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Fisiologia do Amor






Última atualização: 15/07/2017

Prólogo


O amor é superestimado. Borboletas no estômago, suor frio, dedos trêmulos… Tudo isso é apenas uma reação orgânica do nosso organismo. Pura fisiologia.
Para piorar, às vezes, nosso corpo nos trai, fazendo escolhas completamente insanas. Se ouvíssemos melhor o que o nosso sistema quer dizer, não quebraríamos tanto a cara. Nossos ancestrais já nos mostravam o caminho, nós que somos trouxas e caímos nas opções erradas.
Testosterona, dopamina e ocitocina. Hormônios, puros e simples. Para quê complicar tanto? Por que se arriscar com o errado quando se pode ir pelo caminho mais seguro? Não somos como os animais, temos um poder racional, um cérebro pensante, que nos permite raciocinar e não cair de paraquedas nos braços do primeiro homem que nossos ferormônios se sentem atraídos.
Interesse, razão, fantasia, emoção… tudo é biológico. Neurotransmissores ativados no impulso sexual. Basta uma carícia ou um beijo e nosso cérebro já começa a agir.
O desejo, a paixão e o amor… Cada um é movido por um hormônio separado, porém eles podem ser liberados juntos quando estamos com alguém. Por isso, não me envolvo sem compromisso. Essa é a ideia mais abstrata que alguém poderia ter, já que quando ficamos com alguém, todos esses três hormônios são liberados.
Sendo assim… Por que eu ficaria com um homem másculo, cheio de testosterona, bem mais propenso à ruína, se tenho a chance de, no final, acabar apaixonada por ele?
Não. Não mesmo. Minhas escolhas são completamente seguras.
Um homem com traços não tão fortes, menos bonito um pouco do que eu e com aquisição financeira pelo menos razoável. Isso sim é a opção perfeita.
É a descrição do homem completamente compatível, que me trará, futuramente, um casamento saudável, honroso e provedor. Tem tudo para dar certo.
Ah, não posso me esquecer de um detalhe. Essa é a melhor escolha para passar pela crise dos sete anos que acontecem na maioria dos casamentos.
Como pesquisadora e professora do Centro de Fisiologia Hormonal, especializada em Química das Emoções, não poderia agir diferente. Preciso ser referência para esse mundo caótico em que as mulheres babam pelo cara gostosão. Necessito alertá-las do perigo que correm.
O que eu não esperava era que, em uma dessas, eu entraria em uma armadilha monstruosa, e provar a minha teoria seria mais difícil do que eu pensava.





Capítulo 1


― Desde a pré-história o instinto masculino sempre foi a reprodução. Enquanto o homem queria procriar, a mulher queria criar. Mas havia um grande problema aí. Se a mulher tivesse um bebê, como ela cuidaria da criança e trabalharia para o seu sustento ao mesmo tempo? Foi daí que nasceu a monogamia. O sexo feminino buscava além de homens que exalassem filhos perfeitos, um ser que pudesse cuidar dela enquanto ela cuidava da criança.
Olhei para a plateia, que me observava atentamente. As canetas balançavam desenfreadas, anotando cada palavra que eu dizia. Vi uma mão se erguer, um pouco tímida, pedindo permissão para fazer um questionamento. Assenti com a cabeça, pronta para atender a garota.
― Professora , como se fazia a escolha desses pares então?
― Qual seu nome? – perguntei educadamente.
― Gabriella Beltrame. – respondeu.
― Obrigada por participar, Gabriella, sua questão é bem pertinente. A primeira coisa que o homem analisa ao escolher a sua parceira é o físico. Eles procuram beleza e juventude. Enquanto nós, mulheres, analisamos todo o contexto socioeconômico que eles podem nos proporcionar. Não que estejamos excluindo o físico, ele faz parte da primeira lei da atração, porém, na hora de escolher com quem vamos selar nossa vida, a mulher procura muito além disso.
A palestra corria tranquilamente. Vez ou outra eu respondia alguns questionamentos. Eu adorava ver os rostinhos femininos das alunas acordando para a vida. O pessoal da Fisiologia sempre pedia para que eu palestrasse esse assunto para os estudantes novos da disciplina. Não é um tema muito pesquisado, os outros da equipe costumam saber sobre doenças e medicamentos, enquanto eu pesquiso, além disso, sentimentos.
Lembro como se fosse ontem, eu tinha cinco anos e assistia ao programa do Barney na televisão. Aquela musiquinha martelava na minha cabeça. “Amo você, você me ama, somos uma família feliz…”. Foi aí que resolvi ir até a minha mãe e fazer a pergunta que não queria calar.
― Mãe, o que é amor?
Peguei-a desprevenida e tudo o que ela me respondeu foi que o amor era um sentimento que se passava no coração. Não era o suficiente. Óbvio que não seria, ainda mais para uma pessoa curiosa como eu. Mas por ora, para alguém tão pequeno, apenas assenti.
Passei muito tempo intrigada, e pensem em minha surpresa quando comecei a estudar biologia e descobri que amor nada tinha a ver com o coração, mas sim com o cérebro?! A partir daí, só quis saber mais e mais. Lia livros, pesquisava na internet e assim se prosseguiu até chegar onde eu estou.
A sabedoria é um dom, mas também uma maldição. Eu me sinto agraciada por ter todo esse conhecimento. É por causa dele que sei que vou fazer a escolha certa na minha vida. Porém, em contrapartida, as pessoas dizem que eu não vivi, nem curti nada.
Não sei qual o problema. Eu estou segura naquilo que acredito. Não passei anos de estudos à toa, eu sei o que estou fazendo. Os outros que estão perdidos, arriscando-se em relacionamentos infundados, fadados ao fracasso.
― Professora, você acredita em sexo sem compromisso? – ouvi uma voz indagar, me tirando dos meus pensamentos. Não perguntei quem era desta vez, pois não prestei atenção em quem tinha falado.
― Sem compromisso, talvez. – respondi voltando meu olhar para os estudantes —Agora... sem vínculo? Não.
― Por quê? – perguntou um menino sentado na última carteira.
Abri um sorriso satisfeito, eu adorava quando tinham essa curiosidade. Tantos se gabavam por aí sobre o desapego, mas o buraco era muito mais embaixo e poucos sabiam.
― Um dos hormônios liberados no ato sexual é justamente a ocitocina, responsável pela nossa escolha monogâmica. Durante o ato, a quantidade dela em nosso organismo é bem alta. Ela também é conhecida como a droga do amor, ou seja, você corre um grande risco de se sentir ligado à pessoa de alguma forma. Ela proporciona uma conexão emocional com o seu parceiro, podendo trazer um turbilhão de sentimentos, muitas vezes indesejados.
Ouvi alguns murmúrios pelo salão e algumas risadinhas dos garotos.
― Ih, cara, se ferrou, por isso as meninas não saem do seu pé depois que você come elas. – outro garoto brincou rindo e deu um leve empurrão no amigo, levando todos a gargalhar.
― Não fiquem tão tranquilos, garotos. – retruquei tomando a atenção de volta —Homens e mulheres têm esse hormônio, a diferença é que a testosterona costuma, muitas vezes, bloqueá-lo, por isso o sexo masculino costuma ser… mais insensível. Mas era um “mal” necessário na antiguidade, pois os homens não poderiam ser melindrosos na caçada de animais para sustentar a família.
Prossegui com a palestra, parando alguns momentos para responder alguns questionamentos. Já era quase cinco horas da tarde quando encerrei. Muitos alunos vieram me cumprimentar, outros me olhavam como se eu tivesse três olhos, meio reticentes com as coisas que eu dizia. Acordem, é ciência, não se nega o conhecimento científico.
Peguei minhas coisas e fui em direção ao estacionamento à procura do meu carro para ir embora. Quem disse que vida de professor é ruim? Na maioria das instâncias sim, mas eu era professora e pesquisadora da UFRJ, o salário nessa rede de ensino não é baixo assim. Claro que sempre pode melhorar, não é? Mas é o suficiente para eu ter meu próprio carro. Não é uma Mercedes ou uma Ferrari. Mas tem quatro portas, ar-condicionado, direção hidráulica e 1.6. É o suficiente.
Ah, sem contar que tenho meu próprio apartamento. Nele eu moro com minha amiga e nós rachamos as despesas. Ela trabalha voluntariamente na universidade e ainda está fazendo o mestrado. Como é estudante e veio do interior como eu, ela era de Boa Esperança - ES, precisava de um lugar para ficar. Acolhi-a aqui e, com isso, podemos amenizar os gastos. Ambas viemos para Rio de Janeiro atrás de nossos futuros. Após muito estudo, esforço e dedicação, cada uma está conseguindo, aos poucos, alcançar aquilo que almeja.
Entrei no carro, coloquei a chave na ignição, ligando o rádio no automático. Ouvi a voz do Ed Sheeran soar pelos alto-falantes, me fazendo revirar os olhos. Eu amava a voz daquele homem, suas músicas eram lindas, pena que eram mais letras para levar nós, mulheres, ao mundo da ilusão.
Loving can hurt, Loving can hurt sometimes… – A música começou. Era Photograph.
― Nisso você está certo, Sr. Ed. – balbuciei para mim mesma.
Continuei ouvindo até a parte que dizia: Loving can heal, Loving can mend your soul...
― Ou pode acabar com você. – completei a frase desligando o rádio, irritada.
O amor podia curar? Remendar a alma? Sim, mas se encontrássemos a pessoa certa. Fora disso seria só mais uma porção de corações despedaçados, lágrimas jorradas e quilos adquiridos pelo chocolate consolador.

O percurso não era longo, portanto não precisei ficar no silêncio por muito tempo. Logo cheguei ao apartamento, estacionei o carro e subi pelo elevador até o meu andar. Abri a porta devagar e me assustei com a imagem que eu via na minha sala. estava aos prantos, jogada no sofá, seus cabelos todos desgrenhados, lágrimas molhavam seu rosto, e seu nariz, cheio de coriza, estava intensamente vermelho.
Ela me viu parada na porta com um olhar assustado, franziu um pouco o cenho e começou a soluçar novamente com o choro. Eu até já imaginava o que era, mas esperaria até que ela tivesse condição de se abrir. Fechei a porta e corri até ela, abraçando-a e passando as mãos em seus cabelos para confortá-la.
― Você me avisou tanto, amiga. – fungou com o rosto escondido no meu corpo.
Não respondi nada, não queria dizer a famosa frase “eu avisei”, apesar de ser verdade.
― Quer desabafar? – perguntei descolando-a um pouco e fazendo-a olhar para mim.
― Foi o Douglas. – respondeu confirmando o meu pensamento. — Ele tinha vindo há uns dias com uma história de “dar um tempo”, porque nossas vidas estavam tumultuadas, lembra? – perguntou, e eu assenti — Então… ele falou que era só para a gente se reorganizar, que não era um término. Disse ainda para eu não ficar com ninguém, que nós estávamos juntos, apesar de tudo. Eu disse que, por mim, tudo bem. Eu não queria mais ninguém mesmo, eu gostava dele. Gosto ainda, aliás. Mas pensa na minha cara quando eu descobri que o infeliz, na verdade, estava saindo com aquela colega minha, a Geziane da Matemática? – terminou voltando a chorar compulsivamente.
Suspirei profundamente. Eu sabia que ia acabar assim. Homens como o Douglas, abarrotados de testosterona, não foram feitos para relacionamentos sérios. Eu havia avisado a ela tantas vezes, mas era sempre do mesmo jeito. Ela sempre fazia o mesmo ciclo e se interessava pelos mesmos tipos de caras. Qual o problema das pessoas em quererem um homem mais franzino, quieto e não badalador?
― Você precisa mudar essa sua sina, – disse fazendo um carinho em sua bochecha.
― Eu sei, eu sei. Sou uma idiota. – lamentou-se com os olhos inchados, cortando-me o coração.
Eu só não chorava junto com ela porque já tinha visto essa cena várias vezes. E para a sorte de , com a mesma velocidade que ela se apaixonava, ela também se desapegava. Era um ciclo vicioso sem fim. Não sei como ela conseguia remendar seu coração tantas e tantas vezes. Acho que já estava calejado. Só ficava com um pouco de pena, pois, apesar de tudo, ela era uma sonhadora, queria encontrar o príncipe encantado que a levaria para o altar. Porém, com esses caras que ela saía, não acharia nunca.
― Você não é idiota. Só faz algumas escolhas erradas, mas quem nunca, não é? Você não tem culpa que seu corpo é atraído pelos ferormônios desse tipo de homem. Você só precisa se lembrar de usar mais isso aqui – apontei para a cabecinha dela — e menos isso aqui – terminei tocando seu coração. — Eu sei que eles trabalham juntos, então não custa nada usar os dois ao mesmo tempo. – terminei sorrindo, levando em seguida uma almofadada na cara.
― Você está dizendo que eu não uso o meu cérebro, ? – falou ultrajada, mas a vi segurar o sorriso, mordendo o lábio.
― Se a carapuça serviu… – respondi me levantando, rindo, já esperando a represália. Saí correndo para o meu quarto sendo perseguida por ela.
― Volte aqui, dona , como ousa? – corria atrás de mim com uma almofada na mão.
Entrei no meu quarto, trancando a porta, ofegante por conseguir escapar do seu ataque. Lágrimas brotavam em meus olhos pelas gargalhadas que eu dava. Pelo menos consegui colocar um sorriso no rosto da minha amiga, estava satisfeita por isso.
― Você ainda me paga, – bradava ela rindo e socando a minha porta para entrar. ― Você ainda vai se apaixonar por alguém completamente diferente dessas suas teorias e eu que vou te consolar.
― Está me jogando praga? – retruquei em voz alta para que ouvisse do outro lado da porta.
― Não, , mas até que seria bom eu estar do outro lado pelo menos uma vez. – terminou desistindo de me fazer deixá-la entrar.
Respirei fundo sabendo que, por dentro, ela ainda estava sentida com toda a situação.
Não, , isso não vai acontecer, porque eu não me permito me apaixonar dessa forma – pensei.





Capítulo 2


No outro dia, estava melhor, já não fungava mais e nem chorava compulsivamente. Deixei-a dormindo, não iríamos juntas para a universidade hoje, pois sua aula seria apenas à tarde. Terminei de me arrumar olhando meu look no espelho. Não era porque eu não namorava que precisava andar como um trapo. Gostava de me ajeitar e me vestir bem. Meus longos cabelos e olhos escuros eram marcantes, chamando bastante atenção dos homens, porém eu não dava bola para eles. Aliás, só abria a guarda para o padrão que eu queria.
Ao chegar em meu laboratório, a primeira coisa que fiz foi cumprimentar meus pequenos ratinhos. Minha pesquisa de 'pós-doc' consistia em analisar os efeitos de um princípio ativo, nativo de uma planta da Floresta Amazônica, no nível de testosterona do sexo masculino. Queriam produzir um medicamento, porém estavam preocupados, pois alguns homens demonstraram “broxar” ao beber o chá dessa erva e outros efeitos até mesmos piores, como necrose do órgão. Por isso eu estava ali, há quase um ano, com a minha pesquisa em andamento.
Já eram quase dez horas e meus olhos começaram a lacrimejar de tanto ler artigos científicos para meus estudos, resolvi ir ao saguão ao lado pegar um cafezinho para acordar. Chegando lá, deparei-me com o Dr. Matheus Neves conversando com outros dois funcionários. Ao ouvir o som dos meus passos, ele abriu um sorriso, pediu licença aos seus companheiros e caminhou em minha direção.
Matheus era a minha definição biológica hormonal perfeita. Era um rapaz bonito, mas não poderia dizer que era o mais atraente do planeta Terra. Tinha uma pele clarinha que contrastava com a minha morena, seus olhos eram azuis e seu cabelo, um loiro escuro. Seu rosto tinha traços delicados no formato oval arredondado. Nada de queixos extremamente quadrados ou covinhas, nem mesmo aquele corpo sarado de academia. Eu nunca o havia visto sem camisa, mas pela minha análise, acho que seu abdômen era... Normal.
Ou seja, perfeito. A ciência já comprovou que, na maioria dos relacionamentos que deram certo, os homens eram menos bonitos que as mulheres. E eu sou uma mulher muito bonita, modéstia à parte, o que facilita o processo.
Além disso, um “pequeno” detalhe… Matheus ainda por cima era médico. Dava aulas na universidade, mas tinha seu consultório particular. Assim concretizando o par ideal para toda mulher, um ótimo provedor do sustento para o lar.
― Ei, ! – cumprimentou-me dando um beijo em minha bochecha.
― Olá, Dr. Neves. – respondi retribuindo seu sorriso.
― Ah, , quanta formalidade. Você não precisa disso. – retrucou piscando, fazendo-me corar.
A verdade era que nós estávamos naquele flerte já havia meses. Eu tinha um padrão, isso era fato, mas o Matheus foi o único que realmente me despertou algum interesse real. Todos os outros que eu havia tentado algo, os meus ferormônios fizeram questão de ficarem adormecidos, não surgindo nem um pingo de atração. Eu precisava fisgar esse homem, ele era perfeito para mim.
― Trabalhando muito? – perguntou.
― Um pouco, você sabe como são as coisas no laboratório… essa última pesquisa tem me dado trabalho. – respondi abrindo um pequeno sorriso. — E você? Ouvi falar que vai apresentar seu projeto no Congresso Internacional de Medicina que será em Lisboa esse ano. – perguntei levantando seu ego. Homens independentemente das características, sempre gostam de ser bajulados.
Vi seu sorriso crescer e sua postura ficar mais ereta. Encheu-se de orgulho para começar a falar das novidades. Contou-me dos estudos que estava fazendo, das premiações que seus alunos já haviam ganhado e do selo de qualidade que sua clínica tinha conseguido. Esforcei-me para mostrar interesse em cada coisa que ele dizia, de vez em quando eu mordia meu lábio inferior e colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha.
― Desculpe te encher com essas coisas, mas eu realmente estou em uma fase muito feliz. – falou após perceber que a conversa havia se transformado em um enorme monólogo.
― Que isso, Matheus! Adoro saber que está tudo correndo perfeitamente em sua vida. As vitórias das pessoas com quem me importo me fazem feliz também. – tirei por menos, tocando levemente seu ombro.
Percebi o olhar de Matheus seguir até onde minha mão estava e recuei levemente para não parecer oferecida. Um sorriso brotou pelos seus lábios, mesmo que ele se esforçasse para disfarçar.
― Sabe o que seria mais perfeito ainda? Uma comemoração. Que tal sair comigo amanhã à noite e festejar tudo isso?
Bingo! Missão completada com sucesso.
― Adoraria. – respondi, segurando meu sorriso de felicidade.
Logo depois, nos despedimos. Matheus saiu piscando para mim e disse que mais tarde me avisaria que horas eu deveria estar pronta. Eu estava eufórica, finalmente minha vida entraria nos eixos. Eu já tinha 26 anos, precisava aproveitar meus últimos momentos jovem para fisgar o meu parceiro. Finalmente teria um encontro com alguém, e meus hormônios que trabalhassem direito porque, dessa vez, tinha que dar certo.

No restante da manhã, fiquei em meu local de trabalho, analisando os resultados da minha pesquisa. Há uns meses estava passando por alguns entraves. Precisava de alguns aparelhos e substâncias para continuar o projeto, porém tudo no serviço público é mais difícil.
As verbas para as pesquisas científicas são limitadas e há tanta burocracia que, até a gente conseguir a quantia necessária para tocar o barco, ele já afundou faz tempo. Eu não queria fazer como outros colegas que usavam produtos vencidos ou equipamentos meia-boca e, depois, pegavam esses resultados e publicavam como se fossem fidedignos. Eu era uma pessoa correta. Acho que se cada um parasse de dar o “jeitinho brasileiro” nas pequenas coisas, as grandes, um dia, também fariam a diferença.
Suspirei profundamente ao perceber que estava acabando mais dois reagentes do meu laboratório. Nunca que eu conseguiria comprar outro a tempo, ainda mais com a crise que o país estava passando. Apoiei meus cotovelos na mesa e massageei minhas têmporas com os dedos, fechando os olhos, pensativa. Eu precisava dar um jeito nisso. No final das contas, eu acabaria tirando o dinheiro do meu próprio bolso, como sempre.
Senti minha barriga roncar e percebi que já era meio-dia. Retirei meu jaleco e fui em direção ao refeitório universitário, mais conhecido como RU. Cheguei à fila e peguei logo meu prato. Estava abarrotado de gente. Eu odiava vir nesse horário, porque era sempre a mesma coisa, demoraria um século para comer desse jeito.
Quando estava terminando de colocar a comida, peguei um copo de suco no balcão e comecei me retirar à procura de algum lugar para me sentar. Foi aí que senti um esbarrão, fazendo derrubar metade do líquido do meu copo no chão.
― Droga! – exclamei com raiva. Olhei para minha roupa e vi que não havia respingado nada, me fazendo respirar aliviada.
― Desculpe, moça, não te vi aí. – uma voz grave soou, fazendo-me olhar em sua direção.
Por um segundo eu prendi a respiração . À minha frente estava um homem alto e robusto. Seus cabelos eram e estavam meio jogados para cima em uma arrumação um pouco desarrumada, se é que isso tinha lógica. Seus olhos tinham a cor das águas do Caribe, e sua pele, um leve bronzeado dourado. Os músculos dos braços, expostos por fora da camisa, já deixavam clara a imaginação do que eu não conseguia ver. Os traços do seu rosto eram bem marcados e sua boca continha um desenho perfeito.
Espera…
Por que raios eu estava reparando nele assim?
Pisquei algumas vezes, voltando à realidade, e percebi que estava parada em frente ao homem sem responder o seu pedido de desculpas. Fiquei irritada por meu devaneio e franzi as sobrancelhas em sua direção, como se ele tivesse culpa.
Não lhe dirigi nenhuma palavra. Apenas apressei meus passos, com raiva, e desviei dele, caminhando até achar uma mesa com um assento vazio.
No RU havia várias mesas espalhadas, onde se sentavam alunos, professores, outros funcionários e até visitantes. Elas eram longas para caber o maior número de pessoas e, em um horário como esse, tudo era muito agitado. A fila pelo lado de fora estava extensa, sentia pena dos estudantes que ficavam presos na sala com aqueles professores que não sabiam a hora de terminar a aula. Provavelmente nem teriam tempo de almoçar, apenas comprar um salgadinho na tia da cantina.
Comecei a comer em meio ao barulho dos grupinhos de alunos que estavam do meu lado esquerdo e direito. Não demorou 5 minutos, ouvi umas pequenas risadinhas femininas, baixinho, e uma voz recém-conhecida pedir “com licença”. Levantei a cabeça e fitei o mesmo homem de minutos atrás colocar a sua bandeja sobre a mesa, bem na minha frente, arrastar a cadeira e sentar-se ali.
― O que está fazendo em minha mesa? – resmunguei em sua direção.
Ele olhou de um lado para outro, como se procurasse algo. Depois, levantou do banco, olhando-o com atenção, até sentar-se novamente e voltar a me fitar.
― Não achei seu nome aqui. – respondeu franzindo levemente o cenho e mordendo o lábio para segurar o riso.
― Mas eu cheguei aqui primeiro. – retruquei nervosa.
― Ora, não sei se percebeu, docinho, mas aqui está lotado. – disse apontando ao redor — O lugar vago era esse, portanto, terá que me aturar por algum tempo. – completou voltando à atenção para o seu prato, despreocupadamente.
Ele não podia ficar ali, eu não queria ele ali. Todo o seu corpo piscava para mim em um sinal de alerta enorme e uma grande placa de “perigo”. Pessoas como ele, eu fazia questão de manter distância. Como diz o velho ditado: Melhor prevenir do que remediar.
Bufei raivosa, mas eu não podia simplesmente levantar e me retirar do meu lugar. Primeiro porque realmente o refeitório estava lotado e, segundo, não faria sentido nenhum para ele. Precisava ignorá-lo e continuar almoçando em paz, como se nada tivesse acontecido.
Não era nada demais. Ele era como vários outros tipos de homens que eu vinha desdenhando pela vida. Sempre corri deles para que não tivesse nem chances de ser pega em suas armadilhas. Eu só precisava fazer o mesmo de sempre, fingir que não existiam. Peguei a faca e comecei cortar a carne para almoçar de uma vez e poder me retirar. Em um rabo de olho, percebi um sorriso discreto no canto dos seus lábios, enquanto pegava a batata frita e molhava no ketchup.
Ele me encarava e segurava o riso enquanto comia. Tentei fingir que não havia percebido, mas aquilo só estava me irritando cada vez mais. Continuei cortando a carne com força, até perder completamente a paciência, bater os punhos levemente na mesa e largar os talheres lá.
― Qual o seu problema? – perguntei soltando ventas pelas narinas e, para piorar, ele soltou uma gargalhada.
― Você. – disse apontando para mim. — Toda estressada, não queria que eu sentasse aqui e agora fica fazendo umas caretas engraçadas enquanto come, além de travar uma luta com o bife do seu prato. O que a vaca te fez de tão mal para estar com essa fúria toda? Ou tudo isso é por causa de um simples esbarrão? Se for isso, eu já pedi desculpas, foi sem querer. – respondeu e percebi sua expressão ficar mais séria no final.
Percebi que estava pagando de doida e era melhor eu me controlar.
Expira e inspira… 1,2,3…
Ótimo.
― Sem problemas, só tem sido um dia… hum… agitado. – tentei contornar a situação.
― Ok. – parou seu olhar sobre mim e não pareceu acreditar muito. — Você trabalha ou estuda aqui? – disse, puxando assunto.
Alerta vermelho de novo.
Não era porque eu estava sendo educada que dava a ele o direito de começar perguntar da minha vida. Era assim que começavam as coisas. Primeiro uma conversa casual, depois um café, jantar… até parar na cama, apaixonada, e, no final, me afundar em um pote de sorvete assistindo filmes melancólicos.
― Trabalho. – fui o mais breve possível. Ele, percebendo que eu não queria muita conversa, tratou de apenas assentir e continuar o seu almoço.
Continuei comendo como se estivesse sozinha naquele refeitório, porém estava intrigada com a presença dele. Não me recordava de nenhum rosto ao menos parecido com o seu no quadro de funcionários, só podia ser algum visitante ou aluno. Quando menos percebi, lá estava eu e minha curiosidade falando mais alto e interrogando-o, assim como fez comigo.
― O que te trouxe à UFRJ? Não me recordo de te ver por aqui. – perguntei, mas continuei comendo, como se fizesse pouco caso disso. Seu semblante pareceu-me alegre pelo meu pequeno interesse em manter um diálogo.
― Estudos. – respondeu comedido. Ele parecia ter em torno de uns 28 anos. Apesar de eu ter alunos bem mais velhos, ele não me parecia ser um. Mais um item para o meu pisca-pisca. Bonito, malhado, atraente e… pobre. Sim, pobre mesmo, porque vida de estudante é desse modelo, pura sofrência e pobreza. Isso só podia significar Einstein me alertando para ficar bem longe dele.
― Você não acha que demorou um pouquinho para fazer faculdade? – perguntei fazendo um sinal de diminutivo com os dedos.
― E desde quando se é tarde para estudar? – retrucou-me, em pose de desafio. —Pois saiba que a minha avó fez sua graduação aos cinquenta anos e, depois disso, não parou mais. Ela é o meu orgulho e inspiração.
Engoli em seco, sem graça, e apenas dei de ombros. Na verdade eu só queria provocá-lo, mesmo que não intencionalmente. Agora estava envergonhada, provavelmente até vermelha. Eu não sabia os motivos que ele teve para começar sua graduação agora, podia ter sido vagabundagem, ou não. Eu não tenho culpa se ele parecia o tipo de cara que só quis curtir a vida durante a juventude e que, agora, o papai cansou de sustentar e mandou-o tomar um rumo definitivo, tinha?
Pensando assim, minha mente até se aliviou. Eu não precisava sentir remorso por ele, aliás, eu não precisava sentir nada, o que eu tinha que fazer era almoçar o mais rapidamente possível e sair dali.
― Você gosta de encarar todo mundo assim ou eu sou seu preferido? – ouvi sua voz me perguntar. Eu nem havia percebido que estava parada olhando para frente de novo. Merda.
Abri a boca surpresa com a pergunta, mas logo me recuperei. Eu não deixava homens como ele terem efeitos sobre mim, então agora não seria diferente. Usaria a minha armadura contra qualquer poder “testosteronado” que pudesse ter, por isso respondi dando um sorriso debochado.
― Pode ter certeza que minha preferência não é você.
Vi ele arquear a sobrancelha em desafio, cruzou os braços e os apoiou sobre a mesa com um sorriso mínimo no canto da boca.
― Ah, é? E qual seria, então?
Não gostei do rumo que aquela conversa estava tomando. Se ele achava que seus hormônios de macho alfa iriam comunicar-se com os meus, ele estava muito enganado. Eu jamais deixaria isso acontecer. Repeti o seu movimento, encarando-o da mesma forma, não deixaria que me intimidasse.
― Uma longa história. Eu teria que te explicar muitas coisas que, definitivamente, não estou nem um pouco a fim no momento. Então… tchau. – encerrei aquela conversa esquisita e apressei-me para voltar ao trabalho. Já até havia perdido a fome, não conseguiria terminar o meu almoço com ele ali mesmo, então só levantei-me e saí.
― Por acaso está fugindo de mim? – perguntou ele alto, chamando atenção de alguns alunos que estavam por perto. Vir-me-ei irritada por ver algumas pessoas nos observando.
― Eu tenho coisas mais importantes para fazer, docinho. Não tenho todo o tempo do mundo, algumas pessoas precisam trabalhar. – pisquei e vir-me-ei novamente em direção à saída.
Precisava voltar a me enfurnar nas minhas pesquisas e leituras. Aquilo havia sido muito estranho. Normalmente eu não me sinto intimidada, ou mesmo irritada com homens bonitos. Pelo contrário, eu os ignoro. Não vou usar falsa modéstia, eu sei que sou bonita e atraente, já recebi cantadas de homens de vários tipos, já estava acostumada. Era um dos motivos que eu preferia ficar mais reclusa, caso quisesse manter meu plano de relacionamento perfeito. Eu não precisava de um cara desconhecido para me provocar. Graças ao meu bom Darwin, provavelmente, eu nem o veria novamente. Eu tinha um encontro amanhã com o Matheus e era isso que eu precisava focar de agora em diante.





Capítulo 3


Nervosismo sem motivo aparente e ritmo cardíaco um pouco alterado. Definitivamente não eram bons sinais. Não sei explicar o porquê, mas a presença daquele ser havia me desestabilizado. Não podia ter acontecido. Eu estava habituada a esse tipo de gente.
Qual é?! Eu não vivia reclusa!
Claro que já tinha visto homens bonitos antes. Mas esse, em particular, me perturbou e eu não estava nem um pouco confortável com isso.
Lei da primeira atração.
Era óbvio que era isso que estava acontecendo. Nossos hormônios das cavernas são traiçoeiros. Não podemos ser levados por nenhum abalo biológico que nosso corpo começa a apitar. Por isso que o ser humano possui um cérebro racional. Para evitar que caiamos nessas armadilhas sensoriais.
Matheus, Matheus, Matheus…
Talvez se eu repetisse mais vezes o seu nome, eu acabasse esquecendo o maldito desconhecido. Estava tão irritada ontem na hora do almoço que ao menos sei quem ele era. Porém é melhor assim. Quanto menos contato e intimidade, melhor.
A universidade era enorme. Quais as chances de vê-lo novamente? Praticamente nula.
Aquele momento estranho de ontem não saía da minha cabeça, mas nada que uma noite de sono não resolvesse. Hoje seria um novo e ótimo dia!
Logo pela manhã, bem cedo, recebi uma mensagem muito esperada por mim. Meu sorriso não tinha como ficar mais largo.

