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Última atualização: 20/08/2020

Prólogo

Largo Grimmauld, 1996.
Aquela sensação amedrontadora de que algo muito ruim estava para acontecer veio pela segunda vez depois de muitos anos. Desde aquela noite fatídica, eu aprendera a temer esse sentimento com todas as forças que me restaram, que não eram muitas.
Agora, quando as coisas pareciam estar tomando um rumo e tinha, finalmente, conseguido resgatar algumas pequenas partes da minha antiga vida mesmo com o retorno de Voldemort pairando nossas mentes, eu sentia mais medo do que nunca.
Snape acabara de avisar a Ordem da Fênix que os Comensais da Morte tinham, de alguma forma, atraído Harry e alguns amigos para o Ministério da Magia. Depois de receber a notícia, ninguém pensou duas vezes antes de partir direto para lá, Sirius estava desesperado, assim como eu.
Havíamos perdido muitas coisas: amigos, familiares, tempo e reputação. Nesse momento, todo o mundo bruxo acha que traímos os Potter, poucas pessoas sabem o que realmente aconteceu. Agora, tentando recuperar o que nos foi roubado, Sirius e eu nos concentrávamos nele, buscando deixar essa impotência que os dois sentiam ir embora, como se pudéssemos ter feito mais ou de maneira diferente.
Trocamos um olhar na sala do casarão dos Black, aquele mesmo que trocamos há muitos anos, quando nos vimos pela primeira vez no trem e, embora os dois demorassem muito para admitir, reconhecemos um ao outro de imediato, como se não fosse o primeiro encontro. Foi estranho para duas crianças de 11 anos, mas tinha sentido para os adultos de 35.
É claro que ao receber a informação, um cabeça dura como o Sirius não acreditou, mesmo tendo os lapsos de memória que eu tinha. Não duvidei nem por um segundo do que Dumbledore nos contou, o que eu não queria aceitar era que tinha que ser justo ele!
Sustentamos o olhar até que os outros estivessem prontos para partir, eles foram até a entrada da casa, querendo nos deixar sozinhos. Sirius se aproximou de mim, pegou nas minhas mãos e beijou minha testa suavemente.
- Vamos ficar bem, . - falou com a voz incerta, apertando suas mãos nas minhas, senti meus olhos lacrimejarem. - Vai dar tudo certo, eu prometo.
O problema era esse. Não podíamos prometer que tudo ficaria bem, já tinha terminado em tragédia uma vez, poderia muito bem acontecer de novo. Ainda mais se ela estivesse lá. Merlin, eu desejava com todo o meu coração que não estivesse, seria mais uma batalha perdida.
Depois desse breve momento, nós nos juntamos aos outros e partimos para o Ministério atrás de Harry, esperando que não fosse tarde demais, esperando que todos voltássemos para o Largo Grimmauld bem.


Capítulo 1 - A mais dolorosa memória de Phineas Black

Hogwarts, 1976
Era a quinta vez que brigava com Sirius Black naquela semana. E hoje ainda era quarta-feira.
Só que dessa vez, Flitwick e McGonagall decidiram nos levar até Dumbledore, já não era sem tempo, ao longo de todos esses seis anos em Hogwarts não houve uma semana na qual Sirius e eu não tivemos pelo menos um conflito. Mas dessa vez, foi um pouco mais exagerado.
Estava conversando com Sarah, minha melhor amiga e companheira de casa, e algumas meninas da Grifinória com quem eu havia feito amizade no trem ao vir para Hogwarts, não fomos selecionadas para a mesma casa, mas isso não nos impediu de prosseguir com o contato. Lily, Dorcas, Mary, Alice e Marlene eram meninas extremamente divertidas e Sarah acabou se juntando ao grupo quando passei a conhecê-la melhor.
Quando podíamos ter um tempo juntas, já que a grade de horários não era a mesma, bem como o salão comunal, ficávamos nos jardins, perto do lago. No entanto, nesse dia, outros quatro grifinórios decidiram passar um tempo lá também. O problema é que eu não me dava nada bem com um deles.
