FFOBS - May We Meet Again, por Indy Machado


May We Meet Again

Última atualização: 22/06/2018

Capítulo 1 - New Hope?

Eu sou uma prisioneira. Fico repetindo isso pra mim mesma sempre que posso, vai que me habituo à realidade. Na verdade, pelo bem da minha sanidade, espero que realmente me habitue a essa realidade. Eu já deveria ter me acostumado tendo em vista que estou trancafiada nesse mesmo cubículo cinza à 3 longos e solitários anos, mas não é fácil ser uma prisioneira sabendo que em breve completarei os famigerados 18 anos de idade. É normal você começar a ter leves surtos ao saber que a morte certa está próxima, que seus dias estão literalmente contados. No começo eu era idiota o suficiente para achar engraçado, encarei como um tempo de férias das minhas obrigações na Arca e até mesmo do povinho que nela habitam, aproveitei pra ler muito e arrisquei até escrever e pintar algumas coisas. Mas com o tempo, a maturidade chega e essa falsa felicidade que construí como uma tentativa patética de defesa não parecia ter sentido nenhum, tendo em vista que não tinha do que me defender, já estava feito, eu já estava presa e só sairia daqui pra ser flutuada, jogada no espaço como um saco de lixo qualquer, morta.
Era um dia como os outros, um a menos na contagem para o fim dos meus dias, mas ainda assim, comum. Peguei um dos livros que adorava ler e deitei na minha cama. O livro era a respeito da Terra, sua história, era fascinante pensar em como tudo aconteceu séculos atrás, mas era ainda mais fascinante imaginar o grandioso palco de todos os acontecimentos, o próprio planeta Terra. Eu conseguia me lembrar das inúmeras aulas em que nos mostravam imagens da Terra antes da devastadora guerra nuclear que dizimou toda a vida na terra 97 anos atrás, podia até me visualizar sentada em um dos módulos da Arca admirada com a beleza das imagens. Nunca conseguiria entender como as pessoas tiveram coragem de acabar com toda aquela beleza. Lindas praias, florestas imensas, rios de águas cristalinas, uma diversidade de culturas e línguas, a beleza na agricultura e na floricultura, as inumeráveis manifestações artísticas, dentre muitas outras coisas admiráveis que o ser humano e sua incapacidade de viver em uma sociedade pacifica, onde a falta do amor ao próximo e a prevalência do egocentrismo eram palpáveis, acabou com tudo, assim tão rápido como em um abrir e piscar de olhos, tudo se foi. Só restamos nós, os habitantes da Arca, sobreviventes de doze estações espaciais em órbita da terra, pessoas que já viviam aqui antes mesmo da fatídica guerra. Eu pareço uma hipócrita falando mal dos nossos ancestrais da Terra, afinal, eu sou uma prisioneira, prisioneiros são presos por cometerem crimes e pessoas que cometem crimes não podem sair apontando o dedo para os outros. Mas no fundo eu sei que não sou uma pessoa má, ou uma delinquente (como insistem em me chamar) eu só fiz o que tinha que ser feito, o problema é que as leis da Arca são claras e a punição para o descumprimento delas, não importa a natureza ou a gravidade do crime, seria apenas uma, a morte por ejeção a vácuo, ou como costumamos falar, nos flutuam. Mas pra que isso aconteça, você precisa ter no mínimo 18 anos de idade, caso contrário eles te prendem nessa caixa cinza até que você atinja a tão esperada idade para que, por fim, possam se livrar de você.
- Levante-se, vire de costas para a porta de contenção e ajoelhe-se - literalmente do nada surgiu um homem falando pelo “interfone” do lado de fora da minha cela, que soava por um alto-falante dentro dela. Achei estranha a situação, não eram nem 8h30 da manhã, o normal seria que às 10h00 em ponto fizessem contato comigo para que eu recebesse meu café-da-manhã.
- Atenção, levante-se, vire de costas para a porta de contenção e ajoelhe-se. Este é o último aviso - o homem, provavelmente um qualquer da Guarda da Arca, soou pelo meu cubículo novamente.
Como tinha sido pega de surpresa, deveria ter ficado um tempo encarando estranho a porta de contenção e obviamente eles viram pela câmera de vigilância e já devem estar achando que estou tramando alguma coisa. Pra evitar mais problemas pro meu lado, apenas obedeci às ordens e assim que me ajoelhei, dois homens com o uniforme da Guarda entraram na minha cela, me algemaram e começaram a me guiar pra fora da mesma.
- Hey, pra onde vocês estão me levando? Que eu saiba o café-da-manhã é no quarto - falei com um tom sarcástico, minha segunda língua.
- A gente não deve satisfação à delinquentes - o mais alto dos dois guardas vociferou..
- Ui, falando assim até parece que sou uma meliante perigosa - falei assim que já estávamos do lado de fora do meu cubículo, percebendo que tínhamos parado ali, e ali ficaríamos, pois nenhum dos dois guardas fez menção de se mover
- Entendi. É um “banho de sol” novo – falei, fazendo aspas com minhas mãos - Vocês já foram melhores que isso, fala sério, sair pra ficar na porta da cela é tão inútil quanto ficar lá dentro.
Os guardas apenas me ouviam, como de costume, ninguém respondia. Já estava ficando impaciente de ficar ali parada, sem respostas, sem nem ter consciência do que estava acontecendo. Por um momento pensei que poderia ser uma mudança na lei e que eu poderia ser flutuada mesmo não tendo 18 anos ainda, e essa suspeita ganhou um impulso quando constatei que não era a única que estava fora da cela, alguns dos prisioneiros também estavam, pareciam ter minha idade, e a cada minuto mais um prisioneiro era posto para fora de sua cela. Isso era extremamente inusitado, o medo começava a corroer meus ossos lentamente, eu sabia que morreria, mas meu psicológico não tinha aceitado isso ainda, agora não era a hora, não poderia ser. Foi então que o medo me fez fazer a coisa mais ridícula que eu poderia ter feito, implorar.
- Guardas, por favor, eu imploro pra vocês, não me deixem no escuro, preciso me preparar, eu sou nova pra morrer, eu não posso morrer! - comecei a falar e a cada palavra me desesperava mais, era ridículo, eu deveria encarar a morte dignamente, mas só me rebaixei mais ainda - Eu faço qualquer coisa! Só não me matem agora, preciso de um dia pra aceitar isso, por favor. POR FAVOR! - eu já gritava com os guardas aos prantos.
- Você terá as suas respostas - o mesmo guarda que me respondeu anteriormente falou, apontando com a cabeça para que eu me virasse e assim o fiz.
Quando me virei, pude avistar uma mulher vindo na minha direção, logo a reconheci, era a médica chefe, também conhecida como Abigail Griffin, membro do Conselho da Arca. Eu já não sabia o que sentir, algo estranho estava rolando, não sabia dizer o quão ruim era, apenas tive certeza naquele momento que era ruim, porém por mais louco que possa parecer, eu senti uma ponta de esperança despertar em mim.
- Estenda seu braço na minha direção - a Conselheira disse, de forma direta e fria. Eu não disse nada, apenas fiz o que me foi ordenado. Ela tirou o que parecia uma pulseira metálica de uma caixa e prontamente a colocou no meu pulso, me fazendo soltar um gemido de dor, aquilo não poderia ser bom.
- Ela está pronta, podem levar - ela disse para os guardas que prontamente fizeram o que lhes foi mandado, enquanto ela se dirigia para a próxima cela.
Quando os guardas começaram a me levar para fora daquele local, algo chamou sua atenção e eles pararam sem saber o que fazer, foi quando voltei a mim, porque até então eu estava agindo no piloto automático, e assim tomei conhecimento do que acontecia ao meu redor. Uma garota loira estava resistindo a seja lá o que fosse que estavam fazendo com a gente, um dos guardas foi ao socorro de Abigail, assim conseguindo colocar a pulseira na loira também, logo em seguida ouvi a coisa que confundiria ainda mais minha cabeça e minhas emoções. A Conselheira falou pra garota que ela iria para a Terra. A menina se exaltou, mas antes que ela desse mais trabalho, um dos guardas deu um choque nela e ela desmaiou sendo abraçada logo em seguida pela Abigail. Só então me toquei que a garota loira era sua filha, Clarke Griffin e que tanto ela quanto eu estávamos sendo enviadas para a morte, na Terra.


Capítulo 2

Era dia de visita. Desde que ela foi presa, eu não faltei um dia sequer. Me sentia em dívida com ela, mais do que isso, ela era a segunda pessoa nesse vasto espaço, na verdade, nessa imensa galáxia que eu realmente me importava. O que ela fez só mostrou bravura e deixou claro o imenso coração que ela carrega por aí, mesmo que ela adore dizer o contrário, e às vezes ela se esforçava tanto pra mostrar o quão eu realmente estava errada que eu chegava a acreditar que seu coração nada mais era do que pedra. Pedra. Olhei para o livro que carregava em mãos, era do tipo preferido dela, sobre a Terra, e este em específico falava sobre os tipos de pedras que nela existiram. Ela era uma garota estranha, quem gosta de ler sobre pedras? Garotas normais leriam ficções, romances e revistas de fofoca ou moda. Era o que eu fazia, sem dúvidas já tinha lido todas as revistas existentes na Arca, mas ainda assim relia todas elas, principalmente as de moda, simplesmente ADORO.
A medida que fui me aproximando do corredor onde eram feitas as revistas antes de liberarem os visitantes para verem os prisioneiros, não pude deixar de notar que estava um tanto quanto tumultuado. Observei expressões de confusão em rostos familiares, que assim como eu estavam sempre por aqui. Um deles foi o rosto de , porém sua expressão destoava da dos demais ali presente, ele parecia desolado. Assim que alcancei o local onde se encontrava o aglomerado de gente pude perceber que haviam três homens da Guarda parados em frente a porta enquanto apenas um falava.
- Visitantes, repetirei pela última vez, hoje não haverá visita aos prisioneiros, e não há previsão de quando as mesmas serão retomadas.
- Isso é uma falta de respeito! - uma mulher visivelmente alterada gritou para o guarda, recebendo várias exclamações de apoio dos demais ali presentes
- Exigimos uma explicação! Nossos filhos estão aí! - foi a vez de um homem de cabelo grisalho vociferar sua indignação, que assim como a mulher, foi apoiado pelos demais.
- Nós não temos informações a respeito - o mesmo guarda que antes falava respondeu e logo em seguida, com sua postura inabalável completou - Por favor, retornem para suas atividades, em breve um membro do Conselho deve lhes dar maiores informações.
E então houve um descontentamento geral, todos começaram a discutir com os guardas que prontamente chamaram reforços e logo foram evacuando as pessoas do local. Antes de sair dali, pude observar que se aproveitou da confusão e entrou em um corredor não autorizado, eu como boa curiosa que sou, tentei ir pelo mesmo caminho que ele. Eu precisava de respostas e sentia que ele me daria elas.
Quando dei por mim, tinha perdido de vista, eu tinha me perdido naquele corredor vazio, se alguém me encontrasse ali provavelmente me prenderiam, eu estava muito ferrada. Ouvi passos e vozes masculinas se aproximando, entrei em pânico, que aliás, era o que eu sabia fazer de melhor, porque, meu Deus, como eu sou burra, pra que fui inventar de seguir um cara por uma ala proibida? Essa frase por si só já era um grande aviso luminoso escrito “problema”. Já não sabendo o que fazer com aquela situação, continuei o caminho ala a dentro que já vinha fazendo antes, mas percebi que as vozes ficavam mais próxima com maior rapidez, então constatei que sim, eu era MUITO burra, e que eu estava completamente perdida. Foi em um gesto de desespero que percebi a presença de uma porta entreaberta, não faço a mínima ideia do que tem por trás dela, mas mesmo assim decidi me arriscar. Entrei nela rapidamente, não tinha muito espaço, tive que me agachar, provavelmente era uma porta destinada a algum tipo de manutenção, tendo em vista que só via fios e mais fios elétricos por ali. Então seria isso, minha história só poderia ter dois fins agora, se não me descobrissem aqui e me levassem presa, eu morreria eletrocutada. Meus parabéns, , você sempre se supera nas burrices. Tampei minha boca com a mão de forma que eu não fizesse barulho enquanto respirava e de repente os passos pararam, e as vozes começaram a discutir.
- Eu não posso fazer isso! É crime, eu não sou criminoso - um dos homens falou um pouco exaltado e logo completou - Eu não sou assassino!
- Cale a boca, ! Você quer que ouçam o que estamos falando?! - o outro homem falou, repreendendo , com um tom baixo porém firme.
- Eu não quero ter nada a ver com isso - respondeu, agora mais calmo e em um tom mais baixo, porém com a mesma firmeza e aspereza que usara anteriormente. Em seguida ouvi passos se aproximando de onde eu estava.
- , espere! - o outro homem chamou, fazendo com que parasse perigosamente perto de mim - Sua irmã vai morrer.
- O QUE?! - se exaltou, provavelmente encarando aquilo como uma ameaça a sua irmã - VOCÊ NÃO PODE MATA-LA E MUITO MENOS ME CHANTAGEAR COM ISSO!
- CALA A BOCA! - o outro homem se exaltou se aproximando de e logo em seguida voltando ao seu tom firme, porém cauteloso - Fale baixo, céus!
- Eu vou te entregar para o Chanceler - disse firme e ríspido enquanto o outro homem deu uma leve risada sarcástica.
- , você não tá entendendo - o homem disse com um tom convencido - Eu não estou te ameaçando, estou te alertando. Sua irmã, assim como todos os outros 99 prisioneiros, serão enviados para a Terra, pra morrer na Terra.
Assim que o homem explicou a situação a tensão entre nós três era palpável, e eu não consegui segurar um suspiro de surpresa do qual logo me arrependi, porque ambos haviam percebido minha presença agora. Pude observar com certa dificuldade por um orifício na pequena porta na minha frente, e os vi procurando por alguém ao seu redor. Até que o homem que estava com olhou para o chão e chamou a atenção do outro.
- O que é aquilo? - apontou para o chão próximo da porta onde eu estava.
- Parece um livro - respondeu, se aproximando da porta e pegando um livro do chão. Maldito seja o universo! Com a euforia e o desespero da possibilidade de ser pega eu esqueci completamente que antes de tudo isso eu carregava um livro comigo, que obviamente deixei pra trás na tentativa de me salvar, bem minha cara mesmo.
- É um livro. O que isso tá fazendo aqui? - outro homem se aproximou de , e tão rápido quanto seu raciocínio, se abaixou e percebeu a porta, abrindo-a.
- Mas o que… - exclamou confuso ao me ver. Eu como já tinha sido descoberta saí rapidamente e me posicionei de frente ao homem que conversava com , que agora pude reconhecer como um oficial da Guarda.
- Eu faço - falei sem pensar direito, meu coração estava acelerado e minha respiração descompassada - Seja lá o que você tá querendo que ele faça, eu faço – completei, apontando para .
- Você só pode ter enlouquecido - disse e ouve um silêncio. O Guarda parecia avaliar a situação.
- Tudo bem - ele respondeu, depois de alguns segundos que me pareceram infinitos - Se você acha que é capaz.
- Eu sou, faço o que for necessário - me apressei em falar, porém não estava tão certa das palavras que havia acabado de dizer - Mas eu tenho um preço.
- Diga - o Guarda me olhou diretamente nos olhos.
- Me coloque lá dentro - assim que falei, ele pareceu confuso - Me coloque na nave que vai pra Terra, junto com os prisioneiros.
- Garota, você é mais suicida do que eu pensava - o Guarda disse com um misto de incredulidade e concordância na sua voz.
- Você vai precisar de ajuda - , que até então só observava, tinha finalmente se pronunciado e me olhado, porém logo em seguida olhou para o Guarda e acrescentou - Mas eu também quero que me coloque naquela nave.
- Vai ser difícil colocar os dois lá dentro, pode ser que não dê certo - o Guarda respondeu.
- Então vou morrer tentando - respondeu e eu o encarei, puta homem de coragem que ele de repente se tornou, nem parecia que há dez minutos estava tentando fugir dessa situação a qualquer custo. Permaneci em silêncio, em sinal de apoio à sua fala. Porque se eu realmente fosse falar alguma coisa, seria pra pedir socorro.
- Bom, sendo assim, tudo que vocês tem que fazer é - o Guarda fez uma pausa, enrijeceu sua voz e disse asperamente olhando para nós dois - matar o Chanceler Jaha.
Eu não acreditei no que tinha acabado de ouvir, e pior, no que tinha acabado de me meter. Eu simplesmente tenho o dom de piorar as coisas SEMPRE. Puta que pariu, e agora? Eu teria que matar o Chanceler. Jaha é simplesmente a autoridade suprema da Arca! Como eu faria isso? tinha razão em recusar, isso era suicídio na certa, se não morresse na tentativa de assassinato, eu morreria na tentativa de ir para a Terra e se por um milagre eu sobrevivesse às duas situações, eu certamente morreria na Terra. Eu ia voltar atrás, eu não teria coragem, eu não sou uma assassina! Como eu faria isso? Eu nunca me perdoaria. Mas ao mesmo tempo, eu nunca me perdoaria se ela morresse, eu precisava tentar salvá-la, trocar de lugar com ela, ou pelo menos estar com ela. Não sei de onde tirei coragem, e nem vi quando as palavras saíram da minha boca
- Quando começamos? - nesse instante me olhou, acho que ele duvidava que eu iria em frente com isso.
- Hoje mesmo - o Guarda respondeu, pegando tanto a mim como a de surpresa.
- Tá muito em cima! Como vamos fazer isso? - se desesperou.
- Aí é com vocês - o Guarda disse, já começando a se afastar e a nos deixar ali atônitos e confusos - Estejam prontos às 21h00.
- Vamos precisar da sua ajuda - eu disse, finalmente algo que eu tinha 100% de certeza. O que chamou a atenção do Guarda, o fazendo parar e se virar para a gente.
- Ajudarei no possível, eu não tenho nada a ver com isso - ele fez menção de se mover novamente rumo a longe de onde estávamos, mas antes nos encarou e falou - A nave pra Terra sai ao anoitecer.


Capítulo 3 - The Big Travel

Crianças. Era tudo que eu conseguia pensar. Como eles tinham coragem de enviar tantas crianças para a Terra? Porque por mais que não tenham me explicado o que estava acontecendo, uma coisa já era certa, eu estava sendo enviada à terra. Os guardas haviam me levado até uma nave, eu pedi por respostas durante meu caminho até ela, mas, como de costume, não responderam. Eu acho que eles se divertiam com meu sofrimento e desespero, vão todos terminar no inferno. Quando cheguei na nave, me colocaram sentada em um assento no canto da mesma, eram muitas fileiras, muitos lugares, deveriam enviar muita gente, pelo visto. Assim que me colocaram lá, eles saíram, mas nem um minuto depois entraram outros dois guardas segurando um garoto que parecia ser mais novo do que eu e o colocaram sentado no lugar ao meu lado, e assim foi, enquanto enchiam a nave com mais e mais crianças iguais a mim. Alguns eu conseguia reconhecer, já os havia visto pela Arca antes de ser presa.
Quando a nave aparentava estar prestes a atingir sua capacidade total, um vídeo começou a passar nas telas de computador espalhadas pela nave. Nele, o Chanceler Jaha falava sobre nossa “importante” missão, constatar se o planeta Terra era habitável novamente. Segundo ele, a Arca estava ficando sem oxigênio, e nós seriamos a salvação, caso sobrevivêssemos à aterrisagem e a radiação no solo, porque através disso eles saberiam ser viável ou não a descida de todos para a Terra. O mais interessante foi quando o nosso respeitado e amado Chanceler disse que caso tudo desse certo e sobrevivêssemos a toda essa situação, quando eles descessem, nós seriamos perdoados de nossos crimes. Queria muito acreditar nisso, muito mesmo, mas por mais que nos perdoassem os crimes cometidos, sempre nos tratariam como delinquentes, e além de tudo isso, tem um grande “se” em todo o discurso de Jaha, tudo poderia ser em vão, todos nós poderíamos ser incinerados assim que entrássemos na atmosfera da Terra. Ele estava nos matando, nós éramos descartáveis. Essa era a realidade. E como se ele pudesse ler meus pensamentos, assim que voltei minha atenção para o vídeo em questão, ele falou, com todas as letras, “Os seus crimes os tornaram descartáveis” . Se tornou real, assim que por ele foram desferidas essas palavras. Realmente éramos lixo.
O vídeo se repetia uma e outra vez. A nave já estava cheia, todos sentados em seus devidos lugares. Estava tudo muito silencioso, a não ser pelo Chanceler falando no vídeo, provavelmente todos estavam assimilando a ideia assim como eu, até anunciarem que a nave seria lançada. Foi então que começaram os protestos e as lamúrias de muitos que ali estavam, ouvi o barulho de um tiro, olhei ao redor para ver se não teria sido alguém ali dentro, e constatando em seguida que o barulho viera realmente de fora, mas antes que pudéssemos nos perguntar o que teria sido aquilo, fomos lançados rumo à Terra.
O vídeo continuava passando, as pessoas conversavam entre si, alguns até rezavam, enquanto outros apenas choravam. Eu não sabia o que sentir, um filme passava na minha cabeça, sobre os poucos anos de vida que eu tive, o tanto que já havia sofrido mesmo sendo tão pouco tempo, e os momentos de risadas, amizade e aprendizado que tive nessa vida. Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, que não reparei que falavam comigo. Alguém tentava chamar minha atenção colocando a mão no meu ombro, olhei na direção da mão e só havia a parede, aparentemente. Mas então, da escuridão daquele canto, surgiu uma cabeça de cabelos castanhos, era uma mulher, com uniforme da guarda, não conseguia ver seu rosto.
- - a mulher chamou quase em um sussurro.
- Quem… - arregalei os olhos e tampei minha boca com as mãos ao perceber finalmente quem era. Não sei como não notei de cara, ela exalava aquele perfume terrivelmente enjoativo que ela adorava se gabar de ter feito - O que diabos você tá fazendo aqui?!
- Também estou feliz em te ver - ela respondeu irônica e logo continuou - Vim atrás de você.
- , vamos combinar, você veio atrás da morte – falei, rindo irônica enquanto ela franzia a testa ao perceber que não a chamei pelo seu nome, ela odiava essa minha mania de chamar as pessoas pelo sobrenome - Você é suicida ou o que?
- As pessoas andam falando isso demais - ela respondeu bufando.
- Olha… assim… talvez, só talvez, exista um motivo pra isso, não acha? - fiz uma cara de deboche pra ela.
- Nossa, cara. Você é extremamente ingrata - ela resmungou.
- Você que é! Fala sério, tô passando por tudo isso em vão! Você acabou de jogar no lixo todo meu sacrifício - eu reclamei já alterada. Eu não podia acreditar que depois de tudo que eu fiz, aqui estava ela, pronta pra jogar tudo pro alto e sendo estúpida o suficiente pra não perceber que estava jogando as nossas vidas fora por motivo nenhum.
- Eu nunca te pedi nada - ela respondeu ríspida e olhando fixamente nos meus olhos. Ela tinha razão, ela nunca me pediu nada, mas nem precisava, ela era tudo que eu tinha, não importa o que acontecesse comigo, enquanto ela vivesse eu viveria nela.
- Você é uma idiota - foi a última coisa que falamos uma para a outra, porque assim que proferi aquelas palavras, pude perceber uma confusão dentro da nave.
Pessoas começaram a soltar seus cintos de segurança e começaram a flutuar, enquanto isso a garota loira que eu tinha visto quando me colocaram a pulseira, que aliás era para que o pessoal da Arca conseguisse monitorar nossa saúde CASO sobrevivêssemos, estava tentando fazer com que voltassem para seus lugares, só que ninguém ligava para as ordens dela. Tudo bem que Clarke Griffin, filha de Abigail Griffin era uma privilegiada e muitas vezes ela poderia não saber direito do que a vida era feita, mas nesse caso ela tinha razão. Eles queriam o que? Morrer? E tão rápido quanto uma luz sendo acessa me toquei que continuava ali agachada ao meu lado, ou seja, sem sinto de segurança.
- , volte para o seu lugar - eu me dirigi a ela um pouco receosa.
- , eu não tenho lugar, entrei aqui por conta e risco - ela respondeu calma demais.
- , você pode se machucar - assim que expressei minha preocupação em relação a ela, a nave começou a balançar muito.
As pessoas que não estavam em seus lugares com os devidos cintos de segurança, começaram a voar de um lado para o outro da nave. Eu agarrei com todas as minhas forças e ela fez o mesmo, tentando se agarrar a mim e ao banco no qual eu estava sentada. Mas a pressão, os movimentos, a velocidade, seja lá o que estivesse acontecendo com nossa nave, estava forte demais, e fazia com que cada vez mais nossas forças não fossem o suficiente para nos manter juntas, para conseguir manter o mais segura possível.
- ! Não ouse me soltar agora! - gritei para ela, assim que percebi suas mãos escorregando nas minhas.
- Eu não consigo, , não tenho força suficiente! - ela gritou para que conseguisse ouvi-la.
Nesse instante olhei para ela em súplica, ela não poderia me soltar, ela iria ser lançada pela nave e acabar morrendo. E quando ela estava quase pare desistir, me deu um olhar de “sinto muito”, tentei segurá-la com mais força ainda, mas ela já tinha desistido. Quando, de repente, houve um baque ensurdecedor, constatei que ainda segurava , mas foi a única coisa que tomei consciência porque logo em seguida algo me atingiu em cheio na cabeça, me fazendo apagar completamente.


