Última atualização: 03/12/2017

Capítulo 1

I don't care what people say
When we're together
Happily


Eu deveria estar feliz por ter sido efetivada no emprego dos sonhos de qualquer um, mas ao invés disso, estava desesperada. Correndo o risco de ser atropelada, me joguei entre os carros na avenida mais movimentada de Londres com apenas um salto nos pés. Com minha bolsa pendurada em um braço e uma pasta quase caindo do outro, eu ainda havia arrumado espaço para o sapato quebrado que eu, por algum motivo, decidira levar comigo. Provavelmente o mesmo que me fizera atravessar a avenida com o farol aberto nas minhas condições, mancando e resmungando enquanto tentava não derrubar nada, nem mesmo a mim mesma.
Na verdade, era mais provável que ao invés de cair eu quebrasse um dos pés, e tudo isso apenas para chegar até a farmácia do outro lado da rua.
Ignorando mais um carro que passava buzinando por mim e dois homens que gritavam, finalmente cheguei ao meu destino. Completamente irritada pela transtorno que o sapato havia causado em um dia que não precisava de nada para ser ainda pior, tirei o salto bom e agora completamente inútil e o arremessei longe, em um ápice de histeria. Minha situação já era delicada demais para que eu ainda mantivesse aquele obstáculo desnecessário.
Infelizmente, apenas após completar a atitude estúpida e completamente impensada é que me dei conta da merda que havia feito, mas arregalei os olhos já tarde demais. Com a minha sorte, o sapato atingiu o único lugar que poderia atingir, o vidro de um carro. Antes de lidar com as consequências do meu ato, fiz o que qualquer um em minha situação provavelmente faria e dei as costas, voltando a correr imediatamente. Se quer deveria ter parado, não quando corria o risco de ser agredida por alguns motoristas.
E levando-se em consideração que a minha sorte havia tirado férias, talvez eu não devesse estar tão confiante de que aquilo não aconteceria.
Assim que pisei na farmácia, o atendente se levantou em um sobressalto, provavelmente assustado com minha situação no mínimo deplorável. Em casos normais ofereceria ajuda, mas no meu desconfiava de que ele fosse perguntar se estava tudo bem. Antes que o fizesse, no entanto, o interrompi, não me importando em soar tão ofegante quanto me sentia:
- Testes... Eu preciso de testes... – falei, parando no meio da frase para respirar fundo ao me dar conta da expressão confusa do atendente. Eu havia invadido a farmácia descalça, com desenhos escapando de dentro da pasta e com certeza descabelada. Já sentia alguns fios do cabelo antes preso caírem em meu rosto e tive certeza de que, se não estivesse confuso, o cara provavelmente estaria rindo.
O agradeci mentalmente por não estar rindo.
“Pode ser um alarme falso”, tentei repetir para mim mesma pela milésima vez. E mesmo que não fosse, minha vida não precisava acabar por isso. Ia virar uma confusão gigantesca, mas não precisava acabar.
Droga, quem eu estava tentando enganar? Já podia até mesmo imaginar as manchetes, seria uma catástrofe em todos os sentidos que eu podia imaginar. Céus, eu seria a droga de uma manchete, mesmo depois de tanto tempo tentando me manter longe dela. Não era idiota de pensar que era a única culpada, mas levando-se em consideração que eu era, de fato, a mais prejudicada, o mínimo que deveria ter feito era pensar naquilo antes.
Eu tinha acabado com minha carreira. Vinte anos e eu havia acabado com minha carreira antes de acabar com a faculdade. Deveria ser uma espécie de recorde.
“Não deu positivo ainda”, me obriguei a lembrar antes que meu coração saísse pela boca e minha carreira não começada terminasse em um infarto e não em fraudas.
Era muito ruim preferir um infarto?
- Testes, de gravidez. – conclui por fim e o ruivo do outro lado do balcão abriu a boca em um "ah", como se agora tudo fizesse sentido. Talvez devesse fazer. Com certeza não seria a primeira nem última mulher a entrar em uma farmácia desesperada atrás de testes de gravidez e isso teria me deixado mais tranquila se eu não estivesse literalmente comprando a resposta para o meu futuro.
E eu não estava dramatizando.
- Nós temos aqui algumas marcas e...
- Você acha mesmo que eu conheço marcas de testes de gravidez?!– retruquei beirando um novo ataque histérico e ele ergueu as mãos alarmado. Exatamente o tipo de coisa que ele faria, não pude deixar de notar.
No instante, pensar em Harry era claramente tudo o que eu não precisava. A culpa não era totalmente minha e tampouco dele, mas queria matá-lo ainda assim. Não só ele, o atendente também por me lembrar de quem não deveria no pior momento possível.
- E... eu só queria dizer que três deve ser o suficiente. – se defendeu assustado e tentei suspirar mais uma vez antes que realmente o matasse. Ele deveria ser um simples estagiário, um que não dependia da própria urina para saber se havia acabado com a própria vida.
- Eu quero todos, um de cada. – insisti e ele apenas concordou antes de pegar uma cestinha no balcão para poder colocá-los ali, evidentemente aliviado por não ter mais que lidar comigo.
Não o culpava, eu adoraria não ter que lidar comigo no momento.
Praticamente arrancando a cesta de sua mão quando ele a entregou a mim, segui até o caixa, batendo os pés descalços impacientemente no chão enquanto a mulher passava um a um os testes no leitor de código de barras, um gesto que nunca pareceu tão lento antes. Quando, por fim, consegui pagar tudo e sair dali, tentei esperar o farol se fechar para atravessar a rua apesar da ansiedade e desespero para chegar logo em casa, voltando a me jogar entre os carros assim que o farol fechou para eles.
As pressas, cheguei ao carro que Louis me emprestara. Não que ele soubesse disso. Meu celular apitava insistentemente dentro da bolsa e sabia que era ele. Louis possuía três carros na verdade, mas eu, propositalmente, havia pego seu favorito simplesmente para irritá-lo. Enquanto meu celular tocava, me arrependi de o tê-lo feito e me joguei para dentro do veículo assim que consegui abrir a porta, a batendo com força desnecessária logo atrás de mim. Louis provavelmente me mataria se visse, mas ele era minha última preocupação no momento.
Deixei a sacola da farmácia de lado, junto com minha bolsa e a pasta da faculdade e respirei fundo. Ia dar negativo, tentei repetir isso para mim mesma mais uma vez, mas no fundo eu sabia que não. Por isso estava tão desesperada.
Eu estava há semanas atrasada, mantendo apenas a esperança de ser qualquer problema hormonal. Isso até os sintomas começarem. Sintomas que eu não podia simplesmente ignorar.
Respirei fundo mais uma vez, tentando segurar algumas lágrimas enquanto dava partida no carro, pronta para fazer em dez minutos o caminho que eu, normalmente, levaria pelo menos vinte e cinco. Eu precisava saber se estava mesmo grávida. Quanto antes soubesse antes poderia resolver aquilo.
Assim como o esperado, cheguei em casa mais rápido que o normal e mesmo de longe pude ver a Mercedes de Louis estacionada na porta. Parei logo atrás, agradecendo mentalmente por não ver o carro de Cecile também. Podia lidar com Louis agora, mas não com ela.
Pronta para terminar logo com aquilo, me coloquei para fora do carro após pegar rapidamente minhas coisas sobre o banco. Ciente de que Louis estava lá, não me preocupei em pegar as chaves do pequeno loft na bolsa e apenas girei a maçaneta, não me surpreendendo em encontrá-la aberta. Assim que abri a porta, Louis veio ao meu encontro, exasperado.
- , quando eu te disse que podia pegar meu carro, não era qualquer carro e especialmente esse! – exclamou. Minha vida estava corrida demais para continuar dependendo de taxi e transporte público, mas enquanto eu não retirava meu próprio carro na concessionária, consegui convencer Louis de uma boa ação.
- Você não foi exatamente específico. – retruquei, jogando as chaves do Porsche para ele. Surpreso, Louis não conseguiu pegá-las de imediato, as jogando de um lado para outro em um malabarismo no mínimo cômico antes de finalmente conseguir segurá-las na mão. Cômico para qualquer um que não estivesse prestes a vomitar de nervoso. Eu se quer parei para assistir. – Deixe as chaves da Mercedes no balcão! – gritei já das escadas e mesmo de costas pude imaginar sua expressão desacreditada.
- É sério?! – ele gritou de volta, mas eu já batia a porta do quarto. Não estava preocupada com o fato de Louis estar bravo porque ele simplesmente não estava. – Você sabe que eu estou te fazendo um favor, não sabe?! - insistiu, esperando uma resposta.
- Eu também te amo, Louis! Agora já pode ir! – devolvi, jogando a bolsa na cama antes de correr também para o banheiro, me trancando lá para finalmente tirar aquele peso enorme dos ombros.
Eu só esperava não transferi-lo para a barriga em nove meses.
Parei em frente ao espelho, respirando fundo mais uma vez em uma tentativa de manter a calma que eu, há muito tempo, já não tinha. Soltei meus cabelos completamente desengrenhados depois de tanta corrida e os deixei cair livremente por meus ombros, passando as mãos rapidamente pelos fios a fim de jogá-los para trás antes de finalmente tomar coragem o suficiente para buscar os testes.
- Meu Deus, os testes! – exclamei em voz alta, olhando de um lado para o outro mesmo já ciente de que não os havia pego de dentro do carro. Do carro que agora estava com Louis.
Ainda descalça, me destranquei o banheiro com o coração acelerado e me joguei para fora do quarto, voando escada abaixo um tanto quanto apavorada. As pressas, segui para a porta de entrada e trombei com Louis logo após abri-la, indo ao chão junto com ele e os testes por cima, que caíram da sacola que ele trazia em mãos.
- , mas que droga está acontecendo? – ele perguntou alguns timbres mais alto que o normal, surpreso e confuso enquanto se afastava. Louis sentou-se no chão à alguns centímetros de mim, a espera de uma resposta. – , você está grávida? – ele insistiu, agora ligeiramente preocupado e tive vontade de chorar. Aquela pergunta estava me matando o dia inteiro, eu não sabia mais onde enfiar tanto nervosismo e agitação.
- Os testes eram pra descobrir isso. – respondi por fim sem conseguir encará-lo e tive consciência de ter soado como uma criança amedrontada. Sabia que Louis não me julgaria, mesmo que eu me julgasse, mas isso não aliviava minha tensão. De forma alguma.
Louis concordou com a cabeça, juntando os testes de volta na sacola antes de se levantar e estendeu a mão em minha direção.
- Vai, eu vou esperar aqui. – falou em incentivo, mas apensar de aceitar sua mão e a sacola, neguei com a cabeça. Eu tinha que fazer aquilo sozinha, precisava de tempo para pensar se fosse o caso. E eu tinha quase certeza de que seria.
- Não, eu me viro. – garanti, finalmente o encarando. Não conseguiria me livrar dele se não demonstrasse firmeza naquela decisão, uma que eu não tinha. - Te aviso quando descobrir.
- ...
- Vai, Louis! – insisti, recobrando a agitação de antes ao empurrá-lo para a porta. Sabia que ele conseguia ver o medo da resposta através de mim e por isso lutei para contê-lo, dando espaço para a histérica novamente. – E não se atreva a abrir o bico ou te mato enquanto estiver dormindo.
Louis riu baixo com a ameaça e se deixou empurrar, mas se virou para mim assim que chegamos ao lado de fora, ainda receoso.
- Promete que me liga?- pediu e eu concordei, desejando apenas que aquilo fosse rápido antes que eu realmente chorasse. Eu tinha problemas com excesso de atenção. Odiava chorar, mas chorava quando estava irritada e chorava quando tentavam me consolar, mesmo que eu não tivesse vontade de chorar antes. E nesse caso eu tinha, então Louis não estava ajudando exatamente.
- Prometo, eu ligo. – respondi impaciente, mas ele não pareceu notar.
Louis tentou se aproximar para um abraço, mas de repente apavorada com aquela possibilidade e, principalmente, em estender o momento, me afastei para que pudesse fechar a porta entre nós, a batendo antes que ele tivesse a chance.
- Mas que droga, ! – ele gritou no outro lado e mordi o lábio inferior brevemente culpada.
- Eu também te amo, Louis! – gritei em retorno, dando as costas para correr de volta para o quarto e, finalmente, acabar com aquela tortura.


Me joguei exausta na cama, com os braços abertos e as palhetas de testes espalhados ao meu lado em um ato totalmente anti higiênico, para se dizer o mínimo. Eu já havia feito xixi nas fitas e as mergulhado no xixi e estava até mesmo considerando comprar mais testes só para ver se um xixi diferente mudava o resultado, deixando que aquela única vez em que o segundo risquinho aparecera meio apagado fosse minha esperança, mesmo quando na embalagem dizia que aquilo indicava que não tinha usado xixi o suficiente.
E ele tinha sido o último teste de seis que já haviam indicado que eu estava totalmente grávida.
Distraída, me peguei olhando para o teto de madeira mesmo sem ver nada ali. Apesar de ser fim de tarde, o quarto estava claro devido as enormes janelas de vidro que cobriam uma das paredes quase por completo e me odiei por não ter fechado as cortinas. Gostava do loft pela luminosidade que parecia sempre presente apesar dos tons rústicos das paredes e piso, mas de repente aquilo me incomodava de maneira surreal.
Eu tentava imaginar como raios lidaria com o fato de estar grávida. Independente das circunstancias ao da nossa idade, não conseguia imaginar Harry chateado com a notícia, muito pelo contrário, e me perguntei se deveria, de fato, contar. Eu não podia ter um bebê, cuidar de um bebê, e Harry tampouco tinha tempo para se dedicar a ele. Vivíamos viajando e eu gostava disso. Um dos dois teria que se privar da vida que levávamos e sabia que seria eu. Não estava preparada para deixar aquilo para trás, minha carreira, e menos ainda para ser mãe. Não tinha certeza, na verdade, de que um dia estaria. De que queria ser mãe um dia.
Tirar o bebê parecia o mais justo comigo e com ele, mas quanto a isso, eu não tinha certeza como Harry reagiria. Eu sabia que precisaria de apoio para conseguir seguir a diante com a ideia, mas me matava não saber se o teria se contasse.
Um apito estridente vindo de meu celular me trouxe de volta de meus devaneios e suspirei, consciente de que aquele não era o primeiro. Várias outras mensagens já haviam chegado, mas as ignorei. O som das notificações, em qualquer outro momento, teriam me deixado curiosa ou até mesmo irritada, mas estava completamente alheia a elas enquanto eu me martirizava.
Um suicídio cairia muito bem agora. Me pouparia de pensar em uma solução para o meu problema, mas eu sabia que o drama era algo mais constante na minha vida do que coragem e bom senso. Auto piedade também.
Respirando fundo, finalmente decidi me mover, buscando pelo celular jogado na cama em meio aos testes, os espalhando de um lado para o outro por isso. Quando finalmente consegui encontrá-lo, escondido embaixo dos travesseiros, desbloqueei a tela para conferir as mensagens. As de Louis foram as primeiras aparecerem na tela, seguido por um aviso de quarenta e seis ligações não atendidas de Adrien, o único além de Louis a saber da minha condição, e quatro de Cecile, que dividia o loft comigo. Decidindo que retornar as ligações de Adrien, definitivamente, não era seguro, segui direto para as mensagens:

"Você prometeu me ligar, por que não ligou ainda?" – 18:04

", você não se matou porque o teste deu positivo, se matou? Ser gorda não é tão ruim assim." – 18:26

"Era pra soar engraçado, mas foi um péssimo comentário, desculpa.” – 18:26

“Eu estou realmente preocupado. Deu positivo? Me responde, ” – 18:26

“Ah, qual é? Momento meio desnecessário para você finalmente largar o celular, não acha?” – 18:34

"Você não está com raiva de mim por eu ter falado de ser gorda, está? Foi só uma brincadeira. Uma totalmente desnecessária, admito, mas uma brincadeira" – 18:42

“Porra, . Aparece!” – 18:51


Bufei para as mensagens, decidindo que, por implicância, não o responderia. Louis tinha o dom de ser desnecessário quando queria. Um bebê trazia problemas demais para que ele ainda me obrigasse a pensar também nos que eu ainda não tinha pensado.
Me dando conta de que, na verdade, não havia pensado em muito outros pontos, arregalei os olhos.
Céus, as fãs da banda me matariam.
Eu e Harry nos escondíamos ao máximo para evitar atenção e, mesmo assim, elas já me odiavam. Não importava quantas vezes negássemos, elas me odiavam por cada foto onde, as vezes, aparecíamos juntos. Não precisávamos estar nos tocando, não precisávamos necessariamente estarmos próximos. Me odiavam apenas pelos boatos, milhares deles.
Tinha aquele grupo que criava teorias de que eu e Harry namorávamos em segredo. Algumas teorias sensatas e verdadeiras e outras completamente absurdas. Parte desses fãs torciam por isso, torciam desde as primeiras fotos, dos primeiros boatos, antes de eu decidir me esconder. Falavam que eu era uma garota de sorte mesmo com a outra parte, uma parte muito maior que, bom, me detestava. Para elas eu me aproveitava do parentesco com Louis, me aproveitava da fama mesmo que aquilo se quer fizesse sentido.
Mas além desse grupo tinha aquele pior, aquele que não tinha qualquer lógica. Um grupo muito maior, muito mais forte, o motivo pelo qual evitava Harry em público sempre que podia. Elas acreditavam que Louis e Harry eram um casal, que meus primeiros momentos com Harry haviam sido um contrato e me odiavam até hoje por isso. Algumas me defendiam por eu ser irmã do Louis, mas duvidava que elas mantivessem aquele pensamento se eu aparecesse com um filho de Harry.
Mal podia imaginar o que pensariam, o que diriam, mas não conseguia imaginar nada de bom vindo disso.
Afastando o pensamento, decidi que mataria Louis assim que tivesse a chance simplesmente por me fazer pensar naquilo. Eu não queria pensar em mais nada. Eu queria me afundar na cama e dormir até o dia seguinte. Queria não ter que lidar com aquela gravidez, queria simplesmente sumir e já estava pronta para jogar o celular de volta na cama quando ele apitou mais uma vez.
Revirando os olhos, voltei a destravar a tela, pronta para ver o nome de Louis brilhar na tela novamente, ou talvez Adrien, mas dessa vez era Harry, o que apenas fez com que meu coração batesse ainda mais descontrolado.
E se Louis, na falta de resposta, tivesse aberto a boca? Eu não estava pronta para contar ainda, se quer sabia se contaria.

"Tudo bem com você? Louis falou que você não está bem." – 18:56

"Estou com essa leve impressão de que respondi minha própria pergunta..." – 18:53


Revirei os olhos mais uma vez, mas ainda assim acabei rindo das mensagens. Não que isso me deixasse menos nervosa.
Não era surpresa para ninguém que Harry, um dia, seria um ótimo pai, mas estava cedo demais para que esse “um dia” chegasse. Ainda assim, quando dei por mim, já sorria ao imaginar um garotinho com os seus olhos verdes. As mesmas covinhas adoráveis nas bochechas. Imaginei, sem que pudesse me conter, Harry com ele nos braços, rindo com o garoto enquanto brincavam juntos. Seria adorável, para se dizer o mínimo, e terminei assustada com o rumo que meus pensamentos haviam tomado.
Nunca havia tido vontade de ser mãe, mas poderia fazer aquilo com ele. Não agora, não tão cedo, mas poderia fazer aquilo com ele.
Um dia.
Mais uma vez, escolhi não responder e apenas deixei que o celular caísse sobre mim, fechando os olhos já cansados apesar de ser tão cedo.
Não queria pensar sobre ser mãe e nem do que faria, por hora. Eu podia deixar aquela decisão para mais tarde ou, quem sabe, para o dia seguinte. Podia contar para Cecile pela manhã, pedir ajuda de alguém de fora. No momento, tudo que eu queria era dormir, mas o celular tocou novamente com uma mensagem de Harry, fazendo-me xingar pela insistência dos dois.

", o que você tem?" – 19:00


Por alguns instantes, apenas olhei para a tela sem ter ideia do que responder. Não conseguiria mentir para Harry, não sobre um assunto tão importante e eu soube, naquele momento, que contaria a verdade mesmo que não quisesse. Contaria porque não conseguiria esconder aquilo dele e contaria porque Harry merecia saber.
Não tinha certeza de como ele reagiria ou de como gostaria que ele reagisse, mas sabia que Harry me apoiaria independente da decisão que eu tomasse sobre aquilo, mesmo que não concordasse.
Mas doeria tirar o bebê se ele não desejasse aquilo, sabia que doeria e decidi que aquele era o real motivo pelo qual eu não queria contar. Não era por falta de apoio na minha decisão, era justamente o contrário.
Senti meu coração se apertar imediatamente com aquela possibilidade e pude até mesmo ver a decepção estampada em sua face. Não queria ver aquela expressão, mas mesmo por ele, não sabia se podia fazer aquilo, seguir com aquela gravidez.
O celular apitou mais uma vez e só me dei conta de que algumas lágrimas escapavam quando uma delas caiu sobre o aparelho em minha mão. Fungando uma vez, passei as costas da mão pelos olhos, secando o rosto antes de finalmente lê-la.

