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Fisiologia do Amor






Última atualização: 21/03/2017

Prólogo


O amor é superestimado. Borboletas no estômago, suor frio, dedos trêmulos… Tudo isso é apenas uma reação orgânica do nosso organismo. Pura fisiologia.
Para piorar, às vezes, nosso corpo nos trai, fazendo escolhas completamente insanas. Se ouvíssemos melhor o que o nosso sistema quer dizer, não quebraríamos tanto a cara. Nossos ancestrais já nos mostravam o caminho, nós que somos trouxas e caímos nas opções erradas.
Testosterona, dopamina e ocitocina. Hormônios, puros e simples. Para quê complicar tanto? Por que se arriscar com o errado quando se pode ir pelo caminho mais seguro? Não somos como os animais, temos um poder racional, um cérebro pensante, que nos permite raciocinar e não cair de paraquedas nos braços do primeiro homem que nossos ferormônios se sentem atraídos.
Interesse, razão, fantasia, emoção… tudo é biológico. Neurotransmissores ativados no impulso sexual. Basta uma carícia ou um beijo e nosso cérebro já começa a agir.
O desejo, a paixão e o amor… Cada um é movido por um hormônio separado, porém eles podem ser liberados juntos quando estamos com alguém. Por isso, não me envolvo sem compromisso. Essa é a ideia mais abstrata que alguém poderia ter, já que quando ficamos com alguém, todos esses três hormônios são liberados.
Sendo assim… Por que eu ficaria com um homem másculo, cheio de testosterona, bem mais propenso à ruína, se tenho a chance de, no final, acabar apaixonada por ele?
Não. Não mesmo. Minhas escolhas são completamente seguras.
Um homem com traços não tão fortes, menos bonito um pouco do que eu e com aquisição financeira pelo menos razoável. Isso sim é a opção perfeita.
É a descrição do homem completamente compatível, que me trará, futuramente, um casamento saudável, honroso e provedor. Tem tudo para dar certo.
Ah, não posso me esquecer de um detalhe. Essa é a melhor escolha para passar pela crise dos sete anos que acontecem na maioria dos casamentos.
Como pesquisadora e professora do Centro de Fisiologia Hormonal, especializada em Química das Emoções, não poderia agir diferente. Preciso ser referência para esse mundo caótico em que as mulheres babam pelo cara gostosão. Necessito alertá-las do perigo que correm.
O que eu não esperava era que, em uma dessas, eu entraria em uma armadilha monstruosa, e provar a minha teoria seria mais difícil do que eu pensava.





Capítulo 1


― Desde a pré-história o instinto masculino sempre foi a reprodução. Enquanto o homem queria procriar, a mulher queria criar. Mas havia um grande problema aí. Se a mulher tivesse um bebê, como ela cuidaria da criança e trabalharia para o seu sustento ao mesmo tempo? Foi daí que nasceu a monogamia. O sexo feminino buscava além de homens que exalassem filhos perfeitos, um ser que pudesse cuidar dela enquanto ela cuidava da criança.
Olhei para a plateia, que me observava atentamente. As canetas balançavam desenfreadas, anotando cada palavra que eu dizia. Vi uma mão se erguer, um pouco tímida, pedindo permissão para fazer um questionamento. Assenti com a cabeça, pronta para atender a garota.
― Professora , como se fazia a escolha desses pares então?
― Qual seu nome? – perguntei educadamente.
― Gabriella Beltrame. – respondeu.
― Obrigada por participar, Gabriella, sua questão é bem pertinente. A primeira coisa que o homem analisa ao escolher a sua parceira é o físico. Eles procuram beleza e juventude. Enquanto nós, mulheres, analisamos todo o contexto socioeconômico que eles podem nos proporcionar. Não que estejamos excluindo o físico, ele faz parte da primeira lei da atração, porém, na hora de escolher com quem vamos selar nossa vida, a mulher procura muito além disso.
A palestra corria tranquilamente. Vez ou outra eu respondia alguns questionamentos. Eu adorava ver os rostinhos femininos das alunas acordando para a vida. O pessoal da Fisiologia sempre pedia para que eu palestrasse esse assunto para os estudantes novos da disciplina. Não é um tema muito pesquisado, os outros da equipe costumam saber sobre doenças e medicamentos, enquanto eu pesquiso, além disso, sentimentos.
Lembro como se fosse ontem, eu tinha cinco anos e assistia ao programa do Barney na televisão. Aquela musiquinha martelava na minha cabeça. “Amo você, você me ama, somos uma família feliz…”. Foi aí que resolvi ir até a minha mãe e fazer a pergunta que não queria calar.
― Mãe, o que é amor?
Peguei-a desprevenida e tudo o que ela me respondeu foi que o amor era um sentimento que se passava no coração. Não era o suficiente. Óbvio que não seria, ainda mais para uma pessoa curiosa como eu. Mas por ora, para alguém tão pequeno, apenas assenti.
Passei muito tempo intrigada, e pensem em minha surpresa quando comecei a estudar biologia e descobri que amor nada tinha a ver com o coração, mas sim com o cérebro?! A partir daí, só quis saber mais e mais. Lia livros, pesquisava na internet e assim se prosseguiu até chegar onde eu estou.
A sabedoria é um dom, mas também uma maldição. Eu me sinto agraciada por ter todo esse conhecimento. É por causa dele que sei que vou fazer a escolha certa na minha vida. Porém, em contrapartida, as pessoas dizem que eu não vivi, nem curti nada.
Não sei qual o problema. Eu estou segura naquilo que acredito. Não passei anos de estudos à toa, eu sei o que estou fazendo. Os outros que estão perdidos, arriscando-se em relacionamentos infundados, fadados ao fracasso.
― Professora, você acredita em sexo sem compromisso? – ouvi uma voz indagar, me tirando dos meus pensamentos. Não perguntei quem era desta vez, pois não prestei atenção em quem tinha falado.
― Sem compromisso, talvez. – respondi voltando meu olhar para os estudantes —Agora... sem vínculo? Não.
― Por quê? – perguntou um menino sentado na última carteira.
Abri um sorriso satisfeito, eu adorava quando tinham essa curiosidade. Tantos se gabavam por aí sobre o desapego, mas o buraco era muito mais embaixo e poucos sabiam.
― Um dos hormônios liberados no ato sexual é justamente a ocitocina, responsável pela nossa escolha monogâmica. Durante o ato, a quantidade dela em nosso organismo é bem alta. Ela também é conhecida como a droga do amor, ou seja, você corre um grande risco de se sentir ligado à pessoa de alguma forma. Ela proporciona uma conexão emocional com o seu parceiro, podendo trazer um turbilhão de sentimentos, muitas vezes indesejados.
Ouvi alguns murmúrios pelo salão e algumas risadinhas dos garotos.
― Ih, cara, se ferrou, por isso as meninas não saem do seu pé depois que você come elas. – outro garoto brincou rindo e deu um leve empurrão no amigo, levando todos a gargalhar.
― Não fiquem tão tranquilos, garotos. – retruquei tomando a atenção de volta —Homens e mulheres têm esse hormônio, a diferença é que a testosterona costuma, muitas vezes, bloqueá-lo, por isso o sexo masculino costuma ser… mais insensível. Mas era um “mal” necessário na antiguidade, pois os homens não poderiam ser melindrosos na caçada de animais para sustentar a família.
Prossegui com a palestra, parando alguns momentos para responder alguns questionamentos. Já era quase cinco horas da tarde quando encerrei. Muitos alunos vieram me cumprimentar, outros me olhavam como se eu tivesse três olhos, meio reticentes com as coisas que eu dizia. Acordem, é ciência, não se nega o conhecimento científico.
Peguei minhas coisas e fui em direção ao estacionamento à procura do meu carro para ir embora. Quem disse que vida de professor é ruim? Na maioria das instâncias sim, mas eu era professora e pesquisadora da UFRJ, o salário nessa rede de ensino não é baixo assim. Claro que sempre pode melhorar, não é? Mas é o suficiente para eu ter meu próprio carro. Não é uma Mercedes ou uma Ferrari. Mas tem quatro portas, ar-condicionado, direção hidráulica e 1.6. É o suficiente.
Ah, sem contar que tenho meu próprio apartamento. Nele eu moro com minha amiga e nós rachamos as despesas. Ela trabalha voluntariamente na universidade e ainda está fazendo o mestrado. Como é estudante e veio do interior como eu, ela era de Boa Esperança - ES, precisava de um lugar para ficar. Acolhi-a aqui e, com isso, podemos amenizar os gastos. Ambas viemos para Rio de Janeiro atrás de nossos futuros. Após muito estudo, esforço e dedicação, cada uma está conseguindo, aos poucos, alcançar aquilo que almeja.
Entrei no carro, coloquei a chave na ignição, ligando o rádio no automático. Ouvi a voz do Ed Sheeran soar pelos alto-falantes, me fazendo revirar os olhos. Eu amava a voz daquele homem, suas músicas eram lindas, pena que eram mais letras para levar nós, mulheres, ao mundo da ilusão.
Loving can hurt, Loving can hurt sometimes… – A música começou. Era Photograph.
― Nisso você está certo, Sr. Ed. – balbuciei para mim mesma.
Continuei ouvindo até a parte que dizia: Loving can heal, Loving can mend your soul...
― Ou pode acabar com você. – completei a frase desligando o rádio, irritada.
O amor podia curar? Remendar a alma? Sim, mas se encontrássemos a pessoa certa. Fora disso seria só mais uma porção de corações despedaçados, lágrimas jorradas e quilos adquiridos pelo chocolate consolador.

O percurso não era longo, portanto não precisei ficar no silêncio por muito tempo. Logo cheguei ao apartamento, estacionei o carro e subi pelo elevador até o meu andar. Abri a porta devagar e me assustei com a imagem que eu via na minha sala. estava aos prantos, jogada no sofá, seus cabelos todos desgrenhados, lágrimas molhavam seu rosto, e seu nariz, cheio de coriza, estava intensamente vermelho.
Ela me viu parada na porta com um olhar assustado, franziu um pouco o cenho e começou a soluçar novamente com o choro. Eu até já imaginava o que era, mas esperaria até que ela tivesse condição de se abrir. Fechei a porta e corri até ela, abraçando-a e passando as mãos em seus cabelos para confortá-la.
― Você me avisou tanto, amiga. – fungou com o rosto escondido no meu corpo.
Não respondi nada, não queria dizer a famosa frase “eu avisei”, apesar de ser verdade.
― Quer desabafar? – perguntei descolando-a um pouco e fazendo-a olhar para mim.
― Foi o Douglas. – respondeu confirmando o meu pensamento. — Ele tinha vindo há uns dias com uma história de “dar um tempo”, porque nossas vidas estavam tumultuadas, lembra? – perguntou, e eu assenti — Então… ele falou que era só para a gente se reorganizar, que não era um término. Disse ainda para eu não ficar com ninguém, que nós estávamos juntos, apesar de tudo. Eu disse que, por mim, tudo bem. Eu não queria mais ninguém mesmo, eu gostava dele. Gosto ainda, aliás. Mas pensa na minha cara quando eu descobri que o infeliz, na verdade, estava saindo com aquela colega minha, a Geziane da Matemática? – terminou voltando a chorar compulsivamente.
Suspirei profundamente. Eu sabia que ia acabar assim. Homens como o Douglas, abarrotados de testosterona, não foram feitos para relacionamentos sérios. Eu havia avisado a ela tantas vezes, mas era sempre do mesmo jeito. Ela sempre fazia o mesmo ciclo e se interessava pelos mesmos tipos de caras. Qual o problema das pessoas em quererem um homem mais franzino, quieto e não badalador?
― Você precisa mudar essa sua sina, – disse fazendo um carinho em sua bochecha.
― Eu sei, eu sei. Sou uma idiota. – lamentou-se com os olhos inchados, cortando-me o coração.
Eu só não chorava junto com ela porque já tinha visto essa cena várias vezes. E para a sorte de , com a mesma velocidade que ela se apaixonava, ela também se desapegava. Era um ciclo vicioso sem fim. Não sei como ela conseguia remendar seu coração tantas e tantas vezes. Acho que já estava calejado. Só ficava com um pouco de pena, pois, apesar de tudo, ela era uma sonhadora, queria encontrar o príncipe encantado que a levaria para o altar. Porém, com esses caras que ela saía, não acharia nunca.
― Você não é idiota. Só faz algumas escolhas erradas, mas quem nunca, não é? Você não tem culpa que seu corpo é atraído pelos ferormônios desse tipo de homem. Você só precisa se lembrar de usar mais isso aqui – apontei para a cabecinha dela — e menos isso aqui – terminei tocando seu coração. — Eu sei que eles trabalham juntos, então não custa nada usar os dois ao mesmo tempo. – terminei sorrindo, levando em seguida uma almofadada na cara.
― Você está dizendo que eu não uso o meu cérebro, ? – falou ultrajada, mas a vi segurar o sorriso, mordendo o lábio.
― Se a carapuça serviu… – respondi me levantando, rindo, já esperando a represália. Saí correndo para o meu quarto sendo perseguida por ela.
― Volte aqui, dona , como ousa? – corria atrás de mim com uma almofada na mão.
Entrei no meu quarto, trancando a porta, ofegante por conseguir escapar do seu ataque. Lágrimas brotavam em meus olhos pelas gargalhadas que eu dava. Pelo menos consegui colocar um sorriso no rosto da minha amiga, estava satisfeita por isso.
― Você ainda me paga, – bradava ela rindo e socando a minha porta para entrar. ― Você ainda vai se apaixonar por alguém completamente diferente dessas suas teorias e eu que vou te consolar.
― Está me jogando praga? – retruquei em voz alta para que ouvisse do outro lado da porta.
― Não, , mas até que seria bom eu estar do outro lado pelo menos uma vez. – terminou desistindo de me fazer deixá-la entrar.
Respirei fundo sabendo que, por dentro, ela ainda estava sentida com toda a situação.
Não, , isso não vai acontecer, porque eu não me permito me apaixonar dessa forma – pensei.





Capítulo 2


No outro dia, estava melhor, já não fungava mais e nem chorava compulsivamente. Deixei-a dormindo, não iríamos juntas para a universidade hoje, pois sua aula seria apenas à tarde. Terminei de me arrumar olhando meu look no espelho. Não era porque eu não namorava que precisava andar como um trapo. Gostava de me ajeitar e me vestir bem. Meus longos cabelos e olhos escuros eram marcantes, chamando bastante atenção dos homens, porém eu não dava bola para eles. Aliás, só abria a guarda para o padrão que eu queria.
Ao chegar em meu laboratório, a primeira coisa que fiz foi cumprimentar meus pequenos ratinhos. Minha pesquisa de 'pós-doc' consistia em analisar os efeitos de um princípio ativo, nativo de uma planta da Floresta Amazônica, no nível de testosterona do sexo masculino. Queriam produzir um medicamento, porém estavam preocupados, pois alguns homens demonstraram “broxar” ao beber o chá dessa erva e outros efeitos até mesmos piores, como necrose do órgão. Por isso eu estava ali, há quase um ano, com a minha pesquisa em andamento.
Já eram quase dez horas e meus olhos começaram a lacrimejar de tanto ler artigos científicos para meus estudos, resolvi ir ao saguão ao lado pegar um cafezinho para acordar. Chegando lá, deparei-me com o Dr. Matheus Neves conversando com outros dois funcionários. Ao ouvir o som dos meus passos, ele abriu um sorriso, pediu licença aos seus companheiros e caminhou em minha direção.
Matheus era a minha definição biológica hormonal perfeita. Era um rapaz bonito, mas não poderia dizer que era o mais atraente do planeta Terra. Tinha uma pele clarinha que contrastava com a minha morena, seus olhos eram azuis e seu cabelo, um loiro escuro. Seu rosto tinha traços delicados no formato oval arredondado. Nada de queixos extremamente quadrados ou covinhas, nem mesmo aquele corpo sarado de academia. Eu nunca o havia visto sem camisa, mas pela minha análise, acho que seu abdômen era... Normal.
Ou seja, perfeito. A ciência já comprovou que, na maioria dos relacionamentos que deram certo, os homens eram menos bonitos que as mulheres. E eu sou uma mulher muito bonita, modéstia à parte, o que facilita o processo.
Além disso, um “pequeno” detalhe… Matheus ainda por cima era médico. Dava aulas na universidade, mas tinha seu consultório particular. Assim concretizando o par ideal para toda mulher, um ótimo provedor do sustento para o lar.
― Ei, ! – cumprimentou-me dando um beijo em minha bochecha.
― Olá, Dr. Neves. – respondi retribuindo seu sorriso.
― Ah, , quanta formalidade. Você não precisa disso. – retrucou piscando, fazendo-me corar.
A verdade era que nós estávamos naquele flerte já havia meses. Eu tinha um padrão, isso era fato, mas o Matheus foi o único que realmente me despertou algum interesse real. Todos os outros que eu havia tentado algo, os meus ferormônios fizeram questão de ficarem adormecidos, não surgindo nem um pingo de atração. Eu precisava fisgar esse homem, ele era perfeito para mim.
― Trabalhando muito? – perguntou.
― Um pouco, você sabe como são as coisas no laboratório… essa última pesquisa tem me dado trabalho. – respondi abrindo um pequeno sorriso. — E você? Ouvi falar que vai apresentar seu projeto no Congresso Internacional de Medicina que será em Lisboa esse ano. – perguntei levantando seu ego. Homens independentemente das características, sempre gostam de ser bajulados.
Vi seu sorriso crescer e sua postura ficar mais ereta. Encheu-se de orgulho para começar a falar das novidades. Contou-me dos estudos que estava fazendo, das premiações que seus alunos já haviam ganhado e do selo de qualidade que sua clínica tinha conseguido. Esforcei-me para mostrar interesse em cada coisa que ele dizia, de vez em quando eu mordia meu lábio inferior e colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha.
― Desculpe te encher com essas coisas, mas eu realmente estou em uma fase muito feliz. – falou após perceber que a conversa havia se transformado em um enorme monólogo.
― Que isso, Matheus! Adoro saber que está tudo correndo perfeitamente em sua vida. As vitórias das pessoas com quem me importo me fazem feliz também. – tirei por menos, tocando levemente seu ombro.
Percebi o olhar de Matheus seguir até onde minha mão estava e recuei levemente para não parecer oferecida. Um sorriso brotou pelos seus lábios, mesmo que ele se esforçasse para disfarçar.
― Sabe o que seria mais perfeito ainda? Uma comemoração. Que tal sair comigo amanhã à noite e festejar tudo isso?
Bingo! Missão completada com sucesso.
― Adoraria. – respondi, segurando meu sorriso de felicidade.
Logo depois, nos despedimos. Matheus saiu piscando para mim e disse que mais tarde me avisaria que horas eu deveria estar pronta. Eu estava eufórica, finalmente minha vida entraria nos eixos. Eu já tinha 26 anos, precisava aproveitar meus últimos momentos jovem para fisgar o meu parceiro. Finalmente teria um encontro com alguém, e meus hormônios que trabalhassem direito porque, dessa vez, tinha que dar certo.

