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Última atualização: 30/05/2020

- Prólogo -

odiava hospitais ainda mais agora do que há quatro anos.
Odiava os sons dos hospitais, o barulho das máquinas, dos passos apressados, dos gritos de socorro, do choro desesperado das famílias. Odiava também os cheiros de produtos de limpeza, esterilizantes, sangue, suor, medo e desespero. O ambiente lhe dava calafrios, as paredes brancas sem vida, as plantas falsas, as camas desconfortáveis, os longos corredores sem esperança.
O pior de tudo era o frio. Frio que se alastrava pelas paredes, entrando por suas roupas, arrepiando sua pele, gelando seus dedos das mãos e dos pés. Frio que a fazia se sentir seca, congelada, mais triste e opaca do que já se sentia.
Hoje provavelmente foi o dia mais frio que passou no hospital que frequentou diariamente nos últimos dois anos.
Não foi culpa do lugar, contudo. olhara para o termostato colado na parede e ele apresentava a mesma temperatura padrão que havia apresentado todos os dias.
O frio provinha do fato de que sabia que iria perdê-la.
Sentiu os dedos de sua mãe apertando os dela, fracos e gelados, exigindo que ela olhasse para cima. o fez e controlou as lágrimas que ameaçavam acumular-se em seus olhos, ao ver a quão magra e pálida parecia.

- Você está bem, ? – perguntou sua mãe, sua voz fraca, mas ainda macia e calorosa. A voz que ela tanto amava.

foi incapaz de responder, sua garganta fechando como se estivesse engolindo bolas de algodão. Sentiu a mão de sua mãe acariciando seu rosto e fechou os olhos, apreciando o toque.

- Não fique assim, meu amor. Vai ficar tudo bem. – Ela tentou sorrir, um sorriso fraco, mas que a deixava mais linda do que já era.
- Como vai ficar? – sussurrou acariciando a mão dela. Era difícil ver como sua pele tornou-se seca e fria pela enfermidade. – Não sei o que vou fazer sem você.
- Vai viver e sobreviver, como sempre fizemos – ouvi-a argumentar. – Nós duas sabemos que você é a força que nos manteve todos esses anos.
- Não diga isso – censurou. – Você é tudo e sempre foi.
- Eu te amo, – suspirou sua mãe. sentiu como se seu coração fosse explodir em seu peito pela dor que cresceu como raízes de uma planta venenosa.
- Eu te amo, mamãe – respondeu ela com a voz afetada e as lágrimas borrando sua visão. Não iria chorar, não iria chorar, não iria chorar.
- Posso te pedir uma coisa? Um último pedido? – perguntou sua mãe, passando as mãos pelos cabelos de .
- O que quiser.
- Dê uma chance ao Christopher – ouviu-a murmurar.

Sentou-se ereta automaticamente, com a expressão fechada.
O assunto envolvendo seu pai era provavelmente o único tópico de discordância entre mãe e filha. As duas eram mais como irmãs ou melhores amigas, o que tornava sua relação a mais incrível que poderia pedir. Não havia gritos ou discussões acaloradas, mas desabafos e palavras de conforto, segredos de intimidade e longas noites de cafunés e filmes de terror. Eram confidentes, o par perfeito, até mesmo quando fez os piercings no rosto escondida e viu o terror nos olhos da mãe.
Menos quando se tratava dele.
Quando o assunto era seu pai, os argumentos viravam discussões, que se transformavam em gritos, terminando sempre em lágrimas.

- Mamãe... - começou a dizer, sem saber como continuar. Ainda estava inflexível em sua total aversão a ele, mas não tinha forças para discutir no momento. Não naquelas condições, não com ela daquela maneira.

E sua mãe sabia muito bem disso.

- Só me escute, , por favor – suplicou, fazendo fechar a boca. – Sei que as coisas não foram fáceis, principalmente para você. Sei que tem muita dor e mágoa dentro no seu coração, mas é muito jovem para lidar com isso sozinha. Não estou pedindo para perdoá-lo de primeira, mas lhe dê uma chance. Seu pai cresceu, querida.

Christopher e Darla tiveram com apenas dezesseis anos. Eram jovens e inexperientes, mas resolveram criá-la. Funcionou bem, até que, cinco anos depois, ele as abandonou. Deixando para atrás apenas um bilhete no balcão da cozinha, pedindo perdão, seu pai desapareceu para nunca mais voltar. Não houve notícias, cartas ou bilhetes pelos próximos dez anos.
Por muito tempo – mais do que ela tinha orgulho de dizer -, desejou que ele voltasse. Pediu aos céus, para qualquer entidade que pudesse ouvi-la, que o trouxesse de volta. Prometeu que não iria gritar, brigar ou xingá-lo. Apenas agradeceria que ele estava de volta e a vida voltaria a ser doce e feliz.
Não foi o que aconteceu. Christopher nunca voltou e a vida seguiu pelos próximos anos, com dias dos pais tristes e vazios, aniversários sem presentes e natais cada vez mais gelados.
Até que, meses antes do seu aniversário de quatorze anos, tudo mudou.

E prometeu a si mesma nunca mais desejar seu retorno e que, se pudesse escolher, morreria sem ouvir uma única notícia dele.
Quase dois anos depois, descobriram o câncer. Começou com um enjoo, tonturas aqui e ali e, de repente, sua mãe buscou-a mais cedo no colégio e deu-lhe a notícia: tinha câncer no pâncreas.
E Darla, sem que soubesse, procurou e conseguiu contatar Christopher, exigindo que ele as ajudasse, já que as duas nunca poderiam arcar com as despesas do tratamento. Ele o fez, sem pensar duas vezes.
Dez anos sem contato, doze sem vê-lo e, por ela, assim continuaria.

- Ele quer que eu me mude para viver com ele – reclamou para sua mãe, olhando para as mãos das duas, entrelaçadas.
- Poderia ser bom – argumentou ela. – Seria ótimo para você uma mudança e dizem que a Flórida é linda.
- A Flórida fica do outro lado do país – atirou , sentindo-se mal-humorada. – Literalmente do outro lado do país. Não pode estar me dizendo que acha que seria melhor para mim perder tudo que construímos aqui e ir morar com... O Christopher.
- Querida – começou Darla, voltando a acariciar o rosto de sua filha. – Tente entender. Nós duas sabemos que não temos mais muito tempo juntas e como pode esperar que eu parta em paz sabendo que você vai ficar aqui, sozinha? Sem ninguém para cuidar de você? Provavelmente tendo que largar os estudos para trabalhar e manter a casa?

Os olhos de encheram de lágrimas tão grandes que toda sua visão ficou borrada. As palavras de sua mãe queimando seu peito como se uma faca fervendo estivesse sendo atravessada.

- Eu sei que não confia em seu pai e entendo. Mas tenho tido contato frequente com ele nos últimos dois anos e acredito que ele é um novo homem e está tão, tão arrependido de ter te deixado, querida...
- Não é justo – chorou com a voz embargada pelas emoções que a envolveram. – Não é justo que seja você que tenha que partir, não depois de tudo que passamos.
- Eu sei, meu amor – respondeu Darla, com os próprios olhos marejados. – Mas existem coisas que não controlamos e isso é uma delas. Se pudesse decidir sobre ir ou ficar, escolheria continuar com você sem pensar duas vezes. Mas não posso. A única coisa que posso decidir é como ficará depois que eu me for e quero que seja em uma vida confortável, em que está feliz e segura. Seu pai pode te proporcionar isso.

não respondeu, porque simplesmente não havia o que se dizer. Sabia, no fundo, bem debaixo de seus medos, inseguranças e orgulho, que Darla estava certa. Não havia como ela se manter em Seattle sozinha, não sem largar os estudos.

- Dê a ele isso, . Seu pai é adulto agora e tudo que quer é a chance de se redimir, de provar que é um homem novo – continuou sua mãe, dando-lhe um fraco sorriso. – E permita a si mesma um recomeço. Por favor, por mim.

A contragosto, concordou com ela com um leve aceno de cabeça. O sorriso que iluminou o rosto de Darla fez com que, mesmo que por um segundo, sua decisão valesse a pena.
Uma semana depois, a máquina atrelada ao corpo de sua mãe, que apitava a cada segundo, mostrando seu batimento cardíaco, parou de fazer barulho.

Capítulo 1 - A Chegada

OBSERVAÇÃO: ao longo de toda a história, os diálogos que ocorrerem através da língua de sinais NÃO apresentarão nenhum tipo de diferenciação (como estarem em itálico ou negrito) em relação às freses oralizadas, sendo referenciados com palavras como, por exemplo, “sinalizou”. Isso se dá porque, ao pesquisar acerca da representação dos sinais em livros, encontrei muitas pessoas da comunidade surda que consideram essa forma de diferenciação ofensiva, pois colocar as frases ditas por sinalização em itálico ou negrito passa a impressão de que se trata de uma “sublíngua”, ao invés de uma língua como qualquer outra. Obrigada e boa leitura!



desconfiou que seu pai era rico quando lhe comprou passagens na primeira classe. Claro, ele pagou todo o tratamento de sua mãe por dois anos no melhor hospital de Seattle, mas ela apenas se tornou curiosa sobre o assunto ao ver o quanto seu assento custava. Foi somente através da internet, contudo, que foi realmente capaz de ter uma dimensão do tamanho de sua riqueza.
Ele não era apenas rico para ter dinheiro suficiente para comprar uma passagem na primeira classe de vez em quando. Ele podia comprar um jatinho se quisesse, a porra do aeroporto inteiro. O tipo de pessoa que provavelmente ia em restaurantes que não colocavam preço nos cardápios e possuía empregados que lhe faziam tudo, até amarrar seus sapatos.

Ele era casado também. Trinity Sanders casou-se com Christopher cinco anos atrás. Ela tinha um filho chamado Michael, que devia estar com dez anos no momento. sentiu-se um pouco melhor ao ler também que Christopher era apenas o padrasto dele, não pai de sangue. Já tinha razões demais para odiá-lo.
Ser um grande magnata da área imobiliária provavelmente significava alguma coisa na Flórida, já que alguém perdeu seu tempo escrevendo uma matéria sobre a linda familiazinha que seu pai possuía, sem, é claro, nenhuma menção sobre a existência dela ou de sua mãe.
Conforme mais e mais lia, mais sentia-se que enojava em relação ao homem que se dizia seu pai. Enquanto ele estava ali, coberto da cabeça aos pés de dinheiro, com sua perfeita família, nas lindas praias da Flórida, ela passou a vida vendo a mãe trabalhar em dois empregos para conseguir dar-lhe o mínimo. E então a perdeu para o câncer, viu-a ser enterrada e a casa que considerava seu lar ser vendida.
Tudo sozinha.

Deus, ele provavelmente tinha até uma cerca branca para completar o sonho americano.
Apertando o celular com força na mão, olhou pela janela do avião em uma tentativa de espairecer. Suas costas doíam pela viagem de quinze horas, mas ela sabia que as poltronas reclináveis e macias da primeira classe provavelmente amenizaram tudo. Pelo menos tinha espaço para esticar as pernas e a comida era fabulosa, apesar da péssima seleção de filmes, todos muito românticos para o gosto dela.
O senhor de idade na poltrona do outro lado do corredor estava vestido com um terno de aparência caríssima e roncava a pelo menos três horas. O som já havia entrado dentro dos neurônios de de uma forma que ela estava pronta para saltar para fora do avião na primeira oportunidade que encontrasse.
Pegando os fones de ouvido, resolveu que ouviria um pouco de música até o fim da viagem. Antes que conseguisse colocar o aparelho nas orelhas, contudo, ouviu um suspiro vindo da poltrona da frente e uma voz sonolenta perguntando:

- Estamos perto de pousar?

Oh Deus, por quê?

O garoto de roupas de marca sentado à sua frente ajoelhou no próprio banco e voltou-se para ela. observou que seus cabelos compridos estavam ainda mais bagunçados e que o sono parecia ter o revigorado. Ele mostrava-lhe o mesmo sorriso sorrateiro que havia apresentado quando embarcaram, há quase quinze horas atrás.
Jesus, como esse menino falava. Era só isso que parecia saber fazer. Falar, falar, falar e, quando cansado, falar mais um pouco. Ela havia conseguido momentos de paz depois que ele caiu no sono e achou que conseguiria mantê-los até o fim da viagem. Pelo jeito, o universo gostava de rir da cara dela.
Ela precisava de um cigarro. Urgente.
O lado bom é que não era grosseiro ou algo do gênero. Parecia mais interessado na maquiagem preta pesada na cara dela do que os seios em seu decote, o que foi uma mudança bem-vinda em relação às pessoas do sexo oposto que conhecia. Se apresentou (“Frank Wilson, muito prazer!”), falou sobre coisas triviais (“você acredita que o FBI pode ouvir a gente pelas câmeras? Porque eu cobri a do meu notebook só para garantir”), tratou bem as aeromoças (“moça, você precisa me dizer qual sua rotina de cuidados com a pele!”) e também achava a coleção de filmes uma porcaria (“romances são sempre todos iguais. Você acha que chegamos no limite da criatividade humana?”).
Mas estava cansada, irritada, de luto, magoada e com uma dor nas costas que ficava pior a cada minuto. Só queria passar quinze horas em silêncio, com os próprios pensamentos, comendo a deliciosa sobremesa do avião e tentando não pensar que teria que passar os próximos meses vivendo com o homem que a abandonou há doze anos.
A última coisa que precisava era de uma matraca na poltrona da frente que parecia ser incapaz de apreciar o silêncio.

- Aí está o meu raio de sol! – disse Frank olhando a carranca no rosto dela. – Pelo jeito dormiu bem. Da para ver que está mais feliz!

levantou a sobrancelha esquerda e viu como ele olhou para o piercing ali perfurado com curiosidade.

- Doeu? – perguntou ele ainda com os olhos nas bolinhas de metal.
- Mais do que o do nariz – respondeu ela lembrando da ardência momentânea. – Por quê? Está pensando em fazer um?
- Está brincando? – exclamou Frank com os olhos levemente arregalados. – Só se eu quisesse que minha avó os arrancasse com as próprias mãos. Mal aguenta o tamanho do meu cabelo. Mas é bacana. Te deixa com cara de fodona.

Um dos lados dos lábios de se inclinou levemente para cima e ela fingiu não se sentir lisonjeada. Fodona era um elogio que poderia apreciar.

- Ahá! – exclamou o garoto com um sorriso ainda maior nos lábios. – Sabia que conseguiria te fazer sorrir alguma hora! Eu sempre conquisto vocês, quietos e misteriosos. Sabe, você se daria bem com meu amigo . Ele também é do tipo caladão.

não pretendia respondê-lo, mas agradeceu aos céus quando a aeromoça os interrompeu mesmo assim, avisando que era preciso que colocassem os cintos, pois o avião pousaria. Seu estômago se revirou e ela sabia que não tinha nenhuma relação com a aterrissagem e sim com o que a esperava no aeroporto. Ele viria buscá-la? Ela o reconheceria depois de tantos anos? Provavelmente mandaria um motorista ou algo assim. Era o que os ricos faziam.

- Moça, não podemos aterrissar ainda! – exclamou Frank com um semblante magoado no rosto. Com a mão, fez um gesto na direção de e disse: - Eu ainda não sei o nome da minha melhor amiga do mundo!

A aeromoça os olhou com uma careta confusa e divertida ao mesmo tempo e se retirou em seguida. revirou os olhos para ele e disse:

- Se queria meu nome era só perguntar.
- Eu não deveria ter que te perguntar depois de já ter dito o meu nome – rebateu ele. – Depois que alguém se apresenta o educado é se apresentar também, sabe?

Ignorando o fato de que lhe chamara de mal-educada, respondeu:

- Meu nome é .
- Nome bacana – disse Frank realmente parecendo acreditar naquilo. – Eu queria ter um nome bonito também. Tipo Romeu ou Arnold Schwarzenegger, mas me batizaram de Frank. E qual seu sobrenome?
- – respondeu, ocultando o fato de que “” também estava presente em sua certidão de nascimento.

A aeromoça voltou e teve que pedir novamente à Frank para se sentar e colocar o cinto. aproveitou o momento para olhar pela janela e observar a nova cidade que seria sua casa até a formatura no ano seguinte.
West Palm Beach.
Já de cima era possível ver que não se distanciava das fotos que encontrou na internet. Parecia o local perfeito para os turistas: a cidade era limpa e bonita, com o céu azul sem nuvens e uma praia com areia tão branca que reluziu raios de sol que queimaram seus olhos. Era o estereótipo perfeito do que imaginava quando ouvia o nome “Flórida”.
Tinha até palmeiras! Algo que nunca veria em Seattle, com certeza.
O avião pousou antes que percebesse e as mãos de começaram a suar. Frank a acompanhou ao longo do desembarque e tagarelou todo o caminho até as malas, falando principalmente de Portland, que descobrira que era a cidade onde ela nascera quando perguntou sobre o sotaque ela. Quando recolheu seus pertences – cinco malas imensas que fariam as duas de chorarem de vergonha -, se despediu.

- Bem, , nosso encontro foi breve, mas revolucionário – disse ele apertando as bochechas dela. Quis chutá-lo e rir com ele ao mesmo tempo, mas decidiu não fazer nada. – Você me inspirou com seu batom preto e seus piercings fodões. Se nos encontrarmos uma próxima vez, terei sido expulso de casa, mas terá sido por um incrível piercing na língua. Obrigado.

Deu um beijo estalado em sua bochecha, fazendo arregalar os olhos e então se foi como um furacão, de alguma forma conseguindo levar sua infinidade de malas. Ela ficou ali alguns segundos, estagnada, vendo-o partir e fez uma careta no fim.
Que cara esquisito.
A espera por suas malas na esteira demorou apenas alguns minutos, mas pareceram horas. não queria admitir que estava nervosa, que Christopher a afetasse de alguma forma, mas não era o caso. Queria ser indiferente em relação a ele, completamente anestesiada, como se tivesse o superado há muito tempo, mas suas mãos suavam, seu coração martelava contra o peito e ela sentia que podia vomitar a qualquer momento.
Ela precisava muito, muito, muito de um cigarro.
Suas roupas não ajudaram. A calça preta colada e as botas pretas grandes e pesadas com certeza não combinavam com o clima quente e praiano da Flórida. geralmente era uma pessoa que sentia frio – sendo sincera, ela sentia frio o tempo todo -, mas o nervosismo agitou seu sangue de uma forma que ela se sentia quente e abafada como nunca.
Suas duas malas chegaram e ela as carregou junto da mochila nas costas até onde o encontraria. Rezava para que ele tivesse mandado um motorista para buscá-la. Ou um vizinho, qualquer um. Talvez a tenha esquecido. Isso a ajudaria a odiá-lo mais.
Havia várias pessoas amontadas esperando os indivíduos que desembarcavam. olhou para os lados, procurando alguém que pudesse estar com alguma placa com o nome dela. Por favor, mande um motorista. Por favor, mande um motorista.
O universo riu dela novamente. De repente, lá estava ele.
Não tão alto quanto ela se lembrava, seu pai surgiu no aglomerado de pessoas, olhando ao redor, parecendo tão nervoso quanto ela. Era estranho vê-lo assim, mais velho, com rugas de preocupação na testa e nos olhos. Tinha vinte e um anos quando se foi. Agora era um homem de trinta e três, mais maduro, com expressões faciais adultas, rugas e a pele bronzeada pelo sol da Flórida.
Mesmo após tantos anos, ela reconheceria os olhos dele em qualquer lugar. Eram os mesmos olhos que a encaravam cada vez que se olhava no espelho.
Christopher a viu e o estômago de se embrulhou ao ver o brilho em seu olhar. Um sorriso inseguro apareceu nos lábios dele e ele caminhou em sua direção com um ar apressado, como se não quisesse perdê-la de vista.
Suas mãos suavam mais do que nunca e o coração batia tão forte que parecia ser capaz de quebrar as costelas dela.
Christopher estava ali. Seu pai estava ali.
quis se encolher e fugir como uma menininha, escondendo-se em algum canto para nunca ter que enfrentá-lo. Mas suas pernas pareciam desconectadas do resto do corpo e se recusaram a se mexer. Tudo que lhe restou foi ficar parada como uma estátua, vendo-o se aproximar.
Parou na frente dela, olhando seu rosto com olhos nebulosos. As mãos de apertaram a mala, tremendo como nunca. Ele iria abraçá-la? O universo não podia odiá-la a esse ponto.

- – ele suspirou sorrindo mais. O apelido nos lábios dele fizeram ela engolir uma bola de boliche pela garganta. – Deus, como você cresceu.

É o que acontece quando doze anos se passam, ela quis dizer.

- É – foi o que disse. Olhos dela olhavam ao redor, evitando olhar no rosto dele. Nunca sentira tanto calor na vida.
- Está bonita – elogiou Christopher parecendo tímido, mas com olhos brilhantes. – Gostei dos piercings.
- Oh... – exclamou ela sendo pega de surpresa. Não que os tivesse feito para irritá-lo. Tinha-os desde os quatorze anos, tendo-os feitos por um garoto mais velho no meio de uma festa, para o terror de sua mãe. Apenas não esperava que seu pai, o grande magnata imobiliário que vivia nas perfeitas praias de West Palm Beach, onde todo mundo parecia ter saído das revistas da Vogue, fosse gostar. – Valeu.
- Darla deve ter ficado louca – disse Christopher com uma pequena risada. se surpreendeu com o carinho na voz dele ao dizer o nome de sua mãe e com o fato de que ele se lembrava de como ela era.
- Ela se acostumou com o tempo – respondeu encolhendo os ombros, não se sentindo confortável dividindo as histórias caseiras que viveu.

Não é como se ele merecesse ouvi-las.
Seu pai assentiu com a cabeça e secou as mãos suadas nas calças. Parecia querer abraçá-la, mas provavelmente sentiu a postura rígida e desconfortável dela. Então, ao invés disso, ergueu o braço e disse:

- Quer ajuda com as malas?

Ela lhe entregou apenas uma delas e sentiu-se extremamente estranha enquanto eles andavam para fora do aeroporto. A cena parecia tão caseira que poderia fingir por alguns segundos que eles eram apenas pai e filha voltando de viagem e indo para casa.
Não era o caso, contudo. Aquela não era a casa dela e com certeza não queria pensar naquele homem como seu pai. Doze anos de ressentimento haviam se acumulado dentro do peito dela, desde o segundo que voltara para casa de um passeio, com cinco anos e a única coisa que encontrara de seu pai fora uma carta de letra tremida na bancada da cozinha.

Eu sinto muito, ele dissera. Eu as amo, mas não posso mais fazer isso. Estão melhores sem mim.

As portas se abriram e foi cegada pelo sol mais brilhante do mundo. Christopher havia colocado óculos de sol sem que ela percebesse e lhe estendia um par.

- Desculpe, esqueci sobre isso – respondeu ele com uma voz tímida. Parecia estar pisando em ovos ao redor dela. – Trinity achou melhor que eu trouxesse um par para você. Não faz tanto sol em Seattle.

colocou os óculos no rosto e piscou várias vezes para enxergar novamente. Enquanto andavam até o carro, percebeu que se destacava dos demais como nunca. Todos ali eram coloridos, corados pelo sol, com uma áurea praiana de se assombrar. Suas roupas e maquiagens pretas chamavam atenção como se ela estivesse andando nua pela calçada.
Eles chegaram até o carro e ela se surpreendeu levemente. não entendia muito do assunto – ela provavelmente só era capaz de distinguir fuscas e kombis de todos os outros automóveis, mas quando colocou os olhos no carro do pai, soube que ele não chegava perto do que Christopher podia comprar.
Era um carro grande e novo, com certeza, com todas as comodidades que um carro podia ter (sua mãe precisaria guardar o salário de anos para conseguir pagar), mas pela quantidade de dinheiro que a internet passou a impressão que ele tinha, estava surpresa de não encontrar uma limosine com um motorista uniformizado os esperando.

- Algum problema? – perguntou Christopher parecendo inseguro com a expressão confusa dela.
- Não – respondeu colocando as malas no carro e se sentando no banco do passageiro. Seu pai sentou-se ao lado e ela pode perceber seu nervosismo. As mãos dele batucavam o volante enquanto dirigia.
- Se quiser pode colocar uma música – sugeriu ele, ficando decepcionado em seguida quando ela apenas encolheu os ombros. Tentando romper o silêncio constrangedor, ligou o rádio e um som aleatório cobriu o ambiente.

Ninguém falou por um longo tempo e podia sentir Christopher olhando-a pela visão periférica a cada pouco tempo. Parecia ter milhões de perguntas presas na garganta, se corroendo para saber as respostas de todas, descobrir tudo que perdera nos últimos doze anos.
Ele parecia genuinamente interessado, mas não falou nada e ela sabia que era porque a própria postura não ajudava. Estava rígida como um pedaço de pau, silenciosa e olhando pela janela, sentindo-se completamente incapaz de relaxar.
Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Como conseguiria lidar com ele? Não o conhecia, as lembranças dos momentos que passaram juntos muito distantes e apagadas.

- Você deve estar com fome – disse Christopher de repente, tirando de seus devaneios. Ela não precisou responder – seu estômago roncou alto quando ele lhe lembrou da existência de alimentos. Apesar de ter aproveitado a comida do avião, que na primeira classe era realmente apetitosa, era quase cinco horas da tarde e não comia há um bom tempo. - Tem uma loja do Dunkin’ Donuts há uns dez minutos daqui. Vamos demorar mais para chegar em casa, mas acho que vale a pena.

assentiu em resposta e Christopher dirigiu até a lanchonete especializada em rosquinhas e café. O letreiro era enorme e branco, com o nome da franquia em cor vermelha brilhante. Ficava em uma avenida movimentada e todos os locais no estacionamento estavam ocupados.

- Eu e sua mãe costumávamos vir sempre no Dunkin’ Donuts quando morávamos em Portland – disse seu pai com uma voz carinhosa, enquanto procurava um local para estacionar. – Ela sempre pedia as rosquinhas com cobertura de morango e café com leite e açúcar.

O estômago de se embrulhou e, de repente, era difícil demais respirar. Soltando o cinto com rapidez, disse:

- Acho que melhor eu ir na frente, parece que está lotado. Eu pego um lugar na fila enquanto você acha uma vaga.

Só deu tempo para Christopher diminuir a velocidade do carro e murmurar: “Oh! Tudo bem...”, antes de saltar para fora do veículo. Foi apenas quando entrou dentro do estabelecimento que foi capaz de respirar novamente.
A fila não estava grande como pensara. A maioria dos clientes já haviam feito seus pedidos e comiam sentados nos estofamentos vermelhos ao redor das mesas. Perdida em pensamentos, parou atrás do último da fila, um garoto alto e de ombros largos, de costas para ela. Não conseguia deixar de pensar no tom carinhoso de seu pai, no fato de que lembrava da maneira como sua mãe gostava de café e nem nas lembranças de Portland, a cidade onde cresceu e que se mudou para Seattle para esquecer.

Era difícil lidar com aquilo. Com as lembranças de sua mãe, jovem e feliz, comendo rosquinhas ao lado do homem que amava. As palavras do pai a fizeram lembrar de como a mãe era antes que eles as abandonasse, sem as enormes olheiras debaixo dos olhos e o ar cansado e preocupado.
Sentia tanta falta dela que o coração doía. Sua garganta fechou e ela soube que teria um surto de nervos se não fosse capaz de fumar um cigarro ou se distrair de outra forma.
A fila andou e olhou ao redor, procurando algo para acalmar seus pensamentos. Os minutos passaram e passaram e, de repente, a base de suas costas voltou a doer e ela percebeu que o garoto à sua frente estava a muito tempo no balcão.

Para entender o que tanto demorava, tentou olhar o que acontecia. O garoto, que ela ainda não via o rosto, mostrava o cardápio para a atendente e apontava para o pedido que queria. Ela, contudo, tinha os olhos focados em seu celular e mascava um chiclete, distraída.
O garoto tentava acenar com as mãos à frente do rosto da atendente, para chamar sua atenção. não entendia por que ele simplesmente não a chamava, mas ficou atrás, silenciosa, observando a garota finalmente tirar os olhos da tela e olhar para o cliente.

- Vai querer o quê? – disse parecendo entediada. O garoto apontou novamente para o cardápio e ela registrou o pedido com moleza. – Algo mais?

O que ele queria provavelmente não estava no cardápio, porque o garoto apontou para os pedidos no telão acima do balcão. A atendente seguiu o dedo dele e depois se virou parecendo irritada.

- Tem muitos pedidos ali, não sei qual você quer – disse grosseiramente. pode ver que a postura dele pareceu cansada e frustrada e então notou algo. O garoto começou a fazer sinais com as mãos, antes de desistir e ir atrás de tirar o celular do bolso. Ela reconheceu os sinais imediatamente.
- Ele quer um café gelado – disse antes que pudesse se conter. A atendente olhou para ela ao mesmo tempo que o garoto, mas só pode percebê-lo.

O estranho era provavelmente um dos homens mais charmosos que ela já havia posto os olhos sobre. Passou seu olhar pela mandíbula dele, por seus lábios, por seus cabelos bagunçados e enfim por seus olhos, quentes, amigáveis, brilhantes e levemente surpresos. Tinha uma beleza diferente, simpática e jovial, quase doce. Seu olhar a fez quente e formigando, sentimentos que há tempos havia empurrada para debaixo do tapete e jurado a si mesma que não iria mais mexer.

Ele usava uma camisa social branca, com as mangas dobradas até os cotovelos. Calça preta, sapatos lustrosos, um relógio no pulso que provavelmente custava todos os órgãos do corpo dela. Parecia ter a sua idade, mas se vestia como se tivesse saído de uma reunião de negócios.
E o sorriso em sua boca era gentil e divertido, um sorriso de menino que a fez perder a fala por um momento.
Nem pense nisso, sussurrou sua consciência. Você já não aprendeu a lição?

- Que tamanho? – perguntou a atendente olhando para ela, ainda mascando chiclete ruidosamente.

O estranho fez outro sinal e completou:

- Médio.

A atendente passou o pedido adiante e o garoto saiu do caminho, permanecendo ao lado, olhando para . Ela fez o pedido dela, donuts de morango como sua mãe, mas com café preto e puro e depois foi para o lado esperar.
Esperava que o estranho apenas deixasse a situação para lá, mas ele parecia ter outros planos.

- Obrigado – disse ele através da língua de sinais, encostando a ponta dos dedos da mão direita no queixo e depois os afastando em direção a ela. – Geralmente fica uma outra atendente no balcão que me entende, então acabei demorando para lembrar de usar o celular.
- Relaxa, não foi nada – respondeu ela também com as mãos e encostando-se no balcão, tentando alongar as costas que doíam. Ignorou o próprio sentimento de satisfação ao ver que ele observou a silhueta dela nas calças pretas apertadas.
- Como aprendeu a língua de sinais? – ele também se encostando no balcão. percebeu uma leve cicatriz ao longo da garganta silenciosa e o fato de que ele pronunciava as palavras com os lábios enquanto fazia os sinais.
- Minha avó era surda – disse simplesmente. Pelo que ela lhe dissera uma vez, geralmente eram pessoas que se tornaram surdas ao longo da vida que pronunciavam as palavras com os lábios enquanto falavam com a língua de sinais, como um hábito. Os surdos também tinham o hábito de mover os lábios, mas não necessariamente formando as palavras exatas que diziam.
- Pode falar com os lábios se quiser – disse ele notando que ela parecia pensativa. – Não sou surdo.

Isso talvez explicasse a cicatriz na garganta. meio que esperava que o lindo e bem vestido estranho terminasse a conversa por ali, mas ele parecia genuinamente interessado em conversar. Passando os olhos pelas botas pretas de combates, as calças apertadas, a blusa de alcinha colada, para então a maquiagem preta e os piercings no rosto, perguntou com olhos brilhantes e em três sinais:

- Qual seu nome?
- – respondeu com os lábios tentando não olhar para o rosto dele. Era incrível o quão expressivo era. Ela podia claramente ler o interesse e a diversão em suas expressões, como se a achasse fascinante. Não soube o que sentia com essa informação. – .
- Sou – respondeu ele sinalizando com a mão direita e erguendo a esquerda para ela apertar. – .

Ela lhe deu um sorriso de canto de boca e um leve aperto de mão em resposta. Depois encostou os cotovelos no balcão e ficou esperando seu pedido. imitou sua posição ao lado dela e continuou com os olhos em seu perfil.
pode perceber pela visão periférica que as mãos dele se mexiam e percebeu que ele falava com ela.

- Desculpe, estava distraída – murmurou.
- Gostei dos seus piercings – disse ele com os lábios fechados em um sorriso. revirou os olhos, mas sorriu levemente em troca.
- Devo ser a única por aqui que os tem – respondeu. – Você é a vigésima pessoa que fala deles.
- Não são tão populares por aqui, a não ser que você conte os no umbigo – respondeu ajeitando sua posição para que os braços ficassem mais livres para se comunicar. – Assim como roupas e maquiagem preta. Aqui faz muito calor.
- Bem, azar o meu, pois essas são as únicas roupas que tenho.

Os olhos dele passaram lentamente por sua silhueta e jurou que podia sentir o toque de seu olhar.

- Eu não consideraria isso azar nenhum.

Ela podia sentir o flerte em seus sinais. Mesmo que não houvesse palavras vocalizadas, seus gestos e expressões faciais gotejavam e impulsionavam a atração que pulsava entre eles. Ele tinha dedos ágeis e feições bonitas. O pensamento a assustou levemente. Faziam anos desde que se permitira flertar com alguém com tanta naturalidade.
O pedido dele chegou de repente e não pode ignorar o quão masculinas e bonitas eram as mãos dele enquanto pegavam o copo café e o saco de papel com a comida. olhou para o relógio no pulso e suspirou.

- Tenho que ir – acenou com um pouco de dificuldade já que uma das mãos estava carregando seu pedido. Ele parecia desapontado e compartilhou do sentimento em segredo. era lindo de morrer e, apesar de ter prometido a si mesma nunca, nunca, nunca mais ser feita de boba por um sorriso bonzinho como o dele, flertar não fazia mal a ninguém.

Seu subconsciente reprovou a ação, mas ela o ignorou momentaneamente. Não havia como repetir os erros do passado, pois ela nunca mais o veria. era apenas alguns minutos de flerte durante a espera pelo pedido em uma lanchonete.
Inofensivo e inocente. não tinha com o que se preocupar.

- Espero te ver novamente – sinalizou enquanto se afastava. Andava de costas, olhando para ela, quase como se não quisesse perdê-la de vista.
- Quem sabe – disse pela língua de sinais, encolhendo os ombros como se não se importasse. parecia capaz de ler através dela e lhe lançou um último sorriso paquerador antes de desaparecer pela porta de entrada.

Christopher chegou alguns minutos depois, com a respiração levemente ofegante.

- Desculpe, fiquei rondando muito tempo até achar uma vaga – disse ele e notou novamente o quão nervoso ele estava ao seu redor. Bem, pelo menos isso era algo que tinham em comum.

Só foi capaz de tirar o bonitão da cabeça quando se sentiu estranha ao perceber que ela e o pai bebiam o mesmo café.

✋🏼🎨💬

A casa de Christopher ficava em um bairro de classe alta à beira da praia que levava o nome da cidade. Seu pai lhe contou isso com um sorriso satisfeito enquanto dirigia pelo bairro impecável, com casarões imensos e pessoas ricas e praianas andando pelas calçadas com seus cachorros magricelas.

- A praia West Palm Beach é a principal da cidade. Preferimos nos mudar para cá porque tem as águas mais calmas e Michael ainda é jovem, então é mais seguro para ele se aventurar em mares mais seguros. Mas muitos jovens vêm nadar por aqui! Eles sempre acendem fogueiras a noite ou ficam andando de jet-ski. Pode ir conhecê-los se quiser, acho que seria bacana!

apenas lhe respondeu com um sorriso educado, achando que seria o momento errado em contar-lhe que ela não era nem um pouco fã da praia, com a areia que lhe dava coceira e o sol ardente que queimava a pele sem pena.
Deus, ela já sentia saudade de Seattle, com seu clima frio e nuvens carregadas. A única coisa positiva de se mudar para a Flórida era provavelmente a falta de chuva.
tinha uma longa lista de coisas que odiava e já fazia anos que a chuva estava entre elas.
Eles estacionaram na frente de uma casa – a casa dela – e saiu do carro. O lugar não era o que esperava, mas ela riu ao ver a cerca branca que sabia que estaria ali.
Era... Caseiro. Confortável. Um lugar que apenas uma família com muito dinheiro conseguiria comprar, mas nada comparado com enormes mansões, frias e secas, tão extravagantes que seria incapaz de se sentir em casa naqueles corredores. Era uma casa de dois andares, com um belíssimo jardim na frente, com a grama extremamente verde e os canteiros de flores coloridos demais para o outono que se aproximava e grandes janelas de vidro que mostravam a sala na esquerda da porta principal e a cozinha à direita. Era impressionante o quanto pessoas ricas eram fissuradas nesse tipo de janela.
pegou suas malas no porta-malas e as arrastou até a porta. Christopher a destrancou e permitiu que a filha entrasse primeiro, dizendo:

- Bem-vinda, filha.

ignorou suas palavras. A maneira como ele se referia a ela, a forma como sua voz ficava carinhosa e suave, fazia com que suas emoções enlouquecessem. Raiva, rancor, tristeza, saudade, eram dores demais para lidar, então ela as empurrou para o fundo de sua mente e obrigou-se a continuar a pessoa anestesiada que havia se obrigado a ser nos últimos anos.
A casa era ainda melhor por dentro do que por fora. O tapete macio debaixo dos pés, a lareira da sala e as fotografias da família pelas paredes lembraram do lar que possuía com a mãe. Faltavam apenas os inúmeros vasos de plantas e flores espalhados por todas as janelas.
Seu peito se apertou, pensando no sorriso quente de sua mãe e na casa que nunca mais veria. Não teve tempo, contudo, de se aprofundar no sentimento. Uma linda mulher magra e esbelta surgiu da cozinha, vestindo um terno executivo.

- , essa é Trinity, minha esposa – disse a voz de seu pai atrás dela e as duas mulheres se olharam por alguns segundos.

Trinity era como todas as pessoas que havia encontrado até agora. Impecável, praiana, corada e sorridente. O tipo de mulher que seria capa de alguma revista feminina sobre estilo de vida saudável, sucesso e maternidade. Mas a matéria jornalística também expôs que sua madrasta era uma empresária tão bem-sucedida quanto seu pai no ramo imobiliário, então sabia que ela provavelmente estaria estampando revistas sobre negócios bilionários antes de dar entrevistas sobre a melhor forma de fazer bolo.
Tornou-se extremamente autoconsciente das próprias roupas. De repente, ela destoava como uma fogueira em uma floresta escura dentro da sala confortável e impecável. Suas botas eram grandes demais, sua maquiagem exagerada e ela não pode deixar de notar como os olhos da madrasta arregalaram-se novamente ao observar seu visual.
Não era um olhar necessariamente julgador, mas com certeza surpreso. Isso não fez com que se sentisse melhor.

- Olá, – disse Trinity erguendo a mão para se cumprimentarem. A mão dela era macia e suas unhas limpas e sem esmalte. As de estavam roídas e cobertas de esmalte preto e descascando. – Fico muito feliz de finalmente conhecê-la, seu pai fala muito se você.

Mordeu a própria língua para evitar o comentário sarcástico que cresceu em sua garganta. Ele falou muito dela? Não foi o que pareceu nesses doze anos sem contato. Mas sabia que sua madrasta não tinha culpa pelos erros de Christopher, então apenas permaneceu em silêncio. Ela não era o tipo de pessoa que descontava os erros de outros em terceiros que não tinham culpa de nada.

- Michael está tão animado com a sua chegada – disse Trinity com um sorriso sincero. – Ele está lá em cima. Michael! Querido, chegou!

Um garoto pequeno e magricela desceu as escadas e a semelhança que possuía com a mãe era gritante. Os mesmos olhos surpresos pousaram e se arregalaram ao ver as roupas de , mas ela não se sentiu desconfortável como com a madrasta. Havia algo no garoto que ela gostou instantaneamente.

- Por que você se veste toda de preto? – perguntou ele com as sobrancelhas franzidas. Trinity ofegou e o censurou:
- Michael!
- Porque sou uma vampira – respondeu tentando segurar as risadas que nasceram em sua garganta.
- Não é não – respondeu ele cerrando os olhos e cruzando os braços. Ela notou, contudo, como ele andou um pouquinho para trás, no pé da escada.
- Quer apostar? – perguntou ela levantando uma sobrancelha e sorrindo com o canto da boca. Michael torceu os lábios por alguns segundos, pensativo e depois chacoalhou a cabeça.
- Não – respondeu. Depois disse, apontando para o piercing no nariz dela: - Doeu?
- Como tomar vacina – respondeu notando que Trinity não parecia nem um pouco feliz pelo interesse do filho nos acessórios. Deu certo. Michael agiu como se um arrepio tivesse descido sua espinha e ela soube que ele não pensaria em fazer um piercing tão cedo.
- Nós compramos donuts – disse seu pai de repente, mostrando as caixas cheias de guloseimas. Michael correu para pegá-las, enquanto Trinity torceu os lábios.
- Chris... – disse em tom censurador. – Daqui a pouco será a hora do jantar.
- Eu sei – disse ele dando-lhe um beijo na testa. – Comprei apenas por ser um dia especial.

desviou o olhar dos dois e tentou concentrar-se em outra coisa. Ver seu pai ali, em um papel tão caseiro, levando doces para casa, abraçando o filho, beijando a esposa, fez com que pensasse novamente em todas as coisas que eles perderam juntos, em todas as promessas que ele fizera para Darla, mas não cumpriu. O ressentimento cresceu dentro dela e, de repente, ela só queria se trancar em um quarto para sempre.

- Onde posso...? – disse apontando para as próprias malas.
- Oh, claro! – exclamou Trinity indo em direção às escadas. – Deixe-me mostrar seu quarto.
- Eu quero mostrar! – exclamou Michael com a boca coberta em açúcar de confeiteiro e subindo os degraus antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa.

o seguiu e eles pararam na frente de uma porta branca, que ficava ao lado de uma pintada de vermelho.

- O seu é esse daqui. Fica do lado do meu, mas a mamãe não me deixa jogar vídeo game depois das oito, então acho que você não precisa se preocupar com o barulho. A gente também vai dividir o banheiro. – Ele apontou para uma terceira porta, do outro lado do corredor, posicionada entre os dois quartos. – Mas acho que não vai ter problema também, eu sou organizado.
- Sobre o seu quarto – disse Trinity parecendo um pouco apreensiva. – Bem... Nós não sabíamos do que você gostava, então apenas contratamos um decorador e... Pedimos algo para alguém da sua idade. Acho que... Você vai querer redecorar... Provavelmente...

abriu a porta e não pode evitar uma expressão surpresa que atravessou seus lábios.

- Oh!

Nunca vira tantos babados na vida. A cama grande e alta tinha pelo menos oito travesseiros, cobertos por fronhas cor de rosa e uma colcha branca felpuda. Ao lado, um abajur com pingentes brilhantes pendurados e, no chão, um tapete peludo como se fosse feito dos cachorrinhos dos vizinhos. Perto das grandes janelas (e suas cortinas cor lilás), uma escrivaninha branca e delicada.

- É bem... Feminino – disse sem conseguir pensar em algo melhor. Novamente, não era culpa de Trinity que o pai não fazia ideia do que ela gostava.
- Como Trini disse – murmurou Christopher parecendo desconfortável e tímido. – Podemos redecorar como você quiser, sem problemas.

encolheu os e colocou a mochila sobre a cama e as malas no chão. Sentando-se na cama, afundou alguns centímetros no colchão extremamente macio. Não ligava para a decoração, ficaria ali apenas até se formar. Seria um desperdício de dinheiro e tempo.

