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Última atualização: 15/04/2022

Capítulo 1

Londres, 1835, 10 anos antes.

Ravena Rolland, Lady Rolland, .



Aconteceu alguma coisa dentro da igreja. Eu deveria entrar em cinco minutos, mas pediram para que eu esperasse mais um pouco. Mamãe olhou para mim como de quem achava que aquilo era um sinal divino.
Última chance para desistir.
Voltei a encarar a janela antes de a chamarem para resolver o pequeno contratempo. Assim que percebi estar sozinha na ante sala, puxei um fio solto da manga bufante do vestido.
Mamãe odiava aquele exagero da moda. Ela até achava charmosas as mangas mais discretas... Mas era meu casamento. Eu não seria discreta no meu dia. Todos os olhos estariam no vestido e nas joias que eu usava. Assim como no dia em que as proclamas do meu noivado saíram no jornal, eu seria o tópico da conversa nos próximos dias. A fofoca de que minha mãe não se agradava do noivo pareceu atiçar mais ainda os intrometidos. A única filha do Conde de Dudley estava casando-se com um diplomata espanhol, Alfonso , depois de apenas dois meses de cortejo, contra a vontade da mãe.
Nunca imaginei que, com apenas um olhar, um homem fosse capaz de fazer meu coração bater tão rápido quanto a passada de um cavalo selvagem. Alfonso era capaz de transformar a língua inglesa numa bonita flauta; seu sotaque era sinfonia para meus ouvidos. Além disso, era um diplomata novo e reconhecido entre seus colegas. Quando ele tirou-me para dançar, nem mesmo os que odiavam estrangeiros com tanto fervor foram capazes de negar quão bem nós ficávamos juntos.
?
A voz confundiu-me; estava um pouco rouca, fina no começo e engrossava no final. Era de um menino que estava maturando-se. Não demorou muito para que eu encarasse o dono do chamado.
? Meu Deus, ! 一 exclamei em felicidade. 一 Como você conseguiu vir? E George, ele veio com você?
coçou a garganta para estabilizar a voz. Parecia ainda mais um menino com as pernas finas, as espinhas no rosto e o cabelo castanho escuro maior do que a moda aconselhava.
一 Você está linda 一 disse ele, com um pequeno deslumbramento de quem nunca vira uma noiva de perto. Dei uma pequena volta para que o vestido voasse, não contendo o sorriso.
一 Obrigada! 一 agradeci. , que nunca foi dado a mentiras, deu-me o elogio que eu esperava vir de minha mãe. Tudo que escutei da Condessa de Dudley naquele dia foi “até que não ficou ruim”.
一 Posso te fazer uma pergunta, ?
一 Você já fez 一 cantarolei como se estivéssemos em uma tarde de verão em Ward House. Não éramos mais crianças; ao menos, eu não era, mas sentiria falta dele e de George, meu irmão. Eram bons companheiros de críquete.
não sorriu como ele costumava fazer quando eu zombava dele daquela forma; continuou a falar.
一 Você ama o Sr. ?
Foi a mesma pergunta que meu pai fez-me antes de comprar a minha briga contra a negativa da mamãe. O Conde de Dudley dificilmente iria colocar-se contra a qualquer decisão da esposa, porém eu desfaleci de amor e fiquei dias na cama quando o pedido de Alfonso foi rechaçado sem muita argumentação.
Era engraçado ouvir aquela pergunta de . Ele era ainda um estudante de Eton que, por mais alto que fosse, ainda era mais baixo dois dedos de mim. Do que ele sabia de casamento? Do que ele sabia de amor?
Mesmo assim, repeti o que eu respondi para o papai:
一 Amo-o com todo o meu coração.
Ele deu um sorriso meio tremido, provavelmente não entendia o que eu dizia. Mas entenderia mais tarde, quando fosse um homem.
Chamaram meu nome. Lady Rolland, está na hora.
Respirei fundo 一 ao menos fiz o máximo que o corpete deixou. saiu, desejando felicidades de forma amuada e cumprimentou muito rapidamente minha mãe. Antes de entregar-me ao papai, a voz aveludada dela sugeriu mais uma vez:
一 Você só tem dezesseis anos, , irá fazer dezessete muito em breve. Quer mesmo tomar essa decisão agora? Não acha que ainda tem pretendentes para conhecer e bailes para visitar? Quer mesmo ir para Espanha?
Meu peito se apertou. Senti-me constrangida por escutar aquelas palavras mesmo que uma atitude de hesitação fosse criar um falatório que eu nunca poderia superar. A Alta roda iria me comer viva. Minha mãe sabia disso. Por que, então, insistia em não confiar no que eu sentia? Por que odiava tanto o meu noivo?
Retirei meu braço do seu e dei-lhe uma última olhadela.
一 Você me decepcionou, mamãe. Pensei que confiasse mais em mim.
Eu nunca me perdoarei por ter usado as mesmas palavras que ela dizia ao dar-me bronca quando criança. O adeus pós-casamento foi tão ameno que as lembranças fugiram da mente. Só me lembrava dessas: “você me decepcionou, mamãe”.
Dois meses e meio depois, quando ainda estava encarando a realidade de quem era Alfonso e que mamãe, como sempre, estava correta, recebi a missiva que indicava que a Condessa de Dudley havia falecido.


Capítulo 2

10 anos depois, 1845, Londres.

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc, .



Eu estava atrasado.
Não precisava levantar-me e procurar o relógio entre as roupas jogadas no chão para entender isso. O feixe de luz que saia entre as cortinas da Sra. St Clair evidenciava que era manhã e já devia ter passado há muito do horário do desjejum.
Empurrei com delicadeza o corpo da morena para o lado, com cuidado para não puxar-lhe o cabelo pesado sem querer. Ela resmungou, mas manteve-se no sono; sem mais delongas, tratei-me de vestir-me.
Havia um motivo pelo qual eu costumava terminar por carta os relacionamentos com as amantes: eu era um homem muito volátil e fácil de ser seduzido. Entre lágrimas de tristeza e abraços de consolo, vi-me entrando debaixo dos lençóis de Bárbara St. Clair mais uma vez, convencendo-me que era apenas uma despedida.
Eu também estava me sentindo um pouco sozinho, era verdade. Ainda naquela semana tínhamos celebrado o noivado da minha irmã mais nova, Lenna, e não pude deixar de invejá-la por ter encontrado um amor duradouro antes de completar dezenove anos.
Talvez eu devesse escutar a marquesa viúva, a quem eu chamo de mamãe. Talvez devesse levar mais a sério as danças de salão. Talvez devesse flertar de forma mais branda com senhoritas, não com mulheres casadas ou que não estavam na minha lista de pretendentes 一 se é que eu tinha uma. Talvez eu devesse casar-me e ter um herdeiro.
Talvez devesse parar de agir como um libertino.
E foi pensando nisso que deixei uma pequena carta para a Sra. St Clair, terminando de vez nosso negócio. Além de não ser tão divertido quanto antes, estava percebendo uma certa hostilidade do marido e do filho mais velho dela, que não completara nem dezoito anos. Ele era jovem o suficiente para cometer uma loucura pela honra da mãe; eu, porém, não estava motivado a ter que encarar duelos contra alguém que nem mesmo da escola havia saído. Não tinha vocação para ser babá.
Conferi se não esquecia nada e fugi como de costume. Infelizmente, sair naquele horário também significava que os servos dos vizinhos me viriam saindo do que seria minha casa de solteiro. Em pouco tempo, os boatos iriam começar a circular.
Soltei um suspiro resignado só de imaginar o que ouviria de minhas irmãs e, é claro, da mamãe.
Deus, tenha misericórdia da minha alma.
Enquanto escondia-me em uma carruagem alugada de volta para casa, praguejei mais uma vez por não ser ainda capaz de deixar a Mansão Exeter por causa dos nervos de mamãe. Ainda lembrava de todo o drama, choro e quase desmaio que a marquesa teve apenas com a menção de ter um pouco de privacidade.
O primeiro erro que cometi naquela manhã foi não ter acordado antes que o sol nascesse.
O segundo erro foi entrar pela porta da frente.
Antes mesmo que nosso mordomo, Sr. Percival, retirasse minha casaca, Grace, com um sorriso janelinha, gritou do corredor.
já chegou, mamãe!
Dei-lhe um olhar duro e murmurei entre dentes:
一 Fique quietinha ou não ganhará presente no Natal.
A ordem pareceu transformar o sorriso de minha irmã caçula mais largo e venenoso.
一 E ele está com a mesma roupa do jantar!
一 Grace! 一 Segurei-me para não gritar um palavrão. 一 Eu vou matar você!
Antes que eu entrasse em mais algumas ameaças de violência para uma menina de treze anos, a marquesa viúva de Exeter apareceu de relance no corredor.
一 Estou esperando você na sala, Harrison.
Harrison. Não “”, quando ela me elogiava. Não “”, quando ela conversava normalmente. Era “Harrison”, meu primeiro nome, igual ao papai, chamando-me a responsabilidade.
Mamãe estava muito perto de acabar com a minha raça.
Embora já fizesse alguns anos desde que meu saudoso pai havia falecido e eu assumi o marquesado, mamãe era a verdadeira matriarca da família. Era ela que mandava e nós, reles mortais, obedecíamos.
Mantive-me de pé enquanto observava-a sentar. Ela estava usando um chapéu ridículo que deixava-a dez centímetros mais alta. Deveria estar prestes a sair às compras com Danna, minha irmã mais velha. Torturando-me com o silêncio, observei-a estender os pequenos pés num banco acolchoado e abrir o leque lilás, da mesma cor de seu vestido. O pequeno barulho do vai e vem do objeto soava muito como um chicote prestes a atingir minhas costas.
一 Onde esteve essa noite?
Mamãe nunca foi de enrolações, mas imaginava que ouviria ao menos um bom dia. Dei-lhe um sorriso de lado.
一 Estava com Dudley, como sempre.
Os olhos da marquesa se tornaram pequenos conforme encararam-me com descrença.
一 E por que dormiu na casa dele? Por que não voltou para casa? São apenas algumas quadras de distância.
一 Preguiça 一 justifiquei. 一 Estava muito sonolento.
Ela balançou a cabeça em assentimento. Seus ombros, antes tensos, ficaram menos rígidos.
一 Sabe, querido, você tem que ter cuidado com sua reputação também. 一 Aconselhou. 一 O peso não é igual para as mulheres, e você é um pretendente muito cobiçado, mas os boatos podem desgastá-lo. Você pode virar uma pessoa non-grata e Grace… Ela ainda tem muitos anos de bailes para desfrutar.
Concordei com a cabeça. Peguei o relógio no bolso por força do hábito e lembrei-me de um compromisso; eu deveria estar no White’s em dez minutos.
一 Mãe, seus conselhos são sempre muito valiosos, mas tenho que sair agora.
一 Já? 一 disse ela, ansiosa. Fiz uma leve reverência e beijei-lhe a mão.
一 Volto em um instante, prometo 一 falei. 一 George está muito ansioso para contar-me a novidade e a senhora sabe o quanto ele detesta atrasos.
Quatro linhas retas aparecem na sua fronte antes dela dizer:
一 Mas você não acabou de vir da casa dele?
O terceiro erro que cometi naquela manhã foi mentir de forma não-elaborada para minha mãe. Devo ter ouvido meu nome completo em fúria ao menos três vezes antes de entrar na carruagem e ordenar para que o cocheiro fosse o mais rápido possível para o clube.

[…]


White’s era o refúgio dos homens mais bem afeiçoados do país. De maioria masculina, as mulheres eram impedidas de entrar. Ao menos, as que eram vistas como de boa família. Bastava abrir a porta e o cheiro de testosterona deixava qualquer um tonto. Não conhecia nenhum lugar na Inglaterra onde havia tanto homem por metro quadrado.
Era sufocante.
Meus dois amigos estavam bebericando algo em seus copos quando aproximei-me. Lorde Byron e Conde de Dudley eram bem diferentes em aparência, mas resolviam-se muito facilmente na conversa. Era, porém, um tanto improvável que nós três estaríamos juntos em uma amizade de anos… A vida tinha certas coisas assim: ilógicas e difíceis de compreender.
一 Está atrasado 一 constatou George, o Conde de Dudley, embora não parecesse tão surpreso com isso.
一 Vocês que estão adiantados. 一 Sentei-me na cadeira sem muita delicadeza. 一 Mamãe irá perguntar se eu estive em sua casa na noite passada. Diga que sim, por favor. Ficarei devendo uma.
George estreitou os olhos para mim como um falcão.
一 Você disse que ia terminar o caso com St. Clair!
Levantei as mãos em rendição.
一 Mas eu terminei!
一 Não me diga que já seguiu em frente? 一 indagou Byron, descrente.
一 Ora, se não é o homem mais sensível do Reino Unido.
Logan, também conhecido como Lorde Byron, balançou a cabeça em desprezo e não comentou mais nada.
一 Despedi-me dela ontem, se isso o preocupa 一 justifiquei a George. 一 E também estou comprometido a nunca mais me envolver com mulheres casadas.
Byron, que sempre esteve ao meu lado indossando cada atitude minha, soltou um risinho pelo nariz e quase engasgou-se com a bebida.
Traíra.
一 Você sabe o que é melhor para sua vida, 一 disse Dudley, com um ar de homem sábio. 一 Mas isso pode prejudicar-lhe futuramente. Não só a você como às suas irmãs, não é?
一 Lenna estará casada antes de eu me apaixonar novamente 一 afirmei enquanto apoiava minhas pernas na mesa e equilibrava a cadeira de modo perigoso. 一 Grace, bem, quando estiver com idade para ir aos bailes, já estarei com barba branca igual ao Logan e três crianças nos encalços.
一 falou com o tom de alerta. 一 Grace estará pronta para ser debutante em menos de cinco anos, você sabe, não é?
Franzi o cenho, as contas na minha cabeça embaralhando-se. Ela e Zachary nasceram um após o outro, quando eu ainda não tinha entrado em Eton e, na minha cabeça, sempre foram os caçulas, eternas crianças. Lembrei-me, então, que mamãe tinha comentado comigo sobre os preparativos para enviar Zachary para a escola no próximo semestre, pois já tinha a idade apta.
Merda 一 resmunguei. 一 Eles estão crescendo rápido demais.
一 Está na hora de casar, milorde 一 zombou Byron.
一 Quem vê pensa que você não deveria ser o primeiro de nós a casar 一 retruquei. 一 O que está esperando? Uma noiva cair do céu?
一 Ele vai pedir pelo correio. Talvez ela venha da França junto com os livros dele 一 brincou George.
一 Vai chegar em um baú gigante vermelho segurando uma licença especial 一 falei.
一 Calem a boca 一 resmungou Byron. 一 Qual era a novidade que queria dizer para nós que não pode mandar via recado?
George, que estava em um raro momento de descontração, iluminou-se todo quando Logan lembrou-lhe do motivo de estarmos reunidos. Pedi rapidamente uma bebida para um jovem garçom que passou em nossa mesa e mantive a cadeira equilibrada de forma nem um pouco educada.
Mamãe ficaria uma fera se me visse assim.
一 Finalmente minha irmã foi liberada por aquele covil de urubus 一 disse George. 一 está voltando para casa próximo mês! Ela e Felicity irão morar comigo em Ward House.
一 Que coisa boa, George. Eu…
一 O quê?!
O grito de surpresa precedeu a tragédia.
Meu quarto erro do dia foi sentar daquele jeito imprudente em um lugar público. Na primeira notícia chocante, estava eu, o Marquês de Exeter caindo para trás como uma fruta madura com o desequilíbrio da cadeira.
E mesmo com os risos ao redor invadindo meus ouvidos e as costas doendo como nunca, a nova informação zunia nos ouvidos.
estava de volta.

Capítulo 3

Ravena , Sra. ,



Eu odiava barcos. E mar. E aquele balançar maligno que me impedia de comer algo decente sem vomitar dez minutos depois. E os marinheiros gritando nos momentos mais inoportunos. Também tinha o cheiro podre do Tâmisa que nem os mais insensíveis eram capazes de ignorar.
Porém, eu estava indo para casa.
Apertei os lábios e levantei o rosto para evitar que as lágrimas descessem. Ninei Felicity em meus braços como se ela estivesse acordada, embora seus olhinhos mantivessem fechados. Dias e dias de choro de enjôo estavam findando. Estávamos perto da costa.
Casa. Estávamos perto de casa.
一 Sra. 一 chamou-me Peggy, minha dama de companhia, que olhava através da janela. 一 Já consigo ver o Parlamento daqui.
Permiti-me dar um sorriso sincero pela primeira vez em muito tempo. Peggy havia ido junto comigo para Espanha, quando eu ainda era muito ingênua. Era apenas dois ou três anos mais velha que eu. Falava espanhol muito melhor, também.
Não importava. Estávamos voltando para casa.
Era verdade que não era como antigamente; não iria encontrar papai no escritório jogando uma bolinha para o ar e fingindo que estava trabalhando em alguma coisa. Não ia ter mamãe chamando-me para comprar novas fitas. Não ia ter George chegando de Eton para as férias e negando-se a fazer qualquer coisa divertida.
Éramos adultos há muito tempo. E não havia mais papai, nem mamãe; eram só nós dois.
E Felicity.
Respirei fundo quando fomos chamadas para descer do navio. Corremos para a fila e não demorou muito para que provássemos que éramos conterrâneas voltando para a nossa nação.
Não posso descrever o que senti quando vi George de ponta de pés tentando encontrar-me na multidão. Estava vestido como um verdadeiro conde: de cartola, o colarinho arrumado e um casaco de veludo azul. Porém, a melhor vestimenta era seu sorriso.
Impossível de me conter, chorei antes de abraçá-lo. A última vez que tínhamos nos visto foi há cinco anos, quando papai morreu. Lembrava que por muito pouco não fiquei na Inglaterra, porém era fato que Alfonso nunca iria permitir que isso acontecesse.
Eu era propriedade dele.
E agora ele estava morto. Graças a Deus.
Receber a calorosa recepção de meu irmão fez com que meu peito enchesse de um sentimento antigo, que eu achava incapaz de sentir de novo.
Alegria. Eu senti-me genuinamente alegre.
Dentro da carruagem, observei meu irmão brincar com uma Felicity sonolenta. A cena deixou-me com um nó na garganta; desenhava-se de forma simples e ordinária, mas foi capaz de me fazer pensar no tempo perdido que os dois não se conheciam. Enquanto os estavam indispostos a deixar-me ir embora, George não teve o privilégio de ser tio de forma íntegra, nem de conhecer o mais novo membro de sua família.
Como se soubesse que eu pensava nele, meu irmão gêmeo levantou a cabeça.
?
一 Sim?
一 Estamos bem agora, não é?
Pisquei os olhos sentindo as lágrimas descerem sem controle. Sorri constrangida, pois fazia muito tempo em que chorava na frente de alguém que confiava. Na verdade, fazia muito tempo desde a última vez que tive alguém para confiar.
一 Obrigada, querido 一 murmurei, recebendo logo em seguida o seu lenço.
一 Não agradeça muito agora. Embora tentei evitar, a Marquesa viúva de Exeter quer vê-la amanhã junto com a Sra. Montgomery.
一 Danna ainda não se casou? Faz tanto tempo que tornou-se viúva! E ela era tão jovem… 一 comentei, os ouvidos atentos para saber das novidades da minha antiga roda de amigos. Era verdade que ela não era nem tão bonita assim, mas vinha de uma boa família e era muito educada; um ótimo partido.
一 Ela é… digamos… Difícil. 一 George coçou a cabeça.
一 Difícil por quê?
George deu os ombros, sem saber explicar. Revirei os olhos de um jeito bem mal educado. O tempo havia se passado e meu irmão continuava sendo um péssimo fofoqueiro.
一 Magdalena, a irmã dela, ficou noiva mês passado 一 acrescentou ele. 一 Com o Visconde Severn.
一 Não me lembro dele…
一 Ele é conhecido no partido, tem se destacado…
一 Por favor, George, sem fofocas políticas. Dessas não sinto qualquer interesse.
Ele deu um pequeno sorriso.
一 Então eu não posso fazer muita coisa por você, irmã querida. Quase nunca estou nos salões e tudo que sei são as coisas que meus amigos contam-me no clube 一 justificou-se. 一 Aliás, estamos já no fim da temporada. É bem provável que a fofoca mais quente seja a sua chegada em Londres.
Dei uma sacudida nos ombros para evitar o mau agouro. Não queria pensar no que estavam falando de mim, sobretudo porque antes eu não era necessariamente uma pessoa humilde. Conseguir noivar na minha primeira temporada não ajudou em nada para que eu caísse do pedestal, também. Ainda deveria haver muitas mulheres que ficariam muito satisfeitas em saberem da minha atual condição.
Suspirei e arrumei a postura. Pouco importava. Eu as trataria com educação e sorrisos, do jeito que mamãe me ensinou.
一 Ainda bem que tenho minha querida amiga Peggy aqui, que nunca me deixará desatualizada 一 argumentei, trazendo a minha dama de companhia para a conversa. Ela apenas riu ruborizada, mas não disse nada.
Quem não a conhecia que a comprasse. Tímida na frente dos patrões, eu sabia que Peggy escutava tudo e todos até mesmo dormindo.
Era uma pena que ela ficaria apenas até que eu me casasse de novo. Queria muito que o noivo dela estivesse disposto a vir conosco para Londres, mas era espanhol até o osso. Se não estivesse a serviço da marinha espanhola, duvidava muito que estaria tão tranquilo com ela, acompanhando-me por mais alguns anos.
A casa de George era como eu ainda me lembrava. Era esquisito dizer que pertencia a ele apenas, quando eu também a chamei de casa por um longo tempo; a frase “pertence ao Conde de Dudley” não era mais referente a mim também, mas apenas a George. Não havia grandes mudanças na decoração, ou mesmo nas pratarias que meu pai colecionava. Parecia, no entanto, vazia.
一 Pedi para que arrumassem seu quarto de antes e que preparassem um banho 一 explicou antes de apresentar-me o seu mais novo mordomo.
Boa parte dos empregados eram antigos e receberam-me em fila, como de costume. Lembrava-me de seus nomes; perguntei-lhes de seus parentes e descobri que muita gente casou, teve filhos e alguns morreram. Deixei-lhes uma boa impressão, no entanto. Subi para meu quarto satisfeita, sabendo que em breve os comentários da minha chegada espalhariam-se por Mayfair como poeira e, se dependessem dos criados de George, de forma positiva.
Estava quebrada, machucada e ainda em processo de cura, era verdade. Mas não tinha vindo para a Inglaterra apenas para brincar. Eu ia voltar a ser quem eu nasci para ser: uma dama notável. E não apenas isso: uma dama que era amada.

[...]


Quando Peggy apertou o espartilho segurei-me para não reclamar. Estava cada vez mais difícil tolerar aquela vestimenta. Ao menos minha postura ficava impecável quando eu o usava.
Evitei olhar-me no espelho, como já fazia há muito. Não precisava ver, já que a família fazia questão de apontar meus defeitos.
Afinal de contas, eu era uma mulher da Rainha Victória e todos nós sabemos quão gordas elas eram.
Aumentar as ancas era algo natural 一 mamãe não era necessariamente uma mulher magra e a maiora das mulheres que eu conhecia ficavam mais rechonchudas depois do primeiro filho. Além disso, sempre ouvia que mulheres magras demais eram frágeis para ter tantos filhos. Talvez, se eu tivesse escolhido um homem inglês como marido, nunca repararia de forma negativa a nova moldura do meu corpo.
Ser chamada de gorda não pareceu diminuir meu apetite; pelo contrário, fez-me passar a comer numa quantidade não muito educada . Minhas ancas dobraram de tamanho e passei a disfarçar a grossura dos ombros com os penteados baixos. A gravidez apenas acentuou um corpo que nunca imaginei ser meu, mas agora me pertencia.
Foi difícil encontrar um vestido de dia decente para a ocasião, mas adaptei um bonito vestido de noite usando apenas alguns truques para deixar o busto coberto.
Eu deveria pedir a George para que comprasse novos vestidos para mim, porém ainda não havia me subido a humildade de dizer-lhe que Alfonso não nos deixou nada de herança. Nem mesmo Felicity ficou com alguma coisa, pois seu testamento deixava claro que iria apenas para os filhos homens.
Sentar na sala para tomar chá como se a vida fosse apenas isso revigorou meu espírito. Peggy contou-me algumas histórias do novo mordomo enquanto deliciava-me com biscoitos de gengibre. Eles eram os meus favoritos.
Felicity parecia gostar também do doce. Sentada em meu colo, suja de farelo, minha filha balançava as perninhas grossas como de quem acompanhava uma música que tocava apenas na cabeça dela.
A mudança de cenário não a mudou, continuava sendo uma criança muito tranquila.
O dia do nascimento da minha filha foi um dia de alívio. Escutei durante toda gravidez o desejo de que fosse um homem, um herdeiro para os . Não tinha conseguido levar a cabo outras gestações, então meus sogros também falavam da criança como a última tentativa; a morte repentina de Alfonso apenas agravou este pensamento. Enquanto exclamavam que em breve chegaria um menino para a mansão, eu sussurrava que seria uma garota.
Muitos lamentaram quando o médico anunciou o sexo da criança, afinal de contas, o nascimento dela também significava que eu estava falida e que não havia nenhum herdeiro para Alfonso. Não sabiam eles que minha filha era a Felicidade encarnada, uma resposta às minhas preces; era, também, minha liberdade.
Os não tiveram qualquer objeção quando eu disse que a levaria comigo de volta para Inglaterra. Sendo de um gênero de tão pouco valor, duvidava que eles se importassem de saber notícias dela nos próximos anos.
Melhor assim.
一 Peggy 一 eu disse quando ouvi o barulho da porta da frente se abrindo. 一 Acho que as visitas chegaram. Tem algum lenço para limpar essa criança?
Bati as migalhas da minha saia enquanto observava a minha dama de companhia deixar Felicity mais apresentável. Teria que conversar com George também para contratar uma babá. Mais uma despesa para a conta do meu irmão.
, já está pronta? 一 perguntou George, assim que pôs os pés na sala de visitas. 一 Nossas visitas chegaram.
Sr. Hopkins, o mordomo de George, apresentou-lhes:
一 Vossa Excelência o Marquês de Exeter, a Marquesa viúva de Exeter, Lorde Byron, a Sra. Montgomery e a Lady Magdalena Courtenay.
Levantei-me e fiz uma breve reverência. Não contive o sorriso ao ver Danna, sobretudo porque ela veio em minha direção com entusiasmo.
Não havia como negar que boa parte deles eram da mesma família; os cabelos castanhos, os olhos da mesma cor e as pestanas compridas eram características comuns entre eles.
一 É tão bom vê-la novamente, minha querida! 一 exclamou Danna. 一 Continua tão belíssima quanto da última vez que a vi.
Agradeci com modéstia, embora soubesse que o elogio era mais por hábito do que por franqueza. Com beijinhos no rosto, cumprimentei cada uma das mulheres da sala.
A marquesa-viúva ainda parecia igual à última vez que a vi, embora os lampejos da juventude transformaram-se em rugas pelo rosto. Isso não tirava a elegância e o refinamento que tinha em cada gesto.
一 Essa criança é a sua filha? Ela é igual a você quando bebê! 一 comentou a marquesa e fiquei muito envaidecida ao ouvir aquela frase.
Todos diziam que eu fui um bebê muito bonito.
一 Lenna, como está grande! Já é uma mulher! 一 exclamei, encantada com a beleza da mais nova. Ela ficou muito vermelha quando eu disse. 一 Está linda.
一 Oh, deixe-me fazer as honras 一 falou George, de repente.
Olhei ao redor e percebi que, na euforia, ignorei os homens que eram também visitas. Que engano meu.
一 Esse é Lorde Byron, o amigo que eu falei.
Franzi o cenho tentando lembrar-me da conversa, mas ignorei a falha da memória assim que olhei o homem desconhecido com cuidado. Deveria ser alguns anos mais velho do que eu e tinha uma aparência bonita e, ao mesmo tempo, austera.
Estendi a mão enluvada.
一 Encantada em conhecê-lo, milorde.
一 Digo o mesmo, senhora. Dudley falou-me muito de você.
A voz dele era aveludada, profunda e quente. Encaixava-se perfeitamente com a aparência séria que ele tinha.
一 Espero que de forma positiva, suponho 一 acrescentei enquanto sentia os lábios dele sob o tecido das luvas.
一 George é incapaz de falar negativamente sobre alguém.
Dei uma risadinha como se eu fosse uma debutante.
Certos hábitos nunca iriam embora.
Virei-me para o outro homem.
一 E quem é o… 一 interrompi minha frase.
Ele era o Marquês de Exeter, oras. Sr. Hopkins tinha o apresentado. O homem era o filho mais velho da Marquesa viúva.
Levantei a cabeça levemente para trás para encarar-lhe os olhos. Minhas lembranças não me enganaram: mesmo com o rosto de um adulto e traços de quem deixara os dias de menino há um tempo, reconheceria-o em qualquer lugar.
Pus a mão no peito quando uma gargalhada saiu da minha garganta.
, meu Deus! Como pude não reconhecê-lo de primeira? 一 toquei-lhe o braço, admirada com sua altura. 一 Você está mais alto que eu! Que loucura!

Capítulo 4

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



Entendia-se que dez anos era um tempo suficiente para superar alguém, sobretudo uma paixão de juventude. Era verdade que eu havia chorado igual um cabrito com unha encravada durante o casamento de . Meu pai quase teve um ataque fulminante de tanta vergonha: o herdeiro do marquesado de Exeter era um maricas que chorava em casamentos. Que coisa tão não-máscula!
Meu pai definitivamente não era um homem de grandes emoções e achava que isso tinha a ver com o seu gênero. Eu discordava.
Faziam anos desde a última vez que eu havia pensado em Lady Rolland. Ou melhor, a Sra. . Nem mesmo lembrava-me de seu rosto, quanto mais quem ela era.
Dez anos era quase uma vida inteira.
Eu não dia sentir-me abalado com a presença de . Eu não tinha mais quatorze anos e uma mente de um inseto. Eu era um homem adulto e responsável pela minha família. Quer dizer, não tão responsável assim, de acordo com mamãe.
Ainda assim, eu era maduro o suficiente para reconhecer meus limites românticos. Eu já havia me apaixonado uma dezena de vezes após . Certo que eu não gostava tanto assim da Sra. St. Clair, mas ela me dava um pouco da ansiedade gostosa da paixão no começo dos nossos encontros. Antes dela, apaixonei-me pela Duquesa de Strathearn, que rejeitou-me e feriu o meu orgulho de jovem ingênuo. Também havia a Sra. Mathieu, a viúva francesa que conheci durante minha viagem ao continente…
era passado. Um amor de infância, de quem só conhecia mulheres amigas da família.
Então, por que diabos minha mão começou a suar assim que a vi na sala de visitas de Dudley?
Era, com toda certeza, uma pessoa diferente; mas era possível ver traços da mulher que conheci um dia. Eram relapsos, no entanto: o tempo a tornou mais elegante e de movimentos mais leves. Sorria sem exagero, mas não deixava de ser simpática. A voz ainda era aguda, porém não carregava mais os vícios de uma aristocrata mimada. Era uma Lady, é claro. Agia como uma. Mas não era a mesma, embora também não fosse nada além de si.
Um paradoxo, por certo.
segurou as mãos de minha irmã e pude ver os olhos verdes fazer uma rápida e discreta checagem. Sorri. Era ainda , é claro.
一 Oh, deixe me fazer as honras 一 disse George, a quem eu totalmente esquecera da presença. 一 Esse é Lorde Byron, o amigo que eu falei.
A sala ficou fria. virou-se para mim e Logan, mas não se deu o trabalho de encarar-me; seus olhos estavam no meu amigo. O rosto tornou-se curioso como o de uma criança que descobria um novo doce.
Eu não gostei daquilo.
一 Encantada em conhecê-lo, milorde.
一 Digo o mesmo, senhora. Dudley falou-me muito de você.
E Logan beijou-lhe a mão por cima da luva. Os olhos deles se encontraram e vi o pequeno sorriso que raramente Byron dava, mas costumava ser fatal para as mulheres.
Respirei fundo.
Desgraçado.
Eu queria ser você.
Queria não conhecer desde criança. Queria que ela não tivesse a memória de mim, um menino desengonçado, tropeçando e caindo de uma forma dolorosa no lago de Exeter. Queria que ela não conhecesse-me antes que eu descobrisse meu charme, minha confiança. Queria que ela me conhecesse naquele exato momento, quando eu poderia puxar-lhe a mão e beijar com tom de galanteio. Queria poder ser um homem misterioso, desconhecido, que atiçasse aquela mente curiosa e aventureira.
Não escutei a conversa dos dois, embora reconhecesse o tópico. As risadas. O flerte velado. O gracejo. O piscar de gato. O interesse de Byron.
一 E quem é o… 一 interrompeu-se como se tivesse acabado de ter consciência de minha existência.
levantou a cabeça para encarar-me.
Dez anos eram muitos anos. Imaginei que ela estivesse reconhecendo isso e, pela primeira vez, visse que a sua frente estava um homem, não o seu amiguinho .
Mas eu conhecia . Não éramos desconhecidos. Eu vi seus ombros mudarem de postura e o rosto tornar-se amigável, não de um jeito que eu queria. Preferia que ela me ignorasse do que dissesse:
, meu Deus! Como pude não reconhecê-lo de primeira? 一 tocou-me o braço. 一 Você está mais alto que eu! Que loucura! Dei um sorriso congelado, a frustração escondida por entre os dentes.
一 Sou mais alto de que você desde os treze, você que nunca foi capaz de admitir isso.
olhou-me ultrajada. Deu um leve tapa no meu braço.
一 Que mentira, seu mentiroso!
一 Ainda continua sendo redundante, tsc, tsc…
Ela virou-se para a marquesa com as mãos na cintura.
一 Ele continua um insolente, Vossa Excelência. Acho que não há mais solução, teremos que enviar de volta.
Mamãe riu com satisfação e a situação tornou-se menos constrangedora para mim. Ela observou-me com afeto.
一 Gostaria muito de poder devolvê-lo, mas eu acho que apeguei-me ao menino.
De olhos cerrados, encarei minha mãe, mas nada disse. Estava andando em ovos nas últimas semanas desde que o boato da noite com Sra. Bárbara St. Clair virou uma bola de neve. Eu costumava ser muito mais discreto com minhas aventuras, e aquele descuido foi o suficiente para que outros burburios sobre minha vida amorosa explodissem.
Como era de se esperar, a Marquesa-viúva odiou ouvir cada um deles.
一 Vamos, sentem-se. Em breve o chá estará na mesa 一 disse George, conduzindo-nos para o sofá.
A ansiedade de estar no mesmo cômodo diminuiu enquanto conversávamos até parecer que nunca viera a existir. A frustração, talvez, tenha sido a maior aliada nesse caso. O que eu esperava, realmente? Flertar com ?
一 Estava contando os dias para sua chegada, Sra. 一 comentou Lenna assim que os servos chegaram com o chá. 一 Pouco lembrava-me de suas feições. Eu era muito criança quando foi para Espanha.
一 Eu tenho lembranças muito boas de você, Lenna 一 disse . 一 Sempre foi um doce de menina. Fiquei tão feliz em saber que está noiva! Inclusive, desejo minhas felicitações a você.
Magdalena agradeceu com as bochechas vermelhas e disfarçou com muita categoria seu embaraço. Nesses momentos, minha mente despertava um pouco de preocupação com sua ingenuidade. Dia eu ter adiado um pouco mais o casamento com o Sn? Sendo um homem alguns anos mais velho, duvidava um pouco da capacidade dele para ser compreensivo com a jovialidade que era típica da minha irmã.
一 Ah, querida, você me deve muitas cartas da Espanha! 一 cobrou minha irmã mais velha, Danna. 一 Por que não me escreveu com periodicidade como eu pedi? Sei tão pouco desse país, mas sempre tive muita vontade de conhecer.
deu um sorriso superficial. Levantei as sobrancelhas. O comentário a incomodou.
一 A Espanha é linda, é uma delícia no verão 一 replicou, com cuidado. 一 Desculpe-me ter te respondido tão pouco, minha amiga. Mas não vamos nos ater aos problemas do passado. Irei repassar todas as informações se você me visitar com frequência.
Minha irmã pareceu ficar satisfeita com a resposta. Danna era uma mulher rancorosa, mas perdoou muito fácil a . Deveia estar carente de amigas desde o que acontecera no último sarau que nós visitamos.
Observei discretamente enquanto oferecia chá para Byron.
一 A família deve amá-la muito. Pensei que voltaria para Londres assim que soube da sua viuvez 一 comentou a marquesa viúva. 一 Deve já estar pensando em casamento de novo, sim?
sorriu com segundas, terceiras e até quarta intenções.
一 Meus planos são tão óbvios assim?
As mulheres riram como se estivessem trocando segredos. George deixou escapar uma risada meio incrédula, meio feliz de saber que a personalidade da irmã permanecia intacta.
Então, olhou para Byron. Meu amigo, que nunca fora um homem tímido, embora calado, desviou o olhar como se não sentisse a indireta.
Estiquei os pés, tentando parecer menos desconfortável com aquela conversa.
一 Cuidado para não se tornar como Danna. É viúva, mas age como uma solteirona 一 zombei.
Minha irmã ficou vermelha como um pimentão e encarou-me consternada. Lenna, por outro lado, inclinou-se para frente com os olhos travessos.
一 Isso é porque você não esteve em Exeter no último verão, irmão 一 comentou ela. 一 Estive quase certa que teríamos outro casamento nessa temporada.
一 Ora, Lenna, cale-se!
A reprimenda de Danna não foi suficiente para fazê-la ficar quieta. Inclinei meus ouvidos em direção a minha irmã mais nova.
一 E esse homem seria um tal de Capitão…
一 Corrigan, pare de perturbar sua irmã! 一 reclamou a Marquesa.
一 Capitão? Que Capitão? 一 perguntou com os olhos brilhando de divertimento e curiosidade. 一 Conte-me sobre isso, querida amiga!
A essa altura, Danna estava tão vermelha que era capaz de explodir. Atrás dos óculos esquisitos que usava e aquele cabelo sempre de modo antiquado, ela pareceu tão jovem quanto era. Sorri satisfeito. Talvez fosse capaz de fazê-la sair da casca que minha irmã enfiou-se desde que o marido morreu.
O resto da visita ocorreu de forma tão previsível que iria aborrecer-me narrar mais sobre nossos diálogos. Voltamos faltando um pouco antes do horário do jantar, pois Lenna e Danna foram convidadas para ir a uma ópera no mesmo dia.
Dentro da carruagem, sem a agitação do velho e a surpresa do novo, concentrei-me em observar a chuva pela janela.
一 ...o casamento fez ela engordar bastante.
一 É, Lenna que se cuide. Será a próxima a estufar como um balão.
一 Mãe! Não jogue maldição para mim.
Franzi o cenho, encarando com claro descontentamento as mulheres da minha casa.
一 Que tipo de conversa é essa? 一 perguntei.
一 Ora, , não percebeu quão gorda está ? 一 indagou mamãe. 一 Se não se cuidar, ficará tão grande quanto a rainha.
一 Mamãe! 一 repreendeu Danna.
一 Que grandessíssima amiga a senhora é, minha mãe, para não esperar cruzar a esquina antes de fazer comentários desagradáveis sobre o corpo de . 一 Repliquei, sem conseguir segurar-me.
Mamãe ficou pálida, ultrajada. Gaguejou sem muito argumento.
一 É só um comentário.
一 Um comentário depreciativo sobre uma mulher que a considera como tia 一 apontei seriamente.
Ela apertou os lábios, não disse mais nada. Tirou o leque da bolsa e ficou balançando com veemência.
Danna uniu as sobrancelhas grossas; cutucou a nossa irmã mais nova com o pé e apontou para mim.
一 Vivi para ver dando bronca na mãe.
Ignorei-a, voltando a observar a janela. Falei do clima e comentei que iriam pegar uma chuva forte na hora da ópera. Lenna reclamou de ter os sapatos sujos de água e Danna disse que não precisava se preocupar, a carruagem pararia bem de frente ao teatro. Mamãe, porém, me olhou desconfiada, mas nada disse.

