FFOBS - 13. Waiting For My Sun To Shine, por Mab

Capítulo Único

“A força te encontrará em breve, como nunca pensou que encontraria.’’

- Mamma mia!*Meu filho, eu já te disse que por aqui não funciona assim! – Observei de longe a discussão que já tinha sido começada assim que o carro importado – e provavelmente caríssimo – parou na entrada de casa, o homem parecia de fato alguém riquíssimo,o terno bem polido, o óculos escuros de uma marca cara e o relógio que reluzia ao ter contato com o sol. Meu pai, mais baixo e rechonchudo que o rapaz de terno gritava as palavras em seu sotaque italiano tão forte quanto o da minha avó, enquanto movia sua mão esquerda como todo bom e velho italiano. – Podemos resolver de outra forma!

Is this a waste of all my precious time, and could this chance that I lead me to losind my mind, as I step to the edge, I saw the water below then I said to myself, “sometimes you’ve gotta let go’’. |Isso é um desperdício de todo o meu precioso tempo? E poderia essa chance me fazer perder a cabeça? Ao pisar na margem, eu vi a água embaixo, então eu pensei “ as vezes você deve deixar ir’’.

- Senhor , eu preciso de uma leva bastante grande e de qualidade para hoje à noite. Podemos terminar os assuntos quando eu voltar pela manhã... - o rapaz dizia observando seu relógio de pulso. Ali perto eu prestava atenção na conversa, logo na varanda a mesa do café da tarde estava posta, e eu estava ali, não só para comer um bom Brigidini – sobremesa típica da região da Toscana -, mas também para assistir meu pai discutir com mais um dos seus clientes, como fazia semanalmente. A casa na qual vivi parte da minha vida podia ser dita uma mansão, era enorme, com enormes janelas francesas, e a plantação de videiras tão longa que não conseguíamos ver o fim tão próximo, logo a direita havia a plantação de lavanda, também tão extensa quanto a outra, as quais eram um negócio da família, que passava de gerações para gerações desde a antiguidade, onde um dos meus antepassados levou seus vinhos para o mundo, e este ficou tão famoso quanto o sobrenome que carrego. Logo abaixo da casa, havia uma enorme adega, onde guardávamos nossas melhores safras.
- Mio-Mio figlio*, eu sabia que era errado desde o começo, quando seu pai me disse que você tomaria conta da empresa... – meu pai continuava falando, quem não fosse dali provavelmente diria que aquilo era uma discussão, mas era apenas o costume italiano de gritar enquanto fala. – os caçulas são muito mimados. Eu disse para teu pai, disse que estava te mimando demais! Para que você quer meus vinhos? Ainda mais a minha melhor safra ragazzo?*
- A empresa tem uma enorme encomenda, a pedido dos seus vinhos para um casamento amanhã à noite, os noivos são atores de Hollywood. – o homem de terno desencostou do seu carro branquíssimo e olhou o verde ao seu redor, eu podia ver meu pai inquieto, eu sabia, ele nunca gostara do herdeiro dos .
- Andiamo-Andiamo, cansei de falar com você por hoje rapaz, esses vinhos ainda vão me deixar careca! – ele reclamava enquanto passava a mão pelos fios de cabelos grisalhos, puxei a taça de vinho a minha frente tranquilamente, assistindo a cena que meu pai protagonizava, mas quando senti o gosto do vinho passar pela minha língua, o olhar do meu pai queimava sobre mim.
- vai te mostrar a última safra, ai você decide se vai mandar pra porcaria do seu casamento ou não. Te vejo amanhã as nove horas, no meu escritório. – meu pai, junto ao rapaz caminhavam se aproximando dos três degraus da varanda. – ! MOSTRE NOSSOS VINHOS A ESSE RAGAZZO! – meu pai subiu os degraus gritando, como se eu estivesse muito longe do mesmo, o que me fez bufar antes de terminar meu vinho. Me prontifiquei ficando de pé e batendo a palma da mão sobre a saia do meu vestido azul claro e curto. Era minha semana de férias, e eu teria que atender os piores clientes.

All I know is, all I know is I’m still waiting for my Sun to shine. All I see are clouds when I look around, rain falls from my mouth as it hits the ground lead me to the light. | Tudo o que eu sei é que eu ainda estou esperando o meu sol brilhar, tudo o que eu vejo são nuvens quando olho em volta. A chuva cai de minha boca uma vez que atinge o solo, guia-me para a luz.

- Ciao, sou , você é o herdeiro dos inc. Certo? – questionei assim que desci os três degraus de madeira da varanda, ajeitando meu chapéu, retribui o cumprimento do rapaz com um beijo na bochecha.
- Pode me chamar de . – ele sorriu apenas o necessário, sem mostrar os dentes.

- Me acompanhe por favor. – sorri polidamente, indo em direção aos fundos, para a vinícola, onde dava acesso a adega para as vendas, já que a logo abaixo de casa era particular, próximo a entrada do campo de lavanda e as parreiras de uva. Abri espaço para o rapaz entrar no vinhedo, assim que abri a porta e indiquei a escadaria.

- Então você trabalha por aqui? - ouvi a voz do mesmo e automaticamente minha risada soou baixa, provavelmente ele pensava que eu ainda estava no colegial, pelo seu tom de voz.

- Estou de férias por aqui. – o corrigi dando de ombro, e andando pela adega até uma das muitas prateleiras de vinho. – Que tipo de vinho você quer?

- Moro em Roma, mas aqui também é um ótimo lugar para morar. – continuei sem prestar atenção na conversa, o rapaz encostou em um dos enormes barris que tinham por ali, enquanto eu pegava duas taças. – Esse é da minha safra favorita, é um bom vinho tinto. – servi um pouco nas duas taças e entreguei-lhe uma delas. Ele degustou e então se manteve um silencio apenas me observando brevemente. – Este é de 88.

- Quero todo o estoque que tiver deste então, preciso que seja enviado para Westminster ainda hoje. – ele sorriu terminando sua taça de vinho.

- Claro, te acompanho até a recepção e então é só fechar o pedido. – subi a escadaria junto ao homem e deixei a vinícola, o direcionando para o escritório de compras de casa. – Ciao!
- Ciao, ! – ele sorriu, acenando breve, e abrindo a porta de vidro do escritório.
- Mamma mia! – expressão de surpresa, algo como: meu Deus.
-mio figlio: meu filho em italiano.
- Ragazzo: rapaz em italiano.
- Andiamo: vamos em italiano.
Cause I’m still waiting, waiting for my Sun to shine. What does it take to be alive? And ate there chances we take, what we’re measured by? |
Porque ainda estou esperando, estou esperando meu sol brilhar. O que é preciso para estar vivo? E todas as chances que nós temos, o que nós estamos medindo?


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- EU SABIA! JÁ SABIA! – meu pai estava andando de um lado para o outro do corredor, gritando enquanto minha mãe terminava de colocar vinho nas taças sobre a mesa. – Le disgrazie non vengono mai sole. | Uma desgraça nunca vem só. – meu pai gritou o provérbio que adorava falar.

- O que foi dessa vez, Frascesco? Aposto que não é nada demais, você é cheio de escândalos para nada. – Minha mãe falou gritando enquanto voltava da cozinha.
- Aquele Ragazzo! Dio mio! – Ele falava tão alto, que se nossa casa não fosse uma espécie de fazenda, todos os vizinhos estariam de orelha em pé, e quem sabe até passaria no jornal, porque sim, os telejornais italianos também adoram contar uma fofoca. – Ele processou nossa empresa, só porque os vinhos não chegaram como ele queria! Agora vou ter que lutar num processo, isso acaba comigo, isso acaba com meus fios de cabelo!

- Papà, você sabe que uma decisão dessas tem que ter o consenso da empresa toda, não sabe? E não só do herdeiro dos , as vezes nem foi ele que inventou de processar... – retruquei, bebericando a minha taça de vinho e abrindo a porta dos fundos, que dava acesso a sala que estávamos, logo Bacco entrou correndo para dentro de casa, o enorme cachorro Cane Corso preto, se deitou no carpete próximo aos meus pés para receber carinho.
- TIRE ESTE CACHIORO DE DENTRO DE CASA, ! –meu pai disse tão alto – como sempre – que se eu não o conhecesse juraria que estava bravo e me dando uma bronca. Acariciei o pelo do enorme cão que me acompanhava desde a minha adolescência, mas infelizmente eu não podia o levar para Roma. Logo Magda, a cadela da mesma raça que Bacco, porém um pouco mais nova que o cachorro entrou na sala. – OLHA LÁ, BRIGÍDA, NOSSA CASA ESTÁ VIRANDO UMA BAGUNÇA!
- Deixe de besteira, Francesco. – minha mãe gritou aumentando o volume do telejornal que exibia uma musica pop ao fundo, enquanto dizia alto e mexia sua mão ao alto junto a sua frase.

- Já sei! Família ajuda família, e você, , vai ser a minha advogada nessa droga de processo com o Cabinotto*, você vai ganhar e nulla! – ele disse como sempre, enquanto eu revirava os olhos pensando em quanto seria terrível trabalhar com ele. Ele ia atendendo o celular e saindo do cômodo quando deu dois passos para trás com um sorriso vitorioso e se virou para mim. – O filho de Henrico chega em trinta minutos. – e por um momento, eu só quis que o maldito do herdeiro de Henrico explodisse.

- Dio mio – significa literalmente “meu Deus’’ em italiano.
- Papà – derivado de pai, ou seja, seria como um “papai’’ ou “dad’’ em inglês.
- Cabinotto – Mauricinho.
- Nulla – É uma expressão como “ e fim/ e pronto’’.


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, um mês antes, London – UK.

As I Sat on my couch, I wondered why I’m still sitting inside, all I know is I’m still waiting for my sun to shine. | Eu me perguntei porque está um dia tão bonito, eu ainda estou sentado aqui dentro, tudo que eu sei é que eu ainda estou esperando meu sol brilhar.

- Certo, Sheylla, onde quer ir depois daqui... – comentei dando de ombros, pensando nas possibilidades para completar a frase enquanto observava restaurante caríssimo ao meu redor, mas não estava tudo bem pelo semblante da mulher a minha frente.
- Meu nome é Freya. – ela fez uma careta, visivelmente desconfortável e então eu me lembrei que Sheylla era com quem eu havia saído na noite anterior. – Eu estou cansada de sair com você toda semana e você sempre confundir meu nome pelo de outra, e pior, é sempre um nome diferente do anterior! Você por acaso tem um harém?

- Não é um harém, porque não tenho compromisso com nenhuma delas e é tudo por livre espontânea vontade... – dei um sorrisinho amarelo para ela fazendo uma tentativa frustrada de jogar um charme para a mulher, que apenas me olhou incrédula depois de levantar a sobrancelha, se levantou da mesa pronta para sair, eu ia abrir a boca para comentar algo, mas então vi que eu realmente não queria fazer esse esforço, e então dei de ombros relaxando na cadeira e virando a taça de vinho.
I was dancing with the devil, I was singing dirty songs, pulling whiskey from the bottle, ‘till the early break of dawn.| Eu estava dançando com o diabo, eu estava cantando canções sujas, arrancando uísque da garrafa até o amanhecer.

