Última atualização: 16/09/2018

Prólogo

A camisa amarela com o número 11 parecia ainda mais pesada enquanto embolada em suas mãos. Sabia que aviões supostamente deveriam ser internamente pressurizados, mas a pressão que pesava sobre os seus ombros não se parecia com nenhuma outra que ele já havia sentido. Nem nos piores pesadelos das últimas semanas, ele poderia ter imaginado o fim antecipado do grande sonho. Eles deveriam estar partindo de Kazan para desembarcar em São Petersburgo e não em Madri para a escala antes do pouso de volta ao Rio de Janeiro.
Desbloqueou o celular, na intenção de encontrar algum apoio entre as milhares de notificações do seu twitter.

@Phil_Coutinho, eu só queria ver um sorriso seu.”
@Phil_Coutinho, te amo demais meu amor. Fica bem.”

Ele esboçou um sorriso fraco para a tela, só conseguindo pensar que tinha decepcionado todos aqueles que o amavam e torciam para ele com todo o coração.
Sacudiu a própria cabeça, buscando afastar aqueles pensamentos ruins. Não era isso que ele deveria ter absorvido das mensagens. Tudo o que ele deveria ter feito era compreender que, apesar da eliminação, ele ainda tinha toda uma torcida ao seu lado, movendo-o pelas ondas sonoras de seus gritos e pela comemoração a cada gol ou assistência em que ele tinha o prazer de participar. Cada roubada de bola, cada limpada para o meio e cada bomba que enviava com endereço certo para o canto do gol moviam o que ele sempre sonhou em fazer e viver. Mas por que era tão difícil ver as coisas pelo lado bom?
Com o avião já estável nos céus - a uma altura um tanto assustadora -, Thiago se levantou para chamar a atenção de todos os jogadores. Ele poderia até tirar a braçadeira, mas nunca deixaria de ser o capitão a todas as horas.
— Ei, escutem. Eu sei que vocês estão chateados. Eu também estou. Mas esse tipo de coisa acontece independentemente da nossa vontade. Nós lutamos e batalhamos até o final. Demos o nosso melhor e suamos a camisa como um jogador da seleção verde e amarela deve suar. Então, vamos levantar a cabeça e ter orgulho do que fizemos por esse time. Sem contar que, para vários de vocês, a história com essa camisa ainda não acabou em Copas do Mundo. Nosso país precisa de cada um de vocês, então ergam a cabeça e encarem. Em um dia a gente perde, mas no outro a gente ganha. E não vamos deixar barato. Qual é? Vocês acham mesmo que a única seleção pentacampeã vai se deixar abater por uma derrota? Vocês são incríveis e ainda vão honrar muito essa camisa.
Coutinho engoliu a vontade de chorar, agradecendo pelos bons amigos que a preparação e a temporada na Rússia tinham lhe dado. Jamais conseguiria mostrar o quão grato era pela participação rápida, mas impactante daquelas pessoas em sua vida.
E Thiago tinha razão afinal. Aquele era só o começo. O sonho estava longe de acabar.


Capítulo Um

2022



O vestiário da Ciutat Esportiva Joan Gamper já estava praticamente vazio. O treino pelo qual o time titular do Barcelona passara havia sido pesado o suficiente para extenuar até mesmo aqueles com o melhor preparo físico. Após o efeito montanha-russa de altos e baixos nos resultados dos últimos anos, o time catalão parecia finalmente ter se encontrado e retornado aos eixos. Havia novamente o grande orgulho em estampar a alcunha “Més que un club” por todos os lugares e abrir a bandeira azul e grená por todos os cantos. Provavelmente, foram essa seriedade e o trabalho bem feito que fizeram com que o time tivesse acabado de receber a notícia de que estava quase totalmente convocado para a Copa do Mundo por suas respectivas seleções. Era impossível que o camisa 14 não estivesse nessa lista após ser declarado por dois anos como melhor meia da temporada.
Os empresários de Coutinho haviam acabado de avisá-lo de que o Pequeno Mágico estava na convocação de Tite mais uma vez. Após a brilhante campanha europeia e o título vencido com louvor na Copa América de 2019 em solo brasileiro, sua equipe tinha que confessar que já estava esperando por aquela notícia. Surpreendente mesmo seria se aquela camisa 11 amarela não voltasse para suas mãos.
Respirou fundo, sorrindo feito bobo para as suas próprias coisas. Quatro anos depois, a eliminação da Rússia ainda parecia injusta demais tendo em vista todo o trabalho feito. Tudo o que ele sabia era que dessa vez seria diferente. Estavam mais maduros, mais preparados, mais conscientes. Os jovens reforços também eram de qualidade inquestionável, sendo sondados por times europeus - incluindo o seu maior rival - desde os dezessete anos. Finalmente, todos eles tinham a chance pela qual rezaram desde 2018. E comemorariam o natal no fim do ano com aquela taça nas mãos.
Terminou de secar o próprio corpo e vestiu a calça e o casaco do Barcelona (com o logotipo evidente dos patrocinadores) para comparecer à coletiva de imprensa que havia sido agendada. Estava tão esgotado que só conseguia imaginar a sua cama king size repleta de travesseiros.
Foi orientado a esperar em uma sala ao lado daquela na qual ocorreria a coletiva. Pelo visto, algum de seus companheiros de time estava usando o horário anterior ao seu. Parecia uma sucessão de consultas médicas: uma chá de cadeira na sala de esperas só para aguardar que alguém saia para você poder entrar e ser praticamente afogado de tantas perguntas.
Um dos organizadores o levou até o pequeno cômodo em que ele aguardaria. Quando avistou o enorme filtro, quase ajoelhou e agradeceu por poder beber uma água gelada. A questão era que ele não fazia ideia de quem era aquela mulher escorada na parede ao lado do objeto de sua devoção momentânea. Ela mexia apressadamente no celular, concentrada demais no que fazia para ouvir os passos dele pelo ambiente. Vendo o crachá no pescoço dela, apoiado sobre a camisa social, percebeu que se tratava de alguém da imprensa. Ele teria de esperar de qualquer forma, então conversar não arrancaria um pedaço.
— Licença - pediu ao chamar a atenção da mulher que quase pulou com o susto de ouvir uma voz tão próxima de si. — Não queria te assustar. Na verdade, eu só vim perguntar se você não deveria estar lá dentro junto com os outros.
Ela tentou se recompor do recém estado de alerta em que aquela abordagem tinha a deixado. Respirou fundo algumas vezes, fazendo sinal com as mãos para que ele esperasse.
— Eu estava resolvendo algumas coisas com a equipe. - A mulher apontou para o celular. — Já estava voltando para lá.
— Vai pegar um lugar ruim - Coutinho comentou, tentando fazer uma graça para mudar o clima do ambiente.
— Meu lugar é nos fundos - ela respondeu simplesmente. — Junto com os outros fotógrafos.
Foi então que o jogador percebeu a câmera preta que ela carregava a tiracolo. Como não havia percebido aquele mísero detalhe?
— Eu não tinha reparado. Aliás, eu sou o… - tentou começar, mas foi bruscamente interrompido pela fotógrafa.
— Eu sei quem você é. Todos sabem. - Ela riu. — No meu caso, faz parte do meu trabalho.
— Às vezes esqueço que vocês têm essa carta na manga. - Ele leu o crachá dela rapidamente. — Acontece que eu também sei quem você é, .
A mulher riu alto, percebendo o olhar furtivo de Philippe sobre o seu crachá.
— Fico feliz que você tenha sido alfabetizado.
Coutinho fez uma careta, achando graça naquilo tudo. Estava se divertindo com as respostas irônicas, quando foi chamado pelo seu agente. Era a hora de sua coletiva.
— Preciso ir. Foi bom te conhecer, . Espero ficar bem nas suas lentes.
— Quando a fotógrafa é boa, o difícil é o resultado sair ruim.
Com uma piscadela, se retirou para assumir sua posição entre os outros membros da imprensa. Coutinho meneou a cabeça em negação enquanto ria e seguia seu caminho pela outra porta.
Entrou com um sorriso e acenou para todos antes de se sentar. Os flashes explodiram em seu rosto como de costume antes que sua equipe desse abertura para que iniciassem as perguntas.
— Coutinho, qual é a sensação de ser convocado para a Copa do Mundo mais uma vez? - Um repórter que se sentava logo em uma das primeiras filas perguntou.
— Eu não tenho palavras para dizer o quão grato eu sou por ter recebido essa chance. Fico feliz que o professor Tite ainda confie no meu trabalho dessa forma e estou ansioso para dar o meu melhor pela seleção.
— Nesse meio tempo, com os grandes resultados, você não almejou a camisa dez? - Outro repórter lançou. O jogador quase riu, sabendo que já tinha respondido àquela questão ao menos umas mil vezes.
— O dono dela é digno e a merece. Neymar é uma peça fundamental em nosso time e acho que todo mundo aqui sabe disso. Sem contar que estamos aqui para honrar o escudo verde e amarelo, não o que tem atrás da camisa.
sorriu com a resposta. Eram as palavras certas e a postura certa. Não havia espaço para uma batalha de egos enquanto a competição mais importante da história do futebol acontecia.
— Você pretende deixar o Barcelona? Sabemos que vem recebendo propostas altíssimas desde 2018.
— Não gosto de falar sobre o futuro. Prefiro simplesmente deixar acontecer e ver aonde vamos chegar. Tudo o que importa é que eu amo o lugar onde estou e estou feliz com aqueles que me rodeiam.
Perguntaram-lhe ainda sobre os companheiros de equipe e de seleção. Coutinho não tinha nada a esconder. Às vezes ele mesmo se impressionava com a facilidade que tinha em conviver com aquelas pessoas. Era óbvio que tinha amizades mais próximas que outras, mas não conseguia contar um desentendimento sério sequer. Talvez fosse mesmo tão amigável quanto sua mãe dizia. Talvez não fosse só mais um daqueles elogios maternos que vinham em momentos importunos só para nos envergonhar na frente dos amigos e dos tios babões. Deveria mesmo começar a dar ouvidos para uma coisa ou outra que a mãe dizia.
Posou para algumas fotos ao lado da equipe e reconheceu, entre os flashes, os olhos cativantes da moça de pouco tempo atrás. Sorriu mais largamente, quase sem perceber, ao relembrar suas palavras ousadas e as tiradas irônicas.
Entre toda a rotina de treinos, jogos e entrevistas, aquele encontro inesperado havia sido uma ruptura de planos formidavelmente agradável.