- Você deve estar cansada – disse seu pai. – Pode descansar, tirar um cochilo se quiser. Podemos pedir pizza para o jantar, o que acha?
- Oba! – exclamou Michael com olhos brilhantes. – De pepperoni!
- Tudo bem para você? – perguntou Christopher sorrindo para ela, esperançoso. se encolheu um pouco.
- Tudo bem... É só que sou vegetariana – respondeu.
- Oh... – exclamou seu pai com os ombros caindo um pouco. Algo mais que ele não sabia. – É claro, eu devia saber. Sua mãe também era. Bem, vamos pedir uma vegetariana para você, então.

Eles saíram e caiu de costas contra a cama, sentindo-se completamente esgotada. Olhando para o teto, bufou ao perceber que ele era, assim como as paredes cobertas pelo papel de parede, decorado com inúmeras nuvens cor de rosa.
Levantou-se em um salto e agarrou a mochila. No fundo, encontrou o maço de cigarros amassado e pela metade e suspirou aliviada. Abrindo a janela, sentou-se no parapeito e o acendeu com seu isqueiro velho, suspirando de prazer ao dar o primeiro trago e sentir a fumaça enchendo os pulmões e a nicotina percorrendo pelo corpo.
O cigarro não era um orgulho para ela, mas era um avanço em comparação aos outros vícios que tivera nos últimos anos. Tinha certeza de que sua mãe a observava no momento, torcendo o nariz, horrorizada ao vê-la fumando aquilo antes mesmo de completar dezoito anos, mas foi o melhor que pode fazer. A nicotina permitia que não caísse em velhos hábitos ainda mais destruidores, então a agarrou como uma tábua de salvação.
Suas janelas davam para os fundos da casa, onde um enorme terreno apresentava uma piscina gigantesca. foi incapaz de se controlar e revirou os olhos enquanto fumava mais um pouco. Uma piscina quando se mora há alguns metros da praia? Que desperdício de dinheiro.
Ouvindo as pessoas que agora seriam sua “família” no andar debaixo, rindo e conversando e lançando novamente seu olhar para o excesso de branco e cor-de-rosa na decoração, encostou as costas nas laterais da janela a fechou os olhos, sentindo-se cansada.
Após fumar, ligou o ventilador de teto e espalhou o perfume extremamente doce que encontrou em uma prateleira pelo ambiente, tentando tirar o cheiro de cigarro. Depois, jogou-se novamente na casa, afundando o rosto nos travesseiros de penas. Antes de desmaiar de cansaço, pensou:

Deus, mamãe, o que eu não faço por você.

Capítulo 2 - O Colégio



Não houve muito tempo para se acomodar antes que as aulas voltassem. teve a chance de se mudar muito antes, mas preferiu aproveitar a casa que dividiu com a mãe até o último dia, quando foi obrigada a sair após a venda do imóvel. Graças a isso, chegou na Flórida faltando menos de uma semana para o começo de setembro e, antes que se desse por si, estava sendo acordada para o primeiro dia de aula.
Seu sono foi interrompido quando alguém a cutucou no ombro com delicadeza. Ela, primeiramente, apenas ignorou. A pessoa cutucou novamente, agora chacoalhando-a levemente e, em troca, se afundou mais nas cobertas macias e felpudas que lhe causavam coceira no nariz.

- – disse uma voz infantil, enquanto uma mão pequena ainda mexia em seu ombro. – Mamãe mandou te acordar.

gemeu, com os olhos ainda fechados.

- Por quê? – murmurou com a voz rouca pelo sono. – Ela me odeia?

Pode ouvir uma risadinha em resposta e não pode controlar os próprios lábios de sorrirem levemente. Ela gostava desse menino.

- Você é esquisita – disse Michael. – A gente tem que ir para a escola, já são quase sete horas.
- E como você já está acordado? – perguntou espreguiçando as pernas e esfregando os olhos. Quando finalmente os abriu, viu que Mike já havia saído.

Levantando-se, se arrastou até o banheiro. Como um menino de dez anos tem tanta energia?
Fechando a porta atrás de si, lavou o rosto com água gelada e, depois de secá-lo, olhou-se no espelho. Sempre apreciava esse momento de todas as manhãs, quando encarava a si mesma sem maquiagem, olhando para a menina no reflexo, com seu rosto jovem e olhos nebulosos.
Ela quase nunca se permitia ver essa menina. Apenas nesses rápidos momentos, em que a encarava por alguns segundos no espelho, sem ao menos reconhecê-la. Ligando o chuveiro, suspirou feliz ao vê-lo encher a banheira abaixo. Ela só tomava banho de banheira, então foi uma notícia boa ver que havia uma na casa.
Entrando na água quente, após escovar os dentes, pensou no que a esperava em uma hora. Não apenas uma escola, mas ser a aluna nova de uma escola, do outro lado do país, sem sua mãe ao seu lado, apenas o homem que a abandonou, a madrasta perfeita e o irmãozinho tagarela.
Reconheceu que estava sendo dramática, enquanto ensaboava o próprio corpo. Trinity realmente parecia ser perfeita em tudo que fazia – das finanças à deliciosa comida -, mas era gentil e parecia ao máximo tentar aceitar o estilo de roupa que vestia. Ela ainda podia sentir seus olhos extremamente confusos para os piercings e as roupas pretas, mas nunca disse nada incomodo sobre isso.
Michael era, provavelmente, o amor da vida de . Ele era esperto e curioso, perguntando dezenas de coisas por minuto, sem se importar se seriam de alguma forma desconfortáveis. Por que todas as roupas dela pareciam ter sido cortadas? Por que ela era vegetariana? Por que ela não chamava Christopher de pai?
A última a pegou de surpresa, mas não tanto quanto quando ouviu ele próprio chamando Christopher dessa forma. Levou um susto tão grande que se engasgou com o suco que bebia e cuspiu na mesa de jantar, logo no primeiro dia.
O pai ainda era um tópico difícil de se pensar. Às vezes ansiava por erros dele. Queria que fosse grosseiro com ela, com Trinity, com Michael, para que assim fosse mais fácil de odiá-lo, de alimentar o remorso e o desgosto como havia feito por tantos anos. Era uma vontade inconsciente, um desejo que se manifestava no mais fundo, escondido e vergonhoso espaço de sua mente e que ela não se orgulhava.
Mas ele era... Bom. Bom cozinheiro, bom chefe, bom marido, bom... Pai. Pelo menos ela conseguia perceber isso em relação à Michael, que ela descobrira que o pai de sangue tinha morrido quando pequeno.
Era cedo demais, contudo, para abandonar doze anos de desgosto acumulado, então resolveu que se importaria com coisas banais como o fato de ser a aluna nova pela primeira vez desde que se mudara de Portland para Seattle, há quatro anos. Não pensaria no pai ou no fato de que não conseguia o chamar assim.
Terminando o banho, se secou com as toalhas felpudas e saiu do banheiro, coberta por elas. No quarto, vestiu a camiseta preta apertada, que mostrava levemente um pedaço de pele abaixo do umbigo dela e um par de jeans pretos rasgados. Nos pés um coturno preto e no rosto a maquiagem preta de sempre.
Pegando sua mochila, desceu as escadas e levou um susto ao se deparar com Christopher na cozinha bebendo café.

- Achei que iríamos de ônibus – disse olhando para ele confusa. Só estava com eles há poucos dias, mas pode perceber a rotina de Christopher e Trinity. Eles saíam cedo e voltavam tarde, intercalando os dias para que Michael pudessem passar tempo com eles ao longo da semana.

O irmão mais novo costumava ficar com , o filho de uma amiga de Christopher que os ajudava sendo babá, mas foi que cumpriu o papel desde que chegara para que eles “se conhecessem melhor”.
. O nome a lembrou do bonitão da lanchonete, com quem flertou descaradamente como não fazia há anos. Fazia tanto tempo que um garoto não a fazia se sentir daquela forma, quente e paqueradora, mas tentou ignorar esse sentimento como fizera com tantos outros. era um nome comum. Ela conheceu ao longo da vida pelo menos cinco homens chamados assim. Era apenas uma coincidência.

- Eu sempre levo Michael no primeiro dia de aula – disse seu pai terminando a bebida e aproximando-se dela. – É uma tradição que temos. Espero que não se importe.

Ele dizia muito isso. Espero que não se importe, como se qualquer coisa que dissesse fosse fazê-la fugir durante a madrugada.

- Não, tudo bem – disse ela começando a comer cereais em uma tigela. – Só me pegou de surpresa.

Michael apareceu, com sua mochila do Star Wars e terminou de comer. Juntos foram até o carro e empurrou o irmão para o lado quando ele tentou abrir a porta do banco do passageiro.

- Ei! Eu cheguei primeiro – exclamou ele. podia ver a brincadeira em seus olhos.
- Mas eu nasci primeiro – argumentou ela, rindo conforme ele lhe mostrou a língua e se sentou atrás. Christopher deu a partida e eles foram até Everglades Elementary School, a escola de ensino fundamental em que Michael estudava.

Christopher perguntou a ele se estava animado e teve que se controlar para não rir do quão feliz o meio-irmão parecia. Para um garoto nerd e tagarela, ela achou que Mike teria mais medo da escola, mas pelo jeito não era o caso.
Eles o deixaram e seguiram em uma longa, silenciosa e desconfortável viagem até onde ela passaria a estudar. Era estranho ter ele ali, levando-a até a escola, viagens que ela fez tantas vezes sozinha ou com sua mãe atrás do volante. Parecia simplesmente... Fora do lugar. Como se eles fossem atores que se desconhecem, vestindo fantasias e atuando no papel de pai e filha.

- Podemos ver de te comprar um carro – disse ele depois de uns minutos de silêncio. – Para que não precise ir de ônibus pelo resto do ano.
- Ah – disse sem olhar nos olhos dele. – Não vale a pena. Eu não tenho habilitação.
- Não? – perguntou Christopher confuso. – Você faz dezoito ano que vem, achei que...
- Mamãe estava doente quando fiz dezesseis. Não tive cabeça para pensar sobre algo mais.
- Oh. – A exclamação foi baixa e levemente envergonhada. – Se tiver interesse podemos... Eu posso... Hã, te ajudar... A dirigir, caso queira.
- Sei lá – respondeu simplesmente com um dar de ombros. Era sua mãe que iria ensiná-la a dirigir. Darla disse que, quando melhorasse, se tornaria a melhor motorista do mundo. Mas ela não melhorou e o pensamento fez com que uma bola de boliche crescesse na garganta dela. – No futuro a gente vê.

A resposta pareceu deixá-lo levemente decepcionado, mas eles não disseram nada pelo resto da viagem. Faltando vinte minutos para as oito, estacionaram na frente de um enorme colégio público, com enormes – gigantescas – paredes laranjas e pretas e inúmeros estudantes nos jardins.
John I. Leonard Community High School.

Jesus, que nome gigantesco para uma escola.

- Bem, é aqui – suspirou seu pai olhando para a escola e depois para ela. Era ridículo, mas parecia levemente emocionado. – Se precisar de alguma coisa é só ligar. Eu venho te buscar.

Ela lhe deu um leve sorriso e saiu do carro em seguida. Apertando a alça da bolsa com força, caminhou pelas colunas da entrada, em direção à porta. Podia sentir os olhos dos outros estudantes sobre ela, a avaliando da cabeça aos pés.
Sim, encarem a aluna nova. Muito original.
O interior era limpo e coberto por armários de metal ao longo de todos os corredores. Nas paredes, cartazes de boas-vindas, campanhas anti-bullying e avisos sobre eventos esportivos, bailes e eleições.
O que o fumo pode tirar? Hálito fresco, pulmões saudáveis, um forte sistema imunológico...” dizia um dos cartazes de uma clara campanha contra o fumo. não pode controlar um leve sorriso brincalhão que surgiu em seus lábios ao agradecer a si mesma por deixar o maço de cigarros escondido em seu quarto e não ter o levado para a escola.
Caminhou com passos rápidos, olhando ao redor, absorvendo todos os detalhes que podia. Em suas mãos tinha um papel em que imprimira seus horários que lhe disponibilizaram por e-mail.
Algo que poucas pessoas sabiam sobre – não porque ela escondia, mas sim porque nunca passava pela cabeça delas -, era o fato de que todas as suas classes eram classes honorárias. Inglês, história, ciências, matemática, espanhol, em todas participava das classes avançadas, sempre com as melhores notas.
Não era algo difícil, na verdade, pelo menos não mais. Talvez antes, quando ela era lotada de amigos e não dava a mínima para nada além das besteiras que faziam. Era mais fácil achar tempo e foco para estudar quando não se tem nada ou ninguém para te distrair.
Ao virar uma esquina, alguém trombou no ombro de com força. O corpo dela foi jogado para trás, mas ela se manteve em pé, diferente da outra pessoa que caiu com as nádegas no chão.

- Ai! – exclamou uma voz feminina. olhou para a origem do som e se deparou uma menina com os cabelos negros crespos afro arrumados em dois pompons na cabeça, vestindo uma blusinha azul clara com um arco-íris estampado e saia e sapatos da mesma cor.

Monocromática como , ela era basicamente uma versão humana da Lindinha do desenho Meninas Superpoderosas: pequena, feminina e azul.

- Desculpe, não te vi – disse estendendo-lhe a mão para ajudá-la a se levantar. Os olhos da menina se arregalaram quando a viram, mas ela aceitou sua ajuda. As pessoas geralmente assumiam o pior de sua personalidade ao observarem o modo como se vestia, evitando falar com ela mais do que o necessário. A estranha, ao contrário, agarrou sua mão e sorriu abertamente, mostrando que sua aparência não a intimidava e isso fez com que gostasse dela automaticamente.

Era levemente surpreendente, já que a menina se vestia exatamente como as pessoas que evitavam como se ela tivesse uma doença contagiosa, mas não estava reclamando.

- Tudo bem, também estava distraída – respondeu ajeitando a saia. – Gostei do seu piercing no nariz.
- Obrigada, gostei dos seus brincos – respondeu apontando para as pequenas cerejas penduradas por cordinhas delicadas de ferro.
- Eu que fiz! – exclamou a garota com olhos brilhantes. Depois, olhou para o papel em sua mão e enrugou o nariz. – Será que você conseguiria me ajudar a achar minha sala? Estou perdidinha.
- Eu sou nova e tão perdida quanto você – respondeu com um semblante sério, mas uma voz calma.

Antes que pudesse ter uma resposta, contudo, uma voz soou pelos alto falantes dos corredores.

- Lembrando a todos os alunos que haverá, antes do almoço, uma reunião com toda a comunidade escolar dentro do ginásio. A presença de todos é requisitada.
- Aí que ótimo – chorou a menina desconhecida enquanto fazia beicinho. – Mais um lugar para que eu me perca para sempre enquanto procuro. Bem, desculpe novamente pelo trombo. Tchauzinho!

Ela saiu correndo e seguiu seu caminho, rindo consigo mesma de como, depois do tagarela do avião e do bonitão da lanchonete, ela era a pessoa mais peculiar que já conhecera. Achou, em seguida, a sala de aula de sua classe de história e entrou. Era pequena, como a maioria das classes honorárias eram. Com apenas vinte alunos, que já estavam todos presentes e se silenciaram mortalmente quando entrou.
segurou a vontade de revirar os olhos e procurou por um assento vazio. Havia um ao lado de um garoto vestido com uma jaqueta do time de futebol, de ombros enormes e feições familiares, mas ela preferia arrancar um de seus dentes do que se sentar ao lado dele, principalmente por causa da forma como ele olhava para a pele exposta entre a calça e blusa que ela vestia. , então, foi até o segundo lugar, ao lado de uma menina com cabelos lisos e compridos e enormes óculos cor-de-rosa, que apertava as próprias mãos nervosamente sobre seu colo.
Os olhos da menina se arregalaram quando sentou-se ao seu lado, como se a última coisa do mundo que esperasse é que a garota de aparência roqueira a escolhesse. Esse tipo de reação nunca passava despercebida por e era extremamente comum. Todos sempre possuíam essa primeira impressão sobre ela. Geralmente tirava proveito da situação e permanecia quieta e misteriosa, com uma áurea que impedia a aproximação dos colegas de turma.
Mas ela havia pensado muito sobre isso ao se mudar e estava disposta a tentar algo diferente. Não iria entrar para o jogo de popularidade e com certeza não fingiria ser o que não era a fim de agradar as mentes pequenas do ensino médio, mas esse era o seu último ano e ela estava sozinha, mais do que já esteve na vida. Ela precisava de um ombro amigo para que não enlouquecesse, principalmente por estar sem sua mãe ao seu lado. E sabia que Darla adoraria vê-la socializando, então prometeu a si mesma pelo menos tentar, nem que seja apenas um pouco.

- Gostei da saia – murmurou olhando pelo canto do olho a peça de roupa cor de bordo que ia até o meio das coxas da desconhecida.
- Oh – exclamou a menina olhando para o pedaço de roupa e passando os dedos por ela, extremamente surpreendida. – Obrigada. Gostei dos seus sapatos.
- Valeu – respondeu com um leve sorriso encorajador. As duas permanecerem em silêncio, com os cotovelos apoiados no apoio das costas da cadeira, até que a menina murmurou timidamente:
- Meu nome é Julie. Julie Filmore.
- – respondeu com um leve sorriso gentil. Os olhos da menina caíram sobre seus piercings e quase riu. – .
- Prazer – respondeu Julie ajeitando os óculos. – Nome legal.

A professora chegou nesse momento e pode perceber que todos da sala tinham os olhos colados nas duas. Com um último sorriso leve para a nova colega, virou-se para a lousa e ficou quieta pelo resto da aula.

✋🏼🎨💬

- Sempre me disseram que a professora Parkinson era rigorosa, mas eu não esperava tanto assim. Já estou passando mal só de pensar no resto do semestre.

apenas concordou com a cabeça, avaliando todos os trabalhos e projetos que teria que produzir. A professora com certeza era maluca da cabeça, mas a aula não fora uma completa tortura. Julie era extremamente inteligente e esforçada e possuía anotações tão completas que ficou de queixo caído. Ela era engraçada também, principalmente pelo fato de que não tentava o ser.

- Que aula você tem agora? – perguntou Julie olhando seus horários.
- Inglês.
- Oh, eu tenho o clube de debate – disse a nova amiga parecendo desapontada de que as duas se separariam. Isso fez com que se sentisse mais leve, pois eram poucas as pessoas que pareciam desapontadas quando ela partia.
- Você participa do clube de debates? – perguntou se arrependendo levemente ao ver as bochechas de Julie corarem. – Ei, é bacana. Acho incrível qualquer um que consiga debater sem chorar.

Isso tirou uma risadinha dela, que sorriu e disse:

- Não é a coisa mais popular por aqui, mas me divirto bastante, então...

Ela encolheu os ombros e o segundo sinal para o começo das próximas aulas tocou. Já atrasada, exclamou:

- Merda, preciso ir. Te vejo depois?
- Oh, claro! – disse Julie parecendo surpresa e feliz de que queria a ver depois. Não a conhecia a muito tempo, mas chutaria que era tão impopular quanto ela e, por isso, também apreciava o fato de que fizera pelo menos uma amizade no primeiro dia de aula. – Te vejo depois!

Chegando em sua sala de inglês, suspirou ao perceber que a porta já estava fechada. Abrindo-a, controlou novamente a vontade de revirar os olhos ao ver todos olhando para ela com olhares surpresos.

- Ah, você deve ser a senhorita ! – exclamou seu professor utilizando o sobrenome de seu pai. – Vou perdoar esse atraso porque sei como é fácil se perder nesses corredores. Pode se sentar, por favor.

Havia mais lugares vagos nessa classe do que na outra, então foi mais fácil encontrar um lugar em que se sentaria sozinha. Por um segundo seus olhos passaram por uma menina ruiva utilizando o uniforme das líderes de torcida da escola, mas ela parecia tão apavorada ao olhar para , que apenas preferiu sentar-se em uma das cadeiras do fundo, sozinha.
E assim se seguiu até a última aula antes do almoço. se sentaria sozinha, ignorando os olhares surpresos, os sussurros mal escondidos ou as piscadelas de garotos com a mínima noção do ridículo. Sabia que parecia exatamente o estereótipo que todos viam: a garota de preto, sozinha e mal-humorada, que provavelmente se afundava em drogas e sabe-se lá por que razão estava participando das classes honorárias. Mas não era intencionalmente que isso acontecia, pelo menos não a maioria das vezes.
Ela era mal-humorada e sozinha, mas simplesmente porque havia aprendido, há muito tempo, a não engolir a besteira alheia. Fora isso, não tinha problemas em conversar com as pessoas. Como com Julie, se o outro estivesse disposto a falar, ela falaria também, dando em troca toda a educação que recebia. A diferença é que não corria atrás de ninguém – pelo menos não mais – e com certeza não fazia mais questão de ser amada por todos. Se não quisessem lhe dar uma chance, então o problema não era dela. E se a tratassem de forma desrespeitosa, bem, como dizia sua mãe, que Deus os protegesse.
Trombou novamente com a menina de azul enquanto seguia a multidão de alunos até o ginásio. Foi abordada por ela, que abraçava cadernos com estampas de bichinhos de pelúcia contra o peito.

- Oi! – disse a menina acompanhando seu passo. deu-lhe um sorriso leve e um aceno de cabeça em resposta. – Percebi que não me apresentei corretamente naquela hora. Desculpe. Estava tão louca que nem prestei atenção. Sou Cindy Nixon.
- – respondeu apertando a mão dela.
- Que nome legal – Cindy elogiou. – Se importa se eu andar com você? Não conheço ninguém aqui e sou um pouco ansiosa em conhecer pessoas novas.
- Tem medo de que elas sejam más com você? – perguntou conhecendo muito bem o sentimento.
- Não consigo evitar – disse Cindy parecendo envergonhada. – Pessoas do ensino médio podem ser bem cruéis.

E bota crueldade nisso.

- E eu não seria má? – perguntou genuinamente curiosa. Geralmente a primeira impressão de que ela passava era justamente o oposto.
- Eu trombei com você e a primeira coisa que você fez foi pedir desculpas – avaliou Cindy. – Acho que nosso santo bateu, se isso faz sentido.
- Vamos formar uma dupla esquisita, sabe disso, não é? – brincou enquanto as duas chegavam às portas do ginásio. Enquanto ela era pontiaguda e durona, com sapatos pesados e maquiagem preta, Cindy era leve, feminina, gentil e adorável.
- Os opostos se atraem! – sorriu dando uma risadinha em seguida e fazendo seus brincos balançarem de um lado para o outro.

O ginásio era enorme, maior do que qualquer um que já tivesse visto. Arquibancadas cobriam as laterais, separadas pelas portas de entrada e saída e pelos vestiários. No centro, uma longa quadra com chão especial para basquete, assim como cestas uma de cada lado. Havia um pequeno palquinho colocado ali, com um homem de meia idade segurando um microfone.
e Cindy se sentarem nos bancos do centro de uma das arquibancadas e esperaram. Diferente da amiga, que parecia tão animada quanto um cachorrinho em um parque, apenas encostou-se em seu lugar e permaneceu silenciosa.
Julie apareceu alguns segundos depois, parecendo tímida e hesitante em se aproximar. sorriu e acenou para ela, o que a fez vir com mais confiança. Ela havia notado isso sobre Julie. Ela parecia genuinamente gostar de , mas parecia tímida demais para se aproximar, como se achasse que estava incomodando.

- Oi – murmurou com um leve sorriso e aceno.
- E aí – disse indicando a amiga ao lado. – Julie essa é Cindy, Cindy essa é Julie.

As duas se cumprimentaram e sorriu ao ver como passaram a elogiar a roupa uma da outra. Ela permaneceu silenciosamente no meio das duas, ouvindo-as conversar, até que uma voz masculina surgiu e disse:

- Vocês são o trio mais esquisito que já vi na minha vida.

O garoto que disse isso era alto, bonitão e com cabelos compridos presos em um rabo-de-cavalo embaixo de um boné vermelho. levantou uma sobrancelha para ele e debochou:

- Uau, muito gentil da sua parte dizer isso. Nós três, na verdade, nos juntamos apenas para chamar a sua atenção.
- Adrien, cale a boca – disse Julie. Foi a primeira vez que a vira agir como algo além de extremamente tímida. – Perdoem o meu vizinho, ele é um babaca.

Adrien não parecia afetado pelas palavras das duas. Sorriu, pegou a mão de Cindy e plantou um beijo suave na pele. Com um sorriso paquerador que fez com que a menina corasse e desse uma risadinha, disse:

- Mademoiselle.
- Ugh, que ridículo – rosnou Julie ao lado de , que se impressionou com sua raiva. – Ele nem é francês.

Ele tentou pegar a mão de , mas ela a afastou com um sorriso zombeteiro.

- Não obrigada, tenho fobia de germes.
- Se acha que está me assustando saiba que está enganada – disse ele com um sorriso brincalhão. – Gosto das malvadas. Se me der uma chance, posso provar.
- Não teria graça nenhuma – respondeu ela dando-lhe um sorriso malicioso em troca. – Eu comeria você vivo.

Ela o observou se sentar ao lado de Julie e sorrir para ela, recebendo um rolar de olhos em resposta. Riu para si mesma, impressionada pelo fato de que não o odiava. Deveria, pois esse tipo de pose paqueradora nunca a conquistou, mas pode sentir, lá no fundo, que ele estava tentando criar uma imagem de si mesmo que não era real. Era fácil para ela reconhecer isso já que era uma especialista na prática.

- Sejam todos muito bem-vindos! – exclamou o homem do microfone quando todos os alunos chegaram e se acomodaram. – Eu sou o diretor, senhor Walker e estou muito feliz de estar aqui com vocês para mais um ano letivo.

Ele continuou falando, assuntos que já conhecia. Contou a história da escola, de toda comunidade escolar, disse que seria um ótimo ano de aprendizado, a faculdade estava chegando, esperava um bom comportamento deles e toda a baboseira de sempre.

- Lembrando também aos novos alunos que, além da grade, é preciso que escolham pelo menos uma aula extracurricular para ter ao longo do semestre. É obrigatório para a sua formação. Além disso, vale lembrá-los que em novembro teremos a confraternização das dez melhores ligas de futebol americano escolar do país! Então espero, como todos os anos, o melhor comportamento por parte de vocês em relação às outras ligas que receberemos aqui.
- Você tem ideia do que vai fazer? – sussurrou para Cindy, com os cotovelos apoiados um de cada lado em seu assento.
- Eu não vi as atividades extracurriculares deles, mas eu fazia aula de artes no meu antigo colégio e adorava – respondeu. – Acho que vou continuar fazendo, foi onde aprendi a fazer meus brincos.
- E agora, as meninas da torcida tem um recado para nós! – exclamou o diretor com um sorriso no rosto e puxando aplausos dos alunos. Cindy aplaudiu animadamente, nem sequer se mexeu.

Um grupo de líderes de torcida entrou na quadra, gritando e chacoalhando seus pompons. Os alunos mais antigos se levantaram, batendo palmas e comemorando escandalosamente. Adrien fez o mesmo e Julie rolou os olhos tão forte que achou que ela fosse estourar uma córnea.

- Boa tarde, comunidade John Leonard! – gritou no microfone uma belíssima líder de torcida com longos cabelos pretos e sedosos, pele oliva e olhos escuros. reconheceu uma das líderes de torcida ao lado dela como a ruiva com quem compartilhava as aulas de inglês e que a olhava como se ela fosse a personificação do próprio diabo. – O nosso time preparou uma apresentação muito especial para dar as boas-vindas a todos! Vamos lá, Lancers!
- A mascote do colégio é uma armadura medieval? – questionou franzindo o nariz.
- É melhor do que na minha antiga escola – contou Cindy encolhendo os ombros. – A nossa era uma galinha.

Elas começaram a dançar, mas deixou de prestar atenção. Na lista das coisas que mais odiava, abaixo de tópicos como “meninos de sorriso bonzinho” e “chuva”, estava “luta por popularidade” e “besteiras de torcida”, então preferiu ignorá-las e olhar em volta, avaliando os alunos.
Seus olhos passaram a multidão, observando os jogadores de futebol com suas jaquetas enormes e sorrisos gigantescos. Também observou os alunos novos, claramente perdidos, assustados e impressionados, até que seus olhos foram passando de nuca em nuca, caindo sobre uma ligeiramente familiar.
prendeu a respiração sem perceber.
Não, não era possível.
E como se pudesse sentir seu olhar, o dono daqueles belos ombros virou o rosto na direção dela e seus olhos se encontraram.
O bonitão da lanchonete.
.
Ele olhou para ela surpreendido por alguns segundos. Depois, seus olhos avaliaram o rosto dela, observando seus piercings, sua maquiagem, para então toda a sua silhueta e ele sorriu. Sorriu, um sorriso enorme e lindo, acompanhado de olhos brilhantes e divertidos, que fizeram com que ela prendesse ainda mais o ar.
Merda.
Olhou para o outro lado, mas não se aguentou por muito tempo. Voltou os olhos para ele novamente e não havia se mexido, apesar de seu sorriso estar maior. Ele ergueu a mão e acenou e abaixou na arquibancada, tentando sair de seu campo de visão.

- Quem é esse? – sussurrou Cindy com o queixo levemente caído enquanto olhava para ao longe.
- Ninguém – murmurou voltando seus olhos para as líderes de torcida.
- Ele é lindo – continuou a amiga com um sorriso malicioso. – E está acenando para você.
- Não faço ideia do porquê, deve ser um engano – respondeu. Cindy acenou de volta para e bateu em sua mão. – Não acena para ele.
- O que é que vocês duas estão cochichando aí? – perguntou Julie se inclinando para elas. Adrien se inclinou também, sobre o ombro dela e notou, por um milésimo de segundo, que ele olhou para Julie pelo relance do olho.
- Aquele bonitão está acenando para a – entregou Cindy apontando para ele sem disfarçar. Os dois olharam para onde apontava e Julie voltou os olhos para com o queixo caído.
- De onde você conhece ? – perguntou assombrada.
- Eu não o conheço. Cindy só está criando fanfics na cabeça dela – respondeu entre os dentes.
- Bem, ele parece conhecer você pelo jeito que está olhando para cá – disse Cindy com um sorriso malicioso.

foi salva de responder pelo estrondoso som de aplausos que se seguiu após a apresentação das líderes de torcidas. O diretor os dispensou para o almoço e levantou-se rapidamente, arrumando a mochila sobre os ombros e dando o fora o mais rápido que conseguiu.
Os novos amigos tentaram acompanhá-la, mas não diminuiu o passo. Passando pela multidão de alunos, tentou ao máximo apaziguar os próprios pensamentos. O que ele estava fazendo ali? Era para ela nunca mais vê-lo. Por isso flertou de volta, por isso abriu-se levemente ao sexo oposto pela primeira vez em dois anos. Nunca mais devia ver ele e seus olhos quentes.
E como se o conjurasse, brotou na frente dela, alto, rápido e sorridente, fazendo-a parar abruptamente no meio do corredor.

- Oi – ele acenou com um olhar divertido.
- Oi – ela vocalizou um pouco sem ar.
- Tentei te encontrar lá no ginásio, mas você sumiu – sinalizou ele. Depois, curvou o tronco, aproximando o rosto do dela (longe apenas o suficiente para ela ainda ver suas mãos) e levantou uma sobrancelha. – Parecia que estava fugindo de mim ou algo assim.
- Ou algo assim – respondeu ironicamente imitando a expressão no rosto dele. – É hora do almoço e estou morrendo de fome, então a menos que você seja a péssima comida vegetariana da cantina, não estou interessada.

Ela continuou a andar e viu como ele a seguiu, ao seu lado, ainda com um sorriso no rosto. Cindy, Julie e Adrien os alcançaram e seguiram atrás silenciosamente.

- Algo engraçado? – perguntou levemente raivosa. O sorriso de aumentou.
- Me divirto ao seu lado – sinalizou charmosamente.
- Oi! – exclamou Cindy erguendo a mão para , que a apertou com um sorriso. – Sou Cindy.
- – respondeu ele pela linguagem de sinais, mas dublando a palavra com os lábios, para que ela entendesse.
- Oi, – disse Julie recuperando a postura tímida. – Não sei se lembra de mim, nós fizemos álgebra juntos no ano passado...
- Julie! – ele sinalizou, soletrando o nome dela com um sorriso gentil, pegando a mão dela para cumprimentá-la. Depois, sinalizou algumas coisas que apenas entendeu.
- Ele disse que se lembra de você tirar as maiores notas – traduziu vendo como as bochechas da amiga coraram com prazer.
- Sou Adrien Rodriguez – disse Adrien apertando a mão de também.
- Eu sei. Você faz as melhores festas – sinalizou com o traduzindo em seguida. Adrien pareceu feliz e voltou-se para Julie, dizendo:
- Viu? Você é a única que não gosta das minhas festas.
- É difícil gostar delas quando um bando de idiotas vem cair na sua varanda bêbados às três da manhã – retrucou Julie com uma carranca mal-humorada.

O grupo continuou indo em direção a cantina, com se destacando como um diamante em um saco de carvão. Com suas roupas impecáveis e sorriso de canto de boca, pode notar que todos os estudantes que passavam jogavam um olhar para ele mesmo que de relance como se fossem naturalmente atraídos para a sua pessoa.

- Deve ser difícil ter que falar na língua de sinais quando poucas pessoas entendem – comentou ela.
- Um pouco – sinalizou ele com um olhar pensativo. – Eu tenho um intérprete, mas ele apenas me acompanha nas aulas. O resto do tempo eu tento me virar.

Quando chegaram às portas do refeitório, a surpreendeu levemente. Ele parou e entendeu que não os acompanharia mais.

- Você não vai comer? – perguntou despretensiosamente.
- Eu tenho um compromisso – ele sinalizou parecendo decepcionado. Depois, sorriu para ela e acenou novamente, dizendo: - Espero te ver novamente.

E como no dia que se conheceram, ela respondeu:

- Quem sabe.

O sorriso dele ficou maior e, com um aceno, foi embora. abriu a porta do refeitório e observou como ele era exatamente como imaginava: enorme, lotado e barulhento.

- Achei que ele fosse comer com a gente – comentou Cindy. – Ele parecia tão interessado em falar com você.
- nunca come no refeitório – contou Julie. – Ele costumava, há uns três anos atrás, quando andava com a Cynthia e o grupo dela, mas parou depois...

Ela se calou em seguida, como se não fosse adequado continuar. tinha a sorte de Cindy estar lá, pois ela fazia todas as perguntas que não tinha coragem de perguntar.

- Depois do que?
- Bem, depois do acidente que ele teve – disse Julie parecendo apreensiva. – Ninguém sabe muito bem o que rolou, na verdade. Só que ele desapareceu por um tempo e se espalhou uma história de que teve um acidente. Quando voltou estava sem voz e distante de todo mundo. Agora ele só... Fica na dele e almoça sozinho fora da escola.

Um grupo de garotos em uma mesa chamou a atenção de Adrien, que acenou para eles de volta. Com uma careta teatral, ele disse:

- Bem, senhoritas, infelizmente terei que deixá-las. Por favor não chore, Julie. Eu ainda estarei lá, na janela ao lado da sua, vendo seus pijamas ridículos e ouvindo seu péssimo gosto musical.

Ele virou as costas e as deixou. Cindy foi a primeira a falar.

- Ele é engraçado.
- Ele é um idiota – rosnou Julie apertando os olhos.
- Ele só está encenando – completou olhando ao redor e procurando uma mesa vazia. Quando se sentaram, Julie a colocou contra a parede:
- Você disse que não o conhecia!
- E não conheço – rebateu percebendo que não parecia convincente. – Nós nos encontramos uma vez na fila do Dunkin’ Donuts e eu traduzi o pedido dele para a atendente.
- Bem, do jeito que ele te olhou não parecia que você só o ajudou a fazer um pedido – brincou Cindy sorridente.
- é um cara legal – contou Julie como se achasse que estivesse relutante pela chance de ele não o ser. – Ele é provavelmente uma das pessoas mais populares da escola, mas não é como a Cynthia e os jogadores de futebol que vivem para isso. Ele é muito quieto e reservado e todo mundo gosta dele, até os professores. E ele é legal com todo mundo, sem exceção.
- Será que podemos falar de outra coisa que não seja esse cara? – chorou enquanto comia a salada murcha do refeitório.

Cindy mudou de assunto, perguntando quando ela havia aprendido a falar a língua de sinais e o almoço se seguiu sem que entrasse nos tópicos novamente. sorriu ao longo do tempo, apreciando a sensação de ter amigas novamente – amigas de verdade, dessa vez.

✋🏼🎨💬

- Então... – disse Christopher no meio do jantar, quebrando o silêncio que era apenas coberto pelos sons dos talheres. – Como foi a escola?

Ele olhou principalmente para , mas foi Michael quem respondeu, antes mesmo de engolir sua macarronada.

- Foi legal! Nós passamos a maior parte do tempo no Clube de Ficção Científica e estou na mesma turma dos meninos na maioria das aulas.

nem ao menos conteve o sorriso que cresceu em seus lábios. É claro que ele fazia parte de um clube de ficção científica.

- O pequeno Johnny já tirou o aparelho dos dentes? – perguntou Trinity com um sorriso carinho.
- Ainda não, mas já não aguenta mais usar.
- E as aulas de inglês, como estão? – perguntou Christopher.
- Chatas como sempre – respondeu Mike torcendo o nariz. – A professora quer que a gente faça um resumo de um livro. Um livro inteiro!
- Você não gosta de ler? – perguntou antes de dar um gole em sua água. Viu como Mike fez beicinho e respondeu:
- Não, eu prefiro os filmes. Livros são chatos.
- sempre adorou ler – comentou Christopher olhando para a filha de relance. preferiu ignorar seu comentário e o fato de que sabia algo assim sobre ela.
- Posso te apresentar algum livro legal, de ficção científica ou fantasia. Tenho vários.

Michael pareceu animado com a ideia, simplesmente pelo fato de que a nova irmã, mais velha, engraçada e intimidadora, estava disposta a dividir algo com ele, que nunca foi dos mais populares.

- Você já leu Harry Potter? Ou conhece os filmes?

Mike negou com a cabeça e riu pelo nariz.

- É por isso que não gosta de ler.
- E você, ? – perguntou Christopher olhando para ela. – Como foi na escola?

apenas encolheu os ombros.

- Tudo bem – respondeu simplesmente.
- Suas aulas ocorreram bem? Fez algum amigo?
- Foi tranquilo.

O silêncio voltou a reinar e podia sentir os olhos de Michael passando entre ela e o pai, como se assistisse a um jogo de ping pong. Pensou se deveria se sentir mal por não se abrir, mas era simplesmente esquisito demais, de repente, ter seu pai à sua frente, perguntando-lhe coisas tão caseiras.
Não houve interesse por parte dele em saber sobre sua vida escolar por doze anos, então mais um ano sem conhecimento acerca do tema não o faria mal.

- vai para a mesma escola que você – disse Trinity tentando quebrar o silêncio. – O jovem que cuida de Michael quando não estamos.

se engasgou com a água que tomava, tossindo com tanta força que lágrimas brotaram em seus olhos.
Quem?

- Quem? – perguntou tentando recuperar o fôlego. Ela provavelmente ouviu errado.
- ! Ele é filho de uma amiga nossa e trabalha como a babá de Michael quando precisamos. Ele é um garoto ótimo, muito divertido e Michael o adora.

A cabeça de estava girando. Não era possível. O mundo não podia ser tão pequeno assim. O universo não podia odiá-la dessa forma.

- Acho que o vi... Talvez – murmurou bebendo um gole de água enorme para tentar distrair-se e aliviar o ardor na garganta proveniente da forte tosse que tivera.

Deus, você só pode estar brincando com a minha cara.

- fala pela língua de sinais – contou Michael animadamente. – Ele está me ensinando algumas coisas, é super legal.
- A avó materna de é surda – contou Christopher olhando para ela com olhos brilhantes. – Sua mãe deve ter te ensinado a falar, ela me ensinou muitos sinais também.
- Ela ensinou – respondeu sentindo a garganta fechar. – E vovó era surda, ela morreu alguns anos atrás.

O silêncio se alastrou novamente e a expressão no rosto dele dedurou o fato de que ele não sabia dessa informação.

- Isso é uma pena – disse com olhos e voz tristes. Era como se ela pudesse ver a tristeza o consumindo bem na sua frente. – Sua avó era... A melhor pessoa que já conheci. Era como uma mãe para mim.

De repente, aquilo era demais para lidar.
Ele não sabia do ocorrido por que não estava lá, secando as lágrimas dela, sendo o apoio de Darla, que teve o coração partido com a morte de sua mãe. Ele devia ter estado lá, mas não estava e ela sentiu tanta raiva que era como se fosse capaz de explodir como uma granada, quebrando tudo ao seu redor.

- Obrigada pelo jantar, Trinity – disse levantando-se da mesa. – Mas estou sem fome.

E saiu, trancando-se no quarto, não falando com mais ninguém e permanecendo ali até o dia seguinte.

Capítulo 3 -



As vezes era difícil demais olhar para a mãe dele. Era isso que se passava pela mente de enquanto estava encostado do lado de fora da porta do escritório dela, tomando coragem para bater. Era difícil olhar para ela por várias razões, mas principalmente porque conseguia ver o quão difícil era para ela olhar para ele.
Sua mãe nunca foi de dar-lhe muita atenção. Era a realidade e estava acostumado com tal. Ele podia contar nos dedos as vezes em que ela realmente olhou para focando sua atenção em algo além de seu trabalho. Mas agora, mesmo depois de três anos, ela ainda era incapaz de olhá-lo de verdade, quase como se isso a causasse dor física.
Bateu na madeira cara com os nós dos dedos e esperou. Ela sempre ouvia, mas demorava a responder. O que quer que estivesse fazendo com certeza era mais importante.

- Entre – disse a voz familiar do outro lado. entrou e reconheceu os olhos por trás dos óculos, que o observaram apenas por um segundo antes de voltar para os documentos em cima da mesa. Ela nunca olhava para ele por mais tempo que isso. – , querido, o que foi?

Ele mostrou-lhe a tela do celular, onde já havia escrito o que precisava dizer: “O senhor me chamou para cuidar de Mike hoje à noite. Tudo bem para você?”.
Lauren olhou para a tela do aparelho e depois de volta para os papéis, dizendo enquanto escrevia:

- Não achei que eles fossem precisar mais de você. A filha dele não estava se mudando? Lydia ou algo assim?

Ele digitou a resposta: “O nome dela é . Ela já se mudou, mas não me importo em ir lá. Mike gosta de mim, eu gosto dele e talvez seja legal conhecê-la e apresentar-lhe a cidade”.
ficou com o celular estendido por alguns segundos, até que ela voltasse a atenção dos papeis para ele novamente. Não conseguia chamá-la de maneira vocalizada e a irritava quando tentava chamar sua atenção com as mãos ou quando a cutucava, então apenas esperou.

- Bem, tem razão. Estou olhando as melhores faculdades de negócios e gestões empresariais para você e se Christopher escrevesse uma boa carta de recomendação te colocaria dentro em um instante. Pode ir, querido. Faça-o feliz, vire amigo da filha dele se necessário. Ótima ideia.

controlou o impulso de suspirar tristemente, apenas virando de costas e a deixando para trás. Não perderia tempo tentando explicar à ela que não ia na casa dos para ganhar cartas de recomendação para prestar cursos que não queria fazer em faculdades que não queria ir. Ia porque gostava do filho deles e não suportava ficar ali, na casa enorme e fria em que moravam.
Mas Lauren não o ouviria, então se poupou de maiores esforços.
Pegando sua mochila, saiu da casa e sorriu ao ver o motorista, Carter, o esperando no carro. Com um sorriso, o homem mais velho levantou as mãos e disse em língua de sinais:

- Boa tarde, ! Como você está?

Seus dedos sinalizaram de uma maneira levemente confusa e trêmula, mas não pode deixar de abrir um enorme sorriso para o esforço que Carter estava fazendo para aprender a língua de sinais desde que ele perdera a voz. Seu peito doeu um pouco ao pensar como a mãe não sabia nem ao menor dizer o próprio nome e nem fazia questão.

