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Última atualização: 31/12/2016

“ As palavras ficam presas na minha mente. Desculpe por eu não ter tempo para sentir como eu me sinto, porque, desde o primeiro dia que você entrou na minha vida, meu tempo gira em torno de você; mas então eu preciso de sua voz... Como a chave para destrancar todo o amor que está preso em mim. Então me diga quando é hora de dizer eu te amo. Tudo o que eu quero é que você compreenda que quando eu pegar na sua mão é porque eu quero. Todos nós nascemos em um mundo de dúvidas, mas não há dúvida. Eu descobri: eu te amo. E eu me sinto solitário por todos os fracassados que nunca vão ter tempo para dizer o que realmente está em suas mentes. Em vez disso, eles apenas escondem. No entanto, eles nunca vão ter alguém como você para guardá-los e ajudar ao longo do caminho... ou dizer-lhes quando é hora de dizer eu te amo. Então me diga quando é hora de dizer eu te amo.”

- Green Day; When it’s time.





All about you


Eu procurei na minha vasta mente, durante vários dias, muitas maneiras de como começar a contar essa história. Diante de várias formas de relatar todos os acontecimentos mais emocionantes, mais sórdidos, mais depressivos, não existia nenhuma que pudesse realmente expressar da maneira que eu gostaria. Não existiam formas de narrar de uma maneira positiva ou, ao menos, menos depressiva.
Eu não era um garoto negligente. Sempre me orgulhei do meu jeito de ser. Previsível, comum, simples. Mas esperto. Não esperto numa maneira inteligente de se dizer. Eu não tirava as notas mais altas, e nem gostaria que assim fosse. A meu ver, notas são apenas notas. Coisas passageiras que ninguém se lembrará no futuro – a não ser que você seja Albert Einstein. Não, eu sempre fui mediano. Meu boletim tinha notas vermelhas na maioria das vezes, e quando não tinha, eu certamente pelejava por um ponto a mais para o professor.
Mas eu sempre fui negligente quanto às injúrias do amor.
Uma das coisas que eu sempre procurara sentimentalmente era evitar quaisquer tipos de paixões. As garotas passavam por mim por, no máximo, duas vezes. Eu não gostaria de coisas sérias. Eu não me dispunha a me apaixonar. Apesar de ser um garotinho qualquer no colégio onde estudei, eu era disputado. Não era nada como Ashton Kutcher. Não era um comelão irresistível como ele – não que eu o ache irresistível, que fique claro -, mas eu tinha as minhas “fãs”. E, graças a uma dessas “fãs”, eu não tive meu precioso intocado por muito tempo.
Mas as injúrias do amor costumam aparecer nas horas mais inapropriadas.
Talvez meus relatos não sejam de agrado a todos. Talvez pareça submisso demais, injusto demais, paixonite demais. Mas foi como tudo aconteceu. Foi como tudo começou. E é como tudo irei contar.

Éramos jovens. Adolescentes descuidados e abobalhados. Normais, como qualquer outro jovem de nossa idade. Não consumíamos drogas, exceto a velha e boa cerveja nos churrascos na casa de um dos caras, ou uma boa vodka, tequila e afins quando conseguíamos botar a mão na garrafa. Não éramos alcoólatras, tampouco. Eu não era nerd, como já citei. Não era burro, não era nada. Eu era um aluno do terceiro ano do ensino médio, preparando-me – ou fingindo preparar-me – para ser aceito em alguma universidade. O meu histórico escolar não me garantiria nenhuma das universidades que meus pais tanto sonhavam em me ver ingressar.
Eu não tinha uma banda, não era um garoto popular e não queria ser. Eu era expressamente feliz com os três melhores amigos que poderia ter, e completamente satisfeito com a parte de garotas que tinha para mim. Eu era bem amado, bem cuidado e bem amigo.
poderia discordar disso, mas, ainda assim, eu tinha certeza de como era.
— Onde pensa que vai?
Virei meu pescoço dolorosamente. Um torcicolo maldito havia me pego bem naquela manhã. estava parado atrás de mim, vestindo a usual bermuda escura, com uma camiseta pólo cinza. A expressão em seu rosto denunciava aflição, confusão. Seus olhos denunciavam seu nervosismo contido. Ele precisava explodir, e eu havia sido o escolhido para tomar a bomba.
Como sempre fazíamos um com o outro.
— Eu iria para o banheiro, mas já que precisa de mim, eu posso esperar. — respondi. quase urrou em agradecimento ao ver-me andar em sua direção. Passei um dos meus braços por cima de seu ombro na forma mais animada possível, fingindo um positivismo inexistente. — Vamos, me diga o que aconteceu.
O arrastei para perto da escada que nos levaria aos blocos B, C, D e E. O bloco A era o pátio central, cantina e área externa. Atravessando essa área, um portão manual – é claro – de barras de ferro nos daria passagem às quadras. A escada onde nos encontrávamos ficava completamente desabitada nos tempos livres ou nos intervalos. Todos os alunos preferiam ficar embaixo do sol, comendo, ou ouvindo qualquer coisa no pátio central.
Encostei-me à parede e fez o mesmo, porém ficando com apenas um dos ombros encostado.
, você é meu amigo há anos... — ele começou, passando a mão livre pelos cabelos e desgrenhando-os. Eu rolei os olhos, assentindo. — Você é o meu melhor amigo e sabe exatamente todas as minhas necessidades. E sabe me aconselhar muito bem.
Eu ri.
— Certo, talvez você não aconselhe muito bem. Mas alguns conselhos fazem sentido. — ele admitiu. Eu assenti novamente, esperando que ele continuasse. quase deu um grito histérico feito uma garotinha, tamanha era sua frustração. — Cara, você precisa fazer a minha fita com a Kate!
— A Kate? — eu ergui a sobrancelha, quase fazendo-a se fundir ao meu cabelo. assentiu desesperado sem olhar em meus olhos. — , a Kate?! Sério?!
— Ora, , não venha com essa cara de “não-acredito-que-você-quer-alguém-como-ela”. Não se esqueça que você já gostou muito de tocar as cordas daquele violão! — eu ri com sua última frase, mas procurei fingir não entender o verdadeiro sentido delas. — Você sabe que ela sabe o que fazer e como fazer.
— Você realmente está tão desesperado assim por sexo?
— E você não está? Não fica um segundo sem comer a com os olhos.
Nós nos calamos de repente. Eu baixei meu olhar para os All Stars surrados que usava, enquanto voltava a bagunçar o cabelo desconfortavelmente. Foi o momento exato em que passou por nós, rindo com Kate ao seu lado, conversando sobre algo que envolvia o próximo show do Green Day. olhou aflito para mim e eu fiz o mesmo. Ambos agradecemos mentalmente por aquele silêncio constrangedor ter vindo no momento em que as duas passaram.
— Pois é... — murmurou quando as garotas se afastaram o suficiente para não nos ouvir. Eu soltei um suspiro longo e pesado, como se tivesse prendido o ar em meus pulmões a partir do momento em que ouvi o nome dela. — Foi mal. — falou por fim.
Eu soltei um longo suspiro antes de dar de ombros. me observava como se eu pudesse explodir a qualquer instante. Acho que meu melhor amigo me imaginava aos prantos, chorando ensandecidamente por causa de . Deveria ter-lhe passado, na mente, diversas formas de como eu reagiria àquele encontro estranho. Eu não o culpava, afinal. Todas as vezes em que eu e acabávamos por cruzar o caminho um do outro, eu acabava tenso. Talvez eu realmente tivesse caído aos prantos se o acontecido tivesse sido alguns dias, ou meses, atrás. O fato é que eu era um novo homem.
Ou talvez eu preferisse pensar dessa maneira.
— Deixa isso pra lá. — respondi simplesmente. arqueou uma sobrancelha. — Eu vou tentar conseguir a Kate para você.
— Sério, cara? — ele perguntou a mim em seu melhor jeito “você é o melhor, dude”. Eu apenas assenti. — Ótimo, então... Vamos sair daqui.
Eu acho que ele simplesmente não gostaria de tocar no assunto que me machucara por tanto tempo. Digamos que, dentre todas as possibilidades de eu me apaixonar, escolhi aquela com a qual nunca deveria ter trocado um simples “Oi”. Eu me lembro perfeitamente bem de quando se matriculou em nosso colégio. Nós cursávamos o primeiro ano do Ensino Médio quando, como se caísse de pára-quedas, a garota aterrissou no meio do ano em nossa sala de aula. Lembro-me perfeitamente de suas vestes no primeiro dia em que a vi: uma calça jeans em tom preto, porém tão desbotado que poderia ser confundido a uma cinza qualquer. Sua camiseta era rasgada na gola, de modo a parecer completamente antiga, e levava a estampa do Nirvana na região dos seios. Os cabelos estavam soltos de uma forma tão rebelde e despreocupada que atraía inveja devido à perfeição.
Ela havia sido a atração principal para os meus olhos.
não estudava comigo naquela época. Devido à re-matrícula, havíamos caído em classes diferentes. Isso não era um problema para mim, já que eu tive a sorte de ter ao meu lado durante todo aquele ano. Quando parou defronte a todos no pequeno palquinho de dez centímetros na frente da sala de aula, eu precisei olhá-lo para checar se eu era o único que levava no rosto aquela expressão vassala. Eu me senti como um bonequinho de pano que estaria ali para qualquer coisa que aquela garota quisesse. E, ao olhar para o rosto de meu amigo, percebi que ele se sentira da mesma maneira.
— Você pode se apresentar. — o professor de História da Arte havia avisado. A garota não pareceu nem um pouco tímida em lançar o seu melhor sorriso galanteador ao homem e a todos os demais.
. — sua voz encantadora saiu, deixando todos ainda mais paralisados. Se eu não soubesse que Harry Potter é apenas uma ficção, um mundo alternativo, eu diria que era, sem sombra de dúvidas, uma veela¹.
havia sido o comentário da semana. Não só da semana, como do mês, do ano. Era o alvo dos comentários até mesmo hoje em dia. Por onde passávamos, apenas ouvíamos “ é linda, não acha? É estranho que ela tenha vindo para cá no meio do ano letivo!” ou “Ela parece uma miragem aos olhos...”. Eram sempre as mesmas falas, as mesmas expressões assustadas sobre o que ela era, de onde havia vindo e o motivo da vinda. Mas era completamente misteriosa.
Eu consigo me lembrar exatamente do dia em que falei com ela pela primeira vez.
Estávamos sentados, eu e os caras, na área descoberta do pátio da escola. Havia uma mesa feita de cimento, ou algum material parecido, e nós estávamos sentados nela. Meus pés batucavam o assento no ritmo da música que eu ouvia, quando a vi vindo em minha direção. No mesmo instante, arranquei os fones de ouvido, fingindo tentar ouvir o que meus amigos diziam, mas, na verdade, me preparando para falar com ela caso ela se aproximasse mais.
E ela se aproximou.
— Oi, er... ? — ela perguntou com um timbre ousado na voz. Eu arregalei meus olhos em saber que ela sabia meu nome, mas assenti em confirmação. — Hm... Pediram para avisar que a diretora quer falar com você.
E então ela me deu as costas e marchou para o pátio coberto, indo se infiltrar na rodinha de seguidoras que ela conseguira em menos de um dia.
Há várias lembranças que rondam minha cabeça desde o primeiro dia em que nos vimos. Há três anos, nunca trocamos mais do que algumas poucas palavras. Isso é, em minha opinião, um tanto quanto preocupante. Quero dizer, seria totalmente aceitável eu me encontrar perdidamente apaixonado por se nós, ao menos, conversássemos. Mas o fato é que nós não trocamos frases inteiras desde sempre. Raramente nos cumprimentamos com “ois” ou “tchaus”.
É aí que entra a preocupação dos meus queridos e insubstituíveis amigos.
Eu e estávamos, finalmente, na sala de aula. Esse ano nós conseguimos, graças aos telefonemas de nossas mães, sermos matriculados na mesma classe. Eu não poderia me ver mais grato, é claro. Eu odiaria ter de passar mais um ano separado de algum deles. O ano em que estudei com havia sido ótimo, tal como foi com . Mas nada superava nossa diversão quando estudávamos juntos.
e estavam sentados nas carteiras ao fundo da sala, onde sentávamos habitualmente. Como de costume, a sala estava completamente dividida em todos os seus grupos. Na frente, os nerds. Ao fundo, os desencanados (e nós). No meio, os bagunceiros e líderes de torcida. E, abrindo uma nova direção, estava ela. e suas três amigas sentadas tão coladas ao pequeno palco dos professores que, se não as conhecesse há três anos, diria que estavam ali apenas para admirar o professor de História da Arte.
Eu joguei minha mochila no chão ao lado da minha carteira e, em seguida, caí de bunda no assento, soltando um suspiro cansado e desanimado. Meu olhar buscou rapidamente os cabelos rebeldes e maravilhosos de , mirando-os como se fossem uma das sete maravilhas do mundo.
— Você ainda fica assim por ela, ? — ouvi perguntar, apoiando um queixo na mão e o cotovelo na mesa enquanto seu olhar oscilava de para mim. — Quero dizer, faz três anos... E nada aconteceu.
— Não que eu tenha tentado muita coisa também, não é, ? — indaguei.
Meus amigos se juntaram ao meu redor. procurava manter uma expressão neutra, mas eu sabia que ele observava Kate do mesmo jeito que eu estava observando . e , no entanto, observavam-nas como se fossem alienígenas.
— Elas são só garotas problemáticas, mate. — ele voltou a dizer.
— Eu sei. — suspirei.
Nossa rápida observação foi contida no instante em que o professor de História da Arte adentrou a sala. Fingindo nos importarmos muito com sua explicação da matéria completamente inútil, nos recostamos cada um em sua cadeira e nos entretemos de nossas próprias maneiras. Eu sabia que estaria fazendo rabiscos de qualquer coisa possível de se rabiscar em qualquer coisa possível de se rabiscar. estaria olhando para o teto, o ventilador rodando e o ar tremendo. , por sua vez, estaria roendo as unhas ou cutucando sua própria barriga.
Eu estava fazendo o que de melhor sabia fazer: observar .
Eu sei. Eu pareço um obsessivo quando falo assim. Mas minha visão disso tudo é apenas uma e não mudará até o final dessa narrativa. Por mais que eu pareça – e tenha o perfil de – um stalker, eu não poderia, nem se quisesse, deixar de observar aquela garota. Ela era a criaturazinha mais apaixonante que alguém poderia botar os olhos. Eu não era perito em sentimentos, até porque nunca havia me apaixonado. Mas, se havia algo que eu tivesse aprendido desde que conhecera , era que aquela garota arrancava suspiros por onde passava.
Ao menos comigo era assim.
Eu tinha quase certeza de que ela era, de fato, uma veela.
A forma como seus cabelos se balançava maravilhosamente conforme ela se mexia, o modo como seus fios reluziam à luz da sala de aula... O brilho excepcional que seu olhar adquiria quando ela recebia a notícia que alguma banda que gostava estaria em Londres para um show, ou quando ficava sabendo sobre qualquer outra coisa que a deixasse feliz... O sorriso que ela abrangia nos lábios quando estava animada demais com as amigas... O som de sua risada ecoando pelos meus ouvidos quando alguém contava alguma piada ou quando ela simplesmente tinha vontade de gargalhar... A forma como ela se curvava minimamente sobre a carteira para poder fazer suas anotações no caderno impecavelmente organizado... A mania de enrolar uma madeixa de cabelo no dedo indicador quando se concentrava em algo que estava fazendo... O modo como seu calcanhar se chocava ao chão diversas vezes quando ela estava entediada... O jeito com que arranhava as coxas como se estivesse tocando uma guitarra quando ouvia música...
Tudo... Tudo naquela maldita garota era malditamente perfeito.
Foi por isso que, quando o sinal tocou nos liberando para cinco minutos livres antes de uma próxima aula começar, os caras me prenderam no canto da sala, observando-me com aquele olhar peculiar que, eu sabia, significava que eu deveria correr.
— Vocês estão me assustando... — eu murmurei, arqueando a sobrancelha. Os três trocaram um olhar rápido antes de resolver falar.
— Cara... Você tem um sério problema com a .
— Eu tenho?
— Sim. — responderam em uníssono.
— Não tenho não. — neguei. riu nasalado.
— É claro que você tem. Não consegue arrancar os malditos olhos dela.
Eu fiquei sem resposta, sabendo que aquilo era verdade.
— Tudo bem, o que sugerem para resolver o meu “sério problema”? — perguntei ironicamente. O olhar trocado entre meus melhores amigos voltou a me assustar.
— Temos algo a lhe propor. — começou, sorrindo ladino. — Esse é o seu último ano aqui. Talvez seja a hora de você tentar tomar alguma atitude com .
— O que você sugere, sr. Eu-sou-o-mestre-com-as-mulheres?
— O que eu sugiro? — ele fez uma pausa para trocar olhares com os outros novamente. Deu uma risada macabra antes de continuar — Você vai chamar para jantar na sua casa hoje à noite. — ele disse como se me cumprimentasse.
— Eu vou o que? — ri.
Agora.

Veela¹: São criaturas femininas mágicas no mundo alternativo de Hogwarts. Têm poder de enfeitiçar os homens por meio de uma dança sedutora.

Broccoli


Meus olhos se arregalaram um pouco, mas eu procurei esconder esse fato dos meus amigos. Eles continuavam me olhando com aquela cara de quem está falando sério, de modo a me assustar ainda mais.
Quero dizer, eles não esperavam que eu realmente fosse falar com e a chamasse para sair, não é?
É, eles esperavam.
— Vocês só podem estar brincando. — falei por fim. Cruzei os braços, olhando fixamente para eles, deixando meus lábios brincarem com um sorriso sarcástico. — Ela é ! Ela jamais aceitaria sair com alguém como eu.
— Realmente, jamais aceitaria. No entanto, se você não fizer isso, nunca vai tirá-la da cabeça. — deu de ombros. Eu o olhei incredulamente.
— Você só pode estar brincando. Sério! — falei, rindo sem humor algum. — Nós mal nos falamos!
— É aí que está! — exclamou , apontando para mim com a palma — Vocês mal se falam, mas isso te impediu de se apaixonar? — arqueou a sobrancelha, desafiando-me.
— São situações completamente diferentes, dude! — eu exclamei, indignado. — Eu não posso controlar meu coração sobre quem ele vai escolher se apaixonar! — eu gesticulava enquanto falava, sabendo que, aos olhos dos outros, deveria estar parecendo um louco.
— Você tem noção do quão gay isso soou? — perguntou, torcendo os lábios.
— Dane-se, ! — eu exclamei. — Não importa quão gay tenha soado, é a verdade e você... — apontei acusadoramente para ele — Sabe muito bem disso.
— Eu não sei de nada. — ele falou simplesmente — Nunca me apaixonei. Já você, está aí, todo bobo, como se não existisse nada no mundo além daquela garota!
— Vocês deveriam me apoiar e me ajudar... — eu murmurei.
— Você quer apoio e ajuda melhor? — interveio, olhando-me com seu olhar mais assustador. — Nós estamos aqui, obrigando você a chamá-la para um jantar... E você só reclama!
— Porque vocês estão me obrigando! Eu não posso convidá-la para sair comigo quando uma resposta negativa tem quase cem por cento de chances de acontecer!
... — colocou sua mão sobre minha bochecha, acariciando-a estranhamente. Eu ergui uma sobrancelha, assim como e , o que o fez recuar rapidamente. Ele pigarreou antes de continuar. — Você sabe que nós estamos fazendo isso para o seu bem. Pense: se aceitar sair com você... Você tem uma chance com ela! — ele ergueu a mão fechada no ar como se comemorasse. — Agora, se ela recusar... Então você sabe que tem que esquecê-la.
Eu não tinha saída. Meus amigos estavam certos, apesar de tudo. No entanto, havia algo mais que eu poderia tentar fazer...
— Podemos arrumar um encontro duplo, então. — falei, lançando um olhar significativo para . Ele quase me queimou vivo com a força da mente.
— Nada disso. — ele negou rapidamente, fazendo o máximo para não deixar nada passar notoriamente por e . — Será a sua noite com . Serão só vocês dois. Agora vá chamá-la para jantar na sua casa.
— Tudo bem, tudo bem. — eu respondi, olhando suplicantemente para cada um deles. — Mas não a chamarei agora. No fim da aula, quando ela estiver sozinha e sem as amigas.
— Mas não passa de hoje, . — advertiu. Eu assenti, torcendo para que algo me ajudasse a sair daquela situação.
Por mais que eu quisesse adiar aquilo, eu sabia que não conseguiria. Meus amigos não me deixariam em paz até que eu chamasse para um jantar. A única coisa que se passava pela minha cabeça era o quão estúpido eu pareceria diante de todos quando ela dissesse um “não” na minha cara. Eu confesso que estava esperando pelo pior. Mas, ora, o que você esperaria na minha situação? A garota estuda no meu colégio há três anos e devemos ter nos falado no máximo dez vezes.
Tudo bem, isso é um exagero. Mas mesmo assim, não mudaria o fato de que eu provavelmente tomaria um não no meio do meu orgulho.
Eu ouvi o sinal tocar novamente, e, pela primeira vez na minha vida escolar, agradeci pela aula estar recomeçando. Eu estava me sentindo observado demais pelos caras, e não estava a fim de parecer uma menininha virgem na frente deles. Eu sabia que, quer eu queira, quer não, eles estariam escondidos em algum lugar quando eu fosse falar com . Eu sabia que tomaria um belíssimo sermão se não fizesse o que eles queriam. Eu também sabia que eles estariam ali comigo caso eu precisasse. Eu sabia que, a partir do momento que aquele “não” fosse proferido, eles estariam ali para me abraçar e me consolar. Assim como eu sabia que, se ela dissesse “sim” – claramente, as chances de isso acontecer eram quase nulas -, eles estariam ali para pular no meu ombro, bagunçar meu cabelo e apertar minha bunda gritando “Olha só quem é o garanhão!”.
O professor de literatura era, definitivamente, o meu preferido. Não, eu não cursaria Letras no próximo ano. O que eu tinha em mente era, sem dúvida alguma, uma faculdade mais voltada para exatas. Fórmulas e números não são capazes de confundir. São exatas e diretas, com apenas uma solução. Humanas têm várias respostas, várias saídas e várias conclusões. Isso poderia me assustar mais do que qualquer fórmula matemática. No entanto, o professor de literatura – Marcus era seu nome – era uma ótima pessoa. Carismático e genial, fora ele quem me ajudara com minha decisão universitária. O cara era um romântico assumido, não negava a ninguém todas as loucuras que já havia feito por amor.
Era por isso que, quando a aula terminasse, eu estaria falando com ele.
Eu lancei um olhar para , que apenas riu nasalado e rolou os olhos. Era um maldito, sem dúvidas. Ele sabia muito bem o quanto eu ficaria nervoso em falar com sobre o maldito jantar. Por mais que eu fosse experiente com garotas, eu não era experiente com garotas por quem eu estava completamente apaixonado.
Eu vaguei pela minha mente durante toda a aula. Me perdi, novamente, nos movimentos que fazia. Eu sabia o quão patético era tudo aquilo. Amar uma garota tão intensamente ao ponto de parecer um retardado virgem. Eu sabia que aparentava isso para qualquer um que não me conhecesse. Talvez aparentasse isso até para ela. Eu não sabia como havia chegado àquele ponto. Digo, há três anos, quando a vi, foi inevitável não me sentir hipnotizado. Era “carne nova no pedaço”, como disse . E quando nos falamos a primeira vez, com toda aquela coisa de “a diretora quer te ver”, foi inevitável não ficar meio bobo em ouvir a voz dela sendo proferida diretamente a mim. Mas tudo passou dos limites quando eu comecei a me sentir um bobo com qualquer atitude que ela tomasse, não é? Quero dizer, a garota era uma megera!
Tudo bem, ela não era exatamente uma megera. Digo, sim, ela era. Mas não comigo, exatamente...
era popular. Aquele tipo de garota fresca e nojentinha que vemos em todos os filmes americanos. A que sempre morre primeiro em filmes de terror, porque é burra demais para fazer qualquer coisa fora sexo. Bem, essa era . A fresca nojentinha que morreria primeiro. Ela e suas amigas, Joanna, Lindsay e Kate. As quatro, quando juntas, eram esnobes ao extremo. Na verdade, de qualquer maneira eram esnobes. O que, mais uma vez, reforçava a dúvida em minha mente: fora beleza e algum poder mágico especial, por que eu era apaixonado naquela megera?
Eram o tipo de garotas que, se nada estivesse ao agrado delas, nada aconteceria. Eram as “famosinhas” de todo o colégio. O tipo de garota que você deseja longe, mas, inevitavelmente, sente-se atraído pela beleza exuberante. Era exatamente como eu me sentia. Eu odiava seu jeito abusivo, mas a amava quando era dócil com os outros.
Era uma adaga de dois gumes. Em uma ponta, o meu coração era a mira. Na outra ponta, a minha reputação.
Eu me vi sozinho com o professor quando toda a sala saiu para o pátio. Tomando fôlego e acenando com a cabeça para , e , me dirigi até onde o homem se encontrava e pigarreei, a fim de chamar sua atenção. Ele me olhou curiosamente antes de sorrir amigável.
— Oh, . Você estava um pouco disperso na aula de hoje. — ele disse tranquilamente. Eu dei um sorriso amarelo.
— Me desculpe por isso, Marcus. Eu, hm... — fiz uma pausa, pensando no que, exatamente, eu poderia perguntar a ele. — Eu acho que preciso de uma ajudinha sua.
Ele voltou a olhar para mim, agora mais sério do que nunca. Apontou uma carteira na frente da sala (que seria de Katie ou Joan) e sentou-se na do lado, virando o corpo de frente para mim.
— Pode perguntar. — ele disse paternalmente. Bem, por mais estranho que isso possa ser, Marcus era um ótimo cara para aconselhar. Eu o adorava por isso.
— Bem... — comecei, tentando buscar as palavras em minha mente. — Tem essa garota... Eu gosto dela desde quando entrou no colégio...
. — ele me cortou. Eu o olhei arregalado, perguntando-me como ele sabia disso. Ele pareceu ler minha mente. — Você não é o primeiro que me vem dizer que gosta de uma garota desde que ela entrou no colégio. Dentre todos que me disseram algo assim, noventa e nove por cento se referiam a . — ele explicou. — Estou certo?
— É, está. — confessei desconfortavelmente. — Você deve saber, então, que ela é uma garota muito difícil e esnobe.
— Oh, não, não! — fui cortado novamente. Arqueei a sobrancelha para ele. — não é esnobe. Ela só é fechada. Só se solta realmente quando tem intimidade com a pessoa. Isso pode, sim, aparentar uma atitude esnobe, mas garanto que não é. — ele explicou novamente. — Você deveria tentar conhecê-la melhor, .
— Esse é o problema, Marcus. Digamos que, hm... Meus amigos me obrigaram a chamá-la para jantar comigo essa noite. Mas eu não sei o que fazer ou como fazer. Quero dizer, é óbvio que ela dirá não.
— Como você pode ter tanta certeza que ela dirá não? — Marcus perguntou, arqueando a sobrancelha.
— Bem... Ela é ! Por que ela sairia com ?
— Você quer sair com ela, ?
— Não. Digo, é claro que quero! Mas eu tenho medo de ser recusado. — admiti. — Você poderia... Não sei, talvez... Me dar alguma dica?
— Faça com o coração. — ele disse simplesmente, dando de ombros. Eu o olhei estranhamente, esperando pelo resto da frase. — É só isso. — ele afirmou. — Se quer sair com ela, chame-a com o coração. Mostre que se importe. E se ela recusar... Bem, você só precisa conquistá-la.
— Como eu poderia... cCnquistá-la?
! — ele exclamou, indignado. — Por Deus, você nunca esteve com uma mulher antes? — eu abri a boca para respondê-lo, mas ele interveio. — Eu não quero realmente saber isso. Continuando... Mostre a ela que se importa. Seduza-a, conquiste-a. Mas, acima de tudo, seja você mesmo. Faça isso com o coração e se saíra muitíssimo bem.
Certo. Fazer com o coração. Chamá-la para sair e, se for recusado, conquistá-la com o coração.
Esse cara está ficando louco?

Quando o sinal para a última aula tocou, eu senti todas as minhas vísceras se revirarem. Era inevitável me imaginar em uma espécie maluca de montanha-russa. Eu sabia que agora seria a hora em que eu deixaria de ser um garoto respeitável (canalha, mas respeitável) e passaria a ser o garoto mais idiota e ridicularizado de todo o colégio. Tomei ar para os pulmões, sentindo-os se inflarem devido ao tanto que puxei e, em uma atitude digna, fui até onde se encontrava.
A garota permaneceu em silêncio, guardando seus pertences na sua bolsa enquanto eu apenas a fitava. Minhas mãos estavam escondidas dentro dos bolsos frontais da minha calça, onde meus dedos se entrelaçavam em uma espécie de figa. Ela parecia não me notar ali e, para minha sorte, suas amigas também não pareciam me notar, já que saíam da classe conversando em um volume altíssimo. Eu me balancei para frente e para trás, como se fosse um João-bobo. Olhei novamente ao redor, percebendo, agora, que estávamos os dois sozinhos na classe. Quando pus meu olhar nela novamente, percebi que ela me encarava duvidosamente.
— Sim? — ela perguntou, arqueando as sobrancelhas maravilhosamente delineadas para mim. Eu podia ver o olhar de desdém dela. Engoli em seco, perguntando-me se deveria levar aquilo adiante. — Precisa de alguma coisa, ?
Eu senti algo estranho no meu coração quando meu apelido saiu de forma graciosa por seus lábios.
— Na verdade, sim. — eu disse sem rodeios. Seria melhor se terminasse logo com aquilo, seja com resposta negativa ou positiva. — Eu sei que pode parecer um tanto estranho isso que vou pedir e tudo o mais, até porque, desde quando você entrou no colégio, nós mal trocamos dez falas, e...
, seja direto, por favor. — ela rolou os olhos impacientemente.
— Bem, tá certo. Eu... — eu fiz uma pausa. Tirei minhas mãos dos bolsos, entrelaçando-as nervosamente em frente ao meu corpo. Meus dedões faziam movimentos circulares ao redor do seu correspondente, enquanto eu tentava me concentrar nas palavras que diria a ela. Nada me vinha em mente. — Oh, ... — choraminguei, arrependendo-me ao ver a dúvida voltar aos seus olhos. — Certo. — pigarreei. — Eu queria saber se... Se em jantar casa noite essa comigo quer você.
Eu olhei para ela, esperançoso e patético. Seus olhos demonstravam uma dúvida diferente da de antes. Então eu percebi que não havia dito nada com nada.
— Desculpe, , mas eu não entendi o que disse. Pode repetir? — ela pediu, voltando a guardar suas coisas na bolsa, certa de que, o que quer que eu fosse falar, não era de tanta importância assim. Eu tomei fôlego novamente.
Me sentia completamente patético.
— Eu queria saber se você quer jantar em casa comigo essa noite. — repeti lentamente, apenas para ter certeza de que eu estava dizendo na ordem “entendível” da coisa.
parou de guardar seu material no mesmo instante, erguendo seus olhos – agora assustados – para fitar os meus. Eu parei de rodar os dedões apenas para cravá-los com força na carne de minhas mãos, sentindo minhas entranhas sumirem de todo o meu tronco.
— Bem, eu... Você me pegou realmente desprevenida hoje, . — ela disse, dando um risinho encabulado. Eu suspirei, tomando o cuidado para que ela não percebesse, desapontado. — Mas... Tudo bem, eu quero.
Não existiam palavras para expressar o quão feliz eu fiquei naquela hora. Se eu pudesse, sairia correndo para todo o colégio apenas para revelar a todos que eu conseguira um encontro com . Eu deixei que um sorriso completamente satisfeito tomasse conta dos meus lábios, bagunçando meu cabelo desajeitadamente com a mão. Era ela quem havia me pegado desprevenido. Eu não esperava por essa resposta.
— Você... Sério? — ela assentiu — Bem... Ótimo! — exclamei, dando uma risada estranha, mas contendo-me rapidamente. — Bem... Que tal às sete e meia?
— Está ótimo. — ela sorriu graciosamente, mostrando todas as suas fileiras de dentes perfeitas e completamente esbranquiçadas. — Eu passo lá às sete e meia.

Era incontável o quão feliz eu estava. Eu havia me pego rindo sozinho e bobamente diversas vezes durante toda aquela tarde. Os caras haviam ido até minha casa para ouvir tudo o que eu tinha a dizer e, quando revelei a resposta de , suas expressões foram impagáveis.
Eu quase me senti mal por saber que eles desacreditavam na minha capacidade e chance o tanto quanto eu desacreditava.
Nós bebemos cerveja por um bom tempo naquela tarde, comemorando pelo meu suposto “sucesso”. Eu mal cabia em mim de pura alegria e excitação. , animador como sempre, precisou me lembrar mais de cinco vezes que aquilo não significava que estaria a fim de mim ou interessada em me beijar. É claro que eu não dei bola. O que realmente importava era que ela havia aceitado meu convite e eu nem ao menos precisara conquistá-la com o coração para isso.
Os caras ficaram em minha casa até, aproximadamente, cinco horas. Foi quando uma luz de algum santo muito prestativo baixou em mim, lembrando-me que eu precisava arrumar a casa e fazer alguma coisa para mim e para comermos. O fator “pais” não seria um problema, já que ambos estavam viajando devido a uma reunião de negócios e, inesperadamente, haviam decidido me deixar sozinho em casa, sem “babá” alguma.
Quando me despedi dos caras, corri escada acima, socando toda e qualquer bagunça para debaixo da minha cama. Eu sabia que minha mãe ma mataria quando chegasse e encontrasse aquilo daquela forma, já que eu não tiraria nada de lá quando fosse embora. Duvidosamente, arranquei de meu guarda-roupa uma bermuda bege que batia até o meio de minhas panturrilhas. Obviamente ela chegava até um pouco mais embaixo, já que vivia despencando de minha cintura. Optei por uma pólo azul-marinha, quase preta, para vestir por cima, e o meu inseparável All Star Converse que, estranhamente, não tinha cadarços. Seria facilmente confundido com um sapato se não fosse pelo tecido meio “jeans” que o revestia em uma estampa listrada que variava de cinza e branco ao vinho e azul jeans. Eu não havia me trocado, porque, obviamente, tomaria um banho antes. Apenas deixei tudo sobre a cadeira do computador e desci as escadas para preparar o jantar.
E então eu percebi que estava completamente ferrado.
Eu não sabia cozinhar. Minha primeira – e única – experiência na cozinha havia sido em uma aula de culinária no colégio, na quinta série, onde fomos aprender a fazer pão. O meu pão havia saído tão duro que foi impossível mordê-lo. Para testar o gosto, se dispôs a passar a língua pelo pão, quase morrendo envenenado devido ao acentuado sabor de ovo podre.
Sim. Ovo podre.
Eu senti algo revirar meu estômago violentamente. O relógio marcava seis horas. O que, diabos, eu faria para comermos? Pedir algo a algum restaurante estava completamente fora de cogitação. Eles demorariam, no mínimo, uma hora para aprontar o jantar e meia hora para entregá-lo. Eu poderia comprar algo instantâneo no mercado na esquina de casa, mas... Cadê o divertimento?
Decidi, portanto, que tentaria fazer algo. Abri meu notebook com pressa e, quando a internet foi conectada, digitei rapidamente no Google algo do tipo “pratos rápidos”. O site me mostrou várias receitas, mas todas pareciam ter ingredientes que eu nunca imaginei existirem. Quando estava quase desistindo e indo até o mercadinho comprar algo, encontrei uma receita prática – para quem sabe cozinhar, é claro – e, digamos, rápida. Olhei os ingredientes em casa, dando graças por ter tudo ali.
Pus a mão na massa. Literalmente, já que macarrão é massa.
Enquanto o macarrão fervia em uma panela, eu deixei os brócolis cozinharem em uma separada. Eu estava seguindo fielmente a receita no site, tento um medo imenso de errar algo e deixar aquela comida intragável. Chequei o relógio pelo que parecia ser a décima vez naquele segundo. Era sete e dez. O meu tempo estava, definitivamente, correndo. Procurei pelo melhor vinho de minha mãe na pequena e simples adega que possuíamos, mas foi em vão. Apenas o que vi ali era uma adega completamente vazia. Nem uma gotinha sequer de álcool para molharmos os lábios.
Corri, desesperado, para a porta da frente de casa. Quando coloquei os pés na rua, rumei até o mercadinho da esquina, encontrando Joca parado em frente à prateleira de vinhos. Por sorte ele estava ali.
— Joca, preciso da sua ajuda! — eu exclamei esbaforido enquanto tentava recuperar o ar para meus pulmões — Um vinho barato e bom pra impressionar uma garota. Rápido, Joca! — pedi.
Joca, obviamente, não se chamava Joca. Seu nome, na verdade, era John Charlie. Mas quem, em sã consciência, acha um nome como John Charlie bonito? Ele não achava e, nos tempos de colégio, foi apelidado de Joca. E, entre o feio e o patético, ele preferiu manter o apelido. Um nome curto, prático e não tão ridículo quanto o nome de batismo. Joca era um homem de, no máximo, trinta anos que dirigia o pequeno estabelecimento da esquina da rua, mais conhecido como “Mercado do Joca”. Era um mercadinho de bairro, com coisas simples. Apenas as de necessidade extrema, como carne, vinho, arroz, sabonete e afins. Eu o adorava. Depois de Marcus, ele era a melhor pessoa para se pedir um conselho.
Principalmente sobre vinhos.
— Bom, tem esse aqui... — ele disse, tirando uma garrafa da enorme adega de vinhos do mercadinho e me estendendo — Eu, particularmente, adoro o sabor. Não é seco, pelo contrário. Nos deixa com água na boca e pedindo por mais. — ele sorriu. — Dez libras.
Dez libras. Uma pechincha.
— Obrigado, Joca!
Eu me dirigi ao caixa, pedindo encarecidamente a um senhor com um carrinho enorme para que me deixasse passar na frente. Ele consentiu, já que eu levava apenas uma garrafa de vinho. Eu cheguei à casa a tempo de desligar o fogão sem ter queimado nada. Despejei o macarrão em uma travessa e joguei os brócolis por cima, não antes de guardar a garrafa de vinho no congelador.
Quando tudo estava perfeitamente pronto, subi às pressas para me trocar. Já era sete e trinta e cinco, portanto eu não teria tempo para um banho. Infelizmente, porque eu estava fedendo a cigarro e cerveja. Vesti rapidamente a roupa que havia separado e calcei o All Star, jogando os cabelos para o lado de um jeito despojado. Eu sabia que estava irresistível.
Esperava ansiosamente que soubesse o mesmo quando me visse.
Eu desci novamente as escadas. Não tinha nada bagunçado no andar debaixo e a sala de jantar só precisava ser organizada. Tirei o enfeite da minha mãe de cima e coloquei descansos para pratos, um de frente para o outro. Peguei dois pratos do melhor jogo de jantar de minha mãe e os coloquei virados para baixo, com os talheres ao lado. Estava tudo perfeitamente arrumado e eu sentia um imenso orgulho de tudo aquilo que havia feito.
Eu queria que os caras estivessem aqui para ver o quão sortudo eu estava sendo.
Chequei mais uma vez a hora no meu relógio de pulso, constatando que era pouco mais de sete e cinquenta. logo estaria em minha casa.
Sozinha.
Comigo.
Em um encontro.
Eu não podia aguentar o quão excitado estava com tudo aquilo. Minha felicidade era abundante.
E então meu celular tocou.
Eu ergui minimamente minha bunda do sofá para poder tirar o celular do bolso. Um número que eu não conhecia estava me ligando. Pensei em ignorar, mas podia ser algo importante, e preferi atender.
Maldito erro.
— Alô? — eu disse assim que levei o telefone ao ouvido. — Quem está falando?
— Hm... Oi, , é a .
Eu arqueei uma sobrancelha.
? Como você sabe meu número? — perguntei curioso. Eu não havia lhe passado o número de meu celular quando lhe dei o endereço. — Não está conseguindo encontrar a casa?
— A Kate me passou seu número. — ela murmurou. Eu a ouvi suspirar antes de prosseguir. Meu estômago já se revirava. — Escuta, , aconteceu um imprevisto... Eu não poderei ir.

Bubble Wrap


Eu senti o chão desabar.
— Hm... Por quê? — perguntei. Não sabia se gostaria de ouvi-la responder. — Digo, aconteceu algo sério?
— Não, não... Me desculpa, mas eu realmente não posso ir. Olha, preciso desligar. Nos falamos na escola amanhã, ok?
Eu assenti, murmurando alguma coisa qualquer. Desliguei o telefone quando percebi que o mesmo já estava mudo. Minha expressão se fechara completamente. Eu passei da água para o vinho, tornando-me frio e magoado.
Por que eu esperava que tudo desse certo, mesmo?
Suspirando pesadamente, arrastei-me até a cozinha. Peguei um prato fundo dentro do armário e o enchi de macarrão, decidido a comer sozinho. Antes de voltar para a sala, tirei o vinho da geladeira, abrindo-o sem dificuldade alguma. Eu sentei desajeitadamente, procurando manter o equilíbrio para que nem o prato, nem o vinho caíssem no sofá. Apoiei os dois na mesinha de centro que havia ali e peguei o controle da tevê, ligando-a e zarpeando por seus canais. A única coisa que encontrei para assistir, que não fosse patético demais para alguém na minha situação, foi Harry Potter e o Cálice de Fogo.
Estava na cena em que Rony encontrava-se paralisado por ter convidado Fleur Delacour para o Baile de Inverno aos berros, na frente de todos.
Malditos. Nem Harry Potter me deixaria em paz naquele dia?
Desliguei a TV com raiva. Eu entendia muito bem como Rony se sentia. Ridicularizado, patético. Muitos outros adjetivos do tipo. Tão inútil por ter se importado com uma agora, por ter se sentido atraído por uma garota de uma forma tão ridícula que, sem querer, acabou sendo ridicularizado.
Eu sabia que eu seria ridicularizado quando aparecesse na aula no dia seguinte. Eu sabia que deveria estar em algum pub com suas amiguinhas megeras. Tão megeras quanto ela. Tão veelas quanto ela. Eu também sabia que meu coração estava terrivelmente massacrado naquele instante.
Como não estaria, afinal? Eu havia criado uma ilusão tola durante o dia inteiro de que teria, finalmente, um encontro com a garota por quem eu estava perdidamente apaixonado. E, tão rápido quanto me iludi, fui desiludido. Eu me sentia um babaca.
Assim como Rony deveria estar se sentindo.
Peguei a garrafa de vinho e a entornei, fazendo com que o líquido roxo descesse aos montes por minha garganta. Assim que me vi necessitando de ar e um tempo para recompor a garganta, coloquei a garrafa sobre a mesa e peguei o prato com a macarronada e brócolis. Dei uma garfada.
Era a comida mais deliciosa que eu já havia provado na vida.

Chills In The Evening


Eu estava acabado e maltratado. Eu havia feito aquilo a mim mesmo, afinal. Me embebedado por ter recebido um belo bolo da garota que eu deveria ter um encontro. “Acabado” me definia muito bem. Eu estava fedendo. Vinho, cerveja e cigarro. E brócolis, é claro. Eu estava suado, já que o vinho havia me deixado com um calor desgraçado. Sentia-me completamente indesejado. Inútil. Banal. Eu estava odiando a mim mesmo naquele momento.
Como não poderia, afinal? Estava bêbado, largado no sofá de casa, assistindo Titanic com um cigarro entre os dedos. Eram quase quatro da manhã e eu não havia ido para cama. Eu não poderia faltar à aula no dia seguinte. Teria um trabalho a ser apresentado com os caras. Digam-me: como diabos vou apresentar um trabalho estando bêbado, acabado, ignorado, dispensado, fedido, sonolento e morto? Porque eu, definitivamente, não tomaria um banho naquele dia.
Não mesmo. De jeito nenhum.
Eu deixei o cigarro pender entre meus lábios enquanto eu dava uma nova tragada. Uma tragada forte, sim. Daquelas que chegam a produzir um ardor na garganta e provocam uma forte tosse.
Eu não me importava de verdade.
Peguei meu celular que fora deixado em cima do sofá desde quando havia me ligado. Eu olhava o protetor de tela: uma foto da garota tirada apenas de perfil. Seus cabelos rebeldes estavam jogados para o lado e, nos lábios, um sorriso quase malicioso os desenhava. O olhar era tão perfeitamente inocente que contrastava com o sorriso impuro.
Completamente doentio e masoquista. Doentio por ser um perseguidor desse porte. Carregar fotos no celular, fitá-la como se fosse o último pedaço de carne do universo, desejá-la como se fosse tudo aquilo que eu poderia querer para mim.
Masoquista por saber que, por mais que, para mim, ela fosse perfeita e única, eu não passava de um nadinha de merda para ela.
Sem pensar em qualquer fato explícito – como a hora que o relógio digital do celular gritava para mim -, disquei os números de . Para completar totalmente a situação já precária, eu não percebi quando o número discado foi o de sua casa.
— Alô? — A voz do outro lado, a qual eu conhecia perfeitamente como a de sua mãe, perguntou roucamente. Eu senti meu estômago congelar, imaginando quão zangada aquela mulher ficaria se eu dissesse quem era e porquê estava ligando. E se percebesse o quão bêbado eu estava. — Alô? — Ela repetiu.
Passou em minha cabeça o fator 'fechar o flip' do celular e fingir que nunca disquei aquele número na vida. No entanto, eu me lembrava que a família tinha identificador e, portanto, meu número seria facilmente reconhecido no dia seguinte. O que não adiaria minha morte.
— Er... Eu poderia falar com o ? — Pedi, tentando de maneira vã disfarçar a voz para que ela não me reconhecesse.
— Bem, querido, está, provavelmente, em seu vigésimo sexto sono. — Ela disse com uma voz completamente ácida. Eu engoli em seco. — Ligue amanhã, sim?
— Por favor, senhora . — Pedi, dessa vez, esquecendo de controlar minha voz para torná-la irreconhecível. Eu tinha certeza de que soava um tanto bêbado. — Eu realmente preciso falar com . Você não pode acordá-lo?
? — Ela perguntou. —
? — Sua voz se suavizou imediatamente, se tornando um tanto maternal. — Meu querido, aconteceu alguma coisa?
— Eu só... Preciso falar com o ... Desculpe por ter ligado a essa hora. Não prestei atenção no número e...
— Calma, querido, não precisa se desculpar. Vou chamá-lo. — Ela me cortou rapidamente, parecendo um tanto alarmada. — Tem certeza que está bem?
Eu murmurei em afirmação, sabendo o quanto estava mentindo com aquilo. Ouvi algumas portas sendo abertas, seguida de uma reclamação alta. Instantes depois, um “Vai se foder, caralho” seguido de um “ , levante já a bunda dessa cama e atenda ao maldito telefone. E quando falar comigo dessa maneira novamente, ficará de castigo!” e, no instante seguinte, uma porta se fechando novamente. Eu segurei a risada, sabendo que, se risse, não sairia vivo de modo algum.
— Inferno. — Ouvi reclamar ao telefone. — Quem é a alma amaldiçoada que está me ligando às... — Uma pausa. — Caralho, quem em sã consciência liga para alguém às quatro e quinze da manhã?
— É o ... — Eu murmurei, esperando por uma chuva de ofensas.
— Wow, o garanhão da noite! — Ele exclamou. Eu ergui a sobrancelha, reconhecendo perfeitamente o tom animado e safado do meu melhor amigo. — Como foi aí? Ela acabou de sair, não é? Seu brinquedinho se divertiu muito, seu safadão?
— Ela não veio, . — Eu resmunguei, rolando os olhos quase dolorosamente. Dei mais uma tragada no cigarro enquanto o silêncio de não era preenchido.
— Eu... Não fazia ideia. — Ele riu sem graça, e eu podia apostar que estava quase arrancando os fios de seu cabelo. — O que aconteceu? Por que ela não foi?
— Disse que aconteceu alguma porra de imprevisto. — Repeti suas palavras, acrescentando um maravilhoso adjetivo entre elas. suspirou. — Não me deu outra satisfação. Quando me ligou já eram quase oito da noite. Já estava tudo pronto. — Outra pausa. — , eu cozinhei a porra de um macarrão com brócolis!
— Você? — Ele indagou surpreso — Você cozinhou? Cara, e o veneno? Pretendia matá-la?
— Eu comi a travessa toda de macarrão durante a madrugada. — Eu reclamei em uma voz embargada. — Estava bom pra cacete. Segunda vez que ligo o fogão, sendo que a primeira saiu um fiasco, e a megera não aparece. Quão errado isso pode estar?
— Bem... muito. — Ele disse. Eu preferi não comentar que havia feito uma pergunta retórica. — Então você já sabe que deve desistir dela, não é? — Ele perguntou como se fosse algo óbvio. Eu murmurei, consentindo. — Ela não merece o seu sofrimento, dude.
— Eu me impressiono como nós parecemos duas garotinhas virgens que animam torcidas chorando pelo término do namoro. — Eu confessei, suspirando. — Tenho certeza que parecemos alguma daquelas garotas de Meninas Malvadas, fofocando pelo telefone, ou sei lá.
— Cara... Você assistiu Meninas Malvadas? — Ele perguntou com a entonação incrédula.
— Lindsay Lohan e Amanda Seyfried no mesmo filme. Quer algo mais... Sensacional?
— É verdade... — Ele murmurou em concordância. — , o que você está fazendo acordado?
— Bebendo e fumando. — Respondi prontamente. Então olhei para a TV. — E assistindo Titanic.
— Você é um belo merda. — resmungou. — Faz ideia do trabalho que temos que apresentar amanhã?
— Sei. — Resmunguei, arrastando a palavra. — E o que tem?
— Nós precisamos de um dez! — Ele exclamou. — Você não vai nos dar um dez se aparecer bêbado ou de ressaca, fedendo, com sono e morto!
Bem, não teríamos um dez, então...
— Eu vou estar lá amanhã, ... — Murmurei. — Espere e verá.

