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Última atualização: 22/07/2017

Capítulo 1


“Em paz, eu digo que eu sou o antigo do que vai adiante. Sem mais, eu fico onde estou, prefiro continuar distante...” – Resposta, Skank.


A noite estava fria, o vento forte fazia com que as folhas das árvores balançassem violentamente, indicando que certamente uma chuva intensa começaria a cair a qualquer minuto. Embora a temperatura estivesse baixa, frio era o que eu menos sentia naquele momento, haja vista que eu não parava um minuto sequer, pois me desdobrava entre colocar champagne nas luxuosas taças de cristal e arrumar os quitutes sofisticados na bandeja, a fim de que todos fossem levados dali pelos garçons e garçonetes contratados para aquele típico evento da classe alta. Olhei aquela cozinha abarrotada de pessoas que corriam de um lado para o outro, todas focadas em fazer o seu trabalho da maneira mais impecável possível, levando em conta que aquela era mais uma das tantas exímias festas da brilhante e popular família , conhecida por sua tradição no ramo de advocacia, onde Kyara e Henrico formavam o casal mais prestigiado nesta área.
Kyara é a advogada mais influente na área de Direito de Família, onde possui muito reconhecimento atuando com divórcios litigiosos – divórcios que ocorrem de forma não amigável, ou seja, onde há conflitos na vida conjugal e isso resulta em uma ação judicial – e já recebeu diversos prêmios, sendo, também, sócia de um renomado escritório. Henrico é advogado criminalista e dono de um dos mais poderosos escritórios de advocacia do país, adquirindo reconhecimento defendendo – e ganhando – casos famosos que obtinham cobertura jornalística, portanto, sendo recorrentemente citado pela mídia. Os dois tinham um filho, , que também decidiu seguir carreira em Direito, tendo se formado há pouco mais de três anos. Eles eram, definitivamente, louváveis neste quesito.
Olhei para o lado e vi que a minha mãe passava a mão na testa e suspirava, cansada, enquanto terminava de cortar alguns tomates. Fui até ela e gentilmente peguei a faca de sua mão, recebendo um olhar confuso em resposta ao meu ato.
- Deixa que eu faço isso, mãe. Senta um pouco – falei, já começando a cortar os tomates em pequenos cubinhos.
- Não precisa, filha. Você já está ajudando muito, nem era pra você estar fazendo isso. E toma cuidado, a faca está afiada – ela argumentou, tentando pegar a faca da minha mão, porém, eu a impedi.
- Você acha que eu sou tão desastrada a ponto de não conseguir cortar alguns tomates? – ela me olhou com deboche, como se nem precisasse me responder.
Fitei-a boquiaberta.
- Eu quero ajudar, não seja teimosa, dona – soltei uma risadinha com a cara resignada dela, já sabendo que eu não desistiria. Observei-a sentando-se em um dos bancos espalhados pela enorme cozinha e voltei a minha tarefa anterior, tomando cuidado para não me cortar.
Minha mãe trabalhava há muito tempo como cozinheira na casa dos , possuo diversas lembranças de vê-la cozinhar enquanto eu desenhava ou fazia lição sentada na mesa. Após a morte do meu pai, passei a acompanhá-la ao seu local trabalho diariamente. No momento em que comecei a escolinha, minha mãe me levava e, de lá, seguia para o trabalho; Já na volta, uma amiga dela me buscava e ia junto comigo até a mansão, o que se tornou desnecessário ao passo em que eu completava mais idade, adquirindo a possibilidade de ir e vir sozinha. Nesse tempo, eu via poucas vezes andando pela casa, afinal, ele sempre tinha diversas atividades para fazer, e comumente ouvia-se a dona Kyara o apressando para a aula de natação, hipismo, violão e tudo mais o que você pode imaginar.
Eu nunca consegui entender essa fixação que gente rica tem de enfiar os filhos em milhões de tarefas.
Com a morte do meu pai, a nossa situação financeira foi de mal a pior, chegando ao ponto em que nós corríamos risco de sermos despejadas da nossa casa devido à falta de pagamento do aluguel. Aquela época foi horrível, eu ainda era criança, não entendia ao certo o que havia de errado, contudo, via a minha mãe constantemente desesperada e sofrendo para conseguir quitar as dívidas. Isso não era possível somente com o seu salário, então, a dona Kyara ofereceu a casa dos fundos da mansão para que nós morássemos, contanto que isso não atrapalhasse o rendimento da minha mãe no trabalho. Era um anexo, tipo uma casa de caseiro que localizava-se aos fundos da moradia principal. Ela prontamente aceitou e moramos aqui até hoje. O dinheiro que ia para o aluguel e outras despesas fora investido na minha educação junto a uma quantia que ficava em uma poupança da qual meu pai deixara para mim, exatamente para este propósito, e, com isso, no primeiro ano do ensino médio, pude entrar em um ótimo e renomado colégio. No começo eu tive bastante dificuldade para conseguir acompanhar o ritmo do ensino – que era extremamente puxado – e, outra situação bem chata se deu ao fato de ter que lidar com os meus colegas de classe e até alunos de outros períodos. A grande maioria – se não todos – os alunos do colégio usufruíam de uma excelente vida financeira e viviam confortavelmente, e quando me questionavam a respeito da ocupação dos meus pais, eu ficava insegura em dizer-lhes que eu era bem diferente deles neste aspecto, afinal, as pessoas não sabiam lidar com desigualdades sociais e isso originava piadinhas e comentários maldosos. Mesmo assim, eu decidia falar, pois jamais tive vergonha da minha mãe ou de sua profissão.
Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio havia acabado de entrar na faculdade, optando por não se mudar para estudar em outro lugar, haja vista que, nessa época, a dona Kyara desenvolveu sérios problemas de saúde e, como o senhor Henrico viaja constantemente para fora do país, não quis deixar a mãe sozinha. passou em Direito em uma ótima faculdade – uma das melhores do país e que se localizava na cidade –, sendo, coincidentemente, a faculdade da qual eu sempre quis fazer parte. Tendo isso em mente, estudei muito, atormentei meus professores, fiquei dia e noite focada nos livros – muitas vezes levando bronca da minha mãe pela minha falta de descanso – e, finalmente, consegui a minha tão sonhada vaga. Agora eu me encontrava caminhando para o fim do curso de Psicologia, ansiando cada vez mais pelo dia em que eu concluiria a faculdade e, claro, pelo dia da minha tão sonhada formatura.
Eu terminava de cortar o último tomate no momento em que o bendito escorregou, fazendo a faca ir de encontro ao meu dedo indicador, formando um corte um tanto quanto feio. Soltei um murmuro de dor, vendo que o sangue saía descontroladamente do corte ao mesmo tempo em que sentia uma ardência latejante nele.
- , o que foi que eu te disse? – minha mãe brotou ao meu lado, olhando minuciosamente o meu dedo machucado.
- O tomate escorregou – choraminguei fazendo uma careta de dor, indo para a pia a fim de lavar o sangue.
- Toma, coloca esse papel pra controlar o sangramento – ela me entregou o papel e eu o enrolei no dedo – vou procurar um band-aid e mertiolate.
- , será que você poderia me ajudar aqui? – uma moça pediu, apontando para um amontoado de panelas.
- Tudo bem, mãe. Deixa que eu vou procurar – saí da cozinha e segui para o pequeno banheiro que ficava perto da área de serviço.
Abri os armários e busquei por todos os lugares, não encontrando nem o band-aid, tampouco o mertiolate. Bufei, segurando o papel mais firmemente em meu dedo e fui para a despensa onde ficavam os medicamentos e produtos para banheiro. Abri a porta e entrei no local, iniciando novamente a minha busca, sentindo o meu dedo latejar cada vez mais. Estava distraída mexendo nas prateleiras até que percebi uma movimentação no lugar. Virei-me e dei um pulinho idiota de susto ao ver que alguém havia entrado.
estava parado perto da porta, me olhando com a maior cara de interrogação possível.
Ele vestia uma blusa social justa da cor branca e as mangas estavam dobradas nos cotovelos; a gravata e a calça jeans eram pretas e, o sapato social, marrom escuro. Seu cabelo continha uma mistura de charme e rebeldia. Estava bonito e...
Opa, espera aí.
Mas o quê...?
É, eu estava o analisando demais.
Franzi o cenho com a minha atitude e saí do mundo da lua, voltando à realidade.
Percebi que o seu olhar encontrava-se direcionado para algo, segui a sua observação e vi que ele encarava o meu dedo machucado onde o papel estava amassado e manchado de sangue. Por instinto, eu recolhi a mão e lancei-lhe um sorriso sem graça quando ele voltou a me encarar com a sua costumeira expressão séria. Virei-me novamente para a prateleira, agradecendo aos céus por finalmente encontrar o band-aid e o mertiolate. Peguei ambos e ainda estava parado perto da porta, passando os olhos pelas prateleiras, parecendo perdido ao procurar por algo enquanto me esperava sair, já que o lugar não era grande o suficiente para nós dois.
- Eu posso ajudar? – perguntei sutilmente a ele, que desviou os olhos da despensa e voltou a me fitar.
- Não, pode ir – sua voz grossa sutilmente rouca fez-se presente.
Assenti e saí, querendo fazer o curativo o mais rápido possível.
- Ta tudo bem? – a voz grave soou novamente. Parei de andar e olhei pra trás, confusa. Ele permanecia parado perto da porta, porém, agora, suas mãos estavam no bolso de sua calça e o seu semblante permanecia sério. Percebendo que eu não entendia sobre o que ele estava falando, apontou com a cabeça para o meu dedo machucado.
- Ah, sim. Tudo bem. É só um cortezinho – respondi abanando com a mão como se aquilo não fosse nada. Percebendo o seu silêncio, sorri em despedida, pronta para, definitivamente, sair de lá. Ele retribuiu com um aceno de cabeça e eu voltei a andar, apressada para cuidar do corte e tornar a ajudar a minha mãe.
Eu morava aqui há muitos anos, e, em todo esse tempo, o máximo que e eu falávamos um para o outro era “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Bom... Às vezes ele também me perguntava se eu sabia onde estava algo.
De vez em quando eu tinha a impressão de que ele não ia muito com a minha cara, e a ideia de incomodá-lo me deixava incomodada.
passava o dia inteiro no escritório e eu, na faculdade. Aos sábados, eu trabalhava meio período em uma loja de discos, chegando à tarde, e dificilmente via o carro de na garagem. Terminei de colocar o band-aid no meu dedo e parei com os devaneios, voltando para a cozinha e encontrando todos da mesma forma: trabalhando.
- Pensei que tivesse se perdido pelos cômodos – minha mãe comentou em um tom brincalhão.
- Fiquei procurando as coisas, tive que ir até a despensa – respondi – O que eu faço agora? – indaguei olhando em volta.
- Por enquanto nada, filha. Pode descansar. Se eu precisar de algo, te chamo – ela preparava alguns quitutes que pareciam maravilhosos. Eu peguei um e recebi um olhar repreendedor. Ri e olhei pela janela, percebendo que, como previsto, uma chuva tórrida começava a cair.
De longe, ouvia-se a melodia suave de alguma canção. Fui à sala de jantar e me aproximei cuidadosamente da porta que dava para a enorme sala de estar, onde a festa acontecia. Tentei ficar o mais escondida possível, dado que não desejava parecer curiosa ou intrometida. Eu apenas gostava de apreciar o ambiente e as sempre lindas decorações que eram criadas. Diversas pessoas encontravam-se distribuídas por ali, todas em seus trajes luxuosos, rindo e conversando, como no mais perfeito comercial de leite em pó. Os garçons circulavam entre os convidados com bastante habilidade, tudo na mais primorosa ordem enquanto distribuíam canapés e bebidas, servindo e entregando taças a quem não tivesse uma. Continuei passando os olhos pelo local, parando em um seleto grupo de pessoas, e, no meio delas, estavam e sua namorada, Cassie. Eles comunicavam-se com os outros distribuindo sorrisos e risadas.
estava despojadamente com um dos braços ao redor dos ombros dela, que, por sua vez, mantinha um dos próprios braços envoltos na cintura dele. Dei um sorriso frouxo e suspirei, focando a minha atenção em outro lugar.
- Você nunca ouviu falar que espiar é feio? – uma voz soprou em meus ouvidos, me fazendo pular sobressaltada devido ao susto. Olhei para trás imediatamente e, quando vi de quem se tratava, rolei os olhos. Tratava-se de , melhor amigo do . - Não tinha uma frase menos clichê do que essa? – rebati, fazendo a maior cara de tédio que consegui.
- Boa noite, . Aproveitando a festa? – ele parou na minha frente com um sorriso enviesado carregado de prepotência. Respirei fundo.
- Quem não deve estar aproveitando a festa é você, já que teve que vir aqui me encher o saco – lancei-lhe um olhar de desprezo, cruzando os braços e continuando a olhar o evento, ignorando , que estava ao meu lado.
- Ouch, como você está arisca. Assim eu fico magoado – retrucou com um tom que emanava falsa ofensa. Revirei os olhos e resolvi que era melhor sair dali. Dei as costas e andei em direção à cozinha, não sem antes ouvi-lo dizer pela última vez: – Já vai? A minha presença te afeta tanto assim?
Parei no meio do caminho, direcionando-lhe um olhar atravessado e um sorriso cheio de desdém.
- Pra me afetar tanto assim – frisei – a sua presença teria que me afetar pelo menos um pouco, o que não é o caso. Eu simplesmente não costumo dar atenção ao que nada me acrescenta – sorri cinicamente enquanto ele me fitava com a feição zombeteira e voltei para cozinha sem olhar pra trás.
O resto da noite seguiu normalmente. Permaneci tão ocupada que nem mesmo havia notado em como as horas passaram rápido. Olhei no relógio de parede e me assustei ao ver que ele marcava 2h35min. Os responsáveis pela limpeza da cozinha já guardavam os utensílios dos quais estavam fora do lugar, asseando, ensaboando e varrendo a fim de deixar a cozinha impecavelmente limpa.
- , filha. Pode ir pra casa, você trabalhou hoje. Eu vou ficar aqui e terminar de ajudar – minha mãe disse, aparentando estar tão cansada quanto eu, ao passo que secava a louça. Neguei com a cabeça, pegando o prato que ela acabara de secar e guardando-o.
- Vocês duas já podem ir, tem mais gente pra ajudar aqui – Judith apareceu em nossa frente, sorrindo ternamente. Ela era uma simpática senhora que ocasionalmente auxiliava nas festas e na cozinha, e eu a tinha como uma avó. Minha mãe abriu a boca para contradizer, porém, Judith levantou uma mão, mostrando a palma da mesma como se dissesse que não aceitaria ser contestada. Sorrimos para ela e nos despedimos do restante das pessoas que ali estavam, saindo pelos fundos e seguindo para a nossa casa. A temperatura parecia ter caído um pouco mais após a chuva ter cessado, e tudo o que eu pensava era na minha cama quentinha. Assim que me viu, Bento, o cachorro de , veio correndo em minha direção, esfregando-se na minha perna pedindo carinho. Ele era um pastor alemão extremamente carinhoso e não podia me ver que não desgrudava de mim.
- Olha só quem apareceu! Você sabe que o seu dono vai pirar quando perceber que você saiu e molhou as patas, não é? – falei pra ele enquanto acariciava atrás de suas orelhas. Bento me encarava como se me entendesse, e eu podia jurar que esse cachorro começaria a falar algum dia. Sério. Olhei pra frente e percebi que e Cassie despediam-se de , que entrava em seu carro, pronto para ir embora. e eram melhores amigos há anos, na época em que me mudei pra cá, eles já eram próximos e faziam tudo juntos – Vai lá com o seu dono que ele está te procurando, amanhã eu prometo que brinco com você – Bento tombou a cabeça para o lado e não se moveu – Vai, olha lá ele vindo – ri e acariciei suas costas, enxergando, de longe, vindo ao encontro do seu cachorro, que me olhou uma última vez, finalmente correndo para o dono.
Ele passou as mãos na cabeça do cão, fitando suas patas e falando algo que eu não pude escutar. Os dois seguiram para dentro da mansão acompanhados de Cassie, que os aguardava do lado de fora. Presumi que ela provavelmente dormiria lá. Senti a brisa gélida bater contra o meu rosto e apressei-me para entrar em casa, já percebendo o meu nariz esfriar devido ao frio. Tomei um banho quente e cai na cama, adormecendo velozmente.



Capítulo 2


O esperado é só o começo, mas é o inesperado que muda nossas vidas. – Meredith Grey.


O domingo havia amanhecido ensolarado, embora a temperatura não estivesse alta. O céu estava limpo e extremamente azul, nem parecendo que uma forte chuva caíra na noite anterior. Eu brincava com Bento no gramado descampado há horas, já me sentia cansada e com dor nas pernas – sedentarismo mandou olá, – não vendo um mísero sinal de exaustão no pastor alemão, que procurava a bolinha que eu acabara de jogar. A casa estava vazia, pois, mais cedo, todos foram tomar café da manhã fora e acompanhar o senhor Henrico ao aeroporto, pois ele viajaria dali a poucas horas.
- Não, Bento! Na lama não. – corri para tentar alcançá-lo e impedi-lo de ir para o jardim, caso o contrário, o estrago seria muito feio. – BENTO, VOCÊ QUER ME VER MORTA? VOLTA AQ... – ia terminar de gritar pelo cão que corria feliz em direção ao seu destino proibido, até que tropecei nos meus pés, caindo igual abacate cai do pé. Como em um passo mágica, Bento parou imediatamente de correr e olhou para trás, e acredite, se cachorro desse risada, ele estaria rindo. Eu estava estatelada no chão sentindo as minhas roupas sujas com a grama ainda úmida da noite de ontem. O cão veio em minha direção, sentando-se na minha frente, e eu bufei, visto que ele finalmente parou de correr, mas eu precisei levar um tombo feio para que isso acontecesse.
- Está satisfeito? Hoje o Taz-Mania* possuiu você ou coisa do tipo? – e lá estava eu, batendo papo com um cachorro que me observava como se eu fosse louca, enquanto permanecia jogada na grama, bem do jeito que caí. – até que é gostoso ficar deitada aqui, sabe? Acho que dá pra te entender. – virei de barriga pra cima, me rendendo, já que as minhas roupas encontravam-se sujas de qualquer forma, e encarei o céu límpido. Bento deitou-se ao meu lado e eu comecei a acariciá-lo. Não sei por quanto tempo fiquei daquela forma, me sentindo totalmente relaxada, porém, despertei subitamente ao ouvir aquela voz grave, que parecia estar perto demais.
- Bento! – chamou, atraindo a atenção do cachorro que levantou a cabeça com as orelhas arqueadas. Ergui-me rapidamente, passando as mãos na minha roupa repleta de grama, um tanto quanto atordoada. estava com uma roupa de corrida e a coleira do Bento em mãos, alternando o seu olhar entre mim e o cão, já posto de pé ao meu lado. Ele fez o típico cumprimento acenando a cabeça e eu lhe respondi com um sorriso, já saindo dali quando repentinamente senti um tranco no meu corpo e mais uma vez o baque do chão. Bento pulou em mim, me levando a cair de bunda, começando a me farejar e intercalando o ato com lambidas frenéticas no meu rosto. O que tinha dado naquele cachorro? Eu fui pega totalmente de surpresa e só conseguia tapar o rosto e rir, tentando me levantar e me liberar do cão eufórico.
- Bento, para! – falava e tentava, com dificuldade, afastá-lo. Vendo que seu cachorro não pararia tão cedo, ele veio por trás de mim, passando seus braços por debaixo dos meus e me levantando de uma vez só e, no ato, as minhas costas bateram contra o seu peitoral, nos fazendo cambalear um pouco para trás. Como se percebesse o meu embaraço, Bento parou com a exaltação e passou a encarar a mim e , que me soltou delicadamente, indo colocar a coleira nele. Passei a mão nos meus cabelos na tentativa de ajeitá-los um pouco, ainda atônita.
- O que te deu, hein, cara? – perguntou para o cão, que fingia que nem era com ele e pousou seus olhos em mim. – Ele machucou você? – questionou, me analisando, e eu neguei.
- Não, ele só está um pouco agitado hoje. – respondi e ele concordou com um maneio de cabeça.
- Vou cansá-lo mais um pouco, então. – deu um singelo sorriso ladino. – tem grama no seu rosto. – avisou e saiu com um Bento saltitante. Eu dei um sobressalto, passando as mãos nas bochechas rapidamente, já vendo os dois se afastarem e começar o seu cooper com o pastor alemão. E novamente a cena de comercial estava lá.
Voltei para casa e encontrei minha mãe estudando algumas receitas de bolo, que era o que ela mais gostava de fazer.
- Que bom que você está em casa. – comemorei ao vê-la sentada lendo.
- Consegui terminar tudo mais cedo. – sorriu satisfeita. – o que aconteceu com você? Está toda suja de grama e terra. – disse, me analisando.
- O Bento estava feliz demais e me fez ir de encontro com o chão duas vezes. – ri, indo em direção ao banheiro, afinal, precisava urgentemente de um banho.

**

Assim como o domingo chegou rápido, passou na mesma proporção. A segunda-feira iniciou-se preguiçosa como de costume, e cafeína era o que me mantinha desperta àquela manhã. Estávamos na última aula e aguardávamos o professor chegar, durante esse tempo eu conversava com , minha melhor amiga e colega de sala. Nós nos conhecemos no primeiro dia de aula da faculdade, não nos desgrudando desde então. Ela era uma pessoa incrível. Embora tenha a mesma condição financeira de e a maioria das pessoas que eu conhecia, nunca torcera o nariz ou me tratou com indiferença por saber que a minha classe social estava muito abaixo da dela. Parece absurdo ficar feliz por algo que deveria ser normal – saber lidar com diferenças, principalmente diferenças sociais – no entanto, pode acreditar... Não é.
- Como foi a festa dos ? Ontem a Cassie postou essa foto com o questionou, levantando o celular para que eu visse a fotografia dos dois abraçados. Cheguei à conclusão de que ele deveria sorrir mais, uma vez que ele ficava ainda mais bonito enquanto sorria. Torci o nariz e dei de ombros.
- Foi como todas as outras festas, inclusive a parte em que o aparece e tenta me irritar de alguma forma. – falei e vi a feição da minha amiga se transformar de calma, para raivosa. Ela detestava o e eu não a culpava.
- O que aquele traste fez dessa vez?
- Ele apareceu perguntando se eu estava aproveitando a festa, todo cínico. Eu dei uma resposta ignorante e ele começou com aquele papinho de que a presença dele me afeta – fiz uma cara de desgosto e me acompanhou.
- E o que você disse?
- Mantive a pose e basicamente respondi que não me afetava e que eu não perdia tempo com o que nada me acrescentava.
- Amiga, que baita frase efeito. Adorei! – ela exclamou, batendo palminhas. Ri e continuei.
- Eu quero distância do – falei, soando firme. – a parte de mim que se afetava por ele desapareceu, tudo o que eu sinto é desprezo. – finalizei, sentindo a tão conhecida mágoa ressoar pela minha voz. sorriu em compreensão e colocou a mão por cima da minha, acariciando-a.
- Está certíssima, . Estou orgulhosa de você! – disse sorrindo e eu sorri de volta em agradecimento.
O professor entrou na sala e todos ficaram em silêncio. – finalmente – dando início a tão esperada última aula.

**

’s POV

- Esse relatório está incompleto, Thompson – chamei a atenção de um dos advogados do escritório pela milésima vez. Meu pai deixava os documentos de diversos casos sob minha responsabilidade sempre que ele viajava, o que eu sabia que gerava inúmeros comentários sobre eu ter preferência ou abusar do poder, já que era filho do dono. Não me importava com isso, afinal, eu era realmente muito bom no que fazia, e, conhecendo o meu pai – que venerava seu trabalho como um bom workaholic* – ele não me deixaria no comando de nada caso soubesse que eu não possuía competência para tal. Eu também detinha consciência de que todos – senão a maioria – das pessoas me denegriam pelas minhas costas por eu repreendê-los. Bom, se você percebe que algo está errado, ou extremamente longe do seu melhor, você toma as devidas providências, não é mesmo? O mais interessante de tudo é que essas mesmas pessoas que me criticam em minha ausência, puxam meu saco quando estou presente. Incoerente? Eu sei. Olhei no meu relógio de pulso e vi que a hora do almoço se aproximava, agradecendo mentalmente por isso, pois sentia leves pontadas na cabeça, indicando que ela começaria a doer a qualquer momento. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para Cassie, minha namorada, avisando que a pegaria dali a 30 minutos para almoçarmos juntos, como fora combinado hoje mais cedo. Poucos segundos depois, recebi sua resposta.

Desculpa, amor. A redação está uma loucura e eu vou almoçar por aqui mesmo. Remarcado pra amanhã?

Suspirei, já vendo que teria que comer sozinho.

Tudo bem, princesa. Bom trabalho ;)

Levantei-me, guardando o celular no bolso do meu terno e pegando minha carteira junto às chaves do carro, saindo para almoçar. Cassie era filha de um dos amigos do meu pai e havíamos nos conhecido em um dos eventos que sempre ocorrem nesse meio dos negócios. Para mim, eles serviam apenas para exibição e para manter futuros contatos lucrativos, contudo, como funcionava, eu apenas me mantinha neutro. A minha família a adorava, sempre comentando em quão sortudo eu era por ter ao meu lado alguém de tão boa índole e vinda de um meio tão influente. A verdade é que eu estava pouco me fodendo a respeito do renome da sua família – coincidentemente também de advogados –, visto que estava com Cassie porque gostava dela, e só. Eu sabia que o nosso namoro era pertinente para os meus pais, uma vez que eles jogavam variadas indiretas sobre como seria incrível se nós nos casássemos, concedendo uma oportunidade para a expansão do escritório junto a família da minha namorada, iniciando uma poderosa sociedade. Ouvir tudo aquilo me deixava extremamente desconfortável, dando a entender que o meu relacionamento não passava de negócio para eles.
Resolvi que almoçaria em um belo restaurante localizado próximo a minha antiga faculdade, já sentindo falta da refeição maravilhosa da qual eles serviam. Passei com o carro na frente do campus, sendo atingido em cheio pela nostalgia provinda daquele lugar. Percorria os olhos pela rua distraidamente, até que avistei uma figura conhecida. Era , filha da , a mulher que trabalhava como cozinheira lá em casa. Ela conversava descontraída com uma garota que caminhava ao seu lado, rindo vez ou outra, carregando vários livros em seus braços e uma bolsa enorme nos ombros. Imediatamente fiz uma careta ao imaginar como aquilo estaria pesado. Eu não possuía opinião a seu respeito, tão pouco sabia algo sobre a sua vida, porém, ela parecia uma boa garota. Pelo que já pude observar, ela era bem reservada, um tanto quanto desastrada - pra não falar desajeitada –, adorava meu cachorro e eu havia acabado de descobrir que a sua risada despertava uma imensa vontade de rir junto. Ela era normal, comum. Definitivamente existia alguma coisa instigante nela, o seu conjunto certamente a tornava interessante. Franzi o cenho posteriormente a essa constatação, percebendo que a estudara por tempo demais, ouvindo ao longe o som estranhamente engraçado de sua gargalhada, fazendo-me rir também. Balancei a cabeça e acelerei com o carro em direção ao restaurante, já com o pensamento no processo de um importante caso do qual eu estava acompanhando.

**

’s POV

Puta merda, puta merda, puta merda.
Eu corria de um lado para o outro no meu quarto, pegando as primeiras peças de roupa que eu via na frente e vestindo-as desajeitadamente, tentando escovar os dentes ao mesmo tempo em que juntava o material da faculdade. Eu havia passado a noite anterior trabalhando até tarde no meu projeto do TCC e acabei indo dormir altas horas da madrugada, motivando o meu atraso no dia de hoje. Acordei com a minha mãe me chamando para perguntar se eu me sentia bem e se iria à aula, visto que o horário passara e eu ainda não tinha levantado. Como possuía carro, ela me buscava em frente ao condomínio – que não era longe de sua casa – e íamos juntas para a faculdade, entretanto, nem as suas ligações conseguiram me acordar.
Despertei em um pulo sentindo-me totalmente desatinada e permanecia dessa forma, agora, olhando o meu reflexo no espelho e querendo chorar ao ver o desastre capilar do qual eu me encontrava. Aproveitei o tempo frio e peguei uma touca a fim de disfarçar – ao menos um pouco – aquela situação horrível na minha cabeça e empenhei-me em ignorar a minha cara que se encontrava tão ruim quanto o meu cabelo, jogando a bolsa nos ombros e pegando os livros de qualquer jeito. Praguejei a chuva torrencial que caía, tremendo ao sentir uma forte rajada do vento gélido me atingir em cheio. Disparei porta afora correndo como se a minha vida dependesse disso, ao passo que buscava equilibrar o guarda chuva em minhas mãos também ocupada pelos livros e lutava para não deixar a minha bolsa cair dos meus ombros. Aquela cena deveria estar ridícula por muitos motivos.
1 – Eu parecia uma pata correndo.
2 – Eu estava correndo enquanto meus livros desequilibravam-se das minhas mãos.
3 – O meu guarda-chuva mais me molhava do que me protegia.
4 – A minha aparência se assemelhava com a aparência de alguém que havia acabado de sair da boca de um cachorro. Eu sei que isso não é possível, mas tente imaginar algo parecido. É bem ruim, não é? Sim, é.
Essas eram somente algumas das razões, as outras eu perdi no meio do caminho quando percebi que um carro acompanhava a minha corrida ridícula. Torci para quem quer que estivesse o dirigindo não inventasse de passar por uma poça d’água, me deixando ainda mais molhada e piorando o que já estava ruim. Tive a sensação de que aquele carro não me era estranho, confirmando a minha constatação ao ver o motorista do mesmo.
.
Eu estranhei aquilo e decidi continuar o meu caminho enquanto meio-que-andava-meio-que-corria, não sabendo o que ele queria. Rir da minha situação? Tudo bem, que vá em frente. Ele abaixou os vidros à medida que eu o observava de canto de olho.
- Ei! ! – ele gritou e eu parei. O encarei com cara de paisagem, tentando enxergá-lo em meio à chuva grossa – entra! – Vi que ele destravou a porta do carro e franzi o cenho em total confusão. Desde quando ele me oferecia carona?
- O quê? – respondi em um misto de incredulidade e dúvida, aumentando o tom de voz para que me ouvisse devido ao barulho da chuva. Este, me fitava com o típico semblante que exalava seriedade.
- Entra! – repetiu. Permaneci com a mesma feição confusa já achando que aquele dia estava totalmente do avesso.
- Ahn... Não, está tudo bem. Obrigada – respondi sorrindo sem mostrar os dentes e voltei a andar, me encolhendo devido ao frio.
- Não parece que está – ele retrucou com um tom cínico. Respirei fundo e coloquei o sorriso mais convincente que eu tinha no rosto, pronta para dizer-lhe que eu podia me virar, porém, um trovão estrondoso ecoou e me fez pular, fechando os olhos em aflição. Quando os abri, vi que me observava com uma expressão debochada. Era estranho vê-lo com outra feição que não fosse séria, e, naquele instante, eu decidi que não gostava desse deboche explícito em seu rosto. Mais um trovão ecoou e eu me peguei em um dilema. Ou eu mantinha a minha teimosia em tacto e perdia a prova, ou cedia e aguentaria alguns minutos embaraçosos estando no mesmo carro que .
Eu não podia perder a prova e já estava atrasada o suficiente.
Suspirei derrotada e fechei o guarda-chuva, correndo e entrando no veículo rapidamente.
deu partida e um clima totalmente esquisito tomou conta do local, exatamente como eu previ. Após enrolar o guarda-chuva em sua capinha, coloquei-o dentro da minha bolsa, temendo que eu molhasse o estofado do banco e estragasse alguma coisa muito cara. O carro estava quentinho e eu finalmente sentia os meus dedos novamente, quase sorri de alívio, se não fosse... Bem, se não fosse essa situação inusitada e o aroma agradável do perfume de , que invadiu as minhas narinas. Minha bota encontrava-se encharcada e eu encolhi os ombros, acanhada.
- Estou molhando o carpete. – murmurei pesarosa.
- Não tem problema. – respondeu sem mover os olhos da rua. - Você vai pra faculdade, não é?
- Sim. – a minha fala deixava transparecer toda a minha introversão mesmo que eu tentasse não soar tão pouco à vontade. pareceu não ligar, apenas assentiu e continuou dirigindo tranquilamente. Eu desviei meus olhos da paisagem borrada pelo movimento do carro e pela chuva, observando-o de canto de olho. Ele vestia uma blusa social branca, seu terno era preto – perfeitamente alinhado ao seu corpo –, a gravata vinho contrastava com as cores escuras e, por cima, um casaco também da cor preta finalizava o seu visual de maneira esplêndida. Parei de examiná-lo como uma idiota e voltei a minha atenção à rua banhada pelas grossas gotas de chuva. Eu estava imersa em pensamentos até que o seu celular tocou, tirando-me do torpor do qual eu me encontrava. colocou em seu ouvido um aparelho para atendê-lo, aceitando a ligação em seguida.
- Bom dia, amor. – ele saudou a pessoa do outro lado da linha. Obviamente essa pessoa tratava-se de Cassie. Imediatamente me senti desconfortável, afinal de contas, presenciava um diálogo pessoal. – De novo? Sei... Entendi. Fazer o quê, né? Não, amor. A gente conversa mais tarde, ok? Estou dirigindo. Beijo. – finalizou a ligação e deu um suspiro resignado. Ele parecia incomodado. Eu olhava as minhas unhas como se elas fossem muito importantes e dignas da minha atenção, agradecendo mentalmente no momento em que reconheci o campus da faculdade.
estacionou e destravou a porta do carro, mexendo em seu celular ao mesmo tempo em que aguardava para que eu saísse. Eu desprendi meu cinto, arrumando com pressa a minha bolsa e os livros em meus braços.
- Obrigada. – virei-me para ele e sorri amigavelmente. Ele desviou os olhos do celular e me olhou.
- Por nada.
Sorri mais uma vez e saí do carro fechando a porta atrás de mim, vendo-o dar partida e sumir do meu campo de visão segundos depois. Corri em direção a minha sala, não sem antes notar um grupo de pessoas me fitando e cochichando. As ignorei e continuei correndo, torcendo para que a professora me deixasse fazer a prova mesmo estando extremamente atrasada.

**

’s POV

Eu elaborava a tese de defesa do meu cliente estudando minuciosamente todos os argumentos que poderiam ser utilizados a fim de conseguir sua absolvição. Este seria o meu primeiro caso com cobertura da mídia, e isso estava me deixando um tanto quanto nervoso, afinal, a acusação leva uma vantagem muito grande, visto que é mais fácil acusar do que defender. Lee Feldmann era empresário e havia sido acusado de assassinar o banqueiro Mason Zummack, mas estava bem nítido que por trás disso havia alguém querendo incriminá-lo por meio de uma falsa acusação, e eu não permitiria que uma condenação injusta levasse um inocente para a cadeia. Eu havia conseguido uma revogação da sua prisão preventiva, porém, ele ficaria em prisão domiciliar até o dia do julgamento. Larguei os papeis sob a mesa por alguns segundos e apoiei os cotovelos nela. Massageei as têmporas e soltei um suspiro cansado, repassando tudo o que me fora dito a respeito do dia do assassinato de Mason.
O crime ocorrera em um sítio afastado da cidade, onde acontecia uma festa que reunia diversos empresários extremamente bem sucedidos. Todos foram interrogados e nada que eu pudesse usar a meu favor foi dito, o que só me deixava cada vez mais nervoso, pois encontraram a arma do crime no estofado do carro do meu cliente. As câmeras, que seriam de extrema ajuda, pararam de funcionar no início do evento, só deixando pior o que já estava ruim. O culpado estava presente naquela noite e era um dos empresários convidados, e eu, com certeza, iria pegá-lo. Encontrava-me focado neste caso desde o momento em que pisei no escritório hoje mais cedo, logo após deixar na faculdade. A cena cujo eu presenciei esta manhã saindo do condomínio só não fora mais engraçada, porque a situação da garota era realmente de dar pena. Ela corria totalmente atrapalhada conforme a forte carga d’água caía e fazia o seu guarda-chuva tornar-se inútil, os seus livros escorregavam de sua mão e eu podia apostar que aquela bolsa despencaria no chão a qualquer instante. Pressupus que perdera a hora, o que só confirmou a minha suspeita ao ver a sua cara de sono ao me encarar com o semblante repleto de confusão. Comovido pelo que avistei, ofereci uma carona a ela, que, para minha surpresa, relutou em aceitar. Seu embaraço estava evidente na forma como fixou o olhar na janela e só o desfez para mexer em suas unhas, claramente sem jeito por estar ali comigo. Eu não a condenava, a sua atitude era plenamente cabível levando em conta que a nossa socialização era um tanto quanto limitada. Cassie desmarcara novamente seu almoço comigo, pois hoje era aniversário de uma amiga sua, que planejou uma reunião no mesmo horário. Apesar de me sentir frustrado, disse que estava tudo bem, e, ao ser questionado pela minha namorada sobre eu estar chateado, neguei. Inclusive porque não adiantaria nada, de qualquer forma. No fim, eu almocei sozinho novamente e me enfiei em minha sala a tarde inteira.
Batidas na porta me tiraram do meu pequeno devaneio. Murmurei um “entra” e a figura de Thompson fez-se presente.
- Com licença, . Vim saber se você quer algum auxílio com o caso do Lee Feldmann. Deve estar difícil conseguir formular algo já que é a sua primeira defesa importante – ele ofertou e embora eu estivesse agradecido por sua boa vontade em ajudar, senti-me ofendido com o “deve estar difícil”. Não estava fácil, porém, nada que eu não estivesse apto a resolver.
- Obrigado, Thompson. Não será preciso, tenho tudo sob controle por aqui. – sorri em agradecimento e educadamente recusei.
- Fico a disposição para qualquer eventualidade. – eu assenti e ele retirou-se sem demora. Fitei os papeis e tornei a lê-los, ignorando a dor de cabeça que insistia em me incomodar.

**

22hrs15 min.
Saí do escritório mais tarde do que planejava. Dirigi com destino à minha casa implorando mentalmente por um banho quente seguido da minha cama, tendo meus ombros rígidos e uma sensação incômoda de peso tomar conta dessa mesma região. Embora estivesse esgotado pelo cansaço, grande parte de mim vibrava por ter conseguido pontuar diversos detalhes importantes na tese do caso Feldmann. Decidi que marcaria uma reunião com o meu cliente a fim de acertar o que não havia ficado claro nas conversas anteriores, auxiliando-o sobre como deveria se portar dali em diante até o dia da audiência de seu julgamento. Logo que cheguei, estranhei o fato de Bento não vir ao meu encontro como ele normalmente fazia no momento em que eu estacionava o carro, e, procurando pelos arredores da residência, o avistei deitado ao lado de , que estava sentada em um banco de madeira localizado na pequena varanda da modesta casa em que morava com sua mãe. Uma coberta encontrava-se enrolada em seu corpo e também cobria o meu cachorro. Ela lia alguma coisa, passando o marca texto em algumas palavras. Lembrei-me do dia no qual a minha mãe deu a notícia de que as duas se mudariam para cá, ocupando o que antes era apenas um lugar que eu utilizava para as sociais com os meus amigos no início da minha adolescência.

FLASHBACK

Sexta feira à noite geralmente significava uma coisa: As habituais reuniões que ocorriam sempre na casa aos fundos da minha. , eu e mais alguns amigos do colégio nos juntávamos para fazer o que qualquer adolescente fazia: merda nenhuma que prestasse. Nós decidíamos sobre quem iria até a minha casa com objetivo de pegar cerveja – escondido – no bar do meu pai, e, naquele momento, era a minha vez. Eu caminhava sorrateiramente pela sala, até que a minha mãe simplesmente surgiu do nada, quase me matando do coração.
- Onde você está indo, ? – questionou com o seu olhar desconfiado. Eu paralisei ali mesmo e respirei fundo, tentando achar uma desculpa cabível.
- Eu? Ah... Eu estava procurando a . Queria saber se os sanduíches estão prontos. – respondi na maior naturalidade possível, agradecendo pela desculpa repentina que eu acabara de inventar. Minha mãe continuou me fitando intrigada, mas pareceu se convencer. Segurei-me para não soltar um suspiro aliviado.
- Os sanduíches estão na cozinha – frisou. – e a já foi embora. Gostaria de falar sobre isso com você, aliás. Preciso que você tire suas coisas da casa perto da piscina.
Olhei-a ultrajado, não acreditando no que ela havia acabado de dizer.
- Por quê? Como assim? – questionei mal humorado.
- A está com alguns problemas, então ofereci a casa da piscina para que ela e a sua filha morassem. – explicou e isso não diminuiu a minha revolta.
- E o que eu tenho a ver com isso? Onde eu vou fazer as reuniões com os meus amigos?
- Não fale assim, . – repreendeu-me com o tom de voz duro e eu encolhi um pouco os ombros. Quando minha mãe ficava brava era de dar medo em qualquer um e eu imaginei que isso a ajudava muito no seu trabalho. – você e seus amigos podem fazer isso em outro lugar, eu não posso ficar sem cozinheira. Ela tinha vários problemas para resolver e faltava demais, essa foi a única saída, então não quero mais ouvir qualquer relutância da sua parte.
Suspirei derrotado, sem ter como argumentar.
- Eu tenho até quando pra esvaziar a casa?
- Até domingo. – assenti desanimado e fui dar a notícia aos garotos.
Naquele final de semana, no domingo, para ser mais exato, conheci . A garota mais nova de semblante envergonhado me encarava com curiosidade e abaixava o olhar vez ou outra, enquanto eu devolvia o olhar, porém, emburrado.


FIM DE FLASHBACK


Balancei a cabeça em negação, quase rindo por meu egoísmo naquela época e agradecendo pela minha mudança de valores. Aproximei-me um pouco até ficar visível para o meu cachorro, que, assim que me avistou, levantou a cabeça com as orelhas arqueadas e começou a balançar o seu rabo energeticamente, porém, não desceu do banco. Coloquei as mãos no bolso da minha calça e ergui uma sobrancelha, sem entender.
Eu era dono de um traíra.
- Ei, o que foi? Por que você ficou agitad... – iniciou a fala, mas deixou a frase morrer ao desviar a sua atenção das folhas e acompanhar o olhar do Bento, dando de cara comigo ali.
- Depois de mim, você é a única que ele obedece e é carinhoso desse jeito. – comentei. Ela olhou para o cão que ainda balançava o seu rabo alegremente, porém, agora deitado e relaxado com a cabeça sob suas patas dianteiras.
- Ele é uma ótima companhia. – acariciou por trás de suas orelhas e sorriu. Eu concordei com a cabeça.
- Bento, vem! - bati a mão em minha perna algumas vezes para chamar sua atenção e fazê-lo vir até mim. Ele olhou para e pulou do banco, andando em minha direção. Às vezes eu achava que esse cachorro começaria a falar. – Boa noite. – eu disse, já virando as costas com Bento ao meu encalço.
- Boa noite. – respondeu com a voz suave.
Entrei em casa e me deparei com a minha mãe na sala, lendo um livro sentada na poltrona em que ficava habitualmente.
- Oi, mãe. – depositei um beijo em seu rosto e sentei-me no sofá a sua frente.
- Oi, filho. Chegou agora? – perguntou, me observando por cima do livro.
- Agora a pouco. – respondi, jogando a cabeça no encosto do sofá e afrouxando a gravata que parecia querer me sufocar – e você? Chegou do escritório há muito tempo?
- Sim, cheguei há algumas horas.
- Não está se esforçando demais, certo? O doutor deu ordens claras para você se cansar o mínimo possível. – a adverti me referindo aos seus desmaios recorrentes.
- Eu estou bem, filho. Ficaria pior estando em casa ser fazer nada. Agora me responda... O que você estava falando com a filha da ? – levantei a cabeça e a olhei sem entender. Como ela havia visto? Eu não me importava que ela visse, não tinha nada a esconder, porém, chamar a minha atenção por algo tão banal me parecia bem incoerente.
- Fui buscar o Bento que estava com ela. – continuei a encarando curioso e meio incerto sobre a sua pergunta repentina.
- Hm. Desde quando vocês conversam?
- Eu não posso ter pelo menos uma convivência normal com alguém que mora aqui há anos? – ela abaixou seu livro, deixando-o repousando em seu colo e me fitou com os olhos cerrados.
- Não estou te entendendo, . Pra que ter qualquer tipo de convivência com a filha da cozinheira?
Endireitei-me no sofá, passando as mãos no rosto em sinal de cansaço.
- Você me deu educação, dona Kyara. E o nome dela é . – adverti vendo a sua expressão se contrair, estarrecida. – não é como se nós fôssemos amigos, eu só não vejo motivos para não ser ao menos civilizado.
- Você já sabe o que eu penso, não vou me desgastar sobre isso. O seu pai volta amanhã, a propósito.
- Tudo bem. – levantei-me e fui até ela, deixando um beijo no topo de sua cabeça, sem um pingo de paciência para a sua vaidade. – vou para o meu quarto, estou cansado. Boa noite.
- Boa noite, filho.
Entrei em meu quarto já tirando as minhas roupas, avistando Bento deitado ao pé da minha cama.
- Agora você quer ficar perto de mim, né, pilantra? – brinquei, passando a mão por seu pelo macio e fui em direção ao banheiro, terminando de me despir. Joguei-me debaixo do chuveiro constatando que os meus músculos relaxavam conforme a água quente caía sob o meu corpo. Terminei o banho alguns minutos depois e vesti uma boxer qualquer, finalmente deitando na minha cama. Olhei meu celular e estranhei ao ver que constava uma chamada não atendida de um número privado, afinal, eu não costumava receber esse tipo de ligação, porém, resolvi ignorar, imaginando que talvez tivesse sido engano. Ao conferir que não havia recebido nenhuma mensagem de Cassie, presumi que ela já estivesse dormindo, então optei por apenas enviar-lhe boa noite. Deixei meu aparelho em cima do criado mudo e me arrumei na cama, tentando ficar confortável. Não demorou muito e eu peguei no sono.


*Taz-Mania: Taz (ou no original, Tasmanian Devil) é um personagem dos desenhos animados Looney Tunes. Taz é um diabo-da-tasmânia, que se locomove num redemoinho e devora tudo que vê pela frente.

*Workaholic: Que ou quem é viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.




