Ele

Última atualização: 30/07/2020

Prólogo

- Ele é o cara. – Jared disse. – A Sarah é ótima também, eu acho que eles vão se casar logo. Vocês vão ver.

Estávamos sentados na mesa de um restaurante qualquer, eu fingia que o assunto era irrelevante para mim, ninguém precisava saber que eu nutria sentimentos por ele. Além do mais, como explicar que sem conhecer, e sem sequer ter trocado uma palavra algum dia, eu estava totalmente encantada por ele.
Não que fosse difícil, era facílimo se apaixonar por ele. Ele era do tipo atlético, lindo, gentil, era uma pessoa maravilhosa, voluntário em uma ONG, ensinava crianças no fim de semana. Eu sentia que o conhecia como a palma da minha mão. Não sabia como, já que nunca havíamos trocado nem um “oi”. No fundo, me perguntava como era possível estar perdidamente apaixonada por um homem que nunca sequer tinham olhado para mim, notado minha singela existência.
Sempre ficava atordoada com esses pensamentos, me achava louca, até procurei um terapeuta, não poderia ser normal ou saudável um comportamento deste tipo. Até que, certo dia, li alguma coisa sobre vidas passadas, nunca nada fez tanto sentido. Era como se fosse exatamente aquilo que estivesse acontecendo. Eu, apaixonada por um homem que nunca sequer olhou parar mim, explicava minhas fantasias de um modo não racional, mas aceitável. Mas, minha descrença no mundo espiritual, e a distância dele, me lembravam que isso era apenas uma fantasia da minha mente carente e romântica, que queria viver um romance épico de qualquer jeito. Sua relação firme com uma garota aparentemente perfeita também, cortava meu coração. Eles namoravam há oito anos, e eu não tinha o direito de me meter entre eles.

Todas as vezes que alguém que eu conhecia falava dele, meu coração doía, mas eu mantinha a pose, duvido se alguém alguma vez percebeu o que eu sentia.
Mas minha vida nunca parou por causa disso. Eu não era tão burra assim, sempre tentei me apaixonar, gostar de alguém do modo que eu imaginava gostar dele, durava algumas semanas, quem sabe meses. Era como se minha alma esperasse por mais, esperasse o momento certo. O que só dificultava as coisas, pois não é fácil viver desta maneira, esperando alguém que você nunca sabe se vai chegar ou não.
Alguns meses depois de ouvir meu amigo Jared elogiar o casal, eu descobri que eles iriam se casar. Eu chorei por dois dias seguido, e passei a me odiar desde então, como eu conseguia ser tão estupida a ponto de chorar rios de lágrimas por um homem que eu sequer conhecia? Fiquei melancólica, e tudo que eu queria era sumir, ou morrer, qualquer coisa que me tirasse aquela dor que eu não sabia de onde saia, mas que tomava proporções enormes.

Resolvi traçar um novo plano para minha vida, chorar e se lamentar, pelo resto da vida não é algo do meu feitio. Decidi entrar para a Universidade. Me mudei para longe, deixei minha família, amigos e toda e qualquer lembrança dele que eu pudesse ter, me forçando a criar novas e a ocupar tanto minha mente, que não sobraria tempo para me lamentar. Ao passar pela placa que marcava a divisa da cidade, prometi a mim mesma que nenhum amor inexplicável me tiraria de mim, e que eu não sofreria daquele jeito nunca mais. Nunca mais sentiria a dor de perder um amor que nunca foi meu, e que, provavelmente, nunca amaria alguém de verdade. Iniciei o curso de gastronomia, eu me apaixonei pela área. E assim segui minha vida, com quase um manual de como esquecer sua paixão- avassaladora- platônica em três passos. Primeiro; esqueça tudo que te lembre – incluindo família e amigos se for o caso, segundo; se mude e ocupe sua mente, terceiro; arrume outros problemas.

Agora, quinze anos depois, formada, muito bem, obrigada. Mais rica e menos inocente, eu volto a minha antiga cidade. Mas agora já não me importam amores que nunca foram amores de verdade, a única coisa que dou importância agora, é a minha família.

Capítulo 1

A casa era bonita, grande e espaçosa, Dom já havia escolhido seu quarto, ficava bem ao lado do meu. Era uma vida diferente agora, eu era uma pessoa diferente. Quando deixei a cidade, era uma jovem cheia de melancolia por ter um amor não correspondido, agora, era uma mulher, casada e com filho. Eu tinha dezessete anos e vinte e três quando nos conhecemos no primeiro dia de aula. Eu sempre o evitei, não acreditava que poderia suportar uma vida vazia e superficial, ainda estava mexida pelos últimos acontecimentos. Quando eu tinha dezenove anos, me rendi as tentações e fiquei com ele, engravidei depois. e eu passamos a viver juntos desde então. Ele era um ótimo pai para nosso filho, Dom, e eu não podia reclamar dele como marido também, por mais superficial que fosse, ele era ótimo, e por fim, eu me acostumei a aquele tipo de relacionamento, e acabei gostando dele. Hoje estamos aqui, eu abrindo as janelas, enquanto traz mais algumas caixas para dentro e Dom conhece melhor a casa. Uma família totalmente imperfeita, mas a minha família.

- O que acha de jantarmos pizza hoje? – disse se sentando no sofá recém colocado.
- Eu acho uma boa ideia, estou exausta. – Disse e me sentei ao seu lado colocando a cabeça em seu ombro.
- Amanhã, eu tenho que ir falar com o Simon. Ele disse que poderia começar amanhã mesmo, espero que tenha palavra. – Ele disse enquanto segurava minha mão.
- Eu acho que ele vai honrar o que disse. Não me parece o cara que deixa o melhor engenheiro do país desempregado. – Eu disse sorrindo e apertei sua mão.
- Só se ele não conseguir alcançar minha média salarial. – riu alto e eu o acompanhei. – E você?
- Eu ainda não sei. Estou pensando em uma jornada dupla de mãe e esposa, o que acha? – Falei sorrindo, e me acompanhou. - Dom tem aula amanhã, vai ser bom conseguir organizar as coisas.
- Vejo se consigo sair mais cedo para te ajudar. – disse e piscou.
- Obrigada. – Disse e beijei seu rosto. – É melhor eu tentar descobrir onde foi parar a louça. – Sorri e me acompanhou.

Ele era um bom homem, bonito e inteligente. Do tipo super-herói americano, alto demais, com ombros largos e cabelos loiros, parecia a descrição de um homem bonito comum, mas não era, tinha um toque selvagem que nunca encontrara em homem algum, e ficava grata por ter encontrado nele. No fundo, gostava de acreditar que na realidade, todos relacionamentos eram assim, e não como aqueles da TV, em que o casal nem consegue respirar de tanta felicidade, como se seu coração fosse explodir. Gostava de pensar que isso era só coisa de adolescente.
A semana passou e eu assumi meu lugar como dona de casa comum. Acordava, preparava o café, levava Dom até o colégio e ia trabalhar, eu cuidava da casa, terminava de desempacotar coisas e a noite, quando o marido e filho chegavam o jantar já estava pronto. Uma família exemplar. Meus pais foram jantar conosco naquele domingo, contaram fofocas sobre todos meus antigos amigos, todos menos ele, talvez por intercessão divina.

- Então , já está pensando no que fazer? – Meu pai perguntou.
- Na verdade, eu ainda não pensei muito nisso. Talvez eu abra um restaurante, mas ainda não sei. – Eu estava tão entediada com o jantar que nem sequer havia tocado na comida.
- Ah. – Meu pai achou que eu estava debochando dele, pela expressão confusa.
- Isso é sério, eu fiz gastronomia, lembra? – Eu disse tentando contornar a situação.
- E então Abigail, como vai o Giovanni? – me salvou de outra bola fora perguntando do meu irmão.
- Ah, ele está ótimo. Sua esposa, a Sue, está meio triste, um amigo está bem ruim no hospital, então eles nem tem vindo nos visitar. Parece que teve um derrame. Um rapaz jovem, é uma pena. – Mamãe disse com pesar.
- Deve ser horrível. – disse, e o assunto acabou novamente.

Não que eu gostasse de ser a eterna criança birrenta da família, mas não estava afim de ouvir falar do passado, principalmente quando esse passado falava da família perfeita do meu querido e adorado irmão. Porque não falar da faculdade, e do parto de Dom, ou do emprego novo de , qualquer coisa, que não fosse sobre a cidade e seus tempos antigos e meu irmão. A pergunta de um milhão de dólares é, se eu odeio tanto este lugar, para que voltar?
O jantar passou rápido, estávamos terminando a sobremesa quando o foco da conversa se voltou para mim.

- Esse jantar está maravilhoso, . - Minha mãe disse.
- Que bom que os anos na faculdade valeram a pena. - Disse sem humor e meu pai riu.
- Quem disse que precisa ir para faculdade para aprender cozinhar? – Ele disse, eu respirei fundo e sorri.
- Bom, eu fui. Foi isso que eu estudei durante anos. – olhou para mim com receio.
- Ouviu isso, querida? Disse para ela que você aprendeu com sua mãe? – Meus pais riram alto, e eu e nos encaramos.
- Quando você foi para faculdade, achei que fosse estudar algo de verdade. – Meu pai disse e deu de ombros.

Eu não consegui dizer nenhuma outra palavra até eles passarem pela porta, nem mesmo um ‘boa noite! ’’

- Isso foi pedreira. - disse enquanto recolhia a louça.
- Será que a gente pode colocar na porta um aviso de, proibido a entrada de qualquer membro da família ? – Eu disse revirando os olhos.
- , eu sei que eles são terríveis, e que amam o Giovanni, possivelmente mais do que amam você e Oliver. – Eu olhei para ele fingindo estar ofendida. – Mas eles são seus pais. Cheios de defeitos, mas seus pais. – Ele finalizou me dando um beijo na testa. – Coloque o Dom na cama, a louça é minha.

Obedeci. não era a minha paixão avassaladora, mas era meu marido e meu amigo, e eu o amava. E ele estava certo, era confortável. Encontrei Dom jogando vídeo game, me surpreendia como ele ficava cada vez mais bonito. Agora com quase treze anos, ele tinha muitos traços do pai, mas não era parecido. Tinhas o cabelo loiro de , mas os olhos azuis da minha avó paterna, era alto, e bonito, além de ser engraçado e doce, gentil e prestativo. Quando eu olhava para ele, me sentia mais que orgulhosa, sentia que não tinha falhado com ele, que meu filho era alguém do qual eu me orgulharia muito.

- Hora de dar tchau. - Disse olhando do batente da porta.
- Só mais dez minutos. - Ele pediu.
- Já são onze horas, você precisa dormir. Se lembra da prova de amanhã? E do teste para o time de futebol? – Eu disse me aproximando e colocando as mãos em sem ombro.
- Os testes. – Ele corrigiu. – Vou fazer o teste para entrar para o time de natação, o pai pediu.
- O que? Ele pediu para fazer o da equipe de natação? – Disse incrédula me sentando.
- Ele disse que ganhava todos campeonatos quando estudava. - Dom disse revirando os olhos.
- Mas em compensação, ele era o cara mais chato e arrogante da escola. Aposto que ele não te contou essa parte. - Eu disse rindo.
- Não contou. – Dom respondeu chocado.
- Se você realmente quer entrar na equipe de natação, faça o teste. Mas se não quer, o que eu acho. Não faça.
- Mas meu pai...- Dom me lembrava tanto da minha infância.
- Faça o que você gosta, se for o clube de teatro, o coral, ou o time de futebol. – Eu disse sorrindo.
- Obrigado, mãe. – Ele sorriu.

Sempre achei que essa ligação entre mãe e filho fosse algo inventado, como todos os outros sentimentos, romantizados demais. Mas com Dom, eu via que era tudo verdade, vê-lo sorrir, ficar feliz e animado por um teste de futebol, me deixava feliz. As conquistas dele eram as minhas, os fracassos dele, eram os meus. Ele era meu pedaço. Talvez os quinze anos fora, não tenham sido assim tão ruins, não olhando por esse lado.

Capítulo 2

Levantei mais cedo que o habitual para preparar o café da manhã, afinal o dia merecia começar com chave de ouro.

- Bom dia! – disse sorrindo e cutucando uma panela que ainda estava no fogo.
- Não toque aí. – Dei um tapa leve em seu braço.
- Isso está muito cheiroso. Qual a ocasião especial?
- Começa com Nosso, e termina com Dom.- Disse rindo e acompanhou. – Bom dia, querido! – Dom devia estar tão ansioso que havia chegado na cozinha antes de irmos chama-lo.
- E aí, carinha? – começou a falar umas coisas inaudíveis com nosso filho.
- O café está na mesa. Omelete, panquecas com geleia de frutas vermelha, suco de laranja e tartelette de frutas da estação com calda de tangerina. Eu sei que você ama. – Disse sorrindo.
- Nossa. Poderia ter um teste todo dia. – Ele disse sorrindo.
- Espere pela melhor parte. Eu vou levar você a escola hoje. – Eu disse servindo café preto a .
- Você? O que houve, você bateu a cabeça? – disse rindo.
- Eu quero ir ao mercado, preciso de umas coisas que faltaram da última vez que você foi. - Disse revirando os olhos.
- Tudo bem, senhora Chef!

Éramos uma família bacana, apesar de tudo. No caminho, eu só conseguia pensar em como seria incrível ter alguém como meu filho na minha época. Na época em que eu vivi ali, época que eu acreditava que tudo era parte de um complô contra mim, e que uma dor de coração partido duraria a vida toda. Era nostálgico pensar que meu filho passaria a adolescência onde eu passei a minha. Uma coisa assim era inimaginável para mim até seis meses atrás, quando chegou com a notícia do emprego novo em casa. Era estranho estar ali, estranho e nostálgico. A escola era a mesma, obviamente com algumas mudanças, ainda mantinham a grande piscina, na qual meus amigos quase me afogaram uma vez, o campo de futebol, e as arquibancadas em que eu dei o meu primeiro beijo. Será que aconteceria isso com Dom também? Ou já havia acontecido? Um aperto tomou meu coração, até quando eu teria o meu bebê? Não gostava nem de pensar na hipótese de Dom começar a namorar. Olhei de soslaio para o banco do carona. Ele estava lá, batendo os dedos da coxa, com os fones de ouvido. Daria qualquer coisa para saber o que estaria se passando na mente dele naquele momento.

- Chegamos, Quarterback. – Disse parando o carro.
- É. - Ele parecia nervoso.
- Dom. – Ele voltou seu olhar para mim. – Você é ótimo. Você era do time em New York, você é bom. Mas se não conseguir, tudo bem também. Não é nada demais, é só tentar de novo. – Ele assentiu e sorriu.
- Valeu. - Seu abraço era bom, e por mais que ele fosse meu filho, e na maioria das vezes, eu que comprasse seu perfume, todas as vezes que o abraçava era como se nunca tivesse sentido seu cheiro antes.

Sai do carro junto com ele, mas apenas o observei de longe. Ele olhava receoso para trás, se certificando que não estava sendo seguido. Eu tinha ali o amor da minha vida, a coisa mais importante para mim, a pessoinha que me fazia feliz todos os dias de um modo inimaginável. Eu nunca fora exatamente o modelo de mãe. Às vezes parecia ser mais uma irmã mais velha que uma mãe, sempre dizia isso. Mas era quem eu era. Uma velha criança de trinta e poucos anos, meio imatura, mas totalmente séria quando necessário. Claro que meu lado doce e amável havia ficado em New York. A velha cidade sempre despertara o lado amargo, ainda mais quando assuntos do passado surgiam.

- Meu Deus! Eu não acredito que está aqui bem na minha frente! – Uma voz esganiçada me assustou e me fez ficar alarmada. – , é você mesmo?
- Quem é você? – Quando dei por mim, os braços da desconhecida já me envolviam.
- Gina. Spilner. Se lembra? Eu namorei seu irmão. – Mas que droga, pensei.
- Gina, oi! – Claro que eu me lembrava dela, mas não que fosse uma lembrança amigável. Fingi meu melhor sorriso.
- Eu estava te olhando desde antes de você sair do carro para ter certeza se era mesmo você. – Ela disse rápido demais. – Aquele era seu garoto? Ele é lindo. Se parece com seu irmão.
- Você é a primeira pessoa que diz isso. – Tudo bem tentar ser educada.
- Você se casou? Está linda! – Ela parecia realmente feliz em me ver.
- Obrigada, você também está. Sim, me casei. E você?
- Me casei. Estou grávida do meu terceiro filho. – Ela estava bem radiante.
- É mesmo? Parabéns! – Tentava soar agradável, não sabia se havia conseguido, não era de bom tom soar desinteressada ou entediada, mesmo quando se está.
- Sim, é uma menina, se chamara Camile. Estamos no sétimo mês. – Ela disse sorrindo. – Quem diria que um dia você voltaria para cá, não é? A popular, presidente da turma.
- Eu nem me lembrava disso. – E eu estava sendo sincera.
- Sua mãe me disse que você morava em New York. Porque voltaram para cá? – Um pouco bisbilhoteira. Eu sabia que se dissesse a ela, a cidade toda saberia. Talvez não houvesse mal nisso.
- Meu marido recebeu uma proposta interessante de trabalho.
- Que ótimo! – Ela assentiu. – A cidade continua minúscula, exatamente a mesma que você deixou. Sem muitas mudanças. Se bem que. – Ela riu alto. - Se lembra da Carly, que namorou seu outro irmão? – Eu realmente não queria entrar nesse assunto.
- Sim, claro. – Disse fingindo prestar atenção e estar interessada no que ela dizia.
- Ela agora se chama Jack, e namora uma miss e mora na casa dos pais. Fora isso tudo continua o mesmo. – Não me contive e acabei rindo com Gina.
- Apenas isso mudou? – Não conseguia segurar a risada enquanto imaginava o drama que Giovanni devia ter feito ao descobrir que a quase noiva agora se chamava Jack. Não tinha nada a ver com Giovanni, mas religioso e careta como era, eu só conseguia imaginar a reação dele.
- Claro que muita gente casou. – Ela ainda ria, possivelmente pelo mesmo motivo. – Coisas ruins aconteceram também. – Ela parou de rir e começou a acariciar a barriga.
- Como por exemplo... – Talvez eu quisesse saber das fofocas.
- Ted e Natalie morreram ano passado. Houve um incêndio na casa deles.
- Ted do time de futebol e Natalie, a estranha? – Eu os conhecia, Ted era meu amigo, e eu sequer sabia da sua morte. – Espera, eles se casaram?
- Sim. Infelizmente o tempo não volta, não é?! – Ela parecia um pouco sentida.
- Ted era meu amigo. Meu melhor amigo. – Eu estava totalmente chocada.
- O Jared ficou destruído. Ele se separou há um tempo, a esposa fugiu com o vizinho.
- Além de você e do meu irmão, mais alguém aqui teve um casamento feliz? - Perguntei assustada com a resposta que poderia receber.
- Sim. – Ela riu. – Muita gente.
- Essa deve ser a cidade com mais tragédias do país. – Ri baixo.
- Talvez. - Ela estava com aquela cara que sempre fazia quando queria contar uma fofoca.
- O que você quer me contar. – Eu disse inclinando um pouco a cabeça.
- Você ainda me conhece, não é? – Ela riu.