“Bom Dia, ,
Espero que esteja tudo certo para hoje!
Outback às 19 horas. Te aguardo lá.
Beijos, Matheus”


Respirei fundo e contente, confirmando o encontro. Claro que eu esperava que ele mandasse algo como um pedido do meu endereço para me buscar, mas quem liga? Eu tenho meu próprio carro, posso encontrá-lo lá.
Terminei de me arrumar e fui para o trabalho, cheguei um pouco atrasada por causa do trânsito caótico. Era uma das coisas que me fazia sentir falta do interior, a calma e a tranquilidade. Lá na minha cidade, eu gastava apenas cinco minutos para chegar em qualquer lugar que eu quisesse, agora aqui, às vezes, levava até uma hora, dependendo do horário. Mas não poderia reclamar, pelo menos eu tinha um carro. Pior era na época que eu andava de busão.
Chegando ao local, logo encontrei minha estagiária, Mattos. Uma menina dedicada e gentil, adorava ela.
― Bom dia, .
― Bom dia, . Algum recado para mim? – perguntei enquanto colocava meu jaleco.
― O Sr. Freitas veio hoje bem cedo, disse que precisava falar com você.
Franzi o cenho, intrigada. O Sr. Manuel Freitas era o Coordenador de todo o Centro de Pesquisas. O que será que ele queria? Fiquei preocupada. Com a crise no governo e o corte dos gastos, tudo poderia acontecer. Só esperava que não suspendessem as nossas pesquisas. Já caminhávamos a trancos e barrancos, não poderiam jogar nossos anos de estudos e dedicação fora.
― Ele falou alguma coisa?
― Não, só disse que viria daqui a pouco. - respondeu.
Começamos nossas atividades, tínhamos várias análises para fazer e precisava aproveitar o horário que a estivesse no laboratório para me ajudar. Passara quase uma hora, quando ouvi o som de uma batida na porta e, logo em seguida, um senhor grisalho, bem arrumado, entrou no local.
Era o Sr. Freitas que vinha entrando sem cerimônias, como sempre.
― Bom dia! – levantei-me da minha mesa, colocando os instrumentos sobre ela para cumprimentá-lo.
Eu estava com o cabelo amarrado em um coque bagunçado, óculos de proteção no rosto e luvas ensanguentadas nas mãos. Uma linda arrumação.
Tentei ajeitar-me, retirando as luvas contaminadas e jogando-as no recipiente próprio, depois lavei as mãos e passei pelos meus cabelos a fim de conter os fios espalhados pelo meu rosto.
Só então pude notar que, atrás dele, havia um homem e, para a minha tristeza, não era qualquer um. Era aquele homem.
Fiquei em choque, mas vi o sorrisinho de canto dele ao sair atrás do Sr. Freitas.
― Olá, Dra. . - disse meu chefe me cumprimentando. ― Gostaria que conhecesse o novo estagiário do nosso centro. , esta é nossa querida Doutora , mais conhecida como a Doutora do Amor – falou ele risonho, me fazendo corar envergonhada.
As pessoas viviam me chamando assim por causa dos meus estudos. No início eu ficava irritada, mas com o tempo, me acostumei. Porém, às vezes, sentia-me constrangida, ainda mais quando era apresentada para pessoas desconhecidas. O que ele pensaria de mim?
― Prazer conhecê-la, doutora – disse , fitando-me e estendendo sua mão, ignorando que já havíamos no visto antes.
― O prazer é meu. – respondi, embarcando no teatro. Estendi a mão para ele e, em retribuição, ele segurou-a firmemente por alguns instantes.
Encaramo-nos em uma competição sem sentido, até o Sr. Freitas pigarrear e me fazer soltá-lo, embaraçada.
― Muito bem. Estou mostrando os laboratórios para ele, pois o ficará um tempo conosco. Ele fará um estágio de duas semanas em cada um. Pela tabela que fizemos, aqui será o último, mas adoraria que fizesse companhia a ele e o ajudasse em sua transição. Ele quer conhecer os setores e ver em qual se adaptará melhor para seguir a carreira futuramente, é um rapaz com grande potencial.
― Ah! Que bom! Seja bem-vindo, . – foram as únicas coisas que consegui dizer.
Isso estava me saindo pior que encomenda.
Duas semanas com
A teoria do caos diz que uma mudança no início de um evento qualquer, pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Eu só espero que aquele maldito esbarrão não atrapalhe a vida que planejei para mim.
― Obrigada, . - respondeu abrindo um grande sorriso de tirar o fôlego.
Pisquei tentando me concentrar em como ser irredutível. Teria que ser simpática na frente do Sr. Freitas, mas não queria abrir brecha para ele, ainda mais sabendo que teríamos, em breve, que nos ver corriqueiramente.
― Agora precisamos ir. Vou mostrar o resto do campus ao e depois deixá-lo a vontade para conhecer o resto da Universidade. Obrigada pela atenção, .
― Disponha, não há de quê. - respondi e, logo em seguida, se retiraram.
― Uau! – exclamou , saindo da saleta dos ratinhos. – Oh lá em casa, hein. Que homem é esse?!
― Que isso, ? Isso são modos? – ralhei com ela, porém brincando.
― Desculpa, , mas não tinha como ficar calada. Pu…- calei-a com minha mão, impedindo-a de falar um palavrão.
Essa era a minha querida aluna de iniciação científica, impossível não rir com ela.
― Ok, . Já entendi sua expressão. - falei rindo.
― Quando ele vai vir para cá mesmo?
― Não sei o dia exato. Ele vai estagiar em outros laboratórios antes. Aqui será o último. - respondi dando de ombros.
― Hummm. Que pena que vai demorar um pouquinho… Então quer dizer que ele vai ser meu colega de estágio? – perguntou, abrindo um sorriso travesso.
― Deixa de ser boba, menina. Ele é muito mais velho que você.
― Ow! – colocou a mão no peito. ― Quem disse que é pra mim? Estou pensando em você – respondeu rindo e piscou para mim.
Parei imediatamente o que estava fazendo e fechei a minha expressão.
― Você sabe que é sem chance. - disse séria.
― Sei, sei… Você não namora caras gostosos, bons de pega, blá,blá,blá. Grande balela. - falou revirando os olhos.
― Exatamente. Por isso caras como ele ficam bem longe do meu radar.
― Eu quero ver o que você vai fazer quando ele estiver não só no seu radar, como perambulando por aqui. - disse ela rindo, sonhadora.
― Vamos deixar isso para depois. – disse cortando-a. ― Não interferirá em nada, seguiremos nossa rotina normalmente. – afirmei.
― Sei… Você acha que eu não percebi as encaradas que deram um para o outro, né? Qual é, , você é linda, impossível seria se ele não tivesse te reparado e, além disso, ele é um…
! - cortei-a, antes que continuasse tagarelando sobre .
― Tá bom, parei, parei… – ergueu as mãos em sinal de rendição, gargalhando.
Bufei irritada. Mal havia conhecido e ele me tirava de sério de todas as formas, estando ele presente ou não. Por que ele precisava ser tão bonito e ter uma presença tão marcante?
Balancei a cabeça, a fim de afastar meus pensamentos. Precisava me concentrar em qualquer outra coisa que não fosse no maldito.
Fui até os meus ratinhos para analisar os últimos resultados da minha pesquisa. As reações adversas da planta continuavam a aparecer. Os ratos tratados não conseguiam acasalar e alguns tinham os órgãos necrosados. Precisava terminar minha pesquisa o quanto antes. Esta planta tinha muito potencial para tratamento oncológico e eu não aceitava que fosse descartada dessa forma. Quando viram os efeitos colaterais que ela trazia, desistiram das pesquisas e deram como encerrado. Porém eu não, eu continuava firme e forte, cheia de esperança e expectativa. Acreditava muito que podíamos analisá-la. Os resultados eram promissores, apesar dos efeitos demonstrados.
Por isso, eu tentava separar todos os princípios ativos daquela planta, a fim de descobrir se o que ajudava na batalha das células cancerígenas era o mesmo que causava a necrose dos órgãos.
Passei a manhã tentando preparar outros testes, enquanto me auxiliava nos procedimentos. Olhei para o relógio que ficava pregado na parede e vi que já era mais de onze horas. Resolvi parar o serviço para ir almoçar antes que o refeitório enchesse com a manada.
Guardei meus óculos de proteção, retirei as luvas, jogando-as no lixo e lavei minhas mãos. Em seguida, retirei meu jaleco lentamente, pendurando-o em um gancho perto dos armários e soltei meu coque, passando as mãos levemente por meus cabelos, a fim de ajeitá-los.
― Sabe aquela história de você não pegar homens bonitos? – minha estagiária me perguntou, chamando minha atenção.
― Sim. – respondi impaciente, já imaginando ter que voltar naquele assunto todo de novo.
― Acho melhor você avisar para um deles então, porque o boy magia acaba de chegar ali na porta e está te observando já faz uns cinco minutos. - cochichou baixinho ao meu lado.
― Droga. - praguejei nervosa. ― O que ele quer? – perguntei para mim mesma, peguei minha bolsa e me retirei do laboratório pedindo para que trancasse tudo ao sair.
Passei por ele na porta, esbarrando sem ao menos pedir licença.
― Opa! Não vai nem me dizer oi? – perguntou ele, mordendo o lábio inferior para não rir, o que foi desnecessário.
― O que você quer aqui? – indaguei, virando-me bruscamente para encará-lo.
― Acho que o Sr. Freitas não aprovaria esse tipo de atitude, se me lembro bem, ele pediu para que me ajudasse em minha transição. – disse presunçoso, colocou as mãos no bolso da calça jeans, piscou para mim e abriu um sorriso maroto.
Cruzei os braços e encarei-o, fuzilando-o com o meu olhar.
― E o quê, por acaso, você precisa tanto de mim?
Ele abriu um sorriso e passou a mão por seu cabelo. Foi impossível não notar a curva que seu bíceps fez com o movimento e o pequeno pedaço de carne do seu abdômen que ficou amostra quando sua blusa levantou, mostrando um pequeno pedaço do seu V.
Engoli em seco, tentando focar a minha visão apenas em seus olhos e nada mais. Malditos hormônios. Não é possível. Eu não poderia ficar desestabilizada dessa forma. Eu já havia visto barriga de tanquinhos, não é agora que aquilo deveria mexer comigo.
― Bom… Como está na hora do almoço, eu achei que você poderia me acompanhar, me ajudar na socialização do ambiente, você sabe… – falou como se eu não notasse nada implícito por trás de suas palavras.
Aquilo não estava certo, definitivamente não estava nada certo.
― Não, . Eu não vou almoçar com você. Na verdade, agora eu estou indo na rua, não vou nem almoçar. – menti.
― Não é o que parecia lá dentro. Vamos lá, Dra. do Amor – terminou falando aquele apelido ridículo, deixando-me mais nervosa ainda. Ele gargalhou enquanto eu apenas bati o pé, furiosa, e comecei a caminhar rapidamente rumo ao refeitório, deixando-o para trás. Ouvi seus passos atrás de mim, até sentir sua mão tocar meu braço.
― É tão divertido te irritar. – falou com uma expressão satisfeita.
― Estou percebendo.
― Ah, , qual é, estamos indo para o mesmo lugar, não custa nada. É só um almoço em pleno refeitório da universidade, rodeado de alunos em nossa volta, não é como se eu estivesse te chamando para sair. Ah não ser que você queira… – falou abrindo um pequeno sorriso e erguendo uma sobrancelha.
― Eu jamais sairia com você. – falei áspera, puxando meu braço para soltar do seu aperto.
O vi franzir o cenho, talvez eu tenha atingido o seu ego inflado. Mas logo ele se recuperou, adquirindo uma expressão relaxada.
― Pois então, vamos almoçar e você me conta qual é a do apelido tosco. – falou apontando para mim.
Revirei os olhos, mas logo uma luz acendeu-se em minha mente. Estava ali a saída perfeita. Contaria os motivos para me chamarem assim e minhas ideologias. Dessa forma ele saberia que não deveria nem cogitar qualquer possibilidade de investir em mim.
― Tudo bem. – Abri um sorriso quê, talvez, para ele, fosse em concordância, porém, na verdade, era a minha mente ardilosa dando um jeito de afastá-lo de uma vez por todas.
Caminhamos até o refeitório, pegamos nossas bandejas e pratos, entramos na fila e nos servimos. Cumprimentei alguns alunos que me abordavam e em seguida sentamos em uns lugares vagos que encontramos.
me instigou a contar sobre o apelido. Ele estava curioso, seus olhos não negavam. Comecei a falar sobre a minha especialidade, sobre como eu conhecia tudo que envolvia as reações do nosso corpo em relação a atração, paixão e amor. Expliquei a ele algumas teorias sobre relacionamentos e como muitas vezes eu era chamada para dar palestras sobre a área. Por isso recebi tal apelido, Doutora do amor.
― Achei que fosse porque era uma pessoa dócil e amável, ou mesmo, talvez, tivesse muitos relacionamentos românticos. – falou entre uma garfada e outra.
― Não mesmo. O amor é superestimado. São apenas reações biológicas do nosso corpo.
― Nossa, que prática você! – disse em um tom surpreso. Dei de ombros, pouco me importando. Estava acostumada com aquele tipo de reação.
Todos esperam que as mulheres sejam românticas e sonhadoras incuráveis. De fato isso está em nossa biologia humana, mas, conhecendo o corpo como eu conheço, não cederia a essas imaginações. Talvez quando eu achasse meu par perfeito, que por sinal, eu esperava que fosse o Matheus, isso mudasse.
Terminamos as refeições e caminhamos de volta, em direção ao meu laboratório. estava silencioso e parecia pensativo. Parecia intrigado com tudo o que eu havia dito. Apesar dos apesares, havia sido uma conversa agradável, foi um diálogo fluido e ele foi atencioso em todo o tempo em que me ouvia. Às vezes olhava para mim como se eu fosse uma caixinha de surpresa que ele queria desvendar, mas nada que eu não conseguisse suportar durante o almoço.
Quando chegamos à porta do meu local de trabalho, ele virou encarando-me. Seu olhar para mim era profundo e parecia se conter para o que queria dizer. Mordeu o lábio e enfiou as mãos no bolso, balançando um pouco a perna.
― Então… se eu te chamasse para sair agora, você não aceitaria? - perguntou.
― Não! – disse reticente, sem nem titubear.
― Você é maluca! – falou ele, suspirando. Balançou um pouco a cabeça em negativa e finalmente confidenciando o que havia achado. Melhor assim, dessa forma ele me esquecia de vez.
― Desculpe se eu tenho meus ideais que impedem que eu aceite seu pedido.
― Que seria…? – arqueou a sobrancelha, questionando-me.
― Você é todo másculo, atraente, tem pinta de gostoso e boa praça. Seus músculos se sobressaem por sua roupa, seu queixo é quadrado e o sorriso perdidamente sexy – disse como se não fosse nada.
― Então você está me dizendo que não quer sair comigo porque eu sou… hum, bonito? – abriu um leve sorriso.
― Basicamente. – finalizei, ouvindo o som de uma gargalhada.
ria tanto que passava o dorso da sua mão nos olhos, a fim de conter as lágrimas. Fechei minha expressão, não gostando nem um pouquinho de fazer papel de palhaça.
Ao notar que não estava satisfeita, ele se recompôs, dando alguns passos até mim. Parou colado à minha frente, sua respiração ficando de encontro com a minha. Estava completamente paralisada quando, de repente, seus olhos transformaram-se, ficando mais sérios, e ele inclinou-se em minha direção.
Por um segundo perdi a respiração. Fechei meu punho com força, cravando minhas unhas na palma da minha mão até que doesse. Não conseguia sair daquela posição estática.
― Você é hilária, . – falou baixinho, passando seu rosto direto pela direção da minha boca e repousando um beijo lento em minha bochecha.
Só consegui soltar o ar novamente quando percebi que ele havia ido embora, me deixando ali com a mente nebulosa.
Eu estava muito ferrada.





Capítulo 4


Cheguei em casa estressada. A única coisa que me acalmava era lembrar que eu sairia com o Matheus à noite. Seria uma noite incrível, nós jantaríamos, jogaríamos conversa fora e eu esqueceria o tal do que havia me azucrinado hoje. Além disso, eu torcia para que essa noite me rendesse algo futuramente.
Já eram 17h30min e eu tinha pouco tempo para me arrumar e ir para o local marcado. Tomei um banho rápido, lavei meus cabelos e sequei-os com o secador, deixando as ondas soltas nas pontas. Fiquei um tempo parada em frente ao guarda-roupa, na tentativa de escolher o que deveria vestir para enlaçar um homem, não só por uma noite, mas sim para a vida.
Optei por um vestido preto, que nunca tem erro. Ele era fechado em cima e de manga comprida, porém era mais curto embaixo, no meio das minhas coxas. Ótima opção, não mostrava demais e nem de menos. Regra de etiqueta básica para não errar, se mostrar em cima, cubra embaixo, se mostrar embaixo, cubra em cima. Assim você provoca sem excessos, entretanto deixa o cara com a sensação “quero ver mais do que você está expondo”. O vestido tinha um detalhe fino e transparente que ia da barra, um pouco na frente, e subia até a lateral do meu seio esquerdo. Não mostrava nada, era bem pequeno mesmo, mas dava uma visão chique para a roupa. Estava perfeito.
Calcei um scarpin preto de salto alto e agora só faltava à maquiagem. Preferi algo mais nude, então não exagerei. Apenas marquei bem a linha dos olhos e cílios, destacando meu olhar negro, e passei um batom cor de boca, finalizando o look.
― Ora, ora, alguém está saindo para matar hoje, heim!? – entrou no meu quarto, jogou-se em cima da minha cama e me observou, enquanto eu me ajeitava em frente ao espelho.
Virei-me para ela e apenas abri um sorriso cheio de segundas intenções, deixando claro que sim, ela estava certa.
― Quem é a vítima? – perguntou.
― O Matheus.
― O doutor riquinho que você estava paquerando há tempos? – exclamou.
― Ele mesmo – respondi rindo.
― Sua safada! Você conseguiu. Não acredito! – disse jogando o travesseiro em mim.
― Ai. Não estraga minha arrumação, – ralhei com ela, peguei o travesseiro e joguei de volta, acertando bem o seu rosto.
― Ouch! – ela alisou o rosto no lugar que eu a acertei.
― Eu não consegui nada ainda. A gente só vai sair. Porém… eu espero mesmo que depois dessa noite eu consiga fisgá-lo de vez.
― Isso é muito injusto, sabia?! Eu jurava que você ia quebrar a cara com essas teorias de vidas que tem.
― Nossa, , com uma amiga como você eu não preciso nem de inimiga, sabia? – falei brincando com ela, enquanto pegava meu cartão e as chaves e colocava em minha bolsa.
― Chata! – xingou-me. ― Mas eu realmente tinha certeza que ainda ia chegar alguém que mudaria toda essa sua concepção. Na verdade, eu ainda acho isso, o Matheus seria muito cômodo para você.
― Não é questão de comodismo, . É o que é certo para mim. Eu esperei, não me envolvi com qualquer um e agora, na hora certa, encontrei alguém que atende e se encaixa nos meus padrões e que não vai me decepcionar. Não tem erro. A atração já rolou, agora é desenvolver o resto. - constatei para ela.
― Mas…sei lá. Tudo isso parece tão… frio. Você já pensou se aparece alguém que mexe com você, porém é totalmente diferente do que você aceitaria?
Instantaneamente lembrei-me de , no entanto logo expulsei aqueles pensamentos da minha cabeça. Trinquei meu maxilar e respirei fundo.
― Não – disse séria. — Eu não deixaria isso acontecer.
― Mas e se…
― NÃO, ! – interrompi brava. — Isso está fora de cogitação. - completei, enfezada com aquele assunto todo. Ninguém me entendia.
― Nossa… Não está mais aqui quem falou então – ergueu os braços em sinal de rendição. — Bom encontro para você.
saiu do quarto, batendo a porta, meio chateada. Ela era sensível, ao contrário de mim. Muitas vezes o que era “normal” no meu jeito de falar, para ela era grosseria. Em nossa convivência eu pude aprender muito com minha amiga, somos o equilíbrio uma da outra. Com ela eu tento a cada dia ser mais meiga e a se esforça para não ligar com cada coisinha que os outros dizem.
Enfim… Eu sabia que não precisava ter falado dessa maneira. Praguejei sozinha por causa da minha grosseria. Às vezes eu falava a primeira coisa que me viesse à cabeça e acabava me arrependendo depois. Só de lembrar do dia de hoje eu ficava exaltada, o que acarretou esse infortúnio. Tentei esfriar a mente e sair logo para encontrar Matheus. Quando eu chegasse eu pediria desculpas a . Ficaria tudo bem.
Olhei o relógio e vi que já estava praticamente atrasada. Precisava sair logo, antes que já começasse com o pé esquerdo o meu encontro. Peguei a chave do carro apressada e sai de casa. O trânsito estava fluindo, por isso não tive muitas dificuldades para chegar ao local.
Logo na recepção, falei o nome do Matheus, sendo encaminhada pela garçonete até a mesa onde ele se encontrava. Observei ele sorrir ao me ver e foi impossível não retribuir. Meu coração deu uma leve palpitada e eu já imaginava as várias partes do meu cérebro trabalhando para o amor lindo que surgiria entre nós dois. Eu esperava por isso. Ele não poderia me decepcionar.
― Ei, , está linda. – Matheus levantou-se para me cumprimentar e me deu um beijo na bochecha.
― Obrigada – respondi, sentando-me em frente a ele, naquelas cadeiras acolchoadas do local. Logo fomos recepcionados pelos excelentes garçons do lugar, que já enviaram aquele pãozinho australiano delicioso para abrir o nosso apetite.
, confesso que estive um pouco reticente em te convidar para sair. Os caras comentam que você não costuma dar muita conversa para ninguém. E por mais que eu visse que, talvez, pudesse ter chances, eu estive com o pé atrás… Então, segue a minha dúvida… Por que eu? O que a levou aceitar o meu convite.
Naquele momento quase engasguei com o pãozinho, a sorte é que eu tinha um refil enorme de coca-cola para me desentalar e me fazer pensar antes de responder aquilo.
Fiquei ponderando a sua pergunta… será que se eu dissesse meus reais motivos ele se contentaria? Acho que dizer que ele tinha uma boa aquisição financeira, era menos bonito que eu e tinha um corpo…ok, não seria muito bom. Melhor ocultar isso aí.
— AH… - abri a boca para começar a falar e desviei um pouco o olhar. — Não tem explicação, Matheus, só… eu só quis. Você é alguém que me interessa, não é vazio que nem tantos outros que vejo por aí.
Matheus abriu um sorriso e acho que minha fala foi o suficiente para que ele ficasse feliz. Estendeu sua mão por sobre a mesa e pegou a minha, fazendo-me ficar aliviada e esboçar um pequeno sorriso.
— Fico feliz por isso. Saiba que penso o mesmo de você. - piscou para mim e voltamos a comer. Nem sabia ele que definitivamente nós não pensávamos a mesma coisa.
Continuamos o nosso jantar sem nenhuma pergunta comprometedora, graças a Deus. Comemos aquela costela maravilhosa, junto com uma batata recheada divina. Eu não era fresca e nem ligava em comer muitos carboidratos. Para a minha sorte, a genética havia sido favorável na minha vida, então eu esbanjava mesmo.
Continuei a conversar com o Matheus sobre algumas banalidades do dia a dia, confesso que em certo momento cheguei a ficar entediada, eu já havia ouvido sobre todas as conquistas profissionais dele umas quinhentas vezes, acho que já sabia tudo de cor e salteado, porém tentei focar em todo o futuro lindo que poderíamos ter e na comida maravilhosa sobre a mesa.
— Eu admiro muito você, sabia? – Matheus falou para mim, colocando-me como foco pela primeira vez na noite.
— É? Por quê?
— Não é todo mundo que defende uma pesquisa com unhas e dentes como você, mostra o quanto é determinada, mesmo que seja uma perda de tempo – falou enquanto tomava o suco, tranquilamente.
— Perda de tempo? – indaguei-o, perplexa.
Era essa a forma que ele estava tentando me elogiar?
— Sim. Já foi mostrado em várias pesquisas os efeitos adversos que a planta que você estuda causa e, mesmo assim, você prossegue tentando achar uma maneira que dê certo. É um grande risco para o seu pós-doc, sabia? Vai que você chega ao final e não consegue nada…
Enquanto ele me falava só torcia para que ele fechasse a matraca de uma vez e não terminasse de arruinar com o nosso encontro. Poxa! Já era difícil achar um cara com os requisitos que eu queria, pior ainda, um que me atraísse de alguma forma, aí o Matheus fala uma merda dessa… Ele quer acabar comigo, só pode.
Quem ele pensa que é para dizer o que devo ou não pesquisar? Se eu estava fazendo esse projeto era porque eu tinha dados suficientes para acreditar que daria certo.
— Eu acho que você só está dizendo isso porque uma dessas pesquisas foi o seu laboratório quem fez…- falei com uma voz serena, mas por dentro estava espumando de raiva.
— O quê? Claro que não! – vi que ele ficou levemente alterado. — Estou dizendo para o seu próprio bem, . Mas veremos… Até o final descobriremos quem estava certo então. - falou em tom de desafio e com um leve sorriso debochado para mim, o que me matou de raiva.
Aquilo ali acabou com a minha noite. Eu poderia suportar o convencimento do Matheus e qualquer outro defeito, desde que fosse suportável, porém colocar a prova o meu trabalho e convicções era o mesmo que dar um tiro no pé.
Pior de tudo, era que eu apostava fielmente nele e nesse encontro.
Talvez eu pudesse mudar a sua forma de pensar com o tempo, até porque, achar homem já está difícil, piorou escolher demais.
Tentei focar nisso o resto da noite e enumerar os motivos que me fizeram escolher o Matheus. Desta forma, fiz o possível e o impossível para que pudéssemos continuar tendo um jantar tranquilo.
Como eu fiquei mais calada do que antes, Matheus monopolizou a conversa, agora contando os próximos eventos científicos que participaria. Tagarelou até acabarmos o jantar. A única coisa que fez o meu humor voltar foi a sobremesa maravilhosa que foi servida. Deliciei-me com o sorvete e o brownie de chocolate.
Dica para os homens: sempre que fizer uma cagada, a melhor arma para amansar a fera é dar chocolate.
Quando terminamos, pedimos a conta e dividimos, não gosto que paguem para mim, ainda mais que nós não tínhamos relacionamento nenhum. O que não foi problema para Matheus, pois ele sequer ofereceu.
Ele me acompanhou até o estacionamento, onde o meu carro estava, e parecia um pouco nervoso, enquanto eu, um pouco frustrada com a noite.
— Me desculpe se a ofendi de alguma maneira. – Matheus falou sem jeito, enfiando as mãos no bolso da calça jeans. Olhava um pouco para o chão, parecia arrependido. — Eu não quis desmerecer o que você faz, eu que às vezes falo demais – terminou com um pequeno sorriso, que fez meu coração se desmantelar um pouco.
— Não tem problema. Confesso que não gostei, mas vamos deixar isso para lá – falei, achando por bem enterrar isso, caso quiséssemos seguir com algo a partir de hoje. Toquei o seu ombro, como forma de mostrar que águas passadas não movem moinho, e ele viu o meu ato como um passe para se aproximar de mim.
— Apesar de tudo, eu adorei essa noite e gostaria muito que ela se repetisse outras vezes – disse, achegando-se mais perto de mim e tocando minha bochecha.
Eu já sabia o que viria em seguida, esperava por esse momento desde que sai do meu apartamento para encontrá-lo hoje.
Hormônios, chegou a hora, preparem-se!
— Eu também adoraria. - falei baixo, quase sussurrando, em uma voz convidativa e sensual.
Ele pescou bem a minha intenção e terminou de aproximar-se, juntando os nossos lábios.
Seu beijo era doce e seguro. Abri passagem para aprofundarmos o ato e fiquei a espera daquele momento mágico, aonde um frio iria se fazer em minha barriga ou o meu coração pudesse tamborilar.
Uma, duas, três tentativas.
Nada!
Era como chuchu, não tinha gosto e nem sabor. Faltava um tempero, um ingrediente especial que tornaria as coisas mais emocionantes.
Era a minha derrota!
Oh, Deus! Por que isso só acontece comigo?
O beijo não era ruim. Matheus beijava bem, mas não tinha… química.
Não, não e não! Não podia ser. Eu não podia deixar isso acontecer, Matheus era minha chance, tinha que dar certo.
Quando ele começou a se afastar, passei a mão por seus cabelos e trouxe seu rosto para mim de novo, selando seus lábios com mais intensidade. Talvez se eu desse um empurrãozinho maior, as coisas fluíssem.
As mãos dele agarraram a minha cintura e ele acabou me encostando ao carro, deu uma melhorada, porém eu sabia que estava longe de ser algo arrebatador.
Ao terminar o beijo, Matheus estava eufórico, e eu… frustrada.
Claro que eu disfarcei, entretanto, por dentro estava em prantos eternos. Alguma coisa estava errada. Eu flertei com ele há tempos, eu estava interessada e ele também, por que logo agora tudo desandou?
— Uau, se eu soubesse que era tão bom, tinha te convidado para sair a tempos! – Matheus exclamou e eu apenas dei um pequeno sorriso contido.
Espero que ele compreenda minha reação como timidez e não consiga sacar a realidade que se passa na minha mente agora.
— Er... eu preciso ir. Nos vemos depois? – falei, querendo ir embora. Eu precisava de ar.
— Claro, . Foi uma noite incrível – disse com um sorriso de orelha a orelha.
— Para mim também – menti, usando toda a minha cara lavada.
Ele despediu-me de mim dando-me um selinho e me observou, enquanto eu entrava em meu carro. Quando foi embora, eu suspirei profundamente, encostando a testa no volante.
Eu não sei se ficava com raiva do Matheus por ter falado merda na noite ou se ficava brava comigo por não ter correspondido de forma adequada ao nosso beijo. Isso só poderia ser um equívoco. Talvez tudo tivesse dado errado porque ele tocou em um ponto delicado pra mim.
Era isso.
Na próxima vez seria diferente. Ele não falaria mais aquilo e eu estaria mais calma. Provavelmente foi a língua grande do Matheus que fez meus hormônios não acionarem hoje.
Quanta decepção… era para ser a noite perfeita. Era até cedo ainda, dez horas da noite.
Enquanto me lamentava pelo meu fracasso, ouvi o toque do meu celular. Peguei-o na minha bolsa e olhei o visor, vendo o nome da minha estagiária piscar na tela.
— Fala, ! – atendi formalmente.
— Eita, alguém está de mau humor – disse ela rindo.
— Sabe disso e ainda provoca, não é? – retruquei, rolando os olhos.
— Bom… Então liguei na hora certa – falou com uma voz animada e pude ouvir um som agitado ao fundo.
— O que é? – perguntei impaciente.
— O pessoal dos laboratórios resolveu todos irem a um pub aqui na Avenida. Tá todo mundo aqui, avisaram pelo grupo do WhatsApp, mas pelo visto você não visualizou.
— Estava em um jantar, nem olhei o celular.
— Hum… Jantar, hein – falou provocando. — Pelo visto as coisas foram péssimas para você estar desse jeito, parecendo que menstruou e vazou nas calças.
— Cala a boca, – ralhei, rindo. Ela conseguia me fazer rir até com as coisas mais impróprias.
— Ah, veja só, a senhora TPM sabe rir, gente! Palmas para mim! – gracejou. — É sério, , venha, é bom que você desestressa.
— Não sei, realmente não sou uma boa companhia hoje.
— Ah, qual é. Quer terminar a noite desse jeito? Venha! Eu prometo ficar te enchendo o saco até você rir tanto que não vai nem se lembrar da noite de merda que teve.
Ponderei o convite. Ela estava certa. Ir para casa me lamentar não ia adiantar nada, precisava espairecer.
— Ok, você venceu. Me manda o local pelo whatsapp e daqui a pouco chego ai.
— Beleza, vou te esperar.
Não demorou nem um minuto, estava lá o endereço. Resolvi ir e esfriar a cabeça. A noite foi uma merda, porém não precisava terminar assim, quem sabe o que teria ainda pelas horas adiante?
Pensando dessa maneira, liguei o carro e parti rumo ao pub, na fé que a noite terminaria melhor do que estava.





Capítulo 5


Ao chegar ao pub, parecia que todos os funcionários da Universidade haviam tomado o local. Uns bebiam, outros jogavam papo fora e algumas mulheres dançavam em frente a um pequeno palco, onde tocava uma música ao vivo. Era a primeira vez que eu ia ali. O ambiente parecia bastante agradável, a luz era uma penumbra, dando um ar aconchegante ao local, além disso, tinha um tom rústico, com cadeiras de madeira e móveis antigos.
Logo avistei , que estava junto com outras estagiárias. Ela acenou para mim para que eu me aproximasse e eu caminhei até lá, acompanhando-as na mesa e colocando a minha bolsa pendurada na cadeira.
— Eis que a Rapunzel saiu da sua torre! – exclamou, abrindo seus braços para me abraçar.
— Dramática! – resmunguei rindo e retribuindo o seu gesto.
Cumprimentei o restante das garotas, que eu não conhecia muito bem, mas que pareciam ser simpáticas.
— E aí? Vai me dizer o que conseguiu te tirar da toca? – indagou-me, baixinho, inclinando-se em meu ouvido para que ninguém mais ouvisse.
— Tenta adivinhar… – deixei a questão no ar a fim de provocá-la, eu sabia que ela era extremamente curiosa.
— Pelo amor de Deus, diz que foi com o estagiário novo gostosão, por favor! – fez uma encenação de súplica, cruzando as mãos e arregalando os olhos dramaticamente.
— Claro que não, né! – respondi rindo. — Parece até que não me conhece.
— Sei lá, às vezes Deus quer operar o milagre em sua vida, achei que poderia ser esse dia – respondeu dando de ombros e voltando a tomar a bebida que estava no seu copo.
— Você é muito boba, . Eu estava com o Matheus – soltei como quem não quer nada, dando de ombros.
— O QUÊ?! – minha estagiária berrou na mesa, fazendo com que todas as outras garotas olhassem para nós.
Fuzilei-a com os olhos e minha vontade era pegar aquela bebida e jogar na cabeça dela para aprender a ser mais discreta. Todas as meninas da mesa estavam olhando para gente, querendo entender o que estava acontecendo.
— Er… Calma, gente, é a que não sabe curtir e já veio falar de coisas para eu fazer no trabalho. , estamos aqui para curtir, não quero saber disso agora! – disse seriamente e todas acreditaram, pois percebi elas franzirem o cenho em desagrado.
Muito obrigada, , bela forma de desviar o assunto.
Os estagiários já são conhecidos por serem explorados nos seus setores, são nomeados como “burros de carga”. Sempre davam a eles todo o serviço que os funcionários não querem fazer. Os mais pesados, mais trabalhosos e mais fedorentos. Não era o que eu fazia com , mas depois dessa gafe dela, é o que todas presentes imaginariam de mim.
Dei um sorriso sem graça, desconsertada com a situação. Desmentir seria pior e também eu não precisava jogar na roda que eu tinha saído com o Matheus. Melhor deixar isso quieto.
— Desculpa – falei levantando os ombros levemente. — Ossos do ofício, difícil desapegar, não é, ? – terminei olhando para ela, que abriu um sorriso tentando reparar o mau feito.
— Claro! A não é nenhuma mocreia, só esquece de viver às vezes – complementou, aproveitando para me alfinetar.
— Você precisa pegar leve com a sua estagiária, Doutora . Aqui todo mundo é gente como a gente – uma garota ruiva resmungou para mim, claramente chateada com a situação.
— Eu… Eu sou supertranquila com a , lá no laboratório nós dividimos as tarefas de forma equilibrada.
— Não é o que pareceu – uma outra estagiária, loira, jogou ao vento, desviando o olhar, como se me ignorasse.
Olhei para , que estava estática com a situação. Nem ela esperava que aquilo tomasse uma proporção tão drástica. Comecei a me sentir mal e nada que a fizesse para corrigir daria certo. A cada defesa que ela saía em meu favor, elas achavam que ela só estava tentando não ficar em maus lençóis com a “patroa”.
Chegou um momento em que a situação ficou tão insustentável que resolvi sair da mesa com a desculpa que pediria alguma coisa no balcão para beber e aproveitaria para dar uma circulada no local.
Caminhei até lá e inclinei-me até o garçom, fazendo com que ele me notasse e escrevesse o meu pedido.
— Uma limonada suíça, por favor.
— É pra já, senhorita!
Enquanto esperava, fiquei observando as pessoas ao redor. Olhei para o homem no pequeno palco que cantarolava uma música de Victor e Leo, um pouco antiga.
“Moro num lugar, numa casinha inocente do sertão…”
Comecei a balançar a cabeça e o pé, balbuciando a música, Um sentimento de nostalgia me inundava, sentindo saudade da paz e da calmaria da minha cidade natal. Estava extasiada com as lembranças, fui levada para um momento só meu, até que uma voz destoou em meu ouvido, fazendo-me dar um pequeno grito, assustada.
— E então… – aquela voz grave soou no meu ouvido e eu girei a cabeça, deparando-me com ali.
— Você?!
— Eu! – respondeu com uma feição risonha.
— Você está me perseguindo ou o quê? – perguntei cruzando os braços.
— Ou o que – respondeu, cravando os seus olhos nos meus. Arqueei uma sobrancelha, desafiando-lhe a me explicar melhor sobre isso. Ele ficou sério por alguns segundos, porém logo vi que estava mordendo lábio e uma grande gargalhada explodiu em seguida.
— Relaxa, . Meu Deus, você é muito cabreira – retrucou rindo, achando graça das minhas reações. — Como eu estou fazendo estágio nos laboratórios, as meninas me enviaram uma mensagem chamando para vir aqui também – piscou, explicando-se.
— Típico. – rolei os olhos. Claro que as engraçadinhas não perderiam tempo para convidar a nova carne do pedaço para sair.
— O que foi, ? – questionou, virando o seu corpo para mim e apoiando o cotovelo na bancada, de forma que ficasse mais perto. — Ciúmes?
— Óbvio que não! – desdenhei. Ele teria que ser muito tapado para achar que eu estava sentindo ciúmes dele.
O ciúme é um sentimento desenvolvido pelo nosso corpo para evitar a infidelidade. O homem pré-histórico precisava comprovar que os descendentes eram mesmos seus e a mulher necessitava da garantia que o homem continuaria sendo o mantedor dos recursos para a prole, ou seja, assegurar que o alimento da sua sobrevivência não fosse desviado para a sua rival, que hoje podemos chamar de amante. Em todo o caso, eu não tinha um relacionamento e nem motivos para sentir tal coisa pelo .
— Ah, é. Eu esqueci, sou muito bonito para você! – contestou com um sorriso ladino, recordando da conversa que já havia tido com ele.
Rolei os olhos para ele e me virei para pegar o meu suco que o garçom havia acabado de colocar no balcão. Tentei ignorar a presença dele ao meu lado, já que eu não queria voltar à mesa das estagiarias e sofrer bullying, porém, silêncio e , eram duas palavras que não se encaixavam no mesmo universo.
— Então, , me conta direito como é esse lance todo sobre ‘amor’ que você prega, fiquei curioso – interrogou, cruzando os braços sobre o balcão e inclinando-se um pouco na minha direção, retirando a jaqueta preta que ele vestia.
Só agora havia reparado em como ele estava nessa noite. Uma camisa azul escura, um pouco colada, destacava os seus músculos, sua barba estava por fazer e o cabelo dourado jogado um pouco pra cima, com um caimento leve para a direita.
Não era justo ele ser tão bonito e ainda se vestir tão bem.
— O que você quer saber, especificamente, ? – arqueei minha sobrancelha, indagando-o.
— Bom… Aquele dia você disse que não poderia sair comigo porque eu era um homem perfeito…
— Opa, opa! – exclamei para ele, erguendo as minhas mãos. — Qual momento que eu disse isso, pois eu não me recordo de tal calúnia.
— Ah, qual é, . Todos os adjetivos que me deu beiraram a perfeição – proferiu rindo e passando a mão em seu cabelo, me fazendo por um instante acreditar mesmo que ele era perfeito, entretanto, tratei de jogar esse pensamento fora e focar na conversa. — Eu sou tudo isso que você falou, o que seria um atrativo para qualquer garota me querer, estou correto?
— Sim – respondi, confirmando a sua linha de raciocínio.
— Mas então por que esse é justamente o motivo para te afastar de mim?
— Simplesmente porque são todas essas características que te tornam um homem muito visado. Homens como você, , são mais propensos à traição e ainda que não fossem, a quantidade de mulheres que iriam atrás de você resultaria em algum desentendimento entre nós. Tudo é pior quando nos envolvemos com homens do seu tipo. As desconfianças são maiores, os medos e angústias também. Quando nós estivermos gordas e pelancudas por causa dos filhos, vocês ainda estarão no auge da masculinidade, com toda testosterona para doar, enquanto nossos seios estarão caídos e fedendo a leite – expliquei, fazendo-lhe soltar uma gargalhada.
Às vezes achava que devia me achar uma palhaça porque tudo o que eu dizia era motivo para que ele risse.
, você é muito sistemática. Não é porque eu sou um cara atraente que eu vou trair a minha mulher, muito pelo contrário, eu não sou dessa laia.
— É o que todos dizem – respondi-lhe, erguendo a minha limonada e tomando pelo canudo, sendo bem apreciada pelos olhos dele.
— Você não pode me julgar assim, sabia? Não é porque você tem uma probabilidade estatística que todo mundo vai ser igual. Tem muitas outras coisas que envolvem uma pessoa e definem o seu caráter. Temos características naturais em que nascemos com elas, mas também tem o meio sociocultural que convivemos, os valores que aprendemos e o que a vida nos ensina pelo caminho. Não dá para definir alguém por apenas uma teoria.
— São fatos, . Você não é da área, jamais entenderia. Ninguém pode desmentir aquilo que a ciência comprovou. Os dados estão aí, é só pesquisar.
, aquilo que sentimos não dá para definir porque cada um pensa e age de uma forma. Não somos robozinhos que dá para saber a ação e reação exata de cada um. - retrucou-me, fazendo com que eu ficasse irritada com as suas discordâncias. Não seria tão mais fácil se ele apenas aceitasse?
— Acho que não chegaremos a lugar nenhum aqui. Se era para me contestar, por que pediu para que eu falasse? – resmunguei.
— Calma, – falou tocando meu braço, me desconcertando instantaneamente. — Eu não te perguntei para lhe provocar, eu só estava curioso, gosto de saber coisas novas. E minha intenção não é retrucar, porém… toda ciência nasce de um debate, não é? É o método da refutação, alguém comprova algo e logo depois vem outro pesquisador para trabalhar justamente para derrubar aquela ideia anterior. Se não fosse assim, estaríamos ainda na idade da pedra e nada novo surgiria – explanou calmamente enquanto passava seus dedos de leve pelo meu ombro.
Fiquei surpresa pela fala dele, não era um cabeça oca como tantos outros garanhões por aí. Ele era inteligente e parecia entender de coisas científicas muito mais do que os alunos que eu via por aí. Eu mesma só fui aprender a teoria da refutação no mestrado.
Ficamos um tempo em silêncio. Eu, digerindo as palavras dele, e , provavelmente, pensando em mais assuntos para puxar, já que não conseguia ficar com aquela boquinha linda fechada.
— E se ele tiver bafo e mau cheiro nas axilas? Você vai ficar com um cara só por que ele tem aqueles seus outros padrões? – perguntou, repentinamente, interrompendo meus pensamentos.
— Se ele tiver isso eu compro um kit com desodorante e pasta de dente. Fácil!
— E se ele babar muito enquanto te beija?
— Eu ensino para ele como se faz direito. - pisquei e abri um sorriso convencido.
— E se ele for estúpido?
! Chega! Não vai rolar, você não vai me convencer do contrário. Ninguém é perfeito, eu sei disso, mas têm coisas que são mais propensas a darem errado, como você, por exemplo. O resto à gente dá um jeito. Tenta conviver, aprende um com o outro, sei lá… Não dá para você soletrar cada defeito que alguém possa ter porque até você, que é o mister perfeição, deve ter falhas que eu não sei.
deu uma gargalhada ao me ouvir chamá-lo daquele jeito. Definitivamente eu precisava aprender a calar a minha boca ou eu inflaria tanto o ego dele que acabaria explodindo.
— Vamos fazer assim – começou a dizer, antes mesmo que eu tentasse consertar o que havia dito. — Se você não pode ficar comigo por causa desses zilhões de coisas que você disse, com quem eu deveria sair? Ou pessoas como eu deveriam ficar sozinhas para sempre? – perguntou abrindo um pequeno sorriso. Um sorriso tão lindo e com uma covinha fofa que eu precisei recitar o nome do Matheus dez vezes para não ficar enfeitiçada.
— Bom… deixe-me pensar. – coloquei a minha mão no queixo e varri meu olhar pelo salão. Avistei uma linda loira, alta, com um corpo escultural. Seu vestido mal tampava a bunda e ela dançava descendo até o chão, atraindo todos os olhares do pub. Ela virava e sorria para os homens ao redor, arrancando a atenção de cada um. Em um determinado momento, ela puxou um e deu-lhe um beijo cinematográfico, sem vergonha alguma de estar sendo assistida por todos.
— Aquela ali! – apontei para ela, fazendo com que desviasse seus olhos de mim e fitasse a bela moça.
— Por quê? – questionou-me
— A beleza dela equivale a sua, além disso, ela parece muito bem resolvida consigo mesma, as chances de ficar remoendo de ciúmes por você são baixas, talvez seja ao contrário, você sinta ciúmes dela.
retirou sua atenção da loira e olhou-me intensamente, sem ao menos piscar.
— Se eu quisesse escolher uma mulher bonita, , eu não precisava olhar para nenhum outro lugar do salão, tem uma lindíssima bem na minha frente. Para que perderia o meu tempo com outra? Além do mais, eu não sou um cara que olha só a aparência, é necessário conteúdo. Não que a outra não tenha, mas não a conheço.
Com certeza eu estava completamente vermelha. Ele não poderia fazer isso comigo. A voz grave de , junto com o fogo dos seus olhos, me fizeram arrepiar sem ao menos ele encostar em mim. Ele deu um passo em minha direção, ficando com seu corpo mais próximo do meu.
Eu sentia o calor que emanava dele e me odiava naquele momento porque tudo o que eu queria era que ele se aproximasse mais, apesar da luta interna que havia entre o meu corpo e mente.
— Nem me conhece também. – Pigarreei um pouco, tentando voltar à sanidade, mas não me deu muita chance, colou o seu corpo em mim, pressionando-me no balcão. Minhas pernas estavam moles e eu sentia o meu neocórtex cerebral aprovando-o como meu futuro parceiro, meus hormônios estavam em polvorosa e eu não conseguia lutar mais contra eles.
— Conheço o suficiente para saber o que eu quero. – inclinou-se em meu ouvido para sussurrar, depositando um pequeno beijo ali em seguida. Era tudo o que faltava para completar a cereja do bolo. Meu corpo estremeceu nas mãos de e foi o estopim para que ele virasse e tomasse os meus lábios.
Diferente do que havia acontecido com Matheus, eu sentia todas as emoções que um bom beijo deveria ter. Meu coração estava acelerado e meu corpo arrepiava-se a cada movimento que a língua dele fazia. Era quente e aconchegante, duas peças de lego que haviam se encaixado perfeitamente. Sua mão apossou-se do meu cabelo, dando leves puxadas e guiando o nosso ritmo, enquanto a outra segurava firme em minha cintura, como se temesse que eu pudesse escapar a qualquer momento.
Meus olhos estavam fechados, eu sabia que quando eu abrisse tudo viria à tona e eu me arrependeria amargamente, porém, naquele momento, eu não conseguia raciocinar, eu só precisava sentir os lábios carnudos de junto ao meu, em um malabarismo insano que trabalhávamos juntos, uma fome desesperada devido a uma tensão reprimida por mim.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas eu sabia que acabaria mal, muito mal. Eu sentia todas as sensações que eu explicava para meus alunos. A temperatura corporal do meu corpo havia subido e aquele beijo estava liberando os meus hormônios.
O ato de beijar é quase como uma avaliação biológica que o corpo faz do seu parceiro, é uma análise da adequação do casal. E Deus me ajude, pois, se essa era a prova que o meu ‘eu’ biológico precisava para avaliar , ele havia tirado nota dez com maestria.
A dopamina fazia a sua função causando-me a sensação de prazer e bem-estar e, junto a ela, a serotonina levantava toda a minha excitação. As reações corporais fisiológicas que a epinefrina estimulava estavam todas lá, o próprio conseguia sentir com o seu corpo colado ao meu e, por último, o mais perigoso, a ocitocina, responsável pelo afeto e confiança.
De uma forma inexplicável, durante os beijos que ele me dava, eu sentia como se as palavras que ele havia me falado mais cedo fossem verdades. Como se eu pudesse confiar nele, que ele não me feriria do jeito que minhas teorias me diziam. O meu interior dizia que ele era diferente.
Eu estava traindo a mim mesma e as minhas concepções.
Em um súbito, cortei o beijo e espalmei minhas mãos em seu peito, fazendo-o abrir os olhos lentamente. Nossas respirações estavam descompassadas, encarávamos um ao outro sem conseguir dizer nada. Creio que até estava surpreso com o que havia acontecido.
Merda!
Como eu pude cair naquilo que eu tanto pregava?
— Isso foi errado, não vai mais acontecer – afirmei para ele, com a voz um pouco trêmula e corri imediatamente em direção à mesa onde estava, deixando-o para trás.
Era só um beijo.