Capítulo 3


’s POV

Os dias passaram voando e com a faculdade tomando grande parte do meu tempo, eu nem percebi. O sábado estava agradável e o tempo encontrava-se firme, nos possibilitando de sair por aí com roupas leves e confortáveis. Eu voltava pra casa ansiando por um banho após um dia tranquilo na loja de discos da qual eu trabalhava. Nada como meu notebook, algumas besteiras para comer e uns bons filmes. Sim, meu sábado à noite seria dessa forma e eu não via problema algum nisso. Eu havia recebido o meu pagamento e me sentia radiante por ser capaz de contribuir com as despesas e, ainda por cima, por estar depositando mais da metade do meu salário em uma conta que eu havia aberto com o intuito de possuir dinheiro o suficiente para que conseguíssemos um lugar para morar. Claro que a minha mãe não sabia dessa última parte, caso contrário, não teria a mínima graça. Os não fariam nenhum evento naquele final de semana, isso significava que o sossego reinaria e que eu não teria nenhum dedo ferido enquanto cortava seja lá o que for.
Meu humor estava magnífico, quase podia ouvir os passarinhos cantando e uma música feliz da Lilly Allen tocar ao passo que entrava na mansão e seguia a caminho de casa, entretanto, senti o meu sorriso esvair-se a partir do momento em que me deparei com um grupo de pessoas na área da piscina.
Alguns amigos do encontravam-se por ali. Este, estava sentado em uma das espreguiçadeiras do local com Cassie no meio de suas pernas. Ele usava um óculos escuro que caía ridiculamente bem em seu rosto, seus músculos expostos formavam um conjunto perfeito com todo o seu corpo e eu me senti uma completa pateta por admirá-lo tão deslumbrada daquela forma. Engoli em seco e balancei a cabeça para espantar aquelas sensações excêntricas. Patética, . Patética. Dentro da piscina o resto do pessoal conversava bebericando suas bebidas servidas em taças cristalinas, rindo de alguma coisa que falara. Expirei e resolvi prosseguir o meu caminho sabendo que teria que passar por lá. Comecei a andar o mais despreocupadamente possível, porém, já sentia olhares sobre mim.
- Ei, gracinha – fechei meus olhos, desacreditando que iria mesmo me infernizar na frente de todo mundo. Fingi que não ouvi, continuando os meus passos até a minha casa, mas era óbvio que ele não desistiria – Ficou surda? Ou só sabe interagir com utensílios de cozinha? – ele zombou se achando engraçado. Ouvi a risada dos demais ali presentes e senti meu sangue ferver.
Se ele queria me irritar, conseguiu.
Parei de andar imediatamente e o encarei, demonstrando que eu não via graça alguma naquilo. Senti meu rosto esquentar de raiva e a minha expressão com certeza transparecia a repulsa proveniente daquele comentário ridículo. Notei que não dava risada, sua feição era séria, quase rigorosa, e ele agora olhava em minha direção com a testa minimamente franzida. Desviei o meu olhar da figura dele e tornei a encarar , que estampava um sorriso petulante direcionado a mim.
- Você está falando comigo? – questionei ao mesmo tempo em que estreitei os olhos.
- Tem mais alguma cozinheira aqui? – ele saiu da piscina, vindo em minha direção, e, pelo bem dele, seria bom que mantivesse distância – Já que você está aqui, pega alguma coisa pra nós comermos – Fechei minhas mãos em punho, tentando – inutilmente – controlar a raiva.
A tensão que se formou era nítida, praticamente palpável, a atenção de todos estava voltada para nós dois e cada vez em que eu via o divertimento nos olhos dos amiguinhos imbecis do , mais eu previa que iria perder completamente a cabeça.
- Não me lembro de trabalhar pra você. Se estiver com fome, vá você mesmo buscar alguma coisa, nem eu, nem a minha mãe somos pagas pra te servir. A única pessoa que tem o direito de dar ordens aqui é o – falei entredentes apontando o dedo bem no meio do rosto de , que riu sarcasticamente.
- Quem você pensa que é pra falar o que eu devo ou não fazer, gracinha? – ele tentou tocar em meu rosto e foi prontamente impedido pela minha mão que empurrou a sua bruscamente.
- , já chega! - o repreendeu com o tom de voz duro. Levantou-se irritado da espreguiçadeira e andou em nossa direção.
- E quem você – frisei – pensa que é? Não toca em mim – alertei.
- Lembro de uma época em que você quase implorava pra que eu te tocasse – aproximou-se do meu ouvido e sussurrou em um tom sórdido para que só eu o ouvisse.
Eu não possuída mais o controle dos meus movimentos e nem das minhas ações, a fúria me regeu e a palma da minha mão acertou em cheio o rosto do homem a minha frente, fazendo um estalo intenso soar e um ardor tomar conta do local no qual entrou em contato com a sua pele. Ele cambaleou para trás com a mão pousada na zona onde o tapa fora dado, olhando-me indignado. Milésimos de segundos depois já se localizava onde nós estávamos, empurrando pelos ombros para que ele se afastasse.
- Cara, para de se comportar feito moleque! Quantos anos você tem?! – ele advertiu, sua voz sempre grave estava alterada. Eu o olhava um tanto quanto surpresa pela sua reação, não estava esperando que ele se metesse, quanto mais chamar a atenção do seu amigo.
- Eu só estava brincando com ela! – rebateu, tirando a mão do rosto e eu pude ver a marca dos meus dedos na sua bochecha. Quase sorri por aquilo. Cassie olhava a situação boquiaberta, assim como os outros. Ela veio até nós e puxou para a piscina novamente, não sem antes me lançar um olhar de reprovação.
- Alguém pode me explicar o que acabou de acontecer aqui? – dona Kyara fez-se presente, não parecendo nada feliz. Eu imediatamente congelei – , você acabou de dar um tapa em um convidado? – ela me olhou indignada.
- Não, senhora. Não foi as... – comecei, gesticulando totalmente aflita.
– Eu não quero saber como foi! Você não está aqui para destratar ninguém, coloque-se em seu lugar – a minha revolta só aumentava conforme a senhora falava. Aquilo era tão injusto.
Eu estava pronta para rebater, contudo, lembrei-me que não podia prejudicar a minha mãe e o seu emprego, muito menos podíamos ser expulsas da “nossa” moradia.
- Mãe, ela não teve culpa – interpôs – deixa isso pra lá, eu resolvo.
- Você está falando sério? Ela acabou de bater em um amigo seu! – dona Kyara advertiu, estupefata. Eu alternava o olhar entre mãe e filho, sem saber como agir.
- Eu sei, mas já falei que eu resolvo – ele se contrapôs, decidido.
- , venha comigo – a senhora ignorou o filho e ordenou, me lançando um olhar superior antes de andar em direção à sua casa. Respirei fundo antes de acompanhá-la, entretanto, fui impedida ao sentir as mãos de tocarem delicadamente o meu pulso, refreando os meus passos. Parei de andar e o encarei, encontrando a sua feição determinada e compreensiva, me passando segurança.
- Tudo bem, se eu não for com ela vai ser pior. Eu assumo o que fiz, você não precisa se envolver nisso – expliquei, tentando soar calma – seus amigos e sua namorada estão olhando, acho que você deveria voltar – o informei e ele virou-se ligeiramente, vendo que todos nos fitavam.
agora se encontrava sentado na espreguiçadeira posteriormente ocupada por e Cassie e nos assistia com o seu cenho franzido em insatisfação. Cassie, ainda que evidentemente incomodada, somente observava com os braços cruzados, sem sair do lugar. À essa altura a senhora distanciava-se cada vez mais, sequer reparando que eu não a acompanhava.
- , vai pra casa tranquila. Eu vi o que aconteceu aqui, o amigo é meu, eu assumo o compromisso de falar com ela – indicou a dona Kyara com a cabeça. Mais uma vez a sua fala soou determinada, transmitindo firmeza pelo seu olhar atencioso.
- Se eu não for a minha mãe é quem vai escutar – contestei.
- Não vai, fica calma. Pode ir.
Dei um suspiro cansado e assenti sem ter muito o que fazer e torcendo para que as consequencias disso tudo não tomassem proporções desagradáveis.
- Obrigada, você realmente não precisava fazer isso – sorri agradecida e notei que esta era a segunda vez em que eu o agradecia em menos de uma semana. apenas balançou a cabeça como se não houvesse feito nada demais.

Direcionei-me à minha casa extremamente desanimada e frustrada, amaldiçoando por ter acabado com o meu bom humor, além de ter criado todo esse drama desnecessário quando tudo o que ele deveria fazer era fingir que eu não existo, tal como já havia feito tantas outras vezes. Joguei a minha bolsa em um canto da sala e pulei no sofá, fechando os olhos e sentindo o meu corpo relaxar, apesar da minha cabeça me torturar com uma dor desagradável. De repente me recordei do dia em que falara comigo pela primeira vez.

FLASHBACK

Encarava esgotada a terceira página de exercícios de matemática, sentindo o meu pulso doer de tanto escrever, anotar e apagar. Estava sentada em uma pequena mesinha que eu havia colocado na varanda para que estudar nos dias quentes ficasse mais agradável. Havia passado a tarde toda estudando, o último ano do colégio estava extremamente puxado e eu fazia o máximo para conseguir absorver todas as matérias, haja vista que tudo o que eu desejava era entrar na faculdade no ano seguinte. Apoiei a cabeça em uma das minhas mãos e suspirei, observando a noite cair.
- SE ESSA PORRA DE CAIXA NÃO ESTIVER AQUI EU VOU SOCAR A SUA CARA – ouvi alguém gritando e arrumei a postura, franzindo o cenho e procurando de onde vinha aquela voz. Notei um amigo do , se eu bem lembrava – olhando por todo o lugar a procura de algo, até que ele percebeu a minha presença ali. Lançou-me um sorriso aberto e se aproximou, sentando-se ao meu lado sem pedir permissão. O encarei estranhando o seu comportamento e ele manteve o seu sorriso charmoso.
– Olá – ele falou.
- Oi... – respondi meio hesitante.
- , não é? Sou o . Acho que você já sabe disso, mas vamos começar de novo, o que acha? – disparou a falar e questionou galanteador. Eu levantei uma sobrancelha em dúvida a respeito de seu comportamento.
- Okay... – respondi e vi o seu sorriso alargar – mais – Está procurando alguma coisa?
- Não mais. Quer ajuda com isso? Via muito esse tipo de coisa no colégio – ofereceu-se e eu neguei.
- Obrigada, mas não precisa. Estão te esperando, você deveria voltar – o avisei.
- Faz de conta que eu estou procurando o que eles pediram – piscou – Vamos lá, te vejo de vez em quando e nós nunca conversamos!
Suspirei mais uma vez, derrotada, e decidi conversar com para que ele decidisse sair dali e me deixar sozinha novamente.
Mal sabia eu que ele faria isso com bastante frequência.

FIM DE FLASHBACK


Respirei fundo e fitei o teto, ainda buscando entender as últimas ações do , que em nada condiziam com as atitudes das pessoas ao seu redor cujo eu estava acostumada a lidar. O máximo que eu achei que ele faria seria ficar na dele, como sempre esteve, ainda que nenhuma provocação tenha chegado tão longe como a de minutos atrás a ponto dele necessitar intervir. Na maioria das vezes ele somente me olhava com aquela expressão fechada e ignorava a situação toda, eu não fazia questão alguma que ele falasse absolutamente nada dado que eu sabia e conseguia me virar sozinha e nunca esperei coisa alguma dele. Os meus sentimentos em relação a sempre foram confusos, eu costumava passar grande parte do meu tempo vendo-o imerso em sua vida perfeita, entretanto, comecei a admirá-lo quando percebi que ele não era vazio como eu pensava. Ele era uma pessoa muito gentil, embora quase sempre sério. Os sutis sorrisos educados que ele me lançava ao me cumprimentar faziam com que eu me sentisse uma babaca. Sempre o observava em cada uma de suas conquistas, e, durante todo esse tempo, eu torci secretamente por ele.
Eu torço.
Era difícil pra mim mesma admitir que eu sentia algo pelo filho da patroa da minha mãe, afinal, nós somos como água e óleo, totalmente diferentes em nossas vivências. Tudo piorou no momento em que ele começou a namorar. Após isso, eu simplesmente guardei tudo o que eu sentia e resolvi que a minha vida não poderia parar devido a um sentimento bobo, porém, eu sabia que racionalizar toda essa situação seria inútil, pois, no fundo, eu nunca deixei de gostar de . Não realmente. Venho sofrendo calada desde então, agindo como se nada me afetasse.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei deitada daquele modo olhando para o teto e me sentindo aflita cada vez que tentava imaginar o que estaria acontecendo na casa dos , mas o barulho da porta se abrindo chamou a minha atenção. Minha mãe fez-se presente no recinto e eu me levantei de imediato arrumando o meu corpo no sofá.
- Oi, filha – sentou-se ao meu lado, sorrindo. Eu tentei sorrir de volta, porém, deve ter saído algo mais semelhante a uma careta.
- Oi... Como foi hoje? – perguntei incerta.
- Foi tudo bem, menos cansativo do que outros dias. Todos irão sair hoje à noite, então vou poder descansar bastante – ela respondeu, reparei o ânimo presente em sua voz. Permaneci a fitando meio desconfiada, não fazendo ideia do que acontecera logo após eu ter vindo para casa e deixado falar sabe-se lá o que para a dona Kyara – , eu ouvi o e a senhora discutindo, e, no meio da conversa, surgiu o seu nome. Filha, você deu um tapa no ? No amigo do filho da patroa? – sua fala era comedida, eu suspirei e encolhi os ombros, averiguando as palavras antes de proferi-las.
- Foi uma situação muito infantil, mas ele ultrapassou os limites. Não vou deixar ninguém pisar em mim ou desrespeitar o que você faz – justifiquei.
Minha mãe sorriu ternamente e assentiu.
- Eu te entendo, mas você precisa controlar o seu temperamento, . O meu emprego não pode ficar em risco, nós não temos pra onde ir.
- Sim, estou ciente disso. Não estava planejando dar um tapa nele, foi involuntário – confessei a contragosto e voltei a relaxar o corpo no encosto do sofá.
- O te defendeu para a dona Kyara, ela estava soltando fogo pela boca – virei-me curiosa por essa constatação.
- O que ele falou?
- Não escutei muito bem, mas ele disse que a culpa não foi sua e que o foi imprudente. Achei uma atitude bem íntegra – assenti vagarosamente, passando a encarar um ponto qualquer da sala.
- Filha, tente ficar longe deles, tudo bem? – minha mãe me pediu, tocando as minhas mãos antes levantar-se.
- Eu sempre fiquei – afirmei, ignorando o sentimento de culpa que se apossou de mim, afinal, eu sabia que nem sempre obtive sucesso nessas tentativas. A assisti andar até o seu quarto e fechei os meus olhos por alguns momentos, desejando o sossego que eu tanto almejei durante o dia todo. Liguei a TV enquanto preparava algo para que minha mãe e eu comêssemos, decidindo por fazer um macarrão a bolonhesa. Olhava distraidamente um filme qualquer que passava, até que o toque estridente do meu celular soou. Corri até a bancada e peguei o aparelho, vendo o nome de mostrar-se na tela.
- Olá! – sua voz animada cantarolou do outro lado da linha fazendo-me rir.
- Uau, que ânimo é esse? – indaguei à medida que mexia o macarrão.
- Ânimo de alguém que tem uma intimação para você. Não aceito uma resposta negativa, – expirei já esperando alguma proposta mirabolante da minha amiga.
- Aceito qualquer coisa desde que isso não envolva ter que sair de casa – avisei, ouvindo um resmungo seu.
- Amorzinho, eu já disse que você não tem escolha. Chega desse marasmo aos finais de semana! O Paolo Herzog organizou uma festa maravilhosa no triplex dele, você vai comigo nem que eu precise te arrastar – ela soou firme e eu bufei, vendo a minha noite de descanso indo por água abaixo.
- , eu não tenho estruturas para sediar esse evento – ela riu – o que significa que eu não tenho roupa apropriada. E eu nem conheço esse cara, só você.
- Você é a minha companhia, boba. Relaxa, ele não vai se importar. E sobre a roupa... Não seja por isso! Passo aí em vinte minutos e você se arruma aqui em casa.
- Você não vai desistir, não é?
- Nunca.
- Okay – dei-me por vencida e precisei tirar o celular do ouvido devido a sua comemoração fervorosa.
- Tchauzinho, daqui a pouco eu estou aí na frente do condomínio.
- Tudo bem, coisinha irritante – minha amiga persistente soltou um xingamento e desligou.
Apressei-me em finalizar o preparo do macarrão e bati na porta do quarto da minha mãe, ouvindo um “entra” em resposta.
- Mãe, daqui a pouco o macarrão vai estar pronto – coloquei a cabeça pra dentro do quarto, vendo-a ler algum livro do qual eu não consegui identificar.
- Hmm você fez a sua especialidade na cozinha? O macarrão a bolonhesa? – questionou risonha e eu rolei os olhos, rindo também.
- Especialidade porque é a única coisa que eu sei fazer direito?
- É você quem está falando – a fitei em falso espanto.
- A vem me buscar daqui a pouco, ela quer que eu a acompanhe em uma festa – torci o nariz – Tudo bem se eu for?
- Mas é claro, filha! Vai se divertir – sorriu docemente e eu fiz o mesmo, saindo do quarto em seguida. Desliguei o fogo do macarrão e corri para o meu quarto, escolhendo uma roupa qualquer para ir à casa de , colocando a minha nécessaire e mais algumas coisas das quais eu precisaria dentro da bolsa e fui em direção ao quarto da minha mãe para me despedir.
- Já estou indo, daqui a pouco a chega – adentrei o local e depositei um beijo no seu rosto – o macarrão já está pronto, aliás.
- Obrigada, filha. Toma cuidado.
- Pode deixar, dona – acenei com as mãos e sai, pegando a minha bolsa e andando apressadamente porta afora.
Após minutos de caminhada pude enxergar o carro da garota que acenava freneticamente na minha direção. Fui ao seu encontro e entrei no veículo, automaticamente me sentindo alegre pela sua animação ao dar partida.
- Isso tudo é saudade de mim? – indaguei, recebendo uma careta em resposta. Tão madura.
- Não abuse do meu bom humor. Grata – ri, balançando a cabeça em concordância.
- Por falar em bom humor, você não tem noção do que aconteceu hoje – fez um sinal para que eu prosseguisse – Bom... Eu dei um tapa no , o o repreendeu, a dona Kyara chamou a minha atenção e só não fez mais porque o não deixou. Basicamente é isso – falei de uma vez e agradeci aos meus anjos da guarda por estarmos paradas no farol, pois a reação daquela que eu chamava de melhor amiga fora assustadoramente engraçada.
- O QUÊ? VOCÊ O QUÊ? – gargalhei da cara que ela agora me olhava. Os olhos arregalados e a boca em um perfeito ‘o’.
- Eu dei um tapa no – ri, me recordando da cena – Ele me provocou na frente do , da Cassie e dos outros amiguinhos idiotas. Eu não me controlei e quando dei por mim a minha mão já havia ido de encontro ao seu rosto.
- Eu.te.amo – falou pausadamente – Sério. Conta isso direito!
Concordei e comecei a contar detalhe por detalhe de toda a confusão que ocorrera algumas horas mais cedo. A cada palavra que eu proferia soltava um palavrão e eu tinha que mandá-la calar a boca de minuto em minuto para que eu fosse capaz de falar. A verdade é que eu sentia que, de alguma forma, estava em débito com o .

(...)


- Então foi isso. Eu não sei o que ele disse, mas, por enquanto, ficou por isso mesmo. Óbvio que mais cedo ou mais tarde isso virá à tona, porém, ele adiou, sabe-se lá como – finalizei, saindo do carro ao notar que havíamos chegado.
- Então quer dizer que não é tão frígido assim? Ou esnobe? Não sei se fico mais feliz ou chocada – minha amiga concluiu, caminhando até o elevador de seu prédio comigo ao seu encalço.
- Às vezes ele aparenta ser meio insuportável, mas é um cara legal. O foi justo hoje, mas ele me defendendo ou não, eu continuaria certa. Talvez não em ter batido no , mas sim, em me defender – me joguei na cama macia de assim que entramos no seu quarto maravilhoso. Eu sempre disse a ela que daria para fazer uma festa só naquele cômodo.
- Você acha que ele e a Cassie discutiram depois dele ter tomado a frente da situação? – perguntou, se jogando ao meu lado na cama.
- Não sei. Não consegui distinguir se a sua expressão de descontentamento era com o ou pelo contexto.
- O é um otário. É um homem que se comporta feito adolescente.
- Concordo. Não consigo entender essa necessidade de me infernizar sempre que pode – disse, realmente tentando entender o que ele pretendia com aquele tipo de atitude ridícula.
- Ele começou com isso depois que vocês pararam de se ver, não é? – ela comentou e eu assenti – Definitivamente não dá pra entender. Talvez ele ache que é engraçado quando age assim – indicou uma possibilidade e eu contorci o meu rosto em descontentamento.
- Ele tem tantos amigos e nenhum deles serve para avisar que a sua forma de se comportar é deplorável.
- Só o – ela completou e eu apenas permaneci encarando o teto.
- Eu vou tomar banho, sinta-se à vontade para usar qualquer banheiro pra tomar o seu e pegar o que você quiser do meu armário – minha amiga levantou-se e se dirigiu ao banheiro.
Eu apenas assenti e me sentei na cama, torcendo para que o desânimo que eu sentia desaparecesse a fim de que eu aproveitasse a noite da melhor forma possível.





Capítulo 4


’s POV

Eu me sentia extremamente sem paciência.
O que era para ser um dia agradável na companhia dos meus amigos acabou se transformando em um stress que poderia – e deveria – ser evitado, se não fosse e a sua infantilidade. Falar daquela forma com a foi desprezível, ela havia ficado desestruturada e eu me incomodei com o pesar em suas feições enquanto ouvira as provocações do meu amigo, por isso, decidi intervir, embora tenha sido tarde demais levando em conta o tapa que a garota deu nele. Para ser sincero, fiquei admirado com a sua coragem em falar daquela forma tão confiante.
Geralmente eu presenciava as provocações de direcionadas a ela, que sempre rebatia dignamente, e tudo o que eu fazia era observar o seu posicionamento diante do comportamento imaturo do meu amigo – comportamento este que eu reprovava plenamente – Eu já pensei em repreendê-lo diversas vezes, entretanto, habitualmente tomava as rédeas da situação e se defendia muito bem, era interessante saber que aquela garota que aparentava ser tão serena possuía a língua tão afiada.
Hoje, porém, a situação saiu do controle, dando para notar que definitivamente havia passado de todos os limites. Queria entender o que o levava a implicar tanto assim com ela, afinal, isso acontecia há um bom tempo. Com toda aquela briga, acabei discutindo com a minha mãe. Fiquei aproximadamente duas horas tentando convencê-la de que o provocara todo aquele alvoroço e que depois eu conversaria com para chamar-lhe a atenção.
Claro que eu não o faria.
Como se não bastasse isso, Cassie e eu discutimos exatamente pelo mesmo motivo. Ela não gostou da minha intromissão na discussão e esgotou o pouco de bom humor que me restava, me ignorando pelo resto do dia e atendendo as minhas ligações no começo da noite somente porque tínhamos uma festa para ir. Eu dirigia a caminho do local com a minha namorada emburrada ao meu lado mesmo após inúmeras tentativas vindas da minha parte para que nós ficássemos bem novamente. A olhei de soslaio e suspirei, irritado ao ver sua expressão fechada.
- Cassie, nós já conversamos. Você vai continuar assim até quando? – questionei, tentando, pela milésima vez, fazê-la parar com aquilo.
- Até quando eu quiser ficar. Ainda não consegui entender o motivo de você ter se intrometido naquele showzinho – seu tom de voz era rude e eu já estava cansado de repetir mil vezes a mesma coisa.
- Porra, eu vou ter que te falar de novo? – perdi a paciência novamente, vendo-a me olhar boquiaberta – Eu não podia deixar a briga acontecer na minha casa. E muito menos podia permitir que alguém fosse destratado daquela forma.
- A questão não é essa, mas o que foi aquela conversinha que vocês tiveram? Parecia até que eram amigos – soltei um longo suspiro, procurando manter a calma.
- Nós não somos, mas eu não vejo nada demais em manter uma boa relação com ela, afinal, a mãe dela trabalha na minha casa há anos e, você querendo ou não, ela mora lá. Não era ela quem deveria ouvir, Cassie. Não é porque a minha mãe paga o salário da mãe dela e ofereceu casa pras duas, que ela tem que ser tratada mal – se eu queria melhorar a situação, falhei com louvor. Minha namorada agora me fitava descrente no que eu havia dito e, conhecendo aquela expressão, ela se encontrava furiosa.
- Oi? – seu tom de voz subiu – Desculpa, eu acho que não entendi direito. Você acabou de falar que quer ser amiguinho da empregadinha? – senti o seu olhar queimar sobre mim. Apertei as mãos no volante, perdendo as contas de quantas vezes respirei fundo e a encarei, sério.
- Cassie, cansei. Não vou mais falar sobre isso e nem me desgastar – finalizei, saindo do carro em seguida. Cassie fez o mesmo, porém, batendo a porta. Entramos no elevador semelhante a dois desconhecidos, eu ficava cada vez mais impaciente com o clima entre nós dois.
Chegamos no andar do incrível apartamento do meu amigo e eu toquei a campainha, revelando, alguns segundos depois, um Paolo já meio alegre e com um sorriso enorme no rosto. Ele levantou os braços quase fazendo a sua bebida derramar do copo, vindo em minha direção e me dando um abraço meio torto dando tapinhas em minhas costas. - Olha se não é o admirável e a linda Cassie Privost! O casal mais ilustre dos casais! – ele saudou com a voz arrastada e eu gargalhei. Cassie deu um sorriso amarelo.
- E ai, Herzog? Tanto tempo sem me ver e me recebe bêbado? Você é um merda, hein? – Paolo sorriu embriagado e mostrou o dedo do meio, nos dando passagem para entrar.
A festa tinha como intuito comemorar a sua mudança para o triplex que ele havia comprado recentemente. O lugar já se encontrava tomado por diversas pessoas, muitas delas também conhecidas minhas. Andamos até a cobertura, tão cheia como o lado de dentro do apartamento, tendo ampla visão de boa parte da cidade. Uma música alta e animada tomava conta do ambiente, algumas pessoas aproveitavam a piscina aquecida e, no bar, alguns barman’s faziam acrobacias com drinks.
- Vou pegar algo para beber – Cassie avisou e saiu sem ao menos esperar a minha resposta. Passei as mãos no cabelo impacientemente.
- Você viu? A trouxe aquela amiga dela. A que mora de favor na casa dos – ouvi alguém falar o meu sobrenome e virei-me, percebendo que a conversa vinha de um grupo de garotas atrás de mim.
- ! Oi! – uma delas me cumprimentou. Eu dei um aceno de cabeça e Cassie surgiu ao meu lado parecendo empolgada com a presença delas. Elas imediatamente emendaram uma conversa animada indo para outro lugar e eu percebi que seria ignorado a porra da noite toda. Peguei algo no bar e encostei-me ali mesmo, conversando com uma pessoa ou outra e observando a minha namorada fingir que eu não existia. Passei os olhos pelo lugar tomando o meu drink despreocupadamente, até que parei em alguém familiar. Estreitei o olhar e reconheci junto com uma garota que eu via ocasionalmente com ela, uma amiga da faculdade, se eu bem me lembrava. Paolo conversava entusiasmado com a sua amiga e ela apenas observava, claramente tentando acompanhar o ritmo dos dois. Franzi o cenho nitidamente confuso. De onde eles se conheciam?
Os meus olhos involuntariamente pairaram na figura da e dei uma leve levantada de sobrancelha ao analisá-la.
Ela usava uma saia longa que ia até a altura do seu estomago e era aberta em um lado de sua perna, deixando-a a mostra. A barra da blusa de alcinha chegava próxima ao começo da saia e permitia que o seu colo também ficasse à mostra. Assim como suas roupas, o salto também era preto. A maquiagem era mais forte do que ela costuma usar e o batom era de um vermelho quase vinho. Como se notasse que alguém a observava, subitamente olhou para o lado e o seu olhar chocou-se com o meu, me deixando em uma situação embaraçosa. Não tendo muita opção, acenei com a cabeça em uma espécie de cumprimento. Ela retribuiu com um breve sorriso e sumiu do meu campo de visão assim que a sua amiga a puxou para dentro. Tomei mais um gole do meu drink e passei a minha mão livre pela nuca, pego de surpresa por encarar durante alguns segundos a garota que antes se encontrava à minha frente.

A festa ficava cada vez mais animada, a piscina estava mais cheia, a música permanecia alta e eu provavelmente havia conversado com metade das pessoas que ali se encontravam.
Porém, eu estava fodido da vida.
Muito fodido.
Cassie praticamente fingia que não me conhecia e me ignorava todas as vezes em que eu tentava falar com ela. Era surreal. Ela tinha o direito de ficar brava, eu não podia mudar isso, entretanto, aquela atitude birrenta excedia todos os limites. Estava encostado na sacada de vidro e imaginei que a minha expressão não era das melhores, pois o Paolo vinha me perguntar se estava tudo bem de cinco em cinco minutos, mesmo eu afirmando em todas elas. Avistei Cassie chegando perto de mim e a acompanhei com o olhar conforme ela se aproximava.
- Vou embora com a Suzi e dormirei na casa dela – avisou como se não fosse nada demais me lançando um sorriso petulante.
Dei uma risada de escárnio e a olhei incrédulo.
- Você não está falando sério.
- Pode apostar que eu estou – retrucou com o sorriso perdurando em seu rosto.
- Mas que caralho, Cassie! Para com essa merda, já deu. Olha só o que você está fazendo – disse, tentando controlar o tom de voz, embora soubesse que a minha expressão esbanjava irritação. Minha namorada me olhava com os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada, parecendo irredutível.
- Já decidi, . Só vim te avisar. Não vou pra sua casa – respirei fundo e esfreguei as mãos no rosto em um nítido sinal de cansaço. A encarei e assenti vagarosamente, olhando para o lado com um sorriso cético e tornando a encará-la.
- Faz o que você quiser, cansei, de verdade. Estou admirado com esse seu comportamento infantil – terminei de falar e nem esperei sua resposta. Dei-lhe as costas e segui em direção ao bar, pedindo um Negroni* ao barman. Olhei para trás e Cassie já não estava mais lá.

’s POV

Passava das três horas da manhã, eu sentia os meus pés doendo devido ao salto alto e aquele ambiente me deixava desconfortável por conta de alguns olhares tortos dos quais eu recebia. A festa estava muito boa, eu não podia negar, entretanto, aquele não era o meu mundo. Aquele luxo todo chegava a ser surreal! Sério, quem compra um triplex para morar sozinho? Nunca iria entender, mas quem sou eu para contestar, não é mesmo? tagarelava com um cara e era notável que eles flertavam um com o outro, então, fiz um sinal para ela indicando que iria dar uma volta com a evidente intenção de deixar os dois sozinhos. Andei pelo deslumbrante apartamento contemplando todo o requinte do local, dos móveis que certamente valiam milhões, até uma extensa parede de vidro. Parei ali admirando a paisagem encantadora da cidade naquela madrugada, maravilhava com as luzes formando pequenos pontos brilhantes vistos daqui de cima.
- Você viu? Acho que o e a Cassie brigaram – ouvi no instante em que duas garotas aproximaram-se de mim.
- Eles estavam discutindo, ela passou a festa toda longe dele.
- Ela foi embora com a Suzi e o deixou aqui. Deve ter sido sério – as duas saíram e eu me perguntei o motivo de todos cuidarem tanto do relacionamento alheio.
Prossegui a minha caminhada, descendo para o segundo andar e imediatamente me senti melhor ao ver que não havia praticamente ninguém naquela parte. Andei até a área recebendo uma lufada de ar fresco e sorri com o ato. Eu tinha a intenção de ir até a sacada, porém, parei ao ver algo estranho. Cerrei os olhos, podendo enxergar que também estava ali.
Porém, não aparentava estar nada bem.
Ele encontrava-se sentado – largado, melhor dizendo – encostado na parede, os braços apoiados em seus joelhos e a cabeça baixa entre as suas pernas. Uma garrafa de alguma bebida localizava-se ao seu lado completamente vazia. Então o que eu ouvira minutos atrás era verdade... Cassie já não estava mais na festa. não percebeu a minha presença e eu permaneci onde estava, incerta sobre o que fazer. Levantou a cabeça e passou as mãos em seu rosto, parecendo atônito, e a abaixou novamente em seguida. Mordi o lábio, ainda em dúvida, mas resolvi ir até ele apenas para saber se ele precisava de ajuda. A meu ver, sim, ele precisava. Aproximei-me dele e me agachei ao seu lado, tocando-lhe de leve no antebraço.
- ? – ele levantou a cabeça e me olhou desorientado. Sua expressão carregava mau humor e eu quase me arrependi por ter me aproximado – Ahn... você... – perdi totalmente o rumo da minha fala devido a sua feição severa, me amaldiçoando por ter sequer me preocupado. Um sorriso arrogante brotou de seus lábios.
- Nós não estamos em casa, você não precisa ser prestativa aqui – falou com a voz meio arrastada e um tanto insolente. Notei que também ela parecia mais rouca. Eu rapidamente tirei a minha mão de seu antebraço. Ele acompanhou o movimento com o olhar tornando a me fitar seriamente. Ergui-me novamente completamente surpresa e até chateada pela sua atitude ignorante.
É o que você ganha tentando ser legal.
- Desculpe, não quis incomodar – disse apressada, me virando e andando a passos rápidos para sair de lá.
- EI! – sua voz arrastada fez-se audível – Espera! – pediu. Eu parei e me virei ligeiramente para olhá-lo – Desculpa – ele me encarava com os olhos levemente semicerrados na tentativa de me enxergar melhor e a sua expressão transmitia culpa.
Eu apenas assenti e fiz menção de voltar a andar, quando fui impedida mais uma vez no momento em que ele esforçou-se para levantar, apoiando a mão na parede. cambaleou, quase indo de encontro ao chão. Corri em sua direção e o ajudei a se equilibrar, por pouco não caindo também haja vista que ele era maior do que eu.
Peguei um de seus braços, passando-os pelos meus ombros e envolvi um dos meus em volta da sua cintura, o guiando – com muita dificuldade, devo acrescentar – em passos trôpegos até um dos bancos espalhados pelo lugar. Ele se sentou e apoiou-se no encosto do banco, jogando a cabeça para trás enquanto passava uma mão nos cabelos, bagunçando-os. Pisquei algumas vezes a fim de parar de admirá-lo e achei melhor deixá-lo sozinho.
- Eu não quis ser grosso – falou repentinamente. Eu voltei a minha atenção a ele, que permanecia de olhos fechados e com a cabeça para trás – Não quero mais uma pessoa brava comigo – finalizou com a mesma voz arrastada. Encarava-o sem expressão, não sabendo ao certo como lidar com um meio bêbado e que provavelmente havia brigado com a namorada.
De repente eu me senti culpada, pressupondo que eles discutiram ainda pelo episódio envolvendo e a mim.
- Ah... Não tem problema – continuei ali parada igual a uma planta em um dilema interno entre sair ou ficar onde eu me encontrava – Quer que eu chame o seu amigo? – indaguei, achando que o amigo dele seria o indicado a estar com ele ali, já que a namorada havia ido embora.
- Se ele não estiver pior do que eu... Pode chamar – deu um sorriso bêbado e eu passei as mãos no meu cabelo pensando no que fazer.
Murmurei um “ok” e saí à procura do tal Paolo, já cansada em ter que andar por aquele apartamento gigantesco. Olhava ao meu redor buscando-o em todos os lugares, me perguntando também onde estaria. Cerca de meia hora depois, o encontrei, contudo, ele estava com uma garota ao seu encalço e eles iam para um corredor, provavelmente em direção a algum quarto.
Bufei, vendo que teria que ficar sozinha, pois nem minha amiga eu encontrava. Bom, eu estava devendo uma para o , de qualquer forma. Peguei uma água gelada no bar e voltei, me deparando com ele da mesma forma em que eu havia o deixado. Sentei-me ao seu lado e lhe ofereci a água, que agradeceu e aceitou. Apoiei meu cotovelo na minha perna e coloquei a cabeça sob a minha mão, encarando a paisagem proporcionada pela cobertura do segundo andar.
O silêncio se instalou no ambiente e eu o olhei de soslaio, vendo que ele, assim como eu, contemplava a visão perdido em pensamentos. Não sei por quanto tempo permanecemos assim, entretanto, a quietude foi quebrada pelo som do toque de seu celular. Ainda com um pouco de dificuldade, ele pegou o aparelho do bolso de sua calça e atendeu sem ao menos ver quem era.
- Alô?... Alô? – repetiu. Vendo que não era respondido, ele encarou a tela do celular e franziu o cenho, guardando-o logo depois.
O silêncio novamente fez-se presente e, embora não fosse de todo incômodo, ainda me deixava inquieta.
- Eu sei que não é da minha conta, mas não acho uma boa ideia você voltar para casa dirigindo – ele desviou a atenção da vista à frente e me fitou, fazendo com que o seu olhar encontrasse com o meu, que o encarava. A meia luz iluminava o seu rosto, os seus olhos opacos pareciam querer desvendar os meus através da ausência de som. Por alguns instantes eu me senti desconcertada, a sua análise curiosa e silenciosa fez algo se desorganizar dentro de mim e eu queria muito que, seja lá o que fosse, parasse imediatamente. Como em um lampejo voltou a se concentrar no horizonte de prédio e luzes, quebrando aquele estranho contato visual. Eu pisquei algumas vezes também voltando à realidade e sentindo o meu rosto esquentar.
- Vou pedir um táxi e amanhã venho buscar o carro – respondeu a minha pergunta anterior, tomando o último gole da água que eu havia lhe trazido.
Eu assenti silenciosamente e resolvi que era hora de sair dali e procurar pela , apesar de ter uma noção sobre onde – e com quem – ela estava.
Droga, não queria ser empata foda.
Meu celular apitou e eu o tirei da pequena bolsa de mão da qual eu carregava, vendo uma nova mensagem da minha amiga, que parecia ter lido a minha mente.

“Amiga, desculpa ter sumido, mas eu preciso falar com você... To com o Adrian e quero demais ir pra casa dele, mas só vou se você não se importar.”

Li sua mensagem e dei uma risadinha, logo digitando a resposta.

“Tudo bem, pode ir. Eu pego um taxi ou espero o metrô abrir. Juízo, sua safada.”

“Nada disso. Vamos no carro dele, então pega o meu e vai para minha casa ou para a sua, você quem sabe. As minhas chaves estão com você, mesmo. Só me avisa e, caso decida ir para a sua casa, amanhã eu passo lá. Beijinhos e juízo eu sempre tive.”

Balancei a cabeça negativamente, ainda rindo e guardei o aparelho, decidindo ir para a minha casa. Olhei para , que digitava algo em seu celular, e mordi o lábio. Se eu iria para o mesmo lugar que ele, não custava oferecer carona, não é mesmo? Questão de educação e tudo mais. Levantei-me, atraindo sua atenção.
- Eu já estou indo... – falei e ele assentiu – Ah... Eu vou pra casa com o carro da minha amiga, se você quiser, pode ir comigo. Se nós vamos para o mesmo lugar, não vejo necessidade de você pegar um taxi – concluí um pouco rápido demais e riu, também se levantando.
- Tudo bem, eu vou aceitar – disse, colocando as mãos no bolso como de costume. Sorri e saímos de lá.
Fiquei aliviada por não ter ninguém espalhado pelos cômodos conforme nós passávamos em direção a saída, não seria nada legal pensarem besteira por verem a mim e saindo da festa juntos. E seria menos legal ainda se Cassie soubesse por meio de alguém maldoso, pois tudo o que eu não queria era causar mais problemas a ele e até mesmo à ela.
Chegamos à garagem e entramos no carro, em nenhum momento quebrando o silêncio que rotineiramente nos envolvia.
Eu dirigia focada na rua temendo que algo acontecesse com o carro de , mesmo que não houvesse quase nenhum carro ou pessoa em lugar algum, prevenir é sempre bom. Pela minha visão periférica vi que olhava despreocupadamente para frente, batucando levemente em sua perna a melodia de uma música qualquer que soava pelo rádio.
- Cadê a sua amiga? – perguntou repentinamente, quase me assustando.
- Digamos que está ocupada e eu fiquei responsável pelo carro dela – deixei o “ocupada” subentendido e ri, ouvindo-o me acompanhar no riso.
- Entendi.
O silêncio novamente se instalou e, ao pararmos no farol vermelho, fez uma cara estranha demonstrando desconfiança e franziu o cenho, olhando pelo retrovisor. O encarei e olhei para trás, não vendo ninguém perto de nós.
- O que foi? – questionei, tornando a olhá-lo. Ele balançou a cabeça e tirou os olhos do retrovisor.
- Nada. Faróis são perigosos essa hora, é sempre bom ficar alerta – ele respondeu, dando uma última encarada no retrovisor. Dei de ombros, voltando a dirigir no momento em que o farol abriu. Minutos depois, chegamos em casa. Como era um condomínio fechado, não via problema em estacionar na rua. Feito isso, descemos e seguimos para casa. Fomos recebidos por um Bento contente, que correu em nossa direção fazendo festa com a nossa presença. Ri e rapidamente passei a mão em sua cabeça, andando para a parte de trás da residência.
- Obrigado – ouvi falar e me virei. Ele estava parado com a porta entreaberta e me encarava com aquela expressão séria.
- Por nada – sorri e voltei seguir meu caminho, louca para tirar os saltos que machucavam os meus pés.

(...)

- , eu não aguento mais! – exclamou, apoiando a cabeça por cima das inúmeras folhas espalhadas pela mesa. Eram cerca de cinco horas da tarde e nós estávamos trabalhando no projeto do nosso TCC.
Eu havia dormido o suficiente, diferente da garota a minha frente, que estava a personificação do desastre. Após a noite agitada com o tal do Adrian, ele a levou para casa e, de acordo com ela, havia dormido por apenas três horas, logo vindo buscar o seu carro e trazer as minhas coisas que estavam em sua casa. Aproveitando isso, resolvemos adiantar alguns tópicos do nosso projeto. Certo que nós perdemos boas horas antes de realmente começá-lo, já que eu a fiz contar – quase – tudo da noite anterior.
E ela também.
E quando eu digo também, é porque ela me fez falar da minha companhia de fim de festa: .
- Passar a noite acordada se divertindo com o gato da festa você aguenta, né? – lancei-lhe um olhar malicioso e ela devolveu com o seu dedo do meio.
- Não vamos misturar diversão com trabalho, don’t kill my vibe – pegou um dos bolinhos que a minha mãe fizera e o abocanhou de uma vez só, me arrancando uma risada.
- E ainda é sem educação.
- A sua mãe é uma linda e esses bolinhos estão di-vi-nos. Você é ruim e está querendo que os meus neurônios explodam – fez drama e eu taquei uma bolinha de papel nela – Ai, meu Deus – ela exclamou, olhando boquiaberta através da janela que dava visão para o descampado perto da piscina.
- O que foi? – segui o seu olhar e encontrei o que tanto a deixou daquela forma.
brincava com o Bento.
Sem camisa.
Apenas com shorts de corrida.
Como a gente se concentra assim, céus?
E por que tudo o que ele faz se assemelha a um comercial MUITO bem feito de alguma coisa MUITO boa?
Senti o olhar de sobre mim e me recompus, encontrando-a me encarando com uma sobrancelha arqueada e um sorriso malicioso igual ao que eu lhe dera minutos atrás.
- Tem baba escorrendo, – brincou e eu voltei a olhar para a tela do notebook, ignorando-a.
- Se concentre nos livros, por favor.
- Estou concentrada – se defendeu – Mas ele deve ter ficado bem chateado com a Cassie, né? Eu vi que ela o ignorou a noite toda e foi embora com as amigas.
- Sim, eu ouvi umas garotas falando antes de encontrá-lo.
- Você não sente nada pelo ? – indagou e eu a olhei sem entender – Sabe... Você costumava gostar dele...
- , aquilo já passou – menti.
- Tudo bem, mas eu estou falando de agora. Você não sente nada? Nem atração? – insistiu e eu bufei.
- Mesmo que eu sinta algo, isso não muda o fato de que nós não temos nada a ver. E ele tem uma namorada. Eu nunca – dei ênfase – me intrometeria no relacionamento de alguém, nunca me envolveria com alguém comprometido, quero distância de gente assim. O que eu não quero pra mim, também não quero para outra garota. A Cassie faz bem para o . E mesmo que ele não tivesse namorada, ele nunca me veria de outra forma. Não tem motivo algum para considerar essas possibilidades, a realidade é outra, entende? – assentiu ao passo que me analisava.
Odiava o quão bem ela me conhecia.
- Você não precisa ser indiferente sobre isso comigo, você sabe. E você também sabe que por mais que tente agir como se não ligasse, a mim você não engana. , você não manda nos seus sentimentos. Não é porque você gosta do , que vai atrapalhar o namoro dos dois. Na verdade, eu sinto muito por te ver assim, nunca conseguindo realmente seguir em frente.
- Eu sei – suspirei rabiscando qualquer coisa em uma folha aleatória – Já chega, okay?
- Certo, não está mais aqui quem falou – ela levantou as mãos em sinal de rendição – já acabamos por aqui? – me olhou de forma pidona e eu ri rolando os olhos.
- Acabamos, sua morta. Já adiantamos muita coisa.
- Ótimo. Eu vou para a minha casa porque não existe nada que eu deseje mais nesse momento do que dormir – ela se levantou e eu a acompanhei. Passamos no quarto da minha mãe para que se despedisse e fomos em direção a saída, vendo que estava, agora, acompanhado de Cassie, que parecia ter acabado de chegar. Eles estavam abraçados e a forma afetuosa como ele acariciava os cabelos dela fez o meu estômago afundar.
- Parece que eles se acertaram – comentou e eu apenas assenti – Tchau, amorzinho. Até amanhã.
- Tchau, gata. Até! Vê se recupera as energias – demos um abraço rápido e ouvi a minha amiga rindo.
- Difícil, sabe? Haja descanso – gargalhei ao passo que a via entrar no carro lançando-me uma piscadela e dando partida.
No meio do percurso até a minha casa olhei para o lado casualmente ao escutar o latido do Bento, vendo procurar com os olhos a causa de seu latido. Seus olhos encontraram-se com os meus e ele lançou-me um sorriso fraco, quase imperceptível. Fiz o mesmo e ele entrou em casa logo após Cassie, sumindo do meu campo de visão.

