Última atualização: 18/07/2018

Capítulo 1

Aquele era o último dia que se submeteria as grosserias do sr. Ribamar. Estava cansada de ouvir sempre a mesma ladainha, das mesmas pessoas, no mesmo tom acusatório. Principalmente se tratando do principal culpado por ela estar presa naquela cidade.
Por isso, respirou fundo, deu um meio sorriso para o dono do restaurante e voltou a atender a mesa que estava a sua espera. Os clientes a olhavam com pena, mas depois de uns segundos todos pareciam ter voltado sua atenção para os cardápios.
— Duas porções de isca de peixe, uma cerveja e um suco de cajazinho? — a mulher repetiu o pedido e esperou pelo sim dos clientes.
O movimento daquele final de junho parecia estar melhor do que o do ano anterior, e as festas de São João, Santo Antônio e São Pedro atraiam ainda mais turistas para a pequena cidade de Joaquina, o que deixava feliz, pois sabia que a cultura e as tradições da cidade tinham muito a mostrar nesses períodos de tantas visitas.
Ela também ficava sorridente ao pensar nas gorjetas, já sabendo que quando pedisse as contas naquela tarde, o dinheiro seria suficiente para que ela pudesse terminar a dívida e deixar a cidade para trás, enfim, podendo mudar de vida de uma vez.
Por um lado ela ficava ressentida de sair dali. Deixar a família, os amigos e a própria cidade para trás. Era triste pensar nisso, mas, se ela quisesse ter alguma chance de realizar seu sonho, alguns sacrifícios teriam que ser feitos.


Apesar de a cidade estar lotada de turistas e o restaurante estar com quase todas as mesas ocupadas, os funcionários não estavam tendo nenhum problema com o volume de pedidos, mas sim com o dono do comércio que insistia nas exigências, recheadas de estupidez.
, venha já aqui! — a garota revirou os olhos mais uma vez quando escutou a voz de Ribamar do final da escada.
Pediu licença para o casal que pagava a conta, orientou uma das outras garçonetes a atendê-los e subiu as escadas respirando fundo para se acalmar. Deu duas batidinhas na porta e a abriu.
— Seu Ribamar, chamou?
— Queria saber até que horas você vai trabalhar hoje, porque preciso que alguém feche o restaurante. — ele nem a olhou, preso ao que estava fazendo no computador.
— Hoje é quinta-feira, o senhor sabe que eu não posso.
— Você chegar atrasada para um showzinho não lhe fará mal algum, sim? — Ribamar então prestou atenção na menina, e completou. — Não é como se você fosse aparecer na televisão ou algo assim…
Ele estendeu as chaves, mas antes que ela pegasse, pensou no que perderia e ganharia: sabia que se ficasse para fechar o restaurante, receberia um bônus, pequeno, mas já era um dinheirinho a mais. E para quem estava guardando as economias em um cofre há um ano e meio, qualquer quantia era bem-vinda. Mas perder o início do festival, no qual ela havia se comprometido a organizar e apresentar… a escolha que fez era quase um tiro no pé, mas esperava que pudesse se explicar ao prefeito mais tarde.


Enquanto terminava de limpar e arrumar a última mesa, via as pessoas andando a caminho da praça central da cidade, onde o palco já deveria estar pronto e armado para receber o prefeito, a banda da escola municipal, os dançarinos do centro comunitário e ela, caso não demorasse tanto no banho.
Em poucos minutos gostaria de estar se juntando a todos na praça, mas ainda precisava fechar as janelas, a cozinha, o escritório, correr para o apartamento e voltar. Era pedir demais para alguém que já tinha passado o dia em pé atendendo às mesas.
Mas lá estava à garota, trancando a porta principal, e saindo correndo por duas quadras até o segundo edifício construído na cidade. fez questão de ignorar o ardor no pulmão quando viu as escadas que a esperavam até chegar em casa.
Enfrentou cada degrau o mais rápido que pode e ao fechar a porta do apartamento atrás de si, foi tirando a camisa do uniforme e jogando-a no sofá, o tênis voou para a entrada da cozinha e o outro para o corredor, enquanto ela entrava no banheiro e ligava o chuveiro.
A água gelada caiu como uma luva para aquele dia quente, e a menina sentiu um peso saindo dos ombros e da cabeça. Não querendo demorar ainda mais, logo, logo saiu do banho e correu para o quarto, vendo seu vestido quadriculado, típico daquela época, já posto sobre a cama, como havia deixado assim que saiu de casa pela manhã.
Já com a roupa no corpo, fez uma trança de cada lado do cabelo, colocou o batom rosa que tanto gostava e saiu à procura do tênis para poder correr de volta à praça.


— Achei que você ia nos deixar a ver navios! — João sorriu assim que a viu e já foi logo lhe entregando o microfone.
— Boa noite para todos os presentes ao arraial de Joaquina! — parecia brilhar de animação. Desde pequena a menina se metia nos palcos da cidade para falar no microfone e quando cresceu não foi diferente. — O atraso não foi tanto, mas peço desculpa.
Todos riram, bateram palmas e umas carinhas conhecidas dela gritaram quando ela começou seu breve discurso sobre o arraial e a programação para àquela noite de festa.
— E como todos estão esperando, nosso prefeito, João Carlos!
O arraial enfim havia começado! bateu palmas como todo mundo ali presente, mas logo desceu do palco para visitar as barraquinhas de comida.
Amava a culinária da época. Canjica, mingau, paçoca, milho e até galinha caipira se encontrava a venda. Mas se dirigiu primeiramente a barraca de pipoca, onde Helena já estava no preparo da guloseima.
— Você não precisava ter gritando quando dei boa noite! — torceu a boca.
— Achei que já era a sua vez. — Helena entregou um saquinho de pipoca para um freguês. — Sabe, o Joca estava quase contando piada com a sua demora…
— Ele que não se atrevesse! — as mulheres se entreolharam e sorriram.
As apresentações daquela noite estavam saindo como planejado, mas respirava com dificuldade a cada vez que olhava para o relógio e via que a hora se aproximava.
Àquela não seria a sua primeira apresentação, mas era a primeira vez que tinha um número considerável de pessoas.
Pouco depois das dez da noite, a festa deu uma acalmada enquanto o palco era preparado para a próxima apresentação. Helena já havia reparado que a menina estava respirando fundo, numa inútil tentativa de se acalmar.
— Você não tem que se preocupar com nada, … vai dar tudo certo! — a menina sorriu para a amiga. E não conseguiu deixar de pensar em como seria difícil deixá-la.
— Agora nós teremos a apresentação da nossa linda e encantadora ! — os alto-falantes berraram depois de uns segundos.
Helena deu um gritinho em animação enquanto empurrava a amiga para a escada ao lado do palco.
— Você vai arrasar! Eles não são loucos de não gostar de você!
Respirando fundo mais uma vez, sorriu para Helena e subiu os últimos três degraus da escada.
Foi ovacionada com palmas e alguns gritos vindo das pessoas que, apesar do calor, não arredaram o pé.
Joca fez mais alguns comentários e agradeceu ao público por ter esperado pela última atração da noite, então deixou o palco com uma aparentemente nervosa, seu violão e os técnicos de som.
— Boa noite, gente! — ela sorriu ao ouvir uma resposta do público. — Muitos aqui já me conhecem, mas aos nossos turistas, eu sou a , neta do dono do Armazém que todo mundo compra, ou já comprou. — mais risos vieram da plateia. — Hoje nós vamos finalizar a festa com umas músicas acústicas, só eu, meu violão e vocês… então quem estiver dançando, pode continuar, quem estiver comendo também e quem ainda não começou a beber… bem, esse é um bom momento! — ela mesma não acreditava que havia dito tais palavras, mas todos pareceram aprovar e deram uma salva de palmas.
Respirando fundo mais uma vez, tocou os primeiros acordes de uma música muito conhecida. Como uma onda era um clássico daquela região litorânea e todos já sorriam, se preparando para os primeiros versos da música.
Enquanto tocava a segunda metade, deixou que seu primeiro “grande” público cantasse sozinho enquanto ela continuava tocando e os incentivando a soltar a voz. Admirou-se quando viu alguns celulares no alto, filmando-a, fazendo um registro daquele momento, e decidiu cantar o último verso junto com eles, porque achou que assim era mais íntimo e ela queria se sentir cada vez mais à vontade com aquela vida.
As próximas músicas foram cantadas com ainda mais empolgação, mais amor, mais vontade e mais vozes. Chegaram alguns pedidos e fez questão de cantar todos eles. Ficou ainda mais entusiasmada quando viu que ninguém arredava o pé e outras pessoas que estavam nas outras barracas, chegavam para acompanhá-la.
Quando percebeu que já estava mais tarde do que o previsto para terminar o show, decidiu mudar a lista de músicas que havia planejado e colocou um dos maiores sucessos de quem ela considerava o Rei da música no país, se não, do mundo.
— Eu fiz uma pequena mudança na lista, e vou terminar com uma música que meu avô cantava para mim, quando ainda era uma garotinha. E eu sei que todos vocês conhecem.
Ela quase foi às lágrimas quando todos a acompanharam cantando Lady Laura, uma música antiga do Roberto Carlos, deixou que eles cantassem sozinhos um pedaço da letra e novamente os acompanhou. Agradeceu imensamente e deixou o palco com uma chuva de aplausos, mais feliz do que conseguia expressar.
Joca estava logo no final da escada, esperando com os braços abertos enquanto a garota vinha em sua direção dando pulinhos de alegria e se jogando nele. Apertou-a num abraço e sorriu quando ela começou a gargalhar.
— Você foi perfeita hoje, ! — ele a parabenizou e ela finalmente o soltou, para dar um beijo em cada bochecha do rapaz e o abraçá-lo de novo. — Eu preciso subir ao palco, prometo que já volto aqui contigo.
Eles se distanciaram e ficou observando quando ele sorria uma última vez antes de subir a escada. A mulher ficou à espera do prefeito e ouvia quando ele teceu elogios aos artistas daquela noite, e ela estava inclusa naquele agradecimento, por isso deixou os olhos se encherem de lágrimas, mas não queria deixá-las caírem, então enxugou o rosto, procurou por um copo de água e tentou se acalmar.


As únicas pessoas na praça da cidade eram uns últimos beberrões, o pessoal que desmontava a estrutura do palco e os três amigos de longa data, , Helena e Joca.
— Eu vou indo, porque eu tenho uma criança que está sendo cuidada pelo pai e isso me preocupa. — Helena brincou e se levantou da mesa do bar da praça. — Você arrasou hoje, ! De verdade. Nos vemos amanhã!
deu um sorriso fraco para a amiga e Joca a acompanhou. Quando Helena já estava a uma boa distância, ele encarou , sabendo muito bem o que perguntaria assim que ela tocasse no assunto. Como ela não o fez, ele mesmo se pronunciou.
— Você sabe que ela vai ficar uma fera, não sabe? — a garota concordou com a cabeça, mesmo que estivesse entretida com as gotas que se formaram na tulipa que abrigava um restante de cerveja. — Tem certeza que você precisa ir sem dar tchau para ninguém?
— É mais fácil assim… aliás, se eu fosse me despedir das pessoas, nunca viajaria!
— Então eu não vou deixar que você vá de ônibus até a capital, eu mesmo te levo. — quando ela ia negar, ele a interrompeu. — Se você disser que não, vou agora mesmo na Helena e conto tudo!
— Você não se atreveria! — ela disse em descrença, mas quando viu Joca se levantar e deixar uma nota de cinquenta reais embaixo do próprio copo, se desesperou e levantou junto. — Não, tudo bem, vamos juntos!
Perceberam então que passava das três da manhã e precisariam viajar em menos de duas horas para São Luís, e chegar a tempo do voo de para São Paulo, maior polo industrial da música brasileira. Dirigiram-se para suas casas e tentaram dormir, mas Joca já tinha um plano em mente quando sugeriu levar , por isso começou a arrumar uma pequena mala e conseguiu uma passagem no mesmo voo.
colocava as últimas coisas na mala quando resolveu deixar uma carta para algumas pessoas. Sabia que não dormiria de tão nervosa, então escreveu para Helena, para a mãe e a avó. Pediria que Joca as entregasse quando retornasse à Joaquina. Nas cartas, tranquilizou a todos dizendo que ficaria uns dias com o pai, mas que já havia encontrado um apartamento que dividiria com uma prima de sabe-se lá quantos graus, com quem sempre conversava. Explicou o porquê de não dizer nada e nem se despedir, esperava que todos a entendessem.
Por volta das cinco e dez da manhã, escutou a buzina do carro do Joca e começou a descer com as duas malas que continham todas as suas coisas e a mochila nas costas. Agradeceu a ele pelo esforço e ajuda que tinha dado naquele plano maluco dela e seguiram viagem até São Luís.
Já nos limites do destino, estava quase dormindo quando viu os primeiros raios de sol surgirem no céu. Sorriu para si mesma e continuou observando atentamente a paisagem. Plantações, casebres, animais. Tudo aquilo era comum demais na sua vida, mas não naquele dia que ela finalmente iria atrás de realizar seu sonho.
Tinha certeza de que nada seria fácil, mas não desistiria de mostrar ao mundo o que sua voz era capaz de fazer. Olhou a última foto que havia tirado com seu avô, alguns anos atrás. Ele era a pessoa que mais a incentivava, que deu o primeiro violão, que a levou para assistir seu primeiro show e a pessoa que ela mais amava na vida. Quase chorou, mas não queria se emocionar na frente de Joca, mesmo que eles fossem amigos desde criança, aquilo ainda era íntimo demais para ela.


Chegaram ao aeroporto quase em cima da hora, não deveriam ter parado para tomar café da manhã na estrada, mas o que deixou ainda mais nervosa, foi ver uma mochila que não era sua dentro do carro.
— Você vai para algum lugar? — quis tirar a dúvida da cabeça, mas Joca apenas deu de ombros enquanto colocava a mala dela no chão.
Quando despachava as bagagens e viu Joca fazendo seu check-in, ficou chocada e gritou de surpresa para o amigo, no meio do aeroporto, fazendo com que todos olhassem para os dois. Ela tentou convencê-lo de que ele não precisava fazer isso, que era exagero e que ele estava gastando mais dinheiro do que o racional, mas ele não deu ouvidos.
Já dentro do avião e a muitos mil pés de altura, ele disse que se preocupava com na cidade grande. Ele, como prefeito, sofria preconceito velado, imagina uma garota com sotaque diferente que estaria lá só para cantar.
— Você pode achar que estou exagerando, mas as pessoas não dão a mínima para você em São Paulo. — confidenciou. — Você vai receber muito não e vai ouvir coisas como as que o Ribamar falava lá no restaurante, ou até pior.
— Eu sei. — a menina olhou pela janela e viu nuvens branquinhas contrastando com o céu azul. — Muito obrigada por ter vindo, apesar de achar isso uma loucura.
Mais algumas horas de voo seguiram com os dois dormindo e tentando descansar para o dia que viria. Ela não esperava que as pessoas fossem iguais às de Joaquina, porque o próprio pai já havia informado que a vida na cidade grande era diferente demais. Ele mesmo levou anos até se acostumar, mas estaria ali para o que ela precisasse.

Eles aterrissaram e se encontraram com Rui, pai de . Foram para a casa do senhor e se acomodaram. Tiveram um enorme almoço em família, aonde ela reviu alguns tios, primos e os avós paternos.
Eloísa, sua prima com quem dividiria o apartamento, chegou um pouco depois das quatro da tarde porque estava no trabalho, mas disse que a casa estava toda pronta para que ela pudesse se sentir melhor com a mudança. Passaram horas conversando e então Joca disse que tinha alguns compromissos para atender.
— Eu não sei como vou conseguir te agradecer por tudo, Joca! Você é uma pessoa que eu quero sempre na minha vida! — eles se abraçaram, e ela entregou as cartas para ele. — Está tudo identificado, queria que você as entregasse…
— Sem problemas… só espero que a sua mãe não me bata quando eu chegar. — caíram na gargalhada ao imaginar a cena.
— Muito obrigada! — ela beijou o canto da boca do rapaz, como em algumas outras vezes acontecia, mas logo o abraçou novamente e completou. — Eu vou te pagar tudinho que você me emprestou, centavo por centavo!
— Isso nós podemos conversar mais para frente.
Joca se despediu dos familiares de e conversou rapidamente com Rui antes de entrar no táxi. lembrou bem do dia em que marcou uma reunião na prefeitura para falar bem sério com Joca, ele achou que era apenas uma brincadeira, até ela explicar que precisava de um dinheiro emprestado para deixar a cidade.
De início, ele negou, não queria que ela fosse para longe, mas sabia que se não fosse ele, provavelmente emprestaria dinheiro de Ribamar e isso só seria dor de cabeça para a menina.
A saudade de casa foi mais forte do que ela imaginava, principalmente quando deitou no sofá da casa do pai. Tinha um apartamento para se mudar, mas decidiu ficar por ali naquele dia. Estava nostálgica demais para ir para um lugar que ela ainda não conhecia.


Apenas na semana seguinte descobriu que o apartamento que dividia com Eloísa era modesto, mas, por outro lado, ficava perto do centro da cidade. Poderia se deslocar a pé a grande parte dos lugares sem qualquer tipo de problema, um alívio para quem precisava economizar até os centavos que tinha.
Tirar seus pertences da mala se demostrou uma tarefa mais fácil do que guardá-los lá. Seu quarto possuía uma cama, um guarda-roupa de quatro portas e uma pequena cômoda. Suas coisas não ocuparam metade do espaço que havia disponível.
Depois de se acomodar decentemente, sentou-se em sua cama e uma onda de sentimentos lhe arrebatou. Ainda não conseguia acreditar que havia deixado sua cidade para trás, no entanto, a possibilidade de conquistar uma vida nova a encantavam.
Ouviu seu celular tocando e ao ver o nome de Helena na tela, soltou um longo suspiro, preparando-se para a enxurrada de xingamentos e perguntas que ouviria da amiga, porque foi exatamente isso que recebeu ao atender a ligação de sua mãe, no dia anterior.
— Alô.
— Você enlouqueceu, ? — a voz do outro lado da linha chiou. — Como pode ir embora dessa forma?
— Eu sinto muito. — desculpou-se apenas, sabendo que nenhuma de suas explicações acalmaria Helena.
— Você deveria ter me dito, eu poderia lhe ajudar... eu poderia ter me despedido de você ao menos!
— Foi melhor assim. Odeio despedidas! Você deve ter lido a carta que pedi a Joca para lhe entregar, expliquei tudo lá. — defendeu-se, não querendo que a mulher, que sempre foi uma excelente companheira, ficasse magoada.
— Ah o Joca! — ela exclamou, como se repentinamente tivesse se lembrado de algo realmente importante. — Deveria esganá-lo por não ter me dito nada.
— Vai com calma, Helena! — sorriu finalmente, confiante de que a amiga lhe perdoaria. — Eu o fiz prometer que não contaria.
— Não sei por que é que ele ainda lhe dá ouvidos! — resmungou e depois de uma breve pausa, onde poderia jurar que a mulher estaria se perguntando se valeria a pena ou não dar o braço a torcer, a ouvir perguntar: — Como estão as coisas por aí?
— Ainda é tudo novo para mim. A cidade, as pessoas, os costumes... Mas eu realmente precisava arriscar.
— Apesar de querer esganá-la junto com o Joca, estou torcendo para que tudo dê certo. Você sabe que tem talento! E se precisar de alguma coisa, é só ligar está bem?
— Está bem! Mas não precisa se preocupar comigo, afinal, estou bastante acostumada a dar um jeitinho em tudo, não é mesmo?
— Ah, isso é verdade! — ouviu uma gargalhada do outro lado da linha e em seguida, se despediu de Helena.
Começou então a planejar o que faria nos próximos dias. Sabia que precisava ir atrás do que motivou sua mudança, por isso selecionou os lugares em que iniciaria sua busca por uma oportunidade. Rezou para ter um pouco de sorte dessa vez.
No entanto, com o passar dos dias, descobriu que conquistar um lugar no mundo da música era uma tarefa mais difícil do que poderia ter imaginado. Bateu de porta em porta, mas todas pareciam estar sempre fechadas. Foi recebida em alguns lugares por pessoas gentis, em outros por pessoas mais grosseiras do que Ribamar e em alguns deles, por ninguém.
Em uma sexta à noite, deitada no sofá de seu novo apartamento, pegou-se pensando em sua cidade natal. Estava com saudade do que deixou para trás e aborrecida pelo fato de seu sacrifício ainda não ter valido a pena.
, levanta já daí! — Eloísa ordenou, parecendo cansada de ver sua companheira de apartamento tão desanimada. — Vamos sair hoje à noite.
— Oh, não! Obrigada pelo convite, mas prefiro ficar em casa.
— Você vem comigo sim. Conheço um barzinho próximo daqui, que é excelente. Você vai adorar!
— Estou sem ânimo para sair.
— Nada que algumas doses de álcool não resolvam.
Percebendo que Eloísa não desistiria, decidiu ceder e seguiu para seu quarto, com o objetivo de se arrumar. Não demorou muito, apenas trocou de roupa e soltou os cabelos. Voltou para a sala e encontrou a prima já pronta também.
Seguiram a pé para o barzinho, que demonstrou ser um lugar bastante agradável para se estar. Pediu sua cerveja e engatou uma conversa animada com Eloísa, que volte e meia lhe apresentava um conhecido seu.
As horas se passaram na mesma rapidez em que os copos eram cheios novamente. já estava cogitando voltar para casa, quando os alto-falantes do bar anunciaram que estava aberta a primeira rodada do karaokê. Decidiu ficar mais um pouco e assistiu duas apresentações, que foram no mínimo, hilárias, considerando o nível de embriagues dos “cantores”.
— Você deveria cantar na próxima rodada! — ouviu a voz de Eloísa sobre a música.
— Acho que não! — gritou em resposta.
— Vamos lá, . Você vai arrasar!
Amaldiçoou o poder de convencimento da prima e se viu seguindo até o palco. Estava nervosa, exatamente da maneira que ficava nos momentos que antecediam suas apresentações. Segurou o microfone com um pouco mais de força do que seria necessário e ouviu a melodia da música que cantaria encher o espaço.
As primeiras frases foram cantadas com um pouco de insegurança, mas assim que percebeu que a plateia estava curtindo, soltou a voz com convicção e incentivada pela bebida, deu um verdadeiro espetáculo, que foi aplaudido de pé ao final.
Voltou para seu lugar sentindo-se triunfante. Eloísa lhe recebeu de braços abertos e a parabenizou incansavelmente, enchendo-a de elogios. aproveitou o momento para agradecer a garota por ter lhe arrancado de casa. A noite tinha valido a pena, no final das contas.
Estavam tomando a saideira, quando foram interrompidas por um homem, cuja aparência era de alguém com mais de 50 anos. Era um homem de estatura mediana e que possuía uns bons quilos a mais do que seria o ideal.
— Desculpe interromper. — ele abriu um largo sorriso para as garotas e em seguida dirigiu seu olhar para . — Sou Leon, o dono do bar. Ouvi você cantando há pouco. Foi uma apresentação impressionante!
— Obrigada! Sou . — ela se apresentou, feliz que alguém na cidade nova tenha reconhecido seu talento.
— Estou procurando uma atração para tocar aqui aos finais de semana. Se você possuir algum interesse, por favor, me ligue para conversamos a respeito. — ele disse, entregando-lhe seu cartão. — Preciso voltar ao trabalho agora, espero que você considere minha proposta.
— É claro. — ela assentiu, forçando ao homem um sorriso.
Tocar em um bar aos finais de semana decididamente não estava em seus planos quando se mudou, mas ainda assim, não teve coragem de dizer isso a Leon, não querendo decepcionar alguém tão gentil.

passou o final de semana planejando o que faria nos dias que se seguissem. Planejar e executar eram o menor dos seus problemas. O grande impasse estava nos resultados, que nunca pareciam chegar.
Só depois de bater em mais portas e ouvir mais alguns nãos é que a esperança começou a diminuir e a garota se obrigou a ser realista. Apegou-se a ideia de que sua oportunidade surgiria com o tempo, mas até que isso não acontecesse, precisaria de um novo emprego.
Ei, , como andam as coisas? — ouviu a voz animada de Joca ao telefone e sentiu seu coração se apertar um pouquinho.
— Não tão boas como eu esperava. — decidiu contar a verdade para ele.
Eu lhe disse que seria difícil, . Mas isso não significa que você tem que desistir.
— Eu não vou! Até porque tenho uma dívida para pagar a você.
Não quero que você se preocupe com isso, quero apenas que foque na sua carreira.
— Carreira essa que parece estar destinada aos barzinhos da cidade. — ela lamentou-se, lembrando-se da proposta de Leon.
Como assim?
— A única proposta que recebi até agora foi para tocar aos finais de semana em um barzinho.
Já é um começo, não é? — ela sorriu, desejando ser tão positiva como Joca sempre fora.
— Você tem toda a razão! E mais uma vez, obrigada por tudo que você fez por mim.
É para isso que servem os amigos, .
Quando a ligação foi encerrada, decidiu fazer uma nova. Pegou o cartão que Leon lhe deu e discou o número que havia gravado nele. Marcou de se encontrar com o homem, no mesmo dia.



