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Última atualização: 16/10/2020

Introdução

Nota da autora sobre a temática Marinha.

A história a seguir descreve alguns elementos ficcionais sobre o trabalho naval. Fiz uma pesquisa singela, tanto sobre a Marinha brasileira, quanto a britânica, e resolvi mesclar informações das duas. A Marinha no geral tem muito material na internet, sobre cargos, deveres, missões, história ao decorrer do tempo etc. Mas, por se tratar de uma ficção, me senti na liberdade de criar alguns componentes, o que me ajudou muito a desenvolver o enredo. Por isso, não levem a fic como exemplo de dados sobre trabalho naval. A escolha da Marinha como plano/pano de fundo desse romance faz com que eu consiga criar os fatos que dão vida à história, sendo o espaço (navio do exército) dessa narrativa essencial, pois incita algumas situações sociais, gera características específicas em personagens e desenrola a trama do jeito que eu imagino.
Para tentar ilustrar alguns lugares, uniformes, e até mesmo os personagens fixos, criei uma pasta no Pinterest para a fanfic. Ajuda bastante a visualizar algumas situações descritas.
É isso, basicamente. Obrigada e boa leitura, espero que gostem <3
Pinterest de ETO


Prólogo

Aproximei-me da proa do navio e suspirei, o cheiro salgado e úmido do oceano à minha frente. A maresia me fazia bem, o mar me fazia bem, me entregava a sensação de lar, de aconchego, por mais que estivesse a quilômetros de casa, eu sentia amor ao olhar para o horizonte. O balançar do navio me fazia devanear e refletir absurdamente (apesar da náusea incessante), como nenhum terapeuta conseguia, relaxando-me ao extremo. O metal frio acordava-me e me fazia ter o gole suficiente de realidade que eu precisava naquele momento, por mais que o álcool em minhas veias me tornasse tonta e dispersa, junto com as ondas que me sacudiam no navio. Eu estava presa ao momento, no agora.
A vista? Não preciso nem a descrever. O verde azul do mar contrastava com a cor azulada exorbitante do céu, junto com as nuvens extremamente brancas e com os tons alaranjados do pôr do sol. Ok, eu havia descrito. Era uma visão única, sentia-me privilegiada de presenciar aquela cena, digna de pintura renascentista perfeita. O anoitecer em alto mar era covardia… Óbvio que era digno de formar casais improváveis! Maldição…
O que havia acontecido nos últimos meses?
Realmente aconteceu o que ocorreu? O que estava havendo com a minha vida? Como tudo desandou de uma forma tão sistemática e desorganizada ao mesmo tempo? Quer dizer, desandou realmente ou se ajeitou?
Tantas perguntas para tão poucas respostas; tão poucas compreensões que estão além do meu racional, e eu aqui, debruçada nesse imenso proa à beira do oceano, pensando no que importa realmente, em como fujo da vida que me pertence tanto. Como ele havia tomado tanto espaço dentro de mim, como permiti isso? Mais perguntas sem respostas.
Confusa.
Assim que eu me sentia, 100% confusa, entretanto, ao mesmo tempo, sabia exatamente o que queria, mesmo que não concordasse comigo mesma, eu sabia.
Era essa a confusão, afinal?
Oh, eu sabia essa resposta.
Maldito coração, maldito homem, maldita circunstância, maldito destino.
Era essa a resposta mesmo? Destino? Tão simples e complexo ao mesmo tempo.
Senti sua mão esquentando minha cintura e me virei, fitando seus olhos cheios de significados para mim, aproximando nossos corpos de forma urgente.
Destino: repeti para meu consciente. Então, se era assim que era pra ser, assim será.


Capítulo 1 – Dry Martini

O vento estava forte e gelado, fazendo um zunido irritante e insistente em meu ouvido, como se quisesse cochichar algo secreto para mim, algo que estava para acontecer, algo que me tirava do devaneio dolorido que estava prestes a se desenvolver dentro de mim.
Eu me sentia sozinha com esse pensamento tosco, o que o vento tem a ver com as casualidades da vida? Ri ironicamente enquanto segurava na barra que limitava meu corpo ao oceano azul com minha mão esquerda, ao mesmo tempo em que com a outra, segurava a taça despretensiosamente entre meus dedos, com o líquido que me deixou tonta desse jeito nas últimas horas.
Fitei o mar intensamente, como se fosse parte de mim, como se ele me entendesse mais que ninguém, como se não pudesse esconder nenhum segredo obscuro que eu possuía, dele. Não que isso não fosse verdade, o mar sempre fora meu maior confidente: não se opunha, não me contrariava, estava sempre ali para mim… Bem, acho que posso dizer a essa altura que, como moldei toda a minha vida até agora em torno dele, ele é tudo para mim mesmo. Mas esse fato não importava tanto nesse momento. O que tirava minha paz era outra coisa: o vento gelado.
O frio que batia nos meus braços não era tão desconfortável quanto o frio que eu sentia nas minhas pernas. Seria frio mesmo ou outra sensação que eu experimentava? Meus joelhos fraquejavam fortemente depois de encontrar com os olhos dele, após saber o que o futuro me guardava. Quem ele pensa que é? Como tinha coragem de falar com meu irmão daquele jeito íntimo? Nossas famílias eram rivais, nós nos odiávamos! Como se já não bastassem nossas gerações anteriores terem tido seus atritos, eu experimentava a amarga dor da existência dele e do que fizera em nossa família.
Culpa de meu mano mais velho também, pois se tivesse mais respeito por nossa história, nunca deveria ter o perdoado, e estaria o ignorando ao invés de desenvolver essa amizade e cumplicidade por tantos anos com o mesmo. Essa proximidade dos dois, fez com que, em diversos momentos, eu tivesse que engolir sua presença.
Oh, pelo menos eu fazia questão de ser tão desagradável quanto ele, infernizando-o e o provocando. Mauro sempre ficava entre nós, tendo que apartar nossas guerras verbais
Tentando ignorar meus pensamentos, eu ri pelo fato presente.
Quem sente mais frio nos braços que nas pernas? Será que isso era comum?
Não que eu me importasse, tanto faz o que eu sinto fisicamente ou deixo de sentir. Tendo em vista que eu tentava evitar ignorar ao máximo minhas sensações físicas, meu corpo trai meus pensamentos e ideais, fazendo-me despreza-lo constantemente. Não confio nele. Ou talvez não confie em mim.
Abracei meus braços inconscientemente e me deixei levar pelos meus devaneios finalmente, já que após algumas taças de vinho tinto, eu já estava bem mais absorta a eles que o normal. O que eu queria da minha vida? Eu deveria estar orgulhosa de mim mesma, afinal, com apenas 25 anos, eu era Tenente da Marinha Real Britânica, a segunda (primeira em minha opinião!), marinha mais importante de todo o mundo! Caramba eu sou foda!
Tudo bem que sendo neta de um Almirante (alto cargo dado apenas para os mais competentes durante tempos de guerra), filha de Comodoro da Marinha e Médica da mesma, eu tenho minha moral para ser aceita em tal cargo, assim como meu irmão 10 anos mais velho, que já era Comodoro em uma das frotas mais importantes do país. Nós fazíamos parte do Corpo da Armada, a qual operava necessariamente em alto mar. Fuzileiros e Sargentos eram designados para trabalhos terrestres, coisa que nós não almejamos de jeito nenhum.
Infelizmente, não só para minha desgraça, meu querido e competente irmão havia crescido na academia junto com , o ser mais desprezível e petulante da família rival.
Nós não sabíamos ao certo o porquê da rivalidade das gerações anteriores, eu apenas sempre respeitei e continuei com ela, como uma tradição. O desprezo havia crescido imensamente após fazer o que fez; coisa que não afetou meu irmão de forma alguma, que continuou a amizade com esse energúmeno.
Os dois tinham a mesma idade (35 anos atualmente), e já possuía um cargo maior que Mauro (meu irmão). era um dos Comandantes mais jovens da história, alcançando esse ofício com apenas 34 anos. O desgraçado era eficiente, mas também tinha sua influência e moral no meio, sendo neto e filho de almirantes muitos respeitáveis. Nossos avós começaram essa guerra interna entre as famílias, seguindo por nossos pais que não se suportavam, até os dias de hoje. Menos meu irmão, aquela tosqueira em pessoa que fazia amizade até com uma água viva; coração mole do caralho. Mas eu continuava esse legado irrefutável, isso que importava, e nem precisava fazer muita força para tal. era a arrogância, petulância, nojeira em pessoa, impossível de lidar, impossível de olhar sem revirar os olhos. Não importava o quanto ele ficava bem naquele smoking ou uniforme da marinha, ele era o nojo em pessoa.

Balancei minha cabeça negativamente, tentando afastar esses pensamentos nefastos de mim. Qual era meu problema? Eu deveria estar orgulhosa de mim, mas só conseguia lamentar ou pensar coisas perversas… Seria essa a melancolia alcoólica confusa que tanto falavam?
Consegui o cargo de Tenente finalmente, mas na frota de . Por isso meu excesso em taças de vinho aquela noite, por isso minhas sensações e pensamentos exaltados, por isso o frio exorbitante era tão atraente, fazendo-me esquecer brevemente meu próprio destino naquela noite. A vida é uma vadia irônica. Eu estava orgulhosa de mim e de minha eficiência, mas precisava ser escolhida a trabalhar justo na frota do ser mais desprezível que assombra minha mente? Minha vontade foi gritar um belo e sonoro “ELE NÃO”! Mas não poderia fazer tal gafe, na frente de tantas pessoas.
Fechei os olhos com força, sentindo os nós de minha mão no metal se tornarem duros e brancos, devido ao esforço. Abri meus olhos, voltando minha cabeça para cima, fazendo meu pescoço inclinar-se aos céus. Olhei para as estrelas extremamente brilhantes e elevei minha taça à elas, brindando à ironia do universo. Mas que bela merda eu estava metida.
Entornei o líquido na minha garganta sentindo-o queimá-la deliciosamente, enquanto tentava tornar isso uma distração para meu subconsciente; pelo menos o desconforto físico me tirava o foco do desconforto psíquico.

Meu Deus, quanto drama! Não deveria transformar meu trabalho dos sonhos em um pesar tão grande.

Não me importando com mais nada (ou não raciocinando direito), joguei a taça vazia no mar, voltando-me para frente do salão de festas rapidamente, ajeitando meu vestido vermelho colado ao corpo e passando os dedos em meus cabelos soltos, tentando ajeita-los em vão. O vento naquela noite não estava para brincadeira. Ainda me segurava fortemente à grade, com medo de sair voando. Eu sou ridícula.
Assim que minha atenção subiu para a porta do salão, meus olhos encontraram a imensidão dos olhos de , me observando de longe com um meio sorriso no rosto, como se estivesse num transe confuso, entendendo a situação patética que eu estava dramatizando mentalmente. Mas que merda estava acontecendo? Por que ele estava me encarando?

Franzi as sobrancelhas em confusão, para logo depois, soltar uma expressão de deboche para meu futuro superior. Já que ainda podia fazer isso sem punições, iria fazê-lo o máximo que pudesse.
Ele apenas revirou os olhos, tomando o conteúdo de seu copo (que eu presumo que era whisky pela cor e pelo tipo de copo entre seus dedos), antes de virar as costas para mim e dirigir-se ao bar mais próximo, para poder pegar mais bebida, provavelmente. Desgraçado. Odiava que ele fosse o último a me lançar olhares irônicos.
Esse era nosso joguinho, nos desprezar através de olhares, quando não entrávamos em uma discussão tola qualquer, antes de sermos interrompidos. Céus, como ele era irritante!

’s POV

Que tontura deliciosa! Mais deliciosa que isso só a bartender do primeiro bar, que me servia generosamente doses de whisky sem dosar certamente. Ruiva dos olhos verdes maravilhosa!

Avistei meu querido amigo há poucos metros de mim, tentando desenrolar com uma subcomandante bem mais velha que ele. Mauro e seu gosto por mulheres quase idosas. Não que eu julgasse errado, cada um com seus fetiches e etc, mas aquela mulher, especificamente, poderia ser quase como uma mãe pra ele! Porra, Mauro!

— Cara! Preciso te falar algo que vi em um dos navios hoje mais cedo, que loucura! - falei pra ele numa empolgação atuada que qualquer vencedor do Oscar sentiria inveja. Vai que ele precisava se ver livre da mulher, eu estava ajudando-o, certo?
— Quê? Agora? Me procura mais tarde, certo? To ocupado man! - Mauro olhou para mim e para a “senhora”, com um olhar suplicante para eu ir embora imediatamente, ou ia levar na cara
— Mauro, tudo bem, pode ir, nos falamos mais tarde, sim?- a senhora replicou, com toda a vontade do mundo e eu senti um ímpeto de lamber os pés dela em agradecimento
— Se você insiste Verônica, mas não pense que vai escapar de mim tão fácil, sou bem insistente quando quero - Mauro respondeu, sem se preocupar em parecer explícito, com um sorriso malicioso mordendo os lábios. Sua mão repousou nos ombros de Verônica e logo depois desceu para seus braços, pegando-lhe a mão e beijando em seguida. Ela se afastou com um sorriso sem graça, enquanto eu me encontrava com a boca aberta
— Mano, qual seu problema? Com tanta mulher gostosa aqui na festa, você quer ir atrás logo das MILFs? - eu perguntei incrédulo com a cena, recebendo um olhar duro de Mauro logo em seguida
— Gosto é gosto, ok? Você sabe que desde sempre eu me atraio por mulheres mais velhas, qual o problema? São fora do seu padrão? Ótimo! Deixe-me lidar com elas, eu cuido muito bem delas, ok? Afinal, a grande maioria adora um cara mais novo - respondeu com um sorriso vitorioso e convencido, e eu não pude deixar de gargalhar com aquela afirmação. Ele estava certo, quem era eu para julgar fetiches e gostos alheios, já que gostava de algumas práticas atordoantes, mas isso não vem ao caso. Não agora.

Nos entreolhamos e seguimos ao bar, ainda comentando discretamente sobre o assunto. Nunca que iria julgar meu irmão de alma, só não compreendia tal preferência, tendo em vista que era diferente da minha bolha de conhecimento de fetiches. Mas como ele disse assim que chegamos à bartender gostosa, que o olhava indiscretamente, não entendia o meu espanto, já que sempre tivera tal preferência, e nós nos conhecíamos desde sempre. Mauro era um dos meus amigos mais antigos, apesar da desaprovação de nossas famílias diante da amizade.
Isso não nos definia, muito menos nos deixávamos levar por todo esse ódio entre nossas famílias. Nos dávamos super bem, como dois irmãos, nos entendíamos, até silenciosamente, em situações constrangedoras e cabulosas da vida. Crescemos juntos, felizmente.
Entretanto, era uma grande infelicidade, Mauro possuir a irmã que tinha; a caçula era simplesmente insuportável. Garota petulante, se achava a dona da razão, como se estivesse certa constantemente (sendo que eu era o certo). Guria irritante! E agora, depois dessa noite de eventos e festa, descobri que seria seu Comandante em Alto Mar, ou seja, meses a fio tendo que suportar sua personalidade difícil e seu rosto assustadoramente intenso. Eu tenho pulso pra isso, sei que tenho, mas será que minha paciência dura uma hora perto dela?

Enquanto Mauro voltava sua atenção, agora bem menos sóbrio, à MILF, quer dizer, Veronica, eu me vi perdido naquele salão de festas. Olhando todos e analisando a tudo, me sentindo atordoado. Todos tão bem vestidos, mas tão desinteressantes ao meu ver. Pedi para a bartender encher o copo de verdade dessa vez, e me dirigi à sacada do navio para pegar um ar. Estava sufocado em meio a tantos cumprimentos incessantes e falas vazias obrigatórias. Formalidades, não?
Resolvi tomar um ar na sacada do convés do navio aportado, nada como a brisa gelada para fazer-me retornar à minha falsa felicidade. Caminhando em direção à porta, de repente, antes de abrir a porta, presenciei uma cena. A observei segurar-se fortemente à grade do navio, como se estivesse prestes a cair. Garota tola; ou estava totalmente bêbada que nem eu, ou estava tonta com as ondas batendo no navio ancorado; se esse fosse o caso, como ela iria ser uma de minhas Tenentes? Sem segurar a responsabilidade de eventuais grandes oscilações no mar?
Cocei meus olhos com a mão livre e ri sozinho, que implicância eu tinha, hein? Tenho que cuidar para não ficar irracional e focar realmente só nas negatividades dela, que deviam ser muitas. Iríamos trabalhar juntos agora. Aliás, como alguém tão jovem virava tenente?
E por mais hipócrita que isso pareça (pois me tornei tenente com 23 anos, mas não cursei faculdade que nem ela), não podia deixar de me impressionar com sua eficiência gritante e currículo extenso, já bem conhecido pela Marinha. Porém, havia muito para ela aprender na prática ainda, e eu faria questão de mostrar.
Vi sua cabeça pender para trás e erguer a taça aos céus, para logo depois entornar todo o líquido bordô pela garganta, e… Ela realmente acabou de jogar a taça de cristal no mar? Caralho que porra tava acontecendo?
Gargalhei com a situação e me perdi por uns momentos nela e em seus cabelos voando com o vento forte, deixando suas costas desprotegidas e nuas. Seu vestido nada discreto e vermelho sangue havia me chamado a atenção desde que ela entrara no salão com Mauro, três horas antes. Suas curvas acentuadas pelo tecido do vestido me fizeram questionar se aquela peça havia sido confeccionada especialmente para ela, e se havia algo embaixo da mesma, já que nada estava marcando a textura da peça.
Maldição.
Não pude deixar de encarar maliciosamente sua bunda, a qual não havia observado ainda o quão deliciosa era. Mas que merda eu estava pensando? Whisky, pare com isso!
Fui acordado dos meus devaneios com Nathália voltando-se para frente, com os olhos fechados com força e uma expressão confusa no rosto delicado. Logo, seus olhos subiram e encontraram os meus, fazendo-a mudar gradualmente sua expressão confusa, para algo que beirava ao deboche e ironia. Céus! Até quando não estávamos perto um do outro, o ódio transbordava para qualquer meio de comunicação que estava disponível no momento. E ali, eram nossos olhares e expressão corporal. Seus braços cruzaram em frente aos seios, em posição como se cobrasse alguma explicação para eu fitá-la tão intensamente e por tanto tempo. Garota petulante! Em resposta, coloquei meu sorriso mais debochado e a olhei com desdém, afinal, quem ela pensa que é? Virei de costas e comecei a andar até o bar mais próximo, dessa vez com um barman homem, o qual era o dono da empresa que fazia nossos eventos. Ele parecia extremamente concentrado em cortar as rodelas de limão bem finas. Sortudo desgraçado! Queria eu que minhas preocupações fossem tão banais a tal ponto.
Aproximei-me e fiz meu pedido:
— Boa noite jovem! Double whisky para mim, por favor? E o que as damas costumam mais pedir aqui?
— Boa noite, comandante!- respondeu-me com um sorriso largo, derramando o líquido dourado do whisky caro em meu copo - Bem, as damas costumam pedir muito Gin Tônica, tendo em vista a moda que está em tomar tal drink! Quer pedir uma birita para alguma moça sortuda? - perguntou-me mais baixo, ainda com seu largo sorriso no rosto.
— Hmm, Gin Tônica… Não sei se combina muito com ela, considerando que a mesma é o capeta em mulher - soltei sem pensar, dando de ombros, ouvindo a gargalhada do mesmo e acompanhando-o em seguida. Era rir pra não chorar.
— Bem, se a dama em questão possui uma personalidade complicada então… - comentou enquanto secava um copo com o pano extremamente branco, com uma expressão pensativa e divertida - ... recomendo um Dry Martini com garnish de azeitonas mesmo! - completou, já pregando a taça alta do drink.
— Ótimo! Perfeito! Dry Martini! O nome até combina com sua personalidade seca! - exclamei rindo sem humor, entornando um pouco do whisky, fazendo o homem em minha frente rir.

Peguei o drink já pronto e me dirigi para a sacada, estava na hora de ter uma pequena conversa com aquele ser demonizado por mim.

’S POV

Assim que deu as costas, me virei rapidamente de novo para o mar, xingando-o incessantemente:
— Meu Deus, como ele consegue me irritar até de longe, com um simples olhar e sorriso? Ridículo, filho da mãe, que enfie todo esse sarcasmo no meio do... - me interrompi, sentindo uma tontura forte e o mundo girar rápido demais para minhas pernas aguentarem. Péssima ideia de ter me virado tão abruptamente, culpa de e o que causara em mim. Me segurei com força no metal novamente, voltando a ter meu equilíbrio bêbado aos poucos. Fechei os olhos com força e inspirei a maresia, conseguindo me acalmar da irritação relativamente rápido, só para logo em seguida, voltar a tê-la com força total ao sentir seu perfume tão -perigosamente- próximo de mim, me tirando de toda distração que havia tentado construir. Idiota, imbecil, mala sem alça, quem ele pensa que é, além de meu mais novo chefe, para ficar tão perto assim de mim?
— O que está fazendo aqui, ? - perguntei, sem paciência alguma, revirando os olhos ao constatar realmente que era ele. Cruzei meus braços na frente de meu peito, em posição defensiva. Pra que, né? Seus olhos brilharam ao repousar no meu decote, já que havia juntado os seios inconscientemente fazendo aquela pose. Sua boca abriu-se como se querendo falar algo, mas não conseguia raciocinar, permanecendo quieto. Homens. Desfiz a pose em desconforto e completei - Vai ficar me comendo com os olhos ou tem algo a dizer? - respondi seca, dando uma risada sem humor.
— Caramba, garota! Vim trazer um drink para você e pensei em conversarmos brevemente sobre nossa nova situação de trabalho - disse calmamente, voltando aqueles malditos olhos para os meus novamente, abrindo um meio sorriso naqueles lábios assustadoramente convidativos. Eu estava muito bêbada mesmo para pensar algo como aquilo. Olhei para suas mãos e vi um Dry Martini, um dos meus drinks favoritos. Peguei a taça tentando não tocar em suas mãos. - Ótimo, boa garota! - completou o imbecil, com um sorriso maior que minha paciência naquele momento. O olhei com desdém e exclamei:
— Olha aqui, , garota é a mãe! Já tenho meus 25 anos e sou bem grandinha para ser chamada assim. Exijo respeito. - completei, dando um pequeno gole no drink perfeitamente preparado, levantando uma das minhas sobrancelhas. Suas mãos levantaram em rendição e uma expressão falsamente surpresa tomou conta de seu rosto, e pude ouvi-lo falar um “Ok, desculpe” baixo, enquanto virava-me para o mar novamente. Senti-o encostar-se no convés ao meu lado, porém, de frente para o salão de festas. Um silêncio ensurdecedor instaurou-se no ar, e a tensão poderia ser tocada caso eu levantasse minha mão.
Após alguns minutos, me virei para e notei que ele estava me observando sem expressão, há quanto tempo ele estava me olhando daquele jeito? Suspirei alto revirando os olhos, e voltei a encarar a imensidão, tomando o restante do drink. Argh, péssima ideia.
- Opa , vai com calma! Isso não é água. - disse rindo, bebericando o líquido igualmente forte de seu copo. Olhei-o com uma sobrancelha levantada e um olhar pingando à ironia pela hipocrisia em seu discurso, e ele pareceu perceber rápido, pois gargalhou em seguida e terminou o conteúdo, dando de ombros. Um sorriso discreto se formou no canto de meus lábios pela situação cômica, mas fiz questão de desmanchá-lo rápido para não dar abertura a momentos confortáveis perto dele. Peguei o palitinho dentro do meu copo e comecei a morder lentamente as azeitonas ali - Bem, eu gostaria de começar dizendo que será um prazer tê-la em minha tripulação, mas nunca fui um bom mentiroso - confessou, de uma forma despretensiosa e calma, como se tivesse acabado de falar seu sabor de bolo preferido. Olhei-o boquiaberta pela sua audácia e ele riu, continuando - Eu sei o quanto nossas famílias se odeiam, e o quanto esse sentimento estende-se para nós dois também, até porque não é muito difícil te achar insuportável - já estava pronta para retruca-lo e mandá-lo à merda por todas aquelas grosserias proferidas, mas ele levantou um dedo no ar, como se pedisse um tempo para concluir - MAS, espera, me deixa continuar, eu sou seu novo chefe e agora em diante, teremos que lidar bastante um com o outro, diariamente, convivendo sob o mesmo teto, então, proponho uma trégua nos insultos e farpas, para assim, tudo fluir lindamente e nosso trabalho junto não ser o motivo de nossos assassinatos.- concluiu, sorrindo largamente roubando a última azeitona de mim, achando que havia sido o exemplo de maturidade do século.
Eu gargalhei alto, jogando a cabeça para trás. Tive que gargalhar, óbvio. Olhei para ele incrédula, murchando meu sorriso rapidamente, demonstrando o sarcasmo de minha breve histeria. Seu sorriso foi sendo substituído por uma expressão de confusão, surpresa e um pouco de medo à minha reação psicótica, me fazendo voltar a esticar os cantos dos lábios ao vê-lo levemente assustado.
- , , … Como você chegou ao cargo que esta, vai ser uma pergunta que nunca vou poder responder a mim mesma. Você propõe que acabemos com nossos insultos e farpas, com esse seu discurso de merda, carregado de insultos e farpas? Você tem o que, 12 anos de idade? Seu QI é 50? Quanto ao meu trabalho fluir “lindamente” - fiz as aspas no ar, enquanto me olhava sério e irritado. Coitado! Eu nem tinha começado a destruir essa áurea patética de superioridade que ele possuía - pode deixar que isso aconteceria, você pedindo ou não. Como deve saber, sou extremamente qualificada, acredito que até mais que você, e com certeza em alguns anos, superarei seu recorde sendo uma das comandantes mais jovens da história! Se a sua preocupação realmente fosse apenas fazer um bom trabalho dentro da marinha, você poderia simplesmente sumir! - finalizei, depositando na taça o palito, sem azeitonas agora, sorrindo vitoriosa ao ver sua expressão séria, com os olhos semicerrados. Sua mão que estava repousada, antes de forma distraída, sob o metal do convés, agora segurava-o com furor. Se eu não soubesse o mínimo de resistência de objetos e força humana, afirmaria que aquele ferro iria envergar. Engolindo a seco discretamente, tentei manter minha pose de superioridade, escondendo o possível medo que estava sentindo naquele momento. Coisa que logo se dissolveu quando chegou mais perto de mim lentamente, jogando seu copo para trás com raiva, parando a centímetros do meu corpo, me olhando ameaçadoramente, agora, com um meio sorriso maligno nos lábios. Se eu não fosse quem eu era, teria saído correndo por medo do que viria a ouvir a seguir:
- Você pode achar que sabe com quem está falando, mas pelo visto não faz a mínima ideia, né, garota? - frisou a última palavra, em clara provocação - Não sou homem de fazer ameaças, então não leve o que falarei a seguir como uma, mas sim como um aviso: Você não tem noção do quanto acabou de tornar sua vida muito mais difícil dentro da Marinha. Eu vou ter um prazer tão imenso de infernizar você, fazendo com que a última coisa que pense antes de dormir seja eu, e a primeira ao acordar - finalizou, me olhando de cima a baixo, e um frio percorreu minha espinha. Merda. Eu e minha boca grande. Realmente não havia parado para raciocinar direito. Maldito vinho e martini. Ele sendo meu superior agora, tinha toda minha carreira praticamente em suas mãos, já que ele era o canal de comunicação direta ao conselho responsável pela tarefa de promover os marinheiros. teria que escrever relatórios sobre meu comportamento, além de poder prescrever medidas disciplinares (ou correto seja, punições) a mim e minhas possíveis faltas de condicionamento. Ele estava certo, eu havia acabado de tornar minha vida dentro do Corpo da Armada mais difícil. Engoli em seco e falei em um fio de voz:
- Você não pode simplesmente se tornar antiético por ter o ego ferido ou por questões pessoais… - finalizei, ainda olhando para o chão, me sentindo patética pela fraqueza demonstrada.
- Ego ferido? Oh, não. Meu ego está intacto - soltou uma risada seca, levando um dos dedos ao meu queixo, o levantando em seguida para olhá-lo nos olhos - Quanto a questão pessoal, você deveria já saber que eu não me importo com a rivalidade entre nossas famílias, apesar de achar que os sempre foram prejudicados pela sua espécie. Seu irmão é um de meus melhores amigos. E no que diz respeito ao que ocorrera no passado entre mim e seus parentes, já deixei bem claro que nunca foi minha intenção as coisas saírem do controle daquele jeito, me lembro amargamente de tal fato todas as noites. - confessou, fechando os olhos pesadamente, abrindo logo em seguida com um olhar carregado de dor- Eu simplesmente não gosto de você mesmo. E sabe, cada vez mais acho que meu avô estava certo no que ele dizia “Nenhum que eu conheci merece o ar que respira” - finalizou sorrindo e largando meu queixo com força, para logo em seguida se afastar um pouco pra me observar espumando de raiva pela sua última frase. O segundo seguinte foi o mais rápido de minha vida, quando dei por mim, tinha acertado um tapa em cheio na cara daquele imbecil. E teria dado o segundo se ele não tivesse segurado o meu pulso com força. Tentei com o outro braço, mas falhei miseravelmente também. No instante seguinte, seu corpo estava de frente para o meu, me colando na grade do convés, enquanto me olhava intensamente, com algo em sua visão que não consegui identificar na hora.
- Cuidado, garota, você está abusando da minha boa vontade - cuspiu entre dentes, enquanto o formato da minha mão aparecia em sua pele da bochecha
- VOCÊ É UM MONSTRO! COMO PODE DIZER ESSE TIPO DE COISA ASSIM? - foi tudo o que conseguir dizer, ou melhor, gritar, ao tentar sair dali sem sucesso. Como ele pode falar desse modo de minha família? Ele não tinha o direito de simplesmente levar como verdade absoluta, uma fala escrota de seu avô, pelas situações (das quais, desconhecemos a maioria) que nossas famílias viveram juntas.
- Sou um monstro, e olha só que sorte a sua. Esse monstro aqui agora é seu chefe. É melhor você começar a se acostumar com a ideia de que subordinada a mim, não poderá mais falar tais coisas que lhe surgem na cabeça. E mais - aproximou de meu ouvido, com o hálito alcoólico e quente batendo no meu pescoço, me causando um arrepio estranho em minha barriga - você já possui um castigo para cumprir em seu primeiro dia de recrutamento - completou, se afastando e largando meus pulsos. Comecei a massageá-los pela dor que estava sentindo, conseguindo voltar a respirar melhor com nossa distância. começara a andar em direção ao salão de novo, mas parou no meio do caminho e virou apenas a cabeça para trás sem me olhar, falando em seguida:
- Bem-vinda à minha tripulação, Tenente - recomeçou a andar e sumiu rapidamente pela multidão.
Oh, eu estava muito ferrada.