Negroni: Bebida clássica onde mistura-se gim e vermut.



Capítulo 5


"E quando você se perde, tens duas opções: Achar a pessoa que você é, dentro de você, ou perdê-la completamente." - One Tree Hill


’s POV

Durante a minha infância, eu achava o máximo assistir filmes de ação e ver os personagens correndo, lutando e realizando as mais inacreditáveis fugas. Adorava a forma como as reviravoltas ocorriam, via as tramóias dos vilões e a vitória dos mocinhos, e, apesar de não entender muita coisa, achava tudo muito interessante. Agora, já adulto, percebo que nada é tão maravilhoso quanto parece. Desde o momento em que eu peguei o caso Zummarck, venho recebido estranhas ligações de um número privado, e elas acontecem em diversas horas do dia. A última ocorreu em uma madrugada. Eu não sabia ao certo se estava apenas paranóico, contudo, ao estar no carro acompanhado da , tive a impressão de ver uma moto um pouco atrás de nós. Eu olhava intrigado para a tela do meu celular, refletindo sobre os motivos que levariam alguém a me espionar, já tendo uma ideia.
Esperaria pelo próximo passo de seja lá quem for e tomaria as medidas cabíveis para este tipo de situação. Ninguém conseguiria me amedrontar. Encostei-me na cadeira e olhei para o teto, me sentindo um tanto quanto ridículo ao lembrar-me de ter exagerado na bebida na festa do Paolo, tendo que ser ajudado pela , que me encontrou naquele estado. Eu não estava muito mal, mas também não estava cem por cento bem.
Ela havia me ajudado muito e eu fui momentaneamente ignorante, eu tinha a péssima mania de descontar a raiva no primeiro que aparecesse, e, naquele instante, a garota a minha frente fora essa pessoa. Mesmo depois disso impediu que eu desse com a cara no chão, e isso foi muito legal da parte dela, confesso. Tenho percebido que ela é definitivamente uma boa garota e a sua companhia é prazerosa.
- . – despertei dos meus pensamentos ao ver meu pai parado a minha frente, com o semblante sério.
- Sim? – perguntei ainda meio perdido.
- Quero que você chame os pais da Cassie para jantar em nossa casa amanhã. – ele ordenou e eu franzi o cenho.
- Pra quê?
- É necessário um motivo para que os pais da sua namorada jantem conosco? – ele indagou aparentemente impaciente. Suspirei e neguei com a cabeça. Arrumei a minha postura na cadeira e juntei as mãos em cima da mesa, adotando uma posição mais firme. Era claro que havia um motivo por trás disso tudo, e esse motivo era o interesse na tão sonhada sociedade entre eles.
- Eu vou fingir que vocês não estão usando o meu relacionamento para fins lucrativos. – disse e vi a sua feição se tornar mais séria. Não me abalei.
- Não te criei para que você seja um cabeça-dura, . Saiba pensar como um homem de negócios e junte o útil ao agradável, não me faça perder a paciência.
- Esse jantar será única e exclusivamente para que ambos puxem o saco um do outro e enfiem um noivado goela abaixo em nós dois. Nossa família não precisa disso e eu não tenho pretensão de me casar agora. – finalizei com firmeza na voz sem alterar a minha posição decidida. Meu pai estreitou os olhos, claramente irritado.
- Não seja um moleque teimoso. Eu espero que isso não tenha nada a ver com a filha da cozinheira. – nesse momento eu o olhei em dúvida. O que a tinha a ver com isso? – você não percebe, mas eu te observo. Vi vocês dois chegando juntos de sei lá onde. Te vi olhando para ela. Eu percebo as coisas antes delas acontecerem, não se atreva a ter nenhuma atitude imbecil e faça o que eu estou mandando. – eu o encarava totalmente estupefato. Eram diversas informações a serem digeridas e eu só conseguia sentir a minha cabeça explodir.
- Isso não pode ser sério, pai. – levantei-me da cadeira passando as mãos nos cabelos, visivelmente nervoso. – tira essa ideia absurda da cabeça! Eu estou com a Cassie e gosto dela, a só me deu uma carona.
- Não subestime a minha inteligência!
- Pense o que quiser, isso foi a coisa mais sem sentido que você já disse. Eu vou marcar a porra do jantar! – exasperei, cansado. Meu pai me encarou sem expressão e a sua atitude superior fez-se presente. Ele me lançou um último olhar imponente e seguiu para fora da minha sala.
- Obrigado, filho. Sabia que podia contar com você. – concluiu, fechando a porta atrás de si.
Eu me joguei na cadeira e esfreguei as mãos no rosto, me sentindo irritado e com a cabeça a ponto de explodir. Que merda de argumento foi aquele? Ainda não havia entendido a razão de ter mencionado a nisso tudo. Eu somente não desejava me casar tão cedo, existiam outras coisas mais importantes no momento, isso não tinha nada a ver com ninguém. Não gosto que tomem decisões por mim, eu não sou mais um moleque e, não só posso, como vou tomar as minhas próprias atitudes no que diz respeito a minha vida. Eu havia acabado de fazer as pazes com a Cassie após todo aquele drama, e, apesar de aparentemente estar tudo bem, ela ainda parecia incomodada. Pedi para que a secretária trouxesse um remédio a fim de amenizar a dor excruciante na minha cabeça e digitei uma mensagem para a minha namorada, realizando o convite para o jantar de amanhã.

**

A noite do jantar havia chegado e o meu humor estava péssimo. Meus pais, os pais de Cassie e nós dois, estávamos sentados à farta mesa, o ambiente regado ao mais explícito puxa-saquismo. Esse tipo de situação era recorrente, porém, naquela noite, tudo passava dos limites. O assunto “noivado” fora abordado incontáveis vezes, e, agora, minha mãe e a mãe da minha namorada mostravam animadas uma revista de vestidos de noiva para Cassie, que parecia tão desconfortável quanto eu.
- Certo, já chega. Assim vocês vão assustá-la. – forcei um sorriso e puxei-a para perto de mim, que quase comemorou de alívio.
- Imagina, filho. Estávamos apenas olhando. Tenho que dizer, Cassie, você ficaria magnífica em um Mauro Adami*, querida. – minha mãe disse, sorrindo vaidosamente.
- Seria de ótimo gosto, certamente deveríamos providenciar isso quando chegar a hora. – o pai da minha namorada complementou. Eu tomei o meu champagne em um só gole, recebendo um olhar repreensivo do meu pai e até mesmo de Cassie.
- Vamos com calma, nós ainda nem noivamos. – tentei argumentar de maneira despretensiosa.
- Não demorará a acontecer, espero. – meu pai sorriu, porém, eu podia ver uma sutil ameaça em seu sorriso.
- Vejo uma esplendorosa parceria entre nós, – o pai de Cassie levantou a taça para o meu, fazendo o tilintar proveniente do brinde ecoar pelo local. – Me diga , como vai o seu primeiro caso de grande visibilidade? – ele indagou. – Já está sentindo a pressão popular por seu cliente ter sido acusado de assassinar uma figura importante?
- Tudo está encaminhando da melhor forma possível, senhor Privost. Quanto mais grave é um crime, maior é o clamor público por uma condenação rápida e rigorosa. E quanto maior é o clamor público e a pressa em se julgar, maior a necessidade de se cumprir rigorosamente a lei a fim de se evitar julgamentos precipitados e condenações injustas. – finalizei, ignorando o seu sorriso arrogante.
- Perfeito. Um genro de sucesso era tudo o que eu desejava. – lancei-lhe um sorriso sem mostrar os dentes e assenti em agradecimento.
- Não esperávamos menos do herdeiro do império que é o escritório de advocacia dos . – a senhora Privost disse e eu respirei fundo, sufocado por toda aquela pressão desnecessária.
Levantei o olhar da minha taça recém esvaziada e enxerguei se aproximar com uma bandeja onde estavam algumas xícaras contendo café, imagino eu. Ela depositava cada xícara na mesa concentrada no que fazia, não olhando para o lado ou para qualquer direção que não fosse a da bandeja.
- Espere um momento. – minha mãe interpôs, fazendo parar o que estava fazendo. – não foi essa louça que eu pedi. Quero o jogo de café em porcelana pintado com ouro. Trate de trocar.
Todos da mesa olharam para a garota, que recolheu a xícara que estava prestes a colocar na mesa. Notei que ela deu um pequeno suspiro e, com a expressão vazia, assentiu, retirando as outras peças que já encontravam-se na frente de cada pessoa. Eu apenas a acompanhava discretamente com o olhar, lamentando por minha mãe tratá-la com tamanha arrogância.
- Desculpe, senhora. Com licença. – retirou-se rapidamente e eu encarei a sempre imponente senhora com uma feição descontente, já sabendo que aquela era exatamente a louça da qual ela pedira, contudo, estava se vingando ainda pelo episódio com .
- Às vezes nós precisamos ser duros, caso contrário vira rotina entre os empregados realizarem as tarefas de modo errado. – esclareceu, recendo murmúrios em concordância.
- Não podemos dar moleza para essa gente, querida. Te entendo perfeitamente, a faxineira da nossa casa não sabe que é imprescindível que as minhas Chanel sejam guardadas em dust bags*. - a senhora Privost complementou dramaticamente. Eu desejava mais do que qualquer coisa que aquele jantar acabasse logo.
Eles iniciam um assunto irrelevante a respeito de como patrões sofriam e eu fiz uso da minha audição seletiva para não ter que escutar aquela conversa descartável.
- Você poderia disfarçar melhor que não quer se casar agora, . – Cassie falou próxima a mim e eu a fitei com uma sobrancelha arqueada.
- Eu não falei nada demais. E você também não quer, não vejo motivos para você ter ficado irritada. – respondi, vendo-a bufar e rolar os olhos.
- Não quero mesmo, mas não precisa deixar explícito para todo mundo. Parece até que tem algo de errado comigo. – comentou emburrada e eu não pude segurar o riso.
- O problema é esse? Amor, para de besteira. Seguindo esse seu raciocínio, também teria algo de errado comigo, já que você, assim como eu, não quer se casar agora. – tentei tocar-lhe o rosto, mas ela esquivou-se. Fechei os olhos e respirei fundo, pedindo paciência aos céus. – Eu não quero brigar, Cassie. Ainda mais por algo tão banal. Estamos na presença dos nossos pais, dá um tempo. – alertei-a. Ela permaneceu imóvel e eu desisti, já desprovido de qualquer tranquilidade que seria necessária para lidar com os seus chiliques.
retornou ao recinto com o suposto jogo de café correto, tornando a depositá-los na mesa. Ao chegar à minha vez, a voz da minha mãe fez-se presente novamente, assustando-a e levando a tremer a sua mão que segurava a xícara, derrubando um pouco do conteúdo quente em minha perna. Dei um pulo devido ao susto e ao sentir o calor atingir a minha pele. Peguei um guardanapo de tecido e o coloquei no local, vendo me encarar apavorada e Cassie resmungar algo com ela.
- Mas será possível que você não consegue fazer nada direito? – minha mãe advertiu, aumentando o tom de voz. A garota encolheu os ombros, ainda me olhando assustada.
- Foi apenas um pingo, não tem problema. – disse na tentativa de apaziguar a situação. Eu estava puto com as atitudes da minha mãe, que se comportava tal como uma adolescente birrenta, fazendo tudo propositalmente a fim de testar .
- D-desculpa, eu... Eu me assustei e... – ela procurava se explicar ao passo que gesticulava, assim como fez no dia em que dera um tapa em .
- Calma, está tudo bem. – falei mais uma vez.
- Não está tudo bem, definitivamente não está. Vou me resolver com a sua mãe depois. Saia daqui antes que você estrague alguma coisa. Nem se atreva a ir para a cozinha, quero você longe dessa casa. ANDA! – ralhou para a garota, que engoliu em seco e murmurou um “desculpe” novamente, deixando o cômodo a passos apressados.
Esfreguei as têmporas, exausto. Ouvia as queixas dos demais presentes e elas não passavam de barulhos longínquos.
Eu havia me desligado e permaneceria assim para não explodir e mandar tudo para a puta que o pariu.

Ao fim do jantar, nos despedimos de Cassie e sua família. Meu pai fez menção de falar comigo, entretanto, eu levantei a mão em um pedido mudo para que ele não prosseguisse.
- Eu não quero ouvir mais nada. Fiz a merda que vocês queriam, então, só por hoje, eu peço... Não.falem.comigo. – disse pausadamente, dando as costas com a intenção de sair dali.
- Isso são modos, ? – meu pai me repreendeu. Virei-me e os encarei, a impaciência expressa em meu rosto.
- Eu só queria saber uma coisa... – girei o calcanhar, voltando a ficar de frente para eles. - vocês acham que eu tenho quantos anos? Querem resolver quando eu vou me casar, como vai ser, o que eu vou fazer... CHEGA! – me exaltei. Senti mais uma pontada de dor na minha cabeça. – Mãe, que cena ridícula foi aquela com a ? Você ultrapassou todos os limites do bom senso! Eu ainda não saí daqui por SUA causa, porque quando o pai viaja, tenho medo de te deixar sozinha devido aos seus desmaios. Meu apartamento está lá, fechado! Eu não sou mais um moleque, não é porque eu moro com vocês que vocês podem controlar a MINHA vida. – finalizei, passando uma mão pela nuca em um claro sinal de nervosismo. Meus pais continuavam imóveis e inabaláveis, como se assistissem algo banal. Bufei negando com a cabeça, desacreditando no que eles haviam se tornado. – Boa noite pra vocês. – segui para os fundos da casa, rumando até o único lugar daquela casa que eu tinha sossego.
Caminhei a passos lentos até o vasto jardim da casa, onde se encontravam alguns bancos, entre eles, um banco balanço do qual eu ocasionalmente utilizava para relaxar. Desde pequeno aquele sempre fora o meu espaço preferido por diversos motivos, um deles se dava pelo fato de ser afastado da casa. Era como uma esfera particular de tranquilidade. Em uma parte do jardim encontrava-se uma fonte, e, a sua frente, uma pequena cabana rodeada de flores. Eu realmente gostava de lá. Acendi um cigarro ao passo que me aproximava do meu destino. Era um hábito que me fazia relaxar em meus momentos de tensão. Ao chegar naquela área, avistei sentada no banco, mexendo os pés quase imperceptivelmente, fazendo-o balançar um pouco. Seu olhar estava perdido em alguma parte do ambiente e ela parecia estar imersa em pensamentos, não notando a minha presença ali. Encostei-me no batente do banco que ela encontrava-se sentada, dando uma tragada em meu cigarro, soltando a fumaça vagarosamente, atraindo a atenção de com o ato, que deu um sobressalto de susto. Abaixei um pouco a cabeça para fitá-la e não consegui conter um meio sorriso devido ao seu pulinho.
Coloquei minha mão livre no bolso da calça e voltei a olhar para frente, dando mais um trago no cigarro e observando despreocupadamente uma árvore qualquer.
- Desculpe, não te vi chegar. – ela quebrou o silêncio levantando-se em um pulo, fazendo menção de ir embora. Arqueei uma sobrancelha sem entender o motivo dela querer sair de onde estava só porque eu havia chegado.
- Não precisa sair daqui. – falei calmamente e virou-se para me olhar. – não está atrapalhando. A não ser que você se incomode com a fumaça. – finalizei, vendo-a me encarar meio ressabiada. Sustentei o seu olhar por alguns segundos, aproveitando para estudá-la neste período de tempo. Desde o cabelo que chicoteava devido ao vento, até as suas feições marcantes e simultaneamente delicadas. Passei os olhos por seus braços soltos ao lado de seu corpo e os lábios cerrados, voltando a me concentrar em seu rosto.
- Eu te queimei? – ouvi-a indagar e despertei, tentando me situar sobre o que ela falava. – eu devia ter prestado atenção, sinto muito. – Sua expressão estava contraída em preocupação, alternando sua análise entre mim e a minha calça onde ela derrubara o café anteriormente. Sorri fraco, negando.
- Você não teve culpa. Sinto muito pelo escândalo ridículo de antes. – comentei sobre toda aquela cena, realmente incomodado com a postura da minha mãe diante a ela. sorriu rápido e suave, ainda com os lábios cerrados, dando de ombros.
- Tudo bem. Já foi, de qualquer forma. – disse simplesmente. Ela falava olhando nos olhos, uma característica que eu admirava bastante.
O silêncio se instalou novamente.
Ela voltou a sentar-se no banco e eu permaneci encostado ao batente dele, ambos encarando algo a nossa frente.
- Pelo visto eu não sou o único a gostar daqui. – mencionei, sentindo o seu olhar sob mim.
- Não tem como não gostar, não é? É tão bonito e calmo. – falou de uma maneira encantada, quase infantil. Foi a minha vez de fitá-la por alguns instantes, tendo a visão de seus cabelos e uma parte de seu rosto, vendo-a observar as flores como se elas fossem a coisa mais incrível que ela já vira. – Sabe... – começou hesitante, colocando uma mecha de seu cabelo para trás. Eu fixei o meu olhar nela, que, por sua vez, contemplava o jardim. – você não me parece arrogante. – franzi o cenho, não entendendo onde ela queria chegar. – digo... você nunca me tratou com superioridade como as outras pessoas. Obrigada. – ela levantou a cabeça para me fitar. Seu sorriso tímido transmitia sinceridade e ela também sorria com os olhos. Fui pego de surpresa por sua constatação repentina, naquele momento eu apenas a fitava de volta com o cenho minimamente arqueado.
Eu nunca fiz mais do que a minha obrigação como alguém decente, não entendia como as pessoas agiam de forma tão mesquinha umas com as outras só visando a condição financeira delas. Isso não deveria separar ninguém. Ela provavelmente concluíra isso ao perceber que eu não ajo igual aos os meus pais, e eu me orgulho disso. Orgulho-me de saber separar as coisas e de conseguir me distinguir deles, de não ter me tornado dependente dessa mania de exibição, dessa segregação referindo-se a quanto você possui na sua conta bancária.
já havia desviado o olhar do meu e voltado a sua atenção ao jardim e eu nem havia me tocado, já que permanecia a encarando feito um otário.
- Não mereço agradecimento por isso, eu não sou diferente de ninguém para tratar alguém dessa forma. – finalmente concluí e os nossos olhares tornaram a se encontrar. Ela assentiu e eu tornei a olhar para frente.
- Já estou indo. – percebi que ela já estava de pé. – boa noite, . - Boa noite, . – lançou-me um sorriso doce e acenou com as mãos, começando sua caminhada até a sua casa.
A acompanhei com o olhar até que ela sumisse do meu campo de visão, dando o último trago no meu cigarro.
era, com certeza, uma pessoa intrigante.

Mauro Adami: Estilista de vestidos de noiva. Seus vestidos estão entre os dez mais caros do mundo.
Dust bags: Saquinhos de tecido que servem para envolver as it bags.




Capítulo 6


"A vida é cheia de mudanças. Às vezes elas são dolorosas, outras vezes são lindas e, na maioria das vezes, ambas as coisas." - Smallville.


- Tenha uma boa tarde, senhora Harnett. – despedi-me da minha última paciente do estágio da faculdade e suspirei cansada, jogando os braços na mesa à minha frente e apoiando a minha cabeça sobre eles.
Eu amava muito a profissão da qual escolhi, não via a hora de receber o meu diploma e fazer todas as coisas necessárias para, enfim, exercer o meu papel como profissional, porém, o cansaço do final do curso unia-se com o cansaço das provas, trabalhos, projeto de TCC, atendimentos do estágio, trabalho na casa dos e o meu trabalho de meio período aos sábados, resultando em um acumulado de exaustão. Peguei as minhas coisas e saí da sala às pressas, pois ainda teria que encontrar na biblioteca para finalizar um trabalho. Ao chegar ao ressinto, a avistei sentada em uma mesa lendo algo em seu celular, concentrada. Aproximei-me e me sentei ao seu lado, assustando-a.
- Quer me matar do coração? Nem te vi chegar. – falou com a mão sob o peito devido ao recente susto. Ri e neguei.
- O que você está lendo aí tão concentrada, hein? – questionei em um tom malicioso, inclinando a cabeça para ver a tela do seu celular. Ela riu e virou a tela do aparelho, me impedindo de ler o que estava escrito.
- Para de ser curiosa. – abri a boca incrédula. – eu vou sair com o Adrian hoje. – fez uma cara sapeca e eu ri novamente.
- Parece que o rolo está ficando sério... Preciso analisá-lo melhor. – alertei em tom de ameaça.
- Calma, ainda estamos no período de conhecer o território.
- Acho que vocês já conhecem bem o território um do outro, se é que você me entende. – constatei casualmente enquanto abria o caderno e ela me olhou boquiaberta, rindo em seguida.
- Cala a boca, vamos começar logo esse trabalho.
- Contra fatos não há argumentos. – concluí, recebendo um olhar divertido da minha amiga.

(...)


Finalizamos o trabalho algumas horas depois com uma inquieta olhando o relógio de cinco em cinco minutos. A olhei impaciente, colocando a mão em cima da sua perna que balançava freneticamente, a fim de pará-la.
- Okay, Cinderela. Pode ir, eu arrumo tudo isso. – disse, apontando para a mesa repleta de papéis, livros e canetas.
- Jura? – ela fez uma cara de cachorrinho e eu ri assentindo. – Nossa, muito obrigada! Eu te amo, sério. – me abraçou forte, quase me esmagando. Debati-me em seus braços quase sem ar.
- Vai logo antes que eu me arrependa.
- Você é maravilhosa! Tchau, monamour. – me abraçou pela última vez, saindo quase que correndo da biblioteca, nem dando tempo para que eu lhe respondesse. Balancei a cabeça negativamente, rindo enquanto guardava os materiais e arrumava aquela bagunça. Ao acabar, coloquei minha bolsa no ombro e juntei os livros em minhas mãos, despedindo-me da bibliotecária e caminhando calmamente até a saída faculdade. Já havia anoitecido, o campus encontrava-se vazio e a brisa gélida da noite fez com que eu me encolhesse um pouco sob o meu casaco, apressando o passo para chegar mais rápido ao ponto de ônibus. Senti alguém tocando os meus ombros e me virei alarmada, dando de cara com a última pessoa que eu esperava encontrar.
.
Franzi o cenho, claramente confusa pela sua presença.
olhou para os lados remexendo-se em desconforto e me encarou, o olhar vagando pelo meu e seguindo até os meus lábios entreabertos pela surpresa. Ergui uma sobrancelha demonstrando o meu incomodo e ele finalmente se tocou que teria que explicar o que queria comigo naquele momento.
- Seu tapa deixou o meu rosto dolorido por um tempão, sabia? – ele começou e eu revirei os olhos sem a mínima paciência para os joguinhos dele.
- Eu deveria ter dado outro. Geralmente você é um babaca, mas naquele dia você passou dos limites. – praticamente cuspi as palavras ao homem a minha frente, que deu um sorriso enviesado. – bom, não sei o que diabos você está fazendo aqui, mas eu estou indo embora. – virei as costas e fiz menção de andar, porém, pôs-se a minha frente.
- Eu vim dizer que foi mal por aquilo. – começou e eu o cerrei os olhos, estranhando a sua atitude. – naquele dia eu até estava disposto a falar que você não teve culpa, mas o fez as honras, não é? – notei um sarcasmo em seu tom de voz e não entendi o que ele queria dizer daquela forma.
- Aonde você quer chegar com isso? – indaguei já impaciente.
- Não quero chegar a lugar algum, só fiz uma constatação.
- Agradeço por compartilhar a sua constatação comigo. Se você já terminou, eu realmente preciso ir embora.
- Eu te levo. – ele se ofereceu e eu ri ironicamente.
- O que te faz pensar que eu vou entrar no seu carro? Enlouqueceu? – falei, já andando e ele me acompanhou. Eu gostaria de saber qual era a merda do problema de e o motivo dele ter resolvido tentar agir como uma pessoa decente do nada. Como se não bastasse, achando mesmo que eu aceitaria a sua carona.
- Para, ! Vim aqui me redimir, esquecer o tapa que você me deu e você dá dessas? – parei de andar abruptamente e o fitei totalmente desacreditada no que acabara de ouvir.
- Você é idiota ou o quê? Quer que eu te dê um biscoitinho por ter tido uma atitude adequada e ser digno pelo menos uma vez na vida? Não preciso da sua carona, obrigada. – dei sinal para o meu ônibus que milagrosamente passara naquele instante e entrei no veículo. Olhei rapidamente pela janela e avistei parado desconcertado no mesmo lugar. Sentei-me em um banco e respirei fundo, lembrando-me do fatídico momento em que nós dois nos aproximamos pra valer.

FLASHBACK

A noite estava quente e o calor fazia com que pequenas gotículas de suor aparecessem na minha testa. Eu estava na varanda de casa e via, ao longe, os amigos de rindo e conversando, enquanto ele abraçava uma garota e falava algo em seu ouvido. Tentei não me afetar com os beijos e abraços dos dois, decidindo enterrar qualquer resquício de sentimento que viesse a surgir.
- Você não está mais conseguindo disfarçar. – pulei de susto ao ouvir alguém falando ao meu lado. Olhei para a direção da voz e vi parado encarando o mesmo ponto do qual eu encarava anteriormente. A partir do dia em que nós começamos a nos falar, flertava comigo sempre que podia, até que chegou um momento em que sucumbir já era quase impossível. Nós acabamos ficando e isso meio que virou rotina, e, apesar de tudo, eu me sentia bem com ele. Franzi o cenho sem entender como eu não havia o escutado chegar.
- Como é? – indaguei confusa, recebendo um olhar cínico de que emanava obviedade sobre a sua afirmação anterior.
- A sua cara para o te entrega.
- Para de viajar, . – levantei-me de súbito e me assustei quando ele me pegou pela cintura, me levando para uma parte escondida da minha casa. – o que é isso? Está louco? – o encarei estupefata e ele me prensou à parede, sorrindo sacana.
- Uma hora ou outra o vai pedir a Cassie em namoro, gracinha. Desiste. – suas palavras me acertaram e eu tentei não transparecer o pequeno incômodo que queria surgir em algum lugar de mim. O olhei com a maior cara de “e daí?” e ele riu ironicamente. – Vamos fazer assim. – ele começou, distribuindo beijos lânguidos pelo meu maxilar, fazendo com que eu me arrepiasse de imediato. Encostou a boca no meu ouvido e tornou a falar. – vou dar uma passadinha em uma festa hoje, e, depois disso, venho te buscar pra gente ver um filme lá em casa. O que acha? Diz que vai dormir na casa de uma amiga. – finalizou, dando uma ligeira mordida no lóbulo da minha orelha e eu suspirei pesadamente.
Negar não estava nos meus planos.
- Por que eu não posso ir à festa com você e de lá nós saímos? – indaguei ingênua e ele bagunçou os cabelos olhando para os lados rapidamente, voltando a me fitar.
- Vai ser rapidinho, não tem necessidade de você ir. – explicou e eu o encarei desconfiada, porém, topei.
- Tudo bem. – sorriu e colou meu corpo ao seu, levando uma de suas mãos até minha nuca puxando-me para si, colando seus lábios aos meus de uma maneira quase erótica.

Naquela noite, eu não prestei atenção no filme.
Esqueci dos meus estranhos sentimentos a respeito de .
Não me liguei aos detalhes que quase me mostravam em letras garrafais que era cilada.
Naquela noite, eu tive a minha primeira vez.


FIM DE FLASHBACK


Balancei a cabeça para afastar aquelas memórias e ri sem humor ao me lembrar de quão estúpida eu era. No início, ficar com não envolvia nada fora atração, entretanto, o nosso envolvimento começou a evoluir.
De beijos, para amassos.
De amassos, para sexo.
De sexo, para momentos afetuosos com direito a abraços e a dormir juntos.
Conforme o tempo passava, fui adquirindo sentimentos por ele, chegando até a conseguir esquecer a incógnita que eu me encontrava acerca do . Eu não notava que era feita de otária, não notava que ele sempre tinha uma desculpa para não sair comigo em público, não notava que ele nunca me apresentava para os seus amigos por vergonha de mim. Por vergonha de admitir que estava saindo com a filha da empregada de um dos seus amigos.
Desci do ônibus e entrei no condomínio, cumprimentando o porteiro e seguindo em direção a mansão. Notei carros desconhecidos na garagem e franzi o cenho, tentando me lembrar se haveria algum evento na residência dos . Deixei meus livros em cima da minha cama ao entrar em casa e segui para o local de trabalho da minha mãe, encontrando-a servindo café em algumas xícaras.
- Oi, mãe. – dei-lhe um beijo na bochecha.
- Oi, filha. Como foi na faculdade? – perguntou, despejando café na última xícara.
- Foi tudo bem. Está acontecendo alguma coisa aqui hoje?
- Nada demais, só uma reunião com alguns advogados. – respondeu, agora picando alguns pimentões. O interfone da cozinha tocou e ela me olhou em um pedido mudo para que eu o atendesse. Tirei o aparelho da base e coloquei-o no ouvido.
- Luna, traga o café para o escritório.
A voz do senhor soou e eu fiz uma careta pelo seu tom. Dava medo.
- Senhor , minha mãe está ocupada com os preparativos do jantar, mas o café já está pronto.
- Ótimo, traga você então.
Ele desligou e eu torci o nariz, não conseguindo entender como era tão educado tendo pais tão rudes.
- Vou levar o café para eles. – anunciei para minha mãe que me olhou meio ressabiada.
- Certo. Só seja cuidadosa. – pediu e eu fiz um joinha com a mão, pegando cautelosamente a bandeja e seguindo rumo à sala de reuniões, agradecendo por ela se localizar no térreo. Ser estabanada não combinava com escadas.
Dei algumas batidas na porta e ela se abriu, revelando um que aparentava estar cansado. Fitamo-nos por alguns instantes e eu dei um sorriso tímido, que foi retribuído com o seu característico aceno de cabeça. Ele deu espaço para que eu passasse e eu entrei na sala murmurando um “com licença.” Havia três pessoas ali fora e o seu pai. Duas mulheres e um homem.
- Preste atenção dessa vez. – o senhor ordenou e eu assenti temerosa em fazer alguma coisa errada. – Thompson, a pasta está com você? – ele indagou a um homem que aparentava ter aproximadamente uns quarenta anos, que lhe entregou o objeto preto lotado de documentos.
Eu servia as xícaras para cada um cuidadosamente e sentia o olhar de alguém queimando sobre mim. Ao terminar, descobri de quem se tratava. encontrava-se encostado na porta com os braços e as pernas cruzadas e me fitava sério. Não de maneira severa, mas sim, de uma maneira... Analítica? Pisquei algumas vezes me sentindo perdida diante de sua avaliação e voltei a minha atenção aos demais presentes no recinto.
- O senhor deseja mais alguma coisa? – indaguei ao senhor , que negou com a cabeça e abanou a mão para que eu saísse. Virei-me e me dirigi à saída da sala, passando por e notando que ele encarava um ponto qualquer do local, não me olhando mais. Senti a porta sendo fechada atrás de mim e retornei à cozinha, depositando a bandeja na pia.
- Quer ajuda? – perguntei a minha mãe, que mexia algo nas panelas.
- Não, . Estou acabando aqui e já, já vou para casa. Pode ir primeiro. – disse sorrindo.
- Vou fazer algo para nós comermos, ta? – falei, já indo para a porta que dava no quintal. Minha mãe respondeu um “obrigada” e então eu saí. Cheguei em casa e tomei um banho rápido, já iniciando os preparativos para a janta.
Meus pensamentos insistiam em ir de encontro a um destino proibido chamado , o que me fazia bufar em impaciência e quase amassar as folhas que eu lavava para preparar a salada. Durante um bom tempo eu havia conseguido esconder as sensações que ele me causava, não me importava se era apenas um estado de negação ou se eu estava me enganando, enquanto eu conseguisse agir como se nunca houvesse sentido nada, as coisas ficariam bem. E tudo estava indo muito bem, obrigada, até essa nossa pequena aproximação repentina estragar tudo. Se já era complicado o suficiente quando ele não conversava comigo, imagina agora, que ele definitivamente resolveu bancar o mister simpatia – do jeito dele, claro –. Eu consigo claramente enxergar o meu anjo da guarda tendo uma baita de uma discussão com o meu cupido teimoso e bem desprovido de bom senso, devo acrescentar. Balancei a cabeça me amaldiçoando por estar refletindo sobre esse assunto e foquei no preparo da janta, que era bem mais importante, haja vista que o meu estômago gritava por comida.

**

’s POV

Suspirei aliviado ao fim da reunião. Afrouxei minha gravata e encostei-me a cadeira, observando todos ali presentes guardarem os documentos em suas pastas. Recolhi alguns papeis à minha frente e levantei-me, armazenando-os em uma gaveta, e notei Thompson vir ao meu encontro.
- Dia longo, hein, ? – começou e eu apenas assenti, ainda organizando a papelada na gaveta. – Quem era aquela bonitinha que serviu os cafés? Vi você olhando pra ela, hein. – falou casualmente, como se fôssemos velhos amigos. Parei o que eu fazia e o encarei com a sobrancelha arqueada, notoriamente demonstrando o meu desagradado diante a sua intromissão.
- Não acho que nós sejamos próximos para que você se dirija a mim dessa forma, Thompson. – censurei-o, vendo a sua expressão despreocupada tornar-se impactada. Fechei a gaveta e saí, deixando o homem ainda me fitando um tanto quanto colérico. Foda-se. Despedi-me dos demais que também saíam da sala e segui para o meu quarto, indo direto para o banheiro, necessitando de uma ducha e de descanso.

**

Eu caminhava a passos firmes em direção ao escritório da casa do meu cliente, que me esperava sentado atrás de sua mesa, visivelmente abatido. Visitaria Lee Feldman para deixá-lo ciente sobre todos os procedimentos a respeito do andamento do caso, como eu sempre fazia. Cumprimentei-o e me sentei à sua frente.
- Sr. Feldman, eu entrei em contato com todos os presentes na festa no dia do crime, porém, nenhum deles aceitou comentar absolutamente nada sobre o que acontecera. Se alguém me desse um depoimento a respeito da sua localização no momento do assassinato, nós teríamos um álibi que seria indubitável para provar a sua inocência.
- Como assim? De todos os convidados, ninguém quis falar nada? Eu estava o tempo todo no salão principal! Isso é uma barbaridade! – ele exaltou, visivelmente nervoso. Respirei fundo antes de continuar.
- As pessoas desejam se envolver o mínimo possível nesses casos por diversos motivos. Eu investiguei cada um dos empresários convidados, muitos deles possuem pendências com a justiça, seria um despropósito para eles participarem desse fato, nem que seja por meio de um simples depoimento. Ninguém quer se envolver.
- E agora? – Felman questionou, passando as mãos pela cabeça. Eu precisava fazer com que alguém de dentro daquele evento conversasse comigo, caso contrário, as coisas poderiam ficar complicadas.
- Vou dar um jeito de conseguir um depoimento a seu favor. Por enquanto, preciso que você me passe todas as notas fiscais da sua empresa dos últimos anos. Demonstrando que todas as suas atividades são legais, será um argumento a mais para provar que você não teria motivos para cometer um homicídio. – ele assentiu veemente.
- Doutor , sei do que falo, por isso, peço para que você tome cuidado. – franzi o cenho ao passo que o ouvia. – a maioria das pessoas que participaram do evento são corruptas. Durante todo esse tempo eu me mantive perto apenas para me proteger, afinal, o ditado que diz “mantenha os seus amigos por perto, e os seus inimigos, mais ainda” é totalmente verídico. – assenti vagarosamente. As ligações estranhas que eu andava recebendo me atingiram em cheio, e eu comecei a ligar os fatos. Precisava dar um jeito nisso antes que tudo piorasse.
- Não se preocupe, senhor Feldman. Serei cauteloso. Quero que se concentre no dia da festa e anote tudo o que se lembrar, todos os detalhes de todos os indivíduos. O que fizeram, o que disseram, tudo. Volto daqui duas semanas para recolher as notas fiscais e as suas anotações, ok?
- Certo. Muito obrigado. – levantamo-nos e nos cumprimentamos com um aperto de mãos.
- Vamos pegar quem fez isso. – falei com firmeza. – até mais, senhor Feldman.
- Até. – ele respondeu e eu dei um breve aceno de cabeça, passando pelos guardas e caminhando porta afora da casa.
Passei as mãos pelo cabelo, me sentindo tenso. Esse caso me deixava cada dia mais apreensivo, e o fato de ser ameaçado pelo responsável dessa situação toda transformava tudo em uma merda completa. Sabia que eu precisaria andar alarmado e redobrar o cuidado, contudo, se esse maldito acha que vai me amedrontar, está completamente enganado. Entrei no meu carro e peguei o meu celular, atendendo sem ao menos olhar em seu visor.
- Alô?
- Se você presa pela sua vida, largue o caso do Mason Zummack. – uma voz robótica soou do outro lado da linha e eu dei um sobressalto, olhando para todos os lados e pelo retrovisor.
Antes que eu pudesse responder, a ligação foi terminada.
Engoli a seco e bati a mão no volante, sentindo meu sangue correr rápido em minhas veias.
É oficial.
Eu estava sendo ameaçado.



Capítulo 7


Mas eu espero que você se reestruture, porque eu não posso me apaixonar sem você. - Zara Larsson - I Can't Fall In Love Without You.


’s POV

Eu sentia que a minha cabeça doía cada vez mais.
O meu nível de estresse com certeza estava nas alturas, eu não conseguia pensar em nada que não fosse a porra da ligação que eu recebi durante a manhã. Eu precisava pensar com calma e colocar todas as minhas ideias no lugar antes de fazer qualquer coisa que seja, afinal, agora a minha integridade física também corria perigo.
Sair do caso estava totalmente fora de cogitação.
Pedir proteção não seria muito inteligente, pois só provocaria quem quer que estivesse por trás disso tudo.
Pelo menos por hora, eu iria continuar a fazer o que estava fazendo e agir como se nada estivesse acontecendo.
Meu celular tocou e eu me senti inquieto, quase suspirando aliviado ao ver o número de Cassie piscando na tela.
- Por que você sumiu o dia todo, ? – mal coloquei o aparelho no ouvido e a voz estridente e raivosa da minha namorada soou. Fechei os olhos e levei minhas mãos às têmporas. Tudo o que eu não precisava era de mais uma discussão.
- Oi, Cassie. – minha voz soou entediada. – Eu fiquei ocupado o dia todo, desculpe. – a minha cabeça encontrava-se a mil e eu realmente havia me esquecido de ligar para a minha namorada, que parecia uma fera do outro lado da ligação.
- Sinto muito? Só isso? O que tanto você tem pra fazer que não pode ao menos dar sinal de vida?
- Eu tenho um caso fodido pra cuidar, Cassie. Só isso – respondi ríspido, já prevendo outra briga.
- Onde você estava de manhã?
- Na casa do meu cliente. – ouvia-a bufar e revirei os olhos.
- Você vive pra esse caso vinte e quatro horas por dia, eu não aguento mais! – ela esbravejou e eu perdi a calma.
- Meu trabalho NÃO É brincadeira. Eu tenho que ser sério e responsável com o meu cliente, com o caso e com as pessoas a PORRA DO TEMPO TODO. Eu tive um dia de merda, o mínimo que eu esperava de você era compreensão!
- Eu não tenho culpa se o seu trabalho te consome, não venha descontar em mim!
- Você só me ligou pra brigar? Porque ultimamente é só isso que você anda fazendo. – afirmei e a ouvi reclamar, começando a fazer um escândalo do outro lado da linha. Bufei e a cortei. – Já que você anda gostando de fazer birra, faça sozinha. Boa noite. – desliguei e praticamente joguei meu celular na mesa.
Será possível que eu não vou poder ter paz em momento nenhum?
- , preciso falar com você. – meu pai entrou em minha sala e eu recebi a resposta para a minha pergunta.
Não, eu não iria ter paz em momento nenhum.
- O que aconteceu? – questionei, já esperando alguma notícia que me deixaria mais puto do que eu me encontrava.
- Eu irei viajar amanhã e não poderei comparecer a uma reunião em outro estado no sábado, então você comparecerá por mim. – ele disse. Viajar não seria ruim, afinal. Mesmo que seja para uma reunião de negócios. Eu assenti e ele continuou. – Vou deixar todas as informações com a secretária, pegue com ela depois. – assenti novamente, sem ter o que falar.
- Mais alguma coisa? – perguntei e meu pai negou.
- Vou ficar aqui por mais algum tempo, pode ir pra casa. – terminou e saiu.
Peguei meu terno, recolhi as minhas coisas e saí, acenando com a cabeça para algumas pessoas ali. Entrei no meu carro e dei partida. Meu pescoço doía feito o inferno e eu sentia um mal-estar horrível. Foquei na rua a minha frente desejando chegar logo em casa, uma vez que não estava muito bem.

Desci do carro e decidi não entrar em casa. Segui direto para o jardim, único lugar que eu conseguia me acalmar. Peguei um maço de cigarros, retirando um de dentro dele e o acendendo. Dei uma longa tragada enquanto caminhava em meio às plantas, e a cena que eu vi ao chegar ao meu destino fora quase como a de um dejavú, se não fosse pela presença do meu cachorro. Assim como há poucos dias, estava sentada no banco. Dessa vez, ela abraçava as suas pernas que encontravam-se encolhidas junto à seu corpo e a sua cabeça repousava em seus joelhos. Ela não parecia bem. Aproximei-me, chamando a atenção de Bento, que levantou a cabeça para me observar. A garota acompanhou o olhar do cão ao seu lado e parou em mim, sua expressão vaga me fitou por poucos segundos ao passo que eu me aproximava, voltando a olhar para frente rapidamente. Bento desceu do banco e deitou-se ali pelo chão, deixando vazio o lugar ao lado de . Sentei-me ali e ela nem se moveu.
Silêncio.
Dei outra tragada em meu cigarro, soltando a fumaça vagarosamente.
Olhei de esguelha, não tendo muita visão de seu rosto, pois seu cabelo caía sobre ele. Ela esfregou a mão pela sua face depressa, gesto esse que não passou despercebido por mim.
Ergui uma sobrancelha. Ela estava... Chorando?
Caralho.
Achei melhor permanecer em silêncio.
Passaram-se alguns minutos e eu me estiquei para jogar o meu cigarro em um lixo ali perto, tornando a fitar a garota ao meu lado, que parecia ter parado de chorar, embora não tivesse movido um músculo sequer durante todo esse tempo.
- Dia difícil? – questionei despretensiosamente, sentindo o seu olhar sobre mim.
- Um pouco. – sua voz suave estava um pouco rouca, o que só confirmou o que eu já sabia. Ela realmente havia chorado. – E o seu?
- Você não sabe o quanto – ri sem humor. Ela deu um sorriso frouxo e o habitual silêncio fez-se presente mais uma vez.
Um lado meu queria perguntar-lhe se estava tudo bem.
O outro, que consistia na minha parte estressada, queria apenas ficar em paz e não ouvir a respeito dos problemas de ninguém, afinal de contas, já possuía os próprios para se preocupar.
A minha parte estressada ganhou e eu apenas resolvi não dizer nada, levando em conta que nós não tínhamos intimidade para conversar a respeito das nossas dificuldades. Apoiei as minhas costas no encosto do banco e joguei a cabeça um pouco para trás, respirando fundo. Fechei meus olhos e permaneci dessa forma por alguns minutos, logo sentindo um olhar sobre mim. Os abri e encontrei uma me fitando curiosa. A garota enrubesceu e eu ergui uma sobrancelha, quase achando graça do jeito que ela ficara, vendo-a virar o rosto para frente rapidamente ao notar que eu não me encontrava mais de olhos fechados e também a encarava curioso. Senti uma forte pontada na cabeça e levei minhas mãos ao local, me curvando um pouco devido a dor, chamando a atenção de .
- Você está bem? – ela indagou, me olhando receosa. Assenti e ela estreitou os olhos, como se não acreditasse no que eu lhe dissera. – Tem certeza?
- Sim, é só uma dor de cabeça. Logo passa. – ela afirmou vagarosamente ainda me analisando, e eu me perguntei se estava com cara de dor ou algo do tipo. – Você também não me parece estar bem. – concluí, mudando o foco da conversa para ela, visto que seus olhos levemente vermelhos indicavam o seu recente choro. Ela comprimiu os lábios e torceu o nariz, o olhar se tornou vago novamente. De repente me senti mal por ter tocado no assunto.
- É aniversário do meu pai... – Lembrava ligeiramente da minha mãe comentando sobre o pai de , que falecera quando ela ainda era pequena. Esse fora o principal motivo para que elas passassem a morar aqui. Sem saber o que dizer, apenas a encarei e falei o que ela já devia estar cansada de ouvir.
- Sinto muito. – proferi com sinceridade, fitando seus olhos vermelhos, que me fitavam de volta. Eu queria ter algo melhor para dizer, porém nada me vinha à cabeça. Nunca havia perdido alguém, não fazia ideia de como lidar com isso. sorriu agradecida e notei que o seu rosto encontrava-se corado. Ela cortou o contato visual e olhou para as suas mãos juntas em seu colo, levando-me a olhar para frente, contemplando o verde das árvores que chacoalhavam devido à ventania daquela noite.
O silêncio era acolhedor, não tinha nada de estranho.
Eu me sentia confortável, apesar do maldito mal-estar permanecer me incomodando. Fui desperto pelo rabo do Bento batendo no meu rosto e a risada divertida da fez-se presente. Pisquei os olhos, atônito, e percebi que o meu cachorro subira no banco, acomodando-se entre mim e a garota ao meu lado. Sua cabeça estava no colo dela e o seu corpo, no meu.
- Ele não tem noção do próprio tamanho. – disse, rindo. Acompanhei a sua risada, concordando.
- Definitivamente não tem. Ele toma conta da maior parte da minha cama e só dorme se tiver um travesseiro pra ele. – A garota riu ainda mais e eu comprovei que a sua gargalhada definitivamente dava vontade de gargalhar junto, pois foi exatamente o que eu fiz.
- O Bento é um cachorro humano, eu acho que um dia ele vai falar. – ela constatou, acariciando a cabeça do cão que dormia tranquilamente.
- Eu também tenho essa impressão.
- Sempre quis ter um cachorro. Quando eu ia ganhar o meu, tudo aconteceu e nós tivemos que nos mudar pra cá. – comentou casualmente, ainda concentrada no Bento.
- Deve ter sido difícil. – pressupus, e ela assentiu.
- Me sinto culpada até hoje por ter ocupado a casa que você usava. – confessou e a sua expressão era de pesar. – Sempre achei que você guardasse uma espécie de ódio de mim por isso. – um sorriso sem graça perdurava em seu rosto e mais uma vez o rubor em sua face apareceu. Arqueei uma sobrancelha e soltei um riso abafado, fitando-a zombeteiramente.
- Como é? – perguntei e ela deu de ombros, visivelmente encabulada.
- No dia em que a sua mãe nos apresentou você estava com uma cara péssima. – concluiu receosa e eu assenti, me recordando da raiva que eu sentira por ficar sem o local que eu utilizava para me encontrar com os meus amigos.
- Eu fiquei bem puto mesmo. – comecei sério, vendo-a se retrair mais. Segurei o meu riso e de repente a ideia de provocá-la me pareceu divertida. – Me lembro desse dia. Você se escondia o tempo todo atrás da sua mãe. – ela me encarou, as bochechas adquirindo cada vez mais um tom rosado. – Mas era coisa de adolescente. Eu não te odeio. – terminei despreocupadamente e ri, lançando uma piscadela em sua direção. Ela negou com a cabeça, acompanhando o meu riso.
- Que ótimo, vou poder dormir em paz. – disse, me fitando ironicamente e eu sustentei o seu olhar da mesma forma, levantando uma sobrancelha com um leve sorriso sarcástico brincando nos lábios.
Repentinamente parecíamos bons amigos conversando e eu, surpreendentemente, me senti bem pela primeira vez no dia.
Continuamos outro assunto, que se emendou em outro e mais outro. Após tantos anos morando no mesmo lugar, eu finalmente conheci um pouco melhor a garota que sempre me fora indiferente. Após um dia fodido de tão ruim, eu me permiti rir autenticamente e consegui, por pelo menos por algumas horas, deixar os problemas de lado.

