FFOBS - Not Over, por Milena K

Última atualização: 21/07/2018

Prólogo

A camisa amarela com o número 11 parecia ainda mais pesada enquanto embolada em suas mãos. Sabia que aviões supostamente deveriam ser internamente pressurizados, mas a pressão que pesava sobre os seus ombros não se parecia com nenhuma outra que ele já havia sentido. Nem nos piores pesadelos das últimas semanas, ele poderia ter imaginado o fim antecipado do grande sonho. Eles deveriam estar partindo de Kazan para desembarcar em São Petersburgo e não em Madri para a escala antes do pouso de volta ao Rio de Janeiro.
Desbloqueou o celular, na intenção de encontrar algum apoio entre as milhares de notificações do seu twitter.

@Phil_Coutinho, eu só queria ver um sorriso seu.”
@Phil_Coutinho, te amo demais meu amor. Fica bem.”

Ele esboçou um sorriso fraco para a tela, só conseguindo pensar que tinha decepcionado todos aqueles que o amavam e torciam para ele com todo o coração.
Sacudiu a própria cabeça, buscando afastar aqueles pensamentos ruins. Não era isso que ele deveria ter absorvido das mensagens. Tudo o que ele deveria ter feito era compreender que, apesar da eliminação, ele ainda tinha toda uma torcida ao seu lado, movendo-o pelas ondas sonoras de seus gritos e pela comemoração a cada gol ou assistência em que ele tinha o prazer de participar. Cada roubada de bola, cada limpada para o meio e cada bomba que enviava com endereço certo para o canto do gol moviam o que ele sempre sonhou em fazer e viver. Mas por que era tão difícil ver as coisas pelo lado bom?
Com o avião já estável nos céus - a uma altura um tanto assustadora -, Thiago se levantou para chamar a atenção de todos os jogadores. Ele poderia até tirar a braçadeira, mas nunca deixaria de ser o capitão a todas as horas.
— Ei, escutem. Eu sei que vocês estão chateados. Eu também estou. Mas esse tipo de coisa acontece independentemente da nossa vontade. Nós lutamos e batalhamos até o final. Demos o nosso melhor e suamos a camisa como um jogador da seleção verde e amarela deve suar. Então, vamos levantar a cabeça e ter orgulho do que fizemos por esse time. Sem contar que, para vários de vocês, a história com essa camisa ainda não acabou em Copas do Mundo. Nosso país precisa de cada um de vocês, então ergam a cabeça e encarem. Em um dia a gente perde, mas no outro a gente ganha. E não vamos deixar barato. Qual é? Vocês acham mesmo que a única seleção pentacampeã vai se deixar abater por uma derrota? Vocês são incríveis e ainda vão honrar muito essa camisa.
Coutinho engoliu a vontade de chorar, agradecendo pelos bons amigos que a preparação e a temporada na Rússia tinham lhe dado. Jamais conseguiria mostrar o quão grato era pela participação rápida, mas impactante daquelas pessoas em sua vida.
E Thiago tinha razão afinal. Aquele era só o começo. O sonho estava longe de acabar.