- Falei bem, não falei? – exclamou o motorista com um sorriso enquanto entrava no carro. – Andei treinando.

Em resposta deu-lhe um sorriso enorme e um polegar para cima. Depois soletrou o nome de Mike com os dedos, o que já havia ensinado à Carter, para que soubesse para onde levá-lo.

- E a escola, está boa? – perguntou o motorista enquanto dirigiam até lá. estava sentado ao lado dele, ao invés de ir atrás. Sua mãe não aprovaria, mas ela não estava lá para censurá-lo, então aproveitou o momento.

colocou o polegar para cima, para depois fazer uma careta cansada e fingir tirar o suor do rosto. Isso era mímica e não língua de sinais, mas Carter conseguia chutar melhor o que ele dizia daquela forma, já que conhecia ainda muito pouco da língua.

- Cansativo, hein? Ser um sênior dá trabalho mesmo – comentou o motorista com um olhar simpático. – Eu lembro da minha época. Jogar no time, passar nas provas, ir ao baile, me inscrever na faculdade. Sua mãe continua com a conversa de virar empresário?

revirou os olhos e bufou, fazendo com que Carter franzisse as sobrancelhas.

- Você ainda tem tempo de convencê-la, não se preocupe. Talvez até a formatura ela desista dessa ideia maluca.

duvidava muito disso, então preferiu responder apenas com um sorriso suave. Sua mãe havia planejado cada aspecto da vida dele desde muito antes de nascer, mas tudo ficou pior depois do acidente. Ela se agarrou a esse sonho de vê-lo seguir seus passos com tanta força que apenas não tinha mais energia para lutar contra ela.
Vestia as roupas que mandava, ia nos encontros que marcava, sorria e apertava as mãos dos contatos que ela queria que fizesse e, pouco a pouco, ia esquecendo do que gostava, do que queria e de quem era.
Ele se permitia pequenos momentos de rebeldia, contudo, como quando se matriculou para as eletivas de artes que sua escola disponibilizava. Sentia falta da pintura, de ver a tinta colorindo a tela branca, dando-lhe vida e uma história. Não conseguia pintar em sua casa há muito tempo, principalmente por não ver mais inspiração em lugar nenhum, principalmente dentro de si mesmo.
Os pensamentos acerca de sua própria rebeldia levaram a mente de para uma certa pessoa. Um sorriso brotou em seus lábios ao pensar em botas de combate, calças pretas apertadas, deliciosos lábios carnudos e olhos inteligentes e desafiadores.
.
Um sorriso cheio de dentes abriu-se em seus lábios enquanto pensava no encontro em que tiveram na primeira aula de biologia do semestre. Lembrou-se de entrar e vê-la ali, sozinha em uma mesa, com os olhos fechados, os fones de ouvido nas orelhas e as roupas apertadas moldando a silhueta.
Nunca fora permitido para ele xingar, mas puta que pariu, devia ser ilegal ser bonita desse jeito.
Aproximou-se com um sorrisinho no rosto e mexeu na cadeira para chamar a atenção dela. Seria mais fácil cutucá-la, mas tornou-se um hábito não o fazer graças à sua mãe.
abriu os olhos e teve que se conter para não sorrir ainda mais quando viu o reconhecimento e a surpresa no olhar dela. Tirando um dos fones de ouvido, ela levantou uma das sobrancelhas e disse:

- Que foi? Tá perdido?

Ainda em seus pensamentos, não conseguiu controlar uma risadinha silenciosa, que balançou seus ombros levemente, chamando a atenção de Carter.

- Que sorriso é esse?! – perguntou o motorista abrindo um sorriso brincalhão. – Ah, mas eu conheço um sorriso assim. Quem é a pessoa?

apenas encolheu os ombros, despretensiosamente, mas ainda sorria com o canto da boca. Carter sorriu com ele e também encolheu os ombros.

- Tudo bem, mantenha os seus segredos para você – brincou. – Mas espero um dia conhecer a pessoa que está te deixando com essa cara boba.

também esperava, mas ele via algo mais brilhar nos olhos de , além da esperteza e da personalidade forte. Talvez medo, talvez desconfiança, ainda era cedo demais para dizer, mas ele queria descobrir. Ter uma aula junto dela fora uma experiência interessante. Era difícil prestar atenção no que o professor dizia quando todo movimento que ela fazia acabava por fazê-lo perder a concentração.
Joseph, seu intérprete, também percebeu. Em um certo momento, enquanto faziam exercícios em silêncio, ele lhe sorriu maliciosamente ao ver olhou pela quadragésima vez para , pelo canto do olho.

Tirando-o de seus devaneios, Carter estacionou na frente da casa dos e eles se despediram.

- Me mande uma mensagem quando quiser que te busque! – exclamou acenando enquanto se afastava. acenou da calçada e depois se voltou para a casa, sorrindo. Ele sempre gostou da casa deles e da forma como viviam. Eram tão ricos quanto sua família, mas não tinham motorista, cozinheira ou empregados domésticos. Cuidavam da casa e de Mike como uma família comum e isso era algo que nunca teve a chance de experimentar, mas sempre quis.

Atravessando a cerca branca e subindo as escadas da varanda, tocou a campainha e esperou com um sorriso nos lábios ao ouvir uma voz infantil gritando:

- Eu atendo! Eu atendo!

A porta se abriu e sorriu ainda mais ao dar de cara com olhos brilhantes e cabelos loiros familiares. Na língua de sinais, Mike disse:

- Oi ! Tudo bem? – E depois sorriu, esperando sua aprovação. estava ensinando a língua para ele desde o acidente e o garoto aprendia rápido.
- Muito bem! – sinalizou antes de bagunçar os cabelos do menino com os dedos. – Você é muito bom, suas expressões faciais estão bem melhores.

Não existem sinais para pontos de interrogação ou exclamação na língua de sinais. As expressões faciais ditam se o que se está sendo dito é uma afirmação, uma pergunta, se é dita com raiva, amor ou tristeza. Mike era bem expressivo e isso o ajudava.
Utilizando o celular, ele escreveu e mostrou para o garoto:
O que quer fazer hoje?”.

- Como eu digo “quero assistir um filme”? – perguntou. sinalizou e ele tentou imitar com mãos um pouco confusas.

concordou com a ideia e em resposta, digitou e lhe mostrou no celular:
Vou no banheiro rapidinho. Pegue alguns salgadinhos para a gente enquanto isso”.
Subiu as escadas despretensiosamente, sentindo o celular que havia acabado de colocar no bolso, vibrar. Pegou-o na palma da mão, mas antes que pudesse ver o que recebera, um barulho chamou sua atenção.
A porta do banheiro se abriu, lançando um ar quente de banho para o corredor. notou um perfume familiar, que agraciava seu olfato nas aulas de biologia e notou silenciosamente quando uma linda figura saiu enrolada em uma toalha.
Não a reconheceu de primeira. A falta de roupas pretas e maquiagem pesada tornaram-na anos mais jovem, transformando sua pose, antes tão forte e marcante, quase delicada e gentil. Mas ela se virou para ele, arregalando os olhos pelo susto e reconheceu a cor que ali brilhavam.
Ele não poderia esquecer os olhos que pareciam ter sido tatuados em seu cérebro desde que a conhecera.
O que ela estava fazendo ali? Como...?

- Puta que pariu! – exclamou apertando a toalha mais forte ao redor de sua silhueta e se afastando alguns centímetros. – Pelo amor de Deus, você quase me matou de susto, porra!

riu de seu linguajar. Encontrar alguém como ela, que pouco se importava com a opinião dos outros sobre as roupas que vestia ou as palavras que usava, era refrescante, principalmente ao levar em consideração o tipo de pessoas com quem teve que se relacionar por toda a vida.
Ele a observou nesses três dias que passaram desde o primeiro dia de aula. Viu-a andando com Julie Filmore, uma garota muito gentil e inteligente, mas que com certeza não estava nem perto da lista de pessoas populares da escola e com Cindy Nixon, outra novata que era uma borboleta social, gentil e macia em todos os pontos que era durona e pontiaguda. Também observou como andava pelos corredores, de queixo erguido, quase como se desafiasse cada um que a olhasse de olho torto a dizer qualquer coisa e como vestia roupas cada vez mais rasgadas, pretas e coladas, mesmo que houvessem pouquíssimos alunos que compartilhavam de seu senso de estilo.
Seus antigos amigos nunca seriam capazes de tal proeza. Cynthia preferira comer vidro a aparecer no colégio de qualquer forma que não fosse impecável.
Ela andava com quem queria, vestia o que queria, dizia o que queria, vivia como desejava.
Sua mãe a odiaria.
a achava uma inspiração.
E aqui estava ela, olhando para ele com um semblante mal-humorado e finalmente entendeu quem realmente era. A filha de Christopher, a nova irmã de Mike, a garota mais bonita que ele já vira na vida e que ele teria agora contato quase constante.
Ele adorava o universo e o sentimento com certeza era recíproco.
Com o peito ainda levemente ofegante pelo susto, cobriu os lábios com os dedos, percebendo os xingamentos que lançara. Ignorando , andou até o topo da escada e gritou:

- Você ouviu o que eu disse?
- Ouvi! – respondeu Mike com uma voz que deixava claro que ele estava sorrindo.
- Não conta para a sua mãe! – respondeu ela aumentando o sorriso no rosto de . Depois virou-se para ele e franziu as sobrancelhas. – O que você está fazendo aqui?
- É noite de filme – sinalizou ele ainda com um sorriso no rosto.
- Merda, esqueci – respondeu ela fechando os olhos como se quisesse bater em si mesma. Depois pareceu notar que estava coberta apenas por uma toalha e corou tão levemente que quase não notou. – Vou por algumas roupas.

Ele não gostou da ideia de perder de vista suas pernas, tão bonitas que poderiam fazê-lo ter um ataque cardíaco, mas não disse nada. saiu apressadamente e a seguiu com passos largos e despretensiosos. Observando o quarto dela no batente da porta, segurou a risada ao ver quantidade de brilhos e babados.
Quando recolheu algumas roupas de uma gaveta e o percebeu ainda ali, sinalizou com um sorriso malicioso:

- Quarto legal, combina com você.

Ela lhe mostrou o dedo do meio e bateu a porta na cara dele. sorriu uma última vez e foi ao banheiro, onde também checou seu celular. Uma mensagem de Frank brilhou na tela.
“O idiota do meu irmão vai dar uma festa na sexta-feira. Por favor, venha. Eu preciso de pelo menos uma pessoa com personalidade na casa para passar por isso”.
torceu os lábios enquanto pensava no que responder. Ele não gostava mais de festas depois do acidente, principalmente depois de perder a voz. Quase ninguém falava a língua de sinais e era dificílimo participar de conversas em grupo tendo que digitar tudo que gostaria de dizer, principalmente se todos a sua volta estão bêbados demais para prestar atenção.
Mas seu melhor amigo o conhecia bem e quase como se lesse seus pensamentos, mandou outra mensagem dizendo:
“Eu estou implorando”.
Com um sorriso de canto de boca, respondeu:
“Vou pensar com carinho, prometo”.
Ele saiu do banheiro e esperou. Alguns minutos depois a porta de se abriu e ele deu de cara com a garota durona que conhecia. Ela estava sem as botas de combate e isso a fez ficar pelo menos seis centímetros mais baixa.

- Não sabe onde fica a sala? – perguntou ironicamente ao vê-lo a esperando. sorriu novamente ao segui-la até o andar debaixo. – Me perseguir nas aulas não é o suficiente para você? Tem que vir até a minha casa?
- Não é minha culpa que temos aula de biologia juntos – argumentou ele quando chegaram ao andar debaixo e ela já não estava mais de costas para ele. – Apesar de que não estou reclamando. A sua presença é sempre tão boa e reconfortante.

Ela percebeu a brincadeira em seus movimentos e expressão facial, cerrando os olhos de uma maneira carrancuda em resposta. Michael saiu da cozinha, passando por eles com salgadinhos de bacon e churrasco nas mãos e percebeu torcendo o nariz para o cheiro que se alastrou.

- Nojento. Isso nem é comida – disse ela para Mike que lhe mostrou a língua em resposta.
- É delicioso, você que está perdendo – respondeu ele indo até a sala e sentando-se em uma das poltronas.

foi até a cozinha e a seguiu. Observou-a recolher ingredientes para um sanduíche por alguns minutos, querendo conversar, mas esperando até que ela olhasse para ele sem que chamasse sua atenção. Quando o fez, franziu as sobrancelhas.

- Tá olhando o que? – perguntou enquanto passava manteiga em um pão. sorriu.
- Você é a – respondeu ele.
- Muito observador – zombou ela sem olhar em seus olhos.
, filha do senhor – continuou ainda sorrindo. - Ele falou tanto sobre você, mas sempre te chamou pelo apelido, então não juntei os pontos. Mas agora posso ver as semelhanças. Vocês tem os mesmos olhos.

Ela não pareceu feliz com o comentário, apesar de tentar esconder. parecia ser boa em esconder sentimentos específicos, mas sempre foi bom em ler as pessoas, principalmente suas expressões faciais. Os olhos dela eram fáceis de serem interpretados. Era o sorriso que a deixava misteriosa.

- Christopher falou de mim? – murmurou quase como se tivesse vergonha de estar curiosa.
- O tempo todo – contou estranhando a reação dela. – Sempre que eu vinha e o encontrava ele comentava de como estava animado com a sua vinda e de como sentia sua falta.

não respondeu, permanecendo silenciosa e pensativa por alguns segundos. Havia uma certa tensão que irradiava dela, se espalhando pelo ambiente e, como se quisesse cortá-la, mudou de assunto, gritando:

- O que vamos assistir?

A voz de Mike, abafada pelo punhado de salgadinhos que tinha dentro da boca, respondeu:

-“Senhor dos Anéis”!

conteve a vontade de suspirar. O garoto era viciado demais na trilogia para o próprio bem. Nos cinco anos que cuidou dele, provavelmente assistiu aos filmes quase uma vez por mês até a exaustão.
Não aguentava mais assisti-los, mas Mike adorava e não era bom em reivindicar suas vontades, como a mãe fizera questão de o criar. , por outro lado, era supreendentemente sincera com o que queria.

- De novo? Você já não viu isso um trilhão de vezes? – gritou ela de volta saindo da cozinha e sendo seguida por . O fato de estar usando apenas meias nos pés deixou suas pernas ainda mais compridas e bonitas.
- Sim, mas esse é um especial com os cortes do diretor! – argumento Mike fazendo beicinho. – Ele tem cenas extras.
- Como um filme de um milhão de horas consegue ter cenas extras? O que tem nelas? Mais quinze minutos deles andando pelas montanhas?

observou os dois com um pequeno sorriso no rosto. Havia uma pequena e boa sintonia entre eles como se fossem irmãos há anos e não apenas uma semana. Parecia quase cômico ao compará-los. Michael era um menino baixinho e magricela, viciado em tudo que fazia parte da cultura geek e extremamente educado, apesar de mais curioso do que o convívio social permitia. Ele passava despercebido e tinha apenas um pequeno grupo de amigos deslocados que o acompanhavam fantasiados em convenções.
era o oposto. Brilhava por onde passava como se estivesse coberta de chamas, como se fosse a única lâmpada acesa em uma noite escura. Havia algo nela, em sua postura e expressão facial, que apenas a fazia parecer durona e inquebrável, além de possuir um palavreado que faria a mãe de ter um ataque do coração.
Franzindo as sobrancelhas, avaliou os próprios pensamentos. Ele comprara a imagem da garota durona e confiante no dia que se conheceram, quando flertou tão descaradamente que surpreendeu a si mesmo. Viu o sorriso dela, a malícia e a paquera em seus olhos e acreditou que a garota que se mostrava por fora espelhava a de dentro.
Mas então a encontrou no colégio e ela pareceu tão surpresa ao revê-lo que a vulnerabilidade brilhou em seus olhos antes que pudesse deter. viu e isso o desconcertou levemente. Ele tentou não pensar muito no assunto, mas a expressão dela ao vê-lo novamente sempre retornava como uma assombração, exigindo que ele pensasse nela.
Ela era uma enorme incógnita que estranhamente o atraía.

- Fala para ele que ninguém aguenta mais esse filme – disse interrompendo seus pensamentos.

olhou para os dois segurando a risada e sinalizou:

- Ele gosta dos filmes, deixa ele. Não tem problema.
- O que ele disse? – perguntou Michael olhando para a irmã, que franzia as sobrancelhas.
- Que “Senhor dos Anéis” é uma merda – mentiu ela empurrando-o para o sofá e se sentando ao lado dele. – Coloca ai. Vou tentar não morrer de tédio.

sentou-se em uma poltrona perto do sofá e sorriu ao ver a felicidade que irradiava do menino que ele cuidava a tanto tempo. Michael era um garoto incrível, mas muito tímido e inseguro sobre tudo, principalmente sobre os próprios interesses.
Se soubesse, antes, que seria sua nova irmã, teria ficado preocupado. Ela era sincera, durona e intimidante e parecia não medir palavras ao dar sua opinião, principalmente sobre o que não gostava. Mas havia constantemente um tom carinhoso e brincalhão ao conversar com Mike, como se ela estivesse acostumada a pegar no seu pé há anos, como qualquer irmã mais velha faria.
Mike pareceu notar também. Havia constantemente um pequeno sorriso em seus lábios, como se a pessoa mais legal do mundo estivesse lhe dando atenção com frequência. Isso agradou a imensamente. O garoto merecia se sentir especial.
As horas seguiram longas e maçantes. sentiu como se envelhecesse dez anos ao assistir as quase quatro horas do filme que já assistira centenas de vezes. Quando elas finalmente passaram, estava jogada no sofá, com os olhos fechados e o próprio Mike adormecera.
Os créditos começaram a rolar e um suspiro rompeu dos lábios de , conforme ela abriu os olhos.

- Acabou? – perguntou coçando os olhos. assentiu e sorriu ao ver sua expressão indignada ao ver que o irmão dormia profundamente. – Maldito, nos torturou para nada.

riu silenciosamente e se levantou, erguendo os braços e estralando as costas. Caminhou até Mike e o carregou nos braços. Apesar de ser um garoto de dez anos, ele era magro e pequeno o suficiente para parecer e pesar como se fosse mais novo.
O levou até o quarto, desviando dos brinquedos pelo chão que já estava acostumado. Colocou Michael na cama e o cobriu, com um pequeno sorriso no rosto. Ele adorava aquele garoto.
Quando desceu novamente, observou por alguns segundos, acendendo as luzes da sala e recolhendo os pacotes de salgadinhos vazios. Quando ela terminou, virou-se para ele e disse ironicamente:

- E você, não tem casa não?

sorriu e a seguiu até a cozinha, encostando no batente da porta e observando-a encher um copo com água. Checando a hora, viu que era tarde e, ignorando sua pergunta, sinalizou:

- O que vai fazer agora?

encolheu os ombros, sem olhar para o rosto dele. Ela parecia fazer muito isso. Olhar para todos os cantos ao invés de seus olhos, a não ser que fosse para lhe lançar olhares irônicos ou olhar suas mãos para ler seus sinais.

- Sei lá, lição de casa, fumar um cigarro escondido, chamar alguns motoqueiros para matar um cara, essas coisas – respondeu ela encostando os cotovelos na bancada central onde comiam e levantando uma sobrancelha. – Quer participar?
- Não, obrigado – brincou ele se aproximando. – Já fiz meu dever de casa.

tentou controlar o sorriso que cresceu em seus lábios, mas não conseguiu. não se conteve em sorrir ainda mais junto dela. Ela devia sorrir mais.

- Bem, sendo assim – disse ela se aproximando e erguendo o queixo para olhá-lo nos olhos. – Tchau, tchau.

não a respondeu por alguns segundos, olhando em seus olhos sem desviar o olhar. Eles estavam perto o suficiente para ele notar os pequenos detalhes em seu rosto, mas ela não se aproximou mais, o que foi bom. Seria difícil para ela ver os sinais dele se ficasse muito perto.

- Você vai para a festa do Alvin Wilson na sexta-feira? – perguntou ignorando o fato de que ela estava tentando expulsá-lo da casa.
- De quem? – perguntou ela franzindo as sobrancelhas.

soletrou o nome do antigo amigo com movimentos mais lentos, acreditando que ela apenas não havia conseguindo acompanhar a rapidez em que sinalizava. , contudo, balançou a cabeça, dizendo:

- Eu entendi o nome, apenas não o conheço.
- Ele é do time de futebol – sinalizou . – Sempre faz festas no começo do semestre. Todo mundo vai.
- Bem, não fui convidada, então não vou.
- Todo mundo é convidado, é conhecimento geral da escola – explicou observando-a passar por ele torcendo a cabeça, para permanecer com os olhos fixos em suas mãos.

Ele sentiu uma sensação enorme de agradecimento cobrindo seu peito. Geralmente as pessoas olhavam ao redor enquanto falava ou passavam por ele como ela fez, mas desviando o olhar. Isso o fazia se sentir desrespeitado e o obrigava a ter que repetir constantemente o que dizia. Mas com era natural: ela estava sempre concentrada em suas mãos quando conversavam, mesmo se estivesse fazendo outras coisas e o esperava terminar de sinalizar para então responder ou desviar o olhar.

- Não para mim – disse ela indo até a porta e a abrindo. – Eu só vou em festas que sou convidada. Agora, se puder me dar licença...

E movimentou uma das mãos em direção à porta, indicando para que saísse. , contudo, não se moveu e sorriu para ela novamente.

- Alguém já te disse que você é uma ótima anfitriã? – brincou segurando-se para não rir de sua carranca mal-humorada.
- Acredita que você é o primeiro? – zombou ela cerrando os olhos. Parecia querer passar a intenção de estar emburrada, mas ele viu que ela se divertia.
- Vai mesmo me expulsar assim no meio da noite? E se eu for assaltado?
- Se tem tanto medo de ser assaltado, por que anda por ai com um relógio que tem o preço dessa casa?

não pode deixar de concordar com ela. O relógio era ridículo, assim como as roupas de marca e os sapatos caríssimos. Um exagero, contudo, que sua mãe considerava essencial.

- Me deixe pelo menos chamar meu motorista – sinalizou ele, ignorando sua pergunta. – E então te deixo sozinha para chamar quantos motoqueiros quiser.

Enquanto digitava para Carter, pode ouvi-la murmurar: “é claro que ele tem um motorista”. Quando ele respondeu que chegava em dez minutos, passou a informação para .
Depois de alguns minutos de silêncio, ela murmurou de maneira quase tímida:

- Se você pudesse me sugerir uma atividade extracurricular, qual seria?
- Você ainda não sabe o que vai fazer? – perguntou ele surpreso, erguendo as sobrancelhas antes de franzi-las para que ela entendesse o tom do que dizia. – Você precisa decidir até sexta.
- Eu sei disso – respondeu mal-humorada. – Só não sei o que escolher. Nenhuma das opções me interessa.
- Você poderia se inscrever para entrar no time das líderes de torcida – brincou com um sorriso travesso. Quando ela lhe mostrou o dedo do meio, sorriu tanto que suas bochechas doeram.
- Engraçadinho – rosnou cruzando os braços em seguida. – E você vai fazer o que, se é tão fácil escolher?

foi grato pela buzina que quebrou o silêncio da noite, avisando-o que Carter chegara. Se inscrever para as aulas de artes fora um ato de impulsividade e rebeldia que ainda preferia guardar para si mesmo. Era sua última chance de ter aulas sobre o que realmente o interessava antes que sua mãe o enviasse para a faculdade que bem entendesse, então a inscrição se tornou seu pequeno segredinho.

- Sua carruagem chegou, Cinderela – disse abrindo a porta ainda mais. – Boa noite e adeus.

saiu com passos lentos, mas a impediu de fechar a porta ao colocar a mão direita no batente. Ela congelou com uma das mãos segurando a maçaneta interna e os dois se encaram em silêncio pelo que pareceu uma eternidade.
passou os olhos por seu rosto, suas sobrancelhas franzidas, seus cílios longos, seus piercings e seus lábios macios. Com um pequeno sorriso, sinalizou levemente:

- Boa noite, .

Ela olhou por alguns segundos para o rosto dele, inexpressiva. E, depois do que pareceu uma eternidade, quase como se tivesse vencido uma batalha contra si mesma, ela desviou o olhar, balançou a cabeça e bateu a porta na cara dele sem dizer mais nada.

✋🏼🎨💬

A mãe de não estava em lugar nenhum quando ele chegou em casa. Aquilo não foi uma surpresa. Apesar de estar tarde, ele duvidava que ela estivesse na cama. Provavelmente trabalhava arduamente, como fizera por toda a vida dele, tão obcecada com a perfeição do próprio trabalho que se esquecia muitas vezes até de se alimentar.
Por isso, despediu-se de Carter e dos outros empregados e subiu até seu quarto. Lá, checou novamente seu celular e revirou os olhos ao ver ligações perdidas de seu pai, que, novamente, esquecera do pequeno detalhe de que o filho não seria capaz de vocalizar com ele em uma chamada telefônica.
Mandando-lhe uma mensagem, dizendo:

“Oi, pai. Você me ligou?”.
“Queria saber como estava meu filhão!”
respondeu ele um tempo depois. “A escola começa em poucos dias!”.
“A escola já começou, papai”
respondeu ele revirando os olhos novamente. Típico. “Está tudo indo bem”.
“Que bom”
respondeu ele preferindo ignorar e não pedir desculpas sobre não saber quando suas aulas começaram. “E sua mãe?”.

Os olhos de doíam de tantas vezes que já havia os revirado. Acontecia sempre que trocava meia dúzia de palavras com o pai, que não via há seis meses. Ele viajava muito, sempre para lugares caríssimos e há quilômetros de distância. Haviam tópicos que sempre acabavam sendo abordados em todas as conversas que tinham: o quão incrível era o lugar em que estava e perguntas acerca de sua mãe.
Talvez houvesse uma leve esperança em relação a mãe de , como se seu pai esperasse que um dia ela acordaria e resolveria retomar o casamento que havia terminado há três anos.
duvidava. Haviam pouquíssimas coisas nas quais ele e a mãe concordavam, sendo o divórcio uma delas. Foi bom para , foi bom para ela, foi bom para todos. Seu pai era apenas arrogante e orgulhoso demais para admitir.
respondeu vagamente, dizendo que ela estava bem e trabalhando duro como sempre. Seu pai mudou de assunto ao ver que ele não entraria mais em detalhes e passou a falar sobre a própria viagem, enviando-lhe centenas de fotos que nem se deu ao trabalho de abrir.
Quando o pai deixou de responder-lhe, ele soube que a conversa havia acabado pelos próximos dias. Aprontou-se para dormir e, após deitar-se em sua cama, lembrou-se em um estalo do pedido de seu melhor amigo.

Com uma ideia brotando na cabeça, enviou-lhe:
“Eu vou na festa, mas vou precisar de um favor”.
A resposta rapidamente em seguida:
“Qualquer coisa. Você sabe que eu faço”.

Um sorriso brotou nos lábios de enquanto lhe explicava o que planejava. Sabendo que Frank conseguiria o que pedira, foi dormir com os lábios ainda curvados de felicidade.

Capítulo 4 - O time de torcida



se surpreendeu ao dar de cara com um panfleto colorido no momento em que fechou a porta de seu armário. O pedaço de papel era segurado por dedos delicados e unhas pintadas de azul-bebê e fora empurrado contra seu rosto com violência. Nele, era possível ler as palavras:

VAGAS ABERTAS PARA A EQUIPE DAS LÍDERES DE TORCIDA!

PROCURAMOS GAROTAS E GAROTOS COM ESPÍRITO DE EQUIPE, ENTUSIASMO, HABILIDADES DE DANÇA E GINÁSTICA E, ACIMA DE TUDO, DETERMINAÇÃO.
VENHA FAZER PARTE DA MELHOR FAMÍLIA ESCOLAR DE TODAS! PRIMEIROS TESTES NESSA SEXTA-FEIRA, ÀS QUINZE HORAS, NO GINÁSIO DO COLÉGIO.


Entre as frases, fotografias da equipe em campeonatos, treinos, festas e mais atividades. O nariz de torceu-se automaticamente ao olhar o uniforme curto e colado nas cores laranja e preta.

- Obrigada, mas acho que prefiro raspar minhas sobrancelhas fora – disse.

Cindy abaixou o panfleto com um bufo e fez beicinho em seguida. Seus cabelos crespos estavam em seu penteado habitual, divididos em dois enormes pompons e ela usava pequenos brincos de arco-íris.

- Não é para você! – exclamou enquanto seguia a amiga que começara a andar pelo corredor. – É para mim!
- Isso é óbvio – constatou arrumando a mochila sobre os ombros. – Mas se puder me esclarecer como isso me afeta, ficaria grata.
- Queria que fosse comigo – confessou Cindy com seus enormes olhos pidões. – Preciso de companhia.
- E eu sou sua melhor opção? – perguntou com a voz afetada e as sobrancelhas franzidas. – O que te levou a me escolher? Minha incrível capacidade de socialização?
- , por favor! – chorou Cindy colocando um enorme ênfase na última palavra. – Eu quero muito entrar na equipe, mas sei que vou pirar se for sozinha. Você é tão durona e corajosa, que sei que vou ficar melhor com você do meu lado.

não se achava corajosa, muito longe disso. Ela era uma covarde que fugia constantemente dos próprios sentimentos e problemas, empurrando-os para debaixo do tapete sem pensar nas consequências.
Mas se Cindy a via dessa forma, não era ela que lhe diria o contrário.

- Puta que pariu – suspirou ao ver o beicinho e as mãos em oração da amiga. Ela não seria capaz de dizer não para os olhos pidões da amiga e sabia disso. Além do mais, prometeu a si mesma que esse último ano seria diferente. Prometeu que tentaria fazer amizades, socializar mais e essa provavelmente era a primeira prova que o universo a colocava. – Tudo bem. Eu vou. Mas vou para dar apoio moral, .

Cindy deu um grito tão agudo que os ouvidos de apitaram e saltou em seus braços, abraçando seus ombros com força e alegria. não pode deixar de dar um pequeno sorriso em troca. Fazia um longo tempo desde que tivera uma amiga como Cindy (sendo sincera, fazia tempo desde que tivera qualquer amiga em geral), mas era refrescante tê-la ao seu lado.
Elas eram extremamente opostas, mas funcionavam. De uma forma confusa e maluca, mas surpreendentemente pacífica e certa.
A dupla entrou no refeitório e torceu os lábios ao sentir o cheiro asqueroso da comida. Ela precisava começar a trazer seu almoço de casa logo, antes que morresse de intoxicação alimentar.
Depois, encontraram Julie sentada sozinha em uma mesa e se juntaram a ela. Havia uma carranca em seu rosto que não foi embora nem enquanto cumprimentava as novas amigas.

- O que foi? – perguntou Cindy enquanto empurrava a comida asquerosa com um garfo.
- Ele está testando os meus nervos – rosnou a amiga olhando para frente, para um ponto sobre o ombro de . Ela olhou para trás, mas não viu nada suspeito.
- Quem? – perguntou. No segundo seguinte, uma uva voou pelo ar e acertou a nuca de Julie, que fechou os olhos com força, como se procurasse razões para não ir até o atirador e dar-lhe um soco na cara.

e Cindy olharam na direção de onde a fruta viera e deram de cara com Adrien. Ele vestia o boné de sempre, virado para trás e sorria maliciosamente, mirando outra uva na direção da mesa delas.
foi mais rápida. Pegando a própria maçã, que estava em sua bandeja e que possuía uma aparência tão estranha que com certeza não comeria, mirou-a e a atirou em Adrien, acertando-o bem na testa.

- Ai! – ele exclamou cobrindo o rosto com uma das mãos e olhando para com olhos arregalados. – Que porra é essa?

Ela lhe mostrou o dedo do meio com um sorriso enorme nos lábios e Julie explodiu em gargalhadas. Cindy tinha os olhos arregalados como pires e a censurou:

- Você é louca!
- Eu te amo – riu Julie secando as lágrimas de alegria que escorriam de seu rosto. riu também e olhou novamente para Adrien, que também lhe mostrava o dedo do meio, mas tinha um sorriso divertido nos lábios.

Ele não se ofendera e parara de irritar Julie, pelo menos ao longo do almoço, então tudo estava bem.

- Você parece particularmente irritada com ele hoje – comentou tentando engolir o alface murcho da opção vegetariana. – Algum motivo em especial?
- O maldito quer fazer uma festa – contou Julie com as sobrancelhas franzidas. – Uma festa enorme, para competir com a que Alvin Wilson vai dar essa sexta-feira. Eu o vi conversando com os amigos dele.
- Eu acho uma ótima ideia – disse Cindy com um sorriso, apoiando o queixo em uma das mãos. – Adoro festas.
- Não as adoraria se acontecessem ao lado da sua casa, te impedindo de ouvir os próprios pensamentos – rosnou Julie. – Você está comigo nessa, não está, ?
- Não sou fã de festas – disse simplesmente.

Não mais, pelo menos.

- Mas elas são ótimas para conhecer pessoas novas! – argumentou Cindy colocando as mãos nos quadris.
- Não sei se você notou, Cindy – disse . – Mas você a única borboleta social desse grupo. Eu e a Julie não somos o que você chamaria de pessoas populares.
- Obrigada pelo voto de confiança – disse Julie mal-humorada em direção à .
- Isso porque vocês provavelmente foram em festas ruins – avaliou Cindy com olhos brilhantes. – Vamos para a festa do Alvin Wilson essa sexta!
- Nem pensar – disse Julie balançando a cabeça, acompanhada automaticamente por .
- Meninas, por favor! – chorou ela pela segunda vez em dez minutos. notou que ela era boa nisso. Suas expressões faciais eram extremamente tocantes e convincentes. – É a primeira festa do semestre e eu soube que toda a equipe de torcida vai estar lá. Talvez eu consiga entrar para equipe se elas me conhecerem antes e gostarem de mim.
- O nepotismo em sua forma mais pura – zombou apoiando os cotovelos na mesa e despedaçando um pedaço de pão com as mãos. – Mas minha resposta ainda é não. Nem fui convidada para a festa.
- Ninguém é convidado para as festas dele – contou Julie. – É meio consenso geral de que a festa vai acontecer e qualquer um que quiser pode ir.
- Eu só vou em festas que sou convidada – disse pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas. – Então, sinto muito.

O destino riu novamente da cara dela, como adorava fazer. Quase como se fosse conjurado pelas palavras dela, o garoto do time de futebol com qual dividia as aulas de matemática (e que achava estranhamente familiar), apareceu ao seu lado.

- Oi, querida – ele disse com um sorriso sorrateiro e paquerador. Tanto elas quanto algumas pessoas ao redor ficaram em silêncio, confusas.

olhou ao redor, como se procurasse algo. Após observar cada canto, até mesmo debaixo da mesa, virou-se para Cindy, apontou para o garoto com o polegar e disse:

- Ele está falando com você, não é?
- Acho que ele está falando com você – respondeu a amiga em um sussurro e com as sobrancelhas também franzidas.

fez uma careta e se virou para ele.

- Você está falando comigo? – perguntou com uma sobrancelha levantada e um pouco de pão na boca.
- Não sei se você sabe – continuou ele sem se abalar. – Mas vou dar uma festa na sexta-feira.
- E... ? – respondeu ela voltando a despedaçar o pão com as mãos. Havia algo na postura dele, que agora sabia que se tratava de Alvin Wilson, em seu sorriso arrogante e olhos paqueradores, que a deixavam automaticamente mal-humorada.
- E... – repetiu Alvin parecendo levemente afetado pela falta de interesse dela. – Que eu fiquei sabendo que você só aparece em festas que é convidada e eu queria ter certeza de que você e esses seus jeans apertados vão estar presentes.

Ele apenas...? Como ele...?
Deus, ela queria quebrar cada um dos dentes perfeitos que ele possuía.

- Bem, grandão, eu e meus jeans apertados agradecemos o seu convite e sabemos que somos uma dupla perfeita – respondeu com a voz pingando de ironia. Mais uma palavra e ela ia chutá-lo no estômago. – Não preciso que você nos conte isso. Agora, se você pensa-
- Muito obrigada pelo seu convite! – Cindy disse, a interrompendo, provavelmente após notar como seu temperamento havia esquentado. – Muito gentil da sua parte. Nós vamos sim. Tchau! Bom almoço!

Alvin sorriu para ela, completamente alheio ao olhar de repulsa que era lançado em sua direção por . Retirou-se em seguida e Julie soltou a respiração que nem sabia que estava segurando.

- Meu Deus, achei que você fosse voar no pescoço dele – murmurou com olhos levemente arregalados.
- Ele não teria tanta sorte – rosnou tentando controlar a própria respiração. Raiva era um sentimento que conhecia e não apreciava. Faziam anos desde que prometera controlar os próprios impulsos e isso incluía as explosões de emoções que sentia. Falar era mais fácil do que fazer, contudo. A raiva era tão familiar que brotava no peito dela e tomava seu corpo e pensamentos com familiaridade. – Voar no pescoço dele seria pouco.
- Mas olha pelo lado bom – comentou Cindy com um pequeno sorriso no rosto. – Ele te convidou. Agora você pode ir.

e Julie olharam para ela em silêncio, com expressões atônicas. Ela olhou para as duas e franziu as sobrancelhas delicadas.

- O quê? – Cindy perguntou confusa.
- Eu desisto – suspirou empurrando a bandeja para longe de si. – Eu vou nessa merda dessa festa se isso significa que vocês vão me deixar em paz. Nem ao menos entendo o que tem de tão especial nessa festa para que você e queiram-
- ? – interrompeu Julie parecendo assombrada. – Que ? ?

Merda.

- Ai meu Deus! – exclamou Cindy antes que pudesse abrir a boca. – O bonitão que usa língua de sinais?
- Ele não é bonitão – mentiu , suspirando em seguida. – E, sim, esse . Acontece que ele é babá do filho da minha madrasta e apareceu na minha casa ontem à noite.

Cindy deu um gritinho agudo que chamou a atenção de todos ao redor. Julie fez uma careta envergonhada, que rapidamente se transformou em uma extremamente irritada quando Adrien apareceu, sentando-se ao lado de .

- Do que as senhoritas estão conversando? – perguntou com um longo sorriso charmoso.
- De como é rude entrar em uma conversa em que não se é chamado – murmurou Julie cerrando os olhos para ele.
- Sobre o bonitão da – sorriu Cindy dando pequenos saltos onde estava sentada.
- Com licença? – exclamou com a boca cheia de massa de pão. – Meu bonitão é o cacete.
- Quem é o sortudo? – perguntou Adrien com um sorriso ainda maior, balançando as sobrancelhas para cima e para baixo, sugestivamente.
- Nem nos seus sonhos – respondeu ela jogando migalhas de pão em seu rosto.
- Você quebra o meu coração – disse ele com um semblante triste que sabia que era pura atuação. Seus olhos brilhavam em diversão e ela sorriu de volta, debochada.
- Que bom – disse.
- O bonitão é o – confessou Cindy alheia aos olhares mortais que a amiga lançava em sua direção. – Ele chamou a para a festa dessa sexta-feira.
- Ei, é um cara bem legal – disse Adrien. – Não somos amigos, mas acho que nunca ouvi algo ruim sobre ele, nem quando ele andava com a Cynthia e o Alvin há alguns anos.
- Foi o que te disse no primeiro dia de aula – completou Julie. – é um cara bacana. Não precisa se preocupar em ele ser um idiota, caso seja por isso que o evita.
- Primeiro de tudo, eu não o evito – disse mal-humorada. Mentirosa. – Eu apenas não ligo para ele. E, em segundo lugar, não tenho medo dele ser um idiota. Apenas não tenho interesse nele ou em qualquer outro cara.
- A garota gótica não tem interesse no amor. Clichê demais? – brincou Adrien recebendo um olhar furioso em seguida.
- Eu juro por Deus... – começou, não precisando terminar de falar. Adrien levantou as mãos em sinal de rendição e disse:
- Não está mais aqui quem falou.

O sinal tocou de repente, interrompendo a conversa e suspirou de alívio, nunca se sentindo tão grata ao ouvir aquele som infernal.

- Eu tenho que ir – disse levantando-se de repente, recolhendo a bolsa e a bandeja parcialmente cheia e começando a andar.
- Espera! – exclamou Julie levantando-se também. – Você já decidiu sua atividade extracurricular?
- Ainda não! – gritou ao longe andando de costas por alguns segundos.
- Mas você só tem até sexta! – exclamou preocupada.
- Eu sei! – respondeu se afastando mais e deixando a bandeja onde devia.
- Não se esqueça do meu teste amanhã! – gritou Cindy as interrompendo.
- Eu sei! – repetiu mais alto enquanto saía pelas portas, entrando nos corredores agora lotados.

Sentiu-se levemente mal por sair assim, tão depressa, sem ao menos se despedir. sabia que os amigos estavam apenas jogando conversa fora, mas ela não pode impedir seu temperamento de se esquentar com as provocações.
Não entendia por que era um grande negócio ao ponto de virar tópico de conversa. Ele era apenas um garoto que cuidava de Michael de vez em quando e se vestia como se estivesse constantemente indo para uma reunião de negócios.
Eles dividiam as aulas de biologia, falavam a língua de sinais e flertaram por dez minutos na primeira vez que se viram, mas e daí? Fora isso, não havia nada, nada, que os aproximasse e ela não dava a mínima.
E ele nem mesmo havia a convidado para a festa, pelo amor de Deus! apenas perguntou se ela iria, como qualquer pessoa educada faria ao tentar puxar papo.
Ele era só um cara. Simples assim. E ela não estava nem aí para ele. Não para seus cabelos bonitos, ou seus olhos brilhantes, ou seu sorriso com covinhas.
não a afetava. Ponto final. Nada mais a declarar.

✋🏼🎨💬


Não houve nenhum progresso na relação de com Christopher. Isso não a decepcionou pelo simples fato de que não esperava nada diferente.
Ele tentou, contudo. Constantemente perguntando a ela sobre a escola, se havia feito amizades, como estavam as aulas, se estava gostando do lugar. Ela lhe respondeu simples e sem maiores aprofundamentos. Sim, não, tudo estava bem.
Exatamente como agora.

- E você já escolheu uma atividade extracurricular? – perguntou ele enquanto jantavam na quinta-feira à noite, durante uma longa conversa em que ela não disse uma palavra.
- Ainda não – murmurou cutucando a comida com um garfo. – Não consegui me decidir.
- Muitas opções de seu interesse?
- Mais para nenhuma – respondeu antes de colocar comida na boca sem dizer mais nada. Christopher olhou para ela com um estranho olhar, como se esperasse que dissesse mais, mas ela não o fez.

Havia algo dentro dela que a impedia de dividir qualquer coisa com ele. Talvez teimosia, talvez rancor, talvez dor e trauma, não importava. Ela estava muito bem em seu canto, entrando em contato com ele apenas quando necessário.

- Eu faço parte do grupo de ficção científica – contou Michael sem perceber a leve tenção que se formava. – E o de RPG.
- Sua escola, além de um grupo de ficção científica, tem um de RPG? – perguntou franzindo as sobrancelhas.
- Eu e meus amigos que reivindicamos – contou ele parecendo orgulhoso. – Eles são muito bons. No de ficção científica nós discutimos sobre filmes, cultura e até física e o de RPG desenvolve nossa criatividade e habilidade de trabalho em grupo.
- Michael fez uma petição para a diretoria – comentou Trinity com olhos brilhantes de orgulho. – Conseguiram centenas de assinaturas.
- Impressionante – elogiou com um sorriso brincalhão nos lábios. – Você é como o líder dos nerds, muito legal.

Michael lhe mostrou a língua em resposta, fazendo rir levemente. O garoto despertava um lado brincalhão nela, fazendo-a sentir sempre vontade de pegar em seu pé como uma irmã mais velha faria.
No começo ficou apreensiva ao acreditar que ele podia interpretar suas brincadeiras como grosserias, mas não fora o caso. Como se sentisse o mesmo que ela, Mike rapidamente passou a agir como um irmão mais novo e parecia se divertir com suas brincadeiras.

