidiu cobrir e colocar um aquecedor para que, mesmo em dias frios como o aniversário de , aquela área pudesse ser usada.
Eu ia apresentando cada pequena parte do lugar que mais me trazia lembranças de infância e era bom poder dividir isso com . Ela parecia maravilhada. Apresentei então o bosque, estava arfando um pouco e eu também. Ryan havia ficado pra trás, no parquinho que meu avô tinha feito questão de colocar quando e eu ainda éramos pequenos. Havia cercado um vasto amontoado de areia com tijolos coloridos e comprado balanços, um escorregador, gangorras e gira-gira. Quantas vezes eu derrubei daqueles brinquedos... É compreensível que ela seja um tanto quanto... Estranha.

- Tem certeza que não tem perigo Ryan ficar lá? - quis saber, sorri por sua preocupação e neguei com a cabeça.
- Certeza absoluta. - Respondi, realmente certo de que ele ficaria bem - Seria perigoso se eu fosse pequeno e estivesse brincando com ele, eu costumava ser rude com crianças. - riu, olhando-me de esguelha - Uma vez eu e minha irmã estávamos na gangorra, eu a deixei presa no alto e então me levantei, ela quebrou o braço. - Contei, soltando uma gargalhada alta depois, bateu no meu peito, mas também estava rindo.
- Que horror, . - Ainda rindo, dei de ombros - Esse lugar cheira tão gostoso.
- Sim. - Concordei, olhando as árvores ao redor, algumas com frutas penduradas colorindo a paisagem, outras ainda na espera da época certa - Meu avô costumava nos trazer aqui pra ajudá-lo a pegar limão, ele faz a melhor limonada do mundo.
- Posso imaginar. - Ela disse, sorridente.
- Ali. - Apontei para as árvores de amora, carregadas das pequenas frutas, imediatamente minha boca encheu-se d'água - Fica aqui, se não você vai acabar se manchando toda. - Adverti, desenrolando uma sacola que eu estava trazendo na palma da mão livre.
- Ah, que graça tem andar até aqui e não te ajudar a recolher as amoras? - Resmungou, seguindo-me pra perto da árvore.
- Você deveria ter trazido uma roupa velha, eu nem pensei nisso. - Reclamei, parando quase embaixo da árvore, entre seus galhos, e começando a pegar as frutas pequenas e frágeis entre meus dedos.
- , você está amassando tudo! - Protestou , fazendo aquilo com uma delicadeza muito maior e invejável, ri, desconcertado - Segura a sacola que já está de bom tamanho.
- Tudo bem, tarefas divididas.

esticava-se para pegar as frutas enquanto eu a seguia, com a sacola aberta para ajudá-la na tarefa. Uma ou outra ela desviava para a própria boca, ou para a minha. Fazia um bom tempo que eu não me sentia tão bem fazendo algo. Eu poderia passar o dia todo naquele lugar, com . E ela também parecia completamente leve, adaptada.

- Pronto, acho que as maduras já estão todas aí. - Ela disse e olhou para os próprios dedos tingidos de um roxo avermelhado, sorri, vendo-a lambê-los.
- Limpa sua mão na minha camiseta, é velha. - Acerquei-me, ela não contestou, apenas pegou minha camiseta e limpou as próprias mãos, meus olhos vagavam por seu rosto, e pela primeira vez desde a noite anterior, a vontade de beijá-la foi tão grande que meu coração disparou de antecipação, mas me controlei, achando que talvez não fosse a hora certa, talvez eu devesse esperar até se acostumar com minha presença novamente, começar a reconquistá-la e permitir que ela voltasse a confiar em mim, eu sabia que essa não seria uma tarefa fácil, e precisava estar disposto a oferecer espaço e paciência - Então... Podemos ir. - me olhou com as sobrancelhas levemente arqueadas.
- ... É a primeira vez que podemos ficar sozinhos no dia... Você está com pressa por algum motivo específico? - Perguntou de maneira tão direta que interrompeu minha respiração e tomou minha fala.
- Ahn... - Aclarei a garganta, apertando o plástico da sacola entre meus dedos - Não, eu só... Estou sem jeito. - Admiti, cruzou os braços lentamente, esperando uma resposta melhor - É que... Eu tenho a impressão de que a gente ainda tem tanta coisa pra conversar... - afrouxou os braços lentamente e deu um passo em minha direção, seu perfume adocicado invadiu minhas narinas - E que você precisa de um tempo pra... Digerir tudo que aconteceu entre nós... - Senti seus dedos tocarem minha bochecha lentamente, massageando meu rosto - Não precisa? - O vento soprou o rosto de , carregando seus cabelos pra trás e fazendo-a piscar rápido algumas vezes.
- Eu preciso de você. - Ela respondeu, com a simplicidade de quem diz "preciso dormir", eu não consegui responder, apenas soltei a sacola em nossos pés e segurei sua cintura entre minhas mãos.

escorregou seus dedos por meus cabelos, entrelaçando-os em minha nuca e fechando os próprios olhos, acerquei-me, sentindo como se algo dentro de mim vibrasse o tempo todo, fazendo-me tremer dos pés a cabeça, como se eu nunca tivesse beijado antes. Mas então meus lábios encontraram os seus e nossas línguas se tocaram de maneira delicada. Foi como se realmente estivéssemos nos beijando pela primeira vez, um beijo tão puro, tão limpo, que nem parecia que tínhamos passado por tanta coisa nos últimos meses, mas eu não queria pensar nisso, e eu não estava pensando em absolutamente nada que não fosse o fato de, finalmente, ter tudo em ordem.
Nos beijamos durante incontáveis minutos, parávamos, nos abraçávamos, nos olhávamos e retomávamos o beijo, era impossível controlar o impulso de tê-la mais perto.

- Precisamos voltar. - Murmurou ela, com suas mãos apoiadas em meus ombros e seu nariz encostado ao meu - Ryan está nos esperando.
- Sim, vamos. - Afastei-me e inclinei-me para pegar a sacola de amoras no chão. Segurei sua mão com a minha livre e comecei a andar para fora do bosque, antes que atingíssemos outro nível do gramado, ouvi suspirar alto.
- Você não vai mesmo me pedir em namoro? Nunca? - Perguntou com a voz branda, porém desapontada. Eu não sei exatamente qual era minha expressão, eu me sentia paralisado. Eu nunca havia feito isso antes, nem com , nem com ninguém. Sempre deixava o pedido nas entrelinhas, subentendido. Mas para ela pareceu importante que aquelas palavras fossem ditas naquele momento, mesmo que fossem apenas palavras.
- Bom... - Aclarei a gargante, sentindo meu coração vibrar. Parei de andar, o que fez com que também detivesse seus passos e me olhasse – Eu não achei que isso fosse necessário diante de tudo o que sempre tivemos...
- Não! – Exclamou ela, espalmando meu peito com uma mão – Não quero que se sinta obrigado, , eu só queria entender.
- ... – Murmurei, colocando minha mão sobre a sua em meu peito e, lentamente, entrelacei nossos dedos, deixando a sacola de amoras no chão mais uma vez – Eu sinto que isso é importante pra você, e se torna importante pra mim também. Eu só queria que, antes de tomarmos essa decisão, conversássemos sobre qualquer coisa que ainda possa nos prejudicar, qualquer coisa que ainda tire seu sossego diante da nossa relação, se ficou algo para ser conversado, perdoado, essa é a hora – , no entanto, não disse nada, apenas encostou-se um pouco mais em mim, esperei mais alguns segundos, apenas vendo suas mechas de cabelo cobrirem parcialmente seu rosto quando o vento soprava com mais força, tão linda que eu senti vontade de bater palmas – Tudo bem, veja só... Quero que tenhamos um relacionamento maduro e estável daqui em diante... Chega de dramas adolescentes, chega de mentiras, chega de James, Angie, chega de todas essas coisas que temos feito todo o tempo desde que nos conhecemos. Não somos mais as pessoas que éramos, por diversos motivos... Mas ainda somos nós dois quando estamos juntos, e nada no mundo tem direito de nos roubar essa particularidade. – sorriu, apertando um pouco minha mão, como se dissesse que concordava – Me desculpe por tudo que eu já te fiz passar, eu sei que fui um grande idiota incontáveis vezes, e eu não me arrependo de nada... Nada... Se eu tivesse que te apostar novamente, eu apostaria, pois de nenhuma outra maneira você estaria aqui comigo hoje, e tudo o que passamos foi o que nos trouxe até aqui, nesse momento, então eu acho que devemos apenas encarar dessa maneira. Não esquecer, ou deixar pra trás, porque é impossível fingir que não aconteceu... Mas apenas olhar tudo por um outro aspecto e tirar algo bom, sabe? – Percebi o quanto ela estava arrepiada e comovida com meu discurso improvisado, talvez eu não fosse tão babaca assim – Acredite em mim, eu te amei cada único segundo desde... Bom, sei lá, desde a primeira vez que te vi na escola, tão frágil e pura... E linda. – Inclinei-me um pouco e rocei a ponta do meu nariz na bochecha de , fechamos os olhos lentamente – , eu te amo... Eu sei que dissemos isso tantas vezes que soa comum agora, mas não é verdade... É a coisa mais rara que poderíamos sentir um pelo outro, e eu estou muito, muito feliz de ter você aqui, do meu lado hoje, depois de termos cometido tantos erros... – Eu usava um tom de voz mais baixo, pois estava falando mais próximo de seu ouvido. Senti sua mão livre segurar minha nuca, enquanto a outra estava agarrada à minha – Eu não quero mais ficar sem você, mesmo que estejamos longe em algum momento, eu quero saber que tenho você, que somos um casal... Então, talvez... Você queira namorar comigo? – Propus, num tom mais risonho que também a fez rir baixinho e se afastar um pouco, para que pudéssemos nos olhar.
- Depende de quais são suas intenções comigo, nobre cavalheiro. – Gargalhamos, ergui-a ligeiramente alguns centímetros do chão e beijei diferentes pontos do seu rosto.
- As melhores, pode acreditar.
- Então eu vou te conceder esta honra, ok? – Continuei rindo, com meus lábios encostados aos seus, subiu sobre meus pés e lançou seus braços ao meu redor, atraindo-me pra mais perto... Minha namorada. Depois de tanto tempo eu estava beijando minha namorada outra vez.

Quando voltamos, vimos que Ryan já não estava no parquinho. Meu estômago contraiu e eu imaginei que também estivesse se sentindo assim pela maneira como apertou minha mão na sua. Pedi calma, ele provavelmente tinha retornado para a casa, e eu não estava errado. Ryan estava na piscina com meus tios, divertindo-se como se os conhecesse desde sempre.

- Você trouxe biquíni? - Perguntei à , que havia se sentado em uma das cadeiras ao lado de minha mãe enquanto eu fui deixar as amoras na cozinha.
- Sim, mas acho que não quero entrar na piscina. - Disse, com o corpo encolhido e um sorriso tímido.
- Você acabou de me pedir em namoro e está com vergonha de entrar na piscina?
- ! - Ela me repreendeu e eu gargalhei, inclinando-me para beijar sua bochecha - Eu não te pedi em namoro! Você me paga por isso.
- Vamos, hm? - Convidei novamente, ainda rindo.
- Vamos.

Reboquei comigo até o andar superior, onde ficava meu quarto. Os outros netos não tinham o meu privilégio, por eu ter morado algum tempo com meus avós, eles me concederam aquele cômodo, ainda estava tudo do mesmo jeito que deixei quando voltei pra casa.

- Esse quarto é sua cara. - Ela disse, observando os pôsteres que cobriam as paredes e o teto.
- Eu morei aqui por um tempo quando meu avô teve pneumonia e minha avó não queria ficar sozinha com ele. - Contei, sentado na beirada da cama - Eu acho que vandalizei um pouco, eles não esperavam por isso quando disseram que eu podia ter um quarto só meu aqui. - Gargalhamos, se acercou e sentou-se ao meu lado.
- Quantos anos você tinha? - Perguntou, encostando sua cabeça em meu ombro.
- 14, 15. - Respondi, meio confuso, e estiquei minha mão para segurar a sua.
- Hm... - sorriu e me olhou, erguendo sua mão livre para acariciar meu rosto, fechei meus olhos, desfrutando de seu carinho.
- Só de pensar no tempo que fiquei sem você, meu coração dói. - Murmurei, depois abri os olhos, procurando pelos seus, que também me encaravam fixamente.
- Eu te amo.

Começamos um beijo que era pra anteceder algo mais intenso, mais íntimo. Como um anúncio. Mas mamãe tocou na porta e perguntou se estávamos prontos, pegou sua mochila e correu para o banheiro e eu me deitei de bruços na cama, pedindo que mamãe entrasse, ela o fez e com um sorriso desconfiado sentou-se ao meu lado, fazendo carinho em minhas costas e depois em meu cabelo.