Capítulo 2 – The Cold Sensation of Reality

Encarei o enorme gigante de ferro a minha frente e suspirei pesadamente antes de entrar nele. Antes disso, olhei em volta do cais e me senti perdida a tantos militares apressados, gritando entre si comandos e códigos marítimos, correndo de um lado para o outro, puxando cordas…
Seguindo uma tradição familiar (meus genitores eram cheios dos costumes), toquei no navio e fiz uma súplica rápida, pedindo proteção, autonomia e sabedoria para os próximos meses; coisa que minhas antepassadas me instruíram a fazer, antes de entrar em qualquer lugar novo, ainda mais os que eu iria habitar por meses a fio.
Adentrei, logo dando de cara com um extenso corredor e o ar gelado do ar condicionado. Funcionando como uma pirâmide de cadeia alimentar animal, quanto mais alto seu cargo, mais no topo seu quarto ficaria. Logo, o primeiro andar era dos funcionários de manutenção e serviços essenciais, como cozinheiros, serventes, operários e etc; o segundo era o meu, onde estavam os subtenentes, tenentes e comandantes; o terceiro pertencia aos capitães, comodoros e contra-almirante; o quarto, a ponta do navio, pertencia somente ao subcomandante e ao comandante.
Sem esperar mais, comecei minha maratona para o elevador do navio, que ficava no final dessa trilha de portas infinitas. Estranhamente, já me sentia em casa. Um pequeno sorriso se formou no meu rosto, fazendo uma euforia passar pela minha barriga. Mal podia esperar para começar os trabalhos, apesar dos pesares da situação.
Ajeitei minha mochila nas costas e continuei puxando as duas enormes malas pesadas, até achar o elevador do andar, o qual estava vazio. Adentrei e apertei o botão número 2 do painel e aguardei, voltando minha atenção para o carpete vermelho extremamente cafona do chão e os detalhes em dourado das paredes. Meu deus, eu entrei no Titanic?
Antes que a porta pudesse se fechar, ouvi alguém pedindo licença e colocando a mão no meio delas, adentrando o cubículo em seguida. Minha atenção, que antes estava direcionada a julgar o decorador do navio, se voltou para frente, onde um ser esplêndido invadiu minha visão, junto com seu perfume claramente caro. Tive a impressão que o conhecia já, mas ainda estava claro. O mesmo sorriu maravilhosamente para mim, com um olhar bondoso e convidativo demais para não ser encarado. Como essa obra de arte fugiu do Louvre?
Ele apertou o botão número 4 do painel, e recostou-se na parede dando-me um “bom dia” despretensioso, voltando sua atenção rapidamente ao celular, do qual parecia digitar uma mensagem extremamente importante de jeito rápido.
Oh, ele apertou o número 4, isso significava que ele era meu mais novo subcomandante, . Como não o reconheci logo de cara? Não o via há anos, mas também não tinha mudado muito. Ele era um dos melhores amigos do meu irmão e de .
Não conseguia parar de olhá-lo, e só fui acordada de meus devaneios indiscretos quando o elevador parou no 2º andar. Meu futuro marido olhou-me repentinamente, sentindo que eu não havia movido um músculo com o silêncio que eu estava causando. Sou patética.
— Acho que seu andar é esse - respondeu sorrindo à situação ridícula que me encontrava, enquanto eu estava mergulhada em pensamentos cobiçosos fitando ele.
— Oh, claro! Andar do meu dormitório! - confessei para ele, com um sorriso sem graça, enquanto tentava dirigir minhas malas para fora do cubículo sem bater em seus pés
— Opa, você é uma de minhas subtenentes novas? - perguntou despretensiosamente, guardando o celular no bolso, com um lindo sorriso no rosto, me ajudando a carregar as malas para o corredor.
— Na verdade, Tenente. E você é meu subcomandante, certo? ? - perguntei àquela escultura esculpida por Michelangelo.
— Eu mesmo! E me desculpe, mas eu tenho a impressão que já nos conhecemos, qual seu nome? - perguntou-me, com um sorriso encantador, enquanto levava uma de minhas malas para a suíte 22, a qual iria ser meu lar por muito, muito tempo.
— Sim, nos conhecemos. Mauro é meu irmão, sou - o respondi docemente, enquanto o mesmo soltava minhas malas em choque.
— Caramba, como você cresceu hein - respondeu me olhando de cima a baixo, sem conseguir ser muito discreto. Sacudiu a cabeça, como se quisesse espantar algum pensamento nefasto. - Bem, que honra trabalhar com mais um dos ! Nunca consegui ficar na mesma tripulação que Mauro, mas trabalhei com a sua mãe. Inclusive, sinto muito pelo ocorrido. Eu estava na missão em que ocorreu a tragédia - confessou para mim, enquanto coçava a nuca de um jeito envergonhado.
— Oh sim, eu fiquei sabendo. E obrigada, fiquei sabendo que você quem…
— Sim, sim, mas vamos mudar de assunto, sim? Não quero trazer essa dolorida lembrança para você. Bom, vai ser um prazer te ter aqui, qualquer coisa que precisar, não hesite em me chamar - fez a clássica pose de cumprimento militar, com uma mão na testa e postura ereta. O imitei, tentando minimizar o clima tenso, sorrindo logo em seguida. Relaxamos da pose e nós cumprimentamos normalmente, com um aperto de mãoy. Jesus, que mão quente e gigante! Será que isso estende-se para outros membros dele?
Caramba eu sou pervertida.
Mas também, fazer o que? Já fazia 84 anos desde minha última transa… Balancei a cabeça levemente para espantar tal pensamento enquanto nos cumprimentávamos ainda. Chega de matutar sobre o Titanic, ou ficaria neurótica achando que algo parecido poderia acontecer ao nosso navio.
Desvencilhei nossas mãos para voltar a pegar na mala, e fez o mesmo, para logo em seguida ter nossas mãos se trombando na alça da mesma.
Awwwwn, a gente já era tão fofo!
— Opa, perdão - disse, coçando a nuca rapidamente e bagunçando o cabelo, envergonhado, afastando a mão da mala - Se me permite, essa parece ser a mais pesada,
acho melhor eu levar! - confessou, pegando-a com uma facilidade absurda, já que a mesma deveria pesar pelo menos 20kg.
— Um verdadeiro gentleman, huh? - comentei com uma sobrancelha levantada, fazendo-o rir - Muito obrigada pela gentileza, meu irmão foi bem trouxão me deixando carregar as malas sozinha pelo cais, só para ir encontrar logo uma rapariga que ele está afim! Vocês homens as vezes não podem ver um rabo de saia que já correm que nem cachorrinhos. Meus braços estão doloridos! - comentei rindo e pegando minha mochila do chão, já que havia pego as minhas duas malas.
— E aposto que é mais velha ainda, se bobear casada! - olhei para ele boquiaberta com a confissão, e ele gargalhou, continuando a queimação de filme do meu irmão - Realmente, ele é um dos caras mais galinhas que eu já conheci na vida. Fizemos o treinamento juntos para entrar na Armada, é testemunha! Seu irmão saía no meio da noite para encontrar suas inúmeras namoradas - comentou gargalhando alto, enquanto eu tentava ignorar o sobrenome repulsivo que aquela linda boca havia proferido - E digo mais, ele nem se importava em ser flagrado às vezes, pagava as punições com um sorriso no rosto por ter transado na noite anterior. E eu sei de um segredo dele, bem cabuloso - olhou para os lados, como se checasse se havia alguém nos escutando - mas eu não vou contar se não ele me capa - concluiu, se divertindo com o bico que fiz com a boca, e minha expressão falsamente brava.
— Poxa então vai ser assim?
— To brincando, vou contar sim. Mauro já foi amante de uma esposa de um dos Comandantes mais antigos da marinha. Agora ele já é aposentado, mas na época de nosso treinamento, ele era quem nos treinava
— O QUE? Gente, meu irmão só pode ter problema… Imagina se ele era descoberto, ia ser expulso na hora! - conclui boquiaberta e meio perturbada com a infeliz confissão sobre Mauro. Meu deus meu irmão era digno de terapia intensiva para ninfomaníacos.
Comentando sobre mais algumas coisas aleatórias que Mauro, e ele viveram, finalmente chegamos na minha porta, de número 22, que ficava no final do corredor.
Meu lar! Meu refúgio!
Finalmente poderia me jogar na cama e simplesmente “desmaiar” em meu novo colchão, antes, claro, da reunião geral para organizar com o que cada um iria trabalhar mais diretamente.
Chegamos na porta e eu a abri, destrancando-a com desespero para adentrar logo. O quarto não era muito grande, mas era confortável: logo à primeira vista, podia ver a cama de casal encostada no lado esquerdo do quarto, seguido de um criado mudo ao seu lado direito. Havia uma escrivaninha, a três passos adiante, com uma pequena mesa e uma cadeira, fora uma TV de 32 polegadas na parede Sul do quarto, que estava virada para a cama. Uma porta do lado da mesma, denunciava o lavabo que eu possuía, onde havia tudo o que um banheiro completo tinha, menos o chuveiro, o qual era comunitário de acordo com o sexo dos usuários, no -2. Meu quarto também possuía uma pequena sacada, coisa que não eram todos os dormitórios que tinha. Sorte a minha.
Meu armário se encontrava em gavetas no móvel da cama, a qual era uma box. A mesma possuía três repartimentos, das quais eu já pensava na organização perfeita: a primeira seriam as roupas íntimas, a segunda as partes de cima e a terceira, partes de baixo. Qualquer coisa que eu precisasse pendurar (que não eram muitas), iria fazê-lo no pequeno armário alto que ficava no pé da cama, perto da porta. Perfeito!
Virei para o deus Grego atrás de mim, que analisava meu quarto com a mesma curiosidade que a minha, sorrindo quando seus olhos encontraram os meus.
— Bom, não tenho nem palavras pra descrever minha gratidão por ter me ajudado a carregar as malas até meu quarto - sorri pra ele, com doçura.
— Nem precisa agradecer, foi um prazer te conhecer, Tenente ! Você já é muito famosa por aqui! - respondeu-me, de um jeito divertido e generoso, enquanto ajeitava minha mala maior no centro do quarto, especificamente no tapete ao lado da cama.
— Que isso! Você, sendo meu subcomandante, não deveria nem estar aqui ajudando. Desculpe pela audácia, e obrigada novamente pela ajuda. Com certeza me fez ganhar um bom tempo para descansar e trocar de roupa com calma, antes da reunião. - respondi simplesmente, sem pensar no que isso poderia configurar em sua mente, não notando sua expressão intensa em mim.
— Oh, o prazer é meu, nos vemos então na reunião mais tarde, sim? Foi ótimo te conhecer antes das formalidades. - sorriu gentilmente para mim, enquanto passava a mão em meu braço, acariciando-o discretamente. Fitei seus olhos, e antes que eu pudesse me enterrar em pensamentos, sorriu e pegou minha mão galantemente, depositando um beijo na mesma, virando-se para a porta logo em seguida , saindo pela mesma e a fechando. Por alguns segundos, me vi encarando o lugar que seu corpo estava antes, e imaginando outros cenários, como o qual me beijava calorosamente, me derrubando na cama, tirando suas roupas e fazendo o que bem entendesse comigo. Que homem era aquele, afinal? Seus olhos penetrantes haviam me desnorteado, seu corpo de estatura alta e uma composição robusta, havia enfraquecido minhas pernas ao ponto de precisar me apoiar nas paredes cafonas do elevador assim que o vi. Botei minha mão na testa, subindo os dedos pelo meu cabelo, virei meu corpo para a cama e me joguei. Eu estava perdida, mas ainda não sabia disso ainda.

’s POV

Inspirei fundo o ar salgado e gelado, deixando o oxigênio encher meus pulmões fechando os olhos por um segundo. Parei meus olhos no horizonte, que podia ser visto da sacada do meu quarto no último andar. Baixei meu olhar para o navio, e observei a movimentação dos marujos, preparando tudo para começar o percurso do meu gigante de aço. Iriam ser longos 60 dias em alto mar, e eu mal podia esperar para começar tudo isso.
Adentrei minha enorme suíte, onde havia uma sala separada do quarto, e um banheiro completo, sem necessidade de fazer uso do comunitário do navio. Me dirigi até o armário, onde meu uniforme já estava pendurado e passado, pronto para mim. Era melhor começar a me arrumar, já que antes da reunião geral com a minha tripulação, marcada para dentro de 2h, eu tinha o dever de me juntar com meu subcomandante (o qual era um querido amigo meu, de longa data) e contra-almirante, para assim, dar início a nossa rota inicial. Simples, sucinto e elegante.
Bom, esse seria o caso, se não fosse pelo fato de um de meus 4 tenentes, ser . O ser que mais pairava em minha mente nos últimos dias, especificamente toda noite assim que me encaminhava para cama, deixando-me tenso. Não consegui deixar de imaginar como nossa interação iria suceder. Minha tripulação, sendo composta por mais de 300 pessoas, das quais eu deveria interagir direta e indiretamente, não me deixava escapar da convivência com ela. Inferno! Nunca me imaginei trabalhando com ela, apesar de traçarmos a mesma carreira praticamente. Não conseguia parar de pensar em suas petulantes palavras, na festa, onde ocorreu nosso último encontro “ e ainda passarei seu recorde de comandante mais jovem da história…” Garota presunçosa! Eu faria questão de mostrar o erro dela, ao achar que podia falar de qualquer jeito comigo, ainda mais depois de anunciarem nossa coligação. Ela ia se arrepender, oh, se ia.

Me olhando no espelho, já vestido, coloquei o cap de comandante e me encarei, com um meio sorriso confiante no rosto. Não podia deixar de compreender o efeito que eu tinha sobre qualquer mulher. Além de usar uniforme em minha função, eu era um cara atraente, de verdade. Além de ter um corpo definido, uma vez que, além das provas escritas que tínhamos que nos submeter para entrar na academia, haviam as físicas, e eu passava por todas com excelência! Bem, não poderia ser diferente, tendo em vista a importância de termos um bom condicionamento. Além disso, éramos treinados pesadamente em algumas artes marciais, coisa que eu dedicava um tempo extra. Adorava meter a porrada, mesmo que fosse em bonecos.
Dirigi-me a porta, abrindo-a rapidamente e dando de cara com sorridente, meu subcomandante naquela tripulação.
— E aí cara! Porra, quanto tempo! - disparei, arrancado um abraço apertado daquele cara incrível na minha frente.
! Meu chuchu! Vem cá, seu gostoso! - exclamou com humor, me abraçando de volta calorosamente e se pendurando no meu pescoço, aproveitando que eu era maior e mais forte que ele. Gargalhamos pela idiotice. sempre fora um cara despido de vergonha, sem medo de demonstrar seu carinho aos amigos. Aprendi muito com ele em relação a isso. Ele possuía um total de 0% de masculinidade tóxica. Bem, eu presumia.
— Você não muda, né? Continua um imbecil - gargalhei junto, me separando dele finalmente, o observando - Cara, não poderia estar mais feliz de te ter na minha equipe. Que sorte a nossa, hein. Melhor que isso só o Mauro substituindo a irmã tosca dele, por mais que ele não tenha o mesmo cargo que ela - completei me justificando, passando as mãos pelo cabelo.
— Sinto falta do Mauro também, porém, lembrando do jeito que a gente era, íamos tocar o terror no navio se nos juntássemos de novo. E devo perguntar, por que “irmã tosca”? - completou, fazendo aspas no ar com uma expressão confusa no rosto.
— Quando você conhecer aquela garota, vai saber do que estou falando. Ela podia simplesmente não existir, ou estar em outra tripulação. Mas não, o maldito destino tinha que nos juntar. Tudo para testar minha força humanitária não assassina - comentei, mordendo o lábio em seguida, balançando a cabeça negativamente, o olhando em seguida. O mesmo possuía uma expressão divertida.
— Bom, não sei nem o que te dizer - disse, coçando a nuca e abaixando o olhar, para logo voltar a sua atenção a mim e confessar - eu conheci a caçula hoje mais cedo, ajudei ela a levar suas malas para o quarto, que inclusive é o 22 - comentou, sorrindo com a coincidência, já que seu aniversário era dia 22, dando ênfase aquele fato - e achei ela bem agradável, men. Além de maravilhosa e com um corpo do caralho, me parece ser uma mulher incrível - mencionou, com um sorriso malicioso no rosto, mordendo seus lábios. Bizarramente, havia sentido algo estranho no peito ouvindo essa confissão dele. Ignorei e comentei:
— Ah não, cara… Porra, , assim não dá pra te defender. Espera só até conhecer mais ela, para ver se eu não tenho razão! - esclareci, ainda sentindo algo estranho.
— Bem, quem sabe essa rivalidade da família de vocês não ajuda a te cegar e odiar a mulher sem motivos, não? - declarou, olhando para os lados, tentando evitar meu olhar reprovador. Nossa hostilidade entre nossas famílias não era novidade ou segredo para ninguém da Marinha, fazendo esse fato se tornar praticamente uma novela mexicana para os outros, enquanto que para nós, era questão de princípio e herança.
— Talvez, mas só talvez, já que eu conheço ela há tempos, e sei o quanto insuportável é a mulher - comentei, levantando um dedo ao ar e franzindo o cenho em seguida.
— Ok, ok. Vamos ver qual a dela. Mas tive uma boa impressão, man. Já a conhecia por causa do Mauro, mas só de vista. Agora que cresceu, uou! Me animou bastante pros próximos meses que estão por vir - afirmou, dando pequenos socos no meu peito e se virando para o elevador. Segui ele sem dizer nada, apenas rindo. Tínhamos muito o que fazer, não precisava perder meu tempo discutindo com meu amigo o quanto aquela mulher era perversa. Ele ia descobrir sozinho ao decorrer do tempo. Ou não também, não sabia o quanto nossa rivalidade ancestral me cegava. Não naquele momento.

Chegamos ao nosso escritório/cabine principal, onde possuía o clássico timão de navio, que quase não era mais usado, no meio do cômodo, já que sua funcionalidade podia ser substituída por um amplo painel de botões e telas, aumentando significativamente a segurança de velejar em alto mar. Assim como a complexidade de navegar um navio daquele porte.
Posicionamo-nos em nossas respectivas cadeiras, logo depois de nosso contra-almirante adentrar o vestíbulo, começamos a gerar códigos e implementar rotas diretamente ao computador, o qual possuía boa parte do controle sobre os motores do navio.
Com todas as engrenagens perfeitamente arquitetadas, nos entreolhamos e rimos pela eficiência que possuíamos, finalizando a primeira etapa do trabalho em menos de 2h. Assim que levantei de minha cadeira, olhei para a enorme janela da qual o escritório possuía. A mesma circundava a cabine toda, dando-nos uma ampla e generosa visão daquele horizonte esplêndido, que com o pôr do sol então, era covardia. Tantas cores misturadas, tantos elementos naturais enriquecendo minha visão. Eu era sortudo demais. A mesma, possuía uma sacada que também circundava toda a cabine, sendo estreita em largura, porém longa em seu comprimento.
— É lindo, né? - comentou, me tirando de meus devaneios, sorrindo.
— Porra man, demais! Eu já estava com saudade de operar no Corpo da Armada. Aqui é meu lugar - confessei, ainda olhando para paisagem.
— Eu entendo. Não me imagino em nenhum outro lugar, se não em mar alto - comentou, encostando a mão em meu ombro direito - E quem diria, hãn, little tomou jeito na vida e se tornou um dos comandantes mais jovens da história!
— Primeiramente, little é teu ovo, você só é 10 meses mais velho que eu, seu caco. Segundamente, melhor não começarmos a falar do meu passado, ou eu fico nostálgico com as merdas que eu fiz - completei, fazendo uma falsa expressão triste, fazendo gargalhar alto.
O que eu era, as coisas que eu fazia quando mais jovem, as consequências de minha antiga índole impulsiva, deveriam ficar no passado, enterrado, assim como ela quase estava. Afastei os pensamentos amargos com um balançar da cabeça. Havia trazido mais distanciamento e rancor entre minha família e os ; e sou extremamente grato ao meu irmão de alma, Mauro, ter me perdoado, apesar da dor que lhe causei. Obviamente não me orgulhava nem um pouco do que fiz, sentia muita vergonha e pesar, mas com certeza este fato foi decisivo para eu mudar e ser quem era hoje.
— Claro, claro. Vamos deixar essa conversa para outro dia. Já tá na hora da nossa reunião, vamos? - me relembrou, já se dirigindo à porta do gabinete
O acompanhei, sem responder, ficando absorto em meus pensamentos .
Nosso contra-almirante ficaria operando os computadores em nossa ausência, é o mesmo tinha plena capacidade para tal. Tudo que diríamos na reunião ele já possuía conhecimento, tornando sua presença dispensável.

’s POV

Desde quando o ar se ausentou da face da Terra? Sentia-me sufocada naquela sala, como se o oxigênio fosse usado por todos ali, e não sobrava nem uma parcela para mim. Só queria sair correndo daquele lugar, apesar de ser uma reunião extremamente necessária. Eu era muito ingênua mesmo, achando que tudo ficaria bem pelo simples fato de ter simpatizado com meu subcomandante e com alguns outros tripulantes conhecidos, que haviam frequentado a academia comigo.
Apesar do meu desprezo imenso, não conseguia desviar minha atenção de , que liderava a apresentação com maestria, por mais que odiasse admitir isso. Sua fala era impecável, sua linguagem corporal era de um líder nato. Não parava um segundo de explicar perfeitamente nossos próximos passos nos meses seguintes, tendo o apoio de , quando o mesmo precisava adentrar em sua fala e elucidar alguns pontos. Maldito homem insuportavelmente competente. E grande. era enorme, e eu nunca reparara em sua constituição física, até hoje.
Agora, só se ouvia a voz de , enquanto o outro, ainda em pé, olhava-nos um por um, anotando algo em uma prancheta a altura de seu peito. A medida que escrevia, não pude deixar de notar seu antebraço e bíceps, desnudos pela camisa branca de botões. Moviam-se e contraíam-se de forma ligeira e ritmada. A caneta quase sumia em sua mão, de tão grande que a mesma era.
Senti uma irritação em meu peito pelas minhas observações indiscretas e bufei alto sem querer, chamando a atenção de todos para mim. Eu já podia sumir e nunca mais voltar?
— Algum problema, ? - me perguntou, com uma expressão sarcástica e uma sobrancelha levantada.
— Não, sen.. Não, comandante - proferi as últimas palavras como um sopro, tentando disfarçar minha insatisfação em ser sua subordinada e ter que evidenciar verbalmente.
— Como é? Não escutei, perdão. Pode repetir? - um sorriso insuportável moldava seus lábios, enquanto todos olhavam curiosos para nós, sentindo a tensão palpável em nossa interação.
— Voltemos para a reunião, sim? - interrompeu , chamando a atenção de todos, continuando sua apresentação. Assenti obediente, mas continuava concentrado em me olhar, sem se importar com quem quer que estivesse mirando-o ainda. Cravei meus olhos em , e começamos aquela guerra silenciosa já tão conhecida por nós. O mesmo começou a anotar algo em sua prancheta, sem deixar de me fitar intensamente, com um meio sorriso debochado. O que aquele desgraçado estava planejando?
Revirei os olhos, desviando o foco do ser patético a minha frente, e passei a olhar o deus grego ao seu lado. Ele falava de umas de nossas missões mais importantes, que aconteceria cerca de 1 semana, ou 2, a partir de hoje, da qual teríamos que acompanhar um valioso navio cargueiro, como uma escolta. Afinal, éramos da marinha, ou seja, parte do exército. Possuíamos um treinamento intenso com armas, artes marciais e conduta de guerra. O que contribui fortemente para tal missão. O trajeto passaria perigosamente próximo à costa da Líbia, local conhecido por possuir muitas frotas de piratas.
Sim, piratas.
Mas não no estilo Johnny Depp ou Orlando Bloom; quem me dera!
Era mais no estilo assassinos sanguinários, saqueadores com armamento pesado e sequestradores. Claro, não era todo navio que eles atacavam, entretanto, não poderíamos deixar de acompanhar este em específico, devido ao carregamento. O perigo era imenso, fazendo com que nosso trabalho triplicasse de responsabilidade e disciplina para, inclusive, o possível infeliz cenário de termos casos de… cativeiro de nossa tripulação e/ou do outro navio.
Esta conclusão era especialmente assustadora para mim, me estremecendo até os ossos. Ser sequestrada ou ter que lidar com sequestro alheio. Qualquer mínimo passo errado, e a vítima era executada sem pena. Com uma mortalidade próxima a 90%, os aprisionados pelos piratas da Líbia apenas sobreviviam em casos extremamente raros; ou com atiradores competentes envolvidos , ou uma recompensa gigantesca em dinheiro era oferecida a eles.
Olhei enjoada para minhas mãos, fortemente fechadas, pelas lembranças que invadiram minha mente.
Fitei minha calça extremamente branca, da qual eu ficava tão bem. Tínhamos vários tipos de uniformes, aquele era um dos meus preferidos, pela praticidade e conforto. Os outros envolviam saias apertadas e gravatas, acompanhado de blazers justos.
Tentei distrair meus pensamentos da ansiedade que estava me tomando, fechando os olhos com força. Voltei a abri-los, recaindo minha atenção em , não antes de olhar rapidamente para . O mesmo me encarava intensamente com o cenho franzido. Seu eu não o conhecesse, até poderia arriscar presumir que sua expressão demonstrava preocupação, o que soou absurdo para mim naquele momento.