Aí já viu, não é? Começamos a discutir, era irresponsável para lá, certinha demais para cá, até que uns feitiços começaram a ser lançados e fomos parar dentro do lago. Agora, nós dois pingando pelo caminho todo até a sala do diretor, éramos conduzidos por Flitwick e McGonagall com faces um tanto severas, apesar do professor tentar inutilmente conter um risinho que despontava do canto da boca.
- Bombas de chocolate. - McGonagall falou em alto e bom som, até que uma escada começou a surgir, indicando o caminho até a sala diretor- Subam, por favor.
Foi mais um embate para entrar na sala, um querendo entrar primeiro que o outro. Conseguimos chegar até o interior do local sem nos matar, mas foi difícil.
Dumbledore nos aguardava sentado em sua cadeira, a sala era repleta de objetos e engenhocas mágicas extremamente interessantes, era um lugar pouquíssimo visitado e eu tinha muita curiosidade de ver tudo por lá, saber a função de cada coisa, mas isso, só o próprio Dumbledore tinha o privilégio de fazer.
- e Sirius... - disse ele, com uma voz calma e suave, quase como se tivesse se divertindo com a situação - Não é a primeira vez que os diretores de suas casas vêm reportar esse tipo de comportamento, penso que talvez tenha sido um tanto presunçoso ao imaginar que deveria esperar vocês se formarem para revelar uma informação que tive acesso quando me tornei diretor.
- Que informação poderia envolver nós dois? - questionei, Sirius e eu não tínhamos absolutamente nenhuma relação, meus pais eram trouxas e ele vinha de uma longa linhagem de bruxos “sangue puro” que prezavam muito por manter esse título, no entanto, ele não dava a mínima atenção a isso.
- Creio que, além das usuais brigas, seus diretores reportaram que vocês dois constantemente tenham tido o que podemos chamar de lapsos de memória, estou certo? - o professor falou, era algo que me tirava do sério, eu tentava arduamente entender o que era, mas nunca obtive uma explicação plausível, já questionei o professor Flitwick, chequei todos os livros que tinha acesso na biblioteca e tive uma longa conversa com a professora Slora, que dava aulas de Adivinhação em Hogwarts.
- Sim. - eu respondi.
- Não. - Sirius falou ao mesmo tempo e olhei para ele imediatamente como se dissesse “sério mesmo?”
- Não é possível que você vai mentir na frente do Dumbledore. - exclamei, cruzando os braços - Você mesmo me disse que tinha visto uma cena igual a mim enquanto brigávamos perto do campo de quadribol.
- Eu estava sonhando, . - desconversou ele, revirando os olhos - Aquilo é impossível de...
- Impossível é você estar “sonhando” completamente acordado e ter a mesma visão ao mesmo tempo que eu tive, Sirius. Dumbledore, eu já tive isso várias vezes, foi intensificando com o tempo, acontece principalmente em Hogwarts e eu me vejo, só que de um jeito muito diferente, não é a mesma época e nem pode ser o futuro. Também já vi o Sirius na mesma situação.
- Isso é impossível!
- Você consegue aparatar de um lugar para o outro e fazer objetos levitarem e ainda acha isso improvável? - falei, arregalando os olhos como sempre fazia em discussões com ele - Você é muito cabeça dura.
Antes que Sirius pudesse replicar, Dumbledore interveio para revelar a informação que mudaria completamente a vida daqueles envolvidos:
- A Srta. está certa, Sr. Black. - ele começou, lancei um sorriso convencido para o garoto ao meu lado - E eu sei que você só está fingindo que não viu nada porque é cético demais para esse tipo de coisa, mas sim, é real e tenho uma explicação.
- E qual seria? - perguntei, ansiosa, venho buscando isso há três anos, sem respostas, mal podia esperar!
- Vocês se conhecem de outras vidas. - disse ele, simplesmente, sem pestanejar, Sirius começou a gargalhar alto com o que o diretor dissera.
- Faz todo o sentido. - disse, pensando comigo mesma, já tinha lido alguns romances trouxas, bem bobinhos, sobre isso e fui pesquisar mais, não sei o porquê, mas não cogitei essa ideia, tinha certeza de que era algo relacionado à magia.
- Qual é, , você não está acreditando nisso! - murmurou ele, vermelho de tanto rir, Dumbledore permanecia sério, que cena constrangedora, Sirius era muito sem noção.
