Última atualização: 30/07/2018

Capítulo Único

: O que houve? [22:42]
: Faz horas que você não fala nada [22:43]
: Depois de tudo que aconteceu, eu tô preocupado [22:43]
: Eu sei que o dia não foi fácil [22:43]
: Mas você tem que manter a cabeça erguida [22:43]
: , me dá um sinal de vida? [22:44]
: . [22:44]
: Eu estou bem. [22:46]
ficou encarando a tela do celular com as sobrancelhas franzidas.
Havia muita coisa errada com aquela frase.
estava seca, colocou o ponto final e escreveu tudo de uma maneira plenamente correta. Aquilo não se parecia nem um pouco com ela.
Sim, ele tinha muitos motivos para se preocupar, e aquela mensagem somente comprovou aquilo.
: Eu te amo, [22:47]
: Você sabe disso, né? [22:47]
: Desculpa por fazer você se preocupar [22:47]
: E desculpa por sempre te incomodar [22:48]
: Desculpa por tudo que eu faço de errado [22:48]
: Desculpa por não te falar isso com mais frequência [22:48]
: Eu te amo, e você é o melhor irmão do mundo [22:48]
: ... [22:49]
: Por que as suas mensagens estão parecendo uma despedida? [22:50]
A realidade o atingiu como uma tonelada de tijolos.
sentiu as pernas formigando e as pontas dos dedos da mão sem qualquer sensibilidade. O mundo começou a girar, e ele teve que se sentar na beira da própria cama. As mensagens não pareciam uma despedida: eram uma despedida.
estava à beira de fazer a pior besteira do mundo.
nem esperou que ela respondesse: levantou-se como pôde da cama – cambaleando por culpa da vertigem que sentira anteriormente –, enfiou a jaqueta de couro de qualquer jeito, pegou as chaves da casa dela, que deixava em cima da própria escrivaninha, e começou a correr contra o tempo, no vento gélido que cortava seus lábios como navalhas.
: O que quer que você queira fazer, não faça [22:58]
: , eu te imploro [22:58]
: Tô indo aí [22:58]
: Se você realmente me ama, me espera [22:59]
: Por favor, por favor, por favor [22:59]
: Me espera, irmãzinha [23:00]
Nem ele sabia que tinha tanta velocidade nas pernas. Naquele momento, tinha vontade de chorar, mas algo mantinha suas lágrimas firmes no lugar. Chegar à casa dela era mais importante, abraçá-la e reconfortá-la era mais importante. Afinal, já esteve na mesma situação, e foi quem o ajudou a levantar-se do chão gelado do banheiro e o aconchegou em um abraço quentinho.
Tanto ele quanto tinham a mania de esconder a realidade e fazer com que todos acreditassem que estavam felizes, que seus sorrisos eram genuínos. Mudavam suas personalidades de acordo com as expectativas dos outros, fazendo com que se tornasse cada vez mais difícil reconhecer seus próprios reflexos nos espelhos.
Ambos lutavam para que os outros fossem felizes, enquanto eles mesmos estavam destruídos por dentro. Usavam máscaras durante todo o dia, podendo retirá-las somente quando estavam sozinhos ou na companhia do outro – podiam dizer com segurança que só eram genuinamente eles mesmos quando estavam juntos. Viver aquela mentira para fazer com que outras pessoas sorrissem, entretanto, era extremamente extenuante e tinha a capacidade de levá-los para a beira de um precipício.
O tanto que sorriam por fora para que os outros ficassem felizes era igual ao tanto que choravam por dentro para aguentar aquela situação. Mantinham uma mentira bela para não machucar as pessoas que amavam, porém eles mesmos não conseguiam se reconhecer e atender aos próprios desejos e anseios.
está digitando...
Ele mantinha os olhos atentos ao celular. Pelo menos sabia que ela estava focada no aparelho naquele momento.
Online
E agora não sabia mais nada.
Não importava: ele tinha que chegar lá. O mais rápido possível.

6 meses antes
Nada mais fazia sentido.
estava completamente perdido, sentindo como se lutasse contra uma maré de coisas inevitáveis e pegajosas, que enchiam o pulmão dele e não o deixavam respirar. Sentia como se não tivesse opção alguma, como se o mundo já tivesse tudo definido e ele se debatesse contra as palavras alheias sem a menor chance de ganhar.
“Você nunca terá um futuro. Nunca será alguém na vida.”
