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Última atualização: 14/10/2023

Capítulo 1 — Is this it?

Can’t you see I’m trying? I don’t even like it...

Eu encaro o diploma em cima da minha mesa e penso “e agora?”.
Aqui está ele. Bonito, o nome Northern Illinois University em uma fonte que me lembrava letras de romances antigos, e meu nome no final. . Meus pais viram o diploma; eu os mostrei por videochamada. Eu vou enquadrá-lo para pôr no meu pequeno apartamento em Los Angeles. O papel é grosso, tenho a assinatura do reitor. Em letras grandes: design gráfico. Anos de luta, milhares (milhões?) de páginas de leitura, projetos em 3D, desenhos malfeitos, noites mal dormidas e muito, muito dinheiro gasto em pacotes do InDesign depois, ele está aqui. Mas agora, numa manhã de sexta-feira, pela luz do sol batendo na escrivaninha, é a única coisa que consigo pensar.
E agora?
Eu tenho dois empregos. Acabei de conseguir um, e começo em dois dias. Trabalho com o outro há um ano, remotamente, em um escritório de Chicago, com projetos gráficos de uma editora de médio porte. Tudo para conseguir bancar minha nova vida californiana e pagar o débito estudantil. Adeus, Massachusetts. Até nunca mais.
Mas... E agora?
— Ele não vai fugir de você, . Pode parar de olhar.
Ouço da porta do quarto. As únicas coisas que restam do nosso pequeno quarto universitário são as roupas de cama. De resto, tudo estava nas nossas malas ou já tinha sido despachado para Los Angeles, para a casa de ou a minha.
está com o celular na mão, me esperando para pegarmos o táxi para o aeroporto. Seu cabelo está mais longo que o normal, mas ainda não alcança os ombros. Marrom-avermelhado, uma franja desfiada cai sobre seus olhos. Ela veste os mesmos jeans que usa desde o primeiro dia de aula. É isso que eu gosto em : ela não abandona os surrados.
— Às vezes eu acho que podem ter me dado ele por engano — retruco, acordando. Apanho o diploma e coloco ele em uma pasta, que colocarei na minha mochila.
— Você pode falar isso daquela burra da Hayley Garfield, mas não de você.
Rio do elogio torto de . Ela aponta para uma das poucas caixas que restaram.
— Aquela caixa precisa da sua ajuda, ela não sabe chegar no carro sozinha.
Enquanto ela desfaz as camas, pego as duas últimas malas e as arrasto em direção à saída. Espero terminar de dobrar os lençóis e colocar tudo em uma grande bolsa plástica. Parada na porta, observo ela terminar de despir o quarto que nos abrigou por tantos meses e viu muito mais álcool do que deveria. me dá um sorriso cúmplice e me encontra na porta, fechando-a atrás de nós.
— Não chora — brinco, mas consigo ver os olhos azuis dela mareando.
— Você precisa fazer muito mais do que isso para me fazer chorar.
— Vou pedir para a Max cantar I Have Nothing de novo.
Ela ri enquanto ouvimos a chave trancar a porta pela última vez e, finalmente, sabemos que é para valer.
Então, iremos para o aeroporto. Max e Emma já estão em Los Angeles, nos esperando. Porque essa é nossa vida agora.
E ainda assim, eu não sei o que isso quer dizer.

Max e Emma nos esperam no aeroporto, com folhas de papel A4 com nossos nomes escritos com canetas coloridas e glitter. Eu e despachamos algumas malas junto das de Max e Emma com antecedência. ganhou um carro como presente de formatura, e seus pais o deixaram no prédio de Max, para que amanhã ela possa levar suas últimas coisas para a casa do pai. Nosso combinado foi que eu ficarei duas semanas morando com Max e Emma, enquanto fecho o contrato de aluguel com um dos apartamentos que ainda vou visitar.
Enquanto entramos no Audi de Max, penso que vi mais fotos do novo carro de do que de seus pais. Na verdade, acho que nunca vi nenhum dos dois.
— Bem-vindas à única cidade de verdade desse país — anuncia Max, quando a abraçamos no setor de desembarque.
— Eu nasci aqui, idiota — retruca, doce como um coice.
— Você sim, mas a não deve ter visto esse nível de civilização.
— Eu nasci em uma cidade pequena, não em uma vila medieval, ridícula.