No restante da manhã, fiquei em meu local de trabalho, analisando os resultados da minha pesquisa. Há uns meses estava passando por alguns entraves. Precisava de alguns aparelhos e substâncias para continuar o projeto, porém tudo no serviço público é mais difícil.
As verbas para as pesquisas científicas são limitadas e há tanta burocracia que, até a gente conseguir a quantia necessária para tocar o barco, ele já afundou faz tempo. Eu não queria fazer como outros colegas que usavam produtos vencidos ou equipamentos meia-boca e, depois, pegavam esses resultados e publicavam como se fossem fidedignos. Eu era uma pessoa correta. Acho que se cada um parasse de dar o “jeitinho brasileiro” nas pequenas coisas, as grandes, um dia, também fariam a diferença.
Suspirei profundamente ao perceber que estava acabando mais dois reagentes do meu laboratório. Nunca que eu conseguiria comprar outro a tempo, ainda mais com a crise que o país estava passando. Apoiei meus cotovelos na mesa e massageei minhas têmporas com os dedos, fechando os olhos, pensativa. Eu precisava dar um jeito nisso. No final das contas, eu acabaria tirando o dinheiro do meu próprio bolso, como sempre.
Senti minha barriga roncar e percebi que já era meio-dia. Retirei meu jaleco e fui em direção ao refeitório universitário, mais conhecido como RU. Cheguei à fila e peguei logo meu prato. Estava abarrotado de gente. Eu odiava vir nesse horário, porque era sempre a mesma coisa, demoraria um século para comer desse jeito.
Quando estava terminando de colocar a comida, peguei um copo de suco no balcão e comecei me retirar à procura de algum lugar para me sentar. Foi aí que senti um esbarrão, fazendo derrubar metade do líquido do meu copo no chão.
― Droga! – exclamei com raiva. Olhei para minha roupa e vi que não havia respingado nada, me fazendo respirar aliviada.
― Desculpe, moça, não te vi aí. – uma voz grave soou, fazendo-me olhar em sua direção.
Por um segundo eu prendi a respiração . À minha frente estava um homem alto e robusto. Seus cabelos eram e estavam meio jogados para cima em uma arrumação um pouco desarrumada, se é que isso tinha lógica. Seus olhos tinham a cor das águas do Caribe, e sua pele, um leve bronzeado dourado. Os músculos dos braços, expostos por fora da camisa, já deixavam clara a imaginação do que eu não conseguia ver. Os traços do seu rosto eram bem marcados e sua boca continha um desenho perfeito.
Espera…
Por que raios eu estava reparando nele assim?
Pisquei algumas vezes, voltando à realidade, e percebi que estava parada em frente ao homem sem responder o seu pedido de desculpas. Fiquei irritada por meu devaneio e franzi as sobrancelhas em sua direção, como se ele tivesse culpa.
Não lhe dirigi nenhuma palavra. Apenas apressei meus passos, com raiva, e desviei dele, caminhando até achar uma mesa com um assento vazio.
No RU havia várias mesas espalhadas, onde se sentavam alunos, professores, outros funcionários e até visitantes. Elas eram longas para caber o maior número de pessoas e, em um horário como esse, tudo era muito agitado. A fila pelo lado de fora estava extensa, sentia pena dos estudantes que ficavam presos na sala com aqueles professores que não sabiam a hora de terminar a aula. Provavelmente nem teriam tempo de almoçar, apenas comprar um salgadinho na tia da cantina.
Comecei a comer em meio ao barulho dos grupinhos de alunos que estavam do meu lado esquerdo e direito. Não demorou 5 minutos, ouvi umas pequenas risadinhas femininas, baixinho, e uma voz recém-conhecida pedir “com licença”. Levantei a cabeça e fitei o mesmo homem de minutos atrás colocar a sua bandeja sobre a mesa, bem na minha frente, arrastar a cadeira e sentar-se ali.
― O que está fazendo em minha mesa? – resmunguei em sua direção.
Ele olhou de um lado para outro, como se procurasse algo. Depois, levantou do banco, olhando-o com atenção, até sentar-se novamente e voltar a me fitar.
― Não achei seu nome aqui. – respondeu franzindo levemente o cenho e mordendo o lábio para segurar o riso.
― Mas eu cheguei aqui primeiro. – retruquei nervosa.
― Ora, não sei se percebeu, docinho, mas aqui está lotado. – disse apontando ao redor — O lugar vago era esse, portanto, terá que me aturar por algum tempo. – completou voltando à atenção para o seu prato, despreocupadamente.
Ele não podia ficar ali, eu não queria ele ali. Todo o seu corpo piscava para mim em um sinal de alerta enorme e uma grande placa de “perigo”. Pessoas como ele, eu fazia questão de manter distância. Como diz o velho ditado: Melhor prevenir do que remediar.
Bufei raivosa, mas eu não podia simplesmente levantar e me retirar do meu lugar. Primeiro porque realmente o refeitório estava lotado e, segundo, não faria sentido nenhum para ele. Precisava ignorá-lo e continuar almoçando em paz, como se nada tivesse acontecido.
Não era nada demais. Ele era como vários outros tipos de homens que eu vinha desdenhando pela vida. Sempre corri deles para que não tivesse nem chances de ser pega em suas armadilhas. Eu só precisava fazer o mesmo de sempre, fingir que não existiam. Peguei a faca e comecei cortar a carne para almoçar de uma vez e poder me retirar. Em um rabo de olho, percebi um sorriso discreto no canto dos seus lábios, enquanto pegava a batata frita e molhava no ketchup.
Ele me encarava e segurava o riso enquanto comia. Tentei fingir que não havia percebido, mas aquilo só estava me irritando cada vez mais. Continuei cortando a carne com força, até perder completamente a paciência, bater os punhos levemente na mesa e largar os talheres lá.
― Qual o seu problema? – perguntei soltando ventas pelas narinas e, para piorar, ele soltou uma gargalhada.
― Você. – disse apontando para mim. — Toda estressada, não queria que eu sentasse aqui e agora fica fazendo umas caretas engraçadas enquanto come, além de travar uma luta com o bife do seu prato. O que a vaca te fez de tão mal para estar com essa fúria toda? Ou tudo isso é por causa de um simples esbarrão? Se for isso, eu já pedi desculpas, foi sem querer. – respondeu e percebi sua expressão ficar mais séria no final.
Percebi que estava pagando de doida e era melhor eu me controlar.
Expira e inspira… 1,2,3…
Ótimo.
― Sem problemas, só tem sido um dia… hum… agitado. – tentei contornar a situação.
― Ok. – parou seu olhar sobre mim e não pareceu acreditar muito. — Você trabalha ou estuda aqui? – disse, puxando assunto.
Alerta vermelho de novo.
Não era porque eu estava sendo educada que dava a ele o direito de começar perguntar da minha vida. Era assim que começavam as coisas. Primeiro uma conversa casual, depois um café, jantar… até parar na cama, apaixonada, e, no final, me afundar em um pote de sorvete assistindo filmes melancólicos.
― Trabalho. – fui o mais breve possível. Ele, percebendo que eu não queria muita conversa, tratou de apenas assentir e continuar o seu almoço.
Continuei comendo como se estivesse sozinha naquele refeitório, porém estava intrigada com a presença dele. Não me recordava de nenhum rosto ao menos parecido com o seu no quadro de funcionários, só podia ser algum visitante ou aluno. Quando menos percebi, lá estava eu e minha curiosidade falando mais alto e interrogando-o, assim como fez comigo.
― O que te trouxe à UFRJ? Não me recordo de te ver por aqui. – perguntei, mas continuei comendo, como se fizesse pouco caso disso. Seu semblante pareceu-me alegre pelo meu pequeno interesse em manter um diálogo.
― Estudos. – respondeu comedido. Ele parecia ter em torno de uns 28 anos. Apesar de eu ter alunos bem mais velhos, ele não me parecia ser um. Mais um item para o meu pisca-pisca. Bonito, malhado, atraente e… pobre. Sim, pobre mesmo, porque vida de estudante é desse modelo, pura sofrência e pobreza. Isso só podia significar Einstein me alertando para ficar bem longe dele.
― Você não acha que demorou um pouquinho para fazer faculdade? – perguntei fazendo um sinal de diminutivo com os dedos.
― E desde quando se é tarde para estudar? – retrucou-me, em pose de desafio. —Pois saiba que a minha avó fez sua graduação aos cinquenta anos e, depois disso, não parou mais. Ela é o meu orgulho e inspiração.
Engoli em seco, sem graça, e apenas dei de ombros. Na verdade eu só queria provocá-lo, mesmo que não intencionalmente. Agora estava envergonhada, provavelmente até vermelha. Eu não sabia os motivos que ele teve para começar sua graduação agora, podia ter sido vagabundagem, ou não. Eu não tenho culpa se ele parecia o tipo de cara que só quis curtir a vida durante a juventude e que, agora, o papai cansou de sustentar e mandou-o tomar um rumo definitivo, tinha?
Pensando assim, minha mente até se aliviou. Eu não precisava sentir remorso por ele, aliás, eu não precisava sentir nada, o que eu tinha que fazer era almoçar o mais rapidamente possível e sair dali.
― Você gosta de encarar todo mundo assim ou eu sou seu preferido? – ouvi sua voz me perguntar. Eu nem havia percebido que estava parada olhando para frente de novo. Merda.
Abri a boca surpresa com a pergunta, mas logo me recuperei. Eu não deixava homens como ele terem efeitos sobre mim, então agora não seria diferente. Usaria a minha armadura contra qualquer poder “testosteronado” que pudesse ter, por isso respondi dando um sorriso debochado.
― Pode ter certeza que minha preferência não é você.
Vi ele arquear a sobrancelha em desafio, cruzou os braços e os apoiou sobre a mesa com um sorriso mínimo no canto da boca.
― Ah, é? E qual seria, então?
Não gostei do rumo que aquela conversa estava tomando. Se ele achava que seus hormônios de macho alfa iriam comunicar-se com os meus, ele estava muito enganado. Eu jamais deixaria isso acontecer. Repeti o seu movimento, encarando-o da mesma forma, não deixaria que me intimidasse.
― Uma longa história. Eu teria que te explicar muitas coisas que, definitivamente, não estou nem um pouco a fim no momento. Então… tchau. – encerrei aquela conversa esquisita e apressei-me para voltar ao trabalho. Já até havia perdido a fome, não conseguiria terminar o meu almoço com ele ali mesmo, então só levantei-me e saí.
― Por acaso está fugindo de mim? – perguntou ele alto, chamando atenção de alguns alunos que estavam por perto. Vir-me-ei irritada por ver algumas pessoas nos observando.
― Eu tenho coisas mais importantes para fazer, docinho. Não tenho todo o tempo do mundo, algumas pessoas precisam trabalhar. – pisquei e vir-me-ei novamente em direção à saída.
Precisava voltar a me enfurnar nas minhas pesquisas e leituras. Aquilo havia sido muito estranho. Normalmente eu não me sinto intimidada, ou mesmo irritada com homens bonitos. Pelo contrário, eu os ignoro. Não vou usar falsa modéstia, eu sei que sou bonita e atraente, já recebi cantadas de homens de vários tipos, já estava acostumada. Era um dos motivos que eu preferia ficar mais reclusa, caso quisesse manter meu plano de relacionamento perfeito. Eu não precisava de um cara desconhecido para me provocar. Graças ao meu bom Darwin, provavelmente, eu nem o veria novamente. Eu tinha um encontro amanhã com o Matheus e era isso que eu precisava focar de agora em diante.





Capítulo 3


Nervosismo sem motivo aparente e ritmo cardíaco um pouco alterado. Definitivamente não eram bons sinais. Não sei explicar o porquê, mas a presença daquele ser havia me desestabilizado. Não podia ter acontecido. Eu estava habituada a esse tipo de gente.
Qual é?! Eu não vivia reclusa!
Claro que já tinha visto homens bonitos antes. Mas esse, em particular, me perturbou e eu não estava nem um pouco confortável com isso.
Lei da primeira atração.
Era óbvio que era isso que estava acontecendo. Nossos hormônios das cavernas são traiçoeiros. Não podemos ser levados por nenhum abalo biológico que nosso corpo começa a apitar. Por isso que o ser humano possui um cérebro racional. Para evitar que caiamos nessas armadilhas sensoriais.
Matheus, Matheus, Matheus…
Talvez se eu repetisse mais vezes o seu nome, eu acabasse esquecendo o maldito desconhecido. Estava tão irritada ontem na hora do almoço que ao menos sei quem ele era. Porém é melhor assim. Quanto menos contato e intimidade, melhor.
A universidade era enorme. Quais as chances de vê-lo novamente? Praticamente nula.
Aquele momento estranho de ontem não saía da minha cabeça, mas nada que uma noite de sono não resolvesse. Hoje seria um novo e ótimo dia!
Logo pela manhã, bem cedo, recebi uma mensagem muito esperada por mim. Meu sorriso não tinha como ficar mais largo.

“Bom Dia, ,
Espero que esteja tudo certo para hoje!
Outback às 19 horas. Te aguardo lá.
Beijos, Matheus”


Respirei fundo e contente, confirmando o encontro. Claro que eu esperava que ele mandasse algo como um pedido do meu endereço para me buscar, mas quem liga? Eu tenho meu próprio carro, posso encontrá-lo lá.
Terminei de me arrumar e fui para o trabalho, cheguei um pouco atrasada por causa do trânsito caótico. Era uma das coisas que me fazia sentir falta do interior, a calma e a tranquilidade. Lá na minha cidade, eu gastava apenas cinco minutos para chegar em qualquer lugar que eu quisesse, agora aqui, às vezes, levava até uma hora, dependendo do horário. Mas não poderia reclamar, pelo menos eu tinha um carro. Pior era na época que eu andava de busão.
Chegando ao local, logo encontrei minha estagiária, Mattos. Uma menina dedicada e gentil, adorava ela.
― Bom dia, .
― Bom dia, . Algum recado para mim? – perguntei enquanto colocava meu jaleco.
― O Sr. Freitas veio hoje bem cedo, disse que precisava falar com você.
Franzi o cenho, intrigada. O Sr. Manuel Freitas era o Coordenador de todo o Centro de Pesquisas. O que será que ele queria? Fiquei preocupada. Com a crise no governo e o corte dos gastos, tudo poderia acontecer. Só esperava que não suspendessem as nossas pesquisas. Já caminhávamos a trancos e barrancos, não poderiam jogar nossos anos de estudos e dedicação fora.
― Ele falou alguma coisa?
― Não, só disse que viria daqui a pouco. - respondeu.
Começamos nossas atividades, tínhamos várias análises para fazer e precisava aproveitar o horário que a estivesse no laboratório para me ajudar. Passara quase uma hora, quando ouvi o som de uma batida na porta e, logo em seguida, um senhor grisalho, bem arrumado, entrou no local.
Era o Sr. Freitas que vinha entrando sem cerimônias, como sempre.
― Bom dia! – levantei-me da minha mesa, colocando os instrumentos sobre ela para cumprimentá-lo.
Eu estava com o cabelo amarrado em um coque bagunçado, óculos de proteção no rosto e luvas ensanguentadas nas mãos. Uma linda arrumação.
Tentei ajeitar-me, retirando as luvas contaminadas e jogando-as no recipiente próprio, depois lavei as mãos e passei pelos meus cabelos a fim de conter os fios espalhados pelo meu rosto.
Só então pude notar que, atrás dele, havia um homem e, para a minha tristeza, não era qualquer um. Era aquele homem.
Fiquei em choque, mas vi o sorrisinho de canto dele ao sair atrás do Sr. Freitas.
― Olá, Dra. . - disse meu chefe me cumprimentando. ― Gostaria que conhecesse o novo estagiário do nosso centro. , esta é nossa querida Doutora , mais conhecida como a Doutora do Amor – falou ele risonho, me fazendo corar envergonhada.
As pessoas viviam me chamando assim por causa dos meus estudos. No início eu ficava irritada, mas com o tempo, me acostumei. Porém, às vezes, sentia-me constrangida, ainda mais quando era apresentada para pessoas desconhecidas. O que ele pensaria de mim?
― Prazer conhecê-la, doutora – disse , fitando-me e estendendo sua mão, ignorando que já havíamos no visto antes.
― O prazer é meu. – respondi, embarcando no teatro. Estendi a mão para ele e, em retribuição, ele segurou-a firmemente por alguns instantes.
Encaramo-nos em uma competição sem sentido, até o Sr. Freitas pigarrear e me fazer soltá-lo, embaraçada.
― Muito bem. Estou mostrando os laboratórios para ele, pois o ficará um tempo conosco. Ele fará um estágio de duas semanas em cada um. Pela tabela que fizemos, aqui será o último, mas adoraria que fizesse companhia a ele e o ajudasse em sua transição. Ele quer conhecer os setores e ver em qual se adaptará melhor para seguir a carreira futuramente, é um rapaz com grande potencial.
― Ah! Que bom! Seja bem-vindo, . – foram as únicas coisas que consegui dizer.
Isso estava me saindo pior que encomenda.
Duas semanas com
A teoria do caos diz que uma mudança no início de um evento qualquer, pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Eu só espero que aquele maldito esbarrão não atrapalhe a vida que planejei para mim.
― Obrigada, . - respondeu abrindo um grande sorriso de tirar o fôlego.
Pisquei tentando me concentrar em como ser irredutível. Teria que ser simpática na frente do Sr. Freitas, mas não queria abrir brecha para ele, ainda mais sabendo que teríamos, em breve, que nos ver corriqueiramente.
― Agora precisamos ir. Vou mostrar o resto do campus ao e depois deixá-lo a vontade para conhecer o resto da Universidade. Obrigada pela atenção, .
― Disponha, não há de quê. - respondi e, logo em seguida, se retiraram.
― Uau! – exclamou , saindo da saleta dos ratinhos. – Oh lá em casa, hein. Que homem é esse?!
― Que isso, ? Isso são modos? – ralhei com ela, porém brincando.
― Desculpa, , mas não tinha como ficar calada. Pu…- calei-a com minha mão, impedindo-a de falar um palavrão.
Essa era a minha querida aluna de iniciação científica, impossível não rir com ela.
― Ok, . Já entendi sua expressão. - falei rindo.
― Quando ele vai vir para cá mesmo?
― Não sei o dia exato. Ele vai estagiar em outros laboratórios antes. Aqui será o último. - respondi dando de ombros.
― Hummm. Que pena que vai demorar um pouquinho… Então quer dizer que ele vai ser meu colega de estágio? – perguntou, abrindo um sorriso travesso.
― Deixa de ser boba, menina. Ele é muito mais velho que você.
― Ow! – colocou a mão no peito. ― Quem disse que é pra mim? Estou pensando em você – respondeu rindo e piscou para mim.
Parei imediatamente o que estava fazendo e fechei a minha expressão.
― Você sabe que é sem chance. - disse séria.
― Sei, sei… Você não namora caras gostosos, bons de pega, blá,blá,blá. Grande balela. - falou revirando os olhos.
― Exatamente. Por isso caras como ele ficam bem longe do meu radar.
― Eu quero ver o que você vai fazer quando ele estiver não só no seu radar, como perambulando por aqui. - disse ela rindo, sonhadora.
― Vamos deixar isso para depois. – disse cortando-a. ― Não interferirá em nada, seguiremos nossa rotina normalmente. – afirmei.
― Sei… Você acha que eu não percebi as encaradas que deram um para o outro, né? Qual é, , você é linda, impossível seria se ele não tivesse te reparado e, além disso, ele é um…
! - cortei-a, antes que continuasse tagarelando sobre .
― Tá bom, parei, parei… – ergueu as mãos em sinal de rendição, gargalhando.
Bufei irritada. Mal havia conhecido e ele me tirava de sério de todas as formas, estando ele presente ou não. Por que ele precisava ser tão bonito e ter uma presença tão marcante?
Balancei a cabeça, a fim de afastar meus pensamentos. Precisava me concentrar em qualquer outra coisa que não fosse no maldito.
Fui até os meus ratinhos para analisar os últimos resultados da minha pesquisa. As reações adversas da planta continuavam a aparecer. Os ratos tratados não conseguiam acasalar e alguns tinham os órgãos necrosados. Precisava terminar minha pesquisa o quanto antes. Esta planta tinha muito potencial para tratamento oncológico e eu não aceitava que fosse descartada dessa forma. Quando viram os efeitos colaterais que ela trazia, desistiram das pesquisas e deram como encerrado. Porém eu não, eu continuava firme e forte, cheia de esperança e expectativa. Acreditava muito que podíamos analisá-la. Os resultados eram promissores, apesar dos efeitos demonstrados.
Por isso, eu tentava separar todos os princípios ativos daquela planta, a fim de descobrir se o que ajudava na batalha das células cancerígenas era o mesmo que causava a necrose dos órgãos.
Passei a manhã tentando preparar outros testes, enquanto me auxiliava nos procedimentos. Olhei para o relógio que ficava pregado na parede e vi que já era mais de onze horas. Resolvi parar o serviço para ir almoçar antes que o refeitório enchesse com a manada.
Guardei meus óculos de proteção, retirei as luvas, jogando-as no lixo e lavei minhas mãos. Em seguida, retirei meu jaleco lentamente, pendurando-o em um gancho perto dos armários e soltei meu coque, passando as mãos levemente por meus cabelos, a fim de ajeitá-los.
― Sabe aquela história de você não pegar homens bonitos? – minha estagiária me perguntou, chamando minha atenção.
― Sim. – respondi impaciente, já imaginando ter que voltar naquele assunto todo de novo.
― Acho melhor você avisar para um deles então, porque o boy magia acaba de chegar ali na porta e está te observando já faz uns cinco minutos. - cochichou baixinho ao meu lado.
― Droga. - praguejei nervosa. ― O que ele quer? – perguntei para mim mesma, peguei minha bolsa e me retirei do laboratório pedindo para que trancasse tudo ao sair.
Passei por ele na porta, esbarrando sem ao menos pedir licença.
― Opa! Não vai nem me dizer oi? – perguntou ele, mordendo o lábio inferior para não rir, o que foi desnecessário.
― O que você quer aqui? – indaguei, virando-me bruscamente para encará-lo.
― Acho que o Sr. Freitas não aprovaria esse tipo de atitude, se me lembro bem, ele pediu para que me ajudasse em minha transição. – disse presunçoso, colocou as mãos no bolso da calça jeans, piscou para mim e abriu um sorriso maroto.
Cruzei os braços e encarei-o, fuzilando-o com o meu olhar.
― E o quê, por acaso, você precisa tanto de mim?
Ele abriu um sorriso e passou a mão por seu cabelo. Foi impossível não notar a curva que seu bíceps fez com o movimento e o pequeno pedaço de carne do seu abdômen que ficou amostra quando sua blusa levantou, mostrando um pequeno pedaço do seu V.
Engoli em seco, tentando focar a minha visão apenas em seus olhos e nada mais. Malditos hormônios. Não é possível. Eu não poderia ficar desestabilizada dessa forma. Eu já havia visto barriga de tanquinhos, não é agora que aquilo deveria mexer comigo.
― Bom… Como está na hora do almoço, eu achei que você poderia me acompanhar, me ajudar na socialização do ambiente, você sabe… – falou como se eu não notasse nada implícito por trás de suas palavras.
Aquilo não estava certo, definitivamente não estava nada certo.
― Não, . Eu não vou almoçar com você. Na verdade, agora eu estou indo na rua, não vou nem almoçar. – menti.
― Não é o que parecia lá dentro. Vamos lá, Dra. do Amor – terminou falando aquele apelido ridículo, deixando-me mais nervosa ainda. Ele gargalhou enquanto eu apenas bati o pé, furiosa, e comecei a caminhar rapidamente rumo ao refeitório, deixando-o para trás. Ouvi seus passos atrás de mim, até sentir sua mão tocar meu braço.
― É tão divertido te irritar. – falou com uma expressão satisfeita.
― Estou percebendo.
― Ah, , qual é, estamos indo para o mesmo lugar, não custa nada. É só um almoço em pleno refeitório da universidade, rodeado de alunos em nossa volta, não é como se eu estivesse te chamando para sair. Ah não ser que você queira… – falou abrindo um pequeno sorriso e erguendo uma sobrancelha.
― Eu jamais sairia com você. – falei áspera, puxando meu braço para soltar do seu aperto.
O vi franzir o cenho, talvez eu tenha atingido o seu ego inflado. Mas logo ele se recuperou, adquirindo uma expressão relaxada.
― Pois então, vamos almoçar e você me conta qual é a do apelido tosco. – falou apontando para mim.
Revirei os olhos, mas logo uma luz acendeu-se em minha mente. Estava ali a saída perfeita. Contaria os motivos para me chamarem assim e minhas ideologias. Dessa forma ele saberia que não deveria nem cogitar qualquer possibilidade de investir em mim.
― Tudo bem. – Abri um sorriso quê, talvez, para ele, fosse em concordância, porém, na verdade, era a minha mente ardilosa dando um jeito de afastá-lo de uma vez por todas.
Caminhamos até o refeitório, pegamos nossas bandejas e pratos, entramos na fila e nos servimos. Cumprimentei alguns alunos que me abordavam e em seguida sentamos em uns lugares vagos que encontramos.
me instigou a contar sobre o apelido. Ele estava curioso, seus olhos não negavam. Comecei a falar sobre a minha especialidade, sobre como eu conhecia tudo que envolvia as reações do nosso corpo em relação a atração, paixão e amor. Expliquei a ele algumas teorias sobre relacionamentos e como muitas vezes eu era chamada para dar palestras sobre a área. Por isso recebi tal apelido, Doutora do amor.
― Achei que fosse porque era uma pessoa dócil e amável, ou mesmo, talvez, tivesse muitos relacionamentos românticos. – falou entre uma garfada e outra.
― Não mesmo. O amor é superestimado. São apenas reações biológicas do nosso corpo.
― Nossa, que prática você! – disse em um tom surpreso. Dei de ombros, pouco me importando. Estava acostumada com aquele tipo de reação.
Todos esperam que as mulheres sejam românticas e sonhadoras incuráveis. De fato isso está em nossa biologia humana, mas, conhecendo o corpo como eu conheço, não cederia a essas imaginações. Talvez quando eu achasse meu par perfeito, que por sinal, eu esperava que fosse o Matheus, isso mudasse.
Terminamos as refeições e caminhamos de volta, em direção ao meu laboratório. estava silencioso e parecia pensativo. Parecia intrigado com tudo o que eu havia dito. Apesar dos apesares, havia sido uma conversa agradável, foi um diálogo fluido e ele foi atencioso em todo o tempo em que me ouvia. Às vezes olhava para mim como se eu fosse uma caixinha de surpresa que ele queria desvendar, mas nada que eu não conseguisse suportar durante o almoço.
Quando chegamos à porta do meu local de trabalho, ele virou encarando-me. Seu olhar para mim era profundo e parecia se conter para o que queria dizer. Mordeu o lábio e enfiou as mãos no bolso, balançando um pouco a perna.
― Então… se eu te chamasse para sair agora, você não aceitaria? - perguntou.
― Não! – disse reticente, sem nem titubear.
― Você é maluca! – falou ele, suspirando. Balançou um pouco a cabeça em negativa e finalmente confidenciando o que havia achado. Melhor assim, dessa forma ele me esquecia de vez.
― Desculpe se eu tenho meus ideais que impedem que eu aceite seu pedido.
― Que seria…? – arqueou a sobrancelha, questionando-me.
― Você é todo másculo, atraente, tem pinta de gostoso e boa praça. Seus músculos se sobressaem por sua roupa, seu queixo é quadrado e o sorriso perdidamente sexy – disse como se não fosse nada.
― Então você está me dizendo que não quer sair comigo porque eu sou… hum, bonito? – abriu um leve sorriso.
― Basicamente. – finalizei, ouvindo o som de uma gargalhada.
ria tanto que passava o dorso da sua mão nos olhos, a fim de conter as lágrimas. Fechei minha expressão, não gostando nem um pouquinho de fazer papel de palhaça.
Ao notar que não estava satisfeita, ele se recompôs, dando alguns passos até mim. Parou colado à minha frente, sua respiração ficando de encontro com a minha. Estava completamente paralisada quando, de repente, seus olhos transformaram-se, ficando mais sérios, e ele inclinou-se em minha direção.
Por um segundo perdi a respiração. Fechei meu punho com força, cravando minhas unhas na palma da minha mão até que doesse. Não conseguia sair daquela posição estática.
― Você é hilária, . – falou baixinho, passando seu rosto direto pela direção da minha boca e repousando um beijo lento em minha bochecha.
Só consegui soltar o ar novamente quando percebi que ele havia ido embora, me deixando ali com a mente nebulosa.
Eu estava muito ferrada.