- Você não presta. - Ela me disse, de maneira falsamente carinhosa e maternal, eu gargalhei, com os olhos fechados.
- Estávamos conversando, mamãe, conversando. - Eu disse, ainda entre risos.
- Sei, essas conversas de reconciliação costumam ser muito demoradas mesmo - Ela disse, beijando meu ombro e se levantando - Mas vocês terão mais tempo para isso, agora desçam.
- Estou apenas esperando ela terminar de se arrumar.
- Ok, estou esperando-os lá embaixo.

saiu do banheiro pouco depois de minha mãe abandonar o quarto, eu podia ver apenas as alças de seu biquíni ao redor do pescoço, o vestido cobria o resto. Levantei devagar e respirei fundo, soltando uma risada depois. Ela se aproximou e então descemos, antes que não conseguíssemos fazê-lo.
Ficamos um bom tempo na piscina, brincando com Ryan, que parecia contente, mas aos poucos o cansaço o abateu. Mamãe veio convidá-lo para o café da tarde e ele rapidamente nos abandonou ali para ir comer. insistiu que Ryan tomasse banho antes e mamãe disse que cuidaria dele, que podíamos ficar tranquilos.

- Acho que vai chover. - comentou, encostada em meu peito, olhei o céu escuro acima de nós, através do teto de vidro.
- E acho que vai ser logo. - Murmurei, segurando seus dedos entrelaçados aos meus, com meu queixo apoiado em seu ombro.
- Não é melhor sairmos? - Ela perguntou, soltando-se e virando-se de frente pra mim, fiz uma careta preguiçosa e a puxei em minha direção, entre minhas pernas.
- Não acho, não. - Ela riu, finalizando com um suspiro assim que meus lábios percorreram por seu pescoço.
- ... Estamos na casa dos seus avós, no meio da piscina, com todo mundo andando por aí... - Seu tom de voz ficava mais baixo e borrado a cada beijo que eu distribuía por sua pele - É sério. - Sussurrou enquanto eu encostava seu corpo na borda da piscina.
- Estão todos lá dentro, comendo, depois vão dormir, ou desenterrar alguns jogos de tabuleiro... - Eu dizia, entre um beijo e outro, , no entanto, permaneceu imóvel.
- Pode parar! - A voz de foi engolida por um trovão, olhamos pra cima no mesmo instante em que as primeiras gotas começaram a desprender-se das nuvens cheias, que podíamos ver através do teto de vidro.
- Ninguém vai sair na chuva pra vir nos chamar, certo? Não temos mais 7 anos. - Eu murmurei, voltando a olhá-la, respirou fundo, repreendendo-me com os olhos grandes em minha direção - Viu só? Você não tem mais argumentos.
- Tenho sim! – Exclamou, espalhando suas mãos em meu peito e me empurrando alguns centímetros – Eu não vou transar com você aqui, .
- , aventura, ! – Exclamei, depois fiz um beicinho, talvez eu conseguisse convencê-la.
- Não, ! – Ela foi mais firme, suspirei e concordei com a cabeça – Eu posso estar bem menos tímida entre quatro paredes, mas eu ainda sou eu e acho que o que você está tentando fazer é falta de respeito.
- Tudo bem, desculpa. – Ela começou a rir e me abraçou, deitei o rosto em seu ombro e sorri, sentindo que eu poderia explodir de felicidade e satisfação a qualquer momento enquanto sentia a pontinha de seus dedos, delicadamente, ir e vir entre as mechas do meu cabelo.
- Está passando tanta coisa pela minha cabeça. – Confessou ela, com sua bochecha apoiada em minha testa.
- Tipo o quê? – Murmurei, com os olhos fechados.
- Tudo o que passamos, tanta coisa mudou, e ao mesmo tempo eu sinto, agora, como se hoje fosse um dia antes do baile de primavera. – Sorri, aferrando-a um pouco mais em mim – Não me restam mágoas, isso é tão bom, não é?
- É sim, meu bem. – Suspirei, sentindo seu cheiro e o calor que emanava de seu corpo – Mas... ... – Afastei-me um pouco e a encarei, enchendo meu peito de ar – Eu ainda tenho vontade de vomitar por me lembrar de algumas coisas que aconteceram no resort.
- ... – Ela passou o polegar em minha bochecha – Você mesmo disse, vamos encontrar algo bom nisso tudo...
- Não tem lado bom em ter forçado você... – Trinquei meus dentes, aquilo ainda fazia com que eu me odiasse, ela permaneceu com um sorriso dócil estampado no rosto enquanto me acariciava.
- O lado bom foi você não ter conseguido. O lado bom só eu consigo ver, porque era eu quem estava olhando seu rosto transtornado... Eu sei quem você é, e eu sei o que você sente por mim... Acredite, não era você aquela noite, pare de se culpar, tudo bem? Eu estou te perdoando... – colocou a mão sobre o próprio peito – Eu estou te perdoando por aquilo, eu estou te perdoando por tudo, até pela primeira vez que você fugiu de mim na porta da minha casa e eu fiquei o resto da noite me sentindo uma idiota incapaz de conseguir um beijo de fim de noite... – Arqueei as sobrancelhas por aquela confidência, riu, segurando minha nuca e se alongando para depositar um beijo demorado em meus lábios – Pare de pensar sobre isso, temos tantas coisas boas para pensar.
- É? – Me permiti sorrir, ela havia me perdoado e eu precisava fazer o mesmo.
- Sim, como na nossa primeira vez, por exemplo! – Ela exclamou e começou a rir – Que constrangedor, tudo o que eu conseguia pensar era em torturas medievais pra usar contra você pela dor que você estava me proporcionando.
- Nooooway! – Nós gargalhamos, abraçados um ao outro – Por que você não me bateu? Eu ia gostar. – Sorri malicioso, riu mais alto e deu um tapa de leve em minha cabeça.
- Foi bem engraçado quanto eu contei pra minha mãe. – Arregalei um pouco mais olhos.
- Você disse a ela sobre nós? – deu de ombros e sorriu.
- É minha mãe, ela sabe tudo sobre mim. – Concordei com a cabeça brevemente.
- Posso te fazer uma pergunta? – concordou com a cabeça e apoiou suas mãos na borda da piscina, erguendo-se e se sentando ali – Por que você não me disse nada? Não estou te julgando, eu não consigo imaginar quão conturbado foi o momento em que vocês souberam, mas eu queria entender.
- ... – suspirou, puxando a toalha para se enrolar, sentei ao seu lado, com os pés dentro d'água e uma toalha ao meu redor – Eu quis te dizer. Na realidade, você foi a primeira pessoa pra quem eu quis contar, eu te procurei alguns dias depois, mas vi você e Angie chegando na sua casa, então achei que era melhor... Não.
- ... Sinto muito por isso, não queria que você tivesse nos visto – sorriu, dobrando as pernas em posição de índio.
- Tudo bem, eu tinha problemas maiores pra me preocupar. – Suspirei, olhando-a – Eu ainda quis te contar inúmeras vezes, todas aqueles dias que você me levava pra fazer qualquer coisa, apenas pra me distrair, sem saber de nada.
- Eu sabia, na verdade.
- Você sabia? – Dei de ombros.
- Sim, achei que agora você já imaginasse que sim.
- Eu achei que você tivesse ficado sabendo recentemente. – Neguei com a cabeça, respirando fundo.
- Eu soube pouco depois de vocês. Eu não tive coragem de te dizer nada, achei que deveria partir de você, eu não queria invadir sua privacidade. – sorriu de leve, estendendo sua mão para alcançar a minha, entrelacei nossos dedos e, com a mão livre, acariciei o dorso da sua.
- Obrigada, . – Sorri em sua direção – Foi muito importante tudo o que você fez por mim.
- É equivalente a importância que você tem pra mim. – Ela riu baixinho, corada.
- Quem te contou? Foi a , não foi?
- Não... – Neguei brevemente e a observei – Foi seu pai.
- Meu pai? – Ela exclamou, surpresa – , como isso é possível? Meu pai não conseguia dizer a respeito disso com ninguém!
- Eu não sei, . Ele só... Apareceu uma noite no pub e disse tudo. – espremeu os lábios em uma linha e encostou seu rosto em meu ombro, soltei uma das minhas mãos da sua e a enlacei pelo ombro – Quer mudar de assunto?
- Não... – Sua voz estava suave, fraca – Têm sido dias horríveis, .
- Eu sei, amor. – Ela suspirou e eu quis retirar dela toda aquela dor – Eu sinto muito por isso.
- Eu sei que sente.

Ficamos em silêncio por um longo período de tempo, apenas olhando a chuva torrencial cair do lado de fora, com tanta força e pressão que cogitei a possibilidade dos vidros trincarem. Eu sentia respirar entre meus braços, tão pequena e impotente que eu quis fazer algo por ela. Tirá-la dali. Levá-la pra algum lugar onde só existisse coisas que a fizessem se sentir saudável e feliz. Mesmo que por um minuto.
Quando a chuva diminuiu, e eu conseguimos voltar para a casa. Parte da minha família estava jogada pelos sofás da sala, ou pelos colchões colocados no chão, e apenas alguns outros estavam jogando Detetive na mesa da sala de jantar. Mamãe estava deitada com Ryan em um dos colchões, na TV passava um filme de desenho animado, mas ninguém estava acordado para assistir. Sorri para , que encostou-se em mim, pedindo por abraço enquanto subíamos até meu antigo quarto. Demorei um tempo para convencê-la a tomarmos banho juntos, ela ficou repetindo que tínhamos de ser rápidos, quando, na verdade, saímos de lá somente quando nossos dedos estavam enrugados e nossa pele estava avermelhada pela temperatura da água.
Nos vestimos e, enquanto eu desci para buscar algo para comermos, acabou adormecendo. Deitei ao seu lado na pequena cama de solteiro e envolvi seu corpo em meus braços. A chuva batia na janela como a melodia de uma canção de ninar, e em pouco tempo eu também estava dormindo.

- Filho... - Abri meus olhos, a escuridão me fez contrair o cenho, busquei por minha mãe que tocava meu braço com uma de suas mãos - .
- Oi... - Sussurrei, olhei para , confortavelmente aconchegada em meus braços.
- Venha cá um pouquinho.

Levantei, confuso e com pena de deixar adormecida ali sozinha e, quando voltei, minha compaixão havia tomado uma proporção muito maior. Sentei na beirada da cama e soltei um suspiro longo, vendo-a erguer o tronco nos cotovelos, sorri sem vontade.

- Precisamos ir? – Ela perguntou com a voz rouca e preguiçosa.
- Precisamos, meu bem... Infelizmente, precisamos ir.

sorriu sem entender e levantou-se para arrumar suas coisas. Despedi-me de meus avós e dos parentes que ainda estavam ali, depois segui para o carro. Eu sentia minhas mãos suarem sobre o volante, minhas pernas estavam levemente fracas e meu estômago parecia trêmulo. Quando chegamos à Bolton, passei pela minha casa e deixei minha mãe e irmã, elas me olharam daquele jeito como quem quer saber se eu precisaria de ajuda, mas foi necessário um único gesto de minha parte para que elas entendessem que eu faria aquilo sozinho.
Dirigi lentamente, sob a chuva fina. percebeu, depois de algum tempo, que o caminho para sua casa havia sido deixado pra trás, e então rapidamente se voltou na minha direção, com os olhos questionadores.

- Sweetie... Seu pai me ligou... Sua mãe foi internada.
Capítulo 36.
"Looking in your eyes, hoping they won't cry, but even if you do, I'll be in bed, so close to you"
(I've Got You - McFLY)

não me esperou para entrar no hospital, mas Ryan andava ao meu lado, com uma das mãos segurando a minha e a outra agarrada na barra de minha camiseta, seu rosto quase escondido atrás de minha perna. Eu queria poder dizer algo reconfortante a ele, ou à minha pequena namorada, que agora estava conversando com uma das enfermeiras que encontramos pelo corredor. A mulher apontou, com seu dedo rechonchudo, para um elevador, e deu indicações à , que andou depressa para lá, quase não nos dando tempo de acompanhá-la. Seu rosto estava pálido e os olhos pendidos pra baixo, constantemente mareados. Eu sabia que ela estava se segurando o máximo que podia, por Ryan, por mim, por si mesma.
parou em frente à porta do quarto, indicado pelo mesmo médico que nos disse que só podíamos entrar um por vez. Ryan aceitou esperar, talvez ele nem quisesse saber o que estava acontecendo lá dentro. Então o carreguei comigo até a sala de espera, a duas portas dali. Nos sentamos no sofá e assistimos ao noticiário, que falava sobre algo completamente desinteressante aos nossos ouvidos, mas a voz daquela jornalista nunca mais saiu da minha cabeça.
Dias difíceis estavam por vir, eu podia sentir isso em meus ossos e sabia que Ryan também sentia, pois estava encolhido contra meu corpo, como se pedisse apoio, abrigo. Eu queria poder confortá-lo, mas não sabia o que estava se passando em sua mente infantil. Pude imaginar o medo que devia estar sentindo e isso me fez abraçá-lo ainda mais forte, tentando dizer, com isto, que ele não estava sozinho.
saiu do quarto, 20 minutos depois de ter entrado, e disse, com a voz completamente embargada, que era a vez de Ryan. Ele pareceu hesitante, mas ela conversou com ele, baixinho pra que nem mesmo eu pudesse ouvir, e depois de levá-lo até lá, voltou e sentou-se ao meu lado, olhando para a parede. Permaneci em silêncio, com meu corpo ligeiramente virado na direção do seu, caso ela quisesse recorrer aos meus braços. Sua primeira reação foi um soluço, breve e baixo, mas ela não desabou ainda assim. Enxugou as lágrimas antes que elas pudessem cair e adotou uma expressão lúcida.

