FFOBS - 4th of the July, por Milena Kis

Última atualização: 17/09/2017

Prólogo

Warren, Ohio
23 de Outubro de 2014

Querida ,
Não sei se você ainda permitiria que eu me referisse a você com nossos antigos apelidos ou piadas internas, então preferi apelar ao tão batido endereçamento de uma droga de carta qualquer. Mesmo que não seja esse o caso. Pelo menos para mim não é.
Eu queria muito estar contigo aí hoje. Poder te oferecer um abraço, um beijo e entregar um presente bizarro que te faria rir e depois agradecer só por educação. Eu apertaria suas bochechas daquele jeito que te deixava com uma cara emburrada linda, enquanto te diria como sempre que você é uma péssima atriz. Tudo isso só para que eu aparecesse depois com um presente de verdade. Alguma coisa mais digna, que pudesse ser boa o suficiente para você - mesmo que a meu ver isso seja totalmente impossível. Queria pelo menos saber que eu seria bem-vindo nem que fosse apenas para dizer “Parabéns!”.
Mas acho que você, mais do que ninguém, sabe que infelizmente as coisas não são assim. Podem até ter sido um dia, mas quando disseram que as coisas não permanecem perfeitas para sempre, bom, eles estavam certos.
Mal consigo me mexer enquanto penso nisso e acabo de perceber que essa frase pode ser entendida de mais de um jeito. Pelo menos, de acordo com os jeitos que eu próprio a interpretei, ela permanece coerente. Todos eles estão certos. Desde o mais literal a uma visão figurada unicamente metafórica.
Mesmo com tudo isso, , eu me permiti escrever essa carta, só para que você soubesse que eu ainda me importo. Talvez mais do que nunca, por sinal. E eu te desejo tudo do bom e do melhor sempre. Você merece o dobro de todas aquelas coisas que costumam te desejar em aniversários. Você merece o mundo, . Aliás, obrigado por ter sido o meu.
Creio que não devesse falar – ou escrever, não importa – isso, mas foi necessário. Assim como eu sinto a necessidade de te ter por aqui. Infelizmente nem todas as nossas necessidades podem ser sanadas.
Talvez você rasgue essa carta assim que ela te for entregue. Talvez você apenas jogue-a no latão de lixo mais próximo. Ou, talvez exista uma pequena possibilidade de que você esteja lendo isso agora. Talvez. O mundo é sempre repleto de infinitas possibilidades. Você mesma adorava me lembrar disso. Chega até a ser um pouco nostálgico.
Se você chegou até aqui já deve estar completamente farta de toda essa ladainha desnecessária. Então volto a meu ponto principal; o motivo pelo qual lhe escrevo: Feliz aniversário, . Espero que você seja muito feliz. Tão feliz como um dia eu fui ao seu lado.
Com todo o amor e carinho,
.

Capítulo 1

30 de Dezembro de 2013



-Well woman, mi love, how you a do it? You a bubble it bubble it. And you know dat mi say see it – conseguia berrar mais alto do que os autofalantes do carro.
-Pior do que ter que te ouvir cantando só ter que te ouvir cantando rap com esse sotaque africano ridiculamente mal feito, começou com as alfinetadas, sentada ao meu lado, enquanto continuava cantando feito um louco. Eu assumo que ele não era o melhor cantor do mundo, mas essa era definitivamente a música preferida dele e ele se divertia assim. Ou seja, vamos aderir ao projeto de Ano Novo: “Como não ser uma amiga estraga prazeres”. Talvez fosse uma boa ideia apresentar o projeto a .
-Dorme aí e vê se não enche o saco – , que estava no banco do carona, se virou e atirou um travesseiro para . A princípio ela até pareceu um pouco ofendida, mas deu de ombros se rendendo ao sono e apoiando o travesseiro na janela da Range Rover Evoque de .
olhou para mim e riu. nem sempre era assim. Aliás, ela era definitivamente a pessoa mais retardada e festeira do mundo. Aquele não era o seu humor comum e isso só podia significar uma coisa: ela estava naquela horrenda semana, batizada carinhosamente por mim como “semana infernal onde eu poderia morrer com uma perda de sangue quase hemorrágica”. É um nome comprido, eu sei, mas tem efeito o suficiente para mostrar o quão próxima da morte eu me sentia nessa época.
-Tem mais um travesseiro aqui, ofereceu.
-Eu estou bem assim. Você sabe que eu gosto de observar o mundo lá fora quando fazemos essas viagens – comentei com um sorriso. Qualquer um que tivesse um mínimo de proximidade comigo sabia daquilo. Eu era viciada em fitar paisagens, por mais que isso assim dito soe meio bizarro. Era uma sensação ótima poder captar fragmentos do mundo em sua memória com toda sua beleza e amplitude. Eu me sentia parte dele. Eu sentia como se tivesse encontrado um motivo para viver e este era simplesmente ele mesmo; a razão para viver era única e exclusivamente viver. E eu me sentia completa.
A viagem até Toledo durava pouco mais de uma hora então eu passaria a viagem observando tudo sem enjoar.
Desde que tínhamos uns onze anos pedíamos para nossos pais nos deixarem passar o Ano Novo juntos em algum lugar. Claro que, naquela época, tínhamos completa noção de que eles viriam de brinde na viagem como acompanhantes, motoristas e babás. Mas agora? Depois de anos, eles finalmente não podiam mais nos impedir e acabaram autorizando. Por isso, nesse exato momento, eu, , e nos encaminhávamos para a casa de um de seus amigos perto do Lago Erie. Amigo esse que tinha convidado outros colegas – ou como diria , os “brothers”- que tinha em comum com o mesmo para que todos nós passássemos o Réveillon juntos.
ficava alternando seus CDs durante todo o trajeto: Sean Paul, Nelly, Chris Brown, Lil Wayne, Wiz Khalifa, Eminem... Uma variedade admirável dos seus “niggas”, mesmo que isso fosse motivo de piada com o pobre Eminem. Coitado, ele era de longe o meu preferido.
tamborilava os dedos na porta do carro acompanhando o ritmo da música. Eu ainda estranhava um pouco esse gosto dela por rap, mas o fato era que o namoro com tinha mudado um pouco sua personalidade. E isso obviamente também dizia respeito a seu gosto musical. Três anos atrás eu nunca teria imaginado minha amiga - a maior fã do John Mayer existente nesse mundo - adorando esse tipo de música. fazia muito bem a ela.
Se estivesse acordada nesse momento provavelmente ela estaria rindo da minha cara e falando que eu fui trocada no Pet Shop porque eu parecia um cachorro com a cara assim pra fora da janela. Mas já que ela não estava, eu podia desgrenhar meus cabelos em paz e ser um cachorro feliz.
- We know they don’t get you like I will. My only wish is I die real cause that truth hurts and those lies heal and you can’t sleep thinking that he lies still – e já estavam cantando animadamente de novo quando eu saí do meu estado de hipnose.
- Vamos, . Eu sei que você também adora essa música – ela disse rindo e eu acabei cantando junto com eles. acordou e em menos de dez minutos chegamos a uma casa enorme logo de frente para o lago.
nem tinha estacionado e já tinha pulado para fora do carro, tropeçando de leve em alguns cascalhos espalhados pelo chão. Retardada.
Desci do carro assim que ele parou porque eu continuava com a minha sanidade mental intacta. Puxei minha enorme mala roxa de rodinhas e tirei o iPod do bolso. Encontrei a discografia do ‘Hollywood Undead’ e coloquei os fones no ouvido deixando que “Young” – minha música preferida deles – começasse a tocar.
Bom, não por muito tempo.
- Dá pra parar de ser anti-social, ? – brotou do meu lado puxando meus fones com tudo e eu automaticamente bufei irritada. Ô mania irritante – Você acabou de chegar e já quer se trancar no seu mundo? Nada disso, eu não criei você para ser autista.
- Quem me criou foi minha mãe, até onde eu sei – disse arrastando minha mala desajeitadamente sobre o solo irregular.
-Ótimo, vou perguntar pra tia se ela anda te levando num psicólogo.
-Não sei qual o problema – continuei ainda tentando me defender – Eu não conheço nenhum dos amigos do amigo do . Aliás, eu não conheço nem mesmo o amigo do .
-Bom, o Jim você não conhece mesmo, mas ele é super legal. Já os amigos dele, eu tenho a certeza mais absoluta do mundo que você sabe quem são. Pelo menos dois deles.
Eu amo a , mas essas brincadeirinhas de charada com uma pitada de suspense me deixavam completamente irritada. A curiosidade um dia ainda vai me matar. E como eu não posso prender uma coisa assim tão abstrata, eu coloco a culpa na e está tudo certo.
Fiquei insistindo para que ela me contasse quem os tais meninos aos quais ela se referiu eram durante todo o tempo de nossa curta caminhada que não deve ter durado nem dois minutos. Já era o suficiente para que, quando paramos na frente da porta de entrada, se virasse para mim pronta para soltar uma manada de palavrões tão fofos quanto ela.
Mas assim como ela me interrompera, ela agora tinha sido interrompida por uma porta abrindo, seguida de um grito.
-Aaaah, finalmente chegaram as minhas garotas – um cara muito alto e muito musculoso (que eu nunca tinha ao menos visto) puxou nós duas para um abraço de uma só vez - Eu já estava quase mandando uma patrulha atrás de vocês. Não dá mais para aguentar esse lugar, meu Deus! TEM MUITA TESTOSTERONA NESSA CASA!
-Assim que a curte – a própria surgiu atrás de nós – Oi, Jim!
Então esse é o Jim. Como eu nem ao menos cogitei essa hipótese?!
-Entrem – ele disse, puxando nossas malas – Vou deixar essas aqui na sala para depois dividirmos os quartos. Fiquem à vontade. Aliás, sua amiga é bem mais bonita do que vocês tinham comentado.- E saiu, dando uma piscadinha para mim.
Assim que ele saiu de vista, e se viraram para mim e caíram na gargalhada ao encontrar meu rosto provavelmente ainda em choque. Que ousadia, jovem. E as ridículas ainda ficam falando de mim para os outros. Eu não mereço isso, juro que não mereço!
Comecei a seguir as duas enquanto pensava em milhares de maneiras de tortura como castigo. De repente minha visão foi tampada.
Levei minhas próprias mãos até as mãos que cobriam meus olhos para achar longos dedos finos e gélidos. Discrição muito ampla, eu sei. Mas não quando se trata do seu melhor amigo. Eu reconheceria cada milímetro dele há pelo menos uns 20m de distância. Não mais que isso porque eu não desenvolvi superpoderes ainda.
Desviei-me de suas mãos e me virei abraçando-o com força.
-Por que não me disse que viria? – perguntei ainda em seus braços.
- pediu para que eu guardasse segredo – respondeu – Acho que ela queria te fazer uma surpresa.
-É. Eu notei – disse revirando os olhos e fazendo com que ele risse – Ela disse que eu reconheceria ao menos duas pessoas...
Atenção, telespectadores: essa é jogando verde.
-Não quero que isso de alguma forma estrague sua viagem ou te preocupe. Sei que você diz que não importa mais, mas não quero nem pensar que a presença dele ainda possa te abalar – ele acabou por dizer.
-Credo, . Falando assim até parece que alguém programou minha morte. Quem é?
olhou para o ambiente e apontou com a cabeça para a escada no momento exato em que eu pude ver um ser sem camisa descendo pelo corrimão feito louco.
...
- – ele disse com um sorriso e veio me dar um abraço.
Retribuí o mesmo sorrindo e fez um joinha para mim.
-Oi, . Não sabia que vinha.
-Não posso dizer o mesmo – ele disse rindo – Fiquei até com medo de que você acabasse desistindo por causa daquilo ainda e...
- – interrompi-o – Quando eu te disse que estava tudo bem, era sério. Eu não guardo nenhum tipo de rancor, mágoa ou sei lá de você. Eu realmente quero poder ser sua amiga.
Ele suspirou parecendo aliviado.
-Seria ótimo ter a honra de te ter como amiga.
-Por que o está demorando tanto lá em cima? – perguntou e, por eu não fazer a mínima ideia de quem era , notei que ele estava falando com .
-Deve estar passando um resumo completo para o novato. Se bobear ele está até com o mapa de Warren lá em cima.
-Quem é ? – Decidi perguntar. Não arranca pedaço, então não custava nada tentar.
-Sou eu, bela moça que eu não sei o nome. – Um garoto magro se aproximou de nós três e estendeu a mão como um cumprimento formal. – , disponível vinte e quatro horas por dia.
- – acabei me apresentando também – Sinto que todo esse charme galanteador de repente dará lugar a um louco e divertido potencial.
-Cara , a senhorita por acaso é vidente? – ele perguntou e logo caiu na gargalhada – Já gostei de você. Ô MAL EDUCADO, DESCE PARA CUMPRIMENTAR AS MENINAS. Já começou a gritar. É... Mais uma vez eu acertei.
Logo um menino desceu as escadas correndo com um short de banho e uma toalha jogada de maneira desajeitada sobre os ombros.
-Vem cá, cara – puxou o garoto para o centro da sala e todos nós paramos – , e Jim você já conheceu. Aquele cara levemente afeminado é o – começou apontando e nos fazendo rir – Essa é a namorada dele, . Eu sei que você está pensando: “COMO ELA FICA COM ISSO?!”. Pois é amigo, é a vida... Enfim, aquela é a e essa gata aqui é minha mais nova amiga, – sorri com o elogio e fingi secar uma lágrima – Galera, ele é novo aqui. Vai passar o Réveillon conosco e depois se muda para Warren para não precisar morrer de saudades. Valeu a atenção, estou indo pra piscina – disse e saiu correndo como um louco.
O garoto a quem nós fomos apresentados estava ali ainda parado rindo. Então percebi que ele não tinha sido apresentado.
-E qual é o seu nome? – perguntei.
- – ele respondeu com um sorriso perfeitamente cativante – .
E com um leve aceno de cabeça para todos, saiu pela mesma porta que para se juntar a ele na piscina.