Capítulo 4


Cheguei em casa estressada. A única coisa que me acalmava era lembrar que eu sairia com o Matheus à noite. Seria uma noite incrível, nós jantaríamos, jogaríamos conversa fora e eu esqueceria o tal do que havia me azucrinado hoje. Além disso, eu torcia para que essa noite me rendesse algo futuramente.
Já eram 17h30min e eu tinha pouco tempo para me arrumar e ir para o local marcado. Tomei um banho rápido, lavei meus cabelos e sequei-os com o secador, deixando as ondas soltas nas pontas. Fiquei um tempo parada em frente ao guarda-roupa, na tentativa de escolher o que deveria vestir para enlaçar um homem, não só por uma noite, mas sim para a vida.
Optei por um vestido preto, que nunca tem erro. Ele era fechado em cima e de manga comprida, porém era mais curto embaixo, no meio das minhas coxas. Ótima opção, não mostrava demais e nem de menos. Regra de etiqueta básica para não errar, se mostrar em cima, cubra embaixo, se mostrar embaixo, cubra em cima. Assim você provoca sem excessos, entretanto deixa o cara com a sensação “quero ver mais do que você está expondo”. O vestido tinha um detalhe fino e transparente que ia da barra, um pouco na frente, e subia até a lateral do meu seio esquerdo. Não mostrava nada, era bem pequeno mesmo, mas dava uma visão chique para a roupa. Estava perfeito.
Calcei um scarpin preto de salto alto e agora só faltava à maquiagem. Preferi algo mais nude, então não exagerei. Apenas marquei bem a linha dos olhos e cílios, destacando meu olhar negro, e passei um batom cor de boca, finalizando o look.
― Ora, ora, alguém está saindo para matar hoje, heim!? – entrou no meu quarto, jogou-se em cima da minha cama e me observou, enquanto eu me ajeitava em frente ao espelho.
Virei-me para ela e apenas abri um sorriso cheio de segundas intenções, deixando claro que sim, ela estava certa.
― Quem é a vítima? – perguntou.
― O Matheus.
― O doutor riquinho que você estava paquerando há tempos? – exclamou.
― Ele mesmo – respondi rindo.
― Sua safada! Você conseguiu. Não acredito! – disse jogando o travesseiro em mim.
― Ai. Não estraga minha arrumação, – ralhei com ela, peguei o travesseiro e joguei de volta, acertando bem o seu rosto.
― Ouch! – ela alisou o rosto no lugar que eu a acertei.
― Eu não consegui nada ainda. A gente só vai sair. Porém… eu espero mesmo que depois dessa noite eu consiga fisgá-lo de vez.
― Isso é muito injusto, sabia?! Eu jurava que você ia quebrar a cara com essas teorias de vidas que tem.
― Nossa, , com uma amiga como você eu não preciso nem de inimiga, sabia? – falei brincando com ela, enquanto pegava meu cartão e as chaves e colocava em minha bolsa.
― Chata! – xingou-me. ― Mas eu realmente tinha certeza que ainda ia chegar alguém que mudaria toda essa sua concepção. Na verdade, eu ainda acho isso, o Matheus seria muito cômodo para você.
― Não é questão de comodismo, . É o que é certo para mim. Eu esperei, não me envolvi com qualquer um e agora, na hora certa, encontrei alguém que atende e se encaixa nos meus padrões e que não vai me decepcionar. Não tem erro. A atração já rolou, agora é desenvolver o resto. - constatei para ela.
― Mas…sei lá. Tudo isso parece tão… frio. Você já pensou se aparece alguém que mexe com você, porém é totalmente diferente do que você aceitaria?
Instantaneamente lembrei-me de , no entanto logo expulsei aqueles pensamentos da minha cabeça. Trinquei meu maxilar e respirei fundo.
― Não – disse séria. — Eu não deixaria isso acontecer.
― Mas e se…
― NÃO, ! – interrompi brava. — Isso está fora de cogitação. - completei, enfezada com aquele assunto todo. Ninguém me entendia.
― Nossa… Não está mais aqui quem falou então – ergueu os braços em sinal de rendição. — Bom encontro para você.
saiu do quarto, batendo a porta, meio chateada. Ela era sensível, ao contrário de mim. Muitas vezes o que era “normal” no meu jeito de falar, para ela era grosseria. Em nossa convivência eu pude aprender muito com minha amiga, somos o equilíbrio uma da outra. Com ela eu tento a cada dia ser mais meiga e a se esforça para não ligar com cada coisinha que os outros dizem.
Enfim… Eu sabia que não precisava ter falado dessa maneira. Praguejei sozinha por causa da minha grosseria. Às vezes eu falava a primeira coisa que me viesse à cabeça e acabava me arrependendo depois. Só de lembrar do dia de hoje eu ficava exaltada, o que acarretou esse infortúnio. Tentei esfriar a mente e sair logo para encontrar Matheus. Quando eu chegasse eu pediria desculpas a . Ficaria tudo bem.
Olhei o relógio e vi que já estava praticamente atrasada. Precisava sair logo, antes que já começasse com o pé esquerdo o meu encontro. Peguei a chave do carro apressada e sai de casa. O trânsito estava fluindo, por isso não tive muitas dificuldades para chegar ao local.
Logo na recepção, falei o nome do Matheus, sendo encaminhada pela garçonete até a mesa onde ele se encontrava. Observei ele sorrir ao me ver e foi impossível não retribuir. Meu coração deu uma leve palpitada e eu já imaginava as várias partes do meu cérebro trabalhando para o amor lindo que surgiria entre nós dois. Eu esperava por isso. Ele não poderia me decepcionar.
― Ei, , está linda. – Matheus levantou-se para me cumprimentar e me deu um beijo na bochecha.
― Obrigada – respondi, sentando-me em frente a ele, naquelas cadeiras acolchoadas do local. Logo fomos recepcionados pelos excelentes garçons do lugar, que já enviaram aquele pãozinho australiano delicioso para abrir o nosso apetite.
, confesso que estive um pouco reticente em te convidar para sair. Os caras comentam que você não costuma dar muita conversa para ninguém. E por mais que eu visse que, talvez, pudesse ter chances, eu estive com o pé atrás… Então, segue a minha dúvida… Por que eu? O que a levou aceitar o meu convite.
Naquele momento quase engasguei com o pãozinho, a sorte é que eu tinha um refil enorme de coca-cola para me desentalar e me fazer pensar antes de responder aquilo.
Fiquei ponderando a sua pergunta… será que se eu dissesse meus reais motivos ele se contentaria? Acho que dizer que ele tinha uma boa aquisição financeira, era menos bonito que eu e tinha um corpo…ok, não seria muito bom. Melhor ocultar isso aí.
— AH… - abri a boca para começar a falar e desviei um pouco o olhar. — Não tem explicação, Matheus, só… eu só quis. Você é alguém que me interessa, não é vazio que nem tantos outros que vejo por aí.
Matheus abriu um sorriso e acho que minha fala foi o suficiente para que ele ficasse feliz. Estendeu sua mão por sobre a mesa e pegou a minha, fazendo-me ficar aliviada e esboçar um pequeno sorriso.
— Fico feliz por isso. Saiba que penso o mesmo de você. - piscou para mim e voltamos a comer. Nem sabia ele que definitivamente nós não pensávamos a mesma coisa.
Continuamos o nosso jantar sem nenhuma pergunta comprometedora, graças a Deus. Comemos aquela costela maravilhosa, junto com uma batata recheada divina. Eu não era fresca e nem ligava em comer muitos carboidratos. Para a minha sorte, a genética havia sido favorável na minha vida, então eu esbanjava mesmo.
Continuei a conversar com o Matheus sobre algumas banalidades do dia a dia, confesso que em certo momento cheguei a ficar entediada, eu já havia ouvido sobre todas as conquistas profissionais dele umas quinhentas vezes, acho que já sabia tudo de cor e salteado, porém tentei focar em todo o futuro lindo que poderíamos ter e na comida maravilhosa sobre a mesa.
— Eu admiro muito você, sabia? – Matheus falou para mim, colocando-me como foco pela primeira vez na noite.
— É? Por quê?
— Não é todo mundo que defende uma pesquisa com unhas e dentes como você, mostra o quanto é determinada, mesmo que seja uma perda de tempo – falou enquanto tomava o suco, tranquilamente.
— Perda de tempo? – indaguei-o, perplexa.
Era essa a forma que ele estava tentando me elogiar?
— Sim. Já foi mostrado em várias pesquisas os efeitos adversos que a planta que você estuda causa e, mesmo assim, você prossegue tentando achar uma maneira que dê certo. É um grande risco para o seu pós-doc, sabia? Vai que você chega ao final e não consegue nada…
Enquanto ele me falava só torcia para que ele fechasse a matraca de uma vez e não terminasse de arruinar com o nosso encontro. Poxa! Já era difícil achar um cara com os requisitos que eu queria, pior ainda, um que me atraísse de alguma forma, aí o Matheus fala uma merda dessa… Ele quer acabar comigo, só pode.
Quem ele pensa que é para dizer o que devo ou não pesquisar? Se eu estava fazendo esse projeto era porque eu tinha dados suficientes para acreditar que daria certo.
— Eu acho que você só está dizendo isso porque uma dessas pesquisas foi o seu laboratório quem fez…- falei com uma voz serena, mas por dentro estava espumando de raiva.
— O quê? Claro que não! – vi que ele ficou levemente alterado. — Estou dizendo para o seu próprio bem, . Mas veremos… Até o final descobriremos quem estava certo então. - falou em tom de desafio e com um leve sorriso debochado para mim, o que me matou de raiva.
Aquilo ali acabou com a minha noite. Eu poderia suportar o convencimento do Matheus e qualquer outro defeito, desde que fosse suportável, porém colocar a prova o meu trabalho e convicções era o mesmo que dar um tiro no pé.
Pior de tudo, era que eu apostava fielmente nele e nesse encontro.
Talvez eu pudesse mudar a sua forma de pensar com o tempo, até porque, achar homem já está difícil, piorou escolher demais.
Tentei focar nisso o resto da noite e enumerar os motivos que me fizeram escolher o Matheus. Desta forma, fiz o possível e o impossível para que pudéssemos continuar tendo um jantar tranquilo.
Como eu fiquei mais calada do que antes, Matheus monopolizou a conversa, agora contando os próximos eventos científicos que participaria. Tagarelou até acabarmos o jantar. A única coisa que fez o meu humor voltar foi a sobremesa maravilhosa que foi servida. Deliciei-me com o sorvete e o brownie de chocolate.
Dica para os homens: sempre que fizer uma cagada, a melhor arma para amansar a fera é dar chocolate.
Quando terminamos, pedimos a conta e dividimos, não gosto que paguem para mim, ainda mais que nós não tínhamos relacionamento nenhum. O que não foi problema para Matheus, pois ele sequer ofereceu.
Ele me acompanhou até o estacionamento, onde o meu carro estava, e parecia um pouco nervoso, enquanto eu, um pouco frustrada com a noite.
— Me desculpe se a ofendi de alguma maneira. – Matheus falou sem jeito, enfiando as mãos no bolso da calça jeans. Olhava um pouco para o chão, parecia arrependido. — Eu não quis desmerecer o que você faz, eu que às vezes falo demais – terminou com um pequeno sorriso, que fez meu coração se desmantelar um pouco.
— Não tem problema. Confesso que não gostei, mas vamos deixar isso para lá – falei, achando por bem enterrar isso, caso quiséssemos seguir com algo a partir de hoje. Toquei o seu ombro, como forma de mostrar que águas passadas não movem moinho, e ele viu o meu ato como um passe para se aproximar de mim.
— Apesar de tudo, eu adorei essa noite e gostaria muito que ela se repetisse outras vezes – disse, achegando-se mais perto de mim e tocando minha bochecha.
Eu já sabia o que viria em seguida, esperava por esse momento desde que sai do meu apartamento para encontrá-lo hoje.
Hormônios, chegou a hora, preparem-se!
— Eu também adoraria. - falei baixo, quase sussurrando, em uma voz convidativa e sensual.
Ele pescou bem a minha intenção e terminou de aproximar-se, juntando os nossos lábios.
Seu beijo era doce e seguro. Abri passagem para aprofundarmos o ato e fiquei a espera daquele momento mágico, aonde um frio iria se fazer em minha barriga ou o meu coração pudesse tamborilar.
Uma, duas, três tentativas.
Nada!
Era como chuchu, não tinha gosto e nem sabor. Faltava um tempero, um ingrediente especial que tornaria as coisas mais emocionantes.
Era a minha derrota!
Oh, Deus! Por que isso só acontece comigo?
O beijo não era ruim. Matheus beijava bem, mas não tinha… química.
Não, não e não! Não podia ser. Eu não podia deixar isso acontecer, Matheus era minha chance, tinha que dar certo.
Quando ele começou a se afastar, passei a mão por seus cabelos e trouxe seu rosto para mim de novo, selando seus lábios com mais intensidade. Talvez se eu desse um empurrãozinho maior, as coisas fluíssem.
As mãos dele agarraram a minha cintura e ele acabou me encostando ao carro, deu uma melhorada, porém eu sabia que estava longe de ser algo arrebatador.
Ao terminar o beijo, Matheus estava eufórico, e eu… frustrada.
Claro que eu disfarcei, entretanto, por dentro estava em prantos eternos. Alguma coisa estava errada. Eu flertei com ele há tempos, eu estava interessada e ele também, por que logo agora tudo desandou?
— Uau, se eu soubesse que era tão bom, tinha te convidado para sair a tempos! – Matheus exclamou e eu apenas dei um pequeno sorriso contido.
Espero que ele compreenda minha reação como timidez e não consiga sacar a realidade que se passa na minha mente agora.
— Er... eu preciso ir. Nos vemos depois? – falei, querendo ir embora. Eu precisava de ar.
— Claro, . Foi uma noite incrível – disse com um sorriso de orelha a orelha.
— Para mim também – menti, usando toda a minha cara lavada.
Ele despediu-me de mim dando-me um selinho e me observou, enquanto eu entrava em meu carro. Quando foi embora, eu suspirei profundamente, encostando a testa no volante.
Eu não sei se ficava com raiva do Matheus por ter falado merda na noite ou se ficava brava comigo por não ter correspondido de forma adequada ao nosso beijo. Isso só poderia ser um equívoco. Talvez tudo tivesse dado errado porque ele tocou em um ponto delicado pra mim.
Era isso.
Na próxima vez seria diferente. Ele não falaria mais aquilo e eu estaria mais calma. Provavelmente foi a língua grande do Matheus que fez meus hormônios não acionarem hoje.
Quanta decepção… era para ser a noite perfeita. Era até cedo ainda, dez horas da noite.
Enquanto me lamentava pelo meu fracasso, ouvi o toque do meu celular. Peguei-o na minha bolsa e olhei o visor, vendo o nome da minha estagiária piscar na tela.
— Fala, ! – atendi formalmente.
— Eita, alguém está de mau humor – disse ela rindo.
— Sabe disso e ainda provoca, não é? – retruquei, rolando os olhos.
— Bom… Então liguei na hora certa – falou com uma voz animada e pude ouvir um som agitado ao fundo.
— O que é? – perguntei impaciente.
— O pessoal dos laboratórios resolveu todos irem a um pub aqui na Avenida. Tá todo mundo aqui, avisaram pelo grupo do WhatsApp, mas pelo visto você não visualizou.
— Estava em um jantar, nem olhei o celular.
— Hum… Jantar, hein – falou provocando. — Pelo visto as coisas foram péssimas para você estar desse jeito, parecendo que menstruou e vazou nas calças.
— Cala a boca, – ralhei, rindo. Ela conseguia me fazer rir até com as coisas mais impróprias.
— Ah, veja só, a senhora TPM sabe rir, gente! Palmas para mim! – gracejou. — É sério, , venha, é bom que você desestressa.
— Não sei, realmente não sou uma boa companhia hoje.
— Ah, qual é. Quer terminar a noite desse jeito? Venha! Eu prometo ficar te enchendo o saco até você rir tanto que não vai nem se lembrar da noite de merda que teve.
Ponderei o convite. Ela estava certa. Ir para casa me lamentar não ia adiantar nada, precisava espairecer.
— Ok, você venceu. Me manda o local pelo whatsapp e daqui a pouco chego ai.
— Beleza, vou te esperar.
Não demorou nem um minuto, estava lá o endereço. Resolvi ir e esfriar a cabeça. A noite foi uma merda, porém não precisava terminar assim, quem sabe o que teria ainda pelas horas adiante?
Pensando dessa maneira, liguei o carro e parti rumo ao pub, na fé que a noite terminaria melhor do que estava.





