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Finlizada em: 16/06/2021

Prólogo

Quando você me chamou
Eu me tornei sua flor
Como se estivéssemos esperando
Nós florescemos até nós sofrermos
Talvez seja uma providência do universo
Tinha que ser assim
Você sabe, eu sei
Você sou eu, e eu sou você
Serendipity – BTS


Alguma noite estrelada de 1995, exatamente às 11:28pm.
A noite estava linda, como nunca tinha visto antes. Não que fosse muito velho para dizer já ter tido tempo suficiente para saber sobre essa relatividade do tempo, porém, aos 5 anos de idade ele estava encantado com o céu sobre si, enquanto estava sentado na varanda de sua casa ao lado da mãe. Era uma noite quente, apesar da ausência do Sol e daquela imensidão de árvores e zona natural para refrescar.
E mesmo com tão pouca idade, algumas coisas já passavam por sua compreensão. A começar pelo fato de ser uma criança de história precoce: começou a andar aos nove meses, não chegou a pronunciar muitas palavras erroneamente pelo fato de ser criança e tinha a facilidade de compreender muitas coisas. Infelizmente o motivo para toda aquela facilidade não vinha por ser de uma geração muito evoluída ou algo do tipo, dava-se pela infelicidade de ser uma criança negligenciada – não que soubesse disso inclusive, ele apenas era e ainda não compreendia tal coisa.
Morar numa fazenda, afastada por completo da civilização e ser de uma criação muito machista com pouca base em respeito resultava em noites como aquela: sentado ao lado da mãe que chorava copiosamente após uma briga com o marido, pai dele, terminada em agressão. O pequeno Chim não entendia muito bem o que era aquilo, em contrapartida, fora ensinado que chorar era resultado de machucados, e se machucava, doía.
Logo, sabia compreender que situações como aquela estavam longe da felicidade e debaixo daquele céu estrelado e prazeroso, ele queria que o cenário fosse diferente. Ele queria pedir para algo ou alguém que fosse possível conhecer aquilo que chamavam de felicidade, pediria até mesmo para uma estrela – já que se recordava do único vizinho da fazenda mais próxima, Ye-Jun, lhe dizer que as estrelas que caíam do céu estavam fazendo aquele caminho para realizar algum desejo e que, neste momento, quem a visse poderia pedir o próprio, assim fazendo com que outra estrela recebesse o pedido e o realizasse. Pelo menos ele acreditava que era algo por essa ordem.
Por consequência disso, ouvia a mãe tentar controlar o choro, enquanto continuava a encarar aquele céu, fazendo seu pedido repetidas vezes, para que não corresse o perigo de perder o tempo da estrela. Ye-Jun havia sido bem específico sobre a velocidade dela.
E quando ele viu aquela coisa brilhante passando por seus olhos, tão rápido que ele mal saberia explicar, seu coração acelerou como se tivesse corrido mais do que o de costume, igual às vezes em que estava fugindo do pai depois de fazer alguma arte de criança.
Ele fechou os olhos e abraçou a mãe naquela noite estrelada de 1995, confiante de que seu pedido seria realizado e que na próxima noite de céu estrelado, ela não choraria e não seria ele a abraçá-la, mas sim o contrário.

Capítulo Único


O céu estava agradável, por mais que estivesse frio, e não restava outra opção a não ser pela alternativa de sair à noite, fosse para caminhar ou simplesmente se sentar em algum lugar tomando qualquer coisa que fosse quente enquanto brincava na neve. Não era um programa tão divertido para fazer sozinho, diga-se de passagem, mas, mesmo que estivesse cercado por casais apaixonados, grupos de amigos divertidos e famílias, se permitia tentar apreciar a própria companhia naquele parque. Namsan era seu lugar favorito para sentar e admirar o céu estrelado do local mais alto. O dia no trabalho havia sido exaustivo, mais uma vez, mas era sexta-feira à noite e ele não trabalharia no final de semana, então pareceu soar extremamente agradável pegar seu pequeno engradado de long necks de cerveja e ir caminhando os vários quarteirões que formavam o caminho até o parque.
A vista era linda, logo, faria completo sentido ser lotado em uma noite como aquela. O público se dividia entre turistas e locais e por mais que estivessem, em massa, conversando, conseguia se desligar e concentrar-se, novamente, na própria companhia. Estar no local mais alto e isolado, perto da enorme torre, a famosa N Seoul Tower, o fazia se sentir um tanto mais em paz consigo e se desligar dos problemas cotidianos.
Entretanto, para sua infelicidade daquela noite em específico, não estava sozinho naquele canto mais intimista do monte. Havia um grupo de amigos com, pela sua conta, cinco pessoas. Assim como ele, os outros eram adultos e tinham suas garrafas de bebidas – em uma rápida olhada, viu que haviam levado soju para aquele momento compartilhado. E mesmo que as risadas fossem estridentes e houvesse muito barulho, o rapaz não se deixou incomodar, estava em um ambiente público, portanto, não era de sua decisão ficar literalmente sozinho ali.
Se fosse para estar sozinho nessa entoação, teria ficado em casa.
A conversa era audível e quando o assunto caiu para a questão de vivências, não conseguiu se controlar para não ouvir o que era dito. Ele concordava com a moça que externou a própria insatisfação sobre o falso realismo da vida, que causava diversas frustrações. Ela dizia algo como “estamos acorrentados em nossa própria realidade” e era seguida da concordância dos amigos.
entraria no assunto, desabafando seus motivos para concordar com ela, mas seria estranho, e também não era de seu feitio fazer amizades assim, tão aleatoriamente fácil. Contudo, de fato ele concordava sobre as amarras, se sentia muito assim e aquele era um dia do qual estava exatamente exausto com a vida que levava. Desde o falecimento da mãe, aos dezoito anos, não se sentia mais tão completo, principalmente vivendo sozinho em Seul e entregue à própria rotina incessante.
No fim, que era o próprio clichê da nova geração: um adulto de 25 anos de idade, já bem-sucedido por sua capacidade intelectual, inteligente e amante de animes, universo da Marvel e Coldplay, vivendo sozinho por ser introvertido até demais.
Em um dado momento, começaram a falar sobre o universo, a infinitude de coisas que o céu acima de nossas cabeças pode possuir sem que tenhamos uma mínima noção. Quanto a este assunto, odiava se lembrar da sua frustração. Diziam que o universo era mágico e que existiam infinitas possibilidades no resultado de sua exploração, mas tudo o que ele se lembrava era de uma estrela cadente que nunca lhe retornou um pedido.
Por mais estranho e intrometido que pudesse soar, ele queria continuar ali, ouvindo as palavras de outras pessoas que poderiam ser proferidas por ele mesmo se tivesse chance de o fazer. Mas o grupo não demorou muito a ir embora e o deixou ali, mais sozinho do que já estava. Então não precisou de mais tempo para que ele encontrasse seu rumo de volta para casa, pegando o próprio lixo e fazendo o caminho de volta. Pensando na manhã seguinte, a qual usaria para adiantar alguma coisa ou outra do trabalho, caminhou.
percebeu que devagar o lugar ia esvaziando e se tornava raro ver algum rosto desconhecido durante sua caminhada de ombros baixos. Não que ele se sentisse diretamente afetado por isso, afinal, não se fazia mais mudança alguma em sua vida, já estava conformado até demais.
Após atravessar o parque todo, parou na lixeira para deixar os objetos descartáveis e se virou uma última vez para ver a torre distante, completamente iluminada e com um céu estrelado depois da camada de poluição. Suspirou pesadamente e colocou as mãos nos bolsos do casaco de lã, depois de puxar o capuz e fechar o zíper rente ao seu pescoço. O frio era realmente algo que ele não desapreciava, mas também não dizia ser extremamente fã.
Imerso nas próprias ações para se defender do ar gelado, se assustou ao ver um risco sem cor definida cruzar aquele espaço de distância que estava da torre, sem barulho algum, caindo. Era como se fosse uma estrela cadente, o que para ele era um pensamento besta. Mas olhando para os lados e não vendo ninguém se aproximar ou sequer ter alguém por ali, sentiu-se obrigado a cruzar o caminho de volta, o próprio corpo em um misto de curiosidade com a vontade de ir até lá.
Ele foi mais rápido voltando do que quando estava caminhando para ir embora.
Os olhos poderiam sair de seu corpo com o tanto que se abriram ao aproximar-se do local a que fora ao encontro; o buraco não era tão profundo no chão, mas tinha alguém ali, encolhido, adormecido e brilhando. Seu coração estava acelerado e mesmo olhando milhares de vezes para os lados a fim de encontrar alguém, estava com medo de que alguém aparecesse. Ele estava com esse sentimento sem ao menos compreender de onde vinha tamanha sensação.
Seu pensamento imediato foi de se abaixar e cutucar a moça adormecida, mas ficou com receio, não se recordando de seres humanos terem o hábito de brilhar como ela estava brilhando. Não era intenso, não era fraco, mas ele estava nitidamente vendo aquele brilho cintilante, como se tivesse diversas auras nela, formando um arco-íris.
Quando seus olhos captaram o vestido branco, totalmente fino a olho nu, de alcinhas, seu corpo tremeu só de pensar no frio que ela estava sentindo e como poderia adoecer embaixo daquela temperatura tão mínima. Seguindo o primeiro pensamento, tirou o casaco que usava, um tanto perdido no próprio reflexo protetor com uma coisa estranha que ele estava começando a crer que tinha caído do céu, e jogou em cima dela, acabando por tapar o buraco, mas ainda vendo seu rosto pálido.
Não era só o brilho que chamava sua atenção, mas aquele rosto sereno estava o intrigando.
Mais uma vez, agindo automaticamente pelo seu reflexo, mas nesta sendo por todas as sensações que estava tendo, não hesitou em puxar o celular do próprio bolso traseiro de seu jeans, iria ligar para uma ambulância ou o primeiro número de emergência que encontrasse. E teria o feito se seu aparelho celular estivesse ligado e com bateria suficiente para uma ligação.
O que restou para e suas ações movidas pela proteção e curiosidade, amparadas por toda sua confusão mental com o que tinha acabado de acontecer, foi pegar o corpo brilhante no colo e sair em um rumo direto para seu apartamento. Por sorte, ele não morava muito longe dali, e quando chegasse lá, pensaria melhor no que fazer.


