Contador:

We made a start, be it a false one, I know. Baby I, don’t want to feel alone.
Nós fizemos um começo, talvez seja falso, eu sei. Querida, eu não quero me sentir só.


Dizem que quando o fim se aproxima, nós pensamos no início...
E isso não foi diferente comigo.
Ver que dezessete anos da sua vida se transformaram em nada, é simplesmente arrasador. Ver que não há nada que possa ser feito, nada que possa ser mudado, alterado; se ver de mãos atadas, enquanto toda a sua vida é posta de cabeça para baixo, é devastador.
O barulho da porta se fechando e as rodas de uma mala tocando o chão me despertaram de meus devaneios e me arrastaram para a realidade, mas eu não conseguia encarar. Desviei o olhar, lembrando de nossos momentos juntos, toda a nossa felicidade há pouco esquecida, nossos beijos, nossos toques... Que seriam apenas lembranças para mim a partir de agora. Lembranças dos momentos mais felizes, mais plenos, mais completos de toda a minha vida. Todos transformados em nada. Um choro contido me fez olhar para cima, onde duas pessoas olhavam a cena com as expressões demonstrando um pouco de cada sentimento que era comum a qualquer pessoa naquele cômodo: tristeza, confusão, frustração, mágoa... Meus filhos, o que resumia minha família agora, encaravam tudo aquilo juntos. Arthur abraçava Nina de forma protetora, acolhedora, enquanto me olhava demonstrando que queria que eu estivesse naquele abraço também.
Num dado momento, cometi o erro de olhar para frente, olhando diretamente para quem eu evitei durante todo esse tempo. Ele me fitava de forma quase invasiva e eu olhava de volta, buscando em seus olhos, seus belos olhos, que tudo não passava de um erro, que seria apenas um sonho ruim, que eu acordaria a qualquer momento. Mas algo nele me arrastou novamente para a realidade. Tudo o que eu sempre sentia quando mirava seus olhos não existia mais. Todo o amor que um dia ali existiu se fora. Hesitante, ele apoiou-se na maçaneta, talvez buscando forças para deixar toda uma vida para trás, ou apenas eu. Com um suspiro pesado ele abriu a porta e se foi.
Também dizem que todo fim é um recomeço... E é nisso que eu estou me apoiando.


Algumas semanas antes



Muita coisa mudou nesses últimos dezessete anos.

Bem, eu envelheci, assim como todos a minha volta, eu sei. Mas quando você para pra pensar e vê que está à beira dos quarenta anos, percebe que a situação chegou num ponto importante, digamos que quase crítico. Não que eu tenha que me preocupar com isso no momento, afinal eu ainda tenho trinta e quatro e... É, isso não ajuda muito. Enfim, meu filho mais velho, Arthur, está com dezessete anos e é a cara do pai, como sempre foi, mas é incrível como a cada dia, cada ano, ele perde mais características minhas e ganha mais do pai. É como se ele fosse uma “pequena” miniatura do . Pequena entre aspas, porque o menino já está do tamanho do pai e provavelmente ficará mais alto. Ele é do time de futebol americano na escola, o quarterback do time, e namora uma das líderes de torcida, a Ally. Não vejo como a vida dele possa parecer mais como a de um adolescente de filme americano. Ele está se preparando para tentar uma bolsa de estudos numa boa faculdade, mesmo não sabendo ainda o que fará. Já Nina, minha caçula, está com dez anos e é uma CDF, a melhor aluna da turma. Quando não está estudando, está agarrada com um livro, nadando – sim, ela faz natação desde novinha, compete em torneios e tudo – ou dançando balé. Eu deixei uma prateleira na sala separada para colocar as medalhas e troféus dos meus filhos talentosos. Vocês podem me chamar de mãe coruja, eu não ligo e até assumo. Meu marido, , está com trinta e cinco anos, tem um alto cargo na empresa do pai e praticamente vive para esse trabalho. Não que seja por vontade própria, mas é realmente necessário, é como se tudo dependesse dele, da presença ou das decisões dele. Nós estamos casados há dezessete anos e tudo se deu devido a um pequeno grande deslize no passado.

Setembro de 1993.

Eu estava sentada num canto recluso da escola, encarando o céu que estava ameaçando uma grande tempestade. Mas havia uma maior em minha cabeça. Eu não sabia o que fazer, não tinha a menor ideia de como contar para os meus pais, para o ou para qualquer pessoa. Eu estava com medo da reação de todos ao meu redor, mas o medo não me ajudaria em nada. O medo só atrapalha quando você está diante do desconhecido. A realidade é que eu sou um dos culpados dessa situação e teria que enfrentar as consequências. Pelo menos eu não estava sozinha nisso. Como eu disse, eu sou um dos culpados, o também tem sua parcela, afinal, ninguém faz isso sozinho. De repente algumas gotas começaram a cair e eu continuei sentada, não conseguia nem pensar em me levantar. Tantas coisas se passavam pela minha mente, que as mais simples se tornaram obsoletas. Num momento pensei ter ouvido meu nome ser chamado ao longe, mas ignorei, devia ser coisa da minha cabeça. Então a chuva começou a cair mais fortemente e encharcou toda a minha roupa. Mesmo sem vontade me levantei do gramado, decidida a procurar um local seco e voltar aos meus pensamentos. Mas ao me virar, encontrei correndo em minha direção. Seu sorriso era tão lindo e acolhedor, que minha vontade era de correr para os seus braços e lá ficar eternamente. E foi isso que eu fiz. Quando senti o seu perfume, era como se os meus problemas quase que desaparecessem, mas, na verdade, aquele cheiro só me fazia lembrar mais ainda deles. Prendi fortemente meus braços ao redor do seu pescoço por um momento e depois o soltei, com esse movimento, seu sorriso se apagou. Ele me olhou fixamente, como que procurando algo em meus olhos, meus marejados e vermelhos olhos.

- O que foi, ? – ele disse, passando a mão pelo meu rosto e tirando alguns fios molhados que estavam presos nele.
- Nós temos um problema, . Um enorme problema. – eu disse, tentando controlar minha voz.
- O que aconteceu? – ele perguntou mais uma vez, mas sua voz estava mais séria. – Me diz, por favor. – respirei fundo algumas vezes, antes de ter coragem o suficiente para falar.
- Eu estou grávida. – despejei de uma vez. arregalou os olhos e eu conseguia ver o choque passando por eles. Ele me soltou por um momento e eu me senti desesperada. Eu não podia passar por tudo isso sozinha, eu precisava dele. Então ele me abraçou novamente e dessa vez mais forte. E eu senti que não estava sozinha.


Eu engravidei quando tinha dezessete anos e isso fez minha vida virar de cabeça para baixo. É claro que eu amo meu filho, mas eu sei que ele veio na hora errada. Não me arrependo, se eu pudesse voltar ao passado não teria feito nada diferente. Descobri que estava grávida na metade do segundo ano da escola e tive que estudar para ser aprovada em meio a enjoos e consultas médicas. E digo: não há nada pior que estudar matemática enquanto você tem vontade de colocar tudo para fora. Eu consegui me formar no ano seguinte, foi difícil, mas eu consegui. Precisei da ajuda da minha mãe e da minha sogra, elas tomavam conta do Arthur enquanto eu estava na escola. Não fui apenas eu que tive que fazer escolhas, também.
Ele estava no último ano e teve que recusar uma bolsa de estudos numa ótima faculdade para começar a trabalhar, além de ter que dizer adeus ao seu sonho de fazer música. Ele tinha uma banda na época da escola, eles tocavam muito mal, mas ele sempre cantou muito bem. Só que tudo isso ficou para trás. Seu pai lhe arrumou um cargo bem pequeno em sua empresa e o fez assumir toda a responsabilidade. Eu fui morar em sua casa e lá fiquei por alguns anos. Quando Arthur nasceu, eu senti que todo o meu esforço valeu a pena, ele era perfeito, parecia que a minha felicidade estava completa, mas isso não durou por muito tempo. Não que eu tenha sido infeliz todos esses anos, muito pelo contrário, é que as coisas apenas mudaram. passou a fazer faculdade de noite e só chegava em casa muito tarde. Foram quatro longos e difíceis anos.
Quando Arthur tinha cinco anos, o avô do morreu e como herança nos deixou a sua casa. Eu tinha vinte e dois anos e me vi com uma casa e uma família para cuidar. Foi complicado, mas nada que fosse impossível. tinha sido promovido no trabalho e aos poucos nós conseguimos mobiliar e arrumar tudo ao nosso gosto. Pela primeira vez eu me sentia mesmo numa família, a minha família. Com o passar dos anos, foi sendo promovido e quando Arthur completou oito anos, eu descobri que estava grávida novamente. Dessa vez foi completamente diferente. Eu já tinha vinte e cinco anos, sabia o que esperar e o que fazer. Com o novo membro na família, teve que trabalhar mais e passou a ficar pouco tempo em casa. Tudo na vida são escolhas e ele queria que tivéssemos uma vida tranquila, então se esforçava o quanto podia. Quando nasceu, Nina me trouxe algumas responsabilidades que eu tinha deixado para trás. Da primeira vez que fui mãe, eu era muito jovem, não tinha noção das coisas, precisei de muita ajuda dos meus pais e sogros. Nos primeiros banhos e as primeiras cólicas de Arthur, eu tinha minha mãe e minha sogra para me ajudarem. Elas pareciam ter mais medo que algo acontecesse do que eu. Então alguns tipos de “trabalho” elas pegavam para si. Eu ficava com a amamentação e com as fraldas. Desde então, passou a acumular mais funções no trabalho e é como eu já disse, parece que tudo depende dele naquele lugar.
Arthur sempre reclamou da ausência do , da sua não participação das festas da escola, nos jogos, nas reuniões de família e etc. Sempre foi muito complicado para ele, que tentava impedir que Nina se sentisse da mesma forma. Por mais que eles briguem, eu vejo em Arthur uma preocupação com Nina que me encanta. Sempre que estava fora da cidade e Nina tinha alguma apresentação ou prova de natação, Arthur ia de vontade própria e ficava ansioso o dia inteiro, por mais que não demonstrasse interesse em qualquer coisa relacionada a Nina quando ela estava por perto.

- Vamos, mãe! – ouvi Nina gritando do andar de baixo. Coloquei o outro brinco e segui para as escadas.
- Calma, já estou indo.
- Vamos nos atrasar! – ela quase quicava na porta, mantendo-a aberta para que eu passasse.
- Você precisa guardar essa energia para a piscina.
- Pra piscina eu tenho de sobra. – ela disse rindo e em seguida correu para entrar no táxi que nos esperava.

Saímos rapidamente do veículo, afinal Nina estava mesmo atrasada. Corremos até a piscina coberta e paramos perto dos diversos alunos. Ajudei a tirar a roupa, deixando-a apenas de maiô, ajeitei a touca em sua cabeça e coloquei seus óculos pendurados em seu pescoço. Ela exalava energia, era quase contagiante. Ela daria o seu melhor, como sempre, e se fosse como das outras vezes, ela traria para casa mais uma medalha.

- Boa sorte, minha filha. – dei um sorriso e um beijo na ponta do seu nariz. E saí da área destinada aos atletas, já que a professora de educação física me lançava olhares nada amistosos.
Olhei para o celular, procurando algum sinal. Disquei rapidamente os números do telefone do e esperei que ele atendesse.
- Oi, meu amor. - ele disse ao atender.
- Você ainda está longe? Já vai começar.
- Não, acabei de entrar na rua da escola.
- Ah, tudo bem então. – desliguei o telefone. Segundos depois Arthur chegou acompanhado de sua namorada.
- A prova dela já aconteceu? – ele perguntou, sentando ao meu lado.
- Ainda não, mas eu acho que é a próxima.
- Cadê meu pai?
- Ele falou que estava chegando. – eu disse olhando para a entrada. Minutos depois ele entrou quase correndo, afrouxando o nó da gravata enquanto subia as escadas.
- Perdi? – ele disse, meio sem ar. Segurei o riso ao olhar em seu rosto. Ele estava meio corado e o cabelo bem bagunçado. Me aproximei, tentando colocar alguns fios no lugar.
- Não, dessa vez você conseguiu chegar antes. Só para variar um pouco. – sorri, dando-lhe um beijo rápido. Arthur murmurou algo como ‘eca’ e Ally riu.
- Como se você não fizesse isso ou algo pior. – disse, fazendo com Ally corasse e Arthur o olhasse feio. Eu ri baixinho, dando um leve tapa no braço.
- Não deixe os meninos envergonhados.
- Mas para que um pai serve, senão para deixar o filho com vergonha na frente da namorada? – ele perguntou e eu rolei os olhos.
- Olhem, é a prova da Nina agora. – Arthur disse alto, chamando nossa atenção. se levantou e começou a bater palmas freneticamente, fazendo nosso filho e sua namorada rirem alto ao nosso lado. Nina, ao contrário do irmão, não se incomodou nem um pouco com o momento de loucura do pai. Ela sorriu e acenava com a mesma intensidade, estampando um largo sorriso no rosto.
- Você acha que ela vai ganhar? – me perguntou.
- Bem, eu espero que sim. Ela tem treinado tanto ultimamente...
- Vamos lá, Nina! – ele gritou ao meu lado e eu olhei assustada – O que foi? Eu preciso compensar as outras vezes que eu não pude vir.

Por mais que fosse difícil para as crianças, eu sabia que também era difícil para o . Ele não queria perder as coisas de propósito. Tenho certeza que se ele pudesse escolher, ele teria passado cada momento importante da vida dos nossos filhos ao lado deles. Eu lembro de como ele ficava quando chegava do trabalho e via um deles fazendo algo diferente, algo que aprendeu enquanto ele não estava em casa.

Janeiro de 1995.

Eu ouvi a porta bater e em seguida o rosto cansado de surgir em meu campo de visão. Sorri calorosamente para ele, segurando Arthur em meus braços. ia se aproximar, mas eu neguei com a cabeça. Ele me olhou confuso.

- Fique onde está, seu filho quer lhe mostrar uma coisa. – coloquei Arthur sentado no chão, com cuidado – Mostre para o papai o que você aprendeu hoje. – franziu a testa, estranhando a situação. Arthur apoiou-se na mesa de centro, ficando de pé sozinho. arregalou os olhos, já se movendo em direção ao filho, mas o adverti em silêncio, para que ele deixasse Arthur continuar. Ainda incerto do que fazer, ele colocou um dos pés à frente e perdeu o equilíbrio, caindo sentado no chão novamente. ia ajudar, mas eu fiz mais um sinal para que ele deixasse Arthur sozinho. Ele levantou mais uma vez e agora ele estava mais firme em seus movimentos. Mesmo com pouco equilíbrio e tropeçando pelo caminho, Arthur andou até o seu pai e se apoiou em suas pernas, para não cair mais uma vez. o pegou no colo e o abraçou forte, seus olhos brilhavam de uma forma que parecia que ele estava a ponto de chorar.

- Ele tá crescendo muito rápido. – eu disse, tentando não me emocionar também.
- E eu tô perdendo tudo. – respondeu, meio cabisbaixo – É mais provável ele falar vovó ou vovô antes de papai.
- Não fica assim, eu tenho certeza que ele vai falar papai. – eu me aproximei, passando o braço ao redor de sua cintura.


Nina parecia mais motivada ao pular na piscina, talvez fosse a presença do pai na arquibancada. dificilmente conseguia ir e quando ia, não chegava a tempo. Ver seu pai gritando e pulando deve ter lhe dado força extra para passar facilmente as adversárias na piscina. Em poucas braçadas, ela já tinha conseguido ultrapassar todas as competidoras e tinha passado em primeiro na virada. Nos vinte e cinco metros restantes ninguém foi páreo para ela, que chegou com muitos segundos de distância da segunda colocada. Assim que ela bateu na borda da piscina, deu um pulo e começou a aplaudir e gritar seu nome. Algumas mães estranharam e alguns pais começaram a rir da reação exagerada do meu marido, que pouco se importou. Aquele era um momento de pai e filha, ninguém entenderia.

- E aqui está a minha campeã! – exaltou ao ver Nina. Ela correu ao seu encontro e ele a abraçou, acabando todo molhado.
- Não sabia que você viria, pai. – ela disse, abraçando-o fortemente.
- Eu gosto de fazer surpresas, mas também não gosto de alimentar falsas esperanças. Só Deus saberia se eu ia mesmo conseguir sair no horário certo do trabalho.
- Mas isso não importa, o que realmente vale é que você tá aqui.
- Já que temos uma vencedora aqui, acho que devemos comemorar. – eu disse.
- Talvez devêssemos comemorar a presença do meu pai também, quem sabe quando ele estará aqui de novo? – Arthur disse e riu.
- Não se faça de durão, meu filho. Aposto que uma taça enorme de sorvete de chocolate fará o seu humor melhorar.
- Talvez... – ele riu também.
- Então é isso, sorvete de chocolate para todos. – eu disse e seguimos para o carro.
- Eu posso pedir de morango? – Nina perguntou.
- Não, pirralha. – Arthur respondeu.
- Eu não sou pirralha! – ela retrucou. Pelo visto teríamos uma longa tarde em família... Como eu senti falta disso.


Domingo.
Dia se reunir a família em volta da mesa, fazer uma bela refeição e após o almoço, passar o restante da tarde juntos, certo? Bem, não tecnicamente. Pelo menos não na minha família.
Eu estava aqui enfurnada na cozinha, lavando a louça do almoço, terminando de arrumar as bagunças e limpando toda a sujeira que foi feita. Já está, praticamente, morto lá no sofá. Da mesma forma que ele caiu depois do almoço, ele está até agora. Nina está no quarto, provavelmente na internet ou lendo algum livro, como sempre. Já Arthur correu para o quarto para se arrumar, porque ia sair com a Ally. A tarde que eu deveria passar com a minha família, eu estou passando dentro da minha cozinha, mas pelo menos são alguns momentos de paz e silêncio. Eu posso colocar as coisas da escola e dos meus alunos em ordem, começar a preparar as provas e as próximas aulas.
Eu nunca imaginei que acabaria dando aula para crianças, quando eu comecei a imaginar que um dia poderia fazer uma faculdade de artes plásticas, eu me imaginava como uma futura artista renomada. Mas como eu poderia me focar numa possível carreira brilhante, tendo um filho pequeno para criar? Até mesmo completar a faculdade já foi um sufoco. Eu tive que contar com a ajuda dos meus pais e dos meus sogros, só com eles tomando conta do Arthur que eu podia me concentrar direito nos estudos. Porque eu tentei deixá-lo com uma babá, mas depois que eu o encontrei com diversas marcas vermelhas pelo corpo, eu nem quis imaginar o que ela poderia ter feito com ele, eu apenas a demiti na hora. Depois que me formei, consegui um emprego numa escola aqui perto de casa e logo matriculei Arthur nela, assim eu poderia ficar tranquila e sempre de olho no meu filho. E isso já faz doze anos.
Separei uma série de pincéis, alguns potes de tintas e até mesmo alguns desenhos já prontos. Anotei as próximas atividades no diário de classe, corrigi os trabalhos e planejei as provas. Tudo isso em apenas uma hora. Quando arrumava meus papéis, eu ouvi os passos de alguém na escada e me levantei, quando cheguei à entrada, Arthur já estava quase na porta.