+++



A porção de fritas já estava esfriando sobre a mesa. estava ocupada demais dando atenção à tela do notebook aberto sobre a mesa do restaurante para sequer se lembrar de que havia pedido algo para comer. Em compensação, ela tinha certeza de que precisaria pedir outro suco de maracujá logo. Já tinha até perdido a noção de quantidade. Se pedisse outro, seria o terceiro? Quarto? Sexto? Só esperava que o banheiro ficasse em algum canto ali por perto. Agradeceu silenciosamente por ter decidido não pedir algo alcoólico assim que percebeu que estava bebendo apenas como uma resposta inconsciências da ansiedade do estresse que o trabalho estava lhe causando.
Ela tinha certeza de que tinha aberto a caixa de e-mail naquela manhã e lido cada uma das pendências. Não era humanamente possível que aquelas quase cinquenta mensagens tivessem surgido.
Decidiu abrir um por um, percebendo que vários deles eram uma sequência de respostas. Não sabia porque estava recebendo aquela enxurrada de mensagens que sequer eram de sua área. Gostaria mesmo de entender porque estava sendo adicionada naquelas listas intermináveis se aquilo nem a interessava.
Saiu simplesmente deletando todas as respostas sem dó e sem se preocupar em ler.
— Pelo amor de Deus, parem de mandar cópias dos seus e-mails aleatórios para mim! - reclamou, bufando alto e quase socando o copo de suco de volta na mesa de madeira.
— A senhorita está bem? - Uma garçonete perguntou, soando verdadeiramente preocupada. — Precisa de alguma coisa? Quer uma água com açúcar?
A moça engoliu em seco, percebendo que provavelmente reclamara em um tom um tanto mais alto do que ela realmente havia previsto. Tudo o que ela precisava naquele momento era parecer uma louca que assusta e afasta todos os clientes.
— Estou bem - respondeu, completamente envergonhada. — Perdão. Não queria assustar ninguém. Prometo que vou manter o volume do meu estresse um pouco mais baixo. Talvez seja uma boa ideia pedir outro suco de maracujá.
A garçonete sorriu, concordando e assinalando que logo voltaria com a bebida. A fotógrafa respirou fundo e decidiu ocupar finalmente a sua boca com as batatas fritas.
Levou as mãos ao cabelo, prendendo-o de qualquer jeito sem se importar com o quão bagunçado aquilo deveria estar. Só precisava tirar aqueles fios incômodos de seu pescoço. Decidiu fechar o e-mail, percebendo que ele não levaria a lugar algum. Estava prestes a mexer nos arquivos com as fotos do dia quando uma voz masculina chamou a sua atenção.
— Isso é algum tipo de perseguição?
A mulher se virou para o lugar de onde assumia ter vindo a voz, dando de cara com aquele que havia conhecido mais cedo.
— Só se com isso você quis assumir que está me perseguindo. Até porque eu já estou aqui há um bom tempo.
Coutinho riu, percebendo que ela tinha razão. Notou também a porção pouco tocada de fritas pairando sobre a mesa.
— Eu não acredito no que meus olhos veem. Você está fazendo pouco caso da melhor comida de toda essa cidade. Eu me sinto verdadeiramente ofendido.
— São só algumas batatas. - revirou os olhos. — Eu nem tive tempo de comer de verdade ainda.
— Pois, então, deixe-me sugerir a especialidade da casa: arroz caldoso . Inclusive, é o motivo que me trouxe aqui hoje.
— Sente-se e pediremos para os dois - sugeriu. — Assim posso te dar um chute disfarçado por baixo da mesa se for horrível.
— Tanta agressividade - ele comentou. — Isso porque nos conhecemos hoje.
— Não preciso de intimidade para me revoltar com comida. É um assunto muito sério. - Ela piscou, apontando a cadeira logo à sua frente.
A garçonete veio anotar o pedido assim que viu o jogador com a mão erguida. Ele frequentava tanto o lugar que todos já conheciam até o ponto de preferência da carne que o rapaz pedia. Nesse meio tempo, havia voltado a teclar freneticamente, criando uma sinfonia com a repetição dos barulhos de sua digitação.
— Sem querer parecer intrometido, mas o que a senhorita tanto faz nesse notebook?
A fotógrafa sorriu de uma forma quase brincalhona antes de virar a tela do objeto para que ele visse. Ali estava uma foto dele entrando na coletiva de imprensa, capturando o momento exato em que ele acenou para todos. A definição da imagem era tão perfeita que ele podia visualizar a pequena cicatriz que conseguira no dia anterior ao cortar um mísero trecho de pele perto da orelha direita com a lâmina recém trocada de seu barbeador. O trabalho era realmente impecável. A mulher tinha razão para se vangloriar.
— A foto ficou incrível. Parabéns!
— As fotos - corrigiu antes de apertar as setas do teclado para mostrar as outras imagens.
Ele riu ao ver a última fotografia. Ela havia conseguido capturar o momento exato no qual ele a avistara entre todas as outras câmeras. Ele carregava um sorriso especialmente largo no próprio semblante e tinha os olhos focados precisamente nas lentes.
— Explique para mim que raios é isso. Você não pode simplesmente sorrir para a minha câmera. Era para parecer espontânea!
— Por que não? A foto está bem longe de estar ruim.
bufou.
— Não é assim que o meu trabalho funciona. Não posso colocar essa foto no arquivo que tenho de enviar aos meus chefes.
— Coloque como plano de fundo do notebook então. Ficará maravilhosa, tenho certeza.
Ele só riu ainda mais ao perceber o olhar de ódio que parecia fuzilar a sua alma. Se fosse possível sugar a existência de alguém apenas com os olhos, Philippe tinha certeza de que já não estaria mais vivo.
— Quando você percebeu que queria ser fotógrafa? - Ele tentava arranjar meios de dar prosseguimento a uma conversa.
— Quando você percebeu que queria ser jogador de futebol? - rebateu, arqueando a sobrancelha.
— Acho que foi na primeira vez em que deixaram uma bola nos meus pés - admitiu.
— Acho que foi na primeira vez em que deram uma câmera fotográfica nas minhas mãos - ela o imitou. — Destruí o filme da minha tia no batizado da minha prima. Não sei porque ela confiou que uma criança curiosa não mexeria em algo que simplesmente largaram na mão dela sem supervisão.
— Com certeza a culpa foi totalmente dela - Coutinho concordou. — Eu perdi umas três bolas tentando encobrir o goleiro. Acho que encobri outras coisas também. Pelo menos, nenhuma das bolas era minha.
— Culpa dos donos, então. Jamais deveriam ter confiado em um perna de pau como você.
— Exatamente.
Os dois riram até serem interrompidos pela garçonete que colocava, sobre a mesa, os dois pratos fumegantes. Em poucos instantes, o cheiro já tinha tomado o ambiente por completo. sentiu seu estômago roncar em resposta àquele estímulo olfativo tão agradável e apetitoso. Era realmente de dar água na boca.
— Hora da verdade - ele declarou, posicionando os talheres entre as mãos. — Espero que esteja preparada para uma das maiores experiências gastronômicas da sua vida.
— Acho melhor esconder essas canelas, Pequeno Mágico. Não quero ser a responsável por tirar o craque da Copa, mas não posso ir contra a minha palavra.
ainda apreciou o aroma dos temperos por algum tempo antes de levar a primeira garfada à boca. Quando finalmente o fez, teve de admitir para si mesma que aquela era de fato uma das melhores coisas que ela tinha provado.
— O que achou? - Coutinho disfarçava um sorriso, tendo certeza de que ela tinha adorado. Era impossível não gostar.
— Suas pernas estão a salvo - ela admitiu. — É uma pena só conhecer essa maravilha agora.
— Nesse caso, de nada.
Continuaram a comer e a jogar conversa fora. Entre risadas e olhares furtivos, a noite passava mais rápido do que eles esperavam. Escorria por entre os dedos como a areia de uma ampulheta.
— Qual foi o evento que você mais gostou de cobrir?
— Acho que, ao longo de toda a minha carreira fotográfica esportiva, o mais legal foi cobrir a primeira temporada de King James nos Los Angeles Lakers.
O jogador abriu a boca como se estivesse profundamente ofendido. Levou a mão ao peito para acentuar seu momento dramático.
— Basquete? É sério? Pensei que você fosse do futebol!
— Qual parte de “eu sou uma fotógrafa esportiva” você não entendeu? Basquete, futebol, tênis, hóquei… É só me pagarem que lá estarei com as minhas câmeras.
— Mercenária - ele murmurou.
pegou o papel que antes embrulhava seus talheres e arremessou uma bolinha diretamente no rapaz.
— Bela jogada - ele desdenhou, pegando o papel que havia caído no banco. — Aprendeu como? Com seus amigos do basquete? Eles te arremessam dinheiro? É por isso que você gosta mais deles?
— Dinheiro? Tipo aquele que tirou você do Liverpool? Quem é o mercenário agora?
Coutinho encheu o peito para rebater aquelas perguntas, mas desistiu no meio do caminho, exalando o ar de forma derrotada.
— Não tenho argumentos contra isso.
riu, estudando o peito e acenando a vitória.
— Sinto muito, querido. Eu preciso ganhar dinheiro para alimentar os meus filhos.
O rapaz arqueou a sobrancelha, não conseguindo disfarçar a surpresa em seu semblante.
— Você tem filhos?
— Tenho três - ela contou.
— Trigêmeos? Você parece muito nova para passar por três gestações diferentes.
A mulher riu alto ao ouvir aquilo.
— Na verdade, os três são de ninhadas diferentes, sim.
— Ninhadas? - Ele perguntou sem entender muito bem.
— Claro. Três gatinhos de ninhadas diferentes. A Marta é a mais velha. Lebron é o do meio. O caçula chama Hazard.
— Você deu o nome de um jogador belga para o seu gato? Sério? Eu não acredito que passei o dia ao lado de uma traidora.
— Eu sabia que você ia se irritar. É brincadeira. O nome dele é Ronaldo.
— Tipo o Fenômeno?
— Não. Tipo eu olhei para o gato e achei que ele tinha cara de Ronaldo. Simples assim.
— Você é maluca!
— Eu sei. - Ela sorriu simplesmente.
Philippe chamou a garçonete, pedindo que ela trouxesse o cardápio específico de sobremesas. Se aquela noite havia começado com ele assumindo o posto de guia turístico gastronômico, ela deveria terminar da mesma maneira.
— Se vamos continuar nessa aventura pelos sabores catalães, devo sugerir a sobremesa mais famosa daqui: a crema catalana. Só precisa decidir se você quer dividir a sobremesa ou pedir duas.
— Olhe bem nos meus olhos e me diga se eu pareço alguém que divide sobremesa.
O jogador riu, concordando e assumindo que também não fazia esse tipo. Não que os seus preparadores físicos devessem ficar sabendo que ele estava se aproveitando desses pequenos furos na dieta. Uma bomba de gordura e açúcar não parecia ideal para o físico que ele deveria manter, mas era uma perdição para seu paladar e sua satisfação.
— Isso me faz lembrar de crème brûlée - ela admitiu ao provar.
Coutinho, entre risos, fez sinal de que ela deveria falar mais baixo.
— Você está em território pouco amigável. Não compare as receitas, por mais que você tenha razão.
acabou concordando, mesmo que estivesse achando aquela história um tanto exagerada. Sabia que deveria ser mais uma das graças dele.
— Bom, eu preciso ir. Meu voo é amanhã bem cedo e eu ainda preciso organizar as suas fotos para enviar para o meu chefe. Até porque eu certeza de que vai ser um trabalho meio difícil escolher em quais delas você está apresentável o suficiente.
— Vou fingir que não estou ofendido.
Dividiram a conta do restaurante e seguiram os seus respectivos caminhos. O táxi que ela pedira chegou inesperadamente rápido. Talvez até mais do que ela realmente queria.
— Foi um prazer conhecê-lo - ela decidiu se despedir antes de abrir a porta do carro que a aguardava. — Obrigada pelas dicas durante o jantar. Significaram muito para o meu estômago.
— Bom, o prazer foi meu de poder te apresentar a algumas maravilhas desconhecidas desse mundo. Talvez eu te encontre em algum outro evento logo.
— Acho que não. Talvez eu volte para o basquete - ela zombou antes de entrar no táxi e sumir do campo de visão do jogador.


+++



Ele estaria mentindo se dissesse que não estava com sono. Os olhos pesavam, ardiam, mas eles não se fechavam da forma como deveriam. Sua cabeça ainda estava a mil com todos os acontecimentos do dia. Em um impulso, fez o movimento mais óbvio: puxou o celular do criado-mudo. Acabou decidindo abrir o instagram, percebendo que sua última foto publicada havia ultrapassado dois milhões e meio de curtidas.
Foi então que percebeu a pequena lupa e sua curiosidade começou a incomodá-lo. Digitou “ ” e clicou no primeiro resultado. Pela foto de perfil entre vários artigos esportivos, ele sabia exatamente que se tratava dela.
Permitiu que seu dedo indicador descesse pela tela, mostrando todo o perfil dela. Na grande maioria delas, havia sempre uma credencial visível em algum grande crachá. Riu das caretas, das fotos divertidas em que ela gargalhava ao lado da família. Retornou para o topo da tela, clicando naquele grande botão azul de “Seguir”.
Em um ato de ainda mais curiosidade, ele pesquisou o nome de usuário dela entre os próprios seguidores, percebendo que ela já o seguia. Riu sozinho e decidiu enviar uma mensagem direta. Era mais forte que ele.