- ? Acredito que já conversamos sobre isso... – meu pai estava parado na cozinha do meu apartamento, assim que eu abri a porta meio embriagado, afinal, eu não ia voltar para casa só porque meu date havia fracassado, havia muitos bares por aí, mulheres e o que mais eu quisesse, afinal, eu poderia ter tudo que eu quisesse. – Embriagado de novo?

- Ah, pai. Você sabe, a vida é mais bonita quando temos álcool no sangue. – pisquei pro meu pai com um breve riso na garganta enquanto me jogava no sofá mais próximo da cozinha.
- Já conversamos sobre isso, que merda você pensa da vida, garoto? Você acha que eu trabalhei minha vida inteira por essa empresa para você torrar com mulheres por uma noite, brinquedinhos que custam uma fortuna, como aquela merda de helicóptero que você inventou de comprar semana passada, VOCÊ NEM SABE DIRIGIR AQUELA MERDA, ! – Ele havia começado falar calmamente, mas ele estava visivelmente puto, muito puto da cara comigo. – você não tem juízo nenhum, garoto! Tudo o que sabe fazer é dar merdas de festinhas em iates, bancar viagem para aquelas três garotas que vivem coladas em você e torrar dinheiro em presentes caríssimos para mulheres que você acaba vendo uma vez só na vida. Você não pensa em amor? Em ter alguém menos fútil do que um jantar e uma foda? Aposto que as que você saiu são mulheres incríveis, teriam muito a acrescentar na sua vida, mas você não dá oportunidade, trata elas todas iguais, uma noite, você nem chega as conhecer! Você é o típico cara otário que eu teria raiva se eu visse fazendo o mesmo na rua, mas é pior, , porque eu sou seu pai, e eu não te ensinei isso, eu nunca te ensinei nada disso, você acha que sua mãe estaria contente? Porque nós sempre falamos com você sobre isso, sobre o amor !
- O amor é para os fracassados... – meu riso foi solto no ar de uma forma embriagada, enquanto eu maneei a mão no ar demonstrando indiferença. – Eu posso ter coisas melhores que isso, eu posso ter tudo!
- Ótimo, continue assim que você vai perder sua herança e parte na empresa em um pulo. – dei de ombros, observando ele caminhar até a porta com seu terno extremamente bem alinhado, ela não falava sério, ele nunca falava. – Estou falando sério, te vejo amanhã no almoço, no restaurante que íamos.

- O favorito da mamãe? – questionei observando o de forma distorcida, eu estava com sono, ele que me ligasse para avisar do almoço, eu não ia lembrar.
- Olha aqui, garoto, eu estou de olho em você, qualquer vacilo... – e então eu virei pro lado e dormi.

Na mesma noite, eu acabei ficando no sofá e dormindo por lá, mas quando Vladmir, meu assistente pessoal que se encarregava de deixar minha vida em controle, e o chão da minha casa limpo das garrafas de whisky quebradas, chegou, ele chutou o sofá.
- ACORDA0 , você tá atrasado e com cara de ressaca! – ele disse rígido. Vladmir trabalhava para mim a tanto tempo que já éramos muito amigos, o que as vezes me fazia querer demiti-lo e contratar outro, intimidade as vezes era uma merda.

| Aqui estou sendo pego com você, eu estava correndo com os lobos, eu estava uivando para a lua.
- Qual é, cara... – resmunguei e então ele borrifou água na minha cara. - eu tô indo, mas que porra! – fui pro meu quarto e a primeira coisa que vi foi a zona que estava, tinha um sutiã em cima da minha televisão e minha cara estava visivelmente péssima, até quem me visse de longe saberia da minha ressaca, tomei um banho gelado e enfiei uma calça cáqui e uma camiseta branca, saindo de casa enquanto enfiava os óculos escuros, dirigi igual a um bicho preguiça até o restaurante Japonês no Bloomsbury, o bairro que eu achava entediante, afinal só tinha museus e escritores, não que eu não apreciasse arte, mas eu estava numa época que minha vida era agitada demais para isso, e contando que tudo ali me lembrava a minha mãe, afinal, o primeiro encontro dos meus pais foi ali e eles se mantiveram frequentando aquele restaurante durante parte da minha vida, afinal, era o favorito dela, ainda mais que ficava logo em frente a um dos seus museus favoritos.
- Está atrasado. – foi a primeira coisa que meu pai disse quando me aproximei da mesa. – e tira a droga desse óculos de sol dentro do restaurante. – eu definitivamente não ia tirar, mas ele me encarou de uma forma que iria arrancar do meu rosto se eu continuasse agindo daquela forma.
- Bom dia para você também, pai. –resmunguei, me ajeitando na mesa.

- , eu havia pedido para você vir de roupa social, você não se lembra? Depois daqui vamos para uma reunião com um pessoal da empresa... – sorri amarelo, afinal eu não tinha ouvido merda nenhuma e quase nem fui na reunião.

-Desculpa eu não ouvi, acabei bebendo demais e acho que dormi enquanto você falava... – ele respirou fundo, bebericando seu copo de suco, enquanto coçava a cabeça, pedi ao garçom um copo de whisky.
I felt lonely, lost and stranded, I felt down and torn apart, with no cash left in my pockets, just a shitty fortune card. It read “strenght will find you sooner, then you ever thought it would.’’| Eu me sinto sozinho, perdido e encalhado, eu me senti para baixo e dilacerado, sem dinheiro nos bolsos apenas um desagradavel cartão da sorte, está escrito “ a força te encontrará em breve, como você nunca pensou que encontraria.
-Dá pra perceber pela sua cara que você bebeu demais na noite passada. – ele retrucou. – Você não está dirigindo? Não pode beber... Aliás, o Ford GT40 que foi do seu avô está com você, não?! – a comida logo chegou e meu pai mastigava tranquilamente.
-Então, pai, eu sai com ele na semana passada e acabei batendo... – a comida que estava na boca do meu pai parecia ter ficado entalada na garganta e semicerrou o olhar em minha direção, até que engoliu em seco
. -Eu vou falar bem devagar, porque estamos num restaurante... – ele disse mexendo as mãos e inspirando e respirando fundo. – Aquele carro tinha um enorme valor sentimental, sem contar que valia uma fortuna e nunca havia sido batido, para você chegar e me falar que bateu? E depois, , você tem vinte e cinco anos, já passou da hora de parar de agir como a merda de um adolescente e agir como um homem! É o seguinte, engole logo essa comida e vamos sair daqui, porque se eu ouvir mais qualquer coisa vindo de você vou apelar para o pior.
- Você ainda pede essas merdas de biscoito da sorte? – resmunguei quebrando o biscoito e encontrando a frase em meio a ele: a sorte te encontrará em breve, como nunca pensou que encontraria. - isso é uma idiotice.

E então foi quando tudo começou desmoronar, eu pensei que nunca fosse passar por alguma dificuldade sem ser ter o visto negado para a Antártida, afinal que merda era aquela que só cientistas poderiam ir lá? Enfim, na semana seguinte depois de ter feito algumas cagadas rotineiras que ninguém ligava quando eu o fazia, meu carro sumiu da garagem, quer dizer, não só um, todos sumiram, mas principalmente o meu favorito, e eu fiquei puto, muito puto com aquilo, em seguida recebi a ligação do meu pai falando que ele tinha confiscado todos os carros e que aquilo ia permanecer da mesma forma enquanto eu não tomasse um rumo na minha vida e fizesse as coisas direito, a primeira coisa que eu pensei foi: vou comprar outro carro, mas agora o velho havia colocado um limite no meu cartão, e como se não bastasse no final da semana eu fui até o banco falar com o meu gerente e eu vi, pela primeira vez os números do meu saldo bancário não aumentavam (anteriormente minha conta era vinculada com a empresa então parte dos lucros vinham para mim) e pior, eles diminuíram, tipo muito! Meu gerente disse que talvez o restante da grana só estivesse bloqueada, mas que possivelmente se eu continuasse levando a vida que sempre levei, zeraria minha conta em questão de um mês e ele não poderia fazer nada.
London, UK. – Um dia antes de embarcar para a Itália.
- Eu não aguento mais isso pai! – gritei já puto com toda a situação, eu beirava uma falência e estava tudo uma droga, além do mais por causa dessa reuniãozinha idiota tive que cancelar minha viagem para a América do sul para buscar uma cutia de estimação.
- Vou te dar a oportunidade de consertar tudo. – ele disse sorrindo breve e na hora eu já percebi que não viria uma coisa muito boa para o meu lado. – Nossa empresa estava organizando um enorme evento, quer dizer, está, e, você sabe, é para um desses famosos de Hollywood e aposto que sabe também que eles são bem exigentes, porém nessa manhã chegou o carregamento de vinhos que havíamos encomendado para o casamento, os vinhos vieram de um dos vinhedos mais famosos, que fica na Itália, o problema é que vieram fraudados, conheço Francesco e aposto que ele não mandaria os vinhos assim, quero que você vá até lá, escolha uma das melhores safras e já envie para Londres para que possamos tê-los em mãos o mais rápido possível, porém também quero que resolva isso dos vinhos fraudados, dê seus pulos, pesquise, pergunte, negocie, quero que volte para Londres só quando tudo estiver resolvido.
Then the pain it turned to anger, movet to joy, so now i’m good and I’m one pack of smockes from broke I can tell I will make it alone.| Então a dor se transformou em raiva, movida por alegria, então estou bem agora, e estou a um maço de cigarro da falência, eu posso dizer que farei isso sozinho.
- Então, pai, não vai dar não... – comentei sorrindo amarelo e torto. – mas eu até vou se você me devolver meu carro, você sabe aquele...
- Eu sei, aquele que você vivia andando por aí, até eu tirá-lo de você. – ele soltou um risinho sacana e então concordou com a cabeça. - Mas lembrando, você está lá a trabalho! Não quero te ver metido em polêmicas, festas e muito menos com um harém. Trabalho, apenas trabalho! Se você fizer tudo certo, quando voltar conversamos.
So I’ll keep on fighting yeah, i’ll keep on fighting in the end, when you sink, we float when you’re one Pack of smokes from broke. | E então eu continuarei lutando, sim, continuarei lutando, no fim quando você se afogar, nós flutuaremos, quando você está a um maço de cigarros da falência.
, Montalcino, Siena – IT.
Montalcino não era uma cidade grande, beirava os seis mil habitantes, era mais uma dessas que fabricavam coisas, mas não havia muito movimento, os maiores vinhedos – como o do meu pai – estava ali, mas em tese, não tinha nada de interessante na cidade, depois que virei oficialmente a advogada do vinhedo da minha família – era coisa de italiano não se preocupar com nada, apenas reclamar, então todo esse tempo eles nunca tiveram um advogado, e o que tinham antigamente havia falecido. – eu acabei perdendo meu mês de férias, afinal, tive que começar correr com papeis e atrás da transportadora que era responsável pela entrega dos nossos vinhos, quase que semanalmente eu cortava toda aquela rodovia por duas horas, de Roma até a Toscana para ficar fuçando nas coisas do caso.
Depois de correr até o palácio de justiça atrasada, adentrei a enorme construção que tinha o semblante histórico, finalmente teve uma pausa em meu trabalho, me sentei na escadaria pensando o quanto eu queria que tudo aquilo terminasse logo e eu pudesse ir para casa dormir, afinal, eu estava tão atolada em trabalho, ainda mais que, pegar para defender a empresa dos meus pais só me dava trabalho extra, porque no fim os casos que eu já trabalhava antigamente continuavam.
Passou um mês e meio desde o ocorrido e o herdeiro dos ter surgido na empresa dos meus pais, e também quase um mês e meio que o processo havia começado, passaram a ter audiências, mas o juiz sempre parecia querer mais para julgar, e então na semana seguinte lá estava eu em pé novamente em defesa dos vinhos e lá estava assistindo seus advogados fazer algo por ele, tinha tido breves diálogos com o herdeiro do ’s inc, mas nada além do oi e tchau, eu só queria que tudo acabasse logo, e assim parecia que o juiz havia tido uma luz, parecia que finalmente ele pretendia colocar um final naquilo.

