Última atualização: 30/07/2018

Capítulo Único

já não sabia mais que horas eram.
Tudo que ele sabia é que sentia a batida forte da música ecoando dentro de seu peito, as paredes brancas da sala de dança já se fundindo com o chão em um horizonte infinito. Ele estava cansado, os pés doíam... Ou melhor, tudo doía.
Invisíveis.
Enquanto olhava atentamente seus movimentos refletidos nos diversos espelhos, realizados com perfeição apesar do cansaço, a única palavra que ecoava na mente de era aquela: Invisíveis.
Semanas antes, era aquilo que ele ouvira. Depois de ficar na rua que nem um bobo tentando convencer as pessoas que passavam a irem assistir seu grupo em um show pequeno – mas que eles conquistaram com muito esforço –, depois de passar dias e noites acordado para gravar os clipes, enfurnar-se em um quarto minúsculo com mais seis pessoas, porque sua gravadora não tinha como pagar por um apartamento com dois quartos, era aquilo que eles ouviram: “vocês nunca serão ninguém, além de um bando de invisíveis”.
não queria ser invisível. Não podia ser invisível.
Aquilo lhe deu forças para continuar dançando, mesmo durante a madrugada. Estaria treinando sua voz, se ela não estivesse rouca e quase sumindo. Falaram para ele que estava pegando muito pesado consigo mesmo, porém ele não escutou: continuou treinando e, naquele momento, não podia mais nem falar sem sentir a garganta raspar. E, claro, levou uma bronca fenomenal por causa daquilo.
Mas tudo tinha um sentido. Ele não podia desistir, ele não podia se entregar. O mundo queria convencê-lo de que passaria o resto da vida invisível, somente com um sonho destruído de ser alguém na vida? Pois bem. Ele não acreditaria naquilo. provaria a todos que estavam errados sobre ele.
Os olhos dele encontraram o próprio reflexo no espelho, observando-se com fogo e determinação – faltando somente uma gota para começarem a vazar.
“É melhor desistir agora, enquanto você é jovem. Esse sonho vazio não vai te levar a lugar nenhum”.
Repentinamente, a voz do pai de ecoou pela cabeça dele, obrigando-o a parar de dançar e a observar sua própria imagem no espelho – tão pequena no meio daquela enorme e opressora sala branca. Seus olhos estavam tomados pelo horror, o sentimento de angústia apertando o próprio coração.
E se ele realmente fosse um ninguém? Nada mais que uma pessoa invisível com delírios de grandeza? E se seu pai estivesse certo e o melhor a fazer fosse desistir?
A dor no coração dele era muito grande – assim como em todos os outros membros de seu corpo, extenuados por trabalharem além do próprio limite.
achava que seu sonho valia a pena e não queria desistir. Mas havia dias, como aquele, que seus sentimentos não eram assim tão claros, e o medo de que o futuro fosse indiferente, estacado na terra enquanto poderia estar nas nuvens, fez com que ele ajoelhasse no chão, observando a própria imagem insignificante no espelho da sala de dança.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dele. acreditava em seu sonho. Mas, naquele dia – e em muitos outros que estavam por vir – aquilo estava particularmente difícil de fazer.

se encontrava sentada na própria cama, com o computador no colo. Tinha vários livros ao seu lado – incluso um em Francês, e ela nem sabia como falar Francês. Em seu computador, diversos artigos científicos abertos – e esses, sim, eram uma Torre de Babel: Espanhol, Inglês, Romeno, Francês... Ela entendia tudo pelo contexto, e nada que um bom Google Tradutor não pudesse ajudar.
Mas ela estava completamente apaixonada. A época de entregar o Trabalho de Conclusão de Curso da Faculdade se aproximava, e ela não queria entregar nada além de algo perfeito.
Conflitos Internacionais, Corte Internacional de Justiça, Direitos Humanos, crises de refugiados, conflitos, guerras, soluções pacíficas, técnicas de negociação... Era tudo isso que ela pesquisava e muito mais. Com um amor pela ONU, o sonho dela era mudar o mundo.
“Você é sonhadora demais”.
Aquela frase a atingira como um soco no estômago, enquanto as risadas de escárnio que se seguiram pareceram vários tapas.
“Todo jovem é idealista desse jeito”.
E, em seguida, uma risadinha de “você não sabe nada desse mundo”. Mas ela sabia... E como sabia. não era tonta e já havia sofrido o suficiente a ponto de não confiar em ninguém – nem nas pessoas que chamava de “melhores amigos”. Tinha uma regra de não esperar nada de ninguém, pois assim não ia se desapontar.
Algo horrível, mas completamente lógico. gostava de escolher agir pela lógica, pois raramente ela a fazia sangrar... Bem diferente das escolhas feitas pelo impulsivo e desmiolado coração.
Ela suspirou, descansando as mãos sobre as teclas do computador e observando o horizonte com seus olhos cansados e secos. Às vezes achava que estava fazendo todo aquele trabalho de idiota. Provavelmente ninguém leria, e ela ainda teria que ouvir como fora “fofinha” por achar que podia fazer algo pelo mundo estragado no qual viviam.
Mas ela acreditava fortemente que o mundo estava estragado porque ninguém se esforçava para fazer algo bom por ele.
O celular dela a acordou de seus pensamentos quando tocou, avisando que já estava atrasada para a própria aula de música. E lá estava mais um sonho completamente sem sentido da vida dela: achava que era uma boa ideia montar sua própria escola de música como plano B – e ouvira de tudo até aquele momento.
Não via nada de mais em tentar montar seu próprio negócio – que ajudaria muitas pessoas, pois ela entendia muito bem como artes em geral podiam salvar vidas –, bem como não via nada de mau em lutar pelo mínimo que todos os seres humanos deveriam ter para viver.
