Contador:
Última atualização: 21/01/2024

Prólogo

Londres, 2006. Victoria’s Secret Show.


— Senhoras e senhores… McFLY! — o apresentador anunciou e o estômago de Dougie revirou. Aquela apresentação era uma das com maior potencial para que a banda decolasse. O desfile da Victoria’s Secret era repercutido mundialmente e os meninos esperavam ansiosamente que sua música também fosse.
Harry estava posicionado no centro do palco devido à instalação da bateria, Dougie estava quase ao seu lado no piano, enquanto Danny e Tom estavam espalhados pela passarela. A contagem do baterista foi iniciada e, em segundos, Dougie começou a tocar o piano. Depois de todos se levantarem pelos arranjos iniciais, Tom começou a cantar.
Anne Boleyn she kept a tin, which all her hopes and dreams were in, she plans to run away with him forever… — o loiro cantou e a plateia gritou. — Leaves a note and starts to choke, can feel the lump that's in her throat it's raining and she leaves her coat in silence…
Dougie se levantou e pegou o baixo do tripé e foi para o meio da passarela. Quando a parte mais animada da música começou, as modelos começaram a aparecer. Particularmente, aquela era uma das músicas favoritas do baixista no novo álbum, a escolha de performá-la no desfile foi dele, inclusive.
Uma das modelos mexeu no cabelo de Dougie e ele interagiu com ela, fazendo-o rir. Logo depois, Danny e Tom também interagiram com a mulher. Na parte do baixista, o público se animou e os gritos começaram a se intensificar.
People marching to the drums, everybody's having fun to the sound of love.. — Dougie começou a cantar enquanto Danny e Tom se animaram e começaram a desfilar junto das modelos. — Ugly is the world we’re on, if I’m right then prove me wrong I’m stunned to find a place we belong…
Dougie foi até a plataforma onde a bateria de Harry estava e os dois tocavam juntos animadamente a canção. Transylvania, apesar de parecer sombria, era uma música animada e Dougie a amava. Os dois guitarristas voltaram para o início do palco para que as modelos tivessem destaque, afinal, o dia era delas.
Dougie, o mais animado dos quatro, logo voltou ao centro da passarela para brincar com as modelos. O baixista pulava, fazia poses e atuava com as mulheres. O dia estava incrível para todos eles, mas a noite do garoto se iluminou ao ver a mulher mais linda daquela noite, Emilia Brown. Mesmo aquele momento sendo o que ele cantava, Dougie fez questão de acompanhá-la e apresentá-la para o público.
Racing, pacing in the dark, she's searching for a lonely heart… — o cantor e a modelo fizeram uma brincadeirinha de encostar um no outro e animaram mais ainda o público. Dougie sorriu para ela e Emilia decidiu entrar na brincadeira. — She finds him but his heart has stopped, she breaks down…
Assim que o cantor cantou a próxima parte, ela interpretou a música. Dougie a levou de volta e quando a música fez referência à rainha, ele fez uma reverência boba para Emilia.

[...]


A after party do desfile estava repleta de atores, cantores e estilistas do mundo inteiro. Os integrantes da banda estavam extasiados. Danny, Tom e Harry estavam encantados com aquele pessoal, enquanto Dougie parecia estar hipnotizado por uma pessoa em especial.
— Vai até ela, cara. — Harry o encorajou. O baixista riu e foi até o bar onde Emilia estava.
— Whisky? É forte. — a risada rouca da modelo o entorpeceu.
— E você tem idade para beber? — ela o encarou.
— Tenho. — ele disse, orgulhoso. Naquele ano, havia, finalmente, se tornado maior de idade. — Eu vou querer um também.
O barman rapidamente trouxe o pedido do músico e os dois beberam em silêncio.
— Você foi bem lá no palco.
— Bem? — a americana deu risada. — Eu fui, provavelmente, a melhor em palco.
— Você é modesta. — o britânico sorriu.
— Realista, prefiro dizer. E direta também. — ela lhe deu um sorrisinho. — Então, o que te traz aqui, Dougie Poynter?
— Então você sabe quem eu sou?
— É claro. — ela deu risada. — Vocês tocam na rádio toda semana.
— Fico feliz. — ele riu. — Trabalhamos muito para…
Dougie foi impedido de falar, pois a modelo se aproximou dele o suficiente para sussurrar em seu ouvido.
— Não quero saber, Dougie Poynter. Mas te espero mais tarde no quarto 712 do Royal Housegards.
Dougie nem mesmo teve tempo de respondê-la, já que Emilia rapidamente foi conversar com outras pessoas as quais ela achava mais interessantes.

[...]


Por volta da meia noite, Emilia recebeu uma ligação da recepção avisando-a que o baixista estava lá. A ansiedade de Poynter para chegar até o quarto fez com que ele se sentisse um idiota. Parecia um garoto de quinze anos que estava prestes a perder a virgindade.
— Poynter. — ela lhe deu um sorrisinho.
— Brown.
A modelo o puxou para dentro do quarto e os dois se juntaram imediatamente. Emilia pouco se importava com o que ele queria falar, ela apenas queria seu corpo por cima do dela. Nada mais que isso.
Rapidamente, Dougie a puxou para seu colo e a mulher retirou sua blusa. O baixista, no entanto, não teve trabalho algum ao apenas desenlaçar o robe da modelo.
O corpo de Emilia era lindo, Dougie sabia e via com seus próprios olhos naquela noite. Ele a teria só para si. Os beijos que ele distribuía em seu pescoço a faziam gemer buscando por mais enquanto ela o arranhava nas costas.
Em passos enrolados, Douglas foi até a cama e se pôs, finalmente, por cima. Aquela noite deveria ser considerada incrível para os dois. E era essa imagem que Dougie queria ter de Emilia. Mas ela mudaria.

[...]


Três meses depois de seu encontro com Emilia, o baixista recebeu uma mensagem da modelo. Dizia que estava em Londres e que queria encontrá-lo, se ele pudesse. O tom autoritário havia sumido, no entanto, Dougie ainda tinha intenções de repetir o que viveram no dia do desfile.
— Você está saindo cedo do ensaio por quê? — Fletch apareceu no encalço do baixista.
— Vou encontrar uma amiga. — ele disse baixinho. — E está tudo bem para o show no final de semana.
— Sem gracinhas, Dougie. — Fletch pediu. Era difícil mantê-los sem se meterem em problemas. Dougie principalmente.
O restaurante que Emilia havia escolhido, é claro, era de primeira classe. Dougie agradecia aos deuses que tinha condições de pagar por qualquer coisa que pedisse ali.
— Pensei que fosse pedir para que nos encontrássemos em seu hotel. — ele apareceu, assustando a modelo.
Emilia estava verde. Parecia que estava prestes a vomitar.
— Está tudo bem? — o garoto inquiriu. — Quer que eu chame ajuda?
A modelo revirou os olhos e ele soube que tudo estava bem.
— Eu estou grávida. — ela disse de uma vez, pegando o baixista de surpresa. — E eu vou tirar isso.
Emilia Brown estava grávida de Dougie Poynter. E ela iria tirar aquilo. Dougie, entendia, acima de tudo, que aquilo era uma decisão dela. No entanto, faria de tudo para que o destino da criança não fosse o aborto.
— Grávida? — ele respirou fundo. Céus, como contaria para sua mãe e a sua irmã? Como contaria para Fletch e os meninos? — Emilia…
— Eu não posso, tá legal? — ela se defendeu. — Isso aumenta meu corpo cada vez mais! Meus seios incharam, minha bunda está flácida e eu tenho barriga.
— Emilia, você está gerando uma pessoa em você. É claro que o bebê…
— Não fale isso. — ela o advertiu. — Eu não vou ter. Nunca quis ter um filho, minha carreira e meu corpo vêm em primeiro lugar.
Ela parecia sentir nojo. Dougie nunca tinha pensado em ser pai tão cedo, mas ele sempre quis. Queria ter uma casa repleta de crianças e uma família. Era claro que Emilia não era a mulher que ele construiria sua família.
— Emilia, por favor. Tenha essa criança. — ele pediu. — Depois você pode sumir de nossas vidas. Eu pago todos os seus procedimentos estéticos se preciso.
— Eu não quero que você me pague. Eu tenho dinheiro. — a modelo resmungou. — Só quero tirar isso de mim.
— Por favor, Emilia. — ele pediu. — Você pode sumir. Não vou revelar nada sobre você, digo que contratei uma barriga de aluguel, qualquer coisa.
A modelo o encarou em choque.
— Você tem dezoito anos. — ela disse, assustada. — Como quer um filho?
— Não sei. — ele disse. — Só peço que mantenha. Todos os custos podem ser meus, se você quiser. É só me direcionar as contas.
O celular da modelo apitou e ela parou de prestar atenção no que ele dizia.
— Eu tenho que ir, Douglas. — a modelo ajeitou sua bolsa e se levantou.
— Por favor, pense no assunto.

[...]


Dois dias depois, Dougie recebeu uma mensagem da modelo avisando-o que manteria o bebê. Também o avisou que lhe enviara, por correio, as contas dos médicos e o ultrassom.
Ainda em choque sobre a responsabilidade que havia escolhido ter, o baixista saiu do camarim, decidido a contar aos amigos da banda que seria pai. Ele, Douglas Poynter, que não sabia nem mesmo como trocar uma fralda, seria pai!
— Viu um fantasma, docinho? — Harry perguntou em um tom brincalhão.
— Caras… — todos que estavam em preparação pararam para lhe dar a devida atenção. Até mesmo Fletch. — Eu vou ser pai.

[...]


Seis meses depois, quando Emilia já quase não conseguia andar de tão grande que sua barriga estava, de quão inchados estavam seus pés, ela estava morando com Dougie. O cantor exigiu que a modelo dividisse a casa com ele nos últimos meses de gravidez.
— Dougie… — ela o chamou ao sentir a primeira contração. — Eu acho, ah!
O baixista rapidamente ajeitou sua postura e ligou para a médica de Emilia. A doutora lhes avisou que se o intervalo das contrações diminuíssem, era para levá-la ao hospital. Aos poucos, as concentrações iam diminuindo e o baixista as anotava em sua mão.
— Estamos indo para o hospital. Kara vai nascer. — ele anunciou.
— Ela não vai se chamar Kara. — a mulher resmungou.
— Ela vai, Emilia. — Dougie disse, indiferente. Por dentro, o garoto estava em surto. Sua filha nasceria em breve.
Todos da família — entende-se por sua mãe e Jazzie — e da banda estavam avisados. O músico rapidamente chegou à garagem do prédio e ajudou Emilia a se ajeitar no carro.
Em menos de quinze minutos, os dois adentraram o hospital. A modelo já estava em trabalho de parto e os levaram para o quarto. A obstetra de Emilia estava à espera dos dois quando entraram.
— Pronta? — Dra. Clarke perguntou.
— Sim. Não vejo a hora de tirar isso de mim. — a modelo suspirou.
A expressão da médica foi clara para Dougie. O baixista levantou as sobrancelhas e suspirou fundo.
— Você está nervoso, papai? — ela falou com ele.
— Mais que tudo no mundo. — ele sentiu sua mão tremer. A doutora riu e, a partir daquele momento, a atenção foi dada à modelo e à Kara.
Depois de alguns empurrões, Dougie conseguiu ver a cabeça da criança e, aos poucos, sentiu seu corpo ficar mole. A cena não era das mais confortáveis para se ver, mas ele nem ligava. Tudo que queria era segurar Kara e sentir tudo que sua mãe dizia que ele sentiria.
O choro estridente da bebê cortou os urros da modelo e Dougie sentiu seu estômago girar. Sabia que aquele choro significava vida. E aquela criança seria sua vida dali em diante.
— Papai… — a obstetra sorriu. — Sua princesinha quer lhe conhecer.
Dra. Clarke colocou Kara nos braços do pai e ele se sentou na poltrona do quarto. Dougie soltou a respiração que não sabia que prendia e suas lágrimas saíram. Sentia tudo que sua mãe havia dito. Sentia, mais que tudo, medo. Aquele ser humaninho com os gritos estridentes dependia dele mais que tudo.
Kara segurou o grande dedo do pai e estabeleceram, naquele momento, o elo entre os dois. A menininha com poucos fios loiros na cabeça parou de chorar, fazendo com que o baixista chorasse. Era o maior amor do mundo, ele sabia. Sabia também que seria difícil, mas ver aqueles dedinhos segurando sua mão fizeram tudo valer à pena.
— Bem-vinda a esse mundo feio, querida. — ele disse baixinho. — Seremos eu e você por toda eternidade.

Capítulo Um

é uma publicitária e fotógrafa, de 27 anos, que acabara de se mudar para o centro de Londres. Para um apartamento incrivelmente grande, e que ainda cabia dentro do seu orçamento, após o dono praticamente colocá-lo para doação com o preço que estava pedindo pelo aluguel. Ela sabia que os apartamentos no centro da cidade eram sempre os mais caros, mas, por um milagre do destino, ela conseguira aquele por uma pechincha. Talvez não fosse considerado tão baixo quanto deveria ser para chamar de pechincha, mas, comparado aos outros daquele bairro, ele estava mesmo barato.
O dia da mudança havia finalmente chegado, junto com toda animação e o êxtase que corria nas veias de , também era possível ver o cansaço estampado em seu rosto. Ainda havia muitas caixas para serem desfeitas no novo lar da mulher, e se não fosse pela ajuda de Joe, seu irmão mais velho, e de Brianna, sua melhor amiga, ela com certeza não saberia que horas acabaria com tudo aquilo.
— Esse apartamento é lindo, . — Brinna, com toda a animação que só ela conseguia ter em pleno sábado de manhã, disse, com um sorriso no rosto.
— Ele é, né? E eu amei ainda mais quando o dono me falou o valor do aluguel. Eu juro que se não estivesse na frente de um estranho, eu teria chorado. Mas tenho certeza de que meus olhos lacrimejaram na hora. Olhos traidores.
— Vocês podem parar de bater papo e me ajudar aqui? — Joe carregava, ou ao menos tentava carregar, três caixas de papelão, uma sobre a outra.
— É por isso que eu te amo, maninho. — largou a caixa que estava segurando no chão da sala e correu até o irmão.
— Acho que essas foram as últimas. Ainda bem que os móveis já chegaram, agora é só colocar tudo no lugar. — Brianna se jogou no sofá de dois lugares enquanto via Joe se jogar na poltrona e no outro sofá maior. Eles estavam exaustos.
— Eu estou tão feliz de finalmente ter meu lugar, mas só de pensar que vou passar meu final de semana todo arrumando isso aqui, eu tenho vontade de me jogar na cama e fingir demência. — fez uma careta triste. O cansaço começava a dominar seu corpo, mas o lado virginiano, o qual as pessoas falavam que continha em seu mapa astral, mesmo ela não entendendo nada sobre o assunto, falava mais alto, impedindo-a de viver no meio da bagunça e sujeira que o apartamento ainda se encontrava.
— Você sabe que vamos passar o dia aqui te ajudando, para com esse drama. — Foi a vez de Brianna fazer uma careta, dessa vez de repreensão, para a amiga.
— Não é justo, Luke precisa da atenção de vocês.
— Ele vai sobreviver algumas horas sem a nossa presença. Você mima mais o nosso filho do que nós. Pare com isso, por favor. — A voz de Joe se fez presente no ambiente, num tom sério. Mas, em seguida, deu de ombros, encostando o corpo na poltrona e fechando os olhos para descansar por alguns minutos.
— Eu não vou parar de mimar o único sobrinho que vocês me deram. Vamos arrumar isso logo, eu quero muito dormir. — Deu um pulo da poltrona, partindo para pegar um balde, um pano limpo, desinfetante e a vassoura. Aquele chão precisava urgentemente ser limpo.
O apartamento era grande, mais do que estava acostumada, mas conseguiram dividir todas as tarefas. Ou seja, ficou com os dois quartos; Brianna ficou com os dois banheiros da casa, afinal, ninguém limpava banheiros melhor que Brianna, e ninguém sabia como ela conseguia fazer isso tão bem; Joe ficou com a sala e a cozinha, aproveitando para abastecer os armários e geladeira da irmã. Como um bom irmão mais velho, ele precisava se certificar de que, pelo menos, a alimentação do final de semana estivesse garantida e que ela não fosse viver à base de fast food.
— Se eu voltar aqui e esse banheiro não estiver brilhando, eu mesma enfio sua cabeça na privada. Não duvide de mim, .
— Você acha que eu sou doida de duvidar de você? Te conheço há exatos...— começou a contar nos dedos, mas desistiu, dando de ombros — Muitos anos, não importa quantos. Sério, muito obrigada por toda ajuda. Eu não sei o que seria da minha vida sem vocês.
— Você até sabe, mas não vai falar, nunca se sabe se vai precisar se mudar de novo. — Joe já estava abraçado com Brianna enquanto os dois dividiam o sofá maior após a faxina.
— Às vezes eu te odeio por me conhecer tão bem. — olhou satisfeita para o cômodo, seu irmão tinha se esforçado para deixar tudo o mais limpo e organizado possível. Viver numa casa com criança tinha o mudado completamente, tornando-o mais organizado, estava feliz por isso.
— Podemos pedir uma pizza, o que acha? Já coloquei a cerveja no congelador. - Joe deu a sugestão, que foi aceita com frenéticos acenos de cabeça pelas duas mulheres. Não era à toa que Brianna estava noiva de Joe, eles eram iguais, sem tirar nem pôr. Como melhor amiga de , ela não podia querer uma cunhada melhor que aquela.
— Eu vou tomar banho, mas a casa é de vocês também. Fiquem à vontade, mas não muito, não quero que o Luke dois seja concebido no meu sofá. — gritou do corredor, já indo para o seu quarto. Antes que ela pudesse ver, Joe deu um sorriso ladino para Brianna, mas ela fez questão de ignorar. Ela conhecia aquele sorriso.
— Acho que esse é um ótimo momento para fazermos outra miniatura nossa.
— Sem chance, você sabe que daqui não sai mais nada. Não vem com esse sorriso para o meu lado, Joe .
— Se eu fosse você não teria tanta certeza assim. - Joe começou a distribuir beijos pelo pescoço e nuca da noiva, mas recebeu um beliscão no braço. Ela estava falando sério, muito sério. — Você é muito ruim, credo.
— Não podemos fazer isso aqui, mas quando chegarmos em casa… — Tomou um gole da cerveja do noivo, sem esperar resposta alguma dele. — Liga para pizzaria, você deu a ideia.
Brianna ligou a televisão, deixando num canal de música para se distrair até voltar do seu banho. Sem contestar, Joe pegou o telefone e pediu uma pizza grande de mussarela e pepperoni, era o suficiente para deixá-las felizes.
Uma hora mais tarde, todos estavam reunidos na sala novamente, em volta da mesa de centro e com suas respectivas fatias de pizza em mãos. Era até nostálgico aquela cena, lembrando que e Brianna viveram assim durante quase toda a graduação. Pouco antes do último ano da faculdade de publicidade, Brianna conheceu Joe, após ele ter voltado de uma viagem de Nova York, e foi quando eles resolveram que não ficariam mais longe um do outro. Então, o que antes costumava ser feito apenas por e Brianna, passou a ser feito por , Brianna e Joe.
— Não é justo a gente ficar relembrando esses namoros meia boca da faculdade quando você conheceu o cara mais incrível do mundo. — disse, indignada, colocando mais um pedaço de pizza na boca.
— A culpa não é minha se você não teve essa sorte.
— Eu posso garantir que ela não teve mesmo. — Joe começou a contar, a irmã até já imaginava qual história ele contaria. Ele sempre contava a mesma. — Lembra daquela vez que você não quis me dizer onde estava e quando eu cheguei, você pulou para dentro do carro e me fez sair voando do motel? Parecia que estávamos fugindo da polícia, acho que foi a situação mais constrangedora.
— Com certeza foi a situação mais constrangedora da minha vida. O cara nem tinha cabelo e escondia a careca com aquele chapéu ridículo. Ah, não estávamos fugindo da polícia, estávamos fugindo de um maluco com diarreia e com meia dúzia de fios de cabelo na cabeça. É pior que a polícia.
— Era uma boina. - Disse Brianna entre risos.
— Era ridículo de qualquer forma. E ele ainda teve dor de barriga, eu jurei nunca mais sair com ninguém da engenharia.
— De qual delas?
— Todas, eles não prestam.
No fim da noite, estava rindo da própria desgraça vivida na época da graduação. Tinha sido péssima em alguns momentos, principalmente nos momentos em que ela mesma se colocava nessas situações constrangedoras. Porém, eram ótimas histórias para serem contadas em momentos como esse que estava vivendo agora. Afinal, tudo não passava de lembranças e ela gostava, de certa forma, de recordar essa época.
— Eu adoraria ficar mais um pouco e relembrar todos os seus piores encontros da faculdade, mas eu realmente estou cansado. — Joe foi o primeiro a falar.
— É, eu também estou. E morrendo de saudade do meu filho, ele é uma peste, mas é meu filho. — Completou Brianna, rindo.
— Eu adoro esse amor que vocês têm pelo Luke, é um pouco exótico, eu diria.
— É realista, quando você tiver filhos, vai saber do que estamos falando. — O casal já estava parado na porta do apartamento. se despediu e agradeceu mais uma vez por toda ajuda e pela companhia na janta.
— Acredito em vocês. Obrigada de novo, amo vocês. - Ela deu um abraço apertado e um beijo no rosto de cada um, esperando o casal entrar no elevador para fechar a porta. Finalmente estava sozinha e poderia ter o descanso merecido. Colocou a caixa de pizza fora, lavou os pratos e copos utilizados no jantar e se jogou na cama.
Silêncio era tudo o que queria.
O sono já estava chegando e com ele o cansaço dominava o corpo de , ela já se encontrava devidamente esparramada no meio de sua cama e com os olhos fechados, deixando o sono se aconchegar do jeito que ela queria. Mas os primeiros acordes de After Midnight do Blink-182 puderam ser ouvidos.
Nãooooo. resmungou. Tapou a cabeça com o travesseiro, a fim de abafar o som, mas nada adiantou. O som do baixo sendo tocado pôde ser ouvido ainda mais alto do que da primeira vez. — Eu não acredito que isso está acontecendo. Eu preciso dormir e eu vou.
calçou o par de chinelos e saiu apressada do apartamento, pronta para uma boa briga caso fosse necessário. O som do instrumento vinha do apartamento de cima, bem em cima da sua cabeça. Eram quatro apartamentos por andar, então não era tão difícil descobrir qual porta precisaria bater. Não esperou para bater na primeira porta que viu, a qual dava bem em cima da sua. Mas para a sua surpresa, quem abriu a porta foi uma menina jovem, jovem demais para o que ela esperava, com as pontas dos cabelos pintadas de roxo e um olhar entediante na direção de .
— Eu poderia falar com o responsável? — Sua voz firme não intimidou a garota, apenas lhe deu um prazer ainda maior em saber que estava incomodando e, com isso, abriu o seu melhor sorriso.

Capítulo Dois

Dougie estava exausto. Tinha que lidar com tantas coisas ao mesmo tempo que apenas sentia que seu corpo desintegraria a qualquer momento. Os ensaios e composições estavam quase prontos e o modelo fora chamado para participar de uma campanha publicitária sobre seu livro.
— Cheguei. — o homem anunciou e a menina rapidamente aumentou o som do baixo. — São duas horas da manhã, Kara. Desliga isso, e vá dormir.
A menina parou instantaneamente e encarou Dougie.
— A vizinha nova veio falar comigo. — ela disse. — E foi estúpida.
— O que ela disse?
— Que eu era menina e não podia tocar baixo. — ela mentiu. Dougie ficou furioso.
— Ela não pode falar com você desse jeito, querida. — ele reprovou a atitude da vizinha. Kara era apenas uma criança, não havia motivos para que a mulher fosse uma idiota com ela. — Amanhã mesmo irei falar com ela.
— Obrigada, Dougie. — ela sorriu.
— Não é Dougie, é pai. — ele corrigiu a pré-adolescente.
— Tanto faz!
Dougie suspirou fundo. Sua relação com Kara só parecia piorar e ele não sabia como mudar aquilo. Havia tentado terapia, saídas, mais tempo com ela, e aquilo só parecia afastá-la mais ainda. O baixista, contudo, entendia que a pré-adolescência era uma das piores fases da relação com os pais, mas ainda assim queria resolver aquela situação.
Quando Kara nascera, o músico jurara a si mesmo que faria de tudo para que sua vida fosse a melhor possível, de modo que ela sempre o visse como seu melhor amigo.
Para ele, sua filha sempre seria sua melhor companhia. Quando Kara era mais nova, costumavam ficar juntos e, até mesmo passavam mais tempo com as outras famílias da banda. Apesar de ser a mais velha, Kara costumava estar com os Fletchers e os Judd.
Dougie deitou em sua cama, ainda pensativo. No dia seguinte teria que modelar e reclamar com sua vizinha, portanto, deixou o cansaço falar mais alto.

[...]


A manhã começou atarefada para os Poynter. Kara tinha uma prova importante de química e o músico tinha que estar na agência em pouco tempo. E ele ainda havia prometido à filha que falaria com a vizinha.
— Vamos nos atrasar. — ele afirmou. — Termine de se arrumar e me encontre na garagem, falarei com a vizinha.
Kara afirmou com a cabeça e foi colocar seu uniforme enquanto seu pai comprava sua briga. Todos naquele prédio conheciam os Poynter, seja pela insistência de Kara pelo baixo ou por Dougie estar na mídia londrina novamente. O terceiro andar do edifício chegou e Douglas foi até a porta que ficava debaixo de seu apartamento. No momento em que ia bater, a mesma se abriu. Uma mulher muito bonita apareceu. É claro, bonitas e mesquinhas, Dougie pensou.
— Como posso ajudar? — ela perguntou.
— Talvez sendo educada da próxima vez. — ele disse. A mulher o encarou, confusa.
— Quem é você? — ela perguntou.
— Sou o pai da menina que você destratou ontem. — ele vociferou.
— Eu destratei?
— Sim. — ele afirmou. — Não se diz para uma garota de catorze anos que baixo é para meninos. Em que mundo você vive?
— O mundo que a sua filha é uma grande mentirosa, senhor… — ela riu.
O rosto do cantor ardia de raiva.
— Como? Você agora está dizendo que Kara é uma mentirosa?
— Para quem tem um nome bonito, aparentemente ela tem uma personalidade bem feia. — soltou uma risada. Ela estava furiosa. Como aquele homem tinha coragem de acusá-la de algo que ela não tinha feito? — Primeiramente, Dougie Poynter, eu jamais falaria com uma criança assim. Eu apenas pedi para que ela parasse de tocar.
— Não foi isso que ela me disse. — Dougie respondeu.
— Você deveria saber que crianças mentem. — ela riu. — E a sua, aparentemente, mais que o normal. Talvez se, por volta da meia noite, o senhor estivesse em casa… Ela soubesse.
E então tocou no ponto fraco do músico. Dougie tinha muitas inseguranças acerca da paternidade e tinha muito, mas muito, medo de falhar e se tornar um pai que não era exemplo para seu filho. Não sabia sobre coisas de meninas, mas aprendera o máximo que podia. Deixava Kara pintar suas unhas, aprendera a fazer tranças e sabe-se lá o que faria quando a menina começasse a menstruar. Ele sempre se esforçava por ela. Aprendera, inclusive, a tocar as músicas infantis que ela gostava no baixo para que pudessem ficar juntos fazendo coisas que ambos gostavam.
— Eu preciso trabalhar. — ela disse, passando por ele. — Tenha um bom dia, Dougie Poynter.
O cantor ainda ficou um tempo parado, pensando que havia falhado como pai. Talvez estivesse certa, afinal. Ele deveria ser mais presente. Pouco tempo depois, seu telefone tocou e o visor indicou que era Kara. Dougie se dirigiu até a garagem e Kara aparentava estar ansiosa para saber o que havia acontecido.
— O que houve? — ela perguntou.
— Você está de castigo, é isso o que houve. — Dougie disse. — Eu pensei que não chegaríamos até lá, mas você me mostrou que preciso tomar medidas drásticas.
— Mas, Dougie, eu… — ela tentou se defender, mas foi interrompida.
— É pai! O que custa me chamar assim? — o baixista vociferou.
Kara, durante o caminho até o colégio, dava inúmeros motivos por ter mentido para seu pai e isso o deixou ainda mais irritado. Dougie estava magoado pelo o que a vizinha — que não o conhecia — havia falado. Ele era um pai ruim. Entretanto, sabia que aquela personalidade que a menina cada vez mostrava mais, era toda dele. Talvez, quando criança, Emilia fosse mais calma. O músico havia estacionado na frente da escola.
— Tenha um bom dia, pai. — a menina disse, irritada.
— Às vezes eu queria que você fosse mais como sua mãe. — ele deixou escapar. — Boa prova, Kara.
— Nunca mais peça que eu me pareça com ela. — Kara disse e seu pai viu a mágoa se formar em seus olhos.

[...]


estava extremamente irritada naquela manhã. Depois de reclamar com sua vizinha sobre o som do baixo, a menina o tocou ainda mais alto, então seu sono foi horroroso. Mais cedo, Dougie Poynter a acusara de coisas que não havia feito — e jamais faria.
— Que bicho te mordeu, querida? — Anne, uma das figurinistas a perguntou. — Você estava tão animada esses dias, ia se mudar… Ah, meu Deus! O senhorio deu para trás?
— Não. — ela respirou fundo. — Meu segundo dia no prédio e já vieram arranjar problemas comigo.
— O que houve? É uma velha reclamona?
— Pior. — ela resmungou. — Dougie Poynter é meu vizinho e é um…
— Babaca, pai ausente… O que mais? — Dougie entrou na sala e completou a fala de , que arregalou os olhos ao vê-lo. Ele seria o artista que ela fotografaria para a campanha ambiental.
A boca de não sabia se mantinha-se aberta ou fechada, visto que ela repetiu o movimento algumas vezes. Mas logo se manteve fechada, a fim de evitar dar uma resposta ainda mais desaforada do que já havia dado pela manhã. Ela só tinha vontade de dar umas boas palmadas em Kara, talvez assim a menina deixasse de ser mentirosa.
— Eu não falei nada disso. Talvez eu tivesse dito que você não passa de um arrogante prepotente, se tivesse dado tempo. — A mulher revirou os olhos, sem esconder qualquer resquício de indignação.
prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto, deixando alguns fios de cabelo soltos pelo seu rosto. O cabelo castanho, num tom escuro, realçava ainda mais os seus olhos verdes, quase deixando Dougie hipnotizado pela beleza da mulher. Agora, de perto, ele pôde reparar no quanto a mulher estava arrumada e... Bonita? Sim, bonita demais para o trabalho.
. - Ela estendeu a mão para Dougie. — Eu costumo me apresentar antes das pessoas baterem na minha porta me chamando de mal-educada.
— Dougie Poynter. — Apertou a mão da mulher em sua frente, cumprimentando-a por fim. Ela tinha razão, além de ter esquecido as boas maneiras que recebera de sua mãe, ele também tinha sido mal-educado e acusado-a de algo que não havia feito. Péssimo começo de dia.

Capítulo 03

— Você não vai mesmo mudar essa carranca? — Brianna resmungou pela milésima vez.
— Não, eu só queria dormir e nem isso eu consegui. — choramingou, derrotada.
, você tem 27 anos. Não me faça, a essa altura do campeonato, ter que te dar umas boas palmadas. — O pouco de paciência que restava em Brianna já estava se esvaindo. suspirou alto. Apertou mais algumas vezes o botão do elevador, como se assim ele fosse chegar mais rápido no térreo.
— Como foi o trabalho? — Foi a vez de mudar de assunto.
— Normal. Infelizmente, não tem nenhum Dougie Poynter lá na agência. Mas, quando não aguentar mais ver a carinha dele, pode mandá-lo para lá.
— Deixa o Joe escutar isso. — Brianna mostrou a língua como resposta. Amadurecimento era algo quase inexistente quando as duas estavam juntas.
— Boa noite, . — Oh, não. conhecia aquela voz. Se virou lentamente, torcendo para estar imaginando coisas e ouvindo vozes do além. Mas estava enganada. Era ele mesmo, o seu querido e amado vizinho do andar de cima e sua aprendiz do titio Lúcifer ao lado.
— Boa noite, Poynter. — ignorou totalmente a figura da adolescente ao lado do pai, o primeiro contato não tinha sido dos melhores e, sinceramente, não achava que ele melhoraria com o tempo. Quando as portas prateadas finalmente se abriram, pulou para dentro do cubículo metálico, agarrando o braço da amiga para que ela entrasse de uma vez.
— Como foi na prova? - Dougie disse para Kara, mas a garota apenas deu de ombros.
— Química não é o meu forte. Achei que você soubesse, papai.
e Brianna tentavam não prestar atenção na pequena conversa entre pai e filha, mas o clima começava a ficar tenso dentro do pequeno elevador.
— Você não pode tirar mais um D ou vai repetir de novo. — O elevador parou no terceiro andar, as duas mulheres se entreolharam.
— Não me importo. — a menina deu de ombros.
— Você deveria. — ele resmungou. — Vou procurar um professor particular de novo.
— O irmão da é professor de química. — Brianna disse, apressada. — Talvez ele possa ajudar.
quase gritou de susto quando ouviu sua cunhada falar aquilo. Kara parecia não ligar para os três adultos ali. Dougie encarou e lhe deu um sorrisinho sarcástico.
não vai se incomodar? — o músico levantou suas sobrancelhas.
— Não tenho que me incomodar com nada. É o trabalho do meu irmão, afinal. — A mulher se virou completamente para o cantor. — Boa noite, Dougie e Kara.
A publicitária saiu do elevador e puxou Brianna consigo. Provavelmente levaria um grande sermão de sua melhor amiga. No entanto, estava cansada pelo dia que teve e por sua noite mal dormida.
— Você foi estúpida com ele sem razão. — Brianna disse.
— Ele me acusou de uma coisa que não fiz. E você sabe que odeio isso.
— Você age como uma criança, . — Brianna riu. — Mas por que me chamou aqui?
— Porque ontem eu não consegui dormir por conta do som insuportável do baixo, e hoje eu vou fazer uma noite de karaokê. — disse e deu um sorrisinho.
— Você vai devolver na mesma moeda? Ela é só uma criança.
— Pode apostar, Brianna. — ela sorriu.

[...]


Assim que Dougie saiu do banho, a música alta invadiu seus ouvidos. Ele sabia de onde vinha, é claro. Entretanto, decidiu ignorar. Dancing In The Dark do Bruce Springsteen foi a primeira música que ele reconheceu.
Durante quase meia hora, ouvia músicas que eram agradáveis aos ouvidos de Dougie. Kara não estava feliz com a implicância da publicitária e seu pai achou graça nisso.
— Você pode pedir para ela parar? — a menina entrou na sala de estar. — Eu estou tentando estudar!
— Você? — Dougie deu risada. — Estudar?
— É um trabalho de artes. — sua filha disse. — Preciso me concentrar.
Seu pai se surpreendeu com a resposta da filha. Momentos nos quais Kara estudava eram raros, ele deveria aproveitar essa brecha. Rapidamente, Dougie foi até o andar debaixo, pensou que, pelo pouco que mostrara, ela negaria de primeira. O cantor respirou fundo e bateu. O som alto e os gritos das duas mulheres cantando Wannabe das Spice Girls incomodava um pouco, ainda mais pela desafinação delas. Bateu mais uma vez, pois sabia que não havia sido ouvido. Mais uma. Na quarta, decidiu tocar a campainha também.
O barulho incessante fez Brianna abrir a porta às pressas, encontrando um Dougie Poynter emburrado. A mulher rapidamente pegou sua bolsa que estava na bancada e saiu do apartamento.
— Boa sorte. — ela deu dois tapinhas no ombro do músico.
So, here's a story from A to Z, you wanna get with me, you gotta listen carefully we got Em in the place who likes it in your face, you got G like...
continuou ignorando o homem, até que ele se irritou e entrou no apartamento. A publicitária o encarou com uma expressão nervosa.
— Sai da minha casa! — ela vociferou.
— Diminui o som, por favor? — Dougie pediu.
— Não.

— Já mandei você sair. — ela apontou para a porta.
— Por favor, . É a primeira vez que Kara estuda por vontade própria. — ele contou a verdade. — Eu juro que ela nunca mais vai atrapalhar seu sono, só não atrapalha esse momento único.
A fotógrafa o encarou por um instante. Dougie tinha a expressão cansada, como se realmente estivesse a pedindo de coração. afrouxou sua postura defensiva e franziu o nariz.
— Só porque já está tarde. — ela disse e Dougie deu um sorriso fraco. — Não venha com esse sorriso para cima de mim, Dougie. Não fiz por você.
— Obrigado, . — ele disse baixinho.
— Não precisa agradecer. — a mulher deu de ombros. — Não fiz por você.
— Agradeço pela Kara.
— Nem por ela. — ela disse baixinho.
Quando Dougie adentrou sua casa sem permissão, estava pronta para degolá-lo. Mas se lembrava de quando era uma adolescente rebelde e fazia sua mãe puxar os cabelos de estresse e preocupação. Apesar de ter sido uma adulta calma, aprontava de tudo. Joe era quem sempre a ajudava a mascarar tudo. Sentia falta da rebeldia, na verdade. Quer dizer, ela já estava beirando aos trinta, não tinha como ser rebelde. Mas seu lado adolescente deveria compreender Kara. Ela era uma das suas.
— A propósito… — ele deu um sorrisinho. — Você é uma ótima rapper.
— É claro que sou. — deu risada.
— Eu não sou um pai ruim, .
— Eu acho que sei. — ela fez uma careta.
Dougie se despediu e voltou ao quarto andar. Quando abriu a porta, encontrou sua filha sentada na mesa com o livro de matemática aberto. Sua cara de desespero dizia muito sobre sua relação com a matéria. O músico deu uma risadinha.
— Você precisa de ajuda? — ele ofereceu, mesmo tendo quase a mesma dificuldade que a menina.
— Eu consigo fazer isso sozinha. — a menina o respondeu e ele a encarou.
— Certeza? — ele questionou e ela assentiu. — Tudo bem. Boa noite, Kara.
— Boa noite, pai. — a menina soltou naturalmente.
Kara chamá-lo assim não era comum há um bom tempo. Ele poderia soltar fogos naquele momento. Dougie se abaixou e deu um beijinho na cabeça da menina, como fazia quando ela era mais nova. E, pela primeira vez em muito tempo, o cantor se deitou em sua cama sem uma preocupação diária com sua filha.