Capítulo 4 - The Earth

Eu podia estar morta. Mas senti um vento frio no meu rosto e percebi que, apesar de tudo estar escuro, eu ainda tinha vida. Ou simplesmente era assim que se sentia chegar no céu à noite, ou no inferno, vai saber onde eu posso ter ido parar. Tentei abrir meus olhos, mas eles pesavam demais. Tentei me mexer, mas eu não tinha controle sobre meu corpo. Só então percebi a presença de uma dor, que aos poucos foi ficando mais real, era como se no começo ela chegasse tocando de leve na maçaneta da porta que dava acesso ao meu cérebro, mas no meio do caminho tivesse desistido de ser sutil e resolveu apenas sair chutando a porta e entrando gritando e quebrando tudo que encontrasse pelo seu caminho. O que diabos tinha acontecido comigo?
Me forcei a tentar abrir os olhos, e aos poucos consegui. No começo fui atingida por um clarão que eu juro que poderia ter me cegado, e eu realmente cogitei essa ideia, porque minha visão estava turva e embaçada, mas aos poucos ela foi se normalizando. Ufa, pelo menos cega eu não estava. Constatei que ainda estava dentro da nave, mas que não havia mais ninguém, a não ser por uns corpos estirados no chão. Levei a mão à boca em choque, me arrependendo logo de ter feito tal movimento, de tanta dor que senti na cabeça. Toquei o local dolorido, estava enfaixado, provavelmente machucado. Quem teria cuidado de mim? Onde estavam todas aquelas pessoas que vieram comigo?
Resolvi me levantar dali, precisava sair e saber o que estava acontecendo. Me desprendi do cinto de segurança e tomei forças pra levantar de uma só vez, outra coisa da qual me arrependi amargamente. O mundo começou a dar voltas, eu estava quase vomitando e eu cairia em cima do meu próprio vómito, tenho certeza, porque né, com essa minha maravilhosa sorte tudo era possível. Aguentei firme e me segurei nas poltronas das fileiras conseguindo assim passar por elas pra sair dali, apesar do mundo ainda girar. Assim que alcancei a porta, uma luz clara dominou meus olhos ao mesmo tempo em que me vi sem apoio para continuar andando. Me soltei da parede da porta e tentei seguir sozinha, mas mal havia dado quatro passos e já me pude ver caindo ali mesmo feito uma jaca podre. Porém, antes que meu corpo atingisse o chão, senti alguém me segurar. Você, seja quem for, MUITO obrigada, que Deus te faça a pessoa mais feliz da galáxia por isso.
- Hey! - pude ouvir a pessoa exclamar ao me segurar - Você tá se sentindo bem? - e pude perceber também que era um homem.
- Minha cabeça dói. Muito. - me forcei a responder e a olhar pra cima. Eu já o havia visto antes em algum lugar - Tudo tá girando. Muito.
- Ok, vem, vou te ajudar a se sentar - ele respondeu dando risada.
Como ele havia dito, me ajudou, ou melhor, basicamente me carregou até o local mais próximo que tinha que desse para que me sentasse e conseguisse me recompor.
- Pronto - ele disse assim que me sentei.
- Obrigada – disse, olhando para ele - MUITO obrigada.
- De nada - ele disse, desviando o olhar e dando uma ligeira risada - Eu preciso ir agora.
Eu não disse nada, apenas assenti deixando com que seguisse o caminho que fazia antes de me achar trocando as pernas pelas mãos.
Ali sentada, já me sentindo um pouco melhor da tontura, deixei meus olhos rolarem pela paisagem. Era como uma floresta, igual às que já tinha visto em pinturas e livros lá na Arca. Tinham várias pessoas por ali, vestidos iguais a mim, com a idade próxima à minha ou até mais novos. Eram os prisioneiros da Arca. Como se fosse um click me toquei que eu estava na Terra, eu realmente estava pisando na terra. Eu pensei que iria morrer, mas eu consegui, e, de algum jeito, eu estou respirando o ar do planeta Terra. Foi quando pensei isso que de repente toda a felicidade que senti se esvaiu. . Como pude demorar tanto para me lembrar de que ela estava naquela nave, e ainda por cima desprotegida. Não sei de onde tirei forças, mas me levantei rapidamente, subi em cima da pedra em que estava sentada e comecei a passar os olhos pelo local novamente, porém agora com um foco, um objetivo, constatar que a estava viva.
Olhei em todos os cantos e não a achei, foi quando estava prestes a desistir que me lembrei dos corpos que vi quando acordei na nave. Não, isso não poderia ser. Comecei a suar frio só de ter deixado minha mente imaginar que poderia estar entre eles, mas minhas pernas foram mais rápidas do que meu cérebro e quando percebi, lá estava eu, correndo rumo à nave, quando de repente sinto que bato de frente contra alguma coisa, alguém, na verdade.
- Desculpa… - a pessoa começou a se desculpar - eu não… ?
Reconheci que era a voz de uma garota, e quando levanto a cabeça para olhar, me deparo com a garota me olhando atonitamente com um misto de alegria e alívio.
- ! - eu gritei e rapidamente a abracei - Meu Deus! Eu pensei… que…
- Tinha morrido - ela respondeu com um sorriso triste - É, eu pensei o mesmo quando não te vi lá na nave.
- Eu… eu acordei muito tonta e confusa, não fazia ideia do que tinha acontecido e - comecei a falar rápido demais até que ela me interrompeu.
- , calma, tá tudo bem agora - ela falou entre risadas, aquela garota idiota, quase me mata do coração e agora fica rindo da minha preocupação - Pode respirar!
- Babaca! – falei, rindo também e dando um leve soco no braço dela - O que aconteceu?
- Bom, agora você acabou de quebrar meu braço com um singelo soco - ela respondeu zoando com minha cara. E o que aconteceu? Sim, ela levou outro soco, parece que com um ela não aprendeu - Ai garotaaa.
- Tem criança que não aprende de primeira né, fazer o que?! - falei debochada para ela.
- Ogra! - ela resmungou.
- , sério, você lembra do que aconteceu na aterrisagem na Terra? - reformulei minha pergunta.
- Lembro, na verdade lembro bem demais - ela disse, fazendo uma careta de dor e olhando em direção ao seu pé direito.
- Meu Deus, ! O que você fez?! - eu não consegui conter o espanto. Eu sou realmente muito lerda. Não tinha percebido que estava com o pé imobilizado por gazes e gravetos, além de estar utilizando um cano de ferro, ou sei lá o que era aquilo, eu nunca fui aluna nota A em mecânica de qualquer jeito, como muleta.
- Não foi nada demais, na verdade. Só torci o pé - ela deu risada.
Eu permaneci em silêncio para que ela continuasse e contasse como chegamos na Terra nesse estado. Ela percebendo isso, começou a falar novamente.
- Quando a nave chegou na Terra, eu não estava mais aguentando me segurar à cadeira e a você. Eu me soltei, mas você não me soltou - ela soltou um suspiro e me olhou. Nessa hora seu olhar me dizia “obrigada” - Com o impacto com o solo eu meio que “voei” - ela fez aspas com a mão.
- Esses desastres são tão sua cara - eu comentei rindo. Ela me repreendeu com o olhar e continuou.
- Calma, a melhor parte vem agora - ela me olhou com um sorriso brincalhão nos lábios - Eu voei, mas como você estava me segurando, acabou me levando de volta pra você. Foi quando caí em cima da sua cabeça e logo em seguida me estatelei no chão por cima da minha perna direita, torcendo meu pé.
- Isso explica a intensidade da minha dor de cabeça - fiz careta tocando no local enfaixado e continuei - Uma jumenta dessas caindo em cima de mim, como não desmaiar?!
me olhou feio, mas deu uma risadinha. Ela poderia tentar o quanto quisesse, mas não conseguia ficar chateada comigo pelas minhas brincadeiras, sempre fomos assim, desde bem pequenininhas.
- Nossa, , tô morrendo de rir. Chama um médico, pelo amor de Deus - ela falou sarcasticamente e com uma entonação de tédio. Eu rolei os olhos e bufei.
- Quem enfaixou minha cabeça? - me lembrei desse fato e resolvi perguntar.
- Foi a Clarke. Ela me ajudou com isso aqui também - ela apontou para sua perda direita com o olhar.
- Me lembre de agradecer a ela depois.
- Ahhh ela precisa de gratidão e eu não? - ela fez uma cara falsa de afetada e continuou seu discurso de falso sofrimento numerando nos dedos os fatos que citava - Eu cuido da colega durante os dois dias que ela ficou desacordada, chamo a Clarke pra me ensinar a trocar seu curativo, te mantenho hidratada e segura e não recebo nada em troca. Pra você ver como a vida é.
- A gente não faz as coisas esperando algo em troca, mon amour – falei, dando risada da cara dela.
- Ingrata - ela disse entre risadas.
- - chamei sua atenção, olhando carinhosamente nos seu olhos. Acredito que meu olhar já havia dito tudo. Eu era imensamente grata à ela, e deixei isso transparecer no meu olhar, assim como o fato de que faria exatamente o mesmo por ela se necessário.
- Eu sei, eu sei… - ela respondeu, me abraçando - Só temos uma à outra, fiz mais por mim do que por você.
Ela desfez o abraço enquanto eu dava risada do fato de não conseguirmos ter uma conversa séria ou sentimental por muito tempo. Mas pude reparar ao olhar em seus olhos novamente que algo não estava bem, tinha resquícios de tristeza no seu olhar. Porém antes que eu pudesse questionar qualquer coisa meu estômago falou por mim, roncando bem alto. Também não era pra menos, fiquei dois míseros dias desacordada, consequentemente sem comer, não faço ideia como eu tinha sobrevivido a isso, ou pior, como eu conseguia ficar em pé. Comecei a ficar tonta novamente, e antes que se intensificasse, pedi à para me guiar rumo a felicidade, vulgo, comida.
Enquanto comíamos, me contava sobre o que havia acontecido enquanto estava desacordada. Muita coisa aconteceu, várias discussões já tinham acontecido. Ela me disse que todos ali estavam seguindo as ordens de um tal de , bom, quase todos, tendo em vista que Clarke e alguns amigos dela e até mesmo a irmã do tal do , não eram muito de acatar o que ele mandava. Ela me disse que estava fazendo com que todos tirassem suas pulseiras, alguns resistiram, outros tiraram de bom grado, ela mesma foi uma dessas. nunca gostou de se sentir presa, às vezes ela tinha uns surtos por causa disso. Eu costumava amenizar esse sentimento e as consequências dele enquanto estava por perto dela, mas depois que fui presa, ela só poderia contar com a mãe dela, espero que ambas tenham conseguido ajudar uma a outra com facilidade.
Quando terminamos de comer, fomos ajudar com algumas tarefas por fazer, ainda conversando sobre os acontecimentos. me disse que logo no primeiro dia um garoto fora atacado com uma lança por algo, nos mostrando que não estávamos sozinhos, e que tinham saído em busca dele. Graças a Deus o acharam, mas ele estava sofrendo muito, gritando muito. O que já estava enlouquecendo à todos no acampamento.
Realmente muita coisa tinha acontecido por ali, me senti grata por não ter me envolvido nisso, mas ao mesmo tempo culpada por não ter podido ajudar de nenhum jeito. Eu estava coletando algumas coisas que poderiam ser úteis e empilhando elas em um canto, quando de repente as pessoas começam a se aglomerar e a gritar um tanto quanto revoltadas. Aparentemente era por causa do garoto ferido e seus gritos. Tudo aconteceu muito rápido, pessoas começaram a entrar na nave, que era onde ele se encontrava. Mas uma garota foi mais rápida, conseguindo trancar o único acesso que dava ao garoto.
- Quem é aquela? - perguntei mais pra mim do que qualquer outra coisa e logo fui respondida pela .
- É a Octavia, irmã do - ela fez uma pausa antes de continuar e suspirou - O garoto salvou ela de uma criatura marinha, e agora ela defende ele do jeito que pode.
O interessante dessas informações não foi o fato da lealdade dela para com seu salvador, ou do ato heroico do garoto, e sim o fato de existirem irmãos, e Octavia eram irmãos. Isso não poderia acontecer na Arca, nas suas leis, era proibido uma mulher ter mais de um filho, eles faziam um controle para não permitir que isso acontecesse e mesmo assim aconteceu. Senti empatia por ela, pelos dois, na verdade, eles devem ter sofrido muito com toda essa história, porque se uma coisa é certa em relação a esse fato, é que aquilo não acabou bem para nenhum dos envolvidos.
As pessoas não tinham desistido de matar o pobre garoto. Até entendo a revolta, minha cabeça estava começando a doer novamente por causa dos gritos, mas nada que justifique o que eles queriam fazer. Vi algumas das pessoas voltarem a fazer o que estavam fazendo. Vi Clarke saindo com um garoto às pressas floresta a dentro. E vi o cara que tinha me ajudado mais cedo. Ele pareceu ter percebido que o olhava e veio de encontro a mim.
- Vejo que já tá se sentindo melhor - ele falou sério quando chegou até onde eu estava.
- Estou sim, obrigada pela ajuda – falei, tentando ser simpática.
- Você já falou isso - ele disse, dando uma leve risada.
- - falei rápido demais, como se fosse um reflexo. Ele me olhou com uma cara confusa, e logo tratei de reformular a frase - Meu nome, é , .
- - ele respondeu, apertando a mão que eu tinha estendido pra ele.
- Queria dizer que é um prazer, mas não ouvi coisas muito boas de você por ai - respondi sinceramente. Porque vamos combinar, não é porque ele me ajudou que agora vou ter que seguir tudo que ele mandar. Pelo que a me contou, ele é bem autoritário e não ouve ninguém, e de tudo que ela me falou, eu não consigo me lembrar dela ter comentado que ele foi eleito o Chanceler dos prisioneiros na Terra, logo, não devo satisfações. Eu simplesmente não gosto de gente que se acha superior, se soubesse quem ele era quando estava caminhando na minha direção, teria me retirado do local antes de ter que trocar uma palavra com ele.
- Ótimo - foi tudo o que ele falou. Reparei que ele ainda segurava minha mão e tratei de solta-la. Só que tão rápido quanto meu gesto, foi o puxão que ele deu na mesma. Ele virou meu pulso para baixo e observou a pulseira que estava ali - Você ainda tá com isso?
- Obviamente - fiz uma expressão condizente com o que havia dito.
- Por pouco tempo - ele respondeu soltando meu braço.
- Enquanto eu viver - respondi firmemente olhando em seus olhos.
- Então talvez você não viva tanto tempo quanto imagina - ele falou, devolvendo o meu olhar. Pude perceber certa satisfação em seus olhos, não vou negar que me deu um calafrio quando ele falou aquilo. Era um olhar debochado. Aquilo sem dúvidas era uma ameaça.