[...]


Eu não era exatamente uma pessoa ocupada, embora também não fosse do tipo que passava boa parte do dia dentro de casa. Haviam muitos compromissos, sobretudo aqueles que pediam minha presença para acompanhar minhas irmãs e os que relacionavam-se com a minha medíocre carreira política.
Aliás, carreira era um grande exagero. Meu pai ficaria muito frustrado em saber que não importavam quantos anos tinham se passado, a Câmara de Lordes era ainda visto por mim como uma das partes mais tediosas que o título proporcionaram-me. Ai de mim se não fosse Dudley! Estaria em uma situação muito mais minguante.
Porém, ainda que minha vida fosse tranquila e eu tivesse tempo o suficiente para manter uma amante, por exemplo, houveram dias em que nada funcionava. O contador ficava doente, meu advogado tirava férias, os servos estavam com os salários atrasados e o seu irmão mais novo tinha destruído um vaso que estava na família há mais gerações do que eu podia contar.
Era um desses dias. Enquanto eu tentava entender a confusão que o pagamento dos funcionários tornou-se, os ouvidos estavam muito atentos aos movimentos do Zachary.
Mamãe sempre dizia que ele era muito parecido comigo quando criança e, embora fosse ruim admitir, fazia muito sentido. Zach era uma peste e a conta dos cabelos brancos que deixei em meu pai chegou antes que eu produzisse meus próprios herdeiros.
一 Quando vou poder sair daqui? 一 indagou ele, emburrado.
一 Se depender de mim, apenas quando for maior de idade.
Ele soltou um bufo irado.
一 Era só um vaso! Ninguém em casa usava!
Tirei um pouco de cabelo da minha testa para não dar um grito de frustração. O vaso que ele havia quebrado não era apenas uma relíquia da família, era um artefato que havia sobrevivido a um saqueamento na Guerra dos Cem Anos. Aparentemente, Zachary correndo pela casa era mais perigoso do que qualquer francês com espadas e armadura.
一 Você quer que eu chame a mamãe de novo? Quer voltar ao castigo de verdade? 一 sugeri e ele calou-se. Claro, não deixou de fazer um bico e cruzar os braços de forma birrenta.
Ele ainda não havia se desculpado, embora tenha ficado muito tempo de joelhos voltado para a parede por ordens da nossa mãe. Não gostava desse tipo de castigo 一 eu, quando criança, aprendi a manipular esse tipo de situação com certa facilidade, mas eu não estava em posição de criar meu irmão. Ele tinha mãe, um preceptor e uma babá, afinal de contas.
Foram minutos de silêncio que pareceram muito com paraíso. Os números começavam a fazer sentido; decidi, antes mesmo de terminar o que tinha que fazer, que na primeira oportunidade aumentaria o salário do contador. Aquele homem era um anjo.
一 Não vejo a hora de ir para Eton 一 resmungou Zachary. 一 Serei finalmente livre dessa família idiota.
Dei uma risadinha inevitável. Meus dias em Eton foram bons, mas estavam longe de haver a liberdade que Zach ansiava. Os outros garotos, assim como os professores, eram bastante hostis quando queriam. Não sofri mais do que o normal, mas essa não foi a mesma situação de George, por exemplo. Por ter um sono desregulado e pesadelos constantes, poucos estudantes estavam dispostos a dividir o quarto com ele e serem empáticos com sua situação. Se Dudley não fosse um nome menos influente, talvez as coisas ficassem realmente ruins.
一 Em breve você irá, irmãozinho 一 afirmei com um sorriso esperto. 一 Mas não fique muito animado. Durante esse verão você irá aprender cerâmica e fará um vaso igual o que destruiu para presentear mamãe.
一 O quê?! 一 Com a voz aguda e cheia de indignação, Zachary levantou-se da cadeira. 一 Você não pode me obrigar!
Levantei os olhos em direção a ele. Meu irmão tinha bochechas vermelhas de raiva, mas já lacrimejava de revolta. Encarei o teto e suspirei.
Antes que eu formulasse uma réplica, o mordomo bateu a porta e indicou que tínhamos visitas.
一 Que horas são? 一 Busquei meu relógio no bolso. 一 Já é a hora do chá?
一 Sim, Vossa Excelência 一 afirmou o mordomo. 一 A Sra. e a Srta. James estão esperando a Marquesa-viúva. Avisei-as que em breve ela estará conosco, assim como a Srta. Montgomery.
Era a segunda vez que nós nos veríamos. Não houve qualquer batimento inédito vindo do meu peito. Qualquer surpresa ou júbilo esquisito.
Talvez o episódio anterior fosse apenas efeito de um reencontro de muito tempo. Passou. Eu poderia seguir em frente.
一 Acredito que tenha avisado a Lenna, por certo. 一 O mordomo confirmou com a cabeça. 一 Então, irei recebê-las.
Virei-me para meu irmão mais novo. Zach estava muito atento à conversa e olhou-me com expectativa. Apontei para ele.
一 Está livre por ora, mas adianto que talvez mamãe não volte com bom humor ainda. Fique no seu quarto calado, está bem?
Não precisei repetir mais nada; Zachary desapareceu como se nunca tivesse entrado em meu escritório, deixando como rastro apenas um barulho ensurdecedor de quem fechou a porta com nenhum cuidado. Eu teria ralhado com o menino se não estivesse ocupado arrumando as abotoaduras de meu casaco.
Dessa vez, logo depois de ser apresentado, reparei na acompanhante de . Era uma coisinha pequena e loira que parecia não ser muito velha. Na verdade, apostaria que tinha a mesma idade que a sua senhora. Ela ouvia Lenna com muita atenção antes de levantar-se para fazer uma reverência. 一 Sejam bem-vindas, senhoras. 一 Cumprimentei com cordialidade.
Elas agradeceram com uma reverência ensaiada. Srta. Peggy James manteve os olhos ao chão; Lenna ria como de quem queria contar alguma coisa para mim e mantinha seu ar educado de quem nunca deixara de ser uma filha da nobreza.
Era esquisito sentar na sala de visitas com alguém que já foi-me íntimo, mas separado pelos anos e alguns quilometros de mar. Uma dualidade que se refletia nas conversas daquela tarde: às vezes, tratávamos um ao outro pelo título e honrarias; outro momento, escapava de minha boca o apelido de infância.
Mamãe e minha irmã mais velha chegaram um pouco tempo depois e a minha presença tornou-se apenas decoração do cômodo. Eu, que não disfarçava as olhadelas para , a vi ficar mais à vontade com elas por perto. Evitava, estranhamente, dirigir-me a mim, sempre usando Lenna como mensageira.
Em seu manejo social, poucos seriam capazes de sentir a condescendência em:
“Quem sabe conseguiríamos a lista de convidados do sarau da milady…”
“Adoraria ir para Exeter junto com vocês! É claro, preciso de um pedido formal, querida Lenna.”
“Essa escolha não é nossa, é do dono da casa.”
E aquelas frases, repletas de risinhos e cutucadas, quando recebiam minhas respostas, nunca eram replicadas com olhares longos de .
O que será que tinha de errado com meu rosto?
Poderia ter passado aquela ordinária tarde buscando em seu olhar algo que denunciasse seus pensamentos. Iria criar teorias de cada frase, sorriso ou ombros tensos.
Seria divertido, com toda certeza. Teria algo para ocupar minha preguiçosa mente.
No entanto, no auge das conversas das mulheres da casa, fomos surpreendidos por uma entrada ruidosa e mal educada. Não apenas isso 一 era fruto de um homem irado, de quem descobrira uma possível desonra pairando sobre a sua casa. Um problema tão sério, tão escandaloso, que o fez entrar pela casa de um marquês com pontapés nos empregados… Pobre de meu mordomo. Passou três dias até que a dor na lombar o deixasse.
Fosse uma situação qualquer, agiria de modo semelhante ao meu pai. Ele era extremamente intolerante a grandes demonstrações públicas de emoções e acreditava que um bom britânico dia ser calculista em tudo que fizesse. Eu poderia seguir-lhe o conselho, afinal, que tipo de coisa era aquela, entrar na casa de alguém que recebia visitas sem trocar cartões e pôr-se eu seu lugar?
Porém, quando aquele homem atravessou a porta do salão de visitas, empaleci. Não estava sozinho; puxava de forma violenta o braço da esposa como de quem arrastava-a até lá. O sangue da mulher também fugiu-lhe do rosto e estava como de quem desmaiaria a qualquer momento.
Mamãe foi a primeira a reagir a tamanho embaraço. Levantou-se graciosamente, com os olhos inquietos, mas de um sorriso diplomata.
一 Boa tarde, Sr. e Sra. St Clair. A que devo a honra?
A postura tão cheia de amabilidade de minha mãe foi o suficiente para que Sr. St Clair desse um breve suspiro de quem controlava o temperamento sanguíneo. Sendo honesto, fiquei tentado em deixar a Marquesa-viúva de Exeter lidar com aquela situação e esconder-me por entre suas saias.
No entanto, até para um homem que fugia de muitas das suas responsabilidades como eu, havia limites.
Levantei-me como mandava a boa educação.
一 Boa tarde, senhores. Acredito que haja algum motivo para essa comoção toda. 一 Estendi a mão em direção ao sofá e imitei um tom que vi Dudley usar mais de uma vez.
Algo em minha expressão despertou a ira já mal domesticada no homem; as bochechas ficaram vermelhas como de quem explodiria e o dedo roliço direcionou-se para mim como se fosse uma arma.
一 Não me venha com essa pose de bom menino, Exeter! Você nunca me enganou!
Rangi os dentes por dentro. Sr. St. Clair, que não era um homem tão jovem, estava em um momento de sorte por eu não ter reagido com violência por está diante de tantas ladies. Fosse um lugar como um clube, por exemplo, ele estaria sem o dedo indicador.
一 Senhor, acredito que esse tipo de comportamento não é elegante para as senhoras assistirem. Por favor, venha até meu escritório…
一 Querido, por favor… 一 implorou a Sra. St. Clair para o marido, que encontrou finalmente a própria voz.
一 Você sujou o nosso leito, sua desgraçada! 一 gritou Sr. St Clair. 一 Você não tem direito de dizer nada!
Fechei os olhos, uma dor de cabeça atingiu a fronte. Com o polegar esquerdo e o indicador, massageei as têmporas.
A sala de visitas encheu-se de um silêncio sepulcral. Era como se não houvesse nenhuma alma viva; só as mortas, que voltaram para requerer dos meus pecados. A minha leve tentativa de amenizar a dor de cabeça foi o suficiente para que Sr. St Clair avançasse e segurar-me pelo colarinho. Gritos femininos atravessaram o salão. Por instinto, meu joelho foi em direção às suas partes baixas 一 técnica que, aliás, eu havia ensinado às minhas irmãs.
Claro que só o fiz depois de fazê-las prometer-me que nunca repetiriam aquele golpe contra mim.
E é claro que elas não cumpriram a promessa.
Inclinando-se de dor, St. Clair puxou o meu colarinho para baixo com violência e dando-me um soco no queixo.
一 Desgraçado! 一 gemeu de aflição. 一 Vou matá-lo!
Mesmo tendo um pouco menos de força na mão direita, acertei-lhe um soco no rosto como aprendi no boxe. Eu não só apanhava nas aulas, afinal. St. Clair caiu para trás desequilibrado.
Gritos femininos, mas dessa vez com um barulho de baque. Sra. St. Clair estava agora desmaiada e era socorrida por Lenna.
一 Sr. St Clair, poderíamos ter resolvido isso como dois cavalheiros, não acha? 一 disse, enquanto arrumava minha camisa, embora não achasse que fizesse diferença. 一 Isso foi muito deselegante.
Mexi o queixo para os lados para ter certeza que todos os dentes estavam no lugar e senti o gosto de sangue de ter mordido a bochecha por acidente. Nada que fosse um problema de verdade.
Então ouvi um barulhinho de salto de sapato batendo no chão. Senti um medo que apenas o criança conhecia. Mamãe estava de pé com os olhos flamejando de ódio 一 e esse tão forte sentimento era direcionado para mim.
Escutei mais um gemido de dor de St. Clair, que tentava ficar de pé. Busquei pelo olhar alguém que pudesse me defender da ira da Marquesa-viúva.
Balançando um leque para acordar a minha ex-amante estava Srta. James; com a mão no peito, como de quem estava muito assustada, estava . Ela encarava-me.
Apesar da expressão de susto, vi um relance de sorriso, como de uma amiga que percebeu que eu estava muito encrencado.
Era melhor eu começar a rezar.

Capítulo 5

Ravena , Sra. ,



, veja! O que acha desse tecido?
Dessa vez não pude disfarçar minha expressão diante do mau gosto de minha amiga. Com os olhos animados, Danna mostrou em mãos um pesado veludo cor de cocô. Parecia muito com aquilo que saia das fraldas da minha filha, que as coitadas das servas tinham que lavar.
Deus tenha piedade daquela alma. Danna não tinha qualquer bom senso estético.
一 Por que não escolhe cores menos escuras? 一 sugeri. 一 Algo como o azul que indiquei mais cedo.
Ela negou com a cabeça.
一 Fico parecendo uma menininha.
Levantei a sobrancelha.
一 E isso é ruim porque…
一 Nada de azul 一 afirmou ela.
Virei-me para a costureira com um sorriso. Peggy, que observava-nos de longe, disfarçou a risada, imaginando o que eu ia fazer.
一 Você poderia mostrar-me os tecidos rosas, por favor?
一 Rosa? Eu não vou usar…
一 Querida 一 interrompi sem delongas. 一 Hoje irei escolher, sim? Será um presente meu para você conquistar o Capitão quando a temporada acabar. Ele está instalado em Exeter ainda? 一 titubeei com tom provocativo. 一 Ah, espero que sim! Ele ficará fascinado ao descobrir a beleza que está por trás… 一 Não me visto para impressionar homens 一 disse Danna com o resto de orgulho que lhe restara.
一 Claro que não, querida 一 repliquei. 一 Se o fosse estaria fazendo tudo errado.
Segurei o riso quando minha amiga pareceu soltar fogo pelas narinas. Pus as mãos nos seus ombros de modo maternal. A mais velha dos Exeter não era a mais bonita, mas não significava que era feia. Tinha os olhos castanhos, lábios finos e longas pestanas. Precisava, porém, escutar mais a marquesa viúva e a dama de companhia.
一 Confie em mim, está bem? Se não gostar do vestido pode doar para os mais necessitados. Apenas tente valorizar um pouco mais sua beleza, Danna. 一 Segurei-lhe a mão e a puxei para o outro lado da loja. 一 Há também alguns chapéus que ficariam magníficos em você! Prometo que escolherei os mais discretos.
Ela pareceu tentada a argumentar mais, no entanto, baixou os ombros e seguiu-me. Estava sendo um tanto cruel, era verdade, mas tinha prometido à marquesa viúva que faria Danna jogar fora todos aqueles vestidos escuros, velhos e sem graça.
Escolhi alguns chapéus simples, mas recém-chegados do continente. Separei apenas dois para mim, racionalizando o dinheiro do meu irmão. Embora George tenha sido bondoso comigo, não sentia-me confortável em gastar-lhe a fortuna. Ele deverá ter muito em breve uma condessa, não queria deixar minha futura cunhada com as mãos abanando.
一 Esse é mais a sua cara.
Pulei assustada com a voz de . A mão foi direto para o coração.
一 Não pode avisar quando chegar perto? 一 reclamei.
一 E vocês não irão sair dessa loja nunca? Estou morrendo de fome.
一 Tem uma padaria na esquina 一 repliquei, enquanto remexia um bonito chapéu de palha. 一 Os doces têm uma ótima cara. Pode ficar lá, se quiser. Chamo uma carruagem alugada e sua irmã chegará sã e salva.
encarou a porta com uma careta de desagrado. Usava uma roupa mais escura do que das outras vezes que o vi, tentava passar despercebido.
Como se fosse muito fácil esconder quase dois metros de perna e pose aristocrata.
一 Tem bastante gente lá fora. Não sei se quero dar mais assunto para esses fofoqueiros...
Dei uma risadinha. As revistas já falavam do escândalo da casa do marquês e tornaram minha volta a Londres uma simples nota de rodapé. Havia muitas narrativas controversas 一 aparentemente, embora sempre tenha boatos rondando-lhe, nunca se soube de um relacionamento ilícito de de verdade. Até aquele momento, era óbvio. Alguns defendiam a honra do marquês, afinal, não se entrava em uma casa de um nobre com tamanha grosseria. Fosse St. Clair um homem honrado, mandaria uma notinha marcando duelo.
Algo que era ilegal, diga-se de passagem.
一 Veio por que, então? 一 indaguei. 一 Irá demorar um pouco para que todo mundo esqueça aquilo...
一 Você tem resposta para tudo, não é?
Ignorei-o, chamando minha dama de companhia para mais perto.
一 Escolha um para você também, Peggy. Esse daqui fica lindo com o seu rosto anguloso.
A mulher fez uma pequena reverência ao se aproximar de Exeter. A postura humilde enganava: ontem à noite ela me contou tudo o que descobrira sobre ele. Aparentemente, o Marquês de Exeter era um sedutor de casadas, como o Sr. St. Clair havia sugerido. O que os jornais sabiam não era nada comparado ao que os servos sabiam e atestaram com os próprios olhos.
O que também não justificava aquele espetáculo. Enquanto pedia desculpas pela cena, a marquesa-viúva falou que nunca tinha ocorrido algo parecido antes.
一 Vocês não compraram tudo que gostariam? Podem passar mais tarde. 一 Argumentou . 一 Vamos para o campo semana que vem, senhoras. Não há muitas pessoas para vê-las com pomposos vestidos.
Não o respondi, observando as outras opções que estavam à minha frente. Ainda calculava se ir para Exeter era uma boa ideia. Meu nome havia sido citado nas fofocas apenas como plateia, mas ir visitá-los depois daquela indiscrição poderia me colocar em maus lençóis.
Era um pensamento péssimo, eu sabia. Mas eu buscava um casamento tedioso, com um homem honrado até o fio de cabelo. Como eu encontraria se estivesse envolvida com uma família de má reputação?
, tem uns bolinhos que você poderia comprar para sua filha. Tenho certeza que ela iria adorar 一 disse Exeter.
Dar doce para uma criança de menos de dois anos era uma ideia um tanto estúpida, mas não respondi-lhe.
Talvez eu não devesse sair com Danna, que também não estava sendo bem vista por aí desde que deu uma resposta mal educada para a anfitriã de um sarau…
Observei minha amiga de soslaio. Não queria abrir mão do único laço permanente que sobrou-me depois de uma década. Quando eu conversava com Danna, sentia-me jovem novamente.
Pois bem, que fosse. Eu não me afastaria dela por conta de alguns comentários.
Coitada de Danna. Lenna! Por Deus, esperava que o escândalo não tivesse atingido negativamente o noivado dela. Ou mesmo a reputação da marquesa viúva, que era uma mulher muito simpática e elegante, sempre cheia de amabilidade. Não deveria estar passando por coisas assim só porque o filho era um libertino.
一 Veja esse, Danna. 一 Estendi o chapéu para que ela experimentasse.
Minha amiga esticou a mão para pegá-lo, mas o objeto foi arrebatado pelo irmão dela com facilidade.
一 Hey! 一 reclamou Danna.
一 Estou falando com você, 一 disse , projetando-se à minha frente.
一 E eu estou o ignorando.
O Marquês de Exeter puxou o pequeno cordão que havia no chapéu e o posicionou na cabeça como se fosse uma jovem camponesa. Era uma cena um tanto bizarra: um homem alto e roupas extremamente masculinas com um chapéu com uma flor branca em cima. Era discreto para mulheres 一 para ele, porém, destoava de forma pavorosa.
一 Estou a fim de lançar uma nova moda, veja só. 一 Sorriu . 一 Serei o homem mais cobiçado de Londres.
Danna revirou os olhos; eu pus a mão na boca abafando a risada. Exeter fez uma pose de recato parecido como as jovens moças faziam nas primeiras aparições públicas.
一 Está ridículo, 一 replicou Danna. 一 Devolva-me.
一 Não, antes eu tenho que saber porque a Sra. está me ignorando com tanta veemência.
一 Nunca vi homens com esse tipo de chapéu, milorde 一 disse eu. 一 Perdoe minha indelicadeza, não consigo respeitá-lo.
inclinou-se em minha direção. Ficou tão perto que pude ver as sobrancelhas espessas, o sorriso de menino e os olhos de quem sempre zombava.
A saliva desceu com dificuldade na garganta.
Havia mais do que a tentativa de afastar-se de problemas no meu desdém.
Era , por certo. Mas também não era . Ainda tinha um andar meio desengonçado de quem tinha pernas longas demais, porém pisava com uma confiança que eu não conhecia. Agora ele tinha uma feição mais carismática, espontânea. Não era mais tímido, também.
Pegava-me constantemente pensando nisso no decorrer dos dias.
一 Deveria me respeitar, Sra. . Sou um marquês muito poderoso.
Puxei o chapéu de sua cabeça e dei uma risadinha. Ela saiu mais nervosa do que imaginei.
一 O que fará diante de tão grande desacato, Vossa Excelência?
As íris passearam sobre meu rosto. Contive um suspiro involuntário.
一 Tenho que consultar meu livro de regras. 一 Sua voz soou um tom mais baixo.
Levantei a sobrancelha.
一 Você tem um livro de regras, milorde?
一 Se quiser conhecer…
Pisquei, como se o encanto tivesse quebrado. Não era mais uma conversa entre velhos amigos que se provocam, irritam um ao outro, mas mantinham a amizade próxima. Éramos dois, um homem e uma mulher, flertando.
Flertando em uma loja.
Na frente da irmã dele. E de Peggy, por Deus, que tinha me dito todas as fofocas que o nome de Exeter carregava.
Procurei Danna com os olhos, mas ela já esquecera a conversa e estava entretida em escolher algumas fitas de cores terríveis.
Ah, ela não tinha salvação.
一 Senhora, vou levar o chapéu 一 avisei para atendente, afastando-me do marquês de Exeter.

[...]


Não lembrava a última vez que tinha posto os pés em um salão de baile, sarau ou qualquer evento social noturno. Afonso detestava quando eu ia; ele dizia que ficava incomodado com as pessoas murmurando sobre o meu sotaque. De início acreditei ser seu jeito diferente de ser atencioso comigo, mas, mesmo disfarçando o máximo meus R e S, para ele, era preferível que eu ficasse em casa e falasse com ninguém.
一 Está nervosa, ? 一 perguntou George.
一 Não. Claro que não. Por que a pergunta?
一 Você está esmagando meu braço.
Soltei-lhe o cotovelo no susto. Meu irmão, porém, segurou meus dedos por baixo da luva e os pôs de volta por cima da manga do casaco de veludo. O gesto tão atencioso acalentou meu coração.
一 Tudo bem ficar nervosa, .
一 Não estou 一 neguei mais uma vez. Levantei o queixo para reforçar meu pensamento. 一 Você que não consegue lidar com nenhum apertozinho.
George riu, incrédulo, no entanto não me respondeu mais.
Os nossos nomes foram anunciados. Vesti meu melhor sorriso educado e inatingível. Nada abalaria-me naquela noite.
Estávamos no começo de julho. Boa parte dos nobres e família de bom nome já tinham se retirado para as suas casas no campo. Apenas os ratos do Parlamento continuavam em Londres.
Com todo respeito ao meu irmão, era claro.
一 Percebe que é a primeira noite que andamos assim, juntos? 一 comentou Dudley enquanto desfilávamos pelo salão.
一 Tem certeza? Nós… 一 hesitei, pensativa. George ainda estava na escola quando fui apresentada à Alta sociedade. 一 Oh, é verdade. Não havia pensado nisso.
一 Mamãe se arrependeu de ter consentido você ter debutado tão cedo 一 disse George.
Lambi os lábios e dei um pequeno aceno para uma senhora que eu conheci há muitos anos. Não queria falar da mamãe 一 não naquele momento, ou num próximo. Ainda assim, respondi-lhe:
一 Eu também me arrependo.
一 Querida Sra. ! 一 exclamou o Coronel Lincolnshire. 一 Não imaginei encontrá-la ainda nessa temporada.
Coronel Lincolnshire era um antigo conhecido de minha família. Nunca fora próximo como os Exeter, por exemplo, mas não deixava de ser um senhor de amabilidade ímpar.
一 Senhor, meu coração estava muito ansioso para conseguir esperar mais uns meses! 一 cumprimentei-o com meu melhor sorriso. 一 Onde está a Sra. Lincolnshire?
一 Está em Bath. Foi visitar a irmã mais nova que acabou de dar a luz 一 disse ele. 一 Ah, soube que teve uma menina ano passado. Que tragédia a morte de seu marido! Que bom que ele deixou um fruto para confortá-la.
A Família não concordava com ele; porém, diante de palavras sem maldade de um homem honrado, agradeci-lhe sem demora. Havia muito mais pessoas desconhecidas do que conhecidas pelo salão. Fui apresentada a diversos casais e senhoras de sobrenome conhecido, mas de rosto que não pude relembrar. Em meio a conversas superficiais e desejos de condolências, o frio na barriga tornou-se uma memória antiga e engraçada.
Um senhor da terceira linhagem de um ducado escrevia seu nome no meu cartão de dança quando o nome do Marquês de Exeter foi anunciado. E foi de forma muito esquisita como meu coração bateu no peito. Olhar para vestido com uma roupa de gala de tom cinza, no entanto, não me dava qualquer ansiedade platônica ou desejos arrebatadores. Ainda assim, vê-lo andar em direção a mim e meu irmão despertava uma certa expectativa de algo que eu não poderia definir no momento.
Pior ainda era ver os cochichos nem um pouco discretos dos que o viam. Fosse Exeter alguém sem título dificilmente estaria ali; teria sido desconvidado, com toda certeza. No entanto, era bem verdade que o conflito foi iniciado pelo Sr. St Clair. Ele e a esposa estavam em uma situação muito pior socialmente falando.
一 Dudley 一 disse ele, com um breve aceno. 一 Sra. .
Pareceu fazer menção de pegar a minha mão, mas desistiu no meio do caminho. Virei-me para quem assinava meu cartão (e que não conseguira decorar o nome ainda).
一 Obrigada, senhor 一 repliquei com uma reverência. O leve mexer do corpo para baixo dava-me a aparência de uma joia escorregadia; era o que mamãe sempre comentava. O homem piscou meio encantado e eu desviei os olhos acanhados.
一 Ainda tem espaço para mim pedir-lhe uma dança?
Por instinto, prendi o cartão contra o corpo como se a qualquer momento fosse roubado. não desviou o olhar para mim e pude vê-lo prender um sorriso de quem sabia que havia me encurralado.
一 Acho que a próxima é uma valsa, não é? 一 disse George. 一 Se for o caso, coloque meu nome. Ele pode dançar com você outro momento.
一 Oras, por que não posso?
一 Talvez quando sair da era ultrarromântica.
Com o leque, escondi a risada que quase saia sem muito filtro. Alguns convidados olharam para nós de lado pela pequena agitação.
一 Pensei que não queria aparecer em público tão cedo, Excelência.
一 Eu não fiz nada de errado 一 disse ele, caprichando na expressão inocente. 一 Não entrei na casa de ninguém fazendo estalhadaço e fazendo acusações sem provas.
Mesmo inclinado para minha direção, era alto demais para ser encarado sem erguer um pouco o queixo. Quis dizer não, mas não fui capaz de criar uma boa justificativa a tempo. Antes que pensasse muito sobre o que estava acontecendo, assenti com a cabeça.
Enquanto andávamos pelo salão até a mesa, expressões simpáticas e calculadas para não serem exageradas, escuto sussurrar:
一 Estou ansioso para recebê-la em Exeter.
一 Não é como se eu nunca tivesse ido para lá 一 apontei. 一 Ainda há aquelas escadas assassinas de madeira?
一 Eu fiz relativas reformas para o conforto das minhas irmãs.
一 Você é muito atencioso com suas irmãs, Exeter. Soube do cuidado que tem tido com Lenna e fiquei feliz que, apesar de sua reputação…
一 Minha reputação é ótima, você só pegou-me em um mau momento 一 justificou ele, parando de súbito.
Quis batê-lo, certamente. Não era momento para chamar atenção, pois existiam tantos olhares nos cercando. As luzes das velas podiam não ter a força da luz do Sol, mas eram tão reveladoras quanto.
一 Oras, Exeter 一 exortei enquanto puxava seu braço para que continuasse andando. 一 Você irá fingir que não há algumas conversas ruins sobre você? 一 E assumiu que eram todas verdades?
Levantei a sobrancelha. Peggy não mentia e dificilmente passaria-me fofocas não averiguadas. Além disso, eu vi com meus próprios olhos a confusão na sala dos Exeters.
一 Então, você não estava com a Sra. St Clair?
A pergunta disparou um alarme de desespero em Exeter. Segurando meu braço com mais precisão, puxou-me em direção à porta.
一 O que você está fazendo? 一 indaguei, mas ele não me respondeu. O sorriso congelou na minha face enquanto passava pelos convidados.
Esperei apenas ficarmos um pouco mais longe do salão para puxar-me para longe com força.
一 Escute,
一 Não, você me escute! 一 exclamei, o dedo levantado como se o marquês fosse uma criança. 一 Isso não deve se repetir. Tirar-me desse jeito no meio do salão? O que estão falando agora de mim, seu estúpido? Quer afundar minha reputação antes mesmo de eu completar um dia de volta ao Almark's?
revirou os olhos.
一 Não é para tanto, . É mais escandaloso você comentar isso no meio de um salão lotado.
一 Lotado?! Tinha cinco gatos pingados perto de nós!
Duas jovens encaram-nos enquanto passava no corredor. Sorri superficialmente.
一 Boa noite, senhoritas 一 cumprimentou Exeter cordialmente. Elas responderam entre risadinhas e seguiram o caminho. Observei-as em silêncio até perdê-las de vista.
一 Irei ao toalete 一 avisei, seguindo a mesma rota das senhoritas.
一 Não acabamos de conversar! 一 protestou .
一 Acabamos, sim 一 repliquei sem olhá-lo. 一 Sua atitude só comprova o que os boatos dizem. Seu irresponsável!
Embora meus passos fossem rápidos, pude escutar o som dos sapatos de Exeter atrás de mim. Sentia-me estranhamente irritada com aquela situação. O que seria uma boa noite tinha começado a sair dos trilhos.

一 Sra. para você 一 corrigi.
Se a filha do antigo Conde de Dudley era tão bonita assim, ela deve ter comido a beleza dela. Por isso está tão inchada.
Parei o passo de frente ao vestíbulo. A casinha era do lado de fora, faltava alguns passos até eu alcançá-la. Um frio atravessou meu peito.
Inchada, não. Ela está gorda. Capaz de pior do que a Você-Sabe-Quem.
Ouvi risadas. O choro subiu; respirei fundo. Não iria chorar ali, num lugar desconhecido. Deixaria as lágrimas para casa.
Você não devia falar assim dela. Se algum nobre ouvir você fazendo comentários ruins com a Rainha será nosso fim.
Infelizmente eu não fui a única a ouvir. Entre piscadelas, vi Exeter em direção à porta do vestíbulo com cara de poucos amigos.
Segurei o braço por instinto, como se fosse minha única salvação num mar de caos e tempestade.
一 Leve-me até os jardins, por favor. Preciso de um pouco de ar 一 pedi.
Exeter franziu o cenho. A preocupação que cruzou seu rosto acalentou-me um pouco. Apesar da pequena troca de farpas segundos antes, a atenção dele estava em mim.
一 Vamos 一 disse ele.
Minha mãe, lá do outro lado desse plano, deveria estar pedindo em desespero que eu saísse daquela situação. Passear com um libertino pelo jardim quando eu queria voltar para o mercado do casamento era suicídio social, mesmo que o homem fosse um amigo de infância.
Não importava, ao menos não naquele momento. As palavras maldosas abriram uma caixa de pandora que até então eu estava escondendo.
Faça dieta, .
Vai acabar explodindo de tanto comer.
Cada vez você fica mais feia desde o dia que nos casamos.