- Tem certeza de que não encontrou nada que a interessasse? – perguntou Christopher redirecionando o assunto a ela novamente. – Eu me lembro que, quando menina, você queria ser uma-
- Acabei de lembrar de uma coisa – interrompeu-o , não gostando nem um pouco dos rumos que a conversa seguia. Ela sabia muito bem o que queria ser e mal sabia ele que ela tinha conseguido, antes que tudo fosse para o inferno. – Vai ter uma... Festa. Na sexta-feira. Não me decidi ainda se vou, mas fui convidada, então...
- Uma festa? – disse Christopher parecendo empolgando. – Isso é muito legal. Fico feliz que esteja socializando!

Ela tentou não se ofender com suas palavras, mas sua paciência era escassa quando se tratava de seu pai, então foi incapaz de conter o mau-humor que a envolveu. Ela sabia que não era uma pessoa que socializava, mas ver que ele também achava isso a ofendeu mesmo assim.

- Claro que pode ir, – sorriu ele carinhosamente. – Vai ser bom. Eu costumava ir em várias festas quando tinha a sua idade.

A informação a surpreendeu, mas logo percebeu que era besteira. Qualquer coisa sobre ele a surpreenderia já que não sabia absolutamente nada dele, a não ser pequenos detalhes que pode retirar de sua mãe ao longo dos anos.

- Gosto de pensar que sou um paizão descolado – brincou dando-lhe uma piscadela. Michael riu, ela não. – Mas espero que fique longe da bebida. Você é muito nova e eu-
- Eu não bebo – respondeu cortando o discurso dele. Por algum motivo suas palavras a irritaram. Ela realmente não bebia (pelo menos não mais), mas o fato de que ele a impôs limites, como se tivesse qualquer direito de dizer o que era melhor para , rapidamente ferveu seu sangue.

Ele não tinha esse direito, não mais.

- Eu sei que isso é algo que não compartilhamos com nossos pais na sua idade – continuou ele sem acreditar em suas palavras. – Mas realmente me preocupo-
- Eu. Não. Bebo. – disse cortando-lhe novamente com uma expressão tão dura que Christopher se calou. – E não estou mentindo.
Ele saberia disso se a conhecesse de verdade.
- Tudo bem – respondeu ele com uma expressão que ela não soube interpretar. – Fico feliz, querida. Me deixa menos preocupado. De quem é a festa?
- De um jogador do time de futebol – respondeu percebendo que havia perdido o apetite. – Alvin Wilson.
- Acredito que conhecemos sua avó – mencionou Trinity tentando quebrar a enorme tenção no ar. – não é amigo do irmão dele?
- Acho que sim – respondeu Christopher. – Frank Wilson, se não me engano. Um ótimo garoto.
Aquilo apitou algo na mente de . Frank Wilson? De onde ela conhecia esse nome?
- Você sabe se vai à festa? – perguntou Trinity com um sorriso gentil. – Podemos perguntar se ele não pode te dar uma carona.
- Não! – respondeu ela rápido e alto demais. Quando todos olharam para ela com expressões confusas, se encolheu levemente. – Quer dizer, não precisa incomodá-lo. Eu arrumo uma carona. Sei que é um choque, mas tenho amigas, no fim das contas.

Ela disse a última frase com certa ironia e o silencio reinou novamente, deixando o ar desconfortável. Trinity levantou-se para pegar a sobremesa e não disse nada pelo resto da noite.

✋🏼🎨💬

Havia um grupo relativamente grande de estudantes nas arquibancadas do ginásio na sexta-feira à tarde. não pode deixar de notar o quanto os testes para entrar na equipe de torcida pareciam ser algo de grande importância, principalmente graças a enorme mesa posicionada no centro do lugar.
A bonita líder de torcida com cabelos pretos e pele cor de oliva, que apresentou a equipe para o resto do corpo estudantil no primeiro dia de aula, estava uniformizada e com uma prancheta na mão.
Havia um lindo sorriso em seus lábios enquanto conversava com todos que se aproximavam. Seus olhos contudo, eram julgadores, varrendo cada um de cima abaixo, observando cada detalhe de suas aparências. Esse olhar fez com que não gostasse dela automaticamente.

- Essa é a Cynthia Williams – sussurrou Cindy em seu ouvido conforme as duas a observavam de longe. – O pai dela é um magnata dos seguros de saúde e ela é a capitã do time. Pelo que eu soube, super rígida com quem entra. Convida apenas os melhores.
- Você sabe muito sobre ela – murmurou de volta, com uma sobrancelha levantada.
- É claro – respondeu Cindy como se ela fosse louca. – Preciso saber. Conquistá-la é o primeiro passo para entrar no time.

achou aquilo um absurdo, mas deu risada. Havia algo em Cindy, talvez seu brilho no olhar, suas adoráveis bijuterias feitas à mão ou sua adorável roupa de ginástica azul-bebê, que faziam extremamente cativante mesmo quando dizia bizarrices como aquela.

- Olá! – exclamou Cynthia se aproximando com os olhos fixos em Cindy. Ela parecia gostar do que via, pois viu sinceridade em seu sorriso. – Você veio fazer os testes?
- Sim! – exclamou ela com tanta animação que parecia poder desmaiar a qualquer momento. – Estou super animada.
- É desse tipo de animação que precisamos! – comemorou Cynthia com um sorriso ainda maior. Depois, entregou-lhe um dos papéis que estava em sua prancheta. – Aqui. Preencha esse formulário com seu nome, série e telefone. É só nos entregar na mesa antes do seu teste.

Ela virou-se para e seu sorriso escorregou um pouco. Cynthia ainda sorria educadamente, mas notou seus olhos percorrendo cada centímetro de suas botas enormes, roupas pretas rasgadas, até caírem em seu rosto e se arregalarem levemente ao notarem a maquiagem escura e os piercings marcantes.

- Você vai fazer os testes também? – perguntou com os olhos cerrando levemente, obviamente esperando uma resposta negativa.

Sua voz escorria em um tom de deboche que não gostou nem um pouco.

- Não se preocupe, não vou. Hoje é seu dia de sorte – respondeu com um sorriso que espelhava o de Cynthia. – Eu te destronaria antes que conseguisse dizer “touchdown”.

O sorrisinho sumiu de seus lábios, mas ela não teve tempo de dizer nada. Cindy agarrou o braço de e sorriu constrangida, dizendo:

- Nós vamos esperar lá nas arquibancadas!
- É melhor mesmo – murmurou Cynthia franzindo os lábios e fuzilando com os olhos. Depois, voltou-se para alguém, abrindo um enorme sorriso e exclamando: - Olá!
- Você quer me matar? – perguntou Cindy arrastando até as arquibancadas onde se sentaram.
- Relaxa, ela pareceu gostar de você – respondeu encostando os cotovelos dos dois braços no encosto das cadeiras de cada lado. – O que ela acha de mim não importa.

Cindy pareceu querer debater, mas Cynthia se posicionou no meio da quadra e começou a falar, silenciando todos que estavam presentes no ginásio.

- É um prazer conhecer todos vocês! – exclamou simpática recebendo vários sorrisos e um revirar de olhos de . É claro que era. – Nós da equipe estamos todos muito animados em conhecê-los. Como dissemos no primeiro dia de aula, não somos apenas um time, somos uma família.

suspirou e fechou os olhos, fingindo dormir.
Deus, que chatice.
Ela não tinha o objetivo de dizer seus pensamentos em voz alta, mas provavelmente o fizera, pois Cindy cutucou suas costelas com o cotovelo, mal-humorada. riu brincalhona e voltou a prestar atenção.

- Vamos apresentar o resultado da primeira etapa em no máximo uma semana. Aqueles que passarem vão para a segunda e última, que se trata de um trabalho em dupla. Vocês devem fazer uma coreografia com mais alguém e mostrar para nós, para que avaliemos suas habilidades em trabalhar em grupo e sua criatividade em criar passos. Agora, vamos começar!

Os testes começaram e se viu presa em uma horripilante e nostálgica sensação de déjà-vu. Um a um, de freshmans à seniors, estudantes iam até a quadra, ficando de frente para a mesa. Entregavam os formulários preenchidos, apresentavam-se e, em seguida, repetiam os passos que a equipe de torcida pedia.
Ela podia notar Cindy nervosa ao seu lado. Suas pernas rechonchudas saltavam e ela sempre parecia ter elogios aos concorrentes, até aos que não mereciam.

- Ela é ótima – chorou com um biquinho ao observar a menina ruiva e magricela que imitava as posições que Cynthia indicava.
- Ela estende muito os joelhos – respondeu observando enquanto a garota abria as pernas e os braços. – Se continuar assim pode causar uma hiperextensão e se machucar.

Depois, quando um garoto de cabelos loiros passou a girar e fazer piruetas, Cindy se engasgou novamente.

- Meu Deus, ele é tão bom!
- Ele não sorri – avaliou sem tirar os olhos do menino. – Ele é bom nos movimentos, mas a expressão facial é muito dura.

As duas continuaram assim pelos próximos concorrentes, um atrás do outro. As vezes Cindy acertava e a pessoa possuía grandes habilidades, mas em outros casos era capaz de notar pequenos detalhes que poderiam atrapalhar gravemente o resto do desempenho à grande prazo.

- Ele é perfeito – chorou Cindy ao observar o menino de black power que fazia impressionantes piruetas. – Você não pode negar.
- Ele eu realmente não posso – disse, vendo como a amiga pareceu completamente desesperada em seguida. – Mas, ei, relaxa. São cinco vagas e até agora ele foi o único que realmente merecia uma delas.

Uma menina alta e elegante foi para a quadra e sorriu. Ela começou a repetir as posições e os gestos e por um momento Cindy tinha razões para ficar preocupada. Ela era boa, sorridente, carismática e se movia com firmeza e fluidez, tudo ao mesmo tempo.
Mas então começou a girar e levantou uma sobrancelha, olhando-a com olhos observadores.

- Ela é incrível – suspirou Cindy.
- Ela vai cair – respondeu .

E seu presságio se cumpriu. A menina não caiu inteiramente, mas no momento em que parou de girar cambaleou para os lados, extremamente tonta. Seus braços se ergueram em instinto e ela deu uma risadinha constrangida à equipe, que a aplaudiu educadamente.

- Como você sabia? – perguntou Cindy com olhos surpresos, voltando-se para ela rapidamente.
- Ela não bateu ponto – respondeu encolhendo os ombros.
- Bater ponto?
- É uma tática para não ficar tonto com o giro – explicou com os olhos fixos na quadra. – Você foca o olhar em um ponto específico e gira sempre buscando achar esse ponto com os olhos. A cabeça gira mais rápido que o corpo e assim você evita a tontura.

Cindy não disse nada e virou-se para ela, estranhando seu silêncio. A amiga a olhava como se tivesse nascido uma segunda cabeça em seu ombro.

- Como você entende tanto sobre torcida? – perguntou com as delicadas sobrancelhas franzidas. olhou para ela por alguns segundos, antes de voltar seu olhar para a quadra e dizer:
- Não entendo. Só sei algumas curiosidades.

Mentirosa.
Ela não precisou dizer mais nada. Cindy foi se apresentar em seguida, interrompendo a conversa das duas. sentiu as próprias mãos suarem, nervosa pela amiga.
Mas quando ela começou a se apresentar, relaxou e não pode deixar de sorrir.
Cindy parecia ter nascido para isso. Estava levemente trêmula e colocava muita força na ponta dos pés, mas fora isso, era perfeita. Sorridente e carismática, parecia ser capaz de te convencer a fazer qualquer coisa com apenas um pedido. Seus movimentos eram bem feitos e ela parecia confortável e confiante dentro da própria pele.
Quando voltou ao seu encontro, abraçou-a apertado, garantindo que uma das vagas era dela com toda a certeza. Cindy, eufórica e animada como estava, não se lembrou de perguntar novamente sobre os conhecimentos de acerca da torcida e o tópico não retornou mais a conversa, para sua alegria.

Capítulo 5 - A festa de Alvin Wilson



Olhando para a tela do computador com as sobrancelhas franzidas e os dedos levemente batucando o teclado, torceu os lábios.
Ela iria mesmo fazer aquilo?
A página do colégio olhava de volta para ela quase como se zombasse de sua hesitação. suspirou frustrada e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás.
Ela tinha outra opção?
Não existia nenhuma outra atividade que a atraísse um mínimo possível para ser uma segunda alternativa. Ela era péssima em pintura, fotografia estava fora de cogitação, ela teria que interagir demais com outros nas aulas de teatro e o time de debate nunca a aceitaria ao ver que era incapaz de discutir sem proferir pelo menos cinco palavrões.
A equipe de torcida não foi ao menos cogitada, junto do anuário e do grêmio estudantil.
Aquela era a sua única opção e ela só tinha até o fim da noite para se inscrever.
Gemendo de frustração, bateu com a testa nos próprios punhos, fechando os olhos. Depois, os abriu e digitou o próprio nome no formulário disponibilizado pelo site do colégio e selecionou sua opção de atividade extracurricular.
A turma de dança.
sentia saudades de dançar. Essa era uma das grandes verdades que recusava admitir para si mesma. Provavelmente mais do que todas as outras coisas, sentia saudade da dança e tudo que a englobava.
Já faziam anos e ela ainda sentia falta da música, pulsando em seus ouvidos, em suas veias, em seu peito. Do suor, descendo pelas costas, empapando os cabelos, limpando os poros. Dos pés do chão, batendo, girando, criando calos pelo excesso de exercícios. De se olhar no espelho e enxergar a si mesma, suada, cansada, arfante e invencível.
Torceu os lábios novamente e posicionou a seta do monitor.
Era seu último ano e ela estava longe de todo seu passado. Se existia uma chance de fazer algo que amava pela última vez era essa. Ninguém precisava saber. Iria nas aulas, teria algumas horinhas de prazer e seria o suficiente.
Apenas um gostinho do que tinha antes. Não faria mal a ninguém.
Contou até três. Clicou com os olhos fechados. E fechou a tela do notebook com força antes que se arrependesse e se recusou a pensar mais sobre o assunto.

Vestir-se para a festa foi mais difícil do que esperava. Acreditou que, pela simplicidade que era escolher entre o preto e o preto mais escuro, decidiria o que vestir em poucos minutos, sem maiores estresses.
Estava errada.
Ir em festas, após tantos anos, era um ambiente estranho e que a deixava ansiosa. Já havia destruído o esmalte das unhas pelo nervoso que passava e mordia tantos os lábios que quase os feria.
Se ia fazer isso, estar em uma festa, cercada de seus antigos vícios, há tanto tempo empurrados para debaixo do tapete, teria se vestir de uma forma que lhe desse confiança.
Por isso, vestiu os coturnos poderosos, as luvas de dedos cortados, suas melhores calças e o body verde-musgo cavado, que mostrava seu colo e suas costas. Depois, pintou o rosto com a maquiagem preta nos olhos e nos lábios, arrumou os piercings no rosto e nas orelhas e se olhou no espelho.
Sorriu ao notar o detalhe que fazia aquele jeans o seu favorito: o rasgo posicionado na poupa da nádega direita. Avaliou o resto de silhueta e ficou feliz com o que viu. Apesar da ansiedade que parecia começar a se instalar em seu peito, parecia forte e durona o suficiente para enganar a si mesma e isso era o suficiente por enquanto.
Desceu as escadas, fazendo barulho com os sapatos pesados batendo contra o chão e verificou seu celular. Leu a mensagem de Julie, dizendo que deveria chegar em poucos minutos para buscá-la e sorriu.
Ao olhar para a sala, contudo, franziu as sobrancelhas. Estava bagunçada, com almofadas espalhadas ao redor da mesinha de centro, que servia de apoio a um grande tabuleiro e inúmeros dados e peças de jogo. Voltou-se para a cozinha e por fim entendeu de onde vinha aquela bagunça.
Michael encontrava-se ali, sentado na mesa ao centro, conversando com mais três meninos e uma menina. Todos deveriam ter a idade dele e se encontravam fantasiados da cabeça aos pés, como se tivessem saído das gravações de “Game Of Thrones”.
As crianças a notaram na porta da cozinha e se silenciaram, olhando para com o mesmo olhar confuso que lhes atirava. Viu seus olhos chocados passando pelas roupas pretas e rasgadas e teve que se controlar para não gargalhar.

- O que é tudo isso? – perguntou encostando um ombro no batente da porta e sorrindo brincalhona. – A convenção dos nerds chegou na cidade?
- É noite de RPG de mesa – respondeu Michael recolhendo vários sacos de salgadinhos nos braços. Tinha dificuldade, principalmente porque o grande chapéu de bruxo teimava em cair na frente de seus olhos.
- Ah! – exclamou entrando e sentindo como os amigos do irmão não tiravam os olhos de seus adereços e bijuterias pretas e pontiagudas, como o choker preto coberto por pequenos espinhos prateados. – Como no “Stranger Things”? “Dungeons & Dragons”?
- “Pathfinder”, na verdade – corrigiu a única menina do grupo, que se estendia entre os meninos, pelo menos dez centímetros mais alta que todos. – Jogamos D&D da última vez.

concordou com a cabeça, apesar de não entender nada sobre o assunto. Foi até a geladeira, abrindo-a e retirando a caixa de suco. Ao virar-se, viu que todos os olhos ainda estavam sobre ela.

- O quê? – perguntou antes de tomar um longo gole direto do gargalo.
- Doeu para fazer os piercings? – perguntou um menino magricela e de aparelho nos dentes. Aquela era, provavelmente, a décima quinta vez que lhe perguntavam aquilo, mas não se incomodou. Ter piercings era como usar óculos, mas, no lugar de sempre estarem pedindo para experimentá-los, as pessoas perguntariam sobre a dor de fazê-los.
- Sua mãe ficaria feliz se você fizesse um? – ela perguntou.
- Não.
- Então sim, doeu para cacete.
- Por que você se veste toda de preto? – perguntou um outro menino com enormes bochechas rechonchudas. e Michael trocaram olhares conspiratórios.
- Porque sou uma vampira – brincou dando mais um gole e devolvendo a caixa de volta na geladeira.
- Nojento – comentou seu meio-irmão mais novo torcendo o nariz ao ver que ela bebera direto do gargalo.
- Eu sou a única que bebe isso – rebateu ouvindo uma buzina soando do lado de fora da casa. – Você só sabe se entupir de refrigerante. Estou indo agora, você vai ficar bem até sua mãe e Christopher chegarem?
- Sim, eles só vão demorar mais uns dez minutos – disse ele indo com ela até a porta. Seus amigos os seguirem sem tirar os olhos de , como se ela fosse uma criatura fascinante de seus jogos de ficção.

abriu a porta e acenou para o carro onde suas amigas estavam. Cindy colocou o tronco para fora da janela e acenou, gritando:

- Vamos logo!
Ela pediu-lhe um minuto com o dedo e voltou-se para as crianças.
- Tudo bem então, estou indo. Só faça coisas que eu faria.
- Acho que minha mãe não gostaria disso – murmurou Michael tirando uma risada da meia-irmã.

Ah, se eles soubessem...
Fechou a porta atrás de si e saiu, sentindo os braços se arrepiarem, apesar de não ter vento. Devia ter trazido um casaco, mas não voltaria apenas para isso, mesmo que muito provavelmente fosse passar frio a noite inteira. Entrou no banco de trás do carro de Julie e sorriu para as duas amigas enquanto se esparramava no estofamento.

- Boa noite, senhoritas – sorriu.
- Você está tão fodona! – exclamou Cindy enquanto Julie dirigia com um sorriso leve no rosto. – E sexy. Queria ser como você.
- Confie em mim, você não gostaria – rebateu sorrindo em seguida. – E você está radiante, Cindy. De verdade.

Ela realmente estava. Com os cabelos crespos soltos e macios ao redor de seu rosto maquiado com cores vivas e brilhantes, ela parecia a personificação de um botão de flor. Seu vestido feminino e azulado adaptava-se ao seu corpo e o colar com pingente de arco-íris virou quase uma marca registrada.

- Oh! Sério? – brincou ela afofando os cabelos. – Vesti a primeira coisa que vi.
- Mentira! – exclamou Julie franzindo as sobrancelhas. – Fiquei quase meia hora buzinando na frente da casa dela até que ficasse pronta.
- Você está elegante – elogiou sendo sincera. A amiga usava um suéter vermelho de gola alta e uma saia xadrez até o meio das coxas. Seu cabelo comprido estava preso em um rabo de cavalo alto e ela tinha pequenos brincos na orelha. Os óculos cor-de-rosa pareciam dar o toque final perfeito.

Não parecia o tipo de roupa que se usaria em uma festa de ensino médio, mas quem era para julgar o visual dos outros?

- Obrigada – murmurou Julie com as bochechas tão coradas que percebeu que ela não recebia muitos elogios. – Faz tanto tempo que não vou em uma festa que não sabia muito bem o que vestir, então fui pelo confortável.
- Está ótima – elogiou Cindy retocando o gloss labial no espelho do banco do passageiro. – Mas se continuarmos nessa velocidade vamos chegar no fim da festa.
- Eu já estou no limite de velocidade! – censurou Julie. – Não vou levar uma multa porque você quer chegar cedo.
- Pelo menos tenta cortar caminho por aqui! – disse Cindy apontando para uma viela escura.
- Eu não sei se posso entrar ai, não tem nenhuma sinalização de trânsito.

gargalhou no banco de trás e Cindy se virou, fazendo beicinho.

- , fala para a Julie que ela não precisa ser tão rígida dirigindo!
- – repetiu Julie amargamente. – Fala para a Cindy que as leis de trânsito existem para nos proteger e por isso devemos respeitá-las.
- não vai falar nada – respondeu com um sorriso zombeteiro nos lábios. – Mas se continuarem discutindo assim vou ter que me atirar da janela do carro, então se puderem calar a boca, eu agradeço.

Elas se silenciaram por alguns momentos, mas voltaram a brigar logo em seguida, quando Julie parou em um sinal de “pare” em uma rua que claramente não havia mais ninguém além delas.
riu as observar as amigas discutindo e não pode deixar de sorrir ao lembrar das palavras de Adrien, ditas quando se conheceram.
Elas com certeza eram o trio mais bizarro que já vira na vida.

✋🏼🎨💬


A casa de Alvin Wilson era exatamente como havia imaginado. Enorme, exagerada e um desperdício completo de dinheiro.
Ficava, curiosamente, à beira da praia, mas há alguns quilômetros da casa dela. Isso a deixou feliz por um instante, pois sabia que conseguiria voltar para casa pela orla caso não conseguisse carona para voltar.
O ambiente da festa era tudo que se lembrava. Quente, barulhento, abafado e caótico. Parecia que todo o corpo estudantil estava ali, espalhado pelos corredores, jogados no sofá, derrubando bebida no carpete de aparência caríssima.
Um mal-estar pousou em seu peito conforme ela olhava ao redor, absorvendo todos os detalhes. Eram memórias e sentimentos demais para ignorar.

- Vamos procurar algo para beber! – exclamou Cindy enquanto agarrava as mãos das amigas e as arrastava até pelo local. podia sentir olhares em cima de si mesma e preferiu ignorar como sempre fazia.

Elas entraram na enorme cozinha, onde um grupo de garotos colocava uma quantidade absurda de latas de cerveja dentro da geladeira. Em uma bacia, outro grupo misturava incontáveis marcas de vodca, frutas e açúcar.

- Como eles conseguiram tanta bebida? – murmurou Julie torcendo nariz. – Nós somos menores de idade.
- Alvin não tem um irmão mais velho? – respondeu Cindy com os olhos nos meninos.
- Só dois anos, ele tem dezenove – respondeu Julie franzindo as sobrancelhas.
- Os meninos ricos conseguiram bebida antes dos vinte e um anos – brincou levantando uma sobrancelha. – Você está surpresa?

Julie continuou com uma careta, mas pareceu concordar com ela. Cindy se aproximou dos meninos e sorriu simpática para eles.

- O que é isso? – perguntou docemente. Eles se voltaram e sorriram para ela, entregando-lhe um copo automaticamente.
- A melhor coisa que você vai experimentar, bonitinha – disse um deles com um sorriso paquerador. Então virou-se para e Julie e sorriu para elas também. – Aqui meninas, aproveitem!

Elas aceitaram as bebidas por educação. Julie cheirou o líquido e entortou o nariz e continuou segurando o copo, sabendo que não beberia uma gota. Ela havia aprendido há muito tempo que não beber chamava muito a atenção, então permanecia com o copo na mão, para passar a impressão de que estava bebendo, assim não sendo incomodada por ninguém.

- Isso é horrível – comentou Julie após sentir o cheiro do líquido. Ela abandonou o copo no balcão e virou-se para Cindy. – Como consegue beber isso?
- Não é tão ruim – disse Cindy bebendo. sorriu maliciosamente ao ver que ela tentava controlar uma careta que teimava em se espalhar por suas feições.
- Olha só o que o destino trouxe! – disse uma voz surgindo atrás delas, chamando sua atenção.
- Oi Adrien! – exclamou Cindy com um sorriso.
- Meninas, como estão? – disse ele em um tom galanteador, colocando os braços ao redor dos ombros de e Julie. O perfume dele era um tanto forte demais, mas não desagradável. achou aquilo uma ótima metáfora para a personalidade ele. – Tudo certo por aqui?
- A bebida é uma merda – respondeu saindo de seu toque e levantando uma sobrancelha.
- Sempre um poço de simpatia, – disse Adrien antes de voltar os olhos para Julie. – E ora, ora, Julie Filmore. Em uma festa. Será o fim do mundo?
- Só se eu estivesse me divertindo – murmurou Julie de volta, com os braços cruzados. – O que não é caso.
bufou para tentar não gargalhar alto e Adrien colocou a mão sobre seu coração, fingindo estar ferido.
- Você sempre quebra o meu coração sabia? – brincou vendo Julie revirar os olhos. –Vamos lá, é uma festa! A primeira que você vai em um bilhão de anos. Você precisa aprender a se divertir.
- Eu sei me divertir – reclamou ela.
- Fazer lição de casa não é se divertir – zombou Adrien apertando seu ombros e começando a arrastá-la para longe. – Vou te ensinar a se divertir de verdade.

foi mais rápida. Antes que ele conseguisse levar Julie para sabe-se-lá-onde, ela entrou no meio dos dois e murmurou para a amiga:

- Você quer que eu me livre dele? Consigo em um piscar de olhos.

Julie olhou para ela e depois para Adrien por alguns segundos. Depois, deu-lhe um sorriso agradecido e encolheu os ombros.

- Não se preocupe, Adrien é inofensivo – disse ela. – Um idiota completo, mas inofensivo. Além disso eu sei que ele ainda tem uma coleção de cuecas do Homem Aranha. Se tentar alguma gracinha eu conto para a escola inteira.

sorriu para ela e Julie deixou com que Adrien a levasse pela multidão. Cindy sorriu também e suspirou.

- Eles formam um casal bem fofo, não acha? – perguntou com um sorriso malicioso.
- Você é doida da cabeça, sabia? – respondeu tentando não rir.
- Ai meu Deus, olha ali! – exclamou Cindy apontando para a sala através do caríssimo balcão de mármore que as separava da cozinha. – É o seu bonitão!

arregalou os olhos e olhou para onde ela apontava tão rápido que seus cabelos voaram. E lá estava , há alguns metros, conversando com uma pessoa que estava de costas, e sorrindo abertamente, charmoso como sempre.
Merda.

- Oi, ! – gritou Cindy acenando com o braço alegremente. agarrou-lhe as mãos e a puxou bruscamente para atrás de uma viga de mármore, as escondendo.
- Ele não é o meu bonitão – rosnou ela para a amiga com uma carranca mal-humorada. – E pare de ficar fazendo isso.

Cindy fez beicinho e sabia que não seria capaz de pará-la. Por isso, olhou ao redor rapidamente até encontrar o que precisava.

- Olha ali, as meninas da torcida – disse apontando para o pequeno grupo de meninas extremamente bem arrumadas, com copos de bebida nas mãos. – Você não queria virar amiga delas? É sua chance.
- Você acha que eu devo? – perguntou Cindy esquecendo-se de automaticamente. Depois, passou as mãos pelo vestido e afofou os cabelos. – Como estou?
- Impecável como sempre – sorriu empurrando-a levemente pelos ombros. – Agora vai! Você consegue.

Sorriu ao ver a amiga se afastar, realmente torcendo por ela e suspirou em seguida. Olhando em volta rapidamente, saiu de trás da viga e tentou se afastar, mas não foi capaz. Após quatro passos, bateu de frente com um peitoral firme e coberto por uma caríssima camisa social.
sorriu para ela e acenou delicadamente, dizendo oi. teve que controlar o impulso de xingar em voz alta.

- Oi – murmurou, ficando em silêncio logo em seguida. Sua reação pareceu divertir , que sorriu ainda mais.
- Por que sinto que você é afetada pela minha presença? – sinalizou ele com uma expressão divertida no rosto.
- Porque você tem um ego enorme – rebateu , vendo que suas palavras não tiveram o efeito desejado. Sempre que esperava que ele se ofendesse e fosse embora, sorria abertamente, como se a achasse divertida.
- Talvez – disse ele acenando as palmas das mãos para cima de para baixo, em movimentos intercalados. – Mas você sempre consegue machucar o meu ego, então gosto de estar ao seu redor. Me ajuda a controlá-lo.

tentou impedir um leve sorriso de surgir, mas falhou. sorriu com ela e por alguns segundos ela pode ver seus olhos brilhando, antes que erguesse as mãos.

- Vem comigo, quero te apresentar uma pessoa – disse, erguendo uma das mãos em seguida. Ela não a segurou, sinalizando com a própria para ele ir na frente. obedeceu, com uma quase imperceptível torção nas sobrancelhas.

o seguiu pela multidão, abanando o ar à frente de seu rosto, tentando dispersar a fumaça que provinha dos inúmeros cigarros eletrônicos sendo usados. Ela fumava, é claro, mas o cheiro que sentia não era do tabaco presente em seus cigarros. Era doce e levemente enjoativo, deixando uma forte e grossa fumaça branca no ar.
Ela havia largado a maconha há alguns anos e não planejava voltar. Por isso, queria se afastar do cheiro o máximo possível.
parou atrás do garoto com quem conversava, que mexia no celular, de costas para eles. Ele não o cutucou no ombro para chamar sua atenção, preferindo ficar ali, esperando, até que notasse a presença dos dois.
franziu as sobrancelhas para sua decisão, percebendo que não era a primeira vez que ela o via fazer isso. parecia sempre estar esperando que as pessoas resolvessem prestar atenção nele, ao invés de reivindicar tal coisa. Não sabia de onde vinha esse comportamento, mas imaginou que se fosse ela no lugar dele, sem poder chamar outros pela voz, com certeza estaria cutucando qualquer um com quem precisasse conversar.
Seus pensamentos foram interrompidos quando o amigo de se virou, tirando os olhos do aparelho em suas mãos e os erguendo para eles. Ele e o ofegaram ao mesmo tempo, se reconhecendo.
Olhos de descendência asiática, cabelos longos e sedosos, roupas caras.

- Raio de sol! – exclamou Frank Wilson, o garoto do avião, com um enorme sorriso nos lábios, puxando-a em um abraço poderoso. não correspondeu, permanecendo dura em seus braços, mal-acostumada com tanto toque físico.

Puta que pariu, não é possível.

- Olhe só para você – disse ele os separando e olhado para ela de cima a baixo. – Fodona. Senti sua falta, sabe? Quase fiz aquele piercing na língua, mas acho que precisaria de você para segurar a minha mão.

não respondeu por alguns segundos, ainda surpresa por estar encontrando aquele estranho, ali, na casa de um colega de escola. O quão pequeno era o mundo? O quanto o universo gostava de rir da cara dela?

- Oi – respondeu estupidamente, olhando para ele com uma sobrancelha levantada.

parecia ainda mais confusa do que ela. Olhou para Frank com as sobrancelhas franzidas e apontou para o amigo e para algumas vezes, como se fizesse uma pergunta.

- Lembra que te disse que fiz uma amiga no avião, a caminho da Flórida? – contou Frank ainda sorridente. – Era ela!
- Amiga? – murmurou para si, com a expressão ainda mais retorcida. parecia confuso, mas divertido e sinalizou lenta e pausadamente:
- Ela é a garota simpática com quem você falou no avião?
- Calma – respondeu Frank olhando para as mãos do amigo com enorme concentração. – Ainda estou aprendendo. Não sei o que o terceiro sinal significa.
- Simpática – rosnou com a expressão fechada, como se tivesse sido xingada com o pior dos palavrões.
- Ah, então sim – concordou Frank ficando cada vez mais feliz. – E como vocês se conhecem? Espera! Ela é a menina que você-

tampou a boca do amigo com a mão, interrompendo suas palavras. Depois, sorriu constrangido para e sinalizou:

- Desculpe, Frank fala demais.

Sorrindo maliciosamente, ela respondeu também utilizando a língua de sinais.

- Eu sei, fiquei quinze horas presa em um avião com ele.
- Ei! Não é justo! – exclamou Frank vendo a troca de sorrisos que e compartilharam. – Eu não sou fluente em ASL! O que vocês disseram?
- Que você ficaria melhor com um piercing no nariz – mentiu com um sorriso cínico. Seu plano deu certo. Frank se distraiu e começou a tocar o próprio rosto.
- Você acha? Eu até tinha pensado nisso, mas na língua parece tão interessante, ou talvez nas orelhas... Ou na boca...

Ele continuou murmurando, olhando para o próprio rosto pela câmera do celular. e trocaram olhares conspiratórios e os olhos dele passearam por ela lentamente, apreciando cada curva marcada pelas roupas coladas. desviou o olhar, mas não conseguiu engolir o leve sorriso que cresceu em sua boca, principalmente ao perceber que ele também sorria, ainda com os olhos nela.
Não foi difícil descobrir que e Frank eram melhores amigos. Foi o próprio Frank que lhe contou sobre isso enquanto permaneciam conversando pela próxima hora, reunidos na sala, um pouco afastados do resto das pessoas presentes.
Ele também era o irmão mais velho de Alvin Wilson, o que explicava sua presença na festa e o fato de que achava Alvin estranhamente familiar. Apesar de ser mais alto e musculoso, o colega tinha os mesmos olhos, traços faciais e cabelo, apesar de não o usar comprido como o irmão.
Frank falou mais – muito, muito mais -, mas viu-se com uma enorme dificuldade em prestar atenção em suas palavras. Estar ali, em um ambiente que havia evitado por tanto tempo, foi deixando-a mais e mais desconfortável a cada minuto, apesar da presença dos dois garotos ser surpreendentemente extremamente agradável.
O som era alto, as conversas barulhentas, o ar cada vez mais abafado e agridoce pelo acúmulo de fumaça de maconha. Lembrando-a de como era fumá-la, ficar com a cabeça leve, o corpo pesado, a mente confusa e risonha, tão perdida que ela não precisava se importar com a merda em que tinha se enfiado.
E havia .
Sorrindo para ela, inclinando-se em sua direção, falando com ela por suas mãos bonitas e movimentos paqueradores. Ele se aproximara ao longo da conversa e ela podia sentir o seu calor ao lado de seu corpo, o cheiro de seu perfume, o brilho em seu olhar.
O pensamento a assustou e, de repente, tudo estava muito quente. E sentiu-se levemente assustada, pois ela não sentia calor. Sentiu, é claro, quando a mãe faleceu e encontrou o pai após doze anos, mas fora esses casos específicos, ela não sentia calor.
E aqui estava ela, quente e suando. Com tanto calor que poderia muito bem estar debaixo do sol quente do meio dia.

- Eu preciso fazer uma ligação – mentiu, interrompendo o monólogo de Frank. Os dois olharam para ela e franziu as sobrancelhas. – Eu já volto.

Viu como levantou uma das mãos, mas não esperou, virando as costas e partindo pela casa. Desviou das nuvens de fumaça, dos casais se beijando com paixão pelos corredores, da caixa de som que machucou seus ouvidos e encontrou uma porta na cozinha. Saiu por ela e suspirou ao sentir o frio do lado de fora.
Seu coração batia forte contra o peito. Sua respiração estava ofegante. A ansiedade contaminava suas veias, fruto de uma noite com fantasmas e sentimentos demais para lidar.
Após esfregar os próprios braços em uma tentativa de se esquentar, recolheu o maço de cigarro do bolso e acendeu um, tragando em seguida. Suspirou aliviada, soprando a fumaça para fora da boca, até que ouviu uma voz atrás de si.

- Cigarro faz mal para cacete, sabia?

Ela se virou ainda soprando fumaça e deu de cara com um garoto da idade dela, sentado no chão, com as costas encostadas na lateral da casa. Suas roupas espelhavam o estilo de : pretas, rasgadas, com correntes e espinhos. Em seu rosto, dois piercings, um do lado do outro, na mesma sobrancelha e vários outros espalhados pelas orelhas, expostas pelo cabelo preto e curto.

- E maconha não? – perguntou reconhecendo a droga enrolando em um pedaço de seda entre os dedos dele.

O garoto deu um trago em seu baseado e soprou a fumaça branca em seguida.

- Maconha cura o câncer – respondeu com a voz levemente afetada pelo fumo.
- Você tem câncer? – perguntou levantando uma sobrancelha e dando um trago em seu cigarro. O desconhecido franziu as sobrancelhas e pensou por alguns segundos.
-...Não – respondeu olhando para ela.

Os dois se encararam por alguns segundos até que ele explodisse em gargalhadas. sorriu, reconhecendo os efeitos da maconha e o esperando se recompor. Quando ele terminou, suspirando alegremente, disse:

- Sou Travis. – E esticou a mão, para que ela a apertasse. Se aproximou e o cumprimentou, respondendo:
- .
- Se senta ai – disse Travis indicando o local ao lado dele. Quando ela se sentou, ele lhe entregou o baseado. – Quer?
- Não, valeu – respondeu ela encolhendo o nariz. – Parei com a maconha há alguns anos.
- Boa decisão – disse ele dando um longo trago em seguida.

sorriu levemente e os dois permaneceram silenciosos por alguns segundos, fumando e apreciando a fumaça desaparecer pelo horizonte.

- Se divertindo lá dentro? – perguntou Travis algum tempo depois com um sorriso maroto nos lábios.
- Divertido como ir ao dentista – brincou ela de volta, apesar de a noite não estar tão ruim assim. Frank, apesar dos pesares, era um cara divertido e ... Bem, ele era . Gentil e charmoso como sempre. Ela sabia, contudo, que se não tivesse encontrado os dois, provavelmente estaria definhando no próprio tédio. Julie desaparecera, assim como Cindy e não haveria nada para fazer além de ouvir a péssima música e ignorar as besteiras que os outros faziam.
- Eu te entendo – murmurou ele olhando para o perfil dela. – Nem sei por que vim. Me formei no começo do ano, mas as festas costumavam ser divertidas.

Eles voltaram a ficar em silêncio e sorriu internamente ao perceber o quão fácil era ficar ao redor de Travis, apesar de se conhecerem há apenas alguns minutos. Talvez fosse porque possuíam a mesma postura durona ou pelo simples fato de que ela não via nada malicioso em seus olhos.
Seja o que fosse, a deixou feliz.

- Eu gostei das suas roupas – elogiou ele olhando para suas enormes e pesadas botas.
- E eu dos seus piercings – sorriu apagando a bituca de cigarro no chão. – É bom encontrar alguém com senso de moda por aqui. Apesar de que, tenho que ser sincera, você bola mal para caralho.
- Não bolo não! – chorou ele olhando para o baseado pela metade, amassado e torto. – Não está tão ruim.
- É o baseado mais feio que eu já vi na minha vida – disse ela gargalhando em seguida. – Eu não bolo há anos e conseguiria fazer um melhor que esse.
- Bem, se você é tão boa assim – disse Travis parecendo ofendido enquanto revirava os bolsos de sua jaqueta preta. – Então prova para mim.

Ele lhe entregou uma seda, um dechavador e um saco plástico com maconha dentro. olhou os objetos por alguns segundos, mordendo o lábio, avaliando se deveria mesmo fazer aquilo. Faziam anos desde que ela entrara em contato direto com a droga, mas não mentira para Travis. Ela era muito boa na arte de bolar baseados.
E ela não ia fumar. Fez essa promessa para si mesma e não descumpriria. Só provaria o talento dela para ele. Com um sorriso maroto nos lábios, pegou os objetos e disse:

- Desafio aceito. Prepare-se para ser completamente humilhado.



estava atrás de quando ouviu uma voz familiar atrás de si.

- Não estava esperando te ver por aqui.

Ele se virou de onde estava na cozinha e se surpreendeu ao dar de cara com Cynthia, parada há poucos metros, parecendo insegura. Ele a via pouquíssimas vezes desde que se afastaram há três anos, uma vez ou outra pelos corredores ou nas enormes festas e jantares que o pai dela ou a mãe dele faziam e o outro era convidado a participar.
Não pode impedir-se, contudo, de dar um pequeno sorriso carinhoso para a amiga de infância e erguer os braços, convidando-a para um abraço.
Ela sorriu levemente, entrando em seus braços e o abraçando de forma tímida. sentia verdadeiramente falta de sua amizade e companhia, mas muito havia mudado desde o acidente. Na verdade, sendo sincero, desde muito antes disso.
Cynthia não era a mesma menina com quem ele brincava quando criança e perder a voz apenas o fez levar esse choque de realidade. Ele sentia falta dela, mas não conseguia mais continuar com a amizade que tinham, tanto com ela, quanto com o resto de seu grupo de amigos.

- Sinto sua falta – murmurou Cynthia, parecendo tão impecável que ele se controlou para não balançar a cabeça em negação. As sardas dela, que antes se espalhavam por todo rosto e ombros, estavam desaparecidas por debaixo da maquiagem e não havia um fio de cabelo fora do lugar. – De verdade. Você nunca vem quando te convido para sair com a gente. Talvez pudéssemos ir à praia e fazer uma fogueira, como antigamente.

sorriu levemente para ela e acenou, como se dissesse que isso seria uma boa ideia. Cynthia provavelmente vira que ele estava apenas sendo educado e suspirou, com um sorriso triste.

- Como está sua mãe? – perguntou mudando de assunto. Pegando seu celular, digitou rapidamente a resposta.

Pior do que antes. Acho que um dia ela vai ter um colapso nervoso.
Cynthia riu com nostalgia e viu como ela pareceu levemente mais confortável com sua presença.

- Meu pai está igualzinho – disse ela. se controlou para não torcer as sobrancelhas. O pai de Cynthia não era igual a mãe dele. Era pior. – E ele sempre arruma um jeito de perguntar sobre você. Acho que ainda sonha com o dia que vamos nos casar e juntar nossos impérios.

Isso fez rir abertamente. Desde que teve idade para descobrir que gostava de meninas sua mãe fez de tudo para que se apaixonasse por Cynthia. Ela e o pai da amiga provavelmente sonhavam há anos com a junção dos dois e, assim, com a junção de suas fontes de renda.
Mas, para a tristeza dos dois, não havia química entre os filhos. Eles até tentaram, quando tinham quatorze anos, um pouco antes do acidente de , mas tudo que foram capazes de fazer foi dar pequenos beijos desleixados antes de cair na gargalhada.
Eles concordaram que permaneceriam apenas amigos e estava feliz com a decisão. Ele não via Cynthia dessa forma e sabia que ela também não o via como nada além de um grande amigo.