era um frequentador assíduo da academia, gostava de passar tempo malhando e isso sempre o fazia se sentir bem consigo, fisicamente. Também o dava uma animação a mais sair para caminhar todas as manhãs e terminar voltando para casa em uma corrida por todo o trajeto feito. Muitas vezes, ele ia tão longe e se fosse um tanto preguiçoso, voltaria facilmente de táxi. E isso acabou por lhe favorecer. A caminhada até seu apartamento não era longa quando se fazia sozinho e com os braços livres, não que o corpo brilhante fosse pesado, mas era um tanto desajeitado para um caminho com mais de um quilômetro.
Por fim, quando saiu do elevador e conseguiu abrir a porta do apartamento, caminhou até o próprio quarto sob o olhar curioso de Latchi, seu gatinho persa de estimação. E assim como ele, o felino pareceu bem intrigado com o brilho do que estava entrando em sua casa, acompanhando até a suíte e o observando colocar na cama o que parecia ser o corpo de uma mulher.
O cuidado com ela permaneceu o mesmo enquanto a colocava em cima do colchão, se afastando com rapidez para buscar o cobertor mais quente que tinha em seu armário, não demorando mais que dez segundos – e ele sabia que não tinha demorado mais porque, mesmo inconscientemente, estava cronometrando o tempo que fazia tudo. Quando esteve seguro de que ela estava aquecida, as janelas fechadas e o aquecedor ligado, parou ao lado da cama com as mãos na cintura, observando-a brilhar incessantemente e com o mesmo ar sereno no corpo.
Depois de seu longo suspiro, um incontável pela quantidade de vezes que já havia o feito, rumou para a cozinha a fim de fazer um chá. Ficou em dúvida sobre sabor e o que seria mais adequado de bebida quente a fazer, porque seu consciente já estava começando a aceitar que nenhum ser humano no planeta Terra brilhava daquela forma, a não ser na ficção de um filme sobre vampiros que ele se lembrava superficialmente. Mas ela também não brilhava intensamente como o personagem da história quando exposto ao Sol.
Portanto, aquilo em sua cama não era uma mulher comum, ele já estava aceitando essa loucura.
Não prestou atenção no que estava fazendo e voltou logo para o quarto, completamente atônito, tanto que mal se lembrou do sabor que havia escolhido. Quando entrou no cômodo, sendo recebido por Latchi e seu olhar arregalado de onde estava, mais propriamente dito em cima da cama ao lado do corpo brilhante, totalmente obcecado por aquela luz, estranhou como ela ainda dormia na mesma posição. Sequer parecia incomodada ou mesmo consciente.
O miado de Latchi pareceu o trazer de volta para a realidade, fazendo-o descongelar da porta e caminhar até a própria mesinha de cabeceira, deixando a caneca quente ali e novamente parando ao lado do móvel, encarando-a.
— Você acha que estamos seguros, Latchi? — perguntou ao felino, que ergueu o rosto para encará-lo, miando em resposta. Uma resposta que ele não compreendia, obviamente. — Nos resta agora esperar que ela acorde. Será que ela vai acordar?
Os dois olharam de volta para o rosto sereno, em sincronia, ambos curiosos com aquele corpo que poderia ser chamado de extraterrestre.


