Contador:
Última atualização: 25/08/2021

Capítulo I

No more dream


Seoul, 3 de janeiro de 2017.

Maquiagem? Ok.
Cabelo? Ok.
Uniforme? Ok.
Fone de comunicação? Ok.
Crachá de identificação? Com uma foto engomadinha, mas ok.
Celular? Ok.
Tablet com o cronograma? Ok.

Então, oficialmente, eu tinha um emprego. Um emprego importante, um emprego que eu não poderia abrir mão. Eu precisava da grana, precisava me virar para pagar as contas. Já não tinha mais molezinha da bolsa de estudos, nem casa e comida gostosa sendo garantido pela minha família. Mesmo tendo descendência coreana, precisava entender que a vida era bem diferente do outro lado do mundo; a cultura, principalmente.
E eu, como uma bela desbravadora de caminhos e limites, destemida como sempre, me vi tremer na base quando a realidade bateu na minha cara; por mais que minha profissão exigisse deslocamentos diversos, eu estava residindo em outro lugar, completamente diferente do qual estava acostumada, tendo que aprender na marra tudo aquilo que um dia foram só contos da vovó Kang.
Eu estava imersa em meus pensamentos, mordendo o canto do lábio inferior – uma mania terrível, eu sei – quando senti meu celular vibrar. Puxei o outro fone que estava plugado no aparelho e atendi sem ver quem era.
— Alô?
— Como assim alô? Não reconhece a ligação da sua melhor amiga? — Eu sorri com o drama de . Aquilo era tão típico dela.
— Eu nem olhei o visor. Estou esperando a chegada dos meninos e estou quase correndo de volta para casa, de tão nervosa! — Fui sincera, falando em português mesmo, e ouvi a risada de soar do outro lado da linha. Percebi que o outro staff ao meu lado me encarou com a sobrancelha erguida, provavelmente estranhando a língua e meus traços não tão orientais.
— Você vai tirar de letra, garota. Relaxa, sério. Ontem foi uma correria só, não consegui te ligar com antecedência. Então, estou só entrando em contato para te desejar toda sorte do mundo.
Sorri com aquela fala; conseguia me dar calma nos momentos mais inusitados, e era ótimo tê-la comigo num lugar tão diferente do meu – ainda que fosse numa distância de, literalmente, meio mundo.
— Você sabe exatamente o que dizer, amiga. Obrigada pelo carinho de sempre, imagino que você esteja caindo de sono para me ligar às... Uma e cinco da manhã.
— Ah, pode crer que sim! Preciso estar de pé em algumas horas, mas precisava falar com você. Estou com saudades de ti! — Eu ri da sua voz sôfrega.
— Eu também, lindeza. Mal espero para você vir me visitar nas férias.
— Estou trabalhando duro para isso!
, Fighting! — Eu imitei a típica frase que os idols diziam para si, relembrando quantos vídeos daqueles eu e minha amiga vimos juntas. Ela riu e agradeceu o apoio.
— Pessoal, a seus postos! Os rapazes estão chegando em cinco minutos! — a coordenadora da equipe avisou pelo outro fone e eu me aprontei em desligar.
— Amiga, preciso ir. Eles estão chegando... Nem acredito! — comentei nervosa e ela deu uma risadinha.
— Já deu tudo certo! Quebre a perna, merda para você e eu te amo.
— Apesar de não estarmos no teatro, merda para nós! Eu também te amo, amiga.
— Arrasa, Gengibre! — ela disse antes de desligar e eu rolei os olhos. Aquela piada com meu sobrenome duraria para sempre.
— Quatro minutos! — a coordenadora tornou a falar, e todos se ajeitaram um do lado do outro. Olhei para os lados, procurando a atrasilda, quando ela apareceu bem na minha direita, esbaforida.
— Puta merda, você quer me infartar? Achei que não chegaria a tempo!
— Eu estava colocando a lente, mas essa merda estava ao contrário! Tive que fazer tudo de novo, retocar maquiagem, aí já viu! — ela explicou enquanto ajeitava a blusa dentro da calça, posicionando o crachá para o lado certo, com sua foto em destaque. — Como eu tô?
— Linda como qualquer membro da família Kang.
— Exceto pelo tio Shin Woo — ela disse e eu gargalhei, sendo cortada pela coordenadora.
— Três minutos! — Eu respirei fundo e segurei o tablet com mais firmeza em minhas mãos.
— Você sabe que só tenho a te agradecer, né? — perguntei retoricamente, e minha prima deu uma risadinha — É sério! Só estou aqui por sua causa. Literalmente — pontuei, lembrando que a indicação para vaga de emprego havia sido feita por ela, e graças à sua atitude estava empregada num país distante de casa, com a única parente que tinha mais conhecimento “de campo” do que eu. Hyun-mee era como minha veterana na área, e estava sendo, em grande parte do tempo, a âncora que me mantinha em terra; nos fortalecíamos enquanto enfrentávamos os perrengues diversos de morar num outro lugar. E agora, mais do que nunca, sem ajuda de custo nenhuma; era realmente nós por nós. Minha prima deu um peteleco na minha cabeça, me acordando do devaneio momentâneo.
— Não tem o que agradecer, só não faça nenhuma merda e vai tudo ficar bem. Você vai ver, é mais tranquilo do que parece. É corrido? Sim. Tem que ter atenção? Pra caramba. Mas você é qualificada; estudou na Seoul National University, teve bolsa da NIIED, manteve o rendimento altão mesmo trabalhando na SM Enterteiment e simplesmente arrasou no TOEIC. Sabe exatamente o que vai acontecer por aqui, não há nada que você não tenha visto, feito ou estudado... Então para ser sincera, não sei porque está tão nervosa...
— Porque não é mais estágio, Hyun-mee. É meu primeiro emprego de verdade e, mesmo tendo descendência coreana, nitidamente não sou bem vinda aqui. — Olhei ao redor e recebi alguns olhares mal encarados, e suspirei em frustração. Minha prima tinha mais traços orientais que eu, mas deveria ter passado pela mesma situação quando entrou como staff na Big Hit.
— Uma hora você se acostuma. É só um bando de pau no cu que acha que a gente é verme e não merece estar aqui. Mas merecemos. — Ela me olhou com um sorriso no rosto e eu suspirei. — Vai ficar tudo bem, você vai ver. E finalmente vamos ter mais condições depois de tanto trabalho duro.
— Tomara, Hyun-mee — respondi aflita, pensando no quarto e sala que dividíamos no centro da cidade. — Mas o quê...?
— Dois minutos! — A gritaria do lado de fora começou a se aproximar e eu encarei minha prima com a sobrancelha arqueada.
— Ah, está começando. Uma hora você se acostuma. Eles estão chegando! — ela explicou divertida e eu senti as palmas das mãos suarem.
— Eu nunca peguei um trampo desses, com pessoas tão famosas — falei baixinho, sentindo o frio na barriga.
— Calma! Só mantém a calma, vai ficar tudo bem. Agora se concentra e tenta me acompanhar, ok?
— Tá. Te amo — respondi no automático e ela riu.
— Eu também.
— Um minuto!
Eu ajeitei a postura, verifiquei novamente todos os acessórios necessários para realizar meu trabalho, e respirei ansiosa. Contei exatamente 37 segundos até que um carro atravessou o portão automático. Inúmeros homens faziam a segurança do local, se dividindo entre o portão e a recepção do enorme SUV preto que estacionava diante de nós.
E então, a porta se abriu, e por ela, um por um saiu. J-Hope, Suga, RM, V, Jin, Jimin e... Jungkook.
Os coreanos passaram na minha frente e eu poderia jurar que eles levitavam, de tão graciosos que eram. Precisei piscar algumas vezes e manter a minha compostura – mesmo lidando com situações similares na SM, eu jamais imaginaria que, após tanto trabalho, teria uma chance como aquela.
Acordei dos meus sonhos quando minha prima cumprimentou um por um, enquanto passavam por ela, entrando no prédio. Repeti suas ações mecanicamente, mordendo o canto do lábio esquerdo, tentando conter a manada de elefantes dentro do estômago.
Fui seguindo os passos de Hyun-mee, sentindo diferentes cheiros no ar – os perfumes dos meninos misturados, e céus, como aquelas criaturas cheiravam bem! Dei uma leve verificada se meu perfume estava em dia – não tanto quanto os deles – e acabei trombando a cara nas costas de alguém, sendo pega no flagra. Imagina a situação: eu cheirando a gola da minha blusa quando Jin se virava para mim, depois de ter dado um passo acidental para frente por minha causa.
Merda.
— Perdão, perdão, perdão! — exclamei, fazendo reverência e me chutando mentalmente. Percebi Hyun-mee prendendo o riso enquanto Jimin riu, imitando meus gestos nervosos e Jin apenas me encarando.
— Ela é nova aqui? — ele perguntou com a cara fechada e eu o encarei com os olhos arregalados, confirmando sua pergunta com um leve balançar de cabeça.
— Xii... — Nanjoom comentou e J-Hope riu da minha cara desesperada.
— Sinto muito, mas isso é inadmissível. Está despedida. — Jin comentou e eu jurei sentir o mundo esvair dos meus pés. Caralho, como assim!?
— Q-Que? — eu deixei escapar, com a boca aberta. Eu senti a respiração faltar e o canto dos olhos começaram a arder. Já não aguentava aquele olhar de reprovação, quando de repente a feição endurecida se desfez e o Worldwide Handsome começou a gargalhar.
Gar-ga-lhar.
Pouco a pouco, os meninos se juntaram nas risadas e até mesmo Hyun-mee riu de mim. Eu ainda estava de boca aberta quando RM se pronunciou.
— Regra número um, novata: Jamais dê confiança pra esse cara aqui. Ele é terrível. — E riu da cara de pau que Jin fez, dando de ombros.
Eu olhei de um para o outro, fechando aos poucos minha boca. Respirei fundo, um pouco aliviada, e sorri sem mostrar os dentes, dando um leve aceno.
— Anotado — respondi, tentando esconder a minha raiva daquele garoto. Eu estava esmagando meu tablet nas mãos quando os meninos voltaram a andar, e eu me pus logo atrás de Hyun-mee.
— Disfarça essa cara... — ela cantarolou baixo, em português, e eu sorri com os dentes trincados.
— Eu vou enfiar esse tablet onde o sol não bate, nesse garoto.
Ela prendeu o riso, fingindo que espirrava, e eu umedeci os lábios, respirando fundo e voltando ao meu normal. Eu quase pari um filho de nervosismo, mas já estava ali, sendo apresentada para uma das maiores boybands do momento, realizando um sonho.
Ainda que quisesse encher o mais velho de porrada.
Quer dizer, em um outro momento eu teria me escangalhado de rir, é fato. Mas ali, naquela tensão toda, eu só tentava disfarçar a raivinha que estava sentindo em meu coração. Eu não precisava de um teste surpresa para saber se meu coração estava com os batimentos em dia, sabe?
Entramos para o camarim, a coordenadora recebeu os meninos com uma gentileza incomum e os acomodou, indicando os aposentos e benefícios ali presentes. O local tinha comida das mais diversas, um toalete maior do que a minha casa, e uma área de maquiagem que nem a mais top das blogueirinhas que eu seguia no Instagram deveriam ter.
Realmente, Big Hit era outro negócio.
Hyun-mee começou a distribuir águas e me instruiu a fazer o mesmo, sempre perguntando aos meninos se havia algo que pudesse ser feito por eles.
Eu estava entregando uma água para Jimin quando ele cordialmente me cumprimentou.
— Seja bem-vinda... ? — Ele olhou meu crachá com a sobrancelha erguida. Eu sorri tímida, achando graça na tentativa de falar meu nome com o sotaque carregado. Era engraçado.
— Obrigada, Jimin. — Fiz uma rápida e curta reverência, e ele deu o típico sorriso dos olhos – aqueles que praticamente se fecham, passando uma sensação adorável e alegre.
— Por favor, não ligue pro Jin, ele é apenas um bobo. Só não é pior que o Jungkook!
— Pior que quem? — Ouvi uma voz soar atrás de mim e virei meu tronco, com um sorriso amarelo, cumprimentando-o.
— Deseja uma água, Jungkook? — Ofereci com a minha melhor face de “não escute seu amigo e por favor seja legal no meu primeiro dia de trabalho”.
Ele olhou para a garrafa na minha mão, olhou para mim e sorriu.
— Vou aceitar! Obrigado... Hm. Ok, talvez esse não seja o nome mais fácil do mundo. — Ele disse mais para si mesmo enquanto analisava meu crachá. Eu soltei o ar como quem prende uma risada e dei de ombros.
— Eu imagino que não. Me chamo — expliquei ao mencionar meu nome vagarosamente, e ele tentou repetir, com a língua dando uma leve enrolada no final.
? — Eu dei uma risadinha e concordei com ele, e entreguei a garrafa.
— Há algo mais em que eu possa ser útil? — tornei a perguntar, olhando para ele, Jimin, e agora V, que se sentava ao lado do amigo no sofá.
— V, conheça nossa nova staff! ! — Jungkook disse animadamente e eu sorri sem graça para o rapaz, que deu um leve aceno com a cabeça.
— Prazer em conhecê-lo, V — falei ao mover rapidamente meu tronco em cumprimento, e ele deu um sorriso simpático.
— Igualmente.
— Aceita uma água, um chá gelado ou algum outro tipo de bebida? — perguntei para o Mr. Lindo, confirmando que seu apelido tinha tudo a ver consigo, e ele negou com gentileza.
— Não, obrigado.
— Por que você ofereceu chá gelado só para ele? — Jungkook perguntou com um bico nos lábios e eu fiz uma cara de culpada, dando um tapa na própria testa.
— N-não por isso! Foi só forma de falar, então por favor! O que eu puder fazer por vocês, me comuniquem! Você aceita um chá gelado? Eu posso... — falava rápido demais quando fui interrompida pela risada do caçula. Entendi que aquilo era mais uma brincadeira e suspirei com um meio sorriso no rosto, enquanto Jimin sorria para mim, dando de ombros.
— Eu disse que ele era pior que o Jin, percebe?
Eu sorri sem graça e olhei em volta, vendo que todos os meninos estavam confortáveis e amparados. Olhei para o tablet e procurei Hyun-mee com o olhar, que estava recebendo ordens da coordenadora. Em atos graciosos e precisos, minha prima chamou um por um até termos todos reunidos no meio da sala. A coordenadora sorriu amigavelmente e iniciou sua fala.
— Rapazes, estamos começando mais uma turnê e eu não poderia deixar de dizer algumas palavras. Acompanho vocês há tempo o suficiente para saber que são meninos dedicados e que dão o melhor de si para que tudo fique perfeito. Sabemos que imprevistos podem acontecer e podemos errar, mas não estamos focando nisso, e sim no quanto podemos ser incríveis o suficiente para acompanharmos o ritmo do BTS. Deste modo, gostaria de agradecer a oportunidade de crescer e ampliar os aprendizados e desejar todo o sucesso do mundo nessa nova etapa! — Hye-jun se manifestou com graciosidade, e fiquei refletindo sobre como ela falava com tanta eloquência e firmeza... Não era à toa que coordenava a equipe com habilidade e fluidez.
— Percebo que já conheceram nossa nova staff, ? — Ela se virou para mim e, com a palma aberta na direção dos meninos, prosseguiu. — Gostaria de se apresentar?
Eu umedeci os lábios e respirei fundo, dando um sorriso aberto e gentil.
— Obrigada pela acolhida, pessoal. É um prazer poder trabalhar com vocês e mal posso esperar para o começo dessa turnê. Sei que vocês têm trabalhado duro há anos e bem, fico feliz em fazer parte, ainda que minimamente, de tudo isso que vocês constroem com tanto afinco. — Fui sincera, olhando nos olhos de cada um. Eu não queria parecer uma puxa-saco, mas senti que precisava externar as coisas que sentia, com toda elegância e pontualidade que o trabalho permitia e exigia.
RM tomou a frente da fala e, como líder, se pronunciou por todos ali.
— Obrigado pelas palavras, . Obrigada também, Hye-jun. É muito bom trabalhar com pessoas que de alguma maneira conhecem a nossa história. — Um sorriso bobo apareceu no meu rosto ao perceber que RM pronunciou meu nome com mais facilidade. Poderia ser apenas um detalhe, mas eu achava o máximo que ele se importasse com isso a ponto de tentar reproduzir com dedicação, mesmo eu sendo apenas uma staff.
— Prometo me empenhar para que tudo saia nos padrões BTS de excelência, conforme planejado. — Acenei com a cabeça em forma de respeito, e os meninos repetiram a ação, com simpatia.
— E falando em planejamento... — Hye-jun anunciou ao olhar para seu tablet — Conferindo aqui a escala de hoje, vocês chegaram com antecedência. Se quiserem, podemos antecipar os ensaios e liberar vocês mais cedo... Ou vocês descansam um pouco e começamos no horário previsto. O que preferem? — perguntou educadamente.
Os meninos trocaram olhares entre si, digerindo o que havia sugerido.
— A gente adianta o ensaio e vocês podem ir sem mim, enquanto eu durmo. — Suga disse, sentando-se direito no sofá e apoiando o braço para deitar a cabeça, enquanto os meninos o caçoavam.
— Ah, mas não vai mesmo! Pode ir acordando! — J-Hope correu em sua direção e Suga já estava rindo de forma sofrida antes mesmo do amigo chegar.
— Não! — Ele suplicou, mas J-Hope o ignorou e começou a dançar animadamente na frente do companheiro de grupo, cantarolando “Mic Drop”.
Did you see my bag? Did you see my bag? — Ele berrava de forma aguda enquanto puxava os braços de Suga. Quando dei por mim, estavam todos do grupo fazendo um pequeno montinho em cima do pisciano sonolento.
Isso não durou por tanto tempo, já que momentos seguintes, RM deu a voz de comando e tomou a decisão após confirmar com os outros pelo olhar.
— Então gente, que tal nos aprontarmos e adiantarmos o ensaio? Podemos ser liberados mais cedo e aproveitamos para comer algo gostoso hoje. Merecemos uma pequena reunião.
Todos concordaram, uns acenando, outros verbalizando e Hye-jun sorriu educada.
— Certo, vou informar aos músicos, que já estão de sobreaviso. Primeiramente vão repassar alguns detalhes dos shows da turnê, depois ter o ensaio com a banda e por fim, começar a alinhar a parte das danças performáticas. Alguma pergunta? — Questionou após conferir o cronograma, verificando se não tinha esquecido nada. Sem nenhuma indagação, a coordenadora apontou para o vestiário. — Então rapazes, sintam-se à vontade para se aprontarem para o ensaio.
— Está dizendo que estou fedendo, Noona? — Jin se pronunciou com a cara em choque e ela gargalhou na sua cara.
— Vamos logo, dongsaeng! Já para o banho! — Ela brincou e ele fez cara falsa de tristeza, caminhando em direção ao toalete com sua mochila.
— Vinte minutinhos, pessoal! — Hyun-mee acrescentou com um sorriso e todos concordaram.
— Obrigada por lembrar, querida. — Hye-jun agradeceu à minha prima, e se virou para mim. — Alguma dúvida? Está entendendo como funciona?
— Por enquanto tudo tranquilo, Hye-jun.
— Disse bem, ‘por enquanto’! Guarde fôlego para a turnê — ela disse piscando e se retirou, deixando Hyun-mee e eu à sós.
— E então? — ela me perguntou com um sorriso animado e eu suspirei alto.
— Como você conseguiu sobreviver ao primeiro dia? — Perguntei com a mão no peito e ela sorriu de lado, dando de ombros.
— Acho que a beleza deles me salvou de infartar de nervoso. — Ela disse e eu ri baixinho, concordando consigo.
— Menina, como se concentrar no trabalho? Bando de homem lindo, prima! — Ela segurou a boca para não rir escandalosamente, como de costume.
— A gente tenta se acostumar. Não podemos estabelecer uma relação tão íntima com os meninos, mas se te serve de consolo, os dançarinos de apoio não são de jogar fora...
— Hyun-mee!
— O que foi, ué? Regras não estão sendo quebradas. — Ela deu de ombros e eu ri da cara safada dela.
— Por acaso você já...
— Ah já! Se já! Mas se tem uma coisa que eu já, é já! — Ela disse com veemência e eu tive me segurar para não morrer de rir ali mesmo.
— Você não existe, prima, na boa.
— Existo sim, mas confesso que se não existisse, teriam que me inventar! — ela comentou sorrindo e logo olhou o relógio de pulso. — Bom, vamos lá? Preciso te repassar algumas coisas, então me acompanha que em breve você faz isso com as mãos atadas.
— Certo! — Respondi atenta, e juntas fomos caminhando até o estúdio, com ela me orientando em inúmeros detalhes que eu precisava decorar, me explicando com paciência tudo que eu precisava saber para desenvolver um trabalho impecável.
Eu me dedicaria de corpo e alma, e mesmo sendo uma “estrangeira”, demonstraria à Big Hit e a mim mesma porque era merecedora daquela chance tão especial.



Script feito pela pupila Ells.