Acenei rapidamente para todos e fui atrás de para a piscina gigantesca de Jim. E quando eu digo que é gigantesca eu não estou usando uma hipérbole. Aliás, eu nunca falei tão sério. Poderíamos dar uma festa na piscina com umas cem pessoas sossegadamente. Mas naquele momento eu estava pouco me lixando para festas; eu só queria relaxar um pouco.
estava de costas para mim. Mirei, peguei impulso e pulei, caindo apenas uns míseros centímetros de distância de onde ele de fato estava.
Tirei o cabelo do rosto e vi que tinha conseguido o que queria. não parava de esfregar os olhos e tossia parecendo ter se engasgado um pouco. Eu tive que rir.
-Filho. Duma. Mãe – ele disse e logo atirou um monte de água em meu rosto. Acabamos começando uma guerrinha idiota. Quem visse aquelas cenas provavelmente nos chamaria de crianças, idiotas, imaturos...
-Vocês são muito gays.
Gays era o meu próximo exemplo da lista.
Virei meu corpo na direção em que a voz teria vindo e encontrei ali, parada logo em frente a nossa visão do sol –de forma que só era possível notar sua silhueta-, a mesma garota de olhos profundos e cabelos compridos de minutos atrás.E ela carregava consigo um sorriso de divertimento, quase como um deboche.
-Ai, droga – se pronunciou e eu agradeci mentalmente por isso ter desviado minha atenção – Você descobriu sobre o nosso lance. Como nos casaremos em segredo agora, ?
Acabei rindo um pouco. Atitude completamente previsível vindo dele. Meu melhor amigo era um louco.
-Droga, cara – entrei na onda – Agora ela vai espalhar para o mundo nossos planos e preparativos. E se ela contar pra todo mundo até sobre Vegas?!
-Aí sim nós teremos um problema – ele disse e já estava rindo alto.
-Vamos combinar o seguinte – a mesma pronunciou-se e se sentou na beira da piscina, colocando seus pés na água – Vocês me levam para Vegas com vocês, deixam que eu tenha a honra de ser madrinha do casal e daí eu guardo o segredo.
fez uma comemoração um tanto afeminada e saiu da piscina correndo para abraçar que tentava desviar do corpo molhado que a perseguia com os braços abertos.
Mas ele conseguiu. Em questão de segundos, estava carregando-a e, ignorando todos seus gritos, socos e protestos, jogou-a sem dó nem piedade na piscina.
-Seu babaca – ela gritou e começou a rir tentando a todo custo empurrar para baixo. As tentativas não foram um fracasso total, mas não deu certo de qualquer forma. Ela ainda era fraca demais para ele. Delicada demais para conseguir derrubar alguém.
sentou em um degrau na borda e tirou suas roupas molhadas mostrando, por baixo delas, um biquíni azul marinho e dourado levemente cavado, acentuando suas curvas.
Ah, qual é?! Não me leve a mal. Não é como se eu fosse um total pervertido, mas eu ainda era homem e eu ainda sabia reconhecer uma mulher bonita – e um corpo também.
Ela se virou e mergulhou até onde estávamos. Assim que emergiu, tirou os teimosos fios molhados – e mais escuros agora – que lhe cobriam o rosto. E ela tinha tantos pequenos detalhes que chegava a ser espantoso quando você reparava – eu mesmo ainda não sabia o porquê de eu estar reparando. E tudo parecia em ordem. Até as pequenas imperfeições pareciam ser necessárias para cumprir o conjunto perfeito e torná-lo real. Ok, se eu continuar assim talvez acabe me conformando com a ideia dela de que eu fosse gay. Ou não... Certo, com certeza não.
- E esse povo sem vontade de viver que não vem pra piscina?! – começou a berrar quando e apareceram na porta que dava para a área onde estávamos.
- A gente só está esperando a se trocar. Ela está demorando um pouco no banheiro – disse e imediatamente começou a rir alto, cobrindo a própria boca com as mãos para tentar amenizar a situação.
e eu começamos a rir da risada dela e só depois ele percebeu que nem ao menos tinha perguntado o motivo do riso.
- A demora da – ela explicou – O motivo dela. Só é engraçado, mas deixa quieto. Acho que é melhor eu não ficar anunciando esse tipo de coisa para o mundo.
- SAI DA FRENTEEEEE – ouvi o grito na mesma hora em que senti a água balançar e se levantar.
- Porra, , não era para esvaziar a piscina, cara – ironizou.
- SEGUNDO ROOOOUND – outro grito e mais água acertando em cheio nossos rostos quando pulou.
- Acabou a brincadeira – anunciou – Se alguém fizer o terceiro round eu não me responsabilizo pelos meus atos.
- Ok, eu só não vou pular porque eu te amo – disse entrando normalmente na piscina – E porque eu aprendi a não duvidar de você.
- Parabéns, aprendiz. Agora passe seu conhecimento adiante – ela disse piscando para ele.
e logo vieram para a água também, seguidas de perto por Jim que não parava de falar sobre uma coisa “muito demais”, como ele insistia em repetir a cada dez segundos.
- Alguém topa um handebol aquático? – perguntou.
- Também conhecido na comunidade como "Polo aquático" – disse.
- Mais conhecido como "eu não te perguntei nada" – ele rebateu e, após um jogo de sério de uns cinco segundos, os dois riram.
- Eu até topo – disse – Só que mais tarde. Eu prefiro sentar um pouquinho agora para descansar e tomar um sol.
- Ótima opção – emendou. – Vai ser mais fácil te achar nos lençóis brancos sem que você pareça parte deles.
- Só eu peguei uma segunda intenção nessa frase? – perguntou rindo e todos fizeram o mesmo quando processaram aquilo no sentido a que ele se referia. - Ai, gente, eu tenho um namorado, falou? Não estou desesperada a ponto de pegar uma baranga qualquer – disse e mostrou o dedo.
Todos se sentaram nos degraus da piscina e ficaram ali conversando. estava no canto brincando com os próprios dedos parecendo completamente distraída. Ela era bonita. Linda até, eu diria. Ela tinha um tipo de beleza descomunal.
também era linda. Não tanto quanto , provavelmente, mas era à sua forma.
Além disso, pelo que Jim tinha dito sobre o resto dos amigos que só apareceriam para a festa, elas eram as únicas solteiras ali e eu sentia que mais cedo ou mais tarde eu ia sobrar. Então era melhor tentar alguma coisa logo.
Jim saiu correndo para atender um telefonema e todos olharam enquanto ele saia. nem se mexeu de onde estava. Aproveitei esse momento aéreo dela para me aproximar.
Já estava tecnicamente perto quando Jim apareceu de volta correndo.
- , uma tal de Rachel quer falar contigo – ele disse.
Ah, mas era só o que me faltava. Isso era algum tipo de perseguição? Porque vir me encher o saco quando eu estou de férias, em outra cidade, na casa de amigos que provavelmente ela até ontem não sabia, PARECE PERSEGUIÇÃO.
- Faz o seguinte... – falei. – Manda ela pro inferno e fala que não é para ela ligar mais.
Jim fez exatamente o que eu pedi, gritando um pouco, e desligou o telefone rindo.
Meu corpo instantaneamente relaxou. se aproximou dando tapinhas no meu ombro.
- Quem é Rachel? – perguntou com uma cara maliciosa, assim como .
Todos meio que tinham parado de conversar para ouvir minha resposta. Então eu encontrei aquele par de olhos me encarando fixamente. Não era uma boa ideia falar sobre aquilo, porque como sempre ou eu seria o coitadinho da história ou o vilão. Nenhuma das duas opções me agradava
- É uma longa e entediante história – falei tentando desviar, mas ela me interrompeu. Eu já deveria esperar por isso.
- Temos essa semana inteira aqui e, pelo que disse, você se mudará para Warren. Presumo então que tenhamos tempo suficiente para isso.
Respirei fundo. Não com raiva e sim pensando num jeito ameno de contar aquilo sem entrar para nenhuma das alternativas já citadas.
Merda. Eu estava mesmo ferrado.
- Rachel é uma retardada que fica perseguindo o começou a falar e aquela já era pelo menos a segunda que eu devia para ele só hoje – Ela é apaixonada por ele, mas é aquele tipo de paixão estranhamente obsessivo. Chega até a assustar. Quando eu fui passar férias na casa do em Cleveland, a gente sempre arranjava alguma boate ou pub para ir. E a maldita sempre, sem nenhuma exceção, estava lá. Ficava encarando o garoto, sentava na nossa mesa e isso meio que afastava as outras garotas.
- Então seu ódio pela Rachel é por que ela afastava as garotas de você? – perguntou rindo.
- Não – falei – É pelo conjunto de coisas.
- E ninguém liga se as garotas não se aproximavam do disse – Por causa daquela louca, elas não se aproximavam nem de MIM e isso sim é um crime. Desperdício dessa beleza toda.
- Seu projeto de Ano Novo vai ser parar de ser iludido, – falei rindo.
- Só se você aceitar o seu de parar com essa sua inveja. Recalcado.
- Gente, eu estou com fome – falou do nada e todos nos viramos para ela – Meu Deus, o que foi?! Uma pessoa não pode mais sentir fome nesse mundo, não?! É ALGUM TIPO DE CRIME?!
- Isso aí é por causa da gravidez – disse, ajeitando seus óculos de sol.
- GRAVIDEZ?! – gritou, dando um pulo.
- Surpresa, amor – disse com um sorriso amarelo e as exclamações foram gerais. Todos boquiabertos, barulhos estranhos saiam por nossas bocas, mas nem uma palavra coerente sequer.
- Você só pode estar brincando – disse enquanto mexia no cabelo freneticamente com uma mão e dava tapas no próprio rosto com a outra.
- Claro que eu estou brincando, idiota! – ela falou e todos soltaram o ar de uma só vez. Ela não conseguia parar de rir – Vocês tinham que ver a cara de vocês... Otários!
- Eu juro que eu vou te matar! – gritou – Só porque eu estava começando a curtir a ideia de ser uma madrinha precoce.
-Esquece isso. não quer filhos.
- quer pizza? – Jim perguntou e todos começaram a encará-lo – É, oras... Você disse que estava com fome.
- Quero de frango com catupiry – ela respondeu.
- Quatro queijos – , e gritaram juntos.
- Qualquer coisa que tenha bacon – disse.
- Calabresa – eu e falamos.
- Certo, vou pedir as pizzas seus mortos de fome.
Jim fez os pedidos e cada um foi tomar banho em um canto enquanto as pizzas não chegavam.
Abri o chuveiro do banheiro da piscina – sim, o mais desconfortável sobrou para o idiota aqui – e deixei que a água escorresse por meu rosto, descendo para o resto do meu corpo.
Ajustei a temperatura da água até encontrar um “gelado agradável” e tomei meu banho como sempre.
Eu costumava cantar no banho, ou gritar letras aleatórias. Mas hoje eu só pensava. Primeiro porque eu não queria cantar e passar vergonha. Segundo porque eu não conseguia parar a minha mente e ela estava bem longe dali.
tinha até soltado um “até que para uma longa história, ela foi bem simples”. Mas ela só dizia isso porque sabia da versão amena criada pelo para limpar minha barra. Não que eu seja culpado. Não totalmente pelo menos. Mas aquele papo de obsessão era leve se comparado ao real.
No entanto, não foi uma história falsa. Ele não mentiu, apenas omitiu. A obsessão dela realmente irritava e chegava sim a afastar as pessoas. Mas eu tive minha participação nisso.
Fechei o chuveiro e me enxuguei, colocando minha roupa e calçando um par de chinelos.
Adentrei a casa para encontrar todos já sentados ao redor da mesa, passando talheres e decidindo quem ia servir de garçom e cortar a pizza para todo mundo.
- Ninguém nem me espera – comentei.
- Ninguém mandou demorar – Jim respondeu. – Senta aí do lado da e vê se não reclama.
Essa foi a pior consequência que você conseguiu planejar, Jim? Para mim parece mais um prêmio.
- E aí? – Perguntei.
- Tudo bem? – ela perguntou.
- Comigo tudo está maravilhosamente bem. E você?
- Até agora, tudo bem.
- Gosta de pizza? – nossa, que assunto bosta . Eu esperava mais de você. Quer dizer, de mim.
- Gosta de música? – ela respondeu com outra pergunta.
- Como não gostar? – repeti seu ato.
- Exatamente – ela piscou e começou a comer.
Touché.
Ela não entrou em nenhum assunto durante o jantar, mas observava tudo. Como cheguei a essa brilhante conclusão? Observando-a.
Logo após o jantar anunciou ao mundo seu cansaço de forma indiscreta e Jim resolveu fazer a divisão dos quartos ali mesmo e mandar todo mundo sumir. e ganharam um quarto só para eles e vários risinhos e comentários maldosos. , e ficariam juntos mesmo que ele não parasse de reclamar. Portanto eu dividiria o quarto com e .
Automaticamente todos pegaram as malas e cada um foi para seu canto.
Escolhi a cama de solteiro do quarto já que cheguei primeiro e deixei que os dois dividissem o beliche.
- Boa noite, gatos – disse apagando a luz.
- Boa noite, cachorra – respondi ouvindo uma risada.
Mas o sono não vinha de jeito nenhum. Eu virava para a esquerda, para a direita, deitei do lado contrário da cama, cacei o lado frio do travesseiro e nada dava certo. Então tive a brilhante ideia de beber água.
Cheguei à cozinha já acesa e vi uma garota de pijama parada perto da pia.
- Está me seguindo, ? – perguntou se virando para mim com seu tom irônico.
- Como sabia que era eu?
- Reflexo na janela. Agora quero a minha resposta.
- Não. Só vim tomar um copo de água.
Ela soltou uma risada fraca.
- Também não consegue dormir, não é?
- Não. Já tentei de tudo – admiti.
- Eu costumo demorar um pouco para conseguir dormir na primeira noite em um lugar novo. Frescura de criança. Não entendi isso até hoje.
- Pensei que fosse só eu. A cama sempre parece esquisita na primeira vez.
ficou tensa de repente e eu repassei minha frase umas quinze vezes na minha cabeça me perguntando o que eu tinha dito de errado.
- Eu disse alguma coisa? – perguntei.
- Não. Não se preocupe com isso – ela disse sorrindo fraco e deixou o copo na pia – Acho melhor eu voltar para tentar dormir. Boa noite, .
- Boa noite, . Tenha bons sonhos.
Ela virou a cabeça para me olhar antes de seguir e com um singelo sorriso apenas disse:
- Você também. Eu te vejo amanhã.
- Estarei esperando – murmurei assistindo enquanto ela ia embora.
Droga. Eu preciso dormir.