- Você não ia se despedir? – perguntei, cruzando os braços.
- Eu já volto. – ele falou, abrindo a porta.
- Mesmo assim, você deveria ter ido até a cozinha, me dado um beijo e ter dado tchau.
- Mãe... – ele fez uma careta, ainda segurando a maçaneta.
- Arthur... – imitei seu tom de voz e ele rolou os olhos. Ele andou a passos duros até onde eu estava e, muito a contra gosto, me deu um beijo rápido na bochecha. – Não sei pra que tanto drama, nem tem ninguém olhando você dando um beijo na sua mãe.
- Tá. – ele disse voltando para a porta.
- Aonde vai?
- Sair com a Ally, por quê? – ele perguntou, virando seu corpo em minha direção.
- Nada, só curiosidade de mãe. – sorri de lado, enquanto ele balançava cabeça negativamente. – Vai com Deus e mande um beijo para Ally.
- Tudo bem, tchau. – ele disse, nem me dando tempo para responder antes de fechar a porta. Segui até a janela ao lado e o observei até sair do meu campo de vista. O som do celular do chamou a minha atenção e o tirou de seu sono quase profundo. Voltei para a cozinha para terminar de arrumar minhas coisas. Minutos depois apareceu com cara de sono e perguntou:
- Arthur saiu? – ele disse, coçando os olhos e bagunçando ainda mais o cabelo.
- Aham, foi encontrar a Ally.
- Me conte uma novidade. – ele murmurou, enquanto abria a geladeira. – Me ligaram agora e eu tenho que ir na empresa, estão precisando da aprovação do orçamento de uma campanha que tem que ser apresentada amanhã de manhã, não devo demorar.
- Mas hoje é domingo, . Não vão respeitar nem o seu final de semana? – falei, voltando a apoiar minha pasta na mesa e olhei para ele.
- Eles precisam de mim lá, . – bufei, ignorando seu olhar no meu.
- Como se ninguém precisasse de você aqui. – murmurei, caminhando até o andar de cima, para guardar o que eu havia feito antes para as aulas do dia seguinte. Ele me seguiu e sentou-se na cama.
- Não vamos começar com isso de novo, certo? – ele perguntou, erguendo as sobrancelhas.
- Não, não vamos, já entendi que o seu trabalho é a coisa mais importante. – falei, abrindo o armário e pegando algumas peças de roupa para ele. – E até porque não adiantaria, como sempre.
- Eu vou tirar umas férias e nós vamos...
- E nós vamos fazer uma bela viagem em família. – completei sua frase, rolando os olhos. – Já perdi as contas de quantas vezes escutei isso nos últimos dezessete anos.
- Mas dessa vez eu estou falando sério. – ele disse, pegando minhas mãos e dando um beijo em cada uma.
- Você sempre está falando sério, me conte uma novidade. – sorri duramente, repetindo o que ele havia dito. Soltei minhas mãos e caminhei até uma pequena escada que levava ao sótão, onde era o meu pequeno atelier. Abri bem as cortinas, deixando a luz do sol entrar e iluminar bastante o ambiente. Puxei um pedaço de tecido preto que cobria a tela que repousava sobre o cavalete. Encarei o emaranhado confuso de tintas completamente frustrada, fazia semanas que eu não conseguia pintar nada que julgasse decente. A única coisa que fazia era despejar toda minha raiva contida naquele pedaço de tecido branco, resultado: uma rebelião de cores que os críticos julgariam uma péssima releitura de Pollock¹. Tudo bem que eu não pensava dessa forma e jamais faria algo como o Pollock, porque não me julgo capaz disso. O problema era o trabalho que eu tinha depois para salvar aquela tela, afinal eu não podia desperdiçar o dinheiro que havia gastado nela. Suspirei, começando a preparar a tinta branca para cobrir tudo, mas antes passei uma pequena espátula por toda a extensão para retirar o excesso que ficava acumulado. Com um pincel grande, passei uma camada de tinta branca bem grossa, vendo todas as cores sumirem pouco a pouco. Uma irônica analogia à minha vida. Sorri friamente, deixando a tinta de lado para esperar o que já tinha pintado secar. Pus as mãos na cintura e observei todo o ambiente, eram telas e mais telas espalhadas por todos os lados, retratos dos meus filhos e do , algumas paisagens, algumas coisas meio abstratas, mas nada que eu julgasse bom o bastante para mostrar para alguém. Por isso que tudo que eu já fiz em minha vida como artista plástica frustrada ficava preso aqui.

Março de 1992.

Era o meu primeiro dia na aula de artes plásticas no ensino médio. Estava esperando por esse desde quando eu cheguei nessa escola. Era o único momento em que eu me sentia bem, quando eu estava desenhando, pintando ou fazendo qualquer coisa desse tipo. Eu sabia que era algo meu, que tinha, sei lá, nascido comigo. Ou melhor, que eu tinha nascido para fazer. O professor, o Sr. Hazel, nos levou para o lado de fora, perto de um conjunto de árvores baixas e nos colocou ali sentados, bem de frente para o prédio que a escola ocupava e então pediu que desenhássemos o que estávamos vendo. Seria simples se não fosse por um pequeno detalhe. Tinha um menino cobrindo quase que por completo meu campo de visão. Seus cabelos, meio compridos, cobriam uma parte dos olhos, de forma que ele precisava ficar passando a mão para tirá-los do caminho quase que a todo minuto. Com os raios do sol se refletindo nos fios e o sorriso extremamente perfeito que ele mantinha nos lábios, eu fiquei absurdamente encantada, fazendo com que passasse a desenhá-lo quase que inconscientemente. Os traços foram surgindo um após o outro e, de tanto que eu havia observado-o, não precisava mais levantar os olhos para absorver mais algum detalhe, estava tudo gravado em minha mente: o fato do lábio inferior ser um pouco mais cheio que o superior, a ponta do seu nariz que era levemente arrebitada, o ângulo perfeito formado pelas linhas do seu rosto e até mesmo as pequenas sardas que ficavam a mostra na parte descoberta pelo casaco. A única coisa que faltava era os seus olhos. Depois de algum tempo, vi uma sombra se formar a minha frente e levantei os olhos. Sr. Hazel olhava atentamente para o bloco de folhas apoiado em minhas pernas com uma expressão confusa. Mordi os lábios e esperei que ele falasse alguma coisa.

- Bem, eu pedi que você desenhasse o que estava vendo e não um rapaz. – ele sorriu de lado e se agachou ao meu lado.
- Esse é o problema, ele está exatamente na minha frente, é a única coisa que eu consigo ver. – murmurei, colocando uma mecha do meu cabelo que estava solta atrás da orelha.
- É verdade. – ele respondeu, enquanto olhava para frente e tomava conhecimento do meu campo de visão. – De qualquer forma, é um belo desenho, parabéns.
- Obrigada. – falei, abaixando o rosto, provavelmente todo vermelho. Ele se levantou e retornou o seu caminho por entre os outros alunos, vendo o que cada um estava fazendo.

Voltei minha atenção novamente ao desenho, tratando agora de melhorar cada detalhe. Não bastando minha mania de perfeição, era quase que um problema de orgulho não fazer aquele desenho da melhor maneira que eu pudesse. Além de querer impressionar o professor, eu queria retratar aquele rosto perfeitamente.

- Que bom que finalmente se juntou a nós, . – ouvi o professor dizer, mas não dei atenção. Levantei meu olhar mais uma vez para verificar se havia deixado algum detalhe passar, mas ele não estava mais ali. Suspirei, encarando o que eu havia feito. Estava bom pelo menos. Vi uma sombra se formar em minha frente e estendi o papel para que o professor pegasse e assim ele fez, só que a voz que eu ouvi em seguida não era a que eu espera. Era grossa e ao mesmo tempo aveludada, perfeita para os ouvidos.
- Por que você me desenhou? – o menino perguntou, enquanto me olhava intensamente. Pela primeira vez eu pude ver seus olhos e fiquei quase que paralisada. Era de um tão profundo, que eu quase me perdi. Acho que esqueci como se fala também, porque ele ficou lá de pé a minha frente durante alguns longos segundos, antes de se abaixar e deixar seus olhos na altura dos meus. Mordi os lábios, tentando pensar em algo inteligente para falar, mas não pensei em nada.
- O professor pediu para que eu desenhasse o que estivesse vendo e, bem, você estava na minha frente, cobrindo toda a vista. – falei baixo, vendo que ele ergueu as sobrancelhas, como se tivesse entendido.
- Bom, acho justo eu te desenhar também. – ele disse, sorrindo de lado. – Só não garanto que vai ficar assim tão... bom. – ele tornou a olhar o desenho, só que mais de perto dessa vez. – Você é realmente boa.
- Obrigada. – respondi, levantando de vez a cabeça e encarando aqueles olhos maravilhosamente .
- Meu nome é . – ele estendeu uma mão.
- . - ele sorriu mais abertamente, fazendo com que meu coração começasse a bater mais rápido.


Peguei uma pequena caixa que estava na última prateleira da pequena cômoda de madeira escura que estava recostada perto da janela, abri com cuidado e retirei de lá duas folhas de papel meio amareladas. Uma tinha o desenho que eu havia feito dele no primeiro dia que eu havia lhe visto, toda aquela perfeição em pessoa que tinha me conquistado, e a outra continha o desenho que ele havia feito de mim. Para ser sincera, ficou horrível e não parecia comigo de qualquer maneira, mas só de ver seu olhar compenetrado e até mesmo uma gotinha de suor brotar em sua testa, devido ao esforço que ele fazia, eu achei que deveria guardar. Sei lá, talvez tivesse sido uma coisa boba de menina, mas, de alguma forma, aquelas folhas tinham se salvado até hoje e elas eram a prova viva de como tudo havia mudado. Nada era tão fácil e simples como esses desenhos parecem agora. É tudo tão duro, pesado e difícil. Respirei fundo, deixando um sorriso fraco surgir. Ouvi uma batida na porta e em seguida entrou no cômodo, franzindo o nariz pelo cheiro forte de tinta. Ele sorriu, mas eu não imitei seu gesto, me mantendo séria. Recoloquei as folhas na caixa e tampei a mesma.

- Estou indo. – ele disse, pulando para evitar pisar em algo que estava no caminho. – Nossa, faz tempo que eu não vejo nada novo que você fez.
- Como se você tivesse tempo para isso, não é, querido? – murmurei, voltando a pegar a tinta. Com uma careta, ele se aproximou parando bem na minha frente e sorrindo.
- Não faz assim, você sabe que eu tenho todo o tempo do mundo quando é algo relacionado a você ou as crianças.
- Aham. – me limitei a responder. – Você não está atrasado?
- Provavelmente. – curvou-se para me dar um leve beijo nos lábios. – Até mais tarde.
- Até. – falei, virando-me novamente para a tela.
- Te amo. – ele murmurou já perto da porta e saiu pela mesma, antes mesmo de ouvir minha resposta.
- Aham. – tornei a responder, agora para mim mesma, enquanto pegava um vidro de tinta num tom vermelho vivo que estava a minha frente e jogando praticamente tudo na tela que tinha acabado de “salvar”. Suspirei, fechando os olhos fortemente. Peguei a tela e joguei num canto, para que ela fosse descartada depois. Não queria ter que me forçar para salvar mais nada. Não agora.
- Mãe? – ouvi a voz da Nina se aproximando e consegui colocar um sorriso no rosto.
- Aqui em cima. – gritei e em seguida ouvi seus passos ecoando escada acima.
- Cadê todo mundo? – ela perguntou, abrindo completamente a porta.
- Seu irmão foi encontrar com a Ally e seu pai foi trabalhar.
- Trabalhar? Mas hoje é domingo. - ela reclamou, se aproximando e encostando-se à janela.
- E desde quando seu pai tem dia certo para trabalhar? – perguntei retoricamente e ela deu de ombros.
- E o que a gente vai fazer? – Nina fez uma careta, mexendo aleatoriamente nos potes de tinta em cima da bancada.
- Não sei, você tem alguma ideia? – perguntei, colocando a caixa, que eu mexia antes, no lugar.
- Não sei. – ela repetiu, brincando com um pincel. – Bem que você podia deixar eu te desenhar. – Nina sorriu de lado, com uma cara travessa.
- Estou à sua disposição. – levantei os braços, num sinal de rendição. – Onde você quer que eu fique? – perguntei, enquanto ela corria pelo lugar a procura de materiais.
- Pode sentar ai. – ela apontou para o banco perto da janela. – E não se mova.
- Ok, senhorita. – respondi, fazendo o que ela havia falado. Nina puxou uma cadeira alta, que estava escondida num canto. Pegou a prancheta para apoiar, algumas folhas e vários tipos diferentes de lápis, que ela encarou de forma confusa por algum tempo. Levantei e fui até lá ajudar.
- Quanto mais duro for o grafite, mais forte e firme será o traço. Você pode fazer a base com esse mais duro. – peguei um lápis que marcava um H na lateral. – E depois fazer os detalhes com esse. – peguei outro que marcava um B. – Eu já te falei isso na escola, não foi?
- Sim, mas eu sempre esqueço. – ela deu de ombros. – Agora fique quieta. – ela pediu, fazendo uma expressão séria. Formando uma espécie de quadrado com as mãos e fechando um dos olhos, ela me encarou bem concentrada, fazendo com que uma pequena ruga se formasse entre seus olhos.
- O que você está fazendo? – perguntei, reprimindo um sorriso.
- Não sei, vi um filme. – ela sorriu de volta. E então se focou no desenho. Mantive-me na posição até que eu me cansasse e ela parasse de pedir para que eu não me mexesse. Nina revezava seus olhares entre eu e o papel, onde ela riscava quase que enlouquecidamente e apagava com a mesma intensidade. Algumas vezes ela bufava, amassando o papel com raiva e jogando o mesmo no chão. E depois começava tudo novamente.
- Estou me sentindo o Leonardo Di Caprio naquele filme. – ela murmurou, me acordando de um quase cochilo. Ela estava quieta há muito tempo, o que me levou a crer que tinha, finalmente, gostado do que estava fazendo.
- Que filme? – perguntei, me ajeitando na cadeira, enquanto buscava na memória algum filme onde esse ator fazia o papel de algum artista ou apenas desenhava. – Titanic?
- Aham, mas você não está pelada como a outra atriz. – ela respondeu rindo alto e eu a acompanhei.
- Mas, Nina, esse filme não é da sua época. – comentei, estranhado o fato de ela mencionar um filme um pouco antigo.
- Mãe, estava no cinema outro dia, em 3D. – ela disse daquela forma quase superior de sempre. Ela sempre parecia muito mais velha do que realmente era. E isso me assusta um pouco. Queria que ela fosse uma criança, agisse como uma criança.
- E você tinha idade para ver esse filme, Nina? – perguntei e ela mordeu o lábio inferior, olhando para o outro lado.
- Não, mas o pai da Dianna foi com a gente como responsável, ai eles deixaram e, mãe, como esse filme é triste. – ela mudou bruscamente o assunto. – Até agora não entendi porque o Jack morre, tinha espaço para os dois naquela porta.
- Também acho, filha. – comentei, entrando em seu jogo. – E sempre me perguntarei isso.
- Acho que eu terminei. – ela anunciou, pulando da cadeira e correndo até onde eu estava. Ela abraçou a prancheta e me estudou com cautela. – Você não vai rir? Porque não está bom como nenhum desses seus. – ela apontou para um mural que tinha ao lado da janela, onde eu pendurava alguns rabiscos aleatórios que eu fazia, inclusive diversos desenhos que eu havia feito dela.
- É claro que eu não vou rir. – respondi, pegando as folhas de sua mão. É claro que não estava perfeito, mas para uma criança de sua idade estava ótimo. Ela poderia trabalhar mais nas proporções, mas isso é algo que se aprende treinando. Levantei o olhar e vi que ela roía as unhas, esperando que eu falasse alguma coisa. – Está muito melhor que os meus, merece até um lugar de destaque aqui. – falei, levantando e tirando todos os meus desenhos do mural e colocando apenas o dela bem no centro.
- Depois eu te ensino como fazer então. – ela murmurou, convencida, e eu a puxei para um abraço.
- Com fome? – perguntei, ela passou a mão na barriga e fez uma careta.
- Definitivamente com fome.

Olhei para o relógio na mesa de cabeceira do meu lado da cama e ele marcava: 22:47. Suspirei, tirando os sapatos e deitando-me suavemente. Nina estava na cama e Arthur havia chegado há alguns minutos, respeitando seu toque de recolher, e agora estava no quarto ouvindo música, como sempre. Meus olhos estavam pesados e eu não estava fazendo nenhum esforço para mantê-los abertos. Há tempos eu não me preocupava mais em esperar o chegar para dormir, vi que eu apenas perdia horas de sono e um pouco de paciência também. Estiquei um dos braços e desliguei o único abajur que iluminava o cômodo. Pareceu que passou apenas alguns minutos, mas quando eu acordei um pouco alarmada por sentir alguém me abraçando e claridade incomodar meus olhos. Olhei para o mesmo relógio e agora ele marcava: 00:55. Virei meu rosto e encontrei o do bem próximo ao meu, com um sorriso culpado no rosto.

