Última atualização: 17/12/2017
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Capítulo 1 - Primeiro Round

“I'm bulletproof, nothing to lose. Fire away, fire away. Ricochets, you take your aim. Fire away, fire away. You shoot me down but I won't fall. I am titanium”

Os acordes da música Titanium ressoaram do telefone celular de no mais alto volume, acordando a menina em uma questão de segundos. Esta se sentou na superfície macia de sua cama, esfregando os olhos, exausta, quase se arrependendo de haver madrugado na noite anterior.
Quase. Por mais que ela odiasse admitir, ficara muito satisfeita de ver seu mais novo projeto finalmente se concretizando. Realizar uma festa do Blackout fora ideia sua, e , seu namorado, passara a semana inteira tentando convencê-la a comparecer.
A fraternidade Sigma-Tau (ΣТ) realizava uma recepção de calouros semestralmente, e como o líder dela era seu namorado, acabava ficando encarregada de todo o planejamento. Além de ter sido muito mito, a festa no escuro fora extremamente menos custosa do que qualquer outra já realizada na história da Sigma-Tau. Isolaram o ambiente ao máximo, colocaram as caixas de som habituais e providenciaram as bebidas e snacks. Fora isso, cada convidado levaria alguma lanterna, lasers coloridos ou qualquer outra forma de iluminação.
Querendo realizar algo diferente esse ano, naturalmente ele recorreu à , conhecida em Vermont como aquela que sempre consegue pensar em uma solução. Sua reputação a precedia e era comum que recorressem a ela com qualquer problema complicado que sempre conseguia dar algum jeito de resolver.
Enquanto tomava seu banho, preparou uma lista mental com seus afazeres diários, um hábito que adquirira por meio de sua mãe. Ao pensar em seus pais seu coração apertou-se de saudade. As visitas à sua casa de criação, que já eram escassas, tiveram de ser interrompidas com a viagem deles para fazer voluntariado em Kuala Lumpur, em busca de preservar o trabalho dos artesãos e diminuir impactos ambientais no mundo da moda.
Os eram muito chegados a fazer esse tipo de coisa, largando tudo para trás quando resolviam dar suporte a uma nova causa, inclusive sua filha, quando esta já tinha idade suficiente para se virar sozinha. Isso fora uma das razões pelas quais ela crescera para se tornar uma mulher muito autossuficiente.
Não é que não a amassem, muito pelo contrário, sendo filha única, tratavam-na como seu tesouro. O problema era que seus avós por parte de mãe eram tremendamente endinheirados. Tendo nascido em meio a tanta futilidade e riqueza, sua mãe acabou desenvolvendo uma necessidade de proteger o mundo de todo aquele consumismo que haviam presenciado. Já seu pai, cresceu em diferentes condições econômicas, mas conseguiu superar as adversidades e, querendo retribuir, resolvera fazer uma primeira viagem de trabalho voluntário. Ainda bem, pois fora nela que ambos se conheceram.
Dessa forma, ela não poderia culpá-los, porque mesmo que também tivesse uma boa relação com seus avós, Richard e Claire, estes eram a epítome da opulência. Suspirou recordando da nova aquisição deles: uma ala inteira da faculdade que seria inaugurada como Ala . Fechou o registro do chuveiro ao adicionar como último item do dia ligar para saber quando teria que comparecer para a tal cerimônia, já que a obrigariam a ir de qualquer jeito.
Percorreu suas roupas com os olhos e escolheu, após alguma consideração, uma regata preta, sua jeans rasgada — que apertava em lugares estratégicos — e suas sandálias plataforma. Agarrou a bolsa usual e saiu de seu quarto, colocando seus óculos escuros para completar seu look de ressaca.
Mal alcançou o andar inferior, no térreo do alojamento da Alpha Kappa Nu (ακν), a qual tinha a árdua tarefa de presidir e já foi abordada por Taylor, sua segundo em comando.
— Meu Deus, você está viva! — Taylor comemorou falsamente, soltando seu olhar cheio de malicia para .
— Apenas viva, existindo ainda não. — Retirou os óculos, revelando suas olheiras que, mesmo em meio a pouca maquiagem, eram aparentes. Taylor fez um biquinho.
— Bem, ainda são 9:30 da manhã. Todo mundo nesse horário apenas está vivo e não existindo, e você sabe por quê? — negou, dando um suspiro. Sua cabeça doía no fundinho. — Foi a melhor festa de inicio às aulas do século, !
— É, parece que foi! — murmurou, sorrindo de lado. — As garotas já acordaram?
— Bom, à contragosto, mas sim.
Taylor e menina se encaminharam para a cozinha, onde o comitê organizador da Irmandade se reunia todas as segundas-feiras enquanto tomavam um café da manhã, ainda conversando sobre os outros pequenos detalhes que Taylor se lembrava da festa. Após os saudosos cumprimentos entre elas, e da pequena euforia ao contarem ao mesmo tempo os acontecimentos da noite anterior, endireitou a coluna e pigarreou, fazendo com que todas se calassem. Embora seu rosto fosse angelical, ele podia ser bem assustador quando esta se tornava séria.
— Como estamos com o Projeto Santa Lovers Day? — perguntou, colocando seus óculos no topo de sua cabeça com cuidado, para não enroscar nos fios pretos de seu longo cabelo.
— Tudo certo com o recrutamento, prometemos às calouras que isso contaria pontos para as que se candidatassem nesse semestre, você sabe, na distribuição — respondeu Maddy, a Relações Públicas da ακν.
— Tudo bem... E quanto aos fundos, qual de vocês estava encarregada?
— Não conseguimos angariar dinheiro o suficiente ainda. Mas, sendo otimista, penso que até o final do semestre teremos a quantia necessária. Tive que considerar nossos outros eventos e atividades que costumamos empreender, além de reservas para uma eventual reforma na Casa.
— Tudo bem, Courtney. Para não correr o risco, vamos repetir o Lava Carros que semestre passado foi um sucesso. Acham que as meninas topariam novamente?
— Com certeza! — as demais replicaram.
— Ok, então preciso que Maddy cuide da divulgação, Louise cuide de incentivar nossas irmãs, Courtney continue fazendo o balanço de nossas despesas. Eu e a Tay iremos coordenar, então qualquer dúvida venham a alguma de nós. Acho que é isso por hoje, na reunião seguinte discutiremos a “semana do terror” das calouras candidatas. Vão pensando nos detalhes, mas por agora é só.
Um coro de “Certos” e “Tudo bem” foi entoado pelas meninas, que já haviam há muito terminado de comer, e cada uma foi saindo para enfrentar suas respectivas aulas.
está ai fora — comentou, após checar a mensagem do garoto no celular. Do mesmo, olhou para Taylor.
— Sem comitê de debate hoje?
— Quando é que eu sou mais importante do que o comitê de debate dos ? — brincou, retirando um copo de expresso da cafeteira antes de, finalmente, sair da cozinha. Taylor fez uma careta esquisita. — Eu não sei se esse é o sonho do , mas o que ele puder, ele fará pela felicidade do pai, então... Eu não me importo. — Deu de ombros.
— Eu fico impressionada com sua sensatez, , eu provavelmente iria surtar.
— Ai é que está... — parou na porta de entrada. Acenou de longe ao ver o namorado e, após isso, voltou a olhar para a amiga. — Você vai achar alguém que irá amar seus surtos. Não queira mudar. Vou indo, nos vemos no 4º período.
Ele a esperava encostado na porta de seu conversível vermelho, proporcionando uma bela visão para sua namorada, que enquanto caminhava da fachada e varanda até ele, sorria abertamente. secou o garoto da cabeça aos pés, analisou seus cabelos castanhos com aquele estilo “bagunça arrumada”; seus olhos azuis claros que a fitavam com a mesma fome a que ela o lançava, e um sorrisinho convencido. Vestia por cima de uma blusa branca simples uma jaqueta de couro cobrindo seus ombros largos, que lhe foram proporcionados por ter sido um ótimo jogador de futebol americano nos anos de escola.
Quando faltava pouco a ser percorrido, deu uma corridinha e contornou o pescoço de com seus braços, impulsionando-se para lhe dar um beijo, uma cena realmente indecente para ocorrer no meio da rua em uma hora tão movimentada da manhã. Porém, nenhum dos dois ligou para isso, curtindo o calor um do outro. Era gostoso o contraste com a brisa gelada da matina, incomum para a estação que estavam, meados do verão em South Mills.
— Bom dia, — disse a garota, dando-lhe um último selinho antes de se desenrolar dele.
Para um observador externo, parecia que não se viam há semanas, e não que haviam dançado e ficado juntos durante o evento da fraternidade a poucas horas atrás.
— Bom dia, — respondeu ele, abrindo a porta para ela entrar, sempre um cavalheiro.
— Então... Parece que gostou mesmo de ontem, está até com seu traje de guerra para quando fica de ressaca. — riu da cara dela, se gabando de haver sugerido, não, insistido para que comparecesse. Ele nunca conseguia compreender como ela fazia tantas traquinagens e planos e parecia nunca aproveitar de seus frutos.
— Só dirige! — deu-lhe o ultimato tentando segurar um sorriso, fazendo um biquinho de desgosto.
Obviamente, ela não conseguiu, e ambos acabaram gargalhando segundos depois. esticou sua mão para ligar o rádio e surtou ao ver que se tratava de uma de suas músicas favoritas, Sweater Weather.
— The Neighbourhood de novo, ?
Dando a língua, ela simplesmente cantou a música inteira até chegarem ao Edifício de Direito. Despediram-se brevemente e a menina partiu para o porre que seria sua primeira aula do dia: Direito Constitucional, com a professora Sidney. A maldita havia passado uma ridícula quantidade de textos para lerem durante o fim de semana e, como prezava muito por suas notas, a menina lera quase todos, já que terminar não seria humanamente possível, disponibilizando seus resumos para o resto da classe desesperada devido a essa nova adição ao corpo docente que nascera como uma promessa, mas se revelara uma verdadeira morte, lenta e dolorosa.
Ao ver o automóvel vermelho se distanciando rumo ao Prédio de Politicas Publicas, correu para sua classe no quarto andar, quase chorando ao ver que o elevador estava quebrado, de novo!
Quando finalmente chegou, ofegante graças ao lance de escadas, acabou esbarrando em uma figura masculina alta e loira que saía da sala ao lado da sua. Era o suficiente para ter se estatelado no chão, se a mesma pessoa não houvesse a segurado pelos braços, colocando-a de pé novamente.
— Obrigada... Me desculpa, eu ‘tô realmente...
— Tudo bem. Eu errei minha sala, o erro foi meu.
— Ahn.... — parecia ter se perdido. Por algum motivo seus olhos pareciam ter fixado no garoto a ponto de ficar sem palavras por breves segundos. — Eu sou...
? — Sorriu. A garota acompanhou na mesma medida seu sorriso. Estava fodidamente hiptonizada pelo olhar alheio.
— Você me conhece?
— Não foi você quem promoveu o Blackout? — Entortou a cabeça, apontando para ela sutilmente.
em pessoa — concordou. — Então você foi?
— Digamos que não é a minha vibe. Mas eu fui convidado ontem, quando trouxe minha transferência, foi quando eu ouvi falar de você — comentou. — “Você caiu na sala da ” — afinou a voz, abanando as mãos. — Sua sala é conceituada por você, e não por períodos. — Sua boca fez um biquinho pensativo.
— Uau. — A menina arregalou os olhos. — Não sei até que ponto isso é bom.
— É você quem decide, eu acho — respondeu, começando a andar para o mesmo lugar aonde iria. — Nossa imagem é espelho dos nossos atos. — Sorriu mais uma vez, e, por mais que aquele sorriso tivesse sido dado a ela com total sutileza, foi como um tapa na cara.
— Você não disse seu nome. — Aumentou tom, o garoto a olhou por cima dos ombros, de costas.
— É realmente importante para saber meu nome? — A garota permaneceu quieta, sem resposta.
Em sua cabeça mil perguntas ricochetearam, e uma delas era a dúvida do: Por que aquele estranho, que dizia estar na sua sala, havia tomado uma direção oposta a ela? De qualquer forma, aquele garoto parecia saber muito bem o que estava fazendo e para onde estava indo, então só o observou até que o mesmo sumisse pelos corredores com sua mochila preta nos ombros, blusão e jeans desgastado.



Capítulo 2 - Problemas no Paraíso

entrou na sala onde cursaria o quarto — e, felizmente, último — período do dia, incrivelmente ainda se sentindo baleada pelo estranho menino de olhos azuis. Falar com ele havia sido algo estimulante, já que, diferentemente da maioria do corpo estudantil de Vermont, fora alguns calouros desavisados, ele não usava o mesmo tom de reverência ao falar com ela, que todos costumavam entoar.
Como atuava em diversas áreas como o a presidência estudantil, a presidência da Alpha-Kappa-Nu e do comitê de eventos de confraternização entre os estudantes até a formatura, a menina fora elevada a um grande grau de popularidade, o que ela não ligava a princípio e acabara se acostumando com o tempo.
O professor de Direito Civil IV já estava prestes a começar o despejo de informações que era aquela aula. Mesmo tendo didática e explicando bem, ele tinha que lidar com o dilema constante da agenda apertada vs a quantidade exorbitante de pontos a serem discutidos.
Apesar de tudo isso, Civil era uma matéria a qual não costumava se importar nem um pouco de estudar, na verdade, era uma de suas áreas favoritas dentro do Direito. Ainda, era uma das únicas salas em que ficara em que tinha a companhia de Taylor, que se dedicava à faculdade quase na mesma medida em que a morena.
Sentou-se em seu lugar habitual, próximo às grandes janelas que davam para o pátio na segunda fileira, seguida por Tay logo atrás, que já foi lhe passando seu Vade Mecum do qual havia se esquecido de trazer.
— O que seria de mim sem minha Taylor Lausen? — disse , tentando ignorar a carranca que sua amiga lhe direcionava.
— É a ultima vez, ! — resmungou, sentando-se brutalmente ao lado da amiga. franziu o cenho e permaneceu a encarar Taylor por poucos segundos, aquele mau humor não era típico.
— Ok. — Respirou fundo. — O que está acontecendo?
— Nada. — Deu de ombros. — Meus braços às vezes se cansam de carregar seu vade esquecido...
— Desculpa por isso. — Estalou com os lábios, desviando o olhar por um segundo da amiga. — Mas você não me convenceu, Taylor. Acredite, eu sou ótima em solucionar problemas, você sabe disso...
— Não precisa ser a heroína o tempo todo, . — Suspirou. — Acabei de me encontrar com o Gabbe.
— O garoto que adora tirar fotos, da 4th Avenue.
— Sim. Fui propor algumas ideias novas pra ele, além de ser fotógrafo do Santa Lovers Day. — escutava apreensiva entre as pausas da amiga, fez com o olhar para que esta continuasse. — Yan, da outra fraternidade, ofereceu um preço maior do que podemos pagar. Eu conversei com as meninas que cuidam dessa área e, de fato, não temos como cobrir — terminou frustrada, agora olhando para diretamente. — O evento é daqui duas semanas, ! Perdemos um fotógrafo nas vésperas e não vamos conseguir superar o preço dos outros, quase todos do curso de fotografia e de jornalismo já foram pegos, eu chequei...
— Taylor — chamou-a em meio ao seu ataque de pânico; a mesma respirou fundo todo o ar que havia perdido dentre a fala. — Vamos dar um jeito. E se não acharmos ninguém, promovemos o evento com fotos amadoras, só respira fundo. — A garota fez exatamente o que havia pedido. — Isso.
Bom, como todos já viram no Direito Civil III...
Quando o Senhor Calahan começou a lecionar a matéria do dia, ambas calaram-se instantaneamente, concentrando-se em ligar seus gravadores e começar suas anotações do que fosse de maior relevância.
Ao contrário do que costumava acontecer, porém, simplesmente não conseguiu mergulhar no “estado zumbi” que costumava usar para ouvir e transcrever a aula, pensando poucas coisas que divergissem da matéria. Não, dessa vez sua mente insistia em vagar para o maldito garoto misterioso, ao ponto que começou a desenhar em seu caderno com as canetinhas coloridas que usava para esquematizar os diferentes temas abordados em aula.
Foi enquanto divagava — ao terminar de desenhar uma vaca, um boi, uma cabra e uma galinha, quase a fazenda inteira e muito mal desenhada, devo acrescentar — que a menina resolveu olhar pela janela.
O céu já havia se aberto. Apesar da manhã atípica, belos raios de sol penetravam insistentes através das poucas nuvens teimosas que relutavam em ser varridas pelo vento, com uma temperatura bem mais amena.
O pátio a céu aberto encontrava-se entre a parte de trás do edifício em que estava, no lado oposto ao da estrada, onde havia uma pequena floresta que começava ali e cercava quase todo o campus perifericamente, em formato de meia lua.
A essa hora do dia, poucos alunos circulavam por ali, já que a maioria estava em aula e, quem estivesse a matando, iria para casa ou para um bar, já que era a última do dia. Dentre esse parco grupo de estudantes que estavam presentes naquela área, um destacou-se gritantemente.
O menino que trombara mais cedo estava muito concentrado com uma câmera à frente de seus olhos, tentando capturar a imagem de um grupo de caras da Delta-Zeta-Ominikron (ΔξΟ), uma fraternidade menor e menos influente, que se resumia a alguns alunos mais geeks e desorganizados. Não promoviam nenhum evento muito grande, então acabavam por ficar à margem da popularidade.
Após o que pareceram alguns segundos e provavelmente algumas fotos tiradas, o garoto misterioso foi cumprimentar o líder dessa fraternidade que, se não falhava a memória da menina, se chamava Benjamin. O que chamou sua atenção inicialmente nem fora o dinheiro que este último deu ao fotógrafo, mas sim o olhar despreocupado e sorridente fascinante que este direcionou àquele, como velhos conhecidos.
O sorriso transformara seu rosto completamente, fazendo com que ele parecesse mais jovem e bem... Mais bonito ainda. O olhar que dera a ela e seu tom irônico foram ainda mais enigmáticos diante do ar casual em que estava portando naquele momento. Com ela, ele fora simplesmente frio, de certa forma, como se antes de conhecê-la já a julgasse ou carregasse um pensamento o qual a menina quebrara a cabeça tentando descobrir o que fizera para merecer.
E foi por esse motivo que, talvez sem refletir o suficiente, depois do término da aula — que acabara por ser uma grande perda de tempo em termos de aprendizado —, ela andou acompanhada por uma Taylor confusa até onde ele ainda estava, porém agora, sentado na grama à sombra de uma das árvores, polindo sua câmera que tinha um estilo antigo e profissional, podendo ser mais bem descrito como vintage.
continuou caminhando sem rumo, sabia que não estava livre, então precisaria esperar pela carona de Taylor que, naquele exato momento, corria atrás de Benjamin. Sim. Taylor tinha uma pré-disposição para adorar garotos secretos, que a considerava fútil por ser um pouquinho mais exposta a sociedade escolar, além de que, ela tinha aquela frase fatídica do “Ele é tão fofo que me encanta”. costumava caracterizar isso de outra forma: O ser humano tem uma patologia pelo interesse não retribuído.
Benjamin não entendia Taylor, Benjamin não queria entender Taylor, e era por essa falta de interesse dele que a mesma havia criado uma obsessão a fazê-lo, no mínimo, fazer questão de ouvi-la.
Foi dentre esse pensamento que sentiu o pé enrolar-se em algo na grama, sem saber como havia chegado àquele ponto já que observava Taylor de longe, pensando em sua teoria, como sempre. Tropicou mais duas vezes, parando, com o apoio dos cosmos, em pé. Só então notando que havia tropeçado em nem mais, nem menos, que no garoto misterioso dela.
— É a segunda vez, — falou, a olhando de baixo. Por conta dos raios de sol que cismavam em tocar seu rosto, o garoto tinha certa dificuldade por manter seus lindos olhos encarando diretamente . Por esse motivo, a mesma encaixou-se frente a ele e só assim, tanto ele quanto ela, conseguiram ter uma visão completa um do outro. — Na próxima eu te denuncio para o comitê de boas maneiras.
— Não existe comitê de boas maneiras. — Sorriu em deboche. O garoto forçou-se a levantar, ficando frente a frente com ela, olhou-a de cima dessa vez, por ser um tanto mais alto, exalando seu perfume pela proximidade.
— Deve ser por isso que você é desse jeito, então. — Copiou o mesmo sorriso dela. Involuntariamente, a garota tombou a cabeça nos ombros, soltando um riso cedido.
— Por algum motivo, eu tenho a impressão de que você sabe mais de mim do que eu sei de você, e isso não me agrada.
— Bom, tem como não conhecer , herdeira da Ala ? Presidente dos comitês mais relevantes de Vermont? Bom, se não houver...
— Deixa seu sarcasmo fora da conversa por um minuto? Mal nos conhecemos... — falou séria.
— Esse é o seu tom de intimidar os alunos aqui? — Arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. sentiu-se levemente incomodada;
— Eu não intimido ninguém. Você tem uma imagem bem errada sobre mim.
— Tenho? — o garoto perguntou, parecendo não ligar para a resposta dela. No mesmo segundo, juntou sua câmera, colocando-a no ombro direito, voltando a encará-la.
— Você é fotógrafo?
— Meu hobbie. Não sou profissional — respondeu direito.
— É amigo do Benjamin?
— Está fazendo minha ficha para ver em qual escala eu me encaixo aqui, rainha ? — O mesmo sorriu sádico. — Sim, eu sou muito amigo do Benjamin. E agora, estou rebaixado a amigo dos geeks impopulares? — Ela rolou os olhos, ficando fisicamente cansada do ar arrogante do garoto.
— Acha que isso faz diferença em Vermont?
— Acho que faz diferença pra você.
— Está achando errado.
! — Taylor chegou, logo parando o olhar no menino. — Quem é esse?
— Talvez ele fique feliz em se nomear pra você, Lausen. — olhou para o garoto, que apertou os lábios a mesma medida que espremia seus olhos estonteantemente bonitos.
. — Estendeu uma das mãos para Taylor, sorrindo em seguida. pode sentir a pequena falha na respiração da amiga.
— Uau, achei que fosse um indigente.
— Talvez para v...
— Ei, você tem uma câmera! — Taylor interrompeu a pequena resposta atravessada de , apontando para o eletrônico. Ok. Agora ela sabia o nome.
— Parece que sim — respondeu óbvio, muito embora, ainda usasse seu tom gentil.
— Quer fotografar nosso evento? — soltou de imediato; o garoto passou a língua nos lábios por alguns segundos. — Pagamos a diária, não podemos cobrir o que o resto está oferecendo, , mas de qualquer forma, você salvaria nossas vidas.
— Um evento vale a vida de vocês? — Ele franziu a testa. suspirou cansada, qual era o problema dele?
— É importante. — Taylor deu de ombros. — Além de que seu nome vai estar em todas. Considere-se...
— É pegar ou largar, . — interrompeu a frase que, provavelmente, o espantaria no mesmo segundo. — Eu sei que você odeia isso, mas é como caridade.
Ele permaneceu mais alguns segundos olhando para o nada. Foram segundos pequenos, no máximo três, mas o suficiente para causar estranheza na menina a sua frente; no fundo daquele par de olhos azuis que viajavam pelo monte de arvores, provavelmente pensando se seria viável a ele aceitar a oferta, não podia evitar pensar em duas hipóteses: Ou era do tipo que odiava os superiores por não ser um, ou por ele ser “superior” e não gostar de pessoas que não se encaixassem em seus padrões. Eram dois extremos que a atraíam a ele numa curiosidade inquietante.
— Tudo bem. — Estalou com os lábios, iniciando passadas para se afastar. — Me avisem e eu estarei lá.
! — Ela o chamou, por último. — Obrigada. — E, pela primeira vez, ele sorriu sincero em sua direção.
O garoto saiu andando e até que sumisse, ela e Taylor continuaram o encarando.
Sem carro popular, sem moto de bad boy, sem grande estardalhaço, como ele parecia fazer. subiu em cima de sua bicicleta e saiu pedalando. Ninguém parecia ter o notado além das duas, até aquele momento. E, por algum motivo, gostava disso. Antes de expressar-se para o mundo, iria fazer questão de conhecê-lo primeiro.
— Quem é o bombom fora da caixa? — Taylor cortou os pensamentos da amiga.
? — respondeu, recebendo uma rolada de olhos.
— Namora? O que faz aqui? Tenho chance?
— Eu não sei. Está no mesmo período de Direito que nós. Eu definitivamente não posso responder por um homem, mas alguém já te negou, Taylor Lausen? — replicou.
— É hora de descobrirmos.

