Última atualização: 25/09/2020

Capítulo 1 - Bem-vinda, férias!

— Você não me traz nada de novo tem uma semana, . — O homem reclamou, olhando atentamente para sua colunista bem a sua frente.
— Eu sei, perdão! — A mulher murmurou, olhando para as próprias mãos em seu colo. — Estarei de férias amanhã, vou para Verona por três semanas, prometo que trarei algo novo.
— Tudo bem, três semanas. — Preston decretou. — Me traga uma história incrível.
— Com certeza! — A resposta de foi animada e ela logo se levantou, saindo do escritório do chefe com um largo sorriso no rosto.
era uma colunista da The New Yorker, costumava escrever romances reais que aconteciam a sua volta ou até mesmo que eram pesquisados através de fotos e documentários. Ela gostava de lembrar a todos os leitores que o amor verdadeiro existia, e que por mais distante, ele sempre estava perto. Talvez ela fosse uma sonhadora, já que mesmo acreditando no amor ainda estava solteira, mas ela pouco ligava, o importante era crer.
— E então? — Anne perguntou para a colega, quando viu ela sentar-se ao seu lado.
— Três semanas. — avisou, batendo palminhas, enquanto voltava a atenção para seu computador.
— Que ótimo. É tempo suficiente?
Sua colega de trabalho, Anne, era o mais próximo de amiga que tinha, já que depois do colegial, ela se mudara de Londres para Nova York para cursar jornalismo em Columbia. Uma das coisas que tinha herdado de sua mãe, era a determinação em estudar.
— Acredito que sim. Cartas para Julieta, aí vou eu! — murmurou, sem tirar o sorriso do rosto.
Verona era uma cidade italiana, ficava na região de Vêneto, ficou famosa por ser o local onde ocorria a clássica peça de teatro Romeu e Julieta, escrita por William Shakespeare. Era justamente esse romance que faria enfrentar um voo de cerca de dez horas até a Itália. A mulher economizara durante cinco meses para aquele momento, afinal, desde a primeira vez que leu Romeu e Julieta ficou encantada pelas belezas e romances da Itália, e era impossível negar que fora aquela história que a fizera acreditar no amor.
A Casa de Julieta era o ponto principal para a sua viagem, uma construção residencial do século XIV, com uma varanda voltada para o pátio, representando a sacada da história de Julieta. Naquele local, havia uma estátua banhada a ouro com a imagem de Julieta, as pessoas falavam que tocar no seio direito exposto dela trazia sorte e um amor eterno. Além de que, nas paredes de tijolos, diversas cartas eram deixadas por mulheres sonhadoras e devotas à Julieta. Muitas delas pediam um amor, outras desejavam ficar livres.
pesquisou muito sobre aquele lugar, tanto que, quando descobriu que as cartas eram respondidas por mulheres, as quais também acreditavam no amor verdadeiro, ela rapidamente anotou como seu propósito visitar Verona assim que conseguisse guardar uma boa grana.
Aquele dia tinha chego, depois de longos cinco meses deixando de pedir no seu restaurante favorito, sem adquirir nenhuma roupa ou sapato novo e nenhuma saída com as meninas do trabalho, ela finalmente tinha dinheiro o suficiente para passar três semanas na Itália.
No final do expediente, se despediu de Anne e deixou todos os relatórios prontos para que ela não se perdesse em suas tarefas. Suas férias começariam a partir do momento que pisasse para fora do prédio e estava perto de acontecer. Quando o elevador apitou avisando que estava no térreo, aguardou que algumas pessoas saíssem antes de se colocar a andar firme sobre seus saltos; estava tão feliz que não cabia em si.
Fazia cerca de três anos que não tirava alguns dias de folga, apenas quando a empresa realizava férias coletiva e olhe lá, até no ano novo teve que cobrir a descida da bola na Times Square. Ela sabia que aquela miniférias era a trabalho, mas que trabalho gratificante! Ir para Verona descobrir uma história que cativasse o público, uma história de amor verdadeiro.
Quando o vento de fim de tarde tocou seu rosto, não se conteve e sorriu abertamente. O céu se tornava laranja e a noite era vista de perto, o movimento na 7ª avenida era intenso e o caminho até o metrô foi demorado, já que todos pareciam dispersos demais àquela hora. Então, quando a mulher pisou no subsolo, agradeceu por conseguir chegar em tempo no trem. Trabalhar perto da Times Square era uma grande vantagem, a única desvantagem daquela situação era morar perto do Central Park, o que a custava quase trinta minutos até chegar em casa, principalmente se pegasse a linha 1, a qual parava em todas as estações possíveis.
Por sorte, conseguiu alcançar a linha 2 em tempo, e mesmo lotada, arranjou um bom espaço para verificar alguns e-mails e preencher sua lista de coisas que não poderia esquecer de colocar na mala. Roupas de verão era o principal requisito, visto que estava na época de maiores temperaturas na Itália.
Cerca de vinte minutos depois, com o trem um pouco mais vazio, desceu na estação perto da sua casa e com a bolsa bem presa ao corpo, caminhou com certa pressa pelas ruas já escuras. Ela sabia que aquela extremidade era segura e que naquele horário, muitas pessoas aproveitavam para se exercitar e conversarem próximos ao Central Park. Era por aquele motivo que ela gostava do verão, as pessoas viviam mais e aproveitavam muito mais o dia. No inverno era quase impossível ver alguém na rua.
empurrou a porta de entrada do prédio e sentiu o corpo relaxar por já estar em casa.
— Boa noite, Sr. Jakins! — A mulher cumprimentou o porteiro.
— Boa noite, Srta. ! Finalmente de férias? — O homem questionou. costumava passar bastante tempo conversando com o porteiro no seu dia a dia.
— Sim! — Ela respondeu, animada. — E as malas quase prontas para minha aventura na Itália. — se encostou no balcão.
— A Srta. vai me trazer uma nova história de amor? — Sr. Jakins perguntou, abandonando a revista de palavras cruzadas para encarar .
— Duvido que eu ache alguma história mais emocionante que a sua, Sr. Jakins. — Ela elogiou, relembrando as emoções e romances da vida de Peter Jakins. — Mas pretendo encontrar histórias reais, loucuras de amor...
— Aposto que vai encontrar dezenas delas. Verona é a cidade encantada. Quem sabe você encontre, finalmente, seu verdadeiro amor?! — O porteiro piscou um dos olhos para e ela riu, negando com a cabeça.
— Não estou interessada nessa parte ainda. Preciso de novas inspirações para meus leitores e quem sabe um novo romance para meu futuro livro. — desencostou do balcão e virou o corpo, pronta para seguir até o elevador.
— Não esqueça do agradecimento, Srta. . — Peter falou em alguns tons mais altos, observando a mulher aguardar o elevador.
— Minhas sinceras admirações a Peter e Amélia Jakins! — A mulher sorriu e abanou para o porteiro, adentrando a caixa metálica.
Peter Jakins sorriu. era uma boa garota, ele desejava que ela pudesse encontrar alguém para dividir suas ideias mirabolantes e sua paixão avassaladora.
apertou o botão do sétimo andar e aguardou. Adorava morar naquele lugar, divertia-se com Peter Jakins e sempre recebia tortas de sua vizinha, a Sra. Fetter. Adquiriu aquele pequeno espaço logo após sua formatura, durante os anos que estudou na Columbia, morou numa república e guardou todo dinheiro que seu pai lhe mandava, assim como o salário que recebia no estágio e as poucas gorjetas por passear com cachorros da vizinhança da faculdade. Ela mudou e logo conseguiu uma boa recomendação de um professor para o The New Yorker, algo que a ajudou, e muito, a pagar as parcelas para o antigo dono.
abriu a porta de sua casa e largou sua bolsa em cima do sofá, já retirando os saltos e os deixando jogados em cima do tapete. Sua sala era praticamente conjugada com a cozinha, a qual não possuía nenhuma mesa, apenas uma bancada da pequena ilha. Era muito difícil receber visitas, quando chegava algum feriado ela ia até a casa do pai em Nova Jersey, para visitar o mesmo e a sua irmã mais nova, a qual já tinha sua história de romance contada na revista.
Sua lavanderia era ao lado da cozinha com apenas metade de uma parede de madeira, que combinava com a cozinha planejada, para poder ser realmente um cômodo. Ao lado da sala, ela tinha sua parte favorita: uma porta janela de vidro que dava acesso à sua sacada. Ela realmente gastou dinheiro para decorar a sacada, lugar que dava uma visão ótima do Central Park, mesmo que só o topo das árvores, e onde ela conseguia desenvolver a maior parte de sua criação. De frente para a sala, tinha um pequeno corredor que dava acesso a uma suíte e um outro banheiro social.
Era aquilo e ela estava mais do que feliz por conseguir ter seu próprio cantinho.
A mulher seguiu até o banheiro do quarto e tomou um banho relaxante, já deixando seus produtos de higiene separados para serem guardados em uma necessaire em seguida. Seu voo sairia em torno de meia noite e ela chegaria pela manhã em Verona.
Quando saiu do banho, vestiu uma roupa confortável e colocou sua mala em cima da sua cama, deixando-a aberta. Colocou as roupas, que já estavam dobradas em cima da cama, dentro da mala, assim como todos os sapatos que levaria. Além de, claro, roupas íntimas, pijamas e meias. Adicionou alguns casacos também e calças, desejando não os usar, mas se precavendo caso a temperatura resolvesse abaixar. Na bagagem de mão, ela colocou a necessaire lotada de produtos de higiene pessoal e uma outra necessaire com suas maquiagens, além de seu secador de cabelo e alguns outros itens necessários.
Ela levou cerca de duas horas para organizar tudo e revisar diversas vezes, até ter a certeza de que não esquecia de nada. Esquentou a janta da noite anterior e sentou no sofá para aguardar a hora de chamar um táxi. Ela ainda não tinha avisado seu pai e irmã que estava indo para a Itália, então aproveitou para discar o número da caçula.
Oi, irmãzinha. — Catarina atendeu, animada.
— Olá, Cat. Como está? — perguntou, desligando a televisão.
Estou bem, e você?
— Ótima. Tenho uma novidade.
Devo me preocupar? — A pergunta da irmã mais nova fez com que risse.
— Peguei três semanas de férias e embarco para Verona daqui três horas. — A mulher contou rapidamente e fechou os olhos, aguardando a reação da irmã.
Como? Assim, do nada? — Catarina revelou surpresa na entonação de voz.
— Bom, na verdade, eu me planejo tem cinco meses para isso e agora, finalmente, eu consegui me organizar para ir. — contou e encostou as costas confortavelmente no sofá.
Isso é incrível, ! A Casa de Julieta finalmente vai ter o prazer de te conhecer.
riu.
— Acredito que o contrário. Mas espero conseguir histórias para minha coluna e também inspirações para meu livro.
Eu tenho certeza que vai conseguir. Tenho tanto orgulho de você, mamãe também teria. — Naquele momento, sentiu que Catarina estava melancólica, algo que fez lágrimas formarem em seus olhos. — Toque no seio direito de Julieta e peça um amor, .
— Quando for a hora, ele vai aparecer. Não tenha pressa. — O riso de foi fraco. — Eu preciso desligar, mande um beijo para o Ethan e para o papai, vou tentar ligar para ele do aeroporto.
Tudo bem. Me mande relatórios das suas experiências com Julieta! Tenha uma ótima aventura.
— Obrigada, Cat. Se cuida. — desligou o telefone e sorriu para a parede.
Sua irmã sempre acreditou nas suas loucuras sobre o amor e sempre a apoiou em todas as suas aventuras sobre o assunto. Seu pai era mais cético, porém nunca deixou de apoiá-la, já que depois que sua mãe se foi, ficou mais difícil ainda para que ele acreditasse no amor.
Naquele momento, dissipou os pensamentos ruins e se levantou do sofá, ajeitando sua calça melhor ao corpo; uma calça de moletom um pouco larga ao corpo era sua peça para dez horas de viagem, assim como uma blusa mais justa e um casaco da mesma forma que a calça. A mulher pegou sua bolsa de mão e a colocou no ombro, guardando o celular no bolso do casaco, para em seguida esticar as alças das duas malas e as puxá-las em direção à porta.
Borboletas começavam a bagunçar sua barriga, tamanha ansiedade que sentia para chegar finalmente na Itália.



Capítulo 2 - Verona.