Capítulo Quatro

— Então, você disse que seu irmão é professor de química. — Dougie começou a falar, caminhando ao lado de pela agência.
— Eu não, Brianna disse. — Ela interrompeu, mas voltou a se calar, esperando que ele terminasse.
— Você não se importa mesmo que eu peça ajuda dele para a Kara? — Dougie fez questão de parar na frente de , fazendo com que a mulher trombasse nele.
— Já disse que não, é o trabalho do meu irmão e não meu.
— Sabe, você reclamou da Kara, mas é tão teimosa quanto ela. — Ele deu um sorrisinho, irritando ainda mais a mulher. bufou alto e cruzou os braços. — Já que você não se importa, pode me passar o contato do seu irmão?
— Assim como Kara, você é bem irritante, que ironia. — Ela sorriu quando viu Dougie formar uma carranca. — Me dá logo seu celular.
Dougie esticou o aparelho na direção da mulher, rapidamente ela anotou o número de Joe no celular do músico e pegou o seu próprio logo em seguida, enviando uma mensagem para o irmão.
— Ei, eu vi isso. O que você mandou para ele? — voltou a caminhar, sem esperar por Dougie.
— Eu só o avisei que um certo carinha metido a rockstar vai entrar em contato com ele, pedindo ajuda para a filha, a qual a meliante não me deixou dormir a noite toda no meu primeiro dia de casa nova. Esqueci de alguma coisa? Acho que não. — Ela virou para ele, esbanjando todos os dentes incrivelmente brancos na boca.
— Eu desisto, vocês vão me enlouquecer! — Ele ergueu as mãos para cima, como se pedisse alguma ajuda divina.
— Aprenda a domar seu dragãozinho e todos saímos vivos dessa. — respondeu, já de costas para Poynter.
— É muito fácil para você sair julgando os outros, .
Dougie desistiu de manter um diálogo que fosse com , aproveitando que o ensaio já tinha acabado, ele resolveu pegar suas coisas e sair do local. Ele sabia que Kara não era e, talvez, nunca seria a pessoa mais fácil de lidar. Mas quando ouvia as pessoas a julgando, não era nada agradável de se ver e ouvir.

[...]


Poynter tinha tido um dia cheio, e depois de sua última entrevista no período da tarde, a única coisa que ele queria era se jogar na sua cama. Mas quando saiu do elevador, encontrou Harry com Lola e Kit um em cada lado de seu corpo; foi impossível controlar o sorriso em seu rosto, por mais que estivesse cansado, Dougie amava aquelas crianças, elas lembravam o tempo que Kara era daquele tamanho.
— Tio Dougie! — As duas crianças saíram correndo em sua direção, animados. Dougie teve que se equilibrar, já que estava com a sacola da janta que comprara para ele e Kara, em mãos.
— Calma aí galerinha, tem tio Dougie para todo mundo. — Harry pegou Kit do colo do amigo e abriu a porta do apartamento.
— Kara? Harry está aqui com seus primos. — Dougie gritou assim que entrou em casa, mas a menina não respondeu. — Ei, mate, espera um pouquinho.
— Deixe que eu chamo, aproveite os seus sobrinhos. — Harry correu até o corredor, onde ficava o quarto de Kara, ele imaginava que ela devia estar aprontando alguma coisa, por não ter saído do quarto ainda.
— Kara, é o tio Harry, tá tudo bem aí dentro? — Ele disse no lado de fora, depois de ter dado duas batidinhas na porta.
— Depende, você está sozinho ou meu pai está atrás de você? — A voz da menina saiu abafada.
— Estou sozinho, juro. — Ele ouviu o clique da porta sendo destrancada e entrou no cômodo quando a porta se abriu.
Harry sabia que Kara era a cópia do pai, quando entrou em seu quarto, ele teve certeza. Os posters de bandas na parede, a bagunça do quarto e o estilo meio punk eram totalmente Dougie, não tinha dúvida sobre isso. Até mesmo a timidez da menina era uma característica herdada do pai, mas quando olhava para Kara, a aparência física era igual a de Emilia.
— O que você está aprontando? — Harry perguntou, risonho.
— Por favor, não me mate, tio Harry. — Ele riu ainda mais, mas Kara não saiu do banheiro.
— Eu não vou, me fale e eu invento uma desculpa para o seu pai.
Harry era o típico tio protetor, ele sabia que Dougie era duro com a menina e tentava sempre amenizar as coisas. Afinal, ele mesmo já tinha sido adolescente e fazia coisas até piores que a de Kara.
— Talvez eu tenha feito uma coisinha. — Ela disse baixinho, saindo do banheiro em seguida. Quando Kara saiu do banheiro, Harry demorou a perceber o que ela realmente tinha feito de tão errado assim, mas respirou aliviado ao perceber que ela tinha apenas cortado o cabelo e feito uma franja. Agora as mechas roxas que ela tinha quase não apareciam mais, e mesmo assim tinha ficado realmente bom.
— Você cortou sozinha ou foi num profissional? — Harry analisou ainda mais, caramba, estava realmente bom.
— Eu cortei sozinha. — Ela deu um sorriso amarelo.
— Ok, então temos um talento aqui. — Ele sorriu, e Kara respirou, aliviada. — Acredite, nem quando o seu tio Tom corta o cabelo com um profissional fica tão bom assim, e a culpa nem é da pessoa.
Ela riu, já tinha visto alguns desastres capilares provocados por Tom e a visão não era muito agradável.
— Qualquer coisa que eu o seu pai disser, saiba que estou pronto para defendê-la. — Harry abraçou-a pelos ombros, puxando a menina para fora do quarto.
Quando Harry e Kara entraram na cozinha, Dougie ainda não tinha visto a mudança no visual da filha, já que ele estava de costas para os dois. Porém, quando Poynter virou e encarou Kara, a reação não foi das melhores, o que assustou até mesmo Harry.
— Kara, o que você fez? — Ele olhava boquiaberto para a menina.
Para a surpresa de Dougie, a filha ficou ainda mais parecida com Emilia. Parecia até mesmo que ele estava vendo uma versão mais nova da mulher, Emilia usava o cabelo no mesmo estilo de Kara na época que se conheceram e aquilo, com certeza, desencadeou algumas lembranças que Poynter gostaria de esquecer. Entretanto, para Kara aquilo foi como se o pai tivesse odiado e o medo começou a dominar o corpo da menina, apenas mais uma de suas inseguranças aparecendo mais uma vez. Num ato de impulso, sair correndo apartamento afora foi a melhor saída que ela encontrou, não aguentaria mais uma reação negativa do pai, não naquela noite.
O elevador do prédio estava em manutenção, então se viu obrigada a ir de escadas. Quando estava chegando no primeiro andar, a publicitária foi empurrada para sair do caminho. Fazendo algum esforço, recolheu suas bolsas do chão e desceu o lance de escada e encontrou Kara encolhida no canto. De primeira, pensou em brigar com a menina mais uma vez, mas seus olhos vermelhos diziam que algo de errado havia acontecido.
— Tudo bem? — ela perguntou baixinho.
— Não. — Kara soluçou. — Vai embora.
— Kara, aconteceu alguma coisa na escola?
— Meu pai não gostou do meu novo corte de cabelo. — ela chorou mais ainda.
Enquanto acariciava os cabelos da menina e observava os traços dela. Parecia alguém que já tinha trabalhado, mas não lembrava quem, e sabia que não era seu pai.
— Olhe para mim, minha linda. — ajeitou o cabelo de Kara e secou suas lágrimas. — Você é linda, tudo bem? Não precisa nem da aprovação do seu pai.
— Você acha?
— Acho. — sorriu. — Eu já desconfiava que Dougie Poynter era meio idiota, mas agora ele me provou que ele é idiota. Você ficou ótima.
— Obrigada, . — Kara fungou.
As duas foram impedidas de se abraçar pelo barulho de criancinhas que vieram até as duas. Avistou Poynter e um homem moreno, que reconheceu ser o baterista da banda da qual ele participava. As crianças abraçaram Kara e se levantou.
— Como você tem coragem de dizer a ela que não está bonita? — a publicitária o enfrentou. — Kara está linda.
— Eu não disse que ela estava feia. — Dougie disse, um pouco surpreso com o tom dela. — Eu só me assustei porque...
Sem nem mesmo continuar, o baixista se abaixou e abraçou a menina. encarava a cena, ainda irritada, como se Poynter não estivesse fazendo mais que sua obrigação. Harry a puxou para um canto mais separado.
— Ela está a cara da mãe a cada dia... — ele sussurrou. — Mas, agora, com essa franja, ela está uma cópia dela.
Quando o baterista lhe disse isso, lembrou o nome da mulher a qual Kara se parecia. Emilia.
— Emilia alguma coisa. — ela engoliu em seco. — A modelo? Ela é a mãe da Kara? — Harry balançou a cabeça, concordando, fazendo ficar ainda mais chocada.
— Mas o que aconteceu? — Ela acabou soltando sem perceber. — Não, esquece, isso não é da minha conta. Só diga para o seu amigo parar de ser um idiota, ok?
deu as costas para todos, entrando no elevador e seguindo para o seu apartamento, ao contrário dos Poynters, ela estava chegando em casa naquela hora, enquanto eles já deviam estar descansando (ou não) há algumas horas. Porém, assim que adentrou o seu lar, com o pacote de compras em mãos, a primeira coisa que fez após largá-lo em cima da mesa, foi pegar o telefone e ligar para Brianna. Alguns toques depois, a amiga atendeu.
— Chora, bebê. — Brianna disse, pôde ouvir os resmungos de Luke ao fundo, e ela sentiu ainda mais saudade do sobrinho.
— Você lembra daquela modelo, Emilia alguma coisa? Ela fez um ensaio na sua agência e foi mega grossa com todo mundo, e no fim eu acabei editando as fotos dela. — mordeu o lábio ao comentar, não sabia exatamente como contar, mas precisava contar aquilo.
— Infelizmente lembro sim, o que tem ela? Emilia Brown. Não me diga que você vai ser azarada de ter que trabalhar com ela e o Poynter ao mesmo tempo. — Brianna riu, mas a não, então ela voltou a ficar séria.
— Não. — suspirou. — Emilia é mãe de Kara Poynter.
— O QUÊ?

Capítulo Cinco

— Então, Emilia é mãe da Kara e a desgraçada sumiu no mundo? — Brianna olhou, incrédula, para , mas a morena apenas deu de ombros.
— Olha, pelo o que eu entendi, isso é um assunto proibido no apartamento de cima. E, pelo amor à sua vida, Brinna Hawkins, você trate de controlar essa boca de sandália. — praticamente suplicou para amiga que não contasse a ninguém aquilo, ela mesma não sabia se poderia tocar no assunto com o próprio assunto, ou seja, Dougie Poynter.
— Ok, mas espera aí, até ontem você odiava a Kara e agora está cheia de amores com a garota. Amiga, você mesmo disse que ela é uma aprendiz do tio Lu. — revirou os olhos enquanto separava um pouco de nhoque para fritar e outra parte deixaria para Brianna comer com molho.
— Amiga, eu sei. Mas ontem… — Ela suspirou, relembrando a cena da noite passada. — Ontem eu conheci uma nova Kara, mas se ela infernizar meu sono de novo, eu estou disposta a devolver na mesma moeda.
— Ufa, que susto. Agora sim é a que eu conheço. — Howkins pegou seu prato e sentou-se no sofá grande, pegou a tigela com nhoque frito e o molho barbecue sentando ao lado da amiga; a garrafa de vinho já estava posta junto com as taças na mesa de centro e logo Miss Simpatia começou a rodar na tela.

[...]


chegou na agência um pouco mais cedo que o normal, por sorte, não tinha nenhuma sessão de fotos agendada, então teria tempo de editar todas as suas fotos atrasadas. Pelo menos, era isso que ela tinha em mente.
— Bom dia, . — Kate, sua colega de trabalho, a cumprimentou. — Temos um cliente hoje aqui na agência e ele insistiu para ser fotografado por você.
— Por mim? — não conseguiu pensar em ninguém específico, mas acabou aceitando para não gerar problemas para a equipe. Ela sabia muito bem como os clientes conseguiam ser bem chatos quando queriam, e isso gerava mais estresse e reuniões desnecessárias para a equipe. Quando adentrou a sala onde aconteceria o ensaio, ela se deparou justamente com Dougie Poynter.
— Não acredito! — Ela foi obrigada a rir, passou a mão na testa, tentando se controlar, mas assim que viu o sorriso convencido estampado no rosto do baixista, ela teve mais vontade ainda de estapear aquela carinha. — Você é um cretino, Dougie Poynter!
As pessoas ao redor a olharam, assustadas, costumava ser calma e simpática com todos com quem trabalhava, aquilo era intimidade demais do que eles estavam acostumados.
— Nós somos vizinhos, tá tudo bem. — Ela fez uma leve careta e apontou de si para Dougie, enquanto as feições do rosto do pessoal se suavizaram ao ouvir a explicação. — Olha, eu tenho mais o que fazer. E as fotos para a campanha ambiental já foram tiradas, então você vai tirar essas fotos novas com outra pessoa, sim!
— Não vou.
— Qual o seu problema? Todo mundo aqui é ótimo. — não acreditava que tinha que lidar, não só com a filha, mas com o pai birrento também.
— Mas você é melhor, eu já vi as fotos da campanha ambiental, elas são ótimas e nem foram editadas ainda.
— Tá, tudo bem, mas você vai ficar me devendo. — Ela se rendeu e começou a preparar a câmera. — Anne, por favor, arrume uma roupa para o Dougie, ele esqueceu de tirar o pijama!
O baixista fez uma careta, mas acabou seguindo Anne para trocar de roupa, realmente não tinha como fazer as fotos para a coleção de roupas novas, vestindo uma calça de moletom velha, uma blusa branca e uma touca rosa. Até que tinha um pouco de razão, mas ele não assumiria tão fácil. Antes que ela reclamasse novamente, Dougie seguiu Anne e os dois saíram da sala. Quase quinze minutos depois, eles não voltaram e , com a agenda cheia, tinha coisas a fazer.
— A madame já terminou? — adentrou a sala ao lado, sem ao menos bater. Certamente, se arrependeria daquela decisão. Dougie Poynter estava apenas de cueca. — Inferno!
Assim que o viu, além de admirar — coisa que ela não admitiria nem com pena de morte —, a publicitária fechou a porta. Quando isso aconteceu, pôde ouvir a risada do baixista dentro do local. "Bastardo!", ela pensou. Dougie Poynter era um descarado insolente.
— Pode entrar, já estou devidamente vestido, . — ele falou mais alto através da porta para que ela pudesse ouvi-lo. adentrou o local e o encarou. Poynter vestia uma calça azul, seu vans clássico e estava colocando uma blusa branca de mangas que tinham pequenos detalhes coloridos na frente. Uma pena usar uma camisa de manga, pensou. Seu braço tatuado merecia destaque. Por um instante, questionou seu pensamento: desde quando o braço de Dougie Poynter chamava sua atenção daquela maneira? E por que havia pensado naquilo? Saindo de seus devaneios, lhe ofereceu um sorriso falso.
— Podemos? Tenho mais o que fazer. — ela foi sincera.
O baixista a seguiu sem dizer muito e rapidamente os dois foram para o local onde tirariam as fotos. Dentro de si, travava uma batalha: por ser curiosa, queria saber mais sobre Poynter e Kara, mas não achava que tinha intimidade alguma com eles para perguntar algo. Desfazendo seus pensamentos, a mulher ajeitou seus materiais e a câmera estava a postos.
— Que pose você quer que eu faça? — ele perguntou.
— Não sei, tanto faz. — ela deu de ombros. — A que você se sente mais confortável, talvez?
Dougie ficou sério e encarou a câmera. Depois de alguns cliques, mexeu a mão, indicando que ele trocasse de posição. Dougie ficou de lado e uniu as mãos. Algum tempo depois, os dois já tinham tirado algumas fotos e ela não estava satisfeita, apesar do rapaz ser bastante fotogênico.
— O que foi? — Dougie perguntou, sério. — Danny sempre disse que eu era feio, mas com você me encarando assim, eu tô realmente achando que ele tem razão.
riu do comentário de Dougie.
— Não estou satisfeita com o que eu tirei.
— Eu garanto que estão ótimas.
— E eu garanto que você não entende de fotografia. — ela soltou uma risadinha. — Ou você entende disso também?
— Por que você é sempre tão rude comigo? — ele perguntou.
— Porque você é um idiota e acha que é o dono do mundo. — ela cuspiu. — Eu não vou sucumbir ao seu ego só porque você é famoso, muito menos porque é meu vizinho.
— O que eu fiz que prova que eu sou idiota? — Douglas cruzou os braços e a encarou com a mandíbula travada.
— O jeito que você tratou sua filha ontem, Dougie. — ela foi sincera. — Vários garotos vão quebrar o coração da Kara, mas você não pode fazer isso. Você é o único que deve estar lá para ampará-la, independente das suas indiferenças.
A fotógrafa saiu da sala para se recompor e decidiu tomar um cafézinho. Quando voltou à sala, Dougie estava com suas roupas iniciais e encarava a vista. Um pouco irritada, soltou um suspiro.
— Por que você trocou de roupa? — ela perguntou.
— Pensei que tivéssemos terminado. — ele foi sincero e ela lhe deu um sorriso. — Não?
— Não. Eu preciso de, pelo menos, mais umas cinquenta fotos para escolhermos cinco para a campanha. Vai trocar de roupa, Douglas.
Ele a encarava com um sorrisinho no rosto.
— O que foi? — ela perguntou.
— Você parece minha mãe me mandando trocar de roupa. — ele soltou uma risada e ela revirou os olhos.
— Vai trocar de roupa antes que eu te jogue daquela janela, por favor. — ela pediu, respirando fundo, e ele gargalhou, mas a obedeceu. Calma, guardava a fúria de dez gatos famintos, então irritada ele não queria nem ver.

[...]


Perto das sete, estava na porta da agência esperando Joe. Como de costume, os dois iam jantar juntos. Brianna e Luke tinham ido visitar sua mãe e não poderiam comparecer ao jantar semanal da família. Mesmo assim, os dois mantinham a tradição.
— Finalmente! — reclamou ao se sentar ao lado do irmão. — Pensei que estava vindo de Nárnia.
— Oi, irmãzinha! Quanto tempo, eu estou bem, obrigado por perguntar, e você? — ele ironizou.
— Com muita fome. — ela riu e Joe entendeu todo mal humor.
— O que vamos fazer para o jantar de hoje? — o professor de química perguntou.
— Lasanha. — ela sorriu e soltou um gritinho de animação.
Os dois conversavam sobre coisas do dia a dia enquanto se encaminhavam para o prédio de . Falavam sobre como Luke havia crescido e o quão esperto estava, comentaram também sobre Brianna, e ao chegarem no edifício, os dois encontraram com Dougie Poynter no lobby.
— Até aqui? — ela bufou quando o viu. Joe não entendeu muito bem, mas presumiu que aquele era Poynter.
— Boa noite. — Dougie os cumprimentou ao entrar no elevador. Enquanto tentava apertar o botão para que a caixa metálica subisse logo, Joe entrou em sua frente.
— Boa noite. — Joe sorriu e revirou os olhos. O clima no elevador começou a ficar estranho, então a publicitária fez questão de apresentá-los.
— Dougie, esse é meu irmão, Joe. Ele quem a Brianna indicou para dar aulas particulares de química para Kara. — ela disse a contragosto.
— Prazer, Dougie. — ele cumprimentou o químico e os dois começaram a conversar.
— Então você está dando muito trabalho para minha irmã na agência e aqui? — Joe sorriu.
— No trabalho sou eu, aqui é minha filha, Kara. — ele riu. — Enquanto um Poynter atiça, o outro descansa.
— Ha, ha, ha, muito engraçado, Douglas. — revirou os olhos. — Não sei o que fiz para merecer vocês.
— Precisamos relembrar sua adolescência? Tem conteúdo suficiente para provar que você merece. — seu irmão riu e Dougie pareceu interessado. Antes que o baixista pudesse perguntar, tapou sua boca.
— Nem pense. — ela, depois de ter feito, questionou sua atitude. Dougie rapidamente mordiscou e lambeu a palma da mão dela e ela tirou com um pouco de nojo.
— Ew! Nojento! — ela resmungou.
— Nojento? Você já fez coisas de salubridade duvidável. — Joe a atiçou.
Antes que pudesse respondê-lo, o terceiro andar chegou e ela o puxou para fora do elevador, sem nem mesmo darem boa noite para o músico. Joe soltou uma risada enquanto tentava encontrar a chave certa no molho. Seu irmão a encarou, curioso.
— Esse é o efeito Dougie Poynter? — ele riu.
— Eu só quero tirar a baba dele da minha mão. — ela comentou, tentando não tremer. — Isso é tudo.

[...]


Quando Dougie abriu a porta do apartamento, o mesmo já se encontrava arrumado — o que era raro — e Kara estudava na mesa da cozinha. Assim que avistou o pai, guardou seus materiais e foi para o seu quarto, ainda que ele tivesse conversado com a menina na noite anterior, ela ainda estava ressentida.
Dougie preferiu tomar um banho rápido e trocar de roupa antes de ir atrás de Kara, talvez ela precisasse de um tempo, ele daria esse tempo a ela. Após o banho, Poynter foi para a cozinha e preparou macarrão com molho branco para os dois, Kara gostava e, bem, ele também.
— Filha? — Dougie bateu duas vezes na porta, esperando uma resposta da menina.
— Oi, pai, entra. — Ela disse, baixo, mas ele ainda escutou. Quando Dougie colocou a cabeça para dentro do cômodo, viu que Kara estava lendo um livro, deitada na sua cama. O mais engraçado foi quando ele se deu conta que o livro que ela estava lendo era um dos Dinossauros que fez cocô, o qual ele tinha escrito com seu melhor amigo, Tom Fletcher.
— Acho que você já passou da hora de ler esse tipo de livro. — Ele comentou, sorrindo. Kara tirou os olhos do livro e encarou o pai, também sorrindo.
— Eu sei, mas você escreveu com o tio Tom, e percebi que nunca tinha lido. Se eu ainda fosse criança, ia gostar de ler um desses, com certeza.
— Então isso é sinal que fizemos algo certo. — Ele sentou na cama ao lado da filha. — Vamos jantar? Fiz macarrão com molho branco, sei que você gosta.
— Hum, tô morrendo de fome. — Kara largou o livro na estante e já estava saindo do quarto quando o pai a chamou.
— Filha, desculpe por ontem, me expressei mal. — Ela parou na porta, encarando o pai, os olhos brilhantes de Kara o lembravam ainda mais Emilia. Era como se Dougie estivesse falando com a mulher, mas ele tinha que deixar esses pensamentos no passado. Kara não era Emilia e nunca seria, ele tinha cometido um grande erro justo com sua filha, e precisava se redimir.
— Eu sei que fiquei mais parecida ainda com ela, mas se eu soubesse que ficaria assim, jamais teria cortado meu cabelo. — A resposta de Kara surpreendeu Dougie, nessas horas, a voz de vinha a sua mente “Você é o único que deve estar lá para ampará-la, independente das suas indiferenças.”
— Você não pode se privar de fazer o que quer por causa disso, filha, quero que isso fique bem claro. Você sempre vai ser uma parte de nós dois, e eu sempre vou estar aqui para você. — Dougie se levantou, puxando Kara para um abraço.
— Eu sei, pai. — Kara abraçou a cintura do pai e afundou o rosto no peito dele. — Podemos jantar agora? Eu estou faminta.
Na hora que Kara terminou de falar, sua barriga soltou um barulho alto e Dougie poderia jurar que tinha um monstro ali dentro. Os dois se encararam por alguns segundos e começaram a rir.
— Vamos alimentar seu monstro interior. — Dougie caminhou abraçado com a filha até a cozinha. — E depois podemos assistir um filminho, e até comer um chocolate, o que acha?
— Acho que você está tramando algo para mim e eu não vou gostar. — Kara olhou por cima do ombro, enquanto pegava um pouco de massa na panela em cima do fogão.
— Eu? Jamais faria isso. — Dougie tentou controlar o riso.
— Fala logo, pai.
— Você vai ter aulas de química com o irmão da .
— Tudo bem, eu não quero repetir de ano e continuar olhando para a cara da senhora Sanders.
— Ótimo, eu também não quero que você repita o ano.
— Podemos falar de coisa boa agora? Essa massa está divina!

Capítulo Seis

O dia da aula de química de Kara havia chegado e a menina estava um pouco ansiosa. Dizer que ela era ruim em química era um eufemismo. A menina tinha muita dificuldade com todas aquelas contas, elementos e reações. Esperava mesmo que Joe fosse sua luz no fim do túnel.
— Deve ser ele. — a menina ouviu o pai falar e ir atender a porta. Kara ajeitou seu material em cima da mesa e se ajeitou na cadeira. Odiava se sentir burra, mas aquela matéria e a professora Sanders certamente cumpriam o papel de desmotivá-la.
— Joe! Seja bem-vindo. — Douglas cumprimentou o irmão de sua vizinha com um sorriso no rosto. — Você aceita alguma coisa para beber ou comer?
— Não, cara. Obrigado. — Joe agradeceu e encarou Kara com um grande sorriso. — Oi, Kara. Ouvi falar bastante de você.
— Acredito que não foram coisas muito boas… — a menina soltou uma risadinha. Joe foi até a menina e sentou-se ao seu lado.
— Eu tinha uma igual em casa. — ele riu. — Quando me contou da sua travessura, perguntei se você era uma mini .
era igual a mim? — Kara soltou um risinho.
— Quase, mas ela era pior. — ele riu. — Eu diria que a foi uma grande dor na bunda, mas não conte a ela.
Kara deu risada do comentário de Joe e os dois conversaram um pouco antes de começarem a estudar. Ela não sabia muito como ele fazia aquilo, mas, ao entrar naquela casa, era possível sentir o nervosismo da adolescente da porta e sabia que conversar com a menina a distrairia. Além disso, Joe sabia que era normal pessoas com grande dificuldade em matérias com bastante cálculo ficarem ansiosas e bastante nervosas ao se depararem com questões extensas.
— Bom, qual é a matéria que vamos estudar hoje? — o professor perguntou, sorridente.
— Estequiometria. — ela fez uma careta e ele riu.
— Essa matéria é bem tranquila. — ele foi sincero. — Vamos lá, você já fez bolo?
— Já. — ela respondeu, desconfiada.
— A receita do bolo é estequiométrica, ou seja, ela tem certas proporções. — ele começou a explicar. — Por exemplo, para fazer um bolo, você precisa de três ovos. Isso significa que a cada três ovos que você adicionar, você fará um bolo.
Kara prestava atenção no que Joe falava e o baixista os observava de longe e, do modo que ele explicava, até Dougie conseguia entender.
— Um exemplo claro é a água. Ela não é formada por dois hidrogênios e um oxigênio? Então, pode-se dizer que com dois hidrogênios, se faz uma molécula de água. Ou que, com um oxigênio, obtemos uma molécula de água.
Os dois ficaram imersos no ambiente químico por bastante tempo, até que Kara conseguisse fazer todas as questões que Joe passara por conta própria. Além disso, Joe fazia piadinhas de química para descontrair. Quando terminaram, Kara estava até feliz por estudar química.
— Você não quer enviar um currículo na minha escola, não? — Kara perguntou. — A professora Sanders é péssima.
— Eu adoraria, mas eu já sou professor em outra escola.
— Pai, eu quero mudar de escola! — Kara anunciou e Dougie riu. — Mas agora… Quero saber sobre a . Como ela era quando mais nova?
— Ela fugia de casa pelo menos duas vezes na semana. — Joe riu. — Implorava para eu distrair a mamãe, ou então, quando algo dava errado e eu tinha que buscá-la, sempre parava na farmácia para comprar qualquer remédio para dizer para nossa mãe o motivo de termos saído.
— Ela era inteligente mesmo. — Kara riu. — Qual foi a história mais bizarra que você acobertou a ?
— A era bem atentada… — ele riu. — Mas a mais bizarra foi quando, aos dezesseis, ela fugiu para sair com um garoto e eu tive que ir buscá-la do outro lado da cidade. Ela estava com a mão roxa.
— O que aconteceu? — Kara perguntou, assustada.
— Além do cara ser um idiota, ele tinha um probleminha comigo. — Joe revirou os olhos. — Disse a ela que era para ela fazer questão de dizer para mim que ele estava saindo com a minha irmã mais nova. Então socou o nariz dele várias vezes.
— Ela fez isso? — Kara riu.
— Fez. — o professor de química riu. — E eu já queria avisar…
Ele quase se virou para Dougie.
— Minha irmã quebra narizes como ninguém.
— Acho que essa foi para você, pai… — Kara riu e Dougie os encarou, confuso.

(...)


O trabalho de edição de fotos estava fantástico. Dougie era bastante bonito (e fotogênico), então editar aquelas fotos era quase que um momento de descontração. observava os traços marcados do músico e seu braço era o que mais lhe chamava atenção, pois as tatuagens de Dougie eram incríveis. Já era tarde da noite quando sua campainha tocou e a fotógrafa estranhou. Quando olhou pelo olho mágico, viu Kara segurando um livro.
— Oi, Kara. — a publicitária sorriu para a adolescente.
— Oi, . — a menina sorriu fraco. — Seu irmão esqueceu o livro dele lá em casa.
— Ele é bem esquecido, obrigada por ter trazido, Kara. — sorriu ao ver a letra do irmão grifada na capa do livro com um sorrisinho do lado. Kara estendeu o objeto para , mas ela teve uma ideia. — Você quer entrar, Kara? Estou editando algumas fotos do seu pai.
— Está? — ela perguntou baixinho. — Posso ver?
— Sinta-se em casa. — a fotógrafa disse e logo se arrependeu. — Mas nem tanto.
A risada infantil de Kara encheu a sala de estar da mulher. puxou uma cadeira da mesa de jantar para sua escrivaninha e sentou-se em seu lugar. Kara estava com o olhar ávido na mulher, que parecia fazer aquilo como ninguém.
— Nossa, meu pai é muito bonito. — Kara comentou com um tom surpreso.
— Ele é… — disse baixinho.
— Como? — Kara riu. — Você acha meu pai bonito?
— Não, quer dizer, sim! Ele não é feio, mas não é bonito, bonito.
— Isso quer dizer o quê? — Kara perguntou.
— Isso quer dizer que você é uma pestinha, Poynter. Observe meu trabalho em silêncio.
— Queria ser bonita como ele. — ela comentou baixo. — As meninas da escola vivem dizendo que ele é bonito e eu devo ter puxado a minha mãe para ser tão feia.
Emilia Brown estava longe de ser alguém feia. Quer dizer, fisicamente. Emilia Brown era alguém com péssimo caráter e extremamente egoísta, mas Kara não sabia disso e não era papel dela dizê-la aquilo. No entanto, ela sentia raiva daquelas garotas.
— Elas são umas idiotas, Kara. — ela disse, séria. — Você é linda, nada do que elas dizem importa.
— Para você é fácil falar, é linda de qualquer jeito. — a garota disse, desanimada.
— Ei, esquece essa história, todas nós somos lindas, de maneiras diferentes. Até o chato do seu pai, mas ele não precisa saber disso. — Kara soltou um riso baixo e piscou para a garota, voltando a dar atenção para a tela do computador em seguida.
— Tudo bem, eu vou logo para casa, antes que ele apareça aqui. — na hora que olhou no relógio, percebeu que Kara já estava ali uns bons vinte minutos, e, bem na hora, o interfone do seu apartamento tocou. Era Dougie.
— Oi, , Kara está aí? — ela ouviu a voz do vizinho soar preocupada.
— Oi, vizinho. Sim, eu acabei de prendê-la no quarto de hóspedes para que eu possa ter uma boa noite de sono. — disse apenas para provocar. Ela também conseguia esquecer que tinha maturidade.
— Você fez o quê? — ele quase soltou um berro no outro lado da linha.
— Relaxa, Poynter, ela já está subindo.
desligou o interfone na cara de Dougie mesmo, e encarou Kara, que já estava quase na porta.
— Você gosta de provocar o meu pai, né? — Kara tinha um sorrisinho no rosto, igual ao pai. Realmente, não tinha como negar que ela era uma Poynter.
— Eu só apenas me vingo um pouquinho pelo trabalho que ele me dá no meu trabalho. — ela riu. — Boa noite, Kara.
— Boa noite, . — apertou o botão do elevador e esperou que a menina entrasse no mesmo para voltar para sua casa.
Quando fechou a porta do apartamento, seu celular vibrava ao lado do computador. É, trabalhar seria a última coisa que ela conseguiria fazer naquela noite. Porém, relaxou o corpo no sofá quando viu o nome do seu irmão brilhar na tela do aparelho.
— Eu preciso trabalhar, mas vamos lá, chora. — Ela atendeu a chamada.
— Você é sempre tão simpática atendendo minhas chamadas. — Joe respondeu.
— E você sempre tão dramático. Mas o que precisa mesmo?
— Esqueci meu livro nos Poynter.
— Eu sei, já está aqui. Como foi a aula com a mini Lulu? — foi direta.
— Mini Lulu? Deus, .
— Na verdade é o outro cara, mas beleza. — Ela soltou uma risada seguida do irmão.
— Foi boa, eu sempre fui um ótimo professor, você sabe. — conseguia imaginar o irmão se vangloriando por isso. Mas ela sabia que era verdade, passou em química no colégio com a ajuda dele e não podia negar.
— É verdade, mas foi tranquilo mesmo?
— Sim, vou dar outras aulas e contar mais dos seus podres para a sua arqui-inimiga mirim.
— Não se atreva a fazer isso, Joe ou eu peço para Brianna arrancar suas bolas fora. — O tom de voz de passou a ter um certo desespero.
— Ela não vai fazer isso. — ainda conseguiu ouvir Brianna gritar no fundo um pedido de desculpas. Suspirou baixo, ela sabia que o irmão estava provocando.
— Eu preciso trabalhar e começar a traçar meu plano de vingança contra você, caso Kara Poynter descubra tudo o que eu já fiz. — Ela voltou com o seu tom ameaçador, Joe soltou uma gargalhada no outro lado da linha.
— Fica tranquila, vou deixar você trabalhar. — Ele disse, calmo. — Boa noite, .
— Ei, te amo, maninho.
— Também te amo.
desligou o telefone, desligou mesmo, e voltou sua atenção para o computador. Sua semana estava sendo cheia, várias sessões de fotos, várias fotos para editar e mais outros anúncios que provavelmente apareceriam até o final da semana. Trabalho é que não ia faltar para , então ela precisava terminar tudo que havia pendente o quanto antes. Respirou fundo e sentou na cadeira novamente.
— Mãos à obra, .

Enquanto gastava suas horas de sono concentrada em seu trabalho, no apartamento de cima, os dois moradores não tinham a mesma preocupação. Dougie e Kara estavam terminando de jantar quando a garota decidiu provocar o pai.
— A é bem bonita, né, pai?! — Ela começou a falar, como quem não queria nada, enquanto terminava sua sobremesa.
— É sim. — Ele respondeu tão rápido que nem percebeu o que acabara de dizer. — Quer dizer, sei lá. — Ele deu de ombros.
— Pai, você é péssimo mentindo. — Kara apontou a colher na direção do homem e estreitou os olhos. — Mas tudo bem, ela também te acha bonito.
— Por que está me contando isso, Kara? — Ele disse, sério.
— Porque você precisava saber, tá na cara que é afim dela. — Kara colocou o pote de sobremesa na pia e foi para o seu quarto, deixando o pai um pouco boquiaberto sozinho na cozinha.
— Vá escovar os dentes e se arrumar para dormir, isso não é assunto para criança. — Ele gritou da cozinha. Mas sabia que a menina estaria revirando os olhos se estivesse na sua frente.
A cabeça de Dougie estava uma bagunça, a mudança de cabelo da Kara ainda o perturbava um pouco, principalmente porque não havia mais nada que ele pudesse fazer. O que acabava fazendo-o lembrar cada vez mais de Emilia, de uma forma que chegava a assustá-lo. Assim que terminou de ajeitar a cozinha e ver se não tinha nada atirado na sala, passou no quarto de Kara e a menina já estava dormindo. Reparou no quanto a filha tinha ficado mais calma, parecia que as coisas estavam finalmente se ajeitando, eles também tinham se aproximado mais e isso o deixava extremamente feliz. Talvez ela topasse passar a tarde no estúdio com ele no dia seguinte, pelo menos esse era o plano. Antes de fechar a porta, foi até a cama da filha e beijou o topo de sua cabeça.
— Boa noite, princesa. — Ele disse baixo, achando que ela não iria escutar.
— Boa noite, pai.