Por mais difícil que fosse aceitar, quando estávamos no colégio, Gina namorou meu outro irmão, Oliver. E nos tornamos amigas, mesmo quando eles terminaram depois que uma onda de términos assolou nossa turma. Nós éramos inseparáveis. Gina era líder de torcida e era da equipe de natação, eu era presidente da turma, e a primeira da classe. Éramos o que os filmes adolescentes chamam de populares, mas sem aquela parte do bullying. Tudo bem, as vezes também tinha essa parte, não me orgulho.

- Tudo bem. Você se lembra da Sarah? – Ela disse como quem conta um segredo.
- Não. Eu deveria?
- Não, tudo bem, você não conhecia ela nem ninguém que tivesse proximidade, eu acho. – Ela deu de ombros. – O Jared a conhecia.
- Ela morreu? – Perguntei incrédula.
- Não! – Gina parecia chocada. – Pior, o noivo ficou doente e ela abandonou ele, acredita?
- Que cruel. – Quem era a Sarah que Jared conhecia? Eu só me lembrava de uma, mas não poderia ser essa, poderia? Não! Não!
- O noivo não tinha família sabe, alguns amigos ainda o visitam, mas ouvi dizer que ele não tem mais tempo, deve morrer logo. - Ela voltou a acariciar a barriga.

Não era possível que depois de tudo, aquilo voltava a me perseguir. Ele voltava. Não que eu tivesse o esquecido por alguns segundos sequer. Mas não podia acontecer de novo. Por favor, não! Também podia não ser ele, não é? Tudo bem que ele era o noivo de uma Sarah que o Jared conhecia, e que não tinha família, mas qual era a probabilidade de ser a mesma pessoa a estar morrendo no hospital?
Eu tinha que perguntar, mas eu não sabia se queria ou não ouvir a resposta. Não queria, mas eu precisava.

- Não é a Sarah do , é? Aquele bonitinho? – Perguntei fingindo desinteresse.
- Sim. É essa. Sabe, , se você o ver hoje em dia, nem o reconhece. Minha prima Darcy trabalha no hospital, ela disse que o médico não deu muita esperança. – Foi como um soco na boca do estomago.
- Que droga, não é?! – Eu não sabia o que fazer. – Gina, eu preciso passar no mercado, nos falamos depois, tudo bem? – Tentei ser simpática o máximo que conseguia.
- Claro, . Nos vemos na hora da saída. – Ela acenou.

No carro, não era como se eu pensasse em outra coisa a não ser ir para o hospital. Ainda me lembrava bem onde era. Descendo a ladeira depois da escola, entre os prédios mais altos da cidade, um lugar frio e úmido. Eu odiava a cidade e seu hospital. Mas assim que eu escutei as palavras saindo da boca de Gina, já não tinha mais escolha, nem controle sobre o que eu fazia. Não existia nada mais que importasse naquele momento do que o hospital e quem estava nele. Nada no mundo me tiraria da rota. E assim eu estava prestes a quebrar uma promessa que durou mais de uma década, sem qualquer arrependimento.
Passar pela recepção e todo o resto não era difícil. Em menos de dez minutos eu já estava no corredor indicado pela enfermeira. A porta do quarto era grande, e ao ficar de frente a ela, era possível ver uma movimentação de enfermeiros tentando sem êxito fazer a contenção de um paciente.
Ele se debatia na cama, rápido e com força, era possível que se machucasse daquela maneira, e gritava. Não era possível entender, já que parecia não conseguir falar mais. Era como se estivesse preso no próprio corpo e se debatesse desesperado tentando sair. Eu demorei alguns minutos olhando a cena até perceber do que se tratava, ou melhor, de quem se tratava. Só o reconheci quando os olhos azuis assustados cruzaram com os meus. O rosto antes bonito e corado, estava pálido e ossudo, como se todos os músculos da face tivessem sido retirados cirurgicamente. O cabelo antes bagunçado e um pouco grande, com algumas ondas, estava curto, cortado de qualquer maneira por máquina. Os membros, antes fortes e firmes, pareciam varetas finas. Agora ele tentava se erguer, balançando o corpo como uma gangorra. Foi a cena mais assustadora e triste que eu havia visto na vida.
A vontade de se aproximar e a angustia de vê-lo naquela situação foi maior que a vontade de chorar e correr de volta a New York. Quanto mais próxima ficava da cama que ele estava, mais era possível sentir o cheiro de urina e vomito. Pelo que eu sabia dele, com certeza seu desespero era devido estar sendo visto naquela situação. Ele babava e balbuciava coisas que eu não entendia, parecia estar agressivo demais para uma aproximação. Talvez estivesse louco, desorientado, completamente fora de suas faculdades mentais.
Mas quem era meu cérebro para mandar me afastar naquele momento?
Num impulso, antes mesmo que os enfermeiros notassem, corri em direção a maca, e segurei num ímpeto a mão do homem que ali estava, e quando os olhos deste se voltaram para mim, meus lábios se moveram suavemente, como se eu não estivesse em pane por dentro.

- Está tudo bem! Eu estou aqui com você! Vai ficar tudo bem! – E repeti aquelas palavras quase centenas de vezes. Como um mantra. Como se tudo que aconteceu na minha vida até aquele momento, fosse para que eu pudesse fazer aquilo, naquela hora, naquele lugar.

Ele, como o vento de uma tempestade, foi se acalmando, bem devagar. Parou de gritar e de se mexer, e começou a me encarar fixamente. O cheiro forte ainda estava ali, mas não importava. Eu apenas sorria e repetia o mantra.
O tempo não parecia ter passado, não estava ali a nem dez minutos, quando uma enfermeira veio incomodar.

- Senhora. Eu preciso que saia. Eu preciso cuidar do paciente agora. – A enfermeira parecia receosa.
- Não tem muito tempo que estou aqui.
- O horário de visitas acabou a meia hora, se quiser pode voltar a noite.
- Tudo bem. – Eu disse. – Vai ficar tudo bem, descanse, eu volto depois. – Disse para ele com um sorriso, e apertei de leve sua mão antes de solta-la com pesar.

Olhei-o algumas vezes antes de sair do quarto, mas ele continuava imóvel. Não sabia o que estava sentindo, estava totalmente confusa.

- Com licença. – Alguém interrompeu meus devaneios.
- Sim.
- Você é da família? – Um médico perguntou.
- Desculpe, eu não entendi. – Mantinha uma expressão confusa no rosto.
- Senhor Walker. Onde você passou cinco horas. – Cinco horas?
- Eu só o conheço. – Estava totalmente desorientada.
- Parece que ele te reconheceu. Você o acalmou. – O médico sorriu, eu estava totalmente confusa com tudo. – Pode me chamar de Rafael, senhora?
- . . – Disse rápido. – Você é o médico responsável por ele? O que ele tem? É grave? – Praticamente vomitei as palavras sobre o médico.
- Bom, nosso amigo tem um quadro de Síndrome de Albizzi, grau oito. Vou tentar não usar o meu vocabulário médico. – Ele sorriu, e eu não entendi porque fizera aquilo.
- Então é bem grave, não é? – Nem sabia direito porque perguntava aquilo.
- Sim, sinto muito. – Dr. Rafael disse um pouco mais sério. – O quadro dele tem se desenvolvido de uma maneira atípica. Ele não tem mais exatamente todos os movimentos do corpo. É como se fosse um tipo de paralisia, por enquanto, ele aparenta as vezes estar orientado, mas as vezes acontecem surtos como esse que você presenciou. Eles são bem comuns. – Mas o que era tudo aquilo? Pensei.
- Desculpe, você disse grau oito? Qual seria o grau nove e o dez?
- Nove, os órgãos param de funcionar, dez, óbito por Síndrome de Albizzi. – Dr. Rafael disse olhando sério.
- Quais as chances de uma reversão? – Eu não entendia como aquilo estava acontecendo.
- Sinceramente, senhora , talvez ele passe anos estagnado no grau oito, talvez essa noite avance para o grau dez. Não é possível prever. Quanto a uma reversão, acredito que apenas com um milagre. Essa síndrome é nova, não se tem muitos registros dela. Noventa por cento das pessoas que tiveram Albizzi, morreram, e os dez por cento que sobreviveu, não teve a doença tão avançada. – Eu precisava sair dali.
- Eu preciso ir. – Disse rápido e praticamente corri até a saída.

Da portaria do hospital era possível ver os portões verdes do cemitério da cidade. Me lembrei de Ted. Era como um turbilhão de sentimentos dentro de mim, e eu não conseguia organizar meus pensamentos.

Quando entrei no cemitério uma brisa gelada atravessou as roupas que eu usava. Eu não gostava daquele lugar. O cemitério tinha tristes e grandes árvores, algumas estátuas, e tinha algumas colinas, do alto dessas colinas era possível ver a baía, a praia, o píer com seus barcos ancorados.
Lembrava de ter ido ao funeral do pai de Ted, talvez ele estivesse por perto. Depois de caminhar um pouco encontrei o mausoléu da minha família, no alto da primeira colina. Era possível ver a baia e seus barcos de pesca recolhendo as redes. Seria uma vista bonita, se não fosse um cemitério. Logo atrás do mausoléu estavam os túmulos da família Weiss. Ted estava como previsto ao lado de seu pai. Theodore J. Weiss Jr. Amado marido, pai, irmão e filho. Para sempre nos nossos corações. Até a última folha cair, e o último rio secar. A velha frase de Ted estava em sua lápide, ele a usava para tudo, desde que leu-a em um livro no colégio. Ele tinha deixado um filho. E morrido queimado. Por mais que tivesse abandonado a cidade sem pensar duas vezes, enxergar agora todas as mudanças, tudo que havia passado. Ted era meu melhor amigo, eu poderia ter aconselhado ele em seu relacionamento, ido ao seu casamento, poderia ter conhecido seu filho. Tinha perdido muita coisa. Me sentei com cuidado, encostando na lápide de Ted, e deixei que as lagrimas escorressem livremente.

- Me desculpe. Eu nunca estive aqui para você, não é?! Lembra do que o Giovanni sempre me chamava? – Dei um suspiro profundo. - Egoísta, você nunca vai ter alguém porque você não merece que alguém goste de você. – Disse repetindo as palavras que meu irmão sempre repetia. - Ele estava certo. Eu fugi daqui, porque eu não conseguia conviver com a felicidade alheia, e olha tudo que aconteceu. Você se casou, teve filhos, morreu, e eu não soube de nada disso. Até a Gina língua grande me contar hoje. – Respirei fundo. – Eu sinto muito. Eu nunca tive um amigo lá como você, sabe. Na verdade, acho que a última vez que eu vivi, foi no colégio. Que droga, eu não consigo acreditar que você morreu e eu nem fiquei sabendo. – Mais lágrimas e suspiros.

Já não existiam mais lágrimas para serem derramadas, estava encostada na lápide do meu melhor amigo, encarando o vazio, pensando no quão idiota eu tinha sido, no quão estupida, em como tudo havia dado errado para e para Ted, e como eu simplesmente preferi ignorar tudo e abandonar todos, por inveja e egoísmo. Não havia me dado conta que as horas passaram, só percebi quando encarei o céu negro e com algumas estrelas. Pude ouvir passos lentos atrás de mim. Não me virei, a essa altura não fazia diferença se fosse o zelador ou um fantasma.

Capítulo 3

- Você gosta mesmo de desaparecer, não é?! – Uma voz macia, tinha impressão de conhece-la. – Acho que se tivesse um grupo de autoajuda para pessoas que odeiam essa cidade você já estaria matriculada. Você precisa achar uma cidade para te fazer feliz, se tivesse uma competição de melancolia e mau humor, você sempre ganharia. – Oliver, pensei.
- Oliver?! – Perguntei virando para trás.
- Quem achou que era? – Ele respondeu se sentando ao meu lado. – estava quase acionando a polícia. Você está desaparecida desde as oito da manhã. Sabe que horas são agora? Nove da noite. Eu pensei que você tinha fugido, ou se jogado na baía. Lembra quando éramos crianças, você sempre sumia e ia para a baia quando as coisas ficavam ruins e ameaçava se afogar lá? Sempre tão dramática. – A lembrança me fez sorrir fraco.
- Como me encontrou? – Perguntei olhando para ele de soslaio.
- Fui te visitar, descobri que tinha sumido. Impedi de ir até a polícia, e refiz seus passos. Imagina a surpresa que tive quando descobri que Gina língua grande tinha contado sobre tudo que aconteceu na cidade nos últimos quinze anos. Imaginei que sua consciência iria te trazer até aqui.
- Por que ninguém nunca me contou sobre ele? – Fiz a pergunta que estava na minha mente desde que soube de tudo.
- Eu não sei. Nunca quis contar. – Ele deu de ombros. – Ele era meu melhor amigo também. Eu não acredito até hoje que ele morreu.
- Como foi? – Oliver deu um pesado suspiro antes de continuar.
- O Jack estava com os avós, e o Ted estava em casa com a mulher. Ninguém sabe direito como aconteceu, foi durante a noite, talvez morreram dormindo. – Oliver deu um sorriso triste.
- E a criança?
- Os avós continuam aqui e ele vive com eles. Tem uns treze anos. Lembra como o Ted era bom recebedor? Jack é ainda melhor.
- Eu queria ter convivido mais com ele. Antes dele morrer.
- Não tinha como você adivinhar. Está tudo bem. Você veio aqui pedir desculpas? – Oliver disse envolvendo meus ombros com seu braço.
- Sim.
- Então continue visitando que ele vai te perdoar. – Oliver disse sorrindo. – Vamos. Todo mundo está louco atrás de você.


Depois de vários abraços, e muitos, Graças aos céus que você está bem. Oliver foi embora com meus pais e eu fui tomar um banho. Quando fui me deitar já estava à minha espera na cama. Eu me deitei e coloquei a cabeça em seu peito.

- Dia difícil. – Fiquei em silêncio, sentindo o calor de sua pele. – Oliver me contou o que aconteceu. Eu sinto muito, de verdade.
- Teve mais uma coisa. – Não sabia exatamente porque havia dito aquilo.
- O que foi? – disse com seu olhar compassivo.
- Uma pessoa, um amigo. Eu também descobri que ele está no hospital, poucas chances de recuperação e a noiva o abandonou quando ele ficou doente. – Estava ficando boa em fingir que não me importava.
- Tudo bem. – me abraçou mais forte. – Você não vai perder mais ninguém. Você foi vê-lo?
- Sim.
- É mesmo assim tão grave? – perguntou passando a mão no meu cabelo.
- Pior ainda.

O resto da semana passou como se aquele episódio emocional desesperado nunca tivesse acontecido. Não fui mais ao hospital, nem levar Dom ao colégio. Não visitei o tumulo de Ted, nem vi Gina língua grande, não vi meu irmão gêmeo, nem meus pais e meu irmão carma, Giovanni. Era uma sexta como outra qualquer, Dom se despediu e foi para o carro, e veio me dar um beijo antes de sair.

- Quais são seus planos para essa sexta ensolarada? – Ele perguntou sorrindo.
- Nenhum. – Eu sorri enquanto recolhia a louça.
- Por que não visita seu amigo no hospital hoje? Aproveite e leve umas flores para o Ted. – sugeriu. – Eu sei que não está bem desde aquele dia, eu conheço minha esposa. Vá vê-los. Você precisa aprender a lidar com isso e só pode fazer isso sozinha. – Eu sorri.
- Eu vou pensar, está bem? – Ele sorriu e me deu um beijo.

Uma hora depois que saiu eu já estava no carro, havia passado em uma floricultura, comprado flores para e Ted. Não foi preciso pensar muito, era óbvio que eu queria ficar do lado dele até ele partir se fosse o caso, o que eu rezava para não ser. E se tinha alguma intenção em me curar dessa paixão doentia, eu devia enfrentar tudo, como me aconselharia se soubesse da história toda. E eu tinha que seguir o conselho de Oliver e visitar Ted, tentar me redimir pelo menos um pouco, apesar de que esse tipo de coisa depois que alguém morre já não importa ou significa nada. Fui rápido até o tumulo de Ted.

-Como vai, Ted? Desculpe o show dramático da última vez que estive aqui. Você sabe como sou emotiva as vezes. – Ri fraco. – Sei que estou em falta com você. Mas Oliver me deu um conselho, para me ajudar a me redimir com você. Eu sei que você preferiria alguma bebida alcoólica, mas na atual situação, flores caem melhor. – Uma brisa suave balançou meu cabelo de repente. - Que bom que gostou. – Sorri.

Depois de algum tempo contando coisas da minha vida para a lápide de Ted, resolvi que era hora de seguir para minha epopéia. Segui a pé até o hospital, quando cheguei no quarto dele as janelas e cortinas estavam fechadas, e ele mantinha o olhar fixo no teto, imóvel. Ainda mais esquelético do que no último dia, se isso fosse possível.

- Bom dia! – Disse sorrindo. – Acho que esse quarto talvez precise de um pouco de luz. – Seu olhar continuava no teto, até o momento em que eu abri as cortinas, talvez a claridade tenha incomodado seus olhos, e ele passou a me encarar.

Coloquei as flores em cima de uma espécie de mesa de cabeceira hospitalar, eram tulipas brancas, minhas favoritas.

- São tulipas. – Disse mostrando as flores para ele. – São minhas favoritas. – Ele continuava me encarando. Ele devia me achar completamente louca.
- Claro que você está pensando, quem é essa maluca que está aqui. Eu pensaria também. Meu nome é . Você não me conhece, mas eu conheço você. – Ri sem graça encarando o chão enquanto girava minha aliança no dedo. – Você deve conhecer talvez meu irmão, Giovanni ou Oliver . Talvez uns amigos, Jared Mills, Gina Spilner. – Será que ele me entendia? – Eu não sou nenhuma psicopata, sério. Estudei gastronomia em New York, as possibilidades de gastrônomos serem psicopatas é bem pequena. Talvez eu seja meio louca, segundo meu pai, mas nada muito sério.