-Sirius, não estou brincando com vocês e nem tentando dar uma lição por todos os problemas que já causaram com suas brigas, estou sendo absolutamente sincero. - explicou Dumbledore, Sirius parou de rir na hora - Descobri isso porque o nosso antigo diretor, Armando Dippet, foi informado pelo diretor anterior e assim por diante, sobre algumas anotações de um ancestral seu, Sirius.
- Phineas Nigellus Black. - o garoto recitou, entediado - O que ele tem a ver com essa porcaria de vidas passadas?
- Phineas tinha um filho de mesmo nome e descobriu que ele e uma outra garota andavam tendo o mesmo tipo de visão que vocês dois têm hoje em dia e anotou em um pergaminho o que sabia sobre. - revelou ele, pegando um papel sobre sua mesa e mostrando de longe - O nome da garota era Brown, ela era nascida trouxa como a Srta. , da casa Corvinal, Phineas era da Sonserina.
- Dumbledore, você está querendo me dizer que eu tenho a alma desse meu parente aí e que a tem a da tal ? - Sirius repetiu, descrente em tudo o que o professor falava.
- Exatamente, e Phineas também haviam se encontrado em uma vida bem mais antiga, da época dos primeiros anos de Hogwarts e eram ainda mais diferentes do que vocês são hoje. - ele continuou, fazendo uma pausa rapidamente - Está é uma das poucas situações que nós bruxos sabemos tanto quanto os trouxas. É algo que vai muito além da magia, é bem mais que isso.
- Você quer dizer que essa é a terceira vez que estamos vivendo? - questionou Sirius, o jeito que ele falava deixava aquilo estranho.
- Sim, vocês foram evoluindo muito com o tempo porque se conheceram e mudaram um ao outro. – continuou - Phineas é completamente diferente do que foi antes, naquela primeira vida, assim como Sirius é bem distinto do que já foi, Sirius, você está na Grifinória porque teve a coragem de finalmente ir contra sua família anteriormente.
- E hoje em dia eles me odeiam e fui deserdado. - expôs ele, passando a mão nos cabelos encharcados - Tudo isso porque eu, sendo Phineas, fui contra minha família?
- Phineas disse abertamente aos familiares que era a favor dos direitos dos trouxas, mudou muitas opiniões porque conheceu Brown, além de tudo, eles se apaixonaram.
- O QUÊ? - e, por incrível que pareça, os dois disseram ao mesmo tempo.
- Vocês não só se conhecem de vidas passadas como também são amores de vidas passadas. - repetiu Dumbledore, fazendo meu queixo cair, tinha que ser justo ele, Merlin? - Foi por isso que são diferentes hoje em dia, vocês são pessoas melhores em vários quesitos, mas isto não quer dizer que outras almas mudaram, a história repete até que todos tenham aprendido as lições, pelo menos é essa a conclusão que os nossos diretores chegaram, eu acredito no mesmo.
- E quem foi que não aprendeu? - perguntei, um pouco assustada, nunca acabava bem nos livros - Aconteceu algo com a ou com Phineas no passado?
- Acho melhor que vocês vejam. - o diretor disse, ele levantou de sua mesa e foi até um dos lados da sala que não podíamos ver, voltando com um pequeno vidrinho com uma nuvem espessa dentro e uma Penseira que pairava no ar- Esta é uma Penseira, podemos ver memórias de outras pessoas, mesmo as mais antigas, bem aqui.
- E o que vamos ver? - Sirius perguntou, enquanto nos aproximávamos do objeto indicado por Dumbledore.
- Vocês verão uma das memórias mais pessoais de Phineas, creio que vão entender quando tudo terminar. - o diretor explicou, ao me aproximar, vi que era um objeto de pedra rasa, com runas entalhadas dos lados, dentro havia um fluído branco, lá, Dumbledore despejou o conteúdo do vidrinho - Mergulhem em seu interior e entendam o que aconteceu.
Sirius e eu ficamos um de frente para o outro, o objeto era bem largo para caber nós dois, trocamos um olhar nervoso, balançamos a cabeça um para o outro e mergulhamos no fluído.