- Eu quero sua ajuda. - Pediu, com a voz borrada.
- Pode pedir qualquer coisa. - Murmurei, esticando minha mão para tocar a sua.
- Eu queria... - Piscou, sem me olhar - Fazer aqueles passarinhos da sorte... Ouvi dizer que se fizermos um pedido e 1.000 passarinhos daquele, então o pedido se realiza. - Eu não sabia se aquilo tinha alguma coerência, mas sua fé era invejável aos meus olhos.
- Vamos fazer, então. - Concordei, sem pensar duas vezes - Eu vou buscar papel, você espera aqui?
- Espero. Traga... - Ela sorriu, com a ponta do nariz avermelhada - Traga papéis coloridos, também... - Concordei com a cabeça, engolindo em seco - Vamos enfeitar o quarto pra que ela se sinta bem, tá? - não parecia em seu melhor estado e eu senti meu coração doer, então abaixei-me na sua frente e apoiei minhas mãos em seus joelhos.
- Vai ficar tudo bem, ok? - Murmurei, ela assentiu, com os olhos cheios d'água e os lábios crispados - Eu já venho, qualquer coisa é só me ligar.
- Tudo bem. - Sussurrou, encolhida.

Depositei um beijo em sua testa e, com medo do que poderia acontecer, fui em busca das folhas. Não havia quase nada aberto na cidade, era domingo, oito horas da noite. Mas eu tinha um pacote de folhas brancas em casa, e enquanto procurava pelas outras me ligou, informada do que estava acontecendo, pediu que eu fosse buscá-la, ela sabia onde podíamos encontrar folhas coloridas. Passei por sua casa e então seguimos novamente para o hospital. Aquela estava suposta para ser uma noite longa.
Quando chegamos, estava sentada com Ryan em um dos sofás, estavam abraçados, olhando para a TV que passava algum tipo de reality show. Sentei ao seu lado, deixando os dez pacotes de folhas ao meu lado, se acercou e a envolveu num abraço caloroso, depois foi a vez de Ryan.

- Vocês não estão com fome? - Perguntei a eles, negou com a cabeça e Ryan piscou com seus grandes olhos claros em minha direção - Quer que eu busque alguma coisa pra você comer, cara?
- Deixe que eu vou. - se prontificou, ficando em pé, ainda com a mão de Ryan dentro da sua - Vem comigo, Ryan, vamos comprar um chocolate quente, o que acha?
- Vamos. - Ele concordou, depois eles saíram e eu pude voltar minha atenção toda para , encolhida no sofá, com os olhos cansados.
- Você precisa comer alguma coisa. - Murmurei, segurando sua mão.
- Depois eu como. - Disse, com calma, e então me lançou um sorriso fraco - Vamos começar?
- Quando quiser.

pegou um dos pacotes de folhas e retirou uma amarela, e então fez o primeiro passarinho. Seus olhos brilhavam, com uma espessa camada de lágrimas os cobrindo. Imaginei que ela estivesse pedindo que a mãe se curasse, foi o meu pedido quando peguei a primeira folha e comecei a fazer as dobraduras.
Quando e Ryan retornaram, sentaram-se junto de nós pra que eu pudesse ensiná-los, e logo estávamos os quatro ocupados com os origamis. A cada enfermeira que passava, desviávamos nossa atenção, esperando por notícia, ou não.

- , quer ir pra casa? - Perguntei, vendo Ryan adormecido no sofá ao lado, com a cabeça deitada no colo de .
- Não, vou ficar aqui. - Respondeu, convicta - Mas se você quiser ir, tudo bem.
- Não, eu vou ficar... Só achei que você talvez precisasse descansar. - Ela negou com a cabeça, com os olhos fixos em seu tsuru - Então vou buscar alguma coisa pra comermos, 'tá?
- Não estou com fome. - Repetiu a mesma frase que vinha dizendo todas as vezes que eu ameaçava ir até a lanchonete.
- Eu sei, mas você precisa comer, mesmo que seja só um pouco, está bem? - Ela respirou fundo, concordando brevemente com a cabeça - Eu já venho.

Decidi ir até o banheiro antes de descobrir onde ficava a lanchonete. Quando entrei, vi sr. encostado à pia, com a cabeça deitada pra trás e os olhos fechados. Acerquei-me, hesitante, e pousei uma mão em seu ombro. Ele rapidamente voltou-se em minha direção, assustado, mas ao me reconhecer, maneou a cabeça num cumprimento leve, educado.

- Como o senhor está? - Perguntei, preocupado com seu estado.
- Com medo. - Disse, e eu sabia que não havia resposta mais sincera que aquela.
- Temos que ter fé, sr. . - Murmurei, apertando seu ombro.
- Eu tenho tido por tanto tempo, mas agora não está tão fácil. - Respondeu, umedecendo os lábios avermelhados, só então notei que ele ia começar a chorar e eu não tinha ideia do que fazer - Obrigado por estar ao lado de , no momento eu não consigo nem mesmo olhar pra ela, ela não é minha filha de sangue, , mas é a melhor menina que conheci, assim como sua mãe... Elas se parecem tanto... Não sei o que dizer, e o que fazer... Não suporto vê-los sofrer. - Sua voz foi perdendo o tom, até tornar-se um gemido choroso, e então o abracei de lado, dando alguns tapas em suas costas.
- O senhor não precisa me agradecer, eu não vou sair do lado dela, nem vou deixar Ryan desamparado, pode contar comigo.

Quando tive certeza de que ele estava mais calmo, aliviei a bexiga e depois abandonei o banheiro, deixando-o se recompor enquanto eu continuava meu caminho até a recepção. Uma enfermeira me indicou a lanchonete e eu voltei de lá com um sanduíche natural para cada um de nós e copos de suco de laranja. deu algumas mordidas no lanche e bebeu todo seu suco aos poucos. Ryan continuou dormindo, e preferiu guardar sua comida para mais tarde. Fiz minha pequena refeição e me encostei à parede, tomando coragem de trazer para um abraço. Até então eu não quis demonstrar a ela que estava compadecido, não queria que ela pensasse que estava parecendo frágil, ou ela se fecharia completamente. Mas ao vê-la piscar sonolenta, com a postura atrapalhada e a expressão exaurida, desisti. Ela rapidamente sentou-se entre minhas pernas e encostou seu corpo em meu peito, arfando como se estivesse o tempo todo controlando um pranto.
Afaguei seus cabelos até ela adormecer, mas o meu sono não veio. e eu continuamos despertos, fazendo os origamis que, para , tinham tamanha importância. Sr. passou por ali uma ou duas vezes no início da madrugada, mas depois não voltou mais. A TV continuou ligada, mas conseguiu o controle pra que pudéssemos trocar de canal e deixar o volume baixo o suficiente para não acordar Ryan ou .
Por volta das sete da manhã, convenci a ir pra casa tomar um banho. Ryan reclamava de fome e dor no pescoço, e precisava descansar em sua cama. foi quem ficou com os dois enquanto eu mesmo ia pra casa tomar banho e trocar de roupa. Encontrei mamãe e acordadas, tomando café da manhã. Eu não queria dar detalhes da situação, falar aquilo em voz alta. Eu não queria ninguém pensando negativo sobre a situação e, acima de tudo, queria ter uma notícia boa quando voltássemos ao hospital.
Quando cheguei na casa de , estava deitada com Ryan na sala de TV, assistindo a uma sessão de desenhos. estava tomando banho, sentei na beirada da sua cama para esperá-la e, enquanto sentia meu próprio corpo doer de cansaço, a ouvia sussurrar orações baixinhas dentro do banheiro.

- ! – Ela exclamou ao me ver, segurando a toalha ao redor do corpo com mais força – Eu não sabia que já estava aqui.
- Eu vim o mais rápido que pude, passei na padaria buscar café da manhã pra nós, assim, quando você quiser, podemos retornar ao hospital. – fungou, com os olhos encharcados – Amor...
- Obrigada. – Sussurrou, deixando algumas lágrimas sorrateiras escorregarem para fora de seus olhos.
- Não há nada o que agradecer... – Falei em um tom de voz manso, pois parecia que qualquer tom mais alto iria fazê-la desmoronar, então a abracei confortavelmente, sentindo seu corpo gélido entre meus braços – Coloca uma roupa, você vai acabar ficando doente – Mas ela apenas deitou a cabeça em meu peito, segurando minha camiseta com força entre seus dedos, então permaneci apenas segurando-a perto de mim.
- O que eu vou fazer, ? – Sua voz embargada me fez fechar os olhos.
- Não pense nisso agora, ... Pense que vai ficar tudo bem, e vai ficar.
- Mas eu não consigo pensar em outra coisa.
- Pense no sorriso dela, só. – soluçou e chorou com mais força, eu sentia como se meu coração sangrasse, eu simplesmente não podia fazer nada pra que aquela dor e desespero amenizassem, naquele instante eu era a pessoa mais impotente do mundo todo.
- Desculpa, eu só precisava desabafar. – Murmurou ela, entre alguns soluços contidos e a voz entrecortada.
- Amor, você não precisa se desculpar... – Segurei o rosto de entre minhas mãos, encostando minha testa na sua delicadamente – Você não tem obrigação nenhuma de segurar o choro em um momento como este, pelo contrário, você tem todo o direito do mundo de chorar, desabafar, querer colo... E você pode vir procurar conforto em mim sempre que quiser e precisar, ok? – Ela concordou brevemente com a cabeça, fungando – Agora coloca uma roupa, , você está gelada.
- Tá. – Ela ainda estremeceu e soluçou antes de se soltar devagar e ir se vestir.

Assim que ficou pronta descemos até a sala, Ryan havia adormecido novamente enquanto acariciava seus cabelos. Sem fazer barulho, afundou no sofá com um dos copos de café expresso que eu havia comprado. Convenci-a a comer o pão na chapa e um muffin. Fiz o mesmo antes de voltarmos, apenas nós dois, ao hospital. Sr. não quis ir pra casa, mas aceitou que comprasse café da manhã pra ele, que se alimentou sentado conosco na sala de espera.
Depois do almoço chegou com Ryan, e pouco tempo depois, surpreendentemente, algumas pessoas da escola começaram a chegar. As amigas de , e . Em seguida Charlie chegou com Anthony, e , apareceu mais tarde, pouco antes de James e Matt. Eu gostaria de pedir que os dois últimos simplesmente se retirassem, mas senti que seria egoísmo meu me importar com eles em um momento delicado como aquele. Aos poucos todos foram se sentando pela sala e juntando um tanto de folhas para ajudar nos tsurus.
Quando a noite começou a chegar, aos poucos, o pessoal teve de ir pra casa e, novamente, ficamos eu, , Ryan e . voltou um pouco mais tarde. Ele e pareciam estar começando a se resolver, afinal.
Quando meu sono finalmente pareceu o bastante para que eu conseguisse adormecer, encostei minha cabeça para trás e fechei os olhos. Não sei por quanto tempo cochilei, mas senti o corpo de guinar entre meus braços, abri os olhos e a vi se levantar e se sentar novamente na beirada de uma das cadeiras, com o rosto e o pescoço empapado de suor. Seus cabelos embaraçados também pareciam úmidos, e eu me perguntei que tipo de pesadelo ela estava tendo. e Ryan estavam dormindo abraçados no outro sofá, ela com a cabeça deitada no colo de . Voltei meus olhos para , que respirou fundo, esfregando o rosto.

- Está se sentindo bem? - Sussurrei, sentando ao seu lado e amparando suas costas com uma mão.
- Tive um sonho ruim. - Murmurou em resposta, sem me olhar - Vamos contar quantos passarinhos têm?
- Vamos.

Olhei no meu relógio, marcava três horas da manhã, então peguei o balde de lixo que estava no canto da sala e retirei a sacola de dentro dele, amarrando-a e deixando-a no canto, perto do bebedouro. Começamos a contar e a jogar os passarinhos dentro do balde, um a um. 983. Eu nem acreditava que tínhamos mesmo chegado a um número tão alto de origamis, e no fim das contas, eles ficavam lindos juntos, coloridos. foi ao banheiro, e quando voltou, sentou-se ao chão e tornou a fazê-los, faltavam poucos para atingir nossa meta, então me sentei ao seu lado e comecei a ajudá-la.