“Pelo jeito, a Senhorita-Prefiro-Basquete tem algum interesse em certos jogadores.”

A resposta da mulher veio após dois minutos.

“Eu sigo todos os jogadores da Seleção de 2018 e pretendo seguir os novos convocados. Não se iluda.”
“Inclusive, parece que foi o senhor que veio atrás de mim, não?”

O rapaz riu, virando-se sobre o colchão.

“Culpado. Não tenho argumentos contra isso.”

respondeu da forma mais simples e previsível.

“Eu sei!”

O fato era que ainda havia uma grande lista de coisas que ela não sabia. Principalmente sobre o que ainda estava por acontecer. O que ela tinha conhecimento pleno naquele momento era de que o voo realmente sairia muito cedo e ela deveria ter o máximo de sono que pudesse antes de se esmagar entre poltronas apertadas por longas e exaustivas horas.


Capítulo Dois

Substituição



estava desesperada. Todas as gavetas de sua sala estavam abertas e prestes a caírem do armário. Até o seu porta-lápis já estava completamente revirado, com todo o seu conteúdo espalhado pela mesa. O que mais faltava? Retirar cada tecla do notebook não parecia poder ajudar muito. Que tipo de pessoa conseguia perder as chaves do carro daquela forma?
Ao ouvir alguns toques na porta, gritou um “Pode entrar!” quase automaticamente, sem parar de revirar a papelada das gavetas.
— Mas que zona é essa? Eu não sabia que tinha um furacão passando pela cidade - a voz feminina finalmente chamou a atenção de , fazendo com que ela olhasse para a mulher que acabara de entrar em sua sala.
— Eu perdi a droga da minha chave - ela explicou, bufando.
A outra olhou em volta, dando de cara com a grande bolsa preta logo na poltrona que ficava ao lado da porta.
, você já pensou em procurar na sua bolsa?
— Você acha que eu sou idiota? É óbvio que eu não colocaria a chave dentro da bolsa!
— Eu nunca disse dentro da bolsa. Eu estou dizendo que talvez você possa ter encaixado a bendita no chaveiro da bolsa. O que, por acaso, foi exatamente o que você fez.
olhou para a bolsa, vendo suas chaves lindamente penduradas junto às alças do acessório. Pareciam sorrir em zombaria para ela. “Quem é a idiota mesmo?”.
— Você é uma péssima melhor amiga, Kirsten - ela enfatizou o nome da outra, sabendo que ela o odiava com todas as forças.
— Vai usar essa carta? Vai mesmo caçoar da pobre coitada com a família germânica sem noção? Isso só mostra que é você quem é a péssima melhor amiga aqui. Aliás, por que esse desespero todo para ir embora?
— Porque o meu horário acabou há uma hora, Kika, e eu achei que tinha perdido a porcaria da chave. Isso foi desesperador o suficiente para alguém que sequer sabe se ainda tem a chave reserva.
Kika riu, levando a bolsa para a amiga.
— Precisamos conversar.
— Não sabe como eu tenho medo dessas suas conversas - admitiu.
— Não sabe como eu não me importo, - a amiga respondeu. — Vamos tomar um café. Eu pago.
As duas seguiram caminhando até a cafeteria que ficava na esquina da rua seguinte. Os funcionários da empresa frequentavam tanto o local que já eram conhecidos por todos que trabalhavam ali. Os garçons e garçonetes já tinham os pedidos mais comuns praticante decorados.
— Um expresso duplo e um frapuccino de chocolate com base de creme, acertei? - A atendente perguntou, recebendo a confirmação das duas mulheres. — Já trago. Fiquem à vontade.
Sentaram-se em uma mesa do lado de fora, aproveitando o tempo levemente fresco que tornava o ambiente externo incrivelmente agradável. fez questão de colocar as chaves no bolso frontal da bolsa, tendo certeza de que dessa vez sabia aonde ela estava.
— Comece a falar antes que eu fuja daqui bem rápido. E você bem sabe que eu detesto correr.
— Bom, na verdade, eu preciso começar te dando uma notícia - Kika disse. — Eu não quis contar para ninguém porque não queria más vibrações e nem arriscar criar expectativas demais só para que tudo desse errado no fim das contas. Amiga, você não vai acreditar.
— Você comprou uma casa na praia? Uma casa na praia em Malibu? Miami? Você vai me dar a casa na praia de Miami?
— Lógico que não! Eu tenho cara de quem tem dinheiro para comprar a droga de uma casa na praia? Nós temos o mesmo emprego, sua idiota.
— Faz sentido - ponderou. — Agora, conta isso logo!
— Eu estou grávida! - Kika soltou de uma só vez, sem conseguir segurar a sua animação. A amiga, por sua vez, não esboçou reação alguma. — Eu sabia que ia ser um choque para você.
— Na verdade não. Todo mundo meio que já sabia. É que você está meio… - Ela tentou representar com uns gestos aparentemente um tanto desconexos. — Arredondada.
— Pensei que você soubesse que não se deve chamar uma mulher de gorda. No dia em que esses seus frapuccinos gordurosos se encaminharem para a sua barriga e decidirem se amontoar, eu farei questão de ser a primeira a esfregar na sua cara.
revirou os olhos, enquanto ria.
— Eu jamais falaria sobre gordura até porque isso está muito longe de definir alguém ou representar algo que realmente importe. Quando eu digo arredondada, é porque parece que você engoliu uma melancia mesmo. Se não fosse um bebê, eu te recomendaria um infectologista.
— Certo. Enfim, essa foi a primeira notícia. Tem outra coisinha…
A garçonete entregou os pedidos, ao que elas prontamente agradeceram. fez questão de tomar um longo gole enquanto fitava a amiga. Sabia que ela tinha calafrios só de pensar na composição daquela bebida.
— Que outra coisinha seria?
— Bem, o médico que vem me acompanhando disse que a minha gestação tem um pouco de risco por conta de oscilações de pressão e glicemia principalmente. Por causa do histórico familiar, ele acha melhor eu ficar de repouso total. Eu achei uma decisão meio extrema e desesperada, mas minha família toda me mataria se eu não obedecesse cegamente às ordens médicas. Isso significa que a nova mamãe está entrando em licença adiantada.
— Eu também te mataria se você não cuidasse direito do meu afilhado. Trate de descansar e ficar com os pés para cima até que ele esteja fora de você.
— Controle-se. Até porque nem é esse o ponto. - Kirsten sorriu amarelo, sabendo que a amiga a xingaria para o resto de suas vidas com total razão.
— Ah, não. O que você fez agora?
— Bom, tenho certeza de que você sabe quem iria fazer a cobertura dos treinamentos e amistosos da Seleção antes da Copa. E, como estarei dormindo plenamente, eles pediram para que eu indicasse alguém de confiança para me substituir. Você tem duas chances para adivinhar quem eu indiquei.
fuzilou a amiga, pensando se seria um crime grave demais enforcar uma gestante.
— Eu não acredito que você fez isso!
— Ah, qual é? É um projeto absurdo de importante! Vai dar um destaque absurdo para a sua carreira. Todos os olhos estão voltados para a Seleção nesse momento e isso significa que eles estarão completamente voltados para o seu trabalho.
— É exatamente esse o problema, Kika! É responsabilidade demais! Qualquer trabalho que esteja minimamente atrás da mais completa perfeição e eles arrancarão o meu pescoço com uma serra elétrica em praça pública.
— Pode parar com esse drama! Não é assim que a banda toca, meu anjo. Você vai e se sairá incrivelmente bem como sempre.
— Não aceito a substituição. Ponto final.
Kirsten puxou as mãos da amiga, fazendo aquela careta esquisita de cãozinho que havia sido chutado da mudança. Aquele semblante de dó definitivamente não combinava em nada com ela.
— Por favor, ! Eu nunca te pedi nada! É como em um jogo de futebol, sabe? Eu tenho direito a três substituições.
— Não pediu?! Kika, essa é literalmente a quarta vez que você me pede para te substituir.
— Você está mentindo. Eu não me lembro disso, não.
— Último jogo da final entre Golden State Warriors e Cleveland Cavaliers, jogo em Wimbledon entre Novak Djokovic e Kevin Anderson e a coletiva do Neymar antes de ele ser transferido para o Paris Saint-German. Você já gastou todas as suas substituições.
— Então, é um amistoso. Tenho mais três trocas. Por favor, ! Você não pode recusar um trabalho desses. Se não por mim, então faça pelo seu afilhado. Ele vai ficar tão orgulhoso da madrinha. - A mulher fez um biquinho, enquanto repousava as mãos sobre a barriga de forma a obrigar a olhar para aquele ponto.
— O que você me pede sorrindo que eu não faço chorando?
— Eu sabia que você aceitaria! Estaremos aqui torcendo por você. Sabe que te amamos muito, não sabe?
— Eu sei. - Ela revirou os olhos antes de voltar totalmente sua atenção para o seu gorduroso e delicioso frappuccino. Afinal, aquilo era o mais próximo de um consolo que ela conseguiria depois de toda aquela ideia insana.