Um
Beijo.
Um beijo no .
Nada de mais.
As pessoas se beijam o tempo todo e convivem com isso, você não vai encanar – repeti para mim mesma.
Tudo iria ficar bem.
Não é porque eu havia sentido com tudo aquilo que com Matheus não rolou que eu estaria em apuros.
Claro que não. Essas coisas acontecem, não é?
Matheus ainda teria uma nova chance e eu ia sentir muito mais do que tive com o .
? Oh Deus, já estou criando apelidos para ele.
Balancei a cabeça tentando recuperar meus pensamentos ou iria enlouquecer. Quando cheguei à mesa, tinha um sorriso enorme de ponta a ponta da orelha. Ela não precisava dizer nada, pela sua cara eu já sabia que ela havia visto, o que deixava a situação pior e ainda por cima constrangedora.
— Eu preciso ir embora! – disse rapidamente, dando um aceno de leve para as garotas e pegando a minha bolsa para partir.
— Arrasou, gata! Depois quero saber de tudo. – fez um joinha escondido com a mão e eu apenas ignorei, atordoada demais com o que havia acabado de acontecer.
Saí correndo do pub, ouvindo ao fundo uma voz que eu sabia muito bem quem era me chamar.
Eu precisava ir para casa, necessitava de ar…
Entrei no carro e suspirei. Era para ser uma noite melhor e eu consegui virar minha vida de cabeça para baixo em questões de minutos. E agora… eu não sabia o que fazer.





Capítulo 6


No final de semana eu estava enfurnada dentro de casa, sem conseguir sair da cama. Os acontecimentos do pub giravam em minha cabeça e eu não sabia o que fazer. Cada vez que eu fechava os meus olhos, sentia os lábios quentes do nos meus, o que acabou me acarretando uma baita insônia, pois dormir já não era uma opção saudável para mim. O pior de tudo era que, por mais que a minha mente mandasse eu me afastar dele, meu corpo parecia latejar pelo seu toque novamente.
Meu sábado e domingo foram regados a netflix e chocolate. Saía do quarto só para ir ao banheiro e comer algo mais saudável, evitando ao máximo . Sabia que no momento que ela me visse, ela saberia que havia algo errado. E eu estava certa. No domingo à noite, quando eu voltava escondida para o meu quarto, minha amiga estava lá, sentada na minha cama, bem à minha espera.
— O que aconteceu sexta-feira? – minha amiga perguntou com uma leve carranca no rosto e eu sabia que ela me faria falar tudo que eu estava escondendo.
— Por que essa pergunta? – Dei de ombros.
— Não me faça de boba, . Você passou o final de semana inteiro enfurnado nesse quarto a troco de carboidratos. Nunca te vi assim. Só faltou o pote de sorvete, mas isso sou eu que faço quando com coração partido – ponderou, apontando para a bagunça espalhada, depois levantou da cama e cruzou os braços em minha direção. — E aí, vai me dizer ou não?
Encarei-a mordiscando meu lábio inferior, enquanto pensava em alguma alternativa. Durante esse processo não vacilava, seus olhos fuzilavam-me e eu sabia que ela não me deixaria em paz tão cedo. Sendo assim, suspirei fundo e concluí que quanto antes abrisse a boca, mais rápido eu daria um fim a esse momento constrangedor. Sentei-me na cama e resolvi começar a falar.
— As coisas fugiram do meu controle…
— Como assim? – ergueu uma sobrancelha, esperando uma explicação mais esclarecedora. — O que de tão grave aconteceu?
— Um beijo – confessei.
— Mas, calma lá, isso devia ser bom, não? – indagou-me, sentando-se novamente na cama, agora ficando ao meu lado, aparentando estar mais calma. — Você saiu daqui disposta a conseguir algo a mais com o Matheus, não era para estar feliz?
— Aí que está o problema, . – Suspirei. — O beijo que me causou isso não foi o dele – confessei, desviando o meu olhar, envergonhada.
— Não brinca! – minha amiga exclamou, chocada. Seu queixo estava visivelmente caído e eu tinha certeza que por essa ela não esperava. — Espera… Como de um encontro com o Matheus você acabou beijando outro?
— Isso é justamente o que eu mesma queria entender… - resmunguei, jogando o meu corpo sobre a cama e colocando meu braço por sobre os meus olhos, tampando-os.
— Qual o nome dele? Me explica, disse com aquele tom meigo dela, passando a mão pelos meus cabelos para que eu tivesse coragem de desabafar.
Fui contando tudo para ela, desde meu primeiro encontro com , a noite fracassada com Matheus e o inusitado beijo no pub que me deixou atordoada. não dizia nada, muito menos me interrompia. Deixou-me desabafar tudo enquanto analisava cada uma das minhas palavras. Era a primeira vez que fazíamos os papéis inversos, confesso que era estranho, não queria estar naquela situação, porém, pelo menos eu dava graças a Darwin que eu estava ali, não para chorar pitangas por um amor não correspondido, era só medo por ter me deixado levar pelos hormônios do meu corpo.
— Desculpe – minha amiga sussurrou para mim com pena e eu a olhei intrigada.
Pelo que ela pedia perdão? Eu é que deveria ter feito isso desde quando cheguei naquela noite, mas como fugia dela, acabei não pedindo desculpas pela grosseria de sexta.
— Por que está dizendo isso?
— É culpa minha – falou abaixando a cabeça, ressentida. — Foi eu que desejei isso para você e agora está acontecendo, você estava certa, eu sou uma péssima amiga, te desejei o mal e agora olha aí… está sofrendo. Me desculpa, foi dizendo tudo atropeladamente e notei que no cantinho dos seus olhos havia pequenas gotículas de água acumuladas.
Eu não merecia uma amiga tão meiga, afetuosa e inocente como ela.
— Para com isso, . Não foi culpa sua. Eu que exagerei aquele dia. Estava com raiva de mim mesma por estar sendo afetada por e acabei descontando em você. Mas fica tranquila. Eu não estou apaixonada e nem nada parecido, ele só me atrai mais do que os outros, por isso o meu medo. Não temo pelo agora, eu fiquei enclausurada pensativa porque me preocupo com o futuro, em não conseguir ter controle sobre o meu próprio corpo. Eu sei que nesse exato momento ele está sendo completamente tendencioso a me deixar levar pelo estereótipo viril do e é isso que me tira o sono. Não tem nada a ver com você, ok?
Ela apenas assentiu com a cabeça, recuperando-se do momento sensível e culposo que ela sentiu. Olhou para mim e emitiu um pequeno sorriso e ali eu vi que estava tudo bem.
… não quero que você fique chateada, mas por que você só não curte? Às vezes a gente coloca muita expectativa em algo e acaba se frustrando. Já ouviu dizer que quanto mais alto se vai, maior a queda? Então… Eu me preocupo que você passe a vida toda colocando esse fardo nos seus ombros e no final da corrida, ainda não consiga vencer. – tocou a minha mão enquanto tentava argumentar.
— Mas eu vou quebrar a cara, eu não quero passar por isso. - choraminguei deitando a cabeça no seu colo e abraçando uma almofada que estava em cima da cama.
— Quebrar a cara faz parte da vida, . Eu mesma sou a experiência em pessoa, você sabe disso. Mas eu estou viva, não estou? As dores nos tornam melhores, desde que aprendamos com os erros. Você é uma mulher forte e inteligente, se não der certo, bola para frente e parte para outro. Não precisa sofrer o resto da vida por isso.
, é muito difícil quando a gente cria algo em nossa cabeça. Mudar não é fácil. Desde que eu comecei estudar ciências na escola e entender sobre o amor que eu criei minhas concepções, depois disso fui aprimorando-as na faculdade e não parei mais. Imagina uma pessoa que passou a vida toda com um só tipo de pensamento? Ninguém consegue mudar da noite para o dia. É muito difícil para mim.
— Não é fácil, mas é necessário.
— Eu sei… Sabe o que eu penso? Em tantas pessoas preconceituosas que existem por aí, muitas delas são assim porque tiveram uma criação que lhes ensinou que fazer A ou B é errado. Mesmo que o mundo a sua volta diga o contrário, elas viveram a vida toda encucada com isso. Não que justifique, jamais, porém, mudar a visão e o próprio pensamento é um choque. É como quebrar a si mesmo e se reconstruir. Não são todos que conseguem. É exatamente o que acontece comigo. Eu tenho tanta convicção que não consigo mudar. Eu temo que eu seja uma dessas pessoas… - Falei com lágrimas nos olhos.
— Você não é assim, . Só de você reconhecer e dizer isso já mostra que é diferente. Pessoas desse tipo nem reconhecem que podem estar erradas. E sabe de uma coisa? Você está certa… Ninguém muda de uma hora para outra e eu não vou te forçar a isso. São suas crenças, eu também preciso respeitá-las, só não faça delas o seu altar, ok?
Eu apenas meneei a cabeça, sem saber o que pensar. Eu ainda achava que minhas teorias estavam certas, eu não queria mudar, só queria conseguir aplicá-las na vida real sem ter que passar por essa confusão toda.
— Então estamos combinadas. Tira essas coisas da sua cabeça. Aconteceu? Sim. Agora bola pra frente. Foi um beijo. Se quiser mais? Beija de novo. Se não quiser, se achar que não deve ou não está pronta ainda, não beije. Não precisa fazer uma tempestade em torno disso, estamos entendidas?
— Sim, – murmurei. — Não vou beijar – afirmei, fazendo-a revirar os olhos.
— Ok. Então não beije. Só não se enfurne mais no quarto comendo carboidratos. Esse papel é meu. – Riu e pegou o controle da TV, colocando um filme para assistirmos.

Agora, em plena segunda feira, eu me preparava psicologicamente para voltar ao trabalho. Não tinha capacidade nenhuma para encontrar com , por isso, durante a semana inteira evitei-o. Entrava mais cedo no serviço e saía mais tarde. Fiz questão de levar marmita todos os dias só para não precisar sair do meu casulo. Podem me achar imatura. Não me importo. Eu não queria vê-lo. Eu não desejava ter aquelas sensações esquisitas todas de novo.
Em casa, vivia me dizendo que eu precisava me importar menos e apenas viver, entretanto, isso era justamente o contrário do que eu sempre preguei.
Razão antes da emoção. Cérebro antes do coração. Esse é meu lema.
A me aporrinhou todos os dias. Ficou me pedindo para contar a ela os detalhes “sórdidos”, mas meu adorável humor não permitiu isso. Eu queria mais era esquecer o que havia acontecido. Página virada e ponto final.
Céus… eu não poderia fugir dele para sempre. A última semana do estágio do seria aqui no meu laboratório. Eu teria que encará-lo de qualquer forma, todavia, eu esperava que até lá eu já tivesse superado tudo isso.
Nesse meio tempo, Matheus me mandou algumas mensagens, mas não tive nem condições de responder, não depois daquele fiasco. Eu precisava de um tempo dele também para reorganizar as minhas ideias e ver se valia a pena uma nova tentativa ou esperaria outra pessoa que atendesse ao que eu queria.
Posso concluir que foi uma semana emocionalmente cansativa. Minha cabeça trabalhava tanto que eu mal consegui me concentrar direito.
Segunda a segunda, um tempo maçante. Porém, uma semana depois do ocorrido, eu achava que estava pronta para enfrentar o que viesse. E foi nessa fé que hoje segui a minha rotina normal. Eu já estava com olheiras de tanto ter que acordar cedo. Não sacrificaria mais o meu sono da beleza por causa de bobagens. Eu deveria agir como adulta! Sendo assim fui de cabeça erguida almoçar no RU, bem tranquilamente. Nada que uma semana de desintoxicação de não resolvesse a minha vida. Estava em paz e serena.
Peguei minha bandeja e fui para fila. Hoje era feijoada. Já até imaginava o baita sono que ia sentir depois do almoço. Peguei um pouco de alface também para equilibrar. Ninguém ia poder dizer que eu não estava sendo saudável.
Hoje, por incrível que pareça, não estava tão cheio. Provavelmente era semana de prova, aí os alunos preferiam comer um lanchinho rápido na tia da cantina e aproveitar o tempo livre para revisar as matérias.
Comecei a comer e logo senti uma respiração quente no meu pescoço que me fez quase morrer engasgada. A sorte era que eu havia pegado um copo de suco e usei para me desentalar.
— Ficou louco, ? – indaguei assim que vi a figura que estava ao meu lado.
O infeliz apenas riu, rodeou a mesa e colocou sua bandeja de comida de frente para a minha. — Veja quem apareceu? A Cinderela. - apontou para mim.
— Cinderela? – interroguei-o, um pouco ainda abalada com o susto e com a sua presença.
— Sim. Ganhou um beijo do príncipe e saiu correndo à meia-noite. Só faltou perder o sapatinho de cristal. Neste ponto a história de vocês duas se diferem porque quem perdeu algo fui eu.
— Perdeu? O quê? – arqueei a sobrancelha, sem entender.
— A minha sanidade. - piscou e sua boca se curvou em um sorriso malicioso.
Tenho plena certeza que empalideci e devo ter corado. Eu entendi muito bem o que ele estava se referindo. Respirei fundo e tentei me controlar. Não podia mostrar a ele que eu estava abalada.
Rolei os olhos em sua direção e abaixei a cabeça, voltando a comer, com o intuito de ignorá-lo. Creio que ele percebeu o meu objetivo, pois soltou o ar, um pouco chateado, e começou a comer também, porém, de cinco em cinco minutos eu percebia que ele me espiava. Alguns momentos a encarada era maior, acho que ele estava provocando para tentar me fazer dizer alguma coisa.
— Posso saber por que fugiu de mim aquele dia? – resolveu quebrar o silêncio.
Dei uma leve olhada para ele e voltei a atenção para a minha feijoada, que por sinal, era muito mais interessante do que ter que responder para algo que ele nem entenderia.
Vi sua carranca piorar quando algumas alunas minhas me cumprimentaram e eu conversei com elas naturalmente, bem diferente do que havia feito com ele. colocou um cotovelo sobre a mesa e apoiou o queixo em sua mão, olhando para mim com o cenho franzido. Eu resolvi provocar mais um pouco, só para irritá-lo mais. Dei um sorrisinho debochado em sua direção e voltei a almoçar em seguida. Porém, ele continuou assim por muitos e muitos minutos, me deixando completamente sem graça. Que saco, não ia poder nem almoçar em paz mais.
— Dá para parar de olhar para mim? Me encarar não vai mudar nada do que aconteceu. Eu não quero, esquece o que passou – falei exaltada despejando tudo o que pensava depois que cansei desse jogo de estátua do .
… - tentou me chamar, mas eu não queria ouvir. Estava com raiva e não queria conversar sobre beijo nenhum.
, não! Chega, encerrou o assunto – falei, porém não adiantou, ele continuou a insistir, me chamando outras vezes.

— Que saco, ! – retruquei, injuriada.
– falou mais forte, erguendo a mão para pedir que eu o deixasse dizer seja lá o que fosse.
— Fala… desembucha, já que é o que você tanto quer. Me diga o que você tanto vê em mim que não consegue me dar paz nem para almoçar, mas sim me importunar e ficar me encarando.
— Um feijão.
— Como?
— Tem um feijão no seu dente. Era isso o que eu queria dizer… - falou apontando o dente que estava sujo.
Aquilo não dava pra ser verdade. Ele só podia estar brincando com minha cara. Por um segundo achei que ele pudesse estar zoando comigo, mas a sua expressão séria me fez perceber que não era esse o caso. Puxei meu celular e coloquei na câmera frontal, confirmando a terrível suspeita, um pedaço enorme de casca de feijão cobria o meu dente. Que vergonha.
Eu não sabia onde enfiar a cabeça. Que merda! Agora que eu não ia olhar na cara dele nunca mais. Virei para ele com uma mistura de timidez e fúria, porém, para o bem dele, segurava o riso e não faria gracejos.
Larguei tudo lá do jeito que estava, me levantei e saí. Não tinha mais cara para continuar almoçando com o . Simplesmente não dava. Já estava difícil antes, depois desse mico, piorou.
… - ouvi a voz dele atrás de mim e comecei andar mais rápido, saindo do refeitório. — Dá para parar?
— Não, não dá – respondi alto, sem nem olhar para trás.
— Ah, mas você vai parar sim, quero nem saber. Deixa de bobeira – refutou, segurando o meu braço e me impedindo de continuar.
— Me solta ou eu vou gritar para todo mundo ouvir que você está me assediando!
— Se eu chegasse a 1% disso você gritaria, mas por outros motivos. Agora venha, olhe para mim. - virou-me, segurando os meus ombros e me fez encará-lo.
Não sabia nem o que responder, apenas fiquei olhando pra ele, esperando o que viria a seguir.
— Eu sei o porquê está fugindo de mim e não tem motivo para isso – afirmou.
– falei, tentando manter a calma –, eu já te expliquei mais de uma vez. Eu não posso e nem devo me envolver com você – explanei para ele.
— Você fala como se eu estivesse te pedindo em casamento. Foi um beijo, . Que mal há? Por causa disso não podemos nem conversar mais?
— Poderíamos sim se o seu intuito não fosse algo a mais do que isso.
olhou para o alto e colocou as mãos no bolso. Não sei se estava perdendo a paciência comigo ou só queria pensar.
— Olha – voltou a me fitar –, eu sei que você é diferente e eu não estou aqui para te “tirar dos seus princípios” - falou fazendo aspas com os dedos. — O beijo mexeu comigo? Sim, eu não vou negar. Mas se você não quer tudo bem, bola pra frente. Porém você é legal, . Isto é, quando não está pagando de doida por aí, mas até isso muitas das vezes me diverte. Não tem motivo de a gente perder a amizade por causa disso.
— Que amizade, ? Eu te conheci há poucos dias. Deu nem tempo pra isso.
— Justamente. Mas sempre é momento para começarmos a fazer novos amigos. Para mim o pouco tempo que a gente teve já foi o suficiente para você estar entre eles. Vai me negar isso também? – perguntou fazendo uma cara de cachorro sem dono.
Digam-me como eu ia dizer não para aquele homem alto, musculoso, com seus olhos me fitando e com boca linda fazendo beicinho ainda?
— Ok, . Você venceu. Amigos então. – Estendi a mão para ele, me rendendo.
— Obrigado, . Tenho certeza que seremos grandes amigos. – Ele piscou e passou o braço sobre os meus ombros, como se fosse um gesto super comum entre a gente e eu comecei a pensar se aceitar esse acordo foi a pior ideia que eu havia feito.




Capítulo 7


Duas semanas haviam se passado desde que e eu nos tornamos amigos. Eu estava relutante com isso, mas contrariá-lo era algo difícil já que ele aproveitava todas as oportunidades para estar nos mesmos lugares que eu.
Porém, ao contrário do que eu imaginava, ele não deu mais em cima de mim após aquele dia. Vez ou outra fazia alguma gracinha, porém com a convivência percebi que era o jeito dele. De uma forma bem louca, não fiquei tão feliz por isso, todavia, ao mesmo tempo, estava aliviada por conseguirmos lidar com o pós-beijo de forma madura, sem tocar mais no assunto.
Aos poucos eu fui descobrindo que o não era só um poço de beleza externo. Surpreendentemente, ele era extremamente inteligente e atencioso. Não tinha aquelas conversas chatas que os homens do tipo dele tinham, como, por exemplo, só falar de futebol e academia. Pelo contrário, ele queria saber das minhas pesquisas, deu pitaco e tudo. Falou que estava ansioso para chegar ao estágio no meu laboratório para poder me ajudar com ela.
Confesso que fiquei empolgada e devo ter monopolizado toda a conversa. Eu era apaixonada pelo que fazia e, apesar do que o Matheus havia falado, eu tinha muita expectativa que desse certo.
Eu havia acabado de chegar de mais um almoço com ele, até parecia que o restaurante universitário era o nosso ponto de encontro. Abri a porta, entrando no laboratório e fui guardando minha bolsa no armário, deparando-me com uma que me olhava com uma cara esquisita.
— O que foi? – perguntei, tentando decifrá-la.
— Foi almoçar com o bonitão? De novo? – indagou-me sem me responder, deixando escapar um sorriso no canto da boca.
— Por que a pergunta? – Pelo visto nenhuma responderia os questionamentos da outra. Cruzei os braços para ela e a fitei, arqueando uma sobrancelha.
— Nada. – Deu de ombros e continuou a fazer um procedimento que estava fazendo antes de eu chegar.
— Como assim nada? – interrompi-a. — Pode me dizer!
— Você promete não me bater? – perguntou divertida.
— É tão ruim assim?
— Depende do ponto de vista, a meu ver é ótimo.
— Então pode desembuchar – exigi. — Por que estava me olhando com aquela cara e me perguntou se estava almoçando com o ?
riu, achando graça das minhas perguntas, passou as mãos pelos seus cabelos escuros e olhou para mim. Como se tivesse medo da minha reação, ela deu dois passos para trás para se manter em segurança e finalmente dizer o que estava me escondendo.
— Você chegou com um sorriso bobo nos lábios.
— O QUÊ? – perguntei exaltada. — Claro que não! Cheguei super normal!
— É porque você não viu a sua cara quando passou por aquela porta. Foi a mesma expressão que você vem tendo desde que resolveu ser amiguinha do estagiário maravilha.
— Você está enganada, . Eu só estou feliz esses dias porque nossos experimentos estão caminhando bem. Até o final do mês teremos ótimo resultados – tratei de me explicar.
Ora essa, até parece que arrancaria sorrisos bobos de mim.
— Ok, . Talvez eu esteja enganada, não é? – assentiu, porém eu não senti firmeza em suas palavras. Eu sentia que ela não acreditava nem um pingo em mim. Mas não tinha problema, eu mostraria para ela que não era nada daquilo.
O que estava surgindo entre e eu era uma bela amizade. Por incrível que pareça eu comecei a gostar de conversar com ele. Tínhamos mais coisas em comum do que eu imaginava. As pessoas têm milhões de amigos, por que eu não poderia ser amiga dele?
Não tocamos mais neste assunto durante a tarde inteira. Continuamos trabalhando até recebermos o comunicado que todos os pesquisadores deveriam comparecer no auditório às quinze horas para uma reunião. O Sr. Manuel Freitas não costumava marcar esse tipo de coisa, ainda mais em cima da hora, por isso comecei ficar temerosa, antes mesmo de chegar ao local.
Quando entramos, o lugar ainda estava um pouco vazio. e eu sentamos em uma fileira não muito ao fundo, esperando dar a hora de começar. Minhas pernas se movimentavam sem parar, era nítido o meu nervosismo. Meu dedo já estava na boca tendo os cantinhos todos roídos à medida que a minha ansiedade aumentava.
De repente, dei um pulo ao sentir uma mão quente segurar o meu joelho e virei-me encontrando , que ria da minha reação.
— Se você continuar balançando essas pernas freneticamente eu juro que vou ter que amarrá-las – brincou.
Uma cena de amarrando as minhas pernas começou a surgir na minha mente e quando olhei para ele, que me encarava com aquele sorriso espetacular, senti minhas bochechas corarem pelos pensamentos impróprios, o que me fez querer me degolar por isso.
— Síndrome das pernas inquietas, é mania – expliquei, tentando desviar minha mente maliciosa.
— Algum motivo especial ou é sempre assim?
— É comum, no entanto hoje eu estou pior por causa da reunião.
— Você imagina o motivo disso tudo? – perguntou, referindo-se a estarmos todos ali no auditório em uma reunião urgente.
— Ainda não, mas temo que boa coisa não seja.
Logo após respondê-lo, o Sr. Freiras subia no palco e pegava um microfone, testando-o duas vezes dando leve batidinhas. O auditório, que a este momento já estava cheio, calou-se, ao notar a presença do chefe lá em cima.
— Boa tarde a todos. Muito obrigado por terem vindo a essa reunião em cima da hora. Nesta manhã eu recebi uma notícia nada agradável e que precisa ser compartilhada para vocês. Sabemos que somos uma instituição federal, por isso, somos completamente dependentes das verbas que o governo nos dá, somado ao que cada pesquisador consegue por fora, como bolsas de outras organizações de apoio. Todavia, agora temos um problema. Com essa mudança de governo e toda a bagunça política acontecendo, as verbas diminuíram drasticamente e não podemos fomentar a pesquisa de todos.
Um grande murmúrio começou a ecoar por todos pelo local. Eu sabia que ia vir merda, estava sentindo. As coisas já eram difíceis antes, imagina agora. Como eu conseguiria tocar a minha pesquisa sem dinheiro para comprar o material?
— Silêncio, por favor! – Sr. Freitas pediu antes de continuar a falar. — Não é questão para desespero. Porém, ao mesmo tempo, é preocupante. Vocês terão que economizar porque não sabemos se poderemos bancar a gama de pesquisas que a nossa universidade toca. Precisaremos fazer seleção e, infelizmente, as mais lentas e que estão demorando mostrar os resultados serão as primeiras a serem cortadas.
Meu estômago gelou. Fiquei com medo de ser tirada do programa. Eu precisava muito dessa verba e era muito injusto se me privassem disso. Eu fazia tudo corretamente enquanto muitos dos pesquisadores forjavam os seus resultados.
Uma mão quente segurou a minha e olhei para o lado, vendo um sorriso confortante do . Antes que eu tratasse de arrancar a mão dele dali, ele tratou de se explicar.
— Você está tremendo. Dá para ver o seu nervosismo daqui – ele inclinou-se para sussurrar e foi possível sentir o hálito quente bater no meu rosto.
— Estou com medo – confessei.
— Vai dar tudo certo, – confortou-me, ainda com seu rosto próximo ao meu.
Virei-me para respondê-lo e acabamos ficando próximos, próximos demais para a minha sanidade.
A respiração dele batia em meu nariz e por um milésimo de centímetro os nossos rostos se tocariam. Fitei os olhos que me encaravam e fiquei aprisionada naquele rio de azul profundo que parecia não querer desviar. E o problema maior era… eu também não queria.
A mão dele se ergueu lentamente até tocar a minha bochecha e quando o seu polegar encostou-se à minha pele, meus olhos se fecharam instantaneamente. Era como se meu corpo tivesse algum tipo de programação própria diante dele que eu não conseguia controlar. Não havia nada de mais acontecendo, mas os meus poros já estavam todos arrepiados.
Eu não sabia qual seria o próximo passo, porém um pigarro forte atrás de nós foi ouvido, fazendo com que a gente se afastasse com brusquidão e meu coração batesse aceleradamente.
— Desculpe interromper, mas os pombinhos poderiam deixar o clima para depois, antes que chamem mais atenção ao redor? – Era que havia nos atrapalhado apontando para as pessoas que estavam sentadas perto da gente.
Voltei a me recostar na minha carteira pegando fogo de vergonha e vi me dar uma leve fitada pelo canto dos olhos e segurar um pequeno sorriso em sua face.
Resolvi voltar a prestar atenção no que o Sr. Manuel Freitas dizia, antes que me desconcentrasse de novo.
— …portanto, não quero desespero, contudo preciso que sejam sensatos nos procedimentos de cada um. Procurem grupos de fomento por fora, vão atrás de editais de bolsas de outros órgãos… Não quero perder nenhuma pesquisa, todavia, se necessário for, já estão avisados. Obrigado. Agora estão dispensados – nosso coordenador terminou de dizer e as pessoas foram se levantando para irem embora, todas com uma expressão preocupada no rosto.
Levantei-me, sendo acompanhada por e , e fomos caminhando de volta ao laboratório. Estávamos em silêncio, ponderando tudo o que havíamos ouvido.
— Você acha que vão nos cortar? – resolveu ser a primeira a quebrar a mudez de todos nós.
— É provável. Não temos garantia para nos manter porque ainda não temos resultados - expliquei e ouvi dar uma risada sarcástica sozinho em seus próprios pensamentos. — O que foi? – perguntei a ele.
— Estou pensando na ironia que isto é. Nessas duas semanas que já estou por aqui pude perceber como os pesquisadores conseguem “se dar bem”. Como podem manter uma pesquisa que usa produtos vencidos e com resultados adulterados só para se manterem ou ter um status? – falava, injuriado.
— Seja bem-vindo ao meu mundo. – Dei de ombros, encarando a triste realidade.
Não eram todos assim, mas infelizmente havia esse tipo de gente.
— A é bem chata com essas coisas. Não é a toa que a nossa pesquisa é mais demorada. Ela sempre espera chegar os produtos certos, compra de empresas que trabalhem com qualidade, se há erro no processo ela volta e faz tudo de novo. É difícil alguém que é tão correta como ela, não é a toa que eu me inscrevi para cá em vez de outros programas de iniciação científica – falou orgulhosa e eu sentia o mesmo por ela, por ter uma estagiária tão dedicada e íntegra, assim como eu.
— É bom saber disso, . Vou comprovar tudo durante a minha última semana de estágio. Vai ser muito bom. – piscou para mim e eu rolei os olhos em resposta. — O que você estuda? – indagou , curioso.
— Psicologia – falou toda cheia de si, ela amava o que cursava. — Adoro entender a mente humana. Por que você acha que eu e a nos damos tão bem? É uma troca de experiências, ela me ensina toda a parte fisiológica, enquanto eu tento decifrar a mente louca dela. Somos como a tampa e a panela, duas partes que se encaixam perfeitamente – riu fazendo hora com a minha cara e foi acompanhada de , que não perdeu tempo para me alfinetar.
— Quando conseguir essa proeza me ensine, por favor. Adoraria entender essa cabecinha. - tocou a minha testa com o indicador e segurei-me para não ceder e rir.
— Com prazer – prometeu. Eu estava bem ferrada com a união desses dois.
Depois de um tempo, informou que estava indo para a sala 7, ela tinha aula agora, então ficamos apenas e eu caminhando.
— Seu laboratório é para o outro lado – comentei, notando que ele já estava longe do local que estava estagiando.
— Estou te acompanhando. - deu de ombros e eu preferi não contestar.
Ficamos por um tempo em silêncio, eu estava perdida e aflita com as palavras do Sr. Freitas ainda.
— O que acha de sairmos hoje? – interrompeu meu momento melancólico.
… a gente já conversou sobre isso.
, amigos também saem juntos – tentou me convencer.
— Eu sei, mas a gente é diferente.
— Por que diferente? Você disse que não havia e nem nunca haveria nada entre nós, combinamos de sermos amigos e estamos nos dando bem assim por duas semanas já. Do que tem medo, ?
Parei pensando no que ele estava dizendo. Ele tinha razão. Era isso que eu havia aceitado, não foi? Uma amizade. Amigos saem um com o outro e eu não queria mostrar para que sair com ele poderia me afetar. Se eu negasse era isso que ele acharia, que ele mexia comigo de alguma forma. Ele não precisava saber que isso era verdade.
— Tudo bem – me rendi.
— Ótimo – abriu um sorriso tão grande e tão lindo, com covinhas tão maravilhosas que quando fui ver, estava rindo para ele também. — Você precisa de descanso e espairecer a cabeça depois de hoje. Depois que sair do serviço, lá pelas sete horas da noite, eu te busco – falou eufórico e me deu um beijo na bochecha, saindo correndo em seguida.
Não tive tempo nem de contestar ou ao menos passar o meu endereço. Como ele ia me buscar assim?
Rolei os olhos e cheguei à porta do meu laboratório. Um braço passou pela minha frente no momento que eu enfiava a chave na fechadura. Olhei para o lado e vi que era Matheus que estava ali ao meu lado. Desde que a gente saiu que eu não havia o visto. Um frio percorreu o meu estômago. Não sei se era emoção por vê-lo ou justamente pelo contrário.
— Oi, . Não consegui ver você lá dentro do auditório. Queria conversar com você. A gente não se vê desde aquele dia... - disse em tom de lamento.
Recordei-me que havia evitado Matheus. O que ele havia me dito ainda estava indigesto no meu estômago, porém, eu precisava deixar isso para trás se quisesse colocar minha vida amorosa nos trilhos.
— Desculpe. Os dias foram um pouco loucos… - tentei me explicar.
— Por duas semanas? – ele ergueu uma sobrancelha para mim, indagando-me e eu sabia que ele não acreditaria na minha desculpa esfarrapada.
Fiquei muda sem saber o que dizer e Matheus soltou a respiração um pouco frustrado. Deu um passo em minha direção, ficando bem próximo a mim e eu não senti nada que me levasse a querer me aproximar dele da mesma forma.
, eu te pedi desculpas pelo que falei aquele dia, achei que havíamos nos entendido.
— E eu te perdoei. Não é culpa sua Matheus, sou eu o problema – tentei dizer a verdade. Ele tinha uma parcela sim, porém, se não fossem meus hormônios loucos e inusitados, eu poderia já ter o perdoado e tentado com ele novamente.
— Ai. - ele colocou a mão no coração e fez uma cara de dor. — Nunca achei que receberia a desculpa esdrúxula que todos os homens dizem para as mulheres. “Não é você, sou eu” - falou a última frase imitando uma voz grave e abrindo um sorriso depois.
— Não, não é isso. - espalmei minha mão, impedindo-o de ter esse pensamento. – Eu adoraria sair com você de novo, Matheus. Eu só precisava de um tempo para mim – respondi e ele deu um sorriso tímido.
— Então que tal hoje? – perguntou-me.
— Hoje?
— Sim. Eu e você, em um lugar especial. – deu duas arqueadas na sobrancelha em incentivo.
— Ann…- Droga, hoje eu já havia marcado com , o que eu iria fazer?
O meu cérebro falava o óbvio, não havia contestação. era alguém que atrapalharia meus planos, enquanto Matheus era o meu futuro. Claro que eu deveria desmarcar com o . Mas por que eu não sentia que era a coisa certa a ser feita?
Eu estava animada para o cinema de hoje, eu queria ir.
Coração de merda idiota.
Eu estava novamente deixando os meus hormônios me levarem por um caminho perigoso. Precisava colocar minha vida no trilho certo novamente, por isso, abri um sorriso, pronta para responder Matheus.
— Eu adoraria… – comecei a responder. — Mas hoje não vai dar. No entanto, podemos marcar para semana que vem, que tal?
Nem eu estava acreditando no que havia dito. Quando comecei a responder, o restante da frase saiu sem que eu ao menos percebesse. Eu estava mesmo dispensando o Matheus por causa do .
O sorriso dele morreu em seu rosto e eu vi que havia ficado sem graça. Droga, onde eu estava com a cabeça?
— Tudo bem, . Eu te ligo combinando, ok? Não vou deixar você fugir de mim – disse um pouco entristecido, contudo tentou manter uma voz suave, inclinando-se para me dar um beijo na bochecha e se despedir.
— Não vou fugir, Matheus – tentei soar firme.
— Assim espero. Tchau, . - acenou para mim, afastando-se.
Eu respondi o seu gesto com um aperto no coração, porém, ao mesmo tempo, sentia um grande alívio. Passei a mão no meu rosto, destranquei a porta do laboratório e entrei de uma só vez, tentando fugir de tudo aquilo.
Agora, eu só esperava mesmo que o fizesse valer a pena o encontro que eu havia acabado de dispensar.