O relógio não parecia querer cooperar com naquela segunda-feira. Ele sentia que estava sendo o mais odiado dos seres humanos na Terra de acordo com a demora dos ponteiros em fazer a volta completa para cada hora que passasse. Estava completamente preocupado e não conseguia focar em nada, em nenhuma das suas abas abertas no computador de pesquisas de tecnologia, a não ser pela aba que tratava de uma pesquisa sobre seres de outros mundos.
O que estava fazendo-o se sentir patético. Havia passado sábado e domingo, e ela não tinha acordado. Nem mesmo com Latchi a lambendo no rosto por toda a sua curiosidade felina. Nada foi capaz de acordar o corpo brilhante. ao menos conseguiu identificar uma respiração ritmada nela, embaixo de toda aquela serenidade. E não restou nada para ele a não ser ir trabalhar e a deixar com o gato, afinal, ele não tinha quem o cobrisse no trabalho e sua responsabilidade era maior do que uma simples falta não justificada. Como explicaria para os demais colaboradores que o chefe deles precisaria faltar às vésperas do lançamento do novo projeto da empresa?
Além do que estava bem longe de querer ligar para alguma autoridade e denunciar o que estava em seu apartamento. Primeiro: ele assistia a filmes, sabia bem como poderia estar entregando a eles um ouro para estudo e planos maquiavélicos – isso soando mais como uma teoria da conspiração. Segundo: poderia estar cometendo um crime ao mantê-la tanto tempo sob seu segredo. E, por último e talvez o mais importante, ele não queria que ela fosse embora. Seu corpo todo emanava aquela sensação de proximidade com algo que ele mal sabia o que era.
Tanto que o trajeto para casa fora feito extremamente rápido quando o relógio finalmente completou as dez voltas em horas inteiras, mesmo que o trânsito estivesse cheio pelo horário. O carro foi estacionado de qualquer forma em sua garagem subterrânea e seu corpo vibrava, como se estivesse tão conectado àquilo que lhe dizia para ir rápido. E, ao abrir a porta, se surpreendeu, mesmo que seu sexto sentido já o tivesse preparado, pois sua casa estava completamente revirada e muitas coisas estavam quebradas no chão. Incluindo seu boneco de cera de Tony Stark.
— Latchi?
Chamou pelo animal, preocupado, fechando a porta e caminhando por entre os objetos para a esquerda de sua porta, em direção ao corredor que levava aos quartos e banheiros. Mesmo procurando em detalhes e o chamando, não encontrou nada em nenhum dos cômodos. “Também, embaixo de tanta zona”, pensou. Então retornou pelo mesmo caminho, indo diretamente para a cozinha, já que sua sala era aberta e não tinha a presença de nada além da bagunça.
— Latchi, cadê você amigão? — tentou mais uma vez.
Foi reto dentro da cozinha, direto para a área em que era para ser usada como lavanderia, ainda sem encontrar nada. Respirou fundo e se virou de frente para o caminho que tinha feito, parado no lugar e com as mãos na cintura. Seu peito subia e descia pela respiração descompassada só de pensar que algo de mau poderia ter acontecido com seu melhor amigo.
Centralizou os próprios pensamentos e abaixou o rosto para o chão, notando pelo seu canto direito, no vão entre a geladeira e o balcão, uma luz. Esticou o pescoço e avistou um corpo encolhido, abraçando as próprias pernas dobradas.
Era ela.
Limpou a garganta para dizer:
— Eu não sei se você me entende... Mas–
— É claro que eu te entendo!
Para sua surpresa, a resposta veio e não foi nem um pouco adorável.
Sem saber o que dizer, começando a assumir estar assustado, decidiu perguntar por Latchi.
— Onde está Latchi?
— O que é Latchi? — ela o devolveu também perguntando, encolhendo-se mais. — Aquele ser que anda com os braços tocando o chão?
— Aquele ser é um mamífero quadrúpede. É um gato. Felino. Você não sabe o que é? — A respondeu, tomando cuidado com seu próprio tom para não soar desrespeitoso ou grosseiro, não era de sua intenção assustá-la.
Mas o que recebeu foi uma breve pausa, podendo observar que a luz brilhante de seu corpo estava bem menos intensa que antes. Enquanto analisava aquele detalhe desconhecido, que ele não tinha menor noção de por onde começar a perguntar, ou se devia de fato, notou que o rosto já não era mais sereno e parecia um tanto rígido.
— Da constelação eu não consigo identificar qualquer coisa que não seja você. Afinal, foi para isso que fui criada.
deu um passo para trás, sentindo o vinco se formar em sua testa quando foi tirado de sua própria redoma ao ouvi-la falar.
— Por que a surpresa? Você fez um pedido e agora estou aqui. — e novamente ela se encolheu.
Ela rolou os olhos, relaxando o corpo, mas parecendo se irritar profundamente com algo e encolheu-se novamente. a ouviu suspirar pesado, o que lhe chamou a atenção. Mas ele continuava confuso e sua última fala estava o deixando completamente sem esperanças de compreender algo.
— Como assim eu fiz um pedido? — perguntou num sopro de voz, ainda com o mesmo vinco.
— Ah... Desculpe-me, eu esqueço que vocês humanos não possuem uma memória a longo prazo tão eficaz. — disse olhando para fora do vão em que estava. — Você consegue fazer esse barulho parar? — sem esperar por uma resposta ela o pediu com a voz mais amena, o rosto voltando a ser sereno. Ela parecia com medo e seus dedos trêmulos enquanto apertava as próprias pernas denunciavam o nervosismo, tanto quanto seu olhar arregalado.
desistiu de tentar acompanhar as entrelinhas dela, no momento estava entendendo que não tiraria nenhuma explicação tão fácil ou que ela estava de fato caminhando por essa linha. Teria de caminhar pelos termos da outra.
— Que barulho? — se sentou no chão, encostado na porta do balcão da pia, de frente com ela.
— Aquele que vem daquele espaço. — apontou para a porta da cozinha e ele deduziu que ela falava da sala, que era o espaço assim que saíam dali, antes do corredor. — É irritante e faz minha cabeça doer. — completou, voltando a se encolher no vão.
— De onde você vem não tem carros? — diminuiu o volume da voz, encolhendo suas pernas.
Ele foi encarado de forma meio cética por breves segundos.
— Não sei o que são carros, mas se vocês deram esse nome para as naves que usam aqui nesse planeta, nós temos sim. Na verdade, todo planeta povoado tem, só que nenhum é tão barulhento e irritante como este. — finalizou, levando as mãos aos ouvidos. — Por favor, faça parar!
respirou fundo, conectando o que ela disse ao que se sabe de modo comum sobre o espaço: não tem como ter som, pois na imensidão possui o vácuo. O que apenas refletiu ao que ela tinha dito sobre não observar nada além dele da constelação em que vivia. Logo, sua conclusão de que ela era um ser extraterrestre não estava equivocada.
Se levantou e caminhou lentamente até a sua sala, buscando fechar todas as janelas que estavam abertas não só ali como no apartamento todo, sempre cuidando para não tropeçar nas coisas caídas no chão. Além de não banir a preocupação quanto ao bem-estar de Latchi.
Ao retornar pelo corredor, saindo de sua suíte, viu ela de pé em frente à janela da sala que não tinha as cortinas fechadas. Ela parecia completamente vidrada no horizonte de prédios e luzes da cidade que já estava abaixo do céu anoitecido. Parou a poucos metros atrás dela, pegando do chão o boneco de plástico de um personagem de anime e colocando no pequeno aparador abaixo da televisão fixada na parede.
— Você tem um nome? — perguntou colocando as mãos nos bolsos e parado no lugar.
Ela se virou, o rosto sereno dando a ele um alívio a mais novamente. Talvez aquela irritação anterior fosse mesmo por conta do costume nulo com som.
. — abraçando ao próprio corpo coberto por aquele vestido fino, o respondeu.
— Bem, eu não sei se você sente frio, Habab
foi cortado pela risada dela, algo sonoramente tão apreciável que ele acreditou imediatamente que poderia ouvir aquele som para o resto de seus dias.
— Não é Habab! — repetiu ainda rindo. — Me chame de estrela, é mais fácil. Você claramente não saberá dizer meu nome.
Ele sorriu minimamente de lado, divertindo-se. E mesmo que naquele momento estivesse parecendo imerso naquela calmaria, por dentro continuava extremamente preocupado com o paradeiro de Latchi.
— Então, como eu estava dizendo... Quer tomar um banho e colocar roupas quentes?
— O que é banho? — perguntou completamente sinuosa.
Por um momento não soube se deveria explicar ou como seria o correto. Deveria ajudá-la? Colocar algum vídeo na internet?
Ele não sabia.