- Eu sei que demorei. – ele sussurrou, me puxando para mais perto.
- Isso não me surpreende mais, . – respondi, cruzando os braços na altura do peito e encarando o teto.
- Estou errando demais com você, meu bem. – ele confessou, deitando seu corpo de lado, fazendo com que seus lábios ficassem perigosamente perto do meu ouvido. – E eu me sinto muito mal com isso. – disse, depositando um beijo na curva do meu pescoço em seguida. – Muito mal. – outro beijo. Fechei os olhos, tentando me controlar. Ele sabia exatamente como me fazer esquecer tudo. Não importava o tamanho da raiva que eu estava sentindo dele, bastava poucos segundos e alguns beijos e pronto, eu não lembrava mais nada.
- Eu deveria fazer você pagar por todos esses erros. – murmurei, mantendo meus braços cruzados, mas voltando meu olhar a ele.
- Eu também acho que deveria. – disse, elevando um pouco seu corpo para que seus lábios ficassem agora perto dos meus. Ele se aproximou lentamente, deixando-os a poucos centímetros de distância. Seus olhos encontraram os meus e um pequeno sorriso surgiu no meu rosto. Ele sabia que era o sinal que precisava. Deixou que seu corpo caísse e nos juntou num beijo calmo. Descruzei os braços e pus uma de minhas mãos em seu rosto, trazendo para mais perto, intensificando o beijo.
- Me desculpe. – ele sussurrou em meu ouvido, enquanto apertava minha cintura com vontade.
- É claro que eu desculpo. – respondi, colocando minhas mãos em seu cabelo e puxando alguns fios. – Eu sempre desculpo, não é mesmo? – ele se afastou um pouco, olhando fundo nos meus olhos.
- Eu te amo. – disse, antes de esticar o braço e apagar o abajur, deixando a escuridão dominar todo o quarto.

¹ Pollock é um artista americano que ficou conhecido pelo seu jeito diferente de criar suas obras. Sua Action Painting se tornou conhecida em todo mundo e com ela o chamado Expressionismo Abstrato, uma vertente do Informalismo. Ele é considerado até hoje um dos maiores artistas americanos de todos os tempos. Clique aqui para ver um exemplo de sua arte.


Quando cheguei do trabalho no dia seguinte, encontre Arthur e Ally sentados no sofá. Ela estava com as mãos no rosto e parecia chorar, já ele estava com um dos braços ao redor do corpo dela e parecia bem nervoso. Perto do sofá tinha uma mochila e uma pequena mala de viagem. Franzi a testa assim que os vi e a expressão deles se tornou alarmada quando me viram. Caminhei até eles, deixando minhas coisas na mesa de centro.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntei, quase de forma retórica. Pela forma que ele estavam agindo, era claro que tinha acontecido alguma coisa.
- Os pais da Ally a expulsaram de casa, eu não podia deixá-la por aí, então a trouxe pra cá. Tem algum problema? – Arthur perguntou e eu senti que o problema era mais grave do que eu estava pensando.
- Claro que não, meu filho, Ally é sempre bem-vinda. Mas será que eu posso saber por que os pais dela tiveram uma atitude tão intensa como essa? – ela levantou a cabeça pela primeira vez e eu vi seus olhos inchados e vermelhos, como se ela estivesse chorando há dias. – Vocês podem, por favor, me dizer o que tá acontecendo.
- Mãe... – o Arthur começou, mas logo desistiu, passando a mão pelos cabelos, de forma quase desesperada. Desespero esse que já estava passando para mim. Em minha cabeça várias coisas terríveis passavam, e eu não conseguia controlar.
- Arthur, acho que não existe nada tão grave que você não possa me contar. Por favor, confia em mim. – pedi, segurando sua mão e vi que ele estava a ponto de desabar, assim como a Ally. Ele respirou fundo algumas vezes, passou a mão pelos olhos, secando algumas lágrimas, e voltou a me olhar.
- A Ally tá grávida, mãe. – ele soltou de uma vez e foi como uma bomba sendo lançada na minha cabeça. Era como se eu estivesse passando por tudo novamente. Eu conseguia me ver naquela situação, grávida aos dezessete anos, sem nenhuma certeza do futuro, como se tudo tivesse acabado. Minha nora começou a chorar copiosamente e eu a puxei para um abraço. Eu sabia muito bem pelo o que ela estava passando, a sensação de impotência, como se a vida estivesse de ponta à cabeça e com o futuro completamente incerto. Passei meu braço pelo ombro do Arthur também, fazendo com que os dois ficassem aninhados em meu peito. Sim, eu poderia gritar, xingar, falar que eles foram irresponsáveis, que não era a hora, que tinham um futuro pela frente. Mas eles sabem dessa ladainha, tanto que devem ter escutado isso nos pais dela. Nesse momento eles precisam de apoio, precisam sentir que não estão largados no escuro, sozinhos no desconhecido.
- Eu vou poupar vocês da conversa de sempre, dos xingamentos e do papo de serem irresponsáveis, porque já devem ter ouvido isso, as coisas da Ally não me deixam mentir. Só quero que saibam que mesmo vindo muito antes do tempo, esse bebê terá muito amor dessa avó e se depender de mim, não vai faltar nada pra ele. Agora eu quero que vocês parem com o choro, porque isso não vai desfazer nada, o tempo não vai voltar e nem o bebê deixar de existir. Principalmente você, Ally, quero que você suba, lave seu rosto, não sei, toma um banho, tenta relaxar. – ela balançou a cabeça, afirmando, e passou a mão pelo rosto inchado.
- Muito obrigada por não surtar, eu acho já estou no meu limite. – ela disse, baixo, com a voz falha.
- Eu sei muito bem pelo o que você tá passando, minha querida, sei muito bem. – sorri de lado, enquanto ela levantava e carregava sua mochila para o segundo andar. Depois que ela já tinha sumido das nossas vistas, sentei ao lado de Arthur e olhei atentamente para o seu rosto. Ele parecia derrotado, brigar com ele agora seria como chutar cachorro morto. – Nós falamos tantas vezes com você, meu filho. – suspirei, vendo-a abaixar a cabeça.
- Meu pai vai me matar. – ele sussurrou, deixando o rosto cair entre as mãos e chorando de forma que seu corpo todo tremia.
- Ele não vai fazer nada com você, não vai adiantar ou mudar nada. Assim como não adianta você chorar pelo leite derramado, Arthur. A Ally precisa de apoio agora, principalmente pelo fato dos pais dela serem tão idiotas. Desculpa a palavra, mas os seus sogros são uns idiotas. O que vai adiantar expulsar a filha de casa? Vai fazer o bebê sumir? Não! – bufei, tentando me acalmar. – Enfim, eu vou falar com o seu pai quando ele chegar. Agora eu preciso que você melhore essa cara e vá buscar a Nina daqui a pouco, vou resolver uma coisinha. – falei, me levantando e pegando a minha bolsa.
- Aonde você vai? – perguntou.
- Vou falar com os pais da Ally.

Eu lembrava vagamente do caminho até a casa dela, tinha ido buscar o Arthur algumas vezes. Dirigi da forma mais calma que consegui, bolando até mesmo um discurso para chegar lá com tudo o que eu iria falar certo, para não dar margem para que eles pudessem falar as besteiras deles. Eu tinha um pensamento formado: não interessa o nível de besteira que seu filho faça, nunca deixe parecer que ele está sozinho no mundo. Porque ele não está, ou pelo menos não deveriam. Aprendi isso com meus pais e é o ensinamento que passo para os meus filhos. Eles não estão sozinhos e nunca estarão. Pais que abandonam seus filhos na primeira dificuldade, assinam um atestado de fraqueza.
Parei o carro junto à calçada e caminhei a passos firmes até a porta, apertando a campainha de forma bem necessária, confesso. A mãe da Ally me olhou pelo vidro da moldura da porta e logo abriu a mesma.

- Eu só queria avisar uma coisa. – falei, ignorando qualquer cumprimento dela. – A Ally está na minha casa e não sairá de lá. A partir de hoje ela é minha responsabilidade, já que você e seu marido resolveram a abandonar num momento de necessidade. Ela não sofrerá nenhum tipo de privação, não faltará comida, acompanhamento médico e, acima de tudo, amor. Então separe e arrume as coisas dela, alguém vai passar aqui para buscar tudo muito me breve. Passar bem. – despejei tudo de uma vez, virando as costas em seguida, sem lhe dar abertura para falar qualquer coisa. Voltei para o carro e de lá vi sua expressão quase chocada, mas nem isso me abateu. Fechei a porta e voltei para casa.


Esperei chegar sentada na mesa da cozinha. Arthur e Ally estavam lá em cima e Nina fazendo o dever de casa. Ele chegou por volta da mesma hora de sempre e estranhou logo o fato da casa estar silenciosa. Quando ele viu a expressão em meu rosto, deixou logo a pasta num canto e veio sentar ao meu lado. Alguma coisa deveria estar gritando “problemas”.

- O quê? – ele praticamente gritou e eu suspirei, apoiando a cabeça em uma das mãos. – Eu falei com ele mil vezes, disse tudo o que ele deveria fazer para evitar uma gravidez. Ele tem dezessete anos, . Onde tá esse moleque irresponsável? – ele gritou em minha direção, quase transtornado.
- E o que você vai fazer com ele? Bater, gritar, brigar? E em que isso vai ajudar? Em nada! A gente já passou por isso, você sabe que nenhum xingamento ou algo do tipo ajuda. – tentei amenizar a situação, mas nada parecia ajudar.
- E eu tenho que ficar sentado, assistindo ele destruir a vida dele? – parei por um segundo e olhei em sua direção e no mesmo momento ele percebeu que havia falado demais.
- Minha gravidez estragou sua vida? Seu filho estragou sua vida?
- Não é nada disso, é só que eu não fiz nem metade do que eu queria fazer na vida, não queria que ele tivesse o mesmo destino que eu. É tão ruim assim eu desejar algo melhor para o meu filho? – ele perguntou, tentando contornar a situação.
- Me desculpa por ter engravidado e atrapalhado o planejamento da sua vida. Eu também não tive a vida que sempre desejei e nem por isso transformo tudo o que acontece em consequência disso. Que eu me lembre bem, eu nunca pedi que você abandonasse tudo por mim ou pelo Arthur, você podia ter seguido com os seus planos. O que eu não vou admitir é que você transforme isso numa desculpa para reclamar da vida que temos, afinal você não precisa de desculpas, não é? – despejei um monte de coisa em cima dele, tentando aliviar um pouco o peso que todas aquelas palavras faziam em meus ombros. Eu já estava cansada de ter que aturá-lo reclamando de tudo, como se a nossa vida juntos, nossa família, não fosse boa o bastante pra ele.
- Eu não estou usando nada como desculpa para reclamar, mas você não pode me tirar o direito de não estar feliz com a minha vida. Será que eu não posso nem ao menos desejar algo melhor pra mim? – desabafou, levantando da cadeira e arrastando, de forma de um estrondo se propagou quando a mesma caiu no chão.
- Você pode desejar o que quiser pra você, nunca vou te tirar esse direito. O que me incomoda é como o assunto da gravidez da namorada do seu filho mudou para você. O que me incomoda é fato de tudo nessa casa e nas nossas vidas sempre ter que girar ao seu redor. São os seus problemas, o seu trabalho, o seu cansaço, as suas reclamações e os seus sonhos que foram destruídos. Caso você não saiba, não era o meu desejo de vida ser professora de arte de crianças, mas foi isso que a vida me deu e eu estou satisfeita. Estou satisfeita porque a vida, ao invés de me transformar numa artista de sucesso, me deu dois filhos lindos e um neto a caminho. Esse bebê era o que eu queria no momento? Não, mas eu não vou culpá-lo, porque ele é o único que não tem nenhuma culpa nisso. Eu vou aceitá-lo, assim como aceitei o Arthur, sem pensar no que isso pode mudar a minha vida. – olhei em sua direção, vendo que ele estava apoiado na pia, olhando para o lado de fora, evitando olhar em minha direção. – E sabe qual é a nossa maior diferença? – perguntei, de forma retórica. – Eu não penso no melhor pra mim há dezessete anos. Eu sempre pensei no melhor para nós. – suspirei, levantando da cadeira e caminhando para fora da cozinha. – Mas se você não está satisfeito com a vida que leva, você pode recomeçar. Talvez ainda dê tempo pra você.

Ouvi a porta da frente bater quando estava no meio da escada. Fechei os olhos e rezei para que ninguém tivesse ouvido nossa briga. O clima já estava ruim o bastante, não queria tornar nada pior. Bati na porta do quarto do Arthur, abrindo-a em seguida, vendo Ally pronta para dormir e Arthur sentado ao lado dela. Pelo clima do ambiente, ninguém sabia de nada.

- Eu falei com o seu pai. – comentei, cruzando os braços. – Ele tá furioso.
- Imagino. – Arthur comentou, bufando em seguida. – Ele ainda tá lá embaixo?
- Não e pela forma que a porta bateu, ele não vai voltar tão cedo.
- Ele teve uma reação tão revoltada assim?
- Não, foi meio que a junção de muitas coisas que eu precisava falar para ele e vice e versa. Talvez tenhamos escolhido o pior momento, mas eu não posso fazer nada quanto a isso. – dei de ombros. – Você, mocinha, trate de dormir, amanhã vamos ao médico. E você, rapaz, arrumei uma cama pra você lá no quarto da sua irmã. Não há nada que possa ser evitado agora, mas não vamos pular etapas. – sorri para eles, recebendo outros dois em resposta. – Até amanhã, durmam bem.


’s POV




Deixei meu corpo cair na cadeira do bar, como se o peso do mundo estivesse sobre os meus ombros. Aquela notícia havia sido como uma bomba. Sempre pensei que meu filho pudesse seguir alguns dos meus passos: se formar, conseguir um bom emprego, ter a sua própria família. Mas não pensei que ele fosse bagunçar tudo como eu também fiz. Querer que seus erros sejam repetidos não é o tipo de coisa que um pai quer para o seu filho. Não que ele tenha sido um erro, ele veio na hora errada, apenas isso. Eu tenho a total noção de como é difícil ser pai tão jovem, ter sua vida toda desfeita, para cuidar daquela criança que não tem culpa de nada. E o que me irritou mais foi a passividade com que levou o assunto, ela sofreu mais do que eu e estava agindo como se fosse a melhor coisa do mundo. Eu vou ser avô aos trinta e cinco anos de idade. Poderia ser pai de novo, mas não, serei avô. Isso tudo tá tão errado, que não consigo nem colocar meus pensamentos em ordem.
Pedi uma cerveja para o garçom e deixei a cabeça cair sobre as mãos. Já não bastava o neto, agora também teria que lidar com uma briga besta com a . Não sei como as coisas mudaram de rumo durante a conversa, eu nem queria falar nada daquilo. Nem sei de onde saiu. Certo que nossa vida não é um mar de rosas, temos nossas dificuldades e brigas. Não é como quando tínhamos dezoito anos, mas eu ainda a amo. Passamos por muitas coisas e continuamos juntos, isso deveria significar alguma coisa pra ela, não? Bufei, vendo o garçom franzir a sobrancelha, provavelmente estranhando meu comportamento. Talvez eu estivesse um pouco estressado. Um colega do trabalho chegou a brincar com uma “crise de meia idade”, mas será que eu já estava tão velho assim?
As garrafas de cerveja já formavam uma pequena fileira a minha frente, mas eu não queria ir para casa e ter que lidar com os problemas que pareciam aumentar a cada minuto. Então pedi outra cerveja. Olhei no celular e não tinha nenhuma ligação ou mensagem. Talvez estivesse chateada de verdade, mas eu também tinha o direito de estar chateado, afinal ela também tinha me falado coisas que não soaram agradáveis aos meus ouvidos. Percebi que alguém sentou ao meu lado, mas nem me importei de olhar. Estava mais interessado em beber minha cerveja, eu já não parecia ter gosto de nada.