Ele continuava me olhando, seu olhar parecia incerto, mas não conseguia saber se ele estava são ou não. Depois de alguns minutos em silêncio ele voltou seu olhar para o teto novamente. Depois do surto que eu havia visto, e do que o médico disse, eu realmente achava que ele estava fora de suas faculdades mentais. Além disso, ele também não se mexia e tinha o corpo franzino cheio de fios e agulhas, os olhos azuis estavam fundos, e ele tinha grandes olheiras roxas. Nunca tinha tido o prazer de chegar perto dele o suficiente para sentir seu perfume, mas agora ele tinha o cheiro característico que idosos acamados tinham. Eu não sabia o que falar, estava perdida. Esperei tanto aquele momento, ficar tão perto dele, e agora não sabia o que fazer.

- ? – Chamei incerta e ele voltou seu olhar para mim, talvez tivesse entendido o que eu dissera, o que me fez feliz. – Há, você está aí. – Ele revirou os olhos.

Tudo bem, ele estava ali, estava são. E já me achava um saco. Como eu podia ser tão estupida?

- Desculpe se estou soando muito idiota. É que eu nunca sei lidar com pessoas doentes. Uma vez eu quase afoguei meu irmão mais velho com sopa quente quando ele pegou gripe. Em minha defesa, ele é o Giovanni, então, muita gente daria tudo para fazer o mesmo. – Eu disse e ri, ele fixou seus olhos em mim. – Eu posso ficar te fazendo companhia, sabe? – Seu olhar estava mais suave, eu não sabia como sabia disso, mas estava.

Meu telefone tocou de repente, devia ser se certificando que eu estava viva, ou Oliver, checando se eu não havia me atirado na baía, mas era o número de casa. Não tinha problema atender o celular na frente dele, não é?

- Alô.
- Mãe. – Era o Dom.
- Oi, meu bem. Está tudo certo?

- Sim. Eu queria saber se eu posso ir jogar vídeo game na casa do Tyler.
- Quem é esse? – Às vezes ser mãe não dá uma folga.
- A mãe dele se chama Gina, ela disse que você deveria ir também.
- Que Gina?
- Ela disse alguma coisa do tipo Gina língua grande. – Ele disse sem jeito. – Mas eu juro que foi ela que disse, não eu. – Eu ri.
- Claro, querido. Divirta-se!

Era espantoso como Gina não desaparecia, era como se ela estivesse em todos os lugares. ainda me encarava parecia curioso, mas era um chute.

- Era o meu filho. Ele tem doze anos. Nos mudamos para cá há algumas semanas, ele está se adaptando. Eu morei aqui minha vida toda, então quinze anos atrás, resolvi ir para New York e agora voltamos. E a história parece se repetir, já que ele está indo brincar com o filho da Gina Língua Grande. – Disse e ri fraco. Eu podia jurar que ele também havia achado graça, seu olhar mudou, mas ele voltou a encarar o teto.

Depois de alguns minutos sem ter noção do que falar, eu percebi que o quarto tinha uma TV, e percebi que eu adoraria liga-la, na intenção de quebrar aquele silêncio constrangedor.

- Eu acho que vou ligar a TV. – Disse incerta. – Espero que não se importe, .

Ele continuou imóvel. Na TV estava passando uma reprise de um programa culinário. Talvez ele odiasse, mas acho que depois de tudo, ver um programa que não gosta deveria ser o menor dos problemas.

- Nossa, ele não colocou os ovos. Isso vai ficar horrível. Intragável. – Eu disse totalmente concentrada na massa que o participante fazia. Tão concentrada que nem percebi que ele me encarava. – Opa. – Ele não se virou quando eu o flagrei. - Eu sei que deve ser bizarro. Um belo dia uma completa estranha entra no seu quarto e anuncia que vai te fazer companhia. Eu entendo que é loucura. Às vezes eu acho loucura. Fico pensando no que estou fazendo e só consigo achar que eu sou um incrível pé no saco. – Eu ri fraco. – Um amigo meu, que infelizmente não está mais entre nós, sempre disse que eu consigo ser a pessoa mais chata que existe quando eu quero. – Ted sempre dizia isso. – Mas eu juro que agora eu não quero. – piscou algumas vezes e estreitou o olhar.

Passaram algumas horas e eu já não prestava atenção na TV. Tudo que eu perdi apagando minha cidade do mapa por quinze anos flutuava pela minha mente. Lembrava dos casais, dos amigos, de quando saíamos para ver filmes, e dos filmes românticos que assistíamos, e como sempre brigávamos porque Giovanni queria ver filmes dramáticos. Até que uma ideia surgiu de repente, e eu agradeci de coração o fato do meu irmão ter me feito ver aqueles filmes idiotas.

- – Falei tão de repente que ele se assustou. – Eu tive uma ideia maluca. Mas eu acho que pode dar certo. Então...- Ele mantinha o olhar em mim. – Você consegue controlar quando pisca? – Ele revirou os olhos. – Isso não foi gentil da sua parte. Enfim, se você conseguir, podemos criar um tipo de código. Sabe, como uma piscada para sim e duas para não, piscar só um olho para talvez. – Eu acabei rindo de mim mesma. Parecia uma ideia muito infantil. – Se quiser se comunicar, é claro. E então, o que acha de tentarmos? – Ele ainda me encarava. – Você quer tentar? – Ele demorou a piscar. Talvez não tivesse entendido nada. E então piscou uma vez. – Ótimo! – Talvez tenha deixado minha alegria transparecer demais.

Com essa comunicação estabelecida ou o que eu achava ser uma comunicação, talvez fosse o caso de fazer a pergunta que eu não queria saber a resposta. Mas eu precisava, pelo menos para me certificar que não estava sendo egoísta como sempre impondo minha presença a ele.

- , você quer que eu vá? – Ele havia voltado o olhar para o teto novamente e quando me ouviu olhou para mim e diferente da primeira vez piscou rápido duas vezes. Eu sorri. -Como queira.

Era muito estranho para mim estar ali, o vendo pela segunda vez e falando como uma criança curiosa no auge de seus quatro anos. Mas era como se fosse o normal, como se eu soubesse tudo sobre ele, e de fato eu sabia. Estava uns quinze anos desatualizada, mas sabia. Diferente de quando o vi no hospital pela primeira vez, quando fiquei apenas segurando sua mão, e o olhando, agora já havia até estabelecido um tipo de contato. As coisas estavam indo rápido demais, o que era estranho, mas ao mesmo tempo incrível.
Eu havia prometido não deixar que aquele amor voltasse, ou acontecesse novamente, mas quando ele me deixou entender que não queria que eu fosse, eu apenas quebrei de vez todas as promessas e tudo que havia passado. Só queria ficar ali até que mundo acabasse. Agora eu sentia, de uma forma torta, que tudo estava bem, e ao mesmo tempo, que tudo estava mal, devido a doença dele. Eu estava completamente feliz, e secretamente triste, e em negação quanto a possível morte eminente.

Capítulo 4

Os dias passaram rápido, sem perceber já estávamos na antiga cidade há um mês. estava ótimo no trabalho, Dom estava no time e muito animado com a escola. Eu estava perto de quem realmente importava para mim. Os dias eram sempre os mesmos, eu fazia o café da manhã. e Dom saiam, eu cuidava dos afazeres domésticos, almoçava sozinha. Visitava Ted e depois passava a tarde com , estávamos ficando cada vez melhores na nossa comunicação. Às vezes eu perguntava se ele queria ouvir sobre certo assunto, ou se queria que ligasse ou desligasse a TV. E ele revirava menos os olhos e nunca mais teve uma crise como a primeira que eu presenciei. Oliver e Gina estavam cada vez mais presentes nas nossas vidas. saia com Oliver e Dom para pescar, jogar futebol. E meu irmão normalmente jantava conosco. Gina havia se tornado uma amiga, e aparentemente agora ela não fazia mais jus ao apelido língua grande.
Como em mais uma tarde normal, eu fui ao hospital, para vê-lo, mas Dr. Rafael me parou no corredor.

- Senhora . É bom vê-la. – Ele sorriu.
- Olá. – Respondi desconfiada.
- Eu queria conversar com você sobre o caso do nosso amigo . – Rafael tinha a estranha mania de chamar todos os seus pacientes de amigos.
- Claro. Algum problema? Ele está bem? – Perguntei com o coração apertado.
- Sim. Está tudo ótimo. É exatamente sobre isso que quero falar. -Talvez ele tenha percebido meu olhar de extrema confusão. – Bom, como você é a pessoa que mais o visita, acredito que seja do seu interesse saber que a doença regrediu.
- Desculpe? Eu acho que não entendi. - Eu havia entendido, só não sabia como reagir a notícia.
- Se lembra de quando nós nos conhecemos? Quando o quadro dele estava no grau oito da Síndrome e evoluindo para o nove? - O interrompi.
- Você não me disse que ele estava evoluindo para o nove. – Disse séria, talvez áspera e brava.
- Isso não faz diferença, já que fizemos mais alguns exames ontem quando percebemos que ele não estava tendo mais crises. E com o resultado deles, nós refizemos todos os outros e pudemos concluir que a síndrome regrediu. Se é que podemos usar esse termo. – Ele disse mais para si do que para mim. – Enfim, ele passou de grau oito para grau seis.
- Seis? E o que isso significa? – Perguntei ansiosa.
- Bom, segundo o que sabemos. Alguém com grau seis não precisa se alimentar por sonda e nem precisa respirar por aparelhos também, as funções motoras ainda estão comprometidas, e não sabemos se ele consegue falar, primeiro porque a laringe, faringe, pregas vocais e vestibulares ainda estão machucadas devido ao uso de sondas e o comprometimento muscular. – A minha cara devia estar expressando meu nível de confusão, mas eu esperava que ele não notasse, porque não queria uma explicação. – Então, resumindo. A qualidade de vida dele é melhor e como não sabemos sobre sequelas, ele fará tratamento com Terapeuta Ocupacional e Fisioterapeuta, assim como com a fonoaudióloga, para que se existir, essa sequela traga o menor dano possível.
Eram muita coisa para filtrar e entender.
- Ele já sabe? -Perguntei.
- Ele está dormindo. Mas pode contar a ele quando acordar. Talvez com a regressão ele consiga compreender. – Rafael acenou e começou a caminhar pelo corredor.
- Rafael. – Chamei e ele se virou. – Isso significa que a doença vai parar? Ou que ela vai regredir mais? – Rafael sorriu docemente.
- Acho que testemunhamos uma espécie de milagre aqui, não é? Quem sabe o raio caia no mesmo lugar duas vezes? – Rafael disse e antes de sumir no corredor eu o chamei novamente.
- Ei, Doutor Rafael! – Ele se virou. – Ele sempre entendeu o que diziam para ele. – Rafael manteve uma expressão confusa no rosto, enquanto eu seguia para o quarto do .

Eu estava perplexa quando entrei no quarto. As janelas estavam abertas, uma brisa fresca balançava as cortinas. Ele estava lá, deitado, dormindo. E poderia ser coisa da minha cabeça, mas eu podia jurar que ele já parecia melhor. Me sentei na cadeira perto da cama e fiquei pelo que pareceram horas, pensando no que o médico havia me dito. Eu ainda não sabia como agir, nem o que pensar. Só estava feliz, uma pura e resplandecente felicidade.
Depois de algum tempo, como ainda não havia acordado, pensei em ir comer alguma coisa. Estava fechando a porta do quarto atrás de mim quando me choquei levemente com um homem. Ele era alto, e tinha olhos castanhos brilhosos e pele negra. Era um homem realmente bonito, e aparentava ter a minha idade.

- Oi. Desculpe. – Ele hesitou. – Eu estou procurando o quarto do , mas acho que me mandaram para o lugar errado.
- Na verdade, não. – Sorri sem graça. – Esse é o quarto do . – O homem me olhou confuso. – Eu tenho ficado aqui, para fazer companhia a ele durante as tardes.
- Ah sim. - Era visível que ele ainda estava receoso. – E ele pode receber visitas?
- Claro. – Disse rápido. - Ele só está dormindo agora.
- Tudo bem. – O homem encarou o chão por alguns instantes. – E como ele está?

Eu não sabia se deveria contar a ele sobre o que o médico havia me dito. Mas ao mesmo tempo, que mal faria? Conduzi o novo visitante até o final do corredor, que ficava a cerca de um metro da porta do quarto dele. Onde teria um pouco mais de privacidade para falar, e que parecia um lugar agradável, devido à grande janela que tinha vista para baía.

- Eu nunca me dei conta de como senti falta desse lugar. – Disse olhando para a Baía.
- O que disse? – Ele perguntou confuso.
- Ah, desculpe. É que fiquei muito tempo fora da cidade, estou me acostumando. – Eu ri fraco. – Eu me mudei daqui, para Nova York há uns quinze anos. E então retornei. - O homem permaneceu em silêncio por alguns instantes.
- Por isso eu te acho familiar. – Ele riu. – Eu só sei de uma pessoa que foi para Nova York. – Ele abaixou as sobrancelhas, formando uma ruga entre ela, franziu os lábios e deixou a cabeça cair levemente para a esquerda. - Você não seria a , seria? – Agora ele estava mais para incrédulo, e eu sorri confirmando sua suspeita. – Não se lembra de mim? Matt Shay!
- Oh meu Deus! Matt. – Meu Deus, era Matt Shay. - Eu não acredito que é você. – Disse sorrindo e abraçando-o.
- É. Sou eu. Você está cada vez mais idêntica ao Oliver. Parece ele com cabelo. – Ele disse ainda me abraçando. – Como você está? Se casou? Teve filhos?
- Sim, para as duas perguntas. Eu me casei e tenho um lindo garoto de doze anos. - Matt riu e se escorou no parapeito da janela.
- Que coisa. Tantos lugares para a gente se reencontrar e olha só. Bem aqui no hospital. – Matt riu. – Mas eu não me lembro de você com ele. Vocês já se conheciam naquela época?
- Na verdade. Não. - Sorri sem graça.
- Que bom que ainda existem pessoas boas no mundo. – Matt disse calmo. – Depois que aquela mulher deixou ele, piorou bem mais. – Ele disse triste.
- Eu soube. – Concordei encarando o chão.

Matt Shay era do time de futebol, junto com Ted e Oliver. havia se formado no ano em que eu fui para o ensino Médio. Mas Matt chegou a jogar com ele, por Matt ser dois anos mais novo que . Havia ido a algumas festas com Matt e os outros do time enquanto estava na escola. Mas não éramos melhores amigos, só amigos de festa.

Flashback
- Ela me disse que faz meu trabalho de física se eu a ajudar a ficar com você. – Disse para Oliver que riu debochando.
- Por que as mulheres dessa escola só se interessam pelos ? – Ted disse jogando a bola em Oliver.
- Isso só se aplica com os homens da família, por que os homens da escola não ligam muito para as mulheres . - Eu disse me sentando perto do meu irmão.
- Você não tem todos os caras aqui atrás de você porquê não quer. – Oliver disse olhando para mim.
- Até parece. – Disse cruzando os braços. – Eu quero, eles que não vem até mim. Gina sempre tem companhia. Use ela como exemplo.
- Você estava com Matt na última festa, lembra? – Gina alfinetou. – E eu estava sozinha.
- Só porque não conseguiu quem queria. – Disse arqueando uma sobrancelha e fazendo os meninos me encararem.
- Gina ainda não superou o Oliver? – Ted riu alto.
- Idiota. – Ela disse e saiu de perto de nós enquanto os meninos riam, inclusive Oliver.
- Coitada, gente. – Eu disse e ri.
- Acabou a diversão, o pai chegou. – Ted disse se referindo a Giovanni que se aproximava do grupo. – E aí Giovanni? Já veio buscar seus bebês? Já está na hora do banho? Ou você veio nos dizer que já ganhou seu Nobel? – Ted riu e fez os outros rirem.
- Quando você vai crescer, Ted? – Giovanni perguntou mal-humorado.
- Não fica bravo não, filho. – Ted disse colocando o braço no ombro de Giovanni. - Eu não quero que você se estresse. Eu quero ser seu amigo, porque talvez com você eu arrume mais mulheres do que andando com seu irmão. – Todos riram.
- Eu sou o irmão descolado, que joga futebol. O Giovanni é o inteligente. – Oliver disse alegre. – Temos para todos os públicos, Ted. Sinto muito, mas você vai ter que ficar com a Natalie, a estranha. – Oliver disse e Ted mostrou o dedo do meio.
- Nossa, vocês são cruéis. – Disse.
Flashback end.

- ? – Matt me despertou da minha rápida viagem ao passado.
- Sim, desculpe. Eu estou meio cansada. – Ri fraco, e ele sorriu.
- Então, como está o ? – Ele perguntou.
- Bom, você chegou num bom dia. – Sorri, verdadeiramente feliz. – Então, não sei o quanto você está sabendo. Quando eu comecei a visita-lo, eu soube que ele estava no grau oito, dessa doença horrível, e evoluindo para o nove, segundo o médico.
- Isso é ruim, não é? – Perguntou ansioso.
- Bom, quando eu cheguei aqui, ele estava tendo uma crise horrível. – Matt me olhava com pena, não de mim, mas de . - Depois disso eu acompanhei ele aqui e ainda estou. – Sorri. – Hoje, eu tive boas notícias. Aparentemente, tivemos nosso milagre de natal fora de época. – Matt me interrompeu.
- Como assim? – Ele estava confuso.
- Segundo o médico dele, Dr. Rafael, a síndrome dele só evoluía, não regredia. E aparentemente, ela regrediu de oito para seis. – Disse sorrindo.
- Seis? Mas isso é ótimo, não é? – Ele perguntou animado e eu assenti. – Isso é ótimo. Ele fala? Como ele está? Me fala tudo, rápido!
- Calma, Matt. – Ri de seu desespero. – Ele vai começar a ser tratar com uma equipe mais especializada, pelo que eu entendi, que não foi muito. E ele não fala, mas nós conseguimos nos comunicar através de piscadas de olho. Uma para sim e duas para não.
- Isso é inacreditável. – Ele estava visivelmente feliz.
- É bom que você tenha vindo hoje, aliás. – Suspirei.- Eu não sei a quem contar. Quer dizer, não sei como contar a família e não sei se o hospital avisaria.
- . – Matt fechou os olhos por alguns instantes, riu sem humor e segurou com delicadeza minha mão. – É porque não tem para quem contar. Eu falo com os amigos. Fora isso, além de eu, você e mais umas cinco pessoas, não tem ninguém.