Capítulo Sete

Dougie estava reunido no estúdio com o restante da banda, além de David e Jason também estarem acompanhando-os nessa nova jornada. Estar de volta naquele lugar estava sendo maravilhoso para ele, era onde ele sempre encontraria paz. O álbum estava quase pronto, então eles passavam mais tempo rindo um do outro do que realmente trabalhando. Poynter foi pegar mais uma xícara de café, quando Harry parou ao seu lado.
— Como andam as coisas com a Kara? — Ele perguntou, assustando um pouco o amigo mais novo.
— Ela tá mais calma, e o irmão da foi dar aula de química para ela. Acho que ajudou bastante. — Poynter respondeu, tomando um gole da bebida já não tão quente quanto gostaria.
— Então já conheceu o restante da família dela, é? Não achei que ia ser tão rápido. — Judd cutucou o amigo, que apenas revirou os olhos. — Mas falando sério, como isso foi acontecer?
— O quê?
— O irmão da . — Harry disse.
— Ah, a namorada do irmão dela comentou comigo. Nos encontramos no elevador, por acaso, só isso. — Dougie pegou sua xícara e voltou para o sofá onde estava sentado anteriormente.
— É só questão de tempo até você conhecer os pais dela. — Harry falou tão próximo ao ouvido de Poynter, que ele chegou a derramar um pouco de café em si mesmo antes de chegar ao sofá.
— É. — Dougie riu. — Provavelmente nos conheceremos no lobby do prédio.
O baterista ignorou o comentário idiota de Poynter e seguiu para seu lugar favorito enquanto Dougie ajeitava as coisas em seu baixo. Apesar de estarem trabalhando à beça, Dougie estava feliz. Era clara a importância da banda para ele e Danny, Tom e Harry eram os que o apoiavam enquanto ele precisava de ajuda. Conforme o baixista teve que lidar com a pré-adolescência de sua filha, ele se afastou um pouco dos três, mas eles compreendiam. Dougie foi o primeiro da banda a ter filhos e só Kara já bastava para tirar toda sua sanidade.
Entendia toda vez quando sua mãe o relembrava o que passara com ele e Jazzy. Kara tinha seu jeito com a aparência de Emilia. Desde pequena, Poynter sabia que a área artística era o futuro de sua filha, uma vez que ela era bonita o suficiente para ser uma modelo e talentosa o suficiente para ser uma baixista. Torcia, no entanto, que Kara se mantivesse longe das câmeras e das passarelas.
Sabia que sua filha jamais teria o jeito de sua mãe, mas aquelas seriam semelhanças para assombrá-lo. Do jeito que Emilia Brown era conhecida pelo mundo da moda, a aparência delas seria facilmente comparada. E, apesar de Dougie ter desejado que sua filha tivesse uma mãe presente, ele não queria que aquela mulher, que desistira de sua filha anos atrás, se aproximasse agora. Poynter entendia que Emilia havia priorizado sua carreira e nunca se importou, na verdade. Também estava ok com o fato de que ela não queria ser mãe, aquilo, para ele, pouco importava. Mas o jeito que ela tratou a bebê como se Kara fosse um parasita, desconsiderou toda possibilidade de carinho que ele poderia ter por ela.
Poynter e os amigos gravaram algumas músicas e escreveram outras. Era quase noite quando Dougie saiu do estúdio e decidiu que aquele dia seria um ótimo dia para comerem fora. Dougie tentava falar com Kara, mas a pré-adolescente não o atendia. Quando chegou no lobby de seu prédio, esperava pelas costumeiras reclamações do zelador.
— Boa tarde, senhor Poynter. — ele cumprimentou Dougie.
— Boa tarde, senhor Prescott. — o baixista parou, na espera das reclamações do dia.
— Hm, sim? — o homem perguntou, confuso.
— Quais são as reclamações de hoje? — ele suspirou.
— Não tem. — o zelador riu baixinho. — Kara passou o dia inteiro quieta.
— Você tem certeza, senhor Prescott? — ele levantou as sobrancelhas em surpresa.
— Sim. — ele confirmou. — A senhorita Kara passou a tarde toda no terceiro andar.
— Isso não é bom. — ele apressou o passo. — Tchau, senhor Prescott.
Dougie correu até o elevador e apertou incessantemente o botão que o levaria para o andar de . Sua filha não tinha maturidade e , bem, ela conseguia não ser madura também. Assim que o elevador soltou o plim, o baixista saiu e deparou-se com a porta do apartamento de aberta. O homem, no entanto, encontrou uma cena estranha: as duas sentadas no chão da sala, dialogando pacificamente. Dougie bateu duas vezes para chamar atenção das duas e sorriu ao ver que sua filha aparentava estar feliz.
— Atrapalho? — ele perguntou.
— Sempre, mas entra aí. — provocou.
— Oi, Dougie. — Kara o cumprimentou.
— Ah, ótimo. Retrocedemos. — ele bufou. o encarou e lhe deu um sorriso complacente.
— Estávamos escolhendo e editando suas fotos. Quer vê-las? — tentou aliviar o clima.
— Pode ser. — ele sentou ao lado de e observou o trabalho incrível que ela havia feito.
As fotos ficaram incríveis, é claro. Não porque era ele que modelava, mas sim pelo trabalho de . Talvez a roupa que a figurinista havia escolhido também tivesse ajudado.
— Ficaram ótimas. — o baixista elogiou o episódio de .
— O modelo ajudou, apesar de eu ter que mandá-lo trocar de roupa. — implicou. — Você não tem roupas além de pijamas?
— Tenho, mas é meu estilo. — ele riu.
— Estilo… — ela riu. — Sei.
— Eu quero fazer um ensaio. — Kara afirmou. — Posso?
— De maneira alguma. — Poynter negou.
— Por que não? — Kara o enfrentou.
— Você não tem idade para isso. — ele argumentou.
— Na verdade, hoje em dia tem ensaio até de newborn, Dougie. — argumentou. — Que tal vocês fazerem um ensaio juntos?
— Por favor, pai. — Kara usou a melhor expressão de cão que caiu do caminhão de mudança para convencê-lo.
— A vai fazer? — ele bufou.
— Eu? O quê? Não! — a fotógrafa se recusou. — Vocês já são os vizinhos mais chatos que eu tive na vida. Sua filha é uma pestinha e você é uma peste!
— Isso quer dizer que você vai? — Kara usou seu melhor sorriso.
— Eu pago quanto você quiser. — Dougie disse.
— O quanto eu quiser? — deu um sorriso maldoso.
— Seja sensata, por favor. — Dougie riu.
— Estou brincando, faço o preço normal, vizinho. — ela sorriu. — Mas só se alguém prometer se comportar.
— Eu prometo! — Kara deu um pulo. — Então podemos fazer?
— Sim, podemos. — Dougie concordou.
Kara levantou-se e abraçou o pai com força. No fundo, Poynter precisava muito daquele abraço e era bom vê-la feliz. apreciou a cena fofa dos dois e organizou as fotos escolhidas para campanha enquanto Kara dava uma enxurrada de ideias para o pai. Pensando bem, Dougie Poynter fazia tudo por sua filha, mesmo que de seu jeito todo torto. Ele era mesmo um bom pai.

Capítulo Oito

estava próxima da janela, olhando o movimento da rua lá embaixo enquanto escutava sua mãe falar da vida no litoral. Era típico de Nora comentar sobre como a cidade litorânea, St. Ives, ainda conseguia manter sua reputação como um centro artístico, e mesmo já sabendo as falas da mãe de cor, ela balançava a cabeça e concordava com tudo. Não, não era o tipo de pessoa que deixava sua mãe falando sozinha, na maior parte das vezes, era apenas o cansaço tomando conta de seu corpo, mas ela gostava de conversar com a mulher sempre que podia. Esse era um dos motivos por ainda estar com o telefone grudado na orelha, a semana tinha se arrastado, e ainda tinha muito trabalho pela frente. Mas escutar a voz de sua mãe a acalmava.
— Joe disse que está dando aula particular para o seu vizinho. — O tom de voz de Nora mudou, foi impossível passar despercebido por . Ela era igual a mãe nesse aspecto, sempre que queria mais informações ou apenas uma fofoca boba.
— Não, ele está dando aula para a filha do meu vizinho. — não conseguiu segurar uma risada. Por um breve momento, imaginou Dougie Poynter sentado tentando entender algumas das fórmulas que Joe, possivelmente, estaria explicando. Não querendo se gabar por ser seu irmão, mas Joe era um ótimo professor e faria até mesmo Dougie Poynter aprender química.
— Ah, e como é ser vizinha do modelo? — Nora voltou a interrogar a filha, o que fez abrir um sorriso involuntário. Ela podia imaginar sua mãe com a típica cara de quem não quer nada, mas se corroendo por dentro para perguntar sobre todos os detalhes. Se Nora soubesse o quanto a vida da sua filha tinha virado de cabeça para baixo por causa dos dois vizinhos de cima, ela pegaria o carro naquele momento e não se importaria de viajar cinco horas e meia até a capital inglesa.
— Você anda olhando as fotos de Dougie Poynter, é? Vou contar para o papai. — brincou.
— Ah, seu pai até gosta das músicas dele. — Ok, não esperava por essa. — Mas, então, me conta logo.
— É normal. Mas a filha dele é…
— Cuidado com a boca, . — Nora a cortou, sabendo muito bem sobre o temperamento da filha e da sua facilidade em citar palavrões a todo e qualquer momento.
— Uma peste. — A palavra não saiu mais com tanta força quanto a do primeiro dia. não queria acreditar que Kara tinha melhorado, e o lado pentelha da menina tinha dado espaço para um lado amigável? Não, suportável era melhor.
Elas não eram amigas.
Não por enquanto.
— Então acho que você encontrou alguém à sua altura. — A voz suave da sua mãe parecia se divertir no outro lado da linha. relaxou o corpo, sabendo que tudo aquilo era verdade.
— Mãe!
— Tudo bem, só estou brincando. Ou não. — Ela soltou um suspiro, derrotada.
— Joe é um fofoqueiro. — A resposta típica de comprovava apenas que alguns hábitos nunca mudam. — Como está o papai?
— Bem, está na varanda, aproveitando o início do outono, você sabe como ele ama essa estação. Você já jantou? — O tom de preocupação de Nora deu as caras de novo. — Não se atreva a comer qualquer coisa, , você tem essa mania quando está atolada de serviço.
— Prometo jantar assim que desligar. — se acomodou no sofá, tentando desviar os olhos das várias abas abertas em seu computador.
— Algo saudável, por favor. — Sua mãe ralhou.
— Tudo bem. — Sua voz saiu baixa, mas dessa vez não conseguiu desviar os olhos do computador. A janela do skype piscava, indicando que alguém estava tentando falar com ela. — Merda — Ela resmungou.
!
— Desculpa, mãe, preciso desligar. Nos vemos no próximo feriado?
— Claro, querida. Estou com saudade de vocês. — escutou alguns barulhos ao fundo antes de encerrar a ligação. Podia imaginar seus pais na varanda da casa, a brisa gélida batendo em seus rostos e sua mãe repassando a conversa que tinha acabado de ter com a filha. Na esperança de que o feriado chegasse mais rápido, logo tratou de terminar o trabalho do dia.
— Desculpa, mãe, mas a janta saudável vai ter que ficar para outro dia. — disse para si mesma quando sentou novamente na frente do computador e percebeu que já passava das nove da noite.

[...]


— Você tem prova quando? — Joe olhou para Kara novamente assim que terminaram mais uma lista de exercícios. O desempenho da menina tinha melhorado, e muito, desde que as aulas começaram, mas Joe sabia que ela precisava mais de atenção do que de ajuda com a matéria mesmo.
— Na próxima quinta. — Ela respondeu, guardando o material na mochila.
— Tenho certeza de que você vai se sair bem, mas vou mandar mais uma lista de exercícios e a gente tira todas as dúvidas na terça, tudo bem? — Joe sorriu, tranquilizando-a. Dougie escutava a conversa dos dois, mas em nenhum momento se atreveu a se meter. Ele sabia que Joe estava fazendo um ótimo trabalho, Kara até tinha melhorado seu humor e as reclamações da escola também diminuíram.
— Ei, Joe, quer ficar para jantar? — Dougie apareceu na sala, esperando uma resposta para voltar e colocar a mesa.
— Não, obrigada, Poynter. — Joe guardou o material que tinha usado na aula e mandou uma mensagem rápida para Brianna. — Tenho quase certeza de que minha irmã não jantou, vou dar uma passada ali.
— Joe, espera! — Kara correu até a cozinha, pegando um pote que tinha deixado em cima da ilha para não esquecer de entregar ao irmão de . — Você pode levar para a ? São brownies.
Joe resolveu ignorar a parte em que Kara chamou sua irmã pelo apelido e não questionar, afinal, ele sabia o quanto a relação das duas era uma verdadeira guerra de gato e rato. E, no momento, as duas pareciam ter estendido uma bandeira branca. Isso era bom. Pelo menos, era o que Joe achava.
— Acho que ela não vai se importar se eu roubar um no meio do caminho, não é? — Ele sorriu, colocando a mochila no ombro. — Boa noite e bom descanso para vocês.
Os Poynters se despediram de Joe, o deixando seguir para o andar debaixo. Assim que se aproximou da porta do apartamento da irmã, Joe conseguiu escutar uma música típica daqueles sons ambiente, a luz baixa indicava que não tinha ido dormir ainda, então não demorou em apertar a campainha e receber um “entra” como resposta. Sim, ele apertou a campainha, mesmo sabendo que a irmã estava em casa, eles respeitavam a privacidade um do outro.
— Ei, que bom te ver. — sorriu quando viu o irmão aparecer no seu campo de visão. A aparência de cansada estava estampada em seu rosto, e realmente estava, mas precisava de um gás para o trabalho que tinha que encarar noite adentro.
— Tenho uma entrega. — Ele esticou o pote para a irmã, mas a cara de interrogação de ficou evidente que ela não estava entendo nada. — Minha aluna mandou te entregar.
— Ah, é? — deu uma olhada e ao abrir o pote se surpreendeu com o cheiro maravilhoso dos brownies, dando-lhe água na boca. — Hum, parece bom.
— O que tá fazendo? — Ele olhou ao redor, percebendo que tinha deixado a sala com uma vela aromática acesa, o som de ondas tocando baixo no notebook e o cômodo era iluminado pela luminária e o que entrava da rua pela janela do apartamento.
— Conversei com a nossa mãe algumas horas atrás e prometi jantar. De verdade. — Ela riu, dando de ombros. — Mas acabei me distraindo com o trabalho, o peso na consciência apareceu e agora eu estou fazendo uma janta de verdade. Quer se juntar a mim?
— Claro. — Joe arregaçou as mangas da camiseta e se juntou à na beira do fogão. — Qual o cardápio?
— Eu adoraria fazer algo diferente, mas você sabe que minha especiaria favorita é macarrão. Então juntei todas as sobras comestíveis que encontrei na geladeira e coloquei na panela e aquela ali é a água para massa.
— Ok, vou dar um jeito nesse molho.
— É por isso que eu te amo. — Como uma boa irmã caçula, serviu duas taças de vinho tinto e deixou que Joe comandasse o fogão, ele adorava cozinhar mesmo e ela sabia que o resultado seria ótimo.
Mais tarde, Joe estava sentado na mesa da pequena cozinha de e apreciava uma imitação de yakisoba. O mais velho levava mesmo jeito para a cozinha, e agora entendia que ela não faria aquela mágica num curto espaço de tempo como o irmão.
— Será que dessa vez mamãe pode não ficar sabendo que você fez a janta? — Ela fez uma cara de inocente. — Eu estava dando um jeito antes de você chegar.
— Prometo não contar se Brianna não ficar sabendo que jantamos sem ela. — acenou rapidamente com a cabeça. — Quer sobremesa?
— Se sua sobremesa for os brownies da Kara, eu quero, eles ainda estavam quentinhos quando saí de lá.
— Vamos ver se aquela pestinha sabe cozinhar. — pegou um quadradinho e partiu ao meio, enfiando uma inteira na boca. Sua feição revezava entre ora levantar a sobrancelha e ora fechar os olhos. — Nossa, paguei minha língua. Isso tá muito bom, e aposto que é vegano, o que torna essa coisa ainda melhor. — Ela disse de boca cheia.
— Você tem que dar um desconto para ela, . — Joe falou, conhecendo o pouco da Kara durante as aulas, sabia que a garota não era má, tampouco uma peste como sua irmã a pintava.
— Espera aí, eu estou perdendo meu maior aliado, é isso mesmo? — A morena olhou-o, espantada, enfiando a outra metade que sobrou na boca, lambendo os dedos por último. — Não acredito, Joe . Brianna nunca faria isso comigo.
Joe soltou uma gargalhada, mas se arrependeu logo em seguida. Não queria que sua irmã tivesse problemas por ele estar fazendo barulho naquela hora da noite, afinal, já estava tarde e ele precisava ir para a casa logo.
— Bom, se você acha isso. — Ele deu de ombros, ainda rindo. — Eu preciso ir agora, e vê se descansa, já está tarde. — Joe apontou para o relógio na cozinha, o mesmo já marcava quase meia-noite e quase teve um pequeno ataque de pânico. Ela ainda tinha tanto trabalho pela frente.
— Será que o dia não podia ter, tipo assim, umas trinta horas? — Ela fez uma careta. Joe colocou os pratos na pia e os deixou limpos. — Para, você já fez tanta coisa desde que chegou.
— Só estou dando menos trabalho, você é a primeira pessoa que reclama por não ter que lavar a louça.
— Quando alguém cozinha para você, você limpa. Foi você que me disse isso, Joe. Para de lavar minha louça, e arraste seu traseiro para fora daqui antes que minha amiga maluca ligue. — E como se a mulher estivesse escutando, o telefone de Joe começou a tocar no mesmo segundo.
— Credo, acho que você pediu para ela me ligar de propósito. — Ele secou as mãos no pano de prato e pegou sua mochila do sofá. — Se cuida, e vê se descansa mesmo. — Joe deu um beijo em e saiu do apartamento, atendendo o celular que ainda estava tocando. Quando a publicitária voltou para o aconchego do seu sofá e colocou o notebook no colo, a intenção era terminar o seu serviço o mais rápido que conseguisse para poder descansar. Mas ao contrário disso, resolveu fazer uma pesquisa rápida, ou nem tanto assim.
— Que eu não me arrependa disso. — então digitou no google: Emilia Brown e Dougie Poynter.

Capítulo Nove

Na manhã seguinte, Kara acordou sozinha — podia ser, até, considerado um milagre —, e ao se deparar com o silêncio na casa, achou até mesmo que estivesse acordando cedo no dia errado da semana. Mas quando percebeu que a porta do estúdio estava fechada, sabia que o pai tinha passado a noite lá. Dougie tinha tornado aquela parte do apartamento num pequeno estúdio, fazendo o possível para que o som não saísse e atrapalhasse os vizinhos. Ele não precisava de mais esse problema na sua vida.
— Pai? — Kara o chamou, ainda um pouco sonolenta. Como não obteve resposta, entrou na sala mesmo assim e encontrou exatamente o que já imaginava que encontraria. — Você não dormiu a noite toda, senhor Poynter?
Dougie se assustou ao encontrar a filha parada na porta, e riu ao ser chamado do mesmo jeito que ele costumava falar com ela.
— Bom dia? — Ele levantou a sobrancelha, na dúvida. Tinha entrado ali um pouco depois das onze, a hora em que Kara foi dormir, mas não imaginou que passaria a noite toda com o baixo em seus braços. — Acho que perdi um pouco da noção de tempo. Culpado.
Kara riu com a expressão do pai, ele não tinha mais aquela armadura e o jeito sério toda vez que falava com ela.
— Vou fazer o café, e você vai tomar um banho, mocinho. — Ela deus as costas ao pai, indo para a cozinha. — Temos vinte minutos ainda. Você vai me levar para a escola, né?
— Claro, não tenho muita escolha. — Ele bagunçou os cabelos da filha ao passar por ela. E como num passe de mágica, aquele clima agradável se foi.
— É, você nunca tem escolha. — Ela resmungou baixo.
Kara queria entender o que se passava na cabeça de seu pai. Às vezes, achava que conseguia compreendê-lo, mas ele sempre se desfazia dela. Por momentos, a menina desejava não ter nascido e odiava sua mãe, quem quer que fosse, pois sua pessoa preferida no mundo, seu pai, a odiava por isso. Quando terminou de fazer o café da manhã, a menina voltou para seu quarto. Enquanto se olhava no espelho, quis chorar. Por que ela não podia se parecer com seu pai?
— Você é um estorvo, Kara. — ela disse e caiu em lágrimas.
Antes que Dougie saísse do banho e a visse daquele jeito, a menina fez o que sempre fazia. Vestia uma máscara e se fechava mais ainda ao seu pai. Odiava o fato de ser quem era e como era. Sem pensar muito, a garota voltou para sala e o esperou no sofá.
— Você já tomou café? — Poynter perguntou ao aparecer na sala.
— Não. — ela disse. — Apenas coma logo e vamos. Não quero me atrasar.
— Mas você não pode ir sem comer.
— Perdi a fome, Dougie. — ela disse. — Vai logo.
O baixista preferiu ir tomar seu café da manhã sem brigar. Quando terminou, sua filha o esperava já na porta. Era estranho ver como Kara mudava de humor repentinamente e o odiava. Não conseguia compreender mulheres em geral, mas sua filha estava no topo delas.
O caminho até a escola da menina foi meio lento, pelo trânsito matinal, mas Kara estava ignorando qualquer comentário vindo de seu pai. Uma música do Fall Out Boy, Uma Thurman, tocava no carro e a menina cantava junto. Quando ficaram mais próximos da entrada do colégio, Dougie diminuiu a velocidade.
— Boa aula hoje, Kara. — ele disse e ela o ignorou novamente. — Obrigado pelo café.
— Claro, não tenho muita escolha. — ela deu um sorriso debochado ao pai e saiu do carro.
O baixista ficou chocado pela resposta, mas percebeu que o comentário que fizera mais cedo havia magoado Kara. Ele não tinha intenção de machucá-la, longe disso. O comentário de voltou à sua cabeça. Vários garotos vão quebrar o coração da Kara, mas você não pode fazer isso. E foi isso que ele havia feito, falhado, mais uma vez, como pai.
Antes que pudesse piorar a situação, Poynter correu até sua filha. O jeito que ela andava era calmo e ele sabia que Kara fazia de tudo para não ser percebida, o que ele achava um absurdo. Kara merecia ser vista, ouvida e admirada.
— Kara! — ele gritou e a menina deu um pulo de susto.
— Dougie? — ela perguntou baixinho. — O que você está fazendo aqui?
— Precisamos conversar, filha. — ele disse baixinho. — Pensei que pudesse faltar aula hoje e irmos ao estúdio.
— Isso é uma pegadinha? — ela perguntou, nervosa.
— Não. — ele sorriu. — É uma oferta de paz, de novo.
— Tudo bem. — ela concordou e ele ofereceu a mão para ela dar um soquinho. Ela o fez.
Poynter tirou a mochila rosa de sua filha e colocou nas costas, fazendo com que todos olhassem para ele. O baixista já estava acostumado com a atenção, então pouco se importava. Kara ficou incomodada, mas logo tratou de dar atenção ao seu pai.
— Quais os planos para hoje? — ela perguntou ao entrarem no carro. — Eu ainda não te perdoei.
— Os planos para agora são tomar café da manhã, conversar e dormir até às onze. — ele sorriu. — Depois, nós vamos gravar umas coisas, tenho umas ideias e acho que você pode me ajudar.
— Tudo bem. — ela disse baixinho. — Sobre o que você quer falar?
— Sobre hoje mais cedo. — ele disse. — Não queria te machucar, filha. Mesmo se eu tivesse escolha, eu escolheria levar você todos os dias. Eu sei que você não vê isso, mas eu quero ser seu melhor amigo.
— Dougie, eu… — ela começou a dizer, mas rapidamente se corrigiu. — Pai, eu sei que você não gosta de mim por causa dela. Sei que cada dia que passa, eu me pareço mais com ela. Eu daria tudo para ser bonita como você para você não me odiar.
— Eu não te odeio, Kara. — ele disse. — Você é minha menininha, eu te amo tanto, filha. Sempre fomos eu e você contra o mundo. Às vezes, o quanto vocês se parecem me assusta, mas eu jamais poderia te odiar por isso.
— Às vezes parece que você me odeia. — ela falou baixinho. — Não quero que você me odeie, pai. Você é tudo que eu tenho.
— Você também é tudo que eu tenho. — ele sorriu. — E eu jamais poderia odiar a melhor parte de mim. Agora, por favor, tire isso da cabeça. Sei que temos nossas diferenças, mas vamos tentar melhorar isso, tudo bem?
— Tudo bem, pai.
— Ótimo, agora você vai jurar que não vai contar à sua avó que eu te tirei da aula para fazermos besteiras, ou eu vou cortar as cordas do seu baixo em retaliação. — ele ameaçou e a menina gargalhou.
— Pode deixar, eu prometo, senhor Poynter. — ela sorriu.
— Agora vem, vamos tomar um café da manhã bem não-saudável que o conselho tutelar me mataria por te oferecer.
— Estou dentro, velhote. — ela saiu e entrelaçou sua mão a de seu pai.
Os dois tomaram café da manhã na lanchonete favorita da menina. Conversaram, riram e tiraram algumas fotos para mandar para a avó de Kara. Eles foram rápidos e a menina, no fim das contas, estava faminta.
Assim que terminaram, foram para casa para que pudessem dormir um pouco antes de começarem os trabalhos. Passava das sete quando entraram em casa. Dougie confiava plenamente no talento de sua filha com o baixo para pedir ajuda a ela com acordes para a banda. Como nos velhos tempos, Poynter puxou dois edredons grossos que tinha e colocou no chão da sala.
— Vamos dormir aqui? — os olhos de Kara brilharam.
— Sim, vou pegar nossos travesseiros e cobertores para tirarmos a nossa soneca. — ele sorriu.
— Tudo bem. — ela sorriu.
Kara se sentia bastante sonolenta e estava com uma leve dor abdominal. Talvez não devesse comer tanto no café da manhã como fizera hoje.
Quando Dougie voltou, ela já estava com sua calça de pijama e uma camiseta dele do McFLY.
— Por que não usa a sua? — ele perguntou.
— A sua é maior e mais confortável, pai.
Dougie ajeitou as coisas no chão e os dois deitaram juntos. Kara se aconchegou ao lado do pai e, enquanto ele fazia carinho em seus cabelos, os dois pegaram no sono. Como antigamente.

[...]


Como combinado, o despertador de Dougie tocou quatro horas depois. Kara se remexeu, mas não acordou. Poynter, por outro lado, tinha sono leve e logo acordou. Como tinha combinado com a banda de ir para o estúdio somente à tarde, ele tinha que garantir pelo menos um almoço decente para sua filha. Se fosse só ele, não se importaria de aparecer no estúdio apenas com o café da manhã no estômago e passar o resto do dia comendo besteiras. Mas quando se tratava de Kara, ele não podia deixá-la ter hábitos alimentares tão ruins quanto os seus. Por fim, preparou um almoço rápido para os dois, arrumou a cozinha e o resto da casa o máximo que conseguiu. Tarefas domésticas não eram o forte de Dougie, mas se esforçava para ser o melhor exemplo para sua filha. Kara, por outro lado, era uma bagunça completa, e mesmo com os eternos sermões do seu pai, conforme ia crescendo a bagunça crescia junto com ela.
Antes de acordá-la no chão da sala, Poynter observou o quanto sua menininha estava crescendo, e mesmo que a semelhança com Emília o assustasse, ele sabia que Kara Poynter tinha sido a melhor escolha de sua vida. Não podia negar que sua vida tinha virado de cabeça para baixo a partir do momento que escolheu ter Kara, pois sabia que Emilia sumiria no mundo após sair do hospital. Mas o apoio de sua família e da banda foi essencial para ele se tornar, cada vez mais, o melhor pai para a sua garotinha. E com esse pensamento em mente, Dougie decidiu que não deixaria nunca mais Kara ter pensamentos errados sobre a relação deles. Nem mesmo, se algum dia, Emilia voltasse a aparecer em sua vida.
— Pai, você ‘tá passando mal? Tá com uma cara estranha. — Kara perguntou, esfregando os olhos com a mão, ainda sonolenta.
— Tá tudo ótimo. — Ele riu, largando o pano de prato na mesa. — Vamos almoçar? Temos uma tarde de muito trabalho no estúdio.
Kara sorriu, animada com a ideia de ficar no estúdio com a banda. Logo levantou, foi até o seu quarto e trocou de roupa. Não ficando muito diferente de seu pai, já que vestiu uma calça jeans, uma blusa velha do Blink-182 e um moletom preto por cima.
Os dois almoçaram rapidamente em casa e foram até o estúdio em que costumavam gravar. Kara não sabia que Poynter havia planejado seu dia inteiro ao lado da filha. Ela só não contava que ele trouxesse algumas pessoas em especial.
— Ok, você precisa fechar os olhos agora. — ele pediu.
— Por quê? — ela perguntou, um tanto curiosa.
— Me obedeça, as consequências serão boas.
Kara o obedeceu e eles adentraram a sala. Seu pai havia planejado com Mark Hoppus, do Blink-182, para surpreendê-la naquele dia. Dougie a colocou exatamente de frente ao homem.
— Pode abrir os olhos, Kara.
A menina custou a acreditar que estava vendo quem estava vendo. Talvez ela estivesse dormindo ainda ao lado de seu pai, como eles haviam combinado mais cedo. Mas não.
— Meu Deus, meu Deus! — ela deu pulinhos de alegria. — É você! Eu cresci ouvindo suas músicas, pai, é o Mark Hoppus.
Dougie riu da animação da filha.
— Eu sei, não é demais?
— Demais? É mais que demais! — Theo interviu.
— Estava ansioso para conhecer vocês dois. — Mark sorriu. — Danny e Dougie falaram que são ótimos no que fazem.
Assim que o êxtase passou, Kara deu risada, ainda incrédula que Mark Hoppus estava ali com ela. Theo, no entanto, já tinha tido seu momento tiete e apreciava o de sua amiga. Estava genuinamente feliz por ela, pois quando se conheceram, ela havia dito que adorava Blink-182.
— Eu sei que Mark adorou a atenção, mas vamos trabalhar? — o musicista sugeriu.
— É para já! — Theo pulou do sofá onde estava.
Os mais velhos mostraram a composição para os dois pré-adolescentes e eles mostraram claro interesse nela. Kara sentia seu corpo pulsar e aquilo vinha geralmente quando ela estava prestes a compor algo.
— Ok, ok, eu tive uma ideia. — ela sorriu. — Pai, cadê seu baixo?
O baixista pegou o instrumento e entregou à filha que o colocou sem dificuldade alguma. Kara verificou se tudo estava nos conformes e colocou em acordes o que pensava sobre a música. Theo pegou sua guitarra da case e tentou acompanhá-la. Dougie, Danny e Mark apenas observavam a facilidade que eles tiveram em criar algo que eles não acharam legal por tempos. Growing Up era uma das composições favoritas de Poynter do novo álbum e agora que Kara participaria da faixa, o que a tornaria mais favorita ainda.

Horas mais tarde, Kara e Theo estavam jogados no tapete do estúdio enquanto os três mais velhos estavam trabalhando ali dentro. A euforia por estar na presença de Mark Hoppus foi tão grande que eles já tinham perdido a hora, e Danny só se deu conta quando recebeu uma mensagem de Jules perguntando sobre o paradeiro de seu filho.
— Theo e Kara estão se divertindo, né? — Danny parou ao lado de Dougie, depois que o baixista do Blink foi embora. A tarde foi longa e produtiva, além de emocionante para os dois jovens.
— Sim, acho que é a única pessoa que ela não briga. — Dougie comentou, olhando para a filha dessa vez.
— Hum… — Danny olhou para os dois, tomando um gole do seu café. — Você acha que… Esses dois... — ele pigarreou, tentando controlar o riso. — No futuro?
— Para com essas ideias, Danny. Minha filha tem catorze anos, Theo que tire o cavalinho dele da chuva.
— Ué, não é nada demais. Ia ser tipo Tom e Gi. — Ele soltou uma gargalhada alta dessa vez, principalmente pela cara de reprovação de Dougie. Kara sempre seria sua garotinha, e namorados estavam fora de cogitação no momento.
— Para de falar besteiras. Tenho certeza que Jules não sabe que você pensa essas coisas do filho dela também. — Danny deu de ombros, ainda rindo da reação do amigo.
— Ei, falando sério, leve a Kara lá em casa no final de semana. Podemos fazer uma noite de karaokê com as crianças.
— Tenho certeza de que Kara não vai me deixar escapar. — Dougie sorriu.
— Fechado, então. — Danny sorriu.
Dougie esperou que todos terminassem seus afazeres no estúdio e partiu para casa com sua filha. Ele gostava tanto de vê-la sorrir, que talvez, naquele momento, ele poderia mandar a escola se danar. Kara estava animada e elétrica após o encontro com Hoppus e aquilo o deixou feliz. No fim das contas, a felicidade de sua menina era tudo que importava.

Capítulo Dez

— Vocês vão mesmo fazer faxina nessa hora? — encarou seu irmão e a melhor amiga, mas recebeu um aceno de cabeça como resposta. Bufou alto, sua vontade era dormir igual ao seu sobrinho, Luke. — Certo. Vocês irão me desculpar, mas eu ‘tô indo embora. Tudo que eu quero, e preciso muito, é dormir.
— Eu te deixo em casa, para compensar sua vinda até aqui. — Joe encolheu os ombros, se sentindo um pouco culpado. se despediu de Brianna e saiu acompanhada de seu irmão.
— Então, tem falado com o baixista? — Joe começou o assunto no elevador, mas o cérebro de parecia ter derretido, tamanho era o seu cansaço.
— Só no trabalho, ainda meio que trabalho para ele. E, talvez, faça uma sessão de fotos com a Kara.
— Temos um progresso aqui?
— Não cante vitória antes da hora, mas estou dando uma chance para os Poynters. — explicou, saindo do elevador quando este parou no estacionamento do prédio.
— De qualquer forma, acho que você já está gostando de toda essa guerra.
— Confesso que é divertido. Kara é bem criativa também.
— Mas ela é uma criança, . — Joe falou, quase repreendendo a irmã, mas não conseguiu controlar a risada.
— Não dizem que todo mundo tem um lado criança? Às vezes, eu só não controlo o meu. Você é certinho demais, Joe. — mostrou a língua para o irmão, logo se acomodando no banco do passageiro do carro.
— Como tem sido sua semana? — Joe perguntou depois de alguns minutos em silêncio. Apesar do cansaço que sentia, ela estava bem satisfeita com o todo o trabalho na agência, mesmo que isso custasse algumas noites de sono.
— Cansativa, teve bastante sessão de fotos ultimamente lá na agência e outras campanhas já estão previstas para o resto do mês. — soltou um bocejo, se acomodando ainda mais no banco.
— Não esqueça de viver, . Sei que quando você fica tão empolgada, entra de cabeça no trabalho e esquece de aproveitar o tempo livre também. — Joe fez um carinho de leve no cabelo da irmã.
— Acho que vou visitar nossos pais no próximo feriado. Topa? — Ela disse, de repente. O que foi surpreendente até mesmo para Joe, visto que não gostava muito de viajar para o litoral da Inglaterra.
— Eu e Brianna combinamos de visitar os pais dela, faz tempo que Luke não vê os avós. — Joe comentou e compreendeu. Assim como ela, Brianna via seus pais com uma frequência ainda menor. — Chegamos!
— Obrigada, maninho. — deu um abraço forte no irmão, saltando do carro logo em seguida. Cumprimentou o senhor Prescott, e quando estava pronta para entrar no elevador, uma gritaria no hall do prédio pôde ser ouvida. Mas, dessa vez, não era apenas Kara Poynter e seu pai, Jones e um garotinho da idade de Kara também participavam da farra.
! — Kara foi a primeira a chamar a atenção da mulher, fazendo todos a encararem também.
— Ei, baixinha. — respondeu, recebendo um revirar de olhos da garota e percebendo que o menino ao lado de Kara tentava segurar a risada.
— Você não vai imaginar o que aconteceu hoje. — Kara disse num tom de voz tão empolgado, atiçando a curiosidade de . — Eu e Theo tocamos com o Hoppus.
— Espera aí, o Mark Hoppus, você quer dizer? — arregalou os olhos assim que a garota balançou a cabeça sorridente. — Que demais!
— A melhor parte é que a música vai para o álbum do McFly. — O garoto, que Kara apresentou como Theo, respondeu.
— Então vocês têm ótimos ajudantes para esse álbum. — direcionou a resposta para Jones e Poynter. — Ah, e vocês dois, não trabalhem de graça para esses dois folgados. — Agora falou com Kara e Theo, apontando para os dois homens mais velhos, fazendo os dois jovens rirem.
— Espera aí, eu ‘tô te reconhecendo. — apontou para Theo, quando os cinco entraram no elevador. — Você cantou com o Jones no The Voice.
— Sim, meu avô cantava aquela música para minha avó.
— Uau, isso eu realmente não sabia. — sorriu para Danny.
, a gente vai pedir pizza, se quiser aparecer lá em casa. — Kara olhou rapidamente para o seu pai, com receio que ele ficasse bravo com ela. Mas Dougie apenas deu de ombros, contente por Kara e darem um tempo naquelas brigas sem fim.
— Obrigada pelo convite, mas eu preciso de uma noite de sono muito longa. — disse, soltando um bocejo quando o elevador parou no seu andar. — Antes que eu esqueça. Apareçam na agência na terça, vamos entrevistar uma banda bem divertida. Kara e Theo, vocês serão nossos convidados de honra. — piscou para os dois mais novos, se divertindo com a felicidade estampada no rosto dos dois.
Dougie e Danny sabiam muito bem sobre o que estava falando, além de uma entrevista, estava marcada uma sessão de fotos com o McFly. No entanto, não queriam estragar a surpresa que eles teriam ao ver a banda reunida. Mesmo que os dois jovens já estivessem acostumados o suficiente com a família McFly.
A publicitária abriu a porta de casa se sentindo aliviada por finalmente aquele dia estar chegando ao fim. Sabia que seu irmão tinha razão, estava tão cansada devido a quantidade de trabalho que tinha deixado algumas coisas de lado; a bagunça do seu apartamento era a prova de que quase não parava em casa o suficiente para arrumá-lo. jogou a bolsa no sofá e correu direto para o banheiro, um banho quente e seu pijama confortável seriam seus melhores amigos naquela noite, além da sua cama confortável. Quando terminou de secar os cabelos, calçou as pantufas de pelúcia e procurou algo comestível na geladeira. A semana tinha passado voando, e com toda a agitação no trabalho, ir ao mercado e colocar as compras em dia não foi uma das suas prioridades. Por fim, lembrou do convite que Kara fizera mais cedo, e mesmo contra a vontade, colocou um moletom por cima da blusa de dinossauro e subiu o lance de escada até chegar no quarto andar.
— Ih, será que nós fizemos muito barulho? A culpa é toda do meu pai e do tio Danny. — Kara foi logo se defendendo e achou graça da menina.
— Bom, eu acho que posso perdoá-los se ainda tiver um pedaço de pizza para mim. — A barriga de roncou bem na hora, e foi impossível Kara Poynter segurar a risada.
— Pai, é melhor deixar pizza para nossa vizinha ou o monstro na barriga dela vai nos matar.
deu risada do comentário de Kara. Ela estava realmente faminta, mas não era para tanto. Os Poynter e sua grande mania de aumentar as emoções dela.
— Entra, . — Danny sorriu. — Sinta-se em casa.
— Não é como se essa casa fosse sua, Danny. — Dougie riu. — Sinta-se em casa, .
— Obrigada, meninos. — entrou no apartamento e juntou-se às crianças.
Theo e Kara rabiscavam algo que só eles entendiam. Aquela era realmente uma parceria e tanto, percebeu. Enquanto isso, ela os observava atentamente.
— Espera aí! — ela deu um pulo. — Os quatro, fiquem onde estão. Não se movam um centímetro.
Às pressas, a fotógrafa foi até seu apartamento e pegou sua câmera. Naquele momento, o elevador não era uma opção, então ela foi pelas escadas. As pantufas não ajudavam na corrida, mas ela mal se importou.
— Aí, voltei. — ela ofegou. — Não se mexeram, né?
— Não. — Theo disse.
— Você pode me explicar, por favor, o que está acontecendo? — Poynter a encarou como se tivesse uma grande interrogação em seu rosto.
— Vocês estão jogados por aí, as crianças por aqui… Eu tive uma ideia. — ela deu um sorrisinho. — Seria legal para o encarte do álbum, se vocês quiserem.
— Nós queremos, sim! — Danny sorriu. — Faça o que sabe de melhor, .
— Digo o mesmo para você, Daniel Jones. — alargou o sorriso que tinha no rosto e ligou sua câmera.
Kara e Theo renderam ótimas fotos, mas Danny e Dougie serviram muito mais. tinha certeza de que os fãs amariam aquelas fotos. Eles estavam alheios de seus próprios ambientes e concentrados, fazendo música.
— Pai, pai, pai! — Kara gritou, animada. — Terminamos Growing Up. Quer ouvir?
— Podemos fazer isso no estúdio? — Danny perguntou. — Conseguimos adicionar a bateria.
— Sim. — Theo sorriu. — Vem, !
Os dois puxaram a fotógrafa casa adentro e Dougie e Danny os seguiram. Theo e Kara estavam acostumados com o ambiente de um estúdio musical, mas não. E, bem, o estúdio dos Poynter era enorme, cheio de equipamentos e aparatos que ela não fazia ideia da função.
— Podemos, tio Danny? — Kara perguntou, animada.
estava muito bem-posicionada. Queria pegar exatamente a reação dos adultos ao ouvirem a música pronta e aquela foi a melhor das ideias que ela poderia ter. conseguira capturar a mágica que era ouvir uma música pela primeira vez e gostar dela. Dougie e Danny apresentavam sorrisos enormemente sinceros e pareciam, no mínimo, admirar muito aqueles dois que tocavam.
— Eu sei que Tom e Harry ainda não ouviram, mas essa certamente será a versão do álbum. — Dougie disse, animado. — Kara?
— Sim? — ela levantou o rosto com um sorriso fraco.
— Você estava ótima, filha. — Dougie foi sincero. E é claro que estava registrando aquilo tudo. — Theo… Estamos precisando de um guitarrista na banda. Esse aqui está fraco.
— Ei! Eu não estou fraco. — Danny se defendeu.
— Dispenso. — Theo riu. — Eu e Kara vamos formar uma banda ainda.
— Vão? — riu. — Lembrem de mim como fotógrafa oficial, tá bem? Eu conheci antes do sucesso.
— Tá bem, . — Kara riu.
— Vocês foram ótimos, crianças. — ela sorriu. — É lindo ver o que fazem aqui.
— Obrigada. — Kara sorriu. — É realmente bom se sentir boa em alguma coisa.
— Mas você é boa em várias coisas, pestinha. — se aproximou de Kara. — Você é uma ótima artista, uma boa aluna particular de química, uma boa filha, uma boa baixista. Ah, e o principal! Você é ótima em perturbar o juízo dos vizinhos.
Kara gargalhou.
— O que posso fazer? É o meu jeitinho!
— Muito bem, Kara Poynter. — sorriu. — Saiba que, apesar de tudo, eu tenho orgulho da artista que você é. E aquele grandão ali também.
Kara sorriu e pareceu acreditar no que havia falado. Queria mesmo que seu pai se sentisse orgulhoso dela, muito mesmo. Aquele era apenas um dos seus sonhos.
— Bom, está tarde… — Danny disse. — Nossa garota está nos esperando.
— Uma pena você ter que ir. — Kara disse diretamente para Theo. — Mas nos vemos amanhã na escola?
Antes que Theo respondesse, Danny respondeu.
— Ah, querida, eu também vou sentir sua falta! Que bom que você sentirá falta do seu tio favorito.
— Não tente competir com uma criança, Jones. — defendeu Kara.
— Você tem que estar do lado dos adultos, . — Dougie disse.
— Por você estar aí, declaro que estou bem aqui. — ela abraçou Theo e Kara.
— Idiota. — Dougie riu. — Você, já para o banho que amanhã tem aula e não vai faltar.
— Tá bom! — Kara saiu andando. — Tchau, Theo, e Danny.
— Tchau, Kara. — os três disseram em uníssono.
Dougie, Theo, Danny e foram até a sala para se despedir das visitas. Poynter havia levado os dois até o térreo, apesar de ter se oferecido para tal. Como forma de retribuição aos três pedaços de pizza que ela havia comido, a fotógrafa decidira lavar a louça. Ela estava animada, mesmo estando muito cansada, e a música que havia ouvido não saía de sua cabeça. Baixinho, ela murmurava Growing Up.
— Parece que essa não é minha música favorita só. — Dougie apareceu na cozinha, assustando a mulher.
— Droga, Poynter. Que susto! — ela riu. — Mas, realmente, é uma ótima música. Eu diria mais pelo trabalho que Theo e Kara tiveram… E é claro, do Mark Hoppus. A banda em si é bem fraquinha.
Poynter riu da implicância.
— Obrigado pela parte que nos toca.
— De nada! Sempre que precisar de mais críticas, estou disposta.
— Como seu irmão te aguentou na adolescência? — ele fez uma pergunta retórica.
— Confesso que não sei. — ela riu. — Ele sempre me acobertava com nossos pais. Ainda faz isso.
— Você ainda faz besteiras de adolescente?
— Não. — ela ri. — Mas minha mãe vive batendo na tecla que eu preciso arranjar um namorado, então Joe sempre diz que eu estou com um casinho aqui e ali.
— O que é mentira porque você é insuportável.
Life’s a bitch and so are you! usou a frase de Bubble Wrap para atacar Poynter.
— Não ouse usar minha música contra mim! — ele fez careta.
— Provando do seu próprio veneno… — deu de ombros. — Bom, por aqui está tudo limpo. As caixas de pizza eu jogo fora quando descer.
— Você não precisava fazer isso, . — ele a chamou pelo apelido pela primeira vez. E não soou estranho, ela não quis esganá-lo, muito menos fazer algo a respeito.
— Precisava, Doug. — ela sorriu, chamando-o pelo apelido também. — Vocês me alimentaram de graça e ainda me deram um gostinho do novo álbum.
— Você gostou?
— Bastante. — ela sorriu. — Tenho certeza que os fãs também irão.
— Obrigado, . Pelas fotos, pelo que faz com Kara e, também, pela companhia. — ele sorriu.
— Não precisa agradecer. — ela sorriu. — Agora vou indo, tive um dia cheio. Quando eu editar as fotos tiradas, te envio.
— Tudo bem, . — ele sorriu. — Boa noite.
— Boa noite, Poynter. — ela disse. — Precisando, estou a um andar de distância.

