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Última atualização: 07/04/2021

Prólogo — Despedida

Da quarta janela do estreito prédio de cinco andares, era possível vislumbrar um homem vestido em negro e de cabelos igualmente negros segurar um bebê. O bebê era pequeno, de pele clara, e tinha as bochechas coradas herdadas da mãe.
O homem colocou a criança adormecida no berço e fitou-a por alguns instantes. Suspirou. Conjurou um pequeno baú e colocava nele alguns livros que trouxera consigo, quando a porta se abriu em uma fresta.
— Senhor...? Queria saber se o senhor já terminou por aqui — perguntou a mulher, alerta.
— Snape — respondeu seco. — Ainda não. Não está vendo que ainda estou arrumando as coisas da criança?
Com o olhar gélido que recebeu, a moça arregalou os olhos e calou-se.
— E, a propósito, preciso deixar algumas coisas muito claras. — Severo deixou o baú sobre uma cômoda e aproximou-se da mulher. — Ali, naquele baú — apontou o objeto — há livros de leitura indispensável. Apesar de estar deixando-a num orfanato trouxa, quero me certificar de que ela saberá quem é e sua função é não a deixar se esquecer disso. — Snape fez uma pausa. — Não compreendo realmente, senhorita, o que uma bruxa mestiça faz aqui, neste lugar trouxa. Mas como essa desgraça não é minha, só quero garantir que ela saberá que é bruxa e saiba o que é Hogwarts e já basta. — o homem virou-se e pegou novamente o baú. — Agora você já pode nos deixar, senhorita. Aviso quando acabar por aqui.
Ela apenas acenou, temerosa, e deu meia volta em direção à porta.
Snape trancou o baú e empurrou-o para baixo do berço pequenino, exatamente igual a outros sete naquele quarto. Fitou a criança por mais alguns minutos, mas não se despediu dela. Snape questionou-se por que tinha pedido aqueles minutos a sós com o bebê, afinal. Ela nem ao menos se lembraria.
Virou-se e sua capa voou no ar, saindo exatamente com a mesma expressão que entrara: indiferença. Severo Snape nunca tinha sido bom em despedidas.

***

Ela era ruiva. Tinha bochechas coradas. Olhos azuis. Sua energia contagiava a todos. E ela era dele.
Passado certo tempo, Severo apercebera-se de que era encantado por Lily Evans porque ela era ruiva. Assim como a sua ruiva. E Lily também era fogosa, assim como ela. Mas Lily era de Potter. E Alexandra era dele.
Alexia teve o coração de Severo no último ano de Hogwarts. E mesmo durante o tempo em que ficaram sem se ver ele continuara sendo dela. Inteiramente dela. Apaixonadamente dela. Foi quando sua ruiva voltou para a escola, desta vez para lecionar Defesa Contra as Artes das Trevas, que ficaram juntos. Alexia era viva, encantadora, genial. Severo era rude, calado e frio. Ela cativara alunos e professores em pouquíssimo tempo, ele ainda era odiado e temido por muitos. Mas Severo era de Alexia e Alexia de Severo. E isso bastava.
Por muito tempo, Alexandra foi considerada a melhor professora de DCAT que já passara pelo cargo, mas, assim como tantos outros, foi sendo esquecida com o tempo. Seus alunos não mais estudavam em Hogwarts e os filhos destes ainda não haviam ingressado na escola.
Alexandra seria lembrada novamente somente quando parte dela voltasse, em forma de uma sonserina calada e de sorriso maroto, cabelos negros, bochechas rosadas e, sim, olhos azuis herdados da mãe.


Capítulo 1 — Hogwarts

A garota arrumara suas poucas coisas em um malão preto — livros e algumas peças de roupa, era tudo o que possuía. Da quarta janela no prédio de cinco andares, ela via o subúrbio da Londres trouxa pela última vez em meses; era um deleite pensar nesse sentido, já que a vista não era nada apreciável, é claro, porém um bom passatempo nas noites solitárias.
Recebera a carta há um mês e agora, na última semana de férias, finalmente ingressaria na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Ela tinha quinze anos e não entendia o porquê de tê-la recebido somente agora; aguardara esse momento desde os onze anos, mas nos últimos anos aprendera a não criar mais expectativas. Ela, apesar de se saber bruxa, tinha sido esquecida naquele subúrbio trouxa.
Quando o sol raiasse, anunciando a manhã seguinte, porém, haveria alguém mandado da escola para buscá-la. E era o que ela mais esperara na vida, tanto que precisou se controlar — depois daqueles anos todos de expectativas frustradas passados no orfanato, ela aprendera a sempre desconfiar das situações boas, que eram raríssimas em sua jovem vida. Soube que hospedar-se-ia no Beco Diagonal, mas alguém faria as compras por ela. Estava perfeito para ela, qualquer lugar, na verdade, longe da escura e suja Londres que conhecia.
Rúbeo Hagrid, o guarda-caça, fora o enviado para buscá-la. Ele falava sobre coisas que estavam nos livros que ela lera e coisas que também não estavam. Era surpreendentemente fácil conversar com ele, a garota notou. era uma pessoa de poucas palavras, mas Hagrid compensava falando pelos dois. Curioso, ele lhe perguntou o porquê de ela não ter entrado no primeiro ano. Respondeu-lhe apenas que não sabia, a carta só chegara há um mês. E mais nada. Hagrid, por sua vez, disse-lhe que precisaria falar com Dumbledore.

***


Do ponto de vista da morena, o castelo era esplêndido, encantador, impressionante. Mas acima de tudo era familiar.
Quando a porta do Salão Principal se abriu à sua frente, sentiu-se acolhida como nunca antes fora. Os estudantes dos outros anos já estavam sentados às mesas de suas respectivas casas, mas ela acompanhava os alunos do primeiro ano.
Hagrid guiou-a e colocou-a no início da fila, ela nem se dera conta. Mesmo quando o grupo começou a andar em direção ao Chapéu Seletor, ela ainda estava abismada com o teto estrelado e os alunos sorrindo uns para os outros, trocando novidades naquele clima típico de primeiro dia de aula, e teve (mais) raiva de quem quer que fosse que a fizera ficar longe daquele lugar por tanto tempo.
Deu-se conta do que estava prestes a acontecer quando a fila parou e a mulher de cabelos negros e óculos puxou um pergaminho das vestes. Conhecia as casas e a escola, já que lera Hogwarts, uma história, e sabia que eram duas suas opções: Grifinória e Sonserina, justamente as casas mais contrastantes. A única coisa que sempre soubera sobre seus pais era essa: sua mãe fora uma Grifinória e seu pai, um Sonserino. Particularmente, nunca achara possível, ou mesmo plausível, que fosse mandada para Grifinória, então o que veio a seguir não fora uma grande surpresa, ainda que tenha a deixado um tanto quanto intrigada.
Snape. — A voz de McGonagall soou pelo enorme salão e de repente tudo se aquietou.
se aproximou, sob o olhar desconfiado de todas as Casas. O único som que se ouvia era a brisa suave que penetrava pela janela e fazia os estandartes das casas farfalharem enquanto a garota andava até a professora.
Aquele sobrenome era conhecido bem demais por ali, embora não fizesse ideia do porquê de tantas faces abismadas encarando-a. Sentou-se no banquinho e Minerva McGonagall colocou o esfarrapado chapéu sobre seu cabelo negro.
Hum... — foi a primeira coisa que disse o chapéu. — Mente ardilosa, decisão fácil. És corajosa, pois sim, porém tem o coração pesado e a mente cheia de ambições, astuciosa... Declaro que és... SONSERINA!
deu um sorrisinho torto enquanto a mesa da Sonserina aplaudia, ainda receosa. A garota caminhou vagarosa até sua Casa e sentou-se em um lugar vazio na mesa, sem importar-se com quem se faria vizinha.
Severo Snape observava-a, cauteloso, estranhando a presença tardia da garota ali.
Após o banquete e o discurso de Dumbledore, os alunos de todas as casas se dirigiam para os dormitórios. Snape acompanhava-os até as masmorras, quando uma mão fria lhe tocou o ombro.
Os professores tinham sido apresentados aos alunos do primeiro ano e o sobrenome que compartilhava com o professor de Poções lhe teria deixado mais intrigada se ela não tivesse crescido na Londres trouxa onde muitas pessoas compartilhavam sobrenomes ao acaso. Ela não sabia, porém, que isso era bem menos comum na comunidade bruxa.
— Pois não? — respondeu-lhe secamente, erguendo os olhos azuis frios. Quem ousaria tocá-la?
— Dumbledore quer falar com a senhorita. Acompanhe-me até a sala do diretor, por favor — ele replicou com a mesma frieza e espantou-se imensamente com os olhos gelados dela.
Caminharam juntos até a gárgula que precedia a sala do diretor sem trocarem uma só palavra. Dumbledore apresentara os diretores das Casas aos alunos do primeiro ano, portanto sabia que Severo Snape era diretor da Sonserina. Pensou novamente nos sobrenomes iguais, mas deu pouquíssima importância ao fato.
— Aqui está, Srta. . O diretor pediu privacidade e creio que a senhorita saiba onde fica o dormitório para lá retornar — Snape disse, carrancudo. — Bafo de Dragão — A gárgula mostrou uma porta e ele virou-se, sua capa tipicamente esvoaçando enquanto andava.
entrou, curiosa, observando tudo ao seu redor. Passou por uma antessala e bateu duas vezes na porta. Dumbledore abriu-a logo em seguida.
— Com licença, o senhor gostaria de falar comigo, Diretor?


Capítulo 2 — Snape versus Snape

— Com licença, o senhor gostaria de falar comigo, Diretor?
— Ah, entre, por favor, Srta. Snape. — O diretor deu um sorriso bondoso e abriu espaço para a garota entrar. — Precisava mesmo falar com você e com urgência.
Dumbledore sorriu mais uma vez e virou as costas, indo sentar-se na sua cadeira. observava os estranhos objetos metálicos — alguns a fumegar — com desconfiança.
— Estava realmente muito ansioso pela sua chegada, Srta. Snape. É realmente um enorme prazer conhecê-la. — O diretor colocou ambas as mãos sobre a mesa e suspirou ao ajeitar os oclinhos. — Me pergunto durante estes cinco longos anos o porquê de sua desistência em estudar em Hogwarts, mas confesso que achei ainda mais curioso quando recebemos sua carta neste ano. — ele fez uma pausa. — Diga-me, o que houve?
— Me desculpe, Diretor, mas eu esperava que o senhor tivesse a resposta para essa pergunta.
— Curioso, muito curioso. Você não recebeu a carta em nenhum desses anos ou não pôde respondê-la?
— Não recebi. Acreditava que eu não tinha sido aceita aqui, por morar e ter crescido em um subúrbio trouxa.
— Ora, ora, Srta. Snape! Por essa eu não esperava. Vou ter que consultar pessoalmente esse caso. — Ele adquiriu um ar pensativo. — Bem, tratemos então de seus anos perdidos.
acenou positivamente.
— Há algumas aulas vagas em seu horário, portanto sugiro que três vezes por semana as usemos para uma introdução básica nas matérias. Checarei em que aulas os professores estarão disponíveis, está certo? Nem que essas aulas sirvam somente para você esclarecer suas dúvidas.
— Ótimo. — sorriu torto, era exatamente o que ela precisava. — Eu li alguns livros bruxos que uma funcionária do orfanato me mandava ler.
— Perfeito, senhorita, perfeito. Qualquer novidade, mando lhe avisar, pois sim?
— Certamente. Obrigada, professor Dumbledore.
— Fiquei muito honrado em conhecê-la, . Tenha uma boa noite.
— Boa noite, Diretor.

deixou a sala de Dumbledore e seguiu para as masmorras. Sabia o caminho até o Salão Comunal, mas ainda teria que descobrir onde ficava seu dormitório.
O salão comunal era comprido, as paredes eram de pedra e do teto pendiam luminárias verdes e circulares. a achou bonita, mas nada era capaz de realmente impressioná-la. Em sofás luxuosos, havia alunos confraternizando; alguns se sentavam perto das lareiras apagadas, outros se espalhavam por poltronas e divãs. Em um canto, várias pessoas olhavam e tentavam chegar perto de um grupo de sonserinos.
se aproximou para saber o que estava acontecendo. Uma garota, deitada em um divã próximo da aglomeração, lia História da Magia.
— O que está acontecendo ali? — perguntou com indiferença, apontando para o grupo de jovens.
— Malfoy e Zabini. Todos acham que eles são deuses ou algo do tipo — a garota respondeu com igual indiferença. — Você é a Snape, não é?
— Culpada — respondeu fazendo graça, mas manteve a expressão inalterada.
— Você é parente do professor Snape? — perguntou, com um fio de curiosidade.
— Acredito que não. Talvez uma parenta distante — disse simplesmente e virou-lhe as costas, decidida a encontrar logo suas coisas e seu dormitório.
Encontrou-o, por fim. A cabeceira de sua cama era sob a janela e seu malão estava sobre a cama de cobertas verdes. Havia mais três camas no dormitório, mas não fazia qualquer diferença, não era conhecida por ser uma pessoa muito sociável.
Seu primeiro horário era Transfiguração, com a professora McGonagall, seguido de Feitiços e depois aula dupla de Poções. Separou os livros que iria precisar e colocou em sua mochila, juntamente a vários pergaminhos, tinteiro e uma pena especial, que havia ganhado de presente de quem quer que fosse que comprara seu material, era prateada e seu nome estava gravado em uma caligrafia curva e bonita.

***


As aulas de Transfiguração e de Feitiços passaram rapidamente e não teve dificuldade em acompanhar a turma, exceto por algumas dúvidas corriqueiras. Poções era a próxima aula e o professor Snape lhe causava uma sensação estranha, com aquele olhar gélido e postura superior.
Assim que a turma chegara, Snape mandara que preparassem um contraveneno segundo o livro Contravenenos Asiáticos. Ele andava pela sua sala nas frias masmorras do castelo, a capa esvoaçando atrás de si, implicando com as poções dos grifinórios — era uma aula com alunos sonserinos e grifinórios.
— Sr. Graham, o que o senhor pensa estar fazendo ao não picar o pinhão? Você, com toda sua inteligência — desdenhou ele — faz ideia do que pode acontecer se o senhor não picar o pinhão? — virou-se para o lado. — E o senhor, sr. Petterson, trate de olhar direito nesse livro.
Cameron Graham abaixou a cabeça e começou a picar o pinhão, enquanto seu parceiro Dennis Petterson lia confusamente os outros ingredientes.
— Pensei que não havia nada sobre pó de chifre de unicórnio no livro que contém o contraveneno, srta. . — Ele espiou por sobre seu ombro. — Sugiro que reveja seu exemplar — sugeriu perto e assustadoramente para a garota, com a voz profunda.
— A poção está pronta, professor. — Snape ergueu as sobrancelhas em surpresa. — Adicionando o pó de chifre de unicórnio a poção fica pronta na metade do tempo, as mandrágoras, que são mais dificilmente encontradas, não são necessárias e o contraveneno age na metade do tempo também. Além das ervas lunares poderem ser dispensadas.
— Deixe-me ver — disse Snape, empurrando-a para o lado para olhar seu caldeirão. — Em que livro a senhorita achou esse atalho, senhorita?
— Nenhum, professor Snape. — Ela deu um meio-sorriso vitorioso. — Eu li um livro de poções que falava sobre os usos curativos do pó do chifre de unicórnio e, já que é um ingrediente quase completo, concluí que os outros não seriam necessários, já que as mesmas propriedades se encontravam no pó — respondeu presunçosa. — E fica pronto na metade do tempo porque também tem princípios aceleradores.
Olhou-o inocentemente e pôde constatar que Severo estava irritado. Ele ficara sem palavras e parecia tentar formar uma frase coerente.
— Peço que da próxima vez a senhorita tranque essa audácia em seu malão e concentre-se estritamente no que é pedido na aula.
— Me desculpe, professor, mas eu fiz o que o senhor pediu. O resultado está aqui.
— Quero resultados baseados nos livros da próxima vez, não em teorias de uma garota que mal chegou a Hogwarts.
Ela sorriu torto mesmo assim.

***


descobriu que tinha três colegas de dormitório: Cate Bill, Felicia Conrad e Elizabeth Duncan. Não se dava bem com nenhuma das sonserinas, tampouco com grifinórios, corvinais ou lufa-lufas. A que mais a irritava no dormitório era Cate, que tinha uma paixão platônica por Draco Malfoy. Elizabeth e não conversavam entre si, mas também não falavam com as outras duas, preferiam fechar suas cortinas e ter privacidade. A conversa de Felicia e Cate, porém, era sempre alta e empolgada, coisa que perturbava a ambas.

As primeiras semanas de no castelo tinham passado muito rapidamente — fora as aulas de Poções, que pareciam estender-se infinitamente em seu curto espaço de duração. Entre experimentos, teimosias e novas descobertas, Severo e Snape testavam os limites um do outro.
continuava sendo excelente na matéria, mas simplesmente se recusava a seguir o método dos livros — por que seguiria, afinal, se havia muito mais? Aquelas maneiras de fazer poções eram ensinadas no quinto ano justamente por não serem avançadas o suficiente e a garota queria sempre mais. O professor, por sua vez, sabia de tudo aquilo, mas simplesmente não aceitava que avançasse na matéria, antecipando anos de estudo, sem seu aval. Ele era um defensor ferrenho do ensino tradicional.
Depois de semanas de desentendimentos, pontos tirados a contragosto da Sonserina e detenções, ele pediu para que a garota se aproximasse de sua mesa quando o período tinha sido encerrado.
— Professor, o que o senhor quer falar comigo? — perguntou no final de outra exaustiva aula de Poções, quando todos já tinham deixado as masmorras no fim da tarde.
— Venha até meu escritório, Srta. .