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- , espera! - ouvi uma voz meio rouca gritar e quando me virei o garoto parou em minha frente, parecia recuperar o fôlego, afinal eu já havia saído do tribunal há alguns minutos e nessa hora já estava na porta do meu carro, o encarei com a sobrancelha arqueada.
- Parabéns por ganhar a causa! - o herdeiro dos , que anteriormente era a vítima comentou sorrindo breve. - estou aqui apenas representando a empresa, mas não apoio a causa. Você foi excelente durante todos os...
- Mais alguma coisa, ? - o observei de relance enquanto colocava minha bolsa no banco do passageiro.
- Na verdade, sim. Queria pedir desculpas por todo esse transtorno, tentei impedir que acabasse nisso, mas a empresa toda entrou no consenso... - ele continuou falando, mas fechei a porta o encarando finalmente.
I’m just one Pack of smokes from broke. | estou a apenas um maço de cigarros da falencia. - Não tinha porque entrar em consenso de processar minha família! Se estivéssemos errados eu não discordaria em nada, estou do lado da justiça, porém foi um erro da transportadora, eles entregaram pela metade a safra e com alguns selos rompidos, a safra foi enviada das mãos do meu pai completa, nossa política de vendas é extremamente rígida! - eu disse já levemente exaltada.

- Por favor, deixe eu te levar para jantar como um pedido de desculpas... - ele continuou e apenas tocou em meu cotovelo, o observei mais uma vez, afinal, ali era no mínimo considerado um lugar educado para tocar, qualquer outra parte que ele encostasse-se a um desconhecido seria invasivo.
- Olha, acredito que um jantar não iria mudar muita coisa... - conclui dessa vez observando os traços do britânico, os cabelos cor de ouro e o sorriso breve.
- Conheço um restaurante francês, aposto que vai gostar... - semicerrei o olhar para o mesmo cruzando os braços.
- Qual é?! Comida italiana é muito melhor! - fiz uma careta para o homem que riu breve da minha feição.
-Claro que não! Você já experimentou o ratatouille? - ele disse sorrindo breve, enquanto eu fazia uma careta.
- Você já experimentou o Tortelli mugellani? Até o cantucci é bom! - dessa vez ele que deu uma risadinha seguido por uma careta.
- Mas meu prato preferido ainda é francês. - ele afirmou e eu desdenhei, dando de ombros infantilmente o que o fez rir breve, enquanto balançava a cabeça levemente em negação.
- Em nenhum lugar se cozinha como na Itália, ou seja, nenhuma comida que não seja daqui é tão boa... - continuei e então ele sorriu amplo, como se logo fosse discordar, estava só esperando eu parar de falar.
- Ok, então te busco na sexta às oito, e você vai ver que os pratos franceses são os melhores. - revirei os olhos, o encarando de forma divertida, sustentando um olhar e um breve riso, igual o mesmo.
- Certo, eu vou só pra repetir que não é tão bom igual aos italianos! – afirmei num breve riso. - E depois, eu te encontro lá. - conclui dando de ombros, e finalmente abri a porta para entrar no meu carro. – Ciao, !
- Bye, ! - ele disse sem se render a língua local, mantendo sua língua nativa e eu ri breve negando com a cabeça.

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A saia midi caiu perfeitamente sobre minha cintura, logo combinada com uma blusa mais rente ao corpo, o scarpin baixo que costumava usar no dia a dia logo foi posto em meus pés e terminei passando o perfume e dando uma olhada de relance no espelho, saindo de casa, observei o relógio marcar as oito e quarenta, sendo que teríamos marcado às oito, acredito que seria o tempo necessário para ir pra lá, o restaurante francês não ficava muito longe e logo caminhei pelo assoalho, sendo indicada pela atendente onde estaria , o homem desta vez com uma roupa social perdia seu olhar pelo visor do celular com um semblante totalmente entediado.
- Ciao. – disse ao me sentar em sua frente, o mesmo arqueou a sobrancelha e finalmente me fitou.
-Decidiu vir? – ele soltou de uma maneira irônica.

-Eu disse que viria. – retruquei, observando a garrafa de vinho já pela metade sobre a mesa.
- Não foi o que pareceu. – ele bebericou o liquido da taça ainda de uma forma rígida. – Eu sabia, que mulheres italianas não eram para mim. – ao ouvir a frase do mesmo automaticamente meu cenho se franziu e provavelmente a cara de desgosto tomou meu rosto.
- Isso é óbvio! Mulheres italianas são boas demais pra você. – revirei os olhos, logo em seguida murmurando: - qualquer mulher é boa demais para um babaca como você.
- Eu vim aqui como um pedido de desculpas pelo transtorno e você age assim? – beberiquei o vinho recém posto pelo garçom em minha taça.
- Como é? – meu cenho se franziu automaticamente e o breve riso saiu da minha garganta ironicamente.

- Chega quarenta minutos depois, sendo grosseira e ainda quer que eu te trate normalmente depois de ficar o maior tempo aqui como um trouxa te esperando? – dessa vez foi o riso do homem ironicamente, pude perceber que o álcool já corria por seu sangue, o primeiro botão da camisa estava aberto de uma forma que não estaria se ele estivesse sóbrio.
- Eu sabia que vir nesse jantar era fria! – retruquei de forma séria o encarando. – Você é um idiota, e eu não sou obrigada ficar aqui vendo você resmungar.
- Conseguiu o que queria, não vir. – ele disse enquanto perdia seu olhar pelos meus atos, me levantando da mesa.

- Não, eu quis vir, mas pelo jeito foi idiotice pensar que seria uma noite agradável. – respondi o mesmo que dessa vez fixou seu olhar no meu – eu realmente cogitei que você fosse uma pessoa diferente do que meu pai falava, mas pelo jeito não é. – Abbassati, eu não ligo pelos transtornos que você trouxe.
- Bye, . – ele disse já levemente alterado, o que foi a deixa para eu abandonar o restaurante negando com a cabeça, afinal, eu nem deveria ter vindo.
- Abbassati – Não se preocupe.
, Roma – IT.
era uma pessoa difícil de compreender, não que ela devesse ser fácil, mas as coisas costumavam ser mais fáceis para mim em relação a garotas, talvez fosse esse o erro, tratar ela como garota e não como a mulher que era, eu não sabia direito o por que, mas quando eu a vi em meio aquele tribunal, defendendo semana após semana o caso com tanta dedicação, impressionando o juiz com seus argumentos e provas eu passava a querer mais ela, como se ainda que durante toda minha vida não houvesse focado tanto na inteligência, digo, na minha própria, nunca ter paciência para enfiar a cara nos livros, ainda assim eu me senti extremamente atraído intelectualmente por aquela mulher, e não só isso, mas a forma como ela encarava as coisas, ela era incrivelmente bonita e encantadora, eu precisava me aproximar de alguma forma, ainda que eu soubesse que era inviável, que era ridículo, mas algo dentro de mim me puxava para lá, talvez para a luz.
- Ei, ! – gritei observando ela descer a escadaria do tribunal logo a frente, ela e meu advogado, mesmo que ela houvesse ganho a causa, resolviam os últimos tópicos juntos. O vento estava forte e eu observava a mulher a alguns passos na frente carregando um pilha de papeis, alguns que insistiam em fugir dos seus braços, corri e peguei alguns dos papeis que pela força estavam sendo levados.
- Bosta, bosta, bosta de falta de estacionamento! – ela reclamou consigo mesmo, e então finalmente enfiou os papeis, e o que eu havia pegado, em sua bolsa evitando que os mesmos pegassem os primeiros pingos de chuva que caiam. – Veio reclamar do meu atraso de novo, senhor ? – a voz dela saiu quase gritando, já que o vento era forte e o barulho de buzinas ao nosso redor também.

- Na verdade eu só vim dar um oi. – respondi breve, a observando se incomodar com seus cabelos que insistiam em voar em seu rosto, atrapalhando sua visão.
- Ciao. – ela disse respirando fundo e parando de andar e me encarando. –Olha, , não querendo ser grossa, mas meu dia já está péssimo...
- Olha, , eu gostaria de começar do zero, te mostrar que não sou como seu pai acha que sou e... – e então a tempestade começou, o vento piorou muito e algumas árvores ameaçavam cair ali perto, poeira e folhas voavam o que nos fazia colocar as mãos para proteger os olhos, os pingos grossos começaram cair sobre nossas cabeças e eu só conseguia ouvir a garota praguejar em italiano.
- Poderíamos falar disso depois, talvez quando o temporal acabar! – ela disse, apressando seus passos ao meu lado, para chegar até o seu carro, mas parecia uma caminhada e ela continuava falando algo sobre a droga de um julgamento, o qual eu não tinha ideia qual era, mas definitivamente era melhor do que ela me xingando.
- MEU DEUS, ESPERA! – a segurei pelo braço em meio ao temporal, e então no segundo seguinte que a segurei ao meu lado uma arvore caiu na nossa frente, justamente onde ela iria pisar.

- Eu odeio chuva. – ela praguejou e então finalmente olhou em minha direção. – Obrigada.
- Não há de que. – e então eu disse, passando por um caminho alternativo e a puxando pela mão.
- ALI! FINALMENTE! – Ela gritou apontando para seu carro esporte parado, sozinho no meio do nevoeiro, mas não estava correto porque havia um cara puxando o trinco incessantemente. – EI TIRA AS MÃOS DAÍ, ESSE CARRO É MEU!
- PARA TRÁS, SE NÃO EU ATIRO. – o cara gritou em nossa direção nos mantendo estatelados e congelando de frio por estarmos totalmente ensopados de água.
- Calma, nós podemos resolver isso de outra forma! – ela disse cautelosa, e então saquei o celular do bolso para ligar pra polícia. - DESDE QUE VOCÊ TIRE AS MÃOS DO MEU CARRO!
- EI, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? DESLIGA ESSE CELULAR, OTÁRIO! – o homem gritou tirando uma arma da cintura e apontando em minha direção.
- Calma, senhor, calma, não há intenção de ele fazer nada prejudicial ao senhor. - ela disse com as mãos para ele manter a calma, mas então ele apontou a arma para ela, dessa vez me fazendo recuar e erguer as mãos em redenção.
- ESSE CABINOTTO ESTÁ LIGANDO PARA POLICIA E QUER QUE EU ACREDITE QUE NÃO HÁ INTENÇÃO? – o bandido riu alto, puta que pariu, até ele me chamando assim, que droga!
- Esse idiota nem sabe o número da polícia italiana! – ela retrucou grosseiramente o que fez o bandido dar de ombros.

