Última atualização: 29/03/2018

Capítulo 1

Aquele era o último dia que se submeteria as grosserias do sr. Ribamar. Estava cansada de ouvir sempre a mesma ladainha, das mesmas pessoas, no mesmo tom acusatório. Principalmente se tratando do principal culpado por ela estar presa naquela cidade.

Por isso, respirou fundo, deu um meio sorriso para o dono do restaurante e voltou a atender a mesa que estava a sua espera. Os clientes a olhavam com pena, mas depois de uns segundos todos pareciam ter voltado sua atenção para os cardápios.

— Duas porções de isca de peixe, uma cerveja e um suco de cajazinho? — a mulher repetiu o pedido e esperou pelo sim dos clientes.

O movimento daquele final de junho parecia estar melhor do que o do ano anterior, e as festas de São João, Santo Antônio e São Pedro atraiam ainda mais turistas para a pequena cidade de Joaquina, o que deixava feliz, pois sabia que a cultura e as tradições da cidade tinham muito a mostrar nesses períodos de tantas visitas.

Ela também ficava sorridente ao pensar nas gorjetas, já sabendo que quando pedisse as contas naquela tarde, o dinheiro seria suficiente para que ela pudesse terminar a dívida e deixar a cidade para trás, enfim, podendo mudar de vida de uma vez.

Por um lado ela ficava ressentida de sair dali. Deixar a família, os amigos e a própria cidade para trás. Era triste pensar nisso, mas, se ela quisesse ter alguma chance de realizar seu sonho, alguns sacrifícios teriam que ser feitos.


Apesar de a cidade estar lotada de turistas e o restaurante estar com quase todas as mesas ocupadas, os funcionários não estavam tendo nenhum problema com o volume de pedidos, mas sim com o dono do comércio que insistia nas exigências, recheadas de estupidez.

, venha já aqui! — a garota revirou os olhos mais uma vez quando escutou a voz de Ribamar do final da escada.

Pediu licença para o casal que pagava a conta, orientou uma das outras garçonetes a atendê-los e subiu as escadas respirando fundo para se acalmar. Deu duas batidinhas na porta e a abriu.

— Seu Ribamar, chamou?

— Queria saber até que horas você vai trabalhar hoje, porque preciso que alguém feche o restaurante. — ele nem a olhou, preso ao que estava fazendo no computador.

— Hoje é quinta-feira, o senhor sabe que eu não posso.

— Você chegar atrasada para um showzinho não lhe fará mal algum, sim? — Ribamar então prestou atenção na menina, e completou. — Não é como se você fosse aparecer na televisão ou algo assim…

Ele estendeu as chaves, mas antes que ela pegasse, pensou no que perderia e ganharia: sabia que se ficasse para fechar o restaurante, receberia um bônus, pequeno, mas já era um dinheirinho a mais. E para quem estava guardando as economias em um cofre há um ano e meio, qualquer quantia era bem-vinda. Mas perder o início do festival, no qual ela havia se comprometido a organizar e apresentar… a escolha que fez era quase um tiro no pé, mas esperava que pudesse se explicar ao prefeito mais tarde.


Enquanto terminava de limpar e arrumar a última mesa, via as pessoas andando a caminho da praça central da cidade, onde o palco já deveria estar pronto e armado para receber o prefeito, a banda da escola municipal, os dançarinos do centro comunitário e ela, caso não demorasse tanto no banho.

Em poucos minutos gostaria de estar se juntando a todos na praça, mas ainda precisava fechar as janelas, a cozinha, o escritório, correr para o apartamento e voltar. Era pedir demais para alguém que já tinha passado o dia em pé atendendo às mesas.

Mas lá estava à garota, trancando a porta principal, e saindo correndo por duas quadras até o segundo edifício construído na cidade. fez questão de ignorar o ardor no pulmão quando viu as escadas que a esperavam até chegar em casa.

Enfrentou cada degrau o mais rápido que pode e ao fechar a porta do apartamento atrás de si, foi tirando a camisa do uniforme e jogando-a no sofá, o tênis voou para a entrada da cozinha e o outro para o corredor, enquanto ela entrava no banheiro e ligava o chuveiro.

A água gelada caiu como uma luva para aquele dia quente, e a menina sentiu um peso saindo dos ombros e da cabeça. Não querendo demorar ainda mais, logo, logo saiu do banho e correu para o quarto, vendo seu vestido quadriculado, típico daquela época, já posto sobre a cama, como havia deixado assim que saiu de casa pela manhã.

Já com a roupa no corpo, fez uma trança de cada lado do cabelo, colocou o batom rosa que tanto gostava e saiu à procura do tênis para poder correr de volta à praça.


— Achei que você ia nos deixar a ver navios! — João sorriu assim que a viu e já foi logo lhe entregando o microfone.

— Boa noite para todos os presentes ao arraial de Joaquina! — parecia brilhar de animação. Desde pequena a menina se metia nos palcos da cidade para falar no microfone e quando cresceu não foi diferente. — O atraso não foi tanto, mas peço desculpa.

Todos riram, bateram palmas e umas carinhas conhecidas dela gritaram quando ela começou seu breve discurso sobre o arraial e a programação para àquela noite de festa.

— E como todos estão esperando, nosso prefeito, João Carlos!

O arraial enfim havia começado! bateu palmas como todo mundo ali presente, mas logo desceu do palco para visitar as barraquinhas de comida.

Amava a culinária da época. Canjica, mingau, paçoca, milho e até galinha caipira se encontrava a venda. Mas se dirigiu primeiramente a barraca de pipoca, onde Helena já estava no preparo da guloseima.

— Você não precisava ter gritando quando dei boa noite! — torceu a boca.

— Achei que já era a sua vez. — Helena entregou um saquinho de pipoca para um freguês. — Sabe, o Joca estava quase contando piada com a sua demora…

— Ele que não se atrevesse! — as mulheres se entreolharam e sorriram.

As apresentações daquela noite estavam saindo como planejado, mas respirava com dificuldade a cada vez que olhava para o relógio e via que a hora se aproximava.

Àquela não seria a sua primeira apresentação, mas era a primeira vez que tinha um número considerável de pessoas.

Pouco depois das dez da noite, a festa deu uma acalmada enquanto o palco era preparado para a próxima apresentação. Helena já havia reparado que a menina estava respirando fundo, numa inútil tentativa de se acalmar.

— Você não tem que se preocupar com nada, … vai dar tudo certo! — a menina sorriu para a amiga. E não conseguiu deixar de pensar em como seria difícil deixá-la.

— Agora nós teremos a apresentação da nossa linda e encantadora ! — os alto-falantes berraram depois de uns segundos.

Helena deu um gritinho em animação enquanto empurrava a amiga para a escada ao lado do palco.

— Você vai arrasar! Eles não são loucos de não gostar de você!

Respirando fundo mais uma vez, sorriu para Helena e subiu os últimos três degraus da escada.

Foi ovacionada com palmas e alguns gritos vindo das pessoas que, apesar do calor, não arredaram o pé.

Joca fez mais alguns comentários e agradeceu ao público por ter esperado pela última atração da noite, então deixou o palco com uma aparentemente nervosa, seu violão e os técnicos de som.

— Boa noite, gente! — ela sorriu ao ouvir uma resposta do público. — Muitos aqui já me conhecem, mas aos nossos turistas, eu sou a , neta do dono do Armazém que todo mundo compra, ou já comprou. — mais risos vieram da plateia. — Hoje nós vamos finalizar a festa com umas músicas acústicas, só eu, meu violão e vocês… então quem estiver dançando, pode continuar, quem estiver comendo também e quem ainda não começou a beber… bem, esse é um bom momento! — ela mesma não acreditava que havia dito tais palavras, mas todos pareceram aprovar e deram uma salva de palmas.

Respirando fundo mais uma vez, tocou os primeiros acordes de uma música muito conhecida. Como uma onda era um clássico daquela região litorânea e todos já sorriam, se preparando para os primeiros versos da música.

Enquanto tocava a segunda metade, deixou que seu primeiro “grande” público cantasse sozinho enquanto ela continuava tocando e os incentivando a soltar a voz. Admirou-se quando viu alguns celulares no alto, filmando-a, fazendo um registro daquele momento, e decidiu cantar o último verso junto com eles, porque achou que assim era mais íntimo e ela queria se sentir cada vez mais à vontade com aquela vida.

As próximas músicas foram cantadas com ainda mais empolgação, mais amor, mais vontade e mais vozes. Chegaram alguns pedidos e fez questão de cantar todos eles. Ficou ainda mais entusiasmada quando viu que ninguém arredava o pé e outras pessoas que estavam nas outras barracas, chegavam para acompanhá-la.

Quando percebeu que já estava mais tarde do que o previsto para terminar o show, decidiu mudar a lista de músicas que havia planejado e colocou um dos maiores sucessos de quem ela considerava o Rei da música no país, se não, do mundo.

— Eu fiz uma pequena mudança na lista, e vou terminar com uma música que meu avô cantava para mim, quando ainda era uma garotinha. E eu sei que todos vocês conhecem.

Ela quase foi às lágrimas quando todos a acompanharam cantando Lady Laura, uma música antiga do Roberto Carlos, deixou que eles cantassem sozinhos um pedaço da letra e novamente os acompanhou. Agradeceu imensamente e deixou o palco com uma chuva de aplausos, mais feliz do que conseguia expressar.

Joca estava logo no final da escada, esperando com os braços abertos enquanto a garota vinha em sua direção dando pulinhos de alegria e se jogando nele. Apertou-a num abraço e sorriu quando ela começou a gargalhar.

— Você foi perfeita hoje, ! — ele a parabenizou e ela finalmente o soltou, para dar um beijo em cada bochecha do rapaz e o abraçá-lo de novo. — Eu preciso subir ao palco, prometo que já volto aqui contigo.

Eles se distanciaram e ficou observando quando ele sorria uma última vez antes de subir a escada. A mulher ficou à espera do prefeito e ouvia quando ele teceu elogios aos artistas daquela noite, e ela estava inclusa naquele agradecimento, por isso deixou os olhos se encherem de lágrimas, mas não queria deixá-las caírem, então enxugou o rosto, procurou por um copo de água e tentou se acalmar.


As únicas pessoas na praça da cidade eram uns últimos beberrões, o pessoal que desmontava a estrutura do palco e os três amigos de longa data, , Helena e Joca.

— Eu vou indo, porque eu tenho uma criança que está sendo cuidada pelo pai e isso me preocupa. — Helena brincou e se levantou da mesa do bar da praça. — Você arrasou hoje, ! De verdade. Nos vemos amanhã!

deu um sorriso fraco para a amiga e Joca a acompanhou. Quando Helena já estava a uma boa distância, ele encarou , sabendo muito bem o que perguntaria assim que ela tocasse no assunto. Como ela não o fez, ele mesmo se pronunciou.

— Você sabe que ela vai ficar uma fera, não sabe? — a garota concordou com a cabeça, mesmo que estivesse entretida com as gotas que se formaram na tulipa que abrigava um restante de cerveja. — Tem certeza que você precisa ir sem dar tchau para ninguém?

— É mais fácil assim… aliás, se eu fosse me despedir das pessoas, nunca viajaria!

— Então eu não vou deixar que você vá de ônibus até a capital, eu mesmo te levo. — quando ela ia negar, ele a interrompeu. — Se você disser que não, vou agora mesmo na Helena e conto tudo!

— Você não se atreveria! — ela disse em descrença, mas quando viu Joca se levantar e deixar uma nota de cinquenta reais embaixo do próprio copo, se desesperou e levantou junto. — Não, tudo bem, vamos juntos!

Perceberam então que passava das três da manhã e precisariam viajar em menos de duas horas para São Luís, e chegar a tempo do voo de para São Paulo, maior polo industrial da música brasileira. Dirigiram-se para suas casas e tentaram dormir, mas Joca já tinha um plano em mente quando sugeriu levar , por isso começou a arrumar uma pequena mala e conseguiu uma passagem no mesmo voo.

colocava as últimas coisas na mala quando resolveu deixar uma carta para algumas pessoas. Sabia que não dormiria de tão nervosa, então escreveu para Helena, para a mãe e a avó. Pediria que Joca as entregasse quando retornasse à Joaquina. Nas cartas, tranquilizou a todos dizendo que ficaria uns dias com o pai, mas que já havia encontrado um apartamento que dividiria com uma prima de sabe-se lá quantos graus, com quem sempre conversava. Explicou o porquê de não dizer nada e nem se despedir, esperava que todos a entendessem.

Por volta das cinco e dez da manhã, escutou a buzina do carro do Joca e começou a descer com as duas malas que continham todas as suas coisas e a mochila nas costas. Agradeceu a ele pelo esforço e ajuda que tinha dado naquele plano maluco dela e seguiram viagem até São Luís.

Já nos limites do destino, estava quase dormindo quando viu os primeiros raios de sol surgirem no céu. Sorriu para si mesma e continuou observando atentamente a paisagem. Plantações, casebres, animais. Tudo aquilo era comum demais na sua vida, mas não naquele dia que ela finalmente iria atrás de realizar seu sonho.

Tinha certeza de que nada seria fácil, mas não desistiria de mostrar ao mundo o que sua voz era capaz de fazer. Olhou a última foto que havia tirado com seu avô, alguns anos atrás. Ele era a pessoa que mais a incentivava, que deu o primeiro violão, que a levou para assistir seu primeiro show e a pessoa que ela mais amava na vida. Quase chorou, mas não queria se emocionar na frente de Joca, mesmo que eles fossem amigos desde criança, aquilo ainda era íntimo demais para ela.


Chegaram ao aeroporto quase em cima da hora, não deveriam ter parado para tomar café da manhã na estrada, mas o que deixou ainda mais nervosa, foi ver uma mochila que não era sua dentro do carro.

— Você vai para algum lugar? — quis tirar a dúvida da cabeça, mas Joca apenas deu de ombros enquanto colocava a mala dela no chão.

Quando despachava as bagagens e viu Joca fazendo seu check-in, ficou chocada e gritou de surpresa para o amigo, no meio do aeroporto, fazendo com que todos olhassem para os dois. Ela tentou convencê-lo de que ele não precisava fazer isso, que era exagero e que ele estava gastando mais dinheiro do que o racional, mas ele não deu ouvidos.