? ? Você está bem? 一 Senti os ombros serem sacudidos e pisquei com força. encarava-me com a face preocupada, procurando algo em meu rosto que denunciasse a origem do comportamento acuado. Em dias normais, eu revidaria da forma mais elegante possível. Foi assim que mamãe fazia e admirava-a bastante por conta disso. No entanto, não percebia o quanto aquilo ainda era uma ferida aberta e inflamada: qualquer cutucar causava dor.
Escutei o som da brisa tocar as folhas. Estava quente, ainda que fosse noite e tenha chovido no final da tarde. Não havia ninguém por perto.
一 Estou bem, sim.
一 Tem certeza?
Olhei para o céu. A lua estava escondida pelas nuvens.
Respirei fundo. Sentia falta de quando a vida era menos complicada.
一 Sim, eu tenho certeza 一 repliquei. 一 Ficarei melhor quando sair de Londres. Acho que voltar a frequentar a sociedade agora foi uma ideia ruim.
, sobre o que elas estavam conversando…
Balancei a mão para que ele parasse de falar.
一 Não vamos tocar nesse assunto, por favor. Não hoje 一 ou nunca, quis complementar.
passou a mão no rosto, um tanto chateado.
一 Você e seu irmão são do mesmo jeito. Nunca falam o que estão realmente sentindo.
Segurei o sorriso para que ele não soubesse que concordava. Éramos, sim, muito parecidos, eu e George 一 embora todos gostassem de dizer o quanto nossas personalidades eram opostas, tinhamos sido forjados da mesma maneira.
一 Eu saí porque não queria agir de forma explosiva e criar um escândalo. Desculpe-me por arrastá-lo 一 expliquei.
一 É isso mesmo? 一 disse, aparentando não engolir minha desculpa. Balancei positivamente com a cabeça. 一 Pois você parece alguém que precisa muito de um abraço.
Olhei para ele, incrédula. Nós costumávamos dizer aquela frase quando criança, mas geralmente era oferecido um soco. “Pois você parece alguém que precisa muito de um pontapé”.
Éramos muito carinhosos na infância.
一 Vem aqui, . 一 abriu os braços como se eu fosse realmente uma criança emburrada.
E contra todos os alertas de perigo que minha mente soltou, eu o abracei.
Se mamãe estivesse viva, ela morreria naquele instante. Estar abraçada com um homem, libertino ou não, no jardim do baile, era assassinato social. Se alguém nos visse, eu teria que me casar com Exeter.
Sorri com aquela ideia absurda quando os braços de rodearam meu corpo. Ele apertou-me contra seu peito e senti-me estranhamente acalentada com seu cheiro de pinheiro molhado. Lembrava-me da floresta de faias que rodeava o Chalé dos , onde nós íamos no fim de ano. Lá, quando sentia-me sufocada por aquela família que escolhi para mim, corria entre as árvores para chorar sem ser incomodada.
一 Obrigada, 一 disse eu quando afastei-me. Os segundos pareceram muito breves quando a brisa voltou a bater em meu braço. 一 Espero que ninguém tenha visto isso.
Não pude, porém, encarar a Exeter diretamente. Passei a mão no amassado da saia com cuidado.
一 Seria tão ruim assim se isso acontecesse?
Fiz uma careta.
一 E forçá-lo a casar comigo? Como seria isso algo bom?
Ele deu os ombros.
一 Eu sou um ótimo partido.
一 Com toda certeza 一 falei sem conter a ironia.
Recompus-me.
一 Vamos voltar para o salão 一 afirmei.
一 Mas você não queria ir para casinha?
Revirei os olhos, não me contive. Não era óbvio que era apenas uma desculpa para que ele não me incomodasse mais?
一 Vamos logo, Exeter.

Capítulo 6


Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



一 Eu te amo!
一 Eu te amo mais!
Encarei o teto da sala de visitas como se fosse algo muito interessante. Não consegui segurar o suspiro de tédio que saiu das minhas narinas; isso, porém, não afetou o casal de noivos que eu supervisionava.
Lenna e o Visconde Severn tinham começado a conversa um em cada canto do sofá, como mamãe havia orientado, mas, conforme o tempo foi passando, sentia-os cada vez mais perto de mim, que estava no meio do móvel. Os encontros dos dois se tornaram menos periódicos desde que o futuro matrimônio foi anunciado e cheguei a indagar a minha mãe o porquê daquele pudor. Eles iam se casar logo, oras.
Agora eu entendia a lógica das regras sociais, que pedia sempre uma dama de companhia ao lado. Ninguém aguentaria toda aquela melosidade sem que fosse pago por isso.
Levantei-me quando o relógio marcou quinze minutos de puro sofrimento.
一 Acredito que esse tempo foi suficiente para que os dois digam adeus, sim 一 afirmei enquanto abotoava meu casaco. Os dois seguiram minha ação com bicos: Lenna estava a ponto de fazer pirraça como Grace faria e Severn mostrou-se aborrecido. Fingir não ver isso, porém. Se ele quisesse casar com minha irmã teria que ser nos meus termos.
一 Obrigado por receber-me, Vossa Excelência 一 disse o Visconde ao apertar minha mão.
Ele deveria ser dois ou três anos mais velho, porém ainda exalava a energia de quem saiu de Eton ontem. Dei-lhe um sorriso simpático enquanto punha um pouco mais de força no cumprimento. Severn piscou assustado, mas não disse nada.
Ainda lembrava da carta cheia de reclamações e do tom passivo-agressivo que ele enviou após o incidente com St. Clair, quase colocando em cheque o noivado com a minha irmã. Aparentemente, todos sentiam-se inclinados a chamar-me de irresponsável. Não que estivessem errados 一 eu havia sido sim muito irresponsável, mas não precisava ser lembrado a cada cinco minutos sobre isso.
Eu deveria ter escutado o conselho do Rei Salomão. Mulheres casadas eram armadilhas, com toda certeza.
Quanto mais eu pensava naquilo, menos parecia valer a pena todo o perigo que eu corria para manter o romance com a Sra. St. Clair. Sentia, também, que anos tinham se passado, não meses. Como era comum, esqueci-me dela na mesma velocidade que apaixonei.
一 Já colocaram o seu baú na carruagem? 一 indaguei a Lenna quando o noivo dela já havia ido embora.
Minha irmã, porém, fez uma careta e empinou o nariz. Com os braços cruzados, subiu as escadas pisando com força, não me respondendo.
一 Irá continuar com isso até quando?! 一 gritei para ter certeza que ela escutasse-me.
Certo, talvez não estivesse sendo fácil resolver aquela crise. O Conde Severn, pai daquele moço, por muito pouco não desfez o compromisso. Apenas depois de horas de conversa, conhaque importado, choro de Lenna e promessas pudemos entrar em um acordo.
Mamãe adorou, obviamente. O principal termo, de vez em quando, voltava para mim como um soco no estômago.
Nenhuma amante, tudo bem.
Menos saídas à noite, tudo bem.
Cuidado com a bebida. Nunca foi problema, então tudo bem.
Encontrar uma noiva na próxima temporada.
Positivo?
A verdade era que eu mantinha um pensamento juvenil. Queria apaixonar-me, cortejar e casar. Claro, em alguns anos depois, quando estivesse completado três décadas de vida. Seria bonito. Emocionante. Estaria escrito nos livros de história, as pessoas iriam admirar.
Quanto mais eu pensava nisso, mais parecia ridículo.
Então, eu teria que casar-me, amarrar os nós, etc. etc. Aquela pausa entre temporadas seria minha última como homem solteiro.

一 Bom dia. 一 A voz de invadiu a névoa de pensamentos.
Estava na carruagem junto com James, Grace e mamãe, esperando a partida para Exeter. Observei Ever ser auxiliada pelo cocheiro e entrar com um pouco de dificuldade no cubículo.
一 Não acha melhor ir com os outros, querida? 一 sugeriu a marquesa-viúva. 一 Talvez aqui não tenha espaço.
一 Aqui há espaço, mamãe 一 argumentei. Mudei a postura para que Ever sentasse e ela agradeceu, balançando o leque com veemência.
Era um dia quente. O leve balançar daquele vento fez-me sentir o cheiro de sua loção: era algo parecido com um óleo essencial, dando uma sensação de relaxamento. Dei-lhe um sorriso e ela retribuiu. Um movimento sem grande sofisticação e nem segundas intenções, mas que deixou-me com o estômago frio de ansiedade.
Ainda havia essa, meu Deus. Como eu me casaria com alguém se todas as vezes que encarava sentia um comichão na barriga como se fosse uma criança apaixonada mais uma vez?
一 Desculpem-me o transtorno 一 disse . 一 Dudley desistiu de ir conosco hoje por conta de um compromisso urgente. Não sei exatamente o que aconteceu e não estamos com mais carruagens disponíveis. De qualquer maneira, quando pararmos em Basingstoke, irei alugar uma para mim e as criadas.
Não houve como argumentar contra isso. Eu mesmo não tinha qualquer réplica, sobretudo porque achava que viajar ao lado de tão boa companhia iria distrair-me.
deu um breve aceno para meus irmãos mais novos.
一 Oi, meninos! Quanto tempo! Lembram-se de mim?
As duas crianças olharam-se e disseram em uníssono:
一 Não 一 e riram.
Não era de se assustar; eles dois eram muito pequenos quando mudou-se para Espanha.
一 Bem, essa é a nossa querida amiga Sra. Ravena 一 apresentou-lhe mamãe com gentileza. , no entanto, fez uma breve careta. Ri. Ela ainda detestava o primeiro nome. 一 Sra. brincou com vocês quando ainda eram crianças.
一 Muito prazer, Sra. 一 disseram os dois em uníssono.
Tão educados, nem pareciam que possuíam mentes maquiavélicas. 一 O prazer é todo meu, crianças.
A conversa desintegrou-se no ar. Costumava ser eu quem engajava mais um assunto para que o diálogo não morresse, mas não me sentia em meus dias normais. Mamãe cruzou as pernas e a balançou com pressa.
一 Quando iremos partir, hein? Que demora!
Assenti, concordando.
一 Irei falar com cocheiro e... 一 fui interrompido pela aparição dele, assustando-me quando apareceu acompanhado de Srta. James e uma bebê chorona.
Felicity. Ao contrário do que seu nome sugeria, ela estava banhando o Rio Tâmisa com suas lágrimas.
一 Senhora, ela não está se acalmando 一 disse a Srta. James depois de fazer uma breve reverência. 一 Lady Courtnay está queixando-se de dores de cabeça e receio que não podemos partir enquanto a menina não aquietar-se.
Abri a boca para dizer que Lenna deveria ser mais paciente, porque a criança não tinha como dizer o que a incomodava e minha irmã fora uma que enchia-nos com os seus berros de fome. De todo modo, não foi preciso. A Sra. esticou-se toda para pegar a criança no colo, que agarrou o pescoço da mãe com desespero.
A marquesa-viúva ficou um tanto desgostosa com o pranto de Felicity, mas não disse mais nada. Podia ver naqueles olhos que eu havia herdado o ar de julgamento daquela atitude tão burguesa da mulher.
Duas batidas na carruagem e começamos a andar. Três quadras e o choro da criança tornou-se apenas lembrança. Eu encarava fascinado; Ever respondia com uma expressão apologética, enquanto balançava a menina para cima e para baixo e murmurava: ah ah ah.
O som das palavras simples, o colo da mãe e o cuidado ao acariciar os cabelos foram suficientes para que ela acalmasse e começasse a dar pequenos bocejos de sono.
Eu observava com a cautela de alguém que via um momento raro de cuidado. Ora, eu nunca vi nada parecido antes. Como bebês, eu e meus irmãos eram sempre tarefa das babás; o choro, então, não era algo que mamãe gostava de resolver.
Aquele pequeno e comum gesto fez o comichão em meu peito intensificar-se. Felicity não poderia ter encontrado uma mãe melhor.

[...]


一 Eu fiz uma cena, não foi?
Olhei para cima de Cavalheiro Branco, um dos cavalos que nos levavam até nosso destino. Estávamos nos estábulos de Roses & Crowns, uma estalagem requintada e que costumava receber nobres em suas viagens ao sul. Ainda acariciava o pêlo do cavalo quando indaguei:
一 Do que está falando, ?
Ela parecia um tanto perturbada. Os dedos batucavam na porta trancada como de quem ansiava, mas não queria admitir. Tínhamos enfrentado horas de viagem sem interrupção e, ainda assim, não tinha trocado as roupas e tomado uma boa refeição, como minha mãe e irmãs.
一 De nada, . Deixe para lá 一 replicou ressentida e afastou-se da porta. 一 Estou passando para avisar-lhe que sua mãe o chama e pediu para que deixasse os cavalos para os criados cuidarem.
Assenti positivamente e mantive meu argumento comigo mesmo. Tivemos um episódio há cinco anos em que um dos nossos cavalos estava machucado e o cocheiro não havia percebido. Demorou quase um dia inteiro de viagem para que o trote lento fosse reconhecido como um problema, e então tivemos um contratempo para conseguir um cavalo novo. Desde então sempre certificava-me se eles estavam em bom estado para prosseguir a viagem.
É claro que minha mãe não entendia isso. Aparentemente, zelar para que não sofressemos um acidente era um tipo de coisa insignificante e desonrosa para um marquês.
一 Recado dado, irei acompanhá-la até seus aposentos 一 avisei com um sorriso. Ever sorriu de volta.
Comunicávamos bastante assim. Sorriso cá, sorriso lá quando não tinha muito que se dizer. Aquela réplica tão comum e construída para ser discreta dava-me um conforto de camaradagem que pude compartilhar apenas com poucos.
一 Agora diga-me 一 iniciei quando pus-me ao seu lado. 一 De que cena está falando?
Vi os olhos de mirarem o chão e ela apertar os lábios com vergonha. Eram raros aqueles momentos 一 ela dificilmente deixava com que o constrangimento lhe escondesse a personalidade. Contava nos dedos de uma só mão das vezes que a vi não sustentar suas próprias atitudes e assumir as consequências delas.
一 Não é normal uma lady mostrar tanto afeto aos filhos fora das paredes do lar.
Tinha várias respostas para aquela frase; algumas não eram nem um pouco educadas. No entanto, apenas disse:
一 Acho que precisa procurar um problema de verdade para resolver, 一 aconselhei. 一 Sua filha estava agitada; você a acalmou. O que há de errado nisso?
一 Mas sua mãe olhou-me de um jeito… 一 ela calou-se, como se estivesse sendo pega pela própria língua. 一 Desculpe-me. Não deveria estar falando da marquesa desse jeito em sua frente.
Levantei a sobrancelha estranhando sua atitude.
一 Oras, se mamãe agiu de forma errada, por que não pode ser criticada? 一 cerrei os olhos para ela. 一 Que tipo de filho cego acha que eu sou?
não conteve um sorriso de esperteza.
一 Não vai me dizer que é um filho muito querido pela mãe?
一 Não somos todos?
Ela parou no corredor vazio e deu-me a melhor careta de zombaria. Quando fazia isso ficava adorável; mostrava, inclusive, as covinhas que possuía nos cantos dos lábios e ficava com os olhos verdes cheios de gracinha. Não mais era quem estava perguntando-me minutos antes de algo que, em dias normais, nunca a incomodaria.
一 Irá dizer que não é o filhinho da mamãe?
Era uma piada, é claro. Éramos amigos tempo o suficiente para ir um pouco além do que a educação esperava. No entanto, seria mentira dizer que aquela frase não incomodou-me.
Porque, Deus me ajudasse, era verdade.
Ao perceber que eu não iria dizer-lhe nada, voltou a caminhar. Acompanhei-a.
一 Tenho pena de sua futura esposa, meu amigo. 一 E apertou meu ombro em conforto. 一 Hoje nunca que eu entraria num casamento assim de novo.
一 Ah, é verdade? 一 disse eu, desconfiado. 一 Que tipo de casamento, então, você deseja agora, Sra. ?
一 Agora? 一 Ela parou e pensou um pouco. 一 Não sei dizer ao certo, mas posso ter certeza que terei mais racionalidade do que emoção. Irei seguir os conselhos da minha mãe.
Olhei para as portas do corredor. Estávamos sozinhos e a poucos passos dos aposentos dela. Não queria que nossa conversa acabasse logo quando tinha começado a ficar mais interessante.
一 Estou a poucos meses de começar a minha caça a uma esposa, também. Conte-me seus conselhos de uma mulher mais experiente.
Ela me olhou como quem entendera meu tom de zombaria, mas deu um passo para mais perto.
一 Antes tem que aquietar-se, certamente. As famílias de moças elegíveis não costumam gostar de gente com uma reputação tão movediça 一 disse ela. 一 Se bem que você se saiu melhor no último acontecimento. Ouvi alguns comentarem chocados que você teve sua casa invadida por causa de fofocas infundadas.
一 Não é isso uma obviedade?
一 Às vezes o óbvio precisa ser dito 一 replicou e piscou para mim.
Sorri, sem controlar-me. Ela deveria ser menos jeitosa e espontânea. Talvez, em momentos aleatórios da conversa, eu não me sentisse deslumbrado.
一 Certo. O que mais me recomendaria?
Ela esfregou as mãos enluvadas com de quem precisava fazer alguma atividade para pensar. Os olhos percorreram o recinto; um dos funcionários da estalagem passou por nós logo após fazer uma reverência.
一 Acho que recomendaria confiar mais na mente do que no coração. 一 Ela fingiu tirar uma poeirinha do meu casaco. 一 Eu cometi esse erro uma vez. Não quero cometê-lo de novo.
A última frase soou quase num sussurro. Admitir aquilo não deveria ser fácil 一 não conhecia exatamente qual era a situação do antigo casamento de , mas não sabia; e nem queria até um tempo atrás.
Estiquei a mão esquerda até o rosto dela. parecia tão vulnerável que quis abraçá-la de novo; dessa vez, porém, não queria mais soltá-la.

Por um segundo imaginei que ela estivesse sentindo a mesma coisa que eu. Vi o ar embevecido dos olhos dela, o corpo inclinando-se para a minha direção. Então ela disse:
一 Meu Deus, você é impossível. 一 Deu uma tapa na mão que estava no rosto. Doeu menos que meu orgulho. 一 Está querendo seduzir-me, rapaz? Tsc, tsc, tsc… Já está querendo arranjar mais problemas.
一 Claro que não, , eu… 一 fiquei calado, sem saber o que dizer.
E ela riu e deu um aceno antes de entrar em passos rápidos no seu quarto.
Passei mais tempo encarando a porta de madeira do que o recomendado. Havia um motivo pelo qual, mesmo sendo tão próximos e abertos um com o outro, eu nunca admiti os meus sentimentos para : eu sabia que ela reagiria assim. Ela riria, diria para que eu parasse de besteira ou pior, chamaria-me de menino. Não havia dose de romantismo, sedução ou palavras bonitas que a convencessem do contrário. Mesmo se eu tentasse muito, nunca seria o suficiente para .
Era um fato antigo, de mais de uma década. E ainda assim, tirou-me o sono tranquilo naquela noite.

Capítulo 7


Ravena , Sra. ,



Houve uma época em que eu conhecia muito bem meus próprios sentimentos. Sendo bem honesta, eu apenas achava que os conhecia. Sabia quando era raiva, angústia e amor. Sabia quando era bom ou ruim. Sabia…
Porém, quando crescemos de verdade 一 não era aquele momento que nos dizem que somos adultos, mas quando sentimos a responsabilidade nos ombros. Esse primeiro era artificial, impreciso e cheio de equívocos. Eu estava falando do momento em que a realidade tornava-se mais nítida e complexa, quando as certezas eram, na verdade, ilusões.
Eu não sabia o que estava sentindo quando entrei em meus aposentos, mas o coração batendo forte não era um bom sinal.
Talvez fosse apenas a resposta de alguém que por muito tempo foi negligenciada pelo marido. Talvez era só aquela aura magnética que havia desenvolvido ao ficar adulto. Talvez fosse apenas minha vontade de flertar, provando-se mais alta que meu bom senso.
一 Senhora, está bem? 一 sussurrou Peggy, que olhava de soslaio para a cama. Deitada entre os lençóis com o bumbum para cima, estava minha filha.
Era a criança mais adorável do mundo e ninguém poderia argumentar quanto a isso.
Respondi à minha dama de companhia/babá/criada com um aceno positivo.
一 Pode pedir para que preparem-me um banho? 一 falei em tom baixo. 一 Depois, você pode resguardar-se para descansar. Ainda faltam dois dias para que cheguemos em Exeter.
Quando estava finalmente sozinha pus-me mais uma vez a pensar no que significava tamanha afetação que eu sentia. Será que eu estava confundindo os sentimentos de infância que ainda carregava?
Só depois de estar limpa e vestida desisti de encontrar uma resposta satisfatória. Deitei-me ao lado da minha filha e fingi dormir quando bateram na porta chamando para jantar.
Fosse o que fosse, não era algo que faria-me agir de forma diferente em frente ao Marquês de Exeter. Ele não era 一 nem deveria 一 ser uma opção de pretendente. Não estava à procura de envolver-me em escândalos e tornar-me amante de alguém e não era um homem ideal para o matrimônio, afinal, um homem que não respeita o casamento dos outros dificilmente respeitaria o dele.
Suspirei desanimada.
Que falta de sorte a minha! De tantos homens, por que ele?

[...]


Apoiei-me na mão do cocheiro para entrar na carruagem alugada. Estava feliz que Dudley havia dado-me mais dinheiro do que eu pedira e mimei a mim e os criados com uma acomodação um pouco melhor até a nossa próxima parada. Sem a Marquesa-viúva com o olhar de julgamento e o marquês com seu charme natural, estar dentro do cubículo era de uma alívio intenso.
Felicity acordara menos estressada de manhã; estava brincando com uma boneca de pano e punha a mão costurada na boca. Já havia tentado tirar-lhe o hábito, mas era uma guerra perdida. Talvez a resposta estava nos dentinhos nascendo…
一 Você chegou a visitar Exeter, Peggy? 一 indaguei, acomodando-me no banco. 一 É um lugar fascinante. É mais bonito do que Dudley, inclusive. Às vezes achava que o Sol brilhava mais lá…
一 A Sra. Montgomery falou-me bastante dela, sim 一 disse ela. 一 É verdade que há um campo de maçãs? Nunca vi uma de perto.
Antes que eu respondesse, escutamos o barulho do bater na porta.
一 Sra. , permita-me entregar uma cesta da Vossa Excelência antes que venhamos partir 一 disse um criado.
Surpresa, encarei minha dama de companhia esperando que ela soubesse de alguma coisa. Ela parecia tão surpreendida quanto eu.
Como eu estava com Felicity no colo, pedi com aceno para que Peggy abrisse a porta; ela pegou a cesta e agradeceu. Aparentemente estava pesada.
一 Há um recado 一 disse, puxando um bilhetinho.
一 Leia para mim 一 pedi. 一 A Marquesa que enviou, por certo. Deve estar preocupada com…
一 Aqui diz ”Para que a Vossa Senhoria tenha mais cuidado com a saúde, pois não jantou, nem comeu essa manhã. Precisamos que chegue forte e bem até Exeter” e é assinado pelo próprio marquês. 一 Peggy levantou as sobrancelhas antes mesmo de encarar-me.
一 Não olhe assim 一 disse eu, aflita. 一 Tenho certeza que foram ordens da marquesa…
一 Oras, não estou olhando de forma alguma, senhora. 一 Ela guardou o papel de volta a cesta. 一 Sou apenas uma humilde serva.
Cerrei os olhos em direção a mulher. Ela fez uma reverência exagerada e sentou-se mais uma vez. Em meu colo, Felicity riu, como se fosse uma brincadeira.
Um grito contra os cavalos. A carruagem começou a andar. Uma mecha do firme do penteado loiro de Peggy caiu, como se estivesse zombando da atitude dela.
一 Eu a conheço, Srta. James 一 disse eu. 一 E nós duas sabemos que você não é apenas uma serva.
Ela escondeu o riso com a mão.
一 O Marquês parece ter sua amizade em alta estima 一 afirmou, misteriosa. 一 De acordo com o que eu ouço, as más línguas não veem qualquer segunda intenção na aproximação dos dois, senhora. São de famílias próximas, afinal.
一 Muito bem 一 repliquei, embora não soubesse se isso era algo preocupante ou não. 一 Além do mais, ele não tem o perfil de que estou à procura. Lorde Byron, por exemplo, encaixa-se mais. Ouvi a marquesa-viúva avisar-me que ele estará em Exeter muito em breve junto com alguns familiares, também.
一 Será uma boa oportunidade para observá-lo 一 comentou Peggy. 一 Embora seja de uma família cheia de escândalos, particularmente encontrei nenhuma que o envolve-se diretamente. Não é de estar em muitos bailes, também. É parecido com o milorde Dudley nesse sentido. Ouvi que Lorde Byron tinha certo interesse para com uma cantora de ópera, mas ela já era comprometida com outro.
Bati o indicador na face enquanto pensava.
一 Vejo que é realmente um homem discreto como a aristocracia deveria ser. Chame de hipocrisia, mas prefiro não saber do que se passa por trás das cortinas das casas. É menos comprometedor olhar pelo lado de fora.
Olhei para a janela. Basingstoke era uma cidade sem grande singularidade, mas me encantava voltar a viajar pelas estradas do meu país.
一 Peggy 一 chamei-a sem tirar os olhos dos campos da cidade. 一 Soube alguma coisa de Dudley? No baile que fomos ele deve ter dançado uma ou duas vezes e foram com mulheres casadas… Pergunto-me se ele não está interessado em procurar uma esposa. Está sozinho há tantos anos...
一 Infelizmente não poderei compartilhar-lhe tais informações, senhora 一 disse ela. 一 É errado fazer fofoca de quem paga seu salário.
一 Ora, sua! 一 exclamei com a voz ficando aguda. 一 Irá falar de mim por não ser eu que paga seu salário? Pensei que fosse minha amiga!
一 Não se preocupe, minha senhora 一 disse ela de bom humor. 一 Nunca falaria mal de alguém capaz de fazer uma criança tão bonita como Felicity!
Nós duas rimos, a cabeça inclinando-se para trás. Felicity, que não entendia da conversa, mas jurava que estavam referindo-se a ela, riu também.
A viagem para Exeter tornara-se, então, muito mais agradável.

[...]


Chegamos na estalagem Strutt & Parker no meio da madrugada. A segunda parada era sempre a mais longa para chegar e a menos a repor as energias. Todos estavam rabugentos e calados quando sentamos na mesa para tomar um ensopado de carneiro, mas precisávamos de ao menos duas horas para que os cavalos descansarem; ainda tinha que alugar novos, no meu caso. Felizmente consegui tirar um bom cochilo durante a viagem e estava mais desperta do que a maioria.
, olhe para o Zach pegando do meu ensopado! 一 exclamou Grace com voz de choro. 一 Ele já tomou o dele!
一 Zachary, pare de perturbar sua irmã 一 reclamou o sem abalar-se. 一 Suba e vá descansar. Sairemos antes do sol nascer.
Observei a marquesa-viúva na outra ponta da mesa; o rosto estava abatido e ela soltou um discreto bocejo. Levantou o olhar para a pequena desavença, mas voltou a encarar o prato.
一 Não vou! Você não é meu pai para mandar em mim! 一 replicou o menino.
O som do talher contra o prato ressoou pela mesa. Observei levantar os olhos para o irmão mais novo com cara de poucos amigos; não disse nada, afinal, aquele pequeno tilhar já indicava que sua paciência estava no limite. Deveria ter envelhecido cinco anos só com o franzir das sobrancelhas.
一 O que disse? 一 A voz de Exeter estava baixinha, no entanto, prestes a explodir.
James levantou sem muita educação e saiu da mesa bufando como um touro, obedecendo a ordem inicial do irmão. Não precisou que dissesse mais nada.
Observei toda a cena com uma grande interrogação na cabeça; era, porém, a única impressionada com a atitude do anfitrião.
一 Danna 一 chamou , alienado do que eu pensava. 一 Passe-me o sal, por favor.

[...]


A propriedade principal de Exeter era excepcional. Vê-lo depois de dez anos deixava-me mais sem fôlego ainda: a arquitetura georgiana, os jardins e parques que o compunham eram bem cuidados, milimetricamente projetados para criarem uma harmonia acadiana. Ainda lembrava-me do jardim submerso de camélias e as azaleias que apontavam o caminho.
Eu adorava brincar pela propriedade. Esconde-esconde, pall mall… Eu tinha uma boneca linda de porcelana que ganhei do antigo marquês! Pena que derrubou-a em meio a uma discussão sobre algo que não me lembrava…
一 É estonteante, não é? 一 declarei ao ver Peggy olhando para fora com os olhos esbugalhados. Ela apenas assentiu.
Descemos logo após a carruagem do Marquês de Exeter e os irmãos 一 aparentemente, a marquesa os organizou para estarem todos os cinco em um cubículo por muitas e muitas horas.
Observei Zachary com cara de poucos amigos render-se a uma piada dita pelo irmão mais velho. Aparentemente a chateação fora só no momento do jantar.
Eu estava faminta, cansada e com uma dor terrível nas costas 一 e ainda tinha Felicity, que ficara muito estressada depois de tanto tempo de viagem. Sentia-me meio zonza, também, e os lanches frios de estavam ameaçando voltar por onde entraram. Eu precisava muito dormir e as camas de lençóis de seda de Exeter eram tudo que meu corpo precisava no momento.
Os criados fizeram uma rápida recepção aos donos da casa e aos poucos fui relembrando de alguns que trabalhavam ali antes mesmo de eu nascer; o mordomo, Sr. Hutton, a governanta, Sra. Pittman, etc., etc..
Embora não lembrasse com precisão dos cômodos da casa, meu corpo sabia onde ir quando fomos levadas aos meus aposentos. Eram os mesmo de quando eu era mais nova e deixara de frequentar o berçário.
Minha mãe e a marquesa-viúva eram amigas próximas pois foram para mesma escola quando mais novas 一 não diria que melhores amigas, mas havia uma certa irmandade secreta entre aquelas que viveram essa fase juntas. Ainda assim, era fato que sempre estavam convidando e sendo convidadas uma pela outra para passar pequenas temporadas nas respectivas propriedades. A amizade de George e foi suficiente para que aquele hábito não tenha perdido-se até os últimos dias de vida da antiga Condessa de Dudley.
Deixei-me ser atendida pelos criados da casa; preparam para mim uma banheira, roupas limpas e cuidaram de Felicity para que eu pudesse dormir. Embora fosse um tratamento normal para aristocracia, sobretudo convidados, era bom estar em uma casa em que eu era bem-vinda mesmo que não fosse a dona.
Acordei-me no fim da tarde com as batidas ansiosas de Peggy na porta.
一 Você não precisava bater para entrar… 一 resmunguei com o rosto enfiado entre travesseiros.
一 Sei que dormir soa muito mais atrativo nesse momento, mas se eu não avisá-la irá ficar sem olhar-me nos olhos por semanas.
Levantei a cabeça. Peggy estava impecável, como sempre. Poucas damas de companhia conseguiam vestir-se com tamanha modéstia e beleza. Muito se falava das mulheres ricas que podiam encher-se de joias e tecidos caros. Pouco importava, realmente. Nem todas conseguiam encontrar um bom equilíbrio para que as roupas não ficassem entre uma simplória e alguém de muito mal gosto.
一 Pois, então, diga-me: o que é tão urgente para que eu tenha que me levantar?
Os olhos da dama de companhia ficaram brilhantes quando disse:
一 O capitão da Sra. Montgmery estará conosco no jantar. Ela está toda nervosa buscando um vestido! 一 avisou. 一 Será que ele é tudo isso que a senhora dizia? 一 titubeou. 一 De qualquer maneira, ouvi a criada da Marquesa comentar que virão alguns familiares do capitão e que, uma delas, o conheceu nessa temporada e está disposta a arrematar o marquês.
Levantei as sobrancelhas.
一 É isso verdade? 一 ela balançou a cabeça positivamente. 一 Nossos dias aqui serão interessantes, Peggy.
Só não imaginava se era no bom ou no mau sentido.

Capítulo 8


Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



Eu não confiava no meu valete, um britânico até os ossos chamado Sr. Mitchell. Ele estava comigo desde que eu me estabeleci em Londres. Era jovem o suficiente para não ter esquecimentos bobos e velho o bastante para não ser inexperiente. Escolhia sempre as melhores cores, casacos e tinha uma conduta exemplar e discreta.
Porém, quando levantava a navalha em direção ao meu rosto, sentia que a qualquer momento iria cortar-me a garganta.
Era um pensamento sem fundamento, óbvio. O Sr. Mitchell nunca arrancou sequer um filete de sangue desde que começara a cuidar da minha barba 一 o que eu não conseguia repetir por mais cuidadoso que eu fosse ao tentar arrancar aqueles pêlos no rosto por mim mesmo.
一 É isso verdade? 一 indaguei sem mexer-me muito. 一 Irá a Srta. Greenwood visitar-nos no jantar?
一 Sim, Vossa Excelência 一 disse Sr. Mitchell. 一 Foi o que a Marquesa orientou que eu dissesse.
Segurei-me para não soltar um suspiro de sofrimento. Não o fiz porque, bem, havia um homem segurando uma navalha muito perto do meu rosto. A Srta. Greenwood era bonita e, com toda certeza, a pessoa mais enfadonha de toda Inglaterra. E a concorrência era gigante, sobretudo no que diz respeito aos homens que compõem a Casa dos Comuns.
一 Qual é mesmo nome do Capitão que irá nos visitar? 一 indaguei de repente. Chamavamos com tanta frequência “Capitão de Danna” que esquecia que ele tinha nome e sobrenome. Se por algum deslize o chamasse assim em público, talvez Zachary iria se tornar marquês antes mesmo de ser matriculado em Eton.
一 Capitão John Wilson, bisneto do Duque de Cumberland 一 replicou meu valete. 一 Está feito, Excelência.
Voltei a respirar direito e agradeci com um aceno. Encarei a cama sentindo-me cansado e minha mente já projetava uma série de justificativas para não descer para o jantar. Que inconveniência era visitar qualquer pessoa no mesmo dia que chegara de uma longa viagem! Poderiam ao menos esperar-nos repor nossas energias antes de ter que entrar numa maçante conversa qualquer.
No final do corredor, acima da escada, estava minha minha irmã mais velha com a expressão de quem estava bisbilhotando havia um bom tempo. Inclinar-se no parapeito de uma escada como aquela era muito perigoso; imagina se alguém a empurrasse de cima a baixo!
Não que eu fosse fazer algo como aquilo, claro.
Na última vez que fiz, quando ainda tinha sete anos, quase a matei por conta da minha imprudência.
一 O que há de tão interessante aí embaixo, Danna? 一 falei alto, fazendo-a pular de susto.
O rosto dela avermelhou-se e ela pôs a mão no peito.
一 Quer matar-me do coração?
一 Não, não 一 repliquei. 一 Isso foi no ano passado. Esse ano quero matar-lhe com um garfo.
Ela franziu o nariz com raiva.
一 Seu estúpido!
Dei-lhe um sorriso.
一 Não irá descer, irmãzinha? Ficar de tocaia não é de seu feitio… 一 pus o dedo no queixo, fingindo pensar. 一 Será que essa atitude tem a ver com um certo Capitão?
, quando irá parar com essas criancices? 一 ela cruzou os braços, irritada. 一 Somos adultos agora.
一 Quando você deixar de se importar com elas 一 repliquei e ofereci os braços. 一 É apenas um jantar, nada além disso. Será bom para que você tenha em mente se o que sentia pelo Capitão Wilson foi algo passageiro ou digno de algum investimento.
Danna voltou a olhar para o andar de baixo; estava vazio, mas isso não a deixou menos aflita.
一 Diga a mãe que estou com dor de cabeça 一 justificou, dando meia-volta em direção ao quarto.
Puxei-a pelo braço.
一 Nada disso. Recuso a vê-la desistir de alguém que gosta de novo por conta de sua covardia. 一 Sem muita cerimônia, encaixei seu braço no meu. 一 Não estive aqui ano passado para incentivar-lhe, mas agora irei.
一 Por que está fazendo isso?
Mirei o rosto da minha irmã mais velha. Ela sempre foi a mais dura de nós, a mais responsável e a menos propensa a correr atrás da própria felicidade. Até mesmo o primeiro casamento foi um arranjo do papai e ela aceitou passivamente.
Danna merecia ser feliz.
Ela respirou fundo antes que eu respondesse.
一 Está bem. Vamos.