- Eu estava falando sério sobre o meu convite – disse ela voltando a parecer nostálgica. – Poderíamos fazer uma fogueira e chamar o Alvin, a Emily e até a Chloe, se quiser. Ela me contou que faz tempo que vocês não se falam.

não teve tempo de recusar o convite, principalmente pela ideia de enfrentar a ex-namorada depois de tanto tempo. Uma porta se abriu atrás dele, deixando o vento gelado do lado de fora entrar e ele viu a expressão de Cynthia ficar automaticamente mal-humorada ao ver quem entrara na cozinha. Ao se virar, não pode impedir o sorriso alegre que se espalhou por seus lábios ao ver quem finalmente aparecera.
, tão bonita que parecia ter sido tatuada dentro do cérebro dele.
Ela entrou com um garoto que reconheceu como sendo Travis Cooper, que se formara no semestre anterior. nunca havia conversado com ele, mas parecia conhecê-lo, principalmente pela forma como estava rindo de algo que fora dito.
Os dois eram estranhamento parecidos, principalmente pela forma como se vestiam. Pareciam ter sido feitos para serem amigos ou algo mais, mas se impediu de pensar a respeito, uma sensação triste brotando em seu peito com a ideia que surgiu.

- Oh – exclamou quando percebeu e Cynthia parados do outro lado da mesa que ficava no centro da cozinha. Ela olhou para rapidamente e desviou o olhar, como sempre fazia. Sua expressão, contudo, tornou-se fria ao olhar para Cynthia.

O ar ficou frio e pode ver que Travis também notou. Se as duas tivessem raios laser nos olhos, todos ali já estariam mortos.

- Bem, vou ver onde Emily está – murmurou Cynthia ainda com uma expressão fechada no rosto. – Me manda mensagem se mudar de ideia. Te vejo depois, .

Ela saiu da cozinha rapidamente e o trio ficou em silêncio por alguns segundos, até que Travis desse um longo assobio.

- Uau – riu ele parecendo brincalhão. – A garota gótica e a líder de torcida se odeiam. Isso é algo que nunca vi antes.
- Vai se foder – xingou enquanto ria dando-lhe um soco no ombro como se fossem amigos há séculos. – Não a odeio por ser líder de torcida. Sou amiga da Cindy e acho que se ela pudesse escolher entre ser do time e ter a paz mundial, escolheria a primeira opção. Apenas não gosto da forma como ela olha para mim ou para todo mundo que não acha que combina com o precioso grupo dela. É arrogante e gente assim me enche de ódio.

Cynthia era a melhor amiga de infância de , mas não havia como a defender naquele momento. estava certa e aquela era uma das razões pelas quais ele se afastou dela e do resto do grupo. O pai de Cynthia era uma versão piorada da mãe de e infectou a cabeça da filha com ideias de superioridade e status, ao ponto que isso era tudo que importava para ela.

- Eu estava procurando por você – sinalizou sorrindo para e pegando-a de surpresa. – Não te achei em lugar nenhum.
- Estava lá fora – disse ela de volta também pela língua de sinais. – Tomando um ar.
- Ei! Não sabia que você sabia falar ASL – comentou Travis para ela, encostando os braços na mesa e sorrindo para os dois. – Vocês estão falando putaria? Porque isso seria bem sexy...

franziu os lábios e socou Travis no ombro com tamanha força que ele exclamou de dor. apenas observou os dois, rindo do comentário do antigo colega e observando ela com um leve sorriso nos lábios.
Ah, se ele fosse sortudo a esse ponto...

- Por que eu me tornei sua amiga mesmo? – perguntou ela com as sobrancelhas franzidas. Parecia ofendida, mas não comprou sua postura. Os olhos dela eram expressivos e brilhavam com diversão. Era quase inacreditável o quão fácil era ler os olhos dela. O sorriso que era o problema. nunca vira um sorriso tão difícil de decifrar.
- Porque eu admiti que você sabe fazer um baseado incrível, por isso – sorriu ele, antes de se voltar para e estender a mão. – Oi, sou Travis.

apertou a mão dele e sorriu. Era quase engraçado o contraste que os dois garotos tinham entre si, o mesmo que ele possuía com : enquanto ele era arrumado e polido, como uma versão em miniatura de um empresário, ela e Travis eram rebeldes e bagunçados, mais parecendo que haviam saído de um clipe musical de Joan Jett.

- – sinalizou com a mão livre. Ele também dublou o próprio nome com os lábios, para que o outro garoto entendesse melhor.
- Eu sei – sorriu Travis. – O único garoto popular que não me fazia querer vomitar.

Ele sinalizou uma resposta e traduziu-a em seguida.

- Ele disse que se sente lisonjeado – disse, com um sorriso divertido nos lábios.

Ninguém teve tempo de dizer mais nada, pois uma pessoa entrou na cozinha com uma rapidez formidável. Cindy apareceu, adorável como sempre, com as bochechas vermelhas e uma áurea mais animada que o normal. Estava tão risonha que suspeitou que ela havia bebido um pouco demais.

- ! – exclamou se jogando nos braços da amiga que fez uma careta confusa por cima de seu ombro. – Estava te procurando por todo lugar!
- O quanto você bebeu? – perguntou com as sobrancelhas franzidas.
- Pouco, na verdade – Cindy respondeu parecendo tentar ficar mais séria. – Eu sou fraca para bebida. Bem, não importa! Eu vim porque-

Ela parou de falar e franziu as sobrancelhas também. O olhar de Cindy caiu em Travis e ela ficou alguns segundos silenciosa, com os olhos nele. A expressão no rosto dele não era diferente. Olhava para o rosto de Cindy como se ela fosse uma belíssima pintura que o deixara sem palavras.
os achou fofos, mas o olhar horrorizado no rosto de fez com que ele se engasgasse em uma risada. Pelo visto, ela não era das mais românticas.

- Ei! – exclamou estalando os dedos entre Cindy e Travis, fazendo-os prestar atenção. – O que você estava dizendo?
- Hã? – murmurou Cindy voltando-se para ela com olhos perdidos. – Ah, sim! Vim te chamar para ficar com a gente. Eu e algumas pessoas da torcida vamos jogar verdade ou desafio.
- Nem fodendo – respondeu seriamente.
- , por favor! – chorou Cindy agarrando-lhe as mãos. – Não achei a Julie em lugar nenhum e queria uma amiga para estar comigo. Por favor, por favor, por favoooooor!
- Eu odeio esse jogo – argumentou sem vacilar. – Ele é uma desculpa para fazer merda sem culpa e humilhar o resto dos pobres coitados. Não. Vou. Jogar.

A bebida provavelmente deixou Cindy mais sensível que o normal e acreditou, por um segundo, que ela iria começar a chorar. Travis pareceu notar isso também e claramente não gostou da ideia.

- Não se preocupe, lindinha – disse se aproximando e colocando um braço ao redor dos ombros dela, que voltou a sorrir animadamente. – Eu te faço companhia.
- Sério? – perguntou ela com olhos brilhantes.
- Lindinha, eu pularia amarelinha vestindo um tutu se você me pedisse. Agora, lidere o caminho.

Ela agarrou a mão dele e passou a arrastá-lo para longe. Antes de sair, Travis virou o rosto para trás e piscou para , que bufou tão alto que gargalhou silenciosamente.

- Como ele me conhece tão bem? – rosnou ela para que apenas sorriu para ela. – Eu o conheço a só vinte minutos!

Travis obviamente sabia que acompanhar Cindy faria com que os seguisse, não permitindo que a amiga levemente embriagada ficasse sozinha com um cara que não conhecia. Em pouco segundos, como se fizesse sem perceber, ela agarrou o braço de e o arrastou, dizendo:

- Vem, vamos lá.

Ele não reclamou. Foi a primeira vez que eles tiveram um real contato físico desde que se conheceram e não pode deixar de sorrir ao observar as unhas dela, cobertas de um esmalte preto descascado, ao redor do braço dele, coberto pela camisa que a estilista que sua mãe contratara comprou por quinhentos dólares.
Parecia completamente fora do lugar. Destoante como se ele fosse um chão branco e polido que ela estava pisoteando e sujando de lama com suas enormes e pesadas botas de motoqueiro.
Deus, ele adorou.
Os dois passaram pelas nuvens de fumaça e adolescentes bêbados jogados pelo chão, até chegarem na sala principal onde um grupo estava sentado em roda no chão com uma garrafa de cerveja posicionada no centro.
reconheceu Emily, Alvin, Cynthia e mais algumas pessoas com quem costumava a sair antigamente. Além disso, ali estava Frank, que sorriu amplamente para ele.

- ! Querido, junte-se a nós! – exclamou, fazendo com que todos olhassem para eles.
- Oi ! Não sabia que você viria – exclamou Emily, uma líder de torcida ruiva com quem ele costumava sair. gostava dela. Costumava ser levemente mais gentil que os demais.

Ele acenou para ela, sorrindo. Depois, voltou-se para Frank, erguendo as mãos como se dissesse: “o que você está fazendo ai?”.

- Você não apareceu, então eu resolvi ver como os jovens de hoje se divertem – brincou ele como se não fosse apenas dois anos mais velho. – Quer se juntar a nós?

torceu o nariz e negou com o dedo indicador, antes de notar que Travis estava lá, fora da roda, observando-os com os braços cruzados.

- Eu sabia que você viria – murmurou ele sorrindo quando mostrou-lhe o dedo do meio.
- Você não deveria estar jogando? – rebateu ela ainda com a mão ao redor dos bíceps de , sem perceber.
- Não, eu odeio esse jogo – respondeu ele com um sorriso malicioso, fazendo rir e bufar. – Apenas não quis deixar sua amiga sozinha.
- Que cavalheiro da sua parte – respondeu ela com uma sobrancelha levantada. Em resposta, Travis apenas encolheu os ombros e sorriu levemente, com os olhos em Cindy, que estava sentada entre as meninas da torcida parecendo em êxtase.

Cynthia o percebeu e sorriu, mas logo fez uma careta ao ver a mão de ao redor do braço de . Isso fez com que a própria também olhasse e o soltasse como se ele estivesse pegando fogo.

- Desculpe – murmurou.
- Não se preocupe – sinalizou ele com um sorriso paquerados nos lábios. – Se precisar de algo para segurar, estou à disposição.

Ela olhou para ele por alguns segundos, seus expressivos olhos, cobertos de maquiagem preta, movendo-se pelo rosto dele como se tentasse entendê-lo. Depois, torceu os lábios e olhou para a roda à frente deles, como se segurasse um sorriso.
Isso o fez sorrir mais e a sensação foi bem-vinda. Desde o acidente houvera poucos momentos em que ele era capaz de sorrir tanto, principalmente depois de se afastar do antigo grupo de amigos. Com , contudo, ele sorria tanto que as bochechas chegavam a doer no fim do dia.
Eles permaneceram de fora, observando o jogo em silêncio. Nada demais aconteceu no começo, mas, enquanto o tempo passava, mais e mais era capaz de sentir a energia de mudando.
Os desafios foram ficando cada vez mais selvagens e as perguntas ainda mais invasivas e ele foi percebendo como foi murchando e murchando, fechando cada vez mais sua expressão e cruzando os braços, quase como se quisesse proteger a si mesma.
Quando Ben Peterson terminou de saltar, nu, da varanda do terceiro andar até a piscina, também estava pronto para ir embora. O desafio em seguida foi o estopim.
Ben, molhado e enrolado em uma toalha, girou a garrafa que caiu apontando diretamente para Emily. Ele sorriu maliciosamente para ela, como se fosse o gato de Alice no País das Maravilhas e perguntou o que ela queria. Quando Emily escolheu o desafio, ele sorriu ainda mais.

- Eu te desafio a dar um beijo bem dado em Alvin – disse. Cynthia sorriu, parecendo animada pela amiga, mas franziu as sobrancelhas, não gostando da situação.

Emily empalideceu e seus olhos se arregalaram em pânico.

- Eu... Hã... Eu... – ela gaguejou, claramente desconfortável com a ideia de beijar o dono da festa. levantou as mãos para dizer algo, mas não foi preciso.
- Você não precisa fazer se não quiser – interferiu com uma expressão séria no rosto. Todos olharam para ela e Ben e Cynthia franziram as sobrancelhas.
- Ela está jogando – argumentou o desafiante.
- É só um jogo, não é a lei – respondeu ela parecendo ainda mais mal-humorada. – Ela não é obrigada.
- Emi não se importa em beijar Alvin – interveio Cynthia parecendo raivosa. – Não é?

Ela olhou para a amiga que ficou ainda mais branca ao ver que não tinha seu apoio. Emily voltou a gaguejar e parecia tão desconfortável que queria a tirar dali o mais rápido possível.

- Não sei... Acho que tudo bem... – disse, sem convencer ninguém. Alvin permaneceu em silêncio, parecendo não saber o que fazer. Se continuasse o mesmo que conheceu há tantos anos, ele desvia estar sentindo um enorme constrangimento por Emily claramente não querer o beijar, mas tentava disfarçar com um sorriso debochado, fingindo desafiá-la a não o querer.
- Eu concordo com a – disse Cindy rapidamente, parecendo desconfortável, mas firme. – Acho melhor você pedir para ela fazer outra coisa, Ben. Algo que não a deixe desconfortável.
- Concordo plenamente – disse Frank. – E como eu moro nessa casa, a festa também é minha, por isso exijo que você refaça o desafio.

Ben não parecia feliz, mas obedeceu. Enquanto pensava em algo novo, Cynthia, parecendo extremamente mal-humorada, aproximou-se de Emily e sussurrou algo em seu ouvido. Seja lá o que dissera fez com que franzisse as sobrancelha, pois a ex-amiga ruiva pareceu ainda mais chateada pelo que ouvira.
notou isso também e aquilo pareceu ser a gota d’água para ela. Bufando, viu como Julie se aproximou e agarrou o braço dela.

- Você bebeu? – murmurou alto o suficiente para que apenas ouvisse.
- É claro que não! – respondeu Julie parecendo ofendida. – Eu sou a motorista.

Isso trouxe um sorriso nos lábios de . Ele não conhecia Julie Filmore muito bem, mas sabia que ela era uma boa menina, mais certinha do que o necessário. Conseguia lembrar de inúmeras vezes em que Adrien reclamava no vestiário de como não havia um fio de cabelo dela fora do lugar.

- Ótimo – respondeu . – Então fica de olho na Cindy, beleza? Ela bebeu um pouco. Estou indo para casa.
- O quê? – exclamou Julie espantada. começou a se afastar e ela gritou: - Você não prefere ir comigo?
- Vou pela praia! – gritou de volta, correndo em direção à cozinha e desaparecendo.

não perdeu tempo. Correu atrás dela, vestindo seu casaco enquanto saía pela porta da cozinha. Ele deu a volta pelo redor da casa e a viu, descendo o cais até a praia.
Era incapaz de gritar pedindo a ela que o esperasse, então correu também. Seus sapatos caríssimos caíram contra a areia e ele soube que sua mãe provavelmente morreria de desgosto ao vê-lo ali, com suas roupas de marca sendo sujas daquela forma.
Ele sorriu com o pensamento.
Se aproximou dela e não pode conter uma risada silenciosa ao ouvi-la xingar em alto e bom som. Ele a cutucou no ombro com gentileza e levou um susto tão grande que gritou.

- Porra! – exclamou ela vendo que era atrás de si. – Um dia você vai me matar do coração por ficar se esgueirando atrás de mim, sabia?

Ele apenas sorriu em resposta, passando a andar ao lado dela.

- O que veio fazer aqui? – perguntou ela olhando para ele. gostava muito disso nela. A maioria das pessoas parecia esquecer o fato de que ele se comunicava pela língua de sinais, principalmente as que o conheciam antes do acidente. Faziam-lhe perguntas e não olhavam para ele, esperando apenas ouvir sua resposta. nunca se esquecia.

apenas sorriu para ela e encolheu os ombros ao invés de responder sua pergunta. olhou de volta, como se tentasse descobrir algo em suas feições, mas desviou seus olhos para o mar quando foi incapaz de conter um sorriso que espelhou o dele.
Eles andaram em silêncio por alguns minutos. notou como as botas dela afundavam na areia molhada e sentiu um leve impulso de tirar os sapatos e sentir a água do mar nos pés.
Besteira, é claro. Se sujasse as roupas que usava, tão ridiculamente caras, sua mãe o reprovaria sobre isso para sempre. Ainda se lembrava de quando ele derrubou tinta sem querer em seus lençóis de seda. Era uma das razões dela repudiar tão fortemente o interesse dele pela arte.

Artistas raramente fazem dinheiro, , ela lhe dissera. Não entendo por que gosta tanto de fazer essas pinturas que no final só servem para sujar o chão e ocupar espaço.

Uma brisa gelada e marítima tirou de seus devaneios e ele viu que abraçava a si mesma, para tentar manter seu calor corporal.

- Você está com frio? – ele sinalizou chamando a atenção dela.
- Estou sempre com frio – respondeu ela esfregando os próprios braços. – Mas nunca me lembro de trazer um casaco, então apenas lido com o fato de ser burra para caralho.

sorriu para o seu mau-humor e não pensou duas vezes em tirar o próprio casaco. franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça.

- Não, nem pensar – disse erguendo a mão para impedi-lo quando lhe ofereceu a peça de roupa. – Estou bem.
- Você está com frio – sinalizou ele apoiando o casaco no antebraço para conseguir usar as duas mãos.
- Estou com frio, não vou morrer – rebateu ela enquanto andava, ainda com os braços ao redor de si mesmos.
- Minha roupa me protege mais do que a sua – respondeu ele quando ela o olhou, parecendo mal-humorada. – E eu estou acostumado com o clima da Flórida. Você não.

Ela parou de andar e olhou para ele por alguns segundos, pensando. sustentou seu olhar, teimoso como ela e quando pareceu que continuaria recusando, uma brisa geladíssima passou e ela tremeu tanto que bufou.

- Merda – disse revirando os olhos e agarrando o casaco do braço dele. O vestiu com violência e murmurou: - Valeu. Não precisava.
- Tudo bem – sinalizou ele tocando a ponta do dedão duas vezes no centro do peito com a mão espalmada. – Não é incomodo.

Eles voltaram a andar. Haviam se aproximado ainda mais do mar e percebeu que a barra de sua calça estava levemente úmida e suja. viu seu olhar e o interpretou erroneamente.

- Você não tem um motorista particular ou algo assim? – perguntou levantando uma sobrancelha. – Não devia estar voltando para casa com ele ao invés de estar sujando seus sapatos de um milhão de dólares ao invés disso?

sorriu para ela em resposta. provavelmente o achava o estereótipo do menino rico e mimado, completamente impecável, com empregados que fazem tudo para ele. O magoava levemente, mas ele não a culpava. Essa era a impressão que passava para todo mundo.
No fim, era justamente assim que sua mãe queria que o vissem.
Rico, polido, poderoso e impecável.

- Por que a gente não joga um jogo? Para nos conhecermos melhor? – perguntou ao invés de respondê-la, sentindo subitamente uma enorme vontade de limpar sua imagem para ela.
- Por favor não me diga que você está vindo com jogo de vinte perguntas para cima de mim – respondeu ela revirando os olhos, mas parecendo levemente divertida lá no fundo.
- Não precisam ser vinte perguntas – sinalizou ele sorrindo de forma brincalhona. – Apenas o quanto você quiser. Para nos conhecermos melhor. Vai ser legal.

Ele colocou as palmas das mãos juntas, implorando para ela aceitar. olhou para ele, com uma expressão leve, como se tentasse entendê-lo. Depois, suspirou e respondeu:

- Você começa.
- Tudo bem – sinalizou ele fingindo pensar por alguns segundos. – Eu sou canhoto.

franziu as sobrancelhas, sendo pega de surpresa. Ela provavelmente esperava que ele fosse fazer uma grande confissão para tirar o mesmo dela, mas se recuperou rápido e disse:

- Eu sou alérgica a nozes.
- Eu nunca quebrei nenhum osso. – Como se sua mãe fosse permitir que ele se aventurasse a esse ponto.
- Eu tenho pavor de gansos – murmurou levemente na defensiva.
- Você está brincando comigo – sinalizou com um sorriso crescendo nos lábios. Ele nunca imaginaria que ela tinha medo de gansos. Ele nunca imaginaria que ela tivesse medo de qualquer coisa.
- Eles são criaturas malignas – rosnou cruzando os braços. – Criaturas horríveis, que sentem prazer em te fazer correr enquanto tentam arrancar seus calcanhares. Não se atreva a rir.

fingiu passar um zíper na própria boca e se alegrou ao perceber a sombra de um sorriso nos lábios dela. Após alguns segundos, sinalizou:

- Eu tenho um motorista particular porque tenho trauma de dirigir.

Aquilo chamou a atenção dela. Seus olhos surpresos e arregalados passaram das mãos dele para seu rosto e então discretamente para a fina cicatriz em seu pescoço. não se importou. Ele imaginou os dedos dela passando levemente pela pele sensível e o pensamento trouxe arrepios aos seus braços.

- Alguns anos atrás estive em um acidente de carro em que eu era o motorista. Desde então não consigo estar atrás do volante.

se orgulhou de conseguir sinalizar aquilo sem tremer. Era difícil falar do acidente, mesmo depois de tantos anos. É claro, ele aceitara o que ocorrera bem melhor do que os outros, principalmente sua mãe, mas haviam vezes em que um carro rasparia o pneu no asfalto com muita força perto dele ou noticiais de batidas apareciam na televisão e podia jurar que ouvia os próprios gritos ecoando em seus ouvidos.
não disse nada, olhando para o rosto dele por um longo momento. Os olhos dela eram expressivos e sentiu o próprio peito aquecer ao ver a sua expressão. Por alguma razão, que era desconhecida para ele, ela entendia os sentimentos que turbilhoavam dentro dele; A sensação de medo, desespero, vazio que proviam com certeza de uma experiência traumática do passado.
Ele não comentou sobre ter lido isso seus olhos, apesar de querer muito. De repente, a ideia de que ela também tinha seus monstros escondidos, assombrando-a no meio da noite, fez com que se sentisse ainda mais conectado com .
Eles não disseram nada por longos minutos, ouvindo apenas os barulhos dos próprios passos contra a areia, até que ela quebrou o silêncio.

- Se te faz sentir melhor, eu tampouco sei dirigir. Nunca aprendi.
- Nunca teve interesse? – perguntou .
- Sempre tive, na verdade – disse ela com os olhos, de repente, extremamente nebulosos. – Sempre quis dirigir, ter meu carro, ter a liberdade e independência que isso traz, sabe?

Ela se silenciou por alguns segundos antes de continuar.

- Mas mamãe ficou doente quando eu tinha quinze anos e não fui capaz de focar em nada além disso desde então.
- Sua mãe ficou em Seattle? – perguntou ele lembrando-se de que Christopher comentara que a filha viria de lá. Assim que terminou de sinalizar, contudo, soube que dissera a coisa errada.

desviou o olhar e ele viu como ela visivelmente empalideceu. De repente, é como se ela estivesse há milhares de quilômetros de distância daquela praia, enfrentando algo que a assustava.

- Desculpa – sinalizou ele com uma expressão triste no rosto. – Não devia ter perguntado.
- Está tudo bem – respondeu ela sem encontrar os olhos dele. Depois de um longo tempo de reflexão, como se sentisse que devia isso à ele após ter dividido algo tão íntimo com ela, ela murmurou:
- Minha mãe morreu há um pouco mais de um mês. Foi por isso que me mudei para cá.

sentiu seu coração afundar por alguns segundos. Depois, com olhos quentes, perguntou:

- Como ela era?
Isso trouxe um sorriso ao lábios dela e ele sentiu-se relaxar.
- Incrível. A melhor. Minha mãe, minha melhor amiga. Por quase toda a minha vida fomos apenas nós duas contra o mundo.
- E seu pai? – sinalizou antes que pudesse pensar direito.

Pergunta errada novamente.
Merda.

- Meu... Pai – disse com tanto desgosto que arregalou levemente os olhos. Nunca vira alguém falar de Christopher daquela forma. Ele era muito adorado por todos que o conheciam. – Acho que podemos dizer que ele não foi presente.

Ela olhou para por alguns minutos e ele quase podia ver uma batalha sendo travada atrás de seus lindos olhos. No fim, como se ele tivesse passado em um teste, suspirou e continuou a falar, tão baixinho que parecia estar forçando as palavras a saírem.

- Christopher nos abandonou, . Quando eu era pequena. O dia que conheci você, no Dunkin’ Donuts, foi o dia que eu me mudei. Vi meu pai pela primeira vez em doze anos naquele dia.

Ele não disse nada por um longo tempo e continuaram andando, enquanto tentavam processar a conversa que ocorrera. nunca imaginaria que Christopher tivera esse passado. Ele o vira com Mike e Trinity inúmeras vezes e era difícil imaginar que aquele homem, tão gentil, amoroso e tão responsável seria capaz de abandonar por doze anos.
Quis, subitamente, segurar a mão dela e o pensamento o pegou de surpresa. Ele gostava dela, é claro. Como não gostaria? Ela era linda e com olhos que o faziam quente e necessitado, além de ser engraçada, inteligente e espirituosa. Mas não acreditava que os sentimentos que possuía passavam do fato de que ele gostava de sua companhia e originalidade.
Até agora. Até esse momento em que segurar a mão dela era tão importante quanto respirar.

- Se serve de consolo – sinalizou tentando esquecer os próprios pensamentos. – Meu pai também não é o pai do ano. As vezes ele esquece que eu só falo pela língua de sinais e tenta falar comigo pelo telefone.
- Jesus – suspirou com as sobrancelhas franzidas. – Desculpa dizer, mas seu pai parece ser um cuzão.
- Obrigado – respondeu ele sorrindo. – O seu também.

Isso a fez rir e se encontrou ali, parado, com um leve sorriso nos lábios, sujando os sapatos de areia e observando-a gargalhar no meio da noite, iluminada pela luz da lua.
Um trovão, de repente, repercutiu pelos céus e antes que pudesse entender o que acontecia, uma forte chuva caiu sobre os dois, encharcando-os automaticamente.
Ele não teve tempo de sorrir para a chuva e aproveitar os pingos. de repente, cobriu-se com o casaco dele com uma rapidez impressionante, usando-o de capa e saiu correndo, gritando:

- Merda, merda, merda, merda!

tentou acompanhá-la, mas corria como se estivesse sendo perseguida pelo próprio diabo. Ele a seguiu enquanto ela fugia da praia, voltando para as calçadas e correndo pelas ruas. Foi um dos poucos momentos em que se sentiu extremamente frustrado por não conseguir mais vocalizar. Queria chamá-la, gritar para que ela o esperasse, mas não pode, então permaneceu correndo, sentindo as roupas encharcarem pela água.
Ela só parou de correr quando chegou na varanda da própria casa. subiu atrás dela, ofegante, apoiando-se nos próprios joelhos para recuperar o ar. Olhou para ela, extremamente confuso, pronto para perguntar-lhe o que aconteceu, mas congelou ao ver seu estado.
tremia.
Da cabeça aos pés, tanto que abraçava a si mesma, tentando conter o próprio corpo. Arrepios selvagens passavam pelo corpo dela, arrepios que simplesmente sabia que não vinham pelo frio ou pela chuva.
Ele se aproximou dela, que não o via. Tinha os olhos fortemente fechados e o rosto tão pálido que se preocupou. Tocou os ombros dela com delicadeza, cobrindo-os um de cada lado com suas duas mãos.
abriu os olhos, assustada, como se tivesse esquecido de que ele estava lá. E ali, estampado em suas pupilas, foi capaz de ver a si mesmo, sentado em sua cama, ofegante, após outro pesadelo em que estava dentro do carro, girando, girando e girando.

- Desculpe – disse ela se recompondo. Ele pode ver as paredes se reerguendo e, de repente, era como se nada daquilo tivesse acontecendo. – Odeio tomar chuva.

Pensou em pressioná-la, mas não o fez. Sabia o quão difícil era falar sobre seus fantasmas e eles tiveram um ótimo momento antes da chuva. Não arriscaria estragar isso.

- Está tudo bem – sinalizou, dando-lhe um sorriso e apertando seus ombros em conforto em seguida. – Não se preocupe.

olhou para ele por alguns segundos, com seus olhos cobertos de maquiagem preta borrada, até que desviou o olhar e retirou o casaco dos ombros.

- Obrigada pelo casaco – disse sem olhar em seus olhos. Ele o vestiu, sentindo um pouco do perfume dela no tecido e sinalizou:
- Quando precisar é só pedir.

Ela abraçou os próprios braços e andou de costas até a porta. sorriu para ela e acenou um último adeus.

- Boa noite, – sinalizou, virando-se de costas em seguida e entrando na chuva, a caminho de casa. Poucos metros contudo, ouviu-a gritar atrás de si:
- Ei!
Ele se virou, voltando para a varanda e ela continuou.
- Para onde você está indo? – perguntou com as sobrancelhas franzidas.
- Para casa – ele sinalizou simplesmente. A expressão dela se afundou.
- Para casa? – ela repetiu apontando para a direção que ele ia. – Por aquela direção?
Ele assentiu.
- A direção pela qual a gente veio?
Novamente, ele concordou.
- Nós já passamos pela sua casa? – ela constatou, olhando para ele como se ele fosse um alienígena quando assentiu novamente. – E você me acompanhou mesmo assim?

Em resposta, sorriu com o canto da boca, mostrando-lhe uma covinha e encolheu os ombros, como se não fosse nada demais.

- Há quanto tempo passamos pela sua casa? – ela perguntou com a voz levemente afetada.
- Desde o começo – sinalizou. – Frank é meu vizinho.

Enquanto ela ainda olhava para ele como se tivesse se transformado em uma nova pessoa bem na sua frente, jogou-lhe um último sorriso e partiu pela chuva, sem se importar com o estado de seus caríssimos sapatos.

Capítulo 6 - A lista de coisas nunca feitas



Candace está olhando para ela com aquele olhar cínico novamente. Seus cabelos ruivos perfeitamente amarrados em um rabo de cavalo e a maquiagem tão perfeita que não há uma pincelada fora do lugar pareciam estar zombando da cara dela. daria tudo para poder socá-la na cara.

- Verdade ou desafio? – perguntou a ex-líder do time de torcida de seu colégio com um sorriso malicioso. Todos sentados ao redor tinham os olhos fixos nelas.
- Desafio – respondeu sem mudar a expressão séria em seu rosto. Ela odiava esse merda desse jogo. Como Lily a convenceu novamente a fazer parte disso?
- Eu te desafio... – disse Candace com um brilho no olhar que a fez franzir as sobrancelhas. Ela não confiava em Candace Hall. Nunca o fizera. Todas as vezes que se encontraram sempre sentiu como se tudo que ela pudesse fazer era ser má com todo mundo. – ...A beijar Logan Murphy.

não pode controlar o arregalar de seus próprios olhos. Isso só fez o sorriso de Candace aumentar. Todos ao redor se silenciaram e ela não pode se conter em olhar para Lily com uma expressão confusa.
Como Candace saberia...?
Lily sentiu seu olhar e corou, olhando as próprias mãos. franziu as sobrancelhas e sentiu uma pontada no peito. Ela contou? Sua melhor amiga contou à garota que mais a odiava sobre quem gostava?

- E então? – disse Candace. – Vai fazer ou as meninas da Lincoln são grandes covardonas?

pensou por alguns segundos. Ela queria não dar a mínima para a opinião de Candace Hall ou qualquer outra pessoa presente. Ela queria mandar todos se foderem, levantar e ir embora daquela festa que ela nem queria ter ido para começo de conversa, pois não se importava com o que achavam dela.
Só que não era o caso.
se importava. Muito. Assim como absolutamente todo corpo estudantil. As decisões dela afetariam todo mundo, as meninas da torcida teriam um colapso. Lily ficaria irritada e elas já estavam brigando tanto que tudo que queria era evitar mais um conflito...
Sem dizer uma palavra, levantou-se com o queixo erguido e saiu da roda, em direção à um grupo de alunos mais ao longe. Podia ver as costas de Logan viradas para ela e, de repente, sentiu-se extremamente autoconsciente.
Passou as mãos no vestido que usava, na tentativa de se acalmar. Não funcionou. Suas sapatilhas eram apertadas demais, o vestido curto demais. Por que ela deixou Lily a convencer a usar isso? Ela odiava. Por que ela estava sempre fazendo o que os outros queriam?
Ela cutucou o ombro dele e ele se viu. Lindo, com olhos quentes e sorriso de menino.
Logan abriu a boca, mas nenhum som saiu dela. Ele então levantou as mãos e sinalizou:

- Oi! Você é a , não é?

Aquilo a pegou de surpresa. O que estava acontecendo? Logan não falava pela língua de sinais.
Ela piscou.
E, de repente, Logan desapareceu, dando lugar a outra pessoa.
Os mesmos olhos, o mesmo sorriso.
.
O quê...?

- Tudo bem? – ele sinalizou novamente, franzindo as sobrancelhas. – Você é a ?

Do que ele estava falando? Eles se conheciam! Como não estava a reconhecendo?
Ela abriu a boca, mas um trovão saiu no lugar de sua voz. Como antes, em um piscar de olhos, ela não estava mais na festa, não falava mais com Logan ou .
Estava caída no chão, sentindo o chão gelado contra sua bochecha. Gotas caíam de cima dela, dentro de suas orelhas, entrando pelo nariz, cegando seus olhos, engasgando-se em sua boca.
Ela estava se afogando e havia dor. Muita dor. Dor em todo lugar, principalmente...

acordou em um sobressalto tão forte que seu tronco inteiro foi para frente. Ela sugou ar violentamente enquanto sua testa descansava entre as coxas e tentou se controlar.
Respire fundo. Conte até dez, disse a si mesma.
Respire, inspire. Respire, inspire.
Ela repetiu isso a si mesma por longos minutos, até que conseguisse controlar as próprias emoções. Fechou os olhos o mais apertado que pode e suspirou uma última vez, antes de cair com força contra os travesseiros. Havia suor escorrendo por suas costas, por sua testa e por suas mãos.
Fazia muito tempo desde que ela sonhara com as coisas que aconteceram tantos anos atrás, desde que pensara em Candace Hall, em Lily e...
Logan.
Era engraçado, de uma maneira horrível, pensar em Logan. Principalmente porque, ao mesmo tempo que ela nunca pensava nele, pensava nele quase o tempo todo. Como se ele fosse uma coceira, um machucado, horrível e inflamado, que não parava nunca de incomodá-la, mas que tentava, com todas as forças, fingir que não existia.
Ela esfregou o rosto com as duas mãos e percebeu que estavam extremamente geladas. Depois, olhou seu relógio em sua mesa de cabeceira e suspirou.
Três e meia da manhã.

- Merda – xingou, fechando os olhos por alguns segundos. Pelo menos era sábado e ela podia se dar ao luxo de acordar um pouco mais tarde.

Virando-se de lado, afundou ainda mais nos travesseiros, desejando acalmar os próprios pensamentos. Não queria pensar no que sonhara. Na festa, no jogo, em Lily e seus olhos culpados, pois havia apenas uma forma de Candace saber que tinha uma queda por Logan.
Não queria pensar em Logan ou no fato de que ele se transformara em .
Com certeza não queria pensar em , em seu sorriso doce ou em sua companhia reconfortante. Em como conversou com ela, contou segredos, a acompanhou até em casa no meio de uma chuva fortíssima mesmo sem precisar.
Bufando alto, bateu no colchão com as mãos e os pés, frustrada. Depois, respirou fundo e tentou se recompor.
Apesar de repetir a si mesma que não pensaria neles, pois não mereciam cinco minutos de seu tempo, só foi capaz de cair no sono quase três horas depois.

✋🏼🎨💬

não sabia como havia se metido nessa situação.
Quer dizer, de certa forma, ela sabia. Não foi preciso muito. Apenas os olhos pidões e o beicinho de Mike, junto de mãos em oração e voilà, ela faria qualquer coisa que ele quisesse.
Mas compras em Palm Beach com Trinity à tiracolo? Isso ela nunca esperaria.
Não que o lugar não fosse lindo. A Flórida era famosa por uma razão e fazia jus à essa fama. O céu era azul e limpo, o sol forte e poderoso e as avenidas repletas de moradores e turistas, andando de um lado para o outro com os braços lotados de sacolas. Milhares de lojas lotavam as calçadas com enormes vitrines cobertas de produtos caríssimos. As altas palmeiras enfeitavam o calçadão e ciclistas passavam com os cabelos ao vento.
odiou.
Mais ou menos. Não pela forma como tudo se apresentava, mas sim como a fazia se sentir. Novamente, se destacava como se estivesse nua, com uma melancia pendurada no pescoço. Principalmente ao lado de Trinity e Michael, que pareciam ter sido esculpidos para representarem a Flórida de maneira impecável.
Era frustrante estar sempre no centro das atenções. Ela nunca gostou, nem mesmo alguns anos atrás, onde tudo que fazia era pensando na opinião dos outros sobre si mesma. Sempre lhe deu um forte aperto no peito e um nojento suor nas mãos pensar sobre estar sob os holofotes.
Viver na Flórida, principalmente em West Palm Beach, fez com que ela tivesse essa sensação o tempo todo.
E era absolutamente insuportável.

- E esse aqui? – perguntou Trinity pela quarta vez, tirando um cabide do monte e mostrando-lhe um vestido. não gostou muito, mas percebeu que a madrasta estava melhorando. Ela havia parado de mostrar-lhe roupas com cores vibrantes depois da primeira loja e realmente parecia estar se esforçando para achar algo que fosse o estilo dela.

não era nem um pouco fã da arte de fazer compras, mas o fato de Trinity realmente querer achar algo que gostasse fez o peito dela levemente mais quente.
Nos tempos em que esteve com eles, percebera que a madrasta fazia um esforço enorme para a incluir e fazer sentir bem-vinda. Apreciava muito seu esforço, o que acabava por fazê-la se sentir ainda mais culpada enquanto continuava a fechá-la do lado de fora de seus sentimentos.
Era difícil estar com Trinity a maioria das vezes. Ver televisão com ela, conversar sobre seus gostos, falar da escola, aprender suas receitas, comprar roupas.
Isso era o que costumava fazer com Darla durante toda sua vida e a morte da mãe ainda estava muito fresca, como se fosse uma enorme ferida, sangrenta e inflamada, que talvez nunca cicatrizasse.
Criar um laço com Trinity parecia errado, quase como se fosse uma substituição do papel que sua mãe teve em sua vida. Era um sentimento irracional, mas ele tinha tanto poder dentro da mente de , que as vezes um leve sorriso da madrasta fazia-a querer fugir e se esconder enquanto explodia em lágrimas.

- Não sei – respondeu torcendo o nariz levemente. – Mas a cor é bonita.

Trinity sorriu, feliz por ter acertado algo e voltou a procurar. fez o mesmo, mas não encontrou nada. Tudo era colorido e vibrante, custando todos os órgãos do corpo dela. Sabia que agora possuía dinheiro, graças ao pai, mas os anos vendo Darla trabalhar até a exaustão para criá-la fez com que entendesse o valor do dinheiro.
Trezentos dólares em uma calça jeans preta? Não, obrigada.

- Eu achei uma legal! – exclamou Michael a alguns metros, mostrando-lhes uma camiseta com um sabre de luz estampado.
- Querido, você já tem muitas camisetas do Star Wars – disse Trinity enquanto franzia as sobrancelhas.
- só usa preto e a gente continua comprando roupas dessa cor para ela – ele argumentou. fez uma careta impressionada.
- Ele tem um ponto – disse encolhendo os ombros. Derrotada, Trinity suspirou e torceu os lábios.
- Tudo bem, pode levar – disse. – Mas apenas uma!

O trio continuou indo de loja em loja, comprando para todos, menos para . Era difícil encontrar alguma coisa que ficasse com vontade de levar sendo que nem sabia o porquê de estarem ali. Quando morava com sua mãe, roupas novas eram compradas quando ocasiões especiais aconteciam. Comprar pelo simples fato de comprar não fazia sentido para ela.

- Eu não estou precisando de nada – disse quando já sentia os pés doerem dentro dos sapatos apertados. – De verdade.

Trinity pareceu infeliz com isso, mas aceitou o fato com um sorriso leve. Abriu a boca para dizer algo, mas uma voz a interrompeu.

- Trinity! Há quanto tempo!

Uma mulher apareceu ao lado delas e se impressionou com o quão bonita ela era. Alta e polida, usava roupas da mais alta sofisticação e seus cabelos estavam presos de uma forma que nenhum fio estava fora do lugar. Passava a impressão de poder e riqueza que fez com que se sentisse automaticamente inapropriada.
Ela também era extremamente familiar.

- Lauren! – exclamou Trinity arregalando levemente os olhos. As duas se abraçaram rapidamente e de forma formal. – Como você está?
- Você sabe como é – respondeu Lauren. Ela sorria, mas notou que até mesmo o seu sorriso parecia tão perfeito que era quase ensaiado. – Trabalho e mais trabalho. E você? Como está Christopher e o pequeno Michael?
- Muito bem! – respondeu sua madrasta e percebeu, naquele momento, como ela parecia extremamente nervosa. Alisava sua calça, tentando fazer desaparecer os enrugados inexistentes. – Michael está aqui na loja, em algum lugar. E, oh! Essa é , filha do Christopher.

Lauren colocou os olhos sobre ela pela primeira vez e desejou que ela não tivesse o feito. Sentiu-se um verme sendo examinado sob um microscópio.

- Oh – exclamou levantando uma sobrancelha e a olhando de cima abaixo. – É claro. Olá, . É um prazer.

Os olhos dela não eram como os de Trinity quando a viu pela primeira. Quando pousaram sobre sua maquiagem, seus piercings, suas roupas, suas imundas botas de combate, se sentiu como uma mosca que se atrevera a pousar na sopa dela.

- Prazer – foi capaz de responder sem transparecer seus sentimentos, sem transparecer que se sentia com trinta centímetros de altura, pronta para ser esmagada pelos saltos da desconhecida.
- Lauren é mãe de – contou Trinity com um leve sorriso, virando-se para a colega em seguida. – Ele e estudam na mesma escola.

Puta que pariu.
Isso fez tudo pior.
Muito pior.
Ela poderia lidar com uma mulher adulta, amiga de seu pai, que ela provavelmente nunca mais teria que ver na vida.
Mas a mãe de ? Que olhava para ela como se fosse um chiclete que grudou em seus sapatos Louis Vuitton? Aquilo fez uma sensação horrível brotar no peito dela, uma sensação familiar, que ela conhecia extremamente bem e que prometera a si mesma não sentir novamente.
Deus, ela queria socar a si mesma.

- Você e são amigos? – perguntou a mãe dele com um sobrancelha levantada. Parecia gentil e simpática, mas sentiu suas intenções. Ela conhecia o olhar em seu olhos. Era o que recebia todos os dias.

Nós flertamos descaradamente e ele é um dos garotos mais lindos que eu já vi na vida. Queria saber como ele é sem roupa, pensou.

- Mais ou menos – disse, encolhendo ombros. Não era mentira. – Nós compartilhamos uma aula juntos e eu falo a língua de sinais, então as vezes conversamos.

A expressão de Lauren se fechou tão sutilmente que quase não percebeu. No momento em que falara sobre a ASL, a energia entre elas, que já era extremamente esquisita, ficou ainda mais desconfortável. Foi como se a mulher não gostasse nenhum um pouco do fato de outros saberem que o filho dela fala a língua de sinais.

- Bem, isso é ótimo – respondeu e viu algo cínico em seu olhar. Depois, olhou seu relógio de pulso, igual ao do filho e se voltou para Trinity. – Eu tenho que ir, querida, mas que tal fazermos um jantar de boas-vindas para mês que vem? Na minha casa.

não engoliu o gesto de gentileza.

- Que ideia maravilhosa! Estaremos lá! – exclamou Trinity ainda alisando suas roupas. Lauren sorriu e voltou-se para .
- – despediu-se com um aceno de cabeça e partiu.

O silêncio reinou por alguns segundos antes que o quebrasse.

- Ela é... – disse olhando para a madrasta. Assustadora. - ...Intensa.

Trinity riu de seu comentário, principalmente pelo fato que concordava com ele até o fundo de sua alma. sorriu de volta, mas sentiu seu peito apertar levemente.
O gosto do desgosto, fruto apenas de quando sabemos que não somos bem-vindos, ainda queimava em sua boca como ácido.