Estávamos no meio de um campo com grama alta entre as montanhas, nunca havia estado naquele lugar, mas sentia que já tinha estado lá, normalmente, as visões que eu tinha eram em Hogwarts, então, aquela era inédita.
De longe, um casal de mãos dadas foi se aproximando, quando eles chegaram perto o bastante, nós vimos Sirius e eu um pouco mais velhos do que agora, mas éramos nós, não tinha como não ser.
- Você foi queimado da tapeçaria da sua família por ser normal? - disse , sorrindo para Phineas - Isso não faz sentido algum.
- Isso não é o normal para minha família, , você sabe. - respondeu ele, suspirando - Mas prefiro ser deserdado do que concordar com eles e não estar com você.
- Phineas, você mudou demais desde quando te conheci. - ela reconheceu, parando de andar para olhar no fundo dos olhos dele, como se estivesse tomando fôlego para dizer aquilo - Foi por isso que comecei a me interessar, você não era como eu imaginava, só não tinha coragem para tomar a decisão certa e sinto que te dei essa coragem, você me fez ver o mundo com outros olhos, a dar uma segunda chance, a acreditar mais nas coisas que parecem impossíveis, mas no fundo, não são. E eu amo você por isso e por muito mais.
Ouvimos um leve estampido, tão suave que os dois quase não notaram. estava em lágrimas naquele momento, eu sentia a angústia em mim, algo não daria certo. O casal olhou para o lado e uma mulher, vestida inteiramente de preto, olhava para os dois com uma cara de repulsa visível, ela tinha acabado de desaparatar lá.
- O que você está fazendo aqui, Belvina? - Phineas perguntou, os olhos cheios de raiva - Não fui excluído da família? Creio que tudo que faço daqui em diante não os interessem mais.
- Ah, meu irmão, isso é jeito de tratar alguém da família? - ela falou, dando um sorrisinho venenoso, para então olhar com nojo, eu senti aquele olhar, eu era ela também, já havia sentido isso- Não acredito que trocou tudo aquilo por essa sangue ruim, francamente, Phineas, achei que soubesse escolher melhor.
- Ele sabe escolher, Belvina, por isso não concorda com essa segregação horrível que sua família prega. - gritou em meio às lágrimas que escorriam sem parar por seu rosto.
- Ainda tem coragem de falar comigo desse jeito? - Belvina exclamou, dando um riso de escárnio - Acha mesmo que você é melhor do que eu? Eu tenho aversão a você, todos os bruxos deveriam ter e deveriam voltar a ser como antes. Só os puros merecem estudar naquela escola e receber educação mágica, vocês não passam de sangues ruins, filhos de trouxas e tão ignorantes quanto eles.
- Não fale assim com ela, Belvina. - Phineas disse, exasperado, os dois estavam lado a lado, de mãos dadas, como , eu sentia medo, medo de Belvina e do que ela poderia fazer - Vá embora, qualquer coisa que você fizer ou falar não vai me fazer mudar de ideia.
- Será mesmo, irmãozinho? - Belvina cantarolou, ela estava se divertindo com a situação, maldade pura emanava dela - Não queria atrapalhar o casal, mas você não me deixou outra opção, Phineas, foi você quem escolheu isso.
Antes que qualquer um dos dois pudesse pensar em puxar a varinha para se defender, Belvina ergueu a mão direita com a varinha em punho na direção de e murmurou:
- Avada Kedrava!
- NÃO! - gritou Phineas quando a luz verde despontou e atingiu , mas ele não poderia evitar, ninguém nunca sobreviveu à maldição da morte - Belvina, o que você fez?
Phineas caiu de joelhos na grama, segurando o corpo sem vida de nos braços, ela tinha os olhos vidrados, uma última lágrima escorria por seu rosto, eles ainda tinham as mãos unidas.
- Você achou mesmo que eu deixaria essa desonra perdurar por tanto tempo assim? - Belvina disse, com ódio nas palavras, balançando a cabeça negativamente para o corpo que jazia no chão - Ela recebeu o que merecia.
Com essa última frase, Belvina aparatou de volta para o lugar de onde veio, Phineas gritava inconsolado, abraçando o corpo de , eu tinha a visão do meu próprio corpo caído no chão, estava aterrorizada.