A ideia inicial era de colocar um vídeo em seu tablet e deixar que ela entendesse e compreendesse como tomar um banho. De primeira instância ele logo pensou que ela nunca tinha tomado um banho e que provavelmente aquela forma humana não era a sua natural, o que era compreensível, se ela era como as estrelas no céu, então era uma esfera formada por calor. Logo, fazia-se comum que não tivesse um banho.
Porém, estava extremamente suja por conta de ter caído e formado um buraco de terra. Sua sugestão de tomar um banho era simplesmente baseada no senso comum. Mas teve o aceite, apesar da confusão do rosto da estrela.
Então tentou o tablet, mas na internet não tinha nada que não fosse algo explícito, portanto, desistiu disso e acabou por ir para o banheiro com ela. Talvez se ele enchesse a banheira e colocasse alguma coisa na água que a deixasse menos transparente, ela entraria e ele auxiliaria de alguma forma.
Ao entrar no metro quadrado, foi direto para a banheira, sentando-se na borda para ajustar a temperatura da água e a quantidade. Ao se levantar e virar-se de volta para , se assustou, porque ela estava completamente nua em sua frente. Em um ato de reflexo, exclamou qualquer coisa, cobrindo os olhos.
— O que foi? Tem algo errado? — ela perguntou.
— Você... — disse sem raciocinar, caminhando às cegas pelo banheiro em busca da toalha pendurada na parede. — Toma, se cobre com isso. — a entregou o pano. moveu o rosto de um lado para o outro, encarando-o confusa, tentando não se ofender com ele.
Estendeu o braço e puxou a toalha, colocando-a superficialmente à frente de seu corpo.
— Pronto. Se é errado, por que o seu felino não usa roupa?
Ele tirou a mão do rosto lentamente, para ter certeza de que ela estava coberta.
— Porque ele é um animal de estimação e tem pelos.
— Mas esse corpo também tem pelos. — Ela olhou por baixo do tecido atoalhado. — Igual ao seu. — apontou para ele.
Ficar sem resposta foi uma coisa que gerou um silêncio profundo. mantinha as mãos na cintura e a encarava enquanto ela segurava a toalha em cima do corpo, olhando-o de volta com toda sua curiosidade.
— Vai ficar me olhando ou a gente vai fazer esse negócio? — o questionou impaciente.
Piscou algumas vezes ainda olhando na direção dela.
— Bem, eu vou ficar de costas e você entra na banheira, vai se sentar nela e o seu corpo vai ficar todo coberto por água. Eu coloquei alguns sais de banho que deixam a cor mais escura...
Enquanto ele explicava, ela se aproximava, parando mais próxima da banheira e olhando para dentro dela. olhou para o lado, mas novamente desviou o olhar para outro ponto, já que o corpo dela não estava totalmente coberto.
— Qual é a sensação disso?
Virou o rosto para o dela, trocando o olhar um tanto profundo.
— Molhado. — deu de ombros. — Vou me virar agora e você pode entrar, como ela ainda está enchendo, quando seu corpo estiver todo coberto, você me avisa.
Ela assentiu e ele assim o fez, dando para suas costas largas.
Não demorou muito para que ele ouvisse o barulho do corpo dela entrando na banheira.
— Isso é muito estranho. — Ela reclamou. — Acho que já pode virar, tem água até o meu pescoço.
E assim ele o fez. Ficou aliviado que ela estava certa e se aproximou, fechando a torneira da banheira.
— A temperatura está boa?
— O que é temperatura, ?
— É o nível de calor em um ambiente ou até mesmo no corpo. — explicou, se sentando na borda da pia, enquanto dobrava as mangas de sua camisa social. — Por exemplo, essa água está em 38 graus, é uma temperatura considerada comum e recomendada para um banho. Chamamos isso de água morna.
— Ah... — ela murmurou. — É como a sensação que o Sol causa. — completou, passeando a mão pela superfície da água.
— Você fica muito perto do Sol?
— Não e sim. Depende da ótica. Para estrelas de cuidado, como eu, ele é algo intocável. Principalmente para quem não passou pelo renascimento.
Parecia ter uma certa melancolia em sua voz, como se estivesse pesando algo em sua história. Mas não queria ser indelicado e a forçar a dizer nada, apenas prosseguiu com o diálogo. Estava confortável naquela conversa e em como estavam fluindo. De acordo com o passar daquele tempo ele compreenderia, disso tinha certeza.
Vendo-a brincar com a ponta dos dedos na água, se esticou para pegar a esponja de banho. Era nova, aquele banheiro no meio do corredor não era usado por ninguém, até porque morava sozinho e não recebia muitas visitas; exceto por Lyah, uma ex-namorada que havia muito tempo que não sabia sobre, apesar de morarem no mesmo prédio.
— Eu vou passar essa esponja nos seus ombros e depois você faz isso no restante do seu corpo quando terminar de lavar seu cabelo. Tudo bem?
Ela apenas murmurou um “uhum”, assentindo várias vezes e rápido.
Enquanto passava o objeto pela pele brilhante dela, ficou curioso sobre o brilho e a possível teoria que envolvia aquilo, mas achou que por ser algo íntimo dela, seria um pouco cedo para perguntar. Apesar de estar sendo aberta com ele, de certo modo, ainda não havia se aberto totalmente.
Paciência era algo que possuía e muito.
— Posso perguntar novamente onde está Latchi agora você já sabe o que ele é? — optou por este assunto, colocando a esponja no suporte atrás dela.
— O seu gato-felino-quadrúpede-mamífero estava muito irritado, então eu sugeri que ele fosse com aquele barulho para fora.
— Você o quê? — sua voz aumentou uma oitava.
— Eu abri aquela coisa que tem de frente com o enorme espaço barulhento e ele saiu rápido como um meteoro.
Suspirou, imaginando que Latchi provavelmente teria corrido para algum andar do prédio, ou até mesmo o terraço.
— Se chama porta e sala. Você abriu a porta de entrada do apartamento que dá direto na sala. — a encarou, dizendo um tanto robótico. — Bem, agora você vai descer a cabeça para dentro da água e voltar, apenas para molhar o cabelo e eu poder lavar ele com shampoo.
estava olhando atentamente e fez o que lhe foi orientado; ela não demorou muito embaixo da água, voltando para a superfície com uma careta e os olhos começando a ficarem vermelhos. se perdeu um pouco nas íris dela, mas logo fez o que havia citado e lavou o cabelo longo. Quando terminou o que podia ajudar, a deixou sozinha, depois de explicar como ela deveria colocar a camisa e a calça que ele havia pegado em seu armário, falando sobre a ordem da etiqueta, braços e pernas.
No outro dia ele compraria algumas peças de roupas femininas para ela, preferencialmente de frio.
Saindo do banheiro e deixando a porta apenas encostada, fez o caminho para a sala. Iria ligar na portaria do prédio avisando sobre Latchi e pedindo que quem o encontrasse fizesse a gentileza de devolver o felino para seu lar. Porém, quando pegou o interfone na mão, ouviu toques leves na porta e foi em direção a ela.
Não acreditou quando viu o rosto de Lyah pelo olho mágico. Seu coração acelerou levemente e ele não sabia dizer se era por vê-la em sua porta ou por ela estar com Latchi no colo, o gato estando totalmente à vontade nos braços da ex de seu dono, como se ainda fossem grandes amigos — e pelo que ele lembrava, Latchi adorava a presença dela, assim como gostava de dormir nos pés dos dois em noites frias como aquela.
Abriu e, recebendo um olhar arregalado de Lyah, ele sorriu com um pouco de vergonha. Seu lado introvertido, como sempre.
— Me desculpa... Eu atrapalhei? — foi a primeira coisa que ela disse, olhando-o de cima a baixo.
— O quê? — seguiu o olhar dela e então só assim notou que estava completamente molhado e com a camisa branca totalmente transparente em seu abdômen. — Ahn, não... eu... — olhou em direção do corredor, mirando a luz que saía pelo vão da porta e suspirou. — Estava lavando as coisas do Latchi e acabei tendo um pequeno acidente. — justificou. — Inclusive, aí está o fugitivo.
— Sim! Cheguei agora a pouco do trabalho e ele estava em minha porta. Acho que sentiu saudades. — ela riu, fazendo carinho no topo da cabeça do gato.
— É...
— Bem, aqui está seu filho. — Lyah estendeu o gato e então conseguiu observar a situação dentro do apartamento, atrás de . Franziu o cenho e, de forma divertida, disse: — Acho que não era saudade, ele fugiu do seu provável sermão por ter colocado sua casa abaixo.
novamente seguiu o olhar e percebeu do que ela estava falando.
— Ah, isso? Não foi ele. — disse sem medir.
— Não? E quem mais estaria na casa do tão solitário se não o Latchi?
Ele recebeu a pergunta como uma bigorna caindo em sua cabeça. Então era assim que todos sempre o viam, o grandíssimo solitário. Era por isso que Jeon Lyah havia terminado com ele então? Aliás, não poderia ter outra pessoa em sua casa? Era fora de padrão para ele?
E ela pareceu notar o infeliz comentário, pois corou e murchou o sorriso.
— Me desculpa, eu falei sem pensar. Toma. — apenas esticou o gato, mas Latchi parecia não querer ir com e soltá-la. Ele logo captou o motivo, era medo de . — O que foi, meu bem, quer ficar com a titia Lyah?
— Eu acho que deveria ser saudade sua mesmo.
— Posso deixar ele em casa enquanto você arruma aqui. Te ajuda assim?
— Bastante! — ele sorriu, de fechar os olhos.
— Então até mais tarde, papai! — Lyah disse com a voz infantil e saiu às pressas, totalmente envergonhada pelo comentário.
Quando fechou a porta, sentiu a presença de do lado direito, no corredor. Era impossível não notar ela e seu brilho. Virou o rosto e a viu parada como uma estátua, usando sua roupa completamente larga e enorme no corpo brilhante, com os cabelos pingando água e um tanto molhada ainda. E ela tremia.
O que fazia total sentido: se ela era um ser de calor, seria mais do que normal estar com frio depois de sair quase ensopada daquele jeito, tomando a corrente de ar frio.
— Me desculpa, esqueci de te dizer que precisava se secar com a toalha antes de se vestir. — Ele sorriu simples caminhando em sua direção.