Capítulo 3 — Sob o olhar de Severo

Quando entrou pela porta do Salão Principal, Severo reconheceu-a imediatamente. Os cabelos negros e lisos, como os seus, mas de aspecto imensamente melhor, as mesmas bochechas rosadas do bebê que ele próprio deixara no orfanato, o nariz arrebitado de Alexia e, claro, os olhos azuis.
Logo após ser selecionada pelo chapéu seletor, Snape não teve dúvida alguma de que ela era perfeitamente sonserina, a audácia impressa em seu sorrisinho torto. Sua maior curiosidade era saber se a garota trazia a mesma chama viva e alegre que a mãe costumava levar nos olhos — sempre fora o que mais o encantava nela, dentre seus muitos atributos.
Ao aproximar-se de , a mando de Dumbledore para levá-la até sua sala, decepcionou-se imensamente ao constatar que os olhos de eram frios como os seus e carregavam um peso que, aos quinze anos, não deveriam. A fala mansa da garota era completamente desafiadora, a expressão arrogante e distante, fria como pedra. Ele desejara em todos os anos em que esteve afastado da garota que ela tivesse não só a aparência da mãe, mas o comportamento e a vivacidade de Alexia — pensava que teria feito uma coisa positiva pelo mundo se alguém parecido com a ruiva existisse na Londres trouxa.
Ouvira Flitwick certa vez exclamar espantado na sala dos professores o talento da menina com Feitiços, o professor só havia visto uma vez na vida uma aluna como ela. Snape teve vontade de gargalhar de deboche; claramente era Alexandra a aluna a qual ele se referira, ela era esplendorosamente boa em Feitiços. Minerva McGonagall silenciosamente concordava com Snape, ela associara a garota à antiga companheira de trabalho tão rapidamente quanto ele quando ela adentrou o Salão Principal, assim como o talento com Feitiços.
era a única aluna da Sonserina que conseguia irritar Severo Snape profundamente, quase chegando aos pés de Potter. As respostas rápidas e bem formuladas, o ar altivo, o sorriso presunçoso e o olhar gélido, tão parecidos com os dele próprio. Ela era uma exímia preparadora de Poções, ele mesmo se surpreendera com suas teorias e tinha que admitir que a garota estivera certa todas as vezes. Suas poções eram perfeitas e ela usava informações de que até mesmo Severo havia esquecido, mesmo tendo crescido num subúrbio trouxa sem contato com magia e ingressado tardiamente em Hogwarts. Muitas das vezes ele se perguntara se era a genética a responsável por isso.
Snape podia se lembrar do orfanato claramente, como se estivesse estado lá no dia anterior. Lembrava-se da vista da quarta janela do prédio de cinco andares, dos muitos berços em um quarto só — fora a troca de berços por camas, não imaginou que o lugar tivesse mudado muito. O subúrbio da Londres trouxa era realmente desprezível. Deixara o bebê lá, há quinze anos, e nunca em sua vida estaria pronto para vê-la novamente.
A culpa, em certas noites, o corroía. Agora, porém, tinha sob seu olhar, apesar da garota aparentar repulsa por ele; eles pareciam imãs de polos opostos, se repelindo o tempo todo. Talvez ele nunca lhe contasse, talvez ela nunca lhe perguntasse. E talvez, só talvez, seria melhor assim. Cada um vivendo sua vida, tomando seu próprio rumo.
Nesses momentos em que estava sozinho em seu escritório nas masmorras, podia pensar na garota como sua filha e se corrompia em remorso ao pensar o que Alexia teria achado disso. Seu maior desejo era que ela pudesse ter cuidado da menina; nos dias atuais, ela teria o repreendido pelo que fez.
Mas Alexandra não estava aqui. E era uma garota difícil de gostar.
Ela carregava um olhar superior, como o dele, e andava como se fosse a rainha do lugar. A maioria dos estudantes da Sonserina a temiam, outros a admiravam secretamente e Snape achava justo, ela era inteligentíssima e ardilosa.
Dumbledore viera ter com Severo alguns dias depois do ingresso da Srta. na escola — a questão das cartas não recebidas.
— Severo, meu caro — recebeu Dumbledore, ajeitando os óculos de meia-lua. — Gostaria de falar sobre .
Severo revirou os olhos e se preparou para responder que não gostaria de falar sobre o assunto.
— Você não poderá fingir para sempre, Severo, você sabe bem disso. É melhor que você conte a verdade a ela o quanto antes — disse ele, interrompendo-o quando Snape ameaçou falar.
— Eu não vou contar nada que não seja necessário a — respondeu o professor, mal-humorado. — Continuarei cobrindo as despesas dela e o que mais lhe for necessário, mas nada mais. Nunca pude e continuo não podendo dar a ela nada mais do que isso.
— Severo... — o diretor recomeçou.
— Se é somente sobre isso, professor Dumbledore, voltarei para as masmorras, tenho muito trabalho a fazer — informou, levantando-se.
— Sente-se, Severo. — Dumbledore indicou a cadeira novamente e Severo, embora contrariado, sentou-se — Falemos agora sobre um assunto mais curioso: a Srta. não ter recebido as cartas nos anos anteriores. — Ele fez uma pausa, mas o professor de Poções nada disse. — Você não acha isso estranho?
— Deve ter sido algum problema com aquelas freiras que tomaram o orfanato ou com a demissão daquela bruxa mestiça — respondeu seco e desinteressado.
— Você deixou a menina lá, Severo, mesmo tendo conhecimento disso? — Dumbledore inquiriu, intrigado.
— Não havia outro jeito. Achei que ela receberia a carta de qualquer modo, assim como o Potter — desdenhou Snape. — E quando ela não entrou no primeiro ano pensei que fosse por desistência própria.
— Também pensei nessa hipótese, porém a descartei tão logo quanto falei com . — O diretor sorriu ao falar o nome da garota.
Snape não respondeu.
— Severo, eu sei que você traz muitas mágoas no coração, mas não tem culpa de nada disso. Ela nem sequer tem conhecimento da situação.
Dumbledore insistia em colocar o dedo na ferida, refletia Severo. Ele não estava pronto para falar sobre — deuses, ele não estava pronto para vê-la, para conviver com ela, para aceitar que ela realmente existia e a vida com Alexia não fora um delírio de sua cabeça. Como estaria pronto para falar sobre sentimentos e na mesma conversa?
— Se já terminamos por aqui, diretor, preciso me recolher — informou, ainda carrancudo, querendo apenas ler um livro e apreciar um vinho na quietude de seus aposentos, fingindo que não existia e não passara a assombrá-lo no castelo durante as últimas semanas.
— Vá, Severo, mas pense sobre o que eu lhe falei — aconselhou, unindo as mãos sobre a mesa e encarando o professor profundamente.
Snape acenou e saiu sem dizer palavra rumo às masmorras.
Severo zombou mentalmente de si mesmo quando já tinha tomado vinho o suficiente, naquela mesma noite. Srta — ele não conseguia, e não queria, associar-se a ela, mesmo que fosse por um mísero sobrenome. Não conseguia pensar na garota mal-encarada como Srta. Snape, não simplesmente porque não aceitasse , mas Alexia ainda era a única pessoa a quem ele admitiria seu sobrenome — Alexandra quisera ser associada a ele. Sobre , ele não sabia.

***


— Srta. , se não se importar, gostaria de falar com você no final da aula, antes do jantar — disse polidamente Severo Snape, em falsa educação, quando a sala toda já havia se acomodado em seus respectivos lugares.
Todos os sonserinos e corvinais voltaram-se para , que acenou positivamente e deu um sorrisinho falso. Ela sabia que ele apenas falara isso na frente da classe toda em uma tentativa de humilhá-la.
Quando a aula terminou, após uma pequena guerra de olhares entre os Snape, todos os alunos saíram da sala, deixando apenas o professor e , que continuava sentada em seu lugar. Severo ajeitou-se melhor em sua cadeira de espaldar alto, deixa para que a garota seguisse até sua mesa.
Como era irritante.
— Professor, o que o senhor quer falar comigo? — perguntou, displicentemente.
— Venha até meu escritório, Srta. .


Capítulo 4 — Verdade

— Venha até meu escritório, Srta. .
Snape saiu de sua sala de aula e seguiu nas masmorras até seu escritório, que precedia seus aposentos pessoais. O cômodo tinha paredes de pedra e móveis de madeira maciça escuros, parecendo antigos — todavia, em ótimo estado de conservação.
Ele acomodou-se em uma cadeira estofada e imponente verde-escura, de frente para a porta, e indicou uma cadeira de madeira do outro lado da mesa, forrada também de verde-escuro, para a garota.
sentou-se. Já sabia do que se tratava: seus experimentos com Poções. Já estava cansada de receber detenções e perder pontos por isso.
— Srta. , creio que a senhorita já saiba do teor de nossa conversa. Nunca me pareceu que você fosse menos do que inteligente. — Snape deu um sorriso falso. — Ainda assim, insiste bater na mesma tecla durante as minhas aulas. Esta é uma discussão que garanto, à senhorita que não vai vencer. — Sorriu novamente, com escárnio, já adiantando quem sairia vitorioso daquela conversa. Mal sabia ele.
— Os ingredientes que uso nas poções, professor, diferentes dos livros? — perguntou ela com um sorriso inocente.
— Sim, senhorita. Creio que saiba que estou aqui para dar aulas, também. Se as aulas fossem simples experimentos de menininhas sabe-tudo, não necessitaríamos de um professor. Você concorda, Srta. ?
— Não, professor, não concordo — respondeu, polida, fazendo Snape ficar repentinamente púrpura de raiva. — Porque, afinal, Poções são experimentos. E é com os testes que surgem os aperfeiçoamentos e as descobertas. O senhor, como um bom preparador de Poções, sabe disso, pois sim. Você discorda, professor?
— Se concordo ou discordo com suas teorias, senhorita, não é da alçada da escola. A função da escola é ensinar-lhes de acordo com os livros propostos em suas respectivas listas de material e não é seu dever prepará-las de outra forma, qualquer que seja. — ele fez uma pausa e sorriu maliciosamente, tinha certeza de que conseguira irritá-lo. — Além do mais, os exames estão chegando e Dumbledore se preocupa com suas notas nos NOMs devido ao ingresso tardio — informou, a contragosto, torcendo o nariz ao falar sobre o Diretor. — Portanto, eu gostaria apenas de avisá-la que não poderá usar seus atalhos nos meus testes. Compreendeu, Srta. Snape? — ele deu ênfase em seu sobrenome, quase sem perceber, irritado com a ousadia da garota, que o fitara o tempo todo com aquele sorrisinho torto e a sobrancelha esquerda arqueada.
— Agora você descobriu que meu sobrenome é Snape, professor? — Ela deu uma risadinha debochada pelo comentário sarcástico. — Talvez sejamos parentes distantes. — Ela riu novamente. — Primos, talvez. Não sei nada sobre meus pais. — E deu de ombros, desinteressada — Todo mundo me pergunta isso, professor Snape. E, olhe, me deixa irritada; talvez devêssemos mudar nossos sobrenomes. — Ela riu da própria ironia.
Snape deu uma gargalhada alta de deboche. A garota o irritara demais pelo dia, ele estava no limite.
— Sua tola — começou ele, e o comentário ligeiramente ofensivo não fez sair de sua pose, somente a fez arquear a sobrancelha com curiosidade, como um incentivo para ele prosseguir. — Primo? Parente? — Ele riu de novo. — Você nunca associou nossos sobrenomes, ? — Severo levantou-se e apoiou ambas as mãos sobre a mesa, ficando na altura do rosto da garota.
— Quem você pensa que é para me chamar de , professor? — Ela levantou-se também, mas transferiu o peso para uma das pernas e cruzou os braços, desafiadora.
— Quem eu penso que eu sou, ? — Ele riu novamente, mais baixo e ameaçadoramente desta vez, descontrolado pela raiva. — Eu sou seu pai. — A sentença escapou de seus lábios; Severo virou-se imediatamente para a janela atrás de si, passando a mão na testa, o sangue fervendo de adrenalina.
Severo Snape realmente não pretendia fazer essa declaração. Não neste momento, não daquela forma. Mas ele atendeu às provocações da adolescente, não agiu como o adulto que era, como o pai que clamava ser e colocou a perder seu segredo de quinze anos. Seus quinze anos de tortura e solidão.
Ele não tinha coragem de virar para vê-la. Não queria encará-la.
não acreditava naquilo. Estava chocada. Simplesmente não podia ser. Porque se ele fosse seu pai, ele teria ido atrás dela, não teria? No mínimo, na pior das hipóteses, ele teria falado com ela quando primeiro a viu em Hogwarts.
A garota pensou em tudo. Nas noites que passara solitária olhando pela janela do quarto andar do orfanato, nos pais que nunca vieram buscá-la, os sonhos com um casal sem rosto que a abraçava e a queria, o carinho que nunca recebera de ninguém durante todos aqueles anos. Os livros bruxos que lera tinham sido sua única companhia — um segredo, inclusive, que a afastara das demais garotas do orfanato — eles tinham sido a única coisa que o seu infeliz pai lhe deixara. Mas ela não se importara mais com seus pais depois de um tempo. Era mais fácil assim, afinal, já havia crescido no orfanato mesmo.
Agora, porém, a situação era outra. Ele estivera ali o tempo todo, durante os dois meses inteiros em que ela estivera em Hogwarts. desabou na cadeira novamente, ainda incrédula e com muita coisa para processar. Enterrou o rosto nas mãos e começou a chorar, como nunca tinha chorado na vida. Ela sentia raiva, mas, acima de tudo, sentia que tinha sido traída pelos próprios pais.
As lágrimas traçavam um caminho vermelho por onde passavam, molhando as mãos, o pescoço, o colo e as pernas. Os cabelos negros caíam sobre as mãos e o rosto, escondendo-a sob uma cortina negra.
Severo não tivera coragem de virar-se. Ele queria, sabia no fundo do coração que queria, ainda que sua mente traiçoeira afirmasse que não se importava com a garota. Queria saber como ela reagira àquilo, mas faltava-lhe a coragem. Ele que agora que a reclamara como sua filha teria que dar informações, falar sobre Alexia e sobre tudo que ele escondera e renegara durante quinze anos de sua vida.
O professor estava confuso, sentia-se fisicamente atordoado. Um sentimento que ele custava a admitir crescia nele, era uma coisa estranha que não conseguia identificar. Ele trancara seu coração por muito tempo, mas não havia mais como — era humanamente impossível. A prova de que um dia amara uma mulher com todas as suas forças estava na sua frente, na forma de uma sonserina petulante de quinze anos.
Severo engoliu em seco, sentia remorso e culpa. Olhava janela afora pensando em Alexia — o que ela acharia disso? Ela nunca permitiria, realmente. Teria feito tudo, mas nunca teria feito as escolhas que ele fizera. Ela teria feito tudo diferente, tudo certo.
começara a soluçar, ela simplesmente não conseguia para de chorar. Levantando a cabeça, pôde perceber um Snape meio virado, encarando-a. Ele abrira a boca para tentar falar alguma coisa e embora parecesse tão desolado quanto a filha, seus olhos ainda demonstravam desdém.
— Não. Fale. Nada — disse ela pausada e furiosamente, enxugando as lágrimas que insistiam em escorrer por sua face alva.
— Não há nada a ser dito, senhorita. — Severo sorriu fino com escárnio, contrariando toda a avalanche de sentimentos que de repente desabava sobre ele, depois de tantos anos.
— Não mesmo, Severo Snape? — ela disse, encarando a parede lateral à figura do pai. — Sabe, eu tenho nojo de você. — Desta vez o desdém tomava conta da voz dela.
— Com nojo ou sem nojo, , a situação não muda. São fatos. — Ele tinha um olhar desafiador, evaporando toda a expressão de confusão que estivera em seu rosto momentos antes. Severo escolhera o caminho do desafio, do confronto — o caminho difícil, como sempre. Poderia ajoelhar e pedir desculpas ou podia provocá-la infinitamente ao cerne da dor; ele ficara com a última opção.
Senhorita , professor Snape. Nós não temos qualquer tipo de intimidade, não importam quais sejam os seus fatos. — Os olhos azuis herdados de Alexia estavam frios como gelo, ela falava com firmeza e voracidade, fazendo com que sua boca tremesse em um biquinho.
— Encare, . Sou seu pai e você não pode fazer simplesmente nada sobre isso.
— Você não é meu pai! — ela explodiu e se levantou. — VOCÊ NÃO É MEU PAI! De jeito algum, Snape. Pais criam, amam e protegem. No momento em que você me abandonou naquele maldito orfanato trouxa, você perdeu qualquer direito sobre mim! Você me privou de ter um lar de verdade, de conhecer o mundo bruxo realmente, não somente através daqueles livros malditos que você me deixou sabe-se lá o porquê! Você me privou de vir a Hogwarts durante quatro anos. Eu poderia ter feito tanta coisa, aprendido tanto! Se você algum dia tivesse se importado comigo, não teria feito isso. Portanto, não atribua a si mesmo a palavra pai. Você não é pai de ninguém! — falou tudo em volume alto, gesticulando e soltando todas as palavras de uma vez só, as lágrimas escorrendo no mesmo compasso.
Quando acabou, estava sem fôlego, encostando-se à parede de pedra, se reclinando para frente e apoiando as mãos sobre as pernas em uma tentativa de voltar ao prumo e recuperar o ritmo da pulsação e da respiração.
Severo somente encarou-a por algum tempo, internamente sabendo que estava esperando que ela se acalmasse um pouco. Não queria a garota colapsando no meio de seu escritório.
— É meu sobrenome que você traz e meu sangue que corre em suas veias, . Meu e de sua mãe. — Snape sorria fino.
Severo se surpreendera ao se pegar feliz com a atitude de , se fosse admitir para si mesmo. Ela era explosiva, assim como Alexia. Era capaz de chorar e gritar, explodir e demonstrar sentimentos. Ao contrário dele, que sabia somente esgueirar-se de qualquer emoção. Era ótimo encontrar algo mais na garota que o lembrasse de sua mãe, era assim que ele a mantinha viva na memória.
— Mãe? — ela debochou alto. — Que mãe? Não tenho mãe e nunca tive. A minha progenitora me abandonou recém-nascida. Uma mãe não faz isso, o que a torna somente alguém que me gerou. Eu me pergunto, Snape, que espécie de mãe faria isso? Vocês são apenas os meus progenitores. — la jogou as palavras com raiva e desprezo.
A raiva fez brilhar os olhos negros de Severo, que se aproximou ameaçadoramente e colocou o indicador no rosto da filha.
— Ora, sua insolentezinha! Você foi longe demais! Nunca fale de sua mãe assim. Nunca. Jamais — bradou ele. — Você está me compreendendo, ? NUNCA MAIS!
calou, mas sustentou o olhar de Snape, ambos com os olhos brilhando de ódio e mágoa. se esquivou para um canto da parede, as sobrancelhas arqueadas demonstrando toda a aflição de quinze anos, a respiração descompassada. Falar da mãe atingia um lugar especialmente dolorido do coração da garota; era seu ponto fraco.
Severo queria gritar mais alto, dar um tapa na cara de ; não permitiria que falassem de sua Alexandra daquele modo, aquele jeito frio e rude da menina. Colocou as duas mãos no rosto, tentando lembrar-se de que não sabia absolutamente nada sobre Alexia, era apenas uma adolescente machucada que passara todos os anos de sua vida abandonada em um orfanato trouxa.
Respirou e se controlou. Cruzou a sala e puxou a menina pelas vestes em direção à porta.
— Não encoste em mim! — bradou ela, com semblante de nojo, se afastando do homem.
— Vamos, — ele disse em tom baixo e ameaçador, puxando-a novamente.
— Me solte, Snape. Não vou a lugar algum com você me segurando. — afastou bruscamente as mãos dele de perto de si.
— Siga-me — disse no mesmo tom áspero, fuzilando-a com o olhar ao abrir a porta e lhe indicar o caminho.
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Capítulo 5 — Passado