- Seu nome é , não é? – uma mulher perguntou, chamando minha atenção. Olhei para o seu rosto tentando me lembrar, mas as cervejas não ajudavam.
- É. – respondi, vendo seus lábios se puxarem num sorriso. – Eu deveria me lembrar de você?
- Hmm, talvez. – ela mordeu o lábio inferior, fazendo uma expressão pensativa. – Só se você lembrar de todas as meninas que você conquistou na escola. – ela sorriu novamente. – Valentina Pennell, estudamos juntos no colegial. – estreitei os olhos, tentando lembrar dela, mas não conseguia. Então me limitei a sorrir, fingindo saber de quem se tratava. – Então, o que tá fazendo da vida? – ela perguntou e automaticamente pensei em “desperdiçando meu tempo num trabalho que odeio”, mas guardei pra mim.
- Sou diretor financeiro na empresa do meu pai. – respondi, sem forçar nenhum entusiasmo.
- Bacana... – ela comentou, sorrindo de lado. – Mas nunca te imaginei trabalhando num escritório, todo engravatado. Você sempre foi tão musical. Eu ia em todos os ensaios da sua “banda”. – ela fez aspas com os dedos e aquilo me incomodou como antigamente. Não havia aspas, era uma banda. Poderíamos não ser os melhores do mundo, mas éramos uma banda. E de repente lembrei de uma menina morena, com cabelos pela cintura e olhos verdes, que sempre andava pendurava no pescoço do Joe, nosso guitarrista. Ele dava uns beijos nela às vezes, mas nunca a levou a sério a ponto de lhe dar o status de namorada. Mas ela estava tão diferente, os cabelos curtos, os olhos marcados, sem aquele rosto quase infantil. Ela estava bem bonita, até.
- Lembrei de você. – falei, dando mais um gole na cerveja. – Já desencantou do Joe? – perguntei e ela riu alto, jogando a cabeça para trás.
- Há muito tempo, desde que eu conheci alguém que soubesse tocar guitarra de verdade. Ou seja, qualquer um que saiba. – brincou, fazendo com que eu a acompanhasse.
- A vida foi boa ou megera com você, ? – Valentina perguntou, tombando a cabeça de lado e me lançando um sorriso meio estranho.
- A vida foi muito boa, até. Tenho dois filhos, uma esposa maravilhosa e um emprego que nos sustenta. O que mais posso desejar? – respondi, dando de ombros em seguida.
- Bem, você poderia desejar o mundo. Há tantas outras oportunidades por aí, por que se prender a algo tão... antiquado?
- Você não tem família, não é? – perguntei, girando o corpo para ficar de frente para ela. – Marido, filhos ou qualquer coisa do tipo.
- Não, meu trabalho toma muito do meu tempo para eu sequer pensar em ter mais alguém na minha vida.
- Então eu entendo o porquê disso tudo soar antiquado pra você. É algo aparentemente ruim porque você não tem, ou não é capaz de ter. – senti que havia sido até mesmo meio rude, logo depois que terminei de dizer a última frase. Seu olhar se estreitou e ela abriu a boca algumas vezes para responder, mas desistia logo em seguida. O silêncio que se seguiu denunciou logo que eu tinha descontado minha raiva na pessoa errada. Suspirei, balançando a cabeça lentamente. – Me desculpe, por favor. Eu estou com muita coisa na cabeça, não deveria ter despejado nada em você.
- Aparentemente a vida não anda tão boa assim. – ela murmurou, evitando um pouco olhar para mim.
- E você, tá fazendo o que da vida? – perguntei, tentando mudar o rumo da conversa, fingindo algum interesse.
- Trabalho para uma gravadora, sou uma espécie de caça-talentos. – Valentina disse, como se não quisesse mais conversar.
- Nossa! – exclamei surpreso com o rumo que a sua vida tinha tomado. – Que diferente, nunca imaginei que você fosse acabar fazendo algo assim...
- Melhor do que ser diretor financeiro de uma empresa. – disse, dando de ombros e reprimindo um sorriso. Sorri de volta, tentando melhorar o clima ruim que tinha se instaurado. – Mas eu estou passando por um momento ruim. Ruim não, péssimo. – sua expressão foi de frustrada, para uma que parecia que ela tinha tido a melhor ideia do mundo. – , você pode ser minha salvação.
- Do que você tá falando? – perguntei, vendo seus olhos brilharem como se ela fosse uma criança na manhã de natal.
- , eu posso te ajudar a realizar um antigo sonho, aquele que deve estar escondido aí dentro, perdido em meio a um monte de problema conjugal e familiar.
- Do que você tá falando? – perguntei novamente, já totalmente perdido no assunto.
- Eu quero levar você pra minha gravadora. – ela disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Eu não tive outra reação a não ser rir. E muito. Eu tinha entendido como uma piada, daquelas bem sem graça, que você só ri quando tem muito álcool no corpo. Valentina me olhava como se eu fosse completamente louco. E conforme eu ia entendendo que aquilo não era uma piada, a minha vontade de rir diminuía. Como se fosse inversamente proporcional à confusão que passava a ocupar minha mente.
- Você só pode estar louca. – murmurei, bebendo o restante da minha cerveja, que já estava até quente. – Muito. Muito. Muito louca.
- Não é loucura, , presta atenção. O mercado está lotado de adolescentes sem talento nenhum, que só conseguem algo pela aparência. Ele carece de artistas como você, mais velho, talentoso e que também é bonito. É como o pacote completo. Pense num John Mayer ou no Adam Levine. Você pode ser como um deles daqui a um ano, é só confiar em mim.
- Você está completamente louca. – repeti, levantando do banco e pegando a carteira para pagar a conta. Valentina colocou uma das mãos sobre a minha, me impedindo de continuar.
- Só quero uma chance. A gente grava uma demo e eu levo na gravadora, se eles não gostarem, ótimo, você continua com a sua vida chata. Mas se eles gostarem, , sua vida vai mudar. – tinha algo em sua voz que parecia me convencer um pouco a cada frase. Eu sentia que deveria sair logo, antes que eu cometesse a loucura de aceitar participar desse circo louco. Mas ao mesmo tempo, eu sentia que queria participar. Queria fazer uma loucura, não pensar nos problemas ou em qualquer outra coisa que não fosse eu. Me senti absurdamente egoísta quando pensei nisso. E, infelizmente, também me senti bem.
- Você nem sabe se eu ainda sei cantar. – ponderei, com um tom de voz já quase de aceitação. Valentina sorriu, prevendo minha rendição.
- É como andar de bicicleta, . A gente nunca esquece.


Depois de dormir no sofá, saí de casa antes que alguém acordasse, queria evitar perguntas antes que tivesse qualquer resposta. Valentina tinha marcado comigo no estúdio de um amigo dela, para que pudéssemos gravar antes que eu tivesse que trabalhar. Eu me sentia como uma criança prestes a andar na montanha russa pela primeira vez. Desde que era pequeno, sempre me imaginei um grande rockstar. Gravando dezenas de músicas naqueles estúdios gigantes, com um monte de gente trabalhando pra mim. Mas o máximo que consegui foi ter uma bandinha de garagem, onde o guitarrista mal sabia segurar a guitarra.
Valentina chegou um pouco atrasada e ainda aparentava estar meio embriagada, mas nada que diminuísse minha vontade. Eu estava completamente louco, levando tudo aquilo como se não fosse realidade. Em que momento eu poderia sequer pensar que encontraria com uma garota da escola, que ela me ofereceria a gravação de uma demo e que eu poderia, enfim, realizar o meu maior desejo? Nós entramos no pequeno estúdio e logo de cara eu vi que não seria hoje que eu realizaria meu sonho. Ela me apresentou o Dorian, seu amigo. Nós conversamos por alguns minutos, até que eles me deram um violão e falaram que poderíamos gravar assim que eu estivesse pronto. Mas será que eu estava? Logo de cara já senti que escolhi algo clichê demais, mas não poderia mudar. Beatles é um clássico e clássicos não são clichês. Dedilhei as cordas suavemente, tentando entrar no clima. Era como andar de bicicleta”, eu dizia para mim mesmo. Depois de errar umas dez vezes, comecei a me sentir mais relaxado e assim pude, enfim, curtir mais o momento. E foi o que ajudou.
Cantei a primeira estrofe novamente, sentindo minha voz mais forte e firme. Valentina fez um sinal de positivo do lado de fora, me incentivando para continuar. Contive um sorriso, sentindo a adrenalina dominar o meu corpo. Era como se eu tivesse dezoito anos novamente, sem nenhuma preocupação, trabalho, mulher ou filhos para me preocupar. Era como ser jovem e livre para viver o meu sonho. Como se o tempo tivesse andado para trás e me permitido seguir outro caminho. E o melhor, ou pior, eu não me sentia culpado. Havia alegria demais dentro de mim para ter espaço para a culpa. E pela primeira vez pensei que me sentir egoísta não era tão ruim assim.

Duas semanas depois.



- Você o quê? – perguntou, com uma expressão confusa em seu rosto. Estávamos os três, eu, ela e Valentina, sentados na sala da nossa casa. Eu tinha acabado de contar que tinha gravado uma demo para a gravadora dias atrás e, por um milagre dos céus, eles tinham gostado. E muito. Eles preparam um contrato pra mim e eu deveria entrar em estúdio em poucos dias. Eu mal conseguia conter minha animação, estava quase quicando no sofá, parecia até a Nina quando alguém lhe prometia algum livro novo. – Será que você pode me explicar melhor toda essa situação? – ela pediu, passando a mão pelo cabelo, coisa que ela fazia quando estava muito contrariada.
- A Valentina me convidou para gravar uma música no estúdio de um amigo dela, porque ela achava que eu era o que a gravadora estava querendo. Eu aceitei e eles me adoraram, ofereceram um com contrato e querem que eu entre em estúdio nos próximos dias. Eu trouxe o contrato para você dar uma olhada também. – falei, puxando os papéis de dentro do envelope, com um sorriso enorme nos lábios. segurou o papel com má vontade, sem nem olhar para eles.
- Por algum acaso eu vou advogada para olhar o seu contrato? – disse, me devolvendo e levantando rapidamente, respirando fundo. – Será que a gente pode conversar a sós? – ela não esperou que eu respondesse, apenas caminhou até as escadas.
- Eu já volto. – falei para Valentina, seguindo logo em seguida. Vi que foi até o nosso quarto. Entrei e logo fechei a porta. – Olha, isso foi meio rude... – comentei, vendo-a gira o corpo para me olhar, com uma expressão nada agradável.
- Rude? – ela perguntou, rindo em seguida. – Sério, , eu fui rude? E você foi o quê?
- Como assim? – perguntei, confuso.
- Como assim? Você chega com uma estranha aqui em casa, falando que ela te ofereceu um contrato com uma gravadora, porque você gravou uma demo dias atrás. E eu sem saber de nada, isso porque eu sou sua esposa. Eu não deveria ter direito de opinar nisso ou, ao menos, ficar sabendo com antecedência? Não deveríamos compartilhar as coisas? Por que você anda escondendo as coisas de mim?
- Eu não estou escondendo nada, apenas esperei ter tudo certo para contar, não queria criar expectativa sem necessidade.
- Expectativa? Agora eu devo ficar feliz com tudo isso? – ela perguntou, balançando a cabeça em seguida. – Eu não sei o que se passa na sua cabeça, de verdade.
- E eu não entendo o problema, . – ela me olhou bem séria, sentando na cama de forma que ela não precisasse me olhar.
- O maior problema é o seu egoísmo, . Para e pensa no momento em que você escolheu pra isso. Eu tenho que lidar com o meu trabalho, as tarefas domésticas, nossos filhos, a Ally e o nosso neto. Você não divide nada disso comigo...
- É pecado eu focar um pouco na minha vida por um tempo? – perguntei, vendo seu rosto virar para minha direção, com um olhar chocado. Pensei em me desculpar, mas não tive tempo.
- Sabe o que você faz? Pega as suas coisas, o seu contrato, a sua nova amiga e vai viver a sua vida. – ela disse, levantando bruscamente e andando em direção à porta. Fui mais rápido e me coloquei entre as duas.
- Então tudo isso é por causa da Valentina? Você tá com ciúme? – perguntei, vendo-a abaixar os olhos e suspirar.
- Muito pelo contrário, . É difícil falar isso, ainda mais depois de tanto tempo de casamento, mas o último motivo disso – ela apontou para nós dois – É ciúme. O último. Você esteve tão cego e distante de tudo nos últimos dias, que não viu que esse casamento afundou. Ele já tinha dando sinais há tempos e não acho que tenha salvação. Por isso você pode fazer o que quiser da sua vida, pode agir como se tivesse dezoito anos e nenhuma responsabilidade. Pode agir da maneira mais irresponsável que quiser. Porque se você quisesse que eu, ou qualquer um dessa família, participasse, você não teria esperado, teria compartilhado sua felicidade com a gente. Era assim, você lembra? Acho que não, né? Você tem pensado muito em você mesmo nos últimos dias. – parou de falar por alguns segundos, mordendo o lábio inferior. Não havia sinais de lágrimas ou arrependimento em seu olhar. Na verdade, ela me olhava de forma dura, bem diferente de antes, quando havia sinal de amor nele. – Pode assinar aquele contrato e viver seu sonho, mas não conte comigo para isso. Eu cansei.
- Você cansou? – perguntei, sentindo um nó se formando em minha garganta. Aquela reação parecia tão drástica, não conseguia entender o porquê de ela agir assim.
- Eu quero o divórcio. – ela disse de repente, encarando o chão e assim continuou pelos segundos que vieram a seguir. Eu não conseguia juntar palavras para falar qualquer coisa. Quando cheguei em casa minutos atrás, eu estava ciente que minha vida mudaria completamente, mas não dessa forma. Eu só conseguia pensar que essa atitude era completamente injustificável, não precisava ser tão drástico, tão... Eu nem tinha palavras.
- Nós vamos terminar um casamento de dezessete anos por isso? – me forcei a falar, vendo abaixar os olhos, balançando a cabeça lentamente.
- Se você acha que é só por isso, nós não temos mais nada para conversar.

/’s POV




Duas semanas depois.



Fiquei sem falar com o por uma semana, só sabendo dele pelas crianças. Não que eu não quisesse falar com ele, porque eu queria. Eu estava me sentindo meio envergonhada por ter agido de uma forma tão intensa e queria pedir desculpas, mas sabia que o jeito de fazer isso não deveria ser por telefone. Uns dias depois, quando ele estava falando com a Nina, ela chegou perto de mim e perguntou se eu queria falar com ele, porque ele estava com saudades. Eu peguei o telefone e mal consegui falar uma palavra, porque comecei a chorar igual uma louca. Ele aguardou pacientemente do outro lado da linha e eu sentia que ele também chorava. Aquilo, pra mim, foi como um pedido de desculpas de ambos os lados, porque eu não precisei falar nada. Ele apenas disse: “Nos vemos em cinco dias”, e eu desliguei em seguida. E depois foi como se os dias se arrastassem, não ficava tão ansiosa para vê-lo desde quando começamos a namorar.
Assim que ouvi o barulho de carro parando na frente de casa, eu corri para a janela. Pude vê-lo descendo do carro e batendo a porta, acenando para alguém em seguida. Estávamos todos reunidos na sala para esperá-lo: eu, Arthur, Ally e Nina. De todos, eu era, de longe, a mais nervosa. Como não conseguia me controlar, me escondi na cozinha, fingindo que estava terminando de preparar a comida. Ouvi a porta abrir e Nina gritar: “Papai!”, respirei fundo e continuei apoiada na pia, apenas ouvindo o reencontro deles. Fechei os olhos e encarei o nada, sentindo o peso das palavras que eu havia dito a ele. Não que eu estivesse completamente errada, mas eu sabia que tinha exagerado. Ouvi alguns passos pelo corredor e me preparei para ouvir sua voz, mas ele não disse nada, apenas apoiou as duas mãos na lateral do meu corpo, deixando seus lábios tocarem a região do meu pescoço. Senti meus pelos arrepiarem e a vontade de chorar voltou. não disse nada, ele apenas continuou lá parado, com sua respiração tocando meu pescoço e me fazendo ficar arrepiada muitas vezes em seguida. Algum tempo depois, ele fez com que eu virasse o corpo e ficasse de frente pra ele. Continuei olhando para baixo, até que ele levantou meu rosto, me fazendo olhá-lo. Me preparei para falar, mas ele me silenciou com um beijo. Um longo e suave beijo. Minhas mãos foram para a sua nuca, trazendo seu rosto para mais perto ainda do meu. Era como nada que eu tivesse dele agora fosse o bastante, eu precisava tanto, tanto dele, que tive que me lembrar das crianças na sala, antes que evoluísse para qualquer outra coisa. Suspirei pesadamente quando seus lábios se afastaram dos meus, vendo que ele sorria de lado.

- Eu não quero falar mais sobre isso. – ele pediu. – Não quero mais brigar com você dessa forma.
- Não vamos mais brigar por causa disso. – prometi, desejando fortemente que isso realmente acontecesse.
- Eu prometo que nada vai mudar. – respondeu. – As coisas serão como sempre foram.

Duas coisas aconteceram a seguir, uma na mesma noite e outra nas semanas seguintes:
1. Nós nos amamos como não fazíamos há muito tempo. Era como se nada tivesse acontecido. Meu corpo o desejava tão ardentemente, que nem mesmo toda a noite parecia ter sido o bastante. Eu poderia ficar naquela cama pelo restante do dia, da semana ou até mesmo do mês;
2. Duas promessas foram quebradas.

Bem, em partes. Quando prometeu que nada mudaria, ele até estava certo. Nada mudou, ele continuou sem tempo para a família, só que agora era o cd, a gravadora e a Valentina que estavam sempre com ele ou atrás dele. Até mesmo os poucos minutos que ele tinha para nós eram ocupados por telefonemas ou visitas inesperadas. Eu cheguei no meu limite quando, num belo dia, eu tinha pedido que ele pegasse Nina na escola, porque eu teria que ficar lá durante toda a tarde, porque teria que levar Ally no médico. Quando cheguei em casa no meio da tarde, estranhei por estar tudo muito silencioso. Fui até o quarto da Nina e ela não estava, assim como . Liguei para o celular dele e estava desligado. Estava começando a me preocupar quando ligaram da escola e disseram que Nina ainda estava lá, e que precisariam que alguém a buscasse, porque eles já estavam fechando tudo. Voei até a escola e encontrei minha filha furiosa. Eu nunca tinha visto Nina tão chateada na vida. Pedi mil desculpas a ela, mas ela apenas disse: “A culpa não é sua, não precisa se desculpar.” Todos sabíamos de quem era a culpa.
Jantamos em silêncio naquela noite e eu pedi licença logo em seguida, indo para o quarto. Tentei cochilar um pouco, mas eu estava tão nervosa, que mal conseguia fechar os olhos. Minutos depois eu ouvi algumas vozes exaltadas vindas da sala e levantei apressada. Cheguei bem no momento onde Arthur confrontava o pai, dizendo algumas verdades que ele precisava entender de uma vez por todas.