***


Mais tarde, em seu quarto, após ouvir novamente a aula inteira de civil, já que sua produção em tempo real fora de zero por cento, começou a rememorar as súplicas de seu namorado quando ligara para ela mais cedo, para que comparecesse à festa em sua casa.
Sendo constantemente controlado e pressionado por seus pais, tinha algo em si de lei, que era cometer um pequeno ato de rebeldia sempre que estes viajavam, então quase destruía a mansão em que moravam.
Ao contrário de seus irmãos da Sigma-Tau, ele não costumava passar todas as noites na fraternidade, mas sim no seu lar destruidor de sonhos e moldador de mentes. brincava de chamar o casal de doutrinadores devoradores de mentes, e não de pais de seu namorado.
— Eu realmente não tenho tempo pra mais uma festa sua — murmurou, cansada.
— Você fala como se fosse vir ao inferno, . É só minha casa, com música boa, bebida, e nossos amigos!
— Seus amigos, .
— Qual é, — reclamou, dolorido. — Você sabe o quanto é maçante para mim toda porra de dia ir pra comitês de debate; sabe que faço o possível...
, você sabe o que acontece toda vez que você faz esse tipo de festas...
— Eu prometo que dessa vez eu vou maneirar. — Sua voz soara leve como uma pluma, chegou a sentir o sopro dela, mesmo pelo telefone. — Meus pais podem acabar comigo, mas nada vale mais do que mostrar para eles que eu ainda sou dono das minhas escolhas.
— Ah, sua escolha de ficar completamente louco de cigarro e vodca? — ironizou. Por um segundo, lembrou-se de .
— Eu só estou implorando para que minha namorada, toda certinha e rainha de Vermont, compareça a minha casa e tente me apoiar um pouco mais...
, desde a última vez, eu não sei se...
— Eu prometo . Nada vai acontecer. — respirou fundo, pensativa.
Alternou seu olhar para o pedaço de papel colado no caderno, o nome “ ” antecedia os números que se seguiam. Ela havia pesquisado tudo que podia sobre ele, não por obsessão, porém precisava urgentemente ajustar as fotos para o dia seguinte, e não sabia como contatá-lo a não ser fuçando sua ficha. Talvez pudesse ir falar com o garoto e, após isso, comparecer a festa de .
— Ok, , eu irei. — Ouviu um grunhido contente do namorado do outro lado da linha.
— Estarei te esperando com muito amor para dar.
— É, espero que só pra mim mesmo!
— É claro, . Até mais.
A menina encarou o caderno, já preenchido com a principal tarefa que teria que realizar e o trabalho que estava pela metade, porém ainda possuía um prazo de três semanas para ser entregue e decidiu-se por atender ao pedido de , já que, na verdade, não era tão exigente. Era só ela dar uma passadinha na festa e depois se mandar de lá rapidinho, após se fazer ser notada pelo namorado.
Determinada, guardou seu material apressadamente e pegou o top branco e a minissaia preta que havia separado para a ocasião, caso mudasse de ideia. Aprontou-se o mais rápido possível, pôs uma maquiagem básica, uma botina escura com salto e finalizou com um batom vermelho escarlate.
Antes de sair, discou o número de , encarando seu reflexo no espelho enquanto não recebia resposta alguma. Estava prestes a desligar, quando ouviu sua voz duvidosa, um tanto mais grossa do que era pessoalmente.
— murmurou. — Acho que não devo me apresentar, já que você sabe tudo sobre mim. Eu estou começando a ficar com medo, . — respondeu, o que fez sorrir.
— Pensamos em algumas atividades para divulgação com suas fotos, e eu achei que deveria te avisar de antemão.
— Quando?
— Amanhã. — Ele resmungou um “Huh” pensativo.
— Quer ajustar os detalhes do que eu devo capturar, exatamente? — perguntou, preciso.
olhou no relógio, notando que faltava meia hora até que a festa de começasse. Como de costume, ela nunca chegava primeiro, sua filosofia de ir antecipadamente naquele dia em si era que, quanto mais cedo chegasse, mais cedo poderia ir embora, e evitaria toda a loucura final que as festas de causavam. Porém, meia hora mais tarde não machucaria ninguém.
— Onde podemos nos encontrar?
— Pode ser no Waack? — Era a cafeteria mais conhecida da pequena cidade de South Mills, ficava na avenida principal.
— Chego em 5 minutos.
— Até.
Num ato só, a garota juntou a bolsa, suas chaves, e caminhou rumo ao seu carro. South Mills era uma cidade muito pequena, de fato, tudo poderia ser encontrado a pé sem que você se perdesse, mesmo assim era viável para ela que, de salto, fosse com o carro que seus pais haviam deixado como garantia de suas saídas na noite, muito embora fosse seu motorista a maioria das vezes. odiava dirigir, porém naquele dia estava ocorrendo uma sucessão de fatos inesperados, e ela precisava correr dentre todos eles.
Estacionou em uma das cinco vagas liberadas do café, observando de longe, ao sair do carro, chegando a passadas largas. Diferente da escola, o garoto usava um moletom preto, com um jeans que fazia perfeitamente jus a mesma, e um All Star surrado; seus cabelos loiros estavam agora desarrumados pela brisa um pouco mais forte do fim de noite, e seus olhos azuis estavam mais escuros.
— Parece que alguém está pronta pra mais uma guerra aqui — brincou, ao vê-la produzida. não pôde negar, estava atraente, muito atraente. O sorriso que a mesma direcionou a ele após a frase o fez, por alguns segundos, ficar perdido. Foram milésimos.
— É mais uma das coisas fúteis que nós, presidentes e populares em universidades, fazemos nas quintas a noite — a menina ironizou, arrancando-lhe um riso cedido.
— Ok, , vamos acabar logo com isso. — Deu passagem para que adentrasse antes dele; tentou desviar o olhar de sua parte traseira, mas foi quase impossível. Ela precisava ter ido vê-lo com aquela minissaia?
Fora meia hora incessante de conversa nos detalhes mínimos sobre as fotos e tudo o que desejava para aquele evento. Além das partes perfeccionistas, que a garota não deixava passar — o que, de fato, o deixou impressionado —, ouve um breve momento que a garota deixou seu lado sabe-tudo vazar. Ou, ao menos, proporcionou que visse. Seu lado inteligente e geek, que continha uma mera semelhança com , o fez olhá-la diferente. Por algum motivo, passar meia hora falando sem parar com — uma novidade totalmente nova para ele, que não sustentava nem um diálogo de cinco minutos com seus pais —, o fez pensar um pouco diferente sobre ela.
— Então, . — A menina debruçou-se sobre a mesa, terminando de comer seu Muffin. Era lei, ela precisava comer um Muffin de chocolate se fosse ao Waack.
— Então, — devolveu. — Como conseguiu meu número?
— Mais um dos privilégios de ser “eu”. — Sorriu sem mostrar os dentes, estalando os lábios em seguida. Os sorrisos sinceros dele estavam deixando-a mais feliz.
— Por que você é assim?
— Assim como?
— Por que escolheu ser tudo isso? — O garoto fez gestos com as mãos, moldando a silhueta dela no ar.
— Acho que não é uma questão de escolha precisa — comentou, o encarando nos olhos. — Você disse que somos os reflexos de nossas atitudes, certo?
— Então você tem esse espirito de liderança intrínseco em você? — debruçou-se em direção a ela, interessado e um tanto irônico.
— Por que você é assim, ? — rebateu, e, ao contrário do que imaginou, não percebeu vacilo nenhum do mesmo.
— Eu sou sistemático. Talvez um pouco egoísta. Posso estar julgando errado, , só acho que você é muito mais do que uma presidente do comitê que comanda meninas sem cérebro.
— Isso foi um elogio? — perguntou afetada, vendo-o recostar no banco com um sorriso esquisito. — Você tem uma visão tão deturpada das coisas, ...
— Talvez eu tenha, estou em processo de aprendizado... — Deu de ombros. A sensatez de a fazia querer esmurrá-lo.
— Permita-se conhecer, , é ótimo, ao contrário do que você pensa, é mais libertador do que se prender numa verdade que você inventou — disse, voltando a olhar no relógio. Estava atrasada e havia duas ligações de em seu celular.
— Talvez minha verdade seja melhor — murmurou ele.
— Isso você só vai discutir se experimentar outros sabores. — Piscou. — Vem, vou te dar uma carona.
E, pela primeira vez, ficou sem resposta naquele dia. Um único dia e retirou qualquer tipo de argumentos dele. É, talvez ela tivesse razão, mas isso não mudava o fato de sua discordância para vários pontos de toda aquela coisa que envolvia a vida acadêmica.
Chegando à vizinhança de que, para a surpresa de , era a mesma de , começou a ouvir o intenso barulho que percorria a longa rua. Pararam a algumas casas de distância devido à multidão de pessoas conversando, bebendo e fumando substâncias de todos os tipos no meio da estrada que adentrava a enorme e imponente mansão dos .
Considerando que o evento havia começado já há algumas horas, a casa deveria estar abarrotada de gente. Mas isso não era nenhuma surpresa, já que ninguém ousava perder a lendária festa de .
Antes mesmo de chegar até sua casa, que era umas duas antecedentes a de , grunhia irritado. , ao estacionar ali mesmo em frente a casa dele, percebeu o quanto ele era de fato enigmático. Com um bufo, o garoto saiu de seu carro, escorrendo as mãos pelo rosto.
— Então você conhece o barulhento? — soltou num tom de ódio, o que a fez rir desconcertada.
— O barulhento é meu namorado. — O garoto entortou a cabeça ao ouvir aquilo, não de forma surpresa, contudo, um tanto decepcionada. — Me deixa surpresa você não saber disso.
— Talvez seja o que é mais irrelevante sobre sua vida. — Deu de ombros. espremeu os olhos, confusa. — Obrigada pela carona, , mas eu odeio seu namorado!
... — a olhou, confuso.
— É melhor seu namorado não saber que me conhece, pois estou cansado dessas festas.
soubera mais cedo, por meio de seu amigo Benji, líder de uma das fraternidades daquele campus, que haveria a tal festa, porém nunca imaginara o quão irritante isso seria. Tendo se transferido de uma universidade a quilômetros de distância de South Mills, ele não tinha ideia do que sua mãe tinha que aguentar, provavelmente frequentemente, em dias de semana. Digamos que ele não era do tipo que “sofria” calado, e não era a primeira vez que a vizinhança temia por mais uma das festas do rebelde, entretanto, por mais estourado que fosse, esperava que com a chegada de e com ela ciente de seu desgosto, as coisas iriam melhorar, portanto apenas acenou para ela e adentrou em sua casa, já recebendo um olhar irritado de sua mãe, não com ele, mas com o barulho.
Mesmo após duas horas, o barulho continuou alto, não aumentou ou diminuiu, a rua parecia tremer a mesma medida que as batidas fortes das músicas que tocavam. Por um segundo, ficou com raiva de , em outro, sabia que ela não tinha culpa, a festa era do . Mesmo assim, só de estar presente numa dessas, já o fazia querer ficar longe dela.
— Eu vou lá reclamar!
— Filho, já disse que não precisa, estou acostumada a essa altura. Nem sei se prefiro os esnobes em casa ou ver o filho deles destruí-la.
— Mãe, estou falando sério, você vai trabalhar cedo amanhã!
— Não se preocupe comigo querido, vou tentar deitar, me prometa que não criará nenhuma confusão. Esta casa foi a única coisa que seu pai nos deixou, não quero que sejamos ameaçados de despejo só por que o garotinho mimado não aguentou ouvir umas verdades de você e foi reclamar para o papai — disse a mulher, muito bem conservada para sua idade, com um tom de voz de escárnio puro.
— Mas mãe...
Foi interrompido pelo som da campainha da casa soando dentre o som da música eletrônica alta da casa ao lado.
— Nada de mas — retrucou séria. — Atenda a porta. Eu vou pra cama, boa noite, e controle-se.
A campainha tocou mais algumas vezes, reiteradamente, o que fez o garoto ficar ainda mais irritado. Era possível ouvir seus pés descalços ricochetando no chão, por pisar duro de raiva. Assim que olhou dentre a cortina, observou uma garota conhecida.
— Era o que me faltava! — resmungou.
!
— Lausen — respondeu, sem o mínimo de entusiasmo.

Na festa…

— Ora ora, se não é nossa rainha — disse Patrick, o vice presidente da Sigma-Tau e parceiro de festas de . — Você realmente faz jus ao legado que tem.
— Patch, já disse para não me iludir, você sabe que no momento que decidir largar a Cathy, eu dou um pé na bunda do em segundos.
— OUTCH — falou , se aproximando dos dois brincalhões e abraçando-a pela cintura; era nítido que o namorado já estava alcoolizado. — Já chega atrasada e ainda me esculacha, ? O que você pensa que é?!
— Sexy, inteligente e com alta tolerância a álcool, querido.
— É assim que se fala, baby. Falando em álcool, tenho que buscar mais um packs. Aceita?
, acho que a quantidade de bebida que tem aqui já é suficiente para um estádio inteiro.
— Deixa de ser careta, . Eu preciso de um pacote de cigarros também.
— Oi? — começou a segui-lo pela multidão. Odiava quando passava dos limites em sua bebedeira.
— Fumaaaar! — Aumentou tom ao chegar à garagem, tropeçando, virou-se de costas, ficando de frente para que, preocupada, tentava agarrar o namorado pela camisa para que este não tropeçasse em alguma garrafa de vidro vazia. — Eu preciso de um cigarro e essa noite é a única que eu estou livre! — Abriu os braços. Nesse momento, a garota conseguiu alcançá-lo, agarrando-o pela camisa.
— Você me prometeu que não ia passar dos limites hoje, ! — sussurrou entre dentes, quase roçando seus narizes.
— Você fica tão excitante quando faz essa carinha. — O menino mordeu os lábios, soltando-se dela segundos depois.
escolheu o carro esporte de seu pai e entrou tropeçando um pouco e gargalhando sozinho.
, volte aqui agora!... — continuou caminhando, parando em frente ao carro.
— Eu estou bem, meu amor! Confia em mim! — O garoto buzinou e dessa vez colocou apenas a cabeça para dentro da janela do passageiro.
— Onde está a Taylor? Eu vou embora.
— Não sei, . — Seu tom de voz engrossou. — Estou cansado de você querer controlar tudo e todos ao mesmo tempo! Tudo do seu jeito de ser. — Bufou. — Se algo não sai do jeito que você quer você simplesmente vai embora...
— Então acha isso de mim? Que eu sou controladora?!
— É difícil ouvir alguém falando assim com você, ? — provocou, enquanto começava a acelerar. No mesmo momento, entrou no carro, temendo que ele arrancasse.
— Quer ter essa conversa? Então teremos, ! — Grunhiu irritada. — Mas antes, saia desse carro agora!
— Para de tentar me controlar!
— Eu não estou, ! — Ela choramingou raivosa, não notando que o mesmo havia acabado de arrancar com o carro da garagem, em poucos segundos ambos estavam na rua, pela alta velocidade. — Para o carro agora!
— Você é insuportavelmente megalomaníaca, . E eu estou cansado disso!
— Então por que você está comigo?
— Porque você é a , porra!
O rapaz bateu no volante irritado, perdendo controle de seu corpo, já alterado fisicamente e agora também emocionalmente. Com o impulso do ato, acidentalmente pisou de forma desmedida no acelerador, a ponto de colar no banco onde estava sentada.
A imagem de uma árvore vinda em sua direção e o barulho dos pneus cantando foi tudo o que a menina viu ou ouviu antes de perder momentaneamente sua consciência, além de uma dormência esquisita no corpo, causada, pelo que ela sabia, de uma dor enorme que, provavelmente, provinha de alguma parte de seu corpo.

Segundos antes do acidente...

...
— Lausen.

A companheira de fraternidade da , quase tão popular quanto à segunda. Não queria ser mal educado, mas a feição de Taylor meio que pedia pra que ele fosse, em razão também do fato de ela exalar cheiro de cachaça e estar lá naquele horário.
— Acordado a essa hora? — Foi o suficiente para rir - para não chorar -, e se encostar-se à porta.
— Bom, como eu poderia dormir com um barulho desses? — Apontou com o olhar para a casa vibrando ao lado da sua.
— Talvez seu destino hoje a noite não seja dormir, já pensou nisso? — Ele franziu o cenho.
— Onde você quer chegar, Lausen?
— Qual é, , você namora? — Tudo bem. Ele, de fato, precisaria ser grosseiro?
— Não, Taylor, eu não namoro.
— Então por que está sendo difícil?
— Eu mal conheço você. Tá falando sério?
— Ninguém nega Taylor Lausen na porta de casa, . — Taylor vangloriou no maior tom alcoolizado que podia notar. No fim, a raiva deu espaço a pena. A garota era só mais uma popular a procura de alguém para beijar na noite; alguém que ela não tinha beijado, a propósito.
— Então, pode me chamar de ninguém. Boa noite, Lausen, eu acho melhor você ir pra casa.
— O que você disse? — A menina parecia ter ficado chocada, tão chocada que o rapaz quis rir.
— Por favor, Taylor, não dificulta as coisas. Conversamos quando você estiver sã.
— Mas...
— Boa...
Um cantar de pneu vindo do fim da rua e um estrondo bem mais próximo, já na casa ao lado, fez com que levantasse seu olhar da menina a sua frente, e com que esta se virasse ao perceber o arregalar de olhos dele.
Um carro esporte que vinha a toda velocidade havia se chocado com uma árvore quase à porta de sua casa. Várias pessoas começaram a sair da casa dos , correndo para ver o que havia acontecido, mas pararam em um raio de 5 metros de onde havia ocorrido a batida.
Um bêbado, trôpego e sem nenhum arranhão saíra do carro logo depois, ainda desorientado. Este ficou em choque ao perceber que sua namorada não tivera a mesma sorte e estava cheia de cortes e com um machucado feio sangrando em sua cabeça. Lá estava , cheia de sangue no banco do passageiro.
Talvez fosse o silêncio que, em fim, começara com o maldito som da festa, nesse momento com a canção New Rules da Dua Lipa, sendo desligado, ou talvez fosse a reação inútil dos supostos amigos do casal, que eram popular a ponto de realizar um evento daquela proporção em plena quinta-feira. Essa popularidade parecia inútil naquele momento, já que ninguém fez nada para ajudá-los, todos simplesmente ficaram em inércia devido ao choque.
Olhando em volta para toda a imobilidade a sua volta, nem que fosse para ligar para o socorro, empurrou Taylor sem jeito para o lado, quem estava encarando a cena com uma mão à sua boca em torpor, e saiu correndo para onde o carro esporte de colidira lateralmente com a árvore, fazendo com que esta se envergasse perigosamente na direção do carro.
Paralisados. Era assim mesmo que podia ser descrita a reação de todos os estudantes que observavam a cena com certa distância. Mortificados, eles não tiveram reação alguma, até o momento que correu para o carro, puxando a porta amassada que estava mesmo a ponto de desabar após o impacto; tirou uma inconsciente dos escombros.
— Liguem para a emergência! — Gritou ele, carregando-a para o gramado mais próximo e deitando-a com cuidado em seu colo. A menina já despertara, mas piscava como se estivesse sonolenta.
— Ei, ei, ei... — segurou nos braços ao vê-la um tanto inquieta, embora mole em seus braços, procurou os olhos da garota, que mesmo coberta de sangue, brilhavam numa intensidade de tirar o fôlego. — Tá tudo bem. O resgate vai chegar em pouco tempo.
...
— Não precisa dizer nada. Fica quietinha — sussurrou perto de seu rosto, alisando involuntariamente alguns fios de cabelo da garota retirando alguns estilhaços de vidro que continham nele.
... — viu ao longe se aproximando, e Taylor, atrás dele, segurava-o, já denunciando o estado crítico pela bebida, e também o motivo da batida. O namorado da garota, por um momento, quis levantar e bater em , sem saber o porquê; não entendia sequer o porquê de estar ali. Era como se tivesse que estar.
— Leva ele pra longe, Lausen — gritou em direção a eles. — Ela precisa de ar!
— É minha amiga, !
— E ela vai ficar bem se você permanecer longe! — urrou, voltando seu olhar a , que o encarava, piscando lentamente, agora com os olhos cheios de lagrimas.
— Não fecha os olhos, , por favor — voltou a sussurrar. — Eu sei que é difícil, eu já sofri um acidente... — Sorriu nervoso, ele podia sentir o tremor por dentro de seu corpo, tentando segurar ao máximo. — Mas você precisa ficar acordada. — A garota piscou algumas vezes, deixando uma lágrima escorrer. sentiu o peito apertar pela demora dentre as piscadas. — , você precisa continuar acordada para me mostrar as outras “verdades”... — murmurou. — Eu prometo que dou uma chance para minha mente complicada, mas você precisa continuar acordada, por favor. — A menina piscou mais algumas vezes. — Eles precisam de você.
Ouvindo o som das sirenes, o garoto parou de falar e suspirou um pouco mais aliviado. Os paramédicos pegaram a menina com cuidado colocando-a na maca. O menino não pensou duas vezes ao insistir em ir junto à ambulância.
, muito cansada, ouvia a voz suave de a acalentando, porém como se estivesse debaixo d’água, quase não conseguindo distinguir em palavras o que ele tentava lhe dizer. A cada piscada parecia que estava se afundando ainda mais em uma escuridão silenciosa. A última coisa que viu foi a face preocupada de , com seus olhos azuis cheios de desespero. Piscou uma última vez mergulhando no vazio da inconsciência.




Capítulo 3 - Um Novo Começo


O som ritmado de uma máquina bipando acordou para a claridade do recinto hospitalar, todo pintado de branco e azul bebê. O cheiro forte de antisséptico, característico de instalações como o Hospital Saint Mills, inundou suas narinas assim que inspirou profundamente. Após abrir os olhos, escaneou onde estava e o porquê disso.
Após acolher os sentidos externos, passou a checar como seu próprio corpo estava. Uma faixa de gaze cobria um corte com alguns pontos em sua cabeça, que pulsava um pouco, mas nada preocupante. Havia um hematoma atravessando seu corpo, a partir de seu ombro, onde o cinto de segurança havia feito pressão ao ponto de quase penetrar a derme. Além disso, pequenos cortes preenchiam seu colo e braços, devido aos caquinhos de vidro da janela que estourara durante a batida. Por fim, seu pé estava pendente com um gesso que ia até quase a altura dos joelhos.
Ajeitou a camisola que vestia ao levantar sua cama para a posição sentada, fazendo com que os bips de seu monitor cardíaco se acelerassem um pouco. Pegou o controle da pequena televisão que adornava o recinto, trocando de canais entediada, até que alguém bateu à sua porta, entrando logo depois, sem realmente esperar resposta.
Tom e Victoria adentraram o quarto, carregando diversas amostras de itens da cafeteria e dois cafés fumegantes. O homem quase derrubou tudo o que segurava ao ver sua filha sentada, parecendo muito melhor e sorrindo para ambos.
— Chame a enfermeira! — seu pai gritou num ruído esquisito, colocando às pressas tudo o que carregava no criado ao lado de sua cama. sentiu seus lábios arderem, ao sorrir abertamente ao vê-lo sentar-se ao seu lado. Mas aí, a garota lembrou-se do acidente, da responsabilidade que prometeu a ele, e foi diminuindo o sorriso que antes carregava. Tom acompanhou sua ação, confuso.
— Pai, eu sinto muito por isso...
— Do que você está falando, querida? — Entortou a cabeça, aflito.
— Eu devia ter previsto que...
— Não foi culpa sua, . Não foi culpa de nenhum de vocês... — O homem puxou a mão da filha, acariciando com o dedão. permaneceu em silêncio, fungando, a fim de segurar a pequena emoção, misturada com algo que ela não soube descrever, que lhe davam vontade de chorar.
— Como ele está? Ele está bem?
— Ficou apenas algumas horas em observação, nada grave... — comentou. — Eu senti tanto medo de perder.
O abraço que Tom finalmente lhe dera fora caloroso, do seu jeito de pai. Ele era cuidadoso até nesses momentos, e ainda mais carinhoso que sua mãe. Com delicadeza, o homem deslizou os dedos pelos fios de seus cabelos, trazendo uma paz que só o abraço de pai era capaz, aquele que ela não sentia há seis meses. conseguia sentir o coração do pai batucar forte no peito; seus olhos se encheram de lágrimas, fazendo com que ela precisasse apertar-se mais ainda em seu abraço.
— Eu chamei. , filha. — Ouviu a voz fina de sua mãe tocar seus ouvidos. Da mesma forma, desvencilhou-se dos braços do pai, que dera espaço agora a Victoria. Esta não esperou ou conversou, abraçou a garota fortemente, beijando sua testa inúmeras vezes antes de soltá-la. — Você quase me matou do coração, mocinha.
— Eu quase, de fato, morri, mãe. — Sorriu brincalhona, recebendo um olhar reprovador da mãe.
— Não brinque com isso. Se não fosse , você realmente poderia ter morrido. — No mesmo momento, entornou a cabeça, confusa. ? Seus pais conheciam ? A pergunta ricocheteou tanto que saiu em voz alta.
? Vocês conhecem o ? — perguntou numa gaiteada.
— Ele te trouxe ao hospital, , você não se lembra?