E teria ido à aula de música, se não tivesse passado na frente do espelho do quarto para pegar as partituras.
“Sonhadora demais”.
Aquilo fez com que ela encarasse o próprio reflexo – pequeno, sem importância, claramente com delírios de grandeza por se achar alguém que valia a pena – em puro horror. Aos poucos, as lágrimas começaram a cair, cada vez em maior quantidade. Em alguns segundos, estava sentada no chão do quarto, abraçando o próprio livro de pesquisa e sentindo a agonia apertar seu coração, tirando o ar dos pulmões.
Qual era o problema de querer voar? Ela era realmente tão quebrada por querer se superar cada vez mais e ir cada vez mais alto?
Geralmente, não tinha aquelas dúvidas em uma base constante. Porém, assim como , naquele dia e em vários próximos, estava difícil para a moça se manter firme nas suas crenças pessoais.

6 anos depois
Quando abriu os olhos naquela manhã, sentiu que lágrimas tinham se formado como pequenos cristais – ainda não grandes o suficiente para escorrer pelo seu rosto. Eram tão pequenas que se secaram sozinhas enquanto ele se dava conta dos tons dourados que adentravam o silêncio matinal do quarto.
Fazia tempo que ele não sonhava com aquilo. Não que não se lembrasse – afinal, era uma fase impossível de se esquecer, o medo da invisibilidade –, porém já era uma memória distante, de momentos difíceis que jamais iriam se sobrepor à felicidade que ele tinha.
O suspiro de soou alto no silêncio do quarto e bateu contra o peito dele em um exalo quente. sorriu ao sentir o ar saindo dos lábios da namorada e começou a acariciar lentamente as costas nuas dela com as pontas dos dedos, sem a intenção de acordá-la.
Após um tempo, olhou para baixo, encontrando o pequeno sorriso calmo e adormecido de . subiu uma das mãos para os cabelos macios da namorada, fazendo o sorriso dela aumentar. Ele sabia como ela gostava daquilo. E também sabia que...
imediatamente deu uma pequena risada. Lá estava: as bochechas de ficando levemente coradas.
A vibração do peito dele fez com que abrisse lentamente os olhos, tentando resmungar algo que, no fim, foi só um pequeno gemido sem sentido, típico de pessoas que estão acabando de acordar.
– Bom dia, linda. – disse em um sussurro, como se fosse acordar o resto do mundo se falasse um pouco mais alto.
– Bom dia, lindo. – respondeu com um sorriso sincero e sonolento, também sussurrando para não acordar mais ninguém além dos dois.
Ambos continuaram em silêncio durante alguns segundos, somente aproveitando o sol e o canto dos pássaros pela manhã. O dia estava quente, e tinham certeza que logo ouviriam os sons de músicas tocando pelas ruas – os violões no ritmo marcado, acompanhando instrumentos de percussão, trazendo ritmos perfeitos para dançar. Cuba realmente fora um destino perfeito para eles, de maneira inesperada.
– Eu te cansei tanto assim ontem, é? – Ele perguntou com um sorriso provocante nos lábios, fazendo-a rir e dar um tapa no braço do namorado, sentando-se logo em seguida.
– Até parece...! – riu enquanto tentava ajeitar as mechas desalinhadas. Algo completamente em vão. – Não aceito nada menos do que sair para dançar essa noite. Estamos em Cuba e temos que fazer valer a pena.
– Alguém andou assistindo muito Havana Nights... – se sentou em seguida, sorrindo e puxando-a para um abraço aconchegante, enquanto escondia o rosto no pescoço dela.
– Não fui eu que fiquei toda contente ontem e saí rebolando por aí. – Ela respondeu com um pequeno sorriso nos lábios, as mãos repousando nos cabelos macios de , enquanto ele só começava a rir de si mesmo.
– Você gostou. Então não foi tão ruim assim. – Ele comentou, apertando-a mais contra si.
– Claro que eu gostei. Você é sensacional, não consegue fazer nada de errado.
– Nem você, minha estrela. Você é maravilhosa.
Aquela era uma constante do relacionamento dos dois. fazia questão de sempre lembrá-la como era uma ótima pessoa, e fazia o mesmo – tinham uma resolução de sempre se apoiar, consolar e ajudar o outro a alçar voo, sem inveja, ciúmes ou qualquer outro sentimento horrível que somente fosse corrompê-los ao invés de ajudá-los a crescer.
Ninguém entendia como conseguiam conviver sem ciúmes. Não que aquilo não existisse entre eles, mas a regra que tinham era de não segurar o outro por conta de algo tão mesquinho quanto o medo de se perder. Somente deixariam de ficar juntos se entendessem que não estavam mais se acompanhando. E, sinceramente, achavam que aquele não era o caso.
Afinal, o destino não os colocara novamente juntos se não fosse para sempre.

6 anos antes
já não sentia as pontas dos dedos e conseguia ignorar a dor nos pés – porém a dor nos tornozelos começava a ficar absurda. Mais do que isso, somente a dor nos rins: essa, sim, estava quase insuportável. Não sabia como seu corpo aguentara até lá, mas era bom que aguentasse um pouco mais.
– Cinco minutos, garotos! Depois voltamos à gravação!
As palavras do Diretor do MV foram como música para os ouvidos dele.
suspirou, abaixando-se até que as palmas das mãos tocassem o chão. Suas costas estalaram com sons altos e aquilo causou um alívio rápido – que logo foi substituído pela dor intensa que ele não sabia mais o que fazer com aquilo.
– Tudo bem aí, ? – bateu nas costas do amigo, fazendo-o gemer de dor. Ele imediatamente perdeu o sorriso do rosto e se abaixou para observar o rosto de . – Ei. Eu perguntei de brincadeira no começo, mas agora é sério. Está tudo bem?
– Tudo sob controle. – respondeu, virando a cabeça e lançando um pequeno sorriso para o amigo.
