O Que Julia Não Disse

Última atualização: 11/11/2020

Prefácio

"Chiquinho morreu engasgado com palavras grandes, difíceis de engolir e duras de mastigar. Por bastante tempo ele decidiu mantê-las na boca, sempre dizia que um dia encontraria o momento certo para despejá-las. Todo mundo alertava: cospe, Chiquinho, vomita isso! Era uma agonia: cospe, vomita. Cospe, vomita!
Desobediente, Chiquinho não seguiu o conselho; engasgou-se e morreu."

- Maraíza Santos, 23/07/2020.

I. Do cabelo

Inglaterra, outubro de 1851.
Julia Lewis não disse às irmãs que cortou o cabelo, ela sentira-se muito melhor quando, em um ato impulsivo, deixara-o na altura do ombro. Imaginara como seria o choque das irmãs com o novo corte: Lilian arregalaria os olhos e Millie perguntaria "você cortou o cabelo?" e ela responderia "sim, cortei".
Não foi o que acontecera. Ninguém comentou do cabelo curto de Julia, na verdade, elas não perceberam que o penteado simples tinha ficado menor. Era um tanto patética a sensação de ser ignorada, mas o desinteresse das irmãs, no entanto, era a nova realidade da primogênita dos Lewis.
Olhando o reflexo do espelho, Srta. Lewis arrumou o penteado simples na cabeça. Havia dispensado a dama de companhia mais uma vez, pois odiava que tocassem em seu cabelo. Claro, isso a fazia demorar mais do que o aceitável para arrumar-se, mas ela sempre dava conta. Caprichou bastante no pó branco no rosto, disfarçando as olheiras de quem dormira apenas duas horas na última noite e o vestido cinza era um dos que Millie comprara quando ainda estavam em Berkshire Hall.
Suspirou como quem não respirava normalmente nos últimos minutos e viu o reflexo de si mesma subir e descer, devagar. A imagem era a que todos conheciam e que as novas pessoas iriam conhecer. Era o grande dia, iria para o teatro como pianista pela primeira vez. Mal podia esperar.
Estava nas nuvens quando saiu do quarto. Se não fosse tão cedo, gritaria pelos corredores de animação, rodopiaria sem medo de cair nos degraus, abraçaria o mordomo e elogiaria a cozinheira em demasia.
Na sala de jantar estava apenas Lorde Byron, o cunhado dela, lendo o jornal enquanto bebia chá preto. Incapaz de encará-lo, os olhos da mulher fitaram a mesa posta.
― Bom dia, Logan.
O nome dele soou muito intimista, sentia que desde o último incidente não tinha mais o direito de chamá-lo daquele jeito ainda que voltar às formalidades fosse tão estranho quanto.
― Bom dia, Julia ― disse antes de levar a xícara até os lábios mais uma vez.
O silêncio que se seguiu incomodou. Ela tentou sentar-se e comer, mas a quietude a desconcertou.
― Millie já acordou? O chá fez efeito? ― perguntou de repente.
― Sim, sim. O enjoo passou ― replicou ele enquanto passava as páginas. ― Hoje é o dia em que você irá para o teatro, não é? Seu primeiro dia?
Julia sorriu e assentiu com a cabeça.
― Boa sorte.
― Obrigada, Logan.
E voltaram a comer em silêncio.
Lorde Byron dobrou o jornal com cuidado, buscou um pouco de pão pela mesa e analisou a cunhada. Estava pálida ou era exagero da maquiagem? Emagreceu ou era sua impressão?
― Quando irá dizer a ela?
Julia ficou tensa e, pela primeira vez depois de muito tempo, ousou olhar para Byron.
― Do que está falando? Você não disse à Millie, disse?
― Eu prometi que não diria ― disse ele ―, mas não guardarei o segredo por muito tempo.
A Srta. Lewis deu um longo suspiro, a voz possuía um tom falsamente forte quando ela disse:
― O que aconteceu diz respeito só a mim.
― Claro que não é...
Sentindo que estava perto de vacilar, a mulher levantou-se em um solavanco, engoliu em seco, imaginando se perderia as estribeiras mais uma vez.
― Preciso ir.


...