Eles cruzaram um corredor do terceiro andar, repleto de armaduras e archotes. Snape direcionou para uma porta à esquerda e ela o seguiu à contragosto. A garota continuava calada e o homem sustentava a carranca, nenhum dos dois se deixando levar pelas emoções em seu íntimo.
estava, internamente, uma bagunça. Não sabia o que fazer ou sentir com as informações que recebera nos últimos minutos — ela não precisava de um pai, certo? Já tinha vivido sua vida toda sem um e certamente não precisava que professor Snape assumisse esse papel.
Severo foi até uma antiga estante de carvalho e murmurou um encantamento para a tranca que o guardava; de lá, retirou um objeto de pedra trabalhada. Parecia uma bacia e continha um líquido curioso em seu interior.
Ele chamou com um aceno de cabeça, ela se aproximou da bancada em que o objeto havia sido pousado, porém sem se aproximar realmente de Snape. Ele retirou a varinha das vestes e puxou um fio prateado de lembrança. ficou extasiada ao ver aquilo — e curiosa. Estava, porém, determinada a não demonstrar nada.
Colocou o fio cor de prata no líquido, que começou imediatamente a girar.
— O que é isto? — inquiriu, olhando desconfiadamente para o objeto.
— Chama-se Penseira — contou sem olhar para a filha, encarando a nuvem de memórias que começara a se formar. — Aproxime-se da superfície e verá.
deu uma última olhada desconfiada para Snape antes de fazer o que ele orientara, mas sua curiosidade venceu. Sentiu-se rodopiar até estar rodeada por um ambiente nada familiar, um aposento ricamente decorado.

Alexandra chegara cansada de sua sala na Torre da Grifinória, sentando-se na grande e alta cama de casal e tirando calmamente os sapatos, depois as meias. Suspirou. Colocou a mão sobre o ventre liso e sorriu.
Pendurou a capa em um mancebo antigo, de mogno, e tirou o suéter que escolhera para aquele dia. Soltou os cabelos ruivos, que estavam presos em um coque, e eles caíram até o meio de suas costas em ondas graciosas. Foi até a penteadeira, mirando-se no espelho — até mesmo ele lhe dizia como estava cansada. Os olhos azuis tinham seu brilho de sempre, mas hoje estavam mais sonolentos do que o normal. Fora um dia intenso.
Alexandra retirou a fina pulseira de ouro com a qual o marido a presenteara no último natal; ela simplesmente adorava a joia. Não via Severo desde o jantar. Ele lhe dissera ainda pelo café da manhã que aplicaria algumas detenções grifinórias nesta semana.
Antes de tirar o resto da roupa, acenou com a varinha na região da barriga:
Finite Incantatem. Era um alívio. Não que aquele simples feitiço para esconder incomodasse realmente, era mais o fato de parecer que não estava mais ali. Mirou a protuberância sob as vestes.
Ao terminar de se despir, Alexandra pegou uma toalha branca de uma das gavetas da cômoda e rumou despretensiosamente para o banheiro. Merecia uma ducha longa e demorada.
Tomou seu banho sem pressa alguma e deixou que a água quente escorresse por seu pescoço e costas doloridas depois de um dia intenso de trabalho — era relaxante e o bebê parecia gostar também, já que tremia dentro dela, dando pequenos sinais de vida. Um cordão de ouro, que ela não tirava nunca, pendia em seu pescoço. Nele, uma pequena aliança também de ouro pendia como pingente.
Secava-se quando a porta foi aberta calmamente por um Severo sorridente.
O sorriso sumiu no ar quando viu a esposa ali, nua. A protuberância no ventre.
Ele não precisou dizer nada. Alexia olhou para cima, o semblante relaxado e feliz, que também automaticamente mudou quando viu Snape encarando-a secamente, espantado e furioso.
— Não! — ela pediu desesperada, colocando as mãos protetoramente sobre a barriga. — Severo, por favor. Não. — Alexandra tinha uma expressão de súplica que Severo jamais havia visto igual na vida.
— O que é isso? — perguntou, frio. — O que está acontecendo aqui, Alexandra?
— Severo, não me faça abortar o nosso bebê. Faça qualquer coisa comigo, Severo, mas, por favor, me deixe tê-lo. — Alexandra começara a chorar silenciosamente enquanto encarava a expressão de desdém do marido.
— Você não respondeu minha pergunta. Por que você não me contou, Alexandra? — Seu tom estava ainda mais frio e furioso.
— Eu... Eu... — ela gaguejou, soluçando. — Tive medo, Severo. Foi um acidente, não era para eu ter ficado grávida. Mas no momento em que eu descobri... Eu não podia deixá-lo fazer nada com este bebê e eu sabia qual seria sua reação quando soubesse. Tive tanto medo de que você me fizesse abortar que usei um feitiço até agora para escondê-lo — ela admitiu, as mãos ainda cruzadas protetoramente sobre a proeminência. — Por favor, Severo. Faça o que quiser comigo depois, eu não me importo.


Ao ver a mãe, a beleza dela, os olhos e feições herdadas dela, lágrimas vieram aos olhos de . E deixara-se chorar em silêncio quando a mãe dizia todas aquelas coisas, protegendo-a mesmo antes de ela nascer.

Severo olhou para os dois lados, depois para ela, que se curvava ligeiramente sobre a barriga.
— Quantos meses? — perguntou ele com frieza.
— Quase cinco — respondeu trêmula.
Os olhos azuis de Alexia estavam suplicantes e marejados, seu rosto alvo e já corado normalmente estava vermelho, marcado pelas lágrimas.
— Por hora, não farei nada contra a criança, afinal, ela está dentro de você — Severo disse duramente e virou-se em direção ao quarto. — Nessa altura, não é seguro fazer um aborto. Eu jamais arriscaria a sua vida.
Alexandra chorou silenciosamente de alívio. Não tinha sido fácil guardar aquela informação durante aqueles meses, cada dia que passava e a cada milímetro que a barriga crescia, ficava mais aflita.
Enrolada na toalha branca, foi para o quarto a fim de vestir-se. Os cabelos de fogo contrastavam com sua pele e a toalha que a envolvia. Até mesmo sob a toalha, o bebê já se fazia notar, Severo reparava. Alexandra tirou uma camisola folgada e vestiu-a, virando-se para o marido, que estava sentado em uma das poltronas verde-escuras, lendo O Profeta Diário com feições de deboche.
— Alguém mais sabe? — perguntou ele sem fitar a esposa.
— Sobre o bebê? — respondeu ela, acariciando, sem propósito, o ventre e recebendo um aceno positivo de Severo. — Não.
— Dumbledore terá que saber — comentou sem entusiasmo e sem tirar os olhos do jornal. — É melhor que contemos para ele sem demora. Esse feitiço que você está usando, Alexandra, e acredito que já deve saber, não fará efeito por muito mais tempo.
— Eu sei — respondeu, sentada na cama, de cabeça baixa. — Pensei em falar com ele, mas queria do fundo do meu coração te contar primeiro, Severo. Eu estava com tanto medo — confessou baixinho.
Snape olhou duramente para ela.
— Você me contaria quando, Alexia? Quando essa criança estivesse nascendo? — inquiriu, o semblante completamente fechado. — Isso teria sido tão fácil de resolver se você tivesse me contado logo que soube. — Ele pinçou o nariz entre as sobrancelhas, acenando em descrença.
— Eu não queria tirar o bebê. Eu não queria ter ficado grávida, mas também não queria tirá-lo, Severo — Alexandra respondeu baixinho, chorando silenciosamente.
— E como você planejava criar uma criança minha, Alexandra? Você chegou a pensar no que tudo isso acarreta? — inquiriu, mais bravo do que a esposa já tinha visto na vida.
— Claro que eu pensei, Severo. — As feições de Alexia endureceram-se repentinamente. — Eu pensei em ir embora — admitiu, com lágrimas se formando nos olhos —, mas eu simplesmente não pude. Eu jamais te deixaria, é fisicamente impossível.
— E qual foi seu brilhante plano? — questionou, a voz saindo mais alta do que gostaria. — Arriscar sua própria vida, arriscar tudo que fizemos durante esses anos, arriscar que
ele soubesse dessa criança?
— Severo, eu não arriscaria a vida desse bebê por nada — Alexia respondeu, séria. — Eu pensei que poderia mudar de vez para Hampshire depois que ele nascesse. É um lugar seguro.
Snape titubeou pensando nessa possibilidade — sim, ele tinha que admitir que era plausível, mas ainda estava cego de raiva, se sentindo traído.
— A merda já está feita, precisamos resolvê-la antes que esse feitiço de repente passe a não funcionar mais — foi tudo que conseguiu dizer, bufando ao colocar as mãos nas têmporas. — Amanhã nós dois temos a segunda aula após o almoço vaga, não é mesmo? — Ela concordou. — Falaremos com Dumbledore, então.
Alexandra concordou debilmente com a cabeça, tudo o que tinha em mente era o alívio que sentia por ter livrado seu bebê. Após algum tempo de tensão, Severo e Alexia deitaram-se para dormir. Ele tocara o colar de ouro que usava, também com um anel como pingente, e adormeceu. Alexia virou de lado e sorriu, acariciando o ventre, o semblante aliviado dominando seu rosto.


— Como você pôde? — perguntou , perplexa, rodopiando de volta à sala ao final da primeira lembrança. — Olhe o alívio no rosto dela, Snape!
O professor não respondeu, apenas encarou, com o maxilar travado, a garota por alguns instantes e voltou a mirar o objeto à sua frente, puxando mais um fio prateado e despejando-o na Penseira.
A segunda lembrança começava na sala do diretor.

— Ora, ora, que novidade esplendida! — disse Dumbledore sorrindo verdadeiramente feliz. — Uma criança, pois não!
Alexandra sorria também, o rosto todo se iluminando. Severo apenas observava, impaciente.
— Viemos aqui tratar, diretor, sobre o que faremos quanto à gravidez de Alexia em relação aos alunos.
— Claro, claro — respondeu ele, pensativo. — Você dará aulas até quando quiser e se sentir bem, correto, professora? — Ela acenou afirmativamente. — E, bem, acho que o melhor a fazermos agora é comunicar aos alunos. — Quando Snape ameaçou fazer uma objeção, Dumbledore pediu-lhe calma com as mãos. — Mantendo, é claro, a discrição do relacionamento de vocês, assim como mantemos desde o casamento, Severo. Falaremos aos alunos que o bebê é somente de Alexandra, pois nada interessa a eles a vida pessoal dela, além de que daqui a pouco tempo a criança mostrará sinais de vida que nenhum feitiço poderá esconder. — O diretor fez uma pausa, olhando por cima dos óculos de meia lua, ambas as mãos apoiadas sobre a mesa. — Estão de acordo?
Alexandra agitou a cabeça, feliz. Severo deu um único aceno bem mais contido e menos enérgico.
— Obrigada, Alvo. Nunca vou poder agradecer por tudo que já nos fez. — Então ela sorriu, encantadora como sempre.
— Eu sempre estarei ao dispor dos amigos, Alexandra. — Ele sorriu também.
Severo acenou em agradecimento com a cabeça mais uma vez, a expressão ainda fria.

Naquela mesma noite, durante o jantar, Alexandra e Severo comiam à mesa dos professores enquanto os alunos celebravam o fim dos exames em animadas conversas. O tilintar das taças se ouvia de longe, já que todos brindavam aos anúncios do diretor.
Por fim, Dumbledore pigarreou.
— Ainda temos mais uma coisa. É a última, prometo, e poderemos comer em paz. — Todos se sentaram e calaram. — Daremos hoje as congratulações à querida professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, a professora , pela próspera notícia de que será, em breve, mãe. — Dumbledore sorriu e os alunos levantaram-se, aplaudindo.
Alexandra levantou-se também e fez uma reverência exagerada, em um agradecimento brincalhão. Ela estava
feliz e radiante, como nunca antes.

Severo estacara diante da lembrança. Ela fazia tanta falta. Aquele jeito alegre e brincalhão, sua doçura e seu bom-humor em basicamente qualquer situação. Ela era uma pessoa especial.
Após voltarem da segunda lembrança, Snape foi até um armário trancado, acenou com a varinha para abri-lo e olhou entre frasquinhos rotulados, que tinham uma substância prateada em seu interior. Escolheu um e abriu-o. Deixou-o descansando na bancada e olhou para .
— Esta lembrança não é minha — disse. — Foi deixada por uma aluna de Alexia.
olhava somente para a Penseira. Severo puxou o fio prateado de dentro do frasco e colocou-o na bacia de pedra.

A aula do sétimo ano era dupla de Sonserina e Grifinória. A professora estava sentada em sua cadeira, examinando alguns contrafeitiços novos. Ouviu sons de pés a subir pela torre e concluiu que seus alunos estavam chegando.
A sala era toda decorada com cartazes e imagens que se moviam colados nas paredes, adornada por janelas grandes, o que fazia com que recebesse luz durante todo o dia. Havia objetos estranhos e brilhantes sobre os armários e a coruja de estimação de Alexandra ficava empoleirada próxima à janela.
— Bom dia, professora — cumprimentou uma aluna da Grifinória ao entrar na sala.
— Como vai, professora? — Outro aluno, sonserino, entrara cantarolando e cumprimentara-a.
Alexandra não conseguia começar sua aula, já que um turbilhão de perguntas era direcionado para ela. Todas sobre sua gravidez. Até mesmo os sonserinos, mais reservados em outras aulas, falavam muito nas aulas dela.
— Professora, quem é o pai do seu bebê? — perguntou uma sonserina.
— Ei, ei, pessoal. Íntimo demais. Vamos discutir sobre o uso correto de azarações. Lembram do nosso combinado?
Muxoxos vieram da sala toda, era a maior curiosidade dos últimos dias.
— Você é casada, professora ? — perguntou uma grifinória sentada no fundo da sala. — Você não usa aliança...
— Vamos maneirar nas perguntas, classe. Está ficando muito pessoal e, sim, eu sou professora de vocês — disse, como se já tivesse dito aquilo muitas vezes.