- Você tem que entender que ser pai também é estar presente. Você esqueceu minha irmã na escola hoje. – Arthur gritou, enquanto respirava fundo.
- Você quer falar de paternidade agora? Só porque engravidou a namoradinha, já acha que é o melhor pai do mundo. – ele disse e eu vi o rosto de Arthur ficar vermelho. Ele olhou para as escadas e me viu, o que fez com que ele se acalmasse um pouco.
- A questão não é eu ter engravidado da Ally, a questão é eu ser mais pai da Nina do que você. Me diz quantas vezes você foi em alguma prova dela nos últimos meses. Quantas vezes você a buscou na escola, ou fez coisas simples como colocar o almoço ou o jantar dela? Eu faço alguma coisa assim todos os dias, acho que eu sou mais pai dela do que você. Será que não percebe, ou finge que não percebe, que colocou tudo na frente que qualquer um de nós? – ele parou um pouco, respirando fundo muitas vezes antes de continuar. – Eu nem falo por mim, porque eu já desisti de você, falo pela Nina, porque ela ainda acredita, ou acreditava, porque depois de hoje, eu realmente não sei. Acho que mais um brinquedo não vai consertar nada dessa vez.
- Quem você pensa que é pra falar assim com o seu pai? – perguntou, com um tom de voz bem estranho, quase ameaçador.
- Por que, , ouvir verdades do seu filho dói? Ver que seu filho é mais pai da sua filha dói? Ou será que você vai precisar ouvir tudo isso de mim para poder aceitar? – perguntei, caminhando até onde eles estavam. – Arthur, vai lá pra cima. – pedi e ele subiu sem falar mais nada.
- Esse menino está muito abusado. – ele começou a falar, mas eu nem deixei que continuasse.
- Não é questão de abuso, ele só te disse verdades. Você esqueceu sua filha na escola hoje. Desligou o celular, sumiu a tarde toda e não fez a única coisa que eu te pedi. Eu não posso me dividir em dez para cumprir os meus compromissos e os seus.
- Eu precisei ir até a gravadora para acertar alguns detalhes, a Valentina disse que era urgente. – ele disse e foi a hora do meu sangue ferver.
- É sempre Valentina, gravadora, cd, gravadora ou Valentina. São sempre as mesmas desculpas e eu estou cansada. Ou melhor, estou exausta. Eu não tenho que lidar com isso, não tenho mesmo. Você me disse que nada ia mudar, que ia conseguir conciliar tudo e adivinha? Você conseguiu a façanha de ficar ainda mais tempo longe de casa. – parei, olhou bem atentamente para o seu rosto. – Eu estou no meu limite.
- O que você quer, que eu largue tudo por vocês? – ele disse, um pouco mais alto.
- Foi exatamente o que eu fiz. – respondi, no mesmo tom. – Abri mão de tudo e não estou correndo atrás do tempo perdido agora.
- Você não tá sendo justa comigo. – ele disse, falando mais baixo, tentando me acalmar.
- Você quer falar de justiça, sério mesmo? Será que é justo que uma menina de dez anos passe a tarde toda na escola, só porque o pai dela a esqueceu lá? Será que é justo que um irmão aja como pai, porque você não cumpre as promessas que faz? É justo que eu tenha que carregar todas as responsabilidades da casa, porque meu marido resolveu que iria viver a vida dele como ele sempre sonhou? – fiz uma série de perguntas para as quais ele não tinha resposta. – É justo o meu marido viver uma vida onde não tem espaço pra mim e para os nossos filhos?
- E o que você quer que eu faça? Quer que eu escolha? – perguntou e eu sorri, completamente sem humor.
- Não, não quero que você escolha, porque, como eu já disse, eu cheguei ao meu limite. Por isso eu vou escolher por você. – falei e ele sentiu para onde essa conversa se encaminhava. Só que dessa vez, eu estava deixando muito claro que eu não mudaria de ideia com apenas um telefonema. Tudo aquilo tinha ido longe demais. – Se eu tenho que cuidar de tudo sozinha, eu prefiro fazer isso sozinha de verdade.
- Já é a segunda vez que você pede o divórcio, é melhor você parar de brincar com isso. – ele pediu, num tom voz bem baixo, como se quisesse me fazer repensar.
- Eu nunca falei tão sério na minha vida. Cansei de ser um peso pra você, cansei de ser aquilo que te puxa pra baixo, porque assim eu acabo indo pra baixo também. Você quer viver, , e eu não vou te prender.
- Se você falar isso mais uma vez, eu...
- Se você não sair, saio eu. – o cortei, seguindo para a cozinha em seguida, sem deixar que ele falasse alguma coisa.

Eu estava sentada no sofá, quando ouvi o barulho das malas. desceu com a primeira e depois trouxe as outras duas. Eu comentei o que estava acontecendo com as crianças e elas estavam paradas no meio da escada. Ouvi Nina chorar e vi que Arthur passou o braço pelos ombros dela, fazendo com que seu rosto ficasse junto ao corpo dele. Eu sei que deveria levantar e abraçar meus filhos, ajudar a consolá-los. Só que eu também precisava que alguém fizesse isso por mim, porque eu estava mais do que acabada, quase destruída. Eram dezessete anos da minha vida. Tempo onde tive que desistir de muitos sonhos e viver muitos pesadelos. Só que nada do que eu possa ter pensado em fazer quando era jovem, valia mais do que aquelas duas pessoinhas paradas na escada. Eu não os trocaria por nada. Eu não era como o , por isso era ele que estava indo embora agora. E a partir desse momento, mais do que nunca, eu teria que ser mãe e pai. Teria que ocupar o lugar deixado por ele. E tudo isso se tornou mais difícil quando ele me olhou, perto da porta, ainda vacilante, como se esperasse que eu mudasse de ideia. Mas eu não iria. sabia disso. Então a porta se abriu e ele se foi. E junto com ele um pedaço do meu coração.

Dois meses depois.



Meu mundo estava de cabeça para baixo, mas as coisas pareciam estar se acertando nos últimos dias. Depois que saiu de vez pela porta da frente, ele não apareceu muitas vezes, nem mesmo para ver os filhos. Nina sempre perguntava onde ele estava e porque não vinha vê-la. E é bem difícil explicar para a sua filha que o pai não vem vê-la porque não quer ou porque não tem tempo para ela. Eu expliquei o que tinha acontecido entre e eu, que havíamos nos separado e que ele moraria em outro lugar agora. Ela até entendeu bem, porque os pais da melhor amiga dela, a Dianna, tinham se separado anos atrás e nós explicamos o que tinha acontecido pra ela naquele tempo. Ela só não entendia o sumiço do pai. E bem, nem eu mesma entendia.
Ally já estava com a barriga aparente e ainda sofria muito com os enjoos, até mesmo a escola ela já tinha largado. Ela estava no quarto mês, quase indo para o quinto, e já sabíamos o sexo do bebê: era um menino. Arthur logo fantasiou como todo pai, falando da quantidade de jogos que verão juntos ou até mesmo quais esportes o menino praticaria. Era engraçado ver a animação dele, porque tudo isso que ele imaginava tanto, demoraria um pouco para acontecer e até lá, muita coisa ainda aconteceria na vida dele. Será que o pique continuaria o mesmo? Ele tem o pai como exemplo que nem tudo é fácil. Eu tentava ajudar da forma que conseguia, porque eu tinha que dividir meu tempo entre ela, meus filhos, meu trabalho e a casa, que vivia sempre uma bagunça. Ally tentava ajudar, indo buscar Nina na escola e ficando com ela durante algumas tardes, mas ela teve alguns problemas e o médico aconselhou mais repouso. Arthur estava focado na escola, porque não podia perder o ano. Ele tinha conseguido uma bolsa na faculdade, mas ainda não sabia se aceitaria. Eu insisti muito para que ele aceitasse, a faculdade era perto de casa e ele nem precisaria se mudar. Só que a prioridade dele era a Ally e o filho, e não poderia tirar sua razão. Gostaria de encontrar um meio termo, mas tem sido difícil.
Nina não teve sua rotina muito modificada, além do fato de ter pedido muito para entrar numa aula de futebol com a Dianna, que eu aceitei, como forma de ajudá-la a se distrair um pouco. O problema era que ela sempre pedia que eu a ajudasse a treinar e eu nunca fui a melhor atleta na escola. Eu tentava, mas ela logo se irritava com a minha falta de habilidade. Arthur a ajudava algumas vezes, mas também não era sempre que ele podia. Nesses momentos, ela sempre falava do pai, porque o pai da amiga sempre treinava com ela. Eu ficava sem saber o que fazer, porque não podia obrigar a participar, já que eu mal sabia onde ele estava. Foi então que Colin, o pai da Dianna, se ofereceu para ajudar a Nina também, assim as duas poderia treinar e brincar juntas.
Colin havia se separado há dois anos e estava sempre com a filha, pelo menos três vezes na semana. Eu sabia que aquilo trazia uma série de dúvidas para Nina, porque ela não entendia porque o Colin estava sempre disponível para a Dianna, e o não estava para ela. E sempre que ela me perguntava algo do tipo, eu ficava sem saber o que falar, porque, no fundo, ela não estava errada. Eu tentava despistar e até mesmo ligar para o , mas ele sempre falava que viria, mas nunca vinha de verdade.
Na semana passada, depois de um jantar na minha casa, com meus filhos, Ally e Dianna, Colin me convidou para um encontro, me pegando desprevenida. Eu não saía com outro cara há quase dezoito anos, fora que parecia cedo demais para qualquer tipo de envolvimento amoroso. Mesmo depois de lhe dizer isso, Colin falou que não precisava ser algo romântico, nós poderíamos sair como amigos. Porque, pra ele, eu estava focando minha vida nos outros e esquecendo de mim mesma. E pior que era verdade. Eu mal tinha tempo para respirar, muito menos para cuidar de mim ou da minha saúde. Talvez eu estivesse no meio de uma crise nervosa ou de ansiedade, porque não parava de passar mal. Uma alimentação fraca, noites mal dormidas e um nível absurdo de estresse, não podem fazer bem a uma pessoa. Então, mesmo sabendo que o que ele disse era verdade, eu disse que iria pensar, mesmo tendo noção que eu acabaria recusando o convite.
Só que houve uma pequena mudança nos meus planos, quando vi dando uma pequena entrevista na tv, num canal de fofoca bem ruim. A gravadora tinha liberado uma música e um clipe dele no mês passado, para ver como seria a aceitação. E tinha sido muito boa. Então o processo de divulgação estava a todo vapor, até mesmo nos piores programas. Ele falava sobre o clipe e bem ao seu lado estava Valentina, com uma de suas mãos apoiadas no ombro dele. Ela não conseguia deixar suas mãos longe de e aquilo fez meu sangue ferver. Não sei se foi ciúme ou qualquer coisa do tipo, só sei que assim que a matéria acabou, eu liguei para o Colin, aceitando seu convite. dava sinais claros que havia seguido com a vida dele, mesmo tendo se passado apenas três meses, por que eu deveria me manter numa espécie de luto?

- Não que sair com um cara por vingança ao ex seja algo bom, mas talvez seja um bom começo pra você. – Annie, a secretária da escola onde eu trabalhava, disse, depois que eu contei sobre o convite do Colin e a entrevista do . – Mas pensa pelo lado bom, não será nenhum esforço, porque o pai da Dianna é muito gato. E se você não quiser, pode passar pra mim, não vou reclamar.

Marquei um jantar com Colin numa terça-feira, porque havia ligado e confirmado que iria buscar a Nina para levá-la ao cinema. Eu estava até animada para sair depois de tanto tempo, mas eu estava passando mais mal do que o normal naquele dia. Tinha passado a manhã toda sem comer, tinha bebido apenas um café. Acho que o frango que eu tinha comprado para o jantar da noite anterior não tinha me feito muito bem. Bebi um pouco de água e controlei uma vontade louca de colocar o café da manhã pra fora de novo. Já era a terceira vez nessa semana que eu acordava assim indisposta. Só que o mal estar voltou e dessa vez não pude controlar. Annie estava parada perto da porta do banheiro e me olhou de forma estranha, sem falar nada. Passei por ela, indo para a sala dos professores para organizar o material do dia. Ela me seguiu e sentou na minha frente, apoiando os cotovelos na mesa.

- Tá passando mal de novo? – perguntou, fazendo com que eu a olhasse.
- É, eu preciso ir ao médico, eu estou com um mal estar que não passa, acho que estou tendo outra crise nervosa, talvez precise de um calmante. – comentei e ela riu, balançando a cabeça.
- Você pode, por favor, me dizer o que você anda sentindo? – Annie pediu, com um tom de voz meio brincalhão.
- Por quê?
- Só me fala, por favor.
- Mal estar, enjoos, muito sono, falta de disposição...
- Sensibilidade à flor da pele, choros constantes, tonturas e eu juro pra você que seus peitos parecem que vão explodir. – ela completou, arqueando as sobrancelhas e cruzando os braços. – Eu não sei como você já teve dois filhos e não consegue perceber o que tá acontecendo com você, e já eu, que nunca fui mãe, vejo com tanta facilidade.
- Do que você tá falando, Ann? – indaguei, confusa. Ela rolou os olhos e ficou me encarando, como se esperasse que eu descobrisse sozinha. Voltei a pensar nos sintomas que eu enumerei e depois os que ela falou. Eu sentia como se estivesse deixando algo passar e estava me sentindo meio burra. Ela continuou me encarando com intensidade, fazendo meu cérebro funcionar mais rápido. Palavras como enjoos, tonturas e filhos, chamaram minha atenção e minha expressão logo se transformou numa careta de espanto. – Você só pode estar louca. – praticamente gritei. – Completamente louca. – ela esperou que eu me acalmasse e me ofereceu um copo de água.
- Sua menstruação tá normal? – ela perguntou minutos depois, quando eu estava um pouco menos nervosa.
- Não. – praticamente sussurrei, passando a mão pelo rosto. – Eu pensei que fosse alguma questão hormonal desregulada ou que estivesse assim por causa do estresse que eu tenho passado, porque me disseram que pode ter relação. Eu nunca cheguei a cogitar isso, Ann. Nunca.
- Tem alguma chance de você estar grávida?
- Eu acho não, passou muito tempo longe e, se eu realmente estiver, não deve estar muito avançada. Só se tiver sido o dia que ele voltou da primeira viagem, quando tivemos uma noite e... – eu a encarei completamente desolada, eu mal sabia o que pensar. – Annie, eu estou ferrada. – ri de nervoso, sentindo minhas mãe tremerem. – Mais do que ferrada. Ainda tenho mil aulas pra dar hoje e o jantar com o Colin. Meu Deus, eu preciso desmarcar com ele. – falei, pegando o celular na bolsa, mas Annie tirou da minha mão antes que eu pudesse ligar.
- Não vai desmarcar nada sem ter certeza antes. Compra alguns testes na farmácia e faz um exame de sangue amanhã. Não surta sem ter certeza, ok? Não surta!

Sei que a Annie pediu que eu não surtasse, mas foi o que eu fiz o dia inteiro. A manhã e a tarde passaram quase arrastadas. Eu não consegui me concentrar no meu trabalho, com a cabeça a mil, pensando em todos os problemas que eu já tinha. Estar grávida seria apenas a cereja do meu bolo de problemas. Tive uma crise de riso no caminho de volta para casa de tão nervosa que estava. Seria bem cômico se não fosse trágico.
Cheguei em casa um pouco depois das 18h. tinha marcado de chegar as 18:30h e Colin às 19h. E eu nem tinha tomado banho ainda. Larguei minhas coisas no quarto e fui ver se Nina estava pronta. E ela nem tinha tomado banho ainda. Fiz com que ela corresse para o banheiro, enquanto pegava algo para ela vestir. Nesse intervalo, tomei mais de um litro de água, para ter material o bastante para os quatro testes diferentes que eu comprei. Vinte minutos depois ela já estava pronta, penteando os cabelos na frente do espelho. Eram 18:35, então pedi que ela esperasse o pai na sala e depois corri para o banheiro, antes que desperdiçasse toda a água que tinha bebido. Fiz os quatro testes e deixei os bastões em cima da pia, enquanto tomava banho e sentia o tempo passar bem lentamente. De repente os cinco minutos que nunca eram suficientes para o banho, se tornaram horas e mais horas. O alarme do celular soou, avisando que o tempo já tinha passado, mas eu fiquei mais alguns minutos embaixo da água quente, tentando preparar o meu coração para o que poderia acontecer. Fechei o chuveiro e ouvi Nina me chamar. Me enrolei na toalha e esqueci dos testes por um tempo. Mas quando abri a porta do banheiro, não foi com Nina que eu me deparei.

- O que você tá fazendo aqui, ? – perguntei, estranhando vê-lo sentado na nossa antiga cama.
- Vim buscar a Nina, esqueceu? – respondeu, como se eu estivesse meio louca.
- Tô falando aqui no quarto, ela estava te esperando na sala. – falei, passando por ele e pegando o vestido que eu tinha separado e que estava em cima da cama.
- Queria te perguntar uma coisa, mas acho que nem precisa. Então você tem um encontro mesmo, a Nina não estava inventando história.
- E o que você quer dizer com isso? – indaguei, enquanto fechava a porta do banheiro e vestia a minha roupa.
- Nada, só que você me surpreendeu. Não pensei que fosse arrumar um namorado tão rápido. – ele usou o tom sarcástico que eu tanto odiava. Abri a porta e o encarei por alguns segundos antes de responder.
- Sério mesmo que você quer falar alguma coisa sobre rapidez? – perguntei, me aproximando dele. Parei bem na sua frente e olhei em seus olhos. – Você está cheirando exatamente como a Valentina, espero que ela não passe essa noite junto com a minha filha.
- Isso é ciúme? – ela sorriu de lado e eu rolei os olhos.
- Não, isso é nojo mesmo. – respondi, imitando seu sorriso. Ele olhou para frente e franziu as sobrancelhas.
- O que é aquilo em cima da pia? – falou, caminhando para frente. Eu corri antes de dele, fechando a porta do banheiro e colocando meu corpo no caminho.
- Nada que seja da sua conta. – respondi rapidamente. Ele tirou minha mão da maçaneta e a abriu quase sem dificuldade, mas eu ainda estava na frente. Corri novamente e encarei os quatro bastões em cima da bancada do banheiro. Meu coração deve ter parado, porque eu senti meu sangue gelar. Senti os olhos de em mim, mas ele era minha última preocupação no momento. Não bastava ter que lidar com uma separação e a gravidez da minha nora, eu teria que lidar com a minha gravidez. Era demais para uma pessoa só. Pela primeira vez, eu senti que não aguentaria. Levei uma das mãos à boca e apoiei a outra na bancada, tentando acreditar que tudo aquilo era apenas um pesadelo e que eu acordaria muito em breve. Mas, como nada na minha vida estava dando certo no momento, a realidade não me deu nem mesmo um segundo de ilusão.
- , você tá grávida? – perguntou, me arrastando de volta ao olho do furacão.
- Bem, é o que os quatro testes dizem. – respondi, dando as costas e voltando para o quarto. O ar do banheiro parecia pesado demais, deixando quase impossível respirar. Mas eu logo percebi que o problema não era o ambiente, mas eu mesma.
- Você pode me explicar o que tá acontecendo? – falou, me seguindo aonde quer que eu fosse.
- A última coisa que eu quero agora é ter que lidar com você. Por favor. A gente conversa depois. – pedi, mas ele me ignorou completamente.
- De quem é esse filho, ? É desse cara com quem você vai sair hoje? – suas perguntas me pegaram desprevenida, tanto que eu girei o corpo para encará-lo, com uma expressão quase indecifrável.
- Que tipo de pergunta é essa? Você ficou louco? – meu primeiro pensamento foi voar no pescoço dele, mas logo vi que não era uma ideia aceitável. Seria bom para a minha raiva, mas apenas um problema a mais para o futuro.
- Como eu vou saber? Você tem um encontro hoje, quem pode me garantir que você já não deve semana passada ou meses atrás? – assim que ele terminou de dizer a frase, minha mão foi de encontro ao seu rosto. me encarou, sem reação. Eu ainda estava o encarando, com os dentes trincados e o sangue fervendo de raiva.
- Você nunca mais insinue nada ao meu respeito, eu não sou você. – falei, saindo do quarto num rompante, mas me seguiu novamente e segurou meu braço.
- Eu preciso de uma explicação, . Afinal, esse filho também é meu. – ele disse, mordendo o lábio inferior. O lado esquerdo do seu rosto estava tom num mais avermelhado e, por um momento, eu até me senti um pouco culpada e arrependida.
- Que tipo de explicação você precisa? Quer que eu te diga como os bebês são feitos? – soei bem sarcástica, da forma que ele sempre odiou também. – Eu não tenho nada para te dizer e muito menos explicar, ponto final.
- Claro que tem. – respondeu, passando a mão pelo rosto, como fazia quando estava nervoso. – Você vai fazer o que, criar essa criança sozinha?
- Bem, acho que não vai ser tão difícil, eu já criei duas.