Aquilo o fez surtar.
Ele estava conseguindo segurar as pontas da depressão de maneira relativamente ok – sempre teve , sua irmã de coração, para lhe ajudar e apoiar –, porém, naquele dia, após aquela frase arrasadora, nada mais conseguia segurá-lo no lugar. foi acometido de uma crise que nem ele sabia que estava na beirada, precisava somente de um pequeno empurrão.
Sentir-se como um nada sem futuro foi o suficiente para fazê-lo cair do penhasco.
Ele se trancou no banheiro e chorou como nunca.
Sua família toda estava fora de casa, ninguém sabia o que ele estava passando. Todos foram tratar das suas vidas – trabalhar, sair com os amigos –, e lá estava ele, sozinho, jogado no chão do banheiro e deixando todas as lágrimas fluírem sem reservas. Sentia como se seu coração tivesse sido arrancado de si, como se seu futuro tivesse sido apagado da história da humanidade e nada mais fizesse sentido.
Era isso que fazia com que ele tivesse forças de lutar todos os dias. tinha o sonho louco de se tornar músico, de fazer algo que realmente amava, e estava dentro do DNA dele. Acreditava em si mesmo e sabia que, com a própria dedicação, poderia voar alto – porém ninguém mais acreditava naquilo.
Dizer que ninguém acreditava era um exagero, afinal ele tinha . Aquela garota que conhecera desde pequeno e agora crescera para se tornar uma moça junto com ele, aquela que chamava de irmã – pois, para eles, não importava o sangue: passaram a infância juntos, cresceram juntos e morreriam juntos, como verdadeiros irmãos. Ela sempre acreditou nele e o apoiou, sempre o impulsionou para ir longe.
Mas, naquele dia, no meio daquela crise, nem aquilo importava.
se levantou com as mãos trêmulas para encontrar o próprio e terrível reflexo no espelho.
Era um reflexo que ele simplesmente odiava encarar.
Não tinha nada de bom lá.
Aquilo fez com que ele desse um soco no espelho, fazendo cair estilhaços por toda a pia.
começou a chorar mais que antes, sentindo os cacos incrustados na mão fazendo o sangue escorrer pela pele e pelo vidro do espelho. Tentou limpar, mas aquilo fez com que se enfiassem cada vez mais fundo.
Vendo os cacos no granito, suspirou consigo mesmo. Às vezes era hora de acabar com tudo.
Pegou um dos afiados pedaços do espelho e cambaleou para trás, caindo sentado em um canto, observando o sangue escorrer da mão e pingar no chão. Aquela era uma decisão difícil, porém já não via mais esperança em nada. Se ele não tinha futuro, não havia mais nada que valia a pena lutar.
...! – E ele escutou a voz de ressoando pelo banheiro.
Alarmado, levantou os olhos avermelhados para encontrar a imagem da irmã encarando-o em puro choque. Ela abrira levemente a porta do banheiro e agora tinha as mãos sobre a boca. Ele, por outro lado, tinha o olhar de um animal assustado e vulnerável, que só precisava de um pouco de conforto.
– Achei melhor checar se estava tudo bem com você... – finalmente disse, com a voz calma e em um tom baixo, apesar do claro sofrimento nos olhos. Devagar, ela estendeu as mãos trêmulas para o irmão. – Quer me entregar esse pedaço de espelho...? Por favor...?
estava apegado ao afiado pedaço de vidro em suas mãos. Porém, após observá-la durante algum tempo, seu coração começou a amolecer. Era , sua irmã, quem estendia as mãos e queria ajudá-lo, resgatá-lo daquele lugar repleto de escuridão no qual ele se encontrava.
Era a única pessoa que podia dar amor para no momento em que nem ele mesmo podia fazer aquilo.
Segurando com um pouco mais de força do que o realmente necessário, estendeu o pedaço de espelho para ela. segurou com cuidado, mas ele não soltou. Somente quando ela acariciou de leve a mão do irmão é que finalmente largou o vidro.
o colocou sobre o granito da pia e se aproximou calmamente de , como se ele fosse um animal machucado – afinal, era exatamente aquilo que ele era no momento: se os movimentos da moça fossem bruscos demais, corria o risco de perder .
– Você não me respondeu... Queria ver se estava tudo bem... – Ela ainda estava com aquela voz que mais parecia um pedaço de veludo, tão aconchegante e convidativa. não tinha como mandá-la embora.