A reunião acabara três horas após seu início, fazendo-me suspirar pesadamente, assim que e anunciaram seu fim. Já era 21h da noite e eu estava faminta, precisando de um longo banho. Não aguentava mais ficar ali, ainda mais agora com aquele aperto no peito, após saber que estava na equipe especial de . Informação essa que havia lido em voz alta, após pegar a prancheta da mão de . Aquele imbecil só poderia estar planejando meu afastamento da Marinha pelo próprio assassinato, executado por mim. Ou talvez fosse esse o primeiro processo de castigo disciplinar que havia me ameaçado na festa. Teria que lidar com ele diretamente, de forma mais frequente que eu achava segura para minha sanidade. Algumas vezes na semana, até teríamos que trabalhar sozinhos. Sozinhos. Isso me trazia uma ansiedade monstra.
Na tripulação, havia oito subtenentes, quatro tenentes, dois comandantes, dois capitães, dois comodoros, um contra almirante, um subcomandante (extremamente delicioso) e um comandante (extremamente irritante). Ambas as equipes possuíam a mesma função, porém, em horários diferentes, afinal, trabalhar mais de 6h por dia era impossível com tamanha responsabilidade que possuíamos.
Fora isso, durante o “descanso”, tínhamos a obrigação de treinar pelo 1h por dia (fisicamente falando). De resto, poderíamos relaxar. A sala de luta que me aguardasse, iria usar muito naquele período.
Por mais que eu odiasse admitir, amava a função que havia sido designada, cuidando especialmente da programação das rotas já traçadas. Ia trabalhar perto de ? Ia! Mas pelo menos era em algo que brilhavam meus olhos, o que poderia ajudar-me a ignorar a presença dele no recinto.

Saí da sala de reuniões totalmente distraída, o que me fez quase não notar a mão que repousou em meu ombro. Virei de supetão, me assustando com o toque gelado. A autora falou algo, mas não consegui entender de imediato pelo meu susto
— Desculpe, pode repetir? - perguntei envergonhada, encarando a linda mulher em minha frente. Ela possuía estonteantes cabelos ruivos cacheados e olhos verdes claro
— Típico comportamento seu, né Nathália? Sempre com um pé no mundo da lua - sorriu-me docemente - Sou eu, Emily! Fizemos o treinamento juntas, e apesar de você ser reservada, a gente se dava bem e costumávamos fazer algumas atividades e provas juntas. - completou, enquanto colocava as mãos no quadril.
Emily.
— Meu Deus! Peço mil desculpas, meu treinamento foi numa fase em que eu e minha família ainda estávamos superando uma tragédia, não lembro de todos que cruzaram meu caminho naquela época! Mas fico extremamente grata por lembrar de mim e vir me procurar - confessei encabulada pelo meu esquecimento, pondo uma mecha de meu cabelo atrás da minha orelha, olhando-a enquanto sorríamos uma para a outra.
— Não tem problema, sério! Eu lembro mais ou menos do que vocês passaram, sinto muito, inclusive. Bom, a gente se dava bem, mas nos falávamos pouco mesmo. Fico feliz pelo menos de encontrar um rosto feminino conhecido, já que como mais nova tenente, não conheço ninguém aqui quase. Além de você, é claro. Inclusive, parabéns pela promoção - sorriu largamente e pousou a mão pelo meu ombro de forma carinhosa, parabenizando-me pela conquista.
— Puxa, muito obrigada, Emily! Parabéns para você também. Fico mais aliviada em ter algum rosto amigável entre tantos. Vamos nos manter unidas aqui.- comentei com ela, fazendo a mesma sorrir mais - Estou no quarto 22 do nosso segundo andar, e você?
— Meninaaa, estou no 20! Super perto, só pular uma porta, a qual o tenente Andrew está. Inclusive, que pedaço de mal caminho! Pretendo realizar um test drive - sorriu-me mordendo o lábio inferior, me fazendo gargalhar
Antes que eu pudesse lhe responder, vi tirar meio corpo da porta da sala de reuniões e me chamar, em tom sério. Lindo até assim.
Pedi licença para Emily e disse que a via mais tarde, me dirigindo para o aposento.
me lançou um olhar preocupado e disse:
— Ele quer falar com você… Mas não parece estar em seu melhor momento…
— E quando ele está? - disse sem me importar, arrancando uma risada de .
O mesmo saiu do recinto, enquanto eu adentrava. fechou a porta atrás de si, me deixando sozinha com .
Socorro.
O mesmo me olhou de uma forma negativa, com o cenho franzido, extremamente sério. Se eu não o odiasse, poderia até dizer que aquela pose perigosa ficava sexy nele.
Mas eu o odiava, então, ele estava ridículo.
Ridículo, não perigosamente sexy.
Inclusive, ele de uniforme ficava tão…
- dirigiu-se a mim, ainda sério, pegando alguns papéis na imensa mesa à nossa frente.
... - respondi olhando pro chão.
— Comandante . E olhe pra mim enquanto estou falando! Você deveria ter mais respeito pelo seu superior - exclamou, enquanto aumentava sua expressão agressiva
Voltando meu olhar lentamente para ele, só pude responder:
— Pelo amor de Deus, não exija respeito de mim por você, quando nem admiração eu sinto pela sua existência. Aliás, você não demonstra respeito por mim, como posso retribuir algo que não é dado em troca? - disse exasperada, cuspindo minhas palavras sem pensar .
— Pois de agora em diante, você terá que engolir que sou seu superior, e pode pegar essa sua antipatia e enfiar…
— Enfiar onde, ? Pense bem antes falar, ou você quer aumentar o asco que sinto por você? Não era você que queria que as farpas e insultos cessassem? - o interrompi, cuspindo minhas palavras entre dentes, mais alto que o necessário, enquanto uma ânsia insistia em formar-se no meu estômago.
contornou a mesa, que nos separava de forma lenta, parando bem em minha frente, estufando o peito, em uma postura superior, a qual não demorei muito para imitar. Foda-se a hierarquia naquele momento, eu o odiava e não iria ceder nunca.
Ele pegou no meu braço direito com força e aproximou nossos rostos.
— Pegue esse seu orgulho e petulância, e transforme em trabalho bem feito. Como você acha que vai soar seu desempenho em meu relatório, após você incisivamente insistir em fazer sua presença aqui na MINHA tripulação ser praticamente inútil, ao invés de cumprir com sua função como uma boa Tenente? Ou você acha que a rivalidade entre nossas famílias não é conhecida pelos nossos superiores? Nossos futuros na Marinha estão em jogo, garota. Nossas funções se cruzaram, e agora devemos provar o quanto conseguimos ser profissionais e deixar isso tudo de lado. Já houveram muitos problemas no passado que envolvem nossos sobrenomes. Quer mesmo dificultar nossos trabalhos? - confessou, olhando-me com desprezo. Não aguentei sua resposta carregada de razão, e dei um tapa em seu rosto com minha mão livre, como se quisesse calar sua boca com aquele ato. Voltou sua face lentamente, enquanto repousava uma mão no rosto, soltando uma risada de desdém. Olhou-me profundamente, fazendo seus olhos me hipnotizaram. Minha raiva só aumentou. Não queria olhá-lo daquele jeito intenso.
Antes que eu ao menos que eu pudesse pensar direito, tentei me desvencilhar para aplicar meu segundo golpe em seu rosto. Porém, segurou meus dois pulsos com força, os colando na parede atrás de mim, um de cada lado da minha cabeça. Tentei me soltar, debatendo meus braços inutilmente, enquanto gritava “me solta”. Flashes de acontecimentos de nossos passados tomaram conta da minha mente, fazendo-me começar a lacrimejar, e fechar os olhos em resposta.
— Você pensa que só porque meu irmão te perdoou, pode agir desse jeito egocêntrico e desrespeitoso pra cima de mim? - minha voz estava tão baixa e afetada que eu quase não me reconheci. Odiava que me visse desse jeito frágil; odiava que ele me deixasse frágil - Eu fico chocada com a sua pachorra. Você não deveria nem dirigir a palavra a mim. - fitei o chão com vergonha de estar chorando - Eu nunca vou te perdoar, , nunca! - o olhei com raiva, engolindo minha vergonha. Sua expressão de desgosto aliviou, assim que notou as lágrimas em meus olhos. Nos segundos seguintes, parecia paralisado, sem reação. Pelo visto a culpa havia o atingido em cheio. Bem feito, isso era pouco ainda, em minha opinião. Alguns minutos de silêncio se fizeram presentes entre nós dois, onde podia-se ouvir apenas nossas respirações descompassadas.
De repente, ele fitou minha boca longamente, fazendo-me dar conta da nossa proximidade extremamente desconfortável para mim.
Me vi totalmente confusa por tal situação, afinal, que merda será que ele estava pensando?
Ele subiu seu olhar, trocando dos meus olhos para minha boca, algumas vezes.
Hipnotizada do jeito que eu estava, só consegui sentir sua fragrância que eu já havia gravado há tanto tempo, suspirando pesadamente e fechando meus olhos com força, franzindo o cenho em seguida. A atmosfera da sala estava extremamente tensa, como se o clímax da situação que nos encontrávamos estava prestes a acontecer.
Ouvi-o limpar a garganta, praguejando levemente, e o espaço entre nós diminuir. Suas mãos foram afrouxando a pressão em meus pulsos, descendo-os até a altura dos meus ombros, sem largá-los. Seu nariz roçou no meu, fazendo com que uma sensação quente surgisse na minha barriga.
— Garota irritante...- comentou baixo, com a voz rouca, fechando os olhos fortemente quando abri os meus. Seu hálito mentolado se misturava no ar, me envolvendo de um jeito perigoso. Respirar pelo nariz parecia insuficiente naquele momento. Entreabri minha boca, imitando a atitude de , que tinha o rosto extremamente próximo do meu, inclinado para o lado. Não me atrevi a responder sua provocação, estava sem reação.
abriu os olhos e me encarou de forma carregada. Não consegui não corresponder o olhar, me sentindo presa, vinculada a ele. Haviam significados naquele olhar que eu não conseguia interpretar. Ele aproximou seu rosto mais do meu, lentamente.

E então eu me dei conta. Oh Meu Deus! Que merda estava acontecendo?

Lhe dei uma joelhada na virilha por impulso, pegando de surpresa, fazendo-o gemer de dor e me soltar, pairando seu corpo na mesa.
— Qual seu problema, seu merda? - perguntei assustada, passando a mão nervosamente pelo cabelo, me apoiando em meus joelhos em seguida, para não cair simplesmente.
— Porra, sua descontrolada! - respondeu-me, com uma mão pousada no local que eu havia batido, e a outra na mesa, se segurando. Os olhos fechados e sua expressão de dor me deram uma leve sensação de satisfação.
Antes de responder, saí correndo pela porta e segui direto para meu dormitório.
É sério que por um milésimo de segundos, eu pensei em beijá-lo e vice-versa? Não que isso devesse ser revelado algum dia para ele, até porque um beijo entre nós NUNCA iria ocorrer. Repito, NUNCA!
Dormitório o caramba, eu precisava de um banho gelado.


Capítulo 3 – Chaos Theory

Terminando o banho, peguei minha toalha branca felpuda, secando-me. Improvisei um vestido tomara que caia com a mesma e fui em direção à pia. Encarei-me, passando uma de minhas mãos em meus cabelos recém lavados, enquanto repousava a outra no granito gelado. Estava tonta de tantos pensamentos que insistiam em me invadir e sensações intensas em meu corpo. Vergões rosados apareciam na minha pele, depois de eu esfregá-la com tanta força, tentando tirar essa sensação esquisita que se formou em mim.
Como sempre, estava pensando demais, tentando raciocinar em cima de emoções que não faziam sentido, simplesmente. Sentia-me traída pelo meu corpo. Minha sanidade iria pro saco rapidinho.
Baixei o olhar do espelho e caminhei até a porta, me xingando mentalmente por ter esquecido minhas roupas no quarto.
Abri a porta e espiei os corredores, vendo se estava sozinha mesmo. Constatando que sim, comecei a caminhar às escadas de emergência, evitando o elevador que poderia ser facilmente mais utilizado por todos, já que era o único no navio. O andar das duchas comunitárias era o -1, o que significava que tinha uma caminhadinha e tanto até o segundo. Agradecendo mentalmente por estar um frio desgraçado, sabia que não iria suar até meu quarto. Infelizmente, algo desagradável ocorreu quando alcancei o primeiro andar.
Um marujo, que identifiquei sendo um subtenente por causa da reunião mais cedo, estava descendo as escadas, com seus pertences para tomar banho. Olhei-o sem graça, apenas direcionando um “boa noite” baixo, enquanto continuava o meu caminho. Ele, ao contrário, parou e começou uma conversa desagradável comigo:
— Tenente , que prazer te ver por aqui! - comentou maliciosamente, me encarando de um jeito indiscreto e claramente nojento. Merda - Não esperava te ver aqui tão soltinha já logo no início - completou, conseguindo revirar meu estômago instantaneamente
— Como é? - perguntei incrédula pela sua suposição ridícula, apertando a toalha com mais força em meu corpo. Não é porque eu estava daquele jeito, que ele possuía qualquer direito de pensar qualquer besteira sobre mim.
— Ah, bom, sabe como é… Eu sei ler bem quando mulheres que nem você aparece no meu caminho. Sei o que você está querendo, voltando pro seu quarto assim. Se quisesse chamar atenção masculina, era só bater na porta de qualquer um da tripulação, você é bem bonita sabe? - respondeu-me, apontando para mim e se aproximando, me olhando de cima a baixo, fazendo eu descer um degrau em resposta.
— Mulheres que nem eu? - perguntei com raiva - Pois saiba, marujo Daniel - disse com o todo o desprezo que pude juntar ao pronunciar seu nome, escrito na plaquinha no seu uniforme - que eu estar desse jeito, denota apenas um esquecimento tolo de minha parte. Deixei minhas roupas no quarto sem querer, inclusive, peguei as escadas por medo de encontrar alguém tão desprezível quanto você em meu caminho. Não que eu deva me justificar nem nada, mas fica aqui o aviso: fica na sua ou vai se arrepender amargamente. Não ache que tem direito de falar qualquer merda que quiser para mim, ou para qualquer mulher - lancei lhe um olhar pingando a nojo, enquanto passava por ele pra continuar meu caminho. Mas Daniel foi mais rápido e pegou meu braço, fazendo-me virar de repente para ele
— Olha aqui, não é porque você está a um cargo acima de mim, que pode falar como bem entender comigo. E não pense por um segundo, que eu acreditei nessa sua história de garota esquecida, sua piranha - cuspiu entre dentes, enquanto me olhava com raiva - vou te ensinar a se comportar direitinho quando aparece um homem de verdade na sua frente - falando isso, ele me pressionou com força contra a parede, tentando a qualquer custo me beijar. Tentei dar socos e chutes nele, em vão. Eu me esquivava desesperadamente, ao mesmo tempo que tentava manter a toalha em meu corpo. Seus movimentos eram bruscos e raivosos, e eu podia jurar que onde ele me apertava, ficariam hematomas. Comecei a gritar por socorro, perdendo o fôlego pela minha movimentação possessa. A palma de sua mão direita tapou minha boca, enquanto que com a outra, segurava minha cintura com força. Podia sentir o cheiro de seu perfume nojento pela proximidade, sentindo-me nauseada. Me debatia furiosamente, mas ele era mais forte que eu. Uma onda de desespero tomou conta de mim. Enquanto isso, ele alcançou meu pescoço e começou a depositar sucções, e eu podia jurar que desmaiaria de pânico.
Então, de repente, não o senti mais perto de mim.
Abri os olhos assustada, vendo as lágrimas nublarem tudo. Levei as costas das minhas mãos nos olhos, enxugando as gotas salgadas do meu rosto. Pude enxergar em cima de Daniel, o socando vorazmente. A não ser pela minha respiração ofegante, permaneci imóvel, assistindo aquela cena violenta. Seus golpes eram precisos, sua expressão assustadora, Daniel não conseguia nem se mexer ou proferir nada.
, vá para o seu quarto, Não quero que veja o que estou prestes a fazer com esse verme - parou rapidamente, enquanto dirigia seu olhar para mim
— Por favor, pare, eu não vou mais incomodar ela, eu juro! Por favor…
— Cala boca seu merda! - rosnou para ele, olhando-o de forma sinistra - !

Se eu estivesse em outras circunstâncias, não teria simplesmente obedecido a ele, como o fiz. Mas seu tom de voz e expressão realmente me deixaram apavorada, fora que minha vontade de ficar longe de Daniel me estrangulava o pescoço. Não que eu me importasse com o que aconteceria em seguida, afinal, com a atitude grotesco do mesmo, ele não merecia menos que uma boa surra. Só havia uma certeza pairando em minha mente: de agora em diante, Daniel era ninguém. Simplesmente acabara de afundar qualquer tipo de carreira que poderia construir na Marinha. Subi as escadas correndo, sentindo meus joelhos tremerem violentamente, enquanto escutava proferir palavras de baixo calão, e gemidos sofridos de Daniel. Não conseguia parar de chorar pela situação abusiva que havia ocorrido.

Após vestida, duas longas horas passaram desde o infeliz ocorrido nas escadas. Eu estava assustada ao mesmo tempo que sentia nojo. O que teria acontecido comigo caso não tivesse aparecido?
Inutilmente, tentei desviar minha atenção a afazeres básicos, como ler mapas, fazer relatórios, definir meus próximos passos, ou até mesmo escrever em meu caderno pessoal. Mas nada disso tirava meu foco do abuso que eu sofrera. Se eu não pudesse me sentir segura em meu próprio ambiente de trabalho, onde mais me sentiria? Ali seria meu lar pelos próximos meses. Deveria estar confortável sobre esse teto, confiar em meus colegas de profissão.
Sentei na cama e encostei minhas costas na cabeceira, abraçando meus joelhos, tentando me confortar em vão. Peguei o controle do meu criado mudo e liguei a televisão, tentando focar em algum entretenimento, enquanto passeava pelos canais rapidamente. Inútil, minha cabeça não saia daquela situação.
Levantei da cama em um pulo nervoso, pairando minha mão na maçaneta por alguns segundos, antes de abrir a porta completamente. Será que era uma boa ideia sair do quarto?

Comecei a andar sem um rumo ao certo, saindo rapidamente do meu andar. Por um segundo, me senti sufocada com a ideia de não poder ir para casa de meus pais me refugiar, tendo em vista que eu estava em missão, “presa” no Navio A 51011; não tinha para onde ir, para onde fugir.
Quando me dei conta, já estava na parte de fora do navio, entre os canhões e containers. Céus, como fazia frio em alto mar! Deveria ter vestido algo mais grosso e quente, como um casaco, além das calças de moletom e da blusa de manga comprida que vestia. Parei meu caminho assim que percebi que estava mais perto da proa, já podendo visualizá-la. Abracei meu corpo, olhando para a imensidão totalmente escura, iluminada somente pelas estrelas que ocupavam cada centímetro do céu.
Por um segundo, me emocionei por tal visão tão única e esplendorosa. Aquilo me acalmou, me dando a sensação de algo maior além de mim. Como se o que eu vivia era mínimo diante de tanta beleza, e do significado do universo e da vida como um todo.
Me deixei levar por meus devaneios e não pude deixar de conspirar: não é possível que estivéssemos sozinhos no espaço, ele é Colossal demais para sermos os únicos com vida aqui. Com certeza alguma inteligência superior observava-nos de longe (ou até mesmo de perto, quem sabe?). Adorava pensar sobre aquilo, criar minhas teorias totalmente leigas, ver vídeos e ler sobre relatos de contatos… Será que era um extraterrestre, de tão gato que era?

No caminho, comecei a pensar no meu avô querido, como será que ele estava naquele momento? Eu precisava conversar com ele e saber mais do motivo dessa rixa histórica, e o que ele pensava sobre o que acontecera há poucos anos atrás. Ele já estava muito velhinho, não tivemos a oportunidade real de falar sobre isso. Apenas lamentamos e seguíamos com nossas vidas, afinal, o que mais tinha para fazer, senão seguir em frente?
Cheguei na proa, deixando o frio se apossar de mim, não me importando, de novo, com minhas sensações físicas, deixando-me levar pelo estupor que estava sendo presenciar tudo aquilo. Que dia! Cheio de acontecimentos e picos de sensações, ruins e boas. O que será que tinha mais para acontecer pela frente? Para um perfeito fechamento, só faltavam golfinhos e sereias pularem na minha frente.

Mais um tempo ali, e senti uma presença perto. Virei rapidamente assustada, dando de cara com ele.

’s POV

Ouvi vozes alteradas na descida da escada, a qual eu havia escolhido usar por considerar mais rápida. Precisava ir ao -3, onde se encontravam os marujos responsáveis por operar as máquinas programadas por mim e por . Além de querer dar uma passada onde ficava a sala de operações elétricas, da qual me fascinava! Lá dentro, mais de 100 pessoas trabalhavam, tomando conta de toda energia que o navio precisava, direcionando-a para a cozinha, movimentação da embarcação, etc.
Ouvi uma voz feminina conhecida assustada, e resolvi descer as escadas mais rápido. Quando cheguei mais perto, logo reconheci a voz como sendo a de ; vendo um de meus subtenentes em cima dela, enquanto a mesma possuía apenas uma toalha sobre seu corpo, não demorei em intervir naquela cena nefasta. Tive que me segurar para não quebrar o pescoço dele ali mesmo, poderia matar aquele imbecil com tamanha a raiva que sentia. Quem ele pensava que era, tocando e encurralando ela daquele jeito? Eu ia mostrar a ele seu lugar. Ninguém podia tocar nela daquela forma.

Depois de mandá-la se afastar e ver a mesma subindo apressada para o andar de sua suíte, voltei meu olhar para Daniel. Antes que o mesmo pudesse falar mais alguma coisa, mandei um soco bem dado na sua mandíbula, desnorteando-o. Levantei seu corpo mole, e proferi joelhadas na sua barriga, fazendo cuspir sangue no meu uniforme. O mesmo implorava para eu parar, mas mal sabe ele que eu não tinha nem começado.
Então quer dizer que enfrentar alguém do seu tamanho, ele não aguentava, hun?
Chutei sua barriga com raiva novamente, pegando seu colarinho para o mesmo me olhar.
— Você não é mais subtenente aqui na minha frota. Inclusive, perdeu sua carreira agora - disse, com raiva, dando-lhe outro soco no rosto, fazendo-o gemer.
— P-p-por que te importa com o que aconteceu? Eu só estava tratando-a do jeito que ela merecia! - cuspiu inconformado, entre seu próprio sangue e saliva.
Como ela merecia?
Imbecil.
— Eu só estou te tratando do jeito que você merece, doçura - o respondi, com um sorriso maligno nos lábios.
Agarrei sua blusa e dei outro soco em sua cara, e o arrastei até o -5, sem esperar que levantasse. Lá ficavam nossas cargas mais pesadas, e nossa pequena prisão, com duas celas que comportam facilmente 10 pessoas. Eventuais abordagens mais sérias aconteciam em alto mar, elas eram necessárias.
Ali seria o lar desse imbecil pelos próximos meses, ao menos até chegarmos em alguma terra firme e eu poder deportá-lo para Inglaterra novamente.

Adentrei minha suíte, jogando longe minha blusa branca, agora com pontos avermelhados. Após levar Daniel em cárcere, o mesmo pareceu desprezar o que lhe restava de bom senso e tentou, sem sucesso proferir alguns golpes contra mim. Patético. Aquilo com certeza foi suficiente para eu deixá-lo desacordado e com a certeza de que, no dia seguinte, ele preferiria permanecer desmaiado por longos dias. Ou simplesmente ter desenvolvido caráter durante sua vida, evitando agir como um total imbecil e sofrer as consequências por isso. Logo depois, bati na porta do dormitório da médica e dos dois enfermeiros que estavam em minha tripulação, avisando-os que já possuíam um paciente para eles cuidarem. Informei-os que era para realizar o tratamento que fosse no -5 mesmo, sem levá-lo à enfermaria. Agora era um prisioneiro e deveria ser mantido trancado. Talvez devesse ter chamado o dentista do bordo também, aquele babaca ia precisar depois de ter cuspido alguns dentes.
Desgraçado filho da mãe. Minha vontade era matá-lo. Mas o máximo que me era permitido, era realizar a prisão mesmo. Culhões eu tinha de sobra pra desfigurar aquele rosto de moleque criado a leite com Pêra, mas realmente não deveria.
Como ele se atrevia a tentar algo contra ? Ainda mais num momento tão vulnerável quanto aquele? A imagem dele em cima dela fervia meu sangue, não suportava o fato de ter sofrido um abuso tão escroto quanto aquele. Ainda mais em seu primeiro dia na minha tripulação. Sentia-me um incompetente, eu possuía o dever de manter todos a salvo.
Ainda mais ela.
Rangendo os dentes com força, soltei um grunhido de raiva.
Melhor tomar um banho para esfriar a cabeça.

Após algum tempo depois da ducha rápida que tomei, resolvi pegar meu binóculo no móvel perto da TV. Por mais que de noite eu não fosse enxergar muita coisa, precisava me distrair. Minha sacada já estava aberta, deixando meu quarto frio pela brisa. Eu usava apenas uma calça grossa de moletom, sentindo minha pele se arrepiar, mas não me importava. Preferia me ater a sensações físicas de vez em quando, ainda mais em um momento tão tenso como esse.
Andando até o parapeito e me apoiando no mesmo, não pude deixar de admirar as estrelas infinitas no céu. Como eu amava isso! O afastamento da cidade e de suas luzes evidenciavam de forma tão forte e linda os astros. Ajeitei o binóculo no rosto e comecei a explorar despretensiosamente, sem esperar ver muita coisa.
De repente, pude vê-la andando sozinha pelo convés. O vento batia com força em seus cabelos, fazendo-os voar descontroladamente, e eu jurava que se me concentrasse, podia sentir seu cheiro me alcançando. Após alguns minutos, abraçou o próprio corpo, tendo em vista que fazia um frio desgraçado naquela noite.
Minha vontade era sair correndo dali e esquentá-la, proteger-lhe o máximo que eu…

Espera, como é que é?
Eu não acabei de pensar isso.