Eram dez e meia quando acordei.
Acordei, é claro, com o celular tocando irritantemente. Minha primeira reação foi jogá-lo contra a televisão. O feito não foi muito bem pensado, já que, quando percebi o que fiz, levantei-me rapidamente para olhar se havia estragado algum dos dois objetos. Constatando que nada estava ferido, voltei a olhar para o visor do celular, que agora apitava “11 chamadas perdidas”. Entortei os lábios desgostosamente, clicando em visualizar para descobrir que era o inferno humanizado que estava me telefonando.
Meu coração parou, meu queixo caiu e minha alma saiu pela minha boca.
Eu estava completamente morto. Eu sabia que estava, porque eu podia sentir isso. Havia algumas suposições sobre quem podia me matar naquele instante.
Suposição um: meu querido e inseparável melhor amigo, . Aquele que havia perdido uma boa meia hora no telefone para me ouvir falar, e perdido outra meia hora para me lembrar sobre a importância de não perder a aula no dia seguinte.
Suposição dois: meu outro querido e inseparável melhor amigo, . Ele não me cedeu horas de sono no telefone para ouvir minha dor de cotovelo, mas eu sabia que me mataria por perder um compromisso importante.
Suposição três: meu novamente querido e inseparável melhor amigo, . Esse, por mais calmo e tranquilo que fosse, possuía o maior número de chamadas perdidas. Eu sabia que ele não estava mais tão calmo e tranquilo assim.
Suposição quatro: essa não me ligou, mas eu sabia que estaria arqueando as monocelhas de um jeito assustador enquanto rabiscava uma nota baixíssima em um caderninho de professores.
Suposição cinco: eu mesmo, por ter furado com um compromisso importante.
Respirei fundo antes de apertar send e completar a rediscagem até o celular de que, eu sabia, seria o mais calmo deles. O número chamou, chamou, chamou e caiu na caixa postal. Eu me senti um tanto desesperado, já que precisaria tentar os outros números.
me atendeu. Eu ainda não tinha decidido se isso era azar ou sorte.
— Onde diabos você se meteu, seu... — Eu afastei o celular do ouvido, cutucando-o para poder voltar a ouvir. — , caralho, aquele trabalho era importante!
— Eu sei, me desculpe. — Pedi, sabendo que não seria desculpado. — O que o Trevor falou?
— Tiramos seis, ! — Ele exclamou. — Seis! SE-IS!
— Tudo bem, , eu entendi da primeira vez. — Resmunguei.
— Você deveria saber que esse trabalho era importante para nossa nota. Inferno. — Ele resmungou. Eu pensei em falar algo, mas logo o telefone chiou estranhamente.
— Finalmente você deu sinal de vida, não é, ? — A voz de me invadiu. Eu gelei. Ele não estava nada calmo e tranquilo. — A noite foi boa? Foi? Foi melhor do que tirar uma nota boa e se livrar de uma recuperação?
Eu pude ouvir berrar ao fundo algo como “A noite não aconteceu, seu idiota”.
Eu tentei reprimir uma risada, mas eu percebi que não havia risada alguma para ser reprimida.
, traga a sua bunda peluda pra cá agora e tente falar com Trevor. — pediu. Mas eu tenho certeza que vocês conhecem bem o tipo “pediu-mandou” que alguém furioso “pede” algo. — Pelo amor de Deus.
— Tá bem, tá bem. — Eu balbuciei, enquanto corria atrás de uma bermuda limpa e sem estar fedendo para vestir — Em quinze minutos eu estou aí.
Desliguei o celular e o deixei em cima da mesa, enquanto continuava minha busca pela bermuda. Quando me lembrei que todas estariam, provavelmente, embaixo da cama, optei por usar a que estava no corpo, mesmo. Peguei o maço de cigarros parcialmente vazio que estava sobre a mesa de centro da sala de TV e meu celular, rumando rapidamente para o lado de fora de casa.
O colégio não era tão longe. Eu cheguei em pouco menos de dez minutos. Não por ser perto de casa, mas por ter conseguido uma carona com uma mulher que buzinou para mim. Não me perguntem quem era, porque eu nunca soube. Ela simplesmente decidiu dar uma carona rápida a um adolescente gostoso que viu na rua, e assim o fez. Ouviu atentamente enquanto eu explicava a ela minha dor de cotovelo em um monólogo cansativo e, por incrível que pareça, resolveu me dar algumas dicas. Eu estava farto de dicas, então simplesmente concordava com ela sem ao menos entender o que ela dizia. Acho que ela percebeu minha desfeita, mas não falou nada. Quando saltei do carro na porta do colégio, agradeci a ela com um aceno de cabeça e rumei para dentro do lugar.
Eu sabia que alguma coisa estaria errada ali, mas algo me dizia para não me preocupar muito.
Eu encontrei e rapidamente. não estava por perto. Talvez estivesse conversando com Kate ou alguma coisa parecida, já que isso era um fator necessário para conseguir algo com a megera número dois. correu até mim com os olhos quase saltando das órbitas, tamanha era a sua raiva por ter tirado um seis no trabalho. Eu estiquei as mãos frente ao corpo como quem diz “pare” e, inesperadamente, ele parou.
— Cara, você não faz ideia da bagunça que está isso aqui. — Ele disse, arregalando os olhos em surpresa. — Sério, você tem coragem de aparecer por aqui.
— O quê? O que aconteceu? — Eu perguntei. — Pensei que eu estava sendo obrigado — frisei, olhando para que se aproximava — a vir aqui e falar com Trevor.
— Oh, sim, você foi. — disse, dando de ombros. — Mas isso não tira o fato de que é, realmente, muita coragem sua aparecer por aqui.
— Não teria motivos para eu não ter coragem sem saber exatamente o que está acontecendo, não acham?
Eu fiquei em silêncio por um instante. Meus olhos se perderam em duas garotas atrás de e que, descaradamente, olhavam para mim e cochichavam, seguido de risos e mais risos. Eu suspirei profundamente, fechando os olhos com força, tentando buscar minha paciência interior. Vendo que não seria possível, optei por encarar meus dois amigos.
— Ela andou dizendo alguma coisa, não foi?
Meus amigos se entreolharam, atitude que só piorou meu nervosismo.
Ela não disse nada. Mas comentou com Kate, Joanna e Lindsay. — deu de ombros. — Você conhece a Lindsay, não?
— Merda. — Eu sussurrei entre dentes.

Corrupted


Balbuciando alguma coisa que nem eu mesmo entendi, rumei rapidamente até a sala de aula. Quando apareci na porta da mesma, algumas pessoas que notaram minha atenção pararam imediatamente com os cochichos, enquanto outras apenas o intensificaram. Eu olhei para cada rosto conhecido, não encontrando quem eu procurava. Meus olhos logo encontraram os de , que se apoiava na carteira onde Kate estava sentada. Eles pareciam estar em uma conversa muito boa até eu ter interrompido com minha chegada triunfal. Os dois me olhavam como se pudessem ter medo do que eu fosse fazer.
Mate! — exclamou em uma falsa empolgação, andando até mim e pondo uma mão no meu ombro. — Você chegou! Temos que ir falar com Trevor, que tal?
— Que tal você me dizer onde está , ? — Rosnei a ele, que se encolheu imediatamente. Ele olhou para mim parecendo estar amedrontado, e logo seus olhos se focaram em alguém atrás de mim. Eu sorri debochadamente enquanto me virava, dando de cara com e Lindsay. Ambas me observavam surpresas, como se não esperassem me encontrar ali por muito tempo. Eu alternei meu olhar entre as duas, parando, por fim, em . — Olá, ! — Sorri falsamente.
, você... Você tá aqui, não é? — Ela riu desconsertada, olhando de soslaio para Lindsay, que retribuiu o olhar. — Olha, que tal a gente ir ali e... Conversar?
Eu assenti prontamente, lançando um olhar ameaçador para Lindsay. Eu sempre soube que as amigas de não eram flores dignas de se cheirar, mas nunca pensei que pudessem sair pelo colégio espalhando coisas que diziam respeito à própria amiga também. Eu senti segurar meu antebraço e me puxar para um canto do bloco do nosso ano, onde estava parcialmente vazio. As pessoas ainda pareciam dispersas pelos cantos da escola, o que nos dava um tanto de privacidade em conversar ali. Eu apoiei um ombro na parede, ficando de frente para enquanto a olhava. Eu sabia que ela estava se sentindo intimidada com meu olhar ameaçador.
— Eu não acredito que você já espalhou para as pessoas sobre o bolo que deu em . — Eu exclamei revoltado. se encolheu, assustada, mantendo o olhar baixo. — Você deve estar achando engraçado, não é? Ver alguém como eu me arrastando por você, ou sei lá o que você pensa que enxerga.
— Não, , eu não...
— Quero dizer, eu não me importaria se você tivesse respondido “não” ao invés de me esperançar e desistir depois!
— Me desculpe por ontem... — Ela disse depois de alguns minutos de silêncio — Aconteceu um imprevisto com um amigo e eu precisei ajudá-lo.
— Por que eu deveria acreditar, ? Porque você é a sempre certinha megera? — Ironizei, rolando os olhos. — Teria sido mais fácil se sua amiguinha não tivesse aberto o biquinho para o colégio todo sobre o encontro que nós, supostamente, deveríamos ter para acrescentar mais algumas coisas que ao menos aconteceram!
— Quem? A Lindsay? — Ela perguntou parecendo chocada. Eu assenti, arqueando uma sobrancelha. — Eu não acredito que ela contou algo, ... Você deve estar confundindo. E eu também não contei!
— Não. Ela contou. Ouvi isso do próprio . E não tente livrar a sua pele disso.
— Eu vou falar com ela... Ela não pode ter feito isso. E não vou te forçar a acreditar em mim. Eu estou farta de tentar fazer os outros me enxergarem como realmente devo ser vista. — Ela colocou as mãos na cintura como se tentasse controlar a raiva. Eu sabia que essa era mais uma de suas manias.
— Talvez você devesse se preocupar em saber em quem confiar, antes. — Resmunguei. olhou fundo em meus olhos, como se pudesse enxergar algo que minha alma estivesse escondendo. — Quem você precisou ajudar, ontem?
— Um amigo.
— Que amigo, ? Qual o motivo? Você não poderia ter ligado alguns minutos antes de tudo estar pronto?
— Eu não lhe devo satisfações, . Até onde me lembro, era suposto para termos um encontro. Isso não significa que temos algo. — Ela se exaltou, levando as mãos aos cabelos e fechando os olhos por um momento; ela tentava se controlar. — Olha, eu não estou afim de discutir com você. Sei que está zangado pela minha mancada, mas eu não posso voltar no tempo.
— Você deveria ter me avisado.
— Eu avisei, . — ela rolou os olhos. — Eu te liguei, lembra?
— Deveria ter me avisado antes. — Insisti. Eu sabia que parecia um bebê chorão.
— Tanto faz. Eu estava pronta para ir até sua casa quando esse amigo me telefonou pedindo ajuda.
— O que ele queria? — Insisti novamente.
rolou os olhos, suspirando pesadamente para manter a calma. Quando abriu a boca para falar, entretanto, não foi para responder minha pergunta:
— Que cheiro péssimo é esse?
Eu gelei.
— Eu, er... Olha, tudo certo se não quer me dar justificativas. Nós não temos nada, como você mesma disse. — Mudei de assunto rapidamente, enquanto dava passos para trás e levava o cheiro de gambá para longe dela. — Vou falar com o Trevor, preciso arrumar a nota. Até depois, .
E me mandei de lá.

Down By The Lake


O final de semana havia, finalmente, chegado. Meus pais já estavam em casa. Eu não sabia responder se aquilo era algo bom ou ruim. É claro que adorava tê-los por perto, no entanto eram sempre as mesmas trocas de palavras, ou farpas. Minha mãe havia descoberto meu entulho embaixo da cama e decidira que, se eu quisesse morar sozinho ao completar dezoito anos (ou ter roupas para usar a partir de agora), deveria organizar e lavar minhas próprias roupas. É claro que eu protestei e tentei fazer um acordo.
Pelo menos as roupas limpas eu já tinha garantido. Só precisava de mais um pouco de suborno para a organização.
Ter falado com Trevor foi algo muito difícil, sim. Trevor não era o professor que me considerava alguém responsável. Pelo contrário, aquele homem me expulsaria da cidade se isso coubesse a ele. No entanto, depois de muito bate-papo e uma nova chance de apresentar o trabalho, conseguimos convencê-lo a nos dar um nove. Não era o dez de que precisávamos, mas, pelo menos, seria de melhor ajuda do que o seis que os caras haviam conseguido sem mim. É claro que ainda estava completamente zangado comigo e ainda me olhava macabramente, o que sustentava o medo dentro de mim, mas parecia ter perdoado minha querida (e traiçoeira) mente.
Como era costume, todas as sextas-feiras à noite eram programadas por alguns alunos para uma espécie de “reunião macabra” na praça de Londres. Não me perguntem o que eles faziam naquele lugar, porque eu nunca havia ido a uma única reunião sequer. já, pelo que me lembro, três vezes na companhia de . , no entanto, sempre preferira ficar em minha casa jogando videogame. Somos o que as pessoas chamam de... Caseiros.
Hoje, no entanto, algo em mim me dizia para comparecer àquela reunião. Como todas as sextas-feiras, me convidou novamente para participar daquele encontro. Aceitando minha intuição, e não encontrando nada que tivesse a perder indo até lá, aceitei. Já que , zangado demais para olhar na minha cara, não apareceria em minha casa, eu poderia me divertir com e na praça. A única explicação que tive sobre o que acontecia lá, quando perguntei a , era que rolava muita bebida.
Bebendo bem, que mal tem?
Era aproximadamente cinco da tarde quando buzinou em frente à minha casa. Eu ainda estava apenas de bermuda jeans de lavagem escura, com os cabelos pingando loucamente contra minhas costas e meu tórax, e uma embalagem de desodorante na mão. Eu gritei para minha mãe abrir a porta e deixar subir enquanto banhava-me com o desodorante e, em seguida, o deixava em cima da pia. Voltei ao meu quarto, procurando alguma blusa decente e limpa perdida naquela bagunça.
— Cara, você ainda tá assim? — perguntou quando apareceu à porta. Eu o olhei pelo canto do olho, voltando logo a atenção para o monte de roupas jogados em um canto do quarto. — Você tem certeza que é seguro mexer aí? Pode sair, sei lá... Um basilisco.
— Eu não tenho nada na gaveta. — expliquei. murmurou alguma coisa inaudível e eu permaneci caçando naquele monte. Depois de algum tempo, encontrei uma camiseta vermelha que tinha a costura do avesso. Obviamente, a impressão que todos tinham ao me ver usando aquilo, era que havia vestido a blusa ao contrário quando, na verdade, ela estava correta. — O que acha? — perguntei assim que a vesti.
— Está do avesso, retardado. — apontou, olhando-me como se fosse realmente um retardado. Eu sorri ironicamente, enquanto mostrava a costura correta do outro lado. — Ah. Pegadinha do malandro isso, huh?
Eu ri, balançando a cabeça negativamente. Calcei meu All Star preto e coloquei a carteira e o celular no bolso traseiro da bermuda.
— Vamos? — perguntei. Meu amigo assentiu e, assim, saímos do quarto, rumo ao carro dele. — Tem certeza que aquela “reunião macabra” não é macabra? — perguntei.
— Absoluta. Você tem medo de coisas macabras agora, ? — ele arqueou a sobrancelha, olhando rapidamente para mim.
— Não. Mas as pessoas daquele colégio me botam medo. — dei de ombros. — Por que esse nome?
— Porque eles se reúnem para contar história de terror. — ele disse como se fosse óbvio. Eu assenti. — E, como tudo acontece de noite com a maioria dos presentes bêbados, o negócio ganha um clima mais... Cristal Lake.
— Tudo isso só por causa daquele laguinho bobo? — perguntei — Quero dizer, é óbvio que o lago é artificial. Jason não vai aparecer de repente.
— Por que você está tentando entender aqueles otários, ?
Eu dei de ombros, deixando o carro em silêncio. Incomodado com tal fato, ousei ligar o rádio, deparando-me com uma música do Green Day. e eu nos entreolhamos, rindo com a lembrança que tínhamos da música “Geek Stink Breath”. Como ainda eram cinco da tarde e a reunião começava apenas às sete, nós resolvemos passar em um posto para reabastecer nosso bolso (e porta-malas) de cigarros e cervejas. Assim que ficamos satisfeitos com o número de latinhas, garrafas de cerveja e maços de cigarros, pagamos ao homem e rumamos para a casa de , onde faríamos uma sessão videogame até ficarmos a fim de seguir para a praça.
Chegando lá, atendeu a porta com o maior sorriso abrangendo seu rosto. Eu e nos entreolhamos, confidenciando uma risada em meio à troca de olhares. O dono da casa vestia apenas uma calça jeans larga e chinelos de dedo branco. O cinto estava aberto, mas, graças a deus, o zíper e o botão de sua calça estavam fechados. Ele possuía uma latinha de cerveja em mão e um cigarro na outra.
— Finalmente! — exclamou , dando um passo para o lado para que pudéssemos entrar. — Pensei que fossem demorar mais alguns anos.
— Você já bebeu quantas, ? — perguntei. Lancei um olhar malandro a ele, que me correspondeu com um sorriso sacana. — Você é um puta de um merda bêbado. — ri.
— Como eu disse, vocês demoraram. — ele deu de ombros. — Eu separei Resident Evil para jogarmos.
— Você realmente acha que vai exterminar algum zumbi nesse estado? — jogou-se no sofá, esticando as pernas sobre a mesa de centro — Pegue uma cerveja pra gente, .
— Ei, eu sou fenomenal nesse maldito jogo! — disse indignado. — Vocês dois não são páreo para mim nem se eu estivesse em coma!
— Eu não teria tanta certeza disso se fosse você. — dei de ombros, enquanto ia até a cozinha e tirava duas latinhas do freezer. — Sabe, , eu e temos praticado bastante enquanto você e se esbaldam nessa... Reunião macabra.
— Você diz isso porque nunca foi àquele lugar. — ele retrucou, dando uma golada na latinha – que eu podia apostar que já estava vazia há algum tempo. Voltei para a sala e arremessei uma latinha ao , sentando-me no sofá de dois lugares espaçosamente. — Se fosse, não reclamaria. Iria até gostar.
— Veremos isso hoje.

Passamos um bom tempo massacrando zumbis. Como previsto, não fez nada fora destroçar a si mesmo. Estava tão louco – às cinco e meia da tarde – que apagou no sofá que dividia com , roncando tão alto que chegou a nos assustar. Quero dizer, uma coisa é matar zumbis. Uma coisa totalmente diferente é matar zumbis com um ronco no teu ouvido vindo do nada. Eu e nos assustamos e acabamos por desconcentrar-nos do jogo na fase mais complicada. O resultado não poderia ter sido outro, senão nossa própria aniquilação.
Mas tudo bem. Teríamos muitas oportunidades de salvar o mundo da ameaça zumbi.
Só paramos de jogar quando percebemos o relógio marcar sete e meia. É claro que não nos preocupamos, já que não seríamos os primeiros a chegar. Acordamos com uma sacolejada brusca, já que o garoto realmente parecia estar em coma. Seu susto fora tão grande que, ao abrir os olhos e se deparar com a escuridão da sala, um grito fino saiu por seus lábios enquanto ele se virava no sofá. O problema era que ele se virou para o lado errado e acabou caindo de cara no chão.
Eu nunca passei tão mal por rir.
— Vocês são uns bostas, mesmo. — ele resmungou enquanto tentava se levantar. Apalpou a própria bunda, como se checasse se estava tudo bem. — Rir da desgraça alheia é um pecado, sabia?
— Ficar bêbado também é um. — murmurou entre risos. — De qualquer jeito, o que tem para botar pra dentro, ?
— Rosca. Minha mãe comprou hoje de manhã. — ele deu de ombros. — Estão afim?
— Claro.
Nós o seguimos até a cozinha, onde ele tirou uma rosca de dentro da dispensa e colocou sobre a mesa. Devoramos aquilo em tempo recorde, nos aprontando logo para ir para a praça.
... — chamou quando já estávamos no carro. — Acho que tua camiseta está do avesso.

O cigarro voltava a brincar entre meus dedos. Depois de passar pela boca de e , eu pude tragá-lo novamente. Os dois, preguiçosos demais para acender seu próprio cigarro, estavam se fartando do meu mais do que eu mesmo. De qualquer maneira, aquilo não era algo pelo qual eu me importava. Eu não era tão enjoado assim para ter nojo de dividir o cigarro com meus melhores amigos.
Eu não me lembrava muito bem quantas cervejas já havia entornado para dentro do estômago. Só sabia que havia três tipos de bebidas por ali: vodka, trazida pela Cooper – uma garota muito, mas muito gostosa -, tequila, trazida por Scott, o capitão do time de basquete do colégio – e odiado por mim e meu grupo de amigos – e nossas cervejas.
É claro que as cervejas estavam quase intocadas diante àquelas duas outras preciosidades.
Eu e meus amigos, no entanto, não nos importávamos em nos focar na Heineken que havíamos levado. Havia, ao que eu me lembrava, quatro engradados de doze latinhas ainda intocadas, e três de garrafas daquelas menores. É claro que, provavelmente, não tomaríamos tudo aquilo sozinhos; a não ser que quiséssemos entrar em coma alcoólico.
Havia mais uma coisa que me incomodava ali. A praça, na verdade, não era uma praça. Os alunos delinquentes que descobriram aquele lugar haviam o nomeado como praça, apenas para terem uma espécie de “codinome”. O lugar se parecia mais com uma espécie de fazenda abandonada, ou alguma coisa desse tipo. O fato é que o lugar era rodeado por árvores, grama, mato, e mais de cada coisa citada. O que não era de se surpreender, afinal. Eu não conseguiria entender como jovens bagunceiros como os daquele colégio conseguiam farrear em uma praça pública, violando leis do tipo “não beba e não fume se for menor de idade” e praticando o atentado ao pudor tão abertamente sem que nenhum policial aparecesse para dar um belo sermão. Ou multa.
Eu podia entender muito bem por quê o encontro fora nomeado como “Reunião macabra”. Não haveria nome melhor para descrever o que aquele lugar representava: uma série de pontos macabros e assustadores. Afinal, era uma fazenda abandonada!
A fazenda, no entanto, não era de toda assustadora. O casarão abandonado – e, eu aposto, assombrado – ficava apenas como a fachada do lugar. Ninguém em sã consciência se atrevia a entrar naquela casa. O que não era um problema, já que todos ali tinham tudo, menos uma consciência sã. A chapa esquentava quando os pés contornavam a casa e se posicionavam aos fundos dela.
Havia um imenso – quando eu digo imenso, acredite... é imenso – espaço vazio. Não completamente vazio, se é que me entendem. Por ser ermo por tanto tempo – se não me engano, três ou quatro anos -, o lugar deixou a desejar quanto aos cuidados plantios. Aquilo estava parecendo um matagal. As gramíneas, de tão grandes, chegavam a bater no meio das panturrilhas em determinados locais por onde se andava. Haviam feito uma pequena fogueira em uma parte desgastada, onde havia apenas terra, e, em volta, as gramíneas estavam curtas devido ao fato de que todos as pisoteavam naquele espaço. Em alguns pontos – vários – várias árvores velhas e grandes, de troncos realmente grossos, enfeitavam o espaço livre que restava. No chão que rodeava tais árvores, era comum encontrar casais em um amasso maior do que aquele que seria “aconselhável”.
E, é claro, o lago.
Aos fundos, por trás de toda a fumaça da fogueira e das árvores antigas, havia um pequeno, porém bonito, lago. Não era muito visível àquela hora da noite, ainda mais por estar completamente desabitado. No entanto, o brilho das águas me chamou a atenção, mas eu ainda não havia ido até lá. Não, não sou covarde, não tenho medo de escuro. Apenas... Achei desnecessário. Eu conseguia enxergar o lago, já que não estava tão bêbado ao ponto de não vê-lo. O que me livrava de precisar ir até ao longe para apreciá-lo.
Fui cutucado no ombro, despertado de meus devaneios.
— Ela está aqui. — ouvi dizer.
Meu amigo não estava bêbado. Após a soneca no fim da tarde e o tombo épico, não havia botado uma gota de álcool – Ok, duas latinhas de cerveja ele colocou – para dentro da boca. No entanto, pela escassez de álcool no sangue, ele se abastecia da nicotina. A minha nicotina, para variar.
Mas então eu parei para ligar o que ele me dizia. E então eu percebi quem era a “ela” que estava aqui.
Usando um vestido de tecido aparentemente leve num tom verde clarinho, quase desbotado, segurado no corpo por apenas um par de alças muitíssimo finas que se cruzavam nas costas, estava . O vestido lhe marcava os seios, já que sua costura se fazia logo abaixo deles, fazendo-o ter um aspecto de “bata” se não fosse pelo comprimento até o meio das coxas. Dos seios para baixo, o vestido caía solto e, se ela desse um giro rápido no lugar, ele se elevaria em um círculo perfeito. Não era vulgar, muito menos extravagante, como o que eram todos acostumados a ver. Eu nunca a vi vestindo algo fora as roupas que entravam no contexto das normas do colégio, já que nunca saíra com ela ou a vira na rua antes. No entanto, as más línguas sempre comentavam de suas roupas excêntricas. Ela estava simples. Bela, como se fosse angélica. Eu quase poderia ver sua auréola, tamanha era a simplicidade e inocência que ela aparentava em trajar aquele vestido. Seus pés abrigavam apenas uma rasteirinha de couro bege, quase branco, o que, novamente, reforçava o quão inocente ela aparentava.
Seus cabelos, geralmente soltos e rebeldes, estavam presos pela metade. Os fios de suas orelhas para cima se puxavam para trás, formando um nó mal feito e que ameaçava cair a qualquer instante. A parte de baixo estava solta, e dançava por seus ombros quando ela se mexia mais do que deveria. Apesar de toda a escuridão do lugar – exceto pelas chamas iluminadas da fogueira -, eu conseguia enxergar o pequeno delineador preto em suas pálpebras e o brilho labial quase inexistente em seus lábios. Uma gargantilha de prata, constituída por uma estrela de seis pontas como pingente, dançava em seu pescoço magro e completamente convidativo.
Ela estava perfeita. Mas, aos meus olhos, ela se tornava um espelho dos anjos.
Pena que, apesar da imagem angelical, um demônio habitava seu ser.
— Você consegue acreditar em quão linda ela está? — comentou, comendo-a com os olhos. Eu o olhei de modo repreensivo. — O quê? Ela está, mesmo, cara.
— Tanto faz. — dei de ombros, voltando a beber minha cerveja. Após engolir o líquido, emendei: — Eu não acho que seja apenas você quem a está comendo com os olhos por aqui. — e apontei para , que parecia completamente abobado com a imagem da garota à sua frente, tal como Scott e os outros rapazes daquele lugar.
— Essa garota é um perigo para a sanidade masculina. — ele comentou, eu assenti. — É perigoso ser assim, tão bela.
— É... — eu deixei o que quer que fosse dizer no ar quando a vi se aproximando de mim. Ela andava a passos normais que, aos meus olhos, pareciam slow motion. Eu me sentia patético observando-a daquela maneira tão descarada – comendo-a com os olhos, assim como os outros garotos, eu odiava admitir – e quase babando pela sua imagem tão perfeita. Quando ela pôs-se defronte a mim, pigarreou, dando alguma desculpa qualquer para sair dali, não sem antes comê-la com os olhos uma última vez.
— Oi, . — ela disse casualmente, alargando um sorriso tímido tão maravilhoso que, se eu não estivesse me considerando levemente alcoolizado, certamente não teria desculpas para o balançar de minhas pernas. — Não sabia que costumava frequentar a fazenda. Nunca o vi por aqui.
— Eu não costumo. — respondi com a voz rouca. Pigarreei, dando mais um gole em minha cerveja. — É a primeira vez que venho.
Ela arqueou a sobrancelha rapidamente, pressionando os lábios um contra o outro. Eu repeti seu gesto, no entanto, tinha certeza de que ficara muito melhor nela.
— Olha, sobre hoje cedo... — ela começou, olhando para baixo momentaneamente e voltando o olhar para mim logo em seguida. — Lind não falou nada a ninguém... Ela me jurou.
— Bem, se não foi ela, só pode ter sido uma pessoa, . — eu pressionei os lábios novamente, mas, dessa vez, de uma maneira muito mais irônica.
— Por que desconfia tanto assim de mim? — ela me olhou quase suplicadamente. Foi a minha vez de arquear a sobrancelha.
— Não é como se eu tivesse muitos exemplos de boas atitudes suas para me basear, não é?
Ela ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Eu coloquei uma mão no bolso. Só então me lembrei do cigarro aceso entre meus dedos.
— Merda! — exclamei, retirando a mão dali rapidamente e, num ato mecânico, derrubando o cigarro no chão. — Merda! — repeti frustrado.
— Não queimou... — murmurou, observando o bolso da bermuda enquanto eu batia a mão para tentar tirar qualquer faísca. — , não está queimado.
— Sei que não queimou, eu estou vendo, ok? Mas me machucou. — enalteci ignorante. arqueou a sobrancelha.
— Eu... Falo com você depois, ok?
Eu não respondi. me olhou mais uma vez por cima dos ombros enquanto se afastava, e eu apenas continuei batendo em meu bolso igual um retardado.

— Não tem nada lá dentro. — deu de ombros ao que saía do casarão, dando de cara com uma multidão de pessoas olhando, apreensivos, para ele. — Por que estão todos me olhando assim, cara?
— Bem, é que você é a primeira pessoa “não-bêbada” a entrar nisso aí e sair com a sanidade intacta. — Danna Cooper, a gostosa da vodka, explicou. — Como você teve coragem?
— Ora, vocês não acreditavam que isso seria assombrado realmente, ou acreditavam? — ele perguntou com óbvia indignação. — Digo, é só uma casa abandonada.
— Bom, ninguém nunca entrou aí para saber mesmo. — Danna retrucou. — Corre o boato de que houve um assassinato terrível aí.
— Eu entrei. — ele sorriu vitoriosamente — E não vi nada demais. — deu de ombros, dando as costas à garota.
, em um momento estou-sem-ter-o-que-fazer, decidiu que seria legal dar uma de aventureiro. Juntando todo sua indiferença e cinismo sobre o que as pessoas diziam sobre aquela casa, adentrou a mesma como se estivesse entrando em sua própria residência. A princípio, os únicos que viram aquilo haviam sido eu e que, depois de uma sessão de amassos com Sarah, decidiu que seria legal se juntar aos amigos. À medida que demorava dentro daquela residência e eu e aparentávamos mais “babaquismo” ao olhar fixamente para a abertura da casa, as pessoas foram se aglomerando, buscando informações que poderiam, ou não, dar uma animada na noite.
E foi assim que quase todos os participantes daquela Reunião macabra se juntaram nas portas dos fundos da casa para observar surgir de lá de dentro como se nunca estivera mais entediado.
— O que tinha lá dentro? — perguntou, bêbado demais para entender que não havia nenhum tipo de poltergeist querendo revolucionar o mundo à favor dos espíritos.
— Chão rangendo, poeira, cortinas rasgadas e mofo. — ele deu de ombros. — Nada que nunca tenhamos visto antes. Principalmente na casa de , quando seus pais viajam.
— Obrigado pela parte que me toca. — revirei os olhos.
— Eu nem comecei a tocar ainda, meu amor.
Eu preferi ignorar o comentário infantil e prepotente com mais um revirar de olhos. Entornei minha nova latinha de cerveja apenas para descobrir que ela não continha mais nenhuma gota de álcool. Decidi, portanto, buscar mais uma.
— Vou pegar cerveja. — falei, enquanto já me virava e punha-me a caminhar para onde os isopores estavam — Volto já.
No caminho, levei a mão ao bolso traseiro, tirando meu maço de cigarros que, incrivelmente, não havia acabado. Tudo bem aquele ser o segundo maço em... Duas horas? De qualquer maneira, ele ainda tinha, no mínimo, cinco fumos. Bati com o maço na palma da mão para que um dos cigarros caísse e, assim feito, o levei a boca. Acendi rapidamente e guardei o isqueiro na carteira de cigarros, guardando este em meu bolso novamente.
Assim que tinha minha latinha em mãos, caminhei de volta para o lado de meus amigos. No entanto, antes que pudesse chegar até eles, uma movimentação estranha perto do lago me chamou a atenção.
Ok. Vamos deixar uma coisa muito bem esclarecida aqui: eu não sou um garoto curioso, ninfomaníaco, nem nada assim. Por mais que aquela movimentação me lembrasse muito bem dois corpos juntos, ainda estava em um ângulo estranho demais para confirmar tal pensamento. Foi por isso que, notando que aquela movimentação se tornava realmente estranha, desviei meu caminho para perto do lago antes mesmo de chegar a três metros de meus amigos.
Para minha sorte – ou azar, é você quem sabe -, havia uma árvore de tronco grosso o suficiente para que eu pudesse me tornar invisível se me escondesse ali. Portanto, assim que me vi próximo aos vultos e à árvore, escondi-me atrás dela.
Foi então que a fúria e a desconsideração me atingiu em cheio. Eu senti o chão se abrir abaixo de mim e uma mão puxar-me para o inferno, como se para me castigar ainda mais. Várias coisas se passaram por minha mente naquele instante – fora ciúmes; foi quando tive uma ideia que, a princípio, pareceu-me ridícula. Porém, conforme os segundos passavam, ela apenas vinha a agradar-me mais. Entregando-me à tentação, tirei o celular que – graças a não sei o quê – eu havia levado e, apertando alguns poucos botões, tirei uma foto.

Down Goes Another One


O maldito celular estava com o maldito flash ligado. Assim que eu vi aquele lampejo de luz indecente saindo do aparelho ligado à minha mão, encolhi-me quase que instantaneamente atrás daquele tronco. Eu segurava o celular tão forte que tinha medo de poder quebrá-lo.
— Você viu isso? — a voz de irrompeu em meio ao silêncio. — Digo, esse flash?
— Eu não vi nada. — Scott respondeu. Eu não gostaria de ouvir a voz embargada dele naquele momento. — Volta aqui, !
— Não! Eu vi um flash saindo daqui, Scott, eu vou olhar o que é! — eu podia perceber a voz dela cada vez mais próxima. Meu estômago congelou no exato momento, apenas esperando pela descoberta e pelo que aconteceria depois dela.
Mas a descoberta não veio.
Ao invés de um grito de ao me ver ali, o grito que todos foram capazes de ouvir veio de perto das chamas da fogueira.
— O que aconteceu? — perguntou, alarmada, correndo de volta até Scott. Eu suspirei aliviado. — O que, diabos, está acontecendo?!
— Eu não sei! — Scott exclamou. — Volta aqui e vamos terminar com isso, .
— Eu não tenho nada a terminar com você, Scott. — e, dito isso, os passos de se tornaram cada vez mais distantes, tais como os de Scott.
Eu esperei por alguns instantes antes de espiar pelo tronco e perceber que não havia mais ninguém ali. Olhei para a foto em meu celular, onde era visivelmente engolida pela goela babona de Scott com direito a uma mão boba na bunda.
Você deve estar se perguntando o que eu faria com aquela foto. Bem, uma coisa eu poderia garantir sem temor: nada bom.
Salvei a foto no celular. Entretanto, quando estava pronto para correr de volta ao fuzuê que a região da fogueira havia se tornado, ouvi o barulho de farfalhar de folhas. Parei abruptamente, virando-me para o pequeno matagal que se estendia às minhas costas. Um grupo de folhas de uma moita chacoalhava incessantemente. Estava prestes a checar o quê, ou quem, estava fazendo aquilo, quando um gato se esquivou para fora da moita e pôs-se a desfilar para longe dali, não sem antes lançar-me um olhar superior. Rolei os olhos e, rapidamente, corri até onde os outros estavam. Logo avistei e , e, como se nunca tivesse saído dali, bebi um gole de minha cerveja. Os dois olharam para mim com sorrisos no rosto, o que me fez arquear a sobrancelha.
— O que diabos aconteceu aqui? Que grito foi aquele?
— Oh, foi só Danna colocando um trompa na boca e virando litros e litros de tequila. — ele deu de ombros.
— Ok, e por que o grito?
— Porque ela vomitou tudo depois de, o que, três goles? — ele riu sarcasticamente. estava, definitivamente, precisando de uma bebida para acalmar os nervos. — Foi engraçado.
— É, deve ter sido... — murmurei. — Será que eu posso conversar com os dois?
— Você já não está fazendo isso? — olhou para mim como se tentasse avaliar minha loucura. Eu dei-lhe um olhar podre, que ele logo fez questão de repelir.
— Será que eu posso conversar com os dois longe daqui? — repeti, acrescentando agora o que provavelmente não havia pegado no subentendido.
— Você pode nos contar no caminho para casa. — falou, tirando as chaves do carro de do bolso e girando-as entre o dedo. — Acho que já deu ficar por aqui hoje.
Eu concordei silenciosamente e, mesmo com protestos de um bêbado, seguimos para fora daquele lugar. Quando já estávamos dentro do carro – dirigia, já que era o único com condições o suficiente para isso -, resolvi tirar o celular do bolso e mostrá-los a foto. O primeiro a ver, pelo canto dos olhos e rapidamente, foi . Ele me lançou um olhar de dúvida tão rápido quanto o de curiosidade antes de voltar a atenção à rua, sem falar nada. Entreguei, depois, o celular a . Este encarou a foto por alguns segundos antes de finalmente exteriorizar seus pensamentos.
— Caralho, como a é gostosa. — ele falou com a voz arrastada. Eu rolei os olhos, puxando violentamente o celular da mão dele e guardando-o novamente no bolso. — Onde você conseguiu isso?
— Onde você acha, otário? — perguntei indignado. soltou um resmungo qualquer e cruzou os braços, emburrado demais para falar novamente.
— O que você pretende fazer com isso, ? — me perguntou. Eu o odiava quando me chamava de . Era pior até mesmo do que ouvir minha mãe me chamando assim. Estranhamente, minha mãe preferia me chamar de quando estava amorosa, e de quando estava com muita, muita raiva, tal como quando descobriu minhas roupas embaixo da cama. , no entanto, aparentava um tom tão ameaçador que o simples fato de olhá-lo era algo fora de questão. — Eu teria cuidado com algo assim. — ele completou.
— Bem, eu pensei em algo. — dei de ombros, olhando-o rapidamente pelo canto dos olhos. — Lembra quando o pai de a viu com um garoto, dois anos atrás?
— Sim...
— Lembra o que ele lhe disse?
— Aonde você quer chegar, ?
Eu suspirei. Contar meu plano a seria difícil.
— Eu sei o quanto você não apoiará isso, mas... — suspirei novamente — Eu vou mandar essa foto ao pai de .
— O que? — ele exclamou, me olhando indignado. — , isso é sério! O pai dela vai deixá-la, o quê, trinta e cinco anos de castigo? Você sabe o quanto aquele homem é ciumento quanto à filha!
— Mas... , eu estou cansado dela. — confessei. — Conversou comigo hoje como se esperasse algo de mim, uma atitude, um beijo, qualquer coisa... E, no instante seguinte, estava aos amassos com Scott? Ela merece, sim, uma punição.
— Você é quem mais sairá perdendo. — ele falou, suspirando ruidosamente. — Se ela for trancada em uma masmorra, como você espera ter chances de desenvolver algo?
— Isso faz parte do plano. — eu sorri de canto, convencido com tudo o que já havia planejado. — É só deixar comigo.
— Sim, oh, Mestre Jedi, como você pretende liberá-la das masmorras depois disso? Vai utilizar do seu poder de persuasão máxima? — ele ironizou, tratando-me como um completo idiota.
— Eu já tenho tudo em mente, . — disse de maneira seca, não me importando se estava sendo rude demais. estava estranho.
— É você quem sabe. — ele deu de ombros. — Como pretende mandar a foto para os pais dela sem que te reconheçam?
, ... Você esqueceu que o pai dela trabalha com o meu? — eu ri enviesadamente — Eu só preciso invadir o computador de meu pai e descobrir o e-mail do sr. . Depois disso, tudo tranquilo.
— Eu ainda acho arriscado e, sem dúvidas, sacana. — ele falou. — Se ela descobrir, jamais conseguirá algo com .
— Ela não vai descobrir. — afirmei. — Agora chega desse assunto. Estou com uma puta dor de cabeça.
? — falou do banco de trás, se mostrando acordado.
— O que?
— Você poderia enviar essa foto pro meu e-mail também?

A casa silenciosa me dava calafrios.
Não me perguntem o por quê... Ela simplesmente dava.
Eram duas e meia da manhã. Eu havia me trancado no quarto desde quando havia chegado a casa, apenas para dar a impressão de que iria dormir. Na verdade, eu só estava esperando que meus pais pegassem no sono para, então, eu poder invadir o notebook de meu pai. Por sorte, a porta do meu quarto não rangia ao abrir.
Eu chequei rapidamente o quarto dos meus pais, ouvindo o ronco monstruoso dele e vendo minha mãe parecendo uma múmia, enrolada em tantas cobertas. Entrei em passos mais do que silenciosos e, abaixando-me rapidamente, peguei a maleta de couro onde meu pai levava o notebook de trabalho. Saí do quarto na ponta dos pés com o corpo ainda curvado, como se pudesse acordá-los se me mantivesse ereto.
Assim que me vi no andar de baixo da casa, rumei para o escritório onde meu pai se trancava durante quase a noite toda para fazer relatórios sobre alguma coisa qualquer. Abri a porta da saleta – que rangeu – e, quando a fechei – rangendo novamente, é claro -, sentei-me em sua cadeira giratória de couro, abrindo o notebook sobre a mesa. Meu celular e cabo USB foram conectados rapidamente e, assim, passei a foto para a área de trabalho do notebook. É claro que eu a excluiria depois.
Existe apenas uma coisa boa em saber a senha do e-mail pessoal do seu pai: você pode entrar para fazer qualquer coisa que ele nunca ficará sabendo.
Procurei pela caixa de entrada de seu e-mail por qualquer e-mail enviado pelo pai de e, depois de alguns minutos, o encontrei. Era um e-mail informal, dizendo respeito a alguma corrente que não se devia ser quebrada.
Eu acho incrível como adultos acreditam nisso.
Copiei o endereço de e-mail e, ágil como o Ligeirinho, criei um e-mail “fake” para mim. Digitei qualquer coisa, mesmo. E então, como última tarefa, anexei a foto ao e-mail destinado ao sr. , com a seguinte mensagem:

Achei que você deveria saber das coisas que sua filha anda fazendo fora de casa.

Não precisei escrever nada mais do que isso. Sem cumprimentos, sem despedidas, sem qualquer coisa que pudesse me fazer descoberto.
E então, eu enviei.