- Minha . - Phineas murmurou, chorando, os olhos já vermelhos, a dor que ele sentia era quase tocável - Não pude dizer, , mas eu amo você, sei que vamos nos encontrar de novo, duas vidas não são o suficiente para nós dois, nós sabemos disso mais do que ninguém.
Era um amor tão grande e profundo que sentia das palavras dos dois que não podia ser tão recente assim, não havia como duvidar de Dumbledore depois disso.

Nós estávamos de volta à sala de Dumbledore, de volta ao ano de 1976, assim que levantei o rosto, Sirius olhava assustado para mim. Dumbledore tinha sua face neutra, como sempre.
- Você morreu. - Sirius disse, exasperado - A Brown morreu e você é igualzinha a ela.
- Você se lembra de que estava lá também, não é? - lembrei-o, minha voz estava fraca, aquela memória tinha me abalado - Acredita agora?
- Depois disso, não tem como duvidar, eu estaria agindo como um burro.
- Dumbledore, isso quer dizer que tem alguém que quer me matar?
- Existe sim uma pessoa que possui a alma da antiga Belvina, mas creio que Sirius não tenha nenhuma irmã.
- O Régulo não pode ser, ele é meio apático com a situação toda, muito filhinho de papai para agir dessa forma.
- Como vamos saber quem é essa pessoa? Eu não quero morrer desse jeito de novo!
- Sinto em dizer, mas é muito difícil identificar se a pessoa não demonstrar sinais, fique atento, Sirius, ela muito provavelmente é da sua família.
- Que família de merda, viu? – o garoto exclamou irritado - Esse problema todo é porque nenhum deles age como um ser humano normal, querem insistir nessa coisa de pureza e odiar nascidos trouxas.
- Bom, acho que meu trabalho aqui terminou, , deve entender o porquê da minha demora agora, não é? - Dumbledore disse, concordei, pois jamais haveria uma hora certa para mostrar sua própria morte a alguém.


Capítulo 2 - As vantagens de ser abelhuda

Após a informação que Dumbledore havia dado a Sirius e eu, começamos a implicar bem menos um com o outro. E é claro que todos notaram.
- Vocês não brigam há duas semanas. - Sarah disse enquanto tomávamos café da manhã, eu tinha o jornal na mão e um copo de suco no outro - Coisa que só aconteceu naquela vez que ele e os amigos estavam muito diferentes e mal falaram, até os professores estão achando essa trégua estranha.
- Ah, Sarah, eu já expliquei a história toda para você. - exclamei, tirando os olhos da matéria que estava lendo - Sirius deve ter ficado com vergonha de sua família estar envolvida na minha... Quero dizer, na morte de Brown. E não brigamos nenhuma vez porque estamos nos ignorando mutuamente.
Havia contado tudo para Sarah e as meninas, claro que a primeira aceitou muito mais facilmente que as outras sendo a boa corvina que era. Eu tinha certeza que Sirius também disse algo aos seus amigos, James Potter, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Os três vinham me olhando muito estranhamente, só poderia ser isso.
Era extremamente estranho ver Sirius com os mesmos olhos que eu via antes da revelação, claro que ainda o considerava um mal educado de alta escala, mas acabei adquirindo uma simpatia repentina. Mesmo assim, nenhuma palavra foi dita entre nós nas últimas semanas, quase não conseguíamos encarar um ao outro, sua íris parecia refletir a cena de Phineas segurando o corpo inerte de Brown, o meu corpo.
Apesar de tudo, a vida teria que ser vivida da mesma maneira que antes, não havia muito que eu pudesse fazer para tentar impedir a minha morte, ela aconteceria de uma maneira ou de outra porque não dependia de mim. A teoria das vidas passadas estava fortemente atrelada ao destino, as coisas eram para acontecer daquele jeito e, se o curso fosse interrompido, era porque a alma responsável por ceifar a minha repetidamente havia se curado, no entanto, observando a maneira como o próprio Sirius foi deserdado, a mudança estava longe de acontecer.
Com o passar do tempo, acabei decidindo por tentar viver meus dias intensamente, exatamente como se fossem os últimos, eu saberia que a velhice não chegaria, nada mais justo do que compensar anos perdidos com as horas que tinha agora. Demorei um tempo para aceitar isso já que cheguei à conclusão de que, para que alguém desejasse me matar, eu teria que ter algo com Sirius, teríamos que nos tornar um casal e cair de amores um pelo outro, algo que, apesar da minha mente aberta, eu não conseguia ver acontecendo.