Nunca gostei de Little Ferry, mas só eu posso falar mal da minha cidade.
— Você nunca esteve aqui, ? — Emma pergunta, enquanto entramos no carro. Ela entra do lado de Max, enquanto eu e nos apertamos atrás, com bolsas e algumas bagagens.
O mais longe que eu cheguei de Massachusetts foi Illinois, durante a faculdade. Ah, e a viagem à Disney. Emma nasceu em Ohio, mas viveu boa parte da vida em Chicago. Max se descreve como uma “verdadeira californiana”, nascida e criada em Los Angeles, assim como . Eu e Emma somos as “estrangeiras”, mas eu definitivamente sou a que menos tem a ver com o estilo de vida delas. Um semestre, viajamos juntas para Chicago por uma semana. Acho que eu e ficamos três dias inteiros sem ver Max. Enquanto isso, eu e ela preferíamos ir a restaurantes e festas juntas, mas nunca chegamos a conhecer ou ficar amigas de desconhecidos. Não é nosso estilo.
— Não — respondo, já sabendo o que Max vai dizer.
— Você não faz ideia do que está perdendo. Tem certeza de que já quer começar o trabalho na segunda?
— Querer, eu não quero nem trabalhar.
— Ótimo. Porque tem um bar incrível que eu consegui reservar para nós hoje.
— O que define um "bar incrível" para você, Max? — pergunta.
Max, no banco do motorista e na minha diagonal, dá de ombros. Ela tem seus longos cabelos pretos seguros por uma faixa púrpura, e veste uma camiseta verde e calças de denim pretas. É inacreditável como tudo que Max veste parece cair perfeitamente nela como em um filme dos anos 60.
— Bebidas incríveis e é um bar bem exclusivo. Você precisa de indicação para entrar.
Eu e nos olhamos com as sobrancelhas erguidas em surpresa. Max emenda em uma risada imediata, e prossegue:
— Alguns benefícios de ser jornalista. Algum lado bom esse emprego precisa ter.
Ela aumenta o volume do rádio, e ouvimos uma música com batida lenta, algo que parece ser alguém dos anos 2020 tentando reproduzir uma música futurista dos anos 80. Algo conceitualmente impossível, mas é o que acontece. Olho pela janela, vejo as vias e os carros coloridos, e penso que é onde estamos: no conceitualmente impossível, mas real.
Não existe lugar no mundo como Los Angeles. Você pode dizer "Nova York, Las Vegas, Paris". Pois eu continuo dizendo, não existe lugar no mundo como Los Angeles. Nova York é a terra dos yuppies, do concreto, dos prédios, dos ternos. Vegas é a terra do álcool, do néon, dos carros. Paris é a terra das luzes, do charme. Nada disso é Los Angeles. Porque Los Angeles é a terra das artes. Los Angeles não nasceu, ela sempre esteve aqui. Hollywood não foi fundada aqui, Los Angeles já nasceu para que Hollywood viesse depois. É um lugar além da Terra, além de nós. As coisas que existem aqui, existem diferente. Nada no mundo é como aqui. Fazer as coisas aqui é fazer tudo como se fosse algo além da realidade, algo melhor que a realidade. É ficção. É arte, é bonito, ainda que seja feio, repulsivo, bizarro. É bonito, porque é arte. A cidade da romantização, para bem ou para mal. A cidade das histórias.
É o lugar perfeito, porque nada aqui é real de verdade. Nada existe.

O apartamento de Max e Emma é pequeno, mas organizado e bem arrumado. Há muitas caixas — algumas minhas e de , na verdade —, mas há espaço suficiente para nós.
A bem da verdade, para quem dividia quarto na faculdade, qualquer coisa é suficiente. Eu e dividimos quarto por todos os quatro anos do nosso curso, o mesmo que Emma e Max.
— Você ainda não se arrumou, ? — Max pergunta na porta do quarto.
Olho para ela com o rosto sério.
— Eu me arrumei, Max.
— Ah, não. Você vai colocar um short. Algo de veludo.
— Está frio lá fora — retruco, voltando o meu rosto para o espelho na minha frente, terminando de passar meu rímel.
— Mas não vai estar no bar. Você vai de veludo.
— Max — resmungo.