+++



Os últimos três dias tinham servido basicamente para que os jogadores fossem recebidos e instalados. Por jogarem em clubes e campeonatos distintos - com calendários diferentes -, os voos também eram outros. Essa separação só conseguiu aumentar ainda mais a euforia deles ao se reencontrarem no CT da Granja Comary.
Philippe e Gabriel saíram do vestiário antes dos companheiros. Ao pisar no campo, tiveram que respirar fundo para absorver todas as lembranças que Teresópolis lhes trazia.
— Dessa vez vai ser diferente - Jesus disse, apoiando a mão no ombro do amigo. — Tenho certeza disso.
Antes que Coutinho pudesse concordar ou sequer se manifestar, os demais jogadores já estavam entrando em campo, acompanhados do treinador e do preparador físico.
— Estão todos aqui? - Tite perguntou.
— Não - Marcelo respondeu. — Falta um.
— Bom dia, time! Achei que a recepção seria um pouco mais calorosa - a voz masculina interrompeu a conversa, fazendo com que todos dessem atenção para seu dono. Exatamente o que ele queria.
— O ousado chegou. - Marcelo riu e foi cumprimentar o rapaz. — Sempre o último, Ney.
— Se eu não for o último, vocês não me dão atenção - Neymar respondeu simplesmente, arrancando risadas do time.
— Guardem as brincadeiras para depois - Tite ordenou. — Tenho um anúncio a fazer. Temos um novo auxiliar técnico.
Todo o time se entreolhou, estranhando a novidade que vinha de supetão.
— Existe uma pessoa que não podia ficar longe dessa Copa e eu tive que trazê-lo de volta. Então, dei esse cargo a ele. Acho que vocês ficarão felizes em recebê-lo de volta.
Na porta da saída do vestiário, Thiago Silva estava escorado, olhando a todos com seu semblante risonho.
— Bem-vindo de volta, Capitão - Marcello cumprimentou antes de todos partirem para abraços e tapinhas nas costas de Thiago. Os anos passavam e ele continuava sendo absurdamente querido por todos.
— Quero também que vocês recebam bem os novatos. Não quero saber de intrigas ou mal estar. Vocês são todos um time agora. Vinícius, Rodrygo, Lucas, Paulinho e Pedrinho, vocês são muito bem-vindos à nossa família.
O time todo aplaudiu, vendo os mais novos ficando envergonhados com a atenção virada a eles. Coutinho, Marcelo e Jesus riram, desviando o olhar. Estavam aguardando o momento exato de retirar do bolso aquilo que guardaram com tanto amor e carinho. Talvez nem tanto assim.
— Bom, essas foram as boas vindas formais e oficiais - Marcelo explicou. — Agora, é hora das boas vindas da equipe.
Os veteranos retiraram dos bolsos traseiros da bermuda as embalagens de espuma de barbear e partiram para cima dos novatos sem dó ou piedade. Em poucos instantes, as risadas já haviam se tornado estridentes e indistintas entre os gritos dos trapaceiros e de suas vítimas. Afinal, não seria uma recepção brasileira sem um leve trote.
— Às vezes eu me arrependo tanto de ter aceitado esse emprego - Tite comentou. — Para a sorte de vocês, eu já não estava mesmo esperando um treino decente por hoje.
— Ah, professor - Neymar caçoou. — A gente sabe que você não vive sem esse time.
— Eu vou ali fora atender uma ligação e já volto - Thiago anunciou, deixando os companheiros para trás.
— A partir de segunda-feira, eu quero vocês aqui desde cedo sem falta. E venham alimentados, sem ressaca e sem dores musculares. Vocês sabem que eu estou falando sério.
— Estaremos aqui - Coutinho garantiu. — Estamos completamente comprometidos e daremos o nosso máximo dentro e fora de campo.
— Nós temos um time muito forte e competente - Tite afirmou. — Capacidade de vencer vocês têm. Vontade e garra também. Trabalharemos duro para entrosar o time e para corrigir os pequenos detalhes.
O silêncio reinou por ali. O respeito que cada um ali nutria por Adenor era simplesmente incomensurável. Se ele dissesse um “a”, não existiria alguém ali que se levantaria para retrucar um “b”. Não havia mudança de ideia, convencimento ou palavras ditas uma segunda vez. Até porque, ao fim do dia, todos ali sabiam que ele estava certo e mesmo os piores e mais brutos puxões de orelha tinham uma motivação válida.
— Alguém morreu? Vocês ficaram em silêncio - Thiago analisou. — É um momento ruim para eu apresentar a vocês uma amiga minha?
— Aqui? Agora? - Jesus perguntou. — Como assim?
— Ela é fotógrafa e ficou responsável por fazer a cobertura dos treinamentos abertos e dos amistosos. Foi ela quem me ligou, na verdade. Estava aí na frente perdida e pediu ajuda para encontrar o hotel.
— E pediu ajuda logo para você? - Neymar perguntou, sorrindo de forma maliciosa.
— Idiota. Talvez ela tenha pedido logo para mim porque sabia que era aqui que eu estava, seu otário. Enfim, o tempo de decisão de vocês acabou. Vou buscá-la.
Os rapazes cruzaram os olhares, tentando entender o que esperar de tudo aquilo. Não era como se fosse uma ocasião daquelas que sempre acontecem.
Thiago logo estava de volta, esperando a moça que o seguia enquanto arrastava a grande mala cujas rodinhas tinham decidido simplesmente emperrar entre os blocos de concreto.
— Pessoal, essa é a… - ele começou, mas foi interrompido.
?! - Coutinho não sabia se gritava ou se engasgava. Era coincidência demais para ser verdade.
— Isso que ele disse - Thiago concordou, estranhando. — Na verdade, essa é uma novidade para mim. Eu não sabia que vocês se conheciam.
— Nós nos conhecemos em uma coletiva de imprensa - explicou. — Logo que saiu a convocação de vocês, eu fui mandada para Barcelona para cobrir a entrevista. E oi para vocês todos. É um prazer conhecê-los.
— Eu também não sabia que vocês dois eram amigos - Coutinho disse para Thiago. — Acho que estamos todos descobrindo algumas coisas novas hoje.
Neymar e Marcelo abaixaram as cabeças, tentando esconder a risada - e evitar que ela saísse do controle. Os pequenos indícios de ciúmes não poderiam ser mais cômicos para seus companheiros.
— Enfim, eu queria que vocês se familiarizassem com ela porque a estará conosco por algum tempo. A amiga dela que faria a cobertura teve que ficar de repouso para evitar complicações durante a gestação e mandou essa moça incrível aqui para substituí-la. Ela faz um trabalho maravilhoso que eu tive prazer de apreciar várias vezes. Sem contar que ela é super bacana, então tenho certeza de que essa temporada será agradável para todos nós. Certo?
— Eu acho que o Coutinho deveria contar mais para a gente sobre como foi esse encontro deles - Neymar pediu, sabendo que estava prestes a instaurar um grande mal estar.
Philippe engoliu em seco enquanto mordia os próprios lábios. riu, sentindo as bochechas corarem levemente pela vergonha.
— Eu achei que ela estivesse perdida e acabei falando com ela - Philippe disse. — O que foi exatamente o que eu já tinha dito.
— E foi só isso? - Marcelo perguntou, arqueando as sobrancelhas em desconfiança. — Não sei, não. Estou achando que aconteceu mais alguma coisa.
A fotógrafa riu, encostando as malas em uma das paredes que sustentavam a arquibancada. Voltou-se para o grupo, apoiando seu braço sobre os ombros de Thiago.
— O amigo de vocês acabou aparecendo no restaurante enquanto eu estava trabalhando. Disse que era o restaurante preferido dele e me deu algumas dicas gastronômicas. Acabamos jantando juntos por isso, mas é realmente esse o fim da história. Eu fui embora cedo porque tinha o voo no outro dia e tudo mais.
— Então, vocês ficaram conversando durante o jantar? - Neymar continuou dando corda, esperando que o companheiro de time a agarrasse e se enforcasse.
— Um pouco - Coutinho concordou. — Basicamente sobre trabalho.
— E gatos - completou, rindo.
— Eu adoro gatos - Rodrygo soltou.
— Prometo que te mostro umas fotos deles depois - ela jurou.
— Agora que as apresentações foram devidamente feitas, vou levá-la até o hotel.
— Tchau, rapazes. - Ela acenou cordialmente. — Acho que nos veremos em breve, então talvez seja melhor ficar com um “Até logo”.
Quando os dois estavam prestes a sair de vista, Neymar gritou ambos.
— Eu estava aqui pensando, sabe?
— Coisa boa daí não sai - Firmino comentou enquanto ria, recebendo um dedo do meio do companheiro.
— Eu estou falando sério, ok? Nós tínhamos combinado de ir a um barzinho aqui perto no sábado. Talvez ela possa ir junto. Seria legal já que provavelmente estaremos por perto nas próximas semanas.
— Pensei que fosse só para os amigos - Coutinho murmurou.
— Ela é amiga do Thiago e vai ser nossa amiga agora - Neymar remendou. — Não precisa ficar se sentindo ameaçado, irmão. Não é como se nós fossemos trocar você por ela. Quer dizer, eu até gostaria, mas…
— Bom, eu estou livre - ela afirmou. — Digo, se não for incomodar vocês ou criar um climão, eu iria sem problemas. Se vocês quiserem, claro.
— Queremos - Marcelo assegurou. — Você está realmente convidada.
— Vai ser legal - Casemiro comentou. — É só um bando de marmanjos tentando relaxar e jogar conversa fora antes que toda a pressão comece de vez, sabe? É quase como aproveitar os últimos dias de liberdade.
Todos riram com o comentário, tentando não ligar para o quão verdadeiro aquilo era no fim das contas. Foi então que Tite pigarreou, finalmente tomando partido naquela conversa toda.
— Eu não me lembro de ter autorizado o meu time a ficar saindo à toa desse jeito. Vocês podem me lembrar de quando foi que isso aconteceu? Talvez seja a idade que esteja deixando a minha memória meio fraca e comprometida.
Os jogadores cruzaram os olhares como se estivessem tentando decidir quem se responsabilizaria pelos próximos minutos de tentativas de convencimento e um olhar de pena que ninguém compraria.
— É realmente só para espairecer - Thiago tomou a dianteira. Uma vez capitão, sempre capitão. — Eles não vão perder a linha. Eu estarei lá, prometo controlar a situação se algo parecer prestes a sair do controle.
— Você vai controlar as coisas antes de elas sequer cogitarem sair do controle - Tite corrigiu. — E estejam avisados: se alguém aparecer alterado para o treino, eu juro que deixo vocês perderem o amistoso por ausência.
— Sim, senhor - eles responderam praticamente em uníssono.
— Não vamos te decepcionar - Marcelo assegurou.
Com o ambiente mais calmo e razoável, Thiago voltou a pedir licença para acompanhar a amiga até o hotel. Quando os dois já haviam deixado o centro de treinamento, os jogadores começaram a empurrar Coutinho na brincadeira. Às vezes a comissão técnica se perguntava se não estava, por engano, coordenando a seleção sub-17. Em momentos como aquele, era como se a maturidade de todos fosse líquida e estivesse evaporando pelo calor do Rio de Janeiro.
— Não acredito que depois de todos esses anos você ainda não aprendeu, menino Coutinho - Neymar reclamou.
— Não aprendi o quê?
— Que quando você conhece uma mulher legal, você conta para os seus amigos para que a gente possa ficar feliz por você - Jesus explicou. — Qual é, cara? Até eu sei disso.
— É para isso que os amigos servem - Casemiro concordou. — Para encherem o seu saco, mas também para ficarem torcendo por você.
Philippe revirou os olhos para os colegas. Não queria que eles ficassem sabendo daquele encontro. Até porque não esperava reencontrar a fotógrafa. Ao menos, não tão cedo.
O jantar havia sido incrivelmente agradável para ele. Ela era divertida, linda e completamente decidida. Talvez, fosse exatamente esse último o traço que mais encantara o rapaz tão instantaneamente. Fato é que ele pensava ser apenas uma ruptura prazerosa na rotina e, portanto, ninguém precisava mesmo saber sobre o que tinha acontecido. Agora, como em uma coincidência zombeteira do universo, ela estava lá novamente. E, dessa vez, não parecia que iria embora tão cedo.
— Ela é bem bonita - Neymar enfatizou.
— E você é bem comprometido - Firmino emendou. — Além disso, o Coutinho viu primeiro.
— Nós mal nos conhecemos - o rapaz decidiu participar ativamente da conversa ao ser mencionado. Não havia para onde fugir, afinal. Estaria preso com aqueles homens pelos próximos meses, fosse essa a sua vontade ou não. — Só jogamos conversa fora enquanto eu tentei ser simpático e mostrar algumas especialidades catalãs para ela. Foi literalmente só isso que aconteceu.
— E, mesmo assim, você fica todo envergonhado ao comentar sobre isso - Marcelo falou. — Relaxa, rapaz. Se você acha que é exagero da nossa parte, não vamos mais cutucar a onça com vara curta. Não tem mais papo sobre isso. Simplesmente vamos seguir a vida.
— Obrigado - agradeceu verdadeiramente, recebendo os sorrisos dos amigos.
Eles eram insuportáveis muitas vezes, mas sempre souberam a hora de parar. Ao contrário de certas pessoas.
Seu celular vibrava com a notificação da mensagem direta no instagram.

“É uma pena que ninguém se importe com basquete nessa época. Não podia negar a proposta e morrer de fome.”

Coutinho riu daquilo que havia praticamente se tornado uma piada interna entre eles. Em alguns segundos, uma nova notificação apareceu no visor:

“P.S.: Se você achar estranho eu ir ao bar com vocês, eu posso inventar uma desculpa para o Thiago. Juro. Não quero atrapalhar o momento de vocês.”

O jogador rapidamente desbloqueou o celular e começou a digitar uma resposta.

“Você ainda vai dar o braço a torcer e admitir que futebol é muito mais legal.”
“P.S.: Sem desculpas. Quero que você vá, sim. Vai ser legal. Espero te ver por lá.”

Ele seguiu para o vestiário, pronto para tirar a roupa ainda impregnada pela espuma de barbear. Antes de trocar a camisa, acabou sorrindo sozinho mais uma vez. Parecia um tonto olhando para aquela tela bloqueada.

“Seu pedido é uma ordem. Estarei lá.”


Capítulo Três

Vai, Malandra!