Já dentro do avião e a muitos mil pés de altura, ele disse que se preocupava com na cidade grande. Ele, como prefeito, sofria preconceito velado, imagina uma garota com sotaque diferente que estaria lá só para cantar.

— Você pode achar que estou exagerando, mas as pessoas não dão a mínima para você em São Paulo. — confidenciou. — Você vai receber muito não e vai ouvir coisas como as que o Ribamar falava lá no restaurante, ou até pior.

— Eu sei. — a menina olhou pela janela e viu nuvens branquinhas contrastando com o céu azul. — Muito obrigada por ter vindo, apesar de achar isso uma loucura.

Mais algumas horas de voo seguiram com os dois dormindo e tentando descansar para o dia que viria. Ela não esperava que as pessoas fossem iguais às de Joaquina, porque o próprio pai já havia informado que a vida na cidade grande era diferente demais. Ele mesmo levou anos até se acostumar, mas estaria ali para o que ela precisasse.


Eles aterrissaram e se encontraram com Rui, pai de . Foram para a casa do senhor e se acomodaram. Tiveram um enorme almoço em família, aonde ela reviu alguns tios, primos e os avós paternos.

Eloísa, sua prima com quem dividiria o apartamento, chegou um pouco depois das quatro da tarde porque estava no trabalho, mas disse que a casa estava toda pronta para que ela pudesse se sentir melhor com a mudança. Passaram horas conversando e então Joca disse que tinha alguns compromissos para atender.

— Eu não sei como vou conseguir te agradecer por tudo, Joca! Você é uma pessoa que eu quero sempre na minha vida! — eles se abraçaram, e ela entregou as cartas para ele. — Está tudo identificado, queria que você as entregasse…

— Sem problemas… só espero que a sua mãe não me bata quando eu chegar. — caíram na gargalhada ao imaginar a cena.

— Muito obrigada! — ela beijou o canto da boca do rapaz, como em algumas outras vezes acontecia, mas logo o abraçou novamente e completou. — Eu vou te pagar tudinho que você me emprestou, centavo por centavo!

— Isso nós podemos conversar mais para frente.

Joca se despediu dos familiares de e conversou rapidamente com Rui antes de entrar no táxi. lembrou bem do dia em que marcou uma reunião na prefeitura para falar bem sério com Joca, ele achou que era apenas uma brincadeira, até ela explicar que precisava de um dinheiro emprestado para deixar a cidade.

De início, ele negou, não queria que ela fosse para longe, mas sabia que se não fosse ele, provavelmente emprestaria dinheiro de Ribamar e isso só seria dor de cabeça para a menina.

A saudade de casa foi mais forte do que ela imaginava, principalmente quando deitou no sofá da casa do pai. Tinha um apartamento para se mudar, mas decidiu ficar por ali naquele dia. Estava nostálgica demais para ir para um lugar que ela ainda não conhecia.


Apenas na semana seguinte descobriu que o apartamento que dividia com Eloísa era modesto, mas, por outro lado, ficava perto do centro da cidade. Poderia se deslocar a pé a grande parte dos lugares sem qualquer tipo de problema, um alívio para quem precisava economizar até os centavos que tinha.

Tirar seus pertences da mala se demostrou uma tarefa mais fácil do que guardá-los lá. Seu quarto possuía uma cama, um guarda-roupa de quatro portas e uma pequena cômoda. Suas coisas não ocuparam metade do espaço que havia disponível.

Depois de se acomodar decentemente, sentou-se em sua cama e uma onda de sentimentos lhe arrebatou. Ainda não conseguia acreditar que havia deixado sua cidade para trás, no entanto, a possibilidade de conquistar uma vida nova a encantavam.

Ouviu seu celular tocando e ao ver o nome de Helena na tela, soltou um longo suspiro, preparando-se para a enxurrada de xingamentos e perguntas que ouviria da amiga, porque foi exatamente isso que recebeu ao atender a ligação de sua mãe, no dia anterior.

— Alô.

— Você enlouqueceu, ? — a voz do outro lado da linha chiou. — Como pode ir embora dessa forma?

— Eu sinto muito. — desculpou-se apenas, sabendo que nenhuma de suas explicações acalmaria Helena.

— Você deveria ter me dito, eu poderia lhe ajudar... eu poderia ter me despedido de você ao menos!

— Foi melhor assim. Odeio despedidas! Você deve ter lido a carta que pedi a Joca para lhe entregar, expliquei tudo lá. — defendeu-se, não querendo que a mulher, que sempre foi uma excelente companheira, ficasse magoada.

— Ah o Joca! — ela exclamou, como se repentinamente tivesse se lembrado de algo realmente importante. — Deveria esganá-lo por não ter me dito nada.

— Vai com calma, Helena! — sorriu finalmente, confiante de que a amiga lhe perdoaria. — Eu o fiz prometer que não contaria.

— Não sei por que é que ele ainda lhe dá ouvidos! — resmungou e depois de uma breve pausa, onde poderia jurar que a mulher estaria se perguntando se valeria a pena ou não dar o braço a torcer, a ouvir perguntar: — Como estão as coisas por aí?

— Ainda é tudo novo para mim. A cidade, as pessoas, os costumes... Mas eu realmente precisava arriscar.

— Apesar de querer esganá-la junto com o Joca, estou torcendo para que tudo dê certo. Você sabe que tem talento! E se precisar de alguma coisa, é só ligar está bem?

— Está bem! Mas não precisa se preocupar comigo, afinal, estou bastante acostumada a dar um jeitinho em tudo, não é mesmo?

— Ah, isso é verdade! — ouviu uma gargalhada do outro lado da linha e em seguida, se despediu de Helena.

Começou então a planejar o que faria nos próximos dias. Sabia que precisava ir atrás do que motivou sua mudança, por isso selecionou os lugares em que iniciaria sua busca por uma oportunidade. Rezou para ter um pouco de sorte dessa vez.

No entanto, com o passar dos dias, descobriu que conquistar um lugar no mundo da música era uma tarefa mais difícil do que poderia ter imaginado. Bateu de porta em porta, mas todas pareciam estar sempre fechadas. Foi recebida em alguns lugares por pessoas gentis, em outros por pessoas mais grosseiras do que Ribamar e em alguns deles, por ninguém.

Em uma sexta à noite, deitada no sofá de seu novo apartamento, pegou-se pensando em sua cidade natal. Estava com saudade do que deixou para trás e aborrecida pelo fato de seu sacrifício ainda não ter valido a pena.

, levanta já daí! — Eloísa ordenou, parecendo cansada de ver sua companheira de apartamento tão desanimada. — Vamos sair hoje à noite.

— Oh, não! Obrigada pelo convite, mas prefiro ficar em casa.

— Você vem comigo sim. Conheço um barzinho próximo daqui, que é excelente. Você vai adorar!

— Estou sem ânimo para sair.

— Nada que algumas doses de álcool não resolvam.

Percebendo que Eloísa não desistiria, decidiu ceder e seguiu para seu quarto, com o objetivo de se arrumar. Não demorou muito, apenas trocou de roupa e soltou os cabelos. Voltou para a sala e encontrou a prima já pronta também.

Seguiram a pé para o barzinho, que demonstrou ser um lugar bastante agradável para se estar. Pediu sua cerveja e engatou uma conversa animada com Eloísa, que volte e meia lhe apresentava um conhecido seu.

As horas se passaram na mesma rapidez em que os copos eram cheios novamente. já estava cogitando voltar para casa, quando os alto-falantes do bar anunciaram que estava aberta a primeira rodada do karaokê. Decidiu ficar mais um pouco e assistiu duas apresentações, que foram no mínimo, hilárias, considerando o nível de embriagues dos “cantores”.

— Você deveria cantar na próxima rodada! — ouviu a voz de Eloísa sobre a música.

— Acho que não! — gritou em resposta.

— Vamos lá, . Você vai arrasar!

Amaldiçoou o poder de convencimento da prima e se viu seguindo até o palco. Estava nervosa, exatamente da maneira que ficava nos momentos que antecediam suas apresentações. Segurou o microfone com um pouco mais de força do que seria necessário e ouviu a melodia da música que cantaria encher o espaço.

As primeiras frases foram cantadas com um pouco de insegurança, mas assim que percebeu que a plateia estava curtindo, soltou a voz com convicção e incentivada pela bebida, deu um verdadeiro espetáculo, que foi aplaudido de pé ao final.

Voltou para seu lugar sentindo-se triunfante. Eloísa lhe recebeu de braços abertos e a parabenizou incansavelmente, enchendo-a de elogios. aproveitou o momento para agradecer a garota por ter lhe arrancado de casa. A noite tinha valido a pena, no final das contas.

Estavam tomando a saideira, quando foram interrompidas por um homem, cuja aparência era de alguém com mais de 50 anos. Era um homem de estatura mediana e que possuía uns bons quilos a mais do que seria o ideal.

— Desculpe interromper. — ele abriu um largo sorriso para as garotas e em seguida dirigiu seu olhar para . — Sou Leon, o dono do bar. Ouvi você cantando há pouco. Foi uma apresentação impressionante!

— Obrigada! Sou . — ela se apresentou, feliz que alguém na cidade nova tenha reconhecido seu talento.

— Estou procurando uma atração para tocar aqui aos finais de semana. Se você possuir algum interesse, por favor, me ligue para conversamos a respeito. — ele disse, entregando-lhe seu cartão. — Preciso voltar ao trabalho agora, espero que você considere minha proposta.

— É claro. — ela assentiu, forçando ao homem um sorriso.

Tocar em um bar aos finais de semana decididamente não estava em seus planos quando se mudou, mas ainda assim, não teve coragem de dizer isso a Leon, não querendo decepcionar alguém tão gentil.


passou o final de semana planejando o que faria nos dias que se seguissem. Planejar e executar eram o menor dos seus problemas. O grande impasse estava nos resultados, que nunca pareciam chegar.

Só depois de bater em mais portas e ouvir mais alguns nãos é que a esperança começou a diminuir e a garota se obrigou a ser realista. Apegou-se a ideia de que sua oportunidade surgiria com o tempo, mas até que isso não acontecesse, precisaria de um novo emprego.

Ei, , como andam as coisas? — ouviu a voz animada de Joca ao telefone e sentiu seu coração se apertar um pouquinho.

— Não tão boas como eu esperava. — decidiu contar a verdade para ele.

Eu lhe disse que seria difícil, . Mas isso não significa que você tem que desistir.

— Eu não vou! Até porque tenho uma dívida para pagar a você.

Não quero que você se preocupe com isso, quero apenas que foque na sua carreira.

— Carreira essa que parece estar destinada aos barzinhos da cidade. — ela lamentou-se, lembrando-se da proposta de Leon.

Como assim?

— A única proposta que recebi até agora foi para tocar aos finais de semana em um barzinho.

Já é um começo, não é? — ela sorriu, desejando ser tão positiva como Joca sempre fora.

— Você tem toda a razão! E mais uma vez, obrigada por tudo que você fez por mim.

É para isso que servem os amigos, .

Quando a ligação foi encerrada, decidiu fazer uma nova. Pegou o cartão que Leon lhe deu e discou o número que havia gravado nele. Marcou de se encontrar com o homem, no mesmo dia.



Capítulo 2


A primeira apresentação de no Bar do Leon (nome bastante sugestivo, diga-se de passagem) foi veementemente aprovada pelos clientes. A grande maioria já estava farta de ouvir pessoas desafinadas dando seus shows ao karaokê, mesmo que às vezes isso fosse realmente divertido.

A garota estava feliz em voltar a cantar novamente no lugar. Ao contrário do chefe antigo, Leon não era do tipo que saia berrando ordens a todos de forma grosseira. Na verdade, passava grande parte do tempo fora de vista, trabalhando em seu escritório.

não deixou de notar que a movimentação no lugar era grande. Por vezes, as garçonetes pareciam não ter fôlego suficiente para correr de um lado para outro, anotando e entregando pedidos.

Foi aí que lhe surgiu uma ideia.

— Espero não estar atrapalhando. — a garota sorriu, ao entrar no escritório Leon.

— Claro que não. Sua apresentação foi ótima! As pessoas ficaram impressionadas. — ele comentou, radiante.

— Obrigada. Mas gostaria de falar sobre outra coisa. — ela arriscou, encorajada pela necessidade de ter dinheiro suficiente para cobrir suas despesas. — Notei que o bar é bastante movimentado e que nem sempre as garçonetes conseguem dar conta da demanda. Eu já trabalhei em um restaurante, então se você precisar de ajuda...

— Quando você pode começar? — a pergunta a pegou de surpresa, não esperava que fosse tão fácil.

— Amanhã mesmo!

— Ótimo! — Leon sorriu como se todos os seus problemas, enfim, tivessem sido resolvidos.

não estava tão feliz, como estaria se estivesse trabalhando no lançamento de seu primeiro cd, mas o emprego que tinha arranjado era realmente bom. Seu salário mais as gorjetas eram suficientes para seguir com a vida na cidade nova.

Tirando o fato de ter que lidar com alguns clientes bêbados de vez em quando, gostava de trabalhar no bar. Já havia se tornado amiga de duas das três garçonetes, e apesar de a terceira não ser tão amigável, conseguia conviver tranquilamente com todos.

Adorava ainda mais as noites de sexta, sábado e domingo. Quando chegava o horário de sua apresentação, trocava de roupa rapidamente e subia ao palco para fazer o que mais amava na vida. Quando o repertório se esgotava, ela voltava a vestir seu uniforme e se preparava para receber os elogios de grande parte dos clientes que até poucos momentos atrás formavam sua plateia.

— Um dos clientes da sua sessão está sentando no chão do banheiro masculino. Dê um jeito nele. — Liane, a garçonete pouco amigável, informou a no meio da noite de quarta-feira.

— Tudo bem. — a garota concordou, mesmo duvidando que fosse sua obrigação resolver o problema.

Abriu a porta do banheiro masculino e encontrou o rapaz sentado logo ao lado dela. De fato, ele estava sentando em sua sessão e a garota lembrou-se de ter servido a ele uma quantidade bastante excessiva de garrafas de cerveja.