Capítulo 8


Eu não estou nervosa.
Eu. Não. Estou. Nervosa.
Eu
Não
Estou
Nervosa.
Por que estaria? Afinal, era uma saída entre amigos.
e eu saindo.
e eu saindo sozinhos.
e eu saindo sozinhos no escurinho do cinema.
Sim, definitivamente eu estava nervosa!
Não dava para negar. Eu estava arrumada desde as dezoito horas, andando para lá e para cá sem parar. Minha pele já estava ficando úmida com a tensão e eu precisei ligar o ar-condicionado em 15º Celsius para dar conta do aguaceiro ambulante que começava a sair dos meus poros.
— Eu estou ficando tonta – resmungou, segurando-me pelos ombros e me fazendo parar de rodar que nem barata tonta pelo quarto.
— Eu acho que vou vomitar – gemi, sentando-me na cama e tapando o meu rosto com as mãos.
— Ei, ei, ei! Pode parar! Cadê aquela mulher segura de si que estava linda e poderosa, pronta para seduzir qualquer homem naquele encontro com o Matheus?
— Ela desapareceu no momento que aceitou sair com o – choraminguei e comecei a balançar a perna freneticamente, deixando evidente a minha síndrome das pernas inquietas.
— Não mesmo! Ela está aí dentro de você. Além disso, não tem motivo para ficar assim. Você não disse que era só um encontro entre amigos? A senhorita ficou repetindo isso umas mil vezes até eu me cansar de ouvir.
— Eu sei, eu sei... - concordei, tentando embutir isso na minha cabeça também. — Mas o é diferente, eu nunca sei como me portar com ele, é como se a minha mente e o meu corpo não trabalhassem em alinhamento. Foi diferente com o Matheus. Com ele eu sabia o que queria e o ponto que almejava chegar, diferente do . Eu não quero nada com o , mas é como se, ao mesmo tempo, algo desenfreado surgisse em mim toda as vezes que estamos perto um do outro – desabafei com a minha amiga.
— Isso se chama atração, bobinha. Você gosta dele, é normal se sentir dessa forma. Admira-me a Doutora do Amor não conseguir compreender os próprios sentimentos – gracejou do meu desespero e me deu dois tapinhas na perna, fazendo hora com a minha desgraça.
— Eu não gosto dele, . Não desse jeito que você parece insinuar – defendi-me e ela arqueou a sobrancelha, como se eu estivesse falando uma grande mentira. — Ok. Eu confesso que eu tenho uma atração inegável por ele, mas, gostar mesmo não, eu gosto da pessoa que ele é... Como um bom amigo. Nada mais - tratei de me explicar.
— Tá bom, . Talvez você não goste dele mesmo. Talvez seja só um pouquinho porque vocês não se conhecem há muito tempo – falou fazendo um sinal de pequeno com o indicador e o polegar. — De qualquer forma, eu estou muito feliz que esteja saindo do seu casulo e se permitindo a isso. - sorriu orgulhosa.
Antes que eu contestasse qualquer coisa, a campainha tocou e levantou-se em um pulo, correndo para atender. Segui-a só até um pedaço do caminho, logo parando no corredor e bisbilhotando, enquanto ela ia fazer a recepção. Ao abrir a porta, ela me pareceu estupefata diante da visão do homem lindo que se encontrava escorado no batente. Eu nunca me cansaria de olhar para o , ele era uma imagem maravilhosa. E, pelo visto, a minha amiga havia acabado de atestar isso também.
Pigarreei para tirá-la do seu transe, antes que ela começasse a babar por cima dele e perdesse a compostura, ou mesmo que ele notasse as duas trouxianes encantadas por sua beleza.
— Desculpe. Você deve ser o , não é? – ela falou, parecendo finalmente voltar ao planeta Terra. — Quer entrar? A já está pronta. - apontou com o seu polegar para trás em minha direção.
— Sou eu mesmo. – Estendeu a sua mão para ela e abriu um sorriso, cumprimentando-a. — Se não se importar eu vou ficar aqui mesmo, pois se não sairmos agora chegaremos atrasados. ? – perguntou por mim, esticando a cabeça e achando-me um pouco atrás de .
— Oi, . – Acenei para ele e caminhei em sua direção, inclinando-me para dar um beijo em sua bochecha assim que parei em sua frente. — Vamos então? – perguntei, aproveitando para me segurar e não rir da cena patética da minha amiga embasbacada.
— Claro! – respondeu exultante e retribuiu o beijo em meu rosto, fazendo-me sentir um leve aquecimento no local. — Prazer em te conhecer, ! – despediu-se da minha amiga e, enquanto caminhávamos até o elevador, precisei olhar para trás para ver a cara dela.
Minha amiga sussurrou um "UAU" com a boca, levantou o polegar em sinal de joia para mim e piscou, fechando a porta em seguida, sendo impossível não soltar a gargalhada que eu tanto segurei.
— O que foi? – me questionou depois que entramos no elevador.
— Nada. Apenas o "efeito " sobre as mulheres – respondi e dei de ombros, torcendo para que o elevador chegasse logo ao térreo e nos tirasse daquele enclausuramento. pareceu entender, pois só emitiu um pequeno sorriso em sua face e não disse mais nada.
A rua estava vazia e só havia dois carros estacionados em frente ao prédio. Comecei a caminhar em direção a um fiat uno que estava logo na entrada, sendo parada pela mão de , que pousou em minhas costas e guiou-me em outro sentido. Paramos diante de um carro magnífico que eu não saberia nem descrever aqui. Só dava para dizer claramente que era um automóvel caro, muito caro.
— Quem você assaltou? - perguntei com os olhos arregalados quando vi destrancar a porta e a abrir para que eu entrasse e me sentasse.
— Você é engraçada, – riu e conduziu-me para dentro, dando a volta em seguida e entrando também.
— Eu estou falando sério. Esse carro é seu? Você não precisava pedir emprestado um carro desse nível para a gente poder sair, eu tinha o meu, . Se algo acontecer com ele, um arranhado se quer, nós teremos que vender o nosso fígado para pagar – falei nervosa só por estar em um veículo que valia mais que a minha vida.
Pelo visto as minhas palavras não surtiram efeito nenhum nele, pois, apenas ligou o carro e partiu, fazendo as minhas costas colarem no banco de couro do automóvel sport vermelho.
— É uma Ferrari Califórnia T. Bonita, não é? E confortável também. Eu estou amando – falou com um sorriso satisfeito, enquanto fitava a estrada a sua frente.
! Eu estou falando sério com você! Vamos voltar, eu pego o meu carro, eu te sigo enquanto você devolve esse aqui e depois nós vamos juntos no meu.
, para com isso! Eu não peguei carro emprestado com ninguém. Você sempre tem essa mania de julgar tudo antes de perguntar? - parecia que ele tinha perdido um pouco a paciência, porém, eu só estava preocupada, poxa!
— Não me diga que é seu? – retruquei zombando dele, não querendo me dar por vencida.
— Se não quer ouvir, então não vou dizer.
— É seu?! Meu Deus, ! Como você tem um carro desses? – exclamei desacreditada.
— Pois é. Talvez eu não seja um estudante pé rapado assim... - falou mordendo o lábio e segurando um sorriso, feliz por sair por cima em nossa discussão.
— Isso não significa nada. – Inflei o peito, disposta a não perder a briga. — Sempre achei que fosse um filhinho de papai mesmo. - soltei e ele bufou, chateado.
— Ok, , pense o que quiser! – resmungou e acelerou mais o carro.
Um silêncio constrangedor se fez no veículo e eu me arrependi de ter falado aquilo. Mas eu parecia não ter freio na boca quando estava perto do , tanto para as coisas boas quanto para as ruins. Era quase inevitável.
Quando estacionamos o carro no Shopping, ele não o destrancou. Apenas ficamos os dois em silêncio, até respirar fundo e olhar para mim.
— Isso tem que parar. - a voz dele saiu rouca e grave.
— Eu sabia que a gente sair junto era uma péssima ideia. Você está arrependido, não é? Não tem problema, , você pode me levar embora, não vou ficar chateada, eu não queria nem vir mesmo, você que me convenceu. - eu parecia uma metralhadora ambulante falando.
A verdade é que, lá no fundinho do peito, eu ia ficar bem magoada de voltar agora. Mas eu tinha orgulho próprio e não me mostraria abalada. Quando inflei o peito para continuar desatando minhas frases corridas, as mãos de se levantaram em minha direção. Uma mão foi direto em minha boca, tampando-a e me impedindo de falar qualquer coisa, e a outra para a minha nuca, forçando para que eu não afastasse o seu gesto. Tentei balançar e dizer alguma coisa, porém, era impossível.
— Quietinha por um segundo, pelo amor de Deus! - suplicou, rolando os olhos. — O que eu queria dizer é que a gente tem que parar de se alfinetar. A minha intenção hoje era que você esfriasse a cabeça e descansasse. Minha intenção era tirar essa sua cabecinha louca das preocupações do dia a dia, no entanto, isso não vai adiantar se você arrumar motivo para encrencar comigo a cada segundo que a gente estiver no mesmo espaço.
Deixei cair os meus ombros aliviada e impressionada. Não sei se ele chegou a perceber. Um lampejo de felicidade passou-se dentro de mim por ver que estava preocupado comigo.
— Vamos abaixar as armaduras e nos dar bem, então? Pelo menos hoje. Eu gostaria muito de ter uma noite agradável com você, - pediu com um tom de voz tão carinhoso que eu só tive forças para acenar com a cabeça. Ele foi me soltando aos poucos, fazendo-me sentir um leve frio quando a palma da sua mão quente se afastou de mim.
— Tudo bem, me desculpa – fui sincera e ele retribuiu com um sorriso, destrancando o carro em seguida e me libertando, finalmente.

*


Por causa das discussões anteriores, estávamos atrasados, por isso, fomos direto para o cinema e depois iríamos comer alguma coisa. Durante os passos apressados para chegar lá, havíamos decidido assistir Esquadrão Suicida, para a alegria de , que confessou que, no fundo, estava com medo de que eu escolhesse algum filme meloso. Até parece. Imagina só se eu escolheria algo romântico para e eu. Ficaríamos parecendo um casal de namorados e instalaria aquele climão estranho a cada cena que os personagens principais tivessem relações amorosas. Não mesmo. Um filme de ação era a melhor opção para nós dois. E, de qualquer forma, eu estava bem ansiosa por esse filme, então, não foi sacrifício algum.
aproveitou a promoção para comprar um pote grande de pipoca e refrigerante, que foi dividido financeiramente entre nós, já que eu pisei o pé que aquilo não era um encontro, apenas uma saída entre amigos. Sendo assim, eu deveria pagar a minha parte. não contestou e no final deu tudo certo. Ele parecia se esforçar bastante para que o furacão não explodisse à toa.
Assistimos ao filme alternando entre o silêncio e risadas, nos divertimos bastante. O filme foi bem legal, apesar daquele Coringa bizarro. Com toda a certeza a Arlequina levou a obra cinematográfica nas costas, a cada aparição dela nós ríamos e eu conseguia desfrutar do som da gargalhada do em meus ouvidos.
Falando nele, foi bem difícil lidar com seus dedos tocando os meus a cada vez que esbarrávamos nossas mãos para pegar a pipoca. Não que eu já não tivesse sentido o seu toque, porém, esses pequenos detalhes em meio a uma sala escura com esse homem ao meu lado, era torturante. Contudo, como eu estava tentando ser uma mulher centrada, cada vez que isso acontecia, eu tratava de me afastar dele.
não fez nenhuma gracinha. Nada daquelas desculpas de se espreguiçar e colocar o braço em volta da garota, ou mesmo querer comentar o filme no meu ouvido durante a sessão. Não. Ele não fez nada, nadinha mesmo.
Eu me sentia aliviada por isso, mostrava que ele era um homem de palavra. Talvez o interesse dele por mim tivesse se esvaído e realmente ele quisesse apenas ser meu amigo. Quem iria querer um relacionamento com uma "louca" como eu, não é?
Eu sei que sou bonita e atraente, porém, já havia ficado ao meu lado tempo o suficiente para entender que eu era uma pessoa... complicada.
Pensar nisso havia me deixado um pouco triste, sem razão alguma. Eu deveria me sentir feliz por estar fora do páreo. Era isso que eu quis desde o início, então, por que eu me sentia assim?
— Subway ou Mc Donalds? – me perguntou assim que saímos do cinema.
— Hum... Acho que todos os dois são ótimos alimentos para a saúde – gracejei. — Tem certeza que vai levar a sua acompanhante para comer lanches adolescentes ao invés de um lugar chique? – arqueei a sobrancelha zombando dele, mas, me arrependi no mesmo instante pela minha ação maldita, pois a frase ficou parecendo que estávamos em algum tipo de encontro.
— Como você não é esse tipo de acompanhante, acho que podemos comer por aqui na praça de alimentação mesmo – ele respondeu tranquilo. Não era um corte e nem nada disso, entretanto, para mim, teve o mesmo efeito. — Além disso, eu posso até ter um carro caro, , mas eu gosto de coisas simples e viver o melhor dessa vida. Ou seja, morrer com as veias entupidas por causa das comidas gordurosas e com pressão alta devido ao sódio da batatinha do Mc Donalds e dos miojos que eu como a noite. – Ele riu despreocupado e eu concordei com ele.
Quem olhasse para não diria que ele era podre de rico. Ele tinha um ar leve e sua fala não era do tipo arrogante. Porém, não podemos confundir com desmazelo, isso ele não tinha. Ele vestia-se bem, no entanto, nunca havia visto nada de marca e nem nada parecido. Talvez o hobby dele era só carro, ou ele ganhou o veículo em um sorteio, bolão, sei lá. Eu não queria ser indiscreta e perguntar, portanto, optei só por decidir aonde comeríamos.
— Subway, então. Fiquei sabendo que vão retirar a opção de almôndegas, portanto, quero aproveitar enquanto ela está disponível.
Compramos e sentamos em uma das mesinhas para comer, até puxar um assunto, quebrando o silêncio entre nós.
— O que você pensa em fazer futuramente quando terminar a sua pesquisa?
— Não sei. Ainda não pensei nisso. Procurar outra coisa para pesquisar, talvez, aprimorar o meu estudo, preciso analisar com cuidado.
— Você sabe que se der certo será conhecida mundialmente, não é? – ele questionou, parecendo muito interessado no que eu fazia.
— Não penso nisso, . Eu só quero ajudar de alguma forma. Não quero status. Até porque, mesmo que tudo dê certo, até conseguir chamar a atenção de alguma empresa ou órgão que patrocine o projeto é uma longa jornada e, além disso, nem sei se conseguirei ir adiante.
— Por quê? – ele transpareceu intrigado.
— O dinheiro que recebemos para a pesquisa já é bem escasso. Nesse ano de política os cortes vieram com tudo. Eu acho que eu não terei nem o suficiente para terminar o pós-doc. Depois disso eu acho muito difícil a universidade conseguir me bancar. Se tudo der certo, no final da pesquisa eu só conseguirei mostrar que a planta tem um potencial de cura, no entanto, isso não é o suficiente para fabricarem um medicamento, apenas o essencial para receber o meu diploma. Seriam necessárias ainda mais pesquisas, testes químicos e bioquímicos, depois o processo em humanos e tudo mais. Coisas que a universidade não faz, portanto, se eu não conseguir que alguém "compre" a minha ideia, será tudo em vão.
ficou quieto e pensativo. Acho que ele tentava entender o que eu estava dizendo. Realmente era complicado. A gente fazia as nossas pesquisas na faculdade e muitas vezes descobríamos coisas fenomenais. Mas do que adiantaria se não tivesse um órgão que tocasse isso adiante? As universidades são limitadas, estudos complexos assim precisam ser feitos por indústrias farmacêuticas ou órgãos competentes como a FIOCRUZ. Isso me desanimava muito, pois, mesmo que eu conseguisse a cura para o câncer, se não acreditassem em mim, tudo seria em vão.
— Vai dar tudo certo!
— Não vai, . – Soltei o ar, frustrada. — Eu já estou me preparando para o pior. A minha pesquisa é algo demorado, eu preciso captar cada princípio ativo da planta amazônica e fazer o teste de um por um. E cada teste desse demora bastante. Eles não terão paciência para esperar o resultado de algo que pode nem dar certo. Eu acredito que pode dar, mas eles não, entende? O Matheus mesmo me deixou claro isso. Ele é amigo do Sr. Freitas, portanto, se ele pensa isso de mim, com certeza o nosso Coordenador também – desabafei.
— Quem é Matheus? – me questionou com o cenho franzido.
— É o médico branquinho do laboratório da oncologia. Matheus Neves.
— Hum, sei quem é, foi o primeiro lugar que o Sr. Freitas me mandou estagiar – falou pensativo e com uma careta notória.
— Então... eu meio que estou fadada ao fracasso.
... – tocou em meu queixo e me fez olhar para ele. — Faz a sua parte, prove a todos que estão errados, depois as coisas irão se ajeitar. Confie em mim.
falou com tanta firmeza que tive até esperanças que as coisas poderiam dar certo, motivando-me mais ainda para conseguir finalizar a minha pesquisa.
— Obrigada – murmurei constrangida com o olhar forte que ele tinha e com o toque dele em meu rosto.
— Sabe o que eu acho que vai tornar a nossa saída muito mais especial? – ele afastou a sua mão e perguntou animado, mudando de assunto.
— O quê? – questionei, levemente interessada.
— Um sundae de chocolate do Mc Donalds – respondeu, fazendo os meus olhos brilharem. Eu amava esse sorvete. — Você quer?
— E ainda tem dúvidas? Precisa perguntar se macaco quer banana? – questionei-o, eufórica.
— Vou lá buscar para a gente! – falou e saiu correndo para comprar o sundae, não dando nem tempo para lhe entregar o dinheiro para pagar.
Enquanto o via entrar na fila, fiquei pensando em como ele havia sido agradável por toda a noite, mesmo quando eu dei meus ataques de chatice. E o que mais me deixou desestabilizada foi que, ao contrário de Matheus, que havia feito pouco caso do meu trabalho, me incentivou, e isso contava muito para mim.
Meu coração se encheu de uma forma que eu não conseguia entender e, por um segundo, eu quis mais disso. Mais dessa pessoa que o estava se mostrando. Mais desse cara que parecia que eu havia julgado tão mal, mas que, a todo tempo, demonstrava ser uma pessoa bacana e atenciosa.
Por um segundo, e apenas um milésimo mesmo de segundo, eu cogitei algo mais. Não um relacionamento amoroso, mas... não sei, um passo. Desejei me deixar levar pelo que meu corpo estava pedindo, poder conhecer melhor o , desfrutar da sua companhia não só como amigo, pois o meu fisiológico parecia sempre ansioso para prová-lo um pouco mais depois daquele beijo. Contudo, como eu disse, foi apenas por um segundo, pois tudo se dissipou quando eu vi uma ruiva excepcional abraçá-lo com força na fila do sorvete, fazendo uma raiva descomunal se apoderar sobre mim.
Eu sei que não tínhamos nada e éramos amigos, mas eu não conseguia me controlar. Uma raiva intensa se alastrou e eu queria arrancá-lo das garras da ruiva maldita que tocava o seu braço enquanto eles conversavam. E, ainda por cima, ele ria para ela. Eles pareciam íntimos de alguma coisa, velhos conhecidos, talvez. Com certeza era algum tipo de peguete do e eu me senti uma otária por ter sequer cogitado algo com ele.
Eu sabia que devia ter ouvido o meu bom senso o tempo todo. A ciência não falha. Ela havia me avisado, eu que teimei e deixei meus hormônios me levarem a essa situação. Ainda bem que foi antes de termos alguma coisa, agora tudo estava claro para mim. Eu precisava me afastar!
Decidi, então, ir embora. Eu não era paga para ficar vendo com a ruiva estonteante. Era por essas e outras que ele e eu nunca daríamos certo. Eu já havia falado no pub sobre a atração inegável que todos os seres femininos sentiriam por ele. Melhor que eu encerrasse qualquer chance de nos afundarmos nisso agora, enquanto não existia nada.
Peguei a minha bolsa e caminhei para fora da praça de alimentação, indo em direção à saída. Nem percebi que estava correndo, só queria fugir de tudo aquilo até chegar à porta do shopping e sentir o vento frio da noite bater em meus cabelos. Assim que pisei do lado de fora, uma mão me puxou, fazendo com que eu batesse em um peito forte e musculoso. Eu nem precisava erguer a minha cabeça para saber que era ali. O perfume masculino dele já havia sido identificado pelas minhas narinas.
— O que deu em você? Por que foi embora assim correndo do nada? – me interrogou, sua voz parecia preocupada.
— Nada. Você parecia bem à vontade com a sua amiguinha ruiva e eu não queria estragar o plano que você tinha para ela essa noite. Achei melhor ir embora e te dar espaço – falei, sem conseguir conter a raiva em minhas palavras.
A feição de , que antes era preocupada comigo, mudou drasticamente. Ele parecia muito chateado. Suas sobrancelhas estavam tão franzidas que fazia linhas de expressões carregadas ao redor dos olhos e no vinco da testa.
— E por achar isso você precisava sair sem falar nada e me deixar igual um pateta com dois sorvetes na mão? Nós viemos juntos, ! – ele disse, nervoso.
— Mas nós não estamos juntos, – frisei pra ele, colocando minha mão na cintura.
— E daí? Nós viemos juntos como amigos e isso não significa que eu ia te deixar sozinha por alguma mulher ou que você deveria sumir do mapa. Você acha que eu sou algum moleque que não aguenta ver um rabo de saia e vai atrás?
É, realmente ele estava muito chateado. Eu não achava que ele era um moleque, mas... eu não conseguia lidar com aquele turbilhão de pensamentos e hormônios explodindo, cada um me falando uma coisa diferente.
— Eu não queria atrapalhar – tentei soar firme, porém, a minha voz já estava uma bosta. Sem motivo algum, me veio uma vontade súbita de chorar. Eu precisava sair dali antes que fosse tarde demais.
— Está com ciúmes, ? – Poderia ser uma pergunta petulante, entretanto, parecia que queria ouvir algo de mim, pois a sua voz saiu do tom grave e raivoso que estava para uma espécie de ternura.
— Eu já te disse uma vez que não tenho ciúmes de você, – murmurei, engolindo as lágrimas que queriam jorrar sem eu mesma entender.
— Que bom que não, pois você sabe que não precisa disso. Você só não me tem porque não quer. A ruiva que você disse é uma velha amiga minha, ela trabalha no escritório do meu pai. E, antes que você diga alguma coisa, eu não tenho e nem nunca tive nenhum tipo de relacionamento com ela. Nem quero, por sinal. A Isabel é como uma irmã para mim, fomos criados juntos. Seria quase como um incesto.
Ele falava sereno e parecia ser sincero. De qualquer forma, eu comecei a me sentir estúpida por ter feito esse papelão todo e, com isso, a vontade de afundar na cama e chorar no meu travesseiro somente aumentou.
— Você não me deve explicação, – fui um pouco dura, empinando o nariz para ele.
— Eu sei. Mesmo assim eu quis dar – respondeu com uma expressão impassível. Eu não sabia o que ele estava pensando, porém, com certeza, a tentativa da noite agradável tinha acabado de ir para o ralo. — Vamos embora, acho que não tem mais clima para ficarmos aqui – falou sério, andando em direção do carro e eu apenas o segui calada.
Entramos na Ferrari linda e ele ligou-a, dirigindo em direção ao meu apartamento. Eu sei que eu tinha cagado tudo, mas ele sempre tentou se mostrar divertido e contornar as minhas loucuras. Por que ele não fazia isso de novo?
Um pensamento maldito que dizia que ele havia mentido pra mim começou a se alastrar. Talvez essa tal amiga fosse mais para amiga com benefícios. O era um cavalheiro, portanto, não me deixaria sozinha. Se ele não queria voltar para ela, não havia motivo para subitamente me levar embora e encerrar a nossa noite. Com certeza queria voltar para a ruiva ladrona de homens.
Mas o não é seu, . O pensamento veio como um tapa na cara, me fazendo acordar para a realidade. Eu não podia ficar com raiva do por esse motivo, ele era solteiro e poderia fazer o que bem quisesse.
Não passou muito tempo, ele estacionou em frente a minha casa, sem nem desligar o carro. Era como se quisesse que eu saísse logo para arrancar com o carro e ir para bem longe de mim.
— Desculpa por tudo, não precisava me trazer. Eu poderia vir sozinha, assim não precisava deixar a Isabel te esperando – falei ao tocar a maçaneta, pronta para abrir a porta do veículo e sair.
— Droga, ! Será que dá para parar com isso? – falou um pouco duro e deu um tapa no volante. — O que você quer de mim? Diz! Eu fui claro que queria você lá no pub, você me correspondeu, mas depois fugiu. Eu te entendi e propus uma amizade, porém, agora que somos amigos, você implica com coisas sem fundamentos como se tivéssemos algo, sendo que foi você que me deu um pé na bunda.
— Você disse que não ia tocar nesse assunto – foi à única coisa que respondi, pois, para todas as outras, eu não teria argumentos para me defender. Como eu poderia me explicar para se nem eu mesma estava me entendendo? Eu nunca fui daquele jeito, nunca agi com ninguém da forma que eu agia com ele. Parecia que eu entrava em colapso e fazia tentativas de me auto sabotar e, assim, me proteger.
olhava para mim intensamente, esperando que eu dissesse mais alguma coisa e, ao mesmo tempo, decepcionado pelo fato de que eu só consegui emitir uma reclamação por ele ter tocado no assunto beijo.
— Me desculpe. Talvez esse negócio de sermos amigos não vai funcionar. - ele suspirou, soltando todo ar do seu pulmão. Parecia ter corrido dez léguas de tão exausto que estava.
Um aperto surgiu em meu peito. Eu não queria nada com o , no entanto, também não queria que ele se afastasse. Se a estivesse aqui, com certeza, diria ", ou caga ou sai da moita", porém, eu estava sozinha e não era boa com as palavras quando tinha uma guerra interna travada entre meu cérebro e coração.
— Por quê? Onde que está o senhor maturidade que dizia várias coisas para mim e me dava lição de moral? – mostrei a minha indignação pelo fato dele querer terminar com a nossa amizade que mal havia começado.
, você não entende... - murmurou e recostou a sua cabeça no volante, dando um grunhido em frustração.
— Então me fala, porque eu quero entender, . Eu posso estar errada, só que também não é justo você virar para mim e falar que agora não quer mais ser meu amigo, sendo que foi você que me propôs isso. Coisa que eu nem queria, para início de conversa.
— Não dá para ser amigo de uma pessoa que eu quero beijar a cada segundo que se passa, . - soltou a bomba assim que levantou a cabeça e olhou para mim.
Seu olhar era penetrante, ele estava carregado de uma emoção que eu não podia decifrar, transmitia um calor inegável em minha pele, me fazendo engolir em seco diante do seu desabafo.
... - comecei cautelosa, contudo, logo fiz o que sabia melhor, disparar frases rápidas na tentativa de me proteger e me livrar de uma situação embaraçosa. — Você sabe os meus motivos. A gente nunca ia dar certo. Estamos fadados ao fracasso pela ciência antes mesmo de começar. Se não conseguirmos sair nem como amigos, como que lidaríamos trocando salivas por aí? É inaceitável! Eu preciso ser racional, já que sou a única aqui que pensa nos 'poréns'. Eu não posso simplesmente ceder a qualquer coisa que eu sinto – confessei tudo o que vinha na cabeça, tentando mostrar a que aquilo jamais conseguiria prosseguir.
— Você sente algo por mim? – Os olhos dele brilharam como mulher de TPM quando ganha um chocolate. Foi aí que eu vi a merda que eu havia acabado de dizer.
— Não, .
— Mas você disse que não poderia ceder aquilo que você sente, então, quer dizer que você sente alguma coisa, não é?
Mordi meu lábio inferior, nervosa, o que foi uma péssima ideia já que os olhos de foram parar instantaneamente em direção a minha boca, fazendo-me fitar a dele também. Naquele momento, o carro ficou pequeno demais para nós dois, o ar se tornou abafado e meu corpo se arrepiou pela intensidade que emanava entre nós.
— Eu não sei, . Eu sinto, mas não sinto. Meus hormônios querem, porém a minha razão me diz que isso é muito errado, eu não sei definir – embaralhei-me nas palavras e fiz soar a minha voz trêmula.
— Mas já é alguma coisa? – interrogou-me com o tom de voz muito mais carregado que antes, soltou as mãos do volante e virou o seu corpo completamente em direção ao meu. Era uma pergunta, mas a forma que me disse foi quase uma afirmação. Ele esperava que eu confessasse e, no momento que imergi na profundidade do seu olhar, sabia que não conseguiria negar.
— Sim, – rendi-me, cansada de tentar compreender o que estava acontecendo comigo. — Definitivamente é alguma coisa.
— Então já é o suficiente!
Dito isso, tudo aconteceu muito rápido. Logo os braços dele me puxaram em sua direção e eu estava em seu colo, sua boca na minha e seu tórax colado ao meu. Os lábios carnudos dele me beijavam com intensidade, enquanto suas mãos tratavam de passear pelo meu corpo, apertando-me para que eu não fugisse dele. mordeu o meu lábio inferior dando uma leve puxada, que fez com que toda a minha pele se arrepiasse. Ele passava as mãos pelos meus poros, desfrutando do efeito que causava em mim. Uma delas se enfiou no meio dos meus cabelos, puxando-os para trás e fazendo com que minha cabeça se inclinasse, dando acesso livre do meu pescoço a ele.
Era muito mais que uma explosão de fogos de artifícios ou as famosas borboletas no estômago. Eu sabia bem o que estava sentindo. Era a maldita ocitocina, o hormônio que eu tanto quis fugir, fazendo o seu efeito. Porém, desta vez, eu não quis impedi-la. Eu apenas me deixei levar por aquele sentimento estonteante, desfrutando-me de tudo aquilo que me proporcionava. Talvez eu me arrependesse quando a gente se separasse, mas, enquanto isso, pela primeira vez, eu quis apenas sentir.