Capítulo 2

Capítulo Dois

31 de Dezembro de 2013/01 de Janeiro de 2014


- CADÊ A DROGA DO MEU GLOBO DE LUZ?! – Jim começou a gritar correndo entre nós no salão subterrâneo de sua própria casa. Aquilo era assustadoramente enorme. Daqui a pouco era capaz de eu achar um Walmart ali.
- Sinto em lhe informar, mas não cabe um globo de luz no meu bolso – respondeu.
- Como vocês esperam que eu dê uma festa sem um globo de luz?!
- Dando a festa sem o globo de luz – disse. – Pensei que a resposta fosse óbvia.
- Eu achei isso quando fui colocar minhas roupas no armário do quarto – disse enquanto descia as escadas com uma caixa na mão. – Não sei se você vai usar, mas eu achei bacana.
- MEU GLOBO DE LUZ! – Jim gritou ao abrir a caixa. Maturidade mandou um beijo.
- Graças a Deus vocês acharam isso – falou. – Eu já estava me preparando pra dar um soco na cara desse homem que não para de gritar procurando a droga do globo.
- Também te adoro, gracinha – Jim disse e mandou um beijo no ar antes de se jogar em uma poltrona.
e montaram escadas para pendurar o globo e as faixas pouco – na verdade, muito – chamativas que só Deus sabe de onde vieram. e estavam brincando com um dos cilindros de gás hélio que tecnicamente serviriam para encher uns balões enormes prateados com os dizeres “Happy New Year” ou “2014, COME IN!”.
- Por que os balões são prateados? – perguntou com cara de choro.
- Porque eu comprei balões prateados – Jim respondeu. – Qual o problema?
- Eu queria balões dourados! – o primeiro disse num resmungo gritado.
- Em primeiro lugar, o resto da decoração tem dourado também. Em segundo lugar, cara, que gay.
- Não é gay. Eu só queria dourado e... – parou de repente, mas logo retomou. – Okay, vou perguntar para o se eles querem ajuda.
Ele então foi até onde os outros dois estavam tentando encostar a escada na parede de forma que ela não ficasse torta ou ameaçasse cair. Dava para perceber na expressão deles o pavor de um deslize acontecer e alguém acabar tendo um amigável encontro com o chão.
- Hey, – Jim chamou, fazendo com que eu meio que despertasse. – Por que você não vai até a entrada e dá uma mãozinha para o com as faixas e as luzes? Aposto que o garoto deve estar completamente atolado.
Assenti discretamente e apertei meu casaco amarrado ao redor de minha cintura apenas por força do hábito.
Atravessei a casa, alcançando a porta de entrada - como Jim tinha dito – e vendo realmente meio atrapalhado tentando manter o equilíbrio, desenrolar os fios e ajeitar as luzes na fachada.
- Pelo jeito – sua voz grossa pôde ser ouvida – quem está me seguindo é você.
- Na verdade – comecei –, Jim pediu que eu viesse checar se você precisava de ajuda aí. Então em vez de ser prepotente, você poderia apenas me dizer o que eu posso fazer e pronto.
Ele acabou rindo de maneira controlada, antes de descer e parar exatamente na minha frente, olhando diretamente para mim.
- Eu preciso sim de ajuda e me desculpe se eu pareci grosso. Foi só uma brincadeira. Pensei que eu pudesse falar algo assim já que você também o fez ontem.
Touché. Eu o acusando de ter feito algo que eu fiz primeiro. Parabéns, . Ganhou seu diploma de idiota do ano. Com validade para o ano que vem também.
- Okay, . Eu peguei pesado. Desculpe-me.
- Não tem pelo quê se desculpar, – ele disse, sorrindo como sempre. Literalmente, como sempre. Ele estava sempre sorrindo. Aquele tipo de sorriso que você poderia observar por horas sem se cansar. Que você poderia emoldurar numa fotografia. Que você poderia eternizar numa daquelas lembranças bonitas.
- O que eu posso fazer? – Perguntei tentando parecer o mais animada possível para disfarçar os pensamentos anteriores e qualquer possível expressão que tivesse passado por minha face.
- Pega aquelas bandeirinhas douradas para mim porque eu desisti de colocar as luzes – ele falou apontando para o mencionado objeto estendido aos pés da escada montada em que ele estava.
Desembolei as bandeirinhas o máximo que consegui para facilitar seu trabalho e as entreguei em suas mãos.
- Obrigado – ele disse. – Seria bem mais fácil caso eu não tivesse sérios problemas de coordenação motora.
- Quer trocar as posições? – perguntei.
- Não, eu costumo preferir ficar por cima mesmo – ele disse rindo e só aí eu me dei conta do segundo sentido estampado em minha frase.
- Eu juro que falei na inocência – justifiquei jogando as mãos para o alto, mas não consegui evitar rir também da minha própria lerdeza.
Aproveitei para estender as bandeirinhas para que as pregou entre os pilares da fachada da casa.
- Ficou muito torto? – ele perguntou analisando o próprio trabalho e eu apenas balancei a cabeça indicando que não. – Ótimo. Agora precisarei da sua ajuda para decorar e iluminar o jardim.
Começamos a passar os LEDs pelos arbustos e pinheiros, vez ou outra tomando alguns tombos ou enroscando na própria iluminação. Culpa dele. Não fiz absolutamente nada que pudesse causar isso. Eu juro.
- Só me explica por que raios o Jim precisa iluminar cada centímetro desse lugar? É absurdamente grande! A casa vai parecer um holofote neon mesmo para quem estiver do outro lado do lago.
- Infelizmente, meu caro , somos os atingidos por esse grande holofote e teremos que aceitar.
- Profundo – ele comentou. – Mas sabe o que é mais profundo?
- Se você fizer a piadinha sobre o que você faz no banheiro, eu juro que te espanco.
- A cada segundo que nós conversamos, eu percebo ainda mais como sua natureza é fofa, . E só para constar, posso fazer muitas coisas no banheiro.
- Mas você entendeu a qual delas eu me referia – falei revirando os olhos. Não é possível que tudo o que eu fale saia com uma conotação errada!
- Entendi, sim. Mas eu ia te contar sobre meu sonho essa noite. Se você quiser ouvir, claro – ele se apressou em continuar e eu fiz sinal para que ele realmente o fizesse – Então, não tem nada de fantástico nele, mas foi divertido. Estávamos nós todos e várias outras pessoas quaisquer perto do lago. Acho que era sobre a festa mesmo. O caiu no lago, suas amigas pareciam duas loucas correndo descalças na margem, e estavam te corrompendo a fazer uma dança bizarra com os braços numa posição tipo a dos egípcios, e Jim estavam fazendo um beatbox com mais cuspe que o necessário e eu não me lembro da ocupação que a minha pessoa tinha no momento.
Encarei-o completamente estática por alguns segundos tentando assimilar a quantidade de informação bizarra sendo atirada de uma só vez.
- Meu Deus – eu falei depois de um tempo, ainda em choque. – Você simplesmente sonhou com isso?!
- Sonhei. Estranho demais, né?
- Nem tanto – admiti. – Se eu conheço bem meus amigos, sei que eles provavelmente vão perder a noção de quanto devem beber para se manterem num nível normal de felicidade. Eles vão acabar abandonando o estado de sobriedade. Aliás, por precaução, quando isso acontecer, foge!
- Então, tecnicamente, existe uma chance de que e te obriguem a dançar e regue o chão com a própria saliva?
- Exatamente. Inclusive... – fui interrompida por uma buzina estridente que parecia ter tomado um soco no meio da rua.
e eu nos viramos quase que ao mesmo tempo para observar um Azera estacionando do outro lado da rua e uma certa pessoa levantando os óculos de sol até que estes parassem sobre seus longos e excessivamente alisados cabelos platinados, ao mesmo tempo em que caminhava sobre sapatos de salto agulha que poderiam furar o olho de uma pessoa. Aliás, eu poderia roubar um daqueles de noite e furar os dela. Não seria má ideia.
Automaticamente – e propositalmente, diga-se de passagem – revirei os olhos e bufei, controlando e evidenciando a minha vontade de arrancar aquele aplique com pinça. Fio por fio.
- Ah, eu não sabia que você vinha – a criatura que eu me recuso a acreditar que é da mesma espécie que eu me disse, cinicamente. – Teria pensado melhor antes de aceitar o convite do .
- É com grande alegria que eu digo o mesmo – falei com o sorriso mais falso que consegui. – Aliás, sei que vaca adora pastar, mas acho que você poderia começar a mascar esse chiclete de boca fechada, sabe? As pessoas não tem o mínimo interesse em observar o que você está mastigando.
A loira alimentadora de todo o meu ódio – ou pelo menos de uma enorme parte dele – apenas fez uma careta de desprezo e me empurrou seguindo para o interior da casa sem ao menos ter anunciado sua presença para mais alguém. Mais um motivo pelo qual eu não tenho nem um pouco de dó de odiá-la.
Voltei meu olhar a uma enorme placa escrito “CHEGA MAIS 2014!” e resolvi colocá-la perto da caixa de correio.
- , você pode me ajudar a fixar direito isso no chão? – pedi e o garoto veio correndo ajudar.
- Quem era aquela garota? – ele perguntou. É, eu já devia esperar por essa.
- Ela se chama Ashley. O sobrenome não interessa e o apelido mais carinhoso encontrado seria peso de papel– eu respondi de forma grosseira e o vi arqueando a sobrancelha. Não, ele não ia se contentar com xingamentos como informações – Ela é meio que a ficante séria do . Eles não assumem um namoro sério, mas também não se declaram livres de qualquer tipo de compromisso.
- E por que você a odeia tanto?
- Porque ela não faz bem para o meu amigo. Ele é grandinho o suficiente para saber o que é melhor para ele. Eu sei disso. Mas é só que ele é meu melhor amigo desde quase sempre, então eu meio que sinto uma necessidade e até obrigação de cuidar dele. Pode até ser um relacionamento só por diversão, mas ele poderia se divertir com alguém que não fosse ela.
- Isso por acaso seria ciúmes? – perguntou e eu senti uma fagulha de raiva dando sinal de querer acender dentro de mim. Terreno perigoso. Ninguém em sã consciência cometia a insanidade de me estressar. – Não me refiro a um tipo de ciúme romântico, eu digo por senti-lo distante da amizade de vocês.
- Talvez um pouco. Isso faria mais sentido na época em que eles começaram a sair. Acho que agora é mais por raiva de não conseguir convencê-lo a achar alguém melhor.
- Eu entendo – disse e aquela não era mesmo a resposta que eu esperava ouvir. – uma vez teve um relacionamento quase sério com uma garota que literalmente não prestava. Eu avisei para ele que ela ainda ia acabar ferrando com ele, mas ele não me deu ouvidos. O que aconteceu? Eu estava certo e mesmo que eu quisesse gritar um “Eu avisei”, eu me senti culpado por não ter sido bom o suficiente para convencer meu melhor amigo a ter abandonado o bote antes que ele afundasse de vez. Mas no final tudo se acerta, pode acreditar.
- Espero que você esteja certo, . – Acabei soltando um suspiro. – Eu espero também que não demore muito mais. Isso esgota minha paciência frequentemente.
- Plebeu e princesa! – Jim apareceu na porta. – O almoço está servido. Podem ir porque acho que vocês já acabaram por aqui. Aliás, ficou ótimo. Vou começar a contratar vocês para decorar todas as minhas festas.
- Opa, se tiver comida eu topo de cara – disse rindo e eu concordei.
Sentamo-nos todos ao redor da grande mesa para comer um peixe que eu não sabia nem de onde tinha saído. vinha da cozinha trazendo um risoto de camarão. Ele vestia um avental escrito “Prove as delícias do chefe (ou o chefe)”.
- Sirvam-se – ele disse ao terminar de ajeitar a mesa. – Se estiver ótimo, fui eu quem fez. Se estiver comível, fui eu quem fez. Se o tempero estiver ruim ou a comida estiver queimada é tudo culpa do Jim e do globo de luz dele.
Almoçamos em silêncio e eu comecei a achar aquilo esquisito. A não ser que todos tenham resolvido estabelecer a lei do silêncio, talvez eles tenham entrado no consenso de “hora da refeição é sagrada, sem brincadeiras, por favor”.
Eu estava realmente começando a deixar o estranhamento total de lado e optar por essa calmaria, sabe? Eu estava conseguindo aproveitar de verdade aqueles minutos de silêncio e paz. Mas então, ele se foi. Quebrado pela voz mais que eu mais adorava no mundo.
- Credo, . Será que dá para você parar de me chutar?! – Ashley mugiu. Não, isso não é um erro, foi totalmente proposital.
- Olha a posição e a distância a qual nós estamos nessa mesa. A não ser que eu tenha um metro e meio só de perna e uma flexibilidade formidável, não tem como ter sido eu quem te chutou querida.
- Você está insinuando que eu sou burra?!
- Na verdade, eu não preciso insinuar. Os seus pensamentos te traem, seus comentários te comprometem e sua fala te entrega. Não preciso gastar meu tempo insinuando algo que está estampado na sua testa.
- OLHA AQUI, SUA VAGAB...
- CHEGA! –Jim gritou, ficando de pé. – Acho que terminamos o almoço, até porque já está tarde. e , a louça do almoço é de vocês.
Dei de ombros e comecei a juntar os pratos mais próximos enquanto tentava agrupar e equilibrar os copos. Lancei meu último olhar na direção em que a criatura estava sussurrando algo na orelha do meu amigo e mordendo o lábio logo em seguida. Alguém me traz um antialérgico porque minha alergia a falta de bom senso começou a atacar.
Coloquei os pratos dentro da pia e me virei de costas para o balcão, dando impulso com os braços para me sentar nele. Cruzei as pernas da forma que sempre fazia por mania e fiquei ali brincando com meus próprios dedos, esperando que casualmente se lembrasse de que eu estava ali o esperando para nossa tarefa doméstica do dia.
- Quando você e Ashley vão parar de brigar? – Ele entrou bufando na cozinha.
- Bom, eu poderia tentar ser mais legal porque esse é um dos meus planos de mudança para o próximo ano. O fato é: você sabe que eu não cumpro meus planos de Ano Novo. Além do mais, isso requisitaria também que sua querida Ashley fosse menos insuportável, esnobe e tivesse surtos menos constantes de patricinha mimada.
- Você também não deixa passar uma, não é ?
- Bom saber que você trocou sua melhor amiga por uma criatura que pode entrar num bonde e sair da sua vida em questão de segundos.
- Não entendi qual foi a do bonde.
- Eu também não, mas isso não importa – falei, pulando do balcão e pegando o pano para começar a enxugar a louça. – Você devia ter me avisado que ela viria.
- Olha, você sabe que se eu tivesse que escolher entre as duas eu escolheria você – ele disse ensaboando um dos pratos. – Porém, eu prefiro não escolher e gostaria muito mesmo que vocês duas pelo menos se respeitassem. É pedir demais?
- Você sabe que é, – falei e bufei ao vê-lo me encarar. – Okay, eu prometo que vou tentar. Por você, somente. Eu continuo não me importando se ela do nada morresse. Só vou ao enterro dela se tiver comida.
- Você só vai a qualquer lugar se tiver comida, – ele disse fechando a torneira e passando o resto do sabão na minha testa.
- VOLTA AQUI AGORA! – gritei ao vê-lo sair correndo e rindo. – Filho da mãe desgraçado.
- Quanto ódio no coração – disse se aproximando com a mão tampando o celular. Adoro como o demônio surge do nada – Tem alguém querendo falar contigo.
Puxei o celular de sua mão praticamente gritando um “alô” irritada.
- Olha, se não é uma boa hora ou você não quiser conversar comigo, eu compreendo. Posso te ligar mais tarde, se você preferir. – Reconheci aquela voz assim que a primeira palavra tinha sido pronunciada. Meu sorriso apareceu instantaneamente.
- Eu jurava que você não ia ligar. – Menti. Era óbvio que ele ligaria.
- Eu não podia deixar de desejar um feliz ano novo pra minha baixinha preferida, não é? disse na sua fofura de sempre – E, como eu não queria atrapalhar sua noite ou irritar meus sogros ao ficar no celular, acabei decidindo te ligar mais cedo.
- Você sabe que se você não me ligasse eu ia fazer questão de te ligar pra te encher assim que o ano começasse, não sabe?
- Sei – disse sucintamente, rindo.
- Feliz ano novo, grandão. Desejo a ti todas aquelas coisas que as pessoas sempre desejam e que 2014 seja um ano fantástico.
- Feliz ano novo, maninha. Para você, apenas o melhor do mundo porque você sabe que é a melhor do mundo. Tenha um lindo ano, minha irmã preferida.
- Devo contar isso a ?
- Creio que não seja necessário. Aliás, Marlee te mandou um beijo.
- Mande outro por mim e avise minha cunhadinha que eu quero um sobrinho esse ano ainda.
- , eu acabei de pedi-la em noivado! Não precisamos apressar as coisas. Somos jovens ainda.
- Nem tanto – falei dando de ombros. – Já achei um fio de cabelo branco em você.
- Aquilo era tinta!
- Não adianta mentir para mim, querido. Eu sei de tudo!
- Dá para desligar? – apareceu bufando – Preciso de ajuda para escolher minha roupa, criatura!
Revirei os olhos me arrependendo de ter prometido que ajudaria. Lembrete: nunca mais bancar a prestativa.
- Ei, . Preciso desligar por culpa da mais chata do mundo. Beijos.
- Beijos, princesa. Tenha um ótimo começo de ano.
Desliguei a ligação entregando o celular para .
- Como você e meu irmão se falam tanto?! – Ela reclamou.
- Porque, ao contrário de você, eu não passo cada segundo da minha vida implicando com ele por motivos bobos. Eu admiro muito seu irmão, além de que ele sempre me ajudou com tudo. E eu teria falado com ele bem mais se você não fosse tão chata.
- Que dó. Seria mesmo uma pena se eu não ligasse. Vai se arrumar que eu vou precisar de ajuda depois.
Dei o braço a torcer, aceitando a “ordem” porque sabia que era mesmo o melhor a fazer.
Subi para o quarto e separei uma blusa bege sem mangas e uma saia dupla em tons de rosa, além de um dos meus pares de salto alto preferidos.
Esse ano precisa começar com o pé direito.