Capítulo 5

- Precisamos nos mexer - ouvia Clarke fazer mais um dos seus discursos motivacionais - Enquanto tentamos contato com a Arca, temos que nos separar em grupos e dividir as atividades.
Era uma ideia inteligente se parássemos para analisar, mas estaria mentindo se dissesse que concordava plenamente com ela. Porque sim, eu realmente acho que é necessário procurar por recursos, organizar as coisas no acampamento, cuidar do racionamento e do armazenamento dos alimentos. Sim, todas tarefas que devem ser feitas e de grande importância, mas claro, desde que eu não esteja envolvida na parte proativa das atividades. Vamos combinar, não são nem de longe atividades para uma pessoa como eu. Então ao invés de me voluntariar para ser parte dos grupos, tratei de me fazer passar desapercebida entre aquela multidão. Com sorte eu conseguiria não ter que participar de nada disso.
Clarke estaria envolvida em conseguir o que fosse necessário para que Monty, o cara que estava responsável por contatar a Arca, conseguisse de fato cumprir seu objetivo. Clarke era boa nisso. Ela salvou Jasper, o garoto que fora atacado e estava deixando todos loucos por aqui, ela conseguiria fazer isso funcionar também. Enquanto isso, Octavia ficaria no acampamento, provavelmente cuidando da questão do racionamento e da preservação dos alimentos, mas se engana quem acha que ela apenas aceitou isso. Ela e , o irmão super protetor, discutiram sobre isso e ele se “recusou” a deixar ela sair por aí na floresta. Quem é ele pra ditar as regras aqui? Até agora não consegui a resposta pra essa grande questão existencial.
Falando no Diabo. se encarregou de montar dois grupos de busca, os mesmos já estavam quase formados. Ele lideraria um e obviamente seu inseparável braço direito, Murphy, lideraria o outro. Tudo já começou errado e pra completar, o Diabo olhou na minha direção, ele tinha uma expressão de dúvida, como se procurasse por mais alguém. Uffa, ele tinha olhado na minha direção, mas não tinha me notado, amém irmãos! Só acho que comemorei cedo demais. Ele voltou a olhar na minha direção, e dessa vez parecia ter visto algo. Seu rosto se iluminou em um misto de diversão, poder e superioridade que eu sinceramente não conseguia entender o motivo.
- ! Você tá no grupo de busca agora - ele gritou na minha direção.
Fiquei confusa no começo, como assim, ? Olhei para o meu lado esquerdo e reparei que alguém saía de trás de mim. . Só podia ser ela mesmo, é muito a cara dela atrair esse tipo de situação. Ela tinha que estar justo atrás de mim?! Às vezes essa garota me irritava em um nível apenas por existir. Ela me olhou com um misto de desespero e súplica no olhar, não entendi o motivo, ela adora tudo que envolve a Terra. Imagina sair por aí explorando as surpresas que a mesma poderia conter. Seria um sonho para ela, era para ser, pelo menos. Ela não disse nada e foi caminhando até os grupos, o dela seria o liderado pelo .
- Então vai ser isso. Podem começar suas atividades - falou alto para que todos ouvissem.
Eu me senti um pouco chateada. Quer dizer que ele achava que a era mais capaz do que eu para ir no grupo de buscas? Hello! Fui eu que te ajudei a vir para a Terra, seu ingrato! Na verdade, eu fiz a parte mais difícil de todo o plano de assassinato do Chanceler. Usei das minhas belas habilidades de furto para roubar uma arma, depois consegui um uniforme da Guarda para ele e ainda por cima consegui retardar o fechamento do portão da nave, para que AMBOS conseguíssemos fugir dali. E agora ele faz isso? Tudo bem que eu não queria ter que fazer nada, e ainda quero, minha atividade preferida é não fazer nada, ser inútil é uma coisa e saber que os outros te acham inútil é outra, e bem pior.
Resolvi me retirar dali antes que falasse alguma coisa da qual me arrependesse depois. Pretendia voltar para nave, com sorte conseguiria dormir um pouco. Mas quando me virei de costas para o grupo, rumo a nave, pude ouvir uma voz familiar me chamar.
- ! - a praga que eu chamava de amiga gritou - Vem aqui!
- ? - fez cara de confuso – Por que você tá chamando ela? A gente tem que sair agora. Até o grupo do Murphy já foi.
- , eu acho que ela pode ser útil - ouvi ela falar com ele. Eu havia parado de andar, mas ainda permanecia de costas.
- Útil no que?! Pelo amor de Deus - ele fez uma cara de superior e bufou. - Os grupos já estão completos.
- Mas ela é boa com química, ela é boa em criar - me defendeu. Não sei porque. Não pedi pra ser defendida, na verdade, não pedi por essa merda de situação.
- Onde você quer chegar com isso, ? - respondeu parecendo impaciente.
- Ela sabe o que é necessário pra criar medicamentos, por exemplo - ela parecia contente demais. Ela é louca de achar que ia sair dessa viva. Eu a mataria. Fato.
- Eu não faço essas coisas - finalmente falei, me virando e indo na direção do grupo - Eu só já criei perfumes e esmaltes, esse tipo de futilidades.
- Nunca fez, mas sabe o que é necessário pra fazer - ela falou, me olhando nos olhos. Coragem né? Tem gente que tem.
- Vamos logo - falou, caminhando para dentro da floresta, na direção oposta ao que o grupo do Murphy tinha ido.
Agradeci aos céus pela tentativa da minha querida amiga ter dado errado. Os observei a todos saindo do acampamento. Resolvi seguir meu plano original: a nave.
- Onde você tá indo? - ouvi perguntar. Por instinto me virei e olhei em sua direção e constatei que ele olhava para mim. Ele estava falando comigo. Ótimo.
- Pra nave - só respondi e continuei meu caminho.
- Você vai com a gente. Achei que tivesse ficado claro - ele falou firme. Não me restava alternativa. Eu era parte do grupo de buscas agora. Maravilhoso.
- Merda - foi tudo o que disse antes de alcançar o grupo.
Estávamos buscando de tudo. Comida, armas, abrigos, qualquer coisa útil à sobrevivência. No grupo de buscas 1, ou grupo B1 como um tal de ficou falando e acabou pegando, tinham seis pessoas, além de mim, da minha ex melhor amiga e do Diabo, tinha um garoto chamado Miller, o gatinho do Jake e o tal de . Eu e a traíra éramos as únicas duas mulheres do grupo. Preconceito? Talvez. Se bem que esse tal de é suspeito, talvez daria pra contar como três mulheres, fica no ar.
- Que bom que você tá aqui - minha ex melhor amiga falou, me tirando dos meus pensamentos inúteis.
- Graças a você né, fofa - falei no tom mais sarcástico que pude.
- Não me julgue tá? Tive medo - ela falou um pouco envergonhada.
- Medo do que, meu Deus?! - falei exaltada. Fiz uma pausa e depois continuei - Você teria de três a quatro homens para te defender.
- Não é isso - ela fez uma pausa e suspirou - é o , ele…
- Aqui vai ser nosso primeiro ponto de busca - interrompeu com seu comunicado - Vamos nos dividir em duplas pra cobrir mais espaço.
- Posso ficar com você? - o foi logo se candidatando.
- Ok - respondeu achando graça - Miller e Jake, façam outra dupla. E vocês duas outra. A gente se encontra nesse mesmo lugar.
Todos concordamos e fomos cada um para um lado reconhecer o terreno. Assim que nos afastamos o suficiente para não sermos ouvidas decidi retomar o assunto com .
- O que o fez? - perguntei sem delongas.
- Ahn? - ela pareceu confusa de primeira, mas logo compreendeu - Ele me ameaçou.
- E você deixou? Como assim? - falei incrédula - Cadê a e o que você fez com ela?
- Não é isso - ela suspirou - Ele me ameaçou. E alguma coisa no olhar que ele me deu, dizia que era sério. Que ele estava disposto a tudo.
- Mas por que isso?
- Porque eu ainda tô com a pulseira de monitoramento - ela respondeu, dando de ombros.
- Burra. Tá perdendo tempo de ser livre - eu respondi sinceramente.
- Eu falei que enquanto eu vivesse eu a teria. Foi quando ele falou que talvez eu não vivesse o tanto que eu imaginava - ela ignorou meu comentário e continuou contando.
- Isso explica tudo – falei, dando risada.
- Tudo o que?
- A expressão que ele te olhou na hora de te escalar pro grupo, o jeito com que você me olhou quando descobriu isso, e o fato de você ter me colocado aqui – falei, numerando com as mãos.
- Eu deveria me preocupar? - ela me ignorou de novo. Ela estava visivelmente alterada.
- Não - falei simplesmente. Fiz uma pausa na caminhada e olhei para ela antes de continuar - Pelo menos ele não precisa saber que te atingiu.
Depois da conversa, pude entender melhor o lado da , foi até bom porque assim ficaria melhor de trabalhar com ela, já que por enquanto a vontade de matá-la passou. Mas no fundo eu a entendia, o sabia ser assustador quando queria, eu mesma vi esse poder quando ele matou o Chanceler Jaha.
Procuramos por algumas plantas, não achamos muita coisa. Mas pelo menos o que achamos daria para fazer xarope e talvez um relaxante muscular. Eu não tinha certeza se funcionaria, já que todos os recursos eram naturais e eu estava acostumada com a mistura do natural e artificial, além da ajuda dos equipamentos do laboratório. Pelo menos uma certeza eu tinha, mal não iria fazer.
Voltamos ao ponto de chegada e faltavam e . Mas assim que chegaram, partimos para dar continuidade às buscas. Quando chegamos no próximo ponto, fizemos o mesmo esquema anterior, separamos em duplas, porém diferentes. Dessa vez eu fui com o , com o Jake e o com o Miller. Não vou negar que preferiria estar com a traíra, mas tudo bem, vou dar uma chance para o garoto, ele parecia entender das coisas.
- Você é química? - Ele quebrou o silêncio que perdurava desde a hora que havíamos nos separado do grupo.
- Quando me convém - respondi dando de ombros.
- Você não parece esse tipo de garota - ele continuou tentando puxar assunto.
- Que tipo? Inteligente? - perguntei um tanto quanto indignada.
- É… quer dizer… - ele começou a se atrapalhar.
- Olha, não é porque você é nerd e se comporta estranho que todos os inteligentes têm que ser iguais à você - falei meio indignada, mas mantendo o tom firme - é um exemplo disso.
- É. Ele é demais mesmo - ele falou pensativo - ele é mais inteligente do que deixa transparecer.
- Não duvido – falei, continuando a analisar as plantas à minha frente. Elas tinham potencial para ser anti-inflamatório, mas não tinha certeza de ser essa.
- Mas ele também tem um coração maior do que realmente parece - continuou falando sobre o Diabo.
- Ahhh mas que saco - reclamei - Isso virou o que? Sessão de psicanálise? E olha que o paciente em questão nem tá presente.
- Desculpa - ele falou abaixando a cabeça - Vou olhar ali do outro lado. Acho que vi fruta naquela árvore.
Depois daquela breve conversa, a gente não conversou mais. As plantas que eu achei que poderiam ser úteis para um anti-inflamatório, acabaram não sendo de grande uso. Pelo menos o estava certo, a árvore era mesmo frutífera. Ele conseguiu umas dez mangas. Depois do jeito que falei com ele, o clima ficou meio pesado entre nós e enquanto a gente voltava para o ponto de chegada senti necessidade de falar alguma coisa.
- Olha, … - ele parou de andar e me olhou. Céus, porque ele tinha que ser tão literal?! - Me desculpa, ok? Eu não sou assim. É só que…
- Não tá sendo um bom dia - ele sorriu - Eu entendo. Não se preocupe.
- Ok - falei simplesmente. Se instaurando o silêncio novamente, mas dessa vez não parecia pesar.
- Sabe - ele cortou o silêncio. Bem que eu suspeitei que estava bom demais - Quando eu disse que você não parecia ser esse tipo de garota… eu não tava me referindo a sua inteligência, tava falando em relação a ser “mimada” e “prepotente”, a questão de fazer a coisa quando te convém.
- Obrigada - disse a ele. Normalmente as pessoas me vem como eu sou. parecia ter esperanças em mim. Tadinho - Mas não se iluda… as aparências nem sempre enganam.
Nem deu tempo de me responder, pois já havíamos chegado ao nosso destino. Dessa vez não faltava ninguém, na verdade, eu e o fomos a última dupla a chegar. Eu queria muito comer uma das mangas que o nerd tinha pego, mas obviamente o capitão da porra toda não deixou. Sério gente, por que ele? Só me respondam isso. Por que ele dentre tantos outros foi o “escolhido” para nos liderar e dizer o que é certo ou errado? Esse fato me irritava profundamente.
No próximo e último ponto de busca de hoje, havia uma chance maior de serem encontradas mais coisas. No local dava para ser avistado um veículo ao norte e uns “montes” estranhos parecendo ser sucata ao sul. decidiu dividir o grupo em dois sub grupos. já ia se pronunciar e pedir para ir comigo, pelo menos foi o que supus já que ele me encarava, mas felizmente (ou não) escalou o Jake e ele mesmo para virem comigo. Ótimo. Com o todo poderoso presente eu nem conseguiria dar uns amassos com o gato do Jake.
Eu e Jake já nos conhecíamos de verões passados. Desde que chegamos à Terra estávamos nos “vendo” por aí. Dando uns amassos, para ser mais direta. E nossa, como ele ficava gostoso quando estava concentrado. Nosso grupo estava indo em direção aos “montes” de sucata e eu andava ao seu lado enquanto liderava o caminho. Quando chegamos, nos instruiu a pegar o que pudéssemos usar como armas, qualquer outra coisa que achássemos seria lucro. Assim que percebi certa distância de em relação a mim e ao Jake, resolvi movimentar as coisas e me divertir um pouco.
- Hey Jake - chamei-o tirando sua atenção de sua tarefa - Você até que fica bem gostozinho quando tá concentrado.
- Eu sou sempre “gostozinho”, - ele respondeu, fazendo aspas e uma cara brincalhona.
- Sempre é um exagero, vamos combinar - falei dando gargalhada - Se alguém é gostoso sempre aqui, esse alguém sou eu.
- Puff, conta outra - ele riu.
- Você não resiste a tanta gostosura. Ficou todo animado só de saber que estaria no mesmo grupo que eu – falei, lançando uma piscadela para ele.
- Pode ser que seja verdade. Melhor manter distância. Por segurança - ele falou, dando um olhar cheio de desejo para mim.
- Talvez eu não queira estar segura… - falei, me aproximando mais ainda dele.
- Talvez devesse. Eu não quero te machucar - ele respondeu, colando nossos corpos passando seu braço pela minha cintura em um puxão um tanto quanto bruto.
- Você se surpreenderia em saber o tanto que me acostumei com a dor - falei em seu ouvido.
- Você é demais pra esse mundo - ele respondeu, afastando apenas o rosto para me olhar nos olhos.
- Então você é um cara de sorte – falei, me aproximando de seus lábios, mas sem deixar que eles se tocassem - Porque está prestes a provar algo de outra galáxia!
Não foram necessárias mais palavras depois disso. Jake me puxou pela nuca com a mão livre e selou nossos lábios em um beijo desesperado e feroz. Era palpável a tensão sexual entre nós, tanto é que quando nos tocávamos o termômetro explodia e nada poderia nos segurar. Puxei Jake pela cintura até sentir minhas costas se encontrarem com um objeto sólido que julguei ser uma árvore. Ele libertou a mão que segurava minha cintura e a fez percorrer meu corpo de cima a baixo, me pressionando contra a árvore em determinados pontos que sua mão parava. Nós nos beijávamos com tanta vontade e sem nem um pingo de delicadeza, muitas garotas poderiam achar isso horrível, nem um pouco romântico. De fato. Mas nenhum de nós estava ali por romance e sentimentalismo, estávamos ali por sexo e pela louca atração que tínhamos um pelo outro. Fiz uma pausa no beijo mordendo seu lábio inferior. Eu adorava fazer isso com ele, parecia que esse era sempre o gatilho final para ele libertar o animal interior dele, o que já passava da hora de acontecer. Tão rápido quanto meu gesto, Jake me pegou pela cintura me levantando de maneira que ficasse com as pernas em volta de sua cintura. Ele começou a tirar minha blusa e eu aproveitei para tirar a dele também e em seguida colamos nossos lábios novamente em um beijo necessitado de ambas as partes. Luxúria era algo que não faltava em nenhum dos dois.
- Mas que merda… - ouvi uma voz masculina. Não acredito nisso.
- Hey! Será que dá pra levarem a busca a sério? - falou um tanto quanto indignado. Tinha que ser né? Por que seria outra pessoa? Não mesmo, o Diabo está sempre à espreita. Não é o que dizem?
- Ahh até parece - bufei me separando a contra gosto do gostoso do Jake - Nem você leva a sério, caso contrário não estaria aqui.
- Eu já fiz a minha parte. E você?! - respondeu sarcasticamente.
- Gente, chega né? Cada um cuidando da sua vida agora. Obrigada - Jake finalmente se pronunciou terminando de vestir a sua blusa e jogando a minha na direção em que me encontrava.
- Tanto faz - deu de ombros caminhando rumo ao ponto de encontro. Jake já tinha seguido seu caminho de volta a alguns minutos. Ficando um tanto distante em relação a e a mim. Talvez eu estivesse próxima demais dele, explicando o fato dele ter me ouvido mesmo tendo resmungado para mim mesma.
- Isso é perseguição já.
- Desculpa - ele parou, se virando para mim.
- O que? - falei irritada.
- Por que eu estaria te perseguindo? - ele parecia realmente confuso.
- Sei lá! Me diga você! - me exaltei - Talvez você tenha um tesão reprimido por mim. Mas não precisa, ia adorar aliviar ele pra você - continuei minha fala dando um olhar sexy para ele.
- Nossa, essa foi muito boa - ele disse dando gargalhadas.
- Então é o que?! Primeiro você duvida da minha capacidade de matar o Chanceler - ele me interrompeu fazendo sinal para que falasse mais baixo - Depois você não me escolhe para a equipe de buscas, como se eu não fosse capacitada o suficiente pra enfrentar o que tivesse aqui fora. E agora mais essa, interrompendo minha foda. Por favor, né!
- Primeiro: você não tinha mesmo capacidade de matar o Chanceler. Segundo: eu não te escalei para o grupo de buscas por ter presenciado seu “talento” com furtos e vamos combinar que não é a melhor “qualidade” para esse tipo de tarefa. E terceiro: se não fosse eu a atrapalhar, alguém atrapalharia. Não é hora nem lugar pra isso - ele falou calmamente enumerando em seus dedos.
- Ahhhh foda-se – falei, voltando a fazer o caminho de antes - Tanto faz, não ligo pra essas coisas. Eu te desculpo por atrapalhar meu momento.
- Eu não preciso do seu perdão - disse, rindo e tomando a liderança do caminho.
Quando chegamos ao ponto de encontro inicial, percebi que nosso grupo não tinha achado nada enquanto o outro grupo achou comida, um rádio que precisa mais ser sucata, além de um belo veículo motorizado em ótimo estado porem sem combustível. , o Diabo que adora mandar, nos encarregou de levar as coisas de volta para o acampamento. estava levando parte das comidas e Miller levava o rádio e mais algumas coisas que tinham achado anteriormente. Os dois foram os primeiros a voltar para o acampamento. ordenara isso. Enquanto eu aguardava o que fazer, o Diabo falou para e para Jake que iriam andando atrás de todos observando se deixaram alguma informação útil ou qualquer outra coisa passar. Eu aproveitei que não tinha mais nada designado a mim para tirar meu time de campo e fiz meu caminho de volta para o acampamento. Jake me alcançou, deixando e mais para trás.
Foi então que tudo aconteceu muito rápido. Ouvi gritos distantes atrás de mim e quando me virei, vi uma desesperada tentando me falar alguma coisa, mas logo desistindo e correndo de onde estava fazendo que a perdesse de vista e no mesmo instante vi uma névoa amarelada surgir se aproximando de onde estávamos eu e o Jake. Comecei a sentir uma ardência na pele, foi quando comecei a correr para o acampamento o mais rápido que conseguia sendo seguida por Jake. Foi quando ouvi um barulho e olhei para atrás. O Jake tinha caído com alguma coisa e machucado seu pé. Voltei para ajuda-lo, só que assim que me aproximei dele pude ver que a névoa já nos alcançava. Olhei-o nos olhos.
- Não… Por favor, não me deixe aqui - ele retribuiu meu olhar.
- Eu sinto muito - lancei para ele um olhar de desculpas. E segui meu caminho.
- MADISON!! - ele gritava desesperado, já tendo se levantado - ME AJUDA… SUA VADIA!
Eu não podia voltar, por mais que eu quisesse. Antes uma morte do que duas. Eu conseguia ouvi-lo gritar, só que não era para mim desta vez, era de angústia e de dor. Me recusei a olhar para trás, eu nunca olho, porém dessa vez se dava mais ao fato de saber o que iria encontrar caso o fizesse, e eu não queria ver do que fui capaz de deixar ele passar. Apenas corri como se minha vida dependesse disso. E dependia.