Capítulo 5


Ao chegar ao pub, parecia que todos os funcionários da Universidade haviam tomado o local. Uns bebiam, outros jogavam papo fora e algumas mulheres dançavam em frente a um pequeno palco, onde tocava uma música ao vivo. Era a primeira vez que eu ia ali. O ambiente parecia bastante agradável, a luz era uma penumbra, dando um ar aconchegante ao local, além disso, tinha um tom rústico, com cadeiras de madeira e móveis antigos.
Logo avistei , que estava junto com outras estagiárias. Ela acenou para mim para que eu me aproximasse e eu caminhei até lá, acompanhando-as na mesa e colocando a minha bolsa pendurada na cadeira.
— Eis que a Rapunzel saiu da sua torre! – exclamou, abrindo seus braços para me abraçar.
— Dramática! – resmunguei rindo e retribuindo o seu gesto.
Cumprimentei o restante das garotas, que eu não conhecia muito bem, mas que pareciam ser simpáticas.
— E aí? Vai me dizer o que conseguiu te tirar da toca? – indagou-me, baixinho, inclinando-se em meu ouvido para que ninguém mais ouvisse.
— Tenta adivinhar… – deixei a questão no ar a fim de provocá-la, eu sabia que ela era extremamente curiosa.
— Pelo amor de Deus, diz que foi com o estagiário novo gostosão, por favor! – fez uma encenação de súplica, cruzando as mãos e arregalando os olhos dramaticamente.
— Claro que não, né! – respondi rindo. — Parece até que não me conhece.
— Sei lá, às vezes Deus quer operar o milagre em sua vida, achei que poderia ser esse dia – respondeu dando de ombros e voltando a tomar a bebida que estava no seu copo.
— Você é muito boba, . Eu estava com o Matheus – soltei como quem não quer nada, dando de ombros.
— O QUÊ?! – minha estagiária berrou na mesa, fazendo com que todas as outras garotas olhassem para nós.
Fuzilei-a com os olhos e minha vontade era pegar aquela bebida e jogar na cabeça dela para aprender a ser mais discreta. Todas as meninas da mesa estavam olhando para gente, querendo entender o que estava acontecendo.
— Er… Calma, gente, é a que não sabe curtir e já veio falar de coisas para eu fazer no trabalho. , estamos aqui para curtir, não quero saber disso agora! – disse seriamente e todas acreditaram, pois percebi elas franzirem o cenho em desagrado.
Muito obrigada, , bela forma de desviar o assunto.
Os estagiários já são conhecidos por serem explorados nos seus setores, são nomeados como “burros de carga”. Sempre davam a eles todo o serviço que os funcionários não querem fazer. Os mais pesados, mais trabalhosos e mais fedorentos. Não era o que eu fazia com , mas depois dessa gafe dela, é o que todas presentes imaginariam de mim.
Dei um sorriso sem graça, desconsertada com a situação. Desmentir seria pior e também eu não precisava jogar na roda que eu tinha saído com o Matheus. Melhor deixar isso quieto.
— Desculpa – falei levantando os ombros levemente. — Ossos do ofício, difícil desapegar, não é, ? – terminei olhando para ela, que abriu um sorriso tentando reparar o mau feito.
— Claro! A não é nenhuma mocreia, só esquece de viver às vezes – complementou, aproveitando para me alfinetar.
— Você precisa pegar leve com a sua estagiária, Doutora . Aqui todo mundo é gente como a gente – uma garota ruiva resmungou para mim, claramente chateada com a situação.
— Eu… Eu sou supertranquila com a , lá no laboratório nós dividimos as tarefas de forma equilibrada.
— Não é o que pareceu – uma outra estagiária, loira, jogou ao vento, desviando o olhar, como se me ignorasse.
Olhei para , que estava estática com a situação. Nem ela esperava que aquilo tomasse uma proporção tão drástica. Comecei a me sentir mal e nada que a fizesse para corrigir daria certo. A cada defesa que ela saía em meu favor, elas achavam que ela só estava tentando não ficar em maus lençóis com a “patroa”.
Chegou um momento em que a situação ficou tão insustentável que resolvi sair da mesa com a desculpa que pediria alguma coisa no balcão para beber e aproveitaria para dar uma circulada no local.
Caminhei até lá e inclinei-me até o garçom, fazendo com que ele me notasse e escrevesse o meu pedido.
— Uma limonada suíça, por favor.
— É pra já, senhorita!
Enquanto esperava, fiquei observando as pessoas ao redor. Olhei para o homem no pequeno palco que cantarolava uma música de Victor e Leo, um pouco antiga.
“Moro num lugar, numa casinha inocente do sertão…”
Comecei a balançar a cabeça e o pé, balbuciando a música, Um sentimento de nostalgia me inundava, sentindo saudade da paz e da calmaria da minha cidade natal. Estava extasiada com as lembranças, fui levada para um momento só meu, até que uma voz destoou em meu ouvido, fazendo-me dar um pequeno grito, assustada.
— E então… – aquela voz grave soou no meu ouvido e eu girei a cabeça, deparando-me com ali.
— Você?!
— Eu! – respondeu com uma feição risonha.
— Você está me perseguindo ou o quê? – perguntei cruzando os braços.
— Ou o que – respondeu, cravando os seus olhos nos meus. Arqueei uma sobrancelha, desafiando-lhe a me explicar melhor sobre isso. Ele ficou sério por alguns segundos, porém logo vi que estava mordendo lábio e uma grande gargalhada explodiu em seguida.
— Relaxa, . Meu Deus, você é muito cabreira – retrucou rindo, achando graça das minhas reações. — Como eu estou fazendo estágio nos laboratórios, as meninas me enviaram uma mensagem chamando para vir aqui também – piscou, explicando-se.
— Típico. – rolei os olhos. Claro que as engraçadinhas não perderiam tempo para convidar a nova carne do pedaço para sair.
— O que foi, ? – questionou, virando o seu corpo para mim e apoiando o cotovelo na bancada, de forma que ficasse mais perto. — Ciúmes?
— Óbvio que não! – desdenhei. Ele teria que ser muito tapado para achar que eu estava sentindo ciúmes dele.
O ciúme é um sentimento desenvolvido pelo nosso corpo para evitar a infidelidade. O homem pré-histórico precisava comprovar que os descendentes eram mesmos seus e a mulher necessitava da garantia que o homem continuaria sendo o mantedor dos recursos para a prole, ou seja, assegurar que o alimento da sua sobrevivência não fosse desviado para a sua rival, que hoje podemos chamar de amante. Em todo o caso, eu não tinha um relacionamento e nem motivos para sentir tal coisa pelo .
— Ah, é. Eu esqueci, sou muito bonito para você! – contestou com um sorriso ladino, recordando da conversa que já havia tido com ele.
Rolei os olhos para ele e me virei para pegar o meu suco que o garçom havia acabado de colocar no balcão. Tentei ignorar a presença dele ao meu lado, já que eu não queria voltar à mesa das estagiarias e sofrer bullying, porém, silêncio e , eram duas palavras que não se encaixavam no mesmo universo.
— Então, , me conta direito como é esse lance todo sobre ‘amor’ que você prega, fiquei curioso – interrogou, cruzando os braços sobre o balcão e inclinando-se um pouco na minha direção, retirando a jaqueta preta que ele vestia.
Só agora havia reparado em como ele estava nessa noite. Uma camisa azul escura, um pouco colada, destacava os seus músculos, sua barba estava por fazer e o cabelo dourado jogado um pouco pra cima, com um caimento leve para a direita.
Não era justo ele ser tão bonito e ainda se vestir tão bem.
— O que você quer saber, especificamente, ? – arqueei minha sobrancelha, indagando-o.
— Bom… Aquele dia você disse que não poderia sair comigo porque eu era um homem perfeito…
— Opa, opa! – exclamei para ele, erguendo as minhas mãos. — Qual momento que eu disse isso, pois eu não me recordo de tal calúnia.
— Ah, qual é, . Todos os adjetivos que me deu beiraram a perfeição – proferiu rindo e passando a mão em seu cabelo, me fazendo por um instante acreditar mesmo que ele era perfeito, entretanto, tratei de jogar esse pensamento fora e focar na conversa. — Eu sou tudo isso que você falou, o que seria um atrativo para qualquer garota me querer, estou correto?
— Sim – respondi, confirmando a sua linha de raciocínio.
— Mas então por que esse é justamente o motivo para te afastar de mim?
— Simplesmente porque são todas essas características que te tornam um homem muito visado. Homens como você, , são mais propensos à traição e ainda que não fossem, a quantidade de mulheres que iriam atrás de você resultaria em algum desentendimento entre nós. Tudo é pior quando nos envolvemos com homens do seu tipo. As desconfianças são maiores, os medos e angústias também. Quando nós estivermos gordas e pelancudas por causa dos filhos, vocês ainda estarão no auge da masculinidade, com toda testosterona para doar, enquanto nossos seios estarão caídos e fedendo a leite – expliquei, fazendo-lhe soltar uma gargalhada.
Às vezes achava que devia me achar uma palhaça porque tudo o que eu dizia era motivo para que ele risse.
, você é muito sistemática. Não é porque eu sou um cara atraente que eu vou trair a minha mulher, muito pelo contrário, eu não sou dessa laia.
— É o que todos dizem – respondi-lhe, erguendo a minha limonada e tomando pelo canudo, sendo bem apreciada pelos olhos dele.
— Você não pode me julgar assim, sabia? Não é porque você tem uma probabilidade estatística que todo mundo vai ser igual. Tem muitas outras coisas que envolvem uma pessoa e definem o seu caráter. Temos características naturais em que nascemos com elas, mas também tem o meio sociocultural que convivemos, os valores que aprendemos e o que a vida nos ensina pelo caminho. Não dá para definir alguém por apenas uma teoria.
— São fatos, . Você não é da área, jamais entenderia. Ninguém pode desmentir aquilo que a ciência comprovou. Os dados estão aí, é só pesquisar.
, aquilo que sentimos não dá para definir porque cada um pensa e age de uma forma. Não somos robozinhos que dá para saber a ação e reação exata de cada um. - retrucou-me, fazendo com que eu ficasse irritada com as suas discordâncias. Não seria tão mais fácil se ele apenas aceitasse?
— Acho que não chegaremos a lugar nenhum aqui. Se era para me contestar, por que pediu para que eu falasse? – resmunguei.
— Calma, – falou tocando meu braço, me desconcertando instantaneamente. — Eu não te perguntei para lhe provocar, eu só estava curioso, gosto de saber coisas novas. E minha intenção não é retrucar, porém… toda ciência nasce de um debate, não é? É o método da refutação, alguém comprova algo e logo depois vem outro pesquisador para trabalhar justamente para derrubar aquela ideia anterior. Se não fosse assim, estaríamos ainda na idade da pedra e nada novo surgiria – explanou calmamente enquanto passava seus dedos de leve pelo meu ombro.
Fiquei surpresa pela fala dele, não era um cabeça oca como tantos outros garanhões por aí. Ele era inteligente e parecia entender de coisas científicas muito mais do que os alunos que eu via por aí. Eu mesma só fui aprender a teoria da refutação no mestrado.
Ficamos um tempo em silêncio. Eu, digerindo as palavras dele, e , provavelmente, pensando em mais assuntos para puxar, já que não conseguia ficar com aquela boquinha linda fechada.
— E se ele tiver bafo e mau cheiro nas axilas? Você vai ficar com um cara só por que ele tem aqueles seus outros padrões? – perguntou, repentinamente, interrompendo meus pensamentos.
— Se ele tiver isso eu compro um kit com desodorante e pasta de dente. Fácil!
— E se ele babar muito enquanto te beija?
— Eu ensino para ele como se faz direito. - pisquei e abri um sorriso convencido.
— E se ele for estúpido?
! Chega! Não vai rolar, você não vai me convencer do contrário. Ninguém é perfeito, eu sei disso, mas têm coisas que são mais propensas a darem errado, como você, por exemplo. O resto à gente dá um jeito. Tenta conviver, aprende um com o outro, sei lá… Não dá para você soletrar cada defeito que alguém possa ter porque até você, que é o mister perfeição, deve ter falhas que eu não sei.
deu uma gargalhada ao me ouvir chamá-lo daquele jeito. Definitivamente eu precisava aprender a calar a minha boca ou eu inflaria tanto o ego dele que acabaria explodindo.
— Vamos fazer assim – começou a dizer, antes mesmo que eu tentasse consertar o que havia dito. — Se você não pode ficar comigo por causa desses zilhões de coisas que você disse, com quem eu deveria sair? Ou pessoas como eu deveriam ficar sozinhas para sempre? – perguntou abrindo um pequeno sorriso. Um sorriso tão lindo e com uma covinha fofa que eu precisei recitar o nome do Matheus dez vezes para não ficar enfeitiçada.
— Bom… deixe-me pensar. – coloquei a minha mão no queixo e varri meu olhar pelo salão. Avistei uma linda loira, alta, com um corpo escultural. Seu vestido mal tampava a bunda e ela dançava descendo até o chão, atraindo todos os olhares do pub. Ela virava e sorria para os homens ao redor, arrancando a atenção de cada um. Em um determinado momento, ela puxou um e deu-lhe um beijo cinematográfico, sem vergonha alguma de estar sendo assistida por todos.
— Aquela ali! – apontei para ela, fazendo com que desviasse seus olhos de mim e fitasse a bela moça.
— Por quê? – questionou-me
— A beleza dela equivale a sua, além disso, ela parece muito bem resolvida consigo mesma, as chances de ficar remoendo de ciúmes por você são baixas, talvez seja ao contrário, você sinta ciúmes dela.
retirou sua atenção da loira e olhou-me intensamente, sem ao menos piscar.
— Se eu quisesse escolher uma mulher bonita, , eu não precisava olhar para nenhum outro lugar do salão, tem uma lindíssima bem na minha frente. Para que perderia o meu tempo com outra? Além do mais, eu não sou um cara que olha só a aparência, é necessário conteúdo. Não que a outra não tenha, mas não a conheço.
Com certeza eu estava completamente vermelha. Ele não poderia fazer isso comigo. A voz grave de , junto com o fogo dos seus olhos, me fizeram arrepiar sem ao menos ele encostar em mim. Ele deu um passo em minha direção, ficando com seu corpo mais próximo do meu.
Eu sentia o calor que emanava dele e me odiava naquele momento porque tudo o que eu queria era que ele se aproximasse mais, apesar da luta interna que havia entre o meu corpo e mente.
— Nem me conhece também. – Pigarreei um pouco, tentando voltar à sanidade, mas não me deu muita chance, colou o seu corpo em mim, pressionando-me no balcão. Minhas pernas estavam moles e eu sentia o meu neocórtex cerebral aprovando-o como meu futuro parceiro, meus hormônios estavam em polvorosa e eu não conseguia lutar mais contra eles.
— Conheço o suficiente para saber o que eu quero. – inclinou-se em meu ouvido para sussurrar, depositando um pequeno beijo ali em seguida. Era tudo o que faltava para completar a cereja do bolo. Meu corpo estremeceu nas mãos de e foi o estopim para que ele virasse e tomasse os meus lábios.
Diferente do que havia acontecido com Matheus, eu sentia todas as emoções que um bom beijo deveria ter. Meu coração estava acelerado e meu corpo arrepiava-se a cada movimento que a língua dele fazia. Era quente e aconchegante, duas peças de lego que haviam se encaixado perfeitamente. Sua mão apossou-se do meu cabelo, dando leves puxadas e guiando o nosso ritmo, enquanto a outra segurava firme em minha cintura, como se temesse que eu pudesse escapar a qualquer momento.
Meus olhos estavam fechados, eu sabia que quando eu abrisse tudo viria à tona e eu me arrependeria amargamente, porém, naquele momento, eu não conseguia raciocinar, eu só precisava sentir os lábios carnudos de junto ao meu, em um malabarismo insano que trabalhávamos juntos, uma fome desesperada devido a uma tensão reprimida por mim.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas eu sabia que acabaria mal, muito mal. Eu sentia todas as sensações que eu explicava para meus alunos. A temperatura corporal do meu corpo havia subido e aquele beijo estava liberando os meus hormônios.
O ato de beijar é quase como uma avaliação biológica que o corpo faz do seu parceiro, é uma análise da adequação do casal. E Deus me ajude, pois, se essa era a prova que o meu ‘eu’ biológico precisava para avaliar , ele havia tirado nota dez com maestria.
A dopamina fazia a sua função causando-me a sensação de prazer e bem-estar e, junto a ela, a serotonina levantava toda a minha excitação. As reações corporais fisiológicas que a epinefrina estimulava estavam todas lá, o próprio conseguia sentir com o seu corpo colado ao meu e, por último, o mais perigoso, a ocitocina, responsável pelo afeto e confiança.
De uma forma inexplicável, durante os beijos que ele me dava, eu sentia como se as palavras que ele havia me falado mais cedo fossem verdades. Como se eu pudesse confiar nele, que ele não me feriria do jeito que minhas teorias me diziam. O meu interior dizia que ele era diferente.
Eu estava traindo a mim mesma e as minhas concepções.
Em um súbito, cortei o beijo e espalmei minhas mãos em seu peito, fazendo-o abrir os olhos lentamente. Nossas respirações estavam descompassadas, encarávamos um ao outro sem conseguir dizer nada. Creio que até estava surpreso com o que havia acontecido.
Merda!
Como eu pude cair naquilo que eu tanto pregava?
— Isso foi errado, não vai mais acontecer – afirmei para ele, com a voz um pouco trêmula e corri imediatamente em direção à mesa onde estava, deixando-o para trás.
Era só um beijo.