— Não fecha os olhos, , por favor — voltou a sussurrar. — Eu sei que é difícil, eu já sofri um acidente...

... — murmurou seu sobrenome, ainda confusa. Sua cabeça doeu de leve, por esse motivo tocou-a, confusa, fechando os olhos por um breve momento.
, está tudo bem? — Victoria segurou seus braços. A menina sorriu.
— Sim, eu só... — Suspirou voltando a olhá-los. — E Taylor?
— Ahn... — Tom levantou-se da cama.
— Finalmente acordada, Miss ... — Uma moça loira, de olhos azuis, cortou-os. — Estava ficando preocupada...
— De fato as ’s têm nove vidas... — Sorriu amistosa para ela.
— E você está prontíssima para viver mais uma. — Estendeu a mão para a garota. — Sou Callie , sua fisioterapeuta a partir de agora.
— Fisioterapeuta?
— Você quebrou a perna, vamos precisar tratar isso. É coisa de três semanas, você consegue. — Sorriu. — Bem, agora precisamos fazer uns exames e, se tudo estiver correto, você será liberada.
— Ok.
Ao aplicar calmante em para a averiguação, Tom e Victoria haviam-na deixado, ainda inconsciente, após ter sido atendida e terem feito uma bateria de exames para certificar-se que tudo estava dentro dos conformes.
Sortuda, haviam dito. Para os pais da menina, não tinha nada a ver com sorte, mas sim o contraste entre a irresponsabilidade do namorado da filha com a responsabilidade desta, ao colocar um cinto de segurança.
Orgulho. Isso foi o que sentiram de seu tesouro. Além de não possuir uma gota de álcool no sangue ao momento do acidente, havia confessado para eles, nada que um pouco de coerção não resolvesse, que havia entrado no carro enquanto tentava impedi-lo de conduzir nas condições em que se encontrava.
Tão logo o menino confessara, não dera nem tempo de despejar sua ira sobre ele, já que os malditos haviam ido buscá-lo no hospital, com uma horda de advogados os apoiando, para que sua imagem não fosse prejudicada. Desconcertante como fora, os s sabiam que sua filha nunca moveria um dedo para prejudicar , por mais idiota que fosse ou irritada que estivesse.
Nunca haviam aprovado o casal com todo o coração, mas sim com reservas. Não haviam dado para sua filha uma negativa, porém. Esta era conhecida por tomar suas próprias decisões em busca de sua felicidade e não adiantaria em nada expressarem-lhe suas preocupações, já que a criaram para não depender de ninguém e a seguir sempre o que achava ser certo, não importando o quanto o resto do mundo julgasse ser errado.
Este ensinamento havia trazido tantos problemas como benefícios, contudo. Um exemplo havia sido a ocasião em que tinha conhecido seu melhor amigo, ainda na época do jardim de infância.
A Escola Primrose era uma das mais conceituadas da cidade de Montreal, onde o casal viveu durante os primeiros anos da vida da filha. No pátio havia uma árvore muito antiga e imponente, porém que com o tempo adoeceu, tornando-se perigosa para os passantes. Dessa forma, o comitê escolar havia decidido cortar o mau pela raiz. , que sempre havia sido fascinada pelas flores coloridas e exuberantes da planta, havia invadido o perímetro de segurança posto até quando os guardas florestais fosse retirá-la e se prostrado ao lado da convalescente árvore, com seus bracinhos pequenos e gordinhos abertos para protegê-la.
O professor tentou convencê-la a sair dali durante um tempo e quando saíra para ligar para os seus pais, um bravo pequeno menino, novo no colégio, havia passado por debaixo da fita de segurança, parado à sua frente e haviam tido a conversa gênese de sua amizade.

“Oi, qual o seu nome?”
A menina olhou para ele confusa.
... Você é novo, menino?”
“Sim, sou o Nicholas”. Disse ele, abrindo um sorriso em que predominavam dentes ainda em crescimento.
“Quer me ajudar a salvar a Savannah?”
“Quem é essa?!” Perguntou o menino, agora sim confuso.
“A árvore! Na primavera ela mostra suas cores e no outono ela me deixa brincar com suas folhas! Você podia brincar comigo.”
” Disse Nicholas olhando triste segurando a mão da menina desamparada. “A Savannah está doente. Só querem deixar ela descansar, assim como aconteceu com a minha mamãe. O papai me explicou que eu sempre ia sentir falta dela, mas às vezes tudo fica bem, principalmente por causa da tia Kate!”
“Mas...” Falou a menina começando a duvidar de seu empreendimento. “Se cortarem ela, não vai machucar?”
“Não sei, ! Mas ela já está com dor. Vão plantar outra muito bonita no lugar. Não vai ser igual, mas vai ser legal também, igual à tia Kate!”
“Tá bom, Nick. Vamos brincar de pique esconde? Meus pais devem estar chegando agora”.
“Vamos sim! Você conta!”
se virou para a árvore contando os números que lembrava e assim que terminou, abraçou Savannah, despedindo-se para logo após correr procurando seu mais novo amigo.

***


Após o acidente, ainda teve que passar mais uns três dias no hospital, algo que a deixou profundamente irritada, já que estava perdendo aulas e tudo o que tomava conta, desde a Irmandade até a comissão de formatura. Porém, isso era melhor do que a alternativa de sair do H.S.M. no dia seguinte em um saco plástico preto.
Finalmente, depois de três dias de tédio passados com seus pais, que não a deixaram ter nenhum contato com algo que envolvesse trabalho, ela foi liberada pela médica, sob a promessa de voltar um dia ainda naquela semana para trocar o gesso pela bota imobilizadora, já que sua torção não fora muito grave, e para tirar os pontos. Além disso, teria que comparecer duas vezes por semana para fazer fisioterapia, recuperando a movimentação normal de seu tornozelo.
Tentou convencer seus pais que estava bem para ficar sozinha na fraternidade, porém fora uma perda de tempo. Eles ainda informaram-lhe que ela só sairia de sua supervisão quando passasse pelo menos uma semana sendo cuidada por eles.
Dirigiram até a ακν para que pudesse pegar seu material escolar e algumas roupas. Assim que chegaram, a menina suspirou aliviada, como se estivesse em casa após todo o pesadelo que se passou. Recusou a ajuda de sua mãe, dizendo-lhe que faria só uma mochila e que a chamaria para que esta lhe auxiliasse se fosse necessário. Pegou suas muletas e atravessou o pátio, chegando ao lobby estranhamente vazio.
Ouviu uns barulhos vindos da cozinha e pensou: é claro! O acidente fora quinta-feira à noite e, como havia passado mais três dias no maldito hospital, isso fazia de hoje segunda-feira, dia das reuniões do comitê organizador da Irmandade!
Foi sorridente, pensando em surpreender suas irmãs Kappas parando atrás da porta da cozinha, agradecendo o carpete macio que não denunciara sua presença pelo barulho das muletas. Quando estava prestes a entrar, algo que ouviu a paralisou no mesmo momento.
— Meninas, como presidente interina, eu demando que seja abordado mais um tópico: . — A voz de Taylor ressoou alta e clara, cortando o pequeno rebuliço de fim de reunião.
Ouviu-se um coro de aprovações e alguns resmungos, como se este assunto já houvesse sido discutido algumas vezes por trás dos panos.
— Já discutimos isso, Taylor. Não acho que uma ausência tão pequena faça necessário um impeachment, e não acho correto que estejamos debatendo isso quando ainda nem fomos visitá-la no hospital. Você ao menos ligou para saber como ela estava? — disse Courtney, com um tom incisivo. — Eu liguei, os pais dela me disseram que não demoraria a ela se recuperar, que ela tivera sorte e escapou sem danos permanentes.
— É claro que eu liguei, Courtney. — A garota pôde sentir as cordas vocais de Taylor vibrarem pelas paredes. — Olha... — Suspirou parecendo pensar, cerrou os olhos, engolindo em seco. — Nós somos uma fraternidade respeitada pela responsabilidade, estou certa? — Houve um coro de “sim” em diferentes tons. — Sabem por que, sofreu esse acidente com o ? — Um silêncio de três segundos se sucedeu. — Porque ela foi irresponsável, meninas.
O que?
sentiu o estômago revirar no corpo ao ouvir aquilo. É claro, Taylor não estava com ela no momento do ocorrido e da briga, entretanto, mais do que ninguém, ela deveria saber que a garota havia parado de ingerir bebidas alcoólicas nas festas de há tempos, ou melhor, mal ia às festas do “namorado” desde que... Respirou fundo, tentando controlar a respiração para ouvir o resto.
— Irresponsabilidade, Taylor? — Courtney bradou. — Eu estava lá, eu não...
Eu sou a melhor amiga dela. Acha mesmo que o não me contou o que ocorreu?
— O que você quer dizer?
— Que eles brigaram. — Taylor parecia nervosa, já a outra sentia seu sangue escorrendo quente nas veias. — Patrick viu que ela chegou um pouco... Fora de controle para cima do garoto e, após uma série de provocações, ambos acabaram entrando no carro e...
perdeu o controle bêbado, e todas nós sabemos disso, sua sorte é que ele tem pais influentes... — Outra garota tomou a voz de Courtney.
— Não interessa, Louise. Sabemos o quanto ela é controladora... Eu não duvido que ela tenha...
— Taylor, você não pode trazer argumentos com base em especulações! — Fora a vez de Alexia pronunciar-se.
— Ok — bradou, parecendo perder a paciência. — A questão é que os rumores estão rolando, e futuro da nossa fraternidade está em jogo por causa disso. Ou tomamos medidas drásticas, ou vamos aguentar o peso.
— E o que você sugere?
— Eu e Madison tomamos a liderança por um tempo, até se reintegrar novamente. E, depois disso, podemos fazer uma eleição correta.
— Você quer tomar o posto dela? — Houve um silêncio contínuo. engoliu em seco. Talvez fosse isso mesmo. Taylor era sua amiga oportunista?
— Esse posto jamais foi dela.
Ao ouvir o fim da reunião, apressou-se em sair da casa, entrando no carro onde seus pais a esperavam pacientemente e passando para a mãe a lista de coisas que pretendia pegar, sem condições de encarar as meninas que haviam falado dela em suas costas de forma tão seca, após anos vivendo juntas e empreendendo tantos eventos com sucesso. Com esse último pensamento, percebeu que nunca houvera realmente sido próxima de nenhuma delas. A única com a qual já houvera tido uma conversa sincera, havia sido Courtney, já que ela havia passado por um período difícil com a separação de seus pais, e só havia notado sua apatia, ouvindo todos os desabafos dela. Porém, ela mesma nunca havia se aberto para nenhuma de suas chamadas irmãs. Tudo o que faziam juntas era promover eventos, ir a festas e conversar sobre garotos, matérias do clube de estudos e frivolidades.
Não comentou nada com seu pai, olhando para o céu nublado fora da janela do carro enquanto esperavam, parados do outro lado da rua, ouvindo uma música tranquila. A menina estava quase caindo no sono devido a seus analgésicos, mas a cena de um conversível vermelho parando na frente da Irmandade fez com que esta arregalasse os olhos, reconhecendo o loiro que o conduzia.
carregava alguns arranhões, olhos caídos, parecia cansado e com muita pouca vontade de estar naquele lugar, porém isso não era uma novidade. Quase toda semana ouvia sempre a mesma conversa do garoto sobre não querer ir para aula, ter um momento dele, sem pressão e coisas do tipo; ela sentiu o corpo pesar só de pensar nele e em todas as brigas consecutivas que haviam tido por causa disso. Não que o pressionasse também, contudo, era adepta à teoria da sinceridade. só era daquele jeito, fora de controle, porque os pais não o deixavam viver, então, quando ele podia, realmente estourava a boca do balão, e foi nessa que o limite de fato atingiu-os, ainda mais forte do que todas as outras vezes.
Decidida, a menina saiu do carro, juntando suas muletas, murmurou um “já volto” para os pais e caminhou em direção ao rapaz, que agora saía do carro, caminhando um tanto manco até o gramado.

! — gritou. Não alto, mas foi o suficiente para vê-lo arregalar os olhos para ela. parou de imediato, entre seu carro e seus amigos. e ele pararam frente a frente.
... — O garoto analisou-a dos pés a cabeça, verificando todos os arranhões e a perna engessada. A menina sentiu seu pesar ao olhá-la.
“— Então por que você está comigo?”
“ — Porque você é a , porra!”

— Como você está? — perguntou, sorriu sem graça, deixando a mostra seu corte no lábio inferior.
— Como você acha? — Ela abaixou a cabeça. — Eu sinto muito, . — Houve mais um tempo de silêncio entre os dois. — Eu sinto muito por ter feito isso com você... Eu...
— Não foi o acidente. Você sabe disso, não sabe? — A garota o cortou numa respirada só, aumentando o tom de voz. Ele passou a língua nos lábios, fazendo uma cara de dor. — Eu não te culpo por ter batido aquele carro, longe disso, , o nome já diz: Acidente.
— Mesmo assim, eu...
— Você me prometeu — cortou-o novamente. Seu tom agora era magoado. — Você me deu sua palavra de que não ia sair do controle... Só isso que eu te pedi.
— Não foi tão fácil, você sabe disso.
— Se você tem problemas, por que não os resolve sóbrio, ?
— Ah, lá vem a controladora outra vez. — Juntou os braços, sorrindo irônico, copiou-o.
— Sim, isso você deixou claro. Também deixou claro que está comigo porque sou “a — Fez aspas. O rapaz continuou calado, abaixando a cabeça em seguida. — Não vai dizer nada?
— O que você quer que eu diga? Ahn? — Engrossou a voz.
— Como assim, o que eu quero que você diga? Basicamente você quis dizer que está comigo pelo meu status, , e...
— E não é isso que nosso relacionamento é? — O garoto abriu os braços. — Você não vê? Fomos penalizados pela nossa popularidade, ! Talvez no primeiro momento fosse amor, mas depois foi nossa imagem de “Casal modelo de Vermont”, e isso foi um dos motivos de estarmos onde estamos!
A garota ficou quieta por longos segundos, segurando as lágrimas que se formaram em seus olhos. Talvez devesse sentir mais do que raiva dele, como naquele momento. Talvez devesse sentir o coração doer por estar num relacionamento, porque era conveniente para ele, ou devesse sentir-se chateada por amá-lo, e ter descoberto que a recíproca não era verdadeira. Mas não estava chorando de raiva apenas dele, e sim de si mesma. Onde ela estava com a cabeça até aquele momento?
— Não, , não era amor nem no primeiro momento. — Apertou os lábios, secando o canto dos olhos.
! — Ouviu uma voz estridente, que chegara mais perto em segundos. não virou, apenas fechou os olhos em negativa, sentindo o olhar do rapaz a congelar. — Meu Deus, você está bem! Você acordou!
— E você deveria saber, já que ligou para saber como eu estava, não? — retrucou, assim que tornou a encarar Taylor. A feição da mesma enrubesceu e seus lábios se abriram esquisitamente.
— Do que você está falando?
— Quer saber, Lausen, esquece, estou cansada demais para isso. — Suspirou, dando as costas para ela.
— Você perdeu uma reunião do comitê e eu...
— Pega o comitê para você, Taylor! — gritou, fazendo todos os olhares voltarem a elas. — É isso que você quer? Oportunidade de sair da minha sombra? Eu estou te dando o aval! — ironizou. Taylor abriu a boca num “o” sem dizer uma só palavra. — Só cuidado para queda não ser dura demais.
— Isso é uma ameaça? — grunhiu.
— Encare como quiser. Você nunca foi boa em interpretações mesmo.
À volta para casa foi tudo menos silenciosa, assim que sua mãe voltou, resolveu que era o momento certo para que os atualizasse de sua vida acadêmica e de suas amizades. Fora algo doloroso para a menina contar para eles, sobre o término e sobre as poucas amizades verdadeiras que havia feito todos esses anos naquela faculdade, mas o fizera pela felicidade e pelo interesse genuíno de seus pais, que não costumavam abordar esse tipo de assunto nem quando ligavam durante as viagens ou durante suas visitas à casa de infância, na verdade, costumavam falar de amenidades e coisas aleatórias do dia a dia.
Quanto mais lhes explicava de seus projetos, mais tinha certeza de que havia perdido seus reais interesses e paixões para sua ambição, o que deveria fazer para alcançar o topo da carreira quando chegasse a hora. Entrara na Alpha Kappa Nu em vias de ser selecionada para a melhor empresa de advocacia de Nova York, a Baker Law. Sendo a presidente, sua contratação era dada como certa. Ainda, participara do comitê de formatura para ganhar visibilidade na Irmandade, e até mesmo seu relacionamento com nascera de um empurrão inicial do complô dos pais do menino com seus avós, que eram conhecidos de longa data e sonharam com o casal de poder que seriam. Foi ao tentarem se rebelar juntos pela pressão dos familiares, que ambos se uniram e acabaram sucumbindo aos objetivos deles.
Chegando ao lar dos s, seus pais foram andando para lá e para cá, ajeitando a casa para o conforto da filha, que teria de dormir no quarto de hóspedes. Ela não devia ter que enfrentar a escada para o andar de cima, e seria bom que pudesse ficar próxima à cozinha. Alheia a movimentação dos pais, sentou-se na espreguiçadeira que ficava no pórtico de sua casa, balançando-se com o pé bom, mantendo apoiado o engessado. Suspirou, pensando em sua infância e em como mudara da menina ingênua para quem quer que fosse hoje.
O som de seu celular tocando em seu bolso do casaco a retirou de seu estado contemplativo. Com a pulsação acelerada, retirou-o franzindo a testa ao ver que se tratava de um número desconhecido.
falando...
— Se você não morreu, está no processo. — A garota gargalhou, sentindo o coração acelerar de felicidade.
— Nick! — bradou. — Talvez eu esteja em processo mesmo... — disse, cessando o riso.
— Eu tive que me certificar de que você estava inteira... — murmurou. — Que merda foi essa, ?
— Ah... — Suspirou cansada. — Alguma coisa me dizia que eu não deveria ter ido. E, voilá! — Olhou para seu gesso, mesmo que Nicholas não pudesse ver.
— Eu sempre disse para você confiar nos seus instintos. — Ela apertou os lábios. — E o infeliz que bateu o carro?
... — falou o nome dele retoricamente, não que Nicholas não soubesse, mas sabia que ele não gostava do rapaz. — Bem, acho que está tudo acabado entre nós.
— Ele precisou quase te matar para você perceber que era cilada? — perguntou perplexo. — Poxa vida, você é uma garota tão esperta e tão burra ao mesmo tempo.
— Cheio de elogio hein, amigo? — brincou, o fazendo rir de leve. — Nem se trata disso... Foi de fato um acidente, mas... Eu percebi que era só uma imagem, entende?
— É o preço que se paga algumas vezes... Sabíamos que você corria o risco.
— Na verdade, eu não sabia.
— Pois agora sabe. — disse calmo. — Algumas coisas ruins acontecem para aprendermos. Filosofia de vida. Agora você vai conseguir peneirar bastante coisa, para o seu melhor. só foi uma delas. — pensou. Tinha Taylor, contudo, ficou cansada apenas de pensar nela, portanto desistiu de comentar com o amigo sobre um assunto tão inútil.
— É. Você tem razão. Queria que estivesse aqui — resmungou. — Pizza de Pepperoni e uma coca bem gelada era nossa tradição para situações como essa. Lembra?
— Como esquecer? — O garoto sorriu. — Eu posso fazer nosso ritual sozinho... — murmurou. — E você precisa descansar, os analgésicos ainda devem estar funcionando. Prometo que irei quando conseguir, e faremos isso.
— Falando como um médico, e fazendo promessas na mesma medida. — Ambos sorriram. — Te amo, Nick. Foi ótimo falar com você.
— Te amo sempre, maninha.

***


Dois Dias depois...

Até que não estava sendo tão ruim para receber toda a atenção e cuidados por parte de seus pais, que, enquanto não estavam trabalhando, arrumavam uma forma de passar tempo com ela, tentando a cada dia surpreendê-la com algo diferente para que esta não sucumbisse ao tédio de fazer nada o dia inteiro.
Sua mãe ofereceu-se para levá-la no hospital, porém, após a viagem que o casal havia feito à Kuala Lumpur, havia muito a ser feito em seus respectivos trabalhos. Seu pai estava todo atolado em sua empresa de advocacia, focada para crimes ambientais, e sua mãe estava com uma pilha de clientes para atender em seu consultório de psiquiatria. Então, disse simplesmente que poderia pegar um Táxi até o hospital e, na volta, algum deles poderia buscá-la.
Foi assim que horas mais tarde estava no banco traseiro do veículo, ficando tensa quando este começou a passar pela rua do acidente. A árvore em que colidira havia sido cortada, mas, fora isso, não havia nada que indicasse que algo de muito ruim houvesse ocorrido por ali. Era como se fosse só mais um dia normal em South Mills.
Olhava pelas janelas do carro, impressionada com a velocidade em que algo podia tê-la matado, mas que resultou no começo de um renascimento em sua vida; poderia ser transeunte, varrido para debaixo do tapete. Arregalou seus olhos assim que avistou uma silhueta familiar. Pediu ao motorista para seguir devagar o , em toda a sua glória, vestido com seu habitual casaco jeans escuro assim como sua calça comprida, uma blusa preta e seus All Star.
Abriu a janela, chamando a atenção do menino.
— Eu achei que quando acordasse você seria menos esquisitão... — chamou-o. virou o rosto assustado, relaxando-o em seguida ao ver quem era.
— Se não é , viva! — Sorriu com o canto dos lábios; ainda andava, enquanto o táxi acompanhava.
— Para o azar de alguns — ironizou. O garoto negou com a cabeça.
— Quase morreu e ainda é irônica?
— Mais uma característica dos s, . Para onde está indo?
— Saint Mills. — Apontou com a cabeça.
— Eu também! Entra aí.
— Ah não... Estou bem assim.
— Deixa de ser chato, !
— A última vez que aceitei sua carona, você acabou desacordada no fim da noite. — espremeu os olhos. — Minha má sorte passa, só para avisar.
— Então eu já estou infectada, nada que vá fazer muita diferença. Entra logo!

A contragosto, o garoto adentrou o carro. puxou suas muletas para um lado só, deixando espaço para ele, e, assim que a porta se fechou totalmente, o carro iniciou seu trajeto em velocidade normal, a menina tornou a olhá-lo com um sorriso animado.