Capítulo 6 - The fog

Eu caminhava junto ao e ao Jake depois de nossas buscas terem acabado enquanto Miller e já tinham levado o que encontramos até o acampamento e minha bela, mas inútil, amiga apenas se dirigia até o acampamento, caminhando sozinha mais à frente de nós, antes que sobrasse para ela alguma tarefa. A medida que caminhávamos eu reparava nas coisas ao meu redor. Era tudo tão maravilhoso! Nem de longe eu conseguiria imaginar o que eu estava vendo, ouvindo e sentindo. Claro que toda minha vida eu imaginei, tentei ao máximo imaginar como seria a vida aqui em baixo, mas agora que estou realmente aqui, finalmente pude descobrir como era viver na Terra. Claro que nada se compara a como era antigamente, antes de tudo acontecer, mas nada impedia que fosse melhor. Pelo menos era como eu via as coisas. Mas não, eu não sou otimista, muito pelo contrário, acredito que se algo pode dar errado, ela vai dar errado, mas também acredito que nada é definitivo, então se deu errado, por que ficaria para sempre no errado? Tudo sempre pode se concertar. Foi enquanto divagava e observava o meu entorno que notei algo à minha direita, na altura da minha cintura, camuflado em uma rocha por plantas. Mas eu o notei, sempre notaria, me pergunto como apenas eu pude notar?! Parei e aproximei meu olhar da rocha e com as mãos afastei as plantas que o encobriam. A luz da tarde fazia com que cintilasse, era tão belo.
- O que você tá fazendo? - levei um susto quando falou, não havia reparado que ele tinha parado atrás de mim.
- Clinoclase - foi tudo o que disse, ainda admirando aqueles cristais.
- Você tá bem? - ele perguntou confuso.
- São cristais – falei, me levantando e olhando para - É um mineral composto por arsenato de cobre.
- O que?! - ele se alterou, parecia irritado.
- Na rocha – apontei, sorrindo - Não é lindo?
olhou em direção a rocha e seu rosto se iluminou em compreensão, mas tão rápido quanto compreendeu também se irritou.
- Eu não acredito nisso, ! – falou, irritado.
- O que foi? – perguntei, realmente não entendendo o problema.
- Tanta coisa importante pra fazer e você ai admirando uma pedra azul?! - ele falou incrédulo.
- , sempre há tempo para as coisas boas da vida - falei calmamente - E eu já cumpri com minhas obrigações.
Ele pareceu surpreso com minha resposta. Acredito que ele achava que eu me ofenderia ou brigaria com ele, mandando ele me deixar em paz. De fato, queria ficar em paz com minha mais nova descoberta, mas decidi fazer o que me aconselhou. Não deixar ele me afetar, ou pelo menos não o deixar saber que consegue fazer isso. fez menção de sair, mas eu não deixei, segurando seu braço. Ele fez uma cara estranha.
- O que é isso, ? Enlouqueceu de vez? - ele falou calmamente, para minha surpresa.
- Eu preciso da sua ajuda – falei, olhando para os cristais e fazendo com que ele acompanhasse meu olhar. Ele bufou, olhou para a direção do acampamento, vendo que Jake e já estavam bem distantes e depois olhou para mim.
- Tudo bem - ele revirou os olhos - Mas essa é a última vez que te ajudo com essa babaquice.
- Obrigada! - falei contente. Confesso que não esperava que ele me ajudasse.
pegou uma faca que carregava na sua cintura e começou a tentar arrancar o Clinoclase da rocha em que se encontrava. Ele não iria conseguir desse jeito. Tive uma ideia e fui procurar alguma pedra do tamanho de um punho para poder ajuda-lo.
- Aqui - entreguei para , que me olhou estranho.
- , não atrapalha - ele falou, voltando a fazer o de antes.
- Usa essa pedra - ignorei sua grosseria. Pedi licença e peguei sua faca para demonstrar. Coloquei a faca posicionada pela lateral do Clinoclase onde se fazia o contato do mesmo com a rocha e com a pedra que achara bati no cabo da faca. pareceu entender e tomou o controle da atividade de novo.
Enquanto o tentava retirar o mineral da rocha, procurei por e Jake. Percebi que tínhamos ficado bastante para trás. Olhei de onde tínhamos vindo e foi quando percebi algo estranho. Parecia uma fumaça só que era amarela, meio esquisito. Vinha se aproximando de onde estávamos, decidi chamar a atenção do a respeito daquilo
- - chamei.
- O que foi? - ele perguntou se levantando.
- Sinceramente? Não sei – falei, apontando na direção da fumaça.
- Mas o que… - foi tudo o que ele disse.
Eu comecei a gritar para , ela precisava estar atenta à isso, seja lá o que fosse. Ela me viu, mas não pareceu me ouvir. resmungava alguma coisa. Só então percebi que enquanto gritava para a tinha me distanciado do . Caminhei na direção de onde ele estava e fui sentindo um ardor na minha pele. A fumaça estava quase chegando na gente.
- Essa fumaça é ácida - ele falou com uma expressão de dor - Vamos correr para o acampamento.
- Não vai dar tempo – respondi.
- Tem que dar - ele falou com dor e desespero no olhar, já saindo em direção ao acampamento. Eu segurei seu braço e ele me olhou confuso soltando uma exclamação de dor, não pela minha ação, mas acredito que a fumaça tinha mesmo machucado ele.
- Vem comigo - eu sai andando, mas ele não me seguiu, ficou parado, provavelmente ponderando o que fazer.
Essa ponderação não deve ter durado nem trinta segundos, mas resultou sendo bem estúpido, porque logo a fumaça chegou nele, fazendo-o gritar de dor. Ele começou a caminhar na minha direção, mas alguns passos depois, caiu de joelhos. Eu corri até ele e pude sentir a minha pele arder, mas era um ardor tão forte que sentia que minha pele iria derreter. Passei seu braço sobre meu ombro e, como em um coro, nós dois gritamos de dor. Fomos caminhando o mais rápido que conseguimos, eu sentia dor por todo o meu corpo, mas ele parecia sentir muito mais. Acho que ele ficou mais tempo em contato com essa fumaça do que eu. Ele gritava muito, eu também queria gritar, mas não sei de onde tirei forças para me tirar e tirar o dessa situação. Finalmente consegui avistar a nossa salvação. O carro. Era um jipe, pelo menos parecia um. Ele estava todo fechado quando o achamos e quando tive a ideia de vir até ele, pensei que seria útil em manter a fumaça sem contato com nossa pele. Assim que chegamos no carro, joguei em um dos bancos dianteiros e me dirigi para o outro. No mesmo instante senti o ardor em minha pele aliviar. Doía muito, parecia que tinha queimado meus braços. Tirei minha jaqueta e constatei que minha pele estava bem avermelhada com sinais de bolhas. Ainda bem que nos refugiamos a tempo, a coisa a partir daqui ficaria pior e talvez incurável tendo em vista que não tínhamos medicamentos. O grito de me trouxe de volta a realidade. Ele ainda gemia e se contorcia, e assim que retomei minha consciência fui até ele. Cheguei perto e toquei no seu braço fazendo menção de tirar sua jaqueta, mas ele se retraiu.
- , eu preciso que tire essa jaqueta - ele apenas assentiu e me ajudou a tirá-la. Assim que foi feito, pude ver que ele realmente estava pior. Sobre sua pele já se tinham formado bolhas e pude perceber alguns machucados se formando pelo atrito com a roupa.
- Acho que você vai precisar tirar as calças também - falei seriamente. Ele não hesitou, começou a tirar suas calças mas parou e me olhou.
- Você pode me ajudar? - ele perguntou entre os dentes que permaneciam bem travados devido à dor. Eu prontamente fui ao seu auxilio, e assim que terminamos percebi que as suas pernas estavam em um estado semelhante aso seus braços, porém um pouco melhor, sem machucados e com poucas bolhas.
Ele ainda gemia de dor, fazendo com que eu me desesperasse por não conseguir ajudar, eu não sabia o que fazer, não tinha conhecimentos médicos. Eu tentei me forçar a pensar em alguma coisa, o que eu faria em uma situação normal? Se me queimasse, o que eu faria para aliviar a dor? Talvez usaria um pouco de água. Água! Essa palavra iluminou minha mente e me fez lembrar que eu carregava comigo um cantil de água. Prontamente o peguei e me aproximei de novamente. Teria que aplicar nele o pouco que sabia sobre primeiro-socorros com o que tínhamos à mão.
- Olha, isso pode doer um pouco - eu falei preparando ele.
- O que você vai fazer? - ele perguntou entre dentes.
- Vou tirar minha camiseta, rasgá-la em pedaços de maneira que dê para cobrir seus braços, molhar os pedaços e colocá-los nos seus braços - eu falei calmamente, narrando cada passo do que eu faria. Ele assentiu.
- Mas antes acho melhor colocar suas calças de novo, não vão te machucar – falei, pegando sua calça e já ajudando-o a se vestir. Tirei minha camiseta, e com a ajuda da faca do eu rasguei ela na lateral de forma que parecesse um pano estendido, depois a rasguei em tiras e encharquei cada pedaço que tinha rasgado.
- Vai doer, mas se precisar pode apertar minha perna – falei, pegando sua mão e colocando sobre minha perna. Quando fui colocar os panos molhados ele se retraiu. Como se mudasse de ideia.
- Esquece - ele falou, fazendo uma pausa - Eu aguento até voltarmos para o acampamento.
- - o chamei e com minha mão peguei em seu queixo fazendo ele me olhar nos olhos - Confia em mim. Isso vai te ajudar.
Ele não disse mais nada, apenas assentiu. E então eu coloquei os panos em toda a extensão de seus braços enquanto ele se contorcia e gemia apertando cada vez mais minha perna. Assim que terminei, joguei um pouco de água em suas calças de modo que aliviasse um pouco o ardor em suas pernas. Também joguei em sua camiseta antes da água ficar quase no fim. Para aproveitar o resto de água, eu peguei um pedaço da minha camiseta que tinha sobrado e a encharquei para colocá-la em seu rosto que por sorte não estava afetado, só um pouco avermelhado, porque enquanto o ajudava a caminhar, ele protegeu seu rosto no meu ombro.
- O que você tá fazendo? - o me perguntou com a voz já normalizada enquanto eu levava minha mão até seu rosto com o pedaço de pano molhado.
- Ué, vou umidificar seu rosto pra aliviar a vermelhidão - falei como se fosse óbvio.
- Não - ele falou simplesmente.
- Sério? A essa altura da situação vai fazer birra?! - Perguntei incrédula.
- Não é isso - ele falou, se ajeitando no banco do carro e abaixando minha mão - Usa isso em você. Eu já tô melhor, meu rosto aguenta até voltarmos para o acampamento
- Eu tô bem, - falei firmemente, olhando em seus olhos. E então do nada ele sorriu. Ele deve ser meio dodói da cabeça, tadinho.
- - ele fez uma pausa rindo - Já é a segunda vez que me chama assim.
- É seu nome - dei risada e continuei - Essas queimaduras te afetaram mais do que eu imaginava.
É que você nunca me chama assim. Todos os dias desde que chegamos só tem me chamado de - ele falou, ainda achando graça.
- Você também só me chama de - falei, dando de ombros - Mas não se acostuma, não pretendo…
- Obrigado - ele me interrompeu, lançando um olhar sincero para mim.
- Só fiz o que qualquer um faria - falei tão sincera quanto seu olhar.
- Não - ele fez uma pausa e olhou para o chão em seguida - Não qualquer um. Não dos que vieram com a gente.
- Eu faria por qualquer um - corrigi minha fala.
- Claro, foi em parte sua culpa estarmos nessa situação - ele falou seriamente voltando a me olhar.
- OI?! - falei um pouco alta.
- É, se não fosse você e sua estúpida pedra azul, nós estaríamos com a e o Jake agora - ele falava calmamente.
- Desculpa, mas não tinha como adivinhar que uma coisa dessas podia acontecer nem nos meus sonhos mais loucos - eu respondi, já me sentindo culpada e um pouco triste porque nem com o Clinoclase eu fiquei no fim das contas.
- É. Mas aqui na Terra, … temos que estar preparados pra tudo - ele fez uma pausa antes de continuar - Não podemos nos distrair com as coisas boas da vida.
Eu não falei mais nada depois disso, apenas assenti. Ele tinha jogado baixo usando uma frase que tinha usado contra ele mais cedo, mas o pior de tudo nem era isso e sim o fato de ele estar certo. Eu tenho que parar de me deslumbrar com as coisas aqui na Terra ou vou acabar me ferindo gravemente um dia, ou até mesmo àqueles que estiverem por perto de mim. Além das coisas que não sabemos da Terra pós-guerra nuclear, sabemos que tem outras pessoas aqui e que querem nos machucar. Realmente, todo cuidado é pouco, só queria não ter passado por isso para poder perceber.
Limpei o vidro da janela do meu lado, embaçada pelo calor das nossas respirações e suja de poeira devido aos anos de abandono, e pude perceber que aparentemente aquela fumaça dos infernos tinha passado. Olhei para e reparei que ele dormia. Realmente, passar pelo estresse que o corpo dele passou não era fácil, me surpreende ele não ter dormido antes ou até mesmo desmaiado. Quando fui me aproximar dele para acorda-lo percebi que estava seminua e uma onda de vergonha me atingiu, eu fiquei tão aflita e preocupada com o estado do que nem me dei conta de como tinha ficado, apenas de sutiã e calça. Rapidamente busquei minha jaqueta e a coloquei, mas não a consegui fechar porque irritava minha pele, teria que ficar assim mesmo, mas pelo menos já era melhor do que nada. Minha movimentação acordou o pobre adormecido.
- A névoa já passou? - perguntou meio sonolento.
- Sim. Vamos - peguei meu cantil de água e antes que ele falasse alguma coisa já abri minha porta e saí. Fui até seu lado do carro para ajudá-lo a sair.
- Você é louca - ele me observou - Como sai assim do carro?
- Ué, a névoa já tinha passado - falei simplesmente.
- Como tinha certeza?
- Não tinha – falei, dando de ombros.
- Imprudente - ele disse, dando risada.
Assim que ele saiu do carro, peguei sua jaqueta e o ajudei a vesti-la, agora que estava com os braços cobertos pelos pedaços da minha blusa a jaqueta não o machucaria mais. Mas em contrapartida ele não conseguia andar direito sozinho. Claro que já conseguia andar bem melhor do que quando estávamos fugindo da névoa, mas ainda assim passei seu braço pelo meu ombro para lhe dar mais apoio ao caminhar e então seguimos nosso caminho para finalmente voltar ao acampamento.
Ao finalmente chegar no nosso tão almejado destino, as pessoas nos viram chegando e Octavia veio em disparada ver como o irmão estava, e então eu o entreguei para ela recebendo um olhar preocupado e agradecido da mesma. Assim que eles saíram, veio ao meu encontro. Ela me fez muitas perguntas, mas a primeira delas foi a respeito do que tinha acontecido com minhas roupas, e então fui contando tudo para ela desde o momento em que ela se separou de nós andando mais adiantada. Fomos andando e conversando até chegarmos a uma das tendas que tinham por ali, pelo que pude perceber essa pertencia a minha melhor amiga, quando aconteceu essa divisão? Não sei, só sei que me aproveitaria disso. Deitei na cama improvisada que tinha ali enquanto terminava de contar sobre o que tinha acontecido para .
- Nossa eim, você salvou a vida do - ela falou, batendo palmas.
- Eu só fiz o que qualquer um faria – falei, dando de ombros.
- Não, nem todos fariam - ela respondeu, ficando meio estranha e abaixando o olhar.
- O que foi? - perguntei analítica. Tinha coelho nesse mato - Do que você tá sabendo?
- Sabendo? De nada - ela falou, tentando um falso tom de descontração.
- … Desembucha – falei, me sentando e ficando de frente para ela.
- Que saco, ! Já disse que nada! - ela se alterou, se levantando de onde estava e se dirigindo até a porta da tenda.
- , segredos não duram pra sempre - falei para ela, calmamente, mas firme - Ainda mais entre nós duas.
- Eu vou chamar a Clarke pra ver suas queimaduras - ela disse, e sem esperar uma resposta minha se retirou da tenda. Decidi dar tempo ao tempo, não ia adiantar de nada pressionar.
Decidi me deitar enquanto esperava Clarke. Parece que ela tinha saído com um grupo para buscar as coisas necessárias para que melhorasse. Mas assim que ela voltou, indicou o que tinha que ser feito com para Octavia e veio me ver. Ela me preparou uma espécie de gel que mais perecia uma gosma fedorenta, credo, e logo em seguida a aplicou por todo o meu corpo. Não cobriu as partes untadas com a gosma com nada, ela deixou assim para que pudesse resfriar e hidratar minha pele. Eu deveria ficar reaplicando à medida que fosse secando, e se acabasse ela me instruiu a chama-la. Assim que ela deixou a tenda da eu tirei um cochilo, estava simplesmente destruída, merecia um pouco de descanso. Quando acordei do meu breve descanso, algumas partes do meu corpo estavam com a gosma já seca, então me sentei para “retocar” nesses lugares. Eu queria poder colocar minha roupa, tendo em vista que qualquer pessoa que entrasse ali me veria apenas de sutiã e calcinha. Mas não podendo fazer nada e ainda me sentindo cansada resolvi voltar a dormir, amanhã já estaria melhor.
No dia seguinte, acordei toda melecada com aquela gosma, aparentemente alguém tinha retocado para mim enquanto eu dormia tão profundamente que nem percebi alguém me tocando, literalmente, na ferida. Só pude rezar mentalmente para que tenha sido a ou a Clarke. Já me sentia bem melhor, depois que essa gosma secasse, não a retocaria mais, não seria necessário. Assim que me sentei na cama para me levantar, apareceu alguém na tenta.
- Hey! Se sente melhor? - me perguntou bem humorado. Vê-lo ali parado foi um alivio. Ele estava com suas roupas normais, com alguns curativos improvisados, mas parecia estar bem melhor.
- Melhor - respondi e olhei para ele com um sorriso de satisfação - Assim como você.
- É… A Clarke realmente sabe o que faz quando o assunto é cuidados médicos - ele sorriu, mas de repente ficou envergonhado. Pelo menos foi o que pareceu.
- É. Tenho que agradecer à ela - falei normalmente enquanto via se aproximar e sentar à minha frente.
- Já agradeci a ela por você - ele falou e em seguida estendeu seu braço para mim com o punho fechado.
- O que… - fiquei na dúvida de como reagir a esse gesto. Até porque não sabia o que era isso. O que o fez dar uma risada.
- , só coloca suas mãos debaixo da minha - ele falou, achando graça. Eu fiz o que ele mandou e não acreditei no que ele deixou cair na minha mão.
- O Clinoclase!! - falei muito surpresa e alegre - Pensei que não tivesse conseguido pega-lo…
- Não consegui - ele falou como se fizesse todo o sentido do mundo. Mas vendo minha cara de confusão, ele continuou - Eu acordei hoje me sentindo melhor e achei que deveria voltar e buscar pra você.
- Você não precisava… Quer dizer, fico feliz, mas… - eu não sabia o que falar naquele momento.
- Não fiz isso por você - ele falava sério, mas como se fosse a coisa mais simples do mundo - Eu fiz porque assim não fico te devendo nada por salvar minha vida.
- Você já não devia – falei, dando de ombros - Não fiz o que fiz esperando algo em troca.
- Prefiro não deixar pontas soltas - ele disse simplesmente - Toma, te trouxe roupas também.
Só então tomei consciência de que continuava apenas de sutiã e calcinha. Meu Deus do céu, que tendência horrorosa é essa de toda vez que o está por perto eu estou ou fico sem roupa?! Isso tem que acabar rápido! Vou me benzer depois. Peguei rapidamente as roupas, tentando usa-las como um esconderijo para minha nudez. Mas não dando muito certo, apenas me deixei iludir que estava tampando alguma coisa com essa tentativa frustrada pelo bem da minha sanidade. apenas riu, se levantando para ir embora. Mas quando chegou na saída da tenda parou.
- Ah! Antes que me esqueça - ele se virou para me olhar - Isso que aconteceu não muda nada entre a gente.
- Mas não tem nada entre nós - respondi meio confusa.
- Ahhh tem sim - ele riu e apontou para meu pulso. Foi então que entendi o que ele quis dizer com aquilo.
- Ah sim, isso – falei, levantando meu pulso enquanto ele assentia.
- Mas sinto que logo, logo isso vai mudar - ele me lançou um olhar desafiador.
- Pode vir com tudo - devolvi o olhar que ele tinha me mandado complementando com um sorriso no final - Eu aguento.
Antes que ele pudesse falar alguma coisa, eu me levantei, percebendo uma movimentação anormal do lado de fora da tenda. Enquanto colocava a calça que me trouxera, o mesmo já tinha saído, mas logo eu o segui com minha camiseta na mão vestindo-a assim que sai da tenda e parando em frente a ela junto ao .
- O que ta acontecendo? - perguntou à Clarke, que se aproximava com em seu encalço.
- Acharam um garoto agonizando próximo ao acampamento - Clarke respondeu, se aproximando.
- Já sabem quem é? - Perguntei a ela.
- Não, não conseguiram traze-lo pra cá - ela fez uma pausa e olhou para o - É por isso que vim até você.
- Me diz onde exatamente, que eu vou - Ele disse enquanto ambos se compreendiam apenas com o olhar. Eu, por outro lado, não entendi a situação. Ela falou onde ele deveria ir e pediu licença, pois estava sendo chamada por Monty, já saindo correndo até ele.
- Você vem comigo - ele falou simplesmente, já saindo do acampamento. Eu apenas o segui.
- Aonde vocês estão indo? - se aproximou afobada de nós.
- Ajudar o garoto ferido - Respondi enquanto seguia o .
- Então eu vou junto - ela disse rapidamente.
Eu só conseguia pensar no que o tinha me dito no dia anterior dentro do carro. Não podemos nos distrair com as coisas boas da vida. De fato, quando você pensa que está tudo bem, alguma coisa ruim acontece. Percebi que ainda tinha o Clinoclase na mão, o olhei e me senti triste por não poder aprecia-lo como deveria e principalmente por ela representar tudo o que eu tinha descoberto que não teria. Coisas boas na vida. Tenho que me lembrar de agradecer ao por ter acabado com tudo o que eu acreditava com uma simples frase.
Quando finalmente chegamos até o garoto, eu fiquei surpresa com o que vi. Ele estava MUITO machucado pela acidez daquela névoa, ele estava quase irreconhecível, mas consegui reconhecer e foi o que me surpreendeu de verdade. Era o Jake.


Capítulo 7 -

Isso não podia estar acontecendo. Mas que merda de Karma eim, puta que pariu. Tudo bem que eu já suspeitava que poderia ser o Jake, mas tinha um fio de esperança do contrário. Só para ter certeza foi que eu vim até aqui na companhia de e . Eles pareciam preocupados. tinha um olhar de “eu sei o que tenho que fazer, mas não quero” e minha amiga tinha uma expressão de surpresa no rosto. Acredito que ela esperava que Jake estivesse tão bem quanto eu. A tem a leve tendência de acreditar que eu tenho um coração tão grande quanto o dela, mas ela não poderia estar mais enganada. Às vezes acho que ela vive em um mundo cor de rosa, capaz de se sacrificar pelo outro, se esquecendo que ninguém faria o mesmo por ela. Ela acredita demais em que tudo pode dar certo no final. Em uma de nossas conversar ela me disse uma vez que ela não era otimista, pelo contrário, que se algo poderia dar errado, daria errado, mas que nada impedia que depois desse certo, que tudo pode melhorar. Eu, como melhor amiga dela, deveria sacudir ela e acorda-la para a vida. Mas optei por proteger isso que ela acreditava, esse pequeno mundinho ideal e inatingível em que ela habitava, a humanidade precisa de mais pessoas como ela e, no fim das contas, eu nunca discordei dela, de fato ela estava certa, mas assim como pode melhorar, pode também ficar bem pior, e na minha vida era mais provável essa segunda opção. Tanto é que cá estamos nós.
- ! Tá surda?! - chamou minha atenção. Só então reparei que estava parada encarando Jake, que se encontrava quase desacordado.
- Desculpa… O que você me falava? - perguntei calmamente, meio aérea à situação.
- Pegue ele pelos pés enquanto eu o pego pelas axilas. vai colocar essa tábua por debaixo dele para levarmos ele de volta para o acampamento - ele instruiu pacientemente.
Fiz o que o havia me instruído e no momento que ele foi fazer igual, o Jake começou a gritar muito forte. Doía meus ouvidos de tão alto, quase o larguei como reflexo, não foi à toa que a levou um susto tão grande que tropeçou de costas, caindo no chão. Fui correndo ao seu encontro para checar se estava tudo bem com ela.
- ! Você se machucou? - perguntei preocupada.
- Calma, , eu não sou de vidro - ela disse dando risada. Babaca.
- Não vamos conseguir levar ele - falou, chamando nossa atenção.
- … - Jake conseguiu falar em um sussurro. Corri imediatamente para perto dele, sendo seguida por .
- Jake, aguenta firme, nós vamos dar um jeito - disse esperançosa. Jake então pareceu notar minha presença e começou a chamar pelo . Eu tentei chamar a atenção do mesmo para que Jake não conseguisse falar nada que não devesse ser ouvido. Não deu muito certo. Então parti para o plano B, me aproximei do rosto do Jake e lhe lancei um olhar ameaçador.
- Jake, é melhor ficar quieto pra que a gente possa te ajudar – falei, olhando em seus olhos, que transmitiam desespero.
- Eu… … - ele chamou novamente. Merda de garoto. chegou perto do rosto de Jake pelo lado oposto ao meu.
- Jake, acho que não vamos conseguir te tirar dessa - falou, mas seu olhar transmitia uma mensagem já conhecida por ele. Eu entendi. Ele não viera até aqui para ajudá-lo a voltar e sim para acabar com seu sofrimento, matá-lo.
- Me mata - ele falou em um sussurro, mas logo surpreendeu a todos gritando - POR FAVOR!
sacou sua faca, olhou para Jake fixamente como se procurasse coragem para executar o ato, logo em seguida olhou para . Não consegui deduzir o motivo desse olhar, então olhei para minha amiga, que mantinha um olhar aflito e fixo em direção ao . O que era isso?! Ele estava procurando motivos para desistir?! Porque olhar para a nesse estado é pedir para desistir de tudo e ir abraça-la. Mas ele desviou o olhar novamente para o Jake, fez menção de pegar impulso para cravar a faca no crânio do mesmo, mas surpreendentemente ele parou, abaixou a mão e suspirou. Eu não aguentava mais isso, se era para acabar, acabaria e pelas minhas mãos. Já que ninguém faz nada.
- Me dê essa faca - falei para que me olhou confuso. Eu não esperei uma resposta, apenas peguei a faca de sua mão.
- Hey! - protestou, mas antes que ele pudesse fazer algo que me impedisse, já me adiantei e sem nem pensar muito executei o ato.
- May we meet again - falei para ele a frase de despedida que nós da arca usávamos. Significava basicamente “Que nos encontremos novamente” e antes que eu tirasse sua vida cravando a faca em seu crânio ele ainda gritou para mim.
- ASSASSINA! - dito isso, Jake caiu sem vida a nossa frente. Eu apenas levantei e saí andando.
- Vamos! Foi feito o que tinha de ser feito – Falei, já voltando para o acampamento.
Eles nada disseram, apenas caminharam de volta para o acampamento ao meu lado. Deveria me sentir mal por ter tirado a vida do Jake duas vezes? Provavelmente. Mas não iria ficar me martirizando por causa disso. Eu fiz o necessário para sobreviver, se eu tivesse voltado por ele, seríamos os dois mortos agora e não apenas ele. E já que um ia morrer, melhor não ser eu.
Ao chegarmos no acampamento e seguiram para um lado e eu procurei ir para o lado oposto ao deles. Não queria conversa agora, precisava ficar sozinha, tudo que eu menos queria era lição de moral da . Por sorte, minha tenda estava no meu caminho.
- E ai?! Ficou sabendo do Jake? - Surgiu um garoto na minha frente antes que eu chegasse ao meu destino, me assustando com esse ato inesperado.
- Pelo amor de Deus, que susto Murphy! – Falei, reconhecendo a criatura na minha frente.
- Quem não deve, não teme - ele falou, me lançando um olhar ameaçador. O que aquele pedaço de lixo acha que é?!
- Ah vai torrar o tempo de outro – falei, passando por ele de maneira que nossos ombros se bateram.
- Eu sei o que você fez, - ele falou, se virando na direção em que eu tinha saído - Eu vi.
- Tanto faz… - falei, fazendo um gesto com minha mão condizente com minha fala, mas sem desviar de meu caminho e muito menos virar para trás.
- Você é uma assassina, - ele gritou. E então eu gelei.
- Cala essa boca, babaca! – falei, correndo em sua direção e tampando sua boca. Ele me empurrou, se livrando assim da minha mão.
- Eu sei que você abandonou o Jake pra morrer. Eu vi - falou em uma entonação mais baixa - Assim como vi você esfaqueando a cabeça dele.
- Eu fiz o que tinha que ser feito! - me exaltei, mas tentando controlar meu tom de voz ao mesmo tempo.
- É o que você acha - ele deu uma risada sarcástica - Mas será que a concordaria com você?
Ele fez uma expressão falsa de quem estava realmente na dúvida a respeito do que falou. Eu nada disse. Qual era a dele?!
- Afinal, ela não pensou duas vezes em encarar a névoa acida pra ajudar o - ele fez uma cara irônica de quem estava impressionado com o que acabara de dizer - Logo quem, não é mesmo?! Uma das pessoas que todo mundo gostaria que morresse. .
- Cai fora daqui! - eu falei, empurrando ele contra uma árvore próxima de nós ao mesmo tempo em que coloquei meu braço pressionando seu pescoço.
- Vai me matar é? - ele perguntou em um tom sarcástico. EU VOU QUEBRAR A CARA DELE! Mas no lugar disso, apenas o soltei. Afinal, eu sou uma lady antes de tudo.
- Desembucha, o que você quer?! - falei irritada.
- Na hora certa você vai saber - ele falou calmamente, sorrindo de lado e me empurrando para que pudesse ir embora.
Eu finalmente cheguei na minha tenda, o que parecia quase impossível a alguns segundos atrás. O que está acontecendo comigo? Eu não posso querer espancar todo babaca que aparecer na minha frente. Eu não sou assim, nem bruta eu sou, sou delicada. Quase uma Miss. O que estava acontecendo comigo? Aliás, o que o Murphy acha que é? Ele é louco? Provavelmente é sim, o que deixa a situação bem pior para o meu lado. Não vou negar que essa situação toda me deu medo, ele sabe de tudo, e se contar para alguém provavelmente vai querer me matar. Mas o que eu fiz não foi nada demais. Foi? Meu Deus, minha cabeça está uma bagunça! O melhor que tenho a fazer é esquecer tudo isso. , pessoa mais amada do meu coração, apenas esqueça essa questão toda, esqueça o Jake, esqueça o Murphy, esqueça tudo.
Resolvi me deitar. Demorei para pegar no sono, mas quando percebi já estava sendo acordada pela irritante pessoa que eu ainda insistia em chamar de melhor amiga.
- Anda, , temos que ir - ela falou, me jogando minha jaqueta enquanto eu me sentava naquilo que eu chamava de cama.
- Nada é mais importante que meu sono de beleza – falei, me espreguiçando enquanto considerava seriamente voltar a dormir.
- Isso é - ela falou enquanto pegava coisas e colocava em uma mochila.
- O que é? Tá fugindo? – perguntei, dando risada. Mas logo parei, analisando o que tinha acabado de falar - Você não vai fugir. Vai?!
- Alguma coisa caiu do céu, provavelmente uma nave, só tô pegando coisas que possam ser úteis quando a encontrarmos - ela falou, ignorando minha pergunta e parando à minha frente com os braços cruzados.
- O que?! Quando isso?! - perguntei realmente surpresa. Não poderia descer ninguém de lá ou eu estaria perdida. Como fui me meter nessa situação?! Ou eu morro pelo meu segredo que o Murphy tinha em mãos, ou então morreria pelas mãos de quem estava nessa nave.
Rapidamente me levantei e coloquei minha jaqueta. Logo em seguida saí da tenda seguindo , que se juntava com a Clarke, e . Eu não queria ir, mas precisava estar lá porque dependendo de quem tivesse descido, talvez fosse necessária uma medida mais drástica de minha parte, e isso só poderia ser feito lá na hora porque faria parecer como se a pessoa tivesse morrido na queda.
Meu Deus, como eu tenho uma mente maligna e criminosa. Ou talvez não. Talvez eu esteja apenas sobrevivendo.