Gostaria de narrar quão agradável foi a noite e quão interessante eu achava o meu futuro cunhado. Era verdade que Capitão Wilson era muito mais decente do que boa parte dos homens que se aproximava das minhas irmãs, mas ele era tão chato quanto a Srta. Greenwood, que encontrou em mim uma plateia silenciosa para seu monólogo.
A sala de visitas estava cheia. Além de mim, Danna, Lenna e mamãe, Ever e a Srta James, havia o Capitão Wilson, Sra. Greenwood e a filha, ambas parentes do capitão, e o Reverendo Evans e a Sra. Evans, esposa dele.
一 Não a vi durante a temporada, Sra. 一 disse a mãe da Srta. Greenwood, de repente.
O comentário atravessou a sala e aterrou-a com um silêncio grosseiro. estava estranhamente quieta, destacando-se menos na conversa do que o costume. Estava tão cansada quanto a maioria de nós, acreditava eu.
Em resposta ao que a mulher disse, Ever sorriu com destreza enquanto todos a encaravam, abalando-se nem um pouco com a súbita atenção que damos a ela. 一 Cheguei da Espanha há pouco menos de um mês, senhora. E como deve saber, tirei as vestes da viuvez há alguns meses 一 ela deu um suspiro teatral. 一 Receio que esteja desacostumada de participar de uma temporada dessa magnitude.
一 Não tinha temporadas na Espanha? 一 disse a Sra. Greenwood em tom zombeteiro. 一 É um lugar tão rudimentar assim?
abriu o leque que segurava com delicadeza, ganhando tempo até que disse:
一 São culturas diferentes, por certo. Os espanhóis parecem ser menos propícios ao ócio como nós, ingleses. Mas eles têm bailes e saraus como nós, sim. 一 Ela virou-se para Sra. Evans, que estava ao seu lado 一 Conhece a Espanha, senhora? É um lugar muito romântico...
Mordi um sorriso. Era prazer ver o manejo social que tinha 一 tudo aquilo era muito bem calculado e medido, porém poucos conseguiam fazer com tamanha espontaneidade. Apenas conhecia uma mulher que fazia a mesma coisa e era a minha mãe.
Disfarcei um bocejo e encarei a porta. Já havia chamado os homens da sala para beber conhaque, conversei amenidades e estava ali, socializando com as mulheres. Ainda não passava das nove da noite. Seria rude levantar-me e ir para a cama?
一 Excelência 一 chamou , levantando-se de repente. Ela falava para minha mãe. 一 Peço desculpas pela minha falta de maneiras, mas terei que retirar-me mais cedo. Estou com uma leve dor de cabeça…
Cerrei os olhos para ela. tinha acabado de roubar uma desculpa minha para sair, também.
一 Oh, querida, tudo bem 一 disse mamãe. 一 , acompanhe a Sra. , sim? Não queremos que nada de ruim aconteça no caminho.
Era um exagero, é claro, mas levantei, obediente. despediu-se mais uma vez e saiu sem muita pressa.
Em passos curtos, acompanhei-a em silêncio até seu quarto. Senti uma breve sensação de dejavu 一 dias atrás estávamos fazendo a mesma coisa na pousada. Desta vez Ever andava em silêncio e mantinha uma distância respeitosa.
一 Hm, eu cheguei a agradecer-lhe pela comida? 一 perguntou ela, de repente.
一 Não, mas imaginei que fosse sua personalidade ser ingrata…
revirou os olhos 一 era um movimento deselegante e muito mal educado, no entanto, até mesmo alguém cheio de pudores como ela tinha seus momentos de deslize.
一 Obrigada pela lembrança, Vossa Excelência 一 disse ela e fez uma reverência. Ela sempre fazia com graciosidade, como uma bailarina russa acostumada a receber aplausos do público. Respondi com um breve aceno.
一 Se me permite: por que estava sem comer naquele dia? Era algum mal estar?
Ela desviou o olhar, envergonhada.
一 Estou de dieta 一 falou com a voz baixinha. Aproximei-me para escutá-la.
一 Se me permite mais uma pergunta: essa dieta lhe proíbe de comer qualquer coisa?
cruzou os braços, incomodada.
一 Por que quer saber?
, … 一 suspirei. Aquilo não soava certo. Ficar sem comer poderia ser perigoso, não? 一 Tenha cuidado. Se tem uma coisa que não quero é vê-la com mal estar pelos cantos da casa.
一 Irei me cuidar, não se preocupe 一 afirmou em tom maternal.
Cerrei os olhos, desconfiado.
一 Você está mentindo.
一 Oras, não seja grosseiro! É claro que estou falando sério.
一 Está usando a voz de mãe para mim.
Ela fez um barulho de desdém.
一 Não estou, não.
一 Está sim 一 acusei. 一 Está usado a voz de mãe que mente para o filho parar de ser irritante.
deu uma risada; era raro aquele tipo de gargalhada, embora fosse algo muito discreto. Sorri junto, satisfeito com o resultado.
一 Por que implica tanto comigo? 一 disse ela, curiosa.
Não consegui evitar. Estendi a mão até o rosto alvo e toquei-lhe a covinha do canto dos lábios. Meu polegar o cobria por inteiro.
一 Porque você é absurdamente mecânica. Às vezes não parece de verdade… 一 repliquei. Acariciei a bochecha com os dedos, a mente enevoando de repente. Pensei nos movimentos tão bem calculados que ela fazia quando estava entre os pares; havia momentos que era até difícil definir se era Ever falando ou a Sra. .
deu um passo para trás. O rosto tornou-se menos amistoso.
一 O que quer com isso, ? 一 interrogou, aflita. 一 Não consigo ver como essas coisas possam ser saudáveis para nossa amizade.
Senti o estômago gelar e a boca secar. Cedo ou tarde, iria fazer aquela pergunta. A pergunta que eu ainda não tinha resposta.
O que eu queria com aquilo?
Eu a queria, com certeza. Mas eu já desejara outras mulheres antes; algumas consegui, outras ficaram só na minha imaginação.
Como eu queria ? Como eu a desejava?
Observei-a dar um passo para trás. Quis puxá-la para mais perto, para o mundo que eu estava criando e ela sorria espontaneamente.
一 Acho melhor você ir 一 disse . Ela deu-me um sorriso polido. O sorriso que ela distribuía em uma loja de chapéus.
Eu deveria ter dito alguma coisa bem elaborada. Dez anos era tempo o suficiente para preparar um bom discurso.
一 Desculpe 一 falei. 一 Não irá acontecer de novo.
… Sabe que valorizo bastante nossa amizade, não é?
一 Eu também! 一 repliquei rapidamente. 一 Eu apenas… 一 cocei a cabeça. 一 … Acha que seria muita loucura se nós… Não sei… Ficássemos juntos?
一 O quê?! 一 disse ela, ultrajada.
Precisei de alguns segundos para entender que talvez eu tenha calculado as palavras de um jeito muito ruim. Afinal, era um libertino sugerindo uma união sem rótulo em um corredor na calada da noite.
一 Não, não! 一 falei em desespero. 一 Digo, e se nós nos casássemos?
Confesso, caro leitor: esse foi o pior pedido de casamento de todos os tempos. Não era de se espantar que olhou para mim e disse:
一 Você está louco, Excelência!
Em passos apressados, foi até seus aposentos e entrou sem muita cerimônia; perturbada era uma boa palavra para descrevê-la naquele momento.
Pus as mãos no rosto, incapaz de aceitar a minha própria existência.
Se eu morresse naquele momento, a causa da morte seria constrangimento.

Capítulo 9

Ravena , Sra. ,



Observei Felicity dar uma gargalhada quando conseguiu pegar a bola das mãos de Zachary. Grace, que era muito mais carinhosa, abraçou a bebê por trás como se fosse uma boneca.
Apenas crianças entendiam crianças. De fato, mesmo que eu sempre separasse um tempo para sentar e brincar com minha filha, era fácil perceber que não era a mesma coisa. Eles tinham energia infinita e paciência para brincadeiras que em menos de dez minutos deixavam-me entediada.
Bocejei. A noite foi muito turbulenta. O que deveria ser um sono sem sonhos tornou-se uma inconveniente insônia. Criei um inferno particular recriando e mastigando cada pedaço da conversa que tivera com Exeter após o jantar.
Estava magoada e muito decepcionada. Embora a reputação o precedia, nunca imaginei que receberia uma proposta tão escandalosa, sobretudo com a marquesa-viúva no cômodo abaixo. Meu sangue fervia em apenas lembrar dele desconversando e falando de casamento.
Um caso. E, depois, uma ideia de casamento, meu Deus. Comigo. O que aquele menino estava com a cabeça?
Era minha culpa, também. Não deveria ter incentivado conversas sem decoro e flertes incoerentes. Não deveria ter o deixado acariciar meu rosto daquela maneira, apesar de que… Sendo bem honesta… Sentia falta de algum carinho.
Estar consciente desse sentimento deixava a situação mais degradante. Eu era uma mulher viúva, recém chegada a um país depois de uma década. Como ele pode agir de maneira tão desrespeitosa sabendo que eu estava em uma posição tão vulnerável?
Eu tinha toda a razão para ficar ultrajada; o que não explicava o porquê de estar no berçário escondendo-me.
一 Sra. 一 chamou-me Peggy. 一 A marquesa-viúva solicita sua presença para acompanhar a Sra. Montgomery e Srta. Courtney para a cidade. Ela disse que estava indisposta.
Levantei-me rapidamente. Minha mente ainda estava em confusão e não queria apartar-me daquela singela cena dos irmãos de Exeter brincando com uma Felicity sorridente.
一 O marquês estará? 一 indaguei, fingindo limpar uma poeira inexistente das minhas saias.
一 O marquês saiu cedo para visitar os arrendatários de Exeter. Acredito que não estará na propriedade até o fim da tarde 一 explicou Peggy. 一 Está linda e adequadamente vestida, Sra. .
Pisquei confusa até entender que era a interpretação da minha tentativa de não parecer ansiosa por notícias de Exeter.
Suspirei. Seria bom não encará-lo logo.
Sorri para minha dama de companhia.
一 Muito bem, chame as babás.

[...]
Algumas lojas tinham mudado de lugar, novas apareceram; outras tinham apenas falido mesmo. A padaria continuava com um cheiro muito bom e a viela dos correios ainda cheirava a xixi de cachorro. O centro de Devon City ainda estava do mesmo jeito que eu conhecia 一 um desejo de ser Bath sem o glamour, tamanho ou sequer pontos turísticos atrativos. O que chamava mais atenção ainda era a propriedade de Exeter. Ainda assim, enquanto ouvia como uma bisbilhoteira a conversa protocolar e tediosa que Danna tinha com o Capitão Wilson.
Era de se admirar que ela estivesse interessada em alguém como ele. Poderia ser o tipo de homem que eu procurava, mas eu conhecia meus limites. Não tinha condições de lidar no dia a dia com alguém tão entediante.
一 A Sra. Montgomery parece ainda gostar do Capitão 一 sussurrou Peggy de forma discreta. 一 Acha que agora irá funcionar?
Abri o leque e balancei rapidamente; como podiam ser quentes os dias da Inglaterra! Mesmo com a sobrinha e um bom chapéu, sentia que o sol estava cozinhando minha cabeça.
一 Que Danna possuí afeição por ele é fato, mas e o que Capitão Wilson sente? 一 repliquei. Peggy balançou a cabeça em acordo e continuamos observando-os.
一 Esta livraria é excepcional, Sra. ! 一 Comentou a Srta. Lenna , segurando-me pelo braço. 一 Acredito que ainda não conheça, já que foi aberta há pouco mais de três anos.
Observei a fachada, a mão segurando o chapéu para que ele não voasse. Eu não me considerava uma leitora 一 vez ou outra lia jornais ou livros de poemas, mas não era um hábito. Livrarias não me chamavam a atenção, no entanto, precisava de um lugar em que eu pudesse encostar-me e respirar um pouco.
O estabelecimento era pequeno e ventilado. Não havia muitos livros técnicos 一 aparentemente apenas romances e poesia. No balcão estava um senhor muito simpático e de bigode engraçado.
一 Sejam bem-vindos! Sou o Sr. Staples. Em que posso ajudá-los?
Lenna se adiantou em minha frente.
一 Gostaria muito de ver os novos livros de poesia que o senhor tem! 一 Ela deu um pequeno pulo de animação.
一 Ora, Srta. Courtney! 一 disse como se apenas a reconhecesse agora. 一 Parece que o seu interesse é o mesmo do marquês.
De repente, aquele deixou de ser um dia quente. Como se tivesse sido invocado pela citação de si, saiu de uma das estantes com um livro azul em suas mãos. Não nos viu de primeira 一 estava muito concentrado em desvendar o objeto nas mãos.
A primeira coisa que reparei foi que ele estava com o cabelo mais curto e com as roupas molhadas de suor, como de quem estava na rua há muito tempo. Momentos assim, parecia menos aristocrático e muito mais humano.
一 Não sei nada de poesia, se ao menos… 一 Ele viu a irmã mais nova e o rosto iluminou-se. 一 Lenna, você é exatamente quem eu gostaria de ver agora! Acha que esse é um bom presente para a Srta. Greenwood?
Desviei o olhar para Danna, Peggy e o Capitão Wilson, que olhavam a estante de livros de botânica. Afastei-me devagar dos irmãos, mas não o suficiente para não ouvir-lhes a conversa.
, não sabia que estaria aqui! Como chegou? 一 indagou Lenna.
一 Oras, você sabe muito bem. Entrei em uma carruagem e… Aí! 一 observei de soslaio a Srta. Courtney bater no braço do irmão.
一 Isso é pela brincadeira sem graça!
Ele cerrou os olhos para a irmã.
一 Pois faça isso de novo e só ganhará presentes de minha parte quando casar 一 ameaçou. Ela deu um sorriso amarelo para o irmão e acariciou a parte que bateu.
一 Ora, ora, irmãozinho! Você é tão extremo às vezes... 一 disse com doçura. Segurei o riso. Virei-me de costas quando o olhar de Exeter encontrou o meu.
Não chame meu nome.
Não chame meu nome.

一 Por que está comprando um presente para Srta. Greenwood? 一 interrogou Lenna.
Muito bem. Eu não seria capaz de admitir em voz alta, mas aquela informação também estava cutucando a minha mente pedindo mais robustez.
Exeter estava comprando um presente para a Srta. Greenwood; um dia depois daquela fala escandalosa a mim. Era por que estava a cortejando e mesmo assim quis manter uma amante por tão perto? Ele era esse tipo de devasso? Ou será que ele decidiu cortejar a Srta. Greenwood depois da minha negativa?
A voz de saiu sussurrada.
一 Hoje é o aniversário dela e recebi uma mensagem da Sra. Greenwood dizendo que ela estava muito cabisbaixa pois ninguém de nossa casa lembrou disso 一 replicou. 一 Mamãe não sabe e trate de manter a boca fechada. Você a conhece como ninguém; se ela souber disso, teremos um baile em menos de cinco horas.
一 Deus me livre! 一 exclamou Lenna, aterrorizada. 一 Mas, diga-me, por que não pediu para alguém enviar-lhe flores? Não seria mais simples?
一 E deixar subentendido um cortejo? Está maluca?
Xeque-mate. Não era um cortejo, então. Menos mal.
一 E acha que entregar-lhe John Keats é menos cortejante?
一 Não é?
一 disse ela, com a voz esganiçada. 一 É Ode a um rouxinol e Ode sobre uma urna e outros poemas.
一 E?
Imaginei que Lenna tinha revirado os olhos.
一 Venha, comprar poesia para alguém que não quer cortejar soa-me como uma péssima ideia 一 então ela chamou: 一 Sra. , oh, aproxime-se. Acabei deixando-a de lado. Tem alguma recomendação de presente para a Srta. Greenwood?
Virei-me rapidamente no susto.
一 Oh, não, não 一 repliquei com um sorriso nervoso. 一 Não sei nada de poesia, juro.
Exeter encarou-me. A raiva do ultraje do dia anterior não foi suficiente para que não abalasse com os olhos apologéticos de quem sabia que tinha feito algo muito errado. Dei um passo para trás.
Havia um motivo pelo qual nossos pais nos ensinaram que andar de costas não era perigoso. Você não tem um olho nas costas, ora! Era incapaz de saber onde estava pisando.
Eu devia ter pensado nesse conselho antes de dar aquele passo para trás e bater numa estante grande e com nenhuma organização. A maldita estante de livros não catalogados, soltos sem uma padronização, livres com as beiradas para fora.
Levei uma chuva de livros, óbvio. Tentei proteger a cabeça com as mãos, mas foi tarde demais; uma lombada bateu bem no meio da minha testa e outros dois atingiram meu ombro direito.
一 Ai! 一 reclamei. Não sei se de dor ou de vergonha.
Deveria ser a revolta dos livros, por certo. Era meu castigo por ter lido apenas três durante minha vida toda.
Eu ouvi vários gritos de horror. Muitos “senhora!” "Sra. !” e poucos “!”. Tentei sair do alvo, mas foi pior 一 desencostar do móvel foi o suficiente para que a estante perdesse um pouco de equilíbrio e percebi que minha morte seria bem estúpida assim.
Aqui jaz a Sra. Ravena , assassinada por uma estante que não suportou o encostar do traseiro dela. Porém, alguém de pernas muito longas e nem sempre tão habilidosas empurrou as prateleiras para trás, enquanto a outra puxou-me com violência para longe da desgraça. Alguns gritos ininteligíveis, um coração quase saindo pela boca e eu estava salva.
No braço de .
Se eu estivesse do lado de fora com certeza faria um comentário de que ele deveria tentar ser um equilibrista; uma mão segurava a estante com alguns livros restantes e a outra segurava-me tão perto do peito que eu podia escutar o coração dele.
E sentir o cheiro dele.
Se eu não estivesse tão perturbada, diria que ele precisava de um banho.
A livraria, de repente, ficou morta em silêncio.
一 Meu Deus, você está bem? 一 perguntou Exter, analisando-me com o olhar. 一 Ninguém irá me ajudar?!
Como se finalmente entendessem que não eram meros expectadores do homicídio da estante coxa, vi o Sr. Staples surgir para colocar a estante no lugar; Capitão Wilson apareceu, também, ao socorro.
一 Eu sinto muito, senhora! A senhora está bem? Quer uma água? 一 repetia o livreiro.
一 Está sim 一 repliquei, embora tinha uma área da minha testa que discordava.
一 Claro que não está! 一 disse Exeter, colérico. 一 Olha essa estante, esse perigo! Não é de assustar que tenha desequilibrado com tanta facilidade! Quase mata a Sra. !
O pobre do Sr. Staples estava vermelho, coitado, e pediu mais desculpas do que eu pudesse responder.
一 Querida, como você está se sentindo? 一 indagou Peggy, aparecendo à minha frente. 一 Alguma dor muito forte? Devemos chamar o médico?
一 Com certeza devemos chamar o médico 一 afirmou antes que eu respondesse.
A atitude protetora, por mais bem intencionada que fosse, incomodou-me.
一 Exeter 一 chamei-o.
一 Sim?
一 Solte-me.
Percebendo que ainda estávamos naquela posição nem um pouco respeitosa no meio da livraria, o marquês liberou-me de seu abraço com delicadeza.
Encarei o rosto preocupado de minha dama de companhia e respondi:
一 Estou assustada ainda e a única dor que sinto é na testa.
Peggy fez uma careta olhando para o lugar da dor.
一 Está num tom feio e um pouco inchado… 一 Ela aproximou-se para ver o machucado mais de perto. 一 Acho que ficará um galo.
O marquês virou-se para o livreiro.
一 Está vendo? Um galo! 一 exclamou, horrorizado. 一 O senhor não pode deixar que isso aconteça de novo.
一 Tem razão, Vossa Excelência 一 concordou o Capitão Wilson, quem eu nem me lembrava mais que estava ali. 一 Esse lugar cheira a acidente.
一 Desculpe-me, Excelência 一 disse o Sr. Staples mais uma vez. 一 Imploro o seu perdão. Se puder fazer alguma coisa…
一 A parte ofendida foi a Sra. , senhor 一 disse o marquês, apontando para. mim. 一 É a ela que deve oferecer ajuda.
Todos os pares de olhos do recinto viraram-se para mim e senti-me bastante mortificada. Em dias normais, eu adorava ser o centro das atenções, mas estava muito ansiosa para ir para casa esconder-me debaixo das cobertas.
一 Senhor… 一 iniciei. 一 Fui bastante negligente ao encostar-me na estante de forma violenta, embora concorde que esse tipo de bagunça seja muito perigoso para um cliente. Imagine só se fosse uma criança? 一 dei um suspiro. 一 Apenas dê-nos um bom livro de poesias em um bonito embrulho para o Marquês, sim? Deixaremos o resto no passado.
Em breve instantes eu já estava na carruagem de Exeter esperando um moço trazer-me gelo para minha cabeça. Não precisei preocupar-me com o valor ou mesmo a logística 一 Exeter resolveu salvar a pátria, mais uma vez, e resolveu para mim.
Sentada à minha frente estavam as irmãs do marquês, as duas enchendo-me de perguntas e tentando deixar-me mais confortável. Era um alívio estar diante de pessoas cheias de amabilidade sem as emoções à flor da pele de .
一 Meu Deus, que situação! 一 comentou Lenna. 一 Pensei que perderíamos a Sra. essa tarde! Aquela estante estava indo bem em sua direção!
一 Viram a grossura do livro que caiu na cabeça da pobre? 一 disse Danna com o rosto pasmo. 一 Fosse eu teria caído desmaiada na hora.
Um exagero, por certo, mas não iria dizer nada.
Minutos depois, recebi o gelo para minha cabeça. Doeu um pouco no começo, mas logo senti a área ficar dormente e diminuir o incômodo. Meus braços passaram a ficar um pouco doloridos e imaginei que tudo pioraria mais tarde após o banho.
Ah, se eu tivesse ficado em casa! Teria sido uma escolha muito menos perigosa…
A viagem de volta para a propriedade dos Exeter foi uma eternidade. Felizmente, o salvador do dia acalmou-se um pouco e deixou que Peggy cuidasse de mim. Algumas vezes, porém, perguntou-me se achava que precisava ver um médico. Neguei todas elas.
Então, chegamos na mansão e foi outra comoção. E, embora eu tenha negado mais uma vez, a Marquesa-viúva decidiu que deveriam chamar um médico.
Com toda sinceridade, era muito bom ser cuidada daquele jeito. Se fosse algo que acontecesse ao redor dos , eram bem capazes que eles tivessem deixado-me debaixo da pilha de livros até minha filha começar a sentir minha falta. Em uma eficiência gigantesca, banhei-me, vesti minhas roupas limpas e deitei na luxuosa cama rodeada de mais quatro travesseiros. Claro, não esquecendo do pouco de gelo que estava na minha cabeça.
一 Senhora, está sentindo-se confortável? 一 perguntou Peggy.
Enrolei-me no lençol. O corpo havia esfriado e algumas dores tinham aparecido; nada que um chá não resolvesse.
Mas, obviamente, tinha que esperar o médico.
一 Como uma princesa. 一 Ela sorriu.
一 Estou feliz que não tenha tido nenhum ferimento mais grave 一 disse ela com a mão no peito. 一 Quando vi, o marquês já estava ao seu socorro! A estante parecia que iria mesmo cair em cima de você.
一 Ele foi muito ágil, sim 一 confirmei.
一 Oh, e ele quer falar com a senhora 一 disse ela, direcionando-se para saída.
一 Agora?! Aqui?! 一 minha voz saiu aguda.
一 Sim, ele quer vê-la antes do médico e muito breve chegará.
Abri a boca para inventar uma desculpa, quando lembrei-me de um detalhe: eu não tinha agradecido. provavelmente salvou-me de um acidente muito ruim e nem mesmo disse-lhe obrigada.
Concordei com um suspiro resignado.
一 Pode deixá-lo entrar.
Após arrumar-me na cama, Exeter entrou com hesitação. Era estranhíssimo vê-lo andar pelo meu quarto depois do que havia acontecido na noite anterior. Não era algo que eu havia projetado, com toda certeza.
一 Sente-se melhor? 一 indagou ele. 一 Esse gelo já está acabando, não é? Pedirei mais. 一 Ele estendeu a mão para pegar o sino da mesa de cabeceira, mas eu fui mais rápida.
一 Não precisa. 一 Dei um sorriso constrangido e retirei a bolsa de gelo do lugar. Ele fez uma careta.
一 Isso está muito feio.
一 Obrigada, 一 falei com sarcasmo.
Ele deu um sorriso amarelo e ficou quieto, como de quem preparava um longo discurso. Observei que havia trocado de roupa para uma mais confortável e prestei um pouco mais de atenção no seu novo corte; era a nova moda?
一 Quero pedir desculpas pelo meu comportamento de ontem. Não sei onde estava a minha cabeça.
Quis replicar que sabia onde ele estava com a cabeça, mas seria muito rude da minha parte. Assenti.
一 Honestamente… 一 continuou ele. 一 Não deveria ter abordado você dessa forma. Foi completamente não cavalheiresco da minha parte, peço desculpas.
一 Muito bem 一 disse, a raiva já tendo ido há muito. 一 Está perdoado. Que isso não se repita. Valorizo sua amizade e quero que continuemos assim. Além disso, devo agradecer pelo que fez por mim essa tarde. Foi muito corajoso.
Ele pôs a mão no peito, fingindo-se emocionado.
一 Fiz o que um cavaleiro deveria fazer, oras. Mas aceito o agradecimento.
Ri, porque era sempre muito fácil fazer isso perto dele. Nem me lembrava mais que estava com raiva, vejam só! tinha uma personalidade muito cativante, ao mesmo tempo que poderia irritar às vezes. Um paradoxo.
一 Devo avisar, também, que recebi um telegrama de seu irmão. Amanhã ele estará conosco 一 avisou. Sorri animada.
一 Que ótimo! 一 disse eu.
一 Tenho uma pergunta, 一 falou ele e coçou a garganta.
一 Fale, então 一 incentivei, curiosa.
一 Se fosse um caso em que nós dois estivéssemos interessados… Você casaria-se comigo?
Olhei para a porta sentindo-me nervosa de repente. Ele havia deixado-a entreaberta, cuidadoso. Agradeci por isso.
一 Pensei que tinha pedido para não fazer mais isso…
一 É uma pergunta honesta! 一 protestou ele. 一 Sem nenhum intenção ruim.
Senti minhas costas ficarem muito eretas e tensas. Como eu responderia aquela pergunta tão capciosa?
一 Sabe 一 disse ele, em tom jocoso. 一 Eu mudaria meu caráter por você.
Suspirei.
一 E nos dias em que eu não merecesse tal esforço, o que você faria?
Ele piscou, confuso. Continuei:
一 No casamento, nós mostramos o melhor e o pior de nós. Você estaria disposto a mudar também para o pior de mim ou voltaria para os velhos comportamentos quando percebesse que eu não era quem você esperava?
apertou os lábios, pensativo.
一 Talvez eu já conheça o pior de você… 一 levantei a sobrancelha.
一 Tem certeza, ?
Alguém bateu na porta. Era Peggy, acompanhada pelo médico.
一 Já estou indo, doutor 一 avisou Exeter levantando-se.
Ele inclinou-se para perto e senti o cheiro do perfume dele. Não era impressão, afinal. Ele havia banhado-se antes de vir.
一 Obrigado por responder minha pergunta e ser tão gentil em perdoar-me.
一 Se é uma pergunta sem segundas intenções, estarei disposta a responder 一 falei de modo polido.
一 Sem segundas intenções? 一 ele repetiu e riu. 一 Minha querida , eu disse que não tinha nenhuma intenção ruim. 一 deu uma boa olhada em meu rosto, recaindo em meus lábios. Estremeci. 一 Segundas intenções eu sempre tenho.

