Última atualização: 01/09/2018

0


Meu voo estava marcado para 21h45 e o taxista me deu duas opções: ir correndo ou chegar ainda mais atrasada. Essas opções já estavam rodopiando em meu cérebro, porém foi preciso um reforço para que eu compreendesse a necessidade de uma decisão imediata. Estava chovendo fraco e ventando muito. Desci o vidro do carro na espectativa de, quando colocasse a mão para fora, o clima estar quente e convidativo. O calor de Recife é extremamente quente, mas o frio, ah o frio, ele não chega nem a fazer sua pele arrepiar - a não ser que você esteja perto do mar, o que não era o caso. Mas justamente hoje ele estava fazendo o favor de querer a todo custo me decepcionar e atrasar.
O taximetro estava marcando R$ 45,34 - um roubo legal, eu diria. Subi o vidro novamente e me concentrei na minha bolsa. Sempre tentei acabar com a mania de deixar o dinheiro espalhado e não na carteira... e sempre falhei. O homem baixinho e magro demais parecia estar mais angustiado que eu - não parava de olhar para o céu e para o relógio. Consegui juntar R$ 46,00 e o entreguei de um modo afobado. Ele se inclinou para o lado esquerdo e puxou uma pequena alavanca, fazendo a mala do carro se abrir. Desci quase num flash e peguei minha única mala vermelha. Quando passei por ele novamente, me desejou boa sorte e eu agradeci com um sorriso. Tenho exatamente nove minutos para chegar no aeroporto no prazo estipulado para atrasos, e, se eu estiver com sorte, o piloto também se atrasará.
A chuva era fina mas penetrante. Sentia que se ficasse mais tempo correndo contra ela, meus ossos ficariam cheios de mini buracos. Contudo minha tortura durou menos que o esperado: sete minutos. Como eu passei por todos aqueles carros no engarrafamento? Me transformei em malabarista de sinal, colocando a mala pesadíssima em cima da cabeça. Tenho certeza que amanhã estarei com o pescoço insuportávelmente doloroso... Isso agora não importa. O que de fato é, é que cheguei a tempo de embarcar. A segurança riu da minha situação e me disse que se eu me atrasava em Recife, que esperasse a dolorosa verdade de São Paulo. A sorte é que assim que eu chegasse em São Paulo, pegaria outro voo direto para Manchester.

(...)

Tive a impressão que mais alguns minutos no avião e eu chegaria no fim da galáxia. Exageros à parte, aterrissei exatamente às 17h. O clima estava frio, mas não havia neve como eu esperava ver. Acho que todos que vão para a Europa sonham em ver a neve. Eu teria que esperar mais um tempo para me deliciar na imensidão branca e congelante. Novamente eu estava com minha única mala, dessa vez no chão. Seria ótimo se houvesse alguém me esperando com uma plaquinha com meu nome em letras garrafais. Mas eu não estava num filme. Tive que perguntar a pessoas que "gentilmente" paravam ao meu toque em seus ombros, onde eu poderia pegar um táxi. Elas apontavam para uma das inúmeras portas enormes do aeroporto, mas cada uma apontava para uma diferente. Então deveria ser qualquer uma dali. Acho que o frio congelou meus neurônios. Era como se eu não conseguisse ler as placas ou me perdesse a cada dois passos. E então eu me dei conta de que eu não tinha ninguém por mim aqui. Eu estava completamente só. Eu não tinha parentes, não tinha amigos.
O caminho para a universidade foi longo e silencioso. Tudo que eu conseguia pensar é se eu faria algum amigo, se meus colegas de classe me receberiam bem e se eu conseguiria dar o máximo de mim nas atividades. Bom, eu teria que me sair bem a todo custo, porque meus pais não pagariam uma fortuna para eu deixar os estudos de escanteio e focar em outra coisa. Além disso, eu consegui comprar os livros e pagar a matrícula sozinha. Passei dois anos vendendo camisetas estampadas e fazendo bicos como digitadora para meus professores. Passei dois anos planejando minha estadia nessa universidade. E eu vou fazer valer a pena!
Passado alguns minutos, já estava na recepção entregando meu comprovante de matrícula e pegando a chave do meu quarto. E, mesmo com fome, eu não via a hora de deitar em qualquer lugar e dormir.
Até conseguir chegar no meu quarto, me perdi duas vezes. Não havia muita gente, pois o período para as acomodações só começaria amanhã. Como eu havia explicado minha situação à coordenadora do meu curso, a mesma me pertiu adiantar um dia para minha instalação. Concordo que fui um pouco exagerada e fantasiosa no que havia lhe dito, mas era por uma boa causa. Disse que no Brasil os voos demoram alguns dias para sair em direção a Europa e que meus pais já haviam comprado a passagem há algumas semanas por estar mais barata e que eu precisava mesmo ir naquela data ou ficaria no aeroporto por alguns dias. Por incrível que pareça, ela acreditou. Meu motivo real? Eu só não queria ter que me misturar no meio de todo mundo, naquela afobação para achar o quarto, bate-bate de malas e coisas do tipo. Não que eu seja arrogante, não é isso. Eu só não sei como interagir e ficaria desnorteada com tantos amigos juntos e felizes por estarem aqui. Eu não tenho ninguém para compartilhar essa felicidade, então só ficaria com cara de tacho observando todo mundo e me perdendo ainda mais.
Meu quarto ficava no segundo andar de um prédio antigo, um pouco longe dos prédios onde ocorriam as aulas. Era o prédio com o menor custo, porém mais bonito em minha opinião. Os quartos mais caros ficavam no prédio de fachada toda de vidro, que quebrava um pouco a comunicação com a universidade. Eu iria dividir o quarto com mais alguém e não fazia questão por isso, até porque quartos solitários são bem mais caros. Minha nova casa tinha paredes num tom pastel com o teto quase marrom e piso de madeira sintética. Os móveis eram rústicos, mas eram poucos. Haviam uma escrivaninha para uso mútuo, com três gavetas em cada lado. Escolhi a cama perto da janela. Eu poderia ver quem passasse e ainda poderia ver a lua às vezes.
Não tive coragem para arrumar minhas coisas e deixei a mala no primeiro lugar em que parou: perto da porta. Realmente esspero que o resto de minhas coisas cheguem ainda essa semana, pois tudo que consegui trazer foram alguns casacos e calças. Ainda tenho que comprar mais por aqui, mas ainda fantam calçados e perfumaria.
Joguei meu corpo bruscamente na cama - o que causou uma pequena dor na lombar -, e liguei o celular. Também teria que comprar um chip... Sorri involuntariamente quando a foto de tela de fundo apareceu. Talvez eu conseguisse realizar outro sonho aqui no Reino Unido... Seria pedir demais? Eu queria apenas poder ver esse sorriso de perto. Ver esses olhos apertados focarem em mim pelo menos uma vez nessa vida imprecisa. Eu já estava consideravelmente mais perto dele, só precisava saber onde ele está. E, infelizmente, talvez fosse mais complicado do que pareça para encontrar ele, já que recentemente anunciou sua pausa nas atividades... Não compreendi o porquê, tampouco aceitei. Mas já era um alívio saber que eu estaria no mesmo país que .


1


Acordei com um barulho ensurdecedor da porta batendo contra a parede. Abri meus olhos lentamente na tentativa de fazer minhas pupilas se acalmarem e fecharem para que eu pudesse enxergar algo na claridão. Era uma mulher alta e magra, que acho que deveria ter em torno de 30 anos. Suas três malas estavam espalhadas pelo chão e suas pastas se amontoavam perto da porta. Sua cara de preocupação me comoveu e eu levantei para ajudá-la. Nenhuma palavra foi trocada até que eu conseguisse juntar todos aqueles papeis e agrupar em alguma das pastas. Ela alinhou as malas perto da cama que sobrou, respirou fundo e olhou finalmente para mim.

- Desculpa por te acordar.
- Sem problemas. - fui até o outro canto da porta e arrastei minha mala para próximo da minha cama.
- Meu nome é Grace - estendeu a mão em minha direção. - Mas pode me chamar de Grey.
- O meu é . - pensei por alguns segundos... eu não tinha um apelido derivado do meu nome. Só agora eu me toquei o quanto isso é estranho e vazio nessas situações onde você se apresenta.
- Qual seu curso? - e pelo jeito ela não perdia tempo: já estava retirando suas roupas e dobrando colocando em sua gaveteira.
- Literatura inglesa e o seu? - sentei e fiquei observando ela arrumando suas coisas na espectativa que brotasse uma coragem para eu fazer o mesmo.
- Teatro.
Teatro fora algo que sempre tive vontade de fazer, mas sempre achei que não possuia talento. Acho mágico a maneira como eles improvisam e tudo parece continuar em perfeita harmonia. Como uma grande mentira se transforma em absoluta verdade e te faz querer viver aquela ilusão. E fazia isso com maestria. Quando entrava em cena em um filme, ele já não era mais , ele era puramente seu personagem. Acreditávamos verdadeiramente no que ele passava e suas palavras e ações eram ditadas com veemência absoluta.
Meus pensamentos foram interrompidos por algo que entendi Grace dizer por "do que você está rindo".
- Oi? - foquei minha atenção nela.
- Do quê você está rindo? - ela sorriu e parou de guardar suas coisas.
- . - me senti uma boba. Uma mulher escutando uma outra, que acabou de sair da adolescência mas ainda parece estar presa lá, falar de um ator que nem sabe que ela exista.
- Sei. Que pena que ele vai parar de atuar.
- É... - e de repente me ocorreu uma ideia. - Você que mora aqui, por acaso sabe onde ele mora?
- Não, querida, não sei... - riu. - Se soubesse já tinha batido na casa dele. - Ri junto com ela. Mas que pergunta idiota.
- O que será que ele vai fazer agora, hein? - perguntei mais para mim mesma do que para Grey. Eu daria tudo para saber porquê ele desistiu e para fazer o quê. Queria saber o motivo de sua mulher o ter abandonado e se isso incentivou o abandono da carreira. Ele era tão promissor!
- Não sei, mas quem sabe nós vemos ele um dia, ? - guardou a última peça. - Enquanto isso vamos focar nos outros caras, que essa universidade tá cheia! - riu e eu a acompanhei.
- Como tá lá fora? Uma anarquia geral? - tentei fugir dos meus pensamentos com ele.
- E como! Você precisa ver, é hilário.
- Não obrigada, só saio daqui para comer e volto correndo.
Conversamos um pouco a sensação de estar em uma universidade como essa e ela me contou por que entrou tarde. Grey me disse casou aos 17 anos e que se dedicou totalmente à casa até um ano atrás. Seu marido era músico e tocava à noite em pubs da cidade e um dia ela foi fazer uma visita surpresa e acabou o pegando no flagra com duas mulheres de uma vez. Desde então ela decidiu que seguiria a tão sonhada carreira, mas que pretendia ser professora de teatro e não atuar em grandes peças. Disse que queria "ver um moldado por suas mãos e agradecendo seus ensinamentos quando ganhasse um Oscar".
O quarto possuía uma cozinha extremamente pequena que era separada do "quarto" apenas por uma parede de 60cm que também era utilizada como guarda-condimentos. Era composta com uma também pequena geladeira, um cooktop que em vez de forno acomodava um microondas, dois armários de madeira escura acima do cooktop e um armário de chão ao lado. A pia ficava em frente ao pequeno fogão e ao seu lado uma máquina de lavar. E era só isso. O suficiente para duas pessoas só dormirem ali.
Grey voltou do banho só de toalha e disse que se eu quisesse conseguir tomar um bom banho, que fosse logo, pois já estava começando a lotar. Ótimo, mal chegaram e já estão lotando o banheiro. E eu realmente tinha que ir, porque não tomava banho há horas!
O banheiro do meu prédio é compartilhado. São quatro andares: os ímpares são masculinos e os pares, femininos. Peguei minha toalha e minhas roupas e segui para o banheiro. Eram duas portas: uma dava apenas para boxes de banho e a outra para boxes sanitários. Cerca de seis dos quinze boxes estavam ocupados. Me direcionei ao último. Coloquei a toalha e minhas roupas dentro de uma capa própria para isso que ficava na porta, longe o suficiente do chuveiro para que não molhasse. A água estava morna e eu não percebi o tempo passar. Deixava escorrer pelo meu rosto e senti que estava começando a pertencer a esse lugar.
Após o banho, vesti minhas roupas e praticamente corri para o quarto. O choque térmico quase congelou minha pele, sentia que ela estava se partindo. Não havia levado casaco, apenas uma blusa e uma calça. E o chão... parecia que estava pisando em neve. Asim que adentrei o quarto, senti o calor me invadir novamente. Nunca imaginei que teria um aquecedor em minha casa. Muito menos que seria tão bom. Olhei no celular e já eram 13h; minha barriga instantaneamente deu sinal de vida.
- Grey, você trouxe comida? - me aproximei dela na cozinha.
- Só refrigerante e salgadinho.
- Bem saudável, você. - ela riu.
- Eu não tive tempo, muito menos pensei, em passar no mercado. - guardou os refrigerantes e fechou a geladeira.
- Você sabe algum lugar barato aqui?
- , também sou novata! Não leve em consideração a minha idade. - rolou os olhos, mas sorrindo. Ela foi até minha cama e jogou meu casaco para mim e fez sinal para que eu a acompanhasse. - Vamos, vejamos se encontramos alguma coisa barata nessa realeza.
Andamos por cerca de vinte minutos até encontrarmos um restaurante próximo ao prédio de artes. Por sorte eu teria algumas aulas nesse prédio e poderia descer para comer alguma coisa. A comida era boa e não era tão cara. O movimento era grande e não desacelerava. Amigas animadas e já começando o trabalho de paqueras, pessoas perdidas na tentativa falha de achar seus quartos, meninos comentando sobre um novo clube a ser formado, festas e bebedeira. E dentre todos, havia eu e Grey, que apenas comíamos calmamente em meio àquela agonia. Em silêncio nós observávamos os passos apressados e os pais chorando de felicidade.
- Seus pais também vieram te trazer? - quebrou o silêncio.
- Ah, não... Eu não sou daqui.
- É mesmo? Não parece, você tem o sotaque daqui e tudo.
- Obrigada - sorri, de fato fiquei lisonjeada - Sou do Brasil. E talvez meu sotaque seja de anos de prática recitando frases de séries e filmes e cantando muitas músicas.
- Brasil? Oh, meu deus, sou louca pra ir lá! - devo informar que ela ficou animada demais a porto de cuspir em mim. Eu ri com a situação e ela usou seu guardanapo para me limpar acompanhado de várias desculpas entre risos.
- Quem sabe nas férias.
- É nas férias você me leva lá.

Falamos um pouco de suas expectativas sobre o Brasil e por onde ela iria querer passar. Enquanto ainda conversávamos sobre culturas e as diferenças entre Brasil-Reino Unido, fomos até o mercado que ficava alguns minutos da universidade. Ao todo foram quase duas horas andando, desde a saída até a volta ao quarto.
Já era mais de 18h e o sono estava brincando com a exaustão. Queria ler alguma coisa, mas não havia levado nenhum livro, então liguei o notebook e peguei o panfleto que a recepcionista havia me entregado com a senha do wifi.
Entrei no facebook e algumas amigas me perguntaram como tinha sido meu primeiro dia dos sonhos. Tentei contar todos os detalhes. Mas logo a conversa acabou. E novamente eu estava com vontade de ler. Procurei em vários sites, mas nada me chamou mais atenção que a matéria que eu já havia lido mais de cinco vezes: " abandona a telona". Eu me sentia traída, abandonada, vazia. Era como se ele tivesse ido sem me dar chances de dizer adeus. Ele não deu nenhuma explicação para o que estava anunciando muito menos se um dia iria voltar. Eu não falo como fã, apenas. Eu adoro ele e seu trabalho. Eu me inspiro neles! Como ele pode construir uma coisa e simplesmente destruí-la sem mais nem menos? Isso não é justo! Não é justo que ele destrua a imagem que eu tinha dele. Não é justo que ele pare de alimentar minhas fantasias. Não é justo que ele me faça sofrer dessa meneira. E se isso é coisa de "fãzinha adolescente", que seja! Nenhum rótulo irá mudar meus sentimentos sobre ele ou essa situação.

(...)

Acordei mais uma vez por culpa de Grey. Dessa vez por um bom motivo: ela estava cozinhando. Para o menu de hoje tinha ovos mexidos, torrada com geleia de ameixa e café com leite. Comi tudo e de bônus ainda comi uma maçã para dar energia no primeiro dia de aula.
- Ansiosa pra o primeiro dia? - perguntei.
- Sim, mas acho que hoje só vai ser apresentação.
- Eu odeio apresentação. - rolei os olhos.
- Toda adolescente odeia. - riu. - Eu só quero encontrar um professor bonitão e fazer minha peça.
- E toda velha quer encontrar um "bonitão". - ri e ela deu língua. Grey era uma loira muito bonita, poderia conseguir quem quiser fácil.
- Eu não sou tão velha, só tenho 32!
Em meio a risos e piadas sobre idade, fomos tomar banho. Na volta o que parecia que seria o tradicional choque térmico. Coloquei uma blusa, um casaco de lã fino e um sobretudo vermelho por cima, calça de malha e uma jeans preta por cima e botas por dentro da caça. Grey manteve seu tom casual e "maduro", com um casaco verde de gola alta e calça jeans azul clara.
Ela foi comigo até o meu prédio e em seguida continuou o caminho para o seu que ficava alguns minutos do meu. Pediu para que eu enviasse uma mensagem de algum computador para o celular dela se eu tivesse alguma aula em seu prédio, para que assim ela pudesse me encontrar lá.
Olhei para a fila do elevador e preferi - contra minha vontade - ir de escadas. Minha sala era a 224 e eu subi pelo lado das primeiras salas, ou seja, teria que andar 24 salas até a minha. Assim que entro, percebo que não sou a única atrasada, pois não havia quase ninguém na sala. Sentei no lado esquerdo, próximo a porta, para que assim que a aula acabasse eu me certificasse que seria uma das primeiras a sair.
Enquanto prestava atenção na fala do professor de gramática, de como seria sua metodologias em sala de aula, senti um empurrão em meu ombro esquerdo. Num susto, viro para olhar quem é e me deparo com um dos olhos mais belos em que já tive o prazer de olhar. Eram tão... azuis. E o cabelo tão cheiroso que, mesmo com uma distância considerável, dava para sentir invadir minhas narinas. Eu não esbocei nenhuma reação e acho que isso foi algo engraçado para ele, que riu e sentou ao meu lado.
- Desculpa por bater em você, é que eu tropecei. - disse ainda rindo enquanto colocava o caderno na bancada.
- Tudo bem. - sorri e tentei voltar minha atenção novamente para o professor.
- Já teve as apresentações?
- Não, acho que ele não vai fazer.
- Então eu sou . - sorriu e estendeu a mão. Ele era simpático. E francês.
- . - estendi a minha e, ao se tocarem, meu corpo estremeceu de forma suave e lenta. Era tão macia e quente...
- O que você anotou aí? - apontou para o meu caderno.
- Só alguns livros que ele indicou.
A aula durou duas horas. Tentei anotar a maioria dos livros que ele indicou, eram tantos e ele falava tão rápido que era impossível conseguir lembrar de todos. Alguns olhou no meu caderno. Já disse o quanto ele era bonito? E simpático. Sem expectativas, ! A próxima aula seria justamente no prédio de Grey. Só que até eu chegar lá levaria dez minutos e a aula começaria em quinze. Olhei para e ele estava com fones de ouvidos, o que queria dizer que, provavelmente, ele tinha um celular. Respirei fundo e criei coragem para pediu emprestado o celular do meu novo colega de classe.
- Com licença, - toquei em seu ombro enquanto ele virava para sair da sala - Você tem celular?
- Uau, os ingleses são rápidos. - riu.
- Sou brasileira. - ri.
- Ah sim, está explicado a fama. - revirei os olhos.
- De que fama você ta falando?! - juntei as sobrancelhas e ele riu ainda mais.
- De que vocês são atiradas. - fiquei boquiaberta. Mas que coisa ridícula.
- Existe mulheres atirada em qualquer lugar!
- Eu sei, mas vocês tem mais atitude.
- Isso é ridículo. - fiz cara de desdém. - E eu quis dizer se você poderia me emprestar seu celular.
- Pra você mandar um sexting pra seu namorado?
- Pessei que os franceses fossem mais fechados. Mal educados tudo bem, mas escancarados desse jeito...
- Mal educados? Somos muito educados!
- Claro, por exemplo quando perguntam a uma pessoa que acabou de conhecer se ela vai mandar mensagem de sexo pra seu namorado.
- E você não é nada atirada me pedindo meu celular.
- Eu pedi o aparelho!
- Então tava querendo me roubar!
Tinha que admitir: ele era engraçado. Essa discussão não levou a lugar nenhum a não ser o caminho para boas gargalhadas desestressantes. No final das contas, ele me emprestou o celular e eu mandei uma mensagem para Grey, pedindo para que ela me esperasse no terceiro andar, sala 304. Fomos juntos até o prédio de artes, onde nos despedimos e ele seguiu para outro prédio o qual não me disse qual era.
Assim que saí do elevador, encontrei Grey numa inquietação perturbadora. Arqueei uma sobrancelha a fiquei encarando na tentativa falha de descobrir o porquê daquela excitação toda. E, de repente, ela me abre um sorriso largo e me puxa para perto da porta da sala.
- Me promete que não vai gritar nem fazer coisas estúpidas que adolescentes fazem. - segurou meu rosto com as duas mãos num ato brusco, contudo continuava sorrindo.
- O que foi, Grey? Quem tá parecendo uma adolescente aqui é você. - juntei as sobrancelhas e tentei tirar suas mãos do meu rosto.
- É sério, . Não estrague tudo. - ela dizia aquilo como se eu estivesse entendendo todo o recado e fosse obedecer.
- Ok, então você encontrou seu professor bonitão? - chutei. Talvez aquela felicidade toda fosse por conta disso.
- Sim e não. - abriu a porta da sala. - E ah, eu sou da sua turma de representação.
Adentramos na sala e ela fez questão de me arrastar para as primeiras cadeiras, onde eu ficaria muito perto do professor. A arquitetura formava um arco, onde as últimas cadeiras ficavam no alto e iam descendo até ficarem na altura do professor. E os alunos dali em sua maioria eram de teatro ou cinema.
Todos "descolados" e vestidos como se não tivessem nada melhor para escolher. Bem mais atraente que os do meu curso.
Enquanto Grey estava fixada na porta de cima, a espera provavelmente de seu professor bonitão, eu estava procurando a matéria que separei em meu caderno para essa aula. Pretendia anotar tudo, como sempre. Quando levantei a cabeça para perguntar a Grey se ela sabia o nome do professor, meu cérebro simplesmente esqueceu de avisar a meus pulmões para continuarem respirando. Literalmente eu não consegui respirar. Grey deu um tapa em minhas costas e o ar entrou novamente. Mas eu não conseguia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Era uma miragem, só podia ser. Como... Como isso é possível? Notei que estava apertando a caneta com tanta força no papel que acabou rasgando. Olhei para a caneta e assim fiquei por tempo indeterminado, tentando processar aquilo tudo. E, de repente, sem qualquer anúncio, eu gritei.
- Oh, meu deus! - até eu senti que aquele berro parecia mais um pedido de socorro. Ele estava ali na minha frente. Eu queria que fosse realidade, mas e se não fosse? Se eu estivesse inventando tudo aquilo na minha mente de tanto querer? O grito foi um pedido de ajuda involuntário, o meio que meu cérebro achou de me fazer voltar a realidade. Mas não era para ter saído da minha boca.
Eu não conseguia tirar meus olhos dele. Ele parecia preocupado. Jogos suas coisas na mesa e praticamente correu para onde eu estava. E continuava olhando em seus olhos, na tentativa de achar uma falha naquela ilusão. Mas não a obtive. Era tão real...
- Você está bem? - ele tocou minha mão e retirou a caneta. Em seu rosto havia um misto de susto e compaixão.
- Ela ta bem, só se furou com a caneta. - Grey tomou partido. A agradeci mentalmente.
- Tudo bem mesmo? - perguntou novamente.
- Sim... - queria dizer mais, queria dizer o quanto o amava, o quanto o admirava... mas era impossível. E claro que eu não iria pagar ainda mais de idiota na frente de todo mundo.
Grey olhou para mim com ar de reprovação e divertimento. Por que ela não me avisou antes?!
- Para quem não sabe, sou . - voltou até perto da mesa.
- Estudei aqui há muito tempo e me formei em representação. E hoje estou de volta, velho e como professor. - todos riram.
- Acho que temos uma fã por aqui. - algum idiota disse. Nem me dei ao trabalho de virar para ver quem era.
- Vamos as regras então: um, não permito de modo algum que firam os sentimento ou direitos dos outros. Dois, não sou do tipo de professor que tolera conversa; se quer conversar, que o faça lá foram. Três, nas aulas práticas cheguem pontualmente.