Capítulo II - Begin

Seoul, 16 de janeiro de 2017.
Duas semanas se passaram desde que os preparativos para a turnê começaram. Eu deveria ter guardado com mais afinco as palavras de Hye-jun, porque o ritmo era simplesmente frenético! Eu ficava com pena dos meninos, me cansava só de vê-los ensaiando insistentemente, enquanto providenciava o necessário para que tudo fluísse nos ensaios; dividia o controle do cronograma com Hyun-mee, auxiliava os horários dos rapazes, providenciava as refeições, organizava encaixes (se necessários) para entrevistas e pequenos podcasts, acompanhava e auxiliava nas sessões de foto, organizava as vitaminas diárias que os meninos deveriam tomar, preparava os ambientes para as lives... Imagine qualquer coisa! Provavelmente já fiz ou está na lista para ser feito. Até ir na rua comprar cigarros para Hye-jun eu comprei. Sim, por causa da imensa responsabilidade, das reuniões diárias, das inúmeras tarefas e da pressão em si, ela fumava escondido. Só eu e Hyun-mee sabíamos e acobertávamos, já que ela não queria que os outros soubessem. Até então, apenas minha prima sabia, mas ela teve que revelar o segredo para mim, que fui a escolhida para comprar um maço de Black em seu lugar. Pois é. Privilégio que chama né? Enfim.
Com a convivência diária, eu tinha me aproximado dos rapazes e desenvolvido afeto por eles como se fossem primos distantes que eu acabava de conhecer. E bem, não era a coisa mais difícil fazer amizade com os meninos; eram gentis, brincalhões, educados e unidos. Dava gosto de vê-los juntos, criando, aprendendo, expandindo horizontes. Dos sete, eu conversava mais com J-Hope, RM e Jin. No início, Jimin estava bem tímido, mas conforme fui puxando assunto consigo, ele demonstrou ser uma pessoa carismática e muito querida. Já V e Suga eram mais reservados, então eu não achava prudente fazer o mesmo com eles, respeitando suas formas de lidar com o novo. Porém, uma coisa que me surpreendeu demais foi a extrema e profunda timidez vinda do Golden Maknae. Pois é, acredite se quiser: Jungkook era definitivamente tímido na presença de outras pessoas.
Eu percebi que ele se sentia mais à vontade com Hyun-mee e Hye-jun, e minha prima me convenceu de que esse era apenas o jeito dele com quem não conhecia, que não tinha nada em específico comigo.
Então, depois de desconstruir a ideia daquele cara descoladinho dos vídeos, percebi que Hyun-mee tinha razão no fim das contas. Mas não foi fácil; enquanto eu tentava não pirar e achar que Jungkook não suportava meu trabalho ou minha pessoa, eu fazia de tudo para estar ocupada quando tinha que lidar com ele, muitas vezes passando o trabalho para minha prima. Esta por sua vez, entendeu em poucos dias o que eu fazia e me forçou a parar com aquela atitude que, segundo ela, era infantil e improdutiva.
Ela estava certa? Sim.
Eu fiquei menos chateada? Nem fodendo.
Quer dizer, não custava nada trocarmos algumas tarefas apenas para tornar o ambiente mais confortável, mas não; Hyun-mee queria ver o circo pegando fogo.
Tá, tudo bem, talvez eu estivesse exagerando, mas a verdade era clara como água: se por um lado Jungkook tinha vergonha de gente nova, eu tinha uma mega insegurança com meu trabalho, ainda que fizesse tudo direito. Então as coisas não ficavam exatamente fluidas, ainda que respeitosas. Além disso, passei a desenvolver uma vergonha dele por ser tão lindo.
Sim, é isso aí.
Antes eu ficava nervosa porque era ele, e aí tudo se agravou porque passei a reparar na beleza do garoto. Resultado? Eu ficava bem idiota toda vez que estávamos por perto, e foi difícil me acostumar com a presença e o charme do Maknae. Era ridículo porque eu literalmente gaguejei nas primeiras vezes – mesmo estando relativamente acostumada a lidar com idols. Mas esse nervosinho só acontecia com o caçula. E porra, eu me sentia muito boba, sério. Mas ao treinar (e muito!) na frente do espelho, as palavras foram ficando mais naturais, e eu parei de gaguejar ou ter pequenos tremores nas mãos quando precisava fazer algo que envolvia Jungkook.
Além disso, após um tempo vendo aquela carinha diariamente, passei a dominar a arte do frio na barriga e fingir plenitude. Entretanto, Jungkook seguia da mesma maneira de sempre. Quando eu precisava lhe dirigir a palavra, ele me olhava com aquela cara receosa, e eu tinha que respirar umas duas ou três vezes para não rir, ao lembrar do meme “Jungshook” por sempre parecer assustado ou chocado com algo – e eu preciso agradecer a Hyun-mee, pois foi a mesma que me apresentou a pérola “memística”, me ajudando a lidar com a situação de forma leve.
Apesar da graça inevitável, eu conseguia dar a volta por cima e me comunicava da melhor maneira possível, tentando respeitar seu tempo e parecer amigável a seus olhos. Então, estávamos progredindo. Eu acho.
Virei chacota por causa dessa situação; toda vez que conversava com pelo telefone, ela fazia questão de me zoar.
— Tá gaguejando menos, amiga? — ela perguntou rindo.
— Eu tô me saindo bem melhor, tá? — resmunguei enquanto escovava os dentes. Estava prestes a dormir, enquanto ela estava prestes a almoçar.
— Eu me amarro em ver você toda nervosinha por causa do boyzinho.
— Queria ver você no meu lugar! Trabalhar com gente importante e bonita! A gente não estava acostumava com isso na época de escola não, viu?
soltou uma gargalhada de afastar o ouvido do celular.
— É, bem. Quem sabe o destino não me traz ventos bons? A companhia tá fechando uns bons contratos aí! — Sorri com aquela notícia, e lavei minha boca antes de responder.
— Sério? Como é que foi isso? — indaguei, limpando meu rosto e saindo do banheiro, indo em direção ao quarto e me tacando na cama.
— Ah, estávamos passando por maus bocados, você sabe. O acidente com o professor, essas coisas. Mas ele conseguiu se recuperar em tempo recorde e vamos participar de um torneio em breve! Além de fazer umas pontinhas na novela das sete.
— Caraca, sério? Aquela nova que vai estrear mês que vem? — Minha voz saiu animada, e eu me sentia feliz e saudosa com aquela notícia.
— Essa mesma! Estamos treinando bastante, porque tem muito contexto de dança, e enfim. Trabalho não vai faltar. — Suspirei sorrindo, olhando pra parede, com a foto da Companhia de dança. A peguei em minhas mãos e fiquei olhando, sentindo o coração apertar.
— Saudade de vocês...
— Ah, ... Você é insubstituível, sabe disso né? Caso dê alguma merda aí, ou você desista dessa correria de staff, sabe que seu lugar está aqui conosco, né? Bem guardadinho.
— Você sabe como me fazer sentir bem, né? Morro de saudades de dançar... — comentei com um sorriso triste.
— Você não tem dançado por aí? Sei lá, em boate, ou até mesmo em casa, relembrando algumas coreografias...
— Nada, amiga. Tem sido uma correria só, como você bem disse. O máximo de dança que me aproximo, é ver os garotos ensaiando.
— Deve ser incrível, né?
— Pô, você nem imagina. A equipe dele é demais. O coreógrafo arrasa muito! Já perdi alguns minutos só babando nas performances ensaiadas.
— Imagina ao vivo! — comentou sonhadora, e eu ri concordando.
— Deve ser incrível mesmo...
— Ah amiga, pede uma vaga para dançar! Você tem talento, poxa! — ela comentou com a voz engraçada, e eu ri, devolvendo a foto pro lugar.
— Deixa de bobeira, mulher. Sabe que minha parada agora é outra. Dança é uma eterna paixão, mas ficou no passado...
— Quem sabe um dia você fica menos teimosa e percebe que não dá pra excluir a dança assim, né? — Eu ri da audácia dela e dei de ombros.
— Quem sabe, né? Bom, preciso ir. Amanhã acordo cedo, você sabe...
— Nada novo sob o sol, não é mesmo?
— Exatamente!
Rimos juntas, e nos despedimos. Finalizei a ligação, coloquei o alarme acionado, e bloqueei o celular. Não consegui pregar os olhos de primeira, mas fiquei pensando no que falou. Às vezes me perguntava se havia feito a escolha certa...
Sem perceber, o sono chegou sorrateiro como uma manobra delicada, e meus olhos se fecharam, me entregando uma noite de sono bom.
Acordei no dia seguinte e nem parecia que tinha dormido; o cansaço era real, e a pressa na rotina, também. Os meninos estavam com uma agenda bem cheia naquele dia, e no final do cronograma, terminariam com o ensaio das performances, o que me deu uma certa pena deles, já que era o que mais exigia fisicamente do grupo.
Entretanto, para minha total surpresa, eles aderiram de bom agrado, conseguindo realizar tudo com muita dedicação e afinco, me deixando inspirada para no mínimo permanecer forte e determinada no batente, assim como eles eram.
Com uma diferença de múltiplos zeros na conta bancária? Sim, mas a gente pode pular essa parte.
De toda forma, passavam das 21 horas quando o ensaio dos meninos acabou. Eu estava separando as refeições junto com Hyun-mee ao longo da mesa, quando RM, V e Jin chegaram. Eles vieram a passos largos e nos cumprimentaram com pressa, logo se sentando para devorar o jantar.
— Muita fome, meninos? — Minha prima perguntou e os três murmuraram que sim.
— Hoje o dia foi puxado — RM confessou depois de mastigar, e Jin concordou com veemência.
— Eu até tinha pensado em fazer mais um episódio de “Eat Jin”, mas sem condições!
— Eu tô tão cansado que mal tenho forças para mastigar... — V comentou com a voz exausta e eu fiz uma careta de dor ao vê-los assim.
— A boa notícia é que amanhã o ensaio começará um pouco mais tarde, então aproveitem para comer com calma e descansem bem. — Tentei sorrir e animá-los, e V fez uma cara de “pelo menos isso né?”
— Nada de redes sociais por hoje, certo? — Hyun-mee acrescentou com a voz mais carinhosa possível, e os meninos nos olharam de forma gentil, concordando conosco.
Mais dez minutos se passaram, até que J-Hope e Jimin apareceram, ambos com toalhas nos ombros e o ar fresco de quem acaba de tomar banho.
— Como vocês conseguem comer com tanto suor no corpo? — J-Hope perguntou rindo enquanto eu entregava sua refeição. — Obrigado, .
— Não há de quê! — Respondi sorridente. Ele era definitivamente a esperança do grupo, o solzinho que seguia brilhando. Mesmo cansado, ainda se empenhava em tornar o ambiente mais leve e ainda me chamava pelo apelido. Segundo ele, eu tinha mais cara de do que , e eu achei graça daquilo.
— Eu estava faminto! — Jin comentou de boca cheia e Jimin riu da cena enquanto enxugava o cabelo.
— Conte uma novidade, hyung.
— Onde está Suga? — V perguntou ao encarar os meninos.
— Foi direto pra casa... Estava caindo pelas tabelas de exaustão. — J-Hope respondeu dando de ombros e Jimin suspirou ao abrir a embalagem da comida.
— Coisa maravilhosa... — ele disse com as mãos unidas e um sorriso que me fez rir.
— Vocês já comeram, meninas? Estão servidas? — J-Hope perguntou depois de abocanhar uma porção.
— Estamos bem, J-Hope. Obrigada! — Hyun-mee respondeu gentil e ele fez careta.
— Não sabem o que estão perdendo! — E voltou a atacar.
Minha prima estava separando a refeição de Suga para viagem quando notei a ausência do Maknae.
— E Jungkook, já foi também? — Perguntei curiosa e RM me respondeu.
— Ele está treinando uma parte específica da coreografia de Begin. Está tendo dificuldades...
— É uma parte que ele sempre confunde do refrão principal e o final, não é? — Jimin perguntou com a feição atenta, e J-Hope confirmou com um bico nos lábios.
— Eu avisei que o ajudava amanhã, mas ele é cabeça-dura demais e insistiu que pegaria tudo hoje... — explicou, dando de ombros.
O silêncio dos meninos comendo e Hyun-mee arrumando as coisas de Suga me fez sentir um aperto no peito. O caçula estava se esforçando demais. Os ensaios tinham começado às 8 da manhã, meu turno começou às 10h e eles estavam trabalhando incansavelmente desde então! Até eu, que havia chegado depois, estava fazendo hora-extra! Imagine o Maknae?
O relógio marcava 21:27 quando os meninos terminaram de comer. Começaram a se aprontar para ir embora enquanto RM foi até a sala de dança, chamar Jungkook. Eu estava separando a refeição dele para viagem quando o líder apareceu cabisbaixo.
— E então? — Jin perguntou com a mochila nas costas.
— Ele vai ficar. Tentei convencê-lo a ir conosco, até pedi que embalassem sua refeição, mas ele bateu o pé. Como estou cansado demais, não insisti tanto, mas consegui fazê-lo prometer que estaria em casa até às 22:30h. Espero que ele cumpra isso.
Respirei fundo e cocei a nuca, sentindo um incômodo ao ouvir aquilo. Até às 22:30h? Seriam praticamente 15 horas trabalhando? Aquilo era surreal.
— Pode deixar, meninos. Eu fico aqui e asseguro que ele cumpra a promessa — Falei, chamando a atenção da galera.
— É sério? — Jimin perguntou com a cara surpresa e eu afirmei com segurança.
— Dou a minha palavra. Inclusive, vou convencê-lo a comer seu jantar até limpar o prato. Contem comigo! — respondi tentando trazer um pouco de graça para a situação. Afinal de contas, eles estavam tentando disfarçar, mas estavam preocupados com Jungkook e não era para menos.
— Não pense que isso passará batido, hein? Vou dizer à Hye-jun que você está fazendo hora extra sem ser paga — RM disse com um sorriso sincero e eu ri dando de ombros.
— Fazer o que se vocês me dão trabalho... Literalmente!
Os meninos riram e antes de ir embora, J-Hope me agradeceu pelo cuidado com o caçula, também me convencendo a não tardar a ir embora.
Hyun-mee entregou a refeição de Suga para J-Hope e acenou para todos, esperando que fossem embora até se virar para mim com a sobrancelha arqueada.
— É sério isso? Você vai ficar?
— Vou sim. Esse garoto precisa se alimentar, precisa descansar! Acho que falta uma pegada feminina para dar um jeito nele — respondi me espreguiçando.
— Uma pegada feminina? — ela perguntou com a cara sugestiva e eu rolei os olhos.
— Não me refiro a isso. Você sabe, uma pegada vovó Kang?
— Aí eu vi vantagem! — exclamou sorridente. — Tem certeza? Amanhã precisamos chegar mais cedo que eles.
— Eu dou conta. Pode ir para casa tranquila. — Sorri confiante e fiz um “V” com os dedos.
— Então pega um uber quando sair daqui, beleza? — Ela disse indo em direção à ala dos funcionários.
— Deixa comigo.
— E não faça nada que eu faria! — Ela brincou dando língua e eu dei um dedo do meio para si, que riu e sumiu pela porta.
Suspirei ao me virar para mesa, e peguei a única refeição restante. Fui até a geladeira, peguei um chá gelado sabor pêssego e me direcionei até a sala de dança. Se eu dissesse que não estava com um rinoceronte pulando na boca do estômago, eu estaria mentindo, já que teria de lidar diretamente com Jungkook num contexto em que estávamos à sós.
E bem, aquilo me trazia pensamentos pouco puritanos. Quer dizer, fazia um tempo que eu não saía com ninguém e nos últimos períodos, minha vida se resumia a trabalho e casos furtivos. Tinha até um roadie da banda que era super gatinho e me dava condição, mas estávamos sempre com os horários apertados para sequer tomar uma cerveja em nossos intervalos, que não se encontravam de jeito algum. Também, teríamos a turnê inteira para isso, então eu não estava lá muito preocupada com a minha vida sexual; estava focada em fazer a parte profissional dar certo porque é aquilo: melhor sofrer de amor com um teto acima de nossas cabeças do que debaixo da ponte.
Estava tão entretida pensando em como seria o ritmo da turnê, que quando dei por mim, estava diante da porta da sala de dança. Respirei fundo umas duas vezes antes de bater na mesma, mas não obtive resposta. Bati de novo, com mais firmeza, e dado o som que vinha de dentro, Jungkook deveria estar ensaiando sem sequer ouvir o chamado. Suspirei, pensando que provavelmente teria que interrompê-lo.
Segurei a refeição com uma mão e pus o chá gelado entre meu queixo e meu peito, apoiando-o ali enquanto a mão livre alcançava a maçaneta da porta. Vagarosamente a abri, colocando minha cabeça para dentro.
Peguei o chá debaixo de meu queixo e puxei o ar para falar, mas quando bati os olhos em Jungkook, eu senti a ausência das palavras, e todo discurso que ensaiei... foi por água abaixo.
Ele estava dançando e interpretando divinamente; Begin materializava-se a cada movimento de mãos, braços e pernas sincronizados. As feições e gestos eram precisas e era visível toda entrega do Maknae na performance.
Eu reparava na sua dedicação e em como os ângulos eram perfeitos, totalmente sincronizados com a batida da música. Até os momentos de interpretação, no qual não haviam movimentos fixos em si, Jungkook executava com visível perfeição. Eu estava completamente absorta naquela pequena demonstração, pensando em como ele era capaz de fazer algo tão cirurgicamente bem, mesmo depois de exaustivas horas de trabalho.
Num dado momento, ele fez um movimento rápido e brusco, e eu prendi o ar ao prever o que aconteceu um segundo depois: ele havia desequilibrado e caiu no chão, segurando o tornozelo e reclamando de dor. Aquele movimento exigiu mais de si, e só de ver o ângulo que o pé fez, acabei prendendo a respiração e me assustando por ele, deixando a garrafa do chá gelado cair no chão.
Instantaneamente tive seus olhos sobre mim.
E foi ali que eu percebi que estava bisbilhotando o ensaio dele igual uma paparazzi, sendo pega totalmente no flagra. Não dava para fugir, muito menos diante da situação na qual ele se encontrava, sendo a única opção, colocar a vergonha de lado, e ir ajudá-lo.
Céus, era tudo que eu precisava: ficar de cara com o rapaz que provavelmente teria mais medo de mim agora, me achando a maluca voyer.
Se estivesse presente naquele exato momento, estaria rindo de mim e dando tapinhas no ombro, dizendo “É, amiga. Parece que você se deu bem”.
“Só que não.”, eu diria. Que mico!