Capítulo 9


Quanto tempo havia passado? Uma hora? Dez minutos? Eu jamais conseguiria definir, pois, no instante que colou a sua boca na minha, o tempo parou para nós.
Os beijos eram inebriantes e seu toque alastrava o fogo em minha pele. Eu não pensava em fugir, inusitadamente o meu cérebro parecia ter dado um curto circuito e paralisado, fazendo-me apenas curtir aquele momento.
A certa altura dos amassos na poltrona de couro da Ferrari do , senti a sua mão entrar sorrateiramente por debaixo da minha blusa e subir vagarosamente em direção aos meus seios. O ato me fez afastar dele, era um passo grande demais para a minha sanidade que já estava ferrada.
tratou de recolher a sua mão dali e puxou-me novamente para ele, selando os nossos lábios, para que não desse tempo de nenhum ataque de pânico da minha parte. Sua língua encontrava-se com a minha em uma dança magnífica, eu nunca me enjoaria disso. Poderia passar as vinte e quatro horas do meu dia saboreando os beijos dele.
— O que estamos fazendo? – nos questionei ainda de olhos fechados, no momento em que nos afastamos levemente para poder respirar.
— Nos beijando? – gracejou da minha pergunta, emitindo uma risada que era música para os meus ouvidos.
Abri os olhos e ri com ele, dando um leve tapa no seu ombro. Em seguida, ele abriu os seus olhos também, encarando-me com uma expressão satisfeita e alegre. Assim que a adrenalina ia abaixando, eu me situava onde estava e o que estava fazendo. Corei de imediato ao notar que estava exatamente no colo de . No mesmo instante fiz força para me levantar e voltar ao meu banco, porém, os braços fortes de me seguraram, impedindo-me de fazer isso.
— Não vai – ele pediu, acariciando a minha bochecha.
, isso nã… - tentei dizer algo, mas o indicador do foi direto para os meus lábios.
— Shhh…- ele me interrompeu. — Não vamos estragar tudo, vamos? Você está curtindo, eu também, vamos só aproveitar isso aqui, eu não vou te deixar fugir dessa vez.
— Mas… você não entende, – tentei falar sendo o mais calma possível.
— Claro que não. Jamais vou entender o motivo de duas pessoas que querem ficar juntas não poderem fazer isso livremente. Não tem nada que nos impede, , a única coisa que pode estragar o nosso momento está bem aqui. – Deu dois toques leves em minha cabeça, me mostrando que só dependia de mim e da libertação da minha mente.
— E como vai ser amanhã? Vamos voltar a sermos amigos normalmente? Eu não quero ser sua peguete, . Alguém que você vem e tem na mão a hora que quiser e depois joga fora – resmunguei, fazendo-o rolar os olhos pra mim, porém, sua mão continuava a me acariciar, como se ele tentasse me manter tranquila.
— Você não é um utensílio para eu usar quando bem entender, . Você é uma pessoa, e pessoas têm sentimentos, então estou aqui para respeitá-los. O que não dá é a gente ficar negando o que rola entre nós.
— Isso só vai levar ao fim trágico do meu coração aos pedaços, . Por que não fazemos um favor a nós dois e nos afastamos de uma vez? – sugeri, minha voz estava carregada com o cansaço da minha mente.
Eu sabia que a posição era imprópria e que, com o toque de na minha pele, eu estava suscetível. Entretanto, eu só conseguia pensar que tudo era uma loucura e, por mais que eu saiba que isso ia acabar em uma merda sem tamanho, eu queria muito me afundar nela.
— Posso sugerir um favor melhor? – me perguntou com cuidado e eu balancei a cabeça em um sim. — Por que nós apenas não relaxamos e vemos no que isso vai dar? Nem tudo é ruim do jeito que você acha, . Você mesma sabe que as teorias que você estuda são apenas grande parte da probabilidade, deixa eu te provar que faço parte da minoria, então? Deixe-me te mostrar que eu faço parte daquele 1% que não vai pisar no seu coração!
Mordi meu lábio, pensativa. Como eu queria apenas me jogar nos braços dele e viver sem amarras como todo mundo faz por aí. Não era tão simples para mim. Não é fácil viver a simplicidade quando a sua mente está bombardeada de informações e teorias.
— Eu não sei se consigo… - sussurrei e abaixei a cabeça levemente, constrangida por estar me autossabotando.
— Ei – ele me chamou e me fez levantar o olhar para ele novamente. — Eu não vou te forçar e nem te apressar. Não vamos colocar a carroça antes dos bois. Tudo ao seu tempo. Não seremos um casal de namorados, apesar de que só terei você em minha vida. Eu te entendo, … eu juro que te entendo. É por isso que eu estou te propondo isso. Me dá uma chance. Por favor?
Meu santo Cristo. Olha esse homem com cara de cachorro sem dono pedindo, por favor, para mim! Não teve razão que não fosse para o espaço nesse momento. Eu queria poder beijar e ficar com o quando eu bem entendesse. Era óbvio que rolou uma atração desde o momento que a gente se viu pela primeira vez.
Confesso que parte de mim, mesmo aquela que eu havia jogado lá no baú agora, tinha medo que eu acabasse gostando dele com o tempo e depois acabasse me decepcionando. Porém, pela primeira vez, eu quis ter coragem de apenas seguir o que o meu coração estava mandando, ao invés do meu cérebro.
Balancei a cabeça para ele e pude assistir o seu sorriso crescer, marcando as covinhas em sua bochecha.
Ai como eu queria beijar cada uma delas!
— Você está falando sério? – perguntou com os olhos brilhando em minha direção.
— Sim – respondi quase inaudível.
— Meu Deus, , nem acredito, finalmente! – respondeu eufórico e enlaçou a minha cintura, tomando-me para ele novamente.
Beijou-me de uma forma avassaladora, como se quisesse tirar tudo de mim. Minhas mãos voaram para o seu pescoço e eu acompanhei o seu ritmo sem pestanejar, concluindo que, aproveitar sem amarras, era muito mais gostoso.
— Por que eu? – perguntei quando nos separamos, sem entender como um cara como ele iria querer ter a paciência de Jó comigo, sendo que podia escolher tantas outras por aí.
— Por que não você? – ele me retrucou.
— É sério, – ralhei, dando-lhe um leve empurrão.
, você não enxerga o quanto é incrível? Você, além de linda, é muito inteligente. E eu acho isso fantástico. Você rala por aquilo que acredita, é dedicada e honesta. Tem um parafusinho a menos, mas é verdadeira e não tem medo de dizer o que você pensa. Você tem suas teorias e bate de frente comigo quanto a isso. E eu realmente entendo tudo o que você me diz, eu não acho que todo o seu conhecimento sobre relacionamentos deve ser jogado fora, só acho que você precisa achar um lugarzinho para poder equilibrar tudo isso dentro do seu coração. - falou colocando uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha com carinho — Eu gosto de estar com você, , além de ter uma vontade absurda de te beijar.
— Então por que não mata essa vontade absurda agora? – resolvi render-me a ele de uma vez.
Se está na chuva é para se molhar! Não é esse o ditado? Então chega de deixar a racional comandar. Chegou a hora da que tem sentimentos e vontades falar um pouco. Eu sempre fui segura e tranquila, não poderia deixar esse medo me fazer ser diferente com o .
Mesmo sem saber o que iria acontecer no fim da jornada, eu precisava desse momento de rendição. Nem que fosse para que no final eu pudesse dizer que fui mais uma probabilidade estatística comprovada das minhas teorias. Pelo menos eu poderia dizer que eu fui uma prova concreta, não era apenas pesquisas sem comprovações.
Ficamos ali nos beijando e aproveitando o momento, desfrutando do que eu havia me privado por tantos dias. Quando vi que já estava bem tarde e que, se eu não resolvesse sair logo, as coisas poderiam tomar um rumo diferente, interrompi os nossos amassos dizendo que precisava ir embora. também saiu do carro junto comigo, falando que iria me acompanhar até a porta do apartamento. Passamos pela portaria, trocamos mais alguns beijos no elevador e chegamos até o meu doce lar.
— Tem certeza que segunda-feira você não vai fugir de mim novamente? – ele perguntou, parecendo um pouco inseguro em me deixar.
— Não – respondi, abrindo um pequeno sorriso. — Eu estou decidida, mesmo que eu quebre a cara e te use como exemplo nas minhas próximas palestras – gracejei com um pingo de verdade.
— Não vai quebrar. – Passou a mão delicadamente em meu rosto, deixando um rastro do calor em cada lugar que tocava.
— Mas vai com calma, ok? Não vai agir como um namorado comigo, pois, não é isso que nós somos. Vamos apenas ver onde vai dar e curtir o momento. Atender um pouco das necessidades dos meus hormônios excitados. - alertei-o, prevenindo estragos futuros em meu coração. Um normal já era um perigo, imagina um fofo e carinhoso? Meu Deus, me acuda!
— Uau! É você mesmo, , ou deixaram algum clone em seu lugar sem que eu percebesse? – zombou, dando um passo para mais perto de mim.
— Apenas cansei de travar essa guerra interior. – Dei de ombros e emiti um sorriso.
— Eu gostei disso – sua voz grave soou, no momento em que ele depositou a sua mão na porta do meu apartamento, prendendo-me ali.
— Eu sei que gostou. - pisquei e lancei meus braços contra ele, roubando-lhe um beijo.
A desinibida estava de volta, pessoal!
, claro, não protestou. Retribuiu-me com vigor em um beijo caliente de despedida. Colou o seu corpo no meu, imprensando-me contra a porta que eu estava escorada. Estávamos nessa bolha mágica e quente, até a porta ser aberta de uma só vez e cairmos nós dois iguais uma jaca dura no chão.
Eu cai de bunda e quase bati a cabeça, a quina do meu cotovelo chocou forte no piso, me fazendo rugir de dor. Para piorar, , que estava escorando antes a sua mão na porta, caiu por cima de mim, e só não foi mais catastrófico porque ele esticou a mão e conseguiu se apoiar no chão a tempo de impedir que todo o seu peso recaísse sobre mim.
— Oh, meu Deus! Desculpa, , meu Deus! Desculpa mesmo! , que vergonha. Vocês estão bem? – deu um grito e falou disparadamente, com as mãos na boca em surpresa e pelo susto.
— Ai! – reclamei de dor e ouvi também um murmúrio de , que saiu de cima de mim logo que sentiu as minhas mãos o empurrarem. — O que deu em você? – perguntei para com raiva.
— Eu ouvi um barulho na porta, achei que era você, mas esperei um tempo e ninguém entrou, fiquei preocupada… Jamais imaginaria… - calou-se, olhando de mim para , completamente constrangida.
Levantei-me com dor e vi passar a mão freneticamente no seu pulso, emitindo uma careta sofrida.
— Machucou? – ele me perguntou assim que desviou o olhar do local machucado e me viu.
— Um pouco, mas sobrevivi.
Ficamos os três olhando um para o outro, até começar a gargalhar do nada, fazendo com que e eu nos entreolhássemos sem entender nada.
— Por que eu não me surpreendo que essas coisas só aconteçam com você, ? – ele falou, depois de recuperar o fôlego de tanto rir.
Rolei os olhos para ele e colocou a mão na boca, reprimindo o sorriso que ela queria dar.
— Você não ouse rir disso! A culpa é toda sua! – censurei, apontando o dedo para a minha amiga.
— Desculpe, – ela falou, menos constrangida do que antes. — , eu sinto muito. Desculpe interromper… seja lá o que vocês estavam fazendo. – Deixou a frase no ar, fazendo-me olhar para o e corar, ao contrário dele que, em contrapartida, tinha uma feição travessa no rosto, com o canto da boca levemente inclinado.
— Não estava acontecendo nada, não é? O veio me acompanhar até aqui em casa, mas já está de saída. Até segunda feira, ! – disse, impedindo que ele falasse qualquer coisa diferente.
— Sim – ele concordou, risonho. — Até mais, . Tchau, . – acenou para a minha amiga e caminhou em minha direção. Deu-me um abraço e um beijo no canto da minha boca. — Não fuja de mim – sussurrou em meu ouvido, fazendo todos os poros do meu pescoço se arrepiarem.
Assim que ele saiu e a porta foi fechada, eu suspirei fundo, já esperando a bomba. Olhei para a minha amiga e seus olhinhos estavam esbugalhados de tanta euforia.
— EU NÃO ACREDITO! – gritou e começou a dar pulinhos, antes de se jogar em meus braços, derrubando-nos em cima do sofá.
— Me larga, sua doida! – empurrei-a rindo, fazendo-a cair de bunda no chão. Bem feito!
— Você está descontando que eu estraguei o seu momento caloroso, não é, sua égua? – levantou-se e jogou uma almofada em mim, enquanto eu ria dela.
— Eu devia era ter te batido por ter me feito passar por esse momento constrangedor. – Ajeitei-me no sofá e passei a mão pelos meus cabelos, tentando domá-los. sentou-se ao meu lado e olhou-me com expectativa.
— E aí? Vai me contar ou não vai? Eu tô ansiosa!
— Deixa eu pensar… - coloquei a mão no queixo, fazendo hora com a cara dela.
— Para de show, ! Desembucha! Eu ainda não tô acreditando que você agarrou o cara! Sério! Eu incentivei e tudo, mas não imaginaria que você realmente seguisse em frente!
— Nem eu mesma estou acreditando! – confessei a ela, ainda com toda a adrenalina do momento correndo em minhas veias. — Ainda acho que estou em um sono maldito e quando eu acordar vou ver a besteira que cometi.
— Pode parar! Você nem sabe de nada. Você saiu e curtiu. Ponto. Não tem o que grilar, você não tá indo casar com ele, . Foi só uns beijinhos… ou você fez algo mais? – ela arqueou a sobrancelha em questionamento para mim.
— Claro que não! Se já é difícil me render a um beijo dele, você acha que eu ia entregar os pontos assim? Para acabar me apaixonando sem nem saber o tamanho do buraco que vou cair?
— É, eu sei. Perguntei só para confirmar mesmo. Mas, me conta. Ele beija bem? – perguntou, me fazendo lembrar os momentos trocados com ele anteriormente.
Suspirei e encostei as minhas costas no sofá. Nem sei que cara eu devo ter feito, só sei que fui teletransportada para os momentos que estive com . Recordei do toque dos seus dedos percorrendo o meu rosto e, logo depois, seguindo a trilha do meu pescoço, enquanto deixava um rastro de poros arrepiados por toda a milha pele. Se eu fechasse os olhos, poderia sentir o encostar suave dos seus lábios nos meus, as leves mordidas no lóbulo da minha orelha e o calor único que formávamos.
Nenhum beijo havia sido tão bom. Tudo antes havia sido superficial.
Isso me deixava amedrontada. Não queria me apaixonar, contudo, sabia que estar com era um grande risco. Em contrapartida, a lei da atração já estava dada, não havia mais saída para nós. Eu até tentei fugir, sair com Matheus era a minha escapatória. Entretanto, o que eu poderia fazer se todos os meus hormônios só estavam dispostos a serem liberados quando estava perto dele?
— Olá! Acorda, . Você não respondeu a minha pergunta. Ele beija ou não beija bem? – estalou o dedo na minha cara, tirando-me das minhas divagações.
Abri um sorriso para ela e, completamente relaxada, pude responder com sinceridade.
— Maravilhosamente bem!





Capítulo 10


A segunda feira chegou em um tapa. Talvez… só talvez, fosse devido à ansiedade que eu estava de reencontrar um certo alguém.
O final de semana foi carregado de perguntas de , que queria saber todos os detalhes, vírgulas e suspiros que haviam acontecido. Vocês já imaginam a bronca que ela me deu quando contei o caso do carro e da tal Isabel, né? Tive que ficar mais de meia hora tendo o meu ouvido alugado pelas reclamações que ela me fez. Escutei tudo calada, afinal, eu sabia que estava errada.
Cheguei ao laboratório com um sorriso de orelha a orelha. Estava empolgada e me sentindo diferente, de certa forma. Era algo meio que inexplicável, o medo que eu sentia estava sendo substituído por algo gostoso, um frio na barriga pela expectativa e sensações que eu nunca havia experimentado. É muito diferente não ter os passos cronometrados e não saber o que vai acontecer em nossa vida. Tudo era novo para mim.
Eu me sentia mais eufórica e eu sabia que era o efeito da serotonina, um hormônio que está diretamente relacionado ao nosso humor. O efeito sobre mim fazia com que houvesse mais liberação desse hormônio, logo, eu estava mais feliz.
Que ele não soubesse disso ou se acharia para o resto da vida.
— Acho que alguém viu um passarinho verde! – chegou cantando e rindo para mim.
— Passarinho verde? O que isso, ? – Sorri para ela, enquanto eu arrumava as coisas para começarmos os experimentos de hoje.
— Não me diga que nunca ouviu essa expressão?! – Colocou a mão sobre o peito, fingindo-se ultrajada.
— Isso deve ser coisa lá da sua terra. - dei de ombros, porque eu realmente não conhecia essa figura de linguagem.
— Tsc, tsc, tsc. Será que eu preciso explicar tudo para você, ?! – balançou cabeça fazendo graça. — Essa é uma expressão folclórica. O pássaro verde era o periquito, que levava no bico mensagens trocadas por casais no Brasil. Segundo a lenda era um passarinho de segredos e, como ele era o responsável por levar as confidências entre os amantes, sempre que era visto, as moças ficavam eufóricas com a expectativa do que ia receber do amado. Hoje é utilizado para dizer quando a pessoa está apaixonada.
— Você é sempre cheia de gracinhas, não é, ? – rolei os olhos para ela ao descobrir que ela estava insinuando que o que eu tinha era paixão. — Mas confesso que adorei a história. É sempre bom conhecer mais da cultura do nosso país!
— E você achava o quê? Que eu só era um potinho de piada? Você me subestima, – desdenhou em brincadeira e piscou para mim.
— Ok, . - assenti pela historinha, contudo, tratei de tirar aquela ideia dela. — No entanto, não vi passarinho algum, tudo bem?
— Se você diz… - cantou para mim e resolvemos logo depois começar o nosso serviço.
Hoje era o dia de dar início as análises do quinto princípio ativo da planta da pesquisa. Fizemos o isolamento molecular da substância e iniciamos a preparação para, posteriormente, fazermos a injeção nas cobaias.
Preparamos as injeções e eu usei praticamente os últimos recursos financeiros que eu tinha para comprar os reagentes necessários. Eu precisava muito de respostas imediatas ou, devido ao corte de verbas, teria que interromper a pesquisa de uma forma ou de outra.
Ficamos a manhã toda fazendo esse processo. Liberei a minha estagiária mais cedo, pois ela tinha uma aula importante, e continuei fazer o restante sozinha. Quando chegou perto de meio dia, meu estômago já estava roncando de fome, então, resolvi começar a guardar as coisas.
Entrei na salinha onde armazeno os materiais, já sem trajar o jaleco, e coloquei na estante os frascos que estava utilizando. Enquanto eu ficava na ponta dos pés para guardar o último reagente, senti duas mãos tocarem a minha barriga e puxar-me de uma só vez, fazendo as minhas costas baterem em um peitoral duro. Dei um grito com o susto, porém, lábios quentes tocaram o meu pescoço e um arrepio subiu a minha espinha, denunciando quem estava ali.
— Oi, falou baixinho em meu ouvido, antes de dar uma pequena mordida no lóbulo da minha orelha.
— Oi – respondi, arfando devido ao seu toque.
— Vim te convidar para almoçar comigo. Aceita? – perguntou à medida que traçava o meu pescoço com o seu nariz e trazia o meu corpo para mais junto do dele.
Tentei responder, porém, acho que a minha voz saiu mais como um resmungo. Dois dias longe dele e parecia que o meu corpo clamava por proximidade novamente.
— Não vai me responder? – virou o meu corpo para frente e desfaleci de uma só vez.
Perdi-me no sorriso que ele me deu e nos olhos que nunca se desviavam do meu. Seu braço esquerdo rodeava a minha cintura e a mão direita se ergueu para tocar os meus cabelos. Fitei a sua boca bem desenhada, que parecia mais convidativa do que nunca. Eu sentia saudades desses lábios, havia passado o final de semana todo pensando neles.
— Claro que aceito. Achou que eu fugiria? Por isso essa entrada furtiva? – dei um pequeno sorriso e respondi, tentando recuperar a minha voz normal. Contudo, tudo o que saiu foi um som mais grave que o normal, carregado com as minhas intenções.
— E você acha mesmo que eu deixaria? – riu. — Nem todas as suas ofensas me manteve longe, não seria um esconderijo no laboratório que te esconderia de mim.
Ouvi-lo dizer aquilo me deixou sem graça. Coloquei as minhas mãos sobre o rosto, envergonhada por todas as asneiras que eu já havia falado para ele.
— Desculpa? – pedi com a voz abafada pelas minhas mãos.
segurou-as e as retirou cuidadosamente, entretanto, a minha cabeça se mantinha abaixada, sem querer olhá-lo.
— Agora eu posso ouvir melhor. Pode repetir? – pediu, porém eu tinha certeza que ele já sabia. Ele apenas queria me fazer pedir perdão novamente.
— Desculpa… - falei ainda um pouco baixo. É difícil reconhecer os nossos erros, ainda mais com com aquele sorriso travesso nos lábios.
— Acho que ainda não consigo entender… - ele colocou a mão no ouvido, fingindo-se de surdo.
Respirei fundo, me contendo para ter paciência enquanto ele fazia hora* com a minha cara, afinal, eu merecia mesmo o que ele estava fazendo.
, você poderia me desculpar? – ergui a minha cabeça e voltei a olhar para ele, mostrando sinceridade.
Percebi que ele ainda segurou um pouco o riso e os seus olhos me mostravam que aquilo ainda não seria o suficiente para que ficasse satisfeito.
— E pelo que a senhorita está me pedindo desculpas mesmo? – soltou a minha cintura e cruzou os braços. Tentou franzir a sobrancelha para se mostrar sério, porém, eu sabia que era tudo encenação. Rolei os olhos e resolvi fazer a minha parte bem feita logo, assim, encerraríamos o meu passado negro com ele.
— Me perdoe por todas as coisas estúpidas que falei com você desde que te conheci. Eu sei que te julguei mal, te ofendi diversas vezes e fui uma idiota. Eu não costumo ser assim, porém, infelizmente você conseguiu ver a minha pior faceta. Certas coisas eu tenho em mim, como aquelas que contradizem algumas teorias que acredito, contudo, a maioria das ofensas que fiz contra você foram de graça e sem embasamento algum.
Confessei dizendo a verdade. Eu odiava ser uma pessoa que escondia as coisas, por isso, na maioria das vezes eu era verdadeira com o , seja para falar palavras ruins, como boas. Só que o problema todo se baseava no fato que eu não queria uma aproximação com ele. O me dava medo, as coisas que ele me fazia sentir me apavoravam. Portanto, falei e fiz coisas que não me orgulho, para assim, tentar manter uma zona segura entre nós. Isso não é justificativa, sei que eu errei feio, entretanto, esperava que ele pudesse me perdoar e entender.
não disse nada e eu comecei a temer o seu silêncio. Percebi um vinco na testa dele e esse parecia bem verdadeiro. Algo o intrigava, só que ele estava ponderando se devia dizer ou não.
— Pode falar. Eu sei que tem algo errado ainda, me pergunte o que quiser, espero sanar tudo entre nós e começarmos uma nova página. Não vou mentir para você ou escolher as minhas palavras, você sabe que eu costumo não ter filtro – incentivei-o a desabafar de uma vez.
— Por que fez isso tudo? Eu tenho as minhas suspeitas e foram elas que me fizeram continuar ao seu lado, apesar de tudo. Porém quero ouvir de você. – Ele colocou seu peso sobre uma perna e me encarou, como se tentasse me analisar a todo custo.
— Eu sei que nada do que eu disse aqui poderá aplacar o modo como agi, porém, pensa comigo, . Lembra-se de tudo o que eu já te disse sobre relacionamentos… Pelos os meus estudos, meu par ideal é completamente o oposto do que você é. Tudo indica que estar com você seria a maior burrada que eu poderia cometer. Minha vida toda foi assim. Fugi de caras com o seu estereótipo e foquei-me em investir em quem tinha a probabilidade de me dar um futuro. Só que aí… você apareceu, e desde o primeiro instante que te vi eu sabia que era um problema. Estar no mesmo ambiente com você me confundia. Você não tem noção do que é ter uma guerra interna dentro de você, … - suspirei e coloquei uma mão em minha testa, cansada só de pensar na loucura que foi a minha cabeça nesses dias.
me olhava compreensivo e tocou o meu ombro para que eu pudesse continuar.
— Não era planejado. Eu não pensava antes de dizer todas aquelas coisas maldosas, contudo, era como se a minha mente quisesse sabotar qualquer chance que nós dois teríamos e, assim, eu pudesse me proteger de um fiasco de relacionamento ou qualquer outra coisa catastrófica.
… você nem sabe o que vai ser de nós. Não precisa se martirizar antes de acontecer.
— Eu sei. Você dizendo assim parece fácil. Agora vai encucar isso na minha cabeça para ver? Render-me a tudo isso que rola entre a gente não foi fácil. E eu torço muito para que não me arrependa, pois, pela primeira vez na minha vida, eu quero apenas me deixar sentir.
me deu um sorriso confortável e me puxou para os seus braços em um abraço afetuoso. Meus ombros relaxaram e eu senti o peso do mundo sair de cima de mim. Estar envolvida ali parecia facilitar o processo, não sei o poder que ele tinha, mas estava funcionando de alguma forma.
— Eu sabia que tinha algo mais nisso, por isso não desisti. Era quase uma contradição, como se o seu corpo dissesse uma coisa e a sua boca outra. Eu podia notar claramente quando estávamos juntos. – ele falou contra os meus cabelos.
— Você é um guerreiro – sorri, lembrando-me de tudo o que ele havia passado.
— Eu sei – deu uma leve gargalhada, fazendo voar uns fios perto da minha orelha.
— E convencido também – dei-lhe um leve empurrão, afastando-nos um pouco.
— Mas você me adora assim mesmo. - abriu um sorriso travesso e me puxou, selando nossos lábios novamente.
Nos perdemos por alguns momentos um no outro até a nossa barriga roncar e irmos almoçar. Não fomos para o restaurante universitário, pois queríamos mais privacidade. Lá teria um bando de alunos curiosos, portanto, era melhor ir para algum outro lugar fora da universidade.
O almoço foi bem agradável. fazia gracejos e pude aproveitar esse tempo que a boca dele estava longe da minha para nos conhecermos melhor. Descobri que ele tinha uma cachorra chamada Cersei. Sim, ele batizou o seu bichinho de estimação com o nome da personagem de Game of Thrones. Não preciso dizer nem qual é o seriado preferido dele, não é?
Ele também preferia roupas de tons mais escuros, amava carros – isso eu já havia percebido – e sua comida preferida era a japonesa, para o meu desagrado, já que eu odiava.
Quando eu perguntei sobre a sua família e outras coisas mais pessoais, ele desconversou e eu não quis forçar a barra tão cedo. Em compensação, eu o inundei de informações sobre mim. Falei da falta que eu sentia do interior, do meu pai que era mecânico e minha mãe que era professora. Falei de como eu tinha saudades das coisas simples e como eles haviam batalhado para me dar do bom e do melhor, além de me proporcionarem oportunidades de estudos.
Voltamos aos risos e um pouco atrasados, mas nada que nos prejudicasse. Estar com havia sido tão proveitoso que perdi a hora. Ao sairmos do restaurante, ele estendeu a sua mão para pegar na minha, porém, parou-a no ar, talvez com medo que eu me assustasse com isso. Enfiou-a de volta no bolso e fomos andando lado a lado até chegar de volta ao meu laboratório.
Ficamos um olhando para o outro, sem saber como deveríamos nos despedir. Um aceno informal? Um abraço?
Enquanto eu o fitava com dúvida, passou o braço pela minha cintura e fechou os nossos lábios com um selinho e um carinho na bochecha.
— Eu passo mais tarde aqui, ok? – murmurou com a boca próxima da minha e eu acenei com a cabeça, um pouco desnorteada.
— EU SABIA! – a voz de saiu alto e estridente atrás de nós, o que fez com que nos afastássemos no susto. — Vocês são uns danadinhos! Sabia que tinha treta. Seus sacanas, não acredito que não me contaram! – cruzou os braços em nossa frente e fez um pequeno bico, emburrada.
Fiquei sem ação. Não queria tornar tudo isso mais do que era, ou mesmo criar uma expectativa de um relacionamento que ainda não existia.
— Não é isso que você está pensando! – falei, mas só depois percebi a burrada cometida.
— Ah, não? – ela arqueou a sobrancelha para mim. — Eu não sei o que você acha que eu estou pensando, mas duas bocas se tocando e trocando saliva só significa uma coisa para mim!
gargalhou e passou o braço por cima do meu ombro, trazendo-me para junto dele e, depois, deu um beijo na minha têmpora.
— Fica calma, – sussurrou para mim e, logo em seguida, abriu um sorriso tranquilo para . — e eu estamos apenas nos dando bem, , mas não fique em polvorosa que ainda é apenas nós dois no mesmo ambiente. Você sabe como somos… - riu descontraído e tratou de tirar qualquer peso da situação.
— Ai. Meu. Deus! Vocês vão me enlouquecer! – ela colocou a mão na testa, fazendo drama. — , eu espero que a sua língua tenha um efeito milagroso na cabecinha da e que tenha um encanto bem grande, ao ponto de vocês se amarem ao invés de se matarem.
— Pode deixar comigo, riu e puxou-me contra ele, dando-me outro beijo.
Estava constrangida e envergonhada, fiquei igual uma estátua em seus braços, entretanto, pelo menos não briguei com ele. Já era um ótimo começo.
Aquela palavrinha que a havia falado ficou martelando na minha cabeça: “amarem”.
Amor não era o meu objetivo com . Se eu acabasse um dia o amando, as chances de terminar destroçada seriam muito maior. Preferia nem pensar nisso agora. Como dizem os jovens: “eu queria só curtir”, mesmo que eu soubesse que as chances do sentimento crescer eram muitas, ainda mais com sendo . Contudo, também não estava mais disposta a me privar dele e o dia de hoje já estava me mostrando que eu havia, mais do que nunca, feito a escolha certa.