— Você está bem? — ela perguntou, ao perceber que ele se mantinha imóvel em sua posição.

— Será que você poderia me trazer mais uma cerveja? — uma voz arrastada respondeu.

— Acho que você já esgotou nosso estoque por essa noite. — ela disse, desejando que o rosto do rapaz não estivesse tão oculto pelo boné que ele estava usando. — Mas eu posso chamar um táxi e você pode ir para casa.

— Não! Não quero ir para casa agora.

— Que tal você voltar para a sua mesa então? Posso pedir alguma coisa para você comer e depois chamo o táxi.

— Ok. — ele concordou e ela se viu obrigada a ajudá-lo se levantar do chão.

Depois de acompanhá-lo até a mesa, levou a ele uma porção de batatas fritas e uma garrafa de água gelada. Lançou olhares discretos ao rapaz durante o restante do expediente, com medo de que ele pudesse entrar em um coma alcoólico a qualquer momento.

— Daqui a pouco vamos fechar. Já chamei um táxi para você. — comentou, se sentando em frente ao último cliente errante da noite.

— Você não é daqui, certo? — ela estranhou a mudança de assunto, não achando seguro falar sobre si para um desconhecido.

— Não. Sou do Maranhão. — acabou respondendo, ainda assim.

— Percebi pelo sotaque nordestino.

— Sotaque maranhense, você quis dizer.

— E há diferença? — ele abriu um sorriso, muito mais bonito do que a maioria daqueles que estava costuma a ver.

— Acredite em mim, há muita.

— Por que saiu de lá?

— Estou em busca de um sonho.

— Eu também tinha um. — a voz do rapaz não passou de um sussurro, mas, ainda assim, foi suficiente para que pudesse ouvir. Analisou os traços da feição que o boné não escondia e teve a impressão de já o tinha visto antes.

Devo tê-lo atendido em outra noite.

— Eu acompanho você até lá fora. — se ouviu dizer, sem saber exatamente por que estava se oferecendo para isso.

O rapaz conseguiu caminhar de uma forma muito mais confiante do que havia feito antes. Talvez a comida tivesse diminuído seu nível de embriagues.

— Garotas legais como você, não deveriam trabalhar em bares e aturarem idiotas bêbados como eu. — ele disse, quando já estavam quase chegando à porta de saída.

— Da próxima vez que for beber lembre-se disso. Não exagere tanto e assim não irá obrigar outra garota legal como eu, te aturar. — ela sorriu, concluído que muito provavelmente o rapaz seria uma companhia interessante quando sóbrio.

— Juro que vou me lembrar.

O táxi já estava esperando na frente do bar. esperou na calçada, enquanto o rapaz abria a porta do carro. Pensou que ele iria embora sem se despedir, mas como se fosse capaz de ler os pensamentos da garota, ele se virou novamente para ela.

não sabia dizer por que ele estava vindo novamente em sua direção. Seu cérebro apenas conseguiu capturar o segundo em que o rapaz levou a mão até o boné para virá-lo e o segundo seguinte, quando seus lábios quentes estavam sobre os delas.

Sentiu uma mão pousar em suas costas e o gosto de cerveja invadir sua boca. Notou que já estava quase se esquecendo de como era bom ser beijada.

— Obrigado.

Ainda estava de olhos fechados quando o rapaz sussurrou a palavra sobre seus lábios. Desejou que ele não fosse embora, pelo menos não naquele momento, mas sentiu a mão dele deixar suas costas e quando finalmente voltou a enxergar, ele já estava entrando no táxi que ela havia chamado.


passou a semana torcendo que o rapaz voltasse ao restaurante, mas isso não aconteceu, para tristeza da garota. Vez ou outra, prestava atenção na porta do lugar, quando um cliente chegava sozinho, mas logo voltava a sua atenção para a mesa que atendia, mas nem que fosse por um milésimo de segundo, sentia o estômago arder em esperança.

Não que ela tivesse se apaixonado, afinal, nem o conhecia, e não foi para isso que veio à São Paulo. Apesar de ter esperanças de encontrar com o homem mais uma vez, manteve a cabeça no lugar e focou em seu trabalho. Lembrava-se disso sempre que estava em casa, tocando seu violão ou escutando uma música na rádio.

Recebeu uma ligação rápida da mãe, perguntando como estavam as coisas e dizendo que a avó mandava lembranças. Helena também havia entrado em contato, dessa vez por mensagem, contando as novidades que rondavam a pequena Joaquina, e como cada vez mais, o seu Ribamar ficava nervoso quando o nome de era mencionado. Ele havia espalhado que a primeira pessoa a dar uma oportunidade à mulher, havia sido ele, mas todos na cidade sabiam que ela só cantava no restaurante depois de muita insistência, não que ele a quisesse ajudar de fato.

Ainda naquela semana, planejou o que compraria para o aniversário do pai, que aconteceria na sexta-feira da próxima semana. Toda a família se reuniria para a comemoração na casa de Rui, e Eloísa e haviam confirmado presença, apesar de avisarem que chegariam mais tarde por conta do trabalho e da faculdade da prima.

Mesmo que tivesse confirmado presença, a menina ainda não tinha coragem o suficiente para pedir a sexta de folga para Leon. Ele poderia ser uma boa pessoa e um bom chefe, mas ela mal havia começado a trabalhar e não queria perder a oportunidade.

Mas como passava seu tempo livre enfurnada em casa, queria estar presente, encontrar os familiares, amigos do pai, e quem sabe, finalmente conhecer a nova namorada dele.

Reparando que a prima não saia de sua rotina, Eloísa a chamou algumas vezes para descontrair, recebendo respostas negativas da menina. Sabia que rotinas eram importantes, mas uma vez que ela saísse, não faria mal.

A convidou para um churrasco no final de semana, mas disse que precisava trabalhar nas suas músicas. A verdade, é que Eloísa estava preocupada com ela, já que só a via indo e voltando do restaurante, dormindo ou tocando seu violão. Em vez de ir com a prima, a chamou para beber alguma coisa na sua noite de folga, mas Eloísa estava atolada com a faculdade, por isso a mulher entendeu.

- Mas você deveria ir mesmo assim… - A prima sugeriu, recebendo a boca retorcida de . - Qual é, ? Não gosto de sair sozinha também, mas não custa nada.

- Eu não conheço quase nada aqui, e eu não queria ir beber aonde trabalho!

- Ninguém disse para você ir beber no Leon! - Eloísa riu. - Fuja da sua zona de conforto, conheça uns carinhas e beba um pouco.

- Ah, não sei não. - ainda estava contrariada em aceitar o proposto pela mulher, mas já pensava aonde poderia ir. - Eu não vou saber o que falar…

- Besteira sua. Pode se arrumar que você vai sim!

Depois da constante insistência de Eloísa, decidiu que sairia para apenas beber umas cervejas enquanto observava as pessoas. Se, por acaso, conhecesse alguém, não se fecharia completamente para uma, quem sabe, amizade.

Em menos de uma hora, a mulher andava pelo bairro a procura de um barzinho. Sabia o caminho para o trabalho e por isso andou para o outro lado. Viu algumas opções, mas ainda não se sentia segura para parar, andou mais algumas ruas e encontrou um posto de gasolina cheio de carros estacionados e pessoas bebendo. Aquela não era uma cena da qual ela estava acostumada, até porque, Joaquina não tinha mais do que três postos.

estava decidida a investir naquele lugar, simplesmente porque seria uma nova experiência, e era isso que ela estava atrás. Queria sair ainda mais da vida que levava em casa, queria poder experimentar coisas novas, sem que perdesse a essência nordestina que carregava com orgulho no peito.

Gostou da música que um dos carros tocava, não lembrava ao certo quem era o cantor, mas a letra do sertanejo universitário era apaixonante para quem quer que fosse. Enquanto caminhava em direção à lojinha, observou as pessoas colocando suas garrafas de cerveja no alto e soltarem a voz, pareciam sofrer de amor, mas logo começaram a sorrir uns dos outros.

Entrou na loja e lá havia mais pessoas, e apesar de o ar-condicionado estar ligado, o clima da conversa era caloroso o suficiente. foi até uma das geladeiras com a porta de vidro e parou um momento, escolhendo o que beberia.

- Essa vermelha é muito boa! - Um rapaz, pouco mais alto que ela, comentou e pediu licença para pegar uma garrafa.

- Obrigada! - Mirela agradeceu e também retirou uma para si.

Sentou no balcão, próximo ao mostruário de lanches e olhou para fora. As pessoas ainda cantarolavam entusiasmadas, agora para mais um dos sucessos do Wesley Safadão. Ouvia, não porque queria, a conversa engajada de dois homens na mesa próxima ao caixa.

Eles conversavam empolgados sobre um evento que ambos haviam comparecido e como os preços estavam em conta; um casal trocava olhares apaixonados; jovens entravam para comer e o grupo continuava cantando do lado de fora.

Num surto de inspiração, pediu uma caneta, pegou alguns lenços de papel e começou a anotar. Quem sabe aquele poderia ser seu primeiro sucesso, quem sabe poderia lhe dar uma luz do que escrever em seu primeiro trabalho profissional.

Mesmo com o barulho das músicas e das conversas, ela conseguiu se desligar daquilo e em pouco tempo tinha uma composição. Sabia que precisava corrigir e acertar algumas palavras, mas só de ter dado o primeiro passo, estava feliz.

Dobrou os papéis e colocou no fundo da bolsa, como se estivesse protegendo-os de algo, só então notou que estava sendo observada pelos homens que antes conversavam.

Engataram uma conversa cordial, se conheceram e logo conversavam sobre música. Por uma coincidência não planejada, os dois eram músicos e davam aula numa escola para crianças. se interessou ainda mais na medida que eles explicavam como a escola funcionava e em como as crianças eram talentosas.

Depois de um bom tempo conversando com os dois, se deu conta de que já estava tarde. Não que as pessoas tivessem ido embora, pelo contrário, a loja estava ainda mais movimentada. Olhou o relógio e passavam das duas da manhã, um pouco mais tarde do que ela pretendia chegar em casa.

Não querendo ser uma estraga prazeres, pediu licença e até se desculpou por interrompê-los, mas precisava ir para casa. Eles se ofereceram para levá-la, mas, apesar de eles parecerem boas pessoas, não confiava sua segurança a quem conhecia a poucas horas, mas trocou contato com os dois, quem sabe uma boa amizade surgiria dali.

Pagou as poucas cervejas que tomou e chamou um táxi. Não queria gastar com transporte, já que morava tão perto, mas não se arriscaria pelas ruas, sozinha e àquela hora da madrugada.

Quando chegou ao apartamento, caminhou em passos curtos e silenciosos até o quarto para não acordar Eloísa, que dormia num canto do sofá com a televisão ligada. Tirou a roupa e tomou um banho bem rápido para então se deitar, mas antes que pudesse dormir, se deu conta de como tinha gostado de sair, mesmo que sozinha. Lembrou-se dos papéis no fundo da bolsa e sorriu mais uma vez, estava certa de quando menos esperasse, as coisas começariam a dar certo, e logo realizaria seu sonho.

A sexta feira chegou, e querendo ir a festa do pai, estava um tanto quanto desatenta. Leon pareceu notar e a chamou para saber o que estava acontecendo.

A mulher não era de reclamar e nem derramar suas mágoas para quem ela não conhecia direito, mas disse o que a estava distraindo.

- Por que não disse antes? Poderíamos ter conversado sobre deixar sua folga para hoje... - Ele sugeriu.

- Não, está tudo bem. Eu vou conseguir chegar, um pouco mais tarde, mas conseguirei! - Ela deu de ombros, como se já estivesse conformada.

- Então vamos fazer o seguinte: você vai para o aniversário do seu pai e cobre a Denise amanhã?

- É sério? - Ele assentiu. Jamais imaginou que seu chefe fosse propor isso, até porque, estava acostumada às exigências de Ribamar. - Muito obrigada, seu Leon! Prometo que chego até mais cedo amanhã!

Ele sorriu e ela também, mas em agradecimento. Organizou seus pertences e correu de volta ao apartamento. Arrumou-se e pegou o presente de Rui, para então, esperar a condução até a casa.

Depois de um trânsito carregado, chegou à festa e ouviu a tradicional música de parabéns, podendo, inclusive, cantar o último verso.

Seu pai abriu um sorriso bem grande quando a viu entre os outros familiares e, assim que agradeceu, foi até a filha, abraçando-a.

Logo todos já estavam comendo e comemorando. Não muito depois, foi ao quintal, aonde a maioria dos convidados já estavam, e foi apresentada a alguns amigos do pai e finalmente a namorada.

Lilian parecia ser adorável e apaixonada por Rui, o que a deixou feliz. As duas engataram uma conversa animada e logo a avó da menina se juntou a elas. Ficaram conversando por horas, até que viram alguns convidados já se despedindo.

Àquela altura da noite, muitos convidados já haviam se retirado e só sobraram alguns familiares e amigos mais próximos.

Depois de entregar o presente ao pai, ele pediu incessantemente que ela cantasse alguma música. Disse que seria como um segundo presente para ele, mas de início, não sabia se era uma boa. Não sabia que música cantaria ao pai, mas depois de pensar por um tempo, pediu o violão de Rui emprestado.

- Como vocês sabem, meu pai me chantageou a cantar algo... - Ela disse as pessoas, que já se amontoavam num semicírculo ao redor dela. - Pensei bastante e acredito que tenha escolhido uma música que agrade a todos e que vocês também sabem a letra.


[Pai, pode ser que daqui a algum tempo

Haja tempo pra gente ser mais

Muito mais que dois grandes amigos

Pai e filho talvez


Pai, pode ser que daí você sinta

Qualquer coisa entre esses vinte ou trinta

Longos anos em busca de paz...


Pai,

Pode crer

Eu tô bem eu vou indo

Tô tentando vivendo e pedindo

Com loucura pra você renascer...