Capítulo 2

A primeira apresentação de no Bar do Leon (nome bastante sugestivo, diga-se de passagem) foi veementemente aprovada pelos clientes. A grande maioria já estava farta de ouvir pessoas desafinadas dando seus shows ao karaokê, mesmo que às vezes isso fosse realmente divertido.
A garota estava feliz em voltar a cantar novamente no lugar. Ao contrário do chefe antigo, Leon não era do tipo que saia berrando ordens a todos de forma grosseira. Na verdade, passava grande parte do tempo fora de vista, trabalhando em seu escritório.
não deixou de notar que a movimentação no lugar era grande. Por vezes, as garçonetes pareciam não ter fôlego suficiente para correr de um lado para outro, anotando e entregando pedidos.
Foi aí que lhe surgiu uma ideia.
— Espero não estar atrapalhando. — a garota sorriu, ao entrar no escritório Leon.
— Claro que não. Sua apresentação foi ótima! As pessoas ficaram impressionadas. — ele comentou, radiante.
— Obrigada. Mas gostaria de falar sobre outra coisa. — ela arriscou, encorajada pela necessidade de ter dinheiro suficiente para cobrir suas despesas. — Notei que o bar é bastante movimentado e que nem sempre as garçonetes conseguem dar conta da demanda. Eu já trabalhei em um restaurante, então se você precisar de ajuda...
— Quando você pode começar? — a pergunta a pegou de surpresa, não esperava que fosse tão fácil.
— Amanhã mesmo!
— Ótimo! — Leon sorriu como se todos os seus problemas, enfim, tivessem sido resolvidos.
não estava tão feliz, como estaria se estivesse trabalhando no lançamento de seu primeiro cd, mas o emprego que tinha arranjado era realmente bom. Seu salário mais as gorjetas eram suficientes para seguir com a vida na cidade nova.
Tirando o fato de ter que lidar com alguns clientes bêbados de vez em quando, gostava de trabalhar no bar. Já havia se tornado amiga de duas das três garçonetes, e apesar de a terceira não ser tão amigável, conseguia conviver tranquilamente com todos.
Adorava ainda mais as noites de sexta, sábado e domingo. Quando chegava o horário de sua apresentação, trocava de roupa rapidamente e subia ao palco para fazer o que mais amava na vida. Quando o repertório se esgotava, ela voltava a vestir seu uniforme e se preparava para receber os elogios de grande parte dos clientes que até poucos momentos atrás formavam sua plateia.
— Um dos clientes da sua sessão está sentando no chão do banheiro masculino. Dê um jeito nele. — Liane, a garçonete pouco amigável, informou a no meio da noite de quarta-feira.
— Tudo bem. — a garota concordou, mesmo duvidando que fosse sua obrigação resolver o problema.
Abriu a porta do banheiro masculino e encontrou o rapaz sentado logo ao lado dela. De fato, ele estava sentando em sua sessão e a garota lembrou-se de ter servido a ele uma quantidade bastante excessiva de garrafas de cerveja.
— Você está bem? — ela perguntou, ao perceber que ele se mantinha imóvel em sua posição.
— Será que você poderia me trazer mais uma cerveja? — uma voz arrastada respondeu.
— Acho que você já esgotou nosso estoque por essa noite. — ela disse, desejando que o rosto do rapaz não estivesse tão oculto pelo boné que ele estava usando. — Mas eu posso chamar um táxi e você pode ir para casa.
— Não! Não quero ir para casa agora.
— Que tal você voltar para a sua mesa então? Posso pedir alguma coisa para você comer e depois chamo o táxi.
— Ok. — ele concordou e ela se viu obrigada a ajudá-lo se levantar do chão.
Depois de acompanhá-lo até a mesa, levou a ele uma porção de batatas fritas e uma garrafa de água gelada. Lançou olhares discretos ao rapaz durante o restante do expediente, com medo de que ele pudesse entrar em um coma alcoólico a qualquer momento.
— Daqui a pouco vamos fechar. Já chamei um táxi para você. — comentou, se sentando em frente ao último cliente errante da noite.
— Você não é daqui, certo? — ela estranhou a mudança de assunto, não achando seguro falar sobre si para um desconhecido.
— Não. Sou do Maranhão. — acabou respondendo, ainda assim.
— Percebi pelo sotaque nordestino.
— Sotaque maranhense, você quis dizer.
— E há diferença? — ele abriu um sorriso, muito mais bonito do que a maioria daqueles que estava costuma a ver.
— Acredite em mim, há muita.
— Por que saiu de lá?
— Estou em busca de um sonho.
— Eu também tinha um. — a voz do rapaz não passou de um sussurro, mas, ainda assim, foi suficiente para que pudesse ouvir. Analisou os traços da feição que o boné não escondia e teve a impressão de já o tinha visto antes.
Devo tê-lo atendido em outra noite.
— Eu acompanho você até lá fora. — se ouviu dizer, sem saber exatamente por que estava se oferecendo para isso.
O rapaz conseguiu caminhar de uma forma muito mais confiante do que havia feito antes. Talvez a comida tivesse diminuído seu nível de embriagues.
— Garotas legais como você, não deveriam trabalhar em bares e aturarem idiotas bêbados como eu. — ele disse, quando já estavam quase chegando à porta de saída.
— Da próxima vez que for beber lembre-se disso. Não exagere tanto e assim não irá obrigar outra garota legal como eu, te aturar. — ela sorriu, concluído que muito provavelmente o rapaz seria uma companhia interessante quando sóbrio.
— Juro que vou me lembrar.
O táxi já estava esperando na frente do bar. esperou na calçada, enquanto o rapaz abria a porta do carro. Pensou que ele iria embora sem se despedir, mas como se fosse capaz de ler os pensamentos da garota, ele se virou novamente para ela.
não sabia dizer por que ele estava vindo novamente em sua direção. Seu cérebro apenas conseguiu capturar o segundo em que o rapaz levou a mão até o boné para virá-lo e o segundo seguinte, quando seus lábios quentes estavam sobre os delas.
Sentiu uma mão pousar em suas costas e o gosto de cerveja invadir sua boca. Notou que já estava quase se esquecendo de como era bom ser beijada.
— Obrigado.
Ainda estava de olhos fechados quando o rapaz sussurrou a palavra sobre seus lábios. Desejou que ele não fosse embora, pelo menos não naquele momento, mas sentiu a mão dele deixar suas costas e quando finalmente voltou a enxergar, ele já estava entrando no táxi que ela havia chamado.


passou a semana torcendo que o rapaz voltasse ao restaurante, mas isso não aconteceu, para tristeza da garota. Vez ou outra, prestava atenção na porta do lugar, quando um cliente chegava sozinho, mas logo voltava a sua atenção para a mesa que atendia, mas nem que fosse por um milésimo de segundo, sentia o estômago arder em esperança.
Não que ela tivesse se apaixonado, afinal, nem o conhecia, e não foi para isso que veio à São Paulo. Apesar de ter esperanças de encontrar com o homem mais uma vez, manteve a cabeça no lugar e focou em seu trabalho. Lembrava-se disso sempre que estava em casa, tocando seu violão ou escutando uma música na rádio.
Recebeu uma ligação rápida da mãe, perguntando como estavam as coisas e dizendo que a avó mandava lembranças. Helena também havia entrado em contato, dessa vez por mensagem, contando as novidades que rondavam a pequena Joaquina, e como cada vez mais, o seu Ribamar ficava nervoso quando o nome de era mencionado. Ele havia espalhado que a primeira pessoa a dar uma oportunidade à mulher, havia sido ele, mas todos na cidade sabiam que ela só cantava no restaurante depois de muita insistência, não que ele a quisesse ajudar de fato.
Ainda naquela semana, planejou o que compraria para o aniversário do pai, que aconteceria na sexta-feira da próxima semana. Toda a família se reuniria para a comemoração na casa de Rui, e Eloísa e haviam confirmado presença, apesar de avisarem que chegariam mais tarde por conta do trabalho e da faculdade da prima.
Mesmo que tivesse confirmado presença, a menina ainda não tinha coragem o suficiente para pedir a sexta de folga para Leon. Ele poderia ser uma boa pessoa e um bom chefe, mas ela mal havia começado a trabalhar e não queria perder a oportunidade.
Mas como passava seu tempo livre enfurnada em casa, queria estar presente, encontrar os familiares, amigos do pai, e quem sabe, finalmente conhecer a nova namorada dele.
Reparando que a prima não saia de sua rotina, Eloísa a chamou algumas vezes para descontrair, recebendo respostas negativas da menina. Sabia que rotinas eram importantes, mas uma vez que ela saísse, não faria mal.
A convidou para um churrasco no final de semana, mas disse que precisava trabalhar nas suas músicas. A verdade, é que Eloísa estava preocupada com ela, já que só a via indo e voltando do restaurante, dormindo ou tocando seu violão. Em vez de ir com a prima, a chamou para beber alguma coisa na sua noite de folga, mas Eloísa estava atolada com a faculdade, por isso a mulher entendeu.
- Mas você deveria ir mesmo assim… - A prima sugeriu, recebendo a boca retorcida de . - Qual é, ? Não gosto de sair sozinha também, mas não custa nada.
- Eu não conheço quase nada aqui, e eu não queria ir beber aonde trabalho!
- Ninguém disse para você ir beber no Leon! - Eloísa riu. - Fuja da sua zona de conforto, conheça uns carinhas e beba um pouco.
- Ah, não sei não. - ainda estava contrariada em aceitar o proposto pela mulher, mas já pensava aonde poderia ir. - Eu não vou saber o que falar…
- Besteira sua. Pode se arrumar que você vai sim!
Depois da constante insistência de Eloísa, decidiu que sairia para apenas beber umas cervejas enquanto observava as pessoas. Se, por acaso, conhecesse alguém, não se fecharia completamente para uma, quem sabe, amizade.
Em menos de uma hora, a mulher andava pelo bairro a procura de um barzinho. Sabia o caminho para o trabalho e por isso andou para o outro lado. Viu algumas opções, mas ainda não se sentia segura para parar, andou mais algumas ruas e encontrou um posto de gasolina cheio de carros estacionados e pessoas bebendo. Aquela não era uma cena da qual ela estava acostumada, até porque, Joaquina não tinha mais do que três postos.
estava decidida a investir naquele lugar, simplesmente porque seria uma nova experiência, e era isso que ela estava atrás. Queria sair ainda mais da vida que levava em casa, queria poder experimentar coisas novas, sem que perdesse a essência nordestina que carregava com orgulho no peito.
Gostou da música que um dos carros tocava, não lembrava ao certo quem era o cantor, mas a letra do sertanejo universitário era apaixonante para quem quer que fosse. Enquanto caminhava em direção à lojinha, observou as pessoas colocando suas garrafas de cerveja no alto e soltarem a voz, pareciam sofrer de amor, mas logo começaram a sorrir uns dos outros.
Entrou na loja e lá havia mais pessoas, e apesar de o ar-condicionado estar ligado, o clima da conversa era caloroso o suficiente. foi até uma das geladeiras com a porta de vidro e parou um momento, escolhendo o que beberia.
- Essa vermelha é muito boa! - Um rapaz, pouco mais alto que ela, comentou e pediu licença para pegar uma garrafa.
- Obrigada! - Mirela agradeceu e também retirou uma para si.
Sentou no balcão, próximo ao mostruário de lanches e olhou para fora. As pessoas ainda cantarolavam entusiasmadas, agora para mais um dos sucessos do Wesley Safadão. Ouvia, não porque queria, a conversa engajada de dois homens na mesa próxima ao caixa.
Eles conversavam empolgados sobre um evento que ambos haviam comparecido e como os preços estavam em conta; um casal trocava olhares apaixonados; jovens entravam para comer e o grupo continuava cantando do lado de fora.
Num surto de inspiração, pediu uma caneta, pegou alguns lenços de papel e começou a anotar. Quem sabe aquele poderia ser seu primeiro sucesso, quem sabe poderia lhe dar uma luz do que escrever em seu primeiro trabalho profissional.
Mesmo com o barulho das músicas e das conversas, ela conseguiu se desligar daquilo e em pouco tempo tinha uma composição. Sabia que precisava corrigir e acertar algumas palavras, mas só de ter dado o primeiro passo, estava feliz.
Dobrou os papéis e colocou no fundo da bolsa, como se estivesse protegendo-os de algo, só então notou que estava sendo observada pelos homens que antes conversavam.
Engataram uma conversa cordial, se conheceram e logo conversavam sobre música. Por uma coincidência não planejada, os dois eram músicos e davam aula numa escola para crianças. se interessou ainda mais na medida que eles explicavam como a escola funcionava e em como as crianças eram talentosas.
Depois de um bom tempo conversando com os dois, se deu conta de que já estava tarde. Não que as pessoas tivessem ido embora, pelo contrário, a loja estava ainda mais movimentada. Olhou o relógio e passavam das duas da manhã, um pouco mais tarde do que ela pretendia chegar em casa.
Não querendo ser uma estraga prazeres, pediu licença e até se desculpou por interrompê-los, mas precisava ir para casa. Eles se ofereceram para levá-la, mas, apesar de eles parecerem boas pessoas, não confiava sua segurança a quem conhecia a poucas horas, mas trocou contato com os dois, quem sabe uma boa amizade surgiria dali.
Pagou as poucas cervejas que tomou e chamou um táxi. Não queria gastar com transporte, já que morava tão perto, mas não se arriscaria pelas ruas, sozinha e àquela hora da madrugada.
Quando chegou ao apartamento, caminhou em passos curtos e silenciosos até o quarto para não acordar Eloísa, que dormia num canto do sofá com a televisão ligada. Tirou a roupa e tomou um banho bem rápido para então se deitar, mas antes que pudesse dormir, se deu conta de como tinha gostado de sair, mesmo que sozinha. Lembrou-se dos papéis no fundo da bolsa e sorriu mais uma vez, estava certa de quando menos esperasse, as coisas começariam a dar certo, e logo realizaria seu sonho.
A sexta feira chegou, e querendo ir a festa do pai, estava um tanto quanto desatenta. Leon pareceu notar e a chamou para saber o que estava acontecendo.
A mulher não era de reclamar e nem derramar suas mágoas para quem ela não conhecia direito, mas disse o que a estava distraindo.
- Por que não disse antes? Poderíamos ter conversado sobre deixar sua folga para hoje... - Ele sugeriu.
- Não, está tudo bem. Eu vou conseguir chegar, um pouco mais tarde, mas conseguirei! - Ela deu de ombros, como se já estivesse conformada.
- Então vamos fazer o seguinte: você vai para o aniversário do seu pai e cobre a Denise amanhã?
- É sério? - Ele assentiu. Jamais imaginou que seu chefe fosse propor isso, até porque, estava acostumada às exigências de Ribamar. - Muito obrigada, seu Leon! Prometo que chego até mais cedo amanhã!
Ele sorriu e ela também, mas em agradecimento. Organizou seus pertences e correu de volta ao apartamento. Arrumou-se e pegou o presente de Rui, para então, esperar a condução até a casa.
Depois de um trânsito carregado, chegou à festa e ouviu a tradicional música de parabéns, podendo, inclusive, cantar o último verso.
Seu pai abriu um sorriso bem grande quando a viu entre os outros familiares e, assim que agradeceu, foi até a filha, abraçando-a.
Logo todos já estavam comendo e comemorando. Não muito depois, foi ao quintal, aonde a maioria dos convidados já estavam, e foi apresentada a alguns amigos do pai e finalmente a namorada.
Lilian parecia ser adorável e apaixonada por Rui, o que a deixou feliz. As duas engataram uma conversa animada e logo a avó da menina se juntou a elas. Ficaram conversando por horas, até que viram alguns convidados já se despedindo.
Àquela altura da noite, muitos convidados já haviam se retirado e só sobraram alguns familiares e amigos mais próximos.
Depois de entregar o presente ao pai, ele pediu incessantemente que ela cantasse alguma música. Disse que seria como um segundo presente para ele, mas de início, não sabia se era uma boa. Não sabia que música cantaria ao pai, mas depois de pensar por um tempo, pediu o violão de Rui emprestado.
- Como vocês sabem, meu pai me chantageou a cantar algo... - Ela disse as pessoas, que já se amontoavam num semicírculo ao redor dela. - Pensei bastante e acredito que tenha escolhido uma música que agrade a todos e que vocês também sabem a letra.


[Pai, pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez


Pai, pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...


Pai,
Pode crer
Eu tô bem eu vou indo
Tô tentando vivendo e pedindo
Com loucura pra você renascer...


Pai,
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Pra falar de amor pra você


Pai,
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensina esse jogo da vida
Onde a vida só paga pra ver


Pai,
Me perdoa essa insegurança
É que eu não sou mais aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu


Pai,
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar

Pai,
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz.]



estava mais do que feliz ao ouvir as vozes dos familiares acompanhando a sua versão ao vivo da música. Logo mais pedidos foram feitos e, o que era para ser um “outro presente” para Rui, acabou sendo mais uma de suas apresentações.
Para finalizar a festa, ela cantou uma música romântica, um novo sucesso da Marília Mendonça. Não havia reparado, até aquele momento, que sabia a letra e a melodia de cor. Sorriu pensando em como conseguia “sofrer de amor”, se nem ao menos tinha alguém para sofrer.


Naquele sábado, chegou quase uma hora e meia mais cedo ao trabalho, surpreendendo até Leon, que a esperava um pouco mais tarde. Ele repassou algumas tarefas que ela faria na cozinha e ficou ocupada até que o horário do barzinho abrir chegou. Retirou-se bem rapidamente para tomar um banho e trocar de roupa até que os primeiros clientes chegassem.
Diferentemente do que havia acontecido nos dias passados, à mulher não ficava mais prestando atenção em quem entrava no estabelecimento. A esperança de que o cliente bêbado fosse aparecer já não mais existiam e ela simplesmente desistiu.
Depois de terminar o atendimento de uma mesa, se dirigiu até outra que agora estava ocupada por novos clientes. Quase caiu para trás quando percebeu que quem ela já havia desistido de procurar, finalmente voltou a aparecer.
Achou que estava imaginando coisas. No entanto, ele estava usando o mesmo boné da noite em que se conheceram e quando ela o viu abrir um sorriso, mesmo que irônico, para o homem que estava lhe acompanhando, teve certeza.
Aquilo não era criação da sua mente.
Recuou no meio do caminho, sem saber se teria coragem suficiente para encarar o rapaz novamente, mesmo tendo esperado tanto por aquilo...
— Você não atendeu a mesa 06. — Liane lhe advertiu como se fosse dona do bar.
— Eu sei. — a mulher retrucou, sem a menor paciência para a arrogância da colega. — Preciso de um instante.
Apertou os olhos e respirou fundo. Era capaz de fazer aquilo. Não era mais uma adolescente idiota e sim uma adulta que sabia muito bem se comportar com maturidade. Ergueu a cabeça e fez o caminho até a mesa 06.
Você precisa tomar juízo antes que seja tarde demais! — pode ouvir a voz irritada do homem mais velho, antes dele perceber sua presença.
— Olá. — ela sorriu, desejando parecer confiante. — Já escolheram o que vão tomar?
— Juízo, por favor. — o rapaz lhe respondeu em tom ríspido, sem ao menos lhe dirigir a atenção.
— Nos traga duas cervejas. — o outro interveio, bufando descontente.
A garota se afastou da mesa a passos largos. Tentou convencer a si mesma que não estava desapontada pelo fato de ele não tê-la reconhecido, afinal, ele ao menos havia lhe dirigido o olhar.
“Mas ouviu sua voz”.
Ignorou o pensamento.
Realmente não vinha ao caso.
— Duas cervejas. — repetiu o pedido para Liane, mas essa não fez nenhuma menção de se mexer do lugar.
— O carinha da mesa 06, é aquele do banheiro, não é? — perguntou, lançando a garota um olhar sedento.
— Acredita que não reparei! — respondeu, não querendo dar corda para as fofocas intermináveis de sua colega de trabalho.
— Ah, mas eu reparei! Inclusive, reparei em vocês dois saindo juntos do bar naquela noite. — retrucou, levantando as sobrancelhas de forma sugestiva.
— Preciso das cervejas para ainda hoje. — resmungou e precisou de todo seu autocontrole para não mandar a outra para o quinto dos infernos.
Liane tinha o dom de tirá-la do sério. Por vezes, fazia isso de propósito. Contudo, em algumas situações parecia que apenas a simples existência da mulher era suficiente para acabar com o dia da cantora.
Quando a barmaid finalmente lhe entregou as bebidas, ela faz questão de se distanciar do bar o mais depressa possível. Ao que tudo indicava, aquela seria uma noite e tanto. Desejou por um instante estar deitada confortavelmente em sua cama e não zanzando de um lado para outro em um lugar lotado.
— Aqui está. — a garota disse enquanto colocava duas garrafas em frente aos ocupantes da mesa 06.
— Obrigado. — o mais velho agradeceu.
— Caso precisem de mais alguma coisa, basta chamar. — declarou, como estava acostumada a fazer e então uma sensação desconfortável lhe atingiu.
Sua atenção se voltou para o rapaz e mesmo que os olhos dele estivessem ocultos pelo boné, ela pode jurar que ele estava lhe fitando. Esperou um instante. Tentou detectar qualquer mínima mudança que pudesse indicar algum tipo de reconhecimento, mas não houve nada.
Ele não se lembrava da garota.
Desta vez, ela deixou a mesa desapontada. Parte de si tentou argumentar que era absolutamente plausível alguém bêbado ao nível que ele estava esquecer-se completamente das coisas que fizera. Já a outra parte de si, era só repreensão. Não deveria ter se dado ao trabalho de pensar em alguém que ao menos sabia de sua existência.
Ainda estava se censurando quando esbarrou com Denise.
— Você está bem? — a colega perguntou, possivelmente percebendo quão perdida ela estava.
— Sim. — balbuciou automaticamente. — Será que você pode cobrir a mesa 06 para mim?
— Alguém problema com os clientes? — quis saber, estranhando o pedido que havia lhe sido feito.
— Ah não... Eu entendo se você não quiser... A mesa não está em sua sessão... Eu realmente não deveria estar te importunando... — começou a falar excessivamente como sempre fazia quando estava nervosa e só parou quando Denise lhe segurou pelos ombros.
— Está certo. Irei atender a mesa 06. — afirmou, tentando acalmar a outra.
— Obrigada! — sussurrou, envergonhada e em seguida fugiu até o banheiro e ficou lá, por um tempo um pouco maior do que seria necessário.
Quando retornou ao bar, já havia recuperado parcialmente o controle. Executou seu trabalho exatamente como fazia todas as noites, mantendo apenas o cuidado de manter seus olhos longe daquele que a havia beijado.
— Eles acabaram de pedir a conta. — Denise comentou em determinado momento, dirigindo seus olhos para a mesa que tanto havia evitado.
— Obrigada por quebrar esse galho para mim. Estou te devendo uma.
— Fique tranquila. Apenas se concentre e vá fazer seu show.
A garota sorriu. Já estava na hora de subir ao palco. Concluiu que a noite não estava tão perdida assim, afinal, faria aquilo que mais amava. Foi até o banheiro e tirou seu uniforme. Assim que terminou de se arrumar, respirou fundo algumas vezes tentando se concentrar no que iria fazer.
O microfone estava posicionado a sua frente. Cumprimentou o público e agarrou-se ao violão, como se sua vida dependesse disso.
Lançou um último olhar para a mesa 06 e viu os ocupantes já em pé, imersos a uma conversa que mesmo de longe não parecia ser tão tranquila. Os dois começaram a caminhar em direção à saída e repentinamente ela se sentiu exausta.
Havia largado sua cidade em busca de um sonho, que aparentemente estava se tornando impossível de se realizar. Sentiu saudade da sua terra natal. Desejou poder voltar para o lugar, mas sabia que não poderia.
Então decidiu cantar.
A música não estava em seu repertório, mas seu estado de espírito fez com que ela surgisse em sua mente. Sendo ela uma de suas preferidas, não vi problema algum em improvisar.
Fechou os olhos e se lembrou das pessoas que deixou na pequena cidade de Joaquina. Sorriu e só então tocou os primeiros acordes.


[Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente


Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre, sempre acaba


Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém, só penso em você
E aí, então, estamos bem


Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa


Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa]



Cantou perdida em seu mundo de recordações. Somente quando a canção terminou é que abriu os olhos, que estavam marejados, e concentrou-se em seu público. Estava recebendo aplausos de todos os ocupantes do bar, exceto de um.
Não pode distinguir o que a expressão do rapaz dizia. Primeiro, porque ele estava a uma distância considerável e, segundo, porque ainda estava usando aquele maldito boné. Mirela teve vontade de deixar o palco, seguir até a mesa 06, arrancar o bendito acessório e jogá-lo no fogo. No entanto, não o fez.
O show precisava continuar.
Quando voltou ao banheiro e colocou seu uniforme novamente, foi abordada por Denise.
— Não sei se tenho boas notícias. — ela lhe disse, fazendo uma careta.
— Fale logo! — exigiu, começando a ficar preocupada.
— Os clientes da mesa 06 desistiram de ir embora quando você começou a cantar e agora, fazem questão de serem atendidos por você.
Droga! — murmurou para si mesma, apertando os olhos.
— Sinto muito.
— Não! Está tudo bem. Vou atendê-los.
E ela foi. Colocou seu melhor sorriso no rosto e se aproximou da mesa. Dessa vez sua presença foi notada com antecedência. Aparentemente eles estavam a sua espera. O homem mais velho levantou-se e estendeu sua mão para a garota.
— Meu nome é Martin Torres. Sou empresário musical.
— Prazer! — a garota o cumprimentou com empolgação. — .
— Vimos seu show, foi fabuloso!
— Obrigada! — ela respondeu, sentindo as bochechas corarem. Já havia ouvido muitos elogios dos clientes que frequentavam o bar, porém, um vindo de alguém que trabalhava no meio musical era algo a se considerar.
— Bem, esse é . Trabalhamos juntos... — o empresário comentou, lançando ao rapaz um olhar significativo. Talvez esperasse apenas que ele não estragasse tudo, como estava acostumado a fazer.
não parecia disposto a participar da conversa, mas, ainda assim, acabou por virar a aba do boné para trás e deu a garota um sorriso forçado, dizendo a ela um simples olá.
O queixo de caiu. O gesto feito pelo rapaz, a fim de revelar seu rosto à fez lembrar automaticamente do dia em que se beijaram. Ele havia feito exatamente a mesma coisa, mas naquela ocasião, ela não havia tomado ciência de quem ele realmente era.
! — sua voz possuía certo tom de fascínio e ela se odiou por isso.
Precisava se controlar, mas santo Deus!... Havia sido beijada por ninguém mais, ninguém menos do que um astro da música.
— Temos uma proposta para lhe fazer. — o homem mais velho pigarreou, percebendo o olhar insistente que os dois estavam dirigindo um ao outro. — Sei que você precisa trabalhar agora, mas me ligue amanhã e podemos marcar uma reunião para tratar de negócios.
A garota pegou o cartão que lhe foi estendido e assentiu. Ao que parecia, finalmente uma oportunidade estava aparecendo. Guardou o pequeno pedaço de papel como se estivesse guardando um tesouro.
— Já está na nossa hora. — o empresário sorriu amigavelmente. — Esperarei sua ligação.
Os dois trocaram mais um aperto de mão. levantou-se também, mas dirigiu a garota apenas um breve aceno de cabeça. Ela ficou plantada onde estava observando a porta de saída sendo aberta por eles e só conseguiu sair do lugar quando os perdeu de vista.
Teve que fugir de Liane durante o restante do expediente. A barmaid havia visto o empresário entregar algo a garota e estava se roendo de curiosidade para saber o que era. ignorou todos os comentários, alguns maldosos até, que foram ditos pela outra.
Mal dormiu naquela noite.
Quando chegou em casa acabou dedicando parte do seu tempo a uma pesquisa minuciosa sobre Martin. O homem parecia levar seu trabalho a sério. Agenciava a carreira não só de , mas de vários outros artistas que ela conhecia muito bem.
Só depois de estar certa que poderia confiar no homem é que voltou seus pensamentos e sua pesquisa para o músico que havia reencontrado no bar.
Não podia negar, havia nutrido uma paixão platônica por ele quando era mais nova. Mas que adolescente da sua época não havia? Anos atrás era considerado uma das maiores descobertas do meio artístico. Era jovem, bonito e tinha uma voz fascinante.
Pena que o tempo havia passado e o rapaz parecia estar caindo ao esquecimento. A busca de revelou que ele agora era considerado apenas um astro em decadência.
Não foi à toa que ela não o havia reconhecido. Fazia tempo que não ouvia falar no músico e a lembrança que possuía dele era de uma época diferente. Ele havia mudado, era inegável. Contudo, continuava o mesmo sedutor de antes.
Saiu da cama logo quando o sol apontou no céu. Segurou-se durante as primeiras horas da manhã, porque não queria parecer tão desesperada (mesmo que realmente estivesse).
Quando o ponteiro do relógio se aproximou das dez da manhã finalmente foi vencida pela ansiedade. Discou o número indicado no cartão e prendeu a respiração enquanto o telefone chamava.
Alô! — ouviu a voz do empresário e sentiu seu coração palpitar.
— Olá. Sou a ... Do barzinho... — se viu balbuciando, nervosa.
! Que bom que você ligou. Estava ansioso para conversar com você! - bem... não era só ele. — Gostaria que você pudesse vir até meu escritório, o que me diz?
— Parece ótimo!
Vou pedir para minha secretária entrar em contato mais tarde, ok?
— Claro. Irei aguardar. Muito obrigada.
Eu que agradeço!