2


Não preciso dizer que fiquei extremamente lisonjeada e pasma com me defendendo, não é?! Saí de uma situação completamente constrangedora para uma segura. Agora eu sabia que, mesmo eu parecendo o tipo de fã histérica, ele me respeitava acima de tudo como aluna. Meu coração foi voltando aos batimentos normais depois de alguns minutos o vendo olhar com reprovação o garoto que disse aquilo na tentativa de me constranger ainda mais. Com certeza agora eu lhe respeitava ainda mais.
Ele virou e foi em direção ao quadro branco. Pegou um piloto preto em cima de sua mesa e começou a escrever: , professor de Representação. 2 trabalhos em dupla + 1 individual.
- Teremos esta aula juntos 3 vezes na semana. Eu sei que tenho aqui alunos de três cursos diferentes: teatro, literatura inglesa e cinema. Eu quero grupos de 3 pessoas, cada um de um curso diferente. E devo avisar a vocês que...
Foi obrigado a pausar a fala em decorrência de algum aluno que chegara atrasado e fez muito barulho ao bater a porta com muita força. Olhei para trás para ver quem era. . Eu ri baixinho e acenei para que ele me visse. Foi um ato impulsivo, logo baixei a mão na expectativa que ele não tivesse me avistado. De repente achei que aquilo seria, não sei... ele poderia interpretar como algum tipo de carência ou pior: incluir isto na lista preconceitos afirmados do que ele pensa sobre as brasileiras. Infelizmente ele viu, pois segundos depois notei que sentou atrás de mim.
- Obrigada por acenar, pensei que ia continuar sentindo vergonha a aula toda, agora vou sentir menos. – falou baixinho e sorriu de canto. Talvez ele não tenha pensado o que achei e eu só estivesse exagerando, afinal.
- Continuado... – deu uma última olhada em e voltou a virar-se para o quadro, circulando onde havia escritos sobre os trabalhos – Devo avisar que cada trabalho será lido e interpretado por cada integrante do grupo no teatro principal. Ainda estou conversando com a diretoria para abrir ao público geral da universidade. Mas, por enquanto, o primeiro trabalho será apresentado apenas para as turmas de Representação.
- A gente já ia fazer juntas, agora você não pode escapar de mim nem se quiser. – Grey me mostrou a língua.
- Eu até estava acreditando que você era madura com aquele lance de falar por mim com , mas depois dessa, você definitivamente não saiu dos 15. – ela riu e eu a acompanhei. Claro que nem se eu quisesse ia deixar de fazer com ela. Além de minha companheira de quarto, o que tornaria bem mais fácil a produção da atividade, era a única pessoa que eu conhecia.
- Vocês são de cursos diferentes? Tem alguém de cinema já? – perguntou .
- Não, eu sou de teatro e ela de literatura – Grey respondeu num tom empolgado.
- Posso ficar no grupo de vocês? – Grey fez que sim com a cabeça e com um sorriso tão simpático que não consegui captar se ela estava tentando seduzi-lo ou esse era o jeito dela tentar fazer um novo amigo.
Eu apenas concordei com a cabeça e foquei minha visão em . Ele estava com a barba por fazer, com uma camiseta branca, um sweater azul escuro por cima e uma calça jeans preta folgada. Eu não conseguia dizer se ele estava infeliz ou apenas sério por estar como professor e não como um famoso ator perante fãs. Creio e espero que ele não esteja infeliz porque agora é professor. A profissão é maravilhosa e não é desgosto pra ninguém, mesmo que esse alguém tenha sido um ator mundialmente famoso.
Enquanto ele fazia anotações no quadro, eu acompanhava o movimento de seus dedos, o jeito que ele pegava no piloto, como era delicado e preciso. O modo que ele parava pra pensar no que escreveria em seguida, colocando a ponta de cima do piloto sobre sua boca e olhando para baixo. A maneira que ele se curvava um pouco com a cabeça para trás quando ouvia alguém falando sobre ele. Eu queria entender o que estava se passando com ele. E eu queria saber o que esperar dessa disciplina. Mesmo que pudesse ser chata, com ele ficaria incrível. Vê-lo três vezes por semana, durante duas horas na segunda e na quarta e durante três deliciosas horas na sexta. Eu ainda tinha muito o que observar em seus movimentos.
Depois de alguns minutos o observando, senti Grey me cutucando com uma caneta, o que deixou meu braço um pouco rabiscado. Ela apontou para meu caderno, fazendo menção de que eu deveria seguir o mesmo caminho que ela: copiar tudo. Talvez nem precisasse, era bem capaz de eu decorar tudo que ele dissesse naquela aula. Mas, por via das dúvidas, era melhor copiar. Porque das duas uma: ou eu decoraria tudo ou esqueceria de tudo e só conseguiria me lembrar daqueles olhos e daquela boca maravilhosa.
- Você poderia ao menos tentar disfarçar esse penhasco que você tem por ele. – me despertou dos sonhos vívidos.
- O quê?! – ri sem graça, tentando anotar alguma coisa, mas já havia me perdido novamente.
- Você ainda não copiou 1/3. Começa e para logo em seguida pra ficar olhando pra ele. Se isso não é paixão, eu não sei o que pode ser... – riu e olhou para meu caderno.
- Não, eu só to surpresa de que ele seja professor agora. – tentei disfarçar, encontrando novamente a parte onde havia parado.
Ele deu de ombros e riu de lado. Olhei para Grey e ela me lançou um olhar divertido com um misto de reprovação e sacanagem. Pouco tempo depois eu finalmente terminei de copiar tudo o que havia no quadro. continuava ao lado do quadro, na espera de todos finalizarem também.
- Bom, vamos às explicações... – começou. – O primeiro trabalho será em trio e cada um vai criar um personagem completamente diferente do seu eu, no primeiro momento. No segundo momento, irão descrever a si mesmos. E eu vou ter que dizer quem é personagem e quem é sua descrição. Eu quero uma coisa simples. Vocês terão que fazer modificações leves entre um e outro, por exemplo: gosta de ler livros sobre ficção cientifica e gosta de ler livros de fábulas. Quem é o verdadeiro? – arqueou a sobrancelha direita e fez uma cara com ar de mistério. Eu fiquei realmente tentada em falar que era livro de fábulas. O por quê? Só me pareceu mais verdadeiro o jeito que ele disse isso.
- Aposto que é sobre ficção científica. – uma menina ao meu lado disse baixinho.
- Vou escolher duas pessoas pra responder. – ele olhou em volta duas vezes e escolheu um menino que estava lá em cima, na penúltima fileira.
- Ficção científica. – disse convicto.
- Por qual motivo?
- Você fez aquele filme lá, Star Trek. Se você não gostasse do tema, talvez não tivesse feito. – deu de ombros.
- Ok. – tirou sua atenção do garoto e começou uma nova busca. Seus olhos se encontraram com os meus e eu congelei. Meu coração novamente começou a bater desgovernado, minha boca secou e eu senti vontade de chorar de tanto desespero. Ele havia me escolhido. Já não bastava a vergonha do inicio da aula, eu seria o centro das atenções por mais alguns segundos novamente.
- E... eu? – gaguejei. Ele deve estar me achando uma idiota mesmo.
- Sim. Quem você acha que é o verdadeiro ? Pode dar a mesma resposta se você quiser. Mas tem que dizer o motivo. – Sorriu. Aquilo me aliviou de uma forma inexplicável. Era como se eu sentisse que ele estava tendo paciência comigo. Esperando meu tempo.
- Acho que fábula. Eu não sei dizer o motivo, mas me pareceu mais verdadeiro quando você disse que gostava de ler fábulas. Algo no seu tom de voz, talvez, ou na forma como você gesticulou com as mãos. – eu realmente espero que ele não tenha notado a minha voz trêmula.
- Como é seu nome? – chegou mais perto e eu pude finalmente sentir seu perfume. Amadeirado.
- . – respirei fundo mas suavemente, na tentativa de guardar por mais tempo a lembrança daquele cheiro.
- , você acertou. – sorriu. – Eu realmente prefiro as fábulas. E estou impressionado em como você reparou nos movimentos das minhas mãos. Eu não tinha nem percebido.
- Ele deveria dar um ponto pro seu grupo, por você ter acertado. – Grey disse fazendo bico enquanto se afastava em direção a mesa.
- Eu vou deixar vocês organizando os grupos e ideias. Qualquer coisa é só me chamar. – sentou-se na cadeira e retirou um livro da pequena gaveta de sua mesa e começou a fazer algumas anotações.
- Eu não sei como criar um personagem meu. – disse ao sentar ao meu lado, depois que a menina que estava do meu lado saiu para se unir ao seu grupo.
- Eu só sei que não vou dizer que sou brasileira. Vão saber na hora que é a versão verdadeira, por causa do meu sotaque.
- Mas nem da pra perceber! – Grey defendeu.
- O meu também não dá. – eu ri instantaneamente quando disse isso. Ele não conseguia pronunciar o R sem que parecesse que ele estava coçando a garganta. Não que fosse algo feio ou ruim de se ouvir, era engraçado e tinha la seu charme, mas era bem óbvio que ele não se passava por nativo.
- , me poupe. Também não diz que tu é francês!
Tivemos algumas ideias básicas sobre os personagens, mas o que mais discutimos foi sobre qual curso é melhor. dizia que cinema era melhor por fazer pessoas famosas e conseguir alcançar o mundo inteiro com produções milionárias. Grey resistia ao dizer que sem o teatro não haveria bons atores. E eu defendia que sem literatura ninguém sequer estaria tendo esta discussão.
Conversamos ainda sobre as festas que acontecem durante todo o semestre e fiquei sabendo – bastante atrasada, segundo – da festa que iria ter hoje em comemoração do início das aulas. Seria no prédio com fachada de vidro, que, minutos depois do inicio da conversa, descobri que eram conhecidos como fancy. Eu não sei se seria uma boa ideia ir pra essa festa. Primeiro, eu não tinha nenhuma roupa interessante para ir a esse tipo de festa. Segundo, eu não conhecia ninguém além de Grey e e não me sinto a vontade conhecendo gente bêbada que não vai lembrar do meu rosto no dia seguinte.
- Eu não acredito, . Por que não? – Grey pareceu agitada.
- Eu não me sinto confortável, não sei. – franzi a testa e respirei fundo. – Fico desnorteada, é muito barulho e muito cheiro de álcool.
- Por favor, me acompanha. Eu queria muito ir, mas não quero ir só. – Grey insistiu.
- O vai. Ele chamou nós duas. – sorri sem graça.
- Mas eu quero uma companhia feminina. – ela olhou para baixo, pensativa – Eu faço a café da manhã essa semana inteira. Por favor, eu preciso me divertir. – cruzou as mãos como se estivesse rezando e fazendo cara de cachorro sem dono.
- Ok. Mas, por favor, não fique bêbada ao ponto de eu ter que te arrastar, porque não vou aguentar seu peso! – desisti e me entreguei aos pedidos de Grey. Café da manhã durante a semana toda?!
Eu sabia que no fundo eu queria ir a essa festa. Eu me sinto mal com todo o barulho, pessoas desconhecidas e cheiro excessivo de álcool, mas eu também gosto de estar socializando com amigos. E era o que parecia que seríamos: amigos. Os dois gostam de festa, eu nem tanto, mas cada um deve ter sua vez, penso eu. Hoje vou com eles no local onde eles escolheram, amanhã poderá ser o meu.
Antes que eu pudesse começar a pensar sobre qual roupa iria usar, interrompeu nossa conversa para informar que a aula havia acabado. Senti um pouco de raiva de mim mesma de ter me deixado levar pela conversa que estava tendo ao invés de ocupar meu tempo o olhando. Embora eu soubesse que teria no mínimo sete horas semanais para fazer isso. Mas hoje isso era novidade, e eu queria ter aproveitado mais.
Antes de eu terminar de arrumar minha bolsa e levantar para ir embora, eu sinto aquele cheiro novamente. Minha respiração ficou falha em pensar na possibilidade de ser ele. Eu espero um dia me acostumar com a presença dele em sala de aula. De repente senti uma mão quente no meu ombro e uma voz grave chamar meu nome. Fechei os olhos e sorri de canto. Isso nunca iria sair da minha cabeça. me chamando pelo nome e me tocando.
- , posso falar com você um instante? – e apontou com a cabeça para o canto da sala, próximo a mesa.
Fui andando com ele até lá. Não preciso dizer que meus pensamentos se misturavam e eu não conseguia entende-los. Nada conseguia se organizar e eu só conseguia sentir seu cheiro e pensar em como sua voz era linda. No quão sortuda eu estava sendo por ele ser meu professor. No quão sortuda eu estava sendo por ter conhecido ele.
- Seu nome não está aparecendo na minha lista de alunos dessa turma. – me informou. Fiquei alguns segundos parada, tentando organizar os pensamentos para dar uma resposta que fizesse sentido.
- Eu posso trazer um comprovante de matrícula nessa disciplina, se o senhor quiser. – senhor?! Ai meu deus, acabei de chamar ele de senhor. Mas eu não sabia se poderia usar você, porque ele não é mais um ator que eu sou completamente louca por, ele agora é um professor e eu chamo todos os professores por senhor(a).
- Você, por favor – ele sorriu, num misto de constrangimento e educação. – Se você puder trazer, seria ótimo.
- Na próxima aula eu trago. – respondi apressada.
- Pode ser amanhã? No intervalo para almoço. Eu vou estar no restaurante de comida italiana. Não é difícil de achar, é o único da universidade. Eu preciso lhe incluir logo na lista, pois preciso lançar anotações todos os dias.
- Tudo bem, então. – sorri e continuei parada na frente dele. Ele sorriu de volta e continuou me olhando também, num momento muito constrangedor onde eu não sabia se deveria ir embora e acho que ele não sabia como me mandar embora. Até que fez o grande favor de me chamar. Respirei aliviada e me despedi de modo atrapalhado de , não sabendo se acenava com a mão ou com a cabeça.
Dei uma última olhada antes de sair da sala e seu olhar se encontrou com o meu novamente. Ele acenou com a cabeça e eu não consegui fazer nada além de sorrir envergonhada. Como ele era lindo... e cheiroso.
- Ansiosa pra hoje à noite, ? – perguntou enquanto entrávamos no elevador.