Capítulo 8 - The New One

Quando encontramos a nave que tinha aterrissado na terra, percebemos que não era ninguém relativamente importante. O nome dela era Raven. Parecia ser bem inteligente e nos ajudaria a finalmente fazer contato com a Arca. O Monty é bem inteligente, mas sozinho e com os poucos recursos que tinha era de se entender o fracasso até agora.
Ela me parecia legal, tem sido bem prestativa no decorrer dos dias após sua chegada, porém um clima estranho se instaurou entre ela, a Clarke e o Finn. Eles fingem que não, mas está evidente que ela sente ciúmes. Ela arriscou a vida para vir atrás do Finn e, no fim das contas, ele estava bem, até demais. Ele se apaixonou pela Clarke assim como ela também se apaixonou por ele, eles tentavam disfarçar, mas era tão evidente quanto a atual situação. Mas o que ninguém esperava era que o perfeito e correto Finn fosse um traidor. Na realidade isso nos mostra uma coisa: o amor é uma merda. Ele nos obriga a fazer coisas que nunca faríamos em um estado normal de espírito. O amor estraga as pessoas. Aposto que ninguém espera esse tipo de pensamento vindo de mim já que a maioria das pessoas acha que eu vivo em um mundo cor de rosa intocável. Mas não é bem assim. Eu costumo mesmo ter esperanças nas coisas, menos no amor. O amor não tem remédio, se você ama muito alguém, você está fadado ao fim. Por quê? Talvez essa seja a pergunta mais frequente quando o assunto é amor. “Por que ele fez isso comigo?” “Por que você não faria isso por mim?” “Por que você não me ama?” Dentre muitas outras variações. Então por que o amor não merece depósitos de esperança? Simplesmente porque assim como o amor pode ser nossa maior virtude e força, também pode ser nossa maior fraqueza. Você faria de tudo por aqueles que ama. Você mataria, você roubaria, você assumiria a culpa de um crime que não cometeu, você arriscaria sua vida para salvar a deles, você estaria por perto sempre que necessário, não tem nada que você não faria por eles. Ao mesmo tempo que isso é honroso, é patético. Você abre mão do seu amor próprio por aqueles que você ama e, no fim, muitos deles não fariam metade do que você faria por eles. Claro que não amamos esperando algo em troca, mas no mínimo esperamos colher o que plantamos. Sei lá. Apenas acho o amor um sentimento altruísta demais para uma espécie tão egoísta quanto a humana. Não estamos prontos para amar de maneira que tudo o que esse sentimento traga seja positivo, que desperte apenas virtudes e força, que não deixe aqueles que o sentem simplesmente cegos ao ponto de fazer qualquer coisa por ele. Há limites em tudo na vida. Mas se o amor é cego, não enxerga limites.
- ? - ouvi uma voz feminina me chamar.
- Oi! Raven! - cumprimentei ela assim que se aproximou mais de mim.
- Você quer me falar alguma coisa?
- Não… Por que a pergunta? - falei dando uma leve risada. Estava meio confusa.
- É só que você estava parada ai me encarando, achei que precisasse falar alguma coisa comigo - ela respondeu simpática. No mesmo instante me senti muito envergonhada, pude me sentir corar.
- Não… Quer dizer… É que… - bufei frustrada com minha tentativa de resposta - Me desculpa. Só tava perdida nos meus pensamentos mesmo.
- Bom, eu tenho algo pra te dizer - ela falou simplesmente.
- Go ahead - falei naturalmente. Mas ela fez uma cara de confusão então reformulei minha frase entre risos - Vá em frente.
- Ah! - ela riu - Então, o Sr. Todo Poderoso tá solicitando sua presença na tenda dele.
- Já deveria imaginar - revirei os olhos e falei desanimada.
- Tá legal, eu vou com você, não precisa implorar - ela falou com um falso semblante de tédio e sofrimento.
- Oh meu Deus! Muito obrigada! Não sei o que eu faria sem sua ajuda lá sozinha com o - falei com uma falsa empolgação enquanto fazia gestos e caretas de uma emoção tão falsa quanto.
- Eu sei o que EU faria lá sozinha com o - Raven mudou o tom, saindo de uma brincadeira para a revelação de um desejo que eu desconhecia nela. Eu nunca imaginaria que ela se sentia assim em relação ao , principalmente pelo fato dela ainda estar visivelmente apaixonada pelo Finn.
- Você tá falando sério mesmo? - perguntei enquanto me movia em direção à tenda do dito cujo, sendo seguida pela minha mais nova amiga.
- Eu amo o Finn - ela disse séria, olhando para o horizonte para não fazer contato visual, mas logo em seguida me olhou com um sorriso largo e os olhos brilhando. Não consegui dizer se brilhavam devido a lágrimas que ela não deixou cair, ou se era simplesmente desejo - Mas que mal tem se divertir um pouco? Aposto que ele entenderia.
- Ele quem? O Finn?
- Bom, sim, ele também. Mas principalmente o , ele tem cara de quem sabe passar muito bem o tempo - ela disse, dando um sorriso de canto de boca e um olhar que agora sim eu saberia definir o brilho neles. Era, definitivamente, de desejo.
- Obrigada por colocar essa imagem na minha cabeça, te amo – falei, fazendo uma careta de desgosto e sacudindo a cabeça.
- Para de fingimento que eu bem sei que vocês dois são próximos, consequentemente você já imaginou ele todinho pra você - eu a olhei chocada.
- Claro que não – falei, sacudindo as mãos em negação - Tá tudo errado nessa frase. Nós não somos próximos, ele é o pior ser humano existente e não consigo nem me imaginar PRÓXIMA dele quanto mais nua COM ele.
Depois que fiz minha breve porém direta explicação de como funcionam as coisas, Raven não se conteve e se contraiu de tantas gargalhadas, eu não pude evitar e dei risada junto com ela e quando nos demos conta já tínhamos chegado ao nosso destino, a tenda do Poderoso Chefão.
- Olha, foi tudo muito engraçado, mas eu realmente tô de olho no , tudo bem pra você? - De repente a Raven me perguntou antes de adentrarmos a tenda.
- Hey, se é o que você quer mesmo, vai fundo. Não tem absolutamente nada entre nós dois e sem chances de algum dia ter - falei com o máximo de sinceridade que eu tinha, não queria mal entendidos, muito menos um que envolvesse o .
- Então tá, se você diz - ela abriu a entrada da tenda, mas parou na lateral fazendo um gesto com sua mão, indicando para seguir por onde ela mandava e em seguida se curvando - Depois de você, Primeira Dama.
- Idiota – falei, revirando os olhos e assim que passei por ela dei um tapa em sua cabeça.
Assim que entramos notei que não éramos as únicas lá dentro, além do , o Finn também estava lá. Eu diria que ambos ficaram surpresos por ver a Raven me acompanhando, mas o raramente liga pra qualquer coisa que não seja se salvar ou proteger a Octavia, então vou ficar apenas com o fato do Finn estar surpreso. Acredito que eles não têm se falado muito devido ao fator Clarke nessa equação, diria até que ele estava com medo, porque ele ficou visivelmente desconfortável, claramente não sabia como agir e a Raven não ficou muito atrás na reação por vê-lo ali também.
- E então, me chamou porquê? - resolvi quebrar o silêncio e falei diretamente para o .
- Vamos sair em uma busca, Clarke acredita que tem um armazém por aqui perto - respondeu simplesmente.
- Vamos sair em uma busca só porque ela acha que tem alguma coisa por ai? - Raven retrucou em um tom meio irônico.
- Ela sabe que tem - Finn se manifestou meio cuidadoso com suas palavras - só não sabe a localização exata, caímos distante de Mount Weather, nossa referência.
- Ah claro, que seja - ela respondeu contrariada.
- Enfim, eu chamei a pra vir comigo, mas como vocês já estão aqui, vão também - informou, já saindo de sua tenda.
- Eu só vim te trazer a informação, tô voltando pra onde a Clarke tá - ele fez uma pausa e percebeu que foi meio errado o que disse e tentou corrigir - quer dizer, onde o Monty tá, ajudar com as coisas do rádio.
- Você tá com medo? - o falou debochando - Pode ir, com certeza você não irá durar meio minuto nas buscas.
- Eu acho que nós três somos o suficiente - Raven interrompeu, me puxando pelo braço e caminhando em direção à saída do acampamento - Na verdade, eu diria que mesmo que fossemos só eu e você bastaria - ela disse olhando sedutoramente para o .
- Gostei dessa garota - disse, dando risada e andando para a mesma direção que a nossa.
Eu nada disse, apenas observava, era muita informação de uma vez só. Não acreditei com o quão fácil a Raven deixou o interessado nela, tenho que fazer uma anotação mental para me lembrar de pedir à ela uns conselhos a respeito da arte da conquista, para uso futuro, melhor estar preparada. Enquanto caminhávamos, eu observava o Finn lá atrás parado, nos encarando. Eu diria que ele estava ponderando se deveria vir atrás de sua ex-amada ou voltar para seu atual amor. O que eu disse sobre o amor? Isso mesmo, uma merda. No fim das contas ele se mexeu em nossa direção, porém eu não contaria isso como um ponto positivo para a Raven, acredito que ele só estava vindo por ciúmes ou ego ferido, e não porque ele quer ou pretende voltar a ficar com ela, então teria sido melhor se ele não tivesse escolhido nenhuma das duas direções e no lugar ter criado uma terceira opção que fosse em direção a ficar sozinho, pelo menos nesse momento, por respeito à Raven. Agora com esse exemplo entre nós, eu não posso ser a única a notar o quão desvantajoso é amar uma espécie egoísta como a nossa. Se bem que, no fim das contas, provavelmente serei sim a única, tendo em vista que ninguém se importa com essas coisas, não sei nem porque eu me importo, estão todos se divertindo e aproveitando uma vida de liberdade e possibilidades, há alguns dias eles tinham data agendada com a morte e agora que não a tem, que podem morrer a qualquer momento, estão aproveitando a vida o máximo que podem antes que repentinamente ela se vá.
- Você é sempre tão calada assim? - alguém me perguntou, me trazendo de volta para a realidade.
- Só quando observo - respondi sincera ao perceber que era o Finn.
- O que isso quer dizer? - ele parecia genuinamente confuso.
- É exatamente o sentido literal da frase - dei uma risada ao ver que acabei não explicando nada - Fico calada quando estou observando as coisas, analisando, pensando. O que de certa forma faz com que a resposta pra sua pergunta seja sim, tendo em vista que tô sempre observando, analisando e pensando. Mais do que falando. Então sim, geralmente sou calada…
- Mas quando resolve falar, não para mais né - ele comentou, dando risada.
- Desculpa, meu raciocínio funciona mais rápido do que meu filtro, ai acabo falando tudo que me vem à cabeça.
- Relaxa, seu segredo está a salvo comigo - ele disse em tom de brincadeira.
- Por que você veio? - perguntei em um tom mais sério.
- Que outra opção eu tinha? - ele pareceu triste ao responder.
- Não vir e não ir - respondi como se fosse óbvio.
- Não é tão fácil - ele me olhou como se eu não soubesse do que estava falando.
- É sim, mais fácil do que você imagina, basta deixar o egoísmo um pouco de lado – respondi, dando de ombros.
- Eu não sou egoísta! - ele se exaltou um pouco.
- E do que você chama deixar de lado uma mulher que arriscou a própria vida só pra te ver, ter notícias suas, de vida ou morte, enquanto você só queria poder satisfazer uma nova paixão por uma nova garota? - Finn pareceu surpreso com minha “pergunta”, demorou um tempo para analisá-la até que finalmente respondeu.
- Você queria que me forçasse a ficar com ela mesmo não a amando como antes? Eu e a Clarke pelo menos estamos um pouco distantes em respeito à ela.
- Você chama isso de respeito? - perguntei indignada - Sinceramente não acredito que a Raven esteja magoada por você não amá-la mais, mas sim pelo jeito como você a vem tratando desde que descobriu isso, como se ela nunca tivesse significado o que significou pra você. Isso dói. Ela precisa da sua presença pra entender que as coisas mudaram, ela precisa de explicações, de sinceridade, de sensibilidade, ela precisa do amigo que você foi pra ela. Você não precisa amá-la como um homem ama a sua mulher, mas aposto que a ama como uma amiga, ou até mesmo uma irmã, seja o que ela precisa, pense mais nela, que ai você vai poder pensar em você mais rápido do que imagina e sem peso na consciência.
- Da onde você tira essas coisas? - ele se limitou a esse pensamento, de tudo o que eu disse, foi isso que ele quis saber. D-e-c-e-p-ç-ã-o.
- Eu observo e penso – falei, apontando para meus olhos e minha cabeça - Aposto que se arrependeu de vir puxar assunto comigo, mas não vou mentir, eu me diverti te fazendo sofrer um pouco.
Não dei tempo para que ele falasse mais nada, saí andando rápido de modo que ficasse mais adiante dele e atrás do e da Raven. É bom que assim ele pensa nas coisas erradas que anda fazendo e quem sabe muda, pelo menos não vai poder dizer que ninguém deu um toque nele. E então fiquei bem ali, no meio dos três. Não sei nem porque o me chamou para vir, eu não sou útil caso formos atacados, ele não gosta de mim e nem eu dele, ele tem tanto conhecimento da terra como eu, provavelmente foi só para me estressar, tentar me botar medo, ou sei lá, só o sendo o , mas acabou dando errado porque ele adicionou mais duas pessoas nessa tarefa e agora ia ter que levar ela a sério. Foi só pensar um segundo nele que ele parou de caminhar e começou a dar ordens enquanto indicava o local que faríamos as buscas. Ele nos separou em duplas, Raven com Finn e nós dois, ele fez de propósito porque obviamente ele não tem coração.
- Se acharem qualquer coisa não percam tempo em nos procurar, entrem, peguem ou só observem e depois voltem para o acampamento, só nos procurem em caso de necessidade de reforços - instruiu.
- Já tá anoitecendo, tem certeza que quer fazer essa busca hoje? - foi a vez da Raven falar.
- Se não aguenta, volta pro acampamento - ele respondeu curto e grosso.
- Não tá mais aqui quem falou - ela se virou, indo na direção que havia designado à eles.
- Tá esperando o que? Vai com ela! - reclamou para Finn que nada disse, apenas foi andando em direção à Raven.
- Enfim à sós, - Ele disse, dando um sorriso de lado.
- Não por escolha, mas sim, à sós – respondi, andando na direção na qual deveríamos ir.
- Aposto que sabe por que te escolhi pra vir - ele falou de repente.
- Olha, , prefiro fazer o que tenho que fazer aqui e voltar pra minha vida, então se me der licença…
- Não - ele falou, cortando minha fala e me pegando de surpresa ao me empurrar de forma a me deixar presa entre ele e uma rocha que fez minhas costas doerem com o impacto.
- VOCÊ TÁ LOUCO?! - gritei.
- Não adianta gritar, temos assuntos para resolver - ele falava calmo e sério, mas olhando em seus olhos percebia-se o quanto ele estava se divertindo com isso.
- Não tenho NADA pra resolver com você.
- Ahh tem sim - ele disse, deslizando sua mão do meu ombro direito até meu pulso, tocando na minha pulseira de monitoramento.
- Pelo amor de Deus, desencana disso vai, já disse o único jeito de tirar isso de mim - revirei os olhos e respondi.
- É pra isso que estamos aqui, amor - ele continuava em um tom calmo, mas já tinha se afastado de mim.
- Vai me matar? Ok, boa sorte com isso.
- Vamos te matar, eu e você, em uma luta até a morte - ele deu um sorriso de canto de novo.
- Chega, eu vou embora.
Assim que terminei de falar fui andando em direção ao acampamento, por onde tinha acabado de vir. Mas em um movimento tão rápido quanto meu pensamento fui atingida na cabeça e caí de joelhos. Por instinto peguei na minha cabeça e logo em seguida percebi que algo estava errado, eu estava sangrando. Me levantei, me virei e encontrei um com um sorriso vitorioso e uma pedra em mãos, eu não acreditei que ele tinha feito isso comigo, eu salvei ele porra! Eu não sei o que aconteceu, não sei nem como eu consegui lutar, só sei que a raiva e o ódio eram tão grandes que sem pesar duas vezes eu avancei pra cima dele com uma faca empunhada. Dei vários chutes e socos nele, ele acabou me acertou com um chute na costela e eu dei um soco em sua cara, eu queria ver sangue e no momento eu vi, meu murro machucou seu nariz o fazendo sagrar um pouco. Mas só aquilo não era o suficiente, eu queria mais. Em uma tentativa de soco ele pegou meu braço e torceu ele, porém eu consegui abraçá-lo e levá-lo até o chão. Ficamos rodando, ambos sem as facas pois em algum momento elas foram parar no chão um pouco distantes de nós. Eu consegui ficar por cima dele então aproveitei e dei vários socos na cara dele, achei que tinha exagerado um pouco então parei, um grande erro porque ele conseguiu me dominar, ficando por cima, prendendo meus braços com apenas uma mão e usou a outra pra me estrangular. Eu estava ficando sem ar, mas percebi que de tanto rolar pra lá e rolar pra cá, uma das facas tinha ficado mais próxima de nós, soltei uma mão e tentei empurrar o de cima de mim, mas vendo que não teria sucesso, parti para a tentativa de alcançar a faca, eu estava bem perto quando o percebeu o que eu pretendia fazer e ficou na dúvida se me soltava e tentava pegar a faca ou se terminava o serviço logo. Nesse meio tempo eu consegui pegar a faca e quando ia cravá-la em seu peito percebo que alguém se aproximava por detrás dele, já quase desmaiando percebo que era alguém ou algo assustador, e, como que por reflexo, joguei a faca com toda a força que me restava na cabeça da criatura, pelo menos foi o que pareceu, antes de que eu apagasse completamente.
Quando acordei não parecia que eu havia de fato acordado de tão escuro que estava a minha volta, provavelmente fiquei desacordada por um bom tempo, ou simplesmente estava morta, ou cega, duas possibilidades bem plausíveis. Tentei me forçar a levantar, mas meu corpo inteiro doía, e foi então que como um flash tudo voltou à minha memória, passando como se fosse um filme de ação. Rapidamente, em um reflexo me levantei e me aninhei próxima a uma árvore, sentada abraçando minhas pernas.
- Hey, tá tudo bem - ouvi uma voz enquanto alguém se aproximava na escuridão.
- Tudo bem? Eu poderia estar morta! - eu reconheci a voz e o rosto que foi iluminado pela luz das estrelas. - Obrigada pela experiência, adorei.
nada disse, apenas se aproximou de mim e se sentou ao meu lado. Ficamos um bom tempo ali, observando as estrelas e a vasta escuridão da floresta enquanto eu me acalmava e repassava os acontecimentos na minha mente. Ambos em silêncio.
- Por que fez isso de novo? - rompeu com o silêncio.
- Você me atacou primeiro! Eu nem sou de brigar, não sei como…
- Não - ele me interrompeu – Por que me salvou mais uma vez? Por que arriscou sua vida por mim de novo?
Eu não soube o que responder, fiquei uns minutos em silêncio. Como responder uma pergunta para a qual você não tem resposta? É como perguntar se Deus realmente existe. Tem coisas que simplesmente não têm explicação, não existem provas concretas e irrefutáveis, só teorias não comprovadas.
- Eu sinceramente não sei - fiz uma pausa e olhei em seus olhos - Eu acreditava na morte certa, acho que não queria que outra acontecesse e como eu poderia tentar evitar, eu tentei.
- Eu ia te matar - ele falou olhando profundamente em meus olhos, quase poderia dizer que vi remorso neles - Mas quando você jogou a faca, eu te soltei, achando que eu morreria, achei que se eu morresse, você não teria porque morrer. Mas você acertou em cheio a cabeça de um Terrestre o que me fez ficar atento para os outros dois que estavam junto com ele.
- Você matou os dois? - falei impressionada.
- Tive que matar, eram eles ou nós dois.
- Por que não me levou para o acampamento? - eu iria perguntar porque ele não foi para o acampamento, mas me pareceu obvio que se sentiu em dívida comigo e não iria me deixar ali desacordada sozinha.
- Eu não queria ter que dar explicações - ele respondeu dando de ombros - Vamos combinar que chegar com você desacordada nos braços ia chamar muita atenção desnecessária.
- Tudo isso por causa dessa pulseira – falei, levantando meu braço direito.
Antes mesmo que o pudesse me dar uma resposta eu peguei minha faca, que estava acomodada em seu devido lugar, e comecei a forçar para que se rompesse a pulseira. Gritei um pouco porque comecei a me cortar, mas consegui folga-la um pouco, depois coloquei o cabo da mesma e com ajuda do meu pé e de batidas com uma pedra, consegui tirar ela.
- Pronto, obteve o que você queria – falei, estendendo a pulseira em sua direção.
- Por que fez isso?
- Eu cansei desses joguinhos, se essa estúpida pulseira de monitoramento é tão importante pra você, então engole ela – falei, virando meu rosto para o outro lado, oposto aonde o estava.
- Eu não pedi por isso, não quero ficar te devendo nada! - ele se exaltou - Eu ia deixar você ficar com a pulseira como gratidão por me salvar mais uma vez.
- Eu não pedi por nada disso! - me exaltei também - E eu não faço nada esperando algo em troca, muito menos de você.
- Interessante o que pensa de mim - ele respondeu mais calmo.
- É o que você demonstra, - fiz uma pausa e voltei finalmente a olhar para ele - Tudo bem que nunca esperei que você fosse me matar, mas pelo menos agora eu aprendi, nada vai me surpreender.
- Eu não sou essa pessoa horrível que todos veem - ele me olhou profundamente nos olhos novamente - Que você vê.
- Eu preciso de mais do que palavras pra acreditar nisso, - respondi sinceramente e do nada ele riu - Do que você tá rindo?!
- Você me chamando de duas vezes seguidas em um curto espaço de tempo, acho que ficou tempo demais sem oxigênio - ele disse, ainda dando risada.
- Você é um babaca – falei, fazendo em seguida cara de emburrada e cruzando os braços
- E eu sinto muito - ele colocou a mão no meu ombro. Eu nada disse, apenas o deixei continuar. Ele levou sua mão até meu rosto colocando uma mexa de cabelo atrás da minha orelha - Eu não seria capaz de matar você. Não conseguiria viver com essa culpa.
Nada mais foi dito pois nada havia ainda por dizer. Também não voltamos para o acampamento, ali passamos a noite. encostado em uma árvore e eu encostada nele, não faço a mínima ideia de como isso aconteceu, só sei que quando percebi, nada fiz para mudar, estava bom assim, o corpo quente dele me aquecia um pouco e eliminava o frio que minhas roupas não conseguiram eliminar sozinhas. Eu me sentia segura ali próxima do , irônico não? Há algumas horas ele tentara me matar e agora estou dormindo deitada nele e dizendo que me sinto segura. Talvez se deva ao fato de que eu acreditei de verdade no seu pedido de “desculpas”, consegui ver sinceridade em seu olhar e na sua voz, eu senti que ele estava sendo verdadeiro naquele momento, ele estava sendo um que eu nunca vira antes, nem mesmo com a Octavia. Foi divagando sobre o caos do meu dia que peguei no sono e quando me dei conta já era dia.
Quando amanheceu percebi que continuava do mesmo jeito que dormi, com a diferença de que agora também se apoiava em mim e estava me abraçando. Eu quis sair dali, mas antes mesmo que tomasse alguma atitude, um ser humano conhecido se aproximou correndo e começou a falar alto demais. Acordando ao no susto, o fazendo pular e consequentemente a mim também.
- Você tá louca?! - o gritou.
- Eu sou a louca que passou a noite na floresta desprotegida né? - Raven respondeu sarcasticamente - Estavam todos preocupados. Inclusive a .
- Nada aconteceu, só ficou tarde demais pra voltarmos e resolvemos ficar aqui – respondi, dando de ombros.
- Finalmente achamos vocês! - o Finn apareceu, falando com uma expressão de alivio e cansaço - A Clark, a Octávia e a estavam preocupadas.
- Tudo mundo eim? - falou irônico para Raven.
- Pra mim já é gente demais - Raven respondeu, dando de ombros.
- Obrigado pelo “comitê de bom dia”, mas estão dispensados - o falou, se levantando e se ajeitando.
- Tanto faz, fiz minha parte - o Finn disse, se virando para ir embora – Vamos, Raven?
- Pode ir, eu e o temos assuntos a tratar na tenda dele - ela disse, revirando os olhos para o Finn e lançando um olhar sedutor para o .
O Finn não se moveu esperando uma resposta do , enquanto o mesmo se virou pra mim e estendeu sua mão como ajuda para que eu a pegasse e me levantasse, e assim o fiz, esses pequenos gestos de bondade a gente tem que aproveitar. Me sacudi e me arrumei, enquanto o se virou em direção à Raven, caminhou até ela parando em sua frente.
- A gente pode resolver esse assunto quando você resolver os seus - ele falou, indicando o Finn com a cabeça - Não sou brinquedo nem segunda opção de ninguém, muito pelo contrário.
- Você só pode estar de sacanagem - Raven falou chocada, mas sem deixar transparecer em seu rosto.
- Vamos, - foi tudo o que ele disse antes de sair em direção ao acampamento. Eu fui e pouco depois os outros dois também o fizeram.
- O que foi isso? - perguntei confusa. Ele me pareceu bastante interessado nela ontem.
- Nada que vem fácil vale a pena - foi tudo o que ele disse, mas foi o suficiente para que eu percebesse que talvez tivesse julgado ele mal, ou não, talvez seja ele sendo ele mesmo e brincando com as pessoas. Pobre Raven, está na mira.