Mas tive que relembrar minhas próprias palavras e aceitar que era um destino inevitável, se Dumbledore não nos tivesse mostrado aquilo, aconteceria do mesmo jeito.

Era um fim de tarde bonito em Hogwarts, era sexta-feira e teríamos um pequeno descanso da rotina agitada que levávamos na escola. O sol estava se pondo lentamente, colorindo a área externa do castelo de laranja, eu sempre vinha ali depois do último compromisso do dia, a semana só estava devidamente concluída se eu parasse ali para admirar a estrela dar lugar à lua.
Ouvi passos na grama que se aproximavam cada vez mais de mim, quando chegou perto o suficiente, reconheci Sirius Black, porém sem o olhar zombeteiro e o sorriso ladino de sempre, ele estava quase sério.
- Como você está? - perguntou ele, apoiando as costas no mesmo tronco que eu, olhando de esguelha para meu rosto. A primeira e única vez que tinha me feito essa pergunta foi quando fingi que havia me machucado durante uma briga nossa apenas para atingi-lo melhor, desde esse acontecimento, Sirius jurou nunca mais me perguntar isso.
- Achei que você tinha sido bem enfático com a sua promessa no segundo ano. - exclamei, virando meu rosto para o lado somente para encontrar as feições do garoto iluminadas pela cor laranja, a luz do sol lhe caía muito bem.
- As circunstâncias são outras, , acho até estranho a gente se tratar como inimigo depois daquela visão. - ele disse, abaixando a cabeça ligeiramente, colocando uma das mãos no bolso e passando a outra pelos cabelos pretos que iam até os ombros - Isso é difícil para mim, mas tenho que admitir que meus dias sem implicar com você são meio... Incompletos.
- Não tenho problemas em dizer isso para você, eu também acho. - concordei, sorrindo para ele, que sorriu de volta com o comentário.
- Sabe, eu estivesse pensando aqui, não queria estragar o clima, mas...
- Sabia que essa sua postura toda séria era boa demais para ser de verdade. - exclamei, balançando a cabeça ligeiramente em discordância - Tenho até medo de perguntar, mas no que você estava pensando?
- A gente podia testar, não é? - ele começou a explicação, o olhar zombeteiro despontando na sua face, já sabia o que vinha por aí - Você já entendeu, , eu acho que a gente devia se beijar para fazer um teste desse negócio de vidas passadas.
- Não posso acreditar que você está se aproveitando disso para tentar me incluir na sua lista. - exclamei, levemente irritada, é claro que ele viu as coisas dessa forma, não era ele que morria na memória de Phineas.
- Não, não, longe de mim, jamais faria isso. - Sirius tratou de ajeitar a situação rapidamente - Mas você não acha que faz sentido? Vai que nessa vida só vemos as coisas para pararmos de ser idiotas um com o outro e não por conta de todo o significado por trás. Vai ser uma boa se falhar, não vai?
- E como um beijo iria por isso em prova, Sirius? - questionei, franzindo a testa, não podia acreditar que estava sendo levada pelas loucuras de Sirius Black, as circunstâncias eram realmente outras.
- Ah, fiquei um tempão conversando com o James, aquele papo todo de amor dele, você sabe que ele é apaixonado na Lily. - ele disse e eu concordei com um aceno de cabeça, qualquer pessoa veria isso de longe, o James não cansava de tomar fora da ruiva - Ele acabou dizendo que a gente sente quando você beija alguém e tudo se encaixa naturalmente, entende?
- Está bem, não custa nada tentar, já ouvi a professora Slora dizer o mesmo e que foi assim com a esposa dela. - cedi, observando atentamente Sirius se aproximar mais do local onde estava e ficar frente a frente comigo.