’s POV

Sexta-feira, que dia maravilhoso.
Mais maravilhoso ainda era o fato de não precisar ir trabalhar amanhã, pois seria o meu dia de folga já que o senhor Jordan – dono da loja – iria testar o novo assistente contratado para me ajudar nas tarefas. Eu estava mais morta de sono do que o normal e sabia exatamente o motivo: Havia ficado até tarde conversando com na noite anterior. Falar com ele como se fôssemos bons amigos me deixou surpresa, eu nunca imaginaria que o papo fluísse tão naturalmente ao conversar com alguém, principalmente quando esse alguém é sempre tão fechado. Durante o dia todo me senti idiotamente feliz e me abominava por isso, eu abominava esses sentimentos que nunca iam embora completamente.
Assim que entrei em casa, vi que minha mãe dobrava algumas roupas e as colocava dentro de uma pequena mala.
- Mãe, pra que tudo isso? – perguntei, vendo algumas blusas em cima do sofá.
- Vou viajar com a dona Kyara, filha. Saímos daqui a pouco. – respondeu, depositando as últimas peças de roupa na mala. Franzi o cenho, claramente confusa.
- Como assim? Pra onde?
- Ela tem algumas consultas em outra cidade e eu irei acompanhá-la. O Senhor Henrico viajou hoje à tarde e o viajará amanhã. – explicou e eu assenti em compreensão.
- Quando vocês voltam?
- Domingo à noite. – olhou no relógio e fechou a mala. – O taxi deve estar próximo. Te ligo assim que nós chegarmos, ok? – disse, caminhando para fora de casa e eu segui a seu encalço. Minha mãe me deu um abraço e eu retribuí.
- Tudo bem. Boa viagem! – nos separamos e sorri para o seu aceno, correspondendo-o e vendo-a andar em direção a mansão dos .
Entrei em casa e fechei a porta atrás de mim, seguindo para o banheiro. Tomei um banho maravilhoso e preparei um lanche, ansiando pela maratona de séries que me aguardava.

Acordei totalmente e estranhamente disposta naquela manhã. Havia limpado a casa toda, feito algumas atividades da faculdade e enviado uma parte do projeto do TCC para . Depois de tomar um banho de lavar a alma, almocei e resolvi ler um livro na varanda. Sentei-me no banco que ali ficava e, quando estava prestes a iniciar a minha leitura, notei algo estranho. O carro de encontrava-se na garagem. Talvez ele tenha decidido ir até o aeroporto de taxi. Dei de ombros e voltei a minha atenção ao meu livro, entretanto, dessa vez, fui interrompida por Bento, que surgiu à minha frente, me assustando.
- Quer me matar do coração? – ri e acariciei sua cabeça, mas ele não se deitou ao meu lado como sempre fazia. O cão latiu e permaneceu ali, balançando o rabo energicamente e com as orelhas erguidas em alerta. Juntei as sobrancelhas, estranhando o seu estado agitado. – O que foi? Você está estranho, Bento. – mais um latido. Levantei-me e ele pulou em mim, jogando suas duas patas dianteiras no meu corpo, quase me derrubando. Em seguida, correu em direção à casa dos . Fiquei parada e confusa encarando o lugar pelo qual o cão entrou, não sabendo o que fazer. Em meio a passos incertos, segui para a mansão apenas para me certificar de que estava tudo bem, tirando meu celular do bolso e o segurando firme em minhas mãos, temendo que alguém estranho estivesse ali. Por mais seguro que o condomínio seja, desconfiança nunca seria demais. Entrei na casa pelos fundos como eu sempre fazia, passando pela cozinha e andando rumo à sala de jantar. Tudo encontrava-se em um silêncio sepulcral, não havia nenhum empregado em lugar algum, já que o senhor e a senhora os dispensavam sempre que iam viajar. Parei na sala e olhei em volta, me sentindo perdida.
- Onde esse cachorro se meteu? – bufei aborrecida. Ouvi um latido e virei meu corpo em direção ao som, vendo Bento no topo da escada. – Achei você! Desce daí, vem me fazer companh... – fui interrompida por mais um latido. Franzi o cenho e resolvi subir, visto que ele nem se mexeu. Subi as escadas vagarosamente e de forma receosa, e quando coloquei o pé no último degrau, Bento correu corredor à dentro, entrando em disparada em um cômodo.
Se eu bem me lembrava, se tratava do quarto do .
Parei novamente, o receio era gritante.
Eu não iria entrar lá.
Mas por que o Bento estava tão agitado?
Me mantive oscilando entre ir ou não, meus passos eram curtos e vacilavam ao passo em que eu andava vagarosamente naquele enorme corredor. Quando alcancei a metade do caminho, ouvi um urro abafado. Dei um sobressalto e finalmente decidi andar apressada até o quarto.
Ao chegar lá arregalei os olhos, assustada.
encontrava-se sentado no chão.
Urrando de dor.
Ele se inclinava pra frente com as duas mãos na cabeça e os seus olhos se apertavam com força.
Outro urro, dessa vez mais alto, invadiu os meus ouvidos. Eu corri até e me abaixei em sua frente, totalmente desesperada.
- ! – ele abriu minimamente os olhos para me fitar, os fechando rapidamente. Ele estava pálido e eu angustiada.
- , eu... Argh. – grunhiu e parou de falar, se inclinando mais. O apoiei em meu corpo e, com muita dificuldade, o coloquei em sua cama. – Deita aqui, eu vou ligar para o Doutor Elish. – saí em disparada para o escritório, onde eu sabia que havia vários números de telefone. Doutor Elish era um médico do condomínio e amigo da família. Recorrentemente atendia à senhora devido aos seus desmaios, tendo até mesmo atendido a mim e a minha mãe. Folheei a agenda com pressa e encontrei seu contato, discando os números pelo meu celular. Eu corri de volta ao quarto enquanto aguardava ser atendida, e, após alguns toques, ouvi a voz calma do senhor do outro lado da linha.
- Doutor Elish falando.
- Doutor, é a , da residência dos . Eu... Eu não sei o que fazer, o está muito mal, parece estar com muita dor e... Ele está apertando a cabeç... – Calma, . – fui interrompida por seu tom de voz terno. – Eu estou saindo de um plantão e daqui a pouco chego aí, tudo bem? Por enquanto, me escute. – respirei fundo e esperei que ele continuasse, passando a mão nos cabelos em nervosismo ao ver se contorcendo daquela forma.
- Primeiro, verifique para mim se ele está quente. – fiz o que me foi pedido e, delicadamente, coloquei minha mão livre em sua testa.
- Não, Doutor. Ele está suando frio, apenas.
- Certo. Agora, feche a cortina. Deixe o ambiente escuro, tudo bem? – eu andava apressada pelo quarto, fechando a cortina que cobria a enorme janela do quarto de . Olhei para ele, que continuava com as mãos na cabeça e os olhos fechados.
Grunhiu novamente, se revirando na cama, e eu, aflita, senti o meu coração apertar.
- Pronto. E agora? – questionei, sentando-me no espaço vago da cama, sem tirar os olhos do homem à minha frente.
- Pegue uma bolsa de água ou um pano e mergulhe na água fria. Feito isso, ponha na testa dele. Estou a caminho.
- Tudo bem. Obrigada, Doutor – falei, já descendo as escadas, quase tropeçando nos meus próprios pés.
Finalizei a ligação e, sem paciência para procurar a bolsa de água, peguei um pano limpo em uma gaveta e o molhei na água fria. Retornei ao quarto igual a um furacão, tornando a me sentar ao lado de , e, com destreza, peguei a sua mão que encontrava-se em sua testa e a retirei de lá, depositando o pano dobrado no local. Estava tão absorta no que fazia que não notei que ainda a segurava. Olhei para minha mão por cima da sua e engoli a seco. As conhecidas borboletas fizeram-se presente. Quando eu fiz menção de retirá-la de lá, virou a sua palma e a segurou com firmeza, dando um breve aperto, provavelmente por causa da dor.
- Calma, o Doutor está chegando. – falei quase em um sussurro, usando a mão livre para arrumar o pano em sua testa.
Bento estava deitado no pé da cama com a cabeça apoiada nas patas dianteiras, observando tudo atentamente. Parei para admirar o quão inteligente aquele cachorro era, afinal, se não fosse por ele, provavelmente teria algo mais grave, haja vista que ninguém o veria passar mal. Alguns minutos depois, ouvi a campainha tocar. Com pesar, soltei a mão de e desci velozmente para atender a porta, vendo a feição sempre serena do médico a minha frente me trazer alívio.
- Obrigada por vir, Doutor. – disse, dando espaço para que ele passasse e fechando a porta, já seguindo para o quarto de .
- Não precisa agradecer. – ele sorriu, seguindo a meu encalço. Entramos no quarto pouco iluminado e o Doutor Elish foi em direção ao homem inquieto deitado na cama. Eu permaneci próxima a cama com os braços cruzados e me sentindo perdida.
- , é o Doutor Elish. Eu sei que você está com muita dor, mas eu preciso que você responda algumas perguntas, tudo bem? – ele assentiu. – Vamos lá... Diga-me o que está sentindo.
Após um longo suspiro, ele começou:
- Minha cabeça... Está latejando de dor...
- Ok. Piora quando você abre os olhos? – assentiu novamente. – E o que acontece no momento em que os abre?
- Eu vejo alguns... Pontos brilhantes e manchas escuras. Meu braço está dormente. – ele reclamou com a voz rouca, sentando-se na cama ao inclinar-se para frente devido a uma pontada em sua cabeça. Eu fui para o seu lado, apavorada, e o fiz deitar novamente. - , você precisa ficar deitado. – falei suavemente para não piorar a sua dor, enquanto o Doutor Elish anotava algo em um bloquinho de papel. Ele abriu os olhos minimamente e me fitou com a expressão contorcida em dor, e, mais uma vez, senti o meu coração apertar. Não suportava ver alguém sofrendo, e, quando esse alguém se tratava de , a situação piorava. – Feche os olhos, está bem? Ficar com eles abertos vai piorar. – aconselhei em um sussurro. O vi fechar os olhos e o Doutor parou suas anotações.
- Há quanto tempo você está sentindo essas dores, ?
- Há algumas semanas.
- O que você tem é uma crise forte de enxaqueca com aura, que refere-se a uma intensa dor de cabeça com sensibilidade à luz e à barulhos. A manifestação mais comum da enxaqueca com aura é a chamada aura visual, que pode se apresentar como flashes de luz, manchas escuras em forma de mosaico ou imagens brilhantes em ziguezague, e também pode ocorrer dormências ou formigamentos em apenas um lado do corpo, que é o que você está sentindo. Durante uma crise o paciente não suporta ambientes barulhentos e muito iluminados, e, apesar de existirem vários fatores desencadeantes de uma enxaqueca, o gatilho mais importante é, sem dúvida, o estresse emocional. – O Doutor Elish falava calmamente e eu ouvia tudo extremamente atenta. – Por hora, não há necessidade de ir ao hospital. Vou medicá-lo e passar algumas prescrições, entretanto, irei encaminhá-lo a um Neurologista que poderá obter um diagnóstico mais aprofundado. – ele disse, procurando algo em sua bolsa e retirando uma cartela de comprimidos dela.
- Vou pegar um copo d’água. – avisei e saí do quarto em passos velozes até a cozinha. Peguei um copo e despejei o líquido gelado nele, subindo rapidamente e o entregando a que encontrava-se sentado com o comprimido em mãos.
Ele o tomou e respirou fundo.
- Eu tenho uma reunião, preciso viajar, não posso ficar em casa. – alertou visivelmente preocupado.
- Sinto lhe dizer, meu rapaz, porém, você terá que remarcar seus compromissos. O ideal é que se deite e fique em repouso absoluto, nada de estresse. – fechou a cara e, meio a contragosto, voltou a se deitar. – o medicamento não demorará a fazer efeito, recomendo que durma, descanse e resolva as suas pendências depois. – Terminando de dizer isso, ele virou-se para mim. – Eu tenho que fazer algumas visitas domiciliares, então preciso ir. Não se preocupe, a crise está controlada. – explicou e eu assenti, saindo do quarto acompanhada com o simpático senhor. Fiz um sinal com a mão para Bento, que não queria sair de perto da cama de . O Doutor deu uma risada baixa ao meu lado e eu suspirei derrotada, vendo que ele não sairia de lá. Deixei a porta do cômodo encostada e segui até a saída com o Doutor.
- Muito obrigada, Doutor Elish. Desculpe se te incomodei. – falei, recebendo um sorriso quase paternal em resposta.
- Não se preocupe, . Me ligue se acontecer alguma coisa, tudo bem? Só queria te pedir para aguardar até que o acorde, apenas para se certificar de que ele estará bem.
- Pode deixar, ficarei aqui até ele acordar. – retribuí o sorriso e acenei ao ver o senhor assentir e entrar em seu carro.
Voltei para dentro da mansão e fiquei parada na sala tal como um vaso de planta.
O que eu iria fazer?
Bom, eu deveria ligar para alguém próximo a .
O problema era que eu não tinha o telefone de ninguém.
Será que a sabia o número da Cassie? Com certeza seria mais apropriado se ela ficasse com ele.
Peguei meu celular e disquei o número da minha amiga. Alguns “tu’s” depois, ela atendeu.
- Olá, amorzinha! – disse com o seu típico tom animado.
- Oi, mi amor! Tudo bem?
- Tudo ótimo! E você, como está? Já sentindo a minha falta? – indagou convencida e eu ri.
- Sim, preciso ouvir a sua voz para animar o meu sábado. – gargalhou e eu continuei. – Na verdade, preciso mesmo é saber se você tem o telefone da Cassie.
- Oi? Pra que você quer o telefone dela?
- O teve uma crise de enxaqueca extremamente forte e todo mundo viajou. Eu chamei o médico do condomínio, que o atendeu, mas eu não sou a pessoa mais apta para estar aqui, entende? Queria avisar a Cassie.
- Caramba, ! Mas está tudo bem?
- Sim, agora está.
- Infelizmente eu não tenho o telefone dela, desculpe. – sua voz soou pesarosa. – Porém, vou perguntar pra alguns conhecidos meus e te passo o número caso eu consiga, okay? Talvez o Paolo tenha.
- Obrigada, amiga! Vou esperar.
- Por nada, sweetie. Beijo.
- Beijo.
Finalizei a ligação e suspirei, sentindo a adrenalina baixar e um pequeno cansaço se apossar do meu corpo. Vivenciar fortes emoções em menos de uma hora dá uma baita moleza. Sentei-me no sofá e apoiei a cabeça em minhas mãos, ainda meio atônita e com os costumeiros sentimentos irritantes me importunando. Ver o frágil daquela forma foi desesperador. Quão estressante seria a sua rotina para que ele tenha ficado doente?
Cerca de uma hora depois – de muito tédio, devo acrescentar – meu celular apitou, indicando uma nova mensagem de .

, não consegui o número da Cassie e o Paolo não entende”

Droga.
Passei as mãos no cabelo e olhei em volta, incomodada.
Lembrei do livro que eu iria começar a ler mais cedo e levantei-me com a intenção de ir buscá-lo. O peguei de cima do banco onde eu o havia deixado anteriormente e voltei para a sala da mansão, sentando-me novamente no sofá e começando a minha leitura até que acordasse.

Uma hora.
Duas.
Três.
Havia acabado de ler o livro e chequei as horas em meu relógio. 17hrs13min. Será que havia acordado? Saí da sala e subi as escadas pela milésima vez no dia, e, quando cheguei perto do quarto de , parei ao ouvir a sua voz. Ele parecia estar em uma ligação.
- (...) Não fui, cara. Tive uma porra de crise de enxaqueca, cancelei tudo (...) Sim, estou legal (...) Eu já liguei pra Cassie umas dez vezes e ela não me atende, é foda (...) Eu ia chamá-la para ficar aqui comigo (...) Sei lá, não nos falamos desde quinta (...) Beleza, se der aparece aqui (...) Tchau.
Mordi o lábio me sentindo sem graça. Bom, pelo menos ele parecia estar bem. Terminei o caminho e bati na porta que eu outrora havia deixado encostada. Ouvi um “entra” e, hesitante, a abri, encontrando sentado na cama encarando o celular em sua mão com uma feição séria e eu diria que também desapontada.
Não entrei, permaneci parada na entrada do cômodo e ele levantou seu olhar até mim.
- Oi... – comecei. – Você está melhor? – ele assentiu.
- Obrigado pelo que você fez, . Mesmo.
- Não precisa agradecer. – sorri. – o Doutor deixou o remédio em cima da cômoda e as recomendações escritas naquele papel. – apontei para o local e dirigiu a sua atenção até o lugar em que eu indicara com o dedo, voltando a me encarar atentamente. – Tente não se esforçar demais e não me assustar de novo. – brinquei e ele riu, concordando.
- Desculpe, não irá mais acontecer... Eu espero. – lançou-me um riso fraco.
- Não está sentindo mais nada?
- Não, estou bem.
- Então eu vou te deixar descansar. Caso você se sinta mal, eu estarei em casa. – avisei sob o seu olhar minucioso.
- Certo. Não se preocupe, pode ir.
Sorri pela última vez lançando-lhe um “tchauzinho” com as mãos, saindo do quarto e sentindo o seu olhar queimar em minhas costas.
Senti uma brisa suave bater em meu rosto assim que me retirei da casa dos e respirei fundo, encostando-me a um pilar.
Eu só queria não sentir o que eu sentia.



Capítulo 8


“O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação." - Carl Jung.


’s POV

- E ai? – cumprimentei , dando espaço para que ele entrasse.
- Puta merda, você está horrível. Tem certeza de que melhorou? – ele disse, me analisando de maneira exagerada.
- Vai se foder – ri e me sentei no sofá, prestando atenção em um jogo qualquer que passava na televisão e o meu amigo se jogou na poltrona à minha frente sem cerimônia, entrelaçando as mãos atrás da cabeça com o seu usual jeito despreocupado.
- Sério, me fala direito o que te deu.
- Nem eu sei. Eu acordei meio mal e foi piorando conforme eu arrumava as minhas coisas pra viagem.
- E como você fez com a reunião que o seu pai disse pra você ir? – indagou e eu passei as mãos no rosto em cansaço, já prevendo a reação que o Senhor Henrico teria ao saber que eu não fui à viagem.
- Cara, eu mandei uma advogada de lá do escritório pra ir no meu lugar.
- Ser filho do patrão tem várias vantagens, meu amigo. – ele brincou e eu assenti com certa aversão. A verdade é que eu odiava esse título de “filho do patrão”, isso tirava todos os meus méritos sobre o espaço que eu estava conquistando no meio da advocacia.
- Ele vai ficar puto, mas eu estava sem condições de enfrentar uma viagem e encarar uma reunião. Ainda bem que a me ajudou e...
– Como é? – me interrompeu surpreso e eu franzi o cenho sem entender.
– Como é o quê? – perguntei e o vi se remexer, olhando para o lado. Continuei não compreendendo.
- ? O que ela estava fazendo aqui?
- Ela mora aqui? – respondi como se fosse óbvio.
- Digo... Aqui, dentro da sua casa. Como ela soube que você estava mal?
- Não faço ideia. Mas isso não vem ao caso, cara. Pra que esse espanto todo? A é uma garota legal, você que faz questão de ser um otário com ela. – ressaltei e vi a sua expressão fechar. Ele riu irônico em seguida.
- Virou defensor dos fracos e oprimidos mesmo?
- Não, só queria entender o motivo da sua birra infantil com alguém que nunca te fez nada. – respondi seco e levantou as mãos em rendição. - Wow, calma aí, bad boy. Não está mais aqui em falou da sua nova protegida. – enfatizou debochado. Eu permaneci o olhando de forma séria e com uma sobrancelha erguida. Percebendo que eu não havia gostado do rumo da conversa, ele continuou. – Mudando de assunto, e a Cassie? Conseguiu falar com ela?
- Não. – bufei. – Está cada vez mais difícil de lidar com as suas irritações, estou ficando de saco cheio.
- Até onde eu sei, ela está em uma festa com a Suzi. – disse e eu estreitei os olhos, indignado.
- É brincadeira, né?
- Não, eu vi um post da Suzi no SnapChat e a Cassie estava junto. – informou. Tudo o que eu consegui fazer foi rir incrédulo, balançando a cabeça em negação.
- Eu estou a porra do dia INTEIRO tentando falar com ela! – peguei meu celular e, revoltado, disquei o número da minha namorada, esperando que ela atendesse.
- Calma, cara. Você não pode se estressar. – meu amigo avisou.
Não me importei, afinal, eu já me encontrava totalmente furioso. Após alguns toques, finalmente ouvi a voz de Cassie soar em meio a uma agitação de pessoas, conversando e uma música alta ao fundo.
- O que é? Lembrou que tem namorada? – zombou sarcástica e eu ri em escárnio.
- EU lembrei que tenho namorada? Cassie, eu te ligo todos os dias, o tempo todo, e VOCÊ não me atende! Não banque a vítima! – bradei irritadiço, andando de um lado para o outro, vendo gesticular para que eu me acalmasse.
Pro inferno a calma.
- Por que eu te atenderia? Pra você desligar na minha cara de novo?
- Isso foi na quinta-feira, eu mandei mensagem me desculpando, puta que o pariu! Qual é o seu problema? Seu temperamento está ACABANDO com o nosso namoro! – ouvi sua risada e aquilo só me irritou ainda mais.
Se é que seria possível.
- O seu descaso está acabando com o nosso namoro, ! Esse seu caso idiota é mais importante do que eu! – lá vamos nós de novo.
- Eu não estou acreditando no que estou ouvindo, Cassie. Você – frisei. – está se ouvindo? Não se faça de desentendida, você sabe muito bem que as nossas brigas não acontecem só por causa do MEU TRABALHO! Você cria uma atitude sobre qualquer coisa! – exclamei, esgotado daquilo. A essa altura eu já andava pela casa, deixando na sala.
- VOCÊ É A RAZÃO PELA QUAL EU SEMPRE CRIO UMA ATITUDE! – minha namorada explodiu e foi a minha vez de rir, irônico.
- Você está me cobrando atenção, então vamos lá... A festa com a sua amiga está boa? O otário aqui te ligou a merda do dia todo, sabe por quê? Porque eu queria que você ficasse comigo, já que eu não fui viajar! – a ouvi resmungar e continuei. – Você se importa tanto que eu te avisei que viajaria e você não me deu UMA RESPOSTA! – terminei, passando nervosamente a mão livre pelos cabelos.
Silêncio.
Após alguns segundos, a voz de Cassie fez-se audível novamente.
- Você é engraçado, . Só vê o seu lado, não é mesmo?
- Me diz quando eu deixei de tentar te entender, porque eu não me lembro. O que você está falando não faz o menor sentido e você sabe disso. – debrucei-me na sacada, me sentindo tenso. Torci pra não ter outra crise infernal de enxaqueca.
- Não acho que você se importe, sinceramente.
- Se eu não me importasse eu não estaria tentando conversar com você, que, por sinal, está em uma porra de uma festa! – por mais que eu tentasse, todas as minhas palavras saíam ríspidas, demonstrando quão irado eu me encontrava.
- Quer saber, ? Tchau. Esse papo não está nos levando a lugar algum. – minha namorada disse e eu balancei a cabeça, desacreditando que ela iria mesmo continuar a se comportar daquela maneira.
- Beleza, Cassie. Você quem sabe. Tchau. Eu cansei de discutir com você, cansei de todas essas brigas. Cansei de tudo isso.
- O que você quer dizer com isso? – questionou afobada.
- Quero dizer que eu não estou a fim de falar com você. Depois a gente conversa. Tchau. – ouvi-a responder um “okay” e terminar a ligação. Encarei um ponto qualquer a minha frente, inexpressivo. Eu não conseguia entender o que havia de errado com a Cassie. Nosso relacionamento nunca foi perfeito, óbvio. Sempre tivemos nossos desentendimentos, entretanto, de uns tempos pra cá, as brigas tornaram-se frequentes e isso estava desgastando a nossa convivência ao ponto de me fazer repensar se esse namoro ainda valia à pena. Eu não iria permanecer preso a algo repleto de brigas, falta de compreensão e de comunicação.
Relacionamento não é isso.
Não um saudável, pelo menos.
Senti uma presença ao meu lado e avistei, pelo canto do olho, perto de mim.
- Se resolveram?
- Não.
- Contou pra ela que você estava mal?
- Também não. Foda-se, cara. Que relevância isso tem? Sinceramente, não vejo muito futuro pra nós dois. – respondi cansado.
- Você vai terminar com ela? – ele questionou assustado.
- Não sei. Ficar nessa guerra é exaustivo, eu estou cansado de discutir. O problema é essa merda toda, tudo pra ela é motivo de briga.
- Boa sorte com isso, meu caro. Você vai precisar. Bom, eu vou passar na festa que a gata da Suzi está, afinal, os trabalhos não irão se iniciar sozinhos – meu amigo deu um sorriso sacana e eu ri, assentindo.
- Vai lá, cara. Valeu por vir – o cumprimentei com um meio abraço.
- Relaxa. Falo alguma coisa pra Cassie caso encontre com ela?
- Não, deixa quieto.
- Beleza. Até mais, grande . – despediu-se pela última vez e saiu.
Continuei apoiado na sacada, aproveitando a noite amena que fazia e tentei não pensar em problema algum – e eles eram muitos. Olhei para o lado e tive a visão da casa aos fundos da minha, cujo as luzes encontravam-se acesas. havia sido bastante atenciosa comigo, tê-la por perto em uma situação como a de hoje foi reconfortante, ela era definitivamente alguém amigável. Entrei em casa e resolvi assistir alguma coisa na TV, já que, aparentemente, a minha noite se resumiria somente a isso.

**

- Então deu tudo certo na reunião? (...) Compreendo (...) Obrigado, Doutora Bazan. Irei aguardar o seu relatório (...) Até. - finalizei a ligação após falar brevemente com a advogada da qual eu havia mandado à reunião em meu lugar e levantei-me do sofá, ainda me sentindo um pouco abatido devido a medicação. Peguei a minha pasta de documentos e caminhei até a área externa que dava acesso à varanda a fim de aproveitar o clima agradável da noite para ler alguns processos, me sentei na poltrona que ali se encontrava e, previamente a iniciar a minha tarefa anteriormente planejada, olhei casualmente através do vidro da extensa janela de correr e avistei, de longe, caminhar cheia de sacolas e pacotes de mercado em suas mãos, esforçando-se para andar e enxergar entre todas aquelas embalagens. Ela seguia rumo à sua casa com aparente complicação em meio a passos desordenados, então, com o intuito de ajudá-la, me ergui e fui até onde a garota se encontrava.
- Ei, deixe-me te ajudar. – ofereci a , que levantou o olhar curioso dentre os pacotes. Eu quase ri de seu esforço em tentar me avistar.
- Obrigada, mas... está tudo... sob controle. – ela respondeu com dificuldade enquanto tentava subir o único degrau contido no início da varanda de sua casa. Ri e neguei com a cabeça frente a sua teimosia.
- As sacolas estão quase te engolindo. – ressaltei irônico, ouvindo-a resmungar algo. Seu pé topou com o degrau rápido demais para que um desastre fosse impedido, com isso, todas as compras contidas na embalagem desabaram no chão. praguejou, abaixando-se e eu fiz o mesmo, recolhendo os objetos espalhados por ali.
- Obrigada. – ela sorriu encabulada e colocou uma lata de molho de volta na sacola. – Aparentemente, a gravidade me odeia. – resmungou de um jeito bem humorado, arrancando um breve riso de mim.
- Receio que seja uma relação difícil.
- Infelizmente. – riu e se levantou, dessa vez, com menos pacotes em mãos, já que eu segurava alguns. Abriu a porta de sua casa e fez um sinal para que eu entrasse e a acompanhasse até a mesa, onde depositou as compras que carregava. Eu já não me recordava tão bem daquele local que fora cenário de diversos acontecimentos da minha infância e adolescência.
- Quanto tempo que eu não venho aqui... – comentei arbitrariamente enquanto observava tudo de modo sucinto, parado na cozinha em conceito aberto com as mãos no bolso da minha calça. A garota que antes guardava algumas coisas no armário virou-se para me olhar com uma expressão serena.
- Sinta-se em casa. – gracejou sarcástica, eu a olhei e arqueei uma sobrancelha rindo fraco de sua piada pífia. Varri o lugar com os olhos, observando atentamente os diversos quadros espalhados pela parede e parei em um retrato onde , sua mãe e mais algumas pessoas posavam sorridentes e descontraídas para a foto. Ela acompanhou o meu olhar e sorriu.
- É a minha família por parte de pai. – explicou. A encarei meio confuso e ela apontou para o porta retrato que eu fitava anteriormente. Assenti em compreensão.
- E a família da sua mãe? – perguntei em um ato impensado, notando a garota torcer o nariz e dar de ombros. – Desculpe a intromissão.
- Não, tudo bem! – ela sorriu. – É que a nossa relação é meio... Inexistente. A minha mãe engravidou de mim muito cedo e os pais dela não aceitaram, viraram as costas e a expulsaram de casa. Pelo que eu sei, eles eram bem conservadores.
- Você nunca viu os seus avós?
- Não. Nós não temos contato. – sua feição terna transparecia uma sutil tristeza em meio ao seu sorriso cabisbaixo, o que causou um incômodo inusitado em mim. – Mas não tem problema, porque embora a família do meu pai more em outra cidade, temos uma relação ótima, então não é o fim do mundo. - Ela recobrou o genuíno sorriso habitual e virou-se para a pia com a finalidade de lavar não sei o quê. Ao pressionar a válvula da torneira, o jato de água saiu com muita pressão, esguichando o líquido por todo o lugar. – inclusive em , que deu um gritinho afetado enquanto tentava conter o jato desordenado.
O que não surtiu efeito algum, haja vista que o encaixe da válvula havia se soltado.
Corri até lá e tentei encaixá-lo de volta enquanto esforçava-se na tarefa de controlar o aguaceiro desenfreado que ensopava a nós dois e a cozinha em uma cena quase patética protagonizada por ambos.
- Você sabe onde fica o fornecimento de água da pia? – questionei, virando o rosto para evitar que a água espirrasse em mim.
- Ali embaixo. – ela repetiu o meu ato e apontou com a cabeça em direção a parte debaixo do lavatório. Abaixei-me e localizei o registro individual, fechando ambas as válvulas rapidamente. Ergui-me novamente assim que o fluxo de água fora interrompido, vendo retirar as mãos da torneira completamente encharcada, assim como eu. – Como isso aconteceu? – questionou para si mesma durante o tempo em que contemplava desolada a peça que se soltou da torneira em sua mão.
- Queria ter a resposta para a sua pergunta. – respondi, passando a mão em meu cabelo molhado. Ela olhou o chão tomado por água e suspirou.
- Vou ficar até amanhã arrumando essa zona. – reclamou irritadiça, retirando um pano de dentro de uma das gavetas, esfregando-o no chão. – Obrigada pela ajuda com as compras e com o registro, – levantou os olhos para me olhar e sorriu. – não vou mais tomar o seu tempo.
Ver aquela bagunça e sozinha para limpar tudo me deu pena. Em um ato voluntário, agachei-me e peguei um dos panos que a garota retirou da gaveta, secando uma parte do piso molhado.
- O que você está fazendo? – indagou exasperada ao me ver com o pano em mãos e eu a fitei com o uma sobrancelha arqueada.
- Acho que parece óbvio, não é? – retruquei irônico.
- , há poucas horas você mal conseguia manter os olhos abertos. Não deveria fazer esforço, você ouviu o Doutor! – repreendeu inconformada. A encarei em puro tédio sem conseguir reprimir o sorriso ladino em meus lábios.
- Estou secando um chão, não disputando uma maratona. – franziu o cenho ultrajada com a minha resposta.
- Não acho que seja adequado que você faça isso.
- Eu posso saber o motivo? – questionei crítico, já imaginando o que viria a seguir.
- Porque... Você não faz essas coisas. – explicou embaraçada, gesticulando em direção aos panos e ao chão. Franzi o cenho, quase ofendido com a sua fala.
- Até onde eu sei, eu tenho mãos e todos os membros que me possibilitam executar qualquer tipo de tarefa, . Não entendi o seu ponto. – Rebati ácido. Ela suspirou e tocou as têmporas por poucos segundos, tornando a me olhar.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Não, não entendi. Por que eu não faço “essas coisas?” – Insisti. bufou impaciente.
- Quer mesmo que eu esclareça? Achei que só o lugar em que você vive já deixasse subentendido. – Revidou, tombando ligeiramente a cabeça para o lado com um sorriso nos cantos de seus lábios.
Permaneci com a expressão descontente e fechada.
- Você supôs uma característica da minha personalidade somente tomando como base o meu estilo de vida? , eu não sou assim.
- Eu sei que não. – o sorriso continuava lá, porém, agora mais meigo. – Mas ainda assim é estranho, sabe? Não disse por mal.
- Deixe-me ajudar, tudo bem? – falei, cravando a minha atenção em seus olhos atentos. – Eu quero. – suspirou mais uma vez e assentiu com a guarda mais baixa, me fitando da mesma forma.
- Certo. Você quem sabe. – abaixou o olhar e tornou a mover o pano no piso. Durante milésimos de segundos encarei o nada onde, anteriormente, os olhos contemplativos de me estudavam e passei uma mão em minha nuca, inquieto.
Franzi o cenho outra vez e resolvi voltar à situação anterior, secando a possa d’água do piso.

Após alguns minutos focados no chão, pegou o rodo e começou a puxar o resto da água. Com isso, apanhei outro pano e resolvi enxugar os respingos de água que caíram nos armários. Incomodado com a camisa molhada, retirei-a e a coloquei no balcão, imediatamente me sentindo melhor sem o tecido colado em meu corpo.
- , você pode me dizer onde tem outro pano? – perguntei, voltando a minha atenção à garota que encontrava-se ruborizada. Ela piscou algumas vezes aparentando estar aturdida e eu ergui uma sobrancelha sem entender. – Está tudo bem?
- Sim! Claro, estou bem. – falou, sorrindo e assentindo freneticamente enquanto sacudia o pano que ela usava para enxugar o chão. – Vou procurar, só um instan...Ai!
Enquanto chacoalhava o tecido, bateu a ponta dele em um de seus olhos, automaticamente o soltando e levando as mãos no lugar atingido.
E foi naquele momento que eu tive certeza: Ela era a pessoa mais desastrada que eu conhecia.
Levantei-me em um pulo e fui até ela, que permanecia resmungando baixinho apertando o local.
- Ei, calma! Não faça pressão, só vai piorar. – disse, retirando sua mão dali. Seu olho ferido continuava firmemente fechado.
- Mas está ardendo! – reclamou em um murmúrio desconsolado, quase adorável, se não fosse aquela situação.
- Vem cá. – A guiei gentilmente até onde eu lembrava ser o banheiro e abri a torneira de lá. – Deixe cair bastante água nos olhos.
fez o que lhe foi dito e, em seguida, desligou a válvula, ainda com o olho baixo, embora já conseguisse o abrir mesmo que minimamente.
- Está muito ruim? – questionou preocupada.
- Não. Deixe-me ver. – pedi, me aproximando dela. Apoiei minha mão em seu rosto e toquei o olho machucado com cuidado, notando apenas uma leve vermelhidão no local.
E também notei a respiração pesada de bater contra o meu rosto.
Desviei a minha concentração do lugar atingido pelo pano e a fixei na garota imóvel à minha frente, que me fitava de uma forma que eu não conseguia identificar.
De acordo com a física, a força de atração recíproca é chamada de força elétrica, e essa sucinta explicação descrevia todo aquele instante. Repentinamente algo me atraiu para os olhos de , algo do qual era difícil desviar. Ela escorreu seus olhos pelos meus e desceu até a minha mão pousada em seu rosto, voltando a me analisar. Uma merda de agitação inusitada se fez presente, algo que eu não soube identificar, contudo, que aumentava na proporção em que eu estudava a face delicada da garota atenta à minha frente.
Que diabos eu estava pensando?
Franzi o cenho totalmente confuso e sem reação e, como se pudesse ler os meus pensamentos, quebrou aquela atmosfera inexplicável.
- Eu acho que posso terminar tudo sozinha agora. – Em um gesto de puro reflexo, ela tocou quase que imperceptivelmente o meu tórax desnudo em um pedido mudo para que eu me afastasse. Reprimi a contração naquela área em resposta àquele ato e me afastei rapidamente. A sua voz baixa mais pareceu um sopro em meus ouvidos.
- Certo... Tudo bem. – Limitei-me a dizer.
- Obrigada pela ajuda.
- Por nada. – acenei com a cabeça e ela me lançou um “tchauzinho” com as mãos. Dei as costas e saí do cômodo, passei pela cozinha para pegar a minha blusa e a joguei de qualquer jeito em meu ombro, me retirando da residência completamente perdido.
Mas que porra foi aquela?
Esfreguei o cabelo e, logo após, o rosto, na tentativa de me situar.
Recolhi todas as folhas que eu havia deixado na poltrona da área externa e as guardei na pasta, rumando para dentro de casa me sentindo nervoso e irritado.

O domingo estava mais monótono do que de costume.
Havia andado com Bento, ligado para o Senhor Feldmann e estudado alguns casos pendentes, dedicado ao máximo a evitar evocar os flashes a respeito da estranha e aleatória cena da noite anterior.
Como sempre, Cassie encontrava-se fazendo as mesmas birras infantis de sempre e não me atendia ou sequer visualizava as minhas mensagens.
Pro inferno ela e suas atitudes imaturas. Não era como se eu fizesse muita questão, para ser sincero.
Somente vi durante o tempo em que ela recebera o encanador que concertaria a pia de sua casa e, após isso, não a avistei durante o resto do dia. Isso não era habitual dela, já que sempre brincava com Bento todos os domingos.
Ouvi uns burburinhos vindos do andar de baixo e saí do escritório, identificando a voz da minha mãe. Desci as escadas e a encontrei falando com , que somente ouvia e assentia. A mulher sorriu para mim e eu acenei para ela, que fez menção de subir as escadas com as malas.
- ! – a chamei e ela virou-se.
- Sim, senhor?
- Deixe as malas aí e vá para casa. Eu mesmo as levo.
- Não, tudo bem. Eu posso fazer isso. – Ela argumentou prestativa e eu neguei.
- Eu faço. Só vá descansar. – olhou para minha mãe, que apenas balançou as mãos, permitindo que ela se retirasse.
- Obrigada. – a mulher sorriu terna –. Boa noite.
- Boa noite, .
- Boa noite. – minha mãe respondeu e ausentou-se, deixando a mim e a Dona Kyara a sós.
- O que houve com você, ? O seu pai me ligou enfurecido com mil reclamações a seu respeito! – ela exclamou alarmada e eu massageei as têmporas em cansaço só de imaginar o que aconteceria ao encontrar meu pai.
- Boa noite, mãe. – cumprimentei irônico, vendo-a revirar os olhos. – Não pude ir à reunião, tive uma crise de enxaqueca.
- Desde quando você tem enxaqueca? – minha mãe questionou preocupada.
- Desde ontem, aparentemente.
- Está tudo bem? Como você foi ao médico?
- Estou bem, tenho uma consulta com o neurologista amanhã. O Doutor Elish veio aqui e me atendeu.
- E o que ele disse?
- Não me recordo direito, ele falou com a . – Respondi e imediatamente notei a sua expressão de dúvida.
- Com a ? Por qual motivo?
- Ela me ajudou e foi ela quem ligou para o Doutor. – expliquei calmamente, pedindo aos céus que a minha mãe –que cerrou os olhos no mesmo instante em que eu lhe dissera a última frase- não implicasse com isso.
Ao que tudo indica, os céus me ouviram, pois a sempre argumentadora Dona Kyara somente assentiu em silêncio.
- Seu pai chega amanhã e vai direto para o escritório. – assenti sem animação.
- Como foi a viagem? E as consultas?
- Tudo normal, estou bem. – falou sem mais detalhes e eu arqueei a sobrancelha com a falta de informação. – Irei me recolher, faça o mesmo e tente ter uma boa noite de sono. – Depositou um afago em meus ombros e subiu as escadas.
Passei as mãos pelos cabelos e respirei fundo, desejando pular o dia de merda que se aproximava ao passo em que o domingo se encerrava.

(...)


- Você é um irresponsável! Como pode deixar de ir a uma reunião importante da qual eu te deixei encarregado, ? – meu pai bradou pela enésima vez naquela segunda-feira chuvosa e, para variar, estressante. Havia acabado de voltar da consulta com o neurologista e segui direto para o escritório. Tudo o que eu queria era um pouco de sossego.
Queria.
- Pai – comecei, reunindo toda a paciência que eu lutava para não perder. – Eu tive uma crise forte de enxaqueca, já te expliquei. O Doutor Elish me atendeu em casa e não permitiu com que eu viajasse.
- Que se dane! Uma dorzinha de cabeça, francamente. – com muito custo ignorei a sua reclamação. Só eu sei a dor do caralho que eu senti.
- Aconteceu alguma coisa de errado na reunião? Eu mandei a Doutora Bazan no meu lugar, ela é de confiança.
- Sorte a sua que deu tudo certo, mas isso não justifica a sua falta de bom senso. – queixou-se com o seu olhar de reprovação.
Permaneci com a postura impassível.
- Desculpe-me, pai. Da próxima vez eu darei um jeito de agendar a minha crise, que tal? – falei debochado, dando um sorriso cínico. Meu pai estreitou os olhos na minha direção como se aquilo fosse me partir em mil pedaços.
- Não brinque com a minha paciência, . Da próxima vez eu te coloco pra fora daqui sem remorso algum por você ser meu filho. – ameaçou e eu ergui uma sobrancelha devido às suas palavras.
- Não se preocupe, senhor . Eu sou muito bom no que faço e o senhor sabe disso. Não estou aqui somente por ser seu filho. – concluí sob a análise séria do meu pai. Ele apenas virou as costas e saiu, finalmente me deixando sozinho em minha sala para que eu começasse a pesquisa a respeito de cada pessoa que estava na festa em que o crime contra Mason Zummack ocorrera. Eu iria conseguir ao menos um depoimento a favor do meu cliente e ameaça alguma dificultaria o meu sucesso nesse caso maldito.
Era uma questão de honra.