Pai,

Eu não faço questão de ser tudo

Só não quero e não vou ficar mudo

Pra falar de amor pra você


Pai,

Senta aqui que o jantar tá na mesa

Fala um pouco tua voz tá tão presa

Nos ensina esse jogo da vida

Onde a vida só paga pra ver


Pai,

Me perdoa essa insegurança

É que eu não sou mais aquela criança

Que um dia morrendo de medo

Nos teus braços você fez segredo

Nos teus passos você foi mais eu


Pai,

Eu cresci e não houve outro jeito

Quero só recostar no teu peito

Pra pedir pra você ir lá em casa

E brincar de vovô com meu filho

No tapete da sala de estar

Pai,

Você foi meu herói meu bandido

Hoje é mais muito mais que um amigo

Nem você nem ninguém tá sozinho

Você faz parte desse caminho

Que hoje eu sigo em paz.]


estava mais do que feliz ao ouvir as vozes dos familiares acompanhando a sua versão ao vivo da música. Logo mais pedidos foram feitos e, o que era para ser um “outro presente” para Rui, acabou sendo mais uma de suas apresentações.

Para finalizar a festa, ela cantou uma música romântica, um novo sucesso da Marília Mendonça. Não havia reparado, até aquele momento, que sabia a letra e a melodia de cor. Sorriu pensando em como conseguia “sofrer de amor”, se nem ao menos tinha alguém para sofrer.


Naquele sábado, chegou quase uma hora e meia mais cedo ao trabalho, surpreendendo até Leon, que a esperava um pouco mais tarde. Ele repassou algumas tarefas que ela faria na cozinha e ficou ocupada até que o horário do barzinho abrir chegou. Retirou-se bem rapidamente para tomar um banho e trocar de roupa até que os primeiros clientes chegassem.

Diferentemente do que havia acontecido nos dias passados, à mulher não ficava mais prestando atenção em quem entrava no estabelecimento. A esperança de que o cliente bêbado fosse aparecer já não mais existiam e ela simplesmente desistiu.

Depois de terminar o atendimento de uma mesa, se dirigiu até outra que agora estava ocupada por novos clientes. Quase caiu para trás quando percebeu que quem ela já havia desistido de procurar, finalmente voltou a aparecer.

Achou que estava imaginando coisas. No entanto, ele estava usando o mesmo boné da noite em que se conheceram e quando ela o viu abrir um sorriso, mesmo que irônico, para o homem que estava lhe acompanhando, teve certeza.

Aquilo não era criação da sua mente.

Recuou no meio do caminho, sem saber se teria coragem suficiente para encarar o rapaz novamente, mesmo tendo esperado tanto por aquilo...

— Você não atendeu a mesa 06. — Liane lhe advertiu como se fosse dona do bar.

— Eu sei. — a mulher retrucou, sem a menor paciência para a arrogância da colega. — Preciso de um instante.

Apertou os olhos e respirou fundo. Era capaz de fazer aquilo. Não era mais uma adolescente idiota e sim uma adulta que sabia muito bem se comportar com maturidade. Ergueu a cabeça e fez o caminho até a mesa 06.

Você precisa tomar juízo antes que seja tarde demais! — pode ouvir a voz irritada do homem mais velho, antes dele perceber sua presença.

— Olá. — ela sorriu, desejando parecer confiante. — Já escolheram o que vão tomar?

— Juízo, por favor. — o rapaz lhe respondeu em tom ríspido, sem ao menos lhe dirigir a atenção.

— Nos traga duas cervejas. — o outro interveio, bufando descontente.

A garota se afastou da mesa a passos largos. Tentou convencer a si mesma que não estava desapontada pelo fato de ele não tê-la reconhecido, afinal, ele ao menos havia lhe dirigido o olhar.

“Mas ouviu sua voz”.

Ignorou o pensamento.

Realmente não vinha ao caso.

— Duas cervejas. — repetiu o pedido para Liane, mas essa não fez nenhuma menção de se mexer do lugar.

— O carinha da mesa 06, é aquele do banheiro, não é? — perguntou, lançando a garota um olhar sedento.

— Acredita que não reparei! — respondeu, não querendo dar corda para as fofocas intermináveis de sua colega de trabalho.

— Ah, mas eu reparei! Inclusive, reparei em vocês dois saindo juntos do bar naquela noite. — retrucou, levantando as sobrancelhas de forma sugestiva.

— Preciso das cervejas para ainda hoje. — resmungou e precisou de todo seu autocontrole para não mandar a outra para o quinto dos infernos.

Liane tinha o dom de tirá-la do sério. Por vezes, fazia isso de propósito. Contudo, em algumas situações parecia que apenas a simples existência da mulher era suficiente para acabar com o dia da cantora.

Quando a barmaid finalmente lhe entregou as bebidas, ela faz questão de se distanciar do bar o mais depressa possível. Ao que tudo indicava, aquela seria uma noite e tanto. Desejou por um instante estar deitada confortavelmente em sua cama e não zanzando de um lado para outro em um lugar lotado.

— Aqui está. — a garota disse enquanto colocava duas garrafas em frente aos ocupantes da mesa 06.

— Obrigado. — o mais velho agradeceu.

— Caso precisem de mais alguma coisa, basta chamar. — declarou, como estava acostumada a fazer e então uma sensação desconfortável lhe atingiu.

Sua atenção se voltou para o rapaz e mesmo que os olhos dele estivessem ocultos pelo boné, ela pode jurar que ele estava lhe fitando. Esperou um instante. Tentou detectar qualquer mínima mudança que pudesse indicar algum tipo de reconhecimento, mas não houve nada.

Ele não se lembrava da garota.

Desta vez, ela deixou a mesa desapontada. Parte de si tentou argumentar que era absolutamente plausível alguém bêbado ao nível que ele estava esquecer-se completamente das coisas que fizera. Já a outra parte de si, era só repreensão. Não deveria ter se dado ao trabalho de pensar em alguém que ao menos sabia de sua existência.

Ainda estava se censurando quando esbarrou com Denise.

— Você está bem? — a colega perguntou, possivelmente percebendo quão perdida ela estava.

— Sim. — balbuciou automaticamente. — Será que você pode cobrir a mesa 06 para mim?

— Alguém problema com os clientes? — quis saber, estranhando o pedido que havia lhe sido feito.

— Ah não... Eu entendo se você não quiser... A mesa não está em sua sessão... Eu realmente não deveria estar te importunando... — começou a falar excessivamente como sempre fazia quando estava nervosa e só parou quando Denise lhe segurou pelos ombros.

— Está certo. Irei atender a mesa 06. — afirmou, tentando acalmar a outra.

— Obrigada! — sussurrou, envergonhada e em seguida fugiu até o banheiro e ficou lá, por um tempo um pouco maior do que seria necessário.

Quando retornou ao bar, já havia recuperado parcialmente o controle. Executou seu trabalho exatamente como fazia todas as noites, mantendo apenas o cuidado de manter seus olhos longe daquele que a havia beijado.

— Eles acabaram de pedir a conta. — Denise comentou em determinado momento, dirigindo seus olhos para a mesa que tanto havia evitado.

— Obrigada por quebrar esse galho para mim. Estou te devendo uma.

— Fique tranquila. Apenas se concentre e vá fazer seu show.

A garota sorriu. Já estava na hora de subir ao palco. Concluiu que a noite não estava tão perdida assim, afinal, faria aquilo que mais amava. Foi até o banheiro e tirou seu uniforme. Assim que terminou de se arrumar, respirou fundo algumas vezes tentando se concentrar no que iria fazer.

O microfone estava posicionado a sua frente. Cumprimentou o público e agarrou-se ao violão, como se sua vida dependesse disso.

Lançou um último olhar para a mesa 06 e viu os ocupantes já em pé, imersos a uma conversa que mesmo de longe não parecia ser tão tranquila. Os dois começaram a caminhar em direção à saída e repentinamente ela se sentiu exausta.

Havia largado sua cidade em busca de um sonho, que aparentemente estava se tornando impossível de se realizar. Sentiu saudade da sua terra natal. Desejou poder voltar para o lugar, mas sabia que não poderia.

Então decidiu cantar.

A música não estava em seu repertório, mas seu estado de espírito fez com que ela surgisse em sua mente. Sendo ela uma de suas preferidas, não vi problema algum em improvisar.

Fechou os olhos e se lembrou das pessoas que deixou na pequena cidade de Joaquina. Sorriu e só então tocou os primeiros acordes.


[Mudaram as estações, nada mudou

Mas eu sei que alguma coisa aconteceu

Tá tudo assim, tão diferente


Se lembra quando a gente

Chegou um dia a acreditar

Que tudo era pra sempre

Sem saber que o pra sempre, sempre acaba


Mas nada vai conseguir mudar o que ficou

Quando penso em alguém, só penso em você

E aí, então, estamos bem


Mesmo com tantos motivos

Pra deixar tudo como está

Nem desistir, nem tentar

Agora tanto faz

Estamos indo de volta pra casa


Mesmo com tantos motivos

Pra deixar tudo como está

Nem desistir, nem tentar

Agora tanto faz

Estamos indo de volta pra casa]


Cantou perdida em seu mundo de recordações. Somente quando a canção terminou é que abriu os olhos, que estavam marejados, e concentrou-se em seu público. Estava recebendo aplausos de todos os ocupantes do bar, exceto de um.

Não pode distinguir o que a expressão do rapaz dizia. Primeiro, porque ele estava a uma distância considerável e, segundo, porque ainda estava usando aquele maldito boné. Mirela teve vontade de deixar o palco, seguir até a mesa 06, arrancar o bendito acessório e jogá-lo no fogo. No entanto, não o fez.

O show precisava continuar.

Quando voltou ao banheiro e colocou seu uniforme novamente, foi abordada por Denise.

— Não sei se tenho boas notícias. — ela lhe disse, fazendo uma careta.

— Fale logo! — exigiu, começando a ficar preocupada.

— Os clientes da mesa 06 desistiram de ir embora quando você começou a cantar e agora, fazem questão de serem atendidos por você.

Droga! — murmurou para si mesma, apertando os olhos.

— Sinto muito.

— Não! Está tudo bem. Vou atendê-los.

E ela foi. Colocou seu melhor sorriso no rosto e se aproximou da mesa. Dessa vez sua presença foi notada com antecedência. Aparentemente eles estavam a sua espera. O homem mais velho levantou-se e estendeu sua mão para a garota.

— Meu nome é Martin Torres. Sou empresário musical.

— Prazer! — a garota o cumprimentou com empolgação. — .

— Vimos seu show, foi fabuloso!

— Obrigada! — ela respondeu, sentindo as bochechas corarem. Já havia ouvido muitos elogios dos clientes que frequentavam o bar, porém, um vindo de alguém que trabalhava no meio musical era algo a se considerar.

— Bem, esse é . Trabalhamos juntos... — o empresário comentou, lançando ao rapaz um olhar significativo. Talvez esperasse apenas que ele não estragasse tudo, como estava acostumado a fazer.

não parecia disposto a participar da conversa, mas, ainda assim, acabou por virar a aba do boné para trás e deu a garota um sorriso forçado, dizendo a ela um simples olá.

O queixo de caiu. O gesto feito pelo rapaz, a fim de revelar seu rosto à fez lembrar automaticamente do dia em que se beijaram. Ele havia feito exatamente a mesma coisa, mas naquela ocasião, ela não havia tomado ciência de quem ele realmente era.

! — sua voz possuía certo tom de fascínio e ela se odiou por isso.

Precisava se controlar, mas santo Deus!... Havia sido beijada por ninguém mais, ninguém menos do que um astro da música.

— Temos uma proposta para lhe fazer. — o homem mais velho pigarreou, percebendo o olhar insistente que os dois estavam dirigindo um ao outro. — Sei que você precisa trabalhar agora, mas me ligue amanhã e podemos marcar uma reunião para tratar de negócios.

A garota pegou o cartão que lhe foi estendido e assentiu. Ao que parecia, finalmente uma oportunidade estava aparecendo. Guardou o pequeno pedaço de papel como se estivesse guardando um tesouro.

— Já está na nossa hora. — o empresário sorriu amigavelmente. — Esperarei sua ligação.

Os dois trocaram mais um aperto de mão. levantou-se também, mas dirigiu a garota apenas um breve aceno de cabeça. Ela ficou plantada onde estava observando a porta de saída sendo aberta por eles e só conseguiu sair do lugar quando os perdeu de vista.

Teve que fugir de Liane durante o restante do expediente. A barmaid havia visto o empresário entregar algo a garota e estava se roendo de curiosidade para saber o que era. ignorou todos os comentários, alguns maldosos até, que foram ditos pela outra.

Mal dormiu naquela noite.

Quando chegou em casa acabou dedicando parte do seu tempo a uma pesquisa minuciosa sobre Martin. O homem parecia levar seu trabalho a sério. Agenciava a carreira não só de , mas de vários outros artistas que ela conhecia muito bem.

Só depois de estar certa que poderia confiar no homem é que voltou seus pensamentos e sua pesquisa para o músico que havia reencontrado no bar.

Não podia negar, havia nutrido uma paixão platônica por ele quando era mais nova. Mas que adolescente da sua época não havia? Anos atrás era considerado uma das maiores descobertas do meio artístico. Era jovem, bonito e tinha uma voz fascinante.

Pena que o tempo havia passado e o rapaz parecia estar caindo ao esquecimento. A busca de revelou que ele agora era considerado apenas um astro em decadência.

Não foi à toa que ela não o havia reconhecido. Fazia tempo que não ouvia falar no músico e a lembrança que possuía dele era de uma época diferente. Ele havia mudado, era inegável. Contudo, continuava o mesmo sedutor de antes.

Saiu da cama logo quando o sol apontou no céu. Segurou-se durante as primeiras horas da manhã, porque não queria parecer tão desesperada (mesmo que realmente estivesse).

Quando o ponteiro do relógio se aproximou das dez da manhã finalmente foi vencida pela ansiedade. Discou o número indicado no cartão e prendeu a respiração enquanto o telefone chamava.

Alô! — ouviu a voz do empresário e sentiu seu coração palpitar.

— Olá. Sou a ... Do barzinho... — se viu balbuciando, nervosa.

! Que bom que você ligou. Estava ansioso para conversar com você! - bem... não era só ele. — Gostaria que você pudesse vir até meu escritório, o que me diz?

— Parece ótimo!

Vou pedir para minha secretária entrar em contato mais tarde, ok?

— Claro. Irei aguardar. Muito obrigada.

Eu que agradeço!