O sol obrigou a mulher a colocar os óculos escuros assim que passou pelas portas automáticas do aeroporto de Verona. O ar fresco italiano chocou contra seu corpo e a única coisa que fez foi sorrir. Finalmente ela estava em solo italiano e pronta para procurar as escritoras de Julieta.
puxou as duas malas de rodinha em direção a um táxi, parado bem a diante.
Buongiorno! — A mulher saudou, arriscando uma das únicas palavras que falava em italiano.
Buongiorno, senhorita! — O homem mais velho a cumprimentou, desencostando o corpo da lataria do carro.
— O senhor poderia me levar até Verona?
Quando o moço respondeu com “senhorita” em sua língua nativa, ela sentiu certo alívio em utilizá-la. Além do mais, sabia que até a cidade levaria cerca de sete quilômetros.
— Com toda a certeza. — O taxista respondeu, seu sotaque puxadíssimo. — Em qual hotelaria a senhorita vai se hospedar?
— No hotel Accademia, via Scala. — respondeu e ajudou o senhor a guardar suas bagagens no porta-malas.
— Perfeitamente. — O homem concordou com a cabeça e, após fechar o porta-malas, abriu a porta da parte de trás, fazendo um sinal para que passasse.
Assim a mulher o fez, agradecendo logo em seguida.
O carro não demorou em seguir sua rota e olhou atentamente para a janela. O dia parecia perfeito, um sol forte, vento fresco e muito vinhedo italiano pelo caminho. A mulher sentia-se completamente feliz naquele momento e pretendia continuar daquela forma até o final da sua viagem.
Já estava acostumada a estar sozinha pelos lugares, mas não deixou de fotografar cada paisagem que enchia seus olhos. Anotou muitas informações no seu bloco de nota também, gostaria de relembrar cada detalhe e cada sensação quando precisasse escrever sobre aquilo.
O táxi não demorou mais do que vinte minutos para estacionar bem em frente ao hotel Accademia. A movimentação de turistas era grande naquela rua, conseguia perceber cada um deles. Com a ajuda do taxista, ela retirou as malas do carro, em seguida, estendeu alguns euros correspondentes ao valor da corrida.
— Divirta-se em Verona, senhorita. — O gentil senhor despediu-se com um aceno de cabeça e logo retirou seu táxi da estreita rua.
respirou fundo e olhou a fachada do hotel. Um novo capítulo da maior aventura de sua vida estava para começar e ela não conseguia controlar a ansiedade que a preenchia. Com passos precisos, adentrou o hotel com suas malas sendo puxadas. Realizou o check-in na recepção e com a chave em mãos, adentrou o elevador.
A mulher sabia que poderia sair dali de mãos abanando, mas gostava de acreditar que encontraria uma história perfeita para emoldurar a página do The New Yorker. Talvez, se conseguisse algo surpreendente, estaria na capa.
O elevador logo parou no andar desejado e caminhou animada até o quarto reservado. Deixou suas malas nos apoios próprios para elas e rumou até o banheiro para lavar o rosto, o qual ainda permanecia um pouco amassado pelos cochilos que conseguiu tirar no avião.
— Hora de passear, . — Ela falou para si, encarando sua imagem no espelho.
Ao voltar para o quarto, a mulher buscou por um vestido solto e de corte reto, permanecendo com o mesmo tênis que viera. Os óculos escuros permaneceram no rosto e após pegar a bolsa com seus documentos e dinheiro, seguiu para fora do quarto, levando cerca de cinco minutos para estar nas ruas pequenas e preenchidas por paralelepípedos de Verona.
Ela queria conhecer os monumentos históricos e toda a arquitetura de Verona, mas sua ansiedade foi maior e seus pés a levaram diretamente à Casa de Julieta. Não ficava muito longe dali, e seus olhos não puderam brilhar mais quando se encostou na parede de concreto e observou diversas mulheres sentadas diante da parede de tijolos, com seus papéis e canetas em mãos, escrevendo suas histórias e pedidos à Julieta.
Mais à frente, a tão conhecida estátua dourada com o seio direito à mostra. Turistas iam até ela e seguravam aquela parte para fotos e pedidos mais profundos. Algo que fez sorrir.
Logo acima da parede de tijolos, em uma varanda pequena, uma mulher discursava falas de Julieta, dramatizando e encenando tão perfeitamente, que por alguns minutos, ficou a observando atentamente.
Ouve! Tivesse eu voz de falcoeiro, pra fazer regressar a minha ave!
puxou o celular de dentro da bolsa e digitou mais algumas anotações em seu bloco de notas. Que lugar incrível! Ela conseguiu até sentir sua pele arrepiar ao, finalmente, encarar toda aquela perfeição que tanto sonhara. Desejava permanecer ali pelo resto do dia, apenas anotando seus encantos e observando as diversas mulheres que saíam chorando ou rindo alegres.
— É um lugar lindo, não? — Uma voz feminina se fez presente ao lado de e ela tomou um leve susto. — Perdão, não quis te atrapalhar.
— Tudo bem, eu só estava concentrada. — respondeu, sorrindo. — É realmente magnífico.
— É difícil ver uma mulher que não vem aqui para sentar-se nos bancos, dedicando-se a uma enorme carta para Julieta. — A mulher ao lado de deu de ombros, e somente ali, a mulher observou bem sua companheira.
Ela aparentava ter seus quarenta e poucos anos, segurava uma cesta de vime envernizada e seu cabelo era preso em um coque apertado. Um sorriso aberto emoldurava seu rosto com poucas rugas e o olhar era fixo nas pessoas que ainda escreviam suas cartas.
— Eu tenho outros propósitos aqui. — respondeu, também sorrindo. — Não quero encontrar meu amor verdadeiro, por enquanto.
— Sério? — A mulher, por um momento, ficou confusa.
— Bom, seria legal encontrar um amor, mas… — colocou uma parte do cabelo para trás da orelha e desencostou da parede de concreto, virando-se de frente para a mulher. — Eu vim atrás de histórias. Sou jornalista e escritora. Gosto de histórias de amor verdadeiro.
— Então acho que você encontrou a pessoa certa. — O sorriso que aumentou no rosto da mulher, fez com que franzisse o cenho.
— Como assim? — Foi a pergunta que a jornalista fez.
— Precisamos aguardar o local ficar vazio, então eu lhe mostrarei. — A mulher caminhou tranquilamente até um dos bancos que estava vazio e sentou-se, colocando a cesta de vime sobre o colo.
achou estranho, mas, dando de ombros, seguiu até o banco que a mulher estava e sentou-se ao lado dela. Estava perto do meio dia e ela acreditava que naquele horário o local ficava vazio, visto que muitas das mulheres já haviam depositado sua carta e seguiam seu caminho pelas belas ruas de Verona.
Foram mais alguns minutos para que elas finalmente estivessem sós. Até mesmo a atriz que recitava o famoso livro de Shakespeare já não estava mais lá. A mulher, que ficara quieta o tempo inteiro, ergueu-se com sua cesta em mãos e foi até a parede lotada de cartas.
— Você não vem? — Ela perguntou, virando a cabeça para observar .
A jornalista concordou com a cabeça e seguiu até o lado da mulher. A mais velha então começou a retirar algumas cartas de lá, deixando-as sobre a cesta e evitando deixar espaços vazios.
Um click ativou a mente de .
— Você! — Ela falou, animada. — Você responde às cartas. Eu estava te procurando.
— Então você me encontrou. Vamos, pegue algumas, mas nunca deixe espaço demais. Essa parede nunca pode ficar vazia.
sorriu abertamente e seguiu o gesto da mulher, pegando cartas aleatórias. Tentou optar pelos cantos, onde não deixaria um enorme buraco. observou atentamente o canto esquerdo, na parte inferior. Uma pequena pedra solta mantinha um papel antigo sobre um dos tijolos, ele aparentava estar esquecido havia um bom tempo. agachou-se e recolheu o papel, notando ser um envelope. Julien , 136 E 79th St, New York, NY 10075, Estados Unidos. A caligrafia era perfeita. Ao virar o envelope, notou outra escrita: De Julien para Julieta, que todo meu amor chegue a Luigi Caputo. Verona, 1978.
O sorriso foi involuntário. encontrara uma carta rara, uma carta de quarenta anos atrás, que nunca fora respondida. Ela segurou aquela carta como se sua vida dependesse daquilo e terminou de colocar mais algumas das cartas na cesta da mulher.
— Escuta, qual o seu nome? — perguntou, curiosa, enquanto seguia com a mulher para as ruas da cidade e segurava sua carta firmemente.
— Sou Donna, e você? — Donna olhou para a mulher que caminhava ao seu lado.
. É um prazer, Donna. Eu vim até Verona justamente por sua causa. Que empolgante te encontrar assim, logo no primeiro dia!
— O que você precisa de mim, exatamente? Nem sabia meu nome. — Donna falou em um tom brincalhão, algo que fez rir baixo.
— Como eu disse, estou atrás de histórias de amor verdadeiro. Desde que estudei sobre Romeu e Julieta na escola, eu pesquisei sobre essa cidade. — acompanhava os passos apressados de Donna e tentava não pisar em falso, evitando um tombo em tanto paralelepípedo. — Cartas respondidas por Julieta. Se existe algo mais romântico do que ler cartas amorosas e respondê-las em forma de magia… não deve ser nesse mundo.
— Cartas de Julieta são a história de amor mais pura que você vai encontrar, . — Donna respondeu-lhe tranquilamente, adentrando um pequeno restaurante o qual era ocupado por poucas pessoas. — Temos muito trabalho pela frente se quiser participar.
poderia jurar que seus olhos encheram de lágrimas, lá estava ela, subindo as escadas de madeira do restaurante, com várias cartas de amor em mãos e nem precisou se esforçar muito para encontrar o lugar que tanto quis. Pensando bem, ao olhar ao redor, nunca encontraria esse lugar. Seja lá quem você for aí em cima, obrigada!
O lugar era demasiadamente simples, elas conseguiam ouvir alguns barulhos de uma cozinha que passaram e ouviu a barriga roncar ao sentir o cheiro de comida invadir suas narinas.
— Eu trouxe reforços. — Donna falou contente, largando a cesta de vime sobre uma mesa. — Essa é e ela estava nos procurando.
— Seja bem-vinda, ! — Um coro respondeu e percebeu mais três mulheres a encarando.
— Obrigada. — A jornalista respondeu, tímida.
— Essa é Fabíola, ela responde as cartas que falam sobre separação, brigas constantes, entre outras coisas. Já enfrentou dois divórcios. — Donna iniciou as apresentações e apontou para a senhora que estava sentada na ponta da pequena mesa.
Fabíola sorriu e pegou algumas das cartas da cesta.
— Temos também Tônia, ela vive com o mesmo homem há cinquenta anos, então as cartas sobre amores desgastados e casamentos arruinados, assim como comemorações de longas datas, ficam com ela.
A mulher que estava sentada ao lado esquerdo da mesa acenou para .
— E essa é a Soraya, ela prefere os romances adolescentes, tem vinte e cinco netos e entende deles como ninguém.
A última senhora estava ao lado direito da mesa e sorria com ternura.
Aquelas mulheres deixaram feliz. Ali estavam as Julietas.
— É um prazer imenso conhecer vocês. — A mais nova falou. — Eu sonho com esse lugar há anos e não é nada como imaginei.
— Você esperava que fôssemos diferentes? — Tônia perguntou, enquanto Donna se acomodava ao lado, já escolhendo algumas cartas.
— Um pouco. Mas o que eu encontrei é muito melhor. Aqui tem amor. — sentia-se uma garota na adolescência, tamanha felicidade em estar ali, com aquelas pessoas. — E você, Donna? Responde quais cartas?
puxou uma das cadeiras vagas ao lado de Soraya e colocou sua bolsa apoiada no encosto, levando o envelope envelhecido para cima da mesa.
— Eu sou pedagoga, tenho facilidade em caligrafias, hum… Diferentes. — Donna respondeu, franzindo o cenho ao ver o papel que segurava. — O que é isso?
Ah, eu encontrei mais ao canto da parede. É uma carta de 1978. — ergueu o envelope para mostrar às mulheres.
— Uma carta de quarenta anos atrás? Como nunca a vimos?! — Fabíola levou as duas mãos à boca, impressionada que aquele pedaço de papel havia durado tanto tempo.
— Ela ainda tem o endereço. — Fora Soraya que falou, observando a caligrafia esbelta que preenchia o envelope.
— Ande, leia para nós. — Tônia pediu.
olhou receosa para Donna, tentando perguntar se poderia fazer aquilo. A mulher apenas concordou com a cabeça e sorriu. então, com cuidado, abriu o envelope, tentando preservar o endereço descrito ali. Lentamente, a jornalista puxou um pedaço de papel dobrado de dentro do envelope. O coração dela poderia sair pela boca a qualquer momento, ela estava encontrando sua história de amor e uma emoção sem fim preenchia seu interior.
desfez a dobradura e encarou o papel escrito, respirando fundo antes de iniciar a leitura:
Querida Julieta. Eu gostaria de lhe escrever palavras lindas, para que um dia pudesse receber um amor verdadeiro em troca… mas eu não posso. Estou nos meus últimos dias em Verona, em breve voltarei a Nova York e iniciarei um curso do qual meu pai inscreveu-me. Ele irá ficar… Luigi não pode abandonar as terras de seus pais. Estou sentindo-me despedaçada por partir e deixar um pedaço meu na Itália. deu uma pausa, contendo as lágrimas nos olhos, antes de voltar para as palavras. — Prometa-me, Julieta, que irá cuidá-lo e amá-lo, que não vai deixar as pessoas partirem seu coração, assim como o meu está. Com muita dor eu me despeço, um até logo é breve, um adeus é preciso. Que meu Luigi permaneça nos braços de Verona e seja livre das fardas de guerra, para que um dia, nossos corações possam se reencontrar. Com amor, Julien.
— Isso é lindo! — Donna murmurou, limpando as pequenas gotículas de lágrimas que escaparam de seu rosto.
— Escreva uma resposta, . — Soraya pediu, segurando a mão trêmula da mulher que ainda tinha o papel entre os dedos.
— Será que ela ainda está entre nós? — A voz da jornalista saiu entrecortada.
— Você nunca vai saber se não tentar. — Fabíola respondeu, piscando um dos olhos para a mais nova.
Naquele momento, sentiu que precisava daquela história. Ela precisava escrever para Julien e ter a certeza de que ela ainda estava esperando uma resposta de Julieta.
Antes que a jornalista pudesse tocar na caneta, Donna as convidou para o almoço. gostaria de negar, tamanha ansiedade que tinha para dar continuidade naquela história de amor, mas seu estômago foi totalmente contra a ideia de negar um prato delicioso de macarrão.