Capítulo 11


O decorrer das semanas foi maravilhoso. e eu fomos ficando mais próximos gradativamente e, mesmo que não definíssemos o nosso relacionamento, já éramos praticamente um casal de namorados. Ele começou a passar na minha casa para irmos juntos para a universidade, já que ele disse que a residência era caminho para ele, almoçávamos juntos e íamos embora juntos também. Nossas noites eram regadas a beijos, saídas, jantares, cinema, bate-papo e até mesmo netflix.
e ele já eram grandes amigos e adoravam se juntar para me azucrinar. No final das contas, arranjei três pessoas para pegar no meu pé: , e ele. Os três adoravam me irritar.
Não vou dizer que tudo foi lindo e belo. ainda teve que aturar alguma das minhas crises. Muitas vezes o medo de me ferir e estar indo por um caminho errado me dominava, nessas horas eu ficava chata e tentava afastá-lo, mas tinha uma paciência fora do comum e sempre esteve atento tentando contornar da melhor forma possível.
Com o passar dos dias, eu comecei a confiar mais nele e parar de achar que ele correria atrás do primeiro rabo de saia ambulante. Até parei de dormir pensando que ele, no outro dia, não se importaria comigo. No fim, eu começava a ficar em paz comigo mesma e com as minhas escolhas.
Alguns acontecimentos foram bem interessantes e eu estava curtindo essa nova fase da minha vida. Eu comecei a conhecer vários detalhes do como a forma que ele franzia o meio da testa quando estava irritado, deixando as suas linhas de expressão mais fortes, ou como suas covinhas ficavam mais fundas quando ele sorria genuinamente. Pelo tom da sua voz eu sabia quando ele estava sendo ele mesmo ou quando ele estava mais ameno apenas para me deixar mais à vontade em nosso relacionamento.
Eu já sabia que ele adorava quando eu enrolava os meus dedos por seu cabelo e que ele arrepiava muito quando eu depositava um beijo atrás da sua orelha. , da mesma forma, parecia conhecer cada pedacinho de mim. Onde tocar, como e quando. Sabia pela vibração da minha voz, quando eu me sentia insegura e quando eu queria apenas me jogar em seus braços e curtir.
Tudo isso me amedrontava pra caramba, pois era como se estivéssemos nos fundindo, mesmo sem perceber. Todavia, eu estava adorando isso, e só de pensar em perdê-lo, meu estômago embrulhava.
— Alô! – Atendi o celular com a voz sonolenta, sem nem ver quem era no visor.
Acorda, dorminhoca! Daqui dez minutos eu estou passando aí! falou do outro lado da linha.
Bocejei e esfreguei os meus olhos, tentando arrancar a remela que me incomodava. Coloquei o celular entre o meu ombro e a lateral do meu rosto, equilibrando-o para não cair enquanto me levantava.
— Eu não sou dorminhoca. Você que me importunou aqui até tarde porque queria fazer maratona de GOT, agora eu estou com sono em excesso! – falei com ele, tentando me recordar em que momento eu havia parado na cama, já que estávamos na sala assistindo a série ontem à noite.
Você também quis! riu do outro lado da linha. — E não é a primeira vez que eu preciso ligar para te acordar. Eu meio que já até acostumei com isso.
— Chato! – xinguei-o de brincadeira, enquanto pegava a escova de dente.
Sou o seu chato! E você é a minha dorminhoca! – abri um sorriso lento com as suas palavras.
Era esse o efeito que ele tinha sobre mim, mesmo pela manhã. Tão cedo e meu coração bobo já estava saltitando por ele.
— Vou desligar para poder me arrumar mais rápido. Tchau, . Até daqui a pouquinho. Beijo...
Na boca! – ele completou e riu, antes de desligar.
Bobo!
Escovei meus dentes e me arrumei, encontrando-me com lá embaixo. Fomos conversando até chegar à Universidade. Estava um pouco ansiosa, pois hoje começaria o primeiro dia dele no meu laboratório. Em outras palavras, passaríamos literalmente o dia todo juntos e o resultado seria: ou nos amaríamos loucamente, ou alguém morreria de vez.
— Preparada para passar o dia todo comigo? – sussurrou no meu ouvido, assim que saímos do carro, e pegou na minha mão, entrelaçando os nossos dedos.
Sim. Já estávamos nesse nível. No início eu relutei, não queria contato exposto, porém, do que adiantava se todo mundo já nos via inseparáveis todo santo dia? Acabei cedendo, vocês sabem que o é ótimo em persuasão, não é?
Mas não se iludam, não estávamos namorando, nem ficávamos trocando juras de amor. Apenas curtíamos os momentos que tínhamos juntos.
— Você sabe que será meu subalterno? Terá que fazer tudo o que eu mandar! – dei um pequeno sorriso e arqueei uma sobrancelha para ele.
— Vou adorar seguir suas ordens, . Faça de mim o seu súdito! – fez uma dramatização ridícula e ameaçou se ajoelhar.
— Imbecil! – brinquei com ele, fazendo-o rir, soltar a minha mão e passar o seu braço pelo meu ombro, trazendo-me para junto dele para me dar um beijo na bochecha.
Caminhamos dessa forma até o laboratório, onde já nos esperava. Havia pedido para ela vir mais cedo hoje e já deixar organizado o que iríamos fazer. Havia muito serviço. Semana passada tivemos os primeiros indícios positivos de um dos princípios ativos que estávamos analisando. Começamos a fase de testes e precisávamos continuar na esperança que desta vez iríamos conseguir.
— Chegou o casal ternura! – nos cumprimentou assim que entramos no laboratório. — Preparado para realmente trabalhar, ?
— A todo vapor – passou a mão no topo da cabeça dela e levou um grande tapa por ter estragado os seus cachos. odiava que mexesse em seu cabelo.
— Mas que droga essas pessoas usam para pensar que podem destruir os meus cachos? – fez um bico emburrada e foi até o espelho tentar ajeitar os cachinhos que ficaram destoados, enquanto a gente ria da braveza dela.
— Lição para você: mulheres odeiam que baguncem os seus cabelos. - apontei para . Ele nem se importou, apenas deu de ombros e riu.
— Você não parece se incomodar com isso quando a gente namora! – me deu um olhar sedutor e eu sabia bem do que ele dizia. O traste ainda conseguia me fazer corar, mesmo mais de um mês que eu já ouvia as suas gracinhas.
Balancei a cabeça e resolvi que deveríamos começar a mão de obra logo para não perdermos mais tempo. Ensinei para tudo o que ele deveria fazer. Foi fácil, eu já explicava para ele sobre o meu projeto desde que nos conhecemos, agora era só colocar a mão na massa.
Passamos o dia preparando as lâminas das análises. Na semana passada, e eu fizemos os testes com o princípio ativo nº7. Ao observar o comportamento da substância, percebemos que ela ligava-se as células que encontrava pelo seu caminho e as impediam de realizar as suas funções como se alimentar, multiplicar-se, etc, resultando assim em sua morte. Logo, associei esse fato aos efeitos colaterais demonstrados nos testes anteriores da planta, quando vimos que os órgãos, principalmente os genitais, entravam em necrose (morte). Isso era um avanço e tanto. Das doze substâncias que a planta tinha, havíamos finalmente descoberto qual era importante para nós.
No momento, eu estava associando alguns reagentes e subprodutos a esse princípio ativo, para fazer com que ele não destruísse todas as células, mas somente as que fossem cancerígenas.
Para isso, então, precisávamos preparar as soluções de testes e aplicar nas lâminas que estávamos montando. A estava fazendo as misturas na sala de preparo do laboratório, enquanto e eu fazíamos as lâminas.
, você sabe onde tem Propanoato de Catecolamina *? – saiu da sala que estava e veio até mim.
— Deve estar na estante junto com os outros reagentes que vamos utilizar. Eu separei todos no início do mês – respondi sem olhar para ela, pois estava observando no microscópio se as colorações estavam corretas.
— É esse aqui? – estendeu um vidro em minha direção e eu desviei meu olhar para ler o rótulo que estava nele.
Peguei da sua mão e olhei atentamente o nome e a fórmula, assentindo para ela que era aquele mesmo que a gente usaria.
— Temos um problema! – ela franziu o cenho e sua voz ficou pesada, chamando a minha atenção e a do , que parou o que estava fazendo para ouvi-la também.
— O que foi? – indaguei temerosa por causa do seu olhar.
— Esse aqui tá vencido. – apontou para a letra miúda do rótulo.
— Não pode ser! – exclamei, sentindo meu estômago afundar. Aquele era um dos nossos produtos mais caros.
— É sério. Tá escrito aqui. Venceu ano passado!
— Não. Não. Não. Não é possível! Como isso foi acontecer? O produto é novo, não faz tanto tempo que a gente comprou. – Coloquei as mãos na cabeça e suspirei atônita.
— Acho que fomos enganadas. Veja de perto – coloquei o produto bem perto dos meus olhos. — Aqui parecia 2016, mas na verdade era 2015. Como tinha um resto de tinta por cima, deu para confundir. Não sei se foi de propósito... Mas que está vencido, isso está.
Recostei a cabeça na mesa, me lamentando, e caminhou até mim, passando as mãos nas minhas costas.
— Não dá para usar assim mesmo? – Ele perguntou, olhando atentamente para mim.
Virei minha cabeça para ele, incrédula, ele sabia o que eu achava sobre isso.
— Claro que não, ! Qual credibilidade eu vou ter com um produto que venceu no ano passado? Como vou incentivar as pessoas, futuramente, a usarem um medicamento que pode fazer mal a elas? Eu jamais seria negligente dessa forma apenas por um certificado. Prefiro ficar sem o meu título de pós-doc do que me submeter a algo tão ultrajante.
— Eu sei, eu sei – falou com uma pontada de um sorriso, seus olhos brilhavam como se estivesse orgulho da minha resposta.
— E agora, ? – perguntou, seu rosto mostrava desapontamento também.
— Não podemos reclamar e nem pedir uma troca, pois, além de já ter passado do prazo para isso, vão dizer que a gente se confundiu e que a culpa não é deles. O jeito vai ser comprar um novo com o restante do dinheiro do projeto. O problema é que a grana está contabilizada corretamente para cada detalhe. Esse gasto não estava no orçamento. Se eu comprar esse reagente, provavelmente nas últimas experiências, não teremos como comprar o que é necessário – falei com a voz já embargando. Anos de pesquisa seriam jogados fora.
— Calma, . Não vamos pensar nisso agora. Vamos focar positivamente, o princípio ativo 7 tem mostrado bons resultados. Se ele for à chave que você procura, nem precisará fazer o teste nos restantes. Precisamos ter fé! – puxou-me para um abraço e me deu um beijo na bochecha.
Senti-me reconfortada em seus braços, porém, a angústia ainda estava lá. Se fosse em outras épocas, eu poderia tirar o dinheiro do meu próprio bolso para comprar e bancar a minha pesquisa, no entanto, minha mãe adoeceu e ficou um tempo sem trabalhar, por isso, precisei enviar dinheiro para ela, o que me deixou meio apertada financeiramente.
Atordoada, saí de perto de e e fui até onde estava pendurada a minha bolsa. Peguei o meu celular de dentro e abri o aplicativo do banco para conferir o saldo da minha conta-pesquisa. Como eu previa, não havia muito, contudo, era o suficiente para comprar a substância que havia vencido.
Frustrada, voltei onde eles estavam e avisei que ia até o banco sacar o dinheiro e, em seguida, compraria o produto, já que precisávamos dele urgentemente. Se eu conseguisse fazer tudo hoje, amanhã mesmo daríamos continuidade aos testes.
Despedi de com um beijo e combinamos que ele passaria a noite lá em casa para me ver. Deixei ele e terminando as lâminas e fui resolver a minha vida. Dirigi até o caixa eletrônico, consegui pegar o valor que eu estimava ser a quantidade necessária para a compra e passei lá na indústria que vendia o produto que precisávamos.
Desta vez, quando o atendente me mostrou o produto, olhei atentamente para não ter surpresas desagradáveis. Paguei o dinheiro, que foi quase a conta do que eu tinha, e guardei a nota fiscal, que seria importante para o comprovante no relatório final que fazíamos, mostrando que gastamos o dinheiro da pesquisa somente com coisas relacionados ao trabalho e não para uso próprio.
Cheguei em casa exausta, tomei um banho e coloquei meu pijama de shortinho fresco. ainda não havia chegado, eu suspeitava que ela estava de rolo com algum carinha, pois, ultimamente, ela me parecia bem sumida e misteriosa. Eu só esperava que não fosse o tal Douglas de novo. Fiquei sabendo que ele andava correndo atrás dela novamente e quando a confrontei, apenas desconversou.
Liguei para o celular dela e estava desligado. Bufei com raiva, mas o que eu podia fazer? Apenas aconselhá-la, pois a decisão mesmo só cabia a ela e eu esperava muito que não desse uma segunda chance a ele.
Fui para o meu quarto e arrumei umas roupas que estavam espalhadas. Em seguida, fiz um brigadeiro, coloquei na geladeira e levei a televisão para o meu quarto, conectando no netflix. Estava tudo no jeito, agora só faltava o chegar, o que não demorou muito, pois logo ouvi o som da campainha e fui abrir a porta para ele.
— E aí, minha morena? Sentiu minha falta? – entrou mostrando o sorriso que eu tanto gostava e inclinou-se para me dar um selinho.
— A gente se viu hoje mais cedo, – rolei os olhos e ri dele.
— Pois então, já foi o suficiente para que eu quisesse ter você nos meus braços de novo. - me puxou para ele e eu dei um gritinho com o susto. Enfiou seu rosto no meu pescoço, depositou um beijo no local e eu estremeci todo o meu corpo.
Caminhamos até o sofá em meio aos tropeços e trocamos algumas carícias calorosas. Perdemos um pouco a noção do tempo, como sempre acontecia quando eu estava com ele, porém, a fome bateu e nos separamos para poder pedir uma pizza.
Enquanto a nossa comida não chegava ficamos na sala proseando. perguntava se a minha mãe estava melhor e, nesse momento, reparei que eu pouco sabia sobre ele. sempre era misterioso, quando eu o indagava sobre algo mais íntimo, ele fazia algum gracejo e mudava de assunto. Eu nunca quis forçar a barra entre a gente, afinal, não éramos namorados, entretanto, a curiosidade sempre batia a porta, como estava acontecendo agora.
— Por que você não gosta de falar sobre você? – questionei, interrompendo o assunto bruscamente, mas acarinhava seus cabelos para lhe passar tranquilidade.
— Quem disse que eu não gosto de falar sobre mim? – ele arqueou a sobrancelha e me encarou.
Eu estou dizendo. Nunca responde as minhas perguntas e sempre tira o corpo fora. Você é algum fugitivo da polícia? – franzi a testa, pensativa. — Acho que aquele dia do nosso encontro eu realmente te julguei mal. Você não é um filhinho de papai, você deve ser algum ladrão. - relembrei daquela noite catastrófica, mas que, pelo menos, rendeu em e eu juntos no fim da noite.
Não estava falando sério dessa vez, era brincadeira. entendeu isso, por isso ele gargalhou e me puxou para o seu colo, dando-me um beijo recheado. — Só se eu for ladrão de corações! Aliás, sou ladrão de um coração só, o seu!
— Não tente me ludibriar! – ralhei contra os seus lábios, mas meus olhos estavam fechados, enquanto eu me inebriava nele.
— Eu não estou fazendo isso – desceu os seus lábios até a minha orelha e meu corpo todo estremeceu em resposta.
— Está sim... - murmurei quase sem voz, completamente rendida.
Ele começou a fazer uma trilha lenta de beijos pelo meu maxilar, percorrendo até o meu queixo e depois descendo até o meu pescoço. De lá, afastou a alça do meu pijama e depositou um beijo úmido em meu ombro.
Estava já em outra dimensão, quando um estalo me veio à cabeça.
— Você está fazendo de propósito! – reagi ao seu toque e empurrei-o, evitando que continuássemos por esse caminho e, ao mesmo tempo, sabendo que ele estava usando das suas artimanhas para fugir do meu interrogatório.
afastou-se e encostou as suas costas no sofá, frustrado, passando a mão por seus cabelos.
— O que quer saber, ? Uma pergunta só!
Coloquei a mão no meu queixo e pensei no que eu iria querer saber mais. Já havia tentado perguntar sobre a sua família, porém ele fora completamente vago. Sabia só que ele tinha irmãos por aí pelo mundo. Acho que saber qualquer coisa de ligação sanguínea não era interessante para mim, então, por bem, preferi questionar algo que me afetaria. Como, por exemplo, o que ele estava fazendo ali na universidade, o que queria para a vida, entre outras coisas. Se ele escolhesse ficar, isso seria um sinal que poderíamos continuar passando o nosso tempo junto e nos vendo.
Céus! Eu já estava fazendo planos futuros com o sendo que nem sabia se havia espaço incluso para mim. Como eu era patética! Meus sentimentos estavam aumentando proporcionalmente a cada dia e isso me causava muito medo.
Se fosse algum tempo atrás, eu iria apenas correr disso tudo e fugir para o mais longe possível, ainda mais se tratando de um cara do tipo do . Todavia, eu havia prometido que daria uma chance para isso, daria uma chance para nós e veria até onde daria certo, mesmo em meio aos meus temores.
Entretanto, para que isso acontecesse, eu não precisava ficar o enchendo com declarações amorosas. Era só uma troca hormonal, eu não estava apaixonada ainda. E eu preferia guardar o meu coração o máximo possível para que isso não acontecesse, dessa forma, o risco de me decepcionar seria menor.
— O que vai fazer quando terminar o estágio? Já sabe que curso vai optar? – perguntei, resolvendo sair desse devaneio louco da minha mente, antes que eu estragasse tudo.
— Eu não preciso escolher, – respondeu calmo, porém, fiquei intrigada.
— Como assim? Não foi para isso que o Sr. Freitas disse que você ia fazer os estágios em vários laboratórios? Para que você soubesse o que seguir depois?
— Mais ou menos isso – falou por alto, mas uma sensação esquisita se passou por mim. Ele estava me escondendo alguma coisa e eu odiava ter essa sensação.
— Eu não estou entendendo – retruquei.
— Depois eu te explico, , vamos assistir ao filme agora. — Encerrou o assunto, me puxou para os seus braços e deu um beijo em minha têmpora.
Tinha alguma coisa errada. Por que ele não queria me dizer? Eu fiz uma pergunta simples, não era para ter mistério nisso. A não ser que ele tivesse uma vida dupla ou escondesse algo muito grave.
Só de pensar em ser enganada o meu coração comprimiu. Eu disse que era um experimento, que ele poderia comprovar todas as minhas teorias, ou ele poderia me mostrar que nem sempre os estudos têm razão, ele poderia ser a minha grande exceção.
Eu nunca gostei de estar errada, mas, naquele momento, eu estava desejando mais do que nunca que eu estivesse, porque eu não queria me decepcionar.
— Por que simplesmente não responde as minhas perguntas? – questionei em meio aos seus braços, não conseguindo deixar o assunto para lá.
— Por que você pergunta demais, . Por Deus! Não dá para só deixarmos o interrogatório para lá? Estou me sentindo em um inquérito onde você é a policial durona e eu o bandido no polígrafo – falou com um tom chateado, no entanto, tenho certeza que percebi um vislumbre de preocupação em seus olhos.
— Eu não fiz nada demais, , você que está na defensiva! – sai do seu abraço, com raiva. Dessa vez eu não estava errada — O que está acontecendo? Por que você está mentindo para mim? Você sabe que se eu descobrir que está me colocando um par de chifres ou qualquer outra coisa parecida eu vou te transformar em um dado estatístico e a universidade toda vai saber, não é? – Ameacei-o e levantei-me irritada, só por imaginar o grau da mentira dele.
Poxa! A minha mente já é fértil o suficiente sozinha e ele ainda fica me omitindo as coisas, evitando perguntas e tudo mais. O que ele quer que eu conclua?
— É isso que pensa de mim? Que eu estou te enganando e devo fazer isso com outras mil mulheres por aí? – passou a mão pelo rosto e, pela carranca que se formou, percebi que eu havia o irritado. — Isso é decepcionante, sabia? – deu um riso sarcástico e meu estômago embrulhou. Eu não estava gostando nada do rumo da nossa conversa.
Era para ser uma pergunta para conhecê-lo melhor e eu não sabia em que momento havia se tornado essa discussão acalorada de agora.
— Eu não sei mais o que posso fazer para provar que gosto de você, . Sério. Eu estou a todo tempo te mostrando o quanto me importo, mesmo que eu tivesse todos os motivos do mundo para ter me mantido longe no início. Porém, pelo contrário, eu continuei firme atrás de você, porque eu realmente gosto de você. – Ele levantou-se do sofá e eu o vi pegar a chave do seu carro que estava em cima da mesinha de centro.
Aquelas palavrinhas ficaram martelando na minha cabeça. havia falado que gosta de mim. Ele gostava de mim de verdade, mais do que um simples gostar. Ele nunca havia falado dessa forma antes. Era a primeira vez.
Se a gente não estivesse no meio de uma discussão, eu sorriria. Na verdade, eu queria muito sorrir, mas a imagem dele se levantando com uma expressão fechada e pegando as suas chaves tomou o meu momento de glória.
— Para onde está indo? – perguntei com um fiapo de voz.
— Embora! – virou-se e caminhou até a porta.
Fiquei estática onde eu estava. Como assim ele ia embora?
— Mas... - comecei a falar, porém ele ergueu a mão pedindo a sua vez.
— Eu cansei de me doar sozinho aqui, . Qualquer esforço que eu fizer será em vão se eu for o único a investir nessa relação ou se a qualquer momento você for achar que eu tenho um harém ao meu dispor.
Mas eu estava tentando, ele não percebia?
— Você ao menos gosta de mim? – ele me perguntou e minha garganta secou.
Eu queria responder, mas... eu gostava? Eu não estava pronta para assumir isso. Na minha cabeça eu estava apenas satisfazendo os meus hormônios desenfreados que tinham uma atração inegável por ele. É claro estava nascendo algo novo dentro de mim, algo que eu bloqueava, que eu preferia jogar no baú. Como eu poderia simplesmente me virar e responder a sua pergunta?
Vendo a minha hesitação, balançou a cabeça e fitou o chão. Colocou o dedo indicador e polegar no espaço entre os olhos e respirou fundo.
— Tchau, , quando souber o que quer, sabe como me achar.... - deu um sorriso triste e bateu a porta atrás de si.
Eu nunca havia sentido uma dor como aquela. Era agoniante e eu parecia sentir uma mão esmagando o meu coração. Eu só conseguia piscar e permanecer no mesmo lugar que eu estava. Ainda meio anestesiada com o que havia acontecido ali.
Afinal, o que havia acontecido ali?
Como algo tão bobo havia tornado aquela bola de neve?
Não era possível. Era algum tipo de pegadinha. só podia querer me dar alguma lição de moral. Ele voltaria e diria: "Pegadinha do Malandro" ! Sim, era a cara dele isso.
Ouvi o som da campainha e sorri aliviada. Sabia que era alguma brincadeira de mau gosto dele.
Corri até a porta e abri animada, pronta para puxá-lo para dentro e não deixá-lo fazer isso comigo nunca mais.
— Pizza! – um garoto com uniforme de entregador ergueu o embrulho para mim, me fazendo lembrar que havíamos feito o pedido algum tempo antes.
Meu sorriso se desfez na hora e meus olhos começaram a se embargar, caindo na dura realidade.
havia me deixado.
havia ido embora.
— Moça, você está bem? – o menino perguntou intrigado, Provavelmente sem entender porque uma pessoa chora ao receber uma pizza.
Só balancei a cabeça positivamente e estendi-lhe o dinheiro. Peguei a pizza e coloquei-a em cima da mesinha. O cheiro era bom, mas a fome de outrora havia passado, pois, a única coisa que eu conseguia pensar era o fato que não estava mais ali para comer comigo.
Os olhos tristes dele ao sair me feriram duramente e eu me surpreendi com o fato que eu havia estragado tudo entre nós sem nem precisar que ele fizesse alguma coisa. E, por mais que eu ainda estava bolada com o fato de ele omitir informações de mim, isso não me dava o direito de acusá-lo dessa forma.
Acho que no final, nós dois erramos, mas eu tenho um histórico de erros muito maior. E sabe o que é pior de tudo? Era saber que, naquele instante, com a dor que eu sentia e as lágrimas que saiam dos meus olhos, eu tinha a resposta perfeita para a pergunta que ele havia feito, porém, era tarde demais.





Capítulo 12


Posso dizer que passei a noite chorando? Pois é, eu passei. É vergonhoso admitir isso, pois esse sentimento me dava uma sensação de fraqueza.
Não consegui comer a pizza, não consegui fazer nada. chegou e me encontrou inexpressiva no sofá. Eu não digeria o que havia acontecido em nossa noite e nem sabia como tudo desandou. Como uma pergunta minha inocente se voltou contra mim de forma tão horrível, fazendo-me machucar o ... de novo?
Foi um questionamento claro. "Você gosta de mim?"
Eu só precisava responder "Claro que gosto, ". Qualquer palavra seria válida, mesmo que fosse superficial, vazia e sem emoção, mas, pelo menos, seria uma resposta. No entanto... eu fiquei muda, dando-lhe a entender que não sentia nada. Que ele era apenas uma pessoa que acalmava os meus hormônios desenfreados.
Se eu parasse para refletir... não era isso que eu mesma tentei acreditar?
Falei para mim mesma que eram os hormônios puros e simples. Neguei-me em aceitar qualquer vínculo emocional, como se pudesse fazer um controle das minhas próprias emoções.
Que droga!
Por que eu tinha uma maneira de sempre estragar tudo?
O me entendia, sabia das minhas dificuldades e sempre respeitou isso.
A vida é engraçada, nós sempre queremos que os outros nos compreendam, porém, poucas vezes paramos para compreender o outro. estava fazendo praticamente tudo conforme a minha música, ele só precisava de uma resposta. Algo que o ajudasse a continuar nessa empreitada chamada .
Não queria um "eu te amo", nem um "vamos namorar", ou mesmo um "estou apaixonada por você". Ele só precisava de um "sim". E nem isso eu pude dar.
Passei a noite toda revirando de um lado para o outro, repensando porquê raios eu só simplesmente não o respondi. Até quando eu deixaria os meus medos tomarem conta de mim? Até quando eu me barraria por conta do bloqueio sentimental que eu tentava impor entre nós?
A aflição que eu sentia por ele ter ido embora deixava claro que ele já havia tomado um espaço em meu coração muito maior do que eu previa. Eu não podia fingir que não e continuar nos enganando. Por isso, depois de muito pensar, uma noite mal dormida e uma grande olheira pela manhã, eu decidi responder, mesmo que tardiamente, a pergunta que ele havia me feito.
Essa resolução me fez até deixar de lado temporariamente o problema inicial, que foi todo o mistério que fez em relação a sua vida pessoal. Resolvi que nós trataríamos disso em outro momento, não era o mais importante agora. Eu esperava que assim como eu derrubaria um pouco da minha barreira, ele pudesse fazer o mesmo por mim e se abrisse também.
Levantei-me da minha cama, lavei bem o rosto e passei uma camada generosa de corretivo para melhorar a cara de peixe morto que eu estava. Tomei o café rapidamente e desci até a garagem para pegar o meu carro, já que e eu não iriamos juntos hoje, por motivos óbvios.
Ao chegar lá, bati a mão na minha testa e lembrei-me que por estar indo para a UFRJ no carro do , eu havia emprestado o meu para , que durante esse mês teria aulas mais cedo. Em outras palavras, ela já havia saído e eu acabei ficando para trás a pé. Droga!
Fui até a portaria do prédio e comecei a vasculhar minha bolsa até encontrar o meu celular. Caminhei até a calçada e abri o aplicativo do táxi, pois de ônibus eu chegaria muito atrasada.
Logo, ouvi o barulho de uma buzina que tocava estridentemente. Levantei o meu olhar para a direção daquele som e assustei-me ao notar a Ferrari vermelha de parada ali na frente. Ele estava do lado de fora do carro, recostado na porta e com a mão para o lado de dentro apertando o volante.
Nosso olhar se cruzou e ele abriu um pequeno sorriso para mim, quebrando qualquer medo que eu tivesse de ir até ele.
Foi como se o meu coração derretesse. Um alívio foi derramado sobre a minha cabeça e eu pude suspirar aliviada, pois ele havia voltado. Ao mesmo tempo, uma euforia por tê-lo novamente sacudia o meu interior e a adrenalina me impulsionava para correr até ele e lançar-me aos seus braços. Fui guiada por esse ímpeto e deixei-me ser conduzida pelas minhas próprias vontades.
Ele arregalou os olhos, surpreso, mas não deixou de me abraçar e me aconchegar em seu peito. Acho que aquele ato falou mais do que qualquer palavra. Eu estava deixando qualquer egoísmo e mostrando-o que eu o queria. Ele já havia conquistado um espaço na minha vida e eu desejava que ele permanecesse nela.
— Sim! – murmurei, enfiando meu rosto na curvatura do seu pescoço.
Sua mão direita passou pela minha bochecha, tirando lentamente o meu cabelo do local, e curvou um pouco a sua cabeça, ao ponto que nossas respirações tornassem uma só.
— Sim? – perguntou, confuso.
— A pergunta que me fez ontem. Minha resposta é sim. Eu gosto de você, – confessei, colocando firmeza em minha voz. Não queria que ele tivesse dúvidas quanto a isso. Não seria justo com ele.
A boca dele inclinou-se levemente, mas, por algum motivo, o sorriso que começava a surgir se desfez.
— Não quero que diga isso só porque te pressionei, – falou com pesar. Sua expressão parecia sofrida. Ele estava entendendo tudo errado.
– chamei a sua atenção. – Shii... - coloquei os dedos nos seus lábios, da mesma forma que ele costumava fazer comigo. — Eu estou dizendo isso porque eu quero. Você merece ouvir da minha boca. Eu gosto realmente de você, . E eu não quero que você saia da minha vida.
Agora sim eu tinha todo o seu sorriso. Aquele que ele dava só para mim quando me olhava ou após os nossos beijos. Ali eu soube que eu havia ocupado uma parte dele, da mesma forma que ele havia feito comigo.
Não precisava de mais palavras, nossos lábios se tocaram instantaneamente e, mesmo que eu já tivesse o provado várias e várias vezes, agora era diferente. O beijo era doce, lento e carregado de sentimentos ainda não transmitidos. Era como nosso acordo interno, um selo do nosso relacionamento sem definição, mas que, na verdade, parecia muito mais. Eu gostava de e gostava de mim.

***


Durante a semana, , e eu trabalhamos arduamente na minha pesquisa. O composto n°7 vinha trazendo ótimos resultados. Na terça-feira, já com o reagente que eu havia comprado, fizemos a solução e continuamos os testes. Agora estávamos na fase mais prática, onde o injetávamos nos ratinhos e esperávamos para ver se causaria algum efeito colateral que invalidaria o projeto.
Eu estava nervosa. Se algo desse errado agora, nem dinheiro para fazer o restante dos testes com os outros compostos eu teria, já que o Sr. Freitas me chamou na quarta-feira para informar que o meu projeto havia sido um dos suspensos para o financiamento da faculdade.
Posso dizer que enfartei, né? Tentei fazer de tudo pra que ele voltasse atrás em sua decisão, mas ele foi bem enfático em dizer que não tinha jeito. Em suas palavras, eles teriam que dar prioridade a projetos mais importantes, baratos e menos custosos que o meu. Porém, eu sabia que não tinha nada a ver com isso. A realidade era que quem tinha QI conseguia as coisas. E quando eu falo QI, não me refiro à inteligência, mas sim ao famoso "Quem Indica", ou seja, quem é amigo do diretor ou tem mais dinheiro e influência, possui mais facilidade para conseguir as coisas. É igual emprego de prefeitura que muitos conseguem porque conhecem alguém importante lá dentro.
O meu problema era que eu nunca havia usado desses artifícios para nada. Sempre batalhei muito pelas minhas conquistas e não seria diferente agora, por isso, quando percebi que ele não voltaria atrás, apenas chorei minhas pitangas no ombro de .
Como sempre, não posso reclamar do meu homem. Será que posso chamá-lo de meu? Afinal, somos exclusivos um do outro, então, provavelmente eu posso. enxugou cada lagrimazinha que eu derramei e ainda teve um ouvido muito paciente para poder aguentar toda a minha lamúria. Ele me deu palavras de forças dizendo que ficaria tudo bem e que eu precisava acreditar no meu próprio trabalho. Os justos seriam recompensados, não importa se demorasse para isso, era o que sempre dizia.
Falando nele, depois que fizemos as pazes e nos beijamos muito, ele pediu desculpa pela a sua atitude. Falou que eu não estava errada em querer saber mais sobre a sua pessoa, entretanto, ele pediu que eu esperasse e confiasse. Contou que precisava de um tempo para poder se abrir comigo, mas que, sem tardar, ele me diria tudo e esperava que eu o compreendesse ao final.
Eu não entendi muito bem, entretanto, também não queria forçá-lo novamente e fazer com que fugisse de mim que nem a última vez. Contudo, confiar era uma palavra que ainda pesava para mim. Era muito difícil ter confiança em uma pessoa que não se abria comigo e, ainda por cima, sabendo da dificuldade que eu tinha de aceitar essa relação.
Eu precisava de mais e ele sabia disso. Eu estava cedendo e tentado, porém, ele precisava cooperar também.
Optei por confiar cegamente, sem saber o que havia no final do túnel, mas preciso confessar, eu estava morrendo de medo. Quando me envolvia com , eu me esquecia de tudo, pois ele fazia parecer fácil. Contudo, ao ficar sozinha, minha mente me assolava e teorias de conspirações enormes ocupavam a minha mente.
Ele poderia ser um agente infiltrado na universidade para descobrir a máfia dos recursos dos laboratórios. Talvez ele fosse um agente da Vigilância Sanitária que estava passeando pelos laboratórios para conferir se fazíamos os nossos procedimentos corretamente. Ou mesmo podia ser um homem casado e entediado que resolveu ter uma vida dupla, indo para a universidade pegar as mulheres que caíam na rede dele.
Enfim, eu nunca descobriria se ele não falasse logo.
Agora, em plena sexta feira, eu não poderia continuar com essas divagações, apenas precisava focar no que descobriríamos nos resultados da pesquisa de hoje. Era o último dia de na saga "laboratórios da UFRJ" e também o dia que iríamos fazer a autópsia dos ratinhos e descobrir se o princípio ativo que havíamos testado tinha causado efeitos colaterais ou não.
Enquanto fazia a decapitação com a guilhotina e a preparava a mesa da autópsia, eu colocava o meu aparato e sacudia a perna, com plena convicção do meu nervosismo.
Chegamos bem cedo no laboratório para que pudesse ter tempo de fazer tudo hoje. O disse que fazia questão de ver esses resultados e ele queria estar ali para me ajudar.
Assim que ele terminou, trouxe os corpos para que começássemos a analisar. abria o rato, preparava a lâmina com as amostras dos tecidos e eu analisava no microscópio e fazia as fotos, que eram enviadas digitalmente do aparelho para o computador.
— Cobaia número 5, tecido cerebral, pulmonar, renal e genital limpos. - Estávamos na quinta análise. Cada vez que eu olhava naquele microscópio, meu coração gelava com medo de aparecer algum indício de necrose celular, ou seja, alguma célula morta por causa do nosso composto.
— Aqui estão às lâminas da cobaia número 6. - me entregou as lâminas e eu as posicionei para observá-las.
Uma a uma, eu verificava atenciosamente para não escapar nada. Sempre fotografando para que tivesse dados convictos que a análise havia sido feita corretamente. Podem me chamar de metódica, mas eu fazia um trabalho muito sério, por isso gostava de tudo certinho.
Continuamos a tarde toda e aquela apreensão não passava. Cada vez que constatávamos que uma cobaia estava limpa, surgia um alívio, mas também um nervosismo. Tínhamos medo de sermos surpreendidos negativamente no final. Estávamos agora no último rato, era o vigésimo. Preferi usar a quantidade máxima de cobaias, pois se o composto passasse nos testes e fosse para a fase de experimentos em humanos, eu não colocaria a vida de ninguém em risco. Se fossem outras pessoas, fariam a análise usando quantidade mínima de ratinhos, mas como minha mãe sempre disse, eu não era todo mundo.
Já havia passado das cinco da tarde, minhas vistas estavam cansadas e meu corpo tenso. Na verdade, todos nós estávamos exaustos e ansiosos. Eu olhava as últimas lâminas, o cérebro estava limpo e vários outros órgãos também. Agora eu piscava enquanto olhava a última análise do dia. Comecei a bater o pé no chão freneticamente e senti a mão de repousar sobre a minha coxa.
— Fica calma, se estiver tensa assim não vai conseguir nem fazer a procedimento direito, vai ter um desmaio bem aqui nesse laboratório fedido - gracejou tentando me tranquilizar, mas não deu muito certo.
— Tudo bem - apenas murmurei e voltei a me concentrar na lâmina a minha frente. Olhava cada quadradinho, célula por célula, a cada pedaço livre meu coração saltava mais forte.
Meu Deus! Eu estava perto de descobrir a cura para o câncer. Isso era fenomenal! Comecei a ficar empolgada até o momento que avistei uma célula morta. Engoli em seco e continuei a vistoria, começando a suar frio. Uma célula morta poderia ser qualquer coisa, contudo, quando comecei a empurrar a lâmina para a direita e passei a ver uma carreira de células do mesmo jeito, meus olhos embargaram e eu não consegui mais terminar a observação.
Afastei-me do microscópio, endireitando a minha coluna, e fiquei paralisada, sentindo a secura da minha garganta.
... - me chamou, mas eu não me mexi. — O que houve? Não me diga que... - não conseguiu completar a frase e eu, sem nem olhar para ela, apenas balancei a cabeça.
— Não pode ser! - exclamou. — Deixe-me ver. - Empurrou-me do banquinho e assumiu a minha posição.
Logo que ele colocou os seus olhos no equipamento e seu corpo retesou, percebi que assim como eu, ele havia achado as células mortas do tecido. Observei o seu pomo de adão ir para cima e para baixo e se eu não estivesse tão abatida, acharia charmoso.
— Sinto muito, . - voltou seu olhar para mim com o semblante triste. Ele estava decepcionado quase quanto eu. — Mas ainda há outros dois princípios ativos para testarmos. Um deles pode dar um resultado positivo.
— Acabou! Meu projeto... tudo o que me dediquei nesses últimos anos foi em vão. O Matheus estava certo... - As lágrimas começaram a descer e o desespero tomou conta de mim.
— Não acabou, não! - segurou o meu rosto com as duas mãos e foi enfático. — Você ainda tem mais coisas para analisar. Só pode perder a esperança quando fizer todas as tentativas. E, além disso, foram analisadas vinte cobaias com mais de dez lâminas para cada rato, sendo que apenas a última apareceu isso. Pode ter sido um erro.
— Não, ! Não tenho mais dinheiro, não tenho financiamento da universidade mais, acabou. - as lágrimas já estavam jorrando e eu apenas cedi ao desencanto de tudo que eu havia batalhado.
me puxou para os seus braços e começou a me consolar, compreendendo a minha dor. Ele viu desde quando me conheceu o quanto eu era empolgada e como eu tinha esperança na minha pesquisa. Tentou ainda sussurrar coisas que eu nem prestei atenção, pois estava perdida em minha tristeza.
Eu confiei tanto, esperei tanto por isso. Eu sentia como se o meu trabalho fosse o Titanic que havia acabado de se chocar no iceberg. Estávamos afundando drasticamente no mar, levando embora todo o esforço depositado.
— Vamos parar com esse chororô porque lágrimas não levam ninguém a lugar algum! - falou alto, chamando a nossa atenção.
Tirei o meu rosto do peito de e olhamos para ela. Ele com a sobrancelha arqueada como se dissesse "Vamos ser mais compreensíveis com a ?" e eu com o olho inchado de tanto chorar.
— Prestem atenção! Nós fizemos vinte análises. Não foram dez e nem dezenove, foram V-I-N-T-E, vinte! Não acham estranho que em apenas uma lâmina específica de um rato tenha dado alteração?
— Isso pode acontecer, - respondi para ela com a voz um pouco rouca e cansada. A exaustão e a decepção do dia haviam me apossado completamente, não conseguia nem raciocinar mais. Era como se o caminhão do esforço de anos só tivesse pesado nas minhas costas agora que tudo dera errado.
— O que você está querendo dizer? - Ao contrário de mim, pareceu interessado.
— Eu acho que pode ter sido alguma outra coisa. Vários outros fatores podem causar morte celular. Podemos fazer uma autópsia mais detalhada do órgão comprometido e ver o que pode ter acontecido. - explicou, eu percebia a esperança nos seus olhos. Ela estava comigo já algum tempo e tinha se dedicado a esse projeto também. Eu sabia que ela tinha dado o seu gás nisso tudo.
— Isso pode dar certo! - concordou e me largou, postando-se de pé e caminhando até o corpo inanimado do rato n°20.
- me chamou -, nós precisamos de você para isso, tudo bem? Só você vai saber fazer esse procedimento com precisão. Eu e o somos apenas estagiários. Recomponha-se, tudo bem?
Eu acenei com a cabeça e enxuguei minhas lágrimas com o dorso da mão. Mesmo que eu estivesse abatida, eu precisava fazer isso por ela e por mim. Se havia alguma esperança, então que lutássemos até a última gota.
Coloquei a luva e comecei a examinar o intestino, que foi o órgão onde havia sido acusado as células mortas. Franzi a minha sobrancelha ao notar que havia algo errado ali. Um frio passou pela minha barriga e, se aquilo que eu estava vendo estivesse fosse o que eu pensava, poderia ser a nossa salvação.
, poderia passar a lupa para mim? - pedi, estendendo a mão.
— Aqui! - me entregou prontamente. — O que está vendo? – indagou, ansiosa.
— Venha aqui e observe este local. - apontei para onde eu estava analisando e passei a lupa para que ela pudesse olhar também. — Me diga o que vê.
— Tem uma coisinha compridinha saindo do intestino, como se fosse um fiozinho e ele está bem vermelho e inchado - minha estagiária constatou.
— Exatamente! Essa coisinha se chama apêndice e tudo indica que ela está inflamada - expliquei a ela.
— Você quer dizer que o rato estava com apendicite? - aproximou-se e pediu a lupa, pois queria confirmar o que eu estava dizendo com seus próprios olhos.
— Sim! É o que parece. Apendicite causa morte celular e, por isso, foi possível que a gente visse na lâmina da análise! - falei eufórica e entusiasmada.
— Meu Deus, ! Estou vendo aqui, é isso mesmo! Sensacional! Sabe o que quer dizer? Você descobriu a cura do câncer! - seu sorriso se alargou e, após colocar a lupa na bancada, me abraçou e rodopiou o meu corpo no ar, enchendo o meu rosto de beijos.
soltou um grito de alegria, bateu palmas e eu comecei a rir e chorar de alegria ao mesmo tempo.
— Bom... Não é exatamente uma certeza, mas é um resultado muito promissor. Temos que fazer análise de sangue para provar que era mesmo uma inflamação que o rato tinha. Contudo, podemos dizer que já com quase certeza que o princípio ativo 7 possui potencial de combate às células cancerígenas – expliquei, assim que ele me colocou no chão. Eu falava e gesticulava, não conseguindo conter toda animação dentro de mim.
Era mais do que uma realização pessoal, era o fruto de um esforço que poderia ajudar milhões de pessoas um dia.
— Eu quero ver aquele velho cagão vir dizer agora que não pode financiar a gente porque não temos resultados indicativos! - fez uma careta lembrando do Sr. Freitas, o que fez com que e eu déssemos uma gargalhada. — Chupa, Freitas!
— Isso merece uma comemoração, ! Como eu vou precisar viajar esse final de semana para resolver umas coisas, nós vamos festejar essa noite! - deu a ideia, que foi muito bem apreciada.
— Que tal irmos ao pub onde vocês trocaram as salivas pela primeira vez? - sugeriu, fazendo-me ficar constrangida ao recordar do beijo que e eu demos nas vistas de todos.
— Eu topo! Quem sabe lá você tira essa teia de aranha da boca. - pisquei para ela, dando o troco por todas as vezes que ela me faz passar vergonha.
Mesmo com a pele morena dela, consegui ver as suas bochechas ficarem avermelhadas. Era quase uma piada interna. Eu e ela sabíamos porque eu havia feito menção disso.
— Chata - me deu língua e ficou boiando com a nossa troca de olhares e o meu sorriso vitorioso.
Começamos a arrumar o laboratório e se ofereceu para retirar o sangue da cobaia n°20 e mandar para o laboratório que faria a análise do apêndice do rato. Combinamos que ela nos encontraria no pub mais tarde.
e eu saímos e caminhamos em direção ao estacionamento onde ele havia deixado o seu carro, porém, pelo caminho acabei me lembrando que não havia deixado todas as recomendações com a minha estagiária, por isso, pedi ao que fosse na frente e me esperasse lá, enquanto eu voltava rapidinho ao laboratório.
Chegando lá, passei para os procedimentos e as precauções que ela deveria ter e voltei pela estradinha, ainda desacreditada que tudo que eu havia buscado finalmente estava acontecendo. Pela primeira vez eu estava sendo bem sucedida não só no trabalho e estudo, mas também no amor, pois havia chegado para complementar o que eu achei que não faltava em minha vida.
Todavia, quando estava me aproximando, vi uma mulher loira, linda e de um corpo escultural, encostada no carro de , enquanto ele estava bem próximo a ela conversando.
A mulher jogou-se sobre ele e os braços dele a envolveram com afeto. Ele ria para ela, um sorriso largo e gentil, enquanto a loira passava a mão em seu cabelo e tocava o seu rosto.
Epa! Só eu podia fazer isso!
― Oi, meu amor! - ouvi o som da voz grave dele falar com ela, me fazendo quebrar.
O que significava aquilo?
De onde eles estavam não conseguiam me ver, estava de costas para mim, enquanto eu os olhava sentindo toda a minha felicidade de momentos antes se esvaindo.
― Eu estava contando as horas para te ver - ela respondeu sorrindo e, em seguida, o vi retirar uma mecha de cabelo que caía nos olhos dela, colocar atrás da sua orelha e seus rostos se aproximarem. Um gesto íntimo que eu conhecia muito bem.
A essa altura meus olhos já estavam marejados.
Eu não estava acreditando nisso. Como eu era estúpida!
Ele estava lá com aquela mulher. Seus corpos colados, cheios de gestos amorosos.
Eu não podia continuar ali para ver o restante daquela cena. Eu não conseguiria. Ele era o imbecil que eu suspeitei o tempo todo.
Corri para fora do estacionamento com os olhos transbordando em lágrimas.
Eu sabia que estava fazendo errado me envolvendo com ele. Eu tentei tanto evitar isso por toda a minha vida. Instrui a tantas pessoas e, agora, eu mesma havia caído na própria cilada.