Ela dá de ombros e atravessa o quarto atrás de mim, até seu armário. fecha a torneira do chuveiro na hora que Max abre a porta e começa a passar as mãos pelos cabides. Fora uma das primeiras coisas que Max arrumou da mudança, e isso era o mínimo que esperávamos dela.
pergunta, de dentro do banheiro. — Você vai maquiada?
— Só um pouco. Hoje eu estou com preguiça.
— E com que roupa?
— Ela vai com meu conjunto de veludo! — Max grita com a cabeça virada para mim.
Olho para ela e viro os olhos, e ela sorri.
— Olha, verde-água. Do jeito que você gosta.
— Está frio!
— É calça comprida! — ela retruca, jogando a roupa em cima de mim. — Boca solta, top de alça. Vai ficar maravilhoso em você.
— Não vai caber em mim, Max.
— Vou te dar uma coça para você parar de reclamar. Veste logo essa merda.
Ergo a parte superior do conjunto pelas alças. É justo e de um tom fechado. Se isso cabe em Max, que é bem mais baixa e mais magra que eu, provavelmente vai ficar apertado em mim.
— Já quer voltar acompanhada hoje? — me pergunta. Olho para ela como se tivesse sido pega em flagrante. Ela está na porta do banheiro enrolada em uma toalha e esfregando uma menor em seus cabelos.
— Nem vai precisar se esforçar — Max diz, com um sorriso pequeno. — Eu uso essa roupa quando quero impressionar.
Assim que termina a frase, emenda em uma risada característica dela. Sempre ri assim quando quer fazer alguma coisa que nós não queremos, mas ela acha a melhor escolha. Ela riu desse jeito quando inventou que eu e deveríamos ir para um Carnival em Illinois. Não acabou bem.
— Você quer voltar acompanhada hoje, ? — pergunta , rindo, enquanto anda até a cama para pegar sua roupa.
Dou de ombros.
— Não reclamaria.
— Viu? É a melhor coisa que você pode fazer no The Club. Lá só serve para duas coisas: — ela ergue o indicador e o dedo médio — conseguir emprego e arrumar um rico.
— Qual dos dois você já fez, Max?
Ela só sorri e anda para fora do quarto.
— Os dois... Mas isso eu atualizo depois.
Eu e erguemos as sobrancelhas e nos olhamos. Max, desde sempre. Sentiremos falta de perder Max em festas a cada meia hora.
— Você está nesse clima todo? — me pergunta enquanto começa a se vestir.
Dou de ombros.
— Amanhã a gente volta para a realidade de arrumar mudança. Só quero me distrair um pouco.
— E vai voltar acompanhada para cá?
Jogo um batom na direção de .
— Eu estava brincando!
Sei — ela retruca, com a voz se arrastando. — Você brincava bastante com isso na faculdade.
Fico vermelha.
— Vocês estão esperando o que aí? — Emma grita do lado de fora.
está terminando de se arrumar!
— E a ainda vai vestir a roupa que eu dei! — Max grita, de algum lugar do apartamento.
Olho de novo para o conjunto. Bom, mal não vai fazer.

O The Club é um bar grande, com um letreiro luminoso na frente, e um segurança está ali para deixar claro que nem todo mundo pode entrar. A entrada dá diretamente para uma escada para baixo, e a única luz para dentro é de um letreiro neon com “neon” em letra cursiva e azul-claro. Max adora essas coisas.
Ela segura a minha mão e anda saltitando até o segurança, passando pela fila curta do lado de fora. e Emma andam atrás de nós mais devagar, cochichando baixo. O vento não está tão frio, mas podemos senti-lo passar por nós como um desenho animado. Max sussurra algo para o segurança, e ele faz um sinal afirmativo com a cabeça. Ela vira a cabeça para mim e diz “podem vir”.
Max veste um vestido com franjas prateadas e botas. É impressionante como coisas que ficariam horrorosas em qualquer pessoa ficam lindas em Max. está com calças justas e uma blusa vermelha, que valorizam sua cor. Emma está com uma blusa de mangas compridas fina, e calças rosa-claras. Quando descemos as escadas, sentimos um tipo de calor humano.
Não tem tanto barulho quanto eu imaginei que teria. Claro que é difícil conversar aqui embaixo, mas as pessoas parecem conversar mais baixo e a música não é tão alta. Depois de alguns minutos que tomamos para conhecer o lugar, Max nos caminha para o bar e vira para nós para perguntar:
— O que vocês vão pedir?