3


Eram 12h30 quando finalmente achamos um restaurante que agradasse a todos. Ficava há mais ou menos 10min do prédio que estávamos, mas ele foi o último pelo qual passamos. O horário de almoço iria até às 14h e eu ainda teria que levar o comprovante de matrícula para , o que significa que teria que passar no laboratório de informática para imprimir. Eu não sabia se iria logo antes de almoçar ou se ia depois. Não queria parecer desesperada para vê-lo novamente, mas também não queria parecer desleixada.
- O que falou com você mais cedo? Esqueci de perguntar. - Grey quebrou o fluxo dos meus pensamentos.
- Ele disse que meu nome não está na lista e pediu pra eu levar um comprovante de matrícula agora no almoço pra ele. - disse simples, mas por dentro pulando de alegria em saber que ia vê-lo novamente ainda hoje.
- Mas ele não fez chamada. - deixou de olhar o cardápio e me encarou, sendo seguido por Grey.
- Verdade... - Grey semicerrou os olhos, me fazendo franzir a testa. Era verdade, ele não havia feito chamada. Então como ele sabia quais nomes não estavam na lista? Mas ele sabia meu nome, pois havia perguntado na aula.
- Talvez ele tenha visto que meu nome não estava lá depois que eu respondi àquela pergunta. - coloquei meu cardápio em cima da mesa, levantando a mão para chamar o garçom.
- Sim, mas e os outros? Acho que ele sabe o nome de todos, então, né... - disse com ar brincalhão.
- Ou talvez ele tenha ficado impressionado com a habilidade de em acertar quem era o verdadeiro . - Grey piscou pra mim e eu senti minhas bochechas corarem.
- Ah, claro, porque ele ficaria impressionado com alguma fã tendo sorte em acertar alguma coisa sobre ele. - Grey fez bico e eu neguei com a cabeça.
O garçom chegou e eu pedi lasanha de quatro queijos, sendo seguida por e Grey que pediram torta de atum acompanhada por arroz e salada. Conversamos sobre o que estávamos achando das primeiras horas do primeiro dia de aula. contou que ainda estava ansioso para suas próximas aulas e que ficou satisfeito com a organização dos horários e mapas pela universidade para guiar os novatos. Grey disse que também estava satisfeita com esse aspecto, mas que o professor de sua primeira aula era uma pessoa grosseira que falava muito baixo e não repetia quando perguntavam. Eu disse o quanto estava surpresa por ser professor da universidade e contei comentei que sou fã dele.
Quando terminamos o almoço, já eram 13h15. Praticamente corri para o laboratório de informática, me despedindo as pressas dos dois. Avisei a Grey que a veria no quarto e a pedi que fosse nos buscar às 21h.
Não demorou para imprimir o comprovante de matrícula, mas demorou para eu achar o restaurante. Agora eu estava com medo dele não estar mais lá, de eu ter demorado demais. Eu não sabia onde poderia encontra-lo depois. Entrei no restaurante e procurei por . Havia muita gente ainda e eu fui adentrando no local cada vez mais até avista-lo na mesa no canto esquerdo, próximo a parede, longe da entrada. Ele me viu, sorriu e acenou com a cabeça.
- Desculpa a demora, não foi tão fácil achar o restaurante. - disse um pouco ofegante ao chegar próximo e ficar em sua frente.
- Só é um pouco distante do prédio que estávamos. - disse e em seguida me convidou para sentar, com um gesto com a mão. Sentei e lhe entreguei o comprovante.
- Sim, professor, uma coisa que lembrei agora: quando é a entrega e apresentação do trabalho? - de repente me veio isto, acabara de perceber que ele não havia dito nem anotado isso no quadro.
- Não tem data certa. Vocês precisam levar o material em todas as aulas, caso eu decida que será o dia da entrega e apresentação. - sorriu simples. Como se aquilo fosse algo simples. Arregalei os olhos e sorri sem graça. O que eu poderia fazer além de acatar? - Mas não se preocupe não, como eu disse, quero uma coisa simples. Vocês vão conseguir apresentar sem preparo algum. Até porque não precisa.
- Mas vamos pelo menos poder ler? - perguntei e ele riu anasalado. Me senti envergonhada pela pergunta talvez idiota.
- Não, . Pra me contar uma coisa sobre você, você precisa ler para ter certeza? - arqueou a sobrancelha e sorriu de canto.
- Depende. - ri nervosa e ele me acompanhou. - Eu ficaria nervosa de apresentar qualquer coisa pra você. - pensei em parar de falar no meio da frase, mas acho que iria ficar ainda mais constrangedor se ele me pedisse pra continuar. Ao invés de parar, continuei falando mais rápido. Ele riu um pouco alto e fez uma expressão de quem não compreendia o que estava sendo dito.
- Por qual razão? Porque eu sou , o ator, ou porque sou seu professor? - indagou perdendo um pouco o ar de brincadeira e dando lugar a uma expressão que beirava a seriedade.
- Não... é que... - eu realmente não sabia o que responder. Eu estava completamente constrangida. Senti meu rosto todo corar violenta e gradualmente. Novamente meu coração voltou a acelerar e bater freneticamente. Eu tinha quase certeza que não conseguia mais fazer sinapses e que o oxigênio não chegaria mais ao meu cérebro e eu teria um AVC. Olhei para minhas mãos embaixo da mesa e senti seus olhos sobre mim. Eu não teria coragem de encará-lo nunca mais, pensei por alguns segundos, até ele interromper meu ataque de pânico.
- , desculpe, eu não queria lhe constranger. - ele começou apressado. - Foi uma brincadeira. Eu só lembrei do grito que você deu hoje em sala e achei engraçado, mas eu não queria que você se sentisse constrangida, me desculpe. - sua voz estava agitada e ele falava rápido.
- Tudo bem - tentei reiniciar a conversa, respirando fundo de modo suave para que ele não percebesse. - Por ser meu professor. Eu fico nervosa apresentando trabalhos. - disse por fim, talvez ele não tenha comprado a resposta, mas foi o melhor que eu pude disfarçar.
- Mas não precisa ficar, você vai ver que será bem tranquilo, porque não é nada formal e se errar eu não tiro pontos. O ponto estará garantido se entregarem pelo menos o trabalho escrito. - dito isto já me deu um alívio enorme. Eu não teria a obrigação de apresentar nada para ele.
- Certo... obrigada. - olhei para o relógio de parede próximo a nós. Eram 13h56 e eu me atrasaria para a próxima aula, que ainda teria que procurar a sala. - Agora eu preciso ir, senão vou chegar atrasada, professor.
- Ok. Vou atualizar a lista. - disse me mostrando o comprovante. Assenti com a cabeça e levantei. - E novamente, não se preocupe com a apresentação.
- Obrigada. - sorri e ele retribuiu. Me despedi com um aceno de mão e me afastei, saindo do restaurante em seguida.
Assim que saí do restaurante e de uma possível vista de , tirei meu horário da bolsa para saber qual seria a próxima aula e o local. Estava na hora da aula de Linguística. Não deveria ser tão animada e provavelmente só haveria pessoas do meu curso pagando essa disciplina, já que ela é bastante específica.
Perguntei a hora para uma mulher que passava e eram 14h05. Decidi que eu não iria correr para tentar chegar menos atrasada, porque chegaria tarde de qualquer forma, já que ainda teria que procurar a sala. Então só caminhei observando atentamente as placas informativas e as seguindo.
Cheguei no meu destino final às 14h22, de acordo com o relógio de parede da sala de aula. Abri a porta vagarosamente afim de não ser notada. Sentei nas cadeiras próximas à entrada e não percebi se fui notada. A professora havia anotado seu nome e e-mail no quadro e falava sobre sua metodologia e regras gerais de convivência em sua aula. Não anotei nada, pois não achei que nada do que ela estivesse falando fosse relevante. Em certo momento, depois de ter falando bastante, eu diria, ela pediu para os alunos que se sentissem à vontade começassem a se apresentar. Não demorou muito para que a sessão se iniciasse. A maioria das pessoas que se apresentaram eram mulheres, até porque arrisco dizer que 70% ali eram mulheres. Disseram seus nomes, idade, de onde vinham, por que se interessam pelo curso e no que pretendem se especializar. Fiquei pensando se deveria me apresentar ou não. Mas não conseguia pensar direito no que dizer quanto a especialização. Eram muitas áreas que eu gostava e achava promissoras. Talvez História do Suspense na Literatura Inglesa? Talvez Tradução? Talvez Comunicação? Ou talvez eu poderia ser escritora também. Eram muitas possibilidades propícias.
As apresentações se encerraram e eu não consegui criar coragem para me apresentar. Amy, o nome da professora que acabara de conhecer, ligou o projetor de imagens e conectou seu notebook no mesmo. Quando a imagem se projetou na tela, pôde-se ver referências bibliográficas obrigatórias e opcionais para sua disciplina. No total eram cinco obrigatórias, onde duas eu já havia ouvido falar e esses livros não eram nada finos. Eu amo ler, amo de verdade, mas não é tão agradável ler um livro de mais de 500 páginas que fala apenas sobre códigos linguísticos e assuntos extremamente técnicos. Mas essa era minha nova vida de universitária.
Ao final da aula, ela havia dito que três dos livros obrigatórios estavam disponíveis na biblioteca e que deveríamos ler os três primeiros capítulos de um deles, para debate no próximo encontro. Anotei e passei marca texto em cima do nome do livro que deveria pegar emprestado, para as chances de esquecer serem menores.
Meu próximo horário era livre. Esta seria a última aula do dia que começaria as 16h e terminaria as 17h - é a única aula curta do horário. Como Grey provavelmente chegaria depois das 17h, resolvi passar na biblioteca para pegar o livro. Tive que fazer o cadastro, o que levou cerca de 15min. A procura do livro talvez seria longa, pois havia estantes no primeiro andar também. Embora as sessões fossem divididas por curso, eram extensas demais e eu queria dar uma olhada no lugar também.
Acabei meu pequeno tour cerca de quarenta minutos depois e registrei meu empréstimo. No percurso até meu dormitório escutei comentários sobre a festa de hoje à noite. Eu não estava mais lembrada da bendita, mas com os comentários animados comecei a me interessar mais em ir a mesma. Eu estou em um país novo, em uma cultura nova... Eu devo conhecer novas pessoas e interagir, afim de me enturmar e me adaptar melhor e mais rápido. Embora eu fosse tímida em algumas ocasiões e não gostasse de conhecer pessoas bêbadas, eu estava esperançosa de que nem todos que comparecessem a confraternização iria com o intuito de consumir tanto álcool ou droga que não conseguisse estabelecer um diálogo inicial de conhecimento de outrem. Talvez eu conhecesse meia dúzia de pessoas com o mesmo pensamento que eu.
Quando cheguei no dormitório Grey já estava lá, mexendo em seu guarda-roupas. Acenou com a cabeça e falou algo baixo que não pude compreender. Falei com ela e me dirigi a cozinha para tomar um copo de água. Quando voltei e olhei para minha cama havia duas calças: uma jeans azul claro e uma preta de couro sintético preto; uma blusa de algodão branca sem estampa e uma azul royal de seda; um casaco verde com botões grandes brancos e outro vermelho. Olhei para Grey e ela sorriu empolgada.
- Pra você escolher com qual look vai hoje. - apontou para as roupas estendidas na cama.
- Com qual você vai? - perguntei sentando na ponta da coma ao lado da calça de couro.
- Eu não sei, tenho medo de parecer muito velha, não sei. - levou as unhas à boca e fez menção de roê-las.
- Essas roupas não me parecem de velhas. - tentei acalmá-la. De fato, uma calça de couro não me parece uma coisa que pessoas "velhas" tenham vontade de usar.
- Escolhi elas pra você. - sua expressão era de pânico mas divertida. Eu ri anasalado e ela me acompanhou, de forma nervosa.
- Vai, , escolhe uma que eu vou com a outra. - me apressou apontando para a cama.
Encarei as peças e pensei nas possibilidades. Eu nunca havia usado uma calça de couro antes e não sei se me sentiria confortável ou bonita. A calça jeans me parecia mais interessante e a blusa branca talvez ficasse melhor com o casaco verde.
- Acho que a calça de couro com a blusa azul e o casaco vermelho ficaria bom em você. - em ainda nem havia completado a frase e Grey de um pulinho e um sorriso aberto.
- Eu queria mesmo ir com a calça de couro! - quase gritou em meio ao sorriso e empolgação e eu ri.
Após Grey me contar como seria sua produção para mais tarde, fomos fazer o jantar. Cozinhei macarrão e ela fez frango refogado. Enquanto comíamos, contei como foi minha tarde e ela contou sobre suas aulas. E, claro, ela queria saber como foi com .
- E aí, o que ele disse? - perguntou empolgada depois de uma garfada generosa de macarrão.
- Como assim? Ele só pediu meu comprovante. - tentei dizer simples.
- Só isso?! Nenhum autógrafo? - brincou e eu torci o nariz a fazendo rir.
- Na verdade, ele disse duas coisas: uma ruim e uma boa. Qual você quer primeiro? - ela parou o garfo na metade do caminho até sua boca.
- A ruim. - respirou fundo.
- A apresentação dos trabalhos vai ser num dia surpresa. Vai chegar um dia que ele simplesmente vai dizer: é hoje, se virem.
- Ah, não! Não acredito que ele vai fazer isso. - choramingou.
- Mas a parte boa é que se você não apresentar não perde ponto, quem entregar o trabalho escrito garante a nota.
- E fica marcado pro resto do curso, né? - rolou os olhos. Eu não havia pensado nisso. Será?
- Não sei, mas ele disse pra eu não ficar nervosa. - sorri ao lembrar dele tentando me acalmar. - Grey, eu quase congelei quando ele disse isso, aí falei que fico nervosa de apresentar alguma coisa pra ele e, pronto, corei instantaneamente e quis enfiar minha cabeça num buraco! - respirei fundo com certa decepção comigo mesma.
- Sério? - riu alto. - É só você se concentrar em mim e e tentar esquecer ele por pelo menos alguns minutos.
- Como?! Você não vê aqueles olhos apertados, aquela boca desenhada perfeitamente e aquela voz grave que arrepia cada pelo do seu corpo?! - suspirei. - Não dá, é muita informação pra um único dia, pra um único semestre! Eu não sei se aguento esse homem, Grey. É muita beleza.
- Eu sei, realmente, muita beleza... - olhou para o nada e sorriu abobalhada. Dei um tapa leve em seu ombro. - O que foi, só você tem o direito de olhar e babar por ele? - ela riu alto e a acompanhei. Eu sabia que não era a única louca por aquele homem naquela universidade. O que gerava um misto de ansiedade e medo. Eu sei que não há a possibilidade de nada acontecer entre nós dois, mas eu continuo sendo fã e metade das fãs não acha muito agradável ver seu ídolo beijando alguém que não seja ela.
Enquanto arrumávamos a cozinha, conversamos um pouco sobre os filmes de e criávamos histórias onde uma das duas conseguia ficar com ele. Isso rendeu boas risadas e histórias muito mirabolantes, beirando ao fantástico. Grey se mostrava cada vez mais uma boa pessoa e amiga e eu começava a me sentir mais confortável em sua presença. Ela era leve, divertida e um pouco agitada e sabia se posicionar sobre qualquer assunto.
Às 20h nos direcionados ao banheiro para tomar banho. Um arrependimento de não ter vindo antes nos atingiu na mesma intensidade e momento. Havia muita gente no banheiro, não havia cabines e uma fila estava formada. Todas falavam sobre a mesma coisa: a festa. Eu e Grey nos entreolhamos e ficou subentendido que o entretenimento do momento seria ouvir as conversas e saber tudo sobre as expectativas e o que de fato ia rolar na festa mais comentada da minha vida.
- Disseram que ele vai. - uma menina ruiva que estava duas pessoas à nossa frente na fila disse. - Ele e alguns professores, mas o que importa é que ele vai. - deu um pulinho de empolgação e meu coração começou a bater mais acelerado do que deveria.
Fiz menção de perguntar a Grey quem ela achava que era esse professor e ela levou o indicador à boca, pedindo para eu fazer silencio e direcionou o olhar para a menina que acabara de vazar a informação. Entendi o recado e também continuei prestando atenção na conversa.
- Eu não acho que o vá, mas se ele for, eu vou cair matando. - disse a outra que estava à sua frente.
Eu e Grey arregalamos os olhos imediatamente após ouvir uma afirmação dessas. Eu abri um pouco a boca mostrando surpresa e indignação e Grey riu anasalado. Eu realmente espero que ele não vá, senão vai ser um show de horrores, com todas as mulheres o rodeando e eu comentando com Grey o quanto acho isso um absurdo.
- Você vai deixar, ? - Grey virou para mim e falou baixinho entre risos. - as quatro meninas que estavam na nossa frente entraram nas cabines e em seguida foi nossa vez.
Entrei embaixo do chuveiro quente e tentei relaxar. Fora um dia bastante cansativo, porém interessante. Relembrei todos os momentos que fiquei frente a frente com . Hoje foi um dia que eu nunca pude imaginar. Estava sendo quase surreal viver aquilo tudo.
Nem o banho nem os pensamentos puderam durar muito tempo, pois havia aquela fila que ficava cada vez maior. Meu banho durou mais ou menos cinco minutos, vesti apenas a blusa e a calcinha, para não demorar ainda mais na cabine e enrolei a toalha da cintura para baixo. Grey havia feito o contrário, vestiu a calça e enrolou a toalha no busto.
No quarto terminamos de nos arrumar e chegou exatamente às 21h. Ele entrou no dormitório para esperar terminarmos os últimos detalhes e enquanto aguardava pacientemente, ficou folheando o livro que eu peguei mais cedo na biblioteca.
- Como você consegue estudar uma coisa chata dessa?! - indagou. Terminei de passar o batom e o encarei séria, porém com ar de brincadeira.
- Infelizmente eu não posso falar do seu curso. - torci os lábios e ele riu.
- Quando vocês vão ficar prontas? - suspirou e largou os ombros, deixando seu tronco curvado, mostrando cansaço.
- Agora a gente só vai esperar a Grey. - apontei com a cabeça para ela. Ainda estava passando rímel e faltava brincos, batom e pentear os cabelos.
- Você ficou ótima com esse batom vinho. - ele disse e eu senti meu rosto esquentar. Eu sorri agradecendo ele sorriu de volta e ficou me encarando. Desviei o olhar e pedi pra Grey se apressar.
além de bonito estava muito cheiroso também. Seus cabelos loiros estavam penteados para trás, o que lhe dava um charme fora do comum. Ele também deveria ser alguém muito paquerado, porque além de lindo era francês. Quem resiste a um francês?
Grey finalmente terminou de se arrumar e nos encaminhamos para o prédio onde a festa seria realizada. No caminho conversamos sobre nossas roupas e comentou que as roupas de Grey ficaram muito boas em mim e o agradeci sinceramente. Eu estava com certo receio de que ficasse estranho, porque a calça e o casaco ficaram um pouco grandes, mas segundo não dava pra notar.
Havia muita gente, muita gente mesmo. A concentração era em um tipo de salão, que antecedia os dormitórios. Não havia quase espaço algum para ficar, mas Grey fazia questão de ficar dentro do salão. avistou um de seus colegas de classe que o chamou para sentar com ele no sofá grande onde estava. Nos acomodamos e fomos apresentados as outras pessoas que também estavam sentadas.
Estava tocando alguma música eletrônica sem vocais e alguns dançavam escandalosamente, provavelmente já bêbados ou desinibidos demais para se importarem com o que pensam. A maioria estava como nós: em sofás, no bar improvisado, nos cantos, conversando e conhecendo pessoas. O clima estava agradável e as conversas interessantes. Algumas brincadeiras começavam a serem inicializadas, como as clássicas de acertar a bolinha no copo e dardo. Com certeza se o dardo ficasse desocupado eu queria tentar. Mas havia uma regra para participar: se não acertar no meio bebe um gole de alguma bebida escolhida pelos amigos.
- Escutou, ? Ele vem, se preparada. - tirou minha atenção das pessoas ao redor e eu me assustei um pouco, por ter sido repentino. - . - deu ênfase no sobrenome.
- Se ele vier a gente ta, fodido, cara. - o seu colega de classe, Vernon, disse se mostrando preocupado e depois riu alto sendo seguido por . - Hoje a gente não pega ninguém.
Quando eu virei novamente para observar as pessoas, já que Grey conversava animadamente com um dos caras que conhecemos, avistei a professora Amy adentrando acompanhada pelo professor de gramática, Joseph. Meu coração gelou e senti uma leve pontada no mesmo. Uma ansiedade me envolveu em uma bolha que não importasse o esforço que eu fizesse, ela não estourava. Eu tentava pensar que não queria ver , porque sentiria ciúmes e me sentiria incapaz de trocar uma palavra ou um olhar com ele. Mas eu queria que ele fosse, só pra eu poder olhá-lo e gravá-lo mais detalhadamente, em várias situação, em vários ângulos, em várias iluminações. Eu queria mapeá-lo e guarda-lo em mim. A quem eu queria enganar? Eu queria que ele viesse.


4


Passaram-se mais de 40 minutos desde que tinha me deixado ainda mais ansiosa do que me encontrava. A essa altura Grey já havia ido buscar um energético para mim, que eu não sabia se seria pior para minha situação atual. Talvez ficar mais enérgica só aumentaria minha tensão, ou talvez me incentivasse a fazer outras coisas e não apenas pensar se ele viria ou não.
Toda aquela angústia do mistério da vinda de estava me deixando inquieta demais e eu achei que se eu me levantasse para dançar afastaria esses pensamentos.
- Grey, quer dançar? – levantei e fiquei em frente a ela. Grey arqueou a sobrancelha e foi abrindo um largo sorriso num misto de surpresa e felicidade.
- Claro! – acenou positivamente com a cabeça e eu estendi minha mão para ajuda-la a levantar.
Enquanto nos dirigíamos para o bar improvisado, – tentando alguns passos de dança enquanto esbarrávamos em quem estava no caminho – uma música bastante conhecida minha começou a tocar. Não consegui segurar um grito de empolgação e Grey olhou para mim franzindo a testa e abrindo a boca.
- Eu adoro essa música! – ela gritou chegando perto do meu ouvido, para que pudesse a escutar melhor, o que não era necessário, já que tenho certeza que seu berro pôde ser escutado a pelo menos 10m de distância.
- Dois sex on the beach, por favor. – Grey gritou novamente ao chegarmos no bar. Já estávamos mais folgadas e conseguíamos dançar mais à vontade. (Link para quem quiser ouvir)
Os movimentos de Grey eram basicamente colocar as mãos no cabelo enquanto mexia as pernas e um pouco o quadril. Ela estava de olhos fechados, sentia a música e acompanhava a batida da mesma com a boca e as mãos. Sorri com toda aquela empolgação. Acho que eu também merecia me divertir assim. E eu adorava essa música!
Quando a parte vocal começou, ela abriu os olhos e os direcionou para mim. Começamos a cantar juntas. Iniciei meus movimentos com os pés, sendo seguido pelos meus braços e quadril. Eu começava a me sentir confortável o suficiente para rebolar mais e incentivar Grey a fazer o mesmo. Ela colocou minhas mãos em seu quadril e pediu para que eu a guiasse e assim o fiz. Isso rendeu risadas histéricas, pois ela simplesmente não conseguia acompanhar o movimento e a frequência dos mesmos. A deixei tentar sozinha, mas não notei nenhum progresso. Ela continuava rindo e olhando para seu quadril para ter certeza de que estava seguindo minhas instruções corretamente.
De repente Grey parou e me lançou olhos arregalados e um sorriso enorme. A olhei sem entender e ela levantou o dedo indicador e começou a cantar.
- Baby I'll always be here by your side. Don't leave me waiting too long... Please, come by. – enquanto ela cantava comecei a lhe acompanhar e entender a mensagem. Ela queria dizer que essa música era para . Principalmente quando deu ênfase em Don't leave me waiting too long, please come by (Não me deixe esperando por muito tempo, por favor, venha). Eu ri histericamente, ao perceber o quanto aquela música se encaixava para aquela situação.
Continuamos cantando e dançando, agora, com certeza, mais empolgas com a coincidência. Nosso drink ficou pronto e o barman teve que pedir para alguém nos cutucar para irmos buscar no bar. Quando chegamos no local, havia muita gente ao redor e ficava quase impossível de chegar ao drink, que estava no balcão, sem ter que dar leves empurrões para abrir espaço.
Quando finalmente conseguimos chegar no balcão, o barman nos entregou dois drinks diferentes. Um era o sex on the beach que Grey havia pedido e o outro era alguma coisa azul que cheirava 10% a menta e 90% a álcool. Grey tentou reclamar que o meu drink veio errado, mas ele já estava ocupado demais atendendo outros clientes.
- Deixa pra lá. Tem cheiro de menta, não deve ser tão ruim. – torci o nariz assim que cheirei mais de perto, o cheiro de álcool era extremamente forte, mas iria demorar muito para outro ficar pronto e se eu bebesse devagar talvez o gosto não ficasse tão ruim.
Ao nos virarmos para sair dali e voltar para mais perto do centro da festa, Grey esbarrou em alguém que estava de costa para nós. Ela colocou a mão por cima de seu copo para evitar derrubar o líquido na pessoa desconhecida e evitar um mau entendimento. Apenas algumas gotas foram derrubadas do copo, mas não atingiu ao homem que agora se virava para entender o ocorrido. Quando ele terminou de se virar em nossa direção eu ainda estava ocupada demais olhando para o liquido derramado e rindo de Grey. Antes que eu pudesse levantar completamente meu olhar para ver de quem se tratava, eu ouvi aquela voz grave e abafada pela música alta.
- ? – arregalei meus olhos e finalmente concluí o caminho que meus olhos faziam, mirando em seu rosto.
. . Lembra. Do. Meu. Nome. Até meus pensamentos tinham perdido o fôlego. Eu não conseguia pensar fluidamente. Eu esqueci as palavras e não conseguia terminar sequer uma frase. Senti Grey me cutucar de leve com o cotovelo. O ar retornou a meus pulmões e acho que meu cérebro voltou a funcionar melhor, já que pensei em algo para dizer.
- O-oi. – gaguejei. Pelo jeito meu cérebro não estava em sintonia com minhas cordas vocais. – Tudo bem, professor?
- Oi? – ele baixou a cabeça e o tronco para tentar ficar na minha altura. Estremeci.
- Tudo bem? – repeti mais alto e tentando não parecer nervosa.
- Ah, sim, tudo ótimo. – sorriu e voltou a sua postura normal. – Oi. – olhou para Grey e ela sorriu e acenou com a mão.
- Você está ótimo, professor! – ela o elogia e eu que fico sem graça. Eu não sabia ao certo porque fiquei envergonhada, talvez por ela ser minha amiga, de certa forma, me representava. Era como se eu também estivesse dizendo que ele estava ótimo. Fiquei vermelha, mas a sorte que não estava claro o suficiente para perceber isso.
- Obrigada! Vocês também. – sorriu e piscou brincalhão. Ai meu Deus, porque ele fez isso? Agora eu acho que nem se não houvesse luz nenhuma teria como deixar de notar meu rosto pegando fogo.
- A gente ta sentada ali – Grey apontou para o sofá. – Se quiser se juntar. – Sorriu e eu a olhei rindo sem graça e forçando uma concordância com indicação.
- Sim, quero... – relaxou os ombros e suspirou, fazendo, em seguida, uma cara de cansaço. – Cheguei há 20 minutos e já quero me sentar.
Grey tocou seu ombro com as mãos e consentiu com um olhar de compreensão. Em seguida, segurou sua mão e lhe guiou entre o mar de gente até o sofá. Durante o percurso, que parecia muito mais longe do que eu lembrava, fiquei pensando em como Grey conseguia ser tão autêntica, fazendo o que quer sem delongas. Era um exemplo a seguir, comparando com minha completa falta de autenticidade perante . Mas era só uma questão de tempo – eu espero. Terei muitas aulas com ele e com o espaço e oportunidades suficientes, eu conseguiria ser mais espontânea com ele.
ficou boquiaberto e deu uma leve piscada para mim, disfarçando, logo após, quando percebeu o olhar de sobre ele. Eu neguei rapidamente com a cabeça, na tentativa de fazê-lo parar antes que o visse, mas fora tarde demais. E antes mesmo de eu terminar minha tentativa frustrada de alertar , estava olhando pra mim. E eu acho que minha nova cor de pele é oficialmente vermelha, pois eu já não conseguia mais passar cinco minutos na minha cor normal. Tratei de tirar meu olhar do dele o mais rápido possível, levando a rir alto.
- Está acontecendo alguma coisa? – interrompeu a risada desnecessária de . O tom foi de brincadeira, mas tenho certeza de que ele havia ficado incomodado, só não sabia se era comigo ou com em específico.
- Ele só está rindo porque peguei o drink errado. – Me apressei em responder. Não queria que se sentisse constrangido ou irritado com um de nós. Até porque iríamos conviver muito com ele ainda e um professor que marca alunos nunca é coisa boa.
- Professor, por que você deixou de atuar? – uma nova sensação percorreu minha garganta: medo. Fiquei inquieta e estralando os dedos das mãos esperando a resposta de . Essa pergunta veio de um dos amigos de que estava de frente para mim. Eu não queria encarar , então fiquei olhando pra ele de lado o tempo todo. O silêncio pairou entre o grupo.
Eu estava me sentindo completamente constrangida por aquela pergunta fora de hora e queria dizer que ele não precisava responder isso, mas eu não tinha esse poder. Então só esperei sua resposta tão demorada. Não sabia se ele estava pensando na melhor forma de dizer, se estava xingando o garoto mentalmente, se estava pensando que a música era uma bosta... Só sei que se se passassem mais alguns segundos nessa angustia, eu teria quebrado meus dedos.
- Problemas em casa. – disse simples e imediatamente voltou sua atenção para frente, atento a algo que eu não fazia ideia do que era.
- Você ta gostando de lecionar? – Grey deu uma olhada rápida pra mim, antes de fazer a pergunta.
- Sim, bastante. É desafiador, porque eu nunca lecionei pra turmas tão grandes e em uma universidade. Fazia apenas workshops. – voltou sua atenção para nós.
- Então você vai pegar leve com sua primeira turma, não é? – Grey piscou e riu para ele, que correspondeu no mesmo tom.
- Vou. Mas só vou pegar leve porque ainda estou tendo ideias pra meus "métodos acadêmicos". – fez aspas com os dedos. Enquanto eles iniciavam a conversa eu ficava apenas olhando para um e outro enquanto falavam.
Eles continuaram conversando sobre os possíveis futuros métodos de ensino que utilizaria com suas turmas e eu apenas me concentrava na movimentação da boca dele e como os olhos dele ficavam lindos quando a luz azul refletia em seu rosto. Eu queria me concentrar na conversa e poder fazer comentários coerentes, mas preferi não me arriscar. Grey conversando com ele já conseguia fazer uma ponte suficiente para futuras conversas fora de sala de aula.
Algumas gotas caíram no meu pé e eu lembrei, finalmente, de que segurava um drink. Já estava ficando quente, procurei por um pedaço de gelo e não encontrei. Prendi a respiração e tomei um gole. Por incrível que pareça, não estava ruim. Acho que o gelo quebrou mais o gosto do álcool e a menta estava suave. Tomei mais três goles e senti tocar minha mão quando levava novamente o copo à boca.
- , devagar. – riu e abaixou minha mão. – Não quer ficar bêbada em 2 minutos, né?
- Mas ta docinho, não ta com muito álcool. – respondi e coloquei perto do seu rosto para cheirar.
- Esse é o perigo. – pegou o copo da minha mão e deu um gole. – Ta uma delícia, mas toma devagar.
- Ok, ok. – concordei, mas dei um gole grande ainda olhando pra ele, que riu e revirou os olhos.
- , você ta gostando da universidade? – tocou meu ombro e olhei com um misto de surpresa e felicidade.
- Sim, sim. – sorri e balancei a cabeça. Ele continuou me olhando e eu percebi que a resposta teria que ser maior. – É bem grande, me perco bastante, mas uma hora eu decoro.
- Imagino. É enorme mesmo. Mas é linda, não é? – abriu um sorriso tão meigo e eu fiquei o encarando. Aquele sorriso parecia estar durando muito tempo... fiquei encarando com curiosidade para saber se ele ainda estava sorrindo ou era imaginação minha. Até que ele falou novamente – Eu disse alguma coisa errada?
- Não, é que seu sorriso... – eu ia continuar falando, mas senti que os movimentos dos meus olhos estavam lentos e era isso que acontecia primeiro quando estava ficando bêbada. Parei no meio da frase o fazendo rir e olhar pra minha bebida. Baixei os olhos e tomei mais um gole grande. Quando olhei novamente para o copo, havia acabado.
- Acho que já está fazendo efeito. – ele disse e eu ri, um pouco sem graça. Eu senti vontade de tomar mais um pouco, eu estava ficando mais à vontade naquela situação com .
- Talvez... vou pegar outro, vocês querem? – prontamente me encaminhei em direção ao bar, mas tocou em meu braço, me fazendo encará-lo.
- Pode deixar que eu vou. Quer alguma coisa Grey? – voltei para o mesmo lugar de onde tinha me deslocado e Grey negou com a cabeça, mostrando seu copo na metade.
Assim que ele se afastou o suficiente para não nos ouvir, ela ficou de frente para mim.
- , você ta bêbada? Já? – riu e tocou no meu rosto, afastando uma mexa de cabelo da minha bochecha.
- Não, mas to quase. E eu to me sentindo melhor pra continuar uma conversa com ele!!! – me empolguei e dei um pulinho, tentando me recompor logo em seguida, olhando ao redor para ver se ele não estava olhando.
- Ok, que ótimo. Mas do jeito que ta indo, o copo depois desse vai demorar pra chegar, viu...
Uma outra música conhecida começou a tocar e senti a empolgação necessária para dançar sozinha. Eu não sabia se Grey estava dançando ou não, pois estava de olhos fechados sentindo minha cabeça girar de leve. A sensação de corpo leve estava me tomando e eu sentia que precisava de mais espaço para dançar. Girei a primeira vez e bati em alguém. Abri os olhos e Grey segurava minha mão. Levantou minha mão e a passou por cima da minha cabeça, me girando novamente. Começamos uma dança em par; ela me girava e eu fazia o mesmo com ela, estávamos numa sincronia não muito boa, digamos. Batíamos muito nas pessoas ao redor e algumas chegavam a reclamar. Olhei para e ele estava fazendo o mesmo comigo. Ele sorriu e veio em nossa direção, arriscando uns passos. Pegou na minha mão livre e me puxou para mais perto, fazendo com que Grey soltasse a outra mão. Quando menos esperei estávamos nós três dançando em sanduiche, com no meio e eu de frente para ele. Segurei em seu pescoço e inclinei minha coluna para trás, o pegando de surpresa, que quase me derrubou. Enquanto ele ria e tentava me segurar eu via as luzes coloridas dançarem no seu rosto. O cabelo loiro ficava vermelho, azul, roxo... e todas aquelas cores pareciam combinar com seu olhar animado. Quando ele me puxou para cima, me deixando ereta novamente, meu rosto ficou muito próximo ao dele, me permitindo sentir seu hálito de vodca. Olhei para trás dele e não vi mais Grey. Ele continuou me guiando em sua dança e colou mais nossos corpos, segurando minha cintura. Seu toque era suave mas com certa pressão, me fazendo colocar minha mão por cima da sua para saber se aquilo estava de fato acontecendo. Com a outra mão ele tocou minha bochecha e ficou me olhando sorrindo. Retribuí o sorriso e fiquei me perguntando se isso significava algo ou se era apenas parte de uma dança entre amigos. Ele colocou meus braços em volta de seu pescoço e apoiou as duas mãos em minha cintura, me guiando com passos mais lentos desta vez. Encostei meu rosto em seu pescoço e me deixei guiar. A música não era lenta e muito menos permitia uma dança de baile de formatura, mas eu estava me sentindo muito bem naquele ritmo e o cheiro de não me deixava afastar. Parecia que estávamos tendo uma conversa profunda e nos conhecendo. Eu não conseguia explicar a sensação, mas era confortável e prazerosa.
Senti Grey tocando minha cintura, me chamando pelo nome. Abri os olhos e virei para ela, me soltando parcialmente de . estava de frente para nós, segurando meu drink azul novamente. Me virei completamente para ele, na intenção de pegar o drink, mas senti me segurando contra seu corpo. então deu um passo em nossa direção e me entregou o copo. Antes de tomar o primeiro gole, tirei as mãos de da minha cintura e fui para o lado de Grey, que me olhou de canto de uma forma que não consegui entender o que ela queria dizer.
- Bom, aqui seu blue, descobri que esse é o nome do drink – disse simples ao me entregar, não esboçando nada. Percebi que ele olhou rápido para onde as mãos de estavam em mim e tomou um longo gole em sua cerveja. – Eu encontrei alguns amigos perto do bar. Acho que vou ficar com eles um pouco, se não se importam.
Estava difícil de identificar quais sentimentos estavam percorrendo meu corpo. Eu queria que ele ficasse, queria conversar com ele, dançar com ele. Mas eu sabia que, principalmente essa última parte, eu não faria. Ele havia encontrado amigos que falavam sobre coisas interessantes na visão dele e aqui a conversa não engatava. Talvez fosse melhor para todos, menos constrangimentos. Mas ainda assim eu queria que ele ficasse perto, onde eu pudesse olhar para ele e me imaginar no lugar de quem estivesse com ele. Ao mesmo tempo eu queria continuar a dançar com , mas estava com medo de que essa aproximação significasse algo para ele que não fosse para mim. Talvez isso fosse coisa da minha cabeça, que já não pensava claramente.
- Mas você volta? – soltei a pergunta sem antes pensar.
- Não sei... – olhou para . – Talvez. – e foi andando em direção ao bar novamente, acenando com a cabeça para nós.
- , você lembra que ele agora é seu professor, não é? – me virou para ele novamente.
- E você ta dançando comigo como amigo, não é? – arqueei a sobrancelha e tomei um gole de blue. Ele me abraçou sem responder e voltamos a dançar.