Capítulo 3

Chegou ao escritório de Martin na tarde do dia seguinte. Estava inquieta. Nem em seus melhores sonhos esperou entrar em um lugar como aquele para tratar de negócios.
A secretária, uma morena simpática, a guiou até a sala onde o homem já estava a sua espera. Ela havia chegado à hora marcada, mas ele estava tão ansioso com a possibilidade de resolver o maior problema de um de seus clientes que acabou desmarcando a reunião que teria mais cedo.
A garota seria sua última tentativa. Ele estava apostando todas suas fichas nela.
— Tenho uma proposta para você. — a garota o ouviu dizer. — Quero que você participe de uma turnê.
— Como é? — ela indagou, achando que havia entendido errado.
— Vou tentar explicar as circunstâncias da maneira mais resumida possível. — declarou e ela deu a ele sua total atenção. — , o que estava comigo no bar, você o conhece?
— Sim. Acompanhei a carreira dele logo no começo...
— Ele era incrível, não? — ele suspirou, lembrando-se da época em que o cantor não lhe dava tanto trabalho. — Infelizmente seus anos de glória ficaram para trás. acabou por prejudicar a si próprio com algumas atitudes. Você deve ter visto que atualmente ele é tachado de “astro em decadência”. — ela balançou discretamente a cabeça e esperou que ele continuasse. Ainda não havia entendido porque estavam falando de e não dela. — Ele acabou de gravar um novo CD, e mesmo que a notícia não tenha saído em lugar algum, planejei uma turnê para divulgação do trabalho. Será algo relativamente curto, porque não quero que ele estrague as coisas como já acabou fazendo algumas vezes... Enfim, se ele não conseguir fazer isso dar certo, pagarei uma multa rescisória astronômica e desistirei dele.
— Não consigo compreender porque você está contando tudo isso.
— Estive com desde o começo. Ele pode achar que eu o detesto e que estou apenas enchendo seu saco com meus sermões, mas a verdade é que tenho um grande apresso por aquele garoto. Não quero deixá-lo. Sei que isso provavelmente significaria o fim da carreira dele. Por isso quero que essa turnê seja um sucesso.
— E onde eu entro nisso?
— Quero que você faça a turnê junto com ele.
— Céus! — a garota exclamou apenas, de olhos arregalados.
— Para ser mais específico, quero que você abra os shows para ele. Estou tentando pensar em algo novo. Algo que chame atenção do público e quando ouvi você cantando percebi que encontrei o que estava procurando.
— Puxa! Eu realmente estou surpresa... Não esperava por isso!
— Você tem muito potencial, . Trabalho nisso há anos e sei o que estou falando. — afirmou com veemência.
— Fico grata pelo elogio. Mas ainda preciso entender melhor como isso aconteceria.
— Tomei a liberdade de redigir um contrato. — ele respondeu, empurrado sobre a mesa uma pasta. — Está tudo minuciosamente detalhado. Quero que você o analise, anote os pontos que não entendeu e aqueles que você gostaria que fossem alterados.
— Tudo bem. Farei isso.
— Demore o tempo que precisar. E quando tiver terminado, entre em contato novamente para marcarmos uma nova reunião.
— Certo!
— Se tudo ocorrer como o planejado, há uma grande possibilidade de produzirmos sua própria turnê quando a de terminar.
As palavras ficaram martelando em sua cabeça pela semana seguinte. Leu e releu o contrato que Martin havia lhe entregado incontáveis vezes. Fez as anotações que achou conveniente e acabou decidindo não contar para a ninguém a respeito da proposta.
Não queria que as pessoas criassem expectativas por algo que ainda não havia se concretizado. Não aguentaria os olhares ansiosos e a curiosidade de todos voltada a si própria. Aquela era uma decisão importante e estava disposta a fazê-la sozinha.
Já havia praticamente decorado cada cláusula contratual quando fez a ligação para marcar a nova reunião. Ter seu nome associado a um astro em decadência não era bem o que esperava. Mas entre tocar pelo resto da vida no Bar do Leon e arriscar-se em uma turnê com , ainda achava a segunda opção mais atraente. Sabia que dificilmente encontraria uma oportunidade tão certa como essa, por isso decidiu pagar para ver.
Dessa vez, a secretaria a levou para uma sala de reuniões e não diretamente para o escritório do empresário. O espaço contava com a presença ilustre de apenas uma pessoa. teria ficado menos constrangida se estivesse sozinha.
— Olá. — a garota murmurou para o cantor que estava apoiado em uma parede, observado a cidade pela enorme janela de vidro.
tirou o cigarro de entre os lábios e soltou uma lufada de fumaça. Dirigiu seu olhar para ela e lhe deu um breve aceno com a cabeça, voltando a ignorá-la completamente em seguida.
o detestou naquele instante.
Sentou-se junto à mesa e fingiu estar bastante interessada em algo no seu celular. Mas a verdade é que mesmo odiando, seus olhos pareciam ser atraídos para o músico que continuava imóvel no mesmo lugar.
Ele usava o irritante boné de sempre, mas só naquele momento a garota reparou em como o cabelo dele se agarrava ao acessório logo na parte de trás do pescoço. O astro podia até estar em decadência, mas seu senso de estilo era inquestionável.
Usava uma calça estilo militar e uma camiseta simples na cor caqui. Havia ainda as tatuagens espalhadas por seus braços. O pacote completo era algo de tirar o fôlego. se perguntou apenas qual era a necessidade daquela postura arrogante que ele fazia questão de usar. Achou que mesmo sem ela, continuaria sendo absolutamente sexy.
— Inferno! Já lhe falei para não fumar aqui dentro! — Martin bufou, assim que adentrou o espaço.
A garota agradeceu pela interrupção. Não estava gostado do rumo que seus pensamentos haviam tomado.
— Deixe de ser careta, Martin. — o outro retrucou, mas sem se dar o trabalho de voltar o olhar para o novo ocupante da sala.
O empresário soltou o ar pesadamente. Podia passar o dia inteiro discutindo com a respeito do assunto, mas tinha certeza que o músico continuaria com o cigarro nos lábios.
— E então, ?! Alguma dúvida em relação ao contrato? — acabou desistindo da causa e se voltando para sua recente descoberta.
— Algumas. — a garota sorriu timidamente.
— Ficaria desapontando se não houvesse.
e Martin passaram aquela tarde discutindo questões contratuais enquanto se demonstrava entediado suficiente com seu cigarro e sem parecer prestar atenção em uma palavra se quer do que estava sendo dito. Estava claro para qualquer um que seu desejo era apenas sair dali.
A garota, por sua vez, perguntou-se porque o músico estava presente, se aparentemente não tinha nada a acrescentar. Viu-o ficar ao lado da janela por algum tempo e em seguida se sentar, do lado oposto da mesa e começar a tamborilar distraidamente os dedos sobre a superfície maciça.
Irritou-se com isso, mas acabou ficando quieta. Percebeu que sua carreira dependeria do seu autocontrole. parecia gostar de irritá-la e ela decidiu que não cairia no jogo do rapaz.
Concentrou-se em Martin. O homem queria que ela participasse dos ensaios referentes à turnê de . Ele parecia acreditar cegamente no talento da garota. Ela acabou cedendo. Mesmo que ficasse em um estúdio, sentada sozinha em um canto, já estaria satisfeita. Finalmente poderia afirmar que estava entrando para o mundo profissional da música.
— Tem alguma coisa a dizer, ? — o empresário indagou, depois de terem debatido todas as questões que julgaram necessárias.
— Posso ir embora? — o cantor retrucou com a voz impaciente.
— Sim. — o homem mais velho respondeu em um suspiro.
Ele e viram o rapaz sair porta afora, sem ao menos se despedir. A garota não conseguiu se segurar e acabou revirando os olhos.
— Por que ele estava aqui? — ela se viu perguntando.
— Ele não está aceitando muito bem a ideia de ter outra pessoa na turnê. — confessou, um pouco envergonhado. — Estou tentando fazê-lo mudar de ideia.
— Então se não quiser, não farei parte da turnê? — quis saber, sentindo a raiva pelo cantor aumentar.
— Sua participação depende apenas se você vai ou não assinar o contrato. — ele observou, de forma bastante convicta. — O que me preocupa na relutância de é o fato de ele não querer ouvir suas sugestões. E eu realmente gostaria que isso acontecesse.
— Agora entendo porque a carreira dele está em declínio. — murmurou, sabendo que a partir do momento que seu nome estivesse escrito em um determinado papel, as coisas poderiam ser tão fascinantes quanto complicadas.


O contrato foi assinado somente alguns dias depois. Só então se deu a liberdade de comemorar e de contar a família a respeito da novidade. As reações foram diversas. Sua mãe e a avó acabaram por chorar ao telefone. Seu pai lhe dirigiu o mais sincero sorriso e desejou boa sorte. Helena demonstrou-se a empolgação em pessoa, bem como sua prima. Já Joca, recebeu a notícia com cautela.
Tem certeza que é uma boa ideia? — ele perguntou ao telefone.
— Não, mas é o melhor que consegui. — respondeu-lhe de forma sincera.
E quanto ao seu trabalho?
— A ideia de deixar Leon na mão é a que menos me agrada. — respondeu, lembrando-se do quão desanimado o dono do bar ficou, quando a garota lhe contou a respeito da possibilidade de ter que sair do emprego.
E esse tal de , como é? — Joca indagou e a mulher preferiu acreditar que sua voz possuía um tom escondido de preocupação e não de ciúmes.
— Quieto. — ela murmurou, escolhendo bem as palavras e soltando um longo suspiro. — Mal troquei duas palavras com ele. Venho tratando tudo com o empresário.
Bem, espero que tudo dê certo. Não tenho dúvida que você se sairá muito bem.
A única certeza que possuía era a de que sentiria saudade de todas as pessoas que conheceu no Bar do Leon, exceto de Liane. Simplesmente não conseguia suportar a barmaid e não precisar vê-la mais era um grande alívio.
Seu último show foi no domingo. O bar estava excepcionalmente lotado naquela noite, mesmo que boa parte fosse da sua família, fazendo-a se sentir melancólica. Esperou tanto pelo momento em que poderia focar totalmente em sua carreira e agora que finalmente poderia fazer isso, estava com medo.
Na segunda de manhã, enquanto fitava seu reflexo no espelho, precisou respirar fundo algumas vezes e repetir para si mesma que conseguiria, que faria aquilo dar certo de todo o modo, mesmo que tivesse que aguentar a personalidade instável de .
O estúdio era bem diferente do que ela imaginava. O prédio em si, era bem moderno, revestido de concreto para todos os lados, mas quando as portas do elevador se abriram no sétimo andar, quase deixou que o queixo se abrisse em espanto.
A parede da pequena recepção era coberta de pôsteres, fotos, capas de CDs e mais alguns quadros com discos de ouro e platina, fora algumas janelas enormes de vidro, que davam para enxergar a mesa de som, instrumentos e um homem que se aproximava da porta, também de vidro.
— Oi, você deve ser a , não é mesmo?! — ele não deveria ter mais de trinta anos.
— Exatamente. — ela sorriu e podia jurar que seus olhos estavam brilhando naquele instante. — E você é Diego Vargas!
— Prazer em conhecê-la. — o produtor musical estendeu sua mão e seu gesto foi retribuído imediatamente. A garota mal conseguia acreditar que estava frente a uma dos melhores profissionais do meio. — Pedi para que você viesse mais cedo para trabalharmos no repertório do seu show.
— Claro. Será ótimo!
— Só precisamos esperar pela... Ah, aí está ela! — o homem exclamou, assim que uma nova pessoa entrou no estúdio.
— Desculpe o atraso. — a ruiva sorriu amigavelmente.
— Você tem sorte em ser tão boa no que faz, caso contrário... — o outro a provocou e só então se voltou para . — Está é Bia. Ela é a técnica de som e trabalhará conosco.
Apesar de admirar o trabalho daquelas pessoas que a ajudariam, ela queria poder mostrar que era capaz, e em pouco tempo, já estava sentada num banquinho confortável de madeira, encoberta por uma espécie de tenda, feita por um pano fino e branco, cercada de lâmpadas coloridas, iguais as que ela ajudava os avós a pendurar na árvore de natal. A princípio, estranhou toda aquela quantidade de panos envolta dela, mas depois reparou que era só para esconder as espumas grudadas na parede.
Quando recebeu o sinal de Bia e de Diego, pôde, enfim, mostrar a sua voz em músicas que ela mesma havia escolhido para aquele dia. Depois do sorriso que os dois trocaram, sabia que estava fazendo um bom trabalho.
E como trabalharam. mal sendo capaz de esconder a empolgação, aderiu a todas as sugestões dadas pela dupla. Ainda assim, quando a porta do estúdio foi aberta novamente, anunciando a chegada de uma nova pessoa, não tinham conseguido definir todas as músicas que seriam cantadas no show.
— Vamos trabalhar com agora. Voltamos ao seu repertório amanhã, está bem? — ouviu Diego dizer e apenas assentiu.
No instante em que viu chegar, soube que ficaria em segundo plano. Não se importou com isso. Estava realizando um sonho e estava completamente satisfeita e feliz.
Durante o ensaio do músico, surpreendeu-se por vê-lo tão à vontade. Conversando de forma animada com os outros e rindo das provocações que eram feitas. O que não a deixou nada surpresa foi o fato de ele continuar ignorando-a completamente.
Na terça e na quarta-feira a rotina continuou igual. Chegava mais cedo, trabalhava com Diego e Bia até a hora que chegava e então se contentava em sentar no canto do sofá e observar os outros. No primeiro dia até tentou dar algumas sugestões, mas depois de todas elas terem sido recusadas pelo astro decadente, acabou por desistir.
— Preciso de uma cerveja gelada! — exclamou, depois de terem passado horas no estúdio.
— Abriu uma boate nova aqui perto, o que vocês acham? — Bia sugeriu, animando-se instantaneamente.
— Vamos conhecê-la! — o cantor sorriu, deixando claro que a ideia o agradava.
— Vem conosco, ? — Diego perguntou, pegando a garota de surpresa.
— Não acho que ela esteja acostumada a isso. — comentou, com a voz carregada de desdém.
aceitou o convite apenas para contrariá-lo. Percebeu que a cada dia que passava, acabava detestando um pouco mais as atitudes do cantor. Praticamente não se lembrava mais que haviam se beijado. A impressão que tinha, era a de que o momento íntimo havia sido trocado com outra pessoa e não com ele.
pediu uma cerveja e tentou participar ativamente da conversa. Seus companheiros estavam exalando entusiasmo e depois de ingerir um pouco de álcool, a garota finalmente estava se sentindo um pouco mais à vontade.
— Quem quer beber um shot de tequila! — gritou para ser escutado sobre a música alta que estava tocando.
— Eu! — Bia lhe respondeu instantaneamente.
— Eu também! — Diego completou e repentinamente a atenção de todos estava voltada para . Ela sentiu as bochechas corarem e tentou fazer sua voz soar decidida quando gritou de volta:
— Com certeza!
Bem, não foi apenas um shot. perdeu as contas de quantas vezes levou o pequeno copo de tequila até os lábios. Deixou de se preocupar com isso e decidiu apenas aproveitar a noite. Seguiu para a pista de dança e talvez fosse culpa da energia acumulada, mas sentia-se mais viva do que nunca.
Dançou sozinha, querendo apenas absorver as sensações trazidas pela música que estava repercutindo pelo espaço.
Se mais tarde alguém lhe perguntasse, não saberia explicar como sentiu a presença de antes mesmo do corpo dele tocar suas costas. No momento em que isso aconteceu, a única coisa que conseguiu fazer foi ficar imóvel.
Sentiu os dedos do cantor deslizarem pelo seu braço e poucos instantes depois suas mãos estavam entrelaçadas. Sentiu o hálito quente dele próximo a sua orelha, o que fez alguma coisa dentro de si se contorcer.
Dançaram juntos. a conduzindo através do toque constante da música. Foi algo libertador para a garota. Finalmente tinha a prova de que o rapaz não seria capaz de ignorá-la para sempre.
— Como você consegue fazer isso? — ela perguntou, quando finalmente encontrou o rosto do cantor.
Nesse ponto, a música já havia se encerrado e ambos estavam parados no meio da pista de dança, encarando-se, com os corpos juntos.
— Isso o quê? — ele sussurrou com a voz rouca, enquanto seu polegar passeava pelos lábios da garota.
— Você deveria continuar fingindo que não existo. — ela murmurou, tentando ignorar o fato de sua respiração estar fora do compasso.
— Eu estava tentando fazer isso, mas você estava dançando de forma absolutamente sexy. Foi impossível resistir.
Ela percebeu o rapaz se aproximar ainda mais. Soube que seria beijada, mas naquele instante, sentiu algo se contorcer novamente, contudo, dessa vez, aquele não era um sinal positivo.
Correu até o banheiro.
Odiou-se por ter bebido tanto. A noite não deveria ter acabado daquele jeito. Mas talvez, tenha sido melhor assim. Não saberia como reagiria no dia seguinte se soubesse que havia beijado novamente.
Ouviu algumas garotas reclamado em alto e bom tom e só soube o motivo daquilo, quando sentiu a presença de alguém ao seu lado. O cantor segurou seus cabelos para trás e o leve toque de suas mãos quentes fez com que ela se acalmasse.
— Você está bem? — ele questionou, ignorando completamente os resmungos irritados das demais ocupantes do banheiro.
quis esganá-lo pela pergunta. Estava abaixada em frente a um sanitário, colocando a pouca comida que havia ingerido para fora. Ele realmente estava indagando se ela estava bem?
— Pareço bem?! — ela retrucou virando a cabeça apenas para lançar a ele um olhar intimidador.
— Definitivamente não. — ele respondeu, abrindo um largo sorriso.
Será que poderia afogá-lo na privada?
Respirou fundo algumas vezes até que a sensação doentia passasse. esperou calmamente até que ela levantasse e seguisse até o lavatório.
Jogou água nos pulsos e no rosto, na tentativa de se recompor. Tentou ignorar seu reflexo no espelho. Sabia que sua aparência deveria ser horrível e quando seus olhos encontraram em toda sua beleza, sentiu-se pior ainda.
— Melhor agora? — ele indagou, erguendo as sobrancelhas.
— Sim... E obrigada. — a garota murmurou constrangida. — Acho melhor ir para casa agora.
Ele apenas assentiu e a acompanhou até a saída da boate. Ela estranhou a atitude, mas preferiu não comentar nada. Tentar entendê-lo já não havia sido considerado uma missão impossível para .
— Levo você! — ele avisou, assim que chegaram até a rua.
— Não precisa. Pego um táxi. — ela falou de forma automática, apenas por que não queria incomodar.
— Tudo bem então. — ele deu de ombros e rapidamente voltou para a festa.
Ela revirou os olhos, mal acreditando que havia sido abandonada pelo músico. Céus! Será que existia alguém tão imprevisível quanto ele?
Na manhã seguinte, desejou que a noite anterior não tivesse acontecido. Lembrava-se de tudo. Da dança, da conversa, dos shots e, principalmente, de ter passado mal e vomitado na frente de .
— Você vai se atrasar, Sunshine! — escutou a voz de Eloísa do corredor. Escondeu a cara entre os travesseiros quando ouviu uma batidinha na porta. — Achei que nunca veria nesse estado!
— Você não está me vendo em estado nenhum, Elô! — a menina esbravejou, sentindo uma pontada de dor cruzar sua cabeça. — Que horas são?
— Quase nove. — ao que Eloísa respondeu, esqueceu toda a ressaca que sentia.
Levantou da cama num pulo e correu para o banheiro. Deveria estar no estúdio às nove, por isso tomou um banho gelado e rápido para que o atraso não fosse tanto. Vestiu a primeira roupa que tirou do armário e calçou o tênis já na porta do apartamento. Todos os seus movimentos seguidos por Eloísa, que ria de a cada olhar desesperado que a menina lhe dirigia.


Para quem estava de ressaca, até que conseguiu chegar não tão atrasada, mas ainda precisava comer e tomar alguma coisa para aquecer a voz.
Sabia que depois de passar mal na noite anterior, sua garganta não estaria nada boa, por isso, quando chegou ao estúdio, se desculpou com Bia e Diego várias vezes enquanto tomava vários copos cheios d’água.
— Não se preocupe! — Diego se compadeceu da situação de . — Todos nós já passamos por isso.
— Mais de uma vez! — Bia brincou enquanto organizava os últimos ajustes na mesa de som.
— Eu não gosto de tequila... — se lembrou do por que ter passado mal. Não era acostumada com bebidas destiladas. — E não comi nada saudável ontem.
, tudo bem! — Diego a tranquilizou mais uma vez. — Agora vamos colocar essa sua linda vozinha para trabalhar?
Passaram o restante da manhã ensaiando e já próximo do horário de almoço, estava inquieta.
Queria saber por que ainda não havia aparecido. Sua maior preocupação era de que o cantor fosse ignorá-la ainda mais depois da noite passada, mas também não queria perguntar diretamente para Diego e Bia, já que os dois os viram dançando agarrados na boate.
— Acho que podemos dar uma parada para comer... — a voz de Diego saiu baixa pelo fone de ouvido que usava no estúdio.
A menina deixou o microfone para trás e entrou na sala. Estava morrendo de fome por não ter tomado café da manhã.
— O não vem hoje? — se viu perguntando. Ainda estava intrigada com o não aparecimento do rapaz naquela manhã.
— A noite foi um pouco mais intensa para ele... — Bia sorriu e piscou, mas não deu sinal nenhum de que estava esperando por . — Se você quiser, pode ficar ensaiando e nós vamos buscar seu almoço.
— Pode aproveitar o estúdio só para você hoje! — Diego completou, já pegando a carteira e se direcionando para a porta. — Pode usar os instrumentos se quiser.
Já que tinha a oportunidade, não a desperdiçou. Disse o que gostaria de almoçar e viu o produtor e a técnica de som sumirem no elevador.
Quando se viu sozinha, não sabia o que fazer primeiro, então foi até o estúdio que os instrumentos ficavam e puxou o violão. Tocou alguns acordes e lembrou-se de algumas músicas que ela poderia encaixar nos shows.
Quando sentou na bateria, por mais que não soubesse tocar, viu um papel dobrado, jogado no chão. Sua curiosidade foi ao extremo e logo lia uma linda música, inclusive a partitura.
Não sabia dizer de quem era aquela composição, e também não teria como saber, já que vários artistas passavam pelo estúdio.
Pegou novamente o violão e tocou a melodia da música, acompanhando a letra. também escrevia algumas músicas, mas aquela parecia bem especial, por isso, foi até a mesa de som, apertou o botão de gravação e voltou a cantar e tocar.
Estava chegando ao refrão da música quando viu Martin, ele a olhava com admiração, mas , ao seu lado, parecia ter fúria nos olhos.
— Que merda você está fazendo com esse papel? — o cantor quase gritou, fazendo tirar os fones rapidamente.
— E-Eu... a... o papel estava ali. — gaguejou. Havia sido pega no flagra e odiava isso. — Me desculpe.
Deixou tudo onde estava e foi para a sala com os dois. , que sempre parecia indiferente à garota, agora só faltava gritar e apontar o dedo para ela, enquanto Martin tentava tranquilizá-lo.
— Por quê? Por que você foi mexer nas minhas coisas? Não viu que era meu? — entrou no estúdio e arrancou o papel, amassando-o e colocando no bolso.
, me desculpe! Eu não sabia de quem era... — se sentia como uma garotinha que está levando bronca dos pais. Não entendia a reação do músico, mas não se perdoava por ter metido o nariz onde não havia sido chamada. — Me desculpe mesmo, .
... — o astro bufou. Olhou para Martin e deixou o lugar rapidamente.
— Não se preocupe com ele. — o empresário sentou ao lado dela. — Eu nunca tinha pensado que aquela música ficaria boa com uma voz feminina, mas as poucas alterações que você fez, a deixam perfeita para um dueto!
— Aham... — ela revirou os olhos. — Até parece que o não surtou ao me ver com o papel em mãos, imagina o que faria se fôssemos cantar juntos!?
Enquanto Martin tentava convencer de que eles poderiam sim, trabalhar em uma música juntos, deixava o prédio enfurecido. Cruzou com Diego e Bia, que voltavam do almoço, mas não respondeu quando os dois o chamaram. Quando chegaram ao estúdio, notaram o clima pesado e logo Diego quis saber o que tinha acontecido e se dispôs a explicar.
— Vocês disseram que o não viria hoje… — a menina ainda tentava se desculpar, por mais que nenhum dos três a sua frente estivesse culpando-a.
, nós saímos da boate às três da manhã e o ainda estava lá, dançando com uma moça. O Martin nos informou que ele não viria e achamos que era por causa disso. — Bia se explicou.
Eles decidiram deixar aquele inconveniente para trás e foi almoçar, enquanto Martin se despediu e disse que voltaria com o cantor, mais tarde naquele dia.
O empresário já entrou no elevador ligando para o celular do astro, que só depois do quinto toque o atendeu.
Eu não deveria te atender! esbravejou, antes mesmo de ouvir o que Martin tinha a dizer.
— Eu sei que você não quer colocar aquela música no cd… — ouviu o cantor grunhir do outro lado da linha. — Mas você ouviu o que eu ouvi!
Aquela música é pessoal demais, não tem nada a ver com ninguém. — quando percebeu que o empresário diria alguma coisa, continuou. — Eu não sei por que escrevi aquilo e muito menos gostaria de compartilhá-la com o mundo.
— Você não acha que poderia ao menos tentar… quem sabe um dueto com a ?
Não! — e desligou.
Martin não desistiria tão fácil. A música era linda e se parasse de ser tão cabeça dura, poderia muito bem entender que seria uma grande parceria. Eles dois ficaram impressionados ao ouvir cantando quando entraram no estúdio, até o cantor reconhecer a letra e melodia e surtar com a menina.