Easy Way Out


Fazia uma semana desde que não era vista fora de casa. O único lugar que lhe era permitido frequentar era o colégio, e dali direito para casa.
Eu não me sentia culpado. Nem um pouco, para ser franco. Depois de tanto me prender a um sentimento do qual meu coração constantemente se queixava, vê-la frustrada constantemente com aquele castigo terrível e a dúvida de quem havia a denunciado era um tanto quanto reconfortante. É claro que eu não era, e não sou, uma pessoa má. Mesmo gostando de vê-la sofrendo dessa maneira sem poder se divertir com suas amiguinhas e Scott, eu tinha em mente um modo de tirá-la de casa. Eu havia pensado em exatamente tudo o que era necessário para que nada ocorresse de maneira errada.
Era sexta-feira novamente, e não estava na aula. Provavelmente tivera um momento rebeldia com seus pais e decidira não comparecer. Eu a entendia completamente; já havia feito isso diversas vezes. No entanto, mesmo sem vê-la naquela manhã chuvosa, nada poderia interromper meus planos e minha criatividade. É claro que quando e descobriram sobre minhas intenções, vieram com diversos tópicos negativos sobre aquilo tudo; eu não dei ouvidos.
E me seguia como se eu fosse desaparecer magicamente em sua frente.
— Você tem certeza, dude? — perguntou-me pela milionésima vez, enquanto seus pés tentavam acompanhar os meus para fora daquele colégio. — Você sabe que pode acabar levando uma surra; se não acabar morto primeiro.
— Eu tenho tudo sob controle, . — respondi. segurou meu ombro e puxou-me de frente para ele. Eu arqueei uma sobrancelha enquanto o fitava desafiadoramente. — Já disse que está tudo tranquilo.
— Você não sabe o que faz, . — murmurou ele, revirando os olhos. Eu suspirei. — Se descobrir o que você aprontou, pode dizer adeus a qualquer esperança de tê-la. — eu abri a boca para questioná-lo e defender meu lugar, mas não deixou que eu prosseguisse. — Você sabe muito bem que foi errado o que fez. Pode até tentar dar uma de salvador da donzela, mas vai ser assim para sempre?
— O único modo de ela descobrir o que realmente aconteceu para seu pai saber sobre o beijo é você ou os caras contarem. — avisei, cerrando os olhos — Vocês vão contar?
— Você sabe que não faríamos isso. — revirou os olhos novamente, bufando duas vezes antes de prosseguir. — Você é que sabe, . Mas não corra até mim arrependido quando tentar arrancar o seu brinquedinho.
Eu crispei os lábios, mas não o respondi. Ao invés disso, dei-lhe as costas e segui meu caminho pelo estacionamento de alunos do colégio.
Eu não tinha um carro; meus pais, amados e eternos, se recusavam a comprar um para mim enquanto não completasse meus dezoito anos. No entanto, por estar próximo de tal idade, os velhos tinham a bondade no coração de me emprestar o carro quando um deles ficava vago. Como minha querida mãe havia, novamente, viajado a trabalho, meu pai deixara que eu usasse seu carro.
Não demorei muito tempo até que desse a partida no carro e rumasse para a casa de . Eu não possuía dúvidas de que seu pai estaria em casa naquele horário, principalmente por ser período de almoço, mas eu tinha um plano em mente. Era óbvio que eu não teria enviado aquela fatídica foto para o homem se não tivesse um plano arquitetado em mente. Caso contrário, estaria privando a mim mesmo de vê-la por perto em outro lugar que não a escola.
Em menos de vinte minutos, encontrava-me à frente de sua casa. Eu nunca havia ido até lá antes, mas sabia onde minha garota morava.
Minha garota. Eu realmente preciso parar de ser tão doentio assim.
Desliguei o carro e guardei a chave no bolso da calça assim que desci do automóvel. Coloquei as mãos nos bolsos frontais, figurando meu melhor olhar de bom garoto, antes de sair em direção à campainha e apertá-la, voltando a guardar a mão no bolso. Não esperei muito tempo até que um senhor de aproximadamente quarenta e cinco anos entreabrisse a porta, me olhando pela pequena fresta que a corrente que a prendia permitia.
Ele arqueou a sobrancelha e pigarreou.
— Quem é você?
, senhor. — sorri simpaticamente, convencido de que estava passando uma imagem de bom moço; eu estava errado, no entanto.
— O que está fazendo aqui? — perguntou rispidamente. Antes que eu pudesse responder, entretanto, o homem interveio — Se veio ver minha filha, saiba que está terminantemente proibida de sair até que tenha aprendido o que receberá quando se aventurar com um rapaz qualquer. Aliás, o rapaz com quem minha filha se agarrou no outro dia é você?
Eu pisquei algumas vezes, deixando meus lábios levemente entreabertos. Aquele homem era muito pior do que eu havia esperado; não estava contando com aquela rigidez toda.
— Não, senhor. — respondi assim que recobrei a consciência do que estava fazendo ali. — De modo algum. Eu estou aqui porque foi passado um trabalho de Sociologia essa manhã e foi sorteada como minha dupla. Gostaria de avisá-la e, quem sabe, começar com a pesquisa.
O homem ponderou por um segundo, encarando-me no fundo dos olhos. Senti-me completamente desarmado sobre aquele olhar ameaçador.
— Qual o tema desse trabalho? — voltou a perguntar; sua voz não aparentava a rudez de antes.
— Consumismo. — respondi a primeira palavra que surgiu à minha mente. Literalmente. Se a primeira coisa fosse “sexo selvagem com a ”, eu provavelmente teria dito isso, o que teria custado minha preciosa vida. — O trabalho é para a semana que vem, portanto pensei que pudéssemos começá-lo hoje.
— Tudo bem. — disse ele, após alguns poucos segundos. — Você pode entrar. Podem fazer esse trabalho na sala de estar, que fica exatamente ao lado do meu escritório de trabalho. — alertou, soando incrivelmente ameaçador.
— Senhor, desculpe-me a implicância, mas o professor pediu que fizéssemos um vídeo sobre o assunto. — repliquei antes que o homem fechasse a porta na minha cara para arrancar aquela correntinha e dar-me passagem para sua casa.
— Tenho certeza que o vídeo pode ser gravado na minha sala de estar, como já propus.
— Desculpe, mas não. — retruquei, começando a sentir-me desconfortável com aquela situação. — A verdade é que pensei que pudéssemos entrevistar algumas pessoas sobre sua opinião a respeito do consumismo e os males que ele pode vir a causar. E não podemos entrevistar pessoas na sua sala de estar.
O olhar lançado a mim fez-me congelar, estremecendo em seguida. Eu sentia os joelhos bambearem como se pudessem se partir a qualquer instante, levando-me ao chão. Por sorte, no entanto, o senhor apenas balançou a cabeça para cima e para baixo, murmurando um “Ok” e, inesperadamente, batendo a porta à minha cara.
Fiquei por um momento parado, estático, observando a porta branca com relevos que formavam um retângulo inscrito em seu formato. Aquele homem era assustador; sua aparência alimentava imaginações tortuosas, dignas de alguém como o criador de “Jogos Mortais” ou “Sexta-feira 13”. Os cabelos ralos, quase inexistentes, juntos com o filete de barba negra com um bigode digno de italiano apenas reforçavam a imagem assustadora que possuía.
Recobrando os sentidos, então, assenti para o nada com a cabeça e dei as costas à porta, que se mantinha trancada. Andei em direção ao carro, pensando no quão estúpido havia sido e quão falho meu plano fora arquitetado. Entretanto, antes que eu pudesse abrir a porta do veículo e arrancar os pneus para fora daquela rua, completamente convicto de que meu discurso não havia enganado o pai de , o barulho da porta sendo aberta chamou minha atenção. Virei-me para a porta e ali estava ela, vestindo um short jeans branco e curto, deixando suas pernas torneadas e maravilhosas à mostra, enquanto seu tronco trajava uma camiseta estilo polo na cor amarela clara. Os cabelos estavam soltos, mas sua franja estava presa para trás pelos óculos aviador que ela erguera à cabeça.
Eu pisquei duas vezes, admirando a visão bela que surgira à minha frente. segurou seu próprio cotovelo com o braço, encolhendo-se como se estivesse intimidada. Dando um sorriso tímido, aproximou-se do carro e entrou no lado do passageiro, sem dizer uma palavra sequer.
Fiquei indignado, mas não disse nada; apenas entrei no carro e dei a partida.
— Então... — começou ela, quando afastamo-nos da rua de sua casa. — Aonde vamos para fazer esse trabalho?
— Não vamos a lugar algum. — respondi, deixando que um sorriso se formasse no canto de meus lábios.
— Mas... O trabalho é para a semana que vem, não? Não acho que meu pai me deixará sair novamente para concluí-lo.
— Não existe trabalho algum, . — olhei para ela com o canto dos olhos, logo voltando a atenção à rua nada movimentada. — Foi apenas uma desculpa para te arrancar de lá. Sei que você está farta de permanecer como uma prisioneira.
Senti o olhar de sobre mim, analisando-me com os olhos frisados. Ela, então, baixou os óculos e, pigarreando, voltou a olhar para frente.
— Obrigada, então. — agradeceu, parecendo incomodada. — Por tirar-me de lá. Não sei se aguentaria mais tempo naquele lugar. Meu pai está me enlouquecendo e minha mãe concorda com tudo o que ele diz.
— Por nada. Já passei pela sua situação nos meus treze anos. Meus pais me deixaram sem liberdade por um mês, foi realmente um inferno.
— O que você fez para ficar trancafiado? — perguntou-me, curiosa.
— Coloquei álcool na garrafa térmica de café da sala dos professores. Digamos que eles descobriram um gosto um pouco diferente.
— E como descobriram que havia sido você?
— Eu não pude deixar de rir quando a diretora adentrou a sala exigindo que alguém confessasse o crime. — dei de ombros, sorrindo abertamente enquanto a lembrança invadia minha mente. — Havia sido um desafio proposto por . Ele sempre teve gosto por péssimas ideias. Fui suspenso por três dias, trancafiado por um mês.
— É incrível que não tenham lhe expulsado. — admirou-se, um sorriso crescendo em seus lábios, também. — Não acredito que tenha perdido esse acontecimento!
— Você perdeu várias coisas engraçadas. — contei, deixando que um riso escapasse por meus lábios. Virei a direção para fazer uma curva fechada, pisando no freio quando percebi o movimento mais intenso da rua que entrávamos. — Meu grupo de amigos nunca bateu bem das ideias. sempre foi o pior. Aquela carinha de nerd imaculado é completamente disfarce. Ele é um demônio em forma de bom aluno.
— Preciso saber das histórias! — exclamou ela, olhando para mim novamente. — Talvez ele possa me ajudar a sair de algumas enrascadas, também!
— Ele não consegue sair nem de suas próprias confusões, quanto mais te aconselhar a sair de alguma. — avisei, balançando a cabeça negativamente. — sempre se dava mal. É incrível que ele não tenha sido expulso do colégio.
— Ok, eu definitivamente preciso saber sobre cada história que vocês aprontaram juntos. — admitiu ela, concordando com a cabeça. Depois sua atenção prendeu-se novamente à rua, e eu pude ver sua sobrancelha se arqueando lentamente. — Aonde vamos, ? Não conheço esse caminho.
Eu sorri ainda mais abertamente antes de responder.
— Estamos indo a um clube. É sexta-feira, afinal. Um bom dia para beber uma cerveja e nadar.
— Mas, , eu não tenho biquíni. Nadar com roupas está fora de cogitação — olhei sugestivamente para ela, arqueando uma sobrancelha maliciosamente — Sem roupas também!
— Tudo bem, existe uma loja para emergências lá. — comentei — Eu posso pagar por um biquíni para você.
— Não é necessário...
— E você pretende nadar como? — indaguei, observando-a. Ela permaneceu muda. — Eu pago. E não se preocupe em me pagar depois.
Ela não tentou negar, apenas assentiu com a cabeça. Menos desconfortável e mais descontraída, sentiu-se livre para ligar o rádio, e assim o fez. A estação em que havia sido deixada tocava apenas músicas country, uma preferência incompreendida de meu pai. fez uma careta quando reconheceu os acordes de alguma coisa qualquer, sussurrando algo como “Essa música é terrível!”, e zarpou pelas outras estações. Sintonizando, então, em uma rádio mais escutada pelos adolescentes, tivemos o carro preenchido pela voz de uma banda americana que eu não me lembrava o nome, mas tinha uma vocalista muito gostosa que representou um papel em “Gossip Girl”.
Não que eu assista “Gossip Girl”, mas eu a vi na TV enquanto mudava os canais.
A música falava sobre algo ou alguém estar longe demais. Eu nunca havia escutado, mas era legal e tinha uma melodia aproveitável. A voz daquela cantora era muito boa e nada enjoativa.
Quando, por fim, avistamos a portaria que nos daria acesso ao clube, diminuí o volume do som e pincei minha carteira do bolso traseiro. O porteiro sorriu simpático, enquanto eu procurava pela carteirinha que nos daria acesso ao clube. Assim que o cartão foi avaliado pelo homem e passado em um leitor magnético, a barra à nossa frente se levantou e eu segui com o carro até o estacionamento para sócios.
Nós descemos do carro e logo se juntou ao meu lado, entrelaçando seu braço ao meu enquanto, com a outra mão, eu acionava o alarme. Seguimos em direção à ponte que nos levaria às piscinas e, também, à pequena lojinha de conveniência para aqueles que tinham emergências, como toalhas, óculos, protetor solar e qualquer outra coisa. logo foi abordada por uma atendente que trajava um uniforme da loja que, a meu ver, parecia ser quente, e perdeu-se em meio aos cabides de biquínis que havia ao canto. Ela logo se trancou em um provador e, dois minutos depois, reapareceu trajando um biquíni vermelho sangue com bolinhas brancas, bem parecido com o vestido da Minnie, namorada do Mickey. Por mais boba que fosse a escolha, o biquíni tivera um caimento perfeito para ela, contrastando com sua pele extremamente pálida.
Ela fez uma pose complementada com um biquinho e uma piscadela, fazendo-me rir.
— O que achou? — perguntou, ensaiando poses à frente do espelho.
— Ficou ótimo em você. — respondi.
Ela sorriu e entrou novamente no provador, saindo de lá vestindo suas roupas e escondendo algo em suas mãos. Não consegui ver o que era, mas não me importei com isso. Fomos ao caixa, onde paguei pelo biquíni e saí da loja. Percebi que não me seguia e retrocedi, vendo-a colocar aquilo que levava em uma sacola oferecida pela vendedora.
— O que está guardando? — perguntei, arqueando as sobrancelhas.
— Minhas roupas íntimas, oras. Espera que eu saia carregando-as por aí para que qualquer um as veja?
Eu ri, assentindo com a cabeça enquanto saíamos juntos para o sol da uma hora. A piscina nos esperava com suas águas aquecidas e o sol, mesmo que fraco para um dia de verão, nos esperava pronto para queimar nossas peles.

Everybody Knows


se esticava em uma espreguiçadeira, virando sua posição de barriga para baixo em relação ao sol. Cruzou seus braços na frente do rosto e apoiou seu queixo ali, enquanto alcançava, com os lábios, o canudo vermelho e branco do copo de sua batida.
Eu sabia disso tudo, porque estava tendo uma vista privilegiada naquele canto da piscina.
Mas não era a única coisa em que eu estava reparando. Eu era capaz de enxergar os outros caras que a secavam como se fosse o último pedaço de carne no meio de uma alcateia imensa. , no entanto, não se dignava a olhar nos olhos de nenhum deles quando esses passavam e faziam seus comentários dignos de prisão perpétua. Seu olhar permanecia vidrado na revista que pedira emprestada a uma mulher no quiosque ao lado e seus únicos movimentos de cabeça eram aqueles que seguiam as linhas das matérias.
E, incrivelmente, eu não estava me incomodando com toda essa observação mútua para cima de .
De certa forma, tê-la “resgatado” de seu pai acabou sendo tudo aquilo que eu precisava. Seu ânimo para comigo, somado às risadas e ao conforto que ela adquirira ao meu lado, somaram pontos ao meu favor. Aquilo fora exatamente o que ela precisara para ter uma aproximação maior de mim e acabar me conhecendo de um jeito melhor do que contavam as más línguas.
E, novamente, eu nem precisei usufruir do meu coração. Talvez tivesse utilizado um pouco da parte maldosa e congelada ao condená-la pelo resto da vida em uma prisão domiciliar por causa de uma foto, mas a parte quente e pulsante sabia que aquilo fora algo para seu próprio bem. Ou o meu.
Só fui desperto de meus enleios quando um barulho de algo se chocando contra a água mais milhões de gotas se chocando contra meu rosto foi propagado no ar. Fechei os olhos com força, protegendo-me da enchente que entraria em meus olhos, e só os abri quando senti duas mãos pequenas e delicadas postando-se em meus ombros. Depois, o par de pernas se entrelaçou em minha cintura, apertando-me contra seu corpo, enquanto um beijo estalado e molhado era depositado em minha bochecha esquerda.
Eu ri, divertido, segurando nas panturrilhas de enquanto ela se impulsionava para frente para que eu andasse pela piscina com ela em minhas costas. Rolando os olhos e sentindo-me bobo, puxei uma boa quantidade de ar e submergi o necessário para que ambos estivéssemos submersos. Então, usando apenas do esforço de minhas pernas, já que minhas mãos seguravam as de , desloquei-nos para o outro lado da piscina, emergindo sempre que cutucasse meus ombros.
E a cada emergida, um novo beijo estalado na bochecha.
Eu tinha toda a certeza do mundo de que aparentava ser patético para qualquer um que visse minha situação. Porque, é claro, o sorriso que se abria em meu rosto sempre que um novo beijo era depositado tão próximo de meus lábios era evidente. Era o que eu sempre quisera, afinal; estar em um programa com , abraçado a ela, beijando-a. A única diferença era que sempre desejei que o beijo fosse em meus lábios.
Quando chegamos à outra margem – a piscina era enorme, mesmo -, relaxei meus braços para que pudesse voltar a ficar em pé. Ela o fez, logo encostando-se de barriga à borda da piscina, virando seu rosto lentamente para o lado para que pudesse me fitar. Eu repeti seu gesto, porém mantive-me com apenas um ombro encostado à borda. Nós nos encarávamos sem pudor algum – de minha parte, pelo menos -, até que seus olhos oscilaram até meus lábios, ombros, peitoral e, por fim, de volta aos meus olhos.
Vi naquele exato momento que o que fizera deveria ter passado despercebido, já que, ao notar meu sorriso de canto para a avaliação que dera em mim, suas bochechas coraram ainda mais do que o sol já havia tomado o cuidado de fazer. Ela sorriu sem graça e eu, avaliando minhas alternativas, mantive o olhar sobre ela e o sorriso no rosto enquanto eu erguia minha mão aos meus cabelos e os bagunçava.
Por fim, decidi mandar qualquer dúvida à merda. Estávamos ali, não estávamos? Ela me dera os sinais para o que fazer agora, e eu os acataria com prazer.
Extingui os dois palmos de distância que havia entre nós quando nos separamos, dando um impulso com o pé até que estivesse frente a frente com ela, que, agora, encostava suas costas na borda da piscina. Suas mãos se espalmaram em meu peito, deslizando lentamente até meus ombros e, então, de volta ao peito. Seu olhar desviou-se para lá por alguns segundos, acompanhando seus movimentos, mas voltara aos meus olhos no momento seguinte. Eu, então, depositei uma mão em sua cintura, puxando-a como uma boneca de pano para perto de mim, juntando nossos corpos seminus. Minha outra mão deslizou por baixo de seus cabelos até atingirem sua nuca, fazendo um leve carinho por ali enquanto ainda a olhava; dessa vez, os olhos que oscilavam eram os meus, de seus próprios olhos até seus lábios cheios e entreabertos, apenas aguardando pelo momento em que sentiriam os meus.
Deixei minha cabeça pender para um lado, fazendo o mesmo movimento para o oposto logo em seguida, ponderando qual posição seria a melhor para começarmos logo com aquilo. Então levei meu rosto para perto do seu, deslizando a ponta de meu nariz pela sua bochecha bem lentamente, sentindo-a enrijecer. Depois de brincar um pouco em sua bochecha apenas para sentir, mais do que ver, sua reação, finalmente fui em direção a seus lábios...
— Ora, ora, ora... — empurrou-me de leve para trás, afastando-me dela antes que pudesse sequer raciocinar o que diabos estava acontecendo. — e... !
Foi então que reconheci aquela voz inegavelmente desagradável. Um sorriso totalmente sarcástico se abriu em meus lábios no mesmo instante, enquanto eu via o rapaz de cabelos negros e olhos verdes agachar-se à beira da piscina, exatamente onde eu e estávamos antes, analisando a mim e a ela. O sorriso em seus lábios brincava entre a maldade e o divertimento. Ele decidiu por fitar a mim.
— Fazia um bom tempo que não aparecia por aqui, não é, ? — perguntou Mark, forçando um tom gozado em meu apelido, desprezando-o completamente. o olhava como se imaginasse quem aquele ser desagradável poderia ser. — O que aconteceu, huh? Ficou com medo de me encarar de frente?
— Não seja tolo, Mark. — eu respondi, adotando um tom ainda mais irônico e sarcástico em minhas palavras. — Eu jamais poderia te encarar de costas. Mesmo depois de fazer o colegial três anos a mais do que as pessoas comuns fazem, ainda não aprendeu a controlar a gramática?
— Você entendeu o meu ponto, . — retrucou ele, rispidamente. — Teve medo de aparecer por aqui depois que acabei com você e seus amiguinhos idiotas. Como estão eles, afinal? Já estão conseguindo se olhar no espelho sem ter vontade de se matar?
— Não compreendo por que eu teria medo de reaparecer aqui para quebrar a sua fuça mais uma vez, Mark. — rebati. — E nem meus amiguinhos idiotas. Sabe muitíssimo bem que nós quatro damos conta de todo o grupinho que você chama de amigos.
O olhar de Mark oscilou entre a derrota, mas logo voltou ao sarcasmo. Então fitou , que se mantinha parada ao meu lado, olhando-nos sem entender uma palavra sequer. Ele sorriu de uma maneira galante – ou, pelo menos, tentou, já que eu não acho sorrisos masculinos galantes, a não ser o meu.
— Ouvi falar muito de você, . — começou ele, jogando os cabelos negros para o lado com apenas um movimento de cabeça. — Coisas muito boas. É verdade que estava se atracando com Scott naquela velha fazenda abandonada? No meio de todos, mesmo, safadinha?
O ódio ferveu em minhas veias.
— Muito bem, Mark, se você quer briga, brigue comigo. — ordenei, indo até a borda da piscina e, com impulso dos braços, saindo dela. Posicionei-me de frente para Mark, que olhava abismado para minha velocidade em sair da água para defendê-la; ele se ergueu do chão, também. — Você não ofenderá na minha frente sem sair daqui com alguns dentes faltando.
Mark soltou uma risada como “ô-ho-ho-ho” antes de apontar para mim e curvar o corpo para frente por um momento. Ele não era tão mais alto que eu. Para dizer a verdade, éramos praticamente do mesmo tamanho, com exceção de um ou dois centímetros.
— E é você quem arrancará os meus dentes, ? — indagou, irônico, gargalhando em deboche. — Você não é capaz para tanto.
— Você quer pagar para ver, Mark?
— Já chega! — exclamou , que ainda estava dentro da piscina. — Chega! , vamos sair daqui.
— Ele a ofendeu, .
— Não importa. Nem ao menos o conheço para me sentir ofendida. Vamos sair daqui. — pediu ela mais uma vez.
Relutante, assenti, sem olhar em seus olhos; ainda estavam repletos de fúria para que fossem direcionados a ela. Com um último sorriso irônico a Mark, disse:
— Não se preocupe, Mark, eu e meus amigos voltaremos para lhe dizer um oi.
Vir-me-ei para e lhe estiquei a mão, esperando pela dela; assim que a tive, puxei-a para fora da piscina e, passando um braço sobre seus ombros de maneira possessiva – muito possessiva -, saímos daquele canto da piscina, voltando para nosso quiosque.
Meu celular tocou assim que nos sentamos. Olhei o nome no identificador de chamadas, vendo que me ligava.
— Alô?
? É o . — ele não precisaria se identificar, eu já havia olhado no identificador de chamadas. — Onde você está, dude?
— Estou no clube...
— O velho clube do outro lado da cidade? O que costumávamos frequentar semanalmente? — indagou, sem deixar-me continuar.
— Sim, esse mesmo.
— Cara, faz tempo que não vamos até aí... Desde toda aquela confusão com Mark. — lembrou-se. Seguiu-se um instante de silêncio até que ele voltasse a falar. — Mark está aí? Acho que ele não parou de frequentar o clube, já que seu pai é acionista.
— Está. Já me deu as graças de sua honorável presença.
— Anda arrogante como sempre foi? Não aprendeu como se comportar, mesmo depois de toda aquela surra?
— Pessoas como Mark nunca aprendem, ... — filosofei, olhando de esguelha para , que voltara a se espreguiçar na espreguiçadeira. — Olha, , foi uma conversa realmente interessante, mas...
— Por que não nos chamou para ir até aí com você? — perguntou ele, sem deixar-me terminar o que ia dizer novamente. Rolei os olhos.
— Porque eu não estava exatamente planejando vir até aqui. Foi algo de momento.
— Não importa, estamos indo.
— Estamos? — repeti, duvidando. — Quem “estamos”?
— Oras! Eu, e ! Vamos pegar o carro e chegaremos aí em quinze minutos.
— Olha, ok, , não vai dar... Sabe... Eu não estou sozinho aqui.
— É óbvio que não, seu bobinho, o clube não abriria apenas para você.
— Não, , você não entendeu! — ri sem humor, levando a mão livre aos meus cabelos e bagunçando-os, sem saber como explicar aquilo de uma maneira sutil sem ter me ouvindo. — Eu estou... Com alguém aqui. Entende?
— Quem? Não me diga que você está pegando mais alguma menininha do colégio para suprir as necessidades que não supriu!
! — exclamei, passando a mão pelos cabelos nervosamente. — Estou com ela aqui. — sussurrei.
— O quê? Está o quê?
— Céus. — reclamei, revirando os olhos. — Preste atenção, . Eu. Estou. Com. Ela. Aqui.
Um segundo se silêncio se colocou entre mim e , até que um “Oh!” arrastado e gritado fosse pronunciado por ele.
Estranho, se eu não soubesse que ele estava fazendo isso por causa da minha notícia.
— Oh! Entendi! Você está com diarreia!
, passe o celular para o ! Agora!
resmungou um “por quêêêêêê?”, mas deu-se por vencido quando esbravejei novamente. Logo, surgiu ao celular.
— Fala, dude. O que foi? Está com diarreia? Quer alguma coisa?
— Eu quero que vocês parem de ligar e não venham para o clube! — sussurrei calmamente, tentando fazê-lo entender.
— Por que, mate? Está tão ruim assim?
— Caralho, , eu não estou com diarreia! — sussurrei a última palavra, já que não poderia ouvi-la. — Estou com ela aqui!
— CARALHO! — exclamou . — Espere, dude, vou colocar no viva-voz!
Um segundo se passou até que eu ouvisse e exclamarem “Oi, !” e , por sua vez, acrescentar um “de novo!” ao fim de seu cumprimento.
— Certo, agora repita isso, . — pediu .
— Eu estou com ela aqui no clube, então não venham para cá nos atrapalhar! Pelo amor de alguma coisa, , explique ao que eu não disse que estou com diarreia. — rolei os olhos.
está com no clube. — ouvi dizer, e então um novo “Oh!” arrastado de .
— Ela está de biquíni, ? Ela é gostosa? — perguntou ele.
, eu quase quebrei a cara de Mark por isso. Cuidado com o modo ao que se refere a ela. — avisei.
— Ela não descobriu, então, que foi você quem enviou a foto para o pai dela? — perguntou , tendo a concordância de .
— Você não espera que eu fale disso ao telefone, não é? — perguntei retoricamente. Eles assentiram mesmo assim. — Olha, mais tarde poderemos sair, não é? Aí eu explico tudo.
— Na fazenda, como da última vez? — perguntou .
— Pode ser.
!
me chamara. Olhei para ela, sorrindo, vendo-a sorrir de volta para mim.
— Vamos jogar tênis comigo? — pediu. — Faz anos que não jogo, e fiquei com vontade agora que vi a quadra! Será que tem raquetes disponíveis?
— Creio que sim, . — comentei, assentindo com a cabeça. — Claro que eu jogo. — e, então, direcionando-me ao celular, disse: — Nos falamos mais tarde, guys.
A última coisa que ouvi, antes de desligar o celular, foi exclamando novamente “Então ele realmente não está com diarreia?”

Falling In Love


A tarde com havia sido, sem qualquer resquício de dúvidas, uma das mais divertidas que já vivi. Tirando o fator problema “Mark-atrapalhando-nosso-quase-beijo”, havíamos nos divertido bastante. Pude descobrir que era uma ótima jogadora de tênis, apesar de não praticar o esporte há mais de três anos. Também soube que sua comida favorita era lasanha à bolonhesa, mas ela não se importaria em comer uma de quatro queijos se tivesse a opção. Sua bebida favorita era suco de morango com acerola, mas ela adicionaria umas gotinhas de vodka se tivesse a chance. Seu sorvete favorito era de pistache; não que não gostasse de chocolate, mas o achava comum e facilmente encontrável em qualquer lugar que fosse. Pistache não era disponível em toda sorveteria de esquina e sua cor verde era fascinante aos olhos dela, fora que sua dificuldade em ser encontrado aumentava seu desejo por consumi-lo.
Por outro lado, pareceu se entusiasmar o suficiente com minhas histórias para querer sair comigo novamente. Após toda a revelação “eu-e-meus-amigos-não-prestamos”, pediu relatos detalhados de cada merda que já havíamos aprontado até aquele ponto de nossa vida. Como um rapaz obediente e gracioso que sou (não), relatei nossos melhores e mais inesquecíveis momentos, fazendo-a gargalhar como se nunca tivesse ouvido nada parecido em toda a sua vida. Isso me rendeu bons pontos com ela, já que ela me descobriu como um garoto hiperativo, divertido e qualquer outra coisa que some pontos ao meu favor.
À perspectiva de todo o final dessa tarde gratificante e relaxante, o resultado foi muito satisfatório. Mesmo sem termo-nos beijado, pareceu sentir-se compensada com todo o divertimento que fui capaz de proporcioná-la. E, inesperadamente, antes que saísse do carro para entrar em sua casa quando a deixei à porta, ela perguntou:
— Vai fazer alguma coisa à noite? — e, após a negação sinalizada de minha cabeça, acrescentou: — Então me ligue mais tarde para marcarmos algo.
E entrou em casa.
É claro que eu havia me esquecido completamente do compromisso que havia criado com meus amigos naquele momento. Quem pensaria em amigos quando a garota dos seus sonhos está te chamando, mesmo que indiretamente, para sair? Eu obviamente não pensava. Entretanto, eu estava devendo algumas boas explicações de cada detalhe de tudo aquilo, desde a noite em que estávamos na fazenda até aquela fatídica tarde aos meus inseparáveis melhores amigos. Eu tinha uma leve noção de que seria enterrado vivo caso não explicasse a eles cada passo do plano que se formara em minha cabeça desde que vi aos amassos com Scott.
Um aperto em meu coração denunciava meu arrependimento em tê-la prejudicado com aquela prova incontestável de que suas saídas de finais de semana não eram nada puritanas. Entretanto, aquilo estava me beneficiando mais do que eu poderia ter esperado.
Eu me sentia como um garoto malvado.
Quando estacionei o carro de minha mãe (já que ela estava viajando) na garagem, senti o celular vibrar no bolso da bermuda jeans que havia vestido. Pesquei o aparelho com as pontas dos dedos, sentindo certa dificuldade por ainda estar sentado em cima dele. O visor denunciava que a ligação vinha da casa de .
— Fala. — atendi, recostando-me contra o encosto do banco estofado do motorista, esticando as costas.
— Ainda está com ela? — perguntou em um tom baixo, como se pudesse ouvir se estivesse ao meu lado. Eu neguei com um murmúrio, então continuou: — Ótimo. Venha para casa nesse instante. Os caras estão aqui, achamos melhor assistir a uma boa partida de futebol em vez de nos embebedarmos com aquele pessoal fútil na fazenda.
— Fora de questão. — apontei, suspirando profundamente antes de continuar. — Acabei de chegar em casa, estou morto de cansaço. quer sair comigo mais tarde, não sei se poderei me embebedar com vocês durante um jogo de futebol.
— Porra, ! — ouvi berrar do outro lado da linha; deduzi que o telefone de estava com o viva-voz ativado — Queremos saber dos detalhes sobre esse seu encontro repentino; e uma boa dose de explicação sobre o que você pretende com esse plano da fotografia.
— Droga. — resmunguei. Após um instante curto de silêncio, continuei — Façam o seguinte: , pegue o carro e venham os três pra cá. Podemos beber uma cerveja enquanto eu descanso na minha cama desejada e contar a vocês sobre o que tenho em mente. Nesse meio tempo, posso falar com sobre um lugar para irmos e, se quiserem, podem ir de vela.
— Vela? — indagou, e eu apostaria que erguera sua sobrancelha sarcasticamente — Se sairmos com vocês, exijo companhia feminina. Peça a para levar aquelas outras amiguinhas dela.
— É um bom modo de começar com sua atitude inexistente. — comentei.
— Valeu, . Espalha para esses tagarelas que eu estou a fim da Kate.
Eu ri.
— Ora, , mas eu não disse que você está afim de pessoa alguma. Só disse para tomar atitude.
— Então é isso? — perguntou com a voz forçadamente embargada — Você está nos escondendo as coisas, ?
— Eu não estou escondendo... Só omiti um pequeno fato... — um segundo de silêncio se passou — Que seja. Estamos aqui para falar sobre e seu futuro amor, não sobre mim. , nos vemos em vinte minutos. — finalizou ; antes que eu tivesse a chance de me despedir corretamente, o celular ficou mudo.
Rolei os olhos diante de toda aquela investigação boba. Isso só fazia com que parecesse cada vez mais que nenhum deles acreditava em meu potencial. Não que eu precisasse da aprovação de meus amigos para saber se tinha ou não o jeito certo de pegar mulher, mas mesmo assim.
Desconfiança machuca.
E, também, parecíamos garotas excitadas por fofocas.
Entrei em casa, aproveitando que meu pai ainda não havia chegado do trabalho para beber uma de suas garrafas de Stella Artois. Meu pai amava aquela cerveja quase mais do que amava sua própria família e, penso eu, se descobrisse que eu bebia delas quase casualmente, poderia me deserdar. Acendi um cigarro junto à cerveja, deixando-o preso no canto dos lábios enquanto me direcionava para o banheiro com a cerveja em mãos para um banho. Afinal, eu sabia que meus amigos chegariam logo e ficariam em casa sabe-se lá até que horas. Eu estava com cheiro de cloro de piscina, precisava de um banho para sair com .
Abri o vitrô do banheiro para que a fumaça do cigarro não ficasse acumulada, denunciando minha atitude ilícita. Meus pais não poderiam nem sonhar sobre meus vícios; eu ainda tinha certo amor à vida. Liguei a água do chuveiro para que esta esquentasse enquanto eu terminava o cigarro e a cerveja e, após, despir-me de minhas vestes, mergulhei de cabeça na água que caía.
Terminei o banho no exato momento em que a campainha tocara.
Ainda com a toalha enrolada em minha cintura, destranquei a porta para meus amigos e dei as costas, gritando um “está aberta” e voltando para o quarto. Deixei a toalha cair enquanto vestia minha boxer vermelha.
— Urgh, dude. — exclamou — Eu não precisava de uma visão ampla da sua bunda depilada.
— É só não olhar, então. — rolei os olhos. Assim que terminei de vestir a boxer, virei-me de frente para onde os três estavam parados (encolhidos à porta do quarto, procurando tampar o máximo de visão). — Já estou vestido.
— Então está ót... Caralho, , vestir uma bermuda e camiseta te deixa depressivo? Você se tornou o lobinho, por acaso? — novamente.
— Lobinho?
— É, aquele lá de Crepúsculo. Ele nunca anda vestido, parece ter alguma espécie de alergia a roupas.
— E você assiste Crepúsculo? — arqueei a sobrancelha. abriu a boca para dizer algo, mas fechou-a novamente; alcancei uma bermuda e a vesti por cima da boxer, sentando-me na cama em seguida. Os caras imitaram meu gesto. — O que é, então?
— Como foi com a ? — perguntou . Curto e grosso, da maneira que eu gosto.
Isso soou estranho.
— Após a escola, fui até a casa dela e inventei a existência de um trabalho de Sociologia. O pai dela parecia um militar pronto para me exterminar à percepção de qualquer mísero erro, mas eu consegui convencê-lo. Então saímos e fomos para o clube. — finalizei.
— E o que ela achou disso? — perguntou, arrumando-se em uma posição confortável na cama.
— Achou incrível, é claro. — exclamei, sorrindo de lado. Eu estava convencido, e não me importava nem um pouco. — Seu ponto de vista sobre mim mudou completamente. Ela me acha alguém legal, agora. Quase nos beijamos, até.
Eu gostaria de ter uma filmadora em mãos para registrar a expressão completamente surpresa e amedrontada que surgiu nos rostos de meus amigos. Parecia até que haviam visto algum tipo de assombração. Mas eu não tinha uma filmadora, portanto precisaria depender da minha memória pelo resto da vida.
Eu comecei a rir de todos eles.
— Você está brincando, certo, ? — perguntou, incrédulo, . Eu neguei com a cabeça, ainda rindo. — Como você não está brincando, ?!
— Ela devia estar um pouco cegada pelo sol. — deu de ombros. — Afinal, de que outra maneira “quase beijaria” o ?
Eu fechei a cara instantaneamente, descartando a vontade de ter aquelas reações registradas.
— Ha, ha, ha. Muitíssimo engraçado. — ironizei, rolando os olhos a ponto de fazê-los doer. — Mas, sim, é verdade. Quase nos beijamos. E teríamos, se o nosso tão querido Mark não tivesse aparecido para interromper o ato.
— Então ele realmente esteve lá? — perguntou , colocando-se em uma posição mais ereta e adotando uma expressão mais séria. — Pensei que fosse apenas uma brincadeira. Uma desculpa.
— Pelo amor de Deus, dá pra pararem de achar que sou incapaz quando o assunto é ? — perguntei, agora me tornando realmente ofendido. Meu cenho estava franzido de maneira penosa, e minhas mãos viradas para cima como se perguntassem “por que, Deus?”. — Eu não sou incapaz. A prova disso é ter conseguido sair com ela e quase lhe dado um beijo. Eu não sou incapaz.
— Ok, dude, nós entendemos. — disse, dando de ombros. — O que diabos Mark fazia no clube?
— O pai dele tem ações lá, esqueceu? — indaguei, batendo minhas mãos nas coxas e jogando meu corpo para trás. Acho que não bati a cabeça na parede por muito pouco, porque senti o ventinho rasante em meu couro cabeludo. — Por que ele seria expulso se seu pai é um dos donos daquele lugar?
— Isso é injusto. Ele e seus amigos estúpidos que nos provocaram daquele jeito. Nunca teríamos dado tantos murros em alguém se não fossem por eles.
— Ou levado murros. — murmurou . — A questão é: por que diabos vocês não se pegaram depois de toda a confusão? Quero dizer, duvido muito que não tenha ficado com uma extrema vontade.
— Eu não sei... Nós só... Não entramos mais no clima depois daquilo. E ela quer sair comigo hoje à noite. Já disse a vocês. — suspirei. — Não sei para onde levá-la.
— Leve-a para a chácara. — sugeriu .
— Ótimo lugar para um encontro. Cheio de pessoas e cena do crime da fotografia. — ironizei. — Scott provavelmente estará lá. E não acho que quero olhar para sua cara de buldogue tão cedo.
— Isso tudo é ciúmes, ?
— Isso tudo é auto preservação. Não vou levá-la de volta à cena do crime e expô-la ao perigo.
— Expô-la ao perigo ou encontrar-se em um?
Fiz uma careta para os três retorcendo os lábios. A verdade era que, sim, eu não queria deixá-la perto de Scott. Não enquanto eu não estivesse com cem por cento de certeza de que ela estava na minha.
Foi então que uma ideia me surgiu.
... Kate provavelmente está livre esta noite. — comentei, enquanto o olhava pelo canto dos olhos e percebia uma certa hesitação da parte dele. — Sabe como é... Eu e sairemos. Ela e as outras três não terão muita coisa a fazer sem a abelha rainha por perto.
— Eu ainda não compreendi o que eu tenho a ver com essa informação... — resmungou, cruzando os braços e me olhando significativamente. Entretanto, fez tudo tão discreto que até meu vizinho coreano seria capaz de entender o que ele estava pensando ao me lançar aquele olhar.
— Não me diga que você está into Katie — exclamou , curvando-se levemente para o lado e dando uma ombrada em . — Por que não nos contou?
— Vocês mal aceitam esse amor obsessivo de em relação à , por que aceitariam uma atraçãozinha minha por uma de suas “abelhas operárias”? — ele fez aspas com as mãos.
— Justamente porque uma atração não é uma obsessão e não pode te levar à morte. — comentou.
— Eu não tenho uma obsessão por . — rolei os olhos. — E o que te faz pensar que eu teria uma obsessão mortífera por ela?
— Dude... — começou , apoiando uma mão em meu ombro — Você tirou uma foto dela beijando outro garoto e enviou para o pai dela. E, depois, foi até a casa dele com a invenção mal feita de um plano que poderia falhar tão rápido quanto um piscar de olhos.
— E?
— E, se ele descobrisse, você morreria. — finalizou, sorrindo de orelha a orelha. — Ou seja... Uma obsessão mortífera.
— Tá certo, certo. — rolei os olhos novamente, sacudindo a mão com desprezo. — Não muda o fato de que você vai sair conosco hoje.
— Eu vou o quê?
— Não precisa se preocupar, . — sorri sarcasticamente, lançando meu olhar para e . — Vocês todos vão.
— Eu não vou, não. — resmungou — Definitivamente não.
— Ah, vai, sim. quer conhecer você e saber mais sobre suas histórias.
— Minhas histórias? — ele arqueou a sobrancelha — Que tipo de histórias?
— Como quando coloquei álcool na garrafa de café do colégio porque perdi uma aposta. Lembra-se? — sorri — Pois bem. Ela quer saber das suas burradas.
está a fim de mim. — ele disse, respirando fundo e levantando-se. Eu arqueei a sobrancelha, um sorriso divertido brotando em meus lábios. — Oh, meu Deus, ela está afim de mim!
— Não seja tolo. — exclamou — Até entendemos o ter uma chance, mas você? Impossível. Ela só quer saber das coisas divertidas que nós fazemos.
— É isso mesmo. — dei de ombros. — Sorry, mate, mas a garota é minha.
— E o que diabos vou fazer em qualquer que seja o lugar? Observar você e se atracarem com e Kate?
— Claro que não. — revirou os olhos. — Você pode se atracar com Joanna. Aposto que ela não recusaria você.
— E você aposta isso porquê...
— Bem... — colocou a mão no queixo, procurando pensar. Após alguns segundos, disse: — Não sei. Mas acho que não dispensaria você.
— E eu? — perguntou. — Lindsay não me recusaria, recusaria?
— Está a fim dela, dude?
— Não. — ele riu. — Só resolvi entrar na brincadeira com o .

Fight For Your Right (to party)*


Às oito e meia em ponto, e eu estávamos prontos para buscar e Kate. Eu havia telefonado pra ela meia hora depois de toda aquela conversa com os garotos, e chamei-a para ir a alguma sorveteria. Ela, entretanto, tinha outros planos em mente e, recusando meu pedido, sugeriu uma visita noturna ao Museu do Terror. Eu nunca havia ouvido falar naquele museu – ou em qualquer outro -, e, sem querer discordar de suas vontades, afinal, ainda estava em processo de “conquistamento”, aceitei. Quando pedi a ela que levasse Kate, ela logo me perguntou o motivo e, ao sabê-lo, deu pequenos gritos entusiasmados no telefone. Pensei que em seu íntimo ela não gostaria de sua melhor amiga saindo com o meu, mas sua reação seguinte foi completamente inesperada.
— Eu sempre sonhei que ficassem juntos! Kate não para de falar nele o dia inteiro e eu ao menos sei como eles começaram a se falar.
Diante dessa informação, indaguei:
— Eles já se falavam?
E ela respondeu:
— Ela disse que a ajudou com alguns testes de física. Foi naquele dia... Depois do meu “bolo”. — ela disse hesitante.
— Oh, sim, me lembro. Mas... , ajudando Kate com física? Tem certeza disso?
— Bem, foi o que ela disse.
A conversa sobre os dois acabou por ali. Eu ficava feliz por aprovar o romance de e Kate, por mais que ele ainda não estivesse acontecendo. Tudo se resolveria nesta noite, era o que eu esperava. iria conosco, imaginando que se encontraria com Joanna, mas a realidade era que ela e Lindsay preferiram não ir a um Museu do Terror. As duas tinham medo demais para isso. Eu não disse nada a , porque ainda precisaria dele ali se algo saísse errado comigo e .
estava sem ânimo para levantar da sua cama.
ligou o rádio em meu carro – ele havia ficado em casa para irmos juntos, e estava usando uma camiseta minha -, sintonizando-o em uma estação onde músicas decentes estavam tocando. Reconheci o som de Bruce Springsteen cantando “Born to Run” e não pude controlar minha vontade de cantar junto a ele. Meus dedos batucavam na direção do carro enquanto eu seguia a letra da música fielmente, assim como , que batucava em sua própria coxa.
Era óbvio que estávamos empolgados. Eu estava me dando bem com e tudo indicava que eu a estava conquistando. realizaria seu sonho de ter Kate para si ao menos uma vez.
Quando estacionamos em frente à casa de , saltou do carro para tocar a campainha. Eu desliguei o motor e desci, também, mas apenas me recostei contra a porta ainda aberta. Alguns instantes depois, para minha surpresa, quem atendeu à porta foi o Sr. .
— Pois não? — perguntou ele, analisando de cima a baixo. Eu pude reparar no seu olhar de desgosto para com a camiseta de zumbis que eu havia emprestado. — Quem é você?
, senhor. — respondeu ele, dando um sorriso nervoso ao homem. , é claro, sabia das histórias de que o pai de era completamente assustador. — Eu... Vim buscar e Kate para irmos ao-
— O quê? — indagou ele — não vai sair. Ela e Kate ficarão em casa para uma noite de garotas. — avisou ele — está de castigo por tempo indeterminado. O único motivo de ter saído essa tarde foi para fazer um trabalho com aquele garoto estranho e mal arrumado.
Resolvi que era hora de dar uma ajudinha ao .
— Olá, senhor . — cumprimentei, dando-o um aceno de cabeça. — Como vai?
— Bem. — respondeu. — não sairá. Pensei que você já estivesse ciente disso.
— E estou, senhor. — concordei, balançando a cabeça para um reforço — Mas pensamos que, talvez, seria bom pegar mais alguns depoimentos sobre o Consumismo...
— Você está pensando que sou o quê, garoto? — indagou ele, adiantando-se para frente e deixando sozinho em frente à porta. Ele estava cara a cara comigo. — Um idiota? Acha que não reparei que voltou mais bronzeada do que estava quando saiu?
— Isso é porque andamos bastante no centro, o sol estava forte, e-
— Cale a boca. Eu não sou estúpido, já tive a sua idade. não sairá essa noite. E nem mesmo Kate. Ela veio para cá com a desculpa de uma noite de garotas, e assim será.
— Mas, senhor...
— Não tem conversa. — ele sorriu sarcasticamente, virando-se para . — Fora. Os dois.
assentiu, engolindo em seco. Correu até mim e adentrou no carro. Eu fiz o mesmo, dando a partida sob o olhar assassino do pai de .
Mas era claro que não deixaríamos de sair com elas por causa de uma pedra no meio do caminho. Quero dizer, o senhor estava mais para Jason, de “Sexta-feira 13”, do que pedra no caminho, mas nós daríamos um jeito.
Nós demos a volta no quarteirão. Como sou uma pessoa inteligente, estacionei o carro algumas casas mais para baixo. Se o senhor olhasse pela janela da sala de TV, não nos veria ali. Virei-me para .
— O que faremos?
Ele analisava a casa, enquanto dava de ombros.
— Não faço a mínima. Cadê seu celular?
— Está aqui. — dei-o a ele.
Eu não sabia o que ele faria. Porém, quando levou o celular até a orelha e disse um “?”, eu entendi.
— Nós não passamos pelo seu pai. — continuou ele. Tirou o celular da orelha para apertar o botão que ligaria o viva-voz. — Ele é assustador.
Eu ri.
— Vocês poderiam tentar passar por ele sem que fossem notadas. Deixar uma música tocando no quarto, ou ligar um filme, e vazarem daí. — sugeri. Mesmo assim, eu sabia que as chances dessa ideia dar certo eram mínimas.
— Você sabe que não vai dar certo, . — murmurou do outro lado. Provavelmente estava agindo assim para que não corresse o risco de seu pai ouvir — Meu pai deve estar vigiando a porta de entrada e a rua para o caso de fazermos isso.
— E como faremos, então? — Kate questionou. Eu e ficamos em silêncio. Precisávamos dar um jeito para tirá-las de casa sem que Sr. se transformasse em um Super Sayajin de nível máximo e matasse a mim e ao com um “Kamehameha”. Mas tudo o que se passava por minha mente dava a impressão de ser impossível quando, como vilão, estivesse o Sr. . As chances de conseguirmos sair de lá e aproveitar a noite haviam sido reduzidas a quase zero.
E eu que pensei que nos daríamos bem.
— Tive uma ideia. — informou instantes depois — Mas, como devem saber, pode ser que não dê certo. E a chance de que eu e saiamos mortos é terrivelmente imensa.
— Não custa ouvi-la, não é? — comentou Katie. Eu sabia que ela estava louca para dar no pé com . — O que tem em mente?
— Bem... Vocês poderiam tentar sair pela janela do quarto de .
— Você está fora de si, ? — indagou, ainda no tom baixo — Meu quarto fica no segundo andar! Seria uma queda terrível, não temos onde cair sem nos machucarmos e quebrar alguma coisa!
— Isso é uma questão de pensarmos melhor. — eu disse, apoiando a ideia de . — É a melhor coisa que temos a fazer. Vocês não podem sair pela porta sem que ele veja, e nós não conseguimos deixá-lo fazer vocês saírem.
— Mas isso seria impossível, ! — retrucou . Eu rolei os olhos, aproveitando que ela não poderia ver. riu.
— Não é impossível. Eu e iremos para debaixo de sua janela. Nós tentaremos aliviar a queda. Esperem até o sinal. — avisei.
Eu não deixei que elas respondessem. Desliguei o celular rapidamente, encarando a expressão confusa de . Ele passou a mão pela franja, jogando-a para o lado. Eu sabia que era assim que ele expressava sua preocupação. Apertei meus lábios, tomando coragem para fazer algo que talvez não desse certo, e saí do carro.
veio atrás de mim.
— Você tem certeza disso, ? — perguntou. Nossos passos eram apressados e eu sentia minhas pernas bambas pelo medo de algo dar errado.
— Foi você mesmo quem sugeriu, . — dei de ombros. Ele esfregou uma mão à outra, procurando se esquentar. O tempo estava um pouco frio. — Não custa tentar. É a ideia mais provável de acertos.
— Eu não sei... De repente tive medo.
— Medo de quê?
— De machucá-las dessa maneira.
Nós estávamos perto da casa de , agora.
— Nós acharemos algo para dar mais segurança. — disse. — Deve ter algo por perto que dê mais apoio a elas.
Estávamos, agora, sob a janela de . Eu nunca havia ido até lá, mas sabia disso pelas cortinas roxas que estavam entreabertas, a luz acesa e suas vozes, misturadas às vozes de algum cantor saindo pela janela. Mandei uma mensagem a ela, que logo saiu para a varanda de seu quarto junto de Kate, acenando timidamente para nós.
Foi então que eu percebi. Havia uma varanda ali. E, ao lado da varanda, uma árvore imensa.
— Oi, guys. — disseram Kate e em uníssono. Eu e cumprimentamos de volta.
— Prestem atenção... — eu disse — Vocês podem se pendurar nessa sacada e saltar até aquela árvore.
— Ele ficou maluco, não é? — indagou Kate. me deu uma cotovelada, negando com a cabeça quase imperceptivelmente. — Nós vamos morrer, .
— Deixe de ser boba, não vão morrer. Aquela árvore não está longe, um pequeno impulso e vocês conseguem se pendurar naquele galho. Ele é grosso o suficiente para não quebrar.
— Isso seria fácil se estivéssemos de tênis como vocês, e não de saltos-altos.
— Joguem os saltos para nós e desçam depois. — deu de ombros.
— E sujar nossos pés nessa grama? E se uma farpa entrar?
— Vocês querem sair conosco hoje, ou não? — retruquei. Kate se calou. — Vamos, agora. Quem vai ser a primeira?
deu um passo à frente, arrancando as sandálias de seus pés. Jogou-as para mim e pôs-se do lado de fora da sacada. Eu conseguia ver sua calcinha rosa, porque ela estava de saia. Mas preferi guardar isso apenas para mim (e, agora, para você). Ela deu um suspiro alto, expirando bela boca e fechou os olhos. Quando os abriu novamente, lançou-se contra o galho da árvore. Ela escorregou um centímetro para baixo antes de se firmar, mas eu já estava ali para segurá-la.
— Não ouse olhar para a minha calcinha, . — ela disse, divertida, enquanto escorregava lentamente até que estivéssemos nos tocando. Nessa hora, segurei-a pela cintura e coloquei-a no chão, em segurança.
— É claro que não. — respondi, um sorriso ladino em meus lábios. Ela me deu um tapinha mole no braço e eu ri.
— Sua vez, Kate. — falou. — Venha, eu não vou deixar você se machucar.
— Eu ainda vou me arrepender disso. — Kate resmungou, rolando os olhos. Jogou suas sandálias para , também, e fez os mesmos passos de . Quando pôs os pés no chão com a ajuda de , suspirou aliviada. — Eu poderia matar aos dois por nos forçarem a fazer isso, sabia?
— Você não nos mataria. — disse, convencido. Ela lhe deu um tapinha, exatamente como havia me dado, mas curvou-se para beijar a bochecha de , em seguida. Um beijo na bochecha bem próximo da boca, se meus olhos não estiverem enganados.
Era impressão minha, ou havia corado?
Senti entrelaçar os dedos de sua mão nos meus; olhei para ela. Ela sorria fracamente, sem mostrar os dentes, e um brilho diferente estava em seu olhar. Eu correspondi ao seu sorriso, segurando sua mão com força.
— Estão prontos? — perguntei olhando para os outros dois com o canto dos olhos. Eles assentiram; saímos dali rapidamente, sem a chance de fazer qualquer ruído.