5


Dançamos mais duas músicas e senti o braço de Grey me envolver. Meu copo já estava vazio antes mesmo de começarmos a dançar a primeira. Acho que minha frustração de não ter ficado foi minha maior motivadora de terminar a bebida tão rápido. Sentia meus pés engraçados e o rosto de Grey estava parecendo preocupado, não sei por que.
- , tem certeza que é isso que você quer? – ela me puxou para algum lugar um pouco longe de . Ela estava gritando?
- Você está gritando? – ri e ela fez uma cara engraçada.
- Não, você está gritando. – balançou a cabeça. – pareceu dar um mini show de ciúmes ali, e agora não para de te agarrar. – ela me olhava como quem fala com uma criança de quatro anos, tinha certeza que ela estava gritando.
- Não precisa gritar, Grey. Ta barulho, mas assim ele vai te escutar. – ri de novo.
- Quê? Eu não to gritando, to falando perto... , você ta bêbada? – ela riu.
- Duas águas do planeta dos Avatar não vão me deixar bêbada, Grey. – ri quando lembrei do filme Avatar. Será que a água deles era azul como minha bebida mesmo?
- , você ta vagando, olhando pro nada enquanto fala de Avatar. – segurou meu rosto com as mãos geladas, me fazendo torcer o nariz. – Sim, você está bêbada.
- Talvez um pouco. – tirei suas mãos do meu rosto e virei para ver onde estava. Mas não consegui ver nada, estava parecendo tudo muito psicodélico e eu queria mais um copo daquela água de menta.
- , pra onde você vai? – Grey, puxou meu braço, me fazendo perceber que estava caminhando em direção ao bar, mesmo que tivesse dado apenas alguns pequenos passos.
- Pegar mais água azul. – sorri, feliz de que em breve teria água com menta novamente e ficaria ainda mais feliz e tonta.
- Não, nós vamos sentar. – meu sorriso murchou na hora. Mas eu não consegui fazer muita coisa a respeito de Grey me arrastando para o sofá mais próximo, ou mais longe – não faço a mínima ideia.
Sentamos no sofá e eu não conseguia dizer há quanto tempo eu estava ali – provavelmente não muito. Eu conseguia lembrar da excitação que senti quando tomei o primeiro copo, mas tudo que eu sentia agora era um peso no corpo e uma lentidão na mente e uma vontade de conversar, mas eu criava monólogos na cabeça porque Grey conversava com outra pessoa e não estava lá.
- Há quanto tempo estamos aqui? – interrompi a conversa de Grey.
- Hmm... uns cinco minutos. – ela riu anasalado e me encarou. Pisquei pesadamente e voltei a minha posição passada. Não demorei muitos segundos nela e chegou.
- Onde vocês estavam? – ele estava de frente pra mim com uma garrafa nas mãos. E ele estava muito engraçado. Não consegui conter o riso e ele ficou me olhando parecendo não entender.
- Eu estava em Avatar. – ri. Avatar era um lugar, certo?
- Avatar? Mas Avatar...
- Ela ta bêbada, , não liga. – Grey interrompeu ele. Que coisa feia.
- , você tava dando em cima de... – Grey colocou um guardanapo na minha boca. Eu tava suja?! Eu devo estar bêbada mesmo, porque eu nem sabia que tinha comido alguma coisa...
- Quê? Grey, deixa ela terminar de falar! – riu. Eu acho. Mas ele tirou o guardanapo da minha boca e arrancou a mão de Grey junto.
- Pra onde o foi, ein?! – perguntei e solucei ao mesmo tempo. A música estava começando a me incomodar.
- Eu vi ele com a sra. Amy. Estavam no bar. – agora meus olhos não suportavam a luz piscando. Por que Avatar gosta tanto de luz que pisca?
- Acho que dava um bom Avatar... – ri e vi Grey rolando os olhos e rindo em seguida.
- Que obsessão é essa por Avatar, ?! Meu deus! – ela deu um beijo na minha bochecha e eu sorri, olhando pra , que ficou parado em pé, de frente pra mim. Meu rosto estava na altura de seu zíper e eu não pude deixar de imaginar o que estava guardado ali por baixo. Olhei para cima, ele estava olhando para mim, e olhei novamente para seu zíper... e escutei meu nome ser chamado. Mas eu não conseguia parar de olhar e imaginar aquele zíper sendo aberto bem lentamente... Então escutei meu nome ser chamado de novo, porém com outra voz. E quando eu olho pra cima e vejo quem é, olho novamente – em reflexo – para o zíper de e uma ânsia de vômito toma todo meu estômago e não consigo segurar, por mais que eu tente, colocando as mãos na boca. E lá está : com a calça toda vomitada.
- , você está bem? – perguntou, levantando minha cabeça, que estava muito próxima do chão, aliás.
- , ! Você ta legal? – tentava me levantar também, tomando cuidado para eu não bater na sua calça suja.
Eu já estava melhor da tontura e conseguia pensar com mais clareza, apenas não conseguia falar. Parte por vergonha, parte pela dor na garganta. Minha cabeça doía ainda mais e meus olhos estavam pesados; tudo que eu queria fazer era ir embora dali o mais rápido possível e com uma capa da invisibilidade, se não fosse pedir muito.
- Vamos levar ela pro dormitório. – Grey lendo meus pensamentos, prendeu meus cabelos num rabo de cavalo e e travaram uma disputa visual para saber quem ajudaria a me carregar. Respirei fundo, segurando um sorriso vitorioso, e me segurei em Grey que riu de lado.
- Eu to melhor. – foi tudo que eu consegui dizer. Três palavras que eu consegui tirar do meu pote da vergonha.
- Eu vou acompanhar vocês até lá. – disse, afastando as pessoas que estavam na nossa frente. E, novamente, eu segurei o sorriso. Calma, , ele só está sendo o cara extremamente gentil que você sempre leu que ele era.
- Eu também vou. – se prontificou praticamente em seguida. Acredito que o delay só aconteceu por causa do som alto. Dessa vez foi turno de Grey segurar o riso.
Até a metade do caminho fomos em silêncio. Apenas Grey falava comigo para checar se estava tudo bem ou se eu precisava de algo. apenas me olhava de canto enquanto caminhava com as mãos no bolso. estava do meu lado e ficava tirando os cabelos que insistiam em cair no meu olho vez ou outra.
- Fora isso que aconteceu, vocês gostaram da festa? – quebrou o gelo. Fiquei surpresa – bastante, na verdade.
- Eu adorei! Conheci bastante gente, tive conhecimento sobre bastante coisas... – Grey deu ênfase na última palavra. Não entendi o motivo, o que quer dizer que ela vai ter que me falar sobre isso no dormitório... ah, vai.
- Eu também acho que fiquei sabendo de algumas coisas... – olhou para mim e eu tirei a vista dele rapidamente. Espero que ele não esteja pensando que eu esteja afim dele, meu deus. Será? Eu estava bêbada, não com amnésia. Eu sei o que eu fiz, mas eu não fiz nada, na verdade.
- E você ? – perguntou. Arregalei os olhos e fitei o chão.
- Hmm... eu fiquei bêbada a maior parte do tempo, então... nem lembro direito né... – ri sem graça. Espero que tenham comprado. Grey riu anasalado. Provavelmente ela não comprou. – E você ?
- Foi interessante. Não é meu estilo de festa, na verdade. Fui mais porque é uma tradição os professores aqui irem na primeira festa do ano junto com os alunos. Alguns, quer dizer. – riu baixo. – Conheci mais alguns alunos, alguns professores... e agora estou levando alguns alunos até o dormitório. – riu.
- Alguma professora interessante, sr. ?! – perguntou e eu arregalei os olhos e faltou pouco para meu meu queixo seguir o mesmo fluxo de incredulidade.
- ! Que pergunta! – ri de nervoso, olhando com reprovação para , na tentativa de que ele retirasse a pergunta que acabara de fazer, mas foi em vão. Ele sorriu como se não tivesse feito nada de errado e encorajou a falar, com um aceno de cabeça.
- Não, , nenhuma nesse seu molde de pergunta. – disse sério. – Na verdade, não estou interessado nesse tipo de relacionamento. – finalizou a frase e colocou uma mecha de seu cabelo curto atrás da orelha, olhando para frente e seguindo com passos firmes e postura ereta.
Meu coração, que antes estava acelerado, ansiando pela sua resposta, de repente ficou num ritmo indecifrável ou eu simplesmente não conseguia percebê-lo. Tudo que eu sentia era o vento que instantaneamente ficou mais frio, minha boca que tinha ficado estranhamente seca e os nossos passos desarmônicos que poderiam facilmente ser confundidos com meus batimentos cardíacos. Eu sentia o cheiro do asfalto a cada passo, via cada folha no chão, cada folha ser levada com o vento. Eu sentia o cheiro do vômito na minha boca, na minha blusa, na calça de . Eu escutava me chamar, eu via o zíper de , eu o imaginava se abrindo. Eu me via olhando para e ele olhando para mim. Eu me via dançando com . Sentindo seu cheiro. Eu me via. Eu me sentia. Eu voltei a sentir meu coração bater novamente – e ele estava acelerado.
tinha feito aquilo de propósito; tinha feito para eu ver que é apenas meu professor e que ele também me vê apenas como aluna. E agora eu vejo que ele está certo.
- Chegamos. – Grey disse, voltada para , mas me tirando do transe.
- Certo, vocês querem que eu ajude em alguma coisa? – ele perguntou.
- Não. – eu disse rápido demais, eu acho, pois todos olharam com um misto de surpresa e incompreensão – É que ta uma bagunça lá dentro... e outra: o que vão pensar se verem um professor entrando com duas estudantes no dormitório? – pressionei os lábios, tentando soar lógica.
- Eu tenho minhas explicações. – ele juntou as sobrancelhas.
- Tudo bem, , eu tenho tudo sob controle. – falou fantasioso demais e eu apenas o olhei com uma cara que beirava o tédio.
- Ok... – ele disse se afastando um pouco. – Vejo vocês na aula, então. – acenou com a cabeça e o observamos voltar pelo mesmo caminho que chegamos.
Assim que entramos no dormitório, tirou os sapatos e a camisa. Conti a vontade de revirar os olhos, porque a vontade de olhar aqueles músculos foi maior. Grey também não fez diferente. Enquanto eu estava deitada na cama o observando, ela estava na cozinha com a geladeira aberta, mas parada o olhando. Assim que notamos que ele percebeu, tentamos disfarçar das formas mais ridículas possíveis: ela enfiou a cabeça na geladeira fingindo procurar alguma coisa e eu fiquei olhando minhas unhas.
- Posso dormir aqui hoje? – ele perguntou. Respirei fundo. Não é só porque ele é lindo desse jeito que ele pode estragar toda uma fantasia que eu criei com o cara dos meus sonhos e pedir para dormir no meu quarto. Que eu divido, quer dizer.
- Pode, claro. – Grey disse e eu a olhei com um olhar tão pesado que ela franziu a testa e, creio eu, repensou sua resposta. – Mas e sua roupa? – me olhou de canto. – Você não tem outra calça.
- Você pode me emprestar uma de moletom. Antes de ir pra aula eu vou no meu dormitório e troco. – sorriu e pegou uma toalha dobrada que estava em cima de Grey e saiu.
- Grey! Eu vou te matar! – levantei num pulo e fui até a cozinha.
- , escuta! – ela sentou na cadeira, batendo a palma da mão na outra para eu fazer o mesmo.
- está aqui como nosso amigo. E você ainda está meio mal por causa da água de Avatar. – riu alto e eu a empurrei, querendo não achar graça, mas soltando um riso. – Então, relaxa. O dormitório dele fica meio longe e já está tarde. Não custa nada.
- Você viu o que ele fez, Grey?! Eu não to assim porque ele ta dando em cima de mim ou não, é pelo que ele fez com o ! Aquilo foi golpe baixo! – passei a mão no rosto, agitada.
- Eu sei, foi mesmo. Eu vou falar com ele sobre isso. Mas sei lá, deve ter sido um ato de desespero!
- Quantos anos ele tem, 15?! Como ele espera que eu fique com ele, se ele age dessa forma?
- Eu sei que você quer alguém mais maduro, mais gentil, que goste dos estilos de filmes e músicas que você goste... Tudo que você conhece de é através de revistas, entrevistas na internet e TV... Tudo entre vocês da match. Mas quem sabe entre você e também dê? Tudo bem que ele começou com o pé esquerdo e o com o pé direito... mas hoje os dois deram uma bola fora. Que tal dar uma chance a ? Sem expectativas! Só conhece ele. E conhece também, sem expectativas. Os dois tem coisas a oferecer, boas e ruins. Vamos colocar na balança. E se nenhum dos dois fizeram gol, bola pra frente! Existem tantos outros alunos e tantos outros professores!
- Grey, você promete que vai ser sempre minha amiga? – sorri em meio a quase um choro. Ela beijou minha bochecha e me abraçou de lado.
Ficamos assim por alguns minutos e ouvi a porta se abrir. Olhei para e vi um sorriso se formar em nossos lábios. Percebi que ele ficou confuso em nos ver daquele jeito, abraçadas. Me levantei devagar, me dirigindo até minha gaveta de lençóis, os forrando no chão ao lado da minha cama em seguida. Peguei um dos meus travesseiros e o dei para . Ele se deitou, sendo seguido por mim. Ficamos conversando por um tempo sobre as músicas que tocaram na festa, até que Grey apagou a luz e alguns minutos depois eu dormi, sem lembrar em qual assunto estávamos.


6


No dia seguinte, acordei com uma leve dor de cabeça, mas ela não foi o motivo para eu ter me acordado. O cheiro de ovos fritos e geléia de morango – minha preferida, por sinal – fizeram esse favor. Agradeci por não ter acordado com o despertador ou com as pequenas marteladas na cabeça, caso contrário, estaria, com certeza, de mau humor nesse exato momento.
Para minha enorme surpresa, Grey ainda estava dormindo, o que só poderia haver uma explicação para aquele perfume delicioso de geléia e ovos, que estranhamente combinavam tão bem: estava cozinhando. Seus cabelos estavam bagunçados e amassados, caindo sobre seu rosto; a calça de moletom de Grey estava curta demais e ficava acima de seus calcanhares e abaixo de sua cintura, mostrando suas entradas, porque estava sem camisa também. Mas minha observação em não demorou muito, pois junto com o cheiro de queimado, veio a fumaça. E um beirando o desespero, tirando a frigideira do fogo e jogando na pia.
- Que cheiro é esse?! – Grey sentou-se na cama, com a mão tampando o nariz e os olhos semicerrados, por causa da luz do sol.
- acabou de queimar nosso café da manhã. – a informei, não conseguindo conter o riso, mas me levantando para ajudá-lo.
- Ainda tem geléia! – ele disse, fazendo bico. – Tem geléia, tem torrada e tem suco de laranja... – contou nos dedos a quantidade de coisas que ainda não havia arruinado. – Quem precisa de ovo?!
- Ninguém precisa de fumaça às 7h da manhã também, né... – Grey reclamou, levantando-se da cama e indo para a geladeira, servindo-se de um copo de água. – E você ficou ótimo com minha calça. – piscou.
- Obrigada, queria até te pedir emprestada. – piscou de volta.
- Eu vou comer depois. – fui até minha gaveta e peguei minha toalha e roupas para a aula. – Vou tomar logo um banho antes que o banheiro fique lotado.
- Ah, sim. Eu também. – pegou sua calça e camisa que estavam na cadeira, próxima à porta. – Vou no banheiro me trocar. – fez cara de nojo. – Obrigada pela obra de arte, . – sorriu irônico.
- Precisando... – pisquei. – Mas falando sério, me desculpa. Eu nem esperava que fosse vomitar. Se eu sentisse que estava vindo, teria desviado de você, eu juro.
- Tudo bem, . Aquela água de Avatar foi pesada mesmo. – assim que ele terminou a frase, minha mão já estava em seu peito, lhe empurrando. E eu pensando que ele estava sendo "O" compreensivo. Mas só quando Grey começou a rir, eu consegui relaxar e rir da situação também.
- Enfim, eu vou logo tomar meu banho. – dei uma última olhada nos dois e saí em direção ao banheiro.