O que só fez franzir as sobrancelhas e ficar mais preocupado.
– Eu sei que você mente para acharmos que está tudo bem. – Falando isso, segurou uma das mãos de , puxando-o levemente para cima. – Precisa de algum remédio?
– Não, não... É sério, dá para aguentar. Só temos que gravar mais um pouco...
– “Pouco”. – E deu um riso de escárnio com o fim da palavra. – Temos ainda o dia inteiro. Não vai se matar por causa disso.
– Se eu não ficar aqui, não vamos conseguir gravar a tempo e não... – Mas, antes que pudesse terminar a frase ao se endireitar, sua vista ficou negra e ele não sentiu mais as extremidades do corpo. Os dedos começaram a formigar, e ele quase tombou no chão.
! – chamou enquanto segurava o amigo no lugar. – E você me fala que está bem?!
– Levantei rápido demais, não devia ter feito isso. – balançou a cabeça, dando uma risada ao fim da frase. – Você já fez isso várias vezes! Não se preocupe!
– Muito bem, em seus lugares! Vamos voltar a gravar!
largou o amigo à contra gosto. Cada um foi para seu lugar, alinhou novamente o casaco e respirou fundo. A dor no corpo somente aumentava, mas ele dizia reiteradamente a si mesmo que dava para aguentar.
No meio da dança, porém, a visão dele começou a ficar turva. Os movimentos de não estavam tão enérgicos quanto antes. Ele ouviu enquanto falavam alguma coisa, mas não conseguia entender muito bem. Os braços não respondiam mais aos movimentos da dança e as pernas se esforçavam em permanecer firmes no chão apesar de começar a tremer. Aos poucos, um véu negro começou a se formar no campo de visão de .
Em poucos segundos, ele atingiu o chão – desacordado e completamente extenuado.
Enquanto todos corriam para acudir e tentar acordá-lo – pelo menos antes de ir ao hospital –, respirava fundo para ela mesma não ter um colapso nervoso em seu próprio trabalho.
Não havia nada que ela odiava mais do que ficar confinada em um cubículo o dia todo, resolvendo picuinhas alheias enquanto poderia estar respondendo perguntas complexas e falando de assuntos que realmente importavam.
Ela já tinha falado que resolveria aquele problema. Mas ninguém podia esperar. tinha quinhentas coisas para resolver em um dia, sem contar nas vinte urgências que surgiam por minuto, seu telefone tocando, perguntas e mais perguntas, todas urgentes.
Não era à toa que ela ficara doente. Sua saúde estava acabada e em recuperação – resultado de ficar um dia semi-internada no hospital e ir trabalhar nos outros dias, enquanto deveria ter ficado de repouso em casa. Mas ela não podia arriscar seu emprego, tinha muitas pessoas dependendo dela.
A moça suspirou, fechando os olhos e esfregando a testa com uma das mãos. Ela precisava passar por aquilo se queria chegar ao seu sonho de proteger aqueles que realmente precisavam dela e efetivamente fazer algo para mudar o mundo.
Foi nesse momento que o computador dela sinalizou a chegada de mais um e-mail.
Quando viu o assunto e o remetente, quis chorar. Ela não conseguia mais lidar com aquilo – não naquele dia, não naquele momento. Não dava. Era demais e parecia que seu sonho nunca ia chegar.
Repentinamente, sentiu as mãos começando a tremer. Os olhos se encheram de lágrimas involuntariamente. Ela bloqueou o computador, levantou-se e caminhou calmamente até o banheiro, como se nada estivesse acontecendo.
O alívio de encontrá-lo vazio foi inigualável. Quando ela conseguiu se trancar em um dos boxes – o mais distante e reservado de todos –, deixou-se começar a chorar. As lágrimas fluíam livremente, e as mãos dela tremiam, em um típico ataque de nervosismo.
Apesar do rosto vermelho, ela não fazia barulho. Permanecia com a mão sobre a boca, forçando a si mesma a ficar em silêncio. Respirou fundo uma, duas, três vezes. Demorou alguns minutos para se recompor e limpar as lágrimas com papel higiênico.
Ao sair, olhou a própria imagem no espelho, erguendo a cabeça e respirando fundo mais uma vez.
– Você vai chegar lá. É só um tempo, . É só um tempo.
Com isso, conseguiu sair do banheiro e voltar para sua mesa, respondendo a todos os e-mails da maneira mais diligente possível. Ela tinha chegado até ali. Não iria desistir tão facilmente – assim como que, ao acordar no hospital, pediu alguns remédios, levantou-se e fez com que o levassem de volta para o local da gravação. Afinal, tinha um MV a terminar.

Cuba, atualmente
– Rápido, faz uma pose!
disse tão rapidamente que mal teve tempo para reagir. A moça se virou para ele, tirou o enorme chapéu que usava e o estendeu no ar, dando um sorriso enorme e mal ligando para a regata de renda que esvoaçava no ar. Ele bateu a foto quase imediatamente, analisando sua obra de arte em seguida.
– Ah, ! Você é tão linda, olha isso aqui...! – E, se tinha uma coisa que sempre fazia, era ficar bobo com a própria namorada. A moça riu enquanto se aproximava, olhando a foto no celular do namorado.
– Tenho que ser digna de você, né, amor? – Ela perguntou de volta, dando um beijo carinhoso na bochecha dele logo em seguida, voltando a caminhar casualmente enquanto colocava o chapéu com o enorme laço laranja de volta na cabeça.
ficou com as bochechas levemente vermelhas. Não gostava de admitir que não estava tão acostumado com elogios e sempre ficava um tanto desconcertado quando ela se comportava daquela maneira.