Capítulo III - Reflection

Abri e fechei a boca várias vezes enquanto ele me olhava com um misto de surpresa e dor. Abanei a cabeça e peguei o chá gelado do chão, me apressando em sua direção. Ele me acompanhou com o olhar, ainda sem entender. Eu simplesmente deixei a refeição em cima de uma cadeira próxima ao espelho e levei a garrafa até si, ajoelhando enquanto o orientava.
— Você torceu? — Eu perguntei olhando dele para o tornozelo, e ele demorou a responder, assumindo o perfil Jungshook.
— Eu não sei, eu acho que não... Mas está doendo — ele explicou, sem evitar a feição de dor, e eu respirei fundo.
— Certo, pressione isso no local. E-Eu já volto! — Lhe entreguei a garrafa gelada e saí correndo em direção à minha mochila, na sala dos funcionários. Corri até ela e procurei a bisnaga que me acompanhava dia e noite, devido as dores nos ombros, de tensão. Voltei em tempo-recorde até a sala, e me ajoelhei novamente próximo à Jungkook, que me olhava confuso.
— O que vai fazer? — sua voz saiu engraçada e eu respondi enquanto desatarraxava a pomada, ainda ofegante.
— Vou passar um relaxante muscular no seu tornozelo e massageá-lo — expliquei sem fazer contato visual, apenas colocando uma quantidade apropriada para o tratamento. Jungkook afastou a mão e subiu levemente a calça, expondo o tornozelo que aparentemente, não apresentava nada de incomum. Ele esticou a perna e eu alcancei a região afetada, aplicando a pomada em movimentos circulares e precisos. Jungkook segurou a respiração de início, mas aos poucos senti seu corpo relaxar ao meu lado.
— Está doendo muito? — perguntei, tentando quebrar o gelo. Estava sentindo seu olhar sobre mim e eu estava ficando sem graça de perceber isso, mesmo mirando diretamente no tornozelo.
— Está melhorando... Fica quente e gelado, dá um alívio. O que é isso? — Ele perguntou com a cabeça levemente pro lado.
— Canela de velho — respondi no automático e ele me olhou com a cara mais engraçada de Jungshook que eu já tinha visto na vida. Eu ri inevitavelmente e ele sorriu sem graça.
— Canela de velho?
— É como chamam na minha terra natal... É um tipo de planta, como a arnica, que ajuda nesses tipos de situação. Também serve para artrose, artrite, e por aí vai... — expliquei, sentindo clima amenizar e meus ombros deram uma relaxada, enquanto seguia nos meus “primeiros socorros”.
— Ah sim. Sua terra natal é o Brasil, né? — ele perguntou e eu estava massageando a parte lateral do tornozelo, quando o encarei surpresa.
— É sim. — E continuei olhando-o como quem quer saber de onde ele tirou aquela informação. Parece que ficou óbvio, e ele se apressou em responder.
— J-Hope comentou comigo. Gostamos muito de lá! — ele disse com um sorriso ameno e eu repeti seus gestos, voltando a olhar seu tornozelo.
— É um bom lugar... — respondi, me perguntando em que contexto J-Hope comentou com Jungkook sobre minha nacionalidade.
— Faz muito tempo que não visita? — ele indagou, curioso.
— Hm, faz uns dois anos desde a última vez... As passagens são muito caras, então só é possível com muito planejamento e organização financeira. Essa parte final ainda estou aprendendo, sabe? — comentei com uma careta e ele riu, demonstrando os dentes alinhados que eu tanto gostava de ver.
— Nossa turnê vai passar por lá, você já reparou? — A animação em sua voz foi tomando espaço e eu sorri, me sentindo contagiada.
— Sim! Já falei com minha família para separar o dinheiro dos ingressos! — respondi risonha e ele franziu o cenho, sorridente.
— Besteira! A gente consegue acesso para eles.
— Sério? — eu perguntei em choque e ele riu da minha cara. Provavelmente eu dei uma de Jungshook.
— Acho que é o mínimo que posso fazer por te obrigar a ficar além do seu horário... — ele coçou a ponta do nariz e eu sorri mais calma.
— Ah, tudo bem. Você também está além do seu horário. É por isso que vim trazer seu jantar — comentei, apontando com a cabeça para a marmita em cima da cadeira.
— Oh, então não estava me espionando? — ele indagou com um meio sorriso e eu senti meu rosto queimar em vergonha.
— N-Não! Eu não estava! Por favor, não me entenda mal! E-Eu... — E apontei para o chá gelado e para refeição, enquanto ele ria mais ainda da minha cara. Desgraçado lindo do caralho.
— Estou brincando! Deu para entender seu objetivo... — ele comentou, abrindo a garrafa da bebida e dando um gole considerável. Eu suspirei e voltei a massagear seu tornozelo, e admito que pesei um pouco mais a mão por me sentir sem graça. Logo pude ouvir Jungkook puxando o ar pela boca, como quem censura um gemido de dor e eu o encarei preocupada.
— É aqui que dói? — Perguntei ao movimentar os dedos na lateral do tornozelo e ele prendeu a respiração, afirmando apenas com um aceno. Respirei fundo e coloquei mais um pouco da pomada em minhas mãos, fazendo movimentos mais precisos na área.
— Onde você aprendeu isso? — ele perguntou depois de um tempo e eu levantei a cabeça para encará-lo, percebendo que nossos rostos estavam mais próximos do que antes. Notei que isso era devido ao fato dele ter apoiado a cabeça no braço que pairava em cima do joelho. Engoli a seco e dei de ombros, voltando a olhar para baixo.
— Tive uma torção severa no tornozelo esquerdo quando mais nova... Minha vida era fisioterapia, gelo e essas pomadas. Então aprendi alguns movimentos de automassagem para aliviar a dor em momentos difíceis.
— Você ainda sente dor? — Ele me encarou com pena e eu concordei com um sorriso sem mostrar os dentes.
— Dias frios são os piores. Eu quase rompi um dos ligamentos! Mas, consigo fazer tudo normal, felizmente.
— Hm... Entendi. Menos mal então.
— É...
Ficamos novamente num silêncio, até que eu terminei a massagem, soltando seu tornozelo com zelo e abaixando a barra da calça que estava na altura da canela. Mordi o canto da boca, ponderando se dizia o que estava em minha mente. Lembrei da preocupação dos meninos e suspirei... Alguém tinha que conscientizar o Maknae, ainda mais depois daquela torção, que provavelmente foi ocasionada por esforço excessivo em meio à exaustão.
Coloquei minhas mãos em meu colo e umedeci os lábios, encarando Jungkook receosa. Ele me olhou tentando entender o que eu queria fazer. Bufei comigo mesma, pensando que novamente estava me perdendo na beleza dele – e eu não estava ali para reparar nisso! Foco, !
— Sabe... você precisa pegar mais leve — falei depois de um tempo de silêncio. Ele me encarou com o cenho franzido e eu o olhei cautelosa. — Completar praticamente 15 horas de trabalho é exigir muito de si, não acha? — Eu poderia jurar que tinha me tornado a própria vovó Kang com aquele tom de voz, que não era nada rígido, mas pontual e sério.
— Eu preciso, — ele respondeu depois de um tempo com uma firmeza pouco vista de sua parte, e nem sequer se enrolou ao dizer meu nome. Um lado meu ficou feliz porque ele não precisou ler meu crachá. O outro tremeu na base pela pontuação quase irredutível em sua voz.
Acenei com a cabeça, prendendo meus lábios dentro da boca. O garoto era tinhoso, mas eu era mais.
— Eu não sou ninguém para dizer como você deve trabalhar, Jungkook. Não me entenda mal, eu não sei a pressão que sofre para atingir a perfeição, eu posso apenas imaginar. Mas meu trabalho também consiste em garantir o seu bem estar... e dos meninos. Foi por isso que vim trazer seu jantar. Você não come nada desde meio-dia... — Minha voz saiu mais baixa do que de costume, e eu alternava os olhares entre ele e o tornozelo, enquanto gesticulava com calma.
Ele suspirou depois de um tempo, e encarou o chão, resignado.
— Eu sei. É só que... Às vezes, é mais forte que eu, sabe? São coisas bobas, detalhes, mas que fazem toda a diferença! E eu simplesmente não consigo abrir mão até tudo estar perfeito. Esse ímpeto de querer acertar...
— Acertar sempre? É, eu sei... — respondi sorrindo sem humor e ele me encarou curioso.
— Sabe?
— Claro! Seria uma virginiana de araque se não soubesse — comentei rindo e ele arregalou levemente os olhos.
— Você também é do signo de virgem? — Acenei positivamente e ele continuou. — Qual dia?
— Primeiro de setembro — falei sem graça, já sabendo que ele ficaria surpreso, por ser o mesmo dia de seu aniversário.
— Tá brincando! Sério? É o meu também! — ele exclamou sorridente e eu imitei seus gestos, concordando.
— Eu sei, somos xarás de aniversário. — Ele riu e logo voltou a ser o Jungkook que conhecia.
— Quantos anos você tem? — ele perguntou e eu sorri sem mostrar os dentes.
— Tenho 23. Ou melhor, 24, com a idade coreana — falei, me lembrando deste detalhe. Às vezes eu dava cada escorregada.
— Uou! Sério? — ele perguntou surpreso e eu afirmei com a cabeça, achando graça da sua reação.
Quando dei por mim, Jungkook, me encarou por um momento e em seguida, fez uma saudação em respeito, por eu ser mais velha. Fiquei tão sem graça dizendo que não precisava daquilo, sorrindo amarelo. Não soube o que fazer além de repetir o ato respeitoso, e ele riu da minha timidez e dos meus movimentos rápidos, demonstrando desespero.
— Você não sabe lidar muito bem com isso, né? — Jungkook me perguntou com a cara desconfiada e eu sorri, dando de ombros e negando com a cabeça.
— Não mesmo! Apesar de ter herança coreana, eu sou inegavelmente brasileira, e lá não temos esse costume. Às vezes é meio estranho para mim, mesmo depois de anos aqui em Seoul. Mas preciso acertar isso. Isso e tantas outras coisas, se quiser continuar no ramo — respondi com uma cara de “culpada” e ele concordou, me olhando como quem admira uma paisagem.
— É seu primeiro emprego? — ele perguntou com uma cara engraçada e eu mordisquei o lábio inferior, concordando.
— Oficialmente, sim. Está muito visível meu nervosismo? — indaguei com a voz baixa e ele deu uma pequena risada, acenando com a cabeça.
— Um pouco. Digamos que você não consegue disfarçar muito a preocupação.
— É, bem... Eu fico meio assim quando estou sob pressão. — Ele me olhou por um tempo e assumiu uma postura acolhedora.
— Olha, fica tranquila. Eu sei que parece um bicho de sete cabeças, e talvez em algum sentido seja, mas não se esqueça: você está aqui por um bom motivo... Não seria contratada se realmente não fosse capaz. Além do mais, somos pessoas normais que precisam do seu trabalho para que o nosso dê certo. Então na verdade, somos gratos por todo seu empenho. Não tenho dúvidas de que você vai se sair bem.
Eu fiquei levemente chocada com as palavras acolhedoras de Jungkook, sem exatamente saber como reagir além de sorrir igual uma idiota.
— Eu nem sei como agradecer. De verdade, é muito importante para mim ouvir isso. Vou guardar com carinho tudo que me disse e espero estar à altura de vocês — respondi o que sentia dentro de mim, e Jungkook deu um sorriso aberto, digno de um idol.
— É, bem. Eu repito o que disseram para mim quando estávamos no começo da carreira. E apesar de me sentir um eterno novato toda vez que subo num palco, é importante lembrarmos que estamos ali por um motivo. No meu caso, não só pela minha capacidade, mas porque pessoas como você fazem o seu trabalho... e além, né. — Ele apontou com o queixo para seu tornozelo, enquanto prendia uma risada e eu ri sem graça.
— É... Acho que você tem razão. Se sentindo melhor? — perguntei e apontei para o machucado, e em resposta, ele esticou a perna, ergueu levemente e fez movimentos rotativos com o pé.
— Ainda dói, mas bem menos! Vamos providenciar caixas de canela de velho para a turnê — e respondeu com um sorriso galanteador e eu gargalhei de fechar os olhos.
— Bom, eu prometi ao RM que faria você comer todo seu jantar, até limpar o prato. São 22:10. Que tal me ajudar a cumprir a promessa? — Ele me encarou com a sobrancelha arqueada e um mínimo sorriso. Deu de ombros e concordou.
— Certo, mas com uma condição.
— Qual? — Indaguei curiosa.
— Que você coma também.
— O-O que? Não, que isso! Logo mais estarei em casa, não precisa.
— Por favor! Prometo levar aquela marmita para casa e não estragá-la, mas agora podemos comer algo fresco e gostoso! E, bem... É uma forma de agradecimento. Que tal? — Eu olhei com receio para si, e engoli com dificuldade.
— E-Eu não sei, Jungkook...
— A não ser que você não queira minha companhia... — ele disse fazendo cara de cão sem dono e eu me apressei em explicar.
— Não é isso! É só que... Você sabe. Eu não sei o que diriam caso nos vissem. Imagina se tem algum paparazzi, ou algo do tipo? Já imaginou a capa do jornal? “Staff brasileira abusada janta com novinho do BTS”. Imagina o caos? — eu falei sem exatamente filtrar e ele me olhou por cinco segundos antes de cair na risada. — O que...
— Novinho do BTS? Essa eu nunca ouvi. Então é assim que as b-armys me chamam? — ele perguntou com graça no olhar e eu suspirei prendendo o riso, querendo colocar minha cara debaixo da terra.
— O caçula, o mais novo... Você entendeu. O fato é: não seria visto com bons olhos — expliquei mais formalmente e ele continuou sorrindo de maneira sacana enquanto me encarava. Ficamos assim durante um tempo e eu sorri sem graça — O que foi?
— Estava pensando como reagiria se eu dissesse que a intenção era pedir delivery — ele falou dando de ombros e eu pisquei os olhos com a boca entreaberta. Jungkook começou a rir e eu sorri sem graça, sentindo meu rosto quente.
— Meu Deus, a vergonha... — comentei ainda sem acreditar no pequeno mico, e ele riu ainda mais com a minha fala.
— Depois dessa você vai ser obrigada a aceitar, — ele disse de braços cruzados e eu olhei para o relógio, coçando a nuca. Fui cercada pelo Maknae e ponderei por uns minutos antes de respondê-lo.
— Vamos fazer o seguinte? Eu aceito, mas outro dia. Você vai tomar um banho, vai levar sua refeição e comer em casa, escovar os dentes, e dormir. Amanhã o ensaio começa mais tarde, então aproveite para descansar. Combinado? — sugeri para si, e ele semicerrou os olhos brevemente, com uma careta no rosto.
— Você falou como uma Noona. Assustador. — Eu ri disso e percebi que sua feição suavizou.
— Junte o sol em virgem e a criação da vovó Kang, Jungkook. Estou até pegando leve com você — respondi levantando do chão e oferecendo a mão para que ele se levantasse.
— Imagine quando pegar pesado — ele respondeu no mesmo momento que nossas mãos se encontraram, e eu o ajudei a levantar.
Aquela frase na minha mente soou outra coisa, e eu precisei respirar fundo para não reparar nos traços do seu corpo diante de mim. Ele parecia não ter reparado no sentido dúbio de suas palavras, e apenas se espreguiçava como se eu não estivesse ali. Perdi alguns segundos tentando afastar meus pensamentos quentes e dizer alguma coisa que não evidenciasse minha cara sedenta pelo cujo dito.
— Hm, então... Não deixe de solicitar uma revisão médica para esse pé, ok?
— Sim senhora! — ele respondeu batendo continência e eu ri.
— Bom, então vou indo. Precisa de mais alguma coisa?
— Sim.
— O quê?
— Que você me dê o endereço de sua casa.
— Como é? — eu perguntei com o cenho franzido e ele fez cara de choque, arregalando os olhos e erguendo as mãos.
— N-Não me entenda mal! Nossa, essa frase ficou realmente mal colocada. — E engoliu a seco, respirando fundo e começando novamente. — Aceita uma carona, pelo menos? — e sorriu amarelo. Eu fiquei muito sem graça e neguei com a cabeça.
— Não, que isso! Você não precisa, e na verdade, nem é bom forçar seu pé para dirigir. Eu posso chamar um uber para você.
— E como você vai embora? — ele perguntou com o cenho franzido. Eu dei de ombros.
— Uber. — Ele suspirou e deu de ombros.
— Então: vou tomar um banho rápido, você me aguarda no saguão e eu te dou uma carona. Combinado?
— Você não vai dirig— eu estava respondendo quando fui interrompida pelo Maknae em gesto de rendição.
— De uber! De uber!
. Olhei para seu rosto, ponderando a possibilidade. Seria bom economizar a grana do uber e chegar bem em casa, mas não queria perder meu emprego.
Eu o olhei incerta e ele sorriu sem graça.
— Não contarei a ninguém, prometo. — O maknae pareceu ter lido minha mente e gesticulou como se mantivesse um segredo.
— Vai deixar o carro aqui? — ele concordou com um aceno e eu suspirei. — E se algum fã te vir? E se o motorista for fã? — O olhei atenta, e ele coçou a nuca, dando de ombros.
— Daremos um jeito, vai por mim.
Eu arqueei a sobrancelha, achando aquilo arriscado. Não poderia expô-lo desse jeito, ao tempo que ele não poderia dirigir com aquele pé; estava mancando levemente, e eu sabia que disfarçava a dor no local.
Eu não acredito que estava prestes a propor aquilo, mas contrariando tudo, eu propus:
— Se importa se eu dirigir seu carro? — perguntei de braços cruzados e ele levantou a sobrancelha. — Eu vou te deixar em casa e de lá pego um uber. Tá certo?
— Não precis—
— Por favor? Eu me sinto mais confortável assim, isso não prejudica nenhuma das partes e te preserva de imprevistos também.
Foi a vez do Maknae suspirar. Ele sorriu de lado e acenou com a cabeça.
— Ok então. Você venceu.
— Os Kangs sempre vencem. — Pisquei o olho marota e ele soltou uma risadinha.
— Bom, eu vou tomar o banho. Te encontro no lounge?
— Sim! Consegue caminhar até lá e tomar o banho em pé? — Vi que o rosto dele corou totalmente, fazendo com que ele respondesse rápido.
— Sim, sim! Dá para conciliar. — Eu estranhei o nervosismo, mas sorri gentilmente.
— Certo, qualquer coisa grita! Vou pegar minhas coisas na sala de funcionários.
Ele sorriu com os dentes à vista, e foi em direção ao banheiro com sua mala. Eu estava buscando minha mochila e seguindo para o local de encontro, quando me toquei que a minha pergunta poderia ter sido interpretada de outra forma.
Será que ele pensou que eu queria dar banho nele?
Não seria uma mentira, mas não era meu foco quando demonstrei preocupação.
Dei um tapa na minha testa, pensando em quantos atos falhos eu era capaz de proferir quando ficava nervosa – especialmente na presença de Jungkook.
Estava já aguardando no lounge, mexendo as penas ansiosamente ao pensar numa maneira de fingir que não tinha feito uma pergunta idiota, quando ouvi passos que chamaram a minha atenção.
— Vamos? — ele perguntou, me assustando com sua aparição depois de aproximadamente quinze minutos. Meu susto se tornou babação de ovo quando eu o encarei tão impecável diante de mim. Seu cabelo estava molhado, e ele carregava a mala da ADIDAS preta, com a refeição nas mãos.
Estava com um chapéu bucket preto, uma blusa verde musgo de mangas, uma jaqueta preta, calça jeans cinza e um vans preto nos pés.
A perfeição, meu pai.
Me senti mal por estar com o mesmo uniforme de sempre; calça jeans preta, blusa preta de staff, all-star clássico e o crachá.
Frustrada, acenei com a cabeça e fomos andando para o estacionamento subterrâneo.
Entramos no carro espaçonave, já que aquilo deveria ter que pagar IPTU ao invés de IPVA né? Eu jurava que cabia uma família inteira ali. Não achei surpresa a cor preta do carro, mas fiquei rindo que o painel tinha detalhes luminosos vermelhos, e de alguma forma me lembravam “Velozes e Furiosos”.
— O que foi? — Ele sorriu ao me ver rindo e eu abanei a cabeça.
— Nada, estou só... Espantada com a grandeza desse carro.
— Ele é incrível, né? — ele perguntou retoricamente, acariciando o painel, e eu tive que prender mais uma risada.
— Claro — respondi sem graça e ele nem reparou, olhando com carinho para seu automóvel.
— Preciso que me informe o endereço — comentei, colocando o cinto e ligando o carro. Ele sorriu e acionou no painel, escolhendo a opção que indicava “casa”. Rapidamente, o trajeto se fez; não era muito distante dali, e conforme ajeitei os retrovisores e o banco, prendi o cabelo em um coque, me declarando apta para dirigir.
— Então... vamos! — Sorri animada e Jungkook me olhava curioso, com um pequeno sorriso, apenas acenando em resposta.
Passamos os próximos vinte minutos comentando sobre como eu havia parado em Seoul. Expliquei por alto minha história, de vez em quando sendo interrompida com algumas piadas de Jungkook e achando aquilo o máximo. Ele era totalmente diferente do que eu pensava, ou do que tinha conhecido nos primeiros dias de staff. A timidez já não fazia tanta presença e ele parecia sentir-se à vontade em minha companhia.
Quando dei por mim, estava entrando na garagem de Jungkook, estacionando o carro logo em seguida.
— Olha, foi rápido! Você é uma boa motorista! — ele exclamou com um meio sorriso e eu dei de ombros.
“O motorista tá de parabéns, ele foi e voltou, e não matou ninguém!” — Eu tentei cantarolar a costumeira canção de passeio da escola, só que em versão coreana, falhando miseravelmente. Jungkook me olhava com um misto de graça e estranheza, e eu abanei a mão no ar. — Esquece, tradições brasileiras. Explico outro dia.
— Eu vou cobrar — ele respondeu risonho, e eu suspirei.
Saímos do carro e eu já puxei o celular, digitando rápido o endereço de casa. Apesar de estar amando conhecê-lo mais a fundo, temia que qualquer um nos visse e aquilo fosse o fim da minha carreira.
Qualquer cuidado era pouco!
— Bom, muito obrigada pela carona, viu? E principalmente, obrigado por cuidar de mim — ele disse simplesmente e eu o encarei sem reação por alguns momentos, dando um sorriso sem graça logo depois.
— Imagina. Estamos aí para o que der e vier. Seu pé vai ficar bem.
— Obrigado, mas... Não é só sobre o pé, entende? Sei que se preocupa com tudo, então... Bem... Hm. — Ele olhou para o carro, apontando para o mesmo, depois para a rua, sem exatamente usar as palavras. Por fim, prendeu os lábios e os umedeceu lentamente, enquanto eu o encarava em expectativa. — Acho que o que quero dizer é obrigado — ele respondeu com a voz mais grave e curvou o tronco rapidamente, em saudação. Ele estava nitidamente corado e eu sorri tímida com sua gratidão. Ficava feliz com o fato dele reparar em meus esforços. Curvei levemente meu tronco e respirei fundo antes de responder.
— É um prazer estar por perto. Obrigada por sua gentileza e por suas palavras... — Eu respondi olhando em seus olhos por um tempo, até que pigarreei e lembrei de respirar, ao ouvir o celular vibrar. — Opa, parece que chegou. Está do outro lado da rua!
— Nossa, uber a jato! — ele disse enquanto sorria e eu concordei com um aceno.
— Bom, é isso. Até amanhã, Jungkook. Boa noite.
— Boa noite, . Descanse!
Senti minhas pernas bambearem enquanto ele mantinha os olhos em mim, mas acenei com a cabeça e dei um tchau com a mão, me virando para atravessar a rua e entrar no carro. Enquanto eu caminhava, uma parte de mim queria absurdamente virar para trás para ver se ele ainda estava lá, me olhando. Mas assim que fechei a porta do carro, percebi a silhueta de Jungkook ainda pairando em pé, diante da sua entrada.
Senti um sorriso brotar no meu rosto, feliz em tirar minha dúvida interna.
Cheguei em casa e graças a Deus percebi que Hyun-mee já estava dormindo, então aproveitei para beber uma água sem precisar disfarçar a cara de felicidade. Eu tinha suado todo líquido que ingeri naquele dia, tudo por causa do meu sistema nervoso. Talvez eu tivesse motivos o suficiente para aquilo, e não me surpreendi em ter matado quase 500 ml de água de uma só vez depois de tanta coisa vivida em pouquíssimo tempo.
Refletindo sobre a conversa que tivemos, pensei no que fiz para Deus para ter a chance de viver algo tão incrível quanto assessorar o BTS e de quebra, fazer amizade com os meninos e com... Jungkook. No fim, percebi que ele estava certo; as coisas não vinham de graça e eu era capaz de fazer um bom trabalho. Um trabalho que eu amava, com pessoas inacreditáveis como os meninos do grupo.
Não se tratava apenas de sorte; tinha sangue, suor e lágrimas, como a própria música já indicava. Mas, sentindo todas as emoções que me perpassavam naquele momento, eu sabia que acima de tudo, havia mágica.
Muita mágica, em sonhos que se tornavam realidade.