— O que for mais barato — digo perto do seu ouvido.
Max vira os olhos.
— Não aja como uma coitada. Só me diz o que você quer.
— Dois Bloody Mary — interrompe, um pouco impaciente. — Eu pago.
— Eu quero o que você pegar — Emma responde.
O barman nos entrega nossas bebidas rapidamente. Quando começamos a beber, sinto um gosto de bebida genérica. Não é que está ruim, só não está... Bem, não está nada. Nem bom, nem péssimo, doce, salgado, amargo. Só é um Bloody Mary.
Olho para e tento ver a reação dela ao dar seu primeiro gole. Ela me olha de volta com uma careta de quem achou a mesma coisa que eu.
— Retiro o que eu disse. Você vai pagar o seu. Me recuso a pagar duas vezes por essa droga.
— Você é careta assim até começarem a tocar Beyoncé — Emma diz para .
— Tocam algo conhecido nesse lugar? Achei que era música comum demais pra um lugar tão exclusivo.
— Vocês duas são um saco — Max interrompe, com seu padrão de dizer algo grosso com um sorriso doce. — Por isso eu sempre preferi a , que reclama só depois.
— Esse lugar está me desafiando — comento.
— Esse é o melhor bar dessa cidade, eu vinha aqui várias vezes com as minhas primas — Max retruca, parecendo que quer se convencer mais do que a nós. — Vocês se acostumaram com aquelas porcarias em Illinois.
Assim que Max termina de falar, a música é trocada por uma das mais recentes de Beyoncé — o que pega de surpresa. Ela olha para mim, agarra minha mão e começa a me puxar para irmos dançar. Max ri e puxa Emma para fazer o mesmo.
A música não é tão alta, não o suficiente para nos desconectar de qualquer coisa que não a própria música e a dança. Não é culpa da Beyoncé — jamais —, e sim uma escolha do DJ. dança e canta como se estivesse em um show, Max e Emma dançam como em séries, como se tivessem ensaiado essa dança. Eu ainda me sinto desconectada. Olho para o chão, para as luzes que piscam e para as silhuetas ao nosso redor. Há uma luz rosa que pinta o rosto e o corpo de na minha frente, e a vejo sorrir. Estou feliz por nós, por nós quatro. Também sorrio. Se estou conectada a algo ou alguém, é a elas. Beyoncé parece ter sentido que precisava aparecer para nós aqui.
Max segura minha mão e a levanta, para eu me soltar mais. Sorrio para ela e me sinto rosa também.

— Ela tem um poder, sabe? Algo a mais. O nome dela já é incrível. Eu não entendo o que essa mulher tem, o poder que ela tem sobre mim. Ela parece me chamar.
Eu e voltamos ao bar para pedir algo que possa fazer o gosto de Bloody Mary sumir. Ela pede um Moscow Mule, e eu peço para nos darem outro.
Max e Emma seguem na pista de dança, e já conheceram pessoas novas. Estão dançando com outras duas garotas, e Emma também parece ter começado uma conversa com um cara que dançava perto delas.
— Mas com exceção da Beyoncé — diz, com uma careta, depois de beber um gole de Moscow Mule. — Esse lugar é terrível.
Dou uma risada.
— Já fui em lugares melhores, mas acho que “terrível” é um exagero seu.
— Vou ficar mais um tempo pela Max e a Emma. Você vai comigo?
Dou de ombros e também dou um gole. Essa está um pouco melhor.
— Não sei. Te aviso quando você decidir sair.
Nos aproximamos de novo de Max e Emma, depois de elas já terem saído da pista e ido para a mesa das duas garotas. Conversamos um pouco com elas e o homem que se postou ao lado de Emma. São atrizes iniciando a carreira, e fizeram um teste juntas para uma série adolescente nova. O homem é médico e é primo de uma das garotas. Olho para de lado e sei, pelo jeito com que ela olha para Max, que ela já está de saco cheio.
Murcho um pouco. Queria que isso não fosse assim, tão plástico. Queria estar sentindo algo agora. Desde que saímos do alojamento, queria sentir algo que me mostrasse que as coisas estão mudando. Algo novo, um calor na barriga.

Já devemos estar nessa boate que Max mentiu dizendo que era um bar há duas horas quando chega ao seu limite. Já bebemos mais algumas doses de alguma coisa com vodka que Emma pediu e que, vale pontuar, só serviu para nos deixar um pouco mais soltas do que para nos agradar em gosto. inclina a cabeça para a orelha de Max e diz:
— Acho que já vou indo.