Capítulo Um

2022



O vestiário da Ciutat Esportiva Joan Gamper já estava praticamente vazio. O treino pelo qual o time titular do Barcelona passara havia sido pesado o suficiente para extenuar até mesmo aqueles com o melhor preparo físico. Após o efeito montanha-russa de altos e baixos nos resultados dos últimos anos, o time catalão parecia finalmente ter se encontrado e retornado aos eixos. Havia novamente o grande orgulho em estampar a alcunha “Més que un club” por todos os lugares e abrir a bandeira azul e grená por todos os cantos. Provavelmente, foram essa seriedade e o trabalho bem feito que fizeram com que o time tivesse acabado de receber a notícia de que estava quase totalmente convocado para a Copa do Mundo por suas respectivas seleções. Era impossível que o camisa 14 não estivesse nessa lista após ser declarado por dois anos como melhor meia da temporada.
Os empresários de Coutinho haviam acabado de avisá-lo de que o Pequeno Mágico estava na convocação de Tite mais uma vez. Após a brilhante campanha europeia e o título vencido com louvor na Copa América de 2019 em solo brasileiro, sua equipe tinha que confessar que já estava esperando por aquela notícia. Surpreendente mesmo seria se aquela camisa 11 amarela não voltasse para suas mãos.
Respirou fundo, sorrindo feito bobo para as suas próprias coisas. Quatro anos depois, a eliminação da Rússia ainda parecia injusta demais tendo em vista todo o trabalho feito. Tudo o que ele sabia era que dessa vez seria diferente. Estavam mais maduros, mais preparados, mais conscientes. Os jovens reforços também eram de qualidade inquestionável, sendo sondados por times europeus - incluindo o seu maior rival - desde os dezessete anos. Finalmente, todos eles tinham a chance pela qual rezaram desde 2018. E comemorariam o natal no fim do ano com aquela taça nas mãos.
Terminou de secar o próprio corpo e vestiu a calça e o casaco do Barcelona (com o logotipo evidente dos patrocinadores) para comparecer à coletiva de imprensa que havia sido agendada. Estava tão esgotado que só conseguia imaginar a sua cama king size repleta de travesseiros.
Foi orientado a esperar em uma sala ao lado daquela na qual ocorreria a coletiva. Pelo visto, algum de seus companheiros de time estava usando o horário anterior ao seu. Parecia uma sucessão de consultas médicas: uma chá de cadeira na sala de esperas só para aguardar que alguém saia para você poder entrar e ser praticamente afogado de tantas perguntas.
Um dos organizadores o levou até o pequeno cômodo em que ele aguardaria. Quando avistou o enorme filtro, quase ajoelhou e agradeceu por poder beber uma água gelada. A questão era que ele não fazia ideia de quem era aquela mulher escorada na parede ao lado do objeto de sua devoção momentânea. Ela mexia apressadamente no celular, concentrada demais no que fazia para ouvir os passos dele pelo ambiente. Vendo o crachá no pescoço dela, apoiado sobre a camisa social, percebeu que se tratava de alguém da imprensa. Ele teria de esperar de qualquer forma, então conversar não arrancaria um pedaço.
— Licença - pediu ao chamar a atenção da mulher que quase pulou com o susto de ouvir uma voz tão próxima de si. — Não queria te assustar. Na verdade, eu só vim perguntar se você não deveria estar lá dentro junto com os outros.
Ela tentou se recompor do recém estado de alerta em que aquela abordagem tinha a deixado. Respirou fundo algumas vezes, fazendo sinal com as mãos para que ele esperasse.
— Eu estava resolvendo algumas coisas com a equipe. - A mulher apontou para o celular. — Já estava voltando para lá.
— Vai pegar um lugar ruim - Coutinho comentou, tentando fazer uma graça para mudar o clima do ambiente.
— Meu lugar é nos fundos - ela respondeu simplesmente. — Junto com os outros fotógrafos.
Foi então que o jogador percebeu a câmera preta que ela carregava a tiracolo. Como não havia percebido aquele mísero detalhe?
— Eu não tinha reparado. Aliás, eu sou o… - tentou começar, mas foi bruscamente interrompido pela fotógrafa.
— Eu sei quem você é. Todos sabem. - Ela riu. — No meu caso, faz parte do meu trabalho.
— Às vezes esqueço que vocês têm essa carta na manga. - Ele leu o crachá dela rapidamente. — Acontece que eu também sei quem você é, .
A mulher riu alto, percebendo o olhar furtivo de Philippe sobre o seu crachá.
— Fico feliz que você tenha sido alfabetizado.
Coutinho fez uma careta, achando graça naquilo tudo. Estava se divertindo com as respostas irônicas, quando foi chamado pelo seu agente. Era a hora de sua coletiva.
— Preciso ir. Foi bom te conhecer, . Espero ficar bem nas suas lentes.
— Quando a fotógrafa é boa, o difícil é o resultado sair ruim.
Com uma piscadela, se retirou para assumir sua posição entre os outros membros da imprensa. Coutinho meneou a cabeça em negação enquanto ria e seguia seu caminho pela outra porta.
Entrou com um sorriso e acenou para todos antes de se sentar. Os flashes explodiram em seu rosto como de costume antes que sua equipe desse abertura para que iniciassem as perguntas.
— Coutinho, qual é a sensação de ser convocado para a Copa do Mundo mais uma vez? - Um repórter que se sentava logo em uma das primeiras filas perguntou.
— Eu não tenho palavras para dizer o quão grato eu sou por ter recebido essa chance. Fico feliz que o professor Tite ainda confie no meu trabalho dessa forma e estou ansioso para dar o meu melhor pela seleção.
— Nesse meio tempo, com os grandes resultados, você não almejou a camisa dez? - Outro repórter lançou. O jogador quase riu, sabendo que já tinha respondido àquela questão ao menos umas mil vezes.
— O dono dela é digno e a merece. Neymar é uma peça fundamental em nosso time e acho que todo mundo aqui sabe disso. Sem contar que estamos aqui para honrar o escudo verde e amarelo, não o que tem atrás da camisa.
sorriu com a resposta. Eram as palavras certas e a postura certa. Não havia espaço para uma batalha de egos enquanto a competição mais importante da história do futebol acontecia.
— Você pretende deixar o Barcelona? Sabemos que vem recebendo propostas altíssimas desde 2018.
— Não gosto de falar sobre o futuro. Prefiro simplesmente deixar acontecer e ver aonde vamos chegar. Tudo o que importa é que eu amo o lugar onde estou e estou feliz com aqueles que me rodeiam.
Perguntaram-lhe ainda sobre os companheiros de equipe e de seleção. Coutinho não tinha nada a esconder. Às vezes ele mesmo se impressionava com a facilidade que tinha em conviver com aquelas pessoas. Era óbvio que tinha amizades mais próximas que outras, mas não conseguia contar um desentendimento sério sequer. Talvez fosse mesmo tão amigável quanto sua mãe dizia. Talvez não fosse só mais um daqueles elogios maternos que vinham em momentos importunos só para nos envergonhar na frente dos amigos e dos tios babões. Deveria mesmo começar a dar ouvidos para uma coisa ou outra que a mãe dizia.
Posou para algumas fotos ao lado da equipe e reconheceu, entre os flashes, os olhos cativantes da moça de pouco tempo atrás. Sorriu mais largamente, quase sem perceber, ao relembrar suas palavras ousadas e as tiradas irônicas.
Entre toda a rotina de treinos, jogos e entrevistas, aquele encontro inesperado havia sido uma ruptura de planos formidavelmente agradável.