Capítulo IV - 21st Century Girl

— Bom dia, flor do dia! — Hyun-mee falou com um sorriso de orelha a orelha enquanto eu corria de um lado para o outro catando meus pertences.
— Dia! — berrei de volta, colocando a blusa dentro dos jeans, ao mesmo tempo que calçava o tênis, toda desajeitada.
— Alguém dormiu mais que a cama? — ela perguntou com a sobrancelha erguida e eu rolei os olhos.
— Eu estava exausta, prima — expliquei sem muitas vontades, mas pela risada irônica de Huyn-mee, eu sabia que ela não iria findar o diálogo tão cedo.
— Dormiu demais ou chegou bem tarde ontem e dormiu quase nada?
Eu estava amarrando o tênis quando dei uma pequena congelada ao ouvir aquilo. Continuei amarrando com mais tranquilidade o cadarço e, após concluir, bati o pé no chão e cruzei os braços. Hyun-mee mantinha um sorriso sacana no rosto.
— Você tá me espionando, sua pirigótica? — comentei com um meio sorriso e ela gargalhou, movendo seu dedo indicador para um lado e para o outro.
— Não vem que não tem! Vai, me conta! Qual o motivo da sua insônia? É o roadie gatinho que a agenda não casava com a sua? — A animação na voz dela era notável, e eu ri, negando com a cabeça.
— Você tem uma mente muito fértil, prima. Faz um favor? Vamos logo se não a gente vai se atrasar de verdade. Só estamos no tempo porque não tomei café... — respondi de maneira evasiva, ajeitando o cabelo enquanto me olhava no espelho. Hyun-mee se aproximou com a testa franzida e me olhou pelo reflexo, visivelmente confusa.
— Era o roadie ou não?
Eu bufei ao ouvir aquilo, enquanto terminava meu coque. Coloquei as argolas pequenas e dei de ombros.
— Você tá fantasiando demais. Eu só cheguei tarde porque fiquei ajudando Jungkook. Ele torceu o pé ontem, acredita? — Olhei para Hyun-mee com o olhar sério e ela cobriu a boca com as mãos, surpresa.
— Mentira! Como foi isso? — Fiz uma careta em resposta e ajeitei a bolsa no ombro.
— Simples, pratique exaustivamente até o corpo não se aguentar em pé. Esse garoto vai dar trabalho... É muito teimoso. Tinha que ver! Enquanto eu passava a canela de velho no tornozelo, o abençoado ainda teve a audácia de reclamar, dizendo que as coisas tinham que ser dessa forma, que tudo precisava sair perfeito e que ele precisava se esforçar, e blá blá blá... Cabeça dura toda vida! — expliquei com a testa franzida, me sentindo irritada ao lembrar da teimosia do Maknae.
— E nenhuma semelhança com você, pelo visto. — Hyun-mee arqueou a sobrancelha e sorriu debochada. Fiquei emburrada com aquilo, pois talvez tivesse um pouquinho de verdade, mas minha prima logo voltou à feição confusa e me interrogou. — Espera, você disse canela de velho?
Nós duas nos olhamos por dois segundos e desatamos a rir. Expliquei rapidamente a situação enquanto saíamos de casa, e Hyun-mee não parava de achar graça.
— Eu queria ter sido uma mosquinha, cara! Imagina a cara dele no meio de uma chuva de cultura brasileira? Céus, essas coisas só acontecem quando eu não estou!
— No caso, ninguém estava né — retruquei enquanto caminhávamos para o ponto de ônibus. — Mas foi isso; eu fui até a casa dos meninos, deixei ele lá com aquele possante incrível, e depois voltei de uber. Cheguei tarde por causa disso — expliquei e Hyun-mee fez cara de compreensão.
Aproveitei que não havia sinal do nosso ônibus e peguei o rímel para dar uma levantada no visual. A verdade era que eu tinha chegado sim tarde da noite, entretanto, ainda demorei um tempo para dormir, e a ausência do descanso estava se fazendo presente bem debaixo dos meus olhos, nos quais eu já havia aplicado um corretivo babadeiro.
— Por acaso... alguém viu vocês? — A voz de Hyun-mee soou extremamente cautelosa, e por um momento olhei de soslaio, voltando a aplicar a máscara de cílios de forma atenta.
— Não se preocupe. Foi tudo estritamente profissional. Por isso que decidi levá-lo até a casa dele. O caçula queria pedir um uber e me deixar em casa, sabia?
— O que ele tem de bonito tem de ingênuo — ela riu descrente e eu concordei com um aceno, guardando os pertences ao visualizar o ônibus vindo em nossa direção.
— Pois é. Por isso dei uma volta na cidade depois do trabalho, para deixá-lo em casa e ir para a minha. Afinal de contas, tinha prometido ao RM que iria cuidar do Maknae. E promessa é dívida né.
— É, bem... Você fez uma boa ação — ela respondeu com uma cara frustrada e enquanto o ônibus parava diante de nós, eu resolvi questionar o desânimo.
— O que foi? Por que essa cara?
Entramos no transporte e sentamos em lugares vazios, um do lado do outro. Ela suspirou e deu de ombros, olhando o horizonte daquela manhã nublada.
— Preferia acreditar que você estava de caso com o roadie gatinho.
Eu gargalhei alto e neguei com a cabeça.
— Esquece ele, prima. Aliás, qualquer um, né? Pelo visto, todo tempo que eu teria para viver alguma dessas aventuras, está tomado por jovens do maior grupo de k-pop da atualidade, envolvendo horários, ensaios, preparativos e muitas canelas de velho.
Foi a vez de Hyun-mee rir alto e concordar. Eu catei meus fones de ouvido dentro da bolsa, pluguei no celular e dei play numa música calma, encostando a cabeça no ombro da outra staff do BTS, que me sorria desconfiada.
— Vai dormir?
— Eu preciso repor minhas energias de alguma forma...
— Eu não fiz teste pra travesseiro!
— Mas é igual cartão de crédito de loja, já vem pré-aprovado — resmunguei fechando os olhos, e Hyun-mee não fez nada senão rir levemente e deixar um carinho em minha cabeça, cedendo seu ombro como o lugar do meu descanso.
Parecia que eu tinha fechado os olhos por cinco segundos, mas logo fui acordada pela minha prima, e em pouco tempo, já estávamos no modo staff; saltamos do ônibus, caminhamos até a empresa, e já entramos no clima, analisando a grade horária do dia enquanto o resto da equipe se preparava para os afazeres.
Cerca de quase duas horas mais tarde, eu estava checando a organização dos espaços de ensaio dos rapazes, quando Hye-jun me chamou.
— Hey, ! Preciso que me faça um favor. Já acabou com essa parte? — ela perguntou apontando para o tablet.
— Sim, sim! Do que você precisa? — indaguei sorridente, terminando de dar ‘ok’ na planilha aberta.
— Bom, os meninos estão chegando, então solicitei que Hyun-mee os recebesse como sempre, só que dessa vez, eu farei sua parte, fazendo dupla com sua prima — ela respondeu rápido, sacando seu celular e observando a tela, digitando violentamente alguma mensagem.
Eu a olhei confusa e concordei receosa, esperando que ela continuasse. O silêncio que se permaneceu me fez perguntá-la.
— Tá bem, mas... Tem alguma questão específica? — indaguei e ela retirou os olhos do aparelho, me encarando com dúvida.
— Hã? Ah, sim, tem sim! Desculpe, correria! — ela sorriu levemente, guardando o celular e voltando a me olhar com firmeza. — É o seguinte: Jungkook precisou ir hoje cedo no médico fazer uns exames. Não se preocupe, ele está bem, mas parece que deu um jeito no pé! A princípio, não há nenhuma alteração de acordo com os resultados, mas o médico pediu que ele se poupasse um pouco por três dias e mantivesse alguns cuidados, como pé pro alto, compressa de gelo, massagens, essas coisas. Então, preciso que você o acompanhe enquanto ele estiver nessa situação, tudo bem? Estou te passando uma lista mais específica dos cuidados, remédios e horários dele, mas qualquer coisa, pode me gritar. Alguma dúvida?
— Hm... Não, tudo certo — retruquei sorrindo amarelo, e Hye-jun fez uma careta.
— Se quer um conselho, eu sugiro que você tenha bastante paciência, porque ele é meio perfeccionista, sabe? Não deve estar com o humor muito bom por ter que ficar meio parado por esses dias. Mas com certeza você dará conta disso! — E me deu uns tapinhas no ombro com um sorriso de quem acabava de ferrar com a minha vida.
E eu apenas sorri de volta.
— Ah, claro! Sem problemas! Deixa comigo! — Vibrei com um misto de animação e medo, por motivos de: o quão exatamente ruim era o humor do Maknae quando ele era contrariado?
E então eu pensei em mim como uma virginiana contrariada.
— Sabia que poderia contar com você! Obrigada querida! — Hye-jun agradeceu e saiu andando, voltando a digitar no celular desesperadamente, e eu fiquei encarando o chão, perdida em pensamentos.
— Eu to fodida — dei um tapa na testa e respirei fundo, antes de ir atrás do Maknae.
Conforme Hye-jun disse, eles estavam chegando quando me posicionei do lado de Hyun-mee.
— Vai me abandonar hoje pra fazer au pair? — ela perguntou em português e eu rolei os olhos.
— Pára de graça, garota.
— Se bem que um chuchuzinho como o Golden Maknae... Não é tão ruim assim né? — ela perguntou com um sorriso disfarçado e uma leve cutucada de cotovelo em minha costela.
Eu concordava.
Concordava muito.
Concordava para um cacete.
Mas apenas engoli a seco e dei de ombros.
— Faz parte, né? Ossos do ofício!
— Ah, para que essa é a parte boa! E se você o vir sem blusa? — ela indagou com o olhar tarado e eu a olhei assustada.
— Ele torceu o pé, Hyun-mee!
— Sei lá! Vai que o médico precisa auscultar o pulmão, ou algo do tipo?
— Ele já foi no médico... — comentei com a testa apoiada na mão.
— Uma massagem nos ombros para relaxar, talvez?
— Esse é simplesmente o tipo de assunto que a gente não pode ter no período fértil, Hyun-mee! — briguei, me sentindo hipócrita ao imaginar Jungkook sem blusa, recebendo uma massagem diretamente das minhas mãos.
— Você também? Oh, isso é tão legal! Nossos ciclos são casadinhos! — ela bateu palminhas e eu ri balançando a cabeça.
— Cala a boca, eles estão chegando.
Ela se transformou na hora, adquirindo uma postura completamente profissional, com ar de quem sabia de tudo e de todos ali, capaz de solucionar os maiores problemas do mundo.
Eu admirava Hyun-mee por sua força e garra, sem necessariamente perder sua essência brincalhona e um tanto tarada. Era uma das coisas que definitivamente não me faziam sentir tanta falta de casa.
Conforme esperado, os meninos chegaram em dois carros pretos, tão grandes quanto uma casa. Por algum motivo inusitado, eu estava mais nervosa do que no meu primeiro dia, e pude constatar isso com facilidade ao sentir as palmas das mãos suando.
Elas raramente suam.
Só em casos extremos.
Tipo o que estava acontecendo naquele momento, em que o “motivo inusitado” saía do carro com auxílio dos parceiros de grupo.
Só de pensar que eu teria que ficar literalmente o tempo todo com Jungkook durante três dias, eu ficava mais nervosa do que de costume. Não sei se era pelo fato de estar perto de uma pessoa que eu achava bonita demais, ou até de certa forma inalcançável (pelo menos acreditava nisso há alguns dias)...
Ou se era apenas porque eu me encontrava em meu período fértil, e a beleza de Jungkook não ajudava em nada na concentração do meu trabalho – inferno de garoto lindo do caramba!
O rapaz era um pão, como diria vovó Kang, mas eu não poderia sequer tirar uma lasquinha e passar na manteiga, ou no requeijão.
A vida tinha dessas coisas, então só me restava manter um mantra bem profissional e focar no que importava: a recuperação do garoto teimoso e a reputação do meu trabalho.
Eu estava estatelada no lugar quando Hyun-mee deu uma cotovelada nada sutil nas minhas costelas.
— Ai! O que é? — acabei perguntando em português e ela indicou Jungkook com os olhos, enquanto sorria amarelo e falava entre os dentes.
— Vai ajudar o cara, ! — E meneou a cabeça para frente, me fazendo despertar dos devaneios.
Respirei fundo, ajeitei a postura e acelerei os passos; dessa vez eu não faria nenhuma besteira como no primeiro dia.
Pelo menos era o que eu esperava.
Me aproximei cumprimentando os meninos com o movimento costumeiro e dei um sorriso amigável.
— Bom dia, rapazes. Sejam bem-vindos!
— Bom dia, ! — J-Hope sorriu com o sol nos dentes, iluminando tudo e me contagiando pela sua energia. Eu apenas sorri de volta, balançando a cabeça.
— Bom dia! Gostei das argolas! — Jimin comentou apontando para os meus brincos e eu inconscientemente segurei minha orelha direita, sorrindo sem graça.
— Obrigada, fico feliz que tenha gostado!
— Eu tenho umas iguais, mas Taehyung vive roubando de mim — ele comentou como se estivesse contando um segredo e o outro logo retrucou.
— Ei! Eu ouvi isso! E as argolas são minhas! Você é quem vive roubando de mim! — V tinha um sorriso no rosto de parar qualquer trânsito, e vê-lo dando um tapinha em Jimin, que ria como uma criança, era de aquecer o coração.
Entretanto, a mudança de sensação cardíaca foi logo alterada com a pergunta do outro membro do BTS.
— Ei, fiquei sabendo que você quebrou as pernas do Jungkook porque ele te desobedeceu, é verdade? — Jin falou alto enquanto cruzava os braços e mantinha uma cara em falsa surpresa. Eu abri a boca em horror e logo ele, Suga e RM estavam rindo. J-Hope, Jimin e V já estavam mais a frente, entrando na empresa.
— Eu pedi para cuidar do menino, não para quebrá-lo, . Isso pode dar cadeia! — RM comentou assustado (de forma teatral) e eu neguei com a cabeça, rindo de nervoso. Felizmente, fui salva pelo gongo.
E que gongo, aliás.
— Vocês nunca se cansam de encher o saco da novata, não é? — Jungkook falou, se apoiando no pé bom enquanto arqueava uma sobrancelha. — Vamos logo, temos uma agenda para quitar. — E fez um sinal com a mão para que os meninos andassem, e os mesmos riram de sua postura de líder, apesar de ser o caçula.
— Ele torce o pé e fica se achando! — Suga comentou com ar de graça e Jin riu debochadamente.
— Deixa ele, vou esperar o pé melhorar para infernizar a vida desse jovem! — Jin segredou com um olhar suspeito e fez cara de quem estava montando um plano muito diabólico.
Jungkook olhou pra cima e ergueu as mãos.
— Universo, interceda por mim, pelo meu bem!
Todos riram e eu sorri com aquela pequena interação dos rapazes, tão bem humorados mesmo com o mundo pesando nas costas, com tanta pressão para que tudo seja perfeito.
Suga e Jin foram caminhando na frente, enquanto eu esperava que Jungkook fizesse o mesmo, mas ele não fez. O rapaz trocava olhares incisivos com RM, como se estivessem conversando silenciosamente, mas não estava funcionando muito bem o tal disfarce.
Felizmente, Suga fez a pergunta de um milhão de dólares.
— Vocês não vêm?
Eu olhei timidamente para o Maknae, afinal de contas, era também uma dúvida minha, que só estava acompanhando-o.
RM trincou um maxilar e fez um leve manejar de cabeça em minha direção, e eu me senti em estado de alerta com aquilo. Entretanto, nem tive tempo de pensar em mais nada, pois ao meu lado, Jungkook trazia a resolução de toda aquela situação.
— Hm... Então... Vão na frente! Eu preciso... resolver umas coisas com a ... à sós.
Eu não consegui disfarçar a surpresa e minhas sobrancelhas se ergueram ao ponto dos olhos se arregalarem, olhando de Jungkook para RM sem exatamente entender o que estava rolando.
Entretanto, RM fez cara de orgulho e nos cumprimentou com um rápido aceno, se retirando. Suga e Jin não perceberam o clima estranho e pareciam lidar com aquilo numa normalidade incomum... Como se até soubessem do que se tratava.
Como se a última a saber, fosse eu de fato.
Mesmo que a sensação fosse essa, era difícil ignorar o fato de que Jungkook estava nervoso; haja vista sua fala toda entrecortada pela timidez, algo que pensei já ter superado a princípio.
Ledo engano.
Logo, ficamos eu e Jungkook para trás, observando os rapazes se distanciarem e alcançarem Hyun-mee e Hye-jun, que os recebiam sorridentes. Não entendi ao certo o que o mais novo queria falar comigo, mas aguardei pacientemente ao seu lado – um tanto ansiosa, diga-se de passagem.
Eu inspirei fundo para tentar manter a calma e, sem perceber, fui fatalmente atingida pelo perfume de Jungkook, me fazendo ficar tonteada pelo aroma incrível que o rodeava.
Olhando de soslaio, percebi que o cabelo dele parecia levemente úmido, como se não tivesse secado logo após o banho. Aquela atmosfera que o envolvia me atraía de um jeito muito inconsciente e me cativava de verdade; apesar de se pressionar e ser um ótimo perfeccionista, o semblante alegre e até ingênuo dele me remetia à leveza, me fazendo pensar no tipo de pessoa simples e legal que ele era, no fim das contas.
Um tanto dedicado, era bacana pensar que Jungkook estava no lugar que merecia, honrosamente.
Sorri aberto quando sua visão parou em mim, e ele me retribuiu a ponto dos olhos quase fecharem.
— Er... Então, ... Dormiu bem?
Um pequeno frio se instalou na barriga ao sentí-lo meio nervoso. Poderia ser só impressão minha, mas eu achava graça até nisso! Aliás, já comentei o quão bonitinho meu nome soava em seu sotaque? Era realmente fofo.
Eu abri mais o sorriso, me sentindo bem alegre e idiota ao mesmo tempo.
— Dormi sim, Jungkook. E você? Como se sente? — Indiquei o olhar para o pé e ele fez o mesmo, coçando a nuca.
— Poderia estar melhor, mas o médico me deu uns puxões de orelha e bem... Parece que eu vou ter que segurar a minha onda mesmo. — Ele riu sem graça e eu sorri convencida, tentando quebrar aquele gelo.
— Ora, que coisa! Acho que já te disseram isso antes, sabia? — comentei com a voz melodiosa, colocando os braços pra trás e ele riu concordando.
— É, bem. É por isso que eu queria falar com você em particular. — Seu rosto apresentava uma seriedade incomum e eu me ajeitei no lugar, encorajando-o a falar.
— Sou toda ouvidos — respondi num tom baixo, observando sua feição. Ele respirou fundo e me olhou, começando a falar.
— O médico disse que eu fui prudente por não ter me esforçado mais, tanto nos ensaios quanto ao dirigir, já que eu não sabia o que tinha acontecido com meu pé e como proceder com ele a partir da torção. E... Bom, eu só não piorei minha situação porque você estava lá, e vai saber o que teria acontecido se não estivesse? Talvez eu pudesse até comprometer a turnê com minha teimosia, e eu jamais me perdoaria por isso... — O silêncio que habitou o ambiente após sua fala era real, e eu balbuciei uma réplica apenas por não saber o que dizer ao certo.
— Entendo... — comentei, ao vê-lo distraído encarando o chão. Ele ergueu o seu olhar ao meu, e seu semblante pesado deu lugar ao leve de sempre, deixando um sorriso tímido brotar nos cantos de seus lábios, logo antes de voltar a falar.
— A primeira coisa que fiz hoje de manhã foi pensar que as coisas poderiam ter sido bem diferentes sem a sua presença, e depois da visita médica, essa sensação apenas se confirmou; você foi incrível e isso é impagável. Então... Obrigado, mais uma vez.
Jungkook curvou-se cordialmente e eu não consegui não deixar o queixo cair; estava chocada com todas aquelas palavras ditas. Me senti quente, as bochechas provavelmente fritariam um ovo devido à temperatura, e eu engoli a seco depois de constatar que ele me observava com um semblante divertido – provavelmente achando graça do meu estado nítido de vergonha.
— Hm, então... Não se preocupe com isso. É meu trabalho, afinal de contas — respondi uma frase genérica e sorri sem graça, mas Jungkook negou com a cabeça e arqueou a sobrancelha novamente.
— Nós sabemos que você foi bem além do seu trabalho, e isso não passou despercebido, . Não se subestime; você foi bem mais que profissional. Você foi humana, e poder contar com sua atitude acolhedora foi algo decisivo para minha melhora. Simplesmente, não tem preço. E além disso, eu levaria uma repreensão rigorosa do Namjoon se não tivesse vindo agradecer pela sua atuação.
— Então você tá me agradecendo por pura e exclusivamente ameaças do líder do BTS? — perguntei divertida e ele abriu a boca com a maior cara de indignado, já deixando um biquinho brotar nas pontas dos lábios.
Simplesmente, adorável.
— Estou brincando! — expliquei risonha, e ele fez cara de tédio, cruzando os braços, mas depois sorriu cúmplice. — Pensa que só vocês podem caçoar da staff nova? Eu também tenho minhas artimanhas.
— É, bem. Acho que eu mereço depois do primeiro dia — ele se explicou rindo levemente e eu o acompanhei, olhando em seus olhos.
Sem perceber, umedeci os lábios e mordi o interior das bochechas, berrando mentalmente comigo, porque de alguma forma, estar ali tendo aquela conversa me trazia ótimas sensações.
O curioso era pensar que eu não fazia ideia de qual havia sido a última vez que senti isso.
Talvez na dança.
E pensar naquilo fez meu coração errar uma batida, e meu sorriso se amenizou. Aquele era um solo difícil de pisar, e eu definitivamente não faria aquilo no momento.
De certa forma, estava divagando sobre toda a loucura da minha vida atual, mas ainda mirando nos olhos de Jungkook, quando ele timidamente colocou a mão direita em meu ombro esquerdo, e quebrou o silêncio.
— Espero que algum dia eu possa lhe retribuir, .
Meus ouvidos ouviram aquilo e meu estado apenas piorou. Senti meus olhos percorrendo por sua face, reparando nos detalhes de seu semblante, sem achar nenhum traço de zombaria; apenas traços másculos, bem desenhados e muito atraentes.
Pensar em Jungkook sendo grato a mim, no meio do meu período fértil, era complicado. Eu era humana, como ele mesmo havia dito, e isso implicava numa jovem adulta convivendo diariamente com um colírio elegante, bonito, simpático, doce, educado e perspicaz como ele era, ou seja: eu ia do céu ao inferno!
Qualquer prova de resistência do Big Brother Brasil nem se comparava ao que eu estava vivendo ali com Jungkook. Ou o que teria de viver ainda.
Essa, e exatamente essa parte, era a que me preocupava.
Eu estava sonhando acordada, pensando em modos surpreendentes de pular no colo do rapaz e avançar em beijos naquela boca chamativa, ou de abraçá-lo e chorar todas as pitangas da vida por estar me sentindo alegre em meu primeiro grande emprego. Estava num misto de alegria, saudade, remorso, tesão e... tudo isso junto! Era uma verdadeira tempestade de sentimentos, e eu estava bem no olho desse furacão todo quando Jungkook me chamou em voz alta.
?
— Sim? — respondi automaticamente, piscando mais vezes do que de costume.
Jungkook colocou as mãos no bolso do casaco, indicando o caminho com a cabeça.
— Vamos? Ouvi dizer que eu terei uma babá por três dias.
Eu ri instantaneamente do seu bom humor e concordei com a cabeça, segurando o tablet em meus braços e caminhando lentamente ao seu lado, tentando afastar meus últimos pensamentos da mente.
— Espero que não me dê trabalho! — brinquei com um meio sorriso e ele me olhou de canto, soltando uma pequena risada.
— Não conte com isso!
Nós dois rimos de sua fala e começamos a discutir sobre a agenda e as adaptações do dia para ele. Basicamente, os ensaios coletivos com banda seriam mantidos, assim como a reunião sobre a performance de entrada dos meninos. O ensaio de dança seria o evento que ele não participaria, mas acompanharia apenas em observação.
Eu só rezava para que Jungkook não pirasse nessa última etapa. Será que ele conseguiria lidar?
Tomei eu mesma como exemplo que quando me feri na companhia de dança e suspirei pesadamente.
— Tudo bem? — Ele me perguntou alarmado.
— Ah sim! Tudo bem, não é nada. Calor né?
Ele concordou com um aceno, apesar de não estarmos numa área sem climatização.
Era apenas eu entrando em ebulição ao pensar no que me esperava por esses três dias.

Capítulo V - Awake

Eu sinceramente achava que por três dias, a forma de lidar com Jungkook seria bem cabulosa e estranha, mas na verdade, ela fluiu bem.
Bem até demais.
Durante esse período, ele seguiu à risca todas as orientações médicas e não exagerou uma vez sequer. Não precisei usar meus dotes de vovó Kang para convencê-lo de nada, e sempre que possível, acabávamos conversando sobre as coisas mais aleatórias possíveis, bem como outras mais específicas, como a turnê em si.
Mas era bem visível o quão endurecido e frustrado ele estava por não poder fazer parte do ensaio coreográfico. Chegava a dar pena de ver a cara dele quando os meninos se posicionavam na sala de dança e ele não; sendo obrigado a permanecer sentado, acompanhando com os olhos atentos e famintos toda e qualquer movimentação das coreografias.
Num dado momento do último dia, os meninos estavam tirando um tempo de descanso entre si, interagindo com brincadeiras bobas de pega-pega, quebrando a tensão da agenda pesada.
Jungkook olhou para aquilo com certo pesar e suspirou fundo, desviando o olhar para o seu pé.
Nem precisava dizer nada – era óbvia sua frustração.
Não consegui acompanhar aquela cena e não dizer nada, então chamei sua atenção com uma pequena fala encorajadora:
— Ei, não fica assim, vai? Logo mais estará novinho em folha! — mantive um sorriso no rosto e ele retribuiu o gesto, mas com um semblante triste.
— Eu fui muito idiota de ter feito isso. Agora sabe lá quantos dias ainda vou ficar assim... — retrucou ao encostar a cabeça na parede e encarar o teto.
Respirei fundo, olhei para os meninos, que seguiam naquela brincadeira sem exatamente perceber a tristeza do caçula.
Então eu me aproximei e fiz algo pouco pensado, mas muito bem intencionado; coloquei uma mão em seu ombro e fiz um pequeno carinho.
— Não esquenta, a gente já fez o exame mais cedo... Você vai ver, vai ficar tudo bem. Se não estivesse, você nem estaria conseguindo fazer tudo que já faz. Vai por mim, logo mais você vai estar naquela bagunça animada ali. — Apontei com a cabeça para os rapazes, e ele seguiu o olhar, com um sorriso ameno. Logo depois, olhou de soslaio para minha mão e eu instantaneamente a retirei do local.
— D-Desculpa! Eu...
— Não! Sério, não foi nenhum problema! — ele se apressou em me explicar, ficando tão nervoso quanto eu. — Eu gostei.
— Quê? — deixei escapar meu espanto e ele abriu mais ainda os olhos, percebendo que talvez sua fala fosse um pouco... inusitada.
— Eu quero dizer que... Droga, não é isso! — ele se endireitou na cadeira e sorriu com certo desespero. — Não achei incômodo, entendi sua intenção e agradeço por isso. É, é isso. — A frase final parecia ser dita mais pra ele do que pra mim, e eu prendi uma risada com o jeito doce dele.
O silêncio foi um pouco constrangedor, mas logo mais meu tablet apitou, indicando que a hora de visitar o médico havia chegado.
Assim, saberíamos do verdadeiro quadro de Jungkook, já que o primeiro exame tinha dado inconclusivo devido ao inchaço no local.
Eu olhei para o aparelho em minhas mãos, e o maknae fez o mesmo. Decidi dar meu melhor sorriso e indaguei.
— Vamos?
Ele respirou fundo e respondeu com um aceno, visivelmente preocupado. Levantei e o observei fazer o mesmo, com muito menos dificuldade do que há poucos dias.
— Boa sorte, JK! — J-Hope gritou enquanto descansava sentado no chão. Os meninos olharam para nós e berraram “JK, Fighting!” com palminhas e incentivos. Jungkook sorriu pela animação do pessoal e agradeceu com um aceno, caminhando para fora da sala, comigo em seu encalço.
Andamos silenciosamente até o consultório médico, e a recepcionista nos informou que em breve o doutor nos atenderia, mas nos permitiu aguardar já na sala de atendimento.
Eu estava olhando em volta do lugar quando Jungkook quebrou o clima estranho com uma pergunta em entonação curiosa.
— Então você quase rompeu o ligamento do tornozelo? — sua voz soou quase infantil e eu sorri inconscientemente com aquilo, respondendo afirmativamente sua pergunta. — Você conseguiu andar depois de quanto tempo?
— Demorou cerca de dois meses para voltar a colocar o pé no chão — devolvi com uma careta de dor e ele arregalou os olhos.
— Isso é bizarro! — ele comentou e eu concordei. — Doeu muito?
— Foi uma dor absurda! Eu não conseguia apoiar o pé no chão. Parecia que tinham atropelado e esmagado todos os cantos do meu tornozelo. Foi horrível. — Lembrei daquele acidente, bem parecido com o de Jungkook, e respirei fundo ao rememorar aquela fase.
— Eu acho que nem consigo imaginar. Como isso aconteceu? — ele perguntou me olhando curioso.
— Ah, foi uma vez que eu estava dançan— Me toquei do que estava prestes a dizer e congelei a palavra antes de concluí-la. Jungkook me olhou com surpresa, deduzindo o que eu já quase havia dito.
— Dançando? Você dança? — Seus olhos se iluminaram e eu sorri sem graça, sentindo o coração bater forte dentro do peito.
— N-Não! Imagina, eu dançando? Eu... eu estava brincando, sabe? Brincando de dançar, essas coisas de adolescente inconsequente, entende? — Ri nervosa e gesticulei rápido demais, fazendo com que o Maknae assumisse o modo Jungshook ao tentar acompanhar meus movimentos.
Seria cômico se não fosse trágico.
Respirei fundo e sorri forçadamente, tentando recuperar o pensamento.
— Enfim, eu fiz besteira e exigi demais do pé. Acabei torcendo e desde então, eu e canela de velho somos parceiras de crime. — Fiz uma careta suspeita e Jungkook riu levemente, mexendo a cabeça em concordância.
— Me pergunto em que situação você se encontrava quando isso aconteceu... — ele comentou com uma cara sugestiva e eu senti vergonha na hora.
Veja bem, eu não queria que ele soubesse que eu fazia parte de uma companhia de dança, então inventei que estava brincando de dançar e mencionei o termo “adolescente inconsequente”.
Só ali percebi o tipo de imagem que havia passado pro Golden Maknae.
Já estava pirando ao pensar que Jungkook me imaginava num estado etílico alterado quando fui salva pelo gongo com a entrada do médico no consultório.
— Boa tarde! Esperaram muito? — ele indagou enquanto fechava a porta, se posicionando em sua mesa e ligando a tela do computador.
— Não muito, estamos aguardando há pouco tempo — Jungkook respondeu com um pequeno sorriso, enquanto eu ligava no tablet para anotar as orientações do médico.
O mesmo estava terminando de higienizar as mãos quando se sentou na grande e confortável cadeira acolchoada, olhando diretamente na tela.
— Fico feliz então. Precisei analisar um caso de tendinite de um dos dançarinos de última hora, mas nada grave — Ele virou a tela do computador e nos mostrou a ressonância magnética do pé de Jungkook.
Eu e o integrante do BTS ficamos olhando para a imagem sem entender bulhufas, mas logo o doutor explicou.
— Está vendo aqui? Essa é a parte que você torceu. Comparando o exame de três dias com o de hoje, temos uma evidente melhora. Pelo raio x já havíamos descartado possíveis fraturas, o receio era algo mais grave com os ligamentos ou algo do tipo. Como você tem se sentido?
— Pouca dor em relação ao primeiro dia. Acho que canela de velho é realmente uma pomada heroica.
Eu e o doutor rimos da fala de Jungkook, que sorria gentilmente. Ele estava tentando disfarçar, mas estava bem claro o quão ansioso estava em ouvir o retorno do ortopedista, que sorriu educadamente para nós ao continuar sua fala.
— É muito bom saber que tem se cuidado, e realmente, é uma boa tomada. Fisiologicamente falando, não temos nenhum impedimento para que você volte às atividades, então, de acordo com os exames, tudo certo!
— Jura!? — o mais novo perguntou feito criança, com os olhos brilhando. O médico afirmou com um aceno.
— Sim! Entretanto, é normal que ainda sinta o local sensível, então, vamos voltar às atividades de uma forma gradual e cuidadosa, certo? Mantenha as compressas, massagens e alongamentos. Vou solicitar mais algumas sessões de fisioterapia para fortalecimento da área afetada, apenas para desencargo de consciência, e que você também tenha mais segurança para executar os movimentos. Isso, é claro, se não exigir muito de você, certo?
Eu lancei um olhar bem sugestivo para Jungkook, que me olhou de soslaio com um sorriso amarelo.
— Pode deixar, doutor. Estou bem ciente disso.
— Ótimo! Então, siga essas prescrições e logo estará de volta ao ritmo. Daqui há um período, repetimos o exame para acompanhamento, mas, ao que tudo indica, sem sequelas! Sinta-se à vontade para me procurar em caso de dúvidas ou algo do tipo, certo?
— Obrigado, doutor! Não hesitarei em pedir ajuda, fique tranquilo — ele respondeu muito animado, com todos os dentes aparecendo em seu sorriso gigantesco.
— Obrigada pela sua disponibilidade e atenção, doutor. Bom trabalho! — respondi solícita, cumprimentando como Jungkook havia feito segundos atrás.
Saímos do consultório sentindo um peso fora das costas, e assim que alcançamos o corredor, Jungkook me surpreendeu com um berro alto de alegria, batendo palmas.
— Você ouviu isso!? Eu não tenho nada! Nada! — ele dizia enquanto se aproximava de mim, com a alegria estampada em seu rosto. Eu ri e me senti contagiada pela sua energia, concordando várias vezes com a cabeça enquanto lhe respondia.
— Sim, eu vi! Não é incrível?
— É insano! Eu nem acredito! — ele dizia, passando as mãos pelos cabelos e andando de um lado para o outro. — Eu poderia simplesmente voar de tanta felicidade! Estou leve!
E começou a rir enquanto dava longos passos ao redor, e eu ria acompanhando aquela cena instigante. Do nada, ele parou diante de mim e segurou em meus ombros, com os olhos levemente marejados.
— Eu devo muito a você, .
Eu não fui capaz de responder, apenas fiquei com a boca aberta num sorriso surpreso, pois em um momento ele me olhava nos olhos, quase chorando. No outro, me abraçava ternamente, como alguém que se agarra a uma oportunidade única.
Sutilmente, retribuí seu enlace, sabendo que aquilo não passava de uma situação completamente inédita, já que não existia aquele costume na cultura nacional. Entretanto, acho que ele estava tão abalado pelas tensões dos últimos dias, que se deixou levar pelo momento e me abraçou daquele jeito.
Eu não estava reclamando! Muito pelo contrário, estava amando sentí-lo tão perto.
Mais do que poderia admitir.
Mas alguns segundos depois, aparentemente Jungkook voltou a si, se afastando bruscamente e pigarreando sem parar. Sua face estava bem vermelha e ele colocou as mãos na orelha, provavelmente sentindo-as quentes.
Nós sorrimos timidamente um para o outro, e ficamos nos olhando sem saber o que dizer. Tudo ficou suspenso quando o toque do meu celular quebrou o clima esquisito.
— Alô? — falei sem olhar o visor.
— Onde você tá?
— Estou com Jungkook saindo da consulta médica. Por quê?
— Os meninos pediram pizza para alegrar o pivete. Tá tudo bem?
— Tá sim, o resultado foi positivo. Nenhuma sequela. — Sorri para Jungkook que me olhava curioso, pois eu estava falando em português com Hyun-mee.
— Certo, vem vindo para a sala de reuniões 07. Eles querem fazer uma surpresa para ele, estava tão murchinho tadinho.
— Estava mesmo. Mas agora só falta sair pulando por aí... — Sorri de novo e Jungkook retribuiu, incerto.
— Então beleza, vem vindo para ele se alegrar mais. Pizza é pizza né?
— Com certeza! Estamos a caminho. Beijos.
— Beijos.
Desliguei o celular e ele seguia com aquele olhar grande e quase invasivo.
— Está tudo bem?
— Sim! Era apenas Hyun-mee me lembrando de um agendamento de última hora na sala de reuniões 07. Precisamos ir até lá para verificar uma mudança em um figurino seu. Vamos?
Eu nunca tinha inventado uma desculpa tão plausível e rápida quanto aquela, mas Jungkook pareceu cair que nem patinho e simplesmente seguimos para a surpresa em si.
Quando chegamos ao local, deixei que ele abrisse a porta primeiro e acendesse a luz, revelando os meninos com roupas mais leves e cabelos úmidos; visivelmente de banho tomado. Um cheiro incrível invadiu minhas narinas e eu só pensava que aqueles garotos provavelmente tomavam banho com a melhor fragância do mundo, não era possível!
— Surpresa!!! — berraram em uníssono me tirando de meu devaneio. Jungkook riu animado.
— Vocês armaram essa pra mim? — ele perguntou descrente.
— Sabíamos que você estava chateado com o pezinho... — Jimin comentou puxando a bochecha do caçula, que sorriu encolhendo os ombros.
— Acontece, relaxa! — Suga comentou dando uns tapinhas e J-Hope surgiu com os braços abertos.
— Você fez e faz o seu melhor, pequeno polegar — e abraçou Jungkook levemente, ainda sorrindo para ele.
— Agora é só entender seus limites e ouvir os conselhos dos seus amigos... — RM comentou com uma feição amena e V concordou, cruzando os braços.
— E se continuar teimoso, eu fico com sua porção de carne do almoço de amanhã.
— Ei, essa ideia foi minha! — Jin reclamou com um bico e todos riram.
— Seus irmãos de grupo ficaram preocupados, Jungkook. Mas estamos felizes que esteja bem — Hye-jun se pronunciou com um aceno, recebendo outro de volta do Maknae.
— Agora é hora de detonar essas pizzas e ser feliz! Pegue mais leve com você! — J-Hope insistiu, e Jungkook concordou, choroso.
— Vocês são os melhores! — E escondeu o rosto no ombro do pequeno sol do grupo, fazendo os amigos se unirem num abraço único, gritando um “oooh” em coro.
Eu estava sorrindo diante daquela cena quando Hyun-mee se posicionou ao meu lado.
— Eles não são adoráveis?
— Demais! — ela me olhou de maneira engraçada e arqueou a sobrancelha.
— E esse sorriso aí?
— Felicidade por ser útil num emprego tão admirador, Hyun-mee. Esses meninos merecem o melhor de mim — comentei sincera e ela sorriu, concordando e voltando a olhá-los com o mesmo carinho que eu tinha no olhar.
Eu tentei disfarçar o sentimento que pinicava dentro do peito, mas ele saltava toda vez que eu pensava na frase que eu queria acrescentar:
“Jungkook merece o melhor de mim.”