"Se não responder as mensagens eu vou ligar." – 19:06

"E já mencionei o fato de que se não me atender eu vou ai?" – 19:06


Certa de que Harry definitivamente cumpriria a ameaça, levantei da cama em um pulo, já respondendo antes que ele me ligasse e eu acabasse em uma crise de consciência que me fizesse falar demais.
Antes que eu tivesse tempo de digitar, no entanto, o som estridente do celular tocando me assustou. Era Harry, e atendi no primeiro toque enquanto juntava todas as palhetas de testes para tirá-las dali.
- Você nem me deu tempo de responder! – falei ao atender, tentando não soar tão aflita quanto me sentia e, no entanto, quem soou aflita do outro lado foi a risada de Harry, que me fez parar onde estava, estreitando os olhos com desconfiança apesar de saber que ele não poderia ver o gesto. – Harry, o que foi?
- Nada, eu só queria te ligar de qualquer forma. – ele respondeu com uma simplicidade que me fez perguntar se a aflição não havia sido apenas coisa da minha cabeça, temendo que Louis tivesse aberto a boca grande. – O que você tem? Por que não veio pra cá com o Louis? – perguntou do outro lado. - Aliás, seria bem melhor se viesse sem o Louis.
- Ei, eu moro aqui, idiota! – Louis retrucou e acabei rindo sem me conter. – É você que está na minha casa!
- Isso não muda o fato de que eu preferia ela aqui do que você. Mas é só uma observação. – Harry devolveu e me aproveitei da discussão que eles iniciavam para juntar os testes positivos na sacola, a recolhendo para seguir até o banheiro e jogá-las no lixo.
– Por que você não para de enrolar e conta logo...
- Louis! – Harry o repreendeu antes que Louis terminasse de falar e parei onde estava imediatamente, sentindo o coração disparar.
O que raios ele tinha que me contar? Que já sabia?
Não, se Louis tivesse contato eu já saberia. Harry não conseguiria simplesmente ignorar ou conter aquele assunto, eu o conhecia.
- Harry, o que estão me escondendo? – perguntei finalmente, decidindo que era outra coisa e ele riu. De maneira nervosa, apenas para comprovar que havia realmente algo errado.
- Nada. – respondeu claramente sem jeito. Uma mentira, e estreitei os olhos enquanto me perguntava o motivo que ele teria para isso. - Eu vou até ai, tudo bem?
- Não! – o interrompi imediatamente, um pouco desesperada demais e tapei a boca com a mão livre antes de correr de volta para o quarto, puxando desesperada a colcha sobre a cama onde eu havia deixado os testes. Segui apressada para o guarda roupa para pegar outra, não escolhendo ao pegar a primeira que via a frente, uma totalmente branca. Segurando o telefone com os ombros, passei estendê-la sobre a cama, disposta a me livrar o quanto antes de todas as provas do que estava acontecendo. - Por que não? – ele perguntou, agora tão desconfiado quanto eu. – , por que parece que você também está escondendo algo... - ele mesmo se interrompeu, ficando mudo na linha por alguns instantes, mas já era tarde demais. Eu havia pego a mensagem. – Droga. – ele xingou baixo, esperto o suficiente para saber que eu não deixaria aquilo passar. Jamais.
- Eu também? – perguntei, parando o que fazia mais uma vez. - Harry?!
- Esquece. – ele pediu e eu neguei com a cabeça, mas ele continuou antes que eu tivesse oportunidade de respondê-lo. - Eu estou indo ai...
- Não!– o interrompi. - Você vai me contar o que vocês estão escondendo... Harry! – exclamei quando ele não respondeu, mas já era tarde. Ele havia desligado e arregalei os olhos para o telefone mudo. – Meu Deus! – falei em alto e bom som, jogando o celular de volta na cama para correr de volta para o banheiro. Peguei a sacola com os testes do lixo e voltei apressada para o quarto, pegando a colcha no chão antes de descer para a lavanderia. Enfiei os testes na máquina e carreguei a colcha para sala antes de me dar conta de que estava fazendo tudo ao contrário e voltar, deixando a colcha e levando os testes o mais rápido possível para as latas de lixo lá fora, optando por jogar aquilo nas do vizinho.
Quando voltei para o quarto estava mais aliviada de certa forma, apenas por ter me livrado das evidências e segui para o banheiro mais uma vez, agora para tomar um banho e finalmente tirar aquela roupa. Meus pés estavam pura sujeira por ter andado descalça no meio da rua e eu me sentia exausta pela correria.
Tirei minhas roupas e entrei no chuveiro, tentando, só por um instante, pensar em como seria se eu tivesse aquela criança. Não em Harry, mas em como aquilo afetaria minha vida, em tudo que eu teria que abrir mão e nos sintomas que eu teria que levar por nove meses. Já me sentia enjoada só de pensar em comida. O mesmo valia para qualquer perfume doce demais perto de mim. Aguentar aquilo por nove meses parecia muito com uma espécie de tortura para mim.
Já não sabia mais dizer quanto tempo havia passado no banho quando um barulho do lado de fora me trouxe de volta de meus devaneios. Eu não morava sozinha então aquilo não era exatamente uma novidade, mas não era exatamente Cecile que eu estava esperando dessa vez. Desliguei o chuveiro, aguçando a audição para tentar ouvir melhor. Por alguns instantes, tudo ficou em silencio e me perguntei se não havia apenas imaginado.
- Cecile? – chamei, mas não obtive resposta e as paredes do piso superior eram finas demais para que ela pudesse não ouvir de seu quarto. Na verdade, eram mais como divisórias. Não existiam quando me mudei, mas como precisava dividir o aluguel aquela era uma ótima opção.
Após esperar por alguns segundos, dei de ombros e estava voltando a ligar o chuveiro quando algo despencou no quarto, seguido por um resmungo conhecido.
Me embrulhando na toalha, sai as pressas do banheiro, encontrando Harry jogado em minha cama, rolando de um lado para o outro com a mão na cabeça e não pude conter uma risada só de imaginar o que havia acontecido. Não sabia exatamente como, mas imaginava.
Ele vestia jeans pretos e uma blusa marrom de mangas cumpridas, com um único botão próximo a gola. Harry havia optado por deixá-lo aberto, fazendo com que fosse possível ver o início dos pássaros tatuados em seu peito, apenas uma pontinha deles. Dessa vez, elehavia deixado as botas bege e totalmente desprezíveis com as quais o mundo estava acostumado em casa e usava um modelo semelhante, porém mais escuro, quase da cor da blusa para meu alívio. A touca preta, que deveria estar em sua cabeça, agora caia sobre a cama depois daquilo tudo e desejei vê-lo com ela simplesmente porque sabia que ficaria ótimo.
- Harry? O que você fez? – perguntei mesmo assim, tentando conter o humor na voz. - E como chegou tão rápido, veio voando?! – continuei, embora suspeitasse de que eu, na realidade, é que tivesse demorado demais no banho.
Harry xingou baixo antes de se sentar. Não a mim, a situação em si, o fato de ter batido com a cabeça e não tirou a mão dela para falar.
- Se tivesse voado não bateria a cabeça na janela.
- Você bateu a cabeça na janela?! – perguntei surpresa, desviando a atenção rapidamente para lá. Era um loft, o primeiro ambiente já era no segundo andar, estávamos no terceiro e a janela ia do chão ao teto, abrindo apenas no topo. – Entrou pela janela? – insisti desacreditada enquanto olhava a árvore do outro alto. Ele escalara tudo aquilo pela árvore? Eu precisava me livrar daquela árvore embora duvidasse que qualquer ladrão fosse ter aquela mesma determinação. - Qual o seu problema com a porta?!
- A fechadura, obviamente. – ele respondeu emburrado, ainda massageando a cabeça, e acabei rindo, sentindo toda a tensão em meu corpo aliviar ligeiramente. Esperava que fosse ser difícil encará-lo sem me lembrar do que estava acontecendo, sem me sentir ainda pior, mas talvez aquilo não fosse possível, não perto dele, não para mim. Harry me transmitia calma independente da situação e calma era exatamente o que eu precisava no momento.
- Existe uma coisa chamada campainha, idiota. – retruquei com humor, vendo-o tirar a mão da cabeça para me encarar com certa ironia.
- Existe uma coisa chamada campainha, existe uma coisa chamada campainha. – ele repetiu com a voz afetada e ri por isso. Harry conteve um sorriso. – E existe uma coisa chamada você no banho, ignorando completamente a sociedade. – devolveu apesar disso.
- E como você sabia que eu estava no banho? – perguntei, cruzando os braços em frente ao peito em desafio e ele apontou para o celular.
- Você não atendeu. – respondeu simplesmente e deixei o queixo cair, desacreditada que aquela era sua desculpa. Ele riu da minha reação.
- Ah, claro! – falei, procurando algum sentido naquilo. Não que a conversa em si fizesse sentido, mas não importava. - Se todas as pessoas que não atendessem o telefone estivessem no banho, definitivamente teríamos problemas com a água.
- Já temos problema com a água. – observou. – Mas se a pessoa fosse você, bom, ai já não teríamos mais água.
Estreitei os olhos para ele e Harry piscou algumas vezes, fingindo inocência. Ergui uma sobrancelha e ele acabou rindo, jogando-se na cama em seguida com os braços atrás da cabeça.
- O que estão escondendo de mim afinal? – perguntei finalmente e Harry, mesmo deitado, me encarou.
- Sério que quer conversar sobre isso assim?! – apontou para mim mesma, chocado, o que eu sabia que também era fingimento. O encarei irônica, demostrando que não acreditava em nenhum momento que aquilo era, de fato, um problema e Harry simulou surpresa. – Fica difícil me concentrar! – se justificou.
- Você não parecia ter problemas com isso há dois segundos atrás, Styles. – observei e ele fez bico. - Pelo menos assim você não me enrola.
Harry voltou a se sentar, mantendo-se apoiado na cama com os cotovelos. Ele ergueu apenas um canto dos lábios em um sorriso, ressaltando a covinha em sua bochecha e lhe encarei com ironia, muito bem ciente de onde ele queria chegar com aquele sorrido.
- A última coisa em que eu consigo pensar no momento é conversar. – falou em uma clara tentativa de fugir do assunto e dei as costas para ele em resposta, seguindo até o armário. Tirei de lá meu pijama enquanto ouvia a risada de Harry logo atrás de mim e ainda sem encará-lo segui de volta para o banheiro.
- Ah, sério mesmo?! – ele protestou embora tivesse uma dose de humor na sua voz e apenas lhe mostrei a língua antes de fechar a porta atrás de mim. – !
Sorri convencida enquanto me trocava, vestindo a camiseta branca com a qual estava acostumada a dormir.Havia roubado-a de Harry na primeira noite que passara com ele. Voltei para a casa com a camiseta no corpo ao invés de vestir novamente as roupas da noite anterior. A lembrança me fez sorrir melancólica. Aquilo parecia ter acontecido há séculos atrás.
Assim que terminei, estendi a toalha e parei em frente ao espelho, suspirando enquanto encarava meu próprio reflexo por alguns instantes, agora já séria. Ainda havia algum resíduo de maquiagem ao redor dos meus olhos, mas optei por deixá-lo lá, dando as costas para meu reflexo ao finalmente seguir até a porta, saindo enfim do banheiro.
Harry estava deitado quando voltei para o quarto, mas virou a cabeça em minha direção quando ouviu minha aproximação, erguendo a sobrancelha em minha direção.
- Ah, porque ficou bem mais fácil agora. – ironizou como se, na verdade, não estivesse acostumado com aquela camisa. Eu sentei ao seu lado, cruzando as pernas ao ficar de frente para ele e Harry não se moveu. - Isso foi filha da putagem. – reclamou ainda assim, sentando-se como eu havia feito, mas me deixei perder em seus olhos sempre tão incrivelmente verdes. Por um instante, aquilo foi tudo que eu fiz, imaginando, mais uma vez, se um filho nosso teria seus olhos. Eu torcia para que sim, mesmo que não fosse esse.
Ao notar que eu apenas o encarava, Harry voltou a sorrir, mas não se moveu de onde estava, apenas tombou a cabeça levemente para a direita. Seu cabelo caiu em seu rosto devido ao gesto e Harry fez uma careta antes de passar a mão pelos fios, os jogando de volta ao seu lugar. Eu sabia que ele não tinha consciência do quão bonito ficara daquela forma, ou adorável, e contive meu próprio sorriso.
- O que foi? – perguntou e neguei com a cabeça, de repente com vontade de abraça-lo. Não precisava que ele me perguntasse o motivo e por isso me mantive no lugar. Ainda não tinha certeza quanto a contar ou não, por mais que gostasse da ideia de ser reconfortada.
- Filha da putagem é você estar me escondendo o que quer que esteja me escondendo.– respondi ao invés disso, autoritária por pura implicância e ele fez bico como se estivesse se sentindo muito culpado, mesmo que, na verdade, não estivesse. A prova foi ele ter rido de si mesmo logo depois.
- Isso é injusto, porque o Louis... – ele começou, mas se interrompeu, ficando em silêncio por alguns segundos como se tentasse escolher melhor as palavras. Odiei que ele precisasse escolher as palavras e estreitei os olhos. Já sabia que o que quer que ele tivesse pra contar não tinha qualquer relação com a gravidez, mas isso não me deixava menos intrigada, não agora, vendo seu receio.
- O Louis...? – incentivei, gesticulando como se perguntasse: “e ai?”.
Em resposta,Harry franziu o cenho com confusão.
- O que foi? – perguntou, confundindo a mim agora. Ele havia começado a falar e, em seguida, se interrompido. Não era eu que deveria perguntar o que foi?
Levei alguns segundos para entender que me confundir era exatamente o que ele pretendia e quando lancei a ele um olhar irônico, Harry acabou rindo mais uma vez, divertido com o que havia causado.
- Admite, quase deu certo. – falou e puxei o travesseiro para bater nele como vingança. O acertei em Harry duas vezes antes que ele, ainda rindo, o segurasse, puxando-o de minha mão para deixá-lo de lado.
O som de sua risada, por si só, já me fazia querer rir e não consegui conter uma risada também, o odiando por conseguir exatamente o que queria.
- Que droga, Harry! Qual é o seu problema hoje? – perguntei e ele se jogou sobre mim, me arrancando um gritinho ao fazer com que caíssemos para trás. Seus cabelos bateram em meu rosto e os assoprei para longe, o ouvindo rir novamente por isso.Por mais que aquela atitude fosse bem típica dele, sabia que estava apenas tentando fugir do assunto. Aquilo me intrigava, mas não pude evitar me divertir com a situação, tentando afastar seus cabelos do meu rosto.
- Saudades? – Harry arriscou por fim com um largo sorriso, mostrando todos os dentes sem se importar de sair de cima de mim.
- Isso foi uma pergunta?! – devolvi e ele negou com a cabeça, ainda sorrindo quanto aproximou seus lábios dos meus sem de fato tocá-los. Levei uma de minhas mãos para seus cabelos imediatamente, torcendo os dedos nos fios enquanto sentia sua respiração quente em meu rosto. Entreabri os lábios, ansiando por seu toque, mas Harry os ignorou ao beijar meu queixo, raspando os dentes pela região em seguida.
Um pequeno choque elétrico passou pelo meu corpo em questão de segundos e, de repente, não conseguia pensar em nada além dele ali. Harry subiu para meu maxilar, deixando um beijo demorado na região antes de seguir para meu lóbulo e fechei os olhos enquanto ele o puxava vagarozamente entre os dentes de forma no mínimo torturante. Podia sentir seu hálito em meu pescoço, o calor de seu corpo no meu e sem conseguir esperar mais, o segurei pela camisa para trazer seus lábios para mim, iniciando finalmente o beijo que ele não havia iniciado.
Harry levou uma de suas mãos para meu rosto, explorando minha boca com a sua e a sensação não podia ser melhor. Tudo nele transmitia uma certa sensação de conforto, familiaridade. Seus toques, seu sabor, a maciez de seus lábios, seu perfume. Em seus braços sentia-me inatingível, exceto que, na verdade, não era. Soltei o ar contra sua boca ao afastar a minha dela, apenas o suficiente para puxar o ar novamente para meus pulmões. Harry puxou meu lábio inferior entre os dentes e segurei com mais firmeza em seus cabelos em resposta, pronta para iniciar um novo beijo que foi completamente frustrado por mais um enjôo.
Espalmando seu peito, o afastei apenas o suficiente para respirar. Eu havia passado o dia com aqueles enjôos repentinos, mas por sorte, todos passaram antes que eu precisasse correr até o banheiro mais próximo.
- ? – Harry chamou de forma contida. Uma de suas mãos ainda se mantinha em meus cabelos e segurei seu braço para que ele não se afastasse completamente. – Está tudo bem? – perguntou e finalmente abri os olhos, sem ter certeza do que responder.
Harry me encarava preocupado e soltei o ar pela boca mais uma vez, decidindo me levantar. Harry passou o braço ao meu redor em sinal de apoio e aceitei a ajuda, já me sentindo melhor. Fechei os olhos novamente, deixando que minha cabeça caísse em seu ombro enquanto respirava.
- O que você está sentindo? – ele insistiu e neguei com a cabeça ao invés de abrir a boca para falar. Harry me puxou para seus braços e me aconcheguei ali, escondendo o rosto em seu pescoço. Suspirei ali, satisfeita com a proximidade, mas seu perfume, mesmo que fraco, foi o suficiente para trazer o enjôo de volta e dessa vez eu soube que não era passageiro.
Afastei-me de Harry rapidamente, pulando para fora da cama com a mão em frente a boca. Corri cambaleante para o banheiro e mesmo ciente de que Harry viria logo atrás, bati a porta assim que passei por ela. A intenção era mantê-lo longe, evitar que presenciasse a cena.
Não sabia muito bem como consegui chegar até o vaso sanitário e ainda levantar a tampa, mas no instante seguinte eu já estava inclinada sobre ele, afastando os cabelos enquanto colocava para fora tudo que havia comido durante o dia. Esperava que com aquilo o enjôo pelo menos melhorasse, mas como se ele, na verdade, fosse apenas o estopim para algo pior, me senti péssima mais uma vez. Uma nova onda de mal estar me atingiu em cheio e me deixei cair no chão, apoiando-me no vaso enquanto vomitava mais uma vez, se quer notando quando a porta foi aberta até Harry se abaixar ao meu lado.
Com um resmungo, virei a cabeça para que ele não me encarasse, mas Harry não pareceu se importar, tentando tomar para si a tarefa de afastar meus cabelos. Com um dos braços, tentei empurrá-lo para longe, mas ele se manteve firme, beijando minha nuca ao invés disso.
- Eu vou ficar aqui. – sussurrou com os lábios no topo da minha cabeça enquanto eu tentava recuperar o fôlego, por um motivo completamente diferente dessa vez. De repente eu me sentia exausta, mas acreditando ter acabado dessa vez, me estiquei para dar a descarga antes de fechar a tampa do vaso novamente. Cruzando os braços sobre ela, apoiei a cabeça ali, não me dando o trabalho de levantar.
Eu odiava aquilo, odiava com todas as minhas forças. Odiava quase tanto quanto estar grávida em si e suspirei, irritada e cansada porque vomitar havia deixado meu corpo mole e preguiçoso, como se exigisse muito mais energia do que exigia de fato.
- O que você tem? – Harry perguntou em um sussurro, acariciando minhas costas preocupado e me senti horrível por estar escondendo aquilo dele. Harry era a melhor pessoa que eu podia pedir para ficar ao meu lado e ele ficaria. Ele sempre ficaria e isso não fazia com que eu me sentisse melhor. – Louis comentou que você não estava bem. O que foi?
Após pensar por um instante no que eu diria, ergui a cabeça, mas não o encarei. Eu precisava contar, tinha que contar, mas amanhã. Seria amanhã porque precisaríamos conversar sobre o assunto e a última coisa que eu queria no momento era aquilo.
- Algo que eu comi, provavelmente. – falei baixo antes de finalmente encará-lo e Harry colocou uma mexa de meu cabelo atrás da orelha enquanto concordava com a cabeça.
- Está melhor? – voltou a perguntar e meneei positivamente em um sim, recebendo um sorriso como resposta. – Vem, levanta. – pediu, segurando-me com mais firmeza para me ajudar a ficar em pé. - Quer que eu faça alguma coisa pra você? – ofereceu, mas neguei com uma careta. Parecia que até mesmo a possibilidade de comer qualquer coisa embrulhava meu estômago.
Só me dei conta de que fazia uma careta por isso quando Harry riu da minha reação. Acabei rindo também por isso.
- Eu só quero escovar os dentes. – respondi por fim. – E talvez dormir. É muito cedo para ir dormir? – fiz bico e ele copiou o gesto. Se de propósito ou por reflexo, eu não saberia dizer.
- Um pouco, mas vou te perdoar porque está doente.
- Muita gentileza da sua parte.
Ele riu.
O barulho da porta sendo aberta no andar inferior fez com que nos calássemos e eu suspirei decepcionada. Dormir não era mais uma opção e Harry riu por isso.
- Casal! – Cecile gritou animada no andar inferior, com uma energia que somente ela poderia ter.Cecile era, na verdade, totalmente escandalosa e gostava dela justamente por isso embora sempre me perguntasse de onde ela tirava tanta energia o tempo todo. A garota ia contra tudo que eu sabia sobre os franceses e se não fosse por seu sotaque inconfundível, teria minhas dúvidas quanto a sua nacionalidade. – Eu sei que estão ai! – voltou a gritar. – Não dá pra ignorar esse carro na porta.
- Cecile, é um loft, você não precisa gritar tão alto para que eu te ouça. – a lembrei enquanto Harry se divertia com a situação. O andar superior era apenas uma plataforma no alto. Podíamos conversar de qualquer lugar da casa.
- Ah, não sei! – ela devolveu, ainda sem parar de gritar. – Você fica o dia inteiro grudada no celular e mesmo assim não escuta quando ele toca. – ironizou, referindo-se a suas chamadas não atendidas.
- Talvez eu tivesse ocupada. – devolvi e Harry acabou rindo.
- Vocês pretendem realmente continuar gritando uma com a outra?
- Sim! – Cecile gritou do andar inferior enquanto eu repetia sua fala, o fazendo rir mais uma vez. – E se reclamar, não vai ter direito a comida japonesa.
A simples menção a comida me fez gemer enojada e Harry ergueu uma sobrancelha, divertido.
- Eu vou pedir que ela abra as janelas. – falou, e não podia concordar mais com aquela ideia maravilhosa, para se dizer o mínimo. Eu provavelmente enjoaria só com o cheiro. Esse era o nível. Harry se aproximou, fazendo-me fechar os olhos ao beijar minha testa. – Acha que consegue suportar um chocolate quente? – ofereceu e ponderei sobre o assunto. Eu estava apenas tentando me decidir se vomitaria a bebida também, mas ele riu ao levar aquilo como um “sim”. – Vou trazer. – avisou, dando as costas para sair do banheiro.
Mais uma vez, voltei a encarar meu próprio reflexo por alguns segundos e suspirei, buscando a escova de dentes para me livrar daquele gosto terrível. Tentei não voltar a me lamentar por estar grávida e para isso me concentrei na conversa que os dois iniciaram no andar inferior, enquanto Harry abria as janelas.
- Trocou de carro de novo? – Cecile começou mesmo já sabendo da resposta. Tinha um carro de luxo na nossa porta, não era como se alguém pudesse ignorar. – Sabe, não aceitaria um carro de presente, mas eu juro que não me incomodo.
- Vou lembrar disso no seu próximo aniversário. – Harry respondeu com humor e mesmo sem ver Cecile, não foi difícil imaginar sua expressão de completa satisfação com a resposta.
- Sério?! – ela quis saber, completamente animada com a ideia, e Harry riu em resposta.
- Não. – falou ele, simples, e ela resmungou.
- Ah, qual é! – reclamou indignada e deduzi que foi ela quem arrastou uma cadeira. - Dois dígitos não iam realmente fazer diferença na sua conta bancária.
- Mas porque eu gastaria dois dígitos em um carro pra você se eu posso comprar um para mim? – ele perguntou enquanto eu enxaguava a boca. Lavei também o rosto, sentindo-me infinitamente melhor com a água gelada e suspirei satisfeita, passando a mão gelada também no pescoço.
- É, não posso negar que você tem um ponto. – Cecile respondeu do andar inferior e ouvindo a conversa, juntei os cabelos para prendê-los em um rabo de cavalo. Já não me sentia tão cansada mesmo que não fosse recusar minha cama, mas me virei de costas para o espelho, tentando decidir se arriscava ou não descer. Não que a conversa dos dois fosse a melhor possível.
- Claro que eu tenho. – Harry devolveu. – E sabe o que você já tem? Um carro.
- Isso não é justo. Você tem tipo uns quatro.
- Cinco. – Harry corrigiu e ri baixo por isso. Não pela fala exatamente, mas pela conversa em questão e insistência de Cecile. Por fim, decidindo que já estava melhor, resolvi descer finalmente.
- Você é desprezível. – ela respondeu de boca cheia e Harry não disse nada. O imaginei dando de ombros antes de Cecile voltar a falar. – Mas por que está fazendo chocolate quente ao invés de sentar para comer? – perguntou, soando verdadeiramente confusa.
- está enjoada. – ele respondeu e ela fez algo como um “ah”, mas ficou em silêncio pelos próximos instantes enquanto eu saia do quarto, dirigindo-me até a escada.
- Não sei como chocolate quente vai ajudar. – acabou dizendo após alguns instantes, soando pensativa. - Você não deveria fazer chá? – perguntou, mas se interrompeu antes que ele o fizesse. – Ela não gosta, eu sei. Fresca. – disse, novamente com a boca cheia, e ele riu. – Mas é fofo você cuidando dela de qualquer forma. Já que não vai me dar um carro, podia me arrumar um namorado assim. Ou namorada. Não tenho restrições a sexo, especialmente se for famosa. Uma que me dê um carro. Pode ser uma Kardashian, não ligo.
- Uma Kardashian, certo. – respondeu com humor e uma certa dose de ironia. - Quer mais alguma coisa?
- Chá. – ela respondeu e Harry, no fogão, se virou para encará-la, sentada a mesa. Seu olhar era irônico e ela sorriu largamente em retorno, sem mostrar os dentes graças a boca cheia.
- Era uma pergunta retórica. – Harry falou e ela deu de ombros enquanto voltava a mastigar.
- Ela não é capaz de entender coisas como essa. – falei ao me aproximar e Harry se voltou para mim. – E nem ironia ou sarcasmo.
- Ela finge que não entende. – ele apontou em minha direção como se dissesse que aquele era o ponto em questão e ri com sua expressão, aproximando-me para abraçá-lo por trás, apoiando a cabeça em suas costas. Harry levou uma de suas mãos até meus braços ao seu redor.
- Sou inocente de todas e quaisquer acusações. – ela respondeu, mordendo um hot roll. – E você não está bem demais pra que não estava bem?
- Já me sinto melhor. – respondi, realmente satisfeita que o cheiro da comida japonesa não fosse o suficiente para me enjoar novamente. Não achava seguro comer ainda, mas não vomitar com o cheiro já era um progresso e tanto levando-se em consideração a frescura do meu estomago na última semana. Não que eu pudesse culpa-lo exatamente.
- Melhor mesmo? – Harry perguntou em um sussurro, tentando me encarar por sobre os ombros e apenas concordei com a cabeça, ciente de que ele sentiria o movimento em suas costas. – Pode pegar as canecas para mim? – ele pediu e mais uma vez concordei, afastando-me para seguir até os armários.
- Gostaria de observar que ainda estou aqui. – Cecile falou. – Essa conversa estava fluindo muito melhor sem você, .
Eu ri de sua afirmação.
- Claro. Você fala da parte de não conseguir um carro ou a de não conseguir uma Kardashian? – perguntei, entregando as canecas a Harry.
Cecile me encarou com os já enormes olhos azuis arregalados e o queixo caído, como se estivesse muito chocada. Era apenas Cecile sendo Cecile, com muitas caras e bocas de percurso, mas ri por isso. Normalmente ria mesmo que, independente de suas caretas tão típicas, ela continuasse tão absurdamente linda. Cecile cursava moda junto comigo, mas frequentemente era cogitada para ser modelo para a turma. Por motivos óbvios.
- Você estava escutando a conversa? – perguntou, soando perplexa, e revirei os olhos enquanto Harry ria, despejando o chocolate quente nas canecas.
- Qualquer dia desses eu te explico o conceito de loft. – respondi e ela me mostrou a língua em retorno, enfiando mais um hot roll na boca.
- Ou pode só lembrar que não tem paredes. – Harry insistiu, entregando uma das canecas para mim. Eu aceitei, o agradecendo antes de seguir para o sofá com Harry logo atrás.
- Odeio os dois. – Cecile retrucou, apontando os palitinhos em nossa direção. – O pior casal do mundo. Trouxe comida para três e vou comer tudo sozinha. Tudo, tudo.
Eu ri enquanto me sentava no sofá, assoprando a bebida.
- Ninguém quer sua comida, não sei se notou. – Harry respondeu e ela o encarou fingindo estar muito brava com o comentário em uma nova careta típica.
- Ingrato. – devolveu e ele deu de ombros, sentando-se ao meu lado.
- Eu fiz chocolate quente pra três, mas se quiser eu também posso resolver isso pra você. – provocou e ela mostrou a língua mais uma vez enquanto eu finalmente dava um gole na bebida. Era simples, mas estava ótima e foi muito bem recebida apesar de quente. Um cobertor combinaria muito bem com ela.
- Não, vou aceitar seu chocolate como pedido de desculpas. – ela respondeu e ele riu, sendo muito mais cuidado do que eu ao tomar um gole da bebida quente.
- Eu estava realmente bem preocupado que você não me desculpasse. – ironizou ao afastar a caneca dos lábios e ela concordou com a cabeça, como se aquilo fosse bem lógico.
- Eu sei, minha amizade costuma ser bem importante para as pessoas. – devolveu e foi a minha vez de rir.
- Eu disse que ela não entende ironia. – respondi, tomando mais um gole em seguida. O calor do chocolate aqueceu meu corpo de forma acolhedora e apesar de toda a situação dramática de minutos antes, me senti muito melhor com ele, como se tudo estivesse em seu lugar mesmo que, na verdade, não estivesse.
- Ah, ela entendeu sim. – Harry respondeu, estendendo um dos braços no encosto do sofá em uma atitude impensada. De canto de olho, observei seu gesto e Harry, ao notar, ergueu uma sobrancelha de forma convidativa, como se perguntasse o que eu estava esperando.
Satisfeita, me aproximei mais dele, me aninhando em seus braços com a caneca ainda em mãos. Harry beijou minha têmpora e eu sorri com o gesto, fechando os olhos em seguida. Foi questão de segundos para que eu me sentisse sonolenta mais uma vez e bocejei, abrindo os olhos apenas para ver o que fazia ao me inclinar, deixando a caneca com meio conteúdo antes de voltar para Harry.
- Quer subir? – ele perguntou e eu neguei, me ajeitando ali mesmo sabendo que em questão de segundos, provavelmente cairia no sono.
- E aqui estou eu sobrando mais uma vez. – Cecile comentou. Não abri os olhos para lhe dar atenção, mas sorri ainda assim. – Vocês me enojam. – retrucou e pelo barulho da cadeira, imaginei que estivesse se levantando.
- Você nos acha fofos. – Harry a lembrou enquanto eu ignorava o assunto, ouvindo-o apenas superficialmente. Já sentia a inconsciência aos poucos me tomar. - Palavras suas, não minhas.
- Fofo você cuidando dela. Todo esse resto é chato. – Cecile devolveu, fechando a geladeira que eu não havia sido capaz de escutá-la abrindo.
- E foi por isso que me pediu pra te arrumar um namorado. Entendi. – ele ironizou. – Aproveita que vai subir e trás um cobertor. – pediu, rindo sozinho em seguida e imaginei que ela tivesse lhe mostrado a língua. Ou quem sabe o dedo do meio. – Obrigado. – provocou, mas se Cecile trouxe mesmo ou não a coberta, não soube dizer. Antes disso já havia caído de uma vez no sono.

Acordei com um sussurro tão baixo que levei vários segundos para me dar conta de que era realmente um sussurro, e não apenas fruto da minha imaginação. Talvez tivesse soado tão baixo porque eu, na verdade, não tinha acordado totalmente. Apenas uma pequena parcela da minha consciência havia despertado. Uma tão pequena que chegava a ser irrelevante. Não que eu tivesse me importado.
Em algum lugar distante na minha mente, lembrava-me de ter adormecido no sofá, mas não era nele que eu estava. Mesmo sem abrir os olhos ou se quer acordar totalmente, sentia os lençóis da cama confortáveis logo abaixo de mim. Sentia o calor do corpo de Harry emanar para o meu, familiar e acolhedor, confortável, e me aconcheguei melhor em seus braços, não dando a mínima para o sussurro de quem quer que fosse enquanto escondia o rosto em seu pescoço, suspirando seu perfume que dessa vez, não em incomodou. Não que eu lembrasse que um dia ou em algum momento, havia incomodado. Não quando era tão bom. Não quando me trazia uma sensação tão boa de paz.
Ali, dormindo dos braços de Harry, não existiam problemas. Não existia gravidez, não existia carreira ou fãs. Era só nós dois e me deixei vagar para longe, o mais longe que podia da realidade tão atualmente desagradável.
- Ei, Harry... – ouvi novamente, só então distinguindo as palavras. Distinguindo que eram palavras de fato.Não que eu estivesse interessada no assunto ou mesmo em quem chamava. Eu só queria continuar ali, queria dormir enquanto ainda tivesse sono para isso. – Harry... – insistiu e lutei ao máximo para ignorar enquanto Harry resmungava qualquer coisa, movendo-se preguiçosamente na cama. Assim como ele, resmunguei também. Resmunguei por Harry ter de movido, resmunguei pelo barulho e resmunguei por quem quer que estivesse tentando tirar Harry de mim, mas de olhos fechados e sonolenta como eu estava, não foi difícil fingir que nada tinha acontecido. – Levanta logo dai.
- Porra, Louis... – Harry respondeu com a voz arrastada, quase em um resmungo, mas já ouvia tudo longe demais para me importar. Para se quer assimilar o fato de Louis estar na minha casa e no meu quarto logo pela manhã. - Vai se fuder, cara. Me deixa dormir.
- Você contou? – Louis perguntou sem aumentar o tom de voz. Não que estivesse servindo para alguma coisa ou para evitar que eu escutasse, supondo que era esse o motivo. Mas minha mente, apesar de desperta o suficiente para ouvir a conversa, não conseguia fazer com que eu assimilasse e interpretasse as palavras. Eu sentia apenas um enorme espaço vago onde deveria estar o entendimento, mesmo quando Harry xingou baixo, parecendo imediatamente mais acordado.
- Louis, ficou louco? – ele respondeu, também aos sussurros, e resmunguei mais uma vez, afastando-me de Harry para virar na cama, dando as costas para ele. Assim que o fiz, puxei as cobertas sobre minha cabeça, encolhendo embaixo delas na esperança de que eles entendessem que estava na hora de calar a boca.
Por alguns instantes, o plano pareceu funcionar, o silêncio que se fez no quarto permitiu que eu voltasse a dormir, mas durou apenas alguns segundos antes que eles voltassem a falar, despertando-me mais uma vez.
- Ela não ouviu? – Louis perguntou, surpreso e cuidadoso, com mais um sussurro e o xinguei mentalmente por isso. Se tivesse de olhos abertos, os teria revirado.
- Cala a boca. – Harry devolveu simplesmente, entre os dentes, e senti seu movimento ao meu lado na cama enquanto ele se levantava, cuidadoso. Não ouvi mais nenhuma palavra sobre absolutamente nada, apenas passos cuidadosos enquanto ambos se afastavam e ignorando os dois e até mesmo a breve discussão, me deixei ser dominada pelo sono mais uma vez.

Acordei sozinha em um quarto escuro e totalmente silencioso e apenas me aconcheguei melhor na cama. Era sábado, não precisava me levantar antes do meio dia e tampouco estava disposta a isso, a enfrentar minha realidade. Precisava contar a Harry sobre estar grávida, sabia disso, mas optei a me esconder novamente embaixo das cobertas tão aconchegantes, decidindo que voltar a dormir era melhor que aquilo.
Não tinha ideia de como ter com Harry a conversa que eu precisava ter e levei vários minutos para me dar conta de que, na verdade, ele havia passado a noite comigo. Harry já estava lá, o que prejudicava bastante a ideia de ignorar tudo até que fosse totalmente necessário. Já era necessário, não tinha como fugir.
Resmungando totalmente frustrada, decidi me levantar da cama antes que Harry voltasse para me acordar com beijos sem que eu escovasse os dentes. Aquilo não me fazia mais segura do que eu tinha que fazer ou curava meu nervosismo, meu medo, principalmente de não saber o que viria a seguir.
Apenas quando cheguei ao banheiro lembrei-me de Louis e parei, sem ter certeza se havia sonhado com a breve discussão dos dois ou se fora verdade. Eu tinha aquela tendência de misturar as duas coisas ou de esquecer o que me diziam naquele estado de semi consciência, mas dessa vez me recordava da conversa. “Você contou?”, foi o que Louis quis saber e lembrava-me claramente do motivo pelo qual Harry viera até minha casa em primeiro lugar. Eles me escondiam algo, os dois, e curiosa dei meia volta, saindo do banheiro para seguir lenta e preguiçosamente até a porta do quarto, vacilando ali, com a mão no puxador.
Eu sabia que uma conversa fluía no andar inferior, ouvia murmúrios, mas o fato de não conseguir distinguir falas ou pessoas me deixou intrigada. Eu deveria ser capaz de ouvir a menos que estivessem aos sussurros. E se estavam era por que havia o que esconder, algo a contar, e decidi que não, a discussão de Louis e Harry não havia sido apenas um sonho. Tinha algo acontecendo e agora, depois de tanto suspense e sussurros, já começava a ficar preocupada.
Cuidadosamente, abri apenas uma brecha da porta, espiando do lado de fora. Mesmo dali eu podia ter uma visão ampla da sala, mas vista do alto, o que também permitia que qualquer um ali fosse capaz de me ver. Eu queria ouvir o que eles diziam sem que soubessem que eu estava lá e apenas quando decidi que era seguro, terminei de abrir a porta, aproximando-me do parapeito da plataforma para que pudesse ouvir o que diziam na cozinha logo abaixo, onde sabia que estavam. Era o único ponto da casa que não podia ser visto ali de cima.
Eu sabia que minha curiosidade excessiva pelo que eles poderiam estar escondendo, na verdade, tinha relação com o que eu escondia, com o que eu não queria contar, mas mesmo assim segui focada naquilo apenas para adiar um pouco mais o que era realmente necessário.
- Nem vem com essa de “me deixou” vir! – ouvi Harry dizer, soando pasmo assim que cheguei ao fim da escada. Não ousei descer mais que aquilo devido ao risco de ser pega antes de ouvir sobre o que conversavam. – Primeiro que você não tem que “me deixar vir” e segundo que você nunca planejou contar! Estava esperando que eu fizesse isso, preferia que fizesse!
- Vocês sabem que dá muito bem pra ouvir o que falam lá de cima, né? – Cecile comentou, soando ligeiramente entediada com a discussão.
Confusa, franzi o cenho, me perguntando o que diabos estava acontecendo. O que era tão importante para que eles precisassem dizer e relutassem tanto nisso. Ao me dar conta de que minha situação era exatamente idêntica, endireitei a postura sem que me desse conta, de repente ainda mais tensa do que estava ao acordar. Sabia que o que escondiam não tinha exatamente uma relação com a gravidez, mas isso não me deixava menos curiosa ou preocupada.
- Pelo menos ela ouviria o que o Harry tinha que ter dito ontem e não disse. – Louis retrucou para Cecile e desejei poder espiar para ver a reação de Harry com suas palavras, para ver a expressão dos dois enquanto discutiam. Precisava saber o tamanho da seriedade do assunto e só olhando para os dois saberia se não estavam, na verdade, exagerando.
Louis, especialmente, era exagerado por natureza.
- Não disse, mas você está aqui agora, por que não conta? – Harry devolveu, agora mais baixo e tive que apurar os ouvidos para ouvir já que não podia sair dali. Mesmo das escadas eles poderiam me ver e nunca antes odiei tanto morar em um loft.
- Eu sou só o irmão! – Louis respondeu como se fosse óbvio, como se aquele fosse o principal ponto em questão, o que fez ainda menos sentido para mim. – Você é quem tem que contar, é o namorado.
- Não era pra ser família em primeiro lugar?! – Harry perguntou em uma clara tentativa de fugir da responsabilidade e Cecile riu por isso de onde quer que estivesse. Não que eu ao menos imaginasse porque ela estava participando daquela conversa.
- ficaria bem satisfeita de te ouvir falando assim. – ela ironizou, o que chegava a ser irônico já que no dia anterior, discutíamos sobre sua capacidade de entender sarcasmo e ironia. Harry estava certo afinal.
- Eu não falei nada demais. – Harry se defendeu e ela riu. Sabia que não era, estava apenas provocando-o com sucesso, diga-se de passagem. Vi uma sombra se mover pelo chão e imaginando que um deles, provavelmente ela, vinha para a sala, voltei correndo para o quarto, fechando a porta para não ser pega.
Ainda assim, pude ouvir a resposta de Cecile.
- Desmereceu a relação dos dois. – disse e revirei os olhos, atitude que mesmo sem ver, imaginei que Harry tivesse espelhado.
- O quê? Com minha clara tentativa de fuga? – Harry perguntou, não que ela fosse de fato se importar e no momento a odiei por tê-los feito fugir do assunto.
– Que coisa feia, Styles. – ela retrucou com desaprovação. - Ela com certeza achava que era para valer.
- Cecile, sério?! – ele a repreendeu, desacreditado, e a garota riu enquanto eu torcia mentalmente para que aquele fosse o fim de suas contribuições para a conversa.
- Sério, Harry. É você quem tem que contar. – Louis insistiu, deixando transparecer um nervosismo que Harry jamais deixaria passar. Era quase palpável, um nervosismo que eu notei só de ouvi-lo e Harry estava cara a cara com ele.
Decidindo que aquele era o momento de interromper antes que Louis falasse demais, abri a porta de uma vez, sem me importar que Cecile fosse me ver. Sabia que ela, no fundo, era capaz de deixar que continuassem em nome do seu entretenimento e provando que eu estava certa, ela ficou muda, esperando que eles se comprometessem sozinhos.
- O que é que você não está contanto? – Harry perguntou e eu pude até mesmo imaginar a careta que Louis deveria ter feito, se dando conta de que havia falado demais. Não que aquilo fosse uma novidade.
E claro que aquilo só serviu para deixar ainda mais óbvio que ele realmente estava escondendo algo e avancei rapidamente até as escadas, certa de que o assunto morreria assim que me vissem.
Do segundo degrau Louis e Harry já eram capazes de me ver descendo e como o esperado, ninguém disse nada até eu estar no final das escadas, onde parei de frente para a cozinha onde os dois estavam.
Harry vestia as mesmas roupas do dia anterior, mas estava descalço e sem a touca, com sua blusa totalmente amassada após ter dormido com ela. Não só ela, aliás, sem cabelo estava uma bagunça, fios rebeldes estavam tortos em posições no mínimo desfavoráveis mesmo que existisse certa graça naquilo.
- O que é que está havendo? – perguntei, lançando um rápido olhar para Cecile, porem significativo o suficiente para que ela fechasse a boca. E eu sabia que ela interromperia com alguma piada. Não seria Cecile se não o fizesse.– Vamos, estou esperando. – cruzei os braços, agora olhando de Harry para Louis.
- Isso vai ser bem divertido! – Cecile falou animada, batendo palminhas de onde estava no sofá, mas preferi ignorá-la, mantendo o foco neles. Tinha alguma coisa acontecendo, alguma coisa importante. Não era sobre o bebê, mas agora, com a reação de Louis, eu sabia que o influenciava de alguma forma e, de repente, estava nervosa mais uma vez.
Algo dentro de mim, um sexto sentido, parecia gritar que agora seria a hora e mesmo que eu tivesse decidido que contaria, não sabia se estava pronta, não havia pensado o suficiente para ter certeza de que aquela era de fato a melhor decisão. Se Harry nunca soubesse, não teria que carregar o fardo que eu saberia que carregaria por fazer o que eu tinha que fazer. E eu tinha que fazer, aquela era minha única certeza.
- Sabe, é difícil te levar a sério descabelada desse jeito, só para constar. – Harry respondeu brincalhão e Louis olhou incrédulo para ele enquanto eu revirava os olhos, não muito surpresa com aquela reação, para ser sincera. Era quase impossível ter qualquer discussão séria com Harry. Em algum momento ele te fazia rir, sem que você pudesse controlar, mas eu estava tensa demais para deixar que aquilo funcionasse comigo. Eu precisava saber o que estava acontecendo para tirar pelo menos aquele peso das costas antes de lidar com o outro.
- Harry, qual é! – Louis o repreendeu e Harry mordeu o lábio inferior por um instante.
– Ah, foi mal.– se defendeu, voltando-se para mim em seguida em uma espécie de pedido de desculpas. - Foi só para descontrair.
- Fala de uma vez, Harry. – pedi e mais uma vez ele olhou para Louis, em um pedido silencioso por ajuda. Louis negou com a cabeça, deixando claro que não participaria daquela conversa e revirei os olhos, impaciente enquanto esperava. – Harry...
- Gay, gay! O Louis é gay! – ele falou de uma vez e pisquei algumas vezes enquanto absorvia as palavras.
O quê?!
Cecile gargalhou muito alto em resposta, batendo palmas como uma foca deficiente e não consegui ignorá-la, virando-me para trás em tempo de vê-la se jogar no sofá em meio a risadas. Ela também sabia o que estava acontecendo. Até mesmo ela sabia o que estava acontecendo e, aparentemente, eu era a única sem entender absolutamente nada.
Confusa, me voltei para Louis enquanto esperava uma explicação. Não via qualquer problema em ter um irmão gay, mas Louis, bom, não era gay. Saberia se fosse e mesmo assim, sua expressão de completo choque deixava claro que nem mesmo ele estava sabendo daquela novidade.
- Harry! – ele gritou inconformado, erguendo os braços como se perguntasse se aquilo era mesmo sério. Harry deu de ombros, fazendo uma careta como se estivesse muito culpado pelo que havia feito. Exceto que não estava, qualquer um podia ver isso. Suspirei, entendendo cada vez menos o que se passava.
- Será que alguém pode, por favor, me explicar o que é que está acontecendo? – perguntei, olhando de um para outro mais uma vez e Louis apenas gesticulou na direção de Harry.
- Não olha pra mim, olha pra ele. Pergunta pra ele. – falou e joguei os braços para o alto, desacreditada, então Cecile ria novamente.
- Bom, metade ele já contou. – ela falou e assimilando suas palavras me voltei incrédula para Louis. Apesar da insatisfação ninguém havia negado, por mais surpreendente que fosse.
- Eu não sou gay! – ele se defendeu finalmente, antes que eu dissesse qualquer coisa e Cecile apenas riu mais uma vez, deixando-me incomodada. Ela sabia mais do que eu. Como ela sabia mais do que eu?
- Tecnicamente, você é sim. – ela respondeu divertida e me voltei para ela. Se Harry e Louis não me contavam ela contaria. Se quer tinha motivos para esconder qualquer coisa. Além de seu próprio divertimento é claro, nada que não pudéssemos negociar.
- Tecnicamente? – perguntei para ela que concordou com a cabeça, desviando o olhar deles para me encarar.
- Os dois são.
- Cecile! – ambos gritaram e a garota se jogou mais uma vez no sofá para rir e olhei de um para o outro. Primeiro para ela, depois para Louis e em seguida Harry, me perguntando como aquilo deveria fazer eu me sentir melhor. Como aquilo deveria fazer o mínimo de sentido.
- Será que tem como alguém, por favor, falar de uma vez o que isso deveria significar? – perguntei, não levando realmente muita fé naquilo. Eu não estaria grávida de Harry se ele fosse gay então porque é que estávamos falando daquilo?
Mais uma vez, Harry e Louis se entreolharam e em um entendimento mútuo dessa vez, Louis suspirou, dando um passo a frente ao tomar as rédeas da conversa.
Estreitei os olhos, desconfiada com aquela atitude. Na verdade, tudo naquela conversa era, no mínimo, suspeito. Toda naquela relutância e me senti ainda mais ansiosa do que já estava, especialmente quando soube, simplesmente de olhar para Louis, que ele finalmente explicaria o que quer que fosse.
- , ahn... – começou incerto, mas se interrompeu, arriscando um olhar para Harry por sobre os ombros. O outro meneou com a cabeça em incentivo, mas apesar de seu receio, Harry não parecia de fato preocupado como Louis parecia. Lembrei-me da insistência de Louis, falando que era Harry quem tinha que contar e como associei aquilo imediatamente com os testes de gravidez que ele tinha visto, fazendo com que a preocupação de Louis não só fizesse sentido como também me apavorasse, não tirando da cabeça que uma coisa afetaria a outra. A banda, era sobre a banda, decidi. Algo novo sobre ela, algo que o afastaria de casa, um projeto.
Mas parando para pensar, talvez também não fizesse tanto sentido. Projetos da banda normalmente me envolviam, diferente desse, ou Louis não pareceria tão preocupado.
De repente, como um estalo, a fala de Cecile veio a minha mente e deixei meu queixo cair. Gays, os dois tecnicamente eram gays e antes que me desse conta, já voltava a encarar Harry.
- O que é que você fez? – perguntei, odiando o rumo que meus pensamentos tomaram, pelo menos naquele momento. Eles sempre foram tecnicamente gays para a maior parte fãs, mas aquele assunto nunca entrou em pauta, aquele assunto nunca virou motivo para discussões e, principalmente, nunca foi motivo de preocupação.
- Você sabe, Larry sempre foi real para as fãs... – Louis começou e ri desacreditada antes que ele continuasse, entendendo tudo sem que fosse necessário mais uma palavra. Larry sempre foi real, mais real que eu e Harry então decidiram oficializar, era isso. Eles tinham oficializado uma relação gay quando eu, para Louis, podia estar grávida. Era por isso que ele estava tão insistente, era por isso que ele queria que Harry e eu tivéssemos aquela conversa a sós.
Louis não esperava que eu fosse tirar o bebê, esperava que eu fosse tê-lo e soube como, nesse caso, as coisas seriam ainda piores. Agora que a suporta relação havia sido confirmada, elas jamais aceitariam outra história, jamais aceitariam um filho, uma namorada. O ódio ia duplicar, eu e Harry teríamos que ter muito mais cuidado e não soube dizer, de imediato, o que pensava sobre o assunto.
Mesmo sem envolver uma criança seria péssimo. Uma relação totalmente entre quatro paredes apenas pela possibilidade de sermos vistos juntos e o que aquilo causaria. Um bebê no meio disso estava totalmente fora de cogitação e senti meu estomago se embrulhar novamente, agora de nervosismo.
- A gravadora sugeriu que assumíssemos uma relação e aceitamos. – Harry confessou por fim e eu soube que minha expressão havia denunciado que tinha algo de errado, que não era tão simples quando assumir que Larry era real. Em qualquer outra situação eu provavelmente estaria gritando com ambos pela estupidez, mas naquele momento minha única vontade era a de chorar. Quis chorar porque algo em minha mente gritava que não podia falar sobre o bebê para Harry agora. Mesmo que eu deixasse claro que interromper a gravidez era por mim, ele se sentiria culpado pelo resto da vida. Culpado porque não fez com que as coisas fossem favoráveis para nós, porque não éramos um casal normal, porque tínhamos que nos esconder, fugir.
- Vocês assinaram? – perguntei, ciente de que não havia nada mais oficial ou permanente do que um contrato assinado e me senti ligeiramente perdida quando Harry, com uma careta, meneou positivamente com a cabeça. Sem ter ideia do que fazer com aquela afirmação, me voltei para Cecile. Era um pedido silencioso por socorro e quando o sorriso morreu eu seu rosto, soube que ela havia entendido. Precisávamos conversar.Eu precisava conversar.
- , o que foi? – Harry perguntou preocupado, dando um passo a frente, e só então me dei conta de que havia feito um péssimo trabalho em esconder minhas emoções, esconder que havia algo errado, que eu também estava ocultando alguma coisa. Senti meus olhos marejarem e mordi meu lábio inferior, tentando conter o choro. Não havia motivo para chorar. Eu estava grávida de um bebê que eu não podia ter. Interromperia a gravidez e então o problema seria resolvido. Não tinha porque Harry saber.
Mas então eu me dei conta de que, no fundo, talvez eu não estivesse tão certa com a ideia de um aborto. Talvez eu quisesse alguém que me fizesse ver os “prós” onde eu só via os “contras”. Eu sabia que era o mais lógico, o melhor para a minha vida no momento. Estava conquistando uma carreira, terminando a faculdade. Estava finalmente começando a vida e uma criança atrapalharia tudo, me impediria de continuar no meu emprego, me impediria de ser independente. Eu não conseguia encaixar uma criança em nenhum dos meus planos para a vida, mas ao mesmo tempo estava apavorada com a ideia de matá-lo e me arrepender daquela escolha no futuro.
- Deu positivo. – Louis falou por fim quando ninguém disse mais nada e me voltei para ele imediatamente, espantada. Senti a cor sumir do meu rosto enquanto o encarava atordoada. Ele havia dito. Eu ainda não sabia se contaria ou não e então Louis simplesmente disse, mesmo parecendo tão espantado quanto eu, no seu caso pela novidade. Foi um ato totalmente impensado, eu sabia, mas não fez com que eu me sentisse melhor quando me voltei para Harry, me encarando de queixo caído enquanto absorvia as palavras.
- Positivo? – Harry falou, sem tirar os olhos de mim enquanto Cecile se levantava do sofá, séria pela primeira vez desde que eu havia pisado naquela sala. Ambos haviam entendido. Provavelmente minha reação ao novo contrato houvesse me denunciado. – ? – ele insistiu, avançando mais alguns passos em minha direção. – Positivo? O quê... O que deu positivo?
- Eu estou grávida. – confessei por fim, constatando aquilo em voz alta pela primeira vez sem me atentar de fato para a sua pergunta.
Eu estava grávida e o pai, para o mundo, era gay. Isso era o suficiente.


