Mixtape: Na Sua Estante

Finalizada em: 16/08/2017

Capítulo Único

tentava segurar o choro enquanto caminhavam de mãos dadas pela rodoviária, sem conseguir deixar de lado aquela sensação terrível de que nunca mais se veriam, independente de tudo o que ele já havia dito ou de todas as promessas que havia feito.
Sempre confiou nele, com todo seu coração. era seu melhor amigo desde que podia lembrar. Eram os dois contra o mundo, mas as definições que tinham sobre a palavra, aparentemente, haviam entrado em conflito.
Ela sempre teve certo medo daquele lado sonhador do garoto. Sonhador demais para ser realista, para se manter em terra firme. Na verdade, eram até meio opostos quanto a isso, pois em contrapartida ela sempre havia sido realista até demais.
Para ela, aquilo era um erro. Aquela decisão absurda de simplesmente fazer as malas e ir embora só porque completara dezoito. Deixar a cidade para trás sempre havia sido o sonho dele, desde criança, mas esperava, no fundo, que passasse. Ou que ele pelo menos vacilasse por um segundo ao pensar nela, por mais egoísta que fosse de sua própria parte ver as coisas por esse ângulo.
Não podia privá-lo de seguir seus sonhos, mas ele a machucava com aquela decisão absurda e estava tão cego que nem mesmo isso podia enxergar. Não conseguia mais vê-la, prestes a desabar ao seu lado enquanto o acompanhava.
Ele estava perdido em um mundo que ela jamais conseguiria entrar e não sabia se tinha mais medo disso ao dele se perder por lá, esquecê-la de vez.
parou ao lado de sua plataforma de embarque e a garota sentiu o coração vacilar enquanto a despedida ficava cada vez mais próxima. Não estava preparada para dizer adeus, para não tê-lo mais ao seu lado todos os dias e mordeu o lábio inferior enquanto abaixava a cabeça, para que ele não a visse prestes a chorar.
- Não fica assim. – pediu, aos sussurros, e tocou seu queixo para fazer com que ela o encarasse. tinha lágrimas nos olhos. Lágrimas que era incapaz de conter, mas ele sorriu ainda assim, independente da melancolia que continha ali, perdida em seu olhar. – Não é para sempre. – garantiu mais uma vez, dando mais um passo em sua direção a fim de aproximá-los. – Eu não conseguiria ficar tanto tempo longe de você. Você sabe, .
Ela concordou com a cabeça em resposta, mas a afirmação não serviu para nada. Não diminuía o medo.
Era o sonho dele, mas o amava demais para vê-lo partir daquela forma sem sofrer as consequências.
- Vou sentir a sua falta. – respondeu simplesmente, com a voz embargada. Não podia lhe pedir que ficasse, não podia jogar nele todas as suas inseguranças. Era até mesmo provável que ele soubesse delas, de qualquer forma. Haviam sido anos e anos de amizade afinal, conheciam um ao outro até demais.
- Eu sei disso. – ele devolveu em um sussurro, sorrindo fraco enquanto a puxava para os seus braços. - Também vou sentir sua falta. – continuou, escondendo o rosto em seus cabelos quando ela se aninhou em seus braços, fungando ali enquanto sentia o fatídico momento da despedida cada vez mais próximo.
Como se o pensamento tivesse sido o gatilho necessário para o fim, a chaminé do único trem da cidade apitou, indicando que era chegada a hora e, imediatamente, a garota se agarrou mais a ele, sem que pudesse notar que o fazia.
Ela só não queria que ele a deixasse para trás, não queria perdê-lo e obrigou-se a guardar em sua mente todos os mínimos detalhes que podia assimilar. Seu calor, seu cheiro, seus braços ao redor dela. Não sabia quando teria novamente aquela oportunidade de abraçá-lo e sentiu as lágrimas escorrerem de uma vez, incapaz de continuar mantendo-as no mesmo lugar.
- ... – ele a chamou ao notar que chorava, mas ela negou com a cabeça quando ele tentou afastá-la. – Não é para sempre, eu vou voltar. – falou, afagando seus cabelos em uma tentativa de consolá-la, mas de alguma forma ela sabia que nada mais seria simples a partir dali. – Eu nunca menti pra você e não vou começar agora. Vou voltar. É uma promessa. – tentou afastá-la novamente, e ciente de que não podia fazer mais nada, ela deixou, vendo sua imagem embaçada em meio as lágrimas. – Vou voltar. – repetiu e, mesmo sem ter certeza daquilo, ela concordou com a cabeça, deixando que ele passasse uma das mãos por seu rosto, limpando as lágrimas que escorriam.
Mais uma vez, a sirene soou. Era o último aviso e desviou o olhar para o trem antes de se voltar para a amiga, incerto. Novamente, ela quis pedir que ele ficasse. Implorar na verdade, mas não fez nada, limitando-se em dar um passo para trás para garantir que estava tudo bem, que ele deveria ir.
Não estava nada bem na verdade e ela provavelmente choraria pelos próximos dias, mas era o sonho dele, não podia privá-lo disso.
- Você tem que ir. – falou, não soando nem um pouco firme e ele concordou.
- Tenho. – respondeu baixo, como se lhe doesse dizer aquelas palavras. – Mas não é um adeus, eu volto. – repetiu, aproximando-se novamente para beijar sua testa. – Eu te amo. – sussurrou para que só ela ouvisse e a garota concordou mais uma vez, embora as palavras apenas fizessem doer mais.
Amá-la não era o suficiente para lhe fazer ficar, mas não porque ele não lhe dava valor e sim porque queria muito mais do mundo do que ela tinha a oferecer. Queria ser do mundo e isso lhe impedia de ver que era o mundo de outro alguém.