estava cansado de sua reunião que durou a tarde toda na quinta-feira. Pelo menos até aquele dia já tinha tido um certo progresso com — quanto a ela viver em um meio humano, não sobre de fato o que a trouxe para ele, já que havia compreendido que ela tinha que estar com ele, e ele provavelmente uma hora ou outra descobriria o porquê.
Estava gostando da companhia, de ensiná-la as coisas e ter sua atenção tomada por outra pessoa que não fosse Latchi. E por falar no gato, era o dia de pegar ele na casa de Lyah, já que o mesmo ficou com a mulher por três dias seguidos. Quando saiu do elevador, afrouxando um pouco de sua gravata para se sentir mais à vontade, caminhou pelo hall, parando na frente da porta de Lyah. Tocou a campainha e logo foi atendido por ela, toda sorridente e com Latchi no colo.
— Olá! — ela o cumprimentou cordialmente, curvando-se, e ele fez o mesmo.
— Espero que ele esteja preparado para ir embora hoje.
— Vamos tentar. — Lyah esticou o braço e Latchi não recusou, indo para o colo de sem brigar. — Olha só! Isso agora é saudade do pai e de casa!
Ele riu, deixando um beijo no topo da cabeça do felino e sorriu fraco.
— Obrigado, Lyah — agradeceu com o sorriso de fechar os olhos.
Eles se encararam por aquele curto período de tempo e se sentiu nostálgico, lembrando-se do tempo em que estiveram juntos. Não foi rápido, não foi longo, mas ele se lembrava bem de como se sentia na companhia dela e como era bom. O fim se deu pela forma como ele trabalhava demais e se dedicava ao máximo, enquanto Lyah ainda estava estudando para se formar.
Se não estivesse errado, fazia cerca de um ano desde que haviam terminado.
Desde que ela tinha terminado com ele.
“Você não me dá atenção o suficiente. Não me leva para lugar nenhum e não me dá coisas caras como o seu amigo dá para a esposa dele.”, foi o que ela disse. E ele até entendeu e chegou a respeitar aquela decisão e o espaço que Lyah pediu. No fundo, seus traumas de infância, com o pai violento e a perda de sua mãe, criou uma película grossa contra tudo e todos.
Então aceitava que Lyah tivesse tomado a atitude de se autovalorizar, porque no pensamento dele, era isso o que ela tinha feito, tentado buscar o melhor. O que ele não tinha sido para ela.
E o miado de Latchi foi a quebra de clima para eles.
— Bem, é melhor irmos. Obrigado mais uma vez por cuidar dele, Lyah. Fico te devendo essa.
— Eu vou cobrar, sim? — ela riu. — Que tal um jantar qualquer dia desses? Mas não aqui, eu continuo péssima em cozinhar.
Dessa vez o sorriso dele foi amarelo, um pouco constrangido. Por fim acenou e saiu em direção ao elevador novamente. Durante o tempo que fez até seu apartamento ficou pensando sobre a proposta dela e como Lyah tinha sido muito solícita nos últimos dias, não que ela fosse sem educação com ele após o término, mas ele se lembrava que pouco a viu ou ouviu falar sobre ela.
Ela parecia estar interessada novamente. Mas ele deixaria isso de lado, talvez estivesse interpretando tudo errado.
Quando abriu a porta de casa, Latchi pressionou as garras em seu peito, conseguindo perfurar o tecido grosso do sobretudo e as camadas seguintes que eram do blazer, o suéter de lã em cima da camisa, que tinha uma fina camiseta de mangas compridas preta por baixo — bem protegido do frio, claro. O gato estava assustado e provavelmente com medo de encontrar , já que ela também teve medo dele e acabou por assustá-lo. Uma conversa com ela e as coisas um pouco mais claras serviu para que ela entendesse que ali era a casa dele também e que seu companheiro de quatro patas tinha que voltar.
Entrou cautelosamente no apartamento, encontrando um silêncio descomunal ali dentro. Dos dias que haviam se passado desde que tinha acordado, houve uma certa evolução, ele conseguiu ensiná-la coisas básicas para que ela ficasse bem ali dentro enquanto ele estivesse fora por causa do trabalho. Ela não comia, não era necessário, mas a ensinou pedir comida pelo aplicativo mesmo assim; também a ensinou que na parede da sala não era uma folha preta fixada e sim uma televisão, ensinando-a ligar e escolher canais, explicando para que servia aquilo, o que lhe rendeu tempo contando e tentando significar o que é entretenimento.
Ela era dos céus e pelo o que ele entendeu, só sabia coisas sobre ele, sua personalidade e essência, nada fora disso.
— Alguém em casa?
Pensou em chamar pelo nome dela, mas decidiu que não era uma boa decisão, já que ele ainda não conseguia pronunciar corretamente.
Resolveu ir pelo corredor, ainda com Latchi em seu colo, caminhando lentamente sob a luz que estava acesa da sala.
— Eu tenho uma coisa incrível para você!
O grito de se misturou ao miado de Latchi, este segundo que pulou para o chão quando gritou de volta, assustada com a reação dos dois e principalmente com o felino.
— Ele me assusta! — ela disse apontando em direção ao gato, que estava entre as pernas de .
— E você também assusta ele! — a devolveu no mesmo tom, olhando-a de cima a baixo. A estrela usava seu conjunto de moletom preto favorito, suas meias de dedinhos do Naruto e estava sorridente quando surgiu em sua frente, saindo da primeira porta, que era a do banheiro.
— Mas eu não estou acostumada com ele.
— E nem ele com você!
— Mesmo? Ele me olha daqui, me vê brilhar lá em cima, eu não vejo nada além de você. Já disse. — o sorriso nos lábios de deixou o tom sarcástico sobressair em sua fala. arqueou a sobrancelha, a olhando incrédulo.
— Não acredito...
— No quê? — o questionou levando as mãos para a cintura, olhando para baixo e vendo Latchi se aproximar devagar de suas pernas, a cheirando primeiro. Permaneceu estática no lugar.
— Você está ficando mimada em suas respostas, está assistindo muita televisão e agora sabe usar de sarcasmo! — a respondeu rindo. Olhou para o mesmo lugar que ela estava encarando. — Não se mova, ele está dando o primeiro passo nessa relação. — disse baixinho.
Sabendo que estava sendo observado, Latchi parou de cheirar os pés descalços e cobertos pela meia, olhando para cima antes de desfilar por entre as pernas de , ronronando e passando sua cauda peluda por ela.
— Pronto, amizade iniciada, o próximo passo é o seu.
— O quê? Eu não... — olhou para baixo novamente, suspirando. — Tá, que seja — olhou para de volta. — Eu tenho uma coisa incrível para você!
Novamente a animação dela retornou, o contagiando de uma forma muito íntima. Ele sentia como se pudesse ter total noção do quão animada ela estava.
— Sou eu quem vai te ensinar desta vez! — sorriu abertamente.
Vidrado era a palavra certa, porém insuficiente, para definir o estado de com aquele momento. Por mais que estivesse cansado do dia que tivera e quisesse muito ir para sua cama depois de um bom banho na banheira, não se sentia nem um pouco incomodado e indisposto para passar aquele tempo com ela.
— E o que você vai me ensinar? — perguntou enquanto desabotoava o sobretudo.
— Meu nome.
— Ah... Mas a gente já passou tanto por isso! É Habab!
— Não, ! — revirou os olhos para ele, contendo a vontade de lhe dar um empurrãozinho.
Ele achou extremamente adorável o bico dela, claro.
— Está bem... E como vai ser? — sorriu fraco dobrando o sobretudo em seu braço.
— Hoje, naquele negócio que você disse chamar vanal-
— CA-nal, é canal! — corrigiu, querendo rir, mas se esforçando para não a deixar constrangida, ela ainda estava aprendendo alguns termos.
— Tanto faz. Eu vi eles falarem algo sobre apelidos, acho que é isso...
— Sim, apelidos.
— Então... — bateu palminhas ainda animada. — Me surpreende que você não tenha pensado nisso antes, humano. Completamente lastimável. — fingiu uma falsa decepção e continuou: — Mas tenho a solução para seus problemas e... Aquela folha na parede é realmente muito inteligente. Achei adorável que eu posso ser chamada de !
permaneceu em silêncio, a encarando. Ele queria demonstrar mais que estava animado e contente por aquilo, mas estava realmente muito cansado. Tomaria apenas um banho para se reanimar e se dedicaria a ela mais uma noite seguida.
— Então para comemorar que agora você tem um apelido, estrela, vamos comer fora hoje. — sugeriu, sorrindo de lado.
— Segundo o que eu li na folha menor, posso dizer que você está usando plural e isso implica mais pessoas. Eu não como, logo, é você e outra pessoa!
— O quê? — A voz dele saiu um tanto esganiçada. — Não... — riu fraco. — Só eu e você. Talvez o Latchi, se ele quiser subir no terraço, mas duvido. Me desculpa, eu esqueci que você vive de fotossíntese.
— O que é fotossíntese?
— Pergunta para a folha menor, ela vai te responder.
Passou por ela, tocando em seu ombro com a mão levemente e mal notando o que acabou fazendo. Apenas quando entrou no quarto e fechou a porta, deu atenção àquela corrente elétrica que passou por todo seu corpo. Não tinha como ele ignorar.
Pediu alguma coisa aleatória pelo aplicativo de delivery e foi para seu banheiro, pensando sobre como se sentia na companhia de .
, agora ele poderia se referir a ela de alguma forma. E achou que realmente combinava com ela.
Durante o banho, que acabou sendo no chuveiro mesmo, refletiu sobre os dias que estavam passando e como ele não queria que aquilo fosse com tempo limite. Sentia que teria muitas coisas para aprender com e a ensiná-la também, já acreditando sobre sua aparição ser totalmente proposital para ele.
E se fosse mesmo, iria aproveitar cada momento.
Quando estava pronto, vestido com o moletom mais quente que tinha, além de seu favorito, a chamou e juntos foram para o elevador. Era a primeira vez que saía do apartamento, então ele teve o cuidado de lhe dar protetores para o ouvido e ainda colocar um protetor maior que pegasse toda sua orelha e a protegesse do frio. O resultado? Ela estava parecendo uma bola de tanta coisa para blindar o frio.
— Eu não sei porque você não usa as roupas que te dei. — disse para ela dentro do elevador, esfregando as mãos cobertas por luvas grossas.
— Gosto dessa combinação aqui. É confortável e... eu me sinto como se estivesse sem roupa. O que é normal, já que uma estrela não usa roupas.
moveu os olhos para olhá-la de canto e riu fraco.
— Mas aqui você não é uma estrela, .
Disse quando as portas se abriram e saiu antes dela, que ficou parada no lugar com a fala dele a impactando.
— Você não vem? — se virou para trás ao notar que ela não estava o acompanhando. — Aqui não tem tanto barulho e você está bem protegida. — completou, movendo bem os lábios para que ela entendesse o que falava, já que seus ouvidos estavam com aquele tanto de proteção.
— Por que você está falando comigo como se eu fosse uma estranha? — fez uma careta, voltando para a realidade daquele momento e saindo do elevador.
— Porque você está com dois protetores no ouvido. Seria normal não ouvir o que eu digo a uma longa distância.
— Ah... Faz sentido!
olhou para frente, por fim, tendo a visão do imenso mar de prédios iluminados por suas luzes e pela Lua um pouco tímida depois da camada grossa de poluição. Ele levou o olhar direto ao dela e não pôde evitar sorrir com o brilho que surgiu em cada uma de suas íris de cores marcantes. E também podia sentir que ela estava encantada, o que passou para ele a mesma sensação boa e aconchegante.
— Gostou?
Não o respondeu, apenas ergueu o rosto olhando para cima, enquanto caminhava até o parapeito do terraço, com andando logo atrás de si, preocupado. Não colocaria em prova a dúvida sobre a resistência dela, se era mortal ou não.
— Eu... — apontou para cima, olhando-o. — Eu consigo ver Ehra — sorriu.
— E quem é Ehra?
— Eu e ela saímos da mesma cadente. Mas o beliz dela esteve pronto para ela quando tinha quinze anos, então ela veio. — novamente olhou para o céu, recolhendo o braço para baixo do cobertor que a enrolava. — Ela foi uma das melhores estrelas do cuidado que a nossa constelação já teve. E tão nova fez história porque o beliz tão logo conseguiu o que pediu, pela capacidade dela.
— O que é um beliz? — se aproximou mais, ficando entre o espaço do parapeito e o corpo dela.
— Os humanos que fazem pedidos às estrelas. — ainda olhando para o mesmo ponto, continuou: — A sua comida vai esfriar.
Entendendo que era a deixa dela para não responder a mais nada tão profundamente, suspirou, indo até a mesa que tinha ali e que já estava com seus pedidos. Enquanto tirava tudo dos envelopes e arrumava, mirava a direção dela entre um feito e outro, garantindo que estivesse ainda no mesmo lugar e não se arriscasse na beirada do prédio.
Ela estava tão vidrada com a visão que tinha acima de sua cabeça, que não desviava o olhar ou sequer se movia e ele se prendeu àquela cena, tão encantado quanto. Enquanto ela falava sobre Ehra, com toda aquela admiração, ele se lembrou de como admirava sua mãe e a força que ela teve por tanto tempo, mesmo quando ele ainda não compreendia de fato todas as coisas ruins que ela passava e dizia que passaria novamente se fosse para protegê-lo.
se viu em naquele momento, encantado e encontrando forças em algum outro ser forte para prosseguir.