Friday Night


Eu entreguei minha entrada para o homem da bilheteria. Era um pouco engraçado o modo como eles registravam uma entrada. Lembro-me de ter visto algo dessa maneira no filme O Albergue, onde uma guilhotina minúscula cortava o papel no meio. Assim que entreguei minha entrada, o homem posicionou o papel no centro da “guilhotina” – onde era manchada com algo vermelho para imitar sangue – e soltou a placa de lâmina dessa, cortando o papelzinho no meio.
Encontrei-me pensando se aquilo seria capaz de arrancar um dedo fora.
Quando passei pela porta giratória – que, aliás, era feita de metal enferrujado e tinha pontas, como um triturador -, alcancei a mão de novamente.
O lugar era escuro. Digno de uma caverna, ou algo assim. As únicas luzes que apareciam por ali eram dadas por pequenos lampiões pregados à parede com uma distância consideravelmente grande entre cada um. Eu poderia jurar que escorria água pelas paredes, dando, então, a impressão de caverna. As paredes eram escuras e ásperas, e estavam úmidas de verdade. O caminho era estreito. Não tanto, mas era. E dentro daquele lugar era tão... Quieto.
— Isso é horripilante, não acham? — perguntou , apertando minha mão com entusiasmo. Ela não estava amedrontada. Era uma garota corajosa.
— É bem interessante. — disse . Ele havia chegado ao museu alguns minutos depois de nós, e quis matar a todos quando viu que Joanna não estaria ali. Entretanto, sua entrada já estava paga e ele não voltaria para casa. — Aposto que várias das coisas que veremos foram usadas em filmes de terror.
— Ou, talvez, foram usadas como forma real de tortura. — supus, brincando. Nós fizemos uma curva e então vimos a primeira sala. Era pequena e vazia, exceto por um lampião preso à parede exatamente atrás de uma cadeira elétrica. A iluminação que saía do lampião fazia o formato de um cone cilíndrico, iluminando nada mais que o objeto em exposição. Nós não podíamos entrar na sala, obviamente. Víamos tudo através de um vidro.
— Eu quero sentar aí. — revelou . — Quero tirar uma foto, sentado aí.
— Talvez você queira tirar uma foto sentado aí com a cadeira ligada. — ofereci. revirou os olhos. — Vamos, a próxima sala fica logo adiante.
Seguimos adiante, então. andava com o braço sobre os ombros de Kate, e a garota se apertava contra ele, amedrontada. Eu não conseguia entender o motivo de estar amedrontada dessa maneira, já que tudo aquilo não passava de objetos parados, antigos e desligados. Ela não morreria ali. Mas eu sabia que ambos estavam apreciando aquele contato; para que me intrometer, então? Os dois deveriam ter o momento deles logo, logo.
andava atrás de mim e , com as mãos dentro dos bolsos dianteiros dos jeans e uma expressão tediosa no rosto. Seus olhos, entretanto, brilhavam quando chegávamos a uma nova atração. adorava coisas medonhas, filmes de terror e tortura extrema. Todos nós adorávamos, na verdade. Porém, ele era o que cultivava mais paixão sobre isso.
Eu poderia ter medo dele, se não soubesse que era tão inofensivo quanto uma borboleta.
— Você sabe que eles logo darão um “perdido” na gente, não sabe? — comentou , apontando com a cabeça para frente, onde e Kate andavam juntos.
— Fico impressionado por ainda não terem dado. — sussurrei, rindo fracamente. — Mas o problema, mesmo, é o . Foi uma pena Joanna não ter vindo.
— Ela é medrosa.
— Eu imaginei.
Um silêncio confortável veio entre nós. Enquanto uma nova sala se punha à vista, revelando uma cama de pregos cheios de tétano, tentei passar o braço sobre o ombro de , mas fui repelido. Ela olhou para mim com um sorriso divertido nos lábios, negando com a cabeça lentamente. Eu suspirei e voltei a entrelaçar os dedos nos dela.
Eu não entendia qual era esse problema que as garotas tinham em querer parecer difíceis, quando, na verdade, está completamente a fim do cara.
Eu, também, não tinha certeza se estava tão a fim de mim; mas isso não era tão importante.
Algumas salas depois, pudemos dar falta de Kate e . Eu não havia reparado em qual sala daquela exposição eles se atrasaram de propósito para ter mais privacidade, mas o olhar de mostrava que ele sabia muito bem disso. Sua carranca estava tão feia que eu poderia confundi-lo com Freddie Krueger.
Mas é claro que eu não o confundiria.
Ele passou a andar à nossa frente. Não sei se porque estávamos lentos demais, ou se não queria nos ver juntos. Acho que era a segunda opção, porque ele estava sozinho. Isso poderia deixá-lo irritado.
Eu acho que ele sabia que, em algum instante daquele passeio, acabaria sozinho de vez.
O que não demorou muito para acontecer. Duas salas depois da que estávamos, permaneceu por mais tempo encarando o mesmo equipamento usado por “Amanda” no primeiro filme da série Jogos Mortais. Era enorme e parecia um verdadeiro capacete, e éramos capazes de ver o modo que a máquina se encaixava na boca, já que estava preso em um manequim. Posicionei-me atrás dela, envolvendo-a com meus braços e apoiando meu queixo em seu ombro. Nossas bochechas estavam juntas, e eu as roçava levemente. fechou os olhos, jogando a cabeça levemente para trás para que sentisse melhor o carinho.
— Eu adoro a sensação causada pela barba por fazer. — comentou, enquanto deixava um sorriso surgir em seus lábios. — É tão... Gostosa.
— Que bom que eu não decidi me barbear hoje. — respondi a ela, sorrindo junto.
— Caham. — fez . Olhei para ele com o canto dos olhos, sendo imitado por . — Bem, eu... Vou indo na frente.
Nós acenamos em silêncio. Eu ria por dentro, para ser sincero. Era visível a irritação de . Ele odiava ser um castiçal ambulante, e era exatamente no que o havíamos transformado. Entretanto, por mais que entendesse sua dor, não pediria para que ele esperasse, ou ficasse conosco.
Eu queria meu tempo com .
No instante em que desapareceu na outra curva do museu, virei de frente para mim, gentilmente. Ela sorriu ao notar meu olhar sobre ela e, timidamente, baixou o rosto para seus pés. Eu o ergui novamente com a ajuda do dedo indicador em seu queixo, fazendo-a olhar em meus olhos. Ela parecia tímida demais.
Andei alguns passos para frente, de modo a prensá-la contra o vidro da sala em que havíamos parado. Segurei em sua cintura, sentindo-a estremecer por um momento. Então aproximei meu rosto do dela, deixando que a ponta de meu nariz encontrasse o dela e brincassem gentilmente.
— Eu já disse quão linda você está hoje? — perguntei, enquanto sentia a respiração descompassada dela se chocar contra meu rosto. Eu acariciava sua cintura com movimentos circulares do meu polegar.
— Não...
— Bem, você está. — disse, sorrindo ladino. Ela devolveu o sorriso, tornando a baixar o rosto.
— Sabe, ... Obrigada por ter me tirado de casa essa tarde.
— Sem problemas, . — falei; eu senti meu estômago dar um mortal. Aquele era um assunto proibido desde que eu era o culpado do castigo imposto a ela.
— Não, você se arriscou indo até em casa e conversando com meu pai. Ele poderia ter te matado. — ela riu, levando suas mãos aos meus ombros e deslizando-os até minha nuca. — E você não precisava ter feito isso. Você não tem nada a ver com esse assunto, e ainda assim me ajudou.
— Bem... — murmurei, sem saber exatamente o que falar. Se ao menos soubesse... — Eu sei como é ficar de castigo por algo... Inofensivo.
Eu voltei a erguer seu rosto. Ela voltou a me encarar. E, então, meu rosto voltou a se aproximar do dela. Ela não se afastou ou desviou; permaneceu parada, os olhos entreabertos que fitavam meus lábios. Eu não poderia mais retardar o que tanto gostaria de fazer. Porém, quando meus lábios tocaram os dela quase imperceptivelmente, ela recuou.
— Preciso lhe dizer algo. — confessou, olhando em meus olhos novamente.
— E esse algo não pode esperar? — perguntei, arqueando a sobrancelha. Ela negou com a cabeça, enquanto usava sua mão para me afastar um pouco. Eu me afastei, então, mas sem descolar nossos corpos. — Tudo bem, diga.
— Bem... Você havia me perguntado aquele dia...
Ela fez uma pausa. Eu a chamei para que continuasse.
— Você havia perguntado quem era o amigo que eu precisei ajudar. — ela recomeçou. Eu senti meu corpo enrijecer, temendo por algo ruim — Bem, ... Desculpe-me, eu menti.
Afastei nossos rostos um pouco mais, procurando pelo seu olhar. Tentei ver algum rastro de mentira, mas não existia nenhum.
— Certo. E por que não foi à minha casa, então? — indaguei. Um sorriso divertido brincava em meus lábios.
— Porque... — ela tornou a hesitar. Entretanto, logo continuou. — Porque Scott queria me ver.

Foolish


Aquele foi o momento em que me afastei completamente de . Sem corpos se tocando, sem mãos entrelaçadas; até mesmo sem olho no olho. Meu coração batia rápido, porém sentia-se entre as mãos de um monstro. Apertado e dolorido. Eu realmente havia começado a acreditar que o motivo era a necessidade de ajudar um amigo, mas aquilo havia me pegado muito desprevenido. Eu sentia-me traído, e nem havia motivos para isso.
Ou, talvez, houvesse. Afinal, ela havia desmarcado um encontro comigo para ir a um com Scott.
Eu sempre soube que ele não prestava.
, me desculpe. — ela voltou a dizer, desencostando-se do vidro e vindo até mim em passos rápidos. — Eu não deveria ter desmarcado o encontro que teria com você, eu sei disso.
— Então, por que o fez? — indaguei, olhando para ela pela primeira vez após a confissão. Ela parou no lugar onde estava, parecia recuar. Eu sabia que meu olhar demonstrava mais dor do que eu gostaria que demonstrasse. — Porque pensou que ele precisasse de uma ajuda? — ironizei. — Só falta você me dizer que não sabia o motivo de Scott querer te ver.
— Eu... — gaguejou. Eu sabia que ela vasculhava por uma desculpa que ainda fosse convincente para me dar. Mas eu não deixaria que ela me enganasse novamente.
— Não, ! Pela única vez na sua vida, não! Não volte a mentir para mim para se safar de algo que não tem escapatória. Você sabia muito bem o que Scott queria quando foi chamada para vê-lo.
, eu juro, eu sinto muito...
— Ora, não venha com essa para cima de mim. — exclamei. recuou mais um passo, mordendo o lábio inferior em aflição. — Eu me sinto traído.
— Mas não existem motivos para que você se sinta traído, e-
— Não venha com essa para cima de mim, também! Existe, sim! Você tinha um encontro comigo, , isso significa o começo de algo!
— Por favor, ... Faz tanto tempo. Só... Esqueça isso, finjamos que eu nunca disse nada sobre isso, e-
— Não. — cortei-a; eu estava nervoso como nunca, machucado por dentro. Passei as mãos com força pelo rosto e franja, levando-a para trás. — Que tal fingirmos que... Que nada nunca aconteceu?
— Nada?
— É. Nada disso. — apontei para mim e para ela, em seguida abri os braços apontando ao redor. — Nós.
, por favor... Não há necessidade disso tudo... Foi um erro, eu sei. Mas nós não precisamos fazer isso.
— Me esqueça, . Eu estou completamente farto de fazer o papel de bobo para você. Eu estou farto de ser o motivo das suas risadas quando você fala ao telefone com suas amigas.
— Você nunca foi motivo de risadas para mim. — ela exclamou, agora, perdendo a paciência. — Será que não dá para entender? Você nunca foi motivo de risada e nunca fez o papel de um bobo! Pelo contrário!
— Desculpe-me, . — falei sarcasticamente. — Mas eu fui, sim.
Nós ficamos nos encarando por alguns instantes sem dizer nada um ao outro. Eu respirava nervosa e descompassadamente, assim como . Eu conseguia ver algumas lágrimas se formando sob os olhos dela, mas não realmente me importava. Eu tinha certeza de que ela também podia ver as lágrimas que já haviam escorrido de meus olhos.
Eu estava chorando. E nem havia me dado conta disso.
— Pois é... — murmurei em seguida. — Acho que é isso.
Eu me virei de costas para , seguindo caminho pelo corredor. Ouvi chamar-me algumas vezes, mas simplesmente ignorei. Eu não a responderia. Eu estava simplesmente cansado de interpretar esse papel. Eu não sabia se isso era visível para ela, mas eu tinha sentimentos valiosos por sua pessoa; havia feito coisas estúpidas por ela; havia me tornado um completo estúpido por ela. Mas isso não parecia ser o suficiente para que ela deixasse de lado o convite de Scott e fosse até a minha casa para um encontro. Eu tinha certeza, agora.
Eu nunca seria bom o suficiente para ela.

Forget All You Know


Entretanto, diante de minha fuga teatral de perto de , ela logo me alcançou. Afinal, não estávamos em um lugar muito enorme para que uma boa distância pudesse ser colocada entre nós. Por mais que eu quisesse ficar longe dela naquele instante, só seria capaz disso quando saíssemos dali.
Ela se colocou ao meu lado, tentando acompanhar meus passos rápidos. As salas inspiradas em formas de torturas passavam rapidamente, mas eu ao menos parava para olhá-las. O meu plano, mesmo, era estar em alguma sorveteria; estávamos todos ali por . Isso me deixava fulo da vida.
Ela andava olhando para baixo, enquanto roía todas as unhas de uma mão. Eu nunca havia reparado nesse feito dela. Mas eu, realmente, não conseguia me importar. Permanecia andando a passadas rápidas, pouco me preocupando se ela me alcançaria ou não. Minhas mãos se aqueciam dentro dos bolsos da calça, e eu mantinha uma linha reta desenhada na boca, a completa prova de minha decepção e raiva
. — ... — chamou. Eu a olhei pelo canto dos olhos, sem responder. Ela não viu, tenho certeza, pois olhava para o chão nesse momento.
— Nós não precisamos conversar. — respondi secamente.
Ela não ousou falar mais.
Quando chegamos ao final da exposição do Museu do Terror, percebi que , Kate e já estavam ali. Arqueei uma sobrancelha diante da visão de e Kate; eu poderia jurar que eles ainda estavam atrás de nós, beijando-se como se o amanhã não fosse chegar.
Meus amigos, entretanto, diante da visão que tiveram de mim, trocaram um olhar nervoso. Quando seus olhos voltaram a mim, sorriram, gritando para nos apressarmos.
Foi então que me toquei que não estaria longe de quando saíssemos do museu. Afinal, eu ainda teria que dirigi-las até sua casa e só então voltar para a minha.
O silêncio que se seguiu dentro do carro enquanto fazíamos o percurso era quebrado apenas pelo som de alguns beijos vindos do banco de trás. Eu estava feliz por e Kate terem feito sua noite, mesmo que a minha tivesse sido completamente um fiasco. Eu olhava para os dois, vez ou outra, pelo retrovisor do carro, e não podia impedir um sorriso de se formar em meus lábios. Mas logo tratava de retirá-lo dali, lembrando-me de que eu deveria estar fazendo aquele tipo de coisa com , também.
Mas eu não estava, porque ela era uma idiota megera.
O alívio maior foi quando finalmente chegamos a sua casa. Todas as luzes estavam apagadas, indicando que seu pai já havia se deitado. , então, puxou uma chave de dentro de sua bolsa, virando-se para trás e dando um tapa leve no ombro de Kate para despertá-la dos beijos de . Ela suspirou ao ver que teria que deixá-lo naquele instante.
— Obrigada pela noite. — ela disse, dando-lhe mais um selinho. Ele sorriu e acenou com a cabeça enquanto a via descer do carro.
se virou para mim.
— Eu realmente sinto muito, . — ela murmurou em apenas um tom acima do sussurro. Eu acenei com a cabeça exatamente como havia feito. Quando estava prestes a voltar a olhar para frente, segurou meu rosto e juntou nossos lábios em um selinho.
Eu confesso que fiquei desnorteado como uma menininha. Mas eu estava zangado demais para fazer qualquer outra coisa.
Então, ela desgrudou nossos lábios e saiu do carro, correndo até a porta de sua casa e adentrando com Kate.
passou para o banco da frente.
— Me conte tudo. — mandou. Eu o olhei com o canto do olho enquanto tornava a ligar o carro e me mandava dali. — Fala sério, , qualquer ser humano consegue perceber essa sua carranca. Que diabos aconteceu naquele museu?
Eu dei de ombros, fazendo uma careta do tipo “não-sei-o-que-você-está-falando”.
— Certo. Se não quer contar, não conte. Mas que algo aconteceu, eu e sabemos, aconteceu.
Permaneci mudo até chegarmos a casa. Guardei o carro na garagem e desliguei o motor; entretanto, não mexi músculo algum. Apenas olhei para pelo canto do olho, notando que ele me observava atentamente.
Ele era o meu melhor amigo, afinal. Sabia que havia algo me incomodando. Ele poderia fingir não querer mais saber o que havia acontecido, mas eu sabia que ele estava se controlando o máximo que conseguia para não tornar a perguntar o que havia acontecido. Aquele era o meu melhor amigo: curioso, mas ouvinte para o que desse e viesse. Não era o tipo de pessoa que ficava ao seu lado só nas horas boas, ou que perguntava o que havia acontecido apenas para saber e ficar por dentro do assunto. Não. se interessava pelo que acontecia comigo para que pudesse me ajudar.
Do mesmo modo que eu fazia com ele.
Eu suspirei pesadamente, fechando meus olhos. Levei as mãos ao rosto e esfreguei-as na cara, utilizando uma força que, muito provavelmente, me deixaria vermelho. Depois, as descansei na coxa e abri os olhos, sentindo que, durante todo aquele processo, lágrimas haviam inundado por ali. Finalmente olhei para , que vestiu uma expressão completamente preocupada ao ver que eu estava chorando. Ele se virou de lado no banco, de modo a ficar de frente para mim, completamente transtornado por me ver daquele jeito.
Por mais que soubesse dos meus sentimentos por , nunca havia presenciado as lágrimas que saíam de meus olhos.
— Eu sou tão estúpido! — exclamei, indignado, enquanto alguns soluços escapavam de minha garganta. — Eu sempre soube que era um completo estúpido quando o assunto se tratava de , mas nunca pensei que chegaria a tal grau!
ficou em silêncio por alguns segundos, provavelmente procurando algo reconfortante para me dizer. Quando percebeu que não saberia o que fazer, apenas perguntou:
— O que diabos aconteceu? O que ela fez dessa vez?
— Lembra-se quando ela desmarcou nosso encontro em cima da hora? — indaguei, olhando para ele com o canto dos olhos novamente. Eu me sentia envergonhado por me deixar desabar na frente de meu amigo. — Ela havia me dito que um amigo precisou de ajuda e ela não poderia negar.
— E você está chorando por isso? — ele perguntou, arqueando a sobrancelha. — Quero dizer, , talvez fosse algo sério, e-
— Me deixe terminar! — exclamei, elevando um pouco o tom de voz. se calou, concordando com a cabeça. — No museu, entretanto, ela resolveu confessar que não havia amigo algum necessitando de ajuda alguma. — continuei a relatar, percebendo as mudanças de expressões no rosto de . Agora ele estava duvidoso. Continuei a contar antes que ele resolvesse perguntar algo, ou supor algo que não fosse ajudar em nada na minha vida. — A verdade era que Scott havia ligado, pedindo para vê-la.
— Scott? — ele indagou — O que ele poderia querer com ela?
— Você tem alguma dúvida de que era para alguma coisa boa, ? Porque posso te afirmar que bondade não existia naquele pedido! — gritei, tomado pelo rancor. — Quem você acha que estava com na foto que tirei na chácara?
— Scott... — murmurou. Ele sabia, é claro. Havia visto a foto. Mas provavelmente havia se esquecido desse fato. — Eles tiveram algo, juntos. — afirmou.
— Não havia percebido. — ironizei. Ótimo. Agora eu estava descontando minha frustração em meu melhor amigo que, desobrigadamente, havia se oferecido para me ouvir e ajudar.
Que tipo de idiota eu estava me tornando por ?
— Mas, ... Quando eu e Kate passamos por vocês, estavam os dois abraçados, encostados ao vidro e murmurando um ao outro... Você estava quase a beijando.
— Isso foi um segundo antes de ela resolver acabar com o momento para confessar suas mentiras. — falei. Um novo suspiro saiu dentre meus lábios. — Eu não sei mais o que fazer, . Parece que mesmo depois de tudo o que fiz por ela, não sou o bastante. Parece que algo sempre será revelado para acabar com o que estiver se construindo entre nós. Como se não fosse suposto para ficarmos juntos.
— Nada disso é culpa do destino, dude. — disse, enquanto sua mão se pousava em meu ombro para conforto. — São apenas peças da vida. Você precisa aprender a passar por cima delas, se quiser ficar com .
— Eu não sei mais nada sobre isso. — resmunguei. — Parece que todas as “peças da vida” são sobre ela mentindo para mim, ela rindo de mim, ou qualquer coisa que diga respeito a ela humilhando a mim. Isso não me parece peças da vida. Parece-me apenas o tipo de pessoa que fui me apaixonar.
— Talvez seja você aquele que mudará o jeito dissimulado de . — ele disse, enquanto abria a porta do carro. — Talvez seja você por quem ela se apaixonará perdidamente e encontrará o caminho certo a seguir.
— Ou talvez eu só seja mais um palhaço para o seu circo.
olhou para mim por um instante antes de saltar do carro e disse:
— Você está mais para domador de leões.

*: A música citada é um cover feito pelo McFLY da banda Beastie Boys. Para quem nunca ouviu, a música está aqui e a tradução aqui.

Get Over You


Acordei pensando no que havia dito.
Ao me deitar, suas palavras ainda rondavam minha cabeça.
Talvez seja você aquele que mudará o jeito dissimulado de . Talvez seja você por quem ela se apaixonará perdidamente e encontrará o caminho certo a seguir.
Ao adormecer, elas ainda me atormentavam, lembrando-me de tudo o que fiz para ela, para ajudá-la a sair do castigo no qual eu mesmo a havia posto. Pensei que as palavras de me deixariam em paz enquanto estivesse sonhando, mas foi apenas um pensamento vão. Porque, em meu sonho, repetia as palavras de . Entretanto, dirigia a si mesma na primeira pessoa, e não na terceira. No sonho, ela me pedia ajuda. Pedia-me para ajudá-la a encontrar quem ela realmente era. Ajudá-la a encontrar quem ela já foi um dia.
Eu a estava ajudando. Estávamos juntos, procurando por meios de fazê-la mudar o jeito dissimulado e retornar àquilo que foi um dia (por mais que eu não conhecesse esse “jeito” que um dia ela chegara a ser). Foi então que Scott apareceu e a tomou de mim. Arrancou-a de meu abraço como quem arranca um doce de criança inocente e indefesa. Teve-a em seus braços em um abraço tão forte e envolvente que me senti constrangido em ver aquilo; senti-me pouco homem. Entretanto, aquele constrangimento tornou-se apenas maior quando, no momento seguinte, olhou para mim com um sorriso malicioso e maldoso e, sem hesitação, tascou-lhe um beijo completamente ousado.
As palavras de ainda rodavam minha mente enquanto eu tentava fazer de tudo para acordar, mas só o que obtinha era a visão de Scott despindo-a e tocando-a de formas nada ortodoxas. E reagia a ele de forma nada pudica.
Foi então que meu pesadelo se esvaeceu e deu lugar à iluminação da manhã que banhava meu quarto. As cortinas abertas deixavam que a luz batesse direto em meus olhos. Acho que foi esse o motivo de ter acordado. Do meu lado, na parte de baixo da bicama, dormia, ainda entregue aos sonhos que, tenho certeza, eram muito melhores do que o meu havia sido. A visão dele ali fez-me escutar novamente suas palavras, rondando minha mente.
Sentia-me incomodado. Eu estava exausto. O sono não me serviu de nada mais do que importunações gratuitas. Para onde quer que eu fugisse, meu pesadelo particularmente pessoal me alcançaria antes que eu pudesse dizer “bons sonhos”.
Olhei o relógio digital em cima de meu criado-mudo. Sete e quinze. Eu estava completamente atrasado para as aulas do dia. Com um movimento brusco, saltei da cama, pisando na perna de por acidente. Ele repuxou a perna, sentindo a dor, enquanto arregalava os olhos. Também estava completamente atrasado.
— Qual é o seu problema, dude? — ele resmungou, enfiando a cara embaixo de um travesseiro. Eu fiz o favor de puxá-lo bruscamente, dando uma pisada em sua bunda em seguida. — O que foi? — exclamou, irritadiço.
— Estamos atrasados! — exclamei de volta. arregalou os olhos novamente, direcionando o olhar para o relógio. Sete e dezesseis. Então, para meu espanto, ele relaxou o olhar e voltou a deitar a cabeça no colchão da cama. — Qual é o seu problema? Levante!
— Nós não estamos atrasados. — ele disse tranquilamente, enquanto dobrava o braço sob o rosto para fazê-lo de travesseiro – já que eu havia jogado o outro para longe. — Hoje não tem aula. É sábado.
A ficha caiu como uma bigorna. Não fez barulho, porque, afinal, ela só existia em minha mente. Mas machucou, tremeu e incomodou. Eu olhei novamente para o relógio, enxergando “Sab”, abreviação de sábado, escrito em letras minúsculas embaixo dos traços que marcavam a hora. Amaldiçoei-me por ter feito um alarde para algo que não aconteceria.
Pior: eu me odiei por estar tão perturbado com tudo o que havia acontecido que nem ao menos percebi o que estava acontecendo.
— Desculpe, cara. — murmurei para , sabendo que ele não me ouviria, já que o som de seu ronco denunciava seu estado de total inconsciência.
tinha um sono pesado. Nada o acordaria. Eu o invejava por isso.
Deitei-me novamente, fitando o teto branco. Ele me parecia muitíssimo interessante e pacífico. Apenas ficava ali. Parado, imobilizado. Completamente sólido, sem chances de se abalar. Aparentando total firmeza, força e estrutura. Acima de todos, como uma proteção. O que, de fato, era. Uma proteção contra temporais e outras coisas. E sua cor, de um branco completamente puro e intocado, demonstrava uma falsa paz. O branco sempre demonstrava completa paz. Olhar para aquele branco radiante me dava uma falsa sensação de estar em paz comigo mesmo. Uma falsa sensação de que nada poderia me atingir.
Eu queria ser como o teto. Estar acima, como um anjo, protegendo àqueles que eu pudesse proteger. Estando em paz comigo mesmo, porque saberia que meu trabalho estava sendo feito com total precisão. Eu sabia que jamais decepcionaria alguém, porque todos estariam bem. Queria estar firme, com força e bem estruturado, sem chances de sofrer qualquer tipo de abalamento. Queria poder irradiar a sensação de paz que o teto branco irradiava. Uma paz envolvente, por mais que falsa. Mas o teto, entretanto, tinha suas fraquezas.
E eu também.
A aparente falta de abalamento seria desfeita assim que o teto se partisse. Como se alguém o estivesse quebrando em pedaços. Ele cederia, mais cedo ou mais tarde. Ele desabaria em cima das cabeças de quem fora incumbido a proteger. Ele machucaria aqueles que tanto se esforçou para manter em segurança. A paz que tanto aparentava, por sua cor radiante de branco, seria transformada em medo e desespero quando fosse manchado pelo preto da poeira. Da fuligem; da sujeira. E, então, sua função pacífica seria completamente destruída, mostrando a realidade que se escondia por trás dela. Ele não ficaria mais acima dos outros; estaria, agora, no mesmo nível, senão mais abaixo. Como algo a ser facilmente descartado. Como algo que já cumprira sua função e, no momento em que passou a demonstrar problema, passara a ser nada mais do que simples sucata.
Seria pisado, jogado de um lado ao outro.
Eu não estava acima dos outros como o teto. Eu não transmitia paz como o branco estava me transmitindo. Mas eu estava desmoronando aos poucos, sendo abalado por algo que eu desconhecia. Eu estava caindo, tornando-me um problema. Eu estava próximo de machucar aqueles que eu tentava proteger. Eu traria o medo, o desespero e a decepção, que substituiria a alegria e o coleguismo que, um dia, eu já transmiti. Eu me tornaria algo sem utilidade, facilmente descartável e problemático. Eu quebraria em pedaços.
Exatamente como o teto, um dia, faria.

Quando acordei novamente, estava melancólico. Dessa vez, nenhum sonho me fora concedido. Tudo o que enxerguei durante o sono fora um negrume inabalável. Era o que eu preferia, no entanto. A imagem da escuridão jamais me faria tão mal quanto a imagem de Scott e juntos.
Eu sabia que estava exagerando. Nada era motivo para pensar nas coisas que eu havia pensado antes de pegar no sono novamente. Eu parecera um deprimido inconsolável, dramatizando sobre os infortúnios da vida. Mas eu agradecia por ninguém ser capaz de ler meus pensamentos; seria demasiado desconfortável se soubessem como eu me sentia sobre tudo o que havia acontecido e como uma sensação hipocondríaca e desagradável passara por mim. Como eu havia me transformado em alguém perdido e desesperançado.
Poderia eu estar perdido e desesperançado?
Olhei para a bicama abaixo de mim, constatando que já acordara. Com um pouco de preguiça, levantei-me e cocei os olhos, procurando desembaçá-los. Fui ao banheiro e fiz minha higiene matinal, lembrando-me de arrancar todas as remelas dos cantos dos olhos. Ao fitar minha imagem no espelho, ao final de toda aquela rotina, percebi o quão acabado eu aparentava estar. Os olhos eram marcados de vermelho (provavelmente de tanto ser esfregado), com bolsas arroxeadas mais embaixo, marcando a noite mal dormida e cheia de pesadelos que tivera. Eu havia emagrecido um pouco, já que minhas bochechas se mostravam mais finas. Meu cabelo estava sujo, mas isso, na verdade, não era causa dos acontecimentos recentes. Era porque eu não o lavava há dois dias. Mas eu não tinha duvida alguma de que o brilho extinguido dos meus olhos era culpa total e completa de .
Preferi não me encarar. Talvez eu ainda não estivesse pronto para conhecer o soturno.
Ouvi o barulho de pratos no andar de baixo e pus-me a descer as escadas rapidamente. A TV ligada mostrava o jogo de futebol de algum timinho falido que meu pai insistia em assistir. Não me preocupei em desligá-la, porque sabia que ouviria reclamações se o fizesse. Entretanto, ao entrar na sala de jantar, encontrei , e sentados na mesa com expressões assustadoras e preocupadas, tomando suco de alguma coisa da cor vermelha. Assim que me fiz notado, os três se calaram instantaneamente.
— Reunião em minha própria casa, e eu não sabia? — perguntei, brincando, enquanto passava pela sala de jantar e entrava na cozinha para pegar um pouco do suco. — O que vocês estão fazendo aqui?
— Eu chamei eles, espero que não se importe. — falou, bebericando do suco em seguida. — Nós precisávamos conversar.
— Por que eu me importaria? — arqueei a sobrancelha. Os três permaneceram calados até me verem sentado na mesa, bebericando o suco que descobri ser de goiaba. — Precisam conversar sobre o quê? Aconteceu algo sério?
— Você vai realmente tentar esconder sua frustração interior dos seus melhores amigos, ?
— O que quer dizer?
— Nós somos seus melhores amigos. — começou — E e foram com você, ontem. Eles me contaram como você ficou ao fim do passeio. — uma pausa se seguiu enquanto eu tentava absorver as palavras de ; ele logo continuou. — E nos chamou aqui, hoje, justamente para nos explicar o que você relatou a ele.
Eu lancei um olhar severo a , mas não poderia culpá-lo por preocupar-se comigo. Eu estava dando motivos de preocupações a todos com toda essa paixonite constante e doentia. Eu estava dando problemas a mim mesmo por tudo isso.
— Certo. — murmurei quase inaudivelmente, apoiando o queixo na mão e o cotovelo na mesa. — E vocês pretendem conversar sobre isso aqui, com meu pai podendo escutar tudo?
— Seu pai foi ao parque. — disse — Quando acordei, estava saindo. Ele pediu para que eu o avisasse.
— Por que não me acordou? — perguntei.
— Porque sabia que você havia ido dormir tarde, e tenho amor à vida. — deu de ombros. — Agora, continuando... O que você pretende fazer sobre , -boy?
— Vou esquecê-la. — dei de ombros. Eu queria passar a impressão de que não estava me importando tanto. Queria que meus amigos me vissem como um garoto que não se abalaria mais por ; queria fazê-los esquecerem que eu era o garoto que, um dia, chorou por causa de uma garota (mesmo que o único que soubesse disso fosse ). Porém, a realidade era dura, e eu sabia que meus amigos não estavam caindo na minha. — Eu não posso fazer nada. Eu tentei de tudo, agi como um tolo, e tudo o que tive em troca foram mentiras.
— Bem, , em uma coisa a está certa... — começou, cauteloso, temendo uma reação errática minha. — Quando ela aceitou se encontrar com Scott, vocês não tinham nada fora um horário marcado. Isso não fez dela uma propriedade sua.
— Não muda o fato de que-
— Muda, . — interrompeu-me , acenando com a cabeça pacientemente. — O fato de ir a um encontro não implica o fato de estar namorando. Não implica devoção completa.
— Ela poderia beijar qualquer um que quisesse, mesmo depois de ir a um encontro com você. — disse .
— Vocês não estão entendendo... — falei cinicamente, procurando manter a calma. — Tudo estaria perfeitamente bem se ela não tivesse interrompido aquele momento! Eu sabia que ela teve algo com Scott porque os vi juntos na chácara! Eu não estava me importando com o fato de termos cancelado um encontro e ela ter se esgueirado para os braços de outro cara quando nós estávamos quase nos beijando!
— Isso é tudo uma implicância porque ela interrompeu o beijo de vocês para se explicar? — indagou , arqueando a sobrancelha. — É só um orgulhozinho ferido pela confissão de ?
— Não! — exclamei, revoltado. — Não é um orgulho ferido, é o fato de... Eu nem sei! Eu não sei por que estou perdendo tempo com isso. — disse, por fim, levantando-me da mesa. — Sei que estão aqui para ajudar, mas, talvez, essa não seja a hora... Ou o milênio.
— Tudo bem. — falou, levantando-se, também. — Nós iremos embora. Conversaremos segunda, .
— Segunda. — confirmei com um aceno de cabeça. — Segunda tudo estará melhor.
— Se cuida, mate.
E eles se foram, deixando-me sozinho. Ou melhor, não completamente sozinho. Uma dúvida insistente ainda pairava em minha mente, circundando-a com suas frustrações e causando frustração em mim.
Estaria eu errado por tudo o que estava acusando , tornando-me um maníaco obsessivo e preocupando meus amigos, ou meus amigos a estavam acobertando, fazendo-me soar como um maníaco obsessivo?

Going through the motions


O domingo não foi um dia útil. Afinal, que tipo de domingo se torna útil? Exceto pelo evento de um show de alguma banda decente que estivesse acontecendo e eu estivesse assistindo, o domingo não me serviria de nada além de tédio puro e explícito. Era sempre a mesma ladainha cansativa. A tevê à cabo mostrava sempre os mesmos filmes. Entrando numa fria, seguido de Entrando em uma fria maior ainda. Este seria seguido de Um príncipe em minha vida, dando continuidade com mais uma reprise de Titanic - que eu assistiria -, começando às onze da noite e terminando dois dias depois, porque o filme levava horas para ser finalizado.
Ok, eu estava brincando. O filme durava apenas três horas, e não dois dias. Mas você já sabe disso, é claro.
Entretanto, quando acordei na segunda-feira, o dia se deu início com sua impressionante turbulência. Depois de vestir-me para o colégio, usando uma calça jeans rasgada e uma camiseta do Scooby-Doo (julgue-me, eu não ligo), ouvi o chamado de meu pai. Sem muito entusiasmo, imaginando que ele gostaria de conversar sobre qualquer coisa chata e desnecessária, desci as escadas com certa preguiça e má vontade. Avistei o velho sentado em sua cadeira habitual na mesa de jantar, um jornal aberto que escondia seu rosto completamente, e a fumaça saindo da xícara cheia de café fumegante. Minha mãe já estava na cozinha, preparando bacons fritos para mim e meu pai, e eu percebia seus olhares rápidos em direção à sala de jantar. Ela havia voltado de viagem no domingo à noite, quase de madrugada. Eu pigarreei, a fim de chamar sua atenção. Meu pai baixou o jornal e olhou para mim, depois estendeu a mão até a xícara de café e, levando-a aos lábios, deu uma golada enorme.
Eu podia sentir o café queimando no meu próprio esôfago. Como ele conseguia beber algo tão quente assim?
, eu e sua mãe temos algo sério para discutir com você. — ele disse, por fim, indicando a cadeira ao seu lado para que eu me sentasse. — E gostaríamos de discuti-lo antes de sair de casa. Afinal, não temos tido muito tempo juntos, certo?
Eu concordei com a cabeça.
— Esse é o seu último ano como um colegial, . — começou ele, olhando de esguelha para mim. — Eu espero. — eu rolei os olhos; ele pigarreou, dando continuidade. — Você já está ciente do que gostaria de cursar, filho?
— Eu nunca pensei nisso... — comentei, servindo-me de uma xícara de café, também, mas deixando-a de lado para esfriar. Era verdade, afinal. Eu tinha conhecimento da minha facilidade com matérias exatas; números sempre foram meu ponto mais forte. Entretanto, nunca havia pensado em uma profissão a seguir. — Algo voltado aos números, com certeza. — comentei.
— Talvez seja a hora certa de começar a pensar, não acha? — ele voltou a dizer, dando outro gole no café. O jornal havia sido deixado de lado. — Afinal, não temos mais muito tempo até que sua carta de recomendação precise ser feita.
— Eu não acho que terei muito trabalho com isso... A coordenadora me adora. Ela me recomendaria até para Oxford, se fosse preciso.
— Como andam suas notas? — ele perguntou.
— Bem... Razoáveis.
— Razoável não é o bastante para Oxford, por exemplo. — retrucou. Minha mãe chegou à sala de jantar, carregando um prato repleto de bacon. Meu pai pegou metade para si. — Você precisa se esforçar muito mais se quiser entrar em uma faculdade respeitável, fazer um curso respeitável e ganhar o suficiente para uma vida respeitável.
— Eu prometo que pensarei nesse assunto, pai. — respondi, alcançando alguns filetes de bacon.
— Pense logo, filho. O tempo não vai parar para esperar por suas decisões.
Eu assenti, mas não disse nada mais. Preferi comer em silêncio e rapidamente, afim de sair dali o mais depressa possível. O assunto “futuro” ainda me era assustador. Fazia-me estremecer nas bases a cada vez que era abordado. Como eu poderia decidir o meu futuro profissional se nem mesmo sabia se estaria vivo no dia seguinte? O que, novamente, fazia-me estremecer nas bases. O fato de não saber que tipo de rumo minha vida tomaria; aonde eu iria parar se prosseguisse com minhas escolhas; que tipo de fim eu viria a ter.
Isso tudo era complexo demais para que eu pudesse pensar a respeito. Deixava-me desnorteado. Então, eu preferia apenas evitar pensar sobre isso e seguir a vida como se nada pudesse me deter. Mas, entretanto, meu pai estava certo. Eu tinha menos de um ano para decidir o que faria com minha vida dali para frente, caso continuasse vivo para tal.
Eu não poderia ir de carro para o colégio dessa vez. Minha mãe o usaria para ir à empresa, e meu pai usaria o dele, obviamente. Por esse motivo, ao checar as horas no visor do celular, enfiei os últimos filetes de bacon na boca, agarrei a mochila e corri porta afora. Eu já conseguia ver o ônibus ao fim da rua, e sabia que o motorista não me esperaria. Comecei a correr como um louco pela rua, enquanto gritava um “Espere!”, com a falsa esperança de que o motorista ouviria. Entretanto, ele não ouviu, e partiu sem mim.
— Maldita segunda-feira! — exclamei, enquanto ajeitava a mochila no ombro e tomava fôlego. Eu não teria alguém para me dar carona, hoje. — Droga. — voltei a praguejar.
Revirando os olhos com impaciência e descrença, pus-me a andar para o colégio. Eu teria dez minutos para chegar na hora, e seriam vinte minutos de caminhada se eu me apressasse. O fato é que eu chegaria atrasado, levaria uma nova advertência e bronca de qualquer maneira.
Mesmo assim, seria bom não me atrasar muito mais.
Andei em passadas longas e rápidas em direção ao colégio, desejando ser o Ligeirinho para que chegasse lá rapidamente. Quando estava na esquina, dei-me conta de que não havia separado meu celular. Praguejei ao vento mais uma vez, desejando poder usar um feitiço Convocatório para ter meu celular em mãos. Entretanto, era mais do que óbvio que eu não possuía privilégios mágicos, em vista que já tinha dezessete anos e nenhuma carta de admissão em Hogwarts.
Ótimo. Agora eu estava realmente enlouquecendo.
Larguei meus devaneios de lado para me concentrar em entrar no colégio sem que fosse visto. Eu já havia conseguido, uma vez. Com um pouco de sorte, poderia conseguir novamente. Entretanto, ao passar pela enorme porta de vidro, dei de cara com a diretora. Eu não esperava vê-la ali, porque ela sempre chegava mais tarde. Então me lembrei que ela não estava adiantada, e, sim, eu atrasado; mais do que pensava.
— Ora, o que temos aqui. — disse ela, analisando-me de cima a baixo. — . Atrasado... De novo.
— Desculpe-me. — pedi, olhando para ela com meu melhor olhar pidão, por mais que a odiasse com todo o coração. — Eu realmente não consegui chegar antes. Meus pais precisaram de mim para uma coisa e acabei perdendo o ônibus.
— A velha história de que os pais fizeram você se atrasar para as aulas do dia... É muito feio culpar aos pais, sabia, ? Mesmo que, talvez, eles realmente tenham uma parcela de culpa... — ela voltou a passar os olhos por minha roupa. Eu rolei os olhos, aproveitando que ela não estava vendo.
— Não estou mentindo. Meus pais realmente precisaram de mim e acabei perdendo o ônibus. Não vai acontecer novamente.
— Você já me disse isso uma vez, lembra-se?
— Sim, mas daquela vez eu realmente dormi demais. — expliquei. — Hoje, acordei na hora certa...
— E seus pais o fizeram perder a hora.
— Exato.
— Pois bem, . Façamos o seguinte — começou ela, andando até mim e deixando seu rosto bem próximo. —: você ficará durante uma semana guardando os livros da biblioteca do nosso colégio, e eu posso fingir que esses atrasos nunca aconteceram.
— Uma semana? — exclamei. — Existe um zilhão de livros naquele lugar. Eu passarei a morar lá!
— Bem, certamente, morar em uma biblioteca pode ser muito bom para o seu currículo escolar. — explicou, um sorriso sarcástico nascendo em seus lábios. — Que eu saiba, você precisa de uma boa recomendação para ingressar em uma boa faculdade. Talvez esse trabalho lhe forneça... Muitos... Pontos positivos.
Eu a encarei, certamente descrente do que ela estava fazendo. A biblioteca do colégio era um lugar estranhamente enorme, e eu sabia que estavam precisando de pessoas para trabalhar lá. Mas não pensei que fosse ser obrigado a fazer o trabalho de ordeiro por causa de um atraso. E, ainda por cima, ameaçado por isso, já que, se não o fizesse, aquela mulher faria com que meu currículo escolar se tornasse uma ficha de cadeia.
— Certo. — resmunguei, estreitando o olhar. — Uma semana, então. Agora, posso ir?
— Claro, senhor . — ela sorriu. — E, se eu fosse o senhor, apressaria o passo... Hoje a sua turma terá uma prova surpresa.
Meus olhos se arregalaram, enquanto eu disparava pelo pátio e chegava às escadas. Eu estava completamente esbaforido, certo de que seria proibido de fazer aquela prova sem um passe. Deveria ter pedido um à diretora, mas aquela megera me fez perder o foco com suas condições.
Assim que abri a porta da sala de aula, o professor de química lançou-me um olhar completamente desagradável. Eu lhe sorri amarelo, mexendo meus lábios em um pedido de desculpas, e segui para uma carteira vaga ao fundo da sala. Preferi não passear os olhos pelas carteiras para descobrir onde estava; não estava muito à vontade em vê-la agora. O professor achegou-se em minha carteira, depositando o que pareciam ser três folhas grampeadas. Lançando-me um último olhar de desgosto, disse:
— Última vez que tolero seus atrasos. E isso é apenas por ser um bom aluno em química.
— Obrigado, senhor. — sussurrei, baixando a cabeça para a prova.