Não houve muita cerimônia, ele colocou uma das mãos atrás dos meus cabelos, segurando minha nuca, e me beijou, suavemente de início, mas quando fui ter noção de alguma coisa, minhas mãos passeavam pelos fios de cabelo de Sirius, que apertava minha cintura com vigor. Era bom demais, nada parecido com um primeiro beijo onde você passa a conhecer o outro, nós dois parecíamos saber de cor cada pedacinho um do outro, não tinha outra definição que não fosse a de que o beijo tinha encaixado direitinho. Particularmente, detestei ter conhecimento disso.
Fomos afastados somente porque nosso fôlego tinha ido pelos ares, senti que Sirius tinha experimentado a mesma sensação que eu havia tido, mas resolvi dizer:
- Bom, acho que não funcionou.
- Com certeza, não funcionou nem um pouquinho, estamos imunes dessa vez. - concordou ele, mas olhava tão fixamente para minha boca enquanto proferia a frase que tive certeza de que ele estava fingindo também.
- Acho melhor você ir, a lua cheia acabou de despontar. - murmurei para ele, indicando com a cabeça, Sirius virou-se rapidamente para trás e voltou um olhar espantado para mim - Eu sei há algum tempo, Sirius, mas não contei para ninguém, nem para o Lupin.
- Eu realmente preciso ir, mas a gente tem que retomar essa conversa depois. - exclamou ele, confuso por não saber como eu tinha conhecimento da licantropia de Remus - Volte logo para o castelo, .
- Pode deixar, ande logo, ele já deve estar precisando de vocês. - apressei, Sirius deu um breve beijo na minha bochecha (coisa inédita) e saiu correndo em direção ao Salgueiro Lutador, que era como a árvore era chamada por todos. Peguei um caminho o mais afastado possível da região e voltei para o interior do castelo, em direção à torre da Corvinal.


- Sirius! - protestei pela quinta vez com o garoto que insistia em continuar beijando meu pescoço - Eu marquei de encontrar as meninas na biblioteca para estudarmos a matéria nova do professor Binns e a gente nem iniciou a conversa ainda.
Nós dois resolvemos deixar a mentira de lado e estávamos ficando de vez quando, relutei um pouco, mas acabei admitindo para mim mesma que queria isso há algum tempo e que tinha gostado muito na primeira vez.
- Estudar é melhor do que ficar aqui comigo? - questionou ele com o habitual sorriso ladino, finalmente voltando a focar os olhos no meu rosto - Você sabe que não precisa estudar nada de História da Magia, ratinha de biblioteca.
- Primeiramente, não preciso, mas as meninas não conseguem entender a matéria ou preferem dormir durante as aulas, então sempre me disponho a ajudar. - expliquei para Sirius conforme nos sentávamos no gramado que circundava a árvore - Segundo, ratinha de biblioteca é sua mãe, você quer entender como descobri tudo ou não?
- Não seja tola, você é bem mais inteligente que a minha mãe, . - respondeu, piscando para mim- Agora, explique essa história aí de uma vez.
- Bom, sempre achei Remus uma criança um tanto diferente, ele nunca perdia aquele ar sério mesmo quando vocês estavam se divertindo. - iniciei e Sirius concordou levemente com a cabeça - No mundo trouxa, eles possuem um grande fascínio por criaturas mágicas e outras coisas que eles mal sabem que são reais, como cresci nesse mundo e às vezes alguns movimentos estranhos aconteciam comigo, eu passava muito tempo lendo histórias com fadas, bruxas, magos, fadas, vampiros e lobisomens.
- E os trouxas acham que tudo isso aí é fantasia?
- Sim, eu também achava até baterem na minha porta e explicarem que eu era uma bruxa, Sirius. - expliquei, relembrando como as coisas esquisitas que eu conseguia fazer passaram a fazer sentido - Enfim, eu tinha um conhecimento prévio dessas coisas pela visão trouxa, porém, quando fui comprar meu material, eles estavam anunciando um livro repleto de informações sobre criaturas mágicas, não queria me sentir uma completa leiga no assunto e no mundo que estava me inserindo, acabei comprando também.
- E, curiosamente, o livro tinha algo sobre licantropia.