Capítulo VI - Silver Spoon

— Sextou, carai! — Hyun-mee berrou feliz enquanto saía do banheiro de toalha no corpo e na cabeça. Eu ri daquilo, enquanto retirava as minhas coisas do armário.
— Você realmente quer sair hoje? — perguntei, me sentindo cansada só de pensar na noitada que minha prima queria me levar. Ela me lançou um olhar furioso e eu me encolhi no lugar. — Ok, estou indo tomar meu banho...
— Gosto de você porque nem preciso falar nada. Qual é, ! Sexta-feira! A gente trabalhou mais que tudo nessa semana! Merecemos uma boa bebida e uma música dançante para aproveitarmos essa juventude! — ela defendeu seu ponto de vista enquanto retirava a toalha da cabeça.
— Uhul, juventude. Me sinto incrível! — falei de forma forçada, recebendo uma toalhada na cara enquanto ríamos juntas.
Tomei o banho rápido, já que Hyun-mee queria aproveitar o happy-hour do local, e eu acabei não me prolongando muito no que seria um momento relaxante e restaurador.
Um banho quente depois de uma semana cheia de trabalho era um agradecimento divino pela nossa existência.
Saí do banheiro, penteei meu cabelo, e coloquei a calça de couro de cintura alta que Hyun-mee tanto insistiu.
— Você fica com um rabão nessa calça. Incrível! — ela comentou enquanto eu abotoava o sutiã igualmente preto de rendas e ria de sua animação. Como ela conseguia?
Botei uma blusa vermelha simples, soltinha, de um tecido leve, e coloquei a jaqueta de couro. De maquiagem, passei um gloss avermelhado, um blush nas bochechas, rímel nos cílios e delineei os olhos de preto. Estava me sentindo no próprio clipe de Seven Nation Army dos White Stripes, quando ouvi um mega estrondo do lado de fora.
Terminei de amarrar o tênis, já imaginando do que se tratava, enquanto Hyun-mee corria para a janela, alarmada. Após encarar a cena, gemeu em frustração.
— Tá de sacanagem! Não acredito! — reclamou indignada e eu fiz uma careta de dor.
— Muita chuva?
— Porra! O dilúvio deve ter sido mais tranquilo! Olha só! — me chamou para ir até lá e eu me assustei com a quantidade de água que caía do céu. Em poucos momentos, a rua estava completamente molhada, e parecia começar a alagar.
— Que que a gente faz? — perguntei, perdida.
— Pior que nem ir pra casa vai rolar. A gente vai ter que esperar dar uma estiada... Merda! — bradou, realmente chateada.
Respirei fundo, ficando um pouco sentida por ela. Quer dizer, eu não estava na vibe de ‘noitar’, mas eu poderia facilmente tomar uns drinks e curtir uma música, sem exacerbar.
Só me toquei que estava um pouco frustrada quando pensei na Piña Colada que eu acabava de perder.
Que sacanagem.
Suspirei enquanto via Hyun-mee guardando as coisas no armário, pegando a sua bolsa tira-colo.
— Vem, vamos sentar lá no lounge e esperar essa merda passar. Aff... Tudo porque eu queria muito mexer o rabetão.
— Você ainda poderá mexê-lo. Qualquer coisa a gente pega uma sala dessas, pede umas cervejas e faz a nossa noite aqui — comentei brincalhona e ela rolou os olhos, rindo.
— Boa tentativa, prima. Quem sabe né? Pra quem não tem nada, a metade é o dobro.
— Falou pouco mas falou bonito! — encorajei e ela ficou mais sorridente depois daquilo.
Caminhamos devagar para o lounge, desanimadas com a chuva, mas mais conformadas em esperá-la passar.
Já eram 18:30 quando notei que RM, Jin, V e Suga vinham do corredor oposto. Ergui as sobrancelhas em surpresa e Hyun-mee fez o mesmo, pois achávamos que eles já tinham ido embora.
— Hey! Curtindo uma chuvinha? — RM perguntou com um sorriso no rosto e Hyun-mee deu de ombros, também sorrindo.
— Não que tivéssemos muita escolha... — respondeu simpática.
Percebi que o líder do grupo reparou disfarçadamente no vestido roxo de mangas longas, pouco acima dos joelhos e nos coturnos pretos que minha prima usava. A jaqueta de Hyun-mee estava em seus braços, e ela segurava na frente do corpo, como quem fica levemente encolhida diante de uma presença importante.
Achei interessante e prendi os lábios numa linha fina, pois era capaz de começar a fazer piadas fora de hora ali mesmo.
Quer dizer, o expediente acabou, não é mesmo?
Dei uma leve pigarreada e logo depois Namjoon notou minha presença, sorrindo de forma polida.
— Pelo visto vocês não tinham planos de ir para casa.
Hyun-mee jogou o cabelo bem estilo “eu hidratei esta merda e mereço algum reconhecimento” e eu ri de sua atitude.
— Boa observação! Mas parece que vocês não ficam atrás, né? — Minha prima encarou os outros, com uma face sugestiva.
— Estávamos querendo comer algo gostoso e tomar uma cerveja, mas a chuva parece cagar pros nossos planos — Suga resmungou e eu automaticamente imaginei um gatinho filhote chateado por não receber Whiskas.
Juro que a semelhança era maior do que parecia.
— Eu só queria uma comer uma pizza gigantesca sozinho — Jin comentou e eu o encarei risonha. Ele logo fez uma cara engraçada e deu de ombros. — Que foi? Eu tô com fome!
— Eu percebi isso! Nem para dividir com os amigos? — expliquei enquanto cruzava os braços. Ele se escondeu atrás do V.
— Talvez te desse um pedaço, porque você quebrou as pernas do Jungkook e eu não quero que isso aconteça comigo.
V gargalhou alto e eu fiz cara de indignada.
— Eu quebrei o que!? Que calúnia, garoto! — Me aproximei e fingi que daria um tapinha em seu ombro, quando ouvi alguém berrar alto no corredor.
— Que isso, hein! Quando sai assim, tem hora para voltar?
Me virei automaticamente vermelha na direção de J-Hope, vendo-o gargalhar estrondosamente da minha cara. Eu estava desconcertada, mas mais ainda porque com ele, vinham Jimin e... Jungkook.
Meu Deus.
Quando vi o maknae vindo em minha direção, confesso que não vi mais nada ao redor.
Ele estava... divino? Incrível? Maravilhoso? Todas as opções anteriores.
Vestia um chapéu bucket preto, uma jaqueta preta grossa, uma blusa lilás de detalhes azuis, uma calça jeans skinny azul-petróleo e botas pretas.
Os brincos prateados nas orelhas, os anéis nas mãos desenhadas pelo melhor artista que Deus tinha no céu...
A verdade era simples e dolorosa: eu perdi toda pose de ralhar com J-Hope, porque estava ocupada demais secando e admirando Jungkook.
Que, por coincidência ou não, me olhava de forma curiosa, ao parar ao meu lado.
Seu cheiro me alcançou antes de tudo, e eu não consegui não inspirar com força, me deleitando com seu perfume.
Nossos olhares finalmente se cruzaram e eu senti um frio na barriga, parecendo uma adolescente carregando um amor platônico no peito. Céus...
Logo depois, J-Hope surgiu diante de mim e eu lembrei do que ele tinha dito, só pela careta de atazanado que ele carregava. Aquele filho da mãe conseguia ser adorável e irritante como um irmão mais velho, e a nossa aproximação nos últimos tempos trazia aquele velho ditado à tona: intimidade é um caminho sem volta.
Sim, minha mãe estava certa em me dizer aquilo desde sempre.
(Eu falhei com você, mãe.)
Me forçando a tomar controle da minha mente, mesmo com toda dificuldade chamada Jungkook, parado ao meu lado, consegui proferir alguma coisa que prestasse:
— Você tem certeza de que não é brasileiro? Às vezes fico me perguntando se não te trocaram na maternidade... — falei risonha e J-Hope fez cara de choque, rindo levemente.
— Eu adoraria descobrir que tenho uma família no Brasil! Tenho potencial para ser brasileiro?
— Digamos que eu adoraria te ver no carnaval cantando “Minha pequena Eva.”
— EEEEVA! — Hyun-mee completou e nós duas rimos com a piada interna. J-Hope carregava um sorriso entusiasmado no rosto e pulou alegre no ombro de Jungkook.
— Elas vão me levar pro carnaval!
— Por que só o J-Hope? Isso é tão injusto! — Jimin reclamou e eu fiz cara de dó.
— Prometemos tudo depois dessa turnê, crianças. Deixem conosco! — Hyun-mee respondeu, fazendo pose de “Yes we can” e todos riram animados, mas um novo estrondo no céu nos assustou, fazendo as risadas cessarem e as luzes se apagarem.
Segundos depois, a iluminação de emergência foi ativada, e eu suspirei frustrada.
— Ok, agora a gente realmente ficou preso aqui — Jungkook comentou ao meu lado, e eu percebi que foi a primeira vez que ele disse algo na noite. Virei meu rosto e o encarei com um sorriso mínimo, sentindo muita dificuldade em manter o diálogo enquanto meus olhos analisavam a beleza dele tão de perto.
— Acho que sim... — Minha voz saiu meio fraca, enquanto uma parte de mim percebia que o resto das pessoas dialogavam entre si, como se eu e Jungkook estivéssemos sozinhos e imperceptíveis.
Eu gostaria disso, aliás.
O maknae me analisou rapidamente e sorriu tímido.
— Pelo visto não estava nos seus planos ficar presa no trabalho, não é?
“Depende. Se fosse para ficar presa com você, era melhor do que qualquer plano.”, pensei comigo mesma.
— Não mesmo. Me sinto igual aquelas crianças que se arrumam para tomar vacina — respondi qualquer coisa e Jungkook gargalhou ao meu lado, me lançando um olhar aconchegante.
— Pelo menos tem pirulito e balão de gás hélio depois.
Foi a minha vez de rir e concordar consigo, encarando o chão pensativa.
— Estavam indo para aonde? — Sua voz soou incerta e eu instantaneamente virei meu rosto em sua direção. Ele não me olhava, encarava a chuva como se fosse mais interessante.
Pigarreei antes de responder.
— Hyun-mee insistiu em me levar numa noitada. Mas aparentemente sou pé frio e a idosa de oitenta anos que vive em mim está grata pela chuva.
Jungkook riu feito criança e me olhou de soslaio.
— Não estava a fim? — Neguei com a cabeça, fazendo sinal de mais ou menos com a mão. — Imagine se estivesse.
Franzi o cenho com aquela fala e ri, perdida.
— Como assim?
Jungkook umedeceu o lábio inferior e arregalou um pouco o olhar, como se não esperasse que eu o ouvisse. Ele deu de ombros e me olhou dentro dos olhos.
— Bom, é que... bem, você está muito... Hm. Arrumada?
Eu me olhei e prendi os lábios novamente, mordiscando as bochechas.
— É, realmente. Isso aqui é bem diferente da desarrumada que você está acostumado a ver — sorri sem graça, dando de ombros.
Jungkook logo balançou as mãos no ar e negou com a cabeça.
— Não, não, não! Eu não estou dizendo que você anda desarrumada!
— Tudo bem, Jungkook, eu não ligo... — respondi simpática, apesar de sentir uma pontadinha de frustração no peito. Arrumada? Que belo elogio.
— É sério! Eu... gosto como se veste — Sua mão pairou em meu ombro como se fosse uma pluma, mas capaz de distribuir uma sensação quente e estática.
O silêncio entre nós durou tanto quanto nossa troca de olhares.
Eu sorri, desconcertada.
— Você gosta? — perguntei, pensando que talvez tivesse entendido errado o que ele quis dizer.
— Sim! É que... Fica bem em você, despojado e original. Não é desarrumado. Mas eu nunca te vi tão produzida. Ou com uma bandana dessas, por exemplo.
E, timidamente, ele delineou o tecido com estampas brancas e fundo vermelho que pairava em minha cabeça, e olhou para mim com um pequeno sorriso no rosto.
Eu senti que naquele momento, o tempo correu devagar.
Bem devagar.
— Ficou bom em você... junto com as argolas... — ele continuou, e sua mão alcançou os brincos, mal tocando minha orelha.
Eu jurava que tinha prendido a respiração ali, e conseguia sentir o som do meu coração batendo em alto e bom tom. Me questionei se Jungkook conseguia ouví-lo também.
— Obrigada. Você também está muito bonito.
A frase saiu como se tivesse pedras de gelo na garganta, mas eu tinha certeza que minha feição entregava o quão lindo eu achava Jungkook naquele traje “comum”, e ainda assim, tão a cara dele.
Foi a vez do maknae sorrir sem graça e, com uma pequena saudação, ele agradeceu timidamente, colocando sua mão no bolso da calça.
— Acho que foi isso que eu quis dizer. Desculpe pelo mal entendido.
Um frio passou pela minha barriga e eu automaticamente mordi o lábio inferior, encarando meus pés.
Meu Deus, eu tinha virado Bella Swan?
— Não por isso! Eu entendi. Tá tranquilo! — e dei um tapinha em seu ombro, surpreendendo levemente o rapaz, cuja feição virou um Jungshook risonho.
Eu estava apreciando aquela carinha linda de inocente quando outro estrondo, mais forte do que os outros, interrompeu o falatório dos demais. Admito que dei um pequeno pulinho no lugar, me assustando com a força da natureza, sentindo o coração saltar com aquele barulho todo.
Só percebi que tinha segurado no braço de Jungkook quando o mesmo me olhou tão de perto e escondeu um risinho safado no canto dos lábios.
? Meu braço vai necrosar assim.
— Quê!? — falei sobressaltada, e me assustei ao perceber o quão forte eu o apertava. Logo larguei seu braço e me afastei um pouco, tentando me redimir enquanto gesticulava. — Ai caramba, desculpa! Te machuquei?
— Machucou quem? — J-Hope perguntou ao se aproximar, atraindo a atenção de todos para nós.
— Ninguém, ela só se assustou com o trovão e segurou forte no meu braço... — Jungkook explicou com uma cara tranquila e Jin apontou na minha direção.
— Alguém tem que denunciar essa staff por maus tratos, não é possível!
— Quando não é o pé é a mão, ? — V entrou na brincadeira e RM gargalhou com a minha cara de indignação.
— Gente, mas eu não fiz nada! — Tentei me defender erguendo as mãos para cima e Jimin me imitou enquanto ria.
— Eu sinceramente acho que aquele pedaço de pizza precisa ser revisto. Quem sabe uma pizza inteira não dome a fera? — Suga comentou com Jin enquanto dava leve batidinhas em seu ombro, e o rapper falou tão sério quanto foi convincente.
Todos ali riram da minha cara de cão perdido e Hyun-mee se pronunciou, já que Jungkook parecia ocupado demais rindo daquela interação toda.
— Deixa ela, gente! Só ela sabe lidar com o maknae mesmo, de vez em quando umas porradinhas caem bem! — E piscou para mim, deixando meu rosto automaticamente quente com aquela alegação. Jungkook sorriu timidamente, percebi por olhá-lo de soslaio.
Será que eu poderia dar uns tapinhas no caçula? Dependendo do contexto...
Quer dizer. Foco, !
— Você também seria capaz de agredir um de nós? — RM questionou com os braços cruzados e a sobrancelha arqueada, desviando a atenção e salvando meu momento.
Hyun-mee riu debochadamente.
— Testa meu sangue Kang para você ver!
— É de família, percebem? — Jin apontou para minha prima, que riu mostrando o punho para si. Ele se escondeu atrás de RM, que riu da situação, junto com o resto do pessoal.
— Vocês falam demais, mas só elas para aguentar um bando de marmanjo quase 24 horas por dia! — J-Hope veio nos salvar e eu fiz cara de alívio.
— Você só diz isso porque quer conhecer o carnaval — Jimin provocou com uma careta e J-Hope deu de ombros.
— Você me viu negando algo aqui?
Rimos novamente, e mais um trovão se fez presente, dessa vez, apagando todas as luzes do prédio.
— É sério que até o gerador deu problema? — RM perguntou surpreso, e Hyun-mee caminhou até a janela, olhando para o cenário da cidade.
— Pelo visto tem motivos. A cidade inteira está num breu. Parece até que o mar invadiu as ruas.
A galera se assustou com o comentário e todos foram verificar, confirmando o que Hyun-mee dizia.
— Gente, será que vamos sair vivo dessa? — J-Hope perguntou alarmado e eu ri de seu exagero.
— Vamos aguardar um pouco. É o que resta — RM disse com aquela voz de líder e pouco a pouco fomos caminhando para os sofás do lounge.
Sentei ao lado de Hyun-mee, e meu estômago roncou não tão discretamente.
— Tem alguém com fome aí? — ela indagou em português e eu ri, acenando positivamente.
— Será que ainda tem algo na cozinha? Eu poderia comer um boi.
As luzes de emergência voltaram a funcionar, alguns pontos da cidade começavam a se iluminar.
— Pizza, frango frito, rolinho primavera... — Jimin resmungava jogando suas costas no sofá, e Jin choramingou junto com o amigo.
— Pastel, macarrão... até cup noodles!
Aquilo acendeu uma ideia na minha mente.
— Eu acho que tem cup noodles na cozinha! — anunciei em voz alta e todos me olharam.
Eu não sei porque fiz isso, sério.
Os meninos simplesmente levantaram igual uma manada e todos se direcionaram para a cozinha, correndo feito um bando de loucos. Eu olhei desolada para Hyun-mee, que simplesmente negou com a cabeça.
— Você ainda precisa aprender muita coisa, mocinha.
E saiu andando como se não estivesse me abandonando no lounge.
Achei ofensivo.

(...)