O professor tomou a prova de minhas mãos, folheando-a para conferir se todos os exercícios haviam sido preenchidos. Balançou a cabeça afirmativamente enquanto passava os olhos por minhas respostas. Juntando as mãos e apoiando seu queixo nelas, em seguida, sorriu-me e dispensou-me.
Eu segui em silêncio pelo pátio da escola, feliz por ter me saído bem, mesmo sem nenhuma revisão naquela matéria. , e ainda não haviam deixado a prova, certamente quebrando as cabeças para conseguirem preencher uma única questão. Achei isso bom; eu não gostaria de enfrentá-los, ainda. Preferia ter mais um tempo sozinho antes de ter de arcar com suas preocupações e acusações. Talvez, afinal, isso fosse tudo o que eu precisasse: um tempo apenas comigo.
Sentei-me na arquibancada do teatro de arena do colégio, um local ao ar livre com um palco de pedra em seu centro, rodeado de uma arquibancada, também de pedra. O sol batia diretamente em meus olhos, mas eu não me preocupava. Deitei-me no degrau em que estava, aproveitando que me encontrava sozinho àquela hora. Dobrei os braços sob a cabeça para que não entrasse em contato com a pedra dura e friccionei os joelhos, deixando meus olhos fechados para o céu. Tudo o que vinha à minha mente naquele instante era que eu estava completamente exausto. Não uma exaustão física, mas emocional. Cansado de ter de lidar com as mudanças constantes de humor de , cansado de precisar ouvir meus amigos falando como tudo estava passando dos limites.
(Nota: Coloque essa música para tocar.)
Foi então que senti uma movimentação ao meu lado. Incomodado por estar vulnerável com os olhos fechados, entreabri-os, enxergando o céu azul com algumas poucas nuvens acinzentadas bem acima de mim. O sol, ao meu lado esquerdo, esquentava a região e fazia-me deixar o olho entreaberto. Então olhei para trás, sem movimentar a cabeça, apenas os olhos. Uma onda estranha de emoções e sentimentos surgiu em meu estômago, inundando todas as outras partes de meu corpo ao ver que, do lado de onde minha cabeça repousava, estava . Seus cabelos esvoaçando ao movimentar da leve brisa que passava, os olhos cerrados ao sol e as mãos juntas em seu colo. Ela olhava para a frente, como se não percebesse minha presença, mas eu podia sentir a tensão em cada respiração dela.
Incomodado com sua presença, levantei-me, adotando uma postura ereta na arquibancada e ficando alguns centímetros mais afastado. Apoiei meus cotovelos no degrau acima de mim, enquanto chegava com a bunda um pouco mais para frente para melhor conforto. Respirei fundo; e, então, a atenção de finalmente se voltou para mim.
Quero dizer, não se voltou, já que sempre esteve ali. Apenas foi explicitada.
— Você parece cansado. — ela comentou, olhando para mim. Correspondi seu olhar, o que a fez desviar. — Pensei que estivesse dormindo.
— Eu não estava. — disse.
— Hm. Desculpe-me por incomodá-lo, então. — deu de ombros.
Bela tentativa, , pensei, mas eu sei o que está tentando fazer.
— Então... Como foi o seu fim de semana? — voltou a perguntar, agora, mexendo em uma madeixa de cabelos.
— Um saco. E o seu?
— Foi legal. — ela suspirou. Eu a olhei de soslaio, vendo-a de olhos fechados. Sua respiração estava anormal, descompassada. Ela estava nervosa, tensa, e isso era notável. Seu lábio inferior estava sendo mordido, como se ela tentasse se controlar a dizer algo, ou estivesse tentando tomar coragem para dizê-lo. E, então, seus olhos se abriram inesperadamente, procurando pelos meus. — , eu sinto muito. Por favor, me perdoe. — ela pediu.
— Eu não tenho que perdoá-la, . — falei, impassível. — Você não fez nada de errado, certo? Nós não tínhamos nada juntos para ser impedida de sair com Scott e beijá-lo, ou sei lá o que vocês fizeram. Eu realmente não me importaria em não saber o motivo de ter cancelado nosso encontro. E me importaria menos ainda em saber o que você e Scott fizeram. — dei de ombros.
— Você não está dizendo isso francamente, . Eu sei que está zangado e apenas diz isso porque é a saída mais fácil.
— É isso o que você acha? Que eu estou tomando a saída mais fácil? — indaguei, de repente sentindo-me irritado. Vire-me de lado na arquibancada — Quer saber? Sim, eu estou zangado. Zangado por ter me esforçado tanto para fazer algo a você e ser completamente dispensado segundos depois. Eu preparei uma refeição pela segunda vez na minha vida, temendo até o último instante que tudo saísse errado, como da primeira vez, e tudo o que fez foi ligar dez minutos depois e desmarcar o que tínhamos combinado. —exclamei, dessa vez realmente bravo. — E é isso o que você pensa? Que eu estou simplesmente tomando a saída mais fácil?
— Não foi o que eu quis dizer, ... — ela começou, mas eu a interrompi.
— Não, . Foi o que você disse. Mas... Sabe o quê? Talvez eu realmente deva tomar a saída mais fácil, dessa vez. Talvez seja o que eu preciso, o que você precisa.
— Você não está me deixando falar, , as coisas não são assim... Você entendeu tudo da maneira errada...
— E você não me ouve! Não! — exclamei, rindo ironicamente. — Você ouve tudo o que os outros dizem, ouve até o que não deve... Mas quando o assunto sou eu, você não se dá ao trabalho de fingir que presta atenção!
— Você sabe que isso não é verdade, . Você não sabe do que está falando.
— Eu sei, sim, . Mas, talvez... Só talvez... Você não esteja gostando de entender.
— O que você quer dizer?
— Eu nunca pensei que fosse dizer isso, ... — comecei, levando as mãos ao rosto e passeando-as até os cabelos. — Eu nunca pensei que fosse eu quem diria isso, mas... Eu estou de saco cheio. Estou farto, irritado e exaurido. Você está me fazendo enlouquecer. Você está me deixando doente. Eu sinto que posso explodir a qualquer momento! — ri alto. Eu sentia que estava parecendo um louco. Pelo menos não havia mais ninguém ali para perceber, também. — Então é isso.
— Isso o quê?
— Eu estou, definitivamente, desistindo de você. Pode ser que demore um tempo... Mas, um dia, você há de se tornar apenas uma lembrança. Uma lembrança ruim; mas uma lembrança.
— Você está brincando. Eu sei que está. — ela disse, descrente, negando com a cabeça. — Você está sendo irracional! Não há motivos para tanta frescura!
— Realmente, , não há! Então, me diga, para que continuar tentando se sempre serei decepcionado por alguma atitude sua? Eu olho para você e tudo o que vejo é uma garota por quem sou apaixonado, mas quando falo com você, sinto como se estivesse sendo apenas mais um inseto na sua teia! — gritei. recuou, sem saber o que dizer. — Você não dá importância àqueles que a merecem, ... Você dá importância àqueles que acha que devem merecer.
— Eu... , não... Eu não...
— Não, . Eu não. — falei. Fechei os olhos, negando com a cabeça. Eu sabia que estava sendo duro com ela, mas aquilo deveria ter um fim. — Eu não. — repeti.
Abri os olhos e vi chorar. Eu não esperava por isso. Esperava por uma máscara inabalável de indiferença, um olhar acusatório e culposo. Mas apenas fui presenteado com lágrimas. Lágrimas de .
Isso fez com que eu me levantasse e saísse dali no mesmo instante.

Here Comes The Storm


Era mais do que óbvio que por mais que eu quisesse realmente esquecer não conseguiria fazê-lo.
Desde o momento em que fugi do teatro de arena para me esconder em algum canto qualquer e não ver suas lágrimas não parava de pensar nela. Não conseguia livrar minha mente do fato de que eu havia machucado a única garota a quem eu havia e estava amando. Eu me sentia um monstro por magoá-la do modo como havia magoado, mesmo que ela tivesse me machucado primeiro.
Eu queria encontrar meus amigos e colocar tudo para fora. Todos os sentimentos agonizantes que estavam me assombrando e me ensandecendo. Eu tinha plena consciência de estar me tornando alguém insuportável e monótono; eu sabia que ser repetitivo como estava sendo me afastaria daqueles que mais amava. Mas esse era o efeito de em mim: tirava-me o controle, deixava-me entregue aos impulsos que poderiam me comprometer. Entretanto, eu sabia que meus amigos jamais me deixariam. Mesmo assim, apesar de querer encontrá-los e desabar em frente a eles, pedir ajuda e qualquer coisa mais que pudessem me dar, não o faria. Eu os pouparia da preocupação exorbitante que os havia submetido. Eu estava completamente exausto de me tornar um problema para eles.
Cheguei até a biblioteca. A diretora víbora do colégio já me esperava, batendo a ponta do sapato no linóleo que cobria o chão, fazendo um barulho ressoar irritantemente. Antes de ir até ela, pedi à bibliotecária que deixasse minha mochila guardada atrás de seu balcão enquanto faria a arrumação. Em seu assentimento, entreguei-lhe minha mochila e, enfiando as mãos nos bolsos, segui até onde a diretora estava.
— Pensei que se atrasaria por mais quarenta minutos. — ela disse, sorrindo cinicamente. Rolei meus olhos, concordando com a cabeça.
— Sim, desculpe-me.
— Vai dar alguma desculpa, dessa vez?
— Não, a senhora não acreditaria, de qualquer maneira. — dei de ombros. Ela empinou o nariz, dando a volta em mim.
— Bela roupa para trabalhar.
— É a roupa com que vim para o colégio.
— Bela roupa para se vir ao colégio. — retrucou. Eu fechei meus olhos, respirando fundo. Toda paciência era pouco. Eu precisava de mais do que toda ela. — Você pode começar com a sessão clássica.
— Precisarei ficar até que horas? — indaguei, olhando em seus olhos pela primeira vez.
— Tem algo para ser feito hoje, senhor ?
— Não, eu só-
— Então até que tudo esteja guardado em seu devido lugar. — ela interrompeu. Estava se afastando de mim quando tornou a dizer: — Em ordem estritamente alfabética. Um livro fora do lugar e será mais tempo para você.
Resmunguei algo baixo o suficiente para que ela não ouvisse. O ar que aquela mulher respirava devia ser tóxico, porque era veneno demais sendo lançado. Ela ainda morreria com o próprio veneno. Digo isso até hoje. Porque ela ainda não morreu.
Deslocando até a sessão de livros clássicos que, ironicamente, era a sessão mais cheia que havia em toda a biblioteca, preparei meu fone de ouvido para que houvesse uma distração durante aquele tempo. Digo, é claro que eu me distrairia o suficiente tendo de colocar tudo em sua devida ordem alfabética, mas uma música para uma distração mais relaxante não seria ruim para mim. Na realidade, me faria muito bem. Eu não entendia como aquelas pessoas podiam perder tempo lendo livros de sociologia mandados pelo colégio, quando existiam livros fictícios tão fascinantes. Digo, é claro que existem alguns livros necessários a serem lidos durante o Ensino Médio que nos abririam algumas portas em um futuro muito próximo, mas com tantos livros bons pela biblioteca, como Harry Potter, Percy Jackson, até mesmo Crepúsculo (não que eu tenha lido, é claro), porque diabos alguém iria ler livros escolares?
Tá, certo. Para uma boa faculdade.
Comecei a arrumar pela letra A. Era a parte mais vazia, pelo menos. Algo me dizia que, quando eu terminasse, algum infeliz apareceria para bagunçá-la novamente. Acho que é assim em todas as bibliotecas, afinal. Trabalhar em uma deve ser ótimo para o conhecimento de livros, a variedade exclusiva e tudo o mais, mas acho que a pior parte seria ter de arrumar tudo aquilo. Eu estava, afinal, sentindo na pele como era ter de arrumar a bagunça de alguém. Eu nunca mais bagunçaria um lugar novamente.
Exceto meu quarto. Era meu lugar privado de bagunça.
Estava passando para a letra B quando apareceu, completamente esbaforido e descabelado, como se estivesse correndo em uma maratona. O suor em sua roupa, entretanto, fazia-me pensar que ele havia fugido de um tubarão faminto em alto-mar. Sua expressão era de total incredulidade e confusão, como se uma nave extraterrestre houvesse lhe feito uma visita, mais cedo. Eu pausei a música que ouvia, arrancando os fones de minha orelha em um movimento rápido e pondo-me de pé. Sua expressão estava me assustando profundamente. Era como se estivesse ao ponto de explodir, como se fosse desabar a qualquer instante...
Aquilo eram lágrimas?
Aproximei-me.
— O que houve, ? — perguntei, já pensando na morte de sua mãe, ou em sua morte com o resultado da última prova. O negócio era que o resultado não havia saído ainda. Não havia motivos para estar tão desesperado como aparentava estar. — , pelo amor de Deus, você precisa se acalmar! — exclamei ao que não dizia nada, apenas gesticulava sobre alguma coisa que nem Einstein poderia decifrar. O segurei pelos ombros, dando-lhe um leve chacoalhão para evidenciar que o queria calmo. arregalou os olhos, provavelmente estranhando minha reação, mas respirou profundamente. Cinco vezes. Mas se acalmou. — Agora me diga o que diabos aconteceu.
— Certo, mas... Vamos sentar ali, eu estou exausto. — ele disse, abanando a si mesmo enquanto caminhava até uma das mesas redondas da biblioteca e sentava-se na cadeira. Eu observei os livros em cima dela. Todos de letra A.
Merda.
— O que você está fazendo na biblioteca a essa hora, ? — ele me perguntou quando eu me sentei. Puxei os livros para mim, colocando-os em ordem alfabética ali mesmo. Depois mudaria tudo para encaixá-los nos pontos certos. — Você não é muito de vir aqui.
— A diretora presenteou-me com mais uma demonstração belíssima de afeto. — eu sorri ironicamente. — Preciso organizar todos os livros em ordem alfabética para que finjamos que eu cheguei atrasado essa manhã.
— Aquela mulher é uma exploradora. — meu amigo exclamou, erguendo as mãos aos céus. Ou teto. — Que diabos! Em alguns dias é capaz de você receber cartas anônimas com a assinatura dela! Não duvido nada que ela te ame no fundo e faz isso só para poder passar mais tempo com você.
— Primeiramente, , se a carta for anônima não terá sua assinatura. — rolei os olhos, rindo da inteligência do meu amigo. — Em segundo lugar, eu não acho que ela me ame. Acho que apenas gostaria de uma boa noite de sexo com um garoto do colegial. Talvez ela não esteja ficando satisfeita com os dotes de seu marido. Se é que ainda o tem, certo?
— Acho que ele pediu o divórcio no verão passado. — comentou, dando de ombros. — Eu o entendo. Também pediria.
— É, eu também. Não consigo imaginar aquela mulher tratando-o bem. Como será que seria? “Oh, querido, você esqueceu de baixar a tampa da privada. Que tal varrer a casa durante uma semana para esquecermos esse erro, huh?” — imitei, forçando uma voz afeminada que, aos meus ouvidos, soaram muito parecidos à da diretora.
— “Ou, talvez, você possa cortar suas próprias unhas dos pés. Assim eu esqueço esse seu errinho descuidado.” — acrescentou , veemente. Eu arqueei as sobrancelhas, chegando com as costas um pouco para trás. — O quê?
— Você não corta suas próprias unhas dos pés? — indaguei. arqueou a sobrancelha.
— É claro que não. Você o faz? — indagou, acreditando que aquilo era a coisa mais absurda do mundo. — É minha mãe quem corta a minha. Eu tenho nojo de pés.
— É... Certo... — falei, um sorriso amarelo em lábios. deu de ombros. Eu não o julgaria por isso, afinal. Sempre soube que as faculdades mentais de meu melhor amigo não eram das mais saudáveis. Medo de pés era aceitável. Medo de cortar as próprias unhas era completamente estranho. — De qualquer jeito, o que foi que houve? Você chegou aqui como se estivesse pronto para anunciar a chegada de um tsunami ou furacão.
— Oh, acredite, é ainda pior, ! — ele exclamou, tornando a manter-se sério e levemente estupefato como antes.
— O que poderia ser pior do que um desastre natural?
— A Kate não fala comigo! — ele exclamou alto demais, atraindo a atenção de algumas pessoas a nossa volta. Eu olhei para alguns, sorrindo amarelo em um pedido de desculpas. Os estudiosos apenas rolaram os olhos, negaram cinicamente e voltaram a estudar. Os bagunceiros voltaram a conversar como se nada tivesse acontecido.
— Você precisa falar baixo, estamos em uma biblioteca. — eu falei em um tom baixo, olhando-o significativamente e apontando ao redor. — Eu não pretendo receber mais uma semana de castigo na biblioteca por culpa sua. — pareceu ofendido, mas não se opôs. — Agora me diga o que houve. Por que ela não fala com você? Estavam bem ainda hoje, pela manhã.
— Eu não faço ideia! — ele tornou a exclamar, dessa vez pouco mais baixo. — Estávamos bem até o fim da aula. Eu fui para casa almoçar e tomar um banho; havíamos combinado de dar uma volta na praça ao lado da minha casa, mas, quando apareci na porta da casa dela, seu pai disse que não estava.
— Você já pensou que ele pode ser como o pai de ? — perguntei; percebi o erro que cometi, então, quando senti meu coração se apertar dolorosamente. — Talvez ele só estivesse... tomando conta da filha.
— Não, ele disse que ela não estava lá, mas eu pude vê-la ao pé da escada. — comentou. — Ela estava sentada no último degrau, abraçando os joelhos e olhando para mim com... ódio. — ele sugeriu, incerto sobre o sentimento. — Eu não sei que tipo de olhar era aquele, mas não era um bom. Era como se ela... estivesse... me evitando.
— O que você fez a ela, ? — indaguei, arqueando a sobrancelha. Era realmente estranho. Ambos estavam bem até duas horas atrás, era estranho vê-lo tão transtornado por algo que surgira de repente. — Disse alguma coisa errada? Você sabe que garotas gostam de coisas românticas, e não esquisitices.
— Eu não disse nada a ela... A última vez que a vi, antes de estar completamente zangada e esquisita comigo, ela estava entrando no carro de .
Foi então que a minha ficha caiu completamente. Atingiu-me em cheio, como uma nevasca no auge do inverno. Como um trovão seguido do raio. Tudo havia ficado claro como água, transparente como o mais puro cristal. E essa culpa me deixou ainda pior do que eu já poderia estar. Como se eu estivesse, novamente, tornando-me um problema para aqueles ao meu redor. Como se eu não passasse de um garotinho de primário tendo seu primeiro desafio de vida à sua frente e fracassando completamente. E eu sabia que, apesar de não ser do primário e não estar enfrentando meu primeiro desafio, estava fracassando tão genuinamente quanto um. não havia feito nada de errado para Kate, tampouco dito algo que pudesse magoá-la. não havia culpa em nenhum ponto de toda aquela história estranha.
Eu tinha.
escondera-se no fundo da sala de aula durante todo o resto do dia. O lugar dela, à frente com suas amigas, havia ficado vago e solitário. As garotas tentaram levá-la de volta até lá, mas apenas negou com um murmúrio baixo – eu pude ouvir – e disse que não estava se sentindo muito bem. Eu me perguntara o que era aquele barulho estranho que se seguira por todas as aulas do dia, mas só agora tinha certeza do que havia acontecido.
passara a aula inteira chorando.
E o motivo era eu.
Ou, pelo menos, o impacto de minhas palavras nela.
Eu não posso dizer que me sentia culpado por fazê-la chorar. Acho que isso é apenas uma devolução das lágrimas que eu havia derramado por ela anteriormente. Mas eu me culpava por . Kate, sendo melhor amiga de , certamente estava a par de tudo o que havia acontecido. Eu não duvidaria de que Kate houvesse pressionado até que ela contasse tudo o que havia acontecido após a prova de Química. E Kate, interpretando bem o seu papel de melhor amiga, sentira-se na obrigação de se afastar de , que era o meu melhor amigo. Uma atitude ridícula e imatura, já que eu tinha certeza que não havia pedido por essa separação. A garota estava felicíssima pela junção dos dois, não seria tão baixa ao ponto de pedir a Kate que se separassem. Isso era apenas Kate sendo parcial.
balançou a mão freneticamente em frente aos meus olhos, como se esperasse despertar-me de um transe. Eu pisquei algumas vezes, engolindo em seco. Eu não podia aceitar o fato de ser o causador da separação de Kate e . Eu estava me odiando por isso, odiando todos os problemas que estava causando por causa de .
— Você não fez nada a ela, ... — comecei, respirando fundo. certamente me odiaria a partir dali, também. — Kate não fala mais com você por causa de mim.
— De você? — ele indagou, arqueando as sobrancelhas. A expressão de dúvida era notória. — O que você poderia ter a ver, ? É claro que isso não é sua culpa.
— Depois da prova de Química, eu estava no teatro de arena e apareceu. — expliquei, procurando um modo menos terrível de narrar a ele a minha parcela de culpa em tudo aquilo. — E eu lhe disse que estava farto, e que ela não dava importância às pessoas certas e mais um monte de coisas terríveis. Foi por isso que ela se sentou no fundo da sala essa manhã. Ela estava chorando por minha causa.
— Ainda assim, o que isso tem a ver?
— Ela provavelmente contou o que houve para Kate, e Kate quer se afastar de você por isso. Como se você tivesse alguma coisa a ver no meu relacionamento com , ou... Eu sei lá o que essa maluca pensa! — exclamei. Dessa vez, os olhares da biblioteca foram direcionados a mim. Eu sorri amarelo antes de voltar a dizer. — Desculpe-me, certo? Eu vou consertar isso de alguma maneira.
— Não seja estúpido. — disse, rolando os olhos e dando um tapa na minha testa. Eu o olhei curioso; ele deveria estar me odiando e me esmurrando agora. — Você não tem culpa de nada nisso. A única culpada é , por não ser uma garota com mentalidade estável e não ver que você é o homem da vida dela.
— Ok, vamos parar com essa história de “homem da sua vida” — eu imitei sua voz, fazendo aspas. — Isso me deixou pensando demais naquela outra noite e eu pretendo dormir incansavelmente hoje.
— Certo. Então volte ao trabalho, -boy. Tem muitos livros pra você arrumar ainda. Enquanto isso, vou tentar bolar uma ideia de reconquista.
Eu observei acenar com a cabeça e sair da biblioteca com uma calma estranha. Não parecia o afobado que entrara aqui mais cedo. Talvez o fato de saber o que havia acontecido o tivesse deixado mais tranquilo, por saber que o erro não fora dele, afinal. E eu teria que arrumar alguma maneira de recompensá-lo pelo fora que tomou de Kate.

Hypnotized


A manhã seguinte nascera chuvosa. O céu dava a sensação de que desmontaria sobre nossas cabeças, aturdindo-nos com um buraco negro em seu lugar. Diferentemente dos dias comuns, pus-me de pé de imediato, seguindo até o banheiro onde tomei um banho rápido e fiz minha higiene matinal. Vesti-me com uma calça jeans de lavagem escura, uma camiseta polo vermelha, próxima ao vinho, e All Star verde musgo nos pés. Juntei minhas coisas para dentro da mochila, de onde as tinha tirado na noite anterior para estudar. Eu não sabia de onde surgira aquela vontade inesperada, mas a saciei rapidamente com quinze minutos frente ao livro de Geografia.
Tomado por uma alegria insensata e sem fundamentos, apoiei-me ao corrimão e, tirando os pés do chão, deslizei até o andar de baixo. Minha mãe rolou os olhos ao que me viu agir dessa maneira, provavelmente fazendo uma anotação mental de castigar-me por isso mais tarde. Talvez ela ainda estivesse se sentindo culpada pela detenção descabida que eu recebera por causa de um atraso causado por ela e meu pai. Minha mãe prometera que ligaria para a diretora e pediria que retirasse o castigo, mas eu muito bem sabia que a mulher apenas arranjaria mais uma de suas desculpinhas ridículas para manter-me ocupado na biblioteca pelo resto da semana, mesmo que precisasse desenterrar outros erros meus para isso.
Dirigi-me até a sala de jantar, onde a mesa para o café da manhã já estava posta e meu pai já se satisfazia com sua habitual caneca de café e jornal do dia. Sentei-me ao meu local de sempre, alcançando uma torrada e geleia de morango.
Meu pai logo baixou o jornal, depositando-o ao seu lado; eu já imaginava qual seria o assunto.
— Decidiu sobre o que cursar, ?
Eu mastiguei lenta e calmamente, tomando um bom gole do suco de uva logo em seguida. Meu pai esperou pacientemente até que eu estivesse com a boca livre para falar normalmente.
— Ainda não.
Eu ouvi o suspiro frustrado de meu pai enquanto ele fechava os olhos e negava com a cabeça. Aproveitei esse instante para rolar os olhos e dar uma nova mordida em minha torrada.
— Você precisa entender, filho...
— Eu entendo, pai. — disse com a boca cheia — Entendo perfeitamente. Mas acho que ainda tenho algum tempo até que seja necessária uma resposta absoluta e definitiva.
Meu pai se silenciou, franzindo o cenho.
Eu estranhava o modo como estava agindo, mas preferia não tentar entender. Acordar com aquele ânimo estranho era, de certa forma, bom. Mostrava a todos que eu não estava tão preocupado com o que havia acontecido entre mim e . Apesar de eu estar completamente despedaçado pelo que acontecera entre nós. Mas eu não tinha tempo para pensar nisso, já que precisava ajudar a recuperar Kate, que o afastara por minha culpa, mesmo que indiretamente. Eu tinha algo planejado em mente, mas ainda era tudo uma coisa muito vaga. Eu precisaria conversar com e convencê-lo a fazer aquilo, mesmo sabendo que ele dificilmente aceitaria.
Saí de casa tranquilamente, já que não estava atrasado. Deixara meu pai conversando sobre faculdades que eu deveria cursar com minha mãe, preocupando-me apenas com quantos minutos eu deveria esperar até que o ônibus chegasse no ponto. Eu odiava esperar. Sempre odiei.
Eu esperei pelo ônibus ao som de Cryin’, do Aerosmith, e cheguei à escola cinco músicas depois, quando já tocava You shook me all night long, AC/DC. Procurei pela figura de pelo colégio enquanto caminhava até nossa sala, mas ele não estava por perto. Apenas e estavam ali, mas não pareciam saber nada sobre ele. Eu suspirei, derrotado, enquanto sentava-me em minha carteira habitual e esperava pelo professor chegar.
Foi então que eu a vi.
Usava um short jeans de lavagem clara com manchas escurecidas e algumas partes levemente rasgadas. Eu adorava o fiapo de tais partes se sobrepondo ao resto do jeans. Os passadores sustentavam um cinto preto e fino, apenas um adereço a mais em toda sua beleza. Era um short largo, o que possibilitava a vista de uma boa parte de sua bunda se alguém se abaixasse para pegar alguma coisa do chão perto de si. Vestia uma blusa de alcinhas finas de renda, na cor rosa, e deixavam a alça de seu sutiã de mesma cor aparecer. Pude encontrar uma fina blusa de frio pendurada no encosto de sua cadeira, e seus pés vestiam um All Star branco. Seu cabelo estava levemente ondulado, com suas ondas caindo perfeitamente pela extensão de seu ombro esquerdo e cobrindo uma leve parte daquele lado do rosto enquanto ela escrevia alguma coisa rapidamente no caderno.
Tão simples, mas tão perfeita...
Isso só me fazia odiá-la ainda mais – é claro que você acreditaria nisso.
Também servia para me fazer ter a certeza de que era uma veela.
Balancei a cabeça para os lados em negação, recusando-me a observá-la por mais tempo. Eu estava indo muito bem – é claro que estava – na arte de odiá-la – e você acreditará nisso -, e não seria agora que voltaria a admirá-la como um ser divino, ou mágico, por causa de sua beleza completamente exorbitante.
E eu me odiava por isso. Porque, por mais que tentasse parecer um novo homem, aquele que comandava a relação e não deixava que uma simples roupa e cabelos maravilhosos me fizessem fraquejar, eu sabia que estava me enganando com facilidade extrema. Porque, no fundo, enquanto eu tentava pensar todas essas coisas terríveis a respeito de , uma segunda vozinha no meu subconsciente ecoava “Ela está tão linda. Tão maravilhosamente perfeita. Será que ainda tenho uma chance, mesmo depois de tudo o que eu disse?”. E isso era o que realmente me deixava fulo da vida. O que realmente me fazia querer falecer mais cedo.
veio ao meu lado, sentando-se despojadamente na cadeira enquanto cutucava os cantos das unhas. Eu suspirei, e logo sentou-se do meu outro lado, mordiscando as unhas. Olhei para minhas próprias unhas, pensando em dá-las a para que ele as aparasse com os dentes.
— Você está muito quieto e pensativo essa manhã. — disse, por fim. Ele me olhou com o canto dos olhos, sem mover um único músculo sequer para virar em minha direção. — Nós sabemos o que aconteceu entre você e na manhã passada. Como se sente sobre isso?
— Sinto-me como se estivesse visitando um psicólogo. — dei de ombros, entortando o canto dos lábios. me olhou.
— Você sabe que quero cursar psicologia. Ajude-me a treinar meus dotes.
— Ok, o que você quer que eu diga? — perguntei, ainda sorrindo.
— Como você se sente sobre isso? — ele voltou a perguntar, emburrado. Eu ri.
— Completamente fodido, o que você espera? Que eu saia aos pulos gritando sobre como me sinto “livre” — fiz aspas — por ter dado um “fora” — aspas novamente — em ? Não, meu querido , eu me sinto um podre.
— Bem, talvez você devesse... — começou; entortou os olhos, parecendo procurar a palavra certa para me dizer. — Como você se sente sobre isso?
— Talvez psicologia não seja o seu caso, mate. — rolei os olhos. — Você sabe de Kate e , não sabe?
— Sei, nos contou. — ele apontou para .
— Dude, a menina enlouqueceu. — resmungou ao meu lado, parando de roer as unhas por alguns instantes. — Fala sério, que tipo de pessoa daria o fora no por causa de você?
— Bem... Obrigado pela parte que me toca! — exclamei, inconformado. — Mas eu tenho uma ideia para que ela volte a vê-lo... Ou beijá-lo, sei lá.
— E o que é? — perguntou e curvou-se para o meu lado, a fim de ouvir.
— Bem, eu precisava dele aqui para ouvir, concordar e, por fim, realizar isso tudo. Não adianta contar a vocês.
— Ah, qual é, ! — rolou os olhos e assentiu. — Você nos conta, nós avaliamos, e, depois, faz.
— Ok...

Eu não estava contando com a ideia de contar tudo a e . Não que eles não pudessem me ajudar a convencer – que certamente recusaria -, mas por parecer um idiota, ou sei lá. A verdade era que, no fundo, eu tinha medo que eles pensassem que eu tive essa ideia meses antes, enquanto pensava em um modo de conquistar .
Bem, eu tive. Mas era óbvio que eu não faria, seria vergonhoso demais. E, na nossa situação atual, eu não faria nem por milhões de libras.
Ou faria. Eu não sei de mais nada.
O fato é que, quando contei a o que eu pensara em fazer, ele não esboçou reação alguma. Chegou a me preocupar, se quiser saber. Porque sempre expressava reações de mais, não de menos. Mas eu não desisti, de modo que permaneci a encará-lo, esperando por uma resposta negativa ou positiva, enquanto e trocavam olhares tensos. O olhar de era tão vago que eu poderia pensar que havia morrido.
— Você deve estar brincando comigo. — ele disse por fim. Eu entortei a boca e arqueei a sobrancelha, enquanto arregalava os olhos e adotava um rubor terrível. — Você acha mesmo que eu passaria por tal coisa vergonhosa? Eu, provavelmente, derreteria de puro constrangimento antes mesmo de chegar ao fim disso!
— Qual é, — comecei, tentando acalmá-lo. Agora eu percebia quão bom fora não ter feito o que planejava para . — Você ama a Kate, precisa “reconquistá-la” — fiz aspas —, e o modo de fazê-lo é aceitando a minha proposta.
— Eu não amo a Kate! Eu só tenho uma... atração muito sobrenatural por ela. — ele retrucou. Seu cenho franzido denunciava sua confusão interna. — É, é isso. Não passa de uma atração!
— E eu sou o coelhinho da páscoa. Vou trazer dois ovos para você esse ano. Pra tomar lugar dos que faltam. — rolei os olhos.
— Diga-me, , você me chama de covarde castrado entre indiretas, mas você faria tal coisa por ?
— Bom, não, porque ela é uma vaca megera.
— Oh, não venha com esse papinho velho de I’m over it, porque nós quatro sabemos que você não acha a uma vaca megera nem no Japão, e não a superou nem em Marte.
— Sabe, , eu acho que o tem razão... — interferiu, tentando me dar algum crédito quanto a minha ideia. — Talvez o modo certo de reconquistá-la seja por meio dessa ideia estúpida e vergonhosa. Garotas amam esse tipo de coisa, você sabe disso...
— Katenão ama esse tipo de coisa. Ela provavelmente se trancaria em casa e jamais sairia na rua novamente, tão vergonhosa ficaria. E adivinha quem seria o culpado e idiota da vez? Eu!
— Você é um covarde e tem medo de ser rejeitado por ela mesmo por meio de algo tão bonito. — contrapôs, apontando o dedo indicador para o nariz de . Eu segurava o riso. — Você sabe que, se for rejeitado, terá o seu orgulho ferido. Já foi um milagre você ter ido conversar com Kate, e você nunca havia passado por tal situação antes. Se Kate não gostar de uma prova tão bonita de “amor” — olhou de modo assassino para —, tá, que seja, “atração muito sobrenatural”, então o problema é com ela, com aquela mente completamente perturbada e insana, e não com você.
, e eu olhávamos para com certa incredulidade. Não por duvidarmos de sua capacidade mental – é claro que não, jamais faríamos isso -, mas por descobrimos que era romântico. Apesar de muitos anos juntos, nunca havíamos reparado no seu lado romântico, e era algo de se assombrar. passava a ideia, pelo menos era o que acontecera comigo e os caras, de que, para ele, nada passava de uma brincadeira muito divertida. Ver que o garoto tinha um lado amoroso em conflito com seu lado brincalhão era... assombrador. Mas nós nunca fomos apresentados ao seu lado amoroso anteriormente. só poderia estar apaixonado por alguém para ser capaz de deixar esse lado transparecer tão radicalmente, de modo a nos deixar de boca aberta. Ou, talvez, ele só estivesse tentando fazer enxergar a realidade de tudo aquilo, mesmo.
— O que vocês estão olhando? — ele perguntou, levemente estranhado — Eu não posso dizer algumas verdades óbvias sem que vocês três me olhem como se eu viesse de Andrômeda.
— É porque você realmente pareceu ter vindo de Andrômeda. Desde quando fala coisas românticas? — indagou, a sobrancelha arqueada.
— Isso não importa. O que importa é você fazendo ou não a porcaria da ideia de . E fique sabendo que se você não o fizer, é um completo idiota.
— Então eu sou um completo idiota. Acho. — deu de ombros, fazendo uma careta muito feia de quem não se importava. — Não vou me colocar em tal situação só para agradar uma garota.
Eu fiquei observando enquanto caminhava para longe, completamente ignorante à realidade. Eu só conseguia pensar no quão estúpido ele estava sendo. Era óbvio que perderia de vez a garota se não tentasse uma medida drástica para conquistá-la de uma vez por todas. Ele estaria cometendo o mesmo erro que eu havia cometido com a partir do momento em que decidira não me esforçar para tê-la, e agora era tarde demais. Logo, se tornaria o segundo , e Kate se tornaria a segunda . Era burrice demais para uma pessoa só não enxergar isso bem diante de seus olhos.
Eu dei de ombros para e , que me responderam com o mesmo movimento, e saímos cada um para um lado. Eu segui para o teatro de arena novamente, imaginando que talvez – e só talvez -, um pouco de sol na minha pele seria bom. Uma rápida olhada no relógio do meu celular denunciou alguns minutos restantes de intervalo, o que me desanimou rapidamente. Eu precisava de muito mais tempo fora da sala de aula, e ficar apenas mais alguns minutos não resolveria. Segui para a mesma arquibancada que deitara no dia em que havia discutido com , sentando-me ali a fim de descansar. Mas era óbvio que isso seria impossível no meio de tantos outros alunos. O barulho infernal de suas conversas, gritos, tentativas frustradas de chamar atenção e etc. serviam apenas para fazer com que minha cabeça pesasse mais e girasse de um modo tenso. Eu estava prestes a fechar os olhos e deixar a cabeça pender para trás, quando um amontoado de cabelos platinados entrara em meu campo de visão.
Danna Cooper, a gostosa da vodka.
— Oi, ! — ela exclamou, curvando-se para me dar um abraço apertado e exagerado e sentando-se ao meu lado em seguida. — Como vai?
Eu fiquei pensando em que tipo de orégano aquela garota fumava. Afinal, não era muito comum uma garota chegar e conversar com você como se fossem amigos há anos, quando na verdade nunca trocaram nenhuma palavra. Entretanto, aquela escola possuía muitos alunos drogados, insanos e esquizofrênicos. Eu não perderia meu precioso tempo de tentativa de relaxamento frustrada para tentar entender a cabeça de uma bêbada fumadora de orégano como Danna.
— Bem. — respondi, mantendo meu olhar fixo em um ponto rosa de shorts claros com manchas escuras que havia, acidentalmente, encontrado ali. Que, afinal, causou-me frustração.
— Você está ocupado nesse final de semana? — ela tornou a falar, parecendo bastante ansiosa. Eu neguei com a cabeça. — Você poderia ir à chácara abandonada?
— Por que eu iria?
— Bem, vamos fazer aquelas festinhas de todos os sábados, mas precisamos de alguém eclético para escolher as músicas da vez.
— Eu não sou nem um pouco eclético, Danna. Talvez seja melhor pedir isso ao .
Foi quando olhou para mim. Não foi intencional, ela só estava avaliando o lugar. Não esperava me encontrar ali, eu pude ver nos olhos dela. Uma lufada de vento passou bem na hora, levantando e balançando seus cabelos compridos, dando a ela uma aparência inofensiva tão grande que eu poderia abraçá-la para protegê-la. Seus olhos logo demonstraram uma certa umidade a mais, que eu reconheci como lágrimas. Era como se ela estivesse completamente arrependida por tudo o que fizera comigo. Eu gostaria de acreditar que esse era o motivo. Seus olhos, então, desviaram-se para Danna que, agora, debruçava-se sobre mim e me chacoalhava, como se quisesse chamar minha atenção, ou agradecer-me, sei lá. Ela franziu o cenho para a garota, voltando seu olhar a mim no momento seguinte como se estivesse se perguntando o que eu fazia com ela ao meu lado. Eu sorri de lado, sem demonstrar um pingo de importância a , enquanto virava-me para Danna e a puxava para um beijo.
Oh, Deus. Eu estava praticamente fumando orégano da boca de outra pessoa.

Help*


Acho que eu ficara mais chocado que Danna ou com aquele beijo. Quero dizer, eu não era o tipo de cara que agarrava uma garota para provocar ciúmes, ou qualquer que seja o sentimento, em outra pessoa. É claro que Danna não sabia que eu a estava beijando para causar ataque de nervos em , mas era óbvio que sabia que a finalidade do beijo era essa. Principalmente depois do sorriso mal-amado que lancei a ela, como se não me importasse nem um pouco com aquela turbulência toda em nossa relação.
Ora, mas que diabo. Será que eu jamais faria nada direito? Porque, convenhamos, seria muito mais simples e fácil se eu simplesmente fosse até , pedisse desculpas pelo que havia dito e roubasse um beijo dela. Mas, se eu fizesse isso, não estaria sendo completamente verdadeiro. Porque eu não estava arrependido das coisas que havia lhe dito; eu tinha plena consciência de que estava certo e de que precisava ouvir algumas verdades, por mais que elas fossem doloridas. Se nenhum homem por ali possuía culhões para dizer-lhe verdades, eu possuía.
O fato é que Danna beijava bem e eu havia gostado. E muito. Apesar do sabor de maconha e álcool impregnado em sua boca, ela tinha agilidade. Mas ela não era , o que apenas servia como mais um motivo para me suicidar. Era incrível a minha capacidade de pensar em mesmo beijando outra garota, sendo que nunca havia tido a chance de realizar tal ato com a mesma. Mas o que eu posso fazer, afinal? Esse era eu: uma bichinha apaixonada.
Mentira. Eu sou macho. Um macho apaixonado, mas, ainda assim, macho.
Foi Danna quem se afastou de mim. Suas mãos estavam apoiadas em meus ombros, mas tocavam-me sutilmente. Ela apertou levemente os olhos enegrecidos, um sorriso confuso, mas aprovador, pairando em seus lábios.
— O que foi isso, ? — ela perguntou, por fim; eu sentia seus polegares fazerem uma leve carícia em meu pescoço.
Ela podia estar confusa com o beijo, mas eu podia dizer que havia ficado satisfeita. Seu olhar preso em meus lábios deixava isso claro.
— Um beijo. — eu respondi sem dar devida importância. Meu olhar, entretanto, buscou outro espaço daquele lugar. Espaço esse que fora ocupado por , mas apresentava apenas uma amostra grátis de nada, agora. — Eu tenho que ir. Nos falamos mais tarde.
— Ligue-me depois! — ela gritou quando eu já estava próximo do pátio coberto.
Era óbvio que eu não ligaria. Eu estava completamente arrependido de tê-la beijado, mesmo que houvesse gostado. Era errado usá-la para enciumar , mesmo que merecesse. Ou não. Eu já não sabia mais o que se passava. Se ela merecia, ou se eu havia agido como um completo idiota. Era bem provável que a segunda opção estivesse mais perto de ser a realidade. Era sempre assim, afinal. A garota sempre saía como a boazinha da situação, enquanto eu, o sofredor para todas as horas, saía como o vilão na primeira vingança mixuruca que conseguia realizar. Um dia eu entenderia porque os bonzinhos sempre acabam no fundo do poço. Eu juro que entenderia. Até lá, acho que não me faria mal agir um pouquinho como o vilão da história, só para dar uma variada, não é?
Não, não era. E nunca seria. Até hoje não foi. E, mesmo sem descobrir o motivo de os bonzinhos sempre acabarem por baixo, eu continuo atuando como um.
Foi quando eu estava próximo das escadas onde havia conversado com sobre Kate, no início de todo aquele drama mexicano, que aconteceu. Eu não estava esperando, afinal, quem esperaria? Eu era apenas um garoto arrependido – mas satisfeito – andando de volta para a sala de aula à procura de descanso. À procura de algum dos caras para contar meu mais novo grande feito – sintam a ironia – para que pudesse ouvir alguns xingamentos a mais sobre quão idiota e infeliz eu fui, e sobre quão próximo de dizer adeus de vez aos meus planos de ter ao meu lado eu estava. Como se minha própria consciência já não me dissesse isso, mesmo que um de seus lados estivesse apreciando. Mas, como toda desgraça é pouca para pessoas como eu (os bonzinhos), não foi isso o que aconteceu. O meu querido e precioso plano de subir as escadas e encontrar , ou foi por água abaixo quando, antes mesmo de por os pés no primeiro degrau, senti dedos contornarem meu braço esquerdo o puxá-lo para trás, de modo a virar-me junto. Foi quando meus olhos encontraram os de , lacrimosos como no outro dia, e o arrependimento bateu ainda mais forte. Mas o que bateu mais forte ainda, na realidade, foi a palma da mão de em contato com minha bochecha. Um tapa certeiro e forte demais para ter sido dado por uma garota tão delicada quanto .
Minha primeira reação foi permanecer por alguns segundos com a cabeça virada para o lado em que fora jogada, com a boca levemente aberta, demonstrando minha descrença. Depois, decidindo que seria bom olhar nos olhos da minha agressora, fi-lo. Eu podia ver pela visão periférica muitas outras pessoas paradas em volta de nós, olhando-nos apreensivos, como se esperassem pelo novo ataque daquela que tanto idolatravam. Mas o que eu realmente enxergava, o que me preocupava de verdade, era . Seu olhar demonstrava tanta dor, como se tivesse sido traída bem diante de seus olhos. Por um momento, uma vontade incontrolável de voltar no tempo e desfazer meus feitos malfeitos apossou-se de mim. Alguns milésimos de segundos depois, entretanto, ela sumiu.
Eu ri. Ri alto, de verdade. apenas franzia a testa, entortando a boca. Apenas quando me recuperei do acesso de risos, ela falou. Porque eu era incapaz, ainda.
— Como você ousa... Você é muito estúpido, ! — ela exclamou em alto e bom som, atiçando o instinto briguento de todos ali. — Como você pôde fazer aquilo comigo?
— Fazer o quê? Dizer todas as verdades que você precisava ouvir na sua cara, ou ter beijado Danna? — indaguei, arqueando um sobrolho enquanto a observava continuar impassível. — Caso seja a segunda opção, eu gostaria de ressaltar que nós dois não temos nada um com o outro. Eu estou solteiro e livre para enfiar a minha língua na boca de quem eu bem entender.
— Você não pode estar falando sério! — ela voltou a berrar, levando as mãos aos cabelos perfeitamente desordenados e desordenando-os de um modo ainda mais sensual. — Você só pode estar querendo rir da minha cara! Não é possível que possa ser estúpido a esse ponto!
— Que ponto, ? Ser trocado por uma transa, ser feito de capacho por você durante todo esse tempo, e não poder dar um beijo em alguém? Você consegue enxergar a si mesma? Consegue ver o tamanho da confusão que você é, e a maneira como confunde todos a sua volta? Você é completamente ferrada. E a sua saída, a única que você encontrou, foi ferrar todos junto de você.
— Você me enoja, . — ela arfou, os lábios se contorcendo em uma careta de desgosto — Mas era isso o que você queria, não era? Conseguir o meu nojo, o meu desprezo. Fazer com que eu o odiasse, para, então, deixa-lo em paz. — ela ergueu o dedo, apontando-o para mim. — Pois saiba, , que você conseguiu. Você extraiu de mim todo o ódio e desprezo que eu poderia sentir por alguém. E eu não poderia encontrar alguém mais digno de recebê-los. Alguém tão baixo e fajuto como você só merece isso de qualquer pessoa: desprezo.
— Você fala como se estivesse no topo do pedestal. Já olhou para o rastro de merda que você deixou para trás? Se há alguém tão digno de um sentimento tão sujo como o desprezo, esse alguém é apenas você. — eu sorri da maneira mais doentia que pude — Você e Scott combinam mais do que qualquer um poderia imaginar.
ficou estática, e pude notar suas bochechas tornarem-se levemente rubras. Eu sabia que havia ido longe demais. Expô-la daquela maneira, mesmo que sem a intenção, não fora meu melhor ataque.
— Desculpe-me, eu...
— Só... Vá embora. Só isso.
Eu mordi o lábio inferior, sabendo que a havia machucado. Eu não queria ir embora. Eu queria acolhê-la em meus braços e recompensá-la por tudo o que eu disse, por todos os danos que eu causei. Mas isso não seria possível. E, talvez, nunca fosse ser. E foi por isso que eu me virei de costas a ela e a todos os outros enxeridos, subindo as escadas como se nada tivesse acontecido. Não sem antes olhar para ela uma última vez e vê-la fazer o mesmo, segurando-se para não derrubar as lágrimas que vinham aos seus olhos. Nós demos as costas um ao outro. Em todos os sentidos da palavra.
De uma vez por todas.
Quando cheguei ao meu andar, encontrei-o vazio. Eu não sabia o que estava acontecendo, já que, apesar de ser o lugar no qual todos gostariam de não estar, sempre havia duas ou três pessoas que gostavam de ficar por ali. Talvez fosse o dia de nada acontecer como o esperado, mesmo.
Uma nova mão em meu ombro fez-me encolher levemente enquanto me virava para ver quem era. Eu estava apenas me preparando para uma nova agressão, talvez de algum admirador de , que estaria ali para “dar-me uma lição sobre como tratá-la” ou qualquer coisa assim. Eu não duvidava de que algum insano poderia aparecer para vingá-la, afinal. Mas, para minha completa alegria e comoção, tudo o que encontrei foi . Ele me olhava com pena, mas com compreensão, também. Eu quase lhe disse para tirar essa pena dos olhos, afinal, eu não era nenhum garoto de rua com uma doença terminal. Mas, invés disso, apenas crispei os lábios e dei de ombros. negou com a cabeça de modo incrédulo, como se realmente não me entendesse, e então me abraçou. Sabe, como se me desse seu ombro para chorar.
Mas era óbvio que eu não choraria no colégio. Ou em qualquer outro lugar. Aquela vez no carro havia sido a primeira e a última. Qual é?!
— Você é realmente fodido da cabeça, -boy! — ele falou, ainda abraçado, mas eu sentia sua cabeça continuar com a negação. — Você é louco! Como pode fazer isso com , mesmo que ela merecesse um pouco? Você a está perdendo, !
— Eu nunca a tive, ... — falei melancólico, sentindo o coração acelerar. — Eu nunca a tive. Como poderia sequer cogitar a chance de perdê-la? Não sei nem por que aceitei essa coisa toda de chamá-la pra sair. Se não tivesse aceitado, eu estaria bem agora, talvez ainda a olhando de longe, talvez a tivesse esquecido. Mas, pelo menos, não estaria nessa situação tão cabeluda.
— Pelo amor de Deus, você não enxerga o que está diante de você? — se separou de mim, olhando-me como se eu fosse um idiota. — Se não se importasse, se você não a estivesse ganhando, acha mesmo que ela se importaria com o beijo em Danna? Acha mesmo que teria chorado ao ouvir suas verdades tão preciosas e incapazes de serem escondidas? — ele me chacoalhava enquanto falava, como se eu fosse entender melhor dessa maneira. — Enxergue, ! Se não fosse pela aposta, você jamais teria trocado uma nova palavra com ela! Você jamais estaria tão perto de tê-la como esteve há poucos dias, antes de resolver ferrar com tudo por causa de uma confissão! Você a teve em suas mãos, mas resolveu entreabrir os dedos. Ela está escorregando por eles.
As palavras dele entraram em minha mente como um choque me convulsionando. tinha algumas ideias malucas que saíam de sua mente e ficavam na minha sempre que ele resolvia dizê-las. Como aquela vez em que disse que eu poderia ser aquele a ajudá-la a mudar o jeito, aquele por quem ela se apaixonaria. Eu não duvidava nada de que essas novas palavras fossem pairar em minha mente por um bom tempo, também. E agora eu tinha medo de que fossem verdade. De que eu estivesse, realmente, perto de ganhá-la, de tê-la só para mim e, por agir impulsiva e irresponsavelmente, tê-la afastado e perdido para sempre. Eu rezava para que isso não fosse a verdade.
— A propósito — continuou, baixando a cabeça e fitando os pés. Eu o olhei desconfiado —, eu topo fazer o que você disse.
— O que eu disse? — repeti — Vai realmente fazê-lo?
— Sim. Acho que minhas palavras servem para mim, também. Seria bom agir de uma maneira radical, mesmo que para receber um não depois. Se for para perder Kate, que seja depois de ter tentado de tudo. Não vou perdê-la sabendo que poderia tê-la reconquistado. Mas eu preciso de ajuda.
— Que tipo de ajuda.
— Você, e logo saberão.