+++



A porção de fritas já estava esfriando sobre a mesa. estava ocupada demais dando atenção à tela do notebook aberto sobre a mesa do restaurante para sequer se lembrar de que havia pedido algo para comer. Em compensação, ela tinha certeza de que precisaria pedir outro suco de maracujá logo. Já tinha até perdido a noção de quantidade. Se pedisse outro, seria o terceiro? Quarto? Sexto? Só esperava que o banheiro ficasse em algum canto ali por perto. Agradeceu silenciosamente por ter decidido não pedir algo alcoólico assim que percebeu que estava bebendo apenas como uma resposta inconsciências da ansiedade do estresse que o trabalho estava lhe causando.
Ela tinha certeza de que tinha aberto a caixa de e-mail naquela manhã e lido cada uma das pendências. Não era humanamente possível que aquelas quase cinquenta mensagens tivessem surgido.
Decidiu abrir um por um, percebendo que vários deles eram uma sequência de respostas. Não sabia porque estava recebendo aquela enxurrada de mensagens que sequer eram de sua área. Gostaria mesmo de entender porque estava sendo adicionada naquelas listas intermináveis se aquilo nem a interessava.
Saiu simplesmente deletando todas as respostas sem dó e sem se preocupar em ler.
— Pelo amor de Deus, parem de mandar cópias dos seus e-mails aleatórios para mim! - reclamou, bufando alto e quase socando o copo de suco de volta na mesa de madeira.
— A senhorita está bem? - Uma garçonete perguntou, soando verdadeiramente preocupada. — Precisa de alguma coisa? Quer uma água com açúcar?
A moça engoliu em seco, percebendo que provavelmente reclamara em um tom um tanto mais alto do que ela realmente havia previsto. Tudo o que ela precisava naquele momento era parecer uma louca que assusta e afasta todos os clientes.
— Estou bem - respondeu, completamente envergonhada. — Perdão. Não queria assustar ninguém. Prometo que vou manter o volume do meu estresse um pouco mais baixo. Talvez seja uma boa ideia pedir outro suco de maracujá.
A garçonete sorriu, concordando e assinalando que logo voltaria com a bebida. A fotógrafa respirou fundo e decidiu ocupar finalmente a sua boca com as batatas fritas.
Levou as mãos ao cabelo, prendendo-o de qualquer jeito sem se importar com o quão bagunçado aquilo deveria estar. Só precisava tirar aqueles fios incômodos de seu pescoço. Decidiu fechar o e-mail, percebendo que ele não levaria a lugar algum. Estava prestes a mexer nos arquivos com as fotos do dia quando uma voz masculina chamou a sua atenção.
— Isso é algum tipo de perseguição?
A mulher se virou para o lugar de onde assumia ter vindo a voz, dando de cara com aquele que havia conhecido mais cedo.
— Só se com isso você quis assumir que está me perseguindo. Até porque eu já estou aqui há um bom tempo.
Coutinho riu, percebendo que ela tinha razão. Notou também a porção pouco tocada de fritas pairando sobre a mesa.
— Eu não acredito no que meus olhos veem. Você está fazendo pouco caso da melhor comida de toda essa cidade. Eu me sinto verdadeiramente ofendido.
— São só algumas batatas. - revirou os olhos. — Eu nem tive tempo de comer de verdade ainda.
— Pois, então, deixe-me sugerir a especialidade da casa: arroz caldoso . Inclusive, é o motivo que me trouxe aqui hoje.
— Sente-se e pediremos para os dois - sugeriu. — Assim posso te dar um chute disfarçado por baixo da mesa se for horrível.
— Tanta agressividade - ele comentou. — Isso porque nos conhecemos hoje.
— Não preciso de intimidade para me revoltar com comida. É um assunto muito sério. - Ela piscou, apontando a cadeira logo à sua frente.
A garçonete veio anotar o pedido assim que viu o jogador com a mão erguida. Ele frequentava tanto o lugar que todos já conheciam até o ponto de preferência da carne que o rapaz pedia. Nesse meio tempo, havia voltado a teclar freneticamente, criando uma sinfonia com a repetição dos barulhos de sua digitação.
— Sem querer parecer intrometido, mas o que a senhorita tanto faz nesse notebook?
A fotógrafa sorriu de uma forma quase brincalhona antes de virar a tela do objeto para que ele visse. Ali estava uma foto dele entrando na coletiva de imprensa, capturando o momento exato em que ele acenou para todos. A definição da imagem era tão perfeita que ele podia visualizar a pequena cicatriz que conseguira no dia anterior ao cortar um mísero trecho de pele perto da orelha direita com a lâmina recém trocada de seu barbeador. O trabalho era realmente impecável. A mulher tinha razão para se vangloriar.
— A foto ficou incrível. Parabéns!
— As fotos - corrigiu antes de apertar as setas do teclado para mostrar as outras imagens.
Ele riu ao ver a última fotografia. Ela havia conseguido capturar o momento exato no qual ele a avistara entre todas as outras câmeras. Ele carregava um sorriso especialmente largo no próprio semblante e tinha os olhos focados precisamente nas lentes.
— Explique para mim que raios é isso. Você não pode simplesmente sorrir para a minha câmera. Era para parecer espontânea!
— Por que não? A foto está bem longe de estar ruim.
bufou.
— Não é assim que o meu trabalho funciona. Não posso colocar essa foto no arquivo que tenho de enviar aos meus chefes.
— Coloque como plano de fundo do notebook então. Ficará maravilhosa, tenho certeza.
Ele só riu ainda mais ao perceber o olhar de ódio que parecia fuzilar a sua alma. Se fosse possível sugar a existência de alguém apenas com os olhos, Philippe tinha certeza de que já não estaria mais vivo.
— Quando você percebeu que queria ser fotógrafa? - Ele tentava arranjar meios de dar prosseguimento a uma conversa.
— Quando você percebeu que queria ser jogador de futebol? - rebateu, arqueando a sobrancelha.
— Acho que foi na primeira vez em que deixaram uma bola nos meus pés - admitiu.