Ele colocou o celular no bolso e ficou observando durante algum tempo enquanto caminhava pelas ruas da parte antiga de Havana. A cidade certamente tinha um ar diferente, algo que o fazia querer ficar cada vez mais próximo dela, em contato com a namorada. Não que não sentisse aquilo normalmente, mas ao vê-la embaixo dos tons alaranjados da cidade, entre as belas construções históricas, movendo-se com curiosidade como uma obra de arte viva, não podia deixar de sorrir.
Tanto ele quanto ela tinham se esforçado muito para chegar até lá – tanto na vida pessoal quanto profissional. Cada dia que passava, não conseguia acreditar que tinha encontrado algo tão precioso. Perguntava-se constantemente se merecia tudo aquilo – tinha dias que não duvidava que sim, porém tinha outros que aquela certeza não era tão sólida.
O que o fez acordar de seus pensamentos foi o violão marcado enchendo o ar quente da cidade durante a tarde. Quando foi notar, lá estava ela: navegava o ritmo como a maravilhosa marinheira que era. Os quadris se moviam discretamente, enquanto as mãos começavam movimentos fluidos, as pernas da moça guiando-a em direção à música – como sempre.
riu. Não podia esperar menos dela.
se virou, sorrindo para o namorado, um convite irrecusável. Ele sorriu de volta, tirando as mãos dos bolsos e começando a movimentar os próprios quadris no ritmo envolvente de Havana, indo em direção a ela.
– Sabia! – riu, estendendo os braços para recebê-lo o quanto antes. Sempre tinha saudades de ter entre eles.
As mãos dele encontraram os cabelos da namorada, os rostos próximos, com os olhos quase desafiando o outro. Os músicos e pessoas em volta gritaram algumas palavras em espanhol – provavelmente torcendo para que se beijassem, e até puderam discernir algo como “deixem a dança mais quente”. sorriu e somente segurou as costas de , para que ela jogasse a cabeça para trás o máximo que conseguisse, atraindo mais gritos da multidão.
Foi nesse momento que notou alguns olhares lançados para ela, como o brilho dela atraía todo tipo de atenção. Não se incomodava com aquele tipo de coisa, mas, quando puxou de volta para o próprio corpo para que pudessem voltar a dançar – e ela completamente alheia ao que se passava, imersa na música e no próprio namorado para se importar com alguma coisa –, notou algo no fundo de seu peito que não tinha notado antes.
Assim como ela um dia tivera medo de avião, ele tinha medo de perdê-la.
– Me diz uma coisa, linda? – Ele perguntou antes de girá-la, logo trazendo-a de volta para perto de seu corpo.
– Yep. O que te afliges, meu amor? – E tinha aquela mania de fazer perguntas de maneiras engraçadas em momentos sérios que dispersava qualquer preocupação que resolvesse se assentar nos ombros de .
– Você tem medo de me perder?
franziu as sobrancelhas com aquela questão, porém tinha um sorriso nos lábios. Estranhou aquela preocupação, mas ao ver o incômodo genuíno no fundo dos olhos do namorado, abrandou as próprias expressões – permanecendo com a expressão mais calma e contente que podia no momento.
– Não, . Nunca terei medo de te perder. – respondeu de maneira plácida, apesar dos passos de dança. Quando ele abriu a boca para falar algo mais, a moça pousou dois dedos nos lábios de . – Eu sei que você pertence a mim e tenho certeza que pertenço a você. Nós estávamos destinados a nos encontrar, então mesmo que a gente se perca em algum momento, seja nessa vida ou não, vamos acabar juntos novamente, de uma maneira ou de outra. Não há nada nesse mundo que me faça ter dúvidas de que, agora que nos achamos, nunca vamos nos perder.
sorriu. Não, aquilo não tinha sido o suficiente para extinguir todas as suas dúvidas, mas certamente foi o que ele precisava para abrandá-las e aproveitar o momento que tinham nas ruas feitas de paralelepípedo de Havana e seus músicos de rua.
Logo que a música acabou e ambos pararam de dançar, porém, um homem os chamou para um canto, enquanto outra música começava a encher o ar e outras pessoas se divertiam com seus parceiros de dança.
– Vocês dois estavam dançando muito bem! Já foram em algum bar de dança aqui em Havana? – Ele perguntou com um sorriso enorme estampado nos lábios, recebendo uma negativa de ambos. – Tenho um clube com alguns amigos que se chama La Luna. Seria ótimo se vocês passassem por lá essa noite!
La Luna? Mas é um clube de quê...? – franziu as sobrancelhas, achando aquilo tudo um tanto suspeito, enquanto observava o cartão que tinha entre os dedos.
– De dança. É onde ainda nos divertimos um pouco, enquanto não estamos falando sobre política. – O homem piscou para eles. – Gostamos de ver estrangeiros como vocês, que sabem dançar e se acostumam com o nosso ritmo cubano! Fazemos competições e sempre queremos os melhores para competir entre nós! Apareçam por lá, ficaremos aguardando!
– Pode deixar que iremos! – E acenou para o homem, que se distanciou com um sorriso e um aceno rápido. Em seguida, olhou para com a maior empolgação do mundo. – Será que é um lugar tipo La Rosa Negra?!
Definitivamente você assistiu muito Havana Nights antes de vir pra cá! – respondeu com uma risada audível, enquanto abraçava a namorada para voltarem a andar. – Mas, sinceramente, está parecendo isso mesmo. Quer ir?
– Se eu quero ir?! – A moça era o ápice da empolgação. – Meu querido, eu já estou lá!
somente a trouxe mais para perto de si, dando um beijo no topo da cabeça de e notando como as bochechas dela ficaram imediatamente coradas apesar do calor do dia. Ele esperava, de todo coração, que nunca a perdesse.

Cinco anos antes
sentia um frio na base do estômago que nunca tinha sentido antes.