Capítulo Onze

adorava os dias em que não precisava chegar cedo na revista. Isso significava que ela não tinha tantas obrigações. Naquele dia, decidiu não se apressar em nada e, pela primeira vez em muito tempo, teve seus momentos para descansar. A fotógrafa, apesar de amar o que fazia, não tocou em uma foto para editá-la. Nem sequer ligou o computador. Apenas passou a manhã inteira assistindo Modern Family enrolada nos cobertores. Era o que ela precisava.
No entanto, estava presa no trânsito. Sabia que naquela rua tinha uma escola, mas era inevitável não passar por ali. Enquanto o guarda parava a rua para que os adolescentes passassem, avistou a cabeleira de sua vizinha. Não sabia que Poynter estudava ali, mas o que ela viu não lhe agradou nem um pouco. A menina estava encolhida e sendo encurralada por outras garotas. não hesitou em puxar o freio de mão e descer do carro. Quem quisesse passar que desviasse. Quando a publicitária se aproximou, pôde ouvir o que falavam com ela.
— Você é tão esquisita que nem sua mãe te quis, Kara Poynter. Uma pena você não ser igual ao seu pai. — uma das meninas falou, enquanto as outras três encurralaram Kara na calçada.
De repente, a garota rebelde que conhecia havia desaparecido, dando lugar a uma adolescente assustada demais com as ofensas que estava recebendo. Aquelas palavras doeram até na mulher, não conseguia imaginar o que Kara estava sentindo.
— Entra no carro, Kara. — O olhar assustado da garota encontrou com o de . Os olhos lacrimejando da garota fizeram a mais velha ficar com ainda mais raiva de todas aquelas adolescentes que pegaram Kara para Cristo.
— E você tem mãe por acaso? — Ela olhou em direção a loira, que tinha soltado a frase cheia de ódio para Kara. — Nesse caso, não adianta muito ter uma se ela não soube te educar, não é mesmo?
— Você sabe, por acaso, quem é o meu pai? — a garota disse na defensiva, o que fez sorrir ainda mais.
— Diga ao seu pai que está ansiosa para conhecê-lo e contar tudo que sua querida filhinha anda aprontando. Qualquer uma de vocês, cheguem perto da Kara de novo e eu moverei montanhas para que vocês sejam punidas pelo que estão fazendo. — sentia que nem tinha aquele lugar de fala, não era parente da menina, mas o seu instinto protetor estava à flor da pele. Ninguém mexeria com Kara Poynter e sairia imune. Ninguém. — Estamos entendidas? Espero que sim.
entrou no carro e analisou sua vizinha. Kara estava com a cabeça encostada no vidro da janela e sentiu seu corpo estremecer quando escutou o barulho da porta sendo fechada. O percurso em silêncio fez as duas dentro do carro se perderem em seus próprios pensamentos, mas foi logo cortado.
— Onde estava Theo? — perguntou.
— Foi embora mais cedo. — Kara enxugou as lágrimas. — Tia Jules veio buscá-lo mais cedo. Ele não sabe disso, . E você não pode contar a ele.
— Por que não, Kara? — a encarou quando pararam no semáforo.
— Ele não vai querer ser meu amigo se souber disso. — ela disse. — Eu sou feia, minha mãe me abandonou e ele é o único amigo que eu tenho.
— Eu duvido muito, Kara. — disse baixinho. — Você é uma ótima menina. Às vezes meio mal criada, mas é ótima. Você não deve deixar elas fazerem o que quiserem com você. Elas têm inveja porque você se destaca sem precisar.
E não mentira sobre isso. Kara, fisicamente, se parecia muito com a mãe, ou seja, a menina era linda. Alguns traços do seu rosto também lembravam o pai. No entanto, toda sua personalidade viera dele. Era impossível que a menina não se destacasse com beleza e personalidade. Sem contar seu talento musical!
— Elas têm razão, nem minha mãe me quis. Você sabe, não sabe? Eu não passava de um fardo para ela, se não fosse meu pai praticamente implorar, eu não estaria aqui. — estacionou o carro em sua vaga costumeira. Não sabia o que ia fazer com Kara no trabalho, mas abandoná-la não era uma opção. Talvez aquele lugar, também ajudasse Kara a ter um dia um pouco melhor.
— Kara, olha pra mim. — pediu, com toda a calma do mundo. Apertou a mão da garota com delicadeza, encorajando-a a fazer o que pediu. O rosto da garota já se encontrava molhado, com grossas lágrimas escorrendo por ele. Num instinto, abraçou-a forte, deixando com que a mais nova chorasse livremente em seu ombro. — Tudo vai ficar bem. Me perdoe as palavras, mas burra é a sua mãe. — levantou o rosto da menina novamente e disse as seguintes palavras olhando-a no fundo dos olhos. — Ela perdeu a chance de conhecer uma das garotinhas mais incríveis e talentosas que eu já conheci.
— Obrigada, . — a menina fungou. — Eu vou ligar pro meu pai e pedir pra ele me buscar, não quero te atrapalhar mais.
— De modo algum, Kara Poynter. — sorriu. — Você será minha assistente hoje. O que acha? Fotografar alguns modelos, escolher alguns figurinos e editar algumas fotos… Se você quiser, é claro.
— Eu quero. Não queria ficar sozinha em casa. — ela disse, cabisbaixa.
— Tudo bem. Então vamos ao banheiro lavar esse rosto, ajeitar esse seu cabelo que eu acidentalmente baguncei e pôr a mão na massa. Vou falar com seu pai.

[…]


A tarde de Dougie estava uma confusão. Ele tinha algumas entrevistas para fazer, ficaria o resto do tempo no estúdio e ainda tinham que discutir ideias do videoclipe do primeiro single do novo álbum. Kara estava na escola e ele sabia que Jules, naquele dia, o cobriria. Theo e Kara formaram uma amizade imediata quando se conheceram anos atrás e, ao contrário do que Dougie esperava, a calmaria de Theo dava muito certo com a energia caótica de sua filha.
Como se Deus estivesse lhe ouvindo e quisesse tornar seu dia pior, seu celular vibrou com uma mensagem de Jules.

WHATSAPP
Jules
visto por último hoje às 11:35

Oi, Dougie. Passando para avisar que não poderei buscar Kara hoje, Theo passou mal e eu tive que buscá-lo na escola. Estamos no hospital e não sei quando vamos sair.

Que droga, Jules! Espero que nosso garoto esteja bem. Diga a ele que seu tio favorito está lhe desejando melhoras. E tudo bem, posso dar um jeito.



Magicamente, seu celular apitou mais uma vez e ele esperava que fosse uma mensagem da advogada, mas se surpreendeu ao ver que a remetente era sua vizinha. tinha seu número de celular desde que começaram a trabalhar juntos, mas ela nunca havia lhe enviado uma mensagem de cunho “pessoal”. Não até aquele dia.

WHATSAPP

online

Poynter, eu estou com a Kara, passaremos o dia juntas até você voltar pra casa. Quando chegar, precisamos conversar. Mas não se preocupe, está tudo bem.

Preciso me preocupar? Aconteceu alguma coisa?

Termine de fazer suas obrigações, rock star. Levarei ela para o trabalho comigo. Conversamos mais tarde. Xx



Antes que Dougie pudesse respondê-la, Tom apareceu na porta do estúdio pois estava na hora de partirem para a primeira entrevista. Apesar de carrancuda, gostava de Kara. E, naquela situação, Poynter não pôde se preocupar. Confiava em , apesar de ela não ter os sentimentos mais amáveis por ele. Kara estava em boas mãos.

[...]


— O meu trabalho por aqui já acabou. — virou-se para Kara, que estava sentada no puff ao lado da sua mesa. — O que acha de aproveitarmos pra comer um hambúrguer com muita batata frita e aproveitar o resto da tarde lá em casa?
— Eu topo, não quero encarar meu pai agora. — concordou, pegando a bolsa e saindo da sala acompanhada da mais nova.
Quando chegou na empresa naquela tarde, pediu para cancelar todos os seus compromissos, mesmo sabendo que aquilo atrasaria algumas sessões de fotos e teria mais trabalho acumulado, ela sabia que Kara precisava de sua companhia. Não contou para a menina o que fez, pois, assim como ela, Kara também era bem teimosa e acharia que estava sendo um incômodo também para . Sendo que, do ponto de vista da mais velha, adorava passar o tempo com a pestinha.
sabia que era errado, mas ainda assim, dirigiu mais rápido que o normal para ir para casa, sua barriga roncava de fome e ela podia imaginar que a de Kara não estava muito diferente. Essa, provavelmente, seria mais uma das coisas que Dougie não poderia ficar sabendo.
— Quer escolher um filme pra gente? — apontou para a sua estante, apesar dos vários streamings, ela gostava de manter sua coleção de DVDs em casa.
— Ok, , esse é o momento que você prova se podemos continuar amigas. — soltou uma gargalhada enquanto colocava o almoço das duas em cima da mesa. Kara correu em direção a estante, analisando todas as capas de filmes por ali, alguns eram bem óbvios que ela teria, outros até a garota ficou surpresa. E, se soubesse que elas tinham um gosto mais parecido do que pensavam, ela ficaria bastante surpresa também.
— Então, continuamos amigas ou não? — disse de boca cheia, após enfiar algumas batatas na boca.
— Só se pudermos assistir Sexta-feira Muito Louca. — Kara apontou o DVD para a mais velha.
— Eu adoro esse filme. Sério, você precisa passar mais tempo aqui em casa, pirralha.
Não demorou muito para que Kara e estivessem sentadas em frente a TV, como se as duas estivessem numa festa do pijama e com muita comida disponível. Kara não se importou nem um pouco de estar sendo mimada pela , e tampouco em deixar a pequena Poynter o mais confortável possível na sua casa. Naquela tarde, percebeu que Kara não era a única a merecer um descanso. Sua cabeça estava tão atolada de trabalho na maior parte do tempo que ela quase não tinha tempo para si mesma, e por mais que odiasse admitir, Kara Poynter era uma ótima companhia.
Quando os créditos do terceiro filme apareceram na tela, percebeu que Kara já dormia no sofá ao seu lado. Só de olhar a garota com o semblante calmo, como se nenhuma preocupação rondasse sua mente, tão diferente da garota com o olhar perdido que encontrou naquela manhã, sentiu seu coração apertar ao imaginar que Kara vinha passando por aquele tipo de ataque sem ninguém saber. Sem ninguém fazer nada por ela.

[...]


Enquanto a menina dormia em seu colo, pegou seu tablet e assistiu o famigerado documentário sobre a banda de seu vizinho. Apesar de sua vizinha de anos atrás ser viciada na boyband, nunca chegou a saber da história completa. Cada parte parecia mais surreal para ela, principalmente quando ela ouviu Poynter. O baixista contou sobre a pressão dos charts e como ele recorreu às drogas.
“— Eu cheguei a um ponto em que minha filha me viu desmaiado no chão da sala por causa de uma overdose… — a feição dele era de vergonha. Era claro que ele se culpava por aquilo. — Por sorte, minha mãe estava lá em casa e eu pude ser salvo. Minha filha salvou a minha vida.”
Aquelas palavras ecoaram pelo fone e ficaram na cabeça da mulher por muito tempo. As peças se encaixavam agora. Entendia porque a relação dos dois era tão conturbada e o quão deve ter sido difícil para eles lidar com isso.
Quando chegou no andar da vizinha, Dougie mandou uma mensagem avisando que estava na porta. Já estava um pouco tarde para tocar a campainha e ele não queria acordar ninguém. O baixista percebeu que a mulher havia visualizado e rapidamente ouviu o barulho das chaves abrindo a porta.
— Oi, … — Poynter estava com um semblante cansado e preocupado. — Desculpe chegar tão tarde, o que aconteceu?
— Sem problemas, Dougie. — ela o chamou por seu apelido e gostou de como aquilo tinha saído. Era estranho, novo… Mas bom. — Será que a gente poderia conversar? Bem, sem a Kara por perto.
O musicista estava tenso e, lentamente, abriu a porta para mostrar que Kara estava muito bem dormindo em seu sofá. A expressão facial se aliviou e sentou-se no chão, encostada na parede. Sem hesitar, Dougie sentou-se ao seu lado.
— Eu juro, . — ele se manteve calmo. — O que aconteceu?
— Eu sinto muito, Dougie. — ela começou. — Você deve estar se perguntando porque caralhos eu estou sentindo muito, mas agora eu sei o suficiente para confirmar que você não é o que eu achava.
— Ah… Kara te mostrou? — ele engoliu em seco.
— Não. — ela disse baixinho. — Ao mesmo tempo que eu me sinto satisfeita por saber o suficiente, sinto que estou invadindo sua vida, Dougie. — o tom da voz de diminuiu drasticamente. — Eu sei sobre a mãe da Kara. Eu já fotografei ela antes.
— Você contou a ela, ? — ele perguntou, ríspido.
— Claro que não, quem você pensa que eu sou? — ela respondeu, ofendida. — É só que tem muita coisa acontecendo na vida da Kara e eu acho que ela merece respostas. E, bem, terapia.
não conseguia dizer realmente o quanto aquela situação a incomodava. Ela sentia inveja do que Emilia poderia ter se tivesse ficado com Dougie. Uma família, algo que ela sempre quis. Ver aquela menina sofrendo porque sua mãe lhe abandonara destruiu seu coração em mil formas.
— Kara fez terapia depois do que aconteceu. — ele disse baixinho.
— Eu sei, mas não é sobre isso que eu ‘tô falando, Dougie. — ela o respondeu. — Embora eu já saiba da resposta… Quero ouvir de você. Você não é mais um usuário, né?
— Não. — ele disse, sério. — Só de pensar, me faz lembrar de todos os dias que eu queria fugir da reabilitação para ver minha filha. Desde meu primeiro dia, eu só pensava nela. Nada fazia mais sentido sem ter minha filha perto de mim, . E eu faço isso por ela e por mim. Minha filha merece um pai mil vezes melhor que eu.
— Ela não merece ninguém além de você, Poynter. — secou uma lágrima teimosa que escorreu por seu rosto. — Mas eu preciso te contar que existem coisas que, infelizmente, você não pode controlar. A maldade dos outros.
— O que está havendo, ? — ele estava ficando nervoso de novo. Antes que ela pudesse contar, a porta se abriu lentamente e o rosto amassado de Kara apareceu.
— O que vocês estão fazendo aqui fora? — ela se sentou entre as pernas do pai e se aninhou nele como faziam antigamente.
— Kara, lembra que eu tinha jurado que eu não ia contar para o seu pai o que estava acontecendo? — encarou a menina e Kara percebeu que ela chorava.
, você está chorando por mim? — a voz da garota embargou. — Você não precisa chorar de pena de mim, . Eu já sou grande, eu consigo me resolver sozinha.
— Alguém pode me dizer o que está acontecendo? — Dougie perguntou, confuso.
— A está com pena porque as meninas da escola falam a verdade sobre mim! — Kara respondeu alto. — Que eu sou uma aberração e é por isso que minha mãe me abandonou, pai.
— O quê? — Dougie sentiu ódio por todo seu corpo.
— Kara, isso não é a verdade sobre você. Isso é bullying, assédio. — tentou dizer, calma.
— Quem está fazendo isso com você, Kara? — seu pai perguntou. — E por que você não me disse?
— Você quer mais uma preocupação sobre sua filha problema? — Kara disse com desgosto. — Talvez tenha sido por isso que minha mãe me abandonou. Porque ela sentiu que eu atrairia problemas pra vida de todo mundo.
— Para com isso! — perdeu a calma que lhe restava. Aquele assunto a perseguia há anos e, mesmo depois de muito trabalho, ela não se livrou totalmente dos traumas que o bullying deixou. — Eu não estou chorando com pena de você, Kara. Eu poderia chorar de pena por aquelas garotas, Poynter, mas por você? Não. Eu estou chorando porque eu não quero que você passe o que eu passei. Eu não quero que você se olhe no espelho e se odeie por uma coisa que você nem mesmo é, mas de tanto ouvir, acreditou que era.
Dougie não sabia como reagir naquele momento. Toda racionalidade que ele tinha foi embora quando a raiva se instalou em seu peito. Ainda mais quando perdeu todas as estruturas pelo trauma dela. Pela preocupação que ela teve com sua filha.
, respira fundo. — ele tentou acalmar a vizinha.
— Kara. — ela disse com a voz baixinha. — Você é linda, querida. Talentosa, inteligente, totalmente artística, idêntica ao seu pai. O que você faz com aquele baixo, por mais que me tire do sério, é encantador… Elas dizem isso de você porque elas queriam ser você, Kara. Inteligente, legal, descolada, talentosa e linda. Você pode mudar seu cabelo várias vezes e até careca você ficaria bem.
— Para de mentir pra mim, . — a menina pediu. — Eu pensei que a gente tinha virado amiga.
— A gente virou. E amigas são pra isso. O que você faria se fosse o Theo? Você não ia contar pra mãe dele? Fazê-lo ver a verdade?
— Sim, mas…
— Mas nada, filha. — Dougie disse. — É isso que amigos fazem um pelo outro, por mais que não queiramos que eles façam. Amigos de verdade continuam até o fim, lembra? Amanhã vou na sua escola e faremos tudo para que isso não seja um problema, sim?
Kara ficou em silêncio. Sem pensar duas vezes, a menina abraçou com força.
— Eu sinto muito por você ter passado por isso, . — ela apertou a fotógrafa. — Você não merecia a maldade deles.
— Eu também sinto, minha linda. — disse já mais calma. — Não só por mim, mas por você.
— Obrigada por ser minha amiga. E desculpa pelas coisas que eu falei. — ela agradeceu e pediu desculpas, um pouco envergonhada.
— Bom, você pode me pagar suas desculpas com os seus cookies veganos, sim? — tentou quebrar o clima ruim instalado. Por sorte, conseguiu. Todos riram.
— Você… — Kara fez uma pausa e se afastou para encarar sua amiga. — Você vai amanhã com a gente, não vai?
— E perder a chance de ver aquelas garotas tendo suas bundas chutadas como merecem? Eu jamais perderia isso, Kara.
— Sinto que estou na presença de duas pré-adolescentes. — Dougie riu baixinho.
— Ah, você está, pai. — Kara abraçou novamente. — E juntas vamos ser seu pior pesadelo.
Kara não sabia naquele momento, mas havia falado a mentira mais verdadeira que poderia. Elas juntas tirariam mesmo a sanidade de Poynter, mas elas juntas também era o motivo dos grandes sorrisos em seu rosto. Kara e eram, para Poynter, pura dicotomia.

Capítulo Doze

Quando Dougie e Kara chegaram em casa, Kara pensou que o seu pai fosse mandá-la para o banho e, em seguida, para a cama. Já tinha passado da hora de dormir, mesmo que dessa vez a culpa não fosse totalmente de Kara por ela estar acordada. Mas Poynter estava travando uma verdadeira guerra dentro de si, o medo de ter falhado como pai, a insegurança de nunca ser o suficiente para a sua filha e a revolta por não conseguir protegê-la de todas as maldades que, até mesmo crianças poderiam cometer contra sua filha. Todos esses pensamentos atormentavam a ponto de não conseguir falar nada desde que saiu do apartamento de .
— Eu sei, eu sei. Já ‘tô indo tomar banho, escovar os dentes e dormir. — Kara chamou a atenção do pai, o que o fez rir por alguns segundos. Mas ele só percebeu que estava sozinho na sala de estar quando escutou a porta do banheiro bater.
Em qualquer outro momento, Dougie não pensaria duas vezes antes de ligar para a sua mãe e pedir por um conselho, mas, dessa vez, ele sabia muito bem o que deveria fazer. Enquanto sua filha tomava seu banho antes de dormir, Dougie aproveitou para fazer o mesmo, a fim de que aqueles pensamentos negativos sumissem de sua mente. Ele sabia que estava se auto sabotando. Se tivesse alguém errado nessa história toda, esse alguém era somente Emília.
— Pai! — Kara o chamou quando já estava deitada. Atendendo ao pedido da filha, Dougie foi até o quarto onde a garota estava deitada. — Desculpe por hoje, desculpe por não ter contado antes.
— Não se desculpe, filha. Não é sua culpa o que aconteceu, mas tenho certeza que aquelas garotas se arrependerão de mexer com uma Poynter.
— Você deveria ter visto a na hora, ela ficou uma fera. Sério, acho que nunca vi a com tanta raiva antes. — Kara arregalou os olhos ao lembrar da cena de mais cedo, por mais que a situação a tivesse magoado. Dougie não conseguiu evitar o pensamento de uma furiosa, principalmente por estar defendendo a sua filha. E, de certa forma, gostou de saber daquilo.
— Eu te amo, pai. — A declaração fez Dougie abrir um sorriso.
— Eu também te amo, princesa. — Ele deu um beijo na testa da filha. — Boa noite.
O cansaço do dia fez com que Kara pegasse no sono rapidamente, mas, diferente da garota, Dougie foi quem não conseguiu pregar o olho desde o momento em que deitara em sua cama. Ele precisava falar com , mas o relógio já marcava mais da meia noite. No entanto, parecia passar pela mesma situação, pois o celular de Poynter vibrou, anunciando uma mensagem da mulher.

WHATSAPP

online

Como ela está? Espero que eu não tenha piorado as coisas entre vocês.



No andar de baixo, aguardava uma resposta de sua mensagem. Mesmo que dissesse que não estava nervosa, o seu lábio inferior era uma prova que ela estava mentindo devido a intensidade em que o mordia.

WHATSAPP
Poynter
online

Está bem, e dormindo. Podemos conversar?



Naquele momento, sabia que sua relação com os Poynters voltaria à estaca zero. Era óbvio que Dougie não comentaria o quão errado tinha sido a atitude na frente da filha, mas agora ela já não estava presente e ele poderia falar o que quisesse. Mesmo sofrendo por antecipação, respondeu a mensagem.

WHATSAPP
Poynter
online

Está bem, e dormindo. Podemos conversar?

Claro, pode descer aqui?

Chego em dois minutos.



se deu conta que ainda estava enrolada na toalha, tinha acabado de tomar banho e estava prestes a deitar para dormir, mesmo que não estivesse com um pingo de sono. Pegou uma calça de moletom e a primeira camiseta velha que encontrou no roupeiro. Seu cabelo estava preso num coque mal feito no topo da cabeça, mas ela realmente não se importaria de que Poynter a visse daquele jeito, o cansaço era mais forte do que se importar se o seu cabelo estava bom ou não. O celular vibrou em cima da cama, indicando mais uma mensagem de Poynter avisando que estava na porta.
— Oi. — Dougie estava apoiado no batente da porta, um quase sorriso brincava em seus lábios.
— Oi. — abriu a porta, dando passagem para que Poynter entrasse na casa. Mas à medida que Dougie não falava nada, aquilo a deixava ainda mais nervosa. — Joga a bomba logo. Isso tá me matando.
— O quê? — Dougie franziu as sobrancelhas, confuso.
— É, vai, pode falar pra eu ficar longe da Kara. Sei que piorei as coisas hoje. — nunca tinha se sentido tão insegura quanto naquele momento, parecia, até mesmo, que tinha voltado a ter quinze anos. — Mas se quer saber de uma coisa antes, não me arrependo de nada do que fiz hoje. E faria tudo de novo se fosse preciso.
Dougie não conseguiu controlar a gargalhada, ele nunca tinha imaginado ver tão na defensiva como ela estava. Era engraçado ver esse lado vulnerável de sua vizinha, mas no fundo, ele sabia que ela era exatamente esse tipo de pessoa.
— Respira, . — Dougie voltou a ficar sério, deixando ainda mais confusa. — Eu jamais pediria uma coisa dessas. É muito bom saber que você defenderia a Kara novamente, mas tenho certeza que isso não será necessário. Eu estava falando sério quando disse que irei à escola dela amanhã.
— Dougie, por que está aqui? — respirou aliviada, mesmo que seu coração ainda estivesse palpitando de nervoso.
— Porque preciso te agradecer pelo o que fez hoje. Na verdade, você e Theo têm tido uma parcela de culpa no comportamento da Kara, ela tem estado bem melhor desde que vocês chegaram. — O músico foi sincero, fazendo com que sorrisse e respirasse, finalmente, aliviada.
— Ela é uma pestinha, mas é uma boa garota. — abriu um sorrisinho. — Mas não conte a ela que eu disse isso, tudo bem? A gente ainda precisa manter as implicâncias infantis.
Dougie riu do comentário da vizinha.
, eu… — o baixista respirou fundo e juntou toda coragem que tinha em seu corpo para terminar a frase. — Eu não tiraria você da vida da Kara, não só da dela, na verdade.
— Como assim? — a publicitária franziu o cenho.
— Gostamos muito de você, . — ele enfatizou o verbo. Gostamos. Nós. Ele e Kara. — E se você quiser participar mais da nossa vida, bem… A porta está aberta.
— Dougie, eu… — ela engoliu em seco. Seu mundo inteiro estava quase colapsando com tanta informação ao mesmo tempo. Não que elas fossem ruins.
— Eu vou deitar, tudo bem? — ele abriu um leve sorriso. — Pense no que eu te disse. Nos vemos amanhã, . Boa noite.
— Boa noite, Dougie. — ela sorriu. O músico foi em direção ao elevador e eles se despediram com um pequeno aceno de cabeça. Agora, sozinha, precisava lidar com todas as informações que recebeu em menos de cinco minutos de conversa com Poynter. Bem, dependia apenas dela agora. E aquilo lhe assustava muito.

[...]


A grande verdade sobre ser adulto era que ser adulto era uma merda. É, uma merda. odiava pensar assim porque ela era grata por tudo que tinha, uma casa, um emprego agradável, uma família incrível e por aí vai. Mas as responsabilidades adultas eram horríveis. Como ela diria a uma menininha que ela não poderia fazer parte de sua vida por ter medo de não ser capaz de cuidar dela, céus? Culpa lhe engolia.
Poynter mandou uma mensagem avisando que estavam saindo de casa e ela saiu de seu apartamento. Assim que se certificou que sua porta estava trancada, o elevador abriu suas portas metálicas e Kara abriu um grande sorriso para . Aquele sorriso deveria lhe encher de alegria e amor, mas ele apenas a destruiu.
— Bom dia. — Dougie deu um leve sorriso.
— Bom dia, gente. — ela se esforçou para dar um sorriso. Kara estava radiante que estava ali por ela, mas Dougie percebeu a mudança drástica de comportamento da vizinha.
— Preparadas para brigar como uma Poynter, ? — ele deu um sorriso leve.
— Eu que te pergunto, está preparado para brigar como um ? — ela devolveu, arrancando risada dos dois Poynters.
Durante o caminho até a escola, Dougie tentou melhorar o clima para , ainda que não soubesse o motivo do nervosismo. O baixista havia ligado cedo para o diretor da escola de Kara, fazendo que ele fizesse questão de chamar os responsáveis das meninas que estavam agredindo sua filha verbalmente. Quando chegaram à escola, Kara insistiu para que a levasse para sua sala e a fotógrafa não negou o pedido da menina. Logo de cara, viu que as duas meninas encaravam ela e Kara com deboche e tudo que fez foi dar um grande sorriso de volta para Kara.
— Fique bem, sim? — a menina fez que sim com a cabeça. — Lembre-se, Kara, você merece as melhores coisas do mundo. Agora deixa eu ir, tenho alguns pais para enfrentar.
Kara riu e abraçou .
— Te vejo mais tarde, .
não respondeu porque não tinha coragem. Estava sendo uma grande covarde. Ela andou um pouco pelos corredores e rapidamente encontrou o homem alto dos cabelos loiros que sempre chamava sua atenção.
— Senhora Poynter, que bom que chegou. — a secretária sorriu para ela.
— Bom dia. — sorriu para a mulher.
— O diretor já está com os pais das meninas em sua sala, vocês estão autorizados a entrar.
Dougie deu duas batidinhas na porta e entrou na sala do diretor da escola. De mãos dadas com . Uma mulher negra de cabelos curtos estava falando, mas nem se deu o trabalho de interromper a fala ao vê-los chegarem.
— Que culpa tenho eu se a mãe da menina a abandonou? — ela terminou a fala esnobe. — Eu acho ridículo quererem culpar minha filha de falar a verdade. Não é isso que vocês ensinam? Que não pode mentir?
Dougie sentiu a mão de apertar a sua de tanta raiva e, antes que ele pudesse falar algo, se pronunciou.
— Com licença. — largou a mão do baixista. — Eu sou uma miragem para a senhora? É a idade afetando sua vista?
— Como ousa falar assim comigo, garota?
— Como ousa falar que a minha filha não tem mãe? — praticamente rugiu. Odiava quando a raiva tomava conta de seu corpo, mas ela defenderia aquela menina com toda força em seu corpo. — A sua filha tem mãe e pai, mas olha só, é mal educada e maldosa.
. — Dougie tentou acalmar a fotógrafa, mas tampouco funcionou. No fundo, ele estava tentando suprimir um sorrisinho. podia negar até o fim, mas Dougie sabia que aquela era a resposta para a sua pergunta da noite anterior.
— Não, Dougie. Chega! — disse. — Eu pouco me importo se vocês têm dinheiro, se vocês são donos de toda cidade ou qualquer droga que seja, mas se a sua filha ousar falar alguma coisa da Kara, vocês vão pagar caro.
— Senhora Poynter, por favor, acalme-se. — o homem que estava por trás da mesa pediu. — Resolveremos isso com cordialidade. A nossa escola não tolera atitudes agressivas contra outros alunos, portanto, as filhas dos senhores estão suspensas das atividades escolares pelo resto da semana.
Os pais da outra menina estavam quietos e pareciam furiosos. Dougie esperava que fosse por conta da decepção.
— Eu espero que as punições sejam aplicadas corretamente. — foi a vez de Poynter falar. — A minha filha tem mãe e ela está ao meu lado. Kara nunca ofenderia alguém para apenas machucá-lo, então espero que as filhas de vocês a tratem do mesmo jeito a partir de agora. E, senhora Matthews?
A mulher que ofendera sua filha anteriormente o encarou, seu rosto ainda tinha a expressão de superioridade. Com um sorrisinho, Dougie soltou uma sutil ameaça.
— O principal cliente da sua gráfica é a revista na qual a minha esposa trabalha. — quase gritou, mas manteve a postura. — E seria uma pena que seu chefe, que é um grande amigo meu e acredita em políticas bem severas contra bullying, soubesse disso, certo?
abriu um sorriso comparsa para Dougie e ele devolveu. A fotógrafa voltou para seu lado e entrelaçou sua mão na dele.
— Estamos resolvidos, então? — o diretor perguntou severamente. Entre bufos, a mulher esnobe saiu da sala.
— Senhor e senhora Poynter, pedimos desculpa pelo que nossa filha fez. — a mulher de fios ruivos soltou. — Não a criamos para isso e, assim que ela voltar da suspensão, pedirá desculpas pessoalmente para a filha de vocês.
— Tudo bem. — disse baixo. — Esperamos que tudo se resolva.
O casal saiu da sala do diretor pedindo desculpas mais uma vez e, antes que e Dougie pudessem sair, o homem os chamou.
— Senhor e senhora Poynter? — por instinto, virou junto de Douglas. — Sentimos muito pelo ocorrido, se isso fosse de conhecimento da escola, teríamos resolvido imediatamente. Kara é uma boa menina, teve uns momentos turbulentos em suas notas, mas melhorou. Vejo de onde isso veio, diretamente dos pais.
Com um grande sorriso de agradecimento, os dois saíram para o corredor vazio. Toda incerteza que tinha no peito, sumiu. Todo medo de não conseguir defender Kara se dissipou.
— Dougie? — ela chamou o baixista, que estava a uma pequena distância dela. Antes que alguém chegasse e ela se arrependesse de não fazê-lo, apressou o passo até o músico e uniu seus lábios aos dele.
O choque foi instantâneo. Dougie puxou a fotógrafa para mais perto e intensificou o beijo. Por outro lado, enroscou seus dedos nos fios do baixista. Beijar era uma vontade não tão recente, mas ele nunca teria conseguido imaginar que seria tão bom assim. Naquele momento, beijar Poynter era a única coisa que parecia estar certa. Temia que aquilo, inclusive, se tornasse uma necessidade de tão bom que era. O barulho de alguém vindo fez com que os dois se separassem em um pulo, ainda ofegantes. Sem hesitar, entrelaçou seus dedos nos de Douglas e os dois se dirigiram escola afora.
— Filha, hein? — ele abriu um sorrisinho, mas não contava com a resposta que receberia.
— Esposa, hein? — ela retrucou com um sorriso vitorioso.