+++


Ela vinha pensando muito em nos últimos dias. Se perguntava o que ele estaria fazendo. Não podia evitar.
Ele não ligava mais, passava dias sem responder suas mensagens e ela há muito tempo não tinha ideia de como era sua rotina, pois mesmo quando se falavam, era tudo breve demais para que pudessem conversar como antes.
Já havia se passado três anos afinal. Era de se esperar que tivesse feito novos amigos. Provavelmente tinha até uma namorada, mas ter que supor tudo aquilo porque ele não ligava mais era deprimente. Ainda pior do que se pegar pensando nele mesmo depois de tanto tempo. Saber que para ele, tudo havia mudado quando, para ela, os sentimentos continuavam iguais.
E nem podia dizer que ele havia descumprido sua promessa, pois não havia. não passou os três anos longe, ele de fato voltou, mas nunca passou mais de um mês em cada uma delas. Ele sempre tinha um novo plano que não a incluía, uma nova ideia tão louca quanto a anterior e um novo lugar que sonhava em visitar. Um lugar que nunca era o seu lugar e exatamente como ela esperava, com o tempo, ele parou de aparecer. Agora, também parara de ligar, e já faziam semanas.
Ela se quer sabia se ele estava vivo, mas não conseguia ficar realmente preocupada porque, no fundo, sabia que sim. Que ele só não tinha mais tempo pra ela. Era de se esperar.
Decidindo que já não tinha mais concentração para terminar aquela leitura, ela desligou o abajur ao seu lado, na mesa de estudos onde estava sentada. Teria uma prova sobre aquele livro no dia seguinte, mas sentia que estava perdendo tempo em tentar ler, assim como perderia com a prova. Já não conseguia mais absorver nada, estava tarde e simplesmente se levantou para se jogar, em seguida, na cama. Também não achava que conseguiria dormir, mas entre remoer as dores do passado sentada desconfortavelmente em uma cadeira e em sua cama, preferia na cama, onde ela pelo menos conseguiria dormir se o cansaço lhe vencesse.
Encarou o teto, os braços abertos sobre o colchão e quando, finalmente, conseguiu limpar a mente para não pensar em mais nada, o celular tocou, fazendo com que ela pulasse de susto. Já se passava da meia noite, ninguém ligaria para ela naquele horário além de , mas aquela possibilidade lhe parecia tão remota que ela simplesmente buscou o aparelho sem ao menos pensar no que fazia, o levando até a orelha sem olhar o nome no visor.
- Oi. – atendeu, sem desviar sua atenção do teto do quarto, mas a risada que ouviu do outro lado da linha fez com que todos os pelos de seu corpo se arrepiassem e a garota despertou imediatamente, sentando-se onde estava.
, reconheceu imediatamente e odiou a si mesma pela atitude totalmente exagerada.
Ele estava há dias sem dar notícias. Ela não podia simplesmente ignorar tudo aquilo e deixar que ele achasse que podia fazer isso sempre. Não podia.
- Sentiu minha falta? – ele perguntou, muito bem ciente de que ela já sabia quem era e a garota o odiou secretamente por isso. Não mais do que a si mesma por deixar que ele soubesse o efeito que tinha sobre ela, mas odiou de qualquer forma. Ele não podia desaparecer por tanto tempo e depois ligar como se nada tivesse acontecido.
Em um segundo, passaram diversas respostas em sua cabeça. Diversas possibilidades. Pensou em gritar com ele, pensou em acusá-lo de ser um babaca, e daí para pior. Pensou em desligar na sua cara, afinal, só precisava saber que ele estava vivo e o humor em sua voz denunciava que estava vivo e bem. No entanto, optou por outra coisa no final, provavelmente a que ele não esperaria que ela fizesse, mas se esperasse também, ela nem ligava. Só queria e precisava que ele soubesse o quão insatisfeita estava com seu sumiço.
- Quem está falando? – perguntou, fingindo confusão, mas soube que não deu certo quando ele apenas riu novamente do outro lado.
- Você sabe quem é, . – respondeu, mas ela não se importou em soar idiota em insistir que não sabia. Na pior das hipóteses, entenderia o recado e isso era o que ela mais queria.
- Acho que não. – falou, ouvindo-o suspirar com sua resposta.
- , me desculpe não ter te ligado antes. – pediu e ela sorriu vitoriosa por ter conseguido o que queria, embora isso não a deixasse, nem de longe, feliz.
Só ficaria feliz em ter o amigo de anos de volta, mas isso ela sabia que não ia acontecer.
- Ah, . – fingiu se lembrar, embora a amargura em sua voz denunciasse a verdade. – Faz tanto tempo que eu nem esperava.
- Não faz assim... – ele pediu, soando magoado, mas ela não conseguiu sentir aquela dor quando já lidava com a própria. Sinceramente, ela nem sabia se acreditava e isso apenas a magoava ainda mais. Tudo que ele fazia, ultimamente, era magoá-la, mesmo estando tão longe. – Estou ligando porque fiquei com saudades.
- Ficou, ? De verdade? – perguntou, sua voz soando mais alta do que pretendia e teve certeza de que ele não havia deixado aquilo passar despercebido. – Você tem noção de quanto tempo eu tenho tentado falar com você?
- Eu sei, me desculpa. – ele pediu e ela negou com a cabeça por aquilo ser tudo o que ele tinha a dizer. Costumava ser melhor com as palavras, ou talvez ele não ligasse mais o suficiente para tentar de verdade, mas ela negou com a cabeça, preferindo não pensar naquela última parte. Era desnecessário se fazer sofrer ainda mais.
- Eu não tenho o direito de te cobrar nada, . – ela começou quando ele permaneceu em silêncio, decidindo por tomar as rédeas da situação. Tinha mais amor próprio do que isso, mesmo que seu coração, na maior parte das vezes, lhe pregasse peças. – Você tem outra vida, outras pessoas, e está saindo da minha. Eu entendo, não sou mais uma da suas prioridades, mas se não for voltar, ao menos mande notícias. Só um: “Oi, estou vivo” já bastava porque eu me preocupo.
- , não é assim... – ele tentou, mas ela negou com a cabeça, o interrompendo.
- Você sabe que é. – respondeu firme, embora sentisse as lágrimas se formarem em sua garganta. – Não somos mais os mesmos, nossa amizade já não é o que costumava ser, mas você podia ter pelo menos a consideração de dizer que está ocupado.
- Me desculpa. – insistiu. Sua voz denunciava tristeza, mas nunca seria maior que a dela no momento. – Os dias estão corridos, eu não tive muito tempo e...
- Tudo bem. – ela respondeu simplesmente, tentando ignorar o que as palavras faziam com seu coração. Ele fora embora com a promessa de que sempre a amaria e agora já não tinha mais tempo para lhe responder uma simples mensagem. Como haviam se tornado aquilo? – Você não me deve satisfações.
- Eu devo. – ele respondeu, soando apavorado. Em outros momentos, ela teria tido esperanças por notar aquela reação. Já se iludiria achando que tudo podia voltar a ser como era antes, mas depois de tanto tempo vendo o que tinham de desgastar como se nunca tivesse importado, ela já não conseguia mais sentir aquilo, esperança. Só conseguir sofrer em silêncio por tudo que um dia haviam sido. – Errei em não dar, mas devo.
- Não. – ela respondeu simplesmente, e dessa vez sua voz lhe entregou. Ela já chorava e sabia que ele também tinha percebido.
- ...
- Vamos só deixar isso pra lá, está bem? – perguntou, desejando desesperadamente encerrar o assunto, nem que fosse para chorar sozinha em seu quarto até adormecer. – Estamos longe demais para sermos prioridade na vida um do outro, eu entendo. Nos afastamos, também era inevitável e eu não tenho o direito de estar chateada só porque você não respondeu uma mensagem. Era só uma mensagem...
- Não era.
- Se não fosse, você teria respondido, . – ela respondeu, limpando algumas lágrimas e o ouviu fungar baixinho do outro lado.
- Eu sei o que você está tentando fazer, . Não vou deixar – ele falou, sua voz tão embargada quanto a dela e a garota sorriu sem humor, de forma totalmente melancólica. – Não pode terminar nossa amizade como se fosse um namoro. Não é assim que funciona.
- Essa amizade não existe mais, . – sussurrou, com toda a angustia que sentia em seu coração. – Amizades também não costumam se afetar com o tempo e essa já foi afetada porque deixamos que fosse assim. Você por não retornar e eu por não entender e te cobrar por algo que não pode oferecer. Vai ser melhor pra nós dois se deixamos as coisas como estão.
- Não vai não. – ele protestou. – , você não pode...
- Desculpa, . – ela o interrompeu simplesmente, não conseguindo mais suportar a conversa. Não quando era tão difícil ouvir sua voz sem poder vê-lo. Ouvir sua voz e lembrar de tudo que não tinham mais. Pior ainda, saber que se não desse um basta, apenas ela continuaria se machucando e foi nisso que ela se obrigou a pensar antes de voltar a falar. – Eu sempre vou te amar, do fundo do meu coração, mas eu não consigo mais lidar com isso. Me desculpa.
E antes que ele respondesse, ela finalizou a chamada, desligando o aparelho celular simplesmente porque sabia que ele retornaria e não podia atender. Precisava seguir adiante, se dar uma chance mesmo ciente de que não seria fácil e a maior prova disso foram as lágrimas que tomaram conta de si, fazendo com que ela se jogasse na cama aos soluços enquanto se agarrava a suas próprias cobertas, lembrando-se de um tempo no passado onde era fácil ser e .