- ... - me chamou, desviei minha atenção do papel em minha mão, era o último - Olha isso... - Ela esticou seus braços, completamente arrepiados - Estou com má impressão.
- Hey, amor... - Murmurei, abraçando-a perto de mim e deixando o último passarinho dentro do balde - Você só está preocupada e fragilizada, não é nada.
- ... - Um médico a chamou, erguemos nossa cabeça e meu coração disparou ao ver sua expressão séria - Você vai ter que ser forte. - Apertei seu corpo entre meus braços, sentindo minha própria respiração falhar - Sua mãe... Os rins dela pararam, o coração dela ainda está batendo, mas o que a mantém viva são os aparelhos agora... - Ele dizia aquilo com todo cuidado do mundo, mas nem todo o cuidado do mundo parecia suficiente para dar uma notícia como aquelas. não dizia nada, não piscava, eu nem sabia se ela ainda estava respirando - Você quer se despedir dela, não quer? - Ela permaneceu em silêncio, com o corpo rígido entre meus braços - Vou te dar um minuto, tudo bem?

Olhei para o lado e vi sentada na beirada da cadeira, com os olhos mareados, tão sem reação quanto eu. Voltei meus olhos para , que puxou um tanto grande de ar e me olhou, com os olhos saltados e fixos nos meus, aflitos. Ela engoliu em seco algumas vezes, sua pele um tom abaixo da palidez.

- Amor... Se você não quiser ir até lá, eu tenho certeza que ela irá entender.
- Não... - Ela sussurrou, com a voz trêmula - Preciso ir, ela precisa saber que eu vou ficar bem, ela... Ela precisa saber. - Levantei, ajudando-a a fazer o mesmo, dei uma última olhada para que segurava Ryan nos braços, este já estava acordado, mas não entendia o que estava se passando - Você... Pode me acompanhar até lá?
- Claro.

Respirei fundo, sentindo minha perna fraquejar a cada passo em direção à porta do quarto, que estava levemente aberta. Eu pude ouvir a voz trêmula de Sr. de onde estava, se aferrou a mim e eu quis tirar dela toda a dor que ela possivelmente estava sentindo. Paramos na porta e eu pude ver, de relance, sra. sobre a cama, no canto do quarto. Sua pele amarelada e as olheiras escuras, os aparelhos enfiados por toda parte mantinham sua respiração regular, como era possível que ela estivesse tão viva e tão morta ao mesmo tempo?

- Quer que eu entre com você? - Murmurei, sentindo-a tremer violentamente contra meu corpo.
- Não... - Sussurrou - Me espera bem aqui... Bem aqui, por favor.
- Vou ficar aqui, te esperando.

Soltei , temendo que ela pudesse cair no mesmo lugar. Ela andou devagar, descoordenada, para dentro do quarto. Eu parei na porta, mesmo que sem coragem de assistir aquela cena, eu não queria deixá-la sozinha.

- Mãezinha... - Fechei meus olhos com força e a última imagem registrada por mim foi a de debruçada sobre o corpo frágil de sua mãe - Ah, minha mãezinha... Que injusto... - Sua voz tremia e eu podia sentir minha garganta trancar a cada soluço que ela deixava escapar - Se eu te desapontei alguma vez... Me desculpe, me desculpe por tudo, e vá em paz, mamãe... Pode... Ficar tranqüila... Eu não vou deixar que nada aconteça ao papai, e ao Ryan... E eu vou ser tudo o que você me ensinou a ser, vou seguir teus passos, sempre... - Sua voz sumiu, deixando lugar para um choro desesperado, e ao abrir meus olhos, vi a enfermeira tentar tirar o corpo de de cima do corpo quase sem vida de sua mãe, seu pranto era tão doloroso que eu me senti um miserável por não poder fazer nada.
Sem conseguir suportar minhas próprias lágrimas, entrei no quarto, andando decidido até , que estava encostada à parede, assistindo seu pai chorar na beirada da cama. Bastou seus olhos me encontrarem pra que ela desabasse contra mim, meus braços seguraram seu corpo com força, eu a sentia tremer e soluçar, chorando copiosamente. Fechei meus olhos, úmidos, tentando dividir minha força com ela. Não sei por quanto tempo permanecemos ali, abraçados, mas suspeitei que fosse muito quando a enfermeira se acercou e pediu que eu levasse para fora do quarto, precisávamos dar a notícia a Ryan.

- , olha pra mim... - Pedi, assim que saímos no corredor, encostei-a delicadamente na parede e segurei suas mãos fortemente dentro das minhas - Precisamos conversar com Ryan agora, você acha que consegue?
- Não... Eu não quero... Não quero dizer isso a ele... - Disse rapidamente, sem deixar de chorar.
- Tudo bem, então... - Olhei para os lados, mas não havia ninguém ali, se não eu, voltei a olhá-la e pressionei meus lábios em sua testa, abraçando-a uma vez mais.
- Isso é injusto, . - Soluçou, com a boca pressionada em meu peito.
- Eu sei, meu amor. - Murmurei, depois aclarei a garganta ao notar o tom borrado de minha voz - Você precisa ser forte agora, hm?
- Eu vou ser. - Concordei com a cabeça, apertando-a entre meus braços.
- Espera aqui, eu vou conversar com Ryan. - Ela me olhou, parecendo agradecida, enxuguei seu rosto com meus polegares e pressionei meus lábios entre seus cabelos, depositando um beijo em sua cabeça.

Andei devagar e sem a menor coragem para dentro da sala de espera. estava chorando discretamente com seu rosto encostado no braço de , enquanto Ryan olhava para a tv, despreocupado. Traguei em seco e, como há muito tempo não fazia, pedi ajuda a Deus, orando em silêncio para que eu soubesse o que dizer, para que eu fosse forte o bastante para contar a um garoto de 8 anos que sua mãe está esperando seu adeus para dormir pra sempre.

- ... - Chamei, ela me olhou aflita - Vai fazer companhia à por favor? Vou conversar com Ryan.
- Sim, sim, vou sim. - Ela se levantou e saiu apressada, deu um tapa leve em meu ombro e depois a seguiu, então me sentei ao lado de Ryan, sentindo minhas mãos tremerem instantaneamente.
- Hey, cara... - Eu não precisava chamá-lo, ele já estava me olhando, como se esperasse uma notícia - Você sabe que sua mãe estava muito doente, não é? - Ryan assentiu, piscando devagar, apoiei minha mão no encosto do sofá e tentei encontrar as palavras certas, se é que alguma vez elas vão existir - Sabe, Ryan, sua mãe... Ela é uma pessoa muito especial, e... Deus estava precisando de um anjo especial como ela lá em cima... Ele... - Engoli em seco, sentindo meus olhos queimarem diante das lágrimas que se acumularam quando notei que ele já havia entendido e também ia começar a chorar - E Ele escolheu sua mãe pra... Ir pro céu, e cuidar de vocês de lá...
- E quem vai cuidar da gente aqui? - Ele sussurrou, deixando algumas lágrimas gordas caírem de seus olhos preocupados.
- Um monte de gente. - Murmurei, quase cedendo ao choro preso em minha garganta - Seu pai, sua irmã, sua família, eu, minha família... - Traguei a saliva e enxuguei seu pequeno rosto - Não se preocupe, você nunca vai ficar sozinho, 'tá bem, Ryan? Vai ficar tudo bem.
- Minha mãe morreu, ? - Perguntou, com a ingenuidade brilhando nos olhos.
- Ela ainda está viva, mas não por muito tempo, cara... - Expliquei, sem jeito, e segurei sua mão - Você quer vê-la?
- Q-quero. - Soluçou, concordei com a cabeça e me levantei, segurando sua mão.
- Vem, eu vou te levar.

já não estava no corredor, suspeitei que a tivesse levado para algum lugar. Ryan estava gelado, eu podia sentir sua pele transbordar um suor frio em contato com a minha. Aos poucos entramos no quarto, sr. estava sentado em uma poltrona no canto, com as mãos unidas embaixo do queixo. Ao ver o filho, ele rapidamente fechou os olhos e deitou a cabeça pra trás. Trouxe Ryan pra perto da cama e puxei a pequena escada de três degraus para a beirada dela, ajudando-o a subir e sentar-se perto de sua mãe. Seus olhos estavam semiabertos, mas eu sabia que ela estava inconsciente. Sua respiração estava pesada, sonora, havia um tubo de oxigênio ligado diretamente à ela.
Ryan esticou sua mãozinha e passou pela testa dela, depois por sua bochecha, fazendo um carinho cuidadoso. Crispei meus lábios, baixando minha cabeça, sentindo meu coração ser envolvido numa bolha de angústia que o sufocava cada vez mais. A outra mão de Ryan estava presa na minha, com tanta força que eu podia calcular parte da dor que ele estava sentindo.

- Papai do céu vai cuidar bem de você, mamãe, não se preocupa. - Ele falou, baixinho, segurando a mão dela - E o disse que um monte de gente vai cuidar de mim, da táta e do papai, mas eu vou sentir sua falta, mamãe. - Enxuguei meus olhos e olhei para o lado oposto, tentando entender como era possível que Deus tirasse a mãe e a esposa de pessoas tão maravilhosas? Qual era seu propósito, afinal? Eu esperava que fosse grande, pois naquele momento, eu não conseguia pensar em nada bom o suficiente.

Quando Ryan decidiu descer da cama e acolher-se no colo do pai, eu tomei a liberdade de sair do quarto e chamar o médico. Procurei por e a encontrei na escada, com e . Acerquei-me devagar. já não estava chorando, parecia estar imersa em um transe. Sentei ao seu lado e busquei sua mão, entrelaçando seus dedos gélidos aos meus.

- Como está o Ryan? - Ela quis saber, respirei fundo e beijei as costas de sua mão delicadamente.
- Está bem, . - Respondi sinceramente, segurando sua mão na minha.
- Você fica aqui com ela, ? - perguntou, levantando-se - Eu vou lá fazer companhia ao tio e ao Ryan.
- Pode ir, eu fico. - Concordei, sentindo encostar sua cabeça em meu ombro enquanto olhava e se afastarem de mãos dadas.
- Você sabe o que acontece agora? - Murmurou.
- Como assim, amor?
- Funeral e todas essas coisas... - Ela me pareceu cansada, suspirei e beijei sua testa demoradamente.
- Eu não sei direito, ... - Acariciei seu braço, sentindo sua pele gelada - Você não tem que se preocupar com isso, 'tá bem? - Falei baixo, com calma - Deixa essa parte comigo e com seu pai.
- Tudo bem.

Consegui convencer a entrar quando o sino da igreja mais próxima deu 5 badaladas, indicando as cinco horas da manhã. Busquei uma jaqueta que eu havia trazido especialmente para o caso de esfriar e obriguei a vesti-la, depois ficou com ela e Ryan enquanto eu e Sr. decidíamos os preparativos para o funeral. Ele parecia mais calmo, o suficiente para lembrar-se de que a esposa queria que seu caixão fosse de madeira clara e que fosse enterrada ao invés de cremada. A igreja escolhida para o funeral havia sido a capela onde eles se casaram quando sra. se mudou para a Inglaterra, junto da filha de 11 anos, . Foi também onde batizaram Ryan.
não parecia disposta a participar da escolha do caixão, levei ela e pra sua casa e depois de deixar em sua casa, segui até a funerária, onde me encontrei com meu sogro e Ryan, ele fez questão de estar presente. Com o caixão selecionado, assim como a lápide e o epitáfio, que havia sido escolhido pelos dois em conjunto com , nós seguimos para a casa deles. Enquanto e Sr. faziam as ligações para dar a má notícia à família e convidar os que moravam perto para o funeral, fiz companhia à e Ryan, que estavam deitados em sua cama, apenas compartilhando daquele momento difícil.

- O que vai ser de nós agora, ? - sussurrou quando Ryan finalmente pegou no sono, sentei na beirada da cama e ela rapidamente aninhou sua cabeça em meu colo.
- Não sei dizer, . - Respirei fundo, afagando seus cabelos emaranhados - Mas vamos descobrir isso juntos, 'tá bem? - Ela assentiu rapidamente, fechando os olhos.
- Eu 'tô com tanto medo. - Sussurrou, quase inaudivelmente.
- Não precisa ter, vai ficar tudo bem, , tudo bem.

Quando adormeceu, depois de aproximadamente uma hora chorando em silêncio, saí do quarto e desci até a cozinha, onde havia passado um café, havia um casal que eu nunca tinha visto antes e que ela me apresentou como sendo seus pais, cumprimentei-os brevemente e me sentei na cadeira vaga. Ficamos ali por um tempo, não havia muito clima para conversas aleatórias. Vez ou outra Sr. se lamentava e derramava algumas lágrimas, fazendo meu coração doer ao pensar em como eu estaria me sentindo se eu perdesse alguém a quem dediquei minha vida toda.
O funeral ficou marcado para as 10 da manhã, quando o relógio marcava quinze pras 9 me despedi e fui pra casa, aflito por deixar “sozinha”. Eu tinha noção de que seus parentes estavam lá, mas eu não estava.
Demorei um pouco mais do que esperava no banho, talvez tentando me livrar daquela tensão que eu sabia que não ia passar dessa maneira, e quando retornei ao quarto, mamãe estava sentada na beirada da cama, esperando por notícias, mas ao ver minha expressão, rapidamente seus olhos penderam pra baixo e seus dedos trêmulos abafaram um soluço assustado.