— Obrigada. — Deu um soquinho de leve em seus ombros. franziu a sobrancelha. — Você me...
— Ah, sim... — Ambos se remexeram. — Era o mínimo que eu podia fazer. — Olhou-a. Por um segundo, o olhar por baixo dele deixou-a sem ar. — Ninguém se mexeu. Só ficaram te olhando e... — Suspirou. — Acho que tenho mais um tijolinho no céu — brincou, a fazendo rir.
— Eu não sei como te agradecer, sério, eu nem sei o que aconteceu e como...
— Ei. — entortou a cabeça, compreensivo, indicando que ela não precisava explicar. — Como você está? — cortou-a.
— Bem. Fora essa perna, estou me recuperando.
Seus olhares se conectaram por segundos incontáveis, até que o táxi avisou sobre a chegada até o hospital. desceu primeiro, retirando as muletas de , e, com a ajuda do mesmo, a garota saiu. O rapaz a sustentou pela cintura, apertando de leve aquela parte. ficou impressionada com o encaixe que sua mão se fez ali. Tentou não ser levada pelas suas emoções físicas — elas existem? —, e focou em andar de maneira apresentável naquele hospital, com suas muletas.
Isso fora motivo de graça para o garoto. brincava com o modo que andava, e tinha dificuldade para se manejar com aquilo.
— Eu até te acompanharia até sua sala, mas preciso resolver umas coisas e almoçar com a minha mãe... — cerrou o cenho.
— Está tudo certo com você?
— Não, está sim! — Ele riu, coçando a nuca. — Eu tenho que ir. Até.
— Até. — Acenou de leve, o vendo sumir pelos corredores.


***


A retirada dos pontos e do gesso foi muito mais tranquila do que esperava, então, para matar um pouco o tempo até o horário que sua mãe iria buscá-la, ela resolveu marcar logo o dia e o horário que se consultaria com sua fisioterapeuta.
Perguntou ao ortopedista se este sabia onde poderia encontrá-la, e ele havia respondido que provavelmente no refeitório, já que se tratava do horário de almoço para a maioria dos profissionais do departamento.
Fora isso que a trouxera ao refeitório lotado, com nada mais que o nome da moça da qual tinha lhe visitado quando acordou. Após rodar uns minutos pelas mesas circulares, finalmente avistou a mulher sentada sozinha à mesa.
— Doutora Callie? — perguntou , aproximando-se da mulher com um uniforme azul escuro.
A fisioterapeuta virou-se para ela com um olhar gentil, sorrindo, e oferecendo-lhe uma cadeira.
! — Abraçou-a de lado. — Tudo certo para começarmos?
— Digamos que sim? — Sorriu, sentando-se. — Tenho um tempinho até minha mãe vir me buscar, então...
— Ah, claro! — disse, amistosa. — Não é um bicho de sete cabeças, eu vou te devolver sua perna, prometo. Espero que não se importe, vamos dividir esse almoço com meu filho...
— Sem problemas! Adoraria conhecê-lo.
— Bom, ele foi buscar nosso almoço. Deve estar... — Olhou por cima da cabeça. — Aí está ele! , esta é...
?
?
Ambos disseram ao mesmo tempo, rindo em seguida com a coincidência. Callie alternava o olhar entre eles, parecendo surpresa e um pouco extasiada.

— Você está me seguindo? Preciso me preocupar, pedir uma ordem de restrição ou algo do tipo? — falou ele, tentando parecer sério, mas sem conseguir conter o ar brincalhão enquanto se sentava.
Ela deu um soquinho em seu braço contrariada.
— Não enche, .
— Parece que você me implora por isso, . Mas sério, o que faz aqui?
— Descubra você, Sherlock.
— Já retirou os pontos... — analisou ele, olhando para sua testa, agora não mais enfaixada. — E, pelo que eu vejo, o gesso também... — Desviou o olhar para sua bota ortopédica. — Fisioterapia com a melhor profissional de Saint Mills?
— É, não posso negar sua inteligência — brincou em deboche, o fazendo revirar os olhos. — Desculpa, Dra. Callie, porém seu filho é um porre.
— Ah, eu sei disso! — fez cara feia, abrindo sua refeição. — Pode me chamar de Callie... Mas, que coincidência! Vermont?
A menina assentiu sorrindo, trocando um olhar com o garoto.
— Ela é namorada do barulhento...
— Ah, o garoto dos advogados. — Acenou negativamente. — estava tão rodeado de advogados que achei que estava num episódio de Suits. — mordeu os lábios. — Sinto muito, querida. — Acariciou a mão dela.
— Ah não... Foi estupidez dele achar que eu poderia fazer algo contra. — dizia, olhando para as próprias mãos. alternava seus olhos da comida para ela.
— Ele é a estupidez personificada.
!
— Não. Tudo bem. tem razão. — A menina sorriu amistosa, um tanto triste, mas ainda assim gentil. Triste por lembrar-se da discussão que havia tido com ele. — A propósito, não estamos mais juntos.
e trocaram olhares intensos após a frase. Era quase mentira dizer que o garoto não havia ouvido sobre a discussão, ou, como eles gostavam de rotular, a “gafe” que a e , com um plus de Taylor, tinham dado no estacionamento de Vermont. Era só o que se falava após o primeiro período.
Sim. Naquela idade, naquele patamar, não suportava em como todos aqueles estudantes se comportam como crianças do ensino médio. A discussão entre eles só cabia a eles. Ver o fato sendo espirrado para todos os lados, de todas as formas, o deixava irritado. Uns defendiam , outros .
Não havia um time para seguir, como estavam fazendo, entretanto, se fosse para ser realmente sincero... Ele havia visto o acidente, havia presenciado o cheiro de álcool que exalava quando saiu do carro e o estado em que ele havia deixado , e, pior que isso, sabendo que ela não cheirava uma gota de álcool, sabendo que seus exames não denunciavam nem isso.
A culpa tinha sido total e completa de , e se a garota não queria culpá-lo, iria.
— Bom, podemos começar na segunda, faremos quarta, quinta e sexta, dois dias de descanso — Callie dizia roboticamente. Ambos não viram o momento em que ela retirou o caderninho, afastando a salada ceasar que havia acabado de digerir. Eles haviam se olhado por tanto tempo assim? — ?
— Ahn... Perfeito, Callie. — Sorriu, voltando-se a ela.
— Pode ser às dez da manhã?
— Eu acho que consigo me ausentar das aulas do crápula do Eddie por algumas horas...
— Eu almoço com você às onze e meia? — cortou-a.
— Claro, filho! — Alternou seu olhar entre eles. — Você pode se juntar a nós.
— Eu posso te dar uma carona. — sorriu, vendo passar a língua nos lábios.
— Eu não posso perder aulas do Eddie sem justificativa.
— A menos que você seja meu acompanhante — respondeu certeira. — É pegar ou largar.
— Estou mesmo vendo vocês marcarem de matar aula juntos? — Callie fechou o caderno. Ambos seguraram o riso, fingindo desentendimento.
é nerd demais para matar aula, Sra. . — Sorriu.
— Eu sou mesmo. — Encostou-se na cadeira.
— Não aja como se não tivesse vindo ver...
— Mãe... — pigarreou.
— Bom... Você pode encaixar isso no seu trabalho voluntário aqui. — Olhou no relógio. — Preciso ir. Beijos, crianças.
— Tchau — disseram em uníssono.
Em poucos minutos, ambos levantaram-se também. Mais uma vez com a ajuda de , juntou suas muletas. Ele limpou a mesa rapidamente e deu passadas largas até seu lado, rindo mais uma vez de sua falta de jeito com aquilo.
— Por que você ri tanto disso?! — perguntou num gritinho irritado. O garoto riu mais gostoso.
— Eu já usei. Você está fazendo isso errado — falou, enquanto ambos caminhavam. De supetão, a menina parou no meio do corredor com seu olhar raivoso.
— Tá me deixando sofrer e rindo da minha desgraça, ?
— Eu precisei aprender sozinho, ok? — Ele chegou mais perto, parando em frente a ela.
— É vingança?
— Dramática. — Rolou os olhos. — Vem cá. — puxou-a pela cintura sutilmente. sentiu o corpo vibrar. — Se apoia em mim primeiro. — Ela o fez. O garoto ajeitou as muletas da maneira correta. — Agora você coloca uma aqui. — Encaixou-a de um lado. — E a outra aqui. — Fez o mesmo.
usava certo, porém de uma maneira desconfortável. Digamos que a maneira do rapaz não era a “correta” em si, contudo, a mais confortável.
, você é meu anjo.
— Eu sei. — Ela riu, rolando os olhos.
— Meu e de muitas pessoas — murmurou. — Trabalho voluntário, huh?
— É. Além de estudar, eu gosto de passar meus dias aqui às vezes — comentou. — Eu fui te ver... — falou baixo.
— Alguém... Veio me ver? Após, você sabe...
ficou calado por um tempo, transparecendo sua resposta. Por mais alguns segundos, ambos ficaram calados. sorriu triste, sentindo o olhar de a fitar. Chegava a ser humilhante ter perguntado aquilo.
— Bom, então... Fechado? — cortou o assunto, sorrindo gentil.
— Eu acho que estou te devendo uma. — Deu de ombros.
— Você? — Ele sorriu, avistando a mãe de estacionar o carro.
— Eu — afirmou. — Sua carona chegou. Até mais, .

, você precisa continuar acordada para me mostrar as outras “verdades”... — murmurou. — Eu prometo que dou uma chance para minha mente complicada, mas você precisa continuar acordada, por favor.



Capítulo 4 - Novas Regras do Jogo

Nos dias seguintes, apesar do convite para almoçar junto aos s pós-fisioterapia, havia recusado intrometer-se nesse momento “mãe e filho” dos dois. Como sua tia também era da área da medicina, ela sabia como era difícil arrumar um tempo para passar junto a um profissional dessa esfera.
Podia nomear diversas ocasiões especiais em que a tia Lizzie não havia estado presente ou havia chegado tarde demais para aproveitar o tempo com a sobrinha. Por mais que Callie e houvessem insistido muito que realmente não era problema, achara melhor aproveitar um pouco mais a companhia de seus próprios pais, enquanto estes haviam feito um pacto de, ao menos nesta primeira semana, passarem uma refeição em família.
Para a família isso era algo raro. Afinal, a garota não morava mais com seus pais. De qualquer jeito, nem mesmo se ela dispusesse a visitá-los diariamente ela conseguiria a proeza de sentá-los em uma mesa para jantar. A menina havia tentado, porém, após a quinta vez chegando à residência e se deparando com ela vazia, sua paciência esgotou-se. Residência era o termo correto. Lar indicaria que algum laço teria sido formado com aquele local e moradia indicaria que seria algo de intuito permanente. Contudo, Tom e Victoria não se mantinham por muito tempo em South Mills. Suas viagens constantes não lhes permitiam esse luxo.
Quando era pequena e moravam na Província canadense de Saskatchewan — lugar onde nasceu — os s eram inseparáveis. Chegavam a ser tão unidos que seu melhor amigo, Nicholas, praticamente vivia com a família. Tinham uma linda casa com um quintal amplo, marcado pela correria das duas crianças tanto nos verões insuportáveis quanto nos invernos rigorosos da região. Nunca se esqueceria dos gritos de seus pais. Era um tal de “ e Nicholas Holt, voltem aqui agora para passar o protetor solar!” para cá e um “Crianças, não se esqueçam do casaco!” pra lá. Sim, pensou a menina, É possível que tudo mude em um piscar de olhos. Isso acontecera quando tiveram de se mudar para South Mills e, novamente, com o acidente. Parecia que um interruptor havia sido religado na cabeça de Tom e Victoria — algo que ela não presenciava fazia tempo — ante o perigo iminente de perder sua única filha.
Fora a fisioterapia, não estava com a menor disposição — ou vontade — de sair de casa para fazer qualquer coisa. Sua vida havia mudado drasticamente em um espaço muito curto de tempo e se jogar de volta no mundo seria algo muito custoso.
Por esse motivo, em pleno sábado, um dos dias de descanso da fisioterapia, a garota estava descabelada, jogada em seu sofá. Acabara de acordar na mesma posição em que havia caído no sono na noite anterior. Estivera assistindo o filme “O Júri”, seu mais novo programa preferido da Netflix — algo que não representava muito, visto que todo o dia ela mudava o vencedor dessa categoria. Ao despertar, nem se deu ao trabalho de levantar, simplesmente trocou a função da Smart TV para a televisão a cabo e passou os canais desinteressadamente, pensando na genialidade daquele filme que lhe fora indicado por seu pai.
Tom estava bem consciente da paixão da filha por tramas inteligentes, bem estruturadas e que envolvesse certo grau enigmático. O fato de o enredo tratar da área jurídica era o ingrediente final que lhe deu a certeza de que ela o curtiria. Dito e feito. Ou seria pensado e comprovado? Ambos tinham a tradição de maratonar filmes juntos, enquanto sua mãe ia direto para a cama, já que nunca teve a habilidade de ver filmes por muito tempo, ainda mais no turno da noite. Sua filha perdera a conta da quantidade de vezes que haviam combinado de assistir algum DVD, e a pobrezinha caíra no sono. Simplesmente não estava em seu DNA, então Vic aceitara esse fato e se deleitara que isso fosse acabar se tornando uma tradição de Tom com sua pequena.
Normalmente, conseguia ver ao menos dois filmes antes de começar a ceder ao sono, porém, desta vez — talvez devido aos analgésicos -, a morena apagara assim que os créditos começaram a rolar. Tom nem tentou movê-la, simplesmente buscou seu cobertor preferido do The Neighbourhood no quarto e cobriu-a, atrevendo-se a beijar sua testa com cuidado.
A garota interrompeu suas próprias divagações quando, finalmente, conseguiu encontrar um programa que lhe agradasse minimamente, aproveitando a sensação confortável de descansar sem preocupações nem compromissos. É claro que sua tranquilidade não duraria por muito tempo.
, o que ainda está fazendo nessas roupas de dormir? — perguntou Victoria, olhando para o estado deplorável da filha esparramada no sofá com sua bota ortopédica em uma almofadinha, enquanto, entediada, assistia ao reality show “Say Yes To The Dress” na tela plana da sala.
— SHHH, MÃE. O Peter está prestes a dizer para a Sarah o que achou do vestido que ela escolheu! — replicou a menina atenta à tela, desviando o olhar para a mãe somente durante um microssegundo.
Naquele momento eu congelei, sabe... O que poderia dizer para minha mulher, quando ela parecia tão feliz naquele vestido?! — falou o homem, com cara de nojo durante sua entrevista posterior.
Mas o que achou dele, de verdade? — perguntou a apresentadora, com um ar desinteressado quanto à opinião do homem, que parecia ele mesmo um Agostinho Carrara nas vestimentas.
É claro que odiei! O vestido parecia ter sido feito com pano de cortina. — disse o homem, torcendo o nariz, e fazendo com que começasse a gargalhar compulsivamente.
Victoria, estupefata, revirou os olhos e parou na frente da garota com as duas mãos prostradas em sua cintura, bloqueando a visão do programa.
— Não vem com essa, ! No começo eu até aceitei esse seu corpo mole de acordar e dormir nesse sofá dia após dia. Mas, filha, agora você já está com uma tala que permite muito mais mobilidade... E também não precisa mais de muletas! — repreendeu a mãe, coisa que há muito não fazia. Esta olhava para suas mãos, envergonhada. — Então pode muito bem sair para fazer algo com seus amigos ou, no mínimo, estudar na escrivaninha de seu quarto... — continuou a mais velha, apontando para a pilha de livros amontoados ao lado do sofá.
— Primeiramente, que amigos? — começou, ajeitando-se no sofá. Viu a mãe contorcer a boca. — E eu só volto para as aulas na segunda feira. Eu sei que é difícil de acreditar, mãe, mas eu sou prodígio e estudei nas noites que não conseguia dormir de imediato.
— Como assim não tem amigos? Você é a “Rainha” de Vermont, não é assim que dizem? — Victoria questionou, duvidosa. sabia que a mãe não havia falado aquilo em um tom sarcástico ou irônico, e sim por que, de fato, era o que comentavam. Há algum tempo, a fala lhe causaria o mínimo de orgulho, contudo, de alguma forma, a menina sentiu-se envergonhada.
Rainha de Vermont... — repetiu, soltando um risinho ao lembrar-se das falas de e Taylor na última vez que os vira. — Isso não quer dizer nada, você deveria saber. — Olhou-a. A mãe arqueou as sobrancelhas.
— Você tem a Taylor... , e até mesmo o , embora eu... Enfim... — disse, como se procurasse um argumento. — Filha, eu sei que você não procurou isso que você carrega e que, talvez, a pressão de tudo tenha os levado até esse ponto... Mas, se você não se sente confortável com tudo isso, por que está fingindo ser o que não é?
— O que você quer dizer?
— Eu conheço você — afirmou, passando a língua nos lábios. — E o que mais eu tentei te ensinar foi que...
Tentou me ensinar? — Foi a vez de rebater com a cabeça quente, algo que provavelmente iria se arrepender mais tarde. — Me diz se é possível ensinar alguém sobre algo, quando se não está presente? — ironizou, sentindo, por um momento, seus olhos arderem. — Vocês me fizeram acreditar que nada mudaria com a nossa mudança para South Mills... — Sentiu uma raiva esquisita esquentar seu corpo, lembrando-se do dia em que seus pais lhe disseram aquilo. — Eu não só perdi minha família toda vindo para cá, como perdi quem eu sou e, como um plus, me afastei do meu melhor amigo, mãe. — Engoliu em seco. — Não diga que tentou me ensinar algo, quando a única coisa que você estava fazendo era ajudar crianças de outros países, e não sua própria filha.
Victória ouvia tudo paralisada; tanto que, se não estivesse de olhos abertos, chegaria a duvidar se ela estava respirando. Por muitos segundos, só o que foi compartilhado entre elas fora o peso das acusações de da mais nova. Ou poderíamos dizer desabafo? Sim. Ela sentia-se perdida. , Taylor... Pensar que continha algo consistente e, de repente, tudo escorrera por suas mãos, fora como um choque de realidade para ela; daqueles bem grandes que, se não estivesse tão debilitada e precisasse de ajuda, fugiria dele.
Viu a mãe sentar-se ao seu lado com calma, tateando o sofá antes de fazê-lo, como se tivesse recebido uma notícia de morte. É... talvez fosse uma notícia de morte. A morte da sua hipocrisia.
— Eu... Eu sei que nós erramos. E muito — admitiu num suspiro, tentando se conter. — Mas, nem por um segundo, deixamos de pensar em você, filha, eu te juro. — Olhou-a. abaixou os olhos em direção ao nada. — É que você sempre foi tão... surpreendentemente você. — Victoria sorriu de leve ao lembrar-se da filha pequena. — Talvez sua autossuficiência nos tivesse feito pensar que nada que fizéssemos poderia te afetar tanto, , e eu sei que foi um erro, não porque você não seja, mas porque nós somos seus pais. — Fez uma pausa. — Sabe qual foi sua primeira palavra?
A menina balançou a cabeça em discordância, recebendo um afago da mãe nos cabelos.
— “Não” — soltou a mulher, meio rindo meio resmungando. — não nasceu pra seguir ordens. Não nasceu para depender de ninguém. Você é um espírito livre e consegue manter-se forte mesmo na mais difícil das situações.
— Eu senti falta de vocês, mãe, só isso... — murmurou chorosa.
— Eu sei, querida, eu sei. E prometo que estamos fazendo nosso melhor — replicou Victoria, puxando a menina para levantar-se. Esta se elevou, confusa. — Agora, arrume-se que teremos visitas.
— Posso saber quem?
— Você verá. — disse, retornando a seu tradicional tom enigmático.
É... Parece que o momento revelações acabou — resmungou , em um volume quase inaudível.
— Só vai se arrumar, . — O tom de Victoria não abria espaço para mais questionamentos.
— Tô indo... — Grunhiu a menina, a contragosto, tentando parecer brava, mas falhando em convencer sua mãe, que devia ser a pessoa que mais a conhecia no mundo.


***


Mais tarde naquele dia, desceu as escadas de casa sentindo-se renovada. Victoria tinha toda a razão, não era de seu feitio ficar enclausurada o dia inteiro; a menina tinha uma grande necessidade de produzir algo em sua vida que fosse significativo. Por mais que a presidência da Alpha Kappa Nu fosse somente um meio para atingir seus fins empregatícios, estava em seu elemento. A liderança e planejamento combinavam muito com sua natureza e ver seus grandes projetos se concretizando era algo que a deixava realizada.
Megalomaníaca, disse . Ela realmente gostava de estar no controle, mas por que isso tinha de ser algo ruim?
Sorriu para a doce cena de seus pais cozinhando juntos enquanto bebiam vinho ao som de uma melodia tranquila. Realmente queriam impressionar os tais vizinhos, já que haviam usado a prataria que costumavam guardar para ocasiões especiais. A garota, inclusive, recordava nitidamente de não haverem usado nem quando fora ao famoso jantar “conhecendo os pais da namorada”.
Com o começo da canção “Safari” de J Balvin — não combinando em nada com a música clássica que tocava anteriormente -, entrou no ambiente, balançando os quadris e acompanhando a batida latina. Bateu-os nos de sua mãe e deu um beijo na testa de Tom.
— Precisam de ajuda, pombinhos?!
— Mas é claro que sim! Está manca, não morta — brincou seu pai, pegando uma taça limpa. Com a declaração, e Victória soltaram um riso quase que sincronizado e alto. De repente, sentiu-se renovada. Seu velho pai das piadas, que inclusive deveria ter passado o dom para Nicholas, só podia. Seu coração pulou no peito enquanto ainda cessava o riso.
— À sua vida. — Tom ergueu sua taça já cheia, sendo acompanhado por sua esposa e filha. — E à nossa, por ter você. — Sorriu gentil.
A filha sorriu, provando o sabor levemente adocicado da bebida e, ao sentir sua língua ficar um pouco dormente, sentou-se à mesa de jantar, ouvindo seus pais enredarem em uma animada conversa sobre os eventos que ocorreram em sua viagem a Kuala Lumpur.
Em seu confortável e longo sweater vermelho, a menina afundou-se na cadeira, quase ronronando com a sensação de paz interior. Prendeu seus cabelos pretos ondulados em um rabo de cavalo e apoiou sua cabeça nas mãos, apertando os lábios escarlates em contentamento ao constatar o quão feliz seus pais pareciam com todas as loucuras de sua viagem. Se perguntava como devia ser bom viver uma aventura como eles viviam fazendo. Prometeu-se, naquela hora, que iria descobrir.
Uma campainha tocou, interrompendo Victoria no momento em que esta refutava a estimativa de Tom sobre quanto tempo ficaram perdidos em um bairro desconhecido, a pé e sem nenhum dinheiro ou meios de comunicação.
— Eles chegaram! — anunciou sua mãe, animada, largando o assunto anterior.
— Uhul! — disse , com uma animação claramente forçada, balançando os braços em falsa comemoração.
Sua mãe encarou-a, reprovando o tom irônico e brincalhão da filha e a repreendeu:
— Use a boa educação e simpatia que eu sei que tem, mocinha.
revirou os olhos, causando uma gargalhada de seu pai, e levantou-se para receber os convidados especiais. Ficou aguardando, abraçando-o de lado enquanto sua mãe atendia a porta e os conduzia à sala de jantar.
— Ah, muito obrigada. É claro que aceitaremos. — Puderam ouvir Victória entoando aos convidados enquanto se aproximavam do recinto.
Sua mãe chegou com as visitas e não hesitou em fazer as devidas apresentações.
, estes são Chloe e Gavin Anderson. — A menina acenou amistosamente para eles, desvencilhando-se de seu pai para aproximar-se do típico casal careta.
— Muito prazer, Senhor e Senhora Anderson.
— Ah, querida, não precisa dessas formalidades! — replicou Chloe, agitando suas mãos rechonchudas em negativa. Seu corte de cabelo channel acentuava o formato arredondado de seu rosto, fazendo-a parecer encantadora. Seu marido assentiu em concordância.
— E esse aqui é o sobrinho deles, Joshua Baker — continuou Victoria, toda sorridente. Algo no olhar de sua mãe fez um clique em sua mente, agora sim fazia sentido para a garota toda a ideia do jantar. Sua mãe estava armando para ela com o menino de cabelos castanhos, que estendia sua mão para cumprimenta-la.
— É um prazer conhecê-la, — falou o menino, sorrindo calorosamente, sem desviar os olhos dos dela enquanto beijava sua mão.
Qualquer outra pessoa que agisse dessa forma com alguém que acabou de conhecer seria provavelmente vista como esquisita. Porém, ser diferente combinava com Josh; desde seu olhar autêntico até suas vestimentas excêntricas, o garoto era uma discrepância ambulante de tudo o que os tios dele pareciam ser.
O sorriso do menino aumentou ainda mais com o olhar estupefato da menina, que ficou para trás quando todos foram receber um tour pela casa. Seus olhos arregalados seguiram Josh, que passou por ela para acompanhar os mais velhos, ouvindo um último sussurro deste enquanto ele virara o corredor “Isto vai ser divertido”.