Capítulo 2

When you're lost, you'll find a way
I'll be your light
Home

- Grávida? – Harry foi o primeiro a falar, depois do que pareceram décadas de um silêncio angustiante e eu concordei com a cabeça. Era isso, ele sabia e agora não havia mais volta, mas ao contrário do que pensava, não me senti pior por isso e sim melhor, como se um enorme peso tivesse saído dos meus ombros. Embora ainda fosse a maior prejudicada, não estava mais sozinha, não precisava mais tomar aquela decisão sozinha e um grande alívio se instalou em meu peito mesmo ali, parada em frente a Harry enquanto esperava uma reação. Não que eu soubesse exatamente o que deveria esperar.
Eu não estava feliz com a notícia. Era evidente que não estava, mas não sabia como me sentiria se ele também detestasse. Não sabia se era pior Harry compartilhar do meu desespero ou gostar da idéia e o simples pensamento fez com que o nervosismo voltasse, especialmente com o garoto mudo e imóvel a minha frente.
- Acho que ela está esperando que você diga alguma coisa. – Cecile falou o óbvio em um tom divertido apesar da péssima ocasião, mas a agradeci mentalmente por isso. Se todos tivessem se mantido naquele silêncio tão profundamente perturbador, eu teria surtado. – Mas sei lá, é só um palpite.
Um ótimo palpite, fui obrigada a concordar mentalmente enquanto sentia o medo se alastrar pelo meu corpo, sem ter ideia do que se passava em sua mente. Quando a angústia estava prestes a me consumir, no entanto, Harry deixou que um sorriso moldasse seus lábios. Um sorriso de lado como o habitual. O sorriso que me fazia perder a fala toda vez que era direcionado a mim, mas o alívio que senti serviu apenas para me deixar pior e eu nem sabia que algo tão contraditório era possível até então.
Harry ficara feliz.
Harry ficara feliz e eu só conseguia pensar em todos os problemas que aquilo traria para nós. Quando o sorriso de Harry morreu em seu rosto eu soube que foi por ver meu medo tão explícito. Medo, na verdade, era pouco. Eu estava totalmente apavorada e senti, mais uma vez, meus olhos marejarem, lutando contra aquilo com todas as minhas forças.
- Cel, vamos dar uma volta. – Louis a chamou, não esperando por uma resposta enquanto passava por Harry para chegar até ela. Sem dizer uma palavra se quer, a garota concordou mesmo vestindo apenas um baby doll cinza e rendado e Louis passou um dos braços por seus ombros, guiando-a até a porta enquanto Harry e eu esperávamos que nos deixassem a sós.
Assim que a porta foi fechada atrás dele, no entanto, como um gatilho, as lágrimas escaparam dos meus olhos e Harry aproximou-se imediatamente, me tomando em seus braços. Sem pensar duas vezes o abracei, escondendo o rosto em seu peito enquanto lutava contra o choro. Eu não podia chorar, não quando ele ficara satisfeito com a notícia. Seu sorriso durou apenas uma fração de segundos, mas sabia que eu havia sido o motivo, minha angustia tão evidente.
- ... – ele começou em um tom de voz baixo, subindo umas das mãos até meus cabelos e desejei poder pular aquela conversa, ficar apenas ali, ouvindo sua respiração e sentindo seu cheiro mesmo sabendo que agora era inevitável. Tínhamos feito aquilo e precisávamos resolver o problema, mesmo que, no fundo, o simples fato de pensar daquela forma me fizesse sentir mal. Era uma criança, minha criança, e eu a via como um problema e apenas isso. Não tinha certeza de que ao menos conseguiria visualizá-la como uma criança e me sentir tão péssima por isso apenas aumentou minha dúvida quando a minha decisão. Eu não queria um filho, mas mesmo que ele ainda não fosse nada além de um simples feto sem qualquer tipo de consciência, era justo?
- Eu não sei o que fazer, Harry. – confessei de uma vez, em um sussurro, antes de finalmente tomar coragem e erguer a cabeça para encará-lo. – Harry, eu não... Eu não posso. A minha faculdade, a sua carreira... Não tem espaço para uma criança, Harry. Um bebê. Não podemos fazer isso, somos muito jovens, não...
- Ei, calma... – ele me interrompeu, juntando nossas testas. Os olhos verdes de Harry eram as únicas coisas que eu via quando ele respirou fundo. Ciente de que sua intenção era que eu repetisse o gesto, eu o fiz, soltando o ar junto com ele após alguns segundos. – Nós podemos dar um jeito em qualquer coisa se quisermos isso. – Harry falou com a maior paciência e convicção do mundo e me perguntei como diabos ele conseguia aquilo. Me sentia prestes a entrar em um colapso nervoso e tudo o que Harry fez foi segurar meu rosto com uma das mãos. Desejei que aquele toque, tão suave em minha pele, pudesse me fazer enxergar uma solução, que pudesse acalmar meu espírito, mas não tinha certeza se mesmo ele poderia ser capaz disso. – Não precisamos perder nada, nem estragar nada, só decidir o que queremos. – falou e eu concordei com a cabeça, tentando acreditar em suas palavras mesmo sem levar tanta fé nelas como deveria. Era impossível encaixar um bebê na minha atual agenda. - Queremos fazer isso? – ele perguntou por fim. A maior pergunta da minha existência e segurei seu antebraço enquanto pensava.
Céus, eu não fazia a menor idéia e senti meus olhos marejarem novamente com a incerteza.
- E... eu... Eu não... Eu não quero. – falei de uma vez, não conseguindo evitar que algumas lágrimas escapassem. – Eu acho que não. Eu... Eu não sei, Harry. Eu não sei. – completei por fim, soando tão incerta e confusa quando me sentia e Harry puxou meu rosto para seu peito mais uma vez, deixando que eu me escondesse ali para chorar de uma vez. Harry apoiou sua cabeça no topo da minha e me abraçou mais forte enquanto eu segurava em sua camisa, tentando fazer com que pelo menos as lágrimas cessassem.
- , me desculpa. – ele pediu e mordi o lábio inferior, culpada. Sabia pelo que ele estava se desculpando e sabia o por quê, assim como sabia também que não podia culpá-lo por algo que nós dois havíamos feito.
Mas eu não conseguia simplesmente parar de chorar, não conseguia me sentir menos apavorada com a ideia de ser mãe e o estava assustando com isso, mesmo quando sua primeira reação com a notícia foi a de sorrir.
Harry havia sorrido e eu estava chorando.
- Não se desculpe. – pedi, obrigando-me a erguer a cabeça mesmo com as lágrimas borrando minha visão. Mais uma vez, Harry tocou meu rosto, mas agora para limpar as lágrimas delicadamente e apesar de tudo me senti grata por tê-lo ali e até mesmo grata a Louis por ter dado a notícia antes que eu o fizesse, ou não teria certeza de ter contato e muito provavelmente estivesse pior, com mais um peso da consciência. – Você não tem que se desculpar, fizemos isso juntos e eu preciso que... Que me ajude a decidir. – falei e Harry negou minimamente com a cabeça, abrindo a boca para falar. Antes que o fizesse, o interrompi, continuando antes que ele negasse. – Não posso decidir sozinha, Harry. – supliquei.
Harry me encarou com certa melancolia por um instante, segurando minha mão antes de nos guiar até o sofá. Sentando-se primeiro, Harry me puxou para seu colo e me sentei ali com as pernas de lado, passando um dos braços ao redor do seu pescoço ainda esperando uma resposta.
- Eu entendo seu medo. – ele começou por fim e esperei enquanto o encarava atentamente. Esperançosa até. Havia me considerado independente durante toda a vida, sempre tomei sozinha minhas próprias decisões e me orgulhava de tudo ter dado certo, de ter chegado onde havia chegado, mas de repente eu dependia do que Harry ia me dizer para tomar a decisão mais importante da minha vida, eu precisava dele para saber o que fazer como não precisava de alguém há muito tempo e apenas esperei por sua fala. – Eu entendo o quanto isso vai nos afetar, tudo que vai mudar, mas eu não sei se posso só te dizer o que fazer. – falou e desconfiei de que ele já soubesse o que eu pretendia. Eu não tinha ideia de qual caminho seguir e estava pedindo que ele escolhesse por mim. – Eu ficaria feliz se decidisse ter o bebê. – confessou. – Somos novos demais, eu concordo. A banda transforma nossa vida em uma loucura e seria difícil, mas se aconteceu agora eu não me importaria de seguir adiante, independente de ser cedo ou não. Mas se você decidir não fazer isso, eu vou continuar aqui porque sei que por mais que eu fique do seu lado, que eu esteja aqui, e eu vou ficar, sei que nunca vai ser o suficiente porque é você quem vai carregá-lo. Eu sei que vai afetar muito mais a sua vida do que a minha, a sua carreira que está só no começo. – falou, limpando o resto das lágrimas que ainda molhavam meu rosto mesmo eu já tendo parado de chorar, agora apenas ouvindo atentamente tudo que ele dizia. – O que eu quero dizer é que... A decisão tem que ser sua no final. Eu quero que tome a melhor decisão por você e para você porque de nada adianta decidir ter esse bebê se isso for te fazer ser infeliz porque não é a hora certa. Se ele te faz chorar por medo ou incerteza, está errado. Não é assim que isso tem que acontecer.
Eu sabia que a intenção dele, de forma alguma, era fazer com que eu me sentisse pior, mas pensar naquilo, no medo que eu sentia por algo que deveria ser bom, me deixou arrasada e tudo que eu quis fazer foi voltar a chorar, agora sentindo-me totalmente cruel por cogitar a possibilidade de tirar o bebê.
Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, escondi o rosto em seu pescoço e mesmo lutando contra o choro algumas lágrimas escaparam. O segurei com mais força, ainda mais confusa agora e Harry passou os braços ao eu redor em um abraço.
- ... – ele chamou em um sussurro. – Me conta no que está pensando. – pediu e só então me dei conta de que ele havia falado enquanto eu apenas chorara em seus braços.
- Você seria um pai maravilhoso. – falei, sem afastar meu rosto para encará-lo enquanto dizia, não sabia se teria coragem, especialmente se fosse mesmo interromper a gestação. – Ia brincar com ele e sempre saberia exatamente o que dizer quando precisasse ser sério ou dar uma bronca. Seria ótimo de um jeito que eu não sei se posso ser. – completei e Harry me afastou para que pudesse me encarar, colocando uma mexa de meu cabelo atrás da orelha.
- Você pode ser e fazer o que quiser, . Eu tenho conheço há tempo o suficiente para saber que consegue fazer tudo que decide fazer. Se quiser, se escolher isso, você consegue. Eu sei que sim.
Por alguns instantes, permaneci como estava, imóvel enquanto o encarava desejando ter em mim a mesma fé que ele aparentemente tinha. Eu não conseguia ter certeza de absolutamente nada. De que conseguia criar uma criança, de que conseguiria conciliá-la junto com meus estudos e trabalho e menos ainda de que conseguiria simplesmente ir adiante com a ideia de um aborto.
- Não sei o que fazer. – repeti o mais honesta que pude e Harry beijou minha testa, fazendo com que eu fechasse os olhos no percurso. Quando ele se afastou, suspirei antes de abrir os olhos novamente, o encontrando com os olhos atentos em mim.
- Não precisa decidir agora, não precisa decidir antes de estar certa do que quer. – falou e neguei com a cabeça imediatamente. Existia um prazo legal para que o aborto fosse permitido e mesmo que não existisse, eu jamais conseguiria ir adiante de pudesse ver os resultados da gravidez no meu corpo, se o deixasse se desenvolver por mais tempo.
- Não vou conseguir tirar se demorar muito, Harry. Não vou ter coragem. – expliquei, mesmo temendo que não tivesse coragem mesmo agora. De que não conseguiria.
- Certo. – ele falou, meneando com a cabeça enquanto refletia por um pequeno instante. – Então, onde vamos estar daqui há nove meses? – Harry perguntou de forma pensativa e ao entender onde ele pretendia chegar, fiz o mesmo, tentando visualizar como poderíamos fazer aquilo. Lou havia parado de trabalhar por um curto período de tempo quando esteve grávida e deixei que minha cabeça caísse nos ombros de Harry enquanto pensava sobre o assunto. A Where We Are Tour iria ter início em abril para a promoção do Midnight Memories. Lou já havia assinado seu contrato para acompanhar a banda e eu iria como sua assistente. Seriam meses na estrada embora eu ainda não soubesse exatamente quando terminaria.
- Você vai estar em turnê. Com certeza. – disse, fazendo uma careta para a idéia de não acompanhá-los por causa disso. Harry sorriu ao notar e fiz o mesmo sem que fosse capaz de evitar, empurrando seu rosto para o outro lado por implicância apenas para que não olhasse novamente para mim.
- Está bem, já entendi. – falou ele divertido, deixando que a cabeça caísse no encosto do sofá enquanto pensava, voltando a ficar sério. – A turnê vai terminar em outubro. No começo de outubro – falou, e imediatamente comecei a fazer as contas mentalmente. Eu teria exatos nove meses em outubro.
- Eu não poderia estar com vocês no último mês. Provável que tenha que parar até antes. – respondi enquanto voltava a me endireitar em seu colo para encará-lo e Harry concordou com a cabeça, erguendo olhar para me encarar.
- Se formos fazer isso, não existe qualquer possibilidade de eu te deixar sozinha no último mês de gestação e eu não vejo como alguém possa tentar fazer isso. – disse ele, erguendo a cabeça novamente em seguida. – É tudo uma questão de planejamento. Uma pausa na turnê, ou terminar um mês antes. Temos toda uma equipe para isso, tenho certeza que eles conseguem pensar em uma solução.
Satisfeita de estar conseguindo falar sobre o assunto e até mesmo pensar sobre ele de forma racional, concordei com a cabeça apenas para mostrar que estava acompanhando sua linha de raciocínio.
- A Lou acompanhou a banda até quantos meses?
- Até ser correr o risco dar a luz no avião. – Harry riu, apoiando a cabeça em meu ombro enquanto sorria para mim. – Dá pra fazer isso. – disse ele em incentivo, parecendo certo daquilo. Depois de ouvir seus argumentos, depois de participar deles, podia considerar que talvez desse certo. – Você já perde aulas demais na faculdade e dá conta, não vejo como pode atrapalhar. Já quanto a turnê, bom, deu certo com a Lou.
Mordi meu lábio inferior, sem acreditar que estava mesmo cogitando aquela possibilidade. Tomlinson considerando ser mãe aos vinte, mas de repente, com aquela espécie de planejamento absurdo, a ideia de ter um bebê não me despertou tanto pavor e sim uma certa ansiedade. Não era vontade de que acontecesse logo, mas sim pela sensação de que talvez aquilo pudesse dar certo e, quem sabe, nem fosse tão ruim.
A ideia de um garotinho com os meus olhos e covinhas que Harry voltou a tomar minha mente e sorri sem notar que o fazia, vendo Harry abrir um sorriso em seguida por isso.
- Já posso te abraçar em comemoração ou ainda é muito cedo para isso? – ele perguntou com humor e ri fraco enquanto o empurrava levemente para trás, o fazendo rir por isso.
- A decisão era minha, lembra? – falei, fingindo insatisfação que ele não teria nenhuma dificuldade de notar. - Cadê aquela coisa de não pressionar?
- Pressão? Que pressão? Só foi uma pergunta. – brincou, roubando-me um selinho. – Eu vou estar com você independente do que decidir. – repetiu e concordei com a cabeça, temendo dizer sim e resolver voltar atrás depois. Temendo sua decepção se o fizesse.
- Ei, o que foi? – ele perguntou, surpreendendo-me por saber que algo estava errado antes mesmo que eu tivesse tempo de pensar sobre o assunto.
- Mesmo se eu desistir? – perguntei e Harry franziu o cenho por alguns segundos, provavelmente esperando uma resposta para a sua pergunta última pergunta. – Vai estar aqui mesmo se eu disser uma coisa e mudar de ideia depois? Se eu... se eu decidir ter e desistir?
- Eu vou. – falou, sorrindo para demonstrar que não via qualquer problema naquilo mesmo que eu tivesse minhas dúvidas quanto a sua capacidade daquilo, de não demonstrar decepção. Sua decepção, no momento, era meu maior medo. – Vou estar aqui. – garantiu.
Satisfeita com a resposta mesmo ainda ligeiramente desconfiada, me deixei respirar aliviada e acabei rindo mais uma vez enquanto levava a mão até os cabelos, passando os dedos pelos fios ao jogá-los para trás.
Eu faria aquilo. Céus, eu faria mesmo aquilo e Harry riu ao notar minha reação.
Abri a boca para lhe dar uma resposta. Uma que por hora, acreditava ser a definitiva, mas antes que o fizesse a porta foi aberta e Louis entrou na sala junto com Cecile. A garota fazia o moletom de Louis de vestido e com os cabelos soltos, ninguém diria que sua intenção não havia sido sair daquela forma de casa desde o início se não fosse as pantufas rosas nos pés. Cecile carregava um porta copos com copos da Starbucks e Louis uma caixa, mas ambos pararam na porta ao nos notarem ali.
- Ahn... Eu deveria te parabenizar, ou...? – Louis começou, incerto, e me sentindo totalmente mais leve por ter finalmente tomado uma decisão, minha única resposta foi uma risada que eu não consegui conter, recebendo um beijo de Harry na bochecha antes de ser atacada por Louis, que colocara a caixa sobre a mesa de centro antes de se inclinar para um abraço.
- Eu vou ser tio! – comemorou enquanto Cecile batia palminhas animadas de onde estava, beijando minha bochecha de forma totalmente exagerada e estalada antes de se afastar. Cecile se aproveitou do momento para se jogar sobre mim e Harry e ri enquanto retribuía o abraço.
Sabia que havíamos deixado algo importante de fora da conversa, justamente o ponto que nos fizera chegar até ali, mas decidi que não me importava. Viver com discrição era parte da vida de Harry assim como os fãs e eu o havia escolhido assim mesmo. O havia escolhido ciente de tudo isso e não podia estar mais certa da escolha. O que sentia perto dele era forte demais para que ela pudesse ignorar por fãs e ela sabia, jamais tomaria uma decisão tão importante em sua vida por causa delas.

Pelo espelho a minha frente, vi Harry piscar várias vezes para mim de forma exagerada. Apesar de achar a atitude, no mínimo, cômica, contive meu sorriso ao ignorá-lo. Infelizmente, minhas tarefas não se faziam sozinhas e eu realmente precisava estudar se quisesse terminar o ano, especialmente quando faltava com tanta frequência graças aos compromissos da banda.
Decepcionado por não conseguir a atenção que queria, Harry suspirou de onde estava logo atrás de mim e o espiei pelo espelho novamente em tempo de vê-lo se jogar para trás em minha cama, com os braços atrás da cabeça. Em algum momento ele vestira a touca do dia anterior e eu não podia gostar mais. Sempre preferira as toucas do que os chapéus e especialmente as bandanas. Odiava as bandanas e desconfiava que ele as usava em provocação. Sabia o quanto eu apreciava seu cabelo sem elas.
- Eu preciso de atençãooooo! – reclamou, usando o pé para empurrar levemente minha cadeira. Olhei feio para ele por isso e Harry espelhou o ato. – É final de semana, . Você pode fazer isso amanhã. Vamos fazer alguma coisa.
- Ir ao médico não é minha melhor definição de “fazer alguma coisa”. Definitivamente. – devolvi, muito bem ciente do que ele pretendia. Harry tentava me arrastar para o hospital desde o café da manhã, mas eu não estava ansiosa para a primeira consulta. Tinha medo do choque de realidade que aquilo provavelmente traria, especialmente quando ainda tínhamos tantas outras coisas para fazer e discutir sobre o assunto. Nossos pais ainda não sabiam, tampouco a equipe da banda que teria que lidar com aquela notícia. Era coisa demais e eu só queria adiá-las enquanto pudesse. Odiava me sentir exatamente como aquilo fazia eu me sentir: Agitada, ansiosa e impaciente.
Precisávamos lidar com um problema por vez e eu, definitivamente, não queria começar pelo hospital.
Em resposta, Harry soltou o ar pela boca, sentando-se na cama com os braços cruzados, totalmente insatisfeito.
- Nós precisamos ir! Você está grávida. – ele insistiu e neguei com a cabeça, digitando no notebook a minha frente antes que perdesse a linha de raciocínio em meio aquela discussão.
- É final de semana, podemos fazer isso amanhã. – repeti sua fala assim que terminei a frase que escrevia, me focando em seguida no livro ao meu lado. Após marcar um trecho importante com o dedo, voltei a falar enquanto olhava para ele pelo espelho. – Marcar consulta como alguém normal.
- Não precisamos marcar consulta. – Harry me interrompeu como se a ideia fosse totalmente absurda. - Podemos ir agora. Devemos.
- Ah, claro. Quer entrar pela emergência também? – perguntei, dando pouca atenção ao assunto.
- Não foi isso que eu quis dizer, você sabe. – falou emburrado e ergui o olhar para ele apenas para ver sua expressão. Harry tinha o cenho franzido e agora também fazia um bico que certamente não havia notado. Ao me pegar espiando, ele sorriu e voltei para meus livros ao invés de correspondê-lo, o fazendo bufar. – , qual é! – protestou e finalmente parei o que fazia, virando a cadeira para ficar de frente para ele na cama.
- Harry, nós vamos marcar uma consulta porque precisamos fazer isso com descrição, entendeu? Não vou chegar com o namorado do meu irmão para fazer pré natal. – sorri cínica ao lembrá-lo daquela última parte e Harry deixou o queixo cair como se estivesse muito ofendido. Ele que havia começado com aquilo, não eu. Voltei a me virar para a mesa, debruçando-me mais uma vez sobre os livros. – Além do más, estou grávida, não doente. Podemos esperar mais alguns dias.
Ao invés de responder, Harry puxou a cadeira para si, me arrancando um gritinho pela surpresa antes de me fazer rir com a atitude. Assim que cheguei perto da cama, Harry me virou para que eu o encarasse.
- Nós vamos nos livrar dessa história também. – falou, pausando as mãos em minhas pernas e neguei com a cabeça sem ter dificuldade de entender sobre o que ele se referia.
- Não, você não vai. Larry vai te perseguir onde quer que vá, desfazer ou não esse contrato não vai mudar nada. – disse o óbvio, me inclinando em sua direção. – Elas sempre viram vocês dois como um casal, isso não vai mudar se você disser que mentiu por um contrato, elas já achavam que vocês mentiam por isso.
- Você está esperando um filho meu. – ele insistiu inabalável. - As pessoas precisam saber. Eu quero que saibam.
- Quem precisa saber, vai saber. – o lembrei. – Nossos pais, nossa família, nossos amigos. Todos que sabem de nós, todos que sabem que Larry é uma mentira. Todos que importam. – falei, mal reconhecendo a mim mesma com toda aquela certeza e confiança. Há algumas horas estava aos prantos e agora estava decidida a seguir adiante.
Eu sabia, de alguma forma, que ter a criança era o certo a se fazer. Nós havíamos causado aquilo, não podíamos nos desfazer dela por egoísmo. Eu ainda tinha minhas dúvidas quanto a minha capacidade de ser uma boa mãe e sabia que sem Harry, jamais conseguiria. Mas aquela era a questão, estávamos juntos. Daríamos um jeito nos problemas que surgissem e as fãs, a mídia, por mais que me assustassem, não podiam ser o foco daquilo. – Eu sei o quanto suas fãs te amam, eu sei todas as coisas maravilhosas que já fizeram por vocês. Sei que se importa com elas, mas elas nunca souberam de tudo e não precisam saber agora. Elas acreditam na verdade que querem acreditar, deixe que continuem assim. Se quer adiantaria tentar mudar isso. Estamos juntos. O que os outros falarem não importa.
Harry concordou com a cabeça, soltando o ar pela boca e eu sorri satisfeita. Ele repetiu o gesto, segurando em meus cabelos para colar nossos lábios e eu deixei que o fizesse, correspondendo o beijo que ele iniciou enquanto sentia meu sangue esquentar com sua proximidade, como normalmente acontecia. Harry moveu seus lábios juntos com os meus, puxando a cadeira para mais perto para colá-la na cama enquanto se aproximava da beirada. Sua intenção era diminuir a distancia entre nós, mas antes que conseguisse, sorri contra o beijo, puxando seus lábios entre os dentes enquanto Harry resmungava qualquer coisa em protesto pela interrupção.
- Sério mesmo que você vai me trocar pelos livros, de novo? – perguntou e concordei com a cabeça, recebendo um bico insatisfeito como resposta. – ...
- Eu preciso entregar amanhã, Harry. – falei divertida, lhe roubando um selinho antes de me afastar. Harry deixou que eu o fizesse, mas impediu que eu arrastasse a cadeira para longe. Como resposta, o encarei como quem perguntava se aquilo era realmente sério.
- ... – ele tentou mais uma vez e meu celular sobre a mesa, em um time perfeito, começou a tocar, me fazendo rir enquanto ele jogava os braços para cima, vencido.
Harry voltou a se jogar na cama, emburrado, e voltei com a cadeira para a mesa, buscando pelo aparelho já imaginando quem era do outro lado. Eu não dava notícias a Aiden desde o dia anterior e ele era o único que, até então, sabia dos testes. Foi o primeiro a saber da minha desconfiança e, aparentemente, o último a saber o resultado. Ia me matar por isso.
- Fala! – disse animada assim que atendi o aparelho e pude ouvir Harry me imitar de forma afetada da cama, rindo por isso.
- Deixa eu adivinhar, essa felicidade toda é porque deu negativo? – perguntou direto. Não era para menos se considerarmos a pilha de nervos que eu estava quando me despedi dele no outro dia. – Aparentemente você esqueceu de ligar para seu amigo para dar a notícia.
- Desculpe por isso, estive ocupada chorando. – o respondi e por alguns instantes, Aiden ficou em silêncio enquanto Harry olhava para mim pelo espelho, provavelmente tentando descobrir quem era do outro lado graças a minha fala. Não que ele fosse demorar demais para descobrir. Aiden e Cecile eram os únicos amigos com quem falaria sobre o assunto e Cecile estava em casa, então...
- Certo, agora estou confuso. – Aiden falou do outro lado.
- Deu positivo. – esclareci, dizendo de uma vez o que ele queria saber.
- Pergunta para ele se quer vir aqui fazer alguma coisa já que minha namorada me trocou. – Harry falou, provando que eu estava certa ao deduzir que ele não demoraria a descobrir com quem eu falava. Revirei os olhos para ele enquanto Aiden, provavelmente tendo escutado, soldava um “ahn?” do outro lado.
- Do que ele está falando? – perguntou curioso já que Harry falara alto o suficiente para que ele escutasse.
- Do trabalho de amanhã. – respondi, trocando o telefone de orelha. - O estou “trocando pelos livros”. – fiz aspas com os dedos. Aiden não poderia ver, mas Harry sim e era ele quem eu queria atingir.
- Não fale com esse tom de ironia. – Harry me repreendeu. – É verdade.
- Você já disse que esse trabalho só não está feito por culpa dele? – Aiden perguntou e, bom, não podia negar. As tarefas que não se acumulavam pelo trabalho, que ironicamente o envolvia, se acumulavam por eu estar com ele ao invés de me focar em fazê-los.
- Exatamente. – respondi sem precisar ao menos pensar muito sobre o assunto, apoiando as costas no encosto da cadeira em seguida.
- Eu perguntei se você disse, não foi uma afirmação. – Aiden retrucou, fazendo-me rir com o comentário mal humorado mesmo sendo to típico dele.
Aiden se assemelhava com Louis naquele quesito.
- Do que é que vocês estão falando? – Harry perguntou curioso, seguindo até a ponta da cama para se inclinar em minha direção.
- Harry, sai daqui! – tentei afastá-lo enquanto ele tentava, por sua vez, roubar o celular da minha mão. Ele riu, mas não parou o que fazia. – Harry! – o empurrei para longe, não obtendo muito sucesso já que no instante seguinte ele repetia a ação.
- Qual é, menos amor juvenil. Eu ainda estou na linha! – Aiden reclamou, claramente insatisfeito por não ser mais o foco da atenção.
- Amor juvenil? – perguntei, precisando afastar o telefone da orelha para não perdê-lo para Harry. – Estou sendo atacada! – exclamei, precisando usar um tom de voz mais alto que o normal para que ele conseguisse me ouvir mesmo de longe.
- Da última vez você não reclamou até estar grávida. – Aiden retrucou e deixei o queixo cair.
- Aiden! – o repreendi desacreditada e pude até mesmo imaginá-lo dando de ombros do outro lado da linha, nenhum pouco culpado.
- O que ele está dizendo? – Harry quis saber, puxando minha blusa em uma tentativa de tomar o telefone da minha mão. Não fazia muito sentido já que não estávamos trocando mensagens e não tinha como Harry saber o que havíamos dito anteriormente, mas ele não estava ligando muito para isso. Na verdade, Harry estava apenas tentando ser implicante, o que ele conseguia sem nenhuma dificuldade.
- Não é da sua conta! – o empurrei com mais força, fazendo com que Harry se desequilibrasse. Com uma exclamação, ele tentou evitar a queda segurando-se na cadeira onde eu estava, fazendo com que nós dois fossemos ao chão por isso. – Harry! – reclamei entre risos, enroscada na cadeira com Harry sobre mim.
- Mas o que é que vocês estão fazendo? – Aiden perguntou abismado e apenas ri mais por isso.
- Ele me derrubou! – respondi tendo um ataque de risos e riu junto, sem se importar de levantar para que eu fizesse o mesmo.
- E nem assim você soltou o telefone! – Harry devolveu, chocado e entre risos e eu apenas ri mais por isso, tentando empurrá-lo para longe de mim.
- Sai de cima! – pedi e Aiden suspirou audivelmente do outro lado apenas para que não nos esquecêssemos dele ali. Ele jamais deixaria que esquecêssemos.
Mas Harry, ao invés de me obedecer e sair de cima, soltou mais do seu peso sobre mim, me fazendo jogar a cabeça para trás para rir meio sem fôlego.
– Harry! – reclamei desacreditada.
- Mas será que tem como vocês se resolverem logo para continuarmos a conversa? - Aiden perguntou enquanto eu tentava me livrar de Harry, empurrando sua cabeça para longe. Em resposta, Harry mordeu a palma da minha mão, recebendo um gritinho em resposta.
- Vocês está me machucando! – reclamei mesmo que não fosse verdade e Harry sabia, afinal, eu estava rindo. Mesmo assim, dessa vez Harry levantou, estendendo a mão para me ajudar. Aiden falou algo, mas com o telefone fora do ouvido, escutei apenas alguns murmúrios. – Oi? – perguntei enquanto me levantava e Harry ergueu também a cadeira para que eu voltasse a me sentar nela.
- Eu disse que ainda estou esperando! – Aiden exclamou insatisfeito. – Você não acha que esqueceu de me contar muita coisa?!
- Vou ter o bebê. – disse de uma vez quando consegui parar de rir, ciente de que era aquilo que ele queria saber. Aiden estava ciente da minha indecisão mesmo antes do teste provar que eu estava mesmo grávida. – Por enquanto, pelo menos, a escolha é essa.
- Ah, eu imaginei. – ele devolveu e eu estreitei os olhos desconfiada enquanto Harry voltava a se jogar na cama, agora bufando de forma exagerada para demonstrar seu descontentamento em estar sendo deixado de lado.
- Imaginou? – perguntei sem entender e ele logo se explicou:
- Eu conheço os dois, . – falou, conseguindo minha total atenção por isso. – Interromper a gravidez era o melhor pra você, mas sei que não faria só por isso.
- E não podia ter me dito isso ao invés de me deixar surtar? – perguntei desacreditada, mesmo que, na verdade, fosse ótimo ter ouvido aquilo.
- Você precisava descobrir sozinha. – ele respondeu e eu revirei os olhos enquanto Harry voltava a se sentar, provavelmente entediado e sorri ao notar. Quanto me viu espiando, Harry fechou a cara e lhe mostrei a língua.
- Não sei dizer se você é um bom amigo ou o pior deles. – respondi para Aiden logo depois.
- O melhor, definitivamente. – devolveu convencido. Amor próprio e presunção eram as principais palavras para descrevê-lo. – Ou não teria te mandado o trabalho por e-mail há dez minutos atrás.
- Você o quê?! – perguntei espantada, me inclinando para frente a fim de chegar o e-mail e Harry fez o mesmo por implicância, colocando a cabeça em meu ombro para isso. O olhei por sobre o ombro, desconfiada, e ele ergueu uma sobrancelha para mim, sem se mover dali. Assim que a tela carregou, no entanto, desviei minha atenção novamente para lá e, de fato, ele havia me mandado o trabalho pronto. – Aiden Mckenzie, eu te amo! Definitivamente! – exclamei em um sobressalto e Harry se afastou por isso, fazendo-me rir novamente.
- Eu sei. Sou o melhor amigo que você poderia ter. – ele retrucou satisfeito enquanto Harry se levantava e virei na cadeira para acompanhá-lo com o olhar. – Mas se for aproveitar o tempo livre pra transar com seu namorado, faça o favor de não esquecer o preservativo dessa vez.
- Aiden! – o repreendi novamente vendo Harry sair do quarto, mas não tive chance de chamá-lo para saber onde iria. Decidindo que não tinha muito o que fazer, apenas dei de ombros, me voltando mais uma vez para a conversa. – Você atrapalha todo meu amor sendo totalmente desnecessário.
- Preservativo é necessário. – observou convencido. – Se tivesse usado não estaria grávida. Só para constar.
- Me lembrar disso é que te faz desnecessário. – debati mesmo que não fizesse muito sentido. Ele estava certo, era óbvio que estava. Eu só não pretendia admitir isso.
- Na verdade me faz bem útil. – respondeu inabalável e revirei os olhos para ele, mesmo que o garoto não pudesse ver.
- Aiden, cala a boca. – o interrompi, ouvindo passos na escada. Me virei para a porta bem em tempo de ver Harry entrar por ela com um pote de sorvete. Meu sorvete, mas isso não o impediu de encher uma colher com ele, o levando até a boca.
- Ei, isso é meu! – protestei, e satisfeito por finalmente ter conseguido a atenção que queria, Harry se jogou na cama, aconchegando-se nos travesseiros antes de encher a colher novamente no pote, sem tirar os olhos de mim nem por um instante, em provocação.
Abusado.
- , eu ainda estou na linha. – Aiden cantarolou agora, mas já não prestava muita atenção nele realmente, não cm Harry acabando com meu sorvete sozinho.
- Obrigada pelo trabalho. – disse simplesmente, como se ele tivesse perguntado sobre o assunto quando, na verdade, não tinha.
Aiden bufou pela falta de atenção antes de continuar.
- Me agradeça me chamando para ser o padrinho do bebê. – falou e dessa vez acabei rindo sem me conter, não podendo ignorar aquele comentário.
- Coitada dessa criança tendo você como padrinho e o Louis de tio.
- A primeira palavra vai ser um palavrão. – Harry comentou de boca cheia e fui obrigada a concordar, por mais insatisfeita que estivesse com ele devorando meu sorvete. Olhei feio para ele e Harry não teve nenhuma dificuldade de entender o motivo, sorrindo cínico enquanto levava mais uma colher até a boca, de forma muito mais lenta que o normal apenas para me provocar.
- Vão se fuder, os dois. – Aidan respondeu, mesmo que por um instante eu realmente tivesse esquecido dele ali.
- Tchau, Aiden. – falei, muito mais preocupada com Harry e o garoto sorriu. Tinha conseguido exatamente o que queria afinal.
- Sério?! – ele perguntou, desacreditado. – Eu te mandei o trabalho pronto e você vai simplesmente desligar na minha cara?
- Eu falei tchau, não estou desligando na sua cara. – respondi enquanto Harry me provocava mais uma vez com o sorvete. – É meu. – movi a boca sem fazer qualquer som, ciente de que ele entenderia e Harry ignorou completamente. – Harry está acabando com o meu sorvete! – reclamei para Aiden.
- E o que você quer que eu faça?! – ele exclamou desentendido.
- Tchau, Aiden. – repeti apenas e ele bufou.
- Tchau, ingrata.
- Também te amo. – disse simplesmente antes de finalizar a ligação, deixando o celular de qualquer jeito sobre a mesa antes de me juntar a Harry. Assim que me aproximei, ele afastou o pote de mim. – Isso é meu, Harry! – protestei, passando por cima dele para roubar o pote para mim.
- Sério? Por que eu tenho certeza de que foi eu quem trouxe.
- Para mim! – retruquei, não que ele tivesse dado qualquer importância para isso.
- Estou tomando de volta porque você não me deu atenção.
- Harry! Eu estou grávida e quero esse sorvete.
- Há, linda. – falou, sarcástico. – Isso não vai funcionar.
- Harry! – reclamei, beliscando sua barriga em protesto. Quando ele riu, tomei aquilo como incentivo para lhe fazer cócegas.
- Para, para! Não! – gritou, tentando afastar minhas mãos enquanto ria. Me aproveitando disso, roubei o pote de sorvete de sua mão, comemorando em seguida.
- A colher ainda está comigo. – observou quando conseguiu parar de rir e voltei a olhar para o pote para confirmar, mesmo quando ele sacudia a colher bem a minha frente.
Droga.
- Vou enfiar tudo na boca então. – respondi, soando muito como uma criança mimada e Harry riu por isso.
- Boa sorte, então.
- Harry... – choraminguei e ele finalmente se deu por vencido, estendendo a colher em minha direção. Antes que eu a pegasse, no entanto, voltou a afastá-la de mim. – Arghhhhhhhhh! – resmunguei inconformada. – Harry!
- Vai dividir? – perguntou e olhei feio para ele. – Eu te dou se dividir.
- Fala como se merecesse. – resmunguei, fingindo mal humor mesmo quando meu humor, na verdade, estava ótimo. Muito bem consciente disso, Harry voltou a fazer bico.
- Eu trouxe o sorvete pra sua TPM que nem existe mais! – Harry lembrou e quase ri por isso, segurando-me apenas para manter a pose. Harry conhecia meu ciclo menstrual melhor do que eu mesma, o que chegava a ser irônico já que eu precisava de um aplicativo para controlá-lo.
- Por culpa sua também. – devolvi emburrada e ele me encarou perplexo. O que também era fingimento, devo acrescentar.
- Eu curei sua TPM! – exclamou. - Não mereço um prêmio?!
- Não quando eu vou vomitar o sorvete em meia hora. – resmunguei e ele riu por isso, fazendo-me rir junto.
- Eu ainda estou com a colher. – lembrou e sem desmanchar o olhar feio que direcionava a ele, me dei por vencida, me juntando ao seu lado na cama e aceitando a colher que ele finalmente me entregou para terminarmos juntos com o pote de sorvete.