A voz de Tiago Leifert ecoava por todo o cômodo, facilitado pelo pé direito duplo do ambiente. Quando o apresentador - às vezes narrador, às vezes comentarista, às vezes piadista - anunciou um cartão vermelho, as comemorações efusivas de Jesus e Neymar preencheram o ambiente rapidamente, assustando a todos os companheiros. todos os companheiros despreparados para os gritos.
Coutinho se aproximou do sofá que os amigos ocupavam, meneando a cabeça sem acreditar na cena.
— Vocês não acham levemente esquisito o fato de que ambos passaram e continuam passando a grande maioria de seus dias dentro de um campo só para, no tempo livre, jogarem futebol no videogame?
— Nem um pouco - Neymar respondeu rapidamente, sem desgrudar os olhos da tela. Seus dedos mexiam nervosamente pelos botões do controle, driblando cada jogador que aparecia em sua frente.
— Toca aqui, seu fominha! - Jesus reclamou.
— Agora não, irmãozinho. Esse gol é meu!
”E ele chuta a bola por cima do gol! Que finalização foi essa, Caio Ribeiro?” - Leifert se pronunciou novamente, fazendo com que Gabriel inflasse as narinas ao encarar seu parceiro de jogo após o lance horroroso.
— Isso é sério? Eu estava completamente livre!
— Culpa do Coutinho que nasceu com o pé torto.
Philippe permitiu que o queixo caísse ao receber aquela agressão sem qualquer sentido ou fundamento.
— Com certeza. Você chuta a bola como se fosse um coco e a culpa é minha? Realmente faz muito sentido.
— Se nós perdermos o Hexa a culpa é sua - Neymar respondeu, dando de ombros. — No FIFA, no caso. Se nós perdermos de verdade, culpamos o Alisson e fugimos de mansinho.
O goleiro interrompeu seu trabalho de afinar o próprio violão ao ouvir a menção ao seu nome. Pensou repetidas vezes no que deveria responder ao amigo, mas acabou por desistir, sabendo que aquilo não o levaria a lugar algum.
A partida prosseguiu até que Gabriel conseguisse marcar um gol com seu próprio personagem ao fim dos acréscimos do segundo tempo.
— É HEXA! - Eles gritavam, pulavam e dançavam de uma forma um tanto estranha e claramente não combinada.
Firmino, que vinha da cozinha com um copo de suco de caju, desistiu e retornou ao cômodo ao presenciar toda aquela comemoração vergonhosa. A maioria dos companheiros de time já tinha desistido de frequentar um ambiente a um raio de menos de cinco metros dos dois viciados. Era impossível ficar perto deles enquanto o Playstation estava ligado. Foi por isso que Coutinho tomou o controle da televisão e apertou o botão de “Power” sem pensar duas vezes. De fato, ele provavelmente sequer tenha finalizado o pensamento da primeira vez.
— Eu não acredito que você fez isso - Jesus murmurou entre os dentes.
— Pois acredite. Seu amigo leva uma vida para se arrumar e ajeitar o cabelo - Philippe lembrou, referindo-se a Neymar. — E nós temos um horário combinado.
Neymar riu alto sobre toda aquela afirmação. Quer dizer, não que fosse mentira. Ele realmente demoraria um tempo considerável. Mas não era aí que estava a graça.
— Não precisa ficar tão ansioso.
— Não estou. Só queria uma opinião. - Coutinho ergueu dois cabides. — Camisa branca ou azul?
— Branca - os amigos responderam em uníssono.
— Certo. Obrigado. Agora, acho bom o senhor começar a se arrumar se não quiser ficar para trás. E você sabe muito bem que ninguém aqui vai pensar duas vezes em te largar.


+++



estava muito perto de cair da ponta da cama na qual estava esquisitamente sentada. Com uma mão segurando o celular à orelha e a outra ajeitando os coturnos nos pés, sua posição definitivamente não favorecia em nada o seu equilíbrio ou a sua atenção a qualquer uma das atividades que ela se dispunha a cumprir. Estava realmente se esforçando muito para não se estatelar no chão. Um nariz roxo seria um complemento incrível para a sua maquiagem.
Olhou ao seu redor, meneando a cabeça levemente em negação. Era ridículo perceber que ela estava naquele quarto há pouco mais de vinte e quatro horas e já tinha vários de seus pertences espalhados pelo quarto como se tivesse sido assaltada ou vítima de um furacão leve. Talvez não tão leve assim. Era um tanto quanto relativo. E muito vergonhoso também. Sua mãe provavelmente viria com a típica frase pronta: “Por que você é assim?”. Ela também não sabia.
— Sim, Patrick - ela respondia ao homem do outro lado da linha. — Eu estarei no próximo treino aberto.
Seu chefe continuava abarrotando-lhe de perguntas para as quais ele já tinha as respostas. Se havia alguém mais preocupado e cauteloso que ele, provavelmente dispensaria a chance de conhecê-lo. A meticulosidade dele já era um pouco demais para ela.
— Sim, Patrick. Eu trouxe todos os materiais necessários. Sim, Patrick, estou usando protetor solar. Isso é sério?! Até a minha pele é motivo de cuidado seu agora?
— Na verdade, isso fui eu quem perguntou. Ele só estava repassando a mensagem. - Uma voz feminina substituiu a masculina desesperada que a aterrorizava até poucos segundos atrás. revirou os olhos automaticamente ao perceber quem era.
— Kika, pelo amor de Deus. - Ela massageava a própria têmpora, percebendo que todos aqueles questionamentos já tinham conseguido elevar seus níveis de estresse consideravelmente. — Só me diz que você não tomou o telefone da mão do Patrick.
— Qual o problema? Ele não se importa. bufou do outro lado da linha, pensando seriamente em desligar o telefone completamente só para ter uma desintoxicação de toda a loucura do serviço. Não que aquela fosse realmente uma opção para quem precisava se sustentar.
— Ele também é seu chefe, sabia? Você se aproveita descaradamente dele e ele nem se importa. Eu fico boba com isso.
— Talvez ele não se importe porque, na verdade, gosta disso - Kika murmurou ao outro lado da linha. A amiga arregalou os olhos ao ouvir aquela declaração furtiva.
— Que história doida é essa, Kirsten? Pelo amor de Deus, fala que não é o que eu estou pensando. Diz que eu entendi tudo errado.
— Ops, acho que o bebê está chamando. Preciso ir!
— O seu bebê está dentro de você, sua ridícula. Para de graça e volta aqui!
— Tchau, meu amor! Aproveita a viagem e não esquece de usar protetor solar. Beijocas! - E, simples assim, a ligação foi encerrada.
A fotógrafa permitiu que seu corpo despencasse sobre a cama do hotel. Ao menos, o colchão era confortável o suficiente e firme na medida certa. Tinha se impressionado com o milagre de encontrar um canto no qual conseguisse dormir perfeitamente desde a primeira noite. Sua tendência à insônia agradecia imensamente. Ou ao menos agradecera até o momento esquisito que acabara de ocorrer. Teria pesadelos com a simples suposição de que sua melhor amiga poderia ter um caso - sabe-se lá de qual natureza - com o chefe que compartilhavam.
Quando pegou o celular novamente, assustou-se com o horário. Considerando o tempo que levaria para terminar de se arrumar, ela estava prestes a se atrasar e algo lhe dizia que deixar uma seleção inteira esperando não seria uma de suas melhores ideias.