A lembrança ficava turva, depois o que a sucedia era o final da aula daquele dia.

Todos os alunos saíam da sala em direção ao Salão Principal para o almoço. Eles acenavam e gritavam despedidas para a professora.
Restara apenas uma aluna, grifinória e loira, com traços parecidos com os de Alexia.
Ela se aproximou e acariciou o ventre da professora.
— Você está feliz, tia Alexia? — perguntou ela, docemente, encarando Alexandra.
— Sim, querida, muito.
— Você já contou para a vovó? — inquiriu, curiosa. — E para minha mãe? Ela vai surtar — garantiu, rindo.
— Ainda não, querida. Mas não se preocupe com isso, ok? — Alexia deu uma batidinha com o indicador na ponta do nariz da sobrinha. — Eu vou contar pessoalmente assim que possível. Você tem outras coisas com que se preocupar.
— Ei, está mexendo! — vibrou ela, sorridente, e encostou o rosto à barriga da tia.
— Ele faz muito isso ultimamente. — Alexia sorriu e acariciou os cabelos de Elena.
— Quem é o misterioso pai do bebê? — perguntou, curiosa.
— Não posso te dizer isso, querida. Afinal, ainda sou sua professora — disse, censurando levemente a garota.
— Mas você não é casada, tia — insistiu ela.
— Não adianta, mocinha. Vá, o almoço já deve ter sido servido. E não ouse me desobedecer, Elena Summers. — Então Elena foi, rindo e acenando para Alexia.


sentia um sentimento aflorando em seu coração de gelo. A mãe amara-a e a gravidez de Alexandra tinha sido celebrada por toda Hogwarts. Ela fora querida e esperada, mas nada fazia sentido em sua mente naquele momento. Se a mãe a queria tanto, como ela acabara abandonada em um orfanato trouxa?
Snape estava pensativo. Pareceu decidir-se minutos depois, quando puxou mais um fio prateado de sua própria lembrança.

Ele andava pelos corredores próximos à Torre da Grifinória. No final da gestação, Alexandra dava aulas somente no período da manhã e Severo durante a tarde. Em seu período livre, ele passava a manhã a andar pelos corredores com discrição, porém, para que nenhum aluno notasse o que ele fazia.
Certa manhã, ele fazia o patrulhamento de sempre, quando um zunzunzum fora do comum tomou conta da sala da professora . Filch chegara primeiro à porta da sala e perguntava aos alunos o que estava acontecendo.
— A bolsa da professora rompeu — disse uma aluna, amparando-a.
Severo entrara na sala num rompante.
— Graças a Merlin!— disse o zelador quando o viu. — A professora está em trabalho de parto, professor. Quer que eu chame Madame Pomfrey?
— Não será necessário, Filch. Cuide da sala e eu acompanharei a professora até a Ala Hospitalar.
Snape afastou a multidão de alunos que rodeavam Alexandra.
— Está tudo bem, professora? — perguntou Snape, com voz branda demais para sua própria pessoa. — Acha que consegue andar ou é preciso conjurar uma maca?
— Eu consigo andar, Snape, obrigada, e prefiro também. — Ela levantou-se de sua cadeira, escorando-se no professor de Poções.
— Quer que eu te acompanhe, tia Alexia? — Elena perguntou, baixinho.
— Não, meu amor, obrigada. Vou bem com o professor Snape. — Alexandra sorriu e soprou-lhe um beijo.
Saíram os dois da sala e rumaram à Ala Hospitalar. Madame Pomfrey estava alerta nos últimos dias, pois sabia que a criança nasceria a qualquer momento.
— Alexia, está tudo bem mesmo? — inquiriu mais uma vez, as sobrancelhas unidas em preocupação.
— Sim, Severo, claro que sim — ela disse e apoiou uma das mãos no ventre dilatado. Como não estaria se ela estava prestes a conhecer o amor de sua vida?
— Não quer mesmo uma maca? — reforçou, sem saber exatamente o que deveria fazer naquele momento.
— Não, meu querido, já disse que não. — Ela tinha o semblante relaxado, contente.
Chegaram até a grande porta branca da Ala Hospitalar, Severo abriu-a e Alexandra sentou-se nos bancos de espera da antessala que precedia a enfermaria. Severo bateu três vezes na porta e sentou-se ao lado da esposa, segurando uma de suas mãos.
— Você sabe que vai doer, Alexia — ele disse, inconformado com a feição de felicidade que se instalara no rosto dela.
— Eu sei, Severo, mas sei também que tudo vai valer a pena. Estou ansiosa para conhecê-lo — admitiu, alargando ainda mais o sorriso para o marido.
Severo mirou a esposa. Ela continuava tão linda, talvez mais linda ainda, a seus olhos. Parecia tão feliz quanto descrevia e a plenitude exalava dela toda.
— Não era para você estar passando por isso, Alexandra. — Ele suspirou, pensando no sofrimento que se seguiria. — Isso é tudo culpa minha.
— Não se culpe por algo que não é culposo, meu amor — Alexia disse e acariciou levemente o rosto dele. — Somos casados, fomos os dois descuidados. — Ela sorriu. — Mas te garanto que nunca um descuido me fez tão feliz.
Ele sorriu verdadeiramente para a esposa e suspirou; segurou a mão dela com mais força entre as suas. Alexandra era a única pessoa no mundo capaz de fazê-lo sorrir daquele modo, tão simples, tão verdadeiro. Severo Snape era dela. Inteiramente dela. Apaixonadamente dela.
Madame Pomfrey abriu a porta dupla que separava a antessala da enfermaria e sorriu presunçosa ao vê-los.
— Sabia que seria ainda nesta semana! Está sentindo contrações, querida? — perguntou a mulher, chegando perto de Alexandra, que acenou negativamente.
— Só uma dor insistente na base da coluna desde ontem à noite — informou, pacientemente.
— Muito bem, vamos dar uma olhada em você. — Madame Pomfrey virou as costas e o casal ouviu uma cortina se fechando em volta de uma das macas.
— Pronto, Alexia, pode vir. Tem um aluno ali e como Severo entrará com você, achei por bem que não fossem vistos juntos — explicou-se, voltando rapidamente para direcioná-los.
— Fez bem, Papoula, nós agradecemos — disse, gentil como sempre, Alexandra.
Madame Pomfrey levou-os até uma ala da enfermaria separada. Era mais clara e tinha duas macas confortáveis.
— Pronto, Prof. . Aqui tenho tudo de que preciso, além de que esta área não é do conhecimento de nenhum aluno. Temos alguns feitiços muito bons funcionando por aqui para que ninguém ouça nada do que acontece — informou quase divertidamente. — Querida, você já pode ir colocar esta camisola — completou, apontando para a veste dobrada sobre uma das macas e indo até um armário de forma a pegar algumas poções de cores variadas.
Alexia entrou no banheiro de forma a trocar as vestes molhadas por uma camisola branca. Severo sentou-se em um estofado claro e esperou de uma maneira que pareceria calma se seus pés inquietos não o entregassem.
— Eu vou fazer alguns exames em Alexia, Prof. Snape — informou Papoula enquanto Alexandra ainda estava no banheiro. — Isso pode demorar um pouco.
— Tudo bem — foi a única coisa que ele proferiu, mais ansioso do que gostaria de aparentar, no tom mais brando que a enfermeira já ouvira sair de seus lábios.
Madame Pomfrey guiou Alexia até uma das camas, orientando-a para que apoiasse os pés no suporte e tirou a varinha das vestes para alguns exames rápidos.
Severo postou-se ao lado da esposa, segurando firmemente sua mão durante todo o tempo.
— Ao que tudo indica, ainda demorará um bocado — a matrona informou quando a luz verde que emanava de sua varinha apagou. — Assim que as contrações começarem, o processo acelera, mas Alexia ainda não está nem na primeira fase delas.
— Mas está tudo certo, Madame Pomfrey? — perguntou Severo, preocupado.
— Pelos exames, está sim. Só vamos ter que esperar mais um pouco pelo bebê. É melhor que vocês fiquem confortáveis por aqui — aconselhou a enfermeira, guardando algumas das poções que pegara no armário.
Severo acenou firmemente, pronto para ajeitar-se melhor na poltrona ao lado do catre.
— Não se preocupe, querido — Alexandra pediu calmamente. — Por que você não avisa Dumbledore e dá uma olhada no sétimo ano para mim? Não confio em Filch na minha sala e você sabe disso. — Ela respirou fundo, tentando pensar em todos que deveria avisar. — E avise Minerva também para avisar à Grifinória e aos outros diretores das Casas.
— Tem certeza, Alexia? Não quer que eu fique aqui com você? — perguntou, pegando novamente a mão dela entre as suas.
— Tenho, Severo. Vá em paz. Papoula disse que quando começarem as contrações será rápido, mas você viu que não tenho nem indícios disso ainda. — Alexia sorriu e colou os lábios carinhosamente aos do marido.
— Não quero que você tenha que fazer isso sozinha — ele admitiu, nervoso.
— Eu não vou. — Ela sorriu o sorriso que chegava aos olhos e fazia aparecer suas covinhas rasas. — Provavelmente ainda estarei aqui, deste mesmo jeito, quando você voltar.
O marido acenou com a cabeça, olhou-a mais uma vez e saiu.


Severo parecia não aguentar aquelas memórias. Ele engolia em seco e encarava os pés. , entretanto, não notou nada daquilo. As lágrimas escorriam furtivamente, silenciosas todo o caminho. Naquele momento, ela só queria gritar por Alexia. Onde estava aquela mãe protetora e amorosa, ansiosa por conhecê-la?
Ele lentamente puxou mais um fio prateado, a mão trêmula empunhando a varinha.
— A última, srta. — soltou, sem ânimo, baixando os olhos.

Snape andava pelos corredores de Hogwarts até alcançar uma grande porta branca. Ele estava aflito por ter deixada Alexandra lá sozinha e demorara mais do que o planejado. Todos os professores, de repente, falavam com ele e queriam notícias que ele não podia dar. Queriam saber como estava a querida professora , quando a criança nasceria, os mais ousados perguntavam como estava o bebê, além de diversas outras perguntas para as quais ele não tinha resposta.
Bateu à porta da Ala especial da enfermaria sem cerimônias, Alexandra era a única coisa em sua mente. Uma Pomfrey alarmada saiu, fechando a porta às suas costas. Severo estranhou. O que estava acontecendo ali?
— Papoula, o que aconteceu? — perguntou ele. — Como está Alexandra? A criança vai nascer já ou ainda demorará?
— Sente-se, Severo — pediu ela, indicando uma cadeira encostada à parede.
— Não vou me sentar, Papoula. O que está acontecendo? — ele replicou, nervoso.
— Logo que você saiu, as contrações começaram, eu disse que logo que começassem o bebê nasceria, mas com isso vêm uma série de problemas, Severo, ligados à Alexia — ela tentou explicar didaticamente, disfarçando o próprio nervosismo.
— O quê? Como? — perguntou confuso. — Seja clara, Papoula, faça-me o favor.
— Eu sabia dessa possibilidade. Sempre há uma chance de que isso aconteça, ainda que seja muito raro. As consequências são graves, Severo. — O rosto dele, já normalmente pálido, perdia a cor aos poucos conforme Papoula falava. — Ela escolheu, professor. Quando as contrações começaram, eu a avisei. Ela me mandou prosseguir, eu realmente
sinto muito. — A voz da matrona estava embargada ao final da sentença.
— Alexia está
morta? — perguntou, aflito, os olhos quase saltando das órbitas.
— Não. O que acontece quando esse tipo de problema aparece é que os órgãos internos começam a paralisar aos poucos e... — Severo interrompeu-a.
— Abra a porta, Pomfrey! ABRA A MALDITA PORTA AGORA, EU QUERO VER ALEXANDRA.
Enquanto Papoula abria a porta, Severo ainda gritava. Ele adentrou correndo a enfermaria especial, quase derrubando a enfermeira no meio do trajeto.
— Severo, não seja rude com Papoula. Ela foi tão boa para nós.
Então ele a viu, brilhando como sempre,
sua Alexia. Mas ela tinha os olhos cansados, a pele ainda mais alva e trazia nos braços um embrulho pequenino. Imaginara essa cena algumas vezes durante o dia. Alexia sorridente e brilhante, irradiando felicidade, com um embrulho nos braços. Em sua imaginação, entretanto, a pele da esposa estaria corada e ela estaria dando boas-vindas a todo o futuro que a esperava junto ao bebê pelo qual ela tanto ansiara.
Severo perdeu a fala ao ver a cena e seu maxilar cedeu ligeiramente. Ele não respondeu, apenas aproximou-se dela com o sobrolho franzido em agonia.
Contemplou a face lívida da esposa por alguns instantes, até que soltou uma única pergunta:
— Por quê? — As palavras estavam carregadas da mais pura dor.
— Ela é linda, Severo, você viu? — ela disse, ignorando a pergunta e afastando a manta branca do rostinho do bebê que dormia.
— Por que, Alexia, por quê? — Severo suplicou com a voz falhando, chegando mais perto dela. — Eu te amo tanto...
— É nosso bebê, querido — ela disse, mirando carinhosamente a filha recém-nascida. — Entre ela e eu, eu nunca me escolheria.
— Mas, Alexia...
— Shhh, Severo. Me deixe falar, muito em breve não estarei mais aqui — ela o repreendeu, lembrando-o da efemeridade de seu tempo ali. — Eu preciso que você não culpe ninguém, querido, por favor. Foi minha escolha. Eu a escolhi e a teria escolhido mais uma centena de vezes apenas para poder ver esse rostinho. — Uma lágrima escorreu dos olhos de Alexandra ao final da sentença, ela emanava amor ao encarar o bebê em seus braços.
Severo fitou a criança pela primeira vez, em um misto de emoções. Ele podia jurar que sua visão estava turva com tudo aquilo, mas focalizou o rosto rosado e absolutamente perfeito do bebê nos braços da esposa.
— Preciso agora que você me prometa algumas coisas — Alexandra pediu, passando a encarar o marido, que ainda estava compenetrado mirando o bebê.
— Tudo o que você quiser, meu bem, qualquer coisa — Severo respondeu na voz mais trêmula que a esposa já escutara na vida. Ela, por sua vez, sorriu fino e acariciou o rosto rosado da filha. O marido lhe segurava a mão livre.
— Severo, me prometa que você cuidará dela — Alexandra pediu, séria. — Por favor, não deixe que nada de mal,
nunca, aconteça a ela. E proteja-a. Sempre e acima de tudo, proteja-a. Com sua vida, se preciso. É tudo que eu te peço.
Ele concordou com a cabeça, debilmente.
— Me promete? — ela reforçou, baixinho.
— Eu juro. — ele respondeu, levantando a cabeça para encará-la nos olhos.
Alexandra, então, passou a se dirigir ao bebê, que começava a se mover em seus braços.
— Calma, meu amor — sussurrou ela, beijando de leve a cabecinha da criança. — Mamãe está aqui. — Ela sorriu com os olhos marejando para o pequeno embrulho. — Eu preciso te dizer algumas coisas, querida. Infelizmente, meu tempo com você é curto, então terei que me apressar — dito isso, Alexia teve que parar para enxugar as lágrimas que derramara. — Eu sei que quando você crescer vai parecer que eu nunca estive aqui. Você não se lembrará de mim, mas eu estarei com você, sempre. Mamãe vai sempre olhar por você em qualquer canto, qualquer lugar, até mesmo no fim do mundo, viu? Você foi o maior presente que eu já ganhei. — Ela secou os olhos molhados com as costas da mão. — E você nem se lembrará disso. — Ela sorriu em meio às lágrimas. — Eu queria poder ver você crescer, tenho certeza de que você vai ser uma garota incrível. Infelizmente, não vai ser possível, querida, tudo que temos é agora. Não fique com raiva da mamãe. — Ela secou as lágrimas mais uma vez e abriu um largo sorriso ao ver os olhinhos do bebê a encarando.
Alexandra apertou forte a garotinha contra seus braços e virou-se para Severo, que também a encarava com olhos marejados. Ele nunca quisera aquele bebê, mas que tipo de deuses poderiam fazer aquilo com sua esposa? Ela amara tanto aquela criança, desde que soube da existência dela dentro de si e agora tinha que partir. Severo teve raiva da injustiça divina.
— O nome dela é . Snape — ela disse com calma. — Você gosta?
— É o nome mais lindo de todos. — Severo sorriu verdadeiramente, engolindo em seco e fungando baixinho.
— Eu te amo, querido. Pra sempre — Alexandra disse e suspirou. — Eu espero que algum dia você possa me perdoar por isso.
— Eu te amo tanto, Alexia, tanto... — Ele segurou a mão dela, deixando lágrimas escorrerem ao notar que os movimentos dela ficavam mais lentos.
— E eu amo você também, filha — ela murmurou, direcionando o olhar novamente para o bebê em seus braços. — Eu te amo tanto. Só quero que você tenha uma vida linda...
Severo levantou-se e abraçou a esposa o mais apertado que podia.
— Desculpe, meu amor, desculpe — pediu ela, deixando uma lágrima escorrer. — Eu te disse que tudo valeria a pena e valeu. Olhe só para ela.
Severo envolveu os ombros de Alexandra durante aqueles últimos momentos enquanto ele sorvia tudo que podia da lembrança da esposa usando suas últimas energias para cantar baixinho para a filha dormir.
— Eu só vou fazer isso uma vez, preciso fazer direito — ela murmurou, referindo-se a ninar o bebê. Alexia sorria, mas lágrimas teimosas insistiam em cair de seus olhos.
Severo viu-a fitar o vazio no meio da música, sorrir e fechar os olhos vagarosamente, até que seu corpo amoleceu e sua cabeça tombou para o lado, inerte. Madame Pomfrey, que observara tudo ao pé do armário de poções, correu até eles e tomou a criança nos braços, notando que Severo apenas olhava atonitamente, em choque, para a esposa.
Papoula tinha os olhos lacrimejados e o rosto de Severo estava cravado por profundas marcas de dor, os olhos vidrados.
— Tome, pegue o bebê, Severo. Vou avisar ao Diretor. — Nisso ela passou a criança para os braços do pai e desapareceu pela porta, enxugando algumas lágrimas.
Ele olhou profundamente a menininha adormecida, agora em seus braços.