— Ainda vamos pedir outra rodada de bebidas.
— Eu já estou meio cansada. Não precisam ir comigo.
Max e olham para mim quase ao mesmo tempo.
— Você vem comigo, ?
Hesito. Max morde a bochecha, o que costuma fazer quando algo não a agrada. Ela não vai admitir, mas sabe que escolheu um bar ruim para virmos juntas. O bar não é tão bom, a música não é boa, a maioria das pessoas aqui não é tão interessante quanto as que conhecíamos na faculdade. Mas ela não precisa disso para se divertir. precisa, e isso sempre foi uma das coisas que atrapalhou nossas saídas em grupo.
— Vou sim.
Max vira os olhos e fico um pouco incomodada. Ela pega suas chaves na bolsa em seu colo e as passas para .
— Só nos mandem mensagem quando chegarem ao apartamento.
Assentimos e nos despedimos dela, de Emma e dos nossos novos desconhecidos. Quando chegamos na porta do The Club para subirmos as escadas, percebo que mal suamos e nossas maquiagens seguem intactas. O que, claro, é um sinal de que desperdiçamos cabelo e maquiagem para uma saída ruim.
— Sabe — começa a falar, depois de chegarmos à esquina —, o erro foi nosso. Esse tipo de boate costuma compensar em estética o que falta na qualidade.
— Você sabe algum lugar bom? — emendo. — Podemos ir só nós duas.
dá de ombros. Não quero falar em voz alta o que quero fazer: só fazer algo, não ir direto para casa. conhece a cidade, viveu aqui a vida inteira com os pais. Quero ir para algum lugar, fazer alguma coisa, qualquer coisa que não estar em casa. Sinto como se a noite fosse acabar logo, e ir para casa vai fazê-la acabar mais cedo. Só não quero estar em casa como estive durante boa parte da faculdade.
... — ela murmura. — Você quer mesmo?
Solto o ar em um suspiro.
— Só quero fazer alguma coisa.
Ela olha para frente e para de andar. Olha para trás, para o outro lado da rua e, por fim, para frente. Está pensando em algo.
— Olha — ela diz, como se dissesse algo que, na verdade, acha que não deveria. — Tem um bar uns três quarteirões para dentro que você vai gostar. Quer que eu deixe você lá?
— Me deixar lá?
— Eu aviso as meninas que você quis conhecer outro lugar e eu fui para casa. Você pega um táxi na volta. — Faz uma pausa. — É só pedir para o segurança te chamar um.
— Tudo bem, por mim. Qual o nome do bar?
Começamos a andar em direção ao bar que ela falou.
— The Graduate. É temático. Meus pais falam que era bem famoso na época deles, quando abriu. Hoje em dia é mais para os admiradores. Não é muito lotado, e tem bastante gente de uns trinta, trinta e poucos anos.
faz uma pausa e ri enquanto olha para mim. Completa:
— Se a sua intenção ainda é voltar acompanhada.
Sinto meu rosto ficar vermelho.
— Só quero beber algo decente — retruco, com o rosto baixo. me empurra com o ombro e dá outra risada.
— Não vou contar para ninguém. Pode manter sua fama de quietinha — ela diz, diminuindo o passo. — Pronto, chegamos.
A fachada do The Graduate é pequena. A porta é vermelho-escura e o vidro não mostra muito da vitrine. Preciso me inclinar sobre o vidro escurecido para olhar para dentro e espiar o bar.
— Que horas você está pensando em sair? — me pergunta, conferindo o celular. Vejo que a tela acende mostrando que são 22:30.
— Daqui a mais ou menos... Meia hora?
Ela parece tomar um tempo para pensar. Olha de novo para o relógio, para mim e para dentro. Depois de um suspiro, diz:
— Se precisar de algo, pode me ligar.
Sorrio e confirmo com a cabeça. Quando abro a porta, sinto frio agradável do ar-condicionado do lado de dentro. A porta se fecha atrás de mim em silêncio, pesada, e o som ambiente é de alguma banda de rock que não reconheço, mas me é familiar o suficiente para me deixar confortável. Quando olho para trás, já não está mais lá.