Diferente do que eu pensava, não vomitei o sorvete em meia hora, mas isso não queria dizer que ele não pretendia sair. Havia passado pelo menos dez minutos sentada no banco do carro, tentando não vomitar no parabrisa. Mantive em foco que Louis, muito provavelmente, me assassinaria por isso. Ele se quer pensaria no sobrinho se eu vomitasse no seu carro.
Precisei, no fim, de muita determinação para conseguir me colocar para fora, tentando lembrar a mim mesma de que faltar no trabalho não era uma opção e que eu teria que lidar com os enjôos se fosse conviver com eles durante os próximos nove meses.
Mas claro que o simples pensamento me fez querer me jogar no chão em posição fetal e chorar até parir. Literalmente.
Céus, estar grávida era terrível. Estava só nas primeiras semanas e já queria desistir.
Me sentia meio zonza quando as portas do elevador se abriram no andar que Lottie havia me indicado e suspirei mais uma vez naquele dia, me obrigando a continuar mesmo sem ter a mínima ideia de onde tirava aquela determinação. Já esperava ouvir um ou outro comentário sobre Harry e Louis na gravadora assim como ouvi mais cedo durante as aulas na faculdade, mas tudo estava estranhamente quieto.
Eu raramente precisava ir até a gravadora, mas aquele lugar nunca, jamais, fora tão silencioso.
Apreensiva, caminhei lentamente procurando a sala que haviam cedido para Charlottie e eu durante aquele dia. Era coisa rápida, tirar algumas medidas de um grupo que estava gravando ali. Já tínhamos algumas instruções de cores e estilos de figurino, então só precisaríamos desenhar os modelos para apresentá-los. Lottie ia desenhá-los na verdade. Eu, no máximo, colaborava com algumas idéias. Era a garota das medidas.
Eu tinha um emprego fixo ao lado de Louise como sua assistente, mas devido à falta de horário fixo, eu estagiava como assistente de Charlottie também, que era a preferida para fazer consultoria de moda para os artistas da Modest. Ambas trabalhavam na mesma empresa que a Modest terceirizava e graças a Louis conseguira meu contrato. Parecia loucura, mas o trabalho não era tão complicado, nenhum dos dois. Minha principal responsabilidade era com Lou, já que ela havia me efetivado, mas precisava cumprir minhas horas de estágio com Lottie para a faculdade, afinal, ainda cursava moda.
Parei de andar ao encontrar os meninos no sofá de espera em frente à sala de Simon, todos em silêncio absoluto embora Niall tentasse provocar Liam com os pés. Liam olhou feio para ele e Niall reprimiu uma risada, empurrando o pé de Liam com o seu mais uma vez.
- Será que tem como parar? – Liam retrucou com o tom de voz baixo e Zayn, sentado do seu outro lado com cara de sono, o cutucou com o pé também, mesmo parecendo entediado e totalmente alheio a brincadeira. Puro fingimento, devo acrescentar. – Porra, os dois! – sussurrou mais uma vez, soando irritado e Zayn riu baixo apesar de olhar pra um canto qualquer a sua frente, como se não estivesse fazendo nada. Assim como ele, Harry também riu, fechando os olhos para isso em uma atitude totalmente adorável.
Eu entendia completamente as fãs por amá-lo e por isso, jamais poderia culpá-las. Harry tinha o dom de fazer qualquer um sorrir com o seu sorriso, de rir com o som da sua risada. Seu coração era gigantesco e qualquer um que o conhecesse tinha sorte por isso. Uma fração de todo o carinho que ele tinha a oferecer era, definitivamente, coisa demais e aquilo era só o começo de tudo que admirava nele. Harry era uma grande pessoa, uma das melhores que já havia conhecido e naquele instante, enquanto o via sorrir, me dei conta da sorte que tinha de tê-lo comigo, de carregar seu filho. Uma criança que teria todo o amor do mundo, os melhores abraços. Uma criança que teria tudo de bom que o mundo tinha para oferecer.
Sem que eu pudesse evitar, a linha de pensamento que minha mente havia tomado deixou-me emotiva e desconfiei de que aquela coisa de gravidez seria, na verdade, uma enorme TPM sem interrupções. O enjôo me deixava tão impaciente quando as cólicas menstruais e imaginava que ainda tinha muito o que chorar até o final dos nove meses.
Nenhum dos meninos havia me visto ainda e decidi focar-me neles, em todos os cinco de preferência e não só em Harry. Era cômico vê-los provocando o amigo. Zayn, muitas vezes sério e misterioso, perdia totalmente a pose enquanto incomodava Liame assistindo a cena levei alguns segundos para estranhar a situação. Eles gravavam os vocais separadamente, não fazia sentido que estivessem todos ali no mesmo horário. Especialmente no mesmo horário.
Imaginando que tivessem feito algo de errado, finalmente me aproximei, atraindo os olhares para mim. Aproveitando-se da situação, Louis empurrou o pé de Liam como os outros faziam até então e Liam, sem perceber, olhou feio para Zayn.
- Não fiz nada! – o garoto respondeu de forma um tanto quanto alarmada apesar de tomar o cuidado de soar baixo e Louis soltou uma risadinha enquanto eu revirava os olhos para ele.
- O que aconteceu? – perguntei, sussurrando também embora não soubesse exatamente o motivo pelo qual falavam daquela.
Antes que pudessem me responder, no entanto, a porta de Simon foi bruscamente aberta e a assistente de Julian, um dos produtores, saiu as pressas de lá, batendo a porta com raiva atrás de si. Harry se encolheu com uma careta apesar de claramente segurar o riso e Louis trocou um certo olhar de entendimento com Liam, ambos permanecendo em completo silêncio apesar disso.
Nem mesmo um segundo depois, Simon apareceu. Tentou chamá-la, mas ela não parou de andar para responder:
- Eu não sou obrigada a trabalhar nessa bagunça! – gritou com um sotaque carregadíssimo, dirigindo-se para o elevador enquanto Niall olhava para cima em uma clara tentativa de conter a risada.
Não tinha ideia do que haviam feito com a pobre garota, mas definitivamente não se sentiam culpados por isso, de forma nenhuma. Lancei a Harry um olhar de reprovação e ele me olhou chocado por isso, apontando para Niall em seguida como se jogasse a culpa para ele.
Assim que o elevador se fechou com a garota nele, Simon se voltou para os cinco que fecharam a cara imediatamente, tentando demonstrar muito mais seriedade do que tinham de fato. Não que Simon fosse ter qualquer dificuldade para notar isso.
- Não dava mesmo para se comportarem por um mês? – ele perguntou, mas apesar de forma severa como falava, não parecia realmente irritado. Talvez a menina que fosse um pé no saco, decidi. - A garota só ia ficar com a gente por um mês e eu avisei que ela era séria demais para essa bagunça que vocês fazem.
Niall, aparentemente o mais responsável pelo surto da garota, se defendeu, mas fui incapaz de prestar atenção no assunto, sentindo o enjôo se intensificar de forma cruel. Eu estava soando frio e por um instante me perguntei se esses enjôos eram só coisa da gravidez mesmo ou se estava de fato doente. Era terrível não saber de nada e decidi, naquele momento, que já deveria ter ligado para minha mãe.
Havia passado o final de semana inteiro tentando me decidir se deveria ou não telefonar e após decidir que sim, perdi outra parte dele adiando por temer sua reação. Não que eu cogitasse a possibilidade dela ficar brava, mas sabia que assim como eu, minha mãe não imaginava que acontecesse tão cedo. Ela esperava mais de mim, que eu seguisse o padrão de me formar, casar e depois pensar em filhos, mas eu já era dona do meu próprio nariz e apesar de dividir um loft, já tinha um emprego. Condições de vida também não faltariam com a carreira de Harry, mas eu não ficava feliz com isso assim como também sabia que ela não ficaria. Minha mãe não havia me colocado no mundo para depender de homem nenhum e eu não dependeria. Cuidaria da minha carreira assim que o bebê nascesse, mas sentia que ia precisar dela por isso. Precisava ter a quem recorrer em momentos como aquele onde me sentia prestes a vomitar até o feto para fora e sabia que ela teria uma receita caseira para resolver o problema.
- Você esperava o quê? – Louis retrucou de forma totalmente exagerada, não que eu soubesse o que exatamente ele estava respondendo e Niall gargalhou por isso, jogando a cabeça para trás. Normalmente eu via graça na risada escandalosa do garoto, mas fechei os olhos ao invés disso, levando a mão até o estômago sem ao menos me dar conta. Antes que Niall tivesse oportunidade de responder, no entanto, precisei dar as costas para correr até o banheiro. Era isso ou vomitar no tapete de Simon.
Não tinha muita certeza de como consegui chegar em tempo até o primeiro box, mas deixei que minha bolsa caísse de qualquer jeito no chão enquanto me inclinava sobre o vaso para vomitar, se quer tendo tempo de segurar os cabelos para garantir que ficassem longe daquilo tudo. Por um instante, minhas pernas vacilaram e me deixei cair ajoelhada no chão, agradecendo mentalmente por ele ser, definitivamente, mais limpo até mesmo que o da sua própria casa, ou vomitaria ainda mais por isso.
Senti um alívio imediato me atingir assim que terminei e apesar do gosto ruim na boca, consegui respirar sem aquele desconforto terrível pela primeira vez desde o dia anterior. Eu precisava daquilo. Jamais me imaginei satisfeita por vomitar, mas me livrar daquele desconforto era tudo que eu precisava no momento.
Ainda jogada no chão, passei uma das mãos pelos cabelos para jogá-los para trás e me estiquei para dar a descarga de forma preguiçosa, sentindo-me totalmente esgotada apesar de tudo.
Antes que eu conseguisse alcançá-la de fato, Harry se aproximou, o fazendo por mim antes de se abaixar ao meu lado, empurrando meus cabeços para trás dos ombros.
- Está tudo bem? – perguntou, tocando minha testa para checar a temperatura como se aquilo fosse realmente necessário, como se ele já não soubesse qual era o problema.
Em resposta a sua pergunta, concordei com a cabeça, me apoiando no chão para levantar. Antes que eu o fizesse, Harry me segurou pela cintura para ajudar e segurei-me nele, mesmo que não fosse totalmente necessário.
- Espero que tenha se despedido do sorvete. – brinquei, afastando-me dele para seguir até o lavatório. Normalmente, passar mal não me deixava nos melhores dos humores, mas estar bem depois de por tudo para fora era um completo alívio. Estava, na verdade, considerando não comer mais nada até o final da gestação, mas isso não seria possível.
Pelo menos perderia alguns quilos, não era de todo mal.
Me abaixei para levar um pouco de água até a boca para um gargarejo, desejando profundamente poder jogar um pouco no rosto. Infelizmente, a maquiagem não permitia. Quando voltei a erguer o rosto, estranhando o silêncio de Harry, o encontrei me encarando preocupado pelo espelho, parado logo atrás de mim. Suspirei por isso, virando-me de frente para ele.
- Já disse que estou bem. – garanti, o segurando pela cintura para trazê-lo para mim. Ainda sentia um gosto horrível na boca e apenas escondi o rosto em sua camiseta. Hoje ele havia optado pela bandana desprezível, uma verde musgo, mas combinava de certa forma com a calça rasgada.
- Você passou mal ontem também. – respondeu enquanto passava os braços ao meu redor, correspondendo ao abraço. – Eu sei o que você disse, mas precisamos ir ao médico. – falou e não pude deixar de achar sua preocupação adorável.
Ergui o olhar para ele e Harry me encarou.
- Eu estou bem. – insisti. – Enjoar é normal, Harry, e a consulta já está marcada para o final da semana.
- Final da semana? – ele perguntou, não parecendo ter gostado muito da ideia. Harry me segurou pelos ombros para que me afastasse, podendo olhar direito para meu rosto e suspirei decepcionada, encostando-me contra a pia. – A única coisa que você comeu ontem foi o sorvete que você acabou de por pra fora, . Você não pode ficar sem comer.
- Eu não vou morrer até sexta, Harry. – o lembrei, agora incomodada com o assunto. Não queria adiantar a consulta. Esperava, até lá, ter encontrado coragem para ligar para minha mãe e dar a notícia. Ter conversado com alguém que entendia sobre o assunto para falar qualquer coisa que diminuísse minha ansiedade sobre absolutamente tudo nele. Não existia ninguém melhor do que ela para isso.Harry estava comigo, mas sabia sobre ser pai tanto quanto eu sabia sobre ser mãe. Se quer tínhamos irmãos mais novos. Éramos os mais novos.
- Mas não pode ficar sem comer. – ele argumentou inabalável, com uma seriedade que raramente tinha sobre qualquer assunto. – Você deveria se alimentar por dois e não consegue comer nem o suficiente para se manter em pé.
- Estou em pé, não estou? – observei, com uma ponta de irritação pela insistência. Sabia que a intenção de Harry era a melhor possível, mas isso não me fazia mais interessada em acatar a sugestão. Não havia necessidade de adiantar os planos e eu não estava disposta a isso. O motivo era o mesmo pelo qual havia passado a noite inteira tentando controlar minha vontade de pesquisar sobre o assunto na internet. O mesmo pelo qual não ligava ainda para minha mãe. Eu estava com medo de descobrir como a gravidez afetaria meu dia a dia e com medo de querer desistir. Estava com medo de decepcioná-lo se por isso e com medo de saber todos os cuidados que teria que ter, exames que precisaria fazer. Estava com medo da mudança, a mesma que eu já podia sentir no meu corpo. Era um passo gigantesco e eu odiava médicos e hospitais. Pior ainda se tivesse que aguardar em uma recepção onde possivelmente encontraríamos algum fã com câmera fotográfica. Não queria ter que me esconder de fãs quando já estava nervosa o suficiente com todo o resto, apavorada com o que minha vida se tornaria. Eram coisas demais com as quais me preocupar e eu não queria ter que cair na realidade.
- Não vai estar até sexta. – Harry retrucou, tão disposto a ceder quanto eu e longe de entender tudo que se passava em minha cabeça. O pânico, a agitação. – Não se você ficar sem comer.
- Eu vou sobreviver. – tentei sorrir para amenizar a situação apesar da agitação, antes que minha irritação e meu medo transformassem aquela conversa em uma discussão, mas Harry permaneceu sério, fazendo-me revirar os olhos. - O máximo que vai me acontecer é perder alguns quilos. Relaxa, está bem? – tentei, impaciente e já ansiosa para por um fim naquele assunto.
- Perder alguns quilos? Você acha que precisa?! – perguntou chocado enquanto gesticulava em minha direção, como se perguntasse o que exatamente eu via de errado com meu corpo. – Você deveria ganhar peso, ! – se exaltou minimamente, mas a atitude não me passou despercebida, fazendo-me estreitar os olhos. Era eu quem estava grávida, era meu corpo. Eu que deveria estar preocupada e surtando, não ele!
- Eu tenho certeza que ainda está muito cedo pra já ganhar peso, Harry. – retruquei com uma pitada de sarcasmo antes que começasse a gritar e foi a vez dele de revirar os olhos, apenas para me irritar um pouco mais.
- Bom, nós não sabemos disso porque não sabemos de quantas semanas vocês está. Não vamos saber até irmos ao médico.
- Vamos na sexta. – insisti mais uma vez e Harry negou com a cabeça.
- Vamos agora. – decretou e ergui uma sobrancelha em desafio. Talvez com um pouco de deboche também. A única chance de me levar para uma consulta agora era me arrastando. Ele deveria saber disso.
- Eu não vou no médico, Harry. – falei simplesmente, tentando por um fim no assunto. Agora era questão de honra. Eu não lidava muito bem com ordens e desafios.
- Se não vier eu te carrego. – ele devolveu, sorrindo com uma certa dose de cinismo e soube que Harry já havia levado aquilo a outro nível e a provocação era proposital. Não que eu soubesse exatamente o que ele esperava com isso.
Se eu não lidava bem com desafios, bom, Harry sabia. Assim como eu sabia que ele cumpriria a ameaça e por isso me obriguei a engolir a irritação, o segurando pelos ombros ao me aproximar para fazer com que ele me escutasse.
- Se eu estivesse tão mal quanto você pensa, não me aguentaria em pé, Harry. – tentei argumentar, mas ele me interrompeu antes que eu continuasse:
- Ninguém para em pé sem nada no estômago. – respondeu, segurando meu rosto entre as mãos. Olhei feio para ele pela atitude, quando eu acabara de segurá-lo de forma semelhante, mas ele não se importou, olhando-me nos olhos. - Você está bem agora, mas amanhã pode não estar.
- Então amanhã vamos.– o soltei e ele fez o mesmo, mas negou com a cabeça mesmo antes que eu completasse a frase. - Não tem necessidade de largar tudo para ir agora quanto eu estou bem, Harry! – exclamei, finalmente me exaltando.
- Não vou te esperar cair para irmos ao médico. – ele devolveu com toda a calma do mundo, não que sua calma ajudasse. Eu ficaria melhor se ele também gritasse para que eu tivesse com quem brigar. Isso sim me faria sentir melhor.
Gravidez seria, definitivamente, uma TPM muito maior que o normal.
- Grávidas enjoam, Harry! – disse mais uma vez, me perguntando qual era a dificuldade que ele tinha de entender aquilo, algo tão absolutamente simples.
- , nós vamos. – repetiu simplesmente e eu neguei. – Vou te carregar. – avisou.
- E eu vou ficar muito puta. – o alertei, dando um passo para trás apenas para me ver presa contra ele e a pia.
- Eu não tenho muita certeza de que você não está. – respondeu de forma quase divertida e eu bufei inconformada, o empurrando para que se afastasse.
- Graças a quem?! – exclamei, passando por ele para seguir até a porta. Antes que conseguisse chegar até metade do caminho, no entanto, Harry me puxou pelo braço, fazendo-me voltar. – Me-solta. – falei, entre dentes, mas ele não o fez. – Harry.
- Você sabe qual é a condição.
- Harry! – insisti, batendo o pé, como se aquilo resolvesse todos os nossos problemas.
Ao invés de responder, Harry me ergueu do chão, jogando-me sobre os ombros como se eu pesasse menos de dez quilos. Soltei um grito pelo susto, o esmurrando e me debatendo assim que me dei conta do que ele fizera. – Harry seu desgraçado! Me coloca no chão agora! – gritei.
- Eu disse que nós íamos ao médico. – respondeu como se aquilo fosse totalmente óbvio e inevitável, deixando-me em completo desespero quando seguiu até a porta, nos colocando para fora do banheiro.
- Harry, pelo amor de Deus! – exclamei, fazendo um esforço absurdo para conter meu tom de voz ao invés de gritar. Já tinham pessoas demais olhando para nós para que eu chamasse ainda mais atenção. Já sentia minhas bochechas esquentarem sem isso. – Se a sua intenção é cuidar da droga do bebê, está fazendo um péssimo trabalho! – soltei enquanto ele chamava pelo elevador e bufei mais uma vez, urrando enquanto voltava a esmurrá-lo. Pelo menos os meninos e Simon já não estavam mais na recepção. – Harry! Que inferno!
- Estresse faz mal para o bebê. – ele respondeu simplesmente, agindo como se não notasse meus socos. – E é bebê, não droga.
- É feto em formação! – retruquei, soando mais alto do que esperava. Controlei a voz antes de continuar. – Ele ainda não tem cérebro ou coração, então posso chamá-lo como quiser! – fiz birra e Harry riu do comentário, fazendo-me urrar mais uma vez graças ao seu claro divertimento. – Harry eu juro que vou te matar por isso! Me coloca no chão!
Com um “plim”, o elevador parou no nosso andar e pude apenas ouvir as portas se abrirem, sacudindo as pernas novamente em uma tentativa de me soltar.
Não que eu esperasse sinceramente que desse certo.
Apenas quando as portas se fecharam, sem dizer nada, Harry me colocou de volta ao chão e avancei dele imediatamente, o esmurrando no peito já que presos no elevador, eu não tinha exatamente como fugir.
O som da sua risada encheu o ambiente enquanto tentava se defender e grunhi, o empurrando em meio aos murros antes que Harry conseguisse segurar meus pulsos para me conter.
– Você parece meio descontrolada, tem certeza de que está grávida e não de TPM? – caçoou e puxei meus braços, movida única e exclusivamente pelo meu desejo de apresentá-lo a minha mão descontrolada quando esta estivesse na sua cara.
- Harry, me solta! – insisti e ele riu mais uma vez.
- Quando você parar. – respondeu ele e bufando, me obriguei a obedecer, o encarando com um ódio que ele estava, certamente, menosprezando. – , nós só vamos ao médico. É para o seu bem...
- Você vai me soltar? – o interrompi e ele o fez após suspirar decepcionado.
Eu ainda tinha vontade de bater nele, mas ao invés disso me afastei, abraçando a mim mesma enquanto me colocava do lado oposto ao seu no elevador, ciente do olhar atento de Harry sobre mim.
- , nós precisaríamos fazer isso de qualquer forma, são só alguns dias de diferença. – tentou argumentar, mas não o respondi, olhando para o chão enquanto cerrava os dentes. Eu havia propositalmente marcado a droga da consulta para sexta-feira, pois precisava dos “dias de diferença” para me preparar e me acostumar com a ideia e havia sido para o último horário pois não queria correr o risco de me sentar na sala de espera com algum outro paciente que poderia reconhecê-lo. Queria fazer aquilo com calma, quando já tivesse tomado coragem de pesquisar sobre o assunto, saber o que esperar, mas ele havia acabado de frustrar totalmente os planos e o nervosismo e ansiedade que sentia por isso me fez querer chorar. – Precisamos saber se você está bem...
- Eu já disse que estou, Harry! Que porra! – me exaltei sem encará-lo, encolhendo-me mais para o canto sem me importar de minha voz ter soado embargada. – Eu vou na droga do hospital com você, mas cala a boca. – continuei, olhando para a parede oposta a qual ele estava.
- ... – ele começou, soando arrependido. Harry tentou se aproximar alguns passos, mas antes que pudesse chegar até mim, o elevador parou no térreo e me lancei para fora sem esperar por ele, passando pela recepção e seguindo sozinha até o estacionamento. Estava ciente dele atrás de mim, como uma sombra, mas Harry não falou nada. Para seu próprio bem.
- Onde está o carro? – perguntei, finalmente parando onde estava já que não fazia sentido caminhar aleatoriamente pelo estacionamento.
- O quê? – perguntou ao se aproximar, estava longe demais para ouvir o que eu tinha dito antes.
- O carro, onde está? – perguntei, de forma nenhuma tentando esconder meu descontentamento ou minha impaciência. Harry suspirou por isso.
- , eu só estou preocupado... – começou e me virei de frente para ele, irritada.
- Onde está a droga do carro? – o interrompi, falando muito mais devagar do que o necessário na intenção de que ele entendesse que aquela era a única resposta que eu queria no momento.
Eu sabia que ele estava preocupado, mas sua preocupação não diminuía minha aflição, não me deixava menos ansiosa e menos ainda resolvia meus problemas.
Se dando por vencido, Harry tirou a chave do bolso, apertando o botão do alarme para desligá-lo. O barulho fez com que eu identificasse o carro, um pouco mais adiante, e segui até lá sem esperá-lo. Assim que estiquei a mão para tocar a maçaneta, Harry apertou o botão para destravá-la ao longe, permitindo que eu abrisse a porta e me acomodasse lá dentro, colocando o cinto enquanto o esperava.
Quando Harry finalmente se aproximou, cruzei os braços em frente ao peito, ignorando sua presença enquanto ele sentava ao meu lado, colocando o próprio cinto. Após fazer Harry suspirou, tirando a bandana dos cabelos e passando a mão por eles em seguida antes de jogá-la no painel entre nós, não muito disposto a dar partida no carro, aparentemente.
- Você não vai mesmo falar comigo? – perguntou, e mesmo sentindo seu olhar sobre mim, não o encarei ou respondi. – , eu não vou voltar atrás. Precisamos ver um médico. – tentou argumentar, paciente, e mentalmente gritei que a consulta já estava marcada, para sexta. Era só alguns dias. Era só esperar alguns dias, mas já havíamos falado sobre aquilo, discutindo, e não estava disposta a repetir tudo novamente.
- Então vai, Harry. – falei simplesmente, gesticulando para frente. – É só ir.
- Você não vai falar comigo? – ele perguntou e revirei os olhos.
- Estou falando, não estou?
- Falar direito comigo. – explicou e dei de ombros.
- Isso é o que você merece.
- Por estar preocupado com você?
- Por estar me obrigando a ir onde eu não quero! Qual a dificuldade de entender?!
- , você está grávida, precisa ir ao médico.
- Eu sei disso! – gritei, finalmente me virando para ele enquanto meus olhos marejavam. – Eu só não quero ir agora! Se quisesse ir agora tinha marcado a consulta para hoje, mas eu não quis! Eu escolhi sexta por que eu estou com medo!
Harry ficou em silêncio por alguns instantes, finalmente sensibilizado com a situação. Senti algumas lágrimas escorrerem por meu rosto e me virei para a janela, encarando o estacionamento do lado de fora. O ouvi soltar o cinto e me encolhi para mais longe.
- Não chega perto. – pedi. – Só vai de uma vez.
- , me desculpa. – tentou e tudo que eu quis foi abraçá-lo, principalmente em busca do conforto que eu precisava. Mas precisava por culpa dela, pela ideia dele de ir agora para o hospital e por isso me contive. Sabia que não ficaria brava com ele por muito tempo, nem mesmo era uma discussão assim tão séria, mas no momento eu só queria que aquilo acabasse de uma vez já que teria que acontecer de qualquer forma e por isso não o respondi, optando por apenas me afastar mais, encostando-me na porta. Harry entendeu a resposta implícita ali, buscando os óculos escuros no porta luvas antes de finalmente dar a partida.
Fizemos todo o caminho em silêncio absoluto apesar dos olhares tímidos de Harry em minha direção. Ele estava incomodado com o silêncio, incomodado com minha decisão de ignorá-lo, mas não podia fazer nada quanto a isso. Fora culpa dele e mesmo que eu não estivesse realmente disposta a seguir a diante com aquela briguinha boba, aquela birra, não pretendia deixá-la de lado tão cedo, não até terminarmos aquela droga de consulta que me deixava com os nervos a flor da pele.
Assim que Harry estacionou em uma das vagas do hospital, senti meu estômago revirar novamente, agora em nervosismo. Harry soltou o próprio cinto, mas se manteve onde estava graças a minha falta de reação, amedrontada enquanto encarava o prédio a nossa frente.
- , está tudo bem. – ele tentou e dessa vez o encarei, encontrando seu olhar sobre mim. – Eu estou com você. – garantiu.
Eu sabia que estava, mas não poderia. Aquele era o maior e melhor hospital que tínhamos, também o mais caro obviamente. Eu se quer cogitaria marcar um exame ali, mas a questão era que Harry, se quisesse, se marcasse o exame previamente, podia pedir tratamento especial. Poderíamos entrar sem sermos vistos, ter uma médica esperando por nós ao invés de esperar atendimento de uma que já poderia estar ocupada em uma consulta.
- Harry, mesmo pra vir hoje, tínhamos que ter ligado antes. – insisti, soando tão amedrontada quanto realmente estava. – Não podemos só entrar pela porta da frente e fazer isso como duas pessoas normais porque você não é.
- Viemos porque você não estava bem. – ele respondeu e revirei os olhos desacreditada. Eu estava bem, qual era a dificuldade dele de perceber? – Entro primeiro, converso com a recepcionista, dou um jeito nisso e você entra quando estiver tudo certo. – sugeriu e neguei com a cabeça.
- A celebridade ainda é você, Harry. É justamente você quem vai chamar atenção.
- Sozinha você não vai fazer isso. – falou, como se existisse qualquer chance de eu se quer cogitar esse possibilidade com meu nível de nervosismo.
- Só... vamos de uma vez. – disse, impaciente. A merda já estava feita, ele havia me arrastado pelos corredores da gravadora. Não tinha como aquilo ser pior e simplesmente soltei o cinto, abrindo a porta em seguida para me por para fora.
Sem dizer mais nada, Harry me seguiu. Seus cabelos estavam um pouco mais compridos do que o normal pois havia decidido deixá-los crescer e de óculos escuros, não tinha quem negasse, mesmo de longe, que ele parecia um astro pop. Harry provavelmente chamaria atenção mesmo que não fosse. Alto demais e bonito demais para passar despercebido e aquilo nunca me incomodou tanto.
Não tentava mudá-lo, não queria que mudasse. Harry era quem era e eu gostava disso. Sabia que sua carreira na música era a realização do seu maior sozinho, o sonho que poucas pessoas conseguiam realizar. Eu amava ver a felicidade dele em cima do palco, seus olhos brilhando quando falava de uma nova música, de um novo plano na agenda. Harry era aquilo, vivia por aquilo e era lindo de se ver. Não queria que Harry perdesse aquilo, mas me incomodava não ter privacidade em momentos como aquele e eu sabia que não teríamos. A qualquer momento um celular apontado em nossa direção, nunca estávamos sozinhos. Sair na rua como um casal, especialmente agora, estava totalmente fora de questão e mesmo assim entraríamos pela porta da frente, juntos, procurando por um obstetra.
Inatingível, Harry seguiu direto para recepção como se nada pudesse atingí-lo enquanto eu, receosa, olhava para os lados. Havia uma menina com a mãe sentada por perto. Cerca de doze anos. A pior idade para a One Direction. Meninas sem maturidade ou limites, culpa da idade e não exatamente da garota, mas ainda assim, as piores. Ela tinha um enorme curativo no queixo e, para piorar, já estava com o celular em mãos. Era só erguer e pronto, estaríamos no twitter e em questão de segundos qualquer outra fã no hospital estaria procurando por ele.
Dei as costas para a garota antes que ela nos visse e torci para que Harry fosse rápido, contendo o ímpeto de me encolher para perto dele simplesmente porque seria ainda pior depois de terem assumido Larry para o púbico.
Ainda mais ansiosa agora, me apoiei no balcão, batucando com os dedos na superfície. Por algum milagre, Harry conseguiu um obstetra para nos receber, mas ouvi apenas um por cento da conversa, querendo apenas sair dali de uma vez por todas. Chegava a ser irônico que, de repente, meu receio em relação a consulta havia se esvaído completamente, mas isso porque tinha outras preocupação em mente, como o fato de sair em todos os sites de fofoca em algumas horas.
Se o mundo soubesse da minha gravidez antes da minha mãe, bom, ela certamente me mataria. E eu nem podia culpá-la.
A recepcionista estendeu um papel para Harry, mas desviou o olhar brevemente para um ponto logo atrás de nós e imaginei imediatamente o motivo. A garota apontava a câmera para nós. Havia reconhecido Harry e precisei conter o ímpeto de esconder o rosto, mesmo já estando de costas para ela.
Como se finalmente se lembrasse de onde conhecia Harry, a recepcionista a nossa frente deixou o queixo cair em um “oh” surpreso antes de sorrir sem jeito, como se tentasse se desculpar. Harry retribuiu o sorriso como se não tivesse notado qualquer coisa errada e a mulher recolheu a folha antes que ele pudesse pegá-la.
- Vou deixar que preencham isso no consultório. – falou, soando tímida agora. Eu reconhecia aquilo, ela estava envergonhada por estar diante dele, mas só pude ficar agradecida por ela nos permitir fazer aquilo. – É no prédio B. – ela levantou a mão para apontar a direção, mas a encolheu antes que o fizesse. Havia uma placa gigantesca logo atrás dela informando que a obstetrícia e maternidade era lá. Não havia necessidade de divulgar para o mundo. – O acesso é pelo corredor da direita. Terceiro andar sala 58. Ela vai estar esperando.
Harry agradeceu a mulher, mas tudo que eu pude fazer foi lançar a ela um meio sorriso. Me senti péssima por não poder demonstrar o quanto estava realmente grata, mas imaginei que a gentileza de Harry valesse muito mais do que qualquer coisa que eu poderia fazer e apenas esperei por ele para seguirmos o caminho indicado, esquecendo-me naquele momento de qualquer desentendimento idiota que poderíamos ter tido.
Ele estava certo no final das constas, aquilo teria que ser feito de qualquer forma e, pelo menos, me livraria daquela preocupação por hora. Pelo menos era isso que eu esperava.