Eu simplesmente desisto!
Depois de quase trinta minutos – e sim, eu marquei – tentando fazer meu cabelo parar do jeito que eu queria e meus dedos completamente melados de gel fixador, eu simplesmente desisti. O resultado estava longe de ser o que eu queria, mas não era dos piores.
Calcei meus sapatos e coloquei um relógio digital no pulso. Nada de procurar ponteiros depois de uma boa dose de álcool no sangue. Seria piada.
Desci as escadas até o salão do andar subterrâneo e me assustei ao ver a quantidade de pessoas que tinha simplesmente surgido no tempo em que eu estive me arrumando. Eu deixei umas quinze pessoas aqui e quando volto tem mais de cem! Parece reprodução de coelho.
- Mas, olhem só, se não é o nosso gay preferido que demorou mais para se arrumar do que as meninas – disse se aproximando com uma garrafa de Smirnoff já em mãos.
- Disse o cara que está usando chinelos de couro – retruquei de brincadeira. – Cadê o e o ?
- deve estar engolindo a Ashley em algum canto. Ela é gostosa demais, cara. Ah, o ... Espera um pouco porque eu esqueci... Ah, lembrei. está no bar que o Jim montou perto da mesa de som do DJ lá fora.
Assenti e fui atrás do meu melhor amigo que já devia estar enchendo a cara. Aliás, eu tinha que tentar controlar isso. Se você soma a uma quantidade excessiva de bebida alcóolica não pode esperar que o resultado da equação venha a ser bom.
Não foi difícil encontrar o bar levando em consideração a quantidade de gente que parecia jorrar dali. Como diria meu velho e alcoólatra pai “Esses jovens de hoje em dia só sabem beber”.
- Se você veio para controlar minha bebida, juro que quebro a garrafa na sua cabeça. – Uma voz veio por trás de mim e notei, obviamente, que tinha me encontrado antes que eu o encontrasse. Sóbrio, por sinal.
- Você não podia tentar ficar na base de shots, não é? Tinha que pegar a garrafa inteira!
- Exato. Isso evita que eu tenha que voltar ao bar muitas vezes e acabe errando o caminho em uma delas quando meu cerebelo já estiver parcial ou totalmente sem rumo.
- Faça o que você quiser. Não adianta mesmo tentar te impedir... Só, por favor, controle-se. Mal começamos a festa.
- Então é hora de começar.
Não, aquela última frase não tinha vindo dele. Ela tinha sido dita próxima de nós – para nós – por uma sedutora voz, que pertencia a uma dona mais sedutora ainda. Não era de se jogar fora.
Dei meu melhor sorriso sacana.
- Talvez seja mesmo, mas nós somos dois, você é uma...
A garota deu uma sonora risada enquanto tombava levemente a cabeça para trás fazendo com que seu busto ficasse ainda mais à mostra.
- Que garoto inteligente. A Meg vai gostar de você.
- Quem é Meg?
Se eu estava confuso? Claro. Por que não?!
- Bom, eu sou a Lia e aquela – Lia falou apontando para uma garota com um vestido curto demais. Demais mesmo. – é a Meg. Ela te achou um gatinho.
Poxa, legal. O fato é: Meg estava bem longe de ser gatinha. Não, eu não estou fazendo bullying. Era notória a situação. A garota sorriu abertamente demais e caminhou até nós se juntando à amiga. Ela não parava de encarar com os olhos arregalados demais. Tudo nela era demais e, pela primeira vez, isso não era nada bom.
Lia já tinha puxado para a pista e me vi ali perdido com a Meg psicopata ninfomaníaca – com licença, permita-me demonstrar meu pânico através de conclusões exacerbadas e precipitadas – encarando-me como se eu fosse o último pedaço de carne oferecido para um bando de animais carnívoros famintos.
- Qual o seu nome mesmo, delícia? - Ai, puta que pariu. Eu preciso fugir daqui AGORA!
- . Você deve ser a Meg.
- Sim, mas pode me chamar de musa porque essa noite eu serei a sua. – NÃO, EU ESPERO QUE NÃO . – Se você quiser, é claro. – NÃO, EU NÃO QUERO, VALEU.
- Acontece que a musa dele por essa noite, semana, mês, ano e até que a morte nos separe sou eu. – surgiu do além passando o braço pelo meu pescoço e dando um suave beijo na minha bochecha. – Então a senhorita musa já pode sair por aí procurando outro cara porque esse aqui tem dona.
Meg fez uma careta mais escrota do que a cara normal dela e bufou se virando.
- ALIÁS – começou a gritar – DA PRÓXIMA VEZ QUE FOR TENTAR DAR EM CIMA DE ALGUÉM, TIRA O VESTIDO DO ÚTERO PRIMEIRO, BABACA!
Assim que a dita cuja se afastou suficientemente, tirou o braço do meu pescoço e começou a rir alto. Acabei rindo junto.
- Eu te salvei de uma feia, literalmente, .
- É, eu notei. Muito obrigado.
- O pessoal todo está reunido em volta do lago. Você vem?
Balancei a cabeça afirmativamente e permiti-me caminhar ao seu lado até o lago. Ela estava linda, assim como em todos os outros momentos desde que tinha berrado um cumprimento para ela enquanto nos apresentava. Não usava decotes até o umbigo ou mesmo deixava as longas pernas inteiras à mostra. Ela não precisava daquilo para chamar atenção.
O barulho ao nosso redor começou a aumentar e logo identifiquei todo mundo alguns passos de onde estávamos. gritou acenando para nós e saiu correndo até eles.
- Cadê a garota que estava com você, ? – perguntou rindo junto com Lia. Filhos da mãe.
- Sou eu mesma. Muito obrigada por se lembrar de mim, disse se fazendo de ofendida e abraçando lateralmente. Ashley revirou os olhos com a ação.
- Sabe que eu te amo – disse.
- Os melhores me amam, os piores morrem de inveja. Aliás, que bonito. Todo mundo formando duplinha.
- Em minha defesa, meu namoro foi anunciado para você há muito tempo – disse enquanto a abraçava por trás.
- É, eu sei. Vocês dois já são figurinha carimbada no meu álbum. e Ashley, digamos que era esperado. Jim e , suspeitei desde o princípio. e a garota amiga da garota que deu em cima do , também compreendo. já era de se esperar que fosse arranjar alguém. Aliás, qual o nome das duas fofas que surgiram?
- Lia e Amber – respondeu pelas duas.
- Muito legal. Prazer, meninas. Se vocês quiserem, os quartos lá dentro estão liberados então vocês não precisam me fazer uma sessão de pornografia amadora ao vivo.
deu um tapa na mesma, repreendendo-a. Ela simplesmente deu de ombros, fazendo com que todos rissem.
- GALERA, EU QUERO FAZER UM BRINDE – Jim berrou e todos foram atrás de suas respectivas taças que estavam em cima de uma mesinha improvisada ali. Peguei uma para mim e fez o mesmo. – Último dia do ano, o próximo já está tocando a campainha e ele não vai sair correndo; ele vai entrar. Então, eu quero agradecer por esse ano ter sido ótimo e desejar que o próximo seja ainda melhor. Obrigado por estarem aqui comigo nesse momento e FALTA MENOS DE UMA HORA PARA MEIA-NOITE ENTÃO VAMOS BEBER ATÉ ENTRARMOS EM COMA ALCÓOLICO!
Todos nós gritamos e começamos a beber dançando esquisitamente as músicas variadas de DJs ainda mais variados que tocavam em um volume provavelmente bem superior ao recomendando para a audição de um ser humano. Isso porque nós estávamos relativamente longe da casa.
Foi quem tomou a iniciativa e logo nós doze estávamos praticamente deitados à beira do lago, com os pés na água e os corpos reclinados recostando-se sobre qualquer superfície que aparecesse – inclusive eles mesmos.
- Uma vez – começou – na escola, os professores nos ensinaram a identificar as constelações no céu noturno...
- Começou o papo nerd. – zombou.
- ...E, olhando agora, acho que eu devo ter uma caixa de armazenamento muito pequena de memórias e essas foram para o lixo. Alguém consegue distinguir alguma estrela pelo menos?
O silêncio começou a se manifestar quando soltou um gritinho de felicidade.
- Uma estrela cadente! Façam os pedidos do Ano Novo!
- Que. Coisa. Mais. Clichê! – disse revirando os olhos.
- Como se um corpo celeste caindo fosse realizar meus desejos de ano novo – fez o mesmo.
- Sabe o que vocês são? Duas chatas mal comidas.
- E você é, sem dúvida alguma, a mais chata – rebateu. Não conhecia ainda o irmão de , então não posso falar nada. Mas falaram muito bem do tal .
- DEZ... NOVE... OITO... – começou a gritaria lá em cima e nos levantamos às pressas.
- ... SETE... SEIS... CINCO... QUATRO... TRÊS... DOIS... UM! FELIZ ANO NOVO!
Cada cara agarrou sua garota e eu apenas levantei o olhar para observar a ostentação em fogos de artifício que Jim tinha arranjado. Várias cores, várias formas... Estava lindo e bem propício para o “fogo” atrás de nós.
Assisti todos estourarem em completo silêncio, deixando-me levar pela cena. Depois disso, abaixei meu olhar para encontrar uma garota dentro da água rindo e soltando gritinhos. Meneei a cabeça desacreditado com a cena e fui correndo até ela, rindo. A água estava mais gelada que um iceberg, puta merda.
- Você bebeu, ?! – Perguntei quando me aproximei, batendo queixo.
- Bebi – respondeu rindo. – E você também bebeu.
- Você é totalmente louca.
- Loucura é uma questão de ponto de vista, . Cada um tem sua própria loucura. Eu gosto da minha.
- Também gosto dela.
Ela me encarou como se estivesse levemente confusa e deu um breve riso.
- Fez seu pedido de Ano Novo? – Perguntou.
- Fiz. E você?
- Algumas coisas passaram pela minha cabeça, admito. O que você pediu? E nem vem com aquela ladainha de “se falar não realiza” porque essas superstições são extremamente ridículas.
- Eu pedi por novos começos. Você sabe que eu estou me mudando, então, tecnicamente, é uma vida nova: cidade nova, casa nova, escola nova, amigos novos... Quem sabe quanta coisa nova pode sair disso tudo? – Soltei a clara indireta. Discrição não faz meu tipo, mas acontece. – Acho que é só isso que eu quero. Talvez seja hora de começarmos a nos entregar mais e dar chance a pessoas e coisas novas.
Um sorriso brincou no canto de seus lábios e ela concordou, voltando o olhar para nossos amigos que pareciam estar no auge de sua diversão.
- Talvez você esteja certo. Vou adotar isso como minha meta 2014: “Tentar”. Criar e dar oportunidades não vai fazer mal a ninguém, não é?
- Com isso a gente se preocupa depois. O futuro nos aguarda.
- E que venha a nós o nosso futuro. – disse e voltou para a margem com a saia encharcada. Ela abraçou todos enquanto desejava um feliz Ano Novo. a girou no ar e ela ria abertamente com todo mundo. Decidi me juntar a eles, que já estavam no limiar das risadas e, muito provavelmente, da bebida também.
O ano havia mudado e, a partir desse dia, as coisas também mudariam.
E que venha a nós o nosso futuro...
O nosso futuro...