- Como ela está, filho? E Ryan? - Mamãe quis saber, sentei ao seu lado e encarei a parede à minha frente.
- Não sei dizer, mãe. - Murmurei com sinceridade - Eu não faço ideia de como eles estão, eles aparentam estar devastados, mas acho que por dentro é muito pior que isso, sabe? - Mamãe concordou com a cabeça, segurando minha mão e apertando-a dentre as suas.
- A que horas é o funeral?
- Às dez. - Informei, olhando-a.
- Vamos nos arrumar, então, não é? - Concordei com a cabeça e respirei fundo.
- Vai ser um longo dia.

Assim que mamãe saiu do quarto, retirei a toalha da minha cintura e vesti uma boxer qualquer, a primeira da gaveta. Retirei então um terno que ficava pendurado em meu guarda-roupa e que eu só tinha usado uma única vez para a formatura de uma prima. Vesti primeiro a calça e então retirei de outro cabide uma camisa social branca, vesti e coloquei uma gravata cinza antes de vestir o blazer. Calcei minhas meias pretas e os sapatos que eu também só tinha usado uma vez, e preferia não ter que usar nada disso de novo. Especialmente se fosse para uma circunstância como aquela.
Enquanto esperava mamãe e ficarem prontas, liguei para os caras para dar a notícia, mas eles já haviam ficado sabendo através de . Quando chegamos à igreja, poucos bancos estavam ocupados pela família de sr. , já que a família de estava no Brasil e não chegaria a tempo. Sr. estava sentado no primeiro banco, com Ryan e sentados ao seu lado. Caminhamos devagar até lá, mamãe e os cumprimentaram e depois foram até o caixão velar o corpo. Sentei ao lado de , que, sem me olhar, encostou-se em mim. Envolvi seu corpo com meu braço, acalentando-a.
As pessoas vinham, cumprimentavam, e procuravam um lugar para se sentar. Eu não sabia quanto tempo aquilo ainda ia durar, mas eu comecei a achar que era um sofrimento desrespeitoso, um desgaste desnecessário. Por volta das 11h30min da manhã, quando a igreja já estava cheia, um padre se aproximou e disse algumas palavras, deixando mais alguns minutos para as pessoas se despedirem, já que poucas que estavam ali iriam até o cemitério local, onde o corpo seria enterrado.
A cerimônia no cemitério foi bem mais breve e mais dolorosa. Quando o caixão foi fechado, não havia uma única pessoa que não estivesse ao menos emocionado ou envolvido no choro da família de . Quando o caixão estava no fundo da cova, pediu um momento, antes que a terra começasse a ser devolvida em seu lugar, e então voltou com o cesto de tsurus que havíamos passado a noite fazendo. Cobri minha boca com o punho e, dessa vez, não consegui controlar as lágrimas que banharam meu rosto. Mamãe segurou minha mão livre e eu me senti seguro, feliz por tê-la ao meu lado. virou o cesto, deixando que os passarinhos de origami caíssem sobre o caixão, como uma chuva colorida. Quando a terra começou a ser jogada, me olhou, agachada ao lado da cova, com seu vestido preto ao seu redor fazendo com que ela parecesse uma criancinha, seu rosto estampava uma dor desmedida e eu não soube o que fazer até seus lábios sibilarem "me tira daqui".
Sem mais delongas, soltei-me de minha mãe e andei até , que veio depressa até mim, enrolando-se nos meus braços e me puxando para longe da cerimônia, como se aquilo aliviasse sua dor.

- Eu vou sentir falta dela. - me disse, após algum tempo andando por entre as lápides, com seus dedos entrelaçados nos meus.
- Vai, meu amor... - Concordei, acariciando as costas de sua mão com o polegar e olhando para ela vez ou outra - Mas você vai aprender a lidar com isso com o tempo.
- Eu sei... - Suspirou alto, parecendo mais calma - Eu sei que foi melhor pra ela.
- Sim, ela não sofreu tanto tempo, foi melhor assim.
- Eu sei disso... Meu desejo se realizou, de alguma maneira. - Ela me disse, parando de andar e virando-se pra mim, contraí o cenho.
- Qual foi seu pedido?
- Que as coisas se encaminhassem como fosse melhor pra ela... Independente de nós.

Se minha admiração por alguma vez oscilou, naquele momento ela se solidificou, pra sempre. Alguns minutos depois, quando todos já tinham ido embora, e eu voltamos à lápide para que ela pudesse prestar sua última homenagem. Permaneci ligeiramente afastando, deixando-a ter seu espaço, enquanto fiz uma oração breve. se acercou e encostou-se em mim, envolvendo meus braços ao seu redor. Apoiei delicadamente meu queixo em sua cabeça e reli o epitáfio, com um sorriso leve no rosto.

"Que Deus tome conta de ti, para que possas tomar conta de nós"

Capítulo 37.
Parte I
"Close your eyes, listen to my voice, it's my disguise, I'm by your side"
(Hey There, Delilah - Plain White T's)

Dias de fraqueza chegaram para , mas não houve um único momento que eu não estivesse por perto para ajudá-la a se manter em pé. Não houve uma única lágrima que eu não tenha secado com minhas próprias mãos. Não foram poucos os prantos, as crises de negação e de medo. Não foram poucas as vezes que abandonei tudo o que estava fazendo para ir até sua casa e segurar a barra, ou as vezes que Sr. desaparecia e eu tinha de dormir lá. Ryan havia se apegado a mim de uma maneira que me deixava assustado, eu estava com medo de decepcioná-lo, de não ser a pessoa certa em quem ele pudesse se espelhar. Mas eu não seria capaz de deixá-los, eles eram como minha família agora.
O dia da audição tinha chegado, eu não sabia se tínhamos ensaiado o suficiente, não era uma apresentação qualquer, não valia alguns trocados, valia nosso futuro, e isso nos deixou ainda mais nervosos, ansiosos.
Fomos para Londres na sexta-feira à noite, a audição era no sábado pela manhã, por esse motivo não saímos do hotel onde ficamos hospedados. Ficamos até meia noite ensaiando, sem parar, pelo menos eu e , e depois decidimos que era melhor descansar. Liguei para , estava dormindo em sua casa e havia me prometido que não a deixaria sozinha nem por um segundo. Ficamos conversando até ela adormecer e então pude fazer o mesmo.
Assim que chegamos à produtora, uma moça de perfume doce e lábios cheios de gloss nos levou para uma sala pequena, com alguns sofás espalhados e uma mesa de vidro em frente à uma janela grande. Esperamos durante alguns minutos até um homem adentrar e nos cumprimentar.

- Bom, garotos, eu sou Matthew Fletcher, com quem vocês tem conversado por telefone... - Ele disse, sentado em sua poltrona, com os antebraços apoiados sobre a mesa de vidro - Eu e mais dois colegas de trabalho temos uma agência chamada Prestige Management, e nós trabalhamos com a Island Records já tem bastante tempo, eu apresentei o trabalho de vocês a eles, e eles, confiando completamente em mim, dispensaram muitas burocracias e marcaram essa audição, espero que vocês não me decepcionem... E não me coloquem na rua.

Ele nos fez algumas perguntas, foi quem começou a respondê-las, mas ele falava demais, então tomou a frente.
Fletch, como pediu que o chamássemos, nos disse que iria falar com o resto da equipe, e em breve viria nos buscar. Enquanto o esperávamos, eu sentia meu coração bater num ritmo acelerado e me sentia enjoado, como se fosse vomitar a qualquer momento. Foi o que fez, puxou um balde de lixo que estava embaixo da mesa de Fletch e despejou tudo o que havíamos comido no café-da-manhã. Eu não sabia se ria ou me desesperava, com medo de alguém ver e achar que ele estava fazendo aquilo por diversão, vandalismo, qualquer coisa assim.
Quando Fletch entrou, congelei no lugar, já estava sentado, recomposto, mas o odor do vômito pairava no ar. Ele não pareceu perceber, apenas nos convidou a acompanhá-lo. Logo estávamos entrando por uma sala pequena, havia várias pessoas espalhadas pelos cantos e uma mesa dessas cheias de botões que eu adoraria saber pra que serviam.
Cumprimentamos a todos cordialmente antes de sermos levados ao estúdio, que ficava do outro lado de uma parede de vidro. Era espelhado, então não podíamos vê-los nos assistir, mas eu sabia que estavam lá, e esse fato me fez começar a suar frio.
Apresentei a banda quando um deles nos pediu, através dos auto falantes, que começássemos. Introduzimos I've Got You. Conforme tocávamos e cantávamos, eu queria saber o que estavam dizendo, se era positivo, se estavam gostando, o que havia de errado... Eu não sabia se queria continuar tocando e adiar qualquer notícia ou terminar de uma vez e ouvir o que eles tinham a nos dizer.
Tocamos 5 Colours In Her Hair e, ao pedirem mais uma, mesmo sem ensaiá-la, apresentamos All About You.
Retornamos à sala onde os produtores nos esperavam. Eu mal podia parar de estralar as juntas dos meus dedos. me olhava de esguelha, estava tão nervoso quanto eu. fingia não se importar com nada, como se soubesse quão bom era e, se não nos escolhessem, estariam perdendo algo grande. estava verde, apenas.

- Bom, garotos... - Um deles começou, mexendo em alguns papéis que tinha sobre a mesa - Estivemos ouvindo a tape que vocês nos enviaram, e Fletch nos trouxe as duas novas composições para que pudéssemos ler antes de vocês entrarem, estou feliz de tê-los assistido, vocês sabem o que estão fazendo, e fazem, fazem muito bem, parabéns. - Meu estômago parecia contorcer-se a cada palavra dita por aquele velho careca, eu mal podia conter meu sorriso entusiasmado.
- Queiram acompanhar Fletch até a sala dele enquanto discutimos alguns pontos.

Fletch se levantou e nós imediatamente nos despedimos com acenos esperançosos, seguindo-o para fora da sala até voltarmos para onde estávamos antes.

- Droga, que fedor é esse. - Fletch reclamou, arregalou os olhos, cabisbaixo, eu olhei de esguelha para , que segurava o riso - Foi algum de vocês?
- Não. - Dissemos em uníssono e rimos junto com ele.
- Na verdade... Eu vomitei no seu lixo. - admitiu e nós ficamos apreensivos até Fletch dar uma gargalhada divertida.
- Tudo bem, garoto, a ansiedade faz coisas. - Bateu de leve no ombro de , que respirou aliviado enquanto nos acomodávamos pela sala e Fletch pedia, através do telefone, que alguém viesse retirar o lixo.
- O que você acha? - perguntou a ele - Acha que eles gostaram?
- Aconteceu uma coisa inédita... - Ele disse e eu senti meus músculos tensionarem imediatamente - Grainge não saiu da sala e não soltou um de seus comentários mal humorados e pessimistas ao fim da apresentação.
- E o que isso quer dizer? - Perguntei, tentando controlar minha respiração.
- Que vocês agradaram muito.

Mais meia hora de tortura naquela sala, já não tinha mais nada que pudéssemos fazer ali dentro, já tínhamos jogado todos os jogos que conhecíamos e que não precisavam de nada além da mente e do corpo. Já tínhamos tocado algumas músicas e rasgado a boxer do ao tentar puxá-la até sua cabeça. A espera estava nos deixando completamente desnorteados quando Fletch retornou, acompanhado de Doug Morris, um dos diretores da produtora. Nos levantamos, minhas pernas ameaçaram ceder enquanto eles caminhavam até a mesa. Tentei descobrir qualquer coisa através de seus semblantes, mas estavam inexpressivos pra mim. Fletch abriu a pasta preta que tinha em mãos e começou a passar algumas folhas para o homem ao seu lado, que se sentou e começou a examinar tudo que lhe era entregue, depois, sobre a mesa de vidro, ele separou as folhas, oito maços de quatro folhas cada, grampeadas. Pisquei algumas vezes, tentando me certificar de que meus olhos não estavam me pregando uma peça, e no cabeçalho daquela folha estava mesmo escrito CONTRATO.

- Garotos, ter uma banda é uma responsabilidade maior do que muita gente pensa, vocês devem ter alguma experiência com isso... - Sr. Morris começou a falar - E assinar com uma produtora aumenta essa responsabilidade em pelo menos 80%, estamos aqui para trabalhar duro e levar bandas boas ao auge... Vocês são uma banda boa... - Ele assentiu, traguei em seco, sentindo meu coração palpitar com uma força imensurável - E nós queremos contratá-los pra trabalhar conosco, então se vocês acham que estão prontos para isso, assinem esses contratos e me provem.