Quando a lembrança acabou, soluçava e tremia. Severo sustentava a mesma carranca de dor da lembrança, mas agora, quinze anos depois, seu rosto era mais marcado pelo tempo e tinha mais rugas.
— Aprendeu, senhorita, a não mais falar de Alexia daquela maneira? — inquiriu, frio, como se não tivesse acabado de reassistir à morte da esposa, o momento mais doloroso de toda sua vida.
não respondeu de imediato, apenas desatou a chorar copiosamente, o rosto apoiado nas mãos. Aquela lembrança tinha sido demais. Queria a mãe, queria todo aquele carinho, todo aquele amor que lhe fora negado.
— Eu nunca imaginaria nada disso, Snape! A vida no orfanato não nos deixa crer que nossas mães possam ser assim! Isso não é justo, não é nada justo! — ela bradou quando conseguiu, finalmente, falar, minutos depois, em meio aos soluços.
A garota escondeu o rosto entre as mãos e saiu correndo porta afora.
Snape ficou lá, paralisado. Sabia que o certo era correr atrás dela, consolá-la e dar todas as explicações que lhe devia, mas não o fez. Ficou somente olhando pela porta, vendo a garota desaparecer pela direita. Realmente não era justo, pensou Severo, que ela tivesse ficado com ele, frio e distante, e não com a mãe maravilhosa que ela deveria ter tido.
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Capítulo 6 — Cotidiano

avançou por um Salão Comunal semivazio, rumando diretamente para seu dormitório. Entrou silenciosamente e correu a cortina que envolvia sua cama. Deixou-se chorar. Não estava acostumada a chorar — nem quando pequena, no orfanato, conseguia lembrar-se de uma única vez em que chorara realmente. Ela sabia que não resolvia as coisas, não traria os pais que a tinham abandonado de volta. Nada, nada, que não fosse aquilo valia suas lágrimas.
Agora, porém, sua mente estava em uma confusão completa. Todas as emoções misturadas que transbordavam por seus olhos de uma só vez. Era muita coisa para assimilar. Depois de tantos anos conformada, finalmente sabia quem eram seus pais. O preenchimento da lacuna daquela informação já era, por si só, avassalador. achava que não se importava mais com isso — eles não tinham se importado com ela, ao abandoná-la, por que perderia tempo e energia se importando com eles?
A realidade, contudo, era bastante diferente. Eles agora tinham rostos, histórias, um passado. Um passado do qual ela fazia parte, onde sua pecinha de quebra-cabeça se encaixava. Snape fora uma surpresa desagradável — não gostara do professor desde o começo, tinha perdido pontos demais, ficado em detenções demais, mas, acima de tudo, sentia-se traída. Como ele conseguira olhar para ela, dar aulas e aplicar detenções durante aqueles meses sem expressar nada? Ela estava realmente baixo no conceito dele e mesmo ela, fria como era, não conseguiria disfarçar tamanha dor. Só conseguia imaginar que aqueles anos sem a filha não tinham significado nada para ele.
Também, pudera. A chegada de à vida acarretara a morte de Alexandra, amor da vida do professor. Alexandra, entretanto, era uma surpresa agridoce para a filha. De tantos cenários possíveis que cogitara durante os anos, seu coração jamais chegaria tão longe quanto ia o amor de Alexia por ela. Jamais. Era incrivelmente bom e novo sentir-se amada daquela maneira tão absoluta, tão natural, tão sincera. Ao mesmo tempo, porém, doía em proporções inimagináveis saber que nunca teria aquela mãe na vida real. Alexia era a linha tênue entre o sonho e a realidade — fora sua mãe, sim, amara-a com todas as suas forças, dera sua vida pela de e partira. A garota nunca conheceria seu jeito, seu cheiro, suas risadas, suas inúmeras piadas, seu carinho.
Doía muito mais do que ela podia ter imaginado. chorava baixinho para não ser ouvida. O que ela precisava e gostaria de fazer, entretanto, era o contrário: queria gritar, espernear, extravasar tudo aquilo que guardara no peito por tanto tempo. Virou-se de barriga para baixo sobre a cama e pôs-se a contemplar, de sua janela, a lua cheia que pairava no céu. Tinha um efeito estranhamente calmante.
Mesmo quando fechava os olhos e almejava que o sono viesse logo e levasse aquele dia embora, tudo o que vinha à sua mente era o último olhar da mãe para ela. Fora tão cheio de sentimentos e significado como nunca conhecera na vida. E, sim, o olhar de Snape. Quando falou, após a última lembrança, sua voz e semblante também eram confusos. As palavras eram as mesmas: duras como sempre, mas o olhar dizia coisas que não conseguia compreender. E ela estava demasiado enraivecida para tentar desvendar.

não apareceu no café da manhã, tampouco ia à primeira aula do dia, Poções. Não queria encará-lo novamente. Inventaria uma desculpa qualquer — nada naquele dia a faria ver Snape novamente depois da verdade escondida que compartilhavam e depois de chorar vergonhosamente na frente dele. Deuses, como ela queria ter conseguido permanecer séria e fria, fingindo que nada daquilo importava realmente, que não fazia diferença se o professor Flitwick ou ele era seu pai.

Pulando Poções, foi direto para Defesa Contra as Artes das Trevas. deixava a sala distraída, tentando lembrar os nomes dos livros que precisaria pegar na biblioteca para estudar mais tarde e pelas questões da noite anterior, que ainda insistiam em voltar à sua cabeça, quando um garoto de cabelos castanhos esbarrou nela de leve, fazendo-a, contudo, derrubar todo seu material. Ela abaixou-se para pegá-los, ele também.
— Oh, me desculpe... Deixe-me te ajudar. — Ele levantou a cabeça, a fim de ver quem era.
O que encontrou foram olhos azuis como o céu e frios como uma tempestade.
— Não preciso de sua ajuda, Potter — rosnou ela, pegando os livros com agilidade. — Vá salvar garotinhas indefesas.
Ele estivera perdido em seus olhos até conseguir raciocinar o suficiente para associar a imagem daquela garota bonita e misteriosa à Snape. Conhecia a reputação da quintanista recém-chegada e criticou-se mentalmente por tê-la olhado daquele jeito abobalhado.
Harry Potter levantou-se somente quando já deixara o corredor e estava bem longe. Os olhos da garota, porém, não deixaram a mente de Harry tão cedo. Na verdade, perturbaram-no a noite toda.

não compareceu a mais duas aulas de Poções — não ligava mais para aquela matéria, não depois de descobrir-se filha de Severo Snape. Ela provavelmente tinha herdado isso dele, seu tato com ervas e ingredientes era muito natural e ela não queria herdar nada dele, não queria ter nada a ver com ele.

Srta. , compareça ao meu escritório assim que possível.
Professor Snape.
Uma coruja escura entregou o bilhete escrito em uma bonita caligrafia. estava em sua janela de aulas, desconfiando que ele já sabia disso. Rolou os olhos, mas Severo assinara como “professor” e esse foi o único motivo que arrastara a garota até lá no meio do período. Além de saber bem que, se não o fizesse, certamente tomaria uma detenção com Snape, o que ela menos queria nos últimos dias.

bateu à porta com o estômago revirado. Eram assuntos da escola, ela repetia a si mesma, tentando diminuir os efeitos em seu sistema nervoso.
— Entre — Snape disse profundamente, sem levantar-se de sua cadeira.
— O senhor mandou me chamar, professor? — entrou e colocou-se a uma distância segura de Severo, sem nem ao menos chegar à cadeira estofada do outro lado da mesa dele.
— Uma questão bem simples, Srta. . Gostaria de saber se a senhorita sabe a data dos exames — questionou irônica e retoricamente.
— Eu sei, professor — disse, fingindo um sorriso fino nos lábios. — Se é só isso, pergunto se posso me retirar.
— A senhorita não vai poder faltar a todas as aulas de Poções do ano, . Pois, ao contrário do que você pensa, você não sabe tudo sobre Poções — ele completou, sem conseguir descrever a raiva que a simples presença petulante da garota despertava nele.
— Eu já disse para não me chamar de , professor. — replicou, calma e ameaçadora.
— Está certo, senhorita . Por ora. Mas lembre-se de que você não pode fugir das coisas para sempre. Encare-as — Snape disse, mas não sabia de onde vinha essa parte dele que esperava que a garota aceitasse o fato de que eram remotamente ligados. Não admitiria nem para si mesmo, mas chamara-a para seu escritório para vê-la depois de aquilo tudo ter vindo à tona. Precisava olhar para ela e saber como estava.
— Quem sabe quando o senhor encarar, Snape. — arqueou uma sobrancelha e saiu da sala com o coração batendo nos ouvidos. Ela fazia parecer que enfrentar o professor, agora pai, era mais fácil do que realmente o era.


Todas as garotas já estavam deitadas, dormindo provavelmente, quando voltou para o dormitório após o jantar e deixou-se arrumar calmamente suas coisas — alguns livros emprestados da biblioteca e os materiais para o dia seguinte —, na tentativa de focar sua mente em qualquer outra coisa que não fosse sua conversa com o professor de Poções — seu pai.
No processo de separar um livro de Feitiços que precisava devolver, lembrou-se da mãe. Suspirou. Os olhos marejaram, mas não deixou que escorressem. Queria apenas ser como ela. Bonita como ela, vívida como ela, sorridente como ela, cativante como ela. Contudo, graças a Severo Snape, ela não era. Nenhuma das qualidades, ela pensava, se aplicava a si própria.
Tinha raiva dele. E mais raiva ainda de ser tão parecida com ele. Queria ter herdado mais da personalidade sossegada e da graça de Alexandra. Estava doida para terminar um livro de Poções que abandonara na metade, mas seu objetivo era devolvê-lo à biblioteca no outro dia sem terminá-lo. Estava cansada de Snape, cansada de Poções, não queria ter nada em comum com ele, nem ao menos o gosto pela matéria que ele ensinava.
De repente, a cortina verde que envolvia sua cama foi abruptamente aberta e fechada logo em seguida, revelando uma sonserina loira de olhos verdes, que demonstrara muito mais confiança no movimento do que agora demonstrava no olhar.
— Tenho te escutado acordada até tarde todos os dias — disse, analisando o olhar incrédulo da morena perante a invasão de seu espaço pessoal. — Também não consegue dormir?
— Não. Suponho que você também não — disse e olhou para o outro lado, nada receptiva.
— Nunca nos apresentamos formalmente — pontuou a loira, menos certa das atitudes que a levaram até ali, invadindo a privacidade da misteriosa Snape. — Elizabeth Duncan, prazer. — Ela sorriu, ainda temerosa, estendendo a mão para a outra garota. aceitou a mão estendida, um tanto à contragosto, o que fez com que a loira alargasse o sorriso.
E, quando sorria, Elizabeth Duncan lembrava Alexia — os olhos brilhantes, o sorriso verdadeiro que iluminava todo o seu rosto. Isso a fez desgostar menos da garota.
Snape — replicou em uma educação fria, erguendo uma sobrancelha em curiosidade para a outra garota. — Mas acho que você já sabia.
— Já — admitiu Elizabeth, com um sorrisinho pretensioso.
— O que a traz aqui no meio da noite, Elizabeth? — questionou sem rodeios, arqueando mais a sobrancelha para a loira.
— Pode me chamar de Eliza. Elizabeth é comprido demais — recomendou docemente e começou a se perguntar como aquela boneca de porcelana era uma sonserina. — Você chegou há algum tempo e não tenho te visto se enturmar com ninguém... E, bom, como você entrou direto no quinto ano, achei que pudesse ser mais difícil. — Deu de ombros, encarando a morena com cautela.
— E por que você acha isso, Elizabeth? — inquiriu bruscamente, incomodada com a situação. — E se eu quis estar sozinha durante este tempo? — perguntou novamente, olhando incisiva para a loira receosa à sua frente.
Elizabeth desestabilizou por um momento, piscando os olhos algumas vezes.
— Você quis? — A escolha de palavras foi corajosa, a maneira que as disse nem tanto.
riu genuinamente.
— Acho que a maior parte das pessoas têm medo de mim. — Deu de ombros, ainda com a sombra do sorriso no rosto. — A curiosidade ainda não tinha vencido ninguém. Bom, ao menos não até agora, Eliza. — Deu de ombros, divertida.
— Pode ser impressão minha, mas eu não acho que você seja tão antissocial assim. — A loira fez mais uma consideração corajosa. lhe lançou um olhar desacreditado e arqueou novamente a sobrancelha. — Você rindo, por exemplo, nem parece tanto que pode azarar alguém a qualquer segundo.
arqueou a sobrancelha em descrença, mas ficou intimamente encabulada.
— Você me lembra alguém... — Eliza disse, pensativa, ao notar que a morena não responderia. — Não é o cabelo. Seus cabelos são escuros, mas os traços...
não disse nada, ela não era uma referência em fazer amigos. Apenas observou uma garota doce forçada a ser uma sonserina e riu internamente.
— Você está na casa errada, Elizabeth. Com certeza — foi tudo que ela disse, com um sorriso torto.
— Eu também acho. — A loira baixou o olhar. — Mas o chapéu seletor me disse que eu não era corajosa o suficiente para ser Grifinória e ameaçou a me colocar na Lufa-Lufa. Foi só quando eu ameacei destruir aquela coisa esfarrapada que ele é se me colocasse na Lufa-Lufa que ele decidiu que eu era prepotente o suficiente para ser Sonserina.
riu genuinamente mais uma vez, principalmente da cara engraçada que Elizabeth fazia ao contar o ocorrido.
— Bom, então você está na Sonserina porque não queria ser Lufa-Lufa. — riu com certo escárnio. — Não se arrepende dessa decisão?
— Um pouco — confessou, dando de ombros. — A maior parte dos sonserinos me assustam, mas eu achava que só tinha essas duas opções pra mim, por conta dos meus pais. Meu pai era sonserino e minha mãe, grifinória.
— Meu pai também era sonserino — contou . — Mas realmente não vejo outra casa provável para mim. Mesmo minha mãe também tendo sido grifinória, acho que nunca iria para lá. — deu um riso abafado.
— Você parece se encaixar bem na Sonserina — Eliza comentou, devaneando. — Você veio transferida de alguma outra escola bruxa? — inquiriu com curiosidade à menção dos pais da morena.
— Só porque não falo com ninguém e sou irônica não quer dizer que me encaixe na sonserina — disse, arqueando de leve uma sobrancelha. — Não, eu cresci em um orfanato trouxa. Esta é a primeira vez que tenho contato com o mundo bruxo fora dos livros.
Elizabeth deixou o maxilar cair, surpresa e receosa.
— Mas como você descobriu que era bruxa? — a loira inquiriu cautelosamente ao adentrar este assunto delicado.
— Meu pai, antes de me abandonar, me deixou um baú com alguns livros bruxos que ele achava essenciais e uma funcionária mestiça que me tirava as dúvidas e me contava histórias sobre o mundo bruxo — disse, sem emoção alguma na voz.
— Eu sinto muito — Eliza respondeu com pesar.
— Não sinta, não é preciso — garantiu, mas a loira lhe lançou um olhar duvidoso. — Mesmo. Cresci sem ninguém, não faz falta quando nunca se teve.
— Deve ser triste não conhecer os pais.
— Estou acostumada, já disse — disse, abanando a cabeça, sem jeito. — Não se preocupe.
O que não estava acostumada, contudo, era com alguém se importando o suficiente para se preocupar. Não sabia lidar com aquela empatia que Elizabeth estava demonstrando a ela.
— Nós deveríamos conversar mais. Você não é nenhum monstro de sete cabeças. — Elizabeth deu uma risada baixa. — Estou brincando.
— Cuidado com o que fala, Elizabeth. Não tenho sete cabeças, mas tenho uma varinha. — Ela arqueou uma sobrancelha, entrando na brincadeira. — E sei falar uma porção de azarações — disse pausadamente, fazendo a espinha da loira gelar e rindo sincera depois.
— Não se preocupe, não vou baixar minha guarda tão cedo — Eliza sorriu grandiosamente de novo. — Te garanto que você ainda me dá medo, Snape. — Riu, mas outra questão surgiu em sua cabecinha loira. — Você é parente do prof. Snape?
Os olhos de perderam o brilho.
— Não que eu saiba. — Deu de ombros. — Acho que só temos o mesmo sobrenome.
Elizabeth acenou com a cabeça, ponderando que aquilo era possível.
— Acho que vou me deitar... Temos aula amanhã cedo. Foi bom conversar com você, . — A loira sorriu de leve e acenou enquanto saía pela cortina que separava as camas.
— Também foi bom conversar com você, Eliza — respondeu de onde estava sentada em sua cama.
A garota adormeceu rapidamente, internamente feliz e amedrontada ao mesmo tempo pelo primeiro contato pessoal que tivera com alguém em Hogwarts.

sonhara muito com uma ruiva de olhos azuis e sorriso sincero nos últimos tempos. Sua mãe lhe aparecia quase todas as noites. Certas vezes, era um trecho de uma das lembranças de Snape, outras, ela somente lhe sorria, algumas vezes ela lhe falava docemente. Todas as vezes, acordava com o coração martelando no peito. Era injusto não ter Alexandra ali.