Eu havia ficado o dia inteiro naquela incessante pesquisa. Pedi para que entregassem o meu almoço em minha sala e não desgrudei do computador um minuto sequer. Depois de várias horas lendo e relendo a respeito de todos os convidados da festa, eu pude, enfim, suspirar aliviado. Consegui ótimas informações sobre um empresário em especial, e, a julgar pela sua ficha, ele definitivamente concordaria em me ajudar. Desliguei o aparelho e olhei no relógio, me assustando com a hora. 21hrs15min. Juntei as minhas coisas e peguei o meu terno, me dirigindo para fora do escritório, que se encontrava quase vazio. Despedi-me de algumas pessoas por ali e segui para o estacionamento olhando atentamente para todos os lados, certificando-me de que nada de estranho estivesse no local. Eu passei a ter cuidado redobrado enquanto andava por aí. Entrei no meu carro e dei partida em direção a minha casa, dirigindo calmamente ao passo que tamborilava meus dedos no volante ao som da música baixa que soava pelo rádio. Alguns minutos depois, já terminava de estacionar o veículo na garagem, sendo recepcionado pelo meu cachorro, que pulava energicamente em mim, como sempre.
- Beleza, amigão? – o saudei, acariciando sua cabeça. Ainda sentia o gosto horrível da medicação pra maldita enxaqueca na minha boca. Precisava de água. Segui pela parte de trás da casa com a finalidade de entrar pelos fundos em direção a cozinha, e, assim que o fiz, me deparei com uma cena um tanto quanto cômica.
lavava louça distraidamente enquanto ouvia música pelos fones, murmurando a melodia e fazendo uma dancinha que, se não fosse tão engraçada, seria até interessante.
Encostei-me no batente da porta e cruzei os braços, encarando de modo divertido a garota à minha frente, que ainda não havia notado a minha presença no local. Quando ela virou-se para pegar o pano de prato, deu de cara comigo ali, olhando-a com a sobrancelha arqueada e um sorriso brincando em meus lábios. Vi o seu rosto se contorcer de susto e imediatamente adquirir um tom vermelho, ficando petrificada ao mesmo tempo que me fitava totalmente desconcertada.
- Você é a pessoa mais animada que eu já vi lavando uma louça. – brinquei, ainda na mesma posição a observando. estava quase roxa e eu ri, fazendo-a rir comigo em meio ao seu acanhamento.
- Cada um se diverte do jeito que pode. – deu de ombros ainda rindo e eu concordei, saindo da porta e andando até a geladeira em busca de um copo d’água. – deixa que eu pego pra você. – ela falou ao me ver pegando um copo e abrir a geladeira.
- Não precisa. Pode continuar dançando se você quiser, não quis atrapalhar. – gracejei, tomando calmamente o líquido gelado, e, olhando de soslaio, pude vê-la estreitar os olhos na minha direção. Murmurou um “que engraçado” quase inaudível que me fez rir brevemente e virou-se pra frente, secando a pia. A vi bocejar e coçar os olhos, ainda limpando o lugar. Fui até lá e depositei o copo ali, fazendo um sinal com a mão para que ela parasse de fazer aquilo, recebendo um olhar confuso em resposta ao meu ato quando ela se virou para me encarar.
- Quer alguma coisa? – indagou desorientada e eu neguei com a cabeça.
- Você não precisa fazer isso.
- Fazer... O quê? – continuou me olhando como se eu fosse louco e eu delicadamente peguei o pano de suas mãos, colocando-o em outro lugar enquanto a garota acompanhava os meus movimentos com o cenho franzido.
- Limpar, . Você não recebe pra isso e eu sempre te vejo pra lá e pra cá servindo, arrumando... Não é o seu emprego.
- Mas é o da minha mãe. Se eu não ajudá-la ela dorme e acorda nessa cozinha. – respondeu ríspida e eu levantei uma sobrancelha, não esperando esse tipo de atitude. Ela abaixou o olhar por alguns segundos e respirou fundo, voltando a me fitar com os olhos cansados. – Desculpe. É que você não entende, sabe?
Lá vamos nós.
- Eu entendo que a minha mãe está abusando do poder dela com vocês e isso não é certo - falei, não quebrando o nosso contato visual.
- Existem muitas coisas que não são certas, , mas nem por isso nós deixamos de fazê-las. – me lançou um sorriso fraco, quase doce, e eu não soube o que dizer. Na verdade, eu até saberia, entretanto, me limitei a assentir vagarosamente e continuar estudando o seu olhar, que parecia fazer o mesmo, assim como há dois dias.
E a porra do dejavú me atingiu em cheio.
Seus olhos – anteriormente focados nos meus – viajaram pelo meu rosto com uma calma quase torturante, e então, pararam no espaço entre nós. Só nesse momento eu percebi que, no instante em que se virou para falar comigo, a distância que nos separava diminuiu. Franzi a testa, embaraçado, e me distanciei dela, que deu as costas e voltou a mexer em sei lá o que na pia.
Um silêncio constrangedor tomou conta do lugar até que adentrou na cozinha com uma bandeja em mãos e duas xícaras postas nela. Intrigada, passou os olhos pela filha e por mim. Coloquei as mãos no bolso da calça acenando com a cabeça e lhe desejando “boa noite” que me foi respondido de modo simpático, como ela sempre fora.
- Está precisando de algo, ? – questionou e eu neguei com a cabeça.
- Não, só vim beber um copo d’água, obrigado. – falei, já seguindo para a saída do local. – Boa noite, . – disse para a garota que desviou a atenção da louça para mim.
- Boa noite. – sorriu amigável.
Saí de lá e, ao chegar na sala, parei no meio do caminho.
Minha mãe e Cassie conversavam sentadas no sofá.
- ! Olha que surpresa boa. – minha mãe disse, referindo-se à Cassie, que apenas deu um sorriso fechado.
- Estou vendo. – respondi ainda encarando as duas.
- Bom, vou deixá-los a sós. – ela disse, levantando-se. – Fique à vontade, querida. Até mais. – falou para minha namorada, logo desaparecendo do cômodo. Permaneci parado olhando sério para Cassie, que levantou-se ressabiada.
- O me contou que você passou mal no sábado. Como você está? – me perguntou, andando vagarosamente ao meu encontro.
- Estou melhor. – falei seco. Eu estava puto com ela e sem paciência alguma para DR, além de não sentir disposição alguma para uma reconciliação.
- Nós podemos subir para conversarmos? – indagou e eu suspirei, bagunçando os cabelos.
- Acho tudo pode ser falado aqui.
- Por favor. – insistiu em suplício. Cedi e fiz um sinal para que ela me acompanhasse.
Subimos as escadas em silêncio, e, chegando ao meu quarto, fechei a porta e joguei o terno em qualquer canto, vendo Cassie sentar-se na ponta da minha cama. Encostei-me em uma cômoda e cruzei os braços, encarando-a e esperando com que ela começasse a dizer o que queria.
- Podemos ficar em paz? Sem brigar?
- Eu que te pergunto, Cassie. Podemos? – rebati.
- Eu devia ter te atendido. – falou e eu assenti. – Você foi ao médico?
- Fui. Fiz uns exames, mas está tudo bem.
- Que bom, fico aliviada.
Silêncio de novo.
Eu estava esperando um pedido claro de desculpas, porém, se tratando de Cassie, vir até a minha casa para conversar possivelmente já exigiu um grande esforço dela.
O problema é que eu já havia me cansado desse tipo de situação e eu não me sentia mais da mesma forma sobre muitas coisas. Sentimentos mudam, pessoas mudam, o desgaste nos fazer mudar. Eu só não sabia até quando insistiria no nosso relacionamento.
- Cassie, você ficou em uma festa mesmo quando eu te liguei inúmeras vezes e te enviei inúmeras mensagens! Tem noção da merda que isso é?
- Eu estava com raiva! – ela se defendeu e eu baguncei os cabelos em um sinal de puro nervosismo.
- Então "estar com raiva" é uma justificativa para agir de forma desprezível?
- Não vamos começar, eu vim aqui para que nós possamos nos resolver. – minha namorada falou e eu apenas assenti.
- Vou tomar um banho, já volto. – falei, indo em direção ao banheiro.
Despi-me e entrei no chuveiro, respirando fundo ao sentir a água morna em contato com a minha pele. Alheio a tudo, deixei com que os pensamentos fossem parar em quem eu menos esperava: . Era sempre muito agradável conversar com ela e eu me sentia bem ao seu lado, como se houvesse compreensão entre nós. O assunto fluía de forma agradável, o humor geralmente estava presente e algum tipo de sentimento mútuo fazia com que eu gostasse de estar ao seu lado. A nossa aproximação repentina foi estranha, porém, me fazia bem. Nós sempre estivemos tão perto um do outro, entretanto, nunca nos conhecemos realmente. Era bom saber que isso estava mudando de uns tempos pra cá.
E, pra ser sincero, estava me agradando.
Lembrei da recente cena que ela protagonizara na cozinha enquanto dançava e cantava e ri fraco, balançando a cabeça. Ouvi um ruído vindo de algum lugar e me virei, vendo Cassie à minha frente nua e com uma expressão maliciosa.
- Tenho um ótimo jeito de nós selarmos o nosso acordo de paz. – disse enquanto se aproximava.
Não falei nada, apenas a puxei para debaixo do chuveiro e grudei o seu corpo contra a parede fria, notando-a se arrepiar.
- Então me mostre o quanto você quer se redimir. – disse no seu ouvido, mordiscando o seu lóbulo e soltando um gemido baixo ao senti-la arranhar as minhas costas.
Eu gostaria de acreditar que estava tudo bem e até poderia pensar que as coisas realmente se resolveriam, entretanto, enquanto beijava Cassie ali, debaixo do chuveiro, um lado da minha cabeça ficava repetindo que tapar o sol com a peneira não adiantaria mais.
Havia algo muito errado.

**

’s POV

Os últimos dias haviam sido demais para mim.
Bastava que eu fechasse os olhos e a cena do banheiro vinha à minha mente sem pestanejar, e, mesmo que eu me esforçasse para guardar aquele momento em meu baú mental de coisas relacionadas ao tudo o que eu conseguia era sentir o toque de suas mãos causarem uma corrente elétrica em meu rosto.
Aliás, que tipo de pessoa idiota bate um pano no olho, pelo amor de Deus?
Eu sou esse tipo de pessoa idiota.
O último tipo de pessoa idiota, a rainha mor* das pessoas idiotas. Eu estava tão distraída retirando o restante de água do chão que não havia notado e a sua brilhante ideia de ficar descamisado na minha cozinha.
Todo molhado.
Dada a situação, ara mais do que óbvio que eu passaria algum tipo de vergonha. E como se não bastasse, mais uma vez, o clima esquisito entre nós retornou também naquele instante. Há poucos minutos, para ser mais exata. Tentar compreender já não era mais uma opção, haja vista que eu voltaria às mesmas respostas de sempre: Não existia nada a ser compreendido. Ainda moderadamente encabulada com o pequeno incidente envolvendo a mim e estendi a mão em direção a minha mãe em um pedido mudo para que ela me entregasse a bandeja que ela segurava, para que assim eu pudesse lavá-la juntamente com as xícaras postas sob a pia. Terminando de fazê-lo, olhei em direção a mulher ao meu lado vendo-a pegar uma vassoura com a finalidade de iniciar a limpeza do chão, notando, também, que ela encontrava-se mais exausta do que eu no momento que espirrou e pousou uma mão em seu quadril, descansando por alguns instantes.
- Está tudo bem? - questionei preocupada, indo até ela e retirando a vassoura de suas mãos.
- Sim. É só um resfriado chegando. – respondeu, tentando pegar o objeto de volta.
- Você deveria ir descansar, mãe. Só falta varrer e encerar o chão, certo? – ela assentiu – Então deixa que eu faço.
- ... – Nem mais um piu, Dona . Tchauzinho, já deu a sua hora. – brinquei pegando em seus ombros e gentilmente a levei para a porta. Ela negou com a cabeça e riu.
- Obrigada, filha. Não demore, sim? Você acorda cedo amanhã.
- Não se preocupe comigo. Vá se deitar, tenho tudo sob controle por aqui. – falei. Minha mãe concordou e retirou-se, caminhando encolhida pelo frio em direção à nossa casa.
Voltei à cozinha e dei início à limpeza, varrendo todos os cantos do cômodo, levando um bom tempo somente naquela etapa. Enquanto eu finalizava o processo de encerar o chão, ouvi um ruído de passos se aproximando. Ergui-me parcialmente em um ato automático e inesperadamente encontrei Cassie ali, usando apenas uma camisa – que decerto pertencia ao – me encarando de forma inexpressiva. Como se nem houvesse me visto, ela abriu a geladeira e pegou uma garrafinha d'água, saindo logo depois e ignorando a minha presença.
Empaquei durante alguns segundos fitando a porta pela qual Cassie havia acabado de sair. Meu estômago afundou e eu senti a tão conhecida desolação tomar conta de mim por saber exatamente o que aquela blusa em seu corpo significava. Eu nunca me acostumaria.
Como eu disse, não havia nada para ser compreendido.
Suspirei pesarosa e, desanimada, concluí a limpeza do piso que agora encontrava-se devidamente polido, me retirando dali com rapidez até a minha casa, querendo apenas uma boa noite de sono.

**

Na manhã seguinte despertei antes mesmo do alarme tocar, o que indicou que o dia já havia começado errado.
Eu definitivamente poderia ter lindos sonhos naqueles dez minutos de sono restantes.
Levantei-me da cama e me arrastei em direção ao banheiro, sonolenta demais para raciocinar direito àquela hora do dia. Após terminar de me arrumar, topei com a minha mãe na cozinha e me espantei ao ver a sua face abatida.
- Bom dia, filha. – ela cumprimentou-me e a voz rouca denunciou o seu estado.
- Bom dia. Acho que alguém não acordou muito bem hoje. – presumi tomando um grande gole de café e devorando um pedaço de bolo.
- A gripe realmente me pegou, meu corpo todo dói. – reclamou fatigada mal tocando no café da manhã. Franzi o nariz, não gostando nada de vê-la assim.
- Você deveria tomar algo e tentar dormir mais um pouco.
- Nem pensar! Tenho muita coisa para fazer hoje. – mais um espirro fez-se audível e eu a encarei em puro tédio, demonstrando que ela definitivamente não teria condição alguma de sequer pegar em uma colher.
- O que você precisa preparar agora na casa dos ? - É necessário que a mesa do café esteja posta às sete e meia. – respondeu e eu chequei o horário em meu relógio de pulso. Se eu me apressasse, talvez conseguisse servir em seu lugar. Não faria bem para ela esforçar-se tanto estando tão debilitada.
- Certo. Explique como você faz e eu vou até lá. – me ofereci, imediatamente escutando os resmungos e desacordos da minha mãe. Apoiei uma de minhas mãos em meu queixo aguardando que o seu discurso de discordância se encerrasse, sem sinal algum de que eu a ouviria e deixaria essa ideia pra lá. Eu só teria que servir o café da manhã, afinal. Não era nenhum bicho de sete cabeças, eu já havia feito isso outras vezes e em outras circunstâncias. – Pronto? – indaguei tediosa ao ouvi-la terminar de falar, recebendo um olhar de repreensão em resposta. – Mãe, é sério, olha como você está. Durma mais um pouco, eu organizo o café da manhã. Não é difícil. Contanto que tudo esteja em seu devido lugar, a senhora não irá reclamar.
- , você já me ajudou ontem. Você não deve fazer esse tipo de coisa.
- E por que não? Faço porque quero, não gosto de te ver se matando naquela casa. Você começou como cozinheira, mas agora faz de tudo, sendo que existem mais dez funcionários aqui!
- Faço o que me pedem, filha. É o que nós temos por enquanto. – notei a tristeza na entonação de sua voz e aquilo cortou o meu coração a ponto de despertar em mim uma pequena vontade de chorar. Puxei o ar tentando me recompor e assenti.
- Eu sei. – respondi em um fio de voz. Eu queria tanto melhorar a nossa vida para nos tirar daqui. – Agora vá se deitar e deixa que eu me viro, é sério. – Peguei a minha bolsa e, já parada na porta, contemplei minha mãe negando com a cabeça no emblemático sinal que ela fazia ao dizer “que eu não tinha jeito”.
- Há essa hora o Cícero já deve estar retornando da padaria. Coloque os pães na cesta e leve-os à mesa. Tem bolo no forno, o deixei pronto ontem à noite. Peça para que ele te ajude a pegar tudo – assenti absorvendo a sua explicação. Dei-lhe um beijo no rosto e me despedi, caminhando não muito animada rumo à mansão.
Abri a porta da entrada de serviço sorrindo largo quando avistei Bento deitado ali, balançando o seu rabo animadamente ao me ver.
- Bom dia! – o cumprimentei acariciando seu pêlo sempre macio. – Não vou poder brincar com você, me desculpe. Tenho coisas para fazer. – lamentei, indo lavar as mãos e iniciando a minha a preparação para o café. O Pastor continuou deitado somente me encarando.
- Ei, ! Bom dia, mocinha. – Cícero adentrou o lugar com o seu típico jeito de avô, carregando consigo algumas sacolas. Ele era um senhor de cinquenta e poucos anos extremamente simpático que sempre andava sorrindo por aí. Assim como minha mãe, ele também trabalhava para os há anos, porém, como uma espécie de mordomo.
- Bom dia! Como o senhor está? – sorri largo para ele indo ajudá-lo com as sacolas, depositando-as em cima da mesa e já retirando os pães de lá.
- Estou bem, obrigado! O que faz aqui? Você irá se atrasar para a aula, menina! – O senhor informou exasperado me arrancando uma risada.
- Minha mãe acordou um pouco indisposta essa manhã, então me prontifiquei a servir o café hoje. – expliquei enquanto regulava a cafeteira, que logo iniciou o seu trabalho.
- Oh. O que ela tem?
- Gripe – fiz uma careta, tirando os frios da geladeira.
- Vou fazer um chá que é tiro e queda e levar para ela. – Cícero expressou animado ao meu encalço, eu ri e o agradeci enquanto andávamos até a área em que os tomavam café da manhã, me ajudando com os preparativos da mesa e deixando tudo arrumado. Retornamos à cozinha – que àquela altura já emanava o delicioso cheiro de café por todo o cômodo –, aguardando que a máquina concluísse o restante de sua função.
- Será ótimo, muito obrigada – agradeci gentilmente. A senhora adentrou a cozinha e nós imediatamente paramos de conversar. O cheiro forte do perfume adocicado substituiu o aroma da cafeína, preenchendo o ambiente. Sempre aprumada em seus saltos elegantes, me fitou duvidosa e eu arrumei a postura, pronta para dar as devidas explicações.
- Bom dia. Onde está sua mãe? – indagou nitidamente não sabendo o motivo de eu estar ali.
- Bom dia, senhora. Ela não está se sentindo muito bem, por isso vim servir o café no lugar dela. A mesa já está posta, a propósito. – Dona Kyara pareceu avaliar as minhas palavras por alguns segundos, assentindo vagarosamente.
- Ela pretende se ausentar durante o dia inteiro?
- Não senhora. Só precisou descansar mais um pouco. – expliquei meticulosa, temendo que a mulher resmungasse alguma coisa.
O que surpreendentemente não ocorreu.
A senhora assentiu mais uma vez e deu às costas, rumando para fora da cozinha. Cícero e eu nos entreolhamos ressabiados, relaxando a postura.
- Podemos dizer que ela está de bom humor ou é muito cedo para isso? – o senhor perguntou fazendo graça.
- Acho que é muito cedo para concluirmos algo do tipo. – respondi baixo, como se falássemos um segredo muito importante, rindo junto a ele. – Tudo bem, eu levo o que resta. – coloquei o avental desajeitadamente em minha cintura, apanhando cafeteira e a cesta de pães em seguida. – Obrigada pela ajuda – sorri novamente e Cícero apenas fez um gesto com as mãos.
Deixei a cozinha percorrendo calmamente o caminho até o local recém arrumado, reunindo toda a concentração necessária para que nada fosse derrubado. Surgi no repartimento das dependências daquela parte da casa e parei no meio do caminho quando enxerguei todos sentados na mesa conversando tranquilamente.
E quando eu digo “todos”, me refiro ao senhor Henrico, a senhora Kyara, e Cassie.
Aquilo era a confirmação de que o dia REALMENTE seria um saco.
beijou Cassie rapidamente e sorriu, até que o seu olhar se conectou ao meu. Seu sorriso vacilou e nos fitamos por milésimos de segundos que, para mim, poderiam ser comparados com horas. Tentei me recompor –mesmo com a sensação ruim de aperto no peito– e retomei os meus passos, não o encarando mais. Desejei “bom dia” e resolvi focalizar toda a minha atenção nas xícaras à minha frente, deixando –cuidadosamente– a cesta com os pães em cima da mesa.
- Lembra da nossa estadia em Dubrovnik*? Que local maravilhoso! – Dona Kyara falou em meio a um assunto sobre viagens ou coisa do tipo.
- Claro! Como se esquecer da Muralha de Dubrovnik?* Talvez vocês dois devessem repetir aquela viagem, inclusive. – senhor Henrico disse para o filho.
Momentaneamente levantei o olhar com a finalidade de alcançar o açúcar e mais uma vez meus olhos esbarraram rapidamente com os de .
- É uma ideia maravilhosa, não acha, amor? – Cassie se voltou para ele, que aparentava estar alheio ao assunto. Ele piscou algumas vezes ambientando-se da conversa, mas nada respondeu.
Mesmo assim, meu peito apertou.
Terminei de servi-los e pedi licença, logo deixando o recinto tentando não transparecer que eu realmente queria sair de lá. Adentrei a cozinha e Cícero mantinha-se ali organizando alguma coisa em uma caderneta, por um triz de fazer os olhos saltarem de suas órbitas quando me viu.
- O que você ainda está fazendo aqui? Vá para a aula, menina! Eu recolho a mesa assim que todos terminarem de comer!
- Imagina, eu esper...
– Anda, anda! – Cícero me interrompeu. – Você já está atrasada, .
- O senhor tem certeza? Eu posso esperar e...
! – fui interrompida mais uma vez.
- Tudo bem, tudo bem. – coloquei as mãos para o salto, me rendendo. – Muito obrigada, de verdade! – dei-lhe um abraço meio desajeitado, ouvindo-o rir. Tirei o avental em meio a movimentos um tanto quanto desengonçados, peguei a minha bolsa e meu material e zarpei porta afora quase tropeçando em meus pés durante o tempo em que eu marchava apressadamente pelo quintal, sendo seguida por um Bento ligado nos 220 que provavelmente estava pensando que eu corria para brincar com ele.
- Eu juro que preferia brincar de correr esse quintal inteiro a ter que ir para a aula, mas, infelizmente, vamos ter que deixar isso pra depois. – disse com pesar ao Pastor Alemão, que parou assim que chegamos ao portão – Se comporte ok? Prometo lhe trazer um presente hoje. – o acariciei me sentindo uma mãe que deixa o filho na escolhinha pela primeira vez. Bento me encarou com os olhinhos desanimados e as orelhas baixas e eu quase dei meia volta para ficar com ele. Tornei a correr pelas ruas do condomínio agradecendo a todos os santos por não haver muitas pessoas pelo caminho vendo aquela cena ridícula, e até o porteiro me olhou estranho no momento em que eu passei feito o Flash através da portaria.
Quando eu disse que o dia iria ser um saco, não era brincadeira. Faltava pouco, muito pouco para eu chegar ao ponto de ônibus, e, como em toda boa Lei de Murphy*, o meu ônibus passou naquele instante.
A minha manhã certamente se assemelhava a uma parte de um filme de comédia romântica bem do ruim.
A propósito, eu era a mocinha que via o amor da vida dela combinando uma viagem cara junto da namorada maravilhosa.
C’est la vie*, meus amigos.
Praguejei alto e sentei derrotada no banco da parada de ônibus, quase tendo uma síncope durante o tempo de espera do próximo transporte. Minutos depois ele finalmente chegou, impedindo que eu tivesse um ataque ali mesmo. Logo que eu cheguei na faculdade disparei até a minha sala, dando de cara com a professora que saía após o término da primeira aula. Sorri fraco para ela e adentrei a classe, vendo me fitar com mil questões estampadas em sua face confusa.
- O que houve? – ela perguntou assim que eu me enterrei em minha cadeira. Joguei os braços por cima da mesa e enfiei a minha cabeça entre eles como se aquilo fosse fazer com que eu me sentisse melhor.
- Mu djia stá um pucu du avissu. – disse com a voz abafada devido a minha posição.
- Como é? , não entendi nada .– levantei a cabeça e respirei fundo, encarando a minha amiga preocupada.
- Eu disse que o meu dia está um pouco do avesso. – fez um sinal com as mãos, me incentivando a continuar. – Primeiro: – enumerei com o dedo indicador – Acordei minutos antes do despertador tocar; Segundo: – agora foi a vez de levantar o dedo médio – Minha mãe está doente; Terceiro: – ergui o anelar – fui servir o café para que ela descansasse e o casal vinte estava na mesa; Quarto: – mostrei o dedo mindinho – perdi o ônibus quando estava chegando no ponto; Quinto: – exibi o polegar – me atrasei e levei falta – finalizei. torceu o nariz e assentiu.
- O que a sua mãe tem?
- Gripe. Aparentemente não é nada demais, mas eu fico preocupada de qualquer forma, entende?
- Claro, eu compreendo. E sobre o e a Cassie...?
- Ah. – suspirei – Ela dormiu lá, além disso, a vi com a blusa dele ontem à noite enquanto eu limpava a cozinha. Hoje de manhã eles estavam falando sobre fazer uma viagem e não sei mais o quê. – concluí emburrada. Mais emburrada comigo por ainda sentir esse tipo de coisa, do que propriamente pela situação com os dois.
- ...
- Eu sei. Já era pra eu ter me conformado.
- Sim. Mas eu entendo que é difícil, não estou te condenando. Principalmente pelo que aconteceu no sábado. – pontuou se referindo ao pequeno “acidente” com a torneira da cozinha, onde eu corri para falar com assim que deixou a sua antiga casa de reuniões, que agora, era a minha moradia.
- Está tudo bem, eu já aceitei o fato de que o meu cupido me odeia muito. – resmunguei, fazendo rir.
O professor da aula seguinte entrou na sala e nós nos endireitamos em nossas mesas, prestando atenção no que ele falava.

**

Ao chegar em casa no fim do dia e checar se minha mãe havia melhorado, cumpri minha promessa feita pela manhã e decidi brincar com Bento, que estava eufórico com o Scooby-Doo de plástico, sua mais nova aquisição cujo eu me vi obrigada a obter assim que avistei na vitrine da loja. E bem, lá estava eu, fingindo – pela milésima vez – lançar o cachorro de plástico.
- Certo, eu vou jogar, ok? – ameacei com o brinquedo em minhas mãos. O Pastor Alemão me olhava em expectativa na espera que eu jogasse o bichinho para que ele pegasse, então – para a alegria dele – o fiz. Bento saiu em disparada pelo quintal e eu gargalhei de seu empenho em procurar o objeto como se fosse a coisa mais importante do mundo, vindo todo orgulhoso com o Scooby na boca no momento em que o achou.
- (...) Até agora eu não sei o que eu fiz de errado, mas enfim, não vou mais ficar nessas discussões ridículas. Não tenho condições (...) – enquanto aguardava Bento regressar de sua caça ao Scooby-Doo, ouvi de longe a conhecida voz grave de soar mal humorada. Franzi o cenho, olhando ao redor em um movimento automático para identificar de onde o som vinha. (...) - Faz um favor? Não vamos nos falar mais. (...) Cassie, tudo bem, eu entendi. – Bento retornou com o brinquedo pronto para mais um round de corrida, entretanto, ao invés de entregá-lo para mim, ele parou com as orelhas arqueadas ao ouvir a voz do dono e olhou em alerta na direção por onde o som vinha. (...) - Estou cansado e acredito que você também. (...) Cassie? Alô? Porra! bradou, parecendo mal humorado e eu fiz uma careta ao ouvi-lo praguejar irritado. Em seguida, ele saiu por trás da parede com a expressão não muito agradável, deu poucos passos enquanto encarava o celular e levantou o olhar, encontrando a mim – e o Bento – parados ali. Pisquei algumas vezes tentando buscando algo para dizer-lhe que explicasse a minha cara de tonta observando-o e que não parecesse que eu estava ouvindo a sua conversa, porém, nada me parecia adequado.
- Boa noite. – cumprimentou-me, desviando sua atenção para o Pastor Alemão que pulou em suas pernas com o brinquedo na boca.
- Boa noite. – respondi meio encabulada olhando-o acariciar seu cão. Ele pegou o Scooby e o analisou com o cenho franzido. – Ahn, eu comprei para brincar com o Bento. Espero que você não se importe. – esclareci e ele negou.
- Só estava tentando lembrar se eu já havia o visto antes, agora está explicado. – ele riu fraco e jogou o brinquedo para o Pastor, que saiu desembestado mais uma vez. Retirou um maço de tabacos do bolso e acendeu o cigarro calmamente, encostando-se à parede. Seu celular apitou em sua mão, ele cravou seus olhos no aparelho formando uma feição carrancuda enquanto lia algo que provavelmente o desagradou e, em seguida, o guardou.
Silêncio.
A única coisa que se ouvia eram os passos do Pastor Alemão elétrico que corria pra lá e pra cá animado demais pra quem já havia brincado bastante, contudo, não se esgotava nunca. Visto que o cão se entreteve sozinho, achei que o melhor a se fazer era ir para casa.
- Acho que ele não precisa mais de mim, – brinquei, apontando com a cabeça para o cão. – então já vou. – comuniquei a . Ele pareceu despertar de algum devaneio e me fitou sério, aparentando oscilar a respeito de algo. Desviou o olhar, mexeu nos cabelos daquele jeito que me deixava desnorteada e tornou a me observar, passando a língua pelos lábios rapidamente de um jeito natural que, se fosse proposital, não seria tão hipnotizante quanto aquele ato despretensioso.
Céus, ele era sem educação de tão lindo.
Gostar de alguém é um negócio estranho, porque a pessoa está lá apenas respirando e você pensa: “Puta merda, que ser humano maravilhoso.”
Ainda relutante, , enfim, disse alguma coisa.
- Não sei qual é o nosso nível de proximidade. – ele iniciou e eu estranhei, o encarando com a maior cara de nada possível –, mas... Você me parece ser a única pessoa com a qual eu consigo conversar de maneira decente. – riu sem humor. Paralisei sem entender a razão de sua confissão aleatória, sentindo o meu coração bater descompassado ainda assimilando a atitude imprevista dele, que finalizou o seu cigarro calmamente como se tivesse acabado de falar que gosta de pão.
- Que bom... – respondi incerta, sem ter a menor noção do que dizer. O homem à minha frente assentiu encarando um ponto qualquer do quintal, acendendo outro cigarro. Franzi o cenho em um gesto automático e o ato foi captado por , pois ele riu sarcástico enquanto soprava a fumaça, fazendo-a dissipar com o vento.
- Mau hábito. – comentou após a longa tragada. – Eu sei.
- O seu pulmão deve te odiar.
- Culpado. – declarou e riu fraco em um humor quase melancólico. – Você tem que ir, não é? Não quero te segurar aqui.
- Tudo bem. – sorri. –. Acho que eu posso ficar mais um pouco e conversar de maneira decente. – disse me referindo a sua revelação, notando um sorriso enviesado surgir por entre seus lábios através de seu olhar com uma de suas sobrancelhas arqueadas.
- Sua mãe está bem? Ouvi que ela estava indisposta hoje. – questionou.
- Sim, está. É só o início de uma gripe. – respondi me sentando ao lado de Bento, que aconchegou sua cabeça em meu colo. O homem – em pé e apoiado na parede – murmurou um “hm”, logo prosseguindo com a conversa.
- Imaginei que havia algo errado quando te vi hoje de manhã no café.
- Não é nada demais, ela está um pouco melhor. A Judith ficou no lugar dela.
- Não me refiro apenas à sua mãe. – levantei a cabeça a fim de olhá-lo em um ato explícito indicando que eu me encontrava confusa. manteve a sua postura contemplativa encarando o quintal. – Você não me parecia bem.
Eu tive vontade de rir.
Porém, rir de nervoso.
O meu desejo era dizer: “Como você se sentiria vendo a pessoa que você gosta com outro?”.
Mas eu não podia fazer isso e nem iria.
Ele não tem culpa, Cassie não tem culpa. A culpa era inteiramente minha.
Eu preciso bancar os meus sentimentos e aceitar as coisas como elas são, afinal.
Limite-me a sorrir tristemente e balançar a cabeça.
- É apenas cansaço.
- A faculdade está muito pesada? – perguntou.
- Um pouco. Não tenho dormido muito. – falei, e, embora fosse apenas uma desculpa à sua constatação, aquilo realmente era verdade.
- Você faz algo depois da aula? – indagou novamente.
- Faço triagem em uma clínica psicológica da faculdade. – não consegui deixar de sorrir ao dizer isso. Levantei-me e me encostei à parede.
- Estou me questionando sobre quantas vezes já perguntaram se você analisa todo mundo que conhece. – comentou, causando um riso em mim.
- Eu perdi as contas há tempos, é a primeira coisa que dizem! Ou senão falam: “Não começa a ler meus pensamentos, hein?!” – narrei com uma voz afetada e foi a vez de rir. – Eu ainda não tenho esses poderes, sabe?
- Em algum momento você já me analisou, ? – o tom sarcástico e sério contrastava com a brincadeira implícita na pergunta de , que me observava com a sobrancelha minimamente arqueada. Devolvi o seu olhar segurando o riso.
- É melhor eu não te contar todos os detalhes para você não me julgar. – fiz a maior cara de deboche que eu consegui.
- Como advogado, os detalhes me interessam bastante. – rebateu desafiador e piscou, voltando a olhar para frente com um sorrisinho sarcástico em seus lábios ocupados pelo cigarro.
- Pode ter certeza que só nessa conversa entre nós eu já fiz um tour pela sua psiquê. – falei em pura ironia, vendo a expressão de tornar-se divertida.
- Fique à vontade e volte sempre.
- Isso fez eu me sentir um espírito que tem a permissão de te possuir. – comentei em meio a uma careta e a gargalhada do homem à minha frente ecoou pelo ambiente.
- Isso foi péssimo, . – Acompanhei a sua gargalhada e dei de ombros.
- E a enxaqueca? Não sentiu mais nenhuma dor?
- Não. Ela está controlada.
- Que bom. – sorri. – Eu acho que já vou.
- Tudo bem. – assentiu. – Vejo você depois.
- Está bem. – dei um sorriso tímido e acenei, dando-lhe as costas sem dizer mais nada. Caminhei até minha casa e adentrei, me sentindo extremamente cansada. Desejei boa noite à minha mãe e segui em direção ao banheiro.
Um banho quente sempre proporcionava diversos benefícios aos meus pensamentos conflituosos e corpo exausto.

’s POV

Seis e cinquenta e cinco da tarde.
Enquanto eu dirigia em direção à academia após mais um dia cansativo no escritório, me peguei pensando a respeito das ligações das quais eu havia recebido no último mês. Por hora, eu não tive mais nenhuma surpresa desagradável, o que só me deixava cada vez mais em dúvida sobre a procedência das ameaças.
Por que elas ocorreram?
Elas ainda ocorreriam?
Quem estaria por trás disso?
Tudo era suspeito demais para que fosse deixado de lado. Entreguei o carro para o manobrista do estacionamento e entrei na academia, seguindo direto para o vestiário a fim de tirar o terno e colocar a roupa do treino. Feito isso, caminhei até o local onde Paolo e eu nos exercitávamos, logo o encontrando sentado no aparelho de musculação.
- Grande !
- E aí, Herzog? – o cumprimentei dando-lhe um breve tapinha nas costas e me dirigi até o equipamento, iniciando a minha atividade física.
- Fiquei sabendo que você estava enfermo esse final de semana. – ele disse em seu usual tom de fazer graça.
- É, eu fiquei meio mal. Como você soube? – perguntei desconfiado, já que não falei com Paolo durante o final de semana.
- A comentou comigo. – meu amigo respondeu e eu interrompi o meu exercício, direcionando o meu olhar duvidoso a ele.
- Quem?
- Uma amiga minha, ela estava na festa que eu dei no meu apartamento e também estava acompanhada daquela garota que mora na sua casa... Como é mesmo o nome dela? – questionou pensativo.
- ? - Isso! – puxei pela memória e me recordei sobre quem Paolo se referia.
- Isso não explica muita coisa. – afirmei tentando encaixar as informações que o meu amigo dava.
- Ai, ... Sempre querendo saber de tudo nos mínimos detalhes. – ele revirou os olhos de forma teatral e eu permaneci o encarando em um pedido mudo para que prosseguisse. – Eu vi uma ligação perdida da , quando retornei algumas horas depois, ela me explicou o que aconteceu e disse que a havia pedido o telefone da Cassie. – franzi o cenho diante de sua última fala.
- Pra que ela queria o número da Cassie?
- Eu sei lá, cara. Eu que te pergunto! – Paolo rebateu visivelmente curioso e eu neguei com a cabeça, demonstrando estar tão desorientado quanto ele.
- Ela me ajudou quando eu passei mal.
- Hm. E por que a Cassie não estava lá? – dei um riso repleto de escárnio, atraindo a atenção do meu amigo.
- Raros são os momentos em que nós estamos juntos. – respondi enquanto jogava um pouco de água no rosto.
- Ué. Como assim, ?
- Nosso namoro está uma merda. – confessar isso em voz alta me fez perceber quão cansado daquele relacionamento eu me encontrava. Me sentei no aparelho de musculação do qual eu utilizava e Paolo fez o mesmo.
- Pô, cara. Uma merda quanto?
- Acho que não tem mais clima, nós brigamos por absolutamente tudo.
- Eu percebi algo estranho na festa, realmente. – Paolo reparou e eu assenti.
- A relação já não é mais a mesma há tempos, certamente a tendência é piorar.
- Meu amigo, eu costumo ser bem objetivo quando o assunto é esse. Se você gosta dela, tenta melhorar o que vocês têm. Se não, termine isso e volte para a vida boêmia, pois ela nunca te rejeita – Paolo gracejou e eu dei um riso irônico anasalado. – Se está tão insuportável assim, por que continuar com isso? – ele avaliou assertivo e a sua declaração me fez refletir imediatamente.
A única coisa que eu sentia com Cassie era a sensação de estar cumprindo uma obrigação.
Notando o meu silêncio, Paolo prosseguiu. – Você está nesse namoro só por causa da bagagem que mantém os dois juntos?
Eram diversas perguntas sobre algo que eu ainda não havia sequer considerado. Tudo o que eu fiz foi permanecer com as mãos juntas frente ao rosto e permanecer calado.
- Faça o que você achar melhor, irmão. Mas não se prenda a algo que te trás infelicidade. – Paolo deu algumas batidinhas amigáveis em meus ombros e tornou a exercitar-se. Levantei-me e fiz o mesmo.
- Desde quando você virou a Oprah? – questionei sarcástico, recebendo um dedo do meio em resposta.
- Vá se foder, . Estou tentando ajudar. – ele disse em meio a risos e eu o acompanhei.
Aquela conversa havia esclarecido mais coisas do que eu imaginei.

’s POV

Que semana exaustiva.
Eu só queria dormir por um mês inteiro para que, talvez – eu disse talvez – fique disposta novamente. Eu dormia no máximo duas horas por noite completamente cercada de livros, trabalhos, provas, estágio, monografia e tudo o que eu tinha direito.
Eu não vivia.
Como se não bastasse tudo isso, também passei a ir todos os dias da semana para a loja de discos, pois fiquei encarregada de ensinar o trabalho para Vicenzo, que fora contratado para me ajudar. Ele era bem empenhado e bastante divertido, embora tenha cara de quem estoura balões de criancinhas nos parques. Vicenzo cursou dois anos de engenharia e largou para dedicar-se à sua banda, assumindo que o trabalho na RR – Retrô Record’s era apenas para passar o tempo, como um robby. Pois é.
Terminei de guardar as minhas coisas na bolsa ao fim do expediente quase cantarolando de felicidade por ser sexta feira e por ter recebido a ótima notícia de que não precisaria trabalhar no dia seguinte, já que a filha do senhor Sewell. – meu chefe – iria se casar.
- Fica, vai ter bolo. – Vicenzo surgiu em um salto ao meu lado e eu pulei de susto com a típica expressão “você quer que eu tenha um ataque do coração?”.
- Nem que você me oferecesse um bolo inteiro de sorvete eu não ficaria. Hoje quem fecha a loja é você – disse vendo-o fazer um bico e murmurar um “droga, era a minha cartada final”. Ri e coloquei uma mão em seus ombros, o confortando em meio àquele falso drama.
- Sinto muito, esse dia chega pra todos.
- Já que você recusou bolo, então aqui vai mais uma oferta – falou daquele jeito despreocupado, encostando o cotovelo no balcão e apoiando a cabeça em sua mão, me olhando de um jeito infantil que eu sabia que era proposital. Cruzei os braços e levantei o cenho, esperando-o dizer sobre o que se tratava a tal oferta – amanhã à noite a minha banda vai tocar em um barzinho, e você, senhorita, está convidada.
- Ah, Vicenzo. Seria ótimo, mas eu tenho muita coisa pra fazer. Fora que estou bem cansada – lamentei.
- Qual é, ! Para de ser semi-morta, faz suas coisas durante o dia e aproveite a noite – me olhou em puro tédio e eu torci o nariz, imaginando uma balança onde eu equilibraria as minhas prioridades x vontades. Não seria ruim ir vê-lo tocar, eu queria muito ir, porém, lembrar-me das inúmeras tarefas ainda inacabadas da faculdade me atingia como um balde de água fria.
- Fica pra próxima, sério.
- Por favoooooor. – pediu de um jeito arrastado fazendo bico e eu rolei os olhos, rindo. Ele era a personificação da frase “não julgue um livro pela capa.” Quem o via com aquele jeito “foda-se você” no maior estilo roqueiro baderneiro, não imaginaria a pessoa extrovertida que Vicenzo era.
Eu pensava enquanto era analisada em expectativa.
- Dessa vez você ganhou. – ele comemorou com o braço levantado no melhor estilo John Bender em “Clube dos Cinco” e deu um sorriso de coringa, me fazendo gargalhar.
- Sabia que você não perderia essa oportunidade, cara .
- Eu não quero menos do que uma guitarra quebrada nessa apresentação memorável, senhor rockstar – o ameacei, fazendo-o rir.
- Não se ensina o padre a rezar a missa. Seu número, senhorita. – esticou o celular na minha frente e eu anotei, entregando a aparelho assim que o fiz.
- Certo, agora eu preciso ir. – acenei pra ele, que fez reverência. Balancei a cabeça rindo e segui porta afora rumo a minha casa, aliviada pelo fim do expediente.
Caminhando distraidamente já dentro do condomínio, notei, de longe, que o salão utilizado para as reuniões de moradores encontrava-se cheio – provavelmente por esse motivo. O burburinho de pessoas em sua área externa indicava que a reunião já havia acabado, ao passo em que eu chegava perto do lugar, notei que uma garotinha – que não devia ter mais do que quatro anos de idade – estava parada na calçada aparentando estar um tanto quanto assustada. Estranhando a situação, aproximei-me dela com cautela, vendo-a se retrair assim que captou a minha presença. Abaixei-me com a intenção de ficar de seu tamanho, sorrindo amigável para a pequena e demonstrando que não faria nada com ela.
- Oi. – comecei. – ursinho legal – falei, me referindo ao brinquedo envolto em seus bracinhos. A menina olhou ressabiada para ele e, logo depois, para mim, sem exprimir reação nenhuma. – Qual é o nome dele? – tentei novamente.
- Senhor Bubu. – ela respondeu em um murmurinho. Sorri diante de sua resposta.
- Nome legal! Oi, senhor Bubu. – cumprimentei-o, rindo internamente da cena. – E o seu nome? Qual é?
- Lavínia. – abraçou mais o urso enquanto me olhava curiosa.
- Lavínia! Que nome mais lindo. O que você está fazendo aqui sozinha? – questionei querendo apertar aquela coisinha fofa com feição de choro.
- Eu estava com a Val porque a mamãe ficou ocupada, daí eu corri pra mostrar a plantinha pro Senhor Bubu, só que a mamãe disse pra eu ficar perto da Val, mas eu não fiquei – Lavínia falava meio atrapalhada e parecia preocupada. Permaneci atenta às suas palavras me perguntando quem era Val. A babá, talvez? – perdi a Val e a mamãe vai ficar brava – seus olhinhos se encheram de água e eu morri de pena do serzinho.
- A sua mamãe não vai ficar brava com você, não precisa chorar. – sorri carinhosa para ela – Se você me disser quem é a Val, eu levo você e o senhor Bubu até ela. Que tal? – sugeri à pequena, que permaneceu ponderar por alguns instantes. Obviamente haveria relutância de sua parte, afinal, eu era uma estranha. Por fim, Lavínia assentiu. Estendi a minha mão, sentindo a sua mãozinha vir de encontro com a minha – Me avise caso você veja a Val, tudo bem? – pedi enquanto andávamos até o salão de reuniões. Poucos minutos depois, uma moça de meia idade vestida de branco surgiu à nossa frente com a expressão apavorada, colocando uma mão em seu peito expressando alívio ao nos ver. Certamente ela era a Val, a babá.
A mulher correu em nossa direção, falando várias coisas para a menininha ao meu lado. Coisas que eu não consegui prestar atenção, afinal de contas, outra mulher encontrava-se ali proferindo mil resmungos e reclamações, todos dirigidos a babá. A julgar por sua aparência – que se assemelhava com a de Lavínia –, a mulher em questão se tratava da mãe da pequena.
- Como você pôde perder a minha filha de vista, sua irresponsável? Eu não te pago pra isso! – ela ralhava sem parar. Eu permaneci ali parada sem saber muito bem se simplesmente saía ou se esperava alguém me dizer algo, afinal, Lavínia ainda segurava a minha mão – e você? Quem é? – a minha presença finalmente foi notada, porém, torci o nariz devido ao tom de voz dirigido a mim. No instante em que eu abri a boca para respondê-la, ela me cortou enquanto me analisava. – Espera... Já te vi na casa dos . Você é a filha da cozinheira deles, não é?
- Sou . – frisei. – e sim, a minha mãe trabalha para eles. Encontrei a sua filha aqui perto e me ofereci para procurar vocês.
- O que eu disse sobre ir com estranhos, Lavínia? – a mulher bronqueou com a pequena, que se encolheu fazendo um bico enorme. Meu coração apertou, entretanto, a sua mãe não estava errada, afinal.
- Sinto muito, não irá acontecer novamente, senhora. – a tal de Val falou.
- Claro que não irá! Vou te colocar no olho da rua. – abaixei-me ignorando a discussão das duas e sorri mais uma vez para Lavínia.
- Está tudo bem agora, a sua mamãe só ficou preocupada com você. A obedeça e não saia de perto da pessoa que estiver cuidando de você, certo? – ela assentiu com a carinha um pouco melhor.
- (...) Você é só uma empregada, eu te pago para fazer o serviço direito – desviei a minha atenção da pequena à minha frente ao ouvir essa frase – não quero ouvir os seus argumentos inúteis. Aqui você não pensa, não fala, não faz nada que não seja me obedecer, ouviu bem? Isso se eu não te demitir! – levantei-me e observei Val, que assentia encolhida e olhando para baixo. Senti-me mal ao vê-la acuada daquele jeito.
Eu deveria me meter? Não.
Eu me meti? Sim.
Não conseguia ver uma cena tão familiar e simplesmente ficar quieta.
- Senhora, não tiro a sua razão por estar brava, mas falar dessa forma não me parece correto. – manifestei de forma calma visando amenizar aquele clima ruim. A mulher cravou os olhos semicerrados em mim e eu pude perceber claramente o seu descontentamento.
- A empregada é minha e eu falo como eu bem entender, não se intrometa. – respirei fundo tentando não perder a paciência. Ainda bem que eu estava acostumada a lidar com a Dona Kyara, portanto, qualquer outro chilique de madame seria fichinha para mim.
- Seres humanos não pertencem a seres humanos, ela é a sua funcionária, não instrumento de posse. – a frase escapou mais ácida do que eu gostaria, entretanto, não me arrependi por tê-la dito.
- Você não deveria nem estar aqui e acha mesmo que pode me dar lição de moral? – sustentei o seu olhar sem vacilar. Algumas pessoas já olhavam para a pequena confusão instalada e, naquele momento, avistei se aproximar de nós e parar ao lado da mulher ostensiva, que magicamente mudou a sua feição assim que reparou a presença dele ali.
- Boa noite. Algo errado aqui? – questionou impassível, parando os olhos por pouco tempo na babá, que se encontrava acuada e notavelmente temerosa. desviou o olhar da figura amuada e me fitou. Fiz uma pequena careta, demonstrando que algo não ia bem.
- ! Boa noite! – de repente a mãe de Lavínia havia se transformado na pessoa mais simpática do mundo. Ergui a sobrancelha – quase – me divertindo com a sua súbita mudança de humor. – Não há nada de errado, só um pequeno probleminha do qual já estou resolvendo!
- Talvez a senhora devesse continuar de onde parou e explicar a ele, que... Como é mesmo? Ah! Que a empregada é sua e você fala com ela como bem entender. – sorri irônica para a mulher que aparentava ter levado um banho de água fria.
- Dar uma bronca usando a sua posição hierárquica para humilhar sem sequer deixar o funcionário se defender não me parece um probleminha, Senhora Keller. – o homem argumentou com uma ironia quase palpável. Ainda com o cenho arqueado. – agora transmitindo satisfação ao notar a mulher a minha frente totalmente desestabilizada – a encarei sarcasticamente com os braços cruzados e um singelo sorriso brotando em meus lábios.
- N-não, creio que houve um engano! – a mãe de Lavínia se defendeu, exasperada. – Só estávamos conversando, afinal, ela perdeu a minha filha de vista!
- Há outros métodos de chamar a atenção de um funcionário sem denegri-lo. – afirmou e eu toquei delicadamente nos ombros de Val em um ato de conforto ao notar a preocupação evidente em seu olhar.
A babá me olhou consternada e eu lancei-lhe um sorriso amigável na afirmação muda de que as coisas estavam sob controle. Senti-me mal ao imaginar que ela provavelmente precisava muito do emprego, situação que muito se assemelhava com a minha e com a da minha mãe.
- Não sei o que ocorreu, porém, o seu comportamento pode lhe acarretar um processo por danos morais. – A mãe da pequena, que brincava próxima ao local de onde nos encontrávamos, estava atônita e visivelmente nervosa. Ela me fitou irritada e eu mais uma vez sustei o seu olhar.
- Certo. Só peça para essa mocinha não se intrometer no que não lhe diz respeito, ela não é nada aqui! – ralhou afetada. A expressão de tornou-se severa e eu revirei os olhos.
- Desculpe-me, senhora, mas a minha intenção não era desrespeitá-la, somente fazê-la enxergar que não se deve tratar alguém daquele jeito. – falei, sentindo que, se pudesse, a mulher me queimaria apenas com a sua visão enfurecida.
- E você está certa. – afirmou, compactuando com o que eu acabara de dizer. – Irei reforçar outra vez, Senhora Keller. Trate sua funcionária com respeito, por favor. E resolva assuntos de interesse profissional em locais reservados. – então virou-se para Val, que encontrava-se ao meu lado ainda preocupada – Me procure caso precise, certo? – ele disse prestativo e Val sorriu ligeiramente, assentindo incerta devido à presença de sua patroa, que nos observava insatisfeita.
Enquanto falava mais alguma coisa com a mulher, me voltei para a babá a fim de reforçar o diálogo que era tema da “pequena” discussão.
- Fique calma, eu entendo que o seu emprego é extremamente importante, mas não permita que te tratem mal. É errado. – aconselhei.
- Eu não posso perder esse trabalho, por isso não falo nada. - É compreensível, eu passo por algo semelhante, acredite em mim. Só peço para que procure o Doutor caso isso insista em acontecer.
- Obrigada. – Val lançou-me um sorriso leve e eu notei gratidão nele. Retribuí e me aproximei da pequena que agora estava abraçada às pernas de sua babá, despedindo-me dela – e de seu ursinho também, logicamente.
Ergui-me novamente e percebi que também aparentava ter finalizado a sua conversa com a mãe de Lavínia. Ele veio até mim e fez sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse, depositando uma mão na base das minhas costas, gentilmente me guiando em direção à saída do salão, despertando um leve arrepio em minha pele.
Inferno.
- Mas será possível que todas as pessoas desse lugar são insuportáveis? Céus! – me queixei indignada. me examinou com uma sobrancelha arqueada e um modesto sorriso zombeteiro moldou-se em seus lábios, causando um riso instantâneo em mim. – Certo, não todas, – frisei – só a grande maioria. – consertei e foi a vez de rir, negando com a cabeça em divertimento.
- O que aconteceu exatamente? – questionou curioso.
- Pelo que eu entendi, a babá se distraiu e a menininha saiu correndo para brincar. Coisa de criança, sabe? – ele assentiu. – Eu a encontrei e a levei de volta, o resto você deve ter visto.
- Você tem imã para confusão, não é? – interrogou em tom de brincadeira, me causando uma singela risada.
- É um talento natural.
- Não é todo mundo que faz o que você fez e defende alguém. Foi bem bacana.
- Eu não falei a metade do que eu queria, tive medo da babá ser prejudicada. Além do mais, eu não tenho voz aqui. Aparentemente você só é alguém se a sua conta bancária possuir vários zeros – me queixei insatisfeita, sentindo o olhar de em mim.
- Dinheiro nenhum compra o seu caráter, . É raro encontrar alguém como você e é bom saber que eu tenho alguém assim por perto. – ele declarou naturalmente enquanto andava com as mãos no bolso de sua calça social.
Eu imediatamente o olhei à procura de algo em sua feição serena que demonstrasse o que ele quis dizer, entretanto, tive apenas uma visão panorâmica de seu rosto que não esboçava absolutamente nada. O coração acelerado denunciava a ligeira felicidade que eu sentia por uma frase tão simples, mas extremamente significativa. Meu raciocínio tornou-se desordenado, tudo o que vinha à mente eram vários macaquinhos batendo pratos e tudo isso devido a uma mísera frase.
Uma SIMPLES frase.
- Ahn... Obrigada. – agradeci um tanto incerta. não disse mais nada e eu resolvi me manter quieta. Seguimos o resto do caminho em silêncio e somente nos despedimos ao chegarmos em nosso destino.
entrou na mansão.
Eu segui para os fundos.