Joguei o binóculo na cama e me encaminhei para o minibar do quarto, escolhendo beber um whiskey puro. Entornei ele mais rápido que uma estrela cadente, me servindo outra vez. Se fosse para ter pensamentos fora da normalidade daquele jeito, melhor me alcoolizar levemente, para pelo menos por a culpa em algo externo a mim.
Voltei até a sacada, pegando o binóculo novamente na cama. Sentei na cadeira que havia ali e me aconcheguei, continuando a observá-la.
Ela parecia perdida, observando as estrelas com tanta admiração que parecia simplesmente não se importar com frio que fazia, vestindo roupas tão finas para tal temperatura. O que será passava pela mente dela naquele momento? Será que estava com medo? Será que se sentia segura aqui no navio?
E o mais assustador para mim: o que estava acontecendo comigo para que, de repente, eu sentisse meu desprezo por ela simplesmente evaporar pelos meus poros? A situação de algumas horas atrás, lembraram-me de inúmeros péssimos momentos, dos quais eu e Mauro, tivemos que livrar . Ainda mais depois do que acontecera com sua mãe. Ela quase afundou-se em um submundo extremamente lesivo, trazendo à tona atitudes auto depreciativas e perniciosas para sua saúde. Quase fora expulsa da Marinha, por mais que sempre fosse exemplar. E eu sabia que tinha minha parcela de culpa para essa fase de sua vida, acontecer. Oh, como tinha. Eu sabia que toda vez que me olhava, sofria, sentia coisas que preferia submeter-se a lobotomia para esquecer. Odiava minha existência com todas suas forças, e odiava que seu irmão era tão próximo a mim, ao ponto de eu ter participado de tantos períodos de sua vida. Eu sabia o quanto havia sofrido, e o quanto não merecia nada daquilo. Por isso, a ver tão perdida daquele jeito, andando sozinha no convés, eu sabia ler o quanto estava passando por um momento de aflição. O momento estava totalmente contra ela: longe de sua família, tendo que trabalhar comigo, com essa recém situação de merda.
Sentia um ímpeto de tomar-lhe a mão e prometer perante todo aquele céu estrelado, e todas as gotas do mar, que nada mais de ruim iria lhe ocorrer. Que enquanto eu estivesse por perto, ela estava protegida; que sua maior preocupação, deveria ser somente com seu trabalho, e nada mais. Pelo menos ela estava exercendo a função que mais amava.
Será que algum dia, meu ódio realmente existiu? Ou era apenas uma resposta automática ao modo como ela me tratava? Uma resposta automática que eu havia aprendido a ter, com meu pai. Não era novidade para mim que eu gostava de provocá-la, me deleitando em como ela ficava linda irritada, e de como era fácil ocasionar isso. Normalmente nossas brigas não escalonavam para algo tão sério como as duas últimas foram. Eu tomava extra cuidado em não me exaltar tanto e evitar tocar em assuntos mais delicados, e deixava a parte dos insultos pesados e humilhação para ela, que havia maestria em realizá-los.
Mas ainda tinha toda essa história cansada de nossas famílias se odiarem. Meu avô já havia revelado a mim, que chegou a brigar fisicamente com o avô dela, durante uma missão, deixando-o de nariz quebrado. Os dois sofreram pesadas punições, e nunca mais foram colocados para trabalhar na mesma frota.
Era quase impossível não me deixar levar meramente pela tradição, e continuar a perpetuar esse desprezo. Era confortável simplesmente não questionar, ficar naquela bolha. Aliás, minha amizade com Mauro já fora balançada algumas vezes. Mas havíamos passado por muitas coisas juntos, tínhamos muito respeito e admiração um pelo outro. Ambos sempre foram meio rebeldes quando mais jovens, era divertido simplesmente contrariar nossos pais.
Continuei a observando sozinha por mais alguns momentos, até ver se aproximando, tocando-lhe o ombro calmamente. O que ele estava fazendo ali?

’s POV

sorriu largamente, pedindo desculpas pelo susto que havia me provocado. Sorri de volta, sacudindo a cabeça dizendo silenciosamente que não tinha problema, em resposta.
— Então… - disse, sem saber um assunto para puxar.
— Então… - o imitei, fazendo-o gargalhar.
— Você não sente frio por acaso? Esta pelo menos -3ºC e você só essa blusa fina de manga comprida... Não quero que nossa Tenente mais eficiente fique doente, pretendo trabalhar muito com você ainda, ! - me disse, com sua gentileza de sempre, arrancando uma risada sincera de mim. Olhei para meu próprio corpo e o respondi:
— Eu saí apressada do quarto, nem me liguei. Como sempre esquecendo de coisas importantes - confessei, rindo um pouco, me lembrando do infeliz fato que ocorrera mais cedo. - Mas juro que estou acostumada a temperatura baixa, inclusive, amo!
— Claro, nem tinha como ser diferente... O tempo no mar está sempre tão gelado, ainda mais aqui na parte leste Europeia. Mas enfim, você parece meio abalada. Está tudo bem? - perguntou-me preocupado e com doçura, me encarando intensamente, se pondo na minha frente. Aproximou uma mão de meu ombro e o envolveu com carinho. Seu toque me fez queimar imediatamente, ruborizando minhas bochechas. Olhei na hora pro chão sorrindo, com medo dele notar, observando meus sapatos como se fossem as coisas mais interessantes do mundo.
— Bem, tirando alguns eventos infelizes que não vem ao caso comentar agora, eu to bem sim, obrigada por perguntar, . E sim! O frio aqui, apesar de fazer meu nariz congelar, me faz sentir em casa...
— Eu entendo totalmente! - comentou sorrindo - Não tem dia ensolarado em terra que me faça querer ficar por perto, se tenho a opção de estar em alto mar, no frio…
— Exatamente! Tudo se encaixa tão bem…- disse em um fio de voz, o olhando hipnotizada. A última parte de minha fala tinha mais significado para mim, pensando no quanto combinamos em alguns aspectos.
— Inclusive, vamos nos esquentar um pouco, senão daqui a pouco seu lábio fica roxo! - disse sorrindo de um jeito brincalhão, fazendo eu me assustar rapidamente achando que ele ia me abraçar. Iludida, eu? Imagina! colocou as mãos dentro do casaco, puxando duas garrafinhas pequenas de dentro - Esse é um licor que ganhei de quando fiz 30 anos. E como bebida fica melhor com o tempo, envelhecendo também na garrafa, quero tomar uma com você. Como comentei mais cedo, é uma honra trabalhar com a caçula dos , vamos comemorar! - confessou para mim, balançando as garrafinhas no ar, me entregando uma. Eu já havia dito que ele era o amor da minha vida? Sim? Pois iria repetir isso sempre que eu visse mais uma evidência
— Me sinto honrada também, subcomandante , muito obrigada pelas palavras - respondi, o fazendo alargar o sorriso, enquanto eu só conseguia o encarar hipnotizada.
Ele abriu a garrafinha para mim, e cruzou os braços nos meus, como noivos fazem em casamentos na hora de tomar o champagne. bebeu o conteúdo extremamente perto de mim, sem desviar o olhar do meu. O acompanhei, tentando sair do transe que me encontrava.
Céus, que licor forte! Fiz uma careta, sentindo o líquido arranhar minha garganta, e sorri torto para o homem em minha frente, que fazia o mesmo, enquanto seus olhos ganharam uma expressão engraçada de dor. Senti rapidamente um calorzão pelo corpo, por conta do álcool. Pelo menos funcionou.
— Socorro! Isso aqui é pra derrubar qualquer um, hãn? - comentei, apertando a garrafinha com força em minhas mãos, fechando os olhos pelo amargor da bebida
— Argh caralhoooo! Que negócio ruim da porra… - comentou tossindo, enquanto olhava para o rótulo, em uma clara feição arrependida de ter tomado o líquido tão rápido.
Voltamos para a posição normal e nos olhamos, mais recuperados, rindo.
— Isso com certeza melhorou minha noite. Quer dizer, minha semana. - falei sem pensar, encarando o rótulo do licor, querendo ver qual era. Jagermeister. Oh, aquela era a famosa bebida de 56 ervas. Por isso tinha gosto de xarope, mais espesso que suco de manga.
— Olha só, fico feliz little ! - respondeu-me, guardando sua garrafinha vazia no bolso novamente.
— Little? - perguntei curiosa, franzindo a testa.
— Ah! Perdão! Eu costumo chamar as pessoas carinhosamente assim, não leve a mal, sério! - respondeu, levando um de seus polegares no canto de meu lábio inferior, o limpando e sorrindo. Em seguida, levou despretensiosamente, o dedo para sua boca, sugando a gota que roubara de meus lábios. Na hora, meu sorriso despreocupado, fora substituído por uma expressão leve de choque. Aquilo havia me seduzido de um jeito insano. Aquele gesto, aquele toque. Percebendo o que fez segundos depois, ficou me encarando com certo receio da minha reação.
Estava tão hipnotizada pela sua atitude, que nem pensei no que fiz em seguida.
Me lancei sobre , o beijando de forma desesperada, enlaçando meus braços em seu pescoço, sentindo minha cintura ser abraçada rapidamente, e meu beijo ser devolvido com maior voracidade que eu havia oferecido. Logo, suas mãos adentraram minha blusa, tocando minha pele quente das costas, fazendo o frio de suas mãos me arrepiarem. Aproximei mais nossos corpos em resposta, como se fosse fundir-me a ele. Em seguida, seus dedos esquerdos dedilharam o cós de minha calça, apertando minha nádega por cima da mesma. Pressionei mais meus braços em volta de seu pescoço, prendendo seu rosto em uma de minhas mãos, tentando juntá-lo mais a mim.
Sua reciprocidade imediata fez-me gemer entre o beijo, fazendo-o virar meu corpo totalmente de costas para a grade, me pressionando de forma deliciosa, enquanto a parte frontal de seu corpo chocava com o meu. Senti algo ereto e duro em contato com meu ventre e barriga. Uma sensação intensa se apossou de meu corpo. Senti minha pele esquentar rapidamente em resposta a tudo aquilo. O sabor da sua boca era incrível, seu hálito tinha um misto de menta com o licor, me deixando ainda mais envolvida naquele momento. Céus! Eu estava no paraíso.
Ele quebrou o contato de nossos lábios, me olhando perdido e intensamente, e eu só conseguia devolver seu olhar, enquanto colava nossas testas. Sorri de um jeito bobo, antes de morder seu lábio inferior, fazendo nosso beijo retornar. Nossas línguas se movimentavam em uma sincronia maravilhosa, fazendo-me ter certeza que ele havia sido feito para mim. Pousei uma de minhas mãos geladas dentro de sua blusa, causando a contração dos músculos de seu abdome imediatamente. Que tanquinho! Busquei suas costas e o puxei para mim.
De repente, um som irritante veio de seu bolso, fazendo-me bufar entre o beijo. então descolou seus lábios dos meus e me olhou pedindo desculpas, desvencilhando-se de mim, para pegar seu celular.
, man! E ai? O que aconteceu? Calma, calma, respira por um segundo e me explica melhor. - respondeu preocupado. Caralho que raiva, que merda ele estava fazendo ligando logo agora? - Ok, beleza, pode deixar, to indo pro seu quarto agora. - finalizou, desligando a ligação, com uma expressão séria, e voltou a atenção para mim - Eu ODEIO ter que falar isso, mas preciso ir…
— Tudo bem , nos vemos por aí, sim? - disse despretensiosamente, tentando não me afetar pelo fato de que acabara de beijar o homem mais delicioso do mundo e infelizmente, precisava deixar ele partir. A vida tinha dessas, né?
Enquanto sorria para mim, se aproximou, depositando um selinho em meus lábios.
— Nem pense que vai escapar de mim, little - disse, enquanto segurava meu rosto em suas mãos com delicado, me olhando intensamente. Meu deus, isso realmente estava acontecendo?
— E quem disse que eu quero escapar? - respondi, dando outro selinho nele, só que mais demorado, fazendo-o sorrir entre o beijo.
Nos separamos, e antes de qualquer coisa a mais, ele se foi, lançando um sorriso encantador para mim.
Eu estava nas nuvens, definitivamente.

’S POV

Aquilo que eu estava observando do meu quarto, realmente estava acontecendo? Que merda estava fazendo beijando ? Quer dizer, pelo o que vi, ela quem iniciou o beijou, mas ele retribuiu quase a engolindo. Eu sabia que eles poderiam vir a se envolver, mas não imaginei que fosse ser tão rápido, e muito menos que iria presenciar tal cena. Ou até mesmo que fosse sentir uma ira incontrolável me dominando. Voltei para meu quarto rapidamente, lançando o binóculo com raiva no móvel da TV. Sentei em minha cama, apoiando minha cabeça entre minhas mãos, com meus cotovelos no joelho. Soltei uma risada seca, ao entender o que estava sentindo, apesar de não fazer muito sentido para mim.

Ciúmes.

Isso mesmo, eu era patético e tive a comprovação bem naquele momento. Minha vida era tão controversa em tantos aspectos, que é claro que eu estava sentindo algo por ela… Inferno, odiava admitir aquilo. Não estava pronto para encarar esse fato. Bem, verdade seja dita, talvez eu nunca me sentisse pronto para tal. Nunca nem deveria pensar sobre, o certo seria reprimir até fazê-lo sumir, não? Afinal, não havia motivos para ser verdade. Claro, eu poderia sim sentir algum tipo de atração doentia por , já que a mesma possuía uma beleza que deixava qualquer um vidrado, era inteligente e super competente, tinha uma personalidade forte, treinamentos e performance admiráveis, além de possuir um coração enorme, segundo seu irmão… Porra, o que eu to fazendo? Eu não poderia sentir nada nesse sentido em relação a ela, de jeito nenhum, impossível. Ela continuava sendo aquela garota petulante, arrogante, desfilando por aí com seu sorriso convencido e encantador, com os cabelos extremamente cheirosos, lábios tão atraentes…

Merda! Eu tava fazendo de novo. Realmente sou patético.

Levantei da cama com raiva de mim mesmo, quebrando o copo vazio de whisky na parede. Oh, que atitude mais ridícula e infantil. Masculinidade frágil que chama?
Ignorando meu último pensamento, peguei meu celular, discando o número tão conhecido.

Ouvi uma batida na minha porta uns cinco minutos depois, evidenciando que havia chego. Assim que abri a porta, não precisei nem o convidar a entrar, o mesmo atravessou a porta rapidamente, tirando seu casaco, se dirigindo ao minibar.
— Como assim temos um prisioneiro já? E logo um de nossos subtenentes?
— Isso mesmo, peguei Daniel em flagrante enquanto abusava de… uma de nossas Tenentes - respondi, me juntando a ele em mais um drink. Que mal faria, certo?
— Como é que é? Quem ele abusou? Como assim? - questionou-me em tom exaltado.
— Bem… O imbecil se engraçou com , mas antes que pudesse continuar, apareci no local. Eles estavam nas escadas.
? Como é? Por isso ela estava tão... - interrompeu-se, analisando meu chão e reparando nos cacos de vidro no carpete - o que aconteceu aqui? - perguntou com o cenho franzido.
— Apenas derrubei um copo. - comentei simplesmente, enquanto abanava o ar com uma mão, como se eu não acabasse de ter um acesso de raiva por culpa dele. me olhou desconfiado, o desgraçado me conhecia.
— Mas como quebrou tanto assim no carpete?
… - respondi rindo cansado - Continuando… Você a viu hoje de noite? - perguntei me fazendo de desentendido.
— Bem é que, sabe. Eu… - disse gaguejando e sorrindo que nem um idiota, coçando sua nuca.
— Desembucha, - respondi fitando e mexendo minha bebida, como se não me importasse.
— Encontrei com ela na proa sozinha, quando desci para fumar um cigarro, e sabe como é né, uma gostosa daquela desacompanhada, de noite... Não me seguro! - sorriu maliciosamente, bebendo sua vodka pura.
Aquela confissão ridícula remeteu-me à atitude de Daniel mais cedo. O que ele tava pensando? Quem estava se transformando?
… O que você fez?
— Nada que não fosse o óbvio a se fazer, , apenas ofereci minha companhia e um daqueles licores do kit de mini garrafas que você me deu quando fiz 30 anos. Inclusive, que porra forte! Mas enfim, ela quem me beijou, se você quer saber. Eu apenas retribui. E você nos interrompeu, seu desgraçado - me contou rindo, dando um soco leve no meu ombro - Não pude avançar com aquela delícia, ainda - revelou a mim, rindo como um pervertido. Dei de ombros fingindo que não me importava. sempre fora meio idiota no quesito ‘mulheres’, mas parecia que havia avançado de nível na babaquice.
— Bem, felicidades ao casal - sorri nervoso, enquanto levantava o copo em um brinde - Enfim, Daniel está preso no -5, e como não quero mais encarar esse imbecil tão cedo, quero que vá fazer as visitas diárias para mim, passando-me um relatório semanal sobre o comportamento daquele babaca. Mas leve um de nossos subtenentes juntos, assim ele poderá fazer o trabalho, depois de algum tempo, sem sua supervisão. Quero que alguém fique algumas horas por dia lá. - ordenei a ele, tomando o líquido de meu copo. Adotei minha postura de autoritária sem notar, fazendo o semblante de se tornar mais sério, assim que viu que não estava para brincadeira.
— Pode deixar, meu comandante gostosão autoritário! - respondeu de um jeito descontraído, tentando quebrar o gelo que eu havia erguido entre nós. Me fazendo gargalhar e balançar a cabeça negativamente, lhe dei um leve empurrão.
— Seu babaca! Vamos acabar com essa garrafa, que tal? Amanhã é sábado mesmo, foda-se! Também temos fim de semana de descanso aqui. - relaxei, afinal, ele ainda era um de meus melhores amigos, né?
— Demorou, seu rabugento da porra - disse, já pegando a garrafa de Grey Goose que eu possuía no quarto.


Capítulo 4 – Blue Tile

’s POV

Acordei de forma brusca, sobressaltando na cama como se a mesma me queimasse o corpo. Olhei assustado em volta e percebi que estava em minha suíte, a salvo.
Maldito sonho.
Seu eu pudesse voltar atrás e fazer tudo diferente, para evitar aquele fato infeliz, eu voltaria, sem pensar duas vezes. Eu daria tudo para isso, até passaria por horas de tortura em troca, afinal, não seria nada comparado ao sofrimento gerado. Joguei meu corpo no colchão novamente, sentindo o quão tensa minhas costas estavam.
Eu sabia que deveria ter agido com mais cautela, calculando bem meus próprios passos, já que havia ido contra o protocolo de negociação. Qualquer milésimo de segundo que eu pudesse repensar, já alterava o curso das coisas. Mas a gente nunca tem como saber direito a dimensão que um ato impulsivo pode tomar, não é mesmo? Uma situação, um segundo, uma vida de arrependimento.
Minha adrenalina naquela noite estava tão alta que eu nem saberia dizer quanto tempo passou, do meu primeiro ímpeto, até meus últimos segundos consciente. O golpe que proferiram contra minha cabeça, derrubou-me na hora, abrindo um maldito corte de doze pontos. Nada mais covarde que isso, atacar seu inimigo pelas costas, não lutar de igual para igual, negar a chance de defesa; isso era fraco.
Há anos sentia minha sanidade decompondo-se, pois insistia em reviver aquele erro constantemente. Após o ocorrido, fui aconselhado a procurar tratamento psicológico, mas neguei, assim como recusei as pílulas que me fariam viver melhor, mais anestesiado. Preferia simplesmente me entorpecer de álcool nas vezes que não suportava mais ouvir minha própria mente. Que nem ela havia feito por um tempo.
Grande erro, huh?
Mas eu não me importava, meu credo era que eu merecia passar por isso.
O mais ridículo era o meu ódio. Meu ódio por por me culpar tanto, invadindo minha mente, meus sonhos, minha estabilidade, minha paz. Ela havia despertado algo em mim que eu simplesmente não conseguia ignorar: minha auto repulsa. Mas eu a compreendia, ela não estava errada. Só estava errada em não querer me ouvir. Mas de novo, eu a compreendia.
Dedilhei a parte de trás da minha cabeça, sentindo a cicatriz média, escondida pelo meu cabelo. A marca da covardia daquele que eu nunca saberia que me golpeou. Senti minha testa latejar, como se minhas veias estivessem prestes a explodir, ressaca: minha companheira constante nos últimos anos.
Observei meu corpo encharcado de suor pelo sonho, e senti uma vontade imensa de tomar um banho, ou nadar. Precisava distrair-me daquele nó agudo em meu peito, daquela agonia reprimida.
Culpa. Culpa em sua forma mais perceptível.
Virei para o lado na cama, procurando uma posição mais confortável para relaxar, descansar a cabeça. Dediquei uma atenção absurda para tentar ouvir o som calmo do mar fora de meu quarto, mas nada estava funcionando. Sentia-me exausto. À beira da depressão, quem sabe.
— Merda! - xinguei alto, desistindo de descansar, levantando para ir ao meu armário.
Uou, definitivamente ainda estava meio bêbado. Tive que me segurar pela parede para não cair, enquanto caminhava até lá, batendo o joelho na ponta da cama.
Patético, de novo.
E um completo imbecil, já que todas as vezes que tentei resolver e esclarecer as coisas com ela, deixava-me levar pelo nosso “joguinho do desprezo” e só conseguia replicar suas ofensas. Bem, eu me resolvi com seu irmão, e rapidamente ele me perdoou ao ouvir o que realmente acontecera. Por isso odiava o fato de que com ela, não funcionava nenhuma tática de conversação, ou até mesmo de aproximação, por melhor que fossem minhas intenções. Ela recusava-se a manter a civilidade perto de mim, o que fazia com que eu automaticamente deixasse de lado minha polidez. Ou vice-versa; não importava, agíamos no automático um com o outro já.
Porém, depois do trágico ocorrido, eu havia prometido a mim mesmo, tentar tornar-me um homem melhor. Iria pôr os outros em primeiro lugar, agir com menos impulsividade, tentar reparar meus erros. Eu tentava ser fiel a essa premissa, de verdade. Ainda falhava, não era perfeito, era ser humano, afinal. Mas nunca saía de minha mente melhorar cada dia mais, principalmente para nunca mais ver seu rosto, destruído daquele jeito. E isso ela não podia negar, ou fingir não ver, o quanto eu havia mudado com certas posturas.
Não queria ser só mais um moleque de merda, irresponsável; realmente desejava ser um homem melhor. Isso tudo, inclusive, auxiliou-me a subir de cargo tão rápido. Havia me tornado um exemplo dentro da Marinha, por mais que todos apostassem em meu fracasso (ou até mesmo torcessem para ele). Tinha amadurecido muito.
Ironicamente, isso não se aplicava muito quando ela estava por perto. Mas várias coisas não se aplicavam quando a mesma estava presente. Meu autocontrole era uma dessas “coisas” que inexistiam quando o assunto era ela; autocontrole pelos meus pensamentos, pelos meus impulsos, discernimento, livre-arbítrio, sentimentos… Belo exemplo dessa merda toda foi essa noite, em que senti sei lá o que ao vê-la sozinha na proa do navio, e posteriormente, acompanhada por . O jeito que os dois interagiram, rindo juntos, se beijando, como se despediram; não sabia explicar o por que da imensa fúria que me assolava, em apenas lembrar disso.
Ri sem humor, espantando meus pensamentos bêbados, enquanto vestia meu short preto de banho. Ia até a piscina aquecida do navio me distrair, apesar de ser 4h30 da manhã de sábado. Não deveria ter ninguém no -2 aquele horário, e isso era tudo o que eu precisava. Quem sabe um tempo de desgaste físico fizesse bem para mim.

’s POV

Observei se afastar, não conseguindo conter meu sorriso bobo no rosto, enquanto mordia meu lábio inferior com força, em euforia. Aquilo realmente havia acontecido? Eu o tinha beijado e havia sido correspondida daquela forma? Nunca imaginaria que um homem como ele (por mais que estivesse bem em relação à minha autoestima), fosse me querer tão rápido. Me virei novamente para o mar sem acreditar, eram muitas coisas para digerir para um primeiro dia.
Tudo começara meio ruim, com aquela reunião inicial que finalizou naquela minha briga bizarra com , depois escalonou para uma grande merda ao cruzar com o imbecil do Daniel nas escadas, e agora havia se transformado em alguma coisa fantástica que fazia borboletas surgirem no meu estômago. Uma montanha russa.
Nunca em meus 7 anos dentro da academia eu sequer pensara que qualquer uma dessas coisas ocorreriam. O destino era doido.
Belisquei no braço em uma tentativa tola pra saber se tudo aquilo era real. Era.
Céus, ainda podia sentir seu cheiro delicioso nas minhas roupas, como se seus braços ainda estivessem ao meu redor. Dedilhei de leve minha boca, sentindo-a inchada pelo beijo quente e uma vontade insana de dar um grito preencheu meu peito. Precisava falar com alguém sobre essas últimas 12h, ou eu explodiria de emoção. Um nome surgiu em minha mente.

Emily. Ótimo.

Cheguei no segundo andar, decidida a bater na porta dela, apesar do horário. Me dirigi ao corredor que estava meu quarto. Ambos eram tão próximos, não precisaria caminhar muito até seu quarto.
Estava tudo tão silencioso, só conseguia ouvir o tilintar das chaves na minha mão e meus passos, abafados pelo carpete (extremamente brega) vermelho. Sério, não poderia ser algo menos antiquado? Ou ao menos uma cor que não lembrasse tanto um… puteiro? Não que eu já estivera em um, apesar de ser bem curiosa para saber como é dentro, mas… Pelo amor de Deus.
Ou até mesmo um piso normal, sem o carpete, afinal, o ambiente aqui era tão úmido que às vezes parecia que eu respirava água.
Assim que me aproximei, vi uma cabeleira ruiva batendo na minha porta de forma discreta, com uma manta cor de rosa numa mão e um balde listrado vermelho e branco na outra. Estava com um pijama clássico comprido de seda lilás, super elegante, como aqueles pijamas de filmes e novelas.
Abri um sorriso e gritei:
— Emily! - a mulher na minha frente deu um pulinho de susto, levando uma mão no peito ao virar totalmente, fazendo algumas pipocas pularem do balde. Ri com a cena, pedindo desculpas. Adorável!
— Guria que susto! Ainda bem que não sou cardíaca! Onde você estava nesse frio de meu Deus? - gargalhei com sua pergunta, Emily era bem humorada, como eu não lembrava dela do treinamento? - Trouxe pipoca para nós!
— Ah fui dar uma volta para espairecer, tava me sentindo meio sufocada no quarto por algumas coisas… Já já te conto. Vamos entrar? - a convidei indicando a porta com a mão, pegando as chaves - Mas me diz uma coisa, como não lembro de você do treinamento? Estava pensando nisso agorinha… Você é muito marcante para esquecer - comentei vagamente, abrindo a porta logo em seguida e sentindo o cheiro leve e maravilhoso da maresia. Havia esquecido a porta da sacada aberta.
— Primeiramente, marcante como? - riu e continuou o falatório - E bem, como já disse, a gente não se falava muito, você era bem quieta. Fora que eu não pintava meus cabelos de ruivo, e os alisava também - respondeu sorridente, apontando pros cabelos encaracolados maravilhosos, fazendo-me analisar eles.
— Ah, marcante tipo linda mesmo! - confessei a fazendo gargalhar - E ainda bem que não alisa mais seu cabelo, cabelos cacheados são incrivelmente lindos.
— Obrigada guria, assim você me conquista - disse piscando um olho, enquanto comia algumas pipocas. Ri em resposta, ficando envergonhada - E ainda bem que você não estava dormindo, achei que estivesse, já que não atendia a porta. Fiquei com medo de ser inconveniente. Mas então, me fale do por quê de você estar sufocada aqui nesse quarto lindo que tem até sacada! O meu não tem… - fez um biquinho enquanto sentava na minha cama, beliscando a pipoca.

— Não acredito! O Daniel fez isso? Que cara nojento, asqueroso! Ainda bem que chegou naquela hora, se não você ia sujar sua mão com a sebosidade daquele babaca, socando a cara dele. Eu lembro das aulas de luta, você é foda! - comentou, levantando da cama, indo ao frigobar pegar uma cerveja
Apesar de sua afirmativa, de que eu era boa em artes marciais, eu não havia sido bem sucedida naquela noite em tentar defender-me de Daniel. O nervosismo e surpresa por estar passando por aquela situação abusiva havia paralisado meus sentidos, me tornando inútil.
— Pois é menina, ainda bem que apareceu… - afirmei me interrompendo com medo do que poderia ter ocorrido caso o mesmo não tivesse chego naquela hora. Lembrei de sua expressão furiosa para cima de Daniel, enquanto o socava sem parar. Estremeci com a infeliz memória do toque invasivo de Daniel em mim; balancei a cabeça negativamente para espantar o devaneio.
Como que em pleno século XXI, ainda existem caras que acreditavam possuir algum direito sobre nossos corpos? Independente do jeito que eu estava, eu não tinha nenhuma intenção além de apenas chegar ao meu quarto.
— Toma, você precisa relaxar! - Emily disse, me entregando uma latinha de Budweiser ao perceber a tensão formada no ar, pelo assunto.
— Oh, não sei se devo, será que não vou ficar na bad? - perguntei, enquanto ela revirava os olhos.
— Que nada, você está em ótima companhia, fora que amanhã, opa, hoje, é sábado - verificou, ao olhar seu pequeno relógio dourado de pulso, que passara da 0h. Será que devia? Tinha medo de voltar a velhos hábitos. - Você deveria consumir alguma coragem líquida! - me incentivou, enquanto eu aceitava a latinha, me preparando para contar sobre .
— Queria confessar mais uma coisa, mas você tem que prometer de dedinho, que não vai contar a ninguém, NUNCA, em hipótese alguma, por pena de morte! - exclamei, lhe estendendo o mindinho
— Tenente , eu juro de pé junto te ser fiel e cumprir meu papel de confidente com maestria! - disse com uma expressão séria de brincadeira, envolvendo meu dedo com o seu, balançando a cabeça afirmativamente enquanto seus cachos ruivos pulavam. Ri com sua atitude, tomando coragem para contar sobre meu beijo com nosso subtenente. Seria um alívio imenso, afinal, a felicidade não cabia em meu peito, e se eu guardasse aquele fato pra mim mais um pouco, com certeza iria gritar aos sete mares o que ocorrera.