+++



A chegada ao bar escolhido por Thiago parecia a recepção de um grande evento. Não pela atenção, já que o local era um tanto afastado, mas pela quantidade de gente. Sair em grupo significava andar em pelotão pelas ruas do Rio de Janeiro e, para os poucos transeuntes desinformados, aquilo provavelmente parecia um tanto esquisito.
— Mas que droga de buraco é esse? - Firmino perguntou. — Não tem ninguém por aqui!
— Você pensou o quê? - Thiago perguntou. — Que estávamos indo para Ibiza em alta temporada? A última coisa que precisamos é de atenção, não sei se você lembra.
— O amistoso está em jogo e nossa dignidade também - Alisson acrescentou. — O capitão está certo.
Thiago riu, dando tapinhas de leve no ombro direito do goleiro.
— Não sou mais o capitão.
— Sempre será - disse Casemiro. — Agora, será que podemos entrar?
Concordaram e adentraram o estabelecimento. Encontraram um lugar à meia luz, repleto de mesas redondas - com os cardápios postos sobre elas - e prateleiras completamente abarrotadas de bebidas ao ponto de um ser humano normal não ser capaz de contabilizá-las sozinho. Aos fundos, via-se a porta de acesso à cozinha. Mas não era nenhuma dessas coisas que tinha verdadeiramente chamado a atenção dos jogadores. A primeira coisa que se via era um palco completamente iluminado com dois televisores e alguns microfones.
— Um bar karaokê? - Paquetá perguntou. — Isso é algum tipo de pegadinha?
— Calado, novato - Thiago ordenou, quase comicamente de tão exagerado. — Eu achei que seria algo legal e diferente para fazermos em um raro dia de folga como esse. Só se divirtam.
O time se distribuiu pelas mesas, lendo rapidamente o cardápio excessivamente decorado do local. Pediram uma porção grande de fritas para cada um, torcendo para que elas pelo menos fossem sequinhas. Por sorte, eram. E a conversa fluiu naturalmente naquele momento, passando principalmente por uma tentativa de conhecer e entrosar melhor os novos membros do grupo. Se eram uma família, deveriam se sentir verdadeiramente como uma.
O clima entre eles realmente era agradável, mas não tardou a chegar aquela que faltava.
entrou com os cabelos soltos caindo em ondas sobre os ombros. Estava usando seus coturnos com spikes, uma calça skinny preta e uma blusa branca simples, cuja gola “V” estava delicadamente decotada pela echarpe estampada e colorida.
Talvez fosse por sua beleza, talvez fosse porque ela era literalmente a única coisa diferente acontecendo por ali, mas a verdade era que toda a atenção estava voltada para ela naquele momento. Sua feição de incompreensão e vergonha era clara naquele momento. Ser o centro das atenções sem aviso prévio definitivamente não estava entre a lista de suas coisas preferidas.
— Vocês vão ter que me perdoar pelo atraso. Tive algumas coisas do serviço para acertar - ela comentou, antes de colocar a sua bolsa rosada sobre a cadeira que repousava na mesa que Coutinho dividia com Thiago, Neymar, Jesus e Alisson. — Espere aí. Isso é um karaokê? Eu nem aqueci minha voz. É o tipo de coisa que a gente avisa antes.
— Era algum tipo de surpresa esquisita do gênio maligno que habita a mente do Thiago - Coutinho comentou. — Até agora eu não decidi se acho isso uma ideia boa ou não.
— Pois eu decidi - Marcelo anunciou, levantando-se. — , preciso da sua echarpe emprestada. É para um bem maior.
A fotógrafa arqueou as sobrancelhas, sem entender muito bem o que estava acontecendo. De fato, ninguém se arriscava a tentar entender.
desamarrou a echarpe, soltando-a do próprio pescoço antes de entregá-la em total receio para o jogador. Internamente, ficava pensando em quanto gastara com aquele lindo acessório, pelo qual se apaixonara instantaneamente. Foi amor à primeira vitrine. Literalmente. Tinha sentido seu bolso se contorcer em lágrimas por perder tanto dinheiro por um simples pedaço de pano colorido. Hoje em dia, definitivamente não vivia sem ele. Era um xodó completo.
— Não destrói meu bebê - ela pediu, com um biquinho triste.
— Não vou destruir nada. No máximo, alguns corações. - Marcelo piscou antes de correr com a echarpe até o palco. Correu os olhos por algum tempo no monitor enquanto procurava a música sob os olhares curiosos dos demais. Sorriu satisfeito quando a encontrou. — Sentem-se e aproveitem. O show está prestes a começar.
O homem deu as costas ao grupo, enrolando a echarpe emprestado ao redor do próprio pescoço. Com as primeiras notas dos acordes, Marcelo jogou o pano por cima do ombro e lançou seu melhor e mais exagerado olhar sedutor.
— At first, I was afraid, I was petrified. Kept thinking I could never live without you by my side. — Marcelo entoava as palavras com uma voz mais estridente que o normal, arrancando risos e aplausos de todos os ali presentes. — But then I spent so many nights thinking how you did me wrong and I grew strong. And I learned how to get along.
Quando o refrão finalmente chegou, a maior dificuldade tinha se tornado manter as pernas grudadas à cadeira. A escolha musical do jogador tinha destruído qualquer hipótese de que aquilo tudo não virasse uma verdadeira bagunça. Mas, se o intuito era se divertirem, formar um coro desafinado em homenagem ao famosíssimo refrão de Gloria Gaynor era a melhor representação daquele intuito inicial.
Marcelo agradeceu com beijos e aplausos - e até uma reverência torta - pelos gritos que os amigos ofereciam após a sua performance. e Thiago secavam as lágrimas que escorreram pelos olhos no meio de todo aquele riso inesperado é exagerado.
— Eu fiz as honras. Agora, quem vem? - Marcelo perguntou, ainda sobre o palco. Não obteve resposta alguma. — Vou ter que sortear de uma forma madura? Certo, foram vocês que pediram. Uni-duni-tê, eu escolho o Thiago.
— Realmente, muito maduro - Thiago murmurou antes de decidir dar o braço a torcer e aceitar a intimação. — Mas o Firmino vem comigo.
— Eu não tenho nada a ver com isso - o outro reclamou.
— Não estou pedindo.
Firmino revirou os olhos, mas aceitou seu destino. A busca do capitão já tinha destino certo. Sorriu ao clicar em mais um dos grandes clássicos que jamais saíam de época: I Want It That Way
Naquele momento, a fotógrafa não pôde conter a animação que a obrigava a balançar a cabeça de um lado para o outro. Seu coração de fã adolescente jamais saberia lidar com Backstreet Boys. Definitivamente era mais forte que ela.
— Já que, aparentemente, isso virou um amigo secreto ou algum tipo de show de horrores, eu escolho minha querida amiga para cantar a próxima música já que ela está tão animada com a trilha sonora da noite.
quase cuspiu a bebida em sua boca. Ao evitar tal disparate, acabou por se engasgar e entrar em uma crise infernal de tosse.
— Eu te odeio tanto - disse para Thiago assim que conseguiu recuperar sua respiração o suficiente para falar.
— Eu sei que é da boca para fora. - O ex-jogador piscou para ela, permitindo-se rir de sua feição de ódio psicótico.
A mulher subiu ao palco e começou a procurar alguma música que lhe agradasse. Sorriu furtivamente ao encontrar o título conhecido. O problema foi a ideia que se sucedeu.
— Já que eu fui a vítima dessa roleta russa, acho justo eu também poder escolher uma dupla para dividir a vergonha comigo - anunciou.
Gabriel lançou um olhar descaradamente malicioso para Coutinho, como se já estivesse esperando por um momento como aquele. O meia revirou os olhos, fingindo que não era com ele. Fato era que apesar de - tentar - não demonstrar, ele estava nervoso, tomado pela expectativa de ter qualquer tipo de interação direta com aquela mulher que mexia com ele de uma forma que sequer era capaz de definir.
— Quem é a vítima? - Thiago questionou a amiga.
sorriu, enquanto arqueava a sobrancelha. Fez sinal com o dedo, chamando o rapaz que sentava em uma das primeiras mesas à frente do palco.
— Suba, menino Ney.
Neymar subiu rapidamente, acenando para os amigos em uma pose totalmente pomposa. Não conseguiu segurar o riso ao ver a música escolhida na tela.
— Espero que esteja familiarizado - ela disse. — Até porque eu vim aqui para dançar.
— Essa é a vantagem de namorar alguém que é fã declarada - Neymar completou, confirmando com a cabeça.
Ambos deram as costas para o público, antes de a fotógrafa jogar os cabelos sobre o ombro, puxar o microfone e soltar a famigerada frase:
— Vocês pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje, né?
A batida de “Vai, Malandra” soou pelas caixas de som instantaneamente, de forma que ambos começaram a acompanhar a coreografia da melhor forma que podiam. Neymar se movia de forma um tanto desengonçada, exagerando propositalmente para acentuar a comicidade da situação. Ela, por sua vez, estava se divertindo verdadeiramente. Se havia uma coisa nessa vida que ela amava - além dos gatos, dos esportes e da fotografia -, essa coisa era dançar. E dançava como se não houvesse amanhã. Afinal, quem realmente garantia que haveria?
Seus quadris se movimentavam precisamente, completamente embalados pelo ritmo chiclete do hit de Anitta. Desde que ela começara a dançar, tudo o que Coutinho tentou fazer foi desviar o olhar. Era impossível. Como em algum tipo de hipnose. Não conseguia evitar de se sentir como um daqueles pequenos insetos que seguem inevitavelmente em direção à luz mesmo sabendo que aquilo significava a própria destruição. Era como Ícaro destruindo as suas tão estimadas asas ao voar perto demais do Sol. Tudo o que ele precisava era de uma leve rotação de cabeça, mas aquele simples gesto era complicado demais para sua pouca força de vontade e escasso poder para “enfrentar” aquilo. Não queria enfrentar. Era o seu paraíso pessoal e seu inferno particular, corroendo-o em meio a todos. Parecia inconsequente pensar naqueles efeitos, dado que se conheciam há tão pouco, mas não era algo passível de ser ignorado. Não mais.
Philippe mal percebeu quando a música acabou. Só voltou a si quando a mulher voltou a ocupar a cadeira em sua mesa, com um sorriso completamente satisfeito. Ela abanava o rosto com uma mão, enquanto virava o resto de seu drink que deixara sobre a mesa de uma só vez.
— Isso não é água, querida - Thiago avisou.
— Será que meu amigo lindo não gostaria de ir até o bar conseguir uma garrafa de água para mim? Eu estou tão cansada. É por isso que eu não saio de salto para esse tipo de evento.
— Para dançar até quase morrer? - Neymar perguntou.
— Não. Na verdade, é para não destruir os meus joelhos enquanto eu danço até morrer.
Thiago logo retornou com a garrafa de água pela qual ela agradeceu de coração. Alisson se voluntariou para cantar um sertanejo universitário pouco conhecido qualquer e arrastou Jesus consigo. Se o goleiro tivesse seu violão ali naquele momento, a noite de cantoria poderia durar muito mais de sua parte.
A mulher aproveitou o entrosamento do grupo para se desvencilhar até o bar para descobrir se tinha algum tipo de vodca extra forte por ali. Toda vez que a imagem criada por seu cérebro de Patrick e Kika voltava, ela pensava se um coma alcoólico seria realmente muito ruim.
Quando sua bebida finalmente foi colocada à sua frente, uma voz conhecida a impediu de virá-la automaticamente como gostaria.
— Se você pretende se embebedar, não pode fazer isso sozinha - Coutinho disse antes de ocupar o banco ao seu lado e se apoiar no balcão para pedir ao barman a mesma bebida. Ela riu e meneou a cabeça.
— Achei que vocês tinham uma política de não beber ou causar problemas.
— Não é um problema se eu não tiver uma ressaca mortal. - Ele deu de ombros.
— Nem me fale de ressaca. Da última vez, eu passei um mês inteiro enjoando só de ouvir alguém falar sobre vinho branco.
— Ressaca de vinho branco é uma desgraça - Coutinho concordou. — Agora, um brinde a esse momento peculiar.
A mulher concordou, antes de levantar sua dose e virá-la. O sabor que descia por sua garganta lhe oferecia a exata queimação que ela buscava com tanto desejo. Às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é de um pouco de álcool. E de uma boa companhia para encher a cara.
Foi assim que, sem perceber, foram para a segunda dose. E para a terceira. Para a quarta. Calma… Já estavam na sexta?
— Vamos jogar “Primeira resposta” - Coutinho convidou.
— E o que seria isso?
— Um de nós faz uma pergunta pessoal ao outro e o outro deve dizer a primeira resposta que lhe vier na cabeça. De acordo?
A fotógrafa riu alto, soltando algo que já parecia um meio soluço.
— Em primeiro lugar, o nome do seu jogo é ridículo. Em segundo lugar, eu não vou responder perguntas pessoais nesse estado! Eu tenho uma reputação baseada na minha seriedade e profissionalismo.
— Entendi. Então, qual a comida mais nojenta que você já comeu por misturar coisas aleatórias?
— Batata frita e geleia de uva - ela respondeu rapidamente, antes de se dar conta do que estava acontecendo. — Ei! Eu disse que não ia jogar! — Já jogou - Coutinho deu de ombros, antes de fazer uma careta de falsa inocência. — Anda, é a sua vez.
— Qual a profissão mais diferente que você cogitou quando criança?
— Fatiador de frios do supermercado.
A mulher engasgou com a própria risada, sentindo o ar lhe faltando. O jogador conteve a própria risada, enquanto balançava a cabeça negativamente.
— Nunca zombe dos sonhos perdidos de uma criança - ele a repreendeu. — Livro favorito na adolescência.
— Harry Potter e, se você disser algo de ruim, eu te mato - avisou. — Doce preferido.
— Não sei se é preferido, mas eu sinto uma falta desgraçada de brigadeiro sempre que passo muito tempo longe. O que, por acaso, acontece sempre.
— Só para constar, eu faço um brigadeiro excelente.
pegou algumas batatas que estavam em uma vasilha acima do balcão. Só depois de engoli-las, lembrou-se de rezar para que não tivesse nada de errado com elas. O que não mata, engorda, e ela não estava muito disposta a nenhuma daquelas coisas no momento.
— Isso foi um convite? Porque eu jamais recusaria brigadeiro - ele disse, risonho, antes de completar. — Ou um convite seu.
— Talvez. - Ela deu de ombros. — Sua vez.
— Melhor jogador da atual seleção brasileira. - O sorriso dele era quase desafiador, como se duvidasse que ela fosse capaz de escolher outro em sua frente.
Talvez ele ainda tivesse muito o que aprender sobre como era conviver com aquela mulher.
— Marcelo - ela disse sem pestanejar. — E o Alisson é o mais bonito.
Coutinho levou a mão ao peito, em um misto de desentendimento e ofensa forçada.
— Eu não te perguntei quem era o mais bonito.
— E eu não ligo.
— Acho que eu deveria contar para ele sobre isso.
— Precisa não. Eu conto. - usou o banco rotativo para se virar em direção aos outros rapazes. Avistou o goleiro facilmente, distinguindo-o pela altura. — Ei, Alisson! Você é lindo!
O goleiro franziu as sobrancelhas, ruborizando levemente.
— Ok, obrigado então! Você também é linda!
A fotógrafa sorriu satisfeita antes de rodar sua banqueta de volta para o balcão e encarar seu atual acompanhante alcoólico com uma feição totalmente surpresa.
— O que foi? Você realmente duvidou de mim? Querido, você tem mesmo muito a aprender.
Em algum intervalo daquela conversa que já não fazia mais sentido algum, Thiago se aproximou cuidadosamente, repousando a mão firme sobre o ombro da amiga.
— Já está bem tarde, . Eu chamei um táxi para levar você até o hotel. Vou esperar lá fora enquanto você se despede.
— Ela não pode ficar sozinha em um táxi nesse estado. - Coutinho se levantou rapidamente, verdadeiramente preocupado. — Você sabe que esse mundo é um lixo.
— Eu sei - Thiago respondeu, dando um tapinha nas costas do outro. — Eu vou com ela. Relaxa, ok?
Philippe simplesmente concordou com a cabeça, dando-se por satisfeito. O ex-jogador saiu, como disse que faria dando um tempo para que os dois semi-bêbados se despedissem.
— Tchau, gente! - gritou, evitando o trabalho árduo de se despedir de um por um. Coisa que com certeza seria ainda mais difícil se decidíssemos considerar a ampla concentração de álcool em sua corrente sanguínea.
Coutinho sorriu para ela, aguardando que ao menos ele, logo ali em sua frente, recebesse algum tipo de cumprimento decente.
Ela deu de ombros e se inclinou para deixar um beijo na bochecha do homem. Quando seus lábios estavam prestes a encontrar a pele dele, no entanto, Philippe se virou milimetricamente. Aquele gesto poderia facilmente passar despercebido se os cantos de seus lábios não tivessem se esbarrado rapidamente. Mas eles se esbarraram. Um toque tão sutil que poderia facilmente passar despercebido. A questão era que, como fotógrafa, ela tinha aprendido muito bem a identificar detalhes.
sorriu desajeitada e se afastou, pegando sua bolsa e encontrando o ar gelado do ambiente externo.
No táxi, deixou que sua cabeça repousasse sobre o ombro de Thiago. Era bom ter o amigo por perto. A sensação de familiaridade e segurança que ela tinha perto dele era simplesmente inexplicável.
— Thi, posso te contar uma coisa?
— Sempre pode. Você sabe muito bem disso. O que foi?
— Eu acho que o Coutinho beijou o canto da minha boca de propósito. Mas foi tão rápido que eu fico me perguntando se não é coisa da minha cabeça bêbada.
— E o que você acha disso?
Ela se aconchegou mais no ombro dele, respirando pesadamente.
— Acho que eu queria um beijo de verdade.