Capítulo 3

Capítulo Três

03 de Janeiro de 2014


Você não deve estar compreendendo o que aconteceu. Você pode imaginar, provavelmente, mas não sentir como foi – ou pode se você for um completo retardado como eu fui – o peso da ressaca.
Sim, eu já tinha ficado de ressaca antes. Sim, eu já tinha passado mal depois de beber mais do que eu devia.
O problema foi tentar beber quase dois litros de vodka sozinho e ainda brindar o Réveillon com uma bela taça de champanhe. As duas coisas quase que simultaneamente. Meu estômago revira só de pensar.
Fomos dormir bem cedo no dia primeiro. O que significa, basicamente, umas duas da tarde. Só acordamos – pelo menos eu, e - às onze da matina de ontem. acabou nos acordando enquanto fazia grunhidos estranhos caçando o banheiro para despejar um pouco de álcool no vaso sanitário de Jim. Álcool é produto de limpeza, não é? Então, nós já fizemos a faxina do banheiro.
Estávamos quase num revezamento digno de ganhar uma prova especial nas próximas Olimpíadas. Cada um ficava quase meia hora no banheiro se dividindo entre: colocar a bebida pra fora, lavar o rosto, tomar banho e limpar a sujeira feita por cumprir as três etapas anteriores. Somos o trio medalhista de ouro.
Eu posso garantir, com toda a certeza do mundo, que não foi nem um pouco divertido.
- Cara, eu te imploro – começou – NUNCA MAIS ME DEIXA BEBER TANTO ASSIM NA MINHA VIDA!
- Eu não posso garantir nada. Até porque essa era minha intenção inicial, mas acho que eu terminei a noite bebendo mais que você. Eu não sinto meu estômago, cara.
- Acho que a gente acabou vomitando o dito cujo também, disse saindo do banheiro e piscando repetidas vezes como se quisesse se acostumar com a iluminação.
- Eu preciso comer alguma coisa urgentemente! – berrou e saiu do quarto, descendo as escadas pelo corrimão como de costume. e eu nos entreolhamos e rimos, seguindo-o.
Jim estava arrumando um quase banquete no lugar de um simples desjejum comum, e estavam sentadas com os pés em cima do sofá e conversavam sobre algo que eu não ouvia, e estavam brincando com um cachorro enorme no quintal, estava... CALMA! De onde surgiu esse cachorro?!
- Desde quando tem um cachorro nessa casa?! – Perguntei e Jim riu.
- Desde que ele estava com uma carinha de pidão muito irresistível no Pet e eu acabei trazendo ele para cá. – explicou – Agora eu preciso escolher um nome.
- Eu já mandei chamar o cachorro de . Seria uma bela homenagem ao cara mais gato que você conhece. – disse, fazendo com que revirasse os olhos.
- Se eu fosse fazer isso, meu cachorro se chamaria Chris Evans, querido. Aliás, , acho que o Sem Nome gostou de você. – falou e só então percebi que estava prestando muita atenção nela. Tanta atenção que acabei não percebendo que aquele enorme Bernese estava quase aspirando meu dedão de tanto cheirar meu pé.
- E aí, garotão? – Agachei-me para afagar seus pelos e ele abanou o rabo rapidamente, lambendo minha bochecha sem dó.
veio correndo e se sentou ao lado do cachorro, rindo.
- Ai, Sem Nome. Isso é jeito de cumprimentar os outros?!
O cachorro se virou e fez o mesmo no rosto da garota, que disse um “Eca!” e voltou a rir enquanto passava as costas da mão em sua bochecha.
- Eu acho que a gente podia dar o nome dele de Babão. – disse, voltando com uma garrafinha de água em mãos.
- , eu te amo, mas seus nomes são terríveis e sua criatividade não está ajudando muito. – disse rindo e o outro se fingiu de ofendido. – , alguma ideia?
- Eu gosto de Apolo. Não tem muito a ver com a cara dele, mas ele parece ser bem agitado, acho que merece a relação com o Sol.
- Olha só, cara. – disse para o cachorro. – Eles disseram que você é brilhoso. Estão duvidando da sua masculinidade.
- Cala a boca, ! Você queria chamar meu cachorro de , ISSO SIM É DUVIDAR DA MASCULINIDADE DELE. Sem Nome, acho que Apolo é um bom nome.
- Posso jogar o Apolo na piscina? – perguntou lá de dentro.
Eu, e começamos a nos entreolhar e a pergunta pairava entre nós “Que merda de ideia é essa?”.
- Hm... Não. – disse.
- Vocês não vão batizá-lo?
- , você é doente?
- Casualmente.
Pausa. Era tanta merda junta que ninguém se arriscou a aumentar o monte acrescentando qualquer outra informação sem aparente utilidade.
- Acho que vou dar uma volta com o Apolo para ele conhecer o mundo. – disse, quebrando o silêncio.
- Você não encontrou o cachorro num Pet, meu Deus?! Ele provavelmente passou tempo suficiente admirando a rua.– rebateu.
- Para de implicar! Alguém quer vir junto com a gente?
- Eu até iria, mas eu prefiro não mudar meu estado de sedentarismo atual.
- Seus músculos flácidos te agradecerão por isso depois, . Ninguém vai mesmo? Tudo bem, eu vou sozinha, então.
Que droga você está fazendo, ?! Isso é uma oportunidade de aproximação, seu babaca!
- Eu vou contigo. Digo, se você não se importar, é claro.
Um sorriso brincou em seus lábios enquanto ela negava calmamente e me chamou com um leve aceno de mãos, colocando uma coleira – eu devo ter dormido muito mesmo, porque o cachorro já tinha mais acessórios que eu mesmo antes de eu saber da existência dele – em Apolo e saindo pelo portão lateral da casa de Jim.
Caminhamos por alguns minutos no mais completo silêncio – e isso já estava realmente se tornando uma situação bem chata – e então chegamos num parque ou ao menos algo bem próximo disso.
Eu já estava tentando pensar em como puxar assunto com ela de forma que eu não precisasse me passar por um belo de um idiota, quando acabei me surpreendendo: foi ela quem engatou a conversa.
- Então, ... Você vai para a minha humilde cidade, provavelmente vai estudar na mesma escola que eu já que o também está lá, e eu ainda não sei absolutamente nada sobre você. Talvez seja hora de a gente começar a tentar se conhecer melhor, não acha?
- Concordo absolutamente, . O que quer saber sobre mim? Sou um livro aberto.
- Não sei, não tenho perguntas específicas. Apenas me conte sobre você.
- Certo, vejamos por onde começar... Bom, meu nome é , aposto que essa você não sabia. Faço aniversário em pouco mais de uma semana. Meus pais se divorciaram quando eu tinha quatro anos e eu fui morar com a minha mãe e com minha irmã mais velha. Ela está fazendo faculdade na França, se eu não me engano é engenharia química. Sempre foi o orgulho da família com notas e, bom, agora é mais ainda. Eu sempre fui a ovelha negra. Não que eu tenha sido um filho rebelde ao extremo ou algo do tipo, mas eu simplesmente não queria ser o bonequinho perfeito que minha mãe queria que eu fosse.
“Fugi de casa mais ou menos umas seis vezes, mas eu sempre voltava ao fim do dia porque meu estômago começava a roncar. Quase repeti um ano na escola porque eu simplesmente achava meu Xbox muito mais interessante que trinômios quadrados perfeitos e análises dimensionais de massa molar. Aliás, eu ainda acho. Formei uma banda com uns amigos algum tempo atrás, mas só nos encontramos umas quatro vezes e na última delas eu tive uma guitarra quebrada em meu ombro.
Quero poder pular de paraquedas antes de morrer e fazer uma viagem numa daquelas Harley Davidson gigantes. Ir aos piores parques com os piores brinquedos radicais do mundo e dar um pulo básico na Tomorrowland original.
Quero poder dar um significado maior para a minha vida. É estranho, mas eu não queria sentir que tudo o que eu fiz foi em vão.
Tenho medos esquisitos e aleatórios, mas esses você pode descobrir com o tempo.”
Sorri após terminar meu discurso. estava rindo. Não de maneira debochada ou presunçosa, como de costume; aquela era uma risada mínima e aparentemente sincera.
- Suponho que agora seja sua vez de me contar um pouco mais sobre como é ser .
- Suponho que sim. Moro em Warren há onze anos, mas nasci em Dallas. É, meio longe, eu sei. Sou filha única, então sofro com uma superproteção desnecessária vinda dos meus pais. Apesar de que, considerando que eu consegui viajar sozinha, talvez eles estejam desencanando um pouco disso. Mas é só talvez mesmo...
“O ciclo básico da minha vida seria ler, ouvir música, dormir, repetir tudo. Totalmente desinteressante, mas eu gosto. Meus romances e aventuras constantes nas páginas escritas pelos meus autores favoritos se contradizem muito com os inúmeros álbuns de rock salvos no meu celular e o fato de eu gostar de filmes do tipo Transformers, Piratas do Caribe, The Avengers e tudo que se relaciona a super heróis ou algo do tipo.
Sinceramente, não tenho aspiração por nenhuma das suas citadas loucuras. Não quero ser absolutamente normal e entediante, mas eu tenho medo de altura então eu gravo sua aterrisagem de paraquedas.
Sou esquisita e tenho uma afeição enorme pelas pessoas importantes para mim, como os meus melhores amigos. Sou chata, muitas vezes irônica ou mandona demais, mas é sempre brincadeira. Eu nunca tenho intenção de machucar ninguém de verdade. A não ser Ashley, claro. Mas depois de quase um ano e meio em discussões constantes, isso já virou meio pessoal.”
- Sobre a ironia eu já tinha notado, mas o que mais me surpreendeu foi provavelmente os se...