Capítulo 4

Passavam das oito da noite quando o elevador apitou, avisando que alguém estava chegando. Diego, Martin, Bia e se entreolharam, já imaginando quem seria, mas só quando entrou no cômodo que três deles pararam de encará-lo. ainda mantinha o olhar no rapaz, agora parecendo bem mais relaxado.
— Se vocês não se importarem, gostaria de um minuto a sós com ela. — disse apontando para , que congelou.
O espanto foi geral, mas em segundos, os dois voltaram para dentro do elevador, desceram até a garagem e ela o acompanhou até um carro.
— Eu não vou entrar aí com você.
— Por que não? — agora quem estava espantado era ele.
— Porque não confio em você. — não imaginou que seria tão direta, mas estava feliz por ter deixado claro.
— Só quero conversar, não precisamos nem sair da garagem.
— Então para quê descemos até aqui? — como os dois estavam parados, as luzes se apagaram e a menina deu um grito, assustada, mas logo que se mexeu, as luzes voltaram a acender.
— Por favor, . — pediu e entrou no carro. As janelas eram peliculadas, por isso, ela só ouviu a porta destravar. Respirou fundo e entrou. — Não queria que você tivesse visto aquela música.
— Descu... — ele a interrompeu com o indicador em riste.
— Sei que eu não deveria ter deixado no estúdio, foi um descuido meu. — olhava para frente. — Você leu a letra, e deve estar achando que escrevi pensando num grande amor e essas baboseiras, mas a questão é: eu não me lembro de ter feito isso, só de acordar e encontrar o papel em meu bolso.
— O que isso quer dizer?
— Bem, muitas coisas. Primeiro, achei que alguém tinha colocado na minha roupa, mas então reconheci a minha letra, mas ainda assim, não sei como ela surgiu.
A garota entendeu o que ele disse. Também ficaria apreensiva se estivesse na mesma situação. Imaginou quando ela estivesse no palco, cantando a música e alguém aparecesse, dizendo ser o compositor. Arrepiou-se só de pensar em alguém fazendo isso com as suas letras.
—...e ele quer que nós façamos um dueto e eu não acho isso uma boa ideia.
Só então ela olhou para . Não tinha prestado atenção no que ele havia falado, mas pegou o final.
— Até onde sei, a música é sua. Se você não quiser, não vou cantá-la com você.
— Ok. — ele respirou fundo, revirou os olhos e disse mais baixo. — Gostei de ouvir como ficou na sua voz.
Com essa declaração, não deu tempo para uma resposta de e saiu do carro.
Ela, mesmo que quisesse respondê-lo, estava petrificada com as palavras do cantor, mas quando ele bateu a porta do carro com força, saiu de seu transe e também deixou o carro, seguindo de volta ao elevador.
Quando olhou para o painel do elevador e notou que já estavam chegando ao sétimo andar, quis entender porque pediu para conversar em particular. Ele não queria deixar que os outros soubessem que ele podia ser um cara doce? Isso explicaria algumas atitudes do cantor.
Enquanto isso, se concentrou no celular, ignorando ao máximo a cantora ao seu lado. Não deveria ter admitido que gostara dela cantando, aquilo poderia incentivá-la com o dueto, coisa que ele não queria.
Quando chegaram ao estúdio, todos ficaram encarando-o, mas permaneceu calado e foi sentar-se enquanto Martin conversava com Diego sobre uns ajustes nas músicas que cantaria.


Ainda naquela noite, quando a menina chegou em casa, enfrentou a curiosidade de Eloísa, que em seu dia de folga, decidira que queria saber como era o estúdio, o trabalho em si e conviver com . pediu para apenas tomar um banho antes que tivesse de responder ao questionário da prima.
— Ele continua gato? — Eloísa nem deu chances de descansar e deitou ao seu lado na cama. A menina ainda estava com a toalha na cabeça. — Eu vi umas fotos, mas ele só anda de boné e óculos escuros para se esconder... — revirou os olhos.
— Ele é um homem muito bonito — admitiu, mas para não deixar que Eloísa a fuzilasse com ainda mais perguntas, completou — mas não conversamos muito.
— Como não? Achei que vocês estavam trabalhando juntos!
— Não. Geralmente eu vou pela parte da manhã e tarde e ele vai no anoitecer.
— Que saco! — a prima dela bufou. — Já ia pedir para você bater uma foto dele sem toda aquela capa que ele coloca.
— Não é como se ele ficasse sem os adereços no estúdio... — ela riu, reparando que o boné e os óculos escuros eram uma marca de . — Ele fica o tempo todo com o boné!
Foram interrompidas pelo celular de , que sorriu assim que viu o nome de Helena no visor. Pediu licença para a prima e só atendeu quando ficou sozinha no quarto.
— Que saudade de você! — disse sem nem ao menos escutar a amiga.
— Engraçado... porque se eu não pego o meu telefone e te ligo, fico sem notícias sua!
— Eu sei, desculpa. — lamentou. Realmente estava devendo umas ligações para Helena. — Mas vamos fazer de conta que eu não faço isso e me conte as novidades…
— Não tem muita coisa. Pintaram a prefeitura, a cerveja ficou mais cara no Ribamar e sua mãe está de namorado novo…
— Essa é nova o seu Riba... COMO É QUE É? Como assim a minha mãe está de namorado novo? E o Fábio?
— Ela disse que ia te ligar hoje, mas que não tinha conseguido. colocou o celular no viva-voz e procurou por ligações perdidas, tinha apenas uma de sua mãe. — Pelo que conversamos, eles dois tinham se separado há algum tempo, mas não queriam jogar a bomba no mundo, mas então ela conheceu esse carinha, mas eu não sei quem é.
— Como você não sabe quem é? Todo mundo se conhece em Joaquina!
— Mas ele não é daqui, é de Caucaia.
— Não estou gostando dessa história. — retirou a toalha de cabeça e foi procurar uma escova de cabelo. — Mas obrigada por me contar.
— E o que tem acontecido por aí?
contou os últimos acontecimentos, deixando de lado a conversa que teve com . Não queria dar atenção especial a esse assunto, se não, Helena não deixaria a menina em paz até ter uma história contada nos mínimos detalhes, e não estava com cabeça para isso naquele momento.


Querendo deixar alguns problemas de lado, no qual o maior deles era a mãe não ter avisado nada sobre ter se divorciado e estar com um novo namorado, concentrou todo o seu estresse em trabalho dobrado.
Sentou com Bia e treinaram por horas os acordes das músicas que ela tocaria nos shows. Ela ainda não sabia se teria uma banda a sua disposição, mas caso não tivesse, queria estar preparada para isso.
Ainda durante a semana, Martin pediu para que ela o encontrasse em um shopping, para que eles pudessem ver um figurino para os shows. disse que poderia usar as próprias roupas, como sempre fizera, mas Martin explicou que as lojas estavam patrocinando parte do seu show, inclusive ofereceram qualquer peça do inventário para que ela usasse nas apresentações, tudo questão de publicidade para as lojas.
Quando colocou um vestido, já na última loja que eles iriam naquele dia, foi que caiu a ficha de . Aquilo estava realmente acontecendo e não demoraria muito até que eles estivessem na estrada!
Aquele vestido rendado branco, com algumas rosas bordadas era a cara da menina, principalmente com o sorriso que ela estampava no espelho. Rodou, ainda dentro do elevador, até ouvir o empresário a chamando.
— Eu preciso ir, você vai ficar bem aqui sozinha? Ou prefere que eu chame a Bia? Quem sabe ela será uma ajuda melhor do que eu…
— Não, Martin, eu acho meu caminho de volta, não se preocupe. — deu de ombros, mesmo que nunca tivesse ido para aquele lado da cidade e muito menos saberia como voltar para casa.
Ele concordou e se despediu de e das mulheres que estavam os ajudando, e assim que ficou sozinha, a cantora voltou ao provador, deu mais uma olhada no vestido. Aquele era o escolhido para o primeiro dia! Mas logo trocou de roupa e conversou com a atendente da loja, que era muito simpática, ajudando até a menina a escolher uma sandália que ficasse boa com a peça de roupa.
Já no caixa, onde a cantora estava apenas esperando suas sacolas, já que não pagaria pelas peças, a gerente pediu que ela posasse com as vendedoras e as sacolas com o nome da loja. Disse que era para promover a turnê assim que eles começassem os shows. Apesar de nunca ter feito nada parecido na vida, gostou da experiência, mesmo ficando contrariada ao deixar a loja sem pagar por nada. Agradeceu a todas as que lhe ajudaram e saiu com mais sacolas do que suas mãos aguentavam.
Decidiu que matar uns minutos na lanchonete não seria dos males o pior, e foi se arrastando até uma mesa.
Comprou um lanche enorme, que ela provavelmente não conseguiria comer todo naquele momento e ligou para Rui.
— Ora, se não é a minha filha favorita me ligando…
— Eu sou a sua única filha! — os dois riram. — O que você está fazendo?
— Estou sentado na minha cadeira, esperando dar cinco horas em ponto para que eu possa sair do banco.
— Você está evitando atender seus clientes? Que espécie de gerente é você? — a mulher brincou, ouvindo uma gargalhada do pai no outro lado da linha.
— Hoje só tinham dois clientes agendados, por isso terminei mais cedo. — ele falou com alguém no banco, afastando o telefone da boca. — Pois bem, agora estou livre para ir para casa.
— Você não quer passar aqui comigo e comer? Eu acho que estou perto do seu trabalho.
— Você acha?
— Sim. Eu nunca vim para esse lado da cidade. — o pai concordou. — Estou no Jardins Bosque Shopping, você vem?
— Uau! Isso é bem longe de onde você trabalha.
— Sim, ainda mais com o trânsito dessa cidade! — revirou os olhos ao lembrar-se da demorada viagem de carro que teve com Martin.
— Isso é verdade... — Rui pensou uns segundos e respondeu. — Eu devo chegar em uns quinze minutos, será que nesse meio tempo você poderia arranjar uma cerveja para o seu velho?
— Tudo bem, pai. — concordou com Rui e desligou a ligação.
Ficou em dúvida se também pedia uma cerveja para si, mas ao olhar para o montante de batata frita que acompanhava seu milkshake, decidiu por não beber.
Rui não demorou a chegar, e os dois tinham muito o que conversar. Colocaram os assuntos em dia diante de uma bandeja de batata frita, milkshake de morango, garrafinhas de cerveja e o amontoado de sacolas de .
Quando estavam saindo, Rui ofereceu para levar a filha até o apartamento, e ela aceitou de bom grado. No caminho até o carro, ele quis saber de onde vinham todas aquelas sacolas.
— Essas lojas estão patrocinando os meus shows, então me ofereceram algumas roupas e sapatos para eu usar no palco.
— Entendi... — Rui sorriu. — Bela forma de fazer as pessoas gastarem dinheiro. "Vamos lá, compre a roupa que a sua cantora favorita também usa!" — ele forçou uma voz mais fina, fazendo a filha cair na gargalhada.
— Eu já fiz você comprar aquelas saias que as meninas da novela usavam!
— Eu sei! Por isso disse aquilo. — foi a vez de Rui gargalhar diante da expressão da filha. — Vamos, deixo você em casa.
acabou dormindo na casa de pai naquela quinta feira e na sexta de manhã, o pai a acompanhou até o estúdio, antes que ele tivesse que ir para o banco.
Rui conheceu Bia e quando já estava de saída, cruzou com Diego, com quem conversou brevemente. Bia elogiou o pai de , dizendo que se ele já não tivesse namorada, se candidataria ao posto.
As mulheres voltaram a tocar, aproveitando os últimos dias antes de saírem de São Paulo para a turnê para repassar os acordes mais uma vez. Diego, entretanto, dizia que não precisava de mais nenhum ensaio, porque já estava tocando muito bem todas as partituras que ela havia escolhido.
Pouco antes do almoço, enquanto contava algumas histórias para Bia, Diego recebeu uma ligação e deixou o cômodo para conversar direito. Claro que as duas acharam estranho, mas não tirariam a privacidade do homem por causa de suas curiosidades. Quando Diego voltou, sério, disse que estava vindo mais cedo para o estúdio e queria falar com .
A cantora, por sua vez, arrepiou-se em expectativa. Não fazia ideia do que queria conversar, e chegou até cogitar de que não seria mais a escolhida para abrir os shows da turnê do astro. Ficou andando de um lado a outro da sala até uns cinco minutos antes do horário de Diego e Bia saírem para almoçar, mas decidiu que isso não resolveria nada, então voltou ao estúdio e começou a cantar e tocar.
Segundos depois saiu do elevador e sentou no sofá. Observava o ensaio de pela janela de vidro, não que eles tivessem voltado a conversar depois que ele a flagrou com a sua composição, mas ele se sentiu incomodado por não elogiar o talento que a menina tinha.
Era orgulhoso demais, mas depois de umas semanas na companhia da mulher, se sentia um idiota por não reconhecer em alto e bom som.
— Você não vem almoçar? — Diego perguntou para , enquanto Bia já chamava o elevador. continuava no estúdio, cantando.
— Não estou com fome. — o cantor negou o convite. — Ela vai ficar aqui? — perguntou apontando para a moça.
— Vamos trazer o almoço dela... eu disse que ela não precisa mais ensaiar nada, mas ela gosta de ficar sozinha e ensaiar.
concordou com a cabeça e ouviu Bia chamando Diego, negou mais uma vez o convite para acompanhá-los e viu os dois entrando no elevador.
terminava de cantar um trecho de Dona Sila, música da Maria Gadú, e só então notou que a observava.
— Você está bem? — ela perguntou, sabia que ele estaria ouvindo pelas caixas de som.
não esperava que ele fosse, de fato, responder, mas ele estava com uma expressão preocupada e ela não deixaria de ajudá-lo só porque ele era um teimoso.
— Você quer gravar a música comigo? — despejou a pergunta de uma vez só.
Sabia que não perceberia, mas ele estava respirando fundo enquanto esperava pela resposta.
Viu a mulher deixar o estúdio e sentar ao seu lado no sofá, e agora ele notava que ela estava confusa e respirava mais rápido.
— Vo-vo-você me disse que não queria fazer um dueto... — ela gaguejou e quis se esconder de vergonha por isso.
— Será um bom diferencial para o meu novo CD. — ele respondeu, com as mesmas palavras que ouvira de Martin quando o empresário tentara lhe convencer.
— Ah... — suspirou. Achou que ele queria cantar com ela. — Tudo bem, podemos gravar.
— Você se lembra daquelas mudanças que fez na letra?
— Eu só mudei o gênero de algumas palavras, eu não mudei a sua letra.
— Ainda pode cantar assim? — ela concordou com a cabeça. — Então podemos ensaiar umas duas vezes e depois pedimos para a Bia e o Diego ouvirem a gravação e dizer o que precisa alterar.
deu de ombros. Num minuto ele não falava com ela, agora estava todo 'vamos direto aos negócios?'.
levantou e foi até a bateria, no outro estúdio para pegar a letra, depois chamou e puxou um violão. Enquanto a menina se sentava, ele já estava começando a tocar os primeiros acordes.
Como só havia um papel com a letra e a partitura, se viu obrigada a sentar próxima ao rapaz, e por mais que estivesse um pouco nervosa, não deixou de prestar atenção quando ele deu um sinal para que ela cantasse em algumas partes.
Cantaram a música uma primeira vez, para que cada um soubesse em que parte precisavam entrar e que parte cantariam juntos. Na cabeça de , eles tinham uma sintonia perfeita, porque a versão estava ficando bem melhor do que ele mesmo imaginara.
Já para , ela estava fora do tom, estava preocupada demais de que ele acabasse não gostando mais da ideia e a descartando por completo, mas a menina ficou tão apaixonada pela composição, que seria capaz de implorar para que pudesse fazer parte dela, mesmo que apenas cantando com o músico.
Eles decidiram que começaria com o primeiro refrão, já os dois seguintes seriam de , então cantariam juntos e assim foram dividindo a música, até que na terceira vez, eles já nem olhavam mais para o papel atrás da letra.


[: Ainda bem
Que agora encontrei você
Eu realmente não sei
O que eu fiz pra merecer
Você


: Porque ninguém
Dava nada por mim
Quem dava eu não tava afim
Até desacreditei
De mim


O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão, quem diria
Que ao meu lado você iria ficar


Juntos: Você veio pra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim


: O meu coração já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão
Tinha sido maltratado
Tudo se transformou


Juntos: Agora você chegou
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim


: Nanananana nananananana


: O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão
Quem diria que ao meu lado
Você iria ficar


Juntos: Você veio pra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim


O meu coração já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão
Tinha sido maltratado
Tudo se transformou


Agora você chegou
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar assim


: Nanananana nananananana
Ainda bem…]



Depois que terminou, percebeu que a olhava com bastante atenção. Por um milésimo de segundo, achou que ele, enfim se lembraria da noite que se beijaram em frente ao bar do Leon, mas ele não disse nada, ao invés disso, se aproximou ainda mais da menina e tocou seus lábios aos dela.
A princípio, eles ficaram parados, até que abriu um pouco a boca e o seguiu quando fechou seus olhos. Como tinham um violão os separando, continuaram sentados, trocando um beijo que passava de um simples selinho a algo mais envolvente e quente. foi o primeiro a puxá-la para mais perto, e colocou seus braços ao redor do pescoço do cantor. A menina ficou eufórica quando ele respondeu a sua ação com algo ainda mais urgente no beijo e não via a hora de se livrar do violão no meio dos dois.
Como em qualquer outro beijo, eles acabaram precisando de ar, e mesmo não querendo soltá-la, sabia que era o certo a se fazer. foi o primeiro a interromper o beijo e abrir os olhos, enquanto a mulher normalizava sua respiração ainda de olhos fechados.
Quando os abriu, ficou sem reação. Não sabia o que a garota esperava dele, mas como não queria ter que se explicar, voltou a falar da música.
— Então você acha que essa última versão foi a que ficou melhor?
não podia acreditar que o astro havia feito isso. Já era a segunda vez que eles se beijavam e ele simplesmente fingia que nada havia acontecido. Ela ainda estava com o corpo quente por causa do momento íntimo, mas apenas concordou com a cabeça, se levantando e indo tomar um copo de água.
não saiu do estúdio e ficou torcendo para que não voltasse e o questionasse sobre o beijo. Nem ele sabia o porquê tinha tomado tal atitude. Viu que ela andava de um lado a outro da sala em que Bia costumava ficar, mas não iria até lá nem que o pagassem para isso. Levantou do banco que ainda estava, deixou o violão de lado e começou a tocar bateria, no ritmo da sua música favorita do disco novo, numa mera esperança de deixar o ocorrido para trás.
O que pareciam ser uns dez ou quinze minutos depois, Bia e Diego saíram sorrindo do elevador, entregando a seu almoço e comentando que encontraram um cantor que costumava gravar lá no estúdio. A menina fingiu interesse enquanto olhava para o almoço, mas agora sem a menor fome.
— E que gravação é essa que temos aqui? — Bia quis saber quando viu o botão vermelho piscando.
— Gravamos a música juntos. — respondeu. Fechou a embalagem com a comida e decidiu que não conseguiria almoçar.
— Que música? — Bia e Diego perguntaram em sintonia.
— A do . — levantou-se e procurou pela bolsa. Precisava sair dali. — Será que posso ir mais cedo hoje? Tenho um compromisso com meu pai.
— Ah… — Diego engoliu em seco e olhou para o astro que ainda estava na bateria. — Nos falamos amanhã.
— Claro, com certeza. — a menina forçou um sorriso. — Vocês podem me dizer por mensagem o que precisa mudar nas minhas partes que amanhã resolvemos isso.
— Até, ! — Bia se despediu e Diego lançou um aceno quando a cantora entrava no elevador.
Enquanto deixava o prédio e Bia explodia de ansiedade para escutar a gravação, Diego entrou no estúdio em que estava e disparou a pergunta:
— Que diabos você fez agora? — o produtor não deu tempo para que o cantor respondesse. Já tinha uma boa ideia do que poderia ter acontecido e não queria ter que presenciar os problemas de mais uma vez. — A é uma menina ingênua, por favor, não acabe com o pobre coração dela antes da turnê ao menos começar…
— Do que você está falando? — sabia muito bem do que se tratava, mas não daria com o braço a torcer. — Eu não fiz nada!
... — Diego suspirou e sentou no banco em que estava há pouco. — Eu sei que você é um excelente cantor, de verdade. Mas você precisa parar com essa ideia de que todas as mulheres do mundo te querem.
— Espera aí. — agora era quem estava em pé, andando de um lado a outro na frente de Diego. — Nós não fizemos nada!
— E eu espero que continue assim, , porque a tem grandes chances de vir trabalhar na gravadora conosco.
Diego o deixou sozinho no estúdio. Passou por Bia, que não havia entendido nada da conversa deles, e foi para o outro estúdio.
Trancou a porta e desligou o microfone para que nenhum dos dois pudesse ouvir o que ele conversaria, assim que Martin lhe atendesse.
— Diego... como estão as coisas? — Martin estava a alguns bairros de distância, e nem em seus piores pesadelos imaginaria que escutaria as seguintes palavras do amigo:
— Você tem que falar para o ficar longe da !
— Ei, espera aí... O que aconteceu? Por que eu iria deixá-los longe um do outro?
— Porque o nosso astro aqui, fez alguma coisa que fez a sair daqui correndo e quase chorando.
— Ah, droga!
— Martin, eu juro para você, o terá que se comportar para a ficar na gravadora. — Martin suspirou do outro lado da linha. — E eu quero a na gravadora!
Com isso, Diego encerrou a ligação e voltou para onde havia deixado Bia super confusa. Ela, por sua vez, não querendo se intrometer, apenas apertou o play e deixou que a voz dos dois cantores mais promissores do momento o acalmasse.
— Então...? — Bia parecia uma groupie ao encontrar seu artista favorito. Estava quase com as bochechas vermelhas em antecipação. — O que você achou? Não ficou simplesmente… ai, Deus, qual a palavra? Hm... simplesmente magnífico?
Antes de dizer ter adorado a música, Diego olhou para os lados e viu recostado no batente da porta. O cantor carregava um sorriso cínico nos lábios, de quem sabia exatamente que tinha convencido de que era o antigo do qual todos amavam.
Não muito longe dali, entrava no primeiro bar que encontrara. Não que estivesse sofrendo de amores, por Deus! Ela tinha consciência de que não estava apaixonada, mas a raiva veio porque ele não disse absolutamente nada, e ela se sentiu na obrigação — e no direito — de surtar um pouco.
Estava com todos os sentimentos acumulados dentro de si. Saudade de Helena, de Joca, da praia e de Joaquina, no geral. Sem comentar, que precisou mudar sua vida em 180° quando assinou o contrato com Martin. Era uma mudança gigante para a menina.
Sabia que aquilo era necessário, e queria o pontapé inicial que estava tendo, mas não sabia que seria tudo tão corrido. A cantora não queria parecer ingrata, pelo contrário, agradeceria todos os dias por Martin aparecer na sua vida, mas tinha momentos em que achava muita coisa para engolir de uma só vez.
Olhou para o celular e sorriu ao ler que Joca estava em São Paulo. Finalmente ela poderia conversar com alguém de Joaquina que não fosse através de uma ligação ou mensagem de texto. Ele ainda estava numa reunião, e demoraria um bocado para ficar livre, mas já que estava se sentindo confortável naquela mesa de bar, aproveitou o dia quente e bebeu uma cerveja atrás da outra.
Joca chegou umas duas horas depois, também sedento por uma cerveja gelada e um banheiro que pudesse trocar o terno por uma camisa.
— Você está bem gato de terno, acho melhor ficar assim! — estava claramente alterada, o que fez o prefeito sorrir.
— E você está de porre. — eles se abraçaram e sentaram a mesa. — Você não deveria estar num estúdio? Sendo uma cantora profissional?
— Deixe de tirar uma com a minha cara e vamos beber! — mostrou a língua.
Os dois começaram a colocar os assuntos em dia. O primeiro deles era o porquê de Joca estar na cidade, e ficou surpresa ao saber que ele estava arrecadando dinheiro e fechando contratos para a renovação da praça de Joaquina. A menina quase se jogou nos braços do amigo de tanta felicidade, e os dois passaram o restante da tarde comentando o que precisava de obra na cidade, incluindo a esquina que costumava morar, já que ficava ao lado da escola municipal.
— E o que tem de novo por aqui? Não me diga que não tem nada de bom acontecendo na sua vida de cantora profissional... — agora era Joca que começava a falar arrastado.
— Não tem nada muito diferente de quando você veio da última vez. — ela deu de ombros. — Só que mudei de emprego e em breve, estarei num ônibus, com uma banda e um empresário para me apresentar na frente de milhares de pessoas…
— Se você acha que é “só isso”, então temos diferentes opiniões do que são boas notícias.
— Eu sei... — suspirou. — É só que... você sabe, aqui eu não conheço muita gente, a não ser minha família e o pessoal da gravadora.
— Então você está precisando de uma noite assinada por Joaquim Almeida de Oliveira Neto!
— Não! — A cantora tentou negar, mas logo abria a bolsa e, assim como Joca, deixava uma nota de cinquenta reais para quitar a bebedeira do dia.
De lá, começaram a andar e passear por diversas lojas e bares, parando aqui e acolá para flertar com estranhos, que também aproveitavam o início da noite de sexta feira.
Depois de vários números novos na agenda, os dois decidiram não mais perder tempo e arranjar um alvo só.
Segundo as "regras" da noite, escolheria uma garota para Joca, e ele escolheria um homem para a amiga.
— Eu não gostei de ninguém daqui! — estava com os braços entrelaçados no pescoço de Joca, que como havia bebido menos, ainda tinha condições de segurar a amiga e sua sacola de comida.
— Mas eu já tenho alguém em mente para você. — ele confessou, dando de ombros e rindo da expressão da amiga.
— Bem, sendo assim, também tenho alguém para você.
— Ma... mas você acabou de dizer... — ele revirou os olhos. — Tudo bem, estou pronto para a sua escolha.
Enquanto olhava mais uma vez pelo salão, ouviu Joca sussurrar que a menina deveria, ao menos, não ser tão baixa, já que ele era um belo homem de quase 1,90 de altura. Ela sorriu e depois de encarar o amigo por um certo tempo, chegou ainda mais perto e sussurrou de volta:
— Está bom uma menina da minha altura? — , agora numa distância bem mais próxima dele, sentiu o hálito de Joca. — Eu acho que vou te beijar!
E em menos de um segundo, lá estavam os dois, se beijando e se abraçando num canto de um bar.
Não era nada nojento de se olhar, estavam mais para um casal apaixonado do que para aquelas pessoas que não tem o bom senso.
Joca a segurou ainda mais forte quando a ficha do que estava acontecendo, caiu. Não era todo dia que ele e ficavam. E não que já tivesse acontecido muitas outras vezes, mas algumas, já.
E para a cantora, não foi nada como ela esperava. Queria o calor que sentiu de manhã, mas o calor de agora era totalmente outro, um pouco mais forte até. Talvez por causa de todo o álcool, não porque estivesse perdidamente apaixonada por Joaquim. Eles já haviam tentado e não davam certo.
Quando romperam o beijo, o segurou pelas mãos e saiu o arrastando, olhando para todos os lados atrás de um táxi.
— Que horas é o seu voo?
— Às quatro da manhã.
— Ok. — sorriu para Joca e assobiou para o carro branco que parava a poucos metros deles. — Teremos bastante tempo até lá.
Correram até o táxi, e já entrou dizendo o endereço. Joca ainda estava chocado com a atitude da amiga para sequer falar alguma coisa.
Quando chegaram, um bom tempo depois, Joca se prontificou em pagar o motorista e procurou as chaves do apartamento na bolsa.
Enquanto subiam, tentou lembrar se Eloísa estaria em casa naquela noite, mas provavelmente a prima estaria na faculdade, ou bebendo com os amigos.
Depois de conseguir, enfim, abrir a porta, voltou a beijar Joca com a mesma intensidade. E ele, por sua vez, não negou nenhuma das investidas da menina.
Em pouco tempo eles estavam seminus, se agarrando no sofá. Ouviram um barulho e acharam que Eloísa já estava de volta, por isso, foram até o quarto de e continuaram o que haviam iniciado mais cedo.
Ela deitou ofegante ao lado de Joca, que também tentava normalizar a respiração. Não era de ter sexo casual com qualquer um, principalmente com Joca, mas depois de toda a tensão sexual que aquele dia lhe causara, não conseguiria ir dormir tão facilmente, e o amigo parecia tão satisfeito quanto ela.
— Sabe, eu não queria falar nada do tipo... mas ainda bem que você não gostou daquelas mulheres do bar. — o olhou confusa, mas sorriu junto com Joca. — Não estou com a minha lábia em dia... — os dois gargalharam.
— Não é como se eu fosse transar com qualquer um. Quem você pensa que eu sou? — Ela se fez de ofendida, mas continuou rindo.
— Quem você pensa que eu sou? Eu também não, né, !
Depois das brincadeiras, Joca levantou e deixou o quarto, indo até o banheiro e livrando-se da camisinha. Decidiu tomar um banho, aproveitando a água gelada para colocar a cabeça no lugar e amenizar a quentura daquele dia.
E por mais que estivesse cansada e ainda com bastante álcool no organismo, ouviu quando o amigo gritou pedindo uma toalha e riu quando ele se cobriu rapidamente com o objeto.