– É... Não está tudo bem... – Ele respondeu com a voz rouca e grave, tentando se acostumar a falar após o tanto de lágrimas que chorara. Olhou para a irmã que estava a centímetros de distância, já quase sentada ao lado dele. estava de braços estendidos para tocá-lo, sem um pingo de julgamento nos olhos. Realmente queria ajudá-lo, e aquilo o fez desmoronar todas as barreiras que tinha dentro de si. – ... Pode me dar um abraço...?
– Claro que posso, seu idiota. – E apesar das palavras ríspidas, a voz se mantinha aconchegante. finalmente se sentou ao lado dele, abraçando-o como podia.
Os braços dela eram quentes e macios, davam um sentimento de que finalmente retornara para casa. Aquele caos de sentimentos que ele tinha no peito começou a acalmar-se, caminhando para os respectivos lugares vagarosamente, enquanto sentiam o perfume do shampoo de camomila tão característico de . Os dedos de agarraram a blusa dela com força, enquanto lágrimas silenciosas começaram a molhá-la discretamente. repousou as mãos sobre os cabelos sedosos do irmão, acariciando a cabeça dele cuidadosamente e contribuindo para a calmaria que ele tanto precisava.
... Você consegue... – começou a falar, mas não tivera forças para terminar a pergunta. Após dizer essa frase, simplesmente caiu em silêncio enquanto chorava até tomar alguma atitude alguns momentos depois.
– Eu consigo o quê, ...?
– Você consegue amar... Algo tão horrível... Quanto eu...? – Ele perguntou com a voz esvaindo-se em cada frase que conseguia formar.
O coração de se apertou. Ela sabia o que achava de si mesmo, conhecia as inseguranças do irmão melhor do que as próprias. Tinha plena consciência da depressão que ele enfrentava – e até sabia lidar bem, pois ela própria sabia como ele se sentia. Mas ouvi-lo admitindo tudo em voz alta daquela maneira era o suficiente para acabar com ela.
somente queria abraçá-lo e protegê-lo de tudo de ruim que havia no mundo. Queria falar que estava tudo bem e que não importava o tipo de sonho que eles tinham, todos poderiam ser alcançados. Só precisavam querer, lutar pelo que desejavam – pois ninguém mais faria aquilo por eles. Não queria largar do irmão, nunca mais.
– Claro que consigo. – respondeu com certeza e firmeza na voz, apesar de ter algo apertando no fundo da garganta. – Sempre vou conseguir te amar, . Não importa o que aconteça, não importa a maneira como te encontre. Você pode achar que não é nada demais, porém eu acho que é. Eu te amo, muito. Sempre amei e sempre irei te amar, até que o tempo acabe. Desde que nos conhecemos até o resto da eternidade. Você é meu irmão, e eu sempre vou conseguir te amar. , você é a pessoa mais maravilhosa que eu conheci e te agradeço por tudo que me deu. Mesmo que você não sinta isso, eu te amo.
desabou em lágrimas. Parecia que cada palavra de abria algum assunto inacabado em seu coração e o fazia tentar curar algo que por muito tempo ele arranjara alguma resposta estúpida que não era a real e o fizera chegar àquele momento.
Aquelas palavras não seriam a solução. Teriam muito no que trabalhar para deixá-lo funcional novamente. Porém, ouvir aquilo, principalmente dela, deu forças a para se levantar novamente e não achar que o chão do banheiro era a resposta para tudo.
Após alguns minutos em silêncio – preenchidos somente pelos soluços ocasionais de – ele sentiu algo pingando em seus cabelos. E novamente. E mais uma vez.
Finalmente levantando a cabeça e limpando as próprias lágrimas do rosto, percebeu que chorava silenciosamente. Quando encontrou os olhos dela, porém, a moça sorriu, como se nada demais estivesse acontecendo.
– Você me deixa cuidar da sua mão? – Ela perguntou, segurando a mão direita de , limpando aos poucos o sangue que tinha escorrido pelos dedos. Somente aí que ele percebeu que a blusa dela estava toda manchada onde ele tinha tocado.
, desculpa pela sua...
– Esquece, . Não é nada demais. – deu de ombros, ainda chorando, com aquele sorriso plácido nos lábios. – Deixa eu cuidar de você? Por favor?