(...)

Tive duas aulas incríveis, mas nenhuma delas com Grey ou . Na segunda aula, enquanto fazia a leitura de um capítulo do texto que o professor havia entregue, me peguei pensando no que Grey havia me dito ontem sobre . Em como eu só o conhecia por entrevistas na internet, revistas e redes sociais... Como eu havia o fantasiado. Era engraçado como eu nunca iria parar para pensar nisso há uma semana. Eu simplesmente ia achar que o conhecia bem, que sabia de seus gostos, que ele estava feliz com o casamento e com a profissão. E hoje ele está divorciado e é professor. Afinal, quem é ? A gente não conhece ninguém... até se permitir conhecer.
Isso também vale para . Eu estava sempre tão presa em , alguém que ainda não me permitiu conhecê-lo – e eu ainda não sei se quer isso – que eu bloqueei a entrada de na minha vida, não o possibilitando de me conhecer, de se relacionar comigo de forma inteira ou ao menos mais amigável. Nem a chance de conhecê-lo eu quis ter. Mas Grey, como incrível conselheira que está se mostrando, me indicou o melhor caminho para acolher os dois sem expectativas, como ela mesma disse. Bastando apenas me permitir explorar e deixar ser explorada, na melhor forma da palavra.
No almoço, ainda com essas questões ecoando em minha cabeça, fui a procura de Grey, no restaurante que havíamos marcado de nos encontrar. Ela se atrasou cerca de quinze minutos, mas nada que me incomodasse, pois ainda estava pensativa e observar as pessoas me ajudava a chegar a melhores resoluções.
- Desculpa a demora. Estava organizando um trabalho com o grupo da aula. – Grey informou, ao sentar na minha frente.
- Sem problema. – passei o cardápio para ela. – É bom a gente começar a preparar nosso almoço. Já ta ficando caro pra mim. – ri, mas era totalmente verdade.
- Sim, é melhor. – riu também. – Hoje à noite a gente vê o que preparamos pra amanhã. – deu uma última olhada no cardápio. – Vou de macarronada.
- Também. – eu não havia nem olhado o cardápio. Mas macarronada era bom e eu não estava no clima para procurar nada no cardápio. Ela fez o pedido ao garçom e tirou o celular da bolsa.
- Vou ligar para o . Ele pediu para avisar onde a gente estaria no almoço. – avisou, já discando.
- Ok. E sobre ele... – comecei, mas ele havia atendido. Esperei ela avisar onde estávamos e voltei a falar. – Pensei sobre aquilo que você disse. E vou dar uma chance pra conhecer ele e .
- Sério? Que ótima notícia! – ela sorriu, sincera. – vai adorar. – agora riu sacana.
- Grey, eu disse conhecer! Co-nhe-cer! E falei os dois. – rolei os olhos ligeiramente e neguei com a cabeça, rindo em seguida.
- Quase falando no diabo, olha ele aí...- disse e apontou com a cabeça.
- Quase falan... – antes que eu pudesse terminar a frase, para tentar entender o que ela quis dizer, quando olho para o lado, está procurando uma mesa para sentar.
- ! – ela o chama e acena com a mão. Minha primeira reação é de vergonha alheia, por ela estar o chamando; a segunda é de uma pontada de raiva, por ela estar o chamando; a terceira é de incompreensão, por ela estar o chamando. Grey saiu de uma ótima conselheira para ateadora de fogos de circo.
- Oi, Grey! – a cumprimentou com um aperto de mão. – ! – em seguida, me cumprimentou.
- Quer sentar aqui com a gente? – Grey perguntou, apontando para a cadeira do meu lado.
- Se não for incomodar. – sorriu breve.
- Nada, claro que não. – foi minha vez de ser educada. Ele puxou a cadeira do meu lado e sentou-se, colocando sua pasta ao seu lado, no chão.
- Você está melhor, ? – virou-se com o corpo para mim. Eu apenas virei o rosto para ele, o encarando. Eu iria me permitir, mas era tudo muito recente ainda.
- Sim, sim. Acordei com um pouco de dor de cabeça, mas acho que é normal. – ri fraco e ele me acompanhou. – Mas agora já to totalmente normal.
- Que ótimo. Muitos faltaram aula hoje. É bem comum e esperado, na verdade. – olhou rápido para Grey. – Pelo menos vocês são responsáveis.
- Eu também sou. – disse, por trás de mim, o que me fez levar um pequeno susto.
- Como vai, ? – estendeu a mão em cumprimento.
- To bem, . E o senhor? – sentou-se ao lado de Grey.
- Você, por favor. Não aguento mais ninguém me chamando de senhor... – riu anasalado e foi acompanhado por todos nós.
- Senhor seria só por educação, porque... – Grey disse. Claramente ela tem seus momentos sábios, são só relances mesmo...
- Alguns ficam na dúvida de como me chamar, pelo fato de eu ter sido ator e agora professor... gera essa confusão.
- É, eu também fiquei. Não sabia como chamar, senhor, você, ... – e agora não sabia se ria, se sorria, se não fazia nada, mas o que saiu foi um meio sorriso desengonçado. Ele sorriu e concordou com a cabeça e pareceu me fitar por alguns poucos segundos.
- Pode me chamar de , se quiser. Ou você. Menos senhor! – riu.
- Vocês já pediram o almoço de vocês? – perguntou, cortando a construção do nosso diálogo.
- Ham... sim. Pedimos macarronada. – respondi.
- Ok. Vou querer o mesmo. Você? – se referiu a .
- Pode ser, também. – balançou a cabeça, parecendo um pouco desconcertado. chamou o garçom e fez os pedidos.
Enquanto o almoço não chegava, falou sobre sua aula e Grey sobre a dela. Não sobrou muito espaço para falar e eu me detive em ouvir o que eles tinham a adicionar, apenas. Não fiz perguntas nem acrescentei nada sobre meu dia, muito menos. Mas ele não pareceu entediado, nem desgostoso sobre a conversa que eles estavam tendo.
Ao terminarmos, e Grey seguiram para caminhos diferentes, enquanto eu e íamos, coincidentemente, para o mesmo prédio. Ele se ofereceu para caminhar comigo até lá, mas antes precisava passar na sala dos professores para pegar o notebook que precisaria para a aula.
- Há quanto tempo você se formou? – perguntei enquanto seguíamos para a sala dos professores.
- Tanto tempo que o curso de Representação ainda existia. – riu.
- É, você disse que era formado em Representação...
- Hoje é só uma cadeira que vários cursos podem pagar. – fitou o nada.
- Isso te deixa, não sei, triste? – de certa forma, eu estava pisando em um campo minado, não sabendo o que poderia atingir ali. Estava tentando falar o mais sutil possível.
- Em partes. Hoje estaria mais para o curso de Teatro. O problema é que eu tive que fazer muitos outros cursos de teatro, porque o de Representação não servia mais. – agora estava olhando para mim. – Mas agora está tudo ok, porque eu posso ensinar boa parte do que aprendi.
- Você só ensina essa cadeira? Ou tem outras depois?
- Ensino Roteiro Dramático I e II e Roteiro de Suspense I e II. – sorri instantaneamente, largo e sincero. Suspense e drama. Quem sabe mais quatro cadeiras com ele?
- Sério? E são abertas para quais cursos? Literatura pode fazer? – disparei com as perguntas, ansiosa.
- Sim, pode. – riu, provavelmente da minha afobação. – São mais específicas para cinema, mas se você quiser ser escritora, pode sim. Ou até mesmo uma curiosa no assunto, fique à vontade pra frequentar minhas aulas. – sorriu. E com aquele sorriso eu suspirei e sorri de volta. Quando notei o que fiz, tentei disfarçar, olhando para frente, fitando o nada e pensando em alguma coisa urgente para dizer.
- Ham... eu penso em ser escritora também. Ou tradutora. Eu amo ler e escrever. E isso seria juntar o útil ao agradável. Trabalhar fazendo o que ama e ganhar dinheiro por isso.
- É o que faço. – disse, parando logo em seguida em frente a uma porta de madeira enorme, com mais de 3m de altura, num dos prédios de arquitetura antiga e preservada da universidade. – Eu vou buscar o notebook e já volto, ok?
- Ok. – o observei entrar no prédio e fiquei esperando sentada no segundo degrau da escada de apenas três degraus. Em menos de cinco minutos, ele voltou com o notebook em mãos. Fiz menção de levantar, mas ele sentou antes que eu pudesse o fazer.
- Ainda temos trinta minutos até começar a aula e o nosso prédio fica a cinco minutos daqui... – olhou para o notebook. – E estou cansado. A idade já está me pegando.
- Idade? Não sei sua idade, mas ela te conservou bem... – minha convivência com Grey não estava me fazendo bem, NÃO estava. Virei o rosto um pouco para o lado e apertei os olhos, com vergonha do meu comentário. Não era para ter soado desse jeito.
- Você acha? – arqueou a sobrancelha. – Bom, alguns anos de academia fizeram efeito até certo ponto, mas agora fora dela... esse corpo ta me deixando na mão. – riu enquanto se olhava.
- E por que não volta? – quando eu vou parar de me perguntar se estou sendo invasiva demais?
- Não sei, na verdade... boa pergunta. – olhou para mim e juntou as sobrancelhas, pensativo. – Boa pergunta, .
- Já pensei em fazer, mas agora estudando o dia todo e sem dinheiro... agora que não dá mesmo. – neguei com a cabeça. Só em pensar nas milhares de despesas e nos milhares de livros para ler, não, academia não.
- Várias pessoas correm aqui no campus. – olhou ao redor. – Talvez seja uma boa idéia, afinal. Colocar a saúde em dia. Já que ela há tempos já não é a mesma que a sua... – riu irônico ao olhar para mim.
- A minha que não é igual a sua. – o olhei de cima a baixo. – Tantos filmes que te vi e você dava de 10 a 0 em muito novinho da minha idade... – e só de lembrar um arrepio me percorreu e uma curiosidade em saber como estava aquele corpo por baixo daquele jeans e daquela camisa e casaco...
- Você ta sendo generosa... – riu um pouco alto. – Eu me esforçava, essa é a verdade.
- Você atuava muito bem, era incrível. – me peguei em meio a um quase devaneio, fitando seus cabelos e sentindo seu olhar sobre mim. Assim que me dei conta do que falei, me virei para frente, encarando qualquer pessoa que passasse por mim, num misto de vergonha e decepção pela falta de controle dos pensamentos.
- Obrigada, . Fico realmente feliz em saber que você gostava do meu trabalho. – sorriu, senti sinceridade e sorri de volta, aliviada.
- , posso te fazer uma pergunta pessoal? – fitei o campus. Não tive coragem de encará-lo, pois não sabia nem se teria coragem de completar a pergunta. Meu corpo estava totalmente tensionado, esperando por sua resposta, que veio após uma longa respiração profunda.
- Pode. – disse sem acréscimos.
- Sr. , ainda bem que encontrei o senhor! Queria tirar uma dúvida sobre o trabalho de Drama I, o senhor está com tempo? – uma menina chegou praticamente correndo, tocando o ombro de . Antes de olhá-la, ele me encarou, parecendo que estava me pedindo permissão para interromper nosso assunto. Eu assenti com a cabeça e ele sorriu fraco de lado, virando-se em seguida para atender a menina.
Eles iniciaram a discussão sobre o trabalho e tomou mais tempo que o esperado por nós dois, não havendo tempo para voltarmos a conversar. Já eram 14h10 quando a menina deu por encerrada as suas dúvidas e caminhou conosco até o prédio onde nós duas teríamos aula e lecionaria. Me despedi de com um abraço breve, que partiu de mim – o deixando surpreso, a perceber pelo seu olhar. E claro, passei o restante da tarde pensando se teria coragem mesmo de fazer a bendita pergunta ou não se a maldita menina não tivesse chegado. Ele havia me permitido, mesmo sabendo que era pessoal. Restava saber se eu teria determinação o suficiente para seguir em frente com o que comecei.


7


Nem preciso falar que passei a aula toda remoendo o ódio que fiquei daquela menina não é? Mas, em alguns relapsos, me vinham o sentimento de alívio por ela ter aparecido e eu não encarar a resposta de . De onde havia vindo essa coragem toda, meu deus? Era íntimo demais, eu estava ficando louca, só pode. Uns minutinhos de conversa e eu já achava que podia me sentir sua amiga. Essa era o tipo de pergunta que eu poderia fazer para , e olhe lá!
E pensar nesse bendito me faz lembrar o quão prestativo ele foi hoje pela manhã. E no quão idiota eu fui ontem à noite... caramba, , você que não está dando uma bola dentro nesses poucos dias aqui e ainda quer cobrar dos outros. Que lindo. Cobrar dos outros e não ver o que você mesma está fazendo.
- A aula acabou. – senti uma pessoa me tocar nos ombros e me assustei, logo depois me ajeitando na minha cadeira. – Ou você vai assistir a aula novamente? – agora essa pessoa, que era uma mulher alta, riu debochada.
- Não. Obrigada. – ri meio sem graça e comecei a guardar meu caderno e minhas canetas para sair da sala. O que eu fiz durante duas horas?
Pelo visto tinha ficado toda a aula de Gêneros Textuais divagando sobre assuntos relacionados a e . Ótimo, minha primeira aula dessa matéria e eu não tinha anotado nem entendido absolutamente nada. E para melhorar, não havia conhecido ninguém que pudesse me dar alguma anotação. Quem sabe na próxima aula – se já não tiver algum trabalho – eu possa pegar com alguém a bibliografia indicada pela professora.
Minha próxima aula era justamente com o dono de 50% dos meus pensamentos: . E isso claramente não me ajudava em nada. Mas pelo menos agora eu poderia falar ao invés de apenas pensar. E poderia falar sobre a matéria que estaria sendo dada.
- , la fille brésilienne. – ele quase gritou, quando me viu sentada, já na sala de Gramática. Não tive como esconder o sorriso de prazer ao ouvir meu nome ser pronunciado daquele jeito, tão lindo e sexy.
- Vou fingir que você não me xingou. – ele riu, me abraçando de lado, sentando-se do meu lado esquerdo logo em seguida.
- Nunca vou te xingar em língua nenhuma. – me segurei para não corar. A forma como ele disse, me olhando fixo nos olhos, e com tom sério, me fez arrepiar de forma involuntária. – Nunca vou te dizer nada ofensivo.
- Mesmo se eu vomitar em você em todas as festas? – provoquei, rindo anasalado.
- Se você for comigo em todas as festas, não faço a mínima questão que vomite em mim. – corei instantaneamente. Eu definitivamente odiava não saber se eu estava sendo cantada ou não e achar que qualquer coisa era um flerte. E como agir depois de receber uma possível cantada? E se não foi uma cantada? Ai meu deus, porquê?!
Então fiz a coisa mais sensata que pude pensar naquele momento: sorri – fraco, mas sorri – e voltei minha atenção para o professor que estava entrando na sala. Abri meu caderno e vi, pelo cantos dos olhos, fazer o mesmo. Como eu queria que Grey fosse do meu curso e pagasse todas as cadeiras comigo... assim eu teria com quem quebrar o gelo e o constrangimento.
- O que você vai fazer hoje à noite? – perguntou depois de alguns minutos de o professor iniciar a aula.
- Ham... eu não tenho nada planejado por enquanto. – tentei puxar alguma coisa da minha memória, mas tudo que eu conseguia lembrar era do capítulo de Linguística que tinha que ler.
- A gente podia andar um pouco... conhecer a universidade. O que acha? – senti um pouco de receio na última frase, a julgar pela careta que fez. Ponderei. Minha próxima aula de Linguística seria daqui a dois dias e eu já havia arrumado minhas coisas. Hoje realmente eu não teria nada para fazer a não ser escutar Grey azucrinando no meu ouvido por eu não ter me dado a chance de conhecer .
- Ok. Onde eu te encontro? – vi um sorriso se formar em seu rosto.
- Na frente do prédio de Artes, pode ser? – concordei e voltamos a assistir a aula entre um comentário e outro sobre como o professor falava esquisito.

(...)

- , você está linda! Não tem como não se apaixonar por você! – Grey alisou meus cabelos, por trás de mim, enquanto eu me olhava no espelho.
- Então eu vou trocar de roupa. – falei brincando, entre risos. – Não fantasie coisas, Grey. A gente vai explorar a universidade.
- Às 20h? – arqueou a sobrancelha. – Ta certo.
- Várias coisas ficam abertas a essa hora, ta bom? – franzi a testa, contestadora.
- Os dormitórios, por exemplo. – sorriu de canto, maliciosa.
- Grace! – praticamente arregalei os olhos, incrédula com o comentário maldoso.
- Ok, ok. Mas, por favor, ... Por. Favor. Não desperdice a chance se tiver. Nem se for pra tirar uma casquinha. – suspirou, parecendo que ela mesma queria um pedaço dele.
- Se ele é tudo isso, vai e pega. – provoquei, passando ao seu lado e jogando seus cabelos para cima.
- Não, ele é muito novo. E ta gostando de você. – piscou.
- Se você diz...
- Você vai ver hoje. – piscou de novo. – E aí cabe a você decidir o que fazer com isso.
- Tudo bem, dona conselheira. – respirei fundo, contendo a vontade de revirar os olhos, impaciente. – Agora deixa eu ir, porque quanto mais tempo eu fico aqui, mais escuto essa sua voz irritante falando que ele gosta de mim.
Antes que eu fechasse a porta do dormitório, pude ouvir Grey gritar de dentro:
- Você vai ver! – e depois alguns risos abafados pela porta fechada com força.

Ao chegar na frente do local combinado, lá estava ele, me esperando enquanto mexia em algo no celular com uma expressão neutra. Sorri involuntariamente ao lembrar dele me chamando pelo nome com seu sotaque francês – soava tão meio e sexy ao mesmo tempo! Como seria uma conversa inteira em francês com ele? Ai, deveria ser muito charmoso. Tinha que pedir para ele me responder só em francês um dia...
- ! – me chamou em francês, assim que me viu. Nem preciso dizer que quase estremeci só de ouvir meu nome, não é?
- ! – tentei dizer com sotaque francês, mas saiu uma coisa muito estranha e ele riu, mas não de mim: comigo.
- Foi quase. A gente chega lá. – beijou minha bochecha quando chegou mais perto.
- Aonde vamos? – quis saber, afinal, era fato que poucas coisas ficavam abertas a essa hora.
- Pensei em caminharmos e só olharmos os prédios... – disse sem jeito.
- Ótima ideia. – o encorajei – Passaremos muito tempo fazendo isso mesmo. – ri e ele me acompanhou.
- Depois poderíamos ir a um pub, o que acha? – sugeriu, falando rápido demais. E só me veio Grey na cabeça.
- Não acha que vai ficar muito tarde? – fiz uma careta, temerosa.
- Podemos ir ao pub primeiro. – sorriu mostrando os dentes, forçado. O encarei com a sobrancelha arqueada.
- Qual era o seu plano, ? – neguei com a cabeça, começando a rir da minha inocência.
- , não fica com raiva de mim... – começou, segurando minha mão. – Eu não estava brincando quando disse hoje cedo que queria você em todas as festas comigo.
Fiquei paralisada. Olhando para ele completamente nervosa enquanto ele me olhava com ternura. Eu não conseguia pensar direito, a única coisa que vinha na minha cabeça era a maldita da Grace dizendo que eu tinha que ir com ele. E ao contrário disso eu pensava em . Mas o que ele tinha haver com isso?!
- Eu não to com raiva de você. – praticamente joguei as palavras. – Mas talvez o que você quer eu não posso dar. – franzi a testa, quase desesperada.
- Eu só estou pedindo que você me conheça. E que me deixe te conhecer também. – acariciou meu queixo.
- Você andou conversando com a Grey? – não era possível uma coisa dessas...
- Sobre o quê? – não, então ele só compartilhava das mesmas ideias que ela.
- Nada, esquece. – neguei com a cabeça, tentando afastar os pensamentos idiotas.
- , eu sei que eu mal sou seu colega de classe. Mas eu queria realmente poder te conhecer melhor. Você se mostrou diferente de toda e qualquer pessoa que eu já conheci. – ok, ele estava conseguindo me persuadir. Além de lindo, engraçado e simpático, era persuasivo.
- Tudo bem, . Mas sem expectativas. – me dei por vencida, mas sabendo que queria a derrota.
- Eu sei. – sorriu e me beijou na bochecha. – Então vamos ao pub! – disse empolgado.