Todas as suas anotações, pesquisas, folhas, argumentos e muitas outras palavras estavam atoladas em milhares de papeizinhos que ela fingiu ter organizado em uma pequena pasta verde. Somente quando a moça olhou para a pasta em seu colo é que percebeu como suas mãos tremiam de nervoso.
Ela as segurou, uma na outra, para tentar se controlar.
respirou fundo, mentalizando coisas boas para permanecer calma. Era a primeira vez que ia defender sua tese de paz entre duas nações em guerra em nada mais, nada menos que nas Nações Unidas.
Sim. Aquele trabalho de faculdade que todo mundo riu da cara dela, falando que a moça sonhava demais, foi notado por um homem que – sabia-se lá como – comprou um dos livros que ela publicou com a própria tese, uma tiragem pequena e até medíocre, encantou-se com as palavras negras no papel e a chamou para apresentar sua hipótese nas Nações Unidas.
Se tudo desse certo, ela ia fazer parte de um projeto de paz que todos já assumiam que nunca ia ocorrer.
estava orgulhosa de si mesma, apesar de morrer de medo. Tinha que falar com muitas pessoas – e pessoas importantes¬ – de diversos lugares do mundo. Nunca ficou muito confortável em falar na frente de multidões, mas sempre conseguiu lidar com aquilo... Daquela vez, entretanto, tinha certeza que iria desmaiar.
...? – Um garoto que ajudava a organizar o evento veio chamá-la com um sussurro. A moça voltou os olhos completamente alheios para ele. – Já te chamaram no palco. Está tudo bem? A senhora quer uma água?
– Não, não, obrigada, estou bem...! – Ela riu, levantando-se desajeitadamente da cadeira.
E quase tombou. Desde quando ela tinha parado de sentir as próprias pernas?
– Tem certeza?! – O garoto a ajudou a endireitar-se. – Quer que eu peça para esperar cinco minutos?
– Não, obrigada... – E sorriu para ele, ajeitando-se e respirando fundo. – Eu já esperei demais.
Dizendo isso, ela ergueu a cabeça e foi até o local onde aguardavam para que ela começasse a falar no auditório. Foi recebida por uma salva de palmas que os ouvidos da moça nem ouviram – estava desnorteada demais para absorver todos os sons, formas, cores e toques.
– Primeiramente... – Ela apoiou a pastinha verde na madeira clara e falou ao microfone, quase se assustando ao ouvir a voz saindo daquela maneira. O coração acelerou, a garganta falhou e ela se sentiu zonza. Pensou em abrir a pasta e ler tudo novamente, em pedir cinco minutos para se concentrar, em beber seu pacato copo d’água, em fingir que teve um acesso de tosse.
Mas, repentinamente, sentiu como se nada daquilo fizesse sentido e ela estivesse exagerando. Como se estivesse alguém ao lado dela falando que tudo daria certo e ela seria impecável. Uma presença quente, radiante e sorridente, calma o suficiente para transmitir aquilo para ela. A mente da moça se organizou e ela sabia tudo que precisava fazer e falar.
“Quem quer que você seja, tudo vai dar certo para você também. Levante a cabeça e aproveite o seu momento de alçar voo. Obrigada.” Ela pensou consigo mesma. Não sabia quem a tinha passado toda aquela calma, mas queria retribuir o favor.
– Primeiramente, boa tarde! Desculpem o lapso repentino, não sei o que me deu! – disse com um sorriso nos lábios, causando risadas de todos os presentes. – Como todos sabem, estamos aqui para tratar de um assunto muito importante...
E ela sentia como se ninguém pudesse impedi-la de finalmente voar.
não se encontrava em uma situação muito diferente da dela. Suas pernas tremiam e ele não conseguia parar de se mover de um lado para o outro. Já tinha passado todas as coreografias pelo menos umas três vezes cada, e perdera a conta de quantas vezes repetira as letras das músicas.
E se ele se esquecesse do que cantar? E se não percebesse que era sua deixa e não entrasse no momento certo? E se errasse um passo? E se caísse no palco? E se sua roupa enganchasse em algum lugar? E se o ponto em seu ouvido desse problema? E se o microfone parasse de funcionar? E se a música desse defeito e parasse de tocar no meio da coreografia? E se os fogos de artifício o atingissem porque ele estava perto demais?
E se, e se, e se!
Ele estava ficando maluco com aquilo.
Eram tantas possibilidades, tantas coisas que podiam dar errado que ele mal conseguia se controlar. Já tinha feito shows antes, mas nenhum na proporção do show que faria naquela noite. Eram três horas de evento, com milhares de fãs gritando e cantando suas músicas.
estava maravilhado e aterrorizado ao mesmo tempo.
Não via a hora de encontrar os rostos deslumbrados dos fãs na multidão, de ver seus sorrisos e ouvir suas vozes se juntando a dele. Quando começassem a dançar as coreografias, o coração de ia saltar pela boca, ele tinha certeza. Mas tinha que atingir as expectativas, tinha que ser perfeito.
Estalando os dedos, as sobrancelhas dele se franziram logo em seguida. logo sentiu uma leve vertigem, percebendo os dedos tremendo em volta do microfone.
E se ele derrubasse o microfone?
! – Uma mão pesada quase o afundou no chão quando espalmou no ombro de .
– AH! – Claro, ele quase morreu do coração, encontrando um bem sorridente ao se virar. – O que você quer, peste?!
– Você está nervoso, não?
– Claro que eu estou... – E conseguiu se controlar, acalmando-se do susto. – Você não?
– Estou sim... Existe muita expectativa sobre nós essa noite. – respondeu com um olhar perdido, tentando enxergar a plateia através das divisórias do backstage. – Mas pensei numa coisa que minha mãe sempre me falava... “Quando você estiver nervoso, pense em como consolaria alguém que ama na mesma situação”. Não que vá ajudar totalmente, mas pelo menos te distrai um pouquinho.