***

Durante o jantar, recuperou-se do choque inicial — que o garoto já devia estar acostumado de causar nas pessoas, algo que ela apelidou de “Efeito Baker”.
— Então... — Gavin chamou a atenção para ele com um pigarro. — Onde você estuda, ?
— Vermont — respondeu direta. — Curso Direito lá.
— Ah! — Bebericou seu vinho. — Uma advogada na família, que beleza. Josh acabou de entrar, resolveu inscrever-se nas políticas públicas dali, ouvi dizer que é o melhor.
— Você esqueceu-se de mencionar que tem uma ala com seu sobrenome, . — As atenções voltaram para Joshua, que se escondeu atrás de sua taça, tomando um gole. Era coisa de sua cabeça ou os rapazes novos que estava conhecendo estavam parecendo testá-la?
— Sim. Meus avós... — murmurou num suspiro. — Não é nada tão importante.
— Uma ala é de grande importância, sim — Gavin falou, calmo, alterando sua feição de leve. — Só pessoas com grandes influências têm esse tipo de privilégio. Digo, não só influência econômica, mas educativa, no caso de Vermont.
— Meu tio é adepto do impulso do bem, como ele gosta de dizer — Joshua engajou no assunto. — Grandes vozes podem mudar o mundo. — Olhou para a garota diretamente. — Ouvi falar do projeto beneficente com o hospital de South Mills...
— Bom, alguém quer sobremesa? — Tom adentrou na sala de jantar animado, depositando uma grande torta holandesa, a melhor que Victoria sabia fazer, ao meio da mesa.
O assunto fora cortado, porém, a conexão com Joshua, não. não diria física ou algo relacionado à flerte, mas neural. Sim, suas mentes trabalhavam da mesma forma e ela sabia que Joshua a havia entendido em poucas palavras.
Grandes vozes poderiam mudar o mundo. De alguma forma, todo aquele assunto estava deixando-a cada vez mais inquieta.
Ao terminar a refeição, Josh e já estavam rindo e fazendo caretas um para o outro, como se fossem velhos amigos. Por mais que ele fosse atraente, ambos pareciam vibrar em uma mesma sintonia em torno da expectativa de uma amizade das mais duradouras e genuínas.
Ao final da noite, enquanto os mais velhos conversavam de maneira calma na cozinha tomando um vinho guardado especialmente por Tom, os dois seguiram caminho até a varanda, onde se sentaram. Com a ajuda de Joshua, a menina conseguiu abaixar-se sem que causasse desconforto em sua perna danificada, e, assim, ambos se puseram a olhar o céu daquela noite.
Por longos minutos, continuaram quietos na presença um do outro, apenas sentindo a brisa da quase madrugada. Passava das onze da noite, o que queria dizer que o jantar tinha rendido e a conversa estava ótima. sentiu-se bem ao pensar nisso, logo voltando seu pensamento a Joshua.
— Posso te perguntar uma coisa? — cortou o silêncio, tombando a cabeça nos ombros. O garoto olhou-a.
— Não tenho namorada — contou. riu, revirando os olhos.
— Não. Eu não estou interessada, Josh.
— Manda.
— Você não tocou no nome dos seus pais... — começou cautelosa. — Quero dizer...
— Eu meio que fui expulso de casa. Não é algo que eu gosto de contar dentre as conversas — cortou-a. Ambos endireitaram a postura, atentando-se ainda mais ao que ele tinha a dizer. — Eu sei que você deve estar pensando: “como eles podem ter te expulsado?!” E, não, eu não uso drogas, ou bati o carro... — riu ao ver a careta do menino a ela.
— Então, o que aconteceu?
— Eu só queria cantar. — Soltou um riso tristonho num tom meio óbvio, indicando que aquilo não era o fim do mundo para ele. — Só que, para quem tem pais que possuem uma empresa de grande porte, cantar não é uma coisa boa. — Fitou-a. — Eu me recusei a fazer economia e ainda mais a viver a pressão da empresa do meu pai... Eu só tenho dezenove anos, ... Eu não vou perder minha vida dentro de um terno, recebendo ordens de um pai obsessivo por dinheiro. — Negou com a cabeça, voltando a olhar para o céu. — Então eu disse a eles, que me deram um ultimato: ou isso, ou procurar outro lugar para morar. Eu acredito que eles pensaram que isso iria me intimidar. — Voltou a olhá-la. — Cá estou eu.
— Nossa — a garota balbuciou. Aos poucos, um sorriso surpreso e admirado surgiu em sua face, o que fez Joshua querer abraçá-la apertado. — De onde veio toda essa coragem? Aí está uma coisa que eu não tenho — debochou de si mesma.
— Todos nós temos, — Josh afirmou. — Você só tem que seguir seus instintos.
— Ok. Então, o que está fazendo em Políticas Públicas? — perguntou confusa.
— Vermont foi uma das universidades que eu consegui bolsa integral quando prestei a prova — explicou. — South Mills e meus tios pareceram cair do céu. Eu ainda vou fazer música, posso me concentrar nos dois... Só estou tentando começar de alguma forma.
— Bem... Eu tenho uns contatos no Waack, e também...
— É a Rainha de Vermont?
— É. Isso também. — Rolou os olhos.
sorriu ao ouvi-lo dizer aquilo. Foi como se Nick estivesse ao seu lado, e não Josh. Não que a companhia de seu novo “amigo” fosse ruim, aliás, ser comparado a Nicholas Holt era um enorme elogio, pelo menos para ela.
Josh continuou contando sua história.
Sob pena de ficarem ainda mais isolados, os Anderson acolheram o menino, que legalmente era considerado emancipado, porém sempre considerariam como filho. Não precisava de muito para identificar seu amor pelo Baker, apenas o modo como os olhos de Gavin se iluminavam ao falar do talento do sobrinho e o número de vezes que Chloe o elogiava em uma frase entregavam tal sentimento.
A história de Josh fascinou os , principalmente Victoria, que sabia como era sentir-se uma estranha em meio à sua família de sangue. As reuniões com os parentes geralmente eram tensas, e tinha a impressão que não continuariam ocorrendo se não fosse ela. Sua mãe nunca a privou de ver seus avós, porém, sempre deixou claro o que pensava deles, nunca fazendo pressão para que a menina concordasse com ela.
Com a ida dos Anderson, recolheu-se para seu quarto e, quando já estava em sua cama pronta para se deixar levar para o abrigo da inconsciência, esticou-se para desligar o abajur ao lado da cama. Deteve-se, porém, ao ouvir o vibrar de seu celular à cabeceira.
“E como está minha irmãzinha essa noite? Espero que esteja pegando leve na bebida, dona , não é aconselhável misturar com seus remédios!”
“O que te faz pensar que estou festejando, Nick? Eu mudei, agora sou sem sal que nem você. ”
“Ha. Ha. Muito engraçado, .”
“Estou falando sério! E se eu fosse você, seria bem legal com a morta-viva aqui, ok? Fiz outra amizade hoje que pode muito bem te substituir.”
“Até que enfim me livrei do entojo. Quem é o coitado? ” Mandou Nick, segundos depois, fazendo a menina gargalhar baixinho para não acordar ninguém.
“Vizinho novo. Ele é músico. E muito original. ”
“Todos sabem que sou insubstituível... Nem vem com graça.”
“Se você está dizendo...”
“Agora vou indo. Não me esqueci da visita que prometi, Kiddo. É que a situação aqui na Universidade de Montreal está apertada, você sabe que minhas aulas começam muito antes das suas.”
“Eu entendo... Boa noite, Nick.”
“Bons sonhos, .”


***


Apesar de sua decisão de ser mais sociável, passou domingo descansando e preparando-se para toda a agitação que viria com sua volta às aulas. Não estava esperando uma recepção muito calorosa após tudo o que ouvira na Casa da Alpha Kappa Nu; se suas próprias irmãs a viam como a culpada pelo acidente, ou pelo menos haviam aceitado a absurda teoria propagada por Taylor, imagina o resto do corpo docente.
Nem o queridinho da faculdade nem a fraternidade dele, a Sigma-Tau, poderiam ser prejudicados por uma menina problemática. Provavelmente era assim que a estavam chamando. não esperava ter apoio algum de seus colegas universitários, então simplesmente seguiu o conselho de sua amiga virtual, Hanna Edwards. Para se preparar para a guerra, o primeiro passo é ir às compras. A mãe de lhe acompanhara, mesmo esta não sendo adepta ao consumismo, mas concordara em auxilia-la nessa expedição à busca de um estilo mais seu, que não a lembrasse tanto de sua vida antes do acidente.
Foi assim que, no dia seguinte, saíra de casa em seus novos trajes de batalha. Ao andar para a calçada, tomou um baita susto com um alto rangido de moto saindo da garagem dos Anderson. Josh parou com sua Ducati 1098 vermelha a seu lado e retirou o capacete, fazendo uma reverência para à menina assim que desmontou do veículo.
— Alguém levou a sério o “seguir os instintos”?
— Quem sabe? — piscou.
— Gata, você está... durona — falou, absorvendo a total extensão da jaqueta de couro, as botas do mesmo material e os óculos escuros. Claro que uma das botas era ortopédica, mas, com aquele visual, certamente ninguém ousaria levantar um dedo contra a .
— Valeu, Josh. Você também não está nada mal.
— Eu faço o que posso. — Sorriu o menino, dando-lhe uma piscadela. — Quer uma carona?
— Não posso... Vou para a fisioterapia. Não vejo a hora de tirar essa bota horrível.
— Não está tão ruim — disse ele, fazendo uma careta. Ela encarou-o de braços cruzados até vê-lo se contorcer e virar a cabeça com um meio sorriso divertido. — Ok... não discutir com uma mulher em seus trajes de guerra, já entendi.
— Obrigada por oferecer mesmo assim... Talvez na volta, veremos.
— Quando quiser, princesa — terminou ele, estalando os lábios e colocando o capacete, em seguida arrancando com a moto em alta velocidade.
acenou novamente, olhando o vulto vermelho da Ducati desaparecer pelo vidro traseiro do táxi, este que fora pedido para levá-la ao hospital que ficava na direção oposta de Vermont. Mais uma vez, ficou tensa ao entrar no território dos , só relaxando minimamente após passar pela casa dos . Sem ali para distraí-la, a viagem até o hospital, mesmo não sendo longa, pareceu durar muito mais do que antes.
Percorreu o caminho até a ala de Fisioterapia que, após três sessões com Callie, já sabia de cor. Mancando em sua bota, em parte acostumada com a velocidade reduzida que agora levava para se locomover, fez seu caminho perdida em pensamentos.
— Bom dia, !
— Bom dia, Callie! Aqui está seu café.
— Você é um anjo, menina. Meu filho tinha que arrumar uma garota como você! Vivo dizendo isso para ele
— Acho que não faz bem o tipo do replicou, já arrumando-se na posição pedida.
não tem tipo. — Callie riu humorada. — Eu sou suspeita para falar, mas acho que isso o torna diferente dos outros — falou, fazendo uma pausa antes de começar os exercícios.
— O que você quer dizer?
— Ele é assim desde pequeno. Vê além do que um rosto bonito ou qualquer coisa exterior que possa chamar a atenção de pessoas normais. Ele ama fotografia por isso, para mostrar um mundo em que ele vê, pelos olhos dele... — A mulher parecia imaginar o filho enquanto falava dele. ficou encantada. — Bem... essa é uma desculpa que ele não pode me dar.
— De eu não fazer o tipo dele?
— Exatamente. Então, teve alguma dor?
Começaram a sessão tranquilamente, com os exercícios para ajudar no aumento da mobilidade do tornozelo. Callie explicava algo sobre estar trabalhando a flexão plantar e a dorsiflexão a partir da articulação talocrural. Basicamente tratava-se de uma movimentação dos pés para frente e para trás. A medicina tendia a complicar tudo. Naquele dia, a mulher parecia estar em um ótimo humor e ia anotando observações em seu caderninho.
... Hoje eu gostaria de tentar um exercício diferente para a liberação miofascial dos movimentos e trabalhar a fáscia, um tecido resistente e flexível que cobre a musculatura do corpo. É normal sentir desconforto no início — explicou metodicamente, enquanto pegava um rolinho de almofada que usaria.
— Está sentindo alguma dor?
— Não...
A médica abriu um sorriso brilhante e estalou a língua, satisfeita.
— Tenho boas notícias, . Parece que superestimamos sua lesão. Temo que tenha que continuar usando a bota ortopédica dentro de casa, até recuperar a segurança na passada. E terá de fazer banho de contraste... algo simples, só pegar um recipiente com água gelada e um com água quente, em intervalos de tempo determinados alternar o tornozelo entre um balde e outro. Mas... não precisa mais usar a bota fora de casa. A senhorita só precisar vir para cá uma vez por semana agora, para que continuemos cercando todas as possibilidades de piora. Fora isso está liberada.
— Obrigada, Deus! — agradeceu ela, abraçando a doutora com carinho. — Tive a melhor fisioterapeuta do mundo, é isto.
— Só aceito o agradecimento se aceitar almoçar conosco hoje.
— Se esse é o caso, eu aceito, com certeza.
Ao chegarem ao refeitório, já estava as esperando sentado em uma mesa, concentrado na leitura do livro “A Guerra dos Tronos”.
— Game of Thrones, ? Bem...
— Nem começa, Benji está me obrigando a ler esse tijolo.
— Realmente, de tijolo em nossa mochila já basta nosso Vade Mecum. — Ambos riram e o menino levantou-se para abraça-las.
A menina adquirira naquele curto intervalo de tempo uma confortável proximidade com o garoto, fazendo com que o contato físico fosse algo frequente, mesmo que para , nunca fosse suficiente.
O abraço de foi caloroso e apertado. Devido à sua altura, ele gostava de recostar seu queixo no topo da cabeça da garota. Era assustadora a forma como seus corpos pareciam ser um molde perfeito um para o outro.
sentou-se, dando uma olhada no livro do menino enquanto aguardava que , de forma atipicamente cavalheiresca, buscasse seu almoço, algo que ele planejara fazer assim que chegassem, já que havia comprado sua própria refeição antes.
Assim que começaram a comer, um diálogo desenrolou-se naturalmente, abordando a recuperação da garota, o livro que estava começando a ler e, finalmente, Benjamin, o líder da Ominikron e melhor amigo do menino.
— Daí, eles dois chegaram com carinhas de inocente para mim, como se eu não estivesse percebendo que a fumaça que eu sentia estava vindo do quarto de , onde eles...
— Ah, mãe, já disse que não foi de lá que veio!
— Me poupe, , eu tenho cara de palhaça por acaso? — Pausa. — Não responda. — Eles caíram na gargalhada.
Enquanto Callie cumpria seu dever materno de contar as histórias mais vergonhosas da infância de seu filho, em sua maioria acompanhado de Benji, o olhar dos dois adolescentes se cruzou. O dela iluminado com divertimento, o dele frustrado e com pontadas de constrangimento.
Após uns segundos, ambos pareceram cair em si que encaravam um ao outro de forma muito intensa, quase não sendo despertados pelos bips do pager de Callie. Ao ver o que estava escrito, esta franziu a testa e despediu-se rapidamente de ambos. Os mais jovens levantaram, empilhando as bandejas, e foram juntos em direção à saída.
Ao ver que a menina mancava, lhe lançou um olhar enigmático e ofereceu seu braço para que esta usasse de apoio. Ela agarrou-o, sorrindo em agradecimento. Caminharam em silêncio por alguns momentos. olhava furtivamente para o menino vez ou outra. Quando ele começou a fazer um biquinho de descontentamento na milésima vez que esta tropeçara, ela não se conteve de perguntar o porquê de tal atitude.
— O quê? — perguntou ele, parecendo perdido.
— Terra para ! — Estalou os dedos. — Perguntei por que está com essa cara esquisita.
— Minha cara é esquisita mesmo, , se acostuma.
— É... Mas está mais que o normal.
— Obrigada pela parte que me toca... — tropeçou pela milésima vez, sendo segurada pelo menino. Dessa vez, ambos de fato pararam, e ela tombou a cabeça nos ombros. a entendeu com o olhar.
— Ah, não é nada demais, .
— Me fala, vai... — pediu com a voz fina, inclinando a cabeça para o lado.
— Você vai achar estranho.
— Juro que não vou.
— É que... sinto saudade de suas muletas — admitiu ele, mordendo o lábio. A garota pensou ter visto algo a mais nos olhos dele, porém preferiu não o pressionar.
— Você sente falta de rir de mim as usando, sádico! — replicou ela, rindo e dando um tapinha no ombro dele com sua mão livre. Ou, ao menos, foi o que tentou fazer, porém suas pernas não lhe acompanharam no movimento, fazendo com que ela acabasse grudada a ele, segurando-se com as duas mãos na camisa do Guns n’ Roses para não deslizar ao chão. Se a proximidade já era mais avançada do que estavam acostumados, ela ficou sufocante quando ele a puxou para ainda mais perto, segurando-a firmemente pela cintura.
Apesar do pânico que sentiam em seus íntimos, o olhar que dedicaram um ao outro não foi, em tudo, envergonhado, também tinha um grau de luxúria palpável. Mas não era só isso. Havia algo de certo. Era como se , a sabe-tudo, ex-líder da porra toda na Universidade, e , o garoto mais reservado de Vermont, com um ódio ferrenho à popularidade, pertencessem um ao outro, por mais clichê que isso parecesse. A sincronia dos dois foi confirmada quando inspiraram profundamente, se dando conta desse fato, e partilharam do mesmo pensamento em uníssono, “MAS QUE MERDA”.
— Ah, se não fosse eu — sussurrou, sentindo seu nariz roçar ao dela. Não podia perder a compostura, jamais perdia a compostura.
— Ah, se não fosse você — devolveu na mesma medida, sorrindo de lado em seguida.

***

A viagem até a universidade foi tranquila e silenciosa. Cada um sentou-se em um extremo do banco passageiro do táxi e, tão rápido quanto ele começou a se mover, mergulharam em seus próprios pensamentos conflituosos.
ruminava o quão errado era um ter um crush logo no . Ele era tão... reservado; odiava se meter nos assuntos dos outros, enquanto ela era extrovertida e queria encontrar a cura para tudo. A conclusão que se aproximava era a mesma. Não tinham como ter algo, representava tudo o que ele combatia, certo?
Essa resposta nem a menina sabia dar. Antes do acidente, ela nem hesitaria em afirmar um sólido sim. Contudo, nem ela mesma estava ciente de quem era, mas sim que o que quer que tivesse se transformado, não equivalia à sua verdadeira essência.
Em seu âmago, sabia que antes de pensar sobre como resolver sua paixão pelo , teria de sanar suas dúvidas internas sobre quem ela era e pelo que queria lutar. Ao mesmo tempo, resolvera que iria tentar conhecê-la antes de qualquer possível envolvimento. Mais fácil falar do que fazer, já que, mesmo agora que haviam se separado, ele ainda conseguia sentir o perfume dela, uma mistura leve de flores com sabonete de lavanda. Tudo o que queria era simplesmente reduzir a distância entre eles e experimentar sua boca atrevida, que já ousara implicar com ele tantas vezes.
também não estava imune ao quanto o menino a seu lado era atraente. Seus quadris ainda queimavam onde ele havia segurado, destruindo sua sanidade mil vezes enquanto imaginava a reação que ele teria se naquele momento ela simplesmente houvesse o empurrado na parede e eliminado o espaço entre suas bocas.
Foi por esse motivo que, assim que chegaram a Vermont, ele ajudou-a até o elevador — que milagrosamente estava funcionando —, e partiu para as escadas dizendo que a veria na sala. Como tivera que ser dispensada do primeiro período de Constitucional, a menina somente tinha mais três períodos para enfrentar, então provavelmente conseguiria segurar seus pensamentos o suficiente para absorver a matéria. Ou pelo menos era isso que repetia insistentemente no elevador.
Assim que saiu dele, porém, trombou com um apressado, que estava justamente tentando chegar à sala antes da garota. Ambos suspiraram profundamente frustrados com a repetição da cena de mais cedo. Não se sabe qual dos dois começou a se mover primeiro, entretanto, segundos depois, seus lábios estavam a centímetros um do outro e quando ambos pensaram “Foda-se”.
— Ok. É de propósito? — Parou.
— O que é de propósito? — entornou a cabeça, pensativo. Ele precisava urgentemente beijá-la.
— Essa aproximação... — puxou um pouco mais de ar. Ao ver a instabilidade dela, o rapaz se aproximou, exatamente como tinha acontecido no hospital, mas agora tomando conta da situação.
— Essa?
— O que você está tentando fazer?
— Eu nada. — Entortou a boca. — E você?
— Eu...
O sinal soou, trazendo-os de volta a realidade ao passo em que, ao notarem estarem quase, mas quase beijando, arregalaram os olhos na mesma medida. apressou-se a entrar para a sala, enquanto , assim que a viu sumir, recostou-se na parede atrás de si, tapando o rosto e seguindo a apertar os olhos, como se isso fosse o ajudar a voltar de fato à realidade dele.
Que porra estava acontecendo ali?
— Quase no fim do poço em, ? — Ouviu ao longe. Não precisou abrir os olhos para bufar. A voz enojada de Taylor era inconfundível.
— Deve estar falando de você?
— Que falta de educação.
— Ah, sinto muito, patricinha, te magoei? — debochou, endireitando-se novamente. Taylor devolveu sua pior careta a ele. — Passar bem, Lausen.

***

As aulas de Processual Civil II e Comercial I foram tão conteudista que mal teve tempo de pensar em qualquer coisa a não ser anotar. Dessa forma, ao entrar na sala de Direito Civil IV, e se deparar com Taylor sentada na terceira fileira, próxima às grandes janelas que davam para o pátio, a menina percebeu que não havia pensado em como faria agora que sua antiga “segunda em comando” se demonstrara uma verdadeira víbora.
Ponderou por um tempo à porta da sala, porém, assim que Tay fixou seu olhar nela, quase a desafiando, ela não teve escolhas senão sentar na segunda fileira, como de costume. Sua aula favorita, a última do dia, até que se revelou tranquila. A “fura-olho” e nova presidente das Kappas não fizera nada para implicar com a menina à sua frente. Não havia nenhum resquício da malícia de mais cedo, o que achou suspeito, contudo, não reclamou.
Mesmo também sendo dedicado à faculdade, era do tipo que preferia assistir a aula dos fundos da sala, onde se sentia mais livre para observar a classe como um todo. Esse fato corroborou para a saída apressada de , visando evitar outro incidente com . O autocontrole deles já havia se revelado extremamente falho e testá-lo novamente tão cedo seria um erro.
Chegando à calçada, observou um vulto vermelho de uma Ducati vindo em sua direção e suspirou aliviada com o pensamento de voltar para casa depois de um dia tão confuso. É claro que Taylor não podia deixar que a menina ficasse em paz e foi assim que Josh chegou, sorrindo para a amiga enquanto tirava o capacete escuro, que a víbora decidiu dar o bote.
— E a roleta da não para... Cuidado, amiga — disse Taylor como se estivesse lhe contando um segredo.
— Por que você não arruma alguma coisa fora do meu radar para fazer, Lausen? Ou só consegue se realizar na minha sombra mesmo? — retrucou, não conseguindo medir seu tom de voz, inevitavelmente atraindo mais alunos passantes para observar o circo pegar fogo.
— Sua sombra? — Sorriu. — Eu sou presidente da AKN agora... Onde está sua popularidade?
— Bem, isso não é mais da sua conta, amiga. — Sorriu.
Taylor levantava questões que nem mesmo sabia responder.
— Quem é você mesmo? — Josh começou em sua defes,a enquanto uma memória lhe atingira.
— Oi? — Taylor parecia afetada.
— Alguém aqui pode me dizer quem é essa? — Fez alguns gestos estranhos apontando para Taylor. — Essa pessoa aqui na minha frente.
Amiga da ... Sucessora da AKN — respondeu uma das pessoas.
— O nome? Alguém sabe? — A menina recuou. Josh voltou a olhar Taylor ainda com sua cara de nada. — Então, amiga da , sucessora da AKN, eu acho que você devia ir se concentrar em você mesma... porque sua identidade você já perdeu...