Descemos do táxi e entramos no pub. O lugar estava quase lotado e apenas três mesas estavam desocupadas. Duas delas muito próximas ao karaokê, a qual nós escolhemos ficar. Era um pub pequeno, mas muito acolhedor. Os garçons eram simpáticos e prestativos. E ah, havia muita gente da universidade, inclusive professores. O estabelecimento não ficava a 4km de distância e era o mais frequentado pelos alunos e docentes da University of Manchester
Enquanto tomávamos nossa primeira cerveja – que me convenceu a experimentar, pois era artesanal e amenteigada –, uma mulher que era da nossa aula de Gramática subiu ao palco para cantar alguma música que eu não conhecia. E, nossa, como ela estava bêbada. Mal dava para entender o que ela cantava, além de que a mulher parava o tempo todo para beber seja lá o que estava em seu copo. não conseguia parar de rir um segundo observando o desastre que aquilo era e eu ria de sua reação.
- Você que ta rindo tanto, porque não vai lá e faz melhor? – provoquei, depois de um gole na cerveja que descobri ser muito saborosa.
- ... não provoca o Grégroire que tem dentro de mim... – semicerrou os olhos e sorriu de canto.
- Quem?! – praticamente gritei, por causa do barulho.
- É um cantor francês. – disse alto de volta. – Deixa eu tomar mais algumas cervejas que eu crio coragem. – riu e mostrou seu copo com menos da metade do líquido.
Enquanto comentávamos, ríamos ou cantávamos junto com alguém, mais pessoas foram chegando e o pub ficou realmente lotado. Cadeiras foram se amontoando nas mesas e o barulho ficando cada vez mais alto. Minha cadeira, que estava de frente para , passou para seu lado. E as duas cadeiras que estavam sobrando em nossa mesa arranjaram novos donos em qualquer outro lugar do pub que coubesse alguém.
Foi então que eu vi ele entrar. Alguns homens na sua faixa de idade, que deduzi serem professores, acenaram para ele e o mesmo sentou-se na mesa com eles. Minha mesa estava de frente para sua, com duas mesas entre a nossa e cerca de 15 pessoas bloqueando nossa visão – o que explica ele não ter me visto.
Respirei fundo e virei para , o informando que queria outra cerveja, minha terceira e a quinta dele. Prontamente ele chamou uma garçonete, que anotou nosso pedido, junto com uma porção de batata frita e camarão ao alho e óleo.
- Eu vi que ele chegou. – disse sem me encarar.
- E? – tentei soar neutra.
- Não vai ficar abalada? Ou nervosa, ou coisa do tipo? – continuou sem me encarar.
- Eu estou aqui com você, não estou? – agora tentei soar firme. Espero que eu esteja enganando bem...
- Está. – me abraçou de lado e acariciou meus cabelos.
No exato momento em que me abraçava e fazia carinho em meus cabelos, eu olho para . Ele estava me olhando também, com ar sério. Não me afastei de e nem desviou seu olhar de mim. Continuamos nos encarando por tempo indeterminado, até a mesma garçonete trazer nossa cerveja e me obrigar a tirar meu foco dele.
Quando volto a procurar por ele, não está mais em seu lugar. Procuro em todos os lugares da mesa onde estava, mas não lhe encontro. Até que o escuto chamar meu nome e de , em um cumprimento formalmente desnecessário.
- Professor. – o cumprimenta de volta, levantando sua mão para apertar a dele.
- Onde está Grey? – novamente perguntou num tom firme.
- Hoje somos só eu e . – respondeu rápido, mostrando um sorriso fingido.
- Quer dizer então que vocês estão num encontro? – riu anasalado, não entendi o que ele quis dizer com esse riso. – Desculpe atrapalhar. Pensei que veria a Grey por aqui também.
- Sem problemas. – sorriu fingido. De. Novo. – Amanhã estaremos todos na sua aula.
- Sim, claro... – olhou para mim. – Se divirta, .
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, pela primeira vez naquela conversa tosca, ele deu as costas e foi embora. Olhei incrédula para , que evitou me encarar, e fiquei boquiaberta com que havia acabado de acontecer.
- O que foi isso?!
- Você não viu que ele veio aqui só por sua causa?! – me encarou, com os olhos arregalados.
- Não importa! Você viu como foi extremamente mal-educado?
- Não importa? – repetiu incrédulo. – , esse cara quer se aproveitar de você como aluna e você diz que eu fui mal-educado?
- O quê?! Se aproveitar?! , você não acha que ta exagerando um pouco, não?
- Não, não to. Você é fã do cara, aluna dele, nova. O que mais ele quer?
- Isso tudo é ciúmes. Vou encarar dessa forma, pra não piorar as coisas.
- É claro que é ciúmes também, . Você não vê que eu to gostando de você? – dito isso, quase derrubei minha cerveja de tão nervosa que fiquei. Eu sabia que existia essa possibilidade. Eu sabia que tinha 95% de chances dele gostar de mim, mas ouvir isso vindo da boca dele era outro nível.
- , desculpa. Eu preciso ir embora. Desculpa se eu estraguei a noite, ta bom? Eu realmente preciso processar tudo isso. – disse já me levantando e colocando parte da minha conta na mesa.
- Eu volto com você. – se ofereceu, mas eu realmente não estava com cabeça para ter que voltar com ele do meu lado.
- Obrigada, mas amanhã a gente se fala, ta bom? Não se preocupe, ta tudo bem entre a gente. Eu só preciso pensar e tirar essas cervejas do meu organismo...
Antes que eu saísse da mesa, ele me abraçou e depositou um beijo na minha testa que aceitei de bom grado. A noite hoje não tinha saído como planejado, de fato. Mas não tinha sido toda ruim. Apenas a última parte, de dando o que parecia ser o típico show de ciúmes. Que poderia ser ignorando com um beijo na testa, pelo visto. Ou era a cerveja amanteigada a todo vapor.
Enquanto eu estava esperando um táxi na frente do pub, escuto passos em minha direção. Não me dei sequer o trabalho de olhar para trás. Apenas respirei fundo, cansada demais para argumentar novamente com sobre eu ir para o dormitório sozinha. Mas, quando os passos ficaram mais altos e a presença se fez mais forte, pude sentir o cheiro de perfume amadeirado que nunca iria sair da minha memória: .
- Não deveria ir para a universidade sozinha. – ficou do meu lado.
- Não estou com cabeça para agora. – disse simples.
- Brigaram?
- É... foi uma pequena discussão.
- Posso te acompanhar até seu prédio? – olhou seu relógio. – São duas horas da manhã.
- Também não quero começar outra agora. – olhei para ele pela primeira vez, que riu anasalado.
- Então vou tomar como um sim.
- Se pagar o táxi... – sorri e ele chamou o táxi que estava dobrando a esquina.


8

No táxi ficamos em silêncio, apenas me olhava de relance ou pelo canto dos olhos, mas nunca diretamente ou quando eu o olhava. Ele também passou boa parte do caminho digitando em seu celular e vendo algo que deduzi ser o Twitter, pelas cores e formatação. Legal, então ele ainda usava o Twitter, mas não sua conta oficial, já que esta havia sido desativada há alguns meses. E eu sem notícias vindas dele há tanto tempo...
Quando estávamos prestes a descer, em frente ao meu prédio, ele tirou a carteira do bolso e tirou uma nota de cinquenta libras. Não quis receber o troco do taxista e descemos, agradecendo pela viagem.
- Está entregue. – me encarou, finalmente, quando paramos em frente à entrada do prédio.
- Obrigada. Só gastou dinheiro, eu poderia ter vindo só. – tentei brincar; espero que ele tenha entendido dessa forma. Caso contrário, ficarei parecendo uma megera... lindo!
- Depois de alguns drinks e de madrugada? Não acho uma boa ideia. E, além do mais, o que são cinquenta libras, não é mesmo? – fez careta, imponente. Ri fraco, tentando não dar muita bola. Minha paciência tinha ficado no bar, junto com .
- Muita coisa, na verdade. – fui sincera. O que cinquenta libras não pagava para mim aqui?! – Novamente, obrigada por me acompanhar, . Mas acho melhor eu entrar agora. – dei alguns passos para dentro do prédio, acenando com a cabeça.
- O – disse rápido. – Ele fez algo com você?
- Não, não. Aquilo foi uma besteira. Discutimos porque ele foi infantil, só isso. – mas minha língua estava coçando para dizer que foi porque ele foi lá na mesa, ah estava!
- E por que ele brigou com você? – não faz isso, ...! Baixei a cabeça, suspirando, ponderando se valia a pena falar ou não o real motivo.
- Ciúmes. De quase todo mundo que me olhava. – decidi por mentir. E se ele não tivesse ido lá para causar a discórdia que achava? Fosse realmente para cumprimentar-nos e eu falasse agora que estava com ciúmes e pagasse de fã iludida?! Melhor não.
- Ciúmes? Então vocês estão namorando? – arqueou a sobrancelha.
- Não. – respondi rápido demais.
- Ok... melhor você ir. Também vou pra casa, tá tarde. – disse num tom que parecia estar se explicando, enquanto olhava para o relógio novamente.
- Certo. Até amanhã, . – acenei com a cabeça, me despedindo e ele sorriu de canto, me desarmando. Não tinha armadura, cara emburrada, raiva ou impaciência que perdurasse depois desse sorriso tão perfeito – o qual eu nunca imaginei ver ao vivo. Isso era golpe baixo.

Abri a porta sendo o mais silenciosa possível, mas de nada adiantou minhas habilidades. Grace estava acordada assistindo algo em seu notebook e, assim que fechei a porta atrás de mim, ela o fechou e virou-se para me encarar.
Fingi que não era comigo e fui direto para a cozinha, me servindo de um copo de água. Continuei sentindo seu olhar sobre mim e uma vontade de rir começou a crescer. Tinha certeza que ela queria saber cada detalhe da minha noite, jurando que tudo tinha saído as mil maravilhas, que eu havia beijado o francês mais cobiçado do curso de cinema, que tinha trocado juras de amor. Coitada de mim, nem juras de nunca vamos ter nada eu tinha trocado.
- Ok, ok, vou te contar como foi a minha noite. – me dei por vencida depois que Grey começou a pigarrear alto. – Foi maravilhosamente terrível. – a encarei, revirando os olhos.
- O quê?! – ficou boquiaberta, mostrando toda sua frustração. – Não acredito, ! O que houve?
- queria não queria sair comigo só como amigos e nós fomos parar num pub. apareceu lá e teve um ataque de ciúmes que culminou na minha volta de táxi com o . – terminei de contar e tomei de vez a água restante no copo, o batendo na pia em seguida, nervosa só de lembrar.
- ? Hmmm, já pegou intimidade?! – arqueou a sobrancelha, levantando-se em seguida, vindo para perto de mim.
- Não, Grace! – dei um leve empurrão em seu ombro, a fazendo rir, e sentei na ponta da minha cama. – Falei assim por costume, porque sempre vi o nome dele assim nas redes sociais.
- Aham... – semicerrou os olhos. – Eu não vou falar que te avisei sobre o ...
- Eu só não entendo porque quis vim comigo de táxi. Porque ele perguntou se eu estou namorando o ... eu não quero pensar que ele está com ciúmes. Não faz sentido!
- Tá fazendo...
- Mas se for isso, o que disse também faz: ele pode estar querendo se aproveitar porque eu sou aluna, fã, nova ou os três. Que combo! – suspirei. Que não fosse isso... se for, além de deprimente era completamente inadequado.
- Eu não sou a favor de aproveitadores, é claro... mas sou a favor de aproveitadoras! – gargalhou, me fazendo segurar o riso. Grey era uma peça, não podia negar. Lógico que eu queria me aproveitar de , mas essa era uma coisa que sempre esteve apenas na minha imaginação.
- Grey, sua louca! – não consegui me segurar por muito tempo, caindo na risada junto com ela. – Eu queria muito beijar aquela boca maravilhosa, ser agarrada por aqueles braços musculosos... queria que ele deixasse aquele cheiro amadeirado por toda minha cama, roupa, corpo... ai, meu deus! – revirei os olhos com os pensamentos um tanto inapropriados, porém inebriantes. Ah como a ideia desse homem desse jeito, exposto, me deixava no mínimo... inquieta.
- Se quer... vai atrás. – piscou.
- Grace, seus conselhos não os mais favoráveis no momento. Obrigada. – tirei os sapatos e me joguei na cama, suspirando.
- Verdade, ta tarde e você não ta conseguindo pensar direito. Por isso diz uma besteira dessas! – brincou, indo deitar-se também.
Ela desligou o notebook e eu tirei o restante das minhas peças de roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã, me cobrindo totalmente logo em seguida.
Tentei não pensar em como eu queria e em como estava se esforçando para ganhar minha confiança e meu desejo. Eu estava tão estressada! Onde eu iria imaginar que estudar na Inglaterra me traria exaustão, meu deus?! Só na minha vida mesmo para acontecer tantos imprevistos que, a começo podiam parecer bons, mas, no final, se transformam no lobo mau. Só espero que o lobo mau seja a vovozinha e isso não passe de uma festa de Halloween da qual eu não fui avisada!

Grey não fez café da manhã. Ambas acordamos tarde e não daria tempo para preparar o café e tomar uma ducha. Então escolhemos não ir mal cheirosas para a suposta melhor aula da matriz curricular. E, às 7h, estávamos comendo um croissant em um dos restaurantes da universidade, quando fez seu pedido ao atendente do balcão.
- Mas olha quem não tem casa... – Grey ironizou, apontando com os olhos para .
- Mas olha quem é fofoqueira?! – sorri também com ironia, e ela me olhou com uma careta em resposta.
- Será que ele vai sentar aqui? – arqueou a sobrancelha, ainda o encarando.
- Grey, pelo amor de deus, não inventa de chamar ele. – praticamente supliquei, falando baixinho, como se ele fosse capaz de nos ouvir.
- Eu não vou. Você parece que não sabe, mas eu sou sensata. – semicerrou os olhos, fingindo estar ofendida.
- Claro. – apertei meus lábios e franzi a testa. Ela tem seus momentos.
De fato ela não o chamou para sentar-se conosco e ele também não o fez. Quando passou por nós duas apenas acenou com a mão livre e passou direto, sem dizer uma única palavra. Ela me encarou e nós continuamos nosso café da manhã sem falar mais nada. Eu só conseguia pensar no quão estranho aquilo foi. Por que ele não falou comigo? Digo, não disse sequer um oi? Ontem ele fez questão de me trazer de táxi, ficou perguntando se tinha brigado comigo, se estávamos namorando... Eu não aguento isso.

Quando chegamos na sala já havia escrito algumas coisas no quadro e já tinha guardado nossos lugares. Sentamos no meio do arco, um pouco longe de onde o professor ficava, mas ainda podíamos o ouvir em claro e bom som. também só acenou para mim com a cabeça e falou normalmente com Grace. Eu devo estar no jardim de infância.
- Não vai falar comigo? – virei para , irritada.
- Oi? – franziu a testa, creio que não entendendo minha reação.
- Por que você falou com a Grey normalmente e comigo foi só um aceno de cabeça? – agora eu já estava gesticulando com as mãos.
- Não sabia como falar com você depois de... ontem.
- Com um “oi, , bom dia”, igual você fez com a Grey. – suspirei alto e voltei a olhar para frente. Ok, talvez agora eu estivesse agindo como criança. Mas o estresse estava simplesmente me consumindo!
- Desculpa, . Eu não sabia que você ia ficar tão chateada por ontem... – ele começou, mas o interrompi.
- Não to, sério. Desculpa também, . To estressada, só isso. – passei a mão pelos cabelos e descarreguei as palavras de vez, antes que me faltasse a coragem para falar.
- Bom, classe, hoje vocês vão me apresentar algumas coisas do trabalho. – parou de escrever e virou-se para frente, caminhando para perto da turma.
- O quê?! – Grey deu um grito sussurrado. – A gente não fez nada ainda!
- Puta que pariu! E agora? – arregalou os olhos.
- E agora que a gente improvisa! Isso é contigo, né Grey? – sorri amarelo.
- Se eu pedir pra você escrever um livro agora, você escreve?! – arqueou a sobrancelha.
Mas não era somente nosso grupo que estava desesperado, mais três ou quatro grupos estavam na mesma situação. O burburinho começou entre os grupos que já haviam iniciado os trabalhos e os que não tinham feito nada ainda. Mas claro, a maioria venceu. Eram vinte grupos e apenas quatro haviam sido desleixados.
- , por que não vem apresentar seu personagem? – sorriu. Eu poderia dizer que esse sorriso era um tanto sarcástico... mas era difícil. Ele estava atuando?
- Professor, eu não fiz o trabalho. – pude ver seu maxilar travar sutilmente. Ele tentava esconder a raiva que estava sentindo, mas eu e Grey sabíamos o que estava acontecendo ali.
- Eu sei. Eu escutei você reclamar junto com os outros grupos que não fizeram. – foi para mais perto da turma. – Mas venha, improvise! – forçou ainda mais o sorriso.
respirou fundo e levantou-se vagarosamente de sua cadeira. Chegou até à frente da turma e ficou ao lado de , que o olhava curioso. Eu e Grey estávamos apreensivas. E também estava nervosa por ele, coitado! Ter que improvisar para uma sala de 60 pessoas que você mal conhece? E ao lado de um cara que você não vai muito com a cara?
- Meu nome é e eu não gosto muito do . – ele disse olhando nos olhos dele. Arregalei meus olhos e Grey olhou para mim carregando o mesmo semblante assustado.
Ele está louco?!
- Acho que você esqueceu como é o exercício ... – riu anasalado, negando com a cabeça. – Deveria ser “ não gosta muito de ” e “ gosta de ”.
Todos riram. Mas eu e Grey não conseguimos. sorriu de lado, cínico.
- Ok... não gosta muito de e gosta de . – reformulou sua frase.
- Aposto em não gosta. – um garoto levantou a mão e disse.
- Aposto em gosta. – uma menina discordou.
- Não ta vendo a tensão que ta rolando? – meu deus, eles perceberam! Mas eles não sabiam porque, não sabiam porque... espero!
- Quem não gosta de um professor como ? – ela defendeu sua teoria. – Ele só está brincando com a gente, idiota.
- Então, , qual é o verdadeiro? – perguntou, ardiloso.
- gosta de . – ah, seu cínico! Suspirei aliviada, rindo nervosa em seguida juntamente com Grey. Quase meu coração para com essa brincadeirinha sem graça de .
- Viram? Olhem a construção de personagem de : ele criou uma tensão em vocês e dividiu a turma. A leitura corporal dele dizia uma coisa, mas era o personagem dele quem estava falando! Que tensão maravilhosa, não é mesmo? – deu dois tapas nas costas de e, a julgar de onde eu estava vendo, pareceram um tanto forte para um tapa amigável. – Pode sentar, . Por hoje é só de personagens. E que sirva de lição: façam seus trabalhos!
Quando ele veio se sentar não falamos absolutamente nada. Só o olhamos e seguimos prestando atenção na aula. falou sobre a história do teatro e algumas peças pela história da humanidade.

A aula terminou eu saí da sala praticamente correndo. Não esperei por ninguém, sequer por Grey. Eu precisava espairecer a mente, senão ia ficar louca com tanto francês e londrino na minha cabeça! Fui para a biblioteca e escolhi uma das sessões que não tinha ninguém. Mas a calmaria não durou muito, já que quando eu estava começando a ler um dos livros que havia pego aleatoriamente, sinto o cheiro amadeirado que já estava marcado na minha memória.
- O melhor lugar desta universidade é aqui. – aquela voz inebriante soprou no meu ouvido, antes de arrastar uma cadeira e sentar-se.
- Sim. – respondi um pouco seca. Ele agora deu para me perseguir? Seria um sonho se não fosse nesse contexto.
- Seu amigo foi bem astuto hoje... – abriu seu notebook.
- Cínico e ridículo você quis dizer, não é?
- Bom, não sou eu quem estou falando isso do meu aluno, então... – ele sorriu de lado. Ai, para, assim eu perco minha pose de raiva.
Fiquei o fitando enquanto mexia em seu notebook. Ele estava lançando algumas anotações de suas turmas no portal e parecia não se incomodar com meu olhar sobre ele. Talvez seja o costume com todas as fãs o assediando todo esse tempo que fora ator. Então ele iria ficar aqui do meu lado em silêncio? Era isso? Talvez eu devesse iniciar uma conversa e perguntar tudo que estava entalado na minha garganta.
- Por que você fez tanta questão que eu viesse com você ontem? – fui curta e direta. Meu nível de coragem havia subido consideravelmente. Espero que dure um pouco mais que das outras vezes agora.
- Porque talvez fosse perigoso. E estava tarde. – sorriu.
- Vai repetir isso sempre que eu te perguntar?
- Não. – respirou fundo. – Se você não ficar me perguntando sobre isso! – falou rápido, encarando seu notebook.
- Por que quis saber se eu e estamos namorando? E se eu disser que sim? – arqueei a sobrancelha. Se ele estava se sentindo pressionado, eu iria pressionar.
- , vamos esquecer ontem, por favor? – balançou a cabeça, em negação. Ele não tirava os olhos do notebook!
- Por que? Ein? Por que esquecer? Um gesto simples, um professor sendo gentil com uma aluna? Por que não pode mais falar sobre isso? – enquanto fazia minhas indagações ia me aproximando e, sem perceber, já estava com o rosto próximo ao seu ombro. Mas ele ainda não olhava para mim. – Olha pra mim, eu estou falando com você!
- Porque ali não era um professor e uma aluna pra mim. – finalmente olhou para mim. Sua respiração se misturou com a minha e eu me senti tonta por um instante.
Aquela aproximação de nossos rostos foi inesperada, mas prazerosa. Eu ficaria encarando esses olhos para sempre, se me fosse permitido. Eu queria falar alguma coisa, mas tudo que eu conseguia pensar era em como aquela respiração quente mexia com todo meu corpo, me fazendo querer mais aproximação. Minha boca se abriu um pouco, mas não foi por vontade de falar. Mas pelo desejo de beijá-lo. Olhei seus lábios e eles também estavam entreabertos. Ao olhá-lo novamente ele encarava minha boca. Senti sua respiração ofegante e a minha ficou falha, com o pensamento de que aquilo poderia de fato acontecer. Ele passou a mão pelo meu braço, acariciando com leveza, e depositou a outra mão na maçã do meu rosto. Estremeci. Meus olhos instantaneamente se fecharam e meu coração já não suportava tanta ansiedade por aquele beijo que nunca chegava.
Meus olhos continuavam fechados e eu sentia sua respiração cada vez mais próxima do meu rosto. Ele estava hesitante e eu aproveitava cada centímetro do seu toque, cada momento para ser guardado nas melhores lembranças. Senti seu nariz tocar o meu e meu coração acelerou ainda mais, senti meu corpo esquentar e minha barriga também dançava em alegria. E, finalmente, me beijou.


9


Não sei quanto tempo passamos nos beijando. A única coisa que sei e lembro é de apertando seus lábios contra os meus com força e, logo após um suspiro, continuar o beijo com delicadeza. Ele me deu alguns selinhos e aprofundou o beijo, passando a línguas em meu lábio inferior e, depois, explorando lentamente minha boca. Não retribui seu beijo com a mesma intensidade, pois ainda não havia passado o efeito da surpresa – eu estava praticamente em choque. Mas uma coisa era certa: eu estava aproveitando aquilo tanto quanto ele.
Ao final do beijo, ele encostou sua testa na minha e segurou minha nuca com as duas mãos. continuava de olhos fechados, os apertando com força. E, antes de abri-los, acariciou meu rosto e disse:
- Isso não poderia ter acontecido. – finalmente abriu os olhos e afastou seu corpo do meu, virando-se de frente para seu notebook e encarando uma estante de livros.
- Porque somos aluna e professor? – baixei o olhar, já sabendo da resposta.
- Sim. E por causa da nossa diferença de idade. E porque você vai embora daqui alguns anos, quando terminar seu curso. – agora eu fiquei surpresa. Ele já estava pensando em quando eu iria embora? E o pior – ou melhor, realmente não sei! – estava triste porque eu iria embora?
- , você já está pensando em quando eu for embora? Por que?
- Foi só um pensamento aleatório, . – disse rápido e fechou seu notebook, se preparando para sair dali.
- Aonde você vai? – juntei as sobrancelhas.
- Pra casa. – me olhou, já de pé.
- É sério? – franzi a testa, incrédula.
- Eu preciso pensar no que aconteceu agora. – passou as mãos no cabelo. – Me desculpa, eu preciso ir.
- Ta bom, , vai. – me virei para a estante, querendo não encará-lo naquele momento. – Realmente, tem a diferença de idade atrapalhando. – disse irônica. Espero que ele tenha entendido que eu estava querendo dizer que ele estava sendo infantil. E se não entendeu, eu não estava no humor de me explicar.
Senti seu olhar sobre mim por alguns segundos, mas não me virei para olhá-lo, nem enquanto ele deixava a sessão que estávamos. Já tinha sido demais para mim sua atitude incompreensível de me deixar aqui, dizendo que não deveria ter acontecido, depois de um beijo que ele tomou total controle. E, principalmente, depois de não dar explicações claras para embasar seu arrependimento.
Tantas alunas sonham em beijar e transar com seus professores! E tantos, mas muitos mesmo, professores querem transar com suas alunas! E nenhum deles se arrependem do acontecido, simplesmente escondem bem do resto das pessoas e continuam vivendo suas vidas secretas embaixo do nariz de todos. Por que comigo tinha que ser diferente? Eu não tinha uma fantasia sexual com professores, eu tinha com , mas ele se tornou meu professor. Algo que, em meus sonhos, deveria nos aproximar. E não isso que está acontecendo: ele atordoado por causa de um beijo com uma fã/aluna.
Ninguém viu, meu deus!