— Chocada! Você, a certinha, beijando um superior assim! Credo, amei! - confessou, me dando um leve empurrãozinho no ombro, enquanto eu escondia o rosto nas mãos envergonhada - Mas confesso que achei estranho.
— Ué, por quê? - perguntei intrigada, a olhando com surpresa. Sabia que ela iria me julgar, afinal, não tinha como não também né. Me envolver assim com um cara que eu acabei de conhecer, e esse sendo meu superior ainda. Mas como resistir aqueles olhos lindos que formavam pequenas rugas fofinhas quando sorria (e que sorriso!), além de ser um gostoso do caralho, inteligente, lindo…
— Oh, não ache que estou julgando, faria o mesmo! é uma delícia, com todo respeito ao seu novo homem - disse rindo, me aliviando a tensão que havia surgido em meus ombros. Dei um gole da cerveja gelada, a olhando curiosa - Só que na reunião de hoje mais cedo, eu senti um tensão sexual tremenda entre você e , que pelo amor de Deus, que homem também! - confessou, enquanto bebia de sua latinha - Oh meu deus, você deve achar que eu sou uma pervertida, né? - disse sorrindo, e ficou séria de brincadeira rapidamente - É que eu sou mesmo - brincou, me fazendo gargalhar alto, por mais que estivesse estranhando essa tensão sexual da qual ela mencionara entre eu e . Isso era tão improvável quanto o papai noel existir, afinal, eu e ele sempre tínhamos pedras nas mãos ao nos aproximarmos; não suportávamos ficar nem 5 minutos perto um do outro sem brigar, e sempre fora assim, desde quando eu ia criança a marinha, e ele estava lá, com meu irmão. Sempre foi implicante comigo, me provocava, se fazia desagradável de propósito. E eu aprendi cedinho a nunca deixar barato.
— Tensão sexual? Eca Emily, eu odeio o , e vice versa. E você deve saber que nossas famílias também não se dão bem. Só meu irmão e ele que parecem viver nesse bromance bizarro, o que eu acho um desrespeito com nossa memória. - disparei, a fazendo balançar a cabeça levemente em afirmação. Tentei ignorar a lembrança do calor que a proximidade de havia feito eu sentir hoje mais cedo.
— Sim sim, essa rivalidade da família de vocês dois sempre foi pauta de fofocas pesadíssimas durante o treinamento. Como ninguém sabe ao certo os motivos, as suposições não têm limites! E sobre o que ocorreu anos atrás, de novo, sinto muito... - Emily lamentou, enquanto dava um meio sorriso triste para mim - Mas sei lá, às vezes enquanto estava falando, eu olhava para e ele tinha o semblante focado em você, te olhando imerso, por mais que ele tentasse ser discreto. O melhor foi ele reparando que eu reparei. Tentou disfarçar tão de imediato que chegou a ser cômico. - comentou vagamente, observando o pote da pipoca esvaziando e fazendo um bico de tristeza.
Levantou rapidamente e pegou mais duas cervejas para nós. Ao todo, já havíamos bebido 5 latas cada, e já me sentia levemente alcoolizada. Estava mais relaxada mesmo. Só não sei se pela presença de Emily ou pelo álcool. Provavelmente ambos.
— Se tentou disfarçar é porque sabia que estava fazendo algo absurdo. Que horror saber que ele estava me encarando - comentei ao reproduzir uma cruz no peito, fazendo Emily gargalhar com minha tolice.
— Olha, confesso que adoraria ter um homem daquele me encarando... - suspirou colocando as costas da mão na testa, enquanto fechava os olhos. Odiava admitir, mas ela tinha mau gosto para homem pelo visto - Enfim amiga, vamos ver um filme? - Emily perguntou, já pegando o controle da TV e mudando para a Netflix. Antes estávamos no youtube, escutando algumas músicas.
— Vamos! - concordei na hora, querendo fugir do assunto . Já bastava o fato de que teria que trabalhar em conjunto com ele todos os dias, confinada naquela cabine, praticamente sozinha com o mesmo. Eu ia cortar meus pulsos em quantos dias será?

Acordei de supetão, me assustando com o sonho de merda que tivera. Daniel era o protagonista.
Olhei Emily repousada do meu lado da cama, e a mensagem “Tem alguém assistindo?” da Netflix pairando em minha tela. Não, Netflix, não havia ninguém assistindo. Desliguei a TV ficando totalmente no escuro, apenas com a lua iluminando o quarto.
Havíamos escolhido ver uma série que ambas gostavam, ao invés de um filme. Clássico Friends. Eu amava e defendia com todo meu coração, pois ver Joey e Phoebe na tela, era um prazer. Tirando que o melhor casal ever era Mônica e Chandler.
Observei Emily dormindo pesadamente com a boca aberta, enquanto tentava me sentar na cama sem acordá-la. Depois de beber tanta cerveja, não me surpreendia seu estado latente de sono. Infelizmente não a acompanhei. Só queria dormir, apagar, parar de pensar, mas não conseguia. Me movi pelo quarto com cuidado para não esbarrar em nada. Iria deixá-la dormindo calmamente no meu quarto, não havia necessidade de ser desagradável e acordá-la só para ir ao seu próprio dormitório. Ela foi uma companhia incrível para mim naquela noite.

Será que fiz uma amiga, finalmente?

Abri uma de minhas gavetas com cuidado, para não fazer barulho, pegando meu maiô preto. O mesmo revelava todas as minhas costas, acompanhando a lateral do meu corpo. O lado de meus seios ficava totalmente à mostra. Amava aquela peça, tão sexy e ao mesmo tempo confortável, por ser um maiô. Algumas de minhas tatuagens nas costas eram reveladas pelos decotes cavados, e eu sinceramente amava isso.
O vesti, colocando apenas um short em cima. Precisava me distrair um pouco, e quem sabe nadar ia ajudar.
Olhei o relógio em minha escrivaninha: 4h30 da manhã
Dormira por duas horas.
Escrevi um bilhete breve para Emily, caso ela acordasse e não me visse ali. Não queria preocupá-la com meu sumiço.

Me dirigi até o -2, procurando a porta da piscina imediatamente. O -2 era o andar que possuía as várias salas de lazeres e treinamento do navio, como a piscina térmica, academia, o centro de treinamento de lutas, algumas duchas e vestiários, além de ter um bar e o restaurante. Por passarmos muito tempo em alto mar (de um a dois meses) cumprindo com nossos encargos, o navio oferecia diversos recursos que imitavam nossas vidas em terra firme. Era quase como uma mini cidade aquática. Até uma reduzida quadra de basquete e uma pequena sala de cinema tinha. Apelidado carinhosamente de “Paradise”, o -2 detinha uma importância tremenda para nossa saúde mental ficar mais equilibrada. E era esse alívio psicológico que eu buscava indo para lá.
Adentrei o recinto, meio alterada pelas cervejas ainda, sem olhar direito o local. Só queria mergulhar logo.
Estranho… A água está meio remexida.
Deve ser impressão minha.
Tirei o short e o pus em cima de uma cadeira junto com minha toalha. Saltei na piscina rapidamente, sentindo a água quente esquentando meu corpo em poucos segundos. Mergulhei bem fundo, colocando meu fôlego no limite. Adorava ficar submersa na água, tanto que o super-poder que escolheria ter, sem pensar duas vezes, seria respirar embaixo dela. E é claro, eu era grande fã de Aquaman.

Depois de longos minutos nadando, me pus a boiar na água, fazendo meu corpo relaxar com tal estímulo. Minha mente enfim se acalmou, e podia jurar que, se eu estivesse com uma boia ali, poderia dormir tranquilamente na água.
De repente, ouvi uma voz rouca no recinto e me espantei, virando assustada no mesmo instante, procurando o autor. Não podia ser. Na verdade, é claro que podia ser. Se tinha algo que a vida gostava de fazer, era sacanear com a minha cara.
.

’s POV

Estava sentado em uma das cadeiras de plástico no fundo do local, olhando para o nada recuperando meu fôlego, quando quem estava em meus pensamentos, simplesmente materializou-se ali, abrindo a porta de forma brusca. Acompanhei caminhando de forma hipnotizada, sem desgrudar os olhos da água da piscina, despindo-se calmamente, e pulando rápido na água. Pela forma que adentrou o recinto, sem nem perceber que eu estava ali, presumi que ela deveria estar com a mente tão barulhenta quanto a minha. Afinal de contas, quatro da manhã não é um horário normal em que qualquer um sai para nadar.
Aproximei-me da borda da piscina para observá-la melhor, lhe dando a chance para perceber-me ali também. Seu nado era calmo, lento, mas compassado, como o movimento daqueles relógios usados para hipnose. O jeito que seu cabelo se destacava no azul artificial da piscina, o modo como seus braços se moviam na água em sincronia perfeita com suas pernas, sua boca se abrindo para pegar mais oxigênio, tudo era extremamente magnetizante minha atenção. Seu corpo atravessava a água firmemente, e o modo como testava seu fôlego ao ficar longos segundos no fundo (o que parecia meio masoquista e deixou-me preocupado em alguns instantes), invocava uma curiosidade oculta em mim. Todos seus movimentos eram viciantes pros meus olhos, sentia-os afetando cada músculo e membro do meu corpo, me pondo em uma inaptidão de simplesmente virar as costas e sair daquele lugar.
Céus, ela era linda.
E eu estava perdido.
Apertei meus olhos com os dedos e soltei uma risada fraca, tentando ignorar o fato de que estava claramente sentindo atração por . Oh, como eu era patético. Dentre milhões de mulheres que eu poderia me interessar, era ela justamente a que prendia minha atenção, para falar o mínimo.
Mas é claro que isso iria acontecer, não é mesmo? Eu estava começando a sacar qual era a do “acaso”. Fazer-me sentir seja lá o que seja, pela irmã caçula de um dos meus melhores amigos, que também era da família que mais havia desgraçado a minha, enquanto ela e meu amigo se envolvem, ao mesmo tempo que sou seu dirigente. Opa, tinha ainda a cereja do bolo: ela detesta minha presença mais que a de uma barata. Aposto que se existisse um inseticida gigante para humanos, ela já teria usado em mim.
Mas quer saber? Se eu estava sentindo aquilo, ela poderia muito bem sentir também. E foi com esse pensamento que abri meu sorriso mais sacana, como se minha mente houvesse clareado mil tempestades. A vi ressurgir na água e gritei:
— Adorei as tatuagens das costas, !

’s POV

O que ele fazia aqui esse horário da madrugada? Logo quando eu estava lá? É sério que ele tava me seguindo? Eu entendo que o que ocorreu mais cedo foi extremamente sério, e ele quem impediu a situação de piorar, mas… Sério isso?
— O que você está fazendo aqui? Tá me seguindo por acaso? - perguntei de forma cansada, enquanto analisava suas poucas vestimentas, que se resumiam em apenas um short de banho preto. Seu peitoral era extremamente definido, assim como seu abdômen, ombro, coxas, enfim! Seu corpo parecia de um maldito atleta de elite. O filho da mãe era grande, imponente. Sua presença sempre se sobressaía em qualquer ambiente que adentrava, mas pouco vestido daquele jeito, era…
Senti minhas bochechas ruborizarem. Merda. Para de secar ele, inferno. Foco.
— Você é uma gracinha mesmo, né? Achando que tiro tempo da minha madrugada para te seguir - oquei, essa doeu um pouco. sorriu provocante, e continuou - Talvez esteja aqui pelo mesmo motivo que você, tenente. Não consegui dormir e resolvi vir nadar, distrair a cabeça. Afinal, eu espanquei um de meus subtenentes hoje. Pode ter certeza que calmo, não é um estado que me encontro - confessou, me olhando debochado, fazendo-me revirar os olhos e desviar o foco de seu rosto - E você? - perguntou, enquanto sentava na borda da piscina, mergulhando suas canelas na água quente.
— Eu apenas… Eu precisava… — tossi tentando limpar minha garganta - Eu precisava me distrair…
— Entendo, não precisa se estender - me disse, interrompendo minha fala desconfortável - O que aconteceu hoje não deveria nunca nem ter passado pela sua cabeça, nem em seus piores pesadelos, e eu sinto muito por isso. - me observou daquele jeito sério que eu conhecia tão bem, por nossas vivências passadas.
E como eu odiava aquilo.
Aquele olhar, o quanto eu conhecia suas expressões, jeitos de falar e olhar; odiava que ele havia feito parte de tantas ocasiões da minha vida, da minha história, e meu presente parecia igualmente amaldiçoado, trilhando um futuro desgostoso com por perto.
Sem conseguir sustentar sua intensidade, desviei meus olhos para meus pés distorcidos debaixo d'água.
— Está tudo bem, , já passou. Eu sou mulher, sabe? Não é a primeira vez que algo merda assim acontece comigo. Você sabe, infelizmente... - meu fôlego falhou por um segundo, mas me apressei em continuar - Só não imaginava que pudesse ocorrer aqui. Mas… - hesitei antes de concluir, engolindo todo meu orgulho - Mas estou… Estou grata por…
. Não precisa disso. Eu não fiz mais que minha obrigação, afinal...
— Não , eu sei que preciso te agradecer, afinal de contas, não sei o que teria acontecido se você não tivesse…
. Não. Eu sou seu comandante. Estou aqui para te proteger, além de todas minhas obrigações. Eu sou responsável por você, pelos meus subtenente, tenentes, comodoros, capitães...
— Eu posso ser responsável por mim mesma… - falei baixinho, não conseguindo segurar meu impulso de contrariá-lo.
— Enfim! - revirou os olhos e abriu meio sorriso - Não agradeça por eu cumprir minha obrigação. Inclusive, nem deveria ter acontecido nada, para falar a verdade. - disse firmemente, enquanto descia da borda da piscina, se aproximando lentamente de mim - Eu fico com medo, que a qualquer momento, eu não esteja por perto, para te proteger. - sua voz estava rouca e em baixo tom, magnetizando minha atenção para sua boca involuntariamente.
Se não fosse falando-me todas aquelas coisas, eu poderia até me sentir feliz e bem cuidada. Mas aquelas palavras me remetiam a momentos ruins, a um período de muita revolta e fraqueza. Tudo por saírem de sua boca.
— Bem, eu agradeço, - comentei baixo também. Pigarreei, tentando tomar controle da minha voz trêmula - mas não preciso de um príncipe do cavalo branco por perto para me proteger, consigo cuidar bem de mim sozinha. Não importa o que aconteceu no passado, eu cresci e posso me virar sozinha. - respondi, me esforçando para demonstrar desprezo na minha voz.
— Tava demorando para você soltar as garras mesmo… - revirou os olhos, rindo sem humor.
— O que você quer dizer com isso? - o encarei indignada, enquanto cruzada meus braços
— Isso mesmo que você ouviu, . Você simplesmente não consegue ter uma conversa civilizada comigo, nem quando está agradecendo por algo de bom que fiz a você.
Enquanto começávamos uma de nossas milésimas brigas, ele continuava andando para frente, fazendo-me caminhar para trás em resposta.
— Oh, me perdoe! Eu magoei seus sentimentos delicados? - levei minhas mãos em direção ao meu peito, fingindo uma expressão de pena - É só que fica difícil pra mim ser civilizada com um cavalo! - gargalhou imediatamente, jogando a cabeça para trás. Idiota, não era momento de rir.
— Nossa, sua criatividade me impressiona mais a cada dia. - passou as mãos pelos cabelos, os levando para trás - E sobre a parte do cavalo… Bem, tenho algumas características em comum mesmo - comentou, olhando para baixo rapidamente. Minhas bochechas queimaram - já me viu trocando de roupa, ?
— Nossa, você é um idiota mesmo, um animal! - meu tom de voz aumentava a cada frase, assim como o dele. Mas eu carregava desprezo e raiva em meu timbre; ele possuía pura ironia.
— Mas é claro que eu sou um animal, ou você achava que eu era um brócolis gigante?
— Céus, como você é babaca!
— E você é linda... - respondeu-me, com um meio sorriso no rosto. Sem ironias, sem zombaria na voz. Assim que processei o que ele havia falado, só consegui bufar alto e desviar minha atenção de seu olhar, virando a cabeça e encarando uma parede extremamente interessante do cômodo, sem parar de ir para trás, e ele para frente. Senti minhas bochechas queimarem novamente, em resposta ao seu elogio tolo, que merda ele quis dizer com isso?
Provavelmente só estava brincando com a minha cara, me provocando como sempre.
— Ei, olha pra mim. - me pediu com a voz baixa. Ignorei seu pedido, mas ele continuou - É só que eu… - pausou sua fala, começando a se aproximar de mim com mais cuidado, como se não quisesse me espantar -... não suportaria saber que algo de ruim aconteceu a você de novo, sendo que poderia evitar. E isso não sai da minha cabeça, desde hoje mais cedo, lembrando-me de eventos passados. Não quero que nada de ruim aconteça a você. E eu prometo que não irá. Quero poder te dar a certeza que permanecerá segura e bem.
Não consegui respondê-lo, apenas o olhei surpresa pela confissão terna. Só fui capaz de encarar seus profundos olhos , dos quais estavam tão intensos que eu podia jurar conseguir lê-los como a página de livro. Suas palavras deixaram-me sem saber como proceder, como se não soubesse mais falar ou até mesmo respirar direito. Continuei minha caminhada para trás, à medida que ele ficava mais próximo de mim.
Quando minhas costas bateram na parede da piscina, meu fôlego restante se foi. Olhei para os lados estupidamente, confirmando que havíamos chego na outra borda da piscina. Minha respiração falhada fez com que eu deixasse meus lábios entreabertos, assim como os dele já estavam. Respirar pelo nariz naquele momento não parecia ser suficiente.
— Por que você está me falando essas coisas? O que você quer de mim? - perguntei em um fiapo de voz. Sentia-me totalmente entregue àquela atmosfera densa que havia se formado entre nós. Olhava para ele sem entender o que aquele calor diferente em meu ventre significava.
— Algo que eu já sabia que queria há muito tempo, mas sempre tentei negar… - senti meu coração pulsando forte em meu peito, de um jeito que eu jurava que teria um ataque
cardíaco logo mais.
se aproximou até ficar a poucos centímetros de mim, sem desviar nem um segundo seu olhar do meu, encarando minha boca de vez em quando. Imitei seu gesto inconscientemente, fitando seus lábios. Esticou seus braços até onde os meus estavam, pegando minhas mãos e entrelaçando nossos dedos.
Totalmente paralisada pelo momento e pelas sensações extremas que seus toques despertaram em mim, eu simplesmente não fui capaz de agir diante de seu gesto.
levou minhas mãos até sua boca, beijando os nós de todos os meus dedos de forma lenta e suave. Eu o olhava inerte, sem entender o que se passava dentro de mim com sua proximidade, hipnotizada com o oxigênio que se misturava com seu perfume. Ele então fechou seus olhos e franziu o cenho, continuando seus beijos demorados. A única coisa que separava nossos corpos eram nossos braços entrelaçados, os quais ele flexionou em seu peito para aproximar minhas mãos de seu rosto.
Fechei os olhos também, em resposta àquele estímulo que ele estava me proporcionando.
Meu coração estava disparado diante daquelas sensações que a sua presença me causava, fazendo-me mergulhar no momento. Seu rosto fez menção de avançar ao meu, ainda de olhos fechados, para então abrir, perto demais de mim, me encarando profundamente.
… - soprei seu nome, já sabendo o que poderia acontecer.
De repente, ouvimos um barulho vindo do vestiário, nos despertando daquele momento que me queimou por inteiro.
Me desvencilhei sobressaltada dele, tirando minhas mãos das suas, tocando-lhe o peito nu e úmido para empurra-lo de leve.
— Não, , não! O que você pensa que está fazendo? - perguntei horrorizada, devido ao contexto que estava se formando entre nós. Ele me olhou inconformado e decepcionado, se afastando um pouco de mim para me observar melhor. Soltou uma risada curta e irônica, respondendo:
— O que você acha que eu estava fazendo, ? - falou mais calmo do que eu esperava, olhando para o lado e balançando a cabeça negativamente - Não quer admitir para si mesma? Precisa mesmo me questionar sobre o que estava prestes a acontecer?
— Eu não sei se você bateu a cabeça na piscina quando entrou, mas nada estava prestes a acontecer - respondi-o duramente, sem paciência para esse joguinho de perguntas e respostas.
— Nada? Esse “nada” que você está se referindo - fez aspas no ar, aumentando a entonação ríspida na voz - parece mexer bastante com você pelo visto.
— Ou você está ficando louco, ou já esqueceu o que aconteceu anos atrás - o respondi sentindo minha garganta se embolar com a memória. Sai da piscina apressada com um impulso, agarrando minha toalha logo em seguida - Você não sabe o absurdo que está falando.
— Não, não esqueci o que houve. E nunca esquecerei. Já falei que sinto muito, que faria qualquer coisa para mudar isso. Ou se pudesse, tomaria sua dor para mim pelo resto da minha vida patética! Mas pelo menos eu não estou sendo covarde ao negar algo óbvio.
— CALE A SUA BOCA E NUNCA MAIS ME CHAME ASSIM! VOCÊ É O COVARDE AQUI - gritei de forma descontrolada, apontando o dedo repetidamente em sua direção
— OH, EU SOU O COVARDE? O CARA QUE ENFRENTOU O QUE TIVESSE QUE ENFRENTAR SÓ PRA SALVAR SUA PELE?
— CALE A BOCA OU EU…
— EU O QUE? VAI SAIR CORRENDO? VAI ME DAR OUTRO TAPA NO ROSTO? VAI ME XINGAR DE NOVO? Oh, como eu amo quando você me xinga, baby, tem tanta criatividade! - gritou de volta, saindo da água em seguida, se pondo na minha frente rapidamente. Seus cabelos estavam colados na testa e seus shorts, ligeiramente levantados nas coxas. Sexy. Balancei a cabeça negativamente, me odiando por pensar aquilo logo naquele momento.
— O que você acha que está acontecendo entre a gente, só pode ser fruto da sua cabeça doentia! Nada, além do ódio que me consome toda vez que olho para você, habita dentro de mim! E eu sei que você sente o mesmo! - cuspi minhas palavras, o olhando com raiva
— Você não tem ideia do que está falando, garota…
— JÁ FALEI PARA NÃO ME CHAMAR ASSIM!
— ENTÃO PARE DE AGIR COMO UMA GAROTA MIMADA!
Seu peitoral subia de um jeito ofegante, enquanto me encarava furiosamente.
— Quer saber? Me deixa em paz, , não consigo aguentar sua presença nem por poucos minutos. - abaixei meu tom, sentindo minha voz começando a tremer pelas lágrimas que se formam em meus olhos. Ao tentar virar de costas, sua mão repousou em meus braços, me voltando para perto dele.
— Você tem muito o que ouvir ainda - disse com a voz rouca, deixando seu rosto perigosamente perto do meu. Por um segundo, não consegui me mover novamente, sendo magnetizada por sua respiração próxima.
De repente, uma terceira voz nos tirou de nosso ridículo momento, fazendo nossas atenções voltarem para a porta do vestiário.
— Gente, o que tá rolando aqui? - perguntou Emily, ainda de pijamas, adentrando o local coçando o olho - Pude ouvir gritos do corredor.
Senti as mãos de soltando meus braços, deixando-me virar finalmente para a saída.
— Está tudo bem, Emily. Eu já estava indo embora. Vamos voltar ao 2º andar, sim? - a respondi apressada, querendo desesperadamente voltar com ela para nosso andar. Sentia meus olhos lacrimejarem de raiva, e comecei a andar sem olhar para trás.
— Adorei o pijama, Emily! - gritou de onde estava, em tom de provocação. Emily estava prestes a respondê-lo inocentemente, mas a puxei pelo braço rápido, com raiva dele.
— Amiga, calma! O que aconteceu ali? - a mesma me perguntou, assustada com nossa péssima interação, enquanto saíamos da área da piscina.
— Nada de novo, apenas sendo um completo idiota. - limpei meu choro tolo e continuei puxando-a.
— Como você está? - Emily perguntou, desvencilhando-se de mim de forma calma, tocando nos meus ombros. Seu gesto me acalmou, mas não fez sumir o nó na minha garganta.
— Nada bem. Não sei como vai ser segunda-feira ou o resto da missão. Só de pensar, minha ansiedade cresce. - disse de forma cansada, passando as mãos em meus olhos.
— Só tentem não se matar, ok?
— Não prometo nada.


Capítulo 5 – WTF

Segunda-feira, 4h40min da manhã. Hora de levantar.

Quando consegui vencer a preguiça e botar meus pés para fora do quentinho da cama, percebi o quanto ainda estava exausta. Definitivamente dormir sem meus remédios não era uma boa ideia, afinal, visto que minhas noites nos últimos anos resumiam-se a sonhos de merda ou crises de ansiedade. E, essa noite, o fator “primeiro dia de trabalho com ” com certeza havia contribuído para as inúmeras vezes que rolei na cama sem sono algum. A ideia de ter que ficar próxima a por horas, exercendo minha agenda, com ele ainda sendo meu chefe, embrulhava meu estômago. Passei a noite com palpitações no peito e um nervosismo extremo.
— Isso é castigo, eu tenho certeza de que é. Eu colei chiclete na cruz em outra vida, não foi? — falei sozinha, olhando para o teto. Já conseguia sentir minha sanidade indo para o lixo novamente. E sabe o que não era novidade alguma? O motivo ser aquele idiota. Como sempre, um empecilho na minha vida.
Com um bocejo alto e uma espreguiçada rápida nos braços, levantei finalmente, sentindo cada músculo das minhas costas tenso, duro como pedra, gritando por uma massagem. Precisava de um banho quente urgente, relaxar meus músculos, renovar minha disposição de alguma forma. Ou ia passar o dia que nem , sendo inútil.