O aviador! Prenda-me se for capaz!
— Tempo encerrado!
— Era Dumbo, cara! Dumbo! — RM reclamava com J-Hope que ria de sua própria inabilidade no jogo de mímica, com a temática de filmes memoráveis.
— Você focou em todos os filmes do Leonardo DiCaprio, ou é impressão minha? — Jimin perguntou com uma sobrancelha arqueada e V franziu a testa.
— Quem?
Todos olharam para o rapaz e começaram a discutir em alto e bom tom sobre o fato do idol não saber quem era o ator.
— O foco não é esse! E sim, por que diabos Namjoon não conseguiu interpretar o Dumbo!? — V interrogou pontualmente e todos se viraram para o líder.
— Eu tentei! Mas J-Hope não entendeu nada!
— Pra mim era um avião!
— Eram as orelhas, J-Hope!
Todos explodiram em gargalhadas. Particularmente, eu estava adorando aquele clima: estávamos todos sentados nas mesas da cozinha, relaxados e alimentados com muitos cup noodles e chás gelados, enquanto passávamos um tempo conhecendo melhor os outros lados que não fossem profissionais.
Eu estava me recuperando das risadas quando J-Hope sugeriu uma nova dinâmica.
— Então chega de mímica! Que tal a gente brincar de twister?
Jimin, V e Jungkook se olharam animados enquanto RM ria e Jin dava de ombros. Suga negava solenemente com um aceno.
— Vamos! — a maioria disse.
— Pelo amor de Deus, vocês querem quebrar a gente mais do que já estamos? Ensaiamos feito loucos essa semana! — Suga reclamou e J-Hope foi ao seu encontro, abraçando-o de lado.
— E é por isso que precisamos alongar. É o jogo perfeito! Vamos?
Os meninos concordaram, alguns mais eufóricos que os outros, enquanto eu e Hyun-mee acenávamos positivamente.
Restou apenas olhares pidões para Suga.
— Isso não estava no contrato quando assinei... — reclamou, dando-se por vencido, e recebendo um coro de zoações dos amigos.
Eu levantei para jogar minha embalagem de cup noodles fora quando J-Hope me interceptou.
! Poderia pegar o jogo para a gente? Está na sala do fim do corredor, do 7º andar.
— Ih, meu expediente acabou, hein? — brinquei com uma careta, enquanto colocava as mãos na cintura.
— Ali óh, pronta para dar uma voadora no J-Hope só porque ele pediu um favor fora de hora! — Jimin comentou e eu abri a boca em choque.
— Até você, garoto!? — ele riu junto com Jin, que deu de ombros.
— Trabalhamos com fatos, apenas — respondeu convencido e os dois riram, debochados. Eu fiz cara de tédio, e os ameacei com o punho fechado, enquanto os meninos fingiam se proteger do perigo. Eu ri da cena e me direcionei para a porta.
— Já volto!
Fui caminhando depressa, pois o medo de ficar sozinha no escuro, caso faltasse luz novamente, era real.
Chamei o elevador, que prontamente se abriu e eu agradeci internamente quando cheguei ao andar sem problemas. Andei mais uns bons passos até ficar de frente para a porta; e qual não foi a minha surpresa quando vi que aquela belezinha estava trancada?
Mexe na maçaneta.
Força a entrada.
Trancada.
O pior foi perceber que nem com aqueles esquemas de grampo de cabelo eu conseguiria resolver a situação, uma vez que a entrada era feita com cartão magnético. Chique, não é?
Peguei o celular, busquei o contato de Hyun-mee e liguei. Depois de três toques, ela atendeu.
— Se perdeu? — perguntou do outro lado da linha.
— Não, mas a porta está trancada. Por acaso alguém tem o cartão de acesso?
— Ih, não sei!
— O que foi? — ouvi a voz de J-Hope questionar minha prima.
— A porta está trancada. Por acaso você tem o cartão de acesso? — Um burburinho se ouviu entre eles, e depois Hyun-mee falou rápido antes de desligar. — Aguenta aí que já tem ajuda a caminho.
Eu fiquei encarando o celular depois de perceber que ela tinha terminado a ligação sem se despedir.
Que mal-educada.
Fiquei esperando, encostada na porta, enquanto mexia no celular, passando pelas redes sociais, sem realmente me ater a nada. O barulho do elevador me fez erguer a cabeça, encontrando ninguém mais, ninguém menos do que Jungkook, passando pela porta e me olhando com um sorriso no rosto. Se aproximou e levantou a mão, mostrando um cartão.
— Alguém precisa de socorro?
Eu ri involuntariamente, meio sem graça, sabe-se lá porquê. Acho que era devido à beleza dele e ao jeitinho meigo misturado com o bom humor do rapaz que me deixava mais à vontade do que eu gostaria de assumir.
— Santo Jungkook! — exclamei enquanto entrávamos na sala e acendíamos as luzes. O caçula riu de maneira fofa e eu sorri, procurando o jogo com o olhar.
— Por acaso sabe onde está? — perguntei com uma careta, e ele riu negando com a cabeça.
— Vamos achar! Você procura nesse armário que eu procuro nesse aqui.
Passamos cerca de dez minutos procurando, sem resultados. Quando estávamos prestes a desistir, eu bufei e olhei pro teto, percebendo que o jogo estava em cima do armário mais alto, escondido debaixo de outros mil jogos.
Arrumação, zero.
— Ali! — exclamei, apontando para cima. Jungkook seguiu com o olhar e sorriu ao avistar o jogo.
— Deixa que eu pego — ele justificou e eu coloquei uma mão em sua direção, negando veemente.
— Nada disso! Você não vai forçar esse pé aí não.
— Tsc, tô melhor já, ... — e insistiu em andar, quando eu entrei no meio do caminho e coloquei as mãos na cintura.
— Poderia se preservar, por favor? — falei num tom mais sério e ele me olhou no maior estilo Jungshook, me fazendo prender a risada.
— Tá bem... — ele ergueu as mãos em rendição e eu sorri mais aliviada. Olhei em volta e apontei com a cabeça para uma certa direção.
— Pega aquela cadeira e segura para mim enquanto eu subo nela, beleza?
Jungkook arqueou a sobrancelha e cruzou os braços.
— E se você cair?
— Aí configura acidente de trabalho e eu pego uma licença, acusando você como o autor da obra — respondi risonha e ele rolou os olhos, rindo também. — Vamos, vai dar tudo certo. Só segure firme, sim?
Ele concordou com um aceno e pegou a cadeira, trazendo até mim e segurando-a conforme indicado.
— Pode subir — e ofereceu a mão, na qual eu gentilmente me apoiei e subi na cadeira.
Seu toque era quente e macio, e confesso que passei mais tempo de mãos dadas com ele do que o necessário.
Quando consegui ficar totalmente em pé na cadeira, deixei que meus dedos se desfizessem dos seus de maneira preguiçosa, como quem não quisesse romper com o contato.
E eu não queria mesmo! Mas me contive, pois seria muito esquisito e no mínimo constrangedor ter de explicar a justa causa na carteira de trabalho por não querer parar de tocar a mão de um k-idol.
Céus, onde eu estava com a cabeça?
Me forcei a focar no jogo, levantando o braço e tentando alcançar o objeto, sem sucesso.
Eu ouvi uma risadinha mínima e fechei os olhos, respirando fundo.
Imaginem o mico de precisar ficar na ponta do pé para alcançar aquele negócio?
Pois é.
A risadinha infame do maknae continuou e eu apenas prendi o riso mal e porcamente.
— Você não está rindo de mim, né garoto?
— Imagina! Eu apenas engasguei, cof cof — apresentou uma tosse falsa e eu rolei os olhos, rindo de si.
— É melhor mesmo! — E peguei o jogo com alguma dificuldade, ficando no máximo das pontas de meus pés para isso.
Quando voltei à posição normal, dobrei os joelhos para colocar o pé no chão, e acabei desequilibrando quando saltei da cadeira. Minha sorte foi que Jungkook me segurou de supetão, pela cintura, me fazendo segurar o jogo com uma mão, enquanto a outra espalmou em seu peitoral.
Nunca estivemos tão próximos e eu nunca notei tantos detalhes nos traços dele, de tão perto.
Nossos olhares se fixaram e eu fiquei completamente quente de vergonha.
Os olhos, as curvas do nariz, o cheiro inebriante que ele carregava consigo...
Engoli a seco quando percebi que ficamos tempo demais naquilo, e me ajeitei, pedindo desculpas ao me afastar respeitosamente.
— Desculpa, desculpa! E-Eu perdi o equilíbrio ali e...
— Não, imagina! Sem problemas, acontece — ele interviu com um sorriso nervoso e coçou a têmpora esquerda, desviando o olhar para o chão.
Estávamos ambos sem graça com a situação, mas eu decidi bancar a profissional e fingir que nada tinha acontecido.
— Bom, então vamos? — perguntei após pigarrear e o maknae apenas concordou com um aceno.
Colocamos a cadeira no lugar e saímos da sala, num profundo silêncio.
Eu apertei o botão do elevador enquanto Jungkook travava a porta da sala privativa. Logo depois estava ao meu lado, encarando o elevador como se fosse o maior dos entretenimentos dos últimos tempos.
O clima estava estranhamente engessado, mas eu não me furtava de pensar no quanto queria memorizar mais os traços do rapaz, de tão perto.
O elevador chegou cortando meus pensamentos e eu entrei apressada na caixa de metal, sendo seguida por um Jungkook tímido e calado.
Ele apertou o andar que o pessoal estava e as portas se fecharam.
O movimento de descida nos alcançou e eu, em total desespero por causa daquela atmosfera estranha, comecei a assoviar uma melodia que não saiu da minha cabeça o dia todo.
Estava há um tempo nisso quando Jungkook interrompeu o silêncio.
— Você tá assoviando “Begin”?
Eu parei na hora, arregalando os olhos. Não tinha me tocado que estava especificamente nessa música e minha única saída foi sorrir sem graça.
— É bem viciante.
Nós dois sorrimos enquanto nos olhávamos, até que as luzes do elevador começaram a piscar e, no momento seguinte, deu um tranco firme, parando de vez e nos deixando alarmados.
— Ai meu Deus, é sério isso? — sussurrei, me sentindo nervosa.
As luzes de emergência acenderam e eu percebi que tinha procurado a mão de Jungkook nesse meio tempo, ao sentí-lo enlaçar a minha de volta.
— Você tem medo do escuro? — ele perguntou gentilmente, mais próximo. Eu respirei fundo algumas vezes e o encarei, receosa.
— Tenho questões com elevadores... — suspirei, encarando nossas mãos. — E com o escuro, também.
Jungkook apertou de leve minha mão, fazendo com que eu erguesse minha cabeça e olhasse em seus olhos.
Confesso que senti o ar rarefeito quando o fiz.
Ele era muito lindo, mesmo com luzes de emergência mal iluminando o local.
E por alguns segundos, aquilo foi tudo que esteve em minha mente.
— Não se preocupa, vai ficar tudo bem. Qualquer coisa, eu tô aqui, tá? — e, com a outra mão, buscou o celular em seu bolso e acendeu a lanterna, iluminando mais o elevador e me deixando menos desconfortável.
Pisquei algumas vezes, voltando a respirar normal, aquecida por sua atitude. Decidi devolver o aperto em sua mão, ainda que estivesse completamente sem graça com tudo aquilo.
— Obrigada, Jungkook. Mesmo.
Ele sorriu de volta e deu de ombros, como se fosse algo óbvio a ser feito, mas era nítido que sua ação generosa merecia gratidão. Não precisava acalmar a staff medrosa, mas lá estava ele, segurando minha mão e gastando a bateria de seu celular para que eu me sentisse melhor.
Então sim, queria fazer muito mais do que dizer algumas poucas palavras em agradecimento, mas fiquei sem reação diante de toda aquela situação, porque, ao olhar para nossas mãos unidas, me toquei da verdade nua e crua: eu acabava de ficar presa num elevador, sozinha com Jungkook.

Capítulo VII - Danger

Estávamos sentados no chão do elevador, próximos um do outro, aguardando a luz voltar, sem muito sucesso. Quer dizer, avisamos ao pessoal que tínhamos ficado presos, e eles mandaram áudios e nos ligaram para saber se estava tudo ‘sob controle’. Se prontificaram em chamar a equipe técnica para nos ajudar, mas até então, estava particularmente tedioso aguardá-la.
E ah, só para constar: já não estávamos de mãos dadas.
Um pouco frustrante, eu sei.
Mas foi justamente em meio ao tédio que Jungkook e eu tivemos a grande ideia de fazer um jogo de perguntas e resposta sobre nós.
Sim, voltamos a época de escola no ensino fundamental.
Bem...
A equipe técnica não chegou, mas lá estava eu falando sobre algo deveras particular com o k-idol que eu basicamente babava só por ele respirar.
É tão clássico que eu mesma tirava sarro de mim, internamente.
.— E aí eu desci a ladeira com um patinete recém-adquirido de natal e fiquei igual bife na chapa ao me estabacar. E foi assim que eu consegui essa cicatriz — expliquei enquanto apontava para o meu queixo.
Jungkook ria muito enquanto negava com a cabeça.
— Foi muito radical da sua parte!
— Sim, mas a que preço? — indaguei teatralmente e ele gargalhou de novo. Quando se recuperou, eu sorri e ele apontou para mim com a cabeça.
— Um país? — me perguntou e eu respondi sem pestanejar.
— Brasil. E você?
— EUA.
— Jura? Achei que seria um da Europa — comentei, surpresa.
— Eu adoraria conhecer também, mas sei lá. Foi o que veio à cabeça.
— Justo, justo.
— Uma cor? — ele continuou e eu nem precisei pensar muito.
— Roxo. E você?
— Preto.
— Isso é tão a sua cara... — comentei risonha e Jungkook cruzou os braços, convencido.
— Está me chamando de previsível?
— Não! É só que... Bem, é visível que preto é a sua cor favorita. É só olhar pra você.
— Talvez... — ele sorriu, se olhando, enquanto puxava o tecido da camisa — Mas essa aqui por exemplo, não é tão previsível, né?
Eu rolei os olhos enquanto sorria, convencida.
— Esse é um detalhe para confundir a galera, só cai nessa quem é distraído e não presta atenção em você! — Apontei um dedo na direção dele, enquanto ríamos daquele papo inusitado.
Jungkook aos poucos deixou o sorriso esmaecer e me encarou curioso.
— Você presta atenção em mim?
Eu parei de rir na hora e fiquei sem graça, dando de ombros.
O que eu ia dizer? “Sim, mais do que gostaria!” !?
Aliás, por que ele fazia perguntas tão incisivas de um jeito tão natural e leve?
Nada me restou além de engolir a seco – o que parecia ser um quilo de areia – enquanto o outro me encarava, pacientemente. Cocei a ponta do queixo e olhei para meus pés.
— Hm, er... Sim, né? Bom, faz parte do meu trabalho — falei com a voz mais grave e ele fez uma expressão de quem concorda com o que foi dito.
— É verdade. Deve ser tedioso.
Eu ouvi aquilo e ri na hora. Foi mais forte que eu, mas ele me olhou como se não esperasse aquela reação.
Gente, pelo amor de Deus. Tedioso ficar olhando um homem lindo daquele?
Jungkook precisava seriamente redefinir seu conceito de tédio.
— O que? — ele perguntou com a voz baixa e eu balancei a cabeça, mordendo o canto do meu lábio inferior.
— É tudo menos tedioso. Você me vê parada, tendo algum tempinho para respirar? — Decidi sair pela tangente e ele fez cara de pensativo.
— É. Talvez seja mais agitado do que parece.
— Eu diria ‘Não subestime o poder de complexidade de uma turnê do BTS’. Além do mais, você já viu como aquele caçula é teimoso? Carne de pescoço o garoto!
Caímos na gargalhada enquanto Jungkook negava, sentindo-se injustiçado.
— Eu sou um bom patrão!
— E ainda joga na cara que é meu patrão... Isso sim é assédio moral — brinquei, fazendo uma careta esnobe e ele deu uma empurradinha com seu ombro no meu. Eu ri com aquele ato e fiz o mesmo, ouvindo aquela risada tão característica dele.
Suspiramos ao mesmo tempo e nos encaramos sorridentes.
— Você é uma pessoa legal, — o maknae afirmou, como quem bate o martelo sobre algum assunto. Sorri genuinamente e acenei com a cabeça.
— Concordo com você! — E recebi outro empurrão, mas dessa vez não retribuí, só ri de maneira bem sapeca. — Brincadeira. Você também é legal, Jungkook.
— Eu tento — ele admitiu com um sorriso de canto de lábios, enquanto dava de ombros.
Ficamos nos olhando por um tempo sem dizer nada, e os sorrisos aos poucos foram cessando, sem deixar que o contato visual morresse.
Apesar da pouca luz, eu conseguia ver com dificuldade o reflexo de minha silhueta nos olhos dele, de tão perto que estávamos. Fiquei naquele transe por um tempo, até que pigarreei sem graça e cocei a ponta do nariz, me remexendo no lugar, um tanto envergonhada.
O clima estava esquisito de novo.
— Então... são que horas? — quebrei o gelo, me virando para olhá-lo.
— 20:15 — ele respondeu no ato, e eu percebi que ele sequer tinha mudado de posição, ou parado de me encarar por algum momento. Na verdade, deixou sim, mas apenas por um segundo, ao mover os olhos para o celular, e voltou a me mirar.
Prendi meus lábios numa linha fina antes de continuar a falar.
— Eita. Estamos aqui há quase uma hora...
— Ainda bem que a gente comeu aquele cup noodles. Você salvou a pátria, . — Finalmente Jungkook apoiava a cabeça na parede e fechava os olhos, como quem sonhava com comida. Achei adorável.
— Pode crer que se a gente não tivesse jantado aquilo, eu provavelmente estaria subindo até o teto — comentei, apontando para os cantos do elevador, enquanto Jungkook ria de mim, ainda de olhos fechados.
— Está mais tranquila? — ele me questionou, cuidadoso.
Já fazia um bom tempo que estávamos ali, mas a lanterna de seu celular continuava ligada.
Eu sorri ao pensar nesse acolhimento e concordei com um aceno.
— Sim. Não está tão insuportável quanto pensei. — E o encarei, relativamente mais séria. — Que bom que está aqui — falei mais baixo, mordendo o lábio inferior, enquanto encostava a cabeça na parede do elevador.
Conscientemente ou não, Jungkook abriu os olhos e virou a cabeça na minha direção, me encarando de forma direta. Percebi que ele tinha um mínimo sorriso no canto do rosto.
— Isso é diferente — ele se pronunciou, enquanto eu franzia o cenho.
— O que?
— Você, com medo de algo. Sempre te achei muito destemida — e virou o rosto para o teto, contemplativo. — Mas acho que talvez essa seja a ideia que eu tenho de você.
Eu fiquei uns dois segundos tentando digerir o que ele quis dizer com aquilo.
Umedeci os lábios devagar, pensando no que tinha acabado de ouvir. Reparei que Jungkook tinha uma facilidade incrível em me deixar encurralada com suas frases “simples” e pontuais.
Eu realmente não sabia reagir diante delas.
— Todos temos medos, receios de algumas coisas... Mas fico feliz de parecer assim. Ao menos eu tento ser forte... — respondi algo genérico, tentando não dar muita pinta de quanto animada fiquei com sua fala.
— E dá certo — ele completou, encarando meus cabelos. — Mas é legal saber que você também tem seus percalços. Eu me sinto mais tranquilo.
— Desculpe, não entendi. Como é? — questionei de forma honesta e ele olhou para suas mãos, pensativo.
— Ver esse seu lado me dá a sensação de que você não é sobre-humana. De que também tem suas questões e mesmo assim não deixa de tentar acertar. Isso me ajuda a pensar que eu também posso fazer isso, sem me cobrar tanto.
Eu abri a boca em choque com aquela frase. Por acaso ele estava dizendo que, de alguma forma, me tomava como um tipo de referência?
— É sério isso? — questionei abismada, e ele me olhou confuso.
— Sim... Por quê?
Eu ri sem graça, gesticulando bem tímida.
— Cara, eu... Nossa, nem sirvo pra exemplo. Você e os garotos é que são dignos de admiração.
— Você não se enxerga muito bem, não é? — ele retrucou um pouco desdenhoso e eu arregalei meus olhos. — Só conseguimos ser o que somos porque temos pessoas como você, conosco. E falo sério quando digo que você é uma pessoa admirável. Então que tal aceitar o elogio e deixar passar apenas um virginiano teimoso por vez? — E apontou para si, com uma careta sabichona e eu ri enquanto rolava os olhos, me sentindo vibrar por dentro.
— Isso é pleonasmo, você sabe. Virginiano teimoso — ele concordou enquanto ria e eu sorri abertamente. — Bom, dois virginianos da mesma data de aniversário, ferrenhos que só. Pensou que me aturar seria diferente? — Arqueei a sobrancelha e ele sorriu com o olhar perdido.
— Não exatamente... Só não pensei que fosse tão legal. Você entende certas coisas como eu. Fala coisas que servem muito pra mim. É raro me sentir tão contemplado, sabe?
Ele foi mais uma vez sincero, me deixando completamente fora da zona de conforto. A cada frase ele basicamente trazia palavras e expressões de aquecer o coração, e eu não sabia onde guardar tanta coisa boa em tão pouco tempo.
— Obrigada por acreditar em mim — respondi por fim, pensando na questão do trabalho, competência... Era difícil assumir essa responsabilidade, mas saber que eu lidava com profissionais como Jungkook tornava tudo diferente.
Diferentemente prazeroso, porque...
Valia a pena.
As luzes piscaram e do nada o elevador voltou a se mover, interrompendo nosso diálogo.
— Whoa! Já era hora! — ele falou, saindo daquele clima intenso ao levantar do chão e eu lembrei de respirar.
— Que bom... — eu falei, olhando para a porta e me espreguiçando para levantar.
E então, a mão de Jungkook ficou bem na minha cara; ele estava oferecendo ajuda para me levantar.
Olhei para o seu rosto com um sorriso mínimo.
— É ou não é um cavalheiro? — e peguei em sua mão, sentindo Jungkook me puxar para cima.
— Eu sou o orgulho da mamãe — ele respondeu brincalhão e eu ri, rolando os olhos.
A porta se abriu e finalmente saímos para o corredor, dando de cara com toda a galera reunida.
— Meu Deus, até que enfim! — Jimin exclamou, se levantando do chão e vindo até nós.
— Vocês estão bem? — RM perguntou solícito e eu e Jungkook acenamos positivamente.
Fiquei me sentindo uma celebridade com a preocupação dos meninos, e fiquei um pouco assustada com a reação do líder, que parecia bem irritado com a demora da equipe técnica.
— Essas coisas não podem acontecer desse jeito. E se fosse alguém que tivesse algum problema de saúde? Um cardíaco? Vou reportar isso. Não dá pra acontecer de novo.
A galera ficou um tempinho em silêncio, provavelmente respeitando o momento de RM, que digitava furiosamente em seu celular, e se afastou para falar diretamente com algum encarregado.
Quer dizer, errado ele não estava né? E quando ele assumia o modo líder, parecia que era muito respeitado pelos meninos – e dava pra ver que ele merecia esse reconhecimento.
J-Hope quebrou o silêncio e veio até mim, muito cuidadoso.
— Você ficou bem, ? Hyun-mee disse que você tinha medo de elevadores...
— E de escuro! — Minha prima exclamou e eu fechei a cara.
— E de escuro... — J-Hope completou, sorrindo amigavelmente.
— Estamos bem. Jungkook me auxiliou e acabei não tendo tanto medo — comentei, entreolhando para o maknae que sorria sem graça, coçando a nuca.
— Educado do jeitinho que eu ensinei! — Jin interviu e abraçou o pescoço do caçula, que foi puxado para trás com o impulso do mais velho, e os dois começaram a rir e se bater de brincadeira.
Jin e Jungkook dividiam o mesmo neurônio sim, e eu tenho como provar.
— Vocês conseguiram pegar o jogo? — Huyn-mee perguntou, tirando-o de minhas mãos e eu fechei a cara.
— Você nem quer saber se eu tô bem, sua desmiolada? — Ela riu e deu de ombros.
— Você vai me dizer que não ficou bem com o donzelo ali? — Ela falou em português e olhou rapidamente para Jungkook, que ainda se encontrava na brincadeira com Jin.
Eu senti meu rosto queimar e tomei o jogo de volta.
— Me dá isso aqui. Agora é questão de honra! — falei em coreano e os meninos me olharam surpresos.
— Você sabe mesmo jogar twister? — J-Hope perguntou do nada e eu ri, acenando para si, enquanto levantava os olhos na direção dos dele.
— Considere-me uma jogadora exímia.
— Uh, isso foi um desafio? — Jimin retrucou sorridente e eu dei de ombros.
— Para mim, vencer é costume nesse jogo!
Hyun-mee riu enquanto os garotos faziam um coro de “uoooou”.
Jungkook fez uma cara de chocado e provocou:
— Não acha ruim cantar vitória antes da hora?
— Você sabe que essa é uma típica frase de um mau perdedor, não sabe? — devolvi com um sorriso convencido, enquanto os meninos continuavam com a zoação e ele ria enquanto negava com a cabeça.
— Tá certo então! Vamos ver quem vai rir melhor no final!

(...)