A garota saiu apressada para uma aula de Poções, ali mesmo, nas masmorras. Acordara tarde e perdera o café da manhã, assim como duas aulas de Trato das Criaturas Mágicas. tinha as olheiras fundas de quem não dormia muito, já que acordava todas as noites após os sonhos perturbadores com a mãe. Sua pele estava mais pálida do que o normal e o semblante todo refletia o cansaço e a exaustão — física e emocional — dos últimos tempos.
Era a primeira aula de Poções que ela frequentava depois que soubera que Snape era seu pai. Entrou sorrateiramente na sala de aula, desejando passar despercebida. Estava lá somente porque não poderia perder mais nenhuma aula e já tinha sido formalmente avisada por uma coruja vinda diretamente do professor Dumbledore. argumentou, ao respondê-lo, dizendo que não gostava do Prof. Snape — um argumento deveras comum e plausível, mesmo para uma sonserina. Ele não era o professor mais popular de todos.
Mesmo esgueirando-se silenciosamente para uma das carteiras do fundo da sala, sua presença não passou despercebida como gostaria e a garota recebeu um ligeiro olhar de surpresa do professor.
— Srta. , achei que tivesse desistido da matéria por achar que era simples demais para você — satirizou ele. — Da próxima vez, quando minhas aulas não estiverem agradando a senhorita, peço que me deixe saber. — Sorriu de lado, maliciosamente.
não respondeu, apenas respirou fundo e baixou os olhos, sabendo que não podia explodir ali, diante da classe toda. Snape o sabia também, por isso aproveitou da oportunidade de importuná-la sem que ela pudesse ter direito a resposta. Ela separou os ingredientes da aula de mau grado, seguindo o livro à risca e empregando pouco cuidado ao picar as ervas que tinha em sua bancada.
Ao final da aula, tinha uma poção de consistência espessa demais, que lhe renderia apenas uma nota mediana. Estava perfeito, desde que não precisasse ser chamada no escritório de Snape novamente, os Deuses sabiam o que sua última aparição por lá por esse mesmo motivo tinha revelado.
Todos os alunos saíram apressadamente, mas Snape deixara propositadamente a poção de para ser avaliada por último. A garota, por sua vez, ignorou-o completamente, aproveitando o tempo que ele levaria para fazer a avaliação para recolher suas coisas silenciosamente.
— Olheiras, Senhorita — ele pontuou para a garota, que remexia na mochila, recusando-se a encará-lo. — Espero que sejam de tanto estudar para fazer poções como nos livros didáticos — disse ele, ironicamente.
— Minhas olheiras não dizem respeito a você — cortou, os olhos frios como gelo. — Estou dispensada?
Em seu íntimo, Severo desejava saber o que causara olheiras em , aquilo o deixava intrigado e atormentado. Mas por que ele era tão tolo quando estava perto dela? Aquelas frases infantis e impensadas não faziam parte de seu comportamento habitual. Sua curiosidade estava ultrapassando os limites que impusera na relação com a filha. Ela estava certa, aquilo não dizia respeito a ele; nada em relação à dizia mais respeito a ele desde que a deixara num orfanato quinze anos atrás, ainda que seu coração ousasse pensar o contrário, de tempos em tempos.


Capítulo 7 — Surpresas

Os sonhos de perturbavam-na cada vez mais. Eles insistiam em mostrar a carranca de Snape, a morte de Alexandra e um bebê: ela mesma. Sonhava com Hogwarts; com passagens e corredores nos quais nunca tinha estado. Sonhara, certa vez, com um Snape de olhar ameaçador, torturando um bebê que ela pensou ser a projeção de si mesma.
Nesse dia, acordara com os olhos molhados por lágrimas que derrubara dormindo — o que nunca tinha acontecido antes.
O desgosto por Snape fazia uma curva infinitamente ascendente. A cada aula dada, ele mostrava-se mais intolerável, mais arrogante, mais desafiador e parecia odiá-la acima de tudo. Os sonhos a influenciavam acerca dele, precisava admitir. Toda vez que olhava para o pai, se lembrava de seu prazer ao torturar o bebê de seu sonho.
O fato de parar de usar ingredientes novos e diferentes dos pedidos nos livros começara a incomodá-lo também — desistira de se esforçar no que fora sua matéria favorita no início do período letivo, para a agonia constante do professor. Ela fazia as tarefas desleixada e apressadamente, sempre querendo deixar aquela sala de aula o mais rápido possível; sua cabeça raramente estava mesmo nas poções que preparava, o que fazia com que elas nunca ficassem tão perfeitas quanto deveriam, apenas medianas.
passara a tarde anormalmente no Salão Comunal da Sonserina. Ela e Eliza fizeram os deveres que a professora McGonagall passara e depois conversaram todo o tempo, ambas se deixando conhecer. Tanto ela, quanto a loira tinham preferido algum outro lugar para estudarem sozinhas até então — Eliza sempre seguia para a Biblioteca, enquanto preferia os jardins ou a própria cama.
A morena descobrira que Elizabeth estivera bastante sozinha em Hogwarts durante aqueles anos, mesmo sendo o poço de candura que o era — perdera as poucas amizades que construíra na Sonserina porque não se identificava mais com os amigos conforme o tempo ia passando e as características sonserinas iam se aflorando. Fazer amizades com pessoas de outras Casas também era uma tarefa complicada para uma sonserina: ao mesmo passo em que ela tinha medo dos colegas de casa, as outras pessoas também tinham receio dela.
riu internamente quando ela mencionou essa questão. Quem, em sã consciência, teria medo daquela boneca polida e gentil?
Draco Malfoy as encarava com curiosidade e insatisfação do outro lado do Salão Comunal, acompanhado do inseparável melhor amigo, Blaise Zabini. pôde reparar que o segundo rapaz olhava Eliza tentadoramente, fazendo com que a morena sorrisse de lado, pretensiosa.
Elizabeth, por sua vez, não percebia nada daquilo — nem os olhares de admiração, nem os olhares distantes e curiosos que a estranha dupla que ela formara com recebia.

Logo que adormeceu, sua mente se encheu de imagens. Era um corredor, depois outro. Ela caminhava em direção a uma voz doce e distante — a voz de Alexia a chamava calmamente, como se chama a uma criança.
Ela conseguia ver o caminho claramente: subindo até o terceiro andar, seguindo por um corredor de armaduras, virando à esquerda. Era a primeira porta. Estava aberta e emanava uma luz fraca. Chamavam-lhe, imploravam-lhe para que fosse. E ela foi. Seguiu lentamente e quando se encostou na maçaneta, alguma coisa a fez despertar.
suava frio sob os pijamas. Estava aflita; o sonho trouxera uma sensação estranhíssima.
A única coisa que conseguia assimilar no momento era o desejo de ouvir novamente a voz da mãe.
Sentou-se na cama e respirou fundo, em uma tentativa vã de se acalmar, ao mesmo tempo em que piscava os olhos repetidas vezes, em uma tentativa de acordar de vez. Não podia lembrar racionalmente daquele corredor do castelo, não daquele ponto de vista. Os olhos estavam arregalados de medo e de agonia; a voz doce ainda soava em sua mente enquanto a repetia inúmeras vezes como um disco travado, temendo esquecer aquele timbre.
Levantou-se, ainda sonolenta, e vestiu o robe verde e prateado. Afastou as cortinas, calçou os sapatos e saiu feito zumbi. Quando deu por si, já estava em frente à porta do corredor no terceiro andar, sem nunca sequer saber como seus pés a levaram até ali.
A porta estava fechada e de repente teve um calafrio. Encostou delicadamente a mão na superfície fria da fechadura e hesitou por um segundo, lembrando conscientemente do sonho pela primeira vez.
Decidiu por respirar fundo e abri-la de uma vez, como quem puxa um band-aid. Acenou com a varinha para que a sala fosse debilmente iluminada pelos archotes, notando que, bem frente à porta, podia avistar um espelho mais para o fundo daquela saleta. deu alguns passos corajosos, querendo ver melhor, querendo adentrar mais a sala e descobrir o que a levara até ali.
No espelho, pôde ver as olheiras de quem dormia mal fazia tempo, o cabelo bagunçado pelo sono e a roupa de dormir. Ela estava um caco. A imagem refletida, contudo, começou a se transformar.
Junto ao seu reflexo, uma moça de sorriso orgulhoso e covinhas rasas. A mulher lhe estendia a mão e chamava seu nome; ela tinha os braços abertos para , como ninguém nunca teve. Tinha pequeninas sardas espalhadas uniformemente pelo nariz e olhos brilhantes que iluminavam todo o seu rosto. Pôde reconhecer o nariz fino e arrebitado como o seu próprio, emoldurado, por sua vez, por cabelos cor de fogo. Os lábios bem desenhados murmuravam seu nome, como uma prece.
Os olhos de se inundaram com as lágrimas que ela não queria derrubar, enquanto deixou-se cair de joelhos no chão ao admirar a imagem. Tentava alcançar a mão da mulher, mas era impossível. Seus dedos tocavam a superfície lisa e gélida do espelho, não a mão que lhe era estendida, que a garota imaginava ser macia e quente.
Quando desistiu de tentar tocá-la, ficou a admirar a imagem do espelho, se deixando finalmente derrubar algumas lágrimas. Ali ficou, caída e chorando, a observar Alexandra, tentando manter na memória todos os detalhes de suas feições.
A mulher tinha um olhar orgulhoso e pôde notar o quanto realmente se parecia com ela. Exceto pelos cabelos negros.
queria mais. Queria ouvir a voz da mãe, queria saber mais sobre ela, queria escutar a doce risada que sabia que Alexandra tinha.
Enxugando o rosto molhado, se deixou observar a sala com atenção pela primeira vez. Já tinha estado lá com Snape, naquele fatídico dia em que descobrira ser sua filha, era a sala da Penseira que ele usara na ocasião. Seus olhos correram para o armário de onde a tirara.
Ponderou por poucos segundos, mas decidiu testar a trava e se surpreendeu ao perceber que tinha sido deixado aberta. A Penseira repousava em um canto do armário enquanto o outro era completamente dedicado a frascos contendo o mesmo líquido prateado que a garota vira Snape despejar no objeto.
Precisava arriscar. Colocou a Penseira sobre uma mesa empoeirada — exatamente como vira o professor fazer — e escolheu um vidrinho ao acaso dos que estavam mais à frente. Puxou a varinha das vestes e fez os mesmos gestos que lembrava que Snape fizera, torcendo para que desse certo.
O líquido começou a espiralar, prateado, e um frio na barriga a acometeu — o que não a impediu, entretanto, de deixar que seu nariz tocasse levemente a superfície.

Alexandra estava deitada na enorme cama de casal no centro do quarto, lendo um exemplar antigo e bem conservado de “Os Contos de Beedle, O Bardo”. Severo se encontrava em sua habitual poltrona verde escura, uma taça de vinho tinto em uma mão e a pena na outra, corrigindo concentradamente alguns pergaminhos do quinto ano.
— Ah, Severo! — Exclamou, rindo baixinho. — Minha mãe costumava contar essas histórias a mim e a Amelia quando éramos pequenas! — Ela soltou mais um risinho, fazendo o ventre proeminente tremer ligeiramente. — Você ouvia as histórias de Beedle quando era criança?
— Não. — Desviou ligeiramente o olhar dos pergaminhos, mas respondeu secamente, voltando logo em seguida para sua tarefa.
— Que triste. Eu quero que nosso bebê as conheça — disse séria, colocando o pequenino livro de lado e passando a fitar intensamente o marido. — São histórias para dormir para serem contadas pelos pais às crianças pequenas — ela disse com pesar. — Severo? Está me ouvindo?
— Sim, Alexia — respondeu, desta vez sem olhar para ela. — Tenho a certeza de que você lerá esse livro para a criança — disse à contragosto, fazendo alguns rabiscos e anotações no dever de casa que corrigia.
Antes que pudesse pegar novamente no livro, Alexandra exclamou e colocou a mão no ventre, atraindo um olhar assustado de Severo.
— O que foi, Alexia? — Perguntou receoso.
— Nada, querido. — Ela sorriu, a mão ainda na barriga. — O bebê está chutando. Mais do que o normal — ela completou feliz.
Depois de acariciar a barriga mais um pouco, levantou a cabeça e perguntou:
— Não quer sentir? — Ela perguntou, chegando mais para a ponta da cama, mais para perto do marido.
— Não — respondeu pronta e secamente, resmungando coisas inteligíveis depois.
Alexia tentou esconder o olhar de decepção com um sorriso, mas não conseguiu. Ela era muito transparente e seus olhos a denunciavam — todas as vezes.


Enquanto a lembrança exibia Alexandra se trocando para dormir e Severo a terminar de corrigir as tarefas, assumiu um semblante de desgosto, ponderando se deveria deixar a lembrança mais cedo. A curiosidade, entretanto, a venceu e ela continuou a assistir enquanto Alexia puxava as cobertas para si, mais angelical do que nunca. Nem o claro desgosto de Snape por ela a faria desistir de poder ver um pouco mais da mãe.

Alexandra agora ressonava de leve, dormindo profundamente. Ela ficava mais linda quando dormia, pensou Severo, ao mirar a esposa. Ela se mexeu ligeiramente e mudou de lado, ficando de frente para o marido ainda acordado.
Alexia se aconchegara nele e ele lhe afagara os cabelos ruivos com carinho, fazendo com que ressonasse novamente, trazendo um pequeno sorriso aos lábios do marido.
Severo, enquanto isso, simplesmente não conseguia dormir. A luminária de leitura de seu lado da cama ainda estava acesa e o sono não vinha. Rolou de um lado para o outro, até que sentiu alguma coisa tremer próximo ao seu abdômen. Demorou alguns segundos para que raciocinasse que era o bebê. Ele olhou mais atentamente para Alexia e percebeu que a barriga dava pequenos sinais de que havia algo se movendo ali dentro.
A curiosidade era grande, mas havia também o receio. Quando a curiosidade, por fim, venceu, ele estendeu a mão e tocou de leve o ventre da esposa.
Sua mão, de repente, parecia grande demais; ainda assim, deixou que ela se estendesse até tocar realmente. O bebê moveu-se e chutou assim que as peles se tocaram. Parecia corresponder ao seu toque.
Severo sorriu quase imperceptivelmente, de uma maneira sincera, como não fazia a ninguém a não ser Alexandra. Teve medo de acordá-la e recuou; a mulher virou-se de costas para ele de novo e Severo passou a abraçá-la, dormindo logo depois.


estava muito confusa ao levantar a cabeça. Precisou respirar fundo duas vezes antes de tirar a varinha do bolso do robe e devolver a lembrança ao frasco a que pertencia. Achava que já tinha visto o suficiente nas outras lembranças, que agora já sabia o suficiente, mas aquilo a surpreendera profundamente.
Devolveu o frasco ao armário com uma mão anormalmente trêmula, pegando outro logo em seguida, sem pestanejar. A presença positiva de Alexandra era algo viciante e ainda se sentia na necessidade de refutar os pensamentos que insistiam em dizer que aquela mãe não era real.

Madame Pomfrey acabara de sair correndo, deixando a pequena Snape à mercê dos braços do pai. Alexia jazia inerte no catre, branca demais, sem as bochechas vividamente coradas de outrora.
Severo respirava fundo, tentando se acalmar para não derrubar a criança. Nunca tinha segurado um bebê na vida, mas parecia muito natural que a garotinha estivesse ali. Ele deixou a lateral da maca atormentado; não aguentaria ficar ali, na companhia da falecida esposa, não com a memória dela viva ainda tão clara em sua cabeça. Ainda não podia acreditar que aquilo tinha acontecido, mas tinha que buscar forças ele não sabia onde para decidir o futuro do bebê em seus braços.
A cortina, agora cerrada, da cama de Alexia ajudava um pouco, ainda que ele soubesse perfeitamente a dor que se alojava do outro lado. Sentou-se em uma poltrona confortável, ainda trazia o bebê no colo. A garotinha estava acordada, mas imóvel; parecia prestar atenção ao rosto do homem que a carregava.
Então, pela primeira vez, lhe deu a devida atenção. Era tão pequena! Tinha poucos e esparsos cabelos e bochechas redondas. Ela respirava rapidamente, no mesmo compasso em que o seu coraçãozinho batia.
Severo prestava atenção a cada detalhe dela. Ficou abalado ao não conseguir lembrar direito da cena de Alexia e juntas; esteve tão preocupado com a esposa, com sua morte precoce e iminente, que nem reparara no quanto o bebê lembrava Alexandra.
A criança começou a resmungar baixinho e a se remexer nos braços do pai.
Pai. Aquela palavra caiu como uma pedra em seu estômago. Snape levantou-se e a embalou com uma calma que não refletia o que sentia por dentro naquele momento. ficou mais relaxada e piscou os olhinhos, sonolenta. Olhou para cima e não foi a mãe quem viu. Fez menção de chorar, mas Severo segurou-a mais forte e murmurou um “está tudo bem”. Mesmo não estando.