Me arrastei pelo corredor nada pequeno até o vestiário e senti meus braços arrepiarem de imediato pelo típico frio que fazia em outubro. Não pude deixar de amaldiçoar o fato de não ter um chuveiro próprio ou uma ducha coletiva em cada andar. Sinceramente, ter que ir nesse frio, nesse horário, tomar um banho para começar o dia tão longe assim do quarto era um sacrifício. Provavelmente fazia uns 10 graus nesse horário, e essa não era nem a temperatura mais baixa que passaríamos naquela missão. Outono europeu já era de bater os dentes em alguns dias, mas pegar inverno em alto mar? Seria impossível não ficar gripada pelo menos uma vez. Como a missão terminaria apenas em dezembro, não duvidava que até neve veríamos.
Assim que entrei nos vestiários e fui até à ala feminina, senti a temperatura mais elevada e o ar mais pesado, muito úmido, com uma névoa leve passando pelo meu campo de visão. O cheiro de morango no ar era forte, quase enjoativo. Com certeza alguém havia usado os chuveiros há pouco tempo, quase como se a torneira tivesse sido fechada há segundos. Entretanto, o vestíbulo inteiro estava silencioso, apenas com o som de gotas batendo no chão molhado ecoando.
— Oi, alguém aqui? — perguntei alto, olhando ao redor e não vendo nada além de espelhos embaçados e algumas pequenas poças de água no chão.
Dei de ombros e continuei a caminhar para chegar nos enormes armários de metal, procurando pelo número 22. As chaves dos quartos e seus respectivos números correspondiam aos armários daqui, o que era bem prático, já que podíamos deixar itens pessoais e de higiene neles. O meu já se encontrava completamente abarrotado e desorganizado desde sábado; se tinha algo que eu não possuía capacidade alguma de manter em ordem, eram produtos de higiene e cosméticos de banho.
Depois de despir-me e colocar as roupas na lavanderia da ala, escutei algo estranho no corredor do vestuário. Segurei minha respiração e paralisei meus sentidos, tentando concentrar minha audição em algum possível som. Por um segundo, pude jurar ouvir uma risada interrompida, seguida de um sussurro breve.
— Ei, alguém aí? — perguntei, tentando soar firme.
Ignorei meus joelhos vacilando e encaminhei-me até as duchas. Por todo o corredor mal iluminado, sentia um calafrio insistente atravessar minha espinha, como se meu sistema nervoso me alertasse de algo que poderia ocorrer a qualquer momento. Não era como se eu tivesse um medo extremo de aparições ou espíritos, mas a iluminação precária daqui não ajudava nem um pouco com essa sensação de morbidade. As lâmpadas ficavam bem distantes umas das outras, formando uma claridade insuficiente e super pontual por todo o cômodo. A luz de tom branco passava uma atmosfera extremamente fria e apática, como se eu estivesse em um hospital.
Ótimo.
Não ajudava muito o fato de todas as paredes terem cor de cimento queimado, as portas, se não pretas, serem cinzas, e em que todo o vestíbulo ter um eco horrível de qualquer som produzido. Conseguia ouvir pequenos estalos metálicos, que se misturavam com o som dos meus passos, e, de repente, eu sentia uma necessidade enorme de cantarolar uma música sozinha para diminuir a tensão que estava sentindo. Não sei se eram os filmes de terror que já havia visto, ou somente minha paranoia natural, mas sentia-me observada ali.
Deixei minha inquietação de lado e corri para o box, despindo-me rapidamente da toalha felpuda branca, o único objeto aconchegante do local.
Com os olhos fechados, desviando minha cabeça da água para não molhar o cabelo, senti a água quente cair em meus ombros, destravando boa parte do stress que estava acumulando neles, e passei a ensaboá-los sem pressa. O cheirinho doce e floral de baunilha do meu sabonete invadiu meu olfato, fazendo-me sorrir automaticamente por remeter-me a tantas sensações boas. Baunilha sempre fora meu cheiro preferido desde que me conheço por gente, era a essência da minha identidade sensorial. E, por mais brega e até engraçado que isso possa soar, ser chamada de “pudim” a vida inteira pelo meu avô materno havia ajudado-me a criar essa memória afetiva tão agradável. Sempre fora muito próxima ao meu avô, ao ponto de quase ter certeza de que era sua neta favorita.
Ri sozinha pela constatação e inclinei-me para ensaboar meus pés, suspirando mais aliviada e sentindo um abraço do calor do ambiente. O sossego do banho quente finalmente estava me relaxando e acalmando.
De repente, um frio atravessou meus pés úmidos e um barulho alto de porta ecoou, fazendo meu coração ir para a boca e minha audição ficar mais atenta. Minha respiração acelerou, e o calor do ambiente esgueirou-se do meu corpo, me tirando qualquer sensação boa de sossego que estava conseguindo formar. Olhei por uma pequena abertura da porta em direção ao corredor que dava para a entrada/saída do vestiário e esperei alguém aparecer ali. Por conta do vapor denso que passeava pelo lugar, tive que apertar os olhos para tentar enxergar qualquer coisa ou pessoa ali, porém, para minha surpresa e até infelicidade, ninguém apareceu realmente depois do barulho.
O que levantou duas questões em minha mente.
Por acaso tinha alguém ali desde que havia entrado ou um vento forte abriu a porta do banheiro?
Sabendo que apenas uma das respostas era negativa, terminei de me enxaguar e tratei de arrumar-me rápido para sair logo dali.
O corredor dos vestiários não possuía corrente de ar.
Saí do vestiário apressada e fui direto para o restaurante do navio, o qual oferecia todas as refeições aos marujos até as 20h. Depois, apenas o enorme bar funcionava.

5h23 da manhã. O dia estava prestes a começar.

Ao adentrar o salão cheio, pude ouvir o burburinho relativamente alto do local, onde tinha vários marujos conversando energicamente. Olhei para todo o perímetro do refeitório e pude notar que, em cada canto que meus olhos alcançavam, homens corpulentos ocupavam os espaços, uns fazendo ‘queda de braço’, outros jogando cartas de forma exaltada e alguns poucos com um caneco de chopp nas mãos. Não importava muito o que faziam, a grande maioria gesticulava exageradamente enquanto berrava, misturando os sons em um uníssono grave, em que nada realmente podia ser entendido de conversa alguma. Aquele navio cheirava a testosterona, de um jeito que chegava a coçar a ponta do meu nariz. Se tivesse cinco mulheres na tripulação, era muito. Balancei a cabeça e suspirei, começando a caminhar por entre as mesas para achar um lugar.
Depois de alguns olhares indiscretos e comentários esdrúxulos que me faziam revirar os olhos pelas insinuações sexuais e machistas, ouvi meu nome entre os ruídos. Estreitei meus olhos, procurando a autora, e vi Emily acenando animadamente para mim, o que me fez abrir um sorriso em resposta. Ela já estava sentada na companhia de mais outros três rapazes e uma moça – muito bonita, por sinal.
! Vem cá, senta com a gente — Emily disse, indicando uma cadeira com a mão — Esse aqui é o Tenente André — apontou para seu lado esquerdo, indicando um homem negro, que possuía um sorriso cativante, maxilar marcado digno de um modelo e bigode fino — Tenente Steven — um cara meio mal encarado levantou o braço, mostrando a pele pálida completamente tatuada, sem olhar na minha direção — Subtenente Chester, ou minha versão masculina — disse, rindo, apontando para um ruivo de olho verde, assustadoramente parecido com o Ed Sheeran — E Subtenente Beth, que está na sua primeira missão, não é mesmo? — a moça consentiu, permanecendo calada e tímida. Ela possuía o cabelo negro comprido e ondulado, olhos azuis super claros e a pele levemente bronzeada. Parecia uma atriz de Hollywood. A mesma tinha um olhar bizarro voltado para mim, e eu sentia que já a conhecia de algum lugar de alguma forma. Estranho.
— Marujos, essa é a Tenente , a encarregada pelas rotas da equipe matutina. — Emily completou, sorrindo de um jeito simpático, parecendo a professora do jardim de infância apresentando a turma uns aos outros no primeiro dia de aula. De um modo ou outro, estávamos mesmo em nosso primeiro dia de entrosamento, meio perdidos, tentando ambientar-se, integrar um grupo. Sabendo que minhas habilidades sociais eram péssimas com desconhecidos, forcei um sorriso aos cinco e pedi licença, dirigindo-me depressa ao buffet. Estava faminta. Não me alimentara direito pelo fim de semana todo, o qual sobrevivi apenas com besteiras das máquinas de guloseimas que tínhamos nos corredores e as cervejas do meu frigobar. Mais algumas semanas assim, e eu com certeza poderia ganhar dispensa por adoecimento.
No caminho até o buffet, avistei e em uma mesa mais afastada, tomando seus cafés e falando sobre algo sério, com o semblante fechado. Os dois vestiam suas blusas extremamente brancas e cheias de insígnias e medalhas, destacando-os em meio a tantos uniformes escuros e lisos. As fardas diferirem tanto uma das outras tinha o propósito não verbal de mostrar quem mandava e quem obedecia ali. O cap de marinheiro de ambos repousava na mesa perto de seus braços, e, na mão fechada de , pude notar que seu dedo mindinho possuía um anel sinete de ouro. Provavelmente era o anel dado em honra ao cargo de Comandante, o que tinha o brasão da Marinha cravado. Subi um pouco meu olhar e vi que sua gravata ainda estava aberta, assim como os três primeiros botões de sua blusa, deixando uma parte considerável de seu peitoral à mostra. Que belo idiota.
Ele achava que estava onde? De férias, num cruzeiro? Com sua regata ridícula aparecendo assim, ele queria o quê, chamar atenção? Aliás, por que eu estava olhando o peitoral dele mesmo?
Infelizmente, deveria perguntar-se a mesma coisa, pois, assim que o olhei no rosto, vi que ele já me encarava com as sobrancelhas arqueadas e um meio sorriso esperto nos lábios, como se estivesse presenciando uma cena inédita e estivesse surpreso. Revirei o olhar automaticamente, e sua postura engrandeceu-se.
Céus, como ele era presunçoso. Era a arrogância em pessoa.
Provavelmente achava que estava o secando ou algo do tipo. Quer dizer, deve ser o que ele estava pensando, tendo em vista sua expressão ridícula de deboche. Como eu odiava aquele seu olhar. Não suportava ver sorrindo daquele jeito, ainda mais sendo por um motivo totalmente irreal. Girei meu corpo rápido para procurar um novo caminho entre os labirintos de mesas, sentindo minhas bochechas tão quentes que eu podia jurar que meu rosto ia derreter.
No entanto, como diz um dos meus ditados favoritos, “não há nada tão ruim que não possa piorar”. Assim que me virei, esbarrei com tudo em duas cadeiras recém-arrastadas, derrubando uma delas no chão e causando um barulho alto.
— Inferno! Qual é o mal-educado que puxa uma cadeira e não põe de volta? — falei alto, respirando fundo para evitar xingar alguém. O burburinho do local havia diminuído consideravelmente, e eu já podia ouvir os cochichos. Por um breve segundo, senti como se estivesse no refeitório da escola e tivesse derrubado toda a minha bandeja na líder de torcida popular, pelos olhares curiosos e hesitantes que estavam direcionados para mim. A atenção não me incomodava, já estava acostumada em ouvir meu nome na boca de quem nunca nem tinha visto. Porém, ouvir soltar uma gargalhada diante de toda a minha cena patética elevou o meu nível de aborrecimento. Olhei fuzilante para ele e marchei até o buffet.

Tentando ignorar o mini vexame que tinha acabado de dar, comecei a me servir primeiro dos bolos, dos quais tinha mais de seis tipos diferentes. Se eu não soubesse que estava em um navio da Marinha Real Britânica, poderia tranquilamente afirmar que aquele era um transatlântico cinco estrelas só pelo café da manhã. Pena que isso não se aplicava muito ao restante das refeições. Senti alguém chegando ao meu lado, mas não liguei, até ouvir sua voz:
— Caramba, , você me olha por um segundo e já tem aquela reação? Acho que a gente precisa ir mais devagar. — falou baixo, parando ao meu lado e servindo-se de mais café.
— Vai se ferrar, . Não vem encher meu saco antes do expediente não. — respondi, ríspida, sem olhá-lo, colocando uma fatia de queijo em cima do bolo. Mas que merda eu já estava fazendo?
— Ei, ei, ei, é Comandante , garota! — sussurrou, rindo em seguida. Que grande idiota, devia estar achando que era o engraçadão. Olhei-o irritada e sussurrei de volta:
— Não antes das 6h da manhã, idiota!
me olhou falsamente chocado e mirou um de meus bolos, roubando um pedaço rapidamente do meu prato e virando as costas na hora.
— Você pode muito bem se servir, seu babaca! — falei mais alto de propósito, ignorando os olhares que havia atraído e a risada que ainda podia ouvir de . Eu nem sabia se ainda estava com fome depois disso, sinceramente.
Então, ouvi uma outra voz perto do meu ouvido, sobressaltando-me:
— Bom dia, Tenente Atrapalhada falou, sorrindo, enquanto pegava uma fatia de presunto para seu sanduíche.
— Bom dia, Subcomandante . Ótimo jeito de começar, não é mesmo? — sorri sem graça, contente em ver seus lindos olhos tão perto de mim.
— É bom que você se enturma mais fácil agora. Já deve ter um apelido a essa altura — disse, me fazendo rir — Se bem que você nem precisa se preocupar, é tão linda que não tem quem não te perceba. — falou, me olhando nos olhos brevemente, sorrindo de lado. A sinceridade na sua voz fez meu coração arfar, fiquei sem uma reação imediata.
Não é todo dia que um homem daquele me elogiava, não é mesmo?
— Então, Tenente, não te vi o fim de semana todo. Estava ansioso para te encontrar novamente — falou mais baixo para ser ouvido apenas por mim, já que Beth estava perto, servindo-se também. Senti seu braço roçando no meu discretamente, como se quisesse fazer um carinho escondido, e não pude deixar de sorrir. Ai, que fofura.
— Pois é, fiquei meio indisposta, preferi permanecer no quarto repousando. Sempre fico com um enjoo chato no início das missões — menti, desviando meu olhar para a torradeira sem me prolongar muito, até porque a outra missão que havia realizado na vida durara apenas uma semana, e eu não senti enjoo algum.
— Bem, da próxima vez, vá até meu quarto, é o 40. Eu sou um ótimo enfermeiro, teria prazer em cuidar de você — disse em tom brincalhão, me fazendo rir. parecia ser um doce de pessoa, não deveria fazer mal a uma formiga. Por mais que tenhamos convivido pouco, me sentia realmente protegida ao seu lado.
Tenho certeza de que nunca iria me maltratar de propósito, pensei sozinha.
Sábado e domingo haviam sido péssimos para mim. Tive uma ressaca leve sábado de manhã assim que acordei, pelas 9h. Situação que logo tratei de melhorar com uma aspirina, muita água e uma longa hora correndo pelo perímetro do navio. O barulho do mar e o ar fresco e gelado me revigoraram. Depois, fiquei enclausurada em meu quarto, aceitando a companhia de Emily por algumas horas, até a mesma ir embora cansada.
Minha maior companhia no domingo foram os livros técnicos de navegação, já que qualquer narrativa na TV me remetia à romance, por mais que eu colocasse Chucky para assistir. Ele tinha uma noiva, não?
Esse assunto estava proibido para mim por mim. Infelizmente, o primeiro nome que me vinha em mente não era o de , ou de qualquer possível ex que tinha. Referências românticas me lembrando justo aquele idiota? Melhor fingir que não estava acontecendo. Aquele momento ridículo na piscina com estava perturbando mais minha paz do que o fato de ter sido assediada por um subtenente, e isso me perturbava um pouco. Claro, o assédio eu já passara algumas vezes na vida, suspeitava que fazia parte da biografia de qualquer mulher na face da Terra. Agora, associar , sua presença, sua maldita existência, a romances? Preferia poupar-me e me alienar com trabalho.
Fisguei meu bolo de chocolate, impaciente comigo mesma, enquanto rasgava o pacote de açúcar como se destroçasse um assassino de gatinhos. Meus pensamentos estavam fugindo do meu controle, odiava como estava sentindo-me afetada. Olhei ao redor e percebi que todos da mesa já haviam levantado, sobrando apenas Emily, que lia atentamente um livro de Anthony Robbins sobre PNL. Pelo menos ninguém iria notar o fato de eu estar comendo meu café da manhã grosseiramente.
Apesar de domingo ter sido bem parado, escolhi ir à sala de treinamentos no início da noite para socar alguns sacos de areia por um tempo. Precisava daquele alívio. Sempre gostei de lutar e sentia falta das aulas de boxe que eu tinha em terra firme. Era uma excelente forma de descontar minha raiva ou qualquer que fosse o sentimento excessivo que estava me acompanhando. E ontem, especialmente, estava sedenta para socar a cara de alguém em específico, o que facilitou bastante na hora de imaginar os sacos de areia com o rosto dele. A dificuldade que estava sendo levantar os garfos agora com certeza tinha a ver com o excesso de força com que esmurrei o equipamento.
O problema maior viera depois, quando terminei o treino. Devia estar pensando tanto em e em quantos diferentes tipos de socos que poderia lhe dar, que chamei sua presença para o Universo. Estava prestes a sair da sala quando ele adentrou, trajando uma regata azul colada, expondo seus músculos do braço. A calça de moletom cinza, para minha infelicidade, sobressaltou um – grande – volume, que eu preferia não ter visto.
Maldição.
Tentei esquecer sua vestimenta encarando os cadarços do meu tênis, mas meus olhos traidores sempre repousavam nele.
Saí apressada do local, bufando alto, enquanto o mesmo sorria debochado pela minha reação ao vê-lo, da mesma forma que fez agora no café. Ridículo. Jurei mentalmente que um dia o faria engolir aquele sorriso.
Tomei uma ducha mais fria que o recomendado para o clima e esfreguei minha pele com força com a esponja, como se precisasse limpar algo danoso que estava crescendo internamente em mim, como ervas daninhas no meio de uma horta. Infelizmente, dependendo do solo, elas sempre cresciam de volta.
Inútil. De novo.
Voltei para meu quarto e fiquei em um total silêncio e escuro, sem sucesso algum em pegar no sono sozinha. Eu ainda amava meu trabalho incondicionalmente, certo?
Ouvi Emily tossir de leve, fazendo meu olhar subir ao seu.
— Ou você odeia bolo de chocolate, o que eu duvido muito, ou você não está bem. — a mesma constatou, tirando os óculos de leitura e baixando o livro. Respondi-a apenas com uma careta, mastigando sem sentir gosto algum do que estava na minha boca.
— Quer conversar? — perguntou, estendendo a mão para tocar na minha.
— Mais tarde, pode ser? — falei com a boca meio cheia, fazendo Emily rir.
— Claro, moça durona. Tente ficar bem. Qualquer coisa, eu estarei no -3, você sabe. — sorriu docemente para mim, levantando-se da mesa.
— Obrigada, Emily — sorri de volta para ela, voltando a morder o bolo com raiva quando a mesma se afastou.
Eu ainda amava meu trabalho incondicionalmente?

’S POV

Então, era isso mesmo. Eu não estava ficando louco ou sendo prepotente, como ela devia achar. Pude perceber ali, naquele salão cheio, direcionar seu olhar especificamente e exclusivamente para mim, por mais que estivesse ao meu lado. E não foi qualquer olhar, do tipo que ela sempre direcionava a mim, cheio de desdém e nojo pingando. Oh não, era um olhar diferente, um olhar… lascivo. Toda aquela cena dela atrapalhada, esbarrando nas cadeiras, tentando ignorar que havia sido pega no ato, acendia mais luzes verdes na minha cabeça. E, mesmo que tivesse ido ao encontro de depois de mim, fazendo-a sorrir do jeito que ela sorria ao falar com ele, meu deleite em provocá-la em relação a isso crescia exponencialmente.
Sem medo de soar convencido, eu sabia que ela poderia me querer agora, por mais que a mesma provavelmente ainda não soubesse ou não quisesse admitir. Claro, tinha 0,01% de chance de eu estar totalmente enganado, mas o que custa atiçá-la um pouco para tirar a prova real, não é mesmo? Na pior das hipóteses, ela me dava um soco nas costelas e me xingava alto como sempre. Na melhor… Bem, na melhor, eu a conseguia para mim. E eu não era de desistir fácil. Terminei de tomar meu café preto em um gole e me dirigi à porta do restaurante, praguejando no caminho pela alta temperatura do líquido, que desceu rasgando minha garganta.
Enquanto marchava pelos corredores no navio, comecei a abotoar o restante de minha blusa e dar o nó em minha gravata rapidamente, sem conseguir conter um sorriso confiante. Por qualquer pessoa que eu passava, conseguia ouvir continências dirigidas a mim, além dos típicos cochichos infames. Não desviava o olhar por ninguém e nem parava para responder os breves acenos, mas sempre me atentava discretamente ao que os marujos murmuravam. Cada um tinha uma versão mirabolante do acidente, uma mais fantasiosa que a outra, sem limites para o absurdo. Tudo isso se traduzia naqueles olhares temerosos que eu recebia, como se todos tivesse um respeito ou medo excessivo de mim.
Alguns deliravam, afirmando que eu havia planejado todo aquele atentado fracassado por conta da história dos com os . Até sobre supostos envolvimentos extraconjugais ocorridos entre minha família e a dela eu havia ouvido, o que soava tão irracional quanto sair correndo em um tiroteio. Claro, a pulga atrás da minha orelha coçava quando parava para raciocinar em cima de alguns absurdos ditos, mas preferia não esclarecer certas coisas. Não gostava de entrar no mérito com meu pai ou avô sobre isso, muito menos eles.
Outros se iludiam e me chamavam de herói, pois gostavam de acreditar e reproduzir a versão de que todos teriam sido mortos caso eu não tivesse agido como louco, indo sozinho até o local apenas com uma arma na mão, sem saber o que enfrentaria.
Eu, particularmente, não ligava para nada daquilo, apenas deixava os boatos surgirem a todo vapor. Eventualmente, uma versão não batia com a outra, o que cessava com a validade da maioria das fofocas. Eu simplesmente sabia que todos estavam errados e não me importava nem em explicar coisa alguma a ninguém. Era um assunto delicado e pessoal. Só quem viveu aquela noite plenamente, desde os primeiros segundos, podia esclarecer tudo, e aquela pessoa, atualmente, estava alheia a qualquer acontecimento nos últimos seis anos. Até à própria vida.

Cheguei na cabine e comecei a ocupar-me no computador de bordo, programando-o para que o timão pudesse ser usado por mim naquele dia. Iria passar a manhã toda em pé, apenas visualizando o grande oceano à minha frente, sem grandes tentações. Quer dizer, sem tentações logo ao meu lado, pois ficaria atrás de , com minha visão alcançando sua figura o tempo todo. Alguma coisa me dizia que a olhar seria muito menos danoso do que a ter a poucos centímetros de mim. Ao menos eu preferia acreditar que tinha alguma lógica naquela minha irracionalidade, até porque nenhuma medida era realmente efetiva para evitar que a mesma me distraísse ou qualquer coisa do tipo, já que, até quando estava fisicamente longe de mim, pairava em minha mente. Era uma maldita tentação.
Depois de quinze minutos sozinho, totalmente alheio a qualquer coisa, inspirei profundamente e senti o perfume floral de baunilha misturado com filtro solar. Ela havia entrado na cabine, e eu nem ouvi o barulho da porta. Viu só? Totalmente distraído. Pelo menos já conhecia seu cheiro há anos, era inconfundível – e irresistível – para mim. Sempre sabia quando ela entrava em algum cômodo.
— Tenente — cumprimentei-a rapidamente, sem desviar meu olhar dos comandos.
— falou firme, como se estivesse xingando, recusando-se a proferir a palavra “Comandante”. Sabe, eu até que admirava isso nela. Sua teimosia mostrava um traço forte de sua personalidade, como se não cedesse facilmente. Será que era sempre dominadora assim?
— Você nunca vai me chamar de comandante, né? — perguntei, abrindo um meio sorriso involuntário, ainda pensando em seu lado autoritário.
— Nunca. — respondeu indiferente, pondo-se ao meu lado, ainda sem me olhar — Já estamos nos encaminhando para o sul da Itália? — perguntou, arrancando os papéis da minha mão. Petulante.
— Sim — peguei-os de volta e a olhei repreensivo — A rota foi traçada ainda no sábado pelo Fred, o Contra-almirante. Chegando lá, teremos dois dias de porto, no máximo três. — a respondi enquanto indicava nos primeiros mapas físicos as rotas já tracejadas. Seu semblante ficou sério, e ela deteve-se em olhar as folhas na minha mão de forma concentrada, enquanto eu só conseguia encará-la. Adorável, quando não está me assassinando mentalmente.
Era impressionante as vezes que esqueci do quanto o rosto de possuía traços delicados, sempre com as bochechas levemente vermelhas. Sua feição era sempre tão impiedosa para mim. Nunca a via assim tão de perto, tão calma.
— Para de me encarar — falou dura, ainda olhando os mapas. Tossi levemente e voltei a falar:
— Pelos cálculos de Fred, chegaremos na Itália em uma quarta-feira de manhã, saindo de lá sexta à noite, para acompanhar o cargueiro que nos aguarda. Iremos escoltá-lo até a ilha de Creta, para então voltarmos sozinhos para a Inglaterra — Isso se tudo ocorrer como previsto, completei mentalmente.
— Achei que eu iria traçar as rotas, pelo menos no horário da manhã. — questionou, com uma expressão confusa, já que uma de suas funções era justamente essa. Botou seus óculos de leitura de aro dourado no rosto e pegou as folhas da minha mão novamente, lendo atenta.
— Infelizmente, nossa expedição começou numa sexta-feira de tarde, e como, na reunião, você estava mais preocupada em me aniquilar com o olhar do que participar…
, eu só estava devolvendo os SEUS olhares. Não fale como se eu estivesse te secando. — falou ríspida, puxando seus longos cabelos em um rabo alto. Seu perfume subiu com seu movimento e inebriou-me por um segundo antes de me dar conta que teria que ficar olhando para sua nuca a manhã toda. Eu estava perdido.
— Secando como você estava fazendo hoje no café? — respondi esperto, tentando conter uma risada. arregalou os olhos em fúria e tentou falar um “vai se fuder”, mas tinha um elástico de cabelo entre os lábios — Enfim! — me apressei em falar — Você não se manifestou quando tocamos no assunto, então…
— Claro, você estava sendo ridículo me repreendendo na frente de todos. Como iria falar qualquer coisa mais? — perguntou, com uma entonação perigosamente alterada. Continuei contendo minha risada e permaneci com o tom de voz calmo, sem elevar meu timbre:
— Claro, você não consegue nem me chamar de Comandante sem gaguejar… — continuei, ainda olhando para o painel e digitando os comandos. Eu quase tinha esquecido do quão fácil e divertido era aborrecê-la.
— É complicado aceitar que devo chamar uma lesma de Comandante... — comentou, quase em um sussurro, voltando a atenção para os mapas. Oh, estava ficando divertido.
— … mas não conseguia parar de me encarar como uma maníaca assassina… — a respondi igualmente baixo, como se estivesse comentando amenidades.
— Pois você sendo grande idiota que é. Começou esse joguinho ridículo de olhares…
— … que você adorou e continuou…
— … porque te menosprezar para mim é…
— … como ter orgasmos...
— Como é que é? — virou de forma exaltada em minha direção, fazendo com que eu soltasse finalmente uma gargalhada alta. Seu olhar era de pura fúria, e seu corpo abandonou qualquer fagulha de autocontrole que ela ainda possuía, como se estivesse pronta para me atacar. E essa expressão raivosa? Era como se pedisse por um apertão na bochecha.
— Ei, ei, ei, foco! — levantei meus braços em rendição assim que começou a me estapear no braço — quem decidiu que o Contra-almirante iria traçar os primeiros percursos, pois nem você, nem Daniel se manifestaram quando…
— O quê? Daniel? — a mesma perguntou em tom desgostoso, parando no mesmo segundo com os golpes.
— Ele era quem trabalharia com a equipe vespertina com enfoque na leitura dos mapas, como você.
— Mas ele era somente subtenente e...
— E você somente Tenente. Você deveria saber que quem costuma traçar as rotas são os Contra-almirantes em conjunto com os capitães, mas vocês dois tinham estudos apurados no assunto. — a respondi, dando de ombros e esperando que essa informação não pesasse demais em seu consciente.
Sua expressão tinha um misto de repulsa e confusão, tendo em vista a menção daquele ser desprezível e do fato dele ter o mesmo ofício que ela. Compreendia tal sentimento, e até compartilhava dele. Eles não tinham nada além disso em comum, principalmente o caráter.
— O Contra-almirante irá substituir Daniel? Isso parece-me ridículo, quase como um desperdício de cargo. — falou, encaminhando-se para a cadeira na minha frente, desistindo de ler as rotas para olhar o mar pela janela.
— Não, baby, não é bem assim...
— Merda, , não me chame assim também! Substituiu o “garota” por algo bem pior! — respondeu-me ríspida, batendo com os mapas na coxa.
— Calma, garota, só quis ser mais carinhoso…
, VAI SE FUDER! — gritou com a voz esganiçada, fazendo-me gargalhar.
— Calma! Desculpa, b… ! — substituí, levantando as mãos em rendição novamente. Qualquer dia desses eu deveria comprar logo uma bandeira branca da paz. — Enfim, Tenente — falei com toda minha polidez reunida, e a mesma acalmou-se, voltando a ler o que tinha em mãos — O Contra-almirante normalmente trabalha de madrugada, quando ninguém da equipe de cabine está desempenhando suas funções. Fred informou-nos que poderá dar conta do ofício dele e de Daniel, podendo contatar você em alguns momentos. Informei-o no sábado de manhã sobre a prisão e sua nova responsabilidade. Fique tranquila, você ainda tem muito trabalho a fazer. Fora que ele poderá te procurar de madrugada, caso necessite.
pareceu tão aliviada em ter sua função assegurada, que desceu suas costas levemente do encosto da cadeira, relaxando a postura. Apenas acenou com a cabeça afirmativamente sem falar mais nada. Mais nada?
— Não se preocupe, baby — falei, provocativo, sem conseguir me segurar. lançou seu olhar mais assassino para mim, levantando-se de sua cadeira em um segundo e começando a bater ininterruptamente com as folhas enroladas em meu braço. Em resposta, só conseguia gargalhar com seu jeito sempre tão irritadiço, como se qualquer “a” dito por mim a tirasse dos eixos. Será que ela sabia o quão encantadora ficava assim aborrecida? Com toda certeza, provocar-lhe até aquele ponto era o melhor entretenimento que eu poderia ter naquele navio. E, por mais doentio que isso parecesse, até seus toques mais rudes me agradavam. Ao menos, eram seus.
Enquanto uma de suas mãos atingia em cheio meu rosto com um canudo feito com os mapas, segurei e puxei seu outro pulso em reflexo, sentindo sua pele macia e quente entre meus dedos me extasiar. Seus olhos irritados me cortaram como navalhas quando meu puxão fez seu tronco chocar com o meu, como se eu tivesse cometido algum crime hediondo.
Ah, é mesmo.
Tinha esquecido que gestos de proximidades eram proibidos para nós, considerando a discórdia que causavam. Ou, pelos meus últimos impulsos, pela vontade insana de envolver seu rosto com minha mão e beijá-la. E isso com certeza era pior para ela do que começar a Terceira Guerra Mundial comigo.
— Céus, como você é desprezível! Dá pra soltar meu pulso, seu ridículo? — disse grosseiramente, tentando puxar seu braço, mas sem parar de me bater.
— Para de me bater então, inferno! — respondi, rindo, me preparando para pegar seu outro pulso. Assim que consegui pegá-lo e puxá-la para mais perto de mim, seus olhos miraram nos meus com fúria, fazendo-me sorrir satisfeito.
Então, uma leve batida ecoou por todo o cômodo, nos interrompendo e fazendo nossos olhares irem em direção à porta sendo aberta. botou a cabeça para dentro da fresta, com seu cenho franzido denunciando sua estranheza em ver aquela cena patética, da qual eu segurava os braços de para o alto enquanto nossos corpos estavam colados.
! — disse, surpresa, desvencilhando-se de mim para ir até ele.
— Com licença, equipe, desculpa interromper. Trouxe alguns agrados — entrou no recinto, olhando em volta e abrindo um sorriso, vendo que tinha apenas nós dois ali ainda. O mesmo carregava uma garrafa térmica que cheirava a café e uma tigela com rosquinhas doces. Que adorável, vindo puxar o saco dela.
— Oh, que gentileza! — respondeu, dando tapinhas leves no ar, com um sorriso enorme no rosto. Pegou um punhado de rosquinhas e serviu-se do café preto em sua caneca. Aposto que se estivesse tudo envenenado, ela pegaria com a mesma alegria.
Ciúmes.
— Reparei que você não comeu direito no café da manhã e quis melhorar o possível estado ruim do seu estômago. Não vai querer ficar enjoada de novo, né? — respondeu-a em tom alegre, fazendo-a sorrir sincera como poucas vezes havia visto. Céus, eu ia vomitar a qualquer segundo de tanta melosidade. Afinal, qual era a dele, sendo assim todo solícito com ela? Não era de seu feitio ser daquele jeito com mulher alguma. Respirei fundo e forcei um sorriso.
— Obrigado, . Estava querendo tomar mais café mesmo. — tentei dizer de forma amigável, atraindo o olhar dos dois para mim.
— Então, como ‘tá o trabalho por enquanto? — perguntou, olhando de mim para .
— Nem começamos ainda, estava lendo as rotas — o respondeu, ainda sorrindo, como se tudo estivesse na mais tranquila paz e não estivesse tentando me matar antes dele entrar na cabine. Que bela fingidora.
— Na verdade, eu já poderia começar a navegar, mas as distrações estão grandes hoje… — disse, olhando-a cheio de segundos significados. apenas revirou os olhos e bebeu seu café, ignorando minha fala.
Oh, agora ela não queria me responder, é? Ela sabia muito bem, assim como eu, que seu comportamento exaltado comigo deixava quem estivesse por perto constrangido, ainda mais se eu não resistisse e começasse a discutir com ela. estava se segurando, e era para não passar uma impressão ruim para .
E isso não poderia ter me irritado mais.
— Vamos voltar ao trabalho, sim? — falei subitamente, chamando a atenção dos dois para mim pelo tom carregado em minha voz. Não tinha medo de soar grosseiro, afinal, tinha uma hierarquia como desculpa.
— Claro, , tem razão. Não vou me estender muito mais. E você, vê se come, hein — finalizou, sorrindo para ela. Então, o desgraçado segurou pela cintura, a puxando para perto, e simplesmente a beijou ali, na minha frente. havia beijado . havia beijado enquanto estávamos no trabalho. havia beijado enquanto estávamos a trabalho a menos de 1m de mim. Sem se importar com minha presença como plateia. Ele estava simplesmente anunciando sua nova conquista sem receio algum. Olhei a cena enfurecido, sentindo o sangue subir na minha cabeça.
… — disse baixo, afastando-o pelo peito levemente.
— Relaxa, linda, sabe que você ‘tá me tirando o sono — disse tranquilamente, dando mais um selinho rápido nela — E não há proibição de envolvimento dentro da Marinha, certo, ? — olhou-me com um meio sorriso no rosto, voltando a aproximar dele.