Um
Beijo.
Um beijo no .
Nada de mais.
As pessoas se beijam o tempo todo e convivem com isso, você não vai encanar – repeti para mim mesma.
Tudo iria ficar bem.
Não é porque eu havia sentido com tudo aquilo que com Matheus não rolou que eu estaria em apuros.
Claro que não. Essas coisas acontecem, não é?
Matheus ainda teria uma nova chance e eu ia sentir muito mais do que tive com o .
? Oh Deus, já estou criando apelidos para ele.
Balancei a cabeça tentando recuperar meus pensamentos ou iria enlouquecer. Quando cheguei à mesa, tinha um sorriso enorme de ponta a ponta da orelha. Ela não precisava dizer nada, pela sua cara eu já sabia que ela havia visto, o que deixava a situação pior e ainda por cima constrangedora.
— Eu preciso ir embora! – disse rapidamente, dando um aceno de leve para as garotas e pegando a minha bolsa para partir.
— Arrasou, gata! Depois quero saber de tudo. – fez um joinha escondido com a mão e eu apenas ignorei, atordoada demais com o que havia acabado de acontecer.
Saí correndo do pub, ouvindo ao fundo uma voz que eu sabia muito bem quem era me chamar.
Eu precisava ir para casa, necessitava de ar…
Entrei no carro e suspirei. Era para ser uma noite melhor e eu consegui virar minha vida de cabeça para baixo em questões de minutos. E agora… eu não sabia o que fazer.





Capítulo 6


No final de semana eu estava enfurnada dentro de casa, sem conseguir sair da cama. Os acontecimentos do pub giravam em minha cabeça e eu não sabia o que fazer. Cada vez que eu fechava os meus olhos, sentia os lábios quentes do nos meus, o que acabou me acarretando uma baita insônia, pois dormir já não era uma opção saudável para mim. O pior de tudo era que, por mais que a minha mente mandasse eu me afastar dele, meu corpo parecia latejar pelo seu toque novamente.
Meu sábado e domingo foram regados a netflix e chocolate. Saía do quarto só para ir ao banheiro e comer algo mais saudável, evitando ao máximo . Sabia que no momento que ela me visse, ela saberia que havia algo errado. E eu estava certa. No domingo à noite, quando eu voltava escondida para o meu quarto, minha amiga estava lá, sentada na minha cama, bem à minha espera.
— O que aconteceu sexta-feira? – minha amiga perguntou com uma leve carranca no rosto e eu sabia que ela me faria falar tudo que eu estava escondendo.
— Por que essa pergunta? – Dei de ombros.
— Não me faça de boba, . Você passou o final de semana inteiro enfurnado nesse quarto a troco de carboidratos. Nunca te vi assim. Só faltou o pote de sorvete, mas isso sou eu que faço quando com coração partido – ponderou, apontando para a bagunça espalhada, depois levantou da cama e cruzou os braços em minha direção. — E aí, vai me dizer ou não?
Encarei-a mordiscando meu lábio inferior, enquanto pensava em alguma alternativa. Durante esse processo não vacilava, seus olhos fuzilavam-me e eu sabia que ela não me deixaria em paz tão cedo. Sendo assim, suspirei fundo e concluí que quanto antes abrisse a boca, mais rápido eu daria um fim a esse momento constrangedor. Sentei-me na cama e resolvi começar a falar.
— As coisas fugiram do meu controle…
— Como assim? – ergueu uma sobrancelha, esperando uma explicação mais esclarecedora. — O que de tão grave aconteceu?
— Um beijo – confessei.
— Mas, calma lá, isso devia ser bom, não? – indagou-me, sentando-se novamente na cama, agora ficando ao meu lado, aparentando estar mais calma. — Você saiu daqui disposta a conseguir algo a mais com o Matheus, não era para estar feliz?
— Aí que está o problema, . – Suspirei. — O beijo que me causou isso não foi o dele – confessei, desviando o meu olhar, envergonhada.
— Não brinca! – minha amiga exclamou, chocada. Seu queixo estava visivelmente caído e eu tinha certeza que por essa ela não esperava. — Espera… Como de um encontro com o Matheus você acabou beijando outro?
— Isso é justamente o que eu mesma queria entender… - resmunguei, jogando o meu corpo sobre a cama e colocando meu braço por sobre os meus olhos, tampando-os.
— Qual o nome dele? Me explica, disse com aquele tom meigo dela, passando a mão pelos meus cabelos para que eu tivesse coragem de desabafar.
Fui contando tudo para ela, desde meu primeiro encontro com , a noite fracassada com Matheus e o inusitado beijo no pub que me deixou atordoada. não dizia nada, muito menos me interrompia. Deixou-me desabafar tudo enquanto analisava cada uma das minhas palavras. Era a primeira vez que fazíamos os papéis inversos, confesso que era estranho, não queria estar naquela situação, porém, pelo menos eu dava graças a Darwin que eu estava ali, não para chorar pitangas por um amor não correspondido, era só medo por ter me deixado levar pelos hormônios do meu corpo.
— Desculpe – minha amiga sussurrou para mim com pena e eu a olhei intrigada.
Pelo que ela pedia perdão? Eu é que deveria ter feito isso desde quando cheguei naquela noite, mas como fugia dela, acabei não pedindo desculpas pela grosseria de sexta.
— Por que está dizendo isso?
— É culpa minha – falou abaixando a cabeça, ressentida. — Foi eu que desejei isso para você e agora está acontecendo, você estava certa, eu sou uma péssima amiga, te desejei o mal e agora olha aí… está sofrendo. Me desculpa, foi dizendo tudo atropeladamente e notei que no cantinho dos seus olhos havia pequenas gotículas de água acumuladas.
Eu não merecia uma amiga tão meiga, afetuosa e inocente como ela.
— Para com isso, . Não foi culpa sua. Eu que exagerei aquele dia. Estava com raiva de mim mesma por estar sendo afetada por e acabei descontando em você. Mas fica tranquila. Eu não estou apaixonada e nem nada parecido, ele só me atrai mais do que os outros, por isso o meu medo. Não temo pelo agora, eu fiquei enclausurada pensativa porque me preocupo com o futuro, em não conseguir ter controle sobre o meu próprio corpo. Eu sei que nesse exato momento ele está sendo completamente tendencioso a me deixar levar pelo estereótipo viril do e é isso que me tira o sono. Não tem nada a ver com você, ok?
Ela apenas assentiu com a cabeça, recuperando-se do momento sensível e culposo que ela sentiu. Olhou para mim e emitiu um pequeno sorriso e ali eu vi que estava tudo bem.
… não quero que você fique chateada, mas por que você só não curte? Às vezes a gente coloca muita expectativa em algo e acaba se frustrando. Já ouviu dizer que quanto mais alto se vai, maior a queda? Então… Eu me preocupo que você passe a vida toda colocando esse fardo nos seus ombros e no final da corrida, ainda não consiga vencer. – tocou a minha mão enquanto tentava argumentar.
— Mas eu vou quebrar a cara, eu não quero passar por isso. - choraminguei deitando a cabeça no seu colo e abraçando uma almofada que estava em cima da cama.
— Quebrar a cara faz parte da vida, . Eu mesma sou a experiência em pessoa, você sabe disso. Mas eu estou viva, não estou? As dores nos tornam melhores, desde que aprendamos com os erros. Você é uma mulher forte e inteligente, se não der certo, bola para frente e parte para outro. Não precisa sofrer o resto da vida por isso.
, é muito difícil quando a gente cria algo em nossa cabeça. Mudar não é fácil. Desde que eu comecei estudar ciências na escola e entender sobre o amor que eu criei minhas concepções, depois disso fui aprimorando-as na faculdade e não parei mais. Imagina uma pessoa que passou a vida toda com um só tipo de pensamento? Ninguém consegue mudar da noite para o dia. É muito difícil para mim.
— Não é fácil, mas é necessário.
— Eu sei… Sabe o que eu penso? Em tantas pessoas preconceituosas que existem por aí, muitas delas são assim porque tiveram uma criação que lhes ensinou que fazer A ou B é errado. Mesmo que o mundo a sua volta diga o contrário, elas viveram a vida toda encucada com isso. Não que justifique, jamais, porém, mudar a visão e o próprio pensamento é um choque. É como quebrar a si mesmo e se reconstruir. Não são todos que conseguem. É exatamente o que acontece comigo. Eu tenho tanta convicção que não consigo mudar. Eu temo que eu seja uma dessas pessoas… - Falei com lágrimas nos olhos.
— Você não é assim, . Só de você reconhecer e dizer isso já mostra que é diferente. Pessoas desse tipo nem reconhecem que podem estar erradas. E sabe de uma coisa? Você está certa… Ninguém muda de uma hora para outra e eu não vou te forçar a isso. São suas crenças, eu também preciso respeitá-las, só não faça delas o seu altar, ok?
Eu apenas meneei a cabeça, sem saber o que pensar. Eu ainda achava que minhas teorias estavam certas, eu não queria mudar, só queria conseguir aplicá-las na vida real sem ter que passar por essa confusão toda.
— Então estamos combinadas. Tira essas coisas da sua cabeça. Aconteceu? Sim. Agora bola pra frente. Foi um beijo. Se quiser mais? Beija de novo. Se não quiser, se achar que não deve ou não está pronta ainda, não beije. Não precisa fazer uma tempestade em torno disso, estamos entendidas?
— Sim, – murmurei. — Não vou beijar – afirmei, fazendo-a revirar os olhos.
— Ok. Então não beije. Só não se enfurne mais no quarto comendo carboidratos. Esse papel é meu. – Riu e pegou o controle da TV, colocando um filme para assistirmos.

Agora, em plena segunda feira, eu me preparava psicologicamente para voltar ao trabalho. Não tinha capacidade nenhuma para encontrar com , por isso, durante a semana inteira evitei-o. Entrava mais cedo no serviço e saía mais tarde. Fiz questão de levar marmita todos os dias só para não precisar sair do meu casulo. Podem me achar imatura. Não me importo. Eu não queria vê-lo. Eu não desejava ter aquelas sensações esquisitas todas de novo.
Em casa, vivia me dizendo que eu precisava me importar menos e apenas viver, entretanto, isso era justamente o contrário do que eu sempre preguei.
Razão antes da emoção. Cérebro antes do coração. Esse é meu lema.
A me aporrinhou todos os dias. Ficou me pedindo para contar a ela os detalhes “sórdidos”, mas meu adorável humor não permitiu isso. Eu queria mais era esquecer o que havia acontecido. Página virada e ponto final.
Céus… eu não poderia fugir dele para sempre. A última semana do estágio do seria aqui no meu laboratório. Eu teria que encará-lo de qualquer forma, todavia, eu esperava que até lá eu já tivesse superado tudo isso.
Nesse meio tempo, Matheus me mandou algumas mensagens, mas não tive nem condições de responder, não depois daquele fiasco. Eu precisava de um tempo dele também para reorganizar as minhas ideias e ver se valia a pena uma nova tentativa ou esperaria outra pessoa que atendesse ao que eu queria.
Posso concluir que foi uma semana emocionalmente cansativa. Minha cabeça trabalhava tanto que eu mal consegui me concentrar direito.
Segunda a segunda, um tempo maçante. Porém, uma semana depois do ocorrido, eu achava que estava pronta para enfrentar o que viesse. E foi nessa fé que hoje segui a minha rotina normal. Eu já estava com olheiras de tanto ter que acordar cedo. Não sacrificaria mais o meu sono da beleza por causa de bobagens. Eu deveria agir como adulta! Sendo assim fui de cabeça erguida almoçar no RU, bem tranquilamente. Nada que uma semana de desintoxicação de não resolvesse a minha vida. Estava em paz e serena.
Peguei minha bandeja e fui para fila. Hoje era feijoada. Já até imaginava o baita sono que ia sentir depois do almoço. Peguei um pouco de alface também para equilibrar. Ninguém ia poder dizer que eu não estava sendo saudável.
Hoje, por incrível que pareça, não estava tão cheio. Provavelmente era semana de prova, aí os alunos preferiam comer um lanchinho rápido na tia da cantina e aproveitar o tempo livre para revisar as matérias.
Comecei a comer e logo senti uma respiração quente no meu pescoço que me fez quase morrer engasgada. A sorte era que eu havia pegado um copo de suco e usei para me desentalar.
— Ficou louco, ? – indaguei assim que vi a figura que estava ao meu lado.
O infeliz apenas riu, rodeou a mesa e colocou sua bandeja de comida de frente para a minha. — Veja quem apareceu? A Cinderela. - apontou para mim.
— Cinderela? – interroguei-o, um pouco ainda abalada com o susto e com a sua presença.
— Sim. Ganhou um beijo do príncipe e saiu correndo à meia-noite. Só faltou perder o sapatinho de cristal. Neste ponto a história de vocês duas se diferem porque quem perdeu algo fui eu.
— Perdeu? O quê? – arqueei a sobrancelha, sem entender.
— A minha sanidade. - piscou e sua boca se curvou em um sorriso malicioso.
Tenho plena certeza que empalideci e devo ter corado. Eu entendi muito bem o que ele estava se referindo. Respirei fundo e tentei me controlar. Não podia mostrar a ele que eu estava abalada.
Rolei os olhos em sua direção e abaixei a cabeça, voltando a comer, com o intuito de ignorá-lo. Creio que ele percebeu o meu objetivo, pois soltou o ar, um pouco chateado, e começou a comer também, porém, de cinco em cinco minutos eu percebia que ele me espiava. Alguns momentos a encarada era maior, acho que ele estava provocando para tentar me fazer dizer alguma coisa.
— Posso saber por que fugiu de mim aquele dia? – resolveu quebrar o silêncio.
Dei uma leve olhada para ele e voltei a atenção para a minha feijoada, que por sinal, era muito mais interessante do que ter que responder para algo que ele nem entenderia.
Vi sua carranca piorar quando algumas alunas minhas me cumprimentaram e eu conversei com elas naturalmente, bem diferente do que havia feito com ele. colocou um cotovelo sobre a mesa e apoiou o queixo em sua mão, olhando para mim com o cenho franzido. Eu resolvi provocar mais um pouco, só para irritá-lo mais. Dei um sorrisinho debochado em sua direção e voltei a almoçar em seguida. Porém, ele continuou assim por muitos e muitos minutos, me deixando completamente sem graça. Que saco, não ia poder nem almoçar em paz mais.
— Dá para parar de olhar para mim? Me encarar não vai mudar nada do que aconteceu. Eu não quero, esquece o que passou – falei exaltada despejando tudo o que pensava depois que cansei desse jogo de estátua do .
… - tentou me chamar, mas eu não queria ouvir. Estava com raiva e não queria conversar sobre beijo nenhum.
, não! Chega, encerrou o assunto – falei, porém não adiantou, ele continuou a insistir, me chamando outras vezes.

— Que saco, ! – retruquei, injuriada.
– falou mais forte, erguendo a mão para pedir que eu o deixasse dizer seja lá o que fosse.
— Fala… desembucha, já que é o que você tanto quer. Me diga o que você tanto vê em mim que não consegue me dar paz nem para almoçar, mas sim me importunar e ficar me encarando.
— Um feijão.
— Como?
— Tem um feijão no seu dente. Era isso o que eu queria dizer… - falou apontando o dente que estava sujo.
Aquilo não dava pra ser verdade. Ele só podia estar brincando com minha cara. Por um segundo achei que ele pudesse estar zoando comigo, mas a sua expressão séria me fez perceber que não era esse o caso. Puxei meu celular e coloquei na câmera frontal, confirmando a terrível suspeita, um pedaço enorme de casca de feijão cobria o meu dente. Que vergonha.
Eu não sabia onde enfiar a cabeça. Que merda! Agora que eu não ia olhar na cara dele nunca mais. Virei para ele com uma mistura de timidez e fúria, porém, para o bem dele, segurava o riso e não faria gracejos.
Larguei tudo lá do jeito que estava, me levantei e saí. Não tinha mais cara para continuar almoçando com o . Simplesmente não dava. Já estava difícil antes, depois desse mico, piorou.
… - ouvi a voz dele atrás de mim e comecei andar mais rápido, saindo do refeitório. — Dá para parar?
— Não, não dá – respondi alto, sem nem olhar para trás.
— Ah, mas você vai parar sim, quero nem saber. Deixa de bobeira – refutou, segurando o meu braço e me impedindo de continuar.
— Me solta ou eu vou gritar para todo mundo ouvir que você está me assediando!
— Se eu chegasse a 1% disso você gritaria, mas por outros motivos. Agora venha, olhe para mim. - virou-me, segurando os meus ombros e me fez encará-lo.
Não sabia nem o que responder, apenas fiquei olhando pra ele, esperando o que viria a seguir.
— Eu sei o porquê está fugindo de mim e não tem motivo para isso – afirmou.
– falei, tentando manter a calma –, eu já te expliquei mais de uma vez. Eu não posso e nem devo me envolver com você – explanei para ele.
— Você fala como se eu estivesse te pedindo em casamento. Foi um beijo, . Que mal há? Por causa disso não podemos nem conversar mais?
— Poderíamos sim se o seu intuito não fosse algo a mais do que isso.
olhou para o alto e colocou as mãos no bolso. Não sei se estava perdendo a paciência comigo ou só queria pensar.
— Olha – voltou a me fitar –, eu sei que você é diferente e eu não estou aqui para te “tirar dos seus princípios” - falou fazendo aspas com os dedos. — O beijo mexeu comigo? Sim, eu não vou negar. Mas se você não quer tudo bem, bola pra frente. Porém você é legal, . Isto é, quando não está pagando de doida por aí, mas até isso muitas das vezes me diverte. Não tem motivo de a gente perder a amizade por causa disso.
— Que amizade, ? Eu te conheci há poucos dias. Deu nem tempo pra isso.
— Justamente. Mas sempre é momento para começarmos a fazer novos amigos. Para mim o pouco tempo que a gente teve já foi o suficiente para você estar entre eles. Vai me negar isso também? – perguntou fazendo uma cara de cachorro sem dono.
Digam-me como eu ia dizer não para aquele homem alto, musculoso, com seus olhos me fitando e com boca linda fazendo beicinho ainda?
— Ok, . Você venceu. Amigos então. – Estendi a mão para ele, me rendendo.
— Obrigado, . Tenho certeza que seremos grandes amigos. – Ele piscou e passou o braço sobre os meus ombros, como se fosse um gesto super comum entre a gente e eu comecei a pensar se aceitar esse acordo foi a pior ideia que eu havia feito.