Não consegui concluir minha frase. Senti algo parecido com uma fita grossa raspando em minha panturrilha e, antes que eu me desse conta, meus pés foram tirados do chão e meu próprio corpo os substitui na calçada pela qual caminhávamos. Apolo tinha passado por entre nós dois e dado a volta, embolando a coleira por entre nossas pernas e fazendo com que caíssemos. Ela estava logo em cima de mim. Tão próxima que eu podia sentir sua expiração sendo deixada sobre meu rosto. Eu a fitava e a recíproca era verdadeira. Parecia o momento certo... Daí ela começou a rir, meneando a cabeça.
- Mais uma coisa que você deve saber sobre mim, : eu odeio clichês.
Dito isso, desembolou agilmente suas pernas da coleira e se levantou, oferecendo-me a mão para que eu pudesse fazer o mesmo.
E voltamos pelo mesmo caminho que nós tínhamos vindo.

Abri o portão da casa e soltei a coleira de Apolo que saiu correndo em disparada para tomar água. Ri ao imaginar como seria quando eu aparecesse com um cachorro daquele tamanho em casa.
Nunca tivemos um bicho de estimação que não fosse um peixe. Na verdade, eu tive um coelho chamado Benjamin, mas, houve um erro de percurso...
De qualquer forma, meus pais até então não tinham concordado muito com a ideia de me dar um Yorkshire por causa da bagunça. Nada mais justo então do que eu arranjar um Bernese que era pelo menos umas sete vezes maior que um Yorkshire dos grandes. Ah, eles com certeza levariam numa boa...
Tomei um banho rápido e vesti o primeiro shorts que encontrei, assim como uma blusa do Nirvana que tinha me dado no último natal e ficava enorme em mim.
Desci as escadas para encontrar todos espalhados pelos cantos comendo salgadinhos, amendoins, aperitivos num geral. Só então me dei conta de que, de alguma forma, já passava das 19h00.
Não estava com fome, então apenas roubei algumas batatinhas de , aproveitando para torrar um pouco a paciência do meu querido melhor amigo.
Logo, estávamos todos sentados – ou no sofá, ou nas poltronas, ou simplesmente estirados pelo grande e felpudo tapete bege – na sala, assistindo – na verdade, só olhando mesmo – a um episódio qualquer de The Vampire Diaries.
- Eu me recuso a assistir a isso – protestou.
- Eu me recuso a perder o nosso tempo da viagem assistindo TV – bufou. – Qual o problema de vocês, meu Deus?! Que desperdício, que desânimo...
-Então, , está liberada para nos honrar com uma das suas maravilhosas ideias. – disse.
Silêncio. soltou uma leve risada e um olhar de desprezo, do costumeiro tipo “e ainda reclama”. Mas eu sabia que não recusava um desafio e ela acabaria arranjando uma ideia nem que fosse a coisa mais absurda ou ridícula do mundo. Tipo fazer um castelo de chocolate. Quando dissesse que era uma ideia estúpida e não exequível, ela diria que a culpa então não era dela. Ou ela realmente teria uma ideia boa. Pouco provável, mas de repente pode acontecer...
- Jim – chamou. – Sobrou muita bebida de ontem?
- Quase dez litros de vodka. Por quê?
- Eu topo uns joguinhos entre amigos, só para não perder o costume. Pega as bebidas, por favor?
Jim assentiu, dando um selinho nela e saiu da sala. automaticamente soltou um gemido de reprovação.
- Ah, não. Puta que o pariu, eu acabei de sair de uma ressaca ferrada e vocês já querem me embebedar de novo?!
teve um acesso de risos e olhou para com uma sobrancelha arqueada e um sorriso presunçoso.
- Isso tudo é fraqueza, ? Ai, ai... Eu esperava mais de você.
- Nunca. Mais. Ouse. Me. Chamar. De. Fraco.
- Então vai jogar?
- Se tem uma coisa que eu detesto mais que ressaca dupla, essa coisa é que duvidem de mim. Então, que venha a nova ressaca!
Jim entrou na sala, trazendo uma bandeja com vários copos e três garrafas de vodka.
- O que vai ser?
- “Eu nunca”, como sempre – disse, dando de ombros. – As regras são: alguém fala algo que nunca fez e todo mundo que já fez terá que tomar um gole da bebida...
- Fechou, então – disse.
- ...E arrancar uma peça de roupa. – completou com um sorriso malicioso enquanto passava o indicador na borda do copo, desenhando seu contorno de forma suave, como uma aranha antes de dar o bote em seu refém inseto preso na teia.
Todos estavam estáticos, mas ninguém apresentou objeção alguma, então logo estávamos jogando. Foi o nosso caro anfitrião quem começou a rodada.
- Eu nunca fiz um vídeo pornô.
Ninguém se moveu.
- Que declaração babaca – zombou. – Ninguém aqui teria feito isso. Vamos deixar as coisas mais legais. Eu nunca fiquei com alguém do mesmo sexo que eu.
Respirei fundo, agradecendo mentalmente por aquela afirmação novamente sem adeptos. Mas logo arregalei os olhos ao ver minha amiga tirando o casaco.
- ! – Repreendi e ela apenas sorriu de lado e deu de ombros, enquanto dava um gole em sua bebida.
- Eu nunca saí correndo pelada em uma festa – a dita cuja disse rindo e, logo, e estavam tirando os sapatos e bebendo.
- Eu nunca fiquei com alguém que esteja presente nessa sala – disse me encarando e eu senti vontade de matá-lo assim que o líquido desceu pela minha garganta, queimando-a.
tirou as meias, e os chinelos, eu tirei meus tênis e Jim e os cintos.
Encontrei os olhares dos boquiabertos e sobre mim e . Além de um rindo.
- Como assim? – perguntou.
- e eu já namoramos – falei. – Faz um tempo e já acabou. Aliás, minha vez: eu nunca fiquei com alguém por uma aposta.
Como eu já esperava, minha amiga doce, pura – pode substituir alguma letra por “T”, fica a seu critério - e meiga terminou seu copo e o completou de novo, parando para tirar a blusa e exibindo seu sutiã de renda vermelha. Os olhos dos seres masculinos do recinto caíram imediatamente sobre o corpo dela, mesmo que, teoricamente, ela não fosse a pessoa com maior comissão de frente do mundo. Apenas ignorou a cena e abaixou a cabeça parecendo levemente ruborizado.
Só então eu notei se livrando dos chinelos que usava. Ele me olhou e deu um sorriso, movimentando os lábios para formar um compreensível “longa história”.
- Eu nunca tive relações sexuais com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. – disse.
tirou a blusa, assim como . Todos os olhares então caíram sobre , como se pudéssemos presumir qual seria seu próximo passo.
- Ai, credo. Que má fama a minha. – disse, soltando uma risada. Ela já estava se alterando.
- Pelo menos isso você nunca fez. – Falei e fiz sinal para que fizesse sua confissão dessa vez.
- Eu nunca perdi a roupa no mar.
A princípio rimos da confissão dele, mas só então notamos seu joguinho. jogou uma almofada na cara dele e os meninos riram. Toda menina já teve a droga da parte de cima do biquíni desamarrada no mar. E então, eu já estava sem meus shorts, assim como – que usou o camisão e os braços de para cobrir as coxas. notou que estava com um conjunto de pulseiras e as retirou sob protestos dos garotos.
- Acho que é hora da vingança – disse. – Eu nunca tive uma ereção em público.
- Então você já teve uma ereção em privado? – perguntou.
- Idiota – disse, rindo da própria gafe.
Jim, , e tiraram suas camisas. e acabaram por tirar as calças, revelando uma boxer vermelha e uma branca, respectivamente.
- Eu acho que pra mim já deu – falou. – Não estou a fim de ficar nesse estado. Vou subir para o quarto. ?
- Até mais para vocês. Tentem não se embebedar muito – ela disse e entrelaçou seus dedos nos de , recolhendo as roupas dos dois e subindo as escadas até o quarto.
- Graças a Deus o quarto deles é afastado daqui – comentou e todos começamos a rir. Já estávamos claramente alterados. Não bêbados, de maneira alguma, apenas levemente mais alegres que o normal.
As confissões continuaram até que todos os garotos estivessem só de boxer e eu e de lingerie. Minha cabeça já latejava periodicamente, tentando me alertar de que possivelmente eu deveria parar de beber. Ignorada com sucesso.
- Vamos brincar de “Bicho Bebe”. – sugeriu.
Os seis outros retardados aceitaram prontamente. Distribuímos os animais e deu início.
- Golfinho bebe?
- Golfinho não bebe – Jim, que tinha escolhido o golfinho, respondeu. – Quem bebe é o macaco.
- Macaco não bebe – rebateu. – Quem bebe é a vaca.
- Vaca não bebe – disse rindo. – Quem bebe é o camelo.
Franzi o cenho, olhando em volta.
- , ninguém escolheu camelo.
- O escolheu – ela disse de forma certeira.
- , o saiu no jogo anterior – disse rindo.
- MERDA!
virou uma dose inteira de vodka e voltou a rir.
- Vaca não bebe. Quem bebe é o esquilo.
- Esquilo não bebe. Quem bebe é o gato – rebati e esperei que retomasse a brincadeira, mas ele pareceu não me ouvir.
começou a rir e zombou do amigo, que logo tomou sua dose.
Mudamos os animais por mais umas cinco rodadas, o que acabou fazendo com que confundíssemos os animais novos com os antigos e tudo começou a rodar.
- Eu acho melhor a gente parar – falou, tentando segurar o riso ao mesmo tempo em que segurava a cabeça.
- Eu acho uma boa ideia a gente tomar aquele remédio, Jim – falou e Jim assentiu, indo cambaleando atrás de uns comprimidos que todos nós acabamos tomando.
- Era para ter sido antes, mas tudo bem. O que vale é a intenção.
E minha intenção do nada foi rir; rir como se não houvesse amanhã. Apesar de que com os loopings que minha mente fazia, eu só ouvia o som das gargalhadas. Eu ria com o fato de o ar existir. Eu ria de tudo.
E terminei não rindo de mais nada.