Era um grito alto e estridente, algo como uma chaleira no fogo, e se levantou assustado. Estava dormindo no quarto de hóspedes desde que havia chegado, porque sua cama era mais confortável para ela. Então saiu correndo e esbarrando nas coisas que tinha pelo caminho, mal se preocupando em colocar uma camisa — mesmo no frio, ele não conseguia dormir completamente vestido.
Entrou no quarto sem bater, acendendo a luz ao mesmo tempo que Latchi subia na cama, indo para o meio das pernas de . Ela estava sentada de frente, com seus cabelos bagunçados, o rosto amassado e olhos completamente opacos e perdidos. Parecia extremamente assustada e tremia, segurando o cobertor na altura de seu peito, que subia e descia rápido demais para o comum.
? O que houve? — adentrou o cômodo rapidamente, indo em direção a ela.
— Eu... Eu... — ela mal conseguia formular o que dizer. — Eram imagens... Eu estava aqui... — olhou aflita para a cama. — Sozinha, ! Você tinha me deixado sozinha e eu... eu... eu virei poeira interestelar. Ehra não me ouvia, Zhael não me via e você...
Ela estava desesperada e o movimento que pareceu mais certo para foi de se sentar ao seu lado e a abraçar.
— Calma... Isso foi um pesadelo. — Enquanto afagava os cabelos dela, disse a tranquilizando, sentindo o corpo brilhante embaixo de si trêmulo.
, eu não posso virar poeira interestelar! Eu não posso ser o vácuo entre uma estrela e outra, isso é ser...
fez uma pausa e ele se afastou, sentindo-a mais calma e menos trêmula. Buscou os olhos dela, mas não encontrou o mesmo brilho de sempre, ela estava submersa nos próprios pensamentos e parecia extremamente perdida e assustada, assim como ele ficava quando via a violência em sua casa, porque aquilo cortava seu coração e sua alma.
? — chamou, ousando levar a mão ao seu queixo, fazendo-a olhar em seus olhos, com os rostos bem próximos. — O que você é exatamente, ?
Ela o encarou finalmente, mas o rosto sereno com o qual ele já estava acostumado agora parecia cansado e derrotado. Abraçou o próprio corpo e então suspirou, iniciando:
— O que cai não é uma estrela, você sabe disso... — Ele assentiu, abaixando a mão e pegando na dela, de forma cuidadosa. — Quando o corpo celeste está entrando na atmosfera terrestre, emite uma energia muito forte e a cada pedido que alguém faz para a tal estrela cadente, uma estrela do cuidado nasce em alguma constelação. Para cada um, de forma individual.
Demorou, mas em um certo momento, raciocinou em sua memória de longo prazo. E ela pareceu perceber ou ler a mente dele, pois sorriu de lábios fechados. A partir deste fato, ele concluiu que era o seu pedido da noite de 1995, quando colocou sua confiança nas palavras de Ye-Jun, ao ver uma estrela cadente. O que o frustrou em grande parte de sua infância, já que não teve seu pedido atendido.
Não tinha conhecido a felicidade e não houve a inversão de papéis com sua mãe, era sempre ele a acalmá-la na varanda da fazenda.
— Nós não caímos no momento exato do pedido ou quando vocês querem de fato... É quando estão preparados, .
A voz de estava soando em um tom consolador, e por mais que ele estivesse se sentindo um tanto confuso em como deveria de fato se sentir com aquela informação, apenas não conseguia culpá-la ou agir de forma rebelde. Também não era como se ela fosse capaz de mudar muitas coisas de seu destino.
— E por que em seu sonho Ehra não te ouvia? — resolveu dar continuidade ao assunto, ainda segurando a mão dela, que já voltava a estar na temperatura que deveria estar.
— Quando uma estrela de cuidado não cumpre com seu papel, ela não pode retornar.
— Então ficam aqui, na Terra? — de algum modo, ele não conseguiu se sentir mal por isso, talvez fosse seu egoísmo falando.
Mas negou com a cabeça, mordendo o lábio.
— Não podemos ficar em lugar algum.
— E para onde vocês vão? — sentiu um leve sopro no peito com o olhar ainda opaco dela se tornando mais distante.
— Viramos poeira interestelar e uma poeira interestelar é totalmente solitária. Ela fica no vácuo entre as estrelas e, ao contrário do que parece, não brilha e não sente nada.
— Seria como–
— Seria como uma pedra.
Apertou a mão dela, mantendo o contato visual, querendo que ela entendesse através disso que era sua forma de dizer que entraria em qualquer situação necessária para que isso não acontecesse.
— Foi apenas um sonho ruim, você não vai virar poeira. — disse, a puxando para um outro abraço.
— Eu não quero ficar sozinha, . — choramingou no ouvido dele.
— Mas você não vai, estará com Ehra e todos os outros. — mesmo que o incomodasse a ideia de ela voltar, aquele era um momento em que ele não poderia usar do egoísmo.
— Estou falando de agora.
A mão livre de foi até o ombro de de forma delicada e ele seguiu o olhar para o dorso brilhante, notando como estava mais opaco do que ele se lembrava.
Ela estava ficando opaca e isso estava o preocupando e dando aquele aperto estranho no peito.
— Você quer que eu durma aqui? — perguntou, recebendo um aceno positivo dela, completamente silencioso.
Quando ele soltou a mão dela e ela recolheu a própria, viram um tanto de pó cobrir o cobertor e o olhar dela recaiu direto para as próprias mãos, com o vinco de preocupação enorme em seu rosto.