Se ficou surpresa com a outra lembrança, com esta ela estava abalada.
Snape estivera cuidando do bebê e o ninando. Não combinava nem minimamente com o professor de Poções carrancudo e amargurado que ela conhecia. Algo dentro dela balançou ante àquela cena agridoce.
Ainda confusa, emergiu da Penseira com o olhar vago, tentando assimilar mais alguns pedaços daquela confusão que revolvia sua vida. Devolveu a lembrança à prateleira e buscou mais um frasco ao acaso; ela admitia que ficara um tanto decepcionada em não ver a mãe na lembrança, mas uma brecha diferente e inesperada se abrira em sua mente em relação ao temido e odiado professor Snape. Uma pulga atrás da orelha.

Dumbledore se encontrava na saleta que precedia os aposentos de Snape e Alexia enquanto dormia ternamente em um berço conjurado no outro lado do cômodo.
— Eu sinto muitíssimo, Severo, embora saiba que nada do que eu disser mudará a situação — disse o diretor. — Alexandra foi uma das melhores pessoas que já conheci. E uma das melhores professoras, também; não é fácil fazer grifinórios e sonserinos gostarem de uma mesma pessoa, em especial se for um professor. — Ele sorriu fraco.
Severo apenas concordou com a cabeça, visivelmente abalado.
— Faremos o velório próximo ao salgueiro, está bem para você?
— Sim — foi a única coisa que respondeu.
— Ela será enterrada em Hogsmeade? — Perguntou, com cautela, Dumbledore.
— Sim, naquele pequeno cemitério — disse, como se doesse em cada parte de seu corpo. Seu desejo era que Alexia fosse enterrada em Hampshire — perto da casa deles —, mas ele sabia que era uma decisão arriscada. A família dela brigaria para saber onde estava sua lápide e não demoraria muito até que traçassem o lugar deles no condado.
Além de tudo, ali Alexia estaria perto de Hogwarts, a escola que ela tanto amara. Poderia receber homenagens dos estudantes e de sua família. Era o mais acertado a se fazer.
— Vou providenciar tudo, Severo, não se preocupe. Cuide do bebê, ela precisa de você agora. — Snape acenou positivamente. — E sobre ela, professor? O que fará? Se quiser tirar uma licença por alguns meses, não haverá problema algum.
— Não, professor Dumbledore — ele disse sério, as feições de repente se torcendo em uma carranca de dor inigualável. — Eu a mandarei para um orfanato na Londres Trouxa.
— Severo, pense com calma antes de tomar qualquer decisão. Aqui ela tem a você, que é pai dela. Tem tudo o que precisa e, se precisar de algo mais, providenciaremos — disse convicto. — Uma criança precisa, mais do que tudo, de amor. E garanto que ela não terá em um orfanato.
— E como posso garantir que terá se ficar aqui, Alvo? — Perguntou, a voz amarga. — Talvez eu também não possa dar isso a ela.
— Você pode Severo, sei que pode. — Ele ameaçou interromper, mas o Diretor o calou com um gesto. — Se não pudesse, não estaria pensando em nada dessas coisas. Você está tentando decidir o que é melhor para ela.
— Mesmo assim, Diretor. Ela não pode ficar aqui.
— Não vejo o porquê. Nos adaptaremos ela, se necessário. Ela precisa do pai, acima de tudo. Essa é minha opinião, Severo — ele disse calmamente.
— Ela nunca estará segura comigo, Dumbledore — disse pesaroso, como se aquele pensamento tivesse consumido todas as suas últimas horas. — Se Alexia estivesse viva, talvez. Continuaríamos fingindo que a criança era só dela, mas agora essa possibilidade não existe mais. — Ele engoliu em seco, evitando demonstrar o que sentia. — O senhor, mais do que ninguém, sabe que nosso casamento não era escondido somente por discrição. O Lorde das Trevas não poderia jamais saber sobre ela. A usaria contra mim na primeira oportunidade. Alexia sabia que não pudemos assumir nosso relacionamento por proteção a ela e agora a situação é a mesma, senão pior — desabafou.
— Mas estar perto da sua filha não vale o risco, meu caro? — Perguntou calmo, ajeitando os óculos.
— A vida dela não vale risco algum. É mais importante do que qualquer coisa — suspirou, mirando Dumbledore de volta com o semblante sério, querendo dizer cada palavra.
— Severo, Voldemort está foragido. Sem poderes, desaparecido.
— Você viu o que ele fez com os Potter. Ele desapareceu, mas temo que ainda esteja em algum lugar, fraco, mas vivo. E sei que logo que possível mandará me chamar para ver se estou mesmo ao seu lado. Nessa hora ele usufruirá de todo e qualquer recurso. Não quero que seja mais um deles.
— Deixe-a num lar bruxo, Severo, onde você possa vigiá-la. Não há razão para deixá-la na comunidade trouxa.
— Lá ela estará mais bem protegida, Diretor. Você-Sabe-Quem nunca desconfiaria que ela fosse para um orfanato trouxa. Acharia que eu sou orgulhoso demais para isso.
— E não é, meu caro? Nunca pensei que você algum dia deixaria um filho seu com trouxas — disse até um pouco divertido.
— Não quando se trata de . Eu a protegerei, sempre — disse firme.
— Faça o que seu coração mandar, Severo. Você é o pai dela. Mas lembre-se de que é uma decisão a qual não se pode voltar atrás. Você corre sério risco de não a ver nunca mais ou de ser odiado por ela, quando a menina crescer; ou até mesmo de que ela nunca fique sabendo do parentesco entre vocês. Você está disposto a esses riscos?
— Estou, Dumbledore. Preciso que ela esteja bem, mesmo que longe de mim.
— Sentiremos falta dessa pequena no castelo. Ela nasceu hoje, mas já fazia parte da casa. — Ele sorriu, olhando o berço em que dormia. — Espero que dê um jeito para que ela esteja de volta logo, Severo, cursando o primeiro ano aqui.
— Eu tomarei as providencias, Diretor.
Dumbledore deixou os aposentos e Severo passou a mirar o pequenino embrulho que ressonava. Era a coisa mais bonita que ele já havia visto. Ela acordou, de súbito, e ele segurou-a cuidadosamente contra si. ameaçou chorar, mas ele ninou-a até que ela dormisse novamente.
O pai ficou lá a mirá-la, o carinho parecendo emanar dele todo.


não emergiu da lembrança imediatamente; desmaiar era uma grande possibilidade, já que sentia as pernas bambas e pouco estáveis. Mesmo quando escutou um barulho na porta da sala, ainda demorou para conseguir sentir firmeza o suficiente para se desfazer do apoio dos braços na lateral da Penseira e levantar a cabeça.
Snape estava do outro lado da sala, não muito longe da porta, a mirando de longe. A garota ignorou completamente a presença do pai e andou até uma cadeira solitária abandonada em um canto do cômodo, colocando a cabeça entre as mãos. Tinha tanta coisa para digerir.
O professor seguiu-a com o olhar, mas não foi até ela. Severo andou até a Penseira com curiosidade, tocando o nariz na superfície de forma a identificar a lembrança que a filha havia visto. Ao primeiro sinal de Dumbledore em seus aposentos e bebê no bercinho, soube do que se tratava.
Sua primeira reação foi raiva — garota enxerida —, mas algo em seu peito aliviou sabendo que ela sabia um pouco mais sobre ele também. Snape voltou seu olhar para a filha — ainda na mesma posição sentada na cadeira — e caminhou lentamente até ela.
— chamou num tom de voz baixo que raramente usava. — O que você está fazendo aqui depois do toque de recolher? — Inquiriu ele cansado, apenas porque era a única pergunta que vinha em sua mente de professor.
balançou a cabeça de um lado para o outro, já arrependida de ter escutado o chamado da mãe.
— Eu escutei a voz de Alexia me chamando — escolheu ser sincera, mesmo que Snape a achasse completamente louca; não importava. — E eu a vi no espelho, Snape. Que encantamento é esse? — Questionou de volta, também cansada.
O professor ponderou se valia a pena discutir o “chamado da voz de Alexia”, mas balançou a cabeça negativamente e se concentrou na pergunta da filha.
— Este é o espelho de Ojesed — explicou. — Mostra os desejos mais profundos da alma. Muito provavelmente foi a vontade de estar com sua mãe que a fez vê-la refletida nele.
meneou a cabeça, refletindo acerca da nova informação.
— O que você vê nele?
Severo foi pego de surpresa pelo questionamento e teria respondido que não perdia tempo com essas bobagens, mas estacou diante dos grandes olhos azuis da filha, que lembravam tanto os da esposa.
— Eu também a vejo — foi o que ele cuidadosamente selecionou para responder, depois de alguns segundos.
Eles ficaram calados por algum tempo; era estranho para compartilhar aquilo com ele, compartilhar aquela pessoa tão especial com Severo Snape. Criava um elo que ela jamais achou que existiria; eles compartilhavam da mesma dor — de formas muito diferentes, mas a mesma dor da falta de Alexandra.
— O que tanto você viu nas lembranças? — Inquiriu Snape, desconfiado.
— Eu só queria ver Alexia de novo depois de vê-la no espelho. Foi tão real — contou, dando de ombros, esperando pelo sermão. — Por que você guarda as memórias aqui, tão longe das masmorras?
sempre sabia as perguntas certas a fazer, Severo refletia enquanto mirava os gelados e penetrantes olhos azuis da filha.
— Só as lembranças de Alexia — contou, sentindo que estava exposto ali, falando sobre aquelas coisas tão íntimas com a filha. — Eu precisei que elas estivessem fora da minha cabeça para que não me consumissem e que estivessem longe o suficiente para que eu não as revisitasse sempre que pudesse — o homem foi mais sincero do que imaginara ser possível com , os olhos rasos com as poucas verdades que podia contar a ela.
— As últimas lembranças que vi eram sobre mim — disse, o encarando cheia de coragem ao olhá-lo nos olhos.
— Você é uma grande parte desse passado com Alexia — suspirou, mirando a própria mão apoiada na superfície de mogno da mesa onde se encontrava a Penseira.
— Uma grande parte da morte dela, você quer dizer — corrigiu, sorrindo de lado paradoxalmente aos olhos marejados. — Eu entendo que você me odeie. Você tem todas as razões.
— Não, — ele suspirou, o tom de voz ainda frio e distante. — Você me trouxe lembranças que eu quero esquecer, mas nada disso é culpa sua. Você me lembra demais Alexandra ao mesmo tempo em que herdou características minhas demais. — Ele sorriu torto e fraco. — Eu nunca soube lidar com isso.
Era muito para processar em um dia só. levou alguns segundos para ter qualquer pensamento coerente; precisaria de mais tempo para digerir a última fala do pai, mas tinha perguntas a fazer.
— Do que você queria me proteger? Por que Voldemort estaria atrás de você? — Inquiriu, a testa franzida, tentando relembrar as poucas e esparsas informações que teve sobre o Mundo Bruxo depois de mais velha.
— Shhh, não fale o nome dele — alertou, os olhos abertos demais. — Fui um seguidor de Você-Sabe-Quem, um Comensal da Morte. — ficou alarmada, mesmo que fizesse pouca ideia do que aquilo se tratava. Não parecia nada bom. — Uma vez que se está do lado Dele, nunca mais poderá deixá-lo. Ele estará sempre atrás de mim e, consequentemente, de qualquer um que esteja próximo.
estreitou os olhos. Não eram apenas boatos de que Snape não era uma boa pessoa e estava envolvido com magia negra.
— Por quê? Alexia sabia disso? — Inquiriu visivelmente abalada e agora mais desconfiada do pai do que nunca.
— Eu me tornei Comensal porque era jovem, não via nenhum outro futuro para mim e não tinha ideia realmente do que era o ser — disse, sendo o mais sincero que conseguia, sem, contudo, conseguir mirar a filha nos olhos. — Alexia sempre soube de tudo, .
Ele podia ler a decepção impressa nos olhos da filha; mais decepção, se é que era possível. Talvez até mesmo uma pontada de medo nos olhos sonserinos mais corajosos que Snape alguma vez já conhecera.
— Como? Como ela pôde...? — O semblante de desgosto dominava todo o rosto alvo de .
— Ficar comigo? — Severo completou em uma pontada de humor ácido. — É o que eu me pergunto até hoje. Mas sua mãe era uma boa pessoa, , fique tranquila. Há mais na história, se algum dia você estiver disposta a saber — garantiu. A vida de agente duplo era penosa até mesmo na intimidade das relações.
Como poderia confiar a um segredo que tinha o poder de mudar o destino do Mundo Bruxo sem saber se a garota o levaria a sério o suficiente? Mesmo que seu coração pesasse diante daqueles olhares, ele só poderia garantir a ela, naquele momento, que havia mais.
— Você fez tudo errado, Snape — , ainda com os lábios retorcidos em reprovação, repreendeu o pai.
Severo deixou-se ser repreendido pela filha de quinze anos. O que responderia, afinal? A garota estava certa. Ele precisaria de mais dedos do que possuía se quisesse contar todos os erros — os erros grandes — de sua vida. Abandoná-la era um deles. , contudo, não era. Fizera tudo errado, menos .
Snape ameaçou responder qualquer coisa que fosse, mas a porta foi aberta repentinamente. Filch adentrara a sala, acompanhado de Madame Nora.
— O que está acontecendo aqui? — Perguntou o zelador desconfiado.
— Encontrei esta senhorita perambulando pelos corredores, Filch. E ela receberá uma detenção à altura do feito.
— Não prefere que eu a leve comigo, professor? — Perguntou com um pouco de animação. — Tem uns troféus no quarto andar que precisam ser polidos.
— Não, não, Filch. Como diretor da Casa dela, a aplico eu mesmo. Tenho também coisas que preciso que a menina faça. — Ele sorriu fino para Filch, puxou para fora e esperou que o zelador saísse, então fechou a porta. — Vá, Srta. , e lembre-se de que quero você na minha sala no domingo, depois do jantar. — Snape acompanhou Filch de volta à patrulha dos corredores, enquanto seguia para as masmorras.
A garota chegou aflita ao seu dormitório. Estava mais confusa do que nunca, não sabia o que pensar, nem ao certo o que sentir. Não queria encontrar Snape tão cedo. Não percebeu quando começara a chorar, se dormindo ou acordada, mas adormeceu de vez, ainda soluçando baixo. Sua mente de quinze anos simplesmente não estava preparada para processar tanta coisa.