– Sinceramente, acho que eu não estou em condições nem de me consolar nesse momento, imagina consolar outra pessoa! – comentou com uma risada, arrancando uma risada de .
– Pensa nisso! – E nesse momento, foi chamado para tomar sua posição do outro lado do backstage. Iam entrar em menos de cinco minutos. – É melhor que nada!
balançou a cabeça, enquanto o amigo se distanciava correndo, mas ainda sorria. Não conseguia ver como aquilo podia ajudá-lo, mas resolveu tentar mesmo assim. Não podia ficar pior do que estava.
Fechou os olhos e imaginou-se com uma namorada – só porque queria. Ela não tinha rosto, porém estava arrumada e ansiosa para a maior oportunidade da própria vida – assim como ele. se aproximou dela, observando-a parada em frente a um microfone. Parou ao lado da moça, passou um de seus braços pelos ombros dela e aproximou a boca o máximo que pôde da orelha da namorada, até seus lábios roçarem na pele quente.
“Acalme-se, linda. Você é inteligente, maravilhosa, talentosa e chegou até aqui por nada menos que seu mérito próprio. Todos vão perceber e você não terá dificuldades de brilhar. Não tenha medo de abrir suas asas e voar. Só respire fundo e abra os olhos para brincar entre as nuvens, porque você merece isso. Tudo vai dar certo.” Foi o que ele disse, sorrindo radiantemente para ela em seguida.
abriu os olhos e viu a luminosidade do palco estourando, a música começando a reverberar no chão e dentro de seu próprio peito. Repentinamente, sentiu como se todas aquelas pessoas na plateia estivessem agradecidas de que ele estava lá – como se estivessem dizendo a ele que levantasse a cabeça e alçasse voo, pois também merecia brincar nas nuvens.
Com um sorriso convencido e a cabeça erguida, ele se lançou no palco, sem medo de abrir as próprias asas para voar.

Cuba, La Luna e o Sol
– Então? Era tudo que você esperava? – perguntou ao pé do ouvido da namorada, abraçando-a por trás, enquanto caminhavam até o bar do clube lotado.
– Não, é bem melhor! – respondeu com uma risadinha, apoiando os cotovelos na bancada e sentindo o peso de aconchegantemente em suas costas, enquanto ele apoiava os próprios braços ao lado dos dela. – Dos Mojitos, por favor. Mas só é melhor, porque você está aqui comigo. Se você não estivesse aqui, ia ser legal, mas não tão legal.
– Quer dizer que você ia se divertir sozinha de qualquer jeito, señorita? – Ele a virou no balcão, colocando-a de frente para si e prendendo-a entre os braços, porém tinha um sorriso divertido nos lábios.
– Claro que sim. Mas você definitivamente faz a diferença. – E, dizendo isso, envolveu o rosto do namorado com ambas as mãos, puxando-o para um beijo calmo e demorado, contrastando diretamente com o ritmo forte das músicas animadas que enchiam a atmosfera do local.
– Eu adoro a maneira como você para o tempo quando me beija assim... – murmurou logo que seus lábios se separaram, a boca tocando levemente a de enquanto falava. Ela deu uma breve risada, as bochechas tornando-se tão vermelhas quanto o vestido que usava. – Minha mulher destemida, que viajou sozinha para Paris mesmo morrendo de medo de avião, mas sempre ficando vermelha que nem um tomate quando a gente se beija dessa maneira.
– Eu não viro um tomate! – A moça tentava parecer brava, enquanto ria do comentário e sentia as bochechas ficando cada vez mais quentes. Quando os copos de Mojito foram deixados ao lado deles no balcão, pegou o seu e segurou uma das mãos de para guiá-lo pela multidão até acharem mesas para se sentarem um pouco. – Não é minha culpa que você é... Você!
Essa foi a melhor explicação do Universo! – Ele respondeu com uma risada audível mesmo no meio de toda aquela música. Sentou-se em uma cadeira, apoiando o próprio copo na mesa, enquanto permaneceu em pé entre as pernas do namorado. – Talvez seja porque sentimos as coisas duas vezes mais fortes quando estamos conectadas pelo fio vermelho com a pessoa que amamos.
Essa foi a melhor explicação. – Ela simplesmente sorriu e o beijou novamente, da mesma maneira lenta que antes.
teve vontade de puxá-la mais para perto, prensá-la contra o próprio corpo e sentir cada canto do calor aconchegante da namorada. Queria se perder naqueles lábios, mergulhar no perfume daqueles cabelos sedosos e dormir na segurança daqueles braços. Não queria deixá-la jamais, assim como nunca queria perdê-la.
Quando se separaram, ele demorou ainda alguns segundos para processar todos os sentimentos que queriam escapar de seu peito e não conseguiu falar nada disso para ela – o piano começou a tomar o ar com notas elegantes e lentas, sedutoras, enquanto fechava os olhos e jogava a cabeça para trás.
se esqueceu de como respirar durante uns bons três segundos.
– Você vem dançar? – Ela perguntou enquanto os braços já deslizavam pelos ombros dele e se soltavam ao lado do corpo dela, prontos para começar a dançar.
– Daqui a pouco. – E ele tinha um pequeno sorriso escondido nos lábios, recostando-se à cadeira para assisti-la com o máximo da atenção.
Contente com a reação, deixou-se ser levada pela música. Os pés com os sapatos de dança negros deslizavam pelo chão de madeira escura tão lentamente quanto o ritmo do piano. Aos poucos os quadris dela se movimentavam com mais coragem, acostumando-se com a música. Ela segurou as laterais da saia, levantando-as levemente, e sabia que aquele era o momento em que queimaria como o fogo e o coração dele seria consumido sem nenhum remorso.