— Acho que foi na primeira vez em que deram uma câmera fotográfica nas minhas mãos - ela o imitou. — Destruí o filme da minha tia no batizado da minha prima. Não sei porque ela confiou que uma criança curiosa não mexeria em algo que simplesmente largaram na mão dela sem supervisão.
— Com certeza a culpa foi totalmente dela - Coutinho concordou. — Eu perdi umas três bolas tentando encobrir o goleiro. Acho que encobri outras coisas também. Pelo menos, nenhuma das bolas era minha.
— Culpa dos donos, então. Jamais deveriam ter confiado em um perna de pau como você.
— Exatamente.
Os dois riram até serem interrompidos pela garçonete que colocava, sobre a mesa, os dois pratos fumegantes. Em poucos instantes, o cheiro já tinha tomado o ambiente por completo. sentiu seu estômago roncar em resposta àquele estímulo olfativo tão agradável e apetitoso. Era realmente de dar água na boca.
— Hora da verdade - ele declarou, posicionando os talheres entre as mãos. — Espero que esteja preparada para uma das maiores experiências gastronômicas da sua vida.
— Acho melhor esconder essas canelas, Pequeno Mágico. Não quero ser a responsável por tirar o craque da Copa, mas não posso ir contra a minha palavra.
ainda apreciou o aroma dos temperos por algum tempo antes de levar a primeira garfada à boca. Quando finalmente o fez, teve de admitir para si mesma que aquela era de fato uma das melhores coisas que ela tinha provado.
— O que achou? - Coutinho disfarçava um sorriso, tendo certeza de que ela tinha adorado. Era impossível não gostar.
— Suas pernas estão a salvo - ela admitiu. — É uma pena só conhecer essa maravilha agora.
— Nesse caso, de nada.
Continuaram a comer e a jogar conversa fora. Entre risadas e olhares furtivos, a noite passava mais rápido do que eles esperavam. Escorria por entre os dedos como a areia de uma ampulheta.
— Qual foi o evento que você mais gostou de cobrir?
— Acho que, ao longo de toda a minha carreira fotográfica esportiva, o mais legal foi cobrir a primeira temporada de King James nos Los Angeles Lakers.
O jogador abriu a boca como se estivesse profundamente ofendido. Levou a mão ao peito para acentuar seu momento dramático.
— Basquete? É sério? Pensei que você fosse do futebol!
— Qual parte de “eu sou uma fotógrafa esportiva” você não entendeu? Basquete, futebol, tênis, hóquei… É só me pagarem que lá estarei com as minhas câmeras.
— Mercenária - ele murmurou.
pegou o papel que antes embrulhava seus talheres e arremessou uma bolinha diretamente no rapaz.
— Bela jogada - ele desdenhou, pegando o papel que havia caído no banco. — Aprendeu como? Com seus amigos do basquete? Eles te arremessam dinheiro? É por isso que você gosta mais deles?
— Dinheiro? Tipo aquele que tirou você do Liverpool? Quem é o mercenário agora?
Coutinho encheu o peito para rebater aquelas perguntas, mas desistiu no meio do caminho, exalando o ar de forma derrotada.
— Não tenho argumentos contra isso.
riu, estudando o peito e acenando a vitória.
— Sinto muito, querido. Eu preciso ganhar dinheiro para alimentar os meus filhos.
O rapaz arqueou a sobrancelha, não conseguindo disfarçar a surpresa em seu semblante.
— Você tem filhos?
— Tenho três - ela contou.
— Trigêmeos? Você parece muito nova para passar por três gestações diferentes.
A mulher riu alto ao ouvir aquilo.
— Na verdade, os três são de ninhadas diferentes, sim.
— Ninhadas? - Ele perguntou sem entender muito bem.
— Claro. Três gatinhos de ninhadas diferentes. A Marta é a mais velha. Lebron é o do meio. O caçula chama Hazard.
— Você deu o nome de um jogador belga para o seu gato? Sério? Eu não acredito que passei o dia ao lado de uma traidora.
— Eu sabia que você ia se irritar. É brincadeira. O nome dele é Ronaldo.
— Tipo o Fenômeno?
— Não. Tipo eu olhei para o gato e achei que ele tinha cara de Ronaldo. Simples assim.
— Você é maluca!
— Eu sei. - Ela sorriu simplesmente.
Philippe chamou a garçonete, pedindo que ela trouxesse o cardápio específico de sobremesas. Se aquela noite havia começado com ele assumindo o posto de guia turístico gastronômico, ela deveria terminar da mesma maneira.
— Se vamos continuar nessa aventura pelos sabores catalães, devo sugerir a sobremesa mais famosa daqui: a crema catalana. Só precisa decidir se você quer dividir a sobremesa ou pedir duas.
— Olhe bem nos meus olhos e me diga se eu pareço alguém que divide sobremesa.
O jogador riu, concordando e assumindo que também não fazia esse tipo. Não que os seus preparadores físicos devessem ficar sabendo que ele estava se aproveitando desses pequenos furos na dieta. Uma bomba de gordura e açúcar não parecia ideal para o físico que ele deveria manter, mas era uma perdição para seu paladar e sua satisfação.
— Isso me faz lembrar de crème brûlée - ela admitiu ao provar.
Coutinho, entre risos, fez sinal de que ela deveria falar mais baixo.
— Você está em território pouco amigável. Não compare as receitas, por mais que você tenha razão.
acabou concordando, mesmo que estivesse achando aquela história um tanto exagerada. Sabia que deveria ser mais uma das graças dele.
— Bom, eu preciso ir. Meu voo é amanhã bem cedo e eu ainda preciso organizar as suas fotos para enviar para o meu chefe. Até porque eu certeza de que vai ser um trabalho meio difícil escolher em quais delas você está apresentável o suficiente.
— Vou fingir que não estou ofendido.
Dividiram a conta do restaurante e seguiram os seus respectivos caminhos. O táxi que ela pedira chegou inesperadamente rápido. Talvez até mais do que ela realmente queria.
— Foi um prazer conhecê-lo - ela decidiu se despedir antes de abrir a porta do carro que a aguardava. — Obrigada pelas dicas durante o jantar. Significaram muito para o meu estômago.
— Bom, o prazer foi meu de poder te apresentar a algumas maravilhas desconhecidas desse mundo. Talvez eu te encontre em algum outro evento logo.
— Acho que não. Talvez eu volte para o basquete - ela zombou antes de entrar no táxi e sumir do campo de visão do jogador.