Capítulo 37
Parte II

”A thousand miles seems pretty far, but they've got planes, and trains, and cars, I'd walk to you if I had no other way...”
(Hey There, Delilah – Plain White T's)

Foi aí que tudo começou a mudar. Aquele foi apenas o primeiro sábado de muito trabalho e, a partir de então, todos os outros sábados tínhamos reuniões para decidir sobre o álbum, eles queriam lançar no próximo ano. Uma semana depois de assinarmos com a produtora, 5 Colours tocava em todas as rádios da Inglaterra. Eu não sabia bem como eles faziam aquilo e também não me interessava, pois a cada vez que eu ligava o rádio e ouvia nosso som saindo de lá, era como se uma parcela do medo que eu sentia de algo dar errado se dissipasse. Eu não pensava mais no que fazer caso a banda não tivesse sucesso, pois naqueles dias eu era a pessoa com a maior certeza do mundo de que iria viver de música.
Outubro caiu do calendário, deixando Novembro em evidência na parede do meu quarto. Eu passava tão pouco tempo ali que parecia nem ser mais meu lugar. Quando eu não estava em Londres, hospedado em um quarto no terceiro andar do hotel Intercontinental, eu estava na casa da . Estávamos estudando juntos sempre que podíamos. Ela estava se esforçando para melhorar seu humor, para deixar a melancolia baixar, mas eu sabia que ainda estava sendo muito difícil e às vezes eu sentia que devia passar mais tempo com ela. Ela não parecia brava, pelo contrário, me apoiava mais do que qualquer outra pessoa. No entanto eu sabia que, tanto quanto eu, ela estava com medo do fim do ano letivo...

- Dá pra acreditar que amanhã é a nossa formatura? - Perguntei, deitado em sua cama e encarando o teto, onde havíamos colado alguns anjos de neon outro dia.
- Parece que estou angustiada. - comentou, com a cabeça deitada em meu peito, deleitando-se no cafuné que eu lhe oferecia - Eu quero que acabe, porque preciso de férias, mas ao mesmo tempo... Estou com medo do que está por vir depois.
- Eu sei... - Suspirei, fechando meus olhos e sem perceber, apertando-a entre meus braços - Eu tive algumas ideias e eu queria compartilhar com você, mas não sei, talvez pareça que eu 'tô me precipitando. - Abri os olhos ao sentir que erguera sua cabeça para me olhar.
- Diz, quero saber. - Sorriu, interessada.
- Quero que... Quero que venha comigo pra Londres. - Soltei, com medo de sua reação, de sua resposta ou de parecer um perfeito idiota.
- Como é? - Contraiu o cenho - Já não tínhamos combinado que... Íamos nos ver sempre que desse e... Enfim.
- Sim, eu sei... - Olhei para o lado, sentindo minhas bochechas esquentarem e logo meu rosto todo parecia em chamas - Mas eu não quero que seja assim, eu não quero ficar longe de você tanto tempo. - Voltei a olhá-la, parecia surpresa, mas depois sua expressão suavizou num sorriso sincero e ela me beijou na bochecha - Já tem sido tão duro te ver sem estarmos com tantos compromissos, então tenho medo que quando a banda estiver maior e nosso álbum for lançado, tenho medo que a gente se perca.
- ... - murmurou, como se chamasse minha atenção e me pedisse silêncio, então acariciou minha bochecha - Eu te amo e eu vou esperar por você, nós vamos ficar juntos, independente das dificuldades que isso implique, certo? - Concordei com a cabeça, ainda insatisfeito, inseguro.
- Mas... Você nem sabe se quer ir mesmo pra Oxford, você pode fazer uma faculdade em Londres, não pode? E aí podemos dividir uma casa, ou um flat, qualquer coisa, a gente pode se casar e ter uma vida juntos, ! - Ela se sentou, lentamente, segurando o lençol na frente de seu corpo nu.
- ... Eu quero mais do que qualquer coisa ficar do seu lado, está bem? Mas tem algo que eu preciso que você saiba... - Ela introduziu, mas então meu celular começou a tocar, eu não ia atender, mas ela se esticou para pegá-lo e me entregou em seguida - Atende, pode ser importante. - Bufei, pegando o aparelho e levando-o no rosto.
- Alô.
- Cara! - exclamou, sentei devagar, encostando-me à cabeceira - Você não faz ideia do que acabou de acontecer, ! - Ele estava quase gritando e eu tive a impressão de que estava chorando também, ou quase.
- Fala logo, mate, você 'tá me assustando!
- Nosso single... 5 Colours In Her Hair está no topo do UK Singles Chart! - Meu coração parou por um instante e depois começou a bater tão forte que parecia grande demais pro meu peito, eu não conseguia dizer nada, estava em choque, tremendo dos pés à cabeça.
- , está tudo bem? - perguntou, tocando em minha mão - Você tá gelado!
- Cara, nós estamos em primeiro lugar, você 'tá me ouvindo? Você sabe o que isso quer dizer, ?
- , ... - Murmurei, piscando com força algumas vezes e me desencostando da cabeceira, meu coração vibrava e minha voz parecia embargada de emoção - Isso é sério, cara? Você não 'tá zoando?
- Claro que não, porra, entra no site e veja com seus próprios olhos!
- Nós temos um single number 1, é isso? - Perguntei, arregalou os olhos, imediatamente cobrindo a boca com ambas as mãos - É isso, ?
- É isso, cara, é isso aí!
- Cara, depois eu te ligo, eu preciso... Sei lá, eu preciso... Gritar.

Desliguei antes que pudesse dizer qualquer coisa e joguei o celular sobre a cama, abrindo os braços para , que soltou uma gargalhada e se jogou sobre mim, me parabenizando com todo o entusiasmo que eu precisava dela naquele momento. Meus olhos estavam aguados e eu ainda estava tremendo quando ela começou a distribuir beijos suaves por todo meu rosto, sentando-se em meu colo, de frente pra mim.
- Quer comemorar? - Perguntei em um tom malicioso que a fez rir baixinho, acariciando meus ombros.
- Quero. - Sussurrou, aferrando-se mais a mim.
- Antes me diz o que você ia dizer. - Ela afastou-se um pouco, com a expressão séria.
- Deixa pra lá...
- Não, , me fala. - Ela respirou fundo e então se levantou, enrolada no lençol que me descobriu quando ela começou a andar pra perto de sua escrivaninha - Pra que se cobrir? Quanto egoísmo! - Ela riu sem vontade, trazendo consigo um envelope, e então voltou a sentar-se no meu colo - O que é isso? - Perguntei quando ela me entregou e então comecei a abrir.
- É uma carta da universidade de Oxford, eu fui aceita, .

Aquilo foi como um balde de água fria em todos os meus planos até então. É claro que eu queria que fosse para a universidade, era o sonho dela, o que o tornava meu também. Mas eu queria que ela ficasse perto de mim, queria que ficássemos juntos apesar da minha banda e do seu estudo. Naquele momento, eu soube que isso seria muito mais difícil do que eu gostaria.
A formatura chegou, trazendo consigo uma imensa carga de angústia. Finalmente entendi como vinha se sentindo.
No domingo estávamos partindo para Londres, para gravar nosso próximo álbum single que seria lançado antes do fim do ano. Eu estava indo embora, sem data prévia para voltar, e não estava indo comigo. E não viria mais tarde quando já estivéssemos estabilizados, como tínhamos idealizado. Teríamos que aprender a lidar com a distância e com o mundo que não conhecíamos ainda. Eu não queria imaginá-la em uma universidade grande como a de Oxford, perdida entre aquelas pessoas cheias de más intenções, ou então em uma daquelas festas que rolam de tudo... Eu não queria imaginá-la longe de mim.
- Pronto! - Gritei ao fechar o porta-malas do carro que havia ganhado de seus pais por ter finalizado os estudos. Era domingo, depois do almoço, até o fim da tarde estaríamos em Londres, hospedados no hotel até encontrarmos uma casa onde pudéssemos morar.
- Bom, então eu vou lá abastecer o carro e depois que eu pegar os garotos, passo aqui... Tá bom? - avisou, concordei com a cabeça e olhei pra trás, vendo mamãe e encostadas nos pilares da varanda com um sorriso triste, porém esperançoso.
- Tá bom, cara, até depois.
- Até.

Toquei na lataria do carro e depois me afastei, andando até a varanda, sorri sem jeito pra mamãe e , que concordaram com a cabeça e me deram espaço para entrar. Subi as escadas lentamente até meu quarto, estava de costas para mim, com a testa encostada no vidro da janela. Fechei a porta e esfreguei minhas mãos, duras de frio. Seus ombros guinaram pra cima, fechei meus olhos por um instante, antes de andar até ela e abraçar seu corpo por trás, ouvindo-a fungar.

- Eu não queria te deixar triste. - Sussurrou, entre alguns soluços - Eu estou feliz por você, eu juro... É só que... Eu não quero te perder. - Apertei-a com mais precisão, beijando sua bochecha demoradamente.
- Você não vai me perder, meu amor. - Virei na minha direção e segurei seu rosto entre minhas mãos - Olha pra mim... - Ela o fez, com os olhos cheios d'água e o queixo tremendo, respirei fundo - ... Eu te amo mais do que achei que seria capaz de amar alguém algum dia e eu não vou deixar nada acontecer com a gente, está bem? Independente do que o futuro esteja nos reservando, independente da minha profissão, ou da sua... - Ela soluçou e mais algumas lágrimas rolaram por suas bochechas, eu senti as minhas chegarem naquele instante - Eu também estou assustado e eu daria qualquer coisa pra que você estivesse indo comigo, mas isso não é um adeus, me ouviu? - Perguntei, sentindo minha voz vacilar mais do que eu gostaria - Não é um adeus, eu venho te ver assim que eu tiver uma folga, e quando estiver em Oxford, eu vou pra lá te ver sempre... Sempre, 'tá bom?
- A quem estamos querendo enganar? - Ela exclamou, sua voz chorosa se tornou irritadiça - Vamos durar o quê? Dois meses? - Neguei veemente com a cabeça, a envolvendo em meus braços e fechando meus olhos - É verdade, , essa é a verdade...
- Shh, shhhh! - Apertei os olhos e seu corpo contra o meu - Isso não vai acontecer, tá bem? Não vai! Eu vou dar um jeito das coisas darem certo, eu só preciso que você confie em mim, você confia? - Afastei-me um pouco para poder olhá-la.
- Confio. - Sussurrou, concordando com a cabeça.
- Confia mesmo? - Ela assentiu com veemência - Então diga sim.
- Sim? - Contraiu o cenho.
- É, diz que vai se casar comigo. - sobressaltou entre meus braços, com a expressão congelada - Diga, , que assim que eu tiver uma casa que seja minha e puder te dar a vida que você merece ter, quando nós dois estivermos preparados, você vai se casar comigo.
- Você está me pedindo em casamento? - Ela sussurrou, negando com a cabeça, a confusão estampada em seus olhos.
- Sim, eu estou. - Assenti, seguro - Eu não tenho uma aliança aqui, agora, mas eu quero que você seja minha esposa.
- , você não pode ter certeza disso, você tem só 18 anos e não... Nem começou a viver...
- Eu sei o que eu quero pra mim, eu sou maduro o suficiente pra isso. - Respondi, rígido, ela fechou os olhos e deitou sua testa em meu peito - É só dizer sim.
- Sim. - Ouvi-a murmurar, abafado em meu casaco, e sorri, puxando seu rosto para poder olhá-la.
- Sim? - rolou os olhos e sorriu.
- Um dia... Um dia eu direi sim. - Ri baixo, querendo colocá-la dentro de mim e carregá-la pra onde quer que eu fosse.
- Tudo bem, então acho que agora posso te entregar algo que eu estou fazendo há meses – Seus olhos curiosos me fizeram sorrir – Eu nunca fui muito bom em redações... – Comecei a falar, soltando-a para andar até meu armário, de onde tirei uma caixa – Mas eu achei que seria legal te dar algo pra que você sempre se lembrasse de nós, de como nos conhecemos e de por que estamos juntos...
- Você sabe que eu não preciso de nada pra me recordar disto... – Ela dizia, com os olhos fixos na caixa, que eu estendi a ela – O que é?
- É um... Um livro, eu diria, um esboço de livro... – Sua expressão era de total surpresa e contentamento quando abriu a caixa e viu o amontoado de folhas lá dentro, eu havia encadernado e, embora não tivesse ficado com um design bonito, eu sabia que ela iria gostar – , há muitas coisas que eu nunca te disse, porque não tive oportunidade, ou coragem, ou porque são coisas que a gente tem vergonha de dizer até pra nós mesmos, mas... Elas estão todas aí, tudo o que eu senti desde o primeiro momento que eu olhei pra você, até agora... É claro que não tem um final, porque nós não estamos nos despedindo hoje, mas... Podemos construi-lo juntos a partir de agora, o que acha? – Ela não havia dito nada até então, apenas passava a ponta dos dedos pela capa azul, contornando as letras do nome, que eu temi que ela não fosse gostar, mas não podia ser mais sincero.
- Betting Her – Ela leu, baixinho, depois ergueu os olhos mareados em minha direção, parecia não saber o que dizer – Eu estou tão surpresa... Esse foi o presente mais bonito que eu já ganhei na vida. – Sorri, surpreso e aliviado, depois me acerquei um passo e, com ambas as mãos, amparei seu rosto, pressionando meus lábios nos seus – Muito obrigada.
- Eu é que agradeço pelo melhor ano da minha vida, apesar de tudo. – Sorrimos, com nossos lábios em contato. se afastou um pouco e se sentou na beirada da cama, fiz o mesmo, ao seu lado, ela folheou rapidamente o livro até encontrar o início dele, não estava muito enfeitado, era apenas um projeto adolescente, um trabalho meio porco, confesso, mas continha tanto sentimento que parecia realmente delicado.