Capítulo 5

As batidas foram ficando cada vez mais altas conforme despertava, após algumas poucas horas de sono agitado. Negou-se a acreditar que já havia amanhecido. Precisava de mais algum tempo de descanso, contudo, sua prima, como se pudesse ler seus pensamentos, fez questão de jogar um balde de água fria em seus planos de ficar na cama.
— Você vai se atrasar, pop star. — afirmou, abrindo uma pequena fresta da porta para ter certeza de que a outra estava de fato ouvindo.
— Mais cinco minutos e juro que levanto. — resmungou, mesmo sabendo que se continuasse no conforto de seu colchão, não sairia do quarto antes de meio dia.
— Todo esse cansaço tem a ver com aquela belezura que vi saindo daqui essa madrugada? — Eloísa perguntou com a voz divertida.
— Você encontrou com o Joca? — quis saber, lançando um olhar curioso para a mulher que se mantinha de pé, apoiada no batente da porta.
— Estava sem sono, acabei indo assistir TV na sala justamente quando ele decidiu ir embora.
— Céus! Você foi dormir de madrugada e já está de pé?! Como sobrevive com tão poucas horas de sono? — arregalou os olhos ao constatar tal fato, invejando internamente a amiga.
— Já me acostumei com isso. — deu de ombros, percebendo nitidamente o desejo de mudar de assunto. No entanto, não permitiria. — Você já falou sobre esse tal de Joca, não é mesmo? Ele é prefeito da cidade onde você morava, certo?
— Sim. — confirmou, soltando um longo suspiro. — Ele é meu amigo.
— Uma amizade que conta com alguns benefícios, pelo que pude perceber.
— É algo muito ocasional. Somos excelentes amigos, mas quando tentamos nos envolver de outra forma, acaba não dando certo. Somos incompatíveis. Mas as vezes nós acabamos cedendo... — tentou explicar, por mais complicado que parecesse.
— Ontem vocês se encontraram, beberam um pouco mais do que deveriam e acabaram juntos na cama. — constatou, sabendo que só não tinha disposição para os ensaios, quando estava de ressaca.
— Basicamente. — concordou, sentando-se na cama. Ignorou o latejar da cabeça e respirou fundo. — Mas não me arrependo. Estava precisando me sentir desejada por alguém.
— Espere aí... Por que tenho a impressão de que você está me ocultando uma parte super importante dessa história?
— Porque você é maluca. — gargalhou, disposta a esquecer da outra parte da história. — E se eu não for tomar banho agora, estarei bem ferrada.
Ficou aliviada quando finalmente foi capaz de se trancar no banheiro, deixando para trás Eloísa e seus protestos indignados. Deixou que a água caísse sobre seu corpo e aproveitou o momento de solidão. Precisava organizar seus pensamentos para só assim ser capaz de enfrentar o dia que teria pela frente.
Quando saiu do quarto, conseguiu se desviar novamente do questionário de Eloísa, alegando que estava atrasada para o ensaio. Decidiu pegar um táxi até o estúdio porque não tinha disposição para ir caminhando até lá naquela manhã, ao contrário do que estava acostumada a fazer em outros dias.
Já no edifício do estúdio, esperou pelo elevador e se dirigiu para o andar de sempre, preparada para encontrar com Diego e Bia, porém, teria surpresas logo cedo, como pode perceber.
estava sentado no canto do sofá, vestia uma calça jeans rasgada e uma t-shirt, cujas mangas estavam dobradas até os cotovelos. Dedilhava distraidamente algumas notas de uma música que não conhecia e parecia completamente focado no que fazia, tanto, que pareceu não perceber que a garota havia chegado, ou decidiu apenas ignorá-la.
— Como está? — Diego perguntou, sorrindo amistosamente para a garota.
— Muito bem. Encontrei um amigo quando sai daqui. Tivemos uma noite interessante. — respondeu, sem esconder o tom malicioso de sua voz.
Mesmo que não quisesse, seus olhos se dirigiram para onde se encontrava, perdido em sua canção. No entanto, teve a impressão de ver seu rosto se contrair em uma careta irritada, como se não tivesse gostado do que tinha ouvido. Ignorou-o, voltando sua atenção para Diego.
— O que achou da música que gravamos ontem? — indagou, deixando que a curiosidade falasse mais alto.
— Ficou incrível!
— Incrível?! — Bia se intrometeu, a empolgação pulsando em sua voz. — Ficou fantástica, . Há tempos não ouvia algo tão bom quanto aquela música!
Não foi capaz de conter o sorriso com o elogio recebido. Estava mais do que satisfeita por conseguir executar seu trabalho competentemente. Tudo bem, grande parte dos méritos deveriam ir para , afinal, a composição era dele. Porém, nem mesmo esse detalhe foi capaz de extinguir sua empolgação.
Havia alguns ajustes a serem feitos na canção e Diego e Bia estavam fazendo um esforço sobrenatural para que desse tempo de incluir a faixa no CD de , cujo lançamento se aproximava.
se dispôs a ajudar no que foi necessário e talvez ao menos tivesse notado, mas durante todo aquele dia, manteve uma espécie de distância segura em relação ao músico, que voltou a adotar a tão irritante atitude de fingir que ela não existia.
Não que ela estivesse cem por cento confortável com a situação, mas sabia que era mais fácil ignorar e conseguir trabalhar, do que sentar e tentar resolver aquilo. Por isso, não se preocupou com as coisas banais que envolviam , mas sim com a organização de sua mala.
Eles sairiam na semana seguinte para o Rio de Janeiro, primeiro destino da turnê, e assim como foi informada por Bia, deveria levar não apenas as roupas que ganhou, mas também as que estava acostumada, bem como uma leva de roupas para o frio.
Não que eles fossem para uma cidade dos Alpes Suíços, mas fariam shows em cidades do sul do Brasil, onde uma corrente de ar frio ficava alojada naquela época do ano, e como eles poderiam acertar outros shows menores durante os dias de "folga", eles poderiam passar mais tempo do que o planejado nesse clima.
Depois de muito pensar em como conseguira encaixar tudo só numa mala, e com Eloísa sentada no objeto para que ele permanecesse no lugar, conseguiu fechar o zíper e respirar aliviada.
— Finalmente! — a prima da menina comentou, levantando-se e comemorando.
— Não achei que fosse conseguir colocar tudo aí!
— Quem disse que você só poderia levar uma mala?
— Tecnicamente, eles não disseram, mas eu não quero ocupar muito espaço. — deu de ombros. Ficava com vergonha de atrapalhar de algum jeito.
— Acho que você precisará comprar uma mala em algum lugar no meio do caminho. — Eloísa expôs o óbvio, já que o objeto estava quase estourando.
— Se eu precisar comprar, compro, mas não quero pensar nisso por enquanto.
— Então vamos ver se a nossa janta já está pronta.


Sua última noite de “liberdade” havia chegado mais rápido que tinha imaginado. Estava no Bar do Leon na companhia de Eloísa e tentando esquecer que na manhã seguinte a turnê teria início. Seu antigo chefe e suas antigas colegas de trabalhos (exceto a barmaid, como era de se esperar) estavam orgulhosos da garota.
Ela tentou parecer confiante, mas havia algo no fato de viajar durante os dias seguintes na companhia de certo cantor arrogante, que a deixava inquieta. continuava ignorando-a determinadamente, mas se mostrou decidida a mostrar a ele que também sabia jogar aquele jogo.
O resultado: os dois ao menos se cumprimentavam quando eram obrigados a trabalhar juntos no estúdio.
Apesar de se demonstrar irritadiça no começo, acabou por se acostumar com a situação. A relação, ou melhor, a falta de relação entre ambos tornou-se algo confortável para ela. Esperava ser capaz de levar com isso adiante, já que seria obrigada a conviver muito mais com a partir dali.
Enquanto a mulher estava a cada dia mais confortável, parecia sofrer um ataque de ansiedade a cada hora que passava.
O cantor não demonstraria na frente de tantas pessoas, mas estava nervoso com o lançamento de seu novo CD. Era bem diferente de seu último trabalho e ele não sabia se seus fãs ainda o apoiariam depois de tanto tempo sem lançar uma música se quer. Há poucas horas, ele não havia nem separado quais figurinos levaria além dos que ganhou, e por isso, sua mala ficou, há pelo menos três dias, aberta na poltrona de seu quarto. E só jogou as roupas lá dentro quando recebeu uma ligação de Martin naquela manhã.
Eles conversaram brevemente, mas o empresário deixou claro que ele não precisaria se preocupar, e assim, ele jogou um monte de roupas na mala e seguiu para o encontro do ônibus onde as pessoas o estavam esperando.
Viu a mulher se dirigir ao ônibus de apoio e estranhou. Achava que eles viajariam no mesmo carro, mas ficou mais aliviado ao ver que não.
deixou sua bagagem com um simpático motorista de meia idade, cujo semblante exalava tranquilidade. A garota respirou fundo algumas vezes, analisando o ônibus em que passaria boa parte de seu tempo daquele momento em diante. Olhou em sua volta. Mais um ônibus estava estacionando ao lado daquele em que ela viajaria e ao seu redor, um punhado de pessoas se preparava para partir.
Não deixou de notar que eram homens, todos eles. Alguns pareciam mais amigáveis, outro nem tanto ( incluía-se nessa última categoria, certamente).
Martin se colocou ao lado da garota e precisou pigarrear para chamar sua atenção. Ela estava tentando não ficar apavorada com a possibilidade de viver em um ambiente dominado pelo sexo oposto.
— Sei que a possibilidade parece apavorante. Mas apesar de toda essa masculinidade, eles costumam ser gentis. — o empresário afirmou, sendo capaz de ler a expressão estampada no rosto da cantora. — E se você vier a ter problemas com algum deles, por menor que seja, por favor, não hesite em me comunicar, está bem? — disse ele, de forma bastante sincera.
Ela concordou com um balançar de cabeça e por um momento se sentiu constrangida. Talvez devesse mostrar, que apesar de estar com um pouco de medo, sentia-se grata pela oportunidade que havia recebido.
— Acho que nunca lhe agradeci de fato, então obrigada por isso. — ela acabou tomando coragem para falar. — Por ter acreditado em mim e por estar proporcionado o que sempre sonhei.
— Bem, eu só dei um empurrãozinho. O resto é mérito seu e do seu talento. — ele deu de ombros e depois de trocarem mais algumas palavras, achou melhor se despedir e entrar de uma vez em seu ônibus. Precisava ter certeza de que aquilo de fato estava acontecendo e não era apenas mais um fruto de sua imaginação.
O interior de sua nova casa era bem diferente do que imaginava. A menina já havia andado em ônibus de dois andares, quando costumava viajar com o avô, mas nada poderia ser comparado aquilo.
Não sabia muito bem para onde ir, então, assim que passou pela porta, procurou uma cadeira, mas só via algumas malas, instrumentos e uma mini sala de estar, com televisão, cadeiras viradas para o móvel, e a cabine do motorista.
Ainda estava parada no meio do corredor quando ouviu alguém lhe chamando.
— Vamos lá para cima. — o rapaz sugeriu, lançando a ela um olhar amigável. — E antes que você se perca, aqui embaixo é mais a galera da bagunça, e eles tem um banheiro deles.
— Eu estou na galera da bagunça? — quis saber, apesar de não se achar bagunceira.
— Bem, eu ainda não sei direito, mas só duas pessoas vão dormir aqui, então sobra cadeira, se você quiser. — ele explicou e a chamou mais uma vez.
Eles subiram a escada e quase deixou o queixo cair.
As cadeiras ali eram praticamente uma cama de solteiro. Havia edredons nos colchões, bagageiros abertos, cortinas que davam uma privacidade a mais para cada poltrona e mais uma porta no final do corredor.
Imaginou que ali seria outro banheiro, e confirmou quando uma senhora deixou o cômodo com um balde e água sanitária na mão.
— Está tudo limpinho e arrumado, vocês já podem se estabelecer. — ela sorriu e a agradeceu.
Não sabia se todos já tinham lugares demarcados, mas, já que nenhuma bolsa estava nos bagageiros, supôs que pudesse escolher qualquer um. Olhou ao redor e viu o rapaz que lhe acompanhava deixando uma mochila numa das primeiras camas, que provavelmente ficava acima da cabine dos motoristas.
— A visão daquela cama ali é a melhor! — ele apontou justamente para o lugar onde havia pensando em ficar.
Ela deixou a sua bolsa na cama, abriu a cortina da janela e viu que dava para a frente do ônibus. Seria como se ela estivesse no lugar do motorista, mas sem nada para impedir a sua visão da estrada.
— Esse ônibus é maior do que o meu antigo apartamento!
— Todos eles são! — ele sorriu, sentando-se na poltrona que ficava ao lado da dela.
— Você é o baterista, não é? — indagou, porque apesar de todos os seus esforços, simplesmente não conseguia se lembrar do nome do rapaz.
— Exatamente. Mas pode me chamar de Pedro, Pedro Cavalcante.
— Desculpe, mas já me disseram tanta coisa hoje, que acabei esquecendo a maioria delas. — ela confessou, não imaginando que o início da viagem seria a verdadeira loucura que estava sendo.
— É sua primeira turnê, pelo que eu ouvi falar.
— Isso. Ainda estou completamente perdida.
— Não se preocupe. Logo você se acostuma. — afirmou e os dois observaram o fluxo de pessoas começando a aumentar. Aparentemente a hora de partir já havia chegado.
Pedro fez a gentiliza de repetir o nome de cada integrante da equipe que estava no ônibus, apontando alguma característica marcante de cada pessoa para que a garota pudesse fazer a relação de quem era quem com maior facilidade.
começou a se afeiçoar pelo baterista, e jurou a si mesma que não era por conta daquele belo par de olhos verdes, nem pela forma bagunçada que os cabelos dele emolduravam seu rosto e muito menos pelo porte físico atlético do rapaz... Era apenas pela forma simpática que Pedro tentava fazê-la se sentir à vontade em um ambiente que por ora, era completamente estanho para ela.
A cantora sentiu seus músculos relaxarem somente quando o ônibus começou a se movimentar. Foi nesse momento em que ela constatou que sim, precisaria dividir o espaço com outros nove homens, mas que nenhum deles era . Esse detalhe fez com que ela se sentisse mais à vontade instantaneamente. Não conseguia imaginar o que aconteceria se fosse obrigada a conviver com o astro por tanto tempo.
Concluiu que provavelmente Martin também sabia da picuinha entre ambos e mexeu seus pauzinhos para mantê-los separados durante as viagens. Ela fez um lembrete mental para agradecer o empresário quando tivesse uma oportunidade.
O primeiro show estava marcado para o Rio de Janeiro. O que significava que ficariam algumas longas horas na estrada e por isso aproveitou os primeiros momentos apenas para observar. Assim, conseguiu analisar superficialmente a personalidade de seus companheiros de viagem.
Percebeu nesse meio tempo, que alguns eram mais reservados, que outros eram extremamente ativos, alguns adoravam implicar e arrancar risos dos outros... No entanto, todos pareciam extremamente amigáveis.
Quando já se sentia confiante o suficiente para interagir com os demais, encontrou o apoio de Pedro, que se esforçava para fazer com que a garota pudesse participar das conversas.
Os acompanhantes de ônibus da cantora eram todos muito simpáticos e estavam recebendo-a de braços abertos. As poucas horas de viagem que haviam feito, foram de extrema importância para que eles se conhecessem.
Como seus shows seriam mais simples, não tocaria com todos eles, mas ficou mais calma por ter a oportunidade de conhecê-los.
Ao cair da noite, eles ainda estavam viajando, e pararam num restaurante à beira da estrada apenas para jantar e esticar as pernas. Seria uma parada rápida, de umas duas horas no máximo.
Pedro e haviam conversado bastante e decidiram sentar um ao lado do outro, na grande mesa com a equipe. A menina conheceu algumas outras pessoas, aquelas que estavam no mesmo ônibus que .
— Então, você está preparada para o seu primeiro show? — o baterista se prontificou, atraindo a atenção de outras pessoas próximas.
— Não é bem o meu primeiro show... — deu de ombros, mas percebeu que precisaria se justificar. — Eu fiz um "grande" show na minha cidade natal, bem no meio da praça para um monte de conterrâneos e turistas.
— Isso deve ter sido bem bacana. — um outro rapaz comentou. A menina não tinha certeza, mas achava que ele era um dos cantores de apoio. — Os meus primeiros trabalhos foram em bandas menores, no interior de São Paulo.
— Pelo que meu pai me disse, até algumas cidades do interior, são maiores que Joaquina... — a cantora brincou, conseguindo arrancar risada de boa parte da mesa.
Não saberia explicar o motivo, mas sentiu uma vontade imensa de olhar para , saber se ele também havia prestado atenção nela.
Ela contou mentalmente por vinte segundos, até que alguém começasse outra conversa e olhou na direção do astro. Ele a encarava, mas não tinha nenhum resquício de sorriso em seu rosto. Mal dava para enxergá-lo, já que ele estava de boné, mesmo que fosse a noite e dentro de um estabelecimento.
quis se enterrar num buraco por ter prestado atenção demais nele, mas não conseguia tirar os olhos dela.
Ele não queria admitir que desde que iniciaram aquela viagem, tudo o que ouvia era "Fiquei sabendo que a é muito simpática!", "Ouvi uma gravação dela, voz bonita!". estava cansado disso, e ainda precisaria encarar essas reuniões em grupo com a menina o olhando a cada cinco minutos.
Ele queria saber se ela já havia esquecido o beijo. Não que ele fosse perguntar, até porque, evitaria a todo custo uma conversa como aquela. Não era possível que ela ficasse apaixonada por ele com apenas um beijo, seria? Ele achava que não, e se firmava nesse pensamento.
Quando pensou não mais receber olhares da menina, sorria com algo que Pedro dizia. Seus olhares se cruzaram e assim que o fez, ela revirou os olhos e tratou de voltar a prestar atenção na conversa.
se levantou. Não queria que ela o flagrasse observando-a mais uma vez. Perdeu a fome e saiu do restaurante, logo acendendo um cigarro e descontando toda aquela situação tragada atrás de tragada.


Voltaram para a estrada e encerraram a noite, já que na manhã seguinte, quando chegassem ao Rio de Janeiro, participariam do evento de lançamento do CD de .
A divulgação ocorreria durante as últimas horas da noite, por isso, e foram orientados a desligar o aparelho, ou silenciar as notificações das redes sociais. Ele, como já havia tido experiência parecida nos anos anteriores, seguiu o conselho de Martin, mas queria poder comunicar-se com seus amigos e familiares, já que agora eles estavam ainda mais longe um do outro.
A menina não imaginou que receberia a mesma atenção que , já que não era conhecida como ele, mesmo que alguns dias atrás, suas contas em redes sociais ganharam uma repaginada com a ajuda do pessoal de assessoria da gravadora. Suas páginas no Facebook e Instagram pareciam bem mais profissionais do que antes, quando poucas vezes dava atenção para tais assuntos.
Quase pediu uma aula para Martin depois dos ajustes feitos, mas ela não queria demonstrar que não tinha tanto conhecimento assim na área, por isso ficou quieta e decidiu que aprenderia sozinha.
Assim que foram acordados, por volta das oito da manhã, já estavam no estacionamento de um grande e luxuoso hotel da capital carioca. Ficava em frente ao posto 10 da praia de Ipanema, pelo que Pedro informou para . Ele também disse que sempre ficavam ali nas outras vezes que passaram pela cidade, e já que Martin era da família dona do hotel, eles patrocinavam os eventos e turnês.
foi o primeiro a descer do ônibus e se instalar num quarto, sendo seguido pelos outros passageiros. O ônibus que estava foi o segundo a ser descarregado. Como eles ficariam mais dias no Rio, por causa do pocket show de divulgação, entrevistas nas rádios e o show de início da turnê, todas as malas e os equipamentos foram sendo tirados dos carros para que o Espaço 7zero6 fosse preparado para o dia seguinte.
Quando a cantora chegou à suíte que ficaria, percebeu que o celular estava sem bateria. Havia deixado no silencioso, porque no meio da noite, ele não parava de apitar com notificações. Deixou a mala ao lado da cama e ligou a televisão.
Passava o Hoje em Dia, da Record, e estavam terminando de passar uma receita deliciosa com maracujá, quando a menina quase gritou com a surpresa de ver sua foto estampada na televisão.
Os apresentadores agora contavam as novidades, e claro, a volta de era a primeira notícia, mas para a surpresa de , o nome dela já estava em todas as datas do show, e as pessoas já estavam se perguntando quem ela era.
Mostraram também alguns vídeos antigos da carreira de e a menina pôde lembrar-se de como ele parecia tão querido com o público, sempre muito talentoso e, obviamente, bonito.
Quando enfim, ligou seu celular para falar sobre aquelas novidades com os amigos e o pai, se assustou com a quantidade de notificações. Ela foi dormir como uma anônima, e agora tinha seu nome ligado a um artista, e ganhava, a cada momento, uma quantidade ainda maior de seguidores. Ela entrou em seu Instagram, antes quase abandonado, agora com fotos tiradas recentemente, tendo milhares de curtidas e comentários.
Prestava atenção no celular, mas quando escutou seu nome sendo falado na televisão, deixou o aparelho de lado e ouviu contarem um pouco da sua história.
— Como eles conseguiram todas essas informações? — a menina ficou se questionando, mas sabia que isso tinha dedo da gravadora, já que eles se comprometeram em começar uma publicidade para ela.
Enquanto estava assustada na frente de um televisor, rolava na cama querendo dormir um pouco mais, sem conseguir. Levantou, chutou a mochila para um canto e abriu a porta da sacada, recebendo um vento com cheiro de mar, um calor característico carioca e o sol, já brilhando forte antes das dez da manhã.
O cantor não conseguiria mais dormir. Estava nervoso demais para isso, então ligou para a recepção e pediu uma seleção de café da manhã para afogar sua ansiedade em comida. Enquanto a refeição não chegava, tomou um banho bem rapidinho para que pudesse ver o que as pessoas estavam achando do CD.
A liberação e início da divulgação do novo trabalho no final da noite anterior havia sido uma ideia dele. Queria poder dormir de cabeça limpa para só então acordar para as críticas.
Ligou a televisão e colocou no jornal, para então se concentrar no celular.
Ficou surpreso com os números que a equipe estava divulgando. Milhares de pessoas já haviam reservado o CD nas plataformas online, mas só teriam a versão completa no dia seguinte, depois do pocket show que faria no hotel.
Mesmo com poucas faixas disponíveis para a divulgação, os elogios eram demais. jamais imaginou que o público fosse gostar tanto daquela nova direção que a carreira dele estava tomando. Algo mais lento e melódico nunca foi a sua identidade, mas agora, ele sabia que havia tomado a decisão certa.
Os dois estavam em todos os sites de notícia. Todos queriam saber quem era a cantora que havia conseguido quebrar a parede que construíra e participar de uma gravação com o astro. O dueto ainda não estava disponível na versão inteira, apenas trinta segundos de música e as pessoas já elogiavam o talento de e apoiavam outras parcerias, dizendo que a voz dos dois havia casado de maneira ímpar.