Capítulo 10

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



Grace inclinou-se por cima do tabuleiro com a mãozinha tocando o queixo; os olhos concentrados eram absurdamente parecidos com os de meu pai, que tinha um brilho esquisito diante de um desafio. Se ele tivesse a oportunidade de vê-la crescer, com toda certeza seria mais que orgulhoso de ver um dos filhos herdando-lhe essa característica.
一 Vamos, Grace, não tenho a noite inteira. 一 Estiquei o braço pelo encosto da cadeira.
Minha irmã caçula fez uma careta irritada, mas moveu uma das peças. Estávamos jogando damas e, como de praxe, ela estava perdendo.
Danna disse uma vez que eu deveria deixá-la ganhar sempre por ser criança, porém eu estava ensinando-a a lidar com a frustração através da perda; ela teria que lidar com a realidade de que temos mais perdas que ganhos na vida.
E também não gostava de perder, óbvio. Movi mais uma peça.
Ela bateu palmas feliz e moveu uma dama para o extremo oposto, tornando-a um bispo.
一 Veja! Tenho um bispo.
Movi mais uma dama para frente; ela mexeu o bispo para o lado e, com facilidade, peguei-lhe a peça.
! Isso não é justo! Não quero mais jogar!
Suspirei. Ah, crianças. Elas costumeiramente frustravam-se rápido.
Chamei-a com a mão e voltei a organizar o tabuleiro para que iniciássemos o jogo mais uma vez. Tínhamos improvisado uma mesa de jogos em meu escritório, algo que fazíamos toda terça-feira. Afastei-me um pouco do sofá para que Grace sentasse do meu lado.
一 A primeira coisa que você tem que ter em mente é que transformar uma peça em bispo não é o objetivo principal do jogo de damas. Já falamos disso antes. 一 Ela bufou, mas não disse nada. 一 A segunda é esta: nunca desista de uma partida antes do fim. Há sempre a possibilidade de seu adversário começar a fazer escolhas ruins e você ficar em vantagem. Se você quer ganhar de Zach, tem que ter isso em mente. Agora…
Alguém bateu na porta. Nós nos entreolhamos.
一 Quem é? 一 Perguntei, torcendo para que não fosse mamãe. Ela não ia gostar de saber que Grace estava acordada para jogar damas.
一 Sr. Hutton, Excelência 一 disse meu mordomo do outro lado da porta. 一 Sei que está tarde, mas chegaram visitas importantíssimas. Milorde Conde de Dudley e o Barão Byron.
一 Já irei recebê-los, Sr. Hutton.
Dei uma tapinha no ombro da minha irmã.
一 Vá para cama, amanhã conversamos.
Ela bocejou e concordou comigo. Que ótima menina era Grace. Sempre muito obediente.
一 Excelência, permite-me que mande um recado para a Sra. de que o irmão chegou?
一 Não 一 repliquei enquanto levava minha irmã para fora do escritório. 一 Está tarde e acredito que a Sra. viveu muitas aventuras por um dia.
Meu mordomo fez uma reverência em resposta e foi-se.
一 É verdade que você a salvou da morte, ? 一 perguntou Grace, curiosa. 一 Lenna estava dizendo isso para todo mundo!
Salvar da morte era, talvez, um termo amplificado do que realmente aconteceu, mas não poderia deixar de admitir que pensara o pior quando a estante pendeu para esmagar .
Bem, ao menos aquele evento específico facilitou nossa reconciliação.
一 Não dê ouvidos a Lenna 一 aconselhei. 一 Ela é bastante impressionável.
Levei-a até a escada e observei minha irmã subir de mansinho. Dessa vez, quem bocejou foi eu. Tirei o relógio do bolso 一 eram quase uma da manhã. Com certeza, Byron e Dudley haviam vindo com apenas algumas pausas o suficiente apenas para descansar os cavalos. Deveriam estar exaustos.
Senti uma mão pesar em meu ombro e eu saltei de susto.
Uma risada muito conhecida vibrou pelos corredores; era Dudley, de longe.
一 Veja, Logan, ele estava tão distraído que nem viu você chegar perto.
Logan riu também, o bastardo.
一 Está fazendo algo de errado para ficar tão amedrontado, Excelência?
一 Ah, vão para o inferno vocês dois! 一 praguejei, levando a mão para o peito. 一 Sou muito novo para morrer de coração.
Eles riram por mais alguns segundos e eu os levei até meu escritório, como de costume.
一 Aquela que subia as escadas era Grace? 一 indagou Dudley, casualmente. 一 Não faz muito tempo que eu a vi e parece que cresceu mais um palmo.
一 Elas crescem muito rápido mesmo, Dudley 一 comentou Byron. 一 Às vezes tenho que encarar meus primos por alguns segundos a mais para ter certeza se não mandaram as crianças erradas do berçário.
Eu ri, lembrando-me dos filhos do Sr. e Sra. Kline, tios de Byron. Eles eram muito arteiros, em um nível que faziam meus irmãos parecerem dois carneirinhos.
一 O mais velho já não está na idade de ir para escola? 一 perguntei ao abrir a porta.
一 Ano que vem 一 replicou Logan. 一 Ah, então significa que ele entrará junto com Zachary?
Fiz uma careta. Não gostava muito daquelas crianças; eram mimadas e muito arredias, indisciplinadas. Zachary precisava de boas influências quando estivesse longe de casa.
一 Pois diga-me que escola ele irá e então enviarei meu irmão para outra 一 eu disse voltando-me para meu armário. 一 Conhaque?
Os dois deram uma resposta positiva. Logan continuou:
一 Não se preocupe, ele não irá para Eton 一 refletiu. 一 Espero que isso o faça amadurecer. Por enquanto, a criança é meu herdeiro, afinal.
一 Não por muito tempo 一 eu comentei, enchendo-lhe o copo. 一 Acredito que será o primeiro entre nós a casar-se.
Nós três rimos, não levando muito a sério a minha frase.
Em silêncio, então, eu e meus amigos nos sentamos e deliciamos um conhaque pela madrugada em Exeter. Adorava encontrá-los em clubes e restaurantes, claro, mas havia algo muito satisfatório em estar em um lugar privado, os vendo esticar as pernas sem muita cerimônia, falar com o riso mais frouxo e bebericar em silêncio.
一 Foram dormir mais cedo hoje, ? 一 perguntou George. 一 Lembro que os jantares em Exeter costumam durar até madrugada. Pensei que poderia pegá-los todos acordados.
Bebi mais um gole do conhaque para disfarçar. Como eu deveria contar a história de e a avalanche de livros?
Eu deveria contar-lhe também que estava muito inclinado a convencer a irmã dele que eu poderia ser um bom marido?
Dudley esperava a minha resposta; parecia exausto, mas alheio a qualquer problema.
Era melhor que ele não soubesse dessa segunda parte, então.
一 Houve um acidente com sua irmã hoje de tarde.
一 Meu Deus! E ela está bem? 一 George levantou-se de súbito.
一 Sente-se, homem 一 balancei as mãos indicando para que ele sentasse. 一 Ela está bem, só teve um pequeno machucado na cabeça.
一 O que aconteceu? 一 perguntou Byron, curioso.
一 Estávamos em uma livraria e uma estante em falso quase caiu sobre ela, mas fui rápido o suficiente para evitar o pior 一 expliquei e tomei mais um pouco da bebida. Ainda sentia um pequeno frio na barriga ao lembrar do momento exato.
一 Ainda bem! 一 disse George em alívio. 一 Como ela ficou depois do susto?
一 Todos ficaram bastante comovidos e ela, você sabe... 一 continuei. 一 O médico a viu e disse que não havia nada de mais e que as dores em breve iriam embora. Passou-lhe apenas uma pomada de ervas que temos na horta.
一 Que coisa! 一 exclamou Logan, assentindo. 一 Viajar para o interior e encontrar acidentes de metrópole, quem diria?
Mirei a meu amigo 一 foi questão de segundos. Ele balançava a cabeça para cima e para baixo, introspectivo e disse:
一 Ela é uma mulher resiliente, não é? 一 E sorriu.
Eu conhecia a intenção daquele sorriso e não gostei nem um pouco.
[...]
Mamãe era capaz de transformar qualquer atividade ordinária em um grande evento; o piquenique daquele dia não seria diferente. Sentados debaixo de um salgueiro estavam todos os meus irmãos, o Conde de Dudley, Lorde Byron, Capitão Wilson, Sra. e Sr. Greenwood, Srta. Greenwood, , sua filha Felicity e a Srta. James, além da Sra. Anderson, dama de companhia da Srta. Greenwood.
E tinha a minha mãe, claro.
Sentei-me ao lado dos meus irmãos mais novos, mantendo um olhar atento em Zachary. Ele estava estranhamente quieto desde que chegamos em Exeter, agindo como se fosse um anjo imaculado de tão obediente. Eu conhecia as artimanhas dele 一 não cairia naquela mudança repentina. Apostava que Zach planejava um grande ato quando todos estivessem distraídos demais para vê-lo agir de forma sorrateira.
Encarei o céu sem nuvens que as frestas dos galhos do salgueiro deixava-nos ver. Eu não tinha uma estação preferida; reclamava e elogiava-as na mesma medida. Em dias quentes como aquele, relaxava-me não precisar vestir mais roupas do que costume 一 em compensação, reclamava de sentir que estava transpirando todo rio Tâmisa pelo corpo. A estação do calor era mais interessante quando era socialmente aceito que eu ficasse explorando a propriedade, hoje não pegaria muito bem minhas eventuais aventuras.
A conversa intercalava em pequenos grupos; um burbúrio de gente que eu era incapaz de seguir, embora guardasse para mim muitos comentários que provavelmente me fariam sair como alguém deselegante.
Às vezes, porém, todos calavam-se de uma só vez, restando apenas o balbuciar de Felicity no colo da dama de companhia de e o murmurar do vento nas folhas.
一 Excelência, fiquei muito impressionada ao saber o que aconteceu ontem! Foi muito corajoso 一 elogiou Sr. Greenwood, chamando-me atenção.
Olhei para rapidamente. O galo na testa estava do mesmo tamanho, porém um pouco menos roxo; daquela perspectiva parecia que estava crescendo um chifre novo 一 ou talvez uma cabeça nova como a Hidra de Lerna.
Sorri com a piada interna.
一 Não foi para tanto 一 repliquei com modéstia. 一 Fiz o que qualquer cavaleiro deveria fazer.
一 E ainda teve tempo de mandar-me um presente! 一 disse a Srta. Greenwood. 一 Como não tive oportunidade antes, quero agradecer-lhe agora. Comecei a lê-lo ontem, pois não consegui parar.
一 Que bom que gostou, senhorita 一 falei, embora não fizesse ideia de que livro havia dado de presente.
一 Vossa Excelência é tão atenciosa 一 disse a Sra. Greenwood. 一 Se age com tanta gentileza com uma amiga da família, imagino como será com a futura marquesa!
Não consegui evitar franzi a sobrancelha com o comentário, mas logo desfiz a careta. A Sra. Greenwood era uma mulher de cabelo castanho claro e olhos muito bonitos; o resto havia sido afetado pela idade. Srta. Greenwood tinha a mesma feição mais a juventude que ainda carregava. Se eu fosse compará-la com uma flor seria uma rosa. De qualquer maneira, não interessava-me realmente. A conversa dela costumava ser tão superficial e enfadonha que por muitas vezes parei de concentrar-me em suas palavras e pedi para que ela repetisse.
一 Não faça esse tipo de comentário, tia 一 disse o Capitão Wilson. 一 Acredito que a Vossa Excelência tem muitos anos de solteiro até encontrar a amada.
一 O que faz crer nisso, Capitão? 一 indaguei curioso.
O meu quase-cunhado ficou meio mudo, meio vermelho. Todos pareceram encará-lo, buscando a mesma resposta que eu.
一 Ora… Bem… Vossa Excelência é um homem jovem ainda.
一 O antigo marquês casou-se com a minha idade 一 comentei.
Danna, que parecia sentir a mesma aspiração que ele, justificou:
一 Acredito que o que o capitão quer dizer é que ainda é imaturo para um casamento.
一 Vejam só! 一 disse eu com um sorriso zombeteiro.
Mamãe veio a minha defesa:
一 Que falta de educação expor os defeitos do seu irmão na frente de todos, Danna! 一 E para finalizar a reprimenda abriu o leque num sopapo. 一 é líder dessa família. Acho que pode muito bem formar a própria.
一 Mamãe, mas não foi isso que…
Procurei com o olhar, pensando em tentar ler o que ela pensava sobre isso com suas expressões; não conseguir, pois bem. Ela estava rindo de algo que Byron dissera, os dois em um ar de flerte parecido com o dia que entenderam.
Meu coração ficou muito pequeno no peito. Inferno. De tantas mulheres no mundo…
Senti alguém puxar a gola do meu casaco para baixo e encarei surpreso a face pequenininha de Felicity, que brincava com a franja do meu terno.
一 Oh, meu Deus! 一 exclamou a Srta. James, mortificada. 一 Desculpe-me, Excelência, eu…
Ao contrário do que sua expressão prevera, peguei Felicity no colo para que ela se envolvesse com a distração com mais facilidade. Era uma criança muito pequena, mas pesadinha 一 babava e ria. Uma rápida observação foi suficiente para reconhecer as covinhas que eram iguais às da mãe. Cocei-lhe a barriga, fazendo-a rir.
一 Tenho certeza que Felicity discorda de você, Danna.
A Srta. James perdeu o sangue do rosto; olhou-me como se uma assombração tivesse se materializado à frente dela.
一 Excelência, sinto muito por isso 一 disse, esticando-se para pegar a menina nos braços.
Felicity não gostou da ideia e abraçou meu pescoço com força; e babando-me um pouco mais no processo. Ri, sentindo uma alegria muito genuína. Bebês eram adoráveis 一 eu mesmo adorava meus irmãos mais novos quando eles eram menorzinhos. Uma pena que eles cresciam.
Um riso cruzou o ar, todos muito encantados com o apego repentino naquela versão pequenininha da .
一 Ela me lembra a filha do reverendo, não é, mãe? 一 comentou a Srta. Greenwood. 一 Era uma garota muito meiga e carinhosa. Houve uma vez que pegou uma maçã escondida e não queria mais soltar. Achava que era uma bola, e então…
Dizer que prestei atenção naquele falatório da Srta. Greenwood seria uma mentira que eu não estava disposto a fazer. Apertei com delicadeza as bochechas da criança e dei-lhe um beijo, fazendo barulho. Ela riu mais uma vez e soltou-me.
一 Pode deixá-la, querida 一 ouvi, por fim, a mãe de Felicity para Srta. James. 一 Julgo que minha filha está em bons braços.
E sorriu para mim, mas não conseguiu manter o olhar por muito tempo. Encarou o horizonte; não deixou, porém, que o sorriso morresse após a frase.
era muito bonita. Talvez fosse o ambiente ou era apenas o meu eu romântico falando. Admitia que era um homem de muitas emoções e esporadicamente agia com sabedoria. Porém, vê-la esconder de mim um genuíno sorriso, os olhos parecendo mais claro por conta do ambiente… Aquilo encantava-me.
Deveria ser muito bom vê-la assim com frequência.
Nós comemos logo depois, deleitando-se do manjar preparado pelo cozinheiro da casa, Sr. Harper. Era um homem perfeccionista, meticuloso e cheio de não-me-toques. O candidato perfeito para a cozinha de uma mulher tão igualmente caprichosa como mamãe.
Então, Lenna teve a brilhante ideia de dar um passeio. A Marquesa-viúva 一 que, diga-se de passagem, era uma grande preguiçosa, deu-se o trabalho de organizar-nos em pares antes de dizer que estava velha demais para andar por aí sem propósito.
Ainda bem que ela não me viu revirar os olhos.
一 Milorde, poderia acompanhar-me? 一 pediu Lenna, antes mesmo que nossa mãe designa-se alguém para isso. 一 Soube que chegou-lhe alguns livros de novos poetas da França!
Olhei para minha irmã com um carinho maior do que o normal. Como eu amava aquela menina! Ia ganhar um aumento em sua herança apenas por facilitar um contratempo para mim.
Apesar de que, o interesse inocente de Lenna era só mais uma capa para o que ela escondia.
Sem mais delongas, pus-me ao lado de .
一 Vamos? 一 ofereci-lhe o braço; ela abriu a boca para falar, mas foi interrompida.
, quero que você… 一 iniciou mamãe.
一 Sra. irá comigo. 一 Mirei para a minha acompanhante com os olhos esbugalhados. Por favor, me socorra.
一 Ah 一 disse com a testa franzida. 一 É verdade, Excelência.
Mamãe virou-se para Dudley.
一 Então, seria ótimo se milorde acompanhasse a Srta. Greenwood.
Meu amigo ofereceu o braço para a senhorita que tinha cara de poucos amigos; ela o segurou, de qualquer maneira. Ah, e tinha o casal da estação, Capitão Wilson e Danna, que guiavam todo o grupo. As crianças, Sr. e Sra. Greenwood, e as damas de companhia ficaram para trás.
一 Que tal irmos até a estufa? 一 sugeriu Danna. 一 O Capitão Wilson ainda não a conhece, não é?
一 Não, não a conheço 一 disse ele. Minha irmã mais velha sorriu satisfeita.
一 Então, vamos lá. Já adianto que é bastante modesta em relação a sua horta e…
Bocejei, já sentindo-me cansado com a conversa que eles seguiriam. Quase como uma fileira de formigas, as duplas foram para o sentido norte da propriedade onde havia a estufa. Era um lugar que eu dificilmente lembrava da existência 一 tinha sido, na verdade, um presente para Danna quando ela havia acabado de perder o marido e a casa. Não tinha herdeiros; tudo foi para um primo distante.
Observei de longe o Capitão Wilson. Era um homem honrado e de histórico limpo 一 ao menos era isso que eu descobrir perguntando aqui e ali aos que o conheciam. Nunca se casou porque sempre esteve no campo de batalha; aposentou-se no ano anterior após herdar uma fazenda em Devon City. Vendo-o de perto junto a minha irmã fez-me entender parte do motivo do pedido de noivado nunca acontecer: os dois eram, acima de tudo, muito amigos. Talvez o homem não pensasse em Danna como uma potencial esposa, sobretudo porque ela sempre foi tímida para mostrar seus verdadeiros interesses.
一 Está uma manhã bonita 一 comentou , acordando-me dos meus pensamentos.
一 E menos quente 一 completei com simpatia. Ela arrumou a posição do braço que estava agarrado ao meu; um toque singelo para que eu me inclinasse em direção a ela.
一 Nunca o vi tão calado 一 disse em tom baixo. 一 O que tanto pensa?
Apontei para o casal da frente com o queixo.
一 O que acha do o Capitão Wilson?
Ela cerrou os olhos em análise.
一 Ainda é cedo para dizer alguma coisa 一 replicou. 一 Mas só tenho ouvido muitos elogios, embora estranhe essa fixação por botânica que ele tem…
一 Também percebeu isso? 一 ela assentiu. 一 Será que Danna aguentaria um casamento em que tudo girasse sobre fotossíntese e terra?
riu.
一 Isso apenas Danna pode responder 一 comentou sabiamente. 一 Mas, sendo honesta, estou preocupada. Ela mostra-se devota e pronta para amarrar os nós; o capitão é outra história.
Segurei a mão dela que estava em meu braço e sorri.
一 Por algum acaso ler mentes? É exatamente isso que eu estava pensando.
一 Concorda? Ah, que ótimo! 一 disse ela, alegre. 一 Achei que estava vendo coisa. Peggy tem uma ideia diferente da minha.
Arregalei os olhos.
一 Srta. James é uma fofoqueira? Meu Deus, nunca esperaria isso dela!
一 Não caia no ar inocente dela, 一 advertiu com um ar divertido. 一 Ela tem olhos e ouvidos em todos os lugares.
一 Foi ela, então, que disse aquelas coisas sobre mim?
encarou-me com um ar de culpa; não disse nada.
一 O que ouviu sobre mim, ?
一 Quer mesmo escutar?
Dei uma resposta positiva.
一 Soube que teve uma amante italiana… 一 disse ela, fazendo-se de desentendida. 一 Tem a Sra. St. Clair, também… E houve uma senhora desconhecida no Sul, mas essa eu achei a história esquisita...
一 Francesa.
一 O quê? 一 indagou, confusa.
一 A amante era francesa 一 corrige-a.
Continuamos andando, ela nada disse. Dudley e a Srta. Greenwood nos ultrapassaram; o Conde tinha uma expressão sem grande entusiasmo, mas não o bastante para parecer mal educado. George tinha um comportamento muito sóbrio, educado ao extremo e repleto de diplomacia. Se ele escutava tanta baboseira no Parlamento e mantinha a aparência neutra, ouvir histórias de quem ele pouco se importava da Srta. Greenwood deveria ser um desafio muito fácil.
一 Você já seduziu uma debutante?
Surpreso com sua pergunta, deixei que uma gargalhada saísse. O casal a frente olhou para trás no susto.
一 O que há de tão engraçado? 一 reclamou , incomodada.
一 Acha mesmo que sou um libertino sem caráter, não é? Como das histórias? 一 eu disse assim que George chamou atenção de Greenwood para um esquilo que correram pelas árvores.
一 Você estava fazendo coisas com uma mulher casada 一 acusou ela.
一 Ela foi a única que me envolvi que estava em situação de casamento.
Dessa vez foi a vez de rir de um jeito maldoso.
一 Do jeito que está falando parece que ela estava doente.
一 Escute, eu só sou um homem… Digamos… Romântico 一 justifiquei.
Ela assentiu com a cabeça, mas seu olhar de zombaria indicava que não acreditou em nenhuma palavra minha.
一 Nunca fiz nada moralmente errado 一 continuei. Ela ergueu a sobrancelha. 一 Tudo bem, fiz algumas coisas moralmente erradas, sim, mas me arrependi.
Ela riu mais uma vez.
一 Estou falando sério.
一 Eu não disse nada.
Não percebi que tínhamos diminuído mais ainda o passo 一 Byron e Lenna passaram por nós, minha irmã gesticulando com vontade, enquanto Logan mantinha a aparência sóbria de homem de aço que às vezes ele carregava.
一 Ele tem?
Virei-me para .
一 Ele tem o quê?
一 Byron tem algum arrependimento igual os seus?
Sendo bem franco, parte de mim quis abrir o livro de erros de Logan por ciúme. Ele tinha muitos, assim como qualquer um de nós 一 George, que era um santo, também já havia andando em caminhos perigosos nos anos que estava em Cambridge. Porém, a amizade falou mais alto.
一 E você, ? Não tem nenhum arrependimento como os meus?
Ela olhou-me ultrajada.
一 Claro que não!
Ficamos em silêncio. Observei, ao longe, o lago artificial que havíamos implantado há alguns anos. Era um desses empreendimentos luxuosos que jogaram dinheiro fora. Ainda não acreditava que tinha deixado a mamãe convencer-me de que era uma boa ideia.
一 … Talvez eu tenha um.
Virei-me para ela, surpreendido, o sorriso esperto desenhando-se nos meus lábios.
一 E o que seria?
Ela encarou-me por um instante; paramos de caminhar. Uma rajada de vento levantou-lhe o chapéu que cobria o machucado da cabeça, mas a fita o segurou. mirava-me com muita seriedade.
Era difícil encontrá-la no meio da sisudez que ela vestia. Tinha momentos que voltava a deixar o riso frouxo, brincava e ria; ela, que sempre foi muito transparente, carregava um ar de mistério.
deu um sorriso artificial.
一 Acha que entregarei o ouro assim, tão fácil?
Embora quisesse passar uma mensagem específica, vi em seus olhos uma fragilidade que poucas vezes expunha. Abri a mão para acariciar-lhe o rosto, mas detive-me; ela não iria gostar disso.
一 Sou seu amigo, sabe disso, não é? Pode dizer-me o que quiser.
A mulher inclinou o rosto um pouco para baixo, o olhar tornou-se muito perigoso para o meu coração.
一 Ei, vocês dois! 一 gritou Dudley ao longe. 一 O que há? Acompanhe-nos.
一 Nós estamos indo! 一 repliquei de volta.
agarrou meu braço de volta com naturalidade; o pequeno gesto deixou-me de peito aquecido.

Capítulo 11

Ravena , Sra. ,



As semanas em Exeter passavam muito rápido quando eu era criança 一 depois de mais velha, não mudou. A marquesa-viúva era criativa nos eventos e dificilmente deixava-nos no ócio; tivemos apresentações improvisadas de Grace cantando hinos de Natal, Lenna declamando poemas, além de visitas à propriedade dos Greenwoods. Os jantares eram cheios de risos e conversas; às vezes tínhamos música com Danna ou a própria marquesa no piano. Dos irmãos Courtney, o mais discreto nesses momentos era o marquês. Que paradoxal.
E também, o galo da cabeça sumiu, graças a Deus. Não aguentava mais parecer um unicórnio.
一 O que temos para hoje? 一 indagou Peggy ao apertar meu espartilho.
一 Aparentemente teremos um jantar de despedida para Lorde Byron 一 dei uma risadinha e continuei. 一 Ele vai voltar daqui a alguns dias com os tios, mas ficarão em um Chalé que pertence a ele. Acredita? A marquesa-viúva só precisa de uma desculpa para fazer um evento.
一 Falando do Lorde, senhora… Se me permite… 一 disse Peggy, apertando um pouco mais o laço. Quase podia sentir minhas costas eretas no automático e os seios ficando no lugar; a barriga, por outro lado, estava sufocada. 一 Ainda tem algum interesse em relação ao Lorde Byron? Não tem citado muito o nome dele…
Era verdade que ficava bastante tempo conversando com Byron, mas tinha mais a ver com ele ser um bom ouvinte do que qualquer coisa. O flerte existia, óbvio, mas era natural, não intencional e sem qualquer pretensão de ir além disso. A pequena empolgação ao conhecê-lo minguou-se de uma forma que deixava-me frustrada; ele era uma ótima opção, analisando friamente. Minha mãe iria gostar.
Ainda assim, eu disse:
一 Por que a pergunta? Há algo que queria me contar?
一 Terminei 一 avisou e eu virei-me para encará-la. Peggy fazia uma expressão pensativa. 一 Eu ouvi alguns murmúrios negativos sobre os tios do milorde. Aparentemente não são pessoas bem quistas por aqui, mas a marquesa os convidou por educação. Alguém me disse que o ouviu comentar que eles queriam ficar como convidados aqui, mas ele negou veementemente.
Levantei as sobrancelhas, mas não disse nada. Aquilo, porém, jogou fora qualquer chance de tê-lo como um potencial pretendente. Peggy sabia muito bem que o ponto decisivo era uma família em que eu não tivesse problemas de relacionar-me, nem projetos de crescimento em cima de títulos alheios.
Mamãe tinha razão quando dizia que ao casar-se, você também levava a família junto; eu tinha que manter um pensamento racional. Estava disposta a enfrentar desafios de estar rodeada de cobras em nome do amor? Infelizmente aprendi aquilo da pior maneira possível.
一 Obrigada por dizer-me.
一 Acredito que teremos mais sorte durante a temporada 一 disse ela, tentando animar-me. Assenti. 一 Mas, se a senhora não quiser esperar, o marquês está solteiro. Sei que não havia qualquer tom além do jocoso na voz dela, mas senti como se fosse uma criança pega fazendo algo escondido.
一 O marquês? Claro que não 一 dei uma risada nervosa; a voz saiu um pouco mais aguda que o normal. 一 Você está louca, ele nunca seria opção.
一 Por que não? 一 perguntou desconfiada.
一 Porque ele é muito novo, e é um libertino! Você mesmo me disse isso!
Peggy levou a mão para o peito.
一 Eu? Eu não disse nada disso.
一 Não se faça de desentendida, Peggy! 一 minha voz saiu alta, quase num grito de frustração.
Ela levantou as mãos para o alto.
一 Está bem, está bem! Era apenas uma brincadeira 一 defendeu-se. 一 Desculpe-me pela insolência, senhora.
Respirei fundo; fazia tempos que não agia daquela maneira. Talvez fosse o fato das minhas regras terem descido ou a sensação de que a dieta que eu fazia não estava funcionando mais uma vez.
一 Tudo bem 一 eu disse, embora não achasse que estava tudo bem. Dei um sorriso para ela. 一 Apenas vamos deixar esse assunto morrer, sim?
Fui até a penteadeira sentindo as mãos tremendo de nervoso. A imagem de como pretendente real era perigosa; os flertes com ele eram capazes de criar faíscas que incendiavam uma floresta inteira.
Ele estava agindo como um cavalheiro nos últimos dias, o que fazia-me duvidar um pouco de sua reputação. No entanto, existiam momentos esporádicos que ele mirava-me como de quem acariciava com os olhos e arrancava-me um sorriso honesto. Se ele fazia aquilo com tanta facilidade com alguém que particularmente não tinha nada além de amizade, imagina como era com mulheres que o interessavam?
Não devia cair no pensamento, mas ele arrastou-se para dentro da minha mente sorrateiramente. Imaginei-me sendo uma mulher que o chamasse atenção de verdade, não alguém que ele brincava sobre casamento. Sendo levada para cima e para baixo com ele agarrado ao meu braço, sussurrando suas piadas quando ninguém prestava atenção… E, então, beijaria-me pelos cantos da casa, quando nem mesmo os criados estavam atentos.
Balancei a cabeça para os lados, afastando aquele absurdo.
一 Peggy, você pode… 一 minha voz morreu quando eu percebi que estava sozinha.

[...]


一 Aparentemente, minha saída discreta e sem muito alarde se tornou um plano frustrado.
Virei-me para o dono da voz e sorri educada para Byron. Como sempre, vestia-se de forma impecável e, ao mesmo tempo, não o suficiente para ser taxado de dândi. Não era à toa que muitas vezes ele passava despercebido por aí.
Um contraste real com a mesa posta e o número de convidados que estavam na propriedade de Exeter para despedir-se de Lorde Byron.
一 Não se sinta mal, tenho certeza que a marquesa o fez com a melhor das intenções 一 defendi-a.
一 Ou talvez ela só esteja feliz que eu vá embora. 一 Balancei o leque rápido para esconder um sorriso de zombaria.
Era bem provável. A marquesa-viúva não podia ser lida apenas pelas suas ações.
Um violinista convidado pôs-se no palco improvisado para aquela noite. O que deveria ser um jantar tornou-se um mini sarau. Balancei o leque com mais força devido ao calor que fazia naquela noite. Busquei o lenço para enxugar meu rosto e avistei de longe Exeter, recebendo convidados.
, sim, poderia ser chamado de um dândi quando queria, porém vestia-se de forma impecável naquele dia 一 não tinha a aparência espalhafatosa de um homem que apenas queria chamar atenção. Momentos como aquele, o marquês tinha uma aparência de frescor de que acabara de tomar banho; peguei-me, então, tentando lembrar de seu cheiro.
Balancei a cabeça mais uma vez. Aquilo estava começando a sair do controle.
Sentei-me ao lado do meu irmão, a quem a companhia sempre foi uma das minhas preferidas. Era verdade que muitas vezes não era engajado em conversas mundanas, porém era alguém que a presença acalmava.
一 Não sabia que teríamos tanta gente hoje 一 comentou ele, mexendo no colarinho.
一 Oh, esqueci-me no quanto você odeia isso 一 sussurrei para ele. 一 Quer sair um pouco para acompanhar-me? Está calor, preciso de um pouco de ar de qualquer maneira.
Assim que entramos no corredor senti o efeito imediato da brisa das janelas. Suspirei de alívio.
一 Esses dias têm sido ótimos, não acha? 一 disse meu irmão, os braços cruzados para trás como de costume. 一 É quase como voltar ao passado.
一 Se o é, receio que o passado não fosse tão bom quanto lembrava-me.
Ele encarou-me com a sobrancelha erguida.
一 Por que diz isso? Algo incomoda?
Parei de frente a uma janela aberta; um vento forte balançou meus cabelos e o céu estava começando a ficar escuro. Em breve teríamos chuva.
Isso explicava o calor repentino.
一 Quando éramos crianças, tínhamos muita liberdade para brincar… Não que você a utilizasse com frequência, é claro 一 brinquei e George concordou, sorrindo. 一 No entanto, esperava-se que apenas eu mantivesse os vestidos limpos, os sapatos inteiros e face pálida. Eu não obedecia, obviamente.
一 Nossa mãe só faltava puxar os cabelos para fora 一 disse ele, compartilhando da mesma nostalgia.
一 É verdade 一 concordei, uma lembrança feliz e triste tocando meu peito. Será que Felicity teria essas mesmas memórias quando crescesse? 一 O que quero dizer é que havia um quê de espontaneidade no que eu fazia. Exeter era o lugar para que eu fosse livre e então… Estou aqui, sentindo-me presa a minha própria cabeça o tempo inteiro. Tentando manter os vestidos limpos e os sapatos inteiros.
Há coisas que sentimos que só ficam claras quando externadas pelas palavras. Ali, no corredor de Exeter, ao lado do meu irmão alguns minutos mais velho, pude entender o que era aquela trava que tanto incomodava.
一 Confesso que percebi, sim, que você está um pouco esquisita. 一 Ela pôs a mão no meu ombro. 一 Mas acho que isso é natural. Faz dez anos que não está mais nesse ciclo, querida. Seja mais gentil consigo mesma.
Senti os olhos encherem de lágrimas, mas não deixei-me chorar ali. Era bom ter uma família de verdade por perto.
一 Obrigada, George.
一 E, se quiser 一 acrescentou ele. 一 Posso chacoalhá-la para agir mais espontaneamente.
Cerrei os olhos.
一 Você não se atreveria!
Voltamos para o salão assim que os primeiros pingos de chuva começaram a cair do céu. A conversa com meu irmão funcionou do mesmo jeito que controlava aquela temperatura exorbitante.
Já estavam a caminho do jantar, por isso acompanhei o meu irmão até à mesa, sentando-me ao lado da Srta. Greenwood e outra senhora, vizinha dos Exeter.
一 Oh, sra. 一 comentou a senhora que eu não conhecia. 一 A marquesa-viúva estava a procurando!
一 Aconteceu algo? 一 indaguei, confusa.
一 Oh, não, não 一 replicou ela afetada. 一 Era besteira. Ela ia colocá-la como par do marquês, mas a Srta. Greenwood a substituiu, não é?
O olhar que a senhorita em questão deu para a mulher não era nada amigável. A voz soou forçadamente controlada quando disse:
一 Engano seu, querida. Ela já havia me escolhido. Estava procurando a Sra. para acompanhar o Lorde Byron.
Encarei as duas, tensa. Estava no meio de um fogo cruzado que nem era meu, por Deus.
一 Ah, pensei que tinha sido algo importante 一 disse eu com a voz mansa. 一 Não tem o que preocupar-se.
一 Se a senhora diz… 一 continuou a mulher, mexendo nas pratarias com um ar arrogante. 一 Vi a tantas vezes ao lado de Vossa Excelência nas ruas que achei que seria alguma pretendente…
O sangue sumiu do meu rosto. Sorri com dificuldade.
一 Senhora Dimas! 一 exclamou Srta. Greenwood.
一 Tolices 一 consegui dizer, com dezenas de tons mais baixos que a minha companheira do jantar.
De longe, reconhecendo que algo estava errado, vi encara-me com um ar de “está tudo bem?” no canto da mesa. Desviei para não criar mais rumores tolos.
一 Do que as senhoras estão conversando? 一 perguntou George, que estava à minha frente do outro lado da mesa, com ar inocente. Eu confirmaria que ele não havia ouvido a discussão, se seu olhar para mim não fosse de alerta.
一 Estamos todas muito ansiosas para experimentar o guisado do cozinheiro 一 repliquei com amabilidade.
一 Continua sendo incrível, mas acho que nunca superará o do Natal de três anos atrás. Foi delicioso!
一 Uma pena que eu não possa comparar. 一 Minha voz soou mais chateada do que pretendia. Não poder estar com a única família que restara era sempre doloroso para mim. Ainda bem que poderia mudar.
O jantar continuou sem grandes incidentes, a não ser, é claro, pela antipatia repentina da Srta. Greenwood. Não imaginava que meu relacionamento com o marquês pudesse ser mal interpretado 一 nunca fomos mais do que amigos e não estava lá disposta a mudar esse relacionamento. Certo que coisas estranhas aconteciam; coisas que tinham a ver com minha carência, com toda certeza.
Eu era uma mulher feita para ser amada e fazia bastante tempo que não recebia sequer um pouco de atenção. Era normal sentir-me um pouco atraída por . Não é?
Buscando não trazer mais complicações e maus entendidos para ele, com mais uma rodada de música, sentei-me ao lado de Danna, que parecia muito nervosa.
Ela havia finalmente cedido e estava usando o vestido estampado de flores azuis de um tom mais claro que o costume. Era incrível como a roupa poderia mudar uma mulher 一 Danna estava esplêndida. Imaginava que o Capitão Wilson tenha ficado sem palavras ao vê-la.
一 Irá tocar piano esta noite? 一 murmurei para Danna. Ela torcia as mãos enluvadas sobre o colo.
一 Oh, não. Pedi uma folga para minha mãe 一 explicou com um sorriso nervoso. 一 Querida, sei que estou bastante distante de você. 一 Ela segurou minhas mãos e eu aproximei-me com medo de alguém ouvi-la. 一 Nós temos tanto para conversar e eu tenho estado tão ocupada!
Olhei para ela com dezenas de intenções. Ela estava muito certa em deixar-me de lado! Havia alguém que merecia muito mais a atenção dela nos últimos dias…
一 Não se preocupe, Danna. Sempre haverá tempo para que nós venhamos conversar mais um pouco. 一 confortei-a. 一 Mas, então, diga-me… Como andam as coisas com aquele-que-não-quero-dizer-o-nome?
Ela ficou vermelha e balbuciou algumas sílabas. Danna, que mostrava-se um tanto inatingível, ficava muito adorável apaixonada.
一 Eu… Bem… Podemos conversar em outro lugar?
Observei que o violonista ainda estava posicionando-se para começar a tocar 一 sair no meio da apresentação quando estávamos tão perto do palco seria muito deselegante.
一 Vamos, então.
Saímos de braços dados e eu senti-me muito jovem. Afastar-se para falar de namoricos parecia algo que apenas recém-debutantes tinham prazer de fazer, mas, então, estava eu e outra viúva falando de que ela recebera um beijo!
Pus a mão na boca, surpresa.
一 Eu nunca imaginei que ele fosse desse jeito! 一 comentei, olhando para os lados do corredor para ter certeza que ninguém nos ouvia. 一 Isso foi quando?
一 Ontem à tarde 一 replicou ela muito feliz por compartilhar isso com alguém. 一 Estávamos perto da estufa.
一 Que romântico!
一 Não conte a ninguém 一 pediu ela.
一 Não contarei! 一 jurei, embora quisesse muito comentar com Peggy. 一 Então, quando acha que ele a pedirá em casamento?
一 É isso que está me deixando aflita 一 confessou Danna. 一 Ele não fez qualquer comentário sobre casamento, nem mesmo sobre o beijo. 一 Ela sussurrou a última palavra com cuidado.
Fiz uma careta. Aquilo soltava-me um alerta; até mesmo o Sr. , que era um canalha, fez-me promessa de matrimônio quando nos encontrávamos às escondidas.
Se bem que, para todos os efeitos, ele cumpriu, não é?
一 Que esquisito… 一 comentei. 一 Talvez ele precise de um pouco de coragem para agir. Mas não recomendo ficar à sós com ele mais uma vez 一 continuei. 一 Pela minha experiência, pode ser muito perigoso.
一 Ai, amiga! 一 ela abraçou-me forte. 一 O que seria de mim sem você?
一 Danna!
Viramos em direção à voz, assustadas; era , mostrando-se um tanto irritado.
一 O que houve? Aconteceu algo? 一 Indaguei, preocupada.
一 Não estou falando com você, 一 disse ele, ficando à minha frente e cobrindo a visão.
一 Ora, seu…
一 Escute aqui 一 começou em direção a irmã. 一 Sei que não precisa realmente da minha aprovação para fazer qualquer coisa, mas eu esperava que dissesse-me que Capitão Wilson iria pedir sua mão em casamento. Deus, o homem fez-me derramar Wisky no carpete da mamãe! Ela irá me limpar com a língua!
一 Ele o quê?! 一 Nós duas exclamamos alto.
Exeter virou-se para mim.
, sei que é próxima a minha irmã, mas esse assunto é particular.
一 Ora, você que nem esperou que eu saísse e...
一 Diga que eu nego a proposta! 一 replicou Danna.
voltou a girar em direção a irmã com expressão de espanto.
一 O quê? Por quê? Pensei que gostasse dele.
Danna estava vermelha 一 só que dessa vez era de raiva. As mãos tremiam e ela parecia um cachorro pequeno e irado.
Cutuquei Exeter e sussurrei.
一 Ele não pediu a em casamento ainda. Foi direto a você.
A informação pareceu clarear a mente de ; foi a mesma situação do antigo casamento de Danna e ela estava inclinada a fazer uma escolha diferente. Pobrezinha. Capitão Wilson realmente mostrava-se ser inteligente o suficiente para agir de outra forma.
Era socialmente esperado que ele conversasse com o homem mais velho da família; mas a Sra. Montgomery já era uma viúva e dona de seus atos há muito tempo. Era válido levar em consideração a opinião da família da mulher, mas por que a pergunta não foi dirigida a ela primeiro? Por que a opinião do cunhado era mais importante do que a da futura esposa?
Deveria ter um nome para isso…
一 Nega? Por que nega? 一 perguntou Capitão Wilson, saindo do ponto cego onde provavelmente estava escutando toda a nossa conversa.
O barulho do trovão abalou as janelas do corredor; ainda chovia bastante. Era prenúncio de confusão.
一 Você não pensou em conversar comigo antes? Perguntar-me? 一 interrogou Danna com a voz embargada.
一 Oh, querida… 一 Compadeci-me.
一 Mas… Mas… Nós nos beijamos 一 disse o Capitão, aparentemente alheio ao problema real. 一 Achei que fosse o certo ir direto ao seu irmão. Não sentiu algo? Estamos em páginas diferentes?
一 Beijaram-se?! 一 exclamou , que colocou a mão na boca de surpresa. 一 Danna, nunca imaginei que você fosse ousada!
Dei-lhe uma cutucada com o cotovelo. Ora essa, quem Exeter achava que era? Um santo?
一 Está julgando a sua irmã por quê? 一 interroguei-o.
一 Julgando? Estou apenas surpreso 一 justificou-se. 一 Não sou hipócrita a esse nível.
Nosso pequeno atrito não foi o suficiente para quebrar a bolha de sofrimento e decepção que rodeava ao novo casal. Ou quase casal, melhor dizendo.
一 Escute, Sra. Montgomery, nós somos muito bons juntos. Entendemos-nos como ninguém! 一 argumentou o Capitão Wilson. 一 Eu não sei explicar de onde vem esse sentimento, porém garanto que é real. Eu respeito a senhora como…
一 Respeita? 一 Danna, que dificilmente perdia o controle, estava muito perto de gritar e chamar atenção para si. 一 Respeita tanto que achou melhor agir como covarde e não falar diretamente para mim?
Arregalei os olhos, chocada com as palavras dela. Não que eu achasse que Danna estivesse errada, porém eu havia aprendido de um jeito horrível que homens não recebem muito bem verdades que atingem o ego.
一 Como ousa dizer algo tão.. tão.. 一 gaguejou Capitão Wilson, enjoado e irritado.
Entrei à frente da minha amiga assim que vi algumas cabeças que estavam no salão principal tentando descobrir o que era aquela gritaria. Os comentários seriam inevitáveis.
一 Não quero vê-lo nunca mais!
一 Danna, querida, vamos até a biblioteca, sim? Precisa respirar um pouco. 一 Com pressa, comecei a empurrá-la para que virasse e não encarasse mais o Capitão Wilson.
Menos passiva do que eu esperava, vi minha amiga girar os calcanhares e seguir para o cômodo que eu havia indicado. Antes de irmos, não consegui evitar: encarei o Capitão Wilson com uma expressão irritada, segurando-me para não soltar praguejos.
一 Capitão Wilson 一 disse o marquês. 一 Receio que essa seja sua deixa. Conhece a saída, sim?
Segurei o sorriso enquanto levava minha amiga.
一 Mas, excelência, escute… 一 ouvi, bem ao longe, o homem protestar.
一 Não tenho nada contra o senhor 一 explicou Exeter. 一 Mas família vem primeiro. O senhor entende, não é?
Não escutei o resto da conversa, porém era garantia que iria cuidar daquilo da melhor forma possível.
Quando estávamos fora dos olhares curiosos, pude ver Danna entrar em um choro copioso e uma gama de frases de autojustificativa que deixou-me de coração apertado. Não podia dizer-lhe muita coisa 一 algumas das suas inseguranças eram compartilhadas por mim, embora nunca tenha as externados.
Havia homens bons lá fora?
Seria eu capaz de ser amada de verdade?
Julgava-me mais madura. Como não pude reconhecer que Capitão Wilson não valorizava-me honestamente?
Exeter e a marquesa-viúva chegaram alguns minutos depois, quando o choro tornou-se apenas fungadas de quem estava com o nariz sujo. Nem meu lenço, nem o dela estavam preparados para o desabamento de uma noite agradável.
一 Mandei que trouxessem água. Ainda não chegaram? 一 indagou . Ao ver a irmã tão desolada, abriu os braços e a abraçou. 一 Oh, Danna…
A marquesa-viúva, por outro lado, apenas suspirava e olhava para os lados como se fosse encontrar uma solução entre as estantes dos livros.
Ver agindo de forma tão carinhosa com a irmã fez-me lembrar do abraço que deu-me no baile, há mais de um mês. Ele sempre fora carinhoso, cuidadoso e atencioso; lembrava-me de muitas vezes machucar-me e ele carregar-me, acabando por machucar nós dois, já que ele era muito atrapalhado.
一 Você fez bem em pedir a Lenna para ler alguns poemas 一 disse a marquesa para o filho. 一 Quando voltar, diga que Danna sentiu um mal estar e precisou deitar mais cedo e que eu fui
一 Mãe 一 chamou minha amiga, os olhos marejados. 一 Eu fiz certo? Eu deveria ter dito não?
一 Discutiremos isso amanhã 一 replicou a marquesa, chamando-a com a mão para segui-la.
Segurando a mão da filha como se ela fosse uma criança mais uma vez, observei a matriarca da família levá-la para cama. Senti uma pontada no peito 一 se eu não estivesse tão preocupada em admitir a verdade, tenho certeza que teria voltado para casa assim que descobrir quem Alfonso era. E, então, minha mãe pegaria em minha mão, também.
一 Está tudo bem, ? 一 perguntou o marquês. 一 Estou chamando-lhe a algum tempo.
Arrumei os ombros e tranquilizei-o.
一 Estou apenas chocada com tanta informações 一 suspirei. 一 Sabe que ninguém acreditará nesta desculpa, não é?
Ele confirmou com a cabeça.
一 A fofoca será intensa 一 disse ele. 一 Minha irmã deu assunto para um mês em Devon City.
一 Irão acompanhar a história como se fosse um folhetim.
Ele riu.
一 É verdade. 一 Apontou para porta. 一 Vá primeiro. Iremos levantar novos rumores se aparecermos juntos saindo da biblioteca.
一 Tem razão. 一 Virei-me impressionada. 一 Que bom que pensou nisso! Estava tão preocupada com Danna que não ative-me a esses detalhes.
Ele deu os ombros e encostou na parede.
一 Sou um libertino, lembra? Eu sei dessas coisas.
Cerrei os olhos para ele.
一 Então, finalmente admite.
riu cansado.
一 Vá logo, mulher chata.
Saí da biblioteca respirando fundo, mas sentindo-me muito mais leve depois daquela conversa com o marquês. Ele era um exímio conversador 一 envolvia, divertia e impactava, mesmo sem intenção. Não era de se imaginar que muitas caíam naquilo; se eu fosse desavisada talvez estivesse em grande perigo.
一 Sra. ! Graças a Deus! 一 exclamou Peggy, aparecendo no corredor perto do salão principal.
Meu coração apertou-se no peito; a expressão no rosto dela não era nada convidativo.
一 É algo com a Felicity, não é? 一 perguntei aflita.
Ela balançou a cabeça, confirmando.