Era algo duro, triste. Não se ter a quem contar uma notícia dessas. Perceber o óbvio, que não tinha quase ninguém por ele, foi um baque que me deixou surda e tonta por algum tempo.

- Será que ele acordou? – Matt perguntou, tentando mudar o clima.
- Talvez sim, porque não vai lá ver? Eu vou tomar um café e já encontro vocês. – Sorri e começamos a caminhar em direção a porta. – Bata antes de entrar, ele não gosta que entrem sem bater. – Ele sorriu. – E conte a novidade a ele, eu ainda não tive tempo e acho que ele vai gostar de saber. Além de ficar feliz em receber outra visita que não seja a minha.

Eu sorri e ele entrou no quarto gritando algo como “E aí minha loira! ”, e ignorando a minha recomendação. Deixei-os lá, e fui até a cafeteria.
Depois de enrolar por mais de meia hora na lanchonete do hospital, resolvi voltar para o quarto de . Não por estar curiosa sobre a vista de Matt, mas por saudades, meu estômago ainda revirava todas as vezes que eu pensava que ele estava só alguns andares de distância.
Quando cheguei perto da porta, que estava entreaberta pude ouvir um pouco da conversa e percebendo que se tratava de mim, a curiosidade me fez parar e escutar um pouco.

- Então. – Matt suspirou depois de uma longa risada. – Nem aqui você sossega, não é? Sério que a está aqui te fazendo companhia? – Matt riu. – Eu achei que com você sem poder ver muitas mulheres eu teria mais chances.
- É sério. – Matt continuou. - Ela continua bem bonita. Você conhecia ela? – Não pude ver a resposta de . – Essa mulher era terrível, meu amigo. Chave de cadeia. Impulsiva, sem juízo, fazia só o que tinha vontade. Até hoje eu não sei porque ela saiu da cidade. – Matt pareceu ponderar. - Mas também, eu duvido que ela ficaria aqui de qualquer jeito, mesmo se tivesse ficado na faculdade. O Oliver também não ficou. – Matt riu novamente. – O que importa é que ela está aqui te fazendo companhia. Cara, você é impossível. - Matt riu alto e olhou em direção a porta, me pegando de surpresa. – Olha ela aí! – Gritou e eu sorri sem graça entrando no quarto. – A gente estava falando de você.
- É mesmo? – Disse como se não tivesse escutado tudo. Estava ficando boa em mentir.
- É, falando da escola e de garotas. – Ele disse me abraçando de lado e rindo. me encarava, mas sua boca estava levemente curvada em um pequeno sorriso. Ou eu estava imaginando coisas. – Você sabia que sua bela acompanhante fazia racha, ? – Eu encarei Matt com os olhos arregalados e ele ainda sorria. arqueou as sobrancelhas também, talvez estivesse surpreso.
- Não. Quer dizer...- Minhas inconsequências na juventude não era algo que gostava de lembrar. – Não era assim também. – Desdenhei.
- Ah! Claro que era. – Matt colocou as mãos na cintura. – Lembra aquela vez que você ganhou aquele carro numa corrida com aquele cara da gangue? E seu pai te fez devolver? – Matt lembrou.
- Eu não devolvi. Vendi o carro. – Disse sem perceber e quando me dei conta era tarde demais.
- Essa eu não sabia. – Matt deu uma risada alta e escandalosa. – O que acha de a gente correr um pouco uma hora dessas? Eu, você e o ligeirinho. Sabia que o também corria? Ele era muito bom. Só não melhor que eu. – Matt disse e revirou os olhos.
- Todo mundo era melhor que você. Você só tinha papo. – Disse olhando para ele.
- Há, há, há. Até parece. – Ironizou.

pareceu sorrir de novo, talvez fosse algo relacionado a sua melhora. E com certeza era a coisa mais bonita que eu já havia visto. E então ele olhou para mim, continuou com seu quase sorriso e piscou. Não como um sim ou não. Piscou apenas um olho, como se fosse um sinal de cumplicidade ou eu estava vendo coisas, de novo.

- Vamos ver isso então. Eu, você e o . Vamos correr e eu vou te ensinar a não cantar vitória antes do tempo. – Eu olhei para que piscou como sim e encarei Matt.
- Eu não corro mais, Matt. – Disse ajeitando o cobertor de . - Tenho um filho agora, o que me fez assinar o pacote de ser bom exemplo.
- Só vai ser mau exemplo se perder. – Ele riu.
- Eu não quero que o Dom seja inconsequente como eu era. E irresponsável. E as outras coisas. – Disse pensativa.
- Não acredito que você vai amarelar. – Matt disse olhando nos meus olhos. Ele sabia como me manipular.
- Eu não acredito que você está apelando desde jeito. – Olhei-o com os olhos em fenda.
- Eu vou começar a movimentar essa parada. – Matt disse e riu alto. – Bom, já que você está em mãos mais macias agora. – Ele disse encarando . – Vou ter que te deixar. Mas não chora não, eu volto.

Matt sorriu, apertou sem jeito a mão de me abraçou e nos deixou.

Capítulo 5

Mesmo depois que ele saiu do quarto, a atmosfera continuava a mesma de quando ele estava ali. Alegre e levemente constrangedora.
Encarei , que agora estava com os olhos fechados. Ele estava mais corado, havia engordado um pouco. Seu rosto agora não tinha mais aquele aspecto esquelético de antes, não tinha mais fundas olheiras. Segundo a equipe médica, agora ele dormia bem todas as noites. Estava visivelmente melhor. Possivelmente era devido a regressão da doença, mas as vezes, antes de dormir, ou quando me distraía pensando nele durante o dia, passava pela minha cabeça que talvez a melhora fosse por minha causa. Mas logo a razão chegava, me mostrando que isso era no mínimo impossível.
Estava o observando atentamente, cabelo, rosto, ombros, peito, braços, mãos. Observando cada detalhe, como estava acostumada a fazer, tão concentrada que nem percebi quando ele abriu os olhos e começou a me encarar. Me pegando totalmente de surpresa, e me deixando vermelha de vergonha.

- Por que você está me encarando? – Perguntei sorrindo e ele sorriu de lado. Aquilo com certeza era um sorriso. Meu coração parecia uma fogueira.

Sai de perto dele e fui ajeitar as cortinas, trocar a água dos vasos de plantas, deixar o quarto apresentável. Sentia que me seguia com os olhos, o que já estava me deixando envergonhada. Resolvi pegar um livro que sempre deixava lá e fazer o que sempre fazia. Me sentar na poltrona ao seu lado e ler para passar o tempo. Mas continuava me encarando.

- O que foi? – Perguntei olhando para ele.

arqueou as sobrancelhas como se me encorajasse a dizer algo. Ah, é claro. Ele era o mais interessado na notícia e eu sequer tinha comentado.

- O Matt falou alguma coisa com você, sobre o que o médico disse? – arqueou uma sobrancelha e fechou um dos olhos. Aquilo significava “tem certeza?” ou “Não foi suficiente”. Pelo meu entendimento no nosso idioma, aquilo devia ser a segunda opção.

- Não sei até onde você está ciente do seu estado. – Eu cocei a garganta, em uma tentativa falha de deixar minha voz mais firme e clara e juntou as sobrancelhas, concentrado. – Essa sua Síndrome, é dividida em graus. Explicando porcamente, e ignorando o fato de que você provavelmente já sabe isso tudo. Bom, nesses graus, vamos focar neles. Quando eu cheguei você estava no oito, evoluindo para o nove, pelo que eu soube. Mas o seu médico, Rafael, resolveu refazer os exames, depois que notou sua melhora e hoje quando eu cheguei, ele me disse que você regrediu, do grau oito para o seis. - piscou algumas vezes, aparentemente atordoado. – Isso é muito bom, sabe?! Significa que você está melhor. Ele não sabe se a doença vai parar aí ou se vai continuar regredindo, mas de qualquer forma isso é muito bom? Não acha? – Segurei a mão de , na tentativa de demonstrar algum apoio.

olhava fixamente para mim, mas era claro que ele estava confuso. E então, sorriu levemente de novo, e apertou minha mão. Meus olhos se voltaram para nossas mãos e depois aos seus olhos. Eu o teria beijado naquele instante. Mas não podia, não sabia nem se ele queria. me olhava com o pequeno sorriso no rosto, e a mão grande e quente ainda apertando a minha. Ficamos naquela posição por muito tempo. Eu não queria sair dali e aparentemente ele não tinha intenção de fazer algo diferente.

- Parece que o Matt não te explicou muito bem. – Sussurrei depois de algum tempo, e piscou um sim. – Eu queria saber o que você está pensando. – Disse e ele revirou os olhos. – O que? É uma notícia boa e eu sou curiosa.

Passamos o resto do tempo olhando um para o outro, até que precisei ir. Já estava tarde demais, e eu tinha uma família me esperando em casa.
Quando me despedi achei que era a hora de passar de fase, me arriscar um pouco mais. E deixei um beijo na testa de . Foi tudo muito rápido. Não queria ver qual expressão ele teria no rosto quando eu abrisse os olhos, eu morreria se visse algo como uma recusa ou coisa do tipo. Então resolvi sair bem rápido do hospital.
Em casa tudo correu normalmente, Dom comeu e foi para o quarto jogar vídeo games, foi ler alguma coisa e eu fui tomar um banho longo e quente. Já era bem tarde quando terminei, então resolvi olhar Dom e me deitar.

- Já está na hora de dormir. – Disse escorada no batente da porta do quarto dele.
- Eu vou. Só vou terminar essa partida. É um jogo online. – Ele disse sem me encarar.
- Está tudo bem? – Perguntei percebendo a bagunça em seu quarto, que não era habitual, mesmo se tratando de um pré-adolescente.
- Sim. – Respondeu.
- Eu vou me deitar, estou cansada. – Disse e caminhei até ele para deixar um beijo.
- Também, só fica no hospital. - Paralisei no meio do caminho, quando entendi o que ele disse.
- Eu fico fazendo companhia para um amigo doente enquanto você e seu pai não estão em casa, Dominic. Poderia ser qualquer um de nós, abandonados, sozinhos em um hospital. E eu não sei você, mas eu iria querer que um amigo me fizesse companhia. – Disse séria e um pouco magoada. Dom não respondeu. – Para cama, agora.
- Mãe, eu não posso, é um jogo... - Ele choramingou e eu o cortei.
- Online, eu sei. E não me interessa. Vá agora, vou esperar aqui. – Disse cruzando os braços.

Dominic desligou tudo bruscamente e saiu chutando fios e cadeiras. Puxei-o pela camiseta e dei um beijo em sua cabeça.

- Tenha um boa noite. – Disse e respirei fundo. – Eu sinto muito se você está sentindo minha falta aqui, é só me dizer o que eu posso fazer para te compensar. Tudo bem?! – Disse e ele apenas acenou com a cabeça e foi escovar os dentes. – Venho aqui em trinta minutos checar se você já dormiu.

Não era como se eu estivesse passando dias no hospital. Enquanto todos estariam ocupados cuidando de suas vidas, e eu estaria ociosa em casa, adoecendo ou tendo ideias ruins, estava fazendo algo bom, estava com , mesmo que fosse mais por mim do que por ele. Fui desperta dos meus pensamentos com me cutucando.

- O que aconteceu? – Ele perguntou, enquanto adentrávamos no nosso quarto.
- Como assim?
- Você está com essa cara. A cara confusa, mas irritada. – Ele disse incerto, como se tivesse medo da minha reação.
- Não, é que... – Ele me conhecia bem. Suspirei. – Dom. Ele parece contrariado por eu passar minhas tardes no hospital. – Disse e suspirei. fez uma pausa longa demais, sugestiva demais. – O que foi, ?
- Você realmente tem passado muito tempo lá. E quando não está de corpo, está com a mente, planejando algo, pensando sobre ou até falando sobre lá. Eu não fiz psicologia, mas eu acho que ele tem sentido a sua falta. Ele vê mais o Oliver e a Gina do que você. E vocês eram tão próximos em New York, talvez ele só esteja com ciúmes. – explicou encarando a janela.
- Eu só estou tentando fazer uma coisa boa, uma boa ação. O que vocês querem? Alguém disponível em tempo integral para perguntar como foi o dia de vocês? – Disse irritada.
- Não foi isso que eu disse. – Como não? Pensei. – Eu só estou tentando dizer que, nem eu e ele somos daqui. – se aproximou e colocou as duas mãos no meu ombro. – Ele as vezes se sente sozinho e eu também. E nós dois nem sabemos quem é esse cara com quem você tem passado as tardes. Antes que você comece, eu não me oponho a você ir. Só pensa no que eu estou dizendo. Talvez, só talvez, o consiga ficar uma tarde sozinho ou até uns dias. Para você aproveitar com sua família. Ele sobreviveu até nós chegarmos sem você, acredite, ele dá conta.

Não concordava muito com o que dizia, mas uma parte minha, a parte madura e centrada, sabia que ele estava certo. Eu não poderia simplesmente abandonar tudo por Ele, eu tinha um filho, que precisava de mim, da minha atenção, um marido bacana e eu não estava sendo nem um terço do que ele merecia como esposa, e tinha a minha família, eu teria que me colocar alguns limites, logo.
A noite que seguiu foi a segunda mais longa desde que havia retornado a Paradise, a primeira era a noite seguinte ao dia que reencontrei . Me levantei mais cedo do que de costume, e quando Dom e acordaram a mesa já estava posta.

- Nossa, que mesa bonita. Você acordou inspirada. – disse sorrindo e se sentando na mesa, junto a Dom.

O café passou rápido, enquanto falava algo sobre um jogo que iria acontecer e que levaria Dom para assistir. Mas tudo que rodava minha mente, era como eu iria me afastar de , como iria me distanciar se tudo que eu mais queria era ficar o mais próximo possível, por mais tempo possível. Era terça-feira, e chovia, provavelmente teria trânsito, e se atrasaria para o trabalho, então caberia a mim levar Dom ao colégio. Enquanto ele terminava de se arrumar, se aproximou e disse:

- Sobre o que eu falei ontem. Vamos fazer uma coisa. Me deixa falar, depois você questiona. – Disse sério, me olhando nos olhos. – Não vá ao hospital hoje. Vá buscar o Dom depois do treino, nas quintas ele sai mais cedo. Você adora esse clima, aproveita e vá ver uns filmes com ele, vocês faziam tanto isso antes. Ele vai gostar, vai surpreende-lo. – O olhar de não me encorajava a dizer não. Ele tinha um jeito doce e sútil de fazer com que eu fizesse o que ele queria. E naquela situação, não tinha argumentos para recorrer.
- Certo. Eu vou fazer isso. – Sorri.

Enquanto caminhava até a garagem, me arrependi e me convenci de que estava tomando a decisão certa mais de vinte vezes. Ser mãe era uma tarefa em tempo integral, que eu não poderia deixar de lado porque supostamente estou novamente apaixonada por um cara que não quer nada comigo. Somando a meu breve surto de imaturidade materna, e o fato de que eu pensava mais em do que no meu próprio marido, eu me sentia abominável. Droga de cidade. Sempre despertando o pior.

Capítulo 6

O trajeto até a escola fora silencioso. Talvez fosse mais uma coisa em que Dominic se parecia comigo, eu odiava conversas no carro, e, ou ele também compartilhava o sentimento, ou fazia silêncio em respeito a mim.
Eu precisava ocupar meu tempo com alguma coisa, para vencer o impulso de correr até o hospital. Foi assim que decidi ir até a casa onde eu cresci, talvez me encontrando com as memórias daquela Olívia, conseguisse esquecer por algumas horas.
Bater na porta esverdeada da grande casa branca sempre era difícil. Quando eu era adolescente e chegava muito tarde em casa, ou até mesmo agora, quando minha consciência dizia que estava errando compulsoriamente.

- Oi, mãe. – Disse e tentei sorrir.
- Olívia! Que bom que veio. – Mamãe disse, e me envolveu num abraço sufocante. Pareceu muito feliz em me ver. – Olhe só quem chegou, Giovanni. – Gritou chamando meu irmão.

Definitivamente encontrar com meu irmão não era esperado. As pessoas não trabalham mais nessa cidade?
Giovanni, Oliver e eu compartilhamos muitas coisas durante a vida. Biscoitos, na fase ruim, o mesmo quarto, as vezes algumas roupas. Mas nunca fomos parecidos. Giovanni sempre foi o que meus pais chamavam de sensato e responsável, meu pai sempre disse que sabia que poderia contar com Giovanni. Até onde eu sei, ele era o único que sempre os visitava, sempre ligava e estava por perto, mais que Oliver, que teoricamente ainda morava com eles. Quando se é o filho favorito e não é cravejado de críticas somente por existir, é realmente fácil aparecer sempre. Giovanni era mais velho, três anos mais velho que eu e Oliver. Era alto, cabelo castanho, sempre impecavelmente penteado para trás, sempre com seu melhor terno, que na maior parte das vezes só salientava seu corpo franzino. Ele era branco, quase pálido, vivia doente, tinha crises de ansiedade semanais e asma, por isso nunca fazia as mesmas coisas que nós, preferindo sempre ficar em casa, estudando ou pintando. Giovanni fazia belíssimas pinturas a óleo. Era a personificação de filho perfeito, frágil e gentil.
Oliver e eu, mesmo sendo gêmeos, não éramos muito parecidos. Oliver era alto, tinha olhos verdes brilhantes e cabelo ruivo. Oliver sempre foi livre. Me lembro de ouvir nossos pais o criticando desde o dia em que nascemos, mas para ele não surtia efeito algum, parecia que ele sequer estava compreendendo o que diziam. Oliver sempre quis viajar, conhecer o mundo. E ele fez, logo que terminou a escola, saiu pelo mundo, trabalhando em hostels para pagar sua estadia, até criar um site de dicas de viagem e ser patrocinado para isso. Oliver era o irmão legal, se precisasse de uma carona, ou uma festa para ir, ou encher a cara em um bar, era sempre o Oliver. Para ele, a vida era uma festa, e você devia aproveitar, não precisava se apegar a nada, pois tudo passava. Isso explica o porquê dele nunca nos ter visitado em Nova York, mesmo tendo passado longas férias na cidade. Oliver era um espírito livre, e não existia pessoa no mundo capaz de prendê-lo.