-É eu nem sei... – comentei, continuando a pesquisar o número na internet.
- LARGA ESSE CELULAR, SEU TESTA DE CAVOLO! – Ele gritou arrancando o celular da minha mão e logo puxando pelo braço.
-QUE MERDA É UM CAVOLO? – questionei já nervoso pela reação do otário. – LARGA ELA.
-VOCÊ NÃO TEM MEDO DE MORRER, SEU FAGIANO? – ele gritou dessa vez apontando a arma na cabeça da mulher que parecia querer me esganar.
- Na verdade... – comecei pensando em qual seria meu livramento por ter dinheiro, mas, afinal, o dinheiro não me ressuscitaria... ou será que o doutor Dalton já estaria trabalhando nisso?
- Passa a chave, agora! Passa! – ele gritou, empunhando a arma mais próxima a ela, tirou a chave do carro do bolso e logo ele arrancou das mãos dela sorrindo sacana, abrindo o porta malas, nos encaramos confusos sem saber como reagir. - Entrem no porta-malas agora, se não vou matar um de cada vez, vamos lá, entrando!
- Eu não vou entrar. – retruquei na hora, e ele puxou para mais perto de si, encostando a arma na cabeça da mesma que fechou os olhos provavelmente contando até dez, ele a empurrou até o porta mala e logo mirou a arma em minha direção.
- Vai entrar, mauricinho? Ou vai preferir que eu te mate na frente da sua namoradinha? - o homem riu sacana e então eu entrei o fitando com raiva.
- Eu não sou namorada dele! – ela gritou com raiva de dentro do porta malas, e finalmente ele bateu o porta malas nos deixando lá dentro, agradeci por ela ter um carro com um puta de um porta malas.
-Viu o que você fez? Você só nos fodeu mais, seu idiota! Estamos fodidos, esse filho de uma puta vai nos sequestrar ou vender para o mercado negro! – ela gritou totalmente desesperada com os olhos fixos no teto do porta malas qual estávamos deitados.
-Dá para parar de me culpar? – gritei de volta com a mesma. – Você nunca iria fazer um acordo com o maldito do assaltante.
-Mas também não ia ser sequestrada depois de correr na tempestade, quase ser levada pelo vento, molhada e ainda com um mauricinho do lado. – ela respondeu com raiva. – Se você não tivesse aparecido, talvez meu carro nem houvesse sido roubado!
- É claro que não... – resmunguei ironicamente, então ela me fuzilou com o olhar.
-Se você abrir a boca eu te esgano, cabinotto! – ela disse de forma irada, seu rosto tinha um tom rubro, provavelmente de ódio. O caminho seguiu apenas com olhares, e claro os delas pareciam fulminante, ela parecia quere atear fogo em mim ali mesmo, talvez estivesse ficando com mais raiva ainda por não conseguir fazer essa proeza. Cerca de meia hora depois o carro freou bruscamente e o palerma do ladrão abriu com tudo o porta mala.
- RALA, OS DOIS! – Ele gritou ainda com a arma na mão, e eu não consegui deixar de olhar com um semblante entediado. – VOU EXPLICAR UMA VEZ SÓ; SE DEREM QUEIXA NESSAS PRÓXIMAS 24H EU MATO OS DOIS! – Ele gritou com tudo.
- Dá pelo menos para parar de gritar? – resmunguei e ele deu de ombros de uma forma grosseira.

-NÃO. – o bandido retrucou. – E não vão achando que podem denunciar e se safar, eu sei tudo sobre você, , eu sei dos seus vinhedos e onde mora... Qualquer deslize eu vou atrás de você, um sequestro seria muito arriscado, mas seu carro vale muito... Agora pulem fora!
- MAS AQUI É NO MEIO DO NADA! – ela exclamou completamente frustrada saindo do porta mala ao som de um riso sacana do homem barbudo.

- Boa sorte, . – ele disse cínico e então entrou no carro e sumiu pela estrada. O caminho era longo e ainda que houvéssemos ligado para uma prima de para buscar-nos o caminho nunca parecia chegar, as baterias tinham acabado e não havia como ligar novamente para a mulher, haviam quilômetros e mais quilômetros de pura estrada batida, sem nenhuma viva alma, o sol rachava sobre nossas cabeças e já estávamos cansados, com fome e desidratados.
- Fagiano. – palerma, garoto meio tontinho.
- Cabinotto. – mauricinho.
- Sabe se eu estivesse no meu país, eu com certeza já estaria em casa, afinal, os funcionários... – comentei, relembrando de como seria encontrado logo caso isso ocorresse comigo em Londres.
- Eu sei que você é um desses riquinhos idiotas que acham que tem tudo no mundo, não precisa dizer. – ela retrucou de forma grosseira enquanto parou apoiando as mãos nos joelhos para descansar.- E eu já liguei para Fine vir nos buscar.

- Você se acha tão moderna e julgando as pessoas desse jeito, huh? – soltei rindo breve da garota, ainda que não houvesse humor algum ali, ela deu de ombros.
- Até parece que você não é um. – deu ombros sendo irônica comigo que ainda mantinha meu semblante de indiferença pela crítica. - Óbvio que é assim!

- Estou a um maço de cigarros de perder tudo. – Dessa vez pude rir, um riso nasalado e opaco, o qual na verdade eu ria de desgosto, voltei meu olhar para a garota que me olhava de relance, dessa vez em silêncio e finalmente sorri de canto, conformado com toda a situação e finalmente dando meu braço a torcer. - Posso perder tudo facilmente, a herança, a minha conta bancária, tudo pode ser confiscado num piscar de olhos.

- O que aconteceu? Pelo que eu saiba a inc. Está mais em alta do que sempre esteve... – ela disse, agora num tom mais ameno e tranquilo, esboçava apenas uma curiosidade genuína.
- Não, a empresa está ótima, o que não está tão bem é minha relação com meu pai. - joguei no ar, passando a mão sobre o suor na minha testa. - Bom, digamos que eu sempre gastei valores muito altos com coisas inúteis, festas, viagens de última hora e principalmente mulheres, e meu pai simplesmente cansou, ai ele acordou de manhã e me viu de ressaca na mesa e gritou "se você não começar a ter responsabilidade vai perder tudo ragazzo!", Sim, ele disse ragazzo, deve estar aprendendo com seu pai. E então eu achei que era brincadeira, mas em questão de dois dias meu carro não estava mais lá, e ele disse que havia vendido para pagar uma dívida que eu havia feito no final de semana, qual é, meu carro era um desses de edição especial! – eu sabia que ela estava percebendo meu semblante de decepção, afinal eu realmente estava. - e então, ainda assim achei que o dinheiro ia permanecer caindo na minha conta, mas comecei a ver os números diminuírem e alguns zeros sumirem completamente da minha conta durante a semana, afinal, anteriormente uma porcentagem dos lucros da empresa caiam na minha conta, como uma espécie de herança, porém com meu pai ainda vivo, e então esse vínculo que tinha da minha conta com os lucros foram cortados e percebi que é sério, eu estou mesmo a um triz de perder tudo se eu não me comportar. – confidenciei para a garota que olhava como se pedisse desculpas por ser tão invasiva.

- Eu... eu sinto muito. – ela sussurrou breve, logo encontrando uma única flor no acostamento, provavelmente havia sido arrancada de algum jardim, e agora estava ali jogada em meio ao lado. – Eu amo girassóis. – A herdeira disse com uma voz baixa e calma.
- Por que eles sempre buscam a luz? – questionei-a e a mesma negou com a cabeça.
- Poderia não responder por ser pessoal, mas você se abriu comigo e talvez eu deva... – a mulher comentou enquanto passava as mãos sobre as pétalas amarelas. – Me lembra meu avô materno, ele era bom, gentil e sempre tinhas as ideias que mais irradiavam luz quando tínhamos um problema, mas então ele se foi e a única coisa que me leva para perto dele é os girassóis. – ela sorriu fraco e então olhou de relance para mim, que provavelmente a encarava encantado. – Ele tinha os olhos azuis, mas a mamãe sempre dizia que parecia ter o girassol em meio a todo o azulado, já que o olho dele tinha um pouco do amarelo próximo a pupila, o que lembrava pétalas da flor.
- Poético. – comentei sorrindo fraco. – Eu sinto muito pelo seu avô...
- Está tudo bem, nós temos que lidar com as percas. – e então a mulher abriu um sorriso, devolvendo a flor para o canteiro enquanto seguíamos, eu poderia falar para ela o porque eu não conseguia amar a Itália, queria explicar tudo, talvez eu devesse...
- A minha mãe morou na Itália... – comentei baixo e logo quando ia prosseguir uma buzina estridente e um carro meio velho apareceu dirigindo feito louco pela estrada.

- FINE! – Ela gritou e uma mulher - provavelmente a prima dela - meio descabelada saiu do carro.

- CHEGUEI, QUERIDOS! – a mulher parecia ter seus dezenove e nenhum juízo na cabeça, esticou duas garrafas plásticas de um litro de água no ar. – Vim levá-los para casa, mas primeiro, hidratem-se! Só entra no meu carro gente muito hidratada!

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- É a cultura italiana, ! – ela gritou já puta com os comentários que eu ainda fazia sobre o ultimo jantar, afinal as coisas ainda não estavam claras, enquanto tomávamos café numa cafeteria local, próxima ao trabalho dela, este o qual eu apareci lá e a chamei para ir comer no local mais próximo.
- Engraçado como você quer que eu respeite sua cultura, e seu país quando você não leva em consideração as minhas. – soltei finalmente de forma seca, porém ela tinha que saber, e então ela bebericou sua taça de vinho pensativa.

, Roma – IT.
Realmente não estava levando em consideração, ele podia ser um idiota, mas por estar fazendo isso, eu também estava sendo uma. O café daquela tarde passou e eu comecei a me questionar as ações que costumava ter, procurava a revolução, o novo e o que fosse certo para defender, como o feminismo, o engajamento social, mas sempre olhava o meu lado, sem nem sequer parar para olhar o ponto de vista de , afinal, ele não estava certo em ser grosseiro em tal noite, mas eu também não era a correta por querer que o homem engolisse meu breve patriotismo, amor e cultura do meu país, ele era novo aqui, lugar diferente, idioma oposto, eu estava sendo rígida demais.
Percebi o quanto ele não era um completo imbecil quando começamos a conversar, constantemente ele ia até o local que eu trabalhava, afinal o pai dele também possuía ações ali por perto e tudo que ele queria, até onde ele tinha me dito, era mostrar para seu pai que era capaz de administrar algumas coisas de uma boa forma, recuperar sua herança e quem sabe voltar para Londres.

havia resolvido aparecer justamente no pior dia de toda aquela semana, eu havia apenas pego trabalhos árduos, ouvido bosta de um superior machista o dia inteiro e para ajudar começou chover enquanto eu tentava chegar até o meu carro, com o homem tagarelando ao meu lado com o guarda chuva nas mãos.
- Abre essa droga de guarda chuva, . - gritei em meio à tempestade, ao lado do cabinotto, que descia as escadarias do prédio comercial.
- Estou tentando! - ele gritou e então pude observar seu terno caro ficar encharcado gradativamente. - Mas, e se eu não abrir? Você por acaso é de açúcar? – ele soltou sacana, rindo brevemente.
- Então tenta com mais força! - gritei com mais raiva tentando inutilmente evitar a chuva colocando minha parta sobre minha cabeça. - Se você não abrir eu vou socar sua cara seu idiota, eu tenho um date em algumas horas e vai acabar com o meu cabelo!
- Calma! Está abrindo... - ele gritou em meio a forte ventania ao meu lado e então abriu com força o guarda-chuva que logo o vento virou ao contrário o quebrando e em seguida o levando junto a ventania. - Aliás, muito melhor assim, já que é um date... – ele concluiu rindo, observando o guarda-chuva todo quebrado pela ventania e então me puxou pela cintura, falando baixo e rouco próximo a mim. – Acho melhor você desmarcar, não vai querer ir com o cabelo desse jeito, né? – deu um sorriso de lado convencido, observando meu cabelo se bagunçar cada segundo mais com a ventania forte e então finalmente colou nossos lábios, me assustando por completo pela aproximação repentina, mas seus lábios eram tão macios e seus braços tão confortáveis em meio àquela confusão que a tempestade fazia no local.
Depois do dia da tempestade e do único beijo em meio àquela bagunça, nos víamos quase que diariamente, eram cafés e as vezes parques italianos, ainda se mostrava um pouco receoso com a cultura italiana, as imensas e diversas fontes que tinham espalhadas pela cidade, mas ainda assim ia a cada uma delas comigo enquanto riamos de algo rotineiro ou ao observar a população local brigar no meio da rua, discutindo política ou preferência aos berros como os antigos italianos costumavam fazer.