O que ele faria sem ela? não sabia. Queria que, de fato, o tempo parasse e eles simplesmente pudessem se aproveitar durante uma eternidade. Queria aproveitar cada segundo de olhares, de contatos entre as mãos, beijos e danças. Cada minuto que tinham deitados na cama em silêncio, somente olhando nos olhos um do outro – eram em momentos assim que eles realmente se comunicavam. O que faria sem ela?
Os dedos de deslizaram pelos cabelos, tirando-os do rosto, enquanto a outra mão tinha a saia levantada para dar espaço aos movimentos da perna. sorriu ao observá-la se movendo daquela maneira – ela era tão graciosa, sensual e talentosa, tudo ao mesmo tempo. De fato...
Perfecta! Una bailarina perfecta! – Um homem próximo comentou em alto e bom som, por cima da música, observando-a sem o menor pudor. – Precisa de um parceiro de dança?
nem se incomodou. Sabia que não havia nada além de verdade naquelas palavras e não podia culpá-lo de ficar impressionado.
– Obrigada, mas eu já tenho um. – respondeu com um sorriso um tanto envergonhado e apontou para o namorado, fazendo-o rir.
Era incrível. Ela podia ser elogiada pela inteligência, habilidades, conquistas e tudo mais que já tinha feito: nunca ia conseguir deixar de se sentir envergonhada quando falavam da sua aparência ou quando tentavam flertar. Algo que aquele homem claramente estava fazendo.
– Esse aí? Ele só fica sentado observando uma dançarina excepcional como você mostrando suas habilidades! – O homem deu uma pequena risada de escárnio, fazendo algumas pessoas que estavam em volta começar a rir também. – Aposto que é porque nem sabe dançar!
fechou os olhos como se o homem tivesse cometido o maior erro da vida e começou a rir. Nem precisou contar cinco segundos até sentir uma das mãos de envolvendo seus dedos, enquanto a outra mão dele a puxava de maneira possessiva, encaixando sua cintura na curva perfeita do corpo dele e começando a dançar com mais destreza do que qualquer um naquele clube.
guiava os movimentos de , mordendo de leve a ponta da orelha dela, rindo em seguida ao vê-la fechar os olhos. Em poucos segundos, girou-a no lugar, de maneira rápida e precisa, até fazê-la parar de frente para ele – as mãos de grudadas em seus ombros e as de no ponto mais baixo da cintura. Mal havia se passado duas semanas e os dois já dançavam as músicas de Havana com maestria.
Apesar disso, qualquer dançarino poderia dizer, com toda a certeza de anos de experiência, que o principal da dança deles não era os movimentos sensuais, a intensidade, a perfeição ou a técnica: era a maneira como olhavam para o outro.
O sentimento no peito de somente foi ficando mais forte conforme a noite passava. Precisava ficar com ela, tinha que ter certeza – de alguma maneira, qualquer maneira – de que eles nunca iam se perder, jamais iriam se separar. Queria parar o tempo, queria ficar junto dela por um fragmento da eternidade.
Todos aqueles sentimentos culminaram com as mãos de correndo pelos cabelos e pelas coxas de , as mãos dela contra o peito já sem camisa dele, entre beijos e mordidas nos lábios – ora de maneira lenta e carregada de desejo, ora de maneira rápida que ardia como o fogo. Ambos mal tinham fôlego para respirar, porém o desejo de estarem juntos como um era mais forte do que qualquer coisa que pudesse acontecer no momento.
De alguma maneira, acabou sentado na cama com ela no colo, as pernas da namorada de cada lado do corpo dele, enquanto as mãos de passeavam de maneira urgente pelos cabelos macios do namorado.
– O que foi, ...? – Ela perguntou repentinamente, distanciando-se dele somente para fazer a pergunta e voltando a atacar os lábios inchados e avermelhados do namorado logo em seguida.
percebera que havia algo de urgente nos movimentos dele. Como se fosse a última noite juntos naquela vida.
– Queria parar o tempo... – murmurou de volta, abraçando-a mais forte contra o corpo. – Para poder ficar com você para sempre.
– Seu bobo...! – Ela deu uma breve risada, mordiscando de leve a boca dele. franziu as sobrancelhas com a reação da namorada, apesar de aproveitar as sensações. – Nós já estamos juntos para sempre.
Agarrando-a com mais força, a tombou na cama, ficando sobre a namorada. Tirou algumas mechas de cabelo rebeldes dos olhos dela e sorriu.
– Sobre as nuvens?
Sempre.

O dourado da manhã coloria a varanda, contrastando com o azul intenso do mar que embalava o sono de . Ele acordou sem o costumeiro calor de ao seu lado, o que o fez abrir os olhos e procurar por ela – por mais que a luz da manhã fosse demais naquele momento.
Sentando-se na cama, sorriu: lá estava ela, embrulhada na camisa branca dele, apoiada na varanda e aproveitando o aroma do mar. cantarolava o piano da música da noite anterior, que dançaram como fogo no clube La Luna.
Ele demorou um pouco para achar as calças no meio daquela bagunça do quarto, mas logo estava ao lado da namorada, enterrando o nariz no pescoço dela para dar um “bom dia” com um beijo sonolento.
– Olha só quem acordou... – comentou com um sorriso calmo, aproveitando a última manhã das férias deles em Cuba.
– Depois de ontem, você não devia esperar que eu acordasse cedo. – respondeu com um olhar suspeito, fazendo-a corar e rir. Aquilo fez com que ele sorrisse de volta. – Como está o mar hoje?
– Lindo como sempre. – Ela respondeu, suspirando, entrelaçando seus dedos nos de quando ele aproximou as mãos em uma clara tentativa de segurar a dela. – Não mais do que você, mas acho que não preciso dizer isso sempre.