✋🏼🎨💬

A praia também foi ideia de Mike e se perguntou por um breve momento se ele não possuía algum poder da mente que a controlasse.
Ela também não era fã da praia, o que tornava sua mudança para Flórida ainda mais irônica. A areia era incômoda e entrava em todos os lugares, a água era fria e batia contra ela com violência, o sol era brilhante e queimava sua pele como fogo. Todos eram coloridos, sorridentes, saudáveis e felizes.
É, ela não era grande fã.
Mas Mike, como qualquer criança de dez anos, adorava a praia e Trinity adorava o filho, então aqui estavam eles. A madrasta sentada em uma cadeira, lendo um livro, escondida na sombra do guarda sol e Michael na água do mar, não muito ao longe.

- Não vá muito fundo! – exclamou Trinity ao ver o filho se arriscar levemente entre as ondas. Mais ao longe, um grupo de jovens andava com lanchas enormes e caríssimas. – Cuidado com as lanchas!

apenas observou os dois, com os fones nos ouvidos, mas sem colocar nenhuma música para tocar. Momentos assim, de mãe e filho, faziam o peito dela doer. Ela tentava não pensar muito no assunto, enfiar seus sentimentos para dentro de seu subconsciente, mas as vezes eles apareciam tão rapidamente que era como levar um tapa na cara.
Deus, como ela sentia falta de sua mãe. Era uma saudade tão monstruosa que as vezes parecia que nunca seria capaz de respirar novamente.

- Eu queria ir até onde as conchas estão! – exclamou Mike saindo da água e se aproximando das duas. – Perto das pedras.
- É perigoso ir sozinho, Michael – censurou Trinity olhando em seus olhos. – A correnteza é muito forte nas pedras.

Mike fez beicinho e tentou convencê-la, mas sem sucesso. se perguntou o porquê de ele não pedir sua companhia, mas talvez tivesse percebido que ela não era fã do lugar, então resolveu não abusar da sorte.
Eles continuaram a discutir e parou de prestar atenção. Quinze minutos depois, contudo, quando Michael parecia já ter desistido da ideia, ela ouviu seu grito:

- Ei! ! Aqui!

Você só pode estar brincando com a porra da minha cara.
levantou a cabeça, com olhos mais arregalados do que se orgulhava em admitir e o viu. . Andando na direção deles, acenando e sorrindo, usando chinelos, uma bermuda e...
Sem. Camisa.
nunca o vira vestindo – ou melhor, não vestindo – esses tipos de roupa. Tudo que usava, desde que o conhecera, era absolutamente impecável. Roupas perfeitamente ajustadas, caríssimas, sem um fio fora do lugar. Ela não reclamava. Ele era um colírio para os olhos mesmo parecendo a miniatura de um empresário de sucesso.
Mas vestido dessa forma? Simples, confortável e moderno? Ele parecia mais jovem, mais aconchegante, mais jovial, um real garoto de dezessete anos, com cabelos cacheados e covinhas nas bochechas.
Deus todo poderoso, era quase uma afronta ela ter colocado entre os homens mais lindos que ela já vira. Um afronta pelo fato de que não existia lista nenhuma.
Ele era o homem mais bonito que ela já vira.
Sem comparações. Fim da história. Simples assim.
Quando percebeu onde seus pensamentos estavam indo e se deu conta que estava paralisada, vendo-o se aproximar mal piscando os olhos, quis ir até as pedras perigosas e se deixar ser afogada pela correnteza.
chegou até eles com um enorme sorriso no rosto e acenou. Quando seus olhos caíram sobre , pode jurar que viu um certo brilho surgir. Como não sabia o que sentir em relação à isso, convenceu a si mesma que era apenas sua imaginação.

- querido, como você está? – sorriu Trinity deixando seu livro de lado. – Que coincidência te encontrar por aqui!

Ele fez o sinal positivo com o polegar e olhou de maneira conspiratória para Mike em seguida, como se dividissem um segredo.

- Michael Sanders Cox, você arrastou o pobre até aqui apenas para ter alguém com quem ir até as pedras? – disse Trinity franzindo as sobrancelhas para o filho que não pode conter as próprias bochechas de corarem.

acenou a palma das mãos para ela, indicando que estava tudo bem. Depois, pegou seu celular de um bolso interno da bermuda, digitou algo e o mostrou para Trinity.
ficou curiosa em saber o que dizia, mas fingiu que não, permanecendo sem se mexer.

- Bem, se você não se importa – suspirou Trinity ainda levantando uma sobrancelha para o filho. – Poder ir, mas tomem cuidado, por favor.

Os dois sorriram animadamente um para o outro e se voltou para , flexionando os dedos, convidando-a para os acompanhar.

- Oh, não, não – disse ela balançando a cabeça. – Estou de boa sentadinha aqui na sombra.
- , por favor! – implorou Mike colocando as mãos em oração. imitou o gesto dele e fechou os olhos com força.
- Na na ni na não – exclamou tampando os ouvidos com as mãos. – Você não vai jogar seu feitiço em cima de mim, seu diabinho.

Ela apertou as pálpebras umas contra as outras e as mãos com força nas orelhas, ouvindo de forma abafada a risada do irmão mais novo. De repente, dedos quentes enrolaram-se gentilmente ao redor dos pulsos dela e abriu os olhos.
Ali, tão perto do rosto dela que podia ver cada detalhe de seu rosto, estava .

- Por favor – disse ele silenciosamente com os lábios, sorrindo em seguida.

Maldito.
Maldito Mike, maldita Trinity, maldita praia.
Maldito
e suas malditas covinhas.

- Tudo bem – murmurou após um longo suspiro. Ela ia socar a si mesma mais tarde. – Mas só um pouco. E não vou entrar na água.

Ela se levantou, colocando o celular no bolso de trás e os acompanhando. Ao perceber que ele ainda sorria, rosnou:

- E tira esse sorrisinho da cara. – Mas isso só o fez sorrir ainda mais, como se fosse uma criança pestinha sendo pega no pulo e adorando cada segundo.

O trio andou em direção ao canto direito da praia, com os pés onde a água do mar terminava de bater. Mike monopolizou toda a conversa, como sempre, mas não se importou.
Ela não era uma grande conversadora e também parecia feliz em apenas ouvir Michael, que tanto tagarelava que as vezes se esquecia de respirar, então eles assim permaneceram.
Ao chegarem em seu destino, secretamente se alegrou por ter vindo.
O canto direito da praia era formado por inúmeras pedras e rochas de todos os tamanhos possíveis, junto de uma bonita área verde e natural. As maiores estavam ocupadas por turistas que tiravam fotografias do pico mais alto ou haviam espalhado toalhas para se deitar e tomar sol. Na parte do chão, entra as pedras, milhares de conchinhas cobriam a areia, tornando-a uma linda e áspera manta colorida.

- Viu só? – perguntou Mike percebendo o olhar de admiração no rosto dela. – Eu disse que era incrível!

Ele correu na frente, enfiando os pés na água e passando a procurar pelas melhores conchas. e ficaram levemente atrás, ao lado um do outro, observando-o brincar.

- É bonito, não é? – sinalizou depois de alguns segundos. A brisa marítima fazia os cabelos dele balançarem.
- Muito – admitiu ela com os braços cruzados e os pés enfiados na areia. – Não sou fã da praia, mas não tem como odiar esse lugar.

apenas concordou com a cabeça, pensativo e eles voltaram a olhar para o mar. Em um certo minuto, um grupo de adolescentes, que havia escalado a maior rocha do local, começou a pular na água, chamando a atenção dos dois.

- Malucos – murmurou olhando um deles caindo contra a água com um grito de terror e, em seguida, se virando para . – Como alguém consegue pular de algum lugar tão alto?
- Adrenalina, eu acho – ponderou ele com os olhos nos adolescentes. – Algumas pessoas são viciadas.
- Eu nunca conseguiria. O mar me assusta para caralho – confessou sem olhar nos olhos dele. – Você já fez isso?
- Não – sinalizou olhando nos olhos dela. – Nunca nem subi nas pedras. Mas sempre quis.
- Sério? – respondeu franzindo as sobrancelhas. – Quer dizer, pular de um quase-penhasco é compreensível, mas morar na praia e nunca ter nem subido nas pedras? Até eu já fiz isso.

deu-lhe um meio sorriso, como se não fosse nada demais, mas ela percebeu que ele, de repente, parecia mais pensativo. Na tentativa de quebrar o gelo, olhou novamente para Michael, que continuava concentrado ao longe e disse:

- Pelo menos você já colheu conchinhas.

Ele não respondeu.

- Se enterrou na areia? – continuou olhando para ele com olhos levemente arregalados. – Surfou? Fez um castelo de areia?

Sem resposta.

- , alguma vez na vida você fez algo que todo mundo faz na praia? – perguntou com uma expressão chocada.
- Eu já andei de lancha e jet ski – ele respondeu parecendo tímido. não pode controlar a risada que surgiu.
- Duas coisas que com certeza estão fora da lista “todo mundo faz na praia” – brincou ela ainda olhando para ele com uma expressão atônica. – Mas por quê? Você vive na Flórida, mora ao lado da praia. Até eu, que detesto a areia, o mar, o sol, já fiz tudo isso!

colocou as mãos para trás, encolhendo os ombros em seguida e ela percebeu que ele parecia quase chateado. Não com ela, mas com sua constatação e com o fato de que o que dizia não era nada além da verdade.

- Por quê? – perguntou novamente.
- Não é que eu nunca quis – sinalizou ele parecendo constrangido. – Na verdade, é o oposto. Eu sempre quis tentar tudo isso, assim como inúmeras outras coisas, mas...

abaixou as mãos, interrompendo a si mesmo. Havia algo mais. Em seu olhar, em sua postura, que dedurou uma razão mais profunda para a falta de experiência dele em coisas tão banais e que não pode evitar de notar.

- Você não tem coisas que nunca fez? – sinalizou ele de forma pensativa. – Coisas que queria muito, muito mesmo, mas algo a impedia? Uma lista de coisas que nunca fez, mas sempre quis?
- Não – respondeu simplesmente e quase riu da expressão chocada dele. – Não mais, pelo menos. Olha, , eu já fiz muita merda nessa vida. Com certeza não sou o melhor exemplo de boas escolhas e, sinceramente, eu mesma não recomendaria que alguém ouvisse meus conselhos. Tenho fobias, traumas e inúmeros arrependimentos que acho que nunca vou superar, mas uma das únicas coisas que tenho certeza nessa vida é superei essa fase de não fazer o que eu quero.

olhou para ela, estagnado. sentiu um milhão de sentimentos batendo dentro do peito dela e não pode conter a si mesma.

- Tenho uma lista de coisas que me arrependo amargamente de ter feito e uma lista de coisas das quais morro de medo e nunca vou enfrentar. É verdade. Mas se há algo que eu quero fazer e que não afeta ninguém além de mim mesma, eu faço. Enganar, mentir, ferir alguém? Nunca. Surfar, subir em pedras, pular de um penhasco? Porra, sim. E daí? Que vida isso afeta além da minha própria?
- E as experiências das quais se arrepende? – sinalizou ele lentamente e com olhos nebulosos. Suas mãos tremiam levemente. – Fazer o que bem entendemos não nos leva a enormes arrependimentos?
- Não me arrependo delas pelo fato de as ter feito – explicou . – Tudo que já fiz e tenho remorso é porque fiz pelas razões erradas. Porque tomei decisões e agi mesmo sem realmente querer aquilo, por razões e pressões externas, por dar importância demais para as opiniões e expectativas dos outros, por estar em um lugar ruim e precisar de algum estímulo. Mas as coisas que fiz porque queria e porque tinha as intenções certas, dessas eu não me arrependo. Eu as banco. Eu as assumo, justamente pelo fato de que são bem pensadas. Foram feitas porque quis e feitas com responsabilidade. Estou falando de coisas que só cabem a mim mesma, como, sei lá, raspar meu cabelo, fazer uma tatuagem, montar um maldito castelo de areia.
engoliu seco, encarando-a em silêncio.
- Você disse que sempre quis subir nas pedras e saltar, não é? – perguntou ela olhando em seus olhos. Ele concordou com a cabeça. – Então vá e pule. Se enterra na praia. Faça a porra de um castelo de areia do tamanho de Hogwarts. E daí? Não é como se você estivesse comendo um crime.

olhou para ela sem dizer nada. sentiu como se ele estivesse vendo dentro de sua alma, tamanha a intensidade que brilhava em suas pupilas. Ele engoliu seco. Levantou as mãos, mas não conseguiu sinalizar nada.
Michael voltou até eles, com as mãos cheias de conchas coloridas e de todos os tamanhos. Não percebeu que havia os interrompido.

- Olha tudo que eu achei! – exclamou sorridente estendendo os braços e as mãos para mostrar tudo que conseguira.
- São lindas – elogiou com a mente longe. – Mas não é bom que as leve embora. Faz mal para o ecossistema, ele precisa delas.
- Oh – exclamou Mike com olhos levemente tristes. Depois, encolheu os ombros, aceitando o que ela dissera e voltou a sorrir. – Vou devolver, então.

Ele partiu novamente, mas nenhum dos dois falou mais nada. olhava para ela, mas notou que seus olhos estavam distantes, quase como se há quilômetros de distância. Ela também permaneceu silenciosa, estranhando o próprio comportamento.
De onde viera tudo isso? Todo esse discurso, todas essas confissões? Não era comum para ela dividir tantas coisas com outros, mesmo que de forma tão generalizada como fizera agora.
Seu passado não era da conta de ninguém, suas decisões e a razão pela qual as tomava, muito menos.
Talvez fosse pelo fato de que aquele estava sendo um dia repleto de momentos fora da zona de conforto dela, com o sonho, a companhia de Trinity e a presença de Lauren . Talvez porque ele a acompanhara até em casa, dividira um pedaço triste de seu passado e a viu quase desmoronar na frente dele por causa da chuva. Talvez porque ele estava sem camisa e todos os neurônios dela decidiram derreter dentro de seu cérebro como sorvete embaixo do sol.
Mas, fosse o que fosse, havia algo sobre e o fato de que ele nunca havia coletado conchinhas na praia que fez o peito dela se encher de um sentimento que não soube nomear.
Mike voltou e isso pareceu acordar de seu transe. Ele pegou o próprio celular em seu bolso e suspirou ao ver a hora.

- Tenho que ir – sinalizou olhando para ela em seguida. Seus olhos continuavam distantes. – Desculpe. Tenho um compromisso e já estou atrasado.
Eles se despediram e começou a se afastar. Alguns segundos depois, contudo, chamou por ele.
- !

Ele se virou, mas não voltou até eles. Não querendo expor a conversa que tiveram para toda a praia, sinalizou, sabendo que ele, apesar da distância, era capaz de ver seus sinais com clareza:

- Você devia fazer.

Em resposta, ele inclinou a cabeça para o lado e franziu as sobrancelhas, confuso.

- A lista de coisas que você nunca fez – sinalizou ela. – Você devia fazer. Ir atrás de realizá-las.

Por alguns segundos acreditou que ele ainda estava confuso. permaneceu ali, olhando para ela com olhos levemente arregalados até o ponto que ela pode sentir as próprias mãos suarem.
E então, de repente, ele sorriu.
Um sorriso enorme, cheio de dentes, expondo suas covinhas, com olhos brilhantes de acompanhamento. Como se ela tivesse dito todas as coisas certas. De uma forma que não sorriam para ela há muito tempo.
Depois, acenou levemente, virou de costas e continuou seu caminho.

- O que você disse para ele? – perguntou Michael olhando para ela com um olhar confuso. tirou os olhos das costas nuas de , que se afastavam e olhou para o irmão.
- Que o último a chegar na sua mãe é quem vai lavar a louça hoje – respondeu e saiu correndo em disparada.
- Ei! Não é justo! – ouviu-o gritar atrás dela, trazendo um sorriso em seus lábios.

continuou correndo, chegando, para a tristeza de Mike, antes dele e passou o resto do dia fingindo que aquela conversa com nunca aconteceu.

Capítulo 7 - Build me Up, Buttercup



estava acostumada a ficar sozinha.
Era uma sensação familiar e reconfortante, principalmente pelo fato de que ela se acostumara a ser uma solitária desde criança. Deus sabe quantas vezes ela fez o próprio jantar, a lição de casa sem ajuda, distraiu e colocou a si mesma para dormir, enquanto a mãe trabalhava em dois empregos até a exaustão. Ela possuía um grupo muito maior de amigos antigamente, mas era capaz de perceber agora, que, mesmo entre eles, a sensação nunca ia embora de verdade. Estava sempre ali, no fundo de seu peito, como se ela realmente nunca pudesse se sentir inteiramente acompanhada.
Por isso, se adaptou e se acostumou. Gostava da própria companhia, sem ser incomodada. Simples assim.
Pelo menos até ter que ficar sozinha na casa de Christopher.
Foi a primeira vez que aquilo aconteceu desde que se mudara há quase três semanas. Esteve sempre na presença de Mike, Trinity ou Christopher, as vezes ao mesmo tempo, as vezes de maneira alternada. Mas, hoje, Michael fora passar o dia e dormir na casa de um amigo, Trinity tinha uma reunião importante e Christopher os próprios compromissos.
Era estranho finalmente ter a casa para si própria, principalmente pelo fato de que raramente sentia que aquelas paredes eram seu lar. Era desconfortável sentar-se no sofá, pois não se sentia à vontade para se esparramar e colocar os pés no estofado. Era estranho preparar algo mais que um sanduíche porque ela não sabia se podia comer o que quisesse da geladeira e não era preciso dizer nada sobre o quarto dela, rosa, felpudo e completamente equivocado.
Era difícil entender que aquela era sua casa agora, depois de tanto tempo vivendo em outro lugar e de uma forma completamente diferente. Por isso, ali estava, pintando as unhas do pé enquanto estava sentada no balcão da cozinha, para que, caso derrubasse esmalte em algum lugar, pelo menos não seria no caríssimo carpete da sala. Em seu celular, Backstreet Boys cantavam “I Want It That Way”, junto dela.
Ao terminar, esticou a perna direita, feliz com o esmalte preto que agora decorava suas unhas. No momento em que encaixava os dedos em um separador de silicone, para que não se tocassem, a campainha tocou.

- Merda – xingou, olhando ao redor tentando ver o que fazer. Pelo menos o cheiro do último cigarro que havia fumado desaparecera pelas janelas abertas. A campainha tocou novamente. – Já vou!

Colocou os pés no chão e começou a mancar em direção à porta da frente, com dificuldade. Apenas o pé esquerdo pisava ao todo no chão, com o direito sendo apoiado apenas pelo calcanhar.
A campainha tocou de novo. O mau-humor dela floresceu.

- Porra, já estou indo! – berrou pegando a maçaneta e abrindo a porta com força. – Jesus!

estava na varanda, com as mãos nos bolsos, olhos brilhantes e um leve sorriso nos lábios.
quase engoliu a própria língua de susto.

- O que você está fazendo aqui? – perguntou franzindo as sobrancelhas. – Mike não está.

Mas ele não respondeu, de repente extremamente focado em outra coisa. entortou as sobrancelhas, tentando entender o que chamava tanto sua atenção em relação à ela. Olhou para baixo e ficou levemente constrangida ao ver o que estava vestido. Seus shorts folgados de pijama eram muito curtos e reveladores, sua cara estava livre de maquiagem e ela parecia muito tonta com os dedos separados e os pés tortos.
Mas não olhava para seus pés, seu rosto ou suas pernas extremamente à mostra. Olhava diretamente para o peito dela, mas sem nenhuma malícia. Seu olhar, na verdade, era de extrema diversão, como se estivesse vendo a coisa mais divertida do mundo.
olhou para a própria camiseta, confusa. Era simples, sem decote, preta e de mangas curtas. Era muito antiga e servia de pijama, principalmente nos dias quentes, já que deixava sua barriga à mostra. Nela havia apenas a figura estampada de uma personagem de desenho.

- O quê? – perguntou olhando para ele ainda confusa.
- É você! – sinalizou com um enorme sorriso, apontando para seu peito, mas especificamente para a personagens verde que ali decorava.
- Não – disse como se ele fosse maluco. – Essa é a Docinho. Conhece? Do desenho “As Meninas Super Poderosas”?

Mas parecia não a escutar. Ria como ela nunca o vira rir antes, seus olhos extremamente brilhantes e brincalhões. Ela quase riu com ele, pelo simples fato de que seu sorriso era extremamente contagiante, mas conseguiu se controlar.

- É você! – repetiu sorridente. – Eu nunca tinha pensado nisso, mas vocês são iguaizinhas!

franziu as sobrancelhas e cruzou os braços.

- Você está me chamando de bruta e violenta? – perguntou levemente ofendida.
- Estou te chamando de independente e poderosa – sinalizou com um sorriso de canto de boca.

Oh.

- E levemente intimidadora – completou, sorrindo abertamente. deu-lhe um leve soco no ombro em resposta, o que só o fez rir mais.
- Mike não está aqui – repetiu, tentando mudar de assunto, mas ainda com uma careta mal-humorada no rosto. Seus lábios inclinaram-se levemente para cima, dando à ele o fantasma de um sorriso.
- Eu sei – sinalizou . – Eu vim falar com você.
- E ao invés de mandar uma mensagem achou que seria melhor aparecer na minha porta sem aviso? – perguntou ela encostando o ombro no batente da porta e cruzando os braços novamente.
- Não tenho seu número.

Ele tinha um ponto, nesse caso.

- Você podia ter pedido meu número para alguém – ela constatou.
- Você não ia gostar que eu tivesse seu telefone sem a sua permissão – ele rebateu.

Novamente, um ponto válido.
Maldito, .
deu um longo suspiro antes de esfregar o rosto com as próprias mãos.

- Bem, tudo bem – disse. – O que quer?

Mas ao invés de respondê-la, ele fez uma careta divertida como se escutasse algo que o interessasse e sinalizou:

- Você está ouvindo Backstreet Boys?
- , eu juro por Deus que estou a três segundos de bater essa porta na sua cara – rosnou ela olhando para o céu enquanto pedia paciência e apontando um dedo ameaçador na direção dele.

Ele ergueu as palmas das mãos em sinal de rendição e o deixou entrar. Fechando a porta atrás deles, mancou até a bancada e se sentou em um dos bancos altos ao redor.

- Desembucha – disse, vendo como se sentou ao lado dela, meio encostado no mármore branco. Seus cabelos estavam levemente despenteados, como se alguém tivesse passado os dedos pelos fios repetidamente e fingiu não sentir como se tivesse borboletas em seu estômago.

Ele não me afeta , mentiu para si mesma. Ele é só um garoto e não me afeta.

- Lembra da conversa que tivemos na praia? – ele perguntou. assentiu.
- Sim.
- Eu andei pensando muito no que você me disse – ele sinalizou parecendo pensativo. foi incapaz de tirar os olhos de suas mãos. – Na verdade, eu não consigo parar de pensar no que você me disse.

olhou para ela e sorriu levemente. O coração dela bateu forte contra o peito. Era melhor que aquilo fosse o começo de um infarto e não consequência do sorriso dele.
Coração estúpido.

- Me fez avaliar toda a minha vida, todas as minhas escolhas e o que as movem. E, sinceramente, você está certa. Fiquei pensando em todas as coisas que já quis fazer e nunca fiz e... Nunca tinha me dado conta de como a lista era comprida.
- O que eu disse não foi nada demais – murmurou levemente envergonhada.
- Só se for para você – debateu com movimentos precisos. – Você foi incentivada a seguir seus próprios passos, Docinho. Eu não. Desde que eu me entendo por gente, a vida é sobre seguir o que nossos pais querem. É o que meus pais fizeram, o que meus amigos fazem e o que eu deveria fazer. Não há espaço para erros, maluquices ou grande sonhos. Se conhecesse minha mãe, você saberia.

ficou quieta quanto a isso. Não quis interrompê-lo para dizer que conhecera a mãe dele – por cinco minutos e trocando três palavras – e que fora o suficiente para acreditar no fato de que ela era uma mulher rígida e com punhos de ferro.
Mas houve algo que ela não pode deixar de comentar.

- Você acabou de me chamar de “Docinho”? – perguntou levantando uma sobrancelha.

Uma risada silenciosa explodiu pelos lábios de , que esfregou o rosto com as mãos.

- Eu estou aqui, abrindo meu coração e tudo que você quer comentar é sobre seu apelido – sinalizou com uma careta divertida. Os olhos dele continuaram brilhantes. – Eu me divirto muito com você, Docinho. Sabe disso?

- Eu vou fingir que não ouvi esse apelido estúpido – murmurou enquanto enfiava as mãos nos cabelos. – Para o seu próprio bem.
- Ele não é estúpido e é perfeito para você. Você é a Docinho, qualquer um pode ver – rebateu encolhendo os ombros. – Mas esse não é o ponto. O que eu vim dizer é: eu tenho dezessete anos e nunca fiz coisas básicas, como catar conchinhas na praia ou ir a um parque de diversões. E isso é triste. Eu vou me formar ano que vem, irei para a faculdade, seguir a carreira que a minha mãe quer que eu siga e não vou ter mais chance de fazer nenhuma dessas pequenas coisas.
- Você nunca foi em um parque de diversões? – respondeu ela horrorizada.
- Por isso... – continuou ele ignorando-a. – ...Decidi que vou aproveitar todas as chances que eu puder antes de ser mandado para estudar alguma merda que eu odeio. Vou fazer uma lista de coisas que nunca fiz, mas sempre quis e vou cumpri-las até a formatura. Assim terei pelo menos isso para me lembrar quando estiver estudando gestão de empresas ou seja lá o que minha mãe quer que eu estude. Ninguém nunca havia me dito o que você me disse na praia. Mesmo que para você seja o óbvio, para mim foi como limpar minha visão. Foi o empurrão que eu precisava.

Havia um brilho nos olhos de que fez o corpo de se aquecer. Ela lhe deu um pequeno sorriso, feliz por seus novos planos, realmente orgulhosa de suas escolhas porque, apesar de conhecê-lo a pouco tempo, era capaz de ver como aquilo havia revigorado sua energia.
Suas sobrancelhas, contudo, se franziram levemente.

- Olha, não me leve a mal, eu estou realmente muito feliz que você tomou essa decisão e acho que foi uma escolha corretíssima – disse, passando a lixar as unhas da mão. – Mas não entendi por que você teve que vir até a minha casa me contar isso.
- Eu vim – sinalizou enquanto levantava da cadeira e se aproximava dela. – Porque tenho uma proposta.
- Uma proposta?
- Sim – sinalizou ele com um aceno de cabeça. – Você me inspirou a fazer essa lista e ir atrás de coisas que sempre quis fazer. Então eu pensei que talvez você pudesse fazer sua própria lista.
- Minha própria lista? – repetiu levantando uma sobrancelha.
- Sim! Você me disse, na praia, que tem inúmeras fobias e traumas que nunca enfrentou. Achei que seria a oportunidade perfeita para que você fosse atrás de superá-las.

Por alguns segundos, não falou. Ela permaneceu atônica, com uma sobrancelha levantada, como se ele estivesse, durante todo esse tempo, falando em uma língua que ela não entendia.

- Pensa comigo – sinalizou afobadamente ao ver que ela não estava convencida. – Eu tenho uma lista de coisas que quero fazer. Você uma de traumas que precisa enfrentar. Vamos fazer isso juntos.
- Juntos? – perguntou ela devagar.
- Sim.
- Como uma dupla lutando contra o crime?
- Como Docinho e Durão – sinalizou ele sorridente.
- Durão é o par da Florzinha – corrigiu com a expressão em seu rosto intacta. – E ele não luta contra o crime, ele faz o crime.
- E qual é o da Docinho? – perguntou ele com as sobrancelhas franzidas.
- O Fortão – disse como se ele fosse uma criança.

balançou a cabeça como se toda aquela conversa fizesse sentido. Não fazia. teria ficado menos surpresa e perdida se ele tivesse entrado na casa e dado um tapa na cara dela.

- Tudo bem então, deixa eu ver se eu entendi – disse esfregando o rosto com as mãos. – Você quer que faça uma lista de todos os meus problemas e os enfrente, enquanto te acompanho na sua jornada de autoconhecimento? Sendo que nós nos conhecemos a, tipo, três semanas?

a olhou estagnado por alguns segundos.

- Quando você coloca dessa forma parece um pouco ruim – sinalizou parecendo murchar levemente.
- , você não vê que isso é meio doido? – argumentou olhando para ele com sinceridade. – Sua ideia é ótima. Você deve ir atrás de fazer o que quer, mas me incluir nisso é maluquice. Nós mal nos conhecemos e, sinto muito, mas não pode esperar que eu vá dividir meus traumas passados com você. Eu mal os admito para mim mesma. Eles existem, estou ciente, mas vivo muito bem sem mexer com eles, muito obrigada.

Ele apoiou o queixo contra a mão e colocou um olhar tão triste em seu rosto que fez se arrepender ligeiramente do que tinha dito. Parecia ter contado a uma criança que Papai Noel não existia.

- Desculpe, – murmurou sentindo-se, de repente, muito mal por deixá-lo daquela forma. – Mas é como me sinto. Nós não nos conhecemos direito. Nos vemos de vez em quando, dividimos uma aula, mas fora isso, o que temos em comum?

Um leve e tímido sorriso brotou em seus lábios. Apesar de parecer visivelmente mais triste, ele ainda era compreensivo como sempre.

- Não se desculpe por falar o que pensa, Docinho – sinalizou enquanto arrumava a postura. revirou os olhos pelo contínuo uso do apelido, mas sorriu. – É um das coisas que mais gosto sobre você.
- Vai continuar mesmo me chamando assim? – perguntou fingindo estar mal-humorada.
- Nunca houve apelido melhor para você – brincou ele dando um suspiro em seguida. – Desculpe por ter jogado tudo isso em você do nada. Nunca fiquei tão animado sobre algo antes e isso acabou me impedindo de pensar direito. Não devia ter assumido que você concordaria em dividir seu passado comigo. Foi impulsivo e arrogante e eu sinto muito.

deu-lhe um meio sorriso de canto de boca. Não sentia raiva dele ou qualquer coisa parecida, o que era uma surpresa. Ela não gostava de falar sobre o passado dela ou o fato de que ele a assombrava de diversas formas. Geralmente, quando o assunto vinha à tona, seu instinto era ir facilmente para a reação raivosa e mal-humorada.
Mas não com . Era simplesmente fácil falar com ele, como se ela automaticamente soubesse que iria escutá-la. Como se soubesse que não precisava usar a raiva para se impor com ele, que não era preciso ser espinhosa.
Era estranho e incompreensível, mas não estava reclamando. A raiva era um sentimento desgastante e era bom não a ter dentro de si de vez em quando.
Além disso, fazia tanto tempo desde que sentira esse tipo de excitação sobre alguma coisa que mal podia imaginar o tipo de reação que teria. Talvez uma igual a dele, talvez uma ainda mais eufórica.

- Não estou brava – disse pousando a própria mão sobre a dele sem pensar. A pele dele era quente sob os dedos dela. – Só fui pega de surpresa. Não te achei egocêntrico ou algo assim, acho que só foi levado pela animação. E estava falando sério sobre seguir com o seu plano. Faça o que quer. De maneira responsável e bem pensada, vale a pena no final.

olhou para a mão dela sobre a dele e pareceu pressentir que estava prestes a tirá-la. Agarrou-lhe o pulso com delicadeza, voltando a palma para cima e a acariciou com o polegar de maneira tão leve e carinhosa, que parecia como uma pluma. A mão dela ficou quente e suada, uma sensação que se espalhou por todo seu braço e a retirou rapidamente, assustada.
Novamente, na presença dele, sentia calor. Uma sensação nem um pouco familiar para alguém que estava com frio o tempo todo.

- Já que meus planos foram frustrados – brincou com um leve sorriso tentando aliviar. Olhou para as mãos dela com um olhar nublado, quase como se sentisse saudade de seu toque. – Posso pelo menos escolher alguma coisa legal para a gente ouvir?

Ele olhou para o celular dela e riu pelo nariz, entregando-lhe o aparelho em seguida. Alguns segundos depois, contudo, se arrependeu.
Os primeiros acordes de “Build me Up, Buttercup”, do grupo The Foundations, foram rapidamente reconhecidos e sabia que não escolhera aquela música aleatoriamente. “Buttercup” era, no final das contas, o nome que Docinho possuía na versão em inglês do desenho.

- Você só pode estar brincando com a minha cara – resmungou ela cerrando os olhos em direção à ele. – Sério?

não respondeu. Um sorriso brincalhão pairou sobre seus lábios e ele estalou os dedos no ritmo da música. Seus ombros começaram a se mover, para cima e para baixo e soube imediatamente o que ele ia fazer.

- , não – censurou, enfiando o rosto nas mãos. Ele não lhe deu ouvidos. A música começou e ele levantou-se em um salto. – !
- Why do you build me up, Buttercup, baby – dublou ele olhando para ela, fingindo segurar um microfone invisível. – Just to let me down and mess me around?

Ele começou a andar, afastando-se dela, mas ainda olhando em seus olhos.

- And then do wrost of all, you never call baby – continuou, colocando uma das mãos imitando um telefone no ouvido e uma expressão triste no rosto. – When you say you will . – Ele apontou para ela e sorriu. – But I love you still.
- Pelo amor de Deus – suspirou sentindo as bochechas começarem a queimar. – Você é muito estranho!
- I need you – dublou ainda apontando para ela, agora indo em sua direção. – More than anyone, darlin’. You know that I have from the start.

Ele chegou ao lado dela. Inclinou-se para perto de seu rosto com o microfone invisível ainda em uma das mãos. Quando a cozinha ficou tão quente?

- So build me up. – Ele lhe deu um sorriso de menino, cheio de covinhas. teve que se controlar ao máximo para não corar bem na frente dele. – Buttercup, don’t break my heart.
- , você é o cara mais esquisito que eu já conheci na vida – respondeu ela assumindo uma mentirosa postura mal-humorada. – Pare com isso!
- “I’ll be over at ten,”, you told me time and again – ele continuou, ignorando suas súplicas. Não conseguia tirar o sorriso dos lábios e nunca vira seus olhos tão brilhantes. – But you’re late, I wait around and then.
- Estou oficialmente te expulsando da minha casa.
- I went to the door, I can’t take anymore – ele dublou, fingindo ter levado uma apunhalada no coração. não pode controlar uma risada, que saiu de seus lábios como um bufo. – It’s not you, you let me down again.

Ele se jogou em cima do balcão e se esticou em direção à ela, como se implorasse para que pegasse sua mão. não se mexeu, mas foi ficando cada vez mais difícil não sorrir.

- Baby, baby, try to find dublou.
Hey, hey, hey.
- A little time and I’ll make you happy .
Hey, hey, hey.
- I’ll be home – continuou, aproximando-se, agarrando as mãos dela e colocando sobre o peito dele. – I’ll be beside the phone waiting for you!
- Puta que pariu, por que eu só conheço maluco? – murmurou para si mesma. O sorriso dele ficou gigantesco.

O refrão se repetiu e o dublava com tanta intensidade que soube que, se ele pudesse vocalizar, estaria gritando enquanto cantava.
Ele esticou a mão, chamando-a para dançar. Os olhos de se arregalaram e ela ergueu a palma das próprias mãos, balançando-as.

- Nem pensar! Não! Nem fodendo! – disse movendo a cabeça de um lado para o outro. olhou para ela, suplicando, mas quando viu que não cederia, passou a dançar sozinho.

tampou a própria boca com a mão, abafando uma risada. podia ser muitas coisas: lindo, charmoso, divertido, gentil. Mas dançarino ele com certeza não era.

- Você está destruindo a arte da dança – disse ela com uma careta mal-humorada. – É quase criminoso.

Ele continuou dançando e dublando, com um sorriso contínuo que apenas crescia cada vez mais. Seus passos eram desengonçados, sua postura amadora, mas parecia estar tendo o momento mais divertido da vida dele.

- You know that I have from the start – repetiu ele. – So build me up, Buttercup, don’t break my heart.

arrancou o separador de dedos do pé e se levantou, bufando. O que ele estava fazendo com todos os dançarinos do mundo era um crime. Ele devia ser preso por aquilo.

- Pare! – exclamou pegado os braços dele. – Aqui. Arrume os pés. Levante a coluna.

Ela passou a conduzi-lo, de um lado para o outro. era um bom aluno, mas tropeçava nos próprios pés. Pelo sorriso brincalhão que apresentava, quase achou que fazia de propósito.

- I’m attracted to you all the more – dublou ele olhando para o rosto dela. desviou o olhar, olhando para os pés deles, tentando não vacilar. A letra da música caía em seu peito como uma mão apertando seu coração. – Why do I need you so?

As mãos deles estavam juntas. Pele quente, fervendo. Suando. Segurada tão firmemente que ela podia jurar que sentia arrepios. Ele a girou, mas foi de forma tão desengonçada, que não pode conter uma gargalhada.
sorriu com ela. Puxou-a para mais perto. A música continuava a tocar, mas parecia ter problemas de audição. Só podia sentir o próprio peito, pressionado contra o dele, quente. Tão, tão quente.

- Why do you build me up – continuou ele, procurando os olhos dela. Ela ergueu o olhar. Viu o brilho no rosto de e esqueceu completamente a razão de estar fingindo que aquilo não estava sendo divertido. – Buttercup, baby. Just to let me down and mess me around?

Não conseguiu mais se segurar.

- And then worst of all – cantou enquanto sorria. – You never call, baby, when you say you will ...
- BUT I LOVE YOU STILL! – cantaram juntos, sorridentes, se afastando, mas com as mãos ainda unidas. Giravam um ao outro, sem parar, rindo com tanta força que seus abdomens doíam. – I need you more than anyone, darlin’ . – Eles apontaram um para o outro. - You know that I have from the start.

a puxou, apoiando a palma das mãos nas costas dela. Apoiou-a com delicadeza no balcão, colou o corpo contra o dela. Olhou em seus olhos.

- So build me up, Buttercup, don’t break my heart.

A canção acabou. não se afastou. O calor do corpo dele contra o dela fez com que perdesse a respiração.
Ele tinha olhos lindos. Quentes, brilhantes, gentis.
Um sorriso lindo. Animado, de menino, que fazia o coração dela bater como um passarinho dentro de uma gaiola.
E um rosto lindo. Junto de um cabelo, corpo e ombros lindos.
E ela censurou a si mesma por pensar dessa forma. Porque meninos como eram meninos como Logan. Charmosos, gentis, com sorrisos doces e palavras sedutoras.
Que, no fim, quebrariam o coração dela e a deixariam sem nada, além de dor e remorso.
De novo.

- Eu ainda acho o apelido uma merda – brincou querendo quebrar o momento que fora criado. riu tanto que jogou a cabeça para trás. O que disse a seguir, contudo, não teve nada a ver com o comentário dela.
- Onde você aprendeu a dançar? – sinalizou ele com um sorriso curioso. prendeu a própria respiração, não gostando dos rumos que a conversa estava levando.

Como com Cindy, mentiu.

- Não aprendi, você só é tão ruim que qualquer um dança melhor. – A voz dela foi brincalhona, assim como seu sorriso, então não se ofendeu. Ele apenas olhou para o rosto dela e repousou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. Fazia tanto tempo desde que alguém a tocara dessa forma...
- Acho melhor eu ir – sinalizou em seguida. Os olhos dele olharam para o rosto dela como se procurassem as respostas para suas maiores perguntas. – Não vou mais ocupar seu tempo.

não o respondeu, apenas concordando com a cabeça. andou até a porta com as mãos nos bolsos e ela o acompanhou. Se perguntou por um momento se ele estava partindo porque viu a hesitação nos olhos dela e não queria incomodá-la. Parecia algo que ele faria.
Do lado de fora, ao invés de ir embora, contudo, sinalizou:

- Minha oferta ainda está de pé. – Quando ela franziu as sobrancelhas, ele continuou. – Sobre a lista. Não precisa seguir uma sua própria, mas adoraria a sua companhia enquanto eu cumpro minhas metas. E, quem sabe, talvez no futuro você mude de ideia. Ou não. Ou talvez queira enfrentar seus medos e desista no meio do caminho. Está tudo bem, sabe? As vezes a gente acha que está pronto para alguma coisa, mas não está. Acontece.

Ele parecia estar sinalizando sem parar, como se tagarelasse graças ao nervosismo. mal pode perceber isso. Sem dizer nada, seus olhos continuaram a focar nele, fingindo que as palavras dele não a haviam atingido como uma pilha de tijolos.

- E acho que você está errada quando diz que não temos nada em comum – completou encolhendo os ombros levemente e dando-lhe um sorriso de canto de boca. – Porque acredito que se há algo que nos aproxima são coisas em comum. E tive certeza absoluta disso na noite da festa, quando tomamos chuva e vi os seus olhos. Quando me vi nos seus olhos. Eu sei o que é ter algo que nos transporta no tempo. O que é sentir, de repente, que você está lá de novo, naquele lugar horrível, depois de tanto tempo.

Não havia oxigênio no mundo.
Mas, de certa forma, não importava.
não parecia ter mais pulmões para respirar, de qualquer jeito.

- E você disse que tem esses problemas e que vive bem sem mexer neles, mas eu duvido. Eu duvido porque eu sei como é viver assim. – Ele bateu contra o próprio peito com força. – Você acha que eu não gostaria de poder dirigir como alguém normal da nossa idade? Que eu gosto de andar com um motorista para cada canto porque só a ideia de ficar atrás do volante me faz tremer? Ou que eu não gostaria de poder voltar a comer no refeitório sem sentir que não pertenço mais ali?

Alguém costurou a boca de . Era impossível abri-la. Era impossível falar. Todas as palavras do mundo foram extintas.
O rosto dele estava transformado em uma careta que fez o peito dela doer. Sua boca mexia, mas não havia som nenhum. Seus movimentos eram precisos, fortes e tudo que podia ouvir era o barulho das mãos dele uma contra a outra, quando os sinais que fazia necessitavam que se encontrassem.

- Eu... – ele sinalizou, suspirando em seguida e balançando a cabeça levemente. – Eu só acho que você devia dar uma chance. Só pense sobre, ok? Porque eu sei como é viver assim e é uma merda.

Ele encolheu os ombros, deu-lhe um sorriso tímido e saiu. ficou ali, estagnada, vendo suas costas se afastarem, até que não pode mais se controlar.

- ! – gritou, vendo-o virar com olhos esperançosos. Deu-lhe um sorriso que espelhava o dele e encolheu levemente os ombros. – Não é melhor me passar seu número de telefone? Para pelo menos não ter que vir andando até a minha casa o tempo todo?

Ele a olhou por alguns segundos e sorriu. Um sorriso enorme, que deixou seus olhos pequenos e o estômago de maluco.
Voltou até ela, deu o celular em sua mão e a observou colocar o próprio número. Depois recolheu o aparelho, sorriu-lhe novamente e foi embora.
só fechou a porta quando ele era um ponto minúsculo no horizonte.
E tentou convencer a si mesma que aquela conversa foi apenas uma maluquice sem importância alguma. Ela estava bem. Estivera lidando com seus problemas daquela forma há quatro anos e não seria , um garoto que ela acabara de conhecer, que a faria mudar a forma de agir.
Disse a si mesma que não foi nem um pouco afetada pelo que ele dissera. Que suas palavras não faziam sentido porque eles não tinham nada em comum. Ele não sabia o que ela havia passado, ela não sabia o que ele havia passado, então sem dúvidas não havia como eles realmente entenderem um ao outro.
Apesar desses pensamentos, de que estava bem, de que não estava afetada, sua mente distraiu-se de tamanha forma que ela apenas notou que não havia pintado as unhas do pé esquerdo três dias depois.