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- Ei, o que faz aqui? – recebi um cutucão na costela levemente, me virando para ver quem era, sorridente observava minhas ações.
- Pagando conta, acho que você não sabe o que é isso, cabbinotto, mas pessoas normais têm boletos para pagar. – soltei brevemente rindo enquanto zombava do mesmo que negava a cabeça rindo.
- Eu sei o que é isso! – ele se defendeu. – Mas nunca fiz isso.
- Está na hora de começar pagar. – comentei dando de ombros para o garoto logo me direcionando ao caixa.

- Te vejo hoje à noite? – ele soltou enquanto eu passava o dinheiro para o bancário.

- Que? – perguntei confusa sob o olhar do homem.
- Te pego às oito no seu prédio. – ele soltou mais uma vez de supetão enquanto ia saindo do local.
- COMO ASSIM, ? – falei um pouco alto demais e ele apenas retribuiu com uma breve risada sacana, que combinava tão bem com sua roupa social, ainda que não devesse.
- Eu, você, um date. – sorriu amplo dando uma piscadela. – Para compensar aquele dia da chuva, eu sei que não era eu quem estaria no date, mas também tenho a certeza que sou muito melhor que o cara que estaria lá. – ele piscou galanteador me fazendo rir.
- Você é patético, . – disse rindo, logo voltando minha atenção para o atendente enquanto negava com a cabeça e o observava de canto de olho abandonar o ambiente que estava anteriormente.
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Ainda que fosse contra meus ideais sair com , ou melhor, contra o tipo de pessoa que ele representava, eu estava lá em frente ao espelho enorme do meu banheiro, vendo pela milésima vez e discutindo comigo mesma se aquele seria o vestido ideal, clássico, bonito, porém nada demais, depois de ter ficado trancada junto a ele eu via que ele não era tão ruim assim, não era o cara arrogante e mesquinho que se mostrava em frente a outras pessoas, de qualquer forma, era apenas um jantar, finalmente calcei o salto fino da Jimmy Choo, apertando o elevador que logo se abriu em minha frente, me dando a visão de um completamente bem vestido e com um semblante um pouco assustado, confesso que não esperava aquilo, o homem olhava para a ponta dos sapatos, já que o restante tampava sua visão por causa do enorme buque de flores em sua mão que segurava o objeto apertado sobre o peito, ele foi dar um passo à frente, provavelmente para sair do elevador, encontrando meus saltos parados e subiu o olhar com um sorriso tão tímido que eu não sabia que ele poderia transmitir.
- Eu, eu... – ele gagueijou levemente provavelmente pela situação levemente embaraçosa, mas logo respirou fundo e tomou sua postura confiante de sempre. – Fiquei esperando lá embaixo, mas você parecia não descer e como eu sei que vocês tem costume de estarem sempre atrasados...
- Mas eu estou no horário, . – sorri brevemente encarando meu relógio marcar exatamente oito e um. – Eu estava justamente descendo porque sabia que vocês odeiam atrasos... – parecia bizarro, mas estávamos ajustando nossas vidas para impedir que a bagunça anterior se repetisse.

- Desculpa, eu decidi vir mais cedo, eu não sei o porquê, mas... – esboçou um sorriso desengonçado que não deixava de ser encantador enquanto coçava a cabeça levemente embaraçado. – Ah, isso é para você. – ele esticou e eu finalmente peguei o buque, onde não era um simples...
-EI, VOCÊS ESTÃO ATRAPALHANDO O ELEVADOR! – O porteiro gritou lá embaixo no microfone que transmitiu sua voz no auto falante do elevador, nos fazendo rir, peguei sua mão o puxando um passo à frente, onde ficaríamos no pequeno hall que havia logo em frente à minha porta.
- São girassóis. – ele comentou de uma forma doce me encarando finalmente nos olhos, depois de meses que nos conhecemos, dessa vez não como sempre parecia: superior, mas agora humano, encantador, como se os três meses desde que ele havia saído daquele carro na minha antiga casa fosse outra pessoa, afinal, como ele mesmo dizia, o que ele aprendeu, viveu e os perrengues que passou com pouco dinheiro e na Itália havia o ensinado a viver muito mais do que a vida inteira.
, Roma – IT.
Algo me atraia para aquela mulher, talvez seu jeito rígido e correto em tudo que tocava, talvez fosse nossas diferenças ou até apenas uma questão de querer o que não se pode ter, afinal, éramos como gregos e troianos, a guerra nunca cessava até que um desse o braço a torcer, e aos poucos percebi que ela não daria o seu, porém ainda assim eu queria estar perto, eu queria ainda que não desejasse querer isso, dar meu braço a torcer pelo bem de termos uma chance, sabia que não a levaria para um jantar e para cama como todas as outras, não que ela fosse diferente ou única, afinal, talvez fosse verdade aquilo que meu pai dissera ainda em Londres; eu não dava oportunidade para as outras serem únicas na minha vida, mas ainda assim eu senti que tudo me atraia para ela.
- Eu adorei! – ela disse empolgada enquanto observava encantada as flores, e logo me abraçou forte, o que me permitiu respirar na curva do seu pescoço, sentindo o aroma incrível que ela tinha.
- A mulher da floricultura me chamou de louco. – eu disse ainda que com a minha voz abafada por sua pele. – Disse que ninguém dava girassóis, mas ela sabia que eu conheci uma louca que só gostava de flores caso fosse girassóis. – soltei uma risada nasalada enquanto pude ouvir seu riso breve.
- Eu sei que começamos com o pé esquerdo, mas isso soa tão certo... – ela soltou baixinho acariciando os cabelos na minha nuca.

- Tão certo quanto girassóis em direção ao sol? – comentei dessa vez a olhando nos olhos e me permitindo acariciar sua bochecha.
- Tão clichê, mas quem sabe... – ela riu breve e então empurrou a porta do seu apartamento, logo colocando as flores num vaso próximo a porta. – Eu amei as flores, obrigada!

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Os dias passavam e a presença da em minha vida era cada vez mais eminente, um dia eu estava em seu carpete observando as mechas do seu cabelo serem secas gradativamente com o secador enquanto ela perdia seu olhar pela janela, e no outro ela revirava a geladeira do meu apartamento alugado temporariamente na Itália reclamando diversas vezes de como era possível que ali só tivesse cerveja e croissant. Em meio as taças de vinho durante a noite, conversas sobre um futuro que não sabíamos qual nos esperava e visitar o Coliseu, nos perdendo por cada pedaço do lugar em meio ao som das nossas risadas eu sabia que gostava daquela mulher.
Ela me contava sobre seus dois cachorros, sobre os vinhos favoritos e eu me perdia em toda a imensidão que era aquela mulher, eu podia a contar sobre todas as minhas aventuras, desde as mais bizarras que eu não havia nunca contado a ninguém, havia comentado sobre as modelos que acabei ficando e que qualquer um queria ficar, mas dessa vez, não com orgulho como costumava fazer ao citar que já havia tido um affair com a Cara, ou até que era grudado com Niall, eu não dizia as coisas para ela como eu costumava dizer para o restante do mundo, não inflava meu ego, não me fazia melhor e não mudava muito na nossa relação, era natural, trocávamos histórias sobre a vida, sobre a arte e sobre tudo o que tínhamos alcance, alguns causavam risos e mais risos, onde desses nasciam nossas piadas internas, porque, afinal, eu percebi como é diferente ser ouvido por alguém que só quer te ouvir e mais nada, sem interesses, sem sobrenomes ou contas bancárias, sem sequer ser em uma festa ou na Guiana Francesa com um bando de pessoas que conheci há um mês, as quais eu nem ao menos sabia algo além do seu sobrenome e qual era o drink favorito. Ela me fazia querer ser melhor, me mostrava que antes ainda que eu namorasse atrizes, modelos ou rainhas, desse as melhores festas, conseguisse qualquer coisa que eu quisesse, ainda não era o suficiente, não era nada, aliás, porque nada daquilo tinha importância, eles estavam ali no dia, mas na manhã seguinte diriam que fui apenas um cara que conheceu em festas e voltariam para seus amores, seus melhores amigos e aqueles que os escutavam de verdade. Escutar, algo tão simples, que antes eu jurava achar que sabia o que era, mas na verdade era uma realidade tão distante do que eu vivia, afinal, escutar mesmo, são poucos que se deixam ali para se aventurar com você ao escutar tudo aquilo que teria para falar.

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, Montalcino – IT.
- Dio mio, o que você vê de errado no filho de Henrico? Você faz tudo dos avessos, , desde sempre! - meu pai gritou enquanto eu colocava o vinho em minha taça, enquanto ele adentrava a cozinha depois que reclamei sobre o herdeiro dos Adamatti.
- O que teria de certo naquele homem? - revirei os olhos encarando meu pai que arqueava a sobrancelha. - Ele tem 30 e ainda mora na casa do pai dele!
- Qual o problema, ? Qual o problema, sua testa di cavolo? - ele disse já se exaltando, como sempre fazia. - É tradição só se mudar quando casar, e você sabe disso, ragazza! Mas não, a bonita quis sair cedo, quis ir pra capital! - ele revirou os olhos se referindo a eu ter saído de casa quando mais nova.
- Isso é tão velho quando você, papà! Sou independente e posso muito bem sair de casa sem ser de baixo da asa de um marido. - retruquei na mesma moeda com a grosseria que ele usara anteriormente. - Altri tempi, altri costumi. - eu disse o provérbio italiano que significava: outros tempos, outros costumes.
Enquanto ele dizia eu observava de rabo de olho a televisão da cozinha, a jornalista como o padrão italiano vestia um vestido tubinho verde, usando pérolas e saltos muito altos, sem contar que ela se perdia em seus milhares de papeizinhos com as notícias, porém até ai estava tudo bem, enquanto meu pai brigava comigo - ainda que eu nem estivesse ouvindo direito - meu olho se estatelou para a atual matéria do jornal, e de repente eu quase cuspi o vinho no velho . A âncora agora falava sua matéria, e na Itália sempre rolava fofocas pelo jornal, enquanto tinha uma trilha sonora logo atrás e um repórter se perdendo em seus milhares de papéis, dessa vez a maldita tinha achado o papel certo, e esse começava com uma notícia que eu não queria que ouvissem.
- Nessa tarde de sábado, a herdeira do maior vinhedo do país foi flagrada saindo de um restaurante com o filho do milionário britânico, acontece que, de acordo com seu pai, o pretendente da garota é o herdeiro dos Adamatti, uma família tradicional ita... - enquanto a mulher falava eu rezava para que meu pai permanecesse gritando e nem reparasse na notícia, aos poucos eu ia andando para atrapalhar a visão do meu pai da televisão. Mas era tarde demais.
- O que? Aquilo é uma foto do ragazzo herdeiro dos ? - ele espiou metade da foto que aparecia na tv, a parte em que minhas costas não tampavam. - Saia daí, ! Está atrapalhando minha matéria, deixa eu ver quem é a pitona que está com esse testa di cavolo. - ele disse enquanto eu fazia caretas e tampava parte da imagem da tv, provavelmente a parte que aparecia minha pessoa.
- Olha ali, tem um novo cliente na varanda! - gritei alto enquanto dava alguns pulinhos apontando para a direção oposta.