+++


- Eu sei que é complicado, mas é melhor assim. – falou, e sabia que ela estava certa, por pior e mais doloroso que fosse.
Apesar da saudade que sentia de todos os dias, ficava grata por ter descoberto em uma grande amiga, o apoio que precisava para suportar o buraco que o garoto havia deixado. Assim como , também a conhecia de longas datas, mas nunca fora tão próxima dela. Nunca fora, na verdade, tão próxima de alguém quanto dele. Ao lado de , nunca sentiu que precisava de mais alguma coisa, ou de alguém. Ele sempre havia bastado. Essa parte não era culpa dele na verdade, nem dela. Era o que acontecia quando se tinha um melhor amigo, um que te completava, e agradecia a por ter ficado ao seu lado ou estaria completamente sozinha. Especialmente agora, que já o ignorava por três semanas.
Nunca antes o ignorara por mais de três dias, independente do quão puta estivesse com ele, mas não era só isso, só questão de estar meramente irritada. Ela ainda insistia em manter-se afastada, não conseguia achar certo que uma amizade fizesse tão mal, não era assim que deveria funcionar e ela suspirou ao pensar nisso.
- Obrigada, Brubs. – parou de buscar suas chaves na bolsa para agradecer a amiga do outro lado da linha, esperando que ela pudesse sentir toda a gratidão que existia em suas palavras. Que ela conseguisse entender o quão importante vinha sendo e ficou satisfeita quando pode notar o sorriso dela junto com as palavras que proferiu em seguida:
- Você não precisa agradecer. – disse ela, tão gentil como sempre havia sido. – Pode me procurar sempre que precisar.
- Precisamos nos procurar para sair mais. – brincou, voltando a equilibrar o celular no ombro para caçar a chaves que ela não tinha ideia de onde havia enfiado. Não que fosse uma novidade essa coisa de perder objetos no buraco negro que chamava de bolsa.
- Com certeza estamos precisando. – a outra falou, rindo, e se permitiu fazer o mesmo, sentindo-se bem pela primeira vez depois de dias chorando por .
- Sábado. – agendou, ciente que se deixassem para marcar depois, marcariam apenas de marcar e nunca se encontrariam. Eram preguiçosas demais e acomodadas demais para sair de casa e como se pensasse no mesmo que ela, riu do outro lado da linha, concordando em seguida:
- Sábado a noite e não sairemos desacompanhadas. – complementou e não pode negar que estava precisando daquilo também.
- Perfeito. – sorriu, fazendo uma careta em seguida para as chaves que ainda não havia encontrado. O jeito seria esvaziar a bolsa inteira, mas não teria como fazê-lo enquanto falava ao telefone. – Estamos combinadas, mas agora eu tenho que desligar ou nunca mais entro em casa.
Mais do que acostumada com aquele tipo de coisa, riu, entendendo perfeitamente ao que a outra se referia. Se despediram para que pudessem desligar, permitindo que finalmente tirasse a bolsa de seu ombro. Estava prestes a se abaixar no chão para virá-la ali, por mais deselegante que fosse, quando ouviu o tilintar familiar do seu chaveiro, deixando o queixo cair ao erguer os olhos e notar o rapaz de pé diante dela, com suas chaves na mão.
Fazia três anos que ele havia ido embora, pouco mais de um ano que não o via pessoalmente e três semanas que não se falavam e então ele estava ali, parado de frente para ela como em uma miragem. O mesmo do qual se lembrava, como se nunca tivesse partido. Apenas pequenas diferenças. Diferenças sutis demais para que outra pessoa reparasse. Os cabelos permaneciam no mesmo cumprimento da última vez, embora o penteado fosse diferente, agora ele jogava o cabelo para o lado e ela não pode deixar de notar que ficava mais atraente daquela forma. Sua postura parecia mais ereta, como se ele estivesse mais confiante, decidido. Quase fazendo com que parecesse mais alto. O jeans que ele usava, já não era mais tão justo como antes, e nem vinha acompanhado dos rasgos no joelho dos quais ela se lembrava. Os rasgos que apareciam sempre que ele caia de skate, mas que insistia em dizer que era apenas moda. A camiseta branca, agora se tornara uma camisa social de botões, mas o all star de cano alto ainda estava em seus pés e o sorriso que lançou a ela encheu seus olhos de lágrimas.
Não havia qualquer mudança naquela sorriso, ou na covinha que surgiu junto com ele. Aquilo não havia mudado e ela desejou, mais do que tudo, simplesmente correr para seus braços, segurá-lo com força enquanto chorava em seu peito toda a saudade que sentiu dele durante aquele tempo, mas não o fez. Não dessa vez.
Era aquilo que ele fazia, não era a primeira vez. estava sempre indo e vindo, mas dessa vez ela estava preparada, finalmente, e se viu orgulhosa de si mesma pela armadura que havia criado ao seu redor, mesmo que fosse horrível se dar conta de que havia sido necessário erguê-la contra seu melhor amigo e, provavelmente, a pessoa que mais amava na vida.
- O que... O que está fazendo aqui? – ela perguntou simplesmente, e viu o sorriso dele morrer por aquela reação.
Tudo bem, tê-lo ali também não era exatamente o que ela esperava, então estavam quites e igualmente surpresos.
- Você não atendia mais minhas ligações. – ele respondeu, como se fosse óbvio, mas o motivo parecia ainda mais obvio para ela.
- Porque eu não queria mais falar com você. – explicou, perplexa demais com a visita para soar rude. - Eu te disse isso, eu pedi por isso.
- Eu não podia só deixar que me afastasse. Não acredito que realmente acreditou que eu deixaria.
- Você deixou, . – ela respondeu. – Não consegue ver que deixou? Que foi por isso que eu decidi me afastar? Você não consegue ver o quanto me magoou? Ou que o fato de não conseguir ver só prova que não somos mais os mesmos?
- Eu vi, por isso voltei. – ele insistiu, mas ela negou com a cabeça.
- Não voltou. Você nunca vai ser capaz de voltar porque esse não é o seu lugar, é o meu.
- Vou ficar, por você.
- Não vai. – o interrompeu rapidamente. – Seria infeliz se tentasse e não quero isso. Quero que viva a sua vida e me deixe viver a minha. Vai embora, . Por favor. – pediu, virando-se novamente para a porta e só depois lembrando-se que só não havia entrado em casa ainda porque tinha perdido as chaves. As mesmas que ele havia encontrado e praguejou por isso audivelmente. Precisava se esconder em casa para que ele não visse as lágrimas escapando sem controle dos seus olhos e preocupada em limpá-las, sequer notou que ele se aproximava até ser tarde demais.
a abraçou por trás, envolvendo-a pela cintura e ela até desejou afastá-lo, mas se viu incapaz de fazê-lo. Não quando sentiu novamente seu calor depois de tanto tempo. Não depois de se dar conta do quanto precisava daquilo, dele, e mais uma vez se odiou por ser tão fraca.
- Eu não quero me afastar de você. Não me peça isso, por favor. – ele implorou, segurando-a com mais força enquanto escondia o rosto em seus cabelos. – Eu sei que agi errado, especialmente agora, eu sei. Essas semanas foram uma tortura, saber que não queria mais falar comigo, saber que te magoei, e eu sabia. Claro que sabia. Me desculpa, por favor. Me perdoa, . Me deixa ficar. Não vou prometer que vai ser para sempre, que eu nunca mais vou embora, mas prometo que não vou deixar nada ficar em nós novamente, nem mesmo eu. Principalmente eu. Por favor.
As lágrimas escorriam sem pudor por seu rosto após as falas dele. Ela podia sentir, também chorava e aquilo partiu seu coração muito mais do que gostaria de admitir, mas apesar disso, ela não conseguiu acreditar em suas palavras. Queria que fosse verdade, mas não conseguia mais acreditar e limitou-se em concordar com a cabeça, decidindo lhe dar mais uma chance em respeito a tudo que já haviam sido um dia.
A ideia era estúpida em todos os sentidos possíveis, mas via de forma positiva aquela resistência que havia criado a acreditar nele, ou que tudo podia voltar a ser como era. Desejava que as coisas entre os dois funcionasse dessa vez, mas se não acontecesse, ela se manteria em pé. Não deixaria que ele a destruísse novamente. Não mais.