Capítulo 9 - Madinson

Mal consegui dormir essa noite só de imaginar a sozinha com o a noite na floresta com um monte de Terrestres a solta por ai. O que mais me preocupa não são nem os sobreviventes da guerra nuclear que habitam a terra, carinhosamente apelidado por nós como Terrestres, e sim o fato do estar sozinho com ela, não consigo imaginar as atrocidades que ele pode fazer com ela, ainda mais ela tendo algo que ele tanto quer. Eles “sumiram” desde ontem antes de anoitecer e os últimos a verem eles foram a Raven e o Finn, desde então ninguém mais. Clarke decidiu conter a informação de que o Todo Poderoso desapareceu pra evitar algum tipo de desordem e rebelião, por isso só uma quantidade limitada de pessoas estava trabalhando em acha-los, mais especificamente Clarke, Finn, Raven, , Jasper, Octavia e eu. Já amanheceu à algumas horas e eu continuo sem noticias, estou à beira de um ataque de pânico, se eu não a encontrar logo terei um colapso nervoso. Decidi me dirigir para fora do acampamento e fazer minha própria busca, não ficaria ali esperando ela surgir na minha frente como mágica, e foi no meu caminho até a saída que eu o vi, entrando no acampamento, fiquei estática esperando ver minha melhor amiga entrar junto com ele e para minha surpresa ela entrou no acampamento literalmente junto com ele, os dois estavam lado a lado, e não se podia ver a tensão usual entre eles, eles pareciam amigos, A-M-I-G-O-S, eu não consegui assimilar a informação e muito menos entender como eles eliminaram aquela tensão. Depois de uns segundos processando o que meus olhos viam, voltei a mim e corri em direção à .
- MEU DEUS, GRAÇAS A DEUS VOCÊ TÁ BEM. MEU DEUS, OBRIGADA, DEUS. - falei enquanto abraçava minha amiga
- Calma, , eu tô bem, só fiquei uma noite fora. - ela falou se afastando um pouco de mim para me olhar e tentar me acalmar.
- Eu sei. - respirei fundo e olhei ao meu redor só para perceber que algumas pessoas nos observavam. - Eu só fiquei preocupada…
- Desculpa, não foi planejado. - ela me respondeu segurando um de seus pulsos com a mão e deixando escapar uma olhada rápida em direção ao , que já estava um pouco distante de nós. Um claro sinal de desconforto.
Ok, só eu estou percebendo que aconteceu alguma coisa entre esses dois? Esse comportamento entre eles é extremamente incomum. Quando ia dirigir a palavra novamente à dita cuja em questão, percebi um detalhe, o pulso que a segurou era onde sua pulseira estava, estava, de não estar mais. Então tudo se fez claro na minha mente e não consegui me controlar. Caminhei em direção ao , que já estava próximo de sua tenda, o empurrei contra a arvore mais próxima que encontrei e dei um soco na sua cara.
- VOCE ENLOUQUECEU, CARALHO?? - um atordoado por ter sido pego de surpresa esbravejou para cima de mim, enquanto me empurrava para longe dele.
- SE TEM ALGUÉM AQUI QUE PERDEU O JUIZO FOI VOCÊ. - respondi exaltada caminhando em sua direção enquanto empurrava para trás. Ele segurou ambas as mãos e as abaixou.
- Você abaixa esse tom pra falar comigo, tá ouvindo, ? - ele falou em um tom mais calmo porém bastante ameaçador. Eu me soltei de suas mãos e apontei meu dedo bem próximo à sua cara.
- Você nunca mais encosta em um fio de cabelo sequer da , tá me ouvindo? - falei no mesmo tom em que ele estava falando comigo. Fiz uma pausa e depois continuei falando pausadamente para que seu cérebro minúsculo entendesse. - Nunca…. Mais.
- Eu não tenho medo de você, . - ele me respondeu enquanto tirava o meu dedo da frente do seu rosto.
- Eu tô pouco me fodendo pros seus medos, a única coisa que me importa é ver você longe da minha melhor amiga. - falei ainda encarando seus olhos furiosa.
- E eu tô pouco me fodendo para as suas vontades. - ele respondeu me encarando de volta, mas soltou uma risada debochada antes de prosseguir - Se eu quiser, você nunca mais vê sua amiguinha. Não vão ser suas estúpidas ameaças que vão me impedir.
Eu não consegui me conter ao ouvir aquilo, fui para cima do novamente. Dessa vez pulei em cima dele, abraçando-o pela cintura com minhas pernas enquanto socava sua cabeça com minhas mãos. Tudo aconteceu tão rápido, e no calor do momento, eu estava agindo no piloto automático, então quando dei por mim estava deitada de cara para o chão e o estava encima de mim segurando meus braços nas minhas costas com uma mão enquanto que com a outra ele empurrava meu rosto, que estava de perfil, contra o chão.
- Você nunca mais ouse fazer isso novamente, sua vadia descontrolada. - ele falou furioso bem perto do meu ouvido. Eu tentei responder alguma coisa, mas ele estava empurrando meu pescoço com tanta forca que não conseguia mexer minha boca.
- Da próxima vez, não prometo uma reação tão indolor quanto essa da minha parte. - ele deu continuidade à sua fala ao perceber que eu não conseguiria falar nada.
- MAS QUE PORRA É ESSA?! - ouvi a falar indignada. Ela olhava em pânico para o .
- A louca da sua melhor amiga resolveu me atacar gratuitamente. - ele respondeu para ela ainda com raiva na sua voz e ainda olhando nos meus olhos. Interpretei como um olhar de “último aviso”.
- Solta ela, . - ela falou firme, diria até que vi raiva iluminar seu rosto. Ele finalmente parou de me olhar e olhou pela primeira vez desde que ela chegou para minha amiga. deixou um suspiro escapar, a expressão no seu rosto se suavizou, assim como a de , e então ela completou seu pedido. - Por favor.
não disse mais nada, apenas saiu de cima de mim e se posicionou ao lado da , que se encontrava próxima a mim. Ela me ajudou a levantar e enquanto eu observava toda essa cena, sacudia minha roupa com minhas mãos para tirar toda a sugerira dela.
- Pelo amor de Deus, , vamos trabalhar seu auto-controle? Em um momento você tá falando comigo e do nada sai correndo e some? - ela fez uma pausa, fechou os olhos e massageou as têmporas antes de continuar - Eu sei que ficou preocupada, mas essa reação é em muitos níveis I-N-A-C-E-I-T-Á-V-E-L.
- Inaceitável? - perguntei incrédula. - Ele some com você durante a noite, arranca sua pulseira de monitoramento a força, e a minha reação que é inaceitável?
- O que? Eu não fiz isso. - tentou se defender, mas tanto eu como a não permitimos.
- Da onde você tirou essa ideia? Não aconteceu nada disso. - a parecia realmente confusa em relação ao que eu falei. Antes de continuar o que estava falando ela fez uma pausa, olhou para o , que estava olhando para ela antes, e então ela se virou novamente para mim, sem confusão no seu rosto dessa vez. - Eu mesma tirei aquela maldita pulseira, mas pra que? Aparentemente continua causando problemas.
- Como eu disse, gratuitamente, tudo isso. - falou me olhando com certa satisfação no olhar
- Quer saber? FODA-SE. - falei me exaltando um pouco - Agora eu sou a vilã? Você vai ficar do lado desse otário que fica infernizando sua vida desde o dia em que você chegou ao invés do meu?
Eu estava alterada de verdade, a não poderia estar sendo séria em relação a tudo isso, ela não poderia estar ficando contra mim de verdade, ela não poderia estar escolhendo ELE, logo ele, dentre todas as pessoas, logo ele? fez menção de reagir fisicamente de alguma forma contra mim, saindo do lado da minha amiga e vindo na minha direção, mas a o puxou pelo pulso na tentativa de impedi-lo, os dois se olharam, então ele suspirou e interrompeu sua ação.
- SÉRIO, QUE PORRA É ESSA? - eu falei indignada, o que era aquilo acontecendo na minha frente? desde quando ouvia ou obedecia alguém? Sem resistir nem uma vez, ainda por cima. - VOCÊS POR ACASO TRANSARAM E ESQUECERAM QUE SE ODEIAM? PORQUE SINCERAMENTE, NAO VEJO NENHUMA EXPLICAÇÃO MAIS RAZOÁVEL PRA ESSA MERDA QUE TA ACONTECENDO.
- Eu não estou escolhendo lados. - ela me respondeu calma, ignorando tudo que eu tinha acabado de despejar sobre ela. - É só que as coisas não são como parecem. Elas não são preto no branco. Você tá se precipitando
- Então como essa porra toda é?! - falei em um tom mais calmo, porém nem um pouco menos inconformada e com raiva de toda essa situação. - Quer saber? Foda-se
- Calma, . - falou pela primeira vez de forma séria e aparentemente verdadeira, sem segundas intenções. - A vai te explicar. Só espera pela explicação antes de vir me atacar, da próxima vez. Vou deixar vocês sozinhas. - ele falou já começando a se afastar.
- Não. Você fica. Essa conversa já acabou. - eu falei olhando no fundo dos olhos da minha amiga.
- , eu vou te falar tudo, calma. - a tentou tocar meu ombro porém me afastei
- Eu não quero saber, . - falei sinceramente.
- Tem certeza? Não vou voltar nesse assunto depois, a hora é agora. - ela me perguntou com toda a calma do mundo, pude sentir que ela queria me contar, mas eu não me importava mais com tudo isso. Se ela queria se manter do lado do , tudo bem, mas de agora em diante não poderia contar comigo pra desabafar sobre como ele faz da vida dela um inferno. Que desabafe com ele, já que são melhores amigos agora.
- Tenho certeza. Fodam-se vocês dois. - dito isso, eu saí de perto daqueles dois, não sou nem obrigada a ficar vendo eles fingindo que nada nunca aconteceu.
Depois da minha briga com a fiquei tão chateada que não conseguia ficar nem no mesmo local que ela então decidi dar uma volta por aí, fora do acampamento. Fui andando meio sem rumo pensando em tudo que aconteceu naquela manhã. Como era possível que a única pessoa com quem ela se importava e se preocupava no mundo tivesse virado as costas para ela. Talvez eu esteja apenas sendo dramática, sou a rainha do drama, não posso evitar, mas talvez não, talvez a tenha mudado em uma noite e encontrado alguém que significa mais para ela do que a própria melhor amiga. Essa teoria é improvável ate para o meu drama, mas não é impossível. Ele passaram uma noite juntos, podem ter se relacionado de uma forma mais intensa, como transando mesmo. Eu consigo imaginar isso acontecendo, difícil seria não imaginar que minha adorável passou uma noite na floresta com o e não rolou nada sexual entre eles, fala sério é o , ele e respira e você já se sente atraída por ele, eu sei que se fosse eu a passar uma noite na floresta com ele, com certeza teria rolado de tudo um pouco. Quem diria que eu estaria cogitando essa ideia, acabei de socar o cara na cara mais de uma vez, eu ameacei ele, e agora estou aqui pensando nas coisas que eu faria se passasse uma noite com ele.
Já tinha escurecido, estava me sentindo um pouco perdida, tudo parece igual no escuro. Sentia como se tivesse andado vinte quilômetros em linha reta, sem parar. sem uma opção melhor, resolvi voltar pela mesma linha reta que tinha vindo pra cá, mas acontece que no fim das contas eu não sei o que é uma linha reta. Eu estava perdida. Decidi procurar um local mais escondido em que eu pudesse me deitar e passar a noite, pela manhã ficaria mais fácil e menos perigoso procurar o caminho de volta. Achei um amontoado de pedras enquanto procurava, e decidi que aquilo teria que servir, deitaria na parte de trás do amontoado já que ficava parcialmente coberto por folhas, aquilo me camuflaria um pouco. Assim que me deitei, pensei ter ouvido algum barulho mas ignorei pensando ter sido eu mesma quem produziu o ruído, mas então ouvi novamente, e depois de uns segundo o barulho se repetiu, pareciam passos, alguém estava se aproximando. Eu me levantei, empunhei minha faca e tentei enxergar alguma coisa no escuro por detrás daquelas pedras, pensei ter identificado uma sombra mas não quis me precipitar, aguardei mais uns instantes e estão pude ver mais claramente, era alguma pessoa, um homem provavelmente. Eu não ia ficar esperando ele me achar e me atacar, então assim que o vulto se virou de costas para mim eu parti para o ataque, passei um dos meus braços pelo seu pescoço e com uma rasteira eu consegui derrubar a pessoa de joelhos no chão. A pessoa estava de costas para mim, o que achei ótimo já que preferiria não olhar ninguém nos olhos enquanto o mato. Peguei minha faca e coloquei próximo ao pescoço da pessoa, respirei fundo e quando ia fazer o movimento fatal, a pessoa começou a chorar, muito, parecia um recém nascido de tanto choro. Agora minha vontade de matar aumentou, puta otário, está a beira da morte e fica chorando? Sério? Reage infeliz! A essa altura já pude perceber que era um homem, mas foi quando ele começou a balbuciar umas palavras aleatórias que eu realmente reconheci quem era.
- O que você tá fazendo aqui? Por acaso anda me seguindo? - perguntei surpresa e com um pouco de receio da resposta ser “sim”.
- Eu só me perdi. - ele respondeu.
- Me dê um motivo pra eu não te matar nesse exato momento. - falei reaproximando minha faca ao pescoço dele.



Capítulo 10 - Are You Listening?