Capítulo 13


Depois da cena que presenciei, corri para fora da universidade e peguei o primeiro táxi que achei. O motorista ficou assustado com o meu estado de choro caótico. Pensou até em me deixar em um hospital, mas eu o dissuadi explicando que estava bem. A única ferida que eu tinha era no coração e essa nem um cardiologista poderia me curar.
Meu celular tocava incessantemente, porém, eu não queria atender, eu não tinha condições de lidar com a falsidade dele, as mentiras, ou mesmo jogar na cara tudo o que eu vi. Eu só queria distância e sofrer a minha bad sozinha.
Cheguei em casa e me joguei na cama, abraçando o travesseiro e enfiando a minha cara no lençol. Eu me sentia a pessoa mais estúpida do planeta. Como alguém que sabia tanto quanto eu sobre as teorias do amor se deixava cair em um buraco como esse?
sempre foi um sinal de perigo para mim. Minha mente sempre apitava isso e, ainda assim, depois de tantas ressalvas, eu havia cedido. Cedi aos meus hormônios, cedi às vontades do meu corpo e, por último, cedi ao meu coração.
Aos poucos ele havia conquistado o que nenhum outro homem conseguiu. tinha impregnado a minha pele e me proporcionado sensações nunca experimentadas anteriormente. Eu tentei blindá-lo de todas as formas, eu recuei, eu tentei fazê-lo desistir, porém, no fim, eu abri a guarda. Eu rompi com as minhas próprias barreiras e voltei atrás nas próprias diretrizes da minha vida. Tudo por ele.
A troco de quê?
Um coração despedaçado, um orgulho perdido, os quilos que eu engordaria de tanto comer chocolate e as olheiras que iria adquirir. Isso é o que eu ganharia.
Olhei para o meu celular que piscava sem parar. Já tinha vinte ligações perdidas do , doze de , além das milhões de mensagens que eu nem havia aberto. Resolvi desligar o celular, por mim que pensassem que eu havia morrido, o que eu menos queria era ter que encará-lo no momento.
chegou rompendo no meu quarto me causando um baita susto, seu semblante estava pálido e seu cabelo bagunçado. Parecia que tinha corrido uma maratona.
― Você quer me matar do coração?! - Falou alto colocando suas mãos na cintura e olhando brava para mim. ― Por que você está aqui no seu quarto e não atende a porcaria do seu celular? Seu namorado me ligou desesperado falando que você tinha sumido no estacionamento da universidade. Ele está indo para a delegacia dar queixa de sequestro. , o que raios aconteceu?
Tirei a minha cara do travesseiro e olhei para ela assustada. Provavelmente meus olhos deviam estar saltando de tão vermelhos, porque o semblante da minha amiga mudou de raivoso para preocupado em um instante.
― Eu estou bem. Ninguém me sequestrou. Só estou aqui com o que resta do meu coração depois de descobrir que o me trai. Ou trai a outra comigo. Vai saber... – falei, voltando a enfiar o meu rosto no travesseiro.
... - minha amiga sentou ao meu lado e jogou o seu corpo sobre o meu, abraçando-me. ― Você tem certeza? O parece gostar tanto de você...
― Da mesma forma que ele parecia gostar muito também da loira gostosa que ele estava chamando de meu amor e quase beijando no estacionamento. Eu vi, . - minha voz saiu abafada e chorosa.
― Sinto muito. Sinto muito mesmo, . Você sabe que eu jamais queria te ver passando por isso, não é? Eu sei como é ruim ter um coração partido. Já tive ele destruído por tantas vezes que até perdi a conta... - falou referindo-se a sua trágica história de relacionamentos. ― Mas olha... por experiência própria, o que posso dizer é que vai passar. Sempre passa! - confortou-me, enquanto tocava o meu cabelo.
Ouvi o toque do celular dela e virei-me para olhar. Percebi que ela franziu o cenho quando viu o nome da pessoa na tela.
― É ele...
― Por favor, não diga nada. Eu ainda não estou pronta para confrontá-lo. - supliquei.
― Mas eu preciso dizer alguma coisa. Eu não estava brincando quando falei que ele estava indo na delegacia. me ligou e me avisou, porém, eu disse que ia ver se você estava aqui e pedi que ele esperasse antes de tomar qualquer atitude. Preciso contar que te encontrei.
― Inventa qualquer coisa, fala que eu estou doente. – disse, desesperada. Só de pensar no em minha casa agora meu estômago revirava.
― Mas ele vai querer vir te ver. Não tem cabimento, mesmo que você tivesse passado mal, por que viria para cá ao invés de informá-lo? - Olhou para mim pensando em uma saída, mas eu também não tinha ideia, eu só sabia que não queria vê-lo. ― Eu vou dar um jeito.
Clicou no botãozinho para atender e falou alô, causando uma combustão de ansiedade em meu corpo.
― Ela está aqui sim, encontrei ela... Não, você não pode vir... Ela não quer. - respirou fundo e olhou para mim. ― Olha, , a precisa de um tempo.... Não, eu não vou dizer o que está acontecendo. Isso cabe só a vocês dois. - fez silêncio novamente, tampou o celular e virou-se para mim. ― , ele falou que precisa viajar amanhã cedo e não sabe se vai conseguir voltar semana que vem ou na outra. Ele disse que precisam se resolver antes dele ir.
Eu balancei a cabeça freneticamente de um lado para outro em negativa. Precisava de um tempo para pensar e colocar a minha cabeça no lugar.
― Sinto muito - falou para ele no telefone. ― Eu sei... Use esse tempo para refletir nas suas atitudes, talvez ela não seja a errada dessa vez.... Já disse que não posso contar... Ok, . - olhou para o telefone com o cenho franzido e depois virou-se para mim. ― Ele ficou bravo, desligou sem nem dar tchau. , ele parecia não ter ideia do que se tratava ou ele é muito bom ator.
― Você está o defendendo? – perguntei, ultrajada.
― Não, jamais defenderia uma traição... Mas você já teve outro julgamento errado, lembra? Você me contou o caso da ruiva do shopping...
― É diferente. Dessa vez seus corpos estavam colados, ele segurava o rosto dela, ele a chamou de amor, fez carinho em sua bochecha e ia beijá-la. Eu não estou louca, , eu sei o que eu vi.
― Tudo bem, desculpa. Só perguntei porque muitas vezes a nossa perspectiva pode ser tendenciosa até sabermos a história por completo. Mas eu acredito na sua palavra. Eu quero o melhor para você, , e eu achei, de verdade, que ele estava te fazendo bem.
― É... eu também achava o mesmo – lamentei.

***


Fiquei uma semana sem ir ao laboratório. Depois que fiquei sabendo pela minha estagiária que o havia feito plantão lá antes de viajar, esperando que eu aparecesse, achei por bem dar uma sumida e não correr o risco de batermos de frente. Passei todos os meus afazeres para e um recado para que ela não se preocupasse. Eu tinha uns dias de folga e resolvi utilizá-los para fazer o que toda mulher faz quando está sofrendo, comer brigadeiro.
Eu não liguei o celular novamente, todo o meu contato com a foi através de , eu ainda não estava pronta para ler as mensagens que havia recebido. O meu tempo em off era necessário para digerir que eu havia me transformado em mais um dado estatístico do mundo, mais uma mulher chifrada no planeta.
Em contrapartida, pude perceber que o meu sentimento por era muito maior do que tinha dimensão. Quando eu finalmente confessei que gostava dele, achei que era algo pequeno em fase de crescimento. Porém, com a dor da traição e da perda dele na minha vida, constatei que o quadro era pior do que eu imaginava. Eu estava apaixonada.
Eu tinha um sentimento que ia além da atração e era muito mais profundo. Percebi isso no pior momento possível, preferia nunca mais sentir tal coisa se fosse para sofrer tudo isso novamente. Todavia, nem tudo na vida pode ser controlado e uma coisa eu havia aprendido nesse tempo: o coração não é um robô que podemos conduzir, ou mesmo um animal que possamos enjaular.
Parei um pouco de me culpar por ter cedido ao . Eu havia feito tudo o que era possível para fugir, mas, mesmo que eu quisesse muito, eu jamais teria conseguido, pois, sendo um canalha ou não, o meu coração havia escolhido a ele, e isso eu não tinha como voltar atrás.
Hoje eu tive que voltar para o laboratório. O resultado da análise da apendicite do rato n°20 havia saído e eu precisava ver rapidamente. Estava com o envelope na mão, receosa para poder abrir. roía as unhas, enquanto esperava que eu criasse coragem e olhasse logo o que o exame havia apontado. Aquele papel poderia conter o meu sucesso ou a minha ruína. Seria o resultado de todo o meu esforço, ou apenas mostraria que tudo o que lutei tinha ido por água abaixo
― Abre logo isso, pelo amor de Deus, se não vou enfartar! - exclamou, abrindo e fechando as mãos, nervosa.
― Calma, não me apressa, senão eu não consigo!
Abri lentamente e puxei o papel de dentro do envelope. Comecei a correr os meus olhos nas letrinhas miúdas e no que elas significavam ali. Minhas mãos começaram a tremer e meus olhos se encheram de água. Eu não conseguia dizer nada, fiquei estática vendo o resultado apresentado naquela pequena folha.
― O que diz aí? - levantou-se e parou em minha frente.
Como eu não me mexi, ela arrancou o papel das minhas mãos e começou a ler, deixando-o cair em seguida.
― O que diz aqui está correto? - me fitou com os olhos embargados.
Sacudi lentamente a cabeça afirmando e ela jogou-se em meus braços, quase fazendo-nos cair.
, você conseguiu! - gritou, eufórica. ― Eu não consigo acreditar! Meu Deus! Você tem noção da grandiosidade que é isso? A sua pesquisa está um passo para a descoberta da cura do câncer!
Eu sacudi a cabeça de novo. Queria gritar como ela, mas sabe quando lhe acontece algo tão surpreende que ficamos sem reação? Parecia que eu estava inerte ainda. Um sonho muito bom no qual alguém ia me balançar e acordar.
Comecei a chorar de alívio, sentindo um peso sair das minhas costas. Sentia o resultado de cada suor gasto, cada noite não dormida, tantos finais de semana que havia passado no laboratório em prol da pesquisa e o tanto de vezes que tive que defendê-la com unhas e dentes porque muitos achavam que eu estava dando murro em ponta de faca, ou seja, que não chegaria a lugar algum. Agora estava ali, finalmente, desfrutando do resultado de toda a minha dedicação. Aliás, não só minha, pois tive uma grande ajuda da minha estagiária, que doou seu tempo aqui comigo.
Nós conseguimos, ! - consegui tirar força da minha voz para dar o devido agradecimento à menina que sempre me apoiou nesse percurso.
Abraçamo-nos forte e começamos a pular que nem loucas. Era uma alegria que não cabia dentro de mim. O que eu sentia naquele momento nem Mastercard pagava! Conseguiu até me fazer esquecer, momentaneamente, a fossa que eu estava.
― Precisamos comemorar! Espere aí! - me soltou e saiu correndo porta a fora do laboratório, deixando-me sozinha.
Peguei de volta o papel que estava no chão e escaneei para arquivar o documento no processo da pesquisa. Agora sim teríamos chance. Eu precisaria escrever o meu artigo e publicá-lo para que alcançasse uma visibilidade maior. Quem sabe empresas custeassem o meu projeto a partir de agora?
Esse resultado parecia algo muito grande, mas era só o início da jornada, eu teria que encontrar um forte financiador e um laboratório disposto a continuar com a minha pesquisa a grande porte, pois teríamos que fazer análises diretas com humanos, e isso não poderia ser feito ali dentro de um laboratório pequeno da universidade. A amplitude era muito maior.
Enquanto eu vagueava a minha mente nos próximos passos que eu precisava dar, ouvi uma batida na porta, captando o meu olhar em sua direção. A mesma loira do estacionamento estava bem ali na minha frente, escorada na entrada do laboratório. Deslumbrante como a última vez que a vi, realmente eu não teria chances contra ela.
― Então você é a famosa Doutora da Paixão? - perguntou entrando ali, mesmo sem ser convidada.
― Como?
― Não é assim que te chamam? Ou é Doutora do Amor? Tanto faz - falou rolando os olhos.
Fiquei irritada. Como ela chegava aqui, do nada, entrava no meu recinto e ainda falava meu apelido como se tivesse o direito?
― Quem é você e o que quer aqui? - perguntei, áspera.
Ela caminhou até mim e estendeu a sua mão à minha frente, pedindo para que eu me calasse.
― Eu sou Giovana - cumprimentou-me com uma expressão fechada - E vim aqui porque eu precisava conversar algo sério com você antes de pegar meu voo para Paris.
...
Meus Deus!
Coloquei minha mão sobre a boca, escancarando o meu susto.
Era pior do que eu pensava. Ele era casado! Que cafajeste!
― Eu não acredito que... Filho da mãe! - praguejei.
Ela arqueou a sobrancelha, confusa, parecendo não compreender nada.
― O quê? – perguntou.
― Nada, me desculpe. Olha, senhora Giovana, eu não tenho culpa, eu juro que não sabia que ele era casado - comecei a me justificar. Com certeza ela havia descoberto a pulada de cerca do seu marido e estava ali para tirar satisfação.
― Não estou entendendo - disse com uma expressão encabulada.
― O seu marido, o . Eu juro que não sabia. Eu jamais me envolveria com ele se soubesse que eram casados... - continuei falando, mas parei ao ouvir o som da sua risada. Não entendia a graça da situação. O marido dela havia a traído comigo. Por que estava rindo?
― Meu Deus, o tinha razão. Você é louca, mas é hilária. - disse enxugando as lágrimas. - Adoraria te conhecer, , pena que não teremos tempo agora. - recuperou o fôlego e falou o meu nome como se me conhecesse. ― Mas só para deixar claro... O não é meu marido, ele é meu irmão.
Irmão...
Droga!
― Como? – balbuciei, nervosa.
― Eu que te pergunto... Da onde você tirou essa ideia sem fundamento?
― Eu vi vocês juntos há uns dias atrás aqui na universidade, vocês estavam próximos... achei que vocês iam... eu ouvi ele te chamar de amor! - falei em um fiapo de voz, envergonhada.
― Você achou que a gente ia se beijar? Eca! – fez uma careta com nojo. ― Nós somos muito carinhosos um com o outro, mas ele me beijou na bochecha, você saberia se tivesse visto a cena toda... Agora eu estou compreendendo tudo. - deu um sorriso irônico e colocou a mão no queixo. ― O dia que você nos viu, eu havia acabado de chegar de viagem. Passei um ano no exterior e estava morta de saudades. Quis fazer uma surpresa para o aqui, então, encontrei-me com ele no estacionamento. Parece que você fez uma pequena confusãozinha. - rolou os olhos, entediada e balançou a cabeça, desacreditada. ― Eu estou aqui porque o meu irmão está arrasado sem entender o que houve entre vocês, só o que sabe é que você não quer o ver. E o pior de tudo, ele havia me dito muitas coisas boas a seu respeito... o quanto era inteligente, decidida, linda, uma mulher forte e guerreira. Por isso estou aqui. Eu precisava ver que tipo de mulher é essa que o meu irmão tanto idolatrou e que agora simplesmente o largou sem nenhuma explicação. Contudo... agora já entendi.
― O falou de mim para você? – gaguejei, atordoada com as informações.
― Não só uma e nem duas vezes. Sempre em nossas ligações ele dizia sobre uma mulher incrível que havia encontrado. - suspirou e descruzou os braços, andando até mim. ― Olha, , você pode pensar o que quiser do , mas ele não é esse tipo de cara. Pelo contrário, o sempre trabalhou muito e preferia não se envolver com ninguém se fosse para machucar ou criar falsas ilusões. Ele pegou a responsabilidade da empresa da família bem cedo, ele é o cara mais responsável que eu conheço. O meu irmão nem ao menos é de ficar por ficar por aí. Alguma coisa ele viu em você para que voltasse a ser o jovem novamente e finalmente resolvesse tentar com alguém. Então, eu vou dizer apenas uma vez, se você realmente quer alguma coisa com ele, vá trás, entretanto, se for para quebrar o coração dele, dê o fora, ou eu volto de Paris para defendê-lo com unhas e dentes.
― Eu... Eu... não consigo acreditar.
Eu estava chocada. Essa era a palavra. Eu jamais imaginaria que a mulher que estava com fosse a sua irmã. Eu nem sabia que ele tinha uma irmã, para início de conversa. Ele havia comentado vagamente que possuía irmãos, todavia, não havia especificado nada.
Senti a culpa me assolar. Eu havia ignorado o sem ao menos lhe dizer o porquê. Eu havia estragado tudo, de novo.
― Você acha que ele vai me perdoar? - olhei para ela, que ainda parecia séria, enquanto meus olhos enchiam de água.
― Sinceramente? Não sei. O meu irmão parecia bem magoado. Eu nem deveria estar aqui; para falar a verdade eu nem acho que você o merece - disse com palavras cruas e frias. ― Porém, por incrível que pareça, eu também acho que ele pode ser feliz com você, desde que você se resolva primeiro. Por isso, vou te fazer um último pedido. Não vá até ele até ter certeza do que quer e do que sente, o não precisa conviver com alguém que não confia nele o suficiente e vá sempre dar para trás na primeira adversidade que houver.
Eu não sabia o que dizer. Ela havia me dado um grande tapa com palavras. Ou melhor, acho que fui completamente boxeada. Ela estava certa. Eu não merecia o , desde o início eu havia o tratado mal e o enchido com as minhas desconfianças. Se fosse em qualquer outro caso, eu teria ido como uma pessoa madura e teria conversado com ele para acertar o que havia acontecido, mas não era qualquer um, era o , aquele que o meu subconsciente sempre sabotou desde o início.
Eu não podia continuar assim e ele não merecia se envolver comigo dessa forma.
Balancei a cabeça para ela, assentindo cada uma das palavras que ela havia me dito.
― Você poderia me dar o endereço dele... caso... caso eu resolva ir até lá? - perguntei por garantia.
Ela arqueou a sobrancelha para mim e abriu um leve sorriso irônico, o mesmo sorriso que eu via em quando queria me provocar. Agora era muito claro que os dois eram irmãos, até alguns gestos eram iguais.
― E te entregar o ouro fácil assim? Sinto muito, queridinha, mas se quiser meu irmão de verdade, terá que se esforçar um pouquinho mais. Adeus... ou até logo, vai saber, não é?! - piscou para mim e virou-se para ir embora, jogando seus cabelos compridos para o lado e rebolando com classe.
Perdi-me nos minutos que fiquei olhando para o nada, fitando o mesmo local que a irmã do havia saído até a voltar e me encontrar naquele estado catatônico.
― Alô, ? - ela passou a mão em frente ao meu rosto para me tirar do meu transe. ― O que aconteceu?
― Eu acabei de descobrir que sou uma idiota - respondi, honestamente.





Capítulo 14


Aplicativo Whatsapp
Conversas On


", onde você está? Gostaria de te apresentar uma pessoa"
1 semana e três dias - 18:40

", estou ficando preocupado. Você está demorando"
1 semana e três dias - 19:20

"Por que não atende ao telefone? Eu liguei para e ela disse que saiu faz tempo do laboratório. O que aconteceu?"
1 semana e três dias -19:40

", para de graça, eu estou preocupado. Me liga."
1 semana e três dias - 20:00

", pelo amor de Deus. Quer me matar? Estou tentando falar com Deus e o mundo e não te encontro. Já liguei para todos os hospitais e estou indo para a delegacia."
1 semana e três dias - 20:30

"Eu não estou entendendo nada. , dá para me explicar o que houve? Uma hora estamos bem e saindo para comemorar e no outro você some do mapa e diz que não quer conversar comigo... Eu estava em pânico de preocupação. Achei que ouvir me dizer que você estava em casa iria me aliviar, mas vejo que estava errado. O que foi dessa vez? Você vai simplesmente me ignorar e não vai me dizer o motivo para isso tudo?"
1 semana e três dias - 21:30

"Tem certeza que é isso o que quer? Me deixar no vácuo eternamente? Tudo bem. Vou te dar o espaço que precisa, mas quero saber o que aconteceu. Não faz isso com a gente, ."
1 semana e três dias - 21:35

"Acordei essa manhã pensando em você, achei que a noite de ontem havia sido um pesadelo horrível... Pena que logo a verdade veio à tona e me recordei que foi tudo verdade. Você apenas me deixou... sem alguma explicação. E o pior de tudo é que realmente eu achava que estávamos indo bem."
1 semana e dois dias - 07:40

"Hoje eu viajo, devo passar a semana fora. Eu esperava que a gente resolvesse as nossas pendências antes que eu fosse, porém, foi bem reticente dizendo que você não queria me ver. É uma pena. Eu lamento muito mesmo, . Eu espero ainda que quando eu voltar possamos resolver as nossas diferenças, sejam elas quais forem. Mas... eu não vou correr mais atrás e nem vou ficar te mandando mais mensagens. Sinto que já fiz de tudo e que agora está em suas mãos. Beijos do seu eterno, ."
1 semana e dois dias - 10:02

"Eu sei que eu disse que não ia te mandar mais nada, mas sinto que precisava escrever essa última mensagem. Queria dizer essas palavras frente a frente, mas você não permitiu que eu me aproximasse e não vi nenhum movimento seu para querer conversar comigo, o que deixa bem claro a decisão que tomou. Contudo, eu ainda tenho uma última coisa a dizer... O dia que eu te vi pela primeira vez, eu sabia que você ia mexer comigo de alguma forma. O seu jeito altivo e as suas concepções me atraíram e eu senti que precisava te conhecer melhor. Eu não me arrependo de ter investido em você, . Acho que a vida é curta demais para vivermos de arrependimentos. Eu fiz o que o meu coração me mandou, eu lutei por nós porque eu acreditava sinceramente que daríamos certo. Pena que eu estava errado. Eu errei em acreditar que você conseguiria quebrar as suas próprias barreiras por mim, eu errei ao pensar que você gostasse de mim da mesma forma que eu gosto de você. Eu me apaixonei por você, , perdidamente. E nem se eu não tivesse tal sentimento, eu jamais trairia a sua confiança, eu jamais seria a pessoa baixa que você achou que eu era. Minha irmã me contou e, sinceramente, estou decepcionado, no entanto, eu entendo. Ninguém muda do dia para a noite e é querer muito que você esteja na mesma sintonia que eu, sendo que você ainda não se livrou de todas as amarras que te prende. É uma pena. Talvez a sua ciência não estava de fato errada, alguém iria sofrer nesse relacionamento, porém, a pessoa fadada a isso não era você, mas sim eu. Adeus, ."
Ontem - 21:20

Conversas Off

A minha vida virou de cabeça para baixo. Eu me sentia fora de órbita, confusa, magoada e agitada. Passei dias e dias depositando o meu ódio em para descobrir no final, que a única pessoa merecedora disso era eu.
Eu me sentia ridícula e estúpida.
Não por ter pensado que a irmã dele era uma possível namorada. Acho que a maioria das pessoas no meu lugar teriam pensado o mesmo se vissem a cena que eu vi e, além de tudo, se tivessem um namorado que escondia tudo em relação a sua vida. Eu não estava me martirizando sobre isso.
O que me causava revolta é porque, de novo, eu havia apenas fugido da situação, ou melhor, havia fugido do . E ter essa conclusão me fez refletir o quanto ele não me merecia.
Estamos acostumados a ouvir e ler histórias onde o cara faz merda e a mocinha é a vítima da história. Um outro pré julgamento, como se uma mulher nunca fosse magoar um cara. Na minha história, eu que magoava o , repetidas vezes. Por que então ele me daria uma quinquagésima chance? Quem garantiria que eu não faria isso de novo?
Ele estava certo na sua última mensagem, eu não tinha me livrado de todas as minhas amarras, entretanto, ao contrário de antes, de uma coisa eu tive certeza, eu havia me apaixonado por . Tarde demais essa constatação, eu sei. E isso me dilacerava por dentro.
Busquei por muito tempo que as coisas fossem do meu jeito e procurei em outras pessoas aquilo que só consegui achar no . O medo de me machucar foi tão grande que tentei bloqueá-lo da minha vida só para, no final, acabarmos com dois corações machucados.
Isso me fez descobrir outra coisa que eu jamais imaginaria. Senti-me muito mal quando pensei que tinha partido o meu coração, mas eu senti-me muito pior quando descobri que eu havia partido o dele. Engraçado, não é? Vivi minha vida me protegendo para sentir uma dor muito maior quando feri a pessoa que eu gostava. Talvez isso seja amor... um sentimento tão grande que te faz querer que a pessoa seja feliz independente da sua dor.
Cada vez que eu lia aquelas mensagens era como se uma punhalada atingisse em cheio o meu coração. A minha vontade era correr até ele, pedir desculpas deliberadamente, e dar uma nova chance a nós dois. Mas por que eu faria isso? Depois de tudo o que eu fiz, nem era justo com ele. Talvez o merecesse uma mulher menos... complicada.
― Encarar esse celular não vai trazer o de volta – entrou no meu quarto e sentou-se ao meu lado. ― Como você está?
― Isso não é o tipo de pergunta que se deve fazer para uma pessoa com o coração partido! – tentei sorrir, porém não deu muito certo. Recostei minha cabeça em seu ombro e ela passou seu braço pelas minhas costas.
― Desculpa – pediu, aflita. era assim, sempre pensava no outro e tinha medo de nos magoar. Não fazia mal a uma mosca, mas, ainda assim, era toda preocupada.
― Não precisa disso, , eu só... não sei o que fazer.
― Nunca te vi desse jeito, nem quando você estava aos prantos achando que ele a traiu. É como se você estivesse... vazia.
― Foi diferente. Antes era como se o fato fosse uma justificativa para eu finalmente dizer que estava certa o tempo todo. Era mais fácil odiá-lo. Só que agora... Eu só consigo ver como ele é uma pessoa incrível e como fui tola em tentar expulsá-lo todas às vezes da minha vida.
― Por que não o deixa entrar, então? – perguntou como se fosse à coisa mais fácil do mundo.
Suspirei, pensativa, recordando tudo o que havia pensado depois de descobrir a verdade em torno de .
― Eu não quero feri-lo de novo. Se eu cansei de errar sempre na mesma tecla, imagina ele? Quem garante que ele iria me querer?
... Você gosta dele? Digo, de verdade mesmo, o que você sente? – encarou os meus olhos e eu sabia que deveria ser sincera. Na verdade, eu nem queria mais tentar lutar contra isso. Já estava bem realista em relação aos meus sentimentos.
― Sabe quando você está naquela TPM maldita, onde tudo está péssimo, feio e ruim, aí você come aquela colherada generosa de brigadeiro e de uma hora para outra tudo fica lindo e parece um arco-íris? – perguntei e ela acenou com a cabeça. ― Então, é o mesmo efeito que o causa em mim. Eu sei que ele não é nenhum remédio milagroso, mas quando estou com ele é como se tudo ficasse belo. É como preencher um pedaço que eu nem mesmo sabia que faltava, uma alegria boba sem motivo. Eu estou rendida, . A paixão me laçou e o responsável por isso foi o . Contudo, e se eu pisar na bola novamente?
, a vida é feita de erros e acertos. É errando que refletimos e mudamos, é dessa forma que fazemos a nossa vida trilhar caminhos diferentes. Tudo faz parte da nossa construção como pessoa, foi horrível, eu sei, mas você precisava passar por isso para ver que as pessoas podem te surpreender, que nem todo mundo é premeditado como pensa e que o amor é muito mais que uma teoria. Você passou a vida toda com um conceito embutido na sua cabeça, seria de admirar se você tivesse mudado da água para o vinho fácil assim. Acho que seria até meio falso, visto que você é a pessoa mais determinada que eu conheço. No entanto, agora... O já te deu todas as provas que é diferente e você tem um sentimento dentro do seu coração que pode ser maior que qualquer insegurança que você tinha. Sabe por que eu sei que você não vai voltar atrás novamente?
Não respondi nada, apenas fiz uma expressão de interrogação, querendo que ela continuasse a dizer o que pensava.
― Porque seus conceitos já foram quebrados. Você acabou de admitir para mim a forma como ele mexeu com você. Não existe justificativa para afastá-lo mais e como uma cientista grandiosa que eu sei que é, você mesma sabe que novas teorias surgem e é essa nova concepção do amor que você tem agora que vai definir o seu futuro.
― E se ele não me perdoar e não me querer de volta? – indaguei, sentindo o meu coração ficar pequeno como uma azeitona.
― Sinceramente? Acho difícil ele não te perdoar. O é a pessoa mais leve que eu já conheci, com certeza no momento que você se abrir de verdade com ele, ele deixará tudo para trás. Agora, quanto a voltar... se ele não te quiser mais, pelo menos você vai ter tentado. Melhor sofrer porque tentou acertar e correu atrás dos seus objetivos do que uma vida desiludida pensando no que poderia ter acontecido.
― Eu não quero machucá-lo novamente. Eu prefiro partir o meu coração a demolir mais algum pedacinho do dele.
― Você não vai, . Só por esse pensamento eu tenho certeza que daqui pra frente você vai fazer de tudo para darem certo. Vocês são perfeitos juntos, não teria cara melhor para você do que o e ele te adora. Além disso, pode ter certeza que eu vou ser a primeira a te dar um tabefe se você começar com alguma paranoia de novo. - riu para mim e me ameaçou.
― Obrigada – sorri para ela, sempre trazia paz para a minha alma.
― Não precisa agradecer. é o seu brigadeiro, não é? Nenhuma mulher deve deixar escapar um chocolate. - piscou para mim, gracejando.
― Você é a melhor amiga do mundo, sabia? Eu te amo! – disse, grata por ter alguém tão especial como ela ao meu lado.
― Também amo você – respondeu e me deu um abraço caloroso, algo que eu precisava muito naquele momento e que retribui com afeto.

***


Resolvi esperar alguns dias e me preparar psicologicamente antes de procurar o . Eu precisava colocar a minha cabeça em ordem e ir segura do que eu realmente queria, não podia pisar na bola novamente. Eu tinha certeza que teria que provar a ele que estava pronta para nós e, por isso, não deveria vacilar nas minhas palavras.
Passei os dias do meu trabalho pensando em todas as coisas. As palavras de ainda estavam frescas na minha cabeça e me recordavam do que eu deveria fazer. Ao mesmo tempo, a frase da , quando eu contei o caso todo para ela, martelava em minha mente. Em suas palavras ela disse "Filha, você está esperando o que para correr atrás do seu homem"?
O que eu estava esperando?
Acho que coragem e as palavras certas. Confesso que havia um pouco de medo de ser rejeitada, porém, independente disso, eu sabia que deveria ir atrás dele. Mesmo que ele não quisesse me dar uma chance, ele merecia ouvir o meu pedido de desculpas.
Como já tinha acabado o serviço do laboratório, resolvi pegar o meu celular e ligar para o . Meu polegar tremeu antes de apertar o ícone da ligação e meu coração parecia que ia sair pela boca no momento que coloquei o aparelho no meu ouvido.
"Este telefone está desligado ou fora da área de cobertura..."
Aquela gravação chata da Vivo começou a falar e eu encerrei a ligação. Passei o dia quase todo tentando ligar para ele, mas era sempre a mesma mensagem.
Como eu faria para conversar com o desse jeito?
― Por que você não vai a casa dele? – me perguntou com um olhar preocupado, observando a minha mão que apertava o celular com afinco.
― Eu não sei onde ele mora. Ele nunca me disse... - lamentei.
― Hum... - enrolou um cachinho em seu dedo e ficou pensativa. ― Estranho. Cá entre nós, adoro o , mas acho que até eu ia ficar maluca com esse esconde-esconde dele em relação a sua vida.
― Ele pediu para confiar nele e que logo ele me contaria o que eu queria ouvir. - respirei fundo, lembrando ser esse um dos motivos que me deixaram mais paranoica do que eu já era com ele.
― Não sei os motivos dele, mas, de qualquer forma, isso é bom. Assim é mais fácil de vocês se entenderem, afinal, que mulher que não pensaria que o namorado estava com outra se o visse de chamego com uma desconhecida? Ele vai compreender.
― Pois é, o problema é que esse não foi um caso isolado, mas uma sucessão de coisas que foram acontecendo. A gente precisa conversar para conseguir se entender. Da mesma forma que ele investiu em nós e lutou várias vezes, eu quero retribuir confiando nele quanto aos seus mistérios, ainda mais que já ficou mais que claro que ele não é esse tipo de cara que eu tanto julguei.
― Você realmente gosta dele não é, ? – perguntou com um sorriso de canto.
― Sim, eu gosto muito! Ele só precisa saber disso.
― Tive uma ideia! Por que você não pede ao Sr. Freitas o endereço dele? Se ele fez o estágio aqui, então ele deve ter feito algum cadastro, sei lá. Inventa uma desculpa, fala que ele esqueceu algo, o Sr. Freitas deve te dar. - contou a sua ideia eufórica.
Levantei em um supetão do banco e corri para dar um abraço nela, beijando a sua bochecha repetidamente, enquanto ela ria.
, você é maravilhosa! Ótima ideia! Vou lá agora!
― Eu sei que sou! – piscou e jogou os seus cabelos para o lado fazendo pose, acenando em seguida para que eu fosse logo.
Sai correndo até a sala do Sr. Freitas, quase sem fôlego. Passei a mão por meu cabelo e tentei ajeitá-lo antes de bater à porta, em seguida a secretária dele me cumprimentou e permitiu a minha entrada.
? Que bom te ver aqui, precisava mesmo falar com você. Sente-se aí – Meu coordenador apontou para a cadeira assim que eu entrei e me ajeitei nela, pensando em que desculpa eu ia dar para conseguir o endereço do .
― Boa tarde, Sr. Freitas. Eu gostaria de te pedir algo.
― O que quiser, Dra. . Não negaria nada a uma funcionária querida como você, mas antes eu gostaria de te informar sobre uma coisa.
Arqueei a sobrancelha sem entender essa receptividade amorosa do Sr. Freitas. Não que ele fosse ranzinza, mas também não era esse love todo não. Querida? Desde quando ele falava assim comigo?
― Tudo bem, pode dizer – respondi um pouco incerta.
― Ah, , você não sabe como estou feliz. Queria ter te dado à notícia antes, mas eu estava em viagem, não pude. Contudo, fiquei sabendo dos resultados da sua pesquisa e saiba que estou muito feliz por você. Sempre acreditei nos seus projetos!
O quê? Mentiroso de uma figa. Qual parte que ele havia cortado a minha verba esse velho não se recordava?
Talvez fosse isso, agora que eu tinha uma pesquisa promissora ele voltaria atrás. Babaca!
― A sua pesquisa foi escolhida para ser financiada pela D&D. Você sabe que a partir de agora não terá como conduzir mais as pesquisas aqui porque não temos estruturas para prosseguir com uma descoberta nesse nível. A D&D, então, disponibilizou recursos para que você pudesse continuar o seu projeto na empresa deles. Não é maravilhoso? – falou empolgado e com os olhos brilhando.
― Espera... - estendi a palma da minha mão, embasbacada. ― Você está dizendo que a D&D, maior empresa de medicamentos do Brasil, vai financiar a minha pesquisa? Custear tudo? E eu vou poder continuar a frente dela?
― Exatamente isso que ouviu! Ela fez um termo cooperativo com a Universidade, portanto, você vai poder continuar o projeto lá e nos dias que não estiver na empresa você trabalha aqui normalmente cumprindo a sua carga horária de aula. - explicou, enquanto eu processava a notícia.
Eu não conseguia acreditar. Era mais do que tudo que sonhei. Minha pesquisa teria chance de ir muito além, a D&D tinha todos os recursos e instalações necessárias para que pudesse continuar com o processo.
― Como eles descobriram? Você indicou? Por que eu? – Eu estava sem chão, parecia que tudo era apenas um sonho muito bom.
― Ah! Eles já estavam há muito tempo à procura de um projeto novo para investir, o problema é que muitas pessoas fraudam os resultados fazendo com que eles pareçam promissores, aí quando eles vão pesquisar, gastam milhões em algo infundado. Dessa vez eles fizeram uma pesquisa criteriosa até descobrirem você. O importante é que foi escolhida e estou muito orgulhoso, Dra. !
Balancei a cabeça com os olhos enchendo de água de emoção.
― Tome esse papel, é o seu contrato. Você precisa assinar e entregar na empresa até semana que vem. Não se esqueça, você não vai querer perder essa oportunidade, não é?
― Não, senhor! Obrigada! – segurei o papel, trêmula, e levantei-me para ir embora, ainda atordoada com as notícias recentes.
― Boa sorte! – Sr. Freitas estendeu a mão me dando tchau e eu abri um pequeno sorriso.
Quando eu estava na porta, lembrei-me do que eu havia ido fazer lá inicialmente e retornei até a mesa dele, chamando a sua atenção.
― Sr. Freitas, você poderia me informar o endereço do ? Eu preciso muito falar com ele, porém, não sei onde ele mora. É muito importante! – nem dei desculpa nenhuma, apenas fui direta, esperando que a súbita bondade e receptividade dele fizesse com que me desse o que eu queria.
― Hum... Da residência eu não possuo, mas é muito provável que você o encontre na empresa.
Grande ajuda essa! Eu continuava sem saber como encontrá-lo.
― E o senhor poderia me informar o endereço da empresa? – perguntei, tentando tirar mais alguma informação.
O Sr. Freitas arqueou a sobrancelha para mim e torceu a boca, parecendo não entender a minha pergunta.
― O endereço você já tem!
― Não, eu não tenho. Eu não faço ideia de onde o trabalha – minha vontade era dizer que se eu tivesse, eu não perguntaria. Segurei-me para não rolar os olhos na frente do meu chefe e respirei fundo.
― Bom... o endereço é esse aí que está em sua mão. - apontou para o papel que havia me entregue.
― O da D&D? O trabalha nessa empresa? – indaguei, surpresa.
― Sim, isso mesmo. D&D ou e , a empresa de medicamento dos irmãos . Quem fundou foi o pai deles, mas quem levou o nome são os filhos.
― Ah? Como assim? – Eu não conseguia acreditar naquilo que eu estava ouvindo.
― Como eu disse antes, muitos pesquisadores forjam resultados ou não seguem os procedimentos corretamente, fazendo com que a empresa perca tempo e dinheiro com esses tipos de projetos. Cansado disso, o teve ideia dele mesmo vir visitar e conhecer as pesquisas do campus e assim escolher quem era merecedor do financiamento e qual projeto tinha potencial para o investimento. O se formou aqui e escolher a nossa Universidade foi uma forma de nos honrar pelo ensino recebido durante a sua graduação - explicou, pacientemente.
Eu estava literalmente chocada com as informações. O era dono da maior empresa de medicamentos do país, empresa esta que agora financiaria o meu projeto. Então era isso que ele estava escondendo. Se as pessoas soubessem que ele estava investigando, muitos babariam o ovo dele e fingiriam algo que não eram. Entretanto, com o anonimato, ele poderia conhecer muito bem como era o procedimento de cada um.
Agora tudo se encaixava. Como ele entendia as coisas que eu falava cientificamente, sabia manusear os procedimentos no laboratório, o carro bonito e como sempre me colocava fé que tudo daria certo no final. E se ele veio para espionar, ele não poderia contar a ninguém, muito menos para mim. Não ainda. Por isso que ele me pedia para confiar nele e que logo me contaria tudo, o seu "estágio" estava acabando, portanto não faltava muito para que estivesse liberado para me contar a verdade.
― Obrigada, Sr. Freitas – tentei soar menos chocada. ― Eu irei imediatamente até a D&D deixar o meu contrato e agradecer por tudo. - falei formalmente, sem querer transparecer o motivo real do meu choque.
Levantei-me apressada da sala, sabendo para onde deveria ir. Eu não esperaria mais nem um mísero segundo. Eu precisava ver o agora.