Capítulo 3

'Cause they see things in a different light
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"Larry é mesmo real, afinal?
Quinta-feira, 20 de Agosto


Harry Styles, um dos vocalistas da maior boyband do momento, assumiu essa semana via twitter seu relacionamento com o colega de banda, Louis Tomlinson.
A notícia chocou completamente os fãs da banda. Até mesmo quem acreditava ficou surpreso com a confissão. No entanto, ainda mais chocante que isso foram as fotos que surgiram ontem do garoto com a irmã de seu namorado.
Os fãs mais antigos conhecem as especulações a cerca de um possível envolvimento amoroso entre Harry e que, no entanto, jamais foi confirmado. A grande questão, porém, é que de acordo com fotos de fãs e funcionários (agora provavelmente demitidos) do hospital, juntos eles visitaram a obstetrícia essa tarde.
Então agora eu pergunto: Alguém consegue entender o que está acontecendo? Aceitamos apostas, pois o fandom está totalmente dividido e confuso.
Qual dos Stylinson, afinal, é verdadeiro em meio a tantas possibilidades?
Harry virou 'bi' e decidiu experimentar a família inteira? Está se empenhando para entrar para os Tomlinson a qualquer custo? Será que o padrasto do Louis deve se preocupar e tentar proteger a esposa antes que o garoto ataque também? O que diabos está acontecendo?
Sei que ficarão surpresos, mas nem mesmo eu tenho um palpite dessa vez. Entre One Direction e a Modest são tantos contratos que me perdi algum tempo atrás, mas não desgrudem que até o final dessa semana teremos notícias novas e garanto uma resposta de tudo para vocês.
Xoxo
Gossip Girl (Mentira, Stephen Roy)"


- Argh! – resmunguei audivelmente, afastando o notebook de mim antes que eu o arremessasse longe. Sentia-me frustrada e irritada e me encolhi para perto da cabeceira da cama, abraçando meus joelhos enquanto encarava o objeto a minha frente com uma das mãos enrolada nos cabelos.
Eu soube, assim que notei a garota na recepção, que tudo daria errado. Que era questão de tempo até que todos soubessem, mas ainda assim não estava preparada para os comentários, mesmo estando muito bem ciente de quais seriam e do quão ruins. Era por isso que eu evitava as redes sociais desde que começara a me envolver com Harry e era por isso que ele raramente interagia no twitter. Por maior que fosse seu amor as fãs, algumas delas podiam ser cruéis e Stephen Roy parecia uma flor de pessoa se comparado com alguma delas.
Era um amor doentio. Elas tinham essa necessidade de saber de absolutamente tudo e acreditavam fielmente que sabiam, que faziam um bom trabalho com suas teorias infundadas mesmo que na realidade estivessem completamente erradas na maior parte do tempo. Elas criavam, deduziam e fantasiavam e visto de dentro daquele mundo, era completamente assustador, especialmente se você não era alvo do amor como a banda e sim do ódio. Ódio era tudo que elas tinham por mim. Cada foto minha com Harry era seguida de um comentário maldoso e era difícil me acostumar com isso independente de quanto tempo se passasse. Agora, depois das minhas fotos com Harry no hospital, tudo parecia mil vezes pior.
Parte das Larries acreditavam que ele havia me acompanhado como um amigo. Isso por que fazia bastante sentido que eu tivesse pedido para Harry me acompanhar e não meu irmão, Cecile ou mesmo o pai da criança. Mas elas raramente se preocupavam em fazer sentido. A próxima teoria era a prova disso, afinal, a maior parte da fanbase havia decidido que Harry e Louis haviam assumido contra a Modest e minha possível gravidez era uma tentativa desesperada da agencia de abafar o caso.
E claro, eu era a vilã que compactuava com a Modest contra meu irmão. Também trabalhava para eles, mas enquanto Harry era a vítima de um contrato imposto obrigatoriamente eu só havia aceitado porque era uma vadia interesseira. Palavras delas, não minhas.
Existiam outras teorias, milhares delas, e também tinham aquelas pessoas que simplesmente não estavam entendendo absolutamente nada, não depois de Harry e Louis terem se assumido e não os culpava. Visto de fora, não deveria mesmo fazer sentido e por isso me incomodava tanto os ataques gratuitos. Elas havia decidido por conta própria qual era a história e deixaram que ela dominasse todas as colocações dos trends toppings em questão de segundos.
E isso era, definitivamente, o mais preocupante. A ligação de Anne há pouco era a prova.
As fãs estavam confusas, mas quem nos conhecia, nossa família e amigos, eles saberiam a verdade imediatamente assim como Anne, que ligara para Harry me dando oportunidade de pegar seu notebook para ver o que estava acontecendo. Eu estava desesperada para ver desde que saímos da consulta, mas Harry tentara me impedir tomando meu celular.
Antes o tivesse escutado, definitivamente.
Harry estava acostumado com isso, sumir das redes sempre que algo acontecia para se poupar de ler comentários que poderiam irritá-lo ou magoá-lo. Gostaria de conseguir fazer o mesmo, mas a curiosidade me matava simplesmente. Eu não conseguia ficar longe. E era no mínimo incomodo ver fotos suas espalhadas por toda a internet, especialmente na mão de pessoas que te odiavam profundamente. E elas não se importavam de estar atacando alguém como elas, uma pessoa como qualquer outra. Elas não conseguiam enxergar que independente de ser uma pessoa pública ou não, ainda era uma pessoa comum.
A porta do quarto foi aberta e sai imediatamente da posição na qual estava, cruzando as pernas em posição de “índio” enquanto via Harry entrar, segurando o próprio celular em mãos. Parte do motivo era ansiedade em saber o que Anne havia dito, afinal, o porquê da ligação era um tanto quanto óbvio e parte para evitar que Harry soubesse o quanto os comentários que eu li sem que devesse, tinham me afetado. E eu nem era exatamente uma pessoa insegura. Na maior parte das vezes os comentários mais me irritavam do que qualquer coisa, como o do Stephen Roy. Mas Stephen podia apenas especular, não atacar. Ele era um comentarista reconhecido com um site de fofocas reconhecido. Evitar processos era bem vindo, mas o que as fãs, com perfis anônimos na internet, tinham a temer?
- Você leu, não leu? – ele perguntou, apontando para o computador logo a minha frente e dei de ombros enquanto ele se juntava a mim, sentando-se ao meu lado. – Eu disse para não ler.
- Eu queria saber o que diziam. – respondi.
Harry se encostou contra o encosto da cama, deixando o celular de lado e pegando minha mão na sua. O encarei, esperando que continuasse.
- Ajudou em alguma coisa? – ele perguntou como se estivesse realmente curioso sobre aquilo quando, na verdade, eu sabia que falava em reprovação de certa forma. Ele sabia a resposta, olhar nunca ajudava. Eu não era a única a me sentir mal com o que diziam sobre mim, era óbvio que aquilo afetava também a Harry e Louis, afinal, a fama deles era o que fazia aquilo. Não era culpa deles, jamais seria, mas era por eles. Eles eram a desculpa.
- A saber o que diziam, bom, sim. – respondi com um sorriso exagerado e ele riu, puxando-me para seus braços em seguida. Harry pousou um dos braços sobre meus ombros e encostei a cabeça em seu peito, me aninhando ali. – E então? Anne? – perguntei curiosa e ele abaixou o olhar para mim.
- Disse que tinha muito enjôo pela manhã, logo que acordava, e bolacha de água e sal ajudava. Ela comia uma ou duas antes de levantar da cama.
Aquele não era exatamente o meu caso, mas sorri em agradecimento ainda assim.
Durante a consulta mais cedo a médica havia nos falado um pouco sobre os enjôos, dado algumas recomendações. Comer pouco, mas várias vezes ao dia, especialmente frutas, ajudava. Sempre manter algo no estomago.
No geral, a primeira consulta havia sido apenas aquilo. Ela esclarecera algumas dúvidas e pedira vários exames. Também fizera um cálculo para saber o tempo de gestação, assustando-me ao declarar que, muito provavelmente, eu já tinha passado da quinta semana, do primeiro mês, no caso, e já marcara a primeira ultrassonografia. Apesar disso estava realmente mais aliviada depois de conversar com alguém que entendia do assunto e agradeci a Harry por estar certo, por te tirado aquele enorme peso e ansiedade dos meus ombros mesmo que a repercussão não estivesse realmente ajudando e desejei, sinceramente, que minha mãe se mantivesse longe da internet, diferente de Anne.
- E o que ela achou sobre isso? – perguntei o que eu queria saber de verdade e ele sorriu.
- Gostou de saber que vai ser avó. – disse tranquilizador. – Imaginava que Gemma fosse ser a primeira, é claro, mas nos parabenizou por isso. Pediu que eu cuidasse de você e que mandasse para ela a foto do primeiro ultrassom, mesmo que não der pra ver nada. – ele riu e sorri enquanto o encarava, falando animado sobre o assunto. Soube naquele momento que jamais teria coragem de voltar atrás e tirar o bebê agora, não quando todos sabiam, não com Harry tão feliz com aquilo, mas não me importei de verdade. Mesmo por mim, já não sabia mais se poderia fazer aquilo. – Ela provavelmente vai fazer um álbum com tudo que puder dele. – falou e ri também por imaginar.
Certo, Anne já sabia, agora tinha minha mãe. Seria mais fácil se ela só ligasse perguntando se era verdade, mas imaginei que ela provavelmente esperaria um telefonema de confirmação. Haviam boatos por toda parte, se fosse mesmo importante, ela sabia que eu ligaria.
E estar grávida com certeza era importante.
- Vou ter que contar para minha mãe. – falei ao soltar o ar de uma vez pela boca e Harry concordou com a cabeça.
Eu resmunguei, tomando o travesseiro para mim ao me jogar de costas na cama, cobrindo a cabeça com ele. Aquilo não devia ser mais difícil do que o dia terrível que provavelmente teríamos amanhã, afinal, ainda existia o contrato a cerca de Larry afinal. Um que deveria ser mantido e sabia que a Modest não deixaria aquelas especulações de gravidez de lado. Precisaríamos fazer algo, bastava saber o que decidiriam sobre o assunto.


- Saiu em todos os jornais e você ainda não contou para sua mãe? – Aiden perguntou desacreditado enquanto nos sentávamos em uma das mesas do lado de fora do nosso café preferido próximo ao campus. Já era horário de almoço, mas raramente almoçávamos. Hábito que talvez eu devesse mudar agora. Pelo menos pelos próximos meses, mas não estava disposta a começar hoje.
Cecile se juntou a nós, sentando-se de costas para a rua e tirou o casaco para pendurá-lo no encosto da cadeira.
- Se já saiu em todos os jornais, ela já sabe. – falou e Aiden revirou os olhos. Raramente tinha qualquer paciência para ela e eu desconfiava de que, se não fosse por mim, eles jamais manteriam qualquer tipo de contato.
- Esse não é o tipo de coisa que você simplesmente esquece de avisar para os pais. – ele retrucou e odiei o fato ter que concordar, mesmo que mentalmente.
- Também não é o tipo de coisa que os pais ignoram se os pais verem na internet. – respondi, voltando-me para o ruivo a minha frente enquanto tentava a todo custo acreditar naquilo. Isso porque havia enrolado mais um dia inteiro ao invés de pegar o telefone e ligar de uma vez.
Aiden, de qualquer forma, não pareceu muito convencido.
- Já parou pra pensar que ela esteja esperando a filha ligar para dar a notícia? – perguntou e eu suspirei decepcionada. Eu só pensava naquilo na verdade.
- Ela pode só não ter internet. – Cecile sugeriu e Adrien a encarou como se perguntasse qual diabos era seu problema.
- Século vinte e um, Cecile. Todo mundo tem internet. – ele a lembrou, impaciente, e ela deu de ombros. – Especialmente uma mãe que tem um filho na mídia constantemente.
Aquilo fazia sentido, minha mãe jamais deixava de acompanhar Louis e de repente me senti ainda mais nervosa. Ela deveria saber, provavelmente até esperava minha ligação. Se perguntava porque eu estava demorando tanto e aquele pensamento não me ajudou em nada.
- Você sabe que não está ajudando, não sabe? – Cecile falou, apontando em minha direção com a cabeça após notar meu claro desconforto.
Adrien deu de ombros.
- Alguém precisa trabalhar com fatos já que nenhuma das duas faz isso. – ele disse simplesmente.
- Você é definitivamente péssimo com essa coisa de apoio moral. – Cecile decidiu antes de se levantar. – O mesmo de sempre? – perguntou e eu concordei com a cabeça, então ela se voltou para Adrien.
- Pode ser. – disse ele e ela concordou, saindo para fazer os pedidos.
- Relaxa, não é o fim do mundo. – ele falou sem me encarar e ergui a cabeça para ele, vendo-o olhar atentamente na direção dos carros do outro lado da rua, mesmo que não tivesse nada lá. – Você é uma mulher independente, está longe de casa há meses. Não é como se ela tivesse qualquer motivo para ficar brava com você por isso. Não é mais uma adolescente que precisa dela para viver. – falou e só então me dei conta de seu tom ligeiramente amargo. Adrien era, normalmente, mal humorado, mas havia adquirido essa certa amargura que até então, eu ainda não havia notado.
- Está tudo bem? – questionei, realmente preocupada. Me perguntei se, em meio aquela confusão de estar grávida, não havia deixado algum detalhe importante passar sobre sua vida. Me senti, além de tudo, uma péssima amiga. Focada apenas nos meus problemas pessoais. Focada demais para me dar conta de que talvez, meus amigos precisassem de mim.
Parecendo confuso, Adrien se voltou para mim de cenho franzido.
- Eu? – disse, como se realmente não entendesse onde eu queria chegar, mesmo quando concordei com a cabeça. – Sim, por que não estaria?
- Eu não sei. Você parece... Amargo, chateado talvez. – respondi e ele riu fraco. Não que aquilo o tivesse ajudado. Continuou soando estranho para mim, como se escondesse alguma coisa e estreitei os olhos.
- Eu estou bem, . – falou, de forma mais amena, mas não foi o suficiente para me convencer. – Não sou eu que vou ser mãe, afinal. – provocou com um sorrisinho cínico e deixei o queixo cair.
- Ordinário. – reclamei e ele sorriu convencido, como se eu o tivesse elogiado.
Se a intenção era fugir do assunto, ele havia conseguido com maestria, mas não deixaria aquilo de lado. Adrien estava enganado se pensava que sim.
- Como eu disse, gosto de ser realista. – insistiu ele e eu lhe mostrei a língua enquanto Cecile voltava para a mesa, sentando-se novamente em seu lugar.
- Já estão trazendo. – anunciou, me encarando em seguida. – Ele ainda não destruiu sua alto estima, destruiu? – perguntou e Adrien bufou.
- Não que ele não tenha feito o possível. – respondi em provocação e ela concordou, como se aquilo fizesse bastante sentido.
Adrien apenas ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Era óbvio que apenas o provocávamos e não era como se ele, logo ele, fosse cair naquilo.
Duas garotas passaram pela mesa ao nosso lado e enquanto conversavam, aos cochichos, olharam em nossa direção, fazendo com que eu olhasse para o lado contrário. Elas deveriam ter mais ou menos minha idade, provavelmente também eram estudantes da Kingston, mas não pude evitar o desconforto, a sensação de que os cochichos eram para mim. Tinha consciência de que aquela coisa de mídia me deixava um tanto quanto paranóica demais, mas não pude evitar.
Ficamos em silêncio até que ambas se afastassem e quando fizeram, Adrien voltou a falar:
- Não foi pra você. – disse ele sem nenhuma dificuldade de entender qual era o problema. – Elas se quer têm idade de acompanhar banda teen.
- Mas estamos no século vinte e um, lembra? – Cecile interferiu, usando suas próprias palavras contra ele. – Elas provavelmente tem acesso a internet e não é como se, pela universidade, já não cochichassem sobre a ser irmã do Louis.
- Muito obrigado, Cecile. Quem é que está dando um péssimo apoio moral agora? – ele a repreendeu e Cecile fez uma careta exagerada, como se só então se desse conta disso.
- Foi mal. – se desculpou, fazendo um bico em seguida e Adrien negou com a cabeça.
- Como você aguenta ela? – perguntou, soando desacreditado e Cecile olhou feio para ele por isso.
- Eu sou um amor. – disse simplesmente e ele riu irônico, claramente irônico.
- Tá. – falou simplesmente, a ignorando para se voltar para mim. – Vamos voltar ao assunto que interessa, o que acontece agora? – perguntou e não foi necessário que ele fosse mais específico para que eu entendesse onde ele queria chegar. Havia passado o dia todo com essa pergunta em mente e a mensagem de Harry mais cedo não havia ajudado. Especialmente depois dele ter sumido sem dar mais notícias.
Suspirei ao pensar no assunto.
- Chamaram Harry na agência hoje de manhã. – confessei, arriscando outro olhar para a tela do celular sem conseguir me conter. Havia pedido que ele me ligasse assim que saísse de lá, mas até agora, nada. Harry tampouco respondera minhas outras mensagens e dizer que eu estava uma pilha de nervos por isso era pouco. - Não havia qualquer motivo para isso se não fosse, bom, esse.
- E...? – ele continuou quando eu não disse nada.
- E eu não sei. – respondi, voltando a pensar no assunto. Não era como se pudessem demitir Harry. No máximo, como ele já havia assinado um contrato referente a Larry, pediriam que ele mantivesse aquela história de gravidez em segredo e nem era como se eu pretendesse gritá-la para o mundo de qualquer forma. Na pior das hipóteses, pediriam que ele assinasse algo para negar ser pai da criança caso a pergunta viesse a público, mas Harry não o faria mesmo que concordasse em negar. Se Harry não havia dito nada, provavelmente era aquilo, um contrato para negar, mas eu sinceramente estava muito mais preocupada com a possibilidade de demitirem a mim pela bagunça. Mas isso não falariam com Harry, falariam comigo assim que eu pisasse no escritório. Quando notei que Adrien ainda me encarava pelo silêncio, continuei. – Ele não disse mais nada.
- Eu estaria preocupada se fosse você. – Cecile disse o óbvio, especialmente quando eu estava claramente preocupada e me voltei para ela.
- Obrigada, Cecile. Seu apoio é sempre fundamental. – respondi e ela sorriu satisfeita por isso. Claramente sem entender a ironia contida na frase e eu não sabia se aquilo era engraçado ou triste.
- Eu sei. Somos ótimos amigos. – disse, incluindo Adrien no pacote.
- Definitivamente. Um grande apoio moral. – ele mesmo concordou embora o tivesse feito com sarcasmo e ela meneou positivamente com a cabeça, conseguindo arrancar uma risada de mim por isso enquanto a garçonete se aproximava com nossos pedidos.
Esquecendo-se completamente do que falávamos, Cecile bateu palminhas animadas e Adrien a encarou como se tivesse alguma espécie de deficiência, mas ainda assim continha um sorriso discreto que me fez encará-lo, divertida.
- O quê? – perguntou e neguei, rindo dele por isso.
- Nada, absolutamente nada. – respondi, pegando meu próprio pedido e agradecendo a garçonete em seguida.
Não estava frio, mas sentir o copo quentinho em minhas mãos foi reconfortante de alguma forma e o levei até a boca para um gole, parando, no entanto, antes que fosse capaz de sentir o gosto da bebida.
Logo mais adiante, sentadas no banco da praça a frente, estavam as mesmas duas garotas que haviam passado por nós há pouco. Eu já havia apagado as duas da memória até então, mas não havia como negar agora que ambas olhavam em nossa direção sem ao menos tentar disfarçar. Elas falavam uma com a outra, uma delas com o celular nas mãos e mesmo ciente de que não podiam e nem fariam qualquer coisa, aquilo, por si só, já me deixou incomodada.
Se eram fãs ou não, jamais saberia dizer, mas estavam sim, com certeza, olhando em minha direção e eu deixei o café de lado, perdendo completamente a vontade de comer.
Eu não havia pedido por isso, definitivamente, e só podia imaginar quantas outras pessoas haviam feito aquilo durante o dia. Quantas pessoas que, diferentes delas, tinham pelo menos tido o trabalho de disfarçar e tive vontade de fugir dali, mesmo que meu próximo destino fosse o trabalho e eu estivesse tão incerta sobre o que aconteceria lá quanto sobre qualquer outra coisa.
Seria uma droga de semana. Ela mal havia começado e eu já tinha certeza disso.

Estacionei o carro de Louis em frente ao prédio onde trabalhava e respirei fundo ao desligar o carro. Raramente precisava ir até lá de fato e parecia bem irônico que um desses dias fosse hoje, logo depois da catástrofe do dia anterior.
Eu tinha que ter me encontrado com Lottie antes de Harry me arrastar para a consulta e mesmo ciente de que ela já sabia muito bem o motivo agora, minha consciência não me deixava esquecer do fato de que eu não havia mandado uma mensagem se quer para lhe avisar sobre o ocorrido. Lou provavelmente relevaria, mas minha relação com Charlottie era muito mais profissional e como chefe, não acreditava que ela estivesse feliz com meu sumiço. Ainda assim, no entanto, apesar do meu receio em encará-la, a mulher não era minha maior preocupação no momento. Era apenas uma delas. Ou mais uma, no caso, mas não a principal.
Eu não conseguia parar de pensar no que me esperava lá dentro, a repercussão que a história da gravidez havia tido e se a Modest culparia a agência. Eu era irmã de Louis, não tinha como me manter longe de Harry mesmo que me demitissem, mas meu trabalho me colocava ainda mais próxima e não achava que fossem ignorar isso.
Desejei que fosse possível voltar para a casa e ignorar tudo aquilo até que passasse, mas não ia passar se ignorasse. Mantendo esse pensamento em mente, consegui coragem para sair do carro. Juntei minhas coisas no banco do motorista e abri a porta, mas parei quando o celular tocou em minha mão.
Meu coração acelerou consideravelmente e voltei imediatamente para dentro, não precisando olhar na tela para saber que era Harry. Eu estava esperando aquela ligação a manhã toda.
Atendi o mais rápido que pude, no terceiro toque enquanto deixa minhas coisas de lado mais uma vez.
- Oi. – o cumprimentei do outro lado e ele inspirou, claramente tenso apenas para piorar minha ansiedade.
- Já chegou no escritório? – ele perguntou, sua voz tipicamente lenta soando um pouco mais rouca no telefone e por mais que gostasse daquilo, não consegui me apegar nesse detalhe dessa vez. Havia ido apenas uma frase, mas foi o suficiente para disparar completamente todos os meus alarmes.
- Sim, já. – o respondi. – Estou no carro ainda. O que houve?
- Estávamos certos quanto a reunião. – ele começou, mas não achava que tinha como estarmos errados quanto aquilo. Queriam saber se era verdade, se eu estava mesmo grávida, e sugeririam que deixássemos aquilo em “off”. Foi a essa conclusão que eu e Harry havíamos chegado, era o que esperávamos e era o que eu queria para evitar mais atenção, mesmo que fosse triste não poder dizer para as pessoas quem era, de fato, o pai do meu filho. Mas de qualquer forma, se já estávamos preparados para isso, a tensão de Harry não fazia qualquer sentido.
Tinha mais coisa, e não saber o que me preocupava.
- Certo. – concordei ao notar que ele não continuaria por conta. – E o que mais? – o pressionei.
- Eles querem que eu assine outro contrato. Esse para negar a paternidade para quem perguntar. – falou de uma vez, claramente desconfortável com o assunto. Uma coisa era negarmos, outra era assinar um contrato que o proibia judicialmente de ser um pai e me deixei cair para trás no banco, acomodando-me contra o encosto. Também havíamos pensado na possibilidade, também havíamos conversado sobre aquele assunto. Eu seria a maior prejudicada se decidisse espalhar que seria mãe de um filho dele, não havia necessidade de assinar nada e Harry se recusava a isso. Mas tinha mais. Novamente tinha mais ou ele não estaria dizendo aquilo e apenas esperei que ele continuasse dessa vez. – Eu não aceitei. – falou e eu concordei, mesmo que ele não pudesse ver. - É... é ridículo, mas... – Harry se interrompeu, ficando em silêncio ao em vez de dizer de uma vez o que tanto o incomodava e interferi após alguns segundos sem uma resposta.
- Mas...? – insisti, impaciente e preocupada. Independente do que fosse, não era bom. Harry deixara isso bem claro desde o primeiro momento. Não era bom. - Harry, você está me deixando nervosa.
- Eles vão te demitir se não assinarmos. – falou de uma vez, rápido demais para que eu conseguisse assimilar e a notícia caiu em meu colo como uma bomba, deixando-me um tanto quanto atordoada. O haviam ameaçado para assinar. Haviam me usado como ameaça, meu emprego. – Tentei fazer enxergarem que seria muito pior se nos encontrássemos sem motivo para isso. Se fossemos vistos juntos sem que o trabalho te colocasse no mesmo lugar que eu, mas eles não se importam desde que assinemos. É tudo que eles querem. – ele continuou, mas eu mal o ouvia. Por mais que a mídia e os fãs falassem sobre a Modest, jamais os havia visto como vilões até então. Haviam contratos, sim, mas todos começavam com meras sugestões. Cabia aos meninos aceitarem ou não. Eles jamais haviam imposto ou ameaçado e de repente, a primeira vez havia sido justamente comigo. – Estão com medo que descubram que Larry era o contrato todo esse tempo, que descubram a manipulação que fazem. Querem eliminar de uma vez a possibilidade.
Eu fiquei em silêncio por alguns instantes, tentando colocar os pensamentos em ordem quanto ao que havia escutado. O que propunham no contrato era exatamente o que pretendíamos de certa forma, negar. Ninguém se importaria em saber quem era o pai do meu filho desde que não fosse Harry e todas as minhas redes sociais estavam trancadas. Ninguém de fora saberia se eu tinha ou não um namorado, ninguém precisava saber, mas ainda assim isso não fazia com que a atitude da Modest fosse menos cruel. Obrigá-lo a negar sob ameaça.
- ... – Harry chamou e só então me dei conta de que havia deixado que vários segundos se passassem em silêncio absoluto enquanto pensava no assunto. – Diz alguma coisa. – pediu.
Eu abri a boca para falar, mas então, como um estalo, algo pior me ocorreu.
“Eles vão te demitir se não assinarmos.”
“Assinarmos” e não “se eu não assinar”. Eram dois contratos, eu e ele e senti um arrepio percorrer meu corpo com a possibilidade.
Eu não podia bancar com um contrato milionário e Harry não podia bancar com dois caso precisássemos voltar atrás. E não sabíamos o dia de amanhã. Não sabíamos se, por algum motivo, precisaríamos. Um contrato era algo a longo prazo e não sabíamos o que seria de nós daqui há alguns meses. O que aquilo poderia custar.
- ? – ele insistiu e soltei o ar que se quer havia notado que prendia, tentando manter a calma.
- Nós dois? – perguntei apenas, limitando-me a tirar aquela dúvida antes de qualquer coisa.
- Sim. Dois contratos. – ele respondeu e eu concordei com a cabeça, mesmo que ele não pudesse ver. Eu estava surtando internamente, mas fiquei satisfeita em conseguir evitar que isso transparecesse em minha voz. – Vão te abordar assim que entrar. Tem um representante da Modest com eles, mas pedi para a Lou encontrá-lo. Ela vai estar junto...
- Q... quanto tempo temos para decidir? – o interrompi sem que fosse realmente a intenção e se quer notei de início, gaguejando a próxima pergunta. Apenas quando Harry suspirou notei o que havia feito e me dei conta do que aquilo fazia com ele. Era por ele que faziam aquilo afinal. Não era por mim, ninguém ligaria para mim se não fosse por ele.
Não tinha como Harry estar bem com aquilo e tive vontade de estar com ele apenas para que pudesse confortá-lo, para dizer que a culpa não era dele como pensava. Que eu não o culpava. Jamais culparia.
- Querem que façamos isso hoje. – ele respondeu com uma mistura de pesar e raiva e mordi o lábio inferior ao notar, apreensiva. – Por isso que foram até ai ao invés de marcar de encontrar com nós dois. Querem achar o elo fraco.
- Eu não posso perder meu emprego, Harry. – disse, imaginando que aquele era exatamente o ponto fraco do “elo”. Eu podia ter conseguido aquela oportunidade através de Louis, mas isso não tirava meu crédito por ter chegado tão longe. Não diminuía o quão duro eu havia dado para me manter onde estava e os odiei por tentar tirar tudo aquilo de mim.
- Eu sei, não vai. – ele respondeu prontamente e decidi que ainda pior do que ameaçarem meu emprego era fazer com que Harry se sentisse culpado por isso. - Não vou deixar, . – insistiu. - Vou conversar com algumas pessoas, procurar um advogado e...
- Harry, se brigarmos eu vou ser a maior prejudicada de qualquer forma. – falei com calma, tentando pensar com clareza sobre o assunto mesmo quando ele me deixava tão nervosa. - Vão exigir que me demitam nem que precisem criar um motivo.
Ao invés de me responder de imediato, Harry fez silêncio do outro lado e se não fosse sua respiração próxima ao telefone, provavelmente acreditaria que ele havia desligado. Abri a boca para chamá-lo, mas voltei a fechá-la, decidindo que assim como o meu silêncio, o seu podia significar apenas que ele estava pensando.
Quando ele voltou a falar, no entanto, me arrependi de ter lhe dado tanto tempo.
- , me desculpa... – falou melancólico e mais uma vez desejei estar ele para poder abraçá-lo. Não só por ele, mas por mim também. Para o conforto de nós dois.
- Não se desculpe, Harry. – o respondi com toda calma que pude encontrar. - Não é culpa sua.
A Modest fazia apenas o que os fãs queriam, sempre pensavam neles quando vinham com o próximo passo e isso só provava que tudo era muito mais complexo do que podíamos imaginar. Muito complexo para que culpássemos apenas uma pessoa por isso, especialmente Harry, que apenas recebia ordens. – Encontre o advogado, mas para que ele nos exija tempo para pensarmos. – pedi, decidindo que aquela era a melhor decisão por hora. – Peça para que ele nos diga se é seguro fazer isso.
- Você acha seguro? – Harry perguntou e eu soube imediatamente o que ele queria realmente saber com a pergunta. Harry queria que eu lhe dissesse o que eu achava sobre o assunto, se pretendia ou não assinar, mas não tinha certeza se sabia ainda da resposta, por isso precisava de um tempo.
- Eu não sei, Harry. Mas é o único jeito de evitar uma briga com a qual não saberíamos lidar. – falei, olhando para o relógio para decidir quanto tempo ainda tínhamos para discutir aquilo ali. Eu ainda não estava atrasada, então tudo bem. - Se não fizermos eles me demitem, e ai? Nos ameaçam de outra forma? – perguntei. Eu trabalhava em uma agencia contratada pela Modest, trabalhava com uma das maiores bandas no momento. Aquilo podia ser uma grande oportunidade para o currículo, mas também podia destruí-lo para sempre se eu saísse mal daquela. - Sabemos que podem fazer isso se quiserem e se já começaram, nada os impede de continuar. Não poderíamos dizer a verdade de qualquer forma. O contrato não parece a pior parte.
- Quebrar o contrato é a pior parte. – ele disse e eu só pude concordar, mesmo não o tendo feito em voz alta.
- Quanto custa? – quis saber, de repente um pouco mais confiante do que tinha que ser feito, por mais que detestasse a solução, por mais que detestasse fazê-lo.
- Bastante. O suficiente para que a gente não queira fazer isso. – ele respondeu sincero, mas não era como se pudéssemos esperar algo diferente de um contrato. Aquele era o objetivo afinal, fazer com que a possibilidade de voltar atrás nos fizesse perder muito mais do que perderíamos por manter.
Fizemos mais silêncio enquanto pensávamos, mesmo que na realidade, não tivéssemos mesmo muita escolha.
- O que você acha? – perguntei por fim, me dando conta de que ainda não sabia exatamente o que ele pensava sobre o assunto e Harry suspirou mais uma vez, cansado.
- Eu sei que negar já era o que pretendíamos. – começou. - Precisamos fazer isso se quisermos proteger você e ao bebê, mas me assusta a possibilidade de assinar um contrato que nos proíba expressamente de contar. É como... é como se eu não pudesse ser pai, como se eles quisessem me privar disso. – contou e eu compartilhei de seu receio. Me perguntariam quem era o pai da criança quando a barriga crescesse e eu teria que inventar uma história qualquer sobre o assunto. Não poderia dizer a verdade por mais orgulho que tivesse dela, que tivesse de ter Harry comigo e só podia imaginar quando isso o afligiria. - Eu não queria ter que assinar, . Mas se não tiver outra escolha e eu não acho que tenha, tudo bem, eu aceito. É um contrato de um ano, o bebê seria pequeno demais para se dar conta do que está acontecendo até que tenha terminado, então... – Harry deixou no ar, mas eu já havia entendido. O mais prejudicado seria o bebê, a confusão que aquilo seria em sua cabeça, mas aquilo terminaria antes que ele chegasse a entender. Talvez até antes que ele pudesse falar e pensando naquilo decidi o que fazer.
O contrato que eles haviam assinado sobre Larry me prejudicava muito mais do que esse prejudicaria, muito pelo contrário. Eles garantiriam que só seria prejudicial a mim se eu recusasse então não fazia sentido recusar, especialmente quando a intenção sempre foi fazer exatamente o que o contrato nos pedir pra fazer.
- Arrume o advogado, Harry. – pedi novamente, voltando a reunir minhas coisas para descer do carro. – Eu vou falar com eles, ganhar tempo e se o advogado decidir que é seguro, então fazemos isso. Assinamos de uma vez.
- Certo. – ele disse apenas, mas eu ainda não gostava do tom de sua voz ao dizer aquilo e parei o que fazia.
- Harry. – o chamei e ele respondeu com um murmúrio para dizer que ainda estava ali, que ainda ouvia. – A culpa de nada disso é sua e independente do que aconteça, saiba que eu nunca, jamais, poderia imaginar um pai melhor para esse bebê. Eu nem sei se... Eu nem sei se faria isso, se teria esse bebê se não fosse por você. – falei de uma vez, mas continuei ao decidir que aquilo ainda não era suficiente. Que existia mais de uma interpretação para o que eu havia dito. - E não estou dizendo que você me convenceu a fazer isso sem que eu quisesse, eu estou dizendo que saber o que é você me deu coragem de continuar. Saber o quão maravilhoso você vai se sair nisso. Saber que se estiver com você, eu também consigo. – falei, sorrindo mesmo que ele não pudesse ver. - Não deixe que eles tirem sua fé em você mesmo porque eu não me arrependo. Eu tenho fé em você Harry e sei que vamos conseguir fazer isso. Juntos.
- Eu sou louco por você. Sabe disso, não sabe? – ele perguntou e eu sorri mais uma vez. Sorri por sua fala e sorri por ter tomado a frente e sido, pela primeira vez desde que aquilo começara, quem tivera as palavras de apoio.
- Eu sei. – respondi, rindo baixo sem que pudesse me conter. – Também sou louca por você, Harry.
- Eu sei. – ele devolveu, rindo também em seguida.
- Vou desligar agora. Desligar e pedir tempo a eles até que possamos entregar os papéis a um advogado de nossa confiança.
- A Lou vai estar lá com você. Vai te dar apoio se precisar.
- Certo. – concordei, tentando não demonstrar o quão aliviada estava em saber que ela estaria lá, mesmo que estivesse.
Eu não podia voltar atrás, muita coisa dependia daquilo e esse foi o único pensamento que me deu coragem de finalmente sair do carro quando finalizamos a ligação. Quando terminássemos aquilo, seria um problema a menos com o quão nos preocupar.