Capítulo 8 – #1. Voltar a comer no refeitório



não tocou mais no assunto após aquele dia.
meio que esperava que ele o fizesse, apesar de nunca admitir isso para ninguém (muito menos para si mesma).
Ele lhe enviou uma mensagem após a conversa que tiveram para que também tivesse o número dele. Ela o salvou e os dois continuaram em uma educada conversa sobre os dias que ele viria ser babá de Mike novamente ou como sobreviveriam as maçantes aulas de biologia. Absolutamente nada demais.
Perguntou-se por um momento se o afastamento dele vinha sendo fruto de um ego ferido ou do fato de que acreditava que era isso que ela queria. A última opção parecia mais plausível. não entendia muito de pessoas (muito menos se essas pessoas eram homens), mas ela encontrou a si mesma lendo com uma facilidade assombrosa como se o conhecesse há anos. Ele não parecia do tipo que deixava o próprio orgulho guiar suas ações (ela era especialista no assunto, afinal), então apenas assumiu que acreditava que gostaria desse distanciamento.
fingiu que aquilo era o que queria, mas não pode deixar de se sentir incomodada cada vez que a conversa entre eles morria e ela se via incapaz de encontrar uma forma de fazê-la voltar. Ela era péssima socializando, principalmente com garotos. Logan foi seu primeiro e único namorado e, antes das novas amigas, ela passou quase quatro anos sem um amigo íntimo. Estava enferrujada e frustrada como só ela era capaz e isso fez seu humor azedar como leite no sol. Antes era tão fácil e orgânico conversar com ... Por que ela sempre tinha que se autossabotar?
Cérebro estúpido.
Ela também o viu pelo colégio nos dias que se seguiram, mas apenas acenou pelo corredor, sorridente, como se eles dividissem um segredo e ele adorasse esse fato.
Em troca, também sorriu, mas mostrou-lhe o dedo do meio de brincadeira.
Isso só o fez rir mais.
Eles não conversaram na aula de biologia que dividiam, o que não foi surpresa. Uma das grandes alegrias de se fazer parte das classes honorárias era o silêncio e a paz que proporcionavam. Todos ali estavam presente pelas notas e esforços extraordinários, o que acabava enchendo a sala de alunos comprometidos e incapazes de não prestar atenção na aula.
não se encaixava nesse requisito. Não era aplicada aos estudos por ser uma aluna com grandes sonhos de futuro que necessitavam de uma ótima educação. Não tinha ideias ou cursos que adoraria fazer. A faculdade não era realmente uma opção com o salário que sua mãe tinha. Ela só tinha a realidade de estar sozinha por tanto tempo que tudo que tinha para fazer para se ocupar – principalmente quando acompanhava Darla no hospital – era lição de casa.
Mesmo assim, permaneceu em silêncio, pois o apreciava. Estava acostumada com ele, afinal.
A falta de comunicação entre ela e não impediu, contudo, que notasse os pequenos sorrisos conspiratórios que o intérprete dele lançava ao olhar para os dois. nunca havia falado com o homem, mais velho, mas ainda jovem, que se sentava na carteira da frente, meio voltado para eles, esperando que tivesse alguma dúvida para traduzir o que dissesse, mas ela mesmo assim sentiu que ele a olhava com olhos brilhantes e brincalhões, como se soubesse algo que ela não sabia.
Foi no almoço da quinta-feira que as coisas mudaram finalmente. estava sentada junto de Cindy, Adrien e Julie, sem ouvir direito o que conversavam. Mastigava pensativa, apreciando a sensação de alívio que veio ao ser comunicada de que sua professora de dança estava doente naquela semana.
Mais sete dias antes que tivesse que lidar com algo que evitava há tantos anos.
Uma exclamação assustada fez com que saísse dos próprios pensamentos. Cindy, ao seu lado, de repente cobriu a boca com as mãos pequenas e delicadas e arregalou os olhos. Julie parou de falar na metade de frase e levantou uma sobrancelha, com a boca ainda cheia de comida.

- Que foi? – perguntou olhando para amiga estranhamente.
- Eu não acredito que esqueci! – exclamou Cindy ainda com uma expressão chocada. – Era a notícia do ano e eu esqueci de contar!
- Que notícia? – perguntou Julie enquanto franzia as sobrancelhas, parecendo preocupada.

Cindy inclinou o tronco para frente e as amigas fizeram o mesmo. Adrien permanecia tão absorto no próprio celular que não as escutou e continuou parado em seu assento, digitando. Lambendo os lábios levemente e com olhos brilhantes, Cindy sussurrou como se o que tivesse que guardava fosse o mais impressionante de todo o universo.

- está fazendo aulas de arte comigo!

quis dar um tapa em sua nuca.

- É sério? – rosnou mal-humorada. – Esse é o segredo de Estado que você tinha para dividir com a gente?
- Ei! Todo mundo da sala olhou para ele de uma forma bem chocada quando apareceu – defendeu-se Cindy cruzando os braços. – Parecia uma fofoca bem quente pelo modo que reagiram.
- Que besteira! Qual o problema dele se interessar em aulas de arte? – questionou franzindo as sobrancelhas. – Julie, me ajude aqui.

Mas Julie parecia genuinamente impressionada com o que Cindy dissera, como se aquilo fosse realmente algo importante.

- Julie? – perguntou levantava a sobrancelha com o piercing.
- Na verdade, é um pouco surpreendente – disse Julie encolhendo os ombros quando bufou. – É sério! Estudo com desde pequenininha, fizemos fundamental juntos. Eu nunca nem suspeitei que ele tivesse interesse em artes.
- E não só interesse! – exclamou Cindy após fazer uma expressão para que dizia “não te disse?”. – Ele é bom. Não! Incrível. Maravilhoso. Tivemos que fazer uma produção artística e mostrar para a classe e a pintura dele era linda demais!

Lindo, gentil, charmoso e agora artista?
Deus, odiava o universo e ele com certeza a odiava de volta.

- Me surpreende também que ele tenha começado a fazer as aulas no último ano – comentou Julie. – Não é comum. Geralmente são os alunos novos que entram em novas classes, a maioria já está nelas desde o primeiro ano.

Elas continuaram conversando, mas voltou novamente a não prestar atenção. Sua mente viajou para , com suas lindas mãos masculinas, pincelando um quadro em branco, concentrado, com a camiseta suja de tinta... E, em um só movimento, enfiou tanta comida na boca de propósito que se engasgou. Pelo menos isso fez com que esquecesse o que estava pensando. Por enquanto.

✋🏼🎨💬



Aquela era a quarta tentativa de de entrar dentro do refeitório.
A primeira foi na segunda-feira de manhã, na qual ele caminhou até as portas, respirando fundo, com as mãos em punho. Ele faria isso. Iria até lá, abriria as portas, almoçaria como qualquer outra aluno. Andou, um passo atrás do outro, com força, rapidez, confiança...
E passou direto pelo corredor. Sem ao menos olhar para o seu destino.
A segunda tentativa foi na terça-feira e era possível considerá-la melhor, apesar de não ter tanto sucesso. conseguiu parar as próprias pernas e até mesmo esticar a mão em direção as portas.
Foi incapaz de tocar nelas ou abri-las, contudo.
Na quarta-feira ele quase conseguiu. chegou extremamente perto, com a mão tocando levemente as alavancas que abririam as portas, mas quando olhou pela pequena janela que expunha o lado de dentro, sentiu o estômago embrulhar. As mãos suavam e o corpo dele ficou tão frio que ele soube que desmaiaria a qualquer momento, então se afastou.
Ele não mentiu para quando lhe disse que era quase traumático pensar em voltar a comer na cafeteria. tentara, meses depois de seu acidente, no primeiro dia de seu retorno. Com apenas quatorze anos, lembrou-se de andar com passos decididos, empurrar as alavancas e abrir as portas com forças, entrar alguns passos lá dentro...
E sair correndo logo em seguida.
Estar lá era difícil pois era um lembrete constante de que ele, agora, era diferente. De que em um momento você é como todos ali, sentado em grupos enormes, conversando quase aos berros de animação sobre os mais diversos e superficiais assuntos e, no minuto seguinte, você está deitado em uma cama de hospital, ouvindo as palavras do médico e observando enquanto os olhos de sua mãe ficam vermelhos e molhados, mas ela não derruba uma lágrima.
“Não tivemos como salvar as cordas vocais dele, estavam destruídas. Ele nunca mais vai conseguir falar”.
Comer novamente no refeitório era sentar-se em uma mesa lotada de pessoas, mas sentir-se inteiramente sozinho. Era ouvir conversas em que não era capaz de agregar em nada, apesar de querer, pois ninguém ali sabia falar sua nova língua. Era ouvir sobre términos e problemas tão superficiais que o enchiam de raiva, pois nenhum deles entendiam o que era realmente passar por algo que quase acaba totalmente com a sua vida.
Ele vomitou em um dos banheiros naquele dia, após fugir. Depois, nunca mais pisou os pés na cafeteria. Sua mãe, ao perceber, ocupou seu horário com reuniões de parceiros de negócios que ela tinha. “É bom que eles já comecem a te conhecer, assim você entrará no ramo com mais rapidez ”, dizia ela.
E assim a vida se seguiu por três anos.
Mas agora ele tinha uma razão para voltar.
Um objetivo, uma lista, um finalzinho de esperança de que ele iria fazer o que queria e o que o interessava antes de ir para a faculdade e seguir a carreira que a mãe escolhera. E sabia que era preciso enfrentar os próprios medos também. Porque ele queria comer na cantina como qualquer aluno, queria poder dirigir até suas aulas como alguém da sua idade. Então assim faria. Mesmo morrendo de medo. Era agora ou nunca.
Agora, na quinta-feira e quarta tentativa, ele respirou fundo, com as mãos trêmulas na alavanca e olhou pela parte de vidro que expunha o lado de dentro. Mesmo com todas aquelas mesas e com todos aqueles estudantes, ele a viu.
Um suspiro saiu de seus lábios e fechou os olhos levemente. Se arrependia de como as coisas haviam ocorrido no domingo. Ele se animara como nunca antes com a perspectiva de fazer essa lista e a cumprir e acabou deixando que isso o cegasse quanto em relação à . Assumiu que ela embarcaria com ele nessa ideia, mas agora entendia que ela possuía demônios que ele não compreendia.
dividira com ele sobre o pai dela e pode ver como a chuva a afetava, mesmo que não compreendesse o porquê, mas só porque ele confiava nela e acreditava que eles possuíam passados parecidos, não significava que ela se sentia da mesma forma. parecia ser uma pessoa fechada e que não se abria com facilidade, então, mesmo com a decepção e ego levemente ferido, ele se recusou a sentir raiva dela por ter recusado sua oferta. Ela possuía os próprios limites e, se queria que aquilo desse certo entre eles, sabia que precisava respeitá-los.
Ele ainda queria a companhia dela, mesmo que não enfrentasse os próprios medos e, talvez, tivesse ali mais uma razão para ele estar enfrentando o refeitório após três anos sem progresso: mostrar para ela que a proposta dele era verdadeira e que ele a trataria com toda a seriedade e responsabilidade que essas delicadas situações exigem.
Ajeitando os ombros e abrindo os olhos, deu um último suspiro trêmulo. Depois, apertou os dedos com força nas alavancas e abriu as portas.

✋🏼🎨💬



, por alguns segundos, ficou extremamente perdida e confusa.
Em um minuto o refeitório reverberava dezenas de conversas que aconteciam, tornando o ambiente extremamente barulhento e caótico. Em seguida, silêncio. Tão forte e abrupto que era como se a voz de todos tivessem sido roubadas, junto do som de suas respirações.
olhou ao redor tentando entender o que acontecera. E por longos segundos tudo que viu foram as expressão atônicas de seus colegas, que olhavam para um ponto específico do refeitório como se vissem um fantasma.
Ela, então, o viu também.
. Parado depois das portas, do lado de dentro. Rígido como estátua, com o rosto pálido e olhos levemente assustados.
Parecia prestes a sair correndo e o corpo de se impulsionou para frente sem que ela percebesse, como se estivesse prestes a se levantar e ir até onde ele estava.
tinha desenvolvido uma fobia em relação ao refeitório. Ele lhe contara sobre como apenas o pensamento do lugar o fazia tremer e fugir instintivamente. Ela acreditou fielmente em sua confissão. Só Deus sabia quantas fobias ela mesma tinha desenvolvido ao longo de todos esses anos e empurrava para dentro do armário até que não tivesse que lidar com nada.
Mas ali estava ele.
Parado, pálido, trêmulo e suando, mas ali. Enfrentando o medo dele, na frente de metade do colégio. Assim como havia se prontificado a fazer, a convidado a participar e recebido um “não” em resposta.
Porra, ela era uma covarde de merda mesmo. A maior covarde que já pisou nessa terra.
pareceu notar que todos estavam olhando para ele sem piscar. pode imaginar como era para eles, que fofocavam há três anos sobre como ele não almoçava mais com ninguém após seu misterioso acidente, vê-lo ali, tão de repente e sem aviso prévio. Até Cindy parecia sem palavras e ela só o conhecia há duas semanas.
Você consegue, torceu mentalmente. Venha. Você consegue enfrentar isso.
Mas ele engoliu seco, ainda mais trêmulo pelas centenas de olhos que o encaravam sem piscar e deu um passo para trás.
Não, não, não...
encostou a mão novamente na porta, empurrou-a levemente para sair...
E, em um impulso, pegou a bandeja de Adrien à sua frente e a lançou para o lado e para fora da mesa com toda força que possuía.
O objeto saiu voando e acertou a parede em um estalo. A comida se espalhou pelo chão e o barulho do impacto foi tão forte que ecoou pelas paredes silenciosas.
PÁ!
Todos olharam para eles, confusos. apenas permaneceu com uma expressão entediada no rosto.

- Ei! – exclamou Adrien com uma careta extremamente perdida. Ela, em resposta, apenas encolheu os ombros. – O que você...?
- Desculpe – disse sem expressão. – Eu tive um espasmo.
- O quê? Mas... Você... – Adrien gaguejou, antes de chacoalhar a cabeça, como se apenas aceitasse o fato de que ela era maluca. Ele ainda parecia levemente horrorizado, mas se levantou, recolhendo a bandeja e a comida destruída no chão. olhou ao redor e sorriu levemente.

Seu plano funcionou. O barulho pareceu tirar todos do transe em que se encontravam e o refeitório voltou a ser extremamente barulhento e caótico. Provavelmente ainda falavam de e talvez da ridícula cena que fizera, mas pouco se importou.
, ainda na porta, olhou para Adrien limpando o chão com guardanapos e então para ela. O sorriso que ele deu foi tão forte e brilhante que fez as bochechas dela corarem levemente.
Ele entendera.

- Você destruiu meu almoço – reclamou Adrien retornando com a comida em pedaços sobre a bandeja.
- Eu salvei sua vida destruindo esse bolo de carne radioativo – respondeu apoiando o queixo em uma das mãos. Depois, empurrou a própria bandeja em direção à ele. – Aqui, fica com a minha.
- Eu achei que ele nunca comia aqui – murmurou Cindy parecendo animada e confusa.
- E não come – respondeu Julie franzindo as sobrancelhas antes de encolher os ombros. – Mas é legal ver aqui novamente. Talvez esteja tentando voltar.
- Cynthia parece animada também – respondeu Cindy olhando para a mesa do time da torcida com olhos esperançosos.

olhou também e controlou o impulso de bufar. Cynthia realmente olhava para com olhos esperançosos e um sorriso que se surpreendeu ao reconhecer como verdadeiro.
Mas ele, ao sair da fila do almoço, não foi em direção à ela. Na verdade, andou diretamente até a mesa em que estava, sem tirar os olhos dela e com um sorriso de canto de boca que parecia permanente.
Quando chegou suas mãos estavam ocupadas com a bandeja, então ele apenas indicou um dos assentos com a cabeça.

- Claro! – exclamou Julie se levantando e pulando para o assento vazio ao lado dela. Depois, puxou a manga da camiseta de Adrien e murmurou: - Vem.
- Por quê? – perguntou ele com a boca cheia do yogurt que havia lhe dado. – Ele pode se sentar ali-
- Vem. Para. O. Lado – rosnou Julie com os dentes trincados, o puxando com mais força. controlou uma gargalhada ao ver Adrien empalidecer levemente.
- Jesus, está bem – ele murmurou, pulando para o assento vazio, que antes pertencera à ela.

, então, sentou-se no assento de Adrien, agora desocupado.
Bem na frente de .
Ela até podia ficar brava com a amiga pela nem um pouco discreta tentativa de fazer ficar perto dela, mas a situação toda, na verdade, estava fazendo-a querer gargalhar até sentir as costelas doendo.
Talvez por nervosismo, talvez realmente por diversão. No fundo, não sabia mais distinguir os dois.

- Olá, – disse Julie por fim, dando-lhe um sorriso gentil. – É muito bom te ver aqui.

sorriu de volta para ela com seu sorriso característico: grande, bonito e com covinhas. As bochechas de Julie coraram levemente e não pode culpá-la.
Os amigos voltaram a conversar, mas sabia que eles apenas estavam tentando fingir que não havia nada demais em estar ali. Ficou agradecida por isso e soube que ele também. Apesar da postura rígida e das mãos levemente trêmulas, ele ainda sorria.
Não querendo expor o que dizia, passou a falar na língua de sinais.

- Estou confusa – sinalizou sendo sincera. – Mas feliz de te ver aqui.

Ele sorriu para ela e tirou um papel do bolso. Nele estava escrito a frase “#1. Voltar a comer no refeitório”, riscada com uma linha feita com caneta vermelha.

- Começou sua lista então – sinalizou ela com um sorriso de boca fechada. – Fico feliz.

Ele encolheu os ombros, parecendo tímido.

- Eu estava falando sério sobre isso – sinalizou ele com uma covinha aparecendo. – E sobre querer sua companhia. Não vou mais insistir em você participar, respeito seus limites, mas realmente gostaria que estivesse comigo.
- Por quê? – sinalizou antes de apoiar o queixo contra a palma da mão.

pareceu pensativo por alguns segundos e encolheu os ombros novamente.

- Não sei – respondeu sendo sincero. – Eu sei que você disse que nós nos conhecemos a pouco tempo e é verdade, mas de todas as pessoas que eu conheço... Você é a que eu mais sinto que me entende. Mesmo que isso possa parecer bizarro.
- Parece – sinalizou em troca. – Mas não muito. Acho que pessoas com passados fodidos sempre tendem a se encontrar.

Ele sorriu para ela e sorriu levemente de volta. Começou a mover as mãos para continuar a falar, mas Cindy os interrompeu.

- A língua de sinais é tão linda – suspirou sonhadora e sorridente. – Eu adoraria saber o que vocês estão falando.
- Certeza que não gostaria – brincou Adrien com um sorriso malicioso. o chutou por debaixo da mesa e o viu reclamar de dor quando suas botas pesadas acertaram a canela dele. – Ai! Você vai quebrar minha perna com esses seus sapatos monstruosos.
- Por que todo mundo sempre acha que estamos falando putaria? – reclamou mal-humorada de forma verbalizada.

sorriu para ela de maneira sedutora.

- Talvez devêssemos dar ao povo o que ele quer – sinalizou dando-lhe uma piscadela com um dos olhos.

Em resposta, lhe mostrou o dedo do meio, mas o canto de seus lábios subiu levemente.
Algo atrás de chamou a atenção dela. Um pouco ao longe, Cynthia os fuzilava com o olhar.

- Acho que sua amiga não gostou muito de você se sentando com a gente – respondeu em língua de sinais, antes de apontar para a mesa das líderes de torcida.

Ele olhou por cima do ombro e acenou, sorridente. Cynthia abriu um sorriso que não alcançava os olhos dela e acenou de volta. Apesar disso, notou que suas sobrancelhas ainda estavam franzidas, como se o que ela visse simplesmente não fizesse sentido e que não gostasse nem um pouco.
Com um sorrisinho debochado nos lábios, também acenou para ela. Cynthia, em troca, virou de costas e a ignorou completamente.

- Ciúmes? – brincou em seguida.
- Você realmente precisa ver o problema do seu ego enorme – ela respondeu também na língua de sinais, antes de se virar para Cindy e ouvir o que dizia. Pelo canto do olho, pode vê-lo rir.

Não mentira em relação a não sentir ciúmes. Primeiramente, ela e não possuíam nenhum tipo de relação amorosa. Portanto, seria injusto da parte dela sentir qualquer tipo de sentimento de posse em relação à ele.
Em segundo lugar, mesmo que eles estivessem se relacionando, simplesmente não era do tipo em que o ciúme se aflorava. Nunca acontecera antes e ela não enxergava a si mesma em uma situação dessas. Ela podia se sentir insegura, com certeza, mas nunca ao ponto de agir de forma ciumenta, impedindo o parceiro de ser amigo de alguém, por exemplo.
Ela não gostava de Cynthia por motivos que não tinham nenhuma relação com ou com quem ele se interessava. Não gostava dela porque notara o jeito que a olhou quando achou que estava interessada na vaga do time da torcida. Viu os olhos julgadores e o sorriso e tom de voz debochados. Viu como olhara para suas roupas, piercings e maquiagem, quase como se fosse uma aberração de circo.
Além disso, notou como ela tratava os demais. Como tratou a líder de torcida ruiva no dia da festa, claramente brava por ela não ter ficado com Alvin Wilson durante o jogo de verdade ou desafio, mesmo que a amiga se mostrasse extremamente desconfortável com a situação.
Como tratou um pequeno garoto do primeiro que sem querer derramou suco no uniforme dela há dois dias. Gritou tanto com ele, na frente de todo refeitório, que o calouro saiu correndo com lágrimas nos olhos. viu como Cynthia debochou da situação com seu grupo logo em seguida e só não lhe disse poucas e boas porque Julie a segurou em seu lugar.
Olhava para todos que não participavam de seu grupo social pior do que olharia para um pedaço de chiclete que grudara em seu sapato.
Ela lhe lembrava o tipo de pessoa com quem lidava em Portland. Lhe lembrava das meninas do antigo time de torcida, dos garotos dos times de esporte, de todo resto do corpo estudantil que possuía prazer no sofrimento alheio. Mas, principalmente, lhe lembrava perfeitamente de Candace Hall e, porra, isso era o suficiente para querer ter a chance de empurrar Cynthia contra a parede e tirar aquele sorrisinho do rosto dela.
Mimada, fútil e valentona. A combinação que fazia o sangue de ferver ao ponto que ela não possuía mais controle da própria raiva.
Então, não. O ressentimento de em relação a Cynthia não tinha nada a ver com . Mesmo que ele e Travis tenham achado o contrário. Existem muitas razões para que duas mulheres não gostem uma da outra e ela não era o tipo que brigaria por causa de um garoto, afinal.

✋🏼🎨💬

- Você é uma cara de pau mentirosa! – murmurou Cindy quando elas se separaram de e Adrien após o almoço. Apesar de suas palavras, seu tom de voz era brincalhão.

Em resposta, levantou as sobrancelhas e se virou para Julie.

- Acho que ela pirou de vez – brincou enquanto apontava para a amiga com a cabeça. Julie abafou uma risada com as mãos e Cindy revirou os olhos, enquanto a puxava pelos pulsos.
- É sério! Semana passado você estava toda “eu e o não somos amigos, blá blá blá, eu não ligo para ele, blá blá blá” e agora vocês ficam de risadinhas e conversas misteriosas um com o outro sem parar! – disse.
- Ela tem um ponto – murmurou Julie recebendo um olhar chocado de . Em troca, apenas encolheu os ombros. – Vocês realmente parecem bem mais próximos do que semana passada. Aconteceu alguma coisa?
- Eu quero adivinhar! – saltitou Cindy com olhos sonhadores. – Vocês dois se encontraram, tiveram uma longa conversa enquanto andavam pela praia e então descobriram que eram perfeitos um para o outro e se apaixonaram! Acertei?

e Julie olharam para ela com caretas atônicas por alguns segundos.

- Pelo incrível e mais bizarro que isso possa parecer, você não está totalmente errada – disse com uma careta surpresa. – Tirando essa maluquice de “perfeitos um para o outro” e se apaixonar.

Elas continuaram andando pelos corredores, agora com entre as duas amigas, para que ambas pudessem ouvir sua história. Cindy segurava o antebraço dela, as unhas coloridas se destacando contra a jaqueta preta que usava.

- Não sei bem o que explicar – disse encolhendo os ombros levemente. – Depois que eu fui embora da festa na sexta-feira ele me acompanhou até em casa e foi... Bem legal, na verdade. Nós conversamos bastante e depois o encontrei mais duas vezes sem planejar. Percebi que temos algumas coisas em comum e... Sei lá. Só foi bem legal.
- Achei super romântico – suspirou Cindy recebendo caretas confusas das duas amigas.
- Ela não bate bem mesmo – murmurou para Julie que encolheu os ombros e colocou as palmas das mãos para cima em sinal de rendição. – Enfim, acho que acabamos ficando amigos depois desses encontros. Nunca falamos sobre isso, mas agora que vocês comentaram percebi que realmente nos aproximamos mais.

Ela realmente não havia parado para pensar sobre, mas fazia sentido. Os encontros que tiveram acabaram aproximando de de uma forma natural e imperceptível para ela. Talvez tenham sido as brincadeiras, ou as gentilezas, ou as confissões íntimas que haviam trocado, não importava.
realmente se sentia mais próxima dele e não parecia mais tão bizarra a ideia de chamá-lo de amigo. Era quase estranho imaginá-lo como um colega ou um desconhecido, como havia o visto anteriormente. Eles pareciam ter ultrapassado uma barreira de intimidade e ela apenas esperava que ele também se sentisse dessa forma.
De repente, alguém as interrompeu. Um menino de black power, que reconheceu do dia dos testes para a equipe de torcida, veio correndo pelo corredor, em direção a Cindy, agarrando-a pelas mãos.

- A lista saiu! A lista saiu! – ele exclamou, passando a puxá-la pela mão. Cindy gritou e apertou o braço de com tanta força que acabou arrastando-a junto.
- Você vai arrancar o meu braço fora! – exclamou enquanto a seguia de forma capenga pelo corredor, Julie tentando alcançá-las atrás.

Cindy não a ouviu. Continuou correndo até uma pequena multidão que se acumulava em volta de algo colado na parede. O menino se enfiou no meio das pessoas, mas ela vacilou, parecendo, de repente, extremamente insegura.

- Não vai olhar? – perguntou Julie gentilmente, pousando a mão no ombro da amiga.
- E se eu não passar? Ai meu Deus e se eu não passar? – disse Cindy com a voz intercortada e os olhos cheios de lágrimas.
- Você vai passar – garantiu com um sorriso amigável. – Eu vi o seu teste. Você foi ótima!
- Mas, mas, mas... – gaguejou Cindy olhando para os lados, em pânico. – Todos foram tão melhores que eu!
- Ah, pelo amor de Deus – suspirou se afastando em seguida. Entrou no meio da multidão, acotovelando quem estivesse na frente. Os espinhos de sua jaqueta eram ótimos em repelir as pessoas ao redor. – Licença! Sai da frente! Sai, sai, sai!

Ela chegou até o papel na parede e sorriu. Depois voltou para as amigas e gritou:

- Você passou!

Cindy soltou uma exclamação tão alta que o som ecoou dentro da cabeça de . Ela tampou os ouvidos com as mãos e riu ao ver a amiga saltando de cima para baixo com Julie, que ria também.
Observou-as feliz, com a conversa que tiveram anteriormente em mente. Viu seus sorrisos e pensou no de no refeitório. Ele parecia nervoso e levemente trêmulo, mas sorria cada vez mais, com um olhar brilhante e feliz.
queria se sentir assim, mas sabia que não estava pronta para enfrentar o caminho que a levaria a tal. Observar ele percorrê-lo, contudo, era outra história. Talvez não fosse tanta loucura. Talvez, só talvez, a ajudasse de alguma forma...
Sabia a razão pela qual ficou tão incomodada pelo fato de que ele não insistiu mais no assunto ao longo da semana. Havia uma parte dela assustada e negativa, sim, mas também havia um pequeno suspiro de esperança e vontade de mudança. Queria que ele insistisse porque talvez isso a ajudasse a ceder. As vezes ela odiava o quão teimosa podia ser.
Antes que mudasse de ideia, pegou seu celular com rapidez e enviou uma mensagem para .
Acho que não faria mal ver em primeira mão você passando vergonha ”.
A resposta dele veio alguns minutos depois, tirando um sorriso dela.
Para você eu dou ingressos no camarote e pago todos os micos do mundo se isso significa que vou ter sua companhia ”.

Capítulo 9 - #2. Fazer as próprias compras



O motorista de era um homem de meia-idade com um sorriso enorme e olhos paternais. gostou dele instantaneamente.
Ele também olhava para ela no banco de trás com olhares conspiratórios a cada cinco minutos, como se soubesse um segredo sobre ela que não estava ciente, o que a lembrou da expressão do intérprete de nas aulas de biologia. O dia já seria maluco o suficiente, então ela não deu um segundo pensamento para esse fato. Continuou respondendo às perguntas que ele lhe fazia, tentando ignorar o quão impressionada ficara de se sentar na frente, como se Carter fosse um amigo da família e não seu motorista.
A ação a fez gostar ainda mais dele.
Essa percepção foi ignorada também, é claro.

- E a senhorita aprendeu a língua de sinais como? – perguntou Carter enquanto dirigia para sabe-se lá onde estava planejando levá-la.
- Com a minha avó – respondeu inclinando-se para os bancos da frente e notando como parecia automaticamente interessado na conversa. – Ela era surda e fundou uma organização de apoio às pessoas não-ouvintes que ensinava ASL gratuitamente para todo mundo que estivesse interessado. Eu costumava passar horas lá desde criança. Apenas parei de ir quando ela faleceu.

Foi difícil voltar a frequentar aqueles corredores após a morte dela. até pensou em continuar após algum tempo, mas seus treze anos aconteceram e ela e a mãe se mudaram para Seattle, impedindo com que voltasse com facilidade. As vezes ela sentia tanta falta do lugar, das pessoas que ali trabalhavam, de sua avó, que seu coração doía até machucar seu peito. Mas voltar a Portland era extremamente doloroso por centenas de razões e, se dependesse de , ela nunca mais colocaria os pés naquela cidade.

- Bem, isso é uma tristeza – comentou o motorista com um sorriso triste e acolhedor. – Mas fico feliz que ela tenha te deixado esse legado. Conversar em ASL deve te fazer sentir mais próxima dela.

sorriu para ele com alegria. O que dissera era a mais pura verdade. Talvez fosse uma das razões pelas quais ela deixou entrar tão rapidamente em sua vida. Falar com ele a lembrava de sua avó e das conversas que tinham. De suas mãos bonitas, de suas expressões faciais honestas, de seus movimentos elegantes. Era familiar, caseiro, acolhedor, sentimentos que trazia à mesmo em tão pouco tempo.
Era levemente assustador pensar sobre isso – sobre os sentimentos que ele provocava nela –, então tendia a ignorá-los como absolutamente todas as outras emoções conflitantes que possuía. Havia se tornado extremamente boa nisso, então continuou, mesmo sabendo que algum dia tudo explodiria contra ela e só teria a si mesma para culpar.
Carter estacionou na calçada e os dois desceram, se despedindo. olhou ao redor, franzindo as sobrancelhas para a Worth Avenue , provavelmente um dos lugares mais caros para se fazer compras em Palm Beach. Depois, se virou em direção à e arregalou os olhos levemente.

- O que viemos fazer aqui? – perguntou confusa.
- Compras – sinalizou ele parecendo levemente tímido. – Era a próximo tarefa na minha lista.
- Uma das coisas que nunca fez e sempre quis é fazer compras? – exclamou levemente surpresa e chocada. O quanto a vida dele havia sido controlada?

O choque dela pareceu deixá-lo levemente triste. Querendo bater em si mesma, mudou a expressão facial e tocou levemente no braço dele, em sinal de conforto.

- Ei, tudo bem – disse com o tom de voz brincalhão. – Eu também iria querer fazer compras sozinha se tivesse que me vestir de forma tão sem graça como você. Quer dizer, sem rasgos nas calças ou espinhos nos casacos? Fala sério!

Ela teve medo de que ele a achasse muito ácida e ofensiva, mas seu senso de humor realmente parecia diverti-lo. riu abertamente e empurrou seu ombro, brincando com ela. sorriu em resposta, escondendo dentro de si o fato de que as roupas que ele usava não eram chatas e o deixavam absolutamente comestível.

- Vá se foder – ele sinalizou brincando e indicando a loja ao lado deles com a cabeça. – Venha. Preciso da sua ajuda para mudar meu estilo.
- Uma escolha muito sábia – ela brincou apontando para as correntes que caíam de seu cinto até os quadris cobertos de shorts jeans pretos, curtos e rasgados. – Mas você escolheu que vai mudar seu estilo na J. Mclaughlin ?
- Qual o problema? – perguntou ele franzindo as sobrancelhas enquanto observava-a se aproximar da vitrine.
- Pelo amor de Deus, , uma calça aqui custa quase duzentos dólares – respondeu olhando o preço de um dos modelos no manequim. Além do mais, ela tinha quase certeza de que as atendentes não ficariam felizes caso ela entrasse na loja.
- Bem, uma das roupas mais baratas que encontrei no meu guarda-roupa era daqui – sinalizou ele parecendo perdido. O queixo de caiu levemente e ela balançou a cabeça, em negação.
- Jesus me acuda – murmurou para os céus, antes de ter a melhor ideia de todas . – Vem, tem um lugar que vai ser perfeito para você mudar seu guarda-roupa.

Ela o puxou pela manga da camiseta até onde Carter estava estacionado. Quando chegaram até ele, sinalizou:

- Onde vamos?
sorriu como o gato de Alice antes de responder:
- Você vai ver.

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encontrou o Goodwill Thrift Store pela internet quando tomou a decisão de que as roupas caras que Trinity comprara iam contra qualquer filosofia de vida que ela seguia.
O lugar era um imenso brechó com milhares de araras espalhadas pelo salão e incontáveis peças de roupas. Todos os estilos, cores e tamanhos podiam ser encontrados pelos mais diversos preços: de quarenta até um dólar.
olhava ao redor como uma criança impressionada, mas que não entendia realmente o que via. se controlou para não rir de sua expressão e seu peito se encheu de uma inexplicável sensação de carinho.

- Eu nunca vim em um brechó antes – ele sinalizou com um pequeno sorriso nos lábios.
- Então espere para a melhor experiência de todas – brincou ela agarrando-o pela mão e o arrastando em direção às roupas. Ele seguiu sem pensar duas vezes.

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sentia falta de rir desse jeito. Tão forte e tão alto que suas bochechas doíam e seu abdômen se contraía com as câimbras que atacavam suas costelas.
Era fácil esquecer de como era gargalhar tão forte que lágrimas escorriam por seus olhos, principalmente após a mudança para Seattle e a morte de sua mãe. Era difícil encontrar motivos para sorrir quando estava a maior parte do tempo constantemente sozinha, acompanhada apenas dos próprios sentimentos de raiva e remorso, sem outra coisa para fazer além de se afogar nos próprios pensamentos.
Mas ali, naquele gigantesco e empoeirado brechó, vendo vestir um casaco de couro com franjas brancas e um óculos de sol com dois enormes flamingos nas laterais, se perguntou como aguentou passar tanto tempo sem rir.

- Você está ridículo! – gargalhou quase caindo para trás da cadeira em que estava sentada. – Por favor, me deixe tirar uma foto sua.
- É sempre tão bom para o meu ego passar tempo com você – brincou antes de amarrar os cabelos com uma bandana verde-fluorescente. Depois, voltou a sinalizar. – Eu acho que estou muito estiloso.
- É por isso que não te deixam comprar as próprias roupas – zombou colocando os coturnos gastos em cima de um outro banco. Riu ainda mais quando ele lhe mostrou o dedo do meio. Ela era uma péssima influência para ele e estava adorando cada segundo.

Ela tirou o celular do bolso e apontou para ele. Ainda fazendo o gesto obsceno, sorriu e posou. Depois, suspirou, cruzando os braços, enquanto outra gargalhada estourava o peito de .

- Pare de tirar sarro de mim – sinalizou fingindo estar triste. – Eu preciso de ajuda.

suspirou e se levantou, indo até ele, enquanto guardava o celular no bolso.

- Eu estava esperando te deixar fazer todo trabalho sozinho – disse, arrancando os óculos de seu rosto. – Mas parece que você está mais perdido do que eu achava.

Ele a acompanhou pelas centenas de araras, olhando os cabides e passando as mãos pelas peças de roupa. sorriu levemente ao ver o quanto parecia animado.

- Acho que você só precisa de um empurrãozinho para o caminho certo – murmurou ela olhando algumas peças. – E eu, claramente, sou a pessoa certa para te ajudar, já que me visto incrivelmente bem.

sorriu para ela e percebeu que não havia nada em seu sorriso além de sinceridade. Não havia nervosismo, como o sorriso que Logan lhe daria caso a visse daquela forma. Não havia deboche, como Candace provavelmente reagiria, gargalhando com olhos cruéis. Não havia confusão, como Lily riria, antes de lhe dar uma longa palestra sobre como o estilo gótico provavelmente destruiria qualquer chance que tinha em ser popular.
Não com . O sorriso dele era apenas isso: um sorriso. Feliz, quente, amigável, sem qualquer tipo de constrangimento em relação as roupas que usava.

- Acho que podemos começar pelas cores. Que tipo de cor você gosta?
pareceu pensar por um segundo.
- Branco, cinza, azul, fico bem nessas cores – sinalizou. Depois, olhou-a de cima abaixo e completou: - Gosto muito do preto também.

levantou uma sobrancelha e tentou controlar um sorriso paquerador que começava a espelhar o dele em seus lábios. Ele lhe lembrava do da lanchonete quando fazia isso, o bonito e desconhecido que flertou com ela até deixá-la quente e suada.

- Vamos começar, então – respondeu.

E assim eles fizeram.
Durante horas, entrou e saiu de um dos provadores, cada vez com um modelo de roupas diferente. Alguns o apresentava, mas todos foram experimentados porque assim ele quis. Ela tirava fotos dele a cada momento, mentindo para ele e para si mesma que era apenas para que pudesse ter lembranças daquele momento quando tudo tivesse passado.
não pode deixar de sorrir enquanto o observava a cada troca. Era quase engraçado ver o que conhecia, polido, elegante, perfeitamente vestido, agora descalço e com calças de moletom usadas.
Calças essas que faziam maravilhas para a silhueta dele.
Não que ela estava notando, é claro.

- Ei! Esse ficou legal – exclamou ela observando a bermuda e regata praiana que ele usava. – Bem surfista. Ficou bem em você.

Tudo ficava bem nele, sem exceção, mas não seria a pessoa que contaria isso à .

- Obrigado – sinalizou ele com um sorriso levemente tímido. – Eu gostei também e o conjunto fica apenas dez dólares!
- Ah, as maravilhas dos brechós – suspirou puxando um pequeno vestido verde-musgo e olhando para ele, antes de se voltar para . – Tudo que você pode sonhar por menos de trinta dólares.
- E você? – perguntou ele se aproximando dela. – Não vai levar nada?
- Não sei – respondeu encolhendo os ombros. – Eu ainda tenho um pouco de dinheiro guardado, mas não sei se seria prudente gastar com roupas.
- Seu pai não está te dando dinheiro? – perguntou curioso e confuso. – Pelo jeito que ele estava animado com a sua vinda achei que seria capaz de te comprar sua própria casa.
riu sem humor.
- Ele me dá dinheiro – confessou, com as sobrancelhas franzidas, como se a ideia a incomodasse. – Muito, na verdade. Até fez um cartão de crédito no meu nome.

Ela olhava para as peças de roupa nos cabides, mas não realmente as enxergava. Seus olhos pareciam estar há quilômetros dali, pensativos.

- É só que é... Estranho. Muito estranho – murmurou, suspirando em seguida. – Estranho para caralho. Minha vida inteira vi minha mãe lutando em dois empregos para me sustentar e nos dar o mínimo. Dinheiro contado, nem um centavo dado pelo Christopher em doze anos. Nunca vimos o cheiro da pensão que ele devia pagar para a gente, se realmente se importasse.

O humor dela azedou. A raiva esquentou seu sangue. Mas não pode deixar de sorrir tristemente quando a mão quente e reconfortante de encontrou o ombro dela. Como ele conseguia estar quente o tempo todo era um dos maiores mistérios do universo.

- Parece errado, sabe? Ter, de repente, todo dinheiro que alguém pode possuir. Dinheiro suficiente para ter resolvido nossas contas por anos, dinheiro suficiente para comprar todo esse lugar. Só parece errado para caralho gastar esse dinheiro, que veio tão fácil. E me deixa muito puta, também.

Ele lhe deu um pequeno sorriso de canto de boca, como se sentisse muito. então suspirou, balançando a cabeça e esfregando o rosto levemente. Depois, encolheu os ombros, como se a conversa não fosse nada demais para ela.

- Bem, então, por enquanto estou usando o dinheiro que sobrou da minha mãe. Vou ver o que fazer quando acabar. Talvez arrume um emprego ou sei lá.

Ela claramente queria mudar de assunto, então não insistiu. Olhando ao redor, pegou um enorme casaco de pele falsa de guepardo e estendeu para ela.

- Não é justo que só eu esteja fazendo papel de bobo – sinalizou após ela tirar a peça de suas mãos.
- Bem, se é assim – disse sorrindo maliciosamente e colocando contra o peito dele uma camiseta preta de banda. – Vamos ver como você fica no estilo roqueiro.

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ficou deliciosamente bonito com roupas do estilo dela. Isso não foi surpresa.
Mas, ao mesmo tempo, ele parecia totalmente fora do lugar.
Talvez fosse os cabelos meticulosamente penteados ou a postura perfeita e ereta, mas apostaria suas cartas em seu sorriso de príncipe com covinhas, que destoava da camiseta com estampa de heavy-metal como se ele estivesse usando uma fantasia.
Ela não ligou. Não importava o fato de que ele não combinava com o estilo de roupa que ela usava. Havia saído com garotos roqueiros e góticos há muitos anos atrás e não foram experiências que buscava repetir.
Não que estivesse buscando sair com . Não era nada disso. Nem pensar. Apenas não se importava por ele ser de um estilo totalmente diferente. Só isso. Nada mais.
Ela, por sua vez, estava totalmente ridícula. Vestida com o enorme casaco felpudo e os óculos de flamingo que tirara dele, tentou fingir estar brava ao ver rir da cara dela e tirar fotos de vingança.

- Achei que você fosse educado demais para rir da cara de alguém – murmurou jogando os óculos no peito dele. – E se essas fotos aparecerem online eu vou te assassinar.
- Você está sendo uma má influência para mim – retrucou sorrindo maliciosamente. Ele então pegou uma peça de roupa aleatória e jogou para ela em seguida. – Aqui. Tenta esse.

E assim eles continuaram.
usando um chapéu florido e uma blusa de estampa de tigre.
com óculos com os números do ano novo e uma jaqueta de couro.
com brincos de serpentina e sapatos de salto alto.
com a jaqueta do Elvis Presley e uma luva e chapéu como os de Michael Jackson.
Ela com óculos de bibliotecária e um suéter de natal com uma horrenda rena na frente.
Ele com uma máscara de halloween, uma camiseta com a estampa de um filme de terror e um gancho na mão.
E risadas. Tão fortes que lágrimas escorriam dos olhos dos dois, borrando a maquiagem preta de . Tão grandes que as bochechas de doíam onde suas covinhas se formavam. Tão felizes que os dois sentiam câimbras e tinham que se apoiar nas paredes na tentativa de continuar de pé.
Depois, quando havia decidido o que levaria e achara uma meia arrastão rasgada e um cinto com espinhos de metal, eles apenas perambularam pelo local, em direção à fila enorme do caixa.

- Então – disse despretensiosamente. – E qual é dessa vontade de fazer compras? Nunca ter comprado as próprias roupas é a razão pela qual se veste como um mini empresário mauricinho?

riu da descrição dela e encolheu os ombros. Deixou as roupas que levaria nos braços de , para que pudesse sinalizar com mais facilidade. Ela não se importou. Era o mínimo, afinal.

- Eu respondo se você falar primeiro – sinalizou dando-lhe uma piscadela. – Qual a razão para se vestir como se fosse beber vinho no tumulo mais próximo?

O queixo de caiu e ela o chutou levemente na coxa.