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Quatro dias depois...

Querida Julien. Primeiramente, gostaria de me desculpar pelo atraso de quarenta anos, sei bem que o tempo passa rápido e que, muito provavelmente, a Senhora já encontrou seu par. Mas também gostaria de reforçar que o amor é paciente, tudo suporta e tudo crê. Um amor que enfrenta oceanos e guerras, não merece um espaço vazio numa vida tão rápida. O amor verdadeiro suporta uma vida de diferenças e classes, suporta tempo e espaço, suporta barreiras e obstáculos. Eu não sei como sua história terminou, nem como Luigi ficou… a única coisa que eu sei, é que nunca é tarde. Não é tarde para amar e regar um sentimento tão puro e único. Você só precisa seguir seu coração com coragem e bravura, pois, se um dia, eu sentir esse amor, eu vou persegui-lo. E Julien, se não o fez naquela época, espero que o faça um dia. Com amor, Julieta. — A mulher terminou de ler a carta com lágrimas nos olhos.
— Mãe, por favor, isso é besteira. — O homem reclamou, bagunçando os cabelos já não tão arrumados e sentando-se na sua cadeira.
, não é só porque não acredita no amor, que ele não existe. — Julien retrucou o filho, encostando a carta ao peito.
— Eu acredito no amor, só não acredito nessas baboseiras de filme de romance. — revirou os olhos e voltou a prestar atenção no computador à sua frente.
Era em torno do meio dia, quando sua mãe resolveu aparecer na empresa para contar-lhe sobre sua história de amor da adolescência. Por um momento, pensou que pudesse ser seu pai, porém estava totalmente enganado. Seu pai já havia falecido cerca de cinco anos, onde ele deixou toda a empresa e suas ações para , visto que o mesmo já trabalhava no ramo desde novo. Julien, a mãe de , ainda morava no apartamento que fora de seus pais e que dividiu com Hugo, seu marido, e naquele dia estava radiante por não ter aceitado a ideia de ir morar no mesmo prédio que o filho.
Julien, no auge de seus dezoito anos, viveu por alguns meses em Verona, pois seu pai procurava fornecedores para o restaurante italiano que tinha em Nova York, lugar que até hoje fazia sucesso sobre os cuidados do irmão da mulher. Fora nessas visitas em vinhedos, que Julien conheceu Luigi e apreciou o típico amor de verão.
— Aposto que Georgina já sabe e está apoiando essa sua ideia maluca. — comentou, observando que a mãe relia a carta.
— É lógico, querido. Ela vai comigo para Verona. — Julien respondeu, dando de ombros.
— Ela vai o quê? — O tom de voz do homem elevou e ele olhou com os olhos levemente arregalados para a mãe, ignorando a planilha no seu computador. — Não acredito que vocês vão atrás disso.
— Sim e eu vim até aqui para pedir que você nos acompanhe. Além disso, você está precisando de duas semanas de férias, meu bem. — Julien levou sua mão até a do filho e a segurou. — Desde que seu pai se foi, você não faz outra coisa a não ser trabalhar.
— Eu acho que isso é loucura. E você sabe que eu gosto do que faço. A construtora hoje é meu foco. — respondeu calmo, respirando fundo no que sua mãe o olhava. Aquele olhar conseguia arrancar tudo dele. — Duas semanas, dona Julien, e nada mais!
Julien sorriu abertamente e bateu palminhas, empolgada.
— Nosso voo sai hoje à noite, chegamos em Verona amanhã pela manhã. — A mulher ergueu-se da cadeira do escritório do filho e deu a volta na mesa, depositando um beijo no topo da cabeça do mesmo.
— Você já comprou? — a olhou, desconfiado. Julien riu. — Eu já deveria imaginar.
— Cuide-se, querido. — A mulher saiu da sala, acenando para o filho mais velho.
negou com a cabeça e riu sozinho. Sua mãe, por mais madame que fosse, nunca perderia o encanto por histórias como a que tinha, ou então um passeio em Verona para encontrar um homem que marcara sua vida. Ela gostava de aventuras e probabilidades, diferente dele, que preferia números precisos e manter o pé firme ao chão. Mas era sua mãe e ele faria tudo por ela.
O homem levantou de sua mesa e ajeitando o terno, seguiu até o lado de fora do seu escritório. Cumprimentou alguns dos funcionários e parou em frente à mesa de sua secretária, Janice.
— Janice, eu vou tirar duas semanas de folga. — O homem alertou, observando a mulher que o olhava atentamente.
— Sério? — A mulher franziu o cenho, algo que fez rir.
Janice não conseguia desgrudar os olhos do chefe, o sorriso dele chamava tanto sua atenção, que ela poderia jurar que a luz refletia diretamente ali. Além de, claro, ele ter uma beleza estonteante e um físico de dar inveja em qualquer homem daquela construtora.
— Coisas de Dona Julien. — O homem deu de ombros, sem tirar o sorriso do rosto. — Vou preparar um relatório essa tarde e deixarei Jacke no comando, tudo bem?
— Perfeitamente, Senhor. — Janice concordou com a cabeça.
— Obrigado, Janice. — conferiu se sua carteira e celular estavam no bolso, assim como a chave do carro, e acenou para a mulher, seguindo até o elevador.
tinha adquirido um império aos vinte e cinco anos. Assim que seu pai Hugo falecera, o homem assumiu a responsabilidade pela construtora, juntamente com Jacke e Georgina, sua irmã mais nova. Gostava do título de “empreendedor e solteiro mais cobiçado de Nova York”, não poderia negar. No auge dos seus trinta anos, conquistou um cargo de CEO e uma cobertura na 7ª com a 11ª avenida.
Ele nunca foi o típico solteirão que se gabava do próprio dinheiro e usava disso para atrair mulheres. As mulheres que atraiam ele para suas garras, mas nunca chegavam ao que queriam, visto que fugia de relacionamento como o diabo fugia da cruz.



Capítulo 3 - Um cabernet e uma história...