Parei o carro exausta em frente a casa de Harry, não tão longe da universidade, e suspirei aliviada assim que o fiz. Havia sobrevivido aquele dia sem maiores danos. Tinha conseguido me impor sobre o representante da Modest e estava orgulhosa daquilo, mesmo tento choramingado dos braços de Lou em seguida por isso.
Eles nos deram até sexta-feira para assinar os papéis, antes de pegarmos o vôo para o festival da iHeartRadio em Vegas, o que era o suficiente. Na verdade, a reunião nem havia sido, de fato, tão ruim. O homem havia feito um ótimo trabalho em fingir que estava pensando apenas em nós ao bolar aquele contrato, falava cheio de sorrisos e educado como um perfeito britânico, exceto pelo fato daquela proposta ser totalmente cruel e indecente, é claro.
Juntei minhas coisas e cuidei de pegar em mãos a pasta com o contrato, notando o outro veículo parado em frente a casa só depois que carro. Não era de Harry nem de Louis, a não ser que tivessem comprado um novo, mas dei de ombros. Aquilo não era exatamente impossível afinal.
Busquei pelas chaves de Harry na bolsa e só depois de encontrá-las, abri a porta, a trancando novamente depois de entrar.
- Harry? – o chamei, deixando o casaco no cabideiro na porta e seguindo a diante com a bolsa nos braços e a pasta nas mãos, a carregando como se fosse uma bomba prestes a explodir. Sentia como se a pasta pesasse uma tonelada, mesmo que os contratos tivessem três folhas cada um e não era difícil de relacionar isso com o peso que aquelas três simples páginas traziam em nossas vidas. Em três páginas com um poder gigantesco e totalmente assustador e por isso desejava tanto poder me livrar de uma vez delas. – Está em casa? – o chamei novamente ao chegar na sala e não vê-lo ali, mesmo ciente de que ele sabia que eu estava chegando.
- ! – uma voz conhecida me cumprimentou animado e me virei em tempo de ver Niall sair da passagem que levava até a cozinha, sorrindo animado em minha direção. Retribui o sorriso, deixando a bolsa e a pasta de lado no sofá antes de abraçá-lo quando ele me alcançou. – Harry me contou, parabéns! – disse com uma alegria contagiante e vi Harry se aproximar por trás dele, sorrindo também embora parecesse tenso demais para que fosse possível não notar. Me afastei de Niall para lhe contar as novidades e o garoto olhou de mim para Harry, franzindo o cenho ao notar que algo estava errado. – O que houve? – ele perguntou e Harry apontou para o sofá para que ele se sentasse, fazendo o mesmo em seguida. Niall ficou no sofá do meio enquanto eu e Harry nos sentávamos um sofás opostos, um de frente para o outro.
- Consegui o tempo e trouxe os papeis. – informei a Harry, desviando o olhar para a pasta ao lado de Niall. – Eu só... não tive coragem de olhar.
Curioso, Niall pegou a pasta e sob o olhar atento de Harry, a abriu, pegando um dos contratos em mãos para ler o conteúdo.
Harry se voltou para mim em seguida.
- Marquei com o advogado amanhã de manhã. – falou. – Você não precisa ir junto, eu posso falar com ele e te passo tudo a noite para decidirmos o que fazer.
- Querem que você negue a paternidade da criança?! – Niall perguntou, chocado, ao erguer o olhar dos papéis para Harry. – E você está realmente cogitando fazer isso? Os dois?! – se voltou para mim e contive o ímpeto de me encolher no sofá.
- O que você espera que a gente faça, Niall? Anuncie que eu estou grávida alguns dias depois de terem anunciado Larry?
- Quebrar um contrato é melhor do que ter que quebrar três depois. – ele respondeu como se fosse óbvio. – É seu filho, você não pode só negar que tem um filho. – falou e Harry deixou os ombros murcharem, claramente chateado com isso. Senti meu coração se apertar com sua reação. Não era culpa dele, mas era horrível e tínhamos que fazer.
- Niall, você não entende. – interferi, me obrigando a tomar o controle da situação. – Ninguém quer fazer isso, mas é necessário. Negar é necessário, não o contrato. Você não vê a reação das pessoas sempre que eu saio na mesma foto com Harry, o ódio. Jamais acreditariam nessa criança mesmo que Harry dissesse com todas as letras. Negar é o melhor pra protegê-la, para evitar que a odeiem tanto quanto me odeiam. Essa é a única forma de fazer com que nos deixem em paz.
Niall negou com a cabeça e de acomodou no sofá, deixando o contrato de lado. Não estava satisfeito, mas não disse mais nada e imaginei que tivesse chegado na mesma conclusão que eu afinal.
- Mas um contrato? – acabou dizendo por fim. – Isso é sério.
- Não pretendíamos fazer isso, Niall. Ameaçaram demití-la se não assinássemos.
- Eles o quê?! – Niall perguntou, horrorizado. – E o Simon sabe disso?!
- É claro que sabe. – Harry não controlou a irritação em sua voz, suas bochechas adquirindo um certo rubor pela raiva enquanto ele cerrava os dentes, negando com a cabeça.. – É surpreendente que ele proponha algo assim quando é pai, mas ele fez. Assino essa droga, mas nunca vou perdoá-lo por isso. Espero que ele saiba.
Sem pensar sobre o que fazia me coloquei de pé, seguindo em sua direção e Harry me acompanhou com o olhar enquanto eu me aproximava, sentando-me ao seu lado para jogar os braços ao seu redor como queria fazer desde a ligação mais cedo. Eu entendia sua raiva, sua angustia. Eu também sentia, mas não podia deixar que jogasse aquela raiva para si mesmo como sabia que ele faria em seguida, que se culpasse, e o abracei por isso, escondendo o rosto em seu peito assim que ele retribuiu o abraço.
- Vai ficar tudo bem. – eu falei em um sussurro enquanto agarrava sua camisa, fechando os olhos ao inalar seu perfume já tão conhecido. Era reconfortante estar em seus braços mesmo que a intenção, na verdade, fosse confortar a ele e só então me dei conta do quanto queria fazer aquilo, mesmo por mim. – Vamos assinar essa droga e esquecer que isso existe. – disse, contendo minha mente que continuou a frase com um “aproveitar a gravidez”. Aproveitar, definitivamente, já era pedir demais. Não conseguia me imaginar aproveitando das alegrias de estar gorda e enjoar a cada cinco minutos. Sobreviver a ela já parecia o suficiente para mim.
- Eu não gosto disso. – ele disse e ergui a cabeça para encará-lo, concordando com um aceno ao encontrar seus olhos sobre mim. Tinha um certo pesar em seu olhar, além de ressentimento e raiva. Não era possível dizer que o filho não era meu, mas queriam obrigá-lo a negar, garantir que negasse e ainda me usaram para isso. Negar era o que pretendíamos, mas o estavam obrigando a isso. Essa era a parte que mais o incomodava. Ele estava com medo daquele contrato, percebi. Não poderíamos voltar atrás mesmo que quiséssemos, mas isso significava muito mais para ele do que para mim e só então me dei conta.
- É o melhor a se fazer. – respondi mesmo assim porque era a forma como enxergava. Nada no mundo poderia privá-lo de ser o pai maravilhoso que eu sabia que ele seria. Nada poderia afastá-lo daquele bebê independente do que estivesse escrito naquele contrato. – Não vai ser verdade só porque você vai dizer isso para a imprensa e vai ter acabado antes dele completar um ano.
Sem ter muito o que fazer, Harry concordou mesmo que contrariado. Não era como se a Modest tivesse nos dado muitas opções de qualquer forma. Para demonstrar que estava tudo bem, voltei a erguer a cabeça, sorrindo para Harry que beijou minha testa em retorno, fazendo-me alargar o sorriso.
Só depois lembrando-me de Niall ainda presente, me afastei dele mesmo que contra minha vontade e encontrei o loiro sorrindo em nossa direção. Corei por isso e Niall riu ao notar, levando-me a fechar a cara para ele em um bico empurrado.
- Quando se muda? – ele perguntou subitamente e todos os meus alarmes dispararam como uma sirene policial em alto, claro e bom som. Levei alguns segundos para assimilar o poder daquelas palavras, mas já respondia mesmo antes disso:
- Quê?!
- Niall! – Harry o repreendeu imediatamente e junto comigo, fazendo-me arregalar os olhos. Ele não tinha falado por falar, ele tinha falado porque Harry sugerira a ideia e olhei de um para o outro com uma expressão de completo pânico que eu pagaria para ver no rosto de qualquer um menos no meu. Aquele era, definitivamente, um passo grande demais. Tudo era, o bebê, o contrato, mas morar junto?
- Espera, você não tinha convidado ainda? – Niall perguntou, soando espantado. Não enganava ninguém, nem a mim em meu atual estado de histeria, pânico e negação e claro que não enganou a Harry.
- Você sabe que não, idiota! – ele gritou em resposta e Niall novamente por isso.
- Ah, desculpa. – o loiro respondeu, mas desesperada para mudar de assunto me levantei do sofá em um pulo, fazendo os dois rirem por isso.
- , relaxa. – Harry chamou em tom divertido, me puxando de volta para o sofá novamente. Ele me conhecia o suficiente para entender o motivo do desespero e saber que o problema não era ele, o que era claramente um alívio, mas isso não mudava o fato de que ele iria querer conversar sobre o assunto e apenas me coloquei de pé mais uma vez, tentando evitá-lo.
– Acho que eu estou com fome, podemos comer? – falei, mudando completamente de assunto. Sabia que era inevitável. Eu não conseguiria cuidar sozinha de um bebê recém nascido e essa se quer era a intenção, nunca havia sido. Ele tinha um pai que estaria ao seu lado, ao meu lado, mas eu simplesmente não havia pensado ainda naquela possibilidade, naquele passo, e como todos os outros, preferi evitá-lo antes que fosse completamente necessário discuti-lo, o que não era o caso. - Não comi nada o dia inteiro. – confessei, sabendo que aquilo seria o suficiente para fazê-lo esquecer completamente daquele assunto.
Como o esperado, a expressão de Harry mudou imediatamente, mas bufei quando ele me puxou para o sofá uma segunda vez, encarando-me desacreditado.
- Você não comeu nada o dia inteiro?! – exclamou em reprovação e Niall gargalhou alto. Sua risada sempre tão típica e capaz de preencher completamente o ambiente. A risada que sempre me fazia rir junto com ele, mas que dessa vez, não surtiu o mesmo efeito.
- Inteligente, isso foi bem inteligente. – ele falou ainda entre risos e olhei feio para ele por isso.
- Niall, cara a boca irlandês maldito! – o repreendi e ele apenas gargalhou mais uma vez pelo apelido, jogando a cabeça para trás, mas isso infelizmente não foi o suficiente para que ele mantivesse a boca fechada.
- Percebeu que ela não quer morar com você, né? – falou para Harry e lancei a ele um olhar assassino. Niall ergueu os braços em sinal de rendição, mas ainda mantinha o sorriso idiota no rosto e eu quis socá-lo. – Só estou dizendo o óbvio.
- E eu só disse que estou com fome. – retruquei, fuzilando Niall com o olhar enquanto Harry nos encarava com claro divertimento. Niall implicava comigo como só Louis era capaz de fazer. Também me irritava como só ele e Harry se divertia tanto quanto quando era com Louis.
Desprezíveis, os três.
- Você fugiu do assunto. – Niall insistiu e eu urrei, o fazendo rir. - Só ele não consegue notar. – apontou para Harry.
- Espera, você não quer morar comigo, ? – Harry perguntou soando surpreso e decepcionado, mas havia deixado o queixo cair de forma um tanto quanto teatral e puxei a almofada atrás de mim, a usando para bater nele em seguida.
- Não ria de mim! – exclamei, mas ele o fez mesmo assim enquanto se defendia e Harry o imitou. – Argh, eu odeio vocês! – soltei a almofada após acertá-lo nele mais uma vez, assoprando a mecha de cabelo que caiu sobre o meu rosto.
- Odeia o Harry e ama a mim. – Niall retrucou e Harry riu irônico.
- Claro. – Harry devolveu e eu bufei, me colocando de pé mais uma vez, segurando Harry pela mão para obrigá-lo a vir comigo antes que me puxasse para o sofá novamente.
- Fo-me. – falei pausadamente para que ele entendesse e ele riu, voltando a prestar atenção. – Seu filho precisa comer e você já começou fazendo isso errado. Onde tem um folheto de pizzaria?
- Pizza? – ele perguntou enquanto se deixava ser arrastado por mim para a cozinha. - Você não pode ficar o dia inteiro sem comer e depois comer porcaria.
- Ah não! – Niall exclamou logo atrás de nós. - Ele não acabou de chamar pizza de porcaria, chamou? – Niall perguntou e me soltei de Harry, olhando feio para ele como se reprovasse a atitude muito mais do que reprovava de fato. Como se ligasse, na verdade.
- Saudável não é. – Harry devolveu, cruzando os braços ao me encarar de forma irônica. – Estou tentando começar isso certo. – usou minhas palavras contra mim e estreitei os olhos em reprovação.
- Você só pode estar louco se está pensando que vai me deixar sem pizza. – decretei e Niall concordou, apontando em minha direção em aprovação.
- Escute ela. Essa garota sabe o que diz. – falou e Harry revirou os olhos para ele, acompanhando-me enquanto eu abria gavetas aleatórias da cozinha para procurar o folheto.
- Harry, ondeeeeee...? – choraminguei ao me voltar para ele. - Seria mais fácil se a cozinha não fosse do tamanho do meu loft inteiro. – Eu quero pizza. – pedi no mesmo tom.
- Eu posso cozinhar. – ele sugeriu com um sorriso exagerado e me joguei em seus braços de forma um tanto quanto dramática.
- Vai cozinhar pizza? – tentei e ele suspirou vencido, abrindo uma das gavetas ao nosso lado para tirar de lá um panfleto. O soltei para comemorar junto com Niall e Harry riu por isso, deixando-me com o folheto enquanto encostava-se contra um dos armários.
De repente salivando pela pizza, abri o panfleto com água na boca, mas Niall o tirou de mim antes que eu tivesse a chance de ler o nome da pizzaria.
- Ei! – reclamei, tentando pegar de volta, mas Niall ergueu o braço para deixá-lo fora do meu alcance. – Niall! – protestei e ele riu, mas antes que pudesse se dar conta do que acontecia, Harry, que era mais alto que ele, puxou o folheto de sua mão também. – Há! – comemorei, seguindo até Harry para decidir o sabor da pizza enquanto o irlandês cruzava os braços emburrado para esperar a sua vez.
Sabia que por fim, quando eu e Harry estivéssemos sozinhos, o assunto anterior voltaria e não teria exatamente como fugir dele, mas por hora me contentei com a pizza e a presença de Niall, decidindo lhe dar com aquilo quando fosse a hora.

Eu havia roubado uma camisa de Harry para dormir em casa, mas isso não significava que eu já não tivesse uma outra para mim na casa dele, uma preta, dos Ramones. Havia decidido que seria minha depois de ouvi-lo dizer em entrevista que daria aquela camisa para “garota certa”. Foi uma brincadeira, é claro. Os fãs queriam a camisa e me senti vitoriosa por ser a única que poderia, de fato, tê-la. Tirei milhares de fotos com ela e um dia ainda postaria só porque sabia que as fãs não deixariam a referência passar. Uma vingança completamente saudável e inofensiva.
Para elas, não para mim, obviamente.
Sentei com as pernas cruzadas em posição de índio sobre a cama de Harry e o esperei voltar para o quarto após o banho. Quando saiu do banheiro, vestia apenas uma calça cinza de pijama e mantinha a toalha ao redor do pescoço enquanto a usava para secar os cabelos, mais compridos do que eu estava acostumada. Os fios molhados caiam bagunçados em frente ao seu rosto enquanto ele os chacoalhava com a toalha e sorri com a visão sem que pudesse evitar, descendo o olhar para o resto de seu tronco, coberto por tatuagens. Conhecia todas de cor, mas lembrava-me de, no início, odiar a borboleta em sua barriga. A que hoje eu mais gostava. Não sabia exatamente porque, mas havia adquirido o hábito de contorná-la com os dedos sempre que ele decidia dormir sem a camisa e sabia que Harry muitas vezes o fazia por esse motivo.
- Sabe, essa sua obsessão por mim é um tanto quanto assustadora. – Harry caçoou ao me pegar espiando e lhe mostrei a língua, recebendo uma risada em resposta enquanto ele jogava os cabelos para trás sem se preocupar em penteá-los.
- Suas fãs são assustadoras, eu sou um amor. – respondi dando de ombros e ele sorriu ao se juntar a mim na cama, fazendo-me deitar sobre ela ao se inclinar em minha direção. Levei uma das mãos até seus cabelos mesmo molhados enquanto com a outra segurava seu braço, que ele usava para se apoiar na cama.
- Adoro você nessa camisa. – ele falou em tom baixo, menosprezando meus lábios ao deixar um beijo em meu maxilar. Segurei com mais força em seu braço por isso, sentindo meu corpo esquentar com o contato do seu e Harry sorriu de lado em resposta, satisfeito ao notar o que havia causado. Fechei os olhos, sentindo sua respiração em meu rosto e em seguida contra meus lábios, há milímetros de distância dos seus antes dele finalmente completar o espaço entre eles.
Entre abri os lábios para que Harry pudesse aprofundar o beijo e subi a mão de seu braço para sua nuca, sentindo sua língua tocar a minha macia e agradavelmente quente enquanto o puxava para mais perto.
Harry passou um dos braços firmes por baixo de mim, mantendo-me presa neles ao me puxar para sí pela cintura. Pude sentir cada mínimo detalhe do seu corpo no meu, seu tórax contra meus seios, suas pernas entre as minhas e não podia ter mais consciência de cada detalhe dele em mim.
Soltei o ar contra seus lábios quando a falta dele passou a incomodar e desci uma das mãos por suas costas quando ele voltou a me beijar, mal me dando tempo para recuperar o ar escasso. Não que eu um dia fosse reclamar disso. Toquei cada canto de sua pele que podia alcançar, apertando seus músculos em minhas mãos de forma quase insaciável e solvei o ar mais uma vez em seu rosto quando Harry subiu uma das mãos por minhas pernas expostas, apertando minhas coxas.
- Você está me distraindo. –Harry acusou, mas nem mesmo o divertimento em sua voz foi capaz de diminuir o calor que sentia se espalhar por cada parte de mim com o contato, não com ela soando tão rouca e baixa contra meus lábios. Ambos estávamos ofegantes e sua mão ainda em minha perna subiu um pouco mais, fazendo-me morder o lábio inferior sem abrir os olhos.
- Sim, eu... – respondi apenas, sem ter muita certeza de onde havia tirado minha voz, mas sabia que ele não teria qualquer dificuldade de entender a ironia em minha fala. Abri os olhos finalmente, encontrando os seus sobre mim. Harry sorriu mais uma vez sem tirar os olhos dos meus, segurando meu rosto com uma das mãos antes de juntar nossas testas.
- Vem morar comigo. – pediu e mordi o lábio inferior mesmo presa em seus olhos. Sabia que não tinha como fugir daquela conversa de qualquer forma e já havia me preparado para ela, mas era bem típico de Harry destruir minhas estruturas para vir de surpresa com uma pergunta daquelas. Sem qualquer dificuldade para notar meu receio, ele riu. – Não ia mudar muita coisa realmente. – ele afastou nossas testas para que pudesse olhar direito para meu rosto, colocando uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.
Suspirei, ciente de que ele estava certo, mas ainda era difícil para mim visualizar aquilo. Se não estávamos viajando, estávamos um na casa do outro, um junto com o outro, mas morar junto ainda assim era completamente diferente. Eu não teria uma casa para ir se brigássemos. Aquela já seria a minha casa. Voltar para a casa todos os dias seria o mesmo que voltar para junto dele e por mais que eu gostasse de estar com Harry, ainda era completamente assustador dar esse passo definitivamente.
Morar juntos e ter um filho aos vinte. Eu jamais havia imaginado aquilo, especialmente tão cedo. Ter minha própria família e ser a responsável por ela como minha mãe havia sido pela dela, por mim. Eu ainda não conseguia me ver pronta para isso. Nunca havia sido um dos meus planos de vida e pensar naquilo já foi o suficiente para me deixar tensa mais uma vez, me perguntando quando todas aquelas conversas totalmente assustadoras iam passar. Se é que iam.
Notando meu receio tão claramente obvio, Harry me puxou para nos sentarmos, levando-me para seu colo. Satisfeita por poder evitar seus olhos, deitei a cabeça em seu ombro, sentindo seu peito subir e descer junto com o meu conforme respirávamos em uma sincronia quase ensaiada.
- É muito... rápido. – falei em um sussurro e ele concordou com a cabeça, beijando meu ombro ao me abraçar, trazendo-me para ainda mais perto.
- Eu sei. – ele falou, com muito mais firmeza do que eu tinha para discutir aquilo. – Somos jovens demais pra fazer isso, mas eu não tenho dúvidas de que quero você aqui comigo, . Podíamos deixar essa conversa pra depois, para quando estivesse mais perto do bebê nascer, mas ele não é o único motivo e não quero que pense que é. – disse, segurando-me gentilmente pelos ombros para fazer com que eu me afastasse o suficiente para encará-lo. – Eu não tinha dúvidas de que seria você. – sussurrou enquanto eu me mantinha focada em seus olhos, sentindo-me totalmente incapaz de desviar o olhar de tudo que eles pareciam transmitir. Uma mistura de carinho, afeto, paixão e decidi naquele instante que independente de qualquer coisa, até mesmo da Modest ou das fãs, eu era sim uma garota de sorte simplesmente por tê-lo ao meu lado. – Eu te amo. – Harry falou, tocando meu rosto, e de repente congelei no lugar, sentindo todo o calor se esvair de meu corpo em questão de segundos. Eram três palavras totalmente simples, mas que juntas representavam muito mais do que eu poderia imaginar. Harry era mais do que eu poderia imaginar ter na vida e de repente tudo aquilo pareceu certo demais apesar de todos os medos e incertezas.
Era ele, eu também não tinha dúvidas disso. Não tinha dúvidas de que também o amava e sorri. Tínhamos adiantado os planos de forma drástica, mas daria certo. Se ele estivesse comigo daria certo e suspirei mais aliviada ao chegar aquela conclusão, meneando positivamente com a cabeça em concordância.
- Eu te amo, Harry. – respondi, o vendo sorrir ou ouvir as palavras e me senti satisfeita por causar nele a mesma reação que Harry havia causado em mim. – Podemos fazer isso. – falei e ele concordou sem vacilar, inclinando-se em minha direção ao procurar seus lábios com os meus. Antes que ele o fizesse, me afastei, pedindo um instante e ele riu por isso. – Sem pressa. – pedi e Harry não pareceu nenhum pouco surpreso, sorrindo divertido.
- Sem pressa. – respondeu. – Você pode se mudar amanhã se quiser. – lancei a ele um olhar irônico em retorno, muito bem ciente de que ele havia entendido o que eu havia de fato tentando dizer e Harry riu apenas, puxando-me para si mais uma vez. – Sem pressa. – ele repetiu, buscando meus lábios mais uma vez e agora eu deixei, segurando seu rosto entre as mãos.
Antes que pudéssemos iniciar o beijo, no entanto, meu celular tocou sobre o móvel ao lado da cama. Harry resmungou insatisfeito quando me virei para o aparelho e de início, ri de sua reação, isso até ver a palavra “mãe” no visor, arregalando os olhos por isso.
Me inclinei sobre Harry para chegar até o aparelho, esticando os braços para tentar alcança-lo e ele me segurou quando quase nos derrubei para fora da cama.
- ! – ele protestou, entre risos, mas não parei o que fazia, o derrubando de costas na cama para finalmente conseguir pegar o aparelho. – Não podia só ter me pedido pra pegar? – perguntou, mas apenas coloquei o dedo indicador em frente a boca, pedindo silêncio ao atender a ligação.
- Mãe, oi. – falei e Harry fez uma careta exagerada, mostrando os dentes, ao se sentar novamente na cama. Empurrei seu rosto com a mão, o fazendo cair deitado mais uma vez e ele fez bico. – Tudo bem? – perguntei, tentando não soar tão nervosa quanto me sentia. Ela costumava ligar, não era uma novidade.
- Comigo está, apesar de me sentir um tanto quanto mal informada. – foi direto ao ponto e eu mordi o lábio inferior, receosa. Conseguia pensar em um excelente motivo pra que ela estivesse dizendo aquilo e definitivamente não gostava.
- Por que acha isso? – perguntei assim mesmo, antes que me adiantasse e acabasse contando mais do que ela sabia.
- Ah, não é nenhuma novidade que meus filhos não me contam nada. Imagina minha surpresa ao descobrir na internet que meu filho é gay. – falou e eu ri por isso, mais aliviada por Louis ser o motivo e não eu. Não que não precisasse contar a ela o que estava acontecendo de qualquer forma. Já tinha passado da hora.
- É só um contrato, mãe. – tentei tranquiliza-la. – Não tenho tanta certeza quanto a opção sexual do Louis, na verdade, mas essa parte sobre namorar com o Harry é mentira. – expliquei, vendo Harry concordar com a cabeça logo a minha frente. - Não que o Harry não seja meio suspeito as vezes também. – provoquei.
- Ei! – Harry protestou e empurrei sua perna com o pé para que se calasse, o repreendendo. – Ai!
- Quieto. – ralhei e ele voltou a fazer bico enquanto minha mãe ria do outro lado, provavelmente ouvindo nossa pequena discussão.
- Claro que eu imaginei algo assim já que você e ele estão juntos, mas alguém poderia ter me ligado, não acha?
- Por que eu sinto que estou levando uma bronca pelo Louis? – respondi, estranhando a discussão. Se o problema era Louis, não fazia sentido que tivesse ligado para mim.
Tinha mais, não era só isso. Ela dificilmente teria se deparado com a notícia sobre Louis e Harry sem acabar também na minha com Harry.
- Não é uma bronca. – ela respondeu. – E já falei com Louis. Por isso estou te ligando agora.
- Por isso? – perguntei, quase rindo da ironia de estar certa. “Por isso”. Se não tinha visto a notícia na internet, Louis havia contado para se livrar da bronca, o que era a cara dele, alias. Não me surpreendia.
- Você não tem nada para me contar? – quis saber e eu suspirei, ciente de que não havia mais como esconder. Mesmo que ela ainda não soubesse, o que não era verdade, eu precisava contar de qualquer forma. Aquela era a melhor oportunidade já que eu dificilmente teria coragem de ligar para isso.
- Acho que você já sabe. – respondi enquanto Harry, deitado na cama, prestava atenção na conversa, fazendo-me morder o lábio desconfortável com seu olhar atento sobre mim.
- Está mesmo grávida? – ela foi direta ao ponto e eu concordei com a cabeça por reflexo antes de finalmente decidir respondê-la.
- Sim, eu estou. – falei, sentindo necessidade de continuar logo em seguida. – Eu sei que... que está cedo. Deveríamos ter nos cuidado, mas aconteceu. Estamos lidando com isso e vamos conseguir fazer tudo. Posso dar conta dos estudos, do meu trabalho. Não vamos deixar nossos planos de lado. Sei que podemos fazer tudo.
- , está tudo bem. – ela me tranquilizou e só então me dei conta de que havia soltado tudo em um fôlego só, passando por cima das palavras e a ouvi rir do outro lado. Sorri por isso, sentindo-me aliviada por ela ter tido uma reação totalmente oposta a que eu esperava. – Eu estou feliz por vocês. – disse e eu concordei com a cabeça, esperando que ela continuasse. – Não vou dizer que não fico preocupada em imaginar um bebê no meio dessa vida que levam, viagens e câmeras, mas sei que podem dar conta se quiserem fazer isso. Eu dei conta e era muito mais nova quando Louis nasceu.
- Mãe, obrigada. – falei, ouvindo minha voz soar embargada e só então me dei conta de quanto precisava de sua aprovação. De que aquele era um dos principais motivos para que eu estivesse naquela completa pilha de nervos que eu estava e acabei rindo.
Harry, logo ao meu lado, sorriu também, sentando-se e passando um dos braços ao meu redor em apoio.
- Vocês já são adultos, . Têm um emprego fixo e condições de criar esse bebê. É muito mais do que eu tinha aos dezessete anos. – falou e Harry encostou a cabeça em meu ombro, sorrindo em minha direção enquanto me abraçava. Segurei sua mão ao meu redor. – Vocês ainda tem um ao outro. – ressaltou.
- Obrigada. – repeti, sentindo algumas lágrimas escorrerem e Harry beijou meu ombro embora parecesse claramente divertido com a situação. Era ótimo que me ver chorar por nada o divertisse porque eu já previa alguns meses daquela forma.
- Duvido que ainda vá me agradecer quando eu estragar completamente essa criança. – ela riu. – Vó tem que servir para alguma coisa afinal. E acho bom que vocês venham pelo menos uma vez por mês me trazer meu neto ou o negócio vai ficar feio. – ameaçou e eu ri mais uma vez, limpando algumas lágrimas fugitivas.
- Estou avisada, dona Joy. Pode deixar. – respondi e ela riu do outro lado.
Eu faria mesmo aquilo. Não acreditava que faria, mas faria e saber que não estava sozinha era tudo que eu precisava.
Eu faria mesmo aquilo e jamais imaginei que pareceria tão certo.