Eu estava sentada na cama quando ouvi a porta da frente bater. Nina veio me dar um beijo antes de sair, mas não quis mais me ver naquela noite. Eu fiquei sozinha, encarando a parede e pensando em tudo que lhe disse minutos antes. Provavelmente tenha sido um pouco demais, só que eu não tenho conseguido controlar minhas opiniões quando o assunto é o . Sentia como se tivesse um bolo em minha garganta, formado apenas por tudo aquilo que eu queria dizer a ele e nunca consegui. O peso de suas acusações e das minhas respostas parecia ter caído em meus ombros e eu sentia como se não fosse conseguir mais levantar.
Tudo piorou quando a campainha tocou, me dei conta que Colin havia chegado e eu não estava no clima para jantar algum, muito menos depois de descobrir que estava grávida novamente e brigar, mais uma vez, o pai da criança. Mas eu também não podia deixá-lo esperando do lado de fora, fingindo que não tinha ninguém em casa. Então eu desci e abri a porta, deixando-o entrar. Acho que minha expressão denunciou que alguma coisa não estava bem, porque ele logo assumiu o tom preocupado que lhe era característico. Nós sentamos no sofá e eu logo lhe disse que não tinha condições de sair com ele naquela noite. E é claro que ele perguntou o motivo. Ponderei se deveria abrir o jogo ou não, só que cheguei à conclusão que cedo ou tarde, todos saberiam da minha gravidez. Então contei tudo a ele, voltando aos primeiros problemas que levaram à minha separação, até a briga dessa noite. Quando falei na gravidez, percebi sua expressão mudar para algo como espanto, mas Colin não deixou transparecer muita coisa. Depois que aluguei seus ouvidos por um bom tempo, ele apoiou sua mão por cima das minhas e me deu um sorriso largo e verdadeiro, dizendo:

- Vai ficar tudo bem, de uma forma ou de outra.

Eu tentei não pensar muito no “de uma forma ou de outra”, porque eu não tinha entendido e acabaria pedindo uma explicação e prolongar essa conversa era a última coisa que queria. Minutos depois Arthur chegou com a Ally e se espantou de nos ver sentados no sofá, porque eu já tinha lhe dito que iria sair. Colin pediu licença, dizendo que iria comprar alguma coisa para comermos, mas eu sabia que ele estava no dando um tempo a sós com o Arthur para lhe contar tudo. Agradeci com um sorriso e voltei meu olhar para o meu filho e minha nora. Eles me encaravam com um misto de preocupação e curiosidade, porque eles também sentiram que a conversa de comprar comida era apenas uma desculpa. Então, sem prolongar muito, eu soltei a bomba no colo deles:
- Eu estou grávida.

Arthur pareceu estar em estado de choque e Ally só levou uma das mãos à boca. Depois ela se levantou e sentou ao meu lado, passando um braço ao redor da minha cintura. Ri com a situação, porque me senti com dezessete anos novamente, contando da minha primeira gravidez inesperada. E por diferença de alguns meses, nós trocamos de posição. Agora era ela que me confortava e dizia que tudo ia ficar bem. Arthur mordia o lábio inferior e encarava o teto, como se ainda estivesse digerindo a notícia. Estiquei uma de minhas mãos e peguei a sua. Olhei em seus olhos e sorri de lado, querendo lhe dizer que estava tudo bem. Ele me encarou de volta e soltou um suspiro pesado, sorrindo também.
- Bem, se pensarmos pelo lado positivo, eles poderão brincar juntos quando crescerem, né?

Ouvimos um barulho de carro horas depois, mas só Nina entrou pela porta e pela sua cara, não tinha falado nada para ela. Menos mal, eu poderia contar as coisas do meu jeito. Colin já tinha ido embora e só estávamos eu, Arthur e Ally em casa. Sentamos todos no sofá e eu disse que tinha algo importante para contar a ela. Nina esperou pacientemente, estranhando as feições de todos ao redor. Comentou algo como “é, deve ser algo importante mesmo.” Eu sorri, segurei uma de suas mãos entre as minhas, respirei fundo e disse:

- Querida, a mamãe vai ter outro bebê. – observei seu rosto, esperando pela sua resposta ou apenas um comentário. Ela ficou olhando diretamente pra mim, mordendo o lábio inferior. Seus lábios se curvaram num sorriso e ela colocou suas mãos na minha barriga, ainda sem falar nada. Não sabia se ela tinha entendido direito, acreditava que sim, porque, por mais que ela não soubesse exatamente de onde vêm ou como são feitos os bebês, ela sabia o processo de uma gravidez, porque eu já tinha explicado quando falamos da gravidez da Ally. Olhei para Arthur e ele também sorria, tendo a cabeça da namorada apoiada em seu ombro. De repente me deu uma vontade louca de chorar e eu não consegui me segurar. As lágrimas desciam pelo meu rosto e uma caiu na mão de Nina. Ela olhou pra cima e alargou o sorriso, dizendo:
- Nossa, os bebês ainda nem nasceram e já tem muito choro nessa casa.

Três meses depois.



A vida estava aparentemente tranquila. Depois que fiz os quatro testes de farmácia, fiz um exame de sangue para ter uma confirmação, que realmente veio. O choque inicial passou e depois só restaram a alegria e aquele frio na barriga do inesperado. Minha barriga já dava sinais, mas nada comparada a da Ally, que parecia quase ter vida própria. Ela estava com quase oito meses e entrando na reta final da sua gestação. Fizemos algumas obras na casa, transformando o antigo escritório num quarto para Nina, para o antigo quarto dela pudesse ser o do bebê, ou dos bebês, porque não tínhamos decidido se eles dividiriam o quarto.
apareceu em casa algumas poucas vezes para visitar os filhos e trouxe um presentinho para o neto, tentando mostrar que se importava. Eu tentava não manter muito contato com ele, pois a única coisa que fazíamos quando isso acontecia era brigar e eu não queria mais confusões. Aparentemente ele estava em constante contato com a Nina, mas eu resolvi não intervir, afinal eles eram pai e filha e deveriam ter o maior tipo de contato que fosse possível.
O que estava complicando um pouco a minha vida era o fato de Colin estar insistindo um pouco mais num possível avanço na nossa relação, que nem sequer existia, diga-se de passagem. Ele sempre estava por perto quando eu precisava, ficava com a Nina quando tínhamos alguma consulta ou exames para fazer e sempre aparecia disposto a me levar para sair, seja para esquecer os problemas ou para comprar algo que tinha despertado meu desejo de grávida. Eu me sentia dividida, pois ao mesmo tempo em que me sentia culpada por abusar de sua boa vontade e me aproveitar do fato de que ele sentia algo por mim, eu me sentia bem por ter alguém que se preocupava comigo e zelava pelo meu bem estar. Enquanto nem se dava ao trabalho de perguntar como a minha gravidez estava, Colin estava presente quando o bebê se mexeu pela primeira vez, ocupando o papel de pai babão. Naquele momento eu senti que as coisas estavam indo rápido demais ou tomando um rumo que não deveriam. Eu não tinha nenhum interesse romântico pelo Colin, eu apenas gostava da sua companhia e da sua disposição. Ele havia se tornado um amigo querido que, infelizmente, via as coisas de forma diferente.
Talvez o maior problema fosse o fato de que eu não conseguia me desligar de , tudo me lembrava ele. Desde o cheiro dele, que ainda estava no travesseiro e por toda a cama, passando pelo lugar dele vago na mesa, e até mesmo a nossa foto de família, que eu não consegui tirar no móvel da sala. É difícil se envolver com alguém, depois que seu coração pertenceu a apenas uma pessoa pelos últimos dezoito anos. Nem no meu pior pesadelo eu imaginei que estaria sem o em minha vida. Na minha cabeça, nós estaríamos juntos até o fim. Como num conto de fadas. Talvez tenha sido apenas tolice da minha parte. Talvez eu ainda pensasse como uma menina de dezessete anos de idade, que tinha seu amor retribuído pela primeira vez. Ou talvez, apenas talvez, eu ainda amasse desesperadamente o meu marido e não queria esquecê-lo.

Saí da última aula do dia, deixando minhas coisas na mesa da sala dos professores e pegando o celular na bolsa. Estranhei e me preocupei quando vi mais de dez chamadas não atendidas de Arthur no meu celular. Um nó se formou em minha garganta e eu senti algo parecido com uma dor no coração. Tantas ligações não atendidas não poderiam significar algo bom. Liguei de volta, apressada, respirando fundo a cada toque que o celular dava e não era atendido. Quando eu já estava quase desligando, para tornar a ligar depois, ouvi a voz de Nina do outro lado da linha. Meu sangue gelou, algo havia acontecido de verdade.
Caminhei apressada pelos corredores, seguindo as instruções que havia recebido na recepção. O trajeto sempre parece longo demais quando você está com pressa ou quando algo ruim acontece. Nunca é fácil chegar ao seu destino quando você não consegue conter o nervosismo. Avistei Nina sentada sozinha no corredor, em frente ao quarto 1004, que haviam me informado ser o da Ally. Ela sorriu quando me viu e acenou brevemente. Corri até ela e abracei forte, recebendo um beijo no rosto.

- Cadê seu irmão? – perguntei, sentando ao seu lado.
- Tá dentro do quarto com a Ally, tem um médico lá com eles.
- Vocês chegaram aqui há muito tempo?
- Um pouco, acho que uma hora ou mais. É difícil de saber, porque o tempo passa muito devagar aqui. Parecia que eu estava há horas aqui sozinha, antes de você chegar, mas não deve nem ter passado nem dez minutos. Ainda mais quando o seu celular está sem bateria e você não pode se distrair com joguinhos ou música. – ela comentou, sorrindo de lado.
- Você estava lá dentro com eles?
- Não, tava aqui fora com o papai. – disse, dando de ombros. Arregalei um pouco os olhos, estranhando a resposta.
- Seu pai tá aqui? – perguntei baixo, como se fosse um segredo.
- Sim, ele veio com a gente, porque não conseguimos falar com você e precisávamos de uma carona. O Arthur estava tão nervoso, que não conseguia pensar em nada, a Ally estava cheia de dor e também não falava o que fazer. Então eu liguei pro papai. – Nina respondeu, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
- E onde ele tá?
- Foi ver se conseguia um carregador pro meu celular, porque achou que você poderia tentar me ligar ou algo assim. – ela explicou, mas eu ainda estava meio espantada pelo fato do estar aqui. Não porque ele não fosse responsável o bastante para isso, mas sim porque ele estava disponível para isso. O que foi essencial no fim das contas. Eu ainda não sabia muito bem o que tinha acontecido com a Ally, porque a Nina não tinha conseguido explicar direito, mas saber que havia assumido o controle da situação, me deixou menos preocupada, mais agradecida e até mesmo um pouco envergonhada por ter pensado mal dele antes. Nina olhou para o lado e sorriu, imitei seu gesto, vendo caminhar em nossa direção. Era estranho vê-lo depois de tanto tempo. Porque às vezes eu sentia como se nada tivesse mudado em nossa vida, como se ele fosse chegar do trabalho a qualquer momento. Mas as horas se passam e ele não chega. E então eu me dou conta de que ele não vai voltar. Nem pra casa e nem pra mim.
- Oi. – ele disse, sem olhar diretamente em minha direção. Voltou o olhar para Nina, lhe estendendo o carregador que tinha conseguido. – Ali na frente tem uma tomada. – ela sorriu em resposta, saindo do meu lado e indo até onde ele tinha apontado. Ele ficou alguns segundos em pé, como se estivesse pensando se deveria ou não sentar ao meu lado. Só que antes dele decidir, a porta do quarto se abriu e encaramos o rosto pálido e assustado de Arthur bem ao lado do médico. Levantei rapidamente, desesperada para que alguém me explicasse realmente o que tinha acontecido.
- Ela disse que caiu da escada, quando estava quase chegando no primeiro andar, e que bateu com a região lombar no chão. Ela chegou aqui reclamando de fortes dores na parte inferior da barriga e com um leve sangramento. – o médico começou a explicar e eu comecei a me sentir mal, como se estivesse com a pressão baixando. A respiração estava pesada e o corredor girava de uma forma de não deveria girar. – Depois dos exames nós vimos que houve um descolamento de placenta. O bebê está bem, ela também, mas a situação pode se agravar, pois quando há esse descolamento, a oxigenação e a alimentação do bebê podem ser prejudicadas. Então nós vamos adiantar o parto, ela está sendo preparada pela enfermeira agora, recebendo alguns remédios para induzir e acelerar o procedimento. Por mais que façamos uma cesariana, queremos que o corpo dela esteja preparado, para que não haja nenhum problema ou sequelas. – o médico continuava falando, mas eu tinha o perdido quando ele disse que o parto seria hoje. Nesse momento minha vista escureceu e eu senti meu corpo escorregar em direção ao chão. Só que ele nunca chegou.
Quando abri os olhos novamente, encarei um teto branco e com muitas luzes, que incomodavam bastante os meus olhos. Tentei me mexer, mas haviam duas mãos pousadas em minha barriga que dificultaram um pouco meus movimentos. manteve os olhos fixos à minha barriga e só olhou em minha direção quando percebeu que eu tinha acordado.
- Como você tá se sentindo?
- Tô bem, acho que foi uma queda de pressão pelo nervosismo, mas já estou pronta para outra. – falei, encarando suas mãos apoiadas em mim.
- Desculpa. – ele pediu, fazendo menção de se afastar do pequeno monte que havia se formado em meu ventre. – É que eu ainda não tinha te visto assim pessoalmente e tinha esquecido como você fica linda quando tá grávida. Você já é linda normalmente, mas quando tem uma pessoinha aqui dentro, fica algo fora do normal. – ele alisou minha barriga e eu senti meu bebê se mexer em resposta. Pela reação de , ele também sentiu. Suas mãos se espalmaram, ele mordeu o lábio inferior com força e eu podia jurar que havia lágrimas em seus olhos.
- Tá tudo bem. – murmurei, rezando para que eu conseguisse me controlar. Meu choro estava meio que descontrolado nos últimos dias e eu queria, com todas as forças, prolongar esse momento. – Acho que o bebê gostou do seu carinho também. – sorri levemente, vendo-o olhar em minha direção, com aqueles enormes olhos brilhando. Senti meu coração apertar e um nó se formar em minha garganta. Já era difícil o bastante vê-lo depois de tanto tempo e essa situação só estava tornando tudo pior. – E a Ally?
- Foi medicada e o médico tá esperando alguma resposta do corpo dela. Eles estão monitorando o bebê e tá tudo certo ainda. Você pode relaxar, não nos dê mais sustos, um é o bastante por hoje. – sorri mais abertamente, mas estranhei o tom que ele estava usando comigo. Parecia que ele não estava confortável e medisse cada palavra antes de falar. Antes era tão fácil conversar com ele. Simples como respirar. Algumas vezes nem precisávamos de palavras, uma troca de olhar bastava. Mas agora era como se tivéssemos que pensar mil vezes antes de dizer um simples “oi”. As coisas não deveriam ser assim. continuava com as mãos em meu ventre e só retirou uma delas para secar o rosto rapidamente, retornando logo para a posição. – Aposto que devem estar pensando que sou um pai de primeira viagem, que não consegue ficar longe do filho. – ele comentou, apontando para umas enfermeiras que estavam paradas perto da porta.
- Mas para esse bebê você é um pai de primeira viagem, então é aceitável. – respondi, vendo-o fechar os olhos com força e mais algumas lágrimas rolarem.
- Eu me sinto tão, tão, tão idiota. Eu deixei as coisas chegarem num ponto tão absurdo entre nós dois, que eu tinha que receber notícias suas pela minha filha de dez anos. O quão patético é isso?
- Notícias minhas? – senti meu coração apertar, como se fosse uma adolescente de novo.
- Eu precisava saber como vocês estavam, então perguntava tudo para a minha informante infiltrada, porque eu tinha sido idiota o bastante e não podia perguntar diretamente para você ou para o meu próprio filho. Então a Nina me mandava relatórios diários, com direito a fotos e tudo mais. – ele afastou as mãos, pegando o celular e mostrando diversas fotos minhas, da Ally, de nossas barrigas e até mesmo da ultrassonografia que eu tinha feito semanas atrás. – Foi a forma que eu arrumei de ficar perto de vocês de algum jeito.
- Você podia ter ido lá em casa, . Afinal, ainda é sua casa também.
- Achei que não fosse mais bem-vindo. – sua voz soou baixa e seus olhos se mantiveram na direção do chão. – Eu te devo tantas desculpas, que nem sei por onde começar, porque nada que eu pense parece o suficiente. Sempre parece pouco perto do que eu fiz a vocês e eu me sinto tão mal com isso. Me sinto a pior pessoa do mundo, como se tivesse sacrificado tudo que eu tinha por um sonho estúpido.
- Você não precisa se sentir mal por perseguir algo que sempre quis. – tentei aliviar a situação, mas ele não queria que eu tentasse amenizar sua culpa.
- Eu coloquei um sonho à frente da minha realidade, . – senti meu corpo estremecer ao ouvi-lo dizer meu apelido com aquela voz baixa e suave. – Escolhi o mundo ao invés da minha família. Que tipo de pessoa faz isso?
- Alguém que sempre quis muito uma coisa e agarrou com todas as forças quando teve oportunidade. – dei de ombros e ele me olhou pelo canto dos olhos, balançando a cabeça lentamente.
- Não tente diminuir minha culpa. Não aceito isso de ninguém, muito menos de você. – ele pediu.
- Só não quero entrar numa conversa tão complicada quanto essa aqui, ainda mais hoje. Acho que temos coisas mais importantes do que isso para nos preocuparmos hoje. – completei e ele respirou fundo.
- Talvez seja uma questão de perspectiva. Pra mim, todas as coisas são importantes e tudo é apenas um problema: eu perdi minha família e a quero de volta. – ele olhou fundo em meus olhos antes de continuar. – E isso engloba tudo: Meus filhos, minha nora, meu neto e, principalmente, a minha mulher. Estou num caminho bom com a Nina, ela já tinha me desculpado por esquecê-la na escola, nós voltamos a nos entender bem durantes esses últimos dois meses. Conversávamos todos os dias pelo telefone, eu ia até a escola para vê-la. Consegui adequar minha nova vida ao que é importante. Pena que demorei para ver a importância disso. É o que falam: nós percebemos a importância das coisas quando as perdemos. Ela é o elo entre o meu passado e o que eu quero que seja o meu futuro.
“Hoje o Arthur me abraçou de uma forma que ele não fazia desde de que tinha uns sete anos de idade. Eu senti o medo em seus olhos e tive a chance de ser a força que ele precisava. Eu lhe dei meu apoio de pai e segurei a mão dele quando precisou. Você tem alguma noção de quanto tempo eu não agia assim com o meu próprio filho? De quanto tempo eu não era pai dele de verdade? Sei que essa tarde não vai apagar anos de erros, mas espero que possa ser um bom começo. E, bem... Agora só falta você. Meu desafio mais árduo e o perdão mais desejado.” – olhou novamente em meus olhos e eu não sei se sou capaz expressar em palavras o que vi neles. Talvez uma fagulha de esperança. Uma possibilidade de recomeço. Ou apenas um pedido quase que desesperado de desculpas. Suspirei, fechando os olhos com força e sentindo as lágrimas escorrerem.
- ... – murmurei, me sentando na maca. – Nós temos que conversar, sim, mas não agora. Não podemos atropelar as coisas, colocar nossos problemas à frente da nossa realidade. Seremos avós em poucas horas, tem alguma noção de como isso é grande? Lembra como foi enlouquecedor segurar o Arthur nos braços pela primeira vez e ter a sensação de que a nossa vida tinha mudado para sempre? – ele afirmou com a cabeça, sorrindo de lado. – Nosso filho passará por isso e nós vamos ter que segurar essa barra, mas acho que damos conta. Talvez seja a vida te dando uma chance de reconquistar seu filho.
- Será que eu terei uma chance de reconquistar minha esposa também? – disse, num tom de voz baixo e suave, mas não me deu tempo de responder, porque logo se levantou e caminhou na direção da porta. – Vou ver como estão as coisas, descansa mais um pouco.