completava seu sexto dia em Verona e não poderia estar mais feliz. Elas recolhiam cartas durante o meio dia e também no final da tarde. Pela manhã, aproveitava para visitar os pontos turísticos famosos — não eram muitos, mas cada vista valia a pena. Todas elas eram fotografadas e anotadas, para que num futuro não muito distante, relembrasse cada parte do local.
Entretanto, a maior diversão de estava sendo responder às cartas para Julieta. Ela conhecera histórias incríveis e se emocionou diversas vezes.
Uma das suas histórias favoritas, e que ela não deixou de transcrever para sua agenda, era sobre uma garota do ensino médio. A menina detalhou todo o início do romance com um garoto que estudava na mesma sala, mas por parte dela, visto que ele não fazia ideia de que ela gostava dele. A carta foi como um diário para a menina e no final ela pedia para que, se Julieta a respondesse, que fosse com um poema, pois mostraria para o menino como uma decisão de que era o certo a fazer.
nunca foi boa em poesia, mas, com a ajuda das outras mulheres, elas fizeram, e para deixar a jornalista ainda mais feliz, acrescentaram falas de Julieta em algumas estrofes. Mesmo que fosse contra as regras, deixou seu e-mail em letras bem pequenas no final do papel, pedindo para que a garota lhe contasse como começaria sua história de amor. Aguardava ansiosamente.
Pela janela do segundo andar, conseguia ver o céu italiano tomar cores alaranjadas, indicando um novo fim de tarde, enquanto suas mãos trabalhavam avidamente em terminar mais uma das cartas respondidas no dia. Uma batida suave na porta chamou a atenção das cinco mulheres e elas tornaram seus olhares até o local: um homem estava parado ali com um olhar analítico.
não conseguiu evitar analisá-lo por completo, desde os pés até a cabeça. Ele usava calças jeans mais ou menos justas, mas que deixava suas pernas bem marcadas pelo tecido. Uma blusa social mais despojada, com grande parte para dentro da calça e os primeiros botões abertos despretensiosamente, as mangas dobradas até o cotovelo ressaltavam alguns músculos adquiridos através de muita academia. A barba era rala, mas incrivelmente sexy, deixando seu maxilar em evidência, o olhar era fixo na mesa lotada de cartas e os cabelos arrumados em forma desorganizada finalizavam a imagem que os olhos de captavam.
— Podemos ajudá-lo? — Fabíola, que ocupava a ponta da mesa, perguntou ao rapaz.
— Achei que fosse somente uma Julieta. — A voz do homem fez com que Donna suspirasse baixinho, o que levou a rir fraco. — Qual de vocês respondeu à carta de Julien ?
— Fui eu. — respondeu rapidamente, levantando-se da cadeira. Conseguia ouvir o coração pulsando. Julien recebeu sua carta! — Ela recebeu?
— Bom, estou aqui por isso. — A resposta foi seca, algo que fez franzir o cenho.
O homem virou o corpo e foi até o corredor, com a intenção de que o seguisse. E assim a jornalista o fez.
— Eu não sei que direito você acha que tem para falar que minha mãe deve perseguir um amor de quarenta anos atrás. — As palavras que o homem utilizava eram duras, conseguia sentir um incômodo na garganta.
— Acredito que não seja questão de direitos, e sim, de escolhas. As palavras que utilizei foram para incentivá-la, não a forçar. — fez questão de responder no mesmo tom, mesmo sentindo que poderia vacilar.
— Tanto faz. Minha mãe tem cinquenta e oito anos e me fez vir para a Itália tentar encontrar um amor que pode nem estar vivo…
— Julien está aqui? — O tom de surpresa na voz da mulher, fez com que ela ignorasse toda e qualquer grosseria que aquele homem estava falando.
— Não encha a cabeça dela de caraminholas. — Foram as palavras finais do homem, antes dele virar as costas e descer as escadas de madeira do restaurante.
por alguns instantes ficou paralisada. Julien estava ali!
Quando o transe passou, a jornalista rapidamente buscou sua bolsa de volta na sala e despediu-se das mulheres com pressa, descendo praticamente correndo a escada de madeira. Seus olhos buscavam a imagem do homem em todos os cantos e capturou o mesmo virando o beco que dava diretamente para a Casa de Julieta. A mulher colocou toda a sua pressa nos seus pés, praticamente correndo atrás do homem.
Ela teve que confiar muito em si, desviou de algumas pessoas e bicicletas, mantendo a firmeza nos pés para não tropeçar em nenhum lugar. Foi uma corrida rápida, dentro de dois minutos ela já estava novamente ao lado da parede de concreto, puxando o fôlego que lhe faltara no percurso.
Lá estava ele, bem à frente, acompanhado de uma mulher mais velha, que logo deduziu ser Julien, e uma mais nova, que era a cópia escrita da outra. O sorriso involuntário que surgiu nos lábios de fez com que todo o interior da mulher se agitasse. Sua história de amor estava ali!
— Julien? — Em passos lentos, se aproximou do trio que encarava a parede de tijolos velhos.
— Sim. — A mulher virou-se para encarar e abriu um sorriso terno.
observou o homem revirar os olhos, mas decidiu ignorar.
— Céus, eu não consigo acreditar! — A jornalista sentia-se eufórica. — Fui eu quem respondeu sua carta.
— Você é minha Julieta? — Os olhos de Julien brilharam. — Muito obrigada! — A mulher puxou para um abraço. — Você me motivou a vir até aqui.
— Você não sabe o quão feliz eu fico com isso. Sua história e o tempo em que sua carta estavam ali me deixaram muito curiosa. — respondeu, soltando a mulher.
— Veja, esta é minha filha mais nova, Georgina. — Julien deu espaço para que a outra mulher pudesse cumprimentar .
Por uma análise rápida, a jornalista concluiu de que as mulheres daquela família eram muito mais simpáticas.
— E você já deve ter conhecido , meu filho mais velho.
não fez questão de cumprimenta-lo, apenas mexeu a cabeça e sorriu amarelo.
— Esse lugar me traz lembranças incríveis. — Julien comentou, observando o redor atentamente.
— Você se importaria de me contar sua história com Luigi? — questionou, mordendo o lábio, receosa.
— Claro que não, conheço um lugar incrível aqui perto, que podemos tomar um vinho enquanto conversamos. — Julien sugeriu e fez com que sorrisse novamente.
— A história é maravilhosa. — Georgina comentou, acompanhando a mãe e para fora da Casa de Julieta.
respirou fundo e caminhou logo atrás das três mulheres.
Eles caminharam pouco até o restaurante em céu aberto que Julien indicou. As estrelas já brilhavam no céu, acompanhando a lua reluzente, que deixava as ruas mais charmosas que o normal. Algumas mesas redondas estavam postas na calçada do local e foi por ali que eles se sentaram. conseguia ver a Basilica di San Zeno Maggiore logo mais ao lado, iluminada por postes, deixando o local tão adorável.
— Quatro taças do seu melhor vinho. — Julien solicitou, assim que um garçom chegou ao lado deles. — Então, , o que você faz?
— Eu sou jornalista e escritora. — A mulher respondeu, ajeitando-se melhor na cadeira. — Escrevo para a The New Yorker.
— Você é de Nova York? — Georgina pareceu surpresa.
fez que “sim” com a cabeça.
— Nós também. O que te trouxe a Verona?
— Eu tinha alguns dias de férias para pegar e, bom, estava sem inspiração para as minhas próximas matérias. — explicou.
O garçom apareceu com as quatro taças rapidamente, fazendo com que a mulher aguardasse antes de continuar.
— E desde que eu estudei sobre Romeu e Julieta, tinha esse desejo de conhecer Verona e, principalmente, as Julietas que respondem às cartas que são deixadas na Casa.
— O que tudo isso tem a ver com sua inspiração? — perguntou pela primeira vez, soltando a taça pela metade, olhando intrigado para .
— Eu escrevo sobre o amor, . Tenho duas páginas de livre arbítrio para contar ao público histórias sobre o amor. Histórias reais. — Ela explicou, evitando trocar olhares com o único homem ali presente. Ele não lhe fora muito amigável.
— Isso dá dinheiro hoje em dia? — falou em tom baixo e, ainda por cima, soltou uma risadinha irônica.
! — Julien alertou, olhando-o séria.
— Meu irmão é cético quanto ao amor. — Georgina revelou, revirando os olhos.
— Está tudo bem. — abanou uma das mãos e tomou mais um gole do seu vinho. — Estou acostumada com as pessoas zombando de mim por ser tão crente ao amor.
— É por causa de você, que pessoas como eu, mesmo depois de quarenta anos, ainda acreditam que podem reviver um amor. — Julien falou, sorridente.
poderia jurar que ela nunca ficava triste, seu rosto estava sempre iluminado.
— Conte pra ela, mãe. Sobre Luigi. — Georgina pediu, chamando o garçom com a mão para solicitar mais uma taça.
— Antes… será que você pode ser a minha história? — pediu, sentindo uma chama de esperança incendiar seu corpo. Ela via uma oportunidade incrível de contar aquela história para o mundo.
— Com certeza, ! Só vou lhe pedir para alterar os nomes, tudo bem? — Julien solicitou, tomando mais um gole de vinho, enquanto concordava com a cabeça e buscava por uma pequena agenda em sua bolsa, assim como uma caneta. — Tudo começou no verão de setenta e oito. Meu pai costumava vir à Itália em busca de fornecedores para seu novo restaurante, Carmine’s. Ele vinha atrás de queijo, vinho e trigo. Eu pedi para vir junto naquele ano, já havia terminado o colegial e, enquanto não decidia o que cursar para a faculdade, teria um tempo livre.
tentava anotar o máximo de palavras possíveis, dando uma pausa apenas para apreciar o delicioso vinho tinto que foi oferecido.
— Ele aceitou de bom grado e em toda a viagem, eu o auxiliei na escolha dos produtos… até que ele encontrou uma nova videira. Foi lá, nos arredores de Siena, que os olhos escuros e pequenos de Luigi Caputo me encontraram pela primeira vez. — Julien deu uma pausa para beber um gole de água, observando a mulher a sua frente concentrada nas palavras que transcrevia para a agenda. Uma pontada de alegria e um sentimento indescritível de amor enchia o coração de Julien. Sua história seria vista e ouvida.
e Georgina apenas observavam a mãe, tão sonhadora e leve.
— Ele trabalhava naquele campo. Nos primeiros dias nós só conversamos sobre as uvas e os tipos de vinho que poderiam ser extraídos através delas, mas meu pai continuou indo até lá, todo dia. Luigi me levou para andar a cavalo, me ajudou a colher uvas e também a pisá-las. Nos dávamos bem demais e sempre torcíamos para nos vermos no outro dia… até que, depois de duas semanas, meu pai decidiu que era hora de ir embora. Então eu fugi. Eu saí do hotel e fui até o campo que Luigi trabalhava, me escondi por lá. Meu pai voltou para Nova York e eu fiquei. — Julien suspirou, olhando fixamente para a taça de vinho. — Comecei a trabalhar com Luigi no campo e dormia na casa dele... Isso durou uma semana. Eu sabia que uma hora meu pai me procuraria. Dito e feito, o hotel em que ficamos hospedados me enviou um telegrama. — Julien realizou mais uma pausa, para poder petiscar do prato de frios que seus filhos haviam pedido enquanto ela contava sua história.
— Eu estou arrepiada sem saber o final, imagina quando você terminar. — comentou, mostrando o braço e arrancando risadas dos presentes na mesa. Até foi simpático.
— Quando recebi o telegrama, já conseguia imaginar o que me aguardava. Meu pai pensava que eu ficaria alguns dias e depois voltaria para casa, mas quando eu não voltei, ele me forçou a voltar… Ele me matriculou num curso de enfermagem, pois sabia que era meu sonho. Então eu arrumei minhas coisas e fui, voltei para Nova York aos prantos. Luigi me prometeu que enviaríamos cartas todo mês, para não nos esquecermos e mantermos nosso amor.
percebeu que a voz de Julien ficara embargada e aproveitou que estava ao lado dela para segurar suas mãos geladas.
— Nos primeiros meses mantivemos contato, mas conforme foi passando os meses, nosso tempo diminuía cada vez mais. Luigi comprou seu próprio campo, eu estava trabalhando em um hospital… então, um dia, as cartas pararam de chegar e eu percebi que seria praticamente impossível nos vermos novamente. Depois de dois anos eu conheci Hugo, o pai deles, e eu o amei com todas as minhas forças. — As lágrimas já rolavam pelas bochechas da mulher mais velha, ela sentia falta de Hugo.
, por mais confusa que estivesse, preferiu ficar quieta enquanto Julien se emocionava.
— Nosso pai faleceu tem cinco anos. Infarto. — Georgina falou, também segurando uma das mãos da mãe.
— Eu sinto muito. — murmurou, mordendo o lábio inferior.
— Certo, acho que está na hora de voltarmos ao hotel. — falou, observando o relógio no pulso.
— Claro, vamos sim. — Julien respondeu, enquanto se levantava para seguir até a parte de dentro do restaurante. — Georgina, querida, pegue o número de , quero manter contato.
— Eu anoto aqui. — falou, tornando a abrir sua agenda para anotar num cantinho do papel seu número de celular. Rasgou-o e entregou para Georgina. — Sinto muito por ter feito você se lembrar de coisas que a deixam triste.
— Imagina, querida! São coisas da vida. — Julien puxou para um abraço apertado, assim que a mais nova levantou da cadeira. — Eu gostei muito de te conhecer.
— Eu também, Julien. Obrigada por me contar sua história. — sorriu e seguiu para despedir-se de Georgina. — Foi um prazer imenso estar com vocês.
— Vamos nos encontrar mais vezes. — Georgina falou, afirmativa.
— Podemos ir? — perguntou, parando ao lado da irmã.
As duas mulheres concordaram com a cabeça e acenaram para . acenou de volta e apenas sorriu, quando o homem mexeu a cabeça em sinal de cumprimento.
A mulher apenas observou eles se afastarem até um carro estacionado mais à frente e permaneceu com o sorriso no rosto, havia recebido uma linda história de amor e, mesmo que Julien não estivesse mais com um de seus amores, sua história poderia motivar milhares de pessoas a se apaixonarem mesmo na dificuldade.
A jornalista retirou alguns euros da sua carteira e deixou em cima da mesa, antes de caminhar em direção ao hotel. Estava feliz. Verona lhe trouxe sensações incríveis e seria impossível esquecer.
só saiu do transe quando escutou seu telefone tocando dentro da bolsa. Buscou pelo aparelho rapidamente.
— Oi, Cat. — ela saudou, após ler o nome da irmã na tela.
Oi, . Como você está? — A mulher perguntou do outro lado. — Como está Verona?
— Incrível, Cat. Você lembra que quando conheci as Julietas, eu respondi uma carta de 1978? — caminhava tranquilamente, enquanto conversava com a irmã.
Lembro, claro. Aconteceu algo? — Catarina entonou preocupação.
— Sim, aconteceu o melhor que poderia acontecer. — O suspiro da jornalista fez com que a irmã mais nova deixasse a preocupação de lado. — A dona da carta veio até Verona, eu acabei de tomar vinho com ela!
Isso é incrível, ! E como foi?
— Ela me contou a história dela com um italiano. — parou alguns segundos de falar, apenas para agradecer ao funcionário do hotel que abriu a porta de entrada do local para que ela passasse. — Eles se conheceram quando novos e ela fugiu do pai para ficar com ele em Siena! — A empolgação da jornalista era tanta, que Catarina ria sozinha na ligação. — Mas o pai dela a matriculou em um curso de enfermagem e ela teve que voltar para Nova York, porque era o sonho dela.
adentrou o elevador e apertou o botão do andar de seu quarto.
E então? Eles nunca mais se viram?
— Não. Eles se falaram por cartas por um período, mas depois nunca mais. Ela casou e tem dois filhos agora. Só que o marido dela faleceu tem cinco anos. — As portas do elevador se abriram e caminhou até o quarto.
Quando adentrou o local, jogou-se na cama para terminar a conversa com a irmã.
Nossa. E agora? Você vai ajudar ela a reencontrar o italiano?
— O quê? — Por alguns instantes, aquilo pareceu absurdo na cabeça de .
Ela está viúva e foi até Verona por causa da sua carta. Seria incrível se vocês encontrassem o amor italiano dela. — A fala de Catarina era empolgada.
— Cat, que ideia maravilhosa! — levantou rapidamente da cama e andou em círculos na pequena sala que possuía no quarto. — Podemos procurar por Luigi e fazer com que eles se reencontrem.
Sim! Sua história vai bombar se conseguirem encontrar ele.
— Mas… E se não encontrarmos? — a mulher repensou, ele poderia não estar mais entre os vivos e Julien ficaria decepcionada.
Pensa positivo! Antes de saírem em busca dele, pesquisem na internet. Aposto que existem números de quantos Luigi’s existem por aí e quantos deles não estão mais vivos.
— Catarina, o que eu faria da minha vida sem você? — ria, sua irmã era maravilhosa e a ideia que ela deu, poderia render alegria para Julien também.
Não esqueça de me agradecer no início e no final do seu livro.
A jornalista podia jurar que a irmã jogava o cabelo para o lado naquele instante.
— Você vai ter uma página inteira de agradecimentos! Agora eu preciso desligar, está ficando tarde e eu ainda preciso tomar um banho. — avisou. — Mas muito obrigada por essa ideia, Cat. Deixe um beijo para o papai.
Pode deixar. Me mantenha informada. Beijos.
desligou o telefonema e rodopiou, rindo. Se sua irmã estivesse certa, Julien e Luigi poderiam se reencontrar. Não queria dizer que eles precisariam ficar juntos, mas poderiam se rever, relembrar histórias e compartilhar momentos, do porquê pararam de se falar ou coisa do tipo. Aquilo a deixava tão contente que ela não se aguentava no corpo. Daria um jeito de encontrar Julien pela manhã, já que apenas Georgina pegou o contato dela. Nem que ligasse de hotel em hotel, encontraria Julien e perguntaria sobre a opinião da mulher referente àquela ideia.
Após tomar um banho quente, a mulher foi dormir sorrindo.



Capítulo 4 - Pé na estrada!