– Ok. – Foi a única coisa que ele conseguiu responder.
limpou o excesso de sangue com papel higiênico e analisou o estrago que o espelho tinha feito nos nós dos dedos de . Em seguida, ajudou-o a se levantar e lavou os dedos dele cuidadosamente com a água corrente da pia. Sempre segurando a mão do irmão, pegou uma pinça, caminhou com ele até o quarto, pegou um cobertor quentinho e desceu até a cozinha. Lá, embrulhou-o no pano, colocou chocolate para esquentar em uma leiteira e se sentou à frente de , retirando os pedaços de vidro da mão dele com a pinça, de maneira cuidadosa e gentil para que ele não sentisse muita dor. Ao terminar, entregou uma caneca de chocolate quente para ele e enfaixou a mão de com ajuda do kit de primeiros socorros que ficava embaixo do armário.
– A gente pode ir para o meu quarto? Não quero ficar aqui se alguém chegar. – perguntou, ainda encarando o próprio chocolate quente. Não podia deixar de admitir que aquilo realmente sentia como um aconchegante abraço interno.
– Claro. O que você quiser. – respondeu de maneira gentil e o seguiu até o quarto.
Assim, passaram o resto da tarde em silêncio, com abraçando e ambos simplesmente tentando curar o que tinha acabado de acontecer.

6 meses depois
jamais se esqueceria daquele dia. Da maneira como chorou, como ela o ajudara e dissera que o amava. Sentia que ela precisava daquilo – por mais que não acreditasse em si mesma, ele acreditava. E estaria sempre lá para ela.
nunca acreditaria nas mensagens de “eu estou bem” que enviava de resposta a ele. Quando escrevia aquilo, normalmente queria dizer “me salve” – mas ela não tinha coragem de exteriorizar aquilo.
Por que tinha sempre que sorrir tanto? Por que tinha que fingir que estava bem? Por ele, pela sua família, por seus amigos e por todos à sua volta: por que não podia ser sincera com seus sentimentos e gritar por ajuda? Como sempre, ela colocava sua máscara e continuava vivendo como se nada estivesse acontecendo – como se o coração dela não estivesse sangrando e implorando por alguém que a ajudasse a curá-lo.
O vento gélido já fazia com que lágrimas de gelo escorressem pelas bochechas de . Aquele dia tinha sido difícil para : a depressão dela não estava tão controlada quanto deveria estar, e já fazia algum tempo que ela tivera dias complicados. Mas, especificamente naquele dia, a família dela deixara a casa para uma viagem e ela estava sozinha. Antes de irem, porém, tiveram brigas e discussões sobre o futuro de e o que ela queria fazer. Horas antes ela escrevera para ele, falando que se sentia presa e sem opções, que a sua vida estava tomando um rumo que não era o que ela queria – tudo estava fora do controle, e ela não sabia mais o que fazer. Ele tentou ajudar, escreveu várias filosofias em resposta, porém não obteve retorno de .
Tudo aquilo resultou nas mensagens que o fizera sair correndo da própria casa.
Quando viu o apartamento dela no fim da rua, quase entrou em colapso emocional. Seu coração batia em um ritmo mais forte do que o normal – e provavelmente do que o recomendável – mas ele aumentou a força nas pernas para alcançar o apartamento. Precisava chegar o quanto antes.
Chegando ao portão, nem precisou se identificar: o porteiro já o conhecia e abriu sem cerimônias. passou pelo hall de entrada como um furacão, mal cumprimentando o homem que sempre fora tão simpático. Também nem aguardou o elevador chegar, usando as escadas de emergência para subir até o andar de .
As mãos de estavam trêmulas, e ele mal sentia os dedos por conta do frio. Mesmo assim, controlou os sentimentos para enfiar a chave, errando duas vezes, na porcaria da fechadura.
Ficou tentado a deixar a porta aberta ao entrar no apartamento, porém fechou a porta para ter mais segurança – apesar disso, virou a chave somente uma vez e a deixou na porta, correndo até o quarto de .
A porta do quarto dela estava fechada, e ele não ouvia nenhum barulho.
! – bateu na porta, ouvindo a surpresa na voz dela do lado de dentro. – Por favor, deixe-me entrar! Não faça nada, só me deixa entrar, por favor...!
... – Ela resmungou do lado de dentro, mas ele não ouviu nenhum sinal de que iria abrir a porta para ele. – Eu... Não sei mais o que está acontecendo... Já atendi a todas as expectativas e não sei mais... Isso tudo não é meu sonho, não sou... O que eu quero, eu virei uma marionete nas mãos das pessoas que amo. Como, o que, eu não sei... O que eu sou? De onde eu vim, o que eu quero fazer? Eu fui forte pela minha família, eu continuei sorrindo durante os momentos difíceis... Ninguém mais consegue me entender, nem eu consigo... Eu me joguei fora e perdi toda a minha personalidade, nada mais faz sentido...