Capítulo 3

Chegou ao escritório de Martin na tarde do dia seguinte. Estava inquieta. Nem em seus melhores sonhos esperou entrar em um lugar como aquele para tratar de negócios.

A secretária, uma morena simpática, a guiou até a sala onde o homem já estava a sua espera. Ela havia chegado à hora marcada, mas ele estava tão ansioso com a possibilidade de resolver o maior problema de um de seus clientes que acabou desmarcando a reunião que teria mais cedo.

A garota seria sua última tentativa. Ele estava apostando todas suas fichas nela.

— Tenho uma proposta para você. — a garota o ouviu dizer. — Quero que você participe de uma turnê.

— Como é? — ela indagou, achando que havia entendido errado.

— Vou tentar explicar as circunstâncias da maneira mais resumida possível. — declarou e ela deu a ele sua total atenção. — , o que estava comigo no bar, você o conhece?

— Sim. Acompanhei a carreira dele logo no começo...

— Ele era incrível, não? — ele suspirou, lembrando-se da época em que o cantor não lhe dava tanto trabalho. — Infelizmente seus anos de glória ficaram para trás. acabou por prejudicar a si próprio com algumas atitudes. Você deve ter visto que atualmente ele é tachado de “astro em decadência”. — ela balançou discretamente a cabeça e esperou que ele continuasse. Ainda não havia entendido porque estavam falando de e não dela. — Ele acabou de gravar um novo CD, e mesmo que a notícia não tenha saído em lugar algum, planejei uma turnê para divulgação do trabalho. Será algo relativamente curto, porque não quero que ele estrague as coisas como já acabou fazendo algumas vezes... Enfim, se ele não conseguir fazer isso dar certo, pagarei uma multa rescisória astronômica e desistirei dele.

— Não consigo compreender porque você está contando tudo isso.

— Estive com desde o começo. Ele pode achar que eu o detesto e que estou apenas enchendo seu saco com meus sermões, mas a verdade é que tenho um grande apresso por aquele garoto. Não quero deixá-lo. Sei que isso provavelmente significaria o fim da carreira dele. Por isso quero que essa turnê seja um sucesso.

— E onde eu entro nisso?

— Quero que você faça a turnê junto com ele.

— Céus! — a garota exclamou apenas, de olhos arregalados.

— Para ser mais específico, quero que você abra os shows para ele. Estou tentando pensar em algo novo. Algo que chame atenção do público e quando ouvi você cantando percebi que encontrei o que estava procurando.

— Puxa! Eu realmente estou surpresa... Não esperava por isso!

— Você tem muito potencial, . Trabalho nisso há anos e sei o que estou falando. — afirmou com veemência.

— Fico grata pelo elogio. Mas ainda preciso entender melhor como isso aconteceria.

— Tomei a liberdade de redigir um contrato. — ele respondeu, empurrado sobre a mesa uma pasta. — Está tudo minuciosamente detalhado. Quero que você o analise, anote os pontos que não entendeu e aqueles que você gostaria que fossem alterados.

— Tudo bem. Farei isso.

— Demore o tempo que precisar. E quando tiver terminado, entre em contato novamente para marcarmos uma nova reunião.

— Certo!

— Se tudo ocorrer como o planejado, há uma grande possibilidade de produzirmos sua própria turnê quando a de terminar.

As palavras ficaram martelando em sua cabeça pela semana seguinte. Leu e releu o contrato que Martin havia lhe entregado incontáveis vezes. Fez as anotações que achou conveniente e acabou decidindo não contar para a ninguém a respeito da proposta.

Não queria que as pessoas criassem expectativas por algo que ainda não havia se concretizado. Não aguentaria os olhares ansiosos e a curiosidade de todos voltada a si própria. Aquela era uma decisão importante e estava disposta a fazê-la sozinha.

Já havia praticamente decorado cada cláusula contratual quando fez a ligação para marcar a nova reunião. Ter seu nome associado a um astro em decadência não era bem o que esperava. Mas entre tocar pelo resto da vida no Bar do Leon e arriscar-se em uma turnê com , ainda achava a segunda opção mais atraente. Sabia que dificilmente encontraria uma oportunidade tão certa como essa, por isso decidiu pagar para ver.

Dessa vez, a secretaria a levou para uma sala de reuniões e não diretamente para o escritório do empresário. O espaço contava com a presença ilustre de apenas uma pessoa. teria ficado menos constrangida se estivesse sozinha.

— Olá. — a garota murmurou para o cantor que estava apoiado em uma parede, observado a cidade pela enorme janela de vidro.

tirou o cigarro de entre os lábios e soltou uma lufada de fumaça. Dirigiu seu olhar para ela e lhe deu um breve aceno com a cabeça, voltando a ignorá-la completamente em seguida.

o detestou naquele instante.

Sentou-se junto à mesa e fingiu estar bastante interessada em algo no seu celular. Mas a verdade é que mesmo odiando, seus olhos pareciam ser atraídos para o músico que continuava imóvel no mesmo lugar.

Ele usava o irritante boné de sempre, mas só naquele momento a garota reparou em como o cabelo dele se agarrava ao acessório logo na parte de trás do pescoço. O astro podia até estar em decadência, mas seu senso de estilo era inquestionável.

Usava uma calça estilo militar e uma camiseta simples na cor caqui. Havia ainda as tatuagens espalhadas por seus braços. O pacote completo era algo de tirar o fôlego. se perguntou apenas qual era a necessidade daquela postura arrogante que ele fazia questão de usar. Achou que mesmo sem ela, continuaria sendo absolutamente sexy.

— Inferno! Já lhe falei para não fumar aqui dentro! — Martin bufou, assim que adentrou o espaço.

A garota agradeceu pela interrupção. Não estava gostado do rumo que seus pensamentos haviam tomado.

— Deixe de ser careta, Martin. — o outro retrucou, mas sem se dar o trabalho de voltar o olhar para o novo ocupante da sala.

O empresário soltou o ar pesadamente. Podia passar o dia inteiro discutindo com a respeito do assunto, mas tinha certeza que o músico continuaria com o cigarro nos lábios.

— E então, ?! Alguma dúvida em relação ao contrato? — acabou desistindo da causa e se voltando para sua recente descoberta.

— Algumas. — a garota sorriu timidamente.

— Ficaria desapontando se não houvesse.

e Martin passaram aquela tarde discutindo questões contratuais enquanto se demonstrava entediado suficiente com seu cigarro e sem parecer prestar atenção em uma palavra se quer do que estava sendo dito. Estava claro para qualquer um que seu desejo era apenas sair dali.

A garota, por sua vez, perguntou-se porque o músico estava presente, se aparentemente não tinha nada a acrescentar. Viu-o ficar ao lado da janela por algum tempo e em seguida se sentar, do lado oposto da mesa e começar a tamborilar distraidamente os dedos sobre a superfície maciça.

Irritou-se com isso, mas acabou ficando quieta. Percebeu que sua carreira dependeria do seu autocontrole. parecia gostar de irritá-la e ela decidiu que não cairia no jogo do rapaz.

Concentrou-se em Martin. O homem queria que ela participasse dos ensaios referentes à turnê de . Ele parecia acreditar cegamente no talento da garota. Ela acabou cedendo. Mesmo que ficasse em um estúdio, sentada sozinha em um canto, já estaria satisfeita. Finalmente poderia afirmar que estava entrando para o mundo profissional da música.

— Tem alguma coisa a dizer, ? — o empresário indagou, depois de terem debatido todas as questões que julgaram necessárias.

— Posso ir embora? — o cantor retrucou com a voz impaciente.

— Sim. — o homem mais velho respondeu em um suspiro.

Ele e viram o rapaz sair porta afora, sem ao menos se despedir. A garota não conseguiu se segurar e acabou revirando os olhos.

— Por que ele estava aqui? — ela se viu perguntando.

— Ele não está aceitando muito bem a ideia de ter outra pessoa na turnê. — confessou, um pouco envergonhado. — Estou tentando fazê-lo mudar de ideia.

— Então se não quiser, não farei parte da turnê? — quis saber, sentindo a raiva pelo cantor aumentar.

— Sua participação depende apenas se você vai ou não assinar o contrato. — ele observou, de forma bastante convicta. — O que me preocupa na relutância de é o fato de ele não querer ouvir suas sugestões. E eu realmente gostaria que isso acontecesse.

— Agora entendo porque a carreira dele está em declínio. — murmurou, sabendo que a partir do momento que seu nome estivesse escrito em um determinado papel, as coisas poderiam ser tão fascinantes quanto complicadas.


O contrato foi assinado somente alguns dias depois. Só então se deu a liberdade de comemorar e de contar a família a respeito da novidade. As reações foram diversas. Sua mãe e a avó acabaram por chorar ao telefone. Seu pai lhe dirigiu o mais sincero sorriso e desejou boa sorte. Helena demonstrou-se a empolgação em pessoa, bem como sua prima. Já Joca, recebeu a notícia com cautela.

Tem certeza que é uma boa ideia? — ele perguntou ao telefone.

— Não, mas é o melhor que consegui. — respondeu-lhe de forma sincera.

E quanto ao seu trabalho?

— A ideia de deixar Leon na mão é a que menos me agrada. — respondeu, lembrando-se do quão desanimado o dono do bar ficou, quando a garota lhe contou a respeito da possibilidade de ter que sair do emprego.

E esse tal de , como é? — Joca indagou e a mulher preferiu acreditar que sua voz possuía um tom escondido de preocupação e não de ciúmes.

— Quieto. — ela murmurou, escolhendo bem as palavras e soltando um longo suspiro. — Mal troquei duas palavras com ele. Venho tratando tudo com o empresário.

Bem, espero que tudo dê certo. Não tenho dúvida que você se sairá muito bem.

A única certeza que possuía era a de que sentiria saudade de todas as pessoas que conheceu no Bar do Leon, exceto de Liane. Simplesmente não conseguia suportar a barmaid e não precisar vê-la mais era um grande alívio.

Seu último show foi no domingo. O bar estava excepcionalmente lotado naquela noite, mesmo que boa parte fosse da sua família, fazendo-a se sentir melancólica. Esperou tanto pelo momento em que poderia focar totalmente em sua carreira e agora que finalmente poderia fazer isso, estava com medo.

Na segunda de manhã, enquanto fitava seu reflexo no espelho, precisou respirar fundo algumas vezes e repetir para si mesma que conseguiria, que faria aquilo dar certo de todo o modo, mesmo que tivesse que aguentar a personalidade instável de .

O estúdio era bem diferente do que ela imaginava. O prédio em si, era bem moderno, revestido de concreto para todos os lados, mas quando as portas do elevador se abriram no sétimo andar, quase deixou que o queixo se abrisse em espanto.

A parede da pequena recepção era coberta de pôsteres, fotos, capas de CDs e mais alguns quadros com discos de ouro e platina, fora algumas janelas enormes de vidro, que davam para enxergar a mesa de som, instrumentos e um homem que se aproximava da porta, também de vidro.

— Oi, você deve ser a , não é mesmo?! — ele não deveria ter mais de trinta anos.

— Exatamente. — ela sorriu e podia jurar que seus olhos estavam brilhando naquele instante. — E você é Diego Vargas!

— Prazer em conhecê-la. — o produtor musical estendeu sua mão e seu gesto foi retribuído imediatamente. A garota mal conseguia acreditar que estava frente a uma dos melhores profissionais do meio. — Pedi para que você viesse mais cedo para trabalharmos no repertório do seu show.

— Claro. Será ótimo!

— Só precisamos esperar pela... Ah, aí está ela! — o homem exclamou, assim que uma nova pessoa entrou no estúdio.

— Desculpe o atraso. — a ruiva sorriu amigavelmente.

— Você tem sorte em ser tão boa no que faz, caso contrário... — o outro a provocou e só então se voltou para . — Está é Bia. Ela é a técnica de som e trabalhará conosco.

Apesar de admirar o trabalho daquelas pessoas que a ajudariam, ela queria poder mostrar que era capaz, e em pouco tempo, já estava sentada num banquinho confortável de madeira, encoberta por uma espécie de tenda, feita por um pano fino e branco, cercada de lâmpadas coloridas, iguais as que ela ajudava os avós a pendurar na árvore de natal. A princípio, estranhou toda aquela quantidade de panos envolta dela, mas depois reparou que era só para esconder as espumas grudadas na parede.

Quando recebeu o sinal de Bia e de Diego, pôde, enfim, mostrar a sua voz em músicas que ela mesma havia escolhido para aquele dia. Depois do sorriso que os dois trocaram, sabia que estava fazendo um bom trabalho.

E como trabalharam. mal sendo capaz de esconder a empolgação, aderiu a todas as sugestões dadas pela dupla. Ainda assim, quando a porta do estúdio foi aberta novamente, anunciando a chegada de uma nova pessoa, não tinham conseguido definir todas as músicas que seriam cantadas no show.

— Vamos trabalhar com agora. Voltamos ao seu repertório amanhã, está bem? — ouviu Diego dizer e apenas assentiu.

No instante em que viu chegar, soube que ficaria em segundo plano. Não se importou com isso. Estava realizando um sonho e estava completamente satisfeita e feliz.

Durante o ensaio do músico, surpreendeu-se por vê-lo tão à vontade. Conversando de forma animada com os outros e rindo das provocações que eram feitas. O que não a deixou nada surpresa foi o fato de ele continuar ignorando-a completamente.

Na terça e na quarta-feira a rotina continuou igual. Chegava mais cedo, trabalhava com Diego e Bia até a hora que chegava e então se contentava em sentar no canto do sofá e observar os outros. No primeiro dia até tentou dar algumas sugestões, mas depois de todas elas terem sido recusadas pelo astro decadente, acabou por desistir.

— Preciso de uma cerveja gelada! — exclamou, depois de terem passado horas no estúdio.

— Abriu uma boate nova aqui perto, o que vocês acham? — Bia sugeriu, animando-se instantaneamente.

— Vamos conhecê-la! — o cantor sorriu, deixando claro que a ideia o agradava.

— Vem conosco, ? — Diego perguntou, pegando a garota de surpresa.