Já eram sete da noite quando Grace chegou no quarto. Eu estava tentando estudar, lendo um livro que eu já havia esquecido o título. Praticamente agradeci aos céus por ela ter chegado, assim eu teria alguém para conversar sobre qualquer coisa e depois tentar entender o que estava se passando na cabeça de .
- , eu tenho que tomar uma ducha agora. Devo tá fedendo! Depois você me diz. – Grey foi falando e pegando suas roupas para ir para o banheiro. Conti uma vontade de bufar. Ela não sabia do que estava acontecendo, por isso não tinha pressa em saber. Optei por deixa-la ir e contar depois.
Enquanto esperava por Grey, liguei o notebook e fui ver minhas redes sociais. Não havia nada de interessante, nenhuma notícia que chamasse minha atenção. Então, decidi procurar pelo Twitter “secreto” de . Depois de mais de vinte minutos procurando, finalmente encontrei um que os posts batiam com a data e horário que estávamos no táxi. Ele havia twitado duas coisas apenas, neste dia: a data e o horário que estávamos no táxi. Intrigante e estranho. Mas não me detive por muito tempo pensando no porquê de ele ter escrito isso.
O que estava rodando na minha cabeça a ponto de a qualquer hora fazer fumaça, era minha vontade de mandar uma DM para ele. Falando qualquer coisa, nem que fosse um mero oi! Eu precisava falar, conversar, com ele! Agora eu não mais estava querendo explicações para falar a verdade, eu estava querendo apenas interação. Querendo mais do que havia acontecido na biblioteca. Eu precisava retribuir do jeito que ele tinha me beijado – e não ficar parada feito idiota.
Depois de umas cinco respiradas fundas, cliquei para lhe mandar uma DM. Comecei a digitar um “Oi, , eu v...”, mas, é claro, como a vida faz o papel dela de atrapalhar ou proteger, Grey abriu a porta já falando como os chuveiros estavam com problema e a água estava super gelada. A encarei sem expressão e ela continuou reclamando sobre como nunca sentiu tanto frio na vida.
Cerca de cinco minutos depois, quando finalmente acabou suas lamentações, me perguntou porque eu não parava de encará-la sem dizer absolutamente nada. E, lembrou!, do ocorrido na sala de aula de e que não havia me visto desde então. Foi aí que contei TODO o acontecido desde que saí da sala até o que estava prestes a fazer. E devo dizer que Grey deu pequenos surtos durante todo o relato e rolou os olhos várias vezes quando eu disse que fiquei praticamente congelada quando ele me beijou.
- !!! Pelo amor de deus!!! Um homem desses te beijando e você pensando na morte da bezerra?! – deu um tapa no meu ombro.
- Na morte da bezerra não, na minha morte. No meu sonho se realizando! – suspirei.
- Pensava enquanto executava o ato, né! Agora fica aí arrependida porque não sentiu mais o gostinho daquela língua e querendo mandar mensagem pra ele! – sentou do meu lado.
- O que eu faço, Grace? – fiz bico. Tudo que eu queria era uma luz. E Grey sempre era essa esperança, por mais espalhafatosa que fosse.
- Eu voto por você esperar até amanhã. Ver como ele reage te vendo. – ok, por essa eu realmente não esperava.
- Grace, você é uma pessoa surpreendente. – a encarei sem muita expressão. Ela me deu um abraço de lado e colocou meus cabelos atrás da minha orelha.
- Paciência, minha criança. Vamos dar um tempo a ele também.

No dia seguinte eu não tinha aula com , mas eu precisava pelo menos ver ele. E que ele me visse também. Então tratei de olhar o horário dos professores e, consequentemente, o dele, no quadro de horários geral do portal de alunos no site. Ele estaria lecionando Drama II no prédio onde a maioria das cadeiras de cinema é dada, e eu estava torcendo para não encontrar Aurelién. Que explicações eu daria por estar naquele prédio ao invés de estar na minha aula?
Esperei. Esperei. E esperei mais. só chegou no prédio às 8h35 e atrasado. Estava praticamente correndo quando me avistou e parou em frente as escadas que davam acesso à entrada. Meu coração acelerou com seu olhar parado sob mim. Ele estava a cerca de dez metros de distância e eu já podia imaginar sua voz dizendo meu nome. Eu ansiava por isso.
foi se aproximando de mim em passos lentos enquanto meu coração acelerava cada vez mais ansioso. Já podia sentir meu corpo quente e meu rosto arder. Ele parou a menos de um metro e me olhou de cima, com certo receio.
- Está me procurando? – não pude conter um sorriso fraco, por mais força que fiz para escondê-lo, ao ouvir sua voz.
- Sim. – continuei o encarando, boba com sua beleza.
- Pois não? – pigarreou, tirando sua vista de mim por um instante e voltando sem jeito.
Agora foi minha vez de tirar a vista. Esqueci de pensar nessa parte. A parte principal. O que eu falaria a ele mesmo?! Meu deus do céu. Agora sim eu tinha total respaldo para congelar diante dele. Eu não havia pensando em absolutamente nada para dizer a ele nesse momento. Eu simplesmente tinha imaginado em vim falar com ele. Mas sim, vim falar com ele e...? Como eu consigo ser uma anta!
Eu literalmente estava começando a soar frio de tanto que estava tentando pensar em alguma coisa para dizer e passar menos vergonha, quando ele sorriu de canto, balançando a cabeça.
- Eu também pensei muito sobre ontem, . Por que não conversamos sobre isso mais tarde? – sugeriu, tranquilo demais na minha opinião.
- S-sim. – gaguejei, me xingando mentalmente. – Pode ser. Onde?
- Eu não quero que você me interprete mal, por favor. Mas penso que poderia ser no meu apartamento. – usei todas as forças que tinha para conter minha vontade de arregalar os olhos. – Somente pelo fato de que não há lugar privado o suficiente que ninguém nos veja.
- C-certo. – gaguejei novamente. Mas dessa vez me perdoei, sabendo que não havia como não o fazer.
- Ok. Pode me passar seu número para eu te enviar meu endereço?
Como ainda não tinha um número daqui, lhe disse minha conta no Twitter. Ele informou que iria me enviar uma DM com o endereço e eu assenti.
- , eu preciso te dar explicações do meu comportamento. E infelizmente não há outro local mais privado que este.
- Tudo bem, eu entendo.
De fato eu compreendia. Ele não poderia ser visto com uma aluna em nenhuma circunstância fora das dependências da universidade. E nós precisávamos conversar. A recíproca era verdadeira. Eu estava feliz que ele também tivesse o desejo de falar comigo, seja lá o que fosse. E que tivesse sido tão simpático – como sempre.

No almoço, recebo a bendita mensagem. Nem preciso dizer que meu coração quase saiu pela boca. E que Grey teve um surto. Às 20h. A partir de agora eu estaria contando os segundos.


10


Por


Ter horário para largar do trabalho era interessante. Eu poderia me programar para fazer qualquer coisa antes e depois do expediente e durante os fins de semana. Mas confesso que às vezes me pego com saudade da correria, dos atrasos nos voos, com as horas extensivas e cansativas – que iam, muitas vezes, das 8h da manhã as 2h da manhã do outro dia –, ah, como eu sinto falta. Sinto saudade de passar duas semanas de folga, em uma praia distante, da qual eu nunca ouvira falar o nome. De conhecer cada canto de cada praia que fui, cada bar, cada restaurante, cada karaokê, cada lugar da cidadezinha que remetia a sua cultura.
Mas nada disso pode ser feito até eu completar um ano de trabalho, para tirar minhas férias de um mês. Todo ano. Minha vida agora estava resumida a esse loop. A vida de um homem comum. Que eu não imaginava que iria ter. E nem queria.
Mas agora já são 19h e não posso me manter no resmungo de todos os dias. Tenho que preparar um chá e tirar a torta do freezer e colocar no forno que já deve ter passado dos 300°. Droga! Era para estar entre 180° e 200°, dizia na internet! Mas acho que tudo bem, a torta está congelada, de qualquer forma.
Aliás, qual será o sabor do chá que ela gosta? Existem milhões de ervas, santo deus! Um simples chá preto com leite deve funcionar, eu acho. Quem não gosta de um bom chá preto com leite na temperatura certa?

Já eram 19h53 e nada da torta estar dourada. Minha preocupação já não cabia mais em mim. As ervas, o leite e os cubos de açúcar já estavam devidamente separados e eu já estava pronto à espera de , mas a maldita da torta não dava sinais de que ficaria boa em menos de uma hora. O que havia acontecido de errado? Será que a temperatura estava alta demais quando a coloquei? Mas, nesse caso, ela não deveria cozinhar mais rápido?! E agora o forno estava em 180°! O que há de errado com esse forno, céus?!
Em meio a minha confusão, ouço a campainha tocar e só percebo que estava parado sem respirar, alguns segundos depois. O que eu era? Um professor ou aluno que acabou de sair da adolescência? Eu precisava fazer nem que fosse uma peça junto com os professores de teatro uma vez ao ano, senão iria acabar enlouquecendo...
Ajeitei minha camisa social branca, que, depois que percebi que talvez fosse ficar estranho demais – afinal, aqui não seria necessariamente uma extensão da minha docência –, a dobrei até o cotovelo e deixei os dois primeiros botões de cima abertos e joguei uma calça jeans clara e... permaneci descalço. Estava me sentindo ridículo. Não pela minha roupa. Mas por cada pensamento hesitante e questionador que se passava na minha cabeça a cada minuto. Qual o problema que eu estava criando? Qual hipótese? Ela entraria aqui, comeria um pedaço de torta e tomaria um chá enquanto eu explicava minhas atitudes.
O que foi pior ainda pensar... O que eu tinha para explicar sobre minhas atitudes? Eu tinha pistas do porquê do meu comportamento. Mas eu não tinha parado para explica-los de forma racional nem para mim mesmo, então, o que eu estava pensando quando chamei para vim aqui? Pensando bem, seria uma boa ideia não abrir a porta e fingir que não estou em casa. Talvez agora ela fosse embora e ficaria tão irritada comigo que não pensaria nunca mais em nem olhar na minha cara.
Mas que tipo de homem eu seria se fizesse isso? Um covarde. Um idiota. Um cara que acabou de sair da adolescência e não sabe lidar com seus sentimentos. E ela não ficaria só irritada, ficaria magoada. Então, não. Claro que não. Eu teria que abrir essa porta e honrar com minha palavra de me explicar. Mesmo que depois de muitas xícaras de chá e pressão por parte de .
A campainha tocou novamente. Três vezes.
Foi o suficiente para me despertar. Destranquei a porta rápido, mas a abri com certa lentidão.
Seu cheiro suave de flores me atingiu em cheio. Seu perfume não era como nenhum outro que eu já havia sentido na vida. Possivelmente porque era importado, mas com certeza o melhor que eu já senti. Ele já estava enraizado na minha memória como Perfume da e qualquer uma que o usasse estaria cometendo um crime.
Ela sorriu de canto, com vergonha, enquanto baixava o olhar. Pude perceber que seus cabelos estavam presos de uma forma diferente hoje, com algumas mexas soltas na frente, com ondas. Ela os arrumou para me ver? Devo ter ficado vermelho, pois senti um calor percorrer meu corpo com esse pensamento e se alojar em meu rosto.
Quando a pedi para entrar, ela não olhou nada ao redor. Ficou ao lado da porta, esperando para, provavelmente, eu lhe dar outra instrução. E assim o fiz. Perguntei se ela gostaria de sentar no sofá da sala e ela assentiu. As xícaras com as ervas, os cubos de açúcar e o leite estavam em uma mesinha a sua frente e ela os observava com certo encanto. Não pude conter um sorriso, a vendo dessa maneira.
- Pensei em qual chá você gostaria de tomar, mas como tem uma variedade muito grande de ervas... achei que o chá preto resolveria. – sorri e apontei para a xícara, tentando convencê-la de que era ótimo.
- Por mim tudo bem! Já tomei chá preto e gostei. – respondeu simpática. Agora, com toda certeza, estou mais aliviado.
- Vou esquentar a água, tudo bem?
- Ok. – sorriu.
Fui até a cozinha e coloquei água no bule e, em seguida, o coloquei no fogo. Aproveitei para dar uma olhada na torta. Estava igual a última vez que olhei. Talvez quando ela fosse embora esta maldita torta ficasse finalmente boa...
Enquanto a água não ficava no ponto, voltei para a sala, mas, antes que pudesse adentrar na mesma, pude ver mexendo – quase brincando – com as xícaras.
- Gostou delas? – perguntei assim que entrei na sala, rindo um pouco.
- Que susto! – levou a mão ao peito. – São lindas. Tão detalhadas.
- Herança da minha avó. Que ganhou da minha bisavó. – falei com orgulho. Se tudo desse certo, ficariam para meus filhos.
- Ai meu Deus, ... Acho que vou tomar numa caneca mesmo... – brincou, mas seu olhar parecia sério.
- Confio em você. – pisquei e ela pareceu desconfortável por um instante. – E essa louça é para visitas especiais. – essa parte saiu inconsciente e involuntariamente. Sim, era para visitas especiais. Mas eu não pretendia dizer isso aqui e agora. se encolheu no sofá e ficou com as bochechas ruborizadas. E eu também.
Ficamos em silêncio por alguns tortuosos segundos ou minutos.
- Seu apartamento é lindo! – ela quebrou o gelo, sorrindo amarelo.
- Obrigada. Tenho alguns prêmios, você quer ver? – olhei rapidamente para o corredor que dava ao meu quarto.
- Quero! – respondeu empolgada.
Levantei e segui para meu quarto junto com ela, onde eu havia quebrado a parede do segundo quarto do apartamento – que era do lado – para ter um espaço para guardar meus prêmios e memórias relacionados ao cinema e teatro.
Quando entramos, ela logo reconheceu grande parte e citou alguns nomes dos filmes pelos quais eu ganhei os prêmios e em quais categorias. Eu estava impressionado.
- Não me leve a mal... – ela começou. – Eu sempre gostei muito dos seus filmes. – colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha.
- Não estou levando a mal. É só que... nem minha ex-mulher parecia saber ou lembrar tanto assim de onde meus prêmios vinham. – ri anasalado, um pouco nervoso com o pensamento que me trazia memórias ruins, para ser leve!
- Como assim?! – ela pareceu se indignar. – Coisas tão importantes na vida do parceiro e a pessoa fazer pouco caso?
- Também acho... mas isso agora é passado. Como minha carreira de ator. – respirei fundo. Lembranças dolorosas não era meu ponto forte para ser discutido.
- Quer falar um pouco sobre isso? – colocou a outra mexa de cabelo atrás da orelha. Me senti hipnotizado. Mas não foi o suficiente para me arrancar coisas tão... tristes sobre essa parte da minha vida.
- Agora não. Talvez em um outro momento.
- Tudo bem. – ela passou as mãos de leve nos meus ombros. Tive que me conter para não fechar os olhos. E uma ideia de beijá-la se instalou como um vírus na minha cabeça, pulsando enquanto ela alisava meu ombro em consolação. Olhar para ela ficava mais difícil a cada segundo. E a vontade de sentir a maciez de seus lábios e seu perfume se misturar com o meu...
Mas eu não poderia.
Eu deveria me explicar.
Explicar que a queria?
- ? – me chamou com a voz rouca. Não melhorou minha situação. – Você quer tomar o chá agora, então? E o bule está apitando.
Apenas assenti com a cabeça e saí dali o mais rápido que pude, em direção a cozinha. Quando fui para a sala, ela já estava sentada no sofá, encarando a louça com o mesmo ar de admiração.
Coloquei a água em sua xícara e, em seguida, o leite. Depois fiz o mesmo procedimento para mim. Ela colocou dois cubos de açúcar enquanto eu optei por não colocar nenhum. Iniciamos nosso chá sem dizer nada. Eu, constrangido por ter tido aquela avalanche de pensamentos e sensações e ela, bom... não faço muita ideia. Será que ela percebeu?
- Você poderia falar agora sobre não querer falar sobre o que aconteceu na biblioteca? – foi totalmente direta. Às vezes ela fazia isso. Ou será que ela sempre faz isso, mas eu não estou acostumado por não estar presente o tempo todo? De qualquer forma, isso me assustava um pouco, essa imposição toda. Não me dava tempo para pensar ou formular alguma coisa pelo menos não muito vergonhosa ou que não me deixasse completamente na defensiva.
- Eu disse que queria me explicar sobre meu comportamento. – me posicionei melhor no sofá à sua frente.
- Poderia começar se explicando sobre os motivos de ter me beijado e depois ter dito que não deveria. – tomou um gole e se reclinou para trás. Ela estava... confortável? Não... tenho certeza que estava querendo só transparecer que estava, não era possível!
- E-eu... eu já disse que foi errado porque s-sou seu professor. – droga! Gaguejar agora?! – E por causa da nossa diferença de idade.
- Você também disse uma coisa interessante. – arqueei uma sobrancelha. – Disse que também era porque eu iria embora daqui alguns anos. – senti um frio na espinha. Como sempre, eu havia falado sem pensar. E agora estou sendo confrontado.
- Sim, mas você é minha aluna. Não percebe o quão errado isso é? – tentei voltar para o começo.
- Sabe o que me disse? – quando ela disse esse nome pude sentir um arrepio na nuca e não foi por um motivo bom. Ele me incomodava, e eu não entendia muito bem porque.
- O quê? – perguntei sem encará-la.
- Que você pode estar querendo se aproveitar de mim por eu ser sua aluna. Ou pior, por ser sua fã. – agora pude sentir um tom triste em sua voz. Mas sua feição dura não desmanchou-se.
- Como é que é? – me engasguei com o chá, tossindo algumas repetidas vezes. Ela fez menção de levantar-se para me ajudar, mas neguei com a mão levemente apontada em sua direção e continuou sentada. – Por que eu faria isso com você ou com qualquer outra pessoa, ?!
- Eu não sei, realmente não sei. Não quero acreditar nisso, mas estou procurando outros motivos e você não está me dando. – coloquei minha xícara na mesa. Respirei fundo e a olhei.
- A única coisa que você está conseguindo, é me ofender.
- E você acha que está fazendo o quê comigo? Só porque é meu ator preferido, porque eu nutri por vários anos uma admiração e uma ilusão por você, não quer dizer que tenha o direito de me usar. Eu não sou o tipo de mulher que esses famosinhos pegam quando querem e depois se negam a ver novamente. – deu uma pausa. Mas ainda assim eu não sabia o que responder. Eu não era esse tipo de pessoa de quem ela estava falando. – Não quero dizer que estou vindo aqui cobrar um relacionamento por causa de um beijo numa biblioteca, mas... eu esperava mais de uma pessoa que eu amava tanto como ator e estava começando a admirar profundamente como professor!
Em sua última frase, diminuiu o tom. Já se podia ouvir sua voz trêmula e sua vontade de dar por encerrada esta conversa. Ela me olhava a espera de uma resposta, que eu tentava formular, mas não conseguia raciocinar nenhuma plausível e a altura para tantos sentimentos jogados de uma vez em cima de mim. Eu realmente não esperava isso.
Agora eu não estava nem na defensiva nem no ataque. Onde eu estava?
Perdido nos olhos tristes da mulher-menina que havia se decepcionado tão profundamente comigo em tão pouco tempo. Como eu tinha conseguido isso? E agora eu estava a magoando ainda mais, estando aqui, parado, sem dizer uma palavra. Simplesmente porque não conseguia pensar em nada além da raiva que estava sentindo de por ter plantado tantas besteiras na cabeça dela e em como eu queria desenterrar as coisas que eu tinha sim para dizer a .
Mas eu não tinha coragem de admiti-las nem para mim mesmo.
Então eu a deixaria ir? Acho que esse era o começo do fim.
- Bom, , tenho que ir. Ainda tenho muitas atividades para fazer. Inclusive as suas. – foi irônica na última parte.
Nada respondi novamente. Ela riu anasalado, provavelmente não acreditando que eu havia ficado mudo diante desta situação. E que constatando que eu era um covarde.
- Te vejo na aula, então. – disse fria e virou-se, caminhando em direção a porta.
A ver caminhar em direção oposta a mim, triste, magoada e, acima de tudo, com raiva, me deixou extremamente frustrado e com um sentimento de inutilidade. De quê eu servia, afinal? Dar aulas para cinco ou sete alunos interessados, lançar notas, cozinhar e algumas outras coisas esporádicas que não acrescentavam em nada na minha vida ou na de ninguém.
Eu sabia como era ser magoado. Sabia como era se sentir enganado. E por que eu deixaria outra pessoa se sentir da mesma forma, ainda por cima quando não era real? Eu teria que ser digno comigo mesmo e, principalmente, com , em relação aos meus sentimentos. Mesmo que eles estivessem uma bagunça e eu não compreendesse metade das coisas que estavam acontecendo. Mas eu precisava falar ao menos o que estava se passando em meus pensamentos à noite.
- Eu não gosto de pelo mesmo motivo que ele não gosta de mim. – disse com os olhos apertados, com medo de sua reação.
- O que disse? – a ouvi virar-se em minha direção novamente.
- Ele gosta de você.
- Sim, gosta. – seu rosto estava petrificado. Estava quase engraçado.
- Ele não tem o direito de dizer essas coisas sobre mim.
- Ele está com ciúmes de mim. – soltou sua respiração aos poucos.
- Nem por isso eu saio por aí dizendo coisas sobre ele.
- Você quer dizer que...?
- Quero dizer que se ele tem o direito de se apaixonar por alguém no primeiro dia de aula, eu também tenho. – não consegui a encarar por muito tempo. Senti meu rosto queimar e vergonha de ter dito aquilo em alto e bom som já não cabia mais em mim.
- Sim, tem. – ela sorriu de canto. Meu coração acelerou com os passos lentos que ela deu em seguida, em minha direção.