“Posso estar julgando errado, ,
só acho que você é muito mais do que uma presidente
do comitê que comanda meninas sem cérebro.”

A lembrança do que lhe falara no Waak — antes de sua vida virar de cabeça para baixo —, fez com que endireitasse as costas, abrisse um sorriso sacana e sibilasse:
— Tudo bem, Josh... Vamos.
Quando viu que Lausen continuaria a discussão, deu sua cartada final, calando-a de vez.
— Ah, Taylor, depois me passa o número do senhor Johnson? Sei que você o conhece muito bem, principalmente com sua dificuldade em Constitucional no período passado.
Para completar, a menina caminhou até a loira sussurrando um claro aviso em seu ouvido: “Não se esqueça de que eu sei todos os esqueletos debaixo do seu armário. Assim como eu ajudei a enterrá-los, posso trazê-los à superfície em um estalar de dedos. Game Over.
— O nome dela é Taylor — gritou para todos que estavam presenciando a pequena discussão. — Taylor Lausen. — Olhou-a. — É bom gravarem esse nome.
Finalmente botando o capacete, ambos aceleraram na Ducati até desaparecerem no horizonte.

***


A ameaça de parecera surtir um efeito em Taylor, a ponto dos próximos dias se passarem sem mais barracos. Não que não houvesse recebido muitos olhares feios da loira e seus minions, mas ignorá-los era fácil. Nem sempre fora a Rainha de Vermont, até o ensino médio era somente uma garota nerd como qualquer outra, que não se importava muito com socializar e focava somente nos estudos. A preocupação com a média se manteve, agora com a tentativa de obter o maior C.R. possível. Porém, quando finalmente se formara e comparecera à festa de formatura, percebeu que saíra somente com o diploma daquela escola, não fizera nenhuma amizade duradoura ou que valesse a pena manter. No telão retrospectivo, somente aparecera nas fotos individuais — por estar liderando algum comitê ou ter obtido a maior pontuação nas suas provas de vestibular. Assim, ela decidira que não ficaria mais na sua. fora em grande parte responsável pelas suas amizades em Vermont, já que se conheceram pouco antes do começo do primeiro período pela influência de seus avós.
Com suas conexões e poder dos sobrenomes e para a Universidade de Vermont, construir sua popularidade fora menos complicado. Além disso, os poderes de de organização e planejamento lhe renderam rapidamente um lugar entre as Kappas. não estava muito atrás, possuindo as amizades e a lábia necessária para ocupar um cargo na Sigma-Tau.
Naquela noite de sexta-feira, passava um batom vermelho, olhando-se no espelho da penteadeira do quarto em que estava ocupando temporariamente na casa de seus pais, e acabou borrando o delineado ao ser assustada pelo barulho de pedrinhas em sua janela. Viu o reflexo de seus próprios olhos arregalando-se para o espelho e largou o cosmético, correndo e mancando para a porta de casa. Escancarou a pessoa pelo olho mágico, confirmando suas suspeitas e dando pulinhos de animação.
Nick, você veio!
O garoto — que estava recostado no pórtico da casa, olhando para o céu — virou-se, sorrindo para a menina. O sorriso transformou-se em uma careta e em uma gargalhada incontrolável.
— Já acabou? — perguntou a menina de cara fechada, lembrando-se do batom borrado, pegando um guardanapo em seu bolso para limpar o rosto.
Nicholas inspirou fundo, tentando recuperar a expressão e a pose séria. Porém, não conseguiu manter tal fachada, desatando a rir até seus olhos lacrimejarem.
— Eu... Eu... chego aqui e... você... vermelho... — tentou explicar o homem, somente parando de rir quando a menina abriu uma carranca e começou a fechar a porta, resmungando foi bom te ver, mas já deu.
— Espera — chamou, segurando a porta.
Ela abriu-a novamente, soltando um ligeiro sorriso por ver seu melhor amigo em Vermont, após mais de um ano sem vê-lo. Abraçaram-se carinhosamente, entrando na casa silenciosa.
— Onde estão seus pais, palhacinha? — indagou ele com um olhar divertido, até receber um soco no peito.
— OUCH! Para quê foi isso?
— Você sabe muito bem o porquê!
— Mas, sério... — Sorriu ele, cedendo. — Onde está o tio Gavin e a Tia Vic?
— Onde você acha? — Revirou os olhos.
— Brighton e Hove — entoaram em uníssono com uma voz enjoada.
Os mais velhos tinham a tradição de todo início de lua cheia viajar para o condado de Brighton para visitarem as falésias de giz. Ela e Nick dividiam-se nas teorias do por quê. A mais provável delas tinha sido que eles haviam decidido isso viajando no baseado em alguma das suas viagens Hippies.
— Eu vi que era lua cheia — disse ele, parecendo pensativo. — Mas pensei que, por causa do acidente...
— Sabe como eles são — começou a menina, dando de ombros e se jogando no sofá. — Agora que posso tirar a tala para sair de casa, não há nada mais os prendendo aqui.
— Ei... Não fala assim, maninha. — retrucou triste, sentando-se a seu lado no sofá.
A menina resmungou uma resposta inteligível e cruzou os braços, fazendo um biquinho descontente.
zinhaaa — falou Nicholas em uma voz enjoada. — Sabe o que dias ruins e seu Nick aqui pedem?
— PIZZA DE PEPPERONI E COCA COLA GELADA! — gritaram juntos.
Nick não aguentou o sorriso enorme que ela abriu e desatou a fazer cócegas nela.
— N..Nickk... P-Para!!! — berrava sem parar.
— OK, OK! Parei — disse, com as mãos estendidas em rendição quando o jogo se inverteu.
— Podemos pedir ou ir buscar a pizza... Você estava se arrumando para algum compromisso?
— Bem... Hoje decidi que iria tirar um recesso das minhas atividades como Kappa, então planejava terminar de buscar minhas coisas na casa da AKN antes de fazer o pedido formal.
— Entendi... Podemos ir, eu te ajudo e pegamos uma pizza no caminho de volta. O que acha?
— Agora deu preguiça — admitiu com um suspiro, claramente fazendo drama.
— Preciso começar com as cócegas de novo? — perguntou Nick, com as mãos ameaçadoramente fazendo movimentos de cosquinha.
— A preguiça passou, EU DIRIJO!

***


Chegando à Alpha Kappa Nu, e Nicholas entraram com a cópia da chave que a garota ainda possuía. Enquanto Lausen não trocar as fechaduras para me excluir de vez, pensou ela, revirando os olhos.
Entraram, tentando passar direto pelo salão comum para as escadas de mármore, mas, como não eram invisíveis, alguém acabou os vendo.
? — perguntou uma voz doce.
Ambos começaram a andar mais rápido, porém, não escaparam da autora da voz.
— Espere. É você, não é ?
— Oi, Alexia — respondeu sem graça quando a menina entrou na frente deles, junto a Courtney. — Court...
... Como você está? Eu liguei para o hospital, mas seus pais disseram que ainda estava desacordada.
— Estou bem, na medida do possível pelo menos. Eu sei que vocês não estão envolvidas nessa babaquice de impeachment, então não precisam se preocupar. Ah, esse aqui é meu melhor amigo e “irmão” para todos os efeitos, Nicholas Holt.
Apresentações feitas, a menina explicou o motivo para ter entrado na casa daquela forma e avisou que no dia seguinte entraria formalmente com o pedido de recesso de suas atividades na Kappa. Conversavam no depósito onde Taylor havia mandado levarem suas coisas, enquanto dobrava roupas, e Nick estocava o carro com caixas.
— Não dá esse gostinho para a Taylor, ! — falou indignada. — Você não fez nada de errado.
— Eu sei, Alex, mas... Não é o momento certo para eu fazer isso. Não sei mais o que eu quero.
— Isso é a maior besteira que já ouvi! Você ama tudo o que faz aqui. Os eventos, o planejamento, a liderança... E é ótima nisso, ainda por cima! — replicou.
— A Alexia está certa. Desde que você saiu da liderança, nossos fundos tem ido para o ralo. A Lausen é uma sem noção, consumista e compulsiva.
— Obrigada pela lealdade de vocês! Onde estão todas, falando nisso? Hoje não é a sexta-feira do pijama, como todas as do início de mês?
— Era pra ser, mas... — As meninas trocaram um olhar de dúvida, se deveriam ou não abrir a matraca.
— Falem.
passou aqui com o Yan e o Patrick, e é claro que Cathy, a cara metade do Patch, também veio junto. Eles falaram algo sobre uma festa em Boston e levaram algumas das meninas. Depois que elas foram teve uma discussão enorme e muitas saíram para fazer suas próprias coisas.
— Quem foi com eles? — perguntou , sentindo-se um pouco confusa e traída.
— Lausen, Emma e Madison.
— Lausen e os minions, você quis dizer.
As meninas assentiram em concordância. Nick, que já havia chegado após descarregar a última caixa, observou sua irmã de coração, chegando à mesma conclusão que ele em sua mente. Foi até ela, pôs suas mãos em seus ombros e encararam-se, tendo mais uma de suas conversas telepáticas.
“Tem certeza disso?” — O olhar dele pareceu questionar.
“Não, mas não tenho mais certeza de nada” — Ela pensou com sua expressão confusa, contudo, determinada.
— Ok, eu topo — anunciou ele em voz alta, fazendo com que as três meninas pulassem de susto. Alexia e Courtney, por estarem admirando a conexão que os “irmãos” pareciam ter, e por estar perdida em seus próprios pensamentos.
— Topa o quê? — indagou Courtney, confusa. Sua expressão se espelhava à da morena a seu lado.
— Vamos para essa festa! — explicou , com um ar definitivo. — Quer dizer... Se alguma de vocês souber onde fica...
O olhar desanimado de suas amigas quebrou toda a energia positiva que havia criado. Até que uma lâmpada se acendeu na mente de Alexis.
— Já sei como podemos conseguir essa informação! A Emma foi com eles e ela me deve uma.
abraçou seus três amigos, subitamente animada de novo, e cada um partiu para um lado. Nick, para comprar bebidas, afinal, se entrariam de penetras, pelo menos podiam levar cerveja, não é?! E as meninas foram se arrumar. vasculhou as caixas que estavam no Land Rover até encontrar o top e a saia preta colante que estava procurando. Não era nada que a Taylor usaria, mas tinha seu ar sexy sem ser vulgar. Ok, talvez só um pouco vulgar, mas a quem ela queria enganar? Finalmente estava solteira e não levaria isso levianamente. Agradecendo mentalmente já estar maquiada e com botas que combinavam com seu look, fechou a mala do carro e andou em direção a casa, cantarolando uma melodia alegremente. É hoje!, pensou, Agora o jogo mudou.

Talkin' in my sleep at night
Makin' myself crazy
(Out of my mind, out of my mind)
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Falando dormindo à noite
Me fazendo ficar louca
(Fora da minha cabeça, da minha cabeça)




Capítulo 5

19:45 — Na Estrada — Em algum lugar entre Boston e Vermont...

Somebody mixed my medicine // I don't know what I'm on // Somebody mixed my medicine…”

— Não sei... — falou Nick, pensativo, olhando furtivamente para Court pelo espelho retrovisor. — Acho que se esse garoto realmente quisesse ele iria atrás mesmo, sabe... Uma vez, passei meses procurando uma menina no facebook só tendo o primeiro nome dela como referência. O ponto é que ele me parece um cara do time dos jogadores, Courtney.

“Bitch better have my Money // Y'all should know me well enough // Bitch better have my…”

Courtney acenou, desanimada, para Nicholas do banco traseiro do automóvel, enquanto jogava cartas com uma Alexia entediada.
— Eu imaginava, Nick... É só que ele ama me confundir. Uma hora me dá um gelo e na outra é todo fofinho comigo, sabe?

“Go ahead and say we're through // You used to always try to tell me what to do // I'll get another dude that look like you”

! Dá para parar de trocar a música? — perguntou o amigo, estalando a língua em irritação. — O modo aleatório existe por um motivo.
— Desculpe... — disse a menina com um biquinho, finalmente sossegando em seu assento no banco do passageiro. Começou a roer os cantos da unha quase que inconscientemente.
Nicholas olhou rapidamente para ela. Voltou seu olhar para a estrada, preocupado. Não sabia se comparecer àquela festa era uma boa ideia. já era imprevisível normalmente, mas agora... Ela não estava estável emocionalmente. Ele só esperava que isso tudo não fosse um grande erro que ele como deveria estar prevenindo.
— Ei, ... Não se preocupe, logo estaremos enchendo a cara e dançando pra cacete. Você nem vai ter tempo de se preocupar com nenhum deles — disse, tentando animá-la.
— Falando em beber, Nick, o que você comprou? — questionou , com o interesse renovado.
— Advinha — pediu, com um meio sorriso.
A menina o olhou sonhadora e na expectativa de que ele mesmo respondesse. Sua impaciência acabou por ser recompensada. Nicholas nunca a deixava no vácuo. Batucou com as mãos no volante e revelou exatamente o que ela queria ouvir.
— Heineken, é claro, a sua favorita.
Ela encarou-o com os olhos brilhando de empolgação.
— Obrigada, Nick! — falou, pulando de seu assento para abraçá-lo.
Nicholas, que dirigia, quase perdeu a direção do carro com o susto, fazendo com que as cartas que as meninas jogavam no banco de trás voassem por todo o banco com o movimento brusco. Todos começaram a rir com a adrenalina em alta.
— Você realmente tem um desejo de morte, né?! — perguntou bem humorado, porém, ao mesmo tempo, lançando um olhar assustado para sua amiga.
deu de ombros, rindo de nervoso, e olhou para a paisagem passando em alta velocidade em sua janela. Praticamente não era possível distinguir formas àquela hora da noite, porém as luzes que iluminavam a estrada pareciam dançar em uma bela coreografia sincronizada. Coreografia? Pensou a menina achando graça. Olha que eu nem bebi ainda.
— Também te amo, Nicholas Holt — resmungou, retomando seu bom humor naquela montanha russa emocional que estava passando.
— Ainda estou me decidindo sobre você, — retrucou ele, sorrindo para a menina que descansava seu queixo nos joelhos dobrados, finalmente sem a bota ortopédica que tanto odiava. Estava linda com os cabelos pretos voando ao vento. Ele deu uma última piscadela e voltou sua atenção para o caminho ainda a ser percorrido.
Alexia e Courtney que terminavam de juntar as cartas nesse momento, presenciando toda a cena do banco traseiro, entreolharam-se com sorrisinhos enigmáticos. Alex conhecia muito menos do que Court, mas mesmo assim já havia ouvido falar do tal “amigo de infância” inúmeras vezes, assim como as outras meninas da Alpha Kappa Nu.
— Eles dariam um belo casal, não acha? — sussurrou Alex, pegando o celular para checar sua maquiagem.
Courtney até fez uma careta pensativa por uns minutos, enquanto guardava o baralho para logo depois balançar a cabeça em negativa.
— Eles se tratam como irmãos, Alex... Acho que seria quase um incesto.
— Qual o problema disso? — replicou a morena com um sorriso malicioso.
A outra garota fez uma expressão chocada e riu baixinho para, então, voltar a uma fachada séria, porém provocativa.
— Acho que isso não devia me surpreender vindo de você.
— Ei! — reclamou a amiga, dando um soquinho no braço de sua amiga. — Mas você tem que admitir que Cesare e Lucrezia Borgia formavam um belo casal.
— Você é uma pessoa muito estranha, Alexia Bell. — disse Courtney, balançando a cabeça em descrença e colocando seus fones de ouvido.
Alex era a maior viciada em seriados. Não conseguia entoar uma frase que não fizesse referência a algum deles. Mesmo que isso não fosse muito a praia de Court, essa até que achava encantador. Ela mesma tinha esse hábito, porém com os livros que lia. Isso fazia com que muitas pessoas as achassem irritantes. Não era o único efeito colateral, porém. Courtney era uma daquelas pessoas que acreditavam em romance, destino e amores impossíveis. Por isso, acabava sempre ficando com os maiores canalhas que tentavam se aproveitar dessa sua característica. Mesmo assim, a menina também não era boba, já que quase sempre acabava percebendo estar sendo enrolada... Eventualmente. Porém, a essa altura, já estava recolhendo os caquinhos do seu coração quebrado. Alex, pelo contrário, sempre foi muito desapegada e admirava secretamente Court por conseguir essa proeza.
— Ei, Nick! — chamou Alex em um tom um pouco mais alto do que os cochichos que entoava anteriormente. — Falta muito ainda?
O menino pensou por uns segundos, olhando a hora em seu relógio e respondeu categoricamente.
— Eu dou uns quinze minutos.
— Obrigada! — Sorriu ela, trançando os cabelos castanhos claros, recostando a cabeça na janela e fechando os olhos. Deslizou para a inconsciência com uma rapidez de dar inveja.
— Por nada... — murmurou Nick, observando, satisfeito, uma placa que confirmava sua teoria.
“Boston/Massashussets- ¼ Hora”. Te prepara, Boston, que estamos chegando.

***


20:00 — Boston — Residência dos Edwards...

— Andy Edwards! — saudou , levantando um pack de cerveja que trouxera consigo.
, cara, quanto tempo! — respondeu o outro.
Ambos deram um meio abraço animado.
— Esse é o pessoal que eu falei que traria lá de Vermont! — falou, gesticulando para o grupo atrás dele, cada um segurando alguma bebida alcóolica. As meninas cochicharam e deram risadinhas quando o olhar de Andy desviou-se para elas.
— Podem entrar e bem-vindos à Boston!
Taylor foi a primeira a entrar na casa, como se esta fosse sua, e não tardou a expulsar um garoto de aparência oriental da poltrona onde queria se sentar. Como um falcão, observou o salão enquanto bebericava o drink que um pobre desavisado havia pegado para ela. Suas minions, Emma e Madison, ficaram dançando, mas mantendo-se perto de sua líder. Olhando em volta alheio à gafe, sorriu para o amigo e seguiu-o em direção ao bar, ao mesmo tempo em que se atualizavam nas novidades da Kingsley Montessori School. Em um dos surtos de seus pais, o garoto passara um breve período morando em Boston, o que lhe trouxera várias conexões na área. Entre elas, estavam alguns companheiros da escola em que Andy estudava. Na Kingsley, este era capitão do time de futebol americano e neste ano estaria se despedindo do colegial. Como amava brincar, Andy iria perder a virgindade universitária quando fosse para Columbia.
Conhecera Andy Edwards em uma das muitas festas que frequentava na sua época do colegial, e ficara surpreso sobre o quanto ambos eram parecidos. Após o primeiro porre juntos, tornaram-se parceiros de bebedeira e o resto era história. observou a festa já lotada, percebendo que seus amigos já haviam facilmente se misturado entre os presentes. Tal fato não era tão surpreendente, já que, assim como ele, tinham um assunto na universidade no qual eram versados, esse assunto era a arte da farra. Mesmo ainda sendo relativamente cedo, já havia uma considerável quantidade de pessoas presentes, dificultando que fosse possível encontrar qualquer um no meio de todos. Andy realmente sabia dar uma festa, constatou satisfeito com seu amigo, que secretamente ele considerava seu pupilo, porém que se o ouvisse falando isso, iria lhe meter o cacete.
, como vai a tal ?
— Bem, eu suponho — começou ele, emburrado. — Foi bom enquanto durou.
— Término difícil? — perguntou ele, adicionando alguns copinhos extras da tequila que já servia para si e para seu amigo.
— Sim e não — replicou o garoto secamente, olhando para o álcool como se fosse a solução de todos os seus problemas.
— Mais um motivo para beber, então. — respondeu Andy, dando de ombros e pegando o primeiro shot para virarem.
— E a Dakota, cara? — questionou , se calando assim que percebeu a carranca do amigo. — Ahn... À vida de solteiro! — brindou, levantando o segundo copinho com um meio sorriso forçado e virando a segunda, a terceira, a quarta... Digamos que algumas doses.
O Edwards não estava muito atrás, e minutos depois já exibiam enormes sorrisos, as pupilas dilatadas e berravam suas histórias de guerra para um pequeno grupo interessado que os observava de perto.
— Aí o Andy esbarrou no espelho da sala e pediu desculpas para o reflexo dele mesmo.
— Conta a sua do pato com o boné de cowboy, ! — Andy falou, enquanto ria descontroladamente.
— Essa parte nem foi a pior! Depois que eu cheguei a casa nesse dia, minha ex falou que tentei vestir o tapete do banheiro durante vários minutos, crente que era minha calça! A cretina ainda fez o favor de gravar para me mostrar quando eu fiquei sóbrio.
— E... — Os presentes observaram atentos em expectativa.
— Confesso que até eu ri. Não sei o porquê, mas eu ficava repetindo “Tá pegando fogo! Bombeiro em ação!”.
O grupo riu, começando especulações do porquê a história se desenrolara de tal forma, até que alguém os cortou curioso.
— E o Edwards, tem alguma dessas vergonhosas?
passou seu olhar malicioso do companheiro de time de Andy, que mais cedo fora apresentado como Jeremy, para o amigo supracitado, que começou a corar como um tomate.
— Ah... O Edwards não só tem, como elas são bem piores que as minhas. Eu diria até que perto dele eu sou recatado bebendo.
— Oh, ele já bateu o carro com a namorada dentro, então? — perguntou uma voz doce e familiar para o garoto, que fechou a cara, olhando para seu copo vazio, e começou a andar na direção da cozinha para evitar a autora do questionamento.
e seu grupo haviam a pouco chegado à festa. Nick fora guardar as bebidas com ela, enquanto as meninas foram se misturar um pouco. Fora no bar que > avistara a fonte de sua agonia nos últimos dias. Bem... Uma das fontes, pelo menos. estava se vangloriando de suas lendárias histórias de bêbado. Lendárias, era o que ele dizia. Ela nunca deveria ter-lhe apresentado à série televisiva How I Met Your Mother... Deveria saber que o bobão iria acabar se identificando com o personagem do Barney e ficar irritando seus amigos com tiradas dele, sem parar durante semanas. Ainda bem que esse efeito passara, ao menos enquanto estava sóbrio. A menina a princípio não planejava nem o cumprimentar, porém não aguentou a deixa que teve quando o maldito havia se atrevido a dizer que era contido bebendo. Se esse fosse o caso, tinha algo de muito errado no mundo. Era certamente o eufemismo do século.
Assim que terminou sua frase, teve que conter Nicholas, que largou os packs de Heineken na bancada de qualquer jeito, levantou as mangas compridas de seu sweater da cor de seus olhos e falou com um tom ameaçador.
— Ah, então esse é o tal do ?!
— Nicholas Holt! — começou a menina com um tom materno de bronca. — Não dê uma de machão que isso não faz o seu estilo. Não que você não possa brigar — parou ela, olhando para os músculos que não havia percebido anteriormente no menino. Na infância e na pré-adolescência Nick fora um magrelo, então de certa forma sua nova aparência era um choque. — Mas não quero confusão, só conversar com ele mesmo.
— Você vai ficar bem? — perguntou ele, franzindo a testa.
— Você me conhece, Holt? — Ele riu, puxou-a para um abraço apertado e beijou o topo de sua cabeça. Outra mudança, pensou a menina, surpresa. Ele espichara e muito desde a última vez que haviam se visto, em que só era uns dedos mais alto que ela.
Nicholas desviou o olhar para um ponto atrás da amiga, com seu olhar de flerte — aquele que a menina já conhecia bem de suas noitadas juntos —, deu um meio sorriso e contornou-a, murmurando distraidamente, sem esperar por uma resposta:
— Humm... Já que você está bem, vou checar uma coisa ali daquele lado da festa, ok?
Com isso, a menina deu de ombros e virou-se para procurar . Porém, percebeu que o grupo que antes estava ali, se dispersara e não havia mais sinal de seu namorado. Sua esperança retornou ao ver que um menino que antes estava com seu ex continuava sentado na banqueta do bar, bebericando uma cerveja e... Olhando para mim, constatou surpresa. Sua mente fez questão de lembrar-lhe que agora estava solteira e não havia problemas em notar como era o movimento da garganta do menino, enquanto este engolia lentamente sua bebida, a forma como a língua dele se movia rapidamente em busca de gotas órfãs que houvessem escapado na proximidade de seus lábios. Observar o belo garoto a distraiu momentaneamente de seus objetivos e, involuntariamente, aproximou-se dele enrolando os longos cachos negros de seu cabelo em seus dedos. Quando ela já estava muito próxima, trocaram olhares famintos por um segundo, até ouvirem uma tuba sendo tocada. Sim, uma tuba. Não sabiam de onde o barulho vinha, mas foram despertados do feitiço que os aproximara. Os olhos dele se arregalaram ao perceber a pouca distância que os separava, e o olhar dela demonstrava um claro pânico.
Pensa, . Pensa, . Pensa...
Uma lâmpada milagrosa acendeu-se na mente da menina, fazendo com que esta pigarreasse e retomasse a voz e a postura.
— Você viu para onde foi o ? — indagou ela. Sua voz estava rouca, quase como se estivesse tentando ser sensual. Concentre-se, ! Pensou, agoniada.
— S..Sim. Deve estar na cozinha, buscando alguma bebida do meu estoque particular. —respondeu ele, abrindo um sorriso.
— Obrigada — murmurou virando-se, porém logo sentindo uma das mãos dele envolverem gentilmente seu braço.
— Espere... — pediu, olhando novamente no fundo dos olhos dela. Após uns segundos, soltou-a envergonhado, parecendo só então notar o que fizera. — Ao menos me diga seu nome.
— replicou, sorrindo.
Ele esforçou-se para não fazer uma careta ao constatar que aquela era a ex-namorada de seu amigo. Percebeu ter sido bem-sucedido em tal façanha ao perceber o encarar da menina em expectativa. Quando ele lhe devolveu um olhar perdido, ela formulou a questão que pensara estar implícita. É... Parece que não...
— Seu nome — falou, como se fosse algo óbvio, e de fato era.
— Ah, perdão, me chamo Andy Edwards.
Ela simplesmente acenou e seguiu na direção que ele lhe apontara ser a da cozinha. Teria de ter uma conversa com e resolver aquela questão entre eles de uma vez por todas, aí sim se permitiria curtir a festividade.