- , oi. – Giovanni disse e me abraçou. – Eu soube que você havia se mudado, eu fui até sua casa, mas acho que não tinha ninguém. – Disse tentando parecer simpático. Maquiavélico.
- Eu andei ocupada. – Expliquei, e ele acenou.
- Entre, eu fiz um chá para o seu irmão. A tosse dele voltou. – Mamãe disse rápido enquanto eu me sentava na sala.

Sala esta que agora estava moderna, com uma TV gigante e várias outras coisas tecnológicas, assim como a cozinha, pelo que se podia ver pela porta.

- As coisas aqui já não são mais como eu me lembrava. – Comentei. – O que houve aqui?
- Você está falando da TV, não é? – Mamãe gritou da cozinha. – Foi seu irmão. Não é ótima? Eu consigo ver todos os canais que eu quero, agora. Antes nós não conseguíamos ver nem os noticiários. Ele me deu várias coisas, presentes de natal e aniversário. – Disse, enquanto servia chá para mim e falava desesperadamente das coisas que meu bondoso irmão tinha comprado, enquanto Giovanni fingia estar distraído, no celular. – E seu pai? Precisa ver como ele está feliz com o colchão massageador.
- Nossa, realmente. E o que Giovanni tem feito para comprar todas essas coisas. Assalto à banco? – Ironizei.
- Não. – Giovanni respondeu confuso. – É que eu estou com um cliente importante agora. Recebi muitas comissões. Você se lembra de como o papai reclamava das hérnias de disco.

Eu sempre me choquei com potencial que Giovanni tinha para me irritar.

- Como vai o Dom? – Giovanni perguntou rápido.
- Bem, está na escola agora. Entrou para o time. – Disse sem muito ânimo.
- Que bom! Isso é ótimo, o Jack também está. Não sei se você sabe, Sue e eu somos padrinhos dele. Ele praticamente mora com a gente. – Disse feliz.
- Ted convidou você para ser padrinho do filho dele? – Perguntei incrédula. Não fazia sentido, Ted não gostava de Giovanni.
- Sim. – Giovanni disse. – E, sabe, Jack tem se saído muito ...
- Ted não gostava de você, porque ele te convidaria? – Interrompi bruscamente.
- Eu...- Meu irmão abriu a boca algumas vezes, sem dizer nada.
- Por que depois da faculdade eles trabalharam juntos, . E as birras de escola desapareceram. – Mamãe respondeu, séria.
- Nós pescávamos juntos todo fim de semana. Sue e Natalie trabalhavam na mesma escola, Natalie era professora. – Giovanni explicou, sem graça.

Quando tudo parou de fazer sentido? A vida de todo mundo tinha andado, menos a minha. Eu me sentia estagnada, como se vivesse em duas linhas temporais diferentes. Como se eu tivesse pausado uma quando saí da cidade, e agora retomado de onde eu parei. Mas as vidas de todos haviam andado, só a minha que não. Era como de repente, acordar tendo quinze anos de novo, e ver todos seus amigos adultos, casados, e você parada. Estagnada. Presa.
Depois de praticamente meia hora em silêncio sepulcral, meus impulsos adolescentes resolveram desabrochar novamente, e atacar gratuitamente meu irmão, que agora se divertia com uma revista de palavras cruzadas.

- E a Carly, Giovanni? – Perguntei, sugestivamente e arqueei uma sobrancelha.
- Sim, a Carly. – Ele voltou-se a olhar para mim, como quem explica algo para uma criança. – Mas não a chame mais assim, ela prefere Jack.
- O que? – Quase todo chá que havia tomado quis sair de uma vez só. Não era possível que ele reagiria assim.
- Pois é, ela decidiu que queria fazer a transição um ano depois de se formar na escola. Foi muito difícil, a cidade toda criticou o processo. Os únicos lugares que ela podia ir sem ser julgada ou atormentada era a sua própria casa e aqui. – Explicou ele.
- É, coitado. Foi difícil mesmo. – Minha mãe completou. – E como ele está, tem notícias?
- Ah sim, eu conversei com ele semana passada, mãe. Disse que está tudo indo bem. Agora ele conseguiu um emprego, mas disse que foi bem difícil. – Giovanni contou.


Então Giovanni não só havia reagido bem a tudo, como também ajudou Carly no processo? Eu não entendia, o Giovanni que eu tinha em mente a teria julgado, se afastado. Não que ele já houvesse feito isso alguma vez na vida, mas, pelo menos era o que eu esperava. Eu amava criticar meu irmão, apontar os erros numa criação perfeita era saboroso. Era como seu meus pais fossem Deus, e Giovanni a humanidade, e eu Lúcifer, criticando e mostrando o quanto Giovanni era imperfeito, enquanto isso os outros anjos, e Oliver viviam suas vidas cantando e desfrutando de todo lugar que poderiam ir com ajuda de suas asas. A humanidade não poderia fazer algo bom, Giovanni não poderia fazer algo bom.

- Acho que é melhor eu ir, prometi que almoçaria em casa hoje. – Giovanni disse enquanto se espreguiçava e se preparava para sair. – Foi bom te ver, . Vamos marcar alguma coisa, talvez um jantar. Estou muito ansioso para provar sua comida. – Disse sorrindo.

Acenei e dei o melhor de mim para tentar sorrir. Mamãe levou Giovanni até a porta, fazendo mil recomendações quanto a sua saúde. Me juntei a ela no batente da porta, enquanto observávamos meu irmão entrar no carro, acenar e buzinar antes de sair.

- Não deixe de marcar esse jantar. Giovanni está muito animado com a sua volta. – Mamãe disse, me encarando. Nessas horas, sua pouca altura não fazia muito diferença, ela sempre parecia ameaçadora.
- Giovanni? Animado por minha causa? – Ri fraco.
- , ele falou com seu pai sobre sua carreira, sabia? Ele explicou para ele como era sério. Porque depois do jantar seu pai só sabia remoer essa história. – Contou, levemente indignada. – Giovanni pelo menos tem tentado. E você? Vai esperar eu e seu pai morrermos para fazer as pazes com seu irmão? Francamente, era só o que me faltava. Eu não tenho um minuto de paz e sossego nessa vida. – Mamãe finalizou seu ato dramático e entrou para dentro de casa novamente, para recolher a louça do chá. – Eu peço todos os dias para você e Oliver tomarem jeito. Eu até tive um sonho, sabia?
- Mãe, por favor, pare. Não precisa disso. – Repreendi.
- , a pressão alta do seu pai. Só a misericórdia de Deus para nos ajudar. Eu orei e eu sonhei que um homem, loiro, entrava na sua vida, e ia te mostrar o caminho da paz, do amor, da família. – Mamãe sempre fora o tipo beata, ás vezes, com a distância eu quase me esquecia disso.
- Eu já encontrei, mãe. Eu me casei. – Disse entediada e levantei a mão para que ela tivesse uma boa visão da aliança.
- Pois bem, e ele te trouxe aqui. é mesmo um santo, eu disse isso a ele. Agora nós só precisamos arrumar uma esposa para o seu irmão.
- Mamãe. – Ri alto, deixando-a confusa. – Até parece que não conhece seu próprio filho. – Eu tenho que ir.
- Se você ficar mais de uma semana sem aparecer aqui, eu vou chamar a polícia. Não estou brincando, Olívia. – Mamãe disse séria.
- Tudo bem, vou tentar. – Sorri e mamãe me repreendeu com o olhar. Depois me abraçou e me deixou ir.

Mamãe era uma imigrante italiana, brava e alegre, que se casou com um francês alto e sério. Eles sempre foram muito próximos, e muito religiosos. Uma belíssima família tradicional. Todos os nossos encontros eram assim, e mesmo depois de mais de quinze anos sem pisar naquela casa, logo na primeira visita já recebia um sermão de como eu deveria tomar jeito. Mamãe não se importava se eu passei anos sem vê-la, ou se eu já era uma mulher feita. Para ela, quando saí de seu ventre dei plenos poderes a ela sobre minha vida, e assim ela poderia me repreender sempre que achasse necessário.
Mas ao contrário do normal, dessa vez, eu não me estressei com suas críticas, vi graça em toda aquela situação. Não me irritei, ou xinguei Giovanni mentalmente por ser tão perfeito. Só achei graça e percebi que no final das contas, eu sentia falta do drama e até das críticas. Eu não entendia porque, nem como isso havia mudado em tão pouco tempo, mas algo diferente estava no ar, estava no meu coração. Diferente da primeira vez em que encontrei meus pais desde que voltei para essa terrível e irônica cidade.

Capítulo 7

- O que aconteceu? – Dom perguntou alarmado, assim que atravessou os portões da escola e me viu encostada no carro.
- Nada, só vim te pegar. – Expliquei. – Por que?
- Você nunca vem me pegar. Tem certeza que não aconteceu nada? – Dom ainda estava desconfiado.
- Eu preciso de uma explicação para te buscar na escola desde quando, garoto? – Brinquei e ele ficou ainda mais desconfiado.
- ! – Uma voz distante chamou. – Querida, quanto tempo. – A voz distante já estava próxima demais do meu rosto para eu ignorar.
- Gina, que surpresa. – Boa ou não, não deixava de ser uma surpresa. Eu sentia falta da individualidade fria de Nova York.
- É mesmo, não é? Tem tantos dias que não nos vemos. – Gina era sempre um poço de simpatia. Sempre.
- É, muitos dias. – Enfatizei tentando cortar o assunto.
- Acho que você tem outra companhia agora, Dom. – Ela sorriu. – Nos vemos depois, querido. – Gina disse e se despediu de nós com um aceno.
- O que ela quis dizer? – Perguntei confusa e Dom entrou no carro.
- Ela me leva para casa todas as quintas. – Dom explicou depois que eu me sentei no banco do motorista.
- E ninguém achou que eu deveria saber disso? – Perguntei chateada.
- Meu pai sabe. – Dom deu de ombros. – E você nunca está em casa, nem deve perceber se eu chego em casa mais cedo ou mais tarde. – Dom reclamou.

Abri a boca algumas vezes tentando dizer algo, mas ele tinha razão. Estava ficando tão pouco tempo em casa que não sabia nem os horários do meu filho, não sabia de mais nada. E o pior de tudo era que todos sabiam disso, Gina sabia que eu não pegava meu filho na escola, e eu nem queria imaginar o que mais ela sabia e podia espalhar por aí.
E eu estava sendo idiota mais uma vez. Talvez a Gina não soubesse de nada se eu estivesse fazendo o mínimo que uma mãe deve fazer. A culpa não era dela, Dom, , mesmo que eu quisesse muito bater nele por não me contar das caronas, ou de . A culpa era minha. não me pediu para ir para o hospital, nem nunca controlou meus horários, ninguém além de mim tinha esse poder.
Nem terceirizar mais a minha culpa eu conseguia. Talvez o erro fosse grande demais até para eu relativizar.

- Me desculpe. – Disse ligando o carro. Dom não respondeu.

Depois de tomar um banho, Dom foi até a cozinha e pareceu surpreso com a quantidade de pipoca que eu estava fazendo.

- O que é tudo isso?
- Pipoca. Quer escolher um filme? – Dom ainda estava desconfiado. – Ou eu escolho, tudo bem. – Resolvi.
- O que eu fiz? Você quer conversar, não é? O que te falaram, mãe? – Dom começou a perguntar sem pausas.
- Nada, eu só queria ver um filme com você. Mas já que insiste, o que você fez? – Me sentei no sofá e o encarei por um tempo.
- Nada. – Desconversou. - É que você está estranha.
- É, eu sei. É bandeira branca. – Sorri. – Vamos voltar ao normal agora, vamos ver filmes com pipoca nos dias chuvosos, tomar banho de chuva quando estiver quente, e todas as outras coisas que fazíamos antes.
- Você não vai para o hospital hoje? – Dom perguntou, ainda estava desconfiado. Talvez ele tivesse sentido mais falta da mãe do que eu imaginava.
- Não, hoje eu vou ficar no sofá, e você?
- Tá. – Dom riu e se jogou no sofá.

Nos últimos dias eu estive tão presa no passado e em que quase me esqueci do quanto sentia falta desses momentos. De ficar em paz com e Dom, sem me preocupar com nada, apenas me divertindo. Em algum momento a tinha se dividido em duas, a do presente ficou em Nova York, e para Paradise apenas a adolescente tinha voltado. Eu precisava resolver, tinha muito em jogo para ter uma crise de identidade. Precisava juntar as duas metades que me formavam, só assim eu conseguiria minimamente dar conta dos meus problemas.
No meio do segundo filme Dom adormeceu, chegou sorrateiro, e ficou nos observando da porta.

- Olha quem já voltou. – Disse quando percebi sua presença.
- Que bom ver isso, estava com saudades. – disse e me deu um beijo.
- Acho que todos estamos precisando de coisas assim.
- Que bom que me ouviu. O que ele achou? – perguntou enquanto acariciava o rosto de Dom.
- Ele se assustou, depois ficou desconfiado, duvidou das minhas intenções puras, mas não conseguiu resistir por muito tempo. – Contei e riu.
- Ele está grande demais. – comentou com um sorriso no rosto.
- Nem me fale disso. Eu já estou sentindo alguns sintomas daquela síndrome, como se chama mesmo? A que sua mãe teve?
- Síndrome do ninho vazio. – completou e riu. – Você já sente, é? – Sorriu e me deu um beijo.
- Acredita que ele ainda dorme com massagem nos pés? – Contei.
- Ah, eu também quero. – pediu e se recostou na parede cruzando os braços.
- Quer uma massagem nos pés? – Brinquei me levantando do sofá e o abraçando.
- Pode ser mais que isso, um pouquinho mais. – piscou.
- Só um pouquinho. – Eu ri e puxei para o corredor, nessas horas a porta do quarto parecia distante demais.
- Que horas são? – Dom perguntou. Ele estava com os cabelos bagunçados e o rosto amassado.
- Sete e vinte. Você estava na sala? Achei que fosse parte do sofá novo. – implicou.

Era a primeira vez que cozinhávamos juntos desde que nos mudamos para Paradise. Depois de matar a saudade no final da tarde, precisávamos matar também a fome. Era irônico como nos momentos mais relaxados é que eu percebia o quanto era bonito, o quanto ele era engraçado. Dom se juntou a nós depois do banho, parecíamos a velha família perfeita de Nova York. Rindo de uma frase confusa que Dom havia dito, implicando com por algo do passado dele, sendo felizes, puramente felizes.
Dom estava lavando a louça, picava frutas para a salada e eu estava checando a lasanha no forno. A conversa era sobre como falava, enquanto Dom e eu o imitávamos deixando-o irritado.

- Eu não falo assim. – disse tentando engrossar a voz, enquanto riamos.
- Você pode negar, mas sabe que é verdade. – Eu disse.
- Pelo menos eu tenho sotaque, tenho identidade, estilo. Não sou duplicado igual vocês. – se defendeu.
- Quem ele está chamando de duplicado, Dom? – Perguntei tentando parecer brava. – Você e o Dom são as mesmas pessoas em tamanhos diferentes. Versão de bolso e GG.
- Ei! – Dom protestou. – Eu tenho um metro e cinquenta e cinco. Não sou de bolso.
- Ainda consigo guardar você no armário da cozinha, quer tentar? – propôs empolgado. – Vamos ver se você ainda cabe.
- De jeito nenhum! – Adverti. – Ninguém vai entrar no meu armário! Que ideia.

Quando Dom era pequeno, nós medíamos seu crescimento o colocando dentro de coisas, como: caixas de sapato, gavetas, baús, armários, e todo espaço que ele coubesse. Tudo começou no primeiro mês, quando eu cheguei em casa e flagrei tirando fotos enquanto Dom estava dentro de uma cesta de café da manhã.

- Pai, nós ainda vamos viajar no seu aniversário? – Dom perguntou de repente.
- No meu aniversário? – pareceu confuso, sobre seu aniversário e sobre promessas que poderia ter feito.
- Sim, seu aniversário. É domingo, não é? – Dom quis saber. – É que a gente sempre viaja no seu aniversário.
- Bom, eu não estava pensando nisso. Na verdade, até esqueci que meu aniversário estava para chegar. – confessou.
- Isso é um reflexo da idade, os trinta e oito anos estão aí. Você está velho, querido. – Impliquei.
- Muito engraçada. – riu sem humor. – Acho que seria bom uma viagem, só nós três. – disse sugestivamente me olhando.
- Que legal! – Dom comemorou. – A gente pode ir para um lugar que dê para pescar, você pode me ensinar a pescar com rede, como o tio Oliver faz. – Dom ficou muito animado, eu nem tanto. Deixar por um dia não tinha sido tão ruim, mas deixa-lo um fim de semana inteiro?
- Calma, não é assim também. – o acalmou. – Será que a sua mãe topou?
- Mãe, por favor. Viagem. Aceita. – Dom suplicou.
- Eu não sei. Não preparamos nada. – Tentei pensar numa desculpa boa o suficiente.
- Eu tenho umas folgas pendentes, consigo ir. E podemos fazer as malas depois do jantar e sair amanhã de manhã. – planejou.
- Ir para onde, ? - Questionei torcendo para que ele não tivesse uma resposta.
- Deixe isso comigo, só se preocupe em fazer as malas.
- Mãe, e então, nós vamos, não é? – Dom perguntou.

tinha aquele olhar, o olhar de “diga que sim’’. E eu queria viajar, o dia tinha sido tão agradável, eu sentia falta das nossas viagens, queria ir. Mas tinha o , como eu poderia deixa-lo assim? Sem nem avisar para onde eu ia, se iria voltar.

- O que acha, ? Não precisa se preocupar, tudo vai estar no mesmo lugar quando você voltar. – comentou, ele sabia o motivo da minha indecisão.
- Você pode ir no hospital outro dia, mãe. Mas viajar no aniversário do meu pai é só uma vez por ano. - Dom afirmou.
- Tudo bem, então nós vamos viajar. – Concordei vencida por minhas vozes interiores.

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso, eu entendia sobre o que essa frase se tratava. Eu queria ficar, passaria o fim de semana inteiro no hospital se dependesse de mim, mas Dom havia pedido. Eu não negaria isso a ele, não depois de ver sua animação, de ter percebido o quanto ele sentia minha falta. Na tentativa de me unir a minha versão adulta, eu devia fazer escolhas que não era as mais atrativas, pelo menos não para mim. Meu filho queria viajar, então eu viajaria. Era o certo a se fazer, e eu estava cansada de errar com essas duas pessoas.
Quase junto com o sol nós nos levantamos, iriamos para um chalé na cidade vizinha. organizou tudo numa velocidade invejável, e quase não dormiu na véspera. Eu não dormi também, mas o motivo era outro, estava preocupada demais em como ficaria, se ele sentiria minha falta, se ele pensaria que eu o abandonei. Não consegui parar de pensar nisso, de me questionar, e de ter medo, no fundo eu até queria que sentisse saudades, significaria que ele se importa, que eu faço diferença.
O chalé ficava no alto de uma montanha, junto com mais outros três, rodeados por árvores muito altas, o acesso era por uma estrada de terra esburacada, que com toda certeza, se chovesse ficaríamos atolados. Dois quilômetros antes dos chalés, ficava um lago grande e mais acima uma cachoeira, mas o frio de maio não nos permitiria aproveitar muito.