Capítulo 7


Duas semanas haviam se passado desde que e eu nos tornamos amigos. Eu estava relutante com isso, mas contrariá-lo era algo difícil já que ele aproveitava todas as oportunidades para estar nos mesmos lugares que eu.
Porém, ao contrário do que eu imaginava, ele não deu mais em cima de mim após aquele dia. Vez ou outra fazia alguma gracinha, porém com a convivência percebi que era o jeito dele. De uma forma bem louca, não fiquei tão feliz por isso, todavia, ao mesmo tempo, estava aliviada por conseguirmos lidar com o pós-beijo de forma madura, sem tocar mais no assunto.
Aos poucos eu fui descobrindo que o não era só um poço de beleza externo. Surpreendentemente, ele era extremamente inteligente e atencioso. Não tinha aquelas conversas chatas que os homens do tipo dele tinham, como, por exemplo, só falar de futebol e academia. Pelo contrário, ele queria saber das minhas pesquisas, deu pitaco e tudo. Falou que estava ansioso para chegar ao estágio no meu laboratório para poder me ajudar com ela.
Confesso que fiquei empolgada e devo ter monopolizado toda a conversa. Eu era apaixonada pelo que fazia e, apesar do que o Matheus havia falado, eu tinha muita expectativa que desse certo.
Eu havia acabado de chegar de mais um almoço com ele, até parecia que o restaurante universitário era o nosso ponto de encontro. Abri a porta, entrando no laboratório e fui guardando minha bolsa no armário, deparando-me com uma que me olhava com uma cara esquisita.
— O que foi? – perguntei, tentando decifrá-la.
— Foi almoçar com o bonitão? De novo? – indagou-me sem me responder, deixando escapar um sorriso no canto da boca.
— Por que a pergunta? – Pelo visto nenhuma responderia os questionamentos da outra. Cruzei os braços para ela e a fitei, arqueando uma sobrancelha.
— Nada. – Deu de ombros e continuou a fazer um procedimento que estava fazendo antes de eu chegar.
— Como assim nada? – interrompi-a. — Pode me dizer!
— Você promete não me bater? – perguntou divertida.
— É tão ruim assim?
— Depende do ponto de vista, a meu ver é ótimo.
— Então pode desembuchar – exigi. — Por que estava me olhando com aquela cara e me perguntou se estava almoçando com o ?
riu, achando graça das minhas perguntas, passou as mãos pelos seus cabelos escuros e olhou para mim. Como se tivesse medo da minha reação, ela deu dois passos para trás para se manter em segurança e finalmente dizer o que estava me escondendo.
— Você chegou com um sorriso bobo nos lábios.
— O QUÊ? – perguntei exaltada. — Claro que não! Cheguei super normal!
— É porque você não viu a sua cara quando passou por aquela porta. Foi a mesma expressão que você vem tendo desde que resolveu ser amiguinha do estagiário maravilha.
— Você está enganada, . Eu só estou feliz esses dias porque nossos experimentos estão caminhando bem. Até o final do mês teremos ótimo resultados – tratei de me explicar.
Ora essa, até parece que arrancaria sorrisos bobos de mim.
— Ok, . Talvez eu esteja enganada, não é? – assentiu, porém eu não senti firmeza em suas palavras. Eu sentia que ela não acreditava nem um pingo em mim. Mas não tinha problema, eu mostraria para ela que não era nada daquilo.
O que estava surgindo entre e eu era uma bela amizade. Por incrível que pareça eu comecei a gostar de conversar com ele. Tínhamos mais coisas em comum do que eu imaginava. As pessoas têm milhões de amigos, por que eu não poderia ser amiga dele?
Não tocamos mais neste assunto durante a tarde inteira. Continuamos trabalhando até recebermos o comunicado que todos os pesquisadores deveriam comparecer no auditório às quinze horas para uma reunião. O Sr. Manuel Freitas não costumava marcar esse tipo de coisa, ainda mais em cima da hora, por isso comecei ficar temerosa, antes mesmo de chegar ao local.
Quando entramos, o lugar ainda estava um pouco vazio. e eu sentamos em uma fileira não muito ao fundo, esperando dar a hora de começar. Minhas pernas se movimentavam sem parar, era nítido o meu nervosismo. Meu dedo já estava na boca tendo os cantinhos todos roídos à medida que a minha ansiedade aumentava.
De repente, dei um pulo ao sentir uma mão quente segurar o meu joelho e virei-me encontrando , que ria da minha reação.
— Se você continuar balançando essas pernas freneticamente eu juro que vou ter que amarrá-las – brincou.
Uma cena de amarrando as minhas pernas começou a surgir na minha mente e quando olhei para ele, que me encarava com aquele sorriso espetacular, senti minhas bochechas corarem pelos pensamentos impróprios, o que me fez querer me degolar por isso.
— Síndrome das pernas inquietas, é mania – expliquei, tentando desviar minha mente maliciosa.
— Algum motivo especial ou é sempre assim?
— É comum, no entanto hoje eu estou pior por causa da reunião.
— Você imagina o motivo disso tudo? – perguntou, referindo-se a estarmos todos ali no auditório em uma reunião urgente.
— Ainda não, mas temo que boa coisa não seja.
Logo após respondê-lo, o Sr. Freiras subia no palco e pegava um microfone, testando-o duas vezes dando leve batidinhas. O auditório, que a este momento já estava cheio, calou-se, ao notar a presença do chefe lá em cima.
— Boa tarde a todos. Muito obrigado por terem vindo a essa reunião em cima da hora. Nesta manhã eu recebi uma notícia nada agradável e que precisa ser compartilhada para vocês. Sabemos que somos uma instituição federal, por isso, somos completamente dependentes das verbas que o governo nos dá, somado ao que cada pesquisador consegue por fora, como bolsas de outras organizações de apoio. Todavia, agora temos um problema. Com essa mudança de governo e toda a bagunça política acontecendo, as verbas diminuíram drasticamente e não podemos fomentar a pesquisa de todos.
Um grande murmúrio começou a ecoar por todos pelo local. Eu sabia que ia vir merda, estava sentindo. As coisas já eram difíceis antes, imagina agora. Como eu conseguiria tocar a minha pesquisa sem dinheiro para comprar o material?
— Silêncio, por favor! – Sr. Freitas pediu antes de continuar a falar. — Não é questão para desespero. Porém, ao mesmo tempo, é preocupante. Vocês terão que economizar porque não sabemos se poderemos bancar a gama de pesquisas que a nossa universidade toca. Precisaremos fazer seleção e, infelizmente, as mais lentas e que estão demorando mostrar os resultados serão as primeiras a serem cortadas.
Meu estômago gelou. Fiquei com medo de ser tirada do programa. Eu precisava muito dessa verba e era muito injusto se me privassem disso. Eu fazia tudo corretamente enquanto muitos dos pesquisadores forjavam os seus resultados.
Uma mão quente segurou a minha e olhei para o lado, vendo um sorriso confortante do . Antes que eu tratasse de arrancar a mão dele dali, ele tratou de se explicar.
— Você está tremendo. Dá para ver o seu nervosismo daqui – ele inclinou-se para sussurrar e foi possível sentir o hálito quente bater no meu rosto.
— Estou com medo – confessei.
— Vai dar tudo certo, – confortou-me, ainda com seu rosto próximo ao meu.
Virei-me para respondê-lo e acabamos ficando próximos, próximos demais para a minha sanidade.
A respiração dele batia em meu nariz e por um milésimo de centímetro os nossos rostos se tocariam. Fitei os olhos que me encaravam e fiquei aprisionada naquele rio de azul profundo que parecia não querer desviar. E o problema maior era… eu também não queria.
A mão dele se ergueu lentamente até tocar a minha bochecha e quando o seu polegar encostou-se à minha pele, meus olhos se fecharam instantaneamente. Era como se meu corpo tivesse algum tipo de programação própria diante dele que eu não conseguia controlar. Não havia nada de mais acontecendo, mas os meus poros já estavam todos arrepiados.
Eu não sabia qual seria o próximo passo, porém um pigarro forte atrás de nós foi ouvido, fazendo com que a gente se afastasse com brusquidão e meu coração batesse aceleradamente.
— Desculpe interromper, mas os pombinhos poderiam deixar o clima para depois, antes que chamem mais atenção ao redor? – Era que havia nos atrapalhado apontando para as pessoas que estavam sentadas perto da gente.
Voltei a me recostar na minha carteira pegando fogo de vergonha e vi me dar uma leve fitada pelo canto dos olhos e segurar um pequeno sorriso em sua face.
Resolvi voltar a prestar atenção no que o Sr. Manuel Freitas dizia, antes que me desconcentrasse de novo.
— …portanto, não quero desespero, contudo preciso que sejam sensatos nos procedimentos de cada um. Procurem grupos de fomento por fora, vão atrás de editais de bolsas de outros órgãos… Não quero perder nenhuma pesquisa, todavia, se necessário for, já estão avisados. Obrigado. Agora estão dispensados – nosso coordenador terminou de dizer e as pessoas foram se levantando para irem embora, todas com uma expressão preocupada no rosto.
Levantei-me, sendo acompanhada por e , e fomos caminhando de volta ao laboratório. Estávamos em silêncio, ponderando tudo o que havíamos ouvido.
— Você acha que vão nos cortar? – resolveu ser a primeira a quebrar a mudez de todos nós.
— É provável. Não temos garantia para nos manter porque ainda não temos resultados - expliquei e ouvi dar uma risada sarcástica sozinho em seus próprios pensamentos. — O que foi? – perguntei a ele.
— Estou pensando na ironia que isto é. Nessas duas semanas que já estou por aqui pude perceber como os pesquisadores conseguem “se dar bem”. Como podem manter uma pesquisa que usa produtos vencidos e com resultados adulterados só para se manterem ou ter um status? – falava, injuriado.
— Seja bem-vindo ao meu mundo. – Dei de ombros, encarando a triste realidade.
Não eram todos assim, mas infelizmente havia esse tipo de gente.
— A é bem chata com essas coisas. Não é a toa que a nossa pesquisa é mais demorada. Ela sempre espera chegar os produtos certos, compra de empresas que trabalhem com qualidade, se há erro no processo ela volta e faz tudo de novo. É difícil alguém que é tão correta como ela, não é a toa que eu me inscrevi para cá em vez de outros programas de iniciação científica – falou orgulhosa e eu sentia o mesmo por ela, por ter uma estagiária tão dedicada e íntegra, assim como eu.
— É bom saber disso, . Vou comprovar tudo durante a minha última semana de estágio. Vai ser muito bom. – piscou para mim e eu rolei os olhos em resposta. — O que você estuda? – indagou , curioso.
— Psicologia – falou toda cheia de si, ela amava o que cursava. — Adoro entender a mente humana. Por que você acha que eu e a nos damos tão bem? É uma troca de experiências, ela me ensina toda a parte fisiológica, enquanto eu tento decifrar a mente louca dela. Somos como a tampa e a panela, duas partes que se encaixam perfeitamente – riu fazendo hora com a minha cara e foi acompanhada de , que não perdeu tempo para me alfinetar.
— Quando conseguir essa proeza me ensine, por favor. Adoraria entender essa cabecinha. - tocou a minha testa com o indicador e segurei-me para não ceder e rir.
— Com prazer – prometeu. Eu estava bem ferrada com a união desses dois.
Depois de um tempo, informou que estava indo para a sala 7, ela tinha aula agora, então ficamos apenas e eu caminhando.
— Seu laboratório é para o outro lado – comentei, notando que ele já estava longe do local que estava estagiando.
— Estou te acompanhando. - deu de ombros e eu preferi não contestar.
Ficamos por um tempo em silêncio, eu estava perdida e aflita com as palavras do Sr. Freitas ainda.
— O que acha de sairmos hoje? – interrompeu meu momento melancólico.
… a gente já conversou sobre isso.
, amigos também saem juntos – tentou me convencer.
— Eu sei, mas a gente é diferente.
— Por que diferente? Você disse que não havia e nem nunca haveria nada entre nós, combinamos de sermos amigos e estamos nos dando bem assim por duas semanas já. Do que tem medo, ?
Parei pensando no que ele estava dizendo. Ele tinha razão. Era isso que eu havia aceitado, não foi? Uma amizade. Amigos saem um com o outro e eu não queria mostrar para que sair com ele poderia me afetar. Se eu negasse era isso que ele acharia, que ele mexia comigo de alguma forma. Ele não precisava saber que isso era verdade.
— Tudo bem – me rendi.
— Ótimo – abriu um sorriso tão grande e tão lindo, com covinhas tão maravilhosas que quando fui ver, estava rindo para ele também. — Você precisa de descanso e espairecer a cabeça depois de hoje. Depois que sair do serviço, lá pelas sete horas da noite, eu te busco – falou eufórico e me deu um beijo na bochecha, saindo correndo em seguida.
Não tive tempo nem de contestar ou ao menos passar o meu endereço. Como ele ia me buscar assim?
Rolei os olhos e cheguei à porta do meu laboratório. Um braço passou pela minha frente no momento que eu enfiava a chave na fechadura. Olhei para o lado e vi que era Matheus que estava ali ao meu lado. Desde que a gente saiu que eu não havia o visto. Um frio percorreu o meu estômago. Não sei se era emoção por vê-lo ou justamente pelo contrário.
— Oi, . Não consegui ver você lá dentro do auditório. Queria conversar com você. A gente não se vê desde aquele dia... - disse em tom de lamento.
Recordei-me que havia evitado Matheus. O que ele havia me dito ainda estava indigesto no meu estômago, porém, eu precisava deixar isso para trás se quisesse colocar minha vida amorosa nos trilhos.
— Desculpe. Os dias foram um pouco loucos… - tentei me explicar.
— Por duas semanas? – ele ergueu uma sobrancelha para mim, indagando-me e eu sabia que ele não acreditaria na minha desculpa esfarrapada.
Fiquei muda sem saber o que dizer e Matheus soltou a respiração um pouco frustrado. Deu um passo em minha direção, ficando bem próximo a mim e eu não senti nada que me levasse a querer me aproximar dele da mesma forma.
, eu te pedi desculpas pelo que falei aquele dia, achei que havíamos nos entendido.
— E eu te perdoei. Não é culpa sua Matheus, sou eu o problema – tentei dizer a verdade. Ele tinha uma parcela sim, porém, se não fossem meus hormônios loucos e inusitados, eu poderia já ter o perdoado e tentado com ele novamente.
— Ai. - ele colocou a mão no coração e fez uma cara de dor. — Nunca achei que receberia a desculpa esdrúxula que todos os homens dizem para as mulheres. “Não é você, sou eu” - falou a última frase imitando uma voz grave e abrindo um sorriso depois.
— Não, não é isso. - espalmei minha mão, impedindo-o de ter esse pensamento. – Eu adoraria sair com você de novo, Matheus. Eu só precisava de um tempo para mim – respondi e ele deu um sorriso tímido.
— Então que tal hoje? – perguntou-me.
— Hoje?
— Sim. Eu e você, em um lugar especial. – deu duas arqueadas na sobrancelha em incentivo.
— Ann…- Droga, hoje eu já havia marcado com , o que eu iria fazer?
O meu cérebro falava o óbvio, não havia contestação. era alguém que atrapalharia meus planos, enquanto Matheus era o meu futuro. Claro que eu deveria desmarcar com o . Mas por que eu não sentia que era a coisa certa a ser feita?
Eu estava animada para o cinema de hoje, eu queria ir.
Coração de merda idiota.
Eu estava novamente deixando os meus hormônios me levarem por um caminho perigoso. Precisava colocar minha vida no trilho certo novamente, por isso, abri um sorriso, pronta para responder Matheus.
— Eu adoraria… – comecei a responder. — Mas hoje não vai dar. No entanto, podemos marcar para semana que vem, que tal?
Nem eu estava acreditando no que havia dito. Quando comecei a responder, o restante da frase saiu sem que eu ao menos percebesse. Eu estava mesmo dispensando o Matheus por causa do .
O sorriso dele morreu em seu rosto e eu vi que havia ficado sem graça. Droga, onde eu estava com a cabeça?
— Tudo bem, . Eu te ligo combinando, ok? Não vou deixar você fugir de mim – disse um pouco entristecido, contudo tentou manter uma voz suave, inclinando-se para me dar um beijo na bochecha e se despedir.
— Não vou fugir, Matheus – tentei soar firme.
— Assim espero. Tchau, . - acenou para mim, afastando-se.
Eu respondi o seu gesto com um aperto no coração, porém, ao mesmo tempo, sentia um grande alívio. Passei a mão no meu rosto, destranquei a porta do laboratório e entrei de uma só vez, tentando fugir de tudo aquilo.
Agora, eu só esperava mesmo que o fizesse valer a pena o encontro que eu havia acabado de dispensar.





Capítulo 8


Eu não estou nervosa.
Eu. Não. Estou. Nervosa.
Eu
Não
Estou
Nervosa.
Por que estaria? Afinal, era uma saída entre amigos.
e eu saindo.
e eu saindo sozinhos.
e eu saindo sozinhos no escurinho do cinema.
Sim, definitivamente eu estava nervosa!
Não dava para negar. Eu estava arrumada desde as dezoito horas, andando para lá e para cá sem parar. Minha pele já estava ficando úmida com a tensão e eu precisei ligar o ar-condicionado em 15º Celsius para dar conta do aguaceiro ambulante que começava a sair dos meus poros.
— Eu estou ficando tonta – resmungou, segurando-me pelos ombros e me fazendo parar de rodar que nem barata tonta pelo quarto.
— Eu acho que vou vomitar – gemi, sentando-me na cama e tapando o meu rosto com as mãos.
— Ei, ei, ei! Pode parar! Cadê aquela mulher segura de si que estava linda e poderosa, pronta para seduzir qualquer homem naquele encontro com o Matheus?
— Ela desapareceu no momento que aceitou sair com o – choraminguei e comecei a balançar a perna freneticamente, deixando evidente a minha síndrome das pernas inquietas.
— Não mesmo! Ela está aí dentro de você. Além disso, não tem motivo para ficar assim. Você não disse que era só um encontro entre amigos? A senhorita ficou repetindo isso umas mil vezes até eu me cansar de ouvir.
— Eu sei, eu sei... - concordei, tentando embutir isso na minha cabeça também. — Mas o é diferente, eu nunca sei como me portar com ele, é como se a minha mente e o meu corpo não trabalhassem em alinhamento. Foi diferente com o Matheus. Com ele eu sabia o que queria e o ponto que almejava chegar, diferente do . Eu não quero nada com o , mas é como se, ao mesmo tempo, algo desenfreado surgisse em mim toda as vezes que estamos perto um do outro – desabafei com a minha amiga.
— Isso se chama atração, bobinha. Você gosta dele, é normal se sentir dessa forma. Admira-me a Doutora do Amor não conseguir compreender os próprios sentimentos – gracejou do meu desespero e me deu dois tapinhas na perna, fazendo hora com a minha desgraça.
— Eu não gosto dele, . Não desse jeito que você parece insinuar – defendi-me e ela arqueou a sobrancelha, como se eu estivesse falando uma grande mentira. — Ok. Eu confesso que eu tenho uma atração inegável por ele, mas, gostar mesmo não, eu gosto da pessoa que ele é... Como um bom amigo. Nada mais - tratei de me explicar.
— Tá bom, . Talvez você não goste dele mesmo. Talvez seja só um pouquinho porque vocês não se conhecem há muito tempo – falou fazendo um sinal de pequeno com o indicador e o polegar. — De qualquer forma, eu estou muito feliz que esteja saindo do seu casulo e se permitindo a isso. - sorriu orgulhosa.
Antes que eu contestasse qualquer coisa, a campainha tocou e levantou-se em um pulo, correndo para atender. Segui-a só até um pedaço do caminho, logo parando no corredor e bisbilhotando, enquanto ela ia fazer a recepção. Ao abrir a porta, ela me pareceu estupefata diante da visão do homem lindo que se encontrava escorado no batente. Eu nunca me cansaria de olhar para o , ele era uma imagem maravilhosa. E, pelo visto, a minha amiga havia acabado de atestar isso também.
Pigarreei para tirá-la do seu transe, antes que ela começasse a babar por cima dele e perdesse a compostura, ou mesmo que ele notasse as duas trouxianes encantadas por sua beleza.
— Desculpe. Você deve ser o , não é? – ela falou, parecendo finalmente voltar ao planeta Terra. — Quer entrar? A já está pronta. - apontou com o seu polegar para trás em minha direção.
— Sou eu mesmo. – Estendeu a sua mão para ela e abriu um sorriso, cumprimentando-a. — Se não se importar eu vou ficar aqui mesmo, pois se não sairmos agora chegaremos atrasados. ? – perguntou por mim, esticando a cabeça e achando-me um pouco atrás de .
— Oi, . – Acenei para ele e caminhei em sua direção, inclinando-me para dar um beijo em sua bochecha assim que parei em sua frente. — Vamos então? – perguntei, aproveitando para me segurar e não rir da cena patética da minha amiga embasbacada.
— Claro! – respondeu exultante e retribuiu o beijo em meu rosto, fazendo-me sentir um leve aquecimento no local. — Prazer em te conhecer, ! – despediu-se da minha amiga e, enquanto caminhávamos até o elevador, precisei olhar para trás para ver a cara dela.
Minha amiga sussurrou um "UAU" com a boca, levantou o polegar em sinal de joia para mim e piscou, fechando a porta em seguida, sendo impossível não soltar a gargalhada que eu tanto segurei.
— O que foi? – me questionou depois que entramos no elevador.
— Nada. Apenas o "efeito " sobre as mulheres – respondi e dei de ombros, torcendo para que o elevador chegasse logo ao térreo e nos tirasse daquele enclausuramento. pareceu entender, pois só emitiu um pequeno sorriso em sua face e não disse mais nada.
A rua estava vazia e só havia dois carros estacionados em frente ao prédio. Comecei a caminhar em direção a um fiat uno que estava logo na entrada, sendo parada pela mão de , que pousou em minhas costas e guiou-me em outro sentido. Paramos diante de um carro magnífico que eu não saberia nem descrever aqui. Só dava para dizer claramente que era um automóvel caro, muito caro.
— Quem você assaltou? - perguntei com os olhos arregalados quando vi destrancar a porta e a abrir para que eu entrasse e me sentasse.
— Você é engraçada, – riu e conduziu-me para dentro, dando a volta em seguida e entrando também.
— Eu estou falando sério. Esse carro é seu? Você não precisava pedir emprestado um carro desse nível para a gente poder sair, eu tinha o meu, . Se algo acontecer com ele, um arranhado se quer, nós teremos que vender o nosso fígado para pagar – falei nervosa só por estar em um veículo que valia mais que a minha vida.
Pelo visto as minhas palavras não surtiram efeito nenhum nele, pois, apenas ligou o carro e partiu, fazendo as minhas costas colarem no banco de couro do automóvel sport vermelho.
— É uma Ferrari Califórnia T. Bonita, não é? E confortável também. Eu estou amando – falou com um sorriso satisfeito, enquanto fitava a estrada a sua frente.
! Eu estou falando sério com você! Vamos voltar, eu pego o meu carro, eu te sigo enquanto você devolve esse aqui e depois nós vamos juntos no meu.
, para com isso! Eu não peguei carro emprestado com ninguém. Você sempre tem essa mania de julgar tudo antes de perguntar? - parecia que ele tinha perdido um pouco a paciência, porém, eu só estava preocupada, poxa!
— Não me diga que é seu? – retruquei zombando dele, não querendo me dar por vencida.
— Se não quer ouvir, então não vou dizer.
— É seu?! Meu Deus, ! Como você tem um carro desses? – exclamei desacreditada.
— Pois é. Talvez eu não seja um estudante pé rapado assim... - falou mordendo o lábio e segurando um sorriso, feliz por sair por cima em nossa discussão.
— Isso não significa nada. – Inflei o peito, disposta a não perder a briga. — Sempre achei que fosse um filhinho de papai mesmo. - soltei e ele bufou, chateado.
— Ok, , pense o que quiser! – resmungou e acelerou mais o carro.
Um silêncio constrangedor se fez no veículo e eu me arrependi de ter falado aquilo. Mas eu parecia não ter freio na boca quando estava perto do , tanto para as coisas boas quanto para as ruins. Era quase inevitável.
Quando estacionamos o carro no Shopping, ele não o destrancou. Apenas ficamos os dois em silêncio, até respirar fundo e olhar para mim.
— Isso tem que parar. - a voz dele saiu rouca e grave.
— Eu sabia que a gente sair junto era uma péssima ideia. Você está arrependido, não é? Não tem problema, , você pode me levar embora, não vou ficar chateada, eu não queria nem vir mesmo, você que me convenceu. - eu parecia uma metralhadora ambulante falando.
A verdade é que, lá no fundinho do peito, eu ia ficar bem magoada de voltar agora. Mas eu tinha orgulho próprio e não me mostraria abalada. Quando inflei o peito para continuar desatando minhas frases corridas, as mãos de se levantaram em minha direção. Uma mão foi direto em minha boca, tampando-a e me impedindo de falar qualquer coisa, e a outra para a minha nuca, forçando para que eu não afastasse o seu gesto. Tentei balançar e dizer alguma coisa, porém, era impossível.
— Quietinha por um segundo, pelo amor de Deus! - suplicou, rolando os olhos. — O que eu queria dizer é que a gente tem que parar de se alfinetar. A minha intenção hoje era que você esfriasse a cabeça e descansasse. Minha intenção era tirar essa sua cabecinha louca das preocupações do dia a dia, no entanto, isso não vai adiantar se você arrumar motivo para encrencar comigo a cada segundo que a gente estiver no mesmo espaço.
Deixei cair os meus ombros aliviada e impressionada. Não sei se ele chegou a perceber. Um lampejo de felicidade passou-se dentro de mim por ver que estava preocupado comigo.
— Vamos abaixar as armaduras e nos dar bem, então? Pelo menos hoje. Eu gostaria muito de ter uma noite agradável com você, - pediu com um tom de voz tão carinhoso que eu só tive forças para acenar com a cabeça. Ele foi me soltando aos poucos, fazendo-me sentir um leve frio quando a palma da sua mão quente se afastou de mim.
— Tudo bem, me desculpa – fui sincera e ele retribuiu com um sorriso, destrancando o carro em seguida e me libertando, finalmente.