Olho para dentro do The Graduate de novo, e estou sozinha. Não conheço nada nem ninguém aqui dentro. Isso me assusta de uma forma boa. Sinto meu coração palpitar e ouço-o bater quase na mesma batida da música. O cheiro é quente, de bebida e como um perfume de lugar escondido. Parece que achei um tipo de tesouro. Ando devagar até o outro lado do lugar, onde fica a bancada do bar, com bebidas expostas atrás do balcão. Há um letreiro com pouca iluminação em cima dele, com “you are trying to seduce me” escrito com letras de cinema antigo. As paredes são vermelho-escuras e mal iluminadas, e a sensação é de que seus olhos estão fracos. Que você precisa prestar mais atenção, olhar tudo duas vezes.
Há poucas pessoas aqui agora. Dois casais estão sentados em mesas separadas, conversando baixo; um deles parece ter mais ou menos a minha idade, e outro é um pouco mais velho. Um homem está sentado ao balcão, vestindo um casaco marrom escuro e com os cabelos um pouco mais compridos do que parece ser o intencional — já parece mal cortado. Quando passo pelas mesas, vejo um homem da minha idade mexendo no telefone e bebendo sozinho, e duas mulheres que conversam baixo e parecem muito sérias para estarem em um bar tão tarde. Há outros quatro grupos de amigos, a maioria aparentando a minha idade, todos sendo os únicos responsáveis pelos barulhos de conversa.
Quem está atrás do bar é uma garota de cabelos pretos e cacheados. Ela olha para mim, inclina o corpo para frente com os braços cruzados e se apoia no balcão. Está séria.
Sento-me em um dos bancos estofados contra a bancada e mal me inclino quando ela pergunta:
— O que posso fazer por você?
— Tem algo doce?
Ela ergue as sobrancelhas. Sua pele reluz contra a luz fraca do bar.
— Que tipo de bebida você gosta?
Dou de ombros.
— O que você quiser testar comigo. Quero algo que tire o gosto da última que bebi.
Ela abre um pequeno sorriso e vira os olhos. Anda vagarosamente até a ponta do balcão e fica de costas para mim.
Acho que estou um pouco zonza. Confiro discretamente se minha roupa está boa.
— Peça para ela te fazer o Mrs. Robinson.
O homem no lado esquerdo do balcão, a dois bancos de distância de mim, fala isso sem me olhar. Demoro alguns segundos para ter certeza se ele falou isso comigo.
— Desculpe? — pergunto, inclinando o corpo um pouco para a direção dele.
— Peça a ela — ele aponta para a bartender com o indicador, ainda sem olhar na minha direção, enquanto bebe um pequeno gole da bebida — um Mrs. Robinson.
Quando olho de novo para a bartender, ela está olhando para o homem e rindo. Seu rosto fica vermelho e me sinto parte de uma piada interna.
— O que tem o Mrs. Robinson? — pergunto enquanto alterno meu olhar entre os dois.
A moça de cabelos pretos volta a olhar para as bebidas, mas tem um pequeno sorriso.
— Peça para ela te fazer um Mrs. Robinson especial — ele insiste, com um sorriso.
Ela olha para mim e ri.
— É uma bebida fora da nossa carta.
— Não, é uma bebida especial. Para os clientes importantes.
Olho para o homem de novo. Ele está bem-vestido, mas suas roupas parecem antigas. O cabelo mal cortado harmoniza com seu rosto, sua barba baixa. Ele ainda não olhou para mim, mas sabe que eu estou olhando para ele.
— Quero um Mrs. Robinson — falo, quase em tom de teste. Olho para a mulher, para ver sua reação. Ela apenas olha para o homem, vira os olhos e sorri.
— Um Mrs. Robinson então.
Enquanto prepara minha bebida, ela está sorrindo. Olho de novo para o homem e ele parece rir da situação.
— É uma bebida que ela criou — explica, devolvendo seu copo para a bancada.
Ergo as sobrancelhas e olho de novo para a moça. Abro a boca para falar algo, mas só consigo dar um sorriso e hesitar.
— Já foi descontinuada — ela diz, sem nos olhar.
— Não, ela agora é VIP. Só para clientes antigos.
Eles dividem uma risada cúmplice. Não sei por que, mas quero participar.
— Por favor... — murmuro, com um biquinho.
— Vai perder uma cliente nova, Kenya? — ele pergunta, em tom de desafio.