***


20:50 — Cozinha dos Edwards...


pegou — trêmulo — a garrafa de Absolut debaixo da bancada, onde Andy lhe mostrara mais cedo. Olhou em volta para algumas poucas meninas que conversavam no local, deteve seu olhar sob elas por alguns segundos, mas balançou a cabeça, irritado. Onde estão as merdas dos copos dessa casa, cacete!
chegou não muito tempo depois para encontrá-lo bebendo direto da enorme garrafa de Vodka. Ambos suspiraram ao se verem.
, larga isso... Não tem o menor respeito pelo seu fígado? — perguntou ela.
Em resposta, ele bebeu mais um gole com um olhar desafiador. Ela somente aproximou-se e pegou o recipiente de sua mão, depositando-o na bancada perto da pia. Não encontrou muita resistência, o garoto somente a fitava com um olhar suplicante.
— Vamos — falou ela, puxando-o em direção à varanda dos fundos. — Um pouco de ar puro lhe fará bem.
Ele deixou-a guia-lo até o jardim, onde sentaram em uma namoradeira. Irônico, não é... Esse pensamento veio não só dele, mas dela também. parecia encarar todos os lugares menos sua direção.
... — chamou, na tentativa de chamar atenção do menino que fungou e olhou para o lado oposto ao que ela estava sentada. Ali, com os dois sozinhos, onde podiam ser somente quem são, e não o e a , ele não sabia mais como fingir. O pedido de desculpas que estava entalado em sua garganta, sua culpa, tudo o atingiu de uma vez, fazendo com que ele levantasse inquieto.
— Ei! — Tentou novamente a menina, parando- o de afastar-se segurando seu pulso.
Finalmente permitiu-se olhar para ela. A menina que sempre estivera lá por ele, mas que ele retribuíra quase matando em uma batida de carro.
— O que... O que quer de mim? — questionou com uma voz alta, porém vulnerável, quebrada.
— Eu só... Não sei, não quer ter um término decente? Mais do que qualquer coisa que tenhamos dito antes. Tinha alguma coisa entre nós e eu não quero deixar nenhuma ponta solta...
Ponta solta?! — ele a cortou com raiva, puxando de volta seu pulso que ela ainda não havia soltado. — É isso que eu sou para você, não é? Mais um problema a consertar.
— Claro que não... — murmurou ela, de forma audível para o menino cego de raiva.
— Então, o quê? Você me viu, o garoto babaca que não tem a coragem de enfrentar os pais para conseguir o que quer, e quis tentar me consertar?
Ela o encarou assustada com a lágrima que escorreu em seu rosto, a qual ele limpou com a manga de seu casaco, de forma desajeitada. Ela nunca,nunca, nunca mesmo vira chorar. Nem mesmo durante o enterro da avó dele, a única pessoa de sua família que ele realmente se importava.
— É isso? Sou seu projetinho? Só mais um empecilho para a faz tudo de Vermont?
— NÃO! — gritou ela, sendo pega pela emoção do momento.
Então o quê? — repetiu ele, desafiando-a com o olhar.
Meu amigo! Pensei que fosse meu amigo! A única pessoa de Vermont para quem eu realmente me abri sobre o passado. Que eu me conectei! Mas não. Você cometeu um erro terrível e eu te perdoei, mas não, você tinha que...
— Vo... Você me perdoou? — interrompeu ele, olhando-a como se ela fosse louca. Talvez fosse.
— Eu nunca deveria ter entrado naquele carro, . A culpa foi toda sua, contudo, eu também falhei contigo. Que tipo de pessoa não ajuda o namorado quando ele está mal, se esse sempre está lá por ela? Não me leve a mal. Você devia mesmo se culpar pelo acidente, porém pelo o fim do nosso relacionamento... Não. — disse secamente. — Não foi só por sua causa.
— Eu não sab..
— Não sabia, é? Claro que não, seu idiota! Nem me visitar no hospital você foi. — Pausou recuperando o fôlego. — Mas eu entendo. Seus pais chamaram o Rufus, não foi? Aquele homem é implacável. Suponho que não o chamem de Blindador de Processos à toa.
— Sim. Eu, mais uma vez, fui um covarde e não assumi meu erro. ... Me desculpa.
— Já foi. Eu estou viva, não estou? Inteirinha e o mundo pode respirar de novo — brincou ela ao se levantar e dar uma voltinha. Quando sentiu uma leve dor no seu tornozelo, sentou-se novamente o massageando e disse:
— Bem... Quase inteira. Porém, irei ficar bem. , falando sério, alguma hora você vai ter que enfrenta-los — começou, vendo o garoto ficar tenso. — Mas não vai ser agora, então relaxa. Vamos só aproveitar essa festa.
— Amigos? — questionou ele, estendendo-lhe a mão.
Ela riu, puxando-lhe para um abraço em vez disso. Bobão, pensou, revirando os olhos.
— Espera... Curtir a festa significa que posso beber, então? — perguntou com os olhinhos suplicantes.
Nesse momento, quase como em resposta à pergunta dele, puderam ouvir um barulho alto de uma discussão e o som de vidro se quebrando. levantou uma sobrancelha, cruzando os braços, indignada.
— Parece que já tem bêbado o suficiente nessa festa. Não exagera, — disse pigarreando.
foi fazendo seu caminho até a porta, porém parou ao perceber que não estava sendo seguida. estava virado olhando para o céu, no mesmo lugar onde ela havia lhe deixado.
— Hey... Você vem?
Foram novamente interrompidos por um tenso — e irritado — berro feminino.
“— QUE PORRA É ESSA? LOIRINHA, VOCÊ ESTÁ ME DANDO TRABALHO PELA SEGUNDA VEZ EM MENOS DE DEZ MINUTOS!”
Riram com o que parecia um surto feminino, para logo ignorarem o que quer que fosse a mais nova loucura ocorrendo na festa.
— Em um minuto — replicou docemente.
— Ok... — respondeu ela, estranhando esse lado contemplativo, recém-descoberto do garoto.
Ao entrar na casa, voltando ao salão, finalmente avistou Taylor, que estava sendo seguida por um garoto atlético e uma menina que gritava em plenos pulmões para a loira. Lausen estava tão envolvida na confusão que mal percebeu a presença de enquanto sumia pela festa. Ao voltar novamente à sala, porém, a morena foi parada por uma voz que não lhe era estranha.
— Ora ora, se não é , a Rainha de Vermont.
virou-se para encontrar a última pessoa que gostaria de ver naquela noite.
— Não pode ser! — retrucou, com um tom de surpresa exagerada. — Será, Hanna Edwards, a Princesa da Kingsley Montessori?!
Ambas sorriram com a brincadeira que nunca ficava velha acerca de seus status sociais. fora contatada por Hanna meses antes, porque a menina estava interessada em visitar Vermont como uma possível faculdade futura. passara seu contato para Andy, o irmão mais velho de Hanna, e ambas acabaram falando-se algumas vezes pelo telefone e muitas outras por mensagens. Entre os esclarecimentos das perguntas da novata, as meninas foram se afeiçoando ao encontrarem interesses em comum e passaram a confidenciar suas vidas uma à outra. O conselho de um estranho podia ser algo precioso quando se está tão absorvido em uma situação que não se pode enxergar claramente.
— Como está Boston? — perguntou, sentando-se em um sofá ao lado de sua amiga.
— Vai melhorar... Sempre dou um jeito. — respondeu Hanna, dando de ombros.
— Deixe-me adivinhar... Tem algo a ver com um demônio ruivo que assombra a Kingsley? — questionou , observando sua amiga rir logo em seguida.
— E o pior é que as pessoas da Kingsley são tão cegas que algumas nem a enxergam como demônio, e sim como líder. — reclamou a loira, fazendo com que desta vez a morena risse junto a ela.
— É... Na Alpha Kappa Nu não estão muito longe de elegerem um ser não-pensante para a presidência... — resmungou de volta, irritada. Uns segundos depois, porém, ao avistar uma face familiar ficar visível na pista de dança, se esfregando em um garoto qualquer, animou-se em mostrar à amiga de quem tanto reclamara nos últimos dias. Por falar do demônio, pensou, divertida. — OLHA QUEM VEIO! É aquela a Lausen — continuou, gesticulando para o embuste dançante.
— Não acredito que essa é a Lausen — disse Hanna, pensativa.
já ia lhe perguntar o porquê, quando sua amiga continuou, parecendo ler seus pensamentos.
— Eu já briguei com ela duas vezes essa noite, e olha que a festa mal começou! Ela quebrou uma garrafa e ainda estava se atracando com um doido no meu quarto.
A fonte do barulho tinha que ter sido a Lausen, imaginou , revirando os olhos internamente. Então a menina berrando era... Hanna. Com esse pensamento, a morena afeiçoou-se ainda mais pela amiga. Se havia algo que ela entendia era fazer barraco com a Taylor. E isso não era para qualquer uma amadora. Bem... Potência nos pulmões a Edwards tinha! Isso não podia negar.
— Não creio! — falou, levando inconscientemente a mão à boca.
— AI! — Ouviram um berro de dor destacando-se apesar da música alta, deixando Hanna, a dona da casa, alarmada.
, mil desculpas, eu tenho que ir ver o que foi isso antes que esses animais destruam minha casa! — Edwards soltou com um sorriso, dessa vez genuíno, para a universitária.
— Você é dona da casa? Pensei que fosse o tal do Andy... — falou , confusa. Hanna assentiu apressando-se para a cozinha.
— Isso! Andy é meu irmão mais velho! — disse, trazendo mais risadas.
ESPERA! Pensou, finalmente tendo uma realização nada animadora. Eu flertei com o irmão da Hanna?! Andy Edwards, o amigo de ... Sério mesmo?! Parece que eu tenho um tipo.

***


21:15 — Varanda da Residência dos Edwards...


Finalmente decidira retornar à festa, havendo recuperado um pouco de sua sanidade e, o mais importante, sua sobriedade. Não cometeria mais de uma vez o erro de ir muito além do seu limite na bebida. Principalmente com ali. Entrando na cozinha para retornar à festa, quase perdeu a cena de uma mulher abaixada catando cacos de vidro. Quase. Ele nunca se perdoaria se a tivesse perdido. Os fios dourados do cabelo dela insistiam em cair em seu rosto, encobrindo parcialmente sua face. Só a imagem da bela menina, mesmo que em uma posição nada sexy, o fez parar para encará-la. Ao perceber que esta não iria nota-lo se não falasse algo, resolveu tomar uma ação.
— Por que você estaria juntando essas drogas de caco? — perguntou meio secamente, mas dedicando a ela seu melhor olhar de: Hey, gatinha, estou interessado!
Ao contrário do de costume, porém, a menina não lhe devolveu o flerte, voltando-se à tarefa à qual estava tão atentamente dedicada em terminar.
— Bom, primeiro porque eu definitivamente não quero que apareça um SAMU aqui em casa — soltou ela, quase lhe assustando, quando finalmente o respondeu. Olhando para a pá no chão perto dela, abaixou-se para ajudá-la com a limpeza.
Enquanto trabalhavam, o riso dela quebrou o silêncio. Surpreso e encantado com o belo som que emitia, ele acompanhou-lhe.
— E também não estou muito a fim de ter sangue de idiotas nas paredes da minha casa — explicou o motivo da graça.
A resposta soou alarmes de confusão na cabeça do garoto.
— Espera, você... — Será que ela é a irmãzinha do Andy?
— Hanna Edwards, e você é? — disse a menina, confirmando suas suspeitas. Estava ainda mais linda agora que encaravam um ao outro, já de pé.
— Sou , eu vim de... — começou, perdendo-se nos olhos brilhantes da garota que o encaravam em expectativa. Ele parecia esquecer quem era perto da beleza que a pequena Edwards irradiava.
— Vermont — completou ela. O rapaz tentou recompor-se, tanto em aparência quanto inteligência. Ela deve estar me achando um completo idiota, pensou, franzindo a testa. — Ah... quer dizer, meu irmão me falou que viriam estudantes de Vermont... — terminou, sorrindo sem graça e corando.
Que bom, agora além de idiota, sou um babaca que a faz sentir-se desconfortável. Onde está o conquistador?! Não posso acredit...
Os pensamentos dele foram interrompidos por a voz — irritante — de um garoto qualquer, com uma máscara de cavalo. , acostumado com esse tipo de coisa aleatória que ocorreria em suas festas mesmo, nem piscou, mas divertiu-se quando Hanna fez uma hilária expressão confusa.
— Você tem um rodo?
— Pra quê? — questionou ela, para logo depois gargalhar com o relincho do menino, claramente embriagado.
— Tem uma ovelha no telhado — explicou o menino dando de ombros e pegando o rodo que o outro garoto lhe ofereceu.
— Quer ir ver essa ovelha comigo? — perguntou, sem nem tentar fingir desinteresse. Não estaria enganando ninguém, muito menos uma menina de aparência confiante como ela, a começar em como desfilava em seu vestido branco movimentando-se com a simples brisa, revelando um pouco mais das belas pernas que exibia.
Aproximaram-se do gramado do quintal dos Edwards que até piscina tinha. Ali estava lotado, um pouco mais do que o salão. Todos berravam em plenos pulmões um coro, quase um mantra de: “Vai Judite, vai Judite!”, enquanto uma ovelha — inflável — era cutucada pelo cavalo-homem de cima de uma escada com o rodo que pegara. não admirava só o show, mas também assistia atento a cada reação da menina, que já havia transmutado a expressão de surpresa, a irritada, a impressionada e completara o ciclo voltando a surpresa.
— Tem uma ovelha no meu telhado — disse ela, sem esperar resposta, como se estivesse confirmando o fato consigo mesma.
— Tem um pônei no seu quintal também — comentou rindo. Apontou para um dos convidados que parecia querer dar a habilidade de voar ao pobre animal. Inspirou fundo, orgulhoso de seu amigo Edwards, dando um meio sorriso para Hanna. — Realmente seu irmão sabe dar festas! — falou, satisfeito.
— Eu só queria saber onde eles estão arrumando tudo isso! — respondeu Hanna, com uma risadinha adorável.
Naquele ponto, a música estava tão alta que parecia que seus tímpanos iam estourar. Enquanto Hanna provavelmente se perguntava que merda estava acontecendo na casa dela, andava suspirando por cada loucura que presenciavam ao penetrarem a fundo na multidão sufocante. E, como era de se esperar, perderam-se um do outro em poucos minutos.

***


21:30

Após a conversa com Hanna, resolveu procurar seus amigos. Por sorte, Nick e Alexia estavam exatamente onde ela esperava, dançando adoidados na pista improvisada. Assim que aproximou, viu que Courtney bebia tranquilamente ao conversar com uma morena sentada no sofá, perto dos amigos dançarinos. Ambas pareciam estar discutindo um assunto como o da paz mundial, a julgar pela seriedade — ao mesmo tempo animação — que suas faces expressavam. logo foi envolvida por Alex e Nick que assim que a reconheceram gritaram cada um em um ouvido:
— EU AMO ESSA MÚSICA!
Ela sorriu para os dois, inicialmente dançando com a batida, mas logo depois arriscando uns movimentos mais complicados com seu parceiro, Nicholas. Era muito bom ter um amigo com quem ela pudesse dançar sem se preocupar com mãos bobas. Pelo menos não nos lugares mais íntimos. Nesse momento ela rebolava de costas para ele, enquanto o amigo descia o braço pela lateral de seu corpo lentamente, em seguida a girando e puxando Alex — que havia acabado de se pegar com um menino qualquer da Kingsley — para fazer um sanduiche em .
Mesmo que estivesse divertindo-se muito com seus amigos, a morena já estava toda suada e precisando se reabastecer de álcool. Assim que se virou na direção do bar em busca de uma bebida, a menina levou um choque. Andy Edwards a encarava com o que poderia ser mais bem descrito como fome. Há quanto tempo será que ele está me olhando...? Pensou, corando com a ideia de ele ter visto seus movimentos desajeitados, não que parecesse que ele ligava para isso. Quase como um ímã, ela foi andando na direção do garoto, hipnotizada. Os lábios dele mexeram-se levemente a confundindo por uns minutos. Só aí que ela percebeu a loira ao lado do garoto sentada em uma banqueta conversando com ele. Mesmo continuando a respondê-la, o garoto não desviava os olhos da morena que fazia seu caminho até onde estavam. Seu andar parecia sensual, os quadris, o movimento que requebravam... Tudo estava o deixando louco. Mal sabia ele que, quanto mais o olhar dele se escurecia de desejo, mais a vontade da própria mulher crescia. vacilou por um segundo quando ele mordeu o lábio inferior e deu seu melhor sorriso sacana. Sexy. Ele parecia transpirar erotismo. não era a única a percebê-lo; muitas outras mulheres estavam querendo o dono da casa, só não tinham a mesma atenção que ele estava dedicando a ela.
Ao alcançar o bar, o olhar do Edwards seguiu-a e lhe mandou uma piscadela, pegando sua Heineken, roçando no corpo de Andy ao alcança-la. Devolveu o meio sorriso de flerte que ele lhe mandou e voltou para a pista de dança decidida a ser ainda mais sensual. Provocativa. Ela não ganhara o apelido à toa. Mostraria para o menino de Boston como é que as poderosas de South Mills sabiam fazer.
Quase como se o destino tivesse conspirando a seu favor, viu a resposta de seus anseios entrando carregada por um entregador confuso, que logo foi recompensado com uma boa grana para instalar o bastão de pole dancing que algum idiota havia pedido. Daria um beijo de agradecimento em quem quer que tivesse sido, pois o fato era que ainda jovem, em Saskatchewan — sua cidade natal — a menina fizera aulas desse tipo de dança. Seus pais nem ligaram, passando pela sua fase hippie à época, o que confluiu com o fato de que, em seu condado, não havia muito o que fazer se não trabalhasse.
Cochichou no ouvido de Nick e com a ajuda dele e das meninas, abriram espaço no salão para ela, já descalça de suas botas e com o DJ de sobreaviso para começar a tocar a música que ela melhor dominava a coreografia.

Are you gonna dance? // Dance on me // For the right, the right money // Are you gonna dance?

Com a grave batida do baixo, foi andando ao redor da barra, descalça e sentindo-se mais ponderosa do que nunca. Podia ouvir vários assobios, porém somente lhe importava um homem. Tal homem a encarava boquiaberto, inicialmente surpreso. Parecia gostar de surpresas, pois a próxima coisa que fez foi lhe lançar um sorriso malicioso como que a desafiando. Vá em frente, parecia dizer, ao mesmo tempo em que seu olhar transmitia sua súplica. Ele estava quase alheio à verdade sobre quem estava no controle naquele momento. Algo que Andy Edwards, o menino cobiçado por tantas meninas, Rei da Kingsley, certamente não estava acostumado. Essa é a sensação de quando um Rei encontra sua Rainha.

Oh yeah I'm gonna dance // Dance on you // But you gotta be ready // Ready for me

escalou a barra como se esta fizesse parte de si, levantou as pernas acima de sua cabeça e foi descendo lentamente com sua cabeça apontada para o chão. O público berrava em êxtase e algumas meninas a encaravam com inveja, ou reviravam os olhos sarcasticamente. “Inversão Split”, queridas, queria só ver fazerem melhor, pensou ela, preparando-se para o próximo movimento mais complicado. Starfish, o movimento que mais levara tempo para dominar. Era como se estivesse em pé na barra com as pernas semiabertas em um espacate lateral. Somente segurava-se à barra por seus pés, mantendo os braços em sua cintura.
Exibida. Naquele momento realmente poderia ser chamada disso. Não que a mulher fosse dar à mínima, agradecendo aos céus por não ter bebido tanto até aquele momento- o que possibilitou aquela dança — a menina completou seu último passo da sequência e finalizou jogando seu cabelo para trás do ombro. Nick a chamou para dar um High-Five, abraçou alguns de seus conhecidos e trilhou em direção ao banheiro, para lavar sua face e recuperar-se da vergonha que insurgia agora que a adrenalina do momento havia passado. Ao passar pelo bar, percebeu — decepcionada — que Andy havia sumido. Às vezes, só não era para ser, pensou resignando-se, cabisbaixa.

***


23:45 — Emburrada na Residência dos Edwards...

Hanna voltara ao cantinho onde começara a festa e até mesmo seu humor, temperado por pequenas — mas insuficientes — doses de , pelo incidente da ovelha e pelo encontro inesperado com a amiga virtual, já havia retornado ao mau humor e a carranca que estava ficando acostumada a carregar. Desta vez, porém, não fora Andy que viera animá-la, e sim seu novo amigo de Vermont, que não resistira em pôr as mãos nos olhos da menina naquele ordinário jogo de “advinha quem é”. O alto astral e a personalidade tranquila de a contagiaram de tal forma que este até conseguiu persuadi-la a largar o sofá onde estava esparramada para jogar beer pong.
Durante o jogo, a menina descobrira mais coisas sobre ele do que pensara ser possível em uma atividade tão banal. A começar pelo fato de que era competitivo, muito competitivo. Se quisesse persuadi-lo de qualquer coisa, bastava desafiá-lo. O garoto amava se exibir, porém não do jeito ruim que Dakota ou mesmo Taylor tentavam fazer. Ele simplesmente era uma das pessoas mais carentes que Han já havia conhecido e adorava isso nele. era, no fundo, um cara muito doce e tratou-a como uma verdadeira princesa, até deixando-a ganhar uma vez, apesar de a garota estar realizando o mesmo só para ver as dancinhas da vitória que ele insistia em fazer.
Quando enfim fizeram parte da mesma dupla, jogando com o mesmo objetivo e ganhando de lavada, Hanna não resistiu em puxar o menino pelo braço até um canto da festa e beijá-lo. Ele retribuiu e aumentou a intensidade, trazendo o corpo dela grudado ao seu. mordiscou o lábio inferior dela quando tiveram de parar para buscar um ar e começou a trilhar o caminho de seu pescoço até sua clavícula, chupando e lambendo a pele de Hanna como um homem em uma missão. Esta, porém, não ficou muito atrás, aproveitando-se do fato de que estavam em um cômodo praticamente vazio, senão duas meninas muito bêbadas e um menino conversando com alguém no celular, e enfiou suas mãos por dentro da camisa do garoto, arranhando sua pele no limite entre a dor e o prazer. Isso fez com que ele grunhisse em seu ouvido, sedento por mais da menina. Tudo o que queria era mais de Hanna Edwards. E realmente teria, não fosse uma luz de celular subitamente apontada para ambos.
Noah, o amigo de infância e rolo de Hanna, estava ligado no face-time, rodando de mão em mão pela festa até aquele momento e uma frase provocativa deste, ao conseguir ver o que a menina estava fazendo, causou uma grande confusão. Confusão seria um eufemismo, talvez barraco fosse a palavra mais apropriada para o que estava acontecendo. Até mesmo Andy entrou na discussão minutos depois, com uma carranca que exalava o que sentia. Ele está puto. estranhou o mau-humor não habitual do amigo e manteve-se fora da briga, ao lado de Hanna, interrompendo somente para vir em seu socorro quando Noah falava algum absurdo no auge de sua raiva.