+++



Ele estaria mentindo se dissesse que não estava com sono. Os olhos pesavam, ardiam, mas eles não se fechavam da forma como deveriam. Sua cabeça ainda estava a mil com todos os acontecimentos do dia. Em um impulso, fez o movimento mais óbvio: puxou o celular do criado-mudo. Acabou decidindo abrir o instagram, percebendo que sua última foto publicada havia ultrapassado dois milhões e meio de curtidas.
Foi então que percebeu a pequena lupa e sua curiosidade começou a incomodá-lo. Digitou “ ” e clicou no primeiro resultado. Pela foto de perfil entre vários artigos esportivos, ele sabia exatamente que se tratava dela.
Permitiu que seu dedo indicador descesse pela tela, mostrando todo o perfil dela. Na grande maioria delas, havia sempre uma credencial visível em algum grande crachá. Riu das caretas, das fotos divertidas em que ela gargalhava ao lado da família. Retornou para o topo da tela, clicando naquele grande botão azul de “Seguir”.
Em um ato de ainda mais curiosidade, ele pesquisou o nome de usuário dela entre os próprios seguidores, percebendo que ela já o seguia. Riu sozinho e decidiu enviar uma mensagem direta. Era mais forte que ele.

“Pelo jeito, a Senhorita-Prefiro-Basquete tem algum interesse em certos jogadores.”

A resposta da mulher veio após dois minutos.

“Eu sigo todos os jogadores da Seleção de 2018 e pretendo seguir os novos convocados. Não se iluda.”
“Inclusive, parece que foi o senhor que veio atrás de mim, não?”

O rapaz riu, virando-se sobre o colchão.

“Culpado. Não tenho argumentos contra isso.”

respondeu da forma mais simples e previsível.

“Eu sei!”

O fato era que ainda havia uma grande lista de coisas que ela não sabia. Principalmente sobre o que ainda estava por acontecer. O que ela tinha conhecimento pleno naquele momento era de que o voo realmente sairia muito cedo e ela deveria ter o máximo de sono que pudesse antes de se esmagar entre poltronas apertadas por longas e exaustivas horas.


Capítulo Dois

Substituição



estava desesperada. Todas as gavetas de sua sala estavam abertas e prestes a caírem do armário. Até o seu porta-lápis já estava completamente revirado, com todo o seu conteúdo espalhado pela mesa. O que mais faltava? Retirar cada tecla do notebook não parecia poder ajudar muito. Que tipo de pessoa conseguia perder as chaves do carro daquela forma?
Ao ouvir alguns toques na porta, gritou um “Pode entrar!” quase automaticamente, sem parar de revirar a papelada das gavetas.
— Mas que zona é essa? Eu não sabia que tinha um furacão passando pela cidade - a voz feminina finalmente chamou a atenção de , fazendo com que ela olhasse para a mulher que acabara de entrar em sua sala.
— Eu perdi a droga da minha chave - ela explicou, bufando.
A outra olhou em volta, dando de cara com a grande bolsa preta logo na poltrona que ficava ao lado da porta.
, você já pensou em procurar na sua bolsa?
— Você acha que eu sou idiota? É óbvio que eu não colocaria a chave dentro da bolsa!
— Eu nunca disse dentro da bolsa. Eu estou dizendo que talvez você possa ter encaixado a bendita no chaveiro da bolsa. O que, por acaso, foi exatamente o que você fez.
olhou para a bolsa, vendo suas chaves lindamente penduradas junto às alças do acessório. Pareciam sorrir em zombaria para ela. “Quem é a idiota mesmo?”.
— Você é uma péssima melhor amiga, Kirsten - ela enfatizou o nome da outra, sabendo que ela o odiava com todas as forças.
— Vai usar essa carta? Vai mesmo caçoar da pobre coitada com a família germânica sem noção? Isso só mostra que é você quem é a péssima melhor amiga aqui. Aliás, por que esse desespero todo para ir embora?
— Porque o meu horário acabou há uma hora, Kika, e eu achei que tinha perdido a porcaria da chave. Isso foi desesperador o suficiente para alguém que sequer sabe se ainda tem a chave reserva.
Kika riu, levando a bolsa para a amiga.
— Precisamos conversar.
— Não sabe como eu tenho medo dessas suas conversas - admitiu.
— Não sabe como eu não me importo, - a amiga respondeu. — Vamos tomar um café. Eu pago.
As duas seguiram caminhando até a cafeteria que ficava na esquina da rua seguinte. Os funcionários da empresa frequentavam tanto o local que já eram conhecidos por todos que trabalhavam ali. Os garçons e garçonetes já tinham os pedidos mais comuns praticante decorados.
— Um expresso duplo e um frapuccino de chocolate com base de creme, acertei? - A atendente perguntou, recebendo a confirmação das duas mulheres. — Já trago. Fiquem à vontade.
Sentaram-se em uma mesa do lado de fora, aproveitando o tempo levemente fresco que tornava o ambiente externo incrivelmente agradável. fez questão de colocar as chaves no bolso frontal da bolsa, tendo certeza de que dessa vez sabia aonde ela estava.
— Comece a falar antes que eu fuja daqui bem rápido. E você bem sabe que eu detesto correr.
— Bom, na verdade, eu preciso começar te dando uma notícia - Kika disse. — Eu não quis contar para ninguém porque não queria más vibrações e nem arriscar criar expectativas demais só para que tudo desse errado no fim das contas. Amiga, você não vai acreditar.
— Você comprou uma casa na praia? Uma casa na praia em Malibu? Miami? Você vai me dar a casa na praia de Miami?
— Lógico que não! Eu tenho cara de quem tem dinheiro para comprar a droga de uma casa na praia? Nós temos o mesmo emprego, sua idiota.
— Faz sentido - ponderou. — Agora, conta isso logo!
— Eu estou grávida! - Kika soltou de uma só vez, sem conseguir segurar a sua animação. A amiga, por sua vez, não esboçou reação alguma. — Eu sabia que ia ser um choque para você.
— Na verdade não. Todo mundo meio que já sabia. É que você está meio… - Ela tentou representar com uns gestos aparentemente um tanto desconexos. — Arredondada.
— Pensei que você soubesse que não se deve chamar uma mulher de gorda. No dia em que esses seus frapuccinos gordurosos se encaminharem para a sua barriga e decidirem se amontoar, eu farei questão de ser a primeira a esfregar na sua cara.
revirou os olhos, enquanto ria.
— Eu jamais falaria sobre gordura até porque isso está muito longe de definir alguém ou representar algo que realmente importe. Quando eu digo arredondada, é porque parece que você engoliu uma melancia mesmo. Se não fosse um bebê, eu te recomendaria um infectologista.
— Certo. Enfim, essa foi a primeira notícia. Tem outra coisinha…
A garçonete entregou os pedidos, ao que elas prontamente agradeceram. fez questão de tomar um longo gole enquanto fitava a amiga. Sabia que ela tinha calafrios só de pensar na composição daquela bebida.
— Que outra coisinha seria?
— Bem, o médico que vem me acompanhando disse que a minha gestação tem um pouco de risco por conta de oscilações de pressão e glicemia principalmente. Por causa do histórico familiar, ele acha melhor eu ficar de repouso total. Eu achei uma decisão meio extrema e desesperada, mas minha família toda me mataria se eu não obedecesse cegamente às ordens médicas. Isso significa que a nova mamãe está entrando em licença adiantada.
— Eu também te mataria se você não cuidasse direito do meu afilhado. Trate de descansar e ficar com os pés para cima até que ele esteja fora de você.
— Controle-se. Até porque nem é esse o ponto. - Kirsten sorriu amarelo, sabendo que a amiga a xingaria para o resto de suas vidas com total razão.
— Ah, não. O que você fez agora?
— Bom, tenho certeza de que você sabe quem iria fazer a cobertura dos treinamentos e amistosos da Seleção antes da Copa. E, como estarei dormindo plenamente, eles pediram para que eu indicasse alguém de confiança para me substituir. Você tem duas chances para adivinhar quem eu indiquei.
fuzilou a amiga, pensando se seria um crime grave demais enforcar uma gestante.
— Eu não acredito que você fez isso!
— Ah, qual é? É um projeto absurdo de importante! Vai dar um destaque absurdo para a sua carreira. Todos os olhos estão voltados para a Seleção nesse momento e isso significa que eles estarão completamente voltados para o seu trabalho.
— É exatamente esse o problema, Kika! É responsabilidade demais! Qualquer trabalho que esteja minimamente atrás da mais completa perfeição e eles arrancarão o meu pescoço com uma serra elétrica em praça pública.
— Pode parar com esse drama! Não é assim que a banda toca, meu anjo. Você vai e se sairá incrivelmente bem como sempre.
— Não aceito a substituição. Ponto final.
Kirsten puxou as mãos da amiga, fazendo aquela careta esquisita de cãozinho que havia sido chutado da mudança. Aquele semblante de dó definitivamente não combinava em nada com ela.
— Por favor, ! Eu nunca te pedi nada! É como em um jogo de futebol, sabe? Eu tenho direito a três substituições.
— Não pediu?! Kika, essa é literalmente a quarta vez que você me pede para te substituir.
— Você está mentindo. Eu não me lembro disso, não.
— Último jogo da final entre Golden State Warriors e Cleveland Cavaliers, jogo em Wimbledon entre Novak Djokovic e Kevin Anderson e a coletiva do Neymar antes de ele ser transferido para o Paris Saint-German. Você já gastou todas as suas substituições.
— Então, é um amistoso. Tenho mais três trocas. Por favor, ! Você não pode recusar um trabalho desses. Se não por mim, então faça pelo seu afilhado. Ele vai ficar tão orgulhoso da madrinha. - A mulher fez um biquinho, enquanto repousava as mãos sobre a barriga de forma a obrigar a olhar para aquele ponto.
— O que você me pede sorrindo que eu não faço chorando?
— Eu sabia que você aceitaria! Estaremos aqui torcendo por você. Sabe que te amamos muito, não sabe?
— Eu sei. - Ela revirou os olhos antes de voltar totalmente sua atenção para o seu gorduroso e delicioso frappuccino. Afinal, aquilo era o mais próximo de um consolo que ela conseguiria depois de toda aquela ideia insana.