*


Por causa das discussões anteriores, estávamos atrasados, por isso, fomos direto para o cinema e depois iríamos comer alguma coisa. Durante os passos apressados para chegar lá, havíamos decidido assistir Esquadrão Suicida, para a alegria de , que confessou que, no fundo, estava com medo de que eu escolhesse algum filme meloso. Até parece. Imagina só se eu escolheria algo romântico para e eu. Ficaríamos parecendo um casal de namorados e instalaria aquele climão estranho a cada cena que os personagens principais tivessem relações amorosas. Não mesmo. Um filme de ação era a melhor opção para nós dois. E, de qualquer forma, eu estava bem ansiosa por esse filme, então, não foi sacrifício algum.
aproveitou a promoção para comprar um pote grande de pipoca e refrigerante, que foi dividido financeiramente entre nós, já que eu pisei o pé que aquilo não era um encontro, apenas uma saída entre amigos. Sendo assim, eu deveria pagar a minha parte. não contestou e no final deu tudo certo. Ele parecia se esforçar bastante para que o furacão não explodisse à toa.
Assistimos ao filme alternando entre o silêncio e risadas, nos divertimos bastante. O filme foi bem legal, apesar daquele Coringa bizarro. Com toda a certeza a Arlequina levou a obra cinematográfica nas costas, a cada aparição dela nós ríamos e eu conseguia desfrutar do som da gargalhada do em meus ouvidos.
Falando nele, foi bem difícil lidar com seus dedos tocando os meus a cada vez que esbarrávamos nossas mãos para pegar a pipoca. Não que eu já não tivesse sentido o seu toque, porém, esses pequenos detalhes em meio a uma sala escura com esse homem ao meu lado, era torturante. Contudo, como eu estava tentando ser uma mulher centrada, cada vez que isso acontecia, eu tratava de me afastar dele.
não fez nenhuma gracinha. Nada daquelas desculpas de se espreguiçar e colocar o braço em volta da garota, ou mesmo querer comentar o filme no meu ouvido durante a sessão. Não. Ele não fez nada, nadinha mesmo.
Eu me sentia aliviada por isso, mostrava que ele era um homem de palavra. Talvez o interesse dele por mim tivesse se esvaído e realmente ele quisesse apenas ser meu amigo. Quem iria querer um relacionamento com uma "louca" como eu, não é?
Eu sei que sou bonita e atraente, porém, já havia ficado ao meu lado tempo o suficiente para entender que eu era uma pessoa... complicada.
Pensar nisso havia me deixado um pouco triste, sem razão alguma. Eu deveria me sentir feliz por estar fora do páreo. Era isso que eu quis desde o início, então, por que eu me sentia assim?
— Subway ou Mc Donalds? – me perguntou assim que saímos do cinema.
— Hum... Acho que todos os dois são ótimos alimentos para a saúde – gracejei. — Tem certeza que vai levar a sua acompanhante para comer lanches adolescentes ao invés de um lugar chique? – arqueei a sobrancelha zombando dele, mas, me arrependi no mesmo instante pela minha ação maldita, pois a frase ficou parecendo que estávamos em algum tipo de encontro.
— Como você não é esse tipo de acompanhante, acho que podemos comer por aqui na praça de alimentação mesmo – ele respondeu tranquilo. Não era um corte e nem nada disso, entretanto, para mim, teve o mesmo efeito. — Além disso, eu posso até ter um carro caro, , mas eu gosto de coisas simples e viver o melhor dessa vida. Ou seja, morrer com as veias entupidas por causa das comidas gordurosas e com pressão alta devido ao sódio da batatinha do Mc Donalds e dos miojos que eu como a noite. – Ele riu despreocupado e eu concordei com ele.
Quem olhasse para não diria que ele era podre de rico. Ele tinha um ar leve e sua fala não era do tipo arrogante. Porém, não podemos confundir com desmazelo, isso ele não tinha. Ele vestia-se bem, no entanto, nunca havia visto nada de marca e nem nada parecido. Talvez o hobby dele era só carro, ou ele ganhou o veículo em um sorteio, bolão, sei lá. Eu não queria ser indiscreta e perguntar, portanto, optei só por decidir aonde comeríamos.
— Subway, então. Fiquei sabendo que vão retirar a opção de almôndegas, portanto, quero aproveitar enquanto ela está disponível.
Compramos e sentamos em uma das mesinhas para comer, até puxar um assunto, quebrando o silêncio entre nós.
— O que você pensa em fazer futuramente quando terminar a sua pesquisa?
— Não sei. Ainda não pensei nisso. Procurar outra coisa para pesquisar, talvez, aprimorar o meu estudo, preciso analisar com cuidado.
— Você sabe que se der certo será conhecida mundialmente, não é? – ele questionou, parecendo muito interessado no que eu fazia.
— Não penso nisso, . Eu só quero ajudar de alguma forma. Não quero status. Até porque, mesmo que tudo dê certo, até conseguir chamar a atenção de alguma empresa ou órgão que patrocine o projeto é uma longa jornada e, além disso, nem sei se conseguirei ir adiante.
— Por quê? – ele transpareceu intrigado.
— O dinheiro que recebemos para a pesquisa já é bem escasso. Nesse ano de política os cortes vieram com tudo. Eu acho que eu não terei nem o suficiente para terminar o pós-doc. Depois disso eu acho muito difícil a universidade conseguir me bancar. Se tudo der certo, no final da pesquisa eu só conseguirei mostrar que a planta tem um potencial de cura, no entanto, isso não é o suficiente para fabricarem um medicamento, apenas o essencial para receber o meu diploma. Seriam necessárias ainda mais pesquisas, testes químicos e bioquímicos, depois o processo em humanos e tudo mais. Coisas que a universidade não faz, portanto, se eu não conseguir que alguém "compre" a minha ideia, será tudo em vão.
ficou quieto e pensativo. Acho que ele tentava entender o que eu estava dizendo. Realmente era complicado. A gente fazia as nossas pesquisas na faculdade e muitas vezes descobríamos coisas fenomenais. Mas do que adiantaria se não tivesse um órgão que tocasse isso adiante? As universidades são limitadas, estudos complexos assim precisam ser feitos por indústrias farmacêuticas ou órgãos competentes como a FIOCRUZ. Isso me desanimava muito, pois, mesmo que eu conseguisse a cura para o câncer, se não acreditassem em mim, tudo seria em vão.
— Vai dar tudo certo!
— Não vai, . – Soltei o ar, frustrada. — Eu já estou me preparando para o pior. A minha pesquisa é algo demorado, eu preciso captar cada princípio ativo da planta amazônica e fazer o teste de um por um. E cada teste desse demora bastante. Eles não terão paciência para esperar o resultado de algo que pode nem dar certo. Eu acredito que pode dar, mas eles não, entende? O Matheus mesmo me deixou claro isso. Ele é amigo do Sr. Freitas, portanto, se ele pensa isso de mim, com certeza o nosso Coordenador também – desabafei.
— Quem é Matheus? – me questionou com o cenho franzido.
— É o médico branquinho do laboratório da oncologia. Matheus Neves.
— Hum, sei quem é, foi o primeiro lugar que o Sr. Freitas me mandou estagiar – falou pensativo e com uma careta notória.
— Então... eu meio que estou fadada ao fracasso.
... – tocou em meu queixo e me fez olhar para ele. — Faz a sua parte, prove a todos que estão errados, depois as coisas irão se ajeitar. Confie em mim.
falou com tanta firmeza que tive até esperanças que as coisas poderiam dar certo, motivando-me mais ainda para conseguir finalizar a minha pesquisa.
— Obrigada – murmurei constrangida com o olhar forte que ele tinha e com o toque dele em meu rosto.
— Sabe o que eu acho que vai tornar a nossa saída muito mais especial? – ele afastou a sua mão e perguntou animado, mudando de assunto.
— O quê? – questionei, levemente interessada.
— Um sundae de chocolate do Mc Donalds – respondeu, fazendo os meus olhos brilharem. Eu amava esse sorvete. — Você quer?
— E ainda tem dúvidas? Precisa perguntar se macaco quer banana? – questionei-o, eufórica.
— Vou lá buscar para a gente! – falou e saiu correndo para comprar o sundae, não dando nem tempo para lhe entregar o dinheiro para pagar.
Enquanto o via entrar na fila, fiquei pensando em como ele havia sido agradável por toda a noite, mesmo quando eu dei meus ataques de chatice. E o que mais me deixou desestabilizada foi que, ao contrário de Matheus, que havia feito pouco caso do meu trabalho, me incentivou, e isso contava muito para mim.
Meu coração se encheu de uma forma que eu não conseguia entender e, por um segundo, eu quis mais disso. Mais dessa pessoa que o estava se mostrando. Mais desse cara que parecia que eu havia julgado tão mal, mas que, a todo tempo, demonstrava ser uma pessoa bacana e atenciosa.
Por um segundo, e apenas um milésimo mesmo de segundo, eu cogitei algo mais. Não um relacionamento amoroso, mas... não sei, um passo. Desejei me deixar levar pelo que meu corpo estava pedindo, poder conhecer melhor o , desfrutar da sua companhia não só como amigo, pois o meu fisiológico parecia sempre ansioso para prová-lo um pouco mais depois daquele beijo. Contudo, como eu disse, foi apenas por um segundo, pois tudo se dissipou quando eu vi uma ruiva excepcional abraçá-lo com força na fila do sorvete, fazendo uma raiva descomunal se apoderar sobre mim.
Eu sei que não tínhamos nada e éramos amigos, mas eu não conseguia me controlar. Uma raiva intensa se alastrou e eu queria arrancá-lo das garras da ruiva maldita que tocava o seu braço enquanto eles conversavam. E, ainda por cima, ele ria para ela. Eles pareciam íntimos de alguma coisa, velhos conhecidos, talvez. Com certeza era algum tipo de peguete do e eu me senti uma otária por ter sequer cogitado algo com ele.
Eu sabia que devia ter ouvido o meu bom senso o tempo todo. A ciência não falha. Ela havia me avisado, eu que teimei e deixei meus hormônios me levarem a essa situação. Ainda bem que foi antes de termos alguma coisa, agora tudo estava claro para mim. Eu precisava me afastar!
Decidi, então, ir embora. Eu não era paga para ficar vendo com a ruiva estonteante. Era por essas e outras que ele e eu nunca daríamos certo. Eu já havia falado no pub sobre a atração inegável que todos os seres femininos sentiriam por ele. Melhor que eu encerrasse qualquer chance de nos afundarmos nisso agora, enquanto não existia nada.
Peguei a minha bolsa e caminhei para fora da praça de alimentação, indo em direção à saída. Nem percebi que estava correndo, só queria fugir de tudo aquilo até chegar à porta do shopping e sentir o vento frio da noite bater em meus cabelos. Assim que pisei do lado de fora, uma mão me puxou, fazendo com que eu batesse em um peito forte e musculoso. Eu nem precisava erguer a minha cabeça para saber que era ali. O perfume masculino dele já havia sido identificado pelas minhas narinas.
— O que deu em você? Por que foi embora assim correndo do nada? – me interrogou, sua voz parecia preocupada.
— Nada. Você parecia bem à vontade com a sua amiguinha ruiva e eu não queria estragar o plano que você tinha para ela essa noite. Achei melhor ir embora e te dar espaço – falei, sem conseguir conter a raiva em minhas palavras.
A feição de , que antes era preocupada comigo, mudou drasticamente. Ele parecia muito chateado. Suas sobrancelhas estavam tão franzidas que fazia linhas de expressões carregadas ao redor dos olhos e no vinco da testa.
— E por achar isso você precisava sair sem falar nada e me deixar igual um pateta com dois sorvetes na mão? Nós viemos juntos, ! – ele disse, nervoso.
— Mas nós não estamos juntos, – frisei pra ele, colocando minha mão na cintura.
— E daí? Nós viemos juntos como amigos e isso não significa que eu ia te deixar sozinha por alguma mulher ou que você deveria sumir do mapa. Você acha que eu sou algum moleque que não aguenta ver um rabo de saia e vai atrás?
É, realmente ele estava muito chateado. Eu não achava que ele era um moleque, mas... eu não conseguia lidar com aquele turbilhão de pensamentos e hormônios explodindo, cada um me falando uma coisa diferente.
— Eu não queria atrapalhar – tentei soar firme, porém, a minha voz já estava uma bosta. Sem motivo algum, me veio uma vontade súbita de chorar. Eu precisava sair dali antes que fosse tarde demais.
— Está com ciúmes, ? – Poderia ser uma pergunta petulante, entretanto, parecia que queria ouvir algo de mim, pois a sua voz saiu do tom grave e raivoso que estava para uma espécie de ternura.
— Eu já te disse uma vez que não tenho ciúmes de você, – murmurei, engolindo as lágrimas que queriam jorrar sem eu mesma entender.
— Que bom que não, pois você sabe que não precisa disso. Você só não me tem porque não quer. A ruiva que você disse é uma velha amiga minha, ela trabalha no escritório do meu pai. E, antes que você diga alguma coisa, eu não tenho e nem nunca tive nenhum tipo de relacionamento com ela. Nem quero, por sinal. A Isabel é como uma irmã para mim, fomos criados juntos. Seria quase como um incesto.
Ele falava sereno e parecia ser sincero. De qualquer forma, eu comecei a me sentir estúpida por ter feito esse papelão todo e, com isso, a vontade de afundar na cama e chorar no meu travesseiro somente aumentou.
— Você não me deve explicação, – fui um pouco dura, empinando o nariz para ele.
— Eu sei. Mesmo assim eu quis dar – respondeu com uma expressão impassível. Eu não sabia o que ele estava pensando, porém, com certeza, a tentativa da noite agradável tinha acabado de ir para o ralo. — Vamos embora, acho que não tem mais clima para ficarmos aqui – falou sério, andando em direção do carro e eu apenas o segui calada.
Entramos na Ferrari linda e ele ligou-a, dirigindo em direção ao meu apartamento. Eu sei que eu tinha cagado tudo, mas ele sempre tentou se mostrar divertido e contornar as minhas loucuras. Por que ele não fazia isso de novo?
Um pensamento maldito que dizia que ele havia mentido pra mim começou a se alastrar. Talvez essa tal amiga fosse mais para amiga com benefícios. O era um cavalheiro, portanto, não me deixaria sozinha. Se ele não queria voltar para ela, não havia motivo para subitamente me levar embora e encerrar a nossa noite. Com certeza queria voltar para a ruiva ladrona de homens.
Mas o não é seu, . O pensamento veio como um tapa na cara, me fazendo acordar para a realidade. Eu não podia ficar com raiva do por esse motivo, ele era solteiro e poderia fazer o que bem quisesse.
Não passou muito tempo, ele estacionou em frente a minha casa, sem nem desligar o carro. Era como se quisesse que eu saísse logo para arrancar com o carro e ir para bem longe de mim.
— Desculpa por tudo, não precisava me trazer. Eu poderia vir sozinha, assim não precisava deixar a Isabel te esperando – falei ao tocar a maçaneta, pronta para abrir a porta do veículo e sair.
— Droga, ! Será que dá para parar com isso? – falou um pouco duro e deu um tapa no volante. — O que você quer de mim? Diz! Eu fui claro que queria você lá no pub, você me correspondeu, mas depois fugiu. Eu te entendi e propus uma amizade, porém, agora que somos amigos, você implica com coisas sem fundamentos como se tivéssemos algo, sendo que foi você que me deu um pé na bunda.
— Você disse que não ia tocar nesse assunto – foi à única coisa que respondi, pois, para todas as outras, eu não teria argumentos para me defender. Como eu poderia me explicar para se nem eu mesma estava me entendendo? Eu nunca fui daquele jeito, nunca agi com ninguém da forma que eu agia com ele. Parecia que eu entrava em colapso e fazia tentativas de me auto sabotar e, assim, me proteger.
olhava para mim intensamente, esperando que eu dissesse mais alguma coisa e, ao mesmo tempo, decepcionado pelo fato de que eu só consegui emitir uma reclamação por ele ter tocado no assunto beijo.
— Me desculpe. Talvez esse negócio de sermos amigos não vai funcionar. - ele suspirou, soltando todo ar do seu pulmão. Parecia ter corrido dez léguas de tão exausto que estava.
Um aperto surgiu em meu peito. Eu não queria nada com o , no entanto, também não queria que ele se afastasse. Se a estivesse aqui, com certeza, diria ", ou caga ou sai da moita", porém, eu estava sozinha e não era boa com as palavras quando tinha uma guerra interna travada entre meu cérebro e coração.
— Por quê? Onde que está o senhor maturidade que dizia várias coisas para mim e me dava lição de moral? – mostrei a minha indignação pelo fato dele querer terminar com a nossa amizade que mal havia começado.
, você não entende... - murmurou e recostou a sua cabeça no volante, dando um grunhido em frustração.
— Então me fala, porque eu quero entender, . Eu posso estar errada, só que também não é justo você virar para mim e falar que agora não quer mais ser meu amigo, sendo que foi você que me propôs isso. Coisa que eu nem queria, para início de conversa.
— Não dá para ser amigo de uma pessoa que eu quero beijar a cada segundo que se passa, . - soltou a bomba assim que levantou a cabeça e olhou para mim.
Seu olhar era penetrante, ele estava carregado de uma emoção que eu não podia decifrar, transmitia um calor inegável em minha pele, me fazendo engolir em seco diante do seu desabafo.
... - comecei cautelosa, contudo, logo fiz o que sabia melhor, disparar frases rápidas na tentativa de me proteger e me livrar de uma situação embaraçosa. — Você sabe os meus motivos. A gente nunca ia dar certo. Estamos fadados ao fracasso pela ciência antes mesmo de começar. Se não conseguirmos sair nem como amigos, como que lidaríamos trocando salivas por aí? É inaceitável! Eu preciso ser racional, já que sou a única aqui que pensa nos 'poréns'. Eu não posso simplesmente ceder a qualquer coisa que eu sinto – confessei tudo o que vinha na cabeça, tentando mostrar a que aquilo jamais conseguiria prosseguir.
— Você sente algo por mim? – Os olhos dele brilharam como mulher de TPM quando ganha um chocolate. Foi aí que eu vi a merda que eu havia acabado de dizer.
— Não, .
— Mas você disse que não poderia ceder aquilo que você sente, então, quer dizer que você sente alguma coisa, não é?
Mordi meu lábio inferior, nervosa, o que foi uma péssima ideia já que os olhos de foram parar instantaneamente em direção a minha boca, fazendo-me fitar a dele também. Naquele momento, o carro ficou pequeno demais para nós dois, o ar se tornou abafado e meu corpo se arrepiou pela intensidade que emanava entre nós.
— Eu não sei, . Eu sinto, mas não sinto. Meus hormônios querem, porém a minha razão me diz que isso é muito errado, eu não sei definir – embaralhei-me nas palavras e fiz soar a minha voz trêmula.
— Mas já é alguma coisa? – interrogou-me com o tom de voz muito mais carregado que antes, soltou as mãos do volante e virou o seu corpo completamente em direção ao meu. Era uma pergunta, mas a forma que me disse foi quase uma afirmação. Ele esperava que eu confessasse e, no momento que imergi na profundidade do seu olhar, sabia que não conseguiria negar.
— Sim, – rendi-me, cansada de tentar compreender o que estava acontecendo comigo. — Definitivamente é alguma coisa.
— Então já é o suficiente!
Dito isso, tudo aconteceu muito rápido. Logo os braços dele me puxaram em sua direção e eu estava em seu colo, sua boca na minha e seu tórax colado ao meu. Os lábios carnudos dele me beijavam com intensidade, enquanto suas mãos tratavam de passear pelo meu corpo, apertando-me para que eu não fugisse dele. mordeu o meu lábio inferior dando uma leve puxada, que fez com que toda a minha pele se arrepiasse. Ele passava as mãos pelos meus poros, desfrutando do efeito que causava em mim. Uma delas se enfiou no meio dos meus cabelos, puxando-os para trás e fazendo com que minha cabeça se inclinasse, dando acesso livre do meu pescoço a ele.
Era muito mais que uma explosão de fogos de artifícios ou as famosas borboletas no estômago. Eu sabia bem o que estava sentindo. Era a maldita ocitocina, o hormônio que eu tanto quis fugir, fazendo o seu efeito. Porém, desta vez, eu não quis impedi-la. Eu apenas me deixei levar por aquele sentimento estonteante, desfrutando-me de tudo aquilo que me proporcionava. Talvez eu me arrependesse quando a gente se separasse, mas, enquanto isso, pela primeira vez, eu quis apenas sentir.