O teatro da Companhia Selene era um prédio de esquina na Shelton Street. De arquitetura singela e simples, o lugar possuía paredes brancas e quarenta e cinco pequenas janelas, o formato de trapézio da estrutura pré-anunciava o que se esperava no salão principal. Por outro lado, também escondia a sofisticação para apenas os que pagavam o ingresso, destacava-se pelas sete portas de vidro que nunca estavam igualmente abertas e arrancavam uma pequena olhadela de quem passeava pela esquina de West End. Não era, de qualquer maneira, a primeira escolha dos mais nobres, o que não diminuía a qualidade de suas apresentações.
Selene não foi o primeiro grupo a quem Julia buscou oportunidade de emprego, ouviu muitos nãos e risos de deboche de outras companhias na semana em que fugiu de casa, mas então, havia naquela construção alguém que lhe deu uma chance e escutou-a tocar.
Julia deu um longo suspiro antes de entrar pela porta lateral escondida da entrada principal. Quando indagada pelo bilheteiro para onde estava indo, explicou que era a nova musicista da casa e, com desconfiança, o homem permitiu-a entrar.
O frio na barriga aumentou conforme andou pelo pequeno corredor que entrara há um mês, ainda se lembrava da sorte de encontrar o maestro em frente ao teatro enquanto ele fumava. Entrou à caminho da sala de ensaio, o mesmo lugar que antes fizera seu teste para o trabalho.
Os corredores estavam bastante movimentados, os músicos andavam em passos ligeiros e gritavam uns aos outros que o maestro havia chegado. Eram, em grande maioria, homens e estavam tão eufóricos que a presença da nova pianista era só mais um elemento ignorado pelo cenário.
Na ponta dos pés, a Srta. Lewis ergueu-se para encontrar o maestro Michael Howells na multidão de rostos, procurava um homem de cabelos cinza e olhar severo. Ainda se lembrava do tom grave e rígido da voz dele ao dizer “mostre-me o que sabe, então”. Era tudo que Julia precisava ouvir.
A orquestra parecia ter comparecido em peso ― havia desde instrumentos de cordas aos de percussão. Os músicos entravam em uma porta onde um jovem baixinho segurava as cópias das partituras e ele, por sua vez, recebia pequenos sacolejos de cada um deles, às vezes pareciam amigáveis e outras vezes maldosos. Ele, porém, sorria com submissão e simpatia.
Juntou-se ao grupo de músicos sem que fosse percebida e caminhou até o salão de ensaio do teatro, que era menor que o palco, mas não o suficiente para ser sufocante. O papel de parede de tom pastel estava repleto de retratos dos antigos e respeitados donos da companhia, mas também dispunha de espelhos cobertos por lençóis e uma grande janela no sentido poente, as cadeiras estavam acomodadas em meio-círculo, onde os diferentes artistas sentavam. Os tímpanos, bongôs, harpa e outros instrumentos de corda seguravam as duas pontas e, no canto direito, estava um piano vertical de cor escura, aquele no qual Julia tocou As Quatro Estações de Vivaldi como uma prova de que poderia somar à orquestra. Os olhos ambiciosos, porém, pousaram no bonito piano de cauda que ficava ao centro da meia-lua.
A Srta. Lewis sendo uma mulher interiorana e impressionável, ficou deveras animada ao observar as pessoas encaixando-se em suas posições, assim como alguém que fazia aquilo rotineiramente. Imaginou que em breve também faria os mesmo movimentos com naturalidade.
― Ei, senhorita ― chamou um violinista, cutucando-a. ― Está perdida?
― Estou procurando o Sr. Howells ― replicou.
O músico tinha uma barba mal cuidada e olhos de quem não queria ter levantado da cama. Respondeu a mulher com um sorriso amarelado e malicioso, o tipo errado de sorriso.
― Ah, sei... Não acha melhor esperar acabar o ensaio? Aqui não é o...
― Raphael, vamos! ― exclamou outro homem, empurrando-o para frente.
Julia cruzou os braços e afastou-se, sem se despedir daquele homem grosseiro. Com o olhar, buscou mais uma vez o maestro. Deveria ter chegado mais cedo do que imaginara? A data estava correta? Será que deveria atravessar o pequeno caos e sentar-se perto do piano?
O barulho das conversas misturava-se com os sons de diferentes pessoas afinando seus instrumentos. Caótico, era verdade, mas capaz de dar um conforto que Julia não sentia há bastante tempo.
Quando viu o maestro Howells, suspirou aliviada. Ensaiou ir em direção à ele, quando observou-o bater a batuta contra uma cadeira.
― Que barulho é esse?! Estão no Borough Market, por acaso?
O silêncio foi quase instantâneo: os músicos calaram-se e largaram as mãos de seus instrumentos, como se pegassem fogo. Julia engoliu em seco, ficando presa no lugar em que estava de pé.
― Espero que tenham aproveitado os dias de folga ― disse o maestro, embora seu rosto dissesse justamente o contrário. ― Nossa próxima ópera será um clássico, como podem ver: Dido e Aeneas. Já performamos algumas vezes, então acredito que não será um problema...
Um murmúrio de insatisfação correu pelo salão, mas ninguém foi corajoso o suficiente para dizer alguma coisa em voz alta e Julia fitou-os, curiosa. Não conhecia a peça, na verdade, nunca tinha visto ópera ao vivo.
― Também quero apresentá-los à pessoa que ficará no lugar do antigo pianista.
A Stra. Lewis tremeu dos pés até a cabeça: êxtase e pânico misturavam-se como um veneno fatal para seus nervos. Não imaginava que, em meio a tantos rostos, o Sr. Howells havia a visto e, agora, ele estava muito perto de apresentá-la para aquelas pessoas desconhecidas e talentosas sem que ela tivesse qualquer preparo.
Aquele era o grande momento, o ápice do dia, seria reconhecida como uma pianista ― não a mulher que tocava de vez em quando em casas de senhoras ricas, não uma simples professora de piano ―, nem mesmo como a cunhada fujona de um lorde ou a única filha de Sr. Lewis, que foi para escola.
Ela seria uma pianista de ópera, uma pianista de verdade. Falaria com o público através da música, embora poucos conhecessem seu rosto e teria o nome listado em um pequeno folheto esquecido, mas ainda assim seria o nome dela.
Julia Lewis, a pianista.
― Recebam Liam Woodhouse, o pianista.
Tudo ficou muito frio de repente. Um zunido sobrepôs a salva de palmas que varreu o ambiente, os pequenos cochichos sufocando a garganta.
Um grande dia, realmente.

II. Do choro

Julia Lewis não disse às irmãs que, desde a morte do pai, não havia um dia em que não se afundava em lágrimas. Existiam dias melhores que os outros – é claro – e, às vezes, o pranto era fruto apenas de uma tristeza que a perseguia desde que deixou a tenra idade. A Srta. Lewis era uma mulher esperta, sabia diferenciar o que era choro de alegria, alívio, tristeza e autopiedade, mas também conhecia o que era choro de nada, de quem se sentia oca como uma bonita caixa vazia e inútil.
Naquele dia, o grande dia, ela chorou de muitas maneiras.
Por sorte, Julia alcançou a carruagem alugada quando os primeiros pingos de chuva começaram a romper o céu, disse o endereço ao cocheiro com a voz estranhamente grave e fechou-se na caixa. Quase soltou um grito, mas a mão esquerda, porém, subiu até a altura da boca e ela mordeu o espaço entre o dedão e o fim da mão. Tremeu como quem tivera um calafrio repentino, embora as lágrimas descessem quentes na face.
A imagem do que aconteceu após a apresentação de Liam Woodhouse como pianista mostrava-se fresca em sua mente, como uma tela recém-pintada. Os diálogos eram uma maldição inevitável, que se repetia nos ouvidos até que nunca saísse da memória.
― Senhor... ― ela ousara dizer. ― O que...? Pensei que eu...?
Sr. Michael Howells era um homem que apenas prestava atenção naquilo que lhe interessava. Como até então a mulher era apenas uma peça confusa da sala de ensaio, não era surpresa ele ter apenas a notado quando Julia abriu a boca na frente da orquestra.
― Oh, Srta. Lewis, não a vi ― dissera sem afetação. ― Essa é a Srta. Lewis, senhores, assistente do Sr. Woodhouse. Estará ajudando aos cantores com os ensaios.
― Assistente? ― A palavra soara como um insulto para a mulher. ― Assistente?
― Vamos conversar lá fora, Julia.
A voz de Liam despertara o que havia de mais animalesco nela, era possível até ver a face pálida transformar-se num tom rosado quando lhe respondera:
― O que está fazendo aqui?! Você não tinha desistido de tocar, não era?! ― O tom afiara-se. ― Por que você sempre estraga tudo, hein? Me diz! Me diz!
A cena deixara o pianista muito constrangido, a pequena plateia cochichava sem discrição e os gritos de Julia fizeram-na soar como uma desequilibrada. Segurara-lhe o braço com precisão e dissera em um sussurro.
― Vamos conversar lá fora.
― Não encosta em mim! ― a mulher puxara o braço, negando-se a ser levada como uma criança.
O corredor onde Liam a levou estava mal iluminado e vazio. Conhecia muito bem aquele prédio, fora ali que começou a receber reconhecimento como o excelente músico que era. Ali recebera os primeiros louros, os primeiros convites...
A Srta. Lewis respirava e inspirava, os braços cruzados e o rosto sério retiraram o Sr. Woodhouse do devaneio.
― Parece que só assim para você me receber.
Julia olhou para cima, com um riso desviado no rosto.
― O que faz aqui, Liam?
― Não faça uma pergunta estúpida dessas.
― Você desistiu da sua carreira! Por que roubou o meu lugar?
Woodhouse, que tentava ser o mais maduro e paciente da conversa, não evitou dar uma pequena risadinha.
― Seu lugar? Não seja ingênua, nunca conseguiria um emprego em uma ópera assim, Julia. Você é muito iniciante ainda.
Era de se esperar que, passadas tantas semanas desde que a mulher decidira que seu antigo instrutor não era alguém digno de sua atenção, as palavras dele não a atingiriam de maneira nenhuma.
Ele era um homem orgulhoso, insensível, repugnante e honesto. Sr. Woodhouse era sempre honesto e suas palavras a mataram, assim como antes.
Os passos do homem encurtaram a distância. Tão perto assim, a Srta. Lewis poderia encarar os lábios que carregavam um doce veneno do qual ela conhecia muito bem o gosto. Dele vinha o céu e o inferno.
― Já havia falado há um tempo com o Sr. Howells para aceitar a mim junto com minha noiva, a Srta. Lewis. Ele sabia quem era você quando veio aqui. ― A mão dele acariciou-lhe o cabelo. ― Não seja ciumenta, eu deixarei você tocar algumas músicas no ensaio. Será um bom momento para que nós...
Julia empurrou a mão de Liam de sua cabeça como se ela pegasse fogo, o coração batia de forma anormal no peito. Encarou aquele homem que achava amar e odiar na mesma medida, mas aquela manhã, porém, descobriu que havia um peso maior em um dos lados da balança.
― Sr. Woodhouse! ― gritou o jovem, que antes entregava as partituras aos músicos. ― O maestro o chama.
O pianista arrumou o casaco escuro nos ombros e deu a conversa por encerrada.
― Vamos, Julia.
― Como soube? ― ela indagou, a voz quebrada pelo choro contido na garganta. ― Como soube que eu viria aqui?
Liam deu um sorriso de adulto que sabia muito mais do que a criança que conversava.
― Eu a conheço, Julia. Conheço-a com a palma da minha mão.


...


Apenas duas pessoas viram Julia chegar à casa londrina do Lorde Byron. Ela esgueirou-se pela entrada de funcionários em silêncio, encarando o chão como quem não queria ser incomodada. Aqueles pequenos comportamentos introspectivos da Srta. Lewis eram as fofocas menos excitantes entre os criados, porém, nunca eram deixadas de lado. Diziam, entre sussurros, que a fuga de casa era só uma dos sintomas de histeria e que, em breve, Julia gritaria pela casa como uma desequilibrada.
As irmãs Lewis, porém, nunca presenciaram momentos como aquele. Julia era muito cautelosa ao demonstrar suas emoções e poucas vezes sentiu a liberdade de estar triste. O antigo lar era dinâmico e sadio, poucas vezes ouviu algo que não gargalhadas de crianças e broncas cheias de amor e sabedoria, até mesmo a sua madrasta taciturna, que Deus a tivesse, esboçava alguns sorrisos de vez em quando. A tristeza era uma peça errada no quebra-cabeça dos Lewis.
Julia trancou-se no quarto e tentou recompor-se. Quando desceu para jantar estava plácida, como sempre: os olhos carregados de uma emoção misteriosa e os sorrisos pequenos que demoravam a se espalhar pelo rosto.
― Como foi seu primeiro dia?
A pergunta veio, é claro. Suas irmãs não eram negligentes, não totalmente. Escutaram-na quando Julia comentou que era o dia, o grande dia. Demorou mais segundos do que o esperado para falar e Millicent, que havia feito a pergunta, indagou novamente:
― July, você me ouviu?
― Sim, sim ― replicou, com um sorriso apologético. ― Foi tudo muito introdutório, ainda não estou familiarizada com o lugar.
― Qual será a primeira peça apresentada? ― perguntou Byron.
― Dido e Aeneas.
― Da Eneida? ― disse Lilian, entrando na conversa.
― O que é isso? ― falou Polly.
O jantar tornou-se, então, um pequeno resumo de história clássica para uma criança de seis anos. Polliana era uma menina muito curiosa e, conforme perguntava, seus olhos ficavam maiores e a língua escorregava com mais uma indagação. Toda vez que as mais novas dos Lewis comiam na mesa dos adultos era aquela animação, uma conversa cheia de calor e barulho. Byron adorava, não via a hora de ter aquela mesa repleta de filhos seus e da esposa para compor os diálogos.
Julia também gostava dessas conversas, elas tinham resquícios de quem ela havia sido um dia. Estava fugindo para o quarto, após comer, quando Millicent pediu para que ela tocasse um pouco de piano. "Está cedo", disse ela, "sinto falta de ouvi-la tocar".
Era muito fácil criar uma desculpa, afinal, era uma pianista profissional agora, tinha que acordar cedo no outro dia e decidir se iria voltar para o teatro. Era a primogênita das Lewis e podia reivindicar o lugar naquele momento, não precisava atender ao pedido da irmã.
Mas ela sentia falta de tocar, também. O piano de Lorde Byron parecia empoeirado embora fosse limpo todos os dias pelos criados. O instrumento era quase de Julia oficialmente, só ela tocava, cuidava e se lembrava dele.
Sentou-se com a demora de quem não era digna de fazê-lo, arriscou algumas notas e tentou lembrar-se de alguma música. Olhou para trás: notando que Millicent a encarava com expectativa. Ainda não era capaz de ver a pequena protuberância da barriga, mas Lilian podia jurar que sim, aquela criança ainda não nascida e que ainda nem era uma pessoa completa, era o ser mais amado da casa.
As notas agudas preencheram a sala, eram gritos pequenos de felicidade e espaço de um som para outro era grande. A aparente calmaria transformou a música em algo violento. Julia tremia os lábios.
Então, como se fosse uma ilusão, o som tornou-se o primeiro movimento da Moonlight Sonata de Beethoven. Lilian sussurrava para a irmã mais nova, que deveria estar dormindo, Byron, enamorado com a esposa, nem mesmo reparou na rigidez da postura da pianista.
Foi dormir após ouvir os aplausos da família e dar beijos de boa noite em minhas irmãs.

III. Do sono

Julia não disse que tinha insônia. Em dias normais ela não dormia bem, era uma vitória quando chegava a cinco horas seguidas de sono ininterrupto. Bastava ter um dia desagradável e toda a noite era perdida, não importava o quão cansada se sentia. Não importava o quanto dissesse que não dormira, todos esperavam que ela agisse como se tivesse. Mesmo que a cabeça dela estivesse pesada demais para carregar, que os olhos vermelhos e inchados revelassem o seu estado de espírito, as pessoas esperavam que ela sorrisse e ficasse animada, então, ela não dizia.
Se alguém perguntasse a Julia Lewis porque voltou ao teatro no dia seguinte, a mulher seria inepta para responder. Pensou em diversas justificativas, mas todas elas soavam falsas e infundadas.
Chovia e fazia muito frio, daqueles que doía nos ossos, então ela enrolou-se com a capa e tentou parar o ranger dos dentes. Dentro do teatro estaria mais aconchegante, com toda certeza, mas ela era incapaz de se mexer. O prédio, que era sua salvação, tornou-se assustadoramente alto e opressor.
― Ei, senhorita! Não vai entrar?
A voz do jovem ajudante do teatro ergueu-se sobre o barulho da chuva e o olhar desconcertado de Julia foi, para ele, uma resposta positiva. O homem baixinho segurou-lhe o braço com gentileza para tirá-la da chuva.
― Você tem que tomar cuidado ― ele aconselhou. ― Se pegar um resfriado, o Sr. Wells irá fazê-la vir mesmo se estiver morrendo.
Ela assentiu.
― Qual é o seu nome..?
― Ah! ― disse o jovem, retirando o gorro da cabeça e fazendo uma breve reverência. ― Sir James, ao seu dispor.
Julia riu da pequena graça.
― Eu sou...
― Srta. Lewis, noiva de Woodhouse ― disse ele. ― Eu sei.
A mulher lambeu os lábios, irritada.
― Não sou noiva de Woodhouse.
Ele levantou as sobrancelhas.
― Vocês brigaram?
― Não, nós nunca...
― James!
O grito feminino soou como um susto para Sir James, que deu um pequeno salto, com os olhos esbugalhados, e correu para fora, deixando a Srta. Lewis confusa. A falta de educação do jovem foi justificada quando a dona da voz apareceu bastante irritada e com as roupas ensopadas.
― Por que diabos chove tanto nessa cidade? ― ralhou a mulher, retirando a capa de aparência burguesa. Vestia-se incrivelmente bem: de longe era capaz de perceber a qualidade das roupas que trajava. Era, também, muito bonita, de olhos verdes e o cabelo de um castanho avermelhado. Poderia muito bem ser confundida como uma dama se não fosse o palavreado deselegante e elegância forjada, não natural.
― Se não gosta da cidade é só sair… ― resmungou James, segurando a roupa dela como um bom serviçal.
― Seu... ― a mulher fechou o punho e ensaiou um cascudo, no entanto, o tom brando revelava que não estava realmente ultrajada.
A desconhecida, porém, voltou à postura antiga quando viu Julia ali, na porta do teatro.
― Quem é você?
Era só dizer o nome e apresentar-se, porém, Julia não tinha mais certeza de como responder a pergunta. No dia anterior poderia apresentar-se como pianista, tinha agora que apresentar-se como segunda assistente, invisível.
― Lewis ― respondeu, enfim. ― Srta. Lewis.
― Ela é a noiva de Woodhouse. ― Complementou James.
― Noiva?! ― disse a mulher, com a voz levemente desafinada. ― Aquele estúpido enganou-lhe com o que?
― Não somos noivos ― afirmou Julia. ― E gostaria de não ser apresentada dessa maneira.
― E como quer se apresentada, Srta. Lewis? ― desafiou a mulher.
A pianista encarou a porta do corredor para dentro do teatro. Quando saíra de casa, disse a si mesma que seria a última vez que pisaria naquele lugar e olharia para Liam Woodhouse.
A ideia, porém, lhe deprimia. Lembrou-se da promessa antiga que fez nos dias que fugira de casa, era sua última tentativa.
― Como assistente do pianista ― respondeu-lhe.
― Ótimo ― disse a mulher, com um sorriso misterioso. ― Eu sou a Sra. Daigle e sou a atriz principal da ópera.


...


Não demorou muito para que Julia fosse convidada a se retirar da sala de ensaios. Sua presença descontextualizada e a aparência miserável incomodavam ao Sr. Wells, que tinha coisas muito mais urgentes para resolver do que uma mulher pingando água. Foi de muita conveniência para o maestro que Sr. Martin, diretor da ópera, estivesse interessado em um acompanhamento para os ensaios iniciais de Dido e Aeneas.
O grupo de atores eram exatamente como Julia imaginava: magros como quem não se alimentava direito e talentosos ao ponto de despertarem inveja e admiração em mesma medida. Estavam em aquecimento vocal quando a mulher foi apresentada como "assistente de Woodhouse".
A frase passaria despercebida se não fosse o olhar atrevido da Sra. Daigle.
A Srta. Lewis fora orientada a usar um piano vertical um tanto surrado, de teclas diferentes e uma fina poeira entre elas. Deveria sentir euforia pela chance de tocar, era a oportunidade de ser útil mesmo que os louros não fossem direcionados a si.
Então a primeira música da peça de Henry Purcell estava aberta diante dela.
Não era difícil e nem absurdamente sofisticada, ela havia escutado no dia anterior a orquestra tocar ― o piano pouco tinha destaque, aliás. No entanto, lembrou-se de que nunca havia assistido uma ópera na vida, que era uma pianista de jantares particulares e músicas bobas do interior, uma musicista de igreja que, cercada de pessoas simplórias e sem conhecimento musical, nunca fora cobrada a fazer mais do que podia.
― Srta. Lewis?! Está me escutando?
Os olhos de todos do palco estavam fitos nela, até mesmo aqueles que esperavam por sua vez, sentados nas poltronas vermelhas da plateia, encaravam-na como quem ria de algo muito engraçado.
― Estou sim, senhor.
― Comece a primeira música.
Julia mirou mais uma vez a partitura. Qual era a escala harmônica?
Ela ergueu a mão e a apoiou nas teclas. Soltou um longo suspiro.
― É Sol menor.
A pianista voltou o olhar para quem lhe sussurrou. Sra. Daigle estava ao seu lado, em uma pose aleatória, como quem não queria nada. Julia sorriu-lhe.
― Obrigada. ― Agradeceu, antes de começar a tocar.
Era um prelúdio do Dido's Lament, quando a personagem estava perto da morte. A voz da Sra. Daigle preencheu o teatro como quem se içava em direção ao céu, de um soprano impecável, a cantora pouco mudou as expressões do rosto. No entanto, o que saia de sua boca era capaz de emocionar até as mais insensíveis almas. Daigle pôs a mão no peito e deitou a cabeça para trás conforme a música atingia seu clímax, o toque do piano parecia distante comparado à poderosa e trágica afirmação de sua voz que a morte era um convidado bem-vindo.
Julia já havia se sentido como Dido, quis ser Belinda e agarrar-lhe a mão.
Teve que enxugar as lágrimas quando a música acabou. Sr. Martin não estava tão impressionado quanto ela, mas não deixou de tecer elogios a sua grande estrela. Explicou para o elenco que tinham apenas um mês para a apresentação de abertura e que não esperava nada além da perfeição.
Sra. Daigle nem mesmo dignou-se a encarar o seu diretor, sentou-se em uma cadeira com a elegância de quem pisava no chão porque era impossível voar e sorriu, então, para a pianista, antes de gritar para James que precisava beber água.
Julia Lewis, que não conhecia a Sra. Daigle e não fazia ideia de quem ela era ou mesmo qual era o seu primeiro nome, aceitou-a como aliada.


...


Era quase fim da tarde e boa parte do elenco do Guiscardo estava soltando pequenas indiretas para ir embora. O diretor, porém, estava muito longe de terminar, era tão ou mais perfeccionista que Sr. Wells, exigindo que os atores vivessem tão bem os personagens da tragédia que chegassem a esquecer de sua verdadeira origem.
― Srta. Lewis? ― chamou o diretor. ― Do começo!
Se não estivesse concentrado em disparar impropérios da postura do ator que fazia o personagem Marinheiro, talvez o Sr. Martin teria reparado que a assistente de pianista errava com muita frequência o tempo da música e, embora iniciasse de maneira simplória, a canção era complexada a cada folhear dos papéis.
Julia disfarçava a mortificação quando isso acontecia, no entanto, todos estavam absortos demais em suas atividades para dignar-lhe alguma crítica. No fundo, eles sabiam que não seria ela, em sua infinita insegurança e falta de habilidade, que os guiaria pela apresentação.
Julia passou boa parte do tempo encarando o vazio salão principal do teatro, nunca esteve no lado da plateia, muito menos estaria no lado do palco. Observar a pequena dinâmica dos bastidores fez com que ela se sentisse minúscula e muito ingênua. Como pôde imaginar que chegaria ali como pianista? Ela, sem nenhuma experiência anterior, que apenas tocou uma balada genérica para o maestro?
Ela vestia a capa e preparava-se para ir embora quando escutou:
― Está confundindo o tempo da música.
Liam Woodhouse nunca a cumprimentava, nem mesmo quando estava cega demais para enxergar os defeitos dele. Era um homem alto, cujo rosto comum demorava-se um pouco para ser lembrado. Ainda não entendia como se envolveu tão profundamente com ele.
― Estava me escutando tocar?
― Reconheço seu estilo de longe ― replicou ele, dando um passo em sua direção.
As mãos do pianista foram em direção às fitas da capa dela, amarrando-as firmemente.
― Não pude conversar com você hoje.
O corpo de Julia ficou rígido com o breve roçar dos dedos dele em sua pele. Não sabia se era de repulsa ou de lembrança, há muito tempo não conseguia separar o homem que conheceu em Berkshire Hall do professor carrasco de Londres. Os dois possuíam os mesmos olhos castanhos, o mesmo talento e o tom murmurante, ambos também despertavam uma gostosa e apavorante ansiedade.
― Não faço questão ― replicou Julia. ― Não acredito que tenhamos algo para conversar.
Deu-lhe um leve tapa, não forte, apenas um aviso para afastar-se. Para Liam, no entanto, foi como uma pressão violenta em seu peito.
― Precisamos conversar.
― Não somos nada, Woodhouse ― afirmou a mulher. ― Foi uma aventura, um momento de loucura e coisa da juventude.
― Você não é uma criança. ― argumentou Liam ― Não tem idade para colocar a culpa na inexperiência.
Srta. Lewis inclinou o queixo para cima, o movimento era um déjà vu para o pianista, que recebera tal resposta toda vez que a contrariava.
― Minha reputação está na lama, preferi perdê-la ao casar-me com você. Preciso de mais alguma coisa para mostrar-lhe que não o quero?
Woodhouse passou a mão pelo cabelo em frustração. Para ele, Julia não fazia o menor sentido: em uma noite estava pronta para entregar-se a ele e, antes do raiar da manhã, fugira de casa. A mais velha dos Lewis preferia acabar com o futuro das irmãs mais novas em nome de uma negativa sem propósito.
― Eu agradeço por ter me ajudado a entrar na Selene, mas não receberá mais do que minhas palavras como forma de gratidão. ― explicitou ela, os olhos faiscando com uma raiva de origem desconhecida. ― Deixe-me ir agora.
Precisou apenas de um pequeno espaço para que Julia fugisse em direção à porta. Fez uma pequena prece quando chegou à calçada do teatro, pediu para que os céus mandassem uma carruagem alugada o mais rápido possível.
O transporte que apareceu estava ocupado. Ironicamente parou na frente do prédio e carregava um cavaleiro de roupas finas e postura aristocrática, era uma sombra bem desconexa com a movimentação da rua, levando em consideração que o horário de abertura dos teatros ainda fosse mais tarde.
― Senhor, irá esperar o cavalheiro sair? Preciso ir para Main Street ― indagou Srta. Lewis ao cocheiro.
O cavalheiro ergueu o chapéu com a ponta da bengala e a voz conhecida o fez hesitar antes de andar pela porta.
― Ora, veja se não é a grande Srta. Lewis!
Julia franziu o cenho ao encarar o homem, era muito familiar, mas não o suficiente para que se lembrasse de imediato. Seria ele um dos amigos de Byron que o visitou na época que não eram totais párias sociais?
― Atenda a senhorita e leve-a para o seu destino. ― Orientou o cavalheiro.
Julia agradeceu sem mostrar a educada resistência propícia para momentos como aquele, o desejo de voltar para casa era maior do que as boas maneiras.
Quando entrou na carruagem, viu o cavalheiro esbarrar-se na Sra. Daigle. Houve uma pequena troca de olhares hostis até que os dois caminhassem para dentro do Teatro.
― Senhor, posso perguntar de quem se tratava? ― indagou Julia ao cocheiro.
― Ah ― disse o homem antes de chicotear os cavalos. ― Esse é o Lorde Stanton.

IV. Da paixão

Julia não disse a ninguém que estava apaixonada por Liam Woodhouse. Na verdade, até a ida para Londres, ela poderia jurar que não passava de um flerte passageiro de duas pessoas entediadas. Conheceram-se em um jantar de Berkshire Hall. Na época, os problemas reais e palpáveis eram a crescente antipatia da família Berkshire pela esposa de Lorde Byron e a dificuldade dela e das irmãs para encaixar-se em um ambiente tão requintado. As pequenas doses de hostilidade direcionadas a Millicent matava também à Julia, como irmã mais velha deveria protegê-la. Sua incapacidade de fazê-lo tornou-a negligente e frustrada.
A visita de Liam Woodhouse, filho do administrador do milorde, fora um sopro frio depois de longos dias quentes. No início, eles encontravam-se por coincidência e conversavam com a discrição que se esperava de pessoas de tal posição. A cada diálogo, sentiam que levavam pedaços pequenos da alma um do outro, segurando a peça do quebra-cabeça como de quem possuía um presente. O amor e desilusão pelo piano uniram-os de vez: estavam, então, enamorados.
Quando pensava no que aconteceu, Julia Lewis achava que era tudo um sonho difícil de distinguir com a realidade. Bastou instalar-se em Londres com a irmã para conhecer a verdadeira faceta do pianista. Não conhecia o motivo que culminou a inicial aposentadoria do homem como músico, mas não deixava de imaginar que a personalidade altiva lhe fora a origem do problema.
No terceiro dia de trabalho no teatro, Julia resolveu entrar em casa pela porta da frente. O vestíbulo e as escadas estavam vazios, como de costume, mas a porta da sala de visitas indicava que Millicent ainda estava tomando chá da tarde. Encontrou-a junto com Lilian, pendurada em uma leitura, como de costume.
― Olá, querida, venha aqui beber chá comigo ― chamou Millie ao vê-la na entrada.
Julia sentiu-se estranhamente tímida ao aproximar-se da irmã, estava com os pés suspenso por um banquinho, as mãos depositadas na barriga que ainda não dava muitos sinais da gravidez. Poucas pessoas conseguiam reconhecer que eram irmãs, os traços indianos de Millicent destacavam-se com mais facilidade do que o nariz típico dos Lewis.
Como uma boa anfitriã, Millie pediu para que um dos criados fizesse um pouco mais de chá e a atitude comum deixou a irmã mais velha com a sensação de que era uma visita, uma caridade ― a sensação que a dominava desde que voltara para casa.
― Como foi o seu dia?
― Cansativo ― replicou Julia. ― Mas e o seu? Ainda está com náuseas?
― Elas vêm e voltam ― murmurou Millicent, frágil. ― Ever disse que passa com alguns meses, espero que seja verdade.
A pianista anuiu e voltou-se para servir a si mesma um pouco de chá. Não gostava muito de pensar na gravidez da irmã. Magra e muito pequena, a chance de ter complicações no parto eram gigantes.
― Quando Dido e Aeneias entrará em cartaz? ― indagou a lady. ― Quero pegar os melhores assentos.
Os olhos da mais velha dos Lewis fitaram o pequeno flutuar do cubo de açúcar em sua xícara.
― Em breve. Estamos nos primeiros ensaios.
― Que ótimo! ― exclamou, animada. ― Passado todo aquele problema, sinto-me muito feliz em vê-la realizando um sonho.
Julia sorriu, mas nada disse. Desejou falar que não gostaria que tivesse acontecido daquela maneira, mas o remorso, no entanto, não era um sentimento que gostava de expor.
― Estava pensando, Millie... ― disse ela. ― Lembra-se da época que éramos crianças? Quando você se apaixonou pelo Sr. Standon?
Millicent arrumou as costas, com cuidado.
― Tenho certeza que éramos um pouco mais velhas...
― É claro! Mas quando eu penso na nossa idade hoje sei que éramos muito mais imaturas do que admitimos na época. ― Ela balançou a cabeça, expulsando o devaneio. ― De qualquer maneira, acho que o pai dele bateu as botas. Finalmente virou Lorde Standon.
― Por que está me contando isso?
A pianista piscou espantada.
― Eu o vi no teatro mais cedo. É um problema para você falar dele? ― perguntou com o cenho franzido. ― Digo, sei que ele foi um completo imbecil com você, mas já faz tanto tempo... Lembro que você até se apaixonou de novo depois que descobrimos o que ele fazia! Não achei que fosse um tema sensível ainda, desculpe.
Lady Byron deu um leve tapinha na mão da irmã.
― Tudo bem, July. Não é que eu seja sensível a ele ― explicou. ― Apenas não gosto de reviver antigos sofrimentos.
― Tudo bem ― replicou Julia, voltando-se para sua xícara.
― Como conseguiu entrar no teatro?
As duas irmãs voltaram-se para Lilian, quem havia feito a pergunta. Ela, que sempre escolhia uma postura alheia ao seu derredor, costumava passar despercebida até abrir a boca para perguntar de súbito.
― Do que está falando? ― Julia deu um sorriso nervoso.
― Digo, você nunca tocou nem mesmo em um sarau. ― Apontou a menina. ― Como conseguiu entrar no teatro?
Lilian Lewis era uma menina muito inteligente. Mesmo se ela não soubesse ler uma só palavra no inglês, seu raciocínio ia sempre para os aspectos antes não questionados. Em dias normais, a pianista ficaria muito feliz em ver sua mente em ação. Aquele não era um dia normal.
― Eu toquei para o maestro, ele gostou e me chamou ― resumiu Julia.
― Assim? Tão fácil?
A implicância cortou o fio de paciência que Julia segurava.
― Se não acredita pode procurar alguma informação na minha correspondência. Claro, se você não já fez isso...
O cutucar da ferida produziu a reação esperada: Lily apertou os lábios, magoada, e levantou-se em supetão.
― Imagino que não saiba o que é perdoar, July, já que fez questão de trazer à tona esse tópico.
― Perdoar não é esquecer. ― O tom ficou agudo no final.
― Mas também não te dá o direito de jogar na minha cara quando te der oportunidade! ― Os olhos da garota marejaram. ― Você é a pior irmã mais velha possível! Pior! Eu te detesto!
Com os passos fazendo barulho como os de um grupo de soldados, Lilian sumiu do salão, carregando tempestade. A comum resposta exagerada de uma das mais jovens Lewis deixou Julia com uma pequena sensação de remorso ― a consciência, lá no fundo, murmurou que o que ela fez foi errado e que devia pedir desculpas. Essa fala, no entanto, foi abafada pelo som do profundo orgulho.
― Hum. ― Soltou Lady Byron enquanto balançava a xícara vazia na mão.
― O que foi?
Millicent mexeu a cabeça com ansiedade.
― Nada. ― Prometera a si mesma que não entraria em discussões que não lhe diziam respeito. Já era difícil esquecer as atitudes egoístas do passado de sua irmã, não deveria reforçá-las.
― Diga! ― Pressionou Julia. ― Sei que quer dizer alguma coisa.
Os olhos escuros de Millie fitaram os da pianista com pouco cuidado e não refreou a língua quando disse:
― Impressiona-me que você um dia tenha sido a mais doce e simpática das irmãs Lewis. ― Apertou os lábios, o mesmo movimento de Lilian. ― Agora suas atitudes são todas grosseiras e de quem tem pavio curto. Por onde ficou a mulher paciente e compreensiva que você era? Não a reconheço mais.
A mulher de quem ela falava com certeza iria dar uma resposta rude e orgulhosa, provavelmente bateria o pé e não admitiria que estivesse errada. Julia quase podia sentir as brasas de estresse consumirem sua cabeça.
― Sou a mesma de sempre.
― Não é! ― exclamou Millicent, impaciente. Colocou a xícara na mesa com rudeza. ― Quer saber? Deixe. Irei subir e descansar um pouco antes do jantar.
Os passos da outra irmã foram mais lentos, porém, não menos barulhentos. Deixaram, então, a primogênita dos Lewis fazendo companhia com o orgulho e a impaciência.
Tão rápido quando se inflamou, o orgulho de Julia murchou como uma flor que não via o sol há muito tempo. Deu espaço para a tristeza, uma velha e incômoda amiga. E remorso. Sempre ele.

V. Da escola para garotas

Julia não disse o que achava de verdade da escola das garotas.
Sr. Lewis era médico e ganhava razoavelmente bem para quem vivia num vilarejo como Southwark. No entanto, pagar uma escola para garotas como St Trinian's era um tipo de despesa que apenas poucos conseguiam. Ele sempre andava com a primogênita do lado, todo orgulhoso, e os vizinhos costumavam pensar alto no quanto ela seria bem sucedida. "Quem sabe se torne uma governanta na casa de um nobre? Uma preceptora de crianças de sangue azul?".
Millicent vivia perguntando como era na escola e o que ela aprendera de novo. Julia fantasiava, criava histórias de manhãs de estudo e tardes repletas de doces e felicidade. A irmã mais nova era muito criança e mentir tornou-se um hábito depois que cresceram.
Para a Srta. Lewis era muito mais fácil esconder as pequenas cicatrizes dos castigos nos braços e pernas do que contar-lhes a verdade: ela odiava St Trinian's e tudo que o envolvia. Detestava as janelas altas e difíceis de lavar, os constantes beliscões e tapas que recebia dos professores, as alunas que faziam de sua vida um inferno e o pão seco que comia nas manhãs de domingo.
Em St. Trinian's os dias eram intermináveis, eles davam para alunas um sonho ― piano ou pintura ― e os retiravam de suas mãos na mesma proporção, lembrando-as quem eram e para onde iam. Julia não pensava muito no céu ou inferno, mas quando este era citado nos sermões dominicais, a mulher não podia deixar de imaginar que deveria parecer um pouco com a escola para garotas.

Na manhã de sábado, diante do piano e partitura, lembrou-se das vezes em que teve os dedos esmagados pela portinhola do instrumento em St. Trinian's. Era sua punição por não prestar atenção nas primeiras notas e tentar fazer firulas no meio da aula.
Julia riu, sentindo-se miserável. Ter professores abusivos era sua sina ― da Sra. Bennet ao Sr. Woodhouse, todos achavam que a melhor didática era a humilhação. Tentou, então, focar no que era devido: tocar sem hesitação a música que apelidou como "canção das bruxas". Era a parte mais divertida da ópera e marcava o início do Ato 2. As irmãs Wayward premeditaram a tragédia e eram responsáveis pela tempestade que levavam Enéias até Cartago. As mulheres que iriam representá-la no teatro eram divertidas e que menos tinham dificuldade de performar.
Bateu nas teclas com força, frustrada. Por que estava constantemente perdendo o tempo da música? Não era uma canção tão difícil.
Um riso infantil ouviu-se pelo cômodo e Julia olhou para os lados, à procura da origem do som, mas não encontrou.
― Tem alguém aí?
Então a pianista viu um pezinho descalço escondido atrás do sofá de visitas. Levantou-se devagar e disse em voz alta:
― Hm, o que é isso? Será um fantasma?
Encontrou Pollyana encolhida no esconderijo. Usava camisola ainda e tinha os cabelos completamente desgrenhados. O grito de alegria, porém, era de quem estava muito desperta.
― Te achei! ― Exclamou Julia antes de encher a caçula de cócegas.
― Para, para! ― Gritava a menina entre risos.
― Onde está sua babá? ― indagou a mulher após soltá-la. ― Você não deveria estar dormindo?
― Quero ficar com você hoje. ― Pediu e abraçou a irmã com força.
Pollyana era uma criancinha de seis anos completamente alheia a qualquer problema ou tristeza externa. Era filha da terceira mulher do Sr. Lewis, o mais próximo de uma mãe que Julia e Millicent tiveram. A mulher não lhes era má madrasta, tão pouco se comportava como mãe, criou-lhes com amabilidade e distância, reservando amor e carinho apenas para as filhas Lilian e Pollyana.
Srta. Lewis segurou a menina no colo até o banco do piano. Polly estava muito mais pesada, resultado de uma alimentação rica e sadia que não tinha antes. Sentou-se ao lado da pianista com os pés balançando no ar e escutou bem quando foi orientada a tocar uma tecla específica no tempo oportuno.
Então começaram a cantar:

London Bridge is falling down,
Falling down, falling down.
London Bridge is falling down,
My fair lady


A menina balançava a cabeça para os lados e os pés, suspensos no ar, seguiam o ritmo da música. London Bridge is falling down era sua cantiga favorita ― da curta música nascia todas as que ela produzia quando brincava. Julia se arrependera uma vez de lhe ensinar a cantá-la, mas já se acostumara com a canção. Era a forma discreta de fazer Polly interessar-se por música.

My big apple is falling down,
Falling down, falling down.
My big apple is falling down,
My sweet sister


A pianista soltou uma gargalhada com a mudança da cantiga da irmã. Quando a repreendia, Julia costumava cantar "my patience is falling down" com uma cara brava. Não era de se admirar que a criança nunca a obedecesse.
Depois de minutos de sorrisos e música, Polly teve que acompanhar a babá para lavar-se e comer o desjejum. A criança esperneou, mas foi ainda assim. Julia sentiu uma paz que não sentia há muito tempo ― a irmã caçula era a coisa mais estável de sua vida. Mesmo quando estava sentindo-se miserável, Pollyana deixava o presente menos sofrível.
Quando a menina passava pela saída da sala do piano, Julia escutou ela perguntar para a babá:
― Senhora, eu posso cortar meu cabelo como a July?


...


Era tarde. Boa parte dos músicos e do elenco havia ido embora, sobrando apenas os responsáveis pelo cenário e manutenção do teatro. Naquela segunda-feira, Julia decidiu esperar o prédio esvaziar antes de ir, não queria ter de encarar os diferentes artistas e trocar palavras inúteis como se fosse igual a eles ― era apenas a assistente do pianista, afinal de contas. Quando os ensaios terminavam, a sensação de vazio retornava. Por que continuava indo para o teatro? Por que não disse ao Sr. Wells que ali não era seu lugar? Por que continuava se torturando daquela forma?
Vestia sua capa quando o conhecido som do violoncelo atravessou as paredes da sala de ensaio. Não era nenhuma das músicas que costumavam soar no recinto, era algo novo, desconhecido, e de uma rudeza que mexia por dentro. Viu o músico assim que pôs a cabeça na porta. Era ele, o Sr. Wells, sozinho e tocando o instrumento na frente de um pupilo. Parecia estar se apresentando para ninguém ― balançava com a emoção de quem sentia cada nota tocada. Era muito velho e ainda assim parecia jovem aos olhos da Srta. Lewis.
A alma transbordou-se com a gravidade do som. Os olhos, os primeiros traidores, marejaram.
― Ele é incrível, não é?
Julia passou a mão no rosto rapidamente e não se dignou a olhar para o dono da voz. Antigamente, a presença de Woodhouse preenchia o que estava vazio, mas agora sufocava o que já existia.
― Não me admira ser o maestro da Companhia. ― Ela virou de costas e começou a dirigir-se para a saída.
― Espere! ― pediu Liam, segurando-lhe o braço. ― Por que continua me evitando? Sabe que essa será a última semana de ensaios separados e que logo estaremos todos juntos.
Julia coçou os olhos, exausta. Não queria pensar nas próximas semanas quando sua função seria passar as folhas da partitura. Devia estar com o mesmo sentimento de um animal indefeso e sozinho na floresta, cedo ou tarde seria devorado vivo.
― Não é óbvio? ― disse ela. ― Eu não quero estar com você, Woodhouse.
De todas as negativas, aquela atingiu pontualmente os sentimentos de Liam. Diante dele, Julia parecia cansada, não raivosa, incomodada ou provocativa. Cansada como quem sentia cada palavra que dizia.
Deixou-a ir, sem insistência. Srta Lewis, que não estava acostumada com a facilidade de sair da presença de Liam, saiu do teatro com passos de quem fugia. Não serviu de muita coisa, pois ao chegar à calçada lembrou-se que não dispunha de nenhum tostão para pagar uma carruagem alugada e tampouco se sentia disposta a pedir dinheiro emprestado para o cunhado. Era uma caminhada longa até a casa, mas era a única opção que seu orgulho aguentava no momento.
Esperava as carruagens passarem para atravessar a rua quando uma delas parou bem perto. Não tinha brasão específico, mas era de uma fineza típica das classes altas.
― Srta. Julia Lewis ― chamou o homem pela janela. ― Quer uma carona para casa?
Lorde Stanton, dono da voz que oferecia o veículo, tinha um sorriso exageradamente simpático. Julia não se sentia movida a odiá-lo, mas tão pouco estava disposta a simpatizar com ele. Era um canalha mentiroso, afinal de contas.
― Não, obrigada. Tenho um lugar para ir antes de chegar em casa.
O andar da mulher não impediu que o homem perguntasse:
― Posso levá-la até lá, também. Queria conversar uma ou duas coisinhas com a senhorita.
A primogênita dos Lewis deu um suspiro resignado. Por que era tão difícil para os homens receber um não? Estava sendo difícil segurar todo o estresse que eles despertavam nela.
― Milorde, estou tentando ser educada. Não é viável eu, uma mulher solteira, estar sozinha com outro homem em uma carruagem.
― Agora está se fazendo de pudica?
Ela quase pôde ouvir os ouvidos vibrarem de raiva, o coração ficou bem pequeno no peito. Aproximou-se da janela da carruagem sorrateiramente ― a atitude, para Lorde Stanton, era positiva.
Julia era uma mulher muito alta. Embora a carruagem fosse muito maior, era possível ficar de ponta de pé na janela para encarar o homem bem de perto. O aristocrata esperou o que ela iria dizer, observou o pequeno mexer das bochechas e os lábios apertarem-se um no outro. No final, Julia não disse nada. De sua boca saiu apenas saliva, que atingiu diretamente o rosto de Lorde Stanton.


Continua...



Nota da autora: Julia fez o que todo mundo gostaria de fazer com Stanton hahaha o que estão achando do spin-off? Espero que estejam gostando! Comentem, a opinião de vcs é muito importante. Vejo vcs na próxima <3



Outras Fanfics:
Finalizadas
Confidente [Originais]
Delicado [Originais] (Parte 1)
O Irreversível [Originais] (Parte 2)

Nota da Beta-Reader: Só queria dizer o quanto fico intrigada com a história da Julia e também o fato de que essa St. Trinian's parece ser uma daquelas típicas escolas monstruosas que maltratam os alunos assim como a do filme Matilda. Definitivamente estou curiosa com a história dela com o Liam e o porquê se tratarem assim e deixo aqui meu mais sincero agradecimento por ela ter cuspido no Lorde Stanton hahahah Já quero mais, pelo amor!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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