– Olha, eu sei como você está se sentindo, ok? Seis meses atrás, era eu no seu lugar, lembra? – encostou a testa na porta e começou a falar, colocando a mão na maçaneta e torcendo para que ela começasse a se mover. – Eu sei que parece que nada tem sentido e terminar as coisas agora seria a melhor opção. Eu me lembro das suas marcas e sei que você já tá acostumada, mas ... Eu estou aqui. Você pode olhar seu reflexo no espelho e perguntar em como pode confiar em si mesma novamente. Você pode se ver e achar a coisa mais horrível que foi refletida. Você pode sentir nenhum tipo de empatia pela criatura que está lá te encarando de volta no espelho. Mas eu sinto. Eu te amo, . Eu te amo, eu te amo, eu te amo, você é a irmã mais perfeita que pode existir. Entenda que nada disso é culpa sua, você não pediu para que a vida jogasse essas circunstâncias em cima de você. Mas a vida me jogou no seu caminho e, por mais que você não sinta isso, eu te amo, . Por favor... Abre essa porta.
As lágrimas que agora escorriam pelo rosto de não tinham nada a ver com o frio do lado de fora. Ele esperava que ela abrisse, esperava retribuir todo o amor que um dia tinha dado a ele, quando mais precisava. Pedia mentalmente, para qualquer força que tivesse poderes no mundo, que a porta se abrisse.
Por isso, quando ouviu o clique da fechadura, o coração dele quase saltou para fora do peito.
abriu a porta com cuidado, como se fosse se machucar com alguma coisa. Aos poucos, ele viu a imagem da irmã – de olhos vermelhos, com o rosto lavado por lágrimas – surgindo à sua frente.
E, quando a porta estava totalmente aberta, a enlaçou em um forte abraço, descansando a cabeça de sobre o próprio peito. Os braços da irmã envolveram o torso dele, fazendo-o sentir as lágrimas quentes dela sobre a própria camisa. beijou o topo dos cabelos de camomila de , abraçando-a com mais força.
– Eu sempre estarei aqui e te amarei, não importa o que aconteça. – E ele ouviu o pequeno soluço de no meio daquela frase, chutando para longe a tesoura que jazia no chão perto dos pés deles.
... Você não tem vergonha de mim...? – Ela perguntou de maneira abafada, contra a camiseta dele.
– Nunca. A única coisa que tenho é orgulho. – respondeu prontamente, fazendo-a abraçá-lo cada vez mais forte. – Você é uma mulher forte, uma sobrevivente nessa sociedade de merda de hoje em dia. Mas até as pessoas mais fortes precisam de um pouco de amor de vez em quando.
– Quando foi que eu me deixei chegar tão baixo...? – Ela murmurou silenciosamente contra a blusa de , mal deixando que ele escutasse.
– Nós fazemos coisas muito absurdas por amor... – Ele suspirou de volta, ainda tentando acalmá-la. Não conseguia ter aquela voz aveludada ou a fala gentil que ela tivera com o irmão seis meses antes, mas podia dizer uma coisa ou outra que a faria, pelo menos no momento, desistir daquela ideia. – Você sempre se doou integralmente para os outros para não desapontar, porque você os ama e quer ver todo mundo feliz, por mais que você esteja morrendo por dentro. Quando você vai ver, não reconhece o seu reflexo te encarando de volta e entra numa crise existencial de que nada mais faz sentido... Achando até que a melhor solução é simplesmente acabar com tudo...
– E não é...?
– Infelizmente eu não tenho uma resposta para isso, . – comentou, tentando parar as próprias lágrimas de escorrerem pelo rosto. – Eu teria me arrependido se você não tivesse me parado naquele dia, e até agora não tive motivos bons o suficiente para me fazer mudar essa opinião. Acho que a gente tem que ir descobrindo aos poucos qual é o sentido de tudo, por pior que a vida seja.
Os dois perderam a noção de quanto tempo ficaram se abraçando à porta do quarto de . Demoraram para finalmente se separar, fazendo com que segurasse a cabeça dela com ambas as mãos e depositasse um beijo na testa da irmã. Ela deu uma pequena risada em seguida, as lágrimas escorrendo agora por conta do pequeno gesto de amor da parte dele.