Capítulo 4

Capítulo Quatro

04 de Janeiro de 2014


Minha cabeça latejava. Nada descomunal. Mas a dor existia e, antes mesmo de abrir os olhos, eu sabia o porquê. Eu só não me lembrava de ter bebido o suficiente para isso.
Abri os olhos de maneira lenta, para evitar o choque da luminosidade em contraste com a minha pupila. Além de que eu costumo gostar de evitar ter a minha córnea carbonizada ao acordar. Deparei-me com o teto branco da sala de estar e só então percebi onde eu tinha dormido. Automaticamente, senti uma pinçada na coluna. Dormir no chão não foi uma das minhas melhores ideias. Se estivesse aqui teria me dado um sermão daqueles.
Fiz menção de levantar e então senti algo em minha cintura. Algo pesado diretamente repousado sobre minha pele. Levantei apenas a minha cabeça, vendo meu sutiã preto e um braço enlaçando a parte inferior do meu tronco.
“Não seja dele, não seja dele”. Eu ficava repetindo isso mentalmente e num ímpeto de coragem avassalador que apareceu de repente, virei-me para o lado dando de cara com um dormindo ao meu lado trajando apenas uma boxer preta com a barra lotada de “Calvin Klein” ‘s escritos. Só então que notei que eu também estava de calcinha.
Decidi que era melhor que eu me levantasse antes que a cena pudesse se tornar ainda mais constrangedora.
Retirei – da forma mais delicada que eu consegui – o braço de de minha cintura e o apoiei no chão frio. Rolei para o lado e me apoiei em meus próprios joelhos, tentando – em vão – arrumar meus cabelos levemente emaranhados e absorver os acontecimentos da noite anterior.
Encontrei Jim dormindo sentado, apenas com sua cabeça apoiada no sofá. e estavam cada um em uma ponta do sofá. e não estavam lá, mas considerando o estado de seminudez de todos os presentes, tinha quase certeza de que eles tinham desistido da brincadeira um pouco mais cedo para não terminar com algum problema. Certeza também de que a ideia de abandonar o recinto deveria ter vindo de e seus ciúmes exagerados sobre o corpo de . Sabe aquela coisa do “O que é bonito é para se mostrar”? Então, não encara isso da melhor forma possível porque os outros caras também não “encaram” da melhor forma possível. Seu corpo chamava atenção. Não era por nada que ela tinha se tornado a Kim Kardashian do grupo.
Mesmo assim, não era com nada disso que eu estava surpresa e sim com o fato de estar estirado no chão, enquanto repousava a cabeça em seu colo. A mão dele se encontrava nos cabelos dela. Ri da cena e me martirizei mentalmente por não ter descido com o meu celular na noite passada. Seria uma ótima cena para fotografar e poder usar contra eles por um bom tempo. Acabei aceitando que tinha perdido a maior chance de chantagem com os dois da minha vida e fui para a cozinha procurar algo para comer, visto que meu estômago estava fazendo barulhos esquisitos e incômodos.
Abri o armário lotado e cacei qualquer coisa, retirando um pacote de Oreo dali e abrindo-o. Apoiei os biscoitos sobre o balcão da pia e fui pegar um pouco d’água.
Quando fui virar o conteúdo do copo em minha boca, meu braço foi puxado, fazendo com que eu soltasse um gritinho.
-Porra, – falei, enquanto tentava controlar a minha respiração. – Qual o seu problema?! Precisava me assustar desse jeito?!
Ele riu, levantando a mão direita e bagunçando os próprios cabelos que ficavam incrivelmente charmosos daquele jeito meio largado, combinando perfeitamente com seu rosto levemente amassado de quem tinha acabado de acordar – no chão.
- Você se assusta muito fácil, . Não sabia que eu era tão feio assim.
- Claro que não é feio – deixei escapar, sentindo minhas bochechas queimarem de leve e coloquei uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha. riu ainda mais e ficou me encarando de forma maliciosa.
- Você sabia que, quando uma garota está meio a fim de um cara, a tendência é que ela coloque o cabelo atrás da orelha? É a saída maior de feromônio de vocês e, como instinto, vocês tiram para que o cabelo não atrapalhe.
- Que nerd, .
- Não. Não fico pesquisando coisas aleatórias, apenas procuro saber as que me interessam. Como, por exemplo, analisar seu comportamento de forma a notar que você está a fim de mim.
- Ai, coitado! Que iludido, . Você não está com essa bola toda, não.
- Então você vai negar que não se sente nem um pouquinho atraída por mim.
- Acho que foi exatamente isso que eu fiz – falei, sorrindo de forma vitoriosa para ele, que mordia o lábio e franzia a testa, tornando aquilo ainda pior.
- Então meu majestoso charme não se aplica sobre você? – Perguntou, aproximando-se ainda mais.
Tentei me distanciar, mas isso só fez com que eu tomasse outro susto ao encostar minhas costas nuas no mármore gelado da pia. Os braços de tinham sido apoiados próximos às laterais do meu corpo. Respirei fundo.
- Exatamente – agradeci mentalmente por minha voz não ter falhado. – Desculpe-me pela decepção, sei que deve estar sendo difícil para você não conseguir o que quer.
Xeque-mate, . Eu mesma mal estava acreditando na atitude repentina e na saída que eu arranjei. Se ele estava assim tão dedicado em me provocar, eu tinha direito de fazer o mesmo. Não custava nada tentar, pelo menos. Podia não fazer parte da minha personalidade básica, mas não era como se essa fosse a primeira vez que eu provocava alguém.
- Ah, então é assim que as coisas vão ser? Você pode insinuar que eu quero você, mas eu não posso fazer o mesmo?
- É tudo uma questão de legitimidade, .
Ele se aproximou ainda mais, passando o nariz de leve na curva do meu pescoço, causando alguns arrepios na região. Apertei mais meus dedos no canto da pia e distanciei meu olhar ao máximo. Eu não esperava nada assim de depois desses dias, mas se ele queria fazer esse joguinho, eu mostraria a ele que eu também conhecia as estratégias para a vitória.
Ele subiu os lábios para minha orelha, sussurrando um “Você finge muito mal” e se distanciou rapidamente, roubando um biscoito e se encostando ao meu lado.
Respirei fundo de forma discreta – como diria Jim: o que vale é a intenção – e peguei meu copo de água, voltando a tomá-lo calmamente, como se nada daquela cena tivesse de alguma forma acontecido.
- É impressão minha ou tem uma tensão sexual pairando aqui? – perguntou e riu de leve.
- Cala a boca. – Dei um tapa em seu ombro.
- Deve ser o resto do álcool – ele disse simplesmente. – Aliás, seus amigos são muito folgados.
- Você viu e ?
Ele tirou o celular do bolso e, com um sorriso quase como o de uma criança que tinha aprontado, mostrou-me a foto que tinha tirado dos dois dormindo na exata posição que eu tinha visto mais cedo.
- Ai, meu Deus! Você precisa me mandar essa foto! – Falei rindo e ele assentiu.
- Acho que a gente devia acordar todo mundo.
Encarei-o, encontrando aquele sorriso ainda ali. Por algum motivo foi como se tivéssemos feito uma conexão telepática, pois na hora tivemos as mesmas ideias.
Nós dois voltamos cuidadosamente para a sala. Eu vesti meus shorts e minha blusa, enquanto vestiu apenas a bermuda. Não custava nada ter colocado a droga da camisa também.
Desviei o olhar de seu abdômen e fui para a cozinha, sentindo-o em meu encalço. Ele pegou duas colheres de pau para cada um, enquanto eu retirava da gaveta algumas panelas.
Caminhamos até a sala, tomando cuidado para não pisar em nada e nem em ninguém. Posicionamo-nos no meio dos cinco e me olhou, fazendo uma contagem silenciosa: “Um... Dois...TRÊS!”.
Comecei a esmurrar a panela que eu segurava com as colheres. Ele fazia o mesmo. Nós dois riamos como dois loucos.
Jim foi o primeiro a levantar gritando. , com o susto, acabou se levantando rápido demais e derrubou do sofá. se levantou rapidamente, escondendo o rosto e começou a gritar para que parássemos.
- Que merda está acontecendo aqui?! – perguntou descendo as escadas correndo com o seguindo.
- Os dois doentes mentais tiveram a maravilhosa ideia de fazer uma sinfonia com panelas a essa hora da manhã – disse, bufando.
- Erm... ... – chamou. – Já é quase uma da tarde.
- Que seja. Da próxima vez, eu vou acordar antes de vocês. Eu vou me vingar e podem ter certeza de que essas panelas serão fichinha perto do que eu vou fazer.
Todos se vestiram e eu e trocamos alguns olhares, enquanto disfarçávamos as risadas para que eles não nos odiassem ainda mais.
e foram ajudar Jim a montar a mesa com o nosso café da manhã que, como sempre, estava acontecendo na hora do almoço.
Aproveitei esse momento para sentar na beira da piscina e ligar para os meus pais apenas para avisar que eu estava viva – coisa que eu provavelmente tinha me esquecido de fazer desde que cheguei a Toledo.
Liguei também para para perguntar como tinha sido o Réveillon na casa dos pais de Marlee agora que eles estavam noivos. Ele só me disse que nada tinha mudado, a não ser pelas piadas do sogro agora sobre como um casamento era o fim da vida e que o quanto um fino aro colocado em um dedo poderia representar na sua vida era uma variável entre tudo e nada; era só uma simbologia, mas como você retratava o casamento entre os parâmetros de compromisso e responsabilidade representava ainda mais a pessoa que você de fato era. Aquilo tudo para mim parecia mais um sermão com mais de uma atmosfera de pressão do que simplesmente piadas, mas, se é que realmente entendeu assim, fico feliz por ele.
Voltei para dentro da casa e me juntei aos outros que já estavam reunidos ao redor da mesa. Peguei um copo de chá gelado de amora e umas torradinhas mais leves que estavam num pratinho por ali.
- AI MEU DEUS! – gritou do nada, fazendo com que nos assustássemos. – A gente vai embora amanhã!
Foi só então que a ficha de todo mundo caiu. Eu, com certeza, não queria ir embora.
- Então, nós precisamos fazer alguma coisa diferente – Jim anunciou. – Tem uma quase cachoeira aqui perto. A paisagem é linda e o lugar é incrível, de verdade. Podemos ir caminhando, tipo uma trilha na floresta.
- Eu topo – falei.
- Achei uma boa ideia – disse sorrindo. Eu sabia como ele adorava essas coisas de trilha.
- Nós também vamos – anunciou por ela e por , como de costume.
- Se eu ficar com sono alguém vai me carregar até aqui depois – disse. Ela não perguntou, ela não pediu; ela avisou o que faria. E eu sabia que faria. - Eu me recuso a desperdiçar o último dia disso – disse e e concordaram prontamente.
- Então vão se arrumar. Saímos em meia hora.
Corremos cada um para seu quarto. Tranquei-me no banheiro, ouvindo me xingar enquanto batia na porta. Ignorei, tentando apenas colocar o biquíni o mais rápido possível para poder liberar o banheiro. Afinal, também estava no quarto.
Assim que abri a porta, fui arrancada de lá e senti a porta se fechando atrás de mim. riu.
- Nunca vi mais fofa que ela – ele disse ironicamente.
- Sério? Notei isso hoje cedo, com a ceninha dos dois dormindo.
- Culpa dela, não minha. Eu dormi como caí no chão, ela que veio para cima de mim.
- Seria uma pena se a Ashley visse a foto...
- , querida, eu não ligo se você mostrar. Nem ela ligaria. Não foi uma boa chantagem, tenta de novo quando tiver uma ideia melhor.
Bufei, revirando os olhos e ele logo foi ao banheiro se trocar assim que saiu deste.
Coloquei meu protetor solar e uma toalha na bolsa, além de colocar os óculos de sol em meu rosto. Virei-me para sair do quarto, quando ela me chamou:
- É, ... Sobre a foto... Por favor, não mostre para ninguém, ok?
Assenti rindo e desci as escadas correndo, tendo que tomar o máximo de cuidado possível para não tropeçar nas correntes de meus próprios chinelos.