— Mão esquerda no verde — J-Hope declarou.
— Puta merda — xinguei em português, quando tive que alcançar a bola mais próxima, tendo que colocar uma mão pra trás, ficando na posição de ponte.
— Eta lelê, que o negócio ficou interessante! — Hyun-mee falou alto e eu bufei enquanto ria.
— Vocês estão proibidas de falar em português entre a gente! — J-Hope brigou com uma cara emburrada e eu ri.
— É! Isso é muito chato, eu sou curioso e fico sem saber o que estão dizendo! — Jimin concordou e Suga colocou a mão no ombro dele.
— Deixa de ser fofoqueiro, cara. É feio.
— Gente, não é proposital! É mais forte do que eu. Eu só xinguei aqui! — me defendi e Jungkook riu de mim, numa posição muito mais confortável do que a minha: agachado com a mão direita no chão, enquanto ficava na altura da minha cabeça, me olhando debochadamente.
— Xingou por que? Por acaso está difícil para você, exímia jogadora? — e arqueou a sobrancelha, sentindo-se o rei da pedra do rei.
Eu ri com escárnio.
— Por favor! Isso aqui tá fichinha pra mim!
— Isso soa como uma má perdedora... — ele sussurrou de forma cantada, enquanto olhava para o lado e eu cerrei os olhos em sua direção.
— Jungkook! Mão esquerda no vermelho! — J-Hope anunciou e o Golden maknae arregalou os olhos, ficando chocado com a situação.
Eu não entendi muito bem, até que olhei em volta e compreendi sua reação.
— Você disse mão esquerda no vermelho? — ele perguntou de novo, e J-Hope sorriu abertamente enquanto mostrava o indicador de cores e mãos.
A bola vermelha mais próxima estava do outro lado de mim, ou seja: ou ele ficaria por cima, ou por baixo de mim.
Entretanto, a posição estava muito mais confortável se ele passasse por cima, e eu vi o quanto ele ficou sem graça ao pensar o mesmo que eu.
Ele engoliu a seco e decidiu ir por baixo, ficando mais difícil pra ele, e menos constrangedor para nós.
— E o jogo fica apertado para o maknae! — V berrou em zombaria e todos riram, menos eu e Jungkook, que estávamos concentrados em não perder.
Pelo menos era isso que eu pensava.
, pé direito no azul.
— O-k! — respondi com certa dificuldade, conseguindo a façanha, não mudando muito minha posição.
— Jungkook, mão esquerda no vermelho.
— Tá bem — ele retrucou, ficando de barriga para cima, consequentemente, de cara para minhas costas.
, mão direita no azul.
— Mas gente! — exclamei sem graça, tendo que virar o corpo para baixo, ficando de cara para Jungkook, que me encarava completamente vermelho.
Fiz o movimento lentamente, tentando protelar o constrangimento, sem muito sucesso. Era como se ele estivesse encurralado por mim, e foi impossível que a gente não se encarasse.
O clima ficou tenso entre nós, mas o pessoal seguiu rindo e zoando como se não fosse nada.
— Jungkook, pé direito no amarelo!
Ele olhou para o chão, suspirando enquanto seu pomo-de-adão subiu e desceu, e dobrou sua perna, inevitavelmente abrindo sua pélvis para mim.
Céus, Twister era um jogo muito perigoso.
... Mão direita no verde!
Eu arregalei os olhos, totalmente sem graça. O verde mais próximo estava duas fileiras acima da cabeça de Jungkook, e eu suspirei sem graça.
Quer dizer, antes nos encarávamos, mas com uma distância até saudável, por assim dizer.
Mas agora?
Eu praticamente me rastejei para alcançar a bola verde, e consequentemente, fiquei com o rosto bem próximo ao do k-idol.
A temperatura tinha acabado de ficar bem alta, e eu pensei que aquela jaqueta estava me atrapalhando no jogo.
É, a jaqueta. Claro, era culpa dela sim. Aham.
— Desculpe — sussurrei sem graça e ele não me respondeu nada; apenas ficou encarando minha face, com a boca levemente aberta.
Ficamos um tempo assim, até que a esperança do grupo anunciou a próxima jogada.
— Jungkook, mão esquerda no azul!
O mais novo não se mexeu.
Ficou encarando meus olhos sem se mover e eu franzi o cenho, confusa.
— Hey maknae, mão esquerda no azul! — RM repetiu a frase de J-Hope e ele piscou algumas vezes, olhando ao redor.
— Merda...
Eu fiquei momentaneamente chocada pelo fato de tê-lo ouvido falar palavrão? Sim.
Mas, tinha um motivo plausível: ele percebeu que o azul mais próximo estava de difícil alcance, entretanto, tentou mesmo assim.
Esticou seu braço o máximo que conseguiu, com a feição de quem está empenhado para ganhar.
Porém, nesse processo, seu pé atingiu a minha perna, me fazendo desequilibrar junto com ele e...
Ambos caímos no chão.
Eu em cima de Jungkook.
As risadas dos meninos não abafaram as batidas do meu coração, que pareciam rufadas de tambores ecoando pelos ouvidos.
Eu caí com o peitoral em cima do dele, com as mãos espalmadas no chão ao lado de sua cabeça, e ele ainda estava com as pernas abertas.
Ficamos nos olhando em choque, sem conseguir dizer nada.
Céus, o que diabos estava acontecendo?
— Jungkook perdeu! — gritou Hyun-mee, me acordando para vida real.
Logo me virei para o lado, sentando no chão enquanto me ajeitava sem graça.
— Mas a tirou a mão antes! — Jin reclamou em defesa de seu irmão mais novo e Hyun-mee negou com veemência.
— Claro! Porque ele chutou a perna dela!
— Finalmente ele se vingou. Ela vai pensar duas vezes antes de quebrar as pernas dele de novo. — Suga comentou e todos riram abertamente, menos eu e Jungkook.
Ninguém parecia ter percebido o clima estranho entre nós e eu acabei levantando sem jeito, oferecendo a mão para o maknae, sem exatamente olhá-lo nos olhos.
— Vamos, perdedor. Aceite a ajuda... — brinquei com um sorriso forçado e ele riu sem graça, aceitando a minha mão e levantando.
— É. Você é uma exímia jogadora mesmo! — Jungkook ficou inteiramente de pé e colocou as mãos no bolso da jaqueta, sorrindo sem mostrar os dentes.
— Pois é. Eu avisei. — E apontei o dedo indicador em sua direção, enquanto os rapazes e Hyun-mee se aproximavam.
As luzes normais voltaram ao local, bem como a cidade começou a se iluminar.
— Ei pessoal! Acho que parou de chover! — Jimin comentou, e a galera foi apressada verificar na enorme janela do andar.
Eu fiquei um pouco para trás, ainda absorvendo os últimos acontecimentos, quando Jungkook parou ao meu lado. Ficamos um tempo em silêncio, até que começamos a falar juntos e embolados.
— Me desculpe pela...
— Oh não! Eu que peço desculpas, foi muito...
— Não, que isso! Foi minha culpa e...
— Sério, não foi minha intenção, além do que...
Nos encaramos com os olhos arregalados e rimos desconcertados com aquele diálogo maluco.
— Bom, merecidamente, você é a vencedora. Já decidiu o que quer da aposta? — ele perguntou e eu engoli a seco, encarando o resto do pessoal na janela, conversando entre si.
— Vou precisar pensar com calma. Mas provavelmente vai ter comida envolvida. Certo? — e me virei simpaticamente, recebendo um sorriso genuíno dele, que concordou animado.
— Posso lidar com essa tarefa difícil.
Ambos rimos e Hyun-mee veio andando com uma cara entristecida.
— É, . A chuva parou, mas as ruas estão muito alagadas ainda. Não sei se é seguro ir para a boate...
— Contando que o happy-hour acabou e que metade da cidade deve estar ilhada, acho melhor a gente esperar mais um pouco e ir para casa, não? — sugeri, colocando a mão no ombro dela.
— Querem uma carona? — Jungkook ofereceu com a voz grave, e nós duas o olhamos surpresas.
— Não pre—
— Nossa, seria ótimo!
Eu e Hyun-mee nos entreolhamos; eu negando a gentileza, e ela aproveitando-a.
— O que foi? — ela me encarou de maneira inocente e eu tentei repreendê-la com um olhar. — Você acha que algum uber vai estar disponível para gente? Vamos mofar no ponto de ônibus e não acho legal a gente ficar rodando por aí sozinhas — ela falou mais baixo, tentando me mostrar o quanto era no mínimo razoável a opção ofertada pelo maknae.
— Sua prima tem razão. Por que não aceita a proposta? — Jungkook perguntou gentilmente e arqueou uma sobrancelha, enquanto sorria malandramente. — Veja isso como um bônus da aposta.
— Sério? Ainda posso cobrar com comida? — indaguei brincalhona e ele riu com gosto.
— Pode, sem problemas.
Nós três rimos e por fim, acabei aceitando solenemente a gentileza dele.
Poucos minutos depois, nos despedimos dos rapazes e descemos até a garagem, e mais uma vez eu me via dentro daquele carro enorme e tão a cara do Golden Maknae.
Hyun-mee mal conseguia manter uma conversa; tamanha era a surpresa em seus olhos, enquanto se maravilhava com o possante de Jungkook.
Te entendo, prima. Já estive em seu lugar.
Ficamos conversando amenidades, mas sem sequer falar do jogo que nos levou a ficar literalmente um em cima do outro. Comentávamos até do tempo chuvoso, em como as ruas tinham ficado alagadas, e uma parte dentro de mim pensou que estávamos mesmo desconcertados com o acontecimento de momentos atrás.
Apesar de levar mais tempo que o normal, ele chegou rápido até nossa residência, e quando dei por mim, o freio de mão foi puxado com louvor, indicando que o trajeto estava finalizado.
— Bom, deixo vocês aqui meninas. Obrigado pela companhia nesta sexta-feira louca.
Eu sorri educadamente, o encarando animada.
— Nah, imagine. Nós que agradecemos. Né, Hyun-mee?
Sem respostas, me virei para trás junto com Jungkook, para perceber minha prima alisando o banco de couro do carro, olhando-o encantanda.
Jungkook prendeu uma risada e eu pigarreei, sem graça.
— Hyun-mee? — falei insistentemente, e ela arregalou os olhos, acordando para a realidade.
— Oi? É! Claro! Muito obrigada pela carona! Er, hm, então... boa noite! — e se apressou a sair do carro, completamente constrangida pela situação, fechando a porta logo em seguida.
Eu e Jungkook ficamos olhando para ela, enquanto caminhava apressadamente para o nosso condomínio, sem nem olhar para trás.
— Acho que ela gostou mesmo do seu carro... — falei e Jungkook riu, atraindo minha atenção para si. — Bom, muito obrigada por tudo. Tenha uma boa noite e um bom fim de semana, ok?
Tentei parecer o mais suave possível, mas na verdade, me sentia vibrando internamente só de encará-lo nos olhos, ao tempo que ele parecia tranquilo e sorridente, como sempre.
— Não precisa agradecer, não foi nada. Espero que descanse também.
Ficamos nos olhando ternamente, como se o tempo fosse durar mais do que deveria.
Eu bem que queria.
De repente, o meu celular tocou insistentemente. Era J-Hope, e eu franzi o cenho, porque ele nunca tinha me ligado antes.
— Alô? — perguntei incerta.
! É a sua esperança! — ele se apresentou, já rindo, e eu não pude fazer nada a não ser acompanhá-lo. Ele era mesmo contagiante.
— Oi J-Hope! Diga lá! — Jungkook arqueou uma sobrancelha, estranhando a ligação.
— Manda o caçulinha ficar atento ao celular! Enviamos mensagem perguntando se ele já tinha deixado vocês em casa, mas ele nem deu sinal de vida!
— Eita, entendi. Ele acabou de nos deixar aqui, está saindo agora. Vou falar com ele, fique tranquilo.
— Certo, obrigado e desculpa por ligar do nada! Você sabe como são os menores, né? — eu ri com aquilo e concordei com um aceno.
— Sei sim, sem problemas.
— Então tá, boa noite! Descanse!
— Você também, querido! Até mais.
Quando desliguei a ligação, Jungkook estava me olhando muito curioso. Os olhos grandes me encaravam questionadores e eu ri de sua expressão.
— Era J-Hope pedindo para você ficar atento ao celular. Você acabou não respondendo as mensagens e ele ficou preocupado, junto com os outros rapazes.
O maknae fez cara de compreensão e tocou os bolsos, franzindo o cenho logo em seguida.
— Ué. Cadê meu celular? — e seguiu tateando os bolsos, sem sucesso.
Eu prendi a respiração alarmada. Será que ele tinha perdido?
— Quer ligar para ele? — Ofereci meu celular e ele levantou a cabeça afirmativamente, pegando meu aparelho e digitando seu número, ficando atento ao som.
Logo mais escutamos o toque de seu celular, e vinha debaixo do banco do motorista.
Jungkook arregalou os olhos e sorriu, se esticando para pegá-lo, mas não conseguiu apesar do esforço. Estava num ângulo bem ruim para si.
— Espero, deixa que eu tento — falei, apoiando uma mão na poltrona dele e a outra, procurei enquanto tateava o chão do carro, até que senti o objeto vibrar nas mãos, e o peguei certeiramente.
Levantei, dando de cara com um Jungkook ansioso.
— Aqui! — estiquei a mão e devolvi o celular, sentindo os dedos do k-idol tocarem os meus.
Estavam levemente gélidos, talvez pelo receio de ter perdido o aparelho.
Quer dizer, eu também estaria. Aquele troço devia valer mais do que dois rins meus.
— Salvadora da pátria que chama, né? — ele comentou risonho, e curvou seu tronco levemente, agradecendo. — Muito obrigado!
— Imagina! Estamos aqui para isso... — e sorri, feliz pelo desfecho. — Bom, boa noite e obrigada, mais uma vez!
— Sem problemas. Boa noite, . Até segunda.
— Até!
Me desloquei para fora do carro, sentindo as pernas parecem gelatina. Andei à passos lentos porém largos, e tentava ritmá-los com a minha respiração, um pouco sobressaltada. Foi quando toquei a maçaneta da portaria que virei minha cabeça por cima dos ombros, encontrando um Jungkook me olhando.
Acenei com a mão, com um sorriso tímido, e ele fez o mesmo, dando partida em seu carro. Me olhou de novo e rapidamente encarou seu celular, digitando rapidamente algo que eu obviamente não sabia o que era.
E então, segundos depois, senti meu aparelho vibrar, e com ele, meu estômago pareceu dar um salto carpado dentro da barriga.
Peguei o objeto com as mãos levemente trêmulas e lá estava, uma mensagem de um número desconhecido.

“Vou esperar você entrar.”

Eu sorri para a tela e levantei a cabeça, encontrando um Jungkook sorridente. Por fim, ele apontou com a cabeça para a portaria, me encorajando a seguir em frente, para que ele pudesse partir.
Eu sorri mais abertamente e concordei, entrando logo em seguida e digitando de volta, sem pensar muito.

“Avise quando chegar, ok?”
“Deixa comigo. 😉”

Mantive o sorriso no rosto enquanto encarava o carro do lado de fora. Os vidros subiram, fazendo a figura de Jungkook sumir dentro do carro.
Segundos depois, o possante foi visto abandonando a inércia, seguindo a avenida.
Fiquei encarando a porta por alguns segundos, até que ouvi minha prima pigarrear do meu lado.
— Por que demorou, hein?
— Ele tinha perdido o celular... — respondi automaticamente, ainda encarando a rua com rastros do sorriso.
— Sei... e esse seu estado catatônico com esse sorriso de 32 dentes aí?
Me forcei a sair do lugar e ignorei tranquilamente minha prima, caminhando a seu lado para o elevador, entrando nele logo em seguida. Fui obrigada a encará-la, mas não sem uma sobrancelha arqueada. Cruzei os braços enquanto subíamos para o nosso andar.
— Não mais estranho do que a sua curiosa admiração por bancos de couro e aquela saída vergonhosa do carro! Francamente, Hyun-mee, o que te deu?
Ela ficou vermelha e coçou a nuca, dando de ombros. A porta do elevador abriu e saímos de lá em direção a nossa casa.
— Ah cara, couro né? É meu ponto fraco! — ela comentou e eu ri, buscando a chave na bolsa, a encontrando e encaixando logo em seguida na fechadura.
Finalmente lar, doce lar.
— Sei... Isso e um certo líder de um certo grupo de k-pop, né? — brinquei zombeteira, enquanto me livrava da bolsa e da jaqueta. Hyun-mee fechou a porta com mais força do que o necessário.
— C-Como é que é? Você tá viajando, cara! — ela explicou toda soltando o sutiã ainda por dentro do vestido, visivelmente sem graça e eu ri mais ainda.
— Aham, eu tô sim — retruquei, entrando em meu quarto e pegando meu pijama, junto com minha toalha, e carregando o celular na mão.
— Tá mesmo! — ela respondeu com certa imposição enquanto desamarrava os coturnos e eu ri, rolando os olhos.
— Ok, Hyun-mee. Boa noite! — me despedi, entrando no banheiro e fechando a porta, pronta para tomar um novo banho.
Me olhei no espelho, me sentindo estranhamente bonita. Toquei a bandana, as argolas, meu rosto. Delineei os lábios, e sorri sinceramente.
E então, era aquilo; vivi a noite mais inusitada de todas, ao lado de uma das maiores sensações de k-pop do momento.
Na verdade, ao lado de Jungkook.
Pensava sobre isso enquanto tirava minhas roupas, deixando-as no cesto. Como pude viver tanta coisa em tão pouco tempo?
Céus, a noite foi totalmente diferente daquilo que tinha pensado. Quer dizer, fiquei presa no trabalho, comi cup noodles, brinquei de mímica, catei jogo, caí em cima do maknae, fiquei presa com ele no elevador, partilhei sobre um monte de coisas da minha vida, brinquei de Twister, caí em cima do maknae de novo, recebi carona para casa e...
Você tem uma nova mensagem.

Eita, pleura.
Os dedos gélidos abriram a conversa.
“Cheguei, . Tudo certinho por aí?”

O sorriso foi inevitável.
“Que bom que chegou! Fico feliz que esteja bem. Tudo certo por aqui sim.”
“Beleza, vou deixá-la descansar. Boa noite.”

Eu não queria descansar!
“Pra você também, Jungkook. Obrigada por tudo!”
“Não agradeça. Ainda vou querer revanche no Twister.”
Engoli a seco com aquilo, lembrando que caí em cima dela.
Eu fatalmente adoraria fazer aquilo de novo.
“Te desejo boa sorte! Hahahaha.”
“Você vai precisar também, hehe. Durma bem.😉”
“Aceito, aceito. Igualmente!😊”


Encerramos a conversa e eu estava ali, nua diante do espelho, sorrindo com o celular na mão.
A sensação era que um cometa viajava dentro de mim, tocando pontos estimulantes, que faziam cócegas e me faziam rir a todo momento.
Eu conseguia sentir meu maxilar doído de tanto sorrir.
Foi entrando no box, ao colocar o pé no piso gelado, que tive uma palpitação dentro do peito, por pensar que talvez, apenas talvez, eu estivesse nutrindo uma mini paixão pelo meu patrão, o Golden maknae.
Abri o registro do chuveiro, misturando quente e frio, e suspirei, preocupada.
Mergulhei a cabeça debaixo d’água momentos depois, encostando a testa no ladrilho, pensando nisso como um fato, e não uma possibilidade.
É.
Aquele seria um longo banho...

Capítulo VIII - Stigma

Aconchegante.
Aquela poltrona era muito aconchegante.
Não havia nada no mundo tão macio e convidativo quanto aquela poltrona.
Minha mão deslizando pela superfície, as costas bem acopladas ao encosto... Tudo perfeito.
O estranho foi perceber o vazio das cadeiras ao redor.
Um mar de acolchoados, prontos para abarcar um público que não estava presente. Na verdade, eu era o público.
O público de uma pessoa só.
Com aquela constatação, a luz do palco acendeu, anunciando o início do espetáculo.
A cortina vermelha começou a recuar, conforme uma melodia suave e sedutora soava no ambiente, aquecendo os ouvidos e meu âmago.
Tudo fez sentido quando ele entrou a passos quase inexistentes, parecendo flutuar pelo chão.
O tecido leve e escuro, com pequenos pontos de luz prateados, fazia contraste com a pele do homem, que ganhava destaque com o decote em V da blusa lisa. Aquele detalhe me fez arfar, junto com todo conteúdo da obra.
Ele parecia um ser divino ao performar tão habilmente: os braços erguiam, desciam. As pernas tensionavam, relaxavam. Os pés patinavam, livres, abandonando o chão vez ou outra, fazendo-o alcançar o ar com facilidade.
A gravidade o trazia de volta, e na expressão de um rosto repleto de traços marcantes, o anúncio da certeza era real: ele amava o que fazia.
E eu amava vê-lo fazer o que amava.
Estava tão conectada com sua apresentação que tomei um susto quando percebi a proximidade de seu corpo do meu.
Pisquei abismada ao notar que já não havia palco, já não havia inúmeras cadeiras... Só eu e ele, que caminhava em minha direção com o olhar firme.
Inconscientemente, calculei quanto espaço faltava para que ele me alcançasse. Foram três longos e demorados passos, e os pés descalços revelavam como as pontas dos dedos se arrastavam pelo chão em todo processo.
Até que ele estava diante de mim, com um sorriso de quem guardava um segredo bom. Céus, seu corpo, seu rosto, a atmosfera... tudo contribuía para me fazer perder o fôlego.
Sutilmente, sua mão ergueu e tocou meu queixo, parecendo o carinho de uma pluma ao entrar em contato com minha pele. Automaticamente abri a boca para respirar, sentindo os batimentos cardíacos aumentarem em expectativa.
Os dedos deslizaram pela linha de meu maxilar, e um arrepio na coluna me abalou; tremulei em resposta, ganhando um sorriso mais largo como prêmio; ele apreciava a forma que me afetava.
Curvou a coluna, colocando seu rosto na altura do meu, analisando-me como uma cobra pronta para dar o bote em sua presa.
E eu estava pronta para ser pega, definitivamente.
Estava tão pronta que fechei os olhos, já praticamente sentindo a sensação de beijá-lo.
Mas inesperadamente, a música foi interrompida — brutalmente trocada por uma outra um tanto irritante e... insistente. Feito um alarme.
Então, tudo se desfez, e meus olhos abriram, encarando o teto sem graça do meu quarto.
Era tudo um sonho!?
— Puta que pariu! — berrei, tacando o celular longe na almofada de chão — Filho da puta, cara... Na melhor parte! — choraminguei, colocando o travesseiro na cara, me sentindo irritada como uma criança que não consegue um doce depois da vacina.
Para minha tristeza, o celular estava longe mas continuava tocando, então me levantei e desarmei aquela coisa irritante, me colocando sentada na cama, tentando recuperar o fôlego.
— Céus, como se já não bastasse as borboletas no estômago, agora eu estou sonhando com ele! Aonde isso vai parar? — falei comigo mesma, refletindo sobre a minha situação deplorável.
Era só um crush, não era?
— Bom, tem que ser! Se não, vai ficar impossível trabalhar... — me dei por vencida, quando o celular voltou a tocar, porque a gênia aqui tinha apenas colocado o modo soneca.
Ainda grogue de sono, me arrastei para o banheiro, a fim de fazer o xixi matinal e esperar a alma retornar ao corpo, enquanto checava as notificações das redes sociais.
E assim, abrindo uma mera mensagem, meu dia acabava de começar com um sorriso no rosto e um cavalo galopante na barriga.
Quantos animais poderiam caber na boca do meu estômago mesmo?

“O que é caipirinha?”


Eu ri igual uma boba, pensando no que diabos Jungkook estava fazendo quando me mandou aquela mensagem; e me diverti mais ainda com as que vinham a seguir.

“Uh, eu mandei essa pergunta muito tarde, não foi?”

“Você provavelmente já deve estar dormindo, desculpa se te acordei com isso ☹.”

23:47 pairava logo ao lado daqueles dizeres. Eu já estava dormindo mesmo.
Entretanto, ali sentada na privada, fazendo o xixi mais agradável dos últimos tempos, acabava de perceber que não só a alma já tinha voltado para o corpo, como também o coração — haja vista a forma com a qual ele batia rápido ao ler aquelas três míseras e tão especiais mensagens.
Eu era muito idiota mesmo.
Verifiquei a hora, 6:35. Eu estava obviamente atrasada, mas nem por isso deixei de respondê-lo.

“Hahahaha, relaxa. Acabei de acordar e só vi agora. Mas aceito uma caipirinha como pedido de desculpas. Bom dia :P.”

Conforme cliquei na seta para enviar a mensagem, percebi que foi questão de dois segundos até entender o que eu realmente tinha feito.
Meu Deus, eu estava convidando Jungkook para me pagar uma bebida!?
E só aí que percebi o quão atirada eu poderia soar.
Senti minhas mãos suarem quando decidi que precisava apagar antes que ele visse. Então, feito Tom Cruise em Missão Impossível, selecionei agilmente a mensagem, o ícone da lixeirinha e, quando estava prestes a apagar, ouvi o típico som de quem responde a uma conversa que está aberta.
Puta merda.
Jungkook acabava de responder a minha mensagem.
— Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus! — sussurrei comigo mesma, respirando fundo e totalmente desperta.
Eu ia ser mandada embora.
Ele ia me dedurar por assédio.
Eu já sabia, eu já via tudo! Manchete no Jornal Nacional, capa de revista e tudo junto!
“Staff pinguça assedia k-idol à lá brasileira, chamando-o para tomar uma caipirinha.”
do céu, estamos atrasadas! Vai demorar muito mais aí? — Hyun-mee chamou do outro lado da porta, me despertando para a realidade.
Droga, ela tinha razão!
— Vai adiantando o café, eu saio em cinco minutos! — respondi nervosa. Por fim, tomei coragem e abri a mensagem.

“Tá certo! Quando vamos?”

Os olhos arregalaram tanto que eu duvidava que voltassem para o lugar. Ele tinha aceitado minha proposta insana?

“Bom dia, aliás. Hahaha.”

A mensagem subiu e eu respirei fundo, sem saber o que fazer. Decidi improvisar.

“Insônia?”

A resposta veio logo em seguida.

“É, acho que caí da cama ou algo do tipo, rs.”

Eu dei um meio sorriso, pensando num Jungkook agitado para dormir.

“Putz, aproveita mais um pouquinho. Eu dormi mais que a cama e agora tô correndo pra empresa, hehe.”

“Sonhou muito?”

Mordi o lábio inferior com aquela pergunta.
Sonhei para um caralho, querido Jungkook. Você nem faz ideia do quanto.

“Acho que sim, mas não lembro. Tive um sono agitado, rs.”

Eu era a mentirosa mais feliz da Terra, sim.

“É, acho que também estou nessa. Deve ser a ansiedade para a turnê...”

Ah sim, a turnê. Uhum, é a turnê sim.

“Provavelmente! Mas vai dar tudo certo, vocês são incríveis! Confia!😉”

“Obrigado pelo incentivo já tão cedo! Vou até agilizar as coisas depois dessa, hahaha.”

“Certo, estamos aí para isso! Qualquer coisa, grita.😊”

“Deixa comigo 😉, tenha um bom dia!”

“Você também!”

Felizmente, a questão da caipirinha pareceu ficar esquecida. Deixei o celular em cima da pia, dei a descarga e saí me despindo em direção ao banheiro. Precisava tomar uma bela chuveirada, mas com o atraso, só mesmo um banho de gato era possível.
Em tempo recorde, saí do banheiro enrolada na toalha, pegando o celular de volta e liberando o banheiro.
Assim que abri a porta, Hyun-mee comemorou:
— Até que enfim! Achei que teria que ir fedendo pro trabalho!
— Você só acabou de acordar, implicante! Não é como se tivesse corrido a maratona!
— Muito justo falar quando você está toda limpinha e cheirosa, né bonita?
— O banho passaria batido, mas esse teu bafo de dragão é que seria difícil driblar! — brinquei, recebendo um tapa no ombro como resposta.
Saí rindo, entrando no quarto e já vestindo minha roupa — obrigada do passado por ter separado tudo direitinho antes de dormir, amém!
Uns minutos depois, já vestida, derramava o café na minha garrafinha quando Hyun-mee pegava uma maçã e dava uma bela mordida, colocando a bolsa no ombro.
— Pronta?
— Uhum — respondi, fechando a garrafa e checando o celular pela última vez.
O café quase escorregou da minha mão com aquela mensagem.