Capítulo Quatro

Girassóis



teve que fazer um esforço absurdamente maior do que o normal para abrir os olhos. Sua cabeça pesava como se tivesse sido acertada por uma marreta daquelas que se usam nos brinquedos esquisitos em que se soca uma base com toda a força para tentar atingir um sino infernal. Estava tão sensível que realmente era como se um sino infernal estivesse batendo de um lado para o outro em sua caixa craniana. Por que o mundo era tão cruel com as pobres almas que cediam aos prazeres do álcool?
Levantou da melhor forma que conseguiu, arrastando-se até a sua necessaire para buscar a caixinha de aspirinas. Devia confessar que não acreditava que o remédio pudesse de verdade fazer todo aquele trio elétrico parar de fazer carnaval em sua cabeça, mas era a sua melhor chance. E não custava nada tentar.
Só percebeu o quanto sua boca estava seca após notar que um copo só de água não era o suficiente. Prendeu o cabelo em um coque alto e tirou alguns longos minutos para lavar o rosto com água fria. Deveria ter anotado a placa do caminhão que a tinha atropelado na madrugada. Provavelmente, era algum caminhão da Smirnoff.
Quando voltou a se arremessar na cama, pegou o celular no criado-mudo. Arregalou os olhos ao perceber que já eram três horas da tarde. Quando o pânico passou levemente, notou a enorme quantidade de notificações que poluíam a tela do aparelho. Abriu o whatsapp já com um bom receio do que encontraria.

Kika : “Oi, linda! Você sumiu ontem e o seu visto por último está me assustando um pouco. Por favor, dá um sinal de vida antes que o Patrick chame a polícia. Ele está um pouco paranoico com umas notícias de violência no Rio de Janeiro que viu e não adiantou em nada eu explicar que você está do outro lado de tudo isso. Enfim, só nos confirme se precisamos ou não chamar uma funerária. Beijocas!”

revirou os olhos para aquilo. Mandou um “Estou viva.” só para tirar da cabeça a imagem de um Patrick prestes a ter uma parada cardíaca por preocupação. Realmente não duvidava daquela reação exagerada. Decidiu seguir para as próximas mensagens.

Thi Silva : “, como é que você está? Quando te deixei no quarto, você estava bem o suficiente para se lembrar de escovar os dentes e trocar de roupa antes de se deitar. Considerei isso um bom sinal e vim embora quando você apagou de vez.
Mas como acordou? Está tudo bem? Você precisa de algo? Por favor, me avise.”


A fotógrafa sorriu com a mensagem. Não era à toa que Thiago tinha um nome bíblico. Ele era um simplesmente um anjo e o melhor tipo de pessoa para se ter como amigo.

“Estou bem, meu anjo. Obrigada por me acompanhar até aqui. Aparentemente, não tenho nenhum arranhão ou roxo de procedência completamente desconhecida. Em compensação, tem um buraco negro gigantesco no meu estômago tristemente vazio. Alguma chance de eu conseguir companhia para um lanche gorduroso no meio de uma tarde solitária?”

Thi Silva : “Chego aí em meia hora. Não morra até lá.”


Enquanto se trocava, a mulher decidiu abrir o instagram para checar despretensiosamente se não havia alguma mensagem direta por lá. Tocou o ícone de avião de papel ao notar o número colorido no seu topo.

@phil.coutinho: “Oi! Só queria checar se você tinha chegado bem. Como você está?
Na verdade, tem mais uma coisa. O Thiago me passou o seu whatsapp, mas eu achei que poderia ser invasivo se chegasse sem aviso prévio. Não quero incomodar.”


A mulher logo começou a digitar, achando fofa a postura do jogador. Que cara recebe o número de alguém e pensa em primeiro perguntar se pode utilizá-lo?

“Estou viva. Firme e forte, que nem esse sino de igreja batendo na minha cabeça.
Claro que pode me enviar mensagens no whatsapp. Eu não mordo. Só se você pedir.”


riu sozinha do quão ridícula tinha sido aquela mensagem. Que história era essa de morder? Jogou o celular de qualquer jeito no compartimento frontal de sua bolsa e saiu corredor afora, dando graças aos deuses da preguiça pelo elevador já estar parado bem ali no andar de seu quarto temporário.
Quando chegou à recepção do hotel, Thiago já estava ali esperando. Na verdade, simplesmente “esperando” não era a expressão completamente correta. O homem estava em meio a um grupo adolescente - composto por três garotos e duas meninas -, tirando fotos e conversando animadamente com eles. A fotógrafa sorriu sozinha com a cena. Não tinha absolutamente nada de forçado ali. O atual auxiliar técnico da seleção estava realmente contente de poder dar um pouco de atenção para os fãs. Novamente, a ideia lhe ocorreu: Thiago era definitivamente um anjo.
Ao avistá-la, o ex-zagueiro se despediu dos jovens e seguiu ao seu encontro.
— Achei que a Bela Adormecida só acordava do sono profundo com um beijo do príncipe encantado, Já estava pensando se precisaria trazer um certo meia da seleção para quebrar o feitiço - ele zombou, recebendo um leve soco da mulher.
— A princesa aqui acordou com boca seca e uma cabeça explodindo. Não tem nada de conto de fadas nessa ressaca infernal.
Ao saírem do hotel, apertou os olhos automaticamente, incomodada pela claridade. Buscou seus óculos escuros na bolsa como se a sua vida dependesse disso. Ao menos, sua visão dependia.
— Para de rir de mim - ela reclamou, arrancando apenas mais risadas dele. — Você é o pior amigo do mundo inteiro. Nem sei porque eu ainda falo contigo.
— Porque você me ama. Não adianta fingir que está com raiva.
Entraram em uma lanchonete próxima que ainda estava aberta para o horário do almoço. Pediram os lanches e as maiores porções de batatas fritas.
— As coisas parecem mais gostosas quando você está sem comer há tanto tempo - comentou, dando uma grande mordida em seu lanche cheio de cheddar.
— Essa é a graça de não estar mais dentro de campo - Thiago disse e puxou o celular do bolso. — Vou mandar a foto dessa refeição incrível para o grupo do time. Antes que você me xingue por não avisar, você está aparecendo.
A mulher automaticamente se debruçou sobre a mesa, sorrindo ao abraçar as bandejas que sobre ali estavam. A foto com certeza tinha ficado incrivelmente tentadora para aqueles que estavam em uma dieta rigorosa.
— Marcelo está digitando - o homem comentou enquanto levava outra batata à boca. — Disse que é duplamente injusto porque estamos comendo coisas gostosas e porque eu estou te tendo como exclusividade e agora você pertence à Seleção toda.
A fotógrafa riu alto com o comentário.
— Vai ter que aprender a dividir, Thi. Eu sou maravilhosa demais para estar com um só.
— Eles que se acostumem, porque você era a minha amiga bem antes. Aliás, você se lembra de como nós nos conhecemos?
— Perfeitamente - ela respondeu sorrindo.
— Você era tão desastrada e apavorada. Chegava a ser engraçado.
A mulher meneou a cabeça, negando avidamente.
— Tenho certeza de que você está se confundindo. Eu sempre fui incrível e maravilhosa desse jeito. Você deve estar pensando em outra pessoa.
O ex-jogador riu alto da mentira descarada da amiga.
— Você não fica nem vermelha, não é? Tem nem vergonha de mentir assim. Tem certeza de que não foi você que derrubou metade do equipamento novo em mim e ficou tremendo em pânico feito um chihuahua com medo de ter destruído as lentes?
pegou uma batata e arremessou na direção do amigo, que rapidamente pegou-a com a boca.
— Eu odeio você.
— São reflexos de zagueiro. - Ele piscou para ela.
— Ok, talvez eu estivesse um pouco atrapalhada naquele dia. Mas não é culpa minha! Foi você quem tropeçou nos fios. Meu primeiro ensaio fotográfico para campanha de um time profissional de futebol e você já chega destruindo o meu trabalho.
O homem riu das reclamações, sabendo que ele realmente tinha pisado no material sem querer. Na época, tinha pouco tempo de participação efetiva no PSG e ainda se perdia com os afazeres e direcionamentos do time. Se ela estava atrapalhada, ele não estava lá muito atrás. Conheceram-se em uma ocasião não muito agradável para nenhum deles. Sempre acreditaram que tinha sido exatamente esse nervosismo incontrolável que tinha unido os dois. Era a coisa mais esquisita para se agradecer.
— Brincadeiras à parte, eu tenho uma pergunta a fazer.
puxou o celular do bolso, fingindo um susto forçado ao olhar o horário na tela do dispositivo.
— Poxa vida, Thi! Olha a hora! Preciso voltar para o hotel. É hora da ligação por vídeo com os meus gatos.
O homem puxou o braço dela quando a mesma fez menção de se levantar. Arqueou as sobrancelhas até que ela tornasse a se sentar.
— A senhorita não vai a lugar algum. Nada de fugir.
— Você está parecendo a minha mãe quando eu admiti que tinha ficado com um menino pela primeira vez, sabia? Ela passou uns anos depois enchendo o meu saco a cada passo que eu dava para fora de casa.
— Mas quem disse que é esse o assunto?
— Ah, não é? Então, eu o proíbo de falar os nomes “Philippe” e “Coutinho”. Se não é esse o assunto, não será um problema, certo?
— Engraçado… No táxi, você estava bem tranquila em dar início a esse assunto. Eu só quero que você admita que está a fim.
— Eu preciso admitir? Você já sabe. Para de me pressionar.
— Não. Eu só queria te encher. É meio que o meu papel, sabe? Desde que você me atropelou naquele estúdio.
— Thiago, eu juro que eu vou te matar. Para com isso!
E continuaram discutindo e se ameaçando daquela forma cômica até serem convidados a se retirar pelo horário de fechamento do estabelecimento. Não tinham percebido até aquele momento como sentiam falta da presença um do outro.


+++



perdeu a conta de quanto tempo levou esfregando todo o corpo e lavando o rosto no banho. Estava tão exausta que tinha se jogado na cama e se esquecido de viver. O teto de repente parecia tão interessante.
O barulho da notificação no celular chamou a sua atenção.

Coutinho enviou uma imagem.

Ela abriu o aplicativo rapidamente, estranhando a situação. Uma imagem?
Para a sua surpresa, era uma selfie dela no bar, fazendo uma careta que estava entre o esquisitamente fofo e o bizarro de fato.