Mor: É um adjetivo na língua portuguesa, considerado a forma abreviada de “maior” e bastante utilizado em palavras compostas: causa-mor, capitão-mor e etc. Quando determinada palavra é seguida de “mor”, esta atribuí ao termo um sentido de grandiosidade. Por exemplo, falar que um indivíduo é o capitão-mor significa que ele é a maior autoridade entre todos os outros capitães.

Dubrovnik: É uma cidade costeira da Croácia e também está na lista de um dos destinos mais caros para se viajar.

Muralha de Dubrovnik: Famoso ponto turístico da cidade de Dubrovnik.

Lei de Murphy: É um ditado popular da cultura ocidental que normalmente é citada como: "Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível". Ela é comumente citada por: "Se algo pode dar errado, dará."

C'est la vie: "É a vida". Expressão francesa que indica conformismo.




Capítulo 9


"Eu estou esperando pacientemente mesmo que o tempo esteja passando lentamente. Eu tenho uma vaga e eu queria que você soubesse que você é aquele que foi feito para mim." Make It To Me - Sam Smith.

’s POV

- Bom dia, ! – Barret, o motorista, me cumprimentou ao me ver estendendo algumas roupas no varal naquela manhã de sábado ensolarada e um tanto quanto quente.
- Ei! Como vai, Barret? Aproveitou as férias? – perguntei sorridente. Barret era um homem de meia idade que se parecia muito com o Mario Bros* e possuía uma simpatia contagiante. Motorista de confiança dos , ele já trabalhava no ofício há mais de vinte anos – palavras dele –.
- Com certeza! Não está percebendo o meu bronzeado? – brincou, apontando para o próprio rosto e eu gargalhei concordando. – É melhor eu me apressar, a senhora não costuma tolerar atrasos. – Barret disse, já se retirando enquanto acenava para mim, que retribui o ato.
- Tenha um bom dia! – desejei, aumentando o tom de voz para que ele me ouvisse, recebendo um “igualmente” em resposta.
Voltei a focalizar a minha atenção no restante das roupas, até que ouvi um barulho longínquo vindo da área em que a piscina se localizava.
encontrava-se ali, parcialmente deitado em uma espreguiçadeira enquanto lia algo compenetrado. O torso desnudo parecia reluzir contra a luz do sol ao passo em que a sua bermuda deixava à mostra a barra de sua cueca preta.
Eu já não sabia dizer se o calor que eu sentia era proveniente da temperatura elevada.
Sacudi a cabeça e voltei a me concentrar no varal a minha frente, terminando de dependurar a última peça de roupa. Durante o momento em que eu retornava à minha casa, avistei a senhora saindo da mansão com seu enorme óculos de sol posto de forma elegante em seu rosto sempre erguido. Sua cabeça fez um breve movimento de análise em mim, me fitando de cima abaixo rapidamente antes de prosseguir o seu caminho e adentrar o carro que lhe aguardava, onde Barret fechou as portas do veículo, logo entrando no mesmo e dando partida. Suspirei e retomei os meus passos, afinal, ainda possuía algumas coisas a fazer antes de me encontrar com Vicenzo.

(...)


- Não é um encontro! – exclamei pela milésima vez para , que encontrava-se eufórica do outro lado da ligação desde que eu lhe contei que iria ver a banda de Vicenzo tocar hoje à noite.
- Mas deveria ser! Encare como um, então. Tire um pouco o da cabeça e vá transar, sweetie. – falou e eu ri alto, fazendo-a reclamar. – Sério, ! Não estou dizendo que isso irá te fazer esquecê-lo porque né... Já vimos que isso é meio difícil. Mas se distraia! E nada melhor do que um certo roqueiro gostoso pra esse tipo de coisa.– minha amiga aconselhou e, ainda em meio à risos, eu assenti, mesmo que ela não pudesse ver.
Eu sabia que ela estava certa, de qualquer forma. tinha uma namorada linda, estava feliz. Eu não podia me privar das coisas, pois, enquanto eu suspirava pelos cantos por ele, ele vivia a sua vida. Não era justo comigo.
- Caso surja alguma oportunidade, eu aproveitarei.
- ISSO! comemorou animada. – Senti firmeza.
- Conselho absorvido, agora eu vou terminar o questionário que é pra semana que vem. Beijos, amorzinho.
- Beijos e termina logo isso aí pra você se preparar para o seu encontro-não-encontro.
- Pode deixar – ri e desliguei, voltando a minha atenção aos papéis a minha frente.

Cabelo? Check.
Acessórios? Check.
Maquiagem? Ótima.
Cabelo? A gente faz o que pode.
Mentira, até que estava legal.
Roupa, sapatos, perfume... Tudo ok.

Peguei a pequena bolsinha em cima da minha cama, coloquei tudo o que eu precisava dentro dela e saí, comemorando internamente pela noite estar agradável, seguindo para a casa dos para me despedir da minha mãe. Abri a porta de serviço e adentrei a cozinha, vendo-a mexer algo na panela. Estava com um cheiro ótimo.
- Mãe, estou indo. – disse, tocando-lhe o braço. Ela virou-se e me olhou com um enorme sorriso.
- , você está linda!
- Jura? Obrigada. – dei uma volta fazendo graça.
- , você sabe onde est... – entrou no cômodo de súbito e parou repentinamente, fazendo com que eu também parasse a minha voltinha desengonçada. Ele estava arrumado e o cheiro forte do seu perfume me atingiu em cheio. Seus olhos me analisaram momentaneamente (o suficiente pra me fazer corar) e voltaram-se a minha mãe, que tinha uma expressão intrigada no rosto – ... Onde está a camisa que eu te entreguei hoje? – finalizou a pergunta.
- Ah, claro! Só um minuto que eu vou pegá-la para você. – saiu em passos largos até a área de serviço, nos deixando a sós.
colocou as mãos nos bolsos e me fitou.
- Oi. – ele disse, simplesmente.
- Oi. – respondi, me sentindo idiota por saber que ainda me encontrava com o rosto ruborizado.
Silêncio.
E entre esse silêncio, eu só conseguia mentalizar: “Para me olhar, puta merda. Para de me olhar, eu IMPLORO.”
Droga de .
Minha mãe voltou à cozinha com a tal camisa, entregando-a a ele. Ouvi meu celular apitar, provavelmente sendo Vicenzo avisando que já se encontrava na frente do condomínio. Hora perfeita pra eu sair dali.
- Tchau, mãe. – disse, vendo-a sorrir e dizer um “divirta-se”. – Tchau, . – despedi-me, sorrindo. - Tchau. – Respondeu daquele jeito sério com aquele olhar que me deixava desnorteada.
Virei as costas e saí de lá, respirando fundo. Como era possível sentir-se sufocando só pelo olhar de alguém?
Eu andava a passos firmes – e irritados – rumando para fora do condomínio com o perfume de impregnado no meu nariz. Eu estava cansada de agir como uma boba quando o assunto era ele. Toda essa irritação só fez com que eu afirmasse uma coisa pra mim mesma: Se Vicenzo desse algum indício de querer algo comigo, eu não hesitaria. Desfiz a carranca assim que avistei o próprio parado encostado a uma moto e sorri assim que ele pousou os olhos de mim. Vicenzo usava um coturno preto, uma calça jeans também preta com uma blusa quadriculada amarrada na cintura e uma regata surrada. Todas as suas – muitas – tatuagens estavam à mostra e eu consegui ter uma melhor visão delas. Ele assoviou um “fiu fiu” e desencostou-se da moto, batendo palmas.
- Ora se alguém não encarnou o “vestida para matar” hoje...
- Ok, já pode parar. – ri meio envergonhada, encarando a moto atrás dele. Sim, eu tinha um pouco de medo delas. Velocidade demais, equilíbrio de menos.
- Suas fortes emoções começam por aqui, gatinha. – sorriu largo e me entregou um capacete, oferecendo sua mão a fim de que eu me apoiasse para subir na moto.
- Você vai devagar com isso aí, né? – questionei meio receosa, apontando para aquele negócio bonito e perigoso e Vicenzo gargalhou.
- Depende... Você vai querer com emoção ou sem emoção? – indagou brincalhão e eu o olhei aborrecida tentando segurar o riso. Ele levantou as mãos em rendição. – Tudo bem... – chegou muito perto de mim. – Eu deixo as emoções pra depois. – falou no meu ouvido e eu me arrepiei. O encarei com a sobrancelha arqueada e peguei sua mão, enfim subindo na moto. Vicenzo também subiu, colocando o seu capacete e, antes de eu colocar o meu, avistei a Maserati preta de sair do condomínio. Nossos olhares se encontraram por poucos segundos até que ele rapidamente desviou, olhando para a rua à sua frente, sumindo do meu campo de visão em seguida. Coloquei o capacete e agarrei a cintura de Vicenzo como àqueles agarradinhos de lápis, logo ouvindo a sua risada.
- Fica difícil pilotar uma moto estando com falta de ar, . – Falou em meio a risadas e eu o acompanhei, sem graça.
- Desculpe.
- Estou brincando. Pode agarrar à vontade. – não tive tempo de esboçar uma reação, pois, após dizer isso, ele arrancou com a moto.
Eu fechei os meus olhos de imediato ao sentir o vento passar por mim como um vendaval. Arrisquei abrir um olho e vi a paisagem voar em borrões e isso me fez os fechar tão rápido quanto eu os abri. Permaneci assim durante o caminho todo, praticamente grudada nas costas de Vicenzo, até que, um tempo depois, ele parou. Desgrudei-me dele e olhei em volta, tirando o capacete enquanto passava a mão nos meus cabelos. Estávamos em frente a um pub bem estilo grunge. Sua fachada era vermelha e nela piscava os dizeres “S.D.R” que eu supus serem de “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll”. Vicenzo desceu da moto e me estendeu a mão para que eu também descesse, e assim o fiz. Ele guardou os capacetes e colocou os braços em volta dos meus ombros desinibidamente, sorrindo pra mim daquele jeito de coringa. Eu iria seguir o protocolo, então apenas sorri de volta e o acompanhei até dentro do local.
E, sério, que lugar incrível era aquele?
Seu interior era todo revestido de madeira com diversos pôsteres de todas as bandas imagináveis pelas paredes, a luz era baixa e meio vermelha assim como os detalhes do pub. Havia um bar enorme em um canto, vários bancos rodeavam aquela parte – já lotada de pessoas – e o extenso palco ocupava a parte dos fundos. Vicenzo cumprimentava todo mundo animadamente comigo junto a ele, até que chegamos em um grupo de pessoas, parando ali. Eu me sentia um pouco introvertida no meio de tanta gente que eu nunca havia visto na vida e tudo piorou quando elas nos olharam. Vicenzo os apresentou como sendo os seus companheiros de banda e falou o nome de cada um – cujo eu esqueci no instante seguinte –, também me apresentando a eles. Em um piscar de olhos ele já estava com duas long necks nas mãos, entregando-me uma, e eu aceitei de bom grado. Após alguns minutos de conversa, notei que as pessoas presentes na roda começaram a se dispersar em direção ao palco, onde certamente iriam tocar dali a alguns instantes.
- Espero que você esteja pronta para o show, gatinha. – Vicenzo piscou e seguiu os seus amigos. Eu me ajeitei na no banco em que me encontrava sentada, curiosa e ansiosa para vê-lo cantar.
As luzes do palco se acenderam e eles posicionaram-se cada um seu devido lugar, prontos para iniciarem a apresentação. No instante em que eu ouvi a voz de Vicenzo, quase caí pra trás.
Ele era incrível.
A primeira música da qual eles tocaram fora Hey do Pixies, e, tenho que admitir, o meu companheiro de trabalho estava absolutamente sexy, exatamente como a canção pedia. Ele fechava os olhos a cada som que saía de sua boca, agarrando a sua blusa e a puxando em revolta. Ele cantava de uma forma quase agressiva, envolvendo todos ao seu redor, incluindo a mim, que se encontrava vidrada no grupo a minha frente. Ao finalizarem a canção uma calorosa salva de palmas foi direcionada a banda, que agradeceu e logo começou mais um cover. Vicenzo pegou um violão e arrumou o microfone, então, a melodia acústica de Like a Stone soou pelo animado pub.

(Nota: Coloque a música Like a Stone do Audioslave para tocar, ou, se preferir, clique aqui e acompanhe a leitura com o cover (recomendável).


On a cobweb afternoon, in a room full of emptiness
(Em uma tarde suave, num quarto cheio de vazio)
By a freeway, I confess I was lost in the pages
(Abertamente, confesso que estava perdido nas páginas)
Of a book full of death, reading how we'll die alone
(De um livro cheio de morte, lendo como nós vamos morrer sozinhos)
And if we're good, we'll lay to rest, anywhere we want to go
(E se formos bons, nos deitaremos pra descansar em qualquer lugar que quisermos ir)

Vicenzo cantava calmamente tocando o violão como se aquilo fosse algo pífio para ele, tamanha a naturalidade de seus movimentos. Ele continuava a fechar os olhos vez ou outra, concentrado, e, quando os abria, lançava aquele sorriso de coringa para o público, que se encontrava naquela vibe tão maravilhosa da qual todos estávamos envoltos.

In your house, I long to be
(Em sua casa, eu quero estar)
Room by room, patiently
(Quarto por quarto, pacientemente)
I'll wait for you there, like a stone
(Vou esperar por você lá, como uma pedra)
I'll wait for you there, alone
(Vou esperar por você lá, sozinho)


Neste momento ele olhou na minha direção e sorriu sacana, entoando a canção sem desviar a atenção de mim, que ri e balancei a cabeça em negação. O vocalista lançou outra piscadela e tornou a fechar os olhos, dedilhando o violão com extrema habilidade.

And on my deathbed, I will pray to the gods and the angels
(Em meu leito de morte, vou rezar aos deuses e aos anjos)
Like a pagan, to anyone who will take me to heaven
(Como um pagão, para qualquer um que me leve ao paraíso)
To a place I recall, I was there so long ago
(Para um lugar do qual me lembro, estive lá já faz muito tempo)
The sky was bruised, the wine was bled and there you led me on
(O céu estava ferido, o vinho era sangue e lá você me conduziu)

Enquanto ouvia a agradável melodia provinda da voz de Vicenzo, fui transmitida a uma dimensão muito conhecido por mim, sendo ela, onde se localizava os meus corriqueiros pensamentos a respeito de . Eu me encontrava em um lugar completamente agradável com uma pessoa divertida, contudo, aquela minha parte trouxa insistia em pensar no cara que era inalcançável para mim.

In your house, I long to be
(Em sua casa, eu quero estar)
Room by room, patiently
(Quarto por quarto, pacientemente)
I'll wait for you there, like a stone
(Vou esperar por você lá, como uma pedra)

O aperto no peito ao saber que ele provavelmente estaria com Cassie me fez respirar fundo em resignação, cansada de me sentir tão intoxicada por alguém que jamais estaria comigo. Eu queria poder tocá-lo, queria poder sentir o seu perfume mais de perto, queria saber como é o seu toque por entre os meus cabelos e pelo meu corpo, e, por mais errado que isso soasse, admitir tais vontades me deixava quase em um estado de nirvana. Eu estava prendendo um sentimento que gritava para ser expresso.

I'll wait for you there, alone
(Vou esperar por você lá, sozinho)
And on I read, until the day was gone
(E assim eu li, até o dia acabar)
And I sat in regret, of all the things I've done
(E me sentei arrependido, por todas as coisas que fiz)
For all that I've blessed and all that I've wronged
(Por todos que abençoei e por todos que ofendi)
In dreams until my death, I will wander on
(Em sonhos até minha morte, irei vagar)


Voltei à realidade no momento em que a canção estava acabando, piscando algumas vezes e voltando a concentrar a minha atenção no palco.

In your house, I long to be
(Em sua casa, eu quero estar)
Room by room, patiently
(Quarto por quarto, pacientemente)
I'll wait for you there, like a stone
(Vou esperar por você lá, como uma pedra)
I'll wait for you there, alone
(Vou esperar por você lá, sozinho)

Vicenzo finalizou a música e, mais uma vez, a eufórica salva de palmas soou pelo ambiente animado. Ele agradeceu e deixou o violão encostado em um canto do cenário, vindo em minha direção com um sorriso enorme. Quando estava perto o suficiente, bati palmas com a expressão em nítida admiração.
- Gostei de ver, rockstar. – Ele fez uma reverência e colocou um braço ao meu lado, me deixando parcialmente encurralada. Tentei não demonstrar nenhuma reação, mas aquilo era um tanto quanto estranho pra mim. Não ruim, mas diferente.
- O pessoal está indo lá pra casa, bora? – Perguntou mais próximo de mim do que o normal. Ele me encarava de um modo carregado de segundas intenções e eu sabia muito bem onde aquela noite acabaria.
E quer saber? Eu não iria me opor.
- Claro, por que não? – aceitei, me levantando.
- Exatamente! Não existe motivo pra que você recuse o meu convite. – Passou os braços pelos meus ombros como no momento em que chegamos ao pub e seguimos para fora do local. Eu já começava a fazer o meu mantra pra subir naquela moto de novo. Vi os amigos de Vicenzo entrarem em uma caminhonete e voltei a me sentar naquele pesadelo, colocando o capacete e agarrando o homem à minha frente como se a minha vida dependesse daquilo. Bem, e dependia.
Ele arrancou e eu fechei os olhos, torcendo para que a sua casa não fosse longe. Após alguns minutos percebi que, para meu alívio, a moto havia parado. Retirei aquele treco pesado da minha cabeça e desci – meio tropeçando – enquanto olhava o pequeno prédio a minha frente. Ele possuía cinco andares e se assemelhava àqueles prédios antigos. Sua fachada era rústica e não havia porteiro, somente um extenso portão preto com grossas grades. Vicenzo pegou uma chave em meio ao seu chaveiro lotado de coisas penduradas e abriu a entrada, dando espaço para que todos entrassem. Seus amigos subiram as escadarias e Vicenzo pegou na minha mão, levando-me consigo escada acima de modo animado, como sempre.
- Caiam fora, seus putos, senão ninguém entra. – Ele disse, empurrando alguns de seus amigos da frente da sua porta, destrancando-a. Todos entraram e, no instante em que eu fui fazer o mesmo, ele se colocou na passagem, impedindo-me de adentrar o local. Parei de súbito e o olhei sem entender. – Opa, gatinha. Foi mal, mas você só conseguirá a autorização pra conhecer o domínio do imperador se pagar pedágio. – Terminou de dizer. Seu sorriso largo contrastava com a expressão maliciosa que ele carregava durante o tempo em que fitava os meus lábios descaradamente.
- Oh, mil perdões, grande imperador. – Fiz uma reverência esquisita e meu colega gargalhou. – Pode me dizer que tipo de pagamento é esse? – O questionei da forma mais inocente que consegui, entrando no seu jogo.
- Não só pode como vai saber. – Vicenzo disse, chegando perto de mim sustentando o meu olhar, deixando a boca próxima à minha e colocando as mãos em minha cintura. Puxou-me, grudando o meu corpo no seu, seus braços estavam envoltos ali de maneira firme, então, inclinou-se minimamente pra frente, juntando nossos lábios. Posicionei as mãos em sua nuca ao passo que a sua língua alisava a minha sem pressa, ofegando quando ele movimentou o meu quadril um pouco para cima fazendo-o chocar-se libidinosamente contra o seu. Mordisquei o seu lábio inferior e ele grunhiu, sorrindo em meio ao beijo. Eu sentia que o ambiente estava quente e só me lembrei de que estávamos na porta do seu apartamento quando um de seus amigos gritou de lá de dentro.
- Que putaria é essa aí? O quarto está perto, vão pra lá! – zombou e nós nos afastamos em meio a risos.
- Pedágio pago, senhorita. É um prazer fazer negócios com você. – Vicenzo falou lançando-me uma piscadela e abriu caminho para mim. Ri e pisquei de volta, entrando em sua casa com ele ao meu encalço. O seu apartamento era o mais clichê possível se tratando de um membro de uma banda de rock. O lugar era amplo com o ambiente integrado estilo cozinha americana, separando a sala da cozinha por um balcão. Havia pôsteres para todos os lados cobrindo as paredes – onde a televisão estava suspensa em uma delas – um sofá de couro preto ocupava o núcleo da sala e, a sua frente, localizava-se uma mesinha de centro de madeira escura. Garrafas de cerveja encontravam-se jogadas por todos os cantos, junto a algumas caixas de pizza. Típico.
- Mi casa és tu casa. – ele disse abrindo os braços mostrando tudo ao seu redor. – Aceita uma bebida?
- Aceito sim, obrigada. – Respondi sorrindo, parada no meio do seu apartamento igual a uma planta. Eu me sentia um pouco sem jeito estando ali, então me limitei a ficar em um canto enquanto todos bebiam, conversavam e ouviam um rock pesado que alguém havia acabado de colocar. Vicenzo me entregou uma garrafa de cerveja e se pôs ao meu lado com o braço por cima dos meus ombros, me guiando para o sofá onde todos se encontravam.
- Então, . O Vicenzo contou que você mora no Town Place, o famoso condomínio de burgueses. O que uma garota de classe alta está fazendo saindo com pessoas como nós? Querendo ser rebelde? – Bernard, o baterista da banda, perguntou de forma cínica. A primeira impressão que eu tive a respeito dos amigos de Vicenzo foi a de que eles eram como qualquer outro grupo de pessoas que têm amizade, nada demais. Agora, eu já sentia uma pequena repulsa por este cara em questão.
Definitivamente não gostei de seu tom.
- Moro no Town Place, sim. Mas não porque eu sou de classe alta, e sim, porque a minha mãe trabalha pra uma família de lá. Essa época de querer ser rebelde já passou há um bom tempo, pelo menos pra mim, então as suas conclusões estão bastante precipitadas. – Rebati igualmente cínica, lançando-lhe um sorriso falso e ouvindo alguns assovios devido a minha resposta.
- Eu te falei que ela trabalha comigo, cara. – Vicenzo disse, notando que a minha feição não era das melhores. Tomei um gole da cerveja em minhas mãos e adotei uma postura serena, torcendo para que eu passasse a me divertir naquela social na casa do vocalista ao meu lado, que já conversava empolgado.

Muita música.
Muita fumaça.
Muita gente.
Muita bebida.
Eu estava me sentindo em um clipe do Green Day.
E juro, tinha um cara que era A CÓPIA do Billie Joe naquele apartamento, e, se eu não estivesse sóbria, certamente iria pessoalmente checar se não era ele mesmo ali.
O recinto havia enchido de gente de uma hora pra outra, tudo o que eu fazia era conversar com uma ou outra pessoa simpática – e chapada – o suficiente que parava ao meu lado para filosofar sobre o formato da fumaça que saía da sua boca. Nem beber eu estava bebendo. Vicenzo perambulava pela casa com o seu jeito enérgico, dando atenção para cada convidado seu, fazendo piadas, cantando e tudo mais. Eu balançava a cabeça sutilmente ao ritmo de My Girl (Where Did You Sleep Last Night) do Nirvana que soava alta pela caixa de som, Vicenzo tinha realmente muita sorte daquele prédio estar praticamente desabitado, caso contrário, as suas festinhas certamente seriam proibidas por vizinhos furiosos. A figura do meu colega surgiu a minha frente, ele sorriu e acariciou a minha cintura, encostando-me na parede.
- Algo me diz que você está querendo companhia. – Falou em meu ouvido, provocando um leve arrepio.
- E como você chegou a essa suposição?
- Eu estava te olhando do outro canto da sala e acho que nós temos muito a ver, saca? Só que eu ainda não sei muito bem se isso é verdade, eu deveria te beijar pra ter certeza – respondeu com cara de pensativo e eu ri.
- Então vou acabar com essa sua dúvida fatídica. – Me inclinei e puxei a sua camisa, tomando os seus lábios com os meus, movimentando-os com intensidade. Vicenzo apertou a minha cintura, tocando a lateral do meu corpo enquanto subia até a minha nuca, pousando sua mão ali enquanto me pressionava contra a parede. Parei o beijo de súbito e dei um sorriso torto pela cara do vocalista, que me encarava atordoado com os lábios avermelhados entreabertos. Aproximei minha boca da sua novamente ao passo que levava a minha mão até o seu pescoço, o arranhando sutilmente, vendo-o fechar os olhos e puxar levemente os cabelos da minha nuca. A minha mão livre passeava pelos seus braços tatuados e eu passei a minha língua suavemente por entre os seus lábios, arfando quando Vicenzo a prendeu de maneira suave por entre os seus dentes, acariciando-a com a sua própria língua. Ele a soltou e retomamos o beijo, dessa vez, mais sedento. Sua boca massageava a minha voluptuosamente e eu correspondia da mesma forma, me sentindo cada vez mais quente e descontando toda a excitação em seus braços tatuados e seu pescoço, percorrendo a região com as unhas até chegar a sua nuca, onde eu dei um breve puxão nos fios dos seus cabelos, ouvindo-o grunhir e pressionar mais o quadril contra o meu. Senti o volume no meio das suas pernas e coloquei a minha perna entre a sua, desejando mais contato.
- Tenho certeza de que a gente pode fazer isso melhor no meu quarto. – Soprou em meus ouvidos com a voz ofegante. Gemi baixo ao senti-lo lamber de leve a minha orelha e puncionar o seu quadril pra frente, aumentando a fricção entre as nossas intimidades.
- Não tenho dúvidas. – Respondi arfante e Vicenzo sorriu malicioso, pegando a minha mão. Andamos por um pequeno corredor e entramos no cômodo, que eu até tentei observar, porém, fui impedida quando senti o baque do meu corpo contra a porta. Arqueei as costas ao notar que a língua de Vicenzo transitava vagarosamente pelo meu pescoço, sua mão puxou a minha coxa para que ela ficasse na altura do seu quadril e a acariciou até sua parte interna, chegando perto de um lugar que, àquela altura, ansiava por ser tocado. Dei um impulso e, com isso, fiquei com ambas as pernas ao seu redor, suspirando enquanto ele apertava as minhas coxas e beijava energicamente o meu pescoço. Fui desencostada da porta e senti o colchão macio atrás de mim, notando que estávamos na cama de Vicenzo. Chutamos nossos sapatos de qualquer jeito e aproveitei para pegar na barra da sua camiseta, erguendo-a rapidamente. Ato finalizado por ele, que a tirou. Seu peitoral tatuado subia e descia de forma descompassada e eu aproveitei para analisá-lo melhor, passando os olhos pelo seu corpo e constatando que o calor – que já era intenso – havia aumentado. Vicenzo desceu a minha saia e a tirou com pressa, tendo visão plena da minha calcinha. Ele me encarou e sorriu perverso, se encaixando entre as minhas pernas e voltando a me beijar com voracidade ao passo que eu me empenhava em passar as unhas por toda extensão das suas costas, levando as minhas mãos até o cós da sua calça, incomodada com a peça de roupa que insistia em atrapalhar o nosso contato mais intenso. Vicenzo se livrou dela e investiu o seu quadril contra o meu, possibilitando que o toque entre as nossas intimidades fosse sentido de forma vigorosa. Arfei ao notar quão excitados nós nos encontrávamos, colocando os braços para cima ao perceber que Vicenzo erguia a minha blusa, jogando-a no chão com as outras vestimentas.
- Você foi de vestida pra matar, para despida pra me fazer enfartar. – Ele disse e eu gargalhei da sua frase ridícula.
- Cala a boca antes que eu levante daqui e vá embora. – Falei, ainda rindo.
- Você não vai querer ir antes da verdadeira diversão começar. – O vocalista sussurrou acariciando a parte interna da minha coxa, perto demais o local que mais precisava de atenção no momento.
Eu precisava disso, certo?
Eu precisava me distrair, viver.
estava certa, afinal.

**

- Nós realmente sabemos nos divertir... Porra! – Vicenzo exclamou e eu ri, o empurrando de leve pelos ombros e notando que o barulho da casa havia diminuído.
- Acho que a galera está começando a ir embora. – Deduzi e ele assentiu.
- Você não vai querer ir embora agora, né? – Vicenzo se virou pra mim e me olhou com cara de pidão, formando um bico com os lábios. Bem dramático. Segurei a risada, o encarando de volta enquanto estreitava os olhos e fazia uma cara de pensativa.
- Não sei... Depende... Preciso de uma boa razão pra poder ficar.
- Que tal essa? – Ele abriu os braços mostrando a si mesmo e eu ri.
- Eu estava pensando em algo como você arrumar as prateleiras da loja na segunda pra eu não precisar fazer isso no sábado que vem... – Respondi travessa e Vicenzo abriu a boca em falso espanto, mostrando-se indignado.
- , você está me chantageando?
- Não, eu estou negociando. – Respondi ainda com aquele sorriso exagerado enquanto fitava Vicenzo, que me encarava desconfiado, embora estivesse perceptível que ele segurava o riso.
- Acho que organizar umas prateleiras não vai me fazer mal. – Ele piscou, demonstrando que o resto da madrugada seria bem agitada para nós dois.

’s POV

O cômodo silencioso transparecia o clima pouco vivaz entre mim e Cassie.
Sentado na cama de seu quarto enquanto a aguardava terminar de se arrumar, eu observava cada ponto daquele local que já fora o território de noites incríveis entre nós dois, momentos felizes que agora eram somente fragmentos de um relacionamento do qual já havia sido prazeroso.
Como havíamos chegado a esse ponto?
Qual era a minha parcela de culpa nessa relação desgastada?
É difícil se dar conta de que você já não se sente mais da mesma forma sobre alguém que outrora fez parte de sua vida com tanto afinco.
Eu sentia um carinho muito grande por Cassie, contudo, tal sentimento parecia não ser o suficiente para carregar um namoro, pois esse carinho se resumia unicamente ao reconhecimento e gratidão por tudo o que passamos nesses anos. Talvez eu devesse continuar a viver a minha vida como eu sempre vivi a fim de evitar eventuais conflitos, porém, isso é o que mais me assusta. Ser infeliz.
Despertei de meu devaneio assim que Cassie surgiu por entre a porta do banheiro devidamente arrumada. Ela veio ao meu encontro e virou-se de costas.
- Pode fechar o zíper, por favor?
- Claro. – Levantei-me de sua cama e juntei as duas partes do fecho.
- Obrigada. Já podemos ir. – Disse, pegando a sua bolsa e caminhando porta afora. Apenas assenti ainda que ela não pudesse ver a minha ação e a acompanhei, novamente percebendo a falta de diálogo ali.
Entramos no carro ambos mudos bem como recém conhecidos, o que só me incomodou mais. Deixei que a melodia baixa da música que soava pelo rádio invadisse o sepulcro daquele momento, afinal de contas, era isso que parecíamos.
Dois mortos.
A harmonia de What’s Left do Three Doors Down repercutiu ironicamente, quase como um soco de verdades espalhadas por cada palavra que o Brad Arnold cantava.

“É hora de eu deixar você ir, é o que temos de fazer. É hora de desistir disso, eu acho que nós já sabíamos. Não resta nada para nós falarmos, não resta nada para provar.”


Timing perfeito, não é mesmo?
A vida é uma sucessão de eventos debochados que zombam bem à sua frente, lhe restando somente aceitar que talvez nada possa ser feito a não ser aceitar as regras do jogo.
Ao chegarmos ao nosso destino, ajudei Cassie a descer do carro e entreguei o veículo para o manobrista. Ela juntou sua mão à minha e firmou um sorriso largo no segundo em que colocamos os pés no extenso e bem decorado salão espelhado, onde diversos pilares feitos de bronze estruturavam a ornamentação da festa já lotada dos habituais convidados influentes de sempre. Diferente de Cassie, que sorria simpática para todos que nos cumprimentavam, eu mantive a minha feição séria e usual.
- e Cassie Privost! Estou lisonjeada em vê-los aqui. – Sadie Kimsey, esposa do prefeito, saudou.
- Boa noite, senhora Kimsey. É uma honra participar desse evento. – Sorri formalmente e juntei às mãos – anteriormente entrelaçadas às de Cassie – em frente ao corpo, inclinando minimamente o tronco para frente.
- Obrigada por nos convidar, lisonjeados estamos nós. – Cassie fez o mesmo ato que eu.
- Por favor, sintam-se à vontade. Quero pedir desculpas em nome do meu marido devido à sua ausência. Ele não deve demorar.
- Não se preocupe, é um grande acontecimento social, é comum que existam muitas pessoas a cumprimentar. Estamos bem, agradeço a solicitude da Senhora. – Falei em um gesto cortês e recebi um sorriso cordial em resposta.
- Obrigada. Devo atender ao resto dos convidados. Novamente, fiquem à vontade. – Cassie e eu agradecemos ao passo em que a mulher bem apessoada se afastava de nós. Peguei um copo de whisky no instante em que o garçom parou à nossa frente e tomei um gole considerável do líquido ardente. Eu precisaria de um pouco de álcool no sangue para enfrentar a noite.
Meu pai havia defendido o prefeito – Senhor Kimsey – de uma acusação a respeito de pagamento de propina ao Senador, o que, obviamente, causou grande abalo político na época. Após o ganho do caso, o poder e reconhecimento que nos foi conferido resultaram em grandes clientes corporativos e um aumento exorbitante na margem de lucro do escritório.
E, também, causou um aumento de bajulações.
- Não exagere na bebida. – Cassie repreendeu-me ao meu lado.
- Não irei. Só preciso relaxar, estar aqui não me agrada muito.
- O que te agrada ultimamente, ? – Ela rebateu enquanto sorria para as pessoas que nos cumprimentavam de longe.
- Receber respostas que não sejam atravessadas. – Contrapus satírico recebendo um olhar irritado de Cassie.
Andamos pelo salão por bons minutos, conversando esporadicamente com alguns convidados espalhados pelo local, onde garçons caminhavam concentrados entre o mar de pessoas ao mesmo tempo em que o suave som do piano ecoava de modo aprazível por ali.

- Não estou sendo injusto, mas veja bem. Não podemos deixar que as minorias estabeleçam regras à maioria. – Nos encontrávamos em uma roda composta por sete pessoas em uma conversa que anteriormente possuía como pauta “viagens”, entretanto, de repente, o assunto virou uma disseminação de egocentrismo advindo de conhecidos meus. Quieto, beberiquei o champagne em minhas mãos, somente observando até onde eles iriam.
- A regra é clara: Se eu detenho o capital, eu administro como irei obter os lucros. – Duncan, uma antiga colega, se posicionou. Eu arqueei uma sobrancelha, incomodado com tantas opiniões enfadonhas.
- É até pretensão dessas pessoas em achar que as coisas irão mudar, sinceramente. – Meghan pronunciou e eu ri sarcástico, atraindo a atenção de todos.
- Óbvio que as chamadas minorias não são ouvidas, afinal, nós estamos em um sistema que cria e mantém a desigualdade social. Toda força de trabalho delas são direcionadas para o enriquecimento dos patrões, que, cada vez mais, obtém o poder para que a manutenção desse sistema permaneça. – Argumentei consistente, tomando mais um gole da minha bebida enquanto recebia olhares contrariados.
- Sendo você quem é, muito me admira que se importe com isso. A vida é assim, uns têm, outros buscam ter da forma que podem. É a lei da sobrevivência. – Duncan disse.
- Sua família está no topo da lista das pessoas mais ricas do país, . Poupe-nos desse papo barato. – Regan, um antigo amigo de faculdade, advertiu irônico e eu ri cínico.
- O discurso de vocês é baseado na dominação e consequentemente na exploração, não esperem que eu me cale. – rebati ácido.
- O é o defensor dos fracos e oprimidos, pensa que pode mudar o mundo fazendo trabalhos voluntários de advocacia por aí. Eu sempre digo a ele que isso é irrelevante. – Cassie falou em um tom de puro deboche que fez o meu sangue subir ao passo em que os outros presentes riam. Franzi o cenho em sua direção notavelmente irado com a sua piada estúpida.
Eu tinha uma regra clara de convivência e ela era extremamente importante: Nunca, em hipótese alguma, faça pouco caso de algo que é importante para mim.
E, com aquele comentário de merda, Cassie havia ultrapassado todos os limites.
Ela entrelaçou seu braço ao meu, porém, não esbocei reação alguma. Todos já se encontravam imersos em outro assunto enquanto eu permaneci calado observando a concentração de pessoas no salão.
- O que você tem? – Cassie sussurrou ao meu lado me olhando sem entender. Sorri de lado de modo sarcástico e a fitei. Antes de eu conseguir respondê-la, ouvi meu nome sendo chamado.
- ? – Me virei, vendo um homem robusto de meia idade se aproximar. Assenti e ele prosseguiu – O Senhor Kimsey deseja vê-lo.
- Certo. Já volto. – falei para Cassie, que apenas concordou com a cabeça, voltando a sua atenção à conversa da roda.
Segui o homem por entre as pessoas, andando até um local mais afastado onde algumas mesas encontravam-se postas aleatoriamente. Ao chegar a uma em especial, avistei o Senhor e a Senhora Kimsey sentados junto a mais alguns homens e mulheres. Assim que me viu, ele sorriu de modo cordial e levantou-se.
- , que bom vê-lo! Suponho que a minha esposa já desculpou-se em meu nome por não aparecer antes.
- Boa noite, Senhor Kimsey. Boa noite, senhoras e senhores. – pronunciei aos demais. – É muito bom vê-lo também. – Disse, apertando a sua mão em um cumprimento firme. – Não se preocupe com isso, como eu falei à Senhora Kimsey, um evento de grande porte demanda muita atenção.
- Suponho que vocês saibam quem é este rapaz. – O prefeito voltou-se aos demais convidados sentados à mesa, que assentiram sorridentes. Eu mantive a postura comedida com um leve sorriso perdurado em meus lábios.
- , filho de Kyara e Henrico e um advogado brilhante. Sua família inventou a advocacia neste país junto aos Privost, meu caro. – Um dos homens ali presente falou e eu agradeci. – Estou acompanhando o caso Zummack, a propósito. Você vem fazendo um ótimo trabalho. – Completou.
- Muito obrigado pelas palavras. Eu apenas cumpro a minha função. – Respondi me sentindo feliz pelo reconhecimento.
- Mande lembranças aos seus pais. – O Senhor Kimsey pediu. – Não irei lhe prender aqui, somente quis cumprimentá-lo.
- Nunca será um incômodo, Senhor. – Menti. O meio da política era sujo e manter as aparências quanto a isso era sim algo desagradável. – Tenham uma boa noite. – Desejei para as pessoas dali. – Boa noite, Senhor e Senhora Kimsey. Mais uma vez, obrigado pelo convite. Com licença. – Pedi e me retirei de lá. Caminhei ao lado contrário do local em que eu me encontrava e encostei-me em um pilar do lado de fora do salão, procurando inspirar outra coisa que não fosse a essência de Clive Christian* que emanava por todo o lugar. Apanhei um maço de cigarros do bolso e retirei um de lá. O acendi e traguei profundamente enquanto varria toda a extensão do ambiente com os olhos. Parei onde eu anteriormente estava e cravei meus olhos em Cassie, que ainda conversava com as pessoas na roda, bebericando o líquido escarlate inserido na taça em suas mãos.
Eu já não conseguia mais me enxergar ao seu lado.
Permaneci ali até finalizar o cigarro e, após isso, percorri o caminho de volta até o meu destino anterior.
- Onde você estava? Quero ir embora. – Cassie proferiu no momento em que eu me pus ao seu lado.
- O Senhor Kimsey queria me ver. – Respondi seco, concordando com o seu pedido. A minha social ali já havia sido feita. Despedimo-nos de nossos conhecidos e seguimos em silêncio até o carro, que me foi entregue pelo manobrista.
Eu dirigia calado e concentrado na rua à minha frente ainda me sentindo irritado pela brincadeira infame que Cassie fizera diante de pessoas que sequer eram nossos amigos. Como se adivinhasse que eu não queria papo, ela se manifestou.
- Por que você está com essa cara? – Questionou desentendida.
- Você realmente não sabe? – Retruquei irônico. – Você ridicularizou algo que tem importância para mim na frente de pessoas que não sabem o mínimo da nossa vida. Da minha vida. – Expus, tentando conter a irritação em meu tom de voz. Cassie riu e aquilo despertou a ira que até então eu tentava controlar.
- Por Deus, . Eu só fiz uma brincadeira! Por acaso falei alguma mentira? – Foi a minha vez de rir.

(Nota: Coloque a música Sexed Up do Robbie Williams para tocar!)