Capítulo 8 — Sobre marcas e comensais

O domingo todo fora torturante para . Não conseguia parar de pensar que teria de ver Snape após o jantar e seu estômago revirava a cada vez que tinha um pensamento nesse sentido. O que ela faria? Agiria normalmente? E o que ele faria?
Elizabeth a acompanhava de bom humor — sorridente e saltitante — pelos corredores, percebendo, porém, que havia algo errado com a outra menina.
? O que aconteceu? — Perguntou, jogando os cabelos loiros e levemente encaracolados para trás.
— Detenção com o Snape depois do jantar — foi tudo que respondeu, aborrecida. Não era mentira, mas não era exatamente por isso que não estava bem; estava deveras acostumada a cumprir detenções com o professor àquela altura do campeonato.
— Não gosto do Snape. Nem um pouco. Ele me dá arrepios — ela disse, fazendo uma careta que falhava em ser grotesca e continuava sendo singela.
— Você é uma péssima Sonserina, Eliza. O Chapéu Seletor deveria ter te mandado para a Lufa-Lufa — relembrou com ar de riso e o típico sorriso torto.
— Eu sei. Mas não tenho culpa se meus pais não foram envolvidos com magia negra como um monte de famílias sonserinas — suspirou e deu de ombros.
— Eliza — chamou, a parando de súbito antes de alcançarem os últimos degraus para o Salão Principal. — O que são os Comensais da Morte? — Perguntou , intrigada desde o último encontro com o pai.
— É como se chamam os seguidores de Você-Sabe-Quem. São pessoas terríveis. Mataram muita gente antes da queda do Lorde das Trevas, bruxos, trouxas, em nome do ideal puro-sangue. Dizem que os do círculo mais íntimo têm uma tatuagem, a Marca Negra. Não sei o quanto disso é verdade, mas eles deixam essa mesma Marca depois de atacar um local — Eliza finalizou com um tremor no corpo que parecia um calafrio.
O semblante de era agora de espanto. Snape se dissera um Comensal da Morte.
— Hum, Eliza, e se um Comensal não quiser mais seguir Voldemort?
— Shhh! Não fale o nome dele — disse a garota de imediato, baixinho. — Acho que não existe essa possibilidade, . Uma vez seguidor, sempre seguidor. Acho que a única possibilidade diferente é a morte.
— E todos os alunos da Sonserina têm alguma ligação com magia das trevas? — Quis saber, curiosa.
— Não necessariamente, embora existam muitos. Os meus pais não são. Os seus provavelmente também não, mas na Sonserina está concentrada grande parte dos Comensais da Morte e seguidores das artes das trevas, no geral. Talvez tenha alguma ligação com ser sangue-puro, eu não sei. Só sei o que estudamos por aqui e o que ouvi meus pais falando — disse, os olhos pedindo perdão por não saber mais nada.
As duas chegaram ao Salão Principal, ainda calada e muito pensativa. Acomodaram-se próximas aos setimanistas sonserinos, por falta de lugares vagos. Quando sentou-se, Malfoy calou. A piada aparentemente ótima que fizera sobre Potter pareceu até mesmo sem graça.
Ele não compreendia o que o atraía naquela garota estranha e misteriosa. O sorrisinho presunçoso o fazia querer enfiar a mão na cara dela, mas ao mesmo tempo havia mais, ele sabia. Queria descobrir mais sobre ela, por que entrara somente no quinto ano. Queria saber quem era ela. E quando viu sorrir de verdade pela primeira vez, mesmo que de modo discreto, naquela noite, na mesa da Sonserina, quis beijá-la.
conversava com Elizabeth, ainda ansiosa, mas animadamente. Zabini fitava Eliza com malícia e a morena apercebeu-se. Não contaria nada para Eliza, é claro; seria mais divertido ver a situação se desenrolar espontaneamente. A loira acabaria descobrindo por si mesma, cedo ou tarde.
mal conseguiu tocar na comida durante o jantar que a garota jurava ter sido o mais rápido e ao mesmo tempo o mais demorado de todos. Os pratos — nos quais ela mal tocara — se arrastaram demoradamente pelos minutos, mas parecia que mal tinha se sentado à mesa quando já era chegada a hora de ir.
Quando os pratos e travessas de ouro se limparam, dando espaço para a sobremesa, o estômago de embrulhou. Não queria ver o professor Snape de maneira alguma. Virou-se para a mesa dos professores e o viu comendo uma tortinha de limão ameaçadoramente, o olhar gelado focado na mesa da Grifinória.
Saiu depressa para as masmorras, dizendo a Eliza que ia apanhar pena, tinta e pergaminho, e talvez o livro a tiracolo para a detenção. A outra não entendeu muito bem a atitude desesperada, mas deu de ombros, desfrutando de mais uma garfada da própria tortinha enquanto retribuía um sorrisinho a Blaise Zabini.
O olhar de Snape a acompanhou, mesmo sem que percebesse. Aonde, por Merlin, a garota estava indo?, indagava o professor de Poções.
desceu as escadas de pedra para as masmorras velozmente. Disse a senha e rumou para seu dormitório rapidamente. Consultou o relógio na parede. Ainda tinha algum tempo até que o professor terminasse a sobremesa e descesse para seu escritório. Jogou-se com tudo na cama e se permitiu ficar ali por alguns instantes.
O que faria se Snape a olhasse daquele modo a noite toda? Seria como se a última conversa não tivesse acontecido, como se nada do que vira nas últimas lembranças fosse real. pegou a mochila nada apressadamente, a jogando sobre um dos ombros com um suspiro.
Saiu logo em seguida, rumando nervosamente para a sala de Snape.
O professor a esperava sentado na cadeira verde escuro, do outro lado de sua mesa de mogno polido. As carteiras estavam impecavelmente organizadas, o chão lustroso — trabalho dos elfos domésticos muito competentes. deu uma batida na porta, a empurrando delicadamente em seguida, temerosa.
— Boa noite, professor — disse, olhando para baixo.
— Boa noite, — respondeu, um sorriso que não sabia interpretar ameaçando brotar em seu rosto.
Aquele gesto a deixara alarmada. Snape não sorria. Não ameaçava um sorriso. Nem de deboche ultimamente ele sorria. A garota calmamente sentou-se na primeira carteira, logo em frente à mesa do professor, e tirou o que trouxera de dentro da mochila, deixando os materiais sobre sua mesa.
Severo — tanto quanto — não sabia como fazer aquilo. Muito menos como começar. Ela apenas abriu de forma afobada um rolo de pergaminho e fez menção de pegar a pena.
— Não será necessária a pena, — ele disse, tentando permanecer calmo.
A garota não sabia, de fato, distinguir se ele estava debochando dela ou tentando ser mais agradável. Mesmo assim, recolheu a mão que ia pegar a pena e fixou seus olhos azuis em Severo.
Ele também parecia confuso, ela pôde notar. Os olhos se encontraram. Negros contra azuis. Mas não eram os olhos frios que a menina encontrou. Eram olhos que transmitiam dor, a mais pura dor — ela agora sabia reconhecê-la nos olhos do pai. Nem Snape pôde encontrar frieza nos olhos da filha, somente confusão.
— O que será minha detenção, professor, se não vamos usar pena nem pergaminho? — Perguntou, atropelando as palavras e interrompendo os olhares ao fitar suas coisas sobre a mesa.
— Isto não é uma detenção de verdade. Você pode ir embora se quiser — falou, uma pontada de mágoa escapando no fim da frase. Ele falava informalmente com a menina.
quase se levantou. Quase. Esperou e pensou um pouco.
— Se não é uma detenção de verdade, por que o senhor estava aqui depois do jantar, não em seus aposentos? — Seu semblante estava lívido, porém os olhos azuis estavam muito abertos, atentos.
sempre sabia as perguntas certas a fazer. O pai, mais uma vez, não tinha nenhuma resposta coerente, nada do que ele tentasse dizer a ela faria sentido, mas ela ainda esperava uma resposta.
Snape pinçou o espaço entre os olhos nervosamente e mexeu nos cabelos. estava realmente impressionada. Snape, nervoso? E ainda mais frente a uma pergunta feita por ela.
— Talvez porque eu quisesse ver se você viria — ele respondeu um pouco incomodado.
— É claro que eu viria, professor. Com certeza o senhor descontaria uma porção de pontos da Sonserina se eu não aparecesse em uma detenção — ela disse muito francamente.
— Não é sobre pontos, — Snape suspirou, desapontado, balançando a cabeça.
— Então é sobre o que, professor? — Ela respondeu com mais uma pergunta que o deixava de mãos atadas, mais uma que ele não conseguiria realmente responder.
— Eu prefiro que me chame de Snape, — ele desabafou com sinceridade. — É melhor que professor. Já disse, não estamos em uma detenção de verdade. Pode me chamar de Severo, se quiser, ou qualquer outra coisa. — A menina prestou atenção, ainda com o semblante confuso, imaginando o que significava o qualquer outra coisa.
— Nós estamos em uma sala de aula, professor. Não há nenhum termo mais adequado aqui do que esse.
— Então sugiro um lugar mais adequado, .
Snape caminhou pela esquerda até chegar a uma porta camuflada e abriu-a. Chamou a garota com a cabeça e , mesmo com receio, se levantou e o seguiu.
Eles adentraram, então, o escritório do professor de Poções, o qual a menina bem conhecia, mas não pararam por ali. Na extremidade do aposento, havia outra porta — mais elegante — que levava a outro cômodo.
O próximo cômodo era uma pequena sala de estar muito bem decorada com poucos objetos, estes, porém, luxuosos, com um longo tapete cinza e duas paredes de estantes cobertas por livros.
— Bem-vinda aos meus aposentos, — disse sem qualquer gelo na voz. — Sinta-se em casa. — Então ele sorriu.
Lembrou-se das lembranças que Snape lhe mostrara, ele e Alexia no quarto dos aposentos deles, e depois ela própria ressonando em um berço, ali naquela sala. Naqueles aposentos.
— Sente-se — disse ele, acenando para os sofás de madeira escura e assentos verde claros próximos às paredes de estantes.
não disse nada; sentou-se, como dissera Snape, e esperou.
Severo levantou-se e acenou com a varinha para que um jogo de chá aparecesse. Serviu-se e indicou a para que se servisse também.
— Hum... professor? — Perguntou ela, e Snape fez um gesto de cabeça para que ela continuasse. — Não é proibido aos professores levarem os alunos aos seus aposentos? Dumbledore não ficará bravo com o senhor? — Perguntou novamente, temendo esse Snape que sorria e lhe servia chá.
— a expressão dele se tornou séria —, Dumbledore conhece você desde que você nasceu, sabe quem você é, e não creio, nem minimamente, que o diretor poderia, ou ficaria, bravo com isso.
Ela não disse nada. Era mais fácil lidar com o Snape que a respondia e a insultava do que com essa versão um pouco mais compreensiva. Era fácil para tratá-lo no mesmo nível quando discutiam ou insinuavam coisas um para o outro, mas era estupidamente difícil ceder e corresponder ao desconhecido. Conhecia bem demais o professor carrancudo de Poções, sabia como irritá-lo e o fazer perder a paciência facilmente, mas ela não conseguia realmente se imaginar tendo uma conversa civilizada com ele.
Enquanto os dois bebiam o chá, totalmente calados, desviou toda sua atenção para as estantes cobertas de livros desde o chão até o teto, onde — ela pensou — seria necessária uma escada para alcançar. Deteve-se em uma prateleira de livros grossos, depois em uma um pouco mais acima, onde conseguiu identificar muitos livros sobre Poções: ingredientes, caldeirões, como fazer as ervas lunares crescerem mais rápido. Eram muitos.
Severo percebeu que o olhar de se demorou na sua fileira preferida de livros. Sorriu mentalmente. A garota levantou-se por reflexo, deixando distraidamente a xícara de chá sobre uma mesinha redonda e trabalhada de centro. Caminhou até a outra parede forrada por livros e tocou a lombada de um em particular sobre Feitiços. Parecia realmente curioso.
Passou mais uma vez o indicador pela lombada, tentando ler o título que estava parcialmente apagado. Não percebeu o movimento de Snape ao se levantar, e quando deu por si, ele estava já ao seu lado.
— Ahn, me desculpe — disse, sem saber o que fazer, recolhendo a mão que antes tocava o livro e se afastando.
O que estava acontecendo com ela, pelo amor de Merlim?, se perguntava. Estava insegura e pedindo desculpas por bobagens. Era melhor o Snape antigo voltar logo.
— Pode tirar o livro se quiser. Esse que você estava tocando era de Alexia. Um dos seus favoritos — ele contou calmo.
Era estranho estar ali, com novamente junto de si, quinze anos depois. Ele tinha uma estranha vontade de contar mais sobre Alexandra para a menina, mas seu orgulho ainda não permitia. Severo não podia fazer o que estava fazendo agora. Seria pior para ela e para ele. Afinal, eles nunca poderiam ter uma relação familiar, não de verdade, mesmo com a ligação biológica da qual não podiam fugir.
— Ela, hum, Alexia — disse a garota, um pouco confusa com qual termo deveria se referir à mãe — gostava de Feitiços?
— Sim — respondeu. — Ela era ótima em Feitiços.
somente concordou com a cabeça e se distanciou sem pegar o livro.
— Gosta de ler? — Ele perguntou casualmente, o tom de voz não se ajustando à pergunta.
— Sim — disse, baixando o olhar para conseguir ver os títulos que ficavam mais próximos do chão.
Snape ergueu um dos braços a fim de retirar parcialmente um livro e conferir seu autor. Na mesma hora, olhou para cima. As mangas das vestes negras escorregaram um pouco, deixando à mostra uma marca em seu braço esquerdo. se ajeitou para ver melhor: era um crânio e na fenda da boca saía uma cobra no lugar da língua.
Ela se assustou. Seria a tal Marca Negra da qual Elizabeth falara?
Severo percebera que havia algo errado. estacara e ele quase podia ouvir seu coração bater disparado. Encarou a menina, que prontamente desviou o olhar.
— Olhe, Snape, não foi uma boa ideia ter vindo aqui. Realmente, não foi. Não adianta, não vamos nunca conseguir conviver pacificamente e isso tá errado, tá tudo errado. Eu vou embora — ela disse apressada, a máscara de gelo tomando conta novamente de sua face.
— A senhorita deve saber o que está falando. — Ele deu um sorriso irônico, também recolocando sua máscara. — Está sempre certa, não, Srta. ?
Ela não respondeu, reconheceu a provocação na pergunta retórica do pai. Apenas deu meia-volta e saiu do cômodo, passando pelo escritório de Snape e saindo por lá mesmo. Seguiu no corredor largo das masmorras e chegou ao Salão Comunal completamente vazio, ou foi o que pensou até notar uma figura sentada próxima à lareira. Tentou passar despercebida, mas uma voz soou no escuro antes que ela pudesse seguir seu caminho para o dormitório.
— Dando passeios noturnos, ? — A voz perguntou, seguida por um risinho de escárnio.
— Não é da sua conta.
— Não é da minha, com certeza. Mas pode ser do professor Snape, Diretor da nossa Casa. — cerrou os olhos; não conseguia enxergá-lo bem, via somente sua sombra.
— Fale com ele, então. Justamente da sala dele que eu acabei de sair — retrucou cansada.
— Detenções, ? Mal chegou a Hogwarts... — disse ele em falso tom de despontamento.
— Escute aqui, seu idiota, não fale do que não é da sua conta, ok? — Resmungou brava, se aproximando da figura sentada na poltrona ameaçadoramente.
— Tudo bem, leãozinho. Quero ver o que Severo vai dizer quando você tiver partido para cima de mim feito uma trouxa esquisita. Bem, já ouvi dizer que você vivia com trouxas, não é mesmo? Ora, ! Confirme para seu colega aqui esse boato. Pansy iria simplesmente adorar saber.
— Seu Malfoy idiota! E eu ia amar ver Parkinson com aquela vozinha tosca tentando caçoar de mim, seria hilariante. Será que ela também sabe latir? Deve saber, digo, pela cara de buldogue — perguntou-se ironicamente e debochou da sonserina um ano mais velha. — E desde quando, Malfoy, você chama o professor Snape de “Severo”? — Arqueou uma sobrancelha, intrigada.
— Severo é um amigo da família, querida — falou sarcástico. — Nada que lhe diga respeito. Ele é um amigo íntimo de meu pai e, consequentemente, meu padrinho. Papai e ele se conhecem há anos, desde que trabalharam juntos... — Draco tentava mostrar-se superior, mas a declaração só fez terminar de ligar os pontos.
— Um trabalhinho meio sujo, eu imagino. É o que gente da sua laia faz, serve covardemente Voldemort — ela disse cheia de si e o garoto ficou espantado pelo modo que ela falou o nome do bruxo. — Pensou que eu não sabia, Malfoy? — Foi a vez de de dar um sorriso torto de deboche. — Pois é, querido, e você ainda se orgulha desse tipo de trabalho... Também, pudera! Deve ser um gene ruim passado de geração para geração, não é mesmo?
— O que você está insinuando, sua adoradora de trouxas?
— O óbvio, Malfoy. O futuro que te espera.
O sangue de Malfoy fervilhava. Uma veia da têmpora saltou e o rosto pálido tomou um tom arroxeado. Ele saltou em direção à garota e a agarrou pelas vestes, fazendo com que seus corpos se colassem.
— Nunca mais fale isso. Não insinue isso. Não pense nisso. Está me ouvindo? — , pega de surpresa, apenas acenou positivamente. — Não vou ser como meu pai. Não vou ser um Comensal da Morte! — Ele bradou alto demais, alterado demais.
Os olhos azuis de se arregalaram ligeiramente e Malfoy foi abrindo os punhos que agarravam suas vestes devagar, o rosto tomando a cor normal e a veia da têmpora se camuflando novamente.
Apesar de o garoto ter largado as vestes de , não se moveram. Os corpos de ambos continuavam colados, sem qualquer distância, as respirações alteradas muito próximas e, tomado por uma vontade insana, Draco quebrou a distância que separava os lábios dos dois.
Ele puxou-a para si com firmeza e passou uma das mãos pela nuca da garota, aprofundando o beijo e tentando diminuir ainda mais a distância entre eles. Era um beijo desesperado e ávido, cheio de desejo.
se assustou no começo, mas os lábios de Malfoy pareciam atraí-la, como um imã muito forte faria. O beijo era fogoso e vivo, as línguas se chocando rapidamente. Eles não queriam se soltar, mas, depois de alguns minutos, precisavam recuperar o fôlego.
O contato entre os corpos não diminuiu, embora os lábios não mais se tocassem e Draco tenha deixado os braços caírem ao lado do corpo. Ficaram a mirar-se longamente, até que saiu correndo, em uma atitude desesperada, rumando diretamente para seu dormitório.
Como beijara Malfoy? Era Malfoy, urgh!


Continua...



Nota da autora: Oies! Uma atualização dupla cheinha de emoções. Revirando os arquivos aqui, descobri que a fic está quase fazendo aniversário de dez anos (os primeiros capítulos são de 2011) – o que tornou esta reescrita mais especial <3
Espero que vocês estejam gostando de acompanhar a trajetória (meio torta) da nossa pp e sintam a dor que senti reescrevendo o capítulo sobre a Alexia. Confesso que as partes sobre ela sempre foram as minhas favoritas – de escrever e de reler depois hehe.
Me contem o que estão achando nos comentários, quero saber tudo!
Beijo, L.



Outras Fanfics:
Forgetful [Originais - Finalizada]
Long Black Veil [Originais - Finalizada]

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