+++



Os últimos três dias tinham servido basicamente para que os jogadores fossem recebidos e instalados. Por jogarem em clubes e campeonatos distintos - com calendários diferentes -, os voos também eram outros. Essa separação só conseguiu aumentar ainda mais a euforia deles ao se reencontrarem no CT da Granja Comary.
Philippe e Gabriel saíram do vestiário antes dos companheiros. Ao pisar no campo, tiveram que respirar fundo para absorver todas as lembranças que Teresópolis lhes trazia.
— Dessa vez vai ser diferente - Jesus disse, apoiando a mão no ombro do amigo. — Tenho certeza disso.
Antes que Coutinho pudesse concordar ou sequer se manifestar, os demais jogadores já estavam entrando em campo, acompanhados do treinador e do preparador físico.
— Estão todos aqui? - Tite perguntou.
— Não - Marcelo respondeu. — Falta um.
— Bom dia, time! Achei que a recepção seria um pouco mais calorosa - a voz masculina interrompeu a conversa, fazendo com que todos dessem atenção para seu dono. Exatamente o que ele queria.
— O ousado chegou. - Marcelo riu e foi cumprimentar o rapaz. — Sempre o último, Ney.
— Se eu não for o último, vocês não me dão atenção - Neymar respondeu simplesmente, arrancando risadas do time.
— Guardem as brincadeiras para depois - Tite ordenou. — Tenho um anúncio a fazer. Temos um novo auxiliar técnico.
Todo o time se entreolhou, estranhando a novidade que vinha de supetão.
— Existe uma pessoa que não podia ficar longe dessa Copa e eu tive que trazê-lo de volta. Então, dei esse cargo a ele. Acho que vocês ficarão felizes em recebê-lo de volta.
Na porta da saída do vestiário, Thiago Silva estava escorado, olhando a todos com seu semblante risonho.
— Bem-vindo de volta, Capitão - Marcello cumprimentou antes de todos partirem para abraços e tapinhas nas costas de Thiago. Os anos passavam e ele continuava sendo absurdamente querido por todos.
— Quero também que vocês recebam bem os novatos. Não quero saber de intrigas ou mal estar. Vocês são todos um time agora. Vinícius, Rodrygo, Lucas, Paulinho e Pedrinho, vocês são muito bem-vindos à nossa família.
O time todo aplaudiu, vendo os mais novos ficando envergonhados com a atenção virada a eles. Coutinho, Marcelo e Jesus riram, desviando o olhar. Estavam aguardando o momento exato de retirar do bolso aquilo que guardaram com tanto amor e carinho. Talvez nem tanto assim.
— Bom, essas foram as boas vindas formais e oficiais - Marcelo explicou. — Agora, é hora das boas vindas da equipe.
Os veteranos retiraram dos bolsos traseiros da bermuda as embalagens de espuma de barbear e partiram para cima dos novatos sem dó ou piedade. Em poucos instantes, as risadas já haviam se tornado estridentes e indistintas entre os gritos dos trapaceiros e de suas vítimas. Afinal, não seria uma recepção brasileira sem um leve trote.
— Às vezes eu me arrependo tanto de ter aceitado esse emprego - Tite comentou. — Para a sorte de vocês, eu já não estava mesmo esperando um treino decente por hoje.
— Ah, professor - Neymar caçoou. — A gente sabe que você não vive sem esse time.
— Eu vou ali fora atender uma ligação e já volto - Thiago anunciou, deixando os companheiros para trás.
— A partir de segunda-feira, eu quero vocês aqui desde cedo sem falta. E venham alimentados, sem ressaca e sem dores musculares. Vocês sabem que eu estou falando sério.
— Estaremos aqui - Coutinho garantiu. — Estamos completamente comprometidos e daremos o nosso máximo dentro e fora de campo.
— Nós temos um time muito forte e competente - Tite afirmou. — Capacidade de vencer vocês têm. Vontade e garra também. Trabalharemos duro para entrosar o time e para corrigir os pequenos detalhes.
O silêncio reinou por ali. O respeito que cada um ali nutria por Adenor era simplesmente incomensurável. Se ele dissesse um “a”, não existiria alguém ali que se levantaria para retrucar um “b”. Não havia mudança de ideia, convencimento ou palavras ditas uma segunda vez. Até porque, ao fim do dia, todos ali sabiam que ele estava certo e mesmo os piores e mais brutos puxões de orelha tinham uma motivação válida.
— Alguém morreu? Vocês ficaram em silêncio - Thiago analisou. — É um momento ruim para eu apresentar a vocês uma amiga minha?
— Aqui? Agora? - Jesus perguntou. — Como assim?
— Ela é fotógrafa e ficou responsável por fazer a cobertura dos treinamentos abertos e dos amistosos. Foi ela quem me ligou, na verdade. Estava aí na frente perdida e pediu ajuda para encontrar o hotel.
— E pediu ajuda logo para você? - Neymar perguntou, sorrindo de forma maliciosa.
— Idiota. Talvez ela tenha pedido logo para mim porque sabia que era aqui que eu estava, seu otário. Enfim, o tempo de decisão de vocês acabou. Vou buscá-la.
Os rapazes cruzaram os olhares, tentando entender o que esperar de tudo aquilo. Não era como se fosse uma ocasião daquelas que sempre acontecem.
Thiago logo estava de volta, esperando a moça que o seguia enquanto arrastava a grande mala cujas rodinhas tinham decidido simplesmente emperrar entre os blocos de concreto.
— Pessoal, essa é a… - ele começou, mas foi interrompido.
?! - Coutinho não sabia se gritava ou se engasgava. Era coincidência demais para ser verdade.
— Isso que ele disse - Thiago concordou, estranhando. — Na verdade, essa é uma novidade para mim. Eu não sabia que vocês se conheciam.
— Nós nos conhecemos em uma coletiva de imprensa - explicou. — Logo que saiu a convocação de vocês, eu fui mandada para Barcelona para cobrir a entrevista. E oi para vocês todos. É um prazer conhecê-los.
— Eu também não sabia que vocês dois eram amigos - Coutinho disse para Thiago. — Acho que estamos todos descobrindo algumas coisas novas hoje.
Neymar e Marcelo abaixaram as cabeças, tentando esconder a risada - e evitar que ela saísse do controle. Os pequenos indícios de ciúmes não poderiam ser mais cômicos para seus companheiros.
— Enfim, eu queria que vocês se familiarizassem com ela porque a estará conosco por algum tempo. A amiga dela que faria a cobertura teve que ficar de repouso para evitar complicações durante a gestação e mandou essa moça incrível aqui para substituí-la. Ela faz um trabalho maravilhoso que eu tive prazer de apreciar várias vezes. Sem contar que ela é super bacana, então tenho certeza de que essa temporada será agradável para todos nós. Certo?