“Deus é mais. De onde você tirou essa foto?”
“Acabei de descobrir no rolo da câmera. Acho que você pegou meu celular sem que eu percebesse ontem.”
“Socorro! Deleta isso! Vai corromper os seus arquivos!”
“NUNCA! Aliás, te vejo amanhã no treino, certo?”
“Sim. Já está com saudades?”
“Talvez. E quero perguntar uma coisa.”
“O que é?”
“Amanhã, . Vai ter que esperar. Boa noite! Durma bem!”


+++



Os jogadores já estavam em campo se alongando quando a equipe de imprensa começou a posicionar suas câmeras e microfones. recebeu rápidos acenos dos rapazes, atraindo olhares curiosos dos outros fotógrafos e jornalistas que dividiam o espaço com ela.
Os titulares de linha treinaram passes, cabeceamentos, dribles e tiros de corrida; enquanto os goleiros faziam sua preparação separadamente. Com algum tempo, pausaram o treino para o intervalo destinado à hidratação. O sol intenso não ajudava em nada a criar uma temperatura agradável para o esforço físico. Estava definitivamente quente demais.
Tite, então, dividiu os times e deu início a um jogo. aproveitou para ver as imagens que tinha conseguido capturar do aquecimento. Riu sozinha ao perceber Marcelo mostrando a língua para a câmera em várias delas. Tornou a ajeitar seus equipamentos para o jogo.
Neymar e Coutinho tabelavam no campo de ataque, correndo por entre os jogadores da defesa como se flutuassem pelo gramado. Em questão de minutos, o meia desferiu um chute de três dedos, acertando o ângulo com precisão. Ele retornou correndo ao seu lado do campo e deu uma piscada para a ala da imprensa, sorrindo com a língua entre os dentes. meneou a cabeça, ainda sem acreditar naquele esboço de provocação.
— Ele piscou para cá? - Uma das jornalistas perguntou à sua assistente. — Tenho a sensação de que foi para mim.
— Com certeza ele só queria fazer uma graça. Para de bobeira - a assistente respondeu.
foi obrigada a conter o riso. Não sabia quem era mais bobo: a jornalista ou o jogador.
Everton - ou Cebolinha para os íntimos - logo empatou o jogo e foi quase esmagado pelo bolinho que Marcelo organizou em cima dele. Paquetá e Rodrygo aproveitaram para entrar na brincadeira enquanto o autor do gol gritava por socorro entre risos.
O clima de confraternização e entrosamento entre a nova Seleção era tanto que Tite e Thiago precisaram sair gritando para que eles retornassem ao jogo e mantivessem o foco. Mas nem sempre uma família consegue se manter dentro dos eixos e, agora, era exatamente aquilo que eles todos eram: uma grande família.
O placar acabou em 2 a 1 para o time de Coutinho, por conta de um golaço de Neymar ao final do treino. O outro time, “como castigo”, teve que passar por um tipo de corredor polonês em que tinham que correr rapidamente para não serem acertados pelas fortes boladas.
Com todos os jogadores no vestiário, as equipes de imprensa começaram a arrumar suas coisas para saírem. pegou seus equipamentos praticamente em câmera lenta, usando todo o tempo do mundo para que fosse a última ainda por ali. Com certeza, seus colegas deveriam estar achando que ela era uma incompetente atolada, mas não era como se ela realmente se importasse. Ainda tinha uma pulguinha mordendo a sua orelha por curiosidade.
Logo, sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se para ver o cabelo recém-lavado e o largo sorriso daquele que aguardava com tanta expectativa.
— Eu só não fui embora porque odeio ficar curiosa - admitiu, arrancando uma risada de Coutinho.
— Eu imaginei - ele confessou. — Bom, na verdade, o que eu queria era fazer um pedido.
sentiu o coração acelerar e se xingou mentalmente por aquilo. Que merda era aquela? Frio na barriga era coisa de adolescente!
— O que é? Não vou fotografar as bodas dos seus avós de graça - a mulher zombou, tentando parecer o mais descontraída possível dada a situação.
O jogador franziu a testa, arqueando a sobrancelha.
— Por que eu pediria isso?
— Não sei. - Ela deu de ombros. — É o tipo de pedido que eu já recebi. Bodas de avós, aniversários de cachorros…
— Não é nada disso e não envolve o seu trabalho. Eu poderia florear isso tudo e fazer algo digno e memorável, mas a verdade é que eu sou a pior pessoa do mundo com palavras. Minha habilidade com uma bola de futebol nos pés é muito maior.
— Então marque o gol. - A fotógrafa sorriu de canto para ele, encorajando-o a ser direto.
— Você quer sair comigo?
— Philippe Coutinho está me chamando para um encontro?
— Ele está - confirmou. — Dessa vez, sem coincidências, sem karaokês e sem um time de futebol inteiro literalmente .
— Quero - ela respondeu. — Quando?
— Pode ser hoje à noite? - Ele recebeu um aceno positivo por parte dela. — Só tem um detalhe. Precisa ser um lugar pequeno e relativamente reservado porque o professor não quer que nenhum de nós seja assunto da mídia de fofocas antes de começar os amistosos. Você sabe de algum lugar assim por aqui?
— Sou mais forasteira nessa cidade que você. No entanto, acho que existe um local reservado.
— Qual?
— O hotel. Podemos pedir algo e assistir a um filme.
— Que vergonha! Com que cara eu te convido para um primeiro encontro tão… Básico?
riu enquanto jogava a mochila por cima dos ombros.
— Você acha mesmo que eu me importo? Não preciso de comidas finas ou ideias mirabolantes. Mas, se você faz tanta questão, talvez tenha outras chances para isso.


+++



Philippe se sentia um completo maluco por estar usando um par de óculos de sol à noite e dentro de um hotel. Não acreditava que estava mesmo sendo tão exagerado com aquilo.
Checou as flores em suas mãos e torceu em silêncio para que a dica de Thiago estivesse certa. Não saberia onde enfiar a própria cara se tivesse se equivocado na escolha do ramalhete. Respirou fundo algumas vezes antes de bater os nós dos dedos levemente contra a porta do quarto.
A mulher logo abriu a porta, carregando um coque alto sobre a cabeça e trajando um jeans boyfriend , regata branca e um cardigan verde água. Ela sorriu para ele, realizando um gesto que servia de convite para que ele entrasse. Passara a última hora completa colocando seus pertences dentro dos armários ou de volta dentro das malas para deixar o quarto com a aparência um pouco mais de hospedagem que de campo de guerra. Até que tinha feito um trabalho consideravelmente bom.
— São para você - ele disse meio sem jeito, estendendo o buquê.
Ela arregalou os olhos, mostrando por completo o brilho que eles carregavam com a surpresa. Não conseguiu conter o sorriso.
— Como você sabia que eu amava girassóis? - Em um instante, ela mesma respondeu com uma pergunta retórica. — Foi o Thiago, não foi?
— Foi, mas ele deixou que eu levasse os créditos. Então, não. Digamos que eu adivinhei.
A mulher riu, ainda encantada com as grandes pétalas amarelas.
— Como você está? - Ela perguntou e fez sinal para que ele se sentasse ao seu lado no sofá que havia ali. — Posso te oferecer algo para beber? Tem uma água mineral incrível no frigobar.
— Aceito - respondeu. — A senhorita já pensou em que grande jantar pediremos por telefone?
— Minhas grandes ideias se resumem a pizza.
— Não acredito nisso. Acho que somos almas gêmeas.
Ela voltou a rir e procurou o folheto com o cardápio que tinha recolhido mais cedo no balcão da recepção do hotel. Sua boca estava salivando desde então só de imaginar uma pizza de quatro queijos tão recheada a ponto de esticar quase infinitamente o queijo a cada mordida. Todo o contorcionismo entre os movimentos de braço e pescoço valia cada grama que a boca degustava avidamente.
Realizaram o pedido e ligaram a televisão em busca de algum canal que os distraísse enquanto a pizza não chegava. abandonou o controle quando encontrou o Discovery Home&Health. Jamais perderia a oportunidade de assistir à Reforma Total com Nate e Jeremiah.
Conversaram principalmente sobre o calendário do time e a rotina entre treinos, coletivas de imprensa, amistosos e eventos dos patrocinadores. Philippe estava visivelmente cansado, mas mantinha a alegria e a satisfação de fazer o que amava. Era isso que mais encantava a mulher, que permitia que ele falasse o que quisesse o quanto quisesse.
Quando a pizza chegou, decidiram assistir a “17 Outra Vez” que passava pela milésima vez em um canal qualquer.
— Tenho certeza de que você viu esse filme pela primeira vez só porque era do Zac Efron - o jogador acusou, recebendo uma careta afetada da mulher.
— Eu estou verdadeiramente ofendida. Não acredito que você pensa mesmo que eu assisti a um filme só por causa do ator. Até porque você está completamente certo.
— Você não é a única a admitir isso. Se o orkut ainda existisse, vocês teriam uma comunidade para desabafar.
— E uma comunidade para louvar a pizza de queijo - a fotógrafa acrescentou antes de dar uma bela mordida em sua fatia.
— Dessa eu quero participar.
Satisfeitos com a comida, passaram a dar mais atenção ao filme. Coutinho fazia imitações horríveis das cenas de Efron e Lennon. já estava praticamente sem fôlego de tanto rir.
— Você é absolutamente ridículo!
— E mesmo assim você decidiu sair comigo.
— Não só decidi sair, como também fiz um presente para você.
Ele franziu as sobrancelhas, apertando os olhos à luz daquela revelação completamente inesperada.
— Presente? Para mim?
Ela se levantou rapidamente e foi até o microondas, retirando de lá uma vasilha de vidro. Pegou ainda duas colheres em um pacote de talheres descartáveis.
— Antes que você me pergunte, eu não fiz no microondas. Deixaram que eu usasse a cozinha do hotel rapidamente. Pode ser porque eu disse que era desejo gestacional e que eu não estava passando bem.
— Você? Grávida? E acreditaram? Conta outra.
— As mulheres não ficam automaticamente com o corpo parecendo prestes a expelir um bebê de nove meses a qualquer momento, sabia? Pois bem, se você vai reclamar, eu guardo e como sozinha.
— Não! - Sua resposta veio rapidamente. — Ainda estou curioso. O que é isso?
entregou a vasilha para o jogador, que não conseguiu conter a feição de surpresa e animação.
— Eu não acredito! Você fez brigadeiro! Não achei que você fosse se lembrar disso.
— Bom, eu tinha que provar o meu ponto de que fazia um brigadeiro incrível. Então, aí está.
— Uau. Nossa. Eu… Meu Deus! Eu poderia te dar um beijo agora!
— A opinião de Deus eu não sei. Mas a minha é de que você pode.
Coutinho não demorou mais que poucos instantes para compreender a deixa que acabara de receber. Em um rápido movimento, colocou o brigadeiro no chão e levou as mãos ao rosto da mulher, deslizando uma delas delicadamente para a sua nuca.
Aproximou seus rostos até o ponto em que não poderiam mais identificar e diferenciar o dono de cada lufada de ar que corria entre o mínimo espaço que permanecia. Seus narizes praticamente se encostavam. Quando fechou os olhos, o jogador colou os seus lábios como tanto quis fazê-lo desde o dia em que jantaram juntos por confluência do destino. Toda a tensão e todo o desejo que havia entre eles estavam presentes naquele contato. Cada toque parecia emergencial enquanto as mãos encontravam seu caminho no corpo do outro. Tudo se encaixava. Tudo, de repente, parecia absolutamente certo.
As sensações experimentadas faziam com que a mulher se incomodasse novamente com os sentimentos que julgava adolescentes. No entanto, adolescente ou não, ela não tinha motivos para se preocupar naquele momento. Só queria aproveitar aquilo ao máximo. As preocupações e o brigadeiro poderiam esperar.




Continua...



Nota da autora: ITI MALIA MEU CASAL! AAAAAAA! Espero que tenham gostado. Quero saber o que acharam!
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