+++


empurrou para longe com um dos pés, entre risos, mas ele não teve nenhuma dificuldade em interromper o gesto, lhe segurando pelo tornozelo e a puxando para si. Com um gritinho, ela se agarrou a vasilha de pipoca para não derrubar tudo sobre si mesma, como se a vida dependesse disso, e ele riu também, inclinando-se para roubar uma pipoca em provocação.
Em resposta, ela assoprou seu ouvido, mal notando a proximidade dos dois até se apoiar com uma das mãos ao seu lado pra não cair sobre ela. estava deitada sobre o sofá, com os cabelos esparramados pelos lados e ambas as pernas sobre seu colo enquanto um filme qualquer passava no Netflix. Nenhum dos dois sabia qual escolher e na tentativa de serem justos com um sorteio, terminaram no pior possível. Agora, como consequência, nenhum deles prestava atenção. Não que ela estivesse incomodada, de forma nenhuma, embora talvez devesse estar. Fazia dois meses que estava de volta. Já havia alugado um apartamento e ela estava tentando, a todo custo, não abaixar a guarda novamente. Tentando aproveitar cada segundo antes que virasse outra tragédia, mas no fundo desconfiava de que a merda já estava feita. Ela provavelmente cairia se ele decidisse partir novamente, contrariando tudo que havia decidido quando ele voltou.
Havia pipoca espalhada por toda a sua sala e ela nem se importava em limpar tudo depois desde que pudessem continuar daquela forma, bem, independente do que aquilo fazia com seu coração já não mais acostumado a fingir que não sentia nada por ele além de amizade. E ela morria de medo que ele percebesse, que aquilo os destruísse quando finalmente o tinha de volta, ou que ele fosse embora novamente por não correspondê-la.
Parecendo alheio a tudo, como sempre, apenas olhou feio e ela lhe mostrou a língua por isso, tendo que escondê-la novamente, as pressas, quando ele tentou segurá-la. Aproveitando-se da distração quando ela virou o rosto, roubou a bacia de pipoca e a garota se sentou imediatamente para ter de volta, por pouco não terminando em seu colo para isso.
Mas dessa vez, ela também não notou.
- Você lembra que fui eu que fiz essa pipoca, não lembra? – ele perguntou, tentando tirar a bacia do seu campo de alcance e ela se inclinou na direção dela como uma criança, de braços abertos, o fazendo rir novamente pela atitude enquanto pegava mais uma pipoca, a enfiando na boca sem que ela pudesse alcançá-lo.
- E você lembra que quem comprou essa pipoca foi eu? – ela retrucou exasperada, fingindo uma irritação que claramente não existia, muito pelo contrário. Aquele tipo de implicância estúpida era exatamente o que lhe aquecia por dentro. Pequenos momentos com ele, como aquele, era tudo o que ela desejava na maior parte do tempo, mas isso não lhe impediu de permanecer emburrada para insistir na pirraça. – Também sou eu que pago esse Netflix e foi eu que escolhi esse filme!
- Um péssimo filme, devemos acrescentar. – ele respondeu entre risos e ela bufou por isso. Não que esperasse algo diferente.
- Você está fugindo totalmente do foco! – protestou e ele bagunçou os seus cabeços sem levá-la a sério, embora soubesse que aquilo realmente a irritava, de verdade. Não que ele ligasse. Irritá-la de verdade também era uma das coisas que ele gostava de fazer. – , argh! – ela reclamou e, como prova, o rapaz apenas riu, pegando um único grão de pipoca na bacia para estender para ela que lhe encarou desconfiada.
- O quê? – perguntou, como se não fosse totalmente a cara dele colocar a pipoca na própria boca quando ela abrisse a dela e a garota lhe encarou de forma irônica por isso. Ele deu de ombros. – Okay, se não quer... – falou e ela abriu a boca, o fazendo rir antes de dar a pipoca a ela, que sorriu satisfeita enquanto mastigava. Assim que terminou, abriu a boca novamente e ele ergueu uma sobrancelha em sua direção. – Não acha que está muito folgada não? – perguntou, gesticulando em sua direção.
Ela estava praticamente sentada em seu colo mesmo com um enorme espaço atrás de si no sofá, os pés sobre ele e ainda por cima recebendo comida na boca. Ela corou ao notar e ele riu, recebendo um empurrão por isso. Aquela era outra coisa que ela detestava quando ele fazia: Rir quando ela corava. Sabia que, na sua cabeça, ele a comparava como uma criança quando fazia isso. Era exatamente o mesmo motivo pelo qual bagunçava seus cabeços, mas ela não ficaria bem na sua estante e nem queria ficar, embora soubesse, no fundo, que colaborava para isso.
Ele não a via como mulher, somente como amiga e talvez até como uma irmã, mas ela sabia que, quanto a isso, a atitude que faltava era dela em mudar a situação. Ela só tinha medo porque o conhecia bem o suficiente para saber que era arriscado. O risco de não ser correspondida, o dele ir embora depois, ou os dois.
- A culpa é sua. Só queria a minha pipoca. – respondeu frustrada, não conseguindo esconder muito bem seu descontentamento e ele imitou o bico que ela havia formado com os lábios, a fazendo bufar. – Me dá a bacia e eu vou para o outro sofá. – sorriu largamente, tentando conter os pensamentos desnecessários se formando em sua mente. Não deveria pensar nele daquela forma. Era , seu melhor amigo e apenas isso.
- Você quer levar a minha pipoca! – ele devolveu de forma exagerada e ela deixou o queixo cair.
- Fui eu que comprei! – protestou e ele lhe encarou como se perguntasse de que aquilo importava.
- Foi eu que fiz! – respondeu, como se aquilo fosse realmente mais importante exceto que, bom, não era.
- Eu teria feito se você não tivesse me mandado escolher o filme!
- O que você não fez, alias. – respondeu ele, entre risos, enquanto pegava mais algumas pipocas para levar até a boca. – Eu fiz a minha parte.
- ! – reclamou, erguendo-se para se jogar sobre ele que não conseguiu contê-la devido a ação repentina. Tudo que fez foi tentar afastar a bacia para que não caísse, inclinando o corpo para trás, mas com o peso de ambos o sofá fez menção de virar e ele precisou soltar a bacia para segurá-la antes que caísse para trás. A pipoca voou para todos os lados e ambos riram no primeiro instante, levando alguns segundos para se darem conta da posição em que terminaram. lhe segurava com firmeza contra o peito, cada uma de suas pernas, ao redor do quadril dele e mais uma vez naquela noite, ela corou, sentindo coisas demais para que pudesse ignorar.
O frio na barriga, a respiração dele em seu rosto, o coração acelerado, o toque dele em sua pele onde a blusa havia subido minimamente.
Ela precisava daquilo, dele, e sem conseguir pensar em nenhuma outra coisa, ela simplesmente cobriu a distância de seus lábios, dando o primeiro passo que ela, por milhões de vezes, o imaginou dando, mas não saberia dizer se teria seguido adiante se ele não correspondesse de imediato como ocorreu, imiscuindo os dedos em seus cabelos enquanto entreabria os lábios para ela, permitindo que aprofundassem o beijo.
não tinha ideia de onde havia surgido aquela coragem, mas ficou satisfeita por ter surgido. Poder sentir o sabor de seus lábios movendo-se lentamente contra os dela era tudo o que havia desejado por muito tempo e quis ter mais dele, dos seus lábios em perfeita sincronia com os dela. Beijá-lo até que perdessem o ar simplesmente porque estava apaixonada por ele desde que aquela amizade começou, na infância.
Ela subiu uma das mãos para sua nuca, arranhando a região e soltou o ar contra seus lábios por um instante, lhe puxando para mais perto. Sentiu seu corpo esquentar com a proximidade, mas antes que iniciassem um novo beijo, no entanto, ele se afastou, respirando da mesma forma ofegante que ela enquanto colava suas testas sem dizer nenhuma palavra.
Foi naquele momento, naquele pequeno momento, que ela sentiu o medo voltar, como se pudesse prever que havia algo de errado.
- Me desculpa. – ele sussurrou e ela fechou os olhos com mais força, ciente de que ele não falava sobre o beijo. Mesmo que fosse, ela imaginou que não se sentiria tão mal pois só existia mais uma coisa que podia significar e doía mais que a rejeição. – Eu estava procurando um jeito de te contar que...
- Por favor, não diz. – ela respondeu no mesmo tom, apertando os dedos contra sua camisa. – ...
- Eu preciso ir. – ela verbalizou mesmo assim, mesmo depois do seu pedido, mesmo depois de terem se beijado, e ela precisou dar tudo de si para conter as lágrimas.
Mais uma vez, ele a fazia chorar e mais uma vez a culpa era dela por deixar acontecer. Ele nunca prometeu ficar, e ela sempre soube que ficar ia contra tudo o que ele era. Já deveria saber que aconteceria, ter se precavido e simplesmente se levantou, recusando-se a insistir naquele assunto. Não fazia sentido.
Não podia e nem iria pedir que ele ficasse e apenas limpou a lágrima solitária que escorreu por sua bochecha, temendo que, com o beijo, tivesse também acabado com o que restava da amizade dos dois.
- Quando? – ela perguntou simplesmente, longe o suficiente dele para ser capaz de pensar com clareza e o viu morder o lábio inferior, incerto.
- Meu vôo... Ele sai... – vacilou e aquilo foi resposta o suficiente para ela. Já estava tudo planejado e ele havia decidido enrolar para contar, simplesmente. Se por medo ou para postergar a despedida, ela não sabia, mas machucava de qualquer forma, mais do que se ele tivesse contado desde o início, ao decidir que precisava ir. – Sai amanhã, . – completou e ela apenas meneou positivamente com a cabeça.
Não tinha porque brigar por aquilo, tampouco tinha como impedí-lo. Era aquilo que ele fazia, sempre indo e vindo. Não podia mudá-lo. Precisava mudar a si mesma, deixá-lo para trás para seguir a própria vida. Só esperava dele um pouco de consideração para contar antes que fosse tarde. Antes que ela tivesse feito exatamente o que havia feito.
- Obrigada por ter sido honesto, compartilhado isso comigo. – falou, sem conseguir conter a acidez na sua voz ou o bolo na garganta.
- ... – ele se levantou, mas ela negou com a cabeça, dando um passo para trás enquanto tentava se manter firme, mesmo prestes a desabar.
- Vai embora, por favor. – pediu. Precisava de um tempo para processar o que havia acontecido, para não agir como uma idiota, não mais do que já havia feito, mas ele não se moveu. – Não quero mais te ver por hoje, vai embora.
- Não acha que precisamos conversar sobre o que aconteceu? – perguntou e ela negou. Não conseguiria falar sobre aquilo com o sabor do seu beijo ainda tão claro em sua mente.
- Não aconteceu nada. – respondeu, mas ele não vacilou.
- Nos beijamos.
- Isso não muda nada, muda? – questionou, com lágrimas nos olhos. – Você ainda vai embora e ainda manteremos nossa amizade a distância. Não sei porque precisamos falar sobre isso.
- Amigos não se beijam. – ele explicou e, por mais que doesse, não podia contestar aquela parte. Por isso era tão terrível.
- Talvez eu não quisesse só a sua amizade, mas isso não importa de qualquer forma. – respondeu, e viu o espanto passar por sua face, o que só a fez se sentir pior.
- ... – ele tentou se aproximar novamente, mas ela voltou a se afastar.
- Preciso ficar sozinha. – pediu, sem conseguir reunir coragem para lhe encarar novamente. – Se não sair, eu saio.
- Eu não quero sair. – tentou mais um passo, fazendo-a recuar dois. – , vamos conversar. – insistiu em súplica, mas tudo o que ela fez foi dar as costas, vendo tudo passar diante de seus olhos em câmera lenta enquanto se aproximava da porta, disposta a correr para longe.
Precisava daquela noite se pretendia se despedir dele. Precisava daquele tempo para decidir se valia a pena insistir naquela amizade, ou deixá-lo ir de uma vez.