Eu não sei se sentia náusea ou raiva por presenciar aquilo. Talvez os dois.

Eu jurava que havia tentado me manter o mais pacato possível diante do novo… casal da Marinha. Mas sinceramente? Não havia necessidade alguma daquela demonstração de afeto, bem na minha frente, daquela forma tão explícita. Eu conhecia , sabia o que aquela sua atitude significava. Depois de tantos anos de amizade, sabia analisar cada olhar e gesto dele.
, não importa, man. Aqui não é local nem hora. — falei, tentando manter a irritação longe da minha voz — Prefiro que guardem seus momentos para vocês dois. — minha fala surtiu um efeito imediato, pois virou surpreso para mim, e se afastou subitamente dele, passando a mão pelos cabelos de um jeito nervoso. — Inclusive, , preciso do relatório sobre Daniel ainda hoje. Quero que me entregue assim que meu turno acabar, sim? — permaneceu imóvel, com o semblante fechado, sério, me encarando por alguns segundos, antes de abrir um meio sorriso. Ele odiava ser mandado dessa forma, e eu sabia bem disso.
— Claro, tem razão — respondeu, ainda sorrindo para mim. Balançou a cabeça, como se espantasse um pensamento, e olhou para , que possuía uma expressão confusa, nos fitando — Perdão pelo inconveniente, voltarei aos meus afazeres. Comandante, Tenente. — fez uma continência rápida e se retirou da cabine.
Merda.
O que havia de errado comigo? Tinha acabado de repreender duramente um de meus melhores amigos por pura cisma. Não consegui lidar com o fato de estar sentindo ciúme pela segunda vez e descontei nele, quem menos tinha a ver com aquilo tudo. Mas, porra, ele tinha que a beijar na minha frente também? Qual era a dele?
— O que deu em você? — perguntou baixo, se aproximando de mim assim que havia fechado a porta.
— Pergunta logo o que você quer perguntar, — a respondi ríspido, conseguindo sentir meu sangue subir só de pensar em discutir isso com ela. O que eu poderia falar? Que eu tinha uma nova teoria do porquê da nossa relação ser tão tensa o tempo todo e que todo aquele ódio que sentíamos era algo reprimido? Que eu gostaria de tentar conversar sobre isso e esclarecer certas coisas? Ela riria da minha cara até perder o fôlego. Me levantei e desviei dela, indo até a garrafa térmica para me servir de café.
— O que ‘tá rolando com você, ? — aumentou seu tom de voz, já soando estridente, vindo em minha direção com as mãos na cintura. Não pude deixar de rir irônico com sua pose autoritária. Parecia que eu era o Tenente ali e estava levando uma bronca da minha Comandante. — Você tem noção do quanto tem agido estranho ultimamente? Você ‘tá me enlouquecendo! — gritou para mim, com uma expressão perturbada. Oh, eu estava a enlouquecendo? Ela não tinha noção do que eu pretendia fazer com minha insanidade indo para o ralo por causa dela.
— Sinceramente, garota? Eu acho que você já enlouqueceu faz tempo — a respondi de forma desprendida, soprando a quentura do café.
— Sua opinião sobre mim será muito bem-vinda quando eu pedir, ! — continuou, exasperada — Que merda foi aquela?
— Aquela merda, , foi só uma pequena prova do que pode rolar daqui pra frente. Como pude observar, é uma grande distração para você e vice-versa. Não quero ter que colocar isso no seu relatório, ou até mesmo no dele, sabe? Isso seria tão ruim para os registros de vocês… — falei vagamente, sabendo que havia tocado em um ponto sensível.
— Você não faria isso… — falou, ameaçadora, mudando sua postura na hora.
— Oh, não só faria como poderia aplicar uma advertência também — minha intimidação deve-a ter relembrado quem estava no comando ali, pois suas mãos fecharam em punhos fortemente. Devia estar sendo um verdadeiro pesadelo para ela me ter como seu superior.
Quais eram as chances, não é mesmo? Logo eu ali, podendo destilar todo aquele ódio que ela não economizava em jogar para mim, em forma de relatórios de performance, tanto dela quanto de seu novo príncipe do cavalo branco. Claro, ele era um de meus melhores amigos. Não prejudicaria de propósito por causa dela. Porém, era divertido lembrá-la que eu simplesmente podia.
— O que foi? Não gostou do que ouviu? — perguntei, rindo, já que estava calada, apenas me encarando com desgosto, como se pudesse queimar minha figura com seu olhar. Ela não estava errada, mas o que me queimava dentro de mim era outra coisa, que, pelo andar da nossa conversa, ela não ia querer saber. Depois de poucos segundos, semicerrou os olhos e abriu um sorriso maligno, como se estivesse pronta para acabar comigo com suas próximas palavras. E, de novo, ela estava certa: — Sabe, , eu acho que a pergunta certa não é essa. — começou a andar devagar até mim, ainda sorrindo maldosa com a postura mais provocante. Apenas engoli em seco, não gostando nada de sua repentina mudança de conduta — A pergunta certa é: não gostou do que viu, é, ? — perguntou, enrouquecida.
— Como é? — questionei, genuinamente confuso, sem entender onde ela queria chegar, olhando-a desconfiado.
— Não gostou de ver alguém me beijar? — abriu mais o sorriso e parou bem na minha frente, ficando na ponta dos pés para se aproximar da minha orelha e sussurrar devagar — Ficou com ciúmes, é, ? — prolongou-se ao dizer meu nome, com um tom rouco, o que causou arrepios intensos na minha nuca, que fizeram meus olhos fecharem na hora. Naquele momento, podia jurar que seu perfume fora especialmente desenvolvido para me paralisar, como uma arma de guerra extremamente eficaz, que valia a pena se deixar ser atingido. Fiquei mais alguns segundos imerso na atmosfera que ela havia criado, até sentir se afastar, fazendo-me abrir os olhos perdido, procurando sua figura. E, para minha surpresa naquele momento, sua expressão era de indignação.
— Oh, meu Deus, é isso? — sua voz saiu totalmente esganiçada, e sua mão repousava na boca, em um gesto de choque.
— Oh, por favor, menos, . — tentei falar em tom zombeteiro, apesar de que, se estivéssemos em outro contexto, não teria problema algum em falar que sim, odiei ver outra pessoa a beijando.
— Menos o caralho, . É sério? Por isso falou daquela forma com ? — gritou, atordoada, como se estivesse presenciando um crime — Meu Deus, você é mais doente do que eu imaginava. Você tem noção do quanto isso é ridículo? Ciúmes, ? De seu amigo comigo? — seu tom de voz era alto e a aversão pingava de suas palavras, como se estivesse interrogando um serial killer. Continuou proferindo frases e mais frases sobre o quanto eu era doente, até não fazer mais nexo algum. Fechei meus olhos com força e respirei fundo, travando minha mandíbula para tentar não gritar. Ela não tinha noção mesmo com quem estava falando, né? Ou do que poderia causar com seu menosprezo tão latente por mim. Ok, eu não precisava mais aceitar isso, na verdade.
, basta! — gritei, a repreendendo, fazendo a mesma calar-se na hora, considerando que meu timbre estava mais grave e sério. Se antes nossas brigas só terminavam quando ela queria, ou quando alguém nos interrompia, aquela era a oportunidade perfeita para mostrá-la como as coisas estavam diferentes. — é, sim, um de meus melhores amigos, mas, aqui dentro, eu continuo sendo o dirigente de vocês dois. Vocês podem ter o envolvimento que quiserem, eu realmente não ligo — menti, me dirigindo ao timão, a fazendo acompanhar-me com seu olhar carregado de repulsa — Mas aqui não é local, e eu não sou obrigado a ver uma de minhas tenentes e meu subcomandante se beijando em pleno horário de trabalho. — a respondi ríspido, devolvendo todo a fúria que ela havia descontado em mim sem conseguir controlar a raiva em minha voz — Volte para a sua função e não me questione mais. — finalizei rude, olhando-a por cima dos ombros.
— Inacreditável… — riu de forma irônica, voltando para sua cadeira. Sabia que havia exagerado na grosseria e autoritarismo, mas não pude me controlar diante de todo seu monólogo de xingamentos indignados para mim.
Como resultado disso tudo, só conseguia enxergar uma distância maior formando-se entre nós dois, como uma parede cada vez mais grossa, em que deveríamos gritar cada vez mais alto para nos fazer entender. Eu sentia um ímpeto de tentar ser diferente com ela, ver como as coisas seriam caso conseguíssemos nos aproximar sem tentar nos matar todas as vezes, mas não podia simplesmente não me deixar afetar e respondê-la no mesmo tom. Não sabia nem por onde começar para mudar as coisas entre nós.

POV’S OFF

Enquanto terminava de descer as escadas mórbidas e barulhentas para o -5, o homem espiou a mulher que estava em seu encalço por cima dos ombros, lhe oferecendo um cigarro enquanto botava um na própria boca. Já estava em seu segundo desde que havia saído da cabine. Odiava ter sido repreendido daquela maneira. Sentia-se um simples subordinado, coisa que não era. Pelo menos, em parte.
A subtenente Beth recusou o tabaco e olhou em volta do recinto, fazendo uma cara feia ao sentir o cheiro do lugar e o estado úmido e sujo que as paredes tinham. Eram todas esverdeadas e mofadas. O ar lhe sufocava a garganta, o frio chegava a ser corrosivo. Perguntou-se como podiam manter alguém ali daquele jeito, naquela insalubridade. Ouviu o homem ao seu lado tossir levemente, a olhando desconfiado e pousando a mão em sua cintura para os dois continuarem o percurso até as celas. Beth assentiu e continuou a caminhar.
— Estou aqui a menos de cinco minutos e já me sinto sufocada. Como podem manter pessoas aqui?
— Você fala como se fôssemos trazer a Rainha neste lugar. — riu levemente, balançando a cabeça — Não há muita preocupação com o bem-estar de quem é designado a ficar preso nessas celas. Entenda, são todos criminosos. — respondeu o homem simplesmente, dando de ombros, como se falasse de ratos imundos que deveriam ser exterminados.
— São seres humanos… — falou a mulher, abraçando seu próprio corpo pelo frio. Ouviu outra risada do homem e virou o olhar para ele. Estava confusa.
— Oh, pelo amor de Deus, Beth, você sabe o que esse verme aí fez? — apontou com a cabeça para Daniel, assim que chegaram em frente à sua cela. O mesmo estava sentado no chão com apenas uma coberta sobre as pernas. Tinha os pés sujos e descalços e o rosto inchado, cheio de cortes com hematomas e sangue seco. Tinha as mãos presas nas grades em sinal da cruz, imobilizando-o de qualquer movimento, como simplesmente andar ou tentar deitar-se. Esteve sentado há três dias, não havia dormido direito e nem se alimentado muito.
Beth deu um leve salto para trás ao ver o estado que o homem estava, pousando uma mão na boca em choque.
— Ele tentou estuprar uma de nossas Tenentes, a . Acha mesmo que ele merece ser bem tratado?
A mulher não conseguiu responder-lhe. Estava abalada demais para assimilar qualquer informação. Apenas continuou observando e sua atitude dominante em relação ao detento, o qual parecia possuir um medo enorme do mais velho.
— Por favor, eu preciso me mexer, preciso andar um pouco, me deitar, qualquer coisa que não seja ficar sentado. Eu não aguento mais, estou faminto. Preciso de curativos e banho. Não aguento mais meu próprio cheiro. — Daniel suplicava com a voz chorosa enquanto balançava suas mãos com as pesadas algemas no ferro da cela, reproduzindo um som estridente e frio no ar. soltou uma risada seca e abriu a cela para agachar-se ao lado de Daniel. Soltou a fumaça do cigarro no rosto dele, fazendo-o encolher-se em resposta. Na mesma hora, pegou com força seu rosto, virando-o para si novamente, sem se importar se estava machucando mais ainda ao tocá-lo daquela forma bruta por cima de tantos ferimentos. Um gemido suplicante foi ouvido.
, você está o machucando — Beth comentou, sua voz estava falha e chorosa. Sentiu-se nauseada pela visão. O homem a olhou divertido, sorrindo pelo seu comentário.
— Vermes não sentem dor, Beth. Quer ver? — tragou a fumaça novamente e enterrou o cigarro no braço do mais novo, fazendo-o urrar de dor pela queimadura. sorriu ao ouvir seus gritos de súplica e retirou o cigarro de sua pele, jogando-o longe — Pronto, pronto, nem doeu tanto assim. A dor dignifica o homem, rapaz. Quem sabe no final dessa missão, com as minhas visitinhas, você vire um ser humano digno. — deu dois tapas no ombro do rapaz e pegou outro cigarro, levantando-se para acendê-lo.
Daniel não conseguiu proferir nenhuma palavra, sentindo-se nauseado pela dor. Vomitaria tudo que tivesse no estômago, se não fosse pela falta de comida, que já completava quase um dia. Beth olhou incrédula para e começou a caminhar apressada em direção às escadas, pronta para fugir daquela cena horrível que havia presenciado. Sua visão estava levemente turva pelas lágrimas, fazendo-a tropeçar em cordas sujas que repousavam no chão. Porém, antes que pudesse chegar no meio do caminho, o homem segurou-lhe os braços, puxando-a delicadamente para trás novamente.
— Ei, ei, desculpe. Vem cá — puxou-a para um abraço, o qual a mesma aceitou na hora, enterrando seu rosto em seu pescoço
, isso foi cruel — Beth disse com a voz abafada, soluçando contra sua pele.
— Desculpe, linda, é só que eu não me controlo quando o assunto é violência contra mulher, sabe? Eu fico com uma raiva descomunal. — separou seu corpo levemente, o suficiente para ela olhar em seus olhos — Não farei mais essas coisas — na sua frente, pensou — Prometo, está bem? — a mulher assentiu, voltando a se acalmar. tomou-lhe o rosto com as mãos e beijou sua boca, sendo correspondido imediatamente.


Capítulo 6 – Mockery Fate

POV’S OFF

Segunda-feira, 9h30 da manhã.

Na cabine principal, no alto do quarto andar, um silêncio sepulcral reinava, estabelecendo uma atmosfera fria e distante entre e . A tensão que emanava de ambos era tão perceptível quanto a úmida maresia que pairava no ar e levava consigo a limpidez dos vidros, manchando as amplas janelas.
As paredes brancas da cabine, descascadas pelo tempo, possuíam uma decoração marítima completamente inútil. Nós estilizados com cordas encardidas, conchas pintadas artificialmente, bóias desbotadas e antiquadas. A forma superficial que o decorador havia assimilado elementos do mar para decorar um navio da Marinha beirava à inocência. Afinal, ninguém ali estava em uma viagem de férias, ou em um passeio de cruzeiro, para achar aquele falso cenário tranquilo um mínimo apreciável. Trabalho Naval era sério e compunha uma parte extremamente importante das forças armadas, ainda mais aquele sendo um navio da Marinha Real Britânica. Sendo a segunda maior marinha do planeta e a soberana na Europa, possuía um inquestionável prestígio internacional.
Por isso que, independente da missão, as vidas dos marujos da Infantaria sempre estavam expostas a diversos perigos em alto mar, principalmente quando o dever designado era prestar escolta blindada ao Navio Cargueiro Emma Maersk. Aquela, com toda certeza, não era qualquer embarcação.
Com capacidade de carregar 375 mil toneladas, Emma Maersk era considerado um tesouro marítimo, transportando sempre milhões de euros em cargas, empilhadas em uma infinidade de contêineres. Tanto que fora tido como o “Mercedes-Benz dos Mares”, apelido esse que agradava e muito ao Comandante da missão, .
Seu peito enchia-se de orgulho por ter chegado até ali, especialmente após tudo que sofreu ou fez sofrer. Deleitava-se toda vez que percebia, mesmo que sutilmente, que estava no Comando de um dos maiores navios da Marinha Real, o Queen Mary, e a caminho de escoltar a maior embarcação cargueira do mundo.
— Com licença, Comandante , a primeira rota está pronta para o senhor analisar. — declarou cordialmente Fred, o Comodoro.
olhou por cima dos ombros e acenou com a cabeça, confirmando sua diligência. Há quanto tempo estava analisando aquele retrato antigo? A foto em sépia roubou-lhe a atenção imediatamente quando reconheceu os dois rostos. Seu avô e o avô dela. Inimigos de berço, eternamente juntos em uma fotografia. caiu em um leve atordoamento nostálgico que lhe enevoava a atenção.
Virou-se para voltar ao leme, e seus olhos instantaneamente fixaram-se no brilhante horizonte à sua frente, onde um tempo límpido fazia-se presente. Sentiu uma euforia particular percorrer por todo seu corpo. Considerava-se um felizardo por presenciar aquela imensidão azul, pronta para ser desbravada.
E por suas próprias mãos. Ou comandos, como preferir.
Todo aquele encargo que o Major-General o havia designado, o objetivo de escoltar tamanha responsabilidade de um continente ao outro, conferia-lhe um entusiasmo vigoroso, apesar da leve pressão. Esses dois meses seriam decisivos em sua carreira, tudo deveria sair exatamente como planejado, com o mínimo de erros.
Não tinha dúvidas de sua plena competência e capacidade para tal, sabia que seu potencial era de berço e, uma hora ou outra, atingiria o cargo máximo no Corpo da Armada. Só não esperava que fosse antes dos 40 anos, como ocorreu.
Claro, seu sobrenome contribuíra e muito para atingir tal posto tão cedo, pois, além do mérito pessoal, nas Forças Armadas, era insuperável ter QI. Quem Indicasse. Não era novidade para ninguém que aqueles com gerações de militares na família tinham suas vantagens para construir carreira e alcançar posições elevadas prontamente. E isso era mais um ponto sobre , que circulava de boca em boca pela Marinha. Sentia-se no radar de todos o tempo inteiro, com uma pressão atordoante nos ombros.
Recordava-se de seu dever constantemente. Lembrava com seriedade as palavras de seus superiores nas reuniões que tivera antes da missão. As lacunas para erros eram cada vez mais estreitas, e não tinha pretensão alguma de atravessá-las. A falha de anos atrás e a culpa tão atual nem deveriam cruzar sua mente. O foco precisava ser constante e as distrações mínimas.

Sem distrações.

riu sem humor por essa constatação e inspirou fundo o ar, passando os olhos por todo o cômodo, analisando cada detalhe e marujo que se encontrava ali. Todos extremamente sérios, dialogando entre si pelo clássico vocabulário náutico, concentrados em seus ofícios. Cada um com uma responsabilidade diferente, mas todos com a mesma testa franzida de apreensão.
Então, pescou uma pequena figura. Aquela que se destacava instantaneamente para ele, não importando quem ou o que estava em sua volta. A mulher que o fazia arfar com pesar em tantos contextos diferentes.

Sem distrações…

A única coisa que falhara miseravelmente logo em seu primeiro dia de missão fora em comunicar-se com , sua Tenente de cabine. A responsável por direcionar o melhor percurso marítimo de acordo com a leitura das possíveis mudanças climáticas. Em outras palavras, era ela quem traçava o destino que ele deveria seguir. Isso tudo soava tão poético e sacana ao mesmo tempo que fazia a garganta de coçar, tamanha era a ânsia de rir nervosamente.
Ele sempre acreditou que o Destino era uma entidade onipotente, a qual usava de muitas sátiras e escárnio para deliberar sem pudores a vivência de todos. Por isso, nada mais coerente que virar chefe de um de seus maiores desafetos, não é mesmo?
E, para piorar tudo, claro que descobriria em seu íntimo ter algum tipo de sentimento romântico por ela. Era a maldita cereja do bolo. Apenas mais uma imoralidade para a história dos dois.

A imoralidade de ter sentimentos, refletiu em um suspiro.

Pensou na briga de mais cedo e no quanto seu peito contorceu-se em angústia por sentir um ódio tão aceso e real na voz dela. Apesar disso, uma culpa agonizante repousava no seu coração por ter sido tão rude com ela, em represália. Era gelada a sensação de estar afastando-a de si, como se ela lhe trouxesse todo o calor que ele precisava.
A constatação de tal sentimento veio quando, com apenas um olhar distraído dela, seu corpo voltara a arder como se fosse constituído de brasas. A pulsação latente por baixo do fino tecido do uniforme transtornou-o de desejo. Essa era a nova realidade agridoce dele, ter sentimentos por .

Sem distrações.

Abaixou o olhar para suas mãos e percebeu a palidez dos nós de seus dedos, tamanha era a força que fazia para manter-se no lugar. Então, uma ironia acendeu na mente de .
A ironia de ter passado a manhã toda com a mão espalmada naquele leme frio, apertando a dura madeira com firmeza, quando a coisa mais macia e quente do mundo estava a centímetros de distância de seus dedos calejados.
Lembrava perfeitamente como a pele de era terna e suave ao toque, como se fosse feita da mais pura seda e devesse ser acariciada a todo instante que ela desejasse. Não poder voltar a tocá-la imediatamente era uma tortura romana para ele. sentiu-se descontrolado algumas vezes naquela manhã, quando quase mandou os marujos saírem da cabine para ficar a sós com ela. Era como se seu perfume doce de baunilha soubesse o lugar onde era mais apreciado e escapava da pele dela para intrometer-se no olfato dele, despertando-lhe pensamentos lúbricos.

Sem distrações!

bufou impaciente, fazendo o Comodoro sobressaltar-se pelo barulho alto ao seu lado. Fred imediatamente dirigiu seu olhar de para o Comandante, como se adivinhasse o objeto de descontentamento da bufada dele. travou a mandíbula e preferiu ignorar o quão transparente estava sendo perto dela. Será que ela o havia ouvido?
Passou a observar a linguagem corporal de com minúcia, vendo um discreto, porém repetitivo, movimento de sua mão em seu pescoço. Compreendia exatamente o que aquela ação solitária simbolizava. Outra culpa pungente formou-se em seu peito. Sabia que, uma hora ou outra, precisaria esclarecer inúmeros pontos de diversas questões com ela. O silêncio já estava além do saudável, pressentia que algo explodiria logo. Que Deus o ajudasse, mas não gostaria que sua impulsividade fosse o estopim da dinamite.

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ajeitou a postura em sua cadeira e deu um suspiro curto, digitando no moderno painel de controle os últimos números da segunda rota. Apesar de não ter calculado o itinerário que os levariam do Estreito de Gibraltar até o Mediterrâneo, sentia-se tonta por estar com a atenção tão focada em revisar e digitar cada coordenada. Percebera que corrigir e reformular a rota de Fred havia lhe tomado mais tempo e energia que elaborar ela mesma o percurso. Torceu para não se atrasar, sabia no que isso poderia implicar. Toda aquela responsabilidade estrangulava sua garganta em alguns momentos, como se a confiança depositada nela esvaziasse-lhe os pulmões.
Odiava admitir, mas estava sobrecarregada.
Por mais que seu preparo de anos fosse exemplar, sentia a leve pressão do ofício lhe tensionar os ombros, deixando cada fibra muscular sua embolada. Não havia brechas para erros de ninguém ali. Toda a atenção, dedicação e treinamento rígido que recebiam na Marinha deveriam ser executados com 100% de maestria.