Help*: A música citada é uma música da banda Beatles, tocada pelo McFLY.

If U C Kate


— Você está brincando, não é? — indagou, enfiando uma boa quantidade de pipoca na boca. — Por favor, diga-me que você está brincando.
— Andou conversando muito com Danna, só pode. Deve ter sido convencido a experimentar o orégano daquela garota.
Era uma quinta-feira à tarde. Eu havia acabado de sair da biblioteca do colégio, aproximadamente quatro horas depois de ficar organizando a mesma prateleira, e ido direto para a casa de . e já estavam lá desde o almoço, assistindo filmes e fazendo sabe-se lá o quê. Aparentemente, ainda não havia contado aos dois qual seria sua parte naquilo que ele chamava de “missão de reconquista”. E agora que eu havia finalmente me juntado a eles, resolvera revelar-lhes a parte em que nós três atuaríamos.
Era óbvio que eu não estava de acordo com o meu papel naquilo tudo. Eu queria dar a ideia a e deixar o garoto com a coisa toda em mãos e por si só. Mas parecia um pouco incapaz de realizar aquele plano todo sozinho, de modo que pediu que eu, e o ajudássemos. Era óbvio que eu o ajudaria. Era o mínimo que eu poderia fazer depois de ter recebido tantos conselhos e sei lá o que mais de . Mas isso não significava que eu estava completamente de acordo e saltitantemente feliz em atuar naquele papel ridículo.
Era o jeito mais fácil de receber um carimbo de filme queimado bem no meio da minha testa maravilhosa.
— Eu não experimentei orégano algum. — rolou os olhos, indignado. — E não falei com Danna. Isso quem faz é o .
— Porque ele foi convencido a usar orégano para outras coisas fora comer pizza. — deu de ombros.
— Calem a boca.
— Isso, calem a boca. — repetiu. — Por favor! Eu imploro a ajuda de vocês. Vocês têm de fazer isso por mim. Lembrem-se de como eu sou um bom amigo, e--
— Você me jogou de roupa na piscina esverdeada do colégio em meio ao inverno no ano passado. — lembrou. — Eu tinha acabado de ligar o meu iPhone pela primeira vez na vida.
— E você me empurrou da pista de skate antes que eu estivesse pronto para descer. Fiquei com o braço engessado por meses e a cara toda arranhada. — continuou .
— Você me deixa mais louco a cada segundo. — eu disse, por fim. Os três me olharam estranho. — Não nesse sentido. No sentido literal. Você consegue foder com a minha mente quando resolve filosofar.
— Tá, tá, tá bom! — ele exclamou, erguendo as mãos. — Eu compro um iPhone novo para você, , já que isso é mais importante do que ajudar o seu melhor amigo a reconquistar a garota dele. Quanto a você, , eu me lembrarei de quebrar o seu pescoço na próxima vez!
— Não é essa a questão, ... — começou, ajeitando-se na cama e monopolizando a bacia de pipoca. — Seria realmente necessário que nós lhe ajudássemos com toda essa loucura? Por que não só o , que foi quem deu a ideia?
— Porque só com o não daria certo. Eu preciso dos três. Vamos, quando foi a última vez que deixei vocês na mão? — ele fez bico.
— Bom, teve aquela vez que--
— Tá certo, , tá certo! — ele o interrompeu. — Mas, mesmo assim... Me ajudem!
Eu rolei os olhos, tentando pegar uma quantidade de pipoca para mim, mas afastou minha mão. cruzou os braços, emburrado, sabendo que não conseguiria também.
— Nós não temos motivos para não ajudá-lo. Mesmo com as mancadas, é a mulher invisível do nosso quarteto fantástico. Nós devemos uma ajuda a ele.
— Seria sensato passarmos por tamanha humilhação só para que consiga uma noite com Kate?
— Tudo bem, tem algo que eu não andei contando a vocês... — começou , e eu sabia o que viria pela frente. Eu podia sentir a tensão dele inundar a sala. — Bem, acontece que eu não estou fazendo isso tudo por apenas uma noite com Kate. — ele inspirou fundo antes de baixar a cabeça para as mãos, que se embolavam de modo desconsertado. — O fato é que... bem...
— Ele está apaixonado. — eu falei, sabendo que não conseguiria dizer e, muito provavelmente, contornaria a situação para uma coisa que não teria nada a ver com a realidade. — Ele se apaixonou por Kate e não suporta esse gelo que está tomando. E eu estou de acordo em ajudá-lo, caso contrário, ele será o novo eu.
— O novo você?
— O novo obcecado por uma garota que simplesmente não dá a mínima. — dei de ombros.
— Certo. Isso é estranho. Nunca vimos apaixonado, exceto aquela vez que ficou louco pela professora de Biologia.
— A coitada foi demitida por abuso de menores... — incluiu , balançando a cabeça.
— O fato é que está apaixonado agora. — olhei para meu amigo e ele mantinha a cabeça baixa, apenas escutando. — E eu acho uma ótima ideia que ele fique junto de Kate.
— Certo. Mas Kate não apareceu no colégio a semana toda. Você sabe se ela está viajando, ? — perguntou , subitamente animado. — Afinal, quanto antes finalizarmos isso, mais rápido nossa imagem patética será esquecida.
— Eu não falo com ela desde... que terminamos. , você acha que seria abuso demais telefonar para e perguntar se ela tem notícias de Kate?
— Sim, acho, e não farei isso nem sob desmoronamento. — respondi rispidamente. — Nós podemos esperar até amanhã. Tenho certeza de que Kate aparecerá, ela adora as aulas de sextas.
— Claro, é o dia que temos História da Arte com aquele professor todo engomadinho...
— Que seja. Esperaremos até amanhã. Se Kate não aparecer, acho que seria viável checar em sua casa. Talvez eu consiga falar com Joanna...
— Não, pode deixar que eu falarei com ela. — interrompeu-me ; olhei para ele, mas ele estava ocupado demais roubando a bacia de pipoca de . — Quero dizer... Eu posso falar com ela. Se não for um problema muito grande...
fala com Joanna. — rolei os olhos. —, você já sabe o que fará?
— Eu tenho a ideia perfeita. — ele respondeu, erguendo a cabeça para nos olhar com brilho diferente nos olhos.

Decidi voltar aos velhos tempos e ir para o colégio de skate.
Aquilo provavelmente não resultaria uma boa coisa, já que havia pelo menos dois anos desde que o havia visto pela última vez. Entretanto, eu me sentia animado para tentar coisas novas. Não que o skate fosse novo para mim, mas eu sabia que se igualaria àquilo muito provavelmente. Então, ao invés de ir ao ponto de ônibus mais próximo de minha casa como era feito todos os dias, fui até a garagem, onde todos os meus trambiques antigos ficavam guardados, e retirei o skate de trás de uma caixa de papelão intitulada “brinquedos”. Aquela caixa chamara, e muito, minha atenção. Eu provavelmente gostaria de dar uma olhada nela depois.
Colocando-me sobre as quatro rodinhas que suportavam uma tábua, dei o primeiro impulso de anos com o pé, descendo de uma vez a ladeira da rua. Como era esperado de um desacostumado, o primeiro feito após o impulso foi dar de cara com o chão antes mesmo de chegar até o meio do quarteirão. Resmungando de dor, levantei-me com cuidado, sentindo minha bochecha esquerda arder, assim como meu braço, joelho e palma da mão. Toquei a bochecha com lentidão para perceber que não sangrava, apenas ardia pelo leve ralado. Entretanto, ao observar as outras partes machucadas, percebi como a queda havia sido...
Certo. Foi um completo desastre e eu estava completamente danado.
Ardia, sangrava e doía. Não estava jorrando sangue como se o mundo fosse acabar naquele dia, mas escorriam poucas gotas. Era o suficiente para que minha mãe pirasse e que meu pai tirasse o skate de mim novamente. Oh, sim, eu não havia deixado de andar de skate por falta de vontade. Eu havia quebrado a perna em uma queda terrível na rampa da praça perto da casa de , alguns meses depois de ter quebrado o braço após tê-lo empurrado. Minha perna havia ficado assustadora no ângulo que se encontrava, acho que não tive uma fratura exposta por pouco. Os caras tentaram me arrastar de volta para a casa de para que pudéssemos ligar para meus pais, mas eu não conseguia ao menos ficar de pé; o resultado foi chamar uma ambulância – que demorou quinze minutos para aparecer – e ligar para meus pais do hospital – que demoraram meia hora. Acho que foi melhor assim, se quer saber. Se tivéssemos ligado para meus pais antes eu provavelmente teria agonizado por muito mais tempo do que quinze minutos. E minha mãe teria pirado ainda mais com minha perna. Ela pirou ao ver o raio-X, imagine só se visse minha perna antes de colocá-la no lugar e engessá-la.
Eu preferi não voltar para casa para me limpar e passar algum produto nos ferimentos. Seria mais viável fazê-lo no colégio, fora das vistas dos meus pais. Então, engolindo a dor que me assolava, dei um novo impulso no skate, dessa vez tomando cuidado para que não fosse com tudo, e segui em direção à escola.
Encontrei na entrada. Ele estava descendo do carro de seus pais e parecia um tanto emburrado. Bateu a porta com força. Acho que havia tido uma nova briga. Mas isso não era de minha conta, de modo que apenas me aproximei, saindo do skate e colocando-o sob meu braço. olhou para mim e balançou a cabeça em cumprimento, voltando sua atenção aos degraus de entrada. Mas sua atenção logo voltou para mim novamente, com certo horror nos olhos.
— O que diabos você fez? — ele exclamou, afastando-se minimamente para que pudesse enxergar todos os machucados. — Se seus pais virem, ficarão loucos!
— Eu sei. — respondi displicentemente, dando de ombros. — É por isso que não voltei para casa para cuidar disso tudo. Tenho certeza que precisarei arrumar uma calça jeans antes de voltar.
— Se já estivesse com uma, os cortes no joelho teriam sido menos feios.
— Eu sei, mas agora não dá pra se arrepender. E qual é, é a primeira vez que ando em um skate em dois anos. É normal que eu esteja um pouco desacostumado. — falei.
— Não ando há tempos, também. Acho que aconteceria o mesmo comigo. — comentou . — Quer um acompanhante até a enfermaria?
— Não precisa se preocupar, , eu não quebrei nada dessa vez. — sorri em agradecimento. — Procure , veja se ele já conversou com Joanna. Depois irei atrás de .
— Certo. Nos falamos na sala de aula, aposto que aquele engomadinho de História da Arte não se importará em monologar um pouco.
Eu assenti, reprimindo uma risada e seguindo para o caminho da enfermaria. foi para o outro lado, alcançando as escadas que o levariam aos blocos. Assim que abri a porta da enfermaria, a Sra. Kingsley abriu a boca em um ato de horror, exclamando um “Oh!” assustado. Eu dei um sorriso de canto amarelo, como se o gesto lhe passasse um pedido de desculpas, e aproximei-me da maca que havia ali, sentando-me nela.
— Meu deus, , o que aconteceu? Você brigou com alguém? — ela exclamou, ainda assustada, andando rapidamente até seu armarinho de remédios e tirando alguns frascos e gazes de lá. — Com quem você brigou? Não acredito que levou uma surra! Foi o Mark?
Oh, é. Mark estudava aqui até o ano anterior, quando seus pais decidiram parar de gastar dinheiro com um delinquente. Nós dois tínhamos nos atacado na saída do colégio pouco antes dos feriados de Natal e Ano Novo. Eu não havia recebido muitos cortes, já que estava coberto da cabeça aos pés com diversas camadas de roupas de frio e, para minha infelicidade, ele também não havia saído muito machucado. Mas a Sra. Kingsley havia ficado horrorizada com meu corte no supercílio, que jorrava sangue, da mesma maneira. Isso, é claro, foi depois de termos sido expulsos do clube após uma briga pelo campo de futebol.
Ridículo, eu sei.
— Não, Mad, eu levei um tombo com o skate. — respondi, tentando tranquilizá-la. — Não está tão feio assim, só precisa de uma limpeza e, talvez, um band-aid.
— Não está tão feio? ! — ela voltou a exclamar de modo a me repreender. — Pensei que você não andasse mais em skates. Estava feliz em não ter que cuidar de seus ferimentos por causa dessa... coisa.
— Bom, eu não andei por dois anos... — dei de ombros — Resolvi voltar a andar, só caí por estar desacostumado. Isso não vai acontecer mais, eu te garanto. — sorri.
— Isso vai doer. — ela avisou antes de tocar meu joelho com uma gaze embebida em algo que eu não sabia o que era.
Mas eu sabia que ardia. Oh, sempre ardia. Qual é o problema com esses bioquímicos que não conseguem ao menos fazer um remédio indolor? Mas eu não gritei, é claro. Apenas reprimi um gemido, mordendo o lábio inferior. Ela oscilava o olhar dos meus cortes para meus olhos e de volta para os cortes, com uma expressão de desgosto explícito no rosto. Confesso que eu precisava reprimir a risada, também. Madison sempre recebia visitas minhas à enfermaria, seja como acompanhante ou como enfermo. A maioria, é claro, como enfermo. Eu dava muito trabalho com machucados e dores, e Mad sempre esteve lá desde que me conheço por estudante daquele colégio. Era como se ela fosse a minha segunda mãe.
Ela finalizou os cuidados com um curativo feito com gazes e esparadrapo no joelho e no cotovelo, e nada mais que uma pomada na minha bochecha.
— Prontinho, senhor . — ela falou, fingindo seriedade quando eu sabia que estava querendo rir. — E, pelo amor de Deus, : tome cuidado quando sair andando de skate.
— Pode deixar, Mad. Até mais. — eu sorri, lançando-lhe uma piscadela enquanto a via negar com a cabeça, e saí da sala.
O caminho até a sala de aula havia sido tenso. Algumas pessoas me lançavam olhares penosos, outros irritados, e outros andavam como se não soubessem de nada. Era mais que óbvio que isso era uma consequência do ocorrido de três dias atrás. E era mais do que óbvio que a escola toda já estava sabendo. Eu não reclamaria da atenção se ela fosse uma atenção boa. O fato é que tudo isso se devia a uma baixaria. Baixaria esta da qual eu saí completamente agredido. Não que não tenha saído agredida, também. Verbalmente, mas foi.
Quando entrei na sala de aula, o silêncio foi fúnebre. Eu não esperava por uma coisa daquelas, e aquilo resultou em meu constrangimento. Eu fiquei parado por alguns instantes de puro choque na porta, apenas olhando para aqueles que me encaravam. Cansado de ser o centro da atenção, lancei-lhes um ríspido “Perderam o cu na minha cara?” e afastei-me para o fundo da classe, onde e já tomavam seus lugares. Eles apenas lançaram-me um olhar de repreensão, como se eu tivesse apenas piorado minha situação ao dizer aquilo, mas não abriram a boca.
— E então? — comecei, olhando significativamente para . — Conseguiu falar com Joanna?
— Eu não a encontrei. — ele respondeu. Podia parecer estranho, mas ele parecia abatido ao revelar esse fato.
— Acho que ela também não veio. — comentou , olhando para de esguelha, como se imaginasse o mesmo que eu. — Acho que nenhuma das quatro veio. Isso está estranho.
— E , onde está? — voltei a perguntar, agora cutucando uma parte da carteira com a ponta de metal do compasso.
— Parece que também não apareceu.
— Por que nós viemos até aqui, de qualquer jeito? Esse lugar está um inferno. — eu exclamei, abrindo os braços como se pudesse expressar melhor o meu ponto. — Qual a finalidade de aparecer por aqui?
— Você só está assim por causa daquela humilhação. — deu de ombros. — Em qualquer dia normal, você adoraria aparecer aqui para admirar e blá, blá, blá.
— E você ajuda muito esfregando isso na minha cara. — resmunguei, cruzando os braços. Sim, eu estava me portando como um garotinho emburrado. — E ainda teremos que enfrentar uma hora de monólogo com esse professor engomadinho. — acrescentei assim que o professor de História da Arte adentrou a sala. — Tem coisa melhor para uma sexta-feira?
— Bom, tem.
— O quê?
— Fingir querer beijar a boca de Danna.
Isso foi o bastante para que eu voltasse a olhar para frente e me deparasse com Danna adentrando a sala esbaforida, provavelmente imaginando que ficaria para fora da sala se não se apressasse. No mesmo instante, o cheiro de maconha inundou a sala. Não que alguém fosse comentar. Eu estava torcendo para que ela não olhasse para mim, mas foi como se o pensamento a atraísse. Ela me viu e lançou-me um sorriso satisfeito, que aumentou de tamanho ao notar o lugar vago ao meu lado.
Eu olhei para os garotos por um pequeno segundo, dizendo apenas com o olhar aquilo que eu esperava que eles compreendessem: socorro.

Era óbvio que eles não me socorreram. Ao contrário, na realidade. Permaneceram sentados atrás de mim, reprimindo risadinhas típicas de horas inapropriadas ou piadinhas de mau-gosto. Por mais que meu desejo fosse estirar o dedo de má educação e empurrar Danna para longe, não foi o que fiz. Apenas permaneci quieto, como se aquela situação não me incomodasse. Danna mantinha-se grudada ao meu braço, como se garantisse que eu não fosse fugir, e sua cabeça mantinha-se encostada em meu ombro. Em alguns momentos, ela olhava para mim e, rapidamente, selava seus lábios aos meus. Eu me mantinha impassível, apenas aceitando seus gestos. Eu não sabia se era efeito da carência que eu estava sentindo, ou da certeza de que eu não tinha mais chances com .
Havia combinado com e que nos encontraríamos em frente à casa de por volta das cinco da tarde. Como de costume naquela semana, eu passaria o período da tarde organizando livros na biblioteca e, caso conseguisse fazer um grande processo, poderia pedir à bibliotecária que permitisse minha saída um pouco mais cedo. Talvez, por ser uma sexta-feira, suas regras pudessem ser contornadas. De qualquer maneira, a diretora não estava no colégio àquela hora, naquele dia. De modo que, após guardar alguns livros da sessão de ficção e colocar alguns outros em ordem alfabética, aproximei-me sorrateiramente da mesa da bibliotecária, esperando que ela me notasse como um menino obediente. Ao perceber minha completa invisibilidade para ela, dei um pequeno pigarro, chamando sua atenção para mim. Recebi um olhar desdenhoso em troca, causando-me certa intimidação.
—Er... Senhora Lacey, acha que poderia me liberar mais cedo essa tarde? — pedi, tentando forçar ao máximo meu tom de voz para o de um menino educado. Era óbvio que estava me saindo mal, já que o olhar da bibliotecária quase me rachou ao meio. — Eu tenho algo que preciso fazer, e eu não poderia remarcar...
— Posso saber o que o senhor tem de tão importante a fazer que não possa arrumar os livros desorganizados da nossa biblioteca? — ela indagou, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos das mãos, de modo que suportassem seu queixo sobre eles.
— Eu tenho... dentista? — eu sabia que estava sendo um fracasso. Era óbvio que Sra. Lacey perceberia minha mentira, já que eu não conseguiria convencer nem mesmo alguém como . Mas eu sabia que precisava sumir daquele lugar, ou não seria capaz de seguir com aquilo que havíamos combinado. — Tenho hora marcada às cinco e meia. Preciso ir agora...
— Sabe, , eu não nasci ontem. — a mulher me interrompeu, baixando uma das mãos para que seus dedos pudessem batucar a madeira envernizada da mesa. — Eu não sou bobinha como todos os alunos pensam. Eu sei que você não tem hora marcada em dentista algum.
— Não! Eu... Eu tenho, sim! — exclamei. O que não foi uma boa coisa, já que um sorriso convencido no rosto da Sra. Lacey fez-se presente no mesmo instante. Minha mentira fora entregue por meu nervosismo. — Eu realmente tenho dentista, e precisarei pegar um ônibus para chegar ao consultório, e...
— Fale-me a verdade, . Você não vai ao dentista. Pretende fazer outra coisa. — ela afirmou, sem dar-me chances para respostas. — Diga-me, o que vai fazer? Juntar-se com seus amigos e sair para beber até que seu fígado se torne uma massa mole e viscosa? Ou, talvez, saia de qualquer lugar com uma garota entre os braços para levá-la para a cama em algum motelzinho barato?
Eu a olhei com as sobrancelhas arqueadas. Era estranho ver uma senhora aparentemente inocente dizer tudo aquilo tão aberta e acusadoramente. Eu conhecia Sra. Lacey de vista por algumas poucas vezes que visitei a biblioteca para retirar algum livro que achei interessante ou que fora mandado ler. Em nenhuma ocasião fui desrespeitoso para com ela, nem quebrei alguma das regras absolutas impostas por ela na biblioteca. Eu não conseguia entender o motivo para uma acusação tão afiada quanto a dela.
— Não, eu não farei nada disso.
— O que fará, então? — eu pensei em mentir novamente, mas sabia que não adiantaria.
— A verdade é que está com problemas com uma garota. E eu estou ajudando-o a conquistá-la de volta. — falei. Sra. Lacey reprimiu um sorriso divertido, mostrando sua desconfiança.
— Aquele seu amigo que entrou na biblioteca correndo e berrando aos quatro ventos? — ela perguntou — Essa é uma mentira ainda menos convincente do que a consulta marcada às cinco e meia.
— Mas eu não estou mentindo. Ele entrou aqui no outro dia justamente para contar-me o que havia acontecido. Esperávamos encontrar a garota hoje no colégio, mas ela não apareceu a semana toda. Ele está apaixonado por ela, Sra. Lacey. E é meu melhor amigo. Sinto-me na obrigação de ajudá-lo.
A idosa à minha frente pareceu pensar por alguns instantes. Seus olhos negros encaravam-me com intensidade, como se tentassem encontrar a mentira por trás de minhas palavras. Como se tentasse encontrar o ponto fraco onde ela poderia descobrir que nada do que eu dizia realmente aconteceria. Entretanto, seu suspiro final despontou sua derrota. Ela admitiria minha saída.
— Certo. Você não parece estar mentindo. — ela clareou a garganta antes de prosseguir. — E você fez um ótimo trabalho hoje. Arrumou mais livros do que durante toda a semana. Talvez você mereça essa saída mais cedo.
— Obrigada, Sra. Lacey. — agradeci.
— Vá logo. — ela rolou os olhos, fazendo gestos com as mãos para que eu fosse embora.
Eu não esperei por mais nenhuma palavra ou gesto. Agarrando minha mochila, que estava jogada sobre uma cadeira dali, disparei a correr até a saída da escola, torcendo para que e não tivessem chegado à casa de ainda. Retirei o skate da mochila quando pus meus pés na rua, subindo em cima da tábua e disparando com um novo impulso. Eu sabia que não cairia daquela vez.
Ignorando os sinais fechados, passava entre os carros rapidamente, tomando o cuidado de desviar de todos eles. Obviamente. Eu não queria ser atropelado, ou qualquer coisa assim. Vez ou outra, aproveitando a rota que um carro seguiria, segurava em seu para-choque para pegar uma “carona” até certo ponto, onde o carro tomava outra direção. Havia visto isso em um filme e, desde então, sempre usei a técnica para chegar mais rápido aos lugares. Era óbvio que alguns motoristas me percebiam na traseira de seus carros. Alguns não ligavam, percebendo que eu só queria uma carona, mas outros não poupavam xingamentos. Quando cheguei à rua de , saltei do skate, segurando-o entre o braço. Arfando, corri até a porta de sua casa, percebendo que o carro de já estava lá. Rolei os olhos.
Malditos. Deviam ter me esperado.
Sem esperar mais, toquei a campainha, esperando por alguns poucos segundos até que um levemente apavorado atendesse a porta.
— Você está bem? — perguntei, notando seus olhos arregalados e o leve suor que escorria de sua têmpora. Não estava muito calor para que ele suasse sem fazer atividades físicas. — Você parece... nervoso.
— Você também estaria se estivesse prestes a tomar uma atitude drástica para conquistar uma garota. — ele respondeu, a voz soando baixa e rouca. — Você tem certeza que é uma boa ideia? De repente não me sinto mais tão confiante assim...
— Tenho certeza. Se Kate não revir seus conceitos após hoje, então ela não passa de uma vaca. — dei de ombros, entrando em sua casa. e estavam sentados à mesa, um pote de sorvete de flocos pela metade em frente a eles. — O que é isso? Sessão “vamos curar nossa dor com um delicioso pote de sorvete”?
— Você quer? — ofereceu , estirando uma colher em minha direção. — É um dos que mais precisa de uma dessas sessões. Se quiser, podemos colocar Titanic para rodar no DVD.
— Cale a boca. — rolei os olhos. —, você tem tudo preparado? Acho que deveríamos ir logo procurar Kate, antes que fique muito tarde...
— Tem algo para fazer essa noite? — perguntou .
— Dormir. — rolei os olhos novamente.
— Bem, está certo. Eu tenho tudo preparado. Nós só precisamos ir até a casa de Kate e... Bem, vocês sabem.
— Então vamos. Quanto antes terminarmos, mais rápido você a terá de volta.
concordou, enquanto enfiava sua colher no pote de flocos e a retirava consideravelmente cheia. Engoliu tudo de uma vez, fazendo uma expressão horrível de dor. Cérebro congelado. Péssima sensação.
Ele calçou o All Star e nós subimos no carro de , prontos para irmos até a casa de Kate e surpreendê-la. Vez ou outra, durante o caminho, eu olhava para apenas para checar sua expressão. Eu ficava cada vez mais surpreso quando o via cada vez mais assustado. Como se cada segundo mais perto da casa de Kate fosse equivalente a um segundo mais perto de sua sentença final.
Bem, tecnicamente, nós poderíamos colocar esse ponto.
Foi quando chegamos que ele pirou.
— Eu não vou fazer isso. — concluiu, cruzando os braços em frente ao peito e ignorando nossas chamadas. — Definitivamente não farei.
— Fala sério, . — rolou os olhos. — Nós viemos até aqui pagar esse mico milenar para você amarelar na hora?
— Eu estou nervoso. Eu vou me sair como um completo estúpido, eu não farei nada que presta. Ela vai olhar para mim da sua janela e, em vez de dizer “Oh, Romeu”, dirá “Alguém tire esse maluco daqui”.
— Você está sendo idiota. — rolou os olhos, mostrando-se impaciente. — Idiota por não tentar. E ela será ainda mais idiota se disser isso e der as costas.
— Você já fez tanto por garotas de uma noite só, . Por que não fazer com aquela que quer junto de si? — perguntei, tentando puxá-lo do banco traseiro do carro de . — Amarelar só vai fazer de você alguém submisso a ela pelo resto da vida. Lembra-se de mim?
— Mas é justamente por isso que não consigo. Porque eu a quero para mim. Se ela me achar um estúpido por fazer isso, todas as chances acabam.
— As chances não acabam para aqueles que não desistem de tentar, . — filosofou , assustando a todos. — Preciso anotar essa. Talvez eu acabe me tornando um filósofo.
— Você não acha que ela me achará um estúpido por fazer essa humilhação e “não desistir de tentar”?
— Não, não achará. — resmungou, bufando. — Decida-se, . Seu tempo está acabando.
pareceu enrijecer ainda mais no estofado do carro. Seu rosto denotava medo, receio, mas convicção. Ele queria reconquistar Kate de todos os modos que pudesse tentar.
— Certo. — disse, por fim. — Vamos fazer logo isso.
Saímos do carro e seguimos até a frente da casa, onde, no segundo andar, era-se possível observar duas janelas. Kate não tinha irmãos, de modo que uma das janelas seria a sua. Entretanto, antes que começássemos com qualquer coisa, uma das janelas se abriu, revelando um senhor de barba rala e cabelos quase brancos.
— Quem são vocês? — ele indagou, aparentemente assustado com a chegada de quatro garotos em sua residência.
—Er... Kate está? — perguntou. Sua voz tremia.
— Está na casa de . Querem deixar algum recado?
Ótimo. Aquela noite não poderia ficar melhor.

Demoramos um pouco mais até decidirmos que, com ou sem , deveria reconquistar sua garota. Mesmo contrariado, não deixei meu amigo na mão. Eu o acompanhei até lá com a proposta de ajudá-lo com Kate, sem direcionar qualquer coisa para . Não que eu fosse fazê-lo, é claro. Afinal, nós estávamos brigados e eu estava com Danna.
Céus.
O motivo da demora, dessa vez, havia sido eu. Mesmo aceitando o fato de que também estaria ali, algo proibia minhas pernas de se mexerem e saírem de dentro daquele carro. Eu olhei para os caras como em um pedido de desculpas e tempo. Era isso o que eu precisava. Um pouco de tempo para que a ideia adentrasse minha mente e fizesse com que o sangue voltasse a circular em minhas veias. Apoiei as mãos no encosto de cabeça do banco da frente e deixei que minha cabeça baixasse, respirando com o intuito de acalmar meu coração. Ele batia rápido e descompassado, com uma leve incerteza do que poderia acontecer.
Era óbvio que eu não olharia para durante a “missão reconquista”. Era muito óbvio que eu não faria isso, e não direcionaria palavra, gesto ou qualquer coisa a ela. Ela não merecia a minha atenção depois de tudo o que havia feito comigo. Talvez tivesse uma parcela de culpa nisso tudo, já que beijei Danna em sua frente com o intuito, mesmo que despercebido, de causar-lhe ciúmes. Mas não mudava o fato de que eu saíra muito mais machucado nessa brincadeira do que ela. Talvez, se eu tivesse desistido há mais tempo, eu não estaria passando por isso. Se eu não tivesse aceitado a dica – ou ordem – dos caras para chamá-la para um jantar, talvez eu jamais estivesse me sentindo traído e submisso. Mas eu tinha certeza de algumas poucas coisas, e uma delas era que eu já não era tão submisso assim por ela.
Ok. A quem eu estou tentando enganar? Minha consciência? Você, leitor? Era só olhar para os meus olhos que qualquer um veria minha vassalagem.
Mas eu precisava ajudar . Eu precisava, havia prometido e, no fundo, devia. Porque tudo o que havia acontecido entre ele e Kate foi por minha causa. Fui eu quem os juntou, mesmo que indiretamente. Mas fui eu quem causou a separação dos dois, quando resolvi que minha relação com deveria ser um pouco mais agressiva do que o necessário. Um pouco mais baixa. Foi quando meu conflito interno se chocou ao dela que tudo virou uma bagunça. Como se a Terra houvesse simplesmente parado de girar e tudo fosse lançado ao alto.
Foi por isso que eu desci do carro. Meio cambaleante, admito. Ainda estava um pouco atordoado por saber que presenciaria aquilo como se eu estivesse fazendo algo por ela. Mas meu dever de amigo e minha vontade de ajudar o meu melhor amigo me dava uma espécie de coragem para enfrentar a mulher dos meus sonhos durante uma declaração de amor. Meu coração bateu rápido até o último instante de espera, onde os três esperavam por mim abaixo da janela de .

I'll be your man


— Estão prontos? — perguntou, olhando para cada um de nós com uma bravura que eu não lembrava já ter visto em seu olhar.
— Tecnicamente... — eu dei de ombros, estremecendo apenas ao pensar em ver naquela situação.
— Bem, então vamos começar.
Eu prendi minha respiração e fechei os olhos enquanto eu, e começávamos a estalar os dedos, montando um ritmo para . Tudo estava completamente ensaiado e programado, mas o fato de não termos (ou tocarmos) algum instrumento dificultava toda a nossa ideia. Por sorte, conseguimos colocar o estalar de dedos como uma saída alternativa.
Been all around the world, I never met a girl that does the things you do and puts me in the mood deu início à letra de música escrita por ele mesmo. Eu jamais pensei que ele fosse capaz de escrever algo, mas me surpreendi quando li pela primeira vez. —To love you and treat you right, so come here and close your eyes. Lie back, release your mind, and let the world fall down while I’m by your side.
Durante o tempo em que cantou essa parte, as duas garotas haviam ido à sacada do quarto de . Imediatamente, lembrei-me de quando ajudei – ou observei – descer pela árvore, fugindo das regras de seu pai para que fosse a um Museu do Terror comigo. Meu intuito era que déssemos o primeiro beijo lá. Mas tudo foi por água abaixo quando resolveu interromper o ato para confessar algo que eu preferia não ter tido conhecimento.
— O que é isso? — a ouvi perguntar, mas fiz de tudo para não desviar meu olhar das grades que davam proteção contra quedas em sua sacada. — Kate, você está enxergando?
— Não consigo ver. Espere, vou acender a luz. — ela pediu a , desaparecendo rapidamente para o quarto. Não demoramos até perceber as luzes da sacada se acenderem, espalhando-se até onde nós estávamos e revelando nossos rostos. — Mas que...
I'll be your man through the fire. I'll hold your hand through the flames. I'll be the one you desire. — continuou , não dando importância em estar visível agora. Ele parecia completamente recheado de coragem, como se nem uma rejeição fosse capaz de pará-lo. — Honey, cause I want you to understand: I'll be your man. — vi seu olhar seguir diretamente em direção ao rosto de Kate e permanecer ali, encarando-a. Kate levou a mão ao peito, uma expressão de incredulidade em seu rosto. —I'll be your man.
Eu, e não fazíamos nada mais fora estalar os dedos. Vez ou outra eu arriscava uma olhadela para cima apenas para poder checar a expressão de Kate, mas meus olhos viam, com a visão periférica, apenas o rosto de . Ela parecia chocada, estagnada. Seu olhar passeava pelo rosto de cada um de nós, mas eu sempre desviava o olhar quando seu olhar era direcionado a mim. Tenho certeza de que ela tinha conhecimento de que nada daquilo era para ela, mas eu preferia não encará-la para que esse fato não fosse comprometido.
‘Cause you need me, but I need you more. And I don't care, about your mistakes, ‘cause they all went away when I found you, Katie. — continuou cantando, começando o refrão pela última vez. Entretando, para nosso desespero, Kate adotou uma expressão de seriedade, dando as costas à sacada e adentrando o quarto de . Essa, por sua vez, permaneceu onde estava, observando a todos nós com nosso ridículo papel. A música ainda não havia acabado, de modo que, mesmo sem Kate, continuava com o refrão e, consequentemente, nós continuávamos com o estalar de dedos.
Eu olhei para ele. Tinha uma expressão de pavor no rosto, já que Kate não estava mais ali para vê-lo e ouvi-lo cantar em sua “declaração”. Quando a música acabou, entrou em seu quarto e apagou as luzes da sacada, fechando a porta de vidro no momento seguinte. Senti mais do que vi prender sua respiração e, derrotado, fechar os olhos em negação. Eu sabia que ele estava acabado, sentindo-se humilhado. Ele deu as costas à janela de , pondo-se a andar de volta para o carro de .
— Sinto muito. — disse, dando um tapinha amigo no ombro de . — Pensávamos que Kate fosse menos vaca.
— Eu não. — ele respondeu, a voz fraca, rouca, como se não tivesse mais vontade de falar. — Nunca acreditei na possibilidade de consegui-la por meio de uma “serenata”.
— Talvez ela--
! — nós nos viramos para trás apenas para dar de cara com uma Kate esbaforida abrindo a porta da casa de com brutalidade. Seu rosto denunciava um misto de sensações e sentimentos que eu não soube definir em palavras. Eu não conseguiria dizer apenas de olhar se ela estava satisfeita ou enraivecida. — Você... — ela caminhou até nós, parando frente a frente com . Seus olhar brilhava, enquanto o dele denunciava expectativas e esperanças. — Você é idiota, louco e inacreditável! — ela exclamou. Vi balançar a cabeça em confirmação, percebendo que suas expectativas haviam sido esvaídas e substituídas por desbarato. Ele estava pronto para aceitar a humilhação e ir embora quando Kate passou seus braços pela nuca do garoto e deu-lhe um beijo nos lábios. Os olhos de meu amigo permaneceram abertos por um tempo, apenas para que ele fosse capaz de digerir a informação até se fecharem conformados e dar espaço para que sua boca desse início a um beijo de verdade. Quando se separaram, Kate disse: — Mas eu simplesmente adorei esse seu descarrego de insanidade.
Eu troquei olhares com e , todos nós com um sorriso reprimido nos lábios. Havia dado certo, afinal. havia reconquistado Kate com a ideia maluca de fazer-lhe uma serenata, sugerida por mim. Eu jamais pensei que ele aceitaria, principalmente tendo uma letra escrita por ele, para ela. Pensei que, se aceitasse, pegaria alguma canção com uma letra bonita de algum cantor qualquer e simplesmente cantaria para ela. Fui surpreendido ao ver que seus sentimentos eram tão intensos e profundos que o permitiram escrever-lhe uma canção como “desabafo”. E, agora, Kate também sabia. E teria sido muito estúpida se tivesse deixado esse fato de lado e continuado a ignorá-lo.
Lancei um olhar para a porta da casa de , acho que na esperança de vê-la ali. Mesmo sem querer cruzar nossos olhares, eu queria dar uma última olhadela, apenas para apreciar a visão. Eu não me decepcionei. No momento em que meu olhar subiu pelas escadas da porta da frente, algo estranho, como magnetismo, atraiu meu olhar diretamente para o dela. Ela continha um sorriso no rosto, mas eu sabia que não era para mim. Era pela felicidade de e sua melhor amiga. Mas, por um estranho acontecimento, ela ainda mantinha o sorriso, mesmo quando olhando para mim. Mesmo após o que eu fiz, ela conseguia me encarar com um sorriso no rosto, mesmo quando eu sabia que o que ela mais queria era chorar.

I wanna hold you


Eu dei passos involuntários para frente. Não sei o que eu esperava, na realidade. Talvez, que fosse se manter parada encostada à porta, sorrindo para mim enquanto eu me aproximava. Estender-me seus braços para que eu a tomasse nos meus e pudesse beijar os lábios que eu tanto desejava. Tocar em seus cabelos macios e sedosos, deixando vívida para sempre a sensação de sua tenuidade. Meu desejo era de impregnar-me com seu cheiro de alecrim acro. E, mesmo sabendo que tudo era impossível nas dadas circunstâncias, eu apenas desejava. Esperava pelo momento em que ignoraria tudo que acontecera e viesse de braços e mente aberta para mim, pronta para um novo começo.
Mas tudo o que ela fez foi fechar o sorriso e entrar em casa.
Uma sensação terrível de frustração inundou meu peito, penetrando minhas veias, artérias e vasos sanguíneos e alastrando-se em meu coração. A visão de uma ignorância bruta que me foi dada surtiu efeito como mil adagas afiadas em seu melhor, perfurando-me com maestria. Era como se encontrassem meus pontos vitais e mais doloridos para que tivessem suas lâminas fincadas. Eu senti meu corpo esquentar consideravelmente à medida que o tempo passava e não voltava à porta. Não era pela expectativa ou esperança de vê-la ali novamente; era pela raiva e desespero que sua ida havia me proporcionado. Eu a sentia tomando conta de mim, instigando-me a adentrar sua casa e dizer-lhes outras verdades que, se eu não conhecesse, inventaria na hora. Ao mesmo tempo em que o desespero tentava persuadir-me para invadir sua casa e beijar-lhe minuciosamente, causar-lhe as melhores sensações do mundo.
É claro que eu não fiz nenhuma das duas opções. Eu era um covarde, não era?
Dei as costas à porta, passando a caminhar em direção ao carro de . e Kate ainda se beijavam, abraçados como se nada os pudesse separar. Chamei e com um meneio de cabeça, que foi prontamente reconhecido como um “Vamos sair logo daqui”. Eles me seguiram até o carro, dando a partida antes mesmo que eu precisasse pedir.
— Então... Conseguimos ajeitar as coisas para o nosso menino. — ele comentou, um sorriso em seu rosto, sem desviar os olhos da rua à sua frente. Eu concordei com a cabeça, mantendo meus lábios em uma fina e indiferente reta. pareceu perceber. — Parece-me que ainda temos um meninão para ajudar.
— Eu não preciso de ajuda. — resmunguei, agindo como um perfeito crianção. Eu não me importava, meus amigos estavam acostumados com meu jeito estúpido de ser. — Até porquê, qualquer ajuda é desnecessária; eu e não temos mais jeito.
— Você se subestima demais, . Não se acha capaz de reconquistar a garota dos seus sonhos. — fizemos uma curva que nos levaria à minha casa. — Você fez a burrada de afastá-la de si, mas parece não querer tentar tê-la de volta.
— Essa história está ficando repetitiva. — falou, colocando-se entre meu banco e o de . — É sempre a mesma coisa: vocês brigam, e então a lamúria começa. De repente, vocês voltam a se falar e ficam apaixonadinhos um no outro, até que uma nova briga ridícula reinicie o ciclo, já vicioso. — o olhei de soslaio, preferindo não me pronunciar. Ele estava certo, de qualquer maneira. — Está na hora de quebrar uma das partes desse ciclo e emendá-lo em uma ainda melhor.
— É claro que é fácil para você dizer “Quebre o ciclo vicioso”. Você não está tentando ter um relacionamento com . Você não passa por frustrações indignas por causa da garota mais louca e complicada de todo o colégio. — voltei a resmungar. Talvez seria melhor se eles me dessem uma dica, ao invés de dizer tudo aquilo que eu já sabia. — Você nem está tentando ter um relacionamento com alguém!
— Se eu estivesse tentando ter um relacionamento com , eu já teria mudado minhas táticas há muito tempo, . — exclamou , altivo. — não está fazendo nada que possa afastá-los um do outro. Você está.
— Obrigada, , isso faz com que eu me sinta terrivelmente melhor. — ironizei. — Eu só queria saber o que é preciso fazer para agradá-la! Como posso consegui-lo se tudo o que tento parece dar errado? Eu penso em táticas diferentes durante todas as vinte e quatro horas dos meus dias, penso nela e em como seríamos juntos. Penso se ela me ama como eu a amo, ou se ao menos chega a gostar de mim. Eu destruiria o mundo para ela se esse fosse seu desejo. Eu seria capaz de tudo. Tudo, para saber se ela sente a minha falta quando não está comigo, se pensa em mim quando se deita para dormir, se sente o desejo torturante de beijar-me como eu sinto de beijá-la. — fiz uma pausa, respirando fundo. Isso estava se tornando constante, estava certo. Eu precisava quebrar esse ciclo. — Olha, está tudo certo. Só... Esqueçam o que eu disse e vamos logo para casa. Eu quero dormir até o anoitecer de amanhã. Não quero falar sobre .
— Certo. Então, , posso passar a noite na sua casa? — perguntou, mudando de assunto exatamente como era minha vontade. Ótimo, porque eu não aguentaria mais falar sobre ela. — Esqueci minhas chaves.
— Tudo bem. Desde que você não ronque ou solte gases durante a noite.