– Chocolate quente? – perguntou, enquanto cuidadosamente limpava uma lágrima no rosto de , fazendo-a dar um pequeno sorriso. Mas, por menor que fosse, ele já estava contente.
concordou com a cabeça e somente seguiu o irmão – que, assim como fizeram seis meses antes, não largou da mão dela enquanto a levava para a cozinha. O chocolate ficou pronto em poucos minutos, e logo ambos já tinham suas canecas em mãos.
...?
– Hmmm?
– Você vai fazer alguma coisa hoje ou amanhã?
– Não. Por quê?
– Dorme comigo? Por favor? – olhou para o chão logo em seguida, contendo mais lágrimas de surgir nos olhos. – Não quero ficar sozinha essa noite.
– Claro que sim. – deu um pequeno sorriso e limpou um pouco de chocolate do canto da boca de . – Eu sempre vou cuidar de você quando precisar, . Você nunca está sozinha.
E terminaram aquela noite embaixo das cobertas, de frente para o outro, e de mãos dadas. O fato de estar juntos já era o suficiente para ambos.
Tinham plena consciência que tinham que deixar a mania de mentir para eles mesmos de lado e reconstruir o amor próprio que precisavam ter para sobreviver. Esconder-se atrás de frases como “eu sei que sou sensacional”, “sou o melhor”, “ninguém faz isso melhor que eu” não dava mais. Precisavam realmente acreditar naquilo e começar por amar as imagens que os olhavam de volta nos espelhos – pois, se eles não fizessem aquilo, quem mais o faria?
I’m so sick of this

Fake love, fake love, fake love

I’m so sorry but it’s

Fake love, fake love, fake love

Futuramente teriam aquilo. Saberiam olhar para o passado e pensar em como estavam cegos. Sempre ao lado um do outro, aprenderiam a ter amor próprio. Porém, enquanto aquilo não era realidade, o fato de que tinha e tinha já era suficiente.
Não o necessário, mas o suficiente. Afinal, aquela jornada seria longa e árdua, porém tinham que começar em algum lugar – e, enquanto estivessem juntos, sabiam que poderiam chegar lá. Com um passo de cada vez.


Fim.



Nota da autora: Essa fic tem relação com a fic de Cypher pt. 1 que vai entrar no site no final desse ano, creio eu.
Mas, já aproveitei a oportunidade para apresentar esses personagens que já amo de paixão!
Sei que muita gente interpreta Fake Love como amor entre duas pessoas, mas a minha interpretação – e a que decidi trazer para o ficstape – foi de amor próprio. Já dizia Namjoon que Fake Love vai muito além de um relacionamento amoroso e é isso que eu consegui tirar dela. Sei que o tema da fic é bem sensível e muito complicado de se escrever, mas acho que é algo necessário. Se vocês conhecerem alguém que passa por esse tipo de problema, deem à pessoa o amor que ela precisa. E, se você estiver passando por esse problema, deixe com que outras pessoas te deem amor. Ninguém precisa passar por essas coisas sozinho e todos precisam ter consciência de que são sobreviventes.
Peço desculpas por ser tão curta e faltar um pouco de desenvolvimento, mas é que doeu pra escrever.
Mas é isso! Uma fic rápida que espero que tenham gostado! Fiquem à vontade para comentar, respondo o quanto antes! E obrigada pela leitura!
Fiquem de olho para Cypher pt. 1 e até a próxima!
XX
PS: Ah, e segue meu grupo no facebook pra que vocês fiquem de olho nos meus próximos projetos – tenho mais alguns ficstapes para entregar e sempre atualizo por lá! Tem espaço pra todo mundo, sempre procuro conversar bastante com o pessoal que faz parte e realmente vou ficar feliz de vê-los por lá:
Disclaimer: Essa história é protegida pela Lei de Direitos Autorais e o Marco Civil da Internet. Postar em outro lugar sem a minha permissão é crime.
Não gosto de falar essas coisas, mas como já tive problemas antes, acho bom deixar avisado. Nem tudo que tá na internet é do mundo, minha gente. Quer postar em outro site? Fala comigo! Eu não mordo! Hahaha a gente vê de me dar o crédito e linkar para o original aqui no FFObs! Só me mandar um e-mail ou pedir aí nos comentários!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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