+++


Ela não sabia para onde estava indo até chegar na praça. Nunca havia sido sua intenção, de qualquer forma, ir até lá. A única coisa que queria era distância de e daquilo tudo. Queria não amá-lo da forma que amava, queria não sentir o que sentia. Queria que apenas a amizade dele bastasse e queria conseguir conviver com isso, com suas idas e vindas sem se magoar. Era assim que uma amizade deveria funcionar, manter-se firme independente da distância, independente da falta de contato e ela sabia que a culpa de não suportar aquilo era dela, não dele.
Cobrava de mais do que uma amiga deveria cobrar. Sentir saudade era normal, mas desejar que ele se privasse de seus sonhos para ficar com ela, não. E ela queria ser capaz de fazer seu coração entender isso, que ele não era dela e que não estava sendo cruel em agir da forma que agia.
Mas, infelizmente, saber de tudo isso não mudava o que ela sentia, não fazia com que fosse mais fácil saber que ele, mais uma vez, ia embora e por isso chorou durante todo o caminho até desistir de andar, sentando-se em um dos bancos enquanto as lágrimas escorriam.
Como era de se esperar, as pessoas passaram por ela olhando estranho. Algumas até mesmo preocupadas, mas ela não se importou com nada disso. Estava tudo bem desde que ninguém tentasse aproximação.
Só queria ficar sozinha, sofrer sozinha pela própria estupidez. A de amar o melhor amigo e agora por ter feito pior e, além de tê-lo beijado, ter também de declarado. Era tudo que ela não precisava, definitivamente e ela acabou rindo entre as lágrimas, o que só a fez chorar ainda mais em seguida, olhando para baixo para que ninguém pudesse ver seus olhos vermelhos.
Viu um par de pés de aproximar, os mesmos all stars que costumava usar e, por um instante, teve esperanças. Sentiu-se ridícula por isso tão rápido quanto a sensação veio, afinal, ele tentou conversar e ela fugiu. Pareceu uma boa ideia na hora, mas ela já não sabia mais o que era, exatamente, uma boa ideia.
Duvidava que qualquer uma que ela tivesse fosse boa na verdade. Já tinha cometido toda a sua dose de erros com para uma vida toda. Não que ele fosse perfeito, ou o melhor amigo do mundo, mas ela sabia que aquilo não seria um problema se ela conseguisse vê-lo somente como o amigo que ele deveria ser.
Tentou respirar fundo, parar de chorar pelo menos, mas somente o fez quando o par de all star chegou perto demais, erguendo o olhar para visualizar o dono que, mais de perto, pode ter certeza que não era . Ele costumava usar pares mais surrados e esses eram praticamente novos.
Como se não a visse ali de verdade, o rapaz apenas se sentou no banco ao seu lado, apoiando seus cotovelos nos joelhos ao se inclinar para frente sem dizer uma só palavra, olhando para um canto qualquer a frente enquanto ela fungava, o analisando de canto de olho de forma questionadora.
Ele usava um jeans de lavagem clara, um suéter branco assim como os tênis e um blazer bege que deixava toda a combinação elegante, mesmo com os all stars. Provavelmente acabara de sair de algum evento importante, seus cabelos estavam perfeitamente arrumados em um topete muito bem esculpido, mas seus olhos, expressivos demais, denunciavam que ele também não estava tendo uma boa noite.
Se perguntou o que ele estava fazendo ali, porque havia sentado ao seu lado e se encolheu para a ponta do banco, colocando uma maior distância entre os dois muito mais incomodada por ter alguém por perto para vê-la chorar do que por medo ou desconfiança apesar de já ser tão tarde.
Apesar da tristeza em seu olhar, o rapaz parecia calmo de certa forma. Como se nada fosse capaz de irritá-lo, apesar de estar magoado.
- É o único banco vazio. – ele se justificou e só então ela se deu conta de que ainda o analisava, desviando o olhar para um ponto qualquer o mais rápido que pode. Não fazia diferença, já havia sido pega, mas o fez mesmo assim, limpando o restante das lágrimas que haviam parado de cair quando ela finalmente conseguiu focar em outra coisa. No caso, no estranho de olhos tristes. – Posso ir embora se estiver incomodando. – falou de forma suave, mas ela negou com a cabeça. Preferia sim ficar sozinha, mas a praça ainda era pública e tudo o que ela fez foi cruzar os braços, abraçando a si mesma enquanto olhava para o lado oposto ao que ele estava, tentando ignorar sua presença ali.
Alguns adolescentes cantavam em uma rodinha pouco mais a frente, um deles com um violão no colo enquanto tocava para os outros. Todos riam de forma divertida, aproveitando a noite estrelada e o céu limpo, mas ela não conseguiu conter a melancolia que aquilo lhe trouxe, lembrar da sua adolescência quando as coisas ainda eram aparentemente normais apesar de seus sentimentos.
O estranho se moveu ao seu lado e, instintivamente, ela voltou a encará-lo, o fazendo em tempo de vê-lo limpar uma lágrima. Acabou constrangida por isso, como se tivesse, de alguma forma, invadido sua privacidade, um momento íntimo e voltou-se para o grupo de adolescentes rapidamente, decidindo que não era a única precisando de espaço.
- Desculpa. – ele pediu e ela olhou em sua direção, negando novamente com a cabeça sem enxergar qualquer motivo para o pedido. Não era da sua conta, de forma alguma, mas ele não parecia se importar com isso, deslizando um pouco mais para a frente antes de jogar a cabeça para trás, olhando as estrelas. – Eu costumo vir aqui quando quero parar de pensar, mas não parece estar dando muito certo hoje. – ele sorriu sem nenhum humor e ela não soube exatamente o que responder, ou se deveria, na verdade. Ele soava melancólico, quase como se falasse com si mesmo, mas ela o agradeceu mentalmente por conseguir desviar sua atenção para outra coisa, para ele, no caso, apenas pela curiosidade sobre o que poderia tê-lo deixado naquela forma.
Era mais fácil se preocupar com os problemas de outras pessoas afinal, quando não precisava realmente lidar com eles.
- Normalmente, quando as pessoas escolhem ficar sozinhas é para pensar. – ela respondeu e ele lhe encarou, sem trocar de posição.
- E remoer o que está te incomodando? – ele perguntou, soando confuso. – Quem faz isso?
Ela riu sem que pudesse se conter. Não era uma risada feliz, era muito mais amarga e irônica e imaginou que ele entenderia o recado. Estava bem explicito, mesmo que agora, parando para pensar, ela também não visse muito sentido. Remoer foi o que sempre fez e nunca ajudou em nada. Não via porque ajudaria agora, mas não era como se ela pudesse simplesmente evitar, por mais que quisesse.
- Você ficaria surpreso. – respondeu, imitando sua posição para jogar a cabeça para trás no banco, olhando para a noite sobre suas cabeças.
Sentiu o olhar dele sobre si por mais alguns instantes, mas a presença dele já não incomodava mais e ela fechou os olhos, tentando parar de pensar como o outro sugeriu de fazer. Esquecer por alguns minutos.
Não era justo o que fazia com si mesma, dedicando-se a um amor que jamais seria retribuído da forma como gostaria e levou alguns segundos para se dar conta de que, só aquele pensamento, já a fazia voltar para . Acabou bufando por isso, inconformada por ser tão ruim nessa coisa de esvaziar a mente.
- Um dia ruim? – o rapaz lhe chamou a atenção novamente quando ela sentou, cruzando as pernas em posição de índio sobre o banco e dessa vez ela não conseguiu conter o olhar sarcástico em sua direção. Era óbvio que sim, afinal, e acabou recebendo como retorno o esboço de um sorriso. Um esboço mínimo, um ligeiro curvar do canto dos seus lábios, mas um sorriso ainda assim que a fez se sentir um pouquinho melhor só por saber que havia causado aquilo em alguém parecendo tão quebrado quanto ela. – Desculpa. – pediu novamente, sem desviar o olhar do seu. – Falar estava surtindo um efeito melhor do que olhar pra cima.
- É o que normalmente fazem quando querem distrair a mente. – respondeu, sugestiva, e o ligeiro sorriso apareceu novamente quando ele concordou.
- Funciona.
- Funciona. – ela repetiu, tentando sorrir também, mas acabou por apenas desviar o olhar, constrangendo-se com a atenção sem que pudesse evitar. Gostava do seu olhar, mesmo parecendo tão triste. Gostava da atenção que ele focava nela, como se nada mais existisse. Imaginava que o fazia na esperança de se focar em qualquer outra coisa que não a sua dor, mas ela gostava. Era, de certa forma, curioso, como se ele pudesse dizer qualquer coisa só com um olhar. – Perdeu alguém? – ela perguntou de uma vez, não conseguindo pensar em nenhum outro assunto aleatório e de canto de olho, o viu ficar tenso, amaldiçoando-se pela intromissão. – Desculpa, você não tem que responder. – pediu, verdadeiramente culpada. Era obvio que falar de seus problemas não surtiria o efeito certo nessa coisa de distrair a mente e ela fez uma careta para si mesma, odiando-se um pouco mais de repente. – Eu... Acho melhor eu ir. – falou rapidamente, levantando-se, e só então o rapaz se moveu, sentando-se no banco novamente.