E foi a vez dele de dar um sorriso um tanto sem jeito. nem percebeu quando o tom róseo subiu em suas bochechas – estava mais ocupado em pensar sobre como sua vida era perfeita, e ele tinha, de fato, atingido tudo que queria. Somente foi acordado daquilo com a risadinha divertida de ao seu lado, fazendo-o olhar para ela com um olhar curioso.
– Suas bochechas! – Ela até apontou. – Parece que mais alguém aqui também não sabe lidar bem com elogios!
– Ah, sim... É... – abaixou a cabeça, rindo. Em seguida, respirou fundo e segurou a mão dela com mais força, virando-se para a namorada. Aquilo fez com que prestasse mais atenção nele, voltando-se para também. Algo dizia que ele estava prestes a falar algo importante. – Estava lembrando de uma coisa que você me disse ontem à noite...
– Eu disse muitas coisas ontem à noite.
– É além dessas coisas. – Ele lançou um olhar significativo, fazendo-a dar uma breve risada. sorriu, já um pouco mais aliviado. – Você disse “nós já estamos juntos para sempre”...
– Sim. E estamos mesmo. – respondeu de maneira convicta, sem desviar os olhos dos dele. – Desde quando nos encontramos quando éramos crianças.
– Também acho... – Dizendo isso, ele levou uma das mãos dela, beijando levemente a pele macia, mantendo os olhos na namorada. – Casa comigo?
O coração de parou por alguns segundos, assim como a respiração. Sentia-se novamente como aquela criança que conheceu aquele garotinho sorridente no aeroporto e sonhara em voar junto com ele. Como aquela moça que o reencontrou, anos depois, no mesmo lugar, ainda falando de aviões. Prestes a pegar mais um voo, lá estava ela, em outra fase de sua vida, pronta para terminá-la e começar outra – oficialmente ao lado do homem que amava e prometera levá-la para viajar com ele.
E que viagem eles estariam prontos para fazer juntos. Ela nunca imaginara que seria aquela.
– Sim. – respondeu simplesmente, envolvendo o pescoço dele com os braços e ficando nas pontas dos pés para alcançá-lo em um beijo demorado. – Resolveu parar de se preocupar em me perder?
– Nem vem que você demorou muito mais para parar de ter medo de voar! – comentou, mordendo o nariz dela de leve em resposta, fazendo com que ambos começassem a rir.
De todas as nuvens que eles podiam deslizar e brincar, aquela em que estavam juntos era a melhor de todas.
– Como era mesmo a música de ontem...? – Ele perguntou repentinamente, começando a cantarolar. A voz dela complementava a dele, achando notas que não lembrava, como sempre.
Apesar de ter os pés no chão, dançar era o mais próximo que podiam de voar em terra firme. Aquilo fez com que todas as preocupações tanto de quanto de se dissipassem no ar, os corações contentes de uma maneira que não conseguiam descrever – somente dançar.
Ele finalmente entendeu algo que o fez rir de si mesmo por ter se preocupado com algo tão pequeno: aquele dia não marcava o fim, mas sim o momento em que suas linhas vermelhas finalmente se interligaram em um laço impossível de se quebrar.
– Para onde vamos voar agora, señorita? – Ele perguntou com uma breve risada, fazendo-a sorrir de volta.
– Para onde quisermos. Nada pode nos segurar, ! – comentou, a brisa da manhã batendo em seus cabelos que reluziam com o dourado do sol.
Ele não conseguia parar de sorrir. De fato, não podia pedir mais nada na vida, pois tudo estava perfeito. Mal conseguia acreditar que tinha chegado até ali – mas, sim, aquele mar, o sol, os leves lençóis brancos e ela eram reais. a puxou para perto e abraçou fortemente .
– Agora você sabe? – Ela perguntou de olhos fechados, sorrindo naquele abraço que gostava tanto.
– Sei... – Ele suspirou de volta. – Nós nunca vamos nos perder.


Fim.



Nota da autora: El mariachi, el mariachi, el mariachi...
Então, eu comecei a escrever essa história sem ter ouvido a parte dois. Só depois de umas três páginas é que ouvi efetivamente a música e tive que mudar todo o feeling da história, porque a Airplane é azul com um pouco de rosa arroxeado enquanto Airplane pt.2 é uma mistura de tons de vermelho, chegando quase a preto.
Sim, a pessoa estranha que escuta cores, prazer, eu mesma.
Aí não tinha como fazer em outro lugar que não fosse Havana! Como a letra fala bastante das superações deles, resolvi desenvolver um pouco mais esses dois personagens – coisa que não fiz muito na primeira história. Essa aqui ficou curtinha, mas profunda!
Estou apaixonada pela minha série de Airplane e creio que vai acabar aqui na parte 2 (torcendo para eles não lançarem uma parte 3)! Essa fic tem um carinho a mais também para a Vivi, pessoa que me colocou a imagem mental do dançando Havana da Camila Cabello e me distraiu durante uma reunião de 1h com isso. Obrigada pelas imagens mentais durante semanas estressantes, Vivi (e também pelos incentivos para escrever ;D)!
Espero que gostem da continuação de Airplane! Tentei fazer jus à primeira parte. Fiquem à vontade para comentar, que respondo o mais rápido que posso!
XX
PS: Segue meu grupo no facebook pra que vocês fiquem de olho nos meus próximos projetos! Tem espaço pra todo mundo e espero vê-las lá.
Disclaimer: Essa história é protegida pela Lei de Direitos Autorais e o Marco Civil da Internet. Postar em outro lugar sem a minha permissão é crime.
Não gosto de falar essas coisas, mas como já tive problemas antes, acho bom deixar avisado. Nem tudo que tá na internet é do mundo, minha gente. Quer postar em outro site? Fala comigo! Eu não mordo! Hahaha a gente vê de me dar o crédito e linkar para o original aqui no FFObs! Só me mandar um e-mail ou pedir aí nos comentários!




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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