- Sabe, eu acho que vi um lugar parecido com esse em um filme uma vez. – Comentei.
- Sério? Qual era? – perguntou animado.
- Não sei, acho que foi em sexta-feira treze, ou em o chamado. Não, espere, acabei de me lembrar, foi em a morte do demônio. – Debochei.
- Nossa, você é muito engraçada. – disse ranzinza. – Não é tão ruim.
- , quatro chalés no meio do nada. Sério, você nunca viu nenhum filme de terror? – As férias da família : uma comédia pastelão ou um filme de terror de péssimo gosto?
- É isolado para fugir do caos da cidade, por isso. – defendeu.
- Querido, nós moramos em Paradise. Última vez que tivemos um caos na cidade foi no bingo da igreja valendo dois frangos assados, em oitenta e dois. – Eu ri.
- O que aconteceu? – Dom perguntou.
- Tiveram dois ganhadores, e os idosos começaram uma briga generalizada, dois foram presos. – Me virei para o banco de trás. – Aliás, seu bisavô foi preso. Meu pai teve que ir em várias audiências acompanhando ele depois. Vovô não podia ficar a menos de quinze metros de um outro idoso.
- Você está brincando. – duvidou.
- Não, eu juro. Pode perguntar aos meus pais e meus irmãos. – Assegurei e e Dom riram. Tínhamos muitas histórias de brigas na família, mas geralmente eram histórias engraçadas.
- Chegamos. – anunciou.
- Olha, pai. Tem mais gente aqui. – Dom avisou.

Frente ao outro chalé estava uma SUV preta, parecia ter acabado de sair da loja. Com o barulho da nossa chegada, um casal surgiu na porta do chalé, e depois uma criança.

- Quem são eles? – Questionei.
- Não faço ideia. Não sabia que teriam mais pessoas aqui. – disse.
- Quais as chances de eles serem sequestradores e terem sequestrado aquele menino? – Não custava nada me preparar para eventuais problemas.
- Eu conheço ele de algum lugar. – Ponderou .
- Ela é bonita, ele também. Mas ele é mais. – Observei.
- Achou ele bonito? – quis saber. – O que mais achou dele?
- Sem ciúmes. – Ri e baguncei seu cabelo. – Vamos socializar, vai ficar estranho se ficarmos aqui no carro encarando.

estacionou e nós tentamos fingir alguma normalidade, estávamos todos envergonhados demais. Aparentemente, ninguém esperava encontrar outra família, ou possíveis criminosos.

- Olá. – O homem cumprimentou.
- Como vai? Acho que seremos vizinhos esse fim de semana. – observou.
- É, parece que sim. – O homem riu, tinha um sorriso bonito, do tipo que ilumina qualquer ambiente. – Eu sou Tony, essa é minha esposa Louise e nosso garoto, Alex. – Se apresentou, e a esposa e o filho acenaram. Isso se realmente fossem esposa e filho.
- Eu não acredito. – começou a rir alto, nos deixando confusos.
- , por favor. Não nos envergonhe. – Disse entredentes.
- Eu pensei que te conhecia de algum lugar, mas a última pessoa que pensei encontrar aqui era você. – ainda sorria como um bobo e foi até Tony para apertar sua mão. – Tony é piloto de fórmula um, amor. – explicou.
Certas coisas só aconteciam comigo.
- Olá! – Cumprimentei sem graça, Dom também correu ao encontro de Tony.
- Nossa, eu nem acredito que isso está acontecendo. – sempre gostou de esportes de velocidade, com certeza aquele seria o melhor aniversário de todos para ele.
- , porque não me ajuda com as malas. – Sugeri. – Deixe Tony descansar, sem assédio de fãs.
- Ah, claro. – assentiu, ainda estava empolgado demais.
- Tudo bem, não é incômodo. – Tony falou gentilmente.
- Vamos, . Dom, por favor. – Chamei.

Depois de apertar as mãos de Tony mais duas vezes, e Dom cederam e deixaram a família famosa em paz. Quando pensei em um fim de semana nas montanhas, não imaginei, nem em meus melhores sonhos, encontrar alguém famoso. Eu nem tinha roupa para a ocasião.

- Eu não acredito. – parecia uma criança depois de tomar refrigerante demais, olhando a cada cinco minutos pela janela. – Você viu como ele é simpático?
- , se você ficar asseddo eles, daqui a pouco vão embora. Dê um tempo. – Pedi. – Além do mais, vocês não iam pescar?
- É, mas a gente pesca depois. É o Tony Render. – A última vez que esteve assim, foi quando Dom nasceu.
- Pai, depois do almoço nós vamos pescar? – Dom perguntou.
- E se a gente chamasse o Tony? – pensou alto.
- , você não vai chamar ninguém. Ele não te conhece, ser famoso não o torna seu amigo. – O repreendi.
- Mas a gente devia socializar com eles. – falou.
- Eu acho que eles não querem socializar. – Disse me aproximando da janela que observava o movimento do outro chalé.
- Por quê?
- Porque ninguém que queira socializar vem para um lugar como esse. – Conclui fechando a cortina, encerrando a carreira de voyeur de .

Depois do almoço, conseguimos tirar do chalé e ele enfim aceitou ir pescar com Dom. Ficar sozinha era sempre bom, mesmo num lugar assustador como aquele, e tendo vizinhos famosos, mas eu não deixaria de aproveitar o silêncio. Abri uma cerveja e me sentei na pequena varanda que o chalé tinha, de onde eu estava só conseguia ver os carros e as árvores, nada mais.
A nova vizinha famosa teve a mesma ideia, mas ela tomava algo quente numa caneca maior que a lata de cerveja que eu tinha. Ao me ver, ela sorriu e mostrou a caneca, e eu a lata.

- Às vezes é preciso algo mais forte. – Eu disse.
- Por isso eu prefiro o chá escocês. – Ela apontou para a caneca e sorriu marota. – Isso está cheio de uísque. - E riu alto.
- Mulher! – Eu ri. – Você precisa me passar a receita.

Ela era boa, Louise era o tipo de mulher que te surpreendia. Ela parecia ser séria e calada à primeira vista, mas depois se mostrava espirituosa, gentil e dócil. Já haviam horas que estávamos tomando chá escocês e falando mal dos chalés, mas pareciam só alguns minutos.

- Eu não tenho problema com lugares simples, mas eu juro, quis matar Tony quando chegamos. – Contou. Louise tinha um sotaque francês delicioso de se ouvir.
- Não parece que aquele filme, sexta-feira treze, foi feito aqui? – Perguntei.
- Eu tenho total certeza, Olívia. Tony disse que aqui pelo menos teríamos paz, mas claro, só os caça fantasmas viriam para um lugar como esse. – Louise zombou.
- Desculpe por invadir seu espaço. – Brinquei.
- Imagine, se eu não tivesse alguém para tomar uísque comigo, acho que eu mesma me tornaria a entidade. – Rimos.
- Estão casados há quanto tempo? – Perguntei, já estávamos levemente embriagadas.
- Tem uns seis anos?
- Se você não sabe... – Louise riu alto.
- Eu sempre sou desligada com esses detalhes. Tony sabe até os meses, experimente perguntar para ele depois. – Louise disse finalizando outra caneca.
- Sorte para você. Nem eu nem somos bons com datas. – Assumi.
- Vocês têm quanto tempo de casamento. – Quis saber a outra.
- Já são quase treze anos. Espero não ter entregue minha idade. – Brinquei.
- Nossa, é bastante tempo. Como é estar casada há tanto tempo? – Louise perguntou.
- Bom... – Eu não sabia o que dizer. Como era estar casada a tanto tempo e continuar apaixonada? Eu queria perguntar a ela. – Às vezes parece que somos mais amigos do que cônjuges. – Respondi um pouco sem graça. – E vocês?
- Uma loucura. – Ela riu. – Tony e eu somos pessoas muito diferentes. Ele é simpático, extrovertido, tem milhões de amigos, faz piada de tudo. Eu sou mais quieta, mais tímida, achei que nunca daria certo, eu confesso. Mas temos feito coisas lindas juntos, e eu nem estou falando do nosso filho. – Louise riu. - Eu tenho aquela mesma sensação de frio na barriga que tive quando o vi pela primeira vez. – Confessou. – Acho que temos muito chão até chegar no estágio que você e estão.
- Como vocês se conheceram? – Não queria que o assunto fosse meu casamento, nem eu entendia como ele estava, como funcionava. Por mais que Louise fosse simpática, não queria contar a ela sobre meu fracasso como esposa.
- Eu o vi numa corrida, mas ele não me notou. Tempos depois, eu escrevi uma matéria para um jornal, detonando ele. – Louise sorriu de canto. – E ele veio me questionar, todo cheio de razão. Então resolvi dar uma chance e fazer uma entrevista, para tentar ajuda-lo. Na época, ele era muito cobrado, eu e outros jornalistas falávamos muito mal dele, com razão. – Louise encheu a caneca com mais uísque e sorriu, a lembrança devia ser boa, ela não conseguia parar de sorrir. – Ele queria se provar, viver no limite. E aí, nós nos conhecemos.
- Você não consegue disfarçar a carinha de apaixonada, Louise. – Impliquei.
- É porque eu sou. – Ela riu. – Quando eu vi aquele homem lindo, me procurando, querendo brigar comigo, eu me apaixonei. Já achava ele lindo, mas aquele dia....– Louise suspirou. – Eu poderia falar do Anthony o dia todo sem me cansar.

A atmosfera ao redor de Louise era aconchegante e romântica, quase conseguia ver os corações subindo enquanto ela falava. Eu não era assim, nunca fui. Talvez aquele amor adolescente dos filmes fosse mesmo real, ou talvez Louise só estivesse iludida, vivendo uma paixão, paixões são assim. Por outro lado, estavam casados, com filho, quase seis anos de casamento, não era qualquer coisa. Eu estava tocada pela emoção que Louise emanava, confusa e talvez, bem no fundo, com um pouco de inveja.

- Oi, passarinho. – A repentina chegada de Tony com o filho me despertou. Louise abraçou o menino e afastou a caneca com uísque.
- Louise, não acredito que você está dando uísque para nossa vizinha. – Tony a repreendeu. – O que vão pensar de nós?
- Ela que começou, ela tinha cerveja. – Louise se defendeu e riu.
- Nós precisamos conversar. – Tony disse se dirigindo a mim. – Eu tenho um carregamento de uísque, mas minha esposa não lembrou de trazer nenhuma cerveja, será que eu poderia fazer uma troca?
- Feito. Posso colocar gim nisso? fica muito hiperativo quando toma. – Negociei com Tony.
- Ah, esse é o segredo dele. – Tony entendeu. – Eu o vi agora, nadando no rio. Quantos graus fazem, doze? – Tony estava incrédulo.
- O que esse homem não faz por um peixe. – Falei. – Por isso eu sempre ando com álcool.
- Você não quis experimentar a água, Render? – Louise indagou.
- Ainda não estou maluco. Eu gosto de fogo, de coisas quentes, deixe a água fria para o . Ele parece ser uma dessas pessoas que gosta de extremos, eu estou muito bem em cima do muro. – Tony brincou.
- Vamos tomar um banho, garotinho. – Louise falou.
- Você está falando comigo ou com ele? – Tony perguntou.
- Com os dois. – Louise se levantou. – Por que você está com esse cheiro horrível?
- É uma longa história. – Tony disse abaixando o queixo e fazendo bico.
- Eu não quero nem imaginar. – Louise balançou a cabeça em negação. – Nos vemos depois, . Eu preciso cuidar das crianças agora.

Louise e Anthony fecharam a porta, e e Dom surgiram na clareira dos chalés. estava completamente molhado, o peitoral definido marcava a blusa cinza, o casaco estava nas mãos, o cabelo pingava. Era incrível como aquele homem sempre parecia estar saindo de um ensaio fotográfico em uma revista de homens lindos. Dom estava mais atrás segurando um peixe quase do seu tamanho, seu sorriso enchia o rosto de orelha a orelha.

- Mas o que é que aconteceu? – Perguntei surpresa e animada.
- Ah, mas você não vai imaginar. – respondeu orgulhoso.

A manhã de sábado estava um pouco mais quente, segundo , o domingo seria ensolarado. e Tony resolveram fazer hambúrgueres. experimentou toda roupa que tinha trago, até achar alguma que ele considerasse decente. Alex estava conosco, passou a manhã ajudando Dom e com a lenha para uma fogueira, Tony e Louise deviam estar se divertindo.
Quando enfim chegaram até os fundos do nosso chalé, já passava da hora do almoço. Tony estava animado, e Louise resplandecendo elegância e gentileza como no outro dia.

- Eu vim pela cerveja, . – Tony confessou.
- Quantos eu consigo ganhar se eu vender o segredo da sua fraqueza para os concorrentes? – Provoquei Tony.
- Que horror. É com esse tipo de pessoa que você se relaciona, ? – Questionou beliscando um pedaço de carne e se sentando.
- Aqui. – Disse abrindo a garrafa com a quina da mesa e a servindo a Tony.
- Não. – Anthony disse, chocado. – Olha o que essa mulher fez. Está vendo, Louise? É isso que eu sempre te digo, não se vê coisa assim na França. – Garantiu.
- A primeira vez que eu vi essa mulher, ela abriu uma cerveja com o cotovelo. – contou enquanto acendia a churrasqueira.
- Você precisa me ensinar. – Tony pediu colocando as mãos na cintura.

Tony e Louise eram o tipo de casal que contagiava qualquer ambiente. Estavam felizes, leves, rindo, brincando. Tony não deixava de olha-la, o tempo todo, mesmo que ela estivesse de costas ou que estivesse fazendo outra coisa, seus olhos sempre a seguiam. Louise também não ficava atrás, antes que Anthony dissesse algo, ela já sabia. Antes que ele pedisse uma cerveja, ela já estava com uma para servi-lo, eles se comunicavam com o olhar, o tipo de coisa que você só vê em filme. Mas por mais que fossem famosos, ricos, era real, o sentimento do casal era palpável, daqueles que te faz querer ter um igual, sentir as mesmas coisas, viver a mesma coisa. Talvez aquele amor arrebatador realmente existisse, mas fosse para poucos, isso explicaria tudo. Talvez eu só não havia sido contemplada.
Sendo sincera, não podia reclamar. Tinha um casamento feliz e estável, um marido de beleza estonteante, segundo minha opinião, e um filho maravilhoso. Não era igual, o sentimento entre nós não era como o do casal famoso, mas também tinha seu valor, não tinha?

- Então, . disse que você era chef em Nova York. – Louise disse me despertando.
- Pois é, eu trabalhei com isso por uns dez anos. Logo que terminei as especializações, Dom nasceu. Sabe como funcionam essas coisas, precisei parar. – Contei. – fez a parte dele como pai, obviamente, mas não foi suficiente.
- Mas no final, quem amamenta somos nós. – Louise completou e riu. – Tony também foi muito presente, e para minha sorte, meu trabalho me ajudou, podia escrever de casa.
- Eu treinei bastante, consegui criar receitas novas, mas foi só. Só consegui voltar depois, quando Dom estava com quase três anos. Mas tive que mudar meu horário, não podia ficar tanto tempo fora trabalhando, como é o normal. – Eu disse e Louise assentiu. – Na verdade, acho que trabalhar com isso, na cozinha e ser mãe não são coisas muito possíveis. Não se eu quiser colocar a mão na massa. – Confidenciei a ela.
- Eu escrevi um artigo para uma revista, quando Alex nasceu. Era sobre mães no esporte, é chocante como é uma batalha para elas. Para todas nós, para ser sincera. Ser mulher não é fácil, ser mãe é ainda mais. Elas não recebem os direitos, são afastadas e não conseguem voltar, tem que reduzir o tempo de trabalho, e uma série de coisas. E os maridos seguem a vida, como se nada tivesse acontecido. – Louise falou. – E sabe a melhor parte disso? Pelo menos é a parte que eu mais gosto. – Sorriu.
- Qual é? – Perguntei tomando um pouco de cerveja.
- Nenhuma delas, absolutamente nenhuma, se arrepende ou preferia não ter tido filhos. – Louise revelou.
- É, isso. É como dizem, ser mãe é padecer no paraíso. – Eu disse sorrindo.
- Um brinde a maternidade e a padecer no paraíso. – Louise e eu erguemos os copos. – Eu vou usar essa frase.
- Fique à vontade.

Se me contassem que voltando para Paradise eu reencontraria , me aproximaria dele, conheceria um casal famoso, comeria hambúrgueres caseiros com eles, eu jamais acreditaria. É sobre aquilo, as voltas que a vida dá. É quase impossível prever, e geralmente é bem melhor do que imaginamos. Essa é a beleza de se estar vivo, as surpresas cotidas. Nossas vidas são sempre atravessadas por outras pessoas, pelas escolhas de outras pessoas.
Quando voltei, sequer conseguia ouvir o nome do meu irmão sem vomitar, ou nem me passava pela cabeça frequentar a casa dos meus pais, estava conformada com meu casamento amistoso, e bem com quem eu era. Hoje eu estava questionando minhas escolhas, me achando uma pessoa vazia e incomodada com meu casamento, me fazendo vinte críticas por minuto, pensando em contar aos meus pais sobre Louise e Tony, e pensando até em causar inveja no meu irmão contando a ele como Tony era simpático. Era um furacão.