voltou cerca de dez minutos depois, com uma expressão que misturava expectativa e preocupação. Antes mesmo que ele falasse qualquer coisa, eu já tinha entendido que estava na hora. Me levantei e o segui até onde o médico disse que poderíamos ficar esperando. Como era uma cesariana, poderia levar entre trinta e quarenta minutos, mas que qualquer demora além disso não seria preocupante. Eles estavam monitorando o bebê desde a hora em que eles chegaram ao hospital e estava tudo bem, tanto com ele, quanto com a Ally. O parto era emergencial, sim, mas não de risco. Na verdade, era mais arriscado não trazer o bebê para o mundo agora e arriscar que ele ficasse sem oxigênio dentro do útero. Arthur disse que entraria junto com a namorada, porque ele queria lhe dar apoio. Me surpreendi um pouco quando ele correu para perto do pai e lhe deu um abraço apertado, eles ficaram abraçados por alguns segundos e lhe deu um beijo, dizendo em seguida: “Vai dar tudo certo, meu filho.” Ele virou em minha direção, me abraçando e me dando um beijo. Sorri, retribuindo seu beijo e lhe falei: “Traga meu neto logo, quero vê-lo.” Arthur me deu um sorriso largo em resposta e nos deu as costas, seguindo o médico. Eu conseguia ver suas mãos tremerem mesmo de longe, assim como conseguia imaginar como ele estava nervoso naquele momento. Ally passou por nós deitada numa maca. Ela estava sorrindo, mas havia um misto de medo, apreensão e felicidade naquele gesto. Acenamos, mandamos beijos e desejos de boa sorte a ela, que levantou uma das mãos para nós, agradecendo nosso apoio.
Sentamos em algumas poltronas que tinham na frente do vidro do berçário e esperamos. Passaram uns dez minutos até que o celular de tocou. Ele atendeu do meu lado, sem fazer menção de levantar. Quem quer que estivesse do outro lado da linha falava sem parar e ele só escutava. Sua expressão se tornou cansada e ele parecia sem paciência.
- Valentina, será que você pode me deixar falar? – pediu.
Valentina, só aquele nome fez meu sangue ferver. Respirei fundo, tentando ignorar a conversa dele.
- Eu tive uma emergência familiar e não poderei comparecer à reunião. – disse, fazendo uma careta em seguida, como se ela estivesse reclamando muito. – Não, não importa quem esteja me esperando. Eu não vou até a gravadora hoje e ponto final. – coçou a cabeça, visivelmente incomodado. – Ok, apenas me escuta. Meu filho precisa de mim. Minha família precisa de mim. Não há ninguém no mundo que possa fazer com que eu vá até aí agora. Você entendeu? – pela sua feição, ela não havia entendido. Eu já estava a ponto de tomar o celular da mão dele e desligar, sem nem ao menos falar nada para ela. Como pode uma pessoa ser tão inconveniente? – Valentina, me escuta. Eu estou desligando, não vou até a gravadora hoje e não sei quando poderei ir. Estou desligando, tchau. – ele disse, não apenas encerrando a chamada, como também desligando o celular. bufou, cruzando os braços na altura do peito, ainda irritado. – Desculpe por isso. – ele pediu.
- Não tem nada para desculpar. – falei, dando de ombros.
- Ela não conhece o significado da palavra limite e isso já está extrapolando as barreiras do tolerável.
- Aham. – murmurei, querendo gritar para o mundo que eu sabia que essa mulher não tinha limites desde o momento em que ela entrou na minha casa e levou meu marido de mim. Com a permissão dele, é claro. Mas não podia negar que a forma que ele a tratou deixou meu coração menos pesado. Era bom vê-lo perdendo a paciência com ela, era como se nós estivéssemos entrando num consenso novamente, pensando da mesma forma. Assim como fazíamos antes dela aparecer.
Quase quarenta e cinco minutos depois que eles entraram no centro cirúrgico, vimos Arthur surgir do outro lado do vidro do berçário. Seu rosto estava vermelho e ele ainda tinha lágrimas nos olhos. Levantamos correndo e paramos na frente do vidro, loucos para ver o bebê. Nina estava na ponta dos pés e não conseguia enxergar direito. a pegou no colo e paramos os três, lado a lado, esperando pelo novo membro da família. Que não demorou nada. O médico vinha logo atrás, empurrando um carrinho com um pequeno bebê dentro dele. Meu neto era tão pequeno, que parecia caber em apenas um dos meus braços. Ele foi levado para a pesagem e depois para tomar o primeiro banho. Arthur estava parado ao lado da enfermeira e mal tirava os olhos do filho. Era uma cena tão linda de se ver, que me peguei chorando segundos depois. olhou em minha direção e segurou minha mão, trazendo para perto do seu corpo. Nina abraçou seu pescoço e apoiou a cabeça em seu ombro. E ficamos assim, juntos, como uma verdadeira família, enquanto dávamos boas-vindas ao novo membro dela.

Larry teve que ficar na UTI Neonatal até ganhar mais um pouco de peso. Como nasceu antes do tempo, ele tinha um pouco mais de um quilo quando veio ao mundo. Por isso o médico disse que ele ficaria lá até ter, pelo menos, dois quilos e meio. Então nós revessávamos nas visitas, porque só podia ter três pessoas lá ao mesmo tempo, e como Ally se recusava a não ficar ao lado do filho, só poderia ir dois de nós a cada dia. Fiquei surpresa e feliz por ver tão presente naquele momento, porque ele ia lá quantas vezes nós disséssemos que ele podia ir. Se fosse todos os dias, ele iria todos os dias. A forma que ele olhava para o neto e como o segurava, nas poucas vezes que deixaram, era tão amorosa, que eu sentia como se o meu coração fosse explodir de tanto amor. Sei que provavelmente eram os hormônios da gravidez, mas eu não conseguia controlar. Não continuamos a conversa que começamos no hospital. Era como se toda a nossa atenção estivesse voltada para o bebê e qualquer coisa que pudesse desviá-la era completamente ignorada.
Um mês e oito dias depois que nasceu, Larry, finalmente, estava de alta. Eu fui para a escola de manhã e pedi dispensa na parte da tarde, porque não podia perder a chegada do meu neto. Quando cheguei, já estava lá, enchendo bolas mais bolas azuis e espalhando por todo o canto da casa, tendo Nina como sua ajudante. Eles estavam se divertindo bastante, tanto que era possível escutar suas risadas do lado de fora. Era como se a atmosfera da casa tivesse mudado. Como se a nuvem negra que havia se instalado anteriormente, tivesse dissipado e agora o sol poderia brilhar tranquilamente. O telefone tocou e me avisou que eles estavam prontos para vir, então ele iria lá buscá-los. Essa foi a primeira situação embaraçosa daquele dia. Quando ele veio se despedir, talvez por costume dos dois ou por reflexo do ambiente agradável que tinha que instaurado ou qualquer outro motivo, ele me deu um leve beijo nos lábios. Não um beijo cheio de intensidade e paixão, mas sim um beijo comum, como daqueles que trocamos quando acordávamos ou quando ele saía para trabalhar. Um beijo que era a nossa forma de nos despedirmos ou apenas dizer “olá”. Ele parou e me olhou um segundo, sorrindo de lado em seguida, ficando meio sem jeito.
- Desculpa. – disse.
- Tudo bem. – respondi, encarando o chão. Lá no fundo eu sabia que ele não queria se desculpar por ter beijado. Muito menos eu.

Assim que ele saiu, voltei a preparar um lanche para quando ele chegassem, mas fui atrapalhada pela campainha. Nina correu para atender e eu só descobri que era o Colin quando senti sua mão em minhas costas. Tremi levemente e ele sorriu.
- Te assustei?
- Um pouco. – sorri de lado, tentando me desvencilhar de suas mãos.
- O bebê já chegou? – perguntou, animado. – Trouxe um presente de boas-vindas. – ele levantou uma sacola com um embrulho colorido dentro. – Geralmente sou melhor com meninas, mas tentei acertar.
- Ah, muito obrigada. – sequei as mãos e peguei a sacola, deixando em cima da mesa. – O foi buscá-los no hospital agora mesmo. Devem chegar daqui a pouco.
- O tá aqui?
- Claro, ele é avô do Larry e deveria estar aqui quando ele chegasse em casa, não? – respondi, como se fosse a coisa mais natural e simples do mundo.
- É, você tem razão. – Colin disse, encostando-se à pia, ficando ao meu lado. – Ele tem frequentado muito aqui de novo, não é?
- Colin, onde você quer chegar com isso? – perguntei, estranho sua pergunta.
- Nada, é que de repente ele voltou pra sua vida e eu fiquei me perguntando como eu fico nessa história. – ele respondeu e eu franzi a testa, encarando-o.
- Bem, fica como sempre ficou. Você é meu amigo, assim como a Dianna é amiga da Nina. Tudo muito simples.
- Você sabe que não é isso que eu quero... – ele falou, deixando a frase morrer. Eu suspirei, desistindo de lavar a louça. Sequei minhas mãos e virei meu corpo em sua direção.
- Colin, olha bem pra mim. – pedi e ele obedeceu. – Eu estou grávida. – apontei para a minha barriga já grande. – E mal me separei do homem que fiquei casada por dezoito anos. A última coisa que eu quero no mundo é me envolver com outra pessoa. Me desculpe, mas achei que tivesse deixado isso claro.
- Você não vai saber se não tentar. – ele disse e colocou um de seus dedos em meus lábios para me impedir de falar. – Eu também saí de um relacionamento longo achando que nunca iria querer me envolver com mais ninguém. Mas não foi assim que aconteceu. Desde então, minha vida tem sido muito mais fácil, mais leve. É mais fácil de viver quando se tem alguém para dividir os problemas e somar as alegrias.
- Mas eu já tenho com quem dividir tudo e nem estou falando do . Minha família é o bastante para mim. Me desculpe, mas eu não quero seguir por esse caminho com você. – Colin me encarou por um segundo e antes que eu pudesse entender o que estava para acontecer, ele juntou nossos lábios. E essa foi a segunda situação embaraçosa do dia. Eu estava completamente desconfortável naquele abraço, era como se não tivesse espaço para mim e para a minha barriga. Como se aqueles braços não tivessem sido feitos para me ter entre eles. Assim como sua boca, que não parecia se encaixar a minha da forma que deveria. Empurrei seu corpo de forma gentil e o olhei de forma como se implorasse para ele entender como aquilo tudo tinha sido errado.
- ... – ele começou, mas eu interrompi.
- É melhor você ir embora, Colin. – pedi, virando meu corpo na direção da pia e voltando para a louça suja. Ele não olhou mais na minha direção até sair do cômodo e só relaxei quando ouvia porta da frente bater.

Tentei ignorar aquela sensação estranha que tomou conta de mim, mas era impossível. Eu sentia como se tivesse traído o , sendo que nós ainda estávamos separados. Mesmo que eu tivesse voltado a sentir mil coisas por ele nessas últimas semanas, nós não havíamos conversado sobre nada disso. Mas isso não me impedia de me sentir mal com toda essa situação, como se a culpa fosse minha. Coisa que não era mesmo. Só resolvi deixar esses pensamentos de lado quando ouvi o carro parar do lado de fora e Arthur sair apressado para pegar as coisas. Eu parecia uma criança prestes a receber meu presente de Natal de tão ansiosa que estava. Ally saiu lentamente, segurando seu filho nos braços como se fosse um troféu. Ela caminhava com calma até a porta, enquanto e Arthur dividiam as bolsas e se apressavam para deixar a porta aberta para ela, coisa que eu mesma fiz.
Larry passou pelo colo de todos, até mesmo pelos braços desajeitados de Nina, que ficou sentada para evitar qualquer acidente. Fiquei meio alarmada quando ouvimos a campainha, imaginando que pudesse ser o Colin, mas me enganei profundamente. Eram os pais de Ally, que apareceram pela primeira vez desde que ela tinha vindo para cá, e a terceira situação embaraçosa do dia. Ela ficou meio atordoada com a presença deles e eu achei melhor deixá-los sozinhos por um tempo. Afinal, já tinha passado quase um ano desde que eles haviam se falado pela última vez e isso é quase uma eternidade se tratando de pais e filhos. Fui até a cozinha para fazer um café e manter minha mente ocupada. Os beijos que e Colin tinham me dado ficavam passando num loop eterno em minha cabeça, sendo que cada um despertava um sentimento diferente. Enquanto o beijo suave de aquecia meu peito e fazia meu coração acelerar, o de Colin me trazia uma sensação de arrependimento profundo. Percebi que estava demorando demais quando Arthur me chamou da porta, me fazendo voltar à realidade. Entreguei o café a ele, ainda querendo distância dos sogros dele. Não concordo com a atitude deles e achei melhor me manter afastada. Mas não fiquei sozinha por muito tempo, porque logo veio me fazer companhia.

- Vai ficar aqui sozinha? – perguntou, parando perto da porta.
- Eu prefiro, não me dou muito bem com aqueles dois. – comentei, dando de ombros. Ele andou até onde eu estava e puxou uma cadeira, sentando ao meu lado.
- Eu vim me despedir, tenho uma entrevista na televisão amanhã e preciso me encontrar com o agente e tal. – falou, fazendo uma careta em seguida. – Queria muito ficar aqui paparicando meu neto e vendo como esses dois vão se virar nesse primeiro dia, mas não posso.
- Vai dar tudo certo, eu estou aqui para ajudar no que posso, afinal, tenho um pouco de experiência.
- Você é uma mãe excelente, para com isso. – ele disse, balançando a cabeça e sorrindo de lado. Ele esticou uma das mãos na minha direção, arqueando as sobrancelhas. – Posso?
- Claro. – falei e ele colocou a mão em minha barriga, alisando levemente o local.
- Você não vai mesmo querer saber o sexo? – perguntou e eu balancei a cabeça, negando.
- Quero que seja surpresa.
- Ok, então. Você vai ser muito bem-vindo, ou bem-vinda. – disse curvando o corpo para mais perto, como se isso fosse fazer o bebê ouvir melhor. E como se fosse uma resposta, o bebê chutou exatamente onde a mão de estava. Ele fechou os olhos, mordeu o lábio inferior e soltou uma risada abafada. – Já é o terceiro bebê e eu não me acostumo com isso. É sempre maravilhoso, todas as vezes.
- Ele gosta de você. – falei, lembrando que o bebê sempre chutava quando me tocava. Ele abaixou o rosto, depositando um beijo onde antes estava sua mão. Olhei em sua direção e seus olhos me capturaram. Fiquei presa a eles, sem chance de conseguir me libertar. Esse era um caminho sem volta para mim. Ele me encarou de volta e seu olhar carregava uma intensidade quase palpável. Sua mão subiu para o meu rosto, que foi se aproximando cada vez mais do meu. A cada centímetro que ele se aproximava, mais forte o meu coração batia. Eu me sentia como uma adolescente de novo, quando demos o nosso primeiro beijo. Seus lábios tocaram os meus de forma suave, como se não quisesse que esse momento se perdesse. Mas antes que pudéssemos aprofundar o beijo, nos assustamos com o choro do bebê e nos separamos, como se fôssemos culpados de um enorme crime. Ele me olhou meio de lado, passou a mão pelos cabelos e se levantou.
- Acho que eu vou embora.
- Tudo bem. – falei, ainda sentada e encarando o chão.
- Nos vemos depois. – disse, enquanto virava o corpo na direção da porta. E cada passo que ele dava para se distanciar de mim, era como se eu sentisse dentro do meu coração. Era quase uma dor física mesmo. Algo que eu não conseguia explicar, mas entendia muito bem. Eu tentei me enganar por um tempo, fingir que nada tinha mudado, mas agora era impossível, meu corpo praticamente implorava pelo dele e eu não conseguia mais adiar isso.
- , espera. – pedi, fazendo com que ele se virasse na minha direção novamente. Caminhei até onde ele estava e, sem pensar duas vezes, juntei nossos lábios com desejo. E com isso, chegamos ao quarto momento embaraçoso do dia, mas eu já não estava mais me importando. Porque agora eu estava em um abraço que me deixava confortável, com braços que foram moldados para mim, onde eu me sentia protegida, amparada e que me davam a sensação de estar em casa. Isso sem contar seus lábios, que pareciam terem sido feitos para estar junto aos meus, com uma extensão do meu próprio corpo. Do meu próprio eu. Ali eu sabia que não havia mais ninguém para mim no mundo. Eu tinha sido feita para ele e ele moldado para mim.