— Eu acho que o Coutinho deveria contar mais para a gente sobre como foi esse encontro deles - Neymar pediu, sabendo que estava prestes a instaurar um grande mal estar.
Philippe engoliu em seco enquanto mordia os próprios lábios. riu, sentindo as bochechas corarem levemente pela vergonha.
— Eu achei que ela estivesse perdida e acabei falando com ela - Philippe disse. — O que foi exatamente o que eu já tinha dito.
— E foi só isso? - Marcelo perguntou, arqueando as sobrancelhas em desconfiança. — Não sei, não. Estou achando que aconteceu mais alguma coisa.
A fotógrafa riu, encostando as malas em uma das paredes que sustentavam a arquibancada. Voltou-se para o grupo, apoiando seu braço sobre os ombros de Thiago.
— O amigo de vocês acabou aparecendo no restaurante enquanto eu estava trabalhando. Disse que era o restaurante preferido dele e me deu algumas dicas gastronômicas. Acabamos jantando juntos por isso, mas é realmente esse o fim da história. Eu fui embora cedo porque tinha o voo no outro dia e tudo mais.
— Então, vocês ficaram conversando durante o jantar? - Neymar continuou dando corda, esperando que o companheiro de time a agarrasse e se enforcasse.
— Um pouco - Coutinho concordou. — Basicamente sobre trabalho.
— E gatos - completou, rindo.
— Eu adoro gatos - Rodrygo soltou.
— Prometo que te mostro umas fotos deles depois - ela jurou.
— Agora que as apresentações foram devidamente feitas, vou levá-la até o hotel.
— Tchau, rapazes. - Ela acenou cordialmente. — Acho que nos veremos em breve, então talvez seja melhor ficar com um “Até logo”.
Quando os dois estavam prestes a sair de vista, Neymar gritou ambos.
— Eu estava aqui pensando, sabe?
— Coisa boa daí não sai - Firmino comentou enquanto ria, recebendo um dedo do meio do companheiro.
— Eu estou falando sério, ok? Nós tínhamos combinado de ir a um barzinho aqui perto no sábado. Talvez ela possa ir junto. Seria legal já que provavelmente estaremos por perto nas próximas semanas.
— Pensei que fosse só para os amigos - Coutinho murmurou.
— Ela é amiga do Thiago e vai ser nossa amiga agora - Neymar remendou. — Não precisa ficar se sentindo ameaçado, irmão. Não é como se nós fossemos trocar você por ela. Quer dizer, eu até gostaria, mas…
— Bom, eu estou livre - ela afirmou. — Digo, se não for incomodar vocês ou criar um climão, eu iria sem problemas. Se vocês quiserem, claro.
— Queremos - Marcelo assegurou. — Você está realmente convidada.
— Vai ser legal - Casemiro comentou. — É só um bando de marmanjos tentando relaxar e jogar conversa fora antes que toda a pressão comece de vez, sabe? É quase como aproveitar os últimos dias de liberdade.
Todos riram com o comentário, tentando não ligar para o quão verdadeiro aquilo era no fim das contas. Foi então que Tite pigarreou, finalmente tomando partido naquela conversa toda.
— Eu não me lembro de ter autorizado o meu time a ficar saindo à toa desse jeito. Vocês podem me lembrar de quando foi que isso aconteceu? Talvez seja a idade que esteja deixando a minha memória meio fraca e comprometida.
Os jogadores cruzaram os olhares como se estivessem tentando decidir quem se responsabilizaria pelos próximos minutos de tentativas de convencimento e um olhar de pena que ninguém compraria.
— É realmente só para espairecer - Thiago tomou a dianteira. Uma vez capitão, sempre capitão. — Eles não vão perder a linha. Eu estarei lá, prometo controlar a situação se algo parecer prestes a sair do controle.
— Você vai controlar as coisas antes de elas sequer cogitarem sair do controle - Tite corrigiu. — E estejam avisados: se alguém aparecer alterado para o treino, eu juro que deixo vocês perderem o amistoso por ausência.
— Sim, senhor - eles responderam praticamente em uníssono.
— Não vamos te decepcionar - Marcelo assegurou.
Com o ambiente mais calmo e razoável, Thiago voltou a pedir licença para acompanhar a amiga até o hotel. Quando os dois já haviam deixado o centro de treinamento, os jogadores começaram a empurrar Coutinho na brincadeira. Às vezes a comissão técnica se perguntava se não estava, por engano, coordenando a seleção sub-17. Em momentos como aquele, era como se a maturidade de todos fosse líquida e estivesse evaporando pelo calor do Rio de Janeiro.
— Não acredito que depois de todos esses anos você ainda não aprendeu, menino Coutinho - Neymar reclamou.
— Não aprendi o quê?
— Que quando você conhece uma mulher legal, você conta para os seus amigos para que a gente possa ficar feliz por você - Jesus explicou. — Qual é, cara? Até eu sei disso.
— É para isso que os amigos servem - Casemiro concordou. — Para encherem o seu saco, mas também para ficarem torcendo por você.
Philippe revirou os olhos para os colegas. Não queria que eles ficassem sabendo daquele encontro. Até porque não esperava reencontrar a fotógrafa. Ao menos, não tão cedo.
O jantar havia sido incrivelmente agradável para ele. Ela era divertida, linda e completamente decidida. Talvez, fosse exatamente esse último o traço que mais encantara o rapaz tão instantaneamente. Fato é que ele pensava ser apenas uma ruptura prazerosa na rotina e, portanto, ninguém precisava mesmo saber sobre o que tinha acontecido. Agora, como em uma coincidência zombeteira do universo, ela estava lá novamente. E, dessa vez, não parecia que iria embora tão cedo.
— Ela é bem bonita - Neymar enfatizou.
— E você é bem comprometido - Firmino emendou. — Além disso, o Coutinho viu primeiro.
— Nós mal nos conhecemos - o rapaz decidiu participar ativamente da conversa ao ser mencionado. Não havia para onde fugir, afinal. Estaria preso com aqueles homens pelos próximos meses, fosse essa a sua vontade ou não. — Só jogamos conversa fora enquanto eu tentei ser simpático e mostrar algumas especialidades catalãs para ela. Foi literalmente só isso que aconteceu.
— E, mesmo assim, você fica todo envergonhado ao comentar sobre isso - Marcelo falou. — Relaxa, rapaz. Se você acha que é exagero da nossa parte, não vamos mais cutucar a onça com vara curta. Não tem mais papo sobre isso. Simplesmente vamos seguir a vida.
— Obrigado - agradeceu verdadeiramente, recebendo os sorrisos dos amigos.
Eles eram insuportáveis muitas vezes, mas sempre souberam a hora de parar. Ao contrário de certas pessoas.
Seu celular vibrava com a notificação da mensagem direta no instagram.