- Sua mãe atende! - ele gritou de volta enquanto mexia a mão direita.
- Ela saiu, você não viu? Quem melhor que o próprio dono para atender os clientes? Ninguém sabe melhor que você sobre vinhos, papà! Andiamo, você vai lá, vai sorrir e nulla! O cliente leva uma safra inteira! - disse sorrindo amplo indo até meu pai e o puxando pelos ombros, saindo da cozinha com ele ao meu lado, para bem longe do maldito telejornal.

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- Dio mio, ragazza, que demora para atender a porta, hein? Tá parecendo a testa di cavolo da sua prima! - minha tia, junto as duas filhas ia entrando no meu apartamento, com suas malas e tudo. - Ah, eu posso ficar dois dias aqui, né? Estou vendo algumas coisas em Roma e seu pai disse para eu vir para cá... - ela disse alto e animada enquanto eu ainda sonolenta concordava com a cabeça, ter ela ali não era incomum, afinal, minha família era tão próxima que essas coisas todas eram normais, tudo era resolvido em família, e eu não digo eu e meus pais, as coisas eram resolvidas mesmo em família: a mesa enorme de almoço no quintal com um enorme banquete, onde crianças corriam ao redor e meus tios avós as vezes começavam xingar a política local, meu pai gritando com algo, enquanto as tias riam do outro lado e todos falando sobre a vida de todos, se Jenny deveria mesmo se casar, se meu primo não iria apresentar logo seu namorado e etc, e quando ele apareceu, coitado de Jason - seu namorado - foram tios e tias perguntando as coisas para ele, fazendo piadinhas e chamando ele para tomar vinho de madrugada, ali tudo era muito familiar, e as vezes até eu ficava incomodada com o tanto de gente se metendo na minha vida. Até então estava tudo bem, eu não ligaria de ter parte da família - super fofoqueira e barulhenta - ali, até que num estalo eu lembrei, estava dormindo ainda no meu quarto, e nesse momento minha família não podia nem imaginar que eu estava namorando com o herdeiro dos , ainda que eu já tivesse idade para cuidar da minha vida e decidir o que eu queria ou quem queria namorar, minha família com certeza iria se enfiar nisso e infernizar , sem contar que meu pai o odiava.
- , eu posso ir ao seu closet? - Rach, a filha mais nova da minha tia, com doze anos me cutucou ao perguntar, ela sempre ficava tempos comigo no closet provando vestidos e saltos enquanto dançávamos por todo o espaço.
- Rach, agora lá está uma bagunça, por que não vai arrumando as coisas de vocês no quarto de hóspedes enquanto eu vou lá arrumar? - eu disse ainda num sorriso meio amarelo, observando minha tia dar de ombros e seguir para o quarto que ficaria, e então dei uma corridinha até a porta do meu quarto, abrindo e entrando, e obviamente a fechando em seguida, observei ainda sonolento abrir os olhos, provavelmente acordando com o som da porta sendo fechada.
- Bom dia, coisinha chata... - a sua voz soou rouca e leve, enquanto ele estendia a mão para que eu me juntasse a ele na cama.
- Shhh! - comentei, fazendo sinal de silêncio enquanto ria baixinho, deixei meu corpo cair sobre a cama ao lado do loiro, que logo me puxou pra mais perto de si. - Só te digo que você tem uns cinco minutos para sair desse apartamento.
- Como assim você me dá uma notícia dessa? - ele disse rindo junto a mim, e então beijei o canto da sua boca, acariciei seu rosto observando seus cílios e toda a extensão do seu rosto, enquanto ele me apertava em seus braços.
- Minha tia chegou dizendo que vai ficar aqui por uns dois dias, a filha dela está louca para entrar aqui e ver meu closet e... - ia continuar, mas ele riu breve beijando meu ombro enquanto eu deslizava minha mão sobre a extensão do seu tórax.
- Eu sei, seu pai não gosta de mim e não seria legal ele descobrir pela sua tia. - concordei com a cabeça e então grudei nossos lábios.
- ! - a voz da minha prima ecoou enquanto batia na porta, abri os olhos num estalo junto a que segurava sua risada, igualmente a mim que abafava a minha na curva do seu ombro, logo dando uma mordida ali.
- Esperai, eu tô fazendo xixi! - gritei em resposta.

- Acho que se você falasse que estava fazendo o dois, ainda teríamos alguns minutinhos...- ele sussurrou rindo breve no meu ouvido, logo beijando o local e seguindo até minha boca, ri enquanto negava com a cabeça.
- Idiota! - retruquei um pouco alto demais enquanto abafava meu riso dessa vez com a mão, enquanto me debrucei sobre o tórax nu do homem para me abaixar para pegar a camisa do mesmo no chão, e então pegar a camisa do mesmo no chão, e então ele deu um tapa na minha bunda e o encarei incrédula, o observando rir. - Ai!
- ? Você disse alguma coisa? - Ludovica disse da porta me fazendo xingar até sua quinta geração.
-Não! Eu saio em alguns minutinhos, ok? Me esperem na cozinha! - gritei de volta, finalmente empurrando para fora da minha cama e o entregando a camiseta, ele vestia ainda com um semblante divertido, o ajudei a abotoar alguns botões enquanto ele passava seus braços por minha cintura. - É serio, , você tem que ir!
- Eu estou indo! - ele comentou sacana dando uma piscadela para mim sacana.
- Mas seus braços ainda estão em mim! - reclamei, saindo do seu abraço e o puxando pela mão até o closet e abrindo a porta para a sacada que era compartilhada com a área de serviço apenas por uma pequena divisória, indicando para ele pular.
- Estou me sentindo um fugitivo! Que errado você me encobertar, senhorita , acredito que o senhor Francesco não deve aprovar nada nada essa sua atitude, hein... - ele riu, finalmente passando para o outro lado, passei pelo corredor em passos apressados junto com ele e alcancei a porta dos fundos do apartamento, a abrindo para ele sair.
- Cansei de esconder um fugitivo, sábado você vai jantar com meus pais. - afirmei o empurrando porta a fora, porém ele estava cheio de gracinhas o que dificultava tudo e eu tentava o empurrar.
- Espera! Eu falei por falar, não quero ter que enfrentar o sogrão, não! - ele retrucou, finalmente me dando um selinho e saindo.
- Já era, ninguém mandou falar sem pensar antes. - comentei dando uma piscadela.
- vou te esperar na fontana di trevi... - ouvi alguns passos e coloquei o indicador sobre o nariz indicando silêncio, mandei um beijo no ar e o observei entrar no elevador.
- Quem era? - a voz soou logo atrás e eu ainda estava com a porta semiaberta.
- O vizinho. - sorri amarelo para Ludovica, a minha prima que já beirava os dezenove e era adepta a teoria que só deveríamos sair da casa dos pais quando fossemos para a casa do marido.
- Mas esse é o único apartamento do andar. - ela retrucou.
- O vizinho do 5° andar, ele veio me avisar que não vai mais precisar que eu cuide das plantas dele nesse final de semana! - sorri empolgada, dando uma piscadela pra ela e fechando a porta. - Afinal, ele não vai mais viajar! - e então ela deu um sorrisinho como se ainda não acreditasse, mas em seguida deu de ombros, voltando para a cozinha.

Meu celular vibrou e então a mensagem surgiu na tela, eu já sabia de quem era: "Eu já nem conheço a sua tia, mas já não gosto dela por ter me feito sair essa horas da sua cama, pretendia ficar lá até muito mais tarde!" Eu ri em negação e voltei a guardar no bolso.
, Roma - Itália.
- Olha eu nem sou italiano, mas ouvi dizer que se você fizer um pedido aqui se realiza. - comentei a observando chegar com seu vestido branco, como no dia que eu a vi pela primeira vez, ela ficava bem de branco, na verdade aquela mulher ficava encantadora com qualquer coisa.
- Você nem sabe a lenda! - ela soltou uma gargalhada.- Que decepção, senhor !
- E você sabe por acaso? - desdenhei e ela me encarou com um olhar de escárnio o que me fez gargalhar. - Eu sei que sabe, meu amor!
- A lenda diz que se você jogar uma moeda garante sua volta para a cidade eterna. - ela começou a tagarelar, mas por um momento, ainda que tudo ali fosse calmo o contrário da minha antiga vida, eu não queria trocar aquilo ali por nada. - Mas olha, pra completar o ritual você tem que jogar a moeda de costas e com força, e só virar para trás quando a moeda tiver caído na água.
- Será que eu posso jogar mais de uma? Tem um limite mínimo? - comentei rindo e ela negou com a cabeça, enquanto eu procurava nos meus bolsos por moedas, talvez tivesses umas cinco perdidas por ali, segui alguns passos para frente, me virando de costas e jogando as moedas, e então só me virei quando ouvi o tilintar delas na água, e lá estava ela, sentada na beirada da fonte, com seu vestido branco e o sorriso breve estampado no rosto. - Acho que eu preciso jogar mais umas mil, porque eu quero assegurar que sempre vou voltar para você. - ela abriu um sorriso amplo, perdendo seu olhar pelo chão envergonhada, enquanto eu ria breve e me aproximava da mesma, depositando um beijo em sua testa.
A Itália tinha sido uma montanha russa para mim, eu cheguei desnorteado, puto e indignado com tudo, estava sem grana, sem festas e a um triz de perder tudo, o desânimo que eu não havia tipo em dois anos seguidos, eu tive tudo na semana que cheguei, não queria trabalhar e correr atrás de qualquer merda de processo ou soluções para o que aconteceu, eu não entendia o porquê estava ali, e muito menos se meu pai estava fazendo uma pegadinha comigo, minha mãe morou algum tempo na Itália, e planejava voltar, nós viríamos para cá, ela me traria pela primeira vez para a Itália, e ela estava contando os dias para rever os parques, as inúmeras fontes e jogar moedinhas na fontana di trevi, eu tinha dez anos e via tudo pelos olhos da matriarca, e o dia da esperada viagem chegou, nós entramos no carro e antes mesmo de chegarmos no aeroporto o carro capotou, e minha mãe não sobreviveu, ela não pode rever sua fonte ou voltar para a cidade eterna, tudo me fazia odiar a Itália na seguinte situação, não queria estar ali, não queria estar falindo, eu pensava que a droga da viagem estava sendo uma perca de tempo, mas quando eu pisei em Roma, e estacionei próximo a uma fonte para tomar um ar eu me questionei coisas que eu sempre culpei sem sequer elas serem culpadas, alguma música na rádio dizia "as vezes você tem que deixar ir" e eu sempre prendi minha mãe a Roma, e a ida dela também, a cidade não era culpada, e igualmente agora a cidade não merecia minha ira por estar perdido, sozinho, falido e sem esperança. Anos eu esperei que houvesse alguma luz, mas a luz não chegava e então eu pensei que farras e dinheiro substituiriam muito bem a falta de um guia, ou algo que animasse meus dias, mas a Itália surpreendeu qualquer pré-conceito que eu tinha, era como se fosse ali que eu fosse encontrar a minha sorte, talvez o bilhete estivesse certo, a sorte realmente me encontrou em breve, e cara, que sorte!