- Foda-se o que você falou, Cassie! Eu nunca te pedi para aceitar ou concordar com as coisas pelas quais eu acredito, contanto que houvesse respeito pelas minhas escolhas! – Bradei enquanto me aproximava de sua casa, apertando o volante com uma força desnecessária.
- Não seja ridículo! Você está fazendo uma tempestade em copo d’água, francamente. – Ela proferiu com certa incredulidade, saindo do automóvel assim que eu o estacionei em sua garagem. Repeti o ato, irritantemente consciente de que o desgaste da nossa relação estava a ponto de explodir em mais uma briga.
- Acho que essa é uma característica que nós possuímos em comum, não é mesmo? – Rebati desdenhoso. Entramos em sua sala e Cassie virou-se de súbito, me encarando incrédula.
- O que você disse? – Indagou com o tom de voz ameaçador. Os olhos semicerrados demonstravam o ressentimento pela minha frase e creio que a minha expressão não estava diferente.
Durante os instantes em que nós nos encarávamos em pura decepção, uma avalanche de lembranças e sentimentos vieram à tona. Todos os momentos felizes que Cassie e eu havíamos passado pareciam distantes, como se houvessem ocorrido há muitos anos. As discussões por trivialidades deram espaço para outras e mais outras, transformando tudo em uma bola de neve. Suspirei pesado e esfreguei as mãos em meu rosto em um claro sinal de cansaço e tornei a olhá-la.
- Todo esse tempo, tudo o que eu fiz foi tentar ser compreensivo. Eu não estou tentando me eximir da culpa pelo nosso relacionamento estar dessa forma, mas eu definitivamente não aguento mais. – Confessei abatido. O olhar de Cassie tornou-se surpreso e eu diria que até assustado.
- Como assim não aguenta mais? Do que você está falando, ? – Questionou exasperada, se aproximando de mim.
- Quando foi que o nosso namoro se tornou maçante? Quando foi que tudo o que eu faço passou a te irritar e vice e versa? – A minha pergunta saiu como uma súplica. Ninguém iniciava uma relação pensando em seu fim, porém, quando ele se aproximava, disfarçar e encobrir a situação já não era uma opção. Cassie abriu e fechou a boca diversas vezes, procurando o que dizer.
- Você acha que o nosso namoro se tornou maçante? – Ela indagou magoada.
- E não se tornou? – Devolvi a pergunta. – Para pra pensar nesses últimos meses, Cassie.
- Vamos lá... Se for para jogar as cartas na mesa, então eu jogarei. Você parece se esquecer de todas as vezes que me deixou de lado por causa do seu trabalho. Lembra quando você optou por fazer o doutorado direto?* Quantas vezes você simplesmente se esqueceu de mim?! Eu SEMPRE aguentei calada! – Cassie desabafou e eu imediatamente me senti mal por saber que aquilo era verdade.
- Eu tenho consciência da minha parcela de culpa nisso tudo e eu peço desculpas a você – reconheci. –, mas nós não conseguimos ficar perto um do outro sem brigar! Que relação é essa?
- Uma relação que VOCÊ ajudou a estragar. – Cassie ralhou e eu bufei, mexendo nos cabelos nervosamente.
- Eu aceito e reconheço os meus erros, por que você não pode fazer o mesmo?
- Porque eu não teria errado se você não tivesse também! – Ela aumentou o tom de voz.
Estava cada vez mais difícil tentar conversar.
- É sobre isso que eu estou falando! Você NUNCA assume que errou, sendo que a culpa NÃO É SÓ MINHA! Consegue se recordar de suas reclamações sem sentido? Das vezes em que você simplesmente não fez esforço NENHUM para me compreender? Do dia em você ignorou as minhas ligações e foi para uma porra de festa? Eu posso ficar aqui até amanhã enumerando as suas falhas! – finalizei irritado, notando Cassie me observar com o cenho arqueado e os braços cruzados.
- Reveja os seus conceitos, sou EU quem deveria reclamar! Talvez se eu te ignorasse você passaria a me dar mais atenção! – Cassie reclamou apontando o dedo para mim.
- É só sobre isso, não é? Sobre você receber atenção, apenas sobre você! Saia da sua bolha e passe a perceber o mundo a sua volta, não é difícil! Esses joguinhos não levam ninguém a nada.
- Estou vendo que não, você simplesmente não se importa. – Ela se aproximou de mim com a feição ressentida. Eu permaneci no mesmo lugar, sustentando o seu olhar.
- Talvez seja a hora de nós sermos claros um com o outro.
- Do que você está falando? – Indagou atônita.
- Não quero mais discutir em vão. – Admiti consumido por aquele clima hostil.
- Eu não estou assimilando muito bem aonde você quer chegar. – Cassie falou apreensiva.
Suspirei e, mais uma vez, passei as mãos pelos cabelos.
- Isso não está mais funcionando, eu já não me sinto da mesma forma. – Revelei olhando fixamente para a sua feição perplexa. Seus olhos se arregalaram por breves segundos até a expressão assustada ser substituída pelo escárnio.
- , você... – ela riu sarcástica. – Não, você não está fazendo o que eu acho que está fazendo. – Mantive a minha posição inalterada enquanto Cassie ria nervosa.
- Estou sim. – Respondi determinado e ela riu alto.
- Qual é o motivo dessa decisão repentina? Você quer terminar comigo por causa de algumas discussões? É sério? – A expressão dotada de escárnio retornou e eu fechei os olhos por milésimos de segundos, os abrindo em seguida. Respirei fundo e neguei com a cabeça.
Não seria fácil.
- Não é somente pelas discussões, mas por tudo. Pelo acúmulo de mágoas, pelo cansaço e por perceber que estamos nos machucando! Eu...
– PARA! – fui interrompido pelo seu tom de voz elevado. Seus olhos vermelhos denunciaram seu choro comedido, porém, eu sabia que ela não permitiria que as lágrimas caíssem.
- Você não vai fazer isso – ela riu mais uma vez –, você não quer fazer isso! É RIDÍCULO!
- Cassie, não torne isso mais difícil do que já está sendo. – Pedi com pesar.
- Estava tudo bem até hoje mais cedo! QUAL É O SEU PROBLEMA?
- Não estava tudo bem! Você sabe que não estava!
- Então é assim? – Cassie me fitou com desdém enquanto o sorriso carregado de escárnio perdurava em seus lábios – Espero que você saiba o que está fazendo e saiba também que irá se arrepender. Você é realmente hilário – mais uma risada. Franzi o cenho sem entender, ouvindo-a prosseguir. – Sempre andando por aí com essa pose de prepotente, dono da razão. , o homem correto e benevolente, profissional íntegro que a todo o momento vive a vida de todo mundo, menos a própria. Um homem que não sabe o que fazer com tudo o que possui. Você vive a sua vida monótona como um robô programado para fazer as mesmas coisas todos os dias! – Cassie praticamente cuspia as palavras repletas de um menosprezo quase palpável. Ainda parado, eu a observava com seriedade tendo o cenho franzido em um aspecto carregado de reprovação às palavras dirigidas a mim. Não obstante, ela persistiu. – Continue apontando o seu dedo a todo mundo menos a si, amor. Eu não irei me compadecer quando souber que o seu copo de whisky e o seu cigarro se tornaram a sua única companhia. – Finalizou debochada. Eu assenti vagarosamente, ainda assimilando tamanho desapreço. Após o seu discurso, somente tive mais certeza de que estava fazendo o certo.
- Você não é diferente de mim, Cassie. Tente não ficar presa à sua arrogância e boa sorte. A forma como eu irei lidar com a minha vida não é mais problema seu, amor. – Concluí sarcástico e lhe dei as costas, pronto para sumir dali.
- NÃO FAZ ISSO! ACABOU? – Ela perguntou indignada, tocando em meu braço para que eu me virasse. Apenas virei a cabeça e a encarei por cima dos ombros, dando de cara com a sua fisionomia colérica e vermelha.
- Acabou a porra toda. – Com isso, saí, deixando Cassie para trás.
Deixando muita coisa para trás.
Atordoado, entrei em meu carro e bati a porta com força, socando o volante em um ato impensado. Apoiei as minhas mãos em minha cabeça e fechei os olhos na tentativa de recuperar – ao menos um pouco – a minha sanidade.
O que aconteceria de agora em diante?
Após tanto tempo com alguém, dar-se conta de que está sozinho transmite uma sensação estranha de vazio. As palavras de Cassie ecoavam de modo desordenado em minha mente, e, por mais que elas doessem, saber que existia verdade em tudo aquilo que me foi dito era desconfortável. Eu havia feito a coisa certa, entretanto, o singelo alívio em meus ombros não era maior do que o peso da grande carga emocional de nossa discussão.
Dei partida no automóvel em direção a minha casa me sentindo uma pilha de nervos.

Porém, eu também sentia que uma parte de mim encontrava-se aliviada.


’s POV

Iluminação demais.
Conforto de menos.
Cerrei os olhos em meio à claridade e senti um peso na minha barriga. Direcionei a minha atenção ao que me incomodava e vi o braço de Vicenzo jogado em cima de mim, enquanto ele dormia extremamente torto ao meu lado, quase me derrubando da cama. Franzi o cenho observando ao redor, procurando com os olhos algum relógio para eu me situar sobre que horas eram. Percebi uma movimentação e o meu corpo foi puxado de encontro ao corpo do meu colega de trabalho que já se encontrava acordado e, como sempre, elétrico.
- Ora ora, pensei que você seria sorrateira e iria embora sem se despedir. – Vicenzo disse me encarando brincalhão e eu ri, negando com a cabeça.
- Eu não sou clichê desse jeito, meu amigo. – Me desprendi do seu abraço e me levantei, começando a procurar as minhas roupas no chão e me vestindo.
- Que ótimo, se você fosse embora, iria perder o meu incrível café da manhã à base de pizza gelada e refrigerante. – Ele colocou os braços atrás da cabeça e falou todo orgulhoso, me fazendo rir novamente. Peguei o meu celular na bolsa e chequei à hora. 11hrs15 da manhã.
- Desculpe te desapontar, mas eu vou perder o seu incrível café da manhã. Preciso ir pra casa. – Informei e Vicenzo revirou os olhos de modo teatral, tornando a me olhar.
- Você me chateia, gata. Não acredito que você recusando o meu café da manhã super romântico. – O vocalista se pôs de pé preguiçosamente, caminhando a passos lentos até o que eu imaginei que seria o banheiro.
- Entendo que eu tenho uma personalidade magnética e que você não quer ficar longe de mim, mas, se isso te conforta, amanhã eu vou passar na loja pra deixar umas encomendas do senhor Jordan e você verá o meu rostinho. – Brinquei e a cabeça de Vicenzo fez-se presente pela porta do banheiro.
- Eu criei um monstro – ele constatou negando com a cabeça e riu. – Vou tomar um banho e te levo pra casa, beleza?
- Tudo bem. – Assenti sorrindo e voltei a mexer no celular despreocupada.
- Bom, essa é a hora em que você fala “quer que eu te acompanhe?” – Tirei os olhos do aparelho e gargalhei ao ver a cara de tédio da qual Vicenzo me olhava.
- Como eu já disse, não sou clichê. Pode tomar o seu banho à vontade. – Me deitei na cama, abrindo um joguinho qualquer no meu celular e me assustei ao ver que o meu colega de trabalho se pôs por cima de mim, tirando o aparelho das minhas mãos. Ele me encarava com um sorriso desafiador e, devo dizer, estava sexy.
Principalmente com aquelas tatuagens espalhadas pelo seu corpo.
Vicenzo se aproximou de mim e tomou os meus lábios com certa voracidade, puxando-os e entrelaçando a língua na minha. Quando eu fiz menção de levar as minhas mãos até os seus cabelos, ele se afastou de súbito, me deixando desnorteada e brava ao ver a sua feição zombeteira.
- Idiota. – Joguei um travesseiro nele, que gargalhou alto e se enfiou novamente no banheiro.
Eu me sentia feliz pela minha amizade com Vicenzo, nós nos demos bem logo de cara e ele era uma pessoa fácil de lidar. Era bom ter alguém assim por perto, totalmente desencanado com tudo e que transmitia uma leveza incrível, como se fôssemos amigos há tempos.
E que é ótimo na cama, acho muito importante pontuar esse fato.
A noite passada havia sido muito boa, consegui me distrair e aproveitar sem pensar demais – o que eu costumava fazer com bastante frequência –, posso dizer que me deixar levar pelo momento foi libertador. Eu precisava me dar mais chances e sabia disso. Como a disse: Eu tinha que me distrair, tirar o da cabeça ao menos um pouco.
Certa vez, eu li a seguinte frase: “Tem sempre aquela pessoa, uma só, que possui um passe-livre, uma carta branca na sua vida. Que vai, volta, vai de novo e nunca irá parar de ser o que é pra você. Alguém pelo qual você nunca conseguirá deixar de ter sentimentos” e, no meu caso, acho que é verdade. E, nossa, como eu gostaria que não fosse. Você já se sentiu estúpida por sentir algo? Já tentou racionalizar a situação de todas as formas, entretanto, só conseguiu dar nós e mais nós na sua mente?
Sério, é desesperador.
Estava tão imersa em minhas divagações que perdi no joguinho. Droga. Xinguei baixo e ouvi a risada de Vicenzo ecoar pelo quarto, me trazendo de volta à realidade.
- O quê? – Perguntei, não entendendo o motivo de seu riso.
- Você é estranha. – Ele falou e eu cerrei os olhos diante da sua constatação. – Mas de um jeito legal, relaxa. – Terminou em meio a um sorriso e eu assenti, ainda o encarando desconfiada.
Levantei-me da cama pegando a minha bolsa e o segui para fora do quarto, fazendo uma careta no instante em que eu vi a zona da qual o apartamento se encontrava.
- Eu não deveria fazer isso porque você acabou de me chamar de estranha, mas você quer ajuda pra arrumar isso? – Disse apontando para o local com cara de aversão.
- Nah, de boa. Depois eu vejo o que eu faço com isso. – Respondeu despreocupado e eu dei de ombros.
Saímos do seu apartamento e descemos as escadas – não sem antes Vicenzo me parar de cinco em cinco segundos para me beijar ou fazer alguma gracinha – Chegando até a saída, onde eu logo fiz uma careta ao ver a moto dele na rua. Lá vamos nós novamente.
- Ainda te faço perder o medo da minha belezinha.
- Não tenho muita certeza disso. – Falei incerta, colocando o capacete e agarrando forte a sua cintura, reprimindo um gritinho idiota no momento em que senti a velocidade da moto ricochetear em meu corpo.
Permaneci desse mesmo jeito durante todo o percurso, suspirando aliviada quando Vicenzo parou a moto na frente do condomínio. Tirei o capacete e o entreguei ao vocalista, que também havia tirado o seu ao descer da moto para me ajudar a fazer o mesmo.
- Obrigada por ontem, adorei a noite. – sorri meio sem graça. – e obrigada por me trazer em casa.
- Eu que agradeço. – ele piscou. – Estou sempre à disposição. – Ele se aproximou e colou os seus lábios nos meus, iniciando um beijo que durou alguns segundos. Sorri novamente e me afastei, aguardando Vicenzo se preparar para partir. Assim que o fez, me virei e entrei no condomínio, andando calmamente em direção à moradia dos , sorrindo satisfeita pelo tempo ameno daquele domingo.
As crianças corriam pelo parque, babás passeavam com os bebês e uma ou outra pessoa corria com os cachorros. Era um dia agradável. Entrei na mansão e me direcionei até minha casa, encontrando tudo no mais intrínseco silêncio, o que indicava que minha mãe estava trabalhando. Segui para o banho a fim de tirar a sensação de “noite anterior” e, enquanto a água caía pelo meu corpo em um ato relaxante, ri fraco ao me recordar da minha noite com Vicenzo. Havia sido muito divertido ficar com ele e me distrair um pouco, e o fato de saber que a amizade que nós construímos permaneceria igual, me deixava tranquila.
Após desligar o chuveiro e colocar uma roupa confortável, resolvi procurar minha mãe no único lugar possível: Na cozinha dos .
Ao chegar no cômodo, avistei Judith mexendo algo em uma tigela, tão compenetrada no que fazia que não notou a minha presença ali. Aproximei-me da mulher e ela levantou a cabeça, sorrindo largo ao me ver.
- , querida!
- Oi, Judith! – Correspondi o sorriso na mesma intensidade. – Que massa bonita! O que é? – perguntei curiosa, checando o seu conteúdo de perto.
- Bolo de vinho tinto com chocolate. – Respondeu, revirando aquela mistura maravilhosa e eu assenti admirada. – A sua mãe foi ao mercado, mas não deve demorar.
- Ah, obrigada! Não a vi em casa e imaginei que ela estivesse aqui. Qual é a quantidade de vinho necessária para que o gosto não fique forte? – Indaguei interessada na receita com o olhar fixo no conteúdo homogêneo contido no recipiente.
- Somente um cop... Oh! – Ela fez uma cara de assustada e eu a encarei confusa. – , ainda bem que você me lembrou! Esqueci de pegar o vinho! – Ri fraco de seu desespero e levantei-me.
- Tudo bem, eu pego. – Me ofereci, vendo a mulher a minha frente expressar gratidão em um sorriso singelo.
- Obrigada, querida. Você sabe onde as bebidas ficam, certo? Na adega de vinhos no fundo do bar, lá embaixo. Pode pegar qualquer um. – Judith explicou. Murmurei um “ok” e saí em direção ao último – Ou seria primeiro? Nunca soube muito bem, sempre me perdia um pouco naquela casa enorme – andar em busca da bebida. Desci o último degrau que dava acesso à entrada do bar e parei de súbito no exato momento em que vi uma figura muito conhecida sentada ali. estava mexendo em seu celular totalmente distraído e eu praguejei mentalmente, haja vista que, para chegar até a adega, teria que passar em sua frente.
Vamos lá, .
Respira.
Finja que não o viu e apenas ande.
Ok.
Levantei a cabeça e retomei os meus passos, quase comemorando o fato de que não havia percebido a minha presença até a metade do cômodo percorrido por mim, entretanto, a minha alegria não durou muito. No instante em que eu abri a porta da adega, o ruído produzido pelo ato chamou a atenção dele, que parou de mexer em seu aparelho e encarou o local de onde o barulho viera, rindo enviesado quando me encontrou parada com uma mão na maçaneta e a maior expressão de taxo no rosto.
- Ora, ora... Onde estão os seus modos, ? Ia passar por mim sem me cumprimentar? – indagou irônico e pretensioso, levantando do banco e vindo até mim. Fechei a cara adotando uma expressão carrancuda e abri a porta, ignorando totalmente a sua fala. Adentrei a adega, me encolhendo um pouco devido a temperatura um pouco mais baixa do local, olhando o ambiente acolhedor repleto de vinhos nas prateleiras. Claro que não desistiria. Encostado na porta com o olhar esnobe e satírico, ele persistiu. – Você deve estar feliz, não é mesmo? – indagou ácido. Mesmo não desejando, o olhei totalmente perdida.
- Por que não estaria? Do que você está falando? – Perguntei demonstrando que não fazia ideia do que ele insinuava. riu sarcástico e eu permaneci séria.
- Ah, você não sabe? Então irei te atualizar das novidades! e Cassie terminaram.
A minha cara foi no chão. Eu me mantive parada com a garrafa de vinho nas mãos, sem saber o que dizer. Terminaram? Como? Pisquei algumas vezes com o intuito de me situar, vendo me encarar cínico. – Cadê o sorriso, ? – questionou satírico. – Você sempre quis isso, certo?
- Cala a boca! Você não sabe nada sobre mim, nunca soube. – Respondi, me aproximando dele. Meu tom de voz contido expressava a mágoa que eu guardava. – Recolha-se em sua insignificância e pare de dirigir a palavra a mim, . Eu nunca ficaria feliz com a infelicidade de outra pessoa, não sou você. – Cuspi as palavras carregadas de desdém. Ele estreitou os olhos e sustentou o meu olhar.
- Você ainda guarda algum sentimento por mim aí dentro. – Afirmou e foi a minha vez de estreitar os olhos, tamanha prepotência de sua parte. – Se não guardasse, não ficaria tão arisca quando eu estou perto. – deu um passo à frente e eu, um para trás.
- Pare com essa justificativa de ego, não seja egocêntrico. Você já parou para pensar que quando uma pessoa demonstra que a sua presença incomoda, é porque incomoda mesmo? Não sou apta a joguinhos e você sabe muito bem isso. – Desabafei sem cortar o contato visual enquanto apenas me fitava inexpressivo. Voltei a avançar o passo que outrora eu recuei e, em um ato louco de coragem, me aproximei de seu ouvido. – Eu não te quero perto de mim, ouviu bem? – Soprei e ri internamente ao vê-lo se arrepiar. – Você fez a sua escolha quando decidiu que eu não era boa o suficiente somente por não ter dinheiro, e quer saber? Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo. – Tornei a fitá-lo, muito perto de seu rosto. Era exatamente o que eu queria. Eu queria que ele sentisse e visse que a garotinha boba que ele iludia não estava mais ali. – Eu sou boa o suficiente e não é uma nota de papel que molda caráter que vai mudar isso. – Descarreguei bem a sua frente, me sentindo mais leve. parecia surpreso com a minha atitude e, embora até eu estivesse surpresa comigo mesma, permaneci impassível. Seus olhos cerraram mais uma vez, porém, antes mesmo de ouvi-lo proferir algo, a voz de soou no ambiente.
- O que você está fazendo aí, cara? – Ele perguntou não me enxergando ali. Afastei-me de sentindo meu coração acelerado. Estava nervosa devido a nossa pseudo lavagem de roupa suja. virou-se e eu consegui ver e ser vista por , que arqueou o cenho assim que os nossos olhares se encontraram. – Algo errado por aqui? – Ele questionou desconfiado com as duas mãos escondidas no bolso de sua calça, cravando a sua feição severa em , que já encontrava-se fora da adega. Notei que o seu rosto aparentava cansaço ao mesmo tempo em que parecia abatido e eu logo liguei uma coisa com a outra, confirmando o que eu soube anteriormente. O seu relacionamento havia chegado ao fim. Vê-lo daquela forma me deixou angustiada.
- Não, não, . Só estava cumprimentando a . – disse, me lançando um sorriso enviesado. Eu não correspondi. Pelo contrário, continuei séria. prendeu a sua atenção em mim e me analisou minuciosamente, como se tentasse comprovar a afirmação do amigo.
Eu nada disse, apenas iniciei a minha caminhada rumo à saída daquele cômodo sufocante.
Logo que eu passei na frente dos dois, tocou suavemente o meu braço, ato que me fez parar no meio do caminho.
- Tudo bem? – Questionou ele, quase me fazendo derreter devido a sua aproximação para falar comigo a fim de certificar-se de que as coisas estavam sob controle, afinal, ele conhecia o amigo que tinha.
- Sim... – Minha voz saiu um tanto quanto trêmula. – Só vim pegar essa garrafa para a Judith. – Respondi, levantando o vinho que encontrava-se em minhas mãos. apenas assistia tudo de braços cruzados com a feição colérica.
Babaca.
assentiu vagarosamente, perdurando o contato dos seus olhos nos meus por mais alguns segundos, até que se afastou. Sorri fraco para ele e retomei os meus passos sem ao menos olhar na cara de .
Após me retirar do lugar, sorri abobalhada e orgulhosa da minha atitude.
A frase “You go, girl!”* ecoava em minha mente em letras iluminadas e garrafais ao me recordar de sua cara de taxo ao ouvir cada palavra proferida por mim, o que me valeu o dia.
Retornei à cozinha e entreguei a garrafa de vinho à Judith, que, agora, estava acompanhada da minha mãe, ambas preparando as suas respectivas receitas.
- Oi, filha! Chegou há muito tempo? – Perguntou ela após eu lhe dar um beijo na bochecha.
- Um pouquinho. Vim te procurar, mas Judith me avisou que você estava no mercado.
- Como foi o passeio? – Minha mãe questionou com um olhar malicioso e eu a encarei boquiaberta, sentindo o meu rosto esquentar. Judith riu, me encarando da mesma forma.
- Hm, passeio, hein? – A mulher brincou e eu ri, abanando com as mãos para que elas parassem.
- Fui ver a banda de um amigo tocar. Apenas isso. – Expliquei convicta. As duas mulheres se entreolharam divertidas e deram de ombros segurando o riso, o que me fez rir.
- Francamente vocês duas! Vou para casa estudar que eu ganho mais. – Disse em meio a risos e despedi-me, negando com a cabeça.
Ao chegar em casa, sentei-me na mesa de casa com os diversos livros espalhados já prevendo que seria complicado focar em algo.

FLASHBACK.

Cansada após uma maratona de estudos, eu aproveitava o meu merecido descanso sentada na cadeira de balanço localizada na varanda de casa. Olhei em direção a mansão dos e sorri automaticamente ao ver encostado na parede, de costas para mim. Levantei-me animada, me aproximando dele passo a passo com o intuito de assustá-lo, entretanto, parei de súbito ao notar que ele falava ao telefone.
- Estou na casa do , mas posso ver o que faremos quando eu sair daqui. – ele disse e eu imediatamente franzi o cenho com a sua fala. – Sim, pode ser. Nos falamos depois. Beijo. – Finalizou a ligação e virou-se, dando de cara comigo ali o encarando de forma suspeita. deu um pequeno sobressalto devido ao susto e riu, vindo em minha direção.
- O que você vai fazer quando sair daqui? – Perguntei de braços cruzados, desconfiada. - Meu chefe queria me ver. – Ele disse e eu ri.
- Em um sábado à noite? E você fala “beijo” para o seu chefe? – Indaguei irônica, vendo-o rolar os olhos.
- O dever chama a qualquer hora. E eu estava falando com a secretária dele, que é uma amiga minha. – Explicou ele, perto o suficiente para que nossas respirações se confundissem. Continuei o encarando em dúvida, pensando se engolia ou não aquela historinha esquisita. – Qual é, . Para com isso! – Falou, acariciando o meu rosto. Eu respirei fundo, me odiando por sentir-me arrepiar com o seu toque. – Se eu pudesse, cancelaria com ele para ficar com você. – disse com os lábios perto dos meus, me beijando ligeiramente por um breve momento. Respirei fundo e me afastei, deixando-o confuso.
- Não me incomoda que você tenha compromisso com o seu trabalho, mas me incomoda o fato de achar que você me evita em certos momentos. Momentos sociais, por exemplo. – Confessei magoada e ele suspirou.
- De onde você tirou isso?
- Das suas atitudes quando eu estou perto. Você simplesmente finge que não me conhece na frente das pessoas do seu círculo social. – Afirmei o avaliando.
- É impressão sua.
- Não, não é. Não sou boba. – Declarei ofendida e dei-lhe as costas, logo sendo interrompida por um alarmado.
- Ei, ei! Espera aí, não faz assim... – Pediu manhoso, me trazendo para perto de si. Ele me encarou daquela forma sórdida e eu abaixei a guarda automaticamente, tendo vontade de socá-lo. Ele acariciou o meu rosto mais uma vez e encostou seus lábios nos meus superficialmente, puxando-os brevemente com os seus dentes. Suspirei, subindo uma de minhas mãos por sua nuca, depositando-as ali. Inclinei a cabeça para frente e aprofundei o contato de nossas bocas, ato aprovado por , que me apertou em seus braços no instante em que sua língua enrolou-se à minha. – Vou cancelar a reunião. Quero ficar com você.
Mesmo contra a minha vontade, ele o fez.
A mesma desculpa foi-se usada e, para todos, eu iria apenas dormir na casa de uma amiga.
Como em todas as outras vezes, cedi ao seu charme barato.

FIM DE FLASHBACK.


Apoiei o meu rosto entre as minhas mãos e ri incrédula tamanha a minha burrice naquela época não tão distante.
Apesar de tudo, eu me sentia feliz por ter aprendido muito e crescido com tudo aquilo. A submissa e tonta não existia mais e eu não poderia estar mais orgulhosa. Como diria a rainha Beyoncé: Who run the world? Girls! O que significava que homem nenhum merece que desperdicemos o nosso tempo e a nossa saúde mental.
Abri o livro, torcendo para que eu conseguisse me concentrar na matéria, haja vista que a minha cabeça teimava em focar somente em uma coisa: O término entre e Cassie.

’s POV

Sentei-me no banco do bar junto a e o olhei com uma sobrancelha arqueada, estranhando o clima entre ele e . Eu o conhecia bem o suficiente e já havia presenciado cenas protagonizadas por ele e suas brincadeiras infantis direcionadas a ela, o que não me agradava. Meu amigo me encarou de volta e devolveu a expressão duvidosa, rindo desdenhoso ao notar a minha feição séria.
- O quê? Vai brigar comigo por estar perto da sua protegida? – Perguntou sarcástico e eu não mudei de expressão.
- Depende. Você fez algo para que eu tome tal atitude? – Retruquei com um tom de voz cortante e ele franziu o cenho.
- Cuidado, . Com essa reação pode fazer parecer que você está a fim dela. – advertiu zombeteiro e eu cerrei os olhos.
- Qual é a sua, cara? – Indaguei cético, sem entender a sua atitude implicante sempre que o assunto era . balançou a cabeça com um sorriso de lado e tomou um gole da bebida em suas mãos.
- Vai com calma, . Agora que você está solteiro terá mais disponibilidade para relaxar. – falou risonho e eu assenti, encarando o copo a minha frente. – Não tem chance de vocês voltarem?
- Não. – Respondi decidido.
- Vocês eram um casal foda, as pessoas quase faziam reverência quando vocês passavam. – Ele pontuou, gesticulando de forma exagerada e eu me limitei a continuar bebendo. – Não entendo essa sua cara de merda, foi você quem terminou, por que está desse jeito?
- Você tem noção da encheção de saco que isso vai ocasionar para o meu lado quando todo mundo souber? A minha família vai acabar com a porra da minha paciência. – Disse já cansado do que viria com esse término de namoro.
- Ouvi por aí que você e Cassie iam noivar e tudo.
- É o que todos queriam, menos nós dois.
- Você é louco! Cara, você perdeu a Cassie Privost. – expressou descrente negando com a cabeça. Esfreguei o rosto com as mãos, já incomodado com aquele assunto.
- Já chega de falar sobre isso. – Finalizei o assunto e o meu amigo ergueu as mãos em rendição, iniciando uma conversa sobre outro tópico.

(...)


Segunda-feira era sinônimo de correria.
Eu andava a passos firmes rumo à sala da casa do meu cliente, onde comumente nos encontrávamos. Sentia-me tenso devido ao estresse do percurso, afinal, eu poderia receber alguma ligação suspeita a qualquer momento, porém, eu sabia que precisava ter sangue frio para lidar com esse tipo de situação. Adentrei o cômodo sendo cumprimentado por um Lee Feldmann visivelmente apreensivo, provavelmente angustiado e ansiando por novidades à respeito do seu caso. Ele fez um sinal para que eu me sentasse e eu o fiz.
- Senhor Feldmann, tenho boas notícias. – Ao dizer-lhe isso vi a expressão do homem à minha frente se iluminar, então, prossegui. – Fiz algumas pesquisas e notei um nome interessante em meio aos convidados. Sandro Averbuck. Esse nome lhe remete algo?
- Sim, ele é um empresário muito respeitado em nosso meio, porém, andava sumido devido a boatos sobre a procedência duvidosa referente aos seus negócios.
- Pois bem. Consegui informações extremamente interessantes sobre esses boatos. Há indícios de que ele comete crime de Gestão Fraudulenta*, então, tentarei coletar um depoimento a seu favor utilizando essas evidências.
- Doutor , isso é um sopro de esperança em meio a essa tempestade de coisas ruins! – Ele exclamou animado e eu assenti satisfeito.
- Tenho certeza de que ele aceitará, com paciência tudo irá se encaixar exatamente como nós desejamos. À propósito, o senhor fez as anotações das quais eu lhe pedi?
- Claro, claro! Aqui estão – Meu cliente remexeu uma gaveta e retirou de lá um envelope, entregando o papel para mim.
- Obrigado. Irei analisar as anotações com calma, comparando-as com os depoimentos já prestados e tentarei encontrar furos nos mesmos. – Falei, guardando o documento em minha pasta.
- Tomara que dê tudo certo. – O senhor deu um suspiro cansado e eu o encarei na tentativa de passar-lhe confiança com o ato.
- Vai dar! As coisas estão se encaixando. Mesmo vagarosamente, as provas estão aparecendo.
- Eu juro que não cometi esse crime, Doutor – Feldmann assegurou em meio a uma súplica, fazendo-me manear a cabeça em compreensão.
- Sei que não, senhor Feldmann. Por isso estou aqui. Tem muita coisa errada nessa história e eu vou provar. O senhor não será condenado injustamente, fique tranquilo.
- Obrigado, meu jovem. – Ele disse parecendo esgotado e eu senti pena. Apesar de ser um poderoso empresário, Lee Feldmann era um senhor muito sereno e vê-lo tão fragilizado era de uma tristeza incômoda. Sua família morava fora do país e não havia ninguém por perto para apoiá-lo.
- Não agradeça, só estou fazendo o meu trabalho.
- Doutor , deixe-me perguntar algo que está me deixando preocupado. – Começou e eu o encorajei a prosseguir com a sua fala. – Você está bem, certo? Não há nada de estranho acontecendo com você? – Respirei pesado ao ouvir o seu questionamento. Eu não contaria das ameaças para o meu cliente, isso poderia desestabiliza-lo e não seria nada bom para o andamento do caso. Limitei-me a negar com a cabeça.
- Não. Está tudo bem. – menti. – por agora, necessito que você se concentre somente no caso. Qualquer coisa é de extrema importância, nenhuma informação ou acontecimento é irrelevante.
- Tudo bem. Obrigado novamente. Como eu já havia lhe dito, sei bem como esse meio funciona. Tome cuidado.
- Eu sei me cuidar, agradeço a sua preocupação. – Levantei-me e me despedi de meu cliente com um aperto de mãos – Qualquer novidade, irei te ligar. E me ligue caso o senhor tiver algo de novo para falar.
- Farei isso.
Assenti e virei-me, me retirando da sala. Coloquei meus óculos escuros e, atento, olhei para todos os lados enquanto caminhava firmemente para o meu carro, não demonstrando receio algum. Entrei no veículo e logo dei partida em direção ao escritório, louco para analisar as anotações de Lee Feldmann e entrar em contato com o famoso Sandro Averbuck.


(...)


Naquele instante, eu me sentia aliviado. Horas passaram-se desde o momento em que eu saíra da casa do Senhor Feldmann e eu ainda não havia recebido um telefonema estranho sequer. As anotações que me foram entregues seriam de uma importância primordial, eu estava eufórico e feliz por tudo estar se encaixando. Se o Sandro Averbuck colaborasse conosco, seria a cereja do bolo. Meu celular apitou e eu o peguei, vendo o nome de Cassie piscar na tela. Esfreguei o rosto em sinal de cansaço e ouvi a porta do meu escritório se abrindo, revelando um imponente Senhor , que me fitava sem expressão.
- Preciso do relatório do caso do Lee Feldmann.
- Tudo bem. Pra quando?
- Pra ontem. – Disse seco e eu assenti, juntando alguns papeis em cima da mesa. Percebi que o homem ainda me observava e parei o que eu estava fazendo, o olhando curioso – Mais alguma coisa?
- Esse caso é "primordial" para a ascensão da sua carreira e para o escritório, . Não me decepcione.
- Não precisa me lembrar do que eu já sei. – Respondi duro e tornei a organizar os documentos, ignorando a presença do meu pai ali.
- Acho bom que não precise. – Respondeu e saiu, simplesmente. Respirei fundo, aliviado pelo assunto do término do meu namoro ainda não ter caído em seus ouvidos e guardei o endereço do Averbuck em minha pasta, tendo em mente que eu entraria em contato com ele ainda naquela semana. Tomei meu aparelho em mãos novamente e abri a mensagem de Cassie.

"Não sei se a situação de sábado foi apenas mais uma de nossas brigas ou se nós realmente não estamos mais juntos."


Suspirei e resolvi não responder. Acho que ela entenderia.
Recolhi as minhas coisas e segui para fora da sala, trombando em alguém no instante em que eu parei frente ao elevador.
- Caralho. – Resmunguei raivoso, vendo a minha pasta caída aberta no chão.
- Desculpe, – Thompson disse meio desesperado, recolhendo minhas folhas do chão.
Obvio que seria ele.
- Tudo bem, pode deixar isso aí. – Falei, pegando o objeto caído. O observei e ele encontrava-se com o papel onde continha o endereço do Averbuck em mãos. Tirei-o dele sem esperar que ele me entregasse e o coloquei de volta na pasta.
- Alguma dúvida sobre algum caso? – Questionei com um leve cinismo devido a sua curiosidade e Thompson imediatamente negou.
- Não, claro que não. Já está de saída?
- Sim. Até amanhã. – Disse entrando no elevador.
- Até. – O homem respondeu e as portas do local fecharam-se. Encostei-me à parede e afrouxei a gravata, suspirando totalmente esgotado. Ouvi o toque do meu celular e automaticamente gelei, pegando o aparelho do meu bolso. Vi o nome do Paolo no visor e quase sorri de alívio.
- E aí, irmão. – O cumprimentei.
- Beleza, grande ?
- Beleza, cara. E aí? – Respondi, abrindo a porta do carro e entrando no veículo, colocando o aparelho para ligações em meu ouvido.
- Tudo certo. Cara, você precisa salvar a minha vida. – Paolo começou e eu resmunguei algo para que ele continuasse. – Sabe aquela loja de discos que fica no caminho do seu condomínio?
- Você não vai me pedir pra passar lá, né? – Questionei, já sabendo a resposta.
- Quer que eu peça com carinho? Porque eu peço, meu caro. O desespero está grande. – meu amigo brincou e eu ri, balançando a cabeça.
- Você só me fode, puta merda. O que você quer de lá? – Perguntei já me dirigindo para a tal loja.
- Eu fiquei de pegar umas encomendas pra um cliente meu, mas estou preso no escritório. Preciso levá-las ainda hoje.
- A próxima rodada de whiskey vai ser por sua conta, Erzog. Passo aí em meia hora com a porra da encomenda.
- Você é o meu herói, .
- Sempre soube – ri e terminei a ligação, não sem antes escutar um xingamento vindo do meu amigo. Alguns minutos depois estacionei em frente à tal loja, não deixando de notar quão hipster o local era. Tudo no ambiente gritava àquela coisa de vintage. Passei pela porta, que fez um barulho irritante de sino e franzi o cenho ao ver ali, rindo animadamente acompanhada de um cara.
Cara que eu reconheci como o mesmo que estava com ela na frente do condomínio no sábado. O som da entrada chamou a atenção de ambos, que direcionaram a atenção para mim conforme eu me aproximava da bancada. ficou séria e parecia surpresa pela minha presença ali.
- Boa noite. – Falei para o cara do balcão, que respondeu e começou a digitar algo no computador. – Oi, . - cumprimentei-a sorrindo brevemente e ela correspondeu o ato.
- Oi... Posso ajudá-lo? – Questionou simpática e eu devo ter feito uma cara de dúvida extremamente óbvia, porque a garota riu e continuou. – Eu trabalho aqui.
- Ah, sim. – Acompanhei o seu riso e passei a mão na nuca, olhando em volta em dúvida sobre o que o Paolo queria que eu pegasse. – Eu vim buscar uma encomenda em nome de Paolo Herzog. Ele está preso no trabalho e me pediu pra vir.
- Hm... Certo. Deixe-me ver lá atrás, só um minuto. – virou o calcanhar com a intenção de andar até os fundos da loja, porém, foi impedida pelo cara que também se encontrava ali conosco. Apertei um pouco os olhos para ler e identificar o seu nome através do singelo crachá em seu pescoço.
Vicenzo.
- Relaxa, lindinha. Eu vejo lá pra você. – Disse e saiu do local, me lançando um olhar analítico. Ergui o cenho sem entender e parei para observar o lugar mais uma vez. – Não sabia que você trabalhava aqui. – Comentei, quebrando silêncio.
- Surpresa! – Ela cantarolou fazendo graça, me arrancando uma risada. – Trabalho aqui há um tempo.
- Parece ser bem tranquilo. – Pressupus, olhando-a mexer em alguns discos postos em fila em uma prateleira. Mais à frente havia outra prateleira enorme, cheia de livros e revistas em quadrinhos antigas, todas muito bem organizadas e limpas, e eu percebi que, em meio a elas, estavam algumas das quais eu costumava ler quando mais novo. Uma sensação boa de nostalgia me atingiu e eu me peguei refletindo sobre a quanto tempo eu não ia a lugares simples e agradáveis como aquele. seguiu o meu olhar e fez um sinal para que eu a seguisse até a tal prateleira. Assim o fiz.
- Pode olhar à vontade. Esse é o meu lugar preferido daqui, eu amo essas revistas. – Disse, pegando uma em mãos e a foliando sorridente. Também peguei uma e sorri levemente, me sentindo feliz com as lembranças que me tomavam a cada folha que eu passava.
- Eu não fazia ideia de que essas revistas ainda existiam.
- São meio raras, mas existem, sim. O meu chefe as compra em leilões, e, às vezes, faz troca pela internet.
- Se eu trabalhasse aqui, iria passar o dia todo lendo. – Ri e ela fez o mesmo, fazendo uma cara travessa.
- Vou confessar pra você que às vezes é isso que eu faço. – Falou como se fosse uma criança que faz coisa errada e eu ri novamente. Era engraçado como eu ria com bastante frequência quando estava com .
- Eu passo tanto tempo preso no escritório e em lugares sérios que me esqueço sobre como as coisas simples podem nos fazer bem. – Confessei distraído, pegando duas revistas e recebendo um olhar reconfortante da garota ao meu lado.
- Você não precisa se esquecer de viver, sabe? – Ela começou e eu tirei os olhos da revista para encará-la. - uma coisa que eu aprendi, é que nada vale a nossa paz. Nem o nosso emprego dos sonhos, nada. Se você não se sente feliz e não para pra apreciar as coisas ao seu redor, o que você tem se torna vazio. – terminou casualmente e voltou a mexer nas revistas. Eu permaneci a encarando em silêncio, admirado com o que ela acabara de me falar.
- É esse pacote aqui? – O tal Vicenzo apareceu carregando um pacote colorido.
- Sim, esse mesmo! Foi o que eu trouxe hoje. – Pegou o objeto e passou os olhos por ele, conferindo se tudo estava certo. – Olha, geralmente nós só entregamos a encomenda para o destinatário, mas como eu sei que vocês se conhecem e são amigos, vou deixar você levá-la, tudo bem? Só preciso que você diga para o Paolo vir até aqui o mais rápido possível para assinar a lista de entrega.
- Tudo bem. Eu vou levar essas duas. – Coloquei as revistas em cima do balcão e o colega de as pegou, fazendo o procedimento de pagamento. Ela sorriu para mim e fez um sinal com a mão para que eu a esperasse, saindo dali rapidamente. Levantei a sobrancelha em dúvida e peguei a sacola de papel com a minha compra, vendo a garota voltar rapidamente com uma revista em mãos.
- Se você vai ler essas duas, vai precisar dessa também. – Entregou-me a revista e eu a peguei, passando os olhos pela capa e voltando a fitar uma sorridente. – Pode ler com calma, não precisa de pressa para devolver.
- Obrigado. – Sorri ligeiramente, guardando a revista junto às outras recém compradas. – assim que eu terminar de lê-las, te digo o que eu achei.
- Aguardo o seu feedback. – Respondeu, colocando uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olhei para o lado e balancei a cabeça em um “tchau” mudo para o homem que outrora me atendera. Ele correspondeu sem muito ânimo, voltando a sua atenção para o computador a sua frente.
- Então eu já vou... Obrigado por liberar a encomenda e pelas revistas.
- Não precisa agradecer.
- Tchau, .
- Tchau. – Respondeu simplesmente e eu virei as costas, deixando a loja ao som do sino que ecoava sempre que alguém passava pela porta.
Coloquei a encomenda do meu amigo no banco da frente junto à sacola com as revistas e entrei no carro, seguindo para o local de trabalho do Paolo com o pensamento vagando no me dissera.
Eu estava me esquecendo de viver? Qual era o preço de todo esse prestígio?
E, o mais importante: Eu me sentia feliz?