- Não, fica. – pediu suavemente e ela parou onde estava antes de se afastar. – É melhor ter companhia.
se virou novamente para ele, incerta, mas lá estavam aqueles olhos outra vez, lhe impedindo de negar. Acabara de conhecê-lo, um estranho na praça, e não parecia muito inteligente lhe dar tanta atenção, mas concordou ainda assim, voltando até o banco um tanto quanto relutante antes de se sentar, vendo-o guardar as mãos nos bolsos do blazer parecendo tão sem jeito quanto ela após o pedido.
Mas a verdade era que ela preferia ficar lá a ir para a casa. Seriam lembranças demais lá agora, isso se não estivesse esperando por ela e ainda não queria vê-lo, de verdade.
- Desculpa. – ela pediu novamente e ele apenas concordou, levando alguns segundos antes de voltar a falar:
- Você está certa, de qualquer forma. – respondeu por fim, mas não precisou entrar em mais detalhes para que ela entendesse, mesmo que existisse diversas formas de se perder alguém.
- Sinto muito. Eu sei como é. – respondeu, deixando o olhar cair para suas próprias mãos, só então dando-se conta do quão geladas elas estavam. O tempo estava esfriando junto com a noite que caia.
- Perdeu alguém? – ele perguntou também, em um sussurro incerto enquanto a observava e ela concordou.
- Um amigo, eu acho. – justificou, mantendo o mesmo tom de voz que ele havia usado no caso da sua falhar.
- Ele não era só um amigo pra você. – afirmou sem dificuldade de deduzir o restante da história e ela concordou com a cabeça, também não vendo um motivo para negar. – Essas coisas de coração são uma droga. – reclamou e ela, por pior que se sentisse especialmente por falar sobre , acabou rindo.
- A maior droga do mundo. - ela respondeu, virando-se para encará-lo e ficou satisfeita em ver um sorriso em seu rosto. Um menos contido. Um sorriso significante o suficiente para trazer o brilho de volta para seus olhos e ela adorou ver aquilo. A forma como seu rosto se iluminava e corou ao se dar conta do quão bonito ele era. Chegava até mesmo a ser ridículo que ela não tivesse notado ainda, na verdade, mas por sorte, ou não, uma brisa gelada irrompeu a noite, fazendo com que seus cabelos se agitassem e a garota se encolhesse com frio, decidindo que, apesar de ter voltado, já era sim hora de ir. – Está ficando tarde. – ela insistiu, voltando a se levantar e ele fez o mesmo dessa vez, tirando seu blazer para colocá-lo sobre os ombros dela. – Não precisa. – tentou negar, mas ele meneou negativamente com a cabeça.
- Eu tenho outra. – falou, erguendo um dos braços para mostrar o suéter e ela sorriu sem jeito.
- Não pode me emprestar sua blusa agora que eu estou voltando para a casa. – explicou, mas ele apenas sorriu, fazendo-a corar novamente. Se perguntou, inevitavelmente, se coraria sempre que o visse sorrir, mas logo que o pensamento lhe ocorreu se deu conta de que, muito provavelmente, não teria outra chance de vê-lo novamente, mesmo que quisesse.
E secretamente ela queria. Por mais imprudente que fosse.
- Mas eu posso te acompanhar até em casa para rever minha blusa. – sugeriu e ela mordeu o lábio inferior, relutante especialmente por gostar da ideia. Sentia-se aconchegada com o blazer dele sobre seus ombros, macios e com o mesmo aroma agradável que ele exalava.
- Eu nem te conheço. – ela falou em um fio de voz e ele ergueu uma sobrancelha em sua direção.
- É por isso? Por que eu também não te conheço e estou me oferecendo. – respondeu, colocando as mãos nos bolsos para andar ao seu lado quando ela se quer havia notado que começara a andar, aceitando a oferta dele sem dizer nada. – Você pode ser uma serial killer que engana os rapazes que se aproximam.
- Com certeza. – ela brincou. - Eu venho chorar nessa praça todos os dias só por isso.
- Ah, eu imaginei, mas foi mais forte que eu. Preferi correr o risco. – devolveu, fazendo-a sorrir novamente ao lhe encarar.
Ela não acreditava, de verdade, que o encontro dos dois havia sido premeditado, mas já havia se iludido tantas vezes que, por via das dúvidas, optou por seguir até o apartamento de que ficava há duas quadras dali, em frente a avenida, e somente quando chegou se deu conta de que não queria, de verdade, que ele fosse embora. Mesmo em silêncio, sua companhia era agradável, como se palavras não fossem necessárias e acabou não dizendo nada quando parou em seu destino, tirando o blazer de seus ombros para devolvê-lo.
- Obrigada. – sorriu enquanto ele aceitava a peça, mas o viu vacilar um tanto quanto incerto em seguida, como se pensasse em como reagir quanto a despedida.
- Se eu te deixar com a blusa, posso usar isso como justificativa pra te ver de novo? – perguntou, direto, mas ela negou com a cabeça apesar do sorriso tímido que brotou em seus lábios. – Desculpa. – ele pediu, parecendo envergonhado com a própria investida e ela não pode deixar de notar que ele se desculpava muitas vezes, em uma insegurança que chegava a ser bonitinha especialmente depois do que ele acabara de perguntar. – Posso saber o seu nome?
- É . – contou, vendo-o sorrir ao repetí-lo.
- . – ele estendeu a mão e ela aceitou em cumprimento, sentindo a pele macia dele entrar em contato com a sua, aquecendo sua mão gelada devido ao tempo. – Agora você me conhece. – tentou, a fazendo rir mais uma vez.
- Não tenho certeza que funciona assim. – respondeu sorrindo, mas ele não pareceu se importar com a recusa. Tampouco soltou sua mão, mas não a incomodava de verdade. Ela até gostava.
- Obrigada pela noite. – disse por fim, só então voltando a ficar sério e, lentamente, soltou sua mão. - Estava sendo uma péssima noite. – confessou enquanto ela sentia o calor que ele havia transmitido, se esvair.
- Posso dizer o mesmo. – respondeu, verdadeiramente grata a ele por isso. Mais uma vez, relutou em entrar, mas estava tarde, e frio. lhe mataria por tirá-la da cama e quanto antes o fizesse, melhor. Olhou para o porteiro já conhecido e aquilo bastou para que o homem destravasse o portão para ela, que parou ali o segurando aberto. – Tenho que subir. – disse, dando alguns passos para trás, de costas, e o rapaz apenas concordou sem dizer mais nada, esperando que subisse.
Incerta, ela mordeu o lábio inferior, fechando o portão entre eles antes de dar as costas para entrar enquanto se perguntava se deveria voltar, mesmo que fosse para passar seu telefone, pedir que ele ligasse.
Sabia que, assim que estivesse sozinha, tomaria todos os seus pensamentos. Ele sempre tomava e ela provavelmente choraria durante toda a noite, mas pela primeira vez em tempo demais, foi capaz de se sentir bem com outro rapaz, um que a fizera sorrir mesmo sabendo que no dia seguinte iria embora e se perguntou se não era muita estupidez deixá-lo ir. Uma ainda maior do que deixá-lo se aproximar, levando-se em consideração que não o conhecia.
Já estava nas escadas quando se deu conta de que não podia deixá-lo ir.
Prudência nunca a levara a lugar nenhum. Sua prudência a fizera se apaixonar pelo melhor amigo, a única pessoa em quem ela achava que devia confiar. Estava na hora de dar um passo adiante, mesmo que fosse para aprender algo com seus erros e parou onde estava por um instante ao invés de entrar.
- ! – o ouviu chamar e virou-se imediatamente, sorrindo ao se deparar com ele ainda no portão.
- Você não pediu meu telefone. – falou por ele e o rapaz riu, meneando com a cabeça.
- Eu não pedi seu telefone. – confirmou enquanto ela se aproximava novamente. – Por isso é sempre bom confiar no casaco para ter um motivo pra voltar. – brincou e ela sorriu.
- Você se saiu bem sem isso. – respondeu e o viu sorrir em retorno, tirando o celular do bolso da calça para estendê-lo a ela.
- É porque eu nem cheguei a ir pra voltar. – explicou, a fazendo corar enquanto aceitava o aparelho.
Naquela noite, antes de ir, ele prometeu ligar e ela não duvidou que o faria nem por um instante. Não sabia o que era, ou de onde havia surgido, mas teve esse pressentimento sobre ele, esse bom pressentimento que lhe obrigou a ficar ali, esperando que ele se afastasse antes de finalmente subir para o apartamento, finalizando a noite.