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- , eu acho melhor você não vir por esse caminho! - ela gritou enquanto eu corria no meio de o que parecia com um campo enorme de alguma antiga safra de algo, onde havia alguns pedaços de grama salpicados pelo chão, e eu tentava ir até ela, já que na casa que ela estava - o antigo chalé para descanso no meio nada - não dava para chegar de carro.
- Que nada... - gritei enquanto corria, observando o chalé chegar mais perto gradativamente.
- É que em algum lugar desse campo tem uma poça... - ela dizia aos gritos ainda longe, dei de ombros enquanto corria, mas logo pisei em algo que não era sólido e por estar correndo, acabei caindo por completo numa poça de lama, agora ouvindo a risada de se aproximar, me levantei todo ensopado de lama, minha camisa anteriormente branca estava completamente marrom. - , eu te avisei! - ela ainda gargalhava na porta do chalé, enquanto dei os últimos passos em direção a mulher que vestia um vestido de verão e um enorme chapéu na cabeça. - Uau, puzzi come un alce! - ela disse entre risos e ainda que eu soubesse o básico de italiano, soube que ela havia dito "você está fedendo como um alce" e revirei os olhos em direção a mesma.
- Você vai ver o fedendo como um alce... - soltei, me aproximando da mesma, pisando os dois degraus da entrada da casa que deixou uma marca de pé com lama no chão, a fazendo fazer uma careta.
- Não toca em mim! - ela disse enquanto ria breve, encostada no batente da porta.
- Você acha mesmo que eu vim até aqui para te ver e não vou encostar em você? – questionei-a rindo, enquanto observei ela assentir com a cabeça, mas então logo puxei seu corpo para colar com o meu, entrelaçando meus braços ao redor dela. - Mero engano, bonitinha!
- Cadê sua educação britânica, seu porco? - ela disse rindo, dessa vez finalmente se rendendo a sujeira e passando os braços ao redor do meu pescoço.

- Acho que estou virando um italiano...- soltei observando o olhar da minha pseudo namorada de reprovação, como todo bom patriota faria.
- Está chamando os italianos de mal educados? - ela abriu sua boca em um perfeito O, surpresa enquanto segurava o riso.
- Não são os britânicos que começam a brigar no meio da rua! - dei de ombros gargalhando enquanto a mulher estapeou meu braço rindo.

- Olha aqui, senhor certinho... - ela disse rindo, enquanto mexia sua mão no ar, com o dedo indicador levantado.

- Você fala demais, . - sussurrei mais próximo dela, finalmente grudando nossos lábios, ela passou a mão pelo meu rosto levemente sujo, permitindo-se aprofundar o beijo, apertei seu corpo sobre o meu encostando-a no batente da porta.

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- Que bom que estão chegando! Estamos esperando vocês! - ouvi a voz da matriarca dos no vivo a voz do celular da que dava uma piscadela para mim.

- Chegamos em uns quinze minutos, beijos! - ela concluiu desligando o celular e cantarolando junto ao rádio, enquanto meu olhar se perdia pela estrada. Assim que entramos na enorme mansão, que era onde os moravam e também mantinham sua fábrica de vinhos em seu "pequeno" quintal, ela apontou a direção para chegar até a casa e não a um dos armazéns e logo estacionei em frente aos degraus que dava para a pequena varanda, que apreciava seu café alguns meses atrás quando cai de paraquedas naquele lugar, sem saber o porquê ou o que fazer direito. Descemos do carro, e de mãos dadas caminhamos entrando na enorme casa com tons totalmente italianos.
- Queridos! Que bom que chegaram, acabei de tirar o Canellone do forno! - a mãe de seguiu até nós sorridente me abraçando. - Muito prazer, sou Briana!

- , e o prazer é todo meu! - sorri amplo, ainda levemente incomodado com o senhor distraído com algo.

- Ragazzo, você é um cara de sorte...- ele ia começar dizendo animadamente, mas quando se virou para mim seu semblante pareceu duvidoso. - ?

- Senhor Francesco. - estendi minha mão pai o mesmo que a apertou sobre o olhar rígido da filha, ainda meio a contragosto, afinal, ele sabia quem eu era em Londres, era amigo próximo do meu pai e consequentemente acabava sabendo todas as merdas que fazia, convencê-lo de que eu era alguém diferente agora seria muito difícil.
- Você não é bom para . – ele disse rígido, não cedendo a mãos ao aperto, apenas se voltou para a mesa de jantar a contragosto.

- Trouxe isso, Briana... – eu sorri para a matriarca que sorria tentando contornar a situação, logo pegando o queijo suíço.

- Sentem-se queridos! – a mulher continuou se direcionando para a mesa, logo ao nosso lado.

- Isso é queijo suíço? – finalmente Francesco se pronunciou e eu assenti com a cabeça, mas ela fez uma careta. – Você por acaso fez questão de ser desrespeitoso ou é só um acidente? – ele soltou de forma grosseira ainda que eu não houvesse entendido.
- Querido, esse queijo é ótimo, não se preocupe... – novamente Briana falou sorrindo já a mesa, enquanto servia nossos copos com o vinho local.
- É ótimo, mas não é Italiano! Olha isso, esse britânico mesquinho deve estar rindo da nossa cultura! – meu corpo gelou no momento que eu vi que ele estava me odiando cada vez mais.
- O que? Claro que não, senhor ! – afirmei e então ele soltou um pigarro.

- Cansei de você por hoje, ragazzo, você me fez perder o apetite. – ele dizia impaciente, com os dedos das mãos inquietos enquanto se levantava da mesa. – Quer saber? Não vou ficar fingindo que está tudo bem! Seguinte, cabinotto, você não merece ela, e você sabe muito bem disso! não é como as garotas do seu país, ou aquelas que você vai buscar a um oceano de distância mas é apenas por uma noite, eu sei que você não vale nada, e eu não quero você perto da minha filha!
-Papà, isso é ridículo! Você não está nem dando uma chance para o e eu já estou bem grandinha para decidi... – alterou a voz assim que bebericou sua taça de vinho, logo confrontando seu pai.
-Abassati, ragazza! – ele disse alto como sempre. – Isso não é sobre você.
-É sim! A decisão de namorar alguém deve vir apenas de mim! – ela reclamou de volta enquanto o velho coçava os poucos fios de cabelo parecendo visivelmente preocupado.
-Senhor , precisamos conversar. – soltei calmamente e ele apenas parecia dar de ombros.
-A decisão é sua , toda sua, sempre sua, senhorita da razão suprema, mas eu sei que esse cabinotto ai vai quebrar seu coração em três e se você continuar se deixando levar vai ser pior do que as coisas que eu jogo pela janela no final! Você sabe disso, minha filha, sabe que ele não é para você, logo ele vai estar a um oceano e você nem vai mais ter que vê-lo, larga disso! – e então ele se virou para mim rigidamente. – Eu não tenho nada para conversar com tu, ragazzo.

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- , desculpa por tudo... – ela disse se aproximando de mim assim que a porta do seu antigo quarto foi fechado.
- Não, ele está certo. – eu disse rígido, ainda sentindo meu peito apertar sabendo que eu não queria ter que dizer aquilo, porém ela sempre mereceu toda a verdade. – Ele está certo quando disse sobre eu logo estar a um oceano, sobre as garotas de apenas um dia e de como eu sempre fui um canalha, eu sei que sou um idiota e sempre me orgulhei disso, mas quando eu te conheci eu quis não ser, quis não ter a fama, quis que seu pai gostasse de mim e quis que uma vez desse tudo certo, mas eu não posso te iludir, não posso te prometer nada, porque eu nunca tive isso que temos com outra pessoa, eu não sei como é amar de verdade, e se na manhã seguinte eu... – comecei dizer, ainda que mastigando alguns finais de algumas palavras, ela apenas me olhava nos olhos calmamente.
- Se for amor, na manhã seguinte você ainda vai estar aqui... – ela sussurrou baixinho.
- Eu quero que seja, mas eu não posso confirmar algo que eu ao menos sei o que é. Eu ouço dizerem que o amor suporta tudo, que o amor isso e aquilo, mas a única coisa que eu consigo pensar sobre o amor é em você, meu único receio é que eu não saiba o que é isso e acabar te envolvendo na minha confusão. – respirei fundo passando as mãos sobre meu cabelo. – Como eu sei o que é amor?
- Você não sabe, não funciona assim. – ela comentou sorrindo breve e doce enquanto deu de ombros.