“Ah, fico no aguardo da caipirinha, hein? :P”

?
— Hm? — ergui a cara com os olhos arregalados.
— O que foi? Você parou do nada — Hyun-mee perguntou com uma cara óbvia e a porta de casa já aberta.
— Que? Ah, nada! Só vendo aqui umas coisas — respondi, voltando a guardar os pertences e caminhando, tentando disfarçar o nervosismo.
— E isso é hora? Estamos atrasadas! — ela ralhou enquanto eu apertava o botão do elevador. Trancou a porta e felizmente o bendito logo apareceu, para alegria da humanidade. — Hoje vai ter que ser na base do uber e o cartão que chore. — respondeu, vendo que o nosso carro chegaria em dois minutos.
— Ah, claro... A gente divide.
— É o mínimo, depois de demorar tanto naquele banheiro! — franzi o cenho com uma cara tediosa para ela.
— Você dormiu bem, por acaso? Por que está tão azeda?
— Eu precisava de mais três dias dormindo para quitar o cansaço, prima. Tô um caco! — desabafou num suspiro.
— Tô vendo! Nem reparou que hoje é sexta de novo... — falei, saindo pela porta do elevador com uma Hyun-mee menos rabugenta e levemente chocada.
— Puta que pariu, sim! Eu ouvi happy hour com dose dupla?
— Meu Deus, para que fui falar?
Nós duas rimos, enquanto avistávamos o carro parado na calçada, nos aguardando com o pisca alerta ligado. E assim, mais um dia começava — felizmente, o último da semana.

(...)


— Hyun-mee, a prova de figurino dos dançarinos já foi feita? — Hye-jun surgiu com dois tablets na mão e um celular na orelha enquanto encarava minha prima, que não estava muito diferente, verificando no aparelho digital a agenda.
— Sim, acabaram de concluir a de Not today. Estão fazendo os ajustes necessários em alguns pequenos detalhes, pelo que a produção confirmou.
— Hm, certo. Verifique para mim exatamente quanto tempo isso durará, porque iniciaremos os ensaios com o figurino em meia hora! Os meninos estão retornando de uma entrevista promovendo a turnê e não podemos nos atrasar!
— Deixa comigo! — minha prima respondeu prontamente enquanto eu falava com a equipe cenográfica, confirmando a entrega dos materiais que eles precisavam.
— Está terminando aí? — Hye-jun me perguntou e eu afirmei com um aceno e um sorriso — Certo, depois disso, pode verificar com a banda se está tudo certo para o ensaio? Já estamos unindo todas as peças-chaves para concretizar as ideias e ver como será na turnê.
— Claro! Já confiro, sem falta.
— Ótimo! — ela respondeu e logo se retirou, falando apressadamente no celular.
Chequei pela última vez a listagem, deixando a equipe cenográfica à vontade para fazer seu trabalho. Uma vez resolvido, fui até o local de ensaio, encontrando a banda aquecendo com Bapsae.
Aquele ritmo era incrível ao vivo!
Quando notaram minha presença, pararam o som e aguardaram minha fala. A timidez quase me deixou gaguejar, mas fui mais forte que isso.
— Desculpa interrompê-los, pessoal. Vim para verificar se está tudo ok para o ensaio, se precisam de algo... — sorri enquanto explicava — os meninos estão retornando de uma entrevista e em breve começaremos.
— Tudo certo! Se puder trazer aquelas garrafas d’água... — o baterista respondeu com um sorriso amarelo e eu afirmei, encarando aquele mundaréu de gente. Precisaria de algumas viagens para trazer o pedido.
— Claro, eu vou providenciar. Venho num minuto — informei gentilmente e me retirei da sala a passos rápidos.
Alguns segundos depois, ouvi alguém me chamar:
! — Me virei e senti um nervosinho na barriga.
— Jae-in! Oi! — Era o roadie gatinho que nunca tinha tempo para uma cerveja.
— O que faz por aqui na minha área? Dando um rolé? — ele perguntou com um sorriso ladino e eu ri educadamente.
— Nada, estou rodando tudo hoje. Vim confirmar se está tudo certo para o ensaio, e vou trazer água para o seu povo — brinquei, ajeitando a postura. Ele era gatinho mesmo, mas me sentia meio esquisita, por algum motivo.
— Quer ajuda? Acho que você vai precisar de uma mãozinha — Jae-in começou a caminhar do meu lado, sem aguardar uma resposta minha. Eu simplesmente acenei, ainda perdida.
— Muita correria? — ele perguntou novamente, e eu suspirei com um sorriso educado.
— Nem me fale… Acho que nunca estive tão cansada. E você?
— Acho que já me acostumei. É realmente muita pressão antes da turnê começar, mas uma vez que ela acontece, a segurança passa a dar lugar às incertezas.
— Mal posso esperar para ficar mais tranquila!
— Oh não, mais tranquila não. Menos desesperada, talvez!
Nós rimos com aquele comentário, e momentos depois alcançamos a sala com os mantimentos básicos. Consegui um carrinho de despacho e, juntos, colocamos três fardos de garrafas d’água, com Jae-in gentilmente realizando o serviço de frete enquanto comentava algo da sua rotina, recebendo algumas respostas rápidas e sorrisos tímidos meus.
Eu percebi que estava ansiosa, ainda com aquela sensação esquisita pairando em mim. Mas o que havia de errado?
Seria cansaço? Fome? Sono? Tudo junto?
Me concentrei no que estava fazendo, tentando entender o que poderia ser.
Encarei a pessoa ao lado, falante e animada. Eu não consegui acompanhar o que ele dizia exatamente, mas vi sua boca se mexendo empolgada, enquanto eu estava perdida no assunto, tentando entender o que diabos estava rolando comigo.
Reparei nele discretamente, e poderia afirmar que ele era uma pessoa agradável, tinha um bom papo, era educado. Mas…
Por que eu tinha a sensação de que aquilo não era tão legal quanto foi, semanas atrás quando Jae-in e eu nos conhecemos numa interação super descolada e despretensiosa?
De alguma forma, eu não me sentia mais tão animada em tomar uma cerveja com ele. E eu me pergunto o porquê, já que isso parecia ser novidade…
Sim, estava abarrotada de trabalho, mas fazia tempo que eu não me envolvia com ninguém. Mesmo que não significasse nada, talvez uma ficada fizesse bem para a rotina, né? Quer dizer, eu nunca fui a rainha do rodo, mas sempre tive alguém ali ou aqui para satisfazer os desejos da carne, como dizia vovó Kang.
Então o que é que havia de errado em Jae-in e naquele súbito desânimo em estar com ele?
Chegamos na sala de ensaio, e eu prendi a respiração quando vi que os rapazes já estavam ali com a banda. Conversavam entre si, rindo, testando os microfones, se alongando e se aquecendo.
Fiquei piscando inerte quando reparei em Jungkook; a cara de sono revelava que ele dizia a verdade nas mensagens que me enviou. Talvez tivesse caído da cama, mas isso não o deixava menos belo. O chapéu bucket, os cabelos cobrindo parte dos olhos, a presença das orelhas se fazendo apenas pelos brincos estilosos que usava...
A blusa branca, a calça de pescador com bolsos, o tênis all-star.
Ele era tão lindo, e não fazia esforço algum para isso!
Parei abruptamente quando senti o coração dar uma galopada no peito, e Jae-in franziu o cenho, parando o carrinho a alguns metros à frente.
— Tá tudo bem?
Não.
Não estava.
Quer dizer, acabava de ficar difícil, porque eu havia entendido aquela sensação esquisita no peito.
Eu estava com saudades de Jungkook.
? — Jae-in tornou a perguntar e eu pisquei vorazmente, o encarando perdida.
A aflição diminuiu, o incômodo estava indo embora. Tudo isso devido à presença de Jungkook.
Oh, merda.
Estava sentindo que caía numa cilada, então não estava tudo bem. Mas eu precisava que estivesse, uma vez que dependia daquele emprego, e daquele bem estar profissional para garantir minha sobrevivência.
Precisava engolir qualquer alarme dentro da minha cabeça sobre a relação que tinha com Jungkook. Era trabalho, no máximo uma amizade.
Tinha que ser!
Engoli a seco e respondi fracamente Jae-in.
— Está sim! É que me lembrei que não respondi um e-mail de carregamento... — disfarcei, retomando o foco que eu perdi.
— Ah, sim. Precisa de ajuda para entregar? — o roadie perguntou gentilmente e eu forcei um sorriso.
— N-Não! Só me ajude a colocar aqui no canto, pode ser? Eu distribuo.
Com um aceno e um sorriso galanteador, ele atendeu meu pedido com gosto, me ajudando a retirar do carrinho as benditas garrafas.
— Bom, está entregue, moça.
— Muito obrigada pela mão... Pelas mãos, quer dizer. Pode deixar que eu entrego para o pessoal — agradeci sorridente e ele se aproximou delicadamente, me olhando nos olhos.
— Então, você tem algum programa para hoje?
A pergunta ecoou na minha mente como se estivesse sendo feita por um megafone. Mais estranho que isso, só o fato de que Jungkook acabava de perceber minha presença, e seu olhar se fixou no meu, no mesmo momento que um sorriso convidativo pairou em seu rosto, automaticamente me fazendo sorrir também.
Eu estava tão fodida.
— É... — respondi mais pra mim do que qualquer coisa, e a risada sem graça de Jae-in me fez olhá-lo alarmada.
— Isso quer dizer que você está livre ou...?
— Hã? Quê? — balbuciava, olhando dele para Jungkook, que agora tinha um sorriso mais ameno, reparando no roadie ao meu lado.
Minha face esquentou, meu estômago revirou, e eu simplesmente queria sair correndo dali.
Meu Deus, eu tinha virado uma criança amedrontada com o primeiro dia de aula!?
— Então? — Jae-in moldou um sorriso, me chamando a atenção novamente.
Respirei fundo e sorri sem graça.
— Eu...
— Jae-in! Preciso que verifiquei o retorno. Está saindo muito agudo! — o baixista me salvou daquela sinuca de bico, e eu soltei o ar aliviada, mas disfarcei a cara e apenas mantive o sorriso amarelo.
— Hm, preciso ir. Se não tiver nenhum programa hoje, me avise, ok?
— O-Ok! — respondi, recebendo uma piscadela em resposta enquanto o roadie seguia para o seu dever.
Umedeci os lábios e comecei a me acalmar, vendo-o ir embora. Mas quando meus olhos encontraram os de Jungkook, ele me encarava com uma feição visivelmente desconcertada, com um sorriso estranho.
Talvez tivesse acompanhado aquela interação desastrosa entre Jae-in e eu, e minha total incapacidade em responder uma proposta. Céus, eu era patética…
Diante da mira do maknae, decidi acenar brevemente, tentando entrar no modo profissional e, com uma rapidez invejável, rasguei os fardos e disponibilizei as águas para todos, deixando os meninos por último.
Foi cumprimentando-os com a face mais tranquila que recebi o primeiro ‘oi’ do dia, e não poderia ser ninguém mais ninguém menos que ele.
— Ora, se não é a minha vencedora de Twister favorita? is in the hoooouse! — J-Hope me recebeu com um sorriso iluminado e aquilo aqueceu meu coração.
— Bom dia! Vejo que está animado, né? A entrevista foi boa? — perguntei, entregando as garrafas para os outros meninos, que agradeciam com breves acenos.
— Foi ótima, ele riu mais do que falou, enquanto Suga dormia praticamente sentado — Jimin respondeu, tendo sua garrafa roubada do rapper. — Ei!
— Em minha defesa, as coisas só poderiam funcionar depois das dez. Estou errado, ? — Suga me perguntou e eu ri, dando de ombros.
— Cuidado que ela pode te dar uma garrafada na cara se discordar de você. Sabemos que ela é dessas! — Jin brincou com um sorriso nos lábios, e se aquele desgraçado não fosse tão lindo, eu já teria feito o que ele havia sugerido, diretamente naquele rostinho de worldwide handsome dele.
— Eu sou uma eterna e grande piada para você, não é? — indaguei brincalhona, e Jin riu mais ainda, pegando a garrafa que ofereci. Taehyung se aproximou, interagindo na conversa.
— Entenda isso como uma bênção. Seu dia ainda não começou se ele não fez alguma piada. — O sorriso do rapaz me fez imitá-lo, e eu ainda não tinha me acostumado com seu jeito simples e belo de ser, admito.
— De nada, aliás — Jin retrucou, implicante, e eu ri incrédula com aquela fala.
Para total deleite de minha parte, o mais velho do grupo recebeu um tapa na nuca, dado pelo líder.
Sorri vitoriosa enquanto Jin reclamava da recepção de RM.
— Ah, qual é?
— Te falta diplomacia, Seokjinnie. Sinto muito por ele, — RM agradeceu cordialmente quando lhe entreguei a água, e eu dei uma leve curvada.
— Obrigada por entender. Eu sofro, como podem ver. Ninguém me trata bem nesse grupo! — fiz um pequeno drama, colocando uma garrafa no peito e fechando os olhos, recebendo risadas dos meninos, até que as mesmas foram interrompidas por uma pergunta crucial.
— Ninguém?
Todos pararam e olharam para Jungkook, que tinha uma sobrancelha arqueada e umedecia os lábios, parecendo desafiador.
O coro de “uuuuh” foi inevitável, e obviamente senti um iceberg na boca do estômago, enquanto as bochechas pareciam pegar fogo.
Nosso olhar parecia cintilar um sobre o outro, e eu intimamente brigava comigo mesma para agir normalmente.
Impossível.
Respirei fundo, dando um sorriso parcialmente derretido e pigarreei, dando de ombros.
— O perdedor do Twister até que é legal.
As risadas foram gerais, e, apesar do olhar cerrado, Jungkook sorria de forma cúmplice e adorável.
Como eu fazia.
Me aproximei devagar, tentando manter as cenas do meu sonho no fundo de minha mente, e engoli a seco antes de falar algo.
— Bom dia — a voz saiu baixa, e eu estendi a mão com a água.
— Bom dia. Chegou no trabalho a tempo? — ele perguntou, pegando a garrafa e nossos dedos se tocaram, aquecendo minha mão.
— Sim! Santo uber. E a entrevista? Foi boa? — segurei o resto das águas na altura do peito, sentindo o pé remexer.
— Foi sim. Mas eu estava terrivelmente sonolento. Pior que o Suga.
— Eu ouvi isso! — o cujo dito passou naquele exato momento, fazendo com que eu e Jungkook soltássemos pequenas risadas.
Ficamos nos olhando sem exatamente dizer nada, e logo RM chamou a todos no microfone.
— Vamos, pessoal?
— Vou deixar vocês trabalharem... — comentei sem graça, me retirando a passos lentos.
— Tá. Então... Bom trabalho!
— Bom ensaio!
Andei me arrastando, ouvindo os primeiros acordes de Not Today, e sorri involuntariamente.
Antes de sair, dei uma olhadinha para trás, recebendo um olhar e um aceno de Jungkook.
Eu repeti seus atos e saí porta a fora, fechando-a e me apoiando nela.
— Oi Deus, sou eu de novo... — comentei de olhos fechados, pedindo intimamente para...
Para o que mesmo?
Que aquilo não estivesse acontecendo?
Ou que tivesse alguma reciprocidade naquilo que eu sentia?
O celular apitou, com um pedido de Hyun-mee para ajudar num novo descarregamento de palco.
— Vou trabalhar que eu ganho mais...
(...)
Eu passei o resto do dia enchendo a cabeça de coisas relacionadas ao trabalho, para não precisar pensar nas sensações que aquela manhã me trouxe. Quer dizer, eu estava fugindo de uma DR comigo? Exatamente.
Decidi que não era hora, nem lugar para pensar naquelas coisas.
Imagine só! Se eu me dou conta de que estou nutrindo algo mais consistente do que uma amizade saudável permite… é adeus, trabalho!
E eu definitivamente não poderia me permitir aquilo.
Sem chances! Não, não mesmo.
Para minha falta de sorte, tive que acompanhar os meninos numa sessão de fotos no meio da tarde, ao ar livre, num parque lindo de morrer que ficava próximo à big hit.
Às vezes eu esquecia da proporção que o BTS tinha, já que a estrutura da sessão de fotos era algo bem bacana de se ver; as tendas totalmente equipadas com o material necessário, o empenho dos profissionais, e é claro; os meninos super dispostos, mesmo com uma agenda pesada de afazeres.
Tudo bem que me deu muita aflição ver tanta gente em cima dos meninos, fazendo tudo de uma vez; ajeitando o penteado, retocando maquiagem, o vestuário… Céus, e eles pareciam inabalados com aquilo!
Porém, o resultado era impecável.
Todos estavam muito lindos, iluminados e brincantes.
Basicamente, eu estava ali para ver todo mundo lindo diante de uma câmera fotográfica — e isso fatalmente incluía Jungkook.
Como podemos imaginar, eu estava tentando segurar as voltinhas que a boca do estômago dava, mas a verdade era cruel: eu não era capaz.
E ali, no meio de todo mundo, tinha ele. Aquele sorriso todo arreganhado de quem não tem vergonha em achar graça de algo bobo que Jin fez, aquele olhar que praticamente se fechava ao sorrir, a pequena e inconsciente levantada de ombros com as risadinhas, o som das mesmas…
Naquele exato momento em que me toquei do quão atenta estava àqueles detalhes, me chutei mentalmente, forçando o tablet contra minha testa e fechando os olhos.
Tanto esforço para não reparar nessas coisas e quando me distraio, é exatamente nisso que penso!? Cara, que merda eu andava comendo!?
! — ouvi alguém me chamar e dei um pulo no lugar, tomando um susto com a Hyun-mee balançando uma mão na minha cara.
— Quê!? — chamei no impulso, arrancando uma risada de J-Hope, que era assessorado pela minha prima.
— Tá dormindo em pé, ? — A esperança do grupo me zoou e eu ri zombeteira. Ele sabia que eu não curtia que me chamasse pelo nome tão incisivamente, como havia feito.
— Não, Jung Hoseok! — Ele riu com a brincadeira e deu um joínha em minha direção.
, confere para mim o número da blusa aqui. Essa está muito larga nele! — Hyun-mee pediu com certa urgência na voz e eu rapidamente acenei, conferindo os dados e mostrando a tela do tablet alguns momentos depois.
— Aqui. É essa medida? — indaguei, vendo a cara frustrada da minha prima.
— Sim! Está certo! Será que não mediram ele direito?
Nós duas olhamos para J-Hope, que tinha uma cara de quem “peidei, mas não fui eu”.
Franzi o cenho e coloquei as mãos na cintura.
— Por acaso o senhor está se alimentando direito, Jung Hoseok?
Minha prima me encarou com uma feição engraçada, provavelmente reconhecendo o tom “vovó Kang” que eu usei. J-Hope fez um bico, dando de ombros.
— Eu tô comendo normal. Mas é verdade que tenho treinado mais do que de costume… — coçou a cabeça num ato tímido e eu suspirei, flexibilizando a pose.
— Certo. Vamos fazer o seguinte? Vou conferir quando é a próxima consulta de vocês com a nutricionista e por hora, a gente pode tentar dar uns reparos paliativos na blusa. Vou chamar o estilista.
O sorriso iluminado de J-Hope me deixou mais tranquila, e eu intimamente era grata por ter sido “flagrada” por ele e minha prima ao estar desligada do mundo real, enquanto deveria estar atenta ao meu trabalho.
Cada vez mais tinha certeza de que Jungkook era o caminho para minha derradeira profissional.
Eu me sentia no quinto ano de novo. Patético, eu sei.
Felizmente conseguimos resolver a vestimenta do solzinho do grupo sem problemas, e a sessão de fotos se deu com muitas risadas, palhaçadas, e momentos extremamente desconcertantes: quando eles se concentravam em seduzir a câmera, atingindo a mim por conseguinte.
— Você está precisando de um babador.
— Só eu? — respondi a minha prima em português, e desviei a visão de Jungkook, que posava para mais um clique.
Desgraçado lindo da porra!
— Eu admito que às vezes o trabalho é difícil, mas você se acostuma, priminha! — A divertida voz de Hyun-mee me fez sorrir, e eu a olhei com a sobrancelha erguida.
— Me pergunto o que você faz para disfarçar…
— Ah, eu sonho muito, né? — Automaticamente, seu olhar passou pelo líder do grupo e ela deu de ombros, dando uma mordidinha no lábio que me fez rir.
— Você é podre!
— Ah, qual é! Isso não é violar nenhuma regra!
Eu continuei rindo, tirando uns fios de cabelo da frente do rosto enquanto a brisa batia.
Alguns cliques depois, o fotógrafo liberou Jungkook, que se encaminhou para o vestiário, trocando de roupa. Pelos meus cálculos, era o último que faltava das sessões individuais, o que talvez significasse o fim de expediente.
Minhas suspeitas se demonstraram assertivas quando Hye-jun nos chamou com as mãos, e reuniu a equipe dentro da tenda. Logo depois os meninos chegaram, com as roupas que vestiam anteriormente. Apesar de tentar conter meu nervosismo, fiquei irrequieta ao perceber que Jungkook estava a um metro de mim, se ajustando na roda.
O fotógrafo estava com a câmera no pescoço e sorria alegremente, enquanto iniciava seu discurso.
— Quero agradecer pelo empenho de todos, pessoal! Vocês foram incríveis, a atmosfera é sempre muito agradável e produtiva. Desejo uma ótima turnê ao BTS, e mais uma vez agradeço pela opor—
— SASAENG! — O berro veio de um segurança de fora da tenda.
As coisas aconteceram muito rápido, e meu coração palpitou forte enquanto eu me situava.
Olhei ao redor totalmente em alerta, e percebi que a garota vinha rápido pela entrada secundária da tenda. Arfei ao perceber o quão rápido se aproximava, correndo em direção aos meninos.
Não havia nenhuma pessoa entre ela e o mais próximo da entrada, que era ninguém mais, ninguém menos que Jungkook.
De todos os staffs, eu era a mais próxima deles; tanto do maknae, quanto da garota.
Então, eu simplesmente agi, sem pensar nas consequências.
Larguei o tablet, que fez um som oco ao chocar-se com o chão de grama, e corri em direção à intrusa, servindo de escudo para Jungkook, tentando pará-la.
Quando percebeu minha intenção, ela intensificou na corrida e jogou-se em direção ao k-idol, que olhava tudo muito assustado.
Sem pestanejar, fiz o mesmo que ela.
E assim, quando me joguei entre ela e Jungkook, recebi todo o impacto de seu corpo quando se chocou ao meu, e nós duas caímos igual jaca podre no chão; eu, tentando impedí-la de atacar alguém, e ela, se debatendo, me arranhando, puxando meu cabelo para que eu desistisse daquilo, enquanto gritava o nome dos meninos.
Sim, eu estava no quinto ano novamente, sem sombra de dúvidas.
Com aquele tumulto todo, eu consegui segurá-la até que os seguranças nos alcançaram segundos depois. A bicha era realmente forte, e se debatia como um peixe fora d’água.
Conforme ela era levantada pelos armários guarda-costas, eu comecei a sentir um alívio sem o peso da sasaeng, ou suas tentativas de me atingir.
Mas era cedo demais, e Murphy ria da minha cara naquele exato momento, pois a cretina, ao se debater, lançou um chute que atingiu diretamente o meu nariz.
E ali, eu vi estrelas.
Uma sensação quente descia pelas narinas, o que eu julgava ser sangue. Pelo gosto ferroso que logo encontrou minha boca, eu não tinha dúvidas.
As lágrimas caíam livremente, devido a região atingida.
— Filha da puta… — falei em português, sentindo a cabeça pesar.
Quando pensei que bateria diretamente no chão, senti alguém segurando-me com precisão e cuidado, me chamando com urgência.
Apesar da visão turva, percebi que era Jungkook que falava comigo, com o olhar arregalado.
Mas eu não conseguia responder.
A última coisa que eu lembro de ter pensado foi o quão tonta eu estava. E o quão inevitável foi não ver mais nada.


Continua...



Nota da autora: Oi lindezas!
Demorei um cadinho pra chegar, mas cheguei!
E parei na parte babadeira!
Que será que vai acontecer com nossa pp lindeza salvadora da pátria?
Ficamos tensas?
Sim!
Logo mais chego com o novo cap.
Enquanto isso, aproveita essas quase 20 páginas de amor e diz aí o que achou! ♥
E ah, muito obrigada por tuuuudo, já que My stardust bateu mais de mil visualizações! To feliz à beça! Obrigadaaaaaaaaa ♥
E isso é tudo, pessoal!
Qualquer coisa, grita lá no twitter! @lullymaniac.
Beeeeijos ♥



Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


CAIXINHA DE COMENTÁRIOS

Oi! O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.


comments powered by Disqus