Antes de abrir meus olhos ou fazer qualquer outra coisa, peguei meu celular embaixo do travesseiro e pressionei o máximo de botões que o meu polegar permitia até desativar o despertador. Era para estar sorrindo? Levantei sem a menor vontade, embora a primavera estivesse se iniciando e as garotas fossem começar a frequentar o colégio com seus uniformes encurtados e decotes avantajados, minha cama também era gostosa.

lia com a voz risonha e eu fiquei constrangido a princípio, por isso fechei o livro e a olhei com reprovação, ela gargalhou e segurou meu rosto entre suas mãos, esticando o pescoço, oferecendo seus lábios. Beijei-a delicadamente, a princípio. Desfrutando dos pequenos estágios do beijo, de cada um dos movimentos de seus lábios macios e sua língua morna, pois eu queria fechar os olhos e poder me lembrar perfeitamente mais tarde, quando estivesse sozinho, e nos próximos dias que estavam por vir.
quebrou o beijo e mordiscou meu queixo, levantando-se e segurando as fitas do seu sobretudo vermelho, lentamente desfez o laço que o mantinha fechado e depois o retirou do corpo, deixando-o cair no chão. Minha respiração falhou quando ela delicadamente se acercou, ficando com seu corpo em pé, entre minhas pernas, ela segurou a barra da própria blusa de mangas longas e a retirou do corpo. Traguei em seco, passando as mãos pela lateral de suas coxas e quadril. Aproximei meu rosto e beijei sua barriga, ao redor de seu umbigo, sentindo-a encolher o abdômen e segurar meus cabelos entre seus dedos. Suas mãos massagearam minha nuca e meus ombros, afastando-me delicadamente para poder tirar meu casaco e meu suéter, depois a camiseta fina que eu usava por baixo. Rapidamente me livrei de meus tênis e meias enquanto ela empurrava meu tronco para que eu me deitasse. Sorri em sua direção, ansioso por ela estar fazendo com que eu me sentisse virgem.
Ela passou uma perna do outro lado do meu quadril e sentou-se sobre ele, levando as mãos pra trás e desacolchetando o próprio sutiã. Seu corpo estava todo arrepiado, de frio, suspeitei. Senti suas mãos apoiadas em meu peito deslizarem de lá para o colchão, acima dos meus ombros, inclinando seu tronco sobre o meu. Seus seios tocaram minha pele e logo estavam pressionados contra meu peito, enquanto seus lábios distribuíam beijos quentes e languidos por meu pescoço e depois tórax. Alisei suas costas nuas e sua cabeça, afagando seus cabelos enquanto sentia seu quadril mover-se sobre o meu.
Beijei sua orelha e seu ombro, sentindo o gosto de sua pele impregnado em minha língua e o perfume inundar meus sentidos, afogando-os. Eu estava completamente à mercê de suas vontades, de suas mãos, que tocavam meus braços, barriga, ventre, arrancando todo o meu fôlego e me obrigando a ofegar vez ou outra.
Abri sua calça, mas logo seu quadril estava fora do meu alcance, conforme seu corpo deslizava pelo meu. Sua boca tocou meu umbigo e ao redor dele, enquanto seus dedos delicadamente desabotoavam minha calça e a puxavam junto com minha boxer, retirando tudo junto com meu tênis e meias. Suas mãos acariciaram minhas coxas enquanto sua língua tocava minha virilha com uma lentidão sufocante. tomou a base de meu membro entre seus dedos e delicadamente passou a língua pelo freio, até a glande, que encaixou-se entre seus lábios cheios e macios. Sua língua dançava ao redor da ponta do meu pênis, me fazendo vibrar por dentro, tentando controlar os gemidos que eu queria exteriorizar.
Segurei seus cabelos em minha mão, mas não a conduzi. Deixei que ela mesmo comandasse os próprios movimentos, que embora fossem lentos e torturantes, me proporcionavam prazer como nenhuma outra menina havia conseguido fazer.
Seus lábios desciam por meu membro, quase alcançando sua mão, que me masturbava desajeitadamente. Sorri em meio a um suspiro alto de contentamento quando ela fez a primeira sucção, arrancando qualquer força nos músculos do meu corpo. Eu estava trêmulo, dormente, imerso em prazer.
Após algum tempo apenas me proporcionando prazer, voltou a beijar minha barriga, até novamente alcançar meus lábios e sentar-se cuidadosamente sobre minha ereção. Seu jeans me irritou e eu deixei isso claro quando comecei a puxá-lo pra baixo. Ela mesma se afastou e as peças de roupa que ainda estavam em seu corpo.
Segurei seu corpo contra o meu e nos girei, a fim de retribuir sua dedicação. Não me demorei em seus seios, embora eu quisesse. Meu objetivo estava entre suas pernas, úmida e quente como só ela poderia ser. Toquei sua virilha com a ponta da língua e fiquei provocando-a por um tempo, ameaçando. contorcia-se a cada vez que minha respiração quente soprava sua intimidade. Segurei suas coxas e debrucei-me sobre ela, deslizando minha língua pelos lábios inchados e macios de sua feminilidade, suspirou alto, agarrando meus cabelos com ambas as mãos e puxando-os quando finalmente encaixei minha boca nela e, com destreza, pincelei-a com a língua aberta. Permaneci apenas lambendo-a, com calma, ouvindo-a gemer baixo e suspirar sonoramente, desfrutando do tesão que compartilhávamos naquele momento.
afastou seu quadril de meu rosto e se sentou na cama, me puxando pelos braços. Dei risada, sentindo-a aferrar-se em meu corpo e voltarmos à posição inicial. Seus lábios pressionaram os meus, pedindo aval para um beijo. Senti sua mão segurar meu membro, massageando-o e buscando com ele sua própria cavidade. Um gemido mútuo preencheu nossas bocas e nós sorrimos por isso, entorpecidos.
Seu quadril movia-se sinuosamente, subindo, descendo, rebolando com uma calma e uma maestria arrebatadora. Minhas mãos pressionavam suas coxas, sua cintura, seus seios. Eu queria tocá-la toda, queria gravar cada parte do seu corpo, sentado sobre o meu. Desenhei aquela imagem com os dedos, delineando com eles cada pequena curva de seu corpo arrepiado e coberto por uma breve camada de suor. O frio parecia nunca ter existido, pelo contrário, eu sentia como se meu corpo estivesse deitado em brasa e cada vez mais essa sensação intensificava.
deitou a cabeça pra trás, movendo-se com mais precisão. Suas coxas tremiam, encaixadas em meu quadril. Sua intimidade contraia, como se sugasse meu membro pra dentro de si. Seus lábios pronunciavam meu nome, envolvido em gemidos baixos, longos, deliciosos. Mordi meu lábio e fechei os olhos, tentando me concentrar em me controlar, mas foi inútil e foi preciso mais uma estocava para que meu gozo começasse a ser expulso, em jorros, para dentro dela, que estremeceu completamente e agarrou minhas mãos, em suas coxas, fincando suas unhas nela e contorcendo-se sobre meu corpo. Sorri, aliviado e maravilhado.

- Eu apostei você, é verdade, mas agora estou apostando em nós, espero que essa vitória seja nossa - sorriu em minha direção, mordendo o lábio inferior - Você é a mulher da minha vida.

Capítulo 38.
"Now everyone dreams of a love lastin' and true, but you and I know what this world can do..."
(If I Should Fall Behind - Bruce Springsteen)

Londres era tudo o que pensávamos que seria e a banda subiu tão rápido que nós mal pudemos acompanhar o sucesso. Em um dia, estávamos cantando Queen no carro novo de , em direção à Londres. No outro, estávamos sendo escoltados em um aeroporto. Foi realmente assim que aconteceu, de repente.
Nos primeiros dias, trabalhamos duro no álbum e no segundo single. Obviously foi lançada, uma semana depois atingiu o topo do UK Single Chart, e na outra semana nosso primeiro álbum de estúdio, Room On The Third Floor, chegou às lojas. Estávamos na Domino's quando Fletch nos ligou e deu a notícia de que ROTTF estava no primeiro lugar de álbum mais vendido no Reino Unido e logo em seguida entramos para o Guiness Book – não por todas as merdas que já havíamos pensado em fazer para estar no livro dos recordes – mas por sermos a banda mais jovem a ter seu álbum em primeiro lugar. não sabia se chorava por estarmos lá ou por termos tomado o lugar dos Beatles.

O contato com minha família e com ficava cada vez mais trabalhoso conforme a banda atingia o nível que queríamos. Precisávamos conciliar a gravação de novas músicas, shows e composição. Era complicado encaixar uma viagem à Bolton entre todos os outros compromissos.
Passamos Natal e Ano Novo juntos, ela estava tão brilhante que eu mal podia acreditar. Eu estava feliz em estar ao seu lado e poder dividir com ela tudo o que eu estava conhecendo. Mas de alguma maneira, eu nos senti um pouco mais distantes. Eu quis colocar a responsabilidade disso em diversas coisas para não tomá-la pra mim. “Talvez seja o antidepressivo que começou a tomar”, ou “talvez seja a falta que sente da mãe”, engoli o que ela mesma me disse quando perguntei se tudo estava bem entre nós “está sendo tudo novo, , tudo está mudando muito rapidamente, estou tentando administrar isso, tenha paciência”.

Foi assim que as coisas começaram a acontecer. Ajudei a arrumar suas malas para Oxford e prometi a ela que a levaria para lá assim que ela estivesse com tudo pronto, agora que eu tinha conseguido comprar meu primeiro carro. Uma semana depois ela me ligou e perguntou se eu estaria disponível. Eu queria estar, mas tínhamos uma entrevista importante com uma revista. Eu não podia faltar. Ela não pareceu chateada, mas eu estava.
entrou para a universidade e eu fiz mais três tatuagens. A princípio, nos falávamos por telefone todos os dias e nos víamos dois dias a cada duas semanas do mês, ou quando, com sorte, eu não estava trabalhando em um feriado e podia ir visitá-la, ou trazê-la para a casa que havíamos comprado recentemente. Eu não gostava do lugar onde ela vivia e não gostava de seus amigos. Eles não eram nerds e ela também não se parecia mais com uma, embora não houvesse uma única nota abaixo de 9 em seu boletim.
No início, era difícil estar longe dela, mas quando nos víamos, era sempre como antes. A mesma cumplicidade, o mesmo sentimento, a mesma preocupação, talvez tudo um pouco abalado pela distância, mas ainda assim, vivo como uma chama, que aos poucos foi perdendo sua força e seu calor. Quando estávamos nos aproximando do último bimestre do ano de 2005, com o segundo álbum da banda lançado, Wonderland e quase um ano depois de estarmos namorando a distância, pediu um tempo. Eu não entendia o que estava acontecendo, pois apesar de tudo, nem por um único momento pensei em nos afastarmos, terminarmos o relacionamento. Pelo contrário, eu me apegava todos os dias às chances de ouvir o sim que ela havia me garantido. Ficamos separados até o Natal, quando eu fui pra Bolton e a encontrei em uma comemoração com sua família. Ryan estava grande e mais esperto. Eu sentia falta dele e de , que decidiu nos dar uma chance, ainda sem explicar o motivo de ter pedido por espaço.
Tentei vê-la com mais frequência e consegui pelos primeiros três meses do novo ano, mas então Motion in the Ocean, nosso terceiro álbum, foi lançado e a turnê veio em breve. Ficamos dois meses inteiros nos falando apenas por telefone, quando conseguíamos, quando nossos horários batiam. É claro que era ruim, tinha noites que eu tinha vontade de largar tudo e pegar estrada até Oxford, mas não estava em meus planos ceder ao mundo e romper com .
Fletch não nos queria juntos. Aliás, nenhum dos empresários. A imprensa fazia questão de publicar qualquer coisa que eu fizesse e parecesse suspeito. As fãs a odiavam sem conhecê-la. E os amigos dela me odiavam, também sem me conhecer. Mas nem por um único instante, em todos aqueles dias, pensei em desistir.
, em julho daquele mesmo ano, quando cheguei da turnê, pediu que eu fosse à Bolton para visitá-la. Eu nem mesmo sabia que ela não estava em Oxford, apesar de ter tentado falar com ela todos os dias por celular e não ter recebido uma resposta sequer, uma mensagem, talvez.