Capítulo 12

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



De madrugada, com os candelabros quase todos apagados, a nossa propriedade era assustadora. Nas raras vezes que lia romances góticos que giravam em torno de mansões, não era difícil imaginar, já que todas pareciam com Exeter. Além disso, caia um temporal lá fora; as janelas balançavam com a violência da chuva.
Mas eu já não era uma criança para acreditar em fantasmas e coisas assombradas. E eu estava com sede.
De passos leves, atravessei o corredor tentando não encarar a imagem de cavalos brigando na tela entre os quartos. Era um exemplar enorme, com uma moldura banhada por prata. Tinha sido um presente de casamento do papai para minha mãe.
Observei, no fim do corredor, sair do quarto de hóspedes após um sussurro.
一 Saia um pouco, senhora. Descanse. Eu assumo daqui.
Ela hesitou, mas a porta foi fechada de um jeito não muito educado. respirou fundo e encostou a cabeça na parede, inclinando-se para o lado e fechando os olhos.
Existiam noites tediosas, que nada acontecia e o mundo era um grande monótono. Nada de novo debaixo do sol. E, então, as confusões nos encontravam como alguém desesperado.
O que, bem, também não era nada novo debaixo do sol.
Era claro que, embora tivesse toda a energia sugada pela conversa alta, música e jogos do dia anterior, não conseguia dormir. O elefante na sala estava ali, encarando-nos, esperando que resolvêssemos o problema dele.
No entanto, eu tinha pequenos poderes como marquês e ele teria que esperar o tempo curar. Eu era capaz de mover ações políticas, comprar terras e fazer um ou outro calar-se, mas não era apto a afastar a tristeza da minha irmã ou curar a pequena Felicity da febre repentina.
Aquela ineficiência deixou-me acordado à noite.
一 chamei-a suavemente. 一 Está se sentindo bem? Quer sentar-se?
Ela abriu os olhos e, sem muita pressa, arrumou a postura. Ao contrário de mim, ainda usava o vestido da noite anterior e tinha o cabelo levemente bagunçado; estava sem luvas, também. Mostrava-se cansada de um jeito que nem mesmo uma longa festa conseguiria deixar alguém.
一 Estou bem 一 respondeu, apesar de tudo apontar o contrário.
一 Estou descendo para fazer um pouco de chá. Quer acompanhar-me?
Ela encarou a porta com apreensão.
一 Vamos, querida. Tenho certeza que a Srta. James a chamará se for necessário.
assentiu e seguimos em silêncio até a cozinha.
O cômodo costumava estar sempre repleto de criados conversando; porém àquela hora da noite, depois de uma grande festa, poucos estavam acordados ainda, a não ser os insones como eu.
A ideia de fazer chá quase tornou-se um fiasco. Eu havia feito a muito tempo atrás em uma madrugada conversando com Magdalena, quando Grace era muito pequena para me dedurar das saídas sorrateiras. Não era nada muito complicado, eu mesmo havia visto os criados fazerem várias vezes, mas não lembrava onde estava o que até procurar bastante.
estava quieta. Sentou-se na mesa pequena e ficou encarando os dedos das mãos, que remexiam em uma dança ansiosa. Eu estava aflito por ela e pela criança. Doenças eram perigosas 一 doenças infantis eram quase fatais.
一 Como ela está? 一 perguntei assim que deixei a panela ao ligar o forno à lenha.
一 A febre baixou um pouco. 一 E ela coçou a garganta. 一 Não é a primeira vez que isso acontece, a mudança de tempo repentina a deixa um pouco resfriada… Mesmo assim…
一 Todo cuidado é pouco 一 completei e sentei-me à sua frente.
Apesar de estar hesitando tocá-la desde o pequeno atrito que tivemos, busquei as suas mãos. Elas eram gordinhas, pesadas e, ao mesmo tempo, macias como uma filha de aristocratas costumava ter.
O canto de seus lábios levantou-se ensaiando um sorriso, mas ele não chegou em seus olhos.
一 Se ela continuar com febre, assim que amanhecer irei chamar o médico.
一 Obrigada 一 disse ela com a voz embargada.
Ela levou uma das mãos escondidas pelas minhas até em cima, como de quem queria fazer o mesmo que eu. Levei-a aos lábios e sorriu 一 dessa vez com mais vontade.
一 Não irá ver se o chá está pronto?
Tirei o bule do fogo e separei duas xícaras. Com todo cuidado para não me queimar, servi-nos.
Ao pôr a xícara nos lábios, quase cuspi de volta. Era de se esperar que o chá não estivesse lá essas coisas, mas não imaginei que estivesse tão intragável.
一 O que diabos você colocou nesse chá? 一 indagou . 一 Isso está com gosto de terra!
一 Eu fiz tudo direitinho! 一 defendi-me.
levantou a tampa do bule e soltou uma gargalhada.
, você colocou folhas frescas! Era para ser as ressecadas, . Você ao menos as lavou?
Cocei a cabeça, confuso.
一 Não pode ser folhas frescas?
Ela deu uma gargalhada e levantou-se.
一 Irei fazer um chá inglês de verdade. Espere um pouco.
Fitei-a encontrar facilmente os itens como de quem conhecia onde estava o que. A cozinha deveria ser um lugar visitado sempre por ela.
一 Não sabia que você era tão familiar assim com fazer chá.
一 Nem sempre tive muitos servos à disposição, apenas Peggy. E ela é uma pessoa só, não posso sobrecarregá-la.
Franzi o cenho, uma pulga atrás da orelha. Eu sabia que Dudley nunca havia passado por uma crise grande o suficiente para impedir de atender a filha do conde.
一 Você se refere aos anos de casada?
desviou o olhar para a panela, como se a água fosse começar a borbulhar com a força da sua mente.
一 Dificilmente ouço falar do Sr. 一 continuei, a curiosidade sobrepondo o bom senso. 一 George não gostava dele, mas, como sabe, ele é um péssimo fofoqueiro. Não é de admirar que tantas pessoas gostam dele no parlamento, já que ele guarda segredos como um padre.
一 Isso é verdade…
E ela ficou em silêncio, não respondendo minha pergunta. Decidi deixar para lá. Talvez ela ainda não estivesse pronta.
A chuva cessou um pouco; o barulho tornou-se apenas do chá sendo derramado em novas xícaras e da madeira das cadeiras rangendo quando nós dois nos mexíamos. Soprei a fumaça para longe antes de levar a bebida até a boca; a diferença com o que eu fiz antes era gigantesca.
girou a xícara nas mãos e não levou à boca. Encarava o líquido como se fosse encontrar o seu destino ali.
一 Eu não era uma esposa obediente 一 iniciou ela, de repente. 一 Estava muito apaixonada, mas era imatura, obviamente.
Levantei os olhos, mas não disse nada. Tinha medo que ela não falasse mais.
一 Sr. não tinha paciência para meus caprichos e costumava punir-me com pequenas coisas 一 disse . 一 Reduzia por alguns meses o número de servos que me auxiliava. Às vezes deixava-me três a cinco dias sem poder banhar-me. Restava-me Peggy, mas ela tinha limites, também. Não tinha como ela enfrentá-lo sem pôr em risco o emprego.
Era bom que o Sr. estava morto; caso contrário, eu o teria matado.
一 Isso não me parece um jeito muito maduro de lidar com desavenças do casamento…
Ela fez um barulho de desdém.
一 Não é nada comparado a forma como ele pintou-me para família inteira. 一 confessou ela. 一 Morávamos com a mãe dele e alguns primos. Era uma casa enorme… E, então, em um ataque de ciúmes ele achou por bem citar nosso… Meu… Meu único arrependimento.
Inclinei-me para frente e segurei mais uma vez a mão dela.
一 Não precisa dizer se não quiser…
Ela sorriu zombeteira.
一 Então, o marquês não quer saber meu segredinho?
一 Querer eu quero, claro 一 admiti. riu.
一 Eu talvez sim ou talvez não tenha… Hm... entregado-me antes da noite de núpcias.
Fazia sentido. Eu encontrei antes do casamento 一 aquela noite traumática era uma memória muito visível em minha mente. Ela estava muito apaixonada e pessoas num estado de paixão como aquele eram perigosas.
Eu era a maior prova disso.
一 Vamos lá, me crucifique 一 disse ela, finalmente levando o chá até a boca e largando minha mão. 一 Sei que está louco para chamar-me de libertina também?
Eu ri.
一 Quer dizer que entregar sua flor para seu marido antes da hora faz-lhe uma grande libertina? 一 fiz um barulho de desdém. 一 Você não conhece o mundo lá fora, querida.
Foi a vez dela rir, gargalhando.
一 Excelência, o senhor é péssimo em eufemismos.
Nós dois rimos, contratando aquele clima pesado.
一 Veja, teve momentos que eu quis escutar minha mãe. No entanto, além do que meu coração dizia, tinha muito medo do que poderia acontecer se eu rejeitasse-o.
一 Diante do que ele fez com você após casados, não duvido que sua reputação ficasse arruinada.
concordou com a cabeça.
一 E é por isso que dessa vez farei do jeito certo 一 afirmou ela, falando mais com si mesma do que comigo. 一 Se depender de mim, nem mesmo beijarei meu marido antes de chegar ao altar.
一 Ora, por que fala como se fosse uma grande revolucionária? 一 zombei. 一 Não é isso que deve acontecer hoje em dia? Os noivos não costumam nem se encontrar direito antes da festa.
deu-me seu olhar dissimulado, aquele que fazia meu coração sofrer um pouquinho de ansiedade.
, … Para um libertino, você é um homem muito ingênuo.

[...]


Bocejei e cocei os olhos. O dia estava tão ensolarado que duvidaria da tempestade que enfrentamos durante a madrugada realmente existiu, se não tivesse visto por mim mesmo.
一 Falta alguma coisa? 一 indaguei aos criados conforme desci as escadas da propriedade.
一 Apenas minha força de vontade 一 replicou Byron, colocando o chapéu.
一 Se possível, evite trazer a Sra. Kline para cá sem avisar 一 aconselhei. 一 Ao menos, é claro, que queria problemas com a marquesa.
Logan deu um suspiro.
一 Por que não posso ter parentes normais?
Dei batidas em seu ombro.
一 Nem todo mundo é perfeito, meu amigo.
Ele riu e olhou para trás de mim como quem procura-se alguém.
一 George não vem?
Tirei o relógio do bolso; não era nem oito horas da manhã ainda.
一 Receio que não haverá ninguém além de mim para despedir-se. Estão todos muito cansados da noite de ontem.
一 Nem mesmo a Sra. ?
Cedo ou tarde o tópico seria levado em consideração. Não havia conversado sobre isso com Logan e estava com menos vontade ainda depois que percebi o interesse por . Algo me dizia que ela não se sentiria confortável em ser tratada como um prêmio em uma disputa entre amigos.
E eu não a considerava assim, também. No final, talvez ela nem escolhesse nenhum de nós dois. Eu seria mais atingido com certeza, porém, depois da conversa que tivemos na madrugada percebi que queria que dessa vez ela escolhesse de verdade 一 com todos aqueles critérios, por mais controversos que pudessem ser.
一 Você não deveria estar dando em cima de uma irmã de um amigo 一 aconselhei Byron com tom zombeteiro.
一 Por que não?
Balancei a mão como se a resposta estivesse bem ali entre nós.
一 George pode ficar com ciúmes.
一 Vejo de forma diferente 一 argumentou Logan. 一 Acredito que ele ficaria alegre em saber que a irmã está com alguém que confia.
Cocei o queixo.
一 Não tenho uma boa resposta para isso.
Byron riu, mas eu continuei:
一 Quer mesmo casar-se com ?
Senti uma pequena aflição no peito; eu não iria gostar da resposta.
Alheio aos meus sentimentos, meu amigo apenas levantou a sobrancelha.
一 Não foi você que disse que eu deveria ser o primeiro de nós a casar-se?
Cruzei os braços.
一 Desde quando escuta meus conselhos?
一 Você sempre dá bons conselhos, 一 justificou Logan. 一 Embora também seja cheio de escolhas estúpidas.
Mirei-o demonstrando impaciência.
一 Se não estivesse indo embora, eu mesmo o expulsaria.
Logan riu, não levando a ameaça a sério.
一 Quer saber de verdade? Não sei se quero casar-me com . Ela é muito bonita… 一 levantou os olhos como de quem pensava. 一 Também é elegante… Esperta… Quem sabe o que o futuro nos espera, não é mesmo?
Lambi os lábios, temendo que agisse de forma imprudente. Bom, se ele fizera esse discurso, havia uma possibilidade, mesmo que remota, dele querê-la como esposa.
一 Vá embora, Byron 一 despedi-me com um sorriso a contra-gosto.
一 Por que ficou tão triste? 一 disse ele com tom inocente. 一 Está com ciúmes dela?
Estou sim, quis responder. Estou sim, seu desgraçado.
é uma amiga de longa data. Quero o melhor para ela 一 justifiquei.
一 E eu não poderia ser esse melhor para ela?
一 Ah, vá se…
!
Girei os calcanhares e quase perdi o equilíbrio. Grace correu até mim e abraçou minhas pernas com força; iniciou um choro escandaloso com lágrimas e catarro para todos os cantos da minha calça. Além disso, estava molhada e tinha um cheiro meio podre.
一 O que aconteceu? Por que está assim? 一 falei enquanto tentava acalmá-la.
一 Za-aa-chary fez isso 一 disse entre soluços. 一 Ele me acordou com essa água nojenta! Molhou tudo na cama e disse que vai falar para a mamãe que fui eu, mas não foi eu! Eu juro!
Uma pequena dor de cabeça de estresse atingiu minha testa.
Zachary iria ser punido.


Capítulo 13

Ravena , Sra. ,



O bordado que eu havia iniciado estava meio esquisito. Era para ser uma rosa vermelha, mas parecia muito mais com um braço ferido.
Bocejei e voltei a dar mais uma olhadela na minha filha. Felicity dormia na minha cama desde que a febre baixou de vez; não tivera mais nenhuma crise, embora acordasse de vez em quando para espirrar. Devia ser apenas um resfriado mesmo, porém não iria arredar da cama. Enquanto ela não estivesse cem por cento bem iria ficar ali de vigia.
Ouvi uma batidinha na porta.
一 Quem é?
A cabeça de George apareceu na fresta; ele sorriu.
一 Posso entrar, senhora? Queria muito saber como minha sobrinha está.
George entrou logo depois, os passos macios e a postura etérea eram a identidade dele 一 se eu estava mais aliviada com o fim da febre de minha filha, sentia paz e segurança de que tudo estaria bem. Era isso que meu irmão dizia em seu andar.
一 Srta. James disse-me que a febre baixou. O que o médico disse?
一 O médico não chegou ainda 一 repliquei. 一 Tem uma moça no centro que está em meio a um parto difícil, pobrezinha. O outro médico está muito longe, não compensaria contatá-lo quando Felicity já está bem melhor.
Ele a fitou como se para ter certeza do que eu dizia; na cama, minha menina dormia sem perturbar-se com nada, inclusive nossa conversa.
一 Ela está cada vez mais parecida com você.
一 Graças a Deus 一 disse eu. 一 Pode passar qualquer dificuldade, mas nenhuma delas vai será na aparência.
Meu irmão revirou os olhos.
一 Bom saber que a sua autoestima continua a mesma.
一 Ela só foi aprimorada a partir dos anos. 一 Pus a mão no ombro dele. 一 Não fique triste, irmãozinho. Somos gêmeos, afinal. Deve haver uma ou outra característica minha em você.
George segurou a minha mão embaixo da sua; sorriu para mim.
一 Como é bom tê-la de volta, . Não canso de dizer isso.
Abri a boca para responder que era recíproco, mas vi que Felicity mexeu-se na cama.
一 Vamos ter cuidado para ela não acordar 一 murmurei.
一 Tudo bem 一 replicou no mesmo tom. 一 Escute, tenho recebi dois convites agora há pouco: um para um baile público na próxima semana e outro para um passeio amanhã à tarde. Preciso que vá em meu lugar nesses dois.
一 Eu? Por que eu?
Ele coçou a cabeça tímido de repente.
一 Sendo bem sincero, esta sequência de eventos deixa-me muito esgotado. Não sou capaz de seguir os passos da marquesa como descanso, parece-me mais um trabalho.
Levantei as sobrancelhas.
一 Está bem 一 eu disse com cuidado. 一 Se você está dizendo…
George era meio esquisito desde criança 一 brincava, mas não muito. Gostava da natureza e de ter aventuras, porém esporadicamente. Quando recebíamos visitas em Dudley no verão, ele sempre passava o tempo todo escondendo-se pela casa. Às vezes me perguntava como ele poderia dar-se tão bem com , que gostava de estar entre os adultos mesmo quando não tinha a opinião sendo levada à sério. Também tinha pesadelos estranhos, mas acho que, agora que era um homem, eles tinham passado.
一 Obrigada, querida 一 disse ele, beijando minha bochecha e logo despediu-se.
Observei-o sumir da minha vista com uma constatação que não tinha me dado conta antes. George, carregado de tom sóbrio e boas maneiras, também levava em sua bagagem uma solidão que eu mesma carreguei durante os anos junto a família . Será que os anos sozinho haviam atingido pior do que imaginava?

[...]


Levei o pedaço de carne até a boca e quase chorei de felicidade. Estávamos na sala de jantar da marquesa e desfrutávamos de um delicioso jantar. Havia finalmente cedido aos pedidos de Peggy e descido para socializar com meus anfitriões.
一 Como está a menina, querida? 一 indagou a marquesa enquanto cortava em pedacinhos a sua comida.
一 Está bem melhor 一 repliquei. 一 O médico recomendou apenas mantê-la hidratada e bem alimentada. Amanhã estará correndo pela mansão!
一 Então a peça para ter cuidado 一 aconselhou Lenna, que vestia um lindo xale rosa. 一 A última criança que fez bagunça em nossa casa recebeu uma bela punição.
一 Punição? Do que está falando?
一 James quebrou um antigo vaso de nossa família 一 explicou a marquesa. 一 Foi severamente punido pelo marquês, é claro.
Virei-me para Exeter tentando conter o susto. 一 Que exagero 一 murmurou , ainda mastigando a comida.
Lembrava ainda que o antigo marquês era adepto a castigos violentos quando éramos crianças, ao contrário do meu pai, que era um homem muito mais tolerante.
Bem, talvez a tolerância dele tivesse estragado-me um pouco, mas não via como solução as marcas vermelhas nas pernas que às vezes trazia. Será que ele agia igual ao pai?
一 E essa punição… O que seria? 一 perguntei, esforçando-me para não mostrar-me abalada.
一 Ele terá que fazer um vaso novo igual ao que destruiu 一 disse o marquês, alheio aos meus pensamentos. 一 E não poderá sair de casa por uma semana, mas não sei se isso é efetivo.
一 Deveria ter dado palmadas, isso, sim 一 argumentou a marquesa-viúva. 一 Só não faço isso porque, da última vez que o fiz, aquele menino riu de mim como se fosse uma piada. Eu! A mãe dele! Se pudesse, quebraria-lhe os dentes. Assim, nunca mais iria rir.
一 Ainda é possível rir sem dentes, mamãe 一 sussurrou Lenna, remexendo a comida do prato
. 一 O que disse?!
一 Nada, mamãe 一 respondeu ela, alto.
Mordi um sorriso e, sem querer, acabei-me prendendo-me ao olhar de . Ele deu uma rápida piscadela para mim e senti-me o coração errar as batidas. Que estranho era sentir aquilo de novo 一 a sensação de frenesi, de falta de controle do que estava crescendo dentro de mim. Se ele fosse menos charmoso...
一 Já mandaram o jantar de Danna? 一 perguntou Lenna, alheia aos meus pensamentos.
一 Ela ainda está chateada pelo que aconteceu? 一 perguntei. 一 Coitadinha…
一 Eu, sinceramente, acho uma besteira 一 comentou a marquesa. 一 Capitão Wilson pediu para casar com ela ao líder da família, oras, não é isso comum e correto? Não é, Conde?
Meu irmão, que até então passara ileso da conversa, arregalou os olhos de forma discreta. Senti um leve desespero quando ele respirou fundo e disse:
一 Veja bem… 一 iniciou. 一 Concordo que é o mais comum, mas nada mais justo que ela soubesse do pedido. Digo, se fosse um caso em que não existisse sentimentos, o pedido faria menos sentido ainda.
一 Até porque, será ela, não eu, que aguentará o papo de plantas e terra para todo sempre, amém 一 completou , mostrando-se mais impaciente do que meu irmão.
一 Acho que faria mais sentido se você dissesse “até a morte os separe” 一 disse eu, corrigindo-o. 一 Afinal, acho que Danna não escuta qualquer coisa vinda de Sr. Montgomery desde a morte dele.
一 Credo 一 comentou Lenna. 一 Deus a livre de ouvir! Que horror deve ser perseguida pelo fantasma do ex-marido.
Imaginei ser assombrada pelo espírito de Sr. e senti arrepios apenas de pensar. Persegnei-me. Eu enlouqueceria, com toda certeza.
一 Irei mais tarde conversar com ela, tentar animá-la.
E foi isso que fiz. Após checar mais uma vez que minha filha estava bem, bati a porta de Danna devagarinho.
一 Vá embora.
一 Sou eu, querida. Sou eu, .
一 Ah, 一 replicou ela, a voz com reconhecimento. 一 Vá embora.
Pus a mão na cintura e ensaiei um tom ultrajado.
一 Que deselegante! Trouxe até um pedaço de bolo para você como uma oferta de paz.
Foi um santo remédio: antes mesmo de eu inventar uma nova mentira, Danna abriu a porta. Ela carregava a imagem de alguém que estava triste e não saira da cama. Vestia, inclusive, uma camisola que, eu apostava, era a roupa que usava desde o fim da festa, já que tinha uns farelos do que foi o almoço do dia. O rosto estava inchado e pálido 一 o cabelo, eu não iria nem dizer do cabelo!
一 Onde está o bolo? 一 inquiriu ela.
一 Oh, eu iria pedir agora para que o mordomo providenciasse. 一 Entrei em seu quarto sem autorização. 一 Dê-me seu sino e ele estará aqui em um minuto.
O quarto estava limpo, tudo em ordem. Tão organizado e sem poeira que duvidei que alguém dormisse lá. Apenas a cama estava com alguns lençóis fora do lugar.
! 一 reclamou ela.
一 O que foi? 一 segurei o sino com uma expressão inocente. 一 Não quer o bolo?
Ela fez um bico e fechou a porta. Pedi o bolo, ainda assim. Era uma mentira no começo, mas comecei a sentir vontade de comer doce. Que explodisse a dieta. Não estava funcionando mesmo.
Pensar nisso deixou-me um pouco triste, sobretudo porque sentia-me mais inchada aquela semana.
Mas era um pedaço de bolo apenas, não é? O que faria de mal?
一 Confesse-me seus pensamentos, querida 一 eu disse sentando na cama e dando tapinhas para ela sentar-se ao meu lado.
Danna não precisou de nenhum incentivo; deitou a cabeça em meu colo e encolheu-se. Parecia uma criança muito confusa naquele momento.
一 Ele enviou-me uma carta 一 sussurrou depois de um tempo. 一 Não abri ainda.
Mexi em seu cabelo emaranhado.
一 Por quê? Não está curiosa?
一 Estou sim, mas não quero falar com ele.
一 E você é obrigada a responder-lhe?
一 Mas se eu ler vou sentir a obrigação de mandar uma réplica! 一 argumentou, como se aquilo realmente fizesse sentido.
一 Você é muito trágica às vezes 一 comentei, rindo. 一 Mas tudo bem. Seu desejo é uma ordem. Porém, diga-me, e se ele estiver fazendo um pedido de perdão honesto?
一 Não aceito esse tipo de perdão 一 respondeu ela. 一 Quero algo pessoalmente.
Levantei a sobrancelha.
一 Ah, é? E se ele chegasse agora pedindo uma audiência, você o concederia?
一 Só morta!
Eu gargalhei, achando a situação um tanto engraçada.
一 Assim fica difícil, Danna…
Ela afundou a cabeça em meu colo e ensaiou um choramingo.
一 Nem imagino o que os outros estão dizendo sobre mim por aí! Capitão Wilson é um homem extremamente respeitável e de boa fama, o melhor pretendente daqui. Estou morta de vergonha. Quero que esses meses acabem logo!
一 Danna, você não é assim. O falatório irá desaparecer mais cedo ou mais tarde e, para todo caso, o melhor pretendente daqui é o seu irmão e o meu.
Ela levantou-se indignada.
一 Por acaso está sugerindo que eu case com o seu irmão?
Balancei a cabeça negativamente, em desespero.
一 Foi o que eu pensei 一 respondeu com os olhos cerrados.
一 Você gosta mesmo desse homem, o Capitão Wilson?
Danna deixou os ombros caírem de tristeza antes de responder:
一 Mais do que gostaria. Mais do que eu deveria. 一 Coçou os olhos, mostrando-se cansada. 一 Estava com muitas expectativas, . Uma casa modesta, um dia a dia que não resumi-se em meus irmãos, filhos talvez! Mas, também acreditava que ele levaria minha opinião com estima. Se meu irmão não aprovasse, ele ainda iria querer casar-se?
一 É uma boa pergunta, querida 一 respondi. 一 Talvez a carta que ele enviou tenha a resposta.
Danna encarou a cômoda e deduzi que era lá onde a carta foi guardada.
一 Tem certeza?
一 Não 一 repliquei. 一 Mas só podemos descobrir se lê-la.
Minha amiga levantou-se devagar e foi até a terceira gaveta, retirando uma carta que parecia ter sido lacrada com muito cuidado. Aproximou-me de mim e estendeu o objeto.
一 Você lê?
一 Eu?! 一 Pus a mão no peito em choque. 一 Claro que não! Perdeu o juízo? A carta não é para mim!
一 Mas eu tenho medo e confio em você.
Depois de muita insistência, abri a carta sentindo-me uma traíra. Esperava que não houvesse segredos entre os amantes, nem mesmo muito romantismo. Aquela carta poderia ser o fim de toda imagem que eu havia construído do Capitão Wilson.
Surpreendi-me quando senti um cheiro de perfume masculino ao abri-la e recebi duas folhas escritas contando a longa história de amor dos dois na perspectiva dele, além de um pedido de desculpas e dramaticidade em cada parágrafo.
Estava pronta para devolver a minha amiga para que ela mesma desse o seu veredito, quando li as últimas frases:
“Esperarei-a na estufa, onde demos nosso primeiro beijo. Lá, quando nossos destinos foram finalmente selados. Estarei ao pôr-do-sol e farei o pedido propício. Se for, levarei em conta que perdoou-me e deu-me uma segunda chance. Se não, receberei como uma negativa e nunca mais estarei perturbando-a com minha presença.” 一 Danna, meu Deus! 一 gritei. 一 Você está em sérios problemas!
一 Por quê? 一 E em nervosismo, puxou as folhas da minha mão com brusquidão, quase às rasgando.
O rosto dela foi avermelhando-se conforme cada frase era lida; acalmou-se e sorriu sem graça, afinal, eu tinha lido todo texto. Então ela chegou a parte mais crítica e a palidez do rosto voltou 一 dessa vez de terror.
一 Eu preciso ir para a estufa agora! 一 exclamou correndo para a cômoda dela. O quarto que estava impecável tornou-se uma bagunça de meias, anáguas e vestidos.
一 Querida 一 chamei-a. 一 A essa hora ele já deve ter ido. Amanhã você entra em contato com ele…
一 Eu irei mesmo assim 一 insistiu. 一 Você não conhece Capitão Wilson como eu, . Se eu não for é bem capaz de nunca mais o vê-lo.
一 Não seja tão drástica, você pode muito bem fazer-lhe uma visita 一 argumentei racionalmente. 一 Se desejar, posso ir junto para fazer-lhe companhia e não criar qualquer suspeição. Até fecho os olhos quando ele quiser fazer coisas escandalosas…
! 一 ralhou ela. 一 Que coisa terrível de dizer! Está parecendo meu irmão.
E eu estava mesmo. Talvez toda aquela conversa que estávamos tendo ultimamente não era muito saudável para quem queria manter os bons costumes.
一 De qualquer maneira, ele não estará lá. Está tarde, boa parte dos criados até foram para a cama. Nem o bolo chegou! 一 Gesticulei para dar ênfase. 一 Além disso, é perigoso andar por aí sozinha, mesmo que seja ao redor da propriedade.
一 Sozinha? 一 Ela virou-se abruptamente. 一 Quem disse que eu vou sozinha? Você vai comigo!
Era óbvio que eu neguei logo em seguida; mais óbvio ainda que, mesmo com minha negativa, estávamos descendo as escadas de ponta de pé minutos depois.
Em minha defesa, ao contrário de Danna, eu sabia do perigo que iríamos passar. Mesmo não sendo uma corredora muito rápida, meu grito era alto o suficiente para acordar toda Devon City.
Estávamos já na penúltima escada quando escutamos o barulho de uma língua estalando; arrepiei-me de medo.
一 Tsc, tsc tsc. Para onde as mocinhas estão indo a essa hora?
Danna estava muito corajosa 一 ou imprudente, não saberia como dizer 一 e virou-se sem meias palavras.
一 Não é da sua conta, !
Eu conseguia pensar em duas ou três justificativas melhores do que “não é da sua conta”, mas ela tinha um ponto. Não era mesmo da conta dele.
Exeter estava sem o casaco e aparentemente tinha vestido as botas com rapidez.
一 E eu jurava que a mim pertencia o título de filho problema 一 zombou o marquês.
Deixei minha cabeça cair para o lado conforme uma ideia era formada.
一 Para onde vocês estão indo? 一 indagou ele, descendo as escadas.
一 Não é da sua…
一 Para a estufa. Quer vir conosco? 一 respondi com um sorriso artificial.
Danna encarou-me com ultraje.
一 Por que você quer que ele vá conosco?!
一 Porque ele é homem e acredito que dá socos melhores do que eu! 一 repliquei.
一 Eu vou precisar usar a violência? Então é melhor chamar outra pessoa, mesmo. 一 Ele levantou as mãos como de quem não podia fazer muita coisa.
一 É só por via das dúvidas 一 justifiquei. parou em um dos degraus e cruzou os braços, levantando a sobrancelha levemente.
Ele ficava muito encantador daquela forma.
一 Só irei se me disserem porque não estão na cama dormindo como todos dessa casa respeitável.
Soltei uma risadinha. Não tinha jeito, eu não era imune ao sarcasmo dele.
一 Não direi! 一 replicou Danna, saindo com pisadas barulhentas demais para quem estava fugindo do quarto.
acompanhou-nos, mesmo assim. Estava frio, então cruzei os braços rapidamente.
一 Que horas são? 一 indagou Danna a ninguém em particular.
O irmão dela retirou o relógio do bolso da calça e com dificuldade tentou ler com a luz da vela que ela carregava.
一 São mais de meia-noite. Meia-noite e dez, talvez. Não consigo ver bem.
Encarei a minha amiga que guiava nossa expedição.
一 Danna, por favor, não fique culpando-se caso o Capitão Wilson não esteja lá 一 aconselhei. 一 De manhã você vai visitá-lo e você poderão conversar.
一 Capitão Wilson? Estamos andando no escuro por causa do Capitão Wilson? 一 interrogou . 一 Danna, pelo amor de Deus! Que tipo de homem você arrumou para si? Que homem honrado marca encontros a essa hora na calada da noite?
一 Se olhe no espelho, ! Você não tem direito de dizer nada! 一 ralhou ela.
A falta de apelido despertou uma pequena ira em Exeter, que segurou o braço da irmã para que não andasse mais e o encarasse.
一 Danna, escute o que você está dizendo. Se meus comportamentos eram errados e repreensíveis, por que de um homem que você gosta não é? Qual é a diferença?
Os olhos da mulher encheu-se de lágrimas e ressenti-me muito por ela.
一 Ele marcou para o pôr do sol, Exeter 一 disse eu, esclarecendo as coisas. 一 Danna tem esperança do Capitão ainda esteja esperando.
Exeter passou a mão no rosto; na penumbra não pude ver até que o som da gargalhada dele vibrou em meu peito.
一 Querida, você… 一 ele engasgou-se mais uma vez no riso. 一 Ai, ai, Danna, não consigo acreditar. Está vivendo toda a juventude que não pôde, não é? Só isso explica.
一 Do que está falando?! 一 Ela cruzou os braços em defesa.
Gostaria de continuar narrando a conversa deles, mas, senti um bicho peludo passar entre meus pés bem calçados. Um grito de horror saiu da minha garganta e segurei o braço de com força.
一 Tira, tira, tira! 一 choraminguei quase pulando em cima dele para que não tocasse mais o chão. 一 Que nojo, que nojo!
一 O que foi? 一 perguntou ele com preocupação. 一 Algum bicho te mordeu? Quer que a leve de volta para casa?
Senti mais uma vez o que eu achava ser um rato a roçar na parte nua em que meu pé ficava e dei mais um grito, ficando de ponta de pés e agarrei o marquês com mais força.
Apesar de ser magro e alto, parecia que tinha mais corpo do que as roupas deixavam transparecer. Claro, aquilo foi algo que pensei horas depois, quando estava no conforto da minha cama e com os pés bem escondidos pelo lençol. Naquele momento eu só sentia terror.
, preciso que me responda, tudo bem? 一 Balancei a cabeça concordando. 一 Diga-me, você foi mordida por algum bicho? Foi uma barata?
一 Eu acho que foi um rato 一 murmurei com voz de choro. 一 Quero ir pra casa, .
一 Danna, o que acha de… 一 a voz dele morreu quando percebeu que minha amiga estava bem a frente, perto da estufa. Ela carregava a única vela que tínhamos, deixando-nos no escuro total. suspirou.
一 Vamos para casa e esperaremos por ela 一 disse ele.
Tentei encontrar alguma coisa no chão, mas não vi nada. Ainda assim, tinha medo daquele ser das trevas me atacando por trás.
一 E Danna? Ela vai ficar bem sozinha?
一 Se ela não voltar em 15 minutos, irei buscá-la 一 disse ele antes de levar-me de volta para mansão.
Exeter não largou-me por nenhum segundo até que estivéssemos em um lugar iluminado e seguro 一 não deixei de guardar meus pés do chão, por via das dúvidas. Afastei-me apenas quando estávamos na antessala e pude sentar. Embora não tenha comentado nada, senti-me muito acalentada quando ele beijou meus cabelos, abaixou-se na minha altura e disse:
一 Está tudo bem?
Balancei a cabeça de forma positiva. Estava com a consciência pesada por ter deixado minha amiga ir embora, então, incentivei-o a ir atrás dela. Com um pouco de hesitação, Exeter foi.
Os dois chegaram depois de algum tempo; Danna tinha os olhos inchados. Como imaginado, Capitão Wilson não estava a esperando.



Capítulo 14

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



Estendi o jornal morno em minhas mãos; o cheiro ruim do papel invadiu minhas narinas. Fiz uma careta, mas concentrei-me na leitura. Como era de se esperar, não acontecia muita coisa em Londres quando os aristocratas voltavam para as casas principais. As notícias corriam pelos meus olhos como um grande borrão. Nada daquilo era interessante o suficiente para prender minha atenção.
Talvez o jornal fosse mais útil nas mãos de Dudley.
一 Inferno! 一 reclamou Zachary.
一 Olha a língua 一 repreendi. Abaixei o jornal devagar e o vi destruir com fúria mais um quase vaso de argila.
一 Eu nunca vou aprender a fazer isso, ! 一 disse, fingindo um choro. 一 Me deixa ir! Prometo que nunca mais acordarei Grace daquele jeito.
一 Você precisa aprender a ser paciente, irmão. Não aprenderá a manipular argila da noite para o dia 一 aconselhei. 一 Além disso, está aprendendo cerâmica porque tem que fazer um vaso igual ao de mamãe. A punição pelo que você fez a Grace virá mais tarde.
Zach deu um soco na argila, que provavelmente era endereçado a mim. Meu irmão vestia um avental grande demais para ele e tinha as mãos e o rosto sujos de lama. Sorri para o menino.
一 É uma pena que o dono da olaria não pode estar aqui sempre para auxiliá-lo, mas poderíamos fazer uma visita esporádica. 一 Pensei alto, imaginando que talvez aquilo acelerasse o processo.
一 Por que você não me castiga como um pai normal?!
Olhei para ele com pena. Era louco como, quando criança, eu preferia levar umas palmadas a ter que ficar de castigo como aquele. Uma hora a dor sumia, o castigo, porém, durava sempre alguns dias ou semanas.
Não percebi que a violência desses atos afastou-me de confiar coisas importantes ao meu pai. Eu poderia ter pedido conselhos bons se não estivesse com tanto medo da reação dele.
Suspirei.
一 Bem, não posso castigá-lo porque não sou seu pai, Zach. Você mesmo sempre repete isso 一 falei, entediado. Estiquei as pernas para o banquinho da frente e deixei que o vento de lá fora me relaxasse. O dia estava começando a ficar escuro, embora fosse ainda meio-dia. Provavelmente iria chover de novo. A vista do casebre do antigo administrador era muito bonita; ainda não entendia porque ele preferira morar mais longe. Talvez a vontade de ter algo próprio falara mais alto.
一 Vamos, tente de novo. Quando começar a chover voltaremos para casa.
一 Mas e se não chover?!
一 Então você terá mais tempo para treinar. Não é maravilhoso?
Zachary deu outro soco na argila e tive que contentar-me com aquela resposta.
Voltei a fingir ler o jornal. Minha cabeça lembrou-se do compromisso de mais tarde, um baile público. Já fazia mais de um mês que estávamos em Exeter e não tinha ido sequer a um. Que lástima! Sentia falta de um pouco de diversão.
Mamãe prepara tantos eventos em Exeter, mas não inclui danças em nenhum deles. Ela não podia dançar por um pequeno problema no quadril e aparentemente não gostava que ninguém o fizesse em sua frente se fosse algo evitável. A música pela propriedade era apenas um deleite para os ouvidos e não para os pés.
Não pude evitar ficar ansioso para que finalmente chegasse a hora. Não era comum nobres irem a bailes como aqueles, porém sempre foi um momento muito bom para conversar com os arrendatários e congratulá-los, sem precisar que fosse uma visita longa e até mesmo desconfortável.
Ademais, era uma oportunidade única para finalmente dançar com . Flertar com em público. Apresentar pessoas a .
Sorri inconscientemente.