Três dias. Já se passaram três malditos dias desde que a me fez o favor de surtar, desde então eu não a vi mais, sempre que tentei me encontrar com ela fui até sua tenda, mas ela não estava lá. Não posso mentir e dizer que odiei toda essa situação, foi bom ter umas férias das loucuras da , mas estou começando a ficar realmente preocupada. Não é como se a gente se visse, mas se ignorasse, aquelas cenas típica daqueles filmes antigos de adolescentes, no caso nós nem nos vemos, eu não sei onde ela está ou o que anda fazendo ou até mesmo com quem ela está, zero, nenhum contato ou notícia. Foi ela que escolheu assim, eu tentei explicar, mas ela já não queria ouvir, então eu poderia pelo menos aproveitar essas férias forçadas da nossa amizade e me livrar um pouco do drama, mas é mais forte do que eu e a essa altura eu já não consigo mais ignorar.
Durante esses três dias nós evoluímos na comunicação com a Arca, o Monty agora está trabalhando apenas com a Raven, ninguém mais interfere, até porque ninguém mais entende sobre o assunto e, mesmo se entendesse, há outras questões que precisam ser resolvidas para nossa sobrevivência, tais como encontrar os suprimentos de Mount Weather, tendo em vista que era para nossa aterrissagem ser lá, nossa comida está acabando e é por isso que e Clarke organizaram equipes de caça, equipes de acampamento, e claro, as equipes de busca. De certa forma, o e a Clarke fazem um bom time, não é a toa que ninguém discorda das ideias e se “rebela”, bom, quase ninguém, mas eles estão conseguindo fazer as coisas funcionarem. Consequentemente, a Clarke está sempre pra lá e pra cá tendo que resolver alguma questão inesperada, Monty e Raven cuidando do rádio, Jasper ajuda na organização do acampamento junto com a Octavia, pelo menos era o que ela deveria fazer, mas acho que ela considera mais vantajoso irritar o irmão mais velho e super protetor, ele odeia quando ela desobedece suas ordens e saí floresta a dentro sozinha, uma coisa que ela faz bastante por sinal, chega a ser curioso.
Depois que eu e o demos uma “trégua” ele tem pegado passado comigo, só me dá trabalho para fazer, todo dia saio pela manhã com uma equipe de caça e antes mesmo de botar o pé no acampamento de novo ele me manda com a equipe de buscas, pelo menos duas vezes ao dia, isso quando ele não me manda ajudar o Jasper no estoque de comida ou na organização das tralhas encontradas nas buscas.
Olhando assim não parece que estamos em uma trégua, parece só que não nos agredimos mais, ele só me dá trabalho atrás de trabalho, não acredito que seja de má fé, eu e ele estamos em um tipo de situação nova onde não nos odiamos mais, porém também não gostamos um do outro, mas surgiu um sentimento novo, não sei se seria certo defini-lo como respeito, porém é o que parece, um respeito mútuo, arriscaria até dizer que também está se construindo uma relação de confiança, mas isso seria arriscar demais, juro que não enlouqueci, eu sinto isso de verdade, porque antes de tudo acontecer o sentimento que reinava era o ódio, mas depois do inevitável confronto eu passei a olhar o com outros olhos, ainda o acho egoista e inconsequente, mas consegui ver humanidade nele, pela primeira vez, foi assim que, de certa forma, surgiu o respeito e quanto a confiança, acho que a experiência de quase morte ajudou nisso, eu o salvei não só uma como duas vezes, acho que ele tem uma certa confiança em mim por conta disso, comecei a reparar quando percebi que ele me mandava como líder das equipes no lugar dele, é um gesto que, para muitos, é insignificante, mas não para o , ele não confia nem na própria sombra.
— Hey, , o tá te procurando — Jasper falou, entrando calmamente na tenda de estoque e acenando com a cabeça para os pequenos sacos de nozes em minhas mãos — Acabou ai?
— Quase acabando, vou terminar aqui e já vou ver o que o quer dessa vez — respondi com um pequeno sorriso, mas logo em seguida revirando os olhos ao mencionar o .
— Vai lá, pode deixar que eu termino — ele falou tomando as nozes das minhas mãos — Melhor não deixar o chefe esperando
— Fico te devendo uma, então — respondi e saí correndo da tenda, não por pressa de atender ao chamado do “chefe”, mas com medo do Jasper mudar de ideia e eu ter que terminar aquele trabalho.
Avistei a Clarke próxima à entrada do que restou da nossa nave e resolvi ir até ela, porque brincar de encontrar o definitivamente não era pra mim, ele anda se ocupando demais, está sempre fora com as equipes ou está ou discutindo com a Octavia, ou transando com a primeira coisa que se moveu na frente dele no dia, e, vamos combinar que achar ele nessa ultima situação não seria nem um pouco agradável, então prefiro evitar e perguntar por aí.
— Clarke! Tudo bem? — perguntei me aproximando dela
! Que bom te ver, tenho ótimas noticias — ela me respondeu parecendo realmente empolgada.
— Tem a ver com o rádio?
— Eu bem que queria te dizer que sim, mas é algo tão importante quanto — ela fez uma pausa dramática até finalmente falar — Achei um fruto comestível em uma quantidade suficiente pra nos manter vivos por mais uns três dias.
— Que maravilha! Não vou negar que tava começando a cogitar em comer a perna do ou talvez o seu braço — eu respondi empolgada e Clarke deu risada do que havia acabado de falar.
— Não estou surpresa com a questão da perna, mas meu braço? Sério? — ela disse entre risos
Nesse instante o Monty sai de dentro da nave desesperado, Clarke repara no estado dele e vai até ele. Eu, um tanto quanto preocupada, a sigo até o Monty.
— Monty, o que houve? — ela perguntou tentando tranquiliza-lo com uma mão em seu ombro.
— Conseguimos — ele respondeu olhando fixamente para mim — O rádio, fizemos contato.
Sem falar mais nada os três entramos na nave e fomos até onde a Raven estava. Ouvia-se muito ruído de estática, parecia estar na mesma, mas de repente conseguia se ouvir algo semelhante com um “olá” humano. Teriam que melhorar a qualidade da conexão, mas já era um grande avanço. Enquanto Monty retornava ao trabalho, Clarke pegou o microfone e começou a falar.
— Alô? Alguém na escuta? — ela perguntava e esperava por alguma resposta antes de continuar — Alô?
— Espera um minuto — Monty falou e começou a mexer em uns fios
— Será que eles conseguem ouvir alguma coisa? — perguntei mais para mim mesma, mas acabou saindo em voz alta.
— Acredito que sim, talvez eles nos ouçam, mas nós não os conseguimos ouvir — Raven me respondeu, porém antes que pudesse acrescentar alguma coisa o Monty a cortou.
— Clarke, tenta de novo — ele falou, super concentrado.
— Alô? Alguém na escuta?
Assim que ela refez sua pergunta, um silêncio absoluto se instaurou, não só na sala, como no rádio. O barulho de estática havia sumido. Não sabíamos se interpretávamos como um bom ou um mau sinal.
— Talvez tenha sido um alarme falso — o Monty se pronunciou um pouco triste.
— Talvez — concordei com ele.
— Ou talvez sejam só nossas mentes perturbadas e obcecadas em obter um retorno que nos fizeram acreditar que tínhamos ouvido algo humano quando era só algum tipo de interferência, ou sei lá. — Raven comentou totalmente desmotivada, mas não posso deixar de dar razão a ela.
— Seja o que for, vamos continuar tentando — Clarke falou mais para ela do que para nós.
— Eu tenho que ficar te procurando em toda parte, ? — o entrou na nave reclamando irritado — Quando eu te chamo, faça-me o favor de pelo menos vir até mim!
— Desculpa, eu fiquei entretida no meio do caminho — respondi em um tom um tanto quanto decepcionado.
— O que houve? — perguntou agora mais calmo e QUASE pude ver preocupação em seus olhos.
— Monty achou que tinham arrumado o rádio — Clarke explicou.
— Alarme falso — falei com um sorriso de canto, enquanto erguia e depois deixava cair meus braços em frustração.
— Ah — foi tudo que ele falou, diria até que a preocupação havia se dissipado e, no lugar, só restava alivio.
— Mas, enfim, pode falar o que você quer comigo? — perguntei já me aproximando da saída, onde o se encontrava.
— Preciso que vá com uma equipe de busca por mim — ele falou, um pouco desajeitado.
— O que foi? Brigando de novo com a Octavia? — perguntei, revirando os olhos.
— Não é da sua conta, — ele respondeu, ainda desajeitado.
— AI MEU DEUS, — falei indignada depois que percebi do que se tratava — Mantém esse pau nas suas calças pelo menos por cinco minutos!
— O QUE VOCÊ DISSE, GAROTA? — ele se exaltou
— Olá? — uma voz soou no interior da nave e todos ficaram em silêncio — Há algum sobrevivente?
Ao perceber do que se tratava, a Clarke pegou de volta o microfone e começou a falar, ela chamava, se identificava, pedia ajuda, mas o silêncio voltou a tomar o lugar. Era realmente muito frustrante ver como o universo brincava com nossas esperanças.
— Clarke, é você? — a voz falou novamente — Quantos estão com você?
— Todos! — ela respondeu empolgada — Quer dizer, três pessoas não resistiram a aterrissagem.
— Eu sinto muito — depois de um silêncio a voz retornou a falar.
— Precisamos de ajuda, estamos ficando sem suprimentos — Clarke resolveu ir direto ao ponto, Graças a Deus.
— Eu te espero lá fora, falou, virando-se para sair.
— Espera, isso pode ser importante — respondi segurando-o pelo seu braço.
— Vocês estão em Mount Weather? — a voz perguntou.
— Infelizmente não, e não fazemos ideia de onde estamos — disse Clarke.
— Acho que conseguimos dar as coordenadas pra vocês, um minuto, filha — a voz falou deixando um silêncio no local.
— Mãe?? — Clarke perguntou.
— Nós conseguimos... — Monty falou olhando fixamente para o rádio a sua frente.
— Precisamos organizar uma equipe de busca para ir lá — Raven falou, ignorando o colapso do Monty e da Clarke.
— Eu vou — me voluntariei — Posso recrutar mais pessoas para irem comigo.
— Não — finalmente o se pronunciou — Pode ser perigoso, vamos só nós dois.
— E eu também — disse a Clarke finalmente voltando a si.
— Eu não aguento mais ficar aqui, preciso ir — a Raven também se voluntariou.
— Sem chances, só vai uma pessoa comigo — falou impaciente.
— Justo, então eu vou — a Raven respondeu já se levantando — A Clarke precisa ficar aqui e a não está preparada pra sair por aí à noite.
— Mas ainda não anoiteceu — respondi um pouco decepcionada, queria ajudar de alguma forma.
— Mas vai, e em breve — Raven continuou — Decidido então.
— Não, você fica. Vou levar a — o respondeu calmo — Ela está mais preparada do que você, enquanto você estava aqui, ela estava lá fora nas equipes de busca e nas de caça. Ela dá conta.
— Clarke, anote as coordenadas — a voz falou novamente.
Enquanto a voz falava, eu e o tentávamos memorizar, mas, verdade seja dita, eu não era nem um pouco boa com números, esse era o trabalho da . Ao me lembrar dela a culpa me atingiu, até agora sem noticias, estava preocupada, talvez eu devesse ficar mesmo, a Raven era melhor do que eu e, com certeza, se entende melhor com o do que eu, e se eu ficasse poderia fazer a minha própria busca, chega de ficar de braços cruzados quando minha melhor amiga esta desaparecida, não importa os motivos e as brigas, ela poderia estar em perigo.
, vamos — falou me guiando para fora da nave segurando no meu ombro.
— Mas, — antes de terminar minha frase pude ver de relance o olhar de raiva que a Raven lançava para mim, como se estivesse roubando algo que era dela — Eu não…
, NÓS temos que ir — ele me interrompeu e falou apontando para mim e para ele.
— Eu sei que isso é importante, mas eu preciso encontrar a – tentei explicar minha situação – Ela sumiu tem três dias. Talvez seja melhor mesmo a Raven ir com você.
— Na volta eu te ajudo a encontrar ela, ok? – ele me respondeu quase em um sussurro, mas depois elevou a voz e falou enfatizando novamente – Agora NÓS temos que ir.
Não hesitei mais, seria uma batalha perdida, então só aceitei e fui com ele. Antes de sairmos passamos na tenda dos mantimentos e pegamos umas porções do fruto que a Clarke havia achado, em seguida, saímos do acampamento em busca desse local que a Arca tinha achado.
Passamos horas andando, já havia escurecido e as porções do fruto que pegamos antes de sair já haviam acabado. Eu estava ligeiramente receosa, da última vez que saí sozinha com o eu quase morri, tudo bem que as chances daquilo acontecer novamente eram quase nulas, mas o medo era real. Eu não acreditava que acharíamos o tal armazém, o estamos buscando desde que chegamos aqui e todas as buscas até agora foram sem sucesso. Eu nem sabia para onde estávamos indo, não tinha conseguido memorizar nada das coordenadas, estava apenas seguindo o floresta adentro na escuridão da noite. Tem tudo pra dar errado, ou é só coisa da minha cabeça?
, acho que estamos nos aproximando — depois de longas horas sem nada ter sido falado, o resolveu falar.
— Eu não faço a mínima ideia de onde estamos — falei com sinceridade.
— Talvez devesse ter trazido a Raven, no fim das contas — ele disse com um tom de desprezo na voz.
— Com certeza você conseguiria aliviar esse seu mal humor dentro dela em qualquer lugar “deitavel” que achassem — respondi ríspida – Além do mais, eu nem queria vir.
— Pelo menos eu transo, , não fico sendo mal amada pelos cantos do acampamento — ele falou debochado.
— Não preciso de ninguém pra me satisfazer, sou um ser evoluído — falei em um tom de convencimento misturado com raiva. Quem ele acha que era pra falar daquele jeito comigo?!
— VOCÊ SE MASTURBA?! — ele falou surpreso e em seguida parou de caminhar e começou a rir
— Não é da sua conta, querido — respondi me posicionando na sua frente e o empurrando para trás.
— Você enlouqueceu? — ele respondeu entre risos, devolvendo o empurrão.
Quando recebi o empurrão, eu me desequilibrei e caí, não havia percebido que estávamos na beira de um barranco então quando dei pro mim estava literalmente rolando barranco abaixo, só parei quando bati minha cabeça no que parecia ser uma rocha grande, até tentei proteger colocando minha mão à frente, porém foi em vão e além de machucar minha cabeça acabei por torcer meu pulso também.
, você tá bem? — ouvi o falar e quando dei por mim ele já estava agachado a minha frente.
— Sim, só bati minha cabeça — coloquei a mão no local que estava doendo afim de ver se estava sangrando, por sorte não estava.
— Me desculpa, de verdade, não era minha intenção te machucar — ele falava segurando ambos os lados da minha cabeça com suas mãos, enquanto a examinava, pude sentir a preocupação exalando dele.
— Tudo bem, vou colocar na sua lista de divídas comigo — falei tentando quebrar aquele clima sério.
— Mas a culpa é sua, você tinha que ser tão desastrada assim? — ele falou com um tom um pouco mais raivoso. Ele realmente estava tentando jogar a culpa pra cima de mim? Really?
— Ah ta, a culpa agora é minha.
— Tudo bem, pelo menos você não se matou dessa vez — ele disse olhando nos meus olhos e sorrindo de leve. Mas de repente arregalou os olhos e se levantou — O que é aquilo?
— Aquilo o que? — me virei e vi o que parecia ser um alçapão.
— Chegamos — ele disse indo em direção à porta — Pelo menos seus desastres fizeram algum bem. Vem, me ajuda a abrir.
Fui até ele e o ajudei, a tranca da porta estava enferrujada o que dificultava muito o processo de abri-la, então o sacou a sua arma e deu um tiro, sinceramente achei que resolveria, mas não adiantou de muita coisa, peguei uma pá que trazia comigo e comecei a bater na região que ele havia atirado, por um momento pareceu que iria se abrir, mas não aconteceu, então ele atirou de novo e ela finalmente se abriu. Quando descemos sentimos um cheiro forte de sílica, fazia tempo que não sentia um cheiro assim, se tornou um pouco nostálgico porque era um cheiro comum no laboratório de ciências da Arca, lugar que eu passava muito tempo.
À medida que fomos adentrando o local, foi ficando difícil de enxergar, então liguei a minha lanterna e ficamos surpresos ao ver a quantidade de armamento de fogo que encontramos. Era muita coisa para levarmos sozinhos.
— Vamos ter que voltar aqui com ajuda, mas podemos pegar o que conseguirmos e voltar amanhã — falou um tanto quando aliviado com o que encontramos.
— Tudo bem, vou olhar mais pra dentro se tem alguma coisa além de armas — eu disse me afastando do — Vai subindo com algumas armas.
acenou e começou a pegar as armas. Eu fui adentrando o local, mesmo com a ajuda da lanterna era difícil de enxergar as coisas ali. Olhei para trás e já não o via, estava escuro demais ou ela já tinha subido.
— ouvi alguém me chamar
?
— Ajuda — logo percebi que não era a voz do .
? É você? — tinha certeza de que era sua voz, mas precisava de confirmação — , por favor, me responde!
De repente se fez silêncio de novo, continuei andando e ao fundo do corredor parecia haver uma luz acessa. À medida que fui me aproximando pude perceber que alguém estava deitado no chão. Deduzi que poderia ser o dono da voz que me chamava então acelerei meus passos e quando cheguei perto o suficiente pude ver que era a . Ela não estava deitada, ela estava desmaiada e ferida. Fiquei extremamente preocupada e não consegui me conter, comecei a chorar.
! — Gritei ao me ajoelhar ao lado do seu corpo.
— Sk…ye…e, eu — ela tentava falar comigo.
— O que aconteceu com você? Como você veio parar aqui? — eu não sabia o que fazer, meus olhos estavam embaçados e não consegui enxergar as coisas direito.
— Foi você. Sempre é você — ouvi uma voz atrás de mim falar.
? — pensei erroneamente que era o , quando me virei eu vi o que parecia ser minha mãe — Ma…mãe?
— Você é a ruína de todo mundo que se aproxima de você, criança — ela falou com um tom ríspido.
— Mas eu não…você não — me levantei confusa ficando de frente para ela — Eu não tenho culpa.
— Pobre menina, nunca tem culpa — ela se aproximou de mim ainda falando no mesmo tom de antes — Todos se machucam ao seu redor, mas a culpa nunca é sua.
— Eu nunca machucaria ninguém — respondi tentando controlar minhas lágrimas e recuando à medida que ela caminhava até a mim.
— Eu deveria ter feito — ela disse olhando nos meus olhos no que parecia ser raiva. Ela continuava se aproximando e eu recuando até que minhas costas sentiram a parede — Eu deveria ter te matado quando tive a chance.
— Me matado? Mas, mãe, eu te amo! — falei não conseguindo mais me controlar e cedendo ao choro. Minha mãe deu uma risada debochada e alta e então colocou as mãos em volta do meu pescoço.
— Eu nunca te amei, garota, você fez isso comigo, única e exclusivamente você! — ela apertava muito forte meu pescoço, meus pés não tocavam mais o chão, eu estava perdendo o ar.
Eu sabia que ia morrer, mas a única coisa que eu conseguia pensar era no que ela dissera. Eu via muita mágoa em seu olhar e então um vazio, um vazio que começou a me consumir, sim, era culpa minha, tudo isso. Todos se machucam de alguma forma ao meu redor. Fechei os olhos já para aceitar meu fim, eu merecia, mas então eu ouvi o som de um tiro e instintivamente abri meus olhos.
! — foi a primeira coisa que consegui pensar e quando falei seu nome foi como o quebrar de um feitiço.
Quando dei por mim eu estava sozinha, minha lanterna estava largada no chão e eu estava encostada na parede com uma corda grossa enrolada no meu pescoço e uma ponta da corda em cada uma das minhas mãos. Eu estava me enforcando, eu mesma, não tinha ninguém ali comigo. Como isso poderia acontecer? Eu as vi! Elas estavam bem à minha frente! Eu não podia estar enlouquecendo. Mas isso era assunto para depois, deixei esses pensamentos confusos de lado e tirei a corda jogando-a em qualquer lugar, peguei minha lanterna no chão e sai correndo em direção à porta do alçapão, antes de sair ainda peguei o máximo de coisas que consegui e fui em busca do .
Eu ouvi uma voz exaltada vindo da parte de cima do barranco, corri até lá e a primeira coisa que vejo é o de joelhos, falando exaltado, com lágrimas nos olhos e apontando uma arma para sua cabeça.
— Eu não mereço estar aqui! Eu sou uma pessoa ruim! — ele falava visivelmente alterado, ele moveu o dedo pro gatilho e eu tive que correr.
, NÃO! — gritei e me joguei em cima dele o abraçando contra o chão.
? O que… — ele falou surpreso largando a arma.
, por favor — eu ainda não tinha aberto meus olhos e ainda o abraçava forte.
, tá tudo bem — ele falou se sentando e segurando nos meus ombros — O que aconteceu?
— Eu não sei — falei olhando para ele, que parecia confuso, enquanto ele me segurava pelos ombros — Ouvi barulho de tiro, subi o mais rápido que consegui e quando cheguei aqui você tava no chão apontando uma arma pra sua própria cabeça.
— Por que não deixou? — ele perguntou com um olhar frio e se recostou a uma árvore que estava atrás de nós.
— Por que eu deixaria? — eu perguntei sem entender.
— Porque eu mereço morrer, — ele me olhou nos olhos com um vazio imenso em seu olhar — Eu não mereço sequer respirar.
— eu peguei em sua mão e continuei falando olhando nos seus olhos com a maior sinceridade possível — Você é egoísta, inconsequente, mal educado, prepotente e um monte de outras coisas, mas você é uma pessoa boa.
, eu quase matei você, mais de uma vez, aliás — ele comentou com um sorriso debochado.
— Sim, mas eu consigo ver em você o quão puro é seu coração — quando eu disse isso ele me olhou novamente nos olhos acompanhado de uma expressão confusa e então eu continuei — Todos fazemos coisas ruins, mas o que conta mesmo é como nos sentimos depois. As ações são só ações, o que vale é o impacto delas na sua vida e no seu coração.
— Isso é utópico demais — ele falou dando um riso debochado.
— Pode ser, mas nunca falhou pra mim — falei e então olhei para o céu — Posso ser ingênua ou o que você quiser me chamar, mas eu sei reconhecer quando uma pessoa é boa em sua essência.
— Você é uma caixa de surpresas — ele falou rindo sinceramente e me olhando — Uma caixa irritante, teimosa, extremamente chata, mas cheia de surpresas.
— Eu também fiz coisas ruins — eu ignorei o que ele havia dito e continuei olhando para o céu — Minha mãe se matou por minha culpa e a tá sumida há três dias também por minha culpa. Todos ao meu redor se machucam.
— Para de falar besteira, você me salvou três vezes, e contando... — ele tentou me consolar — isso tem que valer de alguma coisa.
— Mas você só se machucou por minha culpa — falei finalmente olhando em seus olhos de novo.
— Escuta aqui, você não tem culpa se a vida era dura demais pra sua mãe aguentar e a levou a tirar sua própria vida — ele pegou meu rosto em suas mãos se assegurando que eu não desviaria meu olhar e secou uma lágrima teimosa que insistia em cair — Eu estava lá no dia da briga com a , eu vi, você tentou, você queria resolver as coisas, foi ela quem não quis e sumiu, a culpa não é sua. E eu? Eu definitivamente já estaria morto se não fosse por você, eu teria me metido em outras confusões e sem você lá, ninguém me salvaria. Você é a única pessoa nessa terra de coração verdadeiramente bom.
— Nós dois, — eu disse tirando meu rosto de suas mãos — Viu? Alguém ruim não consolaria alguém tendo uma crise existencial ridícula ou até mesmo se preocuparia com um tombo idiota de uma garota desastrada.
— Eu matei a minha mãe, — ele fez uma pausa, olhou para o céu para se recompor e então voltou a me olhar — E o Chanceler também.
— Eu acredito que você teve seus motivos — tentei consolar ele, mas a essa altura eu não conseguiria, meu cérebro estava a mil e nem a mim mesma eu estava sendo capaz de ajudar.
— Você sabe da historia da O, ela cresceu escondida, ela só queria ir a um baile e isso terminou terrivelmente mal para minha mãe — ele enxugou uma lagrima antes mesmo que ela caísse e continuou — E o Chanceler, eu precisava matá-lo, um Guarda da Arca me chantageou, se eu não o fizesse, eu nunca mais veria a minha irmã. Ela é tudo pra mim, .
— É por isso que você tem se ocupado tanto fora e dentro do acampamento? — perguntei já conseguindo entender melhor os acontecimentos desses últimos dias — É culpa? Por isso ficou aliviado ao ouvir que não progredimos com o rádio e quando finalmente funcionou você quis sair correndo?
— Talvez — essa foi a única resposta que obtive dele.
— Somos pessoas problemáticas, boas pessoas, mas com muitos problemas — falei e dei uma risada. Ele me olhou e deu uma risada também — Merecemos viver pra compensar esses problemas.
— Somos. Eu acho que devemos ser — ele deu uma ultima risada e encarou o céu.
— Precisamos ir, passar a noite aqui não parece uma boa ideia — falei me levantando e pegando as armas jogadas ali perto — Ai!
— O que foi?! — ele se levantou rapidamente e foi até o meu lado
— Eu acho que torci meu pé tentando ser uma super-heroína — falei dando um leve sorriso.
— Vou pegar as armas que estavam comigo e te ajudo a caminhar — ele respondeu com um sorriso indo em direção as armas dele que estavam espalhadas um pouco longe de onde estávamos.
No caminho de volta não falamos muita coisa, na maior parte do tempo o ficava debochando do meu tornozelo, meu pulso, da minha cabeça e do fato de eu me masturbar, sim, ele aparentemente não vai esquecer isso.
Ele é a pior pessoa para se ter algum tipo de amizade, posso jurar isso. Talvez depois de hoje possa-se dizer que desenvolvemos algum tipo de amizade, uma bem disfuncional, mas mesmo assim, acho que uma amizade. Eu não ligava para as provocações dele, só queria chegar ao acampamento e deitar, mas ele adorava dizer que não via a hora de poder transar pra tirar da alma o trauma que foi essa noite, eu definitivamente não nasci pra ouvir esse tipo de coisa. Assim que chegamos, logo fomos recebidos pela Clarke. O entregou as armas para que Jasper e Finn guardassem enquanto ainda me ajudava a ficar em pé, me segurando pela cintura enquanto me apoiava em seu ombro.
— Tivemos alguns contratempos, mas achamos — o falou se dirigindo à Clarke.
— Isso era tudo o que tinha lá? — Monty perguntou um pouco decepcionado.
— Não, tem muito mais. Não conseguimos nem ver tudo o que tinha lá em baixo — respondi com um rastro de alegria na minha voz.
— Eu disse que deveria ter ido mais gente — Raven falou me olhando com certo desprezo.
— Foi melhor assim, com mais pessoas poderíamos não ter achado, ou tido contratempos piores — ele me olhou e então falou para todos os presentes — Vou ajudar a com seus ferimentos, até depois.
— É incrível como ela sempre volta machucada — a Raven falou em um tom debochado.
Sem falar mais nada ele saiu comigo ao seu lado, Raven pareceu não gostar nem um pouco, na realidade eu não consigo entender porque ela está agindo assim comigo, pensei que éramos amigas, mas tudo bem, não estou aqui para fazer amigos, já percebi que é algo muito difícil e eu não tenho talento algum para isso. Caminhamos até a tenda do e quando estávamos chegando lá ele parou próximo de umas pedras, fez um sinal indicando que eu deveria me sentar e em seguida ele entrou na tenda saindo poucos segundos depois para se sentar ao meu lado.
— Eu não sou bom com curativos, mas precisava te tirar do meio das pessoas — ele falou meio sem jeito. estava sem jeito.
— Eu sei que não sou lá essas coisas, mas isso magoou — falei fingindo ter me chateado.
— Você sabe que não é isso — ele fez uma pausa enquanto passava uma mistura que ardia muito nos arranhões visíveis do meu corpo — Eu só precisava dizer que você pode contar comigo. E isso não é algo que eu falaria na frente de todos, já que diz respeito só a nós dois.
— Eu não preciso nem dizer o mesmo, né? Acho que depois da terceira vez que salvei sua vida ficou bem claro que nunca hesitarei em te ajudar — falei dando risada, porque embora fosse cômico, era realidade – Não por ser você, mas por que eu sou uma pessoa boa até demais.
— Enquanto eu viver, nada vai te fazer mal, — ele falou em um tom sério olhando nos meus olhos, pude sentir a intensidade de suas palavras apenas com o seu olhar — Você tem feito muito por mim.
— Eu agradeço de verdade — eu não queria quebrar aquele contato visual, porque naquele momento senti de verdade que nada me atingiria, que estava, pela primeira vez, livre de qualquer perigo.
, posso falar com você na sua tenda? — a Raven passou por nos dois e ficou parada na entrada da tenda do .
— Claro — ele respondeu enquanto a via entrando. Então ele se levantou e antes de entrar falou no meu ouvido — Agora é minha hora, finalmente o sexo que tanto almejei o dia todo.
— Desnecessário, — gritei para ele enquanto o mesmo entrava em sua tenda — Muito desnecessário!