11


Devo ter passado de desmaiar umas três vezes com essa declaração de . Eu não esperava e definitivamente não estava preparada psicologicamente. Estava me segurando o máximo possível para não demonstrar o quanto estava tensa, feliz, inquieta e atordoada com toda aquela chuva de sonhos se realizando.
Eu estava sonhando que estava numa fanfic ou num filme?
Mas quer saber? Sonhando ou não, eu estou aqui. Com o homem mais lindo do mundo na minha frente, se dizendo apaixonado por mim. Criando coragem suficiente para dizer isso para alguém que ele não tem intimidade e que provavelmente é algo que não faz com muita frequência, vamos combinar. E, além de completamente lindo e charmoso, é empático e paciente, me aguentando o acusar de tantas coisas que agora não fazem sentido algum.
O que eu poderia fazer além de retribuir toda sua paciência? Mostrar que o sentimento é recíproco, claro.
Então, com a respiração ofegante apenas com o pensamento de que aquilo iria acontecer novamente, andei em passos lentos em sua direção, criando coragem a cada centímetro. parecia estar tão nervoso quanto eu, pois notei que sua respiração também ficou falha e pesada à medida que eu me aproximava.
Quando, finalmente, fiquei a alguns centímetros dele, levantei minha cabeça para encará-lo. alternava sua atenção entre meus olhos e minha boca, o que me fez lembrar da biblioteca... e em como seus lábios eram macios e quentes... e em como seu perfume estava tão destacado agora...
Não tive tempo de recuperar todas as lembranças daquele dia, pois senti as mãos de tocarem minhas bochechas, num toque leve e delicado, quase acariciando. Em seguida, ele acabou com toda e qualquer distância entre nossos lábios. O beijo era quente e lento, e tudo que eu podia ouvir eram nossas respirações ofegantes e meus pensamentos a mil por hora. Mas logo consegui bloqueá-los e me concentrar apenas naqueles lábios e, não demorando muito, na língua que já se encontrava tocando a minha com certa intensidade.
Conforme o beijo aprofundava, sentia uma onda de calor e energia percorrer meu corpo. Eu me arrepiava incontáveis vezes e minha respiração sempre falhava quando ele percorria com as mãos pela minha cintura e costas. Perdemos o equilíbrio e caímos sobre a mesa da sala.
Não paramos.
me beijou com mais intensidade, diria até com certa agressividade, enquanto eu apertava seu pescoço e puxava de leve seus cabelos. Ouvi um gemido. E não foi meu. E, como se fosse uma consequência, gemi logo após. O prazer que aquilo tinha me dado era inenarrável. Senti sua língua seguir do meu pescoço até minha orelha e novamente me arrepiei. Estava ofegante como nunca. Era possível ver meu colo subir e descer conforme eu tentava respirar.
Beijando toda a área do meu pescoço, segurou minhas pernas e as abriu, gentil. As encaixei ao redor de sua cintura e ele parou os beijos para me encarar. Passou os dedos por toda minha bochecha e depois pelos meus cabelos, me fazendo desviar o olhar. Soltou a respiração vagarosamente e segurou meu queixo com a mão livre, virando meu rosto, me fazendo encará-lo novamente. Em seguida me beijou fraco, porém terno. Um beijo carinhoso e longo. Senti minha barriga dançar.
Aprofundei o beijo novamente, o puxando mais para mim. Comecei a desabotoar sua camisa social e ele não hesitou. De repente ela já estava no chão e eu admirando seu peitoral muito bem conservado. Mas ele não me deixou fazer isso por muito tempo; e, beijando meu ombro de um lado, foi baixando a alça do meu vestido do outro. Levantei o pescoço quando ele passou a beijar meu colo, na tentativa de lhe dar mais espaço e poder sentir mais seu toque. Porém, antes que ele terminasse de tirar a parte de cima do meu vestido, parou.
Por um momento pensei que ele precisasse de um momento para resgatar o fôlego. Ou que estava olhando para mim. Mas depois de um tempo encarando minhas pernas, notei que ele estava hesitante.
- O que houve, ? – perguntei fraco, sem muito ar em meus pulmões ainda.
- É só que... você... nós... eu não sei . Se isto é certo. – ainda não me encarava.
- Eu não sei se é certo. Mas também não me parece errado.
- Eu só queria que você não fosse minha aluna. – sorriu fraco e o acompanhei.
- Hoje você não é meu professor. – e, finalmente, olhou para mim, com a sobrancelha arqueada.
Reatou nosso beijo com força enquanto tirava o resto do meu vestido. Vi a peça jogada no chão e eu estava, pela primeira vez em muito tempo, seminua na frente de alguém. Mas eu não me sentia vulnerável ou constrangida. Me sentia desejada e excitada, ansiado para ser tocada. E assim fui. me guiou até seu quarto e lá me deitou cuidadosamente em sua cama. Beijou cada parte do meu corpo, começando dos pés. Ao chegar na virilha se estendeu por mais tempo, acariciando com os dedos minhas coxas enquanto depositava leves beijos na região. Beijou minha barriga, percorrendo lentamente um caminho até chegar em meus seios, tirando meu sutiã sem nenhuma urgência. E, quando os tirou, não os encarou de imediato. Mas olhou nos meus olhos, como se me pedisse permissão. Concedi, acariciando suas bochechas e depositando um beijo rápido em sua boca.
Agora concentrava sua atenção em meus seios. Estava deitado por cima de mim, apoiado nos braços. Beijou ao redor do meu seio e com uma mão massageava o outro suavemente. Não consegui conter um gemido fraco. Senti sua boca formar um sorriso. Não demorou para que eu sentisse sua língua sobre minha pele. Arrepiei até a alma. Sua massagem ficou mais forte. Seu beijo com língua se transformou em sugadas. Meu gemido fraco se transformou em gemidos altos. Senti que estava molhada e já estava pulsante.
No momento que fez uma pausa para respirar ou mudar a posição, o empurrei para o lado na cama, o fazendo ficar embaixo de mim. Tirei sua calça com certa urgência e o que agora estava vendo precisava ser tocado. Acariciei seu pênis por cima de sua cueca boxer preta e novamente senti algo na minha barriga. Fechei meus olhos com a ideia do que aquilo poderia fazer comigo... e do que eu poderia fazer com aquilo... Senti me puxar para ele e abrir minhas pernas, fazendo com que as mesmas encaixassem em volta de sua cintura. Apertou minha bunda e começou a fazer movimentos de vai-e-vem. Eu sentia que não conseguiria mais abrir os olhos. Senti-lo na minha pele era melhor que tudo que eu já havia experienciado antes. Meus seios em seu peitoral, meus lábios no dele, suas mãos na minha bunda... e o melhor... seu membro.
segurou meu pescoço e minha cintura e me virou novamente na cama, ficando por cima de mim novamente. Levantou-se praticamente num pulo e foi até a gaveta de seu criado mudo, de onde tirou uma camisinha e colocou perto do travesseiro. Voltou a deitar-se e, com pressa, tirou minha calcinha – que a essa altura já estava completamente molhada. Ao vê-la assim, apertou os olhos involuntariamente e acariciou seu membro, me deixando ainda mais excitada.
Eu não conseguia mais aguentar de ansiedade. Eu precisava vê-lo. Eu precisava tê-lo. E, no momento que ele tirou sua cueca, mordi o lábio tão forte que senti gosto de sangue. Ele era tão... lindo. Nenhuma outra palavra poderia conseguir definir.
Antes que de deitar por cima de mim novamente, colocou a camisinha rapidamente. E beijando toda a extensão do meu pescoço e em seguida minha boca, senti ele introduzindo seu pênis em mim. Senti a área um pouco dolorida inicialmente, mas à medida que ele ia introduzindo por completo, começava a sentir prazer. Sua testa estava encostada na minha e seus olhos fechados, apertados. começou a movimentar-se para frente e para trás, quase num movimento de rebolado. Uma de suas mãos estava no meu seio e a outra nos meus cabelos, enquanto ambas as minhas mãos apertavam suas costas e o puxava contra minha pele. Seus movimentos ficavam cada vez mais intensos e ele ia cada vez mais fundo. A cada investida soltávamos um gemido mais alto. Seu perfume agora se misturava com suor. E o cheiro ainda era perfeito. Beijei e lambi toda área de seu pescoço e ombro e o vi se arrepiar. Suas investidas ficaram mais rápidas. Assim como minha respiração.
O empurrei para o lado e fiquei por cima. Enquanto cavalgava em seu membro ele apertava forte minha bunda e seguia meu movimento. A essa altura já gemia mais alto que eu. Ele se inclinou e começou a sugar meus seios enquanto eu ainda cavalgava. puxava meu cabelo com certa força para trás e com todos aqueles estímulos, juntamente com meu clitóris friccionando em sua virilha, sentia que meu ápice estava perto. Eu iria gozar. Puxei seu cabelo involuntariamente e joguei a cabeça para trás, sem conseguir me controlar. O ouvi me perguntar baixinho no meu ouvido se eu iria gozar e respondi que sim, ofegante.
Meu gemido ficou quase inaudível e meu corpo eletrizado, com espasmos involuntários. Pude sentir a mesma coisa com o corpo de , junto com seu pênis mais rígido e seu gemido ficou mais alto e rouco.
Ambos gozamos na mesma hora.
Isso nunca havia acontecido comigo antes. Nem ter sentido um prazer tão grande como senti agora, nem ter gozado com um cara, nem muito menos ao mesmo tempo que o cara. Esse, definitivamente, foi o melhor orgasmo da minha vida.
Ainda estávamos ofegantes, mas não nos movemos um centímetro. Ao abrir meus olhos, vejo um com um sorriso de lado malandro, me encarando. Não pude conter um sorriso também. Ele afastou uma mecha de cabelo da minha bochecha e depositou um beijo ali. Inclinei meu rosto e beijei sua boca, e ele sorriu durante o beijo, me fazendo achar aquele momento ainda mais perfeito. Achar ele ainda mais perfeito.
- Acho que a gente merece um banho. – ele disse mexendo em meus cabelos.
- Talvez... – me virei para o lado, saindo de cima dele.
- A gente suou um pouco, né... – riu.
- Mas seu cheiro é tão bom, . – fiz bico.
- O seu também, . Você não faz ideia. – me puxou para perto, cheirando toda extensão do meu colo.
Mas, de um momento para o outro, um cheiro estranho tomou conta do quarto. Um cheiro de queimado, talvez. E, do nada, Benedic deu um pulo da cama e correu do quarto. A única coisa que eu consegui fazer foi rir descontroladamente. correndo nu?! Era lindo e cômico ao mesmo tempo. Ele precisava fazer um filme assim, só para eu dizer que poderia ver isso ao vivo.
Meu deus. Eu vi isso ao vivo.
Eu transei com .

Ele voltou antes mesmo que eu pudesse passar tudo novamente na minha cabeça. Já estava enrolado numa toalha e com uma cara de quem havia feito merda. Novamente comecei a rir e, dessa vez, fui seguida por ele. passou as mãos pelos cabelos, desajeitado, e sentou na beirada da cama olhando para o corredor enquanto ainda ria.
- Eu queimei a torta. – gargalhou.
- Que torta?!
- A torta que estava preparando pra você... agora ela está praticamente toda preta e com certeza está com gosto de carvão.
- Tenho certeza que a gente pode comer outra torta outro dia. – sorri de canto, sem ter muita certeza do que estava falando. Eu tinha mesmo essa certeza? O que tínhamos acabado de fazer não era somente algo do momento? Eu estava me matando por dentro para saber o que estava pensando sobre isso...
- Podemos comer outra torta sim... mas só se for em um restaurante ou se você se arriscar a cozinhar, porque nunca mais quero tirar uma torta do freezer e colocar no forno. – riu enquanto se aproximava para me dar beijos estalados.
- Então quer dizer que não foi você quem fez a torta, ?! – gargalhei.
- Talvez eu queria lhe impressionar um pouco... – fez careta. – E meus dotes culinários não são essas maravilhas todas. – fez bico, fingindo-se de triste.
- Tudo bem, tudo bem. Quem sabe um dia você prove da minha torta de morango? – desarrumei ainda mais seus cabelos, rindo.
- Quem sabe poderia ser esse fim de semana? – me olhou de relance, escondendo um sorriso tímido e pedinte.
- Está me convidando para cozinhar para você esse final de semana? – meu sorriso só ficava maior. Passar mais tempo com ? Era um sonho.
- Não. Estou te convidando para passar um fim de semana comigo. A torta é só uma desculpa.
Ele me deitou novamente na cama, ficando deitado de frente para mim, ao meu lado. O beijei e logo a toalha que estava envolta em seu quadril havia desaparecido e os lençóis já não se faziam mais úteis. As melhores sensações da minha vida começariam tudo novamente...
- Dorme aqui hoje? – pediu baixinho no meu ouvido.
- Não precisa pedir de novo. – sorri e voltei a beijá-lo.


12


Acordar e ver ao meu lado, com o semblante tão sereno, fazia o som do alarme soar como a música mais romântica de um musical meloso da Disney. Eu podia levantar dançando e cantando no ritmo dos bips, com um sorriso de orelha a orelha, rimando palavras de amor.
Eu sabia que com certeza não estava sonhando, pois nem nos meus sonhos eu tinha a audácia de ser tão detalhista. De reparar nos seus cílios longos e sua sobrancelha rala. Sua pele tão fina e pálida, que era possível ver as veias. E deus, era lindo. Os sinais em seus ombros em tamanhos e cores diferentes... Os cabelos ralos em sua nuca que ontem estavam arrepiados. Sua orelha vermelha e quente. E seus lábios finos, entreabertos, pedindo para serem beijados novamente. O hálito ruim da manhã comprovando que eu havia sido a escolhida para ter essa vista e a intimidade suficiente para beijá-lo antes de ser feita qualquer tipo de higiene.
Talvez fosse loucura. Talvez eu estivesse sendo completamente precipitada. Provavelmente sim. É. Com certeza. Mas eu sentia que não precisava de nenhuma cerimônia com . Me sentia próxima, íntima. Talvez ele não se sentisse da mesma forma e eu tivesse que me afastar para lhe dar o espaço necessário, mas eu não queria. Meu desejo era que ele se sentisse como eu. Assim, de cara.
Mas claro. Claro. Eu não iria apressá-lo ou fazer nenhum tipo de exigência. Tudo no seu tempo. Já estou curtindo-o assim, dormindo como um anjo, na minha frente. Por que tirá-lo do paraíso bruscamente?

- Bom dia, . – ele desligou o despertador e interrompeu meus zilhões de pensamentos.
- Bom dia, . – sorri, encarando seus ombros nus.
- Dormiu bem? – sorriu de canto, com a sobrancelha arqueada, sapeca.
- Foi um bom descanso. – respondi no mesmo tom e ele riu.
- O que você acha de tomarmos café no caminho? – perguntou enquanto levantava e vestia a cueca boxer.
- Acho arriscado demais. – disse simples, ainda deitada. – Arriscado pra você como professor e pra mim como aluna. Eu posso ser expulsa e você demitido.
- Só eu posso ser demitido. – foi sua vez de dizer simples. Como se isso não fosse problema!
- Oi? Então tá tudo bem? – franzi a testa e sentei na cama, num pulo.
- Claro que não. – sorriu sem vontade. – Só estou dizendo que você não seria expulsa por minha causa.
- É, mas você seria demitido por causa de mim.
- Nada que acontecer será sua culpa. – entrou no banheiro. – E é melhor a gente ir logo que tô morrendo de fome! – sua voz começou a ser abafada pela água do chuveiro.

Mas é claro que nós não fomos tomar café da manhã no caminho da Universidade. Enquanto tomava seu banho, fui para a cozinha preparar algo para nós dois e só consegui fazer chá. Em copos de plástico. Porque, Jesus, praticamente tudo naquela casa era de porcelana e eu não queria quebrar nada, muito obrigada.
E quando ele saiu do banho, fez torradas numa máquina que eu nunca vi na vida enquanto eu tomava o meu banho. Em seguida, tomamos o café da manhã mais rápido de todos os tempos, praticamente cronometrado, porque ele tinha que dar aula no primeiro horário. Ele me deu carona até o metrô e seguiu sozinho para a Universidade. Quem sabe essa seria nossa rotina agora.

- Caramba , pensei que não fosse mais voltar pra casa ein! – Gray sussurrou de canto assim que sentei ao seu lado na aula.
- Nem exagera, né. Passei uma noite fora. – dei um leve empurrão em seu ombro, rindo baixinho.
- ME. CONTA. TUDO. – deu um grito sussurrado olhando para frente.
- Antes de começar, quero que você ative esse chip que comprei no metrô. – passei meu celular e o chip pra ela, que em alguns minutos já havia ativado.
- Não vai ter um baby , não é? – riu com a mão na boca.
- Você que está precisando ter um baby qualquer coisa e me deixar em paz, Grey. – ri junto.
- Estou mesmo. Mas infelizmente meus babys qualquer coisa precisam morrer antes de chegarem na minha vagina. – fingiu uma cara de triste. – Eu não uso mais anticoncepcional, então, ou é fora ou é camisinha.
- Acho que eu vou ter que comprar um anticoncepcional... – soltei sem olhar para Grey, já me preparando para sua reação.
- MEU. DEUS. – deu outro grito sussurrado. – Sua safada! Era uma santa até sair de casa ontem!
- Olha aqui, eu nunca disse que era uma santa... e nunca disse que não iria transar com fucking . – arqueei a sobrancelha e tentei conter um bico, lembrando da noite anterior.
- Espera só até o saber disso, puta que pariu! Eu pago pra ver!
- Vocês gostariam de compartilhar o assunto? – o professor nos interrompeu, chamando atenção de toda a turma, fazendo todos os olhares se voltarem para nós. Me senti quente instantaneamente.
- Não seria uma coisa interessante, professor. – Grey disse na maior simplicidade do mundo e fingiu anotar algo no caderno, que eu simplesmente imitei.

No horário da tarde, eu já havia contado quase todos os detalhes para Grey. Só pulei os mais íntimos. Mas praticamente todas as conversas e amassos que tive com o foram compartilhadas e comentadas por Grace. Passamos o almoço inteiro rindo e babando na meiguice de e calculando (Grey, claro) em quanto tempo eu estaria oficialmente com .
O que me fez pensar por um momento no que estava fazendo. Mas todos os pensamentos negativos ou as possibilidades que eu tinha com se dissiparam rapidamente. Parte porque eu realmente não queria pensar sobre isso agora e parte porque as fantasias de Grey eram, com certeza, melhores.
Eu sentia que tinha que contar a também. Não queria que ele soubesse por Grey nem muito menos por . Deus, um dia ele teria que superar. Fosse vendo que o que sentia por mim não passava de uma paixonite, fosse se apaixonando de verdade por outra pessoa.
- Se o ficar arrasado, um dia ele supera. – Grey disse depois que tocamos no assunto. – Jesus, já reparou na beleza daquele francês?
- Quem não? – ri anasalado, um pouco fraco. Claro que ele era lindo. Era impossível não notar numa sala de aula com 30 pessoas ou num campo com 200.
- Se ele me desse mole, eu pegava. – dessa vez, eu ri com mais vontade. Talvez ela não estivesse falando sério, ou talvez estivesse. Mas eu não achava que era muito a cara de Grey ficar com meninos tão mais novos, principalmente com alguém como o .
- Eu tenho que ir na biblioteca agora pegar o livro que o professor pediu pra próxima aula. Você vem junto? – olhei no relógio do celular, que já marcava meu possível atraso.
- Não dá, também tenho aula agora. – fez careta.
- Tudo bem, relaxa. A gente se vê mais tarde.

Fui a passos largos para a biblioteca. Como de costume, na parte de linguística não havia quase ninguém. Procurei o livro como um desidratado busca por água e só encontrei um exemplar. Praticamente corri para registrar o empréstimo e andei o mais rápido que pude pelo campus para chegar ao meu prédio que ficava a cerca de dez minutos andando da biblioteca.
Ainda ofegante, senti alguém me puxar para trás de uma das pilastras do prédio de exatas. Automaticamente pensei que fosse um assalto. O Brasil não saía de mim, afinal.
Quando olhei para cima e vi de quem se tratava, comecei a rir freneticamente do meu pensamento descabido e ridículo. Quem me assaltaria aqui, meu deus? E levaria o quê? O livro emprestado da biblioteca?!
- Te assustei? – perguntou com os olhos arregalados.
- Acho que eu te assustei. – continuei rindo, agora de seus olhos que conseguiram ficar enormes.
- Desculpe, eu não queria ter que gritar seu nome. – se tranquilizou mais, tirando a tensão dos olhos e dos ombros.
- Tudo bem. Mas acho que me puxar assim, do nada, é pouquinho pior... – ele riu.
- É que fiquei com saudade... – falou manhoso e baixou a cabeça para ficar na altura da minha. Foi instantâneo. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram, minha respiração ficou ofegante, meu coração acelerou e meu corpo ficou quente. Meu corpo parecia uma sinfonia.
Ele ali, tão próximo de mim, só me fazia lembrar da melhor noite que já tive. E quase me fazia implorar por uma amostra grátis ali mesmo. Deus, como eu queria...
- E-eu... também. – quase não consegui falar, tudo aquilo era novo demais para mim e eu só queria mais.
- Eu tenho uma ideia de como a gente pode matar essa saudade agora. – me olhou nos olhos. Era possível sentir sua vontade transbordando naquelas pupilas dilatadas. E eu tinha quase certeza que eu faria o que ele quisesse ali.
- É? Como? – mordi o lábio. Foi involuntário, mas foi para conter toda a minha vontade de beijá-lo e jogá-lo contra aquela pilastra. Meu deus, como eu precisava.
- Assim.
me beijou com força. Foi inevitável colocar as mãos na sua nuca e puxar de leve seus cabelos. A força com que ele me beijava e apertava minha cintura me fazia desejar a cada segundo que ele estivesse dentro de mim. Em pouco tempo pude sentir seu pênis ereto por dentro de sua calça jeans, o que me fez suspirar de tesão. E eu tinha certeza que minha calcinha não estava menos que ensopada.
Mas, infelizmente, eu precisava partir o beijo.
- ... – ele ofegou.
- , se alguém passar, você já era. – bati de leve em seu braço. – E eu preciso ir pra aula, porque agora estou mais que atrasada.
- Ok... – fez bico. – Pode ir pra minha casa esse fim de semana?
- Podemos sair? – arqueei a sobrancelha, preocupada.
- Pra onde?
- Cinema e depois um jantar. – sorri.
- Não dá, . Infelizmente não dá. – ele ficou cabisbaixo, mas eu fiquei chateada.
Mas, como sempre, eu não iria fazer uma cena ou mostrar que estava chateada com isso. A vida é dele. E eu mesma tinha dito para ele ter cuidado para não sermos vistos juntos. E não quero ser a confusa nessa história. Mas já sendo...
Só um cineminha... mas não dá. Ele vai ser reconhecido, vai ter fã atrás dele. Ou pior, pode ter algum aluno. Deve ser isso que ele estava pensando. Mas também não iria perguntar. Já estava triste demais em não poder sequer ir ao cinema com o cara que estava saindo, transando ou seja lá o que era isso.
- Ok. É, eu sei. – dei de ombros. – Tenho que ir.
- ... não fica assim. – acariciou meu braço.
- Assim como, ? – tentei sorrir. – A gente não pode sair, eu entendo. Só na sua casa. – fui andando para o pátio.
- ... – passou a mão na testa, parecendo estar inquieto.
- , eu preciso ir pra aula. Depois a gente se fala.
Não virei para olhá-lo quando ele me chamou novamente. Eu estava começando a ficar com vontade de chorar. Mas chorar por quê? Porque não posso sair com um cara? Em parte não fazia sentido. Mas quando eu pensava que era a porra do e que ele, de repente, não era mais O , e sim somente o , uma tristeza enorme me consumia. Me sentia como uma amante que não pode em hipótese nenhuma ser revelada. E nunca me imaginei nessa situação.




Continua...



Nota da autora:Já sabem: qualquer erro, podem dizer nos comentários ou no grupo!
E para quem quiser ler o capítulo antes de entrar no site, assim como as leitoras Luíza Orellano e Raquel Schug, é só ser ativa tanto aqui nos comentários quanto no grupo do Facebook! Interação é tudo <3 Trazer leitoras novas também pode te dar um capítulo de graça hahahaha

Para saber quando terá atualização, spoilers, aesthetics, conversar, etc, participe do grupo das minhas fics ;) Só clicar aqui :)

Novidade! Agora a fic tem um Spotify para as músicas que serão mencionadas ao longo dos capítulos! Sempre que uma música for mencionada, será adicionada ao Spotify e vocês poderão ouvir ao final do capítulo ou durante ele ;) Música nova incluída: Only You - Zara Larsson (Inspirada no capítulo 11)






Outras Fanfics:

Finalizadas:
Especial - Nós Existimos: The Ballad Of Barry Allen (Heróis/The Flash)

Em andamento:
Atores/Restritas: It's Now or Never (Grant Gustin)


comments powered by Disqus