[...]


一 Danna, estão todos prontos! 一 gritei da escada. 一 Iremos embora sem você.
Arrumei o colarinho da camisa, nervoso.
一 Tem certeza que não quer ir conosco? Byron estará lá também, caso sinta-se sozinho 一 eu disse para meu amigo.
一 Estou com um pouco de enxaqueca 一 repetiu, como se nós dois não soubéssemos que era uma desculpa muito ruim.
George odiava estar em lugares cheios e às vezes passava mal de verdade em grandes multidões. Era verdade que nem sempre o entendia, pois não sabia como era estar em sua pele.
Aquele dia, porém, iria deixar com que ele ficasse sem encher-lhe o saco.
一 Tudo bem 一 repliquei. 一 Onde está sua irmã também? Não a vi descer.
Como se eu tivesse a invocado, a figura de Ever empurrando minha irmã mais velha apareceu no topo da escada.
一 Eu preciso mesmo ir? 一 ouvi Danna resmungar.
一 Sinceramente? Não. Se quiser pode ficar 一 disse . 一 Mas não recomendo. Afinal, se você ficar, nós duas sabemos que irá passar a noite lamentando não ver um certo capitão.
Estiquei-me para vê-la, porém a posição que Danna estava não dava para enxergar muita coisa.
Minha irmã mais velha soltou um suspiro.
一 Meu Deus do céu, Danna! Desça, desça. Não tenho paciência para isso! 一 gritou mamãe, as veias marcando o rosto. Encarei-a assustado com o comportamento tão repentino.
Troquei um rápido olhar com Magdalena; ela estava tão impressionada quanto eu. Mamãe estava sendo bem paciente nos últimos dias, mesmo que toda a situação de Danna fosse, para ela, um grande drama desnecessário.
Depois da noite em que formos para estufa 一 sem sucesso, já que tive que trazer uma assustada de volta para casa 一 Danna deixou mais uma vez o orgulho a engolir inteira e não entrar em contato com o Capitão Wilson. Não que ela estivesse errada em esperar um pedido de perdão de verdade, mas aquilo havia se tornado um grande mal entendido.
concordava comigo, era óbvio. No entanto, não iria meter-me onde não era chamado. Eu já era intrometido o suficiente na vida das minhas irmãs, não precisava de mais.
Danna abaixou a cabeça e começou a descer as escadas; a Sra. ia atrás. Conforme o rosto dela tornou-se mais claro, não consegui evitar que o sorriso desenhasse na minha boca.
O tempo, o maldito, não tinha desaparecido com os sentimentos que tinha por ; na verdade, ele amplificara-os de um jeito um tanto preocupante. Eu, que apaixonei-me uma dúzia de vezes, escrevi poemas ruins para amantes e enviei flores para conquistá-las, agora não tinha mais qualquer inclinação para fazer aquilo.
O que queria realmente era ser o homem que merecia .
Os olhos dela brilhavam diferente com o vestido de um verde elegante e com os brincos emprestados de Danna. O cabelo escuro estava preso em um penteado elegante e alguns cachos caíam ao lado do rosto. Quis estender a mão sobre eles, afastá-los e arrebatar-lhe os lábios.
一 Está linda 一 eu disse, o coração denunciando o que eu sentia.
一 Oh! 一 exclamou Danna, assustada. 一 Obrigada, . É muito gentil da sua parte.
Abri a boca para corrigi-la, no entanto, o olhar de quem estava emocionada da minha irmã fez-me mudar de ideia. Por conta da paixão pelo Capitão Wilson, dizíamos várias vezes o quão terrível ela estava por viver numa espécie de isolamento no quarto, chorando e lamentando-se como se a vida não fizesse tanto sentido assim, que deveria ser um alívio receber um elogio.
Esperei que ela passasse até que estendi a mão para .
一 Vamos, Sra. ?
mexeu a cabeça levemente para baixo, os cílios longos piscando daquele jeito lisonjeiro que ela costumava fazer.
一 Claro, Vossa Excelência.

Bailes públicos eram totalmente diferentes dos bailes aristocráticos. Os lugares eram mais apertados e abafados, as pessoas menos elegantes e havia uma gritaria, um riso, uma sensação de agitação que nem nas festas nobres mais agitadas éramos capazes de sentir.
Não eram os meus preferidos. Mamãe os odiava, mas ia ao menos uma vez em algum de Devon City para mostrar-se caridosa e humilde. No entanto, era uma maravilha ver pessoas divertindo-se de verdade. Era os melhores lugares para beber e dançar sem muito refinamento 一 além disso, havia certos desprendimentos nas mulheres que mostravam interesse que facilitava bastante minha vida.
Não que eu estivesse pensando nelas; na verdade, minha mente estava focada em apenas uma delas.
Assim que entramos, fomos cercados de pessoas conhecidas e de bom nome; o vigário e sua esposa, um primo distante do Capitão Wilson, alguns arrendatários e meu atual administrador e o filho.
Então, a família Greenwood se aproximou de nós. Dei uma boa olhada na Srta. Greenwood, que abordou-se assim que pude ouvi-la por cima do barulho dos violinos que tocavam algo muito animado. Estava bonita, tinha que admitir; bonita até demais para um baile como aquele.
E usava um verde familiar... Mirei para o lado e encontrei de onde vira: era do mesmo tom do vestido de .
一 Oh, querida 一 disse a Srta. Greenwood quando finalmente viu . 一 Estamos iguais, vejam só!
一 Não tanto. 一 deu-lhe um sorriso artificial e percebi um pequeno incômodo no seu tom. 一 Você ainda está mais bonita.
Greenwood segurou as saias e deu um meio giro com um sorriso largo.
一 Verdade? Oh, a senhora é tão gentil. 一 A menina virou-se para mim. 一 Concorda com ela, Excelência?
“Não” seria uma resposta mal educada, não era?
Fitei minha mãe, que estava alheia a nossa conversa.
Ela provavelmente diria que sim, era uma resposta mal educada.
一 É claro 一 respondi.
Greenwood abriu o leque satisfeita.
一 Oh, veja se não é Lorde Byron bem ali, Sra. . Que bom que ele já voltou a cidade!
Segui o olhar para onde ela apontava e observei Byron aproximar-se de nós com o Sr. e Sra. Kline em seu encalço. Pela feição deles estar em um ambiente como aquele era bastante inconfortável.
一 É bom tê-lo de volta, Byron 一 disse , simpaticamente.
一 Compartilho do mesmo sentimento, Sra. 一 falou ele antes de beijar-lhe a mão por cima da luva.
Foi preciso muito autocontrole para não revirar os olhos.
一 Milorde, não sabia que já tinha chegado na cidade 一 comentou Lenna, genuinamente feliz. 一 Sr. e Sra. Kline, é muito bom vê-los de novo.
Quando minha irmã mais nova debutou, imaginei que aquele interesse constante pelo meu amigo era um interesse romântico. De qualquer maneira, ouvi depois ela dizer o quanto o considerava como irmão mais velho que sabia ler. Era uma provocação, mas fiquei aliviado com essa informação. Não que Logan fosse um mau homem 一 na verdade, meu problema era saber que ele dificilmente responderia os sentimentos de Magdalena. Ela era muito nova para os padrões de Byron.
A conversa fluiu naturalmente enquanto o grupo cumprimentava os novos convidados; mamãe, inclusive, foi tão simpática ao chamar os Klines para jantar conosco na segunda-feira que quase esqueci que ela os detestava.
Eu sabia mentir bem por um motivo, não era verdade?
Percebi um leve esvaziamento dos casais dançando e virei-me para . Infelizmente, antes que eu a oferecesse para escrever-lhe no cartão, a vi afastar-se segurando o braço de Lorde Byron, os dois com sorrisos de quem compartilhava uma piada.
Virei-me para Greenwood.
一 Aceita dançar comigo, senhorita?
A resposta foi, obviamente, positiva.
Tentei concentrar-me no meu par e nutrir um pouco mais de simpatia pela moça. Era muito jovem, talvez da mesma idade de Lenna, e não tinha nenhum grande defeito de caráter. Ao menos nenhum que eu pude ver até o momento.
Era enfadonha, verdade. Mas, talvez, isso falasse mais de mim do que dela.
A música que tocou era energética e exigia alguns rodopios e palmas que nem todos eram capazes de lidar sem um pouco mais de ensaio.
一 Preciso pedir-lhe um favor, senhorita 一 murmurei para Greenwood.
一 E o que seria? 一 indagou ela antes de girar em torno da companheira ao lado.
一 Se possível, não conte a ninguém caso eu pise em seu pé. Não sei se sobreviverei a esse ultraje 一 disse eu e ela riu sem aquele ar afetado que costumava carregar.
Voltamos para os pais dela muito suados, no entanto, eu via a menina de um jeito melhor. Ela até poderia ser fonte de uma boa conversa quando estava menos preocupada em impressionar-me do que ter um diálogo interessante.
一 Apenas uma dança cansou-me de vez! 一 comentou , que balançava o leque com veemência. 一 Sinto que não levo mais tanto jeito para a coisa.
一 Ah, querida, depois que tive meu Henry também fiquei assim 一 comentou a Sra. Kline. 一 Melhorou depois que perdi alguns quilinhos.
O grupo ficou com um estranho silêncio; Logan olhou para mim como de quem queria morrer.
Eu teria pena se não tivesse me roubado a primeira dança de .
一 Estou indo pegar água. Deseja vir comigo, Sra. ? 一 indagou Byron, que recebeu uma resposta positiva.
Senti uma mão pequena agarrar meu cotovelo; mamãe estava do meu lado como alguém que aparece do nada. Quase pulei de susto.
一 Mamãe, avise quando…
一 Capitão Wilson está indo dançar 一 falou ela, sem cerimônia. 一 Leve sua irmã para dançar também.
一 Ele está por aqui? 一 perguntei, buscando com o olhar a presença dele.
一 Não olhe para ele, ! 一 Ela bateu-me com o leque. 一 Você nem sabe disfarçar!
一 Tudo bem, tudo bem 一 disse eu com uma careta de dor. 一 Estou indo.
Danna estava um tanto quanto hesitante quando aproximei-me, mas não negou-se como imaginei que faria. Fazia um tempo em que não ia mais para bailes como aquele e era tudo culpa dela, já que envolveu-se numa pequena discussão em um baile a dois, três meses atrás. Ainda não acreditava que ela 一 uma mulher tão disposta a passar despercebida 一 tivera coragem de responder de forma ríspida um comentário deselegante sobre as debutantes do ano da Lady Austin. Duas conversas da minha mãe com pessoas certas retirariam o incômodo entre famílias, mas, sendo honesto, Danna era muito covarde às vezes. Preferia esconder-se em seu quarto a ter que enfrentar consequências dos atos dela.
A quadrilha simples tocada era muito menos animada do que a anterior, o que facilitava um pouco minha vida. Distraída como estava, minha irmã, que não era lá uma grande dançarina, iria destruir meus pés.
E como se tivesse lido meus pensamentos, Danna pisou no meu pé esquerdo nos primeiros acordes.
一 Ai!
一 Desculpe 一 disse ela mais por hábito do que culpa. Nem mesmo me encarava; estava esticando o pescoço procurando alguém.
一 Se quer tanto ver o Capitão Wilson deveria olhar para o lado contrário, ele está bem na ponta 一 aconselhei antes de dar um giro ao redor do salão, em fila junto com os outros homens. Por cima do som dos violinos, ouvi-a dizer:
一 Nem mesmo sabia que ele estava aqui.
一 Mentirosa 一 acusei, embora minha voz estivesse livre de julgamento. Voltamos a nos encarar e repetimos as reverências que faziam parte da coreografia. Pela forma como ela desviou o olhar do que estava atrás de mim, imaginei que havia encarado o Capitão.
一 Danna.
一 O que foi?
一 Você o ama?
A pergunta a desestabilizou e meu pé 一 coitado 一 sofreu o efeito colateral.
Seria sorte grande se eu conseguisse chegar em casa andando depois de tanta tortura.
一 Eu… Talvez 一 disse ela depois de um tempo. 一 Talvez seja por isso que dói tanto o que ele fez.
Observei-a dar um longo suspiro.
一 Estou curioso. Está disposta a perdoá-lo em quanto tempo? 一 indaguei. 一 Você sabe, nenhum dos dois estão rejuvenescendo. E estou me sentindo muito desconfortável em tê-lo me encarando desde que começamos a dançar.
Danna deu um sorriso pequeno, que logo desvaneceu-se. Era a vez dela, junto com as outras mulheres, girarem.
一 O ano que ficamos afastados foi bom, também, para que soubéssemos o que queríamos. Talvez, eu devesse esperar mais um pouco…
一 Querida… 一 disse, tentando ver-me como entregaria a informação que tinha conseguido em muitas conversas com os visitantes na mansão Exeter.
Até onde eu sabia, nenhuma fofoca tinha chegado aos ouvidos de Danna, já que ela estava ocupada demais vivendo a própria miséria para reparar naquilo. Eu, porém, recebi perguntas; algumas discretas, outras nem tanto. Porém todos estavam muito dispostos a falar o quão chocados estavam em saber que minha irmã negara um partido tão disputado como Capitão Wilson, que com certeza casaria-se em breve com uma mulher mais rica e menos arrogante.
Claro, ninguém ousou dizer a mim com todas as letras, mas para um bom entendedor meia palavra bastava.
一 Você acha que ele ficará solteiro para sempre? 一 comentei eu, sem muito pudor. 一 Acha que ele esperará você por mais um ano?
Deus foi bondoso com meus pés 一 ao invés de pisá-los, Danna parou de repente, como se a possibilidade ainda não tivesse passado por sua mente.
一 Danna… 一 alertei, pois a pausa atrapalhou alguns casais que estavam fazendo a coreografia direito. Ela voltou a dançar.
一 Você acha que ele me trocaria? 一 disse, insegura.
一 Acho que todo homem tem limite de paciência 一 repliquei. 一 Só não sei qual é a dele.
Ela encarou o que eu achava ser o Capitão Wilson, dessa vez sem desviar. Era muito desconfortável, sinceramente. Lenna era muito mais discreta nos flertes e com certeza uma companhia mais divertida em bailes. Pena que em breve estaria do outro lado do país junto com o futuro esposo, aquele fuinha.
一 Talvez você devesse finalizar logo isso 一 aconselhei. 一 Explique o que aconteceu, escute o que ele tem a dizer… Se quiser, pode dispensá-lo de uma vez. Apenas não se martirize desse jeito. Prefiro vê-la provocando-me do que amuada dentro do quarto.
A música acabou; ao invés de fazer uma reverência de agradecimento, minha irmã olhou-me com os olhos brilhando de choro. Oh, meu Deus. Às vezes esquecia que ela era bastante emotiva e, de nós todos, a menos propensa a fingir e dissimular sentimentos.
一 Obrigada. 一 Dei-lhe duas tapinhas em seus ombros, mas voltamos de braços dados. Claro que ela não esqueceu de virar-se e encarar mais uma vez o Capitão Wilson. Que constrangedor…
Desviei os pensamentos quando vi junto com Sr. Greenwood para a próxima dança.
一 Mais uma dança! Está muito popular essa noite, Sra. 一 eu disse, procurando com o olhar o seu cartão.
一 Eu sempre fui muito popular 一 disse ela pomposa; eu e o acompanhante rimos.
一 Há algum espaço para mim em seu cartão? 一 indaguei ansioso.
一 Oh, não sabia que queria dançar comigo! 一 ela respondeu com a testa franzida. 一 Não há mais espaço, desculpe-me. Quem sabe na próxima, sim?
E ela foi embora, simplesmente.
Disfarcei a decepção, apesar de ter sido bem difícil ignorar o sentimento que bateu em meu peito. Poderia jurar que Zachary tinha derramado um balde de água de peixe em mim, não em Grace, naquele exato momento.
Aproximei-me de mamãe, Lenna, Sra. e Srta. Greenwood e Sra. Kline. Então, como se a noite não pudesse ficar menos anticlimática, escutei a frase da Sra. Kline para a Srta. Greenwood.
一 Claro que esse vestido ficou mais bonito em você do que a Sra. 一 comparou sem pormenores. 一 Ela tem a vantagem da beleza da juventude, mas perdeu o brilho de quando era mais nova. Veja essas ancas ridiculamente largas.
一 Mas não é isso uma vantagem? 一 indagou Lenna, que parecia muito confusa com o comentário. Ela murmurou, como se fosse um segredo: 一 Sempre entendi que as mulheres assim eram mais férteis.
Sra. Kline abriu o leque em desdém o que minha irmã mais nova disse.
一 Não precisa também comer todo um país, não é verdade? Oh, marquês! 一 disse ela, finalmente percebendo minha presença. 一 Que bom que veio até nós! Parece que estamos com mais mulheres do que homens no salão, então estão todos dançando.
Minha presença fez com que a conversa sobre corpos alheios tornasse assunto morto, então decidi comentar nada. Encarei ao longe rodopiar pelo salão.
Ela estava muito alegre, o sorriso deslumbrante era um ornamento que dinheiro algum poderia comprar. Lembrei-me do comentário indiscreto de mamãe quando reencontramos-na e tentei ver aquilo que ela parecia ver 一 não enxerguei, porém. Via apenas uma mulher linda 一 por dentro, mas principalmente por fora. poderia mesmo ser esculpida por algum ser divino, cheia de curvas e traços de alguém que fora abençoada pela beleza de Vênus. Minhas memórias de dez anos nunca fariam jus a imagem dela viva e dançante, envolvida pelo som dos violinos.
Eu a desejava 一 de verdade. Ainda lembrava da noite que, assustada, ela agarrou-se em mim como se eu fosse o seu porto seguro. Era uma noite fria, mas o corpo dela parecia muito quente perto do meu. Ainda lembrava do cheiro dela, dos braços lançando minha cintura; ainda tinha a voz pídona e suave… Se eu não estivesse tentando fazer tudo certo daquela vez, talvez estivéssemos em grande perigo. Eu a queria; queria tanto que os pensamentos se tornavam muito perigosos quando eram direcionados a isso. No entanto, aquela admiração ia além de desejos carnais.
Eu gostava de vê-la rir. Eu gostava de fazê-la rir. Gostava daquela insolência e de ser alguém confiável para ela.
Não conseguia imaginar qual era o sentimento de ouvir aqueles comentários pelas costas; não era a primeira e nem seria a última vez que isso aconteceria. Caso ela correspondesse meus sentimentos, caso tornasse a marquesa de Exeter… Aquilo aumentaria.
E era por isso que ela fazia dieta mirabolantes.
Ao dos meus olhos caíram, como se finalmente eu deixasse de ser preso apenas a realidade que dizia respeito a mim. passou por muitos julgamentos e continuaria passando enquanto vivesse. Se não era a família e o marido idiota, seria a sociedade londrina e provavelmente a minha mãe.
一 Onde está a sua irmã?
Virei-me para mamãe, que sussurrou quando ninguém estava olhando.
一 Lenna está ali, oras. 一 Apontei para a mulher que conversava algo de forma muito entusiasmada com uma mocinha da mesma idade.
一 Não ela, a Danna.
Levantei as sobrancelhas, imaginando onde ela estava. Danna definitivamente era muito novata em aventuras românticas. A primeira regra era saber despistar a mamãe.
一 Deve ter ido beber alguma coisa, está muito quente aqui. 一 Para ilustrar o que disse, mexi no cabelo molhado pelo suor do pescoço. 一 A senhora também não está com calor? Posso pegar um pouco de água e buscar por ela.
一 Faça isso. 一 E ela abriu o leque com uma expressão preocupada.
Não foi difícil encontrar Danna, afinal, ela fora para o lugar mais óbvio possível. Felizmente não peguei qualquer cena desagradável com Capitão Wilson一 na verdade, ela já estava voltando de onde saíra.
Ele também a acompanhava, pois eram os dois incapazes de serem discretos.
一 E então? 一 perguntei, puxando-a para longe de forma delicado, como se não fosse evidente que estavam juntos minutos antes.
E para coroar a noite, Danna olhou para trás com um sorriso.
一 Obrigada pelo conselho, .
Quando voltamos para casa, já de madrugada, nós dois havíamos trocado de humor: Danna estava feliz, animada; e eu, rabugento, e incapaz de admitir o porquê.

Capítulo 15

Ravena , Sra. ,



Bocejei, a manhã pós-baile sem dormir, cobrando-me por não ter descansado. Meus pés ainda doíam de tanto dançar e andar para cima e para baixo no salão apertado. Sorri, porém.
Quando foi a última vez que me diverti em um baile? Fazia tanto tempo que eu nem me lembrava mais.
Chovia fraquinho lá fora. A janela da Sra. Greenwood era grande e dava para ver a estrada para uma das propriedades dos arrendatários de Exeter. Surpreendi-me ao descobrir que aquela casa já pertenceu ao marquesado, mas foi vendida ainda na época que o avô de era jovem. A dona da casa estava contando como bravamente o tio-avô havia lutado contra um bandido e salvado a vida do então marquês de Exeter.
一 Tínhamos muitas propriedades na época, afinal de contas, somos parentes de um duque 一 acrescentou a mulher. 一 Porém, esse tipo de presente não pode ser negado e meu tio-avô merecia ser recompensado.
Danna balançava a cabeça para indicar que a ouvia, mas boa parte das pessoas seguravam suas respectivas xícaras tentando disfarçar o tédio e os bocejos.
Deveríamos já ter voltado para a mansão dos Exeter. Em pouco mais de trinta minutos, o jantar iria ser servido lá. A chuva atrapalhou o cronograma tão bem estruturado da marquesa-viúva, que enviara diversos convites para uma refeição íntima com alguns amigos, e teria que cancelá-los assim que chegasse em casa.
Não sabia de onde ela encontrava tanta força e energia. Mesmo eu adorando eventos públicos, o baile público sugara boa parte das minhas energias. Eu iria precisar de dois ou três dias para recuperar-me.
一 …E mamãe estava muito preocupada, mas, então, eu disse “não é necessário preocupar-se, mamãe! Não sou fraca como as outras grávidas”. 一 dizia a Sra. Kline.
Contive-me para não revirar os olhos. A voz da tia de Byron era extremamente irritante. Soava como um metal tinindo.
Eu achava que a marquesa concordava comigo. Embora fosse uma mulher muito simpática e discreta ao expor plenamente seus sentimentos, eu a conhecia o suficiente para reconhecer um pequeno apertar dos lábios que revelavam sua reprovação.
Mamãe fazia isso também. Talvez fosse um hábito que as duas compartilhavam.
Observei, através da névoa da chuva, duas carruagens aproximarem-se de um jeito muito devagar, quase parando. Suspirei, feliz. Estava louca para deitar-me na cama.
一 O que tanto observa? 一 indagou Danna, posicionando-se ao meu lado.
一 Aquelas são nossas? 一 Apontei para os veículos.
Ela cerrou os olhos para enxergar melhor.
一 Tomara 一 sussurrou. 一 Arrependo-me de ter vindo. Estou tão exausta que pensei que iria cochilar enquanto a Sra. Greenwood falava da casa. Já escutei essa história tantas vezes que tenho dores de cabeça só de pensar.
Balancei a cabeça concordando, mas olhei antes para ver se não estávamos sendo observadas. Não era muito educado fazer esse tipo de comentário, mas estava feliz de ver Danna parecendo um pouco mais com ela mesma. Ouvi alguns sussurros que ela e o capitão haviam tido um bom tete-a-tete. Ainda não tivemos chance de conversar sobre, mas imaginava que aquilo era um sinal de que em breve teríamos um final feliz.
一 Os homens são tão sortudos… 一 continuou minha amiga, observando as carruagens pararem perto da casa. 一 Digo, eles estão todos no escritório bebendo ou fumando charuto. Se alguém for enfadonho, ao menos o licor os distraí.
一 Ora, querida, nós temos chá 一 brinquei, apontando com o queixo as xícaras na mesinha. Ela fez uma careta.
一 Não é a mesma coisa.
Ladies 一 chamou Exeter, aparecendo na porta. As mulheres levantaram-se em cortesia 一, sei que a conversa está uma maravilha, mas receio que seja nosso momento de voltar para casa e parar de importunar a Sra. Greenwood.
一 Claro que não, Vossa Excelência! São todos bem-vindos a ficar para o jantar 一 disse ela com tom de exagerada amabilidade.
Era uma ideia ruim, certamente. Ela apresentara a modesta sala de jantar e estávamos em um número muito grande, seria impossível que todos coubessem na mesa.
一 É muita gentileza, senhora, mas, como minha mãe deve ter anunciado, nós temos um compromisso para poucos minutos para cancelar. 一 justificou. 一 Não queremos que nenhum dos nossos convidados venham sair na chuva. É perigoso.
一 Ah, que pena! Queria continuar nosso diálogo, Excelência. Estava tão interessante... 一 disse a Srta. Greenwood e, reconhecendo apenas naquele momento, observei que ela estava agarrada ao seu braço como de quem estava passeando por aí. Encarei o lugar onde ela estava sentada antes e lembrei-me que alguns minutos mais cedo ela tinha saído para não-sei-o-quê.
Algo em meu peito queimou de um jeito não muito agradável. Não costumava criar antipatia de verdade com facilidade, mas ainda lembrava-me do comentário cheio de farpas que ela trocara comigo por estarmos com o mesmo tecido no baile. Eu achava aquilo uma grande inconveniência, mas estava muito disposta a agir de forma natural.
E, agora, estava ela agarrada a Exeter como um carrapato. Os dois foram muito insensatos saindo por aí sozinhos, não importava quão interessante fosse a conversa. Apertei os lábios tentando não demonstrar minha insatisfação.
一 Nada que não possa ser continuada em outra hora, sim? 一 disse , soltando o braço e afastando-se dela. 一 Bem, vamos?
Entrei na mesma carruagem do marquês, meu irmão e Danna.
Tentei calar o meu coração, que traía-me. Um sentimento agridoce estava dominando o peito desde que voltamos do baile e ele era o verdadeiro motivo da minha insônia. Não costumava me ater a pequenos arrependimentos, porém revisitava sempre a pedido para dançar de e minha negativa. O rosto decepcionado, como se tivesse sido golpeado… Eu podia vê-lo nitidamente em minha mente. Passei boa parte dos momentos entre danças pensando se eu não poderia riscar algum nome da lista, dar-lhe a chance de rodopiar pelo salão junto comigo.
一 O que estava conversando com a Srta. Greenwood?
Ouvir aquela pergunta sair dos lábios de Danna e não dos meus era um alívio para minha consciência. Não queria ser a maluca de perguntar e receber uma resposta atravessada, que não dava sempre, mas era muito capaz de fazê-lo.
一 E eu sei? Ela falou e falou e eu só balançava a cabeça 一 disse ele, bufando. 一 A chegada da carruagem só aconteceu porque conjurei com toda a minha fé. Deus sabe como todos os Greenwood gostam de falar sozinhos.
Senti os ombros relaxarem e acomodei-me ao lado de Dudley, que observava pela janela a chuva engrossar um pouco mais. Ele estava mais pensativo naquele dia.
一 Você está bem, George? 一 perguntei em sussurros.
一 Estou sim, querida. 一 Ele deu um tapinha em meus joelhos. 一 Esqueci de perguntar-lhe: como foi o baile? O Sr. Greenwood comentou que você foi uma grande sensação.
一 Oh, não é nada 一 balancei a mão em desdém. 一 Eu só sou uma dançarina muito habilidosa.
Meu irmão riu. Olhou para as outras pessoas do cubículo, mas todos pareciam imensos nos seus próprios pensamentos.
一 Estou curioso com uma coisa 一 disse num tom mais baixo. 一 Lembro que disse antes que estava em busca de um novo casamento. Há alguém em mente já?
Levantei a sobrancelha, surpresa. Aquilo era o mais perto de fofocar que meu irmão estava inclinado a fazer.
一 Tem um aqui ou ali, mas ninguém realmente certo. Por quê?
Ele deu mais um sorriso como de quem tinha um segredo.
一 Nada em particular. Fico feliz que esteja disposta a seguir em frente 一 emendou George. 一 Tive receio de como você reagiria com a volta à Inglaterra depois de tudo que me disse por carta.
Os olhos marejaram, mas não chorei. George nunca foi um homem carinhoso, porém sempre foi muito honesto em relação ao que ele sentia. A preocupação dele me tocava porque era legítima e fazia tempo que eu não era cercada desse amor sem muito alarde dele. Apertei-lhe o braço como resposta e dei um suspiro.
一 Eu ainda não me sinto como antes e não sei se algum dia voltarei a ser… De qualquer maneira, estou pronta há muito tempo a dar as costas para o passado.
E enquanto eu tivesse aquele sobrenome, o passado me assombraria. Eu nunca pertenci verdadeiramente aos Ferraz e não queria mais ostentar aquele nome que angustiava-me apenas em escutar.
Voltei a olhar para frente e percebi um movimento rápido da cabeça de . Provavelmente estava escutando nossa conversa. Remexi-me no banco desconfortável. Não deveria conversar coisas assim na carruagem.
一 Mas, diga-me, e você, irmãozinho? 一 indaguei, mudando de conversa. 一 Sei que ainda é jovem, porém sempre imaginei você casando-se antes do esperado.
Ele franziu a testa.
一 Por que pensa isso?
Seguirei-lhe o braço, sorrindo.
一 Porque você é um homem muito responsável e terá um herdeiro para Dudley antes mesmo que qualquer pessoa pense em cobrá-lo 一 afirmei com um tom jocoso, embora tivesse bastante verdade no que tinha dito.
Apostava que ele iria casar-se antes mesmo de eu arranjar meu segundo marido.
一 Não acho que esteja preparado para um casamento agora 一 replicou ele. 一 Há outras prioridades antes dessa.
一 Como se tornar primeiro ministro?
Ouvi uma risadinha; era Exeter, intrometido, nem disfarçando que estava ouvindo a nossa conversa.
一 Do que está rindo, ? 一 perguntei com uma careta de desagrado. 一 É tão absurdo assim?
一 Não seja rude com Exeter, querida 一 disse George, dando-me tapinhas no ombro. 一 É que as coisas são mais complicadas do que parecem. Além do mais, não tenho muita pretensão de chegar tão alto.
Assenti.
一 Desculpe minha falta de educação, 一 falou depois disso. 一 Só achei engraçado porque não vejo em George arrogância e orgulho o suficiente para almejar um cargo com esse, embora ele seja um homem essencialmente político.
Meu irmão levantou a sobrancelha.
一 Essencialmente político?
一 Essencialmente político 一 repetiu .
A expressão deixou meu irmão intrigado, mas ele não disse mais nada. Voltamos a ficar em silêncio, embora eu tenha feito algumas caretas e murmurando palavras inteligíveis para , enquanto ele escondia o sorriso.
A chuva tinha parado um pouco quando chegamos na mansão Exeter. O fato das famílias convidadas terem sido impedidas de chegar a tempo para o jantar não foi o suficiente para que a marquesa-viúva não pedisse para que as filhas fizessem um dueto com o piano assim que terminamos nosso último prato.
Mamãe sempre havia insistido para que eu aprendesse a tocar algum instrumento, porém eu desistia na primeira dificuldade que encarava. Bordar era mais relaxante, seguir tendências da moda e ir a compromissos sociais eram muito mais divertidos do que tentar entender uma escala harmônica.
Isso não significava que eu não apreciava uma boa música.
Apesar de adorar estar entre muitas pessoas e conversar, sentia falta de momentos mais calmos como aquele. Todos calados, o som do piano sendo o único capaz de preencher o ambiente, as velas tremulando devagarinho…
Suspirei, sentindo um incômodo no pé. Era o meu adeus à paz de espírito.
一 Está tudo bem?
Levantei a cabeça, surpresa. Não havia percebido que Exeter tinha sentado ao meu lado. Observei meu pé dentro do sapato e percebi o inchaço de quem passou muito tempo sentada.
一 Quer dar um passeio comigo?
一 Quer que eu chame a Srta. James para ir conosco? 一 indagou , solícito.
A proposta surpreendeu-me. Tinha imaginado alguns passos no corredor e, sendo ele um homem em que a fama o precedia, imaginei que não pensaria duas vezes em andar sozinho com uma mulher pela mansão à noite.
Fiquei levemente constrangida por não ter pensado que talvez fosse inapropriado, mesmo que fosse algo rápido. Pedi, então, para que a Peggy fosse conosco.
Meu estômago recebeu o primeiro sinal de ansiedade quando meus dedos seguraram o cotovelo de . Não tinha nada de errado ou inapropriado, mas tocá-lo pareceu diferente. Ele tinha um leve cheiro de sabão e lembrei-me de ouvir sua mãe dizer no jantar que iria pegar um resfriado banhando-se àquela hora.
一 Foi um dia longo, não? 一 comentou ele, depois de longos segundos em silêncio.
一 Gostaria de saber de onde vem tanta vivacidade de sua mãe 一 falei, sorrindo de leve.
一 Espero ser igual a ela quando chegar a essa idade 一 replicou ele.
Os corredores da mansão eram bem iluminados, além de ter uma aura bastante convidativa. Dei uma olhada para trás e minha dama de companhia estava um pouco mais distante do que o usual. Então, murmurei:
一 Tenho uma pergunta.
一 Faça 一 disse no mesmo tom. Arrepiei-me, estranhamente. Ele estava muito perto.
Hesitei, a pergunta tornou- se muito mesquinha. Queria saber o que ele realmente pensava sobre a Srta. Greenwood, mas, refletindo mais um pouco, a indagação não fazia sentido. Eu não tinha nada a ver com eles dois.
Então, por que estava tão incomodada?
一 Bem, você… 一 gaguejei. 一 Hm… Danna. Isso. Danna voltou tão diferente. O que aconteceu com ela?
Ele franziu o cenho.
一 Danna não contou a você? Pensei que fosse a primeira a saber.
一 Não tivemos tempo 一 respondi. 一 E então?
一 Ah 一 ele coçou a cabeça, desconcertado. 一 Ela teve uma boa conversa com o Capitão Wilson, eu acho. Pensei que o veria esta tarde e que iriam oficializar o noivado, mas não houve qualquer visita. Ao menos foi isso que o Sr. Hutton, o mordomo, disse.
一 É um alívio 一 comentei. 一 Acho que ele não veio por conta da chuva, deve ter tentando resguardar-se.
一 Tem razão 一 disse ele. 一 Parece-me do feitio dele agir dessa maneira, espero que minha irmã entenda assim também, pois acho que ele não virá nos próximos dias.
E apontou para uma janela sendo castigada pelo vento, chuva e galhos de um grande arbusto. Um raio atravessou o céu. Ficou mais frio de repente.
Sem pensar muito, uni a mão que segurava o cotovelo dele com outra e aproximei-me um pouco mais sentindo-me com frio. O corpo de Exeter era grande e quente, lembrando-me uma concha grossa que usamos no inverno. Ficamos ali, os dois encarando pela penumbra as sombras das plantas escondidas pela noite e a tempestade. Estava um caos lá fora, porém, perto de , sentia-me muito calma.
Em algum momento, encostei minha cabeça em seu braço e bocejei.
一 Senhora, Vossa Excelência.
A voz de Peggy tirou-me daquele mundinho privado que criamos sem pensar muito. Apenas quando virei-me e vi o olhar mal fingido da dama de companhia que lembrei-me que estava muito próximo de Exeter.
Soltei-o, vermelha.
一 Acredito que nos afastamos por muito tempo 一 disse ela, profissionalmente. 一 A marquesa irá sentir nossa falta.
Concordei com a cabeça repetidas vezes e agarrei o braço de Peggy, os passos apressando-se para deixar aquela cena para trás.
一 Você tem razão, muita razão! 一 disse eu com um sorriso ambíguo.
Dei uma última olhada para trás e vi apertar os lábios um pouco frustrado; encarei o chão, sentindo-me um pouco culpada. Ele seguiu-nos segundos depois.
Mas, apenas de estar tão próxima da Srta. James quanto eu estivera antes de , eu fiquei com muito, muito frio.