— Não acho que ela esteja acostumada a isso. — comentou, com a voz carregada de desdém.

aceitou o convite apenas para contrariá-lo. Percebeu que a cada dia que passava, acabava detestando um pouco mais as atitudes do cantor. Praticamente não se lembrava mais que haviam se beijado. A impressão que tinha, era a de que o momento íntimo havia sido trocado com outra pessoa e não com ele.

pediu uma cerveja e tentou participar ativamente da conversa. Seus companheiros estavam exalando entusiasmo e depois de ingerir um pouco de álcool, a garota finalmente estava se sentindo um pouco mais à vontade.

— Quem quer beber um shot de tequila! — gritou para ser escutado sobre a música alta que estava tocando.

— Eu! — Bia lhe respondeu instantaneamente.

— Eu também! — Diego completou e repentinamente a atenção de todos estava voltada para . Ela sentiu as bochechas corarem e tentou fazer sua voz soar decidida quando gritou de volta:

— Com certeza!

Bem, não foi apenas um shot. perdeu as contas de quantas vezes levou o pequeno copo de tequila até os lábios. Deixou de se preocupar com isso e decidiu apenas aproveitar a noite. Seguiu para a pista de dança e talvez fosse culpa da energia acumulada, mas sentia-se mais viva do que nunca.

Dançou sozinha, querendo apenas absorver as sensações trazidas pela música que estava repercutindo pelo espaço.

Se mais tarde alguém lhe perguntasse, não saberia explicar como sentiu a presença de antes mesmo do corpo dele tocar suas costas. No momento em que isso aconteceu, a única coisa que conseguiu fazer foi ficar imóvel.

Sentiu os dedos do cantor deslizarem pelo seu braço e poucos instantes depois suas mãos estavam entrelaçadas. Sentiu o hálito quente dele próximo a sua orelha, o que fez alguma coisa dentro de si se contorcer.

Dançaram juntos. a conduzindo através do toque constante da música. Foi algo libertador para a garota. Finalmente tinha a prova de que o rapaz não seria capaz de ignorá-la para sempre.

— Como você consegue fazer isso? — ela perguntou, quando finalmente encontrou o rosto do cantor.

Nesse ponto, a música já havia se encerrado e ambos estavam parados no meio da pista de dança, encarando-se, com os corpos juntos.

— Isso o quê? — ele sussurrou com a voz rouca, enquanto seu polegar passeava pelos lábios da garota.

— Você deveria continuar fingindo que não existo. — ela murmurou, tentando ignorar o fato de sua respiração estar fora do compasso.

— Eu estava tentando fazer isso, mas você estava dançando de forma absolutamente sexy. Foi impossível resistir.

Ela percebeu o rapaz se aproximar ainda mais. Soube que seria beijada, mas naquele instante, sentiu algo se contorcer novamente, contudo, dessa vez, aquele não era um sinal positivo.

Correu até o banheiro.

Odiou-se por ter bebido tanto. A noite não deveria ter acabado daquele jeito. Mas talvez, tenha sido melhor assim. Não saberia como reagiria no dia seguinte se soubesse que havia beijado novamente.

Ouviu algumas garotas reclamado em alto e bom tom e só soube o motivo daquilo, quando sentiu a presença de alguém ao seu lado. O cantor segurou seus cabelos para trás e o leve toque de suas mãos quentes fez com que ela se acalmasse.

— Você está bem? — ele questionou, ignorando completamente os resmungos irritados das demais ocupantes do banheiro.

quis esganá-lo pela pergunta. Estava abaixada em frente a um sanitário, colocando a pouca comida que havia ingerido para fora. Ele realmente estava indagando se ela estava bem?

— Pareço bem?! — ela retrucou virando a cabeça apenas para lançar a ele um olhar intimidador.

— Definitivamente não. — ele respondeu, abrindo um largo sorriso.

Será que poderia afogá-lo na privada?

Respirou fundo algumas vezes até que a sensação doentia passasse. esperou calmamente até que ela levantasse e seguisse até o lavatório.

Jogou água nos pulsos e no rosto, na tentativa de se recompor. Tentou ignorar seu reflexo no espelho. Sabia que sua aparência deveria ser horrível e quando seus olhos encontraram em toda sua beleza, sentiu-se pior ainda.

— Melhor agora? — ele indagou, erguendo as sobrancelhas.

— Sim... E obrigada. — a garota murmurou constrangida. — Acho melhor ir para casa agora.

Ele apenas assentiu e a acompanhou até a saída da boate. Ela estranhou a atitude, mas preferiu não comentar nada. Tentar entendê-lo já não havia sido considerado uma missão impossível para .

— Levo você! — ele avisou, assim que chegaram até a rua.

— Não precisa. Pego um táxi. — ela falou de forma automática, apenas por que não queria incomodar.

— Tudo bem então. — ele deu de ombros e rapidamente voltou para a festa.

Ela revirou os olhos, mal acreditando que havia sido abandonada pelo músico. Céus! Será que existia alguém tão imprevisível quanto ele?

Na manhã seguinte, desejou que a noite anterior não tivesse acontecido. Lembrava-se de tudo. Da dança, da conversa, dos shots e, principalmente, de ter passado mal e vomitado na frente de .

— Você vai se atrasar, Sunshine! — escutou a voz de Eloísa do corredor. Escondeu a cara entre os travesseiros quando ouviu uma batidinha na porta. — Achei que nunca veria nesse estado!

— Você não está me vendo em estado nenhum, Elô! — a menina esbravejou, sentindo uma pontada de dor cruzar sua cabeça. — Que horas são?

— Quase nove. — ao que Eloísa respondeu, esqueceu toda a ressaca que sentia.

Levantou da cama num pulo e correu para o banheiro. Deveria estar no estúdio às nove, por isso tomou um banho gelado e rápido para que o atraso não fosse tanto. Vestiu a primeira roupa que tirou do armário e calçou o tênis já na porta do apartamento. Todos os seus movimentos seguidos por Eloísa, que ria de a cada olhar desesperado que a menina lhe dirigia.


Para quem estava de ressaca, até que conseguiu chegar não tão atrasada, mas ainda precisava comer e tomar alguma coisa para aquecer a voz.

Sabia que depois de passar mal na noite anterior, sua garganta não estaria nada boa, por isso, quando chegou ao estúdio, se desculpou com Bia e Diego várias vezes enquanto tomava vários copos cheios d’água.

— Não se preocupe! — Diego se compadeceu da situação de . — Todos nós já passamos por isso.

— Mais de uma vez! — Bia brincou enquanto organizava os últimos ajustes na mesa de som.

— Eu não gosto de tequila... — se lembrou do por que ter passado mal. Não era acostumada com bebidas destiladas. — E não comi nada saudável ontem.

, tudo bem! — Diego a tranquilizou mais uma vez. — Agora vamos colocar essa sua linda vozinha para trabalhar?

Passaram o restante da manhã ensaiando e já próximo do horário de almoço, estava inquieta.

Queria saber por que ainda não havia aparecido. Sua maior preocupação era de que o cantor fosse ignorá-la ainda mais depois da noite passada, mas também não queria perguntar diretamente para Diego e Bia, já que os dois os viram dançando agarrados na boate.

— Acho que podemos dar uma parada para comer... — a voz de Diego saiu baixa pelo fone de ouvido que usava no estúdio.

A menina deixou o microfone para trás e entrou na sala. Estava morrendo de fome por não ter tomado café da manhã.

— O não vem hoje? — se viu perguntando. Ainda estava intrigada com o não aparecimento do rapaz naquela manhã.

— A noite foi um pouco mais intensa para ele... — Bia sorriu e piscou, mas não deu sinal nenhum de que estava esperando por . — Se você quiser, pode ficar ensaiando e nós vamos buscar seu almoço.

— Pode aproveitar o estúdio só para você hoje! — Diego completou, já pegando a carteira e se direcionando para a porta. — Pode usar os instrumentos se quiser.

Já que tinha a oportunidade, não a desperdiçou. Disse o que gostaria de almoçar e viu o produtor e a técnica de som sumirem no elevador.

Quando se viu sozinha, não sabia o que fazer primeiro, então foi até o estúdio que os instrumentos ficavam e puxou o violão. Tocou alguns acordes e lembrou-se de algumas músicas que ela poderia encaixar nos shows.

Quando sentou na bateria, por mais que não soubesse tocar, viu um papel dobrado, jogado no chão. Sua curiosidade foi ao extremo e logo lia uma linda música, inclusive a partitura.

Não sabia dizer de quem era aquela composição, e também não teria como saber, já que vários artistas passavam pelo estúdio.

Pegou novamente o violão e tocou a melodia da música, acompanhando a letra. também escrevia algumas músicas, mas aquela parecia bem especial, por isso, foi até a mesa de som, apertou o botão de gravação e voltou a cantar e tocar.

Estava chegando ao refrão da música quando viu Martin, ele a olhava com admiração, mas , ao seu lado, parecia ter fúria nos olhos.

— Que merda você está fazendo com esse papel? — o cantor quase gritou, fazendo tirar os fones rapidamente.

— E-Eu... a... o papel estava ali. — gaguejou. Havia sido pega no flagra e odiava isso. — Me desculpe.

Deixou tudo onde estava e foi para a sala com os dois. , que sempre parecia indiferente à garota, agora só faltava gritar e apontar o dedo para ela, enquanto Martin tentava tranquilizá-lo.

— Por quê? Por que você foi mexer nas minhas coisas? Não viu que era meu? — entrou no estúdio e arrancou o papel, amassando-o e colocando no bolso.

, me desculpe! Eu não sabia de quem era... — se sentia como uma garotinha que está levando bronca dos pais. Não entendia a reação do músico, mas não se perdoava por ter metido o nariz onde não havia sido chamada. — Me desculpe mesmo, .

... — o astro bufou. Olhou para Martin e deixou o lugar rapidamente.

— Não se preocupe com ele. — o empresário sentou ao lado dela. — Eu nunca tinha pensado que aquela música ficaria boa com uma voz feminina, mas as poucas alterações que você fez, a deixam perfeita para um dueto!

— Aham... — ela revirou os olhos. — Até parece que o não surtou ao me ver com o papel em mãos, imagina o que faria se fôssemos cantar juntos!?

Enquanto Martin tentava convencer de que eles poderiam sim, trabalhar em uma música juntos, deixava o prédio enfurecido. Cruzou com Diego e Bia, que voltavam do almoço, mas não respondeu quando os dois o chamaram. Quando chegaram ao estúdio, notaram o clima pesado e logo Diego quis saber o que tinha acontecido e se dispôs a explicar.

— Vocês disseram que o não viria hoje… — a menina ainda tentava se desculpar, por mais que nenhum dos três a sua frente estivesse culpando-a.

, nós saímos da boate às três da manhã e o ainda estava lá, dançando com uma moça. O Martin nos informou que ele não viria e achamos que era por causa disso. — Bia se explicou.

Eles decidiram deixar aquele inconveniente para trás e foi almoçar, enquanto Martin se despediu e disse que voltaria com o cantor, mais tarde naquele dia.

O empresário já entrou no elevador ligando para o celular do astro, que só depois do quinto toque o atendeu.

Eu não deveria te atender! esbravejou, antes mesmo de ouvir o que Martin tinha a dizer.

— Eu sei que você não quer colocar aquela música no cd… — ouviu o cantor grunhir do outro lado da linha. — Mas você ouviu o que eu ouvi!

Aquela música é pessoal demais, não tem nada a ver com ninguém. — quando percebeu que o empresário diria alguma coisa, continuou. — Eu não sei por que escrevi aquilo e muito menos gostaria de compartilhá-la com o mundo.

— Você não acha que poderia ao menos tentar… quem sabe um dueto com a ?

Não! — e desligou.

Martin não desistiria tão fácil. A música era linda e se parasse de ser tão cabeça dura, poderia muito bem entender que seria uma grande parceria. Eles dois ficaram impressionados ao ouvir cantando quando entraram no estúdio, até o cantor reconhecer a letra e melodia e surtar com a menina.



Capítulo 4

Passavam das oito da noite quando o elevador apitou, avisando que alguém estava chegando. Diego, Martin, Bia e se entreolharam, já imaginando quem seria, mas só quando entrou no cômodo que três deles pararam de encará-lo. ainda mantinha o olhar no rapaz, agora parecendo bem mais relaxado.

— Se vocês não se importarem, gostaria de um minuto a sós com ela. — disse apontando para , que congelou.

O espanto foi geral, mas em segundos, os dois voltaram para dentro do elevador, desceram até a garagem e ela o acompanhou até um carro.

— Eu não vou entrar aí com você.

— Por que não? — agora quem estava espantado era ele.

— Porque não confio em você. — não imaginou que seria tão direta, mas estava feliz por ter deixado claro.

— Só quero conversar, não precisamos nem sair da garagem.

— Então para quê descemos até aqui? — como os dois estavam parados, as luzes se apagaram e a menina deu um grito, assustada, mas logo que se mexeu, as luzes voltaram a acender.

— Por favor, . — pediu e entrou no carro. As janelas eram peliculadas, por isso, ela só ouviu a porta destravar. Respirou fundo e entrou. — Não queria que você tivesse visto aquela música.

— Descu... — ele a interrompeu com o indicador em riste.

— Sei que eu não deveria ter deixado no estúdio, foi um descuido meu. — olhava para frente. — Você leu a letra, e deve estar achando que escrevi pensando num grande amor e essas baboseiras, mas a questão é: eu não me lembro de ter feito isso, só de acordar e encontrar o papel em meu bolso.

— O que isso quer dizer?

— Bem, muitas coisas. Primeiro, achei que alguém tinha colocado na minha roupa, mas então reconheci a minha letra, mas ainda assim, não sei como ela surgiu.

A garota entendeu o que ele disse. Também ficaria apreensiva se estivesse na mesma situação. Imaginou quando ela estivesse no palco, cantando a música e alguém aparecesse, dizendo ser o compositor. Arrepiou-se só de pensar em alguém fazendo isso com as suas letras.

—...e ele quer que nós façamos um dueto e eu não acho isso uma boa ideia.

Só então ela olhou para . Não tinha prestado atenção no que ele havia falado, mas pegou o final.

— Até onde sei, a música é sua. Se você não quiser, não vou cantá-la com você.