Capítulo Treze

A semana corrida na vida de Poynter não o impediu de tirar aquela sexta-feira para descansar. Após a visita na escola de Kara, ele não podia negar que a relação com a sua filha tinha melhorado ainda mais. Por algum milagre, eles não tinham tido mais nenhuma pequena desavença, e isso o deixava feliz e com uma pontinha de esperança no peito. Dougie torcia para que o dia em que Kara o enxergasse como seu melhor amigo chegasse, e ele estava certo de que esse dia estava próximo. O baixista também tinha percebido que sua relação com tinha chegado a um novo nível, mas, quanto a isso, o músico já não tinha tanta certeza em que pé as coisas estavam. Um lado seu queria ir além, descobrir tudo sobre a sua vizinha, principalmente poder sentir o gosto de seu beijo novamente. Mas o seu lado racional gritava em letras garrafais que ele se afastaria ainda mais caso desse um passo a diante. Isso o assustava, Dougie nem lembrava mais a última vez em que teve sentimentos por alguém o suficiente para querer por perto. Mas era diferente, despojada, boca suja, inteligente, sarcástica e uma infinidade de adjetivos que ele poderia listar a tornavam especial.
— Já vi esse sorrisinho antes, mas confesso que faz tempo que não o vejo em seu rosto. — Tom se aproximou do amigo, servindo-se de mais uma xícara de café.
— Credo, tá parecendo a minha mãe falando assim. — Poynter desconversou, fingindo focar sua atenção no baixo em suas mãos.
— É aquela sua vizinha, não é? Aliás, quando vamos conhecê-la?
— Em breve. — Doug sorriu. — Mas, dessa vez, não é sobre a . É sobre a Kara, estamos melhorando.
Dougie contou ao amigo sobre o ocorrido na escola da filha, sobre como tinha se sentido impotente por ter deixado aquilo acontecer; mas, também, como se sentiu feliz ao conquistar a confiança de Kara e . Ele não sabia qual era a mágica que aquela mulher conseguia fazer, mas o ajudava a enxergar e expressar seus sentimentos sobre a filha da melhor forma possível, mesmo que ela nem fizesse esforço para isso.
— Quer um conselho? — Tom já estava sentado ao lado do baixista.
— Não. — Ele riu, mas o loiro não se deu ao trabalho de revirar os olhos.
— Que pena, porque vou dar mesmo assim. — Dougie assentiu, esperando para ouvir o conselho. — Nós sabemos que Emilia foi um erro, mas não deixe a pensar que ela também é ou pode vir a ser. Eu não a conheço, mas sei que ninguém faz o que ela fez apenas por interesse.
— Eu não sei o que pensar sobre a , as vezes estamos muito bem, mas outras vezes somos apenas dois vizinhos que se cumprimentam no elevador. Não sei se vale a pena arriscar.
— Merda, você continua o mesmo cabeça dura. — Tom riu, balançando a cabeça em negação. — Olha, se permita, ou então vai deixar as oportunidades escaparem de seus dedos. E não acredito que a seja uma oportunidade que apareça sempre, principalmente depois que se deixa ir embora.
— Ok, ok. Já entendi. Mas Kara é minha prioridade agora.
Os ensaios e gravações transcorreram tranquilamente. O novo álbum do McFly estava prestes a ser lançado e aquele tinha uma pitada especial. A sua música favorita de todos os álbuns estava nela, e era exatamente a que Kara ajudou a compor. Porque ela puxou aquele talento dele. Ela era toda ele. Aos poucos, ele foi percebendo o quão parecidos eram. Cabeças-dura, infantis, aleatórios, curiosos e prefeririam passar a tarde inteira assistindo documentários do que fazer qualquer outra coisa. Aos poucos, Dougie sentia ter sua menininha de volta. E nada importava mais que aquilo.

[…]


Depois do ensaio, Dougie se certificou de buscar Theo e Kara na escola, já que Jules e Danny iriam para casa de Dougie mais tarde, assim como os outros integrantes. Os dois, como carne e unha, já estavam parados na porta esperando. O baixista apenas buzinou e os pré-adolescentes foram correndo em direção ao carro.
— Oi, pai! — Kara disse, animada. — Adivinha quem tirou dez em química?
— Hm, será que foi a menina mais inteligente que eu conheço? — Poynter abriu um sorriso para a filha.
— Para de ser bobo! — ela riu. — Isso tudo foi mérito do Joe. Ele ensina mil vezes melhor que a nossa professora.
— E você, guitarrista, também tirou dez?
— É claro que ele tirou dez, pai. — a menina disse como se fosse óbvio. — Ele é o mais inteligente da sala.
— Então vocês formam uma dupla de mais inteligentes da sala?
— E futuros músicos. — Theo comentou. — No futuro, eu e Kara vamos formar uma dupla.
— Vocês já meio que são, né… — Douglas riu. Theo e Kara eram como carne e unha desde que se conheceram, dois anos atrás.
O caminho foi repleto de bagunça, músicas altas e os três cantando aos berros. Essa era a vida tranquila que Poynter queria para si. Junto de sua filha, vivendo dias normais que pais devem viver.
Fazia dois dias que Olívia não aparecia pelos corredores, então o músico presumiu que a publicitária estivesse ocupada. Ou evitando encará-lo.
— Vocês dois… Banho! — o baixista ordenou. — Sua mochila está em cima da minha cama, Theo. Sinta-se à vontade no meu banheiro. Quero os dois prontos em trinta minutos!
— Sim, senhor! — Kara bateu continência para o pai, totalmente brincalhona.
— Palhaça! Andem que os primos de vocês já vão chegar.
Tempos depois, os dois pré-adolescentes estavam de banho tomado e escrevendo alguma coisa em um dos cadernos de Kara. Dougie sabia que sua filha compunha, mas jamais a forçou a mostrá-lo qualquer uma delas. A menina tinha tudo para ser uma artista se quisesse e, por Deus, aquele era o maior pesadelo de seus pais.
Os Fletcher e os Judd chegaram juntos. Ótimo, a família estava completa. No fundo, Poynter sentia falta de seus amigos. Sentia falta daqueles momentos em família. As crianças nem sequer deram atenção aos pais. Todos eles pareciam venerar Kara e Theo, que tinham toda paciência do mundo com eles. Aos poucos, os mais velhos ensinavam os pequenos a tocarem instrumentos, escrever, desenhar, se expressar artisticamente. Às vezes, Poynter sentia falta de Kara quando era menor. Sentia falta da dependência dela. Talvez um dia encontrasse alguém em que confiasse o suficiente para ter filhos. No mesmo momento em que o nome de uma certa vizinha apareceu em sua mente, a campainha tocou.

[…]


Embora não precisasse, sempre gostava de descrever suas fotografias em seus portfólios. Gostava de expor, em palavras claras, o que sentiu no momento em que as gravou. No entanto, o barulho que vinha do andar de cima era insuportável e não conseguia se concentrar em seu trabalho.
Acreditava que Kara não era a razão de seu estresse, uma vez que ela e a adolescente já não eram tão inimigas assim. A publicitária decidiu ver o que estava acontecendo na casa dos Poynter. Ela era curiosa demais para não saber o motivo da barulheira.
Apesar de tentar se afastar de Dougie, estava cada dia mais próxima de sua filha. Desde o dia que a defendeu das meninas idiotas de sua escola, Kara parecia se sentir grata a . Internamente, a menina sentia que , na verdade, era como ela.
Tomando coragem, tocou a campainha deles. Em pouco tempo, Kara apareceu para abri-la. A menina sorriu ao ver em sua porta.
— Oi, . — Kara imediatamente deu passagem para a publicitária. — Entra.
— Oi, Kara. Não preciso entrar. — sorriu de volta. — Na verdade, eu só vim pedir pra vocês fazerem um pouquinho menos de barulho.
— Ei, . — Dougie foi até a entrada da casa. — Entre, estamos fazendo as unhas.
O baixista sorriu e sacudiu os dedos, mostrando cada unha de uma cor. deu uma risadinha. Pelo espaço entre os dois Poynter, pôde ver cinco crianças gritando e brincando no tapete da sala repleto de brinquedos.
— Noite de babá? — ela sugeriu e os dois afirmaram de volta.
— Na verdade, é nossa festa do pijama mensal. Voltamos com esse hábito. — Kara sorriu.
— E você está oficialmente convidada.
— Quem é que está na porta? É a pizza? — um menininho apareceu atrás das pernas de Poynter.
— Não, Kit. — Dougie acariciou os cabelos loiros dele. — É só uma amiga do tio Dougie e da sua prima.
— É? Podemos conhecê-la? — outra vozinha apareceu e Dougie encarou a mulher.
— Você vai dizer não a mim, eu sei. Mas você não pode dizer não a eles. — o baixista aumentou seu sorriso.
entrou no apartamento e todos os olhos que estavam concentrados no desenho que estava passando, foram parar nela.
— Pessoal, essa é a . — Kara a apresentou para seus primos.
— Oi, crianças! — abriu um grande sorriso. — Eu me chamo , mas vocês podem me chamar de tia .
— Tia , você é a princesa do tio Dougie? — uma menininha muito parecida com Harry, o baterista, perguntou.
— Ah, querida… — abriu um sorriso. — Qual o seu nome?
— Lola.
— Certo, Lola. — acariciou seus fios loiros. — Vou te contar um segredo. Seu tio Poynter está mais pra um sapo do que um príncipe.
A menininha gargalhou, assim como Poynter. Kara fez questão de apresentar a todas as crianças apaixonantes da família McFly e todos adoraram a mulher. Por um momento, a fotógrafa pensou como Luke, seu sobrinho, adoraria estar ali brincando e assistindo desenhos com eles.
Um momento feliz como aquele sempre foi capaz de despertar um gatilho na publicitária. sempre foi apaixonada por crianças e sempre sonhou em ser mãe, mas aquele sonho foi destruído quando ela descobriu que era infértil. O médico havia dito que não era impossível, mas que as chances eram bastante remotas. E aquele foi um pedaço de que morreu aos poucos e ela nem ao menos pôde fazer algo sobre.

[...]


O que era pra ser só uma passada rápida no andar de cima, se tornou uma festa do pijama e, agora, se encontrava atirada no sofá com Kit dormindo em seu colo. Enquanto Lola dormia ao lado de Dougie, Kara e Theo estavam atirados no chão da sala. Por mais que quisesse negar para si mesma, as visitas na casa dos Poynters sempre se tornavam longas e divertidas, e esse era um dos motivos do porque era tão difícil simplesmente voltar para casa.
Ao observar a cena, ela não pôde deixar de soltar uma risada baixa, achando um pouco cômica a cena em si. Tinha um pouco mais de dois meses que havia se mudado para aquele prédio, e não conseguia mensurar a importância daqueles dois em sua vida. Principalmente a forma como eles viraram a sua vida de cabeça para baixo.
— O que foi? — Dougie perguntou, baixinho.
— Já percebeu que sempre que eu apareço aqui, vocês nunca me deixam ir embora tão rápido? — comentou, rindo, mas o tom de voz era baixo para não acordar as crianças.
— É difícil mesmo resistir a essas carinhas, não é?
— Muito! — concordou rapidamente.
A respiração calma de Kit em seu colo fez , automaticamente, passar as mãos nos cabelos do menino, enquanto o mesmo tinha um sono tranquilo.
— Como é ter uma miniatura dessas? — Dessa vez, ao encarar os olhos de Poynter, o músico estava bem mais próximo do que antes, e só por isso conseguiu escutar a pergunta de .
— Assustador. — Ele disse baixo. — Mas terrivelmente incrível, até mesmo quando eles crescem e ficam um pouco rebeldes.
A risada saiu um pouco mais alta do que gostaria, mas ela logo tapou a boca com a mão, abafando o som. No entanto, a risada que deixou escapar apenas disfarçou o aperto que sentiu em seu peito.
— Você seria uma ótima mãe, se é isso que está se perguntando.
— O quê? — teve que piscar algumas vezes, segurando as lágrimas que estavam prontas pra sair. — Não... É, quer dizer... Já está tarde, preciso mesmo ir pra casa.
colocou Kit com cuidado no sofá, levantando rapidamente do mesmo e indo até a porta. Seu coração acelerado não estava a deixando pensar direito, nem ao menos havia se despedido quando girou a maçaneta da porta. Mas foi no corredor do prédio que Dougie conseguiu alcançá-la.
— Ei, tá tudo bem? Desculpa se foi algo que falei. — Dougie puxou para um abraço, deixando que a mulher descansasse a cabeça em seu ombro.
— Não foi nada, sério, é só o cansaço do trabalho. — Não era totalmente mentira, mas estava bem longe de ser a verdade sobre o que estava sentindo no momento.
Estar aconchegada nos braços de seu vizinho, era algo que não estava nos planos de , mas por outro lado, o carinho estava bom demais para sair dali.
— Você tem certeza? — Dougie inclinou seu rosto para tentar olhá-la. Ao ver o esforço do baixista, levantou a cabeça.
— Não. — ela foi honesta. — Mas faz parte.
, você pode dividir as coisas comigo, sim? — ele acariciou a bochecha da fotógrafa.
— Sim, mas… É difícil falar sobre.
— Tudo bem, quando você se sentir pronta, sabe que eu vou estar aqui, certo? — ele sorriu fraco.
— Sim, exatamente na porta 407. — ela sorriu fraco.
— E se você não vier, eu vou bater lá no 307.
— Deixe o terceiro andar em paz, Poynter. — ela riu. — Você já faz muita bagunça por onde passa.
— Bagunça? Eu?
— É. Em dois meses você bagunçou minha vida toda. — comentou.
— Ah, para… Você gosta da bagunça que eu fiz.
— Mas não deveria…
— É? — o músico aproximou mais o rosto dos dois.
— É. — respondeu sem tirar os olhos do loiro.
— Então eu vou bagunçar mais. — Dougie sorriu e levou sua mão até a nuca da fotógrafa.
Antes que ela sequer pudesse reagir para beijá-lo, Dougie direcionou seu rosto ao pescoço dela, distribuindo beijos leves por toda extensão, até chegar a sua mandíbula. Quando olhou para , percebeu que seus olhos brilhavam intensamente. queria aquilo. Tanto quanto ele. Antes que ela desistisse por qualquer autossabotagem, Douglas uniu seus lábios aos dela como se aquele fosse o último beijo de sua vida. levou seus dedos aos fios loiros de Poynter e os puxou levemente, o que fez com que ele apertasse ainda mais sua cintura. As mãos dele nunca paravam em apenas um lugar, mas exploravam o corpo de como se fosse um grande tesouro. E, na verdade, era. era gostosa. Demais.
mordeu levemente o lábio inferior do baixista e se sentiu realizada. O beijo era tão intenso que os dois não se importaram nem se alguém estava assistindo, ou se a câmera de segurança estava gravando. Infelizmente, precisavam respirar e apenas aquilo os fizera parar. Os lábios vermelhos de Dougie eram convidativos demais para mais um beijo, mas ela não queria arriscar. Arriscar cair naquele mundo. Ela não podia se envolver. Não podia mesmo. Mas, tudo que queria era ter os Poynter em sua vida. Vida essa que, os dois, sem saber, mudaram completamente.

Capítulo Catorze

O dia de parecia ser eterno e ela estava extremamente cansada. Por causa da gravidez de uma das funcionárias da empresa onde trabalhava, estava encarregada de organizar a festa sobre a publicação do livro de Dougie. Tudo estava sob controle, até que ela recebeu um e-mail da banda cancelando tudo em cima da hora.
— Tudo certo, ? — seu chefe entrou em sua sala assim que viu o rosto assustado da publicitária.
— Não — ela confessou. — A banda cancelou.
— Como assim a banda cancelou, ? — Anne levantou num solavanco.
— Cancelando, simples assim — ela respondeu. — Parece que eles voltariam de turnê dos Estados Unidos hoje e fariam o show amanhã.
— E o que houve? — seu chefe perguntou.
— Um tornado naquele país maldito — ela disse, irritada, e aquilo arrancou uma risada de sua amiga.
— Bom… Seria uma ótima ideia se o McFLY pudesse se apresentar, né? — Anne jogou a ideia no ar, totalmente sugestiva.
— Como conseguiríamos arranjar isso? — Mike, o chefe das duas, perguntou.
é vizinha de Dougie, Mike. Ela pode ir para casa mais cedo e tentar desenrolar a coisa com ele, né, amiga? — Anne lhe ofereceu um sorriso falso.
, vá para casa e resolva isso — Mike disse e saiu de sua sala, deixando-a parada, encarando Anne.
— Como eu peço isso a ele, Anne? Poynter já fez muito.
— E faria mais por você, sabe? Só falta sua cabeça dura perceber — a amiga sorriu para a morena. — Vá para casa, .
saiu do prédio ainda contrariada, ela não gostava de ficar devendo favor a ninguém, e sentia que isso aconteceria quando tivesse que bater na porta do seu vizinho. Chegou em casa cedo, aproveitou o tempo livre e foi tomar um banho demorado, se preparando psicologicamente para a sua possível sessão de tortura. Afinal, já dizia o ditado: O não a gente já tem, a gente vai atrás da humilhação.
Naquele início de noite, preparou uma fornada de cookies de chocolate, como se isso fosse amolecer o coração de Poynter, e ela conseguiria arrancar de primeira um sim do jeitinho que ela queria, mas sabia que estava tentando criar uma ilusão na sua cabeça. Depois de prontos, colocou os biscoitos dentro de um pote e subiu o lance de escada mais devagar que o normal, parando em frente a porta do seu vizinho. Com toda a coragem que não tinha, apertou a campainha, quanto antes acabasse com aquilo, melhor.
— Oi, — Kara atendeu a porta.
— Oi, Kara. Seu pai está? — ela foi direta, espiando para dentro de casa.
— Pai, é para você! — a menina gritou ainda na porta. não percebeu o olhar curioso que Kara fazia para o pote em suas mãos. Talvez ela estivesse um pouco nervosa e não tinha percebido ainda.
— Quem é? — Dougie perguntou, mas no instante que viu parada em sua porta, ele entendeu o por que a filha ainda estava com a porta aberta e parada ao lado da mesma.
— Oi, Poynter — ela tentou sorrir, o que acabou saindo como uma careta, e aquilo pareceu ainda mais estranho para Dougie. O músico devolveu a careta de e ela riu baixinho. — Droga, desculpa. Tive um longo dia.
— Entra — ele ofereceu e ela aceitou. adentrou o apartamento assim que o baixista lhe deu passagem. Ela se sentia adolescente de novo, porque sentia que qualquer atitude que faria ficaria estranha perto de Poynter.
— Obrigada — ela sorriu. — É sobre a festa…
— O que tem? Os meninos confirmaram presença — ele se sentou no sofá.
— Hm... Eu gostaria de saber se vocês podiam tocar — ela mordeu o lábio inferior. Estava nervosa. — A banda cancelou de último minuto e não temos ninguém.
— Por que você está nervosa sobre isso, ? É literalmente meu trabalho.
— Não sei — ela balançou a cabeça. — Tenho estado tão cansada que me frustra algo dar errado.
— Te entendo — ele sorriu.
— A janta está pronta, pai — Kara gritou da cozinha. — , fique para jantar.
— Não quero atrapalhar vocês, de verdade — ela se dirigiu até a porta.
— Fique, jante e relaxe — ele sugeriu. — Eu sei que não temos a melhor das relações, mas minha filha adora você.
— Eu também adoro aquela pestinha — ela sorriu. — Tudo bem, eu fico. Mas não vou demorar.
— Certo.
Os dois foram até a cozinha buscar as coisas necessárias para organizar a mesa do jantar, enquanto Kara passava a comida para o refratário. e Dougie arranjaram um jeito de fazer a arrumação dar certo. Ele pegava as coisas na cozinha e as entregava no meio do caminho para que a fotógrafa as colocasse na mesa.
— Eu não sabia que você cozinhava — disse para Kara.
— Aprendi com meu pai — ela sorriu.
— Dougie Poynter cozinha bem? — riu. — Jamais imaginaria.
— Eu também jamais imaginaria — ele riu. — Mas eu virei pai e vegano.
— Hmm, e qual é o cardápio de hoje?
— Risoto — Kara sorriu e sentiu a boca encher d’água.
— É uma das minhas comidas favoritas, Kara! — disse, animada. — E o cheiro está uma delícia.
O jantar foi calmo, e se surpreendeu com todo aquele clima familiar que ela não estava acostumada. O risoto, bem preparado e saboroso, feito por Kara, acompanhava uma taça de vinho para ela e Dougie, a garota ficou com o suco de laranja natural. Apesar de todo o cansaço do dia, aquilo era o que realmente precisava, e não foi surpresa nenhuma quando ela se deu conta disso.
— Estava realmente uma delícia — disse, limpando a boca com o guardanapo. — Eu não sabia que precisava comer um risoto feito por Kara Poynter até comer um risoto feito por Kara Poynter.
— Vou aceitar o elogio, mas você sabe, eu não sou muito modesta — ela deu de ombros, retirando os pratos da mesa.
— Eu te ajudo — começou a lavar a louça, sem que ninguém pedisse.
— Você é visita, — Dougie se manifestou, tirando o prato da mão da mulher, mas ela segurou o objeto forte demais num sinal claro de que ela lavaria de qualquer forma.
— Não tem problema.
Kara e Dougie guardaram a comida na geladeira, limparam a mesa e o que estava atirado ainda devido ao jantar. Eram só os três, então não havia realmente muita louça para ser limpa, o que não levou nem dez minutos para terminar sua tarefa. Ela não queria dar uma de cachorro magro e sair logo depois de jantar, mas ainda estava cansada.
— Você está cansada, não é? — Dougie estendeu mais uma taça de vinho para e ela respirou, grata pela bebida.
— Sim, está sendo uma semana louca. Parece que todo mundo resolveu enlouquecer e me enlouquecer ao mesmo tempo — ela respondeu, sentando-se na varanda do apartamento com Dougie. Era uma cena cômica, no ponto de vista de ambos; devido às circunstâncias em que se conheceram, aquilo era algo pouco provável de estar acontecendo agora. Mas estava.
— Então o jeito de deixar sua semana menos louca, é se minha banda tocar na festa? — ele ergueu uma sobrancelha na direção da mulher.
— Você já disse sim e eu não aceito outra resposta — ela o olhou, repreensiva.
— Não sei se me sinto lisonjeado ou ofendido por ter sido sua única opção — eles riram, mas aquilo não era verdade.
— Você não é minha única opção — Dougie colocou a mão no peito e fez uma cara de ofendida dessa vez. — É a primeira, depois da banda que cancelou, é claro. Mas eu precisava ter algumas cartas na manga se você e o resto da banda não aceitassem.
— Vou ficar lisonjeado, porque parei de escutar depois que você disse que eu era sua primeira opção — ela o cutucou próximo da costela, o que o fez derramar um pouco da bebida, mas ninguém se importou.
— Eu realmente preciso ir — ela olhou no relógio de pulso, soltando um muxoxo baixo. — Então, até sábado. Obrigada pelo jantar e por salvar minha vida.
— Eu acho que não escutei direito a última parte — Dougie sorriu de lado, fazendo quase esquecer com quem ela estava falando. Aquilo só podia ser efeito das três taças de vinho.
— Não abusa, Poynter — ela gritou no corredor, quase chegando à escada. — Boa noite — ela virou-se a tempo de vê-lo ainda parado na porta, acenou e sorriu para o seu vizinho, sumindo logo depois pelas escadas.
Foi uma noite agradável. Até mesmo para .

[...]


olhou ao redor do enorme salão, percebendo que a festa estava sendo um sucesso, assim como esperado, mas ainda não estava totalmente satisfeita com o rumo que aquela noite estava tomando. Era uma festa à fantasia, ela mesma tinha ajudado a organizar todo aquele evento, e ansiava por aquele momento. Embora não gostasse tanto de se envolver no que acontecia no famoso por trás das câmeras, dessa vez, tinha se esforçado para que tudo saísse como ela sempre quis numa festa a fantasia. No meio de toda aquela multidão, conseguiu encontrar com Jules e Danny e seguiu rumo ao casal.
— Ei, estão aproveitando? — ela disse, animada, por mais que a falta de sinal de Dougie lhe deixasse nervosa, ela não queria transparecer aquilo.
, está maravilhoso — Jules foi a primeira a falar, o que tranquilizou de certa forma.
— E Theo, como está? — talvez se mudasse de assunto, conseguisse se distrair.
— Bem, foi fazer companhia ao Coops essa noite.
— Que fofo — ela sorriu, sendo acompanhada por Jules. — Na próxima vez, prometo fazer uma festa que dê para trazer as crianças.
— Não se preocupe com isso — Jules era sempre tão compreensiva, ao contrário de , que parecia estar uma pilha de nervos. — Vamos pegar uma bebida enquanto Danny tenta falar com o Dougie mais uma vez.
Jules deu um tapinha no ombro de Danny, como se dissesse para ele fazer o máximo e ter uma resposta quando elas voltassem, ele respirou fundo mais uma vez e discou o número que já sabia de cór. A fotógrafa olhava atenta ao redor, tentando evitar que qualquer coisa desse errado.
— Ei, relaxa. A festa está perfeita, e logo, logo Dougie vai estar aqui — Jules pegou uma taça de espumante e entregou para .
— Ele não seria maluco de não aparecer, eu sei onde ele mora — ela acabou rindo da própria frase. — Você tem razão, vou aproveitar mais a festa. Desculpe atrapalhar sua noite.
Em um gole, virou o resto do conteúdo de sua taça, toda energia que gastara planejando aquele evento deveria ter uma recompensa, certo? Certo, e estava pronta para aproveitar tudo ao seu redor. Quando começou a tocar Last Nite do The Strokes, uma troca de olhares entre elas foi o suficiente para entenderem que aquele era o momento certo de começar a aproveitar a noite.
Aos poucos, as luzes do enorme salão foram ficando mais fracas, o palco improvisado no meio foi iluminado e as primeiras notas de Don’t Stop Me Now tocadas no piano foram ouvidas. respirou, aliviada, quando viu os quatro rostos que ela esperava ver naquela noite, principalmente o de um certo baixista.
Tonight I'm gonna have myself a real good time. I feel alive and the world is turning inside out. Yeah! I'm floating around in ecstasy, so don't stop me now. Don't stop me. 'Cause I'm having a good time, I'm having a good time… — Tom começou cantando calmamente, conforme tocava no piano, sendo acompanhado pelas pessoas que se arriscaram a cantar junto um dos maiores clássicos do Queen.
Naquele momento, até e Jules esqueceram das preocupações e cantavam junto com a banda. não sabia se era o efeito do álcool, mas ela esperou tanto por aquele momento, depois de todo o esforço que teve e de tudo que deu errado até aquela noite realmente acontecer, que se permitiu seguir exatamente o que a música falava.
Enquanto Jules e se divertiam na pista de dança, a estrela da noite chegou, roubando todos os olhares. Inclusive os de , que saíram de Jules para focar no baixista. Douglas Poynter usava roupas casuais — que dessa vez não eram pijamas. O vizinho de estava com uma calça azul que parecia ser de veludo, um vans e uma blusa branca com listras rosa e azul. Ele parecia sempre buscar suas roupas no armário dos pijamas, mas nunca ficava feio. Largado, talvez, mas ainda mais bonito.
— Fecha a boca, vai babar — Jules deu um leve empurrão em e foi até o namorado.
pôde ouvir de longe a risada de Danny ao ver a namorada se aproximar, mas não conseguia tirar os olhos de Dougie. O baixista conversava simpaticamente com o chefe de enquanto Anne se aproximava dela.
— Terra chamando — a amiga disse e ela, finalmente, saiu do transe.
— Uau — ela disse baixinho, mas sua amiga ouviu. — Acho que bebi demais.
— Você mal começou a beber, — Anne sorriu para a colega de trabalho. — E se tem algo que você merece fazer hoje… É beber.
— Eu já estou fazendo isso — sorriu e virou mais uma taça de espumante, voltando para a pista de dança.
Passeando pelo enorme salão, conversando com mais alguns rostos conhecidos, perdeu a conta de quantas taças de álcool já tinha ingerido, ela parara de contar depois da sétima. Porém, quando encarou seus pés, foi obrigada a fechar os olhos ao perceber que as coisas começaram a girar ao seu redor. Mas logo se recompôs, servindo-se na enorme mesa de bebidas, além daquelas que os garçons serviram a noite toda, ainda estava cedo para ir embora, e apenas mais algumas doses de álcool fariam continuar no evento.
— Ouvi dizer que você me procurou a noite toda — Dougie, com toda sua pretensão, parou ao lado de . A mulher não conseguiu evitar um revirar de olhos na direção do homem ao seu lado, e nem ao menos fez questão de disfarçar.
— Se você estivesse chegado no horário, seu nome, com certeza, teria saído em quantidades suficientes da minha boca — ela tomou um gole da sua bebida, forte, encarando os olhos de Dougie pela primeira vez na noite. Ele soltou uma risada, sem acreditar em uma palavra sequer que ela acabara de dizer. — Mas você cumpriu com o favor, está livre para aproveitar sua noite.
não queria ter sido tão ácida, mas quando percebeu as palavras já tinham saído de sua boca, o que a fez ficar em silêncio novamente. Talvez, aquele fosse o começo da terrível noite que estava pela frente, mas Dougie tinha outros planos.
— Vamos dançar, — ela não contestou, apenas seguiu para a pista de dança novamente enquanto sentia o formigamento pelo toque de Dougie a puxando pela mão.

[...]


— Vamos, , você precisa me ajudar — Dougie disse ao carregar para dentro do prédio, o que ele achou ser a parte mais difícil. O que ele não esperava é que ela fosse ter uma crise de riso no meio do saguão do prédio. A mulher que, antes, já não conseguia nem se manter em pé direito, agora não movia um músculo sequer do lugar.
— Ok, lembre que foi você quem pediu por isso — num movimento rápido, Dougie pegou por trás dos joelhos e colocou-a sobre seu ombro.
— Hmm, não sabia que você tinha uma bundinha deliciosa, Poynter — ela riu do que achou ser o seu próprio pensamento.
— Tenho certeza que vai se arrepender disso tudo amanhã — ele segurou firme a mulher, com medo que ela escorregasse e acabasse caindo dentro do elevador. Porém, Dougie não sabia se conseguiria se manter sério enquanto "acariciava" sua bunda gentilmente.
Com uma lentidão que parecia ser eterna, as portas do elevador se abriram no andar de , e Poynter já estava com as chaves em mãos, tentando ser o mais rápido possível para acabar com aquilo de vez e ir para sua casa.
— Shhh! — fez o gesto com o dedo na boca, para que Dougie não fizesse barulho, quando era ela quem estava fazendo. — Ah, esqueci que eu moro sozinha.
Quando foi posta novamente no chão, cambaleou para dentro do cômodo, jogando os sapatos que carregava na mão em qualquer canto da sala de estar.
— Tira, tira, tira — ela ficou de costas para Dougie, para que ele abrisse o zíper de seu vestido. — Xixi! — foi a única explicação.
Dougie desceu o zíper do vestido de e a mulher saiu correndo em direção ao banheiro, deixando o vestido escorrer pelo seu corpo no meio do caminho. O que a fez ficar de calcinha e sutiã antes de trancar a porta do banheiro e sumir da visão de Poynter. Aquilo só podia ser algum tipo de brincadeira com Dougie. Ele sabia que nunca teria aquele tipo de comportamento, então achava que ela estava armando algum tipo de pegadinha para cima dele. Entretanto, ele também já havia passado por situações que nem aquela — várias vezes —, e não podia deixar sozinha nem se ele quisesse, seria horrível da sua parte fazer isso. Decidiu fazer um chá para , tentando ao máximo amenizar sua ressaca do dia seguinte.
— Ai, droga — ela resmungou baixo.
, tá tudo bem? — ele perguntou, próximo da porta do banheiro.
— Não sei — ela soltou um riso baixo. — Ai! — voltou a resmungar. Dougie respirou fundo e abriu a porta do banheiro, obviamente com um certo receio. Mas quando abriu a porta, se deparou com no chão tentando vestir uma blusa virada do avesso. Aquela noite seria longa.
— Você precisa de um banho, .
E foi o que Dougie fez. Com todo esforço possível, ligou o chuveiro e colocou a mulher embaixo d'água, segurando-a pela cintura para que a mesma não caísse dentro do box. A essa altura, Poynter já estava molhado também, mas essa não era sua maior preocupação. não conseguia se manter em pé, mesmo que ela fizesse esforço para isso, suas pernas pareciam fracas demais para suportar todo o seu peso; dessa forma, a deixava cara a cara com Dougie e se via obrigada a se apoiar nos ombros de seu vizinho.
— Eu acho que isso vai contra todas as suas regras, — ele comentou e a fotógrafa o encarou.
— Não venha querer me lembrar das minhas regras anti-Poynter — ela disse enrolado.
— Regras anti-Poynter? — ele soltou uma risada. — Que baboseira é essa?
— Foi o método mais eficiente que eu encontrei de afastar você e sua monstrinha da minha vida — ela choramingou. — Essa água está gelada.
Quando Dougie se deu conta, percebeu que a lingerie de estava começando a ficar transparente. Merda, ele não deveria estar notando aquilo naquele momento. O baixista soltou uma mão da cintura de e pegou o xampu.
— Abra sua mão, — ele pediu e ela o fez. Apesar de estar sem equilíbrio e falando algumas besteiras, estava consciente do que fazia.
Era o que diziam: o álcool entra e as verdades saem. Ela achava Dougie Poynter extremamente atraente, mas ele a tirava do sério como ninguém fazia. sabia que era uma pessoa difícil de lidar, pelo menos, era o que sempre diziam. Mas Dougie Poynter despertava nela toda a infantilidade que ela tinha.
— Esse xampu é muito cheiroso, não acha?
— Acho — ele concordou. Dougie fazia um esforço tremendo para não encará-la, pois ela o distraía. — Agora vamos, esfregue essa cabeça.
— Eu não sou a Kara para você fazer isso comigo — ela resmungou.
— Fazer o quê?
— Me dar ordens como se fosse meu pai — ela virou de frente pra ele pela primeira vez. — Você não é meu pai.
— Certo, — ele concordou. — Não sou seu pai, mas enxague esse cabelo e passe o condicionador.
— Só vou passar porque eu quero, não porque você tá mandando - ele riu.
— Contanto que você faça, não me importo.
— Você me irrita, Doug — ela o chamou pelo apelido que ele mais gostava. — É lindo de morrer, mas tira do sério de um jeito fenomenal. Doug, Doug, Doug…
— Ok, — ele riu. — Vou te soltar agora, tá bem? Preciso tirar o condicionador do seu cabelo, já que você não quer.
instantaneamente fez bico quando ele soltou sua cintura, mas rapidamente abriu um sorriso quando Dougie calmamente afagou seus cabelos para tirar o condicionador. Ele conseguia deixá-la maravilhada em questão de segundos, mas logo depois ele fazia seu corpo formigar de ódio. Naquele momento, ela não tinha borboletas no estômago, mas sim o zoológico inteiro. Maldito momento em que fora beber tanto! Quando se deu conta, estava pensando em como Dougie Poynter era um ótimo baixista e, consequentemente, habilidoso com os dedos. Pensar nos dedos naquele momento não era sinal de coisa boa, não.
Como o esperado, se desequilibrou e aquilo fez com que Dougie soltasse seus fios para segurá-la. Dougie precisou colocar seu tronco mais para dentro do box e acabou se molhando mais.
— Ops — deu um sorrisinho sapeca. Foi inesperado, mas o desequilíbrio valeu à pena. — Desculpa.
— Tudo bem, vamos sair agora.
— Quero ficar — ela o olhou em seus olhos.
… — ele disse, alarmado, mas sabia que ela estava jogando com ele.
— Talvez eu me arrependa disso amanhã, Doug… — ela falou baixinho. — Mas não importa.
— Não import… — antes que o baixista pudesse completar sua frase, o puxou para dentro do box completamente e uniu seus lábios.
Ao mesmo tempo que queria prosseguir com o beijo, Poynter apenas se desesperava. estava bêbada e não consciente dos seus atos. Não que não quisesse beijá-la… Ele queria e muito, mas gostaria que ela se lembrasse no dia seguinte.
— Vamos te tirar daqui, certo? — ele sorriu fraco e puxou a toalha atrás de si. Em silêncio, e meio em choque, concordou.
Poynter se ajeitou e enrolou a publicitária na toalha grande e pegou a de rosto para secar seus cabelos. Conforme ele ia, respeitosamente, secando a mulher, ela sentia seu corpo relaxar aos poucos. Dougie a levou para seu quarto e a colocou sentada em sua cama.
— Onde você tem pijamas? Ou qualquer roupa que use para dormir — ele perguntou.
— Na terceira gaveta do armário — ela falou baixinho e ele foi procurar onde ela havia dito.
Dougie riu ao se deparar com os pijamas um tanto espirituosos de . Quem diria que aquela mulher irritada, implicante e séria usava pijamas com estampas da Disney? Poynter escolheu a blusa e a calça de Star Wars e abriu uma das gavetas para ver se encontrava alguma calcinha. Sem olhar muito, Dougie pegou a primeira que encontrou e jogou na cama.
— Tire essas roupas molhadas, ‘tá bem? — ele disse. — Vou ao banheiro procurar uma escova para pentear seus cabelos.
concordou com a cabeça e, assim que o músico saiu de seu quarto, ela rapidamente pôs o pijama. Doug rapidamente voltou e se sentou ao lado da fotógrafa. O músico pegou a toalha e ela virou de costas para que ele tivesse um melhor acesso ao seu cabelo. Poynter se esforçou para secar o máximo que podia para que ela não se deitasse com a cabeça molhada — pois, de acordo com sua mãe, aquilo fazia mal. Quando terminou de secar, delicadamente penteou os fios escuros de , vendo o quão Kara havia ensinado quando pequena.
— Pronto — ele se levantou e puxou as cobertas. — Durma bem, .
— Eu não costumo dizer muito isso, mas… Obrigada, Dougie.
— De nada, — ele sorriu. — Até amanhã.

Capítulo Quinze

A pior parte de ser adulto e beber feito um adolescente inconsequente, é que no dia seguinte a ressaca sempre vai aparecer, e com ela, a ressaca moral também dá as caras. Como se já não bastasse a dor de cabeça que sentia, ela também foi atingida por uma série de imagens emaranhadas da noite passada.
Festa. McFly. Bebidas. Casa. Chuveiro. Poynter.
— Droga! — jogou o travesseiro em seu rosto, como se aquele gesto fosse capaz de apagar as imagens de sua memória ou, melhor ainda, mudar suas atitudes da noite passada. Antes que pudesse passar o resto da tarde se lamentando pela bebedeira da noite anterior, o celular de tocou, anunciando uma mensagem de um número desconhecido.