Capítulo 16

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



Tentei esticar as pernas por debaixo do banco da frente, porém, a falta de espaço fez-me bater o joelho com força. Cerrei os dentes para não praguejar.
一 Fique quieto 一 sibilou minha irmã mais velha.
Lancei meu olhar mais irritado possível. Mamãe cutucou-me e eu mantive-me paciente. À frente de nós, dois bancos vazios depois, estava o ministro da paróquia falando algo das belezas da carida. A igreja estava mais vazia do que o costume e acreditava que tinha algo a ver com as constantes chuvas dos últimos dias. Estávamos oficialmente no outono.
Um pouco atrás de mim estava o Conde de Dudley e sua irmã; um banco depois estava Lorde Byron, a tia e o cunhado. Nossos títulos eram o que faziam aquela organização fazer sentido.
Eu deveria prestar atenção em cada palavra que o reverendo dizia. Devia ser algo muito importante, tendo em vista que até mesmo Lenna, alguém que se distraía fácil, encarava-o sem piscar. No entanto, minha cabeça girava pensando no que havia acontecido na madrugada do dia anterior.
Tinha parado de chover desde que batera meia-noite. Sem o barulho da água caindo no céu, a mansão ficava muito silenciosa. Levantei-me sem fazer barulho para caminhar pelos corredores; sentia-me estranhamente elétrico, os dias preso tinham se tornado insuportáveis.
Dei um pequeno salto quando uma sombra surgiu do quarto de hóspedes; saiu de lá segundos depois e fechou o robe rapidamente quando me viu.
一 Oh, parece que não só sou eu que estou sem sono 一 comentou ela, com um pequeno sorriso.
Contava nos dedos as vezes que via sem estar vestida com uma dama, com o cabelo impecável e a roupa bem alinhada. Ali, porém, eu via uma mulher com uma aparência mais vulnerável do que da vez que Felicity estava doente. Os cabelos estavam com um leve frizz atrás e o robe de seda, embora grande o suficiente para esconder os calcanhares, delimitava as doces curvas de .
Forcei-me a encarar-lhe o rosto. não era minha para que eu a desejasse e, apesar de meus sonhos não serem o mais púdicos, ainda lembrava das duras palavras que ela me disse quando agi como um sedutor. Será que ela responderia de maneira diferente a minha aproximação?
Não era ousado o suficiente para arriscar depois do que aconteceu na pousada.
一 Pois bem 一 concordei. 一 Felicity está bem?
一 Sim, sim 一 replicou ela. mexeu os dedos que seguravam o robe com hesitação. 一 Estou dando um chá que sua mãe recomendou e é um santo remédio. É a vantagem de ter mulheres experientes por perto quando se é uma mãe tão nova.
Franzi o cenho, uma perspectiva que não tinha prestado atenção antes desenhando-se bem na minha frente. agia como se mãe fosse algo muito natural, porém havia coisas que só quem havia passado por isso mais de uma vez poderia aconselhar com propriedade. Sem a mãe ou qualquer outra ajuda externa, ela deve ter passado por maus bocados maiores do que eu podia projetar.
Quis abraçá-la, mais uma vez. Quis dizer que, se fosse do desejo dela, eu não a deixaria mais sozinha.
Ao invés disso, falei:
一 Está indo para algum lugar?
一 Biblioteca! 一 respondeu com entusiasmo. 一 Vou procurar uma Bíblia.
Levantei a sobrancelha.
一 Bíblia?
一 Sim 一 disse ela. 一 Não há livro melhor que possa fazer-me dormir.
Soltei uma risada alta 一 se não houvesse tantas pessoas com sono pesado por aquela casa, com certeza eles acordariam. arregalou os olhos e pôs a mão na minha boca para abafar o som.
一 Você é maluco? Irá nos colocar em problemas! Imagina se alguém nos encontra aqui?
Tirei a sua mão com delicadeza e disse:
一 Nos casaríamos, oras. Seria isso um absurdo?
一 Não mesmo. Eu ia adorar ser marquesa 一 disse ela toda pomposa.
Mesmo que o tom de brincadeira estivesse em sua frase, não pude evitar sentir uma centelha de esperança em meu peito.
Deus, se um dia tornar-se minha esposa, prometo nunca mais olhar para mulher nenhuma além dela. Se possível, furarei meus olhos igual a Édipo. 一 Estou um pouco decepcionado 一 iniciei e puxei-a levemente para perto. 一 Imaginava que a maior vantagem de casar-se comigo seria pela minha beleza.
一 Ora, Excelência, sabe que se nós nos casássemos, eu seria a mais bela de nós dois 一 argumentou ela.
Tão perto como estava, com os olhos brilhando como duas pedras preciosas e os lábios rosados desenhados no rosto, tive que concordar com o que ela disse.
一 Está bem, você venceu. 一 murmurei antes de beijar-lhe a bochecha. Ela cheirava a algum cosmético desconhecido e tinha a pele muito macia. Estremeci. Nunca tive tanto autocontrole quanto no momento em que me afastei. 一 Estou voltando para a cama. Boa noite, .
Ela piscou uma, duas, três vezes. Respondeu o cumprimento apenas quando eu já estava distante.
Balancei a cabeça, tentando voltar para o presente. O reverendo pedia para que nós nos levantássemos e, meio atrapalhado, seguir o movimento dos outros. Após uma oração, a cerimônia havia acabado.
Fui mais rápido com Logan e ofereci meu braço para antes mesmo de sairmos da igreja. Byron pareceu não perceber.
一 Que sermão bonito! 一 comentou ela. 一 Fazia tempo que não ouvia algo tão profundo assim.
一 É verdade 一 disse eu, mesmo que não tenha escutado muito bem o que ele dissera. 一 Ainda faremos um piquenique perto do pomar de maçãs?
fez uma careta.
一 Ainda está tudo muito lamacento. Não queria sujar meus sapatos novos.
Olhei para trás e observei em breve segundos Logan entregar uma carta para Lenna, minha irmã, em meio a confusão de corpos que tentavam sair da catedral. Ainda estava impressionado que Byron, um homem absurdamente sério, estivesse se pondo em um lugar como aquele. Se eu ainda não tinha intervindo era apenas porque conhecia a minha mãe o suficiente para saber que ela nunca dera nenhuma privacidade a Lenna, e o noivado havia piorado tudo. Se meu amigo era o único que ela confiava para trocar cartas escondidas com Lorde Severn, então, que o fosse.
一 Eu acho que não está tão ruim assim 一 argumentei para assim que chegamos nas escadas. 一 Veja, o sol saiu um pouco no céu e o clima está agradável. Não deveríamos gastar mais uma tarde no…
A vida é imprevisível, mas algumas coisas eram mais óbvias de acontecer.
Sempre fui um homem atrapalhado, embora tenha mais facilidade de controlar meu corpo depois de anos batendo o joelho em paredes, derrubando copos com o pulso e quase quebrando vasos tão antigos quanto a própria Inglaterra. Então, era fato de que um chão liso e lama fresca era uma junção muito ruim de desastre.
Antes mesmo que eu pudesse terminar minha frase, escorreguei no último degrau e caí para frente em direção a uma poça de lama facilmente desviável se eu estivesse em equilíbrio. , que mantinha parte do peso do corpo em meu braço, foi arrastada junto para a humilhação.
Entre saias, pernas para o alto e muita lama, nós dois estávamos sujos de barro de cima a baixo quando toda a congregação de Exeter descia as escadas. Para quem se preocupava com os sapatos, estava com uma camada considerável de barro que espirrou na bochecha direita.
Os primeiros risos vieram dos meus irmãos mais novos, Grace e Zach. Eu devia ter ficado vermelho até a raiz dos cabelos, mas apenas aqueles capazes de ver através da lama pode ver-me. O som dos risos espalhou-se com discrição, já que nem todo mundo era ousado o suficiente para rir de um marquês à sua frente. Isso, de certa forma, tornou a vergonha maior: quando voltassem para suas casas quentes, a história do marquês e a sua amiga caindo sem jeito para a lama iria rodar por dias e dias.
Surpreendendo a todos, enquanto minhas irmãs, mamãe e Dudley desciam para nos socorrer, um som de uma risada conhecida atravessou meus ouvidos. ria como uma menina.
一 Meu Deus, ! Se queria tanto assim tomar banho de lama, por que não me avisou com antecedência? 一 brincou ela, segundos antes de ser levantada com ajuda do irmão.
Pisquei aturdido. Ela, que era uma mulher cheia de dedos e elegante, levara aquele pequeno incidente como um divertimento, um bálsamo para uma situação singular e vexatória.
Sorri em meio ao caos. Mais do que nunca, eu soube: era a mulher que eu queria casar-me.

[...]


Estiquei as pernas para cima, dessa vez sem qualquer jornal no colo. Limpo, quase no fim da tarde, observei Zachary concentrado no que fazia, acostumando-se com a rotina de ter algumas horas de mão na massa.
Ainda pensava no espetáculo da manhã, nas frustrações e expectativas que eu tinha. Pensava também no boa noite que me dera 一 que não tinha nada demais, era verdade, mas ainda assim não saia da cabeça.
Eu estava em problemas; conhecia muitas formas impressionantes e românticas de declarar-me, porém não soavam sinceras, nem suficientes para mim.
Era um amor de anos, não era? Tinha que ser especial.
E ainda havia o frio na barriga e a possibilidade de receber uma negativa.
Os sorrisos que eu recebia de eram diferentes dos outros? Ela, de alguma forma, via-me além da amizade?
Então, alguém começou a bater na porta de um jeito muito insistente; Zachary pulou de susto.
Abri e encontrei a Srta. James com as mãos nos joelhos tentando recuperar o fôlego.
一 O que aconteceu, senhorita? Por que está assim?
一 Sua mãe... 一 ela tentou respirar devagar 一 A marquesa-viúva… Mandou-me um recado… Urgente.
一 Está tudo bem com ela? Com minhas irmãs? 一 perguntei, alarmado.
Ela levantou o dedo negando. Coitada, ainda não tinha conseguido normalizar a respiração.
一 É a Sra. .
一 Ela está bem?! 一 minha voz saiu mais alta do que o calculado.
一 O milorde… Lorde Byron… Nesse exato momento, ele está pedindo-a em casamento.

Capítulo 17

Ravena , Sra. ,



Awa.
Meus olhos se arregalaram. Felicity, sem saber quão maravilhoso era vê-la falar uma palavra, esticou os bracinhos e disse mais uma vez:
Awa.
Eu me sentia uma mãe muito ruim por não ter estado presente quando ela falara a primeira palavra e, sendo bem sincera, era raro ouvi-la repetir as sílabas como boa parte dos bebês da idade dela. Às vezes Felicity dava uns gritinhos de animação, mas nada além disso. Cheguei a chamar um médico, mas ele disse que minha filha era muito saudável e só precisava de paciência.
Momentos como aquele, quando ela dizia palavras simples, eu guardava na minha memória com muito carinho.
一 Quer awa, mamãe? 一 indaguei antes de ajudá-la a beber água.
A babá de Grace ofereceu-se para fazer isso, mas eu neguei. Peggy, por outro lado, já sabia que eu gostava de aproveitar esses pequenos gestos de cuidado com minha filha e apenas sentou-se ao meu lado, como de costume.
一 Sabe onde estão nossos anfitriões? 一 perguntei para minha dama de companhia, tentando não demonstrar claramente que estava interessada em saber apenas de um deles.
一 A marquesa-viúva e a Srta. Courtney estão na sala de visitas bordando, como você já sabe, e a Sra. Montgomery não chegou a descer ainda 一 explicou. 一 O marquês está em algum lugar acompanhando o mais novo dos irmãos. Grace, bem, está à sua frente.
一 Não acha que é uma grande coisa esse castigo que Exeter pôs a Zachary? 一 perguntei. A relação dos dois era algo que me intrigava desde a viagem até a propriedade. 一 Imaginava que ele pouco importava-se com os irmãos, sobretudo os mais novos.
Observei Grace brincar com uma boneca e certifiquei-me de que ela não me escutava; a babá também parecia estar distraída. Então, sussurrei para Peggy:
一 Ele é um tipo esquisito de libertino, não é?
一 Está o justificando agora? 一 ela levantou uma sobrancelha.
一 Claro que não 一 defendi-me. 一 Estou apenas sendo justa. No final, ele é muito atencioso com a família. Talvez ele seja apenas… 一 Sorri, lembrando da palavra. 一 ...seja apenas romântico.
Peggy piscou repetidas vezes; esticou o pescoço, como só conseguia ver-me estando mais longe. Então, arregalou os olhos.
一 Você gosta dele.
A afirmação fez meu coração bater de um jeito esquisito, mas familiar. Ainda assim, respondi para Peggy:
一 Claro que gosto, ele é meu amigo.
Ela olhou-me em descrença.
一 Sabe do que estou falando.
Senti um pingo de água no rosto e percebi que Felicity estava brincando com o copo já vazio. Retirei da mão dela e recebi um choramingo em troca.
一 E você sabe que Exeter não é o homem que estou procurando 一 afirmei, porque era verdade, embora estivesse desde o dia anterior pensando nos prós e contras de aproximar-me de um jeito diferente de .
Era bem verdade que ele flertara mais de uma vez comigo, no entanto, acreditava que era da personalidade adulta dele que não tive a chance de acompanhar sendo desenvolvida. Se eu mostrasse interesse de verdade, ele estaria inclinado a querer algo como casamento ou iria querer-me como amante? Ou ele apenas gargalharia e diria para eu parar de brincadeiras? Nenhuma das opções deixava-me relaxada. Eu estava certa que queria casar-me de novo, mas agora hesitava mais uma vez.
Devolvi o copo para Felicity, lembrando-me que estava buscando um casamento para dar-lhe um lar mais completo. Minha escolha não poderia ser pautada apenas nas discussões do coração, mas também no que seria melhor para nós duas. Suspirei. Mamãe ficaria feliz em ver-me seguindo seus conselhos.
Sorri para minha menina, mas eu carregava um certo pânico no peito.
O que minha mãe faria no meu lugar?
Pus Felicity no colo da babá e levantei-me.
一 Vou bordar um pouco.

Desci as escadas distraída, a mente mergulhando em tantas perguntas sem respostas que sentia-me quase afogando. Se eu era ruim bordando com a mente concentrada, era um desastre quando estava com os pensamentos longe.
As flores inclinadas para o lado estavam parecendo uma cena de crime se os humanos sangrassem lilás. Ia ser um desastre assim como a rosa que eu tentara fazer dias atrás.
O silêncio da sala era reconfortante 一 embora muitas mulheres aproveitavam momentos como aquele para fofocar, era essa única atividade que eu ouvia quase nada da boca da marquesa-viúva. Com a testa franzida, a mulher trabalhava com a agulha com a precisão de uma perfeccionista. Lenna, que estava sentada em outro sofá, já havia abandonado o bordado e encarava a janela com suspiros de uma jovem entediada.
Se fôssemos nos tornar uma família, eu iria apreciar tardes assim. Não era a melhor em bordado, mas achava divertido e relaxante.
一 Será que o Capitão Wilson voltará a pedir a mão de Danna hoje? 一 titubeou Lenna em voz alta.
一 Não sei 一 respondeu a marquesa-viúva sem levantar o olhar. 一 Só espero que peça a pessoa certa dessa vez.
Segurei o sorriso. Ficamos em silêncio mais uma vez e foquei em desfazer o emaranhado de nós que o desenho da flor tinha se tornado.
A família de era algo que eu lidaria fácil, era verdade. A marquesa-viúva era maldosa às vezes, mas, na maior parte do tempo, eu poderia ignorar-lhe opiniões que não interessavam-me igual eu fazia quando George comentava algo sobre política.
Naquela manhã, quando voltávamos para casa sujos de lama até os cabelos, ela foi muito amorosa comigo e tive que repetir várias vezes que não estava chateada. Fosse outro momento iria irritar-me mais, era verdade 一 mas a ironia do momento, quando eu falava que não queria sujar os sapatos de lama, tornou tudo uma grande comédia. Ajudava eu não estar sozinha 一 , em toda a sua pomposidade e elegância, parecia um porquinho quando conseguiu se levantar da poça.
A sociedade londrina iria aceitar sem grandes alardes caso algo ocorresse entre nós dois? Éramos um casal improvável, sobretudo pela posição que eu tinha. O que era uma viúva de um diplomata em relação a um marquês cheio de dinheiro?
Olhei para minha barriga encolhida pelo espartilho. Nunca tinha visto a peça de roupa como uma prisão, afinal, ajudava-me a manter as costas em uma posição ereta. No entanto, desde que comecei a engordar, usava-o como um escudo para esconder uma vergonha que, se não me fosse apontada, não a veria como tal.
一 Tem uma carruagem vindo 一 anunciou Magdalena. Ela cerrou os olhos para ver de longe. 一 Será que é Capitão Wilson? Não sabia que ele tinha uma carruagem...
Exeter iria orientar-me para fazer uma dieta diferente e ficar bonita para ele como Afonso dizia? Ele me machucaria desse jeito também? diria que eu deveria parecer-me mais com as espanholas e menos com a Rainha Victória?
一 É o Lorde Byron! Oh 一 disse ela, animada. 一 Finalmente alguém para conversar!
一 Ele provavelmente veio ver seu irmão ou o Conde de Dudley 一 falou a marquesa, ainda muito concentrada no bordado. 一 Não fique chateada se ele não lhe der atenção.
Balancei a cabeça violentamente. O coração, porém, apertou-se no peito. Tinha total certeza que dormira com diversas mulheres de corpo muito mais esbelto e capazes de criar uma ampulheta de verdade dentro do espartilho. Ele desejaria-me de verdade ou faria comentários iguais aos que ouvi na noite anterior? Ele estaria comigo nos bons e maus momentos?
一 Hm, eu acho que ele está vindo para cá… 一 continuou Lenna.
一 Apenas para cumprimentar, por certo 一 disse a mãe dela.
Observei o rosto ansioso de Lenna e franzi o cenho. Embora tenha percebido que ela era muito apaixonada pelo noivo, não era sempre que o nome do Lorde Severn saia de seus lábios. Além disso, ela mostrava-se bastante animada nas vezes que conversava com Byron, que era um ouvinte muito prestativo.
Será que..?
Pus a mão na boca, mas hesitei.
Lorde Byron apareceu em seguida e nós três levantamos; apenas aquela cortesia que mandava a etiqueta fora capaz de tirar os olhos da marquesa do trabalho que ela fazia.
está com o irmão no casebre do administrador 一 avisou a marquesa-viúva, já estendendo a mão para pegar um sino da mesinha. 一 Chamarei para que…
一 Desculpe-me, mas não vim encontrar com o marquês 一 disse Byron. 一 Gostaria de ter um momento à sós com a Sra. . Tenho um pedido para fazer.
Tenho um pedido a fazer.
Um pedido.
A sós.
Comigo.
Meu rosto deve ter ficado pálido. A marquesa também assustou-se, soltando algumas murmurações de cortesia e puxou uma Magdalena que estava tão surpresa quanto nós duas.
Respirei fundo, mas não foi o suficiente para que o coração não parasse de batucar de nervosismo.
Byron não era um homem feio, mas o charme que carregava era maior do que qualquer beleza clássica e pele leitosa como a de Exeter. Ele andou até mim com o chapéu nas mãos 一 os passos seguros contrastavam com as tremedeiras das minhas pernas.
Ele iria pedir-me em casamento! Meu Deus!
一 Espero não ter a assustado tanto 一 comentou ele com um sorriso discreto.
一 Estou surpresa, confesso 一 admiti. 一 Mas, também estou curiosa.
Quis emendar um “fale de uma vez”, porém sorri apenas.
一 Sei que conhecemos-nos há alguns meses, no entanto, tenho aumentado cada vez mais a minha admiração por você 一 iniciou ele. 一 Acredito que minhas atenções foram notadas, então, gostaria de fazer-lhe um pedido direto: Sra. , você desejaria se tornar minha esposa?
Era isso que eu desejava: um homem modesto, sóbrio, sem grandes paixões ou mentiras. Byron não fingiu amar-me loucamente, nem mesmo fez promessas infundadas. Era também jovem e nunca mostrou-se avesso a minha filha 一 ao contrário, já havia o visto brincar uma ou duas vezes com a menina.
Então, por que a simples ideia de me tornar esposa dele deixava-me angustiada? Por que parecia errado?
一 Não quero criar expectativas infundadas, nós não tivemos nenhum tipo de amor, porém tenho uma grande afeição por você 一 continuou o milorde diante do meu silêncio. 一 Se for mútuo, posso garantir que serei um bom marido e a protegerei com o que estiver do meu alcance. Você e a sua filha.
Respirei fundo.
Era isso, não era? Escolher Byron iria facilitar minha vida; não ia precisar ir à temporada social em busca de marido, nem encarar a insegurança de estar sempre dependendo do meu irmão para sobreviver.
Mas e Exeter?
Não sabia se aquele sentimento que estava nascendo em meu peito iria morrer logo ou crescer de forma saudável; além disso, havia uma chance real de Exeter querer me como mulher? Ele, que era ainda jovem, iria encarar-me como mais uma aventura ou uma parceira para o resto da vida?
Observei Lorde Byron, que ainda esperava a minha resposta. Ele era o que eu achava que precisava, mas não era o que eu desejava. Como entraria num casamento com o coração tão inclinado a outro homem?
Eu poderia amá-lo mesmo olhando sempre de soslaio quando um de seus amigos mais próximos estivesse conosco? Quando Exeter nos visitasse, eu conseguiria não vê-lo como um homem?
Minha expressão revelou a resposta antes mesmo de falar:
一 Desculpe-me, milorde… Por certo, reconheço que é um ótimo partido, mas não sou capaz de dar-lhe uma resposta positiva.
Recebi um arquear de sobrancelhas como réplica, embora Byron não parecesse chocado de verdade.
一 Há um motivo oculto por trás dessa negativa?
Balancei a cabeça para sinalizar um não, quando ele disse:
一 Devo ter lido a nossa conversa de um jeito errado, então.
Dei um sorriso nervoso. No baile, por algum motivo, entramos no assunto “o cônjuge perfeito”, eu, ele e Lenna. Quando repeti a lista de qualidades que eu disse um dia para a minha dama de companhia, todas elas se transformaram peças de um jogo diferente do que eu jogava. Pareceram não fazer tanto sentido.
O homem ideal seria modesto? Não necessariamente.
Bonito? Por favor.
Romântico? Se me amasse, não seria a falta desse um problema.
Mas, então, as características mais práticas tornaram-se mais palpáveis.
Ele deveria ter um bom relacionamento com a família? Sem dúvida.
Ele deveria me fazer sorrir. Isso era importante.
Ele deveria despertar-me paixão?
Claro que não falei aquelas frases em voz alta; nós três damos risada, brincamos e beiramos ao ridículo algumas vezes. No entanto, enquanto conversávamos, a imagem de Exeter importunava-me.
Ele não era o cônjuge perfeito, por certo. Não era o genro dos sonhos apesar da riqueza.
Mas, o que eu queria?
一 Que insinuação é essa, milorde? Você se acha um homem perfeito?
一 Estou longe disso, sra. 一 defendeu-se. 一 Apenas pensei… Bem, não importa o que eu pensei.
Ele suspirou e coçou a cabeça, desconcertado.
一 Talvez eu tenha entendido as coisas de modo errado. 一 Fez uma reverência. 一 De qualquer maneira, espero que isso não afete negativamente nosso relacionamento. Ainda gostaria de ser seu amigo.
一 Eu também 一 repliquei. Olhei para trás, para a porta fechada.
Já fazia tempo que estávamos juntos e apostava que estavam com os ouvidos na porta. Se é que eles eram capazes de ouvir-nos, já que estávamos mais perto da janela.
Byron acompanhou meu olhar.
一 Acha que a propriedade toda já sabe que estamos aqui?
Encarei-o com a testa franzida.
一 Por que a pergunta?
一 Será que sabe que estou aqui?
Pisquei uma, duas vezes. O nome de Exeter deixou-me nervosa de um jeito que já não me lembrava. Será que estava óbvio no rosto que eu estava nutrindo sentimentos por ele?
一 Provavelmente 一 repliquei com cuidado.
Ele sorriu para mim, satisfeito.
一 Espero que esteja preparada para mais emoções hoje.

Lorde Byron despediu-se logo depois, deixando-me com uma pulga atrás da orelha. Assim que ele saiu pela porta, as mulheres que bordavam comigo e Danna, que havia descido um pouco depois de Byron convidar-me para uma conversa particular, vieram até mim querendo saber minha resposta.
一 Eu disse não 一 respondi ao sentar-me mais uma vez.
一 Não?! 一 Danna fez uma careta. 一 Eu acreditava que vocês compartilhavam alguma afeição. Seriam um bonito casal!
Lenna, por outro lado, apenas deu ombros.
一 Acho que era cedo demais, não é? Byron foi um pouco precipitado 一 comentou, esperando que eu concordasse. 一 Precisou de quase toda uma temporada para que Louis fizesse-me um pedido oficial. Acredito que foi melhor, pois pude ponderar outras opções sem muitos problemas.
Levantei a sobrancelha, mas não disse nada. Era a primeira vez que a ouvia chamar o noivo pelo primeiro nome.
一 Você fez bem, querida 一 afirmou a marquesa-viúva a mim. 一 É melhor esperar que a próxima temporada volte e então considerar outras opções. Caso Lorde Byron ainda estiver interessado, sempre há a possibilidade de haver um novo pedido.
Assenti, incapaz de falar alguma coisa sem comprometer-me.
Um barulho fez nós quatro pular da cadeira; a porta foi aberta em violência e, conjurado pelos meus pensamentos, estava o marquês de Exeter.
. O motivo da minha perturbação.

Capítulo 18

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



A respiração acelerada, o cabelo colado na testa e o rosto vermelho de esforço eram só alguns sintomas visíveis do que eu sentia.
Eu iria perder mais uma vez. E o erro era todo meu.
Ir devagar, então, era uma estratégia apenas minha 一 meu amigo, se é que eu poderia chamá-lo desse jeito, não pensou duas vezes que ela era uma mulher recentemente viúva e que tinha os próprios problemas para lidar antes de entrar em um casamento.
Já sentia meu coração partir-se em pedaços antes mesmo de ver a porta da casa. Tropecei em algum galho e caí de joelhos; levantei-me, embora quisesse entrar na minha própria miséria.
Recuperar-me na primeira vez que a perdi foi difícil, mas não vê-la constantemente ajudava. Além do momento do casamento, nunca vi junto ao marido. Graças a Deus.
No entanto, com Byron seria diferente. Ela estaria com ele em todos os eventos sociais e não duvidava que o arrastaria para cima e para baixo. Então, deixaria de ser Sra. para ser Lady Byron.
A simples ideia dava-me um bolor na garganta.
Eu não tinha mais tempo.
Abri as portas sem nenhuma delicadeza; não encontrei meu amigo e . Na verdade, encontrei ela e as mulheres da minha família rodeando-a como se ela fosse o centro das atenções.
Senti meu coração pular para a boca. Ela já estava noiva?
一 Harrison, você quase me matou de susto! 一 reclamou mamãe com as mãos no peito. 一 Onde estão suas maneiras?
一 Você disse sim? 一 perguntei, encarando .
Ela arregalou os olhos, nervosa.
一 Está falando do pedido de Byron? 一 indagou Lenna, animada por contar as novidades. 一 Não é uma grande surpresa, não acha? Achei que fosse...
一 A notícia já chegou a você? Que coisa! 一 comentou Danna, impressionada.
一 Eu disse não 一 replicou , calando as vozes que estavam ao seu redor.
Cambaleei até o sofá mais próximo e caí com tudo por cima dele. Minhas pernas doíam do esforço e ainda sentia que tudo pulsava de um jeito perigoso por dentro do meu corpo.
Ela disse não. Meu Deus, ela disse não.
Obrigado, Senhor.
一 Desculpe-me pela falta de maneiras 一 eu disse, quando encontrei mais uma vez minha voz. 一 Só queria ter certeza.
Não era de se chocar com as expressões de confusão de quem estava na sala de visitas. Mamãe olhava-me com censura e as minhas irmãs murmuravam entre si que eu estava ficando lunático.
Provavelmente elas estavam certas.
, porém, achava aquilo muito engraçado 一 podia ver que ela estava segurando um riso e balançava a cabeça para o lado como de quem não acreditava. Eu deveria estar com o orgulho ferido, mas só podia pensar no quão adorável ela era.
Uma adorável mulher que tinha dito não a Byron.
Assim que restabeleci minha respiração, levantei-me em um solavanco.
, podemos dar um passeio pelo jardim? Há algo que eu gostaria de conversar.
一 É sobre o pedido? 一 perguntou minha mãe.
Segurei uma resposta atravessada, porque havia sido ela que me alertara da situação. Ainda não tinha parado para digerir o que essa ação queria dizer: mamãe sabia que eu estava interessado em ? Ela desejava que nós dois ficássemos juntos? Ou ela avisara como uma fofoca quente?
passou as mãos no vestido, nervosa; respondeu-me antes que eu dissesse alguma coisa:
一 Claro, deixe-me apenas pegar meu chapéu.
Apesar de querer apressá-la, balancei a cabeça em concordância. Minutos depois, estávamos os dois andando pelo jardim de Exeter.
Ainda sentia-me nervoso, mas não era nada comparado com o desespero que sentia quando atravessei correndo parte da propriedade como se minha vida dependesse disso.
Ofereci meu braço e, sem hesitação, deslizou os dedos sem luva por cima do casaco que eu usava. Aquele pequeno movimento não passou despercebido; ela deu-me um sorriso contido. Eu, por outro lado, sorri mostrando todos os dentes.
Era um dia abafado, era verdade. A corrida deixara tudo mais quente e sufocante, porém, não era visto de bons olhos estar andando por aí sem parecer um nobre.
一 Por que queria conversar comigo? 一 indagou ela, quando já estávamos mais afastados da casa. 一 Irá contar-me todos os segredos de Byron e convencer-me a continuar dizendo não a ele?
O tom dela era de quem zombava, mas a ideia não era ruim. Eu podia escolher uma ou duas coisas ruins que Logan havia feito e transformado em uma fofoca muito quente e bombástica.
Porém, contive-me. Ele não tinha culpa de estar interessado por , afinal, ela era impressionante. Além disso, eu não tinha deixado claro que estava querendo transformá-la em minha esposa. Quem estava soando com um mau amigo era eu.
Não que eu estivesse com a consciência pesada. não o escolheu mesmo podendo estar noiva dele nesse exato momento.
Sorri, sentindo-me estranhamente alegre. Byron era um pretendente perfeito. Mesmo eu possuindo um título maior e sendo mais rico, não era o genro dos sonhos para muitos pais de família. Afinal de contas, eu havia sido apontado como um amante da Sra. St Clair.
Agora entendia porque o Rei Salomão orientou que os jovens fugissem das mulheres adúlteras. Se eu prestasse mais atenção aos sermões dos domingos ao invés de cochilar, talvez tivesse evitado uma grande dor de cabeça.
, eu te fiz uma pergunta. Por onde anda sua cabeça? 一 resmungou .
一 Estava apenas esperando chegarmos ao melhor lugar para sentar e conversar sem problemas. 一 Apontei ao banco que estava debaixo de uma árvore. Cabia duas pessoas, desde que elas ficassem bem perto, porém mantive-me de pé quando ela sentou-se.
Suspirei, sem saber como começar.
一 Sei que esteve bastante deslumbrada por Byron nas últimas semanas 一 comecei 一 e imaginei que a resposta positiva era a mais óbvia.
一 Andamos tanta para comentar isso? 一 ela franziu a testa. 一 Não que isso venha ser da sua conta, mas Byron e eu funcionamos melhor como amigos.
一 Está interessada em alguém? Há alguém em mente?
Segurei o fôlego um pouco quando finalmente fiz a pergunta. baixou a cabeça e a vi mexer os pés como de quem estava ansiosa.
一 Por que quer saber?
Abaixei-me até ficar quase na altura de seus joelhos; os olhos verdes seguiram-me até segurar-lhe as mãos, estranhamente geladas. Levei-as até os lábios e beijei-as. Ela estremeceu ao meu toque.
一 Porque eu… 一 cocei a garganta para ter certeza que a voz soasse firme. 一 Porque eu descobri que um homem pediu você em casamento e pensei que o mundo tinha caído sobre minha cabeça, . Porque você tem invadido meus sonhos à noite e os pensamentos do dia. Porque fico desconcertado em relação a você. Tenho muita experiência com mulheres, mas não consigo agir de um jeito certo para conquistá-la. Porque eu te amo, . Eu a amo desde meus treze anos, quando ainda não sabia a responsabilidade que o amor carrega junto com ele. Sei que não sou metade do homem que a merece, mas sei que todos os dias eu penso… Todos os dias almejo… 一 Respirei fundo. 一 Eu a quero como minha esposa, . Dê-me esse privilégio. Deixe-me cuidar de você. Deixe-me te dar a família que você sempre quis ter. Eu a perdi uma vez. Não quero perdê-la de novo.
Um passarinho cantou de longe. Uma rajada de vento atravessou o jardim e pude ouvir o farfalhar das folhas contra os galhos. O mundo deve ter ficado em silêncio para ouvi-la dar-me a resposta.
, então, deixou um sorriso muito bonito dominar o rosto. Então, a vi chorar, balançando os dedos perto dos olhos para secar as lágrimas. Ela soltou uma gargalhada e eu ri junto, mais nervosismo do que qualquer coisa.
一 Você é um romântico mesmo, 一 disse ela, finalmente. 一 Venha, sente-se aqui.
Levantei-me desconfiado e sentei-me bem ao lado dela. continuou:
一 Se quer saber, estou sim interessada em alguém. 一 Dessa vez foi ela que pegou as minhas mãos e levou aos lábios. 一 É você, seu bobo. Estava cheia de dúvidas desde cedo, mas agora sei que é você. Estou morrendo de medo, . Muito medo. Há tanta coisa… 一 Ela suspirou. 一 Tanta, tanta coisa… Mas, se você me quer como esposa, eu o quero como marido.
O sorriso em meu rosto deveria estar ridículo, mas não importei-me. Segurei-lhe o queixo com as pontas dos dedos e vi um olhar tornar-se liquefeito, derramando-se assim como a respiração tornava-se escassa; ousei descer o toque pela linha da mandíbula até chegar no tufão do seu cabelo escuro.
Que mulher linda era .
… 一 sussurrei, mal contendo-me. 一 Você disse uma vez que não experimentaria o beijo do futuro marido apenas no altar. Por certo, eu sou capaz de criar um autocontrole hercúleo por você. No entanto, se você deixar-me beijá-la agora, irei fazê-lo.
Ela sorriu e lambeu os lábios.
Deus de piedade.
一 Não sabia que libertinos tinham autocontrole 一 alfinetou ela. 一 Será que deveria fazê-lo esperar mais um pouco? Seria uma prova de amor muito romântica, não acha?
… 一 minha voz soou como um gemido contrariado. Ela riu.
Ela tocou meus lábios com o indicador.
一 Uma vez. 一 Ela provocou. 一 Uma vez para convencer-me de que é uma boa escolha, .
Ela não precisou dizer de novo. Antes que percebesse, eu tinha resgatado os seus lábios macios com os meus, beijando-a como eu sempre desejei fazer. Não foi surpresa descobrir que era uma mulher de beijos afáveis e, se era capaz de apaixonar-me mais ainda, meu peito explodiu de amor e prazer quando ela segurou meu cabelo para inclinar-se mais para mim.
Nos afastamos quando o beijo tornou-se muito mais cortês e carinhoso 一 minha cabeça girava, incapaz de conceber que aquilo que estava acontecendo era real: eu e , e eu.
一 A convenci de que sou uma boa escolha, sra. ? 一 indaguei em um murmúrio. Ela ficou vermelha.
一 Muito. 一 Ela sorriu meio abobada. 一 Serão longos meses.
Levantei a sobrancelha.
一 Meses? Por que não dias? Podemos ir para Gretna Green agora mesmo.
一 Você é louco se acha que não terei tudo o que uma noiva tem direito só porque você me faz sentir coisas, 一 replicou contrariada.
E eu ri. Estava muito inclinado a risos naquele dia.



Continua...



Nota da autora: E finalmente ele confessou os sentimentos dele! O que o desespero não faz com o homem, não é verdade? hahaha muito obrigada pelos comentários. Que bom saber que vcs estão gostando. Aproveitem esse casal maravilhoso <3


Nota da Beta: O Disqus anda instável nos últimos meses, sendo assim, caso a caixinha de comentários não apareça ao final da fiction, clique AQUI para deixar um comentário. Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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