+++


não sentia nada quando abriu os olhos no dia seguinte, mesmo lembrando-se imediatamente de cada detalhe do dia anterior. Do beijo que retribuiu, da discussão que tiveram depois, de saber que ele estava indo embora novamente e de , que de alguma forma acabou incluso em seus pensamentos também.
Como o esperado, todo o efeito que o rapaz havia causado nela se esvaiu assim que se viu sozinha, antes mesmo de bater na porta de . E depois disso, bastou um abraço para que ela voltasse a chorar.
estava indo embora outra vez e agora ela sabia que tudo ia mudar. Era inevitável, ele sabia o que ela sentia e sobrou para a tarefa de consolá-la.
Seria o que tivesse que ser e agora ele sabia o que ela sentia. Agora ele podia tomar alguma atitude se quisesse tomar. Era agora que ela saberia o que significava de verdade para ele, mas só sentiu ainda mais medo por isso. O dobro de expectativa, e quando abriu os olhos, não sentiu nada simplesmente porque já havia sentido coisas demais. Já havia chorado demais e seu corpo parecia ter entrado em um estado de inércia do qual ela nem mesmo conseguia reclamar.
Não sentir nada era bom. Ela nem lembrava o que era não sentir nada, mas durou tão pouco tempo que ela se quer saberia dizer se não havia simplesmente sonhado. Seu telefone vibrou ao lado com uma nova mensagem e por um instante, ela apenas fechou os olhos. Não queria sair daquele estado tão bom de entorpecência, não queria saber quem lhe chamava, ela só queria ficar na cama, rezar para que o tempo parasse de passar para que não tivesse que se despedir de ou, pior, lidar com as consequências do que havia feito.
Estava quase voltando a dormir quando o celular vibrou novamente, mas dessa vez , que dormia ao seu lado, resmungou e ela não achou justo incomodar a amiga que lhe acolhera. Suspirando decepcionada, tomou coragem para se esticar sobre a cama para pegar o aparelho e gemeu preocupada quando viu o nome de no visor.
Deveria ter desligado o celular, definitivamente, mas visto que já era tarde demais, desbloqueou de uma vez a tela, respirando fundo para ler o que ele tinha a dizer. Havia cerca de cem mensagens só dele, desde o dia anterior. No geral, mensagens preocupadas pela hora que havia decidido sair, pela forma transtornada como o fizera. Lhe pediu diversas vezes para voltar, depois para dizer onde havia ido, pois iria buscá-la. Sentiu muito por deixá-lo preocupado, mas havia sido uma fuga necessária.
leu todas as mensagens do dia anterior sem respondê-las. Nenhuma delas falava sobre sua partida ou sobre o que havia acontecido entre eles e ela não sabia se deveria ficar feliz ou decepcionada por isso. Levando-se em consideração o que havia sugerido, sobre descobrir agora o que valia para ele, talvez devesse ficar decepcionada já que o assunto principal havia sido completamente ignorado.
Mais uma vez, ela quis chorar, mas apenas continuou lendo, decidindo que talvez aquilo fosse um sinal para que ela desse uma pausa na amizade que mantinham, que exigisse um tempo para si, para se descobrir.
Teve certeza do que deveria fazer quando leu as quatro últimas mensagens que ele lhe enviara. As quatro que lhe deixaram completamente boquiaberta.
Ele havia partido.
Mesmo sem se despedir, mesmo sem saber se ela estava viva depois de fugir tarde da noite. Ele havia partido e ela colocou a mão em frente a boca para conter as lágrimas que inundaram seus olhos imediatamente, despertando que rapidamente passou os braços ao seu redor.
- , o que houve? – perguntou, lhe puxando para seu colo e a outra se aconchegou ali, chorando copiosamente. Passara tempo demais tentando ver o lado de , entendê-lo e agora se perguntava se não havia sido idiota demais.
Tudo bem, ela não tinha o direito de lhe cobrar nada, mas era certo apenas ir embora assim? Ela havia fugido dele quando tentou conversar, sabia que sua viagem já estava marcada para o dia seguinte, mas era certo simplesmente partir, deixando as coisas para trás como estavam?
Ela não sabia dizer, simplesmente, quem estava certo ou errado. Talvez os dois, em partes e formas diferentes. Não podia culpá-lo e nem se deixar culpar, mas isso não fazia com que as feridas doessem menos e por isso chorou, por mais cansada que estivesse de chorar.
- Acho... que não era pra ser no final. – falou por fim, tentando controlar as lágrimas e suspirou sem soltá-la.
- Você pode xingá-lo se quiser. Tem o direito de estar brava.
- Não estou brava. – respondeu, passando as costas das mãos pelas bochechas a fim de parar de chorar. – Eu só... – começou, mas não soube continuar. Não sabia direito o que pensar, na verdade. Ela era como aquelas garotas que se culpavam por tudo o que o cara fazia de errado? Nunca tinha enxergado as coisas dessa forma. sempre foi seu melhor amigo, a relação dos dois só havia mudado quando ele foi embora e pararam de se falar com a mesma frequência de antes, mas isso não anulava todo o resto, anulava? - O que você acha? – perguntou por fim, sentindo necessidade de ter uma resposta. Qualquer coisa, um caminho. Precisava entender quando haviam virado aquilo porque o que ela conhecia nunca iria embora sem se despedir, nunca iria embora sem saber que ela estava segura.
- Eu acho que vocês mudaram. – respondeu, acariciando seus cabelos. – Você amadureceu e só a amizade dele, parou de bastar. Ele seguiu seus sonhos e criou uma nova vida onde você não consegue se encaixar porque não é a sua vida. – disse suavemente. - Eu acho que ele até tenta fazer as coisas certas, por você, mas não sabe mais como agir porque também não é mais o mesmo.
Ouvir aquelas palavras fez com que as lágrimas voltassem aos seus olhos e ela não sabia dizer se porque enxergou nelas a verdade, ou pelo alívio em saber que pelo menos não havia se enganado com ele, apenas errado. Não só ela, ele também, o que lhe tirava, de certa forma, um peso dos seus ombros.
Não deixava nada mais fácil, mas lhe tranquilizava de certa forma.
- Eu o amo. – sussurrou e concordou. Claro que concordaria, aquilo não era uma novidade para ninguém, mas ela queria que não fosse assim.
- Mas está na hora de você se dar uma chance, não acha? Um tempo pra você, pra ele e quem sabe depois disso, não possam voltar a ser amigos. Mas do jeito certo, sem se magoarem. Não deveria ser assim.
- Não. – ela concordou chorosa, fungando uma única vez. – Eu só não consigo deixar de lado que ele não se preocupou em saber se eu estava bem antes de ir. Eu não conseguiria fazer isso sabendo que ele saiu no meio da noite e não voltou. – falou ela e viu sorrir fraco para ela.
- Ele veio aqui ontem, depois que você dormiu. – disse e arregalou os olhos, sentando-se imediatamente. Daquela parte ela não sabia. Daquela parte totalmente importante e encarou enquanto esperava que ela continuasse. - Eu não o defenderia se ele tivesse simplesmente ido embora sem garantir que você estava bem, . – explicou e a outra acabou sorrindo entre as lágrimas.
Sabia que não tinham qualquer chance como casal, mas saber que ele se importava, que não havia se enganado, já era reconfortante. O suficiente para que ela conseguisse pelo menos parar de chorar, independente da tristeza que sentia.
Estava na hora, afinal, de parar de chorar feridas que não se fechavam, não se curavam, porque ela não parava de torturá-las. Ela precisava se reerguer e, de alguma forma, quando seu celular notificou novamente ela sentiu que não era dessa vez, que era outra pessoa. Soube, inclusive, quem era, antes mesmo de pegar o aparelho para constatar que estava certa. queria vê-la e, após responder a que precisava de um tempo sem ele, concordou de se encontrar com o outro rapaz.