O dia, novamente, estava lindo quando acordou. Os raios solares atravessavam as cortinas brancas do quarto, assim como o barulho do despertador impregnava o ambiente. A mulher esticou a mão e desligou o som que vinha do celular, espreguiçando o corpo em seguida. Gostava de acordar um pouco mais cedo para aproveitar o dia o suficiente.
Depois de se levantar, fez sua higiene matinal, deu um jeito na sua cara de sono e optou por um vestido leve para aquele dia ensolarado. Nos pés, ela preferiu o bom e velho tênis, confortável para fazer o seu turismo matinal.
Após guardar seus itens necessários dentro da bolsa, ela deixou o quarto e seguiu até o primeiro andar, caminhando tranquilamente até o local que era servido o café da manhã. Outro motivo para ela gostar de acordar um pouco mais cedo: aproveitava o delicioso café que o hotel servia.
pegou uma bandeja e serviu-se de suas comidas preferidas, assim como uma caneca cheia de café preto, combustível para seu dia. A mulher procurou com os olhos uma mesa vazia, visto que naquela época do ano a quantidade de turistas era enorme, segundo suas fontes, e seus olhos brilharam quando ela avistou uma mulher sozinha, tomando café e lendo um jornal. Julien . Ela nem precisou fazer esforço para encontrá-la!
Antes de se aproximar, ela olhou para cima e agradeceu, o destino costumava ser incrível.
— Julien? Bom dia. — A mulher saudou, parando em frente à mesa que a mulher ocupava.
! — Julien se levantou da cadeira e deu um abraço desajeitado na mulher. — Sente-se, querida.
deixou a bandeja em cima da mesa e sentou-se de frente para Julien.
— Eu fui dormir pensando em uma forma de te encontrar. — comentou, rindo.
— Você está hospedada aqui também? — Julien perguntou e viu a mulher concordar com a cabeça, enquanto tomava um gole de café. — E por que foi dormir pensando em me encontrar?
— Depois que vocês foram embora ontem, minha irmã me ligou. Eu tomei a liberdade de contar para ela sua história. — contou, vendo a mulher concordar. — E ela me deu uma ideia maravilhosa. Talvez pareça loucura, mas o “não” eu já tenho, então quero tentar o “sim”. — A jornalista deu de ombros.
— Então me diga, que ideia é essa? — Julien parecia curiosa e desconfiada, mas permanecia com um sorriso no rosto.
— Certo… — , antes de continuar, engoliu um pedaço de fruta que tinha pego e olhou atentamente para a mulher. Sentia-se um pouco nervosa. — Você veio até Verona por causa da carta que lhe enviei, não é? — Julien concordou com a cabeça. — Eu lhe sugeri na carta, que talvez um dia, você pudesse perseguir seu amor… E, bom, Luigi foi seu amor, além de Hugo…
— Eu quero. — Julien falou rapidamente, ignorando qualquer coisa que fosse falar em seguida.
A jornalista franziu o cenho.
— Eu quero encontrar Luigi. — Novamente, a mais velha falou.
, involuntariamente, sorriu. Poderia sentir que seu coração ia sair pela boca.
— Eu… — a moça tentou, mas sua voz não saiu. Ela não tinha planejado o que aconteceria depois que Julien aceitasse. — Eu não pensei nesse momento. Você lembra, mais ou menos, onde ficava o campo dele?
— Aos arredores de Siena. Onde, exatamente, não. Faz muito tempo. — Julien falou, estampando um sorriso no rosto. era o que ela precisava, a coragem que lhe faltava.
— Podemos fazer um marco. Vou pedir um mapa, com licença. — falou e levantou da cadeira, andando com pressa até a recepção do hotel.
Ela estava empolgada. Era a primeira vez que iria tão longe por uma história de amor. amava pensar que era motivada por coisas tão simples. Um romance antigo deixava-lhe tão contente, que era capaz de fazer seu coração bater tão forte e borboletas voarem por sua barriga, como se ela estivesse vivendo esse amor.
— Bom dia. — A jornalista saudou, encostando-se no balcão da recepção.
— Bom dia, como posso ajudá-la? — A moça do outro lado do balcão perguntou, sorrindo automático.
— Você, por acaso, teria um mapa da Itália? — A expectativa de estava alta.
— Só um momento. — A recepcionista abaixou-se por uns instantes, a procura de um mapa.
respirou fundo, enquanto aguardava. Sua ansiedade a mataria.
— Aqui, moça. — Logo um rolo azul foi entregue para e ela sorriu abertamente.
— Muito obrigada!
pegou o rolinho e voltou em disparada para o restaurante do hotel. Julien ainda a aguardava.
— Veja só, nós podemos jogar na internet o nome e o sobrenome dele... — foi falando, enquanto abria o pequeno mapa sobre a mesa e voltava a se sentar de frente para Julien. — Provavelmente vai aparecer uma boa quantidade e as cidades que eles estão.
— Você não acha que vão ser muitas cidades? — Julien questionou, observando o mapa atentamente.
— Pode ser que sim. — concordou. — Mas podemos ir por eliminação. Vejamos. — Ela sacou o celular de dentro da bolsa. — Qual o nome completo de Luigi, mesmo?
— Luigi Caputo.
digitou na internet o nome dito por Julien e aguardou algum resultado. O primeiro site que apareceu deu-lhe um norte para iniciar sua busca e as cidades que deveriam passar. Ao total, foram setenta e duas pessoas registradas com aquele nome e sobrenome.
digitou mais alguma coisa no site e o número reduziu para cinquenta e quatro.
— Olhe... — ela apontou o celular para Julien. — Siena fica ao centro da Itália, são cinquenta e quatro Luigi’s existentes na região central.
— Podemos por um marco de Siena até Florença e ao redor. — Julien colocou um dedo em cima de Siena e outro em cima de Florença. — Luigi não ficava mais do que duzentos quilômetros fora de Siena.
entendeu o raciocínio de Julien e pegou sua caneta dentro da bolsa. Em seguida, retirou seu colar, o qual nunca tirava do pescoço, e colocou em cima das duas cidades que eram marcadas por Julien. Com a caneta e o auxílio do colar, fez um círculo em volta da cidade de Siena com o marco de quilômetros até Florença. Depois, comparando os dados que o site navegado mostrara, ela demarcou cada ponto em que existia um Luigi Caputo.
O número diminuiu novamente, agora eram apenas trinta e dois.
— Temos trinta e dois Luigi’s Caputo para visitar. — falou, mostrando as marcações para Julien.
— Você realmente quer embarcar nessa loucura, querida? — Julien perguntou, observando a mais nova recolocar o colar no pescoço.
— Com certeza, Julien! Você nem me conhece direito, mas está me dando uma oportunidade incrível e… eu gostaria de saber qual vai ser o desfecho dessa história, se você me permitir, é claro.
— Nós teremos bastante tempo para nos conhecermos, querida. A viagem vai ser longa. — A fala de Julien fez com que sorrisse abertamente, que oportunidade incrível. — O que te faz ser tão crente no amor, ?
Por um momento, ficou desconcertada. Ela nunca soube responder àquela pergunta e toda vez era uma resposta diferente. O que a motivava a crer que o amor realmente existia? Seria sua família? Talvez a vida que levava e as histórias que contava… realmente não sabia. Mas entendia que grande parte daquilo vinha da sua mãe. Antes da mesma partir, ela a ensinou que a vida era curta e que deveria ser levada com muito amor… talvez fosse por isso.
? Oi!
A voz de Georgina tirou a jornalista do transe e ela pôde jurar que uma lágrima chegou a escorrer por seu rosto ao recordar da mãe.
— Oi! — A mulher respondeu, limpando o rosto rapidamente e levantando para cumprimentar a mulher.
— Que coincidência. Sobre o que falavam? — Georgina perguntou, sentando-se junto com as duas mulheres e observando o pequeno mapa em cima da mesa.
— Querida, temos que conversar. — Julien falou, olhando para a filha. Ela sabia que Georgina seria muito mais compreensiva do que e adentraria à aventura sem pestanejar. — Estive conversando com agora durante o café e… decidi que vamos tentar encontrar Luigi Caputo.
— Nós vamos o quê? — A voz de se fez presente logo atrás de e a mulher acabou levando um pequeno susto.
— Isso é incrível, mãe! — Georgina falou, contente, ignorando a presença do irmão.
— Podem me explicar isso direito? — O homem perguntou, sentando na única cadeira vazia, ao lado de . O perfume forte dele inebriou o ambiente.
— Eu e conversamos, procuramos por Luigi Caputo na internet e marcamos um espaço onde poderíamos encontrá-lo. Bem aqui. — Julien apontou para o mapa e atraiu o olhar do filho mais velho para o local. — Iniciamos hoje nossa viagem. Vamos de carro até Florença e começamos as buscas por lá.
— Você está se ouvindo?
ficou incomodada com a forma que falou, mas decidiu ignorar. Não gostaria de se meter.
— Mãe, você já pensou que, talvez, ele possa estar… Sei lá, morto?
— Se estiver vai ser uma pena, querido. Mas não vou desperdiçar essa chance. Se você quiser ficar, fique à vontade. — A resposta de Julien fez um sorriso discreto surgir no rosto de .
— Eu falei para você não por caraminholas na cabeça dela. — A fala de foi diretamente para , em um tom baixo e decepcionado. — Se fosse sua mãe…
— Se fosse minha mãe e ela estivesse viva, eu gostaria de ajudá-la a encontrar o amor, se meu pai não o fosse mais. — o cortou, respondendo com educação. A mulher pegou a bolsa e o celular, levantando da cadeira rapidamente. — Georgina, você tem meu número, caso decidam ir, por favor, me liguem. Vou dar uma volta.
Sem esperar nenhuma resposta, a mulher saiu de perto da mesa e caminhou para fora do restaurante, sentindo o peito doer. Ela estava realmente chateada com a situação. Nem conhecia , muito menos ele a conhecia, que direito ele achava que tinha para falar com ela daquela maneira? Supor que a mãe dela seria louca de ir atrás de um amor?
A mulher negou com a cabeça e sentou-se numa poltrona que ficava na recepção, estava com falta de ar, não aguentaria ir para muito longe. Sua ansiedade fazia com que ela fosse de feliz a triste em questão de segundos.
Diversas vezes ela chegou a questionar se estava certa em seguir o coração e ajudar com que outras pessoas fizessem o mesmo, mas chegou um dia em que ela decidiu de que não se importaria com a opinião dos outros, viveria a vida da sua forma, assim como sua mãe fez até o último dia. Porém, era muito difícil lidar com pessoas grosseiras ainda, ainda mais aquelas que nem a conheciam, muito menos sabiam da sua história para poder falar qualquer coisa.
Uma lágrima solitária, novamente, rolou por sua bochecha.
Talvez ela realmente devesse desistir daquilo e publicar as histórias que já tinha. Voltar para o restaurante e responder às cartas como fizera até o dia anterior…
Não, , pensou. Homem nenhum deveria fazê-la mudar de ideia, ainda mais quando a pessoa mais interessada na história estava decidida que iria.