WHATSAPP

Jules

online

Oi, . É a Jules, espero que não se importe, mas Jones me passou seu número


Está tudo bem? Espero que tenha chegado bem em casa.


Estou a um andar de distância hoje :)






— O quê? Desde quando Jones tem o meu número? — A mente de estava tão confusa que foi necessário extravasar seus pensamentos. Ela nem sabia como tinha conseguido chegar até a sua cama vestida, porque, bem, apesar de não se orgulhar do que quase aconteceu na noite passada, se tivesse dependido dela, as roupas não estariam em seu corpo agora e, com certeza, teria outra pessoa naquele apartamento.
precisava sair, precisava de um café forte e, definitivamente, precisava conversar com outra pessoa que não fosse Poynter.


WHATSAPP

Jules

online

Oi, Jules. Topa um café?


Estarei na sua porta em dez minutos :)






se apressou em se levantar da cama e correr para o banheiro, precisava dar um jeito na sua cara e no bafo matinal, ou Jules sairia correndo no minuto em que ela abrisse a boca. Preferiu tomar um banho rápido, colocar uma calça de moletom e uma blusa qualquer por cima, o seu vans preto estava ao lado da cama, sendo de fácil acesso. Com certeza, ela estaria totalmente o oposto da advogada, mas era domingo, ninguém iria se importar. Exatos dez minutos depois, a campainha de sua casa tocou e não demorou para abrir a porta.
— Bom dia — sorriu, abrindo a porta.
— Boa tarde? — Jules tentou segurar o riso, mas foi quase impossível devido a cara de espanto de .
— Meu Deus! — ela olhou espantada para o celular em sua mão. — Caramba, eu preciso comer alguma coisa, você tá muito ocupada?
— Acabei de ser abandonada pelos meus meninos, então tenho o dia inteiro livre.
pegou o casaco que estava atirado no sofá, a carteira e o celular, era o suficiente para ela sobreviver uma tarde longe de casa. O notebook em cima da mesa de centro era um sinal que ela tinha muito trabalho a fazer, mas a sua cabeça estava muito longe para ela sequer pensar em trabalho. As duas saíram do prédio em silêncio, o que não era muito o normal de , mas ela precisava organizar seus pensamentos antes de abrir a boca e não conseguir mais controlar a sua língua.
O local escolhido para aquela tarde, foi o charmoso café que ficava a algumas quadras do prédio de . E a calmaria do local foi a escolha certa para relaxar e se sentir pronta para contar tudo que estava preso em seu peito.
— Ponha tudo para fora, . Nós não somos de ferro — a advogada falou em um tom calmo.
— Acho que gosto demais dos Poynter — disse tudo de uma vez. — Gosto demais de Kara, ela é uma pestinha inteligente que conquistou meu coração. E o pai dela… Céus! Ele me desperta toda infantilidade que eu tinha jurado não ter.
Jules preferiu deixar que colocasse toda aquela confusão para fora antes de falar algo.
— O Dougie é um ótimo pai, Jules. Eu nem sei o quão errado isso soa, mas eu me apaixonei pelo jeito dele ser pai? — Jules deu risada com a fala da colega. — Eles dois juntinhos parecem cena de fanfic. Eu juro, é muito bom assistir. E sem contar que aquele desgraçado beija muito bem, Jules. Céus! Eu sequer consigo imaginar como ele deve ser fazendo outras coisas. Pelo bem da minha sanidade mental, eu não posso pensar nessas coisas.
— Ok… Não quero pensar em Dougie fazendo coisas com você. Mas o que posso dizer é que eles se sentem da mesma forma — a advogada sorriu. — E o termo certo não é gostar. É amar. O jeito que você defendeu aquela menina na escola não é o jeito de alguém que gosta, é alguém que ama.
— Não posso dar o que eles merecem, Julia — sentiu o choro entalado querer sair. — Eles merecem uma família.
— Eles são uma família, . Eles só querem você nela — Julia sorriu. — Esse processo é assustador, confie em mim. Mas ele é lindo no final.
tomou um gole do seu café, ainda pensativa sobre o que Jules acabara de dizer. Ela estaria mentindo para si mesma se dissesse que não estava totalmente rendida pelos Poynter. Ela até mesmo já não sabia mais como eram os seus dias desde que eles entraram em sua vida. Por outro lado, o lado racional que ignorava muitas vezes, gritava em sua mente para ela não se jogar de cabeça nessa relação. No fim das contas, ela sabia quem sairia machucada.
Home is where the heart is, . Onde o seu coração está agora?
Quando pensou em responder aquela pergunta, seu celular vibrou em cima da mesa, atraindo a atenção das duas mulheres. E o nome na tela não poderia ser de outra pessoa: Dougie.
— Acho que você tem uma resposta bem na sua frente — Jules se levantou, deixando com o celular vibrando em suas mãos e um turbilhão de sentimentos. Não demorou muito para Jules se despedir e logo sair da cafeteria, no instante em que o celular parou de tocar, pensou que tivesse escapado, mas o nome de Dougie voltou a brilhar na tela.
— Seja corajosa, — ela disse para si mesma antes de deslizar o dedo pela tela do aparelho e aceitar a chamada. — Alô?
… — Dougie ficou em silêncio no outro lado da linha, deixando ainda mais nervosa.
— Poynter, tá tudo bem? — pagou pelo café e já estava saindo da cafeteria, sem perceber seus pés a guiava de volta para a casa.
— Sim, não. É a Kara — ele disse, nervoso. O coração de acelerou com a possibilidade de Kara Poynter não estar bem.
— Dougie, o que aconteceu?
— Acho que Kara teve a primeira menstruação dela. Eu não sei o que fazer e preciso de ajuda, no caso, ela precisa — Dougie soltou a informação de uma vez só.
— Caralho, Poynter, que susto! — ela parou na calçada, tentando controlar seu nervosismo. — Olha, eu chego em alguns minutos e passo aí. Diz para ela que vai ficar tudo bem, eu já estou chegando.
não esperou uma resposta do baixista, desligando o celular e apressando o passo de volta para o seu apartamento. A morena entrou feito um furacão no prédio e subiu as escadas ao invés de esperar o elevador. O apartamento estava tão bagunçado quanto a cabeça de , mas ela daria um jeito em sua vida depois. Kara precisava dela agora. pegou uma pequena caixa, onde guardou absorventes, remédio para cólica, chás e uma bolsa d'água para Kara colocar em cima da barriga, trancou o apartamento novamente e foi até o outro andar, já frequentado por ela mais vezes do que gostaria de confessar. Quando parou na frente da porta de seu vizinho, essa se abriu rapidamente, mostrando um Dougie um tanto quanto nervoso.
— O que é isso? — ele apontou para a caixa, desconfiado. revirou os olhos.
— Algumas coisas que ela pode precisar. Não precisa se preocupar, não é nenhum bicho de sete cabeças.
— Eu tentei falar com a minha mãe, mas ela não atendeu. Desculpa te incomodar com isso, Kara não é a pessoa mais fácil de lidar.
— Engraçado que vocês têm isso em comum —ela riu, irônica, e Dougie revirou os olhos, ainda contrariado com o comentário. — Mas falando sério agora, tá tudo bem. Onde ela está?
— No banheiro — ele apontou com a cabeça para o corredor.
— Coloca uma água para ferver, ela provavelmente vai precisar de um chá — disse antes de seguir para o cômodo indicado.
— Kara? É a , podemos conversar? Eu posso te ajudar.
— Meu pai não conseguiu falar com ninguém? — ela era resistente, sabia.
— Bom, ele tentou... — o silêncio se instalou por alguns segundos, até a mais nova abrir a porta e deixar entrar. — E…Ele conseguiu falar comigo, afinal.
Kara sentou-se na tampa da privada, sem coragem de encarar . A garota tinha os cabelos presos num coque mal feito, vestia uma blusa do Blink-182 e uma calça de moletom cinza, os pés estavam descalços no piso frio do banheiro. Péssima escolha, Kara.
— Como está se sentindo?
— Com dor.
— Primeiro, você precisa colocar um chinelo, uma meia, o que for. Estar descalça só vai aumentar sua cólica. Eu trouxe algumas coisas, já pedi para o seu pai colocar água para esquentar para você tomar um chá.
— Não gosto de chá.
— Eu também não, mas é um bom companheiro nessas horas. Aqui tem remédio e uma bolsa d'água para colocar na barriga, caso ainda sinta dor.
— Eu não acredito que isso está acontecendo justo agora.
— O que tem justo agora?
— Promete não contar para o meu pai?
— Depende, se for algo realmente sério, eu irei contar.
— Theo me chamou para ir ao cinema neste final de semana — ela suspirou. — E agora eu não posso ir, porque sinto que minha alma vai sair do meu corpo a cada dois passos que eu dou.
Ok, foi impossível controlar a gargalhada, mas se arrependeu no minuto seguinte em que viu Kara voltar a ficar tensa.
— Desculpa, mas a cólica vai passar. E você pode dizer ao Theo que não está muito bem, mas que no próximo fim de semana estará livre e, então, você poderá ir ao cinema com ele.
— Você não tem ideia de quantas pessoas queriam estar no meu lugar. Agora que eu tenho a chance, vou jogar tudo no lixo por causa de uma menstruação idiota.
— Kara — se abaixou, de modo que pudesse ver os olhos da garota, a chamando num tom gentil. — Theo vai querer sair sim com você.
— Você fala isso porque é linda, inteligente e simpática. Até meu pai fica babando feito um cachorro em cima de você, ele não sabe disfarçar.
— Eu falo isso por experiência própria, já quebrei a cara, quando nova, por garoto babaca; mas o Theo não é um deles, tenho certeza. Eu vou preparar um chá para você, o absorvente está aqui dentro.
estava pronta para sair do cômodo, quando escutou Kara chamar seu nome. Ficou de frente para ela, esperando-a falar.
— Obrigada.
— Por nada — um pequeno sorriso surgiu no rosto de Kara, era um sinal de que havia feito um bom trabalho. — Vou deixar você sozinha agora. E pensando no seu encontro lindo com o Theo no final de semana que vem, tá bem? — deu um sorrisinho implicante para a menina e saiu do cômodo, indo de encontro ao outro Poynter. No fim das contas, era duvidoso afirmar que não era ela quem tinha catorze anos.
parou próxima da ilha na cozinha de Dougie, ele estava de costas para ela e mesmo assim conseguiu perceber o quão tenso Poynter estava. A preocupação de Doug era visível, o que era bem normal para um homem que teve que criar uma menina sozinho. A cada dia que passava, se encantava cada vez mais com a versão pai do seu vizinho, e ela não conseguia negar que ele lhe arrancava suspiros mesmo sem saber.
— Como ela está? — Dougie perguntou quando notou que havia outra pessoa no mesmo cômodo que ele.
— Está tudo bem, é sério. Kara é uma garota esperta, só ficou um pouco assustada, mas é normal. — colocou as mãos no bolso do casaco, escondendo seu nervosismo por estar sozinha no mesmo cômodo que Dougie. — Achei que o Danny e Theo estariam aqui.
A mudança repentina era um sinal para eles não tocarem no assunto sobre a noite passada, mas o olhar confuso de Dougie foi o suficiente para perceber que ele não queria falar sobre outra coisa.
— Eles estavam, mas Kara começou a ficar com cólica e eles foram embora — Dougie explicou. — E como você está?
— Com dor de cabeça e ressaca moral? — ela fez uma careta, desviando o olhar do baixista e fixando em qualquer outro canto da casa.
— Ressaca moral, é? O que você fez de tão errado assim na noite passada? Ah, um segundo. — Dougie saiu da cozinha com a xícara quente em suas mãos, levou até o quarto de Kara e voltou para a cozinha, preparando mais uma xícara de chá, dessa vez, para .
— Eu não gosto de chá, Poynter — revirou os olhos.
— Então, o que você ia dizer mesmo? — Poynter ignorou o comentário de , voltando para o primeiro assunto. — O que você fez na noite passada, ?
encarou os olhos verdes do baixista, o mesmo a encarava com um sorriso teimando em seus lábios. Dougie se divertia do constrangimento de , mas ela nem sequer pensou em ficar brava com ele, afinal, ela faria o mesmo em seu lugar.
— Apertei a bunda do meu vizinho no lobby do prédio e o beijei.

Capítulo Dezesseis

A risada de Dougie preencheu a cozinha. E foi quando percebeu que estava muito, mas muito ferrada. Naquele instante, ela sentiu quase o torpor causado pelo álcool voltar. Dougie era lindo, engraçado, simpático, cheiroso e gostoso. Nossa, ponha gostoso nisso.
— Terra chamando — ela ouviu a voz dele pertinho. Quando se deu conta, percebeu que ele estava muito perto. Muito mesmo.
— S-sim?
— Eu perguntei o que te fez apertar a bunda do seu vizinho ontem — ele deu um sorrisinho. Canalha.
— Álcool. Eu estava totalmente bêbada.
— Estava? — ele perguntou baixinho.
Antes, o baixista tinha um brilho nos olhos de divertimento, mas agora a possibilidade de apenas ter feito aquilo por estar alcoolizada o deixou um pouco pra baixo.
— Sim, mas não foi só o álcool que me motivou a fazer isso, Poynter — ela engoliu com dificuldade. Ok, ser sincera. — Eu certamente gostaria de fazer isso sóbria também.
— É? — aquele brilho tinha voltado. Maldito brilho que deixava a calcinha dela molhada.
— É.
— Mas eu acho que eu posso mudar um pouco as coisas — Doug a prendeu entre seu corpo e a bancada. — Eu acho que você deveria sair de "apertar a bunda do seu vizinho no lobby do prédio" para "beijar seu vizinho, que é muito lindo e gostoso, por sinal, na cozinha dele" — as mãos de Dougie subiram para o pescoço da publicitária e foi a vez dela abrir um grande sorriso. Ela negaria até a morte, mas amava aquele humor ridículo que ele tinha.
— Tudo bem, eu acho que é uma ótima ideia.
— Droga, , essa é uma das melhores ideias da vida.
— Ansioso? — sem respondê-la, Doug grudou seus lábios aos da fotógrafa e ele teve a certeza que seu cérebro poderia explodir ali mesmo que não iria fazer diferença.
Beijar era bom, bom demais para ser verdade. Os dedos da mulher se emaranharam em seus fios loiros e deram um leve puxão, fazendo-o intensificar ainda mais o beijo. soltou um gemido baixo, fazendo Poynter sair de órbita por um segundo. Se apenas aquele som fazia aquilo, ele não sabia se estava preparado para o resto. Mas ele queria. E muito.
— Nossa, finalmente — a voz de Kara fez que os dois dessem um pulo de susto. Dougie rapidamente se aproximou da filha, com o semblante que era um misto de perturbação e preocupação.
— Você está melhor?
— Sim — a menina deu um sorriso. — Ainda mais feliz por saber que ganhei a aposta com o tio Harry. Eu sabia que vocês iam ficar juntos.
— Pentelha! — deu a língua para a menina.
e Dougie, os dois pombinhos do amor! — Kara cantarolou implicante.
— Pirralha! — se aproximou da menina e começou a fazer cócegas nela.
— Sai, sai! — Kara gritou, correndo para trás do pai. — Vai fazer minha cólica voltar.
Com medo de passar pelo inferno novamente, Poynter interviu.
— Parem! Vocês parecem duas crianças…
riu, contrariada, mas obedeceu ao pedido de Douglas. Kara rapidamente levantou bandeira branca e foi para o seu quarto, deixando os dois sozinhos novamente. Aquilo deixou ansiosa. Ela não queria ir embora e fingir que nada aconteceu. Não mesmo. Será que Dougie se sentia arrependido? Ainda mais por Kara tê-los visto?
? — ele a chamou. — Eu não diria ansioso, eu diria viciado. Mas do melhor jeito da palavra.
Poynter enxergou um brilho nos olhos de , o mesmo que ela havia visto nele. E, assim como , ele estava muito ferrado.
— Eu também, Doug — naquele momento, ela engoliu todo o seu orgulho. — Completamente viciada.
— Gosto quando você me chama assim.
— Gosta, é? Então a partir de agora, vou te chamar de Douglas — ela riu.
— Posso jogar esse jogo, .
— Que bom, mas eu espero que você saiba que eu sou competitiva, Doug.
— Bem… Eu posso te dizer que esse não é meu som favorito saindo da sua boca.
deu um grande sorriso ao escutar o baixista proferir aquelas palavras. Como um truque de mágica, seu corpo pareceu formigar de tanta ansiedade. Gostava de ter Poynter explorando seu corpo com suas mãos grandes e bonitas e tatuadas. Gostava do seu olhar que parecia querer gravar cada pedacinho de seu corpo. Gostava do cabelo bagunçado que ela deixava após um beijo de tirar o fôlego. Gostava da risada de Poynter. Gostava, imensurável e incontrolavelmente, de Poynter.
— Antes de tudo… — chegou um pouco para trás para separar seus lábios do dele. — Preciso dizer que eu não gosto de nada casual, Poynter. Eu respeito se você quiser, mas não funciona para mim.
— ele tentou dizer, mas ainda tentava recuperar o ar que ela sempre parecia sugar dele.
— Eu sei, eu sei, sua vida é caótica. Você é músico, Doug. Eu não vou entrar numa possível relação se não for de cabeça. Céus, minha psicóloga estaria orgulhosa de mim — ela riu baixinho. — Isso não é um pedido de namoro, antes que você diga algo. Eu só…
Antes mesmo da publicitária terminar sua fala, Dougie a interrompeu. Por um momento, pensou que seu corpo estava tendo alguma espécie de curto circuito. Impossível se sentir tão em êxtase com alguém. O toque de Poynter a fazia sentir cada célula do corpo pulando.
— Eu não quero dividir você com ninguém — ele sussurrou. — Essa nunca foi uma opção.
— Então você não gosta de dividir, baixista?
— Você? – ele bufou. — Não mesmo.
— Bom saber.
Dougie queria dizer a ela que, se pudesse, nenhum homem além dele beijaria aquela boca de agora em diante. Queria fazê-la ficar para sempre, porque, por mais que o fizesse querer arrancar os cabelos, ela ainda o fazia se sentir em casa.
— Como você quer fazer isso, vizinha? — ele entrelaçou seus dedos. — Você quer um primeiro encontro muito brega, com flores, violinista, eu abrindo a porta do carro pra você… Quer que eu peça permissão para o seu pai para sair com você?
— Larga de ser idiota, Poynter.
— Seu pai é daqueles que faz um formulário para avaliar se os garotos são bons o suficiente para filha dele?
— Calado, você é lindo — ela revirou os olhos.
— Tudo bem. Então eu vou arranjar nosso primeiro encontro e, se você odiar, vai ter que fingir que amou — ele disse.
— Eu não ligo para essas coisas, Poynter — ela foi sincera. Só a presença dele bastava. — Nunca fui a um primeiro encontro.
— Então será seu primeiro primeiro encontro — ele sorriu. — E último, eu espero.
soltou uma gargalhada, mas, no fundo, ela também torcia para aquele ser seu último primeiro encontro.

[...]



WHATSAPP

Dougie

online

o que vc tá fazendo?


nada… pq?


quer sair???


sim, mas está fazendo dez graus lá fora


ponha um casaco. chego aí em 5






correu para seu quarto para colocar uma roupa mais quentinha. A publicitária estava lendo o exemplar de 'Plastic Sucks!' e vestia seu pijama mais confortável. decidiu colocar uma calça jeans, camiseta de manga comprida, e jogou por cima uma blusa branca que havia roubado de seu irmão. A mulher pôs seu tênis e ainda colocou um casaco grosso por cima.
Quando se deu por satisfeita, Poynter tocou sua campainha. Ela apressou seus passos até sua porta e respirou fundo antes de abrir. Aquele era apenas um encontro.
— Oi — ele sorriu ao vê-la.
— Oi, Doug — ela devolveu o sorriso. — O que faremos nessa noite congelante?
— É seu último primeiro encontro, . Eu não vou estragar a surpresa — ele sorriu. — Mas você vai gostar, fica tranquila.
— Tudo bem, Doug — ela riu. — Confio em você para fazer deste o meu último primeiro encontro.
— É assim que se fala, .
entrelaçou sua mão na de Dougie e os dois se dirigiram até o elevador. Como Poynter mal havia chegado, eles esperaram pouco tempo para que o elevador chegasse ao andar. não era baixinha, mas o baixista era mais alto que ela, dando um belo contraste no espelho do elevador. Ele usava uma jaqueta cor de rosa bem chamativa e uma touca verde limão. Ela poderia até criticar o senso de moda dele, mas havia aprendido a gostar. Quer dizer, aquelas combinações malucas só ficavam bonitas nele. A fotógrafa sacou o telefone da pequena bolsa e ambos se prepararam para uma foto no espelho.
O músico passou o braço por um dos ombros de e deslocou-se para o lado oposto, depositando um beijo na bochecha da publicitária. sorriu levemente e registrou aquele momento. Sem que ela pedisse, Poynter mudou a posição e fez uma careta. Automaticamente, lhe respondeu com um olhar de censura e, quando olhou para o telefone, percebeu que estava gravando aquela cena. Agora estava oficialmente registrado. estava completamente entregue ao músico.
Os dois foram conversando durante todo o caminho sobre as coisas mais triviais possíveis, desde a infância de até o famoso mais legal que Poynter havia conhecido. Os planos do baixista para a noite eram um tanto simples.
— O que faremos hoje, baixista? — curiosidade brilhava nos olhos de .
— Bom… Eu pensei muito para decidir o que faríamos, vizinha — ele sorriu e começou a listar. — Você é engraçada, espontânea, criativa, talentosa, infantil…
Sem deixá-lo terminar, deu um leve beliscão no músico.
— Adicionando agressiva na lista a partir de agora — ele riu. — Então procurei na internet o que estava rolando na cidade.
— Conta logo!
— Você é artista, . Eu sou artista — ele afirmou. — Por que não fechar a Galeria Nacional para termos um jantar à luz de velas bem careta?
gargalhou.
— Não acredito. Não mesmo.
— Não duvide de mim, — ele sorriu e saiu do carro, indo até o outro lado para abrir a porta para ela. — Agora vamos, eu tenho uma câmera instantânea e cozinhei um jantar muito bom para a gente.
— Nós vamos tirar polaroids?
— Sim — ele riu. — Você acha que eu sou amador?
— Na verdade, acho que você não existe, Poynter — ela aproveitou para sussurrar em seu ouvido assim que saiu do carro.
Assim que os dois entraram na galeria, se encantou com tudo que estava organizado para ela. É. Ele havia tido o trabalho de organizar tudo para que ficasse confortável para ela. No meio da sala, havia uma toalha preta onde ela podia ver comida, morango, uva, brownie, chocolate, almofadas coloridas e a bendita câmera instantânea.
— É uma exposição feita com artes de crianças de várias faixas etárias — ele sorriu. — São abstratas, mas lindas. Achei que você fosse gostar.
— Eu amei! — ela sorriu. — Obrigada por querer fazer essa uma noite especial, Dougie.
— Você não precisa agradecer, — ele a puxou para perto. — Basta dizer que eu sou o melhor e mais gostoso vizinho que você já teve.
Ela gargalhou.
— Você é idiota.
— Vamos comer, vizinha — ele a puxou para o centro da toalha estendida. Antes que ela sentasse, Poynter ajeitou as almofadas do melhor jeito possível para que ela se sentisse confortável. — O prato principal é macarrão de espinafre ao molho branco com almôndegas de grão de bico.
— Uau, você que cozinhou? O cheiro está delicioso.
— Sim — ele sorriu. — Eu trouxe um vinho para você e suco de laranja também.
— Você não precisava ter trazido bebida alcoólica, Doug — ela acariciou a mão do baixista, que ainda estava entrelaçada na sua.
— Não é problema para mim, — ele a encarou. Aquilo não era mentira. O álcool havia saído da vida de Dougie há muito tempo.
— Mas é um problema para mim, Poynter — ela disse baixinho. — Tudo que um dia já te machucou, também me afeta.

— Estou falando sério, Doug — ela disse firme. — Eu não preciso mais beber para apertar sua bunda, você já me autorizou.
Ele gargalhou com a afirmação que ela fez. era preciosa demais para ele. Para o mundo! sorriu para o baixista, que rapidamente uniu seus lábios aos dela. Rapidamente, foi puxada para o colo de Poynter, que aumentou o aperto em sua cintura. Dougie parecia conhecer cada canto de , mas ainda assim queria conhecer mais e mais. Aos poucos, ela entendia o que era ter química com alguém. Droga, aquela química seria capaz de causar sérias explosões por aí.
Apesar de querer conhecer cada milímetro do corpo do músico, ela não sentia pressa. Não sentia pressa em beijá-lo, em conhecer seus gostos e preferências. No fundo, ela sentia que já sabia tudo sobre ele. A música Even If She Falls, do Blink-182, tocava baixinho na sala. não sabia toda letra, mas conhecia aquela faixa da famosa banda. E é claro que Poynter não deixaria sua banda favorita de fora da playlist.
And she was like a blade of ice, like a lonely road, clear as day, alive… Always sharp and cold, always beautiful, I'm such a fool… — ele cantou baixinho para ela.
— Você deveria cantar mais, Poynter — ela sorriu. — Sua voz é perfeita.
Nah, estou bem — ele riu. — Deixo essa para o Tom e para o Danny.
— Idiota. Gosto de ouvir você cantar.
— Quando quiser ouvir, estou a um andar de distância — ele sorriu.
Dougie separou as coisas que precisariam para aquele primeiro momento do encontro. Os pratos, talheres e copos já haviam sido previamente separados, então ele apenas os serviu. Sem cerimônias, começou a comer e se deliciou com o macarrão de Poynter.
— Cada dia que passa, mais eu sou conquistada pelo estômago — ela admitiu. — Quero comer sua comida para sempre.
— Eu não vejo problema algum nisso, vizinha.
— Ótimo, eu também não — ela riu e continuou a comer.
Enquanto comiam, os dois conversavam com olhares. Olhares implicantes, apaixonantes e intrigantes demais para colocarem em palavras. Às vezes, roubava uma olhadinha quando Doug se distraía com seu prato e o admirava como uma obra de arte. Amava o contraste de seus fios, de seus cabelos totalmente bagunçados, mas inegavelmente lindos. Os cabelos caíam levemente pela lateral de seu rosto e, toda hora que via, Poynter ajeitava. Aquele rosto jamais poderia ser escondido, mesmo que por segundos.
— Sabia que, na primeira vez que eu te vi… — ele fez uma pausa para beber seu suco de laranja. — Eu achei que você fosse me deixar de cabelo em pé.
— E não é que eu deixei? — riu.
— Eu prefiro o termo 'totalmente adestrado' — ele se defendeu. — É assim que Jules disse. E, bom… Minha melhor amiga tem razão.
— Vocês se dão muito bem, né? — a fotógrafa abriu um sorriso sincero.
— Jules é minha irmã — ele contou. — Quando vi Danny pôr os olhos nela, tive a certeza que ela entraria para família. Ela é muito durona, principalmente por ter enfrentado tudo que enfrentou sozinha.
— Não sei da história de Jules direito, mas consigo sentir a energia de mulher fodona que ronda ela.
Dougie riu.
— É verdade. Ela me faria chorar.
— Que mulher não te faria chorar, Poynter?
— Emilia — ele respondeu rápido demais. — Eu já chorei muito por causa dela. Quer dizer, você não quer ouvir sobre isso.
— Estou aqui para ouvir o que você quiser falar, Doug. O que é falado no museu, fica no museu.
— Eu lembro do dia que a conheci. Fui completamente atraído por ela e eu era muito burro, caí no papinho muito fácil — ele contou. — Para nossa sorte, ela logo engravidou. E eu juro, , eu não me arrependo de nada que passei, porque hoje tenho minha filha, mas tudo que eu queria era que Kara nascesse para que eu me livrasse dela.
— Ela é insuportável, eu sei — concordou. Dougie a encarou, confuso. — Já foi capa da revista. Ela destratou todos, Anne, eu, meu chefe… Fez um escândalo porque o leite dela não era de amêndoas, mas de soja.
— Ela é desse tipo — ele revirou os olhos. Quando terminou de comer, foi puxado pela fotógrafa para que pudesse se recostar em seu colo enquanto conversavam. — Eu pedi para ela não abortar. Quer dizer, ela quem decidiria. Eu podia pedir e ela não aceitar, mas não foi o que aconteceu. Sabe-se lá o porquê ela quis manter o bebê. Não a obriguei a manter a gestação, se é isso que você está pensando.
— Eu sei que não.
— Ela me fez jurar que eu pagaria todas as cirurgias plásticas de reparação pós-gravidez. Ela chamava o bebê de coisa — ele contava e sentia repulsa. — Lembro quando descobrimos que era uma menina, tudo que ela disse foi algo sobre mudar o formato da barriga. No fundo, eu esperava que algum espírito amoroso surgisse no coração dela. Eu esperei até o fim. No dia do parto, ela parecia uma prisioneira querendo a primeira brecha possível para fugir da prisão. E ali eu tive certeza que seríamos eu e Kara contra o mundo.
— É, seriam… No passado. — ela enfatizou o verbo conjugado no pretérito.
— Como assim?
— Agora somos nós três contra o mundo. Eu, você e ela — sorriu. Dougie riu do comentário dela. — Que é? Aquela pestinha me conquistou. Eu até disse que ela é minha filha.
— Só ela te conquistou? — Dougie perguntou, manhoso.
— Não. O pai dela, quem eu disse ser meu marido, também roubou meu coração sem dó nem piedade.
— Ó, pobre ! — ele zombou e uniu seus lábios ao dele.
Geralmente, não lia algumas colunas específicas da revista em que trabalhava, mas, naquela semana, havia encontrado uma cuja diagramação chamou sua atenção. Falava, basicamente, sobre as linguagens do amor das pessoas. E, de acordo com o que lera, aquilo que estava fazendo com Doug era tempo de qualidade. Até o silêncio era confortável. Eles conversavam com o olhar. Com sorrisos.
E só aquele tempo bastava.

Capítulo Dezessete

Kara soltava algumas risadinhas e conversava num tom baixo com a avó no telefone. Dougie estava na cozinha, mas ainda conseguia enxergar a filha sentada na sala com o celular em mãos. Ele estava feliz de novo, afinal, já fazia um tempo que Kara e ele não ficavam tão próximos a esse ponto. Ela normalmente preferia ficar escondida em seu quarto, mas Dougie preferia quando eles passavam mais tempo juntos.
— Pai, a vovó quer falar com você — Kara entregou o telefone para seu pai, dando um sorrisinho sarcástico por último. Ele sabia que ela tinha aprontado algo.
— Oi, mãe — Dougie se encostou na pia, ficando de costas para a mesma e atendeu o telefone, pronto para ouvir as reclamações de sua mãe.
— Douglas, você está namorando — Ele não gostava daquele tom de voz, ouvira poucas vezes de sua mãe e nenhuma delas tinha sido bom. A linha ficou em silêncio, mas Dougie sabia que a mulher ainda estava no telefone.
— Estou — ele confessou por fim, não que precisasse.
— Você tem certeza sobre isso? Digo… — ela suspirou e ele também, prontos para entrarem naquela discussão. — Não quero que se machuque de novo. E tem Kara, não era pra ela estar metida nisso.
— Mãe, eu tenho certeza. é diferente, não vou estragar tudo.
Poynter pensou nos seus poucos e curtos relacionamentos que teve depois de Emilia, mas com uma criança pequena para criar, namorar é a última coisa que você pensa. Agora, com Kara se tornando uma pré-adolescente e a chance de ter conhecido , mesmo que não das melhores formas, ele sabia que tudo era diferente. Ele era diferente.
— Ela gosta da Kara, sim? — ainda desconfiada, Samantha já não estava tão na defensiva.
— Sim — Dougie sorriu. — Ela gosta de verdade.
— Isso é bom — ela bufou, desistindo da pose de durona. — Ok, me conte mais sobre isso. A última vez que você namorou, teve uma filha, e Emilia era uma vaca. Pelo que Kara me contou, parece ser legal.
— Ei, você não está sendo um bom exemplo para a minha filha — Poynter fingiu estar bravo, mas ouviu a risada de sua mãe do outro lado da linha. — Por que não vem me visitar e eu marco um jantar?

[...]


O dia estava um caos. Essa era a verdade, pois tudo que tinha feito havia dado errado. Absolutamente tudo. Suas câmeras pareciam não querer exercer sua função, que era simplesmente tirar fotos. O software de edição também estava travando muito. O que mais poderia piorar? Seu pensamento foi interrompido com Anne batendo em sua porta.
, tem uma pessoa querendo falar com você — ela apareceu no batente da porta da sala que dividiam. — Quer falar a sós.
— Manda entrar em dois minutinhos, por favor? Preciso só ligar para Dougie.
Anne saiu e pegou o celular e rapidamente discou o número do namorado. Fala sério! Ela podia sentir as borboletas no estômago.
Oi, namorada — o baixista frisou a última palavra.
— Oi, namorado. ‘Tô só ligando para saber como você está e se precisa que eu leve algo hoje.
— Eu só quero que você venha para cá conhecer minha mãe e minha irmã. Apenas isso.
— Nem uma sobremesa vegana? Algo que sua mãe goste de comer? Quero impressionar a minha sogra.
Poynter gargalhou.
— Tchau, ! Você está enlouquecendo. Te vejo mais tarde.
— Não, é sé… — antes que a fotógrafa pudesse dizer algo, a ligação foi encerrada.


Com risinhos bobos, foi deixada em sua sala. Ela ouviu um pigarreio e deu um pulo. Sua mãe sempre dizia que nunca podíamos fazer a famigerada pergunta 'o que mais pode piorar?', porque sempre era possível piorar. E seu maior pesadelo estava em sua frente: Emilia Brown. Mãe de Kara e ex-namorada de Dougie. Ela. Uma das modelos mais famosas da atualidade.
— Boa tarde? — Emilia deu um sorrisinho debochado.
— Boa tarde? No que posso ajudar? — tentou se acalmar aos poucos, mas seu corpo faltava explodir de pavor.
— Eu vou ser bem clara, — a modelo sorriu. — Você vai se afastar deles, você vai fingir que eles jamais cruzaram seu caminho.
— Desculpe, você está maluca? Eu não vou me afastar deles.
— Você vai, … — ela disse baixinho enquanto se aproximava. — Uma hora, Dougie vai querer aumentar a família. E sabe quem poderá fazer isso? Qualquer pessoa menos você.
Aquilo fora um soco em seu estômago. Dos mais fortes possíveis. O ar parecia sumir aos poucos e, enquanto ela tentava falar algo, sua cabeça parecia parar.
— Eu sei do seu acidente de carro — ela disse. — Em que você sofreu um aborto espontâneo, . Teve que tirar tudinho que faria Dougie feliz, não é? Tudo isso por uma imprudência sua, não é?
engoliu em seco.
— Você não p-pode fazer isso, Emilia. Você escolheu se afastar deles, escolheu não ter sua filha por perto. Você abdicou da possibilidade de ter uma família!
— Kara tem um grande potencial como modelo — Emilia foi direta. — Você vai se afastar da minha filha. E do pai dela. Ou eu vou acabar com a sua vida.
— Emilia…
— É isso ou você não vai poder oferecer o que ele mais quer. E você não quer decepcionar ele, não é? Como decepcionou seu ex-namorado?
— Chega, sai da minha sala — a publicitária estava prestes a perder o controle. — SAI!
Com um sorriso vitorioso, Emilia saiu da sala de , deixando-a sozinha com seus próprios pesadelos. A publicitária sentou-se ao chão e se permitiu desabar mais uma vez.
, nós vamos tom… — Anne adentrou a sala. — ! O que aconteceu?
Ao sentir a familiaridade do corpo de Anne, ela se permitiu desabar mais ainda. A amiga ficou por ali por quase uma hora, apenas deixando-a colocar tudo que a assombrava sair. Ou, pelo menos, um pouco.
— Todos já foram embora, amiga. Vou te levar em casa, tá bem?
sequer teve forças para contra argumentar. Apenas seguiu a amiga. O caminho até a garagem do prédio comercial foi rápido, assim como o caminho até a casa de , que o fez em um silêncio que parecia cortá-la ao meio.
— Promete que vai me ligar se precisar de alguma coisa? — Anne implorou. fez que sim com a cabeça. — Não vá trabalhar amanhã, vou dizer que você estava passando muito mal.
— Obrigada, Anne — ela agradeceu genuinamente.
— Espero que você aprenda a lidar com as coisas que te assombram no meio da noite, amiga. Amo você.
— Também te amo, amiga.
Devagar, subiu os degraus que a levavam até o lobby de seu prédio. Sem hesitar, apertou o botão de seu andar. Naquela noite, apenas entrou em seu apartamento e se acomodou em sua cama. Não ligou a televisão, não pegou seu notebook, nem mesmo acendeu alguma luz da casa. Era como se não estivesse ninguém naquele horário, ela não queria ser vista por ninguém. Fez questão, apenas, de enviar uma mensagem para Dougie.


WHATSAPP

Dougie Poynter

visto por último hoje às 19h02


Desculpe, não posso fazer isso.






Era hora de recomeçar. Mais uma vez. E sem os Poynter.

[...]


— Então, que horas a vai chegar? — Samantha adentrou a cozinha, mas quando viu Doug com o celular em mãos e o maxilar duro, ela sabia que não receberia uma notícia boa.
— Ela não vem — ele respondeu, jogando o celular na mesa e encarando sua mãe. Samantha tinha várias perguntas para fazer, mas ao encontrar com o olhar do filho, não foi preciso fazer nenhuma. Ele estava decepcionado, mais que tudo, estava decepcionado consigo mesmo.
Depois de anos, Dougie estava se permitindo novamente, tendo coragem o suficiente para seguir em frente e, principalmente, colocar alguém na vida de Kara. E, mais uma vez, não deu certo.
— Pai, cadê a ? — Kara entrou na cozinha, alguns minutos depois, encarando o pai e a avó. Mas antes que os dois adultos pudessem responder, o som da campainha soou pela casa. Kara correu até a porta, esperando que sua resposta pudesse ser respondida.
Uma centelha de esperança se espalhou por Dougie e ele correu atrás da filha. Mas quando a porta se abriu, a última pessoa que ele esperava encontrar de novo, estava parada bem na sua frente e de Kara.
— Emilia?