Aumento mais ainda meu biquinho e junto as mãos.
— Por favor, Kenya, por favor...
— Eu faço, eu faço! — ela diz, rindo, com as mãos erguidas em desistência.
— Então aproveite e faça dois — o homem pede, colocando o copo vazio em cima da bancada.
Olho para Kenya com um pequeno sorriso, que ela me devolve, e olho para o homem. Acho que ele não olhou diretamente para mim em nenhum momento — se olhou, foi em alguma hora que eu olhava para Kenya.
Olho de novo para minha roupa, para a parte de cima. Parece estar tudo certo. Não vou conseguir conferir meu cabelo ou maquiagem, então torço para que ainda estejam bons. Comprimo meus lábios e olho em volta, sem graça. Tudo parece estar um pouco mais lento do que deveria.
Não sei se estou com uma ansiedade positiva, um frio na barriga pela apreensão de estar sozinha em um lugar estranho, ou se só estou bêbada.
— Você nunca veio aqui.
Olho para o homem. Não tinha sido uma pergunta.
— Não, nunca. Não conhecia o lugar.
— Então você não deve ser daqui.
Ele olha para baixo, para suas mãos repousando na bancada. Estou incomodada por ele ainda não ter olhado para mim.
Instintivamente, me aproximo dele. Sento-me no banco ao seu lado, e na hora que me instalo, ele vira o rosto para mim em um movimento leve, despretensioso.
A luz do The Graduate é fraca, mas quando ele olha para mim, sinto como se eu estivesse atrasada para algo. A luz parece faltar, como se estar tão fraca fosse um erro, como se não olhar bem a cor desses olhos fosse um desperdício. Os olhos dele são azuis, da cor que o azul deve ser.
— Não sou.
— De onde você é? — a voz dele é calma, baixa e um pouco rouca. Não consigo identificar bem a idade dele, mas com certeza já passa dos quarenta.
— Little Ferry.
Ele faz uma careta de quem nunca ouviu falar. Dou de ombros.
— Me impressionaria se tivesse ouvido falar. É uma cidade pequena de Massachusetts.
— Deve ser bem diferente daqui.
Ergo o canto dos lábios. Não sei identificar o que ele está me dizendo enquanto olha para mim. Parece curioso, como se o que eu digo fosse, na verdade, dizendo outra coisa. Ou é assim que me sinto sobre ele.
— Eu não saberia dizer. É meu primeiro dia aqui.
Ele ergue as sobrancelhas, surpreso.
— Nunca veio para Los Angeles?
Nego com a cabeça com os lábios comprimidos.
— E sua primeira parada foi no The Graduate?
— Bem, vocês eram famosos — digo, com um sorriso, mas assim que concluo, o homem aperta um pouco os olhos e arqueia um pouco a boca em um sorriso pequeno. Meu corpo congela e penso que talvez eu tenha dito algo de errado.
Antes que eu fale outra besteira que me comprometa mais ainda, Kenya aparece e nos serve uma bebida vermelho-escura como as paredes. Eu e o homem bebericamos ao mesmo tempo e não consigo evitar virar os olhos, de tão boa que a bebida é.
— Deus, Kenya — ele comenta. — Cada vez melhor.
Ela dá de ombros como se dissesse “o que eu posso fazer?” e se afasta de nós. Parece querer nos dar uma privacidade.
— Uma amiga minha é daqui e me indicou o bar — me explico, um pouco apressada para limpar minha sujeira.
— Sua amiga tem bom gosto, mas um gosto por coisas velhas.
Ergo o canto do lábio de novo e beberico um pouco mais a bebida.
— Gostamos de coisas boas. De quando for.
Ele bebe um pouco mais, me acompanhando. Não abaixa o olhar enquanto bebe, ao contrário de mim.
— E você vai se mudar para cá?
— Já me mudei. Vou fazer a mudança amanhã.
— E o que você veio fazer aqui?
— Trabalho com design.
— Não foi a minha pergunta — ele diz, sorrindo.
Sinto meu rosto ficar vermelho. Com certeza já estou bêbada.
— Eu queria morar em uma cidade grande.
— Ah — ele diz mais alto, não acreditando em mim. — Tem muita cidade grande nesse país.
Meu Deus, meu rosto está muito vermelho. Não faço ideia do que está acontecendo.
— O quê?
— Me diz...
.