— Qual o seu problema? — Georgina perguntou ao irmão, assim que viu sair apressada da mesa. — Ela está fazendo o trabalho dela e quem concordou com isso foi a mamãe. Ela não merece sua grosseria, . — O rosto da mais nova chegou a ficar vermelho.
— Eu só acho que isso é a maior loucura que vocês poderiam fazer. Ir atrás de um cara que vocês nem sabem se está vivo? — O homem também estava indignado.
— Tudo bem, . Você pode achar uma loucura, mas não te dá o direito de tratar dessa maneira. — Julien se intrometeu, autoritária. — Você tem trinta anos, querido, não quinze.
— Você a trata dessa forma, porque ela acredita na coisa que você mais detesta. — Georgina cutucou, irritada.
— Não comecem. — Julien pediu. Seus filhos já moravam fora de casa, cuidavam da empresa do pai, mas quando se juntavam em assuntos que discordavam, pareciam duas crianças.
— Eu não detesto o amor, Georgina. Só não sou tão lunático nesse assunto. — devolveu, pegando o celular do bolso para distrair daquela conversa.
— Só porque Hellen te deixou…
— Georgina! — Julien ralhou, percebendo que a filha só falou para provocar o irmão.
apenas revirou os olhos.
— Ande, ligue para e a avise para fazer o checkout, sairemos antes do almoço. E você, , vai dirigindo.
Julien apenas levantou-se e saiu do local, deixando os dois filhos se encarando. estava se culpando internamente, mas não admitiria aquilo para a irmã. Georgina era sua melhor amiga, mas, no momento, os dois estavam com o orgulho ferido e demorariam alguns instantes para voltarem ao normal.
— Com licença. — Georgina pediu, levantando-se e saindo.
observou a irmã fazer o mesmo caminho que a mãe fez anteriormente e engoliu em seco. Repassou alguns minutos anteriores na mente.
Realmente, , onde você estava com a cabeça? Onde, no mundo, sua felicidade e sua opinião deveriam prevalecer na felicidade e opinião da própria mãe? Ele sempre tivera princípios e respeitar os ideais da mulher que o pariu era um deles…
Quanta imaturidade, !
Além de que, realmente, ninguém tinha culpa dele desacreditar num conto de amor por questões de passado.
Por mais ciumento que era com a mãe, ela merecia ter sua felicidade. Depois que seu pai se foi, a única coisa que sabia que realmente fazia a mulher feliz, era estar com sua família. E se fosse para ela encontrar uma nova forma de ser feliz, ele deveria apoiá-la.
O homem levantou-se da cadeira e refez o caminho até seu quarto. Como haviam chego no dia anterior em Verona, sua mala ainda estava intacta, apenas remexida para pegar uma muda de roupa para aquele dia, então foi fácil fechá-la após guardar seus itens que estavam fora e sair do quarto, voltando até o saguão do hotel. Ele se sentou no extenso sofá que possuía na recepção para aguardar as mulheres e fazerem o checkout.
pegou seu celular e adentrou sua rede social, digitando o nome de na aba de pesquisa. Se iria viajar por alguns dias com ela, gostaria de saber quem ela era.
Diversas ’s apareceram, então ele rolou a página algumas vezes até encontrar uma foto que parecia perfeitamente a mulher com que sua mãe estava tão encantada: . O perfil dela era aberto e possuía poucas fotos. A maioria delas era somente da mulher, sempre sorrindo. As legendas eram muito bem escritas e sempre para o lado sentimental, algo que já imaginava.
— Então você decidiu ir? — A voz de chamou a atenção de e o homem rapidamente bloqueou a tela do celular, guardando-o no bolso.
— Fui forçado. — Ele respondeu, levantando-se para ficar em frente à mulher, sorrindo. — Eu… queria me desculpar pela forma que agi anteriormente. Não é do meu feitio.
— Está tudo bem. — Ela sorriu tranquilamente.
No fundo, estava muito incomodada, mas odiaria estragar aquele momento.
— Que bom que já estão aqui. — Julien logo apareceu, carregando sua mala, ao lado de Georgina.
Eles seguiram juntos até o balcão da recepção e cada um fez sua desligada dos quartos, pagando o respectivo valor. Em seguida, o manobrista trouxe o carro que a família havia alugado ao chegar em Verona e ajudou a guardar as malas. Ficou um pouco apertado, mas coube tudo sem preocupações.
Dentro de alguns minutos, já guiava o carro pela estrada E45, rumo a Florença, primeira cidade que procurariam por dois dos trinta e dois Luigi’s Caputo.
Julien estava no banco do carona, analisando o mapa firmemente, não conseguindo conter a felicidade estampada no rosto. e Georgina ocupavam o banco de trás e enquanto a primeira escrevia sem parar em sua agenda, Georgina mexia no celular.
Eles levariam cerca de duas horas e alguns minutos para chegar na cidade, caso não pegassem trânsito e não parassem para almoçar.
— Se estiverem com fome, podem me falar. — falou depois de um tempo, incomodado com o silência que o carro fazia.
— Estou bem. — Georgina respondeu no automático, fazendo concordar com a cabeça.
— Tomei um café da manhã reforçado. — Julien também falou, virando o rosto para encarar o filho. — Obrigada por abrir mão de seus princípios e encarar essa maluquice com a gente. — Ela tentou falar baixo, para não atrair o olhar da filha mais nova e também de , mas as duas mulheres conseguiram observar de soslaio.
— Meu princípio é vê-la feliz, dona Julien. Mesmo que seja com um completo estranho e isso seja a maior loucura da minha vida. — riu e por um momento o observou pelo retrovisor… com aquela fala dele, ela acreditava que mudaria de opinião até o final da viagem.
desviou o olhar rapidamente, quando avistou os olhos de conectados nela. A mulher olhou para o lado, Georgina digitava com tanta pressa no celular que ela jurava que a tela poderia amassar a qualquer momento. Eles eram de uma família elegante, sempre bem vestidos, com posturas inigualáveis — Julien principalmente.
Ao observar melhor, notou que um anel reluzente pairava sobre o dedo anelar de Georgina, na mão direita.
— Você é noiva? — A jornalista perguntou, atraindo a atenção da mulher.
— Sim! — Georgina respondeu, animada, se tinha um assunto que ela gostava de falar era sobre seu casamento. — Vou me casar no final do ano.
— Isso é um máximo. Ele ficou em Nova York? — virou o corpo na direção de Georgina, largando a agenda e a caneta, que antes anotava alguns detalhes, em cima da bolsa.
— Sim. Keaton administra a rede de hotéis do pai dele na cidade. Ele é um homem incrível! — A voz sonhadora de Georgina fez com que abrisse um sorriso. Pessoas apaixonadas eram seu ponto fraco.
— Ele é mesmo! — Julien concordou à frente, virando a cabeça para olhar as mulheres. — Não sei quem tem mais sorte, se é Keaton ou Georgina.
— Como vocês se conheceram? — perguntou.
— Fizemos faculdade de administração juntos. Não é nada esplêndido como a história da minha mãe. — Georgina riu.
— Não tem problema, eu vou adorar escutar. — respondeu, prestando atenção no que a mulher falava.
Julien sorriu. era educada, bonita, inteligente e se dava bem com sua família. Talvez ela devesse dar uma ajuda ao filho e a torná-la sua nora… não seria uma ideia ruim. A mais velha conseguia perceber os olhares que o filho dava ao retrovisor, observando as duas no banco de trás.



Capítulo 5 - Primeira parada: Florença!