’s POV

Distante, eu encarava a porta da loja da qual saíra recentemente.
- Isso foi quase como uma cena daquelas comédias românticas chatas pra caralho. – Vicenzo disse repentinamente, me fazendo acordar pra vida e olhá-lo em dúvida.
- Do que exatamente você está falando?
- De você e do playboy engomadinho. – Respondeu com tédio e eu pisquei várias vezes, perdida diante da sua recente constatação. – Quem é? Você olha pra ele como se ele fosse instalar a paz mundial.
- O quê? NÃO! – Disse exasperada, recebendo um olhar irônico do meu colega. Me recompus, totalmente sem graça. – Ele é só o filho dos patrões da minha mãe e nós conversamos às vezes. Nada demais.
- Tudo demais. Qual é, ! Você é péssima pra disfarçar. – Vicenzo riu como se eu fosse a piada mais engraçada do universo e eu continuei parada o encarando de braços cruzados e desconcertada. – Sabia que tinha algo de muito estranho acontecendo nesse coraçãozinho pra que você não ainda não tenha caído de amores por mim. – Meu colega constatou e foi a minha vez de rir, lançando-lhe o dedo do meio.
- Você é péssimo e isso não é da sua conta. – Disse por fim, passando por ele e indo até os fundos da loja para pegar a minha bolsa.
E é claro que o Vicenzo não desistiria, pois ele veio ao meu encalço.
- Se você quiser a gente marca uma reunião pra falar das coisas do coração. Eu levo sorvete. Esse tipo de coisa adianta, né? Vamos lá, lindinha! Eu sou um ótimo ouvinte e você ainda pode me usar pra fazer sexo, eu realmente não me importo. Eu definitivamente não me importo. – Vicenzo tagarelava atrás de mim e, não importava o quanto eu o ignorasse, ele falava mais e mais. Bufei e parei de andar, virando pra trás e o olhando aborrecida.
- Você parece um pernilongo irritante, pelo amor de Deus. – Ralhei impaciente e Vicenzo deu o seu sorriso de coringa. Rolei os olhos e suspirei cansada, passando as mãos pelo rosto.
- Tudo bem, eu conto. Mas, por favor, não me interrompa. – O homem assentiu fervorosamente e fez um zíper com as mãos, como se estivesse fechando a boca.
- Vou fechar a loja e já volto. – Ele avisou, saindo do cômodo às pressas, me deixando ali com cara de nada. Após alguns instantes a figura tatuada retornou, sentando-se no pequeno sofá ao meu lado. – Pronto, coração. Eu sou o seu grilo falante, conte-me o que te aflige – Vicenzo fez graça e eu ri, fazendo um sinal como pedido mudo para que ele se calasse. - Aquele é o , eu o conheço desde quando nós éramos mais novos. Minha mãe e eu fomos morar na casa dele em troca dos serviços dela, e eu gosto dele há algum tempo – comecei. Eu mexia nos dedos, sem graça conforme explicava ao meu colega toda a situação envolvendo os meus sentimentos sobre o , enquanto o vocalista me ouvia atentamente. A única pessoa que me ouvia falar a respeito disso era a , e, embora fosse estranho confessar para outrem sobre a forma que eu me sentia, também era um alívio. Dividir as cargas emocionais nunca seria ruim.
Assim que eu terminei toda a história, encarei Vicenzo, que me observava sereno.
- Porra! – ele exclamou – Eu não sei se você é muito apaixonada ou muito tonta, sinceramente. – Falou abruptamente e eu cerrei os olhos, notavelmente brava. – Calma, me deixa continuar. – Pediu e eu cruzei os braços, ainda o fitando com os olhos cerrados. – Pode não parecer, mas eu imagino que seja uma puta situação foda, ainda mais porque vocês se aproximaram e estão construindo uma amizade ou sei lá o quê. Eu poderia te dizer pra esquecer essa merda toda e vir pros meus braços – brincou. Eu dei uma gargalhada e ele continuou – Só que se fosse fácil você já teria feito.
- Sim. – respondi num muxoxo. – parece drama, mas é que eu vejo que ele está cercado de gente ruim, entende? Isso me preocupa. Se você gosta de alguém, você se preocupa, não tem jeito. E eu o sinto tão triste, tão desgastado... Ainda mais agora que ele terminou o namoro. Eu nunca desejei que isso acontecesse, juro. – Confessei e, naquele momento, vi que Vicenzo me estudava com carinho. Ele emanava compreensão e foi muito bom me sentir compreendida por mais alguém. - Na verdade, eu sempre achei que ele e namorada fossem muito felizes, o típico casal de comercial de margarina. As aparências definitivamente enganam.
- Não posso dizer que vai dar tudo certo porque seria te iludir, mas cara, não se envergonha de sentir uma parada tão bonita. Mesmo eu achando um puta desperdício de tempo, sendo bem sincero. – Encolhi os ombros e suspirei, sabendo que, realmente, era um desperdício de tempo gostar do –. Se você acha que ser amiga do playba vai te fazer sentir melhor, então seja. Faça o bem de alguma forma, lindinha – Vicenzo finalizou e eu segui o olhando meio estupefata, afinal, não esperava que ele fosse tão bom ombro amigo.
Do jeito dele, mas enfim.
- Eu não sabia que você era tão bom ouvinte.
- Eu tenho muitas qualidades, você que, infelizmente, não as enxerga. – Fez cara de sofrido e eu ri, o empurrando pelos ombros.
- Sério, obrigada por não me julgar.
- Todos estamos fodidos neste mundo, gatinha. Não cabe a ninguém julgar ninguém. – O vocalista lançou-me uma piscadela e levantou-se. Fiz o mesmo. – Vou fechar a loja e te levo pra casa.
- Que altruísta, gostei de ver! – Ri e o segui pelo lugar para ajudá-lo me sentindo leve por ter aberto o jogo a respeito dos meus sentimentos pelo .
**

Após chegar em casa e tomar um banho relaxante, me sentei em frente à janela do meu quarto com uma xícara de chá em mãos, encarando o extenso gramado a diante. A noite caiu e com ela, a temperatura. O tempo havia fechado, demonstrando que uma tempestade não tardaria a chegar. Tomei um gole do chá e franzi o cenho ao ouvir o som de batidas na porta. A minha mãe já estava em seu quarto, então quem poderia ser? Levantei-me e segui para a entrada da casa, me surpreendendo ao dar de cara com um aflito bem na minha frente. - Desculpa bater aqui a essa hora, , mas você viu o Bento? – Ele soltou de uma vez e eu neguei com a cabeça, realmente estranhando o fato de que não havia o visto hoje.
- Não, não o vi. Ele não está dentro de casa?
- Não, já procurei em todos os lugares. Não sei mais onde olhar. – Falou apreensivo, passando a mão pelos cabelos de forma preocupada.
O Bento nunca havia feito isso, sempre vinha animado ao meu encontro ou ao encontro de no momento em que nos via, o que me fez estranhar esse desaparecimento repentino.
- Eu te ajudo a procurá-lo. – Disse, pegando o meu casaco atrás da porta juntamente com o celular, saindo apressadamente ao encalço de , que não negou a ajuda.
- Ele nunca some assim, isso não é normal.– Falou, olhando através dos arbustos do jardim. Eu estava angustiada, a ideia de algo acontecer àquele cachorro me deixava quase à beira de prantos.
- Não tem como ele ter ido muito longe, alguém teria visto. – Observei atentamente ao redor, não tendo sinal algum do cão. Avistei Barret saindo do carro e fui até ele exasperada.
- Barret! Você viu o Bento? – Perguntei desesperada ao homem, o assustando.
- Não vi, ! O que houve? – Ele indagou preocupado.
- Ele sumiu!
- Acalme-se, tudo bem? Eu vou procurar por aqui e aviso a você ou ao senhor caso o encontre.
- Tudo bem... Obrigada. – Falei em um muxoxo, recebendo um pequeno afago nos ombros. Retornei ao jardim vendo entrar no pequeno casebre dali e sair com uma lanterna em mãos.
- Eu vou procurá-lo pelo condomínio, não precisa vir. – O homem declarou e eu neguei, nem cogitando a ideia de ficar em casa enquanto o Bento estava sumido.
Antes de respondê-lo, algo chamou a minha atenção.
Caminhei até a cerca posta perto do muro e cerrei os olhos com o que vi.
Um buraco enorme – provavelmente cavado por Bento – lotado de ossos e brinquedos semi-enterrados tomava conta de boa parte da parede de concreto, que estava quebrada, tendo somente uma tela como proteção.
Da qual não estava protegendo absolutamente nada.
- Olha isso aqui! – alertei , que se aproximou e respirou fundo, nervoso.
- Eu pensei que isso já estivesse concertado. – Ele ralhou tocando na tela mordida.
- Pelo menos sabemos que ele fugiu. Irei procurá-lo com você, em hipótese alguma eu vou ficar sossegada enquanto o Bento não aparecer. – Expus a minha vontade com convicção já caminhando rumo à saída da mansão, notando me acompanhar ao passo em que seguíamos passando os olhos em todos os lugares possíveis, hora ou outra gritando o nome do cachorro – do qual estava me deixando cada vez mais apavorada –. A forte ventania ricocheteava os meus cabelos, que batiam violentamente sob a intensa corrente de ar. Encolhi-me sob o meu casaco durante o momento em que aguardava pedir informação a um dos guardas do condomínio, que afirmou não ter visto o Pastor Alemão passar por ali. Ele voltou ainda mais nervoso, a expressão séria deixava evidente que algo estava errado.

(...)


Duas horas andando.
Três horas andando.
O tempo passava e a minha voz já se encontrava rouca de tanto gritar o nome do Bento junto ao , porém, em nada adiantava. Uma garoa intensa começava a cair e a temperatura devia ter despencado uns cinco graus, pois o casaco que eu vestia já não era mais o suficiente para amenizar o contato da brisa gélida com o meu corpo. Perto de mim, um desolado esfregou o rosto murmurando um “porra”, descarregando parte da sua frustração. Eu queria acalmá-lo, porém, não me encontrava muito diferente. Minhas mãos tremiam e eu sabia muito bem que não era devido ao frio, e sim, pelo medo de algo ter acontecido com o meu companheiro de todos os dias. De repente, senti os meus olhos arderem. Eu não podia chorar, afinal, isso só deixaria o ainda mais desesperado, contudo, não conseguia evitar. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto gelado e eu a limpei rapidamente, movimento que não passara despercebido pelo , que me olhou de soslaio. Abracei o meu corpo na tentativa de me esquentar e segui andando, dando um pequeno pulinho no instante em que o estrondo de um trovão fez-se presente junto a um raio, assustando-me. A garoa começava a se transformar em chuva, me deixando desolada.
- , vai pra casa. O tempo está muito ruim e você já me ajudou demais. – disse carinhosamente, pondo uma de suas mãos em meu ombro e passando o polegar suavemente por ele. Acompanhei o gesto com o olhar e o fitei. Ele aparentava estar tão triste quanto eu.
Só queria sentir o peso do Bento sob o meu colo.
Droga, onde ele havia se metido? Eu não podia perdê-lo.
Outra lágrima escapou, seguidamente de outra e mais outra.
Sem que eu pudesse controlar, já estava chorando.
Passei a manga da blusa pelos olhos, tentando – inutilmente – contê-las, fungando e negando com a cabeça, demonstrando que eu não iria a lugar algum. se aproximou e, cuidadosamente, contornou a minha cintura com um braço, passando o outro pelas minhas costas, me puxando cuidadosamente contra o seu corpo para um abraço acolhedor enquanto afagava os meus cabelos. O abracei pela cintura e funguei mais uma vez, me amaldiçoando por, no momento, estar mais atrapalhando do que ajudando.
- Não vou pra casa. Quero achá-lo, . – Argumentei com a cabeça enfiada em seu peitoral, sentindo o carinho em meio aos meus fios desalinhados pela ventania. Era como se o seu calor corporal fosse transferido para o meu, pois eu me sentia quente e confortável entre o seu abraço forte.
Mais um trovão ecoou.
- Nós iremos. Eu sei que iremos.
- Era pra eu estar te apoiando, não o contrário. – Falei com a voz abafada e o senti rir levemente.
- Você gosta muito do Bento, está tudo bem. Só não queria que você se desgastasse, amanhã você tem aula. – Ele disse preocupado e, ao constatar o meu coração acelerando, acordei pra vida, tirando a cabeça do seu peitoral. levou as duas mãos até o meu rosto e conduziu os polegares até a minha bochecha, limpando com destreza alguns resquícios de lágrimas que permaneceram ali, escorrendo os olhos preocupados até os meus. Ele soltou o meu rosto e eu desfiz o abraço. De repente o frio havia voltado com força total.
- Não estou pensando na aula no momento.
Meu cabelo encontrava-se molhado pela garoa vigorosa e estava igual. Tornei a abraçar o meu corpo e franzi o cenho quando vi que o homem retirava o seu casaco pesado, o jogando em meus ombros.
- Se você vai continuar procurando comigo, usa o casaco pelo menos. – Disse e me deu as costas, continuando a andar e me deixando com cara de taxo.
- , não precisa! Você vai ficar sem? De jeito nenhum! – Tirei o blusão dos meus ombros e caminhei apressada atrás dele, sendo prontamente ignorada.
- Não perguntei se você quer, . Coloca isso de novo. E a chuva finalmente fez-se presente.
- Você ficou doido? Olha o frio que está fazendo! E está chovendo! – Eu demonstrava toda a minha incredulidade perante a atitude de , que andava e me ignorava como se eu fosse uma criança.
Ele parou de súbito e me encarou com tédio.
- Só fica com o casaco. Eu estou bem. – Dito isso, voltou a andar, direcionando a luz da lanterna nos locais mais escuros da rua. Murmurei um “tudo bem” aborrecida e o segui.
Estávamos próximos a uma espécie de floresta localizada em uma parte afastada do condomínio, olhei para os lados e avistei um segurança dentro da guarita. Corri até lá em meio ao aguaceiro que caía do céu e fui recebida com um olhar questionador.
- Oi... Com licença – comecei. – O senhor pode me dar uma informação?
- Claro. Aconteceu algo? Precisa de ajuda?
- Não. Digo... Sim, preciso de ajuda. Por acaso um Pastor Alemão andou por aqui hoje?
O guarda estreitou os olhos, parecendo tentar puxar pela memória alguma lembrança a respeito da pergunta proferida por mim. Eu o encarava em expectativa, torcendo para que ele soubesse de alguma coisa.
- Na verdade, eu vi sim. – Ao ouvir isso, devo ter sorrido a ponto de rasgar o meu rosto. – Há umas horas eu vi um cachorro passar por aqui e ir em direção a floresta. Quando eu ia atrás dele para procurar uma identificação, ele sumiu. Não podia sair daqui pra procurar, então não fiz nada. – Justificou e eu quase não dei importância, só queria correr por entre aquelas árvores e encontrar o Bento.
- Tudo bem, não importa. Muito obrigada. – Falei eufórica, mal dando tempo para ouvi-lo terminar de falar. Saí correndo até , que aguardava mais atrás, sério e com os braços cruzados, hora ou outra varrendo a rua com os olhos atentos. – Ele viu! Tenho certeza de que era o Bento! – Exclamei animada e o homem a minha frente descruzou os braços com a expressão um pouco mais leve.
- O que ele disse?
- Que viu um cachorro indo em direção a floresta há algumas horas.
- E como ele não avisa ninguém? Mas que caralho! – resmungou andando velozmente ao local por onde o cão havia passado.
- Ele disse que não podia sair pra procurar. – Expliquei acompanhando os seus passos rápidos, estudando com cuidado toda a imensidão de árvores e mato, ignorando quão temível aquele lugar era e a série de resmungos de .
Outro trovão.
Mais chuva.
Mais vento.
As blusas já não faziam mais diferença, porém, a adrenalina era tanta que não me permitia sentir frio. Ignorei a sessão de espirros que saíam de mim assim como ignorei os olhares incisivos do . Olhares esses que gritavam “eu te avisei”. Andávamos com cuidado em meio ao matagal, nossos olhos estudavam todo o local com a ajuda da luz da lanterna. Eu não fazia ideia de que horas eram, tampouco como eu iria acordar cedo no dia seguinte, entretanto, achar o Pastor Alemão era a única coisa que importava para mim.
- BENTO?! – gritou. Parei junto a ele observando atentamente qualquer movimentação que poderia surgir, estreitando os olhos ao notar algo deitado mais à frente.
- , ilumina ali. – Pedi, apontando para a tal coisa. Ele obedeceu e eu quase chorei de alívio ao dar de cara com Bento deitado embaixo de um arbusto. O cão estava amuado, as orelhas baixas e o focinho apoiado nas patas dianteiras demonstravam que algo não estava bem. Corremos até ele e abaixou-se diante do cachorro, que ergueu as orelhas assim que nos viu.
- Que droga, cara! Você deu um susto na gente. – o acariciou e falou para o Pastor Alemão, que apenas permaneceu nos olhando. Abaixei-me junto a e sorri, passando a mão pela cabeça do Bento.
- Nunca mais faz isso. – O abracei cuidadosamente pelo pescoço, sentindo uma sensação maravilhosa de felicidade tomar conta de mim. O cão tremia e eu me afastei, olhando para sem saber o que fazer.
- Acho que ele está machucado. – O homem considerou. Segui o seu olhar e soltei um pequeno murmuro de espanto ao ver a pata ensanguentada. – Vou ter que levá-lo ao veterinário.
- Eu vou com você. Busca o carro e eu fico aqui com ele. – Sugeri, percebendo ponderar. – , não tem como levá-lo estando ferido, o caminho é longo. Além do mais, alguém tem que ficar com ele no banco de trás. E eu já estou molhada, não me importo.
Ele suspirou contrariado e bagunçou os cabelos encharcados.
- Certo. Eu vou correndo buscar o carro, fique com a lanterna. Já volto. – Falou me fitando daquela forma penetrante e eu me limitei a assentir. – Fica de boa aí, amigão. Vamos cuidar dessa pata. – Acariciou Bento e saiu correndo por entre as árvores.
Tirei o casaco que outrora me fora dado e, mesmo sabendo que não adiantaria de muita coisa, cobri o cachorro para que ele não tomasse mais chuva. Encolhi-me, finalmente sentindo o frio me atingir em cheio e outra sessão de espirros vir com força. Tentei focar apenas no cão à minha frente para não olhar ao redor e ficar com – mais – medo daquele local cem por cento propício para um filme de terror.
- Você nos assustou tanto, seu pestinha. – Comecei para o Bento, que me encarava atentamente como se soubesse que tinha feito algo errado. – Achei que algo ruim houvesse acontecido com você, quase fiquei louca. – Acariciei por trás de suas orelhas cravando a minha atenção de forma preocupada em sua pata machucada. Respirei fundo, empenhada em não me apavorar. Continuei fazendo carinho no cão ao meu lado enquanto acompanhava a chuva que, agora, transformava-se novamente em garoa, constatando que eu estava encharcada e com muito, muito frio.
E espirrando cada vez mais.
Depois de alguns longos minutos a silhueta de surgiu por entre a luz da lanterna, trazendo consigo uma coberta e outro casaco.
- Veste isso. – Entregou-me o casaco e eu aceitei sem pestanejar, afinal, estava quase passando mal de frio.
- Obrigada – Falei, o ajudando a enrolar Bento na coberta que ele havia trazido. Feito isso, pegou o cão no colo – que chorou um pouco com a movimentação – e eu o segui logo atrás, iluminando o caminho. Agradeci mentalmente pelo carro não estar longe e abri a porta de trás do veículo, entrando no mesmo e auxiliando para que ele colocasse o Pastor Alemão no banco. Feito isso ele fechou a porta e rapidamente adentrou o carro, o ligando e dando partida, seguindo às pressas em direção ao veterinário. Peguei meu celular no bolso do casaco que eu usava por baixo do casaco do e chequei as horas.
00hrs35min.
Digitei uma mensagem para minha mãe explicando rapidamente o que havia ocorrido e guardei o aparelho novamente.
Soltei um espirro e me encarou pelo retrovisor.
- Você devia ter ficado em casa, .
- E você devia parar de se preocupar tanto, eu estou bem. – Respondi sorrindo, devolvendo o olhar pelo retrovisor. O homem ergueu uma sobrancelha, ressabiado.
- Por que você é tão teimosa?
- Por que você teima comigo? – Retruquei também, arqueando uma sobrancelha, vendo-o revirar os olhos e soltar uma risadinha irônica.
- Só seria teimosia se eu não estivesse certo.
- Estar certo é relativo. – De repente a nossa “discussão” tornou-se interessantemente divertida, e até o cachorro ao meu lado revezava o olhar entre mim e o seu dono, que dirigia atentamente com o sorriso irônico perdurando em seu rosto bem-proporcionado.
- Nem tudo é relativo. 2 + 2 são 4 e isso independe de qualquer condição. Tudo o que é objetivo, não é relativo. Você estar espirrando é mais do que objetivo pra mim.
- Não sou uma operação matemática. Você não pode dizer que o que eu sinto é objetivo, porque isso não pode ser experimentado por qualquer outra pessoa. É uma experiência subjetiva, não objetiva. – parou no farol vermelho à nossa frente e me estudou mais uma vez pelo retrovisor. Eu não desviei de seu olhar, ainda que sentisse o meu estômago afundar.
- Então o que você está sentindo? – Ele questionou com seriedade e, embora a sua pergunta não tenha sido com segundas intenções, mexeu exatamente com esse meu lado.
O lado emocional.
O lado que queria falar na cara dele que eu sentia mais do que ele poderia imaginar.
Ao invés disso, me limitei a sorrir e dar de ombros.
- Nada. Não estou sentindo nada.
assentiu e voltou a dirigir quando o farol abriu. O silêncio se instalou no veículo e eu soltei o ar que até então eu nem sabia que estava prendendo, enquanto sentia o meu coração ficar pequenininho.
Finalmente chegamos ao veterinário, a grande clínica de dois andares possuía um letreiro em neón escrito “Aberta 24 horas” com o desenho de vários animais em volta. pegou Bento no banco de trás e eu saí logo atrás dele, entrando no local extremamente organizado. A simpática atendente nos recebeu com um sorriso enorme no rosto, desviando o olhar para o Pastor Alemão enrolado na coberta, mudando a expressão para preocupada em segundos.
- Boa noite. A Doutora Vermont está de plantão hoje? – questionou.
- Está sim, venham comigo, por favor. O que houve com ele? – Ela indagou enquanto nós a seguíamos em direção ao consultório.
- Ele fugiu e machucou a pata, não sabemos ao certo. – O homem respondeu, carregando o cão e parando em frente à sala ao passo em que a mulher simpática batia em uma porta cheia de desenhos de cachorros, gatos e pássaros. Ela colocou a cabeça pra dentro e trocou algumas palavras com quem eu imagino que seja a Veterinária.
- Pode entrar. – Avisou a , que assentiu. – Eu preciso fazer a ficha dele, será que você poderia vir comigo enquanto esse garotão é atendido? – Perguntou para mim, acariciando Bento. Concordei imediatamente, trocando um rápido olhar com , que entrou na sala.
Segui a atendente até a recepção e preenchi a ficha do Bento, finalizando alguns minutos depois.
- Obrigada, querida. Pode ir até o consultório, se você quiser.
- Ah, claro. Vou sim. – disse sorrindo e me levantando da cadeira. – É só virar à direita e seguir reto, certo? - Isso mesmo. – A sorridente mulher afirmou solícita. Assenti e fui em direção ao consultório, batendo na porta desenhada e ouvindo um “pode entrar” em seguida.
- Com licença. – Pedi, entrando na sala no instante em que a Doutora terminava de enfaixar a pata outrora machucada do cão, que localizava-se deitado na maca com ao seu lado o acariciando.
- Fique à vontade. – A Doutora Vermont cumprimentou-me simpática e eu sorri para ela em agradecimento.
- Ele está bem? – Perguntei a .
- Está sim. Provavelmente feriu a pata em algum espinho, mas de resto, não houve nada demais.
- Que ótimo.
- Prontinho. O garotão aqui está novinho em folha! Volte em dez dias pra que eu tire a faixa da pata dele, certo? – A veterinária pediu enquanto dava um biscoito pra cachorro para o Bento, que balançava o rabo, contente. Era tão bom vê-lo assim.
- Pode deixar. Obrigado, Doutora Vermont. – apertou a sua mão e eu fiz o mesmo após ele, me despedindo. Saímos do consultório com o Pastor Alemão na coleira, já conseguindo andar com o curativo feito. Acenei um “tchau” para a atendente e me dirigi ao carro, parando quando apontou o banco da frente com a cabeça, indicando que eu podia me sentar ali.
- Tudo bem, eu vou atrás para certificar de que ele ficará quieto.
- Você quem sabe. – Deu de ombros e entrou no veículo, dando partida assim que eu me ajeitei no banco de trás junto a um Bento mais animado.
- Fica quieto, você acabou de sair do médico. – Pedi ao cachorro, que enfim se deitou e apoiou a cabeça em meu colo.
O silêncio se fez presente no recinto e eu fixei a minha cabeça no encosto do banco traseiro, respirando fundo e fechando os olhos por alguns momentos, percebendo que o cansaço definitivamente tomara conta do meu corpo – e com ele, uma pequena e incômoda dor de cabeça –. Uma música baixa ecoava pelo som do veículo e, sem que eu notasse, o sono repentinamente chegou, me desligando por completo.

Mario Bros: É um personagem fictício da franquia e série de jogos eletrônicos Mario da Nintendo.

Clive Christian: Reconhecida como a fragrância mais cara do mundo, custando em torno de US$ 215.000 (R$ 354.000).

Doutorado direto: O doutorado direto se caracteriza como um curso de pós-graduação com as mesmas características daquele considerado convencional, diferenciando apenas na forma de ingresso. Processo em que o aluno decide se candidatar ao Doutorado sem ter cursado o Mestrado.

You go, girl!: Vai nessa, garota! Expressão geralmente usada como forma de encorajamento.

Gestão Fraudulenta: Caracteriza-se pela ilicitude dos atos praticados pelos responsáveis pela gestão empresarial, exteriorizada por manobras ardilosas e pela prática consciente de fraudes. Ao administrar ou gerir instituição financeira, o sujeito ativo o faz de forma fraudulenta, ou seja, meio enganoso, com má-fé e intuito de ludibriar.





"Quando eu estou perdendo o meu controle, a cidade gira ao redor. Você é a única que sabe, você desacelera isso." - Look After You - The Fray.

’s POV

Ao estacionar em casa, me virei para avisar que havíamos chegado, porém, não proferi palavra alguma. A imagem que eu vi praticamente me obrigou a permanecer calado enquanto fitava a figura adormecida da garota com o meu cachorro em seu colo, em um sono aparentemente pesado. Ela vestia o meu casaco – que ficava enorme em seu corpo – e a sua respiração calma transpassava por entre os seus lábios entreabertos, expressando a tranquilidade de seu adormecimento. Os cabelos emaranhados se espalhavam por entre o seu rosto sereno, deixando a cena inexplicavelmente encantadora. Franzi o cenho frente à minha análise e saí do meu estado de torpor momentâneo. Retirei o cinto e me pus para fora do carro, o contornei e abri a porta do mesmo, acordando o Pastor Alemão, que me encarou como se me amaldiçoasse por tê-lo despertado. dormia tão profundamente que me senti mal por ter que acordá-la. Coloquei a metade do corpo para dentro do carro e me inclinei a fim de alcançá-la.
- . – comecei, tocando-a delicadamente no ombro. A garota se mexeu, porém, não recobrou a consciência. – , chegamos. – tornei a tocá-la no mesmo local, me aproximando um pouco mais. Ela finalmente despertou, virando o rosto na tentativa de encontrar de onde vinha a voz. No ato, a sua face ficou de frente para minha, e eu me amaldiçoei por ter chegado mais perto. Demos de cara um com o outro, mais perto do que eu queria e imaginaria que ficaríamos. Eu estava sem saber como reagir diante do olhar confuso de , que me encarava totalmente perdida e imóvel. Passei os meus olhos pela sua expressão desorientada e ela então se pronunciou.
- Desculpe, eu peguei no sono. – Ela falou contra o meu rosto junto à respiração entrecortada e eu senti a sua frase ser dita por meio de um sopro do qual foi de encontro com a minha face. Sua voz soou acanhada através do silêncio e estava levemente rouca e, por um momento, me esqueci de que eu deveria me distanciar dela.
- Não tem problema. – Respondi, com o cenho levemente franzido devido à situação enquanto permanecíamos próximos. – Eu te chamei algumas vezes e você não ouviu. – Expliquei. Me senti desorientado por estar novamente em uma circunstância como aquela e afastei-me imediatamente, retirando o dorso do carro totalmente aturdido e sem graça. Respirei fundo na pretensão de entender por que o atual cenário insistia em ocorrer, pois ele sempre vinha acompanhado de uma tensão inusitada. saiu do veículo rapidamente após Bento mover-se de seu colo e também retirou-se do carro. Eu me encontrava um tanto quanto constrangido pelo acontecimento anterior e ela parecia estar da mesma forma, pois se mexeu desconfortável no mesmo momento em que tirava o meu casaco, me entregando assim que terminou de removê-lo de seu corpo. - Obrigada pelo casaco.
- Obrigado pela ajuda. – A garota sorriu, negando com a cabeça e demonstrando que não precisava agradecer.
- Pode me chamar caso precise, o importante é que deu tudo certo.
- Sim, ainda bem.
- Então... Boa noite. Ou bom dia, não sei. – Brincou, me arrancando um sutil riso.
- Só é bom dia se eu já dormi, então boa noite. – Foi a vez dela de soltar um risinho e assentir, concordando.
- Corrigindo... Boa noite, .
- Boa noite, .
Sorriu mais uma vez e deu as costas, fazendo o caminho até a casa dos fundos enquanto se abraçava, encolhida ao sentir a brisa gelada. Fiquei ali parado, com as mãos no bolso da calça até que ela sumisse de vista e entrei em casa sendo acompanhado pelo cão que mancava um pouco. Subi para o meu quarto e me joguei embaixo do chuveiro após me despir, aliviado ao sentir a água quente escorrer pelo meu corpo. Passei as mãos pelo rosto ainda confuso, querendo mandar pro inferno a minha mente no momento em que ela reproduziu a imagem de me fitando daquela forma tão cautelosa. Terminei meu banho e coloquei uma boxer aleatória que se encontrava na gaveta, me deitei e encarei o teto em meio à escuridão. A adrenalina da noite baixava conforme eu relaxava e eu tentei não pensar em absolutamente nada.
Nem em trabalho.
Nem na merda da qual eu estava me envolvendo com esse caso.
Nem nas ameaças das quais eu ainda não sabia como lidar.
Nem no término do meu namoro.
Absolutamente nada.
Às vezes eu só queria ter um pouco de paz e esquecer o peso de todas as coisas que assolavam a tranquilidade que eu quase nunca possuía. Respirei fundo e fechei os olhos, exausto demais para refletir a respeito de qualquer outra coisa e me permiti pegar no sono.

(...)


Na manhã seguinte eu estava entre o fodido e o esgotado. Não sentia tanto cansaço desde quando decidi fazer o doutorado imediatamente após o término da faculdade, o que exigiu muitas noites em claro. Eu claramente havia perdido essa habilidade, já que me encontrava acabado. Como se eu já não estivesse mal o suficiente, o estresse me pegou em cheio, pois absolutamente nada estava dando certo naquele dia no escritório. Não havia conseguido falar com Sandro Averbuck e eu não podia mais perder tempo, afinal, os dias corriam e o julgamento do meu cliente não demoraria a acontecer. Apoiei meus cotovelos em cima da mesa e passei as mãos em meu rosto, totalmente exausto e preocupado. Todos da festa já haviam sido chamados para depor e era óbvio que alguém estava mentindo, não saber como chegar nesse alguém me causava aflição e só fazia parecer que eu não estava fazendo o meu trabalho da maneira correta.
O assassino de Mason Zummack havia sido extremamente meticuloso e inteligente, entretanto, ele não seria mais inteligente do que eu. O laudo do crime ainda não havia sido entregue ao juiz e isso só me deixava ainda mais de mãos atadas, haja vista que as informações contidas nele seriam de extrema importância para mim, já que eu havia indicado um assistente para apresentar quesitos* no laudo da perícia. Folheei mais alguns arquivos do caso, fiz ligações, estudei processos de outros casos e nem vi a hora passar. Fui desperto pelo alarme do meu celular que me avisava que era hora de eu tomar o maldito remédio para enxaqueca. Recolhi os meus pertences e saí da minha sala, trancando-a em seguida e encontrando Thompson ainda no escritório. Enquanto tomava o último gole de água e engolia aquele comprimido ruim pra cacete, observei, de longe, o homem que falava atentamente ao telefone, quase de forma furtiva. Ele encerrou a ligação e anotou algo em uma caderneta, guardando-a em uma gaveta e a fechando com chave logo em seguida. Franzi o cenho e joguei o copo na lixeira mais próxima, me retirando do local com uma nota mental para prestar mais atenção no que Thompson fazia.

Eu dirigia tranquilamente pelas ruas calmas do bairro não tão comumente visitado por mim.
O bairro no qual meu apartamento ficava e onde eu passaria a minha noite.
Decidi adiar a minha mudança desde o momento em que a minha mãe passou a ter desmaios frequentes ocasionados por problemas cardíacos, com isso, resolvi permanecer na casa dos meus pais a fim certificar de que ela estaria bem, haja vista que o meu pai raramente possuía tempo para assuntos que não envolviam o escritório. Talvez fosse a hora de finalmente me mudar, levando em conta de que a saúde da minha mãe já havia melhorado e os desmaios nunca mais ocorreram. O imóvel já se encontrava totalmente mobilhado e alguns pertences meus também já localizavam-se no apartamento, deixando-o totalmente pronto para morar. Há muito tempo o desejo de ter o meu espaço tornou-se necessidade, afinal, o senhor e a senhora detinham a irritante habilidade de querer controlar a minha vida, o que pioraria agora que Cassie e eu não estávamos mais juntos.
Estacionei o carro na garagem do prédio e, antes de sair do automóvel, abri o porta luvas e peguei as revistas que eu comprei com , caminhando para o elevador logo em seguida. Cheguei ao andar do meu apartamento e adentrei o local, sentindo um alivio por estar em um lugar só meu. Tudo estava arrumado exatamente da forma como eu gostava e queria. Os móveis, a cor das paredes, os objetos que compunham o ambiente, enfim... Tudo. Aquele era o meu lar.
Após sair do banho, liguei a TV em um canal aleatório e pedi algo para comer, totalmente sem vontade alguma de cozinhar algo. Me joguei no sofá e apoiei a minha cabeça em seu encosto, sendo atingido de imediato pela sensação prazerosa de conforto e sossego, me mantendo daquela forma até que a comida chegasse.
Alguns minutos depois, fui tirado do meu estado de semi-sono assim que o interfone apitou, anunciando o entregador. Exausto demais para descer até a portaria, autorizei a sua entrada e recebi o rapaz, peguei as sacolas e dei-lhe uma gorjeta, fechando a porta assim que ele saíra. Enquanto comia, meus olhos pousaram nas três revistas postas sobre a mesinha. Puxei uma e comecei a lê-la, repentinamente refletindo sobre a frase da qual me dissera no dia em que eu a vi em seu trabalho: “Se você não se sente feliz e não para pra apreciar as coisas ao seu redor, o que você tem se torna vazio”. Ela tinha razão e era exatamente o que estava acontecendo comigo. As conversas com eram sempre estimulantes, a garota sabia exatamente como desenvolver um assunto e a sua presença deixava o ambiente leve como se você a conhecesse há tempos. Eu nunca imaginei que ela fosse assim, tudo o que eu sabia era que eu gostava de sua companhia. O modo como ela me ajudou com o Bento, como ela tentou me animar ao me mostrar as revistas, as conversas que havíamos tido até então e até o jeito engraçado e adorável que ela dormiu em meu carro, todos esses momentos invadiram a minha mente como uma enchente de pensamentos. Principalmente aquele em que eu calculei mal o espaço entre nós, não esperando que ela se virasse e ficasse tão perto. Perto o suficiente para que eu me sentisse desconcertado durante o instante em que fitava a sua expressão confusa e sonolenta. Deixei esses pensamentos de lado e foquei em terminar de comer, entretido na história que me arremetia a momentos bons da minha infância.

Não sei ao certo quanto tempo permaneci lendo, contudo, fui desperto pelo barulho incessante da campainha. Confuso, levantei-me e segui até a porta, estranhando o desespero de seja lá quem fosse que apertava a sineta desesperadamente. Ao observar pelo olho mágico e constatar que era Cassie, estranhei mais ainda. Abri a porta sem entender o motivo de sua presença e recebi um olhar inexpressivo da mulher à minha frente.
Percebendo a minha expressão de dúvida, ela se pronunciou.
- Liguei na sua casa e me disseram que você não estava, imaginei que estivesse aqui. Eu posso entrar? – Cassie perguntou com seriedade e eu ponderei por alguns segundos. Passei uma mão pela minha nuca e abri passagem para ela, que entrou e se posicionou a alguns passos de distância de mim.
- Aconteceu alguma coisa? – Indaguei preocupado. Ela cravou os olhos frios em mim e negou com a cabeça.
- Te enviei uma mensagem há alguns dias. Obrigada pela resposta. – Cassie ironizou ríspida e eu respirei fundo.
- Não tinha o que dizer, as coisas ficaram bem claras naquele dia.
- Discordo. Eu ainda estou com muitas dúvidas a respeito de diversos pontos. – Ela disse seca e eu permaneci calado, a incentivando a prosseguir. – O nosso término me pareceu repentino e fora de contexto, .
- Cass... – Comecei, avaliando o que dizer para não tornar a conversa uma discussão. – A nossa relação já não era mais a mesma. Eu não estava feliz. – Pontuei com sinceridade, vendo-a assentir vagarosamente.
- Sua certeza ao acabar com tudo foi de uma frieza invejável.
- Não fui frio, fui franco. Nós passamos ótimos momentos juntos, mas eu precisava ser honesto com você e comigo também. – Esclareci com calma.
- Sabe... Hoje eu fui ao La Frontière jantar com as meninas, e eu soube de algo muito interessante. – Cassie iniciou. Eu ergui uma sobrancelha em um sinal claro de que não havia entendido a relevância daquela informação. – Não vai me perguntar o que é?
- Não acho que seja da minha conta.
- Pois bem, eu lhe direi mesmo assim. – Ela adotou uma postura mais severa e um sinal de alerta soou sobre mim. - Viram você deixando a filha da cozinheira na faculdade! Olha só que notícia maravilhosa, ! Eu fiquei extremamente feliz em saber que o meu até então namorado dava carona pra outra! – O sarcasmo gritante evidenciava a sua ira e eu esfreguei o rosto, incrédulo com a capacidade que as pessoas possuíam de fazer intriga a respeito da vida dos outros.
- Cassie, isso faz tempo. Foi apenas uma carona, não teve relevância alguma.
- Não teve? – ela riu em puro escárnio. – Em que mundo você vive?
- Eu realmente a deixei na faculdade, mas foi só naquele dia, fiz como um favor. Estava chovendo e eu fiquei com dó. – Expliquei. Respirei fundo e passei as mãos pelo rosto pela milésima vez naquele dia, buscando toda a calma que eu precisava para conversar.
- Você terminou comigo por causa dela? – Indagou, semicerrando os olhos. Eu franzi o cenho totalmente desconcertado perante a sua pergunta infundada, afinal, nada tinha a ver com a deterioração do nosso relacionamento.
- Claro que não, Cassie! Não confunda as coisas, nós terminamos por diversas desavenças, por cansaço, enfim... Ninguém teve nada a ver com isso!
- Sinceramente, eu tenho as minhas dúvidas. Você já notou como aquela garota te olha, ? E você ainda a deixa entrar no seu carro? – Ela questionou nervosa e eu só consegui rir, achando o rumo da conversa absolutamente sem noção alguma.
- Como é? Na boa, Cassie. Que papo é esse? – Perguntei em meio a risos, o que só a deixou mais brava.
- Ah, você não percebeu? – Foi a sua vez de rir, porém, sarcástica. – Pois EU percebi! Nunca entendi muito bem, mas não me importava, afinal de contas, a garota é uma coitada. – Cassie debochou e eu cruzei os braços adotando uma expressão fechada, desaprovando o modo como ela se referiu à . – Agora, saber que você andou praticando a sua política de salvador dos fracos e oprimidos com ELA foi demais pra mim! O que mais você fez pelas minhas costas? O que mais você não me contou?
- Eu não fiz nada pelas suas costas! Nunca menti para você e nunca te enganei, Cassie. Não te contei porque sabia que você ficaria puta da vida, o que aconteceu de qualquer forma. – Soltei um riso sem humor.
- Eu não acredito em você. – Expressou acusadora e eu dei de ombros, sério.
- Acredite no que você quiser, Cassie. A minha consciência está limpa. – Ela me lançou um olhar gelado pela última vez e pegou a sua bolsa de cima do sofá, rumando até porta com a cabeça erguida em sua habitual pose vaidosa. Fechou a porta atrás de si e eu continuei em pé encarando o local pelo qual ela saíra, extremamente perdido pelo episódio de momentos antes, divagando sobre o que me fora dito.
Eu só queria saber de onde Cassie havia tirado que me olhava de forma diferente, pois não conseguia ver qualquer ato inusitado vindo dela.
Encarei a revista da qual eu lia anteriormente e me peguei refletindo sobre aquela informação imprevisível.

’s POV

- Eu ainda estou chocada com isso do e da Cassie, eles sempre passaram uma imagem tão perfeita. – disse enquanto mexia o seu café naquela tarde gélida. Eu assenti e beberiquei meu chocolate quente, imediatamente o sentindo descer rasgando pela minha garganta dolorida.
- Você realmente nunca sabe o que se passa na vida de alguém. – Comentei com a voz anasalada devido ao nariz entupido e concordou.
- Como você está se sentindo sobre tudo isso? – Ela perguntou me olhando atenta e eu dei de ombros.
- Nós estamos próximos, mas... Não sei. – Bufei esfregando as mãos no rosto. – Eu tenho medo de confundir a nossa proximidade e ver sinais onde não existe nada, eu sou expert nesse tipo de coisa. Ele acabou de terminar um relacionamento, eu fiquei triste por ele e... Argh, não sei! – Ralhei e imitei o meu gesto anterior, ouvindo rir fraco.
- Seja sincera. Você não ficou nem um pouco feliz com esse término? – Suspirei e ponderei um pouco na resposta.
- Feliz não é bem a palavra... É complicado. É uma situação chata para ambos, mas não vou ser hipócrita em dizer que eu não senti algo aliviar dentro de mim, porque eu senti. – Esclareci e concordou em compreensão. – Mas enfim... E como você e o Adrian estão? – Indaguei mudando de assunto com um sorriso travesso e ela sorriu largo.
- Melhor impossível! Não quero apressar nada, mas estou gostando muito. – Ela sorriu, me fazendo sorrir também – Já conheci a família dele, então deve ser sério. O aniversário dele está chegando e eu estou pensando em organizar uma festa surpresa. – Minha amiga falou com um sorriso bobo. Eu a acompanhei, sentindo uma felicidade extrema por vê-la tão contente.
- Que linda, toda apaixonadinha! – Brinquei, recebendo uma careta em resposta. Cerrei os olhos e senti uma pressão no meu nariz, expulsando o ar de forma violenta por eles em um forte espirro que produziu um mal estar completamente incômodo por todo o meu corpo, junto a uma dor de cabeça péssima. me estudou preocupada enquanto eu puxava o ar com dificuldade, tendo a impressão de que a quantidade de oxigênio que entrava em meus pulmões era insuficiente.
- , você não acha melhor ir ao médico? Ou ir para casa? Você mal comeu o dia todo! – Expôs preocupada e eu neguei.
- Ainda temos pacientes, não posso te deixar atendê-los sozinha.
- Você sabe que não tem problema nenhum. – Insistiu.
- Eu sei, amore mio. Mas eu vou ficar, não estou tão mal assim. – Outro espirro. me repreendeu com o olhar, porém, a ignorei e me obriguei a tomar mais um gole do líquido já morno em minha xícara, forçando um sorriso a ela, que não pareceu convencida de que eu estava bem.
E não estava mesmo.

Senti a minha garganta doer e o mal estar piorar no decorrer do dia, e, como se não bastasse, uma tosse chata fez-se presente. Mesmo com a sensação de que cairia dura a qualquer momento, finalizei os atendimentos do dia junto a , que me deixou em casa com mil recomendações e avisos para comunicá-la caso eu piorasse. Conforme eu me aproximava do caminho que levava à casa dos fundos, percebi uma movimentação diferente por ali, já imaginando que provavelmente algo estaria acontecendo na mansão dos . Avistei Cícero acenando para mim e sorri, acenando de volta. Ele fez um sinal para que eu parasse e eu o fiz, aguardando-o vir ao meu encontro, bem humorado como sempre.
- Olá, mocinha! Como você está? – Perguntou e logo cerrou os olhos ao me analisar por poucos segundos. – Soube que não muito bem. – Completou e eu ri fraco, assentindo.
- Estou um pouco gripada, mas estou bem. E o senhor?
- Tudo ótimo comigo. Se quiser, eu faço o mesmo remédio que dei para a sua mãe quando ela adoeceu. Ela melhorou rapidinho! – Ofereceu animado, me fazendo rir.
- Eu detesto ficar doente, com certeza vou querer a sua receita mágica, minha mãe realmente ficou ótima! – Falei, tentando acompanhar o seu ânimo ao mesmo tempo em que me empenhava em ignorar os calafrios que subiam pelo meu corpo dolorido e o frio descomunal que eu sentia.
- Pode deixar, mocinha! Amanhã mesmo peço para a sua mãe lhe entregar. Por falar nisso, ela pediu para que você fosse até a cozinha da mansão assim que chegasse.
- Ah, claro. Obrigada por me avisar. – Sorri para Cícero, que fez o mesmo.
- É melhor eu ir, não posso perder meu ônibus. Melhoras, menina! – Ele desejou, tornando a acenar em despedida.
- Obrigada! Boa volta para casa e vá com cuidado. – Disse, observando a figura do senhor se afastar conforme caminhava. No instante em que eu fiz menção de começar a andar, uma leve tontura me fez parar instantaneamente. Fechei os olhos por breves segundos para me situar e tentei respirar fundo, falhando miseravelmente em consequencia da falta de ar. Os abri e, verificando que eu já me encontrava normal, retomei os meus passos até a entrada de serviço da mansão em meio a espirros e uma tosse do inferno.
Adentrei o cômodo, logo constatando que realmente algo estava acontecendo na casa, visto que Judith e minha mãe estavam concentradas em seus afazeres.
- Olá... – Anunciei, chamando a atenção de ambas.
- Oi, filha. Está tudo bem? – Questionou enquanto me analisava preocupada.
- Sim, estou bem. – Falei, sendo desmentida pela minha voz anasalada e provavelmente pela minha expressão cansada. A feição da minha mãe tornou-se questionadora e eu soltei uma risadinha. – Certo... Já estive melhor. – Confessei.
- Talvez devêssemos chamar o Doutor Elish. – Judith sugeriu.
- Não precisa! É só uma gripe. – Aleguei, achando aquilo tudo exagerado demais. – Vou descansar e amanhã com certeza acordarei melhor. – Minha cabeça deu uma pontada extremamente forte e eu reprimi uma careta ao passo em que a saliva descia com dificuldade pela minha garganta. Outro calafrio atingiu o meu corpo e eu me encolhi pelo frio, constatando que uma gotícula de suor totalmente aleatória se formava em minha testa. Passei a mão por ela, a retirando dali rapidamente enquanto minha mãe e Judith trocavam algumas palavras sobre mim, porém, não consegui distinguir muito bem o rumo da conversa.
- Vá para casa, filha. Estou quase terminando aqui e logo irei também. O senhor Henrico deu uma reunião que acabou agora a pouco, então não demorarei. – Sem muita força para dizer-lhe qualquer coisa, apenas concordei. Despedi-me de Judith rapidamente e me pus para fora da cozinha com uma sensação horrível de dor misturada com a tontura que voltara com força total. Olhei para o lado e vislumbrei um pouco mais afastado conversando com mais dois homens – sendo um deles já visto por mim na última reunião –. Ele levantou ligeiramente o olhar e me avistou, lançando-me um sorriso quase imperceptível e um moderado aceno com a cabeça. Sorri fraco e fiz menção de prosseguir o meu caminho, contudo, a minha visão tornou-se embaraçada e uma fraqueza descomunal me abateu de súbito. Parei instantaneamente e pisquei diversas vezes com o intuito de recobrar a capacidade de enxergar corretamente, não obtendo sucesso algum. Percebi o meu corpo estremecer e as pernas vacilarem, e, sem demora, o baque do chão foi sentido dolorosamente por mim. Sem perder a consciência por completo e tomada por uma confusão mental, constatei que fui erguida por alguém e, de longe, ouvi vozes difusas ao meu redor.
- Ela está com febre. – Reconheci a entonação grave de soar alarmada. Os sons tornaram-se cada dez mais inaudíveis e eu apaguei completamente.

(...)


- O Doutor Elