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Última atualização: 21/12/2020

Capítulo 1


Os olhos verdes me encaravam sem pudor algum, eles eram perigosos e era óbvio que a dona deles também era.
Claro que não por aparência, a altura que não passava de 1,70 pelo que presumi, os traços asiáticos misturados com uma outra raça que não distingui e os cabelos loiros Chanel até que eram atraentes. Todas as características juntas formavam uma aparência meiga, mas eu sabia que era tudo um disfarce.
O que a entregava era a confiança com que olhava ao redor, e a postura ereta e firme, ela era uma agente e eu tinha certeza daquilo.
Ela não tinha uma mão e não usava prótese, não parecia um corte reto e pelos meus palpites que quase sempre estavam certos eu chutaria que era congênito. Mas uma boa distração para que ninguém desconfiasse da mesma.
Em sua única mão havia um corte longo e profundo já cicatrizado, a cicatriz criava um relevo em sua pele e dava mais confirmações para mim de quem ela era.
Uma agente da S17 – Secret 17, que era o total de diretores da agência – que provavelmente estava em missão.
A renomada S17 era uma agência que cuidava das ameaças escondidas pelo mundo. Os agentes da mesma também lidavam com casos corruptos mas eu tinha meus motivos para achá-los extremamente hipócritas uma vez que sabia de todo o dinheiro extorquido e a ajuda para com os políticos que não tinham moral alguma.
CIA? FBI? Eram apenas a imagem de tudo. Quem resolviam os casos complicados do mundo subterrâneo eram S17 e a A.L – abreviação para Återuppbyggnadens Legion, “Legião da Reconstrução” – minha agência.
Duas agências rivais que conviviam juntas por necessidade. A diferença das duas era que S17 tinha um acordo com políticos e A.L não agia pelo governo e sim pelo povo.
Ninguém que não contribuísse ou trabalhasse para as agências sabia algo sobre qualquer uma das duas, e em todos esses séculos elas nunca haviam nem chegado perto de serem derrubadas ou sequer descobertas.
Mesmo que convivendo S17 e A.L sempre estiveram em constante guerra uma contra outra, discordando em todas as ações e pensamentos. Porém as duas tinham trabalhos parecidos já que caçávamos e matávamos criaturas que perturbavam o mundo humano.
Entre essas criaturas existiam, Djinn, lobisomens e vampiros.
Djinn eram uma espécie conhecida pelos humanos mas de forma distorcida, como o personagem da Disney. Na realidade Djinn não eram azuis e conseguiam tomar qualquer forma humana ou animal. Realizavam desejos também mas com um preço, e por isso atraíam humanos pela sua ganância e os manipulavam para que pudesse “negociar” com eles. Humanos que faziam acordos com Djinn vendiam sua alma, filhos, ou qualquer outra coisa preciosa para que tivessem seus desejos concedidos. Djinn eram criaturas muito poderosas e difíceis de serem enganadas, então só os agentes mais experientes eram enviados para lidar com eles.
Lobisomens eram humanos que se transformavam em lobos, não era necessário uma lua cheia – mesmo que a lua cheia fosse o momento em que todos eles se transformavam inevitavelmente – eles também se transformavam quando ficavam com muita raiva ou experienciavam qualquer sentimento ruim em excesso. Tinham uma fome insaciável, muitas vezes pior do que a dos vampiros. Quando lobisomens atacavam humanos era uma grande bagunça e na maioria das vezes resultava em corpos repartidos em vários pedaços.
Vampiros... Criaturas nem um pouco agradáveis. Mortos-vivos que não conseguem ingerir nada além de sangue, não conseguem sair no Sol e não conseguem pisar em solo sagrado. Eram rápidos e ao contrário do que muitos filmes dizem, eles não conseguem controlar humanos com compulsão. A aparência é normal, já que são criaturas que uma vez foram humanos e todos tem presas aparentes, o tempo todo.
Mas como se combatem criaturas assim?
Não, os agentes não tem super-poderes ou coisa parecida. São humanos com um treinamento elevado, disciplina e determinação impecáveis.
Agentes são treinados a partir dos sete anos de idade e não importa se é menino ou menina. Desde então tudo o que fazem tem uma responsabilidade, uma consequência. Que geralmente é a morte ou várias cicatrizes.
Somos criados para sermos perfeitos. E muitos de nós chegamos perto daquilo.
Os olhos claros se esquivaram dos meus com uma piscada lenta, uma que apenas pessoas extremamente tranquilas davam. Eu sabia que ela tinha reparado em quem eu era, mas não estava tentando ser discreto.
Me virei de costas para ela e encarei o bar a minha frente, tomando um gole da minha bebida e ajustando a escuta em meu ouvido.
- Quais são os dados? – sussurrei por baixo da música alta e Melanie bufou.
- Ela é como a porra de um fantasma! – pareceu bater na tecla do computador e eu continuei esperando, olhando pelo espelho que mostrava onde a agente estava. Analisei mais uma vez o vestido justo que batia nos joelhos e tentei descobrir as armas que ela carregava, era praticamente impossível que ela carregasse uma pistola, mas adagas ou facas eram esperadas. – Você tem certeza de que é ela?
- Tenho. – levantei o relógio fingindo olhar o horário e o sistema fez um escaneamento na mulher, enviando-o para Melanie.
- Encontrei! – se animou e eu pigarreei. – Seu nome é Akira, metade brasileira e metade japonesa. Família toda morta em uma invasão da A.L...
- Isso é bom. – sussurrei sarcasticamente e Melanie continuou.
- Uau, ela é melhor que você. – pareceu se perder e eu ri baixinho.
- Eu duvido muito.
- Agente e espiã, nível 42. Especializada em oito artes marciais e em lâminas, sendo uma das artes marciais Kendo. Todos a chamam de Adaga Negra e os motivos não são citados aqui mas eu posso imaginar.
- Melhor do que eu pensava. – refleti sem preocupação.
- Tome cuidado, . Ela é de dar medo. – Melanie parecia ainda estar lendo e me mandou o arquivo.
- Isso é tudo que tem sobre ela? – questionei olhando para o relógio que me mostrava seus dados.
- Sim, foi tudo o que consegui.
- Deve ter mais. – deslizei pelas palavras que lia.
- Isso é tudo, . Como eu disse, a porra de um fantasma. – dramatizou e eu olhei para o espelho mais uma vez. Ela conversava com um homem que tentava dar em cima dela.
No arquivo haviam informações muito vagas, mas se era isso o que eu tinha, era com isso que eu iria trabalhar. Entre as informações haviam coisas como “Altamente perigosa” e “Temperamento imprevisível”, ela tinha fluência em várias línguas e uma posição alta na instituição.
- Se conseguir trazê-la para o nosso lado... Estaremos a um passo de destruir a S17. – Melanie tentou me incentivar e eu não respondi, me preparando.
Então meus olhos procuraram o espelho novamente para encontrarem os dela encarando de volta.
Sem chamar atenção alguma seus pés começaram a se mover e ela andou em direção ao banheiro, provavelmente para fugir. Meus passos a seguiram igualmente calmos e no momento em que entrei na área dos banheiros consegui analisar o perímetro. Ele era todo branco e a pia larga com espelhos de ambos lados o dividia em dois, apenas um banheiro estava ocupado mas eu já sabia que não era ela, era uma tentativa de distração ou armadilha, eu só precisava achar onde ela realmente estava já que o banheiro não tinha saídas fora a entrada.
Quando eu dei mais um passo adiante o corpo dela encontrou minhas costas e eu cambaleei pela surpresa.
Eu me abaixei estrategicamente fazendo com que ela caísse das minhas costas, mas ela aterrissou bem e logo se levantou ficando de frente para mim. Ela tinha arrancado minha escuta quando pulou em cima de mim, e pisou em cima dela.
Ela tirou a peruca loira e seus cabelos escuros apareceram em um rabo de cavalo, ele era grande e bastante liso, e eu tinha que admitir que o cabelo daquele jeito caía ainda melhor do que o cabelo loiro.
Suas mãos rasgaram a lateral de seu vestido até a parte de cima da coxa para que ela pudesse se movimentar melhor e ela jogou a peruca para o lado se posicionando para combate, me dando uma chance de fazer o mesmo como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira para ela.
Ela foi rápida como todos eram mas não foi tão fácil como eu pensei que seria, ela não tinha uma mão mas ainda poderia fazer estragos.
Seu braço sem a mão tentou atacar meu rosto mas tão rápido quanto eu desviei ela tentou outro golpe, mais abaixo do meu pescoço. Eu bloqueei quatro tentativas de golpes consecutivas e quando ela jogou o braço para tentar me dar outro soco eu agarrei seu pulso e o torci fazendo com que ela ficasse de costas para mim. Claro que isso não funcionou muito bem e eu recebi uma cotovelada no rosto de seu outro braço que fez com que eu a soltasse.
Então eu parti para o ataque, desistindo de apenas bloquear os golpes. Tentei jogar meu braço para que acertasse a lateral de seu rosto mas ela o agarrou de um jeito que seu cotovelo bateu na minha mão, e virou um pouco o corpo acertando dois chutes seguidos em mim, um chute no meu joelho e outro forte na batata da minha perna, o que me fez cair com um joelho no chão.
Seu joelho se levantou batendo em meu rosto e ela soltou meu braço me deixando cair por completo. Logo me levantei me posicionando novamente mas estava um pouco surpreso, ela era incrivelmente rápida.
Tentei atacar novamente com um chute frontal mas ela desviou apenas jogando o corpo para o lado e quando tentei de novo ela desviou da mesma forma, deslizando para o lado oposto.
Travei meu punho jogando o braço e distribuindo um soco, mas minha mão cortou o ar quando ela abaixou seu corpo rapidamente desviando do soco e voltando a posição normal.
Ainda trazendo meu braço de volta para perto do corpo ela atacou e acertou um soco na minha barriga novamente com o braço sem a mão, diferentemente do que parecia foi forte até demais e me jogou passos para trás.
- Você é bom em se defender, mas bate como uma criança. – disse com deboche em sua voz e eu arqueei as sobrancelhas. Seu sotaque inglês era tão bom que eu acreditaria nele se não fosse por seu arquivo. Talvez ela tivesse sido criada por agentes ingleses depois dos pais terem sido assassinados. – Está se segurando, ?
- Não seja por isso. – respondi avançando com mais velocidade e ela bloqueou os golpes laterais, em cima e em baixo. Seu pé acertou minha barriga com mais força e eu fui jogado na parede, sentindo uma pontada de dor nas costas imediatamente.
- O que a A.L quer comigo? – andou até mim agarrando meu colarinho e eu ri ainda me recuperando.
- Vá para o inferno. – levantei os olhos e vi uma faísca de diversão nos dela. Mas com essa distração deslizei a perna no chão e a fiz cair com uma rasteira. – Como sabe meu nome?
- Do mesmo jeito que sabe o meu. – sorriu batendo seu dedo na escuta que usava e girando as pernas para se pôr em pé.
- Então eu te pergunto, o que a S17 quer comigo? – avancei novamente correndo para dar potência ao soco mas ela agarrou meu braço e me jogou por cima de suas costas fazendo com que meu corpo fosse jogado nos espelhos e atravessassem aquela divisão, quebrando tudo no caminho. Para que eu não levantasse ela bateu no ponto dos bíceps que conseguia paralisar meu braço momentaneamente e eu trinquei os dentes com a dor.
- Fique tranquilo, não estamos interessados em suas habilidades de luta. – riu cinicamente e eu quase arregalei os olhos, como ela sabia daquilo? – Ah, não faça essa cara. Vocês não são exatamente discretos.
- E vocês são um pé no saco. – tossi, não me lembrando da última vez que tinha levado uma surra daquele tamanho.
- Fique sabendo que se seu objetivo é me tornar uma agente da A.L, é mais fácil com que me mate e não está muito perto disto. – pisou em minha garganta com seu salto e eu não me abalei.
Então tentei dar meu golpe final e deslizar para dentro da sua cabeça, mas o que encontrei foi um escudo que me jogou para fora tão rápido que tudo o que consegui ver foi uma imagem, uma flor, o crisântemo.
Ela cambaleou para trás surpresa e levou suas mãos a cabeça.
- Você é um mutante... – percebeu tirando as mãos da cabeça e eu me levantei, também um pouco atordoado por conta da tentativa de ler sua mente.
Mutantes eram um mistério até para pessoas especializadas em criaturas místicas. Diferentemente de Djinn, vampiros e lobisomens, mutantes eram uma espécie quase extinta e ninguém conseguia explicar como eles funcionavam. Éramos criaturas abominadas.
Meus poderes eram telepatia e aerocinese, e por causa disso eu conseguia sentir que ela ainda estava se escondendo, tinha alguma coisa nela ainda errada principalmente depois de presenciar aquele escudo.
- E você tem um escudo. Te treinaram bem demais. – tentei raciocinar e ela de um sorriso largo, aproveitando demais tudo aquilo. Assim levantados e conversando eu percebi que meu braço latejava de dor, e minhas costas não estavam muito diferentes.
Quando ela abriu a boca para responder uma pessoa entrou no banheiro e nos olhou sem entender o que se passava, no momento que seus olhos recaíram sobre o vidro ela já estava lá e golpeava o homem mirando em sua têmpora e fazendo o mesmo desmaiar, caindo no chão.
- Eu adoraria ficar para limpar a bagunça, mas receio que já está na minha hora. – colocou as mãos na cintura suspirando e como se a vida já não brincasse comigo o suficiente, seu corpo transformou-se em escuridão, uma grande sombra preta flutuando logo sumindo pela janela quadrada do banheiro.
É claro que ela também era uma mutante. E agora eu tinha um homem apagado e pias destruídas para cuidar.


Capítulo 2

- Como ele era, afinal? – Mika finalmente perguntou se sentando na cama, já estava pronta.
- Não era ruim, mas ficou sem foco quando mencionei sobre a estratégia da A.L. – me olhei no espelho mais uma vez, iríamos ter o jantar e reunião do comitê para celebrar a nova vitória com o governo sueco.
- Estou falando da aparência dele, era bonito? – usou um tom interessado, como se ele não fosse nosso inimigo e alvo atual.
- Você não viu o arquivo?
- Não, me conte!
- O que tem de importância? Não é como se fosse um possível pretendente.
- Você sabe como é bem mais excitante lutar com alguém bonito. – brincou arqueando as sobrancelhas. Seus olhos puxados estavam contornados em um delineado gatinho feito com perfeita simetria.
- Ele é bonito, tem cabelos castanhos com cachos grandes, magro, alta estatura, olhos verdes. – recitei me lembrando exatamente de seu rosto e Mika analisou tentando imaginar.
- Olhos verdes esmeralda, mais claros? Ou mais escuros?
- Depende da iluminação, eram mais puxado para o claro, com aquela mistura de amarelo sabe?
- Ele parece ser uma delícia. – assentiu e eu ri.
- Você é impossível.
- Você tem que admitir que é sexy a ideia de transar com o inimigo.
- A ideia talvez. Mas uma vez que a teoria é colocada em prática, nem tanto. – tirei a tampa do batom com uma mão só e me aproximei do espelho para passá-lo. Fui minuciosa, o batom vermelho poderia manchar muito.
- Você soube quem ganhou uma promoção e foi convidado para o jantar? – questionou já sabendo a resposta e eu terminei de passar o batom, espalhando melhor enquanto friccionava meus lábios juntos. Neguei com a cabeça e fechei o batom.
- Hiroto. – a indignação presente na voz.
- Do clã Iga*? – perguntei confusa, ela balançou a cabeça. – E o que tem?
- Ele é insuportável, sempre querendo me passar em tudo e se provar melhor.
- Não foi com ele que você transou na última viagem a Irlanda? – acusei apontando o dedo indicador e ela hesitou mas concordou com um gesto. – Eu pensei que tivesse sido o ninja do clã Kōga*.
- Não, sou apenas amiga dos ninja do clã Koga agora.
- É até que bom, temos muitos amigos no clã pra você sair partindo o coração de todos e fazer com que eles nos ignorem. – nós almoçávamos todos os dias com eles.
- Ele se acha melhor que eu, pela sua posição. – fez uma careta e eu virei desacreditada.
- Lembre-se, você é uma Mochizuki*. Descendente de uma das Kunoichi mais famosas de todos os tempos. Ninguém pode contra você. – segurei seus ombros e ela riu.
- Eu sei! Ele é entanto um Fujibayashi... Ai se eles soubessem quem você é de verdade! – disse com entusiasmo e eu neguei.
- Já falamos sobre isso, não dá.
- A parte da sua mãe também te favoreceu na verdade, mesmo que não use o sobrenome do seu pai ainda é uma Katō. – tentou amenizar o que disse e eu ajustei o vestido vermelho longo, as alças finas postas nos ombros e o tecido emoldurando meu corpo.
- E tenho muito orgulho de ser. – me virei fazendo uma pose e ela bateu palmas.
Seu vestido preto também era deslumbrante, a diferença era que o seu tinha uma saia rodada ao invés de ser justo e o seu decote era em forma de coração enquanto o meu era mais reto.
Ela deu um sorriso cheio e eu soube no mesmo instante que ela não iria embora desacompanhada do jantar, as feições felinas sempre fizeram os homens caírem ao seus pés.
- Qual adaga você vai levar? – perguntou como o último toque para irmos e eu subi a saia do vestido cuidadosamente, tirando minha adaga da meia onde estava escondida e tirando sua capa. Era um punhal Athame, seu cabo era branco e desenhos de dragões o enfeitavam, os desenhos não apresentavam relevo já que peso adicional numa adaga apenas me atrapalharia. Coloquei a capa de volta e deslizei para minha meia novamente.
Mika levou as duas mãos para as costas ao mesmo tempo tirando de dentro do vestido onde estavam escondidos seus Sai, os girando na mão para que eu sentisse inveja por não poder levar minha Katana.
- Pensei que você fosse levar o preto. – indaguei e ela guardou-as no vestido.
- Não tive tempo de limpá-los. – ela se levantou e saímos do meu quarto, se dirigindo ao salão aonde aconteceria o jantar.
Mika e eu andávamos juntas desde que consigo me lembrar e até mesmo estudamos juntas quando a agência nos enviou para o Japão. Mesmo que a maioria das crianças da agência tivessem apenas o aprendizado da mesma, eu e Mika fomos uma exceção enviadas para escolas locais de cidades pequenas enquanto oscilávamos com nosso treinamento.
Por anos quando crianças moramos no Japão, aprendendo a como viver lá, aprendendo os costumes e nos tornando realmente mais japonesas do que qualquer outra nacionalidade. Quando completamos quatorze, as missões começaram então tivemos que nos despedir das escolas e nos contentar com a educação da agência, que era mais sofisticada de fato. Viajávamos muito por conta das missões, mas mesmo passando meses ou até anos longe, sempre nos encontrávamos novamente.
Mika era mestiça como eu, mas ainda assim carregava um dos nomes mais importantes da instituição. Sua mãe era uma ninja aclamada e muito respeitada. Seu pai era brasileiro e cuidava das ações de lá, Mika via seus pais uma vez a cada dois anos.
Minha mãe por outro lado era parte brasileira e parte japonesa me tornando mestiça e me entregando o sobrenome Kato. Meu sobrenome não fazia tanta diferença no meio de tantos shinobi* de clãs importantes, eu havia trabalhado duro pela minha posição e pelo respeito direcionado a mim. Principalmente porque a maioria das pessoas olhava para mim e me achava incapaz por ter nascido sem uma mão, mas eu conseguia fazer tudo que uma pessoa com condições físicas normais fazia e muitas vezes até melhor.
O sobrenome era uma das poucas coisas que minha mãe tinha me deixado depois que morreu em um curto intervalo do meu nascimento, por isso fui criada por amigos dela, agentes brasileiros. O meu relacionamento com meu pai – que era japonês – era uma situação mais complicada, ele estava vivo mas eu não o via desde meus seis anos. Diferentemente da minha mãe, meu pai não era um ninja e nem envolvido com toda a confusão da S17.
Em questão de genética eu era parcialmente mais japonesa do que Mika mas ainda possuía a aparência brasileira tanto como ela.
Por conta de ter sido criada por brasileiros eu havia esquecido bastante do japonês quando pequena, o que veio a dificultar quando entrei na escola. Precisei aprender as coisas básicas novamente e o jeito de me adaptar lá. Mika foi criada com as duas línguas então não foi tão difícil para ela em questão de linguística mas ela também se sentia deslocada por ter a aparência estrangeira.
No Brasil éramos japonesas e no Japão éramos brasileiras. Era como mestiços se sentiam, sempre estrangeiros.
Fora isso a experiência tinha sido muito boa, aprendemos coisas que não teríamos aprendido limitadas a aulas particulares. Fizemos amigos, aprendemos japonês de modo fluente e nunca mais abandonamos nossa cultura.
Haviam sim nacionalistas e pessoas preconceituosas no Japão mas ele era um país até que aberto e com várias oportunidades de trabalho. A população de origem brasileira no Japão é muito grande, junto com a população filipina e chinesa.
Eu amava meu país e seus costumes, tirando os pontos machistas que precisavam ser repensados. Por isso eu e Mika andávamos com os japoneses, nos dávamos muito bem com eles e acreditávamos que deveríamos ficar juntos porque era simplesmente um saco ser a minoria.
Não era raro que eu fosse designada para trabalhos com Mika.
Geralmente em missões eu usava máscaras para modificar meu rosto com o propósito de ser mais discreta mas no jantar eu iria sem todos os adornos, sem lentes de contato ou perucas, apenas um pouco de maquiagem.
Estávamos na filial de Marselha no momento, não tínhamos um lugar fixo para viver mas todo agente importante tinha um quarto luxuoso em cada filial.
Mika adorava Marselha, e tinha me feito prometer que iríamos até Calanque de Morgiou antes que tivéssemos que nos separar novamente.
Ela sempre fora a única pessoa que sabia de todos meus segredos, inclusive uma das poucas que sabia o que eu era de verdade.
A maioria das pessoas me chamavam de Akira já que tinha sido o nome que eu havia escolhido ser chamada. As pessoas mais próximas me chamavam de que era o nome dado pela minha mãe, significava “filha de Júpiter”, ou como os japoneses me chamavam, Juria por conta da dificuldade dos mesmos com o L.
- Veja se não é a Adaga Negra ao lado de sua fiel escudeira!
Nos jantares todos falavam a língua universal, inglês.
- Ótimo, o estadunidense! – Mika sibilou com desprezo e eu arqueei as sobrancelhas.
- O que quer aqui Daniel? Sua mesa é ali, perto da lixeira e da bandeira dos Estados Unidos. “God bless America!”. – apontei realmente para onde a mesa ficava e recebi um olhar em provocação de volta.
- Vocês realmente acham difícil falar “americanos”? Parece que japoneses não conseguem de fato falar em inglês. – cruzou os braços ainda nos incomodando.
- Parece também que estadunidenses são ruins em geografia, América é um continente. Um bem grande por sinal, é engraçado terem tantas barreiras raciais na sociedade e insinuarem que se misturam com povos de outros países, como povos latinos. – Mika rebateu e ele riu discretamente. – Estamos em 2050, e vocês ainda se denominam como “América”.
- E vocês amarelos-
- Poupe-se Daniel, não vai conseguir briga aqui. Se quiser apanhar procure algum de seus amigos. – Mika o cortou e olhamos para ele com sorrisos tranquilos.
Aquilo era decorrente quando as nacionalidades se misturavam, muitos agentes viravam amigos mas muitos também não conseguiam suportar uns aos outros, criando conflitos e arrumando confusões.
- Aproveitem o jantar. – fez uma reverência leve com a cabeça e finalmente saiu.
Em geral, era bastante difícil que grupos se misturassem. Coréia e Japão? Dez mesas entre os dois. Estados Unidos e Rússia? Quinze mesas. E assim continuava.
- Os ratos aqui são impressionantes. – Mika disse em português.
- Eles se acham superiores em qualquer lugar. – nos sentamos na mesa, Mika pediu um Dry Martini e eu um Daiquiri, uma das únicas bebidas alcoólicas que eu apreciava. O gosto era bom, mas eu nunca tomava o suficiente para ficar bêbada. Eu não entendia a diversão em ficar vermelha como um tomate, inchada, com calor e tonta sem ser capaz de andar normalmente.
A maioria dos asiáticos tem uma anomalia genética que torna o álcool bem mais desagradável do que para pessoas que recebem a bebida no organismo normalmente. Estudiosos acreditam que, por seleção natural, essa anomalia genética se manifestou neles como uma forma de sobrevivência. Mas de qualquer forma, muitos asiáticos amam beber. O problema é que além de causar o vermelho no rosto e em outras partes do corpo, pode acarretar outros problemas mais sérios, como uma maior probabilidade de um câncer no esôfago.
Por isso eu sempre aconselhava Mika a não beber tanto, mas estávamos arriscando nossas vidas todo dia, viver um pouco fazia sentido.
- ポルトガル語をやめろ。– Hiroto se sentou na mesa, implicando com nosso português.
- ここから離れて座って。– respondi ainda paciente e ele negou meu pedido para que se sentasse longe daqui.
- ブラジル人と一緒に座ってみえないか? – "por que não vão se sentar com os brasileiros?"
No final dessa pergunta Mika perdeu a paciência e se levantou para o atacar, ele tentou bloquear o golpe mas ela segurou sua mão e com a outra livre pegou em sua nuca batendo a testa dele na mesa, com força e rapidez. O golpe deixou ele desnorteado e ela soltou sua mão deixando ele cair sentado no chão.
- 次回そのように話したいときは、私が16歳のときにすでにあなたのレベルにいたことを思い出して。– "Da próxima vez que quiser falar assim, lembre-se de que eu já estava no seu nível quando tinha dezesseis anos." Mika sussurrou em seu ouvido e voltou a se sentar, desfrutando de seu Martini.
- あなたはこれをしたことを後悔するでしょう!– nos ameaçou descontrolado e eu arqueei as sobrancelhas, olhando para Hiroto.
- ひろとちゃん、ブラジル人が何ができるかを見たくない限り、ここから出て。– “Saia daqui a menos que queira ver o que os brasileiros podem fazer.” Avisei com um tom pausado e ele se sentou na outra ponta da mesa, se afastando e me obedecendo.
- 大丈夫か?– Hiyori apareceu nos perguntando se estávamos bem e concordamos.
- はい、大丈夫だよ。– Mika deu um sorriso doce e de repente todos pararam de conversar. Com a entrada dos cinco diretores o silêncio se instalou no salão.
O total de diretores era dezessete, mas eles nunca se juntavam ao mesmo tempo no mesmo lugar, era uma questão de segurança em caso de ataques inconvenientes.
Os cinco diretores presentes eram: Dasha, a diretora russa. Elisa, a italiana. Fumiko, a japonesa. Maurice, o francês. E Lorenzo, o espanhol.
- Como estão todos? – Dasha começou seu discurso usual em inglês, usando o amplificador de voz invisível.
- Todos aqui sabem da nossa recente vitória no contrato com o governo sueco... – Maurice também disse sorrindo. – Estamos aqui para celebrar!
- Mais um país, mais uma revolução. Continuemos a salvar o mundo! – Lorenzo levantou a taça de champanhe e todos o imitaram.
- E a proteger as criaturas místicas! – Fumiko se juntou ao grupo também levantando a taça.
- Assim como os humanos! – Elisa completou fazendo que todos batessem palmas. Eles complementaram mais algumas coisas ao discurso que rendeu alguns minutos e então a música começou, e a festa prosseguiu.
Uma das diferenças entre a A.L e a S17 era essa, a S17 protegia e acolhia criaturas místicas que mostravam cooperação e a A.L simplesmente eliminava qualquer tipo de vida sobrenatural – isso claro quando eles não usavam mutantes para combater essas criaturas. Hipócritas.
- Ok, mas se você tivesse que escolher alguém com no mínimo quarenta anos? – indaguei e Mika riu olhando para cima, considerando.
- Louis Partridge. – disse com definitiva certeza e eu concordei com a cabeça mordendo o lábio.
- Sim, é uma ótima escolha.
- E não é? Aquele sotaque londrino, os cachos, o maxilar definido... Nossos filhos seriam lindos.
- E desde quando você pensa em ter filhos? – arqueei as sobrancelhas risonha e ela espremeu os lábios.
- É uma realidade alternativa. – rimos juntas e nos olhamos com divertimento.
- 死のペア。– “dupla da morte” Takuma chamou pelo apelido que tinha nos dado quando éramos pequenos e eu e Mika nos víramos já sorrindo, prontas para cumprimentá-lo. Mika o abraçou animada e logo ele veio me abraçar também. Takuma havia estudado conosco na experiência da escola no Japão.
- Como estão? – ele perguntou ainda em japonês.
- Estamos bem e você? – respondi animada por sua presença. – Está em Marselha pelo jantar?
- Não, tenho uma missão aqui. Algo com a LVMH. – sussurrou, agentes nunca falavam sobre missões uns com os outros a menos que estivessem na missão juntos, como parceiros. O fato de Takuma compartilhar aquilo conosco provava o quanto éramos amigos. – E vocês?
- Temos que ficar de olho em um agente da A.L. – Mika respondeu.
- Espionagem? Eu sinto falta de missões assim.
- Faz quanto tempo que não pega uma?
- Alguns meses. – deu de ombros e eu bati em seu ombro. – Ele é um dos grandes?
- Um dos melhores. O perfil dele quase se iguala ao da . – Mika olhou para mim arqueando as sobrancelhas.
- Então você leu o arquivo dele!
- Sim, eu só queria ver o que você falaria. Ele é de fato uma delícia. – mordeu o lábio como se a imagem viesse a mente.
- Ele é o que? Russo? Italiano?
- Franco-estadunidense. Vinte e seis anos. Agente-espião. É um mutante por sinal.
- Isso não estava nos dados dele! – Mika protestou e eu pisquei um olho. – Quais são os poderes dele?
- Ele tentou invadir minha cabeça. – fiz uma careta me lembrando da desagradável dor aguda.
- Ele conseguiu algo? – Takuma perguntou preocupado e eu sorri.
- Ele está me controlando neste momento, estou recolhendo informações para ele. – brinquei e Takuma negou.
- Você vai fazer com que pensemos desse jeito se trazer uma hipótese dessas.
- Eu o expulsei antes que ele pudesse xeretar.
- Sabe se ele é um Dyo M?
- Não sei, mas tenho uma forma de rastreá-lo e descobrir.
- Como? Não é possível que tenha colocado um chip e ele não tenha reparado. – Takuma cruzou os braços e eu levantei minha única mão mostrando as sombras que rodopiaram entre meus dedos desaparecendo logo em seguida.
- Elas estão com ele, posso senti-lo em qualquer canto do mundo quando quiser.
- Isso é injusto em tantos níveis. Tem alguém que pode te vencer?
- Te contar isso não me faz fraca?
- Te faz-
- Eu não sou humana, lembra?
- Então sim, esqueça o que eu disse.
- Lembre-se, T. Eu sou inteligente demais para ser derrotada. – arqueei as sobrancelhas e Takuma me olhou com deboche.
- A modéstia é certamente um traço que se destaca em você.
- Não se ganha o mundo com modéstia.
- Eu não poderia concordar mais. – Mika ergueu o rosto em concordância.
- Akira. – a voz familiar ordenou. Os diretores eram os únicos com a habilidade de transformar qualquer palavra em ordem, já meu nome dito daquele jeito por Dasha quase me arrepiava. Do japonês fui para o inglês:
- Sim, senhora. – me levantei soltando o copo e ela me olhou com um sorriso no rosto. Seu terninho elegante estava perfeitamente posto em seu corpo e o cabelo ruivo preso em um coque firme sem nenhum fio de cabelo fora do lugar.
- Precisamos conversar. – se virou andando para fora do salão e eu a segui, sem questionar e sem olhar para os meus amigos duas vezes.
- Código de verificação?
- 386625472. – a porta nas minhas costas se fechou automaticamente e eu continuei a encarar Dasha, esperando por ordens.
- Tem a localização? – foi direta se sentando na cadeira.
- Ele ainda está em Marselha.
- Preciso que o capture.
- Pensei que ele não fosse uma ameaça.
- E não é.
- Então por que precisa que eu o capture?
- Desde quando espiões fazem perguntas? Eu te dou as ordens, você as segue. É assim que funciona.
- Não me veja como convencida mas se você me quer no trabalho é porque ele é bom no que faz. Prefiro saber com o que estou lidando.
- Se é tão valorizada como acha que é, te aconselho algo Akira. – se levantou aproximando-se. – Siga as ordens que te são resignadas, se você quiser continuar na posição que está.
- Quem vai interrogá-lo?
- Você tem um mês para capturá-lo. Se falhar em sua missão, ela será repassada para outro agente, se suceder poderá interrogá-lo.
- Jura? Pensei que ele fosse um grande segredo. – cruzei os braços, o cinismo perfeitamente distribuído em minhas palavras.
- Poderá formar uma equipe de até doze agentes. – ignorou meu comentário e ali eu percebi o quanto era sério, geralmente o total de agentes que eram permitidos em uma missão eram cinco.
- Eu os escolherei? – um acenar de cabeça positivo.
- Escolha-os muito bem. – avisou com seriedade e eu assenti.
- Permissão para me retirar?
- Concedida.
Voltei para o salão e andei até meus dois amigos que me olharam com as sobrancelhas arqueadas. Mexi a cabeça apontando para a saída sem dizer nada, um sinal para que eles se levantassem e andassem comigo.
No corredor eu finalmente disse:
- Mika, você poderia formar uma equipe? – perguntei com o tom baixo e apontei para Takuma. – Você está incluso.
- Claro, quantos agentes? – ela seguiu meu passo.
- Até doze agentes, contando com Takuma e você. Não coloque ninguém abaixo do nível 30. É uma missão importante e queremos ser discretos, ninguém que possa atrapalhar. – expliquei sem parar de andar e Takuma arregalou os olhos.
- Doze?
- Doze? – Mika repetiu. – Você tem certeza?
- Não são ordens minhas. Eu apenas vou comandar a equipe, quem mexe as cordas que me puxam são os diretores e vocês sabem.
- Ele é tão importante assim?
- Talvez ele seja tão perigoso assim. – sussurrei sem ter certeza.
- E o que farei sobre minha missão? – Takuma questionou.
- Com sorte tudo será feito em um dia. Se a missão se prolongar... Eu peço para que passem sua missão para outro agente. – expliquei simplista e ele demorou um pouco para assentir. – A menos é claro que prefira lidar com a LVMH.
- Tem um plano?
- Tenho algo em mente. – olhei para os dois que estavam sérios. – Primeiro preciso de uma boa noite de sono. Vamos à caça amanhã.
...
- Escutas?
- Preparadas.
- Todos em posição?
- Sim, senhora. – Aidan respondeu.
- Vocês se lembram do que fazer?
- Capturar ele vivo.
- E não chamar atenção. – Nick completou.
- Tak chto poydem na okhotu.* – disse em russo e todos assentiram. Eu sai da van primeiro, então ela se foi para distribuir cada agente em um lugar diferente, para que não levantasse suspeitas.
Eu entrei em Le Petit Nice, um dos restaurantes mais populares e chiques de Marselha. Eu já tinha visitado algumas vezes portanto conhecia a área. Eu gostava dele pela vista do mar através das janelas enormes, as mesas distribuídas do jeito confortante pelo salão e o piso de madeira que trazia clareza. De dia era todo branco mas com o pôr do Sol ele adotava um ar amarelado, era incrível a ideia da mudança de acordo com o céu.
Avistei a alguns metros, ele estava em uma mesa do lado do mar e pude ver seu perfil enquanto ele conversava com outra mulher que o acompanhava na mesa.
Ela tinha a pele negra, o cabelo caindo em cachos modelados e um rosto perfeitamente simétrico. Quando ela piscava você conseguia perceber como seus cílios eram enormes e quando ria invejava o quanto seus dentes eram perfeitos, a boca também tinha um formato bonito o que tornava seu sorriso perfeitamente agradável.
era ainda mais bonito na luz do dia, os olhos se destacavam em baixo de suas sobrancelhas e o formato de seu rosto parecia o formato do rosto de uma escultura da Grécia Antiga.
Minha máscara estava modificada, o que deixava meu rosto ainda mais diferente do que da última vez que havia me encontrado com , eu tinha escolhido uma peruca ruiva, as pontas onduladas pelo babyliss batiam na altura dos meus cotovelos e eu estava usando lentes de contato castanho claro.
- Em posição? – chequei mais uma vez com um sussurro e a cabeça abaixada. 
- Em posição.
- Mika, você sabe o que fazer. – me preparei me endireitando na cadeira e observando enquanto Mika com sua roupa de garçonete andava até a mesa deles e derrubava o prato de comida em .
- Mon dieu, je suis désolé. Monsieur, je vous demande pardon, je vous apporterai un autre plat immédiatement. – ela começou a pedir desculpas tentando limpar e colocando a bandeja na mesa mas ele levantou uma mão a interrompendo.
- Sois calme, tout va bien, je vais nettoyer mes vêtements. – se levantou pegando o guardanapo e desviou de Mika que limpava o que acabou indo para o chão.
Eu avisei pela escuta que era para que esperassem ele mas quando ele entrou na área dos banheiros eu fiquei inquieta e me levantei para me certificar de que tudo correria bem.
- Mademoiselle c'est une salle de bain pour hommes. – o garçom entrou na minha frente e interrompeu meu passo, afirmando que era um banheiro masculino e apontando para a placa.
- Oh, tu as raison! Mon erreur. – sorri envergonhada colocando a mão no peito e o garçom sorriu de volta.
Me direcionei até o banheiro feminino e esperei até o garçom sumir de vista para pode entrar no banheiro masculino.
Quando entrei percebi o silêncio absoluto no banheiro então me preparei para enfrentar mas antes que pudesse virar ele segurou meu corpo e pressionou uma adaga contra meu pescoço.
- Que engraçado te encontrar mais uma vez em um banheiro. – soprou em meu ouvido depois de tirar minha escuta e pisar em cima da mesma.
- O que fez com os outros agentes? – perguntei tentando manter a calma. Minha única mão e meu braço estavam em seu pulso tentando impedir que a lâmina chegasse mais perto mas o outro braço dele estava envolto em minha barriga. Me segurando tão perto que minhas costas pressionavam seu peito.
- Pense, . Use sua linda cabecinha. – pediu me virando para onde pude ver os quatro corpos jogados no chão, o sangue deles manchava o piso e nenhum respirava.
- Você sabia. – perdi o fôlego. – Como sabia?
- Assim me ofende, Ma chérie. Não acredita que poderia derrotá-los sem saber do seu plano? – perguntou fingindo estar afetado.
- Como sabia?
- Talvez tenha um traitre em sua equipe. – sugeriu continuando a sussurrar francês em meu ouvido.
- Se tivesse um “traitre” em minha equipe, você não revelaria. – forcei meu melhor sotaque francês e ele riu, suas mãos mexeram levemente e eu estiquei meu pescoço por conta da lâmina que raspava em minha pele.
- Talvez eu tenha reparado no momento em que você entrou no restaurante, ou talvez eu tenha percebido que a garçonete deu total atenção para mim o tempo todo, observando como eu me movia ou para onde olhava. – revelou distribuindo as opções. – Ou mais importante, talvez suas sombras não possam me controlar.
- Você-
- Eu sou um mutante assim como você, não seja tão ingênua ao me subestimar.
Ele era um telepata, de repente me recordei. E se ele tivesse acesso à minha mente usando minhas sombras? Eu tinha sido burra demais. Eu tinha sido arrogante demais.
- E se eu... Conseguir controlar você assim como pensou que poderia me controlar? – sorriu irritantemente e não pude evitar meu coração de acelerar. O medo veio, medo real, medo que eu nunca havia sentido antes.
- Vai deixar os outros escaparem?
- Por que eu me ocuparia com os outros se você é a agente mais importante da equipe?  – movimentou a ponta da adaga com uma ameaça explícita.
- O que quer de mim, Mon chérie? – perguntei com sarcasmo, ele não gostava do medo, ele gostava de que eu lutasse de volta. Ele gostava de saber que estávamos no mesmo nível, ou pensar, porque ele podia ser esperto, mas eu era mais.
Se ele podia chegar a mim pelas minhas sombras, talvez eu pudesse chegar até sua telepatia do mesmo jeito. Tentei acalmar minha respiração e focar em como seu corpo funcionava, como seu peito se mexia quando o mesmo respirava ou como suas mãos eram firmes enquanto seguravam uma adaga contra meu pescoço. Então depois de me concentrar tirei minha mão e meu braço de seu pulso o deixando confuso. Ele me apertou mais e eu lancei minhas sombras para que impedissem suas mãos de fazer o movimento para cortar minha garganta, e em uma tentativa impulsiva me joguei contra sua mente com a escuridão, ele cambaleou para trás soltando a adaga e pareceu chocado.
Quando tomou de volta a consciência tentou abaixar para recuperar a lâmina mas eu a chutei para longe e respirei ofegante.
- Que jeito de tratar uma dama. – soltei indignada.
- Eu te cortejaria da maneira correta se me mostrasse seu verdadeiro rosto. – sugeriu indiferente.
- E qual seria a graça nisso? – tentei atacá-lo com um chute mas ele foi mais rápido, desviando.
Ele jogou seu corpo para cima de mim e eu me abaixei mas ele caiu rolando para o outro lado e conseguiu a adaga de volta, rodando-a pelos dedos e tentando me atacar com ela. Eu segurei seu cotovelo para que a adaga não me acertasse e ele se soltou tentando me atacar mais uma vez por outro ângulo, usei meus antebraços para bloquear o golpe e quando ele voltou eu joguei meu corpo para trás desviando da adaga que cortou o ar.
Eu tentei dar um soco em seu rosto mas ele jogou o corpo para o lado e usou seu braço para me direcionar para frente assim me fazendo cambalear a diante ficando de costas para ele e dando a oportunidade para que ele desse um tapa na minha bunda, apenas para me provocar.
Me virei com rapidez e joguei minha mão e braço para acertar uma série de socos gancho, um por um lado e em seguida por outro, ele desviou dois indo para trás e quando joguei meu braço com mais agressividade ele o bloqueou com o antebraço e segurou meu pulso com a outra mão tentando me acertar um soco. Eu desviei e consegui acertar uma cotovelada em seu rosto pela falta de proteção que ele teve quando tentou me acertar um golpe.
Sua boca sangrou mas ele não parou e me acertou um soco direto que me fez virar a cabeça.
Quando me recuperei ele tentou me atacar com mais uma série de socos, eu desviei de alguns antes de ser atingida e perder a paciência me preparando para quando ele jogasse o braço direito. Fui para o outro lado desviando de seu braço e agarrei seu ombro esquerdo envoltando seu corpo e jogando o meu no chão para que levasse o dele junto e amortecesse minha queda. Meu braço estava enganchado nele, eu deitada com a barriga para baixo e ele com as costas no chão. Lado a lado.
- Me mostre seu rosto. – disse ofegante.
- Acho que não está em posição de pedir tal coisa. – respondi o imobilizando.
De repente ouvi um grito familiar, um grito que veio da voz de Mika. Então sem pensar direito soquei seu maxilar para que apagasse e corri para fora do banheiro.
Quando pisei na área onde estavam as mesas, todas as pessoas sentadas estavam apagadas como se tivessem sido drogadas, alguns garçons também estavam caídos no chão exceto quatro deles que já tiravam o uniforme de trabalho relevando outros trajes por baixo. Um deles inclusive era o suposto “garçom” que tinha me parado na frente do banheiro masculino.
Varri o perímetro com meus olhos e achei Mika jogada no chão sem nenhum sinal de consciência. Os agentes restantes da minha equipe não estavam ali.
Quando tentei correr até ela algo me puxou, e eu senti o frio do aço de uma lâmina pressionando meu pescoço pela segunda vez em minutos.
- Ma chérie, foi muito rude da sua parte me bater daquele jeito. – sussurrou em meu ouvido puxando meus braços e eu levantei a cabeça.
- O que fez com ela?
- Isso importa agora? – avancei para frente tentando me libertar mas a lâmina raspou mais, cortando minha pele superficialmente e deixando que o sangue escorresse pela minha clavícula. – Você achou mesmo que eu não tinha vindo preparado?
- Você- – arrastou a ponta da adaga pela minha bochecha e eu respirei fundo. Mesmo se eu conseguisse atacá-lo, não poderia sair com Mika dali tão rápido.
- Não poderia mesmo. – respondeu com um sorriso e meu coração acelerou. Ele estava na minha cabeça. – E se eu estiver?
- Saia. – ordenei respirando fundo.
- Acho que não está em posição de pedir tal coisa. – repetiu minha frase e eu comecei a sentir minhas vias respiratórias se fechando.
- Saia da minha cabeça. – ordenei ofegante, transtornada. – Saia, saia da minha cabeça. Saia! Saia da minha cabeça! Saia!
Me desesperei inquieta e comecei a tentar fugir de suas mãos, por um momento breve me esquecendo totalmente de que uma adaga não me dava espaço para me mover com liberdade.
Eu lutei contra seus braços e até mesmo tentei pular, esquecendo de todas as estratégias que havia aprendido no meu treinamento, esquecendo de que era alguém capaz de lutar, alguém capaz de controlar a própria respiração.
- Saia! – gritei sentindo a lâmina tão perto de rasgar minha pele e antes que conseguisse me libertar a escuridão me atingiu. E meu corpo todo se tornou mole.
Meus olhos se fecharam relutantemente e minha última visão foi Mika no chão, desacordada.

Clã Iga*: Foi um dos mais famosos clãs ninja de todos os tempos.

Clã Kōga*: Outro clã muito importante nas histórias dos ninja.

Mochizuki*: Mochizuki Chiyome foi uma nobre feudal japonesa do século 16, nascida no clã Kōga. Reza a lenda que ela decidiu criar uma escola específica para o treinamento de mulheres especialistas na arte da espionagem e sabotagem, ou seja, uma escola para formar as kunoichi (mulheres ninja).

Katō*: De acordo com a história, Katō Danzō era um ninja praticante de feitiçaria, capaz de realizar feitos incríveis como engolir um touro inteiro com uma multidão testemunhando, jogar sementes no chão em segundos elas brotando virando flores ou sendo capaz até mesmo de levitar do chão e voar.

Shinobi*: Outro nome para se referir aos ninja.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber se a história tem atualização pendente, clique aqui


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