***


02:30

fora ao banheiro e tivera que lidar com a longa fila que despontava do corredor. A idiota da menina que era a próxima a poder usá-lo não havia testado a maçaneta para ver se realmente havia alguém lá dentro. Bêbada, estava crente que a luz acesa indicava toalete em uso. Vai entender... Pensou , revirando os olhos. Acabei de perder quinze minutos da minha vida. Um brinde a isso., levantou a cerveja que já estava em sua mão naquele momento como em uma saudação silenciosa.
Ao notar a mesma música com uma batida repetitiva e enjoativa sendo berrada das caixas de som, franziu a testa em desgosto. Só então ouviu uma conversa entre dois amigos da anfitriã, um deles que havia sido apresentada mais cedo como Louise, e um menino que insistia em mover sua cabeça à la Justin Bieber para que suas mechas loiras saíssem da frente dos olhos.
— Estou falando, Louise, a DJ quebrou a perna! Todo mundo viu! Por isso algum tapado colocou essa playlist eletrônica péssima. Parece que é a mesma música toda a hora!
— Não, Matt! Eu a vi dando em cima de um garoto desses de Vermont que claramente tinha namorada, já que ambos não se desgrudaram à noite toda. Daí o idiota flertou de volta bem no momento que sua namorada voltava do banheiro. Foi uma situação e tanto... Esse pessoal de South Mills sabe animar uma festa!
— Com certeza. — Riu o menino. — E você viu que aquela loira gata, acho que se chama Tori Lauson, ficou caidinha pelo Noah? Acho que a Hanna e ele são passado, afinal. Ele com certeza parecia interessado e não era para menos, mas eu nunca trocaria a Hanna.
Ouvindo a conversa alheia, teve vontade de se dar um tapa na testa, de repente sabendo exatamente quem esse garoto era. Matt era o menino que Hanna tanto reclamava ficar dando em cima dela, recusando categoricamente cada oferta. Parecia que ele não sabia o que significava a frase não estou interessada, nem em um milhão de anos. Sorriu, pensando na quantidade de mensagens que haviam sido trocadas somente para discutir sobre o irritante garoto.
O grupo foi distraído por um burburinho de sussurros acompanhando a chegada de uma mulher à residência dos Edwards. Os próprios irmãos apareceram de onde discutiam em um canto do salão. Ao reconhecer a ruiva como ninguém menos que Dakota Collins, sentiu a raiva subir sua cabeça e se aproximou da entrada assim como eles. Mal podia esperar para desbancar aquela vaca que tanto fazia mal à Hanna.
— O que você está fazendo aqui?! — perguntou Andy com um tom ríspido, em (grande) parte irritado e em parte nervoso pelo que a presença tóxica de sua ex-namorada faria à sua irmã.
— Aqui que é a festa, não é?! — retrucou Dakota, olhando em volta como se fosse algo óbvio.
— Ai, querida, você não viu a plaquinha na porta dizendo que animais não entram? — revidou Hanna, sarcástica.
A pequena Edwards vestia uma careta de tédio como se não estivesse sendo afetada em nada pela presença da garota. Porém, , Andy e que estavam mais próximos e a conheciam bem, podiam perceber a forma como cruzava os braços na defensiva e em como seu pescoço estava avermelhado, corado pelo nervosismo.
— Olha, se não é a Hanna Banana — começou Dakota, como que depreciando o apelido carinhoso de infância da menina. — Sua fase emo já passou, querida? Uma hora você supera o crush, não preocupa não.
— Não fala assim com ela. Quem você pensa que é? — perguntou , nem mesmo dando a Hanna a chance de respondê-la. Mesmo agradecida pela defesa imediata do garoto, a menina revirou os olhos com o corte. Homens...
— Você está tendo o desprazer de conhecer Dakota Collins, — respondeu diante da expressão boquiaberta da mulher para o garoto. — Ahn... Querida, foca aqui em mim. Você vai fazer assim: Vai pedir desculpas para os Edwards pelo tempo que foi desperdiçado contigo e vai embora com seu rabo entre as pernas, entendeu?
O olhar de Dakota voltou-se para avaliar a morena a sua frente, de cima a baixo, mantendo um olhar nada impressionado, contudo, mantendo-se de boca fechada.
— Compreende minha língua ou quer que eu desenhe para você? — perguntou, mal percebendo o olhar de admiração que estava recebendo de Andy.
— Acho que nem com o desenho, — replicou Hanna. — Essa aí não se toca nem esfregando na cara dela.
— Vocês — começou a outra, não esperando que ninguém ali fosse defender a Edwards, pelo menos ninguém de Boston.
— Ela fala! — ironizou Gabriela. — Hanna, eu ligo para a polícia ou você acha que a ficha dela vai cair? — Acenando com os braços para a mulher, ainda completou: — Queridinha... Invasão domiciliar é crime, já deixamos claro que ninguém te quer aqui, o que mais precisa para vazar de vez?
Com o coro de “Vaza! Vaza! Vaza!”, Hanna piscou divertida para sua amiga e andou até Dakota como uma cobra prestes a dar o bote. A diferença é que, dessa vez, a maior torcida era para a cobra. O público que observava e até filmava o barraco fazia ruídos em aprovação para cada patada que davam em dobro na maldita intrusa. Os murmúrios viraram risadas assim que a pequena Edwards, ou seria Grande Edwards, pegou um copo qualquer com sobras de uma skol beats daquelas coloridas artificialmente e derramou por inteiro na roupa da ruiva.
— Sua...
— Sua o quê? Até te fiz um favor. Esse vermelho combinou com a cor de molho de tomate do seu cabelo.
— Você está ferrada, Edwards. — Riu a ruiva, resmungando com a voz esganiçada, deixando a pose de teimosa e saindo da casa com o aplauso de diversos convidados.
Taylor Lausen, que ouvira toda a discussão de onde conversava com Noah, na varanda, levantou sua sobrancelha desconfiada. Dakota Collins parecia lembrar-lhe de si mesma poucos anos antes, quando ainda estava no colegial. Sempre haviam s ou Hannas Edwards para atraírem toda a atenção, monopolizarem tudo o que ela sempre quis alcançar. Meninas que não eram mais inteligentes que ela, só pareciam ser um ímã de tudo o que já desejou. Até mesmo quanto a garotos... A rainha de Vermont podia estar namorando na época, mas assim que pousara os olhos na menina, Taylor percebera que, novamente, não seria sua vez.
Aproveitar-se do acidente da para ascender socialmente fora seu degrau. E aparentemente o de Dakota tinha a ver com Hanna. Quando a ruiva finalmente saiu da casa ao ser enxotada por todos dali, Taylor suspirou e levantou-se, entregando o celular com Noah para um passante qualquer. Não poderia resistir a apresentar-se para sua versão mais jovem.
— Hey, Dakota? Sou Taylor Lausen.
Dakota olhou-a levantando a sobrancelha em desdém, o que fez com que Lausen soltasse sua melhor risada falsa. Aí foi a vez de Dakota olhá-la admirada.
— E o que te faz pensar que eu quero te conhecer?
— Do jeito que foi chutada dessa festa, parece que não só deve querer, como precisa.
— Eu não me importo com o que...
— Eu também não. Mas para você realmente conseguir algo, terá que engolir que pessoas como eles estão acostumados a receber atenção de mão beijada metade do tempo. Pelo menos é assim que rola em Vermont.
— Bem, isso aqui é Boston, querida... Mas boa sorte com os entojos — respondeu a ruiva, jogando o cabelo para trás e continuando a andar como se estivesse em um desfile.

03:30

Em toda boa festa, há um ponto em que metade dos seus integrantes já vazaram por motivos de barraco ou estão desmaiados em algum canto qualquer da casa. Há meia hora, chegaram a esse ponto crítico. Normalmente, Andy esperaria que todos saíssem para ir tomar o seu banho merecido e apagar na cama macia de seu quarto. Porém, aquele não foi um desses dias. Ao ter a brilhante ideia de fazer uma batida para si mesmo — bêbado —, fora bater morangos no liquidificador e esquecera-se de pôr a tampa, o que resultara em milhões de respingos pela cozinha, sua face e sua roupa. O açúcar só fizera tudo ficar ainda mais melequento, então não havia como a chuveirada aguardar por muito mais tempo. Por esse motivo, renunciara momentaneamente a seus deveres como anfitrião, pegara a chave que usara para trancar seu quarto e fora tomar seu banho calmamente.
Sentindo-se restaurado, checou-se no espelho para ver se realmente tinha tirado toda a mistura do drink e saiu do banheiro com a toalha enrolada baixa na cintura.
Se não estivesse seminu e dentro de seu quarto, esbarrar com a menina que tanto secara mais cedo teria sido cômico, mas aquela situação só fora enlouquecedora mesmo. Algo semelhante passava na cabeça de , que estava somente procurando um banheiro que não houvesse sido destruído para poder retocar sua maquiagem e talvez tomar uma ducha rápida. O que não esperava era que o quarto com a porta destrancada fosse não de Hanna, mas do irmão gostoso dela.
— Humm... Oi — disse Andy, com um olhar enigmático.
retornou seu olhar, assustada e com as bochechas vermelhas.
— Desculpe... É que o banheiro lá de baixo está... — perdeu sua linha de pensamento quando o garoto cruzou seus braços, chamando atenção para seu tórax descoberto. Só então percebendo a toalha, sua boca contorceu-se em um sorriso malicioso que, ao encontrar a expressão sacana dele, recebeu toda a confirmação que queria.
Ao mesmo tempo em que largou sua bolsa no chão, o menino foi andando em sua direção. foi recuando até que suas costas chocaram-se com a parede. Andy varreu com a mão os fios de cabelo que pendiam dos ombros dela e abaixou a cabeça até encontrar seu pescoço, ficando uns segundos inspirando o aroma de seu perfume, quase como pedindo permissão para beijá-la. Esta puxou os fios de cabelo dele em sua direção em um claro consentimento, gemendo ao sentir seus beijos e mordidas da base de seu pescoço até a altura de seus ombros. Passou as unhas em suas costas e abriu um pouco as pernas para que este chegasse ainda mais perto. Edwards começou a beijar seus lábios intensamente, alternando a velocidade em que sua língua explorava o lugar. Aproveitou para passar uma mão em suas costas, mantendo uma no lugar a sustentando e escorregando a outra até uma das pernas da menina, levantando para enroscar-se no seu quadril.
interrompeu o beijo ofegando e tomou impulso para envolver ambas as pernas na cintura do garoto. Andy, por sua vez, carregou-a para a cama, esbarrando na cômoda e derrubando seu abajur no chão no processo. Não deu a mínima para o utensílio quebrado, somente soltando uma risada breve e tomando cuidado para não pisar em nenhum caco. Pousou-a na superfície macia para poder explorar melhor seu corpo. , contudo, tinha outros planos e, assim que ele pairou acima dela, girou-os para que ficasse por cima. Edwards riu e fez uma expressão meio surpresa e meio admirada.
— Você me surpreende, .
— Cala a boca e me beija, Edwards.
— Como a senhorita preferir — respondeu ele, atendendo a seu pedido sem nenhuma resistência.

Enquanto isso, no jardim...

— Olha isso, ! — falou Hanna, puxando um gorro de urso que estava jogado de qualquer forma na escada do quintal. Ela estava sentada no degrau mais alto, com o garoto no degrau abaixo, entre suas pernas.
O menino olhou para cima ao sentir as mãos dela pararem de acariciar seu cabelo, e o que viu lhe trouxe uma gargalhada. Edwards havia posto o gorrinho de urso e estava fazendo pose para ele, que não resistiu a tirar uma selfie com a menina fofa para não deixá-la esquecer do motivo do apelido irritante que lhe daria a partir dali.
Passado o momento, ela continuou tagarelando sobre seus planos futuros e o tempo que ainda lhe aguardava na Kingsley Montessori. Não sabia como o papo se transmutara tanto, mas o fato era que agora ambos estavam no alto do morrinho perto da casa onde acontecera a festa.
— Certeza que tem coragem para isso, ursinha? — perguntou , pousando a espécie de trenó-improvisado no chão.
— Já falei para parar de me chamar assim, bobão — retrucou Hanna, fazendo um biquinho de descontentamento, mas com um olhar bem humorado que revelava não estar com raiva de verdade.
— Vem logo, linda — disse, sentando-se na parte da frente com os pés pousados na grama. Naquela posição, com os joelhos dobrados, o menino parecia um adulto tentando usar um brinquedo de criança. Não que essa definição estivesse tão longe da realidade.
Ela sentou-se atrás dele, abraçando seu abdome rígido, e pediu que este esperasse um pouco, fechando os olhos e respirando fundo o ar puro.
— Por que estamos fazendo isso mesmo?
— Porque é divertido e apostamos.
— Refresque minha mente quanto aos termos da aposta.
— Se um de nós não tivesse coragem de descer o morrinho, esta pessoa teria que gravar um vídeo prometendo um favor para o outro, que poderia ser usado em qualquer ocasião para qualquer coisa.
— Que horas a gente apostou isso? Eu só podia estar bêbada mesmo. O que eu ganho se os dois forem?
riu, virando com um ombro levantado e uma sobrancelha arqueada.
— Apostou está apostado. Não vale usar essa carta da bebida, ursinha.
— Ok... — Suspirou, resignada. — Mas eu já falei para parar de me chamar de Ur... — Hanna foi cortada pelo movimento do trenó, que o garoto a sua frente havia ocasionado, sem aviso prévio. Berrou a última parte com o coração acelerado. — ...SINHAAAA!
A descida foi mais tranquila que esperavam. O único problema era que nenhum deles havia pensado muito bem em como parar e, ao perceber que estavam se direcionando para uma árvore no quintal de Hanna, puxou para o lado consigo, fazendo com que ambos girassem o resto do percurso. Capotaram abraçados, sujando-se de folhas e lama, acabando com o corpo de todo pressionado no de Hanna, inclusive seus lábios, colados um no outro.
Inicialmente olharam-se surpresos, ainda sem descolar suas bocas, sem fazer nada para aprofundar o beijo. Mas, com o último giro que não estavam esperando, Edwards abaixou-se mais e intensificou o que haviam começado involuntariamente. Ao se levantarem e tirarem mais umas selfies fazendo caretas — parecendo monstrinhos com toda a lama em seus corpos — jogaram-se na piscina, competindo mais uma vez, porém agora sobre qual deles dava o melhor salto.
Após se secarem, desmaiaram em um dos sofás da casa, somente sendo despertos mais tarde, por uma luz e a imagem de e Andy.
— Droga, Andy, eu falei para tirar o flash! — repreendeu , não parecendo nem um pouco brava, mas sim derretida pelo garoto que a olhou piscando e pousando a mão no pescoço dela.
— Você fica muito gata quando está brava — retrucou ele. Aproximaram-se para um beijo, ignorando os amigos protestando até que estes jogaram os travesseiros do sofá nos dois.
— Ouch! — Andy trocou olhares cúmplices com , atacando os dois sentados no sofá com as respectivas almofadas.
Foi quando e Hanna correram até o quintal para voltar com duas arminhas d’água, fazendo os dois provocadores levantarem os braços em rendição, e Andy deu um empurrãozinho em .
— Peguem ela! Sou inocente — brincou com uma voz afetada, enquanto se encolhia atrás da garota para proteger-se dos jatos d’água. Todos gargalharam e secaram-se.
— Temos que ir... — avisou a garota, um pouco triste, virando-se para o rapaz escondido atrás de si. — O Nick foi esperar no carro... , acho que terá de voltar conosco, porque a Taylor e as meninas meio que... Levaram seu carro.
fez uma cara de interrogação, contudo, resolveu nem perguntar, balançando a cabeça para clarear seus pensamentos.
— Sim, claro... Obrigado, .
A menina sorriu em resposta, puxando Andy para o segundo andar novamente com a desculpa de pegar sua bolsa, fazendo o outro casal revirar os olhos divertidamente.
— Daqui a uma hora eles voltam — resmungou, bufando.
— O que quer fazer enquanto isso? — perguntou Hanna, com um olhar sedutor.
— Onde fica seu quarto? — questionou ele, simplesmente carregando-a em seu ombro até o local referido.

***


4:00 — Carro da — Em algum lugar entre Boston e Vermont.

Nicholas dirigia em silêncio, sendo o único que realmente já estava sóbrio, enquanto conectava o bluetooth do celular ao som do carro e olhava pensativo pela janela do banco traseiro.

All I am is a man // I want the world in my hands // I hate the beach
But I stand in California with my toes in the sand
Use the sleeves of my sweater // Let's have an adventure
Head in the clouds but my gravity's centered…


Ao ouvir a familiar melodia de Sweater Weather, levantou a cabeça com um sorriso, encontrando os olhos da ex-namorada — e agora amiga — pelo espelho retrovisor interno.
— The Neighbourhood de novo, ? — perguntou ele, tentando imitar o mesmo tom da manhã do dia em que tudo entre eles mudara de vez.
Assim como naquele dia, ela deu a língua para e começou a cantarolar sua música preferida. Em uníssono, pensaram: como foi que chegamos aqui?, mas ambos não o fizeram com nostalgia, tristeza ou real dúvida. Não. e , os um dia chamados de par perfeito de Vermont, não mais se encaixavam da mesma forma. Ao menos era essa a situação do momento. Os dois aprenderam a não subestimar o poder da vida ao transformar as pessoas e, assim como o destino havia lhes trazido até aquele momento, poderiam acabar trilhando seus caminhos um de volta para o outro eventualmente. Era só questão de aproveitar o que tinham no agora e aceitar as mudanças e tombos que levassem. Surfar nas ondas do destino, pensou , divertida. E olha que eu nem... Oops, sim, ainda devo estar bêbada.
Nicholas observou a cena feliz por sua “irmã” estar finalmente descobrindo seu caminho. Porém, ao mesmo tempo, fez uma nota mental de sempre checar como esta estava em relação a seu ex. Amizades como a que eles pretendiam ter, depois de tudo que já passaram juntos, tendiam a ser extremamente complicadas, e se um deles retornasse a ter os sentimentos... O barulho de uma mensagem recebida fez com que Nick olhasse pelo espelhinho de relance, a tempo de pegar sorrindo e respondendo a quem quer que fosse. Algo naquele sorriso... devia ter cautela. Minha irmãzinha não vai sofrer dessa forma de novo, ou não me chamo Nicholas Holt.

“Aqui estão as fotos, gato. Bjs, ursinha”
“Como descobriu o meu número? P.S.: Amei as fts”
“Eu tenho meus contatos...”
“Foi o Andy, não foi?”
“Sim hahahah”
“E ele te passou fácil assim?”
“Bem... Talvez tenham sido feitas ameaças e talvez tenha tido uma troca de informações pelas da . Mas se alguém perguntar, ele foi um fofo e voluntariamente me passou tudo. O olho roxo não teve nada a ver comigo rs”
“Você é uma figura, Edwards”
“Não enche, . <3”


***


4:30 — South Mills — Residência dos s.

Após deixarem na casa da Sigma-Tau, e Nicholas voltaram para a casa da menina. Ele foi direto para a cama após murmurar um “boa noite” sonolento e tentar beijar sua testa, ao mesmo tempo em que bocejava. Tendo dirigido o caminho inteiro, ele fora o único a não tirar um cochilo no carro. Já estava inquieta, ligou sua televisão e foi passando os canais, desinteressada.
Quando a campainha tocou, assistia a conversa entre Noora e o William de Skam, em mais uma das cenas épicas de seu OTP*. Levantou-se já novamente, embalada pelo sono, e foi atender a porta.
Não fazia ideia de quem era, contudo, a pessoa que a aguardava na porta seria o último nome que a mulher arriscaria adivinhar. em um terno preto amassado; em um estado deplorável, cambaleando bêbado em sua porta. Enquanto se beliscava para confirmar que aquilo tudo realmente estava acontecendo, o garoto apoiou uma de suas mãos no pórtico de entrada e murmurou, suplicante:
— Me ajuda, .
... Eu... Você... O que houve contigo?
— Eu não posso chegar a casa assim. Por favor, só... me ajuda.
— Entre — respondeu ela sem titubear.
Ajudou o menino a chegar ao sofá e entregou-lhe um copo d’água. Por sua aparência febril, teria uma ressaca fodida no dia seguinte. Na verdade, mais tarde, quando acordassem. Ele bebeu com as mãos trêmulas e devolveu-lhe o copo com uma expressão agradecida. A menina estava tão cansada nesse ponto que somente deu de ombros e sentou ao lado dele, cobrindo-lhes com uma manta. Esticou-se para fechar as cortinas e deitou sua cabeça no ombro do garoto, abraçando-o de lado.
... O que houve? — repetiu a pergunta de olhos fechados, não conseguindo conter sua curiosidade.
— A curiosidade matou o gato, sabia?
Ela suspirou.
, eu... Sei que está me ajudando, mas isso não é nada que eu possa te contar, ao menos não agora.
— Ook — cedeu com um tom triste. Parecia que ele não confiava nela.
— Olha, eu só... Você é a única que me entende, eu não tinha mais a quem pedir. , eu te...
. Vamos dormir. Não se preocupe, eu entendo — cortou a menina, com medo do que quer que ele fosse dizer.
não lhe respondeu, já tendo caído em um sono pesado, sem sonhos. A menina não teve a mesma sorte, sendo atormentada por pesadelos durante toda a noite. A única coisa que a mantinha dormindo e no controle era sentir o calor que emanava a seu lado, o peito descendo e subindo em uma respiração tranquila. Permitiram-se aproveitar a presença um do outro como nunca haviam feito antes. Em seus estados alcoolizados, pelo menos, teriam uma desculpa. Porém, tudo passa e a manhã não tardaria a chegar. Como diria Tom Fitzgerald, se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade. Bastaria ver se, para os dois adolescentes, o sonho de um corresponderia ao do outro.



Continua...



Nota da autora:Olá, Dreamers! Obrigada novamente por terem lido, espero que tenham curtido esse especial/bônus/crossover de One More Dream com Bffs Before U Go. Não se esqueçam de deixar seu comentário ali embaixo, seja surtando, elogiando ou fazendo uma crítica construtiva. Amaremos ler seus feedbacks e reações.
AVISO: Não será obrigatório para o entendimento do capítulo que leiam a outra fic, nem o capítulo especial de BBUG, que mesmo se referindo ao mesmo roteiro, terá detalhes diferentes. Porém, recomendo muito a leitura dessa outra fic maravilhosa! Os dois capítulos bônus (de OMD e de BBUG) são complementares, mas não iguais! Então quem QUISER saber das tretas da festa por completo poderá ler os dois especiais para isso. No mais, quem quiser, será super bem vindo nos dos grupos do face, meu ou da Gabi Martin(sim gente, são duas Gabis nesse feat haushaush)! ATENÇÃO: Os pps de Bffs before U go foram fixos no especial de OMD e os pps de OMD serão também fixos no especial de BBUG, então tenham em mente isso ao lerem ;) . Beijinhos de luz e até a próxima att, com o capítulo 6! Vamos ver como os pombinhos vão se comportar pela manhã. Essa fic é mais cinderela, com o feitiço se acabando, ou vai perdurar? #descubra
Para seguir e interagir com os personagens no Twitter: ; ; ; Taylor Lausen ; Nicholas Holt




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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