No dia seguinte, estávamos no sofá eu, Arthur, Ally e Larry em seu colo. tinha levado Nina no programa com ele, já que ela tinha insistido muito. O programa era ao vivo e começaria a qualquer momento. Eu me sentia excitada de uma forma diferente. Marido, ou ex, não sei, apareceria na tv e isso ainda era muito estranho pra mim. Arthur parecia mais interessado no filho, que estava mamando no colo da mãe. Ally nem olhava para a tv, sua atenção estava totalmente voltada para o filho.
O programa começou e quando a câmera se moveu pela plateia, consegui enxergar Nina na primeira fila, com um sorriso meio bobo nos lábios. A apresentadora saudou a plateia e o público de casa, anunciando em seguida os convidados daquela tarde. O nome do foi o segundo a ser anunciado, enquanto ele acenava de forma meio tímida. Uma nova atriz e uma nova modelo eram as outras convidadas. O programa meio que juntou novos expoentes de algumas áreas para mostrar algumas caras novas para o público. A atriz foi a primeira convidada a ser entrevistada, falando sobre seu primeiro filme, que entraria em cartaz no verão. Era uma comédia romântica adolescente, um pouco mais do mesmo, mas pela forma que o público a aplaudia, deveria ser bom. parecia um pouco deslocado ali no meio e eu até entendia um pouco o seu lado. As duas eram novas no mundo artístico e na vida, já que não deveriam ter mais de vinte anos, enquanto ele já tinha trinta e seis, três filhos e muita experiência na bagagem. Eu via que seu olhar sempre se mantinha na direção de Nina e que seus lábios algumas vezes se moviam, como se eles estivessem conversando. Consegui entender um “tá tudo bem?” dele, seguido de um sorriso, que eu interpretei como uma resposta positiva dela. A apresentadora chamou o comercial, anunciando que teríamos um número musical dele no próximo bloco. Mal consegui conter a empolgação, porque fazia muito tempo que eu não o ouvia cantar.
A música de abertura tocou e eu me vi roendo as unhas de ansiedade. Ele já estava com o violão em seu colo e um microfone posto em sua frente. Mas antes de deixá-lo cantar, a apresentadora começou a lhe fazer algumas perguntas.
- Então, . Você surgiu de surpresa no mundo da música e já conseguiu juntar um número considerável de fãs. Você imaginou que a sua vida mudaria tanto assim de repente? – ele sorriu, balançando a cabeça lentamente.
- Nem nos meus sonhos mais loucos. Eu estava acostumado com a minha vida, até que tudo deu uma volta de 180 graus e trouxe até aqui. Ainda é difícil estar aqui, na frente de tanta gente, isso sem pensar em quem está assistindo de casa.
- Eu soube eu você trouxe a sua filha para te acompanhar hoje. Onde ela está? – a apresentadora perguntou e a câmera focou na Nina, que ficou vermelha na hora. – Ela é linda, . Puxou ao pai. – ela o elogiou e ele sorriu, sem graça.
- Nada, ela é a cara da mãe, tão linda quanto.
- Você tem mais filhos?
- Tenho três, uma menina, a Nina, um menino, o Arthur, e um que não sabemos ainda, porque está a caminho, mas minha esposa não quer saber o sexo, quer uma surpresa.
- Então você é casado? Devemos acabar com os sonhos das suas fãs?
- Bem, há uma pequena discordância acerca do meu estado civil no momento. – ele começou, vendo a apresentadora franzir a testa. – Eu estou casado com a minha esposa. – ele levantou a mão, mostrando a aliança no dedo. – Mas não sei se ela ainda está casada comigo. – ele explicou e a plateia riu, sem entender direito.
- Como assim, você pode nos explicar?
- Eu tive muitas surpresas na minha vida, em algumas eu tomei o caminho certo e em outras eu acabei me perdendo. O caminho que me trouxe até aqui, no palco do seu programa, também acabou me afastando da minha família e esse era um preço que eu não estava preparado para pagar. Só que o problema é que eu percebi um pouco tarde demais. Sabe, é difícil ver as coisas claramente quando se está diante de uma novidade. A poeira demora a baixar e enquanto se está dentro do olho do furacão, mal enxerga um palmo à frente dos olhos. E eu fiquei assim durante uns meses, acabei sacrificando o que não deveria. – ele deu de ombros, recebendo alguns olhares solidários em resposta. – Mas não tem problema, eu espero que a minha sinceridade possa contar pontos ao meu favor.
- Ela deve estar te assistindo no momento, não quer dizer nada a ela? Talvez uma declaração de amor em rede nacional amoleça seu coração. – ela sorriu abertamente, claramente adorando o rumo que aquela conversa estava tomando. Seria mais visibilidade para o programa dela.
- Bem, eu posso fazer uma coisa melhor do que só falar. – comentou, arrumando o violão no colo e dedilhando levemente. – Essa música não é minha, nem faz parte do meu repertório. Só que ela é muito especial pra mim, porque foi a primeira música que eu cantei para a minha esposa.
(Coloque a música para tocar agora.)

I've got sunshine
On a cloudy day
When it's cold outside
I've got the month of May


Fechei os olhos no exato momento em que ele começou a cantar a música. Era um golpe baixíssimo, assim como também era um golpe de mestre. Ele sabia muito bem o que estava fazendo quando escolheu essa música. Era impossível impedir que uma avalanche de recordações não tomasse minha cabeça nesse momento. Eu conseguia lembrar perfeitamente do exato instante em que ele cantou essa música pra mim quase vinte anos atrás. Se eu me concentrasse apenas mais um pouco, eu conseguia me teletransportar para aquele exato momento. No fim das contas, ainda me conhecia como a palma da mão.

I guess, you'd say, what can make me feel this way
My girl, talkin' 'bout my girl


Maio de 1992.

Eu tentava estudar uns exercícios impossíveis de Matemática, mas eu não conseguia me concentrar o bastante. Eu continuava pensando no e no beijo que trocamos na noite anterior. Eu sentia que estava seguindo por um caminho sem volta me envolvendo daquela forma com ele, mas era impossível evitar. Era só eu olhar em seus olhos, que qualquer dúvida sumia da minha mente e era substituída por uma vontade quase insana de ter seus lábios juntos aos meus. Era até um pouco embaraçoso para mim, mas eu estava absurda e enlouquecidamente apaixonada por ele. E só a possibilidade dele não sentir nada por mim, me corroía por dentro e me deixava a ponto de surtar.
Escutei um barulho vindo da minha janela e estranhei. Andei até lá, abrindo a cortina e vendo parado lá embaixo, com algumas pedrinhas nas mãos e o violão preso nas costas. Ele sorria de um jeito que fez meu coração bater três vezes mais rápido do que o normal. E naquele momento eu percebi que não havia mais chances para mim.


I've got so much honey
The bees envy me
I've got a sweetest song
Than the birds from the treesI've got so much honey
The bees envy me
I've got a sweetest song
Than the birds from the trees


Ele parecia tão nervoso quanto eu nesse momento, porque suas mãos tremiam bastante ao puxar o violão para frente e tentar dedilhar algumas notas. respirou fundo e me olhou, começando a tocar uma música antiga, e eu gostava muito. Sua voz suave fez com que eu entrasse numa espécie de transe, como se palavras que saíam de seus lábios não fossem a letra da música e sim uma espécie de encantamento. Eu queria lhe dizer que se isso tudo era apenas para me conquistar, que não precisava, porque eu já estava apaixonada, loucamente apaixonada. Mas eu não conseguia dizer nada, nem mesmo esboçar qualquer reação que não fosse chorar. Por que ficamos desse jeito quando estamos apaixonados? É quase uma privação dos sentidos. É como se fosse um tormento, mas o melhor tormento de todos. Se doesse, eu sofreria calada e sorrindo. Porque nada poderia ser ruim se eu tivesse ao meu lado.

Well, I guess you'll say
What can make me feel this way?
My girl
Talkin' 'bout my girl, my girl
Talkin' 'bout my girl
Talkin' 'bout my girl, my girl


Desci as escadas correndo, querendo chegar o mais rápido possível em seus braços. Assim que estava perto o bastante, joguei meus braços ao redor do seu pescoço e meu corpo foi de encontro ao seu. Eu senti uma onda de felicidade tomar o meu corpo de uma forma que eu nunca tinha sentido antes. Ele tirou o violão do caminho e me abraçou apertado. Eu sentia seu coração bater acelerado junto ao meu e percebi que não era apenas eu que me sentia assim. Procurei pelos seus lábios, juntando-os aos meus com intensidade. Suas mãos apertaram a minha cintura e me trouxeram para mais perto. Envolvi seu pescoço suavemente, mantendo nossas testas unidas. Olhei fundo em seus olhos, enxergando mais do que o profundo de sempre. Enxerguei minha própria felicidade refletida neles.
- Eu te amo. – sussurrou em meu ouvido.
- Eu também te amo. – murmurei em resposta. E pela primeira vez na vida, eu me sentir verdadeiramente feliz. Feliz, completa e amada.


I've got sunshine
On a cloudy day
When it's cold outside
I've got the month of May


Eu lembrei que desde o momento em que vi na minha aula de desenho, ele tem sido uma parte da minha vida. E em alguns momentos, tem sido a parte mais importante dela. construiu uma família linda ao meu lado, me deu filhos lindos e tudo mais que eu pudesse querer na vida. É claro que problemas acontecem, as pessoas se afastam, algumas perdem o rumo e se perdem no caminho. Nós temos duas opções nesse caso: virar as costas para o que foi construído e buscar um recomeço; ou juntar as peças, voltar um pouco no tempo, se reencontrar no meio do caminho e buscar outro caminho para os dois. Às vezes pode parecer mais fácil deixar o passado no lugar dele, escondido no fundo da cabeça, num lugar intocável, onde ele não possa nos atormentar. Às vezes é mais fácil deixar o que foi quebrado de lado, sem ao menos pensar que é possível consertar. Não podemos pensar que tudo é feito de cristal, que quando se quebra, é impossível deixá-lo como era antes. Alguns relacionamentos podem ser assim, sim. Mas outros, não. Eles podem parecer acabados, sem futuro e destruídos. Até que renascem como fênix.

Well, I guess you'll say
What can make me feel this way?
My girl
Talkin' 'bout my girl, my girl
Talkin' 'bout my girl
Talkin' 'bout my girl, my girl


Encarei a televisão, desejando mais do que tudo no mundo que ele estivesse aqui ao meu lado, para que eu pudesse tocá-lo, beijá-lo e dizer que eu o amo. Que eu sempre o amei e sempre vou amar. Que independente do que passamos nos últimos meses, meus sentimentos não mudaram. E que se ele estivesse disposto, nós poderíamos tentar reconstruir nosso casamento, unir novamente nossa família. Só que eu acredito que ele sabia que tinha conseguido amolecer meu coração. Porque ele mantinha aquele sorriso nos lábios. O mesmo que ele fazia quando brigávamos e ele queria fazer as pazes. E é claro que conseguia. sempre conseguia o que queria de mim. Porque quando eu lhe dei meu coração, muitos anos atrás, eu lhe dei por inteiro. Sabia que poderia sofrer. Sabia que poderia doer, e muito. Mas se quando era ruim, era péssimo. Quando era bom, era maravilhoso. E por isso que valia a pena. Tudo sempre valeria a pena por ele. Então eu mal podia esperar para que ele viesse logo para casa. Para que ele voltasse para a nossa família. Que ele voltasse para mim. Porque é a mim que ele pertence, assim como é a ele que eu pertenço. Eu tenho o amado desde que tínhamos 18 anos. E vou amá-lo para sempre.

My girl
Talkin' 'bout my girl, my girl

Cinco anos depois



Hoje era o dia do baile da escola de Nina e também era a primeira vez que ela sairia com um rapaz, pelo menos de forma oficial. e Arthur estavam sentados no sofá, olhando Larry e Dylan, que brincavam lá na sala, enquanto eu e a Ally terminávamos de fazer o cabelo e a maquiagem de Nina. Ela estava muito nervosa, porque esse rapaz que seria seu par, o Matthew, era a paixãozinha secreta dela desde muito tempo. Ela me confidenciou isso semanas antes e eu tentei acalmá-la de alguma forma, mas não é muito fácil acalmar uma adolescente as vésperas de um encontro com um cara especial.
Ela estava muito linda, seu cabelo caía pelas costas formando cachos largos e o vestido amarelo a deixava parecendo uma princesa. Ally passou batom em seus lábios, dando-lhes um pouco de cor e, finalmente, ela estava pronta. Implorei para que ela deixasse eu tirar uma foto como recordação e, depois de muito relutar, ela deixou. Abriu um sorriso largo e eu tirei uma foto linda, ficando toda boba. Ouvimos a campainha tocar e ela deu indícios de ter um ataque de pânico. Ally ficou rindo, enquanto eu tentava acalmá-la, o que era meio em vão. Pedi que ela respirasse fundo e disse que se ela não descesse, aquela que poderia ser a melhor noite da vida dela até então, seria lembrada sempre como um quase. A noite que ela quase dançou com o Matthew. A noite que ela quase o beijou. A noite em que eles quase se apaixonaram. Nina pensou por um momento e relaxou um pouco, pedindo para que descêssemos e avisássemos que ela iria em alguns minutos. E assim fizemos.
Quando chegamos à sala, Matthew estava sentado entre e Arthur, que o encaravam com uma expressão meio acusatória, enquanto o rapaz parecia estar morrendo de medo. Rolei os olhos, oferecendo um pouco de água para ele, que aceitou prontamente. Provavelmente era só para sair da sala por um instante. Quando voltamos, vimos que Nina estava descendo e ao olhar para o rosto de Matthew, vi que aquela noite seria realmente especial para a minha filha. Nada de quase. se levantou e parou ao meu lado, olhando para Nina com uma cara de pai babão. Ela se despediu de todo mundo e saiu pela porta, andando ao lado de Matthew com as mãos visivelmente trêmulas. Eles entraram no carro e ela acenou antes que partissem. passou a mão pela minha cintura e ficamos observando o carro sumir no final da rua. A expressão do seu rosto agora era algo parecido com derrota. Estranhei, lhe perguntando o que tinha acontecido. Ele suspirou e disse:
- Acabei de perder minha filha. – soltei uma gargalhada alta, chamando atenção de Arthur e Ally, que estavam vendo alguma coisa na tv. Apoiei minha mão em seus ombros e fiquei parada na sua frente.
- É a ordem natural das coisas, .
- Eu sei, eu sei. Mas é difícil, minha única filha acabou de ir embora num carro com um rapaz e eu sei bem as intenções dele.
- Hey. Deixa de ser velho. – pedi, balançando a cabeça. – Eu também entrei no seu carro e meu pai sabia muito bem das suas intenções. E veja no que deu: temos uma linda família.
- É, acho que estou ficando velho. – comentou, juntando nossos lábios rapidamente. Até que fomos surpreendidos por um estrondo alto, como se alguém tivesse derrubado muita coisa no chão.
- Larry! – gritaram Arthur e Ally no sofá.
- Dylan! – gritamos eu e da porta. Duas risadas ecoaram pela casa, sendo seguidas de mais quatro. E assim se passou mais um dia em nossa vida. Mais um dia em nossa família.


We took a chance, God knows we tried. Yet all along, I knew we’d be fine.
Nós arriscamos, Deus sabe que tentamos. E mesmo assim, durante todo esse tempo, eu sabia que ficaríamos bem.






Continua...



Nota da autora: Gente, nem sei como começar essa nota, porque são 02:11 da manhã do dia 28/02. Essa fic deveria estar pronta há, pelo menos, umas três semanas. Enrolei a vida e terminei em cima da hora, espero não ter estragado tudo. Não sei se perceberam, mas o começo dessa fic são dois capítulos de uma antigo long minha, cuja a história combinava com a música e eu resolvi, reaproveitar. Eu gostava muito dela, mas não consegui desenvolver e esse ficstape foi perfeito para não deixar a história desse casamento conturbado jogada no limbo.
Queria agradecer a Mel, que me convidou para participar. Eu não sou a maior entendida e nem escuto One Direction, mas aceitei o convite com o maior prazer. Espero não ter deixado a desejar, porque esse fandom é enorme e merece histórias, no mínimo, decentes. No mais, espero que gostem e que a história tenha ficado a altura da música, que é muito linda, diga-se de passagem. (ED, TE AMO <3) Eu queria muito usar a música da história no final, mas eu só conseguia imaginar o principal cantando essa música para a esposa, porque foi a que eu sempre imaginei. Então espero não ter desapontado ninguém com isso.
E, sim, eu usei o nome "Larry" de propósito. HAHAHAHA
Beijos da That, até a próxima.







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