+++


não tentava segurar as risadas enquanto caminhavam de mãos dadas pela rodoviária. estava voltando depois de mais dois anos, mas tudo bem. Ela estava bem e se quer conseguia notar a ironia em estar naquele mesmo lugar novamente, sorrindo e não chorando, enquanto esperava a volta do melhor amigo.
E ela sabia qual era seu lugar agora. O seu e o dele, independente do tempo que tenha levado para isso. Conseguia, agora, distanciar a amizade do amor, mesmo que as duas coisas andassem juntas. Havia sido capaz de se encontrar, mesmo o tendo feito com a ajuda de outro alguém.
Os meios não importavam de verdade. O que importava era que ela se sentia totalmente feliz, completa. Que ela havia recuperado sua amizade de anos e que agora sabia lidar com ela da forma como deveria ser.
passou um dos braços por seus ombros quando pararam de andar e ela sorriu para ele, recebendo o mesmo sorriso caloroso em retorno enquanto seus olho se fechavam minimamente com a atitude de forma totalmente adorável.
Gostava daquilo, da maneira como ele era sempre adorável, sempre positivo, sempre sorridente e como todas as vezes que pensava no assunto, se viu grata pela sorte que tivera de encontrá-lo naquele fatídico dia há anos atrás.
Naquele dia, ele havia acabado de descobrir sobre o câncer de seu pai e os médicos lhe deram poucos dias. Quando ela soube, sentiu-se péssima por estar chorando por um coração partido enquanto ele, prestes a perder o pai, conseguira se manter firme, mas o homem se mostrou muito forte e permanecia de pé, contrariando todas as expectativas.
Mesmo sem nunca ter acreditado em destino ou em conto de fadas, ela não podia deixar de comparar o que lhe havia acontecido com um. Encontrara o cara da sua vida na praça após uma de suas maiores desilusões. Não era uma coincidência que se dava para ignorar com tanta facilidade, independente de suas crenças.
Ouviu a sirene do trem soar, indicando que ele chegava, e alargou seu sorriso, ansiosa. Seria a primeira vez que o veria desde que tudo aconteceu, mas ao contrário do que esperava, não estava receosa ou tenebrosa. Não tinha dúvidas do que sentia por , mesmo quando pensava em ou na vontade que tinha de abraçá-lo.
- Se você não se controlar, eu vou ficar com ciúmes. – fez bico quando o trem parou e ela apenas riu dele pela atitude, ficando na ponta dos pés para lhe roubar um selinho. Estava muito bem ciente da implicância de um para o outro, mas nunca achou que fosse mais do que isso, mera implicância. Especialmente da parte de que terminava sempre rindo.
Ele sempre estava rindo, mas ela não teve oportunidade de responder pois, no instante seguinte, desceu do trem, tão bonito quanto ela se lembrava. Seu sorriso se alargou imediatamente ao vê-lo, mas seu coração não disparou da mesma forma apaixonada que costumava fazer e ela tampouco teve vontade de chorar. Só queria abraçá-lo, saber como estava e vibrou quando ele finalmente a viu ali, sorrindo também.
Porém, tão rápido quando surgiu, sorriso sumiu de seu rosto ao ver ao seu lado.
Por um instante, ela se viu confusa com a atitude e estreitou os olhos, perguntando-se o que havia acontecido. nunca havia feito o tipo ciumento e ela levou alguns segundos para entender. Para se reconhecer em seu olhar, entender o que havia acontecido, o que havia mudado e quase riu da enorme ironia por mais deprimente que fosse.
O quadro havia invertido. Ela não tinha ideia de como ou quando fora acontecer, mas bastou um único olhar para que ela soubesse. O conhecia bem o suficiente para isso e entendia bem o suficiente sobre o assunto para sentir-se mal por ele.
Já era tarde, afinal. Não havia mais volta.
Esteve ali, por ele, durante tempo demais. O esperou, torceu para que acontecesse e até mesmo deu o primeiro passo. Ele foi o único incapaz de ver e, agora, aquele sentimento não existia mais. Preencheu seu coração com outra pessoa que a fazia feliz e não o largaria por ninguém.
Como em um flashback, então, lembrou-se de todas as conversas que haviam tido durante os últimos anos. Todas as vezes que o evitou inicialmente e depois, quando as coisas melhoraram para ela e decidiu lhe dar uma chance. Uma chance para amizade, nunca para algo mais e só então se deu conta. De repente, conversas desanimadas sobre e os casinhos de passaram a fazer sentido e ela percebeu o quão errada havia estado em achar que ele não se importava.
havia lhe dado o espaço que tinha pedido e no final acabou lhe perdendo por isso, pois não fazia mais diferença.
Era triste que ele tivesse demorado tanto tempo para perceber o que sentia e torceu, secretamente, para que ele não cometesse seus mesmos erros. Não queria vê-lo sofrer da mesma forma que havia sofrido, lhe procurando em outros lugares, outros risos.
Sabia, por experiência própria, que aquela abstinência ia passar uma hora e por , desejou que fosse logo. Por eles, pela amizade, pois o rapaz ainda era e sempre seria, uma das pessoas que mais amava.



Fim.


Nota da autora: É isso, espero que tenham curtido! Hahaha Adorei escrever essa, confesso e espero não ter decepcionado. XD
Comentem, pls!
Xx
Mayh.



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12. They Don't Know About Us [One Direction Ficstape/Finalizada] ● 12. She Was The One [The Vamps Ficstape/Finalizada]
12. Too Much To Ask [Avril Lavigne Ficstape/Finalizada] ● 14. Lovestruck [The Vamps Ficstape/Finalizada]
15. Smile [The Vamps Ficstape/Finalizada] ● 17. Like I Would [Zayn Malik Ficstape/Finalizada]
Mixtape: Cartas Pra Você [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada] ● Mixtape: Na Sua Estante [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada]
Mixtape: Don't Cry [Mixtape: Classic Rock/Finalizada] ● Father's Little Girl... Or not [Restritas-Originais/Finalizada]
By Our Hearts [Super Junior/Finalizada]
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.




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