— ele repete, com ênfase, como se testasse o som do meu nome na própria voz — O que você veio fazer aqui?
Olho para baixo e dou de ombros.
— Não sei. Hoje eu só queria ir para um lugar diferente, novo. Quero conhecer gente nova, coisas novas.
— Bom, para coisas novas — ele hesita, procurando algo na própria memória. — Tem a galeria de arte no Summerfield Park. Você gosta de arte?
Sorrio e assinto com a cabeça.
— Bastante.
— Então você vai adorar. O último expositor de lá vai apresentar em Paris no mês que vem. Já viu pinturas do Tomer Younfel? — ele franze o cenho de repente, se interrompendo. — Não, você com certeza não viu pinturas do Younfel. Desculpe.
O homem parece ter ficado tão alterado quanto eu, e abaixa o olhar enquanto o rosto começa a ficar vermelho.
— Não vi, mas quero ver. Estão lá?
Ele olha para mim de novo e a voz volta baixa, envergonhada:
— Algumas. Se você gosta de pintura, precisa ir à galeria.
— Eu amo pintura — falo, com ânimo. — Vou falar para as minhas amigas para irmos lá. Onde mais você sugere...?
Ele não fala nada. Emendo:
— Desculpe. Não perguntei seu nome.
Ele aperta os olhos um pouco.
.
— o imito, repetindo seu nome com a mesma ênfase. — Onde mais você sugere?
Ele comprime os lábios e parece tentar decidir algo. Não consigo acompanhá-lo, mas quero saber o que ele está pensando.
— Tem uma livraria grande do lado de fora da cidade, onde costumava ser um teatro. Talvez você goste também. Se chama The Reader. E... Você gosta de música antiga? Dos anos 70 ou 80.
Assinto com a cabeça, sorrindo novamente.
— Bom, aqui tem música ao vivo às sextas. Se você e suas amigas quiserem vir, costuma ser bom.
— Também vão ter celebridades por aqui?
Ele dá uma risada como se eu tivesse feito uma piada.
— Às vezes. Se vier nos dias certos.
— Pelo lugar — olho em volta e, depois, aponto para o copo já quase vazio — e pela bebida, volto sempre.
Kenya olha para mim por cima do ombro com um sorriso pequeno.
— Então talvez nos encontremos de novo, .
— Talvez — concordo, olhando-o nos olhos com os olhos um pouco apertados pelo meu sorriso. — Vou voltar com elas. Inclusive — digo, com um susto, e confiro rápido o celular —, eu já deveria estar indo para casa.
Olho para Kenya e ela deixa a mão solta na minha direção.
— Por conta da casa — ela diz. Sorrio em agradecimento.
— Até outro dia, Kenya.
Olho para enquanto me levanto. Ele ergue levemente as sobrancelhas e parece esperar que eu diga algo.
— Foi um prazer. Nos vemos outro dia.
— Aqui ou na galeria.
Sorrio sem querer. Não sei por que, mas isso vem naturalmente.
— Aqui ou na galeria — repito, para concordar, e vou embora.

Quando chego ao apartamento, mexe no telefone enquanto Max e Emma terminam de arrumar as almofadas e colchões para eu e ela dormirmos.
— Já ia te procurar no IML — Max diz, com a voz arrastada, sem fazer qualquer questão de disfarçar o incômodo.
— Desculpem. Me distraí.
— Foi por causa de homem, né? Pode falar que foi — Emma me corta.
Jogo uma almofada na direção dela, e ela desvia por um triz, antes de eu acertar o rosto dela.
— Eu estava conversando e pegando dicas do que fazer na cidade.
fez uma careta impressionada. Vou direto para minha muda de roupa de dormir e ando em direção ao banheiro enquanto ela reclama:
— Já vai nos trocar por alguém da cidade grande? Mal terminamos a faculdade...
— Beleza então, menina do interior. Fica tranquila, eu levo você junto para uma galeria de arte.
franze o cenho e me olha de lado.
— Galeria de arte? Eu dispenso.
— Eu vou contigo, — Emma diz. — Como você soube disso?
Paro por um segundo dentro do banheiro.
— Dei sorte.
Enquanto tento dormir, olho pela janela da sala. E me sinto azul.

Said they'd give you anything you ever wanted, when they lied I knew it was just stable children trying hard not to realize...


Continua...



Nota da autora: Sem nota.




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