- . – Louise chamou. – Você estava em que mundo?
- Você me chamou? Desculpe. – Disse sem graça. – Pensando na vida.
- Entendo. – Ela riu. – Eu te perguntei, o que você tem feito agora? Se pretende voltar a cozinhar.
- Desculpe, eu nem escutei. – Me desculpei novamente. – Eu ainda não sei. Na verdade, quando eu voltei para minha antiga cidade, eu pensei nisso. Mas muita coisa aconteceu, e eu acabei deixando isso um pouco de lado. – Expliquei.
- O que você tem feito? – Louise insistiu. – Desculpe, a jornalista em mim não dá trégua. – Disse envergonhada.
- Tudo bem, não é sempre que sou entrevistada por uma jornalista de verdade. – Brinquei. – Eu não tenho tido tempo nem para pensar sobre isso. Acho que eu cuido deles, e fico no hospital a maior parte do tempo. – Assumi. – Tem uma pessoa, um antigo conhecido, quando voltei a cidade, descobri que ele estava doente. E agora eu tenho ficado com ele no hospital, de companhia. – Contei a Louise.
- Que pena, eu sinto muito. – Lamentou.
- Eu também. – Sorri triste. - Ele não tem família, ninguém vivo pelo menos. Acho que é mínimo que eu posso fazer, ficar ao lado dele.
- E é grave? – Questionou a outra.
- Sim, pelo que eu sei sim. – Suspirei e tomei mais um pouco de cerveja. - É difícil, ele era um homem livre, cheio de vida. É difícil vê-lo daquele jeito, no hospital, fragilizado, sem expectativas.
- Eu imagino que sim. – Louise sorriu dócil. - Vocês se conhecem desde quando?
- Desde que eu tinha uns treze anos. – A lembrança me fez sorrir. - Ele é mais velho que eu, me lembro de vê-lo na praia, e com meu irmão algumas vezes. Ele tinha um sorriso lindo, ainda tem, mas hoje em dia quase não sorri. – Tomei mais um pouco de cerveja. - Ele é aquele tipo de pessoa que te contagia, e é tão gentil, sempre estava ajudando alguém, era voluntário em vários lugares. – Sorri me lembrando das coisas que fazia antes, ou pelo menos das coisas que eu me lembrava que ele fazia.
- Parece alguém verdadeiramente bom. – Louise comentou enquanto abria outra cerveja.
- Ele é. Quando eu o reencontrei ele não estava mais falando, agora ainda não fala, mas nós temos um código. Eu tirei de um filme que vi, ele pisca uma vez, para sim, e pisca duas, para não. Nos comunicamos assim, eu sempre sei o que ele quer dizer só com o olhar. Na primeira vez que ele me respondeu assim, piscando, eu quase tive um ataque, meu coração quase saiu pela boca, eu fico arrepiada só com a lembrança. – Mostrei meu braço a Louise, e ela sorriu grande.
- Você também fala de mim assim quando eu não estou perto, Louise? – Tony questionou de repente ao surgir atrás de Louise e ela me lançou um olhar furtivo.

Não entendi o que ela quis dizer com aquele olhar.

- Essa é a melhor viagem da minha vida inteira. – falou enquanto se deitava.
- Que bom que está feliz. – Respondi distraída.
- Amanhã, se o sol aparecer, vamos todos para a cachoeira. E depois comer o meu bolo, e vamos fazer outro churrasco. – contou seus planos.
- Vamos sim.
- O que foi? – Perguntou se virando para mim. – Você está estranha desde que Tony e Louise foram embora.
- O que você acha deles como casal?
- O que você quer dizer? – perguntou confuso.
- Como casal, marido e mulher. A relação deles, o casamento, o que você acha?
- Ah, . – se ajeitou na cama e ponderou um pouco. – Eles são bonitos juntos, combinam. Parecem felizes, Tony fala o tempo todo dela.
- Ela também fala muito dele. – Observei.
- Então, eles estão apaixonados, é bonitinho de ver. Não sabia que ele era assim, família. Só aumentou a admiração. – falou. – Mas por que seu interesse nisso? Alguém falou alguma coisa?
- Não, eu só não estou acostumada a ver casais assim. – Comentei.
- Famosos? – Apaixonados, pensei. – Nem eu estou, acho que ninguém está. – riu, me deu um beijo e virou para o lado.

O domingo estava quente e ensolarado, perpetuando a tradição de que todos aniversários de eram ensolarados. Como programado por ele, estávamos todos na cachoeira. estava na água com Dom, e Tony, Louise e Alex sentados nas pedras comigo, estávamos fofocando sobre famosos e tirando algumas fotos.

- Diga a verdade, . – Tony pediu. – Quantas horas ele passa na academia? – Tony se referia a que estava sem camisa, com água na altura da cintura, exibindo um físico invejável.
- Por incrível que pareça, ele corre duas vezes por semana, e faz musculação três. – Contei. – Ele é assim desde que o conheci, fazia natação também.
- Eu tinha um segurança que me colocava medo. Ele era enorme, um trator. E ele ficaria pequeno perto do . – Tony disse fingindo estar chocado.
- Não exagere. – Louise piscou. – Não é assim. Aquele segurança tinha quase o mesmo tamanho que ele.
- Me deixe elogiar o homem, Louise. – Pediu, fingindo estar contrariado.

Aparentemente a viagem estava servindo para me mostrar que não estava apaixonada pelo meu marido, e que ao mesmo tempo, ele era o homem mais bonito do planeta. Enquanto e Dom se divertiam, minha cabeça reprisava todos os momentos da nossa união, tentando lembrar se alguma vez eu o tinha olhado da mesma forma que Louise olhava para o marido, ou alguma vez que tivesse sorrido para mim da mesma forma que Anthony sorria para a esposa.

- Mãe, meu pai disse que dá para pular daquela pedra. Eu posso? – Dom perguntou inocente, quando eu entrei na água.
- Obviamente, não. Não escute seu pai, nunca. – O repreendi e ele deu de ombros.
- Água boa, não é? - perguntou, me abraçando por trás.
- Você disse ao Dom que daria para pular daquela pedra? – Questionei.
- Eu disse que é possível. – Respondeu enfatizando a última palavra. – Ele está se divertindo, disse que quer voltar no próximo ano. Poderíamos combinar com o Tony.
- É, talvez eles consigam vir. – Concordei. Realmente era uma boa ideia, afinal, quem não quer férias anuais com Louise e Tony Render?
- E você, se divertindo? – Perguntou.
- Eu estou. – Disse e me virei para encara-lo. – Tem sido um bom fim de semana. Louise é uma companhia agradável, parece que nos conhecemos desde sempre, Tony é um doce, Alex é muito educado. E eu senti falta de viajar com vocês, mesmo que todas as atenções estejam com Tony e não em mim. – Impliquei fingindo estar enciumada.
- Querida, prioridades. – disse. – Ganhe um grande prêmio, depois nos falamos.
- Que idiota! – Disse e bati de leve em seu peito, fingindo estar muito magoada, gargalhou.
- Você acredita nisso? Bem ali, o Tony Render. Será que se eles postarem alguma foto, vão aparecer fotógrafos na nossa casa?
- Eu acho bom que não. – Disse.
- Você não quer ser famosa, querida? Pense no que o Giovanni diria.
- É, pensando assim... – A ideia era boa.
- Meus parabéns, . – Tony falou enquanto o abraçava. – Qual o sabor de suplemento que tem no bolo? Chocolate ou morango? – Zombou.
- Nenhum, o bolo é falso. Vamos comer ovos cozidos e suco detox. – entrou na brincadeira. – Não achou que teria bolo, não é?
- Não acredito que você seria capaz dessa atrocidade. – Tony fingiu estar chocado, colocou uma mão no peito e se escorou na parede.
- , os ovos. Pode pegar. – Ordenou .
- Você está expulso do fã-clube, ! – Tony exclamou.
- Eles vão ficar nisso até ano que vem. – Louise disse. – Eu conheço bem.
- Acho que devíamos cortar o bolo, então. – Eu sugeri.
- Vamos deixar eles aí falando sozinhos e entrar. – Dom propôs.
- Se você esconder o bolo do Tony, aí sim, ele vai subir pelas paredes. – Louise contou, e nós rimos.
- Ninguém na escola vai acreditar que eu conheci o Tony. – Dom disse quando Louise se afastou de nós.
- Que sorte, não é? Termos vindo para cá justo nesse fim de semana. Você tirou fotos com ele?
- Sim, tirei várias. Tia Louise disse que vai escrever uma matéria sobre esse fim de semana. – Contou.
- Tia Louise?
- Ela que disse, mãe. – Dom se explicou, e eu ri. – Podemos chamar eles para o meu aniversário?
- Querido, podemos tentar. Mas eles moram muito longe, e são muito ocupados. – Expliquei. – Mas quem sabe...

Depois do bolo, Tony e Louise anunciaram que estariam indo. O mundo de e Dom desabou. Depois de trocarmos contatos, abraços e recomendações sobre a viagem e as competições, eles estavam prontos para partir.

- , eu espero que aquela pessoa, de quem falamos, fique bem. – Disse sorrindo enquanto segurava minha mão. – Vou te dizer algo que eu demorei para entender, mas quando consegui, mudou minha vida. Pare de se esconder da vida, viva. – Ela enfatizou.
- Eu vou me lembrar disso. – Assim que entender o que quis dizer, pensei.
- Aí, eu acho que vou chorar. – disse assim que a família entrou no carro.
- Segura sua onda, Rambo. – Brinquei acariciando os cabelos de Dom.
- Enfim em casa. – suspirou. – Se tivesse que dirigir por mais meia hora, eu acho que dormiria no volante.
- Eu disse para me deixar trazer o carro, mas você é teimoso demais. – Falei.
- Eu disse que dormiria, não que dormi. Eu não tive culpa, o trânsito estava ruim. E você sabe que eu sempre fico com sono quando pegamos trânsito. – se explicou. Era quinta vez que ele se explicava desde que saímos do chalé.
- Se você não tivesse saído tão tarde, não teríamos pego trânsito. – Resmunguei.
- Será que o Tony pegou trânsito? – perguntou, e eu revirei os olhos.

A viagem de volta sempre era mais longa que a ida e tinha tido a brilhante ideia de viajar à noite para fugir dos engarrafamentos, acabamos pegando um de mais de dois quilômetros. Dom nos ajudou com as malas, e enfiam íamos todos dormir. Não conseguia me lembrar da última vez que fiquei tão cansada com uma viagem, meus desejos eram apenas um banho fervendo e uma cama quente.

- Dom, veja se tem alguma ligação perdida ou coisa assim. – pediu e Dom foi conferir. – Acho que ninguém vai querer jantar. – Comentou.
- Eu me demiti, estou indo dormir. – Falei antes que tivessem a brilhante ideia de sentir fome. – Algum recado, querido? – Perguntei a Dom.
- Não, mãe. – Afirmou.
- Então, boa noite. – Beijei seu rosto. – Não me acordem amanhã. Nem se a casa estiver pegando fogo. – Avisei, um pouco ameaçadora.

Capítulo 8

Não acordei tão tarde quanto gostaria, mas tarde o suficiente para quase perder a hora do almoço. Uma das coisas que eu mais sentia falta da juventude era dormir sem ter hora para acordar. Uma liberdade boa, não ter rotina, não ter horários. Sendo uma mulher casada e mãe, agora eu tinha responsabilidades mais urgentes, como preparar o almoço dez minutos depois de acordar.
A campainha avisou que eu teria alguma visita indesejada. Estava de pijamas, cozinhando várias coisas ao mesmo tempo. Meus planos eram terminar o almoço, tomar um banho e me preparar para fingir ter acordado as sete da manhã.

- Você. Oi. – Descobri Giovanni sorrindo e animado do outro lado da porta. De todos os possíveis visitantes, eis o pior.
- Oi. Não vi mais você, resolvi aparecer. – Ele explicou, estava alegre. – Posso entrar?
- É, entra. – Respondi sorrindo amarelo.
- Eu estive aqui no sábado. – Giovanni contou. – A casa é ótima, tem quintal atrás? – Perguntou enquanto passeava pela sala e corredor.
- Nós viajamos, foi aniversário do . Sim, temos quintal. Alguma outra pergunta? – Não que eu fosse uma pessoa tão desagradável, é só que eu só sabia lidar assim com meu irmão, era assim desde que me lembro.
- Desculpa a entrevista. – Giovanni riu. Aparentemente, ele ignorava minha grosseria. – É uma casa bonita, de qualquer jeito e parece bem grande, Dom deve gostar. Ele está na escola?
- Sim, e no trabalho. É, ele gosta, mas não aproveita muito, fica mais jogando, ou na televisão. – Expliquei, me atendo as panelas, Giovanni se aproximou da ilha da cozinha e ficou ali me observando cozinhar.
- É a geração, acho que todos são assim, Jack pelo menos é. Nós lutamos para ele ir para fora. – Giovanni contou. – Quantos anos fez? Devíamos sair para beber, comemorar. – Sugeriu.
- Trinta e oito. Fale com ele, disse que queria sair para jogar sinuca, ele vai gostar da ideia. – Garanti.
- Devíamos marcar um jantar, um almoço. Todo mundo. – Giovanni estava realmente focado em socializar.
- Quem sabe. – Eu não tinha o mesmo espírito, nem estava com ânimo para aturar a família toda reunida.
- Não é porque você se isolou em Nova York que temos que continuar assim. – Não acredito que ele está fazendo esse drama todo. – Nós somos só três, não precisamos esperar alguém morrer para pararmos com essas brigas de criança.
- Quem você está chamando de criança? – Indaguei o encarando, tinha na mão direita a faca que cortava as cebolas.
- Você nem está olhando para mim enquanto eu falo com você, . – Giovanni falou. – Eu percebi, aquele dia, que você ficou me provocando o tempo todo, falando da Carly e de tudo.
- Eu? – Desconversei. – Eu só falei o óbvio. Mas como sempre, tudo é sobre você, não é?
- Por favor, você sumiu do mapa e se achou no direito de ficar brava porque eu e Susan somos os padrinhos de Jack e não você. – Ah, então era sobre isso.
- Giovanni, todo mundo está cansado de saber que você faz de tudo para chamar atenção. Dos nossos pais, de todo mundo. Nem amigo do Ted você era, e aí se torna padrinho do filho dele? Por favor. – Estávamos tendo uma briga?
- Você não muda, não é? – Giovanni disse depois de um longo suspiro. – Continua egoísta. Você realmente acha que a vida de todo mundo continuou do mesmo jeito, só a sua que mudou. Que você ainda é mais legal ou melhor que todo mundo, mesmo sendo uma babaca. – Giovanni falou, seu tom era duro, austero.
- Você só quer isso, marcar coisas, para mostrar o quão bom você é. Para ficarmos todos te aplaudindo e babando. Por isso, eu e Oliver nunca estamos perto. – Expliquei enquanto fazia a melhor cara de nojo que conseguia.
- Ah, não. Acorde, . Você nunca está por perto porque só pensa em você e nas coisas que quer. Oliver também, ou nunca notou. – Giovanni questionou. – Oliver morou em Nova York por quase um ano. Quantas vezes ele foi visitar a irmã querida e o sobrinho? – O tom de voz e as perguntas de Giovanni cortavam tanto quanto uma faca quente na manteiga gelada.
- Ele não morou em Nova York, só ficou um tempo lá. – Expliquei, tentando justificar meu irmão.
- É, ele ficou um tempo lá, quase um ano. Sabia que ele tem um apartamento lá? – Giovanni indagou, depois sentou em uma cadeira, apoiou os rostos nas mãos, os cotovelos na ilha e ficou me encarando.
- O que Oliver faz não é da minha conta. Por que você insiste em tentar joga-lo contra mim? – Perguntei magoada.
- É simples, eu não tento jogar ninguém contra ninguém. Eu gosto de apresentar os fatos, e você faz o julgamento. – Giovanni parecia estar empenhado demais em queimar o filme de Oliver. – Você não estava aqui, nunca esteve. Pegou suas coisas, e sumiu. Nunca mandou um oi para ninguém. O máximo que eu soube de você foram mensagens que alguns anos você mandava nos aniversários. Eu me casei, Ted e Natalie se casaram, tiveram o Jack, morreram e você sempre era a pessoa importante demais para se incomodar com o resto do mundo, com as pessoas daqui. E o Oliver, a mesma coisa. Oliver fez o que quis, sempre. Ele viajou o mundo todo. Só voltava para a casa da minha mãe quando ficava sem grana, inclusive era por isso que ele estava aqui. – Giovanni sempre se achava o dono da razão, sempre o mais certo, o que devia ser ouvido. Ele adorava jogar as verdades sobre os outros, nunca as sobre ele. Geralmente, com intuito de magoar, e as vezes ele conseguia o que queria.
- Oliver vai embora? – Perguntei confusa.
- Não sabia? Ele vai no final do mês, Bangladesh. – Giovanni disse, vitorioso. – Está vendo? É disso que eu estou falando. A diferença entre você e ele, é que ele não cobra nada de ninguém. Ele sabe bem o que é e o que faz. – Giovanni falava alto, e tinha as mãos espalmadas sobre a ilha, como se fosse se levantar a qualquer momento. – O problema não é você sumir, cuidar da sua vida. O problema é você voltar se achando superior a todo mundo, você nunca fez nada para ajudar ninguém, não tem direito nenhum de cobra coisa nenhuma.
- Escuta, Giovanni, se você acha que pode vir até a minha casa, e sem motivo, ficar falando essas coisas para mim... – A chegada repentina de Dom interrompeu minha resposta.
- Oi. – Dom cumprimentou, pela sua expressão confusa, devia ter escutado algo.
- Oi, Dom. Como está? – Giovanni se levantou e o abraçou.
- Oi, tio. – Dom e Giovanni pareciam ter uma certa familiaridade de que eu não estava ciente. – Nós fomos viajar. O Tony Render estava lá, meu pai me ensinou a pescar com rede, eu tentei fazer como você, mas com a vara é bem mais fácil. Meu pai pegou um peixe enorme com as mãos. E o Tony fez hambúrgueres com a gente.
- Quem? – Giovanni perguntou e sorriu. – Você tem que contar uma coisa de cada vez.
- Você vai ficar para almoçar, não é? Eu te conto tudo. – Dom perguntou. Ele estava empolgado?
- Oi, Dom. Também estou bem, obrigada por perguntar. Banho, agora. – Ordenei enciumada.
Dom cumprimentou Giovanni mais uma vez, com um toque especial e nos deixou.
- Mas o que é isso? – Questionei.
- Nós saímos algumas vezes. Eu, , Oliver e Dom. – Giovanni explicou.
- E porque eu não sabia disso?
- Se seu marido não contou, é porque sabe que você faria cena, do mesmo jeito que está fazendo agora. - Giovanni esclareceu.
- Em menos de uma hora você já me chamou de imatura, egoísta, mimada. Já é o suficiente por hoje. – Disse apagando as chamas e finalizando o almoço. – Você não tem um trabalho?
- Tio, você tem que ver as fotos que nós tiramos. Tem o Tony no aniversário do meu pai, tem a gente na cachoeira... – Dom contou animado, de volta a cozinha.
- Vamos marcar um dia, eu quero que você me mostre tudo e me explique que história é essa com Tony Render, Dom. – Giovanni se levantou e se espreguiçou lentamente. – Eu não trabalho hoje, . Tirei o dia para fazer visitas. Fui na minha mãe, aqui e agora vou para o hospital. – Explicou.
- Aconteceu alguma coisa? – Dom perguntou.
- Vou ver um amigo, me ligaram do hospital hoje. – Giovanni explicou triste.