Capítulo 9


Quanto tempo havia passado? Uma hora? Dez minutos? Eu jamais conseguiria definir, pois, no instante que colou a sua boca na minha, o tempo parou para nós.
Os beijos eram inebriantes e seu toque alastrava o fogo em minha pele. Eu não pensava em fugir, inusitadamente o meu cérebro parecia ter dado um curto circuito e paralisado, fazendo-me apenas curtir aquele momento.
A certa altura dos amassos na poltrona de couro da Ferrari do , senti a sua mão entrar sorrateiramente por debaixo da minha blusa e subir vagarosamente em direção aos meus seios. O ato me fez afastar dele, era um passo grande demais para a minha sanidade que já estava ferrada.
tratou de recolher a sua mão dali e puxou-me novamente para ele, selando os nossos lábios, para que não desse tempo de nenhum ataque de pânico da minha parte. Sua língua encontrava-se com a minha em uma dança magnífica, eu nunca me enjoaria disso. Poderia passar as vinte e quatro horas do meu dia saboreando os beijos dele.
— O que estamos fazendo? – nos questionei ainda de olhos fechados, no momento em que nos afastamos levemente para poder respirar.
— Nos beijando? – gracejou da minha pergunta, emitindo uma risada que era música para os meus ouvidos.
Abri os olhos e ri com ele, dando um leve tapa no seu ombro. Em seguida, ele abriu os seus olhos também, encarando-me com uma expressão satisfeita e alegre. Assim que a adrenalina ia abaixando, eu me situava onde estava e o que estava fazendo. Corei de imediato ao notar que estava exatamente no colo de . No mesmo instante fiz força para me levantar e voltar ao meu banco, porém, os braços fortes de me seguraram, impedindo-me de fazer isso.
— Não vai – ele pediu, acariciando a minha bochecha.
, isso nã… - tentei dizer algo, mas o indicador do foi direto para os meus lábios.
— Shhh…- ele me interrompeu. — Não vamos estragar tudo, vamos? Você está curtindo, eu também, vamos só aproveitar isso aqui, eu não vou te deixar fugir dessa vez.
— Mas… você não entende, – tentei falar sendo o mais calma possível.
— Claro que não. Jamais vou entender o motivo de duas pessoas que querem ficar juntas não poderem fazer isso livremente. Não tem nada que nos impede, , a única coisa que pode estragar o nosso momento está bem aqui. – Deu dois toques leves em minha cabeça, me mostrando que só dependia de mim e da libertação da minha mente.
— E como vai ser amanhã? Vamos voltar a sermos amigos normalmente? Eu não quero ser sua peguete, . Alguém que você vem e tem na mão a hora que quiser e depois joga fora – resmunguei, fazendo-o rolar os olhos pra mim, porém, sua mão continuava a me acariciar, como se ele tentasse me manter tranquila.
— Você não é um utensílio para eu usar quando bem entender, . Você é uma pessoa, e pessoas têm sentimentos, então estou aqui para respeitá-los. O que não dá é a gente ficar negando o que rola entre nós.
— Isso só vai levar ao fim trágico do meu coração aos pedaços, . Por que não fazemos um favor a nós dois e nos afastamos de uma vez? – sugeri, minha voz estava carregada com o cansaço da minha mente.
Eu sabia que a posição era imprópria e que, com o toque de na minha pele, eu estava suscetível. Entretanto, eu só conseguia pensar que tudo era uma loucura e, por mais que eu saiba que isso ia acabar em uma merda sem tamanho, eu queria muito me afundar nela.
— Posso sugerir um favor melhor? – me perguntou com cuidado e eu balancei a cabeça em um sim. — Por que nós apenas não relaxamos e vemos no que isso vai dar? Nem tudo é ruim do jeito que você acha, . Você mesma sabe que as teorias que você estuda são apenas grande parte da probabilidade, deixa eu te provar que faço parte da minoria, então? Deixe-me te mostrar que eu faço parte daquele 1% que não vai pisar no seu coração!
Mordi meu lábio, pensativa. Como eu queria apenas me jogar nos braços dele e viver sem amarras como todo mundo faz por aí. Não era tão simples para mim. Não é fácil viver a simplicidade quando a sua mente está bombardeada de informações e teorias.
— Eu não sei se consigo… - sussurrei e abaixei a cabeça levemente, constrangida por estar me autossabotando.
— Ei – ele me chamou e me fez levantar o olhar para ele novamente. — Eu não vou te forçar e nem te apressar. Não vamos colocar a carroça antes dos bois. Tudo ao seu tempo. Não seremos um casal de namorados, apesar de que só terei você em minha vida. Eu te entendo, … eu juro que te entendo. É por isso que eu estou te propondo isso. Me dá uma chance. Por favor?
Meu santo Cristo. Olha esse homem com cara de cachorro sem dono pedindo, por favor, para mim! Não teve razão que não fosse para o espaço nesse momento. Eu queria poder beijar e ficar com o quando eu bem entendesse. Era óbvio que rolou uma atração desde o momento que a gente se viu pela primeira vez.
Confesso que parte de mim, mesmo aquela que eu havia jogado lá no baú agora, tinha medo que eu acabasse gostando dele com o tempo e depois acabasse me decepcionando. Porém, pela primeira vez, eu quis ter coragem de apenas seguir o que o meu coração estava mandando, ao invés do meu cérebro.
Balancei a cabeça para ele e pude assistir o seu sorriso crescer, marcando as covinhas em sua bochecha.
Ai como eu queria beijar cada uma delas!
— Você está falando sério? – perguntou com os olhos brilhando em minha direção.
— Sim – respondi quase inaudível.
— Meu Deus, , nem acredito, finalmente! – respondeu eufórico e enlaçou a minha cintura, tomando-me para ele novamente.
Beijou-me de uma forma avassaladora, como se quisesse tirar tudo de mim. Minhas mãos voaram para o seu pescoço e eu acompanhei o seu ritmo sem pestanejar, concluindo que, aproveitar sem amarras, era muito mais gostoso.
— Por que eu? – perguntei quando nos separamos, sem entender como um cara como ele iria querer ter a paciência de Jó comigo, sendo que podia escolher tantas outras por aí.
— Por que não você? – ele me retrucou.
— É sério, – ralhei, dando-lhe um leve empurrão.
, você não enxerga o quanto é incrível? Você, além de linda, é muito inteligente. E eu acho isso fantástico. Você rala por aquilo que acredita, é dedicada e honesta. Tem um parafusinho a menos, mas é verdadeira e não tem medo de dizer o que você pensa. Você tem suas teorias e bate de frente comigo quanto a isso. E eu realmente entendo tudo o que você me diz, eu não acho que todo o seu conhecimento sobre relacionamentos deve ser jogado fora, só acho que você precisa achar um lugarzinho para poder equilibrar tudo isso dentro do seu coração. - falou colocando uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha com carinho — Eu gosto de estar com você, , além de ter uma vontade absurda de te beijar.
— Então por que não mata essa vontade absurda agora? – resolvi render-me a ele de uma vez.
Se está na chuva é para se molhar! Não é esse o ditado? Então chega de deixar a racional comandar. Chegou a hora da que tem sentimentos e vontades falar um pouco. Eu sempre fui segura e tranquila, não poderia deixar esse medo me fazer ser diferente com o .
Mesmo sem saber o que iria acontecer no fim da jornada, eu precisava desse momento de rendição. Nem que fosse para que no final eu pudesse dizer que fui mais uma probabilidade estatística comprovada das minhas teorias. Pelo menos eu poderia dizer que eu fui uma prova concreta, não era apenas pesquisas sem comprovações.
Ficamos ali nos beijando e aproveitando o momento, desfrutando do que eu havia me privado por tantos dias. Quando vi que já estava bem tarde e que, se eu não resolvesse sair logo, as coisas poderiam tomar um rumo diferente, interrompi os nossos amassos dizendo que precisava ir embora. também saiu do carro junto comigo, falando que iria me acompanhar até a porta do apartamento. Passamos pela portaria, trocamos mais alguns beijos no elevador e chegamos até o meu doce lar.
— Tem certeza que segunda-feira você não vai fugir de mim novamente? – ele perguntou, parecendo um pouco inseguro em me deixar.
— Não – respondi, abrindo um pequeno sorriso. — Eu estou decidida, mesmo que eu quebre a cara e te use como exemplo nas minhas próximas palestras – gracejei com um pingo de verdade.
— Não vai quebrar. – Passou a mão delicadamente em meu rosto, deixando um rastro do calor em cada lugar que tocava.
— Mas vai com calma, ok? Não vai agir como um namorado comigo, pois, não é isso que nós somos. Vamos apenas ver onde vai dar e curtir o momento. Atender um pouco das necessidades dos meus hormônios excitados. - alertei-o, prevenindo estragos futuros em meu coração. Um normal já era um perigo, imagina um fofo e carinhoso? Meu Deus, me acuda!
— Uau! É você mesmo, , ou deixaram algum clone em seu lugar sem que eu percebesse? – zombou, dando um passo para mais perto de mim.
— Apenas cansei de travar essa guerra interior. – Dei de ombros e emiti um sorriso.
— Eu gostei disso – sua voz grave soou, no momento em que ele depositou a sua mão na porta do meu apartamento, prendendo-me ali.
— Eu sei que gostou. - pisquei e lancei meus braços contra ele, roubando-lhe um beijo.
A desinibida estava de volta, pessoal!
, claro, não protestou. Retribuiu-me com vigor em um beijo caliente de despedida. Colou o seu corpo no meu, imprensando-me contra a porta que eu estava escorada. Estávamos nessa bolha mágica e quente, até a porta ser aberta de uma só vez e cairmos nós dois iguais uma jaca dura no chão.
Eu cai de bunda e quase bati a cabeça, a quina do meu cotovelo chocou forte no piso, me fazendo rugir de dor. Para piorar, , que estava escorando antes a sua mão na porta, caiu por cima de mim, e só não foi mais catastrófico porque ele esticou a mão e conseguiu se apoiar no chão a tempo de impedir que todo o seu peso recaísse sobre mim.
— Oh, meu Deus! Desculpa, , meu Deus! Desculpa mesmo! , que vergonha. Vocês estão bem? – deu um grito e falou disparadamente, com as mãos na boca em surpresa e pelo susto.
— Ai! – reclamei de dor e ouvi também um murmúrio de , que saiu de cima de mim logo que sentiu as minhas mãos o empurrarem. — O que deu em você? – perguntei para com raiva.
— Eu ouvi um barulho na porta, achei que era você, mas esperei um tempo e ninguém entrou, fiquei preocupada… Jamais imaginaria… - calou-se, olhando de mim para , completamente constrangida.
Levantei-me com dor e vi passar a mão freneticamente no seu pulso, emitindo uma careta sofrida.
— Machucou? – ele me perguntou assim que desviou o olhar do local machucado e me viu.
— Um pouco, mas sobrevivi.
Ficamos os três olhando um para o outro, até começar a gargalhar do nada, fazendo com que e eu nos entreolhássemos sem entender nada.
— Por que eu não me surpreendo que essas coisas só aconteçam com você, ? – ele falou, depois de recuperar o fôlego de tanto rir.
Rolei os olhos para ele e colocou a mão na boca, reprimindo o sorriso que ela queria dar.
— Você não ouse rir disso! A culpa é toda sua! – censurei, apontando o dedo para a minha amiga.
— Desculpe, – ela falou, menos constrangida do que antes. — , eu sinto muito. Desculpe interromper… seja lá o que vocês estavam fazendo. – Deixou a frase no ar, fazendo-me olhar para o e corar, ao contrário dele que, em contrapartida, tinha uma feição travessa no rosto, com o canto da boca levemente inclinado.
— Não estava acontecendo nada, não é? O veio me acompanhar até aqui em casa, mas já está de saída. Até segunda feira, ! – disse, impedindo que ele falasse qualquer coisa diferente.
— Sim – ele concordou, risonho. — Até mais, . Tchau, . – acenou para a minha amiga e caminhou em minha direção. Deu-me um abraço e um beijo no canto da minha boca. — Não fuja de mim – sussurrou em meu ouvido, fazendo todos os poros do meu pescoço se arrepiarem.
Assim que ele saiu e a porta foi fechada, eu suspirei fundo, já esperando a bomba. Olhei para a minha amiga e seus olhinhos estavam esbugalhados de tanta euforia.
— EU NÃO ACREDITO! – gritou e começou a dar pulinhos, antes de se jogar em meus braços, derrubando-nos em cima do sofá.
— Me larga, sua doida! – empurrei-a rindo, fazendo-a cair de bunda no chão. Bem feito!
— Você está descontando que eu estraguei o seu momento caloroso, não é, sua égua? – levantou-se e jogou uma almofada em mim, enquanto eu ria dela.
— Eu devia era ter te batido por ter me feito passar por esse momento constrangedor. – Ajeitei-me no sofá e passei a mão pelos meus cabelos, tentando domá-los. sentou-se ao meu lado e olhou-me com expectativa.
— E aí? Vai me contar ou não vai? Eu tô ansiosa!
— Deixa eu pensar… - coloquei a mão no queixo, fazendo hora com a cara dela.
— Para de show, ! Desembucha! Eu ainda não tô acreditando que você agarrou o cara! Sério! Eu incentivei e tudo, mas não imaginaria que você realmente seguisse em frente!
— Nem eu mesma estou acreditando! – confessei a ela, ainda com toda a adrenalina do momento correndo em minhas veias. — Ainda acho que estou em um sono maldito e quando eu acordar vou ver a besteira que cometi.
— Pode parar! Você nem sabe de nada. Você saiu e curtiu. Ponto. Não tem o que grilar, você não tá indo casar com ele, . Foi só uns beijinhos… ou você fez algo mais? – ela arqueou a sobrancelha em questionamento para mim.
— Claro que não! Se já é difícil me render a um beijo dele, você acha que eu ia entregar os pontos assim? Para acabar me apaixonando sem nem saber o tamanho do buraco que vou cair?
— É, eu sei. Perguntei só para confirmar mesmo. Mas, me conta. Ele beija bem? – perguntou, me fazendo lembrar os momentos trocados com ele anteriormente.
Suspirei e encostei as minhas costas no sofá. Nem sei que cara eu devo ter feito, só sei que fui teletransportada para os momentos que estive com . Recordei do toque dos seus dedos percorrendo o meu rosto e, logo depois, seguindo a trilha do meu pescoço, enquanto deixava um rastro de poros arrepiados por toda a milha pele. Se eu fechasse os olhos, poderia sentir o encostar suave dos seus lábios nos meus, as leves mordidas no lóbulo da minha orelha e o calor único que formávamos.
Nenhum beijo havia sido tão bom. Tudo antes havia sido superficial.
Isso me deixava amedrontada. Não queria me apaixonar, contudo, sabia que estar com era um grande risco. Em contrapartida, a lei da atração já estava dada, não havia mais saída para nós. Eu até tentei fugir, sair com Matheus era a minha escapatória. Entretanto, o que eu poderia fazer se todos os meus hormônios só estavam dispostos a serem liberados quando estava perto dele?
— Olá! Acorda, . Você não respondeu a minha pergunta. Ele beija ou não beija bem? – estalou o dedo na minha cara, tirando-me das minhas divagações.
Abri um sorriso para ela e, completamente relaxada, pude responder com sinceridade.
— Maravilhosamente bem!





Continua...


Nota da autora: (03.04.2017) Esse capítulo eu escrevi ouvindo a música Oh Cecilia do The Vamps, acho que combina bem e uma leitora que me indicou. Vale a pena ouvir. Finalmente o nosso casal se acertou, mas até quando eles ficarão bem? #aguardemos. Essa história foi a primeira que escrevi do gênero, por isso foi feita para ser curtinha, ou seja, não demorará muito e chegaremos no final, por isso, aproveitem enquanto podem hahaha Beijão e até o próximo capítulo.

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Nota da Beta: Tô surtando aqui, meu Deus! Eles estão oficialmente ficando uhuuul! Ri muito com a cena dos dois caindo, só acontece com a mesmo! Continue logo, Lud <3





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