- Primeiramente, eu só bebi vinho em um cemitério uma vez, então vá se foder – xingou ela ao mesmo tempo que ria. Isso só fez gargalhar silenciosamente. – E se quer saber, eu me visto assim por que fico extremamente gostosa com essas roupas.
- Concordo – sinalizou ele e nada mais, apenas sorrindo de canto de boca.
semicerrou os olhos e fingiu não querer sorrir também.
- Mas falando sério – continuou . – Por que se veste assim?
- Por que sempre tem que ter uma razão para uma garota de preto se vestir de preto? – reclamou com as sobrancelhas franzidas. – Às vezes é só a maneira como eu me sinto melhor me vestindo, sabe?
- Justo – respondeu , colocando as mãos no bolso em seguida e não dizendo mais nada.

Ainda havia um pequeno sorriso em seus lábios e continuou falando antes que pudesse impedir a si mesma.

- Tudo bem, talvez exista a razão de que a garota passou por momentos em que se sentiu fraca e vulnerável e encontrou nesse estilo de roupas uma maneira de se sentir forte e valente, mas ... – Ela apontou o dedo para cima através da pilha de roupas em seus braços. – Não significa que seja o meu caso.

balançou a cabeça em acordo, não dizendo mais nada, mas controlando um sorriso que parecia querer crescer. o empurrou pelo ombro e bufou, mal-humorada.

- É sério – insistiu.
- Eu sei – sinalizou ele, ainda com um olhar zombador. – Mas se me permite perguntar, que tipo de roupa você usava antes de adotar o estilo “fodona e assustadora, mas gostosa para caralho”?

não pode impedir o sorriso que iluminou seu rosto. Aquele era um elogio que com certeza sabia apreciar e a deixava completamente sem palavras o quão fácil e orgânico era flertar com . Como se eles fossem feitos para isso, como se tivessem nascido para paquerar um ao outro.
Depois, contudo, ficou levemente pensativa.
Não havia ninguém, a não ser os que a conheciam na época, que sabiam o estilo que usava antes de apreciar as roupas pretas e rasgadas. Admitir sua antiga imagem parecia íntimo e assustador, mas por alguma razão, não quando se tratava de . Ele, como ela havia avaliado, parecia apreciar sua aparência gótica e dividia intimidades sobre a vida dele com de uma forma inspiradora.
Ela lhe devia isso, então falou.

- Eu sei que vai parecer loucura, mas eu me vestia... – ela olhou ao redor e tirou do lugar um cabide com uma blusa coberta de lantejoulas cor-de-rosa fosforescente. – Assim.
- Você está brincando – sinalizou ele com olhos levemente arregalados.
- É sério – riu ela devolvendo a peça e voltando a andar. – Eu era como a Cindy. Não! Pior que ela. Poderia competir com sua amiga Cynthia com facilidade.

Ele olhou para ela espantado e gargalhou de sua reação. riu também, ainda olhando para ela como se lhe tivesse contado um chocante segredo de Estado.

- E como aconteceu a transição de um estilo para o outro? – perguntou curioso.
ficou levemente rígida. Aqui estava um terreno que não queria explorar.
- Acho que comecei a perceber que olhava para mim mesma com aquelas roupas e não via alguém que queria ver, alguém que eu reconhecia e sentia orgulho em ser. Quando assumi as roupas pretas, rasgadas e pontiagudas foi como... – Ela pensou por alguns segundos. – Como me ver de verdade pela primeira vez em muito tempo.

sorriu para ela com olhos brilhantes. sorriu de volta. Não era uma mentira e nem uma meia-verdade. Ela apenas pulou um enorme pedaço da história real que não gostaria de compartilhar por enquanto.

- Agora é sua vez – disse, empurrando-o suavemente. – Desembucha.

suspirou tristemente e eles entraram na fila. Ele pensou por alguns segundos e chacoalhou os ombros, como se preparasse.

- Minha mãe escolhe nossas roupas desde que me entendo por gente – sinalizou ele. – As minhas, as dela, as do meu pai. Tecnicamente ela contrata estilistas para fazer o trabalho, mas sempre mantem a rédea curta. Ela é controladora assim.

não disse nada. Seus olhos, fixos nas mãos dele, mal piscavam.

- Mamãe é obcecada com o que os outros pensam de nós. Com o que pensam dela. Tudo para ela é sobre imagem, sobre agradar e ser completamente impecável. Eu penso sobre isso há muitos anos e é a conclusão que cheguei. Ela controla nossas aparências porque acredita que a primeira impressão é tudo. Estamos sempre impecáveis. Acredito que eu principalmente para os investidores e companheiros de trabalho dela, para que gostem de mim. Ela quer que eu siga a carreira de empresário e “contatos” é a palavra preferida dela.
- E que carreira quer seguir? – perguntou suavemente.

encolheu os ombros, parecendo tímido.

- Bem, eu nunca me permiti pensar muito nisso – confessou. – Mas se tivesse que escolher algo, seria a carreira de artista. Eu sempre amei pintar.

sentiu o próprio peito se esquentar. Maldito seja com seu sorriso doce e desejo de ser artista. Maldito seja!

- Cindy disse que você é muito bom – contou ela sorrindo levemente.
corou com prazer. Ela odiou a si mesma por querer apertar suas bochechas.
- Bem, agradeça à ela – sinalizou. – Ela é muito boa também. Faz ótimos brincos.

sorriu levemente e os dois permaneceram em silêncio, até que foi capaz de pagar as roupas que comprara e ela as dela. Depois, caminharam até a saída.

- Bem, é isso – sinalizou ele suspirando em seguida. – Minha mãe é maníaca por controle e me veste como um boneco para que eu cause as melhores impressões para os parceiros de negócio dela. Fim da história.
tocou a mão dele com gentileza e lhe deu um sorriso doce.
- Ei, pelo menos agora você tem várias roupas apropriadas para a sua idade – brincou ela. – E por apenas cinquenta dólares! Viva a rebeldia!
sorriu abertamente e apertou a mão dela com firmeza.
- Você tirou as palavras da minha boca – ele sinalizou em seguida, suavemente. Os olhos dele passaram por todo o corpo dela, absorvendo cada uma das características de seu estilo completamente fora do padrão. – Viva a rebeldia, de fato.

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escondeu as novas peças de roupa no fundo do armário, atrás dos incontáveis casacos caríssimos. Não foi difícil. Haviam tantos que ele podia se enfiar ali e provavelmente demorariam dias para encontrá-lo. Foi algo bom. A última coisa que precisava era que sua mãe encontrasse as peças de segunda-mão e começasse a fazer perguntas das quais não gostaria das respostas.
Um sorriso parecia ter sido tatuado em seus lábios para sempre. sabia que qualquer um podia notar. Carter brincou com ele o caminho inteiro de volta após deixarem na casa dela. O que o deixara tão risonho? Por que os olhos dele estavam tão brilhantes?
A razão tinha nome, sobrenome e quadris que faziam as mãos dele formigarem.
se perguntou se a atração que possuía por ela era tão óbvia quanto parecia. Claro, eles flertavam desde o primeiro dia que se conheceram, mas havia um algo mais ali, como uma flor que deixara de ser semente e estava começando a possuir um caule. Joseph, seu intérprete, claramente notou. Os olhares e as provocações que fazia deixaram isso bem claro e ele conseguiu pegar um sorriso suave nos lábios de Julie quando almoçaram juntos.
Ele se perguntou se também percebera, mas rezou para que não fosse o caso. Ela sempre o paquerava de volta e lhe dava aqueles belos e raros sorrisos que faziam seu estômago dar cambalhotas, mas tinha um pequeno pressentimento de que as coisas não eram fáceis quando se tratava dela. era reservada e parecia ficar incomodada sempre que alguém os provocava acerca do que estavam conversando. Além disso, ele nem fazia ideia de que tipos de sentimentos eram aqueles que faziam o coração dele bater como um pássaro em uma gaiola, então não era hora de agir precipitadamente.
Uma imagem dela gargalhando enquanto ele se vestia de maneira embaraçosa brilhou em sua mente e não pode impedir as próprias covinhas de apareceram em um sorriso tímido. Aquela fora, provavelmente, uma das melhores tardes que tivera em muitos anos e ficara feliz em poder realizá-la ao lado de . Era quase engraçado o quão bem eles se davam sendo que se conheciam há poucas semanas. Parecia que a conhecia por toda a vida. Ele também se perguntou se ela se sentia da mesma forma, se também estava no próprio quarto, encarando as roupas que comprara e sorrindo como uma boba até as bochechas doerem.
A vibração de seu celular o tirou de seus pensamentos. Aproximando-se da cama, pegou o aparelho e de deparou com uma mensagem incomum de Cynthia. Eles costumavam conversar o tempo todo, mas, após o acidente, as mensagens foram se tornando cada vez mais escassas até que mal existissem.
“Estamos na praia, perto da sua casa. Que tal uma fogueira?”.
Ela adicionou emojis felizes que o fizeram ficar melancólico. Cynthia era uma amizade que fazia seu peito queimar de saudade, mas ainda havia aquele enorme penhasco que os separava e ela era a única que parecia não notar. Mordendo a parte interna da bochecha, respondeu:
Dia agitado hoje, desculpe. Quem sabe uma próxima? ”.
A mensagem dela apareceu alguns minutos depois, com emojis tristes acompanhando.
Tudo bem... Almoço algum dia? ”.
se sentiu mal. Ele sabia que ela estava tentando e gostava de pensar que Cynthia sentia tanta falta dele tanto quanto ele sentia a dela, mas não era a mesma coisa. Não mais. Por três anos, observou ela e o resto do grupo de longe, vendo-os se tornarem pessoas cada vez mais mesquinhas, cada vez mais fúteis, pessoas que ele não gostaria mais de interagir.
Talvez eles agissem assim antes de tudo e ele apenas percebeu, cego demais pela amizade de infância que possuíam, mas não importava. soube que uma rachadura talvez impossível de se recompor fora criada entre eles no dia em que encontrara Cynthia e Alvin pela primeira vez após o acidente.

- Não se preocupe, isso não vai afetar sua popularidade na escola. Nós conseguimos abafar os boatos – dissera ela, como se perder a voz fosse algo pela qual ele devesse se envergonhar.
- E não precisa ficar mal, talvez algo novo surja e você consiga recuperar a voz. Até lá podemos nos falar por mensagens – disse Alvin, como se eles aprenderem a língua de sinais não fossem nem ao menos uma opção.

E então eles o levaram para uma noite com fogueira na praia e tudo que eles podiam falar junto do resto do grupo era sobre quem estava beijando quem, sobre como o pai de Cynthia não queria aumentar o dinheiro que lhe dava, como a avó de Alvin não o deixava mais em paz após descobrir que ele estava fumando maconha, como se aquilo fosse o fim do mundo e não pode mais suportar.
Ele acabara de sobreviver a um acidente de carro em que era o motorista aos quatorze anos. Um acidente que acabou com as suas cordas vocais a um ponto que a cirurgia não pode fazer nada para ajudar. Sua mãe não conseguia mais olhar na cara dele sem parecer a ponto de quebrar, o pai nem ao menos se dera ao trabalho de visitá-lo no hospital, mandando apenas mensagens desejando melhoras. ainda não sabia falar uma palavra em ASL, sentindo-se completamente isolado do mundo e esses são os maiores problemas que eles tem?
foi embora sem dizer nada naquele dia. E, desde então, passou a recusar todos os convites que recebia.
Uma batida na porta chamou sua atenção.

- ? – disse sua mãe entrando em seguida. A batida era apenas por educação. Ela sempre entrava quando queria. – O jantar está na mesa.

O coração dele bateu mais forte. Ela iria jantar com ele? Com todo o trabalho que tinha, as vezes sua mãe passava dias pulando a refeição e apenas acabava comendo sozinho em seu quarto.
“Vamos comer juntos?” digitou, mostrando à ela em seguida. Um sorriso pequeno e raro surgiu nos lábios de Lauren .

- Sim, querido, finalmente consegui adiantar umas coisas do meu trabalho – respondeu. sorriu para ela, genuinamente feliz, pois estava cansado de sentir saudades de uma pessoa que morava sob o mesmo teto que ele. – Seu pai lhe enviou alguma notícia recentemente?

negou com a cabeça. O pai o havia enviado algumas mensagens simples, mas nem ao menos visualizou as respostas de , então ele sabia que não contava. Lauren deu um suspiro cansado e passou os olhos pelo quarto dele, antes de pará-los em um canto. prendeu a respiração.

- Pintando de novo, ? – perguntou ela com um tom de voz censurador ao ver o cavalete com uma tela coberta em cima de pedaços de jornais e pinceis e pequenas latas de tinta empilhadas juntas. – Eu achei que você tinha parado com essa besteira.

As mãos dele tremiam levemente, então digitar foi difícil. Graças a Deus ela não fazia ideia de que ele estava fazendo as aulas de arte. Se apenas o cavalete já a deixara mal-humorada, mal podia imaginar sua reação ao descobrir sobre elas.
É apenas um hobby. Eu prometo que não vou sujar nada e que não vai atrapalhar os meus estudos. É só para ocupar o tempo ”.
Verdades e mentiras. Ele não ia sujar nada – pelo menos não de propósito -, mas a pintura era muito mais do que um hobby ou algo para se ocupar. Ele amava pintar, é o que sentia que fora feito para fazer. Faziam anos desde que se sentira inspirado como agora e ah , como era incrível voltar a pincelar a tela em branco e ver as cores tomando formas.

- Bem, se eu vir uma gota de tinta em uma das suas camisas de novo essa besteira acaba, entendeu? – sua mãe suspirou, colocando as mãos nos quadris. – Pelo menos isso não está ocupando um tempo precioso. Apenas gostaria que você se ocupasse com algo mais útil. Arte não dá dinheiro, , você sabe disse.

As palavras dela o cortaram como facas afiadas, mas Lauren apenas saiu do quarto, esperando ser seguida, sem tomar consciência da expressão caída no rosto do filho. Sem dizer mais nada, a seguiu, chateado por um dia tão bom possuir um final como aquele.
Depois, enquanto se deitava para dormir, encarou uma foto que tirara de mostrando-lhe a língua, vestindo o ridículo casaco de peles e pantufas de coelhinho e voltou a sorrir apesar do jantar silencioso e desconfortável que tivera. Ele deu zoom no rosto dela, apreciando seus olhos brilhantes e o quão bonita ela ficava mesmo quando achava que estava fazendo papel de boba.
A risada dela ecoou em sua mente fazendo o peito dele aquecer. O quão sortudo ele era por ela ter aceitado participar dessa loucura? Para quantas pessoas ela confiava aquelas gargalhadas tão raras? Por que com ele era diferente? Por que com ela era diferente?
Acariciando o rosto dela na tela com o polegar, suspirou uma última vez e bloqueou o celular. Virando-se para o lado, tentou obrigar a si mesmo a dormir e não pensar nos olhos quentes e sorriso formidável de .
Não é preciso dizer que ele falhou miseravelmente.

Capítulo 10 - #3. Aprender a andar de bicicleta



- Nós nem tivemos tempo de conversar – disse Christopher no batente da porta de , alguns dias depois. – Como foi com no fim de semana?
- Foi legal – respondeu sem olhar para ele, enquanto passava protetor solar nos braços nus. Ela tentou focar no cheiro do produto ao invés do homem há alguns metros de distância. Por que justo agora? Eles haviam desenvolvido uma ótima rotina de ignorar a presença um do outro ao longo do dia. Quer dizer, havia desenvolvido. Não sabia se ele fazia o mesmo ou se era tão boa em fugir do próprio pai que ele não conseguia encontrar momentos para passar com ela.

O silêncio se seguiu. pode ouvi-lo esfregar o pé no carpete, como se estivesse nervoso. Parecia querer entrar, mas não sabia se seria bem-vindo.

- Fico feliz em saber – disse ele sorrindo levemente. – Você passa tanto tempo no seu quarto que mal temos tempo para colocar o papo em dia. - Me pergunto o por quê... - Para onde vocês foram? – Christopher continuou, tentando fazer a conversa render.
- Lugar nenhum – respondeu encolhendo os ombros e passando protetor pelo rosto. – Apenas fazer compras.
- Oh! – exclamou ele dando passos tímidos para dentro. – Eu não achei que estivesse usando o cartão que te dei. Fico feliz.
- Eu não... – murmurou baixinho, tirando os olhos do espelho e finalmente olhando para ele desde que aparecera. – Não uso, na verdade. Paguei com o dinheiro que ainda tenho da mamãe.

Christopher coçou a nuca, parecendo confuso e perdido. A visão trouxe um certo conforto à , pois indicava que ele estava tão desconfortável quanto ela. Por fim, olhou para as próprias mãos antes de falar:

- Sabe, não precisa se preocupar em usar. De verdade. Pode se sentir confortável gastando com o que quiser.

não soube o que responder, então não disse nada por algum tempo. Havia sido sincera e aberta com sobre seus sentimentos em relação ao dinheiro do pai, mas falar sobre isso com o próprio era ainda mais difícil. Conversar com ele sempre carregava um desconfortável clima de timidez e desajuste, como se eles fossem dois dançarinos completamente fora de sintonia, trombando e pisando nos pés um do outro o tempo todo. Por isso, permanecia quase todo momento do dia trancada no quarto, saindo apenas quando Christopher não estava.

- Eu sei. Eu só... – Ela encolheu os ombros como continuação e não disse mais nada. Passou, então, a amarrar o cadarço dos tênis pretos de corrida, sentada na beirada da cama.
- Hm ... – murmurou seu pai, sentando há poucos centímetros dela, também sobre o colchão. – Bem, estou muito animado que você e estejam ficando amigos. Ele é um ótimo garoto.

pressionou os lábios, dando-lhe um minúsculo sorriso. Se havia uma forma perfeita para descrever seria colocando “ótimo” em seu nome. Ótimo . Doce . Lindo de Morrer . Faz Com Que Volte Para Casa Com As Calcinhas Molhadas .

- Ele é – respondeu simplesmente e o silêncio se seguiu novamente.

Ela sentiu o próprio coração afundar levemente. Se sentia culpada em certos momentos por encontrar tanta resistência dentro de si mesma para se abrir com o próprio pai. Principalmente em momentos como aquele em que ele parecia tão vulnerável e tímido ao seu redor, buscando assuntos para que interagissem, como um menino tentando fazer amigos na hora do recreio.
sabia que não facilitava as coisas. Respondia-o de forma quase monossílaba, raramente olhando para seu rosto e, sempre que podia, buscava esconder-se no andar de cima para não ter que passar tempo demais ao seu redor.
Sentia-se mal quanto à isso, mas era tão difícil. Ele era seu pai de sangue, mas nada além disso. Partiu quando ela ainda era jovem demais e agora era um homem adulto completamente estranho em que ela fora forçada a começar a conviver porque sua mãe, quem realmente cuidou dela, faleceu.
não sabia quem ele era, não de verdade. Não sabia o que gostava de fazer nas horas vagas, qual era sua comida favorita, que bandas costumava ouvir na adolescência. Mal entendia com o que ele trabalhava, se gostava do que fazia, onde diabos estavam seus avós paternos. Se estavam vivos, mortos, morando perto, nada.
Ela não sabia absolutamente nada.
E, se tudo aquilo tivesse acontecido há alguns anos atrás, sabia que estaria extremamente disposta a descobrir. A tentar. A reconstruir todos os laços que eles haviam perdido ao longo de todo esse tempo.
Mas não tinha mais treze anos. E muitas coisas haviam acontecido com ela ao longo de sua vida.
Coisas essas que, bem no fundo de seu subconsciente, enterrado em sua parte mais machucada, raivosa e egoísta, ela o culpava por terem acontecido.
Porque se ele estivesse lá, talvez ela não tivesse feito todas aquelas escolhas erradas. Talvez não tivesse vivido para agradar aos demais, sempre tão preocupada em ser amada que acabou enfiando a si mesma em uma série de acontecimentos que a marcaram para sempre.
E, se mesmo assim aquilo tudo tivesse acontecido, talvez ela não precisasse ter fugido. Talvez não precisasse ter se afundado em drogas e garotos, porque ele estaria ali . A confortando. A aconselhando. A protegendo. Dividindo o fardo que fora cuidar dela durante aquela época com Darla, que, exausta física e emocionalmente, mal conseguiu sozinha.
Perder sua avó teria sido mais fácil. Perder seus amigos teria sido mais fácil. Perder sua mãe teria sido mais fácil.
Então, sim, as vezes ela se sentia injusta. Mas então lembrava-se de tudo isso e sentia a familiar e confortável raiva esquentando seu sangue novamente. Não importava se estava sendo irracional. Não importava se estava alimentando um sentimento prejudicial e corrosivo dentro de si mesma.
Ele era adulto. Ele causara tudo isso.
Ele que lidasse com as consequências.

- Deve ser bom para ele ter alguém com quem conversar em língua de sinais – comentou Christopher com um pequeno sorriso. – Infelizmente não são muitos os garotos do colégio que sabem. Michael está aprendendo, o que é bom, mas eu pessoalmente só sei o básico que sua avó e sua mãe me ensinaram, então as vezes é difícil para nós nos comunicarmos.

Em resposta, apenas acenou com a cabeça, fingindo que o fato de que ele ainda se lembrava dos sinais que aprendera há tantos anos não caiu em seu estômago como uma bigorna de chumbo. Recolheu sua mochila e a colocou sobre os ombros, mas não partiu.

- Deve ser bom para você também – continuou ele. – Ter alguém com quem conversar. Deve te lembrar da sua avó.
O peito dela doeu.
- Sim – murmurou, trocando o peso entre as pernas em uma posição desconfortável. – Me faz lembrar dela.
- Ela era uma mulher maravilhosa – suspirou Christopher com olhos nebulosos. Sua voz, de repente, estava mais rouca. – Sempre me fez sentir como um filho. Provavelmente a mulher mais amorosa que já conheci. Eu sinto falta dela. Me arrependo de nunca ter dito isso à ela.
Os olhos de arderam. Ele olhou para ela e esfregou o rosto com as mãos.
- Me arrependo de muitas coisas – murmurou baixinho. – Muitas.

Uma bola de boliche cresceu em sua garganta e entalou na traqueia. O celular dela vibrou no bolso da mochila e suspirou. Graças a Deus. provavelmente havia chegado, salvando-a mesmo sem saber.

- Eu tenho que ir – sussurrou roucamente, indo em direção à porta.
- – Christopher chamou baixinho, fazendo-a parar de andar. – Eu sei que cometi muitos erros com vocês todas. Principalmente com você. E sei que nada disso é fácil. Não esperava que fosse. Não mereço que seja.

Estava rígida no lugar. Seus músculos doíam. A voz dele era triste e embargada.

- Sei que não confia em mim. Também não mereço que o faça. Mas eu prometo, filha, que vou dar tudo que eu tenho para consertar essa situação. Eu prometo.

Não chore. Não na frente dele. Não chore.
Olhou ao redor, em uma tentativa de se distrair. Seus olhos caíram sobre sua estante e ela se lembrou de algo. Agarrando o livro que precisava, limpou a garganta e repetiu:

- Preciso ir.

Saiu, mas ali, no batente, hesitou por apenas um segundo.

- Tchau – murmurou, saindo do quarto em seguida, sem olhar para trás.

Antes de descer as escadas, bateu com os nós dos dedos na porta do quarto de Michael. Ele a abriu, olhando para ela confuso e sorriu levemente.

- Aqui – disse, entregando-lhe uma cópia de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. – Me agradeça mais tarde.

O sorriso dele fez com que a dor em seu peito aliviasse. A ardência nos olhos, contudo, permaneceu por longos dias e a conversa com Christopher seguiu em looping por sua mente por tanto tempo que ela começou a achar que iria enlouquecer.

✋🏼🎨💬



As mãos de estavam suando como nunca antes.
Talvez fosse o calor infernal do fim do verão que queimava as calçadas e fazia o suor escorrer pelas costas. Talvez fosse a realização de que ele iria aprender a andar de bicicleta após tanto anos desejando isso e estava nervoso. Talvez fosse o ar-condicionado do carro que só podia estar com defeito apesar de mostrar claramente que estava em dezenove graus.
Mas, se fosse ser sincero, consigo mesmo ou com qualquer outra pessoa, ele admitira que suas mãos estavam suando por causa das longas pernas descobertas no banco de trás.
com roupa de ginástica. com shorts de lycra e um top embaixo de uma regata cavada. Cabelo presos para atrás, mostrando o rosto bonito e as orelhas cobertas de piercings. As longas pernas descobertas no banco de trás .
Ela ia ser a morte dele.
Definitivamente.
Carter estacionou na calçada e se controlou para não suspirar de alívio. Eles se despediram e desceram. olhou ao redor e franziu as sobrancelhas levemente.

- Achei que íamos até a pista na ponta da praia – murmurou. sorriu para ela.
- Para aprender a andar de bicicleta eu preciso de uma para começar – sinalizou enquanto andavam. – Eu não tenho uma e você também não, mas sei de alguém que tem.

Ele tocou a campainha da casa de Frank e esperou. Ele e Frank eram vizinhos de bairro, como ele havia dito à há algum tempo. A casa dele ficava há apenas uma rua dali. Seu amigo abriu a porta alguns segundos depois, sorridente como sempre.

- Quando você me disse que estava vindo buscar a minha bicicleta achei que estava tendo alucinações – disse Frank abraçando-o com alegria. Depois, voltou-se para com um sorriso ainda maior. – Mas parece que meu querido raio-de-sol conseguiu um milagre!

sorriu de canto de boca, mas fez uma careta levemente assustada quando Frank a puxou para um abraço de urso que tirou seus pés do chão. sorriu com carinho para a cena. Frank, desde o dia que se conheceram, era o ser humano mais agitado e amoroso que existia. Era ótimo para a personalidade calma e reservada de , então ele os considerava a dupla perfeita.

- Você, raio-de-sol, fez o impossível – contou seu amigo. pode sentir as próprias bochechas queimarem suavemente. – Estou tentando fazer o bonitão aqui sair da toca dele há três longos anos! E você, em um mês, fez todo o trabalho. Qual seu segredo?

sorriu maliciosamente e piscou. Mesmo achando ser impossível, sentiu ainda mais calor.

- Ora, se eu te contasse não teria a menor graça – respondeu tentando parecer misteriosa. – Gosto de ver você se contorcendo de curiosidade. Principalmente depois desse apelido ridículo que você me deu.
- Ei! “Raio-de-sol” é um ótimo apelido – defendeu-se Frank colocando as mãos nos quadris. – Você é tão radte e sorridente.
- É pior que o de – respondeu ela revirando os olhos. olhou para ela, fingindo estar ofendido.
- Ai meu Deus, vocês já estão trocando apelidos carinhosos? – perguntou ele como se os achasse adoráveis.

riu. lhe mostrou o dedo do meio e entrou na casa, sem ser convidada. Como sabia que ela nunca diria qual era o apelido, digitou-o no celular e mostrou para seu melhor amigo.

- Docinho?! – ele exclamou dando risada. – Como a personagem do desenho?
- Vá se foder, ! – gritou do lado de dentro. Isso só fez os dois amigos caírem ainda mais na gargalhada. – Vou fazer questão de que você caia de cabeça enquanto anda de bicicleta!

Após alguns segundos, se recuperaram. Frank olhou para ele com olhos brilhantes e apoiou a mão em seu ombro, dando-lhe um aperto reconfortante. sentiu uma enorme sensação de carinho cobrindo seu peito. Eles se conheciam desde pequenos, graças a amizade que teve com Alvin, mas foi apenas depois do acidente que seus laços se intensificarem e passaram a ser como unha e carne.
Todo o apoio que ele recebera de Frank ao longo dos anos era a razão de não ter enlouquecido até agora. Foi ele que enviou mensagens à perguntando como as coisas estavam, foi ele que se voluntariou a aprender a língua de sinais quando mais ninguém parecia interessado, foi ele que o incentivou a seguir os próprios caminhos (mesmo que sem sucesso) e quem deu-lhe um ombro amigo para chorar quando as coisas eram muito difíceis com seus pais.
Nunca poderia expressar o quão grato era por tudo isso.

- Bem-vindo ao mundo, amigo – murmurou Frank com um sorriso gentil. – Estava esperando por você.

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Aprender a andar de bicicleta com dezessete anos era mais difícil do que parecia. O pensamento não fez se sentir melhor.
Haviam tantos problemas que não sabia listar o principal. Seus membros pareciam desleixados, como se ele fosse um bebê girafa aprendendo a andar. Seu equilíbrio era péssimo, como estivesse completamente embriagado. Seu corpo inteiro estava suado e escorregadio, desacostumado em passar horas fazendo exercícios debaixo do sol.
E havia o efeito psicológico também. A voz de sua mãe ecoando em sua cabeça, dizendo que aquilo era uma besteira completa. Só serviria para ralar seus joelhos, estragar suas roupas novas e perder tempo. Eles tinham carros e motoristas. Para que se sujar de graxa e terra aprendendo a andar de bicicleta? Isso era algo para os filhos dos empregados.
A voz de seu pai também. Dizendo-lhe que tinha que viajar, então não havia como ensiná-lo a andar. “Mas posso contratar alguém para te ajudar! Pode ser? ”. Ou apenas aceitando o que a mãe dele dizia, simplesmente porque não dava a mínima. “Bem, se a sua mãe disse, então não tem o que fazer. Melhor arrumar outra coisa, filhão ”.
E a própria voz, sussurrando inseguranças no fundo de sua mente. Ele iria cair e fazer papel de bobo. Não seria capaz de aprender, já era tarde. A maioria das pessoas aprendia com seis ou sete anos e ele estava dez anos atrasado.
E iria ver tudo isso. Iria vê-lo balançar e cair de cara no chão. Passar vergonha. Provavelmente o acharia ridículo. Riria da cara dele. Oh, quem ele estava tentando enganar? Já deveria ter gargalhado ao saber que ele nunca andara de bicicleta antes.
Deus, onde estava com a cabeça? Aquilo era uma péssima ideia!

- Você não está pegando velocidade suficiente – disse segurando o guidão para que ele não caísse para os lados novamente. – Se for muito devagar não vai pegar impulso e vai se desequilibrar.

Ela era, talvez surpreendentemente para alguns, uma ótima professora. Mesmo com a postura carrancuda e durona, mantinha o tom de voz gentil e era paciente, como o fato de estarem ali há horas debaixo do sol podia provar.
ficou grato, mas não pode impedir a sensação horrível que brotou na beira de seu estômago. Ele a conhecia há pouco tempo, mas, de repente, era como se a opinião dela fosse uma das mais importantes do universo. Queria que pensasse bem dele, que gostasse dele, que o achasse divertido e corajoso, não um bobalhão que não conseguia se equilibrar em duas rodas como as crianças ao redor deles estavam fazendo sem dificuldade.
Mal podia pensar no que faria se ela zombasse e risse dele. Provavelmente se deitaria no chão e pediria para que um dos garotos de skate passasse por cima de sua cabeça.

- Você está bem? – perguntou ela com as sobrancelhas levemente franzidas. – Parece distraído.

suspirou, tirando as mãos do guidão e limpando o suor na camiseta. Eles haviam permanecido boa parte do tempo com ela falando sozinha, já que era difícil sinalizar quando se está tentando se equilibrar em uma bicicleta e não cair de cara no concreto. Talvez fosse mesmo melhor que fizessem uma pausa. Ele precisava de um momento para controlar o tremor em suas pernas, de qualquer maneira.

- Estou me sentindo bobo – confessou depois que os dois se sentaram no chão, com as costas apoiadas nas grades ao redor da pista. – Não consigo parar de pensar que sou dez anos mais velho que todo mundo aqui.

sorriu tristemente e suspirou, empurrando o próprio ombro contra o dele. As pernas deles estavam esticadas, lado a lado e pode ver como as dela acabavam um pouco abaixo do meio de suas canelas.

- Eu imagino o que deve estar sentindo – comentou encolhendo os ombros levemente. – Mas, sinceramente, foda-se todo mundo. Só você sabe a razão de estar aqui. Se eles estão achando qualquer coisa é problema deles. Além disso, você nunca mais vai ver essas pessoas na sua vida. De que a opinião delas importa?

riu levemente. Era incrível como ela parecia completamente indestrutível as vezes, mesmo que ele soubesse que havia uma menina sensível e frágil ali dentro. Ainda não esquecera os olhos dela na varanda de sua casa, no dia que tomaram chuva, tão vidrados e assustados que quase lhe causaram pesadelos.

- É fácil para você dizer, ninguém teria coragem de tirar sarro de você, Docinho – brincou, levando um empurrão em resposta. Depois, olhou para um grupo de meninas pré-adolescentes que não tiraram os olhos dele desde que chegaram. – Mas para nós, pobres mortais, é difícil estar sendo motivo de piada.
também olhou para o grupo e pareceu achar aquilo muito engraçado.
- Acho que a última coisa que elas estão fazendo é tirando sarro de você – comentou. franziu as sobrancelhas, confuso e o grupo de meninas explodiu em risadinhas quando percebeu que ele estava olhando para elas.
- Você não faz ideia, faz? – perguntou , olhando para ele como se a confundisse. – Olha, eu sei que deve ser tudo muito maluco, mas não se sinta mal. Todo mundo tem alguma coisa que quer fazer, mas fica com vergonha. Tem gente que aprende a ler quando adulto, que resolve finalmente desenhar com quarenta anos, que descobre o emprego dos sonhos com sessenta e poucos. E está tudo bem. É a vida, não uma corrida. Eu provavelmente só vou aprender a dirigir quando estiver velhinha mesmo, isso se eu aprender.

sorriu para ela e sorriu de volta. Ele sinalizou o sinal de “obrigado” e ela lhe deu uma piscadela em resposta. gostaria de ensiná-la a dirigir e se perguntou qual seria a reação dela caso lhe desse essa ideia.
Eles ficaram um longo tempo em silêncio em seguida, observando as pessoas que passavam de skate, bicicletas e patins, até que ela mudou de assunto.

- , sabe as fotos que nós tiramos no brechó? – perguntou parecendo tímida. assentiu. – Eu não me importo de você ficar com elas, só... Teria como não publicar em lugar nenhum? Eu não me sinto confortável me expondo na internet.
- É claro – ele sinalizou. Ela sorriu, mas seus olhos pareciam distantes, algo que ele notara desde que entrara no carro horas atrás. – Você está bem? Parece distraída desde que chegou.

olhou para as pessoas novamente e suspirou, tirando sujeiras invisíveis de sua regata enquanto falava.

- Sim, está. Eu só... Tive uma conversa com Christopher antes de vir e eu fico meio avoada sempre que isso acontece.

Eles se olharam e viu conforme os olhos dela analisaram o rosto dele antes de suavizarem. O corpo dele se esquentou. Era um olhar raro e que ele guardava em seu peito com todo o carinho.

- Ele está tentando – contou. – Melhorar a nossa relação, quero dizer. Mas é difícil lidar com isso. Eu sinto culpa por não dar essa chance à ele, mas ao mesmo tempo sinto que ele não merece que nós tenhamos uma relação. Sei lá. É confuso.

sentiu seu estômago cair. Ele podia entender um pouco de como ela se sentia. Talvez o próprio pai nunca tivesse o abandonado concretamente, mas ele claramente não era do tipo presente. tentou se imaginar com ele, de repente tentando criar um laço real de pai e filho e sentiu-se estranhamente desconfortável e confuso, como se estivesse vivendo uma eterna pegadinha.

- Acho que você está sendo dura demais com si mesma – sinalizou, vendo-a olhar para ele com olhos vulneráveis. – Quer dizer, vocês tem um passado de anos acumulado e você só está aqui a um pouco menos de um mês. É muito pouco tempo para lidar com uma mudança tão drástica. Com o que aconteceu com a sua mãe, se mudar para o outro lado do país, ter que lidar com ele. Acho que é irreal achar que vocês estariam com tudo resolvido a essa altura do campeonato. É algo que vai demorar para se resolver e está tudo bem, sabe? É o que você disse: cada um no seu tempo. Não é uma corrida.

não disse nada por um bom tempo. As mãos dele voltaram a suar, pois voltou a se sentir nervoso, imaginando se tinha piorado a situação...
Mas os olhos dela brilharam e ela lhe deu um sorriso de canto de boca que o atingiu como um soco no peito.

- Obrigada, – disse com um tom de voz suave que com certeza o perseguiria em seus sonhos. – De verdade.
Depois, suspirou, se levantou e estendeu a mão para ele.
- Venha, Príncipe Encantado – brincou com olhos maliciosos. – Vamos fazer essas meninas morrerem de tanto dar risadinhas.

Ele voltou a tentar andar sentindo-se mais leve dessa vez. Era divertido e acolhedor ver esse lado de , um que ele sabia que poucas pessoas conheciam. Uma sorridente e gentil, com palavras de conforto e conselhos sábios e responsáveis. Sabia que ela tentava a todo custo pintar a imagem de si mesma como uma pessoa carrancuda e espinhosa, mas ele a conhecia melhor.
Estava grato por ela confiar nele o suficiente para mostrar esse lado tão bem escondido, mesmo que não parecesse o fazer de forma consciente.
conseguiu em algum ponto. Depois de tanto se desequilibrar e quase cair, conseguiu impulso o suficiente e saiu pedalando, ainda tímido, mas com firmeza.

- Ai meu Deus! , você conseguiu! – gritou atrás dele, o tom de voz em um nível de animação que ele nunca a ouvira usar antes.

Olhou para ela, por cima do ombro e sentiu o ar sair de seus pulmões. Estava há alguns metros, apoiada na ponta dos pés, com os polegares erguidos para ele e o maior sorriso do mundo estampado nos lábios. não pode deixar de suspirar, de sentir o coração explodir, de sorrir de volta...
E cair de cara no chão.
Não literalmente, mas quase. Seu cotovelo amorteceu a queda, conforme todo o corpo bateu contra o concreto. xingou atrás dele e pode ouvi-la correndo em sua direção enquanto sentia o próprio rosto queimar de constrangimento.

- Você está bem? Quando eu disse que queria que você caísse de cara no chão eu estava só brincando, sabe – perguntou ela suavemente, agachando-se ao seu lado. se sentou e sorriu, mas sentiu uma dor aguda tirar sua atenção. – Merda, , acho que você se machucou.

Ele olhou para o próprio cotovelo e arregalou levemente os olhos. Um fio de sangue escorria pelo braço agora arranhado e dolorido.

- Por que você está sorrindo? – perguntou com as sobrancelhas franzidas. Ele nem havia percebido que o estava.
- Não me lembro da última vez que fiz algo que acabou me machucando – comentou, sorrindo ainda mais. – Na verdade, acho que essa pode ser a primeira vez que eu me machuquei na vida.

riu, levemente descrente. Depois, apoiou a mão no ombro dele e sorriu com tanto carinho que ficou tonto.

- Você, meu amigo, é um cara muito esquisito – disse e a risada que compartilharam fez a dor valer a pena.

✋🏼🎨💬


- Sabe, acho que nunca realmente te agradeci por ter me chamado para te acompanhar nessa sua lista – disse ela, enquanto os dois se aproximavam de seu bairro. A bicicleta nas mãos de , para que ele pudesse sinalizar com mais facilidade. – Por confiar em mim e tudo mais. Obrigada. Estou me divertindo bastante.
sorriu para ela timidamente.
- Eu que agradeço, Docinho – sinalizou de volta mal conseguindo olhá-la nos olhos. – Por me acompanhar. Por me entender. Por me fazer sentir melhor. Espero que eu possa ser seu ombro de apoio caso decida fazer essa loucura também.

Ela olhou para ele, o contemplando. O sol se punha atrás deles e a iluminava de uma forma que fazia as borboletas no estômago dele pareceram mais como gaviões enfurecidos.

- É... – murmurou com um pequeno sorriso. – Quem sabe.

Ele sorriu para ela. Ela sorriu de volta. E eles se olharam por longos segundos, caminhando pela calçada sem prestar atenção, a bicicleta sendo a única coisa que os separava.
Até que uma voz os distraiu.

- ?

Ele congelou. Conhecia muito bem aquela voz.
Mal tinha percebido que estavam passando pela frente da própria casa, a caminho da de Frank. E, ali na porta, estava sua mãe.
Rígida, polida e extremamente confusa.
Congelou no lugar, fazendo parar abruptamente. Ela olhou para ele, mas tudo que foi capaz de fazer foi olhar quase sem piscar para Lauren , que se aproximava deles.
O que ela faria se descobrisse o que ele andava fazendo? Que estava atrás de completar uma lista de experiências que ela considerava inúteis e abaixo do nível deles, por isso o impediu de fazer a vida toda? Deus, ele quase podia ver o olhar dela... Aquele olhar desgostoso e decepcionado que o fazia se sentir pequeno e insignificante.

- O que está fazendo? – perguntou sua mãe parecendo rígida demais até para os próprios parâmetros. – Não sabia que tinha saído.

Ele procurou o celular nos bolsos, para conseguir se comunicar, mas foi mais rápida.

- Ele me fez companhia para andar de bicicleta – mentiu. ficou impressionado como ela nem ao menos tremeu em frente à mãe dele. Achava que ninguém era capaz disso. – Eu conheço pouco a cidade, então ele foi gentil e me acompanhou.

Lauren olhou para eles com as sobrancelhas franzidas, mas não disse nada. não soube dizer se ela acreditou na mentira ou não, mas, naquele momento, ele apenas queria que aquela conversa acabasse.

- É claro – respondeu ela alguns segundos depois, novamente calma e perfeita. – , certo? Filha do Christopher.
- Sim, senhora – respondeu e tentou impedir-se de se engasgar com a súbita educação que ela apresentava.
- Bem, acho melhor você entrar, – disse Lauren com uma sobrancelha levantada. – É quase hora do jantar.

Ela se afastou, em direção à casa, sem dizer mais nada. olhou para , apertando seu ombro com carinho e sorrindo com o canto da boca. Ela apertou as mãos no guidão da bicicleta e encolheu os ombros levemente.

- Te vejo por ai, Príncipe Encantado – disse, dando-lhe uma piscadela antes de se afastar.

permaneceu com os olhos nela. Sua silhueta, o movimento de seu andar, o cabelo se movendo pela brisa, a luz alaranjada do pôr-do-sol iluminando-a enquanto partiu sem olhar para trás. Ela daria uma linda pintura...
E naquele momento, tão focado nela, acabou não percebendo o olhar de sua mãe, passando de um para o outro repetidamente. Um olhar confuso, desgostoso e extremamente reprovador.




Continua...


Nota da autora: Oi pessoal!! Muito obrigada por todos os comentários que vocês fizeram. De verdade, eles são a razão dessa história ter vida. Sem o feedback de vocês nada disso seria possível.Os últimos dois capítulos tiveram bastante ponto de vista do pp, mas principalmente porque os que virão terão mais da pp e eu sei que ele faz falta. Queria deixar mais equilibrado.
Eu roendo as unhas de animação porque estamos chegando perto de um dos meus capítulos favoritos (o capítulo 12)!! Acho que vocês vão gostar muito dele.
Espero que estejam todos bem, principalmente por causa desses tempos difíceis. Se cuidem e fiquem em casa! Deixem que os pps saiam e se divirtam ao ar livre por nós.
Agora, SE VOCÊ NÃO FAZ PARTE DO GRUPO DO FACEBOOK, ENTRE AGORA!!! Estou preparando um especial de dia dos namorados de Buttercup e vou por lá, então quem não quiser perder só clicar no ícone do facebook aqui na nota da autora!!!!
Sem contar que eu sempre aviso quando saem os novos capítulos, então ai vocês nunca perdem as atualizações!!
Estou louca para saber o que vocês estão achando! Não necessariamente dos capítulos em especial, mas da história como um todo! Quais são suas expectativas? O que acham que vai rolar? Eu adoraria saber!!!!
Um beijão e até o próximo



Outras Fanfics:
Obsessão

Nota da Scripter: Que capítulo mais fofo, gostaria de guardar ele e os dois num potinho de proteção, contra a mãe bruxa de Ian.
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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