“É uma pena que ninguém se importe com basquete nessa época. Não podia negar a proposta e morrer de fome.”

Coutinho riu daquilo que havia praticamente se tornado uma piada interna entre eles. Em alguns segundos, uma nova notificação apareceu no visor:

“P.S.: Se você achar estranho eu ir ao bar com vocês, eu posso inventar uma desculpa para o Thiago. Juro. Não quero atrapalhar o momento de vocês.”

O jogador rapidamente desbloqueou o celular e começou a digitar uma resposta.

“Você ainda vai dar o braço a torcer e admitir que futebol é muito mais legal.”
“P.S.: Sem desculpas. Quero que você vá, sim. Vai ser legal. Espero te ver por lá.”

Ele seguiu para o vestiário, pronto para tirar a roupa ainda impregnada pela espuma de barbear. Antes de trocar a camisa, acabou sorrindo sozinho mais uma vez. Parecia um tonto olhando para aquela tela bloqueada.

“Seu pedido é uma ordem. Estarei lá.”




Continua...



Nota da autora: Sei que esse capítulo pode ser meio decepcionante para vocês, mas ele precisava aparecer para explicar o motivo pelo qual as próximas coisas vão começar a acontecer. Sem contar que a Kika é muito meu amorzinho e eu não podia passar batido por ela. Espero que vocês tenham gostado apesar disso <3
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