- Sim, era bem completo, na verdade, um pouco tendencioso por tratar os lobisomens como animais, mas ainda assim tinha muito material sobre. - continuei, o garoto continuava bastante atento às palavras - Ao entrarmos em Hogwarts, o Salgueiro Lutador estava lá e fomos avisados a não chegar perto por conta do perigo que a árvore oferecia, fiquei muito intrigada já que pensei que não faria sentido nenhum deixar uma planta mortal no meio dos campos se ela não tivesse utilidade alguma, mas depois, descobri que ela só foi plantada lá pouco antes do ano letivo começar, os alunos mais velhos me disseram.
- Beleza, você acha o Lupin estranho, sabia sobre licantropia e sobre o surgimento repentino do Salgueiro Lutador. - disse Sirius, franzindo a testa ao demonstrar confusão em suas feições - Como você juntou tudo isso e descobriu que o Remus era lobisomem?
- Aquele dia você me encontrou aqui vendo o pôr do sol, eu faço isso desde sempre e eis que, somente no segundo ano, eu voltava para o castelo quando vi um Remus Lupin muito ansioso e agitado fazendo um movimento com a varinha e entrando por uma passagem no próprio Salgueiro Lutador, era uma noite de lua cheia e, no dia seguinte, ele estava todo enfaixado e com arranhões no rosto.
- Óbvio que você prestou atenção nos dias seguintes e reparou que ele ficava cada vez mais esgotado até o momento que a lua mudou de fase.
- Isso mesmo, primeiramente era só uma teoria, depois, ela foi se confirmando. E você deve ter imaginado que eu também sei que James, Peter e você se tornaram animagos.
- Não consigo imaginar como raios você descobriu isso. - Sirius disse, com olhos arregalados de incredulidade.
- Ah, você sabe que todo mundo achou muito estranho quando o James e você ficaram um mês sem falar direito, eu ia arrumar confusão e, milagrosamente, você se esquivava.
- Como você sabia sobre o processo de transformação para animago, ?
- Acho que não deve saber, mas a professora Slora também é animaga oficializada pelo Ministério como a professora McGonagall.
- E ela te disse como virar uma? Isso não é ilegal?
- Bom, sem a ilegalidade você não teria virado um, Sirius, ela me disse, pois confia muito em mim, conversamos bastante.
- Então você sabe sobre a folha de mandrágora na boca durante um mês.
- Sei, penso que as circunstâncias me fizeram descobrir tudo, eu tive compreensão do processo uma semana antes de vocês tentarem de novo e finalmente obterem o sucesso na primeira etapa.
-Foi muito difícil no início, Peter precisou muito da ajuda de James e eu, ele se desconcentrava muito facilmente, é necessário força de vontade e concentração para passar por todas as etapas.
- Fiquei admirada quando percebi que vocês três tinham conseguido, você sabe que sou curiosa, depois que imaginei que estavam tentando virar animagos, prestei muita atenção nas condições climáticas ditas pela Slora.
- Prefiro chamar de abelhuda mesmo, você sempre está querendo saber mais do que pode, .
- O conhecimento nos liberta, é esse meu objetivo, ter uma sabedoria cada vez maior.
- Sabedoria sobre a vida dos outros, só se for.
- Cala a boca, Sirius, eu não sou fofoqueira.
- Não mesmo, se fosse, teria contado sobre nós quatro para todos, você só é abelhuda mesmo. - zombou ele, rindo da minha cara quando revirei os olhos em descrença - O Ranhoso também sabe.
-Eu sei, eu vi o dia que você quase matou o Snape tentando levar ele até a passagem, qual o seu problema?
- Ah, por isso você estava tão irritada comigo na semana seguinte, faz todo sentido agora, fui burrice, eu sei, mas o Ranhoso é insuportável.
- Não gosto dele também, não me passa boas energias, mas você ia deixar seu amigo matar ele, Sirius, Remus nunca se perdoaria, mesmo sendo o Snape.
- , eu entendi que foi errado, os caras brigaram muito comigo depois, tenho uma tendência a fazer as coisas sem pensar.
- Sei bem disso, agora tenho que ir ou vou me atrasar. - exclamei, meio contrariada, levantando e ajeitando as roupas meio amassadas pelo local onde estava acomodada - Até mais tarde.
- Não vai me dar nenhum beijo de despedida? - disse Sirius com seu clássico jeito zombeteiro.
- Não, já foram muitos hoje.
Subi apressadamente em direção ao castelo, deixando um Sirius Black gargalhando para trás.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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