— Ok. — ele respirou fundo, revirou os olhos e disse mais baixo. — Gostei de ouvir como ficou na sua voz.

Com essa declaração, não deu tempo para uma resposta de e saiu do carro.

Ela, mesmo que quisesse respondê-lo, estava petrificada com as palavras do cantor, mas quando ele bateu a porta do carro com força, saiu de seu transe e também deixou o carro, seguindo de volta ao elevador.

Quando olhou para o painel do elevador e notou que já estavam chegando ao sétimo andar, quis entender porque pediu para conversar em particular. Ele não queria deixar que os outros soubessem que ele podia ser um cara doce? Isso explicaria algumas atitudes do cantor.

Enquanto isso, se concentrou no celular, ignorando ao máximo a cantora ao seu lado. Não deveria ter admitido que gostara dela cantando, aquilo poderia incentivá-la com o dueto, coisa que ele não queria.

Quando chegaram ao estúdio, todos ficaram encarando-o, mas permaneceu calado e foi sentar-se enquanto Martin conversava com Diego sobre uns ajustes nas músicas que cantaria.


Ainda naquela noite, quando a menina chegou em casa, enfrentou a curiosidade de Eloísa, que em seu dia de folga, decidira que queria saber como era o estúdio, o trabalho em si e conviver com . pediu para apenas tomar um banho antes que tivesse de responder ao questionário da prima.

— Ele continua gato? — Eloísa nem deu chances de descansar e deitou ao seu lado na cama. A menina ainda estava com a toalha na cabeça. — Eu vi umas fotos, mas ele só anda de boné e óculos escuros para se esconder... — revirou os olhos.

— Ele é um homem muito bonito — admitiu, mas para não deixar que Eloísa a fuzilasse com ainda mais perguntas, completou — mas não conversamos muito.

— Como não? Achei que vocês estavam trabalhando juntos!

— Não. Geralmente eu vou pela parte da manhã e tarde e ele vai no anoitecer.

— Que saco! — a prima dela bufou. — Já ia pedir para você bater uma foto dele sem toda aquela capa que ele coloca.

— Não é como se ele ficasse sem os adereços no estúdio... — ela riu, reparando que o boné e os óculos escuros eram uma marca de . — Ele fica o tempo todo com o boné!

Foram interrompidas pelo celular de , que sorriu assim que viu o nome de Helena no visor. Pediu licença para a prima e só atendeu quando ficou sozinha no quarto.

— Que saudade de você! — disse sem nem ao menos escutar a amiga.

— Engraçado... porque se eu não pego o meu telefone e te ligo, fico sem notícias sua!

— Eu sei, desculpa. — lamentou. Realmente estava devendo umas ligações para Helena. — Mas vamos fazer de conta que eu não faço isso e me conte as novidades…

— Não tem muita coisa. Pintaram a prefeitura, a cerveja ficou mais cara no Ribamar e sua mãe está de namorado novo…

— Essa é nova o seu Riba... COMO É QUE É? Como assim a minha mãe está de namorado novo? E o Fábio?

— Ela disse que ia te ligar hoje, mas que não tinha conseguido. colocou o celular no viva-voz e procurou por ligações perdidas, tinha apenas uma de sua mãe. — Pelo que conversamos, eles dois tinham se separado há algum tempo, mas não queriam jogar a bomba no mundo, mas então ela conheceu esse carinha, mas eu não sei quem é.

— Como você não sabe quem é? Todo mundo se conhece em Joaquina!

— Mas ele não é daqui, é de Caucaia.

— Não estou gostando dessa história. — retirou a toalha de cabeça e foi procurar uma escova de cabelo. — Mas obrigada por me contar.

— E o que tem acontecido por aí?

contou os últimos acontecimentos, deixando de lado a conversa que teve com . Não queria dar atenção especial a esse assunto, se não, Helena não deixaria a menina em paz até ter uma história contada nos mínimos detalhes, e não estava com cabeça para isso naquele momento.


Querendo deixar alguns problemas de lado, no qual o maior deles era a mãe não ter avisado nada sobre ter se divorciado e estar com um novo namorado, concentrou todo o seu estresse em trabalho dobrado.

Sentou com Bia e treinaram por horas os acordes das músicas que ela tocaria nos shows. Ela ainda não sabia se teria uma banda a sua disposição, mas caso não tivesse, queria estar preparada para isso.

Ainda durante a semana, Martin pediu para que ela o encontrasse em um shopping, para que eles pudessem ver um figurino para os shows. disse que poderia usar as próprias roupas, como sempre fizera, mas Martin explicou que as lojas estavam patrocinando parte do seu show, inclusive ofereceram qualquer peça do inventário para que ela usasse nas apresentações, tudo questão de publicidade para as lojas.

Quando colocou um vestido, já na última loja que eles iriam naquele dia, foi que caiu a ficha de . Aquilo estava realmente acontecendo e não demoraria muito até que eles estivessem na estrada!

Aquele vestido rendado branco, com algumas rosas bordadas era a cara da menina, principalmente com o sorriso que ela estampava no espelho. Rodou, ainda dentro do elevador, até ouvir o empresário a chamando.

— Eu preciso ir, você vai ficar bem aqui sozinha? Ou prefere que eu chame a Bia? Quem sabe ela será uma ajuda melhor do que eu…

— Não, Martin, eu acho meu caminho de volta, não se preocupe. — deu de ombros, mesmo que nunca tivesse ido para aquele lado da cidade e muito menos saberia como voltar para casa.

Ele concordou e se despediu de e das mulheres que estavam os ajudando, e assim que ficou sozinha, a cantora voltou ao provador, deu mais uma olhada no vestido. Aquele era o escolhido para o primeiro dia! Mas logo trocou de roupa e conversou com a atendente da loja, que era muito simpática, ajudando até a menina a escolher uma sandália que ficasse boa com a peça de roupa.

Já no caixa, onde a cantora estava apenas esperando suas sacolas, já que não pagaria pelas peças, a gerente pediu que ela posasse com as vendedoras e as sacolas com o nome da loja. Disse que era para promover a turnê assim que eles começassem os shows. Apesar de nunca ter feito nada parecido na vida, gostou da experiência, mesmo ficando contrariada ao deixar a loja sem pagar por nada. Agradeceu a todas as que lhe ajudaram e saiu com mais sacolas do que suas mãos aguentavam.

Decidiu que matar uns minutos na lanchonete não seria dos males o pior, e foi se arrastando até uma mesa.

Comprou um lanche enorme, que ela provavelmente não conseguiria comer todo naquele momento e ligou para Rui.

— Ora, se não é a minha filha favorita me ligando…

— Eu sou a sua única filha! — os dois riram. — O que você está fazendo?

— Estou sentado na minha cadeira, esperando dar cinco horas em ponto para que eu possa sair do banco.

— Você está evitando atender seus clientes? Que espécie de gerente é você? — a mulher brincou, ouvindo uma gargalhada do pai no outro lado da linha.

— Hoje só tinham dois clientes agendados, por isso terminei mais cedo. — ele falou com alguém no banco, afastando o telefone da boca. — Pois bem, agora estou livre para ir para casa.

— Você não quer passar aqui comigo e comer? Eu acho que estou perto do seu trabalho.

— Você acha?

— Sim. Eu nunca vim para esse lado da cidade. — o pai concordou. — Estou no Jardins Bosque Shopping, você vem?

— Uau! Isso é bem longe de onde você trabalha.

— Sim, ainda mais com o trânsito dessa cidade! — revirou os olhos ao lembrar-se da demorada viagem de carro que teve com Martin.

— Isso é verdade... — Rui pensou uns segundos e respondeu. — Eu devo chegar em uns quinze minutos, será que nesse meio tempo você poderia arranjar uma cerveja para o seu velho?

— Tudo bem, pai. — concordou com Rui e desligou a ligação.

Ficou em dúvida se também pedia uma cerveja para si, mas ao olhar para o montante de batata frita que acompanhava seu milkshake, decidiu por não beber.

Rui não demorou a chegar, e os dois tinham muito o que conversar. Colocaram os assuntos em dia diante de uma bandeja de batata frita, milkshake de morango, garrafinhas de cerveja e o amontoado de sacolas de .

Quando estavam saindo, Rui ofereceu para levar a filha até o apartamento, e ela aceitou de bom grado. No caminho até o carro, ele quis saber de onde vinham todas aquelas sacolas.

— Essas lojas estão patrocinando os meus shows, então me ofereceram algumas roupas e sapatos para eu usar no palco.

— Entendi... — Rui sorriu. — Bela forma de fazer as pessoas gastarem dinheiro. "Vamos lá, compre a roupa que a sua cantora favorita também usa!" — ele forçou uma voz mais fina, fazendo a filha cair na gargalhada.

— Eu já fiz você comprar aquelas saias que as meninas da novela usavam!

— Eu sei! Por isso disse aquilo. — foi a vez de Rui gargalhar diante da expressão da filha. — Vamos, deixo você em casa.

acabou dormindo na casa de pai naquela quinta feira e na sexta de manhã, o pai a acompanhou até o estúdio, antes que ele tivesse que ir para o banco.

Rui conheceu Bia e quando já estava de saída, cruzou com Diego, com quem conversou brevemente. Bia elogiou o pai de , dizendo que se ele já não tivesse namorada, se candidataria ao posto.

As mulheres voltaram a tocar, aproveitando os últimos dias antes de saírem de São Paulo para a turnê para repassar os acordes mais uma vez. Diego, entretanto, dizia que não precisava de mais nenhum ensaio, porque já estava tocando muito bem todas as partituras que ela havia escolhido.

Pouco antes do almoço, enquanto contava algumas histórias para Bia, Diego recebeu uma ligação e deixou o cômodo para conversar direito. Claro que as duas acharam estranho, mas não tirariam a privacidade do homem por causa de suas curiosidades. Quando Diego voltou, sério, disse que estava vindo mais cedo para o estúdio e queria falar com .

A cantora, por sua vez, arrepiou-se em expectativa. Não fazia ideia do que queria conversar, e chegou até cogitar de que não seria mais a escolhida para abrir os shows da turnê do astro. Ficou andando de um lado a outro da sala até uns cinco minutos antes do horário de Diego e Bia saírem para almoçar, mas decidiu que isso não resolveria nada, então voltou ao estúdio e começou a cantar e tocar.

Segundos depois saiu do elevador e sentou no sofá. Observava o ensaio de pela janela de vidro, não que eles tivessem voltado a conversar depois que ele a flagrou com a sua composição, mas ele se sentiu incomodado por não elogiar o talento que a menina tinha.

Era orgulhoso demais, mas depois de umas semanas na companhia da mulher, se sentia um idiota por não reconhecer em alto e bom som.

— Você não vem almoçar? — Diego perguntou para , enquanto Bia já chamava o elevador. continuava no estúdio, cantando.

— Não estou com fome. — o cantor negou o convite. — Ela vai ficar aqui? — perguntou apontando para a moça.

— Vamos trazer o almoço dela... eu disse que ela não precisa mais ensaiar nada, mas ela gosta de ficar sozinha e ensaiar.

concordou com a cabeça e ouviu Bia chamando Diego, negou mais uma vez o convite para acompanhá-los e viu os dois entrando no elevador.

terminava de cantar um trecho de Dona Sila, música da Maria Gadú, e só então notou que a observava.

— Você está bem? — ela perguntou, sabia que ele estaria ouvindo pelas caixas de som.

não esperava que ele fosse, de fato, responder, mas ele estava com uma expressão preocupada e ela não deixaria de ajudá-lo só porque ele era um teimoso.

— Você quer gravar a música comigo? — despejou a pergunta de uma vez só.

Sabia que não perceberia, mas ele estava respirando fundo enquanto esperava pela resposta.

Viu a mulher deixar o estúdio e sentar ao seu lado no sofá, e agora ele notava que ela estava confusa e respirava mais rápido.

— Vo-vo-você me disse que não queria fazer um dueto... — ela gaguejou e quis se esconder de vergonha por isso.

— Será um bom diferencial para o meu novo CD. — ele respondeu, com as mesmas palavras que ouvira de Martin quando o empresário tentara lhe convencer.

— Ah... — suspirou. Achou que ele queria cantar com ela. — Tudo bem, podemos gravar.

— Você se lembra daquelas mudanças que fez na letra?

— Eu só mudei o gênero de algumas palavras, eu não mudei a sua letra.

— Ainda pode cantar assim? — ela concordou com a cabeça. — Então podemos ensaiar umas duas vezes e depois pedimos para a Bia e o Diego ouvirem a gravação e dizer o que precisa alterar.

deu de ombros. Num minuto ele não falava com ela, agora estava todo 'vamos direto aos negócios?'.

levantou e foi até a bateria, no outro estúdio para pegar a letra, depois chamou e puxou um violão. Enquanto a menina se sentava, ele já estava começando a tocar os primeiros acordes.

Como só havia um papel com a letra e a partitura, se viu obrigada a sentar próxima ao rapaz, e por mais que estivesse um pouco nervosa, não deixou de prestar atenção quando ele deu um sinal para que ela cantasse em algumas partes.

Cantaram a música uma primeira vez, para que cada um soubesse em que parte precisavam entrar e que parte cantariam juntos. Na cabeça de , eles tinham uma sintonia perfeita, porque a versão estava ficando bem melhor do que ele mesmo imaginara.

Já para , ela estava fora do tom, estava preocupada demais de que ele acabasse não gostando mais da ideia e a descartando por completo, mas a menina ficou tão apaixonada pela composição, que seria capaz de implorar para que pudesse fazer parte dela, mesmo que apenas cantando com o músico.

Eles decidiram que começaria com o primeiro refrão, já os dois seguintes seriam de , então cantariam juntos e assim foram dividindo a música, até que na terceira vez, eles já nem olhavam mais para o papel atrás da letra.