Após quase três horas de viagem, com o relógio marcando duas e pouco da tarde, estacionou o carro em frente a um belo campo de Florença, preenchido por videiras com poucas pessoas caminhando entre elas. Ao fundo, além de um armazém, eles conseguiam ver uma casa de tijolos escuros, típicos monumentos italianos. O gentil frentista do posto, o qual pararam para abastecer, indicou-os até aquele local quando o perguntaram sobre Luigi Caputo na região. Julien parecia animada ao estar ali.
Os quatro saíram do carro e caminharam tranquilamente em direção ao armazém, onde vários barris preenchiam o ambiente, assim como um balcão com duas pessoas servindo vinho aos poucos turistas que estavam ali.
Eles andaram um pouco mais pelo local, indo até a porta aberta na parte de trás. Um pequeno espaço de grama dividia o armazém da casa que eles avistaram anteriormente, uma porta de madeira estava aberta, porém o interior dela era quase impossível de ver. O sol estava forte naquela região e naquele horário, o que os impossibilitava de enxergar perfeitamente, mesmo com os óculos escuros.
— Vamos até lá? — Georgina perguntou para a mãe.
Julien concordou com a cabeça, apenas. O coração da mulher estava agitado e, por mais que soubesse que seria praticamente impossível encontrá-lo de primeira, seus sentimentos estavam aflorados. Nervosismo e ansiedade eram coisas que a preenchiam naquele momento.
Georgina segurou a mão da mãe e, com e , elas caminharam até a porta da casa.
, que estava na frente, deu leves batidas na madeira envelhecida e afastou um pouco, aguardando alguém aparecer. também se sentia eufórica por estar ali, torcia para que o primeiro Luigi Caputo estivesse vivo para não decepcionar Julien logo de primeira.
— Boa tarde. — Um homem mais velho apareceu na porta, uma boina cinza na cabeça escondia seus cabelos brancos. — Posso ajudá-los?
— O senhor, por algum acaso, é Luigi Caputo? — questionou, esticando a mão para cumprimentar o homem.
— Sim, sou eu. Você seria… — Luigi esticou a mão e apertou a de .
. Prazer. — respondeu, sorrindo amigavelmente.
— Luigi? — Julien perguntou e lentamente se aproximou, observando todo o rosto do homem ali parado. — Julien .
— Nós… nos conhecemos? — Aquela pergunta fez fechar os olhos fortemente e em seguida olhar apreensiva para Georgina.
— Desculpe, eu devo ter me confundido. — Julien permaneceu intacta, elegante e bem educada. Apertou a mão do homem e virou-se, saindo em direção ao armazém.
— Desculpe o incômodo. — disse, acenando brevemente para o homem, antes de depositar as mãos nas costas das duas mulheres que estavam paralisadas ali e as empurrá-las suavemente em direção ao armazém. — Dona Julien agiu melhor do que vocês. — Ele reclamou, rindo.
— É só o choque. — ergueu as mãos, em rendição, também rindo.
— É óbvio que não vamos encontrá-lo de primeira, mas foi decepcionante. — Georgina comentou, procurando a mãe com os olhos.
— Ela está lá. — falou, apontando para o balcão onde serviam vinho.
Os três caminharam até a mulher, a qual optou por ficar quieta por alguns instantes. Ainda absorvia a ideia, mesmo sabendo que levaria alguns “nãos” e tivesse que se adaptar com aquilo, uma chama de esperança preenchia seu peito, deixando-lhe mais calma. Não adiantaria surtar, ela sabia.
sentou ao lado da mulher e aceitou de bom grado a taça de vinho que um dos atendentes a oferecia.
— Sinto muito. — A jornalista falou, sorrindo amarelo para a mulher ao lado.
— Está tudo bem, querida. Agora temos trinta e um Luigi’s e apenas um deles é o meu, podemos levar trinta “nãos” ainda. — Julien respondeu, bebendo um gole do vinho em seguida.
sorriu. Admirava a postura de Julien e a forma como ela estava lidando com aquilo. Era de se esperar que não encontrassem Luigi Caputo de primeira, muito menos de segunda... mas era óbvio que a decepção ficaria estampada no rosto de todos quando demorassem muito mais para encontrar o homem. Se pensassem pelo lado positivo, eles tinham mais um Luigi na cidade ainda.
— Eu vou dar uma volta, tudo bem? — questionou para Julien, quando viu os filhos da mesma se aproximando novamente com taças em mãos.
— Claro, meu bem, vai lá. — Julien respondeu, sorrindo.
desceu da banqueta e levou a taça consigo, caminhando até o lado de fora do armazém. As videiras eram de um verde tão bonito, que em contraste com o sol deixavam a paisagem exuberante para os olhos. caminhou por entre as parreiras e deixou o ar puro preencher seus pulmões. Estava contente. Por mais medrosa que fosse para algumas coisas, estar ali a deixava feliz e tranquila.
A Itália realmente era extraordinária.
Com algumas ideias em mente, a jornalista puxou o celular de dentro da bolsa e digitou fervorosamente sobre o que pensava. Vinho, Itália e sol, eram o combo perfeito para desenvolver toda sua criatividade. A mulher recordava de que, quando mais nova, se precisava escrever algum trabalho para a escola, seu pai lhe entregava uma garrafa de água, sua agenda preferida e a levava até o jardim da senhora Poulin, antiga vizinha da casa em que morava em Londres. Ela sempre foi apaixonada pela natureza, por isso, em Nova York, seu lugar favorito era o Central Park, obviamente.
Quando a sombra da parreira lhe cobriu, ergueu os óculos de sol e observou um homem mais jovem, com um enorme balde de madeira, colhendo algumas das uvas que já estavam no ponto perfeito. Discretamente, ela fotografou aquele momento, não apenas para ter na memória, mas para descrevê-lo com precisão quando assim precisasse. Lentamente, ela se aproximou, finalizando o conteúdo de líquido escuro que possuía na taça.
— Com licença. — Ela pediu, chamando a atenção do rapaz. — Você trabalha aqui?
— Sim, posso ajudá-la? — Ele virou o rosto para encarar e sorriu para a mulher, largando o pesado balde no chão.
— Como você sabe que a uva está boa para colher? — estava curiosa. Gostava de saber dos procedimentos das coisas.
— Nós usamos o refratômetro aqui. — Ele mostrou um pequeno aparelho para , que mais parecia uma espátula. — Ele mede a quantidade de açúcar da uva. Dependendo de que tipo de vinho queremos produzir elas precisam estar mais doces ou mais amargas. A cor também é um critério, assim como o gosto da casca. — O homem pegou uma uva do cacho que colhera e com a mão a apertou, deixando com que o interior da mesma saísse um pouco para fora. — Experimente. Primeiro o miolo e depois a casca.
guardou o celular na bolsa novamente e esticou a mão, pegando a pequena uva roxa. Ela espremeu a casca e saboreou a parte molinha da uva. Doce. Em seguida mastigou a casca.
— Nossa, ela é doce no começo, mas depois fica um pouco amarga. — A mulher comentou, impressionada.
— Exatamente, essa uva nós utilizamos para fazer o vinho tinto suave, já que a levedura não consegue retirar todo o açúcar presente. — Ele explicou e ficou encantada com aquela informação.
— Que processo incrível. Vocês realmente pisam em uvas aqui? — A pergunta foi feita em modo risonho, visto que relembrou um filme que viu. Eles utilizavam o mesmo balde que o homem colocava as uvas.
— Algumas sim, outras são amassadas por máquinas.
— Os vinhos mais caros são manuais, acertei?
— Acertou! — O homem riu. — Acho que aquelas pessoas estão esperando por você. — Ele apontou para um local atrás da mulher.
virou o rosto e observou Julien acompanhada de Georgina e , parados no início da parreira, conversando entre si, enquanto aguardavam por ela.
— Chegou minha hora. — sorriu e acenou levemente para o homem. Antes de virar para seguir na direção da família , ela pensou rapidamente, talvez ele pudesse ajudar-lhe com o próximo Luigi. — Ei, por algum acaso você conhece outro Luigi Caputo na região?
— Além do meu pai? — Ele questionou e um sorriso brincalhão preenchia seus lábios. concordou com a cabeça, raciocinando que o homem que encontrou mais cedo pudesse ser o pai dele. — Eu.
Ah. — A mulher murmurou, muxoxa. Estava com esperanças em Florença.
— Na Itália é normal os filhos terem o mesmo nome que o pai. Sinto muito se te decepcionei.
— Entendi… Imagina, está tudo bem. Obrigada! Uma boa produção para vocês. — desejou, acenando novamente e virando-se para caminhar em direção aos .
Sua feição de decepção estava clara. Eles planejavam ficar em Florença até a manhã do próximo dia, mas pelo visto não seria mais necessário. Seu estômago fez um barulho esquisito e uma torcida no nariz fez a mulher murmurar de fome.
— Aconteceu algo? — Foi que perguntou quando a mulher parou bem em frente a eles.
— Sim, descobri que nossa jornada em Florença já acabou. — respondeu, fazendo uma careta triste.
Os outros três franziram o cenho.
— Mas temos mais um, não? — Georgina questionou, ficando confusa.
— Não. — negou com a cabeça. — Aquele moço ali é nosso segundo Luigi Caputo. — Ela apontou discretamente para o homem que conversava. — Pelo visto, aqui na Itália é normal os filhos terem o mesmo nome que o pai.
— Bom, então podemos ir direto para Figline e Incisa Valdarno. — Julien falou, dando de ombros.
— Será que… — falou, andando assim que os mesmos começaram a andar em direção ao carro. — Podemos parar para comer?
— É claro, querida. — Julien respondeu, abraçando a mulher pelo ombro. — Desculpe não termos parado antes.
— Não, está tudo bem. Senti fome apenas agora. — A jornalista sorriu.
Depois de depositar a taça vazia em cima de um banco que ficava próxima as parreiras, acompanhou a família até o carro alugado. Seu estômago continuava a dançar dentro do organismo, enquanto conduzia o carro para fora do campo. A hora tinha passado rápido e eles já estavam perto das cinco da tarde. Se comessem rapidamente, chegariam em torno das seis em Figline. A cidade ficava à meia hora de Florença.
Julien puxou o mapa de dentro da bolsa e com uma caneta fez um pequeno ‘X’ em Florença. Agora faltavam vinte e uma cidades e trinta Luigi’s Caputo para conhecerem. A mulher torcia para que não precisassem ir em todas as cidades listadas, já cansava só de pensar.
— O que vocês querem comer? — perguntou, adentrando o centro da cidade.
Cannoli! — Georgina pediu, animada feito criança. Todos riram.
— Certo, vou parar em uma confeitaria então. — O homem decidiu, visto que a fala da irmã foi a única que obteve. Julien ainda observava o mapa e o celular.
guiou o carro por mais algumas ruas e estacionou num local próprio para o carro. Eles caminharam pouco até a confeitaria Starbene, a mais próxima do local em que haviam parado. Georgina foi a única que escolheu pelo doce Cannoli, Julien e optaram por um salgado e apenas uma vitamina.
Eles sentaram-se numa pequena mesa exposta dentro do local e aguardaram até que seus pedidos chegassem à mesa.
— Achei que aproveitaríamos Florença por uma noite. — Georgina murmurou, limpando os lábios por conta do recheio do doce.
— Eu também. — comentou, risonha. — Mas vamos dormir em Figline. A não ser que queiram ficar…
— Não. — Julien rapidamente respondeu. — Seguimos viagem. Podemos tentar encontrar Luigi em Figline ainda hoje, e, amanhã pela manhã, seguimos para Montaione.
— Dona Julien já está com a rota toda traçada. — brincou, observando o mapa que a mãe abria sobre a mesa.
— Eu só quero tomar um banho. — Georgina alegou, também olhando para o mapa em cima da mesa.
— Então vamos. — Julien fechou o mapa e se levantou. — Devemos chegar em Figline por volta das seis. — Ela olhou para o relógio no pulso.
Após pagarem o lanche, voltaram pelo mesmo caminho que chegaram até ali. Levaram poucos minutos para saírem da cidade e pegarem a rodovia principal que os levaria para Figline e Incisa Valdarno, a comuna italiana localizada na região da Toscana, a qual foi composta por dois municípios e em dois mil e catorze tornou-se apenas um. Eram exatos vinte e nove minutos que constavam no GPS para chegarem ao destino e eles levaram trinta e dois, precisamente.
e Georgina aproveitaram para tirar um pequeno cochilo, enquanto Julien e tentavam não errar o caminho para o pequeno município de Figline. Estavam todos cansados, era inevitável, passaram a maior parte do dia dentro do carro e estavam loucos para descansar confortavelmente.
O celular de foi o que fez a mulher acordar um pouco assustada. Ela se remexeu no banco traseiro, tentando encontrar onde estava o aparelho. Rapidamente, ela pegou a bolsa do chão do carro e encontrou o celular ali, vibrando e piscando com o nome da irmã na tela.
— Alô? — Ela atendeu, a voz arrastada.
Liguei em um horário ruim, ? Estou no almoço… — Catarina falou, afobada.
— Não, eu só estava cochilando. Está tudo bem, Cat?
Eu é que pergunto. Você deu a minha ideia? Como foi? — As perguntas apressadas da irmã mais nova de , fez com que a mulher fechasse novamente os olhos, mas naquele momento num ato de culpa.
Esquecera totalmente de avisar Catarina sobre sua aventura.
— Eu esqueci completamente de lhe contar. — O tom de voz culpado fez com que Catarina murmurasse qualquer palavra de descontentamento do outro lado. — Eu estou em Figline nesse exato momento. Saímos hoje cedo de Verona e fomos até Florença.
Ah, meu Deus! Vocês foram atrás do amor dela. E então, como está a busca?
— Bom, Florença encontramos dois, mas não era nenhum deles. — respondeu, observando Julien encarar-lhe. — Agora estamos indo atrás dos outros. É a minha irmã. — Na última frase, afastou o celular e balbuciou para Julien.
Julien concordou com a cabeça, sorrindo.
Isso é um máximo. Não deixe de me contar nada! — Catarina estava empolgada, conseguia sentir. — Outra coisa, papai pediu para que você ligue para ele. Ele disse que está cansado de ficar recebendo apenas recados meus. E, ah, ele está namorando.
— O quê? — O choque percorreu as veias de , naquele momento ela atraiu todos os olhares do carro para si, incluindo Georgina, que acordara com a mãe avisando que já estavam em Figline. — Como assim? Quem é?
O nome dela é Abigail, eles se conheciam já faz um tempo e resolveram revelar só agora, que estão juntos vai fazer sete meses. Ela é um amor, você vai ver.
— Ok, eu preciso absorver isso ainda. Faz sete meses que não vejo o papai? Não… — já murmurava intrigada, calculando nos dedos o tempo que não via o pai. — Enfim, eu vou ligar para ele assim que chegar num hotel, e pode deixar que te mantenho informada. Se cuida, Cat.
Tudo bem, maninha. Se cuida também, amo você.
— Eu também. — respondeu tristonha, desligando a chamada.
Estava feliz por seu pai, finalmente, ter decidido seguir em frente, mas acreditava que ele lhe contaria antes de encarar um relacionamento. E, sete meses? Pelos cálculos rápidos que fez, ela estava havia três meses sem ver o homem, mas assim que chegasse da Itália reservaria um final de semana para ir até Nova Jersey descobrir quem era Abigail e o que ela queria com seu pai.
— Tudo bem, ? — Georgina perguntou, analisando as caretas que a mulher fazia, enquanto pensava. Era engraçado.
— Tudo, eu só… entendo a reação do com a ideia de Julien agora. — Ela riu fraco e todos franziram o cenho. — Minha irmã acabou de me contar que meu pai está namorando, depois de quinze anos sozinho. E eu estou, levemente, enciumada.
— Viu! — exclamou, arrancando gargalhadas.
— Não justifica a grosseria, querido. — Julien tocou o braço do mais velho, assim que o mesmo estacionou em frente à uma pequena residência. — Uma hora você acostuma, . Nós, mais velhos, também precisamos de diversão.
— Eu sei, mas…
— É estranho, naturalmente. — Georgina completou e obteve a concordância da jornalista.
Os quatro saíram do carro, assim que confirmaram que aquela casa era de Luigi Caputo. , ainda pensativa, acompanhou a família até a porta. apertou a campainha disposta ao canto e, em seguida, recuou, aguardando ao lado da mãe o aparecimento de qualquer pessoa que morasse ali.