Capítulo 11 -

— Você sabe que não quer fazer isso, — ele respondeu na ousadia, porque sinceramente, não esperava por essa coragem nem muito menos por um apelido.
— Garoto, você não me testa — falei, encostando mais ainda minha faca ao seu pescoço — Você não me pegou em um bom dia.
— Eu sei — ele falou levantando suas mãos, que antes seguravam o meu braço com a faca, em sinal de rendição — Eu vi a sua discussão com a
— ENTÃO VOCÊ TAVA MESMO ME SEGUINDO! — falei basicamente gritando em seu ouvido.
— Eu só queria ter certeza de que você ficaria bem — ele tentou se justificar.
— Eu não preciso de guarda-costas, eu sei me cuidar sozinha — falei com certo desprezo na voz.
— Agora eu percebo isso — ele falou gesticulando para a faca em seu pescoço.
— Tudo bem, é seu dia de sorte — dizendo isso, eu retirei a faca de seu pescoço, mas dei um chute em suas costas de forma a que ele caísse de cara no chão.
— Engraçado, não me sinto dessa forma — ele resmungou com a cara no chão.
— Tá, tanto faz, eu não dou à mínima — falei me recompondo, guardando a minha faca e começando a caminhar — Dessa vez não me segue. Garoto esquisito.
, por favor, não me deixa aqui sozinho – ele rapidamente se levantou e começou a vir atrás de mim – Eu só estava te seguindo, não faço ideia de como voltar.
— Primeiro: ? Sério? Tenho cara de cachorro pra você?! – falei parando de caminhar e me virando para o idiota – Segundo: P R O B L E M A S E U.
, sério, do que adianta me deixar viver se vou morrer de qualquer jeito? – ele continuou tentando me convencer, embora fosse em vão.
— Touché – disse simplesmente continuando meu percurso.
— Nossa que maduro da sua parte, hein – ele parou de me seguir mas continuou sendo irritante – Qual é o seu problema afinal?
— O MEU PROBLEMA?! – esse idiota finalmente me tirou do sério, me fazendo voltar para onde ele tinha parado – MEU PROBLEMA É QUE BRIGUEI COM MINHA MELHOR AMIGA; O OTÁRIO DO É AMIGUINHO DELA; FUI SEGUIDA POR UM ESQUISITÃO ESTUPRADOR E, POR ÚLTIMO, MAS NÃO MENOS IMPORTANTE, NÃO CONSIGO FICAR EM PAZ!
— Quer um biscoito por isso? – ele disse simplesmente, olhando na minha FUCKING cara – Todo mundo tem problemas e nem por isso saem por aí matando pessoas.
— Ahhhhh pra mim já chega – dito isso peguei uma pedra próxima a mim que, por sorte, era grande e antes que ele pudesse reagir o golpeei na cabeça fazendo-o desmaiar imediatamente – Agora sim... Paz!
Antes de seguir meu caminho, para qualquer lugar que não fosse alí, arrastei o menino desmaiado até um canto mais escondido de modo a que se camuflasse aos olhos de alguém que passasse por ali. Eu sou cruel, mas nem tanto, até ele merece a chance de se defender de algum possível inimigo. Feito isso comecei a caminhar, que, pensando bem, poderia não ser a melhor opção, tendo em vista que ainda está bastante escuro e aquele garoto babaca além de me impedir de dormir me provocou todo um estresse desnecessário, ou seja, eu deveria arranjar um lugar pra descansar até amanhecer.
O que eu estou fazendo da minha vida no fim das contas? Saí do conforto da minha cama para vir atrás da única pessoa ainda restante nessa galáxia capaz de me amar e de me entender, pra conseguir isso eu mato um cara, mas não um cara qualquer e sim o CHANCELER.
Quando finalmente estamos juntas, no planeta terra, a coisa preferida dela, sem uma porta de aço nos separando ou dois guardas vigiando a gente enquanto simplesmente conversamos, eu mato outro cara, o Jake, da primeira vez eu deixo ele pra trás pra morrer em uma névoa amarela e ácida, consigo até imaginar a dor que ele sentiu por HORAS porque aquela névoa não o matou.
A e o o acham agonizando na floresta e ainda bem que eu fui com eles, senap ele poderia melhorar o suficiente para contar a todos que eu quase o matei.
Se eu não tivesse ido com eles e finalmente posto um fim na vida do Jake naquele instante, não consigo imaginar como estaria minha vida agora. No fim, acabo sendo chantageada pelo pau mandado do Murphy e me afastando do ÚNICO motivo para estar aqui. Isso tudo porque esses segredos são um fardo que não posso fazer a carregar também, dessa forma, não sei como, ela e se aproximam e sei lá, eu fico de lado? Ela o defendeu, não defendeu? Eles passaram uma noite juntos, não se mataram e um tinha certo poder sobre o outro que não consigo entender até agora.
Ela não pode ter preferido ele, pode? Eu nunca a trocaria por nada, ela é tudo que me resta, com ela eu sou a melhor versão de mim mesma, embora que, por ela, eu seja a pior versão possível de mim. Talvez seja por isso que eu não sinta remorso de ter matado o Chanceler ou o Jake, foi por ela e eu faria tudo novamente, assim como ela fez tudo por mim. Eu fui tão idiota, ela nunca me trocaria, ela não estava defendendo ele e sim me defendendo, afastando ele de mim, e ela estava disposta a me contar tudo o que tinha acontecido não só uma como duas vezes, eu que me precipitei e parti pra cima do sem dar chance dela explicar e quando ela tentou pela segunda vez, eu surtei e entendi tudo errado, saí sem rumo pela floresta e no fim acabei nocauteando o idiota do continuando meu caminho sem rumo pela floresta.
Depois de andar por algumas horas sem enxergar nada e cansada de pensar em tudo que faço de errado nessa vida, decidi me camuflar no meio de uns arbustos e descansar um pouco, amanha pela manhã estaria claro e eu teria mais chances de conseguir voltar para o acampamento e, quem sabe, estar ainda em tempo de ser perdoada pela , mais uma vez.
Acordei com um raio de sol direto no meu olho, por instinto abri meus olhos e logo percebi que foi uma péssima ideia, voltando a fecha-los, comecei a me levantar, um pouco tonta e desajeitada por ter acabado de acordar e ainda estar de olhos fechados. Senti uma dor chata na minha lombar, provavelmente pela posição em que fiquei descansando por algumas horas. Abri finalmente meus olhos e sai dos arbustos, estava morrendo de cede e fome, acho que chegou a hora de voltar e encarar as consequências dos meus atos, não dá pra fugir pra sempre não é mesmo? Embora eu adoraria que existitsse essa possiblidade.
Levei uns minutos para me orientar e então comecei a caminhar na direção que eu acreditava ser o acampamento. Depois de alguns minutos caminhando comecei a reconhecer as coisas, são só um monte de folhas, árvores e pedras? Sim, mas são as folhas, árvores e pedras que eu vejo todo dia. Porém, de repente, comecei a sentir a presença de alguém por perto, era um sentimento como se alguém estivesse me seguindo, então parei e dei uma olhada para trás mas não vi ninguém, porém o sentimento não se foi, se eu me concentrasse bem eu poderia perceber os passos dessa pessoa, então parei e me agachei como se amarrasse meus sapatos mas sem olhar para trás, peguei uma pedra de tamanho mediano e a segurei contra o peito antes de levantar e seguir meu caminho. Constatei que o sentimento e essa presença ainda podiam ser sentidos então em uma tentativa de pegar quem quer que seja desprevenido, eu me virei rapidamente e com toda a força que eu podia ter naquele momento joguei a pedra no que fosse que estava me seguindo, e eu tinha até um palpite de quem era.
— EU PENSEI TER SIDO CLARA COM VOCÊ SEU TARADO — falei gritando e caminhando em direção a pessoa caída — DESSA VEZ EU JURO QUE NÃO VOU TER PIED… espera… você não…
Antes que eu pudesse terminar meu raciocínio vi por minha visão periférica alguém se aproximar rapidamente de mim pela minha direita e antes que eu pudesse reagir fui atingida na lateral direita das minhas costelas.
Eu olhei e a pessoa parecia ser um terrestre, eu sabia que era uma péssima ideia andar por aí sozinha, puta que pariu, , você causou sua própria morte, que ironia do destino. De repente comecei a sentir falta de ar e as vozes e imagens começaram a ficar confusas e borradas, eu ia morrer, conseguia sentir, mas antes de uma dor dilacerante e a escuridão alcançarem meus sentidos, pude reconhecer uma das pessoas ali presentes e isso só me deixou mais confusa. Era a Octavia.

— Você não deveria ter feito isso — ouvi uma voz feminina falar em um tom raivoso.
— O que eu deveria ter feito? Essa maluca te atacou — ouvi uma voz masculina responder — Eu nunca vou deixar nada de mal te acontecer.
— Você não pode me proteger do meu irmão — a voz feminina falou suspirando — Como você acha que ele vai reagir com isso tudo?
Eu sentia muita dor, me sentia sufocada, conseguia respirar, mas muito pouco. Não conseguia identificar de quem eram as vozes e abrir meus olhos parecia tão difícil quanto eu passar um dia sem me meter em problemas, mas respirei fundo e usei todas as forças que ainda me restavam pra abrir os olhos porque se eu vou morrer pelo menos quero saber por que, quem e onde. É o mínimo né, não vou morrer assim sem saber de nada ou eu não me chamo .
— Ai meu Deus! Ela abriu os olhos, ela tá viva! — uma garota falou — Não vou mais morrer!
— Você já não ia morrer antes, eu não ia deixar — o homem respondeu.
— Que merda tá acontecendo — falei quase em um sussurro, eu não estava conseguindo, estava fraca demais, com dor demais.
, vai ficar tudo bem, fica calma — a garota tentou me acalmar.
— Octavia? — finalmente reconheci a voz e a figura à minha frente — Onde eu tô?
— Foi tudo um mal entendido, a gente te trouxe pra casa do Lincoln — Octavia falou se aproximando de mim — Vai ficar tudo bem.
— Ela esta consciente, é melhor dar o antídoto pra ela — um terrestre falou se aproximando de mim com um frasco cheio de um liquido turvo (ou era só minha visão mesmo).
— OCTAVIA, UM TERRESTRE! — eu me exaltei e tentei me levantar, mas foi uma péssima ideai, soltei um grito tão terrível quanto minha dor.
, calma, ele é o Lincoln. Ele vai te ajudar — ela falou tentando me acalmar — Agora toma o antídoto
Que merda de antídoto? Antídoto pra que? DEUS, EU JÁ APRENDI A LIÇÃO SEREI UMA PESSOA MELHOR. Como eu já estava na merda, não tinha nada a perder, na pior das hipóteses isso me matava de uma vez, sem ficar aqui agonizando até a morte ou na “menos pior” isso realmente me ajudava e eu melhorava. Peguei o frasco e tomei seu conteúdo todo de uma vez. Por uns instantes, a dor desapareceu, quase que me levantei e saí correndo dali, mas antes que eu pudesse de fato executar a minha vontade a dor voltou e voltou pra esmigalhar o que me restava de vida, a dor era tão grande, mas tão grande que eu me contraí na tentativa de aliviar de alguma forma mas isso só piorou tudo, tendo em vista que tinha um ferimento nas minhas costelas e então eu não aguentei e comecei a gritar de dor, gritei tanto que só gritar não estava sendo o suficiente mais, acabei vomitando tudo o que eu não tinha no meu estômago. Eu estava errada, se antes eu estava na merda, agora eu estou no meu próprio inferno.
— Mas o que… — ouvi uma voz distante falar.
— LINCOLN, NÃO! — ouvi a Octavia gritar.
Forcei-me a abrir os olhos e antes de desmaiar, mais uma vez, pude ver a Octavia segurando o braço esquerdo do Lincoln, tentando impedi-lo de atirar os punhais que ele tinha em suas mãos.
Eu me sentia em paz, a dor tinha cessado, ela ainda estava lá, mas comparado ao que eu estava sentindo antes ela era quase como cócegas. Não me sentia mais sufocando, respirava melhor, o mundo parecia estar mais leve. Se antes eu sentia como se a morte estivesse me levando, agora eu sentia a vida me abraçar aos poucos, bem devagar.
— Como diabos você chegou até aqui, afinal? — pude reconhecer a Octavia falando — Como nos achou?
— Ouvi gritos e os segui, não ficaria surpreso se mais gente estivesse a caminho daqui — ESSE ERA O ?! INACREDITÁVEL.
— Puta moleque stalker do caralho — consegui falar entre dentes, mas acredito que conseguiram entender o recado.
— Oh, ela vive — ele respondeu em um tom triste.
, você tá se sentindo melhor? — Octavia me perguntou.
— Não morri, yey — falei com uma empolgação forçada
— Desculpe-me, deveria ter avisado dos efeitos colaterais — Lincoln tentou se desculpar.
— Oh sim, realmente é com isso que você deve se preocupar. Não com o fato de eu estar nessa situação por sua culpa! — me exaltei um pouco e foi horrível, senti uma dor aguda nas costelas.
— Afinal, o que tá acontecendo aqui?! — o taradão perguntou
— Ela me atacou com uma pedra e então o Lincoln viu, a interpretou como uma ameaça para mim e esfaqueou ela no abdômen — Octavia respondeu fazendo um breve resumo, então ela suspirou antes de continuar — O ferimento não foi tão grave, o problema é que a lâmina estava contaminada com um veneno que só o povo dele tem o antídoto e é letal, ela deu sorte de ter sido medicada a tempo.
— Sorte, ela disse — falei
— Parece que ela tem esse péssimo costume de jogar pedra nos outros — falou irônico. Olha só, ele sabe usar ironia, quem diria.
— É só ninguém ficar me perseguindo que fica tudo certo. Vão arranjar outro hobby, minha gente! — falei olhando da Octavia para o taradão.
— Eu não estava te seguindo, estava seguindo o Lincoln — Octavia respondeu sincera.
— Então porque se escondeu quando olhei para trás?
— Pode ter sido na hora em que fui pegar uma das flores que o Lincoln deixa, é assim que sei onde me encontrar com ele, um rastro de flores — ela me respondeu, porém olhava para o Lincoln.
— Bom, então temos dois pombinhos apaixonados e um perseguidor tarado — falei olhando para o garoto.
— Hey! Eu não sou nem um, nem outro — ele tentou se defender.
— Ok, vou fingir que acredito. Taradão — respondi em um tom de indiferença e me virei para a Octavia — Há quanto tempo estou aqui?
— Um dia — ela fez uma pausa e suspirou — acredito que você leve pelo menos mais um pra conseguir se levantar daí.
— Tá tudo muito lindo e tal, mas preciso ir falar com o — o garoto nos interrompeu para falar. E ainda fala merda.
— NÃO! — Octavia se exaltou, mas logo se recompôs — Meu irmão não pode saber se não ele vai querer matar o Lincoln.
— Mas ai já não é problema meu — ele falou indiferente, acho que a pancada na cabeça o mudou, porque né, não faz sentido, ele não costuma agir assim.
— Eu posso fazer com que seja — Lincoln respondeu se aproximando dele.
— Não! Por favor, eu não tenho culpa — ele começou a choramingar. Agora sim, esse é o tarado que eu conheço.
— Lincoln, deixa ele. Se você quiser ir vá, ninguém vai te impedir — ela falou calmamente.
— Me diz, o que mais eu deveria fazer?! Se põe no meu lugar! — ele tentou argumentar.
— No seu lugar eu ajudaria ao invés de piorar as coisas — Octavia respondeu.
— Ajudar? — ele parecia confuso — Mas isso seria ajudar…
— Ajudar seria você voltar naquele acampamento, fingir que nada aconteceu, e pegar uns utensílios médicos que precisamos para melhorar — ela disse meio que já perdendo a paciência mas tentando lutar contra isso.
— Por que você não vai? — ele disse reclamando — Tão mais simples!
— Porque eu sumi faz um dia! Acha mesmo que o me deixaria sair de seu olhar assim tão rápido?! Ia levar pelo menos dois dias até ele abaixar a guarda e ser seguro voltar aqui — ela não conseguiu se conter e se exaltou, o que posso dizer? O causa esse efeito na gente.
— Irritante pra caralho — falei me referindo ao .
— Viu?! Ela também não colabora, por que eu a ajudaria? — ele disse choramingando.
— Você não estaria só ajudando ela, mas a mim também — ela suspirou antes de continuar — Você é uma boa pessoa, , me ajuda vai.
— Tudo bem, mas já vou avisando, isso é uma péssima ideia, eu não consigo mentir — ele concordou por fim.
— Tudo bem, você vai conseguir — a Octavia tentou animar ele.
— Não consegue não — falei dando risada, mas logo me arrependi porque novamente e dor aguda surgiu.
ignorou minha provocação e começou a ouvir atentamente ao que Octavia falava, ela instruiu ele sobre o que ela estava precisando que ele buscasse no acampamento, sobre como encontrar e onde pegar. Dadas as instruções o saiu em direção ao acampamento. No fundo eu esperava que ele realmente conseguisse pegar tudo o necessário para que eu pudesse sair logo daqui, mas é do stalker que estamos falando, se fosse apostar, apostaria justamente no contrário.
— Ele vai conseguir, — ela falou enquanto observava o lado de fora da “casa” do Lincoln, que mais parecia uma toca de coelho — A gente vai se livrar dessa situação.
— Você tem fé demais nesse garoto — comentei.
— Nesse instante, é tudo que nos resta — ela respondeu.
— Não é tão ruim assim — falei — O é grande, mas não é dois.
— É, ele não é — ela fez uma pausa e me olhou antes de continuar — Mas ele tem a .
— A ? — o que isso tem a ver? A não mataria uma mosca e mesmo que estivesse disposta a matar, ela não teria a força necessária pra isso.
— É, e todo o acampamento — ela suspirou — Estaríamos em uma desvantagem desleal.
— Bom — falei analisando o cenário pela mesma perspectiva que ela — A gente tá muito fodida.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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