I need a woman


estacionou em frente à minha casa cinco minutos depois. Eu o agradeci pela carona, desejando mais do que nunca ganhar o meu primeiro carro para que não precisasse mais incomodar com “levas e buscas”. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte à tarde para jogar videogame, matar zumbis e coisas do tipo, e aproveitaria para entregar-me o CD gravado para Danna com as músicas “ecléticas”. Engraçado tê-la ajudado com as músicas sem ao menos gostar dela. Talvez ele a achasse gostosa também, mesmo que drogada.
desceu do carro ao meu lado, despedindo-se de e me seguindo para dentro de casa. Antes de subirmos para meu quarto, passamos pela cozinha e retiramos um pacote de bolachas de chocolate e eu, sorrateiramente, peguei uma das garrafas de vinho tinto de minha mãe. Havia tantos naquele pequeno armário que a falta de um não seria notado por ela ou por meu pai. Nós subimos as escadas com cuidado para que não fizéssemos barulho, já que eu não sabia se meus pais estavam fora ou já tinham voltado, e fechamos a porta, deixando a chave virada uma vez.
Eu não queria interrupções naquela noite. Não estava com cabeça para responder perguntas. Culpem-me.
jogou-se em minha cama e, esticando-se, alcançou a caixa transparente onde eu guardava meus DVDs. Enquanto eu me sentava e abria a garrafa de vinho, deixando a bolacha em cima da mesa de cabeceira, decidia-se por um filme e levantava-se para colocá-lo no DVD. Quando voltou a se jogar em minha cama, puxou a garrafa de vinho tinto de minha mão e deu um longo gole no gargalo.
— Qual filme você escolheu? — perguntei, torcendo internamente para que fosse um filme de muito sangue, socos e emboscadas, e não algo cheio de lágrimas.
— Premonição. — respondeu-me, estendendo-me a garrafa. Eu a peguei e dei um gole igualmente longo. — O primeiro deles. O melhor.
— Ótimo.
Recostei-me na armação da cama, deixando a garrafa presa entre três de meus dedos e dando goles vez ou outra. Às vezes, a tirava de minha mão para repetir o gesto, ambos com a atenção focada no filme macabro à nossa frente. fez uma boa escolha. Premonição não era, e jamais seria, um filme sobre pessoas apaixonadas fazendo de tudo para sobreviver às injúrias do amor. Não, era um filme sobre conseguir sair vivo das armadilhas da morte. Meu tipo de filme favorito nunca foi nada sangrento ou sinistro, mas Premonição e Jogos Mortais sempre estiveram em minha lista de filmes mais vistos. Sem contar os de zumbis, é claro.
O fato é que parecia mais abatido do que eu. O que era estranho, se interessa saber. Era eu quem estava atolado de problemas naquilo que eu gostaria de chamar de “meu relacionamento”, e não . Ele estava completamente em paz, sozinho e pegando garotas por aí quando desse vontade. Nada o importunaria. Ele não se apaixonaria, não se apegaria e, consequentemente, não sofreria. Ao contrário de mim e , que passamos por maus bocados. era sortudo. também, claro. Nenhum estava apaixonado, e isso limitava vários sentimentos frustrantes no peito. parecia... Bem, parecia o de sempre. Mas tinha algo incomum. Era como se estivesse desesperado ou infeliz. Como se não estivesse satisfeito.
Eu não saberia o que fazer, é claro. Se eu lhe perguntasse o que havia de errado, provavelmente receberia uma resposta que não saberia administrar. Eu ficaria mudo, olhando para a colcha e pensando no que dizer por um longo tempo, até constatar que nada que saísse de mim o faria melhor. Eu era uma pessoa negativa, e sempre desanimava aqueles que ainda continham um pouco de positivismo. Acho que foi por isso que eu voltei a prestar atenção no filme, vendo uma loirinha morrer atropelada por um ônibus, e cedi minha parte restante do vinho para ele.
Algo me dizia que ele precisava mais do que eu.
Quando o filme acabou, entretanto, desceu de minha cama e deitou-se na bicama que havíamos arrumado em alguma cena do filme que não achávamos interessante. Ele se jogou de bruços, calado, estranho. Sentindo-me mal por ele, resolvi que talvez eu pudesse ajudar. Primeiro, ofereci-lhe uma bolacha. Ele pegou o pacote fechado, agradeceu, mas deixou-o intacto ao seu lado, na cama. Depois, passei-lhe um gibi de zumbis, pensando que, talvez, ele gostaria de dar uma lida antes de dormir. Eu sabia que tinha esse hábito e achava difícil dormir sem ler ao menos uma página antes. Mas, novamente, agradeceu e deixou o gibi intocado ao seu lado. Desistindo, eu disse:
— Certo, . Diga o problema. — meu amigo olhou para mim erguendo a sobrancelha, mas logo voltou a fechar os olhos. — Qual é, você não me engana. O que diabos aconteceu para você estar tão cabisbaixo?
— Não aconteceu nada demais, . — ele respondeu, a voz manhosa e abafada pelo seu braço. — Eu só estou com sono... sabe, desanimado.
— Certo. E eu sou um mamute.
— Você se parece mais com um burro. Um dos bem irritantes, aliás. Tipo o burro do Shrek. — ele disse, repentinamente sério, como se falasse a mais pura verdade.
. — rolei os olhos, apoiando meus pés nas costas de e chacoalhando-o. — Conte-me o que aconteceu. Você estava bem até pouco tempo atrás.
— Não estou disposto a me humilhar hoje. — ele virou o rosto para lá. — Nem nunca, na realidade.
— Você não me conta, eu descubro e terão mais dois caras pra te humilharem também. — brinquei. não riu. — Vamos. Eu sei que há algo errado. Não custa me dizer, eu posso tentar ajudar.
então se ergueu, permanecendo sentado no colchão e olhando para mim. Eu o percebia nervoso, estranhamente nervoso, como se realmente se sentisse humilhado por precisar exteriorizar o que o incomodava.
— Você não vai rir, ou contar a alguém. Você não vai fazer nada. Ouviu? — ele indagou, apontando o dedo indicador para mim. Eu assenti. — Certo. Isso é estranho, na realidade. Eu nunca pensei que fosse admitir algo assim, mas...
, você está apaixonado por mim? — perguntei.
— O quê? Não! — ele exclamou, arregalando os olhos. Eu ri.
— Então para de enrolar e fala logo.
— Certo, então. — ele recomeçou, clareando a garganta antes de prosseguir. — , meu amor... Eu preciso de uma mulher.
Oi?
— Oi? — indaguei, na dúvida de ter ouvido o que ele havia realmente dito. — Você precisa de uma mulher? É isso o que eu ouvi?
— Sim. — ele deu de ombros.
— Você está louco. Não há outra explicação. — exclamei, rindo sarcasticamente. — Fala sério, , você não vê o que eu e estamos passando por causa de garotas? E você me vem com essa de querer uma mulher? Isso é sério?
— Sim, o que tem? Eu não gosto de ficar sozinho.
— Vá para um bordel então, procure por alguma mulher na esquina!
— Eu não quero esse tipo de mulher. Não quero qualquer uma. Quero uma que me queira também. É tão difícil entender? — ele rolou os olhos.
— É sim. Você pega qualquer uma e tem o privilégio de não se envolver, e agora resolve querer estar envolvido?! Que tipo de droga você fuma?
— Eu só cansei de não ter o meu carinho merecido, ok? — ele deu de ombros, indiferente. — Chega uma hora na vida de um homem que ele percebe que não pode mais viver de casos de uma noite. A minha hora chegou.
— Você é louco. — rolei os olhos, deixando-me cair no colchão de minha cama e fechando os olhos. — Nunca vi alguém trocar a liberdade pela prisão tão lucidamente.
— Você fez isso por . — ele comentou.
— Eu fui pego desprevenido. Quando percebi, já estava preso. Não havia mais volta.
— Que seja. Vamos dormir. Pensaremos nisso amanhã.
Eu não respondi. Estava ocupado demais pensando.
Eu concordava com . Eu também precisava de uma mulher, mas não qualquer uma.
.


Just my luck

Música
()


— Eu já vou, pai.
Era a milésima vez que eu dizia isso. Meu pai estava me chamando já fazia pelo menos quinze minutos para tomar o café da manhã. A verdade era que eu não tinha vontade alguma de comer. Diria quantas vezes fosse preciso que já estava a caminho, mas jamais desceria para dividir uma mesa de comida com ele. Não agora, nem em breve. Eu estava magoada demais para colocar qualquer alimento em meu estômago. Se eu o fizesse, provavelmente não duraria muito por ali e voltaria com força total e direto para a privada.
Havia se passado dois meses desde que eu e não nos falávamos. O que, na realidade, gerava uma situação muito infeliz, constrangedora e tensa entre não só nós dois, mas em nossos amigos também. O motivo era óbvio: nossos melhores amigos estavam se namorando, e, querendo ou não, precisávamos passar algumas horas juntos, como na sala de aula ou durante o intervalo e o almoço. e Kate, eu percebia constantemente, sempre se entreolhavam nervosos e sem saber o que fazer quando o clima se tornava subitamente mais pesado. Pareciam querer fugir dali para longe de nós, para onde pudessem se amar sem ter um peso de bigorna prestes a cair sobre todos nós.
Eu não tiraria a razão deles. Conforme o tempo passara, a situação entre mim e ficara cada vez pior. O motivo era que ele continuava vendo Danna, e era extremamente óbvio o seu desprazer em estar com a garota. Era inevitável perceber que ele só estava com ela para me enciumar. Por mais que ele negasse, seus olhos diziam outra coisa, porque sempre que se beijavam, eles me encaravam com malícia.
Eu sabia que ficar no mesmo grupo, passar tempo com ele, me faria mal. Mas o que eu poderia fazer? Kate e Lindsay eram minhas melhores amigas, porém não deixariam de passar algum tempo com seus namorados para me deixarem longe de . E eu não ficaria sozinha só para tirar seus olhos de cima de mim.
Meu pai gritara do andar de baixo mais uma vez. Eu rolei os olhos sem ao menos responder, agora. Estava zangada com ele também. Zangada com o modo como me criou. Com o modo como desistiu de minha mãe. Zangada por ser um pé-no-saco todas as vezes que eu tinha uma visita, apenas para mostrar quem manda.
A verdade é que eu nunca gostara tanto assim de meu pai. Sempre imponente e grosseiro, era como um repelente de amigos e namorados. Não consigo entender até hoje como minha mãe teve coragem de casar-se com ele e assim continuar por tanto tempo, mas sei que não poderia ser amor. Ele era o tipo de pessoa que nada seria capaz de se entregar.
E foi por isso que mamãe o deixou. Alguns anos após eu nascer, com um italiano sulista que amava as tradições de seu país. Após ter feito com que nenhum casal quisesse mais sair para jantar com os dois. Após ter feito com que minha mãe perdesse o emprego por ciúme de um de seus colegas de trabalho. Após ter feito crianças e professores da minha antiga escola tratarem-me como uma pessoa perigosa, assentindo com tudo o que eu falasse, olhando com o rabo dos olhos, porque sabia que se eu reclamasse de algo para o meu pai, a coisa ficaria feia. A culpa era inteiramente dele.
E quando mamãe o deixou para fugir para a Itália com aquele belíssimo italiano, eu não pude fazer nada fora culpá-lo. Culpá-lo por tudo isto e nunca me permitir perdoar, porque era sua culpa que minha vida tinha sido tão miserável até aquele ponto. Eu não tinha mais uma mãe, e eu não conseguia fazer amigos. Eu não podia nem mesmo sair de casa sem que ele brigasse comigo. E foi por isso que quando nos mudamos de cidade, eu ficara tão feliz e me esforçara tanto para recomeçar.
A princípio, eu nem mesmo levava amigos para casa. Dizia a meu pai que não tinha nenhum. Que todos me odiavam ou simplesmente me tratavam como se não estivesse ali. Entretanto, quando percebi que sua vontade era ir até lá e falar algumas verdades aos meus colegas de sala, disse que havia feito minha primeira amizade. Era Kate.
Mas a verdade é que, até esse ponto, eu já estava conhecida no novo colégio. As pessoas já me amavam. Os garotos já me convidavam para sair. Eu havia começado do zero e faria de tudo para que meu pai não pudesse estragar essa felicidade nova que crescia em mim. Demorou muito tempo até levar Kate em casa, e mais tempo ainda para dizer que Joanna e Lindsay eram minhas amigas também. Quando eu saía à noite, dizia que dormiria na casa de Joanna porque seus pais não a deixariam passar a noite aqui. Eu sempre a deixava avisada, e ela dizia aos pais que estaria esperando um telefonema para que seus pais não acabassem dizendo, por ignorância do assunto, que não havia nenhuma ali. Foi muito difícil no começo, mas elas sempre me apoiaram e sempre entenderam meu lado.
Apenas recentemente eu comecei a sair. Pelo menos, com ele sabendo disso. Meu pai não poderia me manter sempre presa em casa, por mais que essa fosse sua vontade. Eram sempre escapadas durante a noite pela janela – como daquela vez, com , e – e várias outras maneiras de fugir de casa. Às vezes, quando ele não me deixava sair, como neste exemplo, eu dava um jeito de fugir novamente.
Eu era muito infeliz. Extremamente infeliz. Tornei-me menos quando me mudei para cá e dei meu jeito de trazer um pouco de felicidade para a minha vida. Mas eu só me sentia feliz de verdade quando passou a estar comigo. De alguma maneira, ele havia arranjado uma maneira de entrar sob a minha pele e se fixar ali, deixar-se registrado ali. E eu dera um jeito de estragar tudo.
Eu ouvi a buzina soar lá fora. Instantes depois, meu pai subia as escadas e abria a porta de meu quarto, encontrando-me olhando para o lado de fora da janela, pensativa. Eu sentia seus olhos sobre mim, mas não olharia de volta para ele.
, querida? Joanna chegou. — ele anunciou, a voz soando cansada, porém firme. — E você ainda não tomou seu café.
— Tudo bem, eu não estou com fome. — murmurei, ainda sem me voltar para ele. — Como alguma coisa durante o intervalo.
— É você quem sabe.
Apenas quando ouvi seus passos terminarem de descer as escadas, peguei minha bolsa e fiz meu caminho até o carro de Joanna. Ela me esperava ao som de Coldplay e abriu um grande sorriso de dentes retos quando me viu. Eu sorri para ela em resposta, mas sem mostrar os dentes, visivelmente chateada. Quando me acomodei no bando do copiloto, demos a partida para a escola.
— Você parece radiante. — ela ironizou, tendo em vista meu rosto abatido e o moletom largo que eu usava.
— Você não precisa ser uma amiga tão boa o tempo todo, Joan.
— Não, eu falo sério. Você está radiante. Marrom valoriza a cor dos seus cabelos. E essas olheiras valorizam... bem, elas não valorizam seu rosto.
Eu suspirei demoradamente. Sabia que ela tinha razão. Eu estava um trapo.
— Não acha que está na hora de sentir-se melhor, ? — ela sugeriu, desviando a atenção do trânsito para mim por um segundo. — Dói em todos nós te ver tão mal. Você está infeliz.
— Você fala como se me sentir melhor acontecesse caso apertasse um botão. — reclamei, rolando os olhos. — Mas não é assim. É bem mais difícil do que um botão a ser pressionado.
— Eu não disse que seria fácil, mas você não está nem tentando.
— Como posso tentar se todos os dias sou obrigada a assistir o show de horrores estrelado por e Danna? Eu não sou um robô, sem sentimentos, sem reações.
, você sabe que eu te amo. — começou Joanna, e eu soube que suas próximas palavras seriam duras de engolir. — Mas eu não acho que esteja tão errado assim em seus argumentos. Você o deixou plantado como um idiota para sair com Scott. Você joga jogos de provocação com ele o tempo todo, fingindo-se não se interessar, mas, quando percebe que o está perdendo, rasteja novamente até ele. é um ser humano. E sinto lhe dizer que seres humanos são impacientes e intolerantes. Ele não vai esperar você se decidir para sempre. Pode ter sido divertido para ele no começo também, o que eu duvido, desde que você o deixou para sair com outro... mas ele não vai aturar muito mais disso. — ela parou por um momento para respirar enquanto fazia uma curva fechada — Acho que já não atura mais. Então se você ainda espera que fiquem juntos, é melhor que aja diretamente. Mostre-se interessada. Mostre-se arrependida. Você não tem nada mais a perder, porque ele você já... bem, você pode reconquistá-lo.
Eu levei minhas mãos ao meu rosto e pressionei meus olhos, soltando um gemido lamurioso. Eu odiava admitir o quão certa Joanna estava, e odiava aceitar o fato de que já poderia não estar tão interessado assim. Eu sabia que o que acontecesse dali para frente seria uma decisão apenas minha. não faria mais jogada alguma em nosso joguinho perigoso, porque, até agora, havia perdido quase todos os seus peões. Era minha vez de sacrificar alguns para o bem do meu coração e da nossa possível relação.

O carro estacionou com uma freada brusca. Joan havia tirado sua licença há quase um ano, mas ainda tinha alguns problemas com o pedal do freio. Nós pegamos nossas mochilas e descemos do carro, dirigindo-nos em um silêncio um pouco constrangedor até as escadas que nos levariam aos blocos das salas de aula.
Havia sido dessa maneira desde que ela falara aquela verdade para mim. Por mais que eu concordasse, isso não faria com que eu me sentisse melhor. Joan havia sido amiga o suficiente para me dar com a verdade na cara, mas eu ainda estava um pouco atordoada por conta disso. Não é sempre que você percebe que tudo o que fez até então foi errado.
A sala de aula ainda estava parcialmente vazia quando chegamos. Sem sinais do professor em lugar algum, os poucos alunos que já estavam ali conversavam em alto e bom som, sem pudores. Eu reparei que apenas estava por ali e, ao passar por ele, dei um alô simpático.
Ao contrário dos outros dias, não sentei perto de Joan – que se sentaria perto de Lindsay, que se sentaria perto de Kate, que se sentaria perto de e você pode imaginar onde aquilo tudo terminaria. Disse-lhe para não se preocupar comigo, mas que precisava ficar alguns instantes sozinha para pensar naquilo que havíamos conversado no carro. Era mentira. Eu só queria passar um dia longe de , sem precisar ouvir sua belíssima e encantadora risada, ou olhar em seus olhos absurdamente azuis. Principalmente sem olhar em seus olhos. Porque eu sabia que no momento em que colocasse meus olhos nos seus, aquela malícia e a característica vingança dos últimos dias estaria presente em cada oscilação de cor.
Eu permaneci em silêncio durante todo o tempo antes do início da aula, sem ao menos conseguir fingir prestar atenção em qualquer coisa que acontecesse ao meu redor. Eu estava em outro mundo, completamente absorta em meus próprios devaneios, e mentiria para mim mesma se dissesse que eles ficaram apenas em mim e . Não, não. O sono matinal me fizera divagar para lugares muito mais distantes do que meu pequeno e inconveniente dilema com meu colega de classe. Confesso que até como um hobbit eu me imaginara. Como minha vida seria tão mais fácil se fosse eu, , aquela que deveria proteger e levar o anel até seu destino final. Porém, no fim, quando o sinal tocou nos corredores da escola, anunciando que eu não apenas divagara, como também sonhara com esse tipo de coisa, levantei meu rosto amassado do fichário em que tombei a cabeça e percebi a movimentação ao meu redor. Eu não dormira cinco minutos, apenas um cochilo de quem acaba de acordar.
Eu dormira durante as duas primeiras aulas. Sem despertar nenhuma vez, sem ouvir qualquer coisa que não fossem folhas balançando ao vento e flechas sendo disparadas. Nem ao menos tenho a remota lembrança de ter visto ou não o professor chegar à sala de aula.
Ainda abobalhada pelo despertar, bocejei e cocei os olhos, procurando pelas minhas amigas na sala de aula. Encontrei as três em torno da carteira de Kate – esta sentada – e vasculhando sua mochila ao lado. Ele reparou em mim e reparou que eu os observava e, para minha angústia, chamou meu nome.
! — ele ainda mexia em sua mochila — Nós estamos saindo para o intervalo. Você vem ou não?
Sem responder, levantei-me com a preguiça de uma Bela Adormecida e andei até onde estavam. sorriu feliz, enquanto e , que também estavam por ali, erguiam as mãos para um high-5. Eu nem tive a chance de me preparar para o encontro com . Ele surgiu como um fantasma entre e enquanto eu ainda cumprimentava o primeiro, jogando seus braços fortes por cima dos ombros de cada um. Ele tinha um sorriso no rosto, como quem acabara de ter uma ideia maravilhosa, mas este fora se reduzindo aos poucos enquanto ele tomava consciência de que eu estava entre eles. Após o primeiro choque, o sorriso malicioso tornou a aparecer em seus lábios enquanto ele levava uma mão para trás de si e puxava Danna para o seu lado.
Eu tinha certeza de que me tornaria uma assassina.
— O que houve com você, ? Parece que algum conhecido morreu... — disse Danna, as pálpebras baixas e uma expressão de preocupação no rosto.
Eu pude sentir a risada de fazer cócegas em meus ouvidos, mesmo sem que ele emitisse som algum.
— Não houve nada, só estou com sono. — disse.
— Está passando mal, ? Está pálida como quem viu um fantasma. — foi a vez de falar, o cinismo implícito em cada silaba de sua frase.
— Eu estou ótima, já disse. É apenas sono.
Dei um sorriso de desculpas para e e afastei-me dali. Não para muito longe, apenas o suficiente para que eu não precisasse ter e Danna, ambos juntos, no meu campo de visão. Eu estava encostada na parede do fundo da sala, para ser sincera, e as únicas pessoas que ainda restavam ali eram meus amigos e o novo casal do momento.
Em um determinado momento, entretanto, Danna colou os lábios nos de rapidamente e saiu porta afora, deixando-o só com nossos amigos. Eu senti meu estômago arder como quando caímos de uma montanha-russa, e minhas mãos coçavam de curiosidade.
— Você vem, ? — eu ouvi perguntar segundos antes de responder que precisava terminar alguns exercícios para a aula seguinte. — Ok... nerd.
E enfim estávamos sozinhos. Eu e , e eu. E eu nunca senti tanta dificuldade para respirar, um clima tão pesado que fazia com que as paredes e o teto parecessem se aproximar cada vez mais de nós, até, finalmente, nos esmagar.
sentou-se em cima da carteira, onde usualmente ficariam seus livros. Ele recostou-se na parede, fechando os olhos por alguns segundos e passando as mãos pelos cabelos de modo angustiado. Eu quase senti pena. Quase.
Eu estava pronta para sair daquela sala e respirar um ar calmo quando percebi que meus pés não podiam se mexer. Pelo menos, não para longe dali. Eu queria estar naquela situação. Eu queria estar ali com ele, queria ter uma chance para que ficássemos sozinhos por, pelo menos, alguns minutos. Nunca mais tivemos instantes tão preciosos desde que beijou Danna na minha frente, e eu sentia falta de sua companhia. E foi pensando nisso que, antes que me desse conta, estava parada à sua frente, olhando para sua expressão sôfrega.
Ele ainda mantinha os olhos fechados e não havia percebido minha aproximação. Apenas quando as pontas de meus dedos tocaram seus joelhos e arrastaram-se por sua coxa, ele abriu os olhos. Eu percebia a incredulidade em seu olhar, ao mesmo tempo em que a raiva fazia-se presente em suas íris. Eu deixei meu olhar recair em seus lábios.
— O que está fazendo? — perguntou ele, exasperado, mas sem impedir meu toque ou minha aproximação repentina. — Afaste-se de mim, . Eu quero distância de você. Eu tenho nojo de você. — ele cuspiu as palavras.
— Eu não acho que isso seja verdade. — respondi, voltando meu olhar para o seu. — Você só está com raiva; eu também estou. Raiva de ter sido estúpida ao ponto de me permitir perder você. Mas... — meus lábios se retorceram em um sorriso ladino, e eu percebi que não fora nem um pouco forçado. Eu sabia que aquilo era o que tinha que acontecer. — , eu percebi quão estúpida nós fomos. Eu e você competindo pelo troféu de idiota do ano.
— Fique quieta. — ele disse, os olhos ainda despejando pura raiva sobre meus ombros. Por um momento, me senti hesitar, mas me mantive firme. — Fique quieta. Você não sabe do que está falando, não passa de uma garotinha mimada.
— E eu sou a garotinha mimada pela qual você se apaixonou desde a primeira vez que me viu. E está mais do que na hora de mostrar que você acertou em cheio, .
Ele tentou falar. Entretanto, por mais curiosa que eu estivesse a respeito de sua resposta, eu não estava ali para ouvi-la. Antes mesmo que pudesse soltar a primeira sílaba, meus lábios chocaram-se contra os seus, e nossas línguas se massagearam como se feitas uma para a outra. Eu percebia a tensão em seu corpo, a vontade de resistir ao meu ato impulsivo, mas queria aquilo há tempo demais para que pudesse me rejeitar naquele momento. Ele estava sedento por mim, e por mais que tentasse não demonstrar, tudo o que eu precisei fazer foi levar as mãos aos seus cabelos e emaranhar meus dedos em um puxão não tão leve assim para que suas barreiras fossem completamente destruídas. Suas mãos foram de encontro à minha cintura e puxaram-na com força para frente, fazendo-me sentir todo o seu tronco, fazendo-me encostar contra a borda da mesa e impedir mais daquele contato. E então ele chegou mais para frente, e sua vontade era tão imensa que quase se esqueceu de onde estávamos quando seus dedos tentaram invadir a barra da minha blusa.
Eu quebrei o beijo em uma risada fraca, afastando-me dele. tentou me puxar de volta, porém eu mantive a distância.
Eu havia me humilhado para ele naquele instante, estando sujeita à sua rejeição. Eu não sairia dali como a garota fraca.
— Eu disse, . Você não tem nojo de mim. Era tudo apenas raiva e paixão.
Lancei um último olhar antes de dar-lhe as costas e sair porta afora.

L

Lonely


Eu estava com Danna. Era Danna quem era minha namorada. Era com ela que eu aliviava a tensão da escola e o estresse dos meus pais. Era com Danna; tudo com Danna.
Exceto que quando eu estava com Danna, minha mente estava com .
Isto era algo que eu não poderia negar a mim mesmo. Por mais que durante os dois meses juntos eu tentasse, fizesse o máximo de esforço para tirar aquela garota miserável da minha cabeça, ela sempre estava ali para me importunar. Quando eu abria os olhos, ela estava ali, porque era melhor amiga da namorada do meu melhor amigo. Quando eu fechava os olhos, ela estava ali, porque era a garota que deveria ser minha namorada, e não Danna. Não a garota da maconha.
era uma maldita. E eu a odiava. Odiava por me fazer sentir dessa maneira tão doentia. Havia momentos que eu desejava até mesmo matá-la para ver se aquele sentimento morreria junto. Mas aquela maldita estava sempre ali, às vezes sorrindo maravilhosamente de alguma graça feita por , às vezes com os olhos perdidos quando Danna estava por perto, e, na maioria das vezes, tristes por eu estar sempre ali.
A verdade era que eu era um idiota de marca maior. Desde o princípio, desde que aquela garota chegara naquele colégio, ela se tornara para mim algo muito maior do que uma garota que eu apenas gostaria de dar uns pegas. E quando eu finalmente consigo tê-la para mim, quando finalmente tenho sua atenção, seu afeto e talvez um pouco do seu coração, eu estrago tudo por causa de um ciúme idiota de um cara mais idiota ainda com quem nem ao menos se dava ao trabalho de manter contato.
Era oficial: eu era mesmo um idiota.
Quando me beijara no meio daquela sala de aula vazia foi que eu percebi. Enquanto nos tocávamos naqueles poucos segundos, eu entendi que o errado da história realmente havia sido eu. Mas a cegueira do rancor me fizera crer que era a errada. Mas agora eu tinha um problema muito maior do que pensar em quem estava errado ou certo durante aquela novela mexicana. Eu tinha uma traição em mãos, e eu teria que lidar com ela.
Era óbvio que eu terminaria com Danna. Eu estava esperando ter um motivo bom o suficiente para fazê-lo, e não poderia esperar por algo melhor. Eu era um imbecil por fazer isso com a pobre garota? Era. Sem dúvidas. Porém não havia mais como retardar toda a coisa. Além do mais, sem Danna no caminho, eu e poderíamos finalmente – finalmente¬ – ficar juntos. Ao menos era o que eu esperava.
E, para que isso desse certo, combinei com Danna de irmos até a pub legal que costumávamos ir quando queríamos apenas tomar umas cervejas e relaxar. E, para que desse mais certo ainda, também convidei os caras.
Estávamos reunidos na minha sala de TV assistindo “Sr. & Sra. Smith”. acendia seu primeiro cigarro. bebia sua primeira lata de cerveja. tinha as duas coisas em mãos. Eu, por outro lado, destruía o cigarro que deveria estar fumando. Era óbvio que meu gesto de nervosismo não passou despercebido por nenhum deles. Eles sabiam que eu não desperdiçaria um cigarro esfolando-o vivo em vez de fumá-lo até chegar ao filtro. Quando me dei por satisfeito de ver todo o tabaco esfarelando-se no chão – o que eu teria que limpar depois, é claro, para que meus pais não descobrissem meu vício –, amassei o resto que faltava entre as mãos e joguei na latinha de cerveja cortada ao meio que servia como cinzeiro.
— Ok, -boy, é hora de nos dizer o que está te incomodando. — foi o primeiro a falar, sem tirar os olhos da TV.
— Não tem nada me incomodando. — menti.
— Não sei se você pensa que somos idiotas ou se pensa que somos loucos — continuou, agora olhando de canto de olho para mim —, mas não somos nenhum dos dois. Somos três pessoas que conhecem você há anos e que sabem que não se esfola um cigarro em vez de fumá-lo. Nós conhecemos você muitíssimo bem para saber quando alguma coisa não está certa. Então pare de nos tratar como imbecis e conte para que possamos ajudá-lo.
e olharam de para mim, como se esperassem pela minha resposta. Eu respirei fundo, passando as mãos pelo rosto, pelos cabelos e depois esfregando uma na outra.
— Certo. — disse, ajeitando-me no sofá e olhando para os três. — Lembra quando eu chamei vocês para irem ao pub comigo hoje à noite? É porque preciso terminar com Danna e não quero estar sozinho... quer dizer, no momento eu estarei sozinho, mas depois quero que vocês estejam lá comigo.
— Ok. Isso é uma pergunta meio óbvia, mas o que te fez finalmente cair em si e terminar com Danna? — foi quem perguntou.
— Bem, foi... — eu avaliei as expressões de cada um. — Foi .
rolou os olhos. suspirou. jogou-se para trás, recostando-se novamente no sofá.
. — ele falou, entediado. — Quando pensamos que você finalmente está seguindo em frente, mesmo que estivesse fazendo isso com alguém como Danna... Mas não, você só está tentando enciumá-la. Certo?
— Bem, por um minuto eu tentei enciumá-la. Depois não queria mais enciumá-la, queria apenas arrumar uma desculpa para tirar Danna do meu pé, mas eu não encontrava nenhuma boa o suficiente. — suspirei.
— E agora? Encontrou uma desculpa boa?
— Sim — reticenciei.
— E? Qual é? Quer nos dizer?
— A desculpa é... digamos... o beijo de .
Houve um instante de silêncio que fora quebrado apenas pelo som de engolindo a cerveja. Nervosamente, alcancei um cigarro do maço a minha frente e o acendi, tragando-o profundamente enquanto era avaliado pelos meus três melhores amigos. Quando o silêncio passou a ser insuportável, resolvi que era hora de quebrá-lo.
— Ok — eu disse, e a fumaça vazou pelos meus lábios — Vocês precisam dizer alguma coisa.
— Você está falando sério? — foi quem perguntou. — Você beijou ?
— Bem... Tecnicamente foi quem me beijou. — eu respondi dando de ombros, tentando ao máximo parecer tranquilo com a história. Era óbvio que eu não estava tranquilo.
— Você não pode estar falando sério. — foi a vez de falar, e ele voltou a se apoiar nos joelhos quando eu concordei com a cabeça — Wow. Isso é novidade.
— Uma novidade e tanto — comentou , tragando do cigarro mais uma vez antes de apagá-lo.
— E como foi que aconteceu? — perguntou.
Contei-lhes a história completa, sem esconder nenhum detalhe que fosse desde o momento em que eles deixaram a sala de aula. Conforme narrava o que acontecera, percebia que os olhos dos três se arregalavam cada vez mais, como se não acreditassem no que eu estava dizendo. Bem, eu não os culparia. Eu também não acreditaria em mim mesmo se estivesse ouvindo pelos ouvidos de um dos três. Depois de tudo o que passamos, seria bem difícil acreditar que foi quem tomara a iniciativa. Eles pareciam não respirar até que finalizei o relato, quando todos soltaram um longo e imenso suspiro.
— Cara... Você conseguiu a garota. — afirmou orgulhosamente — Depois de todos esses anos apaixonado doentiamente, você finalmente conseguiu fazer com que ela se interessasse por você.
— Pois é. Se eu soubesse que era só beijar uma garota na frente dela... — falei ironicamente.
— E agora terminará com Danna? — perguntou novamente, e percebi que os três trocaram olhares.
— Sim.
— Mas você ao menos sabe se estará disposta a iniciar um relacionamento com você?
— Bem, eu não pensei nisso... Mas, na verdade, eu não me importo. me beijou sabendo que eu estava comprometido, e mesmo que não tenhamos nada daqui para frente, eu me sentiria horrível em olhar para Danna. Droga, eu a traí.
— Mas você nem ao menos se sente atraído por essa garota, por que todo esse desespero para terminar? — indagou.
, vamos lá: me beijou e, se eu terminar com Danna, posso ter uma chance com ela novamente. Pode ser que não aconteça nada, mas o que você preferiria: continuar com Danna e nunca saber, ou correr o risco?

Lies


Estávamos chegando perto do pub, quando minhas mãos começaram a suar frio. Eu já havia feito aquilo diversas vezes: sempre que me enjoava de alguma garota, era eu o cara a dispensá-la sem pensar duas vezes. Mas com Danna era diferente. Acho que a culpa por tê-la traído e a vontade de ter para mim de uma vez por todas estava me deixando insano. Tudo em que eu podia – e conseguia – pensar era em correr para os braços de e fazer com ela tudo o que eu quero desde que a conheci, sem impedimentos, sem obstáculos, apenas entre nós dois como aconteceria com um casal normal.
Porque, afinal de contas, um casal normal não poderia passar por tantas dificuldades como nós dois estávamos passando.
Eu estava sentado no banco traseiro ao lado de , enquanto mudava as estações do rádio do carro de – e isso o estava deixando irritadíssimo. Minha inquietação era tamanha que eu nem ao menos tentava disfarçar as batucadas rítmicas em minhas pernas. Eu percebia que me olhava pelo canto dos olhos com uma vontade imensa de rir da minha casa, mas, novamente, eu não poderia me importar menos. Tudo o que desejava era terminar logo com essa noite que, algo me dizia, seria muito longa.
Quando alcançamos o pub e estacionamos o carro, percebi que não teria mais volta.
Entramos e cumprimentamos a mulher que sempre nos indicava uma mesa legal caso quiséssemos ficar sentados. Os caras não queriam ficar numa mesa, e sim nos banquinhos perto do bar, mas eu insisti. Era melhor ter um lugar mais confortável e com menos garrafas de vidro por perto quando terminasse com Danna. Assim que nos sentamos, pedimos duas garrafas de cerveja e esperamos.
Estávamos no meio de um assunto qualquer que tivera com Lindsay quando eu a vi. Deveria ter imaginado que a veria. provavelmente dissera a Kate que iríamos àquele pub e Kate, por sua vez, deveria ter informado a ela. As duas estavam juntas e entravam com sorrisos no ambiente de meia-luz do pub. Ela vestia um short jeans azul claro rasgado em várias partes, curtinho e de cintura alta. Uma blusa de manga comprida verde, que o comprimento não chegava nem à barra do short. Os cabelos estavam soltos, com exceção do lado esquerdo, que estava repuxado para trás e preso com uma pequena flor vermelha.
Eu não havia percebido quando o meu queixo caíra. Apenas sabia que estava com a boca encharcada, quase ao ponto de babar em cima daquela mesa. Foi quem me deu uma cotovelada de leve na costela, e foi assim que despertei do meu transe. Percebi que os três haviam parado de falar e me olhavam com sobrancelhas erguidas, esperando por uma informação.
— comecei, escolhendo bem as palavras: —, por que diabos você disse a Kate que estaríamos aqui hoje?
— Eu não disse... — ele respondeu.
— Como não disse? Aqui está Kate — apontei com a cabeça em sua direção — E ali está a perfeição da natureza. No mesmo pub que provavelmente vivenciará uma catástrofe quando eu terminar com Danna.
— Você está sendo exagerado, e eu não avisei ninguém. Deve ter sido só uma coincidência, aceite isso. Elas te viram?
— Bem, eu espero que não, porque estava quase babando. Literalmente.
— Então fique tranquilo. Talvez você tenha passado despercebido. Concentre-se em encontrar Danna.
Ficamos os quatro parados, um pouco desconcertados e sem ter o que dizer. Eu nunca havia me sentido dão desconfortável perto dos meus três melhores amigos, mas eu não colocava a culpa em nenhum deles. Era tudo minha.
Não demorou muito tempo até que Danna chegasse. Assim que me viu, deu um pulinho no lugar, abanando a mão, e saiu correndo até onde estávamos sentados. Ela se aproximou e tentou me dar um beijo na boca, mas, com toda a delicadeza do mundo, virei o rosto lentamente, fazendo com que ela acertasse minha bochecha.
Ela pareceu não notar, e eu achei isso um pouco melhor. Gostaria de ficar um pouco mais bêbado antes de ter que terminar aquela coisa que chamávamos de relacionamento.
Ela sentou-se ao meu lado, empurrando-me para , e para a parede. Passou os braços ao meu redor e encostou a cabeça no meu ombro.
— Eu já estava com saudades. — ela disse, depositando um beijo demorado na minha bochecha. Eu ri disfarçadamente, procurando parecer feliz com isso.
— Traga mais cinco cervejas — pedi à garçonete que passava por nossa mesa. Danna olhou para a garçonete, negando.
— Não, eu quero só uma água com limão e gelo.
Eu não perguntei qual o motivo da abstinência de álcool, mas não objetei. Talvez Danna fosse mais maleável enquanto não estivesse bêbada.
Ela conversava comigo sobre diversos assuntos que eu não me interessava nem um pouquinho. Eu acenava com a cabeça e sorria de vez enquanto, murmurando um “é sério?” quando julgava necessário, mas não estava mais ouvindo nenhuma palavra que deixava seus lábios. Minha concentração estava focada em encontrar a mesa de . E, quando o fiz, pareceu que Danna nem mesmo estava ali. Até meus murmúrios inúteis haviam parado, e eu só tinha olhos para . Ela bebericava algo que eu julgava ser marguerita, e ria de maneira deliciosa ao lado de Kate. A cena parecia passar em câmera lenta para mim, como se aquela risada gostosa de – que eu nem conseguia ouvir devido à música ao vivo que estava sendo tocada – fosse eterna. E os movimentos que ela fazia quando ria eram agradáveis ao olhar.
? — chamou-me Danna, olhando para mim com a sobrancelha erguida. — O que você está olhando?
— Nada. — eu disse, desviando meu olhar de e voltando-o para o homem de pelo menos 30 anos que tocava o violão no palco. — Só observando como aquele homem toca.
— É uma bela música mesmo. — ela suspirou — Tão romântica. Faz-me sentir apaixonada.
Eu engoli em seco. Preferia que Danna não tivesse dito aquilo.
— Ok, Danna. — eu comecei, sabendo que não poderia mais retardar aquilo. — Acho que está na hora de conversarmos. Pode vir aqui um minuto?
— Claro. — ela disse, um sorriso safado no canto dos lábios. Provavelmente pensava que eu queria privacidade com ela para uns amassos.
Nós nos afastamos até um canto mais quieto e sem muito movimento, próximo ao banheiro. Danna me seguia com esperanças de beijos e carícias, porém tudo o que eu pensava era em como terminar aquele maldito namoro. Quando chegamos à quietude, Danna empurrou-me contra a parede e grudou seus lábios nos meus. Eu a afastei gentilmente.
— Danna, eu vim aqui para conversar com você. — disse.
— Você não precisa fingir que quer conversar. Entendo que diga isso na frente dos seus amigos, mas, você sabe... Eu e você não temos nada a esconder. — ela tentou me beijar novamente, mas segurei-a firme pelos braços.
— Danna, eu estou falando sério. Nós precisamos conversar.
Ela pareceu murchar. Deixou que os ombros caíssem, evidentemente triste já sabendo o que aquela frase provavelmente significava. Eu suspirei fundo, tomando coragem para começar aquele discurso “não é você, sou eu” que eu já tinha planejado.
— Danna... — comecei — Você é uma garota ótima. De verdade. Nós tivemos momentos ót-
— Corta essa, . — ela disse bruscamente, desvencilhando-se das minhas mãos, que ainda seguravam seus braços. — Eu não quero ouvir essa ladainha ridícula. Vá direto ao ponto.
— Er... Danna, não... não é uma ladainha. Você é realmente uma garota ótima. Mas acho que nós não damos certo.
— Você acha que nós não damos certo, ou você acha que acha que nós não damos certo? — ela cuspiu as palavras.
não tem nada a ver com isso. Eu e você nos divertimos muito, mas eu não amo você. — vomitei as palavras sem filtrá-las em minha mente. Quando percebi o que havia dito, tentei corrigir — Eu gosto de você, mas você precisa de alguém que te ame.
— Você está ocupado demais amando para tentar me amar, não é? — ela disse rispidamente, os dentes cerrados.
— Danna, isso não tem a ver com . Tem a ver comigo e com você.
— Ora, , poupe-me. Todos naquele maldito colégio sabem que você enfrentaria uma tropa militar armada por ela.
— Danna, o que você quer que eu diga? Que sim, eu amo ? Bem, como você acabou de dizer, isso não é segredo para ninguém. Agora me diga, ouvir isso saindo da minha boca faz esse término parecer “menos pior” para você? Faz isso ter sentido?
Eu não vi quando a mão de Danna alcançou meu rosto em um tapa violento. Apenas percebi quando fui atingido. Talvez por estar cego que raiva àquela altura. Aquela garota era completamente louca.
— Você é nojento. — ela falou, virando as costas e saindo às pressas.

— Traga mais quatro! — berrou à garçonete que passava por nós. Ela assentiu com a cabeça antes de ir até o bar e encher novos copinhos pequenos com tequila.
Seria o sétimo shot de cada um de nós. Estávamos bêbados feito gambás, rindo alto, sem nos preocuparmos com o ambiente mais calmo daquele pub. Algumas pessoas das mesas ao redor lançavam olhares de pena, alguns incrédulos, alguns invejosos. Nós simplesmente não nos importávamos.
Aquela bebedeira imensa começou por algum motivo que eu já não me lembrava mais. Eu sabia que era alguma comemoração a algo que acontecera naquela noite mais cedo, mas a bebida já estava tão predominante em meu sangue e em meu cérebro que eu só conseguia pensar em beber mais shots.
Enquanto esperava pela nova rodada, pesquei um cigarro do maço e o acendi. Mais do que depressa, um segurança alto e careca, de pele escura caminhou até mim, sério como um cientista. Eu dei uma tragada profunda no cigarro antes de cumprimentá-lo, soltando a fumaça em sua direção.
— Fala aí, seu segurança! — eu me mexia para frente, para o lado, para trás e para o outro lado como se estivesse em um navio em alto mar.
— Senhor — o segurança disse, a voz grossa deixando amenidades para lá —, essa é a terceira vez que venho até aqui alertá-lo de que não é permitido fumar aqui dentro. — ele apontou a plaquinha próxima a nós para ilustrar sua fala — Se não apagar este cigarro ou ir até o fumódromo, terei que pedir para que se retire desse local.
— Opa! — eu disse, afundando a ponta do cigarro no pratinho vazio ao centro da mesa — Eu esqueci! Desculpe, não vai acontecer de novo.
O segurança simplesmente retornou ao lugar em que estava de início. E os novos shots de tequila haviam acabado de chegar.
— Um brinde! — gritou , chamando a atenção de algumas pessoas do lugar e recebendo um olhar feio do homem que tocava.
— A que estamos brindando? — perguntei, esperando que ele pudesse me dizer.
— E quem é que sabe? — respondeu, e, com isso, levamos o líquido forte goela abaixo.
Eu me levantei logo em seguida, anunciando minha ida ao banheiro. Estava bêbado demais para andar em uma linha reta, então apenas trançava as pernas e me apoiava no que achava seguro o suficiente. Estava tão apertado que poderia correr, se isso não significasse um tombo digno de dentes quebrados no chão. Por isso fui com calma, mas esperando chegar logo.
A situação foi que, quando cheguei à parede que dividia o banheiro feminino do masculino, apareceu. Linda como uma deusa da floresta com aquela flor e aquela blusa verde, e eu não pude evitar congelar no lugar em que estava e olhá-la da cabeça aos pés, admirando cada centímetro de seu corpo, enquanto ela cruzava os braços, visivelmente desconfortada. Quando nossos olhares finalmente se cruzaram, percebi que ela receava aquele encontro. E, tendo em mente quão bêbado eu estava, eu receava aquele encontro também.
Aproximei-me dela, tentando parecer o mais sóbrio possível, parando à sua frente e deixando que uma distância quase inexistente se pudesse entre nós. Ela respirou fundo, olhando desconcertada para o lado, mas eu apenas coloquei minhas mãos em sua cintura.
— Você está linda hoje. — eu disse a ela, alisando sua cintura com o dedão. — Tão linda que é quase como um pecado.
... — ela começou, tentando livrar-se dos meus braços. Eu me mantive firme, não a deixando se afastar de mim. — Você está bêbado?
— Não consegui disfarçar, não é? — murmurei — Mas isso não muda o que te disse. Diria a mesma coisa se estivesse sóbrio. — eu subi uma mão aos seus cabelos e passei os dedos por entre uma madeixa. — Você é linda aos olhos de qualquer um.
— Não seja exagerado. — ela disse, um risinho brincando em seus lábios — Você não sabe o que diz.
— Sei perfeitamente o que digo. — eu respondi, juntando-me mais a ela e levando-a até a parede. Ela estava presa por mim, sem poder sair, mas não estava reclamando. Nossos narizes já se roçavam e nossas respirações se misturavam quando eu disse: — E também sei o que faço.
E nossos lábios finalmente se juntaram. Nos beijávamos em uma sincronia perfeita, que até mesmo achei estranho julgando como eu estava bêbado. Era um beijo mais feroz que o primeiro, e, sem uma mesa para nos atrapalhar agora, estávamos completamente juntos. Ela levou as mãos aos meus cabelos novamente, embrenhando os dedos e puxando-os de leve. Eu pressionava sua cintura na minha, movendo minha pélvis contra a dela. Eu pude senti-la sorrindo durante o beijo, e, antes que pudesse perceber, ela me puxava para dentro do banheiro feminino, fechando a porta atrás de si e grudando-me contra ela.
Seus dedos percorreram a barra da minha camiseta, e ela subiu as unhas pela pele das minhas costas como uma tigresa. Seus beijos passaram dos meus lábios já vermelhos para meu queixo, descendo pelo meu pescoço e indo até onde se via pele.
Eu só conseguia pensar no quanto aquela garota era voraz.
Ela, então, levantou minha camiseta e passou a beijar meu abdômen, enquanto suas unhas continuavam o percurso, descendo pelas minhas costas e passando para minha calça jeans. Ela deixou uma mordida leve em algum lugar próximo ao meu umbigo antes de contornar o cós da minha calça com as mãos e encontrar a fivela do meu cinto.
E alguém bateu à porta.
— Alo-ô? — a voz fina de mulher chamou do outro lado — Você aí dentro está ciente que esta é a porta que fica aberta?
— Droga. — eu murmurei, levando uma mão aos meus cabelos e bagunçando-os desconsertadamente.
— Abra a droga dessa porta! — a mulher exclamou novamente, agora dando soquinhos mais frequentes na madeira.
— Já vai! — gritou, erguendo-se. Ela olhou para mim, dando um risinho da minha cara de tacho, e passou as mãos por meus cabelos. Eu suspeitava que ela os estava organizando, para que não dessem suspeita nenhuma. — Isso vai deixar algumas marcas... — ela apontou para uma série de unhadas pela lateral do meu corpo. — Até mais, .
Ela deu um selinho rápido nos meus lábios antes de abrir a porta e sair por ela como um furacão. A mulher entrou o banheiro e sobressaltou-se quando me viu ali, com cara de paisagem, roupas amassadas e... bem, animado.
— O que está esperando? — ela perguntou, pondo as mãos na cintura, indignada. — Saia já daqui!
Eu cambaleei para fora até o outro banheiro.