Capítulo 15 - Parte I


Parei em frente aquele edifício enorme, o sonho de qualquer pesquisadora da área da saúde. As letras da logomarca eram imensas e a cor vinho do D&D brilhoso em meio ao dourado era muito atraente. Qualquer um que passasse ali em frente se sentiria atraído a conhecer melhor aquela empresa.
Minhas pernas tremiam que nem pudim, eu segurava com força o papel que o Sr. Freitas havia me entregue, quase o amassando, e daria um jeito de conseguir me encontrar com o através dele. Estava receosa que ele não quisesse me ver depois de tudo o que aconteceu, todavia, eu não aguentava esperar mais, queria mostrar a ele que estava disposta a correr atrás do prejuízo.
Cheguei à mesa da recepção e perguntei como faria para encontrar o Sr. . O guarda arqueou uma sobrancelha, fazendo pouco caso.
― Tem hora marcada, senhorita? - cruzou os braços, encarando-me.
― Sim, preciso entregar este contrato a ele. - estendi o papel e ele o pegou, passando um olhar sério pela folha.
O guarda autorizou a minha entrada no edifício, mas me orientou que aquele papel não me dava o direito de falar com o chefe. Mandou que eu subisse até o quinto andar e fosse até o setor de Recursos Humanos, pois era lá que eram feitas as contratações.
Concordei, óbvio. Ele não precisava saber que a partir do momento que eu entrasse ali, faria de tudo para encontrar a pessoa que eu tanto queria ver.
Aquele lugar era uma coisa de louco. Era enorme e abarrotado de gente para lá e para cá trabalhando. Nunca nessa vida que eu imaginaria que era dono daquele império todo. Se eu soubesse disso antes de tudo o que aconteceu entre nós, seria mais uma coisa para eu colocar na lista de "Motivos para não me relacionar com o ". Envolver-me com um CEO não estava nos meus planos de jeito nenhum, era uma classe pior que os badboys aos meus olhos.
Surpreendi-me ao perceber que agora essa informação não me afetava em nada. Eu não tive vontade de fugir, nem mesmo quis voltar atrás. Eu havia conhecido a essência do e se eu estava ali era por finalmente escolhê-lo acima de qualquer estereótipo.
Peguei o elevador e, ao invés de parar no quinto andar, fui até o sétimo, já que minutos antes observei um quadro na recepção que mostrava o que tinha em cada andar daquele prédio enorme.
O solavanco do elevador ao chegar ao local de destino fez o meu estômago gelar, todavia, não era pela parada um pouco brusca. A minha inquietação era por estar cada vez mais perto de me encontrar com o .
Fiquei pensando o que ele faria ao me ver. Será que me receberia? Ficaria surpreso? Mandaria-me embora?
Vários "serás" passaram pela minha cabeça, entretanto, joguei todos para lá, disposta a não deixar a minha mente turbulenta ou qualquer medo me dominar. Eu precisava ser corajosa por nós se eu quisesse lutar pelo amor dele.
A porta do elevador se abriu fazendo um leve vento tocar o meu rosto. Respirei fundo e dei um passo à frente, pronta para vê-lo. Havia uma sala enorme com três portas, foquei na que estava à minha frente, onde continha escrito Diretor Geral - Sr. . Fui direto nela, estendendo a minha mão para girar a maçaneta. Contudo, antes que eu a tocasse, ouvi um pigarro alto, fazendo com que eu olhasse para trás, assustada.
― Onde pensa que vai entrando assim, mocinha? - uma voz velha e rouca chamou a minha atenção.
Era uma senhora de aparentemente uns cinquenta anos. Ela estava na minha frente de braços cruzados e tinha o crachá da empresa pendurado no seu pescoço.
― Desculpe. Preciso falar com o Sr. - preferi chamar o formalmente, talvez eu tivesse mais sucesso para conseguir falar com ele, ao invés de ser expulsa de uma vez.
― Aham, sei... Todos dizem a mesma coisa ao vir aqui, mas nem por isso podem ir entrando sem ser permitido. Você por acaso tem hora marcada? - a velha intransigente batia o pé, esperando que eu desse uma resposta plausível para a minha atitude.
Corei levemente envergonhada. Eu estava tão focada em ver o que já ia entrando sem avisar ou bater. Por que tudo precisava ser tão burocrático em uma hora como essa?
― Eu preciso entregar esse contrato a ele. É da UFRJ, pediram para entregá-lo pessoalmente ao diretor - contei uma leve mentirinha. Estava disposta a até aumentá-la caso necessário. Não arredaria o pé dali até conseguir falar com ele.
― Deixe-me ver isto - a senhora estendeu a mão e pegou o papel. ― Isso não é com o Sr. . Entregue isso no quinto andar. - Apontou a saída para mim.
Que velha mais chata, Cristo! Isso requer medidas mais drásticas!
― Olha, senhora, eu não queria dizer isso, mas visto que não me quer deixar entrar, então vou contar... - comecei a dizer diminuindo o tom da minha voz, como se fosse um segredo. Fiz uma cara de cachorro sem dono, tentando puxar toda a veia de atriz, se é que eu tinha uma. ― Eu estou grávida do Sr. . Vivemos um romance louco e agora eu descobri essa notícia. Ele sumiu e não consigo encontrá-lo de jeito nenhum. Descobri que ele trabalha aqui e foi à única forma de poder dar a notícia a ele, não quero que meu filho cresça sem a presença paterna. Por favor, deixe-me chamá-lo.
Vi o rosto da senhora ficar pálido, ela parecia que ia desmaiar. Suas pernas desfaleceram e ela cambaleou, pousando uma mão no peito e a outra na mesinha ao lado, tentando se apoiar para não cair.
― Santo Deus! - exclamou, parecendo estar sem ar.
― Senhora, você está bem? - perguntei, preocupada. A mulher parecia que ia enfartar na minha frente. Comecei a ficar desesperada e abaná-la com a minha folha do contrato.
Os olhos dela encheram de lágrimas e eu não soube o que fazer. Corri e peguei um copo de água no bebedouro que havia ali perto e entreguei a ela, que pegou com prontidão. Suas mãos tremiam e ela tentava beber o líquido, sem sucesso.
― Um filho... Você está grávida de um filho dele... - sussurrou, sem olhar nos meus olhos.
Ela tentou se desencostar da mesa para sair de perto de mim, mas foi a pior ideia que poderia ter acontecido, pois ela quase desmaiou e eu tive que ampará-la com os meus braços.
Vi a porta que eu queria entrar minutos atrás se abrir e dela sair uma mulher com umas pastas na mão. Reconheci ser a ruiva do shopping que, ao contrário daquele dia, hoje estava com roupas formais de secretária, mas que continuavam a destacar suas belas curvas.
Ela tinha um sorriso no rosto, mas logo se desvaneceu quando encontrou a cena deprimente a sua frente. Eu com as pernas tortas, tentando segurar uma velha pálida com os braços e que agora eu via que estava chorando em minhas mãos.
― O que aconteceu aqui? Clarisse, você está bem? - a ruiva correu em nossa direção, ajudou a tirar a mulher dos meus braços e colocou-a no sofá de espera da sala.
― Essa... Essa mulher disse que está grávida... grávida do meu marido! – a senhora apontou furiosa para mim e eu abri a boca chocada.
― O que?! Claro que não! – exclamei.
A ruiva parecia embasbacada com a bomba que a velha soltou. Que loucura era essa? Meu Deus! Não sei quem parecia mais chocada, a velha, a ruiva ou eu.
― Não minta para mim, garota! Você acabou de dizer que estava grávida do Sr. e me pediu ajuda para entrar na sala dele! - rangeu entredentes.
Acho que ela só não se levantou para avançar sobre mim porque a notícia havia a acertado em cheio.
― Há algum mal-entendido aqui. Não tem como o ser o seu marido! E eu já passei da fase de deixar a minha mente mirabolar uma coisa sem pé e sem fundamento desse tipo - falei tentando me explicar.
Alguma coisa estava muito errada ali. Vi os olhos da senhora se arregalarem novamente e um suspiro aliviado sair dos seus lábios. A ruiva parecia um pouco assustada com tudo, mas prendeu um riso nos seus lábios ao notar algo que eu não havia entendido ainda.
― Qual o seu nome? - a bela garota me perguntou.
- respondi, fazendo-a abrir um belo sorriso para mim.
! - Exclamou como se fôssemos íntimas.
Não era nem , ela me chamou de , só o me chamava assim. Isso me fez lembrar que eu precisava logo sair daquela confusão toda para encontrá-lo.
A ruiva soltou uma gargalhada e colocou a mão na boca, tentando se conter. Balançou a cabeça algumas vezes e vi pontinhas de lágrimas sair pelos seus olhos.
, essa é a Senhora Clarisse, esposa do Sr. , pai do . Essa aqui é a sala dele. - apontou para a porta atrás de nós, me fazendo compreender agora o grau da confusão que eu havia armado. ― Ninguém aqui chama o assim, no máximo Sr. . Ele odeia essas formalidades – explicou, risonha.
A ruiva parecia simpática e me tratou bem. Há algum tempo eu ficaria grilada com a intimidade e conhecimento que ela tinha sobre ele, mas, por incrível que pareça, nada estava me afetando hoje. Aquilo ali era a prova após tudo o que passamos, eu havia escolhido confiar nele.
― Então... grávida? Uau, o não havia me contado isso. - colocou as mãos na cintura e parecia animada com a notícia. ― Parabéns, ! O deve estar nas nuvens, pena que você terá duas crianças para cuidar. - riu e me deu um abraço, deixando-me constrangida.
― Oh, Deus, eu vou ser avó! - a senhora exclamou e colocou-se de pé para me abraçar também.
Em que eu havia me metido?
Antes que ela jogasse seus braços contra mim, resolvi segurá-la pelos ombros e desfazer essa confusão sem tamanho. Esperava que quando contasse a verdade, elas não me impedissem de vê-lo. Eu não podia enganar a garota e a velha dessa forma, minha consciência pesou.
― Desculpe o mal entendido. Olha... - respirei fundo e coloquei a mão na testa, escolhendo as palavras. ― Eu não estou grávida. Eu falei isso porque eu preciso muito falar com o e não me deixaram. Eu não posso sair daqui sem vê-lo e eu usei o último recurso que veio na minha mente para conseguir isso. Desculpa, senhora Clarisse, por lhe fazer pensar que seu marido havia te traído ou mesmo que eu esperava um filho do . Eu só... - engasguei, engolindo o choro que começou subir à minha garganta.
Eu parecia estar vivendo a lei de Murphy, pois quando as coisas têm que dar errado, elas simplesmente dão no pior momento possível. Já não bastava ter pisado na bola com o , eu estava queimada com a irmã dele, e ainda tive essa baita loucura acontecendo agora.
Eu só queria encontrá-lo de uma vez, dizer tudo o que estava sentindo e esperar a sentença final que ele daria.
― Eu preciso muito vê-lo. Eu cometi um erro, na verdade eu cometi uma sequência de erros e necessito esclarecer algumas coisas com ele. Por favor, não me mandem embora - supliquei com os olhos embargados.
A senhora me encarava como se me analisasse, todavia, a ruiva deu um pequeno sorriso para mim.
― Eu vou chamá-lo. O não fica aqui, ele passa a maior parte do tempo nos laboratórios do terceiro andar, mas pode esperar no escritório do pai dele, o Sr. deu uma saída e só voltará mais tarde. - Ergueu a mão para mim, a fim de me guiar até lá.
A senhora, que agora eu sabia que se chamava Clarisse, me olhou dos pés à cabeça, já um pouco recuperada do susto, e acenou permitindo que a ruiva fizesse o que havia sugerido.
Fui levada até o local e ela me instruiu que esperasse e sentasse ali na cadeira, enquanto o aguardava.
― Senhorita... - franzi o cenho, tentando me recordar do nome da garota que havia me falado naquele dia.
― Isabel - ela respondeu, auxiliando-me.
― Isso. Isabel, você se importa se não disser a ele que sou eu que o espera? - pedi, receosa que se ele soubesse da minha presença ali, pudesse não querer me ver.
― Claro, farei uma surpresa. Deixe comigo. - Piscou para mim e fechou a porta.
A ansiedade voltou a tomar conta do meu corpo. Comecei a morder o interior da minha bochecha e balançar a minha perna nervosa. Um frio percorria a minha espinha e todo o discurso que eu havia pensado e preparado já tinha derretido do meu cérebro. Eu mal conseguia raciocinar o que estava fazendo ali, só sabia que precisava permanecer.
Ouvi o som da porta abrindo e pulei da cadeira, sobressaltada. Virei-me em direção a ela e vi a pessoa tão aguardada entrar no recinto. Ele estava de jaleco e usava uns óculos que eu nunca havia visto. Ele era o mesmo, mas me parecia diferente. Era o real, sem esconderijos. Estava lindo como sempre, mas seu olhar parecia cansado, eu podia perceber leves olheiras debaixo dos seus olhos. Notar isso me trouxe um pesar e um sentimento de culpa grande.
Ele ainda não havia me visto e, quando ergueu o olhar e me encontrou, foi como se toda sinfonia do planeta ficasse no mudo. Eu já não ouvia mais o barulho do trânsito do Rio que entrava pela janela, ou o pequeno ruído do ar-condicionado da sala, os passarinhos que cantavam não entoavam mais e o barulho da nossa respiração foi cessada.





Capítulo 15 - Parte II - Final


? - sua voz cortou aquele silêncio e a bolha de olhares penetrantes que nos encontrávamos. Ele estava muito surpreso, boquiaberto, eu diria. ― O que faz aqui? - franziu a testa, tentando me analisar.
Pensei em erguer o papel do contrato e dar uma desculpa esfarrapada antes de chegar ao ponto, mas, milésimos de segundos depois, resolvi ser direta. Aquilo só poderia o magoar ainda mais e eu não queria que ele pensasse que eu estava ali só porque descobri o que fez por mim profissionalmente. Aquilo é o que menos importava no momento.
― Nós precisamos conversar... - falei baixo, pigarreando para tentar soar mais forte.
inspirou fundo e passou os dedos por seus cabelos , mais bagunçando-os do que arrumando-os. Estava nervoso, eu conhecia seus traços, além disso, tinha a aparência triste. Meu coração comprimiu-se sabendo que eu havia feito isso com ele.
Ele caminhou até o meu lado e escorou o seu quadril na mesa do escritório do pai, cruzando os braços em seguida. Dei uma leve desconcentrada quando senti o seu perfume tão próximo, mas me recuperei quando sua voz, um pouco fria, me tirou dos pensamentos enevoados.
― Pode dizer!
Eu não sabia se minhas palavras seriam o suficiente, não havia como prever o impacto que causaria nele, ou mesmo se seriam como jogar ao vento, independente disso, eu estava deixando as minhas armas de lado e a partir daquele instante, iria abrir o meu coração para ele.
― Queria te pedir que me escutasse. Eu sei que não mereço ser ouvida e nem que você perca um segundo do seu tempo comigo, mas eu precisava dizer algumas coisas por você, por mim e principalmente por nós....
― Não existe mais um nós, - interrompeu minha frase, aparentando estar machucado com o pronome que utilizei.
― Por favor, só me escuta, ok? Eu sei que fiz merda e eu me odeio por te magoar tanto - pedi, estendendo a minha mão ― , eu fui tão estúpida com você. Eu não vou voltar a explicar os meus entraves e as minhas dificuldades porque você já conhece cada um deles, desde o início você sabia como eu era, eu nunca escondi a verdade de você, pelo contrário, sempre deixei ciente que não o queria.
O semblante dele fechou mais do que estava antes e comecei a me preocupar ainda mais.
― Você está dizendo que a culpa é minha por ter insistido com você? - indagou-me ríspido, fazendo-me arregalar os olhos.
― Deus! Não! Não é isso, eu só estou dizendo que não vou entrar nesses detalhes mais porque você já sabe. Infelizmente para você, , eu sou uma pessoa complicada, coloquei barreiras entre nós que não eram necessárias, fechei-me quando devia me abrir e dei passos para trás quando deveríamos seguir em frente. Eu sou essa aqui - passei a mão pelo meu corpo, mostrando-me para ele. ― Uma mulher cheia de defeitos, muito segura para aquilo que tenho convicção e completamente insegura para coisas que fogem da minha zona de conforto que é a área sentimental. Eu achei que não era possível me entregar a alguém tão diferente do que eu planejei, para falar a verdade, eu nunca me imaginei com alguém como você, . Eu não quis te magoar, mas magoei, não queria te ferir, mas feri. Eu não posso voltar atrás, contudo, eu quero te pedir perdão por tudo, principalmente por ter desconfiado do seu caráter.
me encarava e analisava cada palavra que eu dizia. Enquanto eu falava trêmula e nervosa, seu cenho se franzia às vezes, provavelmente conferindo se o que eu dizia era verdadeiro e pensando o que faria depois. Ouvi o seu longo suspiro quando pedi seu perdão, ele passou a mão pelo rosto e ergueu a cabeça, mirando o teto. Quando voltou a olhar para mim, colocou as mãos no bolso e tomou o fôlego em uma expressão sofrida.
― Eu também errei com você. Não que eu tivesse outra opção, mas eu sei que se eu tivesse contado sobre a minha vida e tivesse sido aberto com você, esse mal entendido ridículo não teria existido. Eu te perdoo, , e também peço perdão por ter feito segredo de tantas coisas. Eu preferi omitir a mentir para você. Eu não queria dar uma versão falsa da minha vida, quando você fosse me conhecer de verdade, eu desejava que fosse o real, aquele que foi impedido de se abrir por causa do contrato da empresa. - Colocou o polegar e o indicador no vinco entre os olhos e tomou fôlego novamente para continuar. ― O contrato para que eu pudesse me infiltrar na Universidade não me permitia contar quem eu era. Foi necessário, ou ao invés disso seria uma investigação infundada, já que a maioria se portaria de forma diferente na minha frente.
― Eu entendo... - falei com sinceridade. Agora eu conseguia compreender tudo.
― Muitas vezes eu quis te contar e até quase escapou, entretanto, além disso, eu não queria que pensasse que iria conseguir o financiamento só porque eu gosto de você. O mérito é todo seu, a pesquisa é sua, eu pensei muito antes de tomar a decisão. Foram as suas atitudes que te levaram até aqui e não qualquer sentimento meu.
― Obrigada por isso, . Eu... não sei como agradecer. O Sr. Freitas me comunicou sobre tudo, só não toquei no assunto, pois quero que saiba que estou aqui por você e não por causa da pesquisa.
― Não precisa agradecer, como eu disse, o mérito é seu. O segredo foi um mal necessário para que ela acontecesse. Eu sei que parte disso te induziu a ter a reação que teve, mas sabe qual foi o problema? Mesmo assim, eu achei que o sentimento que a gente estava construindo pudesse nos levar a uma conversa ou ao benefício da dúvida, contudo, isso não existiu. Você somente me expulsou, não quis nem pensar se aquilo era real ou não, se o que a gente tinha merecia uma chance ou não... você só me afastou sem achar que eu tinha direito a uma mísera palavra sua... e isso doeu, , doeu como eu achei que nunca iria doer.
― Eu sei, , eu deixei o medo me levar, eu preferi acreditar na saída mais fácil do que te encarar. Achei que ter um motivo para te odiar seria mais fácil para te esquecer. Era melhor isso do que ver o cara incrível que você é... No final das contas, eu sempre achei que você se cansaria e me largaria, sempre tive medo de sofrer...
― Só que no final sofremos do mesmo jeito, não? - deu um sorriso triste. ― Você pode pensar que não, mas eu sempre acreditei na gente. Você não precisa se explicar mais, , eu perdoo você... A dor uma hora passa, talvez você encontre um caminho que seja mais fácil para seguir.
, você não está entendendo... - comecei a dizer, porém a sua voz me cortou.
― O pior de tudo é que eu entendo, . Eu entendo a sua cabeça, entendo os motivos que te levaram a pensar isso, entendo a sua dificuldade, mas...
― Mas? – perguntei, quando ele deixou a frase morrer.
― Mas como eu disse, não estamos na mesma página. Eu quero tudo de você, mas recebo migalhas, não podemos continuar dessa forma, não posso viver pensando que um dia você vai aparentar gostar de mim e no outro me expulsará da sua vida. Quando a gente conversou pela primeira vez, você me encantou de tal forma que achei ter conhecido a pessoa certa para mim. Você não queria se aproximar de mim pelo meu exterior, uma cara bonitinha ou pelo meu dinheiro. Pelo contrário, como você me dizia... Eu era perfeito - abaixou a cabeça e deu uma risada amarga em lamento. ― E era por isso mesmo que você não me queria. Imagina que incrível quando eu conheci a mulher que desejaria qualquer pessoa menos eu? Naquele momento, , eu sabia que tinha encontrado a pessoa que eu sempre busquei. Tudo depois foi complemento, a sua determinação, inteligência, personalidade... Pensei que com o tempo você me permitiria entrar no seu coração como você entrou no meu, entretanto, eu estive errado. Não posso te culpar por seu sentimento não ser o suficiente para levar essa relação, .
Meus olhos embargaram tendo noção do rumo dessa conversa. Ele precisava saber que não estava sozinho nesse barco. Eu tive medo, eu errei, todavia, havia aprendido a minha lição. Não queria perdê-lo de novo.
― Não, , você está errado. Digo, você está certo, eu fiz tudo isso... - pensei nas palavras que diria. ― Eu errei, eu fugi, tive medo de tudo, mas eu não quero continuar assim mais. Eu não vim até aqui só para te pedir perdão, eu vim porque eu precisava te dizer o que eu sinto... - fiz uma pausa, criando coragem para despir os meus sentimentos.
Eu queria ser clara, eu queria tirar a armadura que eu coloquei. Não era fácil, eu nunca havia feito isso, seria enfrentar aquilo que eu mais temi, era como ficar nua em meio a uma multidão, mesmo que ali só estivesse e eu.
― Eu descobri que você é o brigadeiro da minha vida! - Falei a primeira coisa que veio a minha boca, tentando tirar o cadeado que eu havia colocado no meu coração e me recordando da conversa filosófica de .
― Como? - ergueu uma sobrancelha, sem compreender o que estava dizendo.
― É aquele que faz tudo dar certo - continuei, tomando força para prosseguir.
, não estou entendendo....
Meu Deus, eu estava indo de mal a pior. Queria falar palavras bonitas, mas acho que nem todo discurso decorado sairia perfeito naquele momento.
― Esquece, - balancei a cabeça negativamente e foquei nos seus olhos , que pareciam atentos e ansiosos pelo o que eu diria. ― O que eu estou querendo dizer é que sou apaixonada por você e eu te quero de volta.
abriu a boca, surpreso com o que havia escutado. Retirou as mãos do bolso e deixou-as cair ao lado do seu corpo. Antes que ele dissesse qualquer coisa, continuei a falar, me prevenindo que acontecesse algo que colocasse tudo a perder novamente.
― Eu sei que fui tola, posterguei o máximo possível e fiz de tudo para que você desistisse de mim. Mas eu não consegui. Essa batalha já estava perdida para mim desde o começo. , eu posso ter travado uma guerra com os meus sentimentos, mas no final, você venceu... na verdade, nós vencemos, pois me sinto tão vitoriosa com isso quanto você. Eu estou completamente apaixonada! Posso ter me dado conta disso tarde demais, posso ter camuflado no meu interior o máximo possível, mas é a pura verdade. Eu não quero seguir mais teoria nenhuma, , sabe por quê? Nenhuma ciência é capaz de explicar o que eu sinto por você.
... - balbuciou meu nome, mas eu me adiantei e andei até ele, deixando os nossos corpos frente a frente, quase colados.
― Por favor... me dê mais uma chance. Não vou dizer que sou perfeita, porque não sou, nem vou prometer que não errarei mais. Contudo, posso dizer uma coisa, que lutarei por nós todos os dias. Não vou fugir disso mais - falei apontando para nós dois. ― Eu não quero fugir. Eu estou aqui para dizer que estou quebrando todos os muros, estou destrancando o meu coração e a porta dele está aberta... só para você.
parecia embasbacado, mas pudera... eu também estaria se estivesse no lugar dele. Outro dia eu estava receosa de dizer que gostava dele e agora eu estava ali, sem máscaras, em minha forma mais exposta.
― E o que me garante que isso não são apenas efeitos dos seus hormônios? - perguntou hesitante, usando de uma das muitas justificativas que antes eu dava para ele.
― Mas quem disse que também não são eles? - respondi. ― A diferença é que eles poderiam ter escolhido qualquer um para se manifestar, mas o meu coração escolheu você! Ou melhor, o meu cérebro né, porque esse negócio de coração é pura filosofia romântica. Ele é apenas um órgão cardiológico - abaixei a cabeça e ri, percebendo que já estava divagando. Olhei para novamente e sua expressão parecia mais feliz e emocionada, pousei minhas mãos no rosto dele e dei um passo à frente. ― A verdade é... eu te quero, , foi somente a sua pessoa que fez a minha ocitocina ser liberada.
― Ocitocina, o hormônio do amor? - perguntou com uma leve risada querendo despontar.
― Sim, esse mesmo - abri um sorriso para ele. ― Eu te amo, . O amor é o único sentimento que está acima da ciência e da razão. O que eu sinto vai além dos meus hormônios, está embriagado e consumido em meu ser. E se você sentir pelo menos metade do que eu descobri nutrir por você, quero, então, que desfrutemos disso juntos, pois vale a pena tentar.
O sorriso dele se enlargueceu e ali eu vi que ele acreditava em cada uma das minhas palavras. Mais do que isso, ele as compreendia fielmente.
pousou as suas mãos sobre as minhas que estavam em seu rosto e acariciou-as, trazendo-me o sentimento de nostalgia com o seu toque.
― Quer dizer então que eu sou o seu brigadeiro? - o ar brincalhão estava de volta em seu rosto. Tirou as minhas mãos da sua face e colocou em volta da sua cintura.
― Sim... - respondi baixinho, encarando os seus olhos e encostando meu rosto no dele.
― Devo ficar muito honrado, pois não há nada que você ame mais do que chocolate. - Moveu os seus lábios bem próximos do meu.
― Tem sim... você!
Nossos lábios movimentavam-se tão perto, que sentíamos o calor do hálito um do outro.
― Bom... eu não sei com o que posso compará-la, porque eu creio que nada chega aos pés do que sinto. É recíproco, , não é metade, menos ou mais. Eu te amo e agora eu vejo que sente por mim o mesmo que sinto por você.
Meus olhos encheram-se de água e o momento foi selado com um beijo. Eu achava que já havia provado e sentido os melhores beijos dele, mas aquele era diferente. Havia entrega total, havia amor. Desfrutar dos seus lábios sem um fardo nas costas era bem diferente, tinha uma leveza e não me causava medo.
Com meus braços envolvidos em seu pescoço e naquele momento afetuoso, percebi o quanto havia evoluído e como o havia sido fundamental para isso. Eu me achava uma pessoa madura, desenvolvida e inteligente, entretanto, ele trouxe para minha vida muito mais.
Com o eu aprendi que nem tudo pode ser explicado, que a vida pode ser muito mais fácil e que muitas das barreiras e dificuldades nós mesmos é que colocamos. Aprendi que nem tudo é o que parece e que não podemos julgar um livro pela capa, ou melhor, não podemos definir estereótipo de ninguém. As pessoas podem nos surpreender e mostrar mais daquilo do que realmente são. Uma aparência não define caráter e uma dúzia de palavras não são suficientes para julgarmos alguém.
Com o eu aprendi o que era amor e que eu não precisava mais fugir das músicas do Ed Sheeran. Entendi que o ser humano não pode ser conduzido por uma única linha e que uma pessoa é formada por muito mais do que uma simples genética, caráter não é provado por experimento químico.
Eu cresci, tornei-me alguém melhor, e sei que não foi apenas eu. Uns aprendem mais rápido, outros demoram mais. Algumas mudanças são difíceis, enquanto outras não. Porém, o que importa, é a nossa disposição para que isso aconteça.
Não sei o dia de amanhã, eu poderia errar e o também, poderíamos daqui alguns anos ver que nada daquilo daria certo, mas hoje, eu queria tentar.
Não deixei o meu aprendizado de lado, apenas agreguei as minhas descobertas novas a eles. E se o amor realmente fosse uma ciência, mesmo que todas as teorias comprovassem que a nossa relação estava enquadrada em um futuro não promissor, eu estaria disposta, junto com , a fazer parte, então, da pequena porcentagem que ia contra tudo aquilo que a pesquisa dizia, a exceção à regra, os indivíduos que não compactuaram com os conceitos científicos, porque simplesmente se amaram.





FIM!


Nota da autora: (10.07.2017) Oi, pessoas lindas <3
Eu estou emocionada por finalizar Fisiologia do amor aqui, desculpa o textão abaixo, mas não desistam de mim rs.
Talvez nem todos saibam, mas FDA para mim foi um experimento. Eu tive uma ideia muito louca enquanto estudava sobre o amor segundo a ciência e os hormônios do nosso corpo. Fiquei pensando: "E se tivesse alguém que segue a risca e acredita fielmente nisso tudo?". Foi assim que nasceu a nossa doutora do amor!
Vivemos muitas emoções com ela, amamos, odiamos, nos encontramos e outras vezes tivemos vontade de bater nela hahaha Eu quis fazer da pp uma personagem que não era perfeita, mas que cada um, apesar da forma exorbitante dela, pudesse se encontrar um pouco. Ela é determinada, mas também tem suas inseguranças, ela luta por aquilo que acredita, mas também precisa enxergar que nem sempre na vida o que a gente segue é completamente certo.
Vocês podem pensar que a pp é exagerada (e de fato ela é, porque a história tem umas pitadas de humor e foi necessário), mas existem muitas pessoas dessa forma por aí. Sejam nas suas crenças, cultura, religião, conceitos pré-estabelecidos, etc. É muito fácil para nós acreditarmos e defendermos o que a gente pensa, contudo, difícil é abrir mão do nosso "eu" para conhecer coisas novas. Na vida precisamos nos desconstruir e reconstruir o tempo todo, e foi exatamente isso que a pp passou.
Fico feliz por cada um que tirou o seu tempinho para ler essa história, eu não esperava ter tantas pessoas acompanhando. Foi a minha primeira escrita nesse estilo, estou acostumada com dramas mais tensos, mortes e sangue hahahah Sei que não é a melhor história ou a mais perfeita, mas só de ter proporcionado algo legal e por terem gostado, já fico imensamente feliz.
Quero agradecer a todo mundo que fez parte desse processo, inclusive a minha beta maravilhosa <3 Sem ela não teria história por aqui haha
Enfim, é isso! Esperam que tenham se divertido e se gostaram mesmo de Fisiologia do Amor, o que achariam se eu escrevesse outra historia nesse estilo???

Preparados para a surpresinha que eu tenho aqui?

No início, a ideia de FDA era uma historia só, mas tivemos personagens tão queridos, que foi impossível eles não ganharem vida própria, como é o caso da nossa querida estagiaria <3 <3
Por isso, espero que acompanhem agora Psicologia do Amor! Uma história leve e divertida sobre uma estudante de psicologia que busca desesperadamente um paciente para o seu projeto de faculdade. Com uma ajudinha do destino, ela encontra um cara, bêbado, na porta da sua casa. Um rapaz que nunca conheceu e que acaba de ter o coração partido, indo de mal a pior.
Como diz o ditado, quem não tem cão, caça com gato, não é?
Juntos esses dois irão embarcar em uma aventura única entre conhecer mais do amor e sarar as feridas do coração. Espero encontrar vocês por lá! Obrigada novamente e até a próxima <3



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Nota da Beta: Acabooou, tô triste! Fisiologia do amor era tão fofa, super bem escrita, gostosinha de ler e ainda tinha um tema completamente diferente do que já vi! Ameeei tudo, o jeito do Bê, as inseguranças da Ceci, ( confesso que tinha vonatde de entrar na história e bater nela hahaha). Enfim, você arrasou com essa história, Lud! Tu escreves bem demais, sem comentários, agradeço demais por ti ter me escolhido como beta. Obrigada pela parceria! <3
Estou braços abertos para receber Psicologia do amor, que mal começou e eu já tô amando! <3






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