Capítulo Dezoito

Por quase toda existência de Kara, Dougie havia imaginado como seria reencontrar a mãe de sua filha. Aquela que fez questão de abandoná-la quando a menina mais precisou dela. Ela não havia envelhecido nada, continuava idêntica a última vez que ele a viu.
— Oi, Doug — a voz da mulher soou totalmente desagradável ao seus ouvidos. Doug. Outra pessoa o chamava assim. — Acho que precisamos conversar.
— Quem é ela? — Kara apareceu na sala de estar. — Você terminou com a e chamou essa estranha para o nosso jantar em família, pai?
A menina parecia extremamente desapontada com Poynter, mas, na verdade, seu pai não sabia mesmo como reagir. Ele tinha vontade de gritar com Emilia, pedir pra ela ir embora. Queria fazer tantas coisas, mas não podia.
— Querida, não sou namorada do seu pai… — Emilia saiu entrando pelo apartamento sem sequer ser convidada. — Eu sou sua mãe. Seu pai nunca te falou?
— Eu acho que você não ia querer que meu filho falasse de você, garota — Samantha interviu como a mãe ursa que era.— Kara, querida, vamos subir? Assim que seu pai e Emilia terminarem de conversar, você conversa com ela, tudo bem?
Kara não a respondeu. Seguiu sua avó sem mesmo pestanejar. O clima na casa estava tão desagradável quanto a mulher que estava na frente de Dougie. O baixista precisou se sentar para não explodir. Embora quisesse.
— Fala o que você tem pra falar — ele foi direto.
— Quero me reaproximar da nossa filha.
— Ela é minha filha, Emilia — ele engrossou a voz.
— Então você a fez sozinho? — ela o desafiou. E foi tudo que ele precisou para explodir.
— Não a fiz sozinho, mas eu a criei sozinho — Douglas a respondeu. — Eu que estava com ela quando ela sentia cólicas abdominais quando era recém-nascida. Eu que assisti ela falar a primeira palavra, que nem sequer foi ‘pai’! Ela disse ‘vovó’ primeiro, Emilia. Mas é claro que você não sabe disso, porque você não estava aqui. Você não viu o primeiro passo que ela deu…
— Dougie.
— Douglas — ele a corrigiu. — Você não estava lá na primeira apresentação do dia das mães, Emilia. Mas eu estava. Quando a minha carreira estagnou e eu tive uma overdose, você não estava aqui pra dar suporte a Kara quando eu fui pra reabilitação, estava? Eu podia estar totalmente chapado, mas não a ponto de esquecer que a mulher que colocou minha filha no mundo não estava aqui.
— Eu estava fazendo minha carreira, Poynter!
— Eu também estava, não estava? — ele fez a pergunta retórica. — Você a tratou como um parasita no seu corpo durante os nove meses.
— Ela estragou meu corpo.
— E você estragou tudo que ela tinha de visão materna, Emilia. O que importa mais?
— Você não entende, Douglas… Kara é linda, ela daria perfeitamente como modelo — Emilia começou e ele sentiu seu corpo borbulhar de tanta raiva que sentia. — Se eu a colocasse nesse mundo, ela ia ser brilhante. A nossa filha.
— Chega, Emilia. Kara vai ser o que quiser — ele soltou. — Não quero ouvi-la, porque não é a mim que você precisa pedir desculpas. Você vai conversar com ela e quem tomará a decisão final será Kara. Se ela não quiser te ver mais, você sumirá de nossas vidas. Se ela te quiser em nossa vida, você pode ficar, mas na primeira oportunidade de ferrar com ela, eu acabo com você.
— Uh, nunca imaginei que você fosse ser superprotetor — ela tentou brincar, mas ele a encarou duramente. — Credo, é só uma brincadeira.
— Não tenho limites pra defender a pessoa que mais amo no mundo, espero que você entenda desse sentimento — ele virou para subir as escadas. — Mas vale ressaltar que essa pessoa não pode ser você mesma, tá?
— Idiota!
— Espere aqui.
Desnorteado, Dougie subiu para o quarto de Kara. Samantha fez questão de deixá-los a sós e tomar conta daquela vaca que veio pronta para destruir tudo que eles haviam construído. A menina estava sentada em sua cama com o rosto molhado. Merda, ele odiava vê-la chorar.
— Filha, podemos conversar? — ele falou baixinho e se sentou junto a ela. Ao ver Kara desabar, Dougie, sem nem mesmo pensar, pegou a menina no colo. — Shhh, calma, eu vou te explicar tudo que você quiser saber.
— Ela é minha mãe mesmo? — a menina perguntou entre soluços.
— Sim, minha linda — ele disse quase como um pesar. — Mas tem muita história por trás disso, tudo bem? E você terá todo tempo do mundo para pensar e fazer o que quiser.
— Por que ela deixou a gente? — os olhos tristes de Kara pareciam gritar com Dougie.
— Ela meio que nunca esteve com a gente, filha — ele disse. — A gente se conheceu no show da Victoria’s Secret. Ficamos juntos por uma noite e foi suficiente pra virar nosso mundo de ponta cabeça. Sua mãe era a modelo mais cotada da época e uma gravidez colocaria tudo em risco pra ela, eu estava no início da carreira também.
— Mas vocês me tiveram.
— Eu não podia controlar o corpo dela, Kara. Mas eu pedi para que ela mantivesse o bebê. Eu sequer acredito em Deus, mas durante várias noites eu implorei pra que ela mantivesse você, porque, no fundo, parecia certo — sua voz embargou. — E quando sua mãozinha se enrolou no meu dedo pela primeira vez, eu sabia que tinha feito a melhor escolha da minha vida. Lembre, também, que a indústria é horrível com todos, ainda mais mulheres.
Poynter jamais contaria a Kara sobre o desafeto que Emilia sentia por ela quando esteve grávida. Jamais queria que sua filha se sentisse não merecedora de qualquer afeto novamente. Ele secou o rosto da menina e beijou sua testa.
— Sei que é muito para você processar, mas tente pensar se você quer conhecê-la — ele disse. — Se você quiser conhecê-la e dar uma chance, eu te apoio 100%. Se você quiser chutar a bunda dela até o elevador, peço para vovó te ajudar.
Kara deu risada do comentário de seu pai. Era verdade, no entanto. Samantha chutaria Emilia até a China, se necessário. Eles sabiam que sim.
— A vovó já quer chutar a bunda dela até o elevador — ela comentou baixinho.
— É tentador, eu admito — ele deu um sorrisinho. — Mas faremos o que você quiser.
— Podemos esquecer isso por agora? E ficar aqui? — ela pediu, tristonha.
— Faremos o que você quiser, minha linda — ele acariciou os cabelos da menina. Sem que ele precisasse pedir, sua mãe apareceu no quarto.
— A mandei embora — Samantha disse, irritada. — Isso não é hora de aparecer na casa dos outros.
— Mãe… — Dougie, apesar do caos, quis rir.
— O telefone dela está anotado no bloquinho da bancada — Samantha disse baixinho. — Agora, deixe-me focar no que interessa: cabe mais um nessa cama?
— Sempre cabe, vovó — foi a vez da menininha falar.
Em silêncio, os três ficaram deitados juntos. Em família, ainda que tudo parecesse colapsar. Sempre que tudo parecia ruir, eles tinham a si mesmos. E isso bastava. Sempre bastou.

[...]


Nos dias seguintes àquela noite, Kara sabia que as coisas não andavam muito bem entre seu pai e . A mulher não tinha aparecido para o jantar, não aparecia mais no apartamento deles e, nem sequer, tinha mandado alguma mensagem para a menina, como elas costumavam fazer. Kara sentia vontade de ir até o apartamento do andar debaixo, mas ela também tentava lidar com o turbilhão de sentimentos que surgiram após conhecer Emilia.
Ela não conseguia lidar com a familiaridade da palavra mãe e associá-la a Emilia, assim como teve a facilidade com . Mas estava tão distante, que ela não sabia se conseguiria associá-la aquela palavra a outra pessoa novamente.
Naquela tarde, após a escola, Dougie deixou a filha em casa e seguiu para o estúdio com a banda, prometendo chegar cedo para o jantar. Sem prestar muita atenção, Kara acabou parando no terceiro andar e seus pés a guiaram para o apartamento já conhecido por ela. A luz estava acesa, o que indicava que a mulher estava em casa. Como uma boa Poynter que era, Kara sabia lidar melhor com as palavras quando as colocava num papel, e não pensou duas vezes quando decidiu passar a folha de caderno por baixo da porta de .

Quando chegou na sala, notou o papel embaixo da porta, ela tinha acabado de sair do banho e estava pronta para ir trabalhar. A semana estava sendo difícil e parecia não ter fim, e a cada dia que passava parecia um pesadelo.
Antes de tudo, pegou o seu celular e verificou as notificações, não havia nenhuma de quem ela gostaria de receber, apenas mensagens do trabalho. Ela torcia para aquele papel não conter nada demais, ele podia, até mesmo, ter caído da sua estante. Com as mãos ainda trêmulas, tomou coragem para juntá-lo do chão.

, não sei o que aconteceu entre você e o meu pai, sei que ele consegue ser um grande idiota às vezes. Mas, todo mundo é, não é mesmo?
Você não apareceu para o jantar e eu senti sua falta. Mas acho que foi melhor você não ter ido mesmo, Emilia apareceu naquela noite. Ela diz ser minha mãe, bom, meu pai confirmou isso. Foi horrível, meu pai e ela gritaram um com o outro. Ainda não sei que decisão tomar, mas meu pai diz que irá me apoiar no que eu achar melhor.
Contei ao Theo sobre isso, ele passou por uma situação parecida com o pai dele. Mesmo assim, queria que você estivesse aqui. Sinto sua falta.


Kara.



foi obrigada a sentar no sofá, o ar parecia fugir de seus pulmões e as lágrimas já escorriam pelo seu rosto. Suas mãos ainda estavam trêmulas e ela se odiava por ser tão covarde. O coração de parecia bater tanto que sairia de seu peito. Sem nem hesitar, digitou diversas versões, mas enviou a que menos lhe agradou.


WHATSAPP

Kara Poynter

visto por último hoje às 17:46

Oi, Kara. Eu não sou tão boa com palavras, mas espero me sair tão bem quanto você e seu pai saem nessa coisa de escrever sentimentos.
Eu não sou uma pessoa boa, Kara. Você tem tantas ao seu redor que nem deveria sentir minha falta. Eu sinto muito pela bagunça que causei na vida de vocês. Sinto muito pela bagunça com a sua mãe, mas, às vezes, as pessoas erram e se arrependem. Talvez ela seja uma boa mãe pra você. Talvez ela realmente queira ser uma boa namorada para o seu pai também. Aproveite essa estabilidade, é muito difícil de conseguir ela na vida adulta. Eu amo vocês, tá? Espero que tudo dê certo.






Sem demorar muito, seu celular apitou e seu mundo realmente ruiu. Tudo que ela parecia ter conquistado, de nada valeu. Ela havia perdido tudo. Inclusive eles.


WHATSAPP

Kara Poynter

online

Oi, Kara. Eu não sou tão boa com palavras, mas espero me sair tão bem quanto você e seu pai saem nessa coisa de escrever sentimentos.
Eu não sou uma pessoa boa, Kara. Você tem tantas ao seu redor que nem deveria sentir minha falta. Eu sinto muito pela bagunça que causei na vida de vocês. Sinto muito pela bagunça com a sua mãe, mas, às vezes, as pessoas erram e se arrependem. Talvez ela seja uma boa mãe pra você. Talvez ela realmente queira ser uma boa namorada para o seu pai também. Aproveite essa estabilidade, é muito difícil de conseguir ela na vida adulta. Eu amo vocês, tá? Espero que tudo dê certo.


, eu sinto muito por você também. Você não se vê digna de amor. Mas você é. E eu não queria estabilidade, a instabilidade da nossa família (eu, você e meu pai) era tudo que eu sempre quis.






Kara leu e releu a mensagem enviada para várias vezes, mas como não obteve resposta, acabou deixando o celular de lado. Enquanto balançava o post-it rosa com o número de Emilia anotado, ela pensava se seria capaz de lidar com mais uma decepção na sua vida. Na noite em que a mulher apareceu na sua porta, ela acabara escutando um pouco da discussão que seu pai e Emilia tiveram na sala. Ainda que jovem, ela conseguiu sentir que as intenções de Emilia não eram participar da sua vida, apenas se desse certo com a carreira de modelo. Mas, e se não desse? Ela desapareceria de novo?
Por fim, amassou o papel e o jogou no lixo, pegando o celular novamente e enviou uma mensagem para seu pai.


WHATSAPP

Pai

visto por último hoje às 17:11


Sempre fomos eu e você contra o mundo.


E estamos bem assim.





Capítulo Dezenove

Quando adentrou a pequena cidade litorânea de St. Ives, pôde sentir a brisa do mar bater em seu rosto. Apenas quando visitava seus pais, lembrava do motivo que os fez se mudar para lá. Era perfeita.
Além de contornar um porto, a pequena cidade com vista para as águas cristalinas de sua baía de mesmo nome, era cercada por um conjunto de casas de pescadores e estreitas ruas pavimentadas com galerias, cafeterias e lojas de artesanato. Era uma cidade tranquila para aproveitar o resto da vida. No entanto, quando pensava em aproveitar a vida, se imaginava em outro lugar, com outras pessoas. Mais especificamente, em um certo apartamento e com duas pessoas especiais presentes nele. Porém, isso já não era mais possível.
Ela arruinou tudo.
Mais uma vez.
Quando afastou aqueles pensamentos, estacionou o carro em frente a casa de seus pais. Nora saiu da casa assim que escutou o barulho do carro, abraçando a filha sem mesmo esperá-la pegar as malas. A familiaridade e o conforto do abraço de Nora fez desabar.
— Oh, querida! Vamos entrar. Seja o que for, vai ficar tudo bem — as palavras passavam tranquilidade para , mas ela não conseguia imaginar um cenário em que a dor em seu peito fosse diminuir em algum momento.
— Desculpe, mãe. Eu nem entrei ainda e já estou te dando dor de cabeça — ela tentou rir, limpando as lágrimas.
— Está tudo bem, meu amor — Nora entrelaçou seu braço no da filha, indicando para as duas entrarem na casa.
— E o papai, está em casa? — tentou mudar de assunto, certamente não gostaria de explicar para o seu pai sobre suas últimas decisões.
— Não, ele fez questão de ir ao mercado buscar suas frutas preferidas e aquele chocolate meio amargo para depois do jantar.
soltou uma risada baixa, lembrando dos mimos que sempre conseguia arrancar de seu pai quando nova. Ao contrário de Nora, que não dava moleza para ela e Joe. Embora pudesse notar agora, que isso era uma das coisas que mantinha o equilíbrio entre eles. Ainda assim, Anthony sabia ser muito severo quando necessário, e não passava a mão na cabeça de ou Joe quando eles estavam errados. No fundo, ela sempre soube que eles tiveram a melhor educação e o suporte que uma família precisa.
E isso, novamente, a levou para outras duas pessoas.
— Querida? — Nora chamou atenção de , ela tinha se perdido em seus pensamentos, deixando a mãe falando sozinha.
— Desculpe, mãe. Acho que preciso descansar, você se importa?
A culpa se espalhou pelo seu corpo, mas, talvez, um descanso em um lugar seguro, longe da vida tumultuada de Londres, ajudasse a colocar os seus pensamentos e sentimentos no lugar certo.
— É claro que não — Nora sorriu, indicando as escadas para a filha. — Eu aviso quando o jantar estiver pronto.
— Eu te amo, mãe — ela beijou a bochecha da mãe, seguindo para o quarto de hóspedes da casa. O quarto em que normalmente ela ou Joe ocupavam, o que, por consequência, ainda tinham alguns objetos pessoais de ambos.
Se a cabeça de não estivesse tão tumultuada e seus sentimentos tão confusos entre fazer o que é certo e o que o seu coração mandava, o sonho que teve naquela noite teria sido bem diferente. Mas, mais uma vez, a vida estava sendo uma grande vadia com .

Naquela manhã ensolarada, tinha chegado no seu trabalho um pouco mais cedo que o habitual, mas, ao contrário do que costumava acontecer, todas as pessoas dos outros departamentos pareciam ter tido a mesma ideia. No entanto, quando ela entrou no prédio, os olhares que recebia não eram nada receptivos. Ela parecia estar no ensino médio novamente, como se fosse a garota nerd com óculos enfiados no rosto e abraçada em seus livros, tentando a todo custo esconder seu corpo com o maior moletom que encontrava no guarda-roupa. Mas ela não estava mais, estava trabalhando, agora ela tinha se tornado uma publicitária e fotógrafa com ótimas qualificações, confiava mais em si mesma. No entanto, os comentários maldosos e cochichos continuavam, à medida que ela andava até sua sala.
Dougie estava parado no meio da sala de fotografia de , a fazendo sentir aliviada por encontrar um rosto conhecido. Mas o baixista não retribuiu o sorriso de .
— Oi, namorado — ela tentou beijá-lo, mas Dougie virou o rosto. — Doug, o que foi?
, não podemos continuar com isso — ele afastou os braços da mulher de seu pescoço. — Não posso continuar com uma mulher que não confio e, pensando bem, não sei nada sobre você — ele entregou o pedaço de jornal para a mulher.
Mas a visão de ficou embaçada quando entendeu sobre o que Dougie estava falando. A notícia que ela tentava esquecer, estava estampada na sua cara novamente. A mídia tinha sido cruel com ela quando sofreu o acidente de carro e, por consequência, perdeu o bebê que nem sabia estar esperando. A culpa que carregava consigo era maior do que alguém podia imaginar. Era por isso que não deixava se apaixonar, se permitir novamente e decepcionar outra pessoa além de si mesma não era uma opção. Mas achou que fosse diferente com Poynter.
— Dougie, vo-você, não…não é o que está pensando — seus dedos trêmulos tentavam não deixar aquele pedaço de papel cair, mas era difícil. Seu coração estava despedaçado. De novo.
— Você e Emilia têm muito em comum, e não quero alguém assim na minha vida, . Nem na vida de Kara, ela não precisa de mais uma decepção.
Sem esperar resposta, Dougie a deixou sozinha. E, como sempre, ela desabou.


— Não, não, não — dizia a si mesma, mas foi só quando sentiu o abraço de seu pai que percebeu que aquilo tudo não passou de um sonho. Na verdade, um pesadelo.
— Querida, está tudo bem. Calma, eu estou aqui com você — Ant acariciou os cabelos da filha, tentando acalmá-la, como costumava fazer quando ela era pequena. — Foi só um sonho.
acordou atordoada, sem saber o que pensar e com a respiração pesada. Mas sentir os braços de seu pai foi como um verdadeiro calmante e ela relaxou a cabeça no ombro do mais velho.
— Pai, desculpa — entrelaçou seus braços ao redor do homem, sem ter a intenção de soltá-lo.
— Estou aqui, minha princesa. Está tudo bem. Quer me contar o que aconteceu? — Anthony perguntou à filha e ela fez que não com a cabeça.
— Eu não devia ter bebido naquele dia, pai — ela soluçou. — Eu matei meu filho, pai.
— Você não fez nada disso, querida — seu pai acariciou seus cabelos. A dor estampada em seus olhos. — Às vezes, coisas ruins acontecem com pessoas boas, filha. Isso não te torna uma pessoa ruim. Foi um acidente.
— Mas, pai… — suspirou, cansada de tudo. — Às vezes, fico pensando no que teria acontecido se eu não tivesse sofrido o acidente. Será que eu seria mesmo diferente de Emilia?
— Não sei quem é Emilia — Ant soltou uma risada baixa, fazendo esboçar um sorriso. — Mas se é isso que está tirando seu sono, posso afirmar com todas as letras que você é única, princesa. Você é uma .
ainda ficou abraçada em seu pai, pensando sobre as palavras e tentando fazer delas o seu conforto.
— Está com fome? Até comprei aquele chocolate que você gosta — ele beijou os cabelos da filha. — Sua mãe já foi dormir, acho que não tem problema se não quiser jantar.
Anthony piscou para , encostando a porta do quarto e saindo do cômodo. queria se acomodar na sua cama, mas quando sua barriga roncou alto, ela sabia que não conseguiria dormir até se alimentar. A janta que sua mãe preparou estava uma delícia, era uma pena ela não ter comido na hora que ficou pronta. Enquanto Nora dormia, Anthony ficou na sala assistindo televisão e não demorou muito para se juntar a ele.
— Eu achei que as coisas mudariam, sabe? Mas eu me sinto a mesma de anos atrás — a fotógrafa soltou.
— Fico feliz que você seja a de anos atrás, criança — seu pai a respondeu. — Você é a pessoa mais cabeça dura que eu tive o prazer de conhecer.

[...]


Quando menos esperava, foi acordada aos beijos por seu sobrinho. Por um momento ficou confusa sobre sua localização, mas tinha certeza que seus pais haviam avisado a Joe onde ela estava e que precisava do irmão. Brianna também estava lá.
— Bom dia, Bela Adormecida — ela ouviu a melhor amiga dizer. — Está na hora de sair do fundo do poço.
— Tia ! A vovó fez panquecas! — Luke gritou, animado.
— Não quero levantar — a publicitária resmungou.
— Mas você vai — ela pôde ouvir a voz firme do irmão. — , essa é a sua intervenção.
— Intervenção?
— Isso. Chega de sofrer pelos cantos por algo que não é a sua culpa. Chega de viver a vida que esperam que você viva. Chega de se esconder porque uma supermodelo apareceu no seu escritório e te ameaçou — Brianna proferiu. — Agora, você vai ser a protagonista da sua própria história, .
— Ok, eu tenho certeza que eu não comi tanto chocolate ontem pra estar tendo delírios. Acorde, . Isso é só um sonho — ela disse para si mesma.
Joe pegou uma bonequinha que ficava em cima da escrivaninha de e a arremessou em direção à irmã.
— Aí! — ela resmungou quando o objeto bateu em sua testa.
— Pronto, agora você está bem acordada.
— Vocês são uns chatos.
— A gente também te ama! — Brianna sorriu.
— Você tem dez minutos para descer pro café da manhã. Esperamos você lá embaixo.
Joe pegou Luke no colo e os três desceram para a sala de estar. queria dormir mais, mas sabia que seria impossível naquela altura do campeonato. Pelo menos, sabia que enquanto estava acompanhada, não se afogava nos próprios medos.
tomou uma ducha só para acordar e logo estava vestida. Podia jurar que tinha ouvido mais vozes no andar debaixo, mas achou que era a ausência de sono. Enquanto descia as escadas, teve uma grande surpresa: Jules estava sentada à mesa com seus pais, encantando-os com seu sorriso simpático e toda felicidade que esbanjava.
— Vocês deveriam ir até Londres um dia desses, eu prometo chamar meus pais e fazer um jantar enorme! Agora temos espaço suficiente pra todo mundo — ela sorriu.
— Eu acho fantástico — ouviu seu pai responder a advogada.
— Jules? — não escondeu a surpresa em sua voz.
— O quê? — Heyward abriu um grande sorriso. — Você não achou que eu ia deixar você se afogar em si mesma, achou?
Os olhos de arderam com aquela simples pergunta retórica, e a amiga rapidamente correu para abraçá-la. encontrou em Jules o que precisava e não sabia: uma amiga. Apesar de Brianna ser sua pessoa número um, fazer amigos nunca era demais.
— É bom ter você aqui — sussurrou.
— Teremos uma séria conversa depois que eu terminar de me deliciar com todas aquelas panquecas deliciosas que sua mãe fez, mocinha — Jules falou como se estivesse falando com uma criança. — E as coisas que eu sei não são nada boas.
— Eles estão bem? — foi tudo que conseguiu perguntar.
— Sem você? — a felicidade murchou no rosto da amiga. — Uma bagunça. Mas isso é papo para outra hora.
Durante o café da manhã, todos os sentimentos possíveis pareciam ter sido batidos no liquidificador e estavam presentes no peito de . Aos poucos, os assuntos sumiram e apenas ela restara.
— Podemos? — Joe começou.
— Eu queria dizer que eu estou aberta a ouvir tudo que você quiser falar — Jules disse para a amiga. — E se não quiser falar, tudo bem, eu estarei aqui também.
— Eu… — sua voz embargou e ela encarou o pai para que ele contasse. Anthony era sua âncora, mas naquele momento, ele precisava largá-la.
— Essa história não é minha para contar, criança — seu pai apertou sua mão por cima da mesa.
— Eu engravidei na adolescência — aquelas palavras saíram como pedaços de vidro arrastando por sua garganta. — Eu não sabia.
— Está tudo bem, querida. Estamos aqui — sua mãe falou.
— Não sairemos daqui — Brianna sorriu.
— Fomos para uma festa, eu bebi demais e voltei dirigindo pra casa — lágrimas grossas escorriam pelo rosto da fotógrafa. — Eu juro que tentei parar o carro, Jules. Eu juro. Só descobri que estava grávida depois que abortei por causa do acidente.
— Querida… — Jules se levantou e foi em direção a amiga. — Eu sinto muito. Muito mesmo.
— Eu fiz uma histerectomia por causa da gravidade da batida. Não posso mais ter filhos.
— Existem pouquíssimas coisas que uma mulher corajosa como você não consegue fazer, . Ser mãe não é uma delas — Brianna a respondeu.
— Você trata Kara como uma filha, — Jules respondeu. — Você entrou na sala do diretor da escola dela e ameaçou pessoas que sequer conhecia apenas para defender uma menina que te tirava do sério. Isso também é ser mãe. Você cuida dela, se diverte com ela e sei que faria de tudo para vê-la feliz, inclusive abdicar da sua própria felicidade para ela colocar um sorriso no rosto.
Naquele momento, sabia que tudo que estava ouvindo era verdade, de todas as loucuras que já cometeu em sua vida, deixar Dougie e Kara Poynter invadir a sua vida foi a melhor delas. E, por isso, ter deixado-os para trás foi a parte mais difícil.
— Mas ela já tem uma mãe — engoliu em seco. — E não sou eu.

Capítulo Vinte

De todas as coisas dolorosas que Dougie Poynter havia passado, a que mais doía em seu peito era ver Kara triste. A menina havia concordado em sair com Emilia naquela tarde, mas ele não via nenhuma empolgação no rosto dela. Aquilo partia seu coração de maneiras inimagináveis.
— Você tem certeza que quer ir? — sua mãe perguntou mais uma vez.
— Mãe… — Dougie ralhou.
— Tenho, vó.
— Tudo bem, mas lembre-se que isso será nos seus termos. Qualquer coisa que acontecer, você pode nos ligar. Se quiser vir embora, estaremos a uma ligação de distância — a mais velha respondeu.
— Pode deixar — Kara esboçou um sorriso fraco em seu rosto para agradar a avó.
Assim como ele, Samantha conhecia Kara com a palma da mão. Sabia que a menina não estava animada. A mini Poynter estava ansiosa, sim, mas não era uma ansiedade feliz.
Pouco depois, ouviram a campainha tocar. Ele sempre estava acostumado a receber naquele horário, mas sabia que não seria a sua vizinha naquela vez. Na verdade, sabia que nunca mais seria sua vizinha tocando sua campainha. decidira fazer parte do seu passado e, infelizmente, Dougie tinha problemas demais para pensar nele agora. Precisava focar em sua filha.
— Lá fora. — Ele sequer cumprimentou a mãe de sua filha. Emilia recuou alguns passos para que ele pudesse sair do apartamento.
— Fala — ela disse, irritada.
— Se você fizer alguma coisa com ela, Emilia… eu juro que acabo com sua vida. Você pode não se importar com ninguém além do seu umbigo, mas eu prometo para você que eu vou destruir tudo que você ama se você machucar a minha filha.
— Ela também é minha filha.
— Essa decisão não compete a você. Kara decidirá isso.
— Oras, senão eu, quem será a mãe dela? A sua vizinha? Não pense que eu não sei da sua vida, Dougie. Eu não vim para o território inimigo sem saber onde estava pisando.
Ao ouvi-la mencionar , Poynter quase perdeu os eixos. Ele não podia deixar suas emoções invadirem e descontar na situação delicada, apesar de parecer impossível.
— Quando Kara mais precisou, estava lá. — Ele soltou a respiração, nervoso. Queria explodi-la em pedacinhos. — Se ela decidir que é a mãe dela, é isso que será. Você não tem direito de intervir nas nossas vidas quase quinze anos depois como se fosse um cachorrinho abandonado, Emilia. E, por favor, a minha vida pessoal não diz respeito a ninguém.
— Então ela te deixou? — a modelo soltou uma risada de escárnio. — Aposto que ela queria fama e dinheiro.
— Não, Emilia — ele deu um sorrisinho. — não é como você.
— Você se apaixonou — ela disse quase que com… raiva?
— Boa noite, Emilia. Você está avisada. Não se esqueça, um passo errado e eu ligo para minha advogada.
— Pai? — Kara interrompeu o momento dos dois. — Relaxa.
— É, Poynter. Relaxa — Brown deu um sorrisinho. — Pés na bunda fazem parte! Vamos, querida?
— Vamos — Kara respondeu sua mãe, desanimada. — Tchau, pai. Tchau, vovó. Amo vocês.
— Amamos você também, minha linda — Samantha respondeu a neta enquanto seu filho dava um último abraço na primogênita.
— Liga, qualquer coisa.
— Pode deixar.
As duas sumiram da visão de Dougie e ele soltou um suspiro. Tudo parecia tão difícil. Ele se sentia sozinho. Totalmente sozinho.
— Vou para casa, querido. Me ligue se precisar de alguma coisa, tudo bem?
— Pode deixar, mãe. Obrigado.
— Não precisa agradecer, querido. É isso que as mães fazem pelos filhos.
— Te amo.
— Também amo você. Não vá dormir tarde, ‘tá bem? — ela falou como se ele tivesse quinze anos novamente. A resposta de Douglas foi uma risada e antes de sua mãe entrar no elevador, ela se virou. — Filho?
— Sim? — Dougie levantou a cabeça em sua direção.
— Pare de querer carregar o mundo nas costas sozinho. Essa nunca foi a sua vida — Samantha disse e adentrou a caixa metálica. Dougie não respondeu sua mãe, mas aquilo foi o suficiente para que voltasse a sua cabeça. E ele sabia o que fazer.

[...]


tomou um susto quando chegou ao seu andar e viu Dougie sentado ao lado de sua porta. De primeira, ela realmente quis fugir, mas fazer aquilo com Dougie não era justo. Não era justo com ela.
— Hm… Boa noite? — ela cumprimentou, duvidosa.
— Boa noite. Eu toquei sua campainha, mas você não estava.
— É, eu estava nos meus pais.
— Que bom, eu acho — ele disse, sem jeito. Dougie se levantou e ajeitou-se. Tudo estava uma bagunça, principalmente sua expressão facial. Ele parecia confuso.
— Foi legal — engoliu em seco. — Precisava disso.
— Ótimo — ele respirou fundo. Queria dizer algo, sabia. Mas, acima de tudo, tinha medo. — Boa noite, .
— Boa noite? Você veio aqui me dar boa noite? — franziu as sobrancelhas.
— É. — Ele passou as mãos pelos cabelos. — Só vim fazer isso. Até a próxima.
Antes que ele chegasse ao elevador, criou toda a coragem do mundo para chamá-lo.
— Dougie? Você quer entrar?
Aliviado, o baixista sorriu fraco.
— Sim, eu quero.
A casa de ainda estava do mesmo jeito que ela deixou. E, de todos os momentos na vida, era claro que aquele também tinha que ser vergonhoso. A camisa que era de Dougie estava largada em cima do sofá toda embolada.
— Ops, isso aqui é para a lavanderia. — Ela deu um pulo e jogou a peça dentro da pequena mala que carregava.
— Sem problemas.
— Então… — ela quebrou o silêncio desconfortável.
— Precisamos conversar — disseram juntos.
— Acho que é a primeira vez que concordamos — ele brincou.
— Verdade — ela abriu um sorrisinho.
— Por que você foi embora, ? — ele perguntou. — Eu juro que quero te entender, . Se você disser o que eu fiz, eu juro que vou embora e não te perturbo nunca mais.
— Você não fez nada, Poynter — ela disse. Sua ex, sim. — Eu sou uma pessoa fodida, Doug. Vocês não merecem isso.
— Cabe a você decidir o que eu mereço? Isso não deveria partir de mim?
— Eu não sou a pessoa certa para você. — Seus olhos se encheram d'água.
… O que aconteceu? Fala comigo.
— Não aconteceu nada. Eu só parei isso para não nos machucarmos mais.
— Não deu certo. Eu não ‘tô bem. Kara não está. Você não está.
— Foi ótimo brincar de família com vocês dois, mas cansei — ela mentiu. Aquilo nunca fora uma brincadeira, mas Dougie só a deixaria em paz se fosse naqueles termos.
— Brincar de família? — Seu tom de voz aumentou. — Você está brincando comigo?
— Não. Sua filha já tem mãe, eu não sou ela — engoliu em seco.
— É isso que a gente foi para você? Uma brincadeira?
— Sim — ela prendeu o fôlego.
— Eu vou embora — ele rapidamente foi em direção a saída. — Ah, ? Se você nos vir pelo corredor… por favor, finja que não existimos.
Ao terminar a frase, Poynter saiu do apartamento da vizinha e bateu a porta. Tudo estava a porra de uma grande bagunça. E, naquele fim de tarde, passou mais um dia fazendo o que estava fazendo há quase duas semanas: chorando e machucando quem mais amava.

[...]


Se Dougie pudesse fazer um desejo naquele dia, ele não saberia escolher entre nunca ter conhecido Emilia ou apagar aquela maldita conversa com . No entanto, a sua vida já estava uma grande merda desde que Emilia (re)apareceu e, talvez, desejar nunca tê-la conhecido fosse uma boa escolha. Com exceção de Kara, ele amava sua garotinha mais que qualquer coisa nesse mundo.
Um pé na bunda? Ele poderia lidar com isso. Não era o primeiro e, com certeza, não seria o último. Mas o que mais o machucava era saber que Kara também estava sofrendo com tudo aquilo, embora torcesse para que ela nunca tivesse a chance de escutar aquelas palavras da boca de . Ele suportaria, mas Kara não, e ela já carregava mais culpa do que era capaz de suportar e ele se odiava por isso.
Poynter estava a caminho da revista em que sua vizinha trabalhava para fechar mais um contrato. Dessa vez, ele fecharia um patrocínio para angariar fundos para tratar resíduos de plásticos encontrados no oceano. Antes de tudo, tinha que encontrar a pessoa responsável por seus maiores pesadelos: Emilia.
— Você não precisa subir comigo. É só a assinatura do contrato — ele disse, firme.
— Não é como se eu mordesse, Doug.
— Não me chame assim. — Sua expressão continuou séria.
Ao chegarem ao andar correto do prédio comercial, Dougie foi pego de surpresa por Anne, uma das funcionárias da empresa. A mulher parecia furiosa. Parecia, não. Ela estava furiosa.
— Se você veio ameaçá-la novamente, pode ir embora agora, nojenta! — a amiga de ralhou. Dougie estava confuso.
— Você está maluca? — O tom soberbo de Emilia se fez presente.
— Você não viu nada! Naquele dia eu te deixei entrar por achar que você era inofensiva. Mas você é uma cobra! — ela gritou. — Não ligo se serei demitida, mas você a mandou se afastar dos dois. Tudo isso para você brincar de casinha!
— O quê?
— Você acha que não me contou? — Anne se aproximou de Emilia Brown. — Você a chantageou!
— Anne, do que você está falando? — Poynter suspirou. Tudo estava tão confuso.
— Emilia usou do passado da para ela se afastar de vocês dois.
— Ela está maluca! — Emilia gritou.
— Maluca eu vou ficar se você chegar perto da minha amiga de novo — Anne a ameaçou. — E eu juro, Emilia Brown, eu vou fazer de tudo para terminar de enterrar isso que você chama de carreira.
— Ela está aqui? — Dougie perguntou com os dentes trincados. Ele poderia matar Emilia ali mesmo de tanto ódio.
— Não. Pediu a Mike para ficar de home office nesse mês, só vem quando é muito necessário. — Anne desviou sua atenção para o baixista.
Sem hesitar e sem nem pensar no contrato, Poynter correu para fora do prédio em que estavam. Ele precisava ouvir aquilo da boca de . De todas as coisas, ele jamais duvidaria da índole de Emilia. O que era ameaçar alguém perto do abandono de uma criança?
Para o azar dele, todos os semáforos que ele passava estavam vermelhos. Cada segundo que passava, mais ele corroía por dentro. Assim que viu a fachada de seu prédio, seu coração se acalmou um pouco, mas foi só apertar o botão do elevador que toda mínima calmaria que tinha ido embora havia voltado. No entanto, ele estava ansioso demais para esperar. Subiu correndo pelas escadas até chegar no andar de .
— Ela cortou tudo, . Tudo! — Dougie ouviu o choro de Kara.
— Eu sinto muito, querida — a abraçou. — Sinto muito mesmo.
— Ela nunca gostou de mim como eu sou. Ela queria me mudar — Kara disse baixinho. — Ela estragou meu cabelo.
— Kara, até careca você é linda. — secou as lágrimas que caíam pelo rosto da menina. — Nós vamos esperar seu cabelo crescer um pouquinho e vamos pintar de rosa de novo.
— Eu estou tão feia!
— Isso é impossível, minha princesa.
As duas ficaram em silêncio até a publicitária se levantar de supetão apartamento adentro. Dois minutos depois, voltou para o corredor com um tufo de cabelo na mão. Não, aquilo era impossível.
— Pronto — disse para a menina. — Se é para cortar o cabelo, que cortemos, então.
O cabelo dela não era tão grande, mas ela havia cortado na altura do queixo. Ela havia cortado o cabelo para que Kara não se sentisse sozinha. Aquela mulher havia feito aquilo pela menina.