Já tínhamos caminhado por mais ou menos uns dez minutos, quando percebemos a vegetação em volta ficando mais densa. Aqui sim começava a trilha.
Jim deu instruções e coordenadas rápidas, pedindo para que nós o seguíssemos, evitando transtornos. Foi o que fizemos. Acabei ficando por último, já que perdi alguns segundos tirando terra do meu chinelo. Ideia estúpida.
- Olá! – Uma voz disse perto de mim, fazendo com que eu desse um pulinho de surpresa. – Meu Deus, não é possível que eu sempre te assuste! Eu vou começar a levar isso para o lado pessoal.
- É que eu estava distraída, . Nada demais.
- Eu estava me recordando sobre nossa amigável conversa ontem e acho que seria de bom tom eu fazer algumas perguntas que rondaram meus pensamentos durante e após ela.
- Pode fazer.
- Você disse que gosta de super-heróis. Marvel ou DC?
- , não me faça escolher. É quase impossível!
- Homem de Ferro ou Homem Aranha?
- Homem de Ferro – respondi imediatamente. Impossível escolher entre as duas ligas, mas ele podia me mandar escolher entre Homem de Ferro e um milhão de dólares que eu escolheria o Homem de Ferro. Ou um milhão de dólares para construir um Homem de Ferro.
- Flash ou Capitão América?
- Capitão América.
- Ótimo. Encontrei minha mais nova companheira de filmes.
- Que honra.
- Engraçadinha. Enfim, eu tinha mais uma pergunta... Você gosta de videogames?
- Você só pode estar brincando, !
- Por quê?! É algum tipo de crime perguntar a uma garota se ela gosta de videogames? Pode me prender, se preferir.
- Não, idiota. – Dei um tapa de leve em seu braço enquanto ria. – Eu adoro videogames, mesmo que eu não seja a melhor jogadora do mundo. Jogo poucas coisas também, mas não abandono meus inestimáveis FIFA, GTA e Ryse por nada.
- Qualquer dia desses a gente faz um campeonato de FIFA então. Mas eu já vou avisando: eu nunca perco. E o Real Madrid é meu.
Comecei a rir e estava prestes a retrucar que eu ganharia dele com os pés nas costas quando notei que fora nossa conversa e o cantar de alguns pássaros, a mata estava em completo silêncio.
- Puta merda, . A gente se perdeu.
Comecei a rodar sobre meus próprios pés, tentando encontrar algum deles ainda por perto, mas foi inútil. Segurei minha cabeça entre as mãos, evidenciando meu claro estado de pânico. começou a gritar pelos meninos. Ninguém respondeu.
Sentei-me em uma pedra que tinha ali e comecei a rabiscar o chão com um galho enquanto gritava sem parar. A voz dele começou a me estressar.
- A culpa é toda sua! Se você não tivesse me distraído, nós não estaríamos perdidos agora, seu idiota!
- Ah, que legal. Agora a culpa é minha, não é?! Se você fosse capaz de prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo não teria se perdido, !
- Cala a boca! Você também poderia ter prestado atenção, tem dois olhos e duas orelhas, exatamente como eu!
- Que bom que você parou por aí. Se ousasse inferiorizar minha atenção ou inteligência comparando-as às suas, estaria claramente me caluniando. Eu poderia até te processar.
- Ora, faça-me o favor – gritei e me levantei da pedra, caminhando em sua direção. – Qual o seu problema, garoto?! Uma hora você está todo “vamos nos conhecer melhor” e de repente vem com provocações de manhã. Daí volta ao normal, se é que esse é o seu normal, e depois começa a me insultar. QUAL A MERDA DO SEU PROBLEMA?!
- Fala sério! – Ele se aproximou ainda mais, trincando o maxilar. – Você começou me atacando.
- Tira o dedo da minha cara, !
- ENTÃO PARA DE GRITAR COMIGO!
- Meu Deus, estamos perdidos – falei de novo e ele bufou passando as mãos nervosamente sobre o rosto. – A culpa é sua, sim. A culpa de tudo isso estar acontecendo é única e exclusivamente sua. Se você simplesmente tivesse me ignorado desde o primeiro dia, eu provavelmente não ligaria para você. Se eu não ligasse para você, com c erteza não me distrairia por causa de você. Se eu não me distraísse por causa de você, eu com certeza não estaria perdida agora.
-Será que você consegue parar de falar? – Ele falou, olhando fixamente para meus olhos. Mas eu não atendi seu pedido.
- Eu duvido que aqui no meio tenha sinal para eu ligar pedindo socorro para alguém. Eu poderia ter me perdido sozinha. Eu estaria em pânico, de qualquer jeito, mas pelo menos não ficaria me estressando por um garoto idiota, infantil, babaca...
- Dá pra você parar de falar um minuto? – Ele perguntou de novo, dessa vez entre risadas, mas eu o ignorei. Eu não pararia agora que tinha começado. Ele ia me ouvir.
- Arrogante, presunçoso, metido a rebelde, imaturo, idiota, insensível, grosso...
Minhas palavras pairaram no ar, sendo substituídas por um baixo gemido de dor que saiu de minha boca. Senti o choque de minhas costas contra o tronco de uma árvore e o meu primeiro pensamento – seguido do espanto – foi que aquilo provavelmente ficaria marcado em arranhões.
Não tive tempo de pensar muito sobre aquilo e antes mesmo que eu protestasse, aconteceu.
chocou seus lábios contra os meus e soltou meus pulsos, que só então notei que ele estava segurando. Senti meu corpo prestes a derreter em seus braços e acabei me entregando àquele beijo que, mesmo que eu negasse, eu desejava. E muito.
Dei brecha para que ele intensificasse ainda mais o beijo e coloquei meus braços ao redor de seu pescoço, aproximando-o ainda mais. Embrenhei meus dedos por entre seus finos cabelos, puxando-os um pouco. agarrou minha cintura e colou ainda mais seu corpo no meu. Era, quase literalmente, como se fôssemos um só. Tudo parecia simplesmente certo, de repente.
- Viu, ?! Eu avisei que eles tinham parado para se comer, mas não, você insistiu em acreditar que eles estavam perdidos!
Assim que ouvi a voz de , eu me soltei de . Ajeitei minha blusa que estava um tanto levantada e tentei arrumar meus cabelos de forma a esconder o quanto eu devia estar vermelha naquele momento.
- Preciso começar a me preocupar com afilhados? – perguntou e riu.
começou a revirar os bolsos e jogou algo na direção de , que pegou o objeto ainda no ar.
Soltei um grito de indignação quando vi que era nada mais nada menos que uma camisinha.
- Calma... – falou rindo – Por que raios você tem uma camisinha com você na ocasião em que nós nos encontramos?
- Prefiro estar preparado para possíveis acasos em qualquer ocasião – respondeu enquanto dava de ombros.
Os dois nos ajudaram a chegar até os outros que riram da nossa cara. Jim admitiu que tinha começado a ir mais rápido exatamente para que isso pudesse acontecer.
Brincamos um pouco, mergulhamos e eu agradeci mentalmente por não ter esquecido o celular dessa vez. Tirei milhares de fotos da paisagem mais linda que eu já tinha visto na vida e fiquei ali sentada em um canto, avaliando a qualidade das imagens.
- Pensando em alguma coisa?
Só percebi que tinha se sentado ao meu lado quando ele já o tinha feito. Mas, dessa vez, não me assustei.
- Nada demais. Primeira vez que você não me assusta. – Comentei sorrindo para ele, que retribuiu, exibindo aquele sorriso que eu tanto adorava.
- Acho que isso é um avanço – ele disse e abaixou o olhar, segurando minha mão e entrelaçando nossos dedos.
- Com certeza é um avanço – respondi sorrindo e ele me roubou um selinho.
Repousei a cabeça em seu ombro, enquanto ele acariciava minhas costas.
- Só avisando, . Eu ainda vou acabar com você no FIFA.
Ele riu e me puxou para mais perto.
- Isso é o que nós vamos ver, .





Continua...



Nota da autora: Oláaaaaa! Espero que estejam gostando e gostaria muito que deixassem comentários por aí para que eu soubesse o que estão achando. Entrem no grupo do facebook para saber mais sobre essa e outras histórias minhas, além de ficar por dentro de atualizações e novidades. Link do grupo .




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