Flashback...

Parei a Tucson, que eu havia retirado há pouco da concessionária, em frente à casa de . O jardim estava mal cuidado e algo lá perdera a vida. Desci e avancei alguns passos, todo o caminho até a porta me lembrei de tudo o que já havíamos passado ali, por cada canto daquele lugar. E então toquei a campainha, quando por fim ela surgiu, eu imaginei aquela garota de cabelos trançados e macacão frouxo. Meu coração disparou como naquele dia e eu estava tão ansioso quanto. Havia pelo menos cinco ou seis semanas que não nos víamos e a saudade era sufocante.
não me sorriu daquele jeito seu, tão meu. Me sorriu sem jeito, sem graça, sem vontade. Tentei abraçá-la, mas tudo o que recebi em troca foram tapinhas leves na altura dos ombros. Estava tão bonita. Seus cabelos mais curtos, mais brilhosos. Seu rosto estava iluminado, corado e seus olhos brilhavam de um jeito que eu só via quando estávamos juntos.
Eu não entendi por que ela não me convidou para entrar, mas para sair dali. Caminhamos lentamente até a praça que havia na esquina de sua casa e lá nos sentamos em balanços coloridos, um ao lado do outro.

- Como estão as coisas? - Ela perguntou, com a voz suave.
- Tudo bem, estamos começando a escrever novas canções para nosso novo álbum, está tudo indo bem... - Respondi, olhando-a como se esperasse algo mais em seu comportamento - E em Oxford?
- Não sei se quero continuar lá. - Disse ela, arqueei as sobrancelhas e esperei por uma explicação, que não veio.
- Por quê? Aconteceu algo? - Perguntei imediatamente, preocupado com sua mudança de ideia.
- Aconteceu que eu não estou gostando do curso, nem da cidade, e nem de quem eu sou agora. - Ela disse tudo aquilo de maneira simples, continuei olhando-a, tentando entender.
- Hm... Então... Você pode trancar e... Vir pra Londres, eu tenho dinheiro no banco, eu posso comprar uma casa, ou um apartamento, o que você preferir, você pode vir comigo e pensar no que quer fazer...
- ...
- Podemos levar Ryan, também. Podemos fazer o que você quiser...
- ! - Me interrompeu mais uma vez, mas desta, me calei - Eu não vou morar com você, talvez eu volte pra cá, ou talvez eu continue em Oxford até pensar melhor no que fazer, não quero ser precipitada. - Assenti, sentindo um nó imenso em minha garganta.
- Tudo bem, mas se você quiser... Sabe que pode falar comigo...
- , quero falar sobre nós. - Ela disse, e de alguma maneira eu senti que aquilo não era positivo.
- Tudo bem, estou ouvindo.
- , quando eu disse que íamos durar dois meses, eu realmente apostava naquilo, e você e seus olhos me fizeram acreditar no contrário... Eu acreditei em nós por muito tempo... Eu tentei manter minha esperança, mas minha fé está abalada há meses...
- Eu sei que não está fácil, quase nunca nos vemos, mas faltam alguns anos até você... - Eu ia dizer "terminar a faculdade", mas então me lembrei que ela nem sabia se continuaria o curso que havia escolhido.
- , eu sei que você gosta de mim, não estou duvidando disso, e eu também gosto muito de você... Mas não é suficiente, amar não é suficiente.
- Como não? - Perguntei, soltando um riso irônico.
- Não é, a distância está me fazendo acreditar que talvez eu esteja atrasando sua vida e você esteja fazendo o mesmo comigo... - Meu coração doeu, fechei meus olhos por alguns segundos, como se aquilo tivesse me tirado o ar... Talvez tivesse, mesmo - Eu... Não queria dizer isso... Desse jeito.
- Tudo bem. - Concordei com a cabeça, enquanto tudo dentro de mim negava, não estava tudo bem - Eu... Estou surpreso por ouvir isso de você, mas eu também não vou ficar aqui implorando uma chance de fazer tudo dar certo, ou... Mendigando seu amor e sua compreensão...
- ... - negou com a cabeça, tentando dizer algo, que eu não quis ouvir.
- Está tudo bem. - Menti novamente, e cada vez que eu o fazia, parecia soar mais falho, mais falso - Eu entendo... - Outra mentira - Eu estou saindo da sua vida pra você poder segui-la.
- , por favor.
- Não, ! - Exclamei, me levantando e negando com a cabeça - Não me peça por favor, não me peça nada... E quer saber? Não está tudo bem... E eu não entendo, não entendo! - Meu autocontrole dissolveu junto com a chuva fina que começava a nos atingir - Eu estive todo esse tempo durante esses dois anos me privando de tudo que pudesse atrapalhar nossa relação, te ferir, te magoar. Eu nunca fui tão fiel a nada como eu tenho sido a nós. Eu vejo tantas, mas tantas garotas lindas o dia todo, o tempo todo, e elas querem ir pra minha cama, mas eu nunca dormi pensando em nenhuma outra que não fosse você, eu nunca desejei outro corpo no meu colchão que não fosse o seu... - Ela parecia assustada com meu desabafo, havia algum tempo que não nos declarávamos um ao outro - Eu também sinto sua falta e também acho uma grande merda te ver uma vez por mês... Concordo que seja difícil se sentir sozinho mesmo namorando... Mas em nenhum momento, ... Nem por um mísero segundo eu pensei em desistir, e eu juro, nunca esperei isso de você. - Respirei fundo, sentindo minha garganta queimar.
- , eu não quero te magoar mais... E não quero me magoar mais...
- Pára de agir como se realmente estivesse se importando comigo, ! - Meu tom estava uma oitava acima, eu estava nervoso demais para me manter em silêncio, ouvindo o que quer que ela tivesse a dizer, não me importava - Você está sendo egoísta, admita isso! Você não está empatando a minha vida, nunca esteve... Eu estou empatando a sua, sempre estive. Essa é a verdade, eu te amei com tudo o que eu tinha dentro de mim esse tempo todo e todas as vezes que eu perguntava o que faríamos depois de terminarmos o colegial, você dizia "eu vou...", você vai, você vai... Você nunca pensou em irmos juntos, você sempre pensou em mim como um namoro colegial e isso está acabando com nosso relacionamento há dois anos... Nunca vai dar certo, porque você não quer fazer isso...
- Não é verdade! - Exclamou, levantando-se com os olhos arregalados.
- É a verdade. - Retorqui, sentindo meus lábios tremerem - Eu não vou ficar aqui discutindo, se a sua vontade é essa, vamos realizá-la... Não vai ser muito diferente de todas as outras vezes que quem teve de ceder fui eu, não é mesmo?
- ...
- Chega... A gente termina aqui.


Flashback off.

Quando você espera muito de uma pessoa e de repente descobre que ela tem muito pouco a oferecer, a decepção toma uma proporção tão grande que te faz acreditar que você não se importa. Que pode achar outro alguém e substituí-la. Foi o que eu fiz...
Rompi qualquer ligação que eu ainda tivesse com ela. Troquei meu número de celular e não salvei o seu em minha nova agenda de contatos. Minhas poucas visitas à Bolton não incluíam mais sua casa, eu apenas passava por lá buscar Ryan para darmos uma volta, eu sempre comprava presentes a ele e escutava atenciosamente enquanto ele falava sobre a escola, sua nova namoradinha. Eu lhe dava dicas sobre como ignorar e sobreviver ao bullying. Eu simplesmente não via qualquer possibilidade de me afastar dele, diante do carinho que eu nutria por aquele garoto. Éramos como irmãos e isso foi algo, dentre poucas outras coisas, que não conseguiu tirar de mim.
Aos poucos, o tempo foi ficando escasso e eu podia enviar os presentes com menos frequência, mas ainda trocávamos e-mails, quase toda semana. De repente, os dele pararam de chegar. Ainda fui para visitá-lo em 2008, dois anos depois de quando eu e terminamos, mas eles não moravam mais lá. O que também me impediu de continuar enviando-lhe presentes, e para minha surpresa, grande parte do que o correio entregou havia sido devolvido na casa da minha família naquele verão, quando mamãe viu pela última vez. Junto de tudo isso, o livro que eu havia dado a ela de presente. O livro que eu passei meses escrevendo e organizando. Havia um bilhete colado do lado de dentro da capa:

“Prefiro que fique com você. Eu sinto como se fosse morrer por dentro cada vez que eu olho pra ele. Nada me deixa mais angustiada do que não ter certeza de ter feito a escolha certa e este livro me faz pensar nisso o tempo todo.
Às vezes me sinto como um barco à vela, há alguém mais soprando e eu não decido pra onde vou. Eu sei, eu sei que preciso de um motor, mas por enquanto me sinto estagnada. E eu não podia mais te manter ancorado ao meu lado, . Sinto muito se isso te magoou. Sinto muito se soou egoísta. Mas acho que egoísmo mesmo seria te matar a cada pedaço meu que perde a vida.
Se cuida, menino.

P.s.: Retirei algumas páginas suas e inclui no meu ponto de vista, achei que você gostaria de saber como me senti em alguns períodos da nossa estória. E, acredite, ela seria um best-seller!”


Aquele bilhete de foi o ponto final que eu precisava. Então era isso. É assim que acaba o primeiro amor de alguém? Eu nunca iria esquecê-la. Eu, com certeza, iria amá-la, de um jeito ou de outro, pelo resto da minha vida. Mas eu não precisaria dela ao meu lado. E mesmo que eu sentisse o contrário, me obriguei a deixá-la pra trás, não havia muito pra onde correr, afinal.
Eu comecei a namorar logo depois de decidir que não a queria de volta. Penny era encantadora e passei dois bons anos ao seu lado, nunca me arrependerei de tê-la pedido em namoro e dado chance à uma nova pessoa, a um novo relacionamento. Mas eu não estava preparado, ambos percebemos isso quando meu desinteresse por nós ficava claro e, para não magoá-la ainda mais, decidi passar um tempo sozinho. Em torno de seis meses depois eu estava com outra pessoa, Beatrice, e um ano depois, com outra, Luce, todas tão lindas quanto uma Miss Inglaterra. Eu gostava delas e elas realmente tinham importância pra mim. Cada uma delas acrescentou um bocado em minha vida e em minha experiência com relacionamentos. Mas nunca dava certo, sempre chegava um momento em que eu sentia falta de algo, que eu nunca soube nomear, nem precisei, pois já tinha nome e sobrenome, embora eu nunca tenha admitido. E talvez, eu nem tenha percebido.
Levou três anos desde que e eu terminamos para que eu, finalmente, conseguisse parar de falar sobre ela. Eu não tocava em seu nome e não perguntava sobre ela a ninguém. Eu decidi me dar uma chance, acima de qualquer coisa, tentando me convencer dia após dia que eu estava esquecendo-a de verdade, que logo eu iria superá-la e se quer sentiria sua falta. Eu acreditei em mim. Confiei e me agarrei a isso por mais cinco anos, a ponto de realmente esquecê-la. Pelo menos até mês retrasado. Novembro de 2014.
Dez anos se passaram desde que fui embora de Bolton. Dez anos desde que entreguei minha vida à minha banda, à minha profissão, e à , que não soube como lidar com nada disso. Eu não me lembrava dela com frequência e eu não pensava sobre tudo o que havia acontecido, o tempo faz coisas que a gente nunca achou que ele fosse capaz... Estava tudo bem, até receber aquele convite.

Back to the past! Thornleigh Salesian College convida, por meio deste, os formandos da turma de 2004 para fazer parte de reencontro indispensável. Um evento beneficente, onde cada um doará aquilo que estiver ao seu alcance.
O evento acontecerá no dia 12 de Novembro, às 20h, no salão de festas do colégio.
Contamos com a presença de todos os alunos.

P.s.: Favor, confirmar presença até o dia 10. Cada aluno terá direito a um acompanhante.

Att
Diretoria.
Continua...

Nota da autora:Olá, meninas. Tudo bem? Bem vindas de volta, espero que todas vocês tenham conseguido acompanhar Betting Her pelo tumblr nesse tempo sem o site, e que estejam gostando da reta final. Deixo por aqui o link do grupo da fic para qualquer dúvida: https://www.facebook.com/groups/519867938059244/ Até breve. Fiquem com Deus. Mwwwwah!


NENHUM CONTATO ABAIXO É DA AUTORA. Favor só entrar em contato se for para falar sobre erros. Contatos feitos por qualquer outro motivo provavelmente serão ignorados. Obrigada.
Nota da Beta:
Qualquer erro nessa fanfic é meu, então me avise por email ou mesmo no twitter (NÃO SOU A AUTORA, por favor, entendam).


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