Capítulo 6

No final da tarde, parte da equipe resolveu curtir o calorão na praia, mas ainda estava digerindo tudo que estava acontecendo, então decidiu que iria para a área da piscina, no topo do prédio, apenas para ver a paisagem, e quem sabe, se ninguém estivesse olhando, entraria na água.
O que a menina não imaginaria, é que estaria lá em cima, praticamente sozinho. Apenas poucos hóspedes estavam curtindo o ambiente, em sua maioria, gringos que falavam apenas o inglês, já esperado numa cidade turística.
O cantor revirou os olhos ao ver sentar numa das espreguiçadeiras, olhando atentamente ao redor. A menina parecia fascinada com a paisagem de tirar o fôlego, já ele, estava acostumado demais com a cidade.
À medida que o sol foi se pondo, mais pessoas chegaram e foi só então, que reconheceu , do outro lado do terraço, com um cigarro entre os dedos. Mas havia algo que não se encaixava naquela cena. A menina pensou por alguns segundos até que o cantor passou a mão no cabelo. Ele estava sem boné e quase caiu da cadeira com o que via.
Não queria, mas se levantou e foi até o músico. Esperava que ele não a ignorasse, mas sabia que ele entenderia o nervosismo que ela sentia, por isso, se apoiou no parapeito assim como .
— Sei que você não vai muito com a minha cara, mas acho que posso pegar algumas dicas de como não vomitar antes de subir no palco. — confessou.
— Concordo. — ele nem olhou para a menina ao seu lado, mesmo quando ela endireitou a postura para olhar para a avenida.
— Com o quê, exatamente, você concorda?
— Não vou muito com a sua cara… — ele deu de ombros, deixando com raiva de ter saído da sua cadeira para tentar conversar decentemente. Quando ela dava um passo para longe, ele completou. — Mas não posso ajudar com o seu nervosismo.
— Nenhuma dica? — ela estava surpresa que ele tivesse se comunicando, mas não deixou transparecer na sua voz.
— Cigarro me desestressa.
— Não, obrigada! — ela sorriu quando ele ofereceu seu próprio cigarro. Ele a olhou também, como quem não acreditasse que nos dias atuais, alguém da indústria da música não fumasse para desestressar. E reparou mais uma vez no cabelo dele sendo jogado para todos os lados por causa do vento. — Você fica melhor sem boné.
Não queria ter confidenciado aquilo para ele, mas não se arrependeu de ter elogiado o rapaz.
— Você fica melhor de cabelo solto. — deu a última tragada e jogou o cigarro no cesto, piscando para no movimento.
Ela, sem saber como reagir, continuou imóvel em seu lugar, vendo o astro sorrir e seguir na direção dos elevadores. Desistiu de ficar plantada no lugar e de olhar a piscina sem poder entrar. Também seguiu para os elevadores, mas já deveria estar na porta de seu quarto. Bem, ela não ficaria presa ao hotel, com um mar daqueles a sua frente.
Sabia onde a banda estava e tinha a intenção de encontrar com eles e pedir que alguém a acompanhasse até qualquer loja que vendesse biquínis. Pedro foi o felizardo, deixando agradecida.
Foram andando pela areia da praia até enxergarem uma loja do outro lado da rua, mas tudo parecia prestes a fechar. Conversaram sobre as experiências do músico na cidade maravilhosa e ela contou um pouco mais de Joaquina.
Quando a noite caiu, eles entravam no hotel, onde teriam um jantar com todas as pessoas envolvidas no lançamento na tarde seguinte. Subiram para seus devidos quarto, ele com sua toalha no ombro e sem um biquíni.
Mandou uma mensagem xingando Eloísa, que a fez tirar qualquer peça de banho da mala, dizendo que ela não teria tempo para isso e que deveria levar mais roupas de frio. Agora, a cantora estava em plena praia de Ipanema e não poderia dar um mergulho que fosse.
Durante o jantar, onde alguns dos principais patrocinadores estavam presentes, fizeram um brinde pelo sucesso nas vendas do CD e dos ingressos para os shows. Todos pareciam ainda mais exuberantes depois de um dia na praia e ainda mais felizes com as boas notícias sobre o bom andamento das vendas.
Subiram para seus quartos não muito depois das dez. porque estaria cedo numa rádio para ser entrevistado, e por puro cansaço. A viagem de ônibus, olhando o céu e a estrada, foi boa, mas nada comparado a uma cama de verdade.


O astro acordou logo cedo na manhã seguinte. Não precisaria estar de pé até as nove, mas às seis horas, já estava deixando o quarto e subindo para o terraço. O movimento baixo nos corredores e elevadores deixava claro que ainda estava cedo demais. Fumou um cigarro e tomou café enquanto olhava para a paisagem que amanhecia rapidamente.
Mais tarde, já pronto para a rádio, eles se reuniram com a equipe no espaço que aconteceria o pocket show e viu que estava tocando uma das músicas que estariam no repertório daquela noite. Não sabia se ela se apresentaria, mas esperava que não. Ele ficava nervoso perto da menina.
Enquanto dava a primeira entrevista sobre a volta aos palcos, passava a manhã ensaiando com Pedro. Não que eles precisassem, mas ela não queria errar uma nota que fosse, e também se desestressava quando tocava e cantava.
Já pela tarde, quando todos estavam de volta ao hotel e depois de conseguir comprar um biquíni, resolveram ir para a praia, como um "mergulho de boa sorte", e ficaram lá até umas duas horas antes do show que aconteceria no hotel.
Ela não precisaria estar lá, mas achou importante comparecer e "mostrar a cara" para o que seria seu público por um tempo.


apareceu no horário combinado e se admirou ao ver uma quantidade um pouco maior de fãs do que esperava. Era para ser um show para quinze pessoas, mas tinham quase trinta.
Ele começou a tocar algumas músicas do CD novo, depois pausaram para uma roda de perguntas e respostas, mais algumas músicas e, enfim, uma sessão de autógrafos e fotos.
estava espantada ao ver aquele lado do . Não esperava tanta simpatia do músico, muito menos quando ele estava sóbrio daquele jeito. Algumas meninas vieram até e pediram uma foto. A cantora estranhou, mas atendeu com carinho as fãs de .
Ainda era uma loucura aceitar o fato de que algumas pessoas a reconheceriam e a parariam para tirar uma foto.
Por volta das oito e meia da noite, já tinha atendido todas as pessoas presentes no pocket show, e os comentários vindos da internet eram, em sua maioria, positivos. Ele sabia que não conseguiria agradar a todos, mas estava feliz com a maioria.
Jantaram juntos mais uma vez, e agora, Martin, Diego e Bia se juntaram ao restante da equipe, já que a partir do dia seguinte, eles acompanhariam a turnê para o trabalho de direção de som.
Bia e ficaram até tarde no terraço, conversando e compartilhando outras experiências do ramo musical. Bia disse para que não tivesse dúvidas sobre estar pronta, porque ela estava mais do que isso.
— Você está pronta para brilhar, meu bem! — Bia a elogiou e deu de ombros. — Mas agora vamos descer, para que nós possamos ter o nosso sono de beleza!
As duas desceram juntas, mesmo que não estivessem no mesmo andar.
Ao sair do elevador, deu de frente com . Não sabia para onde ele estava indo, mas tinha uma boa ideia, e antes que a porta se fechasse, ela comentou:
— Sabe, você pode fumar na sacada do seu quarto... — ele não respondeu.
voltou a andar, mas ouviu a porta do elevador se abrindo e olhou para trás. a olhava.
— Eu sei, mas eu seria um belo imbecil se perdesse a visão lá do terraço, não acha?
— Boa noite, ! — a menina revirou os olhos, mas escutou baixinho a resposta do rapaz.
— Boa noite, !
nunca tinha visto tanta correria na vida, mas sabia que precisaria aprender aquela rotina o quanto antes. Naquela manhã, toda a equipe de tomou café junto e, em seguida, deixou o hotel nos ônibus de viagem.
Chegaram ao local do show por volta de onze da manhã e os preparativos começaram. Bia e Diego sumiram com a banda para os ajustes necessários e realizarem uma passagem de som. se enfiou em seu camarim e não saiu de lá por nada nesse mundo.
foi direcionada para um camarim ao lado do cantor e sorriu ao ver seu nome na placa da porta. Jamais tivera isso na vida, e assim que conseguiu, tirou uma selfies em frente ao camarim e enviou para a família, Helena e Joca.
A amiga foi a primeira a ligar, desejando toda a sorte do mundo! Quase fez a menina chorar com tantas palavras de incentivo.
A mãe fez uma chamada de vídeo e colocou a menina para falar com a avó também. Foi algo rápido, mas muito especial para .
Joca estava ocupado para ligar, mas encheu o celular dela de mensagens enormes, dizendo o quanto estava orgulhoso da amiga.
Seu pai também mandou mensagem, dizendo que assim que conseguisse uma folga, ligaria, mas enviou uma mensagem com as palavras certas para fazer respirar pesado e deixar algumas lágrimas caírem:
"Seu avô ficaria muito orgulhoso de você, minha filha! Toda sorte para você hoje. Te amo, papai."
Ela não sabia como responder, então não o fez. Deixaria para ligar depois que tivesse se apresentado.
Queria que todos eles estivessem presentes ali, mas sabia que isso era uma missão impossível, mas certamente ela gostaria de tentar algum dia.


Estava na hora.
Foi avisada que entraria no palco em dez minutos. Bia veio algum tempo antes para ajudá-la com a maquiagem e o figurino. ficou agradecida, estava nervosa demais para tomar uma decisão sozinha.
Já estava pronta. Fechou os olhos, respirou fundo e contou até dez mentalmente até ouvir batidinhas na porta e colocar a cabeça para dentro.
— Faça um bom show. — e saiu.
estranhava cada dia mais o cantor, mas sorriu para o seu reflexo no espelho.
Já estava com o microfone conectado e tudo em seu devido lugar.
Tentou controlar sua respiração. A ideia que estaria em instantes sobre um palco, frente há uma quantidade muito maior de pessoas do que estava acostumada, lhe deixava nervosa.
— Você está bem? — Pedro perguntou, aproximando-se da cantora.
— Não sei exatamente. — ela sorriu torto, sentindo seu estômago revirar.
— Você é realmente boa no que faz. — ele comentou, pegando-a de surpresa. — Vai dar tudo certo.
— Esperei por isso durante tanto tempo...
— Bem, agora é só ir até lá e fazer acontecer.
sabia que o baterista estava certo. Tudo dependia exclusivamente dela agora e ela tinha de estar pronta. Havia ensaiado incansavelmente, sabia todas as letras das músicas que cantaria e teria o apoio de uma banda completamente profissional, que não a deixaria na mão em momento algum.
não gosta muito da ideia de eu participar da sua turnê. — ela se viu confessando, sem saber exatamente porque aquele fato lhe incomodava tanto.
sabe ser idiota quando quer. — o baterista garantiu, no entanto, algo dizia a que ele e o cantor eram bons amigos. — Se ele continua o mesmo de sempre, provavelmente não vai aparecer para vê-la. Ficará atendendo aos fãs durante seu show. Apenas esqueça que ele existe.
Ela decidiu seguir o conselho que havia recebido. Ajeitou o vestido que tinha decidido usar para o primeiro show, exatamente aquele que havia escolhido há um tempo quando Martin lhe lavara para as compras. Segurou o microfone firmemente com a mão e viu a banda se posicionar no palco. Quando recebeu o sinal positivo de um dos membros da equipe técnica, respirou fundo mais uma vez e então sorriu. Sua vez finalmente havia chegado!


No palco, frente à plateia percebeu que estaria sendo tola se tentasse comparar aquilo com qualquer um dos shows que já havia realizado. As diferenças começavam já na estrutura, completamente moderna e imponente. Depois havia a banda, composta apenas por músicos profissionais.
Por fim, os espectadores. Não eram pessoas comuns que estavam lá somente para se divertir. Eram fãs. Fãs de é claro, mas que ainda assim, possuíam uma energia absolutamente distinta do que qualquer outra que já tinha sentindo.
Ainda assim, não deixou se intimidar. Não seria idiota o bastante para deixar escapar por entre seus dedos a única chance realmente significativa que já havia recebido na vida. Seguiu o repertório e mesmo que a plateia estivesse obcecada pelo show seguinte, deixou-se contagiar pelo talento inquestionável da cantora.
conseguiu se sentir completamente à vontade somente quando sua apresentação já estava chegando ao meio. Mas logo, um detalhe lhe chamou a atenção, fazendo com que seu estômago revirasse instantaneamente devido ao nervosismo.
Só foi capaz de perceber a silhueta diferente, porque até aquele momento, ninguém estava ocupando aquele pequeno espaço ao lado do palco. Quando sua curiosidade falou mais alto e deixou que seus olhos se fixassem por um instante a mais naquele lugar, notou que quem estava lá, lhe observando de forma inexpressiva, era .
Não estava preparada para aquilo então desviou sua atenção do astro e se esforçou para se concentrar na música, a fim de não esquecer a letra. Por mais que tentasse ignorar, havia em si um incomodo quase irritante, causado pela presença surpreendente do homem que fazia questão de ignorá-la ao máximo que era capaz.
Quando se sentiu confiante o suficiente para olhar novamente para , acabou se arrependendo instantaneamente por tê-lo feito, já que a cena que capturou não foi das mais agradáveis. Ele já estava de costas, se afastando, provavelmente em direção ao camarim e seu braço envolvia a cintura de uma morena que não fazia a menor ideia de quem era.
Terminou seu show tentando ignorar o sentimento novo que vinha se apossando de si. Desejou poder ser capaz de apagar de sua memória o que tinha visto, mas para seu desapontamento, sabia que lembraria daquilo por muito tempo ainda. Não porque sentia ciúmes (talvez até sentisse um pouco, mas preferiria morrer a confessar), mas porque não conseguia acreditar que estava cometendo os mesmos erros que prejudicaram sua carreira há pouco tempo.
Já nos bastidores e depois de ter sido parabenizada por grande parte da equipe, devido sua impecável apresentação, acabou compartilhando sua frustração com Bia, já que ela conhecia o astro a muito mais tempo do que .
— Por que ninguém faz nada para controlá-lo?
— Fizemos tudo o que podíamos. — a técnica de som afirmou. — é meu amigo, já conversei com ele incontáveis vezes, no entanto parece impossível colocar algum pingo de juízo naquela cabeça dura.
— Então ele vai seguir os passos de antes, acabar com sua carreira, e ninguém vai fazer nada para impedi-lo?
— Ele não é mais uma criança. Está bastante ciente do que pode acontecer se pisar na bola. Se estiver disposto a correr os riscos ainda assim, não há nada que irá fazê-lo mudar. — determinou e pelo tom desanimado em sua voz, a cantora soube que não era a única que se sentia péssima com o que estava acontecendo.


Nas duas primeiras apresentações tiveram a casa lotada, mesmo que fosse na mesma cidade, apenas em dias distintos. não conseguia conter a alegria durante a primeira noite, quando se deitou e lembrou a sensação de estar no palco frente a um mar de gente.
por outro lado, não se trancou no quarto, como de costume, e saiu para comemorar com alguns amigos que estavam na cidade, além de contratar alguns seguranças, apenas para o caso de alguma complicação surgir. Obviamente a imprensa não deixaria a informação passar batida, por isso, na manhã seguinte já havia matérias sobre o primeiro show e a “primeira escapada” de .
A princípio, todos ignoraram, até porque, o astro havia chegado antes das duas da manhã ao hotel e ao menos tinha sido visto dirigindo bêbado. Alguns jornalistas diziam que estavam apenas esperando pelo momento em que ele voltaria ao seu verdadeiro eu, mas Martin conversou com o cantor e fez com que ele não ligasse para essas coisas.
— Você sabe que eu não estou dando a mínima atenção para o que estão falando de mim. — retrucou.
— Eu sei, , você sempre deixa isso bem claro! Só queria pedir que você considerasse manter as coisas no ritmo em que estão, já que ainda faltam mais de vinte shows pela frente. — o empresário mexia atentamente no celular enquanto conversava com . — Mas não vamos dar ibope para essas pessoas… Me diga o que você achou desses dois primeiros shows?
— É bom saber que as pessoas ainda gostam do que eu faço. — confidenciou, sabendo muito bem que Martin não prestava muita atenção ao que ele falava.
— Sim, sim. É claro. — ele deu de ombros. Quando finalmente levantou os olhos do aparelho, ainda o observava atentamente. — Preparado para viajar?
O músico não respondeu, apenas levantou-se, acendeu um cigarro e foi para o outro lado da sacada. Se dissesse a verdade, talvez não acreditariam que ele estava nervoso, mas isso não faria diferença assim que ele pisasse no palco da noite seguinte.


Se precisasse voltar no tempo e decidir qual teria sido o ponto de partida que originou tudo aquilo, afirmaria com determinação que havia sido exatamente naquele dia, em seu primeiro show na turnê de .
Sabia perfeitamente bem que seria capaz de ignorar o fato do cantor se envolver com diferentes mulheres, afinal, aquilo não era nenhum pouco da sua conta. Porém, havia alguns agravantes que começaram a deixar a garota preocupada, mas principalmente irritada.
A primeira vez que se aproximou de , antes de um dos shows da semana seguinte, e sentiu o cheiro inconfundível da mistura que a partir daquele momento se tornou a mais odiada para ela, imaginou que aquele era um caso isolado, que aconteceria apenas naquela noite... Enganou-se completamente, no entanto.
Odiou o dia em que constatou que já estava acostumada a se sentir o repugnante cheiro de nicotina misturada com álcool, quando dividia o ambiente com o astro. Queria poder obrigá-lo a parar com aquilo, mas parecia sempre estar de mãos atadas, em parte porque lhe faltava coragem e em parte porque sabia que não seria ouvida.
Houve a gota d’água, contudo.
Estava disposta a deixá-lo arruinar sua vida, mas a partir do momento que as escolhas mal feitas de ameaçaram a carreira de , ela se viu decidida a fazer algo. Não deixaria que mais um único show do cantor começasse atrasado, como vinha acontecendo na semana anterior.
Trocava o peso de seu corpo de uma perna para a outra, demonstrando quão inquieta estava. Antes de tomar qualquer atitude, decidiu praticar um pouco de empatia e colocar-se no lugar de , tentando entender o que estava fazendo-o agir daquela forma.
Por mais que se esforçasse não encontrou nenhum significante motivo. O número de CD’s do cantor que haviam sido vendidos já havia ultrapassado há dias a marca esperada por todos. Um dos singles inclusive estava entre os mais pedidos nas rádios do Brasil, sem considerar o dueto, que apesar de ainda não ter sido lançado oficialmente, já estava sendo pedido pelos fãs ao final de cada show realizado.
Conferiu o relógio pela última vez. Meia noite e meia. Trinta minutos de atraso.
“Os trinta últimos minutos de atraso!”, pensou enquanto caminhava decidida em direção ao camarim de .
Ao constatar que a porta estava destrancada, não se deu ao menos ao trabalho de bater, mesmo sabendo que possivelmente não gostaria nenhum pouco do que encontraria lá dentro. Sua falta de paciência reprimiu sua racionalidade, no entanto.
estava sentando em um sofá de couro, com uma bela loira em seu colo, que tinha as pernas em volta do quadril do rapaz. Para o grande alívio de ambos ainda vestiam uma quantidade significativa de roupas.
— Precisamos conversar. — a cantora falou, mas nenhum dos dois pareceu esboçar qualquer reação. — Eu preciso falar com você, . — repetiu, a loira apenas revirou os olhos, mas não fez menção de sair de onde estava. — Só nós dois. — olhou novamente para a mulher. — Você poderia não estar aqui... Tipo, agora? — rosnou, usando o seu tom mais ameaçador.
A outra lançou ao homem, que ainda se mantinha neutro na discussão, um olhar que pedia por apoio. Porém, o único movimento feito por ele foi um leve levantar de ombros, na sua inconfundível atitude de “não estou nem aí para você”. Bufando, a mulher encontrou sua blusa que estava jogada em um canto qualquer e saiu batendo porta.
Só então a cantora notou a garrafa de uísque pela metade ao lado do sofá.
— O que você pensa que está fazendo? — perguntou, a incredulidade estampada em seu rosto.
— Pensei que estivesse bastante explícito o que eu pretendia fazer.
— Você é medíocre, irresponsável, cretino, idiota... — disparou frente à insinuação que havia sido feito.
— Não estou a fim de ouvir sermões. — ele interrompeu, impaciente.
— É uma pena que eu não me importe nenhum pouco com o que você quer ou não. — retrucou ainda imóvel em seu lugar. — Não vou deixar você estragar tudo novamente, !
— Não me lembro de ter pedido sua ajuda.
— O que foi que fizeram com aquele de antigamente? — quis saber, sem ser capaz de aceitar tamanha mudança em uma pessoa.
— Ele não existe mais.
— É claro que não. Porque aquele amava o que fazia, era extremamente focado e nunca deixava seu público esperando, ao contrário do que você é agora.
— É melhor você ir embora, .
— Eu ainda não terminei.
— Mas eu já. — garantiu, levantando-se e dando as costas para a garota.
— Se quiser continuar fumando o problema será seu, entenda-se com seus pulmões. Mas a partir de agora você vai parar de beber e começará seus shows no horário marcado. — avisou, ignorando completamente a falta de disposição do rapaz em dar continuidade a conversa.
— E por que mesmo eu faria isso? — indagou, voltando-se para a garota novamente.
— Porque se isso aqui não é importante para você, é para mim. Você pode acabar com a sua carreira, mas não vou deixar que me tire a única coisa que realmente amo.
— Você ao menos estaria aqui se não fosse por mim. Já fiz muito por você, não farei mais nada.
— Pode não fazer por mim, mas faça por todas as pessoas que direta ou indiretamente dependem do salário que ganham trabalhando para você. Elas precisam disso! Se você desistir, prejudicará não somente a mim, mas a todas elas.
Dito isso, a garota deixou o camarim tentando ignorar a ardência em seus olhos. extrapolava qualquer nível de egoísmo existente. Ainda assim, tinha esperança que suas palavras fossem capazes de surtir algum efeito, apesar da personalidade teimosa do cantor.
— Você está bem? — a voz de Pedro chegou a seus ouvidos e virou em direção a ele.
— Me acharia completamente maluca se eu pedisse para que você apenas me abraçasse? — perguntou, fazendo o rapaz sorrir e abrir seus braços em resposta.
Aconchegou-se ali e sentiu-se aliviada por saber que apesar dos pesares, ainda possuía alguns amigos para quem sempre poderia recorrer quando precisasse. Nem todo mundo era mesquinho como , afinal. Algumas pessoas simplesmente valiam a pena.
— O que foi que aconteceu? — perguntou, o tom de preocupação nítido.
— Só estou cansada. — disse, sabendo que a desculpa de sempre dificilmente falhava.
— Você precisa descansar! Vou levá-la até o ônibus.
— Fique. já deve começar o show.
— Ele ao menos saiu do camarim ainda.
— Mas vai sair. — garantiu, sem saber exatamente de onde vinha tanta convicção. — Vou ficar bem.
Dificilmente ficaria, mas precisou mentir para si mesma que tudo daria certo no final. Apegou-se a ideia de que o fim justificaria os meios. Por mais difíceis que as coisas estivessem sendo naquele momento, chegaria o dia em que olharia para trás e teria a certeza de que cada sacrifício valeu a pena.
Assim que se deitou em sua cama, ouviu o seu celular tocar. Preferia não falar com ninguém, mas quando viu o nome do seu pai no visor, as lágrimas voltaram a inundar seus olhos e viu-se aceitando a chamada.
— Ninguém disse que seria tão difícil! — lamentou-se, sabendo que o homem do outro lado da linha teria as palavras certas para lhe dizer.
Ah, querida! — ele exclamou, desejando apenas poder passar seus braços em volta do corpo da sua pequena e lhe dar o aconchego necessário para o momento. — Todo sonho cobra seu preço para se tornar realidade.
— Como sei que o preço não está se tornando caro demais?
Eu não acho que seja o caso, . Cantar é a coisa que você mais ama fazer nessa vida. Mas se chegar ao ponto que subir em um palco esteja lhe machucando de alguma forma, saberá que não está mais valendo a pena. — aconselhou, e a garota se viu absorvendo a afirmação por alguns instantes.
Tinhas poucas certezas na vida, mas uma dela era que cantar significava manter-se viva. Por mais terrível e complicado que seu dia tivesse sido, quando estava no palco tudo perdia a importância. Era apenas ela e sua música. E isso sempre bastava.
— Não consigo entender apenas como alguém que tem o mundo aos seus pés, é capaz de jogar tudo fora, por coisas absolutamente insignificantes.
É aquela velha história de que as pessoas demonstram apenas uma mínima parte de si. — disse, usando de seu tom bondoso. — Nunca se sabe o que de fato se passa na vida de alguém.
— Só quero que você nunca me deixe seguir o rumo que está traçando para si próprio, está bem? Faça o que for preciso, mas não me deixe chegar ao ponto que ele está chegando. — implorou, inquieta com a possibilidade de que algum dia as motivações do cantor viessem a fazer sentido.
Não se preocupe quanto a isso, querida.
Quando a ligação foi encerrada, algo dentro de parecia ter sido acalmado. Como se os monstros que alimentavam seu medo e sua raiva, tivessem desistido do seu trabalho. Havia apenas um vazio e um sentimento nostálgico.
Empurrou as lágrimas que ainda insistiam em se acumular nos seus olhos e conectou o fone de ouvido ao celular. Em seguida, deitou-se na sua pequena cama, tão encolhida a ponto de ser capaz de abraçar seus próprios joelhos e deixou que todos seus sentidos fossem envolvidos por uma batida que conhecia muito bem.
Em sua playlist apenas as músicas dos dois primeiros discos lançados por . Sua voz mudara com o tempo, era nítido, mas sempre continha em si um talento inquestionável. Ele era realmente bom, não era capaz de entender apenas como o tempo havia sido capaz de transformá-lo em alguém tão diferente do que era.