A palavra “hospital” e “” começaram a piscar na minha mente de repente. Como eu poderia ter esquecido? Deveria aproveitar e acompanhar meu dócil irmão até o hospital. Mas deixaria Dom sozinho em casa?

- Não ligaram para você, ? – Giovanni perguntou docemente.
- Para mim? – Como assim? Pensei. – Por que me ligariam?
- Soube que você tem o visitado, me disse. Achei que tivessem te avisado.

Era um pesadelo.
Só poderia ser um pesadelo. Eu saía por um fim de semana e de repente tudo mudava. O chão sumiu, estava flutuando, insegura, prestes a cair. Meu estômago era um buraco negro, que me sugava à medida que eu respirava. O ar se tornou tóxico, a cozinha insuportavelmente fria, tudo a minha volta era como um filme antigo, mudo e cinza.

- Ninguém me avisou. – Disse tão baixo que duvidei que Giovanni tivesse escutado.

Dom me olhava assustado, Giovanni caminhou até mim e segurou minhas mãos.

- Você está bem? Está gelada. – Constatou. – Dom, pegue um pouco de água.
- Por que ninguém me avisou que ele estava mal? – Indaguei ainda tonta.
- Talvez ligaram no fim de semana. – Ponderou Giovanni. – Me deixe ver.

Dom parecia estar assustado, talvez pelo meu estado. Quando me entregou o copo com água, estava quase tão transparente quanto o líquido.

- Aqui, tem umas cinco ligações do hospital. – Giovanni contou. – Desde sexta.
- Dom... – Eu entendia a reação dele. Não era por minha causa, pelo menos não pelo meu estado atual. – Posso ir para o hospital com você? – Perguntei.

A viagem até o hospital durava cerca de quinze minutos, mas pareciam quinze anos. A culpa era minha, eu não deveria ter deixado sozinho. não entendia, não entendia o que estava acontecendo, eu não devia ter dado ouvidos a ele. Tive a chance de ficar com , ele estava até melhor, e então eu estraguei tudo. As palavras de Giovanni também ecoavam na minha cabeça. Egoísta. Eu fui egoísta, não é? Deixei sem nem ao menos me despedir.
Eu estava prestes a vomitar, minha cabeça doía, não tinha ar suficiente para respirar. Dom estava no banco de trás, e eu ao lado do meu irmão. Giovanni me observava preocupado, seus ombros estavam tensionados, mandíbula travada.
Quando enfim foi possível enxergar a fachada do hospital, parecia que o banco do carro estava completamente eletrificado. Eu sentia o choque por todo meu corpo, sendo mais um estímulo para que eu corresse para dentro do hospital. Sai do carro sem sequer olhar onde pisava, nem para os lados ao atravessar a rua. Levei apenas alguns segundos para chegar até a porta do quarto, e mais tempo que o normal para conseguir girar a maçaneta.
Me lembrava do último dia que o havia visto, o beijo em seu rosto, a notícia da melhora. Me lembrei também de quando o reencontrei. O desespero, o cheiro do quarto, o estado que ele estava, sua aparência. Talvez agora, ao abrir aquela terrível porta, eu me deparasse com ele do mesmo jeito que encontrei, caminhando para a morte.
Era demais para mim, demais para segurar. As lágrimas surgiram da mesma forma que a água quando uma barragem se rompia. Sem fim, fortes, incontroláveis, doloridas. Doía em mim a dor que ele poderia estar sentindo, doía a dor que eu poderia ter causado, a dor que eu sentia, o medo de perde-lo mais uma vez. Os sentimentos que eu carregava desde o primeiro dia, mas que ainda não tinha externalizado, agora se tornavam pesados demais.
Encostei na parede frente a porta, e me deixei dissolver até o chão. Dissolver como as minhas lágrimas, dissolver junto com tudo que eu achei saber e ser, e que se mostravam máscaras e mentiras. As palavras de meu irmão, a culpa, o medo, a negação. Estava apavorada.
Dom e Giovanni chegaram ao corredor, e foram ao meu encontro. Dom se abaixou e ficou em silêncio, ao meu lado. Giovanni, na minha frente, tentava me acalmar acariciando meus ombros e cabeça. Ninguém disse nada, meu irmão não me julgou, meu filho não me culpou, só me acolheram.
Depois de quase uma hora chorando, consegui me recompor minimamente. O médico, Rafael, também notou nossa presença, e teve a sensibilidade de me dar um tempo antes de aparecer.

- Doutor. – Giovanni cumprimentou o médico.
- Boa tarde. Vocês precisam de algo? – Rafael perguntou, ele tinha um olhar terno, e parecia preocupado com nosso estado. Eu estava péssima, Dom visivelmente assustado, e Giovanni também não estava nos seus melhores momentos.
- Nós viemos pelo . Soubemos que ele não está bem. – Explicou Giovanni.
- Eu estava viajando, não sabia. Por isso não aparecia antes, eu ... – Tentei me explicar, e recebi um olhar compreensivo e doce como resposta por parte do médico.
- Bom, houve uma piora importante. Não sabemos ainda do que se trata. Pode ser algum tipo de agravo da síndrome, nós não entendemos bem como ela funciona. Pode ser uma pneumonia, alguma falência sistêmica, ou sepse. Ainda estamos investigando. – Rafael relatou.
- Se você puder ser mais claro, doutor. – Giovanni pediu.
- Não sabemos ainda do que se trata, pode ser algo simples, ou não. É só isso que temos por enquanto. – Rafael parecia agora tão triste quanto eu.
- Nós podemos vê-lo? – Perguntei impaciente e ansiosa.
- Um de cada vez, e por pouco tempo. O quadro é delicado, não podemos estressar muito o nosso amigo. – Orientou.
- Pode ir primeiro, . Eu fico aqui com Dom. – Meu irmão cedeu e eu aceitei.

Talvez Rafael soubesse da minha falta de coragem para abrir a porta, ele mesmo resolveu fazer isso, praticamente me empurrando para dentro do quarto. não estava acordado, tinha fios presos ao corpo, mas não estava mais tão esquelético quanto antes. O quarto tinha um cheiro diferente, mas não era o mesmo do primeiro dia. Provavelmente as lágrimas já estivessem marcando o chão no lugar que estava parada. Era difícil vê-lo naquela situação. Novamente.

- Oi. – Disse entre soluços e me aproximei do leito. – Me desculpe. Eu não podia ter deixado você. Eu sinto muito. – Talvez eu estivesse chorando mais num dia do que havia chorado a vida inteira.

Me sentei na cadeira de sempre, e apoiei a testa no colchão. Não conseguia nem mesmo olha-lo ali, tão frágil. Não era assim que eu o havia deixado, mas considerando que eu nem deveria ter ido, não podia reclamar. O que eu deveria ter feito? Dizer a Dom e a que não podia viajar? De qualquer forma, eu teria feito alguém sofrer. Todas as minhas escolhas davam em um beco sem saída, eu não conseguia tomar nenhuma decisão sem magoar alguém.
Ao voltar meus olhos para seu rosto, me assustei com um acordado e me encarando. Seu olhar era confuso, e existia um quê de ressentimento, eu conseguia sentir.

- Eu sinto muito. – Continuei entre soluços. – Eu não devia ter ido, ou pelo menos devia ter te avisado. Eu sinto muito. – respirava com dificuldade, seus pulmões chiavam tanto que era possível ouvi-los de onde eu estava.

me observava sem piscar, e talvez pela primeira vez, eu não pudesse entender o que seus olhos queriam me dizer. Era como se ele estivesse com dor, agonia, sofrendo. Talvez sua piora fosse maior do que estavam prevendo. não mexia um músculo, estava imóvel. Uma estátua, com olhos bem vivos, encarando minha alma.

- Eu não vou sair daqui. – Assegurei segurando suas mãos. – Não vou nunca mais sair do seu lado, eu prometo. Não vou deixar você sozinho, nunca mais. – Prometi.

Giovanni bateu na porta, e a abriu, disse que eu deveria deixar descansar, ele também queria vê-lo um pouco.

- Eu tenho que ir agora. Mas eu volto amanhã, para ficar com você. – Prometi e piscou uma vez. – Descanse, fique bem. – Disse e beijei sua testa.

No último encontro, um beijo semelhante foi dado por motivos bem diferentes e gerou reações bem distintas. Desta vez, era como se ao mesmo tempo que eu lhe assegurava que estaria com ele, também me certificasse de que se algo pior acontecesse, teríamos nos despedido. Foi talvez o beijo mais demorado e dolorido que havia dado em toda vida.
Quando sai do quarto, novamente a tormenta de lágrimas surgiu e eu só queria desaparecer. Deixei meu irmão, Dom e o médico no corredor e tentei correr para longe de mim, longe dos meus pensamentos.
O jardim do hospital era um dos poucos espaços vazio àquela hora. A água esverdeada do lago refletia as árvores e o sol da tarde, alguns pássaros cantavam longe, e era possível ouvir algumas vozes. Não era o melhor lugar para chorar, mas eu estava confusa e triste demais para me preocupar em ter dignidade. Estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos no rosto, sentada no banco mais distante do hospital e mais próximo da margem do lago, entremeio meus soluços pude ouvir alguém se aproximando. O médico. Com certeza Rafael estava ali para me repreender e dizer o quanto eu fui imprudente e relapsa em ter abandonado . Mas ele se aproximou, se sentou ao meu lado e ficou em silêncio por muito tempo, até que eu ficasse incomodada e resolvesse falar alguma coisa.

- Precisa de alguma coisa? – Perguntei ríspida.
- Você precisa de alguma coisa? – Repetiu e eu ri sem humor e voltei a encarar meus joelhos.
O médico continuou sentado em completo silêncio, apenas observando o lago e os patos dentro dele.
- O que está te machucando? – Doutor Rafael perguntou depois de uma eternidade de silêncio.
- Por que acha que estou machucada? – Perguntei sem olha-lo.
- Meus professores sempre disseram que um bom médico precisa saber reconhecer a dor, mesmo quando seu paciente não for capaz. – Explicou.
- Foi por minha causa, não é? piorou por minha causa? Porque eu o deixei. – Indaguei tentando intercalar os soluços com as frases.
- Às vezes nós não estamos preparados para certas mudanças. As vezes achamos que tudo dura para sempre, sem mudança, no nosso controle, que nada mais influência. Uma visão no mínimo equivocada. – Falou o médico.
- O que? - Questionei confusa. – Por que está falando assim? É só dizer que foi minha culpa e pronto. Dizer que eu não deveria ter saído do lado dele, porque o precisava de mim. – Me virei para encara-lo.
- Nem tudo é tão simples. e a saúde dele também não são coisas simples, não dependem de você. Não é sobre você. – Rafael explicou.
- Como não? – Doutor Rafael geralmente era estranho, mas estava passando dos limites. – Ele estava melhorando e eu fui embora, ele piorou por isso. Eu não podia ter ido. Mas eu não vou mais sair desse hospital, eu juro. – Eu disse nervosa enquanto tentava secar algumas lágrimas.
- , não é uma pessoa tão frágil quanto pensa. Ele já passou por muita coisa, ele sobrevive a isso também. E você, pelo que eu vi, tem uma família, um filho. Você não pode se culpar por ter uma vida. – Esse médico era mesmo uma pessoa estranha. Eu não consegui me conter enquanto o médico falava e desabei novamente, mas agora ele resolveu me dar um pouco de apoio, colocando uma das mãos nas minhas costas.
- Eu não entendo. – Disse sem olha-lo, tentando evitar que ele me visse chorando. – Eu estou tão perdida. Eu não posso escolher. Eu tenho meu filho, meu marido, mas eu não posso deixar o . Eu sempre faço tudo errado. Se eu não tivesse vindo aqui, eu não saberia dele, e ele não me conheceria, e isso não teria acontecido. Eu nunca devia ter voltado para essa cidade. – Eu falava e chorava alto, qualquer pessoa que estivesse a dois metros de nós poderia me ouvir. – Mas eu nunca saberia sobre Ted e Natalie. Eu nunca deveria ter saído da cidade. Eu conheceria o filho do Ted, talvez ele não morresse, e eu poderia estar casada com , porque ele está solteiro. Eu não devia ter fugido, se eu tivesse ficado tudo seria tão diferente. – Lamentei encarando Rafael, que acompanhava tudo com paciência e empatia. – Mas eu não teria meu filho. Eu só fiz escolhas ruins a minha vida toda, e continuo fazendo. Por que eu sou assim? Magoo todos a minha volta. Eu magoo meu filho e marido por ficar tanto tempo no hospital, magoo por abandona-lo sem razão, magoo meus pais por nunca ir vê-los, nunca ligar. Meu irmão, ele está aqui comigo, mas está magoado porque queria que nós nos aproximássemos e em vez disso nós brigamos, eu acho que tenho muita inveja dele, e de como ele consegue ser uma boa pessoa, um bom filho e amigo e fazer tudo parecer tão fácil. Eu não sei fazer isso, não sei o que fazer. – Desabafei.

Todas aquelas coisas estavam se passando dentro de mim, algumas desde que cheguei na cidade, outras nas últimas horas. Eu não tinha amigos na cidade, não mais. Pelo menos não o tipo de amigos que eu poderia desabafar assim, dizer das minhas inseguranças, dizer de tudo que eu sentia. E mesmo assim, disse tudo para alguém que eu vi apenas algumas vezes na vida, alguém que eu sequer conhecia direito. Rafael pareceu absorver tudo o que eu disse e pensava em algo para falar, eu já me sentia melhor, só por ter dito tudo.

- Sabe, eu sempre admirei as rosas. O perfume singelo, a beleza, a forma. Acho que não tem ninguém no mundo que não goste. – Rafael comentou e eu comecei a observa-lo. – As rosas, assim como outras flores, são coisas bem curiosas. Nem sempre que elas desabrocham elas saem perfeitas, exuberantes e lindas como estamos acostumados a ver. Algumas vezes, elas saem defeituosas, o mesmo galho é capaz de gerar flores perfeitas numa floração, e flores defeituosas na outra. E quando isso acontece, ninguém arranca a roseira, só fazem a poda, do mesmo jeito que fazem quando ela produz uma flor perfeita. E então se espera até a próxima floração. – Rafael sorriu, me olhou nos olhos e continuou. – É simples. Todas as vezes a roseira tem a mesma oportunidade de desabrochar uma rosa perfeita ou não, e ela segue tentando. Estação após estação.
- Eu não entendo de rosas, doutor. – Disse confusa. - Nem entendi muito o que você quis dizer. – O médico riu.
- Todos os dias, todas as horas do dia, você pode voltar atrás e tentar desabrochar uma rosa perfeita. Você tem a chance de recomeçar todos os dias enquanto estiver viva. – Rafael esclareceu.
- Mas eu sempre faço a coisa errada, não sei se ter uma chance todo dia mudaria isso. – Expliquei chateada.
- Se você já sabe o que não fazer, só falta aprender o que fazer. – O médico disse. – E sobre as plantas, você pode agradar as plantas com sol e com a chuva quase na mesma medida. Mas sol demais faz as plantas secarem, e chuva demais as afoga. - Ele se levantou.
– Doutor, eu não entendi. Eu estou dando sol demais para alguém? Ou eu deveria intercalar sol e chuva com , sendo o sol a minha presença e a chuva a ausência? – Indaguei confusa, e Rafael riu.
- Por que você só enxerga dois caminhos? Nem tudo é tão prático. - Ele disse.
- As plantas não vivem só com sol, ou só com chuva. – Afirmei, parecia estar entendendo. – Quer dizer que eu tenho que criar uma escala?
- Acho que é melhor nós conversamos em outro dia, você está cansada. – Rafael riu. – Aliás, sobre mudanças: além das chances de mudar que temos todos os dias, as vezes a vida nos oferece uma chance especial de reescrever a nossa história. Essas chances não aparecem todo dia, .

Dizendo isso, o médico simplesmente deu as costas e foi para dentro do hospital. Ele era um homem estranho, mas mesmo assim, era como se tivessem tirado uma tonelada das minhas costas. Uma chance todos os dias, sol e chuva, plantas. Eu devia fazer o que? Fazer uma escala de visitas? Mudar quem eu era? Ignorar tudo e reescrever? Ou revisar o livro da minha vida até agora e tentar corrigir os erros?
Sequei os olhos pela quinta vez no dia. Nunca tinha sido alguém do tipo que fica chorando e se lamentando, não começaria agora. E se fosse para chorar, pelo menos seria pelo motivo certo.


Continua...



Nota da autora: E voltamos com mais uma atualização! Eu estou super feliz em contar essa história linda, e tão angustiada quanto a PP com esses dilemas. A vida adulta não vem para brincadeira, as vezes precisamos fazer escolhas tão díficeis que nem sabemos como decidir. Mas assim como para ela, tudo na vida pode ter um terceiro caminho. E o Pp? Deus, o que será que vai acontecer?

Quais são suas teorias? Ela fica com o marido e tenta reconstruir o casamento? Abre mão de tudo para tentar viver um grande amor enquanto ainda tem tempo? Me contem, estou curiosa.

E se você, assim como eu, se apaixonou pelo Tony Render e pela Louise, pode correr para ler The Curve of a Dream, e descobrir mais sobre esse casal que só não é mais perfeito, porque é ficticio. O link está logo aqui embaixo!

Todo aplauso e amor do mundo para a melhor Scripter do mundo, Carol!
Larissa, minha deusa, o mundo é seu! <3

Ps: A Síndrome de Albizzi é fictícia, uma junção de sintomas e sinais de outras síndromes e doenças,e, todo tratamento também não tem compromisso com a realidade.



Outras Fanfics:
The Curve of a Dream

Nota da Scripter: O tanto que eu sorri com o capítulo 7 e esse crossover com o Tony e a Louise, conheço tão pouco desse casal e já consigo ver como eles se amam. Já o 8 foi o completo oposto, Olivia precisa aprender a não pensar só nela mesma, mas também não se doar tanto a ponto de esquecer da família, marido, filho e do Adam. Tenho certeza que logo logo ela vai encontrar um equilíbrio.
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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