Mais dois dias foram o suficiente para que pensasse no que fazer. Era muita coincidência que Latchi fosse parar na porta de Lyah e ela estivesse sendo solícita e novamente estivesse conversando, chegando a encontrar-se no elevador algumas vezes, enquanto estava lá. Analisando tudo o que ele havia ouvido dela somado ao pedido que tinha feito quando criança, deduziu mais uma vez sozinho e sua conclusão foi dar uma chance para a reaproximação de sua ex.
Era sábado à noite e ele estava esperando Lyah dentro do carro, em frente ao prédio. Iriam jantar em algum restaurante que ela mesma havia escolhido e ele, por mais aberto que estivesse em fazer aquilo, estava pensando no bem de e em como não queria vê-la desesperada novamente por conta do perigo eminente de se tornar poeira entre as estrelas. Algum astrônomo havia tido sua pesquisa validada, dizendo que os seres humanos eram poeira interestelar, mas dentro da perspectiva de , isso não soava tão poético ou agradável.
Então ele não deixaria as chances escaparem e iria se esforçar, pelo menos por ela. Não ficaria cego quando alguma chance surgisse em seu caminho e muito menos se prenderia mais em seu próprio mundo, privando-se de viver experiências como sempre fez em sua vida desde o falecimento de sua mãe. queria sair daquele padrão em que estava de homem adulto bem-sucedido que se contentava com a solidão — com exceção de Latchi, ele continuaria em sua vida.
Faria para o bem de .
— Me desculpe pela demora, acabei atrasando no trabalho e consequentemente para me arrumar. se assustou com a porta se abrindo e a voz de Lyah, dando um pulo no banco em que estava.
— Te assustei? — ela perguntou com uma careta, já colocando o cinto de segurança.
— Sim, mas tudo bem, eu estava distraído. — respondeu cordialmente. — Podemos ir?
— Quando quiser, senhor motorista.
Ele sorriu simples para Lyah, olhando por seu para-brisa, na esperança de estar na janela e que pudesse ver seu brilho. Ela parecia muito esmaecida, quieta e preocupada demais, tanto que notou a falta dela assistindo televisão com tanto afinco ou fazendo perguntas aleatórias para o tablet enquanto andava por sua sala descalça e com um short e o seu moletom preto enorme, totalmente largo em seu corpo.
E mesmo que soubesse que ela não chegava perto da janela por medo do barulho que a causava irritação, olhou para lá, suspirando ao dar a partida no carro e sair dali, com a vontade de sequer ter colocado os pés para fora de seu apartamento — não porque não queria conviver com outras pessoas, como de costume, mas porque queria ficar com e dividir a companhia com Latchi, assistindo a algum filme.
Seria legal mostrar todo o universo criativo da Marvel e tocar as melhores músicas do Coldplay em um volume que não a incomodasse.
Lyah se esforçava, tentando o tirar do próprio universo, mas ele não parecia se incomodar de estar recluso daquela forma.
O caminho para o restaurante foi feito apenas com o som do carro ligado e os comentários dela sobre como ele tinha dado um level up na vida, desde a forma como se arrumava, as caminhadas e corridas pela manhã, o carro novo de última geração. Tudo que para ela o fazia mais atraente.
Ignorar não foi bem pela falta de educação, pelo contrário, diga-se de passagem. Seria bom que ele não prestasse tanta atenção em como ela conseguia ser superficial, e se bem lembrava, Lyah era e muito o padrão estadunidense de mulher de elite. O motivo do término que o diga. E o que ajudou a aturar o trajeto, desde sair com o carro até o momento que sentaram-se frente a frente no restaurante, foi pensar sobre sua teoria de que aquilo era exatamente o objetivo para o qual havia descido para a Terra: que ele começasse a viver.
Não parava de pensar sobre isso.
Tanto que a noite passou e mal prestou atenção nas poucas coisas que Lyah disse e que não eram sobre dinheiro ou se mostrando interessada em sua vida depois da promoção da Yhuzek, se tornando um dos diretores do departamento de desenvolvimento tecnológico — fruto de todos os anos estudando, economizando e se dedicando, aqueles mesmos que ela reclamava.
Quando já estavam no elevador e ela finalmente desceu no andar de seu apartamento, ele apenas se despediu educadamente com um aceno e “tenha uma boa noite”. Se sentia esse estranho ao lado dela, como se estivessem começando tudo de novo e fosse demorar mais alguns encontros para que a levasse até a porta e ou pegasse em sua mão ou desse um beijo em sua bochecha — a nível adolescente.
Encontros estes que ele não queria ter, o convencendo de que deveria encontrar um outro método para ajudar , já que aquele não tinha dado certo.
Sua dúvida era se daria com qualquer outra pessoa, já que se sentia apenas vivo e bem-acompanhado estando com ela. No trabalho, estava tudo bem e ele não se sentia fazendo nada em obrigação, pelo contrário, estava trabalhando com o que gostava de fazer, então era agradável. E a ideia de chegar em casa e encontrar com o deixava mais animado e ele não se sentia robotizado como passou a noite com Lyah.
Como se ela fosse sua recarga de felicidade.
Isso, ela era sua felicidade!
Saindo do elevador em seu hall, estava convencido de que havia se apaixonado.
Ele havia se apaixonado por uma estrela.
A sua estrela.


não estava em lugar nenhum do apartamento e Latchi miava sem parar. O peito de estava apertando e ele só conseguia pensar que algo ruim devia ter acontecido.
Ela estava ali horas antes, como em poucas horas havia sumido?
Será que ele tinha falhado miseravelmente e a condenado ao seu maior pesadelo?
Ou tinha sido alguma criação sua?
Revirando seu quarto teve a confirmação para a última e mais cruel de suas dúvidas, o vestido que ela estava usando quando caiu ainda estava lá, lavado e com o cheiro dela. E a falta de qualquer sinal de pó em todos os cômodos e móveis também o deixou mais tranquilo por um tempo.
Derrotado e cansado, se jogou no sofá de sua sala, abrindo os botões da camisa para sentir o ar, já que sentia como se estivesse sendo sufocado pela sua angústia. E foi quando estava se sentindo sem esperanças e se culpando por tudo, desde a queda de até o seu possível fim trágico, que ele se lembrou do terraço e de como ela tinha ficado encantada pela vista dele.
Não esperou pelo elevador, não teria essa paciência, apenas subiu pelas escadas e mesmo não sendo tão distante por morar a três andares de distância, parecia que estava subindo desde o térreo. Tanto que chegou a assustá-la quando rompeu a porta com força e totalmente exasperado.
Ela estava de costas, olhando para o céu e se assustou com a chegada dele, virando apenas o rosto. A troca de olhares foi rápida, porém muito intensa e se sentiu extremamente confortável e bem naquele momento — mesmo que estivesse descalço e usando apenas o jeans e a camisa com alguns botões abertos. A presença dela amenizava tudo.
— Eu não quero que você vá embora. — ele diz em um sopro de voz, querendo se aproximar mais e tocá-la, mas parando os próprios instintos. Não queria vê-la se desfazer em sua frente.
— E eu não quero ir embora, .
— Mas você tem que ir? — deu apenas um passo à frente, levando as mãos aos bolsos para protegê-las da temperatura.
— Não tenho escolha, ou eu vou ou eu... — ela esfrega um pouco do próprio braço e ele vê o pó novamente, desta vez, porém, de forma mais abundante. — Eu gosto de ficar com você aqui e... Me sinto segura.
, qual é o seu... — ele suspirou, segurando-se para não a tocar. — Por que você está aqui?
— Por você. — o mira nos olhos arduamente. — O meu trabalho é te fazer enxergar em si o amor próprio... É te salvar. — suspira, virando o rosto para encarar a imensidão da cidade, com aquela visão do terraço. — Isso tudo não está te perdendo, , você é quem está perdendo isso tudo. — se refere ao que observa, de forma vislumbrada.
— Mas eu estou bem comigo-
— Não está. Se estivesse, eu estaria brilhando, porque eu sou sua extensão, , e estou falhando. E, ao falhar, essa é a minha consequência.
Então ele notou, a falta do brilho não estava mais só no olhar, também estava em seu corpo.
“Mas o que eu estou fazendo?”, se questionou.