- Queria ao menos ter sido alguém melhor, fui alguém tão esdrúxulo que nem ao menos sei o que é amor. – eu ri ironicamente enquanto meu corpo parecia revirar dentro de mim, eu sentia meu coração aquecido e forte perto dela como nenhuma outra vez, mas e se isso parasse um dia? E se isso não fosse o amor? O que eu faria na manhã seguinte se não fosse tudo aquilo que dissemos que era?
- Não podemos mudar quem fomos, , mas podemos tentar ser melhor todos os dias, até que abandonemos finalmente aquilo que fomos. – ela saiu do banheiro com seu pijama e então puxou a coberta até seu queixo. – Acredito que você precisa pensar, vou estar no quarto ao lado, pela manhã podemos ver o que fazemos.
- Boa noite, ! – sorri fraco junto a ela a puxando para os meus braços, onde ela pareceu se encaixar tranquilamente, depositei um beijo no topo da sua cabeça e logo senti o cheiro de framboesa dos seus cabelos e logo ela foi para sair do quarto, mas eu precisava perguntar, foi quando eu a segurei pela mão a um passo de abandonar por completo o quarto. – E se eu te amar na manhã seguinte, e se for o amor de verdade, seu pai não apoia, você iria contra...
- Eu não jogo com as regras do jogo dele, . – ela sussurrou baixinho de forma sonolenta. – Se for amor... se você souber que é amor não vai precisar de nada mais.
E então naquela noite eu pensei, pensei em tudo, em como nosso relacionamento tinha iniciado rápido e confuso, bêbados no carpete que recém havíamos manchado de vinho, entre um beijo e outro ela me pediu em namoro no meio de risadas altas, como se pedisse uma caneta emprestada, eu não sabia como iria terminar aquilo tudo, mas eu sabia que queria acordar com ela ali ao meu lado, nem que fosse ainda vestida, no chão da sala e com ressaca, mas eu queria aquilo, eu queria ela, independente se o pedido houvesse sido apenas uma brincadeira, mas na manhã seguinte não falamos nisso, e nem depois, e logo estávamos agindo como namorados de verdade, onde tudo surgiu num pedido que até ela mesmo havia dito que foi um pouco banal, decidimos continuar com aquilo e estava dando tão certo, não falávamos de amor, mas certamente sentíamos algo similar, foi quando bati o pé na escrivaninha da garota enquanto andava inquieto de um lado para o outro do quarto, e a mesma escrivaninha assassina tinha um livro ali e o título podia ser ainda mais irônico que tudo: “ amor é tudo que dissemos que não era’’ do Bukowski, e assim minha noite foi lendo o livro de bolso, o autor não falava muito sobre amor, talvez apenas nas entrelinhas, mas eu não precisei disso, afinal, senti que ao pensar nela meu coração batia mais rápido, queria sentir seu cheiro e ter seu toque sobre a minha pele, algo que eu nunca havia sentido com mais nenhuma, eu queria a segurar forte em meus braços e deixar meu coração sentir todo aquele amor, afinal nós apenas sabemos que é amor, não há como descobrir. E eu quase que a amava desde o dia do assalto, eu comecei sentir o amor quando levei os seus girassóis e então amei quando estávamos na Fontana di trevi, aliás, amo quando ela está perto de mim, amo quanto está longe e também quando está apenas nos meus pensamentos.
Ainda que achasse o autor um babaca – mesmo ouvindo dizer diversas vezes que ele era fantástico – ele descreveu um sentimento recorrente antes de assumir que amava aquela mulher, a qual convencia tribunais, apreciava bons vinhos e cantava em francês quando muito bêbada, ainda que sempre deixasse claro que a sua cultura e seu pais eram melhores. E então ele dizia: “Sentia-me como se estivesse apaixonado por algo que fosse muito bom, mas não sabia exatamente o que, exceto que estava ali, bem perto.’’ Eu sabia o que era, eu só tinha receio de não saber reagir com tudo aquilo, mas era um enorme engano meu, afinal quando eu admiti eu sabia, que não tinha erro, eu a amava.
No dia seguinte eu tentei falar com seu pai, mas tudo parecia ser em vão, ele achava que eu era o mesmo e era teimoso como a filha – sorte que está ainda refletia se estava correta em algum momento e caso não, voltava atrás. – finalmente havia me declarado para ela, ainda naquela manhã e pedido desculpas por todo o transtorno de ser um cara idiota que tinha medo do amor.

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E então eu voltei para a Inglaterra, era hora de resolver tudo que eu havia largado para trás, meu pai parecia renovado, como se, sem mim para dar trabalho, ele tivesse menos rugas, contei tudo para ele, desde o caso resolvido, quanto o projeto para abrir uma franquia dos vinhos na capital, contei sobre , sobre como eu havia sido idiota antes e como Francesco era irreversível, de início o velho riu, riu e negou com a cabeça e então ele disse sorrindo “esse é o meu garoto, eu sabia que ele estava ai dentro, perdido em algum lugar.’’ Me perguntei se o garoto dele era rejeitado pelo pseudo sogro, mas ainda assim não pronunciei a minha questão em voz alta, foi quando tudo clareou, ele começou do início, sobre minha mãe, sobre sua criação um pouco diferente da dele, país rígidos e sobre as teorias da mesma de como o amor curava tudo, e então ele me disse “o amor vence qualquer coisa, Francesco verá, não tem porque contrariar”.

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Ainda que não quisesse admitir estava feliz por estar de volta a solo italiano, ainda que alguns dissessem que este era o efeito do amor, o que em parte não ousava em discordar, tudo ali era ensolarado, as vozes mais altas, as risadas mais escandalosas e os corações mais aquecidos que em Londres, ainda que eu amasse minha cidade, não havia lugar mais ensolarado do que ao lado de , eu sabia que era a maior confusão com sua família, afinal, era a tradicional, onde eles resolviam tudo a mesa de domingo e com certeza eu era um tópico rasurado.
Quando meu carro, o meu favorito, havia sido estacionado ao mesmo lugar que eu havia a visto pela primeira vez que estive ali, com o mesmo carro, mas talvez não com o mesmo coração, eu ouvi uma gargalhada de dentro da casa. Depois de um mês longe dela resolvendo toda a confusão que causei, sanando contas que estourei e recuperando a confiança antes perdida em anos, agora eu podia voltar, não mais a um maço de cigarro da falência, ainda que eu nem mesmo fumasse, mas agora com uma esperança que ainda que eu falisse, perdesse tudo, e chovesse todos os dias seguintes, se eu pudesse tê-la ao meu lado o sol ainda estaria presente. Subi aqueles poucos degraus até a porta principal e bati na soleira da porta, mas estava trancada, ainda que as risadas ecoassem em algum lugar, dei a volta sobre a residência, indo para o quintal dos , onde Francesco dava seus enormes almoços familiares e jantares beneficentes, onde a enorme mesa de madeira se estendia sobre o gramado e tinha sua sombra fornecida por algumas árvores, e então cheguei até lá, me surpreendendo no segundo que o silêncio se instalou no lugar, antes barulhento, a mesa antes comentada, estava lotada de familiares, tios, primos e até enteados, estes cochichavam, e para italianos aquilo era um milagre, Francesco me olhou de canto de olho da ponta da mesa como sempre, e eu suspirei pesado, pensando por um momento quando ele iria superar tudo aquilo, quando ele pararia de me odiar, meses com e eu só recebia reprovações, nunca era suficiente para ele. E então eu tossi, tomando coragem para dizer algo para aquele mundaréu de gente e crianças que corriam pelo gramado próximo a mesa.
- Bom dia, desculpe atrapalhar. - sorri torto, recebendo sorrisinhos amarelos e meio sem reação de grande maioria presente, saia de dentro da casa, carregando um recipiente de vidro, com o que parecia ter algum doce dentro, e quando ela viu a situação ela parou na porta entre a casa e a mesa.

- Família, este é o , meu namorado ainda que meu pai não goste disso, como vocês sabem. - ela voltou a caminhar e largou o doce na mesa em frente a um dos seus tios, que logo abriu a boca para falar, mas ela já ergueu o dedo o impedindo que continuasse. - Não, por favor não faz a piadinha do pavê! Com licença... - e então ela caminhou até mim com seus cabelos balançando logo atrás e o sorriso sereno.
- Hi. - sussurrei baixinho enquanto ela passava as mãos ao redor do meu corpo me abraçando, beijei o topo da sua cabeça.
- Ciao. - ela respondeu em sua lingua nativa e eu ri breve.

- Mi sei mancata, sai? - comentei arriscando meu italiano tão péssimo quando meu latim, afinal eu não era um bom aluno de línguas estrangeiras, mas por ela o que eu não arriscava falar? Isso tudo enquanto andávamos até a cozinha da casa, provavelmente ela levaria outro doce até a mesa, podia ouvir alguns cochichos e olhares atentos dos familiares enquanto passávamos.
- Estou feliz que você voltou... - ela soltou sorrindo enquanto me deu um selinho, logo puxando os talheres de cima da pia e saindo ao meu lado em direção a mesa.
- Cabinotto! - Francesco me chamou de repente o que me fez querer dar um passo para trás, mas não o fiz. - Sabe, acredito que todos os homens merecem segundas chances. - ele disse se levantando da cadeira e ficando em pé sobre a ponta da mesa lotada de gente, as crianças ainda corriam por perto, e algumas das primas de que deviam ter dez anos cochichavam e riam com seus olhares direcionados para mim, será que meu cabelo estava penteado igual boi lambeu? Acho que não, eu havia arrumado... - Desde que, é claro, ele aproveite essa segunda chance para fazer diferente. Sabe, cabinotto, eu tive um pé atrás com você, mas eu vejo que ela te faz uma pessoa melhor e eu não posso impedir isso, vocês tem a minha benção. - ele comentou soltando um sorrisinho de canto de rosto, como se ele houvesse a serenidade no olhar de quem sabia tudo, a família olhava atenta para ele.

- Francesco, muito obrigada, significa muito... - comecei falar sorrindo e ele negou com a cabeça cortando minha fala.
- O que você está fazendo? - ele soltou de forma seca, como costumava fazer, senti meu cérebro pensar em várias formas para ele terminar aquela frase, mas nenhuma delas era boa. - não fique parado aí igual um chiocchio, venha cá, me dá um abraço, ragazzo! - me aproximei aos poucos num breve riso em meu rosto, igualmente ao do senhor , surpreso e então ele me puxou pelo braço me abraçando e dando alguns tapinhas nas costas. - Seja bem vindo a família, cabinotto!
- Teria como parar de me chamar assim? - eu ri ainda abraçado de lado com o velho, enquanto todos os presentes em meio a sua gritaria me davam boas vindas.
- Não. - ele respondeu, me dando alguns tapas, amigavelmente, no ombros, mas suas mãos eram pesadas, e então me abaixei me sentando ao seu lado, entre Francesco e que ria da piada de alguma tia. Agora, não mais sobre o olhar rígido e cínico do meu sogro, nossas mãos não precisaram se entrelaçar debaixo da mesa, e assim nossos dedos de misturaram sobre a mesa do enorme almoço de domingo, onde as risadas eram escandalosas e agora a minha fazia parte delas ao ouvir as histórias daquelas pessoas completamente loucas que eu havia virado "família" quando cai de paraquedas naquela cidadezinha do interior da Itália, onde os raios de sol batiam de relance sobre nós e as crianças corriam e gritavam ao nosso redor, mas o mais importante, eu tinha a sorte ao meu lado, como eu nunca imaginei que teria.
Mi sei mancata, sai? - sabe, senti sua falta.
Cabinotto. – mauricinho.
Chiocchio. - palerma.

FIM!
- Frederico? Filho de Henrico? – Francesco gritou quase que rindo quando o homem passou pela porta, me fazendo fazer uma careta involuntária junto a .
- Francesco, vim te apresentar meu noivo: Pablo. – ele sorriu amplo e meio torto, talvez com medo do homem começar pirar com a velha ideia de namorar sua filha, e então o noivo do cara entrou na casa, um homem enorme dos cabelos bem alinhados e aparentava ser de origem indígena. – Eu não posso casar com a sua filha.
- OH MY GOD! – gritou rindo alto.
- DIO MIO! – disse alto, caindo na gargalhada com a mulher que anteriormente estava ao meu lado.

- Você falou no meu idioma? – ela gritou rindo alto incrédula, ainda mais por eu sempre ter me recusado a ceder e falar em seu idioma natal.

- Você tá louca, você que falou no meu! – fiz uma careta rindo alto e fazendo uma careta, logo a abraçando forte.




Continua...



Nota da autora: Oi oi fofinhas! Fico hiper feliz que vocês chegaram ao fim dessa fic que na minha opinião é uma das mais amorzinhos, ver esse mulherão que é e o cabinotto do evoluir um com o outro, para mim não teve preço! Enfim, não se esqueçam de comentar, dar um feedback do que acharam de tudo isso, o que mais odiaram/gostaram e tudo mais! Aguardo ansiosamente a opinião de vocês viu? Beijocasss!



Outras Fanfics:
Bff before u go (andamento/shortfic) Daylight (finalizada/shortfic) Empire (andamento/ longfic).

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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