Sem erros.

Aquela missão estava sendo o auge de sua carreira até o momento. Sentia-se orgulhosa por tornar-se Tenente aos 25 anos, ainda mais depois de tantos desastres em sua vida. Carregar as sequelas psicológicas daquele período perturbador representava ser forte e seguir em frente. Significava vencer todo dia, sempre que escolhia não sucumbir. Não era agora que iria distrair-se.

Sem erros…

Entretanto, por mais que devesse sentir plena satisfação pelo rumo correto que sua vida estava tomando finalmente, tinha algo que ainda lhe frustrava a alma. Ou melhor, alguém.

. De novo. Sempre ele atrapalhando meu caminho, pensou, aborrecida. na minha vida é que nem uva passas no arroz no Natal, completamente inconveniente e desnecessário.

O fato de viver tudo aquilo ao lado de , em seu igualmente auge de carreira, comprimia seu peito em desgosto. Não conseguia conformar-se com a escalação de ambos para trabalharem juntos em uma missão tão séria, com funções tão interligadas. A arruinada relação dos dois era como papel molhado pela chuva. Um dramático e irrefutável acidente. Prova disso havia sido a ausência ensurdecedora de comunicação daquela manhã. Isso com certeza sucederia em deslizes com consequências severas para ambos, se não resolvessem logo suas diferenças.
Porém, não conseguia imaginar-se tendo um diálogo impassível com tão cedo. Foram mais de duas décadas de contatos catastróficos, inúmeros momentos desagradáveis lhe inundavam a mente para cada segundo que pensava em deixar tudo para trás e ser civilizada com ele.

Sem erros, . Seu trabalho é mais importante, ponderou, agoniada, tentando concentrar-se em sua respiração.

Pelo canto do olho, podia perceber facilmente a silhueta alta e imponente de , fazendo-a quase bufar automaticamente toda vez que sentia o ultraje em tê-lo tão perto. Para ela, não era justo o cara que a fez perder o controle tantas vezes ser seu dirigente neste trabalho. Não fazia o menor sentido na sua cabeça.
Assim como não fazia o menor sentido o calor instantâneo que invadia suas bochechas toda vez que seus olhares encontravam-se. Era como se seu corpo escolhesse ignorar todo e qualquer pensamento odioso seu para arder por inteiro ao notar que dispunha da visão sem pudor de . Sentia-se uma presa sendo espreitada.
Seu olhar possuía diversos sentidos, dos quais conseguia interpretar fielmente. Em dados momentos, possuía o cenho franzido, demonstrando estar apreensivo e preocupado; em outros, um leve e travesso sorriso estampava seu rosto, enquanto seus olhos a analisavam com uma lentidão escrupulosa.

Só pode ser piada, uma brincadeira com a minha cara. Só faltava isso mesmo pra acontecer, repudiou em silêncio, quase rindo de desespero.

E, como se a situação não pudesse tornar-se mais esdrúxula, ainda penava em processar o motivo da briga de mais cedo com . Sentia-se desorientada e completamente confusa só de lembrar-se da cena enciumada dele. Desde quando seu inimigo sente ciúmes de você?
— Com licença, Tenente , pode rubricar aqui embaixo? — Tenente André indagou. Sua voz era amigável e grave, quase baixa — Comandante autorizou sua rota. Só falta sua rúbrica para eu levá-la à sala de controles. — concluiu, sorrindo para a mulher. possuía um semblante perdido, como se ainda processasse a fala de seu colega.
Olhou para as mãos do homem e viu que portava uma caneta e um documento.
— Oh, sim. Claro. — balançou a cabeça para espantar sua distração e riu baixo — Desculpe, eu tava no mundo da lua.
— Eu percebi, Tenente. — respondeu, sorrindo de volta, mostrando seus dentes perfeitos e covinhas fundas no rosto. — A gente sempre fica meio perdido na primeira semana, não é mesmo? Ainda ainda mais com seu encargo. — recolheu os documentos da mão de e baixou a voz, para ser ouvi apenas por ela — Tenho certeza de que você já ouve muito isso, mas você é a melhor que tem em rotas. Não precisa se preocupar tanto, aposto que está fazendo um trabalho excelente. — concluiu, repousando delicadamente a mão no ombro de . O gesto representava um companheirismo velado, algo raro nas Forças Armadas, principalmente sendo de um homem para uma mulher. Tal constatação a fez amenizar a tensão em seus ombros.
Assim que André retirou-se, continuou a olhá-lo, curiosa, até ele sumir pela porta recém-aberta. Um pequeno sorriso repousava em seu rosto, e um alívio corria pelo seu corpo. Apesar dos pesares daquela missão, enturmar-se ali estava sendo muito mais fácil do que na turma de recrutas. Os motivos de ter sido tão reservada ao decorrer dos anos e possuir tão poucos amigos baseava-se em seu sobrenome ter a fama que tinha na Marinha. E sua vida girava em torno do Trabalho Naval.

A gente não escolhe o que o destino nos reserva…

Aquela estava sendo a primeira vez que sentia efetivamente que se aproximava das pessoas certas.

, Emily, e agora André... Ele foi tão simpático comigo a manhã toda.

Com esse pensamento, suspirou tranquila e passou os olhos despretensiosamente pelo vestíbulo, percebendo que já não tinha quase ninguém ali além dela, do Comodoro e do…
Os olhos de estavam escuros e intensos, sua visão dura a penetrava como uma estaca, lendo cada detalhe do rosto dela. E, antes do calor subir-lhe as bochechas, sentiu como se um cubo de gelo escorresse por sua espinha, arrepiando cada centímetro de sua coluna. A postura foi endireitada na hora, o sorriso murchou e uma corrente de adrenalina a atravessou, deixando-a alerta.

Merda, esse olhar de novo não, pensou em desespero, recordando-se dos estranhos últimos dias de comportamentos anormais de .

Então, no olhar dele, algo tão profundo quanto o Universo cintilou. Um tipo perversidade estampava sua íris. Abrindo um leve sorriso, piscou sacana para , fazendo-a arquear as sobrancelhas em espanto.
Bruscamente, virou sua cadeira e voltou sua atenção para frente, engolindo em seco ao perceber-se completamente encalorada em pleno inverno só por um olhar.
Sentiu uma raiva crescendo em seu peito e obrigou-se a respirar fundo e contar até 100.

Que merda ‘tá rolando comigo? Por que eu tô me sentindo tão afetada com esse babaca?

Com um embrulho no estômago, preferiu ater-se ao problema da falta de comunicação entre eles. Odiava admitir, mas sentia a necessidade de adotar o bom e velho ditado “Mantenha seus amigos próximos, e seus inimigos mais próximos ainda”, pelo bem da sua sanidade mental e seus anseios profissionais.
Se ambos tiveram seus caminhos cruzados por forças superiores, sejam elas divinas ou humanas, precisava aprender a comunicar-se com aquele que mais odiava.

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Segunda-feira, 8h da manhã. Quarto andar, suíte 40.

levantou-se da cama, desvencilhando-se das pernas longas da mulher e dos lençóis brancos, pronto para acender um cigarro. Sempre depois de transar, era sagrado fumar seu Camel; sentia como se a cigarrilha fora feita para tal. Abriu as cortinas ao mesmo tempo que o vidro da sacada e deixou o forte facho de luz adentrar o cômodo, assim como a brisa fresca da manhã.
Enquanto comprimia os olhos pela luminosidade, ouviu um gemido de protesto vindo da cama, indicando que a mulher havia despertado. Sentou-se no carpete entre o trilho da porta e a cama e passou a observar o dia lindo e ensolarado.
Apesar do frio, daria tudo para dar um mergulho no mar.
— Posso pegar um? — disse Beth, já acendendo um cigarro na boca. Ele nada respondeu, apenas a olhou rapidamente, sorrindo leve e voltando a encarar a movimentação no casco do navio.
A semana já começara agitada para todos. Estavam há uma semana de chegar no sul da Itália, e, apesar desta ser sua terceira missão como Subcomandante, era a primeira em anos que estava apreensivo. Da mesma forma que era a primeira com Beth a bordo. A mulher já havia anunciado que só entrara para a Marinha Real por causa dele e pretendia que sua primeira missão fosse ao seu lado.
Era fácil arranjar isso. Ambos tinham pais que conseguiam dar seus jeitos para modificar qualquer coisa de acordo com suas vontades, afinal, Beth era filha de um importante Diplomata francês, enquanto o pai de era Primeiro-Ministro da França. Apenas duas ligações, e tudo saíra perfeitamente como Beth planejara. Ela apenas não imaginava o quanto estava completamente encantado e seduzido pela irmã caçula de um dos grandes amigos dele.
sempre soube da existência de desde que conhecera Mauro e aos 25 anos, quando saiu da Força Naval Francesa para arriscar-se na Marinha Real Britânica. Tinha conhecimento desde o início, inclusive, da desavença que ela e cultivavam a qualquer custo. Achava tudo aquilo muito besta. Sabia que o amigo não media esforços para implicar com ela e vice-versa. Porém, não conhecia muito mais do que isso sobre a moça. Havia a visto somente em duas ocasiões e bem de longe. Nunca reparou nela.
Como sempre morou sozinho na Inglaterra, nunca sentiu a necessidade de frequentar a casa de nenhum dos seus amigos, apenas passava em frente para buscá-los ou algo do tipo. Ambos possuíam sérios problemas entre suas famílias, uma rivalidade que havia passado por gerações sem motivos muito claros. Todo aquele drama doméstico fazia-o desinteressar-se profundamente em interagir com os familiares de seus amigos. Além do mais, com a liberdade que o trio tinha na casa de , não tinha por que não fazer as farras por lá.
Rapidamente tornaram-se amigos, se uniram como irmãos de sangue e fizeram tudo o que a boemia da juventude tinha para oferecer. Londres à noite era o melhor e mais completo submundo da diversão adulta para os três; isso quando não sentiam a necessidade de extravasar mais, escapando de trem por um fim de semana para aloprar em Amsterdam. Tudo que podiam experimentar, haviam experimentado.
Tinham, inclusive, recebido o apelido de “Trio Parada Dura” pela mãe de Mauro, Abigail.
Esse nome… Depois de tantos anos, esse nome ainda lhe gelava a espinha, por tudo o que ocorrera.
— Você está pensando em quê? — Beth perguntou de repente, soltando a fumaça e sobressaltando — Está pensando na , não é? — indagou, esperta, rindo seca enquanto sentia o ciúme umedecer seus olhos e corroer-lhe a paciência.
— Como é que é? — perguntou genuinamente surpreso, sabendo que estava sim pensando em uma , mas provavelmente não a que ela estava referindo-se.
— Eu vi o jeito que você estava falando com ela hoje de manhã no buffet. Acha que eu sou burra, não é? Só porque tem 13 anos a mais que eu, pensa que sou muito ingênua para perceber. — Beth falou, irritada, virando-se de súbito para ele com uma expressão rancorosa. Os olhos do homem passearam sem pressa pelos seios recém-desnudos da moça pelo movimento, antes de lhe responder calmamente.
— Beth, eu realmente não sei do que está falando. Se puder ser clara, conversaremos como adultos. — respondeu-a, sabendo que toda aquela história de maturidade e o jeito que abordava isso mexiam com ela.
Beth sentia-se extremamente insegura por ter 23 anos e estar com um cara de 36, que já havia vivido e experimentado muito mais que ela. Por diversas vezes, o mesmo pontuava isso como um problema, como sendo um dos principais motivos de não a assumir. Além disso, sentia medo de não ser mulher o suficiente para ele. Nunca havia tido outro homem ou namorado em sua vida, não sabia como uma relação deveria proceder-se efetivamente.
Olhou-o atravessado e respirou fundo. Precisava controlar-se para conseguir formar bem suas palavras, já que sua voz trêmula não ajudava.
— Eu sei que não devemos demonstrar que temos um relacionamento em público, mas você pareceu bem próximo dela no buffet, como se não possuísse nenhum tipo de vínculo com ninguém... — falou, aborrecida, sentando-se na cama e enrolando o lençol no corpo. — Isso me magoa, .
— Linda, eu tenho que manter comunicação com ela. — puxou a fumaça do cigarro com força, pausando sua fala para pensar no que dizer a Beth. Não que ligasse muito se a mulher sentia-se mal ou não por ele estar se aproximando de outra, mas sempre deixou claro a Beth que o envolvimento dos dois não podia ser sério, muito menos assumível. Sentia, sim, carinho e tesão por ela, mas não passava disso. — e ela se odeiam, mas o trabalho de ambos é muito interligado. É aí que eu entro. — puxou mais fumaça, a olhando esperto — Agora mesmo que Daniel está preso, terei que falar com ela diversas vezes. Não estranhe se me ver conversando com fora do expediente ou qualquer coisa do tipo. Estamos aqui a trabalho, devemos levar tudo muito a sério, e lacunas de comunicação não devem ocorrer. — finalizou, puxando mais fumaça para os pulmões, como se eles lhe fornecesse o oxigênio para sobreviver.
Sentiu-se tão impressionado com a rapidez que havia achado uma boa desculpa que quase gargalhou. Sabia que aquele assunto ainda viria a tona outras vezes. Beth era extremamente insegura e enciumada, mas também tinha conhecimento que ela poderia contornar bem seus questionamentos. Depois de tanto tempo juntos, ela já sabia ler alguns comportamentos seus.
— Hum.,. — resmungou Beth, sentindo-se levemente aliviada e meio boba, compreendendo que, realmente, e possuíam funções que se chocariam algumas vezes. Porém, não conseguia parar de sentir-se insegura, não apenas por ter se impressionado com a aparência e presença que tinha, mas por não confiar 100% em . Algo acionava seu sexto sentido toda vez que o homem tinha que se explicar sobre algo.
Seu olhar perdeu-se nos seus dedos do pé enquanto balançava as pernas para fora da cama, como uma menininha emburrada.
— Hmmmmm — a imitou de forma divertida, fazendo-a abrir um sorriso contrariado. — Vem cá, vem... — soltou a fumaça pelo nariz e pegou no braço da mulher, puxando-a gentilmente.
— Não. — Beth respondeu em um falso tom contrariado, soltando seu braço e desviando o olhar ao sorrir.
— Ah, é? — ficou de joelhos na frente de Beth e agarrou sua cintura, puxando-a para o carpete ao lado da cama.
Beth o olhou boquiaberta, e imitou sua expressão de forma brincalhona, fazendo-a gargalhar mais ainda pela sua bobice. Então, ele começou a distribuir beijos estalados em seu pescoço, provocando cócegas no local.
!
— Beth! — a olhou, rindo, sendo acompanhado pela morena.
Então, parou e ajeitou-se entre as pernas dela enquanto tinha a cintura circundada pela mesma. Beth retribuiu o sorriso docemente e passou a acariciar o peitoral de , sentindo as grossas e elevadas cicatrizes que ele tinha no peito. Um calafrio percorreu sua espinha ao pensar no que ele passara, e, subitamente, sentiu vontade de chorar por pensar que ele poderia não ter sobrevivido ao atentado.
— Hey. — chamou-a, percebendo a repentina mudança na expressão de Beth ao tocar em seus ferimentos já antigos. Com um sorriso, aproximou-se e afundou o rosto nas negras madeixas de Beth, inspirando fundo seu perfume doce. Adorava como eles cheiravam a morangos.
Lembrava perfeitamente da primeira vez que sentiu esse cheiro, há 5 anos, quando começara a relacionar-se com ela.
Beth tinha apenas 18 anos, e ele, 31. A mesma ganhara uma festa colossal de boas-vindas, com metade da alta sociedade francesa e britânica presentes, comemorando sua volta do intercâmbio de dois anos para a Alemanha. A volta da filha de um importante diplomata europeu.
E lá estava , despojado, de smoking preto, camisa branca meio aberta, gravata borboleta desatada e um copo de whisky na mão. Havia tido uma séria briga com seu pai mais cedo naquele dia por recusar-se a usar o uniforme da Marinha Real, com todas aquelas insígnias para exibir e o seu cap de Capitão para emprestar a alguma criancinha da festa. odiava essa postura. Não era da Marinha para envaidecer-se, muito menos para ficar mostrando-se aos “amigos” de seu pai.
Assim que Beth entrara na festa, não conseguiu parar de olhá-la. Estava impressionado com a mulher exuberante na sua frente. Beth usava um vestido de seda branco e longo, super esvoaçante, com uma leve amarração na cintura e decotes profundos nas costas e no busto, além de uma fenda alta na perna. Havia crescido muito (literalmente, já que possuía quase 1,80m de altura); tinha um rosto angelical, mas com traços mais adultos.
Ela havia percebido os olhares lascivos de e não estava nem um pouco intimidada ou receosa em retribuí-los. Sempre nutriu uma paixonite por ele, mas nunca havia sido notada pela óbvia diferença de idade. Agora que já era uma mulher feita, poderia aproveitar-se do jeito esbelto que crescera e jogar charme para ele. Sabia de sua fama de galinha, não seria difícil seduzí-lo, ainda mais aquela noite, usando aquele vestido, com todos em volta bêbados demais para reparar na aproximação dos dois.
A festa foi uma oportunidade e tanto para ambos, e não perdeu tempo para abordá-la. Primeiro, foi um cumprimento com um beijo na mão; depois, uma dança lenta em que pressionava com as pontas dos dedos sua pele quente das costas, a aproximando. Então, passou para uma longa noite de drinks com cochichos galanteadores e risadas frouxas.
Depois que o jardim da casa esvaziou-se de convidados e a festa acabou, sobrou apenas e Beth, transando no gramado super bem cuidado da família.
Mais especificamente, atrás das lindas roseiras da mãe dela.
— Linda, você sabe muito bem que eu só quero você, né? — disse , distribuindo beijos molhados e demorados em seu pescoço, enquanto ajeitava seu membro duro estrategicamente entre as pernas dela. Beth soltou a respiração de forma pesada, perdendo-se naquela deliciosa onda de desejo que esquentou seu ventre.
sentiu a excitação crescer e investiu o quadril contra a mulher, arrancando um gemido rouco de sua garganta.
— Nada me excita mais que esse som, sabia? — falou , descendo seus beijos para os seios de Beth, chupando e mordiscando a pele por onde seus lábios passeavam.
A mão esquerda de subiu pela garganta de Beth, apertando seus dedos pela circunferência pulsante.
— Só você me faz gemer assim... — Beth engasgou-se em palavras, fechando os olhos umedecidos. Apertou os ombros de em resposta, demonstrando o exagero da força dele.
O mesmo deslizava lentamente sua outra mão pela macia coxa de Beth, aproveitando cada centímetro dos arrepios que causava em sua pele pelo seu toque quase nulo. Com a língua, provocava-lhe os mamilos, intercalando com chupões bruscos que machucavam sua pele. Beth mordeu a boca para suprimir um gemido sôfrego e acariciou o cabelo de . Sabia que esse gesto o distraía.
Subitamente, ele a olhou. Tinha um sorriso sacana estampado no rosto. Observando os dentes da mulher cravados em seus lábios, convenceu-se de que a estava satisfazendo por inteiro. Então, enfiou dois dedos em sua umidade, circulando com o dedão em seu clitóris. O prazer que atingiu Beth foi singelo.
— Eu te amo, . — gemeu, sentindo o tesão crescer ao ter os dedos do homem saindo e entrando em si continuamente.
— Eu também, linda. — respondeu-lhe contra sua pele, sem olhá-la nos olhos.
Apesar de Beth não acreditar muito em suas palavras, não podia deixar de apegar-se a elas para ter um motivo plausível em aceitar tudo o que aceitava. Sentia-se miserável por vê-lo claramente interessar-se por outras mulheres, mas não conseguia deixar de agarrar-se a esses pequenos momentos que possuía com ele. Era viciada em qualquer que fosse a sensação que lhe proporcionava desde a primeira vez que estiveram juntos. Ele a fazia sentir-se mulher, crescida, sexy.
Beth sonhava em ser tudo aquilo sozinha, mas seu amor próprio tinha limite, determinado por nome e sobrenome: o nome e sobrenome dele.

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12h10min, andar -3. Ambulatório do Navio.

— Raijin, pode me passar o catálogo dos medicamentos? Farei a checagem agora para o gabarito da lista noturna.
— Sim, senhora. — respondeu-a prontamente, entregando um caderno A5 de capa preta a Emily, que permanecera em pé, contando frascos de iodo, até alcançar o objeto de couro.
— Obrigada, querido. — parou por um segundo e olhou-o, esperta — Eu pronunciei corretamente seu nome? Pode corrigir-me se errei, marujo. — Emily comentou, sorrindo, mostrando seus perfeitos dentes brancos. Raijin permanecia com a postura acanhada, porém a olhava com uma certa admiração.
— Oh, sim. A pronúncia da senhora foi perfeita.
— Tem algum significado? É um nome incomum.
— Sim, e é um significado muito especial para mim. — apontou para si mesmo e continuou — Eu nasci em York, em meio a uma tempestade violenta. A luminosidade das trovoadas era tão forte que fazia a noite parecer dia. Faltou luz na maternidade naquela madrugada. Meu avô disse que nasci sendo tocado pelo Deus do Trovão. — respondeu em tom orgulhoso, elevando as protuberantes maçãs de seu rosto em um sorriso — Raijin significa Deus do Trovão no Japão, país de origem dos meus avós.
— Que interessante, marujo! Espero estarmos a salvo de tempestades com você aqui, Raijin. — Emily comentou, sorrindo, fazendo o rapaz coçar a nuca envergonhado. — Por acaso foi a grande tempestade de 1999 de York?
— Sim, senhora!
— Oh, esse temporal foi brutal. Eu lembro de ver nos jornais o estrago na cidade. Mas me conte, Raijin, você é tão novo e já é formado em enfermagem, trabalhando na Marinha… Era um sonho seu, por acaso? — Emily perguntou, curiosa, olhando dos medicamentos para o rapaz. A simpatia da mulher havia relaxado Raijin ao ponto de descontrair os ombros, acalmando sua musculatura.
— Meu avô e minha avó conheceram-se na Segunda Guerra Mundial. Ambos eram de lados opostos, não podiam nem se falar. Apaixonaram-se à primeira vista e tiveram que começar a vida a dois fugidos, por isso vieram para a Inglaterra. Quem os escondeu no navio e acolheu mais tarde na sua casa foi um Tenente da Marinha Real, antigo conhecido dele da Guerra. Nossa família existe por causa da coragem que o amor verdadeiro deu aos meus avós, mas somente pela compaixão e lealdade desse marujo foi possível concretizar esse amor. Sempre quis ser que nem ele, apesar de nunca o ter conhecido. — comentou com um olhar vago, enquanto Emily o olhava intrigada — Cresci com meu avô muito presente. Ele dizia que, se fosse inglês, seria da Marinha Real. — riu, contente, e olhou para ela — Ele me ensinou desde cedo que a bondade pode mudar vidas, assim como o marujo fez conosco.
— Raijin, que lindas palavras! A história toda de sua família deve ser incrível. Passaria horas ouvindo você falar sobre. Por que não vamos no bar do navio sexta à noite? Te apresento a outros marujos. Todos vão amar te conhecer e ouvir suas histórias.
— Eu adoraria. — respondeu-a, sorridente.

Assim que Emily voltou a contar os frascos, concentrou-se nos remédios controlados de tarja preta, principalmente os de cunho psiquiátrico e neurológico. Esses deveriam ter uma atenção maior, por justamente possuírem um número considerável de marujos na tripulação que faziam o uso contínuo de alguns deles. O roubo de medicamentos em missões raramente ocorria quando a atenção era redobrada na checagem, e isso era algo que Emily priorizava, ainda mais sendo chefe do Ambulatório do Queen Mary.
— A senhora quer ajuda? — perguntou o rapaz, sobressaltando-a, enquanto a olhava com uma expectativa novata.
— Obrigada, Raijin. — sorriu ao enfermeiro — Mas sou muito metódica, certas coisas prefiro fazer eu mesma. E pode me chamar pelo nome, por favor! Estou me sentindo velha com esse tratamento. — disse divertida ao homem.
— Oh, sim, senh… Sim, Emily. Se precisar de ajuda, estou aqui. — Raijin concluiu, olhando para os sapatos de borracha brancos.
Emily o olhou esperta, percebendo que o rapaz não parava de mexer as pernas inquieto, como se precisasse de algum afazer urgente, ou sairia correndo dali. Observou sua feição e notou o quanto ele era atraente. Possuía a estrutura facial forte, seus cabelos negros brilhavam na luz branca do consultório, e tinha um semblante acolhedor. Mas, se não fosse pelo seu rosto perfeito e a voz macia, teria medo dele. Seu corpo imponente ocupava bastante espaço. Conseguia perceber o amontoado de músculos que o homem devia possuir por baixo daquele uniforme.
— Raijin, sou sua chefe aqui, mas pode procurar-me quando precisar, ok? Eu sei o quanto pode ser difícil não conhecer ninguém no local de trabalho. Pode contar comigo. — Emily declarou, tocando no ombro dele delicadamente enquanto sorria. O mesmo assentiu e olhou para o chão branco novamente, como se procurasse algo para falar.
— Hmm... A senh… Desculpe. Você já foi chefe do departamento de saúde em alguma outra missão? — indagou Raijin enquanto brincava com a tampa da caneta que ela usava.
— Não, essa é a primeira. Faz menos de um ano que me especializei em psiquiatria. Fiquei surpresa em ser escolhida, dentre tantos marinheiros médicos antigos, para ser a chefe de saúde do Queen Mary. Mas eu entendo os motivos de algumas escolhas dos nossos superiores. Essa foi outra decisão bem pensada, até.
— Como assim?
— Bom, a tripulação para esse ofício foi definida de forma bem estratégica. Concomitante a isso, temos um número considerável de marujos que fazem o uso de medicamentos controlados nesse ofício, por isso designaram a psiquiatra do batalhão — apontou para si mesma — para chefiar. Sabe, em toda missão, há apenas um médico e um psicólogo a bordo para ajudar a todos nas questões farmacológicas e psicológicas no período em alto mar. Para alguns tripulantes, é difícil ficar isolados por semanas sem pisar em terra firme. Por essas e outras, nessa missão, há dois médicos. Um clínico geral, que cuidará das emergências e casos mais brandos, e eu, que substituirei o papel do psicólogo em consultas individuais, além de prescrever e controlar os remédios. Terei mais controle sobre as terapias.
— Essa missão é especial até esse ponto?
— De certa forma, sim, mas não cabe a nós os motivos dessa singularidade. Há muita história encravada na rotina da Marinha Real ainda.
— Sim, claro… — o rapaz olhou em volta, como se procurasse algo para falar — Mas então, você está com a função de ser a psicóloga do navio?
— Sim e não, pois uma coisa não é igual a outra. Mas, para simplificar, sim. Estou responsável pelas psicoterapias e em convocar alguns marujos específicos para consultas. Temos que controlar bem os remédios utilizados. Estão quase contados para não haver falhas grotescas no estoque.
— E, por acaso, já tiveram muitos casos de roubo de medicação em…
De repente, um barulho estrondoso de porta se fez, e o Comandante entrou como uma ventania na sala, com a expressão alarmada e o peito ofegante.
Continências foram dirigidas a ele antes do mesmo pronunciar-se.
Analisando cada rosto assustado no consultório, viu um que não pretendia lidar no momento.
— Raijin, pode nos dar licença, por favor? — comandou, olhando para Emily significativamente, enquanto tentava recuperar uma respiração mais calma.
— Claro, sim, senhor Comandante . — Raijin levantou-se desajeitado e saiu pela porta, prestando condolências profundas até sua figura sumir da sala.
… Quer dizer, Comandan…
— Por favor, Emily, você pode me chamar pelo nome, como sempre.
— Sim, claro. , o que aconteceu?
aconteceu de novo.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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