O barulho da tranca chamou a atenção deles e todos ficaram, visivelmente, apreensivos. Assim que a porta se afastou do batente, um homem de meia idade surgiu por ela, um roupão escuro escondia seu corpo, assim como o bocado de cabelo que preenchia a cabeça dele, denunciava que ele acabara de sair do banho por estarem molhados.
— Boa noite. — O homem sorriu para as quatro pessoas paradas em sua frente. — Posso ajudar?
— Boa noite, eu sou , tudo bem? — O homem mais novo aproximou-se novamente e apertou a mão do mais velho. — O senhor é Luigi Caputo?
— Eu mesmo. Vocês seriam…?
— Luigi, eu sou Julien. — A mais velha da família se aproximou, parando em frente ao homem, sorrindo fraco. — Julien , o senhor, por acaso, lembra-se de mim?
— Seus olhos me são familiares… — ele parecia calmo. — Eles me lembram aquela maldita! — Logo a postura do homem mudou e todos eles recuaram um passo, assustados. — Aquela maldita da Carin que me deixou no altar! Ah, Carin…
Oh, me desculpe, Luigi. — pronunciou, sentindo sua mão ser levemente puxada para longe por Georgina.
O homem continuou praguejando na porta, enquanto os quatro se afastavam até o carro. Assim que todos estavam seguros no automóvel, eles caíram na gargalhada. Lágrimas até brotaram nos olhos de , de tanto que ela ria. A barriga chegava a doer.
— O que foi isso? — Georgina perguntou, entre risos.
— Céus… Essa está sendo a experiência mais louca da minha vida. — comentou, limpando os olhos.
— É cada um que a gente encontra. — Julien falou, respirando fundo para controlar a respiração depois de tanta risada. — Certo, vamos procurar um hotel para descansar.
deu partida no carro, depois de controlar o riso, e guiou, através de um GPS, até o centro da pequena cidade de Figline. Constavam na internet alguns hotéis naquela região e ele estava louco por um banho e uma cama. Todos estavam desejando isso naquele momento. Por mais divertido que fosse, tentar encontrar um cara entre trinta e dois, era muito cansativo também.
Após alguns minutos de busca, eles encontraram um pequeno hotel ao centro. Decidiram economizar e realizaram o check in em apenas dois quartos. Georgina e ficariam em um, assim como e Julien ficariam em outro.
Descarregaram o carro e levaram as poucas malas até os quartos que foram selecionados para eles. foi a primeira a se enfiar no banheiro para tomar um banho quente.
Seu corpo agradeceu quando entrou em contato com a água morna do chuveiro. Lavou os cabelos demoradamente e limpou o corpo, parte por parte, aproveitando. Depois foi a vez de Georgina e enquanto ela estava trancada no banheiro, secou seus fios molhados e colocou uma roupa mais confortável, estava cansada, mas não com sono, então convidaria a outra mulher para dar uma volta pelo hotel ou, até mesmo, jantar.
Enquanto ela se demorava, aproveitou para avisar Donna do seu sumiço naquele dia e o porquê não voltaria mais, pela análise rápida que fizera do tempo que demorariam. Tinha certeza que as mulheres da Casa de Julieta ficariam empolgadas com o que estava fazendo, então resumiu tudo o que podia e conseguia na mensagem.
Já aproveitou para mandar uma mensagem ao pai, alertando-o que sabia de Abigail e que ligaria mais tarde para maiores informações, pois não acreditava que ele não havia ligado para contar imediatamente. Sua mãe havia falecido havia quinze anos, há sete seu pai morava em Nova Jersey e não Londres, e somente agora Gregore havia, realmente, encontrado outra pessoa. Ele tentou flertar algumas vezes, mas na maioria dos encontros remetia à sua esposa falecida e isso acabava estragando um pouco o clima. deu algumas dicas de como se relacionar com as pessoas, mas ele alegava que por ela ainda estar solteira, a opinião não era válida.
— Achei que estaria dormindo. — Georgina comentou, ao sair do banheiro já vestida.
— Estava pensando em jantar alguma coisa no hotel, o que você acha? — falou, largando o celular em cima da cômoda que possuía ao lado da cama de solteiro. — Me acompanha?
— Vamos. — A mulher concordou, terminando de pentear o cabelo. — Vou ver se a mamãe e o também querem ir.
concordou e seguiu Georgina para fora do quarto. A jornalista aguardou atrás da outra mulher, enquanto ela batia, delicadamente, na porta do quarto a frente. Após alguns minutos, apenas a cabeça de foi colocada para fora.
— O que foi? — ele perguntou para a irmã.
— Estamos indo jantar, querem ir conosco? — Georgina perguntou, apontando para .
— Claro, encontramos vocês lá embaixo. Restaurante do hotel?
Georgina concordou com a cabeça e em seguida viu a mesma se fechar. Dando de ombros, ela acompanhou até o elevador. Alguns segundos até o mesmo parar no térreo e elas saírem, caminhando tranquilamente até o restaurante do hotel. Era em um ambiente aberto que dava acesso a um enorme jardim. Uma vista incrível.
— Eu não estava com fome, até ver o prato daquela moça. — Georgina falou, sentando-se de frente para em uma mesa redonda.
— Você tem lombriga. — acusou, rindo.
— Boa noite, senhoritas. — Um garçom logo apareceu, chamando a atenção das duas mulheres. — Gostariam de algo?
— Vocês estão servindo algum prato específico? — Georgina questionou, observando que ele não carregava um cardápio.
— Sim, essa noite é talharim ao molho pesto e para os que gostam de acompanhamentos, filé mignon. — O homem esclareceu, formalmente.
— Certo, pode nos ver quatro pratos então, todos com acompanhamentos. E quatro taças de vinho. — Georgina pediu, após receber a confirmação de .
— Mas… Vocês são em duas. — O garçom tentou soar casual, mas estava confuso.
— Nós estamos esperando mais duas pessoas, moço. — respondeu, sorrindo.
— Ah, certo. Anotado. Com licença. — O homem se retirou, claramente envergonhado.
Georgina e se entreolharam e riram.
— Já pediram? — Julien perguntou, sentando-se.
— Já sim, o prato de hoje é talharim ao pesto com filé mignon. — respondeu, visto que Georgina estava concentrada em seu celular.
— Aconteceu algo? — perguntou diretamente para a irmã, franzindo o cenho e puxando o próprio celular do bolso, antes de sentar-se na única cadeira vazia.
— Jacke avisou que a obra do edifício comercial em Manhattan vai atrasar. Não entregaram os vidros ainda. — Georgina avisou, não tirando os olhos da tela do celular.
— Atrasar quanto? — A entonação de foi de preocupação, enquanto mexia no celular. — Cacete, já volto. Com licença. — O homem mal chegou e já estava saindo, colocando o telefone na orelha e andando pelo jardim.
— Eles não conseguem largar o trabalho. — Julien falou diretamente para , negando com a cabeça. — Desde que Hugo se foi, nunca pegou férias.
— Nossa, mas… Isso não é bom. — comentou, sorrindo para o garçom que entregava os pratos, assim como as taças de vinho.
— Não adianta falar, querida. Hugo faleceu por conta do estresse… Eles estão indo pelo mesmo caminho. — Julien lamentou.
— Estou te ouvindo, mamãe. — Georgina murmurou, revezando olhar para o celular e comer o macarrão.
— É para ouvir mesmo. — A mais velha deu de ombros.
riu. Preferiu ficar silenciosa, enquanto degustava do prato servido pelo hotel. Realmente era uma delícia macarrão ao molho pesto, ela julgava pela estética e nunca experimentara. Veja, uma massa misturada a um molho verde totalmente esquisito que tinha nozes na receita… Era de se duvidar. Mas mordeu a língua, o gosto era excelente!
Georgina terminou a janta tão rápido que as duas mulheres na mesa nem conseguiram ouvir quando ela pediu licença e se retirou, telefonando para alguém. conseguia imaginar que administrar uma empresa de grande porte exigia demais da pessoa. Eram tantos assuntos que eles precisavam decidir, ela chegava a ficar neurótica só de pensar em ter problemas demais para resolver.
— Pronto, tudo resolvido. — alegou, voltando à mesa e sentando-se no seu lugar. O prato estava intacto em sua frente e com certeza frio.
— Acho melhor você pedir outro prato. — deduziu, finalizando o conteúdo da sua taça.
— É, vou fazer isso. — O homem riu, experimentando um pouco do macarrão e confirmando de que estava frio.
Julien sorriu para os dois e decidiu que aquele momento era hora de pôr suas ideias em prática. Deixaria os dois sozinhos, para, talvez, se conhecerem melhor.
— Vocês se importam de eu subir? Estou cansada… — a mais velha fingiu um bocejo.
— Você quer que eu te acompanhe? — perguntou, ameaçando levantar junto com a mulher.
— Não! — Julien foi rápida na resposta. — Eu vou… Hum… Rezar o terço.
franziu o cenho.
— Você nem é católica. — O homem acusou.
— Oras, estou praticando. — Julien deu de ombros. — Tenham uma boa noite.
A mulher nem esperou resposta, apenas deu as costas e andou apressada para fora do restaurante.
— Se você quiser subir, não tem problema. — falou para , ainda achando estranho a reação da mãe.
— Não, tudo bem. É maldade deixar uma pessoa jantar sozinha. — A jornalista sorriu.
mordeu o lábio e observou suas mãos sobre a mesa, enquanto solicitava ao garçom a troca do seu prato. Ela não tinha muitos assuntos para conversar com o homem, então sentia-se insegura sobre qualquer coisa. Nos seus dois “primeiros encontros” ele foi extremamente grosseiro, ela entendia o fato dele não acreditar no amor verdadeiro e tudo o mais, mas, poxa, ela nunca o fizera nada.
— No que você está pensando? — perguntou baixo, chamando a atenção de .
— Quem fez você desacreditar do amor? — A mulher utilizou o mesmo tom dele, encarando-o nos olhos.
— Nossa, direta. — desviou o olhar e riu fraco. — Eu não desacredito do amor…
— Mas você não é a favor de uma pessoa lutar por ele. É quase como desacreditar. — A mulher respondeu e riu da cara confusa que ele fazia.
— Certo, você me pegou. — O homem falou, rindo. — Por que você não me conta, primeiro, o que a faz acreditar tanto nisso? — Ele pediu, indicando o garçom lhe trazendo seu prato quentinho. — Em seguida, prometo que lhe conto o que aconteceu.
— Ok. — o olhou desconfiada. — Mas teremos duas longas semanas, se não me contar hoje, vou continuar insistindo.
— Eu cumpro minhas promessas, . — piscou um dos olhos e prestou atenção em seu macarrão, aguardando a mulher começar sua história.
— Tudo bem. — Ela se deu por vencida. Como dissera, passaria duas semanas com o homem, não custava lhe contar algumas coisas de sua vida. — Desde que eu era pequena, eu gostava muito de escrever e minha mãe me incentivava muito. Ela acreditava muito em mim. Nunca aconteceu nada demais para que eu começasse a acreditar nisso, os ensinamentos da minha mãe me levaram a crer que todas as pessoas tinham uma grande história de amor para contar. Ela faleceu de câncer, quando eu tinha treze anos… — a jornalista respirou fundo, antes de continuar. Relembrar da sua mãe ainda era doloroso, a falta que ela fazia era enorme. — E nos deixou um vídeo. Ela já sabia que não aguentaria todas as cirurgias. O vídeo era um compilado de todas as histórias de amor que ela já ouvira ou presenciara, principalmente com meu pai, minha irmã e eu. E no final, ela deixou uma mensagem… Ela dizia que nós nunca deveríamos duvidar do bem que alguma pessoa pode fazer para nos ver feliz, nem desacreditar que o amor existia, porque o único legado que ela poderia nos deixar era o amor.
— Nossa… Eu estava crente que era por algum cara ou algo do tipo. — comentou, arrancando uma pequena risada da mulher, a qual antes olhava para o jardim iluminado, com a feição séria. — É uma história incrível. Eu sinto muito pela sua mãe.
— Obrigada. — agradeceu, sorrindo fraco. — E então, qual a sua desculpa? — Ela perguntou, recompondo a postura, observando que o prato dele já estava vazio.
— Bom... — coçou a garganta. Ele ficava tenso em relembrar o ocorrido de seis anos atrás. — Já aviso que você pode achar besteira, mas eu realmente acredito que seja por isso que eu não consigo mais ser tão crente em loucuras de amor.
— Nada é besteira quando importa para nós. — falou, sorrindo com ternura.
— Há cerca de dez anos, eu conheci uma mulher incrível. Nós fazíamos faculdade juntos, como Georgina e Keaton. Nos relacionamos por quatro anos, nunca terminamos nesse meio tempo e pouco brigávamos. Resumindo, nos dávamos muito bem. — deu uma pausa para tomar seu vinho, lembrar de momentos que viveu com Hellen ainda era aterrorizante. — Quando acabamos a faculdade, decidi que era o momento certo para dar um passo a mais na relação. Pedi ela em casamento no almoço de formatura.
prestava tanta atenção, que chegava a estar nervosa pelo o que poderia ter acontecido. A mulher apoiou o cotovelo na mesa, apoiando, então, a cabeça na mão.
— Foi uma cena linda… — ele riu nasalado. — Demorou um ano para organizarmos tudo, a cerimônia, a festa… Tudo. Nossos pais pagaram o casamento inteiro. Desde a pétala que seria jogada na igreja, até a taça de champanhe que seria servida. Uma noite antes do grande dia, nós dormimos juntos em um hotel de Manhattan, planejamos nossos filhos, nossa casa e até o nome do nosso cachorro. — O olhar de ficou perdido na mesa, o homem engoliu em seco.
, por um momento, pensou em pedir para ele parar, parecia visivelmente abalado com aquilo, mas sua ansiedade falava mais alto, ela precisava saber o final, por mais que já imaginasse.
— No dia seguinte, ela saiu rápido com aquela bobagem de que o noivo não poderia ver a noiva antes de estarem na igreja e tudo o mais. Só que eu não imaginava que não veria mais ela… eu fiquei plantado no altar, por duas horas.
não conseguiu controlar sua reação, sua boca se abriu em tremendo choque.
— Todos fazem a mesma cara. — comentou, rindo ironicamente. — Eu precisei expulsar todos da igreja… Tentei procurar por ela, mas não encontrei. Acho que foi isso que me deixou sem esperanças, sabe.
— Você nunca mais conversou com ela? — perguntou, instintivamente levando sua mão sobre a mesa até tocar a de . Sua intenção era passar conforto, mas o homem recuou como se recebesse um choque elétrico.
engoliu em seco e levou sua mão até o próprio colo, novamente.
— Desculpe, eu… — logo se arrependeu. Hellen ainda tinha um grande efeito dentro de si.
apenas negou com a cabeça, sorrindo fraco.
— Eu encontrei com ela, alguns meses depois, ela estava noiva de outro cara.
— Sinto muito, . — A mulher murmurou. — É entendível sua relação com o amor, mas nem todas as pessoas são iguais… Digo, nem todas as mulheres vão fazer o que ela fez com você.
— É, me diziam muito isso. Mas é difícil confiar em alguém novamente. — Ele lamentou.
— Eu entendo. Mas existem diversos tipos de amor, . Já faz quanto tempo que você não se relaciona romanticamente com alguém?
— Seis anos.
— É difícil superar a dor, mas existem pessoas que são capazes de curar isso, . Me desculpa, mas… Você parece vazio. Você não deixa as pessoas se relacionarem com você. É só relembrar o jeito que me tratou quando nos conhecemos. — comentou, tentando rir da colocação, porém parecia tenso demais.
— Eu sei. Mas já aconteceu algo tão ruim em sua vida que você se perguntou, o que eu fiz de errado? Sendo que a culpa nem era sua.
apenas concordou com a cabeça.
— Desculpe, é só que…
— Eu sei, está tudo bem. — A mulher sorriu. Entendia que certas lembranças traziam à tona o pior das pessoas, e pelo visto, o fantasma de ainda o assombrava. — Você quer subir?
— Sim, vamos dormir. — Ele concordou, respirando fundo e logo se erguendo da cadeira.
fez o mesmo e acompanhou o homem até o elevador para os quartos.



Continua...



Nota da autora: Demorei, mas voltei com esse romance que me deixa de coração quentinho!!!
Espero que vocês estejam gostando dessa história tanto quanto eu estou amando escrevê-la, me sinto apaixonada pelos pp's de uma forma que nem consigo explicar.
É isso, e ah! Agora eu tenho um grupo para minhas histórias no Facebook, sintam-se à vontade para entrar e interagir comigo: Histórias by Ma Aguiar.



Outras Fanfics:
Cirque Reign (Restritas - Originais/Andamento)
Too Young (Louis Tomlinson/Shortfics)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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