M

Mess around you


Eu acordei com uma enxaqueca e uma ressaca tão grande que era difícil até mesmo respirar. Eu fiquei deitado por alguns instantes tentando adaptar meus olhos à claridade terrível daquele cômodo. Eu nem mesmo sabia onde estava. Acho que ficamos tão bêbados na noite anterior que poderíamos ter parado no fundo do mar e não perceberíamos.
Fazendo uma força extrema para conseguir me colocar de pé, avaliei o cômodo em que estávamos: uma TV razoável, sofás interligados e janelas com cortinas – abertas – de estampa floral. Era a casa de .
Olhei mais uma vez ao meu redor para perceber deitado próximo à mesa de jantar, roncando alto e de boca aberta. Ele estava completamente destruído, percebia-se. Não via sinais de ou de . Os dois provavelmente estavam perdidos em algum outro canto da casa, provavelmente o banheiro ou o quintal. Eu não estava a fim de procurá-los.
Arrastei meus pés até a cozinha e enchi um copo até transbordar de água duas vezes. Minha sede era tanta que parecia que não bebia água há dias. Eu deveria me lembrar dessa sensação sempre que estivesse pronto para beber tanto de novo. Depois de beber água, fui até o banheiro para jogá-la fora. Não foi surpresa para mim quando vi estirado ao chão do lado do vaso sanitário; ele sempre foi fraco de estômago para bebidas.
— Ei, — chamei, cutucando-o com a ponta do pé — , acorda.
Não havia sinais de vida.
! — eu gritei, e meu amigo quase bateu no teto devido ao pulo que deu. Ele olhou ao redor um pouco desnorteado – muito, para ser sincero –, tentando entender onde estava assim como eu. Depois, sentou-se, apoiando-se à parede e pondo a mão na testa. Ele fazia uma careta de dor, e eu não pude deixar de rir — Ressaca?
— Acho que meu corpo está vivenciando uma seca.
— Tem água de sobra na cozinha — eu ri — Agora me dá licença, preciso me aliviar.
Quando voltei à sala, e jogavam videogame. O som, obviamente, estava no mínimo possível, e ainda assim os dois faziam algumas caretas. Eu acendi um cigarro e me sentei ao lado deles, observando GTA V na TV. Quando dei a primeira tragada, percebi que não deveria ter acendido um cigarro. Minha ressaca era muita, e o cigarro estava apenas piorando tudo. Fiz uma careta de nojo e o apaguei, deixando meus olhos fechados por alguns minutos para esquecer o fato de estar sol.
— O que aconteceu ontem à noite? — ouvimos a voz de , ainda sonolenta, enquanto ele se revirava no chão. — Teve um terremoto, não teve?
— Por que acha que teve um terremoto?
— É a única explicação plausível pro meu corpo estar tão dolorido. Eu fui soterrado durante um terremoto.
— Infelizmente, não. Isso é só ressaca. — murmurei, ainda de olhos fechados.
— Bom, eu não me lembro de mais nada depois que Danna foi embora. Ela passou por nós como um furacão. — comentou, dando de ombros — Acho que ficou realmente triste por ter terminado com ela, .
— Triste? Acho que ela ficou puta, isso sim. O tapa na cara que ela me deu não tinha tristeza, apenas raiva.
— O que você disse quando terminou com ela?
Eu contei toda a história a eles. Parecia não interessar tanto assim.
— Bom, pelo menos estamos livres daquela louca.
— Eu que o diga. Não aguentava mais ter que me sentar do lado dela todas as aulas. E quando ela grudava em mim, pelo amor de Deus. Eu queria dissolver pra não sentir o toque. — confessei, sabendo que era cruel de minha parte dizer aquilo.
— Nenhum de nós aguentava mais tê-la por perto, pode ter certeza. E agora que ela se foi, tenho esperanças de que voltará a ficar com a gente.
.
Ah, meu Deus.
. Ah, meu Deus. — repeti em voz alta. Na verdade, eu não queria repetir em voz alta. Apenas saiu, sem querer. — Ah, meu Deus.
— Ah, meu Deus? Por que “ah, meu Deus”? — perguntou, seus olhos fixos em mim como os de e . — . O que você fez com ?
— Por favor, me diga que você não a matou. Você nutre tanta raiva nesse coração que acho que isso seria muito provável — comentou.
— Pelo amor de Deus, é claro que não. De onde você tira tanta loucura, ? — exclamei, realmente querendo descobrir isso. — O que aconteceu foi que... Bem... eu e nos trombamos quando eu estava indo para o banheiro.
— Ahan. E o que mais? — perguntou.
— E ela me puxou para dentro do banheiro feminino, trancou a porta e...
— Ah, meu Deus! — os três exclamaram juntos — Não me diga que você fez sacanagem no banheiro do pub! — gritava.
— Não... não deu tempo. Quando as coisas começaram a esquentar, uma mulher começou a bater na porta do banheiro para poder entrar. — eu suspirei, triste, imaginando como teria sido se não tivéssemos interrupções — Aconteceu tudo muito rápido, na verdade.
— Quem diria... Nosso querido -boy quase conseguiu o que queria ontem. — disse orgulhosamente. Juro que seus olhos até brilhavam.
— Transar com não é tudo o que eu quero, . Eu quero mais que isso, e-
Fui interrompido pelo som do meu celular apitando. Eu o alcancei no meu bolso e desbloqueei, lendo a mensagem que aparecia na tela. Por um momento, meus olhos se arregalaram e minha respiração ficou presa. Depois, eu comecei a tremer, mas isso passou logo. E então eu joguei meu celular contra a parede.
Graças a Deus não quebrou. Acho que acabei jogando com menos força do que esperava, mas tudo o que aconteceu foi separar a bateria. Diante do meu acesso nervoso, , e se amontoaram ao meu redor, perguntando o que tinha acontecido. Eu juntei as partes do celular e mostrei a mensagem a eles.
— Isso só pode ser brincadeira. Não é?
— Me diz que é uma brincadeira.
— Não é uma brincadeira. — rolou os olhos. — Tem assinatura e tudo.
— Eu não acredito que Danna possa ser tão ridícula.
— Danna e Scott.
— Não acredito que os dois possam ter se juntado em menos de vinte e quatro horas para tentar te destruir, . É nisso que não acredito. — negou com a cabeça.
— O que faço? — eu perguntei, visivelmente perturbado. — O que eu devo fazer? Eu não sei o que fazer!
— Você tem duas opções — começou — Ou conta a verdade para , ou nunca mais fale com ela.
A mensagem dizia:
Bom dia, . Estamos mandando essa mensagem como uma forma de aviso a você. Se não terminar com , a imagem abaixo, juntamente do email escrito por você, será colado em todos os armários do colégio. E sabe o que será colado junto? A imagem que eu tenho de você tirando a foto.
Com esperanças de que entenda a ameaça,
Danna e Scott.

E, abaixo, a foto de beijando Scott, ao lado de uma foto minha, atrás de uma árvore, observando os dois juntos.

— Eu acho que devemos fazer uma viagem juntos. — Joanna exclamou, os olhos brilhando como um personagem de desenho animado.
— Eu concordo com você. Podemos pegar o próximo feriado. — concordou. — Tem um lugar muito bom para irmos, com chalés muito confortáveis.
— Chalés? — Lindsay interrompeu — Eu não quero ir pra um lugar com chalés. Não tenho nem dinheiro para ficar em um deles. Sabe o que seria realmente legal? — ela tinha nossa atenção — Acampar. Eu tenho duas barracas de casal, se vocês conseguirem mais duas poderemos acampar perto de uma cachoeira, no meio do mato.
— E como nós vamos tomar banho? Ou usar o banheiro? — indagou.
— Ora, . — foi a vez de dizer — Haverá uma cachoeira para o banho bem na nossa frente, é só encontrarmos um lugar mais afastado para termos privacidade. Quando ao banheiro, é só escolhermos uma moita confortável e levarmos alguns rolos de papel-higiênico.
— Você está falando sério? — ele parecia assustado. Não estava familiarizado a sobreviver na natureza selvagem.
— Estamos — Joanna respondeu — Nós já acampamos várias vezes. Confie em nós, não é tão ruim quando parece. Na verdade é ótimo. Estar em contato com a natureza e sem tecnologia ao redor deixa tudo muito mais vívido. Vocês vão amar.
— Bom, se vocês têm tanta certeza... Estamos dentro. — eu disse. — Onde fica a sua cachoeira, Lindsay?
— Não é muito longe daqui. No máximo uma hora de carro.
— Alguém tem uma churrasqueira fácil de levar pro mato?
— Eu tenho. Posso ficar encarregado disso e do carvão. — se dispôs.
— Eu arrumo as cervejas e cigarros — eu disse, um sorriso de orelha a orelha.
— Nós podemos nos encarregar das barracas — Lindsay comentou, trocando olhares com as meninas. — Todos concordam em dividir? Quatro barracas de casal, pode ser?
Nós assentimos, obviamente.
— Quem fica responsável pelas carnes? — perguntou.
— Eu posso cuidar disso. — disse , experiente em o que é bom. — Adoro mexer com comida.
— Ok. E em quais carros vamos? Precisamos de dois voluntários. — eu disse.
— Podemos ir com o meu — Joanna se voluntariou, sendo a única que tinha um carro só seu. — Algum de vocês pode conversar com os pais e ver se emprestam o carro pelo final de semana, ok?
Nós quatro assentimos. Eu já sabia que não poderia ir com o dos meus pais. Eles não me deixavam pegar estrada ainda – o que era bem idiota, já que eu procurava ruas calmas para acelerar muito. Teríamos que apostar em algum dos outros três caras, e torcer para que desse certo.
Depois que os outros detalhes menores foram combinados, olhamos no calendário para ver qual seria o próximo feriado. Dali a duas semanas. Dava tempo de sobra para resolvermos tudo o que precisava ser resolvido.
Nós estávamos prontos para retornar à sala de aula quando, surpreendentemente, Danna passou por nosso grupo de mãos entrelaçadas a Scott. Os dois me olharam nos olhos, intensamente, até o momento em que não conseguiam mais virar a cabeça para continuar me olhando. Antes que virassem o corredor para subir as escadas, Danna ainda me lançou um sorriso tão cheio de crueldade que fez com que um arrepio subisse pela minha espinha.
era o único do grupo que havia percebido isso. Ele trocara olhares comigo, mas seu olhar não me passava nenhum conforto. Era apenas mais um desesperado por causa da nova dupla.
Eu sabia que precisava fazer alguma coisa a respeito daquilo o mais rápido possível. Mas não seria agora. Agora eu queria apenas curtir a chance que estava tendo de finalmente ficar com a garota que eu amava. Eu queria apenas ficar de mãos dadas com , e beijar seus lábios sempre que eles estivessem ao meu alcance.
E foi o que fiz antes de subirmos para as salas de aula.

N

No worries


Fazia frio naquela época do ano. Enquanto observava pela janela de minha casa, via pessoas saindo com jaquetas, agasalhos, cachecóis e botas. Ainda não nevava, era apenas o começo do inverno. Mas a sensação de frio já era notável bem mais do que se poderia desejar.
Era a época do ano em que andar de skate ficava difícil por causa do vento gelado na cara. A época em que sair de cueca para pegar as cartas e o jornal fora de casa era quase impossível. A época em que tomar banho de manhãzinha ou no final da tarde/início da noite era praticamente impossível. Mas, ainda assim, eu me sentia quente. Meu corpo sentia-se quente, meu interior sentia-se quente e, mais do que tudo, meu coração estava pegando fogo. Eu quase não conseguia reclamar do que acontecia na minha vida. Apesar de toda a porcaria que estava me rondando, toda a questão Danna/Scott, a felicidade que me invadia todas as vezes que abria os olhos e me levantava da cama era tão forte que tudo era esquecido. E a ideia de pegar o celular e ver uma mensagem de bom dia vinda de era simplesmente extasiante. E o que era o melhor de tudo? Chegar na escola e vê-la ali, sentada em um banco próximo da porta de entrada, esperando por mim com todo o seu fogo para me esquentar. Beijá-la assim que a visse e abraçá-la apertado, enfiar meu rosto no pescoço dela e sentir o cheiro floral que ela exalava, e então ceder à vontade de enchê-la de beijos até ela começar a rir e se encolher. E quando ela resolvia entrelaçar os dedos nos meus e me puxar até aquele cantinho onde ninguém se atrevia a ir, e então me beijar tão ardentemente que era difícil de lembrar onde estávamos e segurar nossos hormônios.
O clima da Inglaterra estava frio, mas o meu clima pessoal era quente como o fogo vivo.
Eu estava me dirigindo para a escola para o último dia de aula daquela semana. Finalmente o dia em que pegaríamos a estrada para o meio do mato havia chegado. Eu não sabia sobre os outros, mas eu estava completamente animado para passar um tempo longe de toda a civilização e tecnologia. Ficar em uma cachoeira com meus amigos era tudo o que eu precisava.
Eu sabia que nós sairíamos da escola depois do almoço e já iríamos direto para a estrada, por isso, em vez de uma mochila apenas, estava com duas. Uma com meus materiais que, obviamente, deixaria no carro de , e uma com algumas roupas e outras coisas necessárias. Caminhei até o ponto de ônibus sem nem mesmo me dar conta do que acontecia ao meu redor. Eu só queria que aquelas cinco horas passassem rápido.
Já na escola, como de praxe, encontrei-me com logo na entrada. Ela selou os lábios aos meus demoradamente, fazendo com que toda a minha vida tivesse sentido. Nós entrelaçamos os dedos e caminhamos juntos em direção à cantina, onde compramos um café, a fim de permanecermos acordados durante as aulas que se seguiriam. Logo menos, e Kate juntaram-se a nós, Kate com um sorriso de orelha a orelha, com as bochechas avermelhadas.
— Eu tenho até medo de perguntar... — disse despreocupadamente. e Kate se entreolharam e deram uma risadinha cúmplice.
— Um casal não pode ter uma manhã animada? — perguntou Kate, fazendo o máximo para que sua bochecha não corasse também. — Ora, não somos mais crianças.
— Como eu disse: estava com medo de perguntar, não perguntei. Obtive a resposta mesmo assim e, agora que já sei o que rolou, estou desconfortável. — eu ri, fazendo com que rolasse os olhos.
— Você é idiota demais.
— De qualquer jeito — foi a vez de falar —, vocês já estão com suas mochilas aí, né? Nós vamos direto para a cachoeira depois daqui...
— Sim, não esquecemos. Fique tranquila. Inclusive, a churrasqueira e o carvão já estão no porta-malas de .
— As cervejas também, dentro de um isopor. Os cigarros estão dentro da minha mochila.
— Agora só precisamos conferir se as carnes e as barracas estão com Joanna.
Nós quatro rumamos para a sala de aula. Algumas pessoas já perambulavam por ali, com aquela reconhecível cara de sono e um mau-humor exalando no ar. Eu e sentamo-nos lado a lado, com as carteiras praticamente coladas uma na outra e as mãos entrelaçadas. Kate e sentaram-se à nossa frente, mas não tão juntos assim – costumava dizer que eles já perderam aquele fogo inicial, mas sabemos que era só discrição.
Conforme os minutos se passavam, a sala de aula ia se enchendo. Em um determinado momento, o resto de nosso grupo juntou-se a nós. Joanna disse que a primeira aula seria Física, e eu senti uma vontade enorme de ir embora no mesmo instante. E, como se nada pudesse piorar, as primeiras palavras do professor, quando ele chegou, foram:
— Bom dia. Hoje teremos uma prova surpresa. Afastem bem as carteiras e, se eu vir alguém usando algum tipo de cola, é zero. Não na prova. No boletim.
Alguém tinha broxado na noite anterior.
Parecia que eu não era o único aluno que ficou furioso, e tudo isso apenas aumentou minha vontade de levantar e sair dali correndo. Entretanto, para que minhas notas não fossem prejudicadas, permaneci onde estava e, uma hora depois, entregava nas mãos do professor a folha de respostas.
Ele olhou para mim como quem descrê no que vê e me mandou sair.
Lá fora, encontrei . Ele estava sentado em um banco, sozinho, revirando um maço de cigarros. Aproximei-me.
— Ei. Quer ser expulso? — perguntei, indicando o maço.
— Só queria fumar mesmo. — ele disse — Fui extremamente mal nessa porcaria de prova. Saí cedo justamente porque não sabia nada.
— Olha, se isso te serve de consolo, eu não acho que o professor vá realmente considerar essa nota a nota semestral. Acho que você pode ficar tranquilo.
— Mas não é só essa nota, . — murmurou, o maço ainda rodando em suas mãos — São todas. Com exceção de História, todas as minhas notas estão abaixo da média.
Bem, eu não sabia disso. Não sabia que estava nessa situação. Durante o ano inteiro, ele nos passou a impressão de que tudo estava certo e indo conforme o planejado.
Isso fazia de mim um péssimo amigo por não ter percebido que ele andava tão mal na escola? Fazia de mim um péssimo amigo por não ter me preocupado o suficiente para perguntar?
— eu comecei, sentando-me ao lado dele. — Ainda tem tempo pra se recuperar, ok? E nós vamos te ajudar. — eu disse firmemente — Quero dizer, não é como se eu, ou fossemos alunos exemplares, mas nós podemos te ajudar. E outra, as garotas também podem nos ajudar, elas sim são boas alunas. — eu sorri.
— Se você não se importa, , gostaria de manter isso entre nós, na verdade. Entre nós, caras. Não quero que as meninas saibam e pensem que sou um fracassado ou algo do tipo. — ele suspirou, finalmente tirando um cigarro do maço. — Não quero Lindsay decepcionada comigo.
, eu não acho que elas pensariam qualquer coisa assim sobre você. Você conhece essas garotas, elas são demais. — eu ri, e ele deu uma risadinha também. — Todos já passamos por problemas com as notas. Eu passei, passou, até Lindsay, tenho certeza, já passou. Então não se crucifique por estar tendo um ano ruim. — ele concordou com a cabeça, cabisbaixo. — Se você não quer que as garotas saibam sobre isso, elas não saberão. Mas eu te garanto que e vão concordar comigo em te dar uma força.
— Obrigado, . — ele murmurou, enfiando novamente o cigarro no maço. — Melhor guardar esses daqui para o final de semana, certo?

Finalmente havia chegado a hora. Depois de uma manhã turbulenta no colégio, finalmente estávamos prontos para viajar. Os porta-malas dos carros de e Joanna estavam abarrotados de comida, bebida, barracas e colchões infláveis. Havíamos combinado de levar pouca roupa, a fim de que tudo coubesse em uma mochila pequena para que pudéssemos levar no colo; não caberia nem um suspiro a mais dentro do porta-malas.
Eu, e Lindsay fomos no carro de . Eu ia no passageiro, tomando conta das músicas, enquanto e Lindsay iam juntas no banco de trás fazendo seja lá o que elas achassem legal. e eu acendemos um cigarro e ele deu partida no carro, indo logo atrás do de Joanna, que nos mostraria o caminho certo a seguir. Tínhamos combinado de não parar em nenhum lugar para podermos chegar o quanto antes na cachoeira. Afinal, estava sol e seria ótimo se pudéssemos nadar.
tragou o cigarro.
— Então, , que música você separou para nós hoje? — ele perguntou, soltando a fumaça logo em seguida.
Eu não respondi. Apenas conectei o pendrive no rádio do carro e esperei. Um ou dois segundos depois, as primeiras batidas de Jeremy, do Pearl Jam, começou a tocar.
Durante toda a viagem, nós fazíamos brincadeiras. Coisas do tipo adivinhação, e até mesmo aquela brincadeira do cachorro, que o Ted vive fazendo com o Marshall em How I Met Your Mother. No geral, a viagem foi bastante sossegada e cheia das risadas.
Até a hora que as meninas resolveram trocar de roupa.
— Ok, garotos. Vocês dois vão ficar de olhos bem fechados-
— Você não, ! Você pode deixar os olhos abertos, mas fixos na estrada, ok? — Lindsay interrompeu.
Nós rimos.
— Enfim — rolou os olhos — Não olhem para trás, ok?
— Por quê? — nós perguntamos juntos, eu virando a cabeça para trás, olhando pelo retrovisor.
— Porque nós vamos nos trocar.
Eu engoli em seco, e podia ter certeza de que fazia o mesmo.
— Agora? Aqui?! — perguntamos. puxou o colarinho da blusa com o dedo.
— Sim. Quando chegarmos lá, queremos estar prontas para cair na água. — Lindsay deu de ombros, começando a tirar a blusa. a acompanhava. — E como não viemos de biquíni, precisamos nos trocar agora.
— Por que não esperam para se trocar quando chegarem lá? Aposto que Joanna e Kate vão fazer isso.
— Joanna já está de biquíni e Kate acabou de mandar uma mensagem dizendo que quase levou um soco no olho de por ter olhado para trás quando ela estava se trocando. — elas desabotoaram as calças.
Oh, Deus.
— Agora andem, olhem para frente. Nós vamos ficar nuas.
— Vocês estão falando sério? — exclamou, e eu pude ver que ele fazia força para não olhar pelo retrovisor.
— Por que pode olhar para Kate e nós não podemos olhar para vocês? — perguntei.
e Lindsay deram a impressão de estarem rolando os olhos.
— Kate e namoram há meses e já se viram pelados um milhão de vezes.
— Nós namoramos. — eu comentei para .
, meu querido, quando você me vir pelada, não vai ser dentro de um carro, trocando de roupa e com outras duas pessoas olhando. — sua voz soava risonha.
Eu engoli em seco pela milionésima vez.
Você provavelmente está pensando que essas duas garotas foram completamente loucas de se trocarem na nossa frente, porque nós, homens, não conseguiríamos nos controlar e olharíamos para elas. Bom, sinto desapontá-lo, mas nós não olhamos. O que disse fez sentido para mim. A primeira vez que eu a visse nua seria em uma ocasião muito mais romântica e sedutora, nada daquilo. E , em respeito a – que estava com Lindsay –, obviamente não olhou para trás. E foi por isso que nós mantivemos nossos olhos na estrada, no carro de Joanna, até o momento que ouvimos e Lindsay soltarem risadinhas e afirmarem que já estavam vestidas.
O resto da viagem havia sido realmente bem tranquilo. Nenhum animal na pista, nenhuma garota seminua no carro, nada que pudesse incomodar qualquer uma das oito pessoas que se direcionavam para uma cachoeira.
Nós chegamos lá aproximadamente duas horas da tarde. O sol estava no topo, forte, e queimava sem que percebêssemos. Assim que paramos o carro próximo da cachoeira, as meninas desceram, arrancaram as roupas e se jogaram no rio. Elas nadaram até debaixo da cachoeira, deixando a água cair em seus ombros em uma espécie de massagem.
Eu e os caras retiramos as bagagens dos carros. Era sabido que não estávamos em condições, nem com humor, para montar quatro barracas com aquele sol queimando nossas costas. Apenas deixamos as quatro barracas amontoadas uma ao lado da outra, juntamente com o colchão de ar; pegamos nossas bermudas de nadar e escolhemos um espaço afastado da vista das garotas para nos trocar. Quando estávamos prontos, foi a nossa vez de correr em direção ao rio e espalhar água para todos os lados.
Algum tempo depois, resolvemos colocar gelo em um isopor e deixar algumas latinhas gelando. A bolsa térmica tinha alguns pedaços também, para manter a temperatura fria quando o gelo todo derretesse.
Só quando estávamos consideravelmente bêbados resolvemos começar a fazer o churrasco. Eu, , e saímos da cachoeira a fim de começar a montar a churrasqueira portátil, cortar e temperar com sal grosso a carne. Obviamente, demorou quase meia hora para montar a churrasqueira, já que se distraía o tempo todo com conversas entre nós quatro.
As meninas, por sua vez, continuaram nadando. Enquanto e Lindsay boiavam na parte mais calma do rio, Joanna e Kate haviam escalado a cachoeira. Joanna preparava-se para saltar, e Kate esperava por sua vez.
Eu percebi o quanto olhava para Joanna. Estava óbvio para mim – e acredito que para os outros caras também – que ele gostava muito dela. E, conhecendo como eu conhecia, sabia que, se dependesse dele, levaria anos para que tivesse coragem de tomar uma iniciativa. Mas eu não me intrometeria na sua vida. Não cabia a mim dar uma de cupido para os dois, e cabia menos ainda tentar forçá-lo a algo. Eu sabia que quando sentisse que era a hora certa, ele daria um jeito de chegar em Joanna.
Os gritos de e Lindsay foram ouvidos quando Joanna se chocou contra a água. Com a intensidade das ondas, as duas afundaram, quase engolindo água. Kate pulou logo em seguida, e logo as quatro iniciavam uma guerra de água interminável.
Era impossível não notar que nós quatro estávamos completamente hipnotizados por elas. Mesmo assim, demos um jeito de voltar nossa atenção às carnes na churrasqueira.

Já era noite. Nós ouvíamos o barulho de cigarras por aí. Havia ficado frio, então estávamos todos bem agasalhados, mas ainda sentávamos em frente ao rio com os pés dentro da água. Não sabíamos bem que horas eram, mas já estávamos caindo de sono – ainda que não fossemos dormir àquela hora. O fogo da churrasqueira estava quase apagado, e todos comiam um bife de picanha. Eu não. Eu estava fumando, porque tinha comido mais cedo. Estava olhando para a lua, o céu estrelado, e pensando que não poderia haver lugar melhor para estar com os amigos.
E quem diria que nos tornaríamos amigos, certo? Alguns meses atrás, ainda me pedia ajuda com Kate, mal olhava na minha cara, Joanna era invisível para nós e Lindsay não passava de uma fofoqueira. Agora estávamos todos juntos, e havia algo muito maior que amizade acontecendo entre nós. Éramos casais.
Com exceção de e Joanna, é claro.
Eu recostei minha cabeça a de . Ela ainda mastigava, mas sua mão livre foi de encontro aos meus cabelos, fazendo uma carícia gostosa. Eu virei meu rosto até encostar meu nariz e lábios no seu pescoço, sentindo o resquício de seu perfume misturado ao cheiro do rio. Eu a beijei naquela área, e ela encolheu o pescoço, soltando uma risadinha baixa que apenas nós dois ouvimos.
Doía pensar que e eu brigaríamos em breve. Ou ela receberia uma mensagem desgostosa e nunca mais olharia na minha cara, ou eu teria de contar a ela e poderia correr o risco de não ser perdoado.
Eu já havia decidido comigo mesmo que contaria a ela. É claro que contaria. Seria muito melhor se ela soubesse por mim do que se uma mensagem anônima e cheia de maldade aparecesse colada nos corredores da escola. Eu contaria a ela. Mas não naquele momento. Não naquele dia, não naquele final de semana. Estávamos em paz, ali. Estávamos juntos, todos os oito de nós, nos divertindo como nunca antes. Eu não estragaria aquele momento com algo que acontecera meses atrás, algo que eu tinha certeza, quase cem por cento, de que acabaria com aquela relação que eu e estávamos criando. Eu contaria a ela, mas eu contaria quando chegássemos em casa. Eu contaria quando estivéssemos sozinhos, porque aquilo era algo que não deveria ser colocado em público.
Eu a senti se levantar, puxando-me de volta àquela realidade. Ela andou até o rio, esfregou as mãos na água e retornou até mim, ficando de pé à minha frente, enquanto sua mão se estendia para mim.
Eu olhei ao redor e percebi que todos os outros já estavam dormindo. Acho que fiquei apagado por um tempo tão longo em meus próprios pensamentos que perdi o momento em que todos se deitaram na grama e na terra, deixando que a preguiça os vencesse, e dormiram.
Agora éramos só eu e . A única dupla acordada, em meio àquela relva cheia de verde e o barulho leve da cachoeira, de água chocando-se contra água.
Eu estendi minha mão de volta para ela e me levantei. Não montamos nossa barraca – e de jeito nenhum faríamos isso àquela hora –, mas esticamos como um lençol o colchão vazio. Nós nos deitamos, um do lado do outro, nossos narizes se tocando, nossos lábios se roçando.
Naquela noite, nós não dormimos.






O

Obviously


O motivo de não termos dormido no dia seguinte não foi a diversão que tivemos a noite inteira. Acontece que, quando o sol nasceu, tornou-se completamente impossível tentar pegar no sono.
Sorte dos outros que haviam dormido enquanto tinham tempo. Eu e não conseguiríamos, pelo menos não até termos coragem de armar a barraca.
- Quem acendeu a droga da luz? - exclamou , virando-se bruscamente no chão duro onde dormira.
- Ninguém acendeu a luz, queridinho, nós estamos ao ar livre. O sol nasceu. - Joanna se revirou também, colocando o braço por cima do rosto.
soltou um resmungo, mas preferiu não se mexer mais dali para frente. Creio que estava tentando voltar a dormir, apesar do fato de estar frio, e ensolarado.
O clima aquele mês estava completamente maluco entre transições.
Eu me virei sobre meu braço direito, colocando o esquerdo em torno da cintura de . Ela não dormia, mas mantinha os olhos fechados como se tivesse alguma esperança de conseguir pegar no sono. Eu deixei meu corpo bem próximo ao dela a fim de mantê-la quente, e ela aconchegou seu rosto entre meu ombro e meu pescoço, fazendo-me cócegas com sua respiração.
- Eu poderia ficar assim para sempre - ela murmurou em uma voz arrastada de sono. - Você não concorda? Em um ambiente calmo e gostoso, relaxante, com o som de uma cachoeira a cair e o cantar dos pássaros... Essa brisa e essa sensação de não precisar se preocupar com mais nada no mundo além do que faremos hoje, se uma trilha ou um nado até o outro lado do rio... É quase injusto pensar que amanhã precisaremos voltar para a cidade.
Sua voz ficava mais baixa conforme arrastava a frase, e eu quase não pude ouvir a última. Mas eu ouvi. E imediatamente desejei que nada daquilo acabasse, que não precisássemos voltar para a cidade e que ficássemos para sempre ali. Desejei não precisar contar nada sobre uma foto à , simplesmente porque aquilo partiria seu coração e acabaria com sua confiança em mim. Gostaria de apagar o que fiz naquele dia e concentrar-me apenas em fazê-la feliz daqui para frente, mas eu sabia que isso era uma utopia; eu havia feito uma grande merda, e agora precisava arcar com as consequências. Infelizmente, isso incluía machucar a garota que eu amava.
Eu suspirei, aconchegando-me mais perto dela. Sentia o perfume de seus cabelos, um misto de mel com água de rio, e percebi-me inebriado. Fechei os olhos, e nós permanecemos daquela maneira por um tempo.
Mais tarde, quando o sol começava a brilhar mais forte no alto do céu, decidimos que não adiantaria continuar deitados. Apesar do vento frio, o sol estava queimando, e decidimos colocar nossas roupas de banho e aproveitar o restante de natureza que tínhamos pela frente.
Eu e os caras tomamos nossos postos novamente à churrasqueira, enquanto as garotas decidiram por fazer uma pequena caminhada por ali. Eu estava sentado no chão, brincando com um graveto na terra umedecida pelas águas do rio. Sem que pudesse perceber – e sentindo-me completamente idiota por isso – havia rabiscado o meu nome e o de . , que apareceu repentinamente atrás de mim, batera com as mãos em meus ombros como se sentisse pena, trazendo no rosto um sorriso brincalhão.
- Mas que gracinha! - ele disse ironicamente, ridicularizando meus rabiscos - Veremos você comprometido logo?
- Acho isso difícil, ...
- Você está pensando na foto. - foi uma afirmação - Não pense nisso, não agora.
- Você sabe que mais cedo ou mais tarde precisarei encarar isso. - respondi - , eles têm a foto! Eles vão enviar para ela, sem sombras de dúvida. Eu não tenho tempo a perder.
- O que você acha que pode acontecer de melhor, ?
- Eu não sei... Mas acho que saber pela minha boca é melhor do que saber através de uma mensagem mal-intencionada pelo celular.
Eu dei um gole longo na cerveja. Ela não estava tão gelada quanto desejávamos, mas era bom o suficiente. sentou-se do meu lado e tomou o graveto da minha mão.
- Isso é coisa para pensarmos depois. - ele disse, e rabiscou os nomes que eu havia escrito.
Alguns minutos depois, as garotas estavam de volta. Traziam uma guirlanda de flores no cabelo, fazendo com que todas se parecessem com Deusas. Joanna correu ao encontro de e o arrastou até o rio, empurrando-o na água gelada. Ele deu um grito quando retornou à superfície, e os dois começaram uma guerrinha. veio até mim. Ela retirou sua guirlanda da cabeça e colocou-a na minha, observando-me atentamente, como se estivesse analisando uma obra em exposição.
- Eu estava certa - ela disse, por fim - Definitivamente muito mais gostoso.
Eu ri, abraçando-a apertado e estalando um beijo no seu pescoço.
- Garanto que fica muito melhor em você.
Ela me olhou com aqueles olhos intensos, brilhantes, mas não disse nada. Apenas passou a mão pelo meu rosto, depositando um beijo na ponta do meu nariz e afastou-se.
Eu fiquei ali, com a mão capenga segurando uma cerveja, observando-a andar para perto das amigas. O que é que eu vou fazer?, pensei.
Mas não pude pensar muito.
O grito de soou longe, e tive certeza de que qualquer urso ou pantera ou qualquer coisa do tipo teria ouvido. Foi um longo “ai, meu Deus!” e o barulho de coisas pesadas caindo ao chão. Eu só tive tempo de ver o fogo tomar conta de toda a churrasqueira, envolvendo todas as carnes que estavam sobre a grelha. , que estava ao seu lado, olhava pasmado para a destruição de sua churrasqueira, com a boca semiaberta. Eu era capaz de ler todos os pensamentos em sua mente: “Caramba, a churrasqueira tá pegando fogo!”, “Meu pai não sabe que eu peguei a churrasqueira...”, “A churrasqueira do meu pai tá em chamas!”, “Morri. Adeus, mundo.”, entre outros.
Foi então que apareceu, espertamente trazendo na mão em formato de concha um punhado de água que escorria a cada passo que dava. Eu quase poderia contar as gotas que restaram quando ele finalmente chegou, abrindo a mão sobre a churrasqueira como se realmente fosse conseguir resolver o problema.
Rolando os olhos, levantei-me apressadamente e fui até o isopor perto do rio. Com dor no coração, tirei toda a cerveja de dentro, deixando-a sob o sol, e levei o conteúdo restante do isopor – gelo, gelo derretido e água – até a churrasqueira. Antes que tivesse tempo de pensar duas vezes, virei o isopor de cabeça para baixo, apagando o fogo vivo.
- O que diabos aconteceu? - indaguei, ainda segurando o isopor.
- A churrasqueira... pegou f... fogo - balbuciou, ainda em choque.
- Eu tentei fazer uma coisinha diferente - explicou, dando uma risadinha amarela - Sabe, flambar e etc...
- Você tentou... flambar - eu frisei, a sobrancelha erguida em descrença - um churrasco?
- Tem certeza que a intenção não era flambar a churrasqueira inteira, ? - sugeriu, um sorriso bobo no canto dos lábios - Foi isso que pareceu.
- Pegou fogo! - exclamou novamente, saindo do choque - Mas que loucura. Poderíamos ter causado um incêndio nessa floresta.
- O que vamos fazer agora? - perguntou , apontando para a churrasqueira que ainda soltava uma fumaça branca. - Colocamos fogo na churrasqueira. Mais que isso, colocamos água. Ela não vai acender novamente.
- E não temos mais gelo para as bebidas... - parecia cabisbaixo. - Nem como manter as carnes resfriadas. Tudo vai estragar embaixo desse sol.
- As bebidas nós beberemos. - dei de ombros - Quanto às carnes... bem, paciência.
- Teremos que ir embora hoje. - resmungou - Ainda é cedo e já não temos almoço, muito menos janta. Não vamos conseguir ficar por aqui até o fim de amanhã à tarde.
Eu acendi um cigarro, pensativo. Era óbvio que gostaria de continuar por ali. Pelo resto da minha vida, para ser bem sincero. Mas não teria outro jeito, principalmente agora. Eu olhei para as meninas no rio. Todas olhavam para nós, perguntando-se o que teríamos decidido. Um imenso sentimento de desgosto preencheu meu peito, imaginando a chateação de todas as quatro por termos de voltar um dia mais cedo, quando a intenção era tirar o final de semana todo de férias.
- Bom, não tem outro jeito. Acho que é isso.
- Como contaremos às meninas? - indagou , sentindo-se visivelmente culpado pela situação.
- Precisamos ser sinceros. - disse, olhando para Kate com o canto dos olhos - Afinal, elas viram o fogo. Não tem o que fazer, né?

Ficamos por volta de quinze minutos discutindo floreios e observando cabisbaixos a churrasqueira destruída. A situação realmente não tinha volta; flambar a churrasqueira era uma coisa, mas apagar o fogo com água impedia que nosso final de semana continuasse a acontecer. Sem churrasqueira, não tinha como nos alimentarmos. Sem gelo em nosso isopor, a cerveja já estava quente. A solução era ir embora e continuar aquela reunião na casa de alguém.
Fizemos sinal para que as garotas saíssem do rio e elas caminharam até nós com suas peles reluzindo debaixo do sol por conta das gotículas de água. Eu não queria ser o primeiro a pensar isso, mas elas pareciam verdadeiras sereias - ninfas, talvez. Deusas. Todas as quatro, sem exceção nenhuma - nós realmente éramos muito sortudos de termos conseguido nos aproximar desse grupo. E … Ah, ! Ela caminhava com aquela coroa de flores na cabeça, parecendo uma verdadeira guardiã das águas, e por mais que seu olhar sério mostrasse o quão relutante estava com o que estávamos prestes a dizer, continuava maravilhosa.
- A coroa caiu quando você pegou o isopor. - ela disse quando aproximou-se o suficiente. Fez menção de levar as mãos à cabeça para me entregar a coroa, mas eu a impedi. - Você não quer?
- Não - ela parecia chateada -, quero que fique com você. Não tem ideia de quanto está linda, não é?
Ela sorriu timidamente, depositando um selinho em meus lábios. Depois, passando o braço por minha cintura, perguntou:
- E então? Qual é o veredito?
pigarreou.
- Antes de mais nada, quero pedir imenso perdão pelo que aconteceu agora. Eu quis fazer uma coisa diferente e não pensei que o resultado seria tão catastrófico quanto foi. A churrasqueira pegou fogo e, como resultado, perdemos todo o nosso gelo para apagá-lo. Ou seja, dois erros em um só: molhamos a churrasqueira e perdemos nosso resfriador de cerveja.
O dedão de acariciava minha pele e isso tornava muito difícil a minha concentração.
- A gente precisa voltar para a cidade. - suspirou, mordendo o lábio inferior por um segundo antes de continuar - Não tem como a gente continuar aqui sem gelo e sem comida. Minha sugestão é que a gente volte pra lá e continue o restante desse final de semana na piscina da casa de alguém.
- Podemos ficar na minha - disse Joanna - Meus pais sempre viajam para o campo em feriados. A casa tá liberada.
- Perfeito.
- E, ? - ela chamou - Não se sinta mal pelo que aconteceu, nós sabemos que não foi por querer. Chegando em casa colocamos as carnes e a cerveja na geladeira e tudo voltará ao normal.
Em menos de vinte minutos estávamos prontos para partir. Olhamos uma vez mais para aquela vista maravilhosa e nos despedimos, amontoando-nos nos carros e deixando a natureza para trás.

On my own


- Quais as direções para a casa de Joanna? - indagou pelo viva-voz do celular.
- É bem fácil. É só me seguir. - a voz de Kate respondeu.
Nós a obedecemos. Enquanto a seguia pela movimentada rua de Londres, eu abria o vidro e acendia um cigarro.
Estava extremamente nervoso.
Estávamos na cidade.
Tudo se tornara real.
A mensagem de Danna e Scott voltava à minha cabeça a cada segundo. Eu sabia que tinha pouco tempo para agir e sabia que não haveria saída. Eles estavam me ameaçando com provas, e não havia nada pior que aquilo.
E, de repente, eu me vi no lugar de . No lugar em que eu a coloquei, para início de conversa. Ao tirar uma foto dela aos beijos fortes com Scott e enviá-la ao seu pai, eu estava fazendo pior do que simplesmente ameaçá-la. Eu a estava expondo abertamente.
E a mensagem deles poderia chegar até ela a qualquer momento.
Bem, eu estava decidido. Contaria a ela quando chegássemos na casa de Joanna. Era melhor arrancar o band-aid logo, mesmo que aquilo me prejudicasse.
O percurso até a casa de Joanna durou menos tempo do que eu imaginava, e aquilo me deixara revoltado. De todos os lugares possíveis para ela viver, não podia ser um pouquinho mais longe da entrada da cidade? Só para que eu assimilasse melhor a ideia do que estava prestes a fazer?
Droga!
Tudo parecia estar contra mim naquele momento e eu só queria morrer.
Estacionamos os carros e descarregamos os porta-malas. Ajudamos a guardar as carnes na geladeira da área externa e as cervejas no freezer. Por sorte, nenhuma peça de carne havia estragado no caminho de volta.
Quando tudo estava terminado e, dessa vez, assumia a churrasqueira, peguei pela mão e a puxei até a sala de estar. Ela me olhava com aqueles olhos profundos e assustadores que brilhavam mais do que diamante. Por um momento, toda a coragem que havia em mim foi sugada. Eu era um pequeno franguinho amendrontado. Ela estava impaciente.
- ? Acorda. O que foi? - ela estalava os dedos na frente dos meus olhos. Eu suspirei.
- , eu preciso te falar uma coisa.
- Ok… - ela esperou.
- Ah, droga, isso é mais difícil do que eu imaginei que seria. - eu mordi o lábio inferior, bagunçando meu cabelo com a mão. mantinha seu olhar em mim, os braços agora cruzados na frente do corpo. - Bem, é que…
- ! - gritou lá de fora, acenando para mim. - Vem aqui!
- Precisa ser agora? - eu gritei de volta.
- Sim, temos um problema! Vem aqui!
Eu rolei os olhos, mas, por dentro, estava aliviado.
- Me espera, ok? Eu já volto. Preciso mesmo falar com você.
Voltei à área externa da casa aos trotes. estava afastado dos demais e me puxou pelo braço para um pouco mais longe, de modo que pudesse me dar aquela bronca.
- O que você está fazendo? - ele indagou, os olhos semicerrados.
- Bem, , estamos na cidade. Eu preciso conversar com antes que apareça uma mensagem no celular dela.
- Larga de ser idiota, . Larga de ser idiota, pelo amor de Deus, ein! Ouve o que eu tô te falando. - parecia impaciente - Nós vamos resolver isso juntos, não vamos? Estamos perto da segunda. A gente conversa com os dois e tenta chegar em um acordo.
- Você conhece Danna e Scott. Não tem papo com eles; estão malucos!
- E você está ficando maluco também em querer fazer isso aqui, agora. Segura essa sua emoção. Não é o momento.
- Mas,
- Não. É. O. Momento. - ele frisou.
Mas nada disso importou realmente, porque, naquele mesmo instante, marchava violentamente em minha direção. Sua expressão estava retorcida em raiva e, ao mesmo tempo, descrença. Eu não precisei olhar para para ver que ele pensava o mesmo que eu. Danna e Scott não esperaram até o final de semana terminar. A mensagem já havia sido enviada.
E a mensagem havia sido recebida.
- Como você pôde? - ela indagou, empurrando-me com as duas mãos quando chegou perto de mim. - Como, ?
- , por favor, me deixa explicar…
- Explicar o quê? - ela me empurrou novamente, as lágrimas aparecendo em seu rosto - Você acabou comigo, seu imbecil. Você é um nojo de homem - não, de pessoa! De ser humano. Você não tem coração. Chegou a ser verdade alguma coisa do que você me disse? - ela me empurrava.
- Tudo o que eu te disse foi verdade, . - eu sentia minha visão ficando turva, as lágrimas quentes escorriam por minha bochecha. - Por favor…
- Para! Para de me pedir por favor, você tá me deixando mais nervosa ainda!
- O que tá acontecendo? - indagou Kate, que se aproximara junto de todos os outros. As meninas olhavam a cena perdidas, sem entender nada da situação. Os caras me olhavam de maneira piedosa; eles já sabiam também.
- Sabe o que aconteceu, Kate? - ironizava - Você quer saber o que o amigo do seu namorado aprontou dessa vez? Ah, nossa, me desculpa! Não foi dessa vez, não é? Faz tempo. Foi antes da gente sequer começar a se falar, não é, ? - ela olhou para mim com ira nos olhos - Foi isso o que ele fez!
Ela sacou o celular do bolso e mostrou a mensagem que continha uma foto minha tirando uma foto dela e de Scott, com os dizeres “seu namorado não é tão santo quanto parece, bobinha!” logo abaixo. Kate pegou o celular da mão de , olhando para a mensagem com os olhos arregalados. Ela passava seu olhar de mim para , e eu soube que ele estava tão frito quanto eu.
- Você sabia disso, ? - ela indagou, mostrando a mensagem para ele.
- Sim - ele assumiu, baixando o olhar para seus próprios pés - Eu sabia, mas o repreendi desde o começo. Nunca apoiei o que ele fez.
- Nunca apoiou - disse , direcionando sua ira para - Mas nunca realmente foi contra, não é mesmo? Do contrário teria me avisado.
- … - Kate murmurou, a voz embargada. - Você me decepcionou.
- Não culpe o , Kate - eu intervim - Ele não sabia o que eu estava fazendo. Só soube depois. Já tinha acontecido, não tinha o que ele fazer para evitar.
- Ele não podia mais evitar - ela disse -, mas podia ter dito para ficar longe de uma pessoa tão baixa e suja quanto você. Ele não é culpado, mas é cúmplice.
mantinha-se calado. Ele sabia que havia agido tão errado quanto eu.
- Eu quero vocês fora daqui. - ela disse repentinamente. - Todos vocês. Os quatro. E eu espero nunca mais ouvir uma palavra sua, . Você é um bosta. Um monte de bosta.
- , por favor, me deixa explicar!
- Sai daqui. - ela disse. - Agora.
Eu hesitei por um instante, olhando em seus olhos lívidos de raiva. Ela estava nervosa e não me deixaria falar naquele momento - provavelmente em nenhum outro. Não tirava sua razão. Em seu lugar eu faria o mesmo; eu era sujo, baixo e um monte de bosta. Eu era o culpado e não tinha perdão para o que eu havia feito. Eu era um lixo.
Enxuguei minhas lágrimas. Murmurei um “sinto muito” antes de passar por ela. E, assim, deixei a casa.



Continua...


Nota da autora: (27.12.2016) Oi, meninas!
Eu sei, eu sei. Demorei uma eternidade pra postar atualização essa fanfic. Por favor, não me matem aaaaaaaaaaaaaaaa. Nem desistam de mim. A vida tá bem corrida com as coisas da faculdade, trabalho, vida pessoal, enfim. Tá tudo uma confusão. E junta com os bloqueios da vida, aí já viram, né? Hahahhaha. Mas eu demoro, mas posto, não esqueço de vocês. <3
Espero que gostem dessa att super tensinha. Eu gostei de escrevê-la. O que vocês acham que vai acontecer agora, ein? Deixem seus palpites, críticas e elogios nos comentários! :)
Beijos!

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Nota da Beta: Eu já acompanhava a fanfic como leitora, amei ter sido escolhida para ser a nova beta! Obrigada pelo presente de Natal, Cami! Bom, o que dizer dessa atualização? Estou chorosa, gente! Continue logo <3




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Para saber quando essa fic maravilhosa vai atualizar, acompanhe aqui.



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