Estava voltando de sua caminhada no domingo, abaixo de mais uma reflexão: não era só o que sentia por que o havia feito dar o passo para trás com Lyah, mas sim a forma como havia enxergado que merecia algo melhor, assim como ela também. se sentia incompleto com outra pessoa porque não era de fato apreciado e muito menos respeitado, não como fazia com ele.
Então ele compreendia que não era só por como sentia-se em relação à sua estrela, mas como ela o fazia se sentir. Como o fez enxergar mais de si e não aceitar pouco, se valorizar.
Entrou ansioso em casa para contar a ela sobre como estava se sentindo e a novidade do que havia concluído, talvez ele devesse mesmo ser quem tinha que dar o passo e ela só estivesse ali como o incentivo — do qual ele estava completamente grato ao universo por ser presenteado. Porém, se assustou e sentiu o peito queimar mais uma vez na ausência de qualquer som. Entretanto, ver Latchi sair do banheiro o deu um ponto de sossego.
Caminhou lentamente, não intencionado a entrar no banheiro do corredor, mas a porta estava completamente aberta, revelando uma dentro da banheira encolhida e com todo o chão molhado, como se a água tivesse transbordado.
Entrou logo dizendo:
! Você... Você-
Ela não moveu um músculo ou sequer o olhar, continuou encarando a parede coberta por azulejos brancos e bem limpos em sua frente.
— De alguma forma, eu não derreti hoje. — diz finalmente, porém um pouco séria.
— Isso é muito bom, então. — sorriu.
— Tem alguma coisa errada, . Eu parei de me desfazer, mas não estou brilhando!
— Mas isso não deve levar um tempo de um para o outro?
— Não é assim. Eu sou uma estrela e não um objeto igual à folha da parede que tudo vai carregando até funcionar perfeitamente. — sua voz era funda e estava deixando-o extremamente preocupado.
— É televisão! — tentou desviar um pouco da tensão, sorrindo amarelo.
— Não me importa!
— Olha, a gente pode dar um jeito. Você já não está mais soltando poeira e... — seus olhos demonstraram como estava perdido só com a ideia de perdê-la, mas ela não sabia disso porque não estava olhando para ele. — Você não pode desistir também! eu não posso perder você. Eu não posso... Você é minha felicidade... É você e eu estive esperando... Eu entendo agora do porquê teve que ser vinte anos depois!
Depois de o ouvir descarregar tudo aquilo, virou o rosto lentamente, para o encarar pela primeira vez. Aquele tom de desespero, de medo e o cuidado, a forma como ele estava agindo. Ela sentiu, ele havia confundido tudo e, em uma mente celeste, era por isso que não conseguiria voltar e em algum momento viraria poeira interestelar. Incrédula, ela disse acusatória pelo próprio medo:
— Que merda é essa ? Eu sou um ser do universo, um ovni, um extraterrestre, que seja! Eu não sou humana! Você não pode se apaixonar por mim! Você não podia!
Pela forma como ela foi agressiva e gritou, parecia que ele havia sido descoberto cometendo um crime.
E de uma forma racional, era quase isso.
— Você poderia ter sido mais específica sobre o que veio fazer aqui! — rebateu usando a autodefesa.
— Ah e isso mudaria alguma coisa? Você iria se amar? Você iria aceitar sua vida? Todas as suas terapeutas desistiram da sua desistência, ! Mas novidade para você, eu não sou terapeuta. Eu não sou humana e não posso ficar aqui porque você quer!
Os dois ficam se encarando. Ele sentiu bem fundo suas palavras e sentiu algo molhado em sua face, estranho de qualquer coisa já sentida.
— São lágrimas, você está chorando. — ele a explica, olhando-a nos olhos.
O silêncio é breve, mas como sempre, com o tom de milênios. Olhando-a com expectativa, poderia dizer que ela estava completamente submersa em uma confusão mental totalmente individual e pessoal. O que parecia soar como uma nova descoberta da estrela.
— Por que eu senti tudo em mim doer enquanto gritava com você? Por que eu gritei com você, ? Essa sensação estranha de... Como se eu estivesse sendo esmagada.
— Você não disse que era uma extensão minha? — devolveu a resposta com outra pergunta, abaixando-se para começar a juntar os utensílios que estavam no chão.
— Sim, eu fui feita de tudo o que é de você. Seus medos, seus desejos... Eu sou o seu oposto para te fazer se enxergar.
ergueu apenas o rosto, ouvindo aquilo que há muito aguardava.
Então era sobre isso. Era sobre ele mesmo, nada num plural, ela tinha uma missão e somente isso.
— Isso o que você sentiu é como eu estava me sentindo enquanto você me dizia que eu não podia ter me apaixonado, . É... O sentimento.
Ela encara o chão e as paredes, enquanto ele volta a recolher tudo do chão.
— Enquanto você estava gritando comigo, se sentiu incomodada por isso. E se se sentiu incomodada, é porque gosta de mim. — completou, sem olhá-la.
— Agora eu entendo por que você não se apaixona por si, você tem medo de doer... — ergue apenas o rosto, a olhando de onde estava. fica em pé dentro da banheira. — Não existe ninguém em nenhum mundo que vá te amar mais do que você mesmo, ninguém vai cuidar mais de você do que você mesmo...
Em silêncio, ele se levantou e caminhou em direção a ela, levando sua mão diretamente no rosto morno e molhado por lágrimas. Ela não estava esfarelando e ele estava conseguindo ver nos olhos dela um brilho, não muito forte, mas o suficiente para saber que ficaria bem. Eles sorriem um para o outro de forma genuína, com aquela conversa trocada apenas pelo olhar.
— Eu acho que meu tempo está chegando ao fim. — diz baixinho.
— Você vai poder voltar para o seu lugar. E brilhar. — e ele a responde no mesmo tom, beijando sua testa carinhosamente.
— Graças a você.


O corpo estava leve, a mente parecia limpa e a animação para sair da cama era sem igual.
Caminhou diretamente para a cozinha quando saiu do quarto e preparou um café da manhã digno para uma família com três crianças em fase de crescimento. Mas começou a se preocupar quando as horas começaram a passar e não saiu do quarto.
Em um dado momento, decidiu que iria checar se estava tudo bem.
Ficou confuso ao bater na porta e ela se abrir sozinha, entrando no cômodo totalmente aberto e arrumado, com o tablet ligado em cima de sua cama. O vestido estava lá, mas no aparelho tinha uma pesquisa aberta sobre Namsan e uma aba de áudio gravado.
“Levei o seu moletom e deixei o meu vestido, acho que é uma troca boa, sim? Vai que eu caia em algum lugar frio de novo?”, era a voz divertida de e ele sorriu ao ouvir, sentindo o próprio coração se partir com a partida dela sem despedidas.
— Ela se foi, Latchi. — disse para o gato em cima da cama, recebendo um miado de volta. — Sim, essa casa vai ficar grande novamente.
Suspirou, desligando o aparelho e mirando o olhar por sua janela, encarando a torre no fundo. Ainda era de dia e ele se lembrava que haviam dormido na parte da manhã, logo, não teria como ter voltado para seu lugar durante o claro.
— Latchi, quer que eu diga algo a ela?
Mal esperou pelo miado do felino e já estava fazendo seu rumo para se trocar, o que foi feito em tempo recorde. Tanto quanto sua caminhada até o parque, tão lotado como sempre aos finais de semana.
Decidiu procurar pelo lugar em que ela havia caído, mas se frustrou ao não encontrar nada, apenas a marca do buraco que devia ter sido tampado e a culpa jogada em cima de algum cachorro. Então continuou caminhando pelo parque todo, até se deparar com o caminho para a parte mais alta. Ali seria a sua última tentativa.
Segurou firme no engradado em sua mão e continuou a caminhada, agradecido ao final dela por não ter desistido.
Lá estava , sentada e observando a vista que tinha à sua frente de um lindo dia com meia estação.
...
O sorriso da estrela era enorme, mas não saberia disso. Não porque era uma forma dela de puni-lo por aquele egoísmo, mas porque precisava ser firme e continuar com aquele papel profissional que carregava. Infelizmente, ou felizmente, sabia que não poderia mudar seu destino e sua função. Era uma estrela, feita para estar acima e não ao lado de quem amava.
E para estava tudo bem, porque aquele amor genuíno que ela carregava seria vivido por ele, afinal seria o próprio que carregava e havia tirado de dentro do baú que guardou por muitos anos. Ela era isso, o amor próprio que ele precisava recuperar. Voltar para seu lugar não seria de todo ruim.
estaria brilhando intensamente por ele.
— Você aprendeu a falar meu nome. — ela disse, ainda olhando para frente, o horizonte que tinha em seu campo de visão, sentada ali no ponto mais alto de Namsan.
— Eu tive muito tempo com você para aprender muitas coisas.
se sentou ao lado dela, carregando o engradado com garrafas de soju. Abriu uma e a ofereceu. A estrela virou o líquido e, depois de finalizar o conteúdo, encarando o vidro em sua mão, disse:
— Achei que iria sentir falta de você me chamando de porque não consegue falar meu nome, mas esse tal de soju mesmo sendo pior, consegue ganhar.
— Você pode voltar aqui para tomar quando quiser. — ele riu, batendo o próprio ombro no dela, de forma sutil.
Ela o encarou, incisiva, firme e com aquele brilho no olhar que se acostumou a encarar. Os dois sabiam que a saudade seria maior do que qualquer imensidão do universo — para o caso disso poder ser algo mensurável. Entretanto, na compreensão do sentido total de todo aquele encontro, sabiam que seria benéfico.
— Espero não ter que cair do céu novamente. — disse no tom sarcástico que aprendeu a usar no pouco tempo que esteve vagando pelo planeta Terra, levantando-se por fim. — Se isso acontecer, farei questão de cair em cima da sua cabeça dessa vez.

“Desde a criação do universo, tudo estava destinado. Apenas deixe-me te amar.”
— Serendipity, BTS


Fim.



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