Capítulo 7

Despertou quando sentiu que um dos seus fones estava sendo retirado do seu ouvido.
— Não queria acordá-la, mas se dormir à noite toda assim, acordará dolorida amanhã.
Pedro tinha razão. Se continuasse a dormir em posição fetal como estava, sentiria as consequências disso na manhã seguinte.
— Como foi o show? — ela perguntou, sentando-se e enrolado o fio do seu fone em volta ao celular, que naquele momento da noite, já havia descarregado a bateria.
— Você tinha razão. apareceu logo depois que você saiu de lá. — contou, sentando em sua cama que não por coincidência, ficava ao lado da de .
— Fico feliz em saber.
— Ele estava diferente no show de hoje. Tanto que ao final, quando o público pediu, ele acabou cantando o refrão do dueto de vocês. Ninguém esperava por aquilo. Foi impressionante! Você teria gostado de ver.
A garota encarou o baterista na tentativa de encontrar algum resquício que indicasse que ele estava brincando. Não havia nada, no entanto. Ele realmente estava falando sério.
— Como alguém consegue fazer coisas absolutamente estúpidas e outras absolutamente incríveis em uma mesma noite? — indagou, apesar de não esperar que o outro lhe desse uma resposta esclarecedora.
— Dizem que artistas são seres peculiares, não é?! — falou, levantando uma de suas sobrancelhas, sugestivamente. — costuma usar uma armadura para se defender, mas, no fundo, é um cara legal.
— Tem certeza que estamos falando da mesma pessoa?
— Sim. — afirmou, sorrindo de canto. — Ele costuma preferir a companhia de si próprio e do seu cigarro a outras pessoas. Mas quando interage com o grupo, costuma deixar o ambiente bastante leve e confortável.
— Eu definitivamente não fui apresentada a esse .
— Ele ainda não se acostumou com você, . A postura dele é até um pouco compreensível. É a primeira vez que ele precisa dividir a atenção com outra pessoa.
A garota soltou um longo suspiro percebendo que aquela era a primeira vez que alguém lhe dizia algo que parecia realmente fazer sentido. Ainda assim, não parecia justificar inteiramente as atitudes que o cantor vinha tendo em relação à sua própria carreira.
— Estou realmente cansada disso. E além do mais, preciso convencer alguns marmanjos a liberarem o banheiro para mim. — sorriu, sabendo que filas para usar o banheiro eram comuns, principalmente nos momentos que antecediam a hora de dormir e quando todos estavam acordando pela manhã.
Ser a única garota do ônibus tinha lá suas vantagens, no entanto. Apesar de toda a masculinidade que envolvia o espaço, os demais ocupantes eram extremamente gentis, exatamente como Martin havia dito que seriam, e praticamente todos os pedidos de eram atendidos.
Depois de usar o banheiro, voltou para sua poltrona e ainda conversou com Pedro sobre alguns assuntos menos relevantes antes de finalmente adormecer mais uma vez. O barulho e o constante balançar do ônibus já não lhe incomodavam mais. Pelo contrário, eram eles que embalavam o sono da cantora todas as noites.
Despertou somente quando seu subconsciente pareceu captar a repentina mudança do ambiente. O ônibus havia parado. Encarou o relógio e viu que já passava do meio dia. Era hora de uma pausa para recarregar as energias.
Os horários estranhos das refeições eram o que mais incomodava . Sentia falta de uma dose de normalidade em sua vida, mas não se dava ao direito de reclamar.
Todo sonho cobra seu preço para se tornar realidade.
Depois de fazer sua refeição na companhia de todos os integrantes da equipe e de manter a maior distância possível entre si e – que parecia estranhamente quieto naquele dia – dirigiu-se até o caixa com a finalidade de comprar algumas barras de cereais, já que seu estoque havia se esgotado no dia anterior.
— Ei, você é cantora, não é? — o rapaz do outro lado do balcão perguntou, com um brilho de reconhecimento em seus olhos.
. — ela respondeu, sem conseguir esconder o tom de satisfação em sua voz.
— Exatamente! Vi alguns vídeos seus no YouTube, você é muito talentosa!
No lado oposto aquele, observava a cena com certa sensação de incômodo. Aparentemente havia uma parte de si que não gostava da ideia de ver com outro homem, principalmente se ele fosse capaz de fazê-la rir, como o bendito atendente estava fazendo.
Esforçou-se para se controlar, contudo seu lado impulsivo acabou falando mais alto e se viu caminhando em direção ao caixa.
— Dentre todas as suas exigências, não me lembro de nenhuma concreta em relação ao cigarro. — dirigiu-se primeiro a garota e em seguida voltou-se ao funcionário. — Então, vou querer um maço.
— Qual deles? — o outro perguntou, já que havia diferentes marcas expostas.
Carlton.
— Foi o que eu disse, entenda-se com seus pulmões. — a cantora deu de ombros, pouco disposta a deixar as grosserias de passarem.
— Desde que isso não prejudique a sua carreira está tudo bem, não é? — retrucou, estendendo ao outro rapaz uma nota de cinquenta reais para que sua compra pudesse ser paga.
— Por favor, ! — a cantora murmurou, observando o atendente devolver o troco e em seguida se afastar, provavelmente prevendo que a coisa ficaria um pouco mais séria dali para frente.
— Preciso deixar claro quão mesquinha e egoísta você é. — afirmou, lançando a ela um olhar que mirava o desafio.
— Ao que parece temos o sujo falando do mau lavado. — revidou, irritando-se com os argumentos utilizados para atacá-la.
— Que seja! Apenas entenda que eu sei que toda aquela conversa idiota de ontem aconteceu porque você estava pensando em si própria. Não foi pelo pessoal da equipe e muito menos por mim, foi unicamente por você!
— Quando sua carreira começou, eu era apenas uma garota idiota que via em você tudo o que desejava para si própria. Você era meu ídolo naquela época. — confessou e ao contrário do que imaginava, não se sentiu envergonhada por isso. — Como acha que me sinto vendo aquele que tanto admirei indo direto para o fundo do poço?
Deixou um confuso para trás e seguiu para o ônibus, suas barras de cereais esquecidas em cima do balcão. Prometeu para si mesma que nunca mais se intrometeria nas decisões que cabiam a outras pessoas, mesmo que essas pudessem lhe atingir de forma direta.
Egoísta? mal podia acreditar que tinha ouvido isso. Certo que era difícil não pensar no que aconteceria com ela, mas e todas as outras pessoas? Será que ele não se importava nem um pouco com quem o ajudava todos os dias?
E já que não estava minimamente preocupado com nada, não pensaria mais nisso. Sabia que dependia dele, mesmo que indiretamente, para prosseguir com os shows, mas tentaria não se preocupar.

Assim que sentou na cama, percebeu que estava trêmula de todo o nervosismo que o astro fazia com que ela passasse. Viu sentado num banco do lado de fora da conveniência. Ele olhava para a carteira de cigarros atentamente.
O músico então olhou ao redor, levantou-se e foi até o lugar onde funcionava um lava-jato, um pouco distante dos tanques de gasolina. Fumar ao lado de combustíveis... Inteligente! Pensou consigo mesmo, mas não deixou de acender o cigarro. Ficou prestando atenção em como a máquina funcionava na lavagem e se perdeu em pensamentos enquanto a esponja deslizava sobre o carro.
Depois viu um ônibus se aproximar. Não era a coisa mais absurda do mundo, até porque, o posto ficava numa estrada principal para que interligava duas capitais, era normal que ônibus e caminhoneiros parassem ali para repor as energias e matar a fome. O que deixou intrigado, entretanto, eram os adesivos do ônibus. Eram fotos de um homem que ele conhecia, ou achava que conhecia. Leu o nome que tinha na lateral, Lucas Correa, mas não associou a ninguém em particular. Só quando viu parte das pessoas descendo que lembrou-se de Lucas.
Ele era um cantor sertanejo, conhecidíssimo não só no Brasil e popular com o público adolescente e jovem-adulto. Era o estereótipo de toda uma geração do chamado sertanejo universitário, com suas calças apertadas, camisas quadriculadas e quase totalmente desabotoadas, botas de couro que valiam quase que o valor de um carro e os músculos que só faltavam rasgar a malha das roupas.
quase cai na gargalhada ao lembrar da última vez que os dois haviam se encontrado. Se apenas a mídia e os fãs soubessem o que o “senhor popularidade e orgulho da família” gostava de fazer nas horas vagas… Mas então, fechou o sorriso e chacoalhou a cabeça. Se ele se lembrava de Lucas naquelas condições, era porque ele também esteve lá.
Não que tivesse sido um longo período da sua vida, mas os poucos meses que resolveu “experimentar” algumas drogas, foram os que fizeram que sua carreira decaísse, sua inspiração sumisse e ele só conseguisse começar o dia depois de uma boa tragada de maconha e, posteriormente, quando foi apresentado à cocaína, tudo desmoronou de vez.
Até os dias atuais, todos achavam que havia apenas virado um alcoólatra que desistira de sua carreira, logo quando ele estava no auge, mas só a família, equipe e pouquíssimos amigos sabiam dos cinco meses que ele passara nos Estados Unidos, numa clínica de reabilitação.
Não foi fácil, por isso, não gostava de comentar e muito menos lembrar. Terminou seu cigarro e deu as costas a Lucas e seu ônibus. Não queria contato com as pessoas que presenciaram aquela época da sua vida, ainda mais se essas pessoas ainda estivessem presas àqueles hábitos.
Se apressou na volta ao seu ônibus e esperou pacientemente até que todos já estivessem acomodados. Não se reuniria com a equipe naquele final de viagem, mas sim ficaria deitado, tentando dormir e esquecer o encontro com uma parte que ele queria esquecer.


acordou com um solavanco. Sabia que eles não tinham batido, pois olhou ao redor e viu tudo no lugar, porém, estranhou aquela parada, já que não viu nenhum hotel ou movimento. Estavam em outro posto de gasolina no meio do nada.
Um dos outros integrantes da equipe, que também dormia, se levantou e foi perguntar o que havia acontecido e voltou dizendo que o motorista precisava abastecer o ônibus. Os outros aproveitaram para se abastecer na loja de conveniência, mas ficou receoso em descer e encontrar novamente com . Não que estivesse se escondendo da mulher, só queria evitar mais uma discussão.
Já a cantora, desceu do veículo e andou um pouco. Precisava esticar as pernas e respirar um pouco de ar fresco. Enquanto passava por entre alguns carros estacionados, viu uma cara conhecida, sempre escondida atrás de um boné. queria ignorar que trabalhava com o músico e seguiu seus passos até a parte de trás da loja.
Havia um grande estacionamento para caminhões e ônibus, além de umas pequenas construções um pouco mais distantes, que ela imaginou serem os banheiros. Viu também um grupo de homens jogando dominó e fumando. Revirou os olhos ao lembrar de um certo músico.
Quando retornava para onde o ônibus estava, se assustou com rapaz, aparentemente bêbado e trôpego. tentou passar, mas ele a impediu.
- Acho que conheço você, boneca… - Suas palavras saíram conturbadas, com certeza, resultado do álcool.
- Eu duvido muito. Tenha uma boa noite! - Ela tentou, mais uma vez, passar pelo homem. - Você pode me dar licença?
- A gente mal conversou… Como está a sua noite? - Ele tentou encostar no cabelo dela, mas deu um passo para trás.
- Se você encostar em mim, eu vou quebrar a sua cara! - Disse séria, mas receosa. Jamais havia presenciado tal situação.
- Ela é agressiva… Gostei! - Ele tentou se aproximar mais uma vez, mas o empurrou, e com o estado embriagado, ele caiu no chão.
- Eu disse que se você tentasse encostar em mim, eu ia lhe bater! - Mesmo do chão e sem pretensão alguma de levantar-se, ele gargalhou. - Você é patético!
deu o primeiro passo e viu observando, revirou os olhos mais uma vez, mas ao deixar o bêbado de lado, ouviu aquelas palavras sujas.
- Uma putinha como você me chamando de patético… Engraçado o seu jeito de pensar, boneca!
O que não esperava, era , levantando o homem pela camisa e enfiando um soco bem no nariz dele e o jogou no chão mais uma vez.
De queixo caído, a cantora não soube o que fazer, além de não tirar os olhos do músico. Já , pegou pela mão e a puxou para longe do corpo do bêbado. Eles andaram o caminho de volta todo de mãos dadas, e quando pararam, a soltou com força. Olhou intensamente para a mulher, mas desistiu de qualquer outra ação assim que viu a equipe entrando nos ônibus.
- Você deveria voltar para a sua cama! - E deixou a mulher sozinha próximo ao veículo que ela viajava.


Haviam chegado a Curitiba fazia menos de meia hora, mas já tinha questões martelando em sua cabeça. Ficou completamente surpresa ao notar a presença de Martin na cidade. Não conseguia imaginar qual teriam sido os motivos que o fizeram vir até ali.
No entanto, sabia que independente de quais fossem, estavam de alguma forma relacionados a ela, considerando que havia sido abordada pelo empresário antes mesmo de ter tido tempo de fazer check-in no hotel.
Marcaram de se encontrar em uma sala de reuniões dali a quarenta minutos, tempo utilizado pela cantora para organizar algumas de suas coisas no quarto e tomar banho.
O fato de haverem dois shows marcados em noites consecutivas na cidade significava que a garota poderia finalmente dormir em uma cama de verdade, mesmo que por um dia e a ideia a deixava entusiasmada.
decidiu deixar o conforto do seu quarto com alguns minutos de antecedência, já que não sabia em que lugar do hotel ficava a sala indicada por Martin. Completamente perdida, decidiu pedir ajuda na recepção e uma das funcionárias fez a gentileza de acompanhá-la até o local em questão.
O empresário já a esperava, como poderia ter previsto. Martin sempre fora pontual, mas o pontual dele não significava chegar exatamente no horário combinado. Chegar com antecedência era sua marca registrada.
— Sente-se, . — ele sorriu para a garota indicando a cadeira ao seu lado.
A sala em que estavam era realmente grande, contando com uma mesa de reuniões no centro rodeada por cadeiras que pareciam ser de couro e alguns aparelhos, ao qual ela julgou que seriam para prováveis apresentações multimídia.
— Algum problema? — ela indagou, depois de se acomodar. Uma sensação estranha apoderando-se de si.
— Espero que não.
— Se está aqui para me repreender por ter enfrentando , não precisa perder seu tempo. Isso não vai acontecer novamente. — desatou a falar, um tanto quanto nervosa.
— Independente do que você tenha feito, acho que está surtindo resultado.
— Como é?! — ela franziu a testa, estranhando a resposta dada pelo empresário.
— Lhe chamei aqui para conversarmos sobre o dueto.
desistiu de lançá-lo? — pediu, seus maiores medos pareciam estar se tornando realidade.
— Queremos gravar um clipe para lançar a música. — foi direto ao ponto, percebendo que a garota começava a entrar em pânico.
— Não acho que concordará com isso. — retrucou, surpresa com o que havia acabado de ouvir.
— Na verdade fui eu quem deu a ideia. — o músico afirmou, caminhando até onde e Martin estavam.
A cantora perguntou-se há quanto tempo ele estaria na sala, ouvindo às escondidas a conversa que vinha acontecendo. Preferiu acreditar que ele apenas tinha se atrasado, como costumeiramente fazia.
— Como o clipe seria? — ela perguntou, depois de ter se recuperado da aparição repentina do astro.
— A música é bastante romântica, parece óbvio que o clipe seguirá esse estilo. — ele replicou, sentando-se o mais longe possível dos outros dois.
— Poderiam apenas usar imagens do estúdio, enquanto estivermos gravando. — ela rebateu, desviando sua atenção para o empresário em busca de explicações.
— Queremos mais do que isso, . A música é incrível, merece um clipe a altura.
— Concordo plenamente! — o rapaz exclamou, mas recebeu apenas um olhar pasmo da cantora. — Qual é?! Até ontem você estava me acusando de ser irresponsável e agora que estou tentando mudar, fica aí toda irritada. Você precisa se decidir!
— Desculpe, mas sua repentina mudança não me convence. — ela deu de ombros.
— Sei que vocês têm suas diferenças, crianças. Mas preciso saber se estão de acordo com a ideia do clipe. — Martin interveio, antes que a discussão dos dois se acalorasse.
— Estou dentro, já lhe disse. — o músico respondeu prontamente e se tornou o centro das atenções.
Precisava tomar uma decisão. Um clipe seria algo realmente incrível, pois possibilitaria que um número maior de pessoas a conhecessem. Por outro lado, atuar ao lado de a aterrorizava. Encarou-o por alguns instantes e viu aqueles malditos olhos se estreitando, em sinal de desafio. Não daria uma de covarde agora, mesmo que se arrependesse depois.
— Tudo bem. Vamos gravar o clipe. — declarou por fim, fazendo com que a nuvem de expectativa que havia se formando em sua volta se dissipasse.
— Ótimo! — Martin exclamou, visivelmente satisfeito. — Entrarei em contato com um dos melhores produtores que conheço e depois conversaremos novamente, está bem?
Ele não deu tempo para que ninguém levantasse alguma objeção, considerando que ao menos tinha terminado de falar e já estava de pé, dirigindo-se ansioso para saída em seguida.
levantou-se, disposta a seguir os passos do empresário, mas mal havia se virado em direção à porta quando ouviu uma pergunta que lhe fez permanecer imóvel onde estava.
— O que fez com que eu deixasse de ser seu ídolo?
— A convivência. — disse, mas só depois de alguns instantes, ao qual precisou para pensar na questão.
— O que é que você tem contra mim? — ele insistiu, deixando a garota incrédula.
— Você está brincando! — virou-se a fim de encará-lo novamente.
— Estou tentando entender qual é o seu problema comigo.
— Jura que você não sabe a resposta? — questionou, segurando-se na cadeira a sua frente com o objetivo de apoiar o peso do corpo nela.
— Não estaria perguntando se soubesse.
— Basicamente porque você vem sendo rude comigo desde o começo, faz questão de fingir que não ouve qualquer coisa que digo e que trabalha incansavelmente para ignorar minha presença. — disparou, finalmente podendo despejar tudo o que estava entalado em sua garganta.
Ficaram apenas se observando pelo que pareceu uma eternidade. O silêncio em volta era confortável, ao contrário do que teria sido em qualquer outra situação parecida. O que poderia ser justificado pelo fato deles não estarem julgando um ao outro, mas sim, praticando um pouco da boa e velha empatia.
— Sinto muito! — sussurrou finalmente.
— Eu também. — respondeu no mesmo tom, virando-se a fim de ir embora de uma vez.
— Por que diabos você sempre tem que me dar às costas? — ele quis saber, levantando-se e se encaminhando em direção à garota.
— Significa que eu não tenho mais nada a dizer.
— Pois eu ainda tenho. — garantiu, agora de frente para ela.
— Estou ouvindo.
— Sei que não tenho sido a melhor das pessoas, mas você é uma garota incrível. Tem muito talento e não tenho dúvidas que vai chegar muito mais longe do que eu cheguei. Queria agradecer por continuar aqui, mesmo depois de eu ter lhe dado motivos para mandar tudo à merda. Não vou estragar sua carreira, é uma promessa.
A expressão de demostrava sua sinceridade, já a de era indecifrável. Ela desejou que o astro não estivesse tão próximo. Talvez fosse capaz de raciocinar melhor se estivessem afastados.
Droga!
Ela o detestava, mas, ainda assim, havia algo nele que era capaz de despertar certos sentimentos, dos quais simplesmente não sabia como lidar.
— Já posso ir agora? — ela murmurou, sem saber o que mais poderia dizer.
A pergunta o deixou desapontado. Contudo não forçaria a situação mais do que já tinha feito. Havia lhe custado muito ser sincero com a garota, seu ego não estava acostumado com isso, mas sentia que um peso havia sido removido de suas costas.
— Fique à vontade. — respondeu em meio a um suspiro.
caminhou até o elevador um tanto confusa com o que tinha acabado de acontecer. No entanto, tinha que admitir que tinha gostado do fato de ter tentando se redimir por todas as vezes que a tratou mal e acabou lembrando dos raros momentos como aquele, em que ele parecia ser uma pessoa extremamente diferente do que estava habituada, alguém atencioso e carinhoso. Só esperava que nas próximas horas ele não voltasse a ser o de sempre, desdenhoso e arrogante.
O astro foi para o quarto, não acreditando que havia aceitado a proposta do videoclipe. Ele poderia jurar que depois da noite passada, quando ele a deixou na porta do ônibus e ela só faltava soltar fumaça pelos ouvidos de tanta raiva, que a cantora desistiria de ficar na sua companhia.
deitou na cama e puxou o violão para tocar os primeiros acordes do dueto. Aquela música era uma luz no final do túnel para o astro, porque sabia que era importante para o seu retorno à mídia e também conseguiria cumprir sua promessa em não estragar a carreira de , pelo contrário, ajudaria a alavancar o que ela estava construindo.
Enquanto tocava e cantarolava em seu quarto, foi para o restaurante do hotel. Não que estivesse com fome e nem nada, mas situações como aquela, descontar na comida era quase como uma Lei. Pediu uma taça de sorvete e ficou deliciando-se com o doce e pensando em como conseguiria contracenar num videoclipe sem parecer um robô.
Ela nunca havia atuado em nada, nem mesmo nas peças da escola quando criança. Por causa do seu avô, estivera tão envolvida com a música que nunca procurou ter outro hobbie, habilidade ou carreira.
O desespero começou a tomar conta da mulher, então ligou para a amiga, mesmo que pudesse ter a ligação recusada pelo horário. Helena estaria trabalhando e não poderia atender as suas necessidades naquele momento, mas precisava tentar.
Helena atendeu no último toque que prometeu ouvir, e antes de dizer um “oi” que fosse, a cantora suspirou profundamente.
Alô? ? ouviu a voz da amiga ao longe. A ligação não seria uma das melhores. — Você está me ouvindo?
— Helena, a ligação está meio cortada, mas consigo te ouvir… E você?
Bem pouco! — ouve outro corte na ligação. — Posso ligar mais tarde?
— Tudo bem. Até!
Mesmo que não quisesse, desligou e suspirou novamente. Terminou seu sorvete e pediu que outra taça fosse entregue em seu quarto. Levantou da mesa e seguiu para a recepção. Queria saber qual andar o astro estava, mas acabou ficando sem a informação.
— Não posso revelar. Isso é confidencial! Ele é um famoso e eles têm esse privilégio aqui!
Foi o que a recepcionista lhe respondeu, fazendo com que revirasse os olhos e a deixasse falando sozinha. Não gostava de admitir, mas achava estar adquirindo algumas manias arrogantes de . Talvez fosse melhor se eles tivessem um período longe um do outro.
Chegando ao quarto, deu de cara com Martin batendo à porta e estranhou, já que não havia nem trinta minutos que eles tivessem se falado.
— Eu acabei lembrando que você nunca gravou um videoclipe e talvez não tenha nenhuma experiência com isso… — ele disse quase que envergonhado.
— Não tenho! E para falar a verdade, isso está me deixando um pouco apavorada. — sorriu de nervoso. Era bom externar suas preocupações com alguém, mesmo que fosse seu empresário.
— Bem, eu conversei com o pessoal e eles tiveram uma ideia muito boa! Só que você e o precisarão de umas aulas…
— Aulas? — a mulher se assustou. Jamais imaginou que precisaria assistir aulas para gravar algumas cenas. Não queria desvalorizar os estudantes da arte, mas para ela, era desnecessário. — Aulas de como interpretar e essas coisas de ator?
— O quê? — Martin tirou os olhos do celular, surpreso. — Não, claro que não! Não se preocupe com isso agora, tudo bem? Amanhã nós resolvemos melhor essa questão.
— Você tem certeza? — por mais que não quisesse admitir, estava ansiosa.
— Sim, preciso ver onde e quem fará a direção e as filmagens. Enquanto isso, você pode pegar a van e ir para uma checagem de som do show de hoje, o que acha?
— Ah… Sozinha? Achei que o iria mais cedo para lá. — não queria ter de encontrar o astro quando estivesse fazendo o que mais gostava.
— Ele pediu para que você faça a checagem, pois chegará ao local do show só na hora. — e com essa informação, Martin se despediu e deixou sozinha no corredor do hotel.
A cantora entrou em seu quarto e correu para o banheiro para tomar banho. Não desperdiçaria uma oportunidade daquelas. Poderia passar a tarde toda no palco, tocando, cantando e improvisando o quanto quisesse e sem as interrupções de para que ele também pudesse ensaiar.