Capítulo 4

I'd do anything to save it
Why is it so hard to save it?
Strong

- Essa foi a idéia mais ridícula que já tivemos na vida! – Harry falou inconformado enquanto passava a mão pelos cabelos, xingando ao terminar enroscado no ray ban que ele havia esquecido, mas usava para prendê-los para trás. Ele raramente acertava a combinação de roupas, mas dessa vez estava particularmente bonito e nem havia estragado tudo com uma bota dourada. Não sabia se a intenção era matar todos e quaisquer fãs no aeroporto, mas dessa vez a bota era de um tom de marrom escuro, quase o mesmo da jaqueta já conhecida que ele usava sobre uma camiseta branca e simples. Eu gostava daquilo, quando ele se vestia de forma simples. Conseguia ficar melhor daquela forma simplesmente porque tinha o dom de estragar tudo com uma estampa estranha quando tentava impressionar.
Talvez a intenção dele não fosse matar as fãs no aeroporto e por isso ele conseguiria esse efeito.
Liam, sentado a minha frente do banco da van, ergueu o braço com sinal positivo nas mãos, prestando atenção na conversa mesmo de costas para nós enquanto via algo do celular.
- Nisso temos que concordar totalmente. – falei também e Harry bufou.
- Eu não vou fazer isso. – Louis se negou e senti que era a milésima vez que tínhamos aquela conversa.
Isso porque, de fato, era.
Liam se virou no banco para participar da conversa, apoiando o braço no encosto da van.
- Vocês já fizeram pior, qual é a frescura? – ele perguntou divertido e Harry fez bico, cruzando os braços emburrado. Eu ri de sua atitude junto com os seguranças no veículo enquanto Liam erguia uma sobrancelha e Louis repetia sua fala com a voz afetada. – Está ai o exemplo. – Liam apontou para Louis que olhou feio para ele em resposta. – São só dois minutos de mãos dadas. Para com isso.
- Por que não vai você caminhar de mãos dadas com ele, então? – Louis perguntou, inconformado, e Liam riu.
- Porque não foi ele que assinou essa idiotice de contrato. – respondi por Liam e ambos, Harry e Louis, me encararam insatisfeitos. Me recostei no banco, tranquila. – O quê? Eu preciso me divertir de alguma forma e fazer isso as custas dos dois é a melhor coisa que me aconteceu hoje.
Harry e eu havíamos assinado o contrato sobre esconder a gravidez mais cedo e o entregue na Modest, onde eles aproveitaram para dar a notícia de que a primeira manifestação pública de afeto de Louis e Harry seria aquela, caminhar de mãos dadas pelo aeroporto. Todos sabiam que eles participariam do festival em Vegas, eram a principal atração, então era de se esperar que o aeroporto estivesse lotado de fãs, tanto o de Londres quando o de Vegas, principalmente o de Vegas, mas estava tentando não pensar nisso.
Eu preferia, mil vezes, ter ido na frente com Lou e o resto da equipe, como normalmente fazíamos, mas por insistência dos dois aqui estava eu, no banco da van com Harry, Louis, Liam e três seguranças enquanto esperávamos o horário do embarque. Tudo porque havia enjoado mais cedo e Harry não conseguia entender que os enjôos eram normais e não me matariam. Harry havia decidido que eu precisava de supervisão, sua supervisão, mesmo que eu fosse me sentir muito mais segura longe dos fãs que cercariam os cinco comigo no meio da confusão.
Quanto mais eu pensava, mais aquela ideia me parecia ridícula. Com eles, embarcaríamos rodeados de seguranças, mas com a equipe, não precisávamos disso.
Parecia muito mais seguro para mim.
- Nunca foi necessário fazer nada além de conversar um com o outro para que acreditassem em Larry. – Harry respondeu e só então voltei a prestar atenção na conversa. - Por que agora temos que andar de mãos dadas?
- Porque antes vocês tinham que fingir que não era real. – Foi Dale quem respondeu e Harry o encarou chocado.
- Sério, até você? – perguntou ao segurança que deu de ombros.
- Estou apenas respondendo sua pergunta. – ele devolveu como se não fosse nada demais e Harry suspirou decepcionado.
- Sua pergunta ridiculamente óbvia. – completei, como se não fosse nada demais e sorri para Harry quando ele me encarou por isso. – Ah, qual é, vamos logo com isso. Vocês precisam descer de uma vez! – falei. Quanto antes os dois descessem e enfrentassem a multidão, mais tempo de distancia eu poderia colocar entre mim, eles, e os fãs. – Vamos perder o vôo. – continuei, mesmo que aquilo fosse impossível. Não com Paul para se certificar de que chegaríamos no horário.
- Pelo menos não teriam fãs nos esperando lá fora se perdêssemos. – Harry resmungou insatisfeito. - E consequentemente, não teríamos que dar as mãos. Parece ótimo.
Revirei os olhos.
- Vocês vivem pegando nas bolas um do outro. Qual é o problema de dar as mãos? – perguntei e Harry me encarou chocado enquanto os outros riam. Menos Louis, é claro.
- Isso é... Isso é uma calúnia! – exclamou, mas não precisava ser um gênio para notá-lo segurando o riso e ergui uma sobrancelha em sua direção, como se o desafiasse a negar.
- Corrigindo, ele vive pegando nas bolas do Niall. – Louis se opôs e Liam riu irônico.
- Em público. – ele interferiu. – No privado continua sendo a sua.
- Qual é! – Harry reclamou, rindo apesar disso. - Eu fiz isso duas, no máximo três vezes! E era provocação!
- Eu moro com a Cecile, que é lésbica, e nunca toquei na vagina dela. – falei o obvio e Harry voltou a me encarar.
- Ah, muito obrigado! – falou irônico, como se aquela atitude fosse o mínimo que esperava e o encarei chocada embora grande parte da reação fosse puro e completo fingimento.
- O quê?! – perguntei a ele, como se aquela resposta fosse absurda. - Você toca seus amiguinhos e eu não estou reclamando!
- Seus amiguinhos uma vírgula! – Liam interferiu, chocado. – !
- Nem vem com essa, Liam, que você é o primeiro. – Alberto provocou em minha defesa e ele direcionou seu choque para o homem a sua frente.
- O quê?! Ficou louco? – perguntou e Dale concordou.
- Ninguém se surpreenderia se assumisse um namoro com o Zayn, eu te garanto. – falou o outro e enquanto Liam os encarava completamente enojado, eu ria, animada com a ideia. Liam e Zayn eram totalmente amáveis juntos, mesmo Zayn, normalmente quieto e fechado, ficava um amor perto de Liam.
- Seria maravilhoso! – concordei empolgada, mesmo que nenhum dos dois parecessem de fato gays para mim. – Ziam, sim!
- , qual é! – Liam reclamou e eu ri por isso.
- Está bem, chega, chega! – interferi sem parar de rir, desviando o olhar rapidamente para o relógio. – A verdade é que vocês vivem se agarrando por brincadeira. Levem na brincadeira, dêem as mãos e vamos logo embora daqui. – decretei de uma vez.
- É assim que se faz, uma mulher de atitude. – Dale parabenizou e fiz uma pequena reverencia a ele por isso, convencida.
- Ela com certeza é o homem da relação. – Liam provocou e rimos dentro da van, exceto por Harry que revirou os olhos.
- Por que você não cuida da sua relação, com o Zayn? – respondeu, mas Liam não se abalou.
- E por que você não cuida da sua com o Louis? É a sua que está na mídia.
- Liam ganhou. – falei, apontando para o garoto que concordou satisfeito.
- É claro que sim.
Harry bufou.
- Acabei de decidir que prefiro você brigando com o Niall do que compactuando com o Liam contra mim.
- Não que a sua opinião sobre isso seja lá muito importante. – retruquei, rindo quando ele olhou feio para mim. – Você seria poupado da discussão se desse logo a mão para o coleguinha para que possamos sair daqui.
- Você não deveria estar incomodada em ver seu namorado com outro cara?! – Louis perguntou, inconformado.
- Não. – respondi simplesmente. – Na verdade eu estou me divertindo muito.
- O negócio dela é rir da dor e do sofrimento alheio. – Harry falou para ele que concordou, como se tudo fizesse bastante sentido agora.
- Ah, certo. É.
- Será que tem como os dois pararem? A gente precisa descer! – os lembrei, puxando a mão de Harry e depois a de Louis para colocá-las juntas. – Viu, nem doeu. – falei, mas ambos se soltaram e eu resmunguei.
- Não dá pra sairmos do carro de mãos dadas, . – Louis reclamou.
- Mas vão? – perguntei esperançosa e ele concordou, mal humorado.
- Não é como se tivéssemos muita escolha de qualquer forma.
- Yey! – comemorei, voltando-me para Alberto em seguida. – E como vamos fazer isso? Jogamos os dois para os tigres e enquanto elas surtam a gente corre? Eu adoro essa ideia.
- Há, há. Engraçadinha. – Louis respondeu. – Jogar você pra elas teria quase o mesmo efeito e ninguém precisaria nos ver de mãos dadas.
- São as duas fãs, não minhas. Lide com isso. – respondi.
- E se não queria andar de mãos dadas com o Harry era só não dizer que namorava com ele. Lide com isso também. – Liam retrucou, fazendo-me rir junto com os seguranças no carro. Ergui a mão para o garoto e sob o olhar feio de Harry, trocamos um high-five.
- Sabe, estou me sentindo vingada. – falei animada. – Nenhum grupo de fãs vai atrapalhar isso.
- Você acredita nisso? – Louis perguntou a Harry que negou imediatamente.
- Nenhum pouco. – respondeu. – Mas a gente sempre pode deixar que ela se iluda.
- Gosto dessa idéia, cara. – Louis devolveu enquanto eu revirava os olhos para os dois e Harry concordou, voltando-se para mim em seguida.
- O casalzinho ai já terminou? – perguntei e ambos fizeram careta. Eu ri, voltando-me mais uma vez para Alberto.
- Vamos primeiro com os dois. Vão causar muito mais euforia que os outros e enquanto se distraem com isso, conseguimos passar com o resto da banda.
- Espera, vão mesmo nos atirar para os leões? – Louis falou e eu gargalhei, divertida. – Vamos ser as iscas!
- Eu estou tentando focar nisso e não no resto da frase. Sabe: “Eles vão causar muito mais histeria”. Estou me sentindo ofendido. – Liam retrucou, mesmo que não estivesse de fato. Larry causava histeria. Larry era quase um fandom próprio e isolado.
- Cara, relaxa. – eu o respondi. – A gente deixa eles irem e assiste de longe enquanto os dois andam de mãos dadas. Vai ser perfeito.
- Claro que vai. – ele respondeu e deu de ombros para seu tom divertido. – Pelo que ouvimos, tem muito mais gente lá do que esperávamos. Alguns guardas do aeroporto foram chamados para ajudar.
Aquela nova informação fez todo meu humor desaparecer em questão de segundos e senti meu estomago embrulhar mais uma vez de nervosismo. Eu deveria mesmo ter ido com o resto da equipe, sem fãs nos esperando.
Guardas haviam sido chamados. Tínhamos seis seguranças e mesmo assim guardas haviam sido chamados.
- Vamos na frente e vocês esperam aqui para irem com o Alberto. – Dale falou. – Os outros vão se juntar com vocês antes de seguirem.
- Detestei esse plano. Queria algumas fotos Larry. – Liam reclamou e Louis chutou sem banco, o fazendo rir apesar de concordar. Odiava o plano. Odiava simplesmente porque preferia ter ido com Lou e a banda.
Proteção policial. Precisávamos de proteção policial. Céus, aquilo não podia ser mais errado.
- Uma pena que sua opinião não sirva pra nada ainda. – Louis retrucou mal humorado. – Ah não, espera. Na verdade isso é ótimo.
- Idiota. – Liam reclamou, rindo dele. – Vão de uma vez, está todo mundo esperando. – falou. – E não se esqueça de segurar bem forte na mãozinha do namorado.
- Vai se fuder, Payne. – Harry retrucou, revirando os olhos enquanto Dale e Paddy, que estavam na frente, saiam da van. Olhei para fora e notei que Paul havia saído do veículo logo atrás do nosso, provavelmente decidindo que estava na hora e senti meu sangue gelar quando a porta foi aberta.
- Também te amo, Harryzinho. – Liam provocou, desviando do tapa que Harry tentou lhe acertar por isso. Harry não o acertou, mas Louis o fez.
Liam fez bico, descontente, e ri por isso, bagunçando seus cabeços.
- ! – ele reclamou e eu ri.
- Meninos, vamos. – Paul chamou e acenei para Harry e Louis, tentando não demonstrar que, na verdade, sentia meu coração prestes a sair pela boca.
- Não se esqueçam das mãos, estaremos olhando daqui. – provoquei.
- E tirando fotos. – Liam fez o mesmo e ri mais uma vez enquanto Louis se virava para me mostrar o dedo do meio.
- Vou querer as fotos depois. – Dale entrou na brincadeira antes de fechar a porta atrás de si e não pudemos ouvir a resposta de Harry quando ele a resmungou. Apenas rimos de dentro da van.
- Odeio esse insulfilm por impedir as fotos de verdade. – disse e os outros dois ainda no veículo riram por isso.
- A gente encontra rápido na internet, relaxa. – Liam respondeu, pulando o banco para se juntar a mim nos fundos para ver os dois garotos do lado de fora. – Olha lá! – apontou e me voltei para a janela, ajoelhando-me nos bancos para isso.
Louis e Harry davam as mãos enquanto Dale e Paddy seguiam próximos a eles. Algumas fãs já corriam para eles com os celulares nas mãos enquanto outras olhavam espantadas e maravilhadas para os dois. Se por estarem ali ou pelas mãos, jamais saberíamos. Tudo que fiz foi rir junto com Liam e Alberto enquanto dois guardas se juntavam a eles, formando uma espécie de círculo de proteção que eu sabia, não ajudaria em nada quando fossem realmente cercados. Só esperava que os seguranças estivessem certos e que os dois distraíssem os fãs para que passássemos.
- Nova meta de vida, nunca deixá-los esquecer disso. – Liam falou e fui obrigada a afastar meus pensamentos para concordar.
- Eu tenho certeza que as fãs não vão deixar. – Alfredo respondeu, vendo os dois sumirem na nossa vista. – Acho que já podemos descer. – falou e quase arregalei os olhos ao encará-lo. Não podíamos esperar mais uns cinco minutos? Eles mal haviam se afastado.
Liam riu ao notar meu desespero, abraçando-me de lado em sinal de conforto.
- Elas só querem algumas fotos, vai ficar tudo bem. – falou e eu fiz uma careta. Só queria uma foto dele De mim queriam a vida.
E eu não estava sendo dramática. Não era uma pessoa dramática.
- Você vai entre os meninos no meio do grupo. – Alberto falou e me voltei para ele mais uma vez. – Ninguém vai chegar até você. – disse, mas eu ainda assim não tinha muita certeza apesar de ter concordado com a cabeça como se apoiasse a ideia.
Ele escorregou no banco até estar na porta e Preston deu sinal em seu rádio no mesmo instante, indicando que deveríamos ir. Alberto olhou para mim e meneei com a cabeça mais uma vez, indicando que estava tudo bem. Repetindo o gesto, Alberto finalmente abriu a porta e os gritinhos histéricos começaram no mesmo instante. Provavelmente fãs dos outros meninos, que esperavam por eles e agora, graças a Louis e Harry, estavam atentas para a chegada do restante da banda.
Liam me soltou para que eu pudesse descer e Alberto me deu a mão para ajudar, mesmo que não fosse realmente necessário. Eu aceitei, segurando a alça de minha bolsa com mais firmeza para que não caísse. A equipe estava cuidando de nossas malas pois dificilmente teríamos tempo para cuidar disso enquanto tentávamos fugir das fãs.
Haviam dois guardas próximos a porta nos esperando, mas isso não impediu as garotas ao redor de se aproximarem ao ver Liam. Os dois homens tentaram afastá-las e Alberto se colocou ao meu lado enquanto nos colocava em frente a Liam para que ele pudesse terminar de descer. Olhei ao redor enquanto esperava, Niall e Zayn já estavam cercados e eu não via como conseguiríamos nos juntar a eles para manter o plano em prática.
Ouvi um chiado no rádio de Alberto, mas não consegui entender o que era até o segurança espalmar as costas de Liam para colocá-lo na frente antes de fazer o mesmo comigo.
O plano não seria mantido. Iríamos eu e Liam com Alberto e os dois guardas.
- Vão na frente. – Alberto falou no rádio antes de guardá-lo novamente e me encolhi para mais perto de Liam ao meu lado, abaixando a cabeça ao ser cegada pelos flashes enquanto as fãs tentavam passar por cima dos guardas para enfiarem seus celulares na cara de Liam.
Alberto afastou a primeira fã que chegou até nós e nos empurrou para que começássemos a andar, com o segurança atrás de nós e os dois guardas a frente, tentando afastar as pessoas que se aproximavam por mais inútil que fosse em meio a multidão que se formava, antes mesmo de entrarmos no aeroporto de fato.
E quando entramos, tudo só ficou pior, a gritaria se instalou.
Havia o dobro de fãs do que esperávamos dentro do aeroporto. Dobro para ser bem, bem gentil. Elas haviam praticamente cercado Niall e Zayn e eu não tinha ideia de como eles conseguiriam passar pela multidão que se formara.
Assustada, parei onde estava, erguendo o olhar para Alberto, mas o homem apenas tocou minhas costas, indicando que eu deveria continuar andando.
Mais gritos, haviam visto Liam ao meu lado e Alberto nos segurou pelo braço, fazendo com que déssemos a volta no grupo para seguir um caminho diferente para fugir da multidão, que apenas aumentava conforme os gritos atraiam mais fãs.
- Liam! – gritaram e me encolhi para perto de Alberto por reflexo enquanto os flashes começavam. A própria Modest havia contratado alguns paparazzis para estarem lá. Precisavam se garantir que todos vissem Harry e Louis juntos, de mãos dadas, mas era óbvio que não se focariam apenas em dois quando todos os cinco estavam lá e me senti desesperada para sair de lá quando senti a atenção sobre mim apenas por estar ao lado de Liam.
- Está tudo bem. – ele me confortou, passando o braço ao meu redor enquanto Alberto nos guiava pelo caminho. Escondi o rosto em seu peito para evitar as câmeras, sem conseguir pensar no impacto que aquilo teria na mídia enquanto Liam, lembrando daquilo tanto quanto eu, seguia pelo caminho indicado também de cabeça baixa, ignorando as câmeras as mãos que tentavam puxá-lo.
Aceleramos o passo junto com ele conforme a movimentação ao nosso redor aumentava. Sentia-me mais assustada a cada segundo ao notar que, aos poucos, bloqueavam nossa passagem. Dezenas de pessoas eufóricas com celulares ou câmeras apontadas em minha direção. Alguns xingavam e outros apenas chamavam Liam e até mesmo assim, tentando fazer com que eu olhassemos em sua direção para uma foto que mais tarde, estaria em todas as redes sociais. Uma foto que provavelmente mostraria o quão perturbada eu me sentia, ou que inventaria alguma história totalmente bizarra entre mim e Liam.
- Liam, ! – uma voz se sobressaiu sobre as outras e não consegui vê-la até que me puxasse Liam pelo braço, fazendo-me pular de susto ao segurar-me nele com mais força, temendo que conseguissem nos separar. – Uma foto, por favor! – pediu, mas Dale a afastou antes que eu tivesse chance de pensar sobre o que acontecia, atordoada ao ver a bagunça crescer ao meu redor.
Maldita ideia de ir com a banda e me senti pequena, minúscula na verdade, rodeada por todas aquelas pessoas que queriam apenas mais um motivo para me odiar.
Desejei, mais do que tudo, poder sumir dali. Não queria que tivessem mais uma foto minha para jogar na internet. Não quando seriam usadas para mais palavras cruéis, mas não era exatamente fácil fugir de todos, fãs e paparazzis.
- , você está mesmo grávida? – um homem gritou a pergunta para se fazer ouvir ao se colocar ao meu lado e Alberto o empurrou quanto tentou se aproximar mais com uma câmera nas mãos, tentando a todo custo um bom ângulo para foto. – Não é do Harry, é? Ele e Louis estão juntos. – o homem insistiu e me encolhi assustada sem parar de andar, confiando em Liam e Alberto para me guiarem pelo caminho enquanto eu tentava me esconder das câmeras. Sabia que o homem não ia me machucar, a intenção de ninguém era essa apesar de tudo, mas saber disso não fazia com que fosse menos espantoso. O fanatismo, a obsessão que os levava ali, até mim, mesmo quando eu não era ninguém além de irmã de um cara famoso era assustadora e me senti grata quando Alberto o empurrou mais uma vez para longe.
- Liam... – choraminguei, ouvindo nossos nomes ecoar para todos os lados e sabia que os palavrões e xingamentos eram para mim. Fotos com Harry visitando um obstetra e agora agarrada com Liam, não tinha como aquilo ser bom, mas apesar de querer me afastar de Liam para evitar o assunto, a quantidade absurda de gente me assustava demais para que eu o pudesse fazer
Eu estava ciente de que nem todos estavam sendo cruéis, haviam garotas que gritavam para ignorar as palavras ruins. A maioria, na verdade, gritava apenas por Liam, mas em algum momento, ouvi uma garota gritar em incentivo para não me deixar abater. Desejei poder agradecê-la, mas parar de andar não era uma opção, definitivamente.
- Estamos chegando. – Alberto avisou e concordei com a cabeça, mas dessa vez eu é que fui o alvo quando me seguraram pelo braço, em mais uma tentativa de nos fazer parar. Assustada, tentei me soltar, mas só consegui com ajuda de Alberto que, no entanto, precisou parar para isso, exatamente o que mais queriam. Outro paparazzi conseguiu burlar os guardas e se aproximou. Eu e Liam olhamos em sua direção com a proximidade repentina e fomos cegadas pelo flash quando ele disparou perto demais do nosso rosto. Me soltei de Liam sem que me desse conta, levando as mãos aos olhos em um movimento automático e por um instante tudo se perdeu. Me senti apavorada sem a proximidade de Liam ou do segurança enquanto mais pessoas chamavam seu nome.
- , o bebê é do Harry? – perguntaram para mim e por um instante procurei Alberto as cegas, sentindo meus olhos marejarem com a mera possibilidade de me perder dele apesar dos guardas ainda estarem ali.
Mais um toque em minhas costas e pulei no lugar, tentando me afastar apressada, mas a voz de Liam me fez desistir embora não tenha sido o suficiente para me deixar mais tranquila, de forma alguma.
- Vamos, continua. – ele falou e eu apenas o obedeci, segurando em sua camisa enquanto Alberto voltava a se aproximar.
- Liam! Larry é real mesmo, né? – uma garota se sobressaiu agora, provavelmente uma fã, mas Liam ignorou e eu me preocupei apenas em não chorar de nervoso enquanto deixava que Alberto nos guiasse. Eu conhecia aquele aeroporto, mas nunca antes me senti tão perdida. Estava atordoada demais com os gritos ao meu redor para conseguir descobrir onde estava ou quanto faltava para chegar.
- Por que ele te levou no médico? – outra garota quis saber e me senti totalmente claustrofóbica por ter aquela atenção voltada para mim, mesmo com Liam ao meu lado. Não tinha ideia de como eles se sentiam em enfrentar aquilo todos os dias. Era terrível, eu nunca havia sido o foco daquela maneira e mesmo assim era terrível
- Um minutinho, Liam. – mais um papparazzi me puxou, agora para tentar chegar em Liam, mas apesar de soar quase educado, seu toque foi rude e conseguiu me afastar de Liam. Tentei me soltar, mas ele me segurou com força demais para que eu conseguisse. Era quase como se, apesar de tentar chegar em Liam, quisesse manter a nós dois ali para uma entrevista, como se aquilo fosse possível ali, no meio do aeroporto. Tentei empurrá-lo, mas o homem intensificou o aperto, fazendo me resmungar. Estava machucando.
- Ei! Se afasta, cara! – Liam ordenou, mas sem dizer nada Alberto o empurrando para longe com força o suficiente para derrubá-lo.
Os gritos, de repente, aumentaram de forma estrondosa e sem entender o motivo, caminhei para trás, tentando desesperadamente me afastar da multidão, desejando apenas sumir dali de uma vez nem que tivesse que me esconder no banheiro até que tudo passasse. E nem me importava em perder o voo.
Antes que conseguisse por meu plano em prática, no entanto, fui obrigada a parar ao me chocar contra alguém e me voltei rapidamente para trás, temendo que a qualquer segundo outro paparazzi pudesse me agarrar como o anterior. Ao ver que era Louis ali ao invés disso, soltei o ar aliviada por encontrá-lo e desejei mais do que tudo poder simplesmente abraçá-lo. Provavelmente o teria feito se isso me ajudasse a sair dali, mas não ajudava.
As garotas começaram a chamar Louis em meio aos gritos e lágrimas e eu não podia dizer que não queria chorar também, especialmente quando ele me puxou para seus braços, abraçando-me de lado para que pudéssemos continuar.
- Vamos sair daqui, vamos. – falou e apenas caminhei junto a ele, sem ter certeza de que encontraria minha voz se tentasse respondê-lo.
- Louis, Louis! – elas gritavam, tão histéricas quanto haviam gritado por Liam, mas Louis passou por todas sem olhar para trás, avançando apressadamente até uma entrada de funcionários logo a frente, que um segurança mantinha aberta enquanto esperava por nós para nos livrar daquela confusão. O alivio que senti por isso foi totalmente indescritível, mas só consegui respirar tranquila quando passamos por ela, sentindo as lágrimas se formarem em meus olhos quando a porta foi fechada e a gritaria, mantida do lado de fora.
- Ei, está tudo bem. – Louis falou e sem ao menos pensar no que fazia o abracei, sendo imediatamente correspondida por seus braços ao meu redor enquanto segurava as lágrimas.
Estava tudo bem, eu sabia, mas não achava que conseguiria me acalmar até estarmos seguros dentro do avião. Aquela vida não era para mim, aquela euforia, e por um segundo questionei o que eu estava fazendo.
Ao lado de Harry aquilo nunca ia acabar, seria sempre daquela forma e se eu me assustara assim, só podia imaginar o que faria com uma criança. Não podíamos colocar um bebê no meio daquilo e pensar no assunto de deixou apenas pior.
Eu não podia colocar um bebê no meio daquilo.

Passei a viagem inteira completamente muda. Desde o embarque até o desembarque e levando em consideração que eram mais de oito horas de vôo, foi muito tempo para se ficar em silêncio, especialmente quando ainda tivemos que esperar por cerca de uma hora em Chicago para podermos pegar outro vôo para Las Vegas.
Harry e Louis ainda insistiram em me fazer comer na primeira parada e aceitei apenas para que me deixassem em paz, ciente, porém nenhum pouco satisfeita, de que discutir com os dois não surtiria qualquer efeito, eu acabaria perdendo. Era por isso estava ali com eles, afinal, temendo desesperadamente o desembarque em Vegas.
Por sorte, depois do tumulto causado no aeroporto de Londres, Paul decidiu que nada, nem mesmo Larry, valia aquela confusão toda e que os fãs teriam que se contentar com as fotos que tinham, pois sairíamos pelos fundos, mais precisamente, na verdade, por baixo, pela área de carga e descarga. Tinham fãs esperando ali também, do lado de fora, mas consegui passar sem maiores dificuldades. Eram poucas pessoas e me permiti, finalmente, soltar Louis, seguindo apressada para dentro da van enquanto eles paravam para dar atenção para aos fãs.
Notei o olhar preocupado de Harry sobre mim quando me sentei e troquei de lugar por isso, saindo de seu campo de visão. Todos permaneceram me lançando olhares como aquele durante toda a viagem, como se esperassem que, a qualquer momento, eu fosse surtar completamente, mas a verdade era que eu só estava com raiva. Raiva de Harry por ter decidido não me escutar mais uma vez, por ter me feito pegar aquele vôo com eles e por ter me feito passar pelo que passamos no aeroporto.
Ou era isso que eu gostaria que fosse. Apenas isso, no caso.
Eu não conseguia simplesmente parar de pensar no que estávamos fazendo ao decidir que era uma boa hora de ter um bebê. Não havia sido realmente planejado, mas vontade era mesmo o suficiente? Mais uma vez eu me via questionando aquela decisão e não conseguia tirar da cabeça que se fosse certo, se fosse a hora, aquilo não me incomodaria tanto. A carreira dele estava no auge, não podíamos submeter uma criança àquela vida.
Como eu poderia, afinal, defender uma criança dos fãs quando me deixavam tão absolutamente apavorada?
E eu sabia que eles não eram culpa de Harry exatamente. Aquele não era o motivo para eu me sentir irritada com ele. Sabia que não podia culpá-lo pelo amor que recebia, pelo fanatismo que causava, pela carreira que ele amava. E não o culpava. Harry era aquilo, aquela era sua vida. Vinha junto com o pacote e eu amava vê-lo sorrindo para os fãs, amava o amor recíproco de um para o outro, a alegria dele com o que fazia, em realizar seu sonho todos os dias mesmo que a maldade de algumas delas me matasse, mas isso não me deixava menos frustrada. Ele não podia deixar aquela vida, aquela parte de sua vida que o tornava tão especial, mas eu tinha levado minutos para me acalmar depois daquele tumulto e sabia que mais uma vez, estava sendo o alvo nas redes sociais. Imagina o que seria aquilo para um bebê. Ser jogado no meio daquilo tudo sem entender o que estava acontecendo.
Olhei pela janela. Harry abraçava uma fã, a envolvendo completamente com seus braços embora seu olhar ainda estivesse na van, mesmo que não fosse possível que ele me visse dali. Quando a garota se afastou, no entanto, Harry sorriu para ela. A menina chorava e ele riu por isso, fazendo com que um sorriso brotasse em meus lábios. Eu gostava daquilo, gostava de vê-lo daquela forma, feliz, atendendo as fãs e não via como aquilo poderia mudar, nem mesmo sabia se queria. O problema era que talvez tivesse que mudar se quiséssemos proteger a criança e eu, sinceramente, não via como. Não via Harry de outra forma sem ser aquela, sempre cercado por fãs, sendo carinhoso e atencioso com absolutamente todos eles. Porque, entre todos os garotos, ele sempre foi o mais confortável com aquilo.
Niall conversava e brincava com alguns, gargalhando e tirando fotos. Liam era o mais calmo, muitas vezes ficava apenas parado enquanto esperava que os fãs fossem até ele. Louis fazia caretas, tratava a todas com apelidos carinhosos, mas seus abraços eram sempre sem jeito e normalmente rápidos, assim como os do Zayn. Zayn e Liam, na verdade, eram os únicos que pareciam ficar desconfortáveis com os gritos histéricos. Não que não gostassem dos fãs, sabia o quanto todos os amavam, mas Harry se divertia com eles, Niall era indiferente, como se não se afetasse com os gritos, como se fosse tudo absolutamente normal. Louis, dependendo do seu humor, ficava um tanto quanto impaciente, tentava atender a todos rapidamente para poder fugir dos gritos enquanto Zayn e Liam pareciam apenas não saberem como lidar com aquilo, como se mesmo depois de todo aquele tempo, ainda não tivessem se acostumado. Se estavam uns com os outros, paravam e tratavam a todos com todo o amor e simpatia que possuíam com os fãs, mas sozinhos pareciam inseguros e apenas fugiam da euforia. Eu não podia culpá-los.
Zayn, ainda sonolento depois das pílulas que havia tomado para dormir, já estava na metade do caminho até a van. Seu cabelo estava bagunçado em alguns ângulos estranhos, especialmente agora que ele havia decido deixar o gel de lado. Imaginei que ele fosse xingar a todos nós quando notasse que havia tirado fotos daquela forma, mas isso só depois que chegasse ao hotel pois eu duvidava que ele conseguiria se manter acordado durante o caminho até lá. Seus olhos, normalmente pequenos, estavam ainda menores devido ao sono.
Acenando para os fãs mais uma vez, ele se enfiou de uma vez na van, desabando cansado no banco logo a minha frente. Ele encostou a cabeça no banco, fechando os olhos por um instante e como se só depois se lembrasse de mim ali, voltou a abri-los, os estreitando em minha direção.
- Está tudo bem? – perguntou, soando desconfiado e concordei com a cabeça antes de responder:
- Sim, está. – falei simplesmente mesmo que não estivesse, mas ele manteve a expressão, me encarando desconfiado.
- Não parece. – devolveu cauteloso.
- Harry é um idiota. – respondi como se aquilo fizesse muito sentido. Ele não era exatamente a culpa do problema. Eu estava totalmente irritada com ele por ter me feito passar pelo que passamos no aeroporto, por ter me feito tomar o voo com eles ao decidir que o voo seguro não era seguro para mim, mas eu estaria verdadeiramente satisfeita se o problema fosse somente aquele. Não era e mais uma vez, a angustia e incerteza sobre o bebê, estava me matando.
Mas Zayn, que não sabia disso, não pode só discordar da afirmação.
- Tenho que concordar. – respondeu após menear com a cabeça, como se ponderasse sobre o assunto. - É só isso?
- Só. – menti.
- Ah. Ótimo. – disse, parecendo satisfeito com aquele desfecho antes de voltar a encostar a cabeça no banco para fechar os olhos.
Fui obrigada a rir daquela conversa totalmente não produtiva e Zayn fez o mesmo, mas não voltou a abrir os olhos e imaginei que ele já tivesse dormindo assim que o sorriso se foi.
- Vamos, temos que ir. – Dale chamou os garotos e Niall foi o primeiro a subir na van. Se preparou para sentar ao lado de Zayn, mas o puxei antes que o fizesse, fazendo com que sentasse ao meu lado apenas para que Harry não o fizesse. Não sabia se estava pronta para conversar com ele ainda, não quando eu não sabia o que dizer, como explicar o que se passava.
Niall, por sua vez, me encarou com confusão, mas não disse nada. Ninguém estava dizendo nada, estavam todos receosos depois do “ataque” de fãs. Eu passara horas agarrada em Louis devido ao susto e ninguém parecia saber lidar com aquilo, o que seria cômico se eu não estivesse, no momento, com tantas outras coisas na cabeça para provocá-los por isso.
Com ajuda de Paddy, Louis entrou na van logo em seguida, com Liam atrás e Harry por último. Ele olhou para mim, depois para Niall, e o loiro negou com a cabeça discretamente, como se tentasse se justificar por algo. Eles eram péssimos em ser discretos, mas ainda assim fingi não notar nada, apenas para me poupar de explicações e, também, decidindo que aquela até era uma ótima vingança para Harry. Ele tinha mesmo sido um idiota afinal, isso eu não podia negar. Ele merecia aquilo, especialmente por não ter nenhuma ideia do que estava acontecendo. Ele normalmente não tinha. Harry era sempre seria o último a entender as coisas.
Eu não pretendia ficar realmente sem falar com ele, mas precisava de um tempo. O que eu mais queria, no momento, era me trancar no quarto que dividiria com Lou e tomar um banho quente para relaxar, pensar mais uma vez sobre o que estava acontecendo mesmo desconfiando de que, mais uma vez, não chegaria a qualquer conclusão.
Sentindo o olhar de Harry sobre mim, fechei os olhos, encostando a cabeça no ombro de Niall. Não achava que fosse dormir ali independente do meu cansaço e nem pretendia. Só queria, de repente, uma forma de me esconder de Harry, me sentindo ligeiramente culpada por pensar nas coisas que estava pensando.
Ou, no caso, repensando.
Tínhamos mesmo capacidade de fazer aquilo? De ter um bebê?
Era a primeira vez que eu pisava em Las Vegas, podia sentir a claridade dos prédios mesmo com os olhos fechados e me odiei por não me permitir aproveitar a viagem. Nos hospedaríamos MGM Grand já que o show seria na arena de lá. Era simplesmente um dos maiores hotéis dos Estados Unidos. Hotel e cassino, afinal, estávamos em Vegas e eu estava mais preocupada em me trancar no quarto, em fugir dos olhares de todos.
Levamos cerca de vinte minutos de carro para chegarmos até nosso destino e antes mesmo do veículo parar de fato, as exclamações dos meninos me fizeram abrir os olhos. Era por volta das sete horas da noite e o hotel era uma espécie de “x” gigantesco brilhando em luzes de neon verde. Claro que já o conhecíamos de nome, já havíamos visto fotos na internet, mas nenhuma delas fazia jus ao prédio totalmente intimidador de tão grande ou ao efeito que as luzes causavam no céu, deixando tudo ao seu redor completamente verde.
- Quem está cansado? Eu não estou mais cansado. – Niall falou, olhando ao redor enquanto a van dava a volta no prédio para que pudéssemos parar. – Sou totalmente capaz de passar a noite no cassino.
- Acho que se eu não posso entrar no cassino, ninguém deveria ir em compaixão ao companheiro de banda. – Harry respondeu e fui obrigada a rir por me dar conta disso. Vinte e um era a idade mínima para se entrar em um cassino e ele tinha acabado de completar vinte. Estávamos em um hotel cassino e éramos os únicos que não poderíamos entrar. Claro, não era como se Harry não fosse encontrar nada melhor para fazer quando vários outros artistas do festival também não haviam completado a idade, mas ainda assim era no mínimo irônico.
- Se a sua namorada não tem compaixão por você, não sou eu que vou ter. – Louis retrucou, pulando para a fora da van quando a porta foi aberta por um dos seguranças.
- A gente podia dar uma festa no quarto de hotel. – Harry sugeriu, como se o cassino fosse realmente a única atividade de um hotel daquele tamanho. Um hotel que tinha até mesmo uma arena para shows. – Eu não sou o único a não ter completado vinte e um.
- É o único dessa banda. – Niall retrucou satisfeito enquanto eu me preocupava em olhar as luzes ao redor, já tentando imaginar a majestosidade daquele hotel por dentro.
- Ninguém do 5 Seconds tem vinte e um. – Harry insistiu na discussão e Paul os empurrou para que andassem, já que haviam parado de andar para falar.
- E quem quer ver o 5 Seconds? – Louis perguntou. – Passamos uma turnê inteira com eles.
Niall apontou em sua direção, como se aquele fosse um grande ponto e Harry revirou os olhos, mas todos se calaram quando passamos pela porta do hotel. Não era o primeiro hotel cassino no qual os meninos entravam, não era a primeira vez deles em Vegas, longe disso, mas aquele hotel era, definitivamente, surpreendente demais até mesmo para eles. A recepção era totalmente dourada, paredes, teto e piso, com a escultura, também dourada, de um leão bem no meio. Absolutamente tudo lá dentro parecia brilhar, reluzir, e Louis assobiou por isso.
Harry abriu a boca para falar e se era para continuar a discussão ou falar do hotel, jamais saberíamos pois antes que o fizesse Steve o interrompeu, mesmo que ninguém tivesse qualquer ideia de onde o homem havia saído. Ele era da produção e costumava fazer aquilo. Tinha o dom de passar despercebido e eu se quer me lembrava mais que ele estava conosco.
- Sem festas no quarto de hotel. – falou para Harry, o fazendo fechar a cara emburrado. – Tem várias festas acontecendo por ai, procure uma. Amanhã vocês estão livres, mas não se esqueçam de que no sábado todos tem que estar de pé as oito para a passagem de som. – informou e depois que os meninos concordaram, começou a distribuição de chaves que ele, em algum momento, havia pego na recepção. Não eram chaves exatamente, eram cartões com um chaveiro do hotel. Ele jogou uma para Liam, que a pegou no ar. Em seguida vez o mesmo com Niall e depois Zayn, que ainda preguiçoso, não se moveu para pegar a sua. A chave bateu em sua testa e ele apenas a acompanhou com o olhar enquanto ela ia para o chão.
- Oi? Tudo bem ai, amigo? – Louis caçoou e Zayn piscou algumas vezes para ele antes de se abaixar para pegar a chave, sem dizer nada, o que fez os outros rirem enquanto eu o encarava divertida. Zayn sonolento após os vôos era sempre o ponto alto das viagens.
- Certo... – Steven continuou quando Zayn se voltou novamente para ele, negando com a cabeça como se não se surpreendesse com aquilo de verdade. – , você está com a Lou. – entregou o meu, voltando-se para os dois restantes em seguida. - Louis e Harry, vocês ficam no mesmo quarto.
- O quê?! – os dois reclamaram em uníssono enquanto os garotos riam.
- Larry. – Niall fingiu tossir a palavra, colocando a mão em frente a boca e Louis o empurrou por isso, fazendo o loiro rir mais uma vez.
- Fecharam um andar para o pessoal do festival. Por que é necessário que a gente fique junto no mesmo quarto? – Harry perguntou, insatisfeito.
- Por que a equipe do hotel ainda fala. Pode ter certeza que em meia hora todo mundo vai saber disso. - Harry cruzou os braços emburrado e Liam passou um dos braços ao redor de seu ombro como se ele fosse um bebê que precisava de consolo. – As malas já estão nos quartos. – Steven continuou, dando as costas para nós e só então notei a mulher um pouco mais adiante, funcionária do hotel que provavelmente nos acompanharia até os quartos, já que aquele lugar era, certamente, grande demais para que a tarefa fosse fácil.
- Boa noite, sejam bem vindos. – a moça falou com um sorriso e os meninos menearam com a cabeça, agradecidos. Harry e Liam responderem com um “boa noite”. – Vou acompanhá-los até os quartos. – informou, dando as costas para que nós a seguíssemos.
Segurei a mão de Niall para erguê-la, vendo o número de seu quarto no cartão. Eles estavam no trigésimo andar e eu um abaixo e não achava que aquela boa vontade da mulher se estenderia a mim.
- Sabe quem tem mais de vinte e um? – Niall voltou ao assunto enquanto a mulher nos guiava até os elevadores. – Ariana Grande, o Ed, Usher, e o Jason Derulo e todos vão tocar no festival.
- Ariana Grande não tem mais de vinte e um. – Harry respondeu como se fosse obvio ao pararmos em frente ao elevador, esperando que ele chegasse. Zayn, sonolento, encostou a cabeça no ombro de Liam para esperar e o outro estreitou os olhos em sua direção, mas não disse nada.
- Aposto que sim. – Niall retrucou, insistindo na conversa como se aquilo fosse realmente muito relevante. A mulher conosco, cujo o crachá identificava como Kate, sorriu.
- Não tem não. – Harry respondeu.
- Tem sim. – Niall repetiu.
- Isso é realmente importante? – Zayn perguntou, erguendo a cabeça como se a voz dos dois ao seu redor o incomodasse.
- Cara, quantos comprimidos você tomou? – Liam perguntou.
- Mais do que o necessário. – respondi antes que Zayn o fizesse e ele concordou, deixando que a cabeça caísse nos ombros de Liam mais uma vez.
- Ouça a voz da razão. – falou ele.
- Ainda acho que a Ariana grande tem mais de vinte e um. – Niall voltou a dizer e Liam jogou os braços para cima, desacreditado, fazendo Zayn bufar por atrapalhá-lo.
- Porra! – Liam xingou, mas acabou rindo ao olhar para Zayn, enquanto Niall gargalhava.
Louis, com o celular na mão, revirou os olhos.
- Tem. – disse, meio segundo depois, e ergueu o celular para que Harry visse. – Conforme-se com isso. Vinte um.
- Ela tem vinte e um, não mais que vinte e um. – Harry devolveu o celular no exato momento que o elevador apitava, abrindo as portas a nossa frente.
Kate apertou o botão correspondente ao andar dos meninos e me adiantei para apertar o meu quando ela não o fez. Não era como se eu realmente esperasse qualquer coisa diferente daquilo.
- Você continua sendo o mais novo. – Niall respondeu, mas Harry já não prestava mais atenção nele, parando ao meu lado após observar minha atitude com confusão. Ergui o cartão para ele como se aquilo explicasse tudo.
- Podemos conversar? – perguntou e ergui o olhar para Kate. Harry falara baixo, mas dentro de um cubículo, não era muito difícil que ela tivesse escutado. Neguei com a cabeça ao invés de responder. Ela estava de costas, podíamos pelo menos confundi-la. – Eu fiz alguma coisa? – perguntou novamente e dessa vez, não respondi.
- Você é um idiota. – foi Zayn quem falou e Harry se virou para ele, confuso. – Palavras dela, não minhas. – devolveu e Harry se voltou mais uma vez para mim, agora ainda mais confuso o que chegava a ser cômico.
O tilintar do elevador soou mais uma vez e olhei para o indicador sobre a porta, conferindo se estávamos mesmo no meu andar quando as portas se abriram. Notando o olhar de Harry ainda sobre mim, questionador, respondi:
- Ouça a voz da razão. – repeti as palavras de Zayn, acenando antes de sair do elevador em tempo de ver Zayn rir com a fala enquanto Harry fazia bico.
- Precisa de ajuda para encontrar seu quarto? – Kate perguntou, mas neguei.
- Eu me viro, obrigada. – garanti, vendo a porta se fechar antes de me voltar para o saguão. Havia um saguão em cada andar, notei, mas não era como se desse para se surpreender com aquilo levando-se em consideração o tamanho do lugar.
Como era de se esperar, tudo ali também era dourado, com exceção do carpete vinho que seguia para os corredores. Havia um a minha direita e outro a esquerda, mas a numeração de cada um era indicada por uma placa, facilitando a locomoção.
Não levei nem cinco minutos para encontrar o quarto, mas ao abrir a porta, Lou não estava lá. Não era exatamente uma surpresa já que ela havia chegado horas mais cedo, já tinha tido tempo para descansar e sair.
E era Vegas, afinal. Eu era a única disposta a ficar no quarto.
Olhei ao meu redor, focando minha atenção na janela de vidro logo a frente. Ela ocupava toda aquela parede e a vista era sensacional. Mesmo de longe, todos os prédios ao redor brilhavam em neon. Aquela cidade era, de longe, a mais de Lou estavam espalhadas ali, ela já havia escolhido aquela cama, mas não importava, apenas fiquei ali por alguns instantes, observando a vista incrível a minha frente por mais cansada que eu me sentisse depois de oito horas dentro de um avião.
Só depois de vários minutos, me dei conta do fuso horário. Se estivéssemos em casa, seriam onze horas da noite e não sete. Até o cansaço de Zayn era justificável. O meu, certamente, era. Havia acordado as seis.
Me joguei de braços abertos na cama de Lou, preguiçosa demais para levantar e encarei o teto por alguns instantes. Diferente do resto do hotel, ele não era dourado, apenas branco. O quanto inteiro, apesar de confortável e ainda extravagante, era totalmente diferente do resto do hotel. Ao invés de dourado e vinho, era branco, bege e vinho, mas haviam poucos móveis além das duas camas de casal. Criado-mudos entre as camas, luminárias grandes e despojadas que provavelmente valiam o preço de toda a decoração do meu quarto. Espelhos por toda a parte, carpetes do chão e além da televisão suspensa em uma das paredes, havia duas poltronas em frente a janela e uma porta fechada que provavelmente levava a suíte.
Eu estava realmente disposta a conhecer a suíte para um banho, mas acabei apenas fechando os olhos ali mesmo onde estava, me dando conta de que havia cochilado apenas quando abri os olhos novamente e notei que já havia se passado quase quarenta minutos. Suspirando, tomei coragem para me levantar, mas ao invés de seguir para o banheiro, apenas me joguei na minha própria cama. Voltei a fechar os olhos, realmente pronta para dormir agora mesmo que não tivesse nem ao menos trocado de roupa, mas os pensamentos tão incômodos voltaram mais uma vez a ocupar minha mente. A confusão no aeroporto, eu tentando passar por aquilo abraçada com Liam... De repente, além de pensar sobre o que seria do bebê no meio daquilo tudo, me vi pensando também no que estavam dizendo sobre mim depois daquela cena. No hospital com Harry, abraçada com Liam. Meu nome deveria estar no centro de pelo menos metade das rodinhas de fofoca.
Mordendo o lábio inferior, incerta, peguei o celular e abri o twitter. Eu sempre me irritava quando abria o twitter, mas não ficava longe ainda assim. Sabia que não era saudável ler o que falavam sobre mim, mas mesmo assim não podia evitar a curiosidade e por isso sempre terminava lá.
E o mais surpreendente de hoje era que, mesmo cerca de oito horas depois, meu nome ainda estava nos trending topics junto com uma segunda tag expressando o amor pela banda. Como a boa masoquista que eu era, cliquei no meu nome e logo surgiu uma chuva de fotos minhas, agarrada com Liam em mais da metade delas e justamente por isso as fãs estavam revoltadas. Era irônico como todas as outras irmãs recebiam amor e carinho enquanto eu, graças a rumores antigos com Harry, era a interesseira que elas odiavam.
E alguns tweets eram tão absolutamente sem sentido que eu acabei rindo, desistindo de olhar antes que respondesse algum deles. Deixei o celular de lado, mas permaneci olhando para ele enquanto pensava: “Por que não?”. No fundo, sabia que se de fato respondesse, me arrependeria. Não importava o argumento, elas dariam um jeito de rebater ainda assim.
Por fim, cansada de ficar quieta, voltei a pegar o celular e a primeira coisa que fiz foi desbloquear minha conta. O twitter sempre foi minha rede social favorita. Era um ótimo lugar para falar coisas totalmente aleatórias e me lembrava de falar realmente demais nele quando ficava entediada. Quando a carreira de Louis começou, de inicio, amei a popularidade que isso havia me trazido, mas de repente, ficar lá se tornou totalmente insuportável. Muitos fãs já me seguiam, eu já seguia fãs demais e não conseguia mais ter controle sobre o que lia e recebia. Para evitar discussões, só bloqueei e sumi de lá.
Mas não era como se aquilo tivesse me ajudado de qualquer forma. Sumir não mudava a opinião de ninguém, só me impedia de me defender e expressar a minha. Por isso decidi voltar, nem que tivesse que bloquear todo mundo que me incomodasse depois.
Estava na hora de finalmente dizer alguma coisa. Na verdade, já havia até mesmo passado e por várias vezes comecei a escrever um tweet apenas para apagar em seguida, hora não achando bom o suficiente e hora achando muito mais ofensivo do que deveria. Eu estava irritada. Queria me defender porque estava irritada e não tinha certeza se, de cabeça quente, aquilo era uma boa ideia.
Decidi que não, mas voltei a escrever assim mesmo, enviando antes que pudesse me arrepender mesmo que tenha sido necessário dividir a frase graças ao limite de caracteres:

@GoDivaAngel: Não sei o que passa pela cabeça de vocês, mas depois de muito tempo de convivência é normal que as pessoas criem alguma espécie de vínculo.

@GoDivaAngel: Normalmente isso chama amizade, já ouviram falar?


Fiz uma careta meio segundo depois, decidindo que de tudo que eu poderia dizer, aquilo era o mais insignificante e me arrependi por não ter simplesmente escrito uma carta sobre o assunto para enviar de uma só vez. Pelo menos assim conseguia falar tudo que precisava antes que Steve batesse na minha porta para me jogar janela abaixo.
Suspirei, voltando a olhar para a tela do celular. Os números já cresciam no ícone das mentions, mas ainda não satisfeita, voltei a digitar após pensar por alguns instantes no que dizer. Não queria que, com aquilo, me odiassem mais. Queria exatamente o contrário e foi com isso em mente que continuei:

@GoDivaAngel: Eu sei que tudo o que vocês querem é defender cada um dos garotos, vocês os amam, eu entendo, mas estão fazendo isso errado.

@GoDivaAngel: Estão atacando as pessoas erradas.

@GoDivaAngel: O Liam é meu amigo assim como o resto da banda e tudo o que ele fez hoje foi ser a pessoa maravilhosa que vocês sabem que ele é.

@GoDivaAngel: Eu estava assustada com os fãs ao nosso redor e Liam me ajudou a passar por eles. Qualquer coisa que estejam vendo além disso, está errado.


Enviei rapidamente e dessa vez consegui me sentir um pouco mais aliviada, talvez até mesmo satisfeita pelas palavras escritas. Eu sempre me incomodava com os comentários e deixava passar, sem tentar me defender, sem expor o que, de fato, tinha acontecido e me senti verdadeiramente feliz por poder falar finalmente, independente dos outros diversos problemas ocupando minha mente.
Havia sido necessário reformular as frases várias vezes para que coubessem em um tweet, mas me senti grata por isso também pois de certa forma controlavam minhas palavras, faziam com que eu dissesse apenas o necessário antes que falasse mais do que deveria.
Ao notar os números de mentions crescerem ainda mais, voltei para meu perfil, stalkeando a mim mesma para ter certeza de que não tinha soado ofensiva quando havia, claramente, tentado amenizar a situação. Decidindo que estava tudo bem e sem nenhum arrependimento, tomei coragem para abrir as mentions, lendo alguns comentários sobre o que havia dito.
Havia recebido milhares de RTs em questão de segundos e sorri por saber que nem tudo estava perdido, que havia quem concordasse comigo. Tinha também mais alguns milhares de novos seguidores que assim como os RTs, não paravam de subir, mas precisei de um pouco mais de determinação do que isso para começar a ler as respostas:

@larrymyheart: Essa é a vida deles e você sabe. Pegou vôo com a banda por escolha sua. Quis se aparecer e não gostou do resultado.

Não era lá um comentário assim tão ofensivo, já havia recebido piores, mas me senti tentada em responder e decidindo que aquela era uma ótima deixa para entrar em outro assunto, apertei o botão de responder.

@GoDivaAngel: Por favor, qual sentido em me aparecer para fãs que me odeiam? O que eu ganho além de mais ódio gratuito, como o seu?

Satisfeita mais uma vez, voltei para os comentários, colocando um limite em mim mesma quanto aquilo. Responderia a apenas três comentários e sairia do twitter. Conhecia a mim mesma para saber que prolongaria a conversa por muito mais tempo se me permitisse e eu não podia, de forma nenhuma, iniciar uma discussão.
Me defender era uma coisa, discutir era outra completamente diferente e aquele era um luxo que eu não tinha mais.
Passei por vários tweets totalmente irrelevantes. Pelo menos uma dúzia de “Larry is real” como se aquilo viesse ao caso e revirei os olhos. Havia mais dezenas de pessoas perguntando se eu estava grávida e porque Harry havia me acompanhado até o hospital, se o bebê era dele, mas ignorei aquelas perguntas, certa de que não era hora para iniciar outro assunto, especialmente aquele. Não estava certa ainda quando ao que fazer para anunciar aquilo publicamente e me foquei apenas no último acontecimento.
Recebi também, para minha surpresa, algumas mensagens de apoio e dei RT em algumas delas, verdadeiramente feliz por isso. Recebi emojis de palminhas e algumas mensagens de incentivo como: “É isso ai” ou: “É assim que se faz”. Pensei em seguir algumas dessas meninas, mas já decidida a dar unfollow em todas as pessoas que seguia de uma só vez com algum aplicativo, achei desnecessário e apenas continuei favoritar as mensagens.

@harrymyballs: Isso se chama imaturidade. Qualquer um que ameace Larry é alvo de hate e elas nem conseguem ver como é errado um relacionamento ser ameaçado por qualquer coisa.

Não pude concordar mais com o comentário e apesar de ter me decidido por apenas três míseras respostas, resolvi que ela merecia uma. Comecei a escrever, mas apaguei ao optar por defender Larry. Era um relacionamento falso, mas elas não sabiam. Agora, depois do contrato, se quer poderiam e eu sabia que Larry era a grande questão no meu relacionamento com os fãs. O principal motivo pelo hate e não fazia sentido me manter quieta sobre o assunto quando Harry e Louis já haviam se pronunciado.

@GoDivaAngel: Eles estão felizes e eu te garanto que sou a última pessoa a ser uma ameaça para os dois.

Assim que enviei, ri por imaginar a completa histeria que aquele comentário criaria e surpreendi a mim mesma pela atitude. Rindo por dar a eles mais motivos para acreditarem no relacionamento que eu detestava. Se é que poderíamos chamar aquilo de relacionamento já que não existia de fato.
Mas era aquilo que a Modest queria afinal, eu precisava manter segredo sobre a paternidade do bebê e não via uma forma melhor do que tirar o meu da reta, ou o de Harry, no caso.
Por fim, apenas dei de ombros. O fato de estar finalmente falando era gratificante e como ainda tinha mais uma resposta, voltei a ler, dessa vez não me abalando com comentários maldosos. Algumas pessoas eram tão completamente infantis que os argumentos se resumiam em palavrões e ofensas, mas acabei decidindo responder uma delas:

@niallpotatoo: Não é como se os meninos, podendo ter qualquer uma, fossem escolher alguém tão sem graça. Ela nem mesmo é bonita.

@GoDivaAngel: Me sinto perfeitamente bem com o que encontro quando olho no espelho e não vejo nenhuma necessidade de me encaixar em qualquer padrão só para que gostem de mim.


Apesar de satisfeita com a resposta, não achei o suficiente e continuei, decidindo contar as duas como uma só já que eram para a mesma pessoa, sobre o mesmo assunto antes de finalizar:

@GoDivaAngel: Se acredita nisso, talvez esteja na hora de mudar seus conceitos. Padrão de beleza só existe em revistas.

Sabia que mais repostas estavam chegando conforme respondia, mas assim como havia pactuado comigo mesma, fechei o aplicativo, sentindo-me completamente bem com o resultado obtido. Eu precisava daquilo. Falar, desabafar. Era errado a forma como eu me deixava abater por comentários de pessoas que não conheciam a mim ou qualquer um dos meninos, mas justamente por me abater que me senti tão bem em poder respondê-las, voltando-me a me jogar na cama em seguida.
Sentia-me com o animo totalmente revigorado depois das respostas, mesmo ciente de que tinha outros assuntos pendentes a resolver. Olhei para a janela, para os prédios do lado de fora e até tive vontade de sair, mas fiquei ali. Não havia passado das oito da noite ainda, mas isso em Vegas e meu corpo já havia vivido um dia inteiro e mais um pouco, literalmente, por culpa do fuso horário. Nem mesmo adiantava tentar sair agora, provavelmente estaria caindo de sono em dez minutos assim que a euforia passasse e duvidava que qualquer um dos meninos tivessem animo para isso também, apesar de terem enlouquecido com o hotel.
Suspirei, voltando a encarar o teto e devido a falta de sono, considerei fazer uma limpa no instagram e desbloquear a conta também. Tinham dezenas de fotos minhas com Harry ali que precisariam ser apagadas e desisti ao pensar nisso, por pura preguiça. Seria muito mais fácil só começar outra conta, mas não tive realmente muito tempo para pensar no assunto pois, antes que me desse conta, fui vencida pelo cansaço que nem sabia que ainda sentia, dormindo antes que pudesse notar.

As persianas que eu se quer sabia que existiam foram abertas com agressividade e despertei assustada por isso, resmungando e me virando para o outro lado em seguida quando a luz do sol invadiu as enormes janelas de vidro. No dia anterior, tinha adorado a vista daquela janela, mas de repente, eu a odiava fervorosamente.
- Vamos, acorda! Você não pode dormir a manhã inteira, estamos em Vegas! – Lou exclamou. – E temos o dia livre!
- Uhnn... – resmunguei apenas, me virando na cama e cobrindo a cabeça com o enorme edredom sobre ela. Odiava acordar cedo, especialmente quando não tinha que acordar cedo e eu não tinha. Definitivamente não tinha.
- Vamos, ! – Lou voltou a exclamar e me perguntei de onde diabos ela tirava tanta empolgação e bom humor logo pela manhã quando eu mal era capaz de dizer bom dia. – Está tendo uma festa na piscina! Aproveite que a barriga ainda não começou a crescer, coloque um biquíni e vamos para a festa! – falou animada e fiz uma careta para o comentário totalmente desnecessário. Aquela gravidez era o motivo para todas as minhas crises existenciais no momento, mas claro que ela tinha que me lembrar da outra terrível parte daquilo.
- Nossa, estou me sentindo bem melhor agora, obrigada. – ironizei e ela riu, perto demais, e eu já imaginei o que viria. Segurei a coberta com mais força sobre mim, mas não adiantou, Louise a puxou para longe e eu choraminguei por isso.
- Vamos, temos que comemorar! – ela insistiu e bufando, me sentei na cama, a fazendo rir. Meu cabelo provavelmente estava de pé e minha cara dificilmente era das melhores. Eu havia ido dormir de maquiagem e provavelmente parecia uma mistura um tanto quando assustadora de um banda borrado com um gato peludo, descabelado e rabugento.
- Comemorar o quê? – perguntei confusa e apenas parcialmente acordada.
- Amiga, você abalou toda uma fanbase ontem, não podemos deixar que isso passe despercebido. – ela riu mais uma vez enquanto eu arregalava os olhos, só então lembrando-me disso. Por Deus, o que eu havia feito? Ou melhor, eu realmente havia feito? Desesperada para saber o que eu havia causado, busquei o celular ao meu redor, mas Lou o pegou antes que eu o fizesse. – Não importa o que disseram ou o que estão dizendo. – falou, séria e voltei minha atenção para ela. –Você foi ótima, fez o que tinha que fazer, disse o que tinha que dizer e tudo isso em cima do salto alto como uma verdadeira diva. – comentou, fazendo-me rir por isso. Certamente não me sentia uma diva enquanto surtava ao escrever tudo aquilo, mas ia aceitar o elogio. – Agora você vai levantar dessa cama e preparar um banho quente naquela banheira estupidamente magnífica que temos no quarto, tirar todo esse borrão da cara e vestir um biquíni para descermos para a piscina. Vamos tirar duzentas fotos e postar todas no instagram que você também vai desbloquear para que garotas como aquelas, a mesma que te chamou de sem graça, vejam a pessoa absolutamente linda que você é, aproveitando a vida sem se importar para qualquer hate que elas possam distribuir. E então, a noite, você abre seu twitter pra falar do seu excelente dia e dar RT no Liam que saiu em sua defesa ontem.
- O Liam falou sobre ontem? – perguntei, ajoelhando-me na cama eufórica para tentar tirar o celular dela. Louise o afastou de mim e eu resmunguei. – Lou, qual é?! Eu preciso saber, você não pode só me matar de curiosidade!
- Ele disse que você é uma amiga, que não merece os comentários maldosos e que eles ficam realmente chateados com esse ataque gratuito a pessoas com quem eles se importam. – falou e eu mordi o lábio inferior, sentindo-me ainda mais tentada em olhar agora. – Ele também deu uma lição de autoestima em todo mundo que provavelmente vai virar manchete, mas você pode e vai ver tudo isso mais tarde.
- Lou... – reclamei e ela negou com a cabeça, afastando-se um passo de mim quanto tentei mais uma vez pegar o celular. – Você vai tomar banho e vamos descer para mostrar para o mundo que temos mais o que fazer do que ficar nos preocupando com comentários de hate na internet.
- Você não tem haters, eu tenho haters. – resmunguei mal humorada.
- E vai mostrar que é melhor que todos eles, que tem mais o que fazer além de se preocupar com comentários de ódio. – disse, me fazendo suspirar, vencida. – Agora vai logo para o banho que eu tenho mais gente pra acordar antes de descermos para o café.
- Você quer que eu tome banho para ir para a piscina? – perguntei divertida embora estivesse muito bem ciente do quanto eu precisava de um banho, especialmente depois de horas em um avião.
- Se você pudesse ver a sua cara agora, também ia querer um banho. – falou e dessa vez fui obrigada a rir, a acompanhando enquanto seguia para a porta. Ela ergueu meu celular, o sacudindo em minha direção por sobre os ombros. – Isso vem comigo para garantir que você não vai bisbilhotar. Volto em vinte minutos para te arrastar pelos cabelos. É bom que esteja linda. – cantarolou o final, finalmente chegando até a porta. Ela se virou para piscar para mim antes de finalmente abrí-la.
- Não é muito cedo para uma festa na piscina? – perguntei e ela riu.
- Estamos em Vegas, querida. – respondeu como se fizesse sentido, mas para mim era apenas mais um motivo para não fazer. Quem acordava cedo depois de passar a noite inteira em uma cassino? Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Lou fechou a porta atrás de si, deixando-me sozinha no quarto.
Suspirei, ainda me mordendo para saber o que Liam havia dito, ler na verdade, mas palavras dele, mas me obriguei a levantar da cama. Haviam espelhos por toda parte do quarto e antes mesmo de chagar até a porta da suíte, ri de mim mesma ao encarar meu reflexo. Passei as mãos pelos cabelos para colocar os fios no lugar e tentei prendê-los em um coque no topo da cabeça com o próprio cabelo simplesmente porque não tinha ideia de onde encontrar um prendedor de cabelo. Sabia que havia trazido, mas onde estava era o maior mistério da minha vida. Claro que o coque não deu muito certo por eu ter cabelo demais, e grande parte dos fios só voltaram para a minha cara, mas deixei daquela forma, mesmo que provavelmente só tivesse piorado tudo, e segui para o banheiro, não contendo uma exclamação para o tamanho dele ou da banheira.
Perdi algum tempo olhando para os sais de banho enquanto a banheira enchia e como não conseguia escolher apenas um, decidi juntar todos pra ver o que ia dar. Fiz uma careta quando acabei derrubando mais do que o necessário de um deles e murchei por, graças a isso, não poder colocar os outros também. Antes que fizesse mais besteira, fui para o quarto, enfrentar a bagunça que era minha mala para escolher o que vestir enquanto a banheira não terminava de encher e após tirar praticamente tudo da mala, consegui encontrar um biquíni strappy preto. Só não dei a mesma sorte com a saída de praia.
Ouvi o barulho de água derramando e arregalei os olhos, deixando tudo onde estava para correr de volta para o banheiro onde a água já transbordava pra fora da banheira. Descrente que tivesse enchido tão rápido, corri para fechar a torneira. Eu havia alagado o banheiro, literalmente, e fiz uma careta me perguntando se conseguiria esconder de Lou se eu só trancasse a porta e a arrastasse para baixo após chamar o serviço de quarto.
Olhei para o chão, eu pisava em pelo menos um centímetro e meio de água e não fazia sentido que que tivesse feito todo aquele estrago em um tempo tão pequeno.
Céus, eu nem era a celebridade e estava destruindo quartos de hotel. Em Vegas. Puta merda.
Decidindo que podia muito bem resolver aquilo depois, dei de ombros, seguindo até a banheira para esvaziá-lo o suficiente para que eu pudesse entrar e quando achei seguro, me livrei das roupas que usava, ainda as mesmas do dia anterior, e as deixei penduradas simplesmente porque o chão não era a melhor opção no momento.
Entrei na banheira, deixando apenas a cabeça para fora ao me sentar e me surpreendi com o quão relaxante aquilo era. Senti toda a tensão se esvair do meu corpo em segundos, até mesmo a que eu não me lembrava mais de que estava lá e após lavar o rosto, fechei os olhos, respirando fundo e me permitindo pensar em absolutamente nada. A água estava morna, na temperatura exata e os sais junto com a espuma a deixavam com um cheiro totalmente agradável. Senti que poderia ficar a vida toda ali e, sinceramente, não reclamaria desde que os pensamentos continuassem longe. Todos eles.
Ouvi a porta ser aberta e imaginei o que viria. Eu havia levado tempo demais só para encher a banheira e Lou estava de volta para me buscar. Não podia ser mais decepcionante e minha única vontade foi a de me afundar na banheira, mergulhar completamente ali como se pudesse me esconder dela dessa forma.
Permaneci onde estava, nem de longe disposta a me levantar quando tinha acabado de entrar no banho, mas Lou se manteve em silêncio e eu fiz o mesmo, apenas esperando que ela dissesse algo ou me obrigasse a sair dali.
Mas ao contrário do que esperava, ela não o fez e cheguei até mesmo a esquecer dela ali quando a mulher não disse nada, deixando que meu corpo relaxasse como eu, definitivamente, estava precisando. Levei pelo menos dez minutos para estranhar seu silêncio, para me dar conta de que, após a porta se abrir, não havia mais escutado qualquer barulho no cômodo e só então abri os olhos, erguendo a cabeça para conferir se tinha perdido alguma coisa ou apenas imaginado a porta sendo aberta.
Harry estava ali, parado junto ao batente da porta enquanto mantinha os braços cruzados em frente ao peito. Ele vestia uma bermuda e uma camisa branca, aberta, e um ray-ban prendia seu cabelo para trás enquanto ele me encarava. Seu olhar sobre mim era sério e senti meu corpo inteiro esquentar sem que eu pudesse evitar. Ele tinha aquele olharsério e absolutamente desconcertante, que te enxergava por inteiro, cada mínimo detalhe. Que parecia ver além, que te absorvia e roubava para si toda a atenção como se somente ele existisse ali.
Eu o estava evitando e pretendia continuar até que soubesse o que dizer, mas naquele momento, com seu olhar sobre mim, tudo sumiu de minha mente em questão de segundos. Eu não era capaz de pensar, dificilmente seria capaz formular qualquer frase e era em momentos como aquele que eu me perguntava como aquilo era possível. Como era possível que alguém tivesse aquele efeito em outra pessoa. Era tão absurdo, tão intenso que chegava a ser assustador sentir algo tão forte por alguém.
Apesar da força do seu olhar sobre mim, no entanto, foi quando Harry subiu o canto da boca minimamente em um sorriso que eu corei, negando com a cabeça como se só então fosse capaz de clarear a mente. Harry fazia muito aquilo, mudava em questão de segundos entre o garoto incrivelmente adorável que destruía corações com um simples sorriso e o dono daquele olhar hipnotizante que lhe roubava a fala.
- Você não pode olhar assim para mim, Harry. Especialmente quando eu estiver nua. – falei sem pensar e ele apenas aumentou o sorriso, fazendo eu morder meu lábio inferir ao me dar conta do que eu havia dito. Eu o estava evitando. Era um péssimo momento para fazer piadas e a maior prova disso foi quando Harry, ao invés de responder, se afastou no batente da porta, seguindo em minha direção. Ele se sentou na borda da banheira, mas como se pudesse sentir minha tensão, não rebateu meu comentário com nenhuma piadinha, apenas ficou ali, me encarando com o semblante ligeiramente preocupado.
- O que houve? – quis saber e eu suspirei, voltando a me recostar na banheira para deixa a cabeça na borda, encarando o teto. – ? – insistiu quando eu não disse nada, mesmo depois de vários instantes.
- Eu só... – comecei, negando com a cabeça em seguida. Era por isso que eu não queria falar com ele. Me sentia confusa demais para poder explicar para Harry o que estava acontecendo e era pior quando eu não via qualquer solução para o problema. Eu só via o problema e era aquilo que me enlouquecia. – Eu não sei lidar com isso. – disse por fim, ainda sem encará-lo e levei alguns segundos para continuar, mesmo ciente de que ele dificilmente teria entendido o que eu havia tentado dizer. – Com o assédio, eu não sei lidar com o assédio e ele nem é direcionado a mim, é a vocês. Eu só estou perdida no meio disso e eu não consigo deixar de pensar como... – parei novamente ao me dar conta de que, de repente, já estava desabafando. Era mais fácil quando não o encarava, não olhava diretamente em seus olhos para ter uma ideia do que se passava em sua mente e antes que eu falasse demais, deixei que meu olhar se voltasse para ele, com a atenção focada em mim. – Como vai ser depois que o bebê nascer? – perguntei. - Eu não deveria ser importante, Harry, mas você acha que as pessoas ontem, no aeroporto, me deixaram de lado? Liam era a celebridade, mas as perguntas também eram direcionadas a mim, as fotos, os gritos. Eu fique assustada, imagina uma criança no meio disso tudo. Imagina o que não vão fazer por uma foto do filho do Harry Styles, que nasceu mesmo depois dele ter passado meses dizendo que era gay. Filho dele com a irmã do suporto namorado. Não vamos conseguir mantê-lo longe disso, Harry. Não vamos conseguir mantê-lo em segurança. Vão atacá-lo na internet, vão fazer fila para uma foto. Como isso pode ser certo com uma criança, justo? – só depois que terminei, me dei conta do que havia feito. Tinha conseguido exatamente a última coisa que queria, culpá-lo.
- Desculpa. – ele sussurrou e a dor em seu olhar partiu meu coração em dois. Eu neguei com a cabeça, de repente apavorada com o que havia feito, mas sabia que era tarde demais.
- Harry... – comecei afastando-me da borda para tentar me aproximar, de repente odiando aquela banheira, odiando tudo naquele lugar e até mesmo naquela viagem simplesmente porque aquela incerteza havia começado no aeroporto. Tudo estava bem até chegarmos ao aeroporto. – Eu não quis...
- Me culpar? – ele perguntou antes que eu o fizesse e congelei onde eu estava, sentindo-me ainda pior do que me sentia com o tom de voz que ele havia usado. Rude, amargo. – Me desculpe. – pediu mais uma vez quando notou o que havia feito, desviando o olhar para o chão.
- Harry...
- Está tudo bem. – ele disse antes que eu o fizesse, mas manteve seu olhar longe do meu. De repente parecia haver um muro ali, entre nós dois, e um pânico terrível se alastrou por meu corpo enquanto eu voltava a pensar em tudo que sentira quando o encontrei parado no batente da porta. Sim, era assustador o que ele fazia comigo com o mais simples olhar. Assustador porque a mera possibilidade de perdê-lo me deixava em pânico. – Você não tem que se explicar, é verdade. – ele continuou e me odiei por ter simplesmente dito tudo sem pensar nas consequências. Eu não podia ignorar o que estava acontecendo, eu acreditava em tudo que havia dito, mas tinha que existir uma solução, tinha que ter algo que pudéssemos fazer, mas eu joguei apenas minhas inseguranças sobre ele. – É a minha vida, é o que acontece com qualquer um que se envolve conosco. Foi o que acabou com Louis e Eleanor, é o que molda tudo que somos hoje. – falou, voltando a erguer o olhar para mim. Tinha mágoa ali, dor e eu me odiei por ter causado aquilo.
- A culpa não é sua, Harry. – disse por fim, surpreendendo-me por soar firme. – Eu não te culpo por viver seu sonho, Harry. Eu amo te ver fazendo isso. Eu amo te ver no palco, eu amo te ver com as fãs, eu amo o que você é e eu não... Eu não quis te culpar. – insisti, sentindo os olhos marejarem. Era impossível não sentir medo do rumo que aquela conversa havia tomado, especialmente após a menção de Louis e Eleanor. Os admirava como um casal quando estavam juntos e então, sem que qualquer um pudesse prever, acabaram da pior forma possível e a culpa foi exatamente aquela, a fama de Louis. Eles eram loucos um pelo o outro, mas ela, uma garota comum, não conseguia lidar com a vida que ele levava. Não conseguia levar um relacionamento a distancia, não conseguia lidar com o ódio e Louis a estava sufocando. Ele se destruiu para deixá-la, foi provavelmente a coisa mais difícil que ele já havia feito, mas Louis escolheu abrir mão dela para deixá-la viver, ser feliz com alguém que pudesse estar ao lado dela quando ele não podia. Eu havia acabado de dar a deixa para que Harry fizesse o mesmo e não poderia suportar se fizesse.
- O que você quer fazer? – ele perguntou ao invés de me responder e precisei lutar com todas as minhas forças para evitar que as lágrimas caíssem.
- Eu não sei, Harry. – respondi, sinceramente. – Eu não tenho ideia do que fazer, mas eu quero que a gente descubra isso junto. – falei, aliviada por ter certeza pelo menos daquilo. Eu também não poderia fazer aquilo sem ele, jamais conseguiria ter aquele bebê sem ele ao meu lado, mas essa parte decidi deixar de fora. Já havia estourado toda minha cota de burrices para fazer ainda chantagem psicológica.
Sem dizer nada, Harry apenas concordou com a cabeça e eu não me senti mais aliviada por isso, muito pelo contrário. A falta de resposta me destruiu e mais uma vez desejei chorar, simplesmente chorar.
Estávamos em um terrível impasse sem solução e agora, graças a mim, ainda havia aquela barreira entre nós, aquele muro de culpa que eu havia imposto e não tinha ideia de como perfurar.
Pior, eu não tinha ideia se ao menos seria capaz de perfurar.


Continua...



Nota da autora: Eiiii, voltei! Demorou, mas foi culpa dos mil ficstapes que vocês podem ver ai embaixo nos links. Hahahah
No final do mês, dia 30, vai haver no site o especial All Star e vou TENTAR mandar mais um cap para ele, okay? Torçam por mim!
Obrigada por estarem lendo, e comentem, pls!
Mayh.





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Mixtape: Don't Cry [Mixtape: Classic Rock/Finalizada] ● Father's Little Girl... Or not [Restritas-Originais/Finalizada]


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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