[: Ainda bem

Que agora encontrei você

Eu realmente não sei

O que eu fiz pra merecer

Você


: Porque ninguém

Dava nada por mim

Quem dava eu não tava afim

Até desacreditei

De mim


O meu coração

Já estava acostumado

Com a solidão, quem diria

Que ao meu lado você iria ficar


Juntos: Você veio pra ficar

Você que me faz feliz

Você que me faz cantar

Assim


: O meu coração já estava aposentado

Sem nenhuma ilusão

Tinha sido maltratado

Tudo se transformou


Juntos: Agora você chegou

Você que me faz feliz

Você que me faz cantar

Assim


: Nanananana nananananana


: O meu coração

Já estava acostumado

Com a solidão

Quem diria que ao meu lado

Você iria ficar


Juntos: Você veio pra ficar

Você que me faz feliz

Você que me faz cantar

Assim


O meu coração já estava aposentado

Sem nenhuma ilusão

Tinha sido maltratado

Tudo se transformou


Agora você chegou

Você que me faz feliz

Você que me faz cantar assim


: Nanananana nananananana

Ainda bem…]


Depois que terminou, percebeu que a olhava com bastante atenção. Por um milésimo de segundo, achou que ele, enfim se lembraria da noite que se beijaram em frente ao bar do Leon, mas ele não disse nada, ao invés disso, se aproximou ainda mais da menina e tocou seus lábios aos dela.

A princípio, eles ficaram parados, até que abriu um pouco a boca e o seguiu quando fechou seus olhos. Como tinham um violão os separando, continuaram sentados, trocando um beijo que passava de um simples selinho a algo mais envolvente e quente. foi o primeiro a puxá-la para mais perto, e colocou seus braços ao redor do pescoço do cantor. A menina ficou eufórica quando ele respondeu a sua ação com algo ainda mais urgente no beijo e não via a hora de se livrar do violão no meio dos dois.

Como em qualquer outro beijo, eles acabaram precisando de ar, e mesmo não querendo soltá-la, sabia que era o certo a se fazer. foi o primeiro a interromper o beijo e abrir os olhos, enquanto a mulher normalizava sua respiração ainda de olhos fechados.

Quando os abriu, ficou sem reação. Não sabia o que a garota esperava dele, mas como não queria ter que se explicar, voltou a falar da música.

— Então você acha que essa última versão foi a que ficou melhor?

não podia acreditar que o astro havia feito isso. Já era a segunda vez que eles se beijavam e ele simplesmente fingia que nada havia acontecido. Ela ainda estava com o corpo quente por causa do momento íntimo, mas apenas concordou com a cabeça, se levantando e indo tomar um copo de água.

não saiu do estúdio e ficou torcendo para que não voltasse e o questionasse sobre o beijo. Nem ele sabia o porquê tinha tomado tal atitude. Viu que ela andava de um lado a outro da sala em que Bia costumava ficar, mas não iria até lá nem que o pagassem para isso. Levantou do banco que ainda estava, deixou o violão de lado e começou a tocar bateria, no ritmo da sua música favorita do disco novo, numa mera esperança de deixar o ocorrido para trás.

O que pareciam ser uns dez ou quinze minutos depois, Bia e Diego saíram sorrindo do elevador, entregando a seu almoço e comentando que encontraram um cantor que costumava gravar lá no estúdio. A menina fingiu interesse enquanto olhava para o almoço, mas agora sem a menor fome.

— E que gravação é essa que temos aqui? — Bia quis saber quando viu o botão vermelho piscando.

— Gravamos a música juntos. — respondeu. Fechou a embalagem com a comida e decidiu que não conseguiria almoçar.

— Que música? — Bia e Diego perguntaram em sintonia.

— A do . — levantou-se e procurou pela bolsa. Precisava sair dali. — Será que posso ir mais cedo hoje? Tenho um compromisso com meu pai.

— Ah… — Diego engoliu em seco e olhou para o astro que ainda estava na bateria. — Nos falamos amanhã.

— Claro, com certeza. — a menina forçou um sorriso. — Vocês podem me dizer por mensagem o que precisa mudar nas minhas partes que amanhã resolvemos isso.

— Até, ! — Bia se despediu e Diego lançou um aceno quando a cantora entrava no elevador.

Enquanto deixava o prédio e Bia explodia de ansiedade para escutar a gravação, Diego entrou no estúdio em que estava e disparou a pergunta:

— Que diabos você fez agora? — o produtor não deu tempo para que o cantor respondesse. Já tinha uma boa ideia do que poderia ter acontecido e não queria ter que presenciar os problemas de mais uma vez. — A é uma menina ingênua, por favor, não acabe com o pobre coração dela antes da turnê ao menos começar…

— Do que você está falando? — sabia muito bem do que se tratava, mas não daria com o braço a torcer. — Eu não fiz nada!

... — Diego suspirou e sentou no banco em que estava há pouco. — Eu sei que você é um excelente cantor, de verdade. Mas você precisa parar com essa ideia de que todas as mulheres do mundo te querem.

— Espera aí. — agora era quem estava em pé, andando de um lado a outro na frente de Diego. — Nós não fizemos nada!

— E eu espero que continue assim, , porque a tem grandes chances de vir trabalhar na gravadora conosco.

Diego o deixou sozinho no estúdio. Passou por Bia, que não havia entendido nada da conversa deles, e foi para o outro estúdio.

Trancou a porta e desligou o microfone para que nenhum dos dois pudesse ouvir o que ele conversaria, assim que Martin lhe atendesse.

— Diego... como estão as coisas? — Martin estava a alguns bairros de distância, e nem em seus piores pesadelos imaginaria que escutaria as seguintes palavras do amigo:

— Você tem que falar para o ficar longe da !

— Ei, espera aí... O que aconteceu? Por que eu iria deixá-los longe um do outro?

— Porque o nosso astro aqui, fez alguma coisa que fez a sair daqui correndo e quase chorando.

— Ah, droga!

— Martin, eu juro para você, o terá que se comportar para a ficar na gravadora. — Martin suspirou do outro lado da linha. — E eu quero a na gravadora!

Com isso, Diego encerrou a ligação e voltou para onde havia deixado Bia super confusa. Ela, por sua vez, não querendo se intrometer, apenas apertou o play e deixou que a voz dos dois cantores mais promissores do momento o acalmasse.

— Então...? — Bia parecia uma groupie ao encontrar seu artista favorito. Estava quase com as bochechas vermelhas em antecipação. — O que você achou? Não ficou simplesmente… ai, Deus, qual a palavra? Hm... simplesmente magnífico?

Antes de dizer ter adorado a música, Diego olhou para os lados e viu recostado no batente da porta. O cantor carregava um sorriso cínico nos lábios, de quem sabia exatamente que tinha convencido de que era o antigo do qual todos amavam.

Não muito longe dali, entrava no primeiro bar que encontrara. Não que estivesse sofrendo de amores, por Deus! Ela tinha consciência de que não estava apaixonada, mas a raiva veio porque ele não disse absolutamente nada, e ela se sentiu na obrigação — e no direito — de surtar um pouco.

Estava com todos os sentimentos acumulados dentro de si. Saudade de Helena, de Joca, da praia e de Joaquina, no geral. Sem comentar, que precisou mudar sua vida em 180° quando assinou o contrato com Martin. Era uma mudança gigante para a menina.

Sabia que aquilo era necessário, e queria o pontapé inicial que estava tendo, mas não sabia que seria tudo tão corrido. A cantora não queria parecer ingrata, pelo contrário, agradeceria todos os dias por Martin aparecer na sua vida, mas tinha momentos em que achava muita coisa para engolir de uma só vez.

Olhou para o celular e sorriu ao ler que Joca estava em São Paulo. Finalmente ela poderia conversar com alguém de Joaquina que não fosse através de uma ligação ou mensagem de texto. Ele ainda estava numa reunião, e demoraria um bocado para ficar livre, mas já que estava se sentindo confortável naquela mesa de bar, aproveitou o dia quente e bebeu uma cerveja atrás da outra.

Joca chegou umas duas horas depois, também sedento por uma cerveja gelada e um banheiro que pudesse trocar o terno por uma camisa.

— Você está bem gato de terno, acho melhor ficar assim! — estava claramente alterada, o que fez o prefeito sorrir.

— E você está de porre. — eles se abraçaram e sentaram a mesa. — Você não deveria estar num estúdio? Sendo uma cantora profissional?

— Deixe de tirar uma com a minha cara e vamos beber! — mostrou a língua.

Os dois começaram a colocar os assuntos em dia. O primeiro deles era o porquê de Joca estar na cidade, e ficou surpresa ao saber que ele estava arrecadando dinheiro e fechando contratos para a renovação da praça de Joaquina. A menina quase se jogou nos braços do amigo de tanta felicidade, e os dois passaram o restante da tarde comentando o que precisava de obra na cidade, incluindo a esquina que costumava morar, já que ficava ao lado da escola municipal.

— E o que tem de novo por aqui? Não me diga que não tem nada de bom acontecendo na sua vida de cantora profissional... — agora era Joca que começava a falar arrastado.

— Não tem nada muito diferente de quando você veio da última vez. — ela deu de ombros. — Só que mudei de emprego e em breve, estarei num ônibus, com uma banda e um empresário para me apresentar na frente de milhares de pessoas…

— Se você acha que é “só isso”, então temos diferentes opiniões do que são boas notícias.

— Eu sei... — suspirou. — É só que... você sabe, aqui eu não conheço muita gente, a não ser minha família e o pessoal da gravadora.

— Então você está precisando de uma noite assinada por Joaquim Almeida de Oliveira Neto!

— Não! — A cantora tentou negar, mas logo abria a bolsa e, assim como Joca, deixava uma nota de cinquenta reais para quitar a bebedeira do dia.

De lá, começaram a andar e passear por diversas lojas e bares, parando aqui e acolá para flertar com estranhos, que também aproveitavam o início da noite de sexta feira.

Depois de vários números novos na agenda, os dois decidiram não mais perder tempo e arranjar um alvo só.

Segundo as "regras" da noite, escolheria uma garota para Joca, e ele escolheria um homem para a amiga.

— Eu não gostei de ninguém daqui! — estava com os braços entrelaçados no pescoço de Joca, que como havia bebido menos, ainda tinha condições de segurar a amiga e sua sacola de comida.

— Mas eu já tenho alguém em mente para você. — ele confessou, dando de ombros e rindo da expressão da amiga.

— Bem, sendo assim, também tenho alguém para você.

— Ma... mas você acabou de dizer... — ele revirou os olhos. — Tudo bem, estou pronto para a sua escolha.

Enquanto olhava mais uma vez pelo salão, ouviu Joca sussurrar que a menina deveria, ao menos, não ser tão baixa, já que ele era um belo homem de quase 1,90 de altura. Ela sorriu e depois de encarar o amigo por um certo tempo, chegou ainda mais perto e sussurrou de volta:

— Está bom uma menina da minha altura? — , agora numa distância bem mais próxima dele, sentiu o hálito de Joca. — Eu acho que vou te beijar!

E em menos de um segundo, lá estavam os dois, se beijando e se abraçando num canto de um bar.

Não era nada nojento de se olhar, estavam mais para um casal apaixonado do que para aquelas pessoas que não tem o bom senso.

Joca a segurou ainda mais forte quando a ficha do que estava acontecendo, caiu. Não era todo dia que ele e ficavam. E não que já tivesse acontecido muitas outras vezes, mas algumas, já.

E para a cantora, não foi nada como ela esperava. Queria o calor que sentiu de manhã, mas o calor de agora era totalmente outro, um pouco mais forte até. Talvez por causa de todo o álcool, não porque estivesse perdidamente apaixonada por Joaquim. Eles já haviam tentado e não davam certo.

Quando romperam o beijo, o segurou pelas mãos e saiu o arrastando, olhando para todos os lados atrás de um táxi.

— Que horas é o seu voo?

— Às quatro da manhã.

— Ok. — sorriu para Joca e assobiou para o carro branco que parava a poucos metros deles. — Teremos bastante tempo até lá.

Correram até o táxi, e já entrou dizendo o endereço. Joca ainda estava chocado com a atitude da amiga para sequer falar alguma coisa.

Quando chegaram, um bom tempo depois, Joca se prontificou em pagar o motorista e procurou as chaves do apartamento na bolsa.

Enquanto subiam, tentou lembrar se Eloísa estaria em casa naquela noite, mas provavelmente a prima estaria na faculdade, ou bebendo com os amigos.

Depois de conseguir, enfim, abrir a porta, voltou a beijar Joca com a mesma intensidade. E ele, por sua vez, não negou nenhuma das investidas da menina.

Em pouco tempo eles estavam seminus, se agarrando no sofá. Ouviram um barulho e acharam que Eloísa já estava de volta, por isso, foram até o quarto de e continuaram o que haviam iniciado mais cedo.

Ela deitou ofegante ao lado de Joca, que também tentava normalizar a respiração. Não era de ter sexo casual com qualquer um, principalmente com Joca, mas depois de toda a tensão sexual que aquele dia lhe causara, não conseguiria ir dormir tão facilmente, e o amigo parecia tão satisfeito quanto ela.

— Sabe, eu não queria falar nada do tipo... mas ainda bem que você não gostou daquelas mulheres do bar. — o olhou confusa, mas sorriu junto com Joca. — Não estou com a minha lábia em dia... — os dois gargalharam.

— Não é como se eu fosse transar com qualquer um. Quem você pensa que eu sou? — Ela se fez de ofendida, mas continuou rindo.

— Quem você pensa que eu sou? Eu também não, né, !

Depois das brincadeiras, Joca levantou e deixou o quarto, indo até o banheiro e livrando-se da camisinha. Decidiu tomar um banho, aproveitando a água gelada para colocar a cabeça no lugar e amenizar a quentura daquele dia.

E por mais que estivesse cansada e ainda com bastante álcool no organismo, ouviu quando o amigo gritou pedindo uma toalha e riu quando ele se cobriu rapidamente com o objeto.





Continua...



Nota da autora:

Abaixo temos os links dos grupos do facebook, tanto meu – – quanto da Scar. Esperamos ver vocês lá também!

Até o próximo capítulo!

Rê e Scar.





Nota da beta: Tô aqui em choque com essa atualização, genteee! Primeiro, o pp aceitou o dueto, e meninas, não teve escolha melhor do que essa música da maravilhosa Marisa Monte, arrasaram! Que beijo entre eles, esse pp ainda me mata com essa relação de amor e ódio que eu nutro por ele kkkkkk. Agora o Joca e a pp? Eu tinha minhas desconfianças hahahaa. Agora manda mais, por favooor!

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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