— Você está linda, Kara — ela disse. — Isso aqui cresce. Daqui a pouco você mal vai lembrar que ele esteve desse tamanho.
Com o coração quebrado, Poynter decidiu atrapalhar o momento delas.
— Filha, eu preciso conversar com a .
— Pai, eu não quero mais ver a Emilia. — A menina correu e abraçou Dougie.
— Tudo bem, minha linda. Você tem todo o direito do mundo.
— Obrigada, pai. — A menina secava as lágrimas do rosto enquanto tentava se agarrar ao máximo no abraço do pai.
— Você vai ficar bem lá em casa enquanto eu e conversamos um pouquinho? — ele disse baixo, apenas para Kara escutar. Dougie tinha medo que saísse correndo ou inventasse qualquer desculpa para que eles não conseguissem conversar.
— Tudo bem. — Kara deu uma última olhada em Olívia, deixando um pequeno sorriso brotar em seu rosto, como forma de agradecimento, para, logo em seguida, sumir do seu campo de visão.
mal sabia, mas Kara tinha mudado e muito desde que conheceu a publicitária, se dependesse da jovem Poynter, Olívia já estava vivendo sob o mesmo teto que eles. Mas a vida para estava sendo uma grande vadia nas últimas semanas.
— Eu não quis me meter, Kara me ligou chorando e eu… eu não podia deixá-la sozinha. — Olívia disse tão rápido que Dougie teve que fazer certo esforço para compreender. Ela estava na defensiva, com medo que Poynter pedisse com todas as letras para que ela se afastasse de vez de sua filha.
— Na verdade, você podia sim, só não quis. — Olívia tentava inventar mil desculpas em sua cabeça para justificar o que aconteceu, mas o seu coração dizia totalmente o contrário do que ela pensava. — Emília fez isso sem pensar duas vezes.
— Doug… — Os olhos de Olívia já começavam a se encher de lágrimas, principalmente depois do apelido ter saído com um gosto amargo de sua boca.
— Eu estive na agência hoje e, por acaso, encontrei com Anne. Ela me contou sobre a ameaça de Emília. — Olívia arregalou os olhos ao ouvir aquilo. — Por que não me contou, Olívia?
A voz de Dougie saiu baixa, ele estava magoado por ela ter escondido aquilo dele e, principalmente, por tê-los afastado da vida dela.
— Porque aí eu teria que abrir mão do meu passado e contar tudo, e isso é algo que eu tento esquecer todos os dias. — Depois de mentir para os Poynters, resolveu ser sincera, mesmo que isso a destruísse ainda mais.
— Emília rejeitou uma filha por 13 anos, desde o primeiro segundo que descobriu a gravidez, Olívia. Não há absolutamente nada que uma pessoa como ela possa usar para te ameaçar.
Aquilo o perturbava de uma forma absurda, mas Dougie tinha alguns motivos bons o suficiente para lutar contra toda a merda de seu passado. E o seu melhor motivo se chamava Kara. Mas, nem por isso, ele deixaria se afogar em si mesma, ela só precisava confiar nele. O problema é que não era capaz de confiar nem em si mesma atualmente.
— Eu engravidei na adolescência. Eu não sabia. Fomos para uma festa, eu bebi demais e voltei dirigindo para casa. — A lembrança doía toda vez que aquelas palavras saíam de sua boca. E estar contando para Dougie era ainda mais doloroso.
— Eu juro que tentei parar o carro. Eu juro. Só descobri que estava grávida depois que abortei por causa do acidente.
Lágrimas grossas escorriam pelo rosto da fotógrafa, embaçando sua visão e a impedindo de ver a real reação de Poynter. se sentia aliviada de não ver o desgosto em seu rosto. Ela já o havia magoado o suficiente e ter a certeza que ele sairia de sua casa para não voltar mais faria o seu mundo desabar. Mais uma vez.

— Só me deixe terminar, ok? Eu vou entender se quiser sumir depois.
— Eu nã-
— Eu fiz uma histerectomia por causa da gravidade da batida. Não posso mais ter filhos. Quando você é nova isso é maravilhoso, não é mesmo? — ela riu, amargurada com a própria desgraça. — Mas esse sempre foi um dos meus sonhos. E, olha só, a vida sendo uma verdadeira vadia de novo, Dougie.
Em anos, havia guardado tanto para si mesma que não lembrava como aquilo a corroía. Agora, no entanto, não era a maneira que ela imaginava que aquele assunto voltasse à tona. Mas, infelizmente, foi a maneira que aconteceu. E sentiu um peso sair de seu peito ao compartilhar aquele sentimento, por mais doloroso que fosse. Ela sabia que podia estar afastando a família do andar de cima de sua vida completamente. Mas sabia que não precisaria inventar mais mentiras para os manter longe de toda a sua bagunça. Se meter com os Poynter nunca foi sua intenção e, ainda assim, acabou virando o mundo deles de cabeça para baixo, da mesma maneira que eles fizeram com a sua vida.
… eu sinto muito. — As palavras saíram da boca de Poynter e ela ficou surpresa ao ouvi-las. Por impulso, Dougie secou as lágrimas que insistiam em escorrer pelo rosto de , fazendo-a encolher os ombros e sentir uma corrente elétrica por seu corpo a um simples toque. — Todos nós já fizemos algumas escolhas ruins, mas não é por isso que devemos deixar a culpa nos consumir. Eu espero que as coisas se ajeitem para você.
Poynter se afastou de , o toque o fazia querer mais. Mas ele estava magoado com tudo ao seu redor. E tinha Kara.
— Dougie, sobre o que eu disse aquele dia. — Ela engoliu seco. — Nunca foi uma brincadeira. Mas foi a única maneira de tirar vocês dessa bagunça.
não sabia se teria outra chance de conversar com seu vizinho e, se aquele fosse o último momento deles, ela aproveitaria para deixá-lo a par de todos os seus sentimentos.
— Uma vez, uma vizinha me disse que vários garotos irão quebrar o coração de Kara, mas que eu não poderia fazer isso. Por favor, , não quebre o coração de Kara.
— Jamais. — A mágoa estampada no rosto de Dougie era um sinal que tudo havia ruído, mas Kara ainda estaria na sua vida. ainda teria uma chance, por menor que ela fosse.
Dougie apenas concordou com a cabeça, caminhando até a porta do apartamento. O dia intenso o havia deixado exausto. Mas ele precisava dizer o que o estava consumindo. Uma última vez.
… — Ela o encarou nos olhos, ainda no meio de sua sala de estar, o baixista sustentando seu olhar da porta, onde estava parado. — Existem várias formas de se tornar mãe, acredito que você já saiba disso. Boa noite, .
Poynter encostou a porta da casa de , deixando-a pensando sobre suas palavras. Ao invés de esperar o elevador, Dougie subiu as escadas, parando para respirar fundo ainda na naquela área do seu prédio. Sozinho, apenas ele e sua mente.
Dougie estava fodido.
Dougie Poynter estava fodidamente apaixonado.
Ainda.
Por .
Seus pensamentos saíram do transe quando escutou batidas fortes no corredor de seu andar. Mais especificamente em sua porta, ainda entrou no corredor de seu apartamento. E ele não podia acreditar no que estava vendo. Na verdade, aquilo não o surpreendia em nada.
Emilia Brown era um grande pé no saco quando queria. Isso Dougie já sabia. Mas, para o azar dela, ele estava totalmente sem paciência, principalmente depois de ver Kara chorar por ela.
— O que você ainda quer aqui? — ele foi ríspido. Mas estava pouco se fodendo para o que Emilia pensava.
— Minha filha, sei que foi aquela vizinha maldita que colocou coisa na cabeça dela. Da mesma forma que a amiga dela fez na agência — Emilia revirou os olhos, em seguida dando atenção para as suas unhas. Naquele momento, Dougie perdeu toda a pouca paciência que tinha, puxando Emilia pelo braço até o elevador que estava aberto em seu andar.
— Pouco me importa o que você faz com a sua vida ou o que você quer fazer dela, mas, a partir do momento em que você tenta ameaçar a minha família, a coisa fica séria.
— É claro que eu não disse isso! Ela fez a cabeça de vocês. — Emília deixou de lado sua raiva por alguns instantes, inclinando a cabeça para o lado e dando seu melhor sorriso de escárnio. — Mas desde quando Olívia faz parte da sua família, Doug? Uma simples conversinha e ela não pensou duas vezes antes de chutar a sua bunda.
Para a surpresa de Emília, Dougie pareceu não se abalar com suas palavras, soltando um riso baixo para a mulher.
— Olívia já faz parte da minha família mais do que você jamais será. Dessa vez, é só um aviso — ele a olhou bem nos olhos. — Mexa com a minha família de novo e eu acabo com a sua carreira.
— Eu nã-
— Kara não quer mais te ver e a escolha é dela. Você sumiu das nossas vidas por treze anos, tenho certeza que pode continuar assim.
— Você não pode fazer isso.
— Eu estou avisando, Emilia. Mexa com a minha família de novo e eu acabo com a sua carreira.
As portas do elevador se fecharam assim que Dougie apertou o botão do térreo e a deixou sozinha. Aquele dia estava sendo mais longo do que ele imaginava e ele ainda precisava encarar Kara. Já tinha passado da hora de ela saber toda a verdade. Dougie finalmente estava em casa. Casa aquela que, inclusive, estava silenciosa demais para ser a sua.
— Kara? — ele chamou.
— No estúdio! — Uma vozinha surgiu e ele seguiu a filha até lá.
— O que você está aprontando, Poynter?
— Nada — ela sorriu. Eu achei uma caixa naquele quarto da bagunça que tinham vários cadernos seus. Várias composições — ela disse, sorridente. Algo pareceu ter dado um choque em Poynter. Muitas daquelas composições não eram para ser vistas. — Eu achei essa aqui... E eu fiz uma coisa.
— Qual?
— Home — ela disse baixo. — Ela é uma música forte.
Poynter não quis esboçar nenhuma reação ao ver sua filha falando daquela música. Ele se manteve silencioso até que pôde ouvir uma melodia leve sair do teclado que estava perto dela. Kara começou a cantar baixinho, com vergonha da voz, mas aos poucos seu tom foi consertado. Sem que ele conseguisse controlar, lágrimas escorreram de seus olhos. Aquela música havia sido escrita anos atrás, no dia em que Poynter havia decidido que se manteria vivo e longe de seu vício para manter o maior amor de sua vida. Sua filha.
— Pai? — A menina se assustou ao ver seu pai com lágrimas no rosto. Aquele dia o perseguia. Todos os dias. — Você não gostou? Ficou tão ruim assim?
— Minha linda... — Dougie fungou. — Essa música foi escrita há muitos anos. Você não deve lembrar.
— Daqueles anos? — ela perguntou baixinho. — Aqueles que você ficou doente e eu não pude te ver muito? Eu lembro da vovó me levar para te ver quando você começou a melhorar.
O coração de Dougie quebrou ao vê-la falar assim. Mas ela estava certa, ele estava doente.
— Eu não estava doente — ele disse baixinho. — Quer dizer, eu estava sim. Eu estava na reabilitação.
— Pai...
— Acho que precisamos ter essa conversa, sim? — ele enxugou as lágrimas. — A dez anos atrás, você me encontrou desmaiado na sala de estar da nossa antiga casa. Eu tive uma overdose e quase morri. Eu estava tão chapado que eu podia ouvir seus gritos, mas não conseguia fazer nada. Por sorte, minha mãe estava lá em casa. Ela me levou até o hospital e de lá eu fui direto para uma clínica de reabilitação, Kara.
— Então você...
— Fui um péssimo pai. Essa foi a verdade — ele disse. — Eu escrevi essa música porque, na primeira visita, eu esperava ver você, mas você estava tão apavorada que não queria me ver. Achava que eu estava doente demais. E não ter te visto naquele dia foi o que me fez jurar que eu nunca mais ia chegar perto de nada que pudesse me tirar você. Você era minha melhor amiga e eu estraguei isso. Costumávamos assistir filmes nos finais de semana, brincar e correr pelo parque. E eu perdi tudo aquilo, eu entendo e lido com essa consequência.
— Pai, eu sinto muito — a menina disse baixinho. — Eu não me lembro disso.
— Eu imaginei — ele disse baixinho. — Aos poucos, minha mãe conseguiu te levar e a psicóloga disse que sua mente te protegeu do trauma, esquecendo do que tinha acontecido. Me desculpa ter te machucado desse jeito, Kara. Eu não sou o melhor pai do mundo, mas desde aquele dia eu venho tentando.
— Eu sinto muito que você tenha que ter passado por isso, pai. — Ela sentou no colo de Dougie. — Você é meu melhor amigo, meu pai e minha maior inspiração. E você é forte para caramba, sabia? Eu queria saber disso antes para ter mais orgulho ainda de você ser meu pai.
— Eu amo você, Kara.
— Eu e você contra o mundo — ela disse e entrelaçou o mindinho dos dois. Um peso pareceu sair dos ombros de Poynter ao ouvir sua filha falar aquilo. Um deja vu, na verdade, porque ele havia dito aquilo para a menina há catorze anos, no dia de seu nascimento. No fim das contas, seriam eles dois contra o mundo.

Capítulo Vinte e Um

O dia de Kara na escola estava muito mais suportável do que era. No entanto, a menina estava assustada. O coordenador da escola estava requisitando sua presença em sua sala.
— Senhorita Poynter! — o homem sorriu. Ótimo, menos um problema por aqui.
— Sim? Mandou me chamar?
— Sim. Eu queria pedir o telefone de sua mãe — o homem disse, sério. — Não achamos em nossos registros.
— Minha mãe? — Um ponto de interrogação parecia surgir na testa da menina.
— Sim. Ela veio aqui no dia em que descobrimos que você estava passando por aquela situação incômoda.
Incômoda é pouco, a menina diria.
? — ela perguntou. — Meu pai te disse que ela era minha mãe?
— Na verdade, ela mesmo disse. — Ele estava começando a ficar confuso. — Eu quase tive que separar uma briga entre ela e a mãe de uma das suas colegas de classe.
Kara riu.
brigou por mim?
— Como uma mãe urso, senhorita. Mas não entendi, ela não é sua mãe?
— É… Sim — a menina disse baixo. — Minha madrasta. Mas minha mãe.
— Você se incomodaria de chamá-la para a apresentação de dia das mães? Se isso for te trazer problemas, é melhor ignorarmos.
— Não! Eu ia adorar ter na apresentação do dia das mães — a menina abriu um sorriso. Ela queria mesmo que fosse à sua apresentação. Quer dizer, nos últimos tempos, tinha sido a grande responsável pelas mudanças importantes na vida da menina.
A vizinha dos Poynter havia conquistado seu espaço naquela casa. E, principalmente, no coração rebelde que habitava na pré-adolescente. Assim que Kara passou o telefone de sua mãe, voltou à sua sala de aula, mas decidiu mandar uma mensagem para seu pai.

Kara: pq vc não namora com a mesmo?
Dougie: que? Do que vc tá falando, menina?
Kara: não sou mais criancinha, pai. Sinto q tem algo entre vcs
Dougie: não é tão fácil assim, filha. Não quero que vc crie expectativas e se machuque
Kara: ué, a vai namorar comigo?
Dougie: vai começar de malcriação? 😡
Dougie: introduzir na minha vida é introduzir ela na sua tbm. Meu coração pode ser quebrado, o seu não.
Kara: isso parece fala de filme. Vc sabe como elas terminam, né?
Dougie: pq vc é tão espertinha?
Kara: puxei ao meu pai! Tenho q ir, preciso convidar pra apresentação de dia das mães. Bj
Dougie: como assim?
Dougie: volta aqui!!!! Vou te ligar

Ligação perdida de Dougie.

Dougie: droga, esqueci q vc tá na escola. A gente conversa mais tarde!!

Com uma risadinha besta, Kara sabia que seu pai sempre escolheria os sentimentos dela. Ele podia ter seu coração quebrado, mas ela não. Ele ficou anos sem se apegar à uma mulher porque tinha medo de magoá-la.
Era hora de retribuir tudo que seu pai havia feito por ela. Afinal, era alguém confiável, dedicada e super disposta a ajudá-los, por que não namorar seu pai? Todas as respostas eram óbvias, então a menina definiu sua meta: faria amá-los como ela a amava.

[...]


— O que ‘tá fazendo? — Theo tentou espiar o que Kara tanto escrevia no celular, mas a menina bloqueou a tela rapidamente. Ao encontrar o olhar ansioso do amigo, ela decidiu contar o que andava acontecendo na sua vida.
— Minha mãe apareceu. — Os olhos de Theo arregalaram, surpreso com a confissão de Kara.
— E como você ‘tá com isso tudo? — Kara ficou em silêncio de repente, pensando na resposta daquela pergunta, que até então ninguém tinha feito. No silêncio do estúdio do pai, ela e Theo estavam arriscando algumas músicas de suas bandas favoritas. Durante a pausa para descansar, Kara fazia anotações para a sua festa de aniversário e foi quando o assunto surgiu.
Se sentiu confusa, seus sentimentos ainda estavam um turbilhão, competindo por espaço dentro de sua mente e ela não conseguia assimilar as coisas que tinham acontecido ainda. Agora, na companhia de Theo, que também tinha passado pela mesma situação no ano anterior, ela conseguiu analisar a situação e apenas sentiu vontade de chorar.
— Eu não sei — ela disse, em meio às lágrimas.
— Eu sei que o que eu vou te falar não vai adiantar, ‘tá? Mas eu vou falar mesmo assim. — O menino acariciou os cabelos da melhor amiga em seu colo. — Ano passado, quando meu pai me levou para o jogo e eu tive que pedir ajuda para o Danny, eu fiquei tão feliz em saber que ele não sabia nada sobre mim. Minha mãe estava uma pilha e se culpa até hoje por não ter atendido minha ligação, mas mal sabe ela que eu queria que tivesse sido o Danny. Eu sempre o considerei meu pai. Na verdade, nos meus melhores sonhos, eu tinha uma figura paterna que era igualzinha a ele. Eu sei que, para você, a figura materna é a . E nem adianta negar, Kara. Mas... dê uma chance a essa moça também. No final das contas, você vai continuar com o que sempre teve: toda sua família por aqui.
— Eu tentei… — Kara fechou os olhos com força, a lembrança da ida ao salão com Emilia não era nada agradável. — Na primeira oportunidade ela tentou me mudar. Olha o meu cabelo — ela disse baixinho, ainda chorosa.
O garoto deu uma risadinha, ainda que Kara não tivesse percebido. Mas para Theo aquela ainda era a mesma Kara que ele conheceu, a sua melhor amiga.
— Tudo bem. O seu cabelo vai crescer e você vai ficar mais bonita ainda — o menino disse. — Mas o que você vai fazer em relação à ?
— Eu vou chamá-la para a apresentação de dia das mães — a menina disse, convicta. — Mas como eu sei que ela é tão cabeça dura quanto o meu pai, eu vou dar um jeito.

[...]


O dia de começou com uma boa xícara de café preto causada pela noite mal dormida que teve. ficou até tarde escolhendo todas as fotos da seleção de modelos para seu trabalho e esqueceu que seu corpo precisava descansar. Na verdade, ela estava um trapo! Para acabar com a sua paz interior, sua campainha tocou e ela foi, mal-humorada, atender.
— Que foi? — A fotógrafa fez cara feia, mas logo a desfez ao ver a menina Poynter em sua frente. — Oi, querida. Bom dia.
— Bom dia? São três horas da tarde, . — Kara saiu entrando pelo apartamento. — Eu trouxe cookies veganos.
— Céus, eles são tudo o que eu precisava para a minha folga.
— Mas antes eu preciso de um favor! — A garotinha afastou o pote de biscoitos da publicitária.
— Pestinha!
— Você poderia me ajudar a fazer um trabalho para a escola?
— Meu irmão não é alguém mais adequado para isso? Eu tenho certeza que ele pode te ajudar. — rapidamente pegou o celular para falar com Joe. — Olha, eu era péssima em matemática, química, física, tudo que envolvia escola!
— NÃO! — Kara se antecipou. — Sua ajuda basta. Teremos uma apresentação no final de semana e eu queria fazer algumas gravações para a aula de música porque vou tocar sozinha pela primeira vez.
— Kara, isso é ótimo! — sorriu. — Eu ajudo, sim.
— Sério? Ai, você é a melhor. — A pré-adolescente se jogou nos braços da mulher. — Agora vamos para o sofá, vamos maratonar Velozes e Furiosos.
— Que abuso é esse?
— Eu trouxe cookies, você vai fazer chocolate quente para a sua pestinha favorita… — a menina sorriu. — E então vamos começar a assistir e você vai sempre preferir o Toretto, enquanto meu favorito vai ser o Tyrese, bla-bla-bla.
riu, contrariada, apesar de saber que cada coisa ali aconteceria mesmo. As duas já tinham assistido à franquia inúmeras vezes enquanto esperavam Dougie e sempre chegavam ao embate: Tyrese ou Toretto. Era estranho e doloroso ao mesmo tempo saber que ela jamais teria alguém para dividir aqueles momentos. Jamais teria alguém como seu pai para dividir os filmes favoritos e costumes. Dividir as coisas bestas. Os chocolates quentes. No fundo, se sentia egoísta por permitir aproveitar um pouco mais do que sempre desejou. Mas, naquele momento, tudo que ela tinha era um amor infindável por uma pré-adolescente que ela jamais pensou amar. E tudo que ela queria fazer era mantê-lo.

[...]


O sábado de manhã chegou e foi uma das primeiras a chegar ao auditório da escola de Kara para garantir um bom lugar para a gravação. Aos poucos, o local foi se enchendo de gente, majoritariamente mulheres, com algumas exceções.
? — Jules perguntou, surpresa, ao se deparar com a amiga.
— Oi! — ela cumprimentou a amiga com um abraço. — Theo também vai se apresentar?
— Sim. Você veio pela Kara?
— Ela me pediu ajuda para um trabalho da escola.
Quando disse aquilo, se sentiu burra. Era como se a névoa da inocência tivesse sumido de seu corpo e ela visse tudo com os olhos da menina esperta que tinha como vizinha.
— Não acredito. — começou a tremer.
— Só… Relaxa. — Jules abraçou a amiga. — Vai dar tudo certo.
Instantaneamente, quando as luzes foram apagadas, apertou o botão que dava início à gravação em sua câmera e sentou-se ao lado da amiga. O que quer que Kara fosse aprontar naquela manhã doeria muito. Muito mais do que ela poderia imaginar.
Um holofote acendeu no meio do palco e a menina apareceu com um novo corte de cabelo, igual ao de . Extremamente curto.
— Essa música é para todos que estão aqui. E para todos que queriam estar aqui e não puderam. — Kara falou, firme. Ela não tinha medo de estar sob luz nenhuma. Aquilo para ela era quase terapêutico. — Principalmente para minha mãedrasta, , que é uma das poucas pessoas que brigariam por mim com garras e dentes. , eu não sou a melhor fotógrafa do mundo. Eu sei que você tem várias fotos minhas espalhadas pela casa porque é seu jeito de dizer que me ama. O meu, é tocar música. Eu te amo, . Feliz dia das mães. Obrigada por lutar por mim sempre.
Estática, parecia estar vivendo um filme. Ela sequer acreditava no que estava acontecendo. Ela estava em um evento de dia das mães. Não era um sonho! Ela poderia rever e rever quantas vezes quisesse. Lágrimas grossas escorriam por seu rosto quando a música “My Love, My Life” do Abba começou a ser cantada por Kara. Aquela música era a que cantava aos berros no karaokê quando assistia Mamma Mia; aquela era a música que Amanda Seyfried cantava com Meryl Streep no final da franquia. Kara sabia daquilo. Aquela garota era muito esperta. Tão esperta que fez questão de não deixar nenhum pedacinho do coração de para ela, levou tudo para si.

Capítulo Vinte e Dois

corria pelos corredores da escola em busca de algum sinal por onde Kara pudesse estar, com sorte, ela encontrou a movimentação que ficava na sala atrás do palco. Era uma mistura de vozes eufóricas e crianças nervosas ao seu redor, sentiu-se novamente na sua época de escola, compreendia todo o nervosismo daquelas criaturinhas que queriam mostrar, pelo menos, um pouco de seu talento para quem as amava. No entanto, naquele momento, ela só tinha um nome em sua mente: Kara Poynter.
De longe, conseguiu avistar os cabelos curtos e rebeldes da garota, mas deteve seus passos ao perceber que a menina conversava com o pai. abriu um sorriso, ainda discreto, com a cena que viu. Dougie não estava bravo e Kara não tinha um semblante ranzinza como muitas vezes encontrara nos dois, eles estavam rindo e se abraçando, como uma família. Família essa que Kara fez questão de dizer a que ela pertencia. Que ela era a mãedrasta de Kara, segundo as palavras da menina. E sabia que, sim, a amava com todo o seu coração e, agora, sabia que o sentimento era totalmente recíproco. Mas ela precisava dizer isso a Kara, precisava deixar claro todos os seus sentimentos para que ela nunca tivesse alguma dúvida sequer quanto àquilo.
— Você está brava comigo? — Foi a primeira coisa que Kara perguntou à quando a viu.
— Grande parte do tempo, sim — a fotógrafa riu, confirmando a pergunta da menina. — Mas, hoje, não.
, eu não sei o que aconteceu entre vocês dois... — a garota olhou para o pai e depois para ela. — Mas eu não te quero fora da minha vida, o meu pai entende isso, né, pai?
Douglas ainda estava aéreo de toda a conversa que elas estavam tendo. De tudo que estava acontecendo. Embora ele nunca priorizasse encontrar uma namorada, se caso um dia isso acontecesse, ele queria que fosse exatamente assim. Com ela e Kara se dando bem, apesar de levarem-no à loucura, era tudo o que ele sempre desejou.
— Né, pai? — a garotinha deu uma cotovelada nele e Poynter acordou para a vida.
— É, é claro que eu concordo — ele disse, firme. — A felicidade da Kara é o que mais me importa nesse mundo.
— O que você acha de almoçar lá em casa hoje, ?
— Não quero atrapalhar — a publicitária sorriu. No fundo, ela evitava ficar em contato com Dougie. A presença dele ainda era devastadora para ela. No fundo, a presença dele a lembrava que ele era tudo que ela jamais poderia ter.
— Você não atrapalha — ele a contrariou. — Podemos passar no mercado ao sairmos daqui e irmos para casa fazer nosso almoço. O que acham?
— Eu acho ótimo! — Kara intercedeu. viu o brilho que a menina parecia emitir e não hesitou em concordar.

[...]


Naquele início de tarde, o mercado perto de casa não estava cheio. , Doug e Kara tiveram o conforto de olhar todos os corredores com calma e escolher todos os ingredientes para um almoço delicioso e agradável em família. Apesar de apenas observar, estava ansiosa para passar as próximas horas na presença daqueles dois.
— Vou pegar as coisas para fazer os cookies, já volto. — Kara sumiu pelos corredores e, antes que pudesse dizer que lhe acompanharia, a pestinha deixou os dois adultos em um silêncio um tanto quanto desconfortável.
— Você está confortável? — ele perguntou baixinho. — Com essa situação.
— Que situação? — ela foi honesta. Ela via de tantos jeitos. A situação entre os dois. Entre ela e Kara. Entre os três. — São tantos lados da moeda que não sei qual você está falando.
— O único que importa — ele disse, sério.
— Para mim ou para você, Dougie? — a voz de foi baixa, mas ela ainda se manteve firme. Às vezes doía quando a frieza dele assumia a frente de todas as suas emoções. — Deixa para lá. Não vou brigar. A resposta é sim.
Antes que ele pudesse respondê-la, disparou pelo corredor em busca da menina. Aos poucos, o coração de parecia colar os caquinhos para quebrar de uma nova maneira. Tudo isso porque um furacão havia passado por sua vida.
Depois de passarem as compras no caixa e Dougie e brigarem por quem pagaria a conta, os três conseguiram chegar em casa o mais tranquilamente possível. Antes de chegarem ao andar dos Poynter, apertou o botão do seu andar.
— Vou em casa trocar de roupa antes, tudo bem? — a publicitária comentou. Kara concordou rapidamente sem tirar os olhos do celular, mas Dougie percebeu que estava com lágrimas em seus olhos. Sabia que tinha errado com ela.
O baixista hesitou por um momento, mas antes que a porta metálica emitisse um som novamente, anunciando que estava prestes a fechar, decidiu chamar . Mas era tarde demais.
! — ele chamou, mas a porta fechou na hora que o som terminou de sair de sua boca. Teriam de conversar outra hora.
Dez minutos. Quinze. Vinte. Vinte e cinco. Vinte e sete. Trinta e três. Trinta e sete minutos se passaram até que apertasse a campainha da casa de Dougie Poynter novamente. Ele estava ansioso, queria pedir desculpas, mas ao mesmo tempo não queria. Sabia que tinha errado com ela, mas uma parte de si ainda estava ressentida por tudo que havia acontecido entre os dois.
, eu… Me desculpa.
— Eu não sou ela, Dougie — foi direto ao ponto. — Tampouco sou alguém que você pode ficar pisando toda vez que se sentir ameaçado. Estou nessa, de verdade. Kara é importante para mim e, céus, eu cometeria loucuras por essa menina. O que eu não vou aguentar é você me pisotear por uma coisa que eu não fiz. Se você quiser me odiar por não te contar que eu tenho traumas? Tudo bem, me odeie. Se você quiser me odiar porque eu tive medo e fugi de você? Tudo bem, me odeie. Mas, lembre-se, nessa fila você nunca estará atrás de mim. Todos os dias em que levanto, lembro daquele maldito acidente. Lembro de quando acordei pela primeira vez, lembro de quando eu soube de tudo. Lembro quando Emilia apareceu também. Eu lembro de tudo. Foram dias tenebrosos para mim. E mesmo assim eu assumi o risco porque achei que vocês seriam felizes. Tudo isso sempre me importou. Só isso…
— Emilia nunca… — Antes que ele pudesse continuar a fala, Kara apareceu na cozinha, já de banho tomado.
— Você demorou! — a menina sorriu para a vizinha.
— Eu decidi tomar um longo banho para relaxar. — tirou toda sua atenção do homem que estava em sua frente e focou na menina.
— Pronta para cozinhar?
fez uma careta.
— Pronta para fazer o que vocês mandarem.
Os três se dirigiram ao cômodo mais próximo à sala de estar e começaram os preparativos. começou descascando as batatas para fazerem o gnocchi e Doug preparava a proteína de soja para fazer o molho. Isso tudo, é claro, sem trocar uma palavra.
Ainda assim, do jeito que ela gostava, ele deixou uma taça de vinho branco separada próxima a bancada em que ela estava. A publicitária não queria dar o braço a torcer, mas era impossível para ela resistir ao seu vinho favorito. Não quando tudo que ela mais precisava naquele mundo era relaxar.
— Meu Deus, como eu odeio esse fogão alto! — reclamou, na pontinha do pé, se esforçando ao máximo para acertar as batatas na panela sem fazer muita sujeira jorrando água para fora.
Doug soltou uma risadinha baixa e, depois de umas três taças de vinho, aquele comentário a enfureceu um tanto. Ele era um idiota. Um grande de um idiota. Ah, como era!
— Isso não tem graça, seu paspalho! — bateu no baixista com o pano de prato o mais forte que conseguiu, ainda que isso não fizesse nem cosquinha nele.
— Tampinha.
— A é uma tampinha! — Kara entrou na brincadeira. — Tampinha, tampinha, a é uma tampinha.
se arriscou e começou a fazer cócegas na menina mais nova, ainda que soubesse que em breve seu pai se juntaria a ela. A cozinha se encheu de gargalhadas gostosas que os três estavam acostumados a dar quando estavam juntos, ainda que parecesse bobo. Douglas se juntou a na guerra de cócegas contra Kara e a adolescente se viu encurralada contra a bancada da cozinha, mas, antes que os dois pudessem pensar, a pestinha os driblou, passando por debaixo das pernas do pai e correndo cozinha afora.
Rapidamente, e Poynter ouviram a porta da cozinha fechar e o trinco ser fechado. Quando aquilo aconteceu, o sangue de gelou, porque ela sabia o que viria.
— Kara, abre essa porta!
— Não vou abrir coisa nenhuma — ela disse firme. — Vocês só vão sair daí quando agirem como adultos e conversarem.
— Kara, abre a port…
— Tio Danny já está aqui embaixo, estou indo almoçar na casa do Theo. Até mais tarde, pai, até mais tarde, mãe! Amo vocês.
Em fração de segundos, o mundo de parou. O sangue parou de circular em seu corpo e ela jurou ter ouvido aquela palavra com três letras. Aquela palavra que sempre sonhou em ouvir.
— Você ouviu o que ela disse?

— Doug — ela disse pausadamente. Seus olhos ardiam. — Ela me chamou de mãe. A Kara, ela…
— Sim, — ele abriu um sorriso emocionado. — Você é mãe dela desde o instante em que você entrou na sala do diretor e ameaçou uma mulher riquíssima de acabar com a vida dela sem sequer ter esse poder, . Você é mãe da Kara.
— Eu sou mãe — ela disse, desacreditada. — Sou mãe da Kara. — Sua felicidade se misturava entre rir e chorar ao mesmo tempo. Ela ainda não conseguia acreditar nas palavras da garota, mas sabia que Kara não tinha dito aquilo da boca para fora.
Dougie encarava com uma felicidade genuína, ele confiava naquela mulher mais do que em si mesmo; apesar de nunca falar isso em voz alta. Mas soube, desde o primeiro momento que botou os olhos em Olívia, que ela viraria o seu mundo de cabeça para baixo. E ele amava toda aquela bagunça.
— Eu acho que está na hora de a gente conversar, — Dougie disse baixinho.
— Eu não posso ter bebês — ela disse, baixo. — Eu nem sei como Emilia soube disso, na verdade. Nem mesmo quando saiu a notícia do meu acidente, saiu a notícia da gravidez.
Dougie se encolheu de raiva.
— Você sabia? Que estava grávida?
— Não. Eu não seria estúpida de beber e dirigir. Não deveria ter sido estúpida de dirigir bêbada nem sem o bebê. Mas eu era nova e achava que sabia de tudo. — Os olhos da publicitária encheram de lágrimas.
… eu sinto muito que Emilia tenha invadido sua vida desse jeito — ele apertou a mão de na intenção de reconfortá-la. — Sinto muito que isso tudo tenha trazido seu passado assustador de volta, mas quero que você se lembre que seu trauma jamais vai ser maior que você.
— Eu fui tão irresponsável. Mas tão irresponsável…
— Todos nós fomos. E seremos uma vez na vida. E o que importa é que entendamos que fomos e não sejamos mais. — O baixista puxou para perto de si. — Eu já estive em posição de não conseguir criar a minha filha por causa das drogas, . E eu tô aqui.
— Eu nunca consegui manter relacionamentos — ela disse aquilo. Uma parte dela se sentiu aliviada, porque aqueles relacionamentos a levaram até ali. Até ela completar a frase e ele se sentir um fodido egoísta. — Os caras sempre queriam filhos, então eu fugia…
, você pode ter filhos — Dougie beijou o topo de sua cabeça. — Se o cara te ama e quer ter filhos com você, ele vai aceitar entrar na fila de adoção. Não importa o quanto vão esperar ou o quão duro será, mas ele vai enfrentar essa etapa com você. Você fugia porque mais se culpava do que qualquer coisa.
— Quando Emilia apareceu lá no escritório, ela disse que você queria ter uma família grande e que eu nunca ia poder te dar — soluçou, como se as lembranças fossem consumi-la.
Dougie riu totalmente sem humor. Seu corpo fervilhava. — Emilia não sabe de nada. Eu tenho uma família grande. Com você, eu formaria até um time de futebol, se você quisesse. Eu não preciso de mais nada se tiver minha família, . E você faz parte dela, .
— Desculpa ter ido embora — abraçou Doug aos prantos.
— Está tudo bem. Você foi movida por medo — ele acariciou os cabelos curtos da mulher que tanto amava. Mulher que tanto amava. Ele riu fraco. havia conquistado aquele espaço em seu coração.
Era ela. De todas as coisas e pessoas do mundo, ele tinha que se apaixonar exatamente pela doida que se muda para o apartamento de baixo e decide implicar com sua filha. era a pessoa certa para Poynter. E ele não se referia apenas a ele.
… — Dougie a chamou, baixinho. — Eu senti sua falta.
Apesar de saber do que ele falava, ela tinha medo. Medo de arriscar tudo e ter seu coração quebrado em milhões de pedacinhos. Mesmo sabendo que Doug jamais faria aquilo intencionalmente.
— Dougie… — ela se ajeitou e enxugou as lágrimas.
— É sério, . Você chegou do nada e se transformou em tudo. Eu sei que para você é assustador, eu sei. Mais do que nunca, eu quero acabar com todos os medos que te impedem de ficar comigo — ele falou baixo. — Eu acho que já passou da hora de eu admitir isso.
— Admitir o quê?
— Que eu quero que você me escolha, . — Poynter engoliu todo o orgulho que já não tinha e deixou as verdades saírem. — Quero que me escolha quando estiver feliz. Quando estiver animada sobre qualquer coisa que eu não entenda. Quero que me escolha para dividir a vida. Para conquistar seus sonhos, para despertar sua criatividade. Quero que me escolha para fazermos todas as breguices possíveis de um casal apaixonado. Acima de tudo, quero que você me escolha nas noites ruins, para você lembrar que em hipótese alguma você está sozinha.
— Poynter…
— Quero que me escolha para formar uma família. E não me importa se isso significa que nossa família será constituída de pessoas, pets, plantas… A única coisa que me importa é que você seja feliz. Comigo, .
— Eu te escolho, Dougie — ela disse, sincera. — Eu venho escolhendo você desde o dia que você apareceu furioso na minha porta para defender a Kara.
Sem mesmo hesitar, Dougie pegou no colo e a colocou em cima da bancada. possuía um sorriso enorme no rosto, uma das coisas favoritas de todos os tempos para Dougie. O baixista colocou uma mecha de cabelo castanho dela para trás e ela o beijou. Ao mesmo tempo em que ela queria ir devagar e colecionar momentos, sentia saudade da confusão que habitava seu corpo quando Poynter a beijava.
Seus corpos estavam tão grudados que pareciam um só. Ao mesmo tempo que era calmo, tranquilo e confortável, gritava saudade, desespero e luxúria. Algo que só ele conseguia fazê-la sentir.
— Eu… — ela começou a falar entre selinhos, bastante ofegante. — Amo. Você.
— Eu também amo você, .


Continua...



Nota das autoras: Senta que lá veio pedrada! Eles finalmente conversaram e expuseram os sentimentos 🥹 esperamos que vocês gostem. Comentem o que estão achando, por favor!

Caixinha de comentários: A caixinha de comentários pode não estar aparecendo para vocês, pois o Disqus está instável ultimamente. Caso queira deixar um comentário, é só clicar AQUI





Outras Fanfics:
King Of My Heart | Longfic - McFly - Em andamento
Last Mistake | Longfic - Restritas - Em andamento [Originais]
Um Novo Começo | Longfic - Originais - Em andamento
Threat of Joy | Longfic - Originais - Em andamento
We'll All Be | Longfic - Bandas - Finalizada
Power Play | Longfic - Esportes - Finalizada


Nota da beta: Eu amo essa família deles, uma fofura ❤️

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


comments powered by Disqus