Capítulo 8

Antes de deixar o hotel, pegou a taça de sorvete e comeu o doce na van mesmo, estava excitada demais para ficar sentada no quarto comendo.
Chegou ao local e estranhou a quantidade de gente. Ao que parecia, a estrutura ainda não havia sido terminada e alguns ajustes grandes precisavam acontecer. Viu Pedro em meio a um mundaréu de fios e foi até o colega contar as novidades.
Contou desde os acontecimentos da noite passada – deixando de lado a parte em que apareceu – e do videoclipe. Depois pensou que talvez não devesse sair espalhando as coisas antes delas, de fato, acontecerem, mas, confiava em Pedro e decidiu não pensar demais sobre o assunto.
se reuniu com alguns integrantes da banda e pediu ajuda para substituir algumas músicas da sua setlist dos shows. Retirou alguns sucessos que ela mesma já não estava mais confortável em cantar e adicionou alguns clássicos, que desde criança, já tocava a sua própria versão.
Ligou para Martin, quase que como pedindo autorização para fazer tais mudanças, mas, como bom empresário que era, ele deixou claro que deveria cantar o que ela gostaria e por um minuto, ela decidiu arriscar e acrescentar uma de suas autorias à lista. Esperava que o público gostasse de suas composições, principalmente depois de dedicar toda a sua vida a isso.

Naquela noite a ansiedade estava quase ganhando . Depois de horas de ensaio, ela e a banda estavam em perfeita sintonia. Tocaram as músicas que já eram de sua lista original e entre uma e outra, incluíram Hoje a noite não tem luar, da Legião Urbana, Sinônimos, uma parceria de Chitãozinho e Xororó com Zé Ramalho, e decidiu então, que aquele era o seu momento.
— Eu vou fazer uma coisa um pouco diferente hoje… — sorriu para o público, que ainda a aplaudia. — Umas boas semanas atrás, logo quando me mudei para São Paulo, saí para arejar a cabeça e acabei compondo essa música. Ela fala dos nossos grupos sociais e acho que como alguém de fora, consegui deixar bem explicado na letra dessa música. Espero que vocês gostem de Uma Roda!

[Difícil compreender, mas
é incrível de se ver
Como o pessoal se comporta
no meio daquela roda

Uns só observam,
outros, falam demais
É bonito ver isso,
as diferenças culturais.

Uma roda é política,
noutra é passado
Regados com uma gelada
a conversa vai até o outro lado

Uns só observam,
outros falam demais
É bonito ver isso,
as diferenças culturais.

Eu fico aqui só observando,
ainda me sinto de fora
Espero que um dia isso mude
e eu faça parte de uma roda

Uns só observam,
outros falam demais
É bonito ver isso,
as diferenças culturais.]


Mesmo que estivesse empolgada com as palmas e com a adrenalina ao máximo, agradeceu imensamente. Sentiu o choro preso na garganta ao que todos pareciam verdadeiramente ter gostado da sua letra.
Olhou ao redor e viu Martin acenando com as mãos em euforia, Pedro sorrindo e ao fundo, com os olhos semicerrados para ela. Piscou rapidamente e olhou para seu público, logo voltando com as músicas originais, antes de fazer mais duas adições, sendo Burguesinha, do Seu Jorge e então, uma que costumava escutar do seu avô quando era menina, Olha, do Roberto Carlos.

[Olha, você tem todas as coisas
que um dia eu sonhei pra mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim

Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui

Olha, você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
Eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é pra valer

Olha, vem comigo aonde eu for (aonde eu for)
Seja minha amante e meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor

Olha, você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
Eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é pra valer

Olha, vem comigo aonde eu for
Seja minha amante e meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor

Olha, vem comigo, vem comigo aonde eu for
Seja minha amada, minha amante e meu amor]


E depois de cantar Roberto Carlos, agradeceu ainda mais ao público e se despediu, dizendo que a grande estrela da noite estava prestes a subir ao palco.
Pela primeira vez, quis ficar sozinha após o show, por isso, deu a desculpa que precisava urgentemente de um banho e foi logo para o hotel, onde chegou e derramou algumas lágrimas, mas, de alegria e euforia.
Conseguiu enfim, uma ligação que funcionasse para Helena e as duas conversaram por mais minutos do que admitiria e a cantora contou tudo para a amiga. Se havia contado para Pedro, por que não Helena?
E você terá que contracenar com esse Deus Grego? Queria ser nesse dia!
— Helena! — a mulher repreendeu a amiga, mas acabou rindo secretamente do comentário.
O quê? Não é como se fosse uma coisa muito difícil cair apaixonada pelo … eu não sei como você enjoou dele.
— Eu nunca disse isso, só que você só conhece realmente alguém, depois que passa a conviver com essa pessoa! E o é uma das pessoas mais difíceis que eu tive o desprazer de conviver.
Ainda acho que você está reclamando de barriga cheia! Os dois são solteiros, livres, desimpedidos e passando quase que vinte e quatro horas juntos… uma vez ou outra não mata ninguém! — por mais que soubesse que era apenas provocação da amiga, não deixou de surpreender-se.
— Eu vou desligar agora, antes que você acabe me mandando comprar um pacote de camisinhas e uma lingerie vermelha e bem sexy! — começou a se despedir com a amiga caindo na gargalhada. — Foi muito bom desabafar… obrigada!
Sempre que você precisar! Amo você! — então, Helena finalizou a ligação.
Mais tarde naquela noite, num quarto não tão distante do da cantora, Martin e conversavam entusiasmados com o dia que chegaria em algumas horas. Martin achava um pouco estranho que o astro estivesse interessado no projeto que ele havia pensado para os dois, e estava um tanto quanto preocupado de que ele fosse desistir na metade do caminho.
— Você tem certeza de que vai seguir com esse videoclipe? Porque agora você parece estar completamente a bordo da ideia, mas…
— Eu não vou dar para trás, Martin! Eu quero fazer isso!
Os dois acordaram mais alguns detalhes sobre os acontecimentos da próxima manhã e o empresário deixou o quarto do cantor e foi confirmar as exigências de .

, mesmo que parcialmente dormindo, revirou os olhos para a decisão tomada naquela madrugada. Ele mesmo colocou o celular para despertar, mas, ao ver que não passavam das nove, se arrependeu do feito. Selecionou o “soneca”, mas em questão de poucos minutos, seu celular tocou novamente, e dessa vez, alguém o ligava tamanha nove e dois da manhã, e para completar, um número que ele não reconhecia.
— O quê? — atendeu na maior ignorância que conseguiu externar.
Desculpa te ligar uma hora dessa… é a . — ele escutou a mulher respirar fundo do outro lado da linha. — O Martin me deu seu número para avisar que uma van vem nos buscar em meia hora para ensaiar algo para o clipe que você tem que me explicar.
— Achei que o Martin já havia deixado claro como é a ideia. — a cantora negou. — Você está em que quarto? — hesitou, mas respondeu com uma dúvida no ar. — Passo aí em dez minutos.
chegou ofegante ao quarto da cantora, que estranhou seu rosto vermelho. Perguntou o que havia acontecido e ele explicou que tomou um banho tão rápido que a água quente do hotel quase o queimou.
estranhou ainda mais que ele tivesse compartilhando esse tipo de acontecimento. Esperava muito mais que ele desse de ombros e não dissesse nada, afinal, era esse o comportamento que ele quase sempre tivera a seu lado.
Como não tinham muito tempo sobrando, disse que explicaria tudo no caminho até o estúdio e eles entraram no elevador. Ele, todo dono de si e no controle da situação e um tanto quanto estressada por ter sido mantida no escuro quanto às ideias do videoclipe. Ela era uma das partes principais e não tinha direito nem de opinar sobre o produto final. O sentimento de revolta começava a crescer no peito da mulher.
Atravessaram o hall do hotel até a saída para a garagem, já que algumas fãs de ainda estavam acampadas em frente ao estabelecimento para vê-lo e conseguir nem que fosse uma selfies.
Quando chegaram à garagem, não era uma van que os levaria até o estúdio, mas sim um carro, muito luxuoso para o gosto da cantora, mas, relativamente comum. Era todo preto, e com a película bem escura também, o que obviamente, era um requisito para que ninguém de fora reconhecesse os passageiros.
Um homem alto, de terno e com os cabelos mais loiros que já tinha visto, abriu a porta e sorriu para eles. olhou para a mulher e os dois estavam com uma incógnita na expressão. Ele pensou que também deveria achar inusitado que aquele homem fosse gentil, pois sua postura e excesso de músculos lhe davam uma aparência grosseira.
Depois de uns minutos de percurso, o segurança enorme no banco da frente explicou que Martin havia contratado o serviço dele e do motorista para que os levassem até o estúdio. O empresário deixou claro que não queria nenhum tipo de rumor sobre um videoclipe, e que, nas palavras dele, “aquela seria a notícia do ano!”
Por mais que quisesse negar, estava enfurecida. Eles estavam no carro a pelo menos dez minutos e nada de começar a explicar o que estava acontecendo e para onde eles iam. Ela olhou o trânsito que eles enfrentariam e sabia que levariam bastante tempo até o destino chegar.
— Você vai me dizer ou não para onde estamos indo e o que vamos fazer? — a cantora pediu baixinho, e teve que se aproximar um pouco do cantor para isso, já que ele não largava o celular de lado.
— O quê? — ele olhou para os lados até perceber que lhe encarava com raiva. — Ah, bem. Estamos indo ao estúdio.
— Isso eu sei. Quero saber que estúdio é esse.
— A ideia que Martin teve para o clipe é de que nós dançaremos. — disse como se fosse a coisa mais simples possível.
— E por que vocês não me disseram isso ontem? — poderia ter tido tempo de ligar para Joca e pedir umas dicas de dança. Ela não era muito boa com os pés, mas o amigo sempre a obrigava a dançar. — Quer dizer, vocês poderiam ao menos ter mandado por mensagem… — deu de ombros e voltou a encarar o telefone.
A cantora puxou o próprio telefone do bolso e buscou o nome de Joca nos contatos. Era em cima da hora, mas ela tinha esperança de que ele pudesse ajudá-la. Mandou uma mensagem pedindo ajuda e esperava que ele a respondesse o quanto antes, mas, os minutos foram passando e ficava ainda mais nervosa. Não queria fazer feio na frente dos outros.
Eu vou te guiar. ouviu o sussurro de em seu ouvido enquanto encarava a mão dele na sua coxa, logo acima do joelho. Ele a segurava firmemente, para que ela parasse de mexer as pernas, claramente o seu nervosismo havia ficado palpável.
O restante da viagem aconteceu no silêncio mais constrangedor que já havia passado na vida. A cantora se conteve até a respirar fundo, porque sentia, vez ou outra, o olhar de sob ela e isso a deixava nervosa.

A melodia animada de Sway, de Michael Bublé adentrou os ouvidos do cantor assim que as portas do estúdio foram abertas. Ele já estava se arrependendo da ideia, mas sabia que aquilo era algo importante.
, não sabia quem estava cantando, mas a voz suave e afinada do cantor fizera seu coração se acalmar de imediato. Sorriu pela primeira vez desde que deixara o hotel. Talvez ela estivesse entusiasmada para a aula, mesmo que não tivesse obtido nenhuma resposta de Joca.
— Você novamente por aqui! — uma morena apareceu sorridente na recepção do lugar e abraçou como se eles fossem amigos de longa data. — Oi, você deve ser a .
A cantora não sabia quem era aquela mulher, mas sentia que a conhecia de algum lugar. Olhou ao redor e viu “Ballet Rafinha Viscardi” numa placa de neon na parede e imaginou que aquele fosse o seu nome. Quando voltou a prestar atenção na mulher, notou o quanto ela era linda.
, muito mais relaxado que , se sentia em casa, já que havia frequentado aquele lugar muitas vezes. Cumprimentou algumas pessoas que trabalhavam no local e, quando Rafaella os chamou, seguiu-a até o estúdio.
Ela explicou que depois da conversa com Martin, no dia anterior, conseguiu criar uma coreografia perfeita para o videoclipe e estava animada para rever e conhecer .
— Eu vi uns vídeos no youtube… a turnê está linda! — comentou enquanto se dirigia até um aparelho de som. — E , os seus figurinos são a coisa mais maravilhosa que eu já vi! Você consegue dar vida e cor para uma saia e uma camiseta!
Mais alguns minutos de conversa jogada fora entre a coreógrafa e o cantor deixaram se sentindo uma estranha no ninho, mas, logo os dois voltaram e a aula pôde, enfim, começar.
Rafaella se apresentou formalmente, contou um pouco como começou e outros trabalhos que ela já havia realizado. Dentre eles, foi a coreografa de turnês como o “Cabaré”, do Leonardo e Eduardo Costa e também de programas conhecido em todo o Brasil, como o “Programa Silvio Santos” e o “Programa do Ratinho”.
— Agora eu quero que vocês fiquem descalços e se sintam confortáveis… caso a roupa esteja apertada, posso conseguir algo melhor na academia. O importante é que estejam dispostos a aprender não só uma coreografia, mas a deixar que ela os guie!
Ficaram cerca de uns quinze minutos se aquecendo com alguns alongamentos e exercícios, coisa que os dois cantores não gostavam de fazer, mas, ao ver que estava encarando aquela situação muito bem, ficou calado e obedeceu o que sua ex-namorada lhe mandava fazer.
— Já que vamos ensaiar para um videoclipe, nada mais justo que usar a música de vocês nos ensaios! — ela apertou um botão no pequeno controle em sua mão e a melodia de ainda bem soou calma pelos alto-falantes do ambiente. — Agora, vamos a primeira lição: comecem com o abraço!
e se entreolharam, mas não se moveram um milímetro para mais perto um do outro, então, Rafaella chegou perto de , tomou sua mão e o arrastou até que ele ficasse ao lado da cantora.
— Se abracem! — ela sorriu e ordenou como quem fala com uma criança. — Sei que no início vai parecer estranho abraçar alguém com quem você não está acostumado, mas, o ritmo da música vai ajudar… o abraço é algo fisicamente simples e claro, mas deve ser algo sensual, livre, mas firme e elegante.
À medida que eles começavam a se mexer no ritmo da música, respirava fundo com toda a proximidade. estava em seu estado patenteado de indiferença, por isso, a cantora não queria que ele percebesse que ela estava nervosa.
Assim que a música acabou, eles se soltaram, mas, a música recomeçou novamente e Rafaella pediu que eles voltassem a se abraçar e mantivessem a postura, já que o tango era uma dança que exigia isso dos dançarinos.
Na quinta vez que a música repetia, já estava sem entusiasmo para continuar. Para a cantora, aquilo não estava ajudando em nada, já que ela ainda tropeçava nos pés de quase sempre. Revirou os olhos quando os de cruzaram com os seus. Ele parou de dançar e soltou . Também já estava cansado de não fazer nada concreto.
A professora de dança se irritou e disse que eles precisavam primeiro entrar em sintonia para então, dançarem, mas, decidiu que todos precisavam tomar um ar e uma água para que voltassem ao estúdio.
Os cantores deixaram o ambiente ao mesmo tempo e foram até a recepção, mas não havia ninguém ali. então foi para trás do balcão e pegou duas garrafas de água, entregando uma para .
— Você poderia ao menos fingir que está entusiasmado com isso, afinal, o plano foi seu! — disparou assim que tomou um gole de água. — Se não quiser que eu faça o vídeo com você, posso ir embora!
Ele não respondeu, bebeu sua água e voltou para onde eles estavam ensaiando. A morena ficou furiosa e após entrar no salão, foi para o outro lado, querendo ficar o mais longe possível do astro, mas, quando voltaram a dançar e ela se negou que ele chegasse muito perto, a apertou num abraço.
— Qual o seu problema? — a morena quis saber o porquê de ele estar abraçando-a tão forte. — Que eu saiba, o abraço precisa ser leve. — como ele não respondeu, ela o provocou, pois sabia que aquilo faria que ele tivesse uma reação. — O que, está com medo de cair e quer se segurar em mim?
Quando a música deles iniciou, o cantor a surpreendeu e começou a conduzi-la pelo salão. passou a olhá-la com certa fúria, mas continuou dançando e levando-a consigo em todos os movimentos, inclusive em alguns giros que a cantora nunca havia dançado na vida.
, para se vingar, aproveitou que afrouxou os braços ao redor dela, e pisou com força no pé do cantor. Ele, para responder na mesma moeda, a puxou para um giro que a deixou tonta e prestes a cair no chão, mas, nem teve tempo de se recompor, pois começou a dançar como um profissional e eles acabaram a música do outro lado do salão.
— Okay! — Rafaella interrompeu o olhar raivoso que os dois ainda mantinham e parou a música. — Acho que agora podemos começar a ensaiar os passos que vocês dançarão no clipe. Vocês foram maravilhosos agora!
— Temos que ir, ensaio para o show daqui a pouco… — a interrompeu. — Mas acredito que o Martin vai entrar em contato para ver como vamos fazer para ensaiar quando não estivermos mais na cidade.
ficou apenas ouvindo o que os dois conversavam. Foi para o canto da sala e voltou a beber sua água.
dizia que eles estariam de volta na semana seguinte já para a gravação do videoclipe, por isso, ensaiariam nas folgas da turnê e ficaria feliz que ela os acompanhasse.
A cantora fez uma nota mental para pesquisar se os dois já tinham um relacionamento. Não que estivesse com ciúmes, mas achava estranho toda a proximidade que tiveram desde que se encontraram. Aquele não era o mesmo que ela estava sendo obrigada a conviver nos dias de estrada.
Horas mais tarde, descobriu que e Rafaella foram namorados por alguns anos e talvez isso explicasse o porquê de eles se darem tão bem, mas algo a deixou com um peso no coração e por isso, a cantora ligou para Helena, que continuava dizendo que ela tinha uma queda pelo astro, por isso, a ligação acabou sendo mais curta que o normal.

Por mais que os dois ainda ficassem como duas pessoas desconhecidas paradas ao lado da outra, durante aquela semana o astro e ensaiaram por pelo menos três horas todos os dias, não importando onde eles estavam, hall de hotel, camarim do show e até mesmo no palco.
Apesar das horas que passavam juntos todos os dias, não costumavam trocar muitas palavras sem que fosse sobre a dança, mas para os observadores, os dois estavam cada dia mais próximos e isso começou a chamar a atenção das pessoas da equipe.
Pedro, que já considerava seu amigo, foi o primeiro a comentar algo, mas logo a cantora desmentiu qualquer rumor.
— Nós só conversamos sobre os passos da dança, eu juro! — a morena juntou os dedos nos lábios em sinal de promessa.
— Você não me deve satisfações nenhuma, . É só que parece que as coisas melhoraram entre vocês… — Pedro sorriu.
— Bem, melhoraram no sentido de eu não querer esganá-lo vinte e quatro horas por dia. — os dois gargalharam e chegou, tragando uma última vez seu cigarro.
Os dois se cumprimentaram e Pedro se despediu, afinal, aquele seria o último dia de ensaio para os cantores, que gravariam o clipe na manhã seguinte no estúdio, com a ajuda de Rafaella.
— Você está pronta? — o astro estendeu a mão para ela, que aceitou e ele a puxou para bem perto. ficou sufocada com os resquícios de fumaça do cigarro, mas decidiu ignorar para que eles não começassem a discutir logo naquele momento.
A mulher notou o empenho que estava tendo naquela última dança, por isso, quando pararam para tomar uma água, ela não sabia se perguntava o porquê ou não, mas depois de ouvir que estava mais bonita que o habitual, da própria boca do cantor, ela não aguentou.
— Eu só estou te elogiando. — ele rebateu.
— Eu estou falando de você, parecendo ainda mais focado na dança…
— Nós vamos gravar o clipe amanhã, acho que seria uma boa se a gente focasse cem por cento em fazer um bom trabalho, não acha? — ele deu de ombros e começou a voltar para o centro do palco.

estava nervoso com aquela manhã, mas vendo que estava com as mãos geladas, decidiu se acalmar para tentar acalmá-la também.
Os dois estavam devidamente vestidos e maquiados e o estúdio tinha virado um set com uma iluminação especial para a gravação do videoclipe. O cantor olhou ao redor e sorriu ao ver que tudo estava do jeito que ele tinha pensado.
Os dois começaram a gravar e alguns passos tiveram que ser repetidos algumas vezes a mais do que eles esperavam, mas tudo estava dentro do prazo e eles estavam dançando com uma sintonia jamais vista.
Vez ou outra os dois acabavam cantando alguns trechos da letra, mesmo que só eles pudessem ouvir e, apesar de terem feito aquilo a manhã toda, o clima romântico só deixava ainda mais derretida pelo momento.
Você veio pra ficar, você que me faz feliz, você que me faz cantar assim... cantou bem baixinho mais uma vez, olhando nos olhos da morena e ela não se conteve.
aproveitou que as luzes estavam baixas e encostou os lábios nos de , que ficou sem reação, mas como estavam sendo gravados, deixou que a atitude da menina ficasse registrada.
Quando abriu os olhos, ainda dançando, percebeu um sorriso diferente nos lábios recém-beijados de . A cantora quis parar tudo e se enterrar debaixo de uma pilha de lençóis, mas assim como o cantor, continuou dançando, logo depois ouvindo um corta ao fundo.
O clima ficou relativamente mais quente, ou era só a garota que se sentia assim? Ela percebeu que o cantor não tirava os olhos dela, mas logo percebeu mais pessoas se aproximando.
— Vocês foram ótimos! De verdade! — Martin os envolveu num abraço só. — E esse final ficou excelente!
Logo, toda a equipe envolvida também os parabenizou e quando cada um foi puxado para um lado, que perceberam estar de mãos dadas. Vez ou outra, se entreolhavam, um procurando pelo outro no estúdio agora cheio de gente.

Com as filmagens finalizadas e a comemoração durando até o início do show no dia seguinte, Martin deixou e a par do andamento das edições e que na semana seguinte, quando eles estivessem a caminho do menor e penúltimo show da turnê.
O ânimo de todos estava palpável e a ansiedade de quase podia ser sentida. Por não poder contar de como fora e quando o clipe seria lançado, as únicas pessoas com quem ela desabafava sobre o assunto era Pedro, Martin e alguns outros companheiros de ônibus.
Haviam passado três dias desde a gravação e ainda não tinha conseguido falar com a mulher. Começava achar que ela o estava evitando, mas conseguiu encontrá-la sozinha no palco quando ensaiava para o show daquela noite.
Se aproximou sem fazer barulho, gostava de como se entregava cantando algumas músicas, mas logo foi percebido pela cantora.
— Finalmente… — começou. — Achei que não ia te encontrar sozinha.
— Por quê? — olhou para todos os lados, mas não viu ninguém da montagem do palco.
— Parece que você está me evitando. — a mulher negou com a cabeça. — Quando vamos conversar sobre o beijo que você me deu no dia da gravação?
A cantora não soube o que responder, por isso eles ficaram um certo tempo em silêncio.
— A estreia será na semana que vem, dia cinco. — ele tentou mudar de assunto, mas logo a morena respondeu sua pergunta anterior.
— Estávamos num clima romântico por causa do videoclipe, você cantou aquelas coisas… me deixei levar. Isso não vai se repetir.
— Já nos beijamos antes. — deu de ombros e achou que ele finalmente falaria da noite no bar, mas sua resposta a pegou de surpresa. — Desculpe por ter te beijado no estúdio naquele dia. — ele parou por um momento e sorriu. — Essa música tem algo que nos dá vontade de beijar um ao outro, huh?
também sorriu, mas não o respondeu. Pegou o violão e começou a tocar os primeiros acordes da música.
— Posso acrescentar a música aos meus shows? — não entendeu o pedido da cantora. — A música é sua, gostaria da sua permissão.
— Ela é mais nossa do que minha, não vejo problema de você cantar. — com isso, os outros integrantes voltaram ao palco e deu um aceno de cabeça para a mulher.

O grande dia havia chegado mais rápido do que todos esperavam. Nenhuma agência de notícias sabia sobre o videoclipe, então estava tudo dentro do plano.
Os cantores agora dividiam o mesmo ônibus, mas só naqueles últimos dois shows, seria mais fácil para a estreia do clipe se eles estivessem juntos para as entrevistas e divulgações.
Martin havia enviado uma mensagem para os dois, avisando que em menos de dez minutos, o videoclipe estaria no ar, mas como tudo estava muito bom para ser verdade, o ônibus precisou parar no meio da estrada, pneu furado, e para completar, sem sinal de celular.
ficou preocupada. Não sabia como agir e nem quanto tempo eles ficariam ali, mas Pedro, que também mudara de ônibus, a fez companhia e a ajudou a se acalmar, afirmando que quando eles chegassem à cidade, tudo estaria bem e todos teriam amado o clipe.
ficou quieto no canto, observando os dois. Ele e a morena haviam tido mais conversas e momentos civilizados desde a semana anterior e ele estava feliz com isso. Talvez não admitisse, mas gostava da companhia dela.
Enquanto se perdia em pensamentos, o ônibus voltou a andar e logo ele soube que chegariam à civilização e as notícias estariam fervendo, afinal, já eram três anos que ele não lançava nada e só naqueles últimos meses foram músicas, cd, turnê e agora o clipe. Ele estava nervoso.
Faltava pouco para chegarem à cidade, mas assim que tiveram notícias de Martin, os dois deram um sorriso de alívio para o outro. O videoclipe estava sendo um sucesso e dando o que falar na mídia. teve certeza que era por causa do beijo.
Nenhum dos dois tinham assistido, mas sabiam que deveria estar romântico, assim como a letra da música, e pelo que eles viam na internet, era disso mesmo que as pessoas estavam comentando.
estava eufórica, mas se conteve o quanto pôde. Não queria parecer uma idiota na frente de tantos profissionais, por isso, tentou dormir e se tranquilizar até que eles chegassem para o penúltimo show daquela turnê.





Continua...



Nota da autora: Olá pessoas! Já estamos chegando ao fim de OCDP e estamos loucas para saber o que vocês estão achando do desenrolar dos fatos.

Grupos do Facebook: Rê Pinheiro e Scar

Scar e Rê.





Nota da beta: Mentira que a fanfic está acabando, meninas? AAAAAA meu coração deu aquele leve solavanco com essa notícia, porque peguei amor nesses personagens <3 <3 O pp finalmente esta dando brechas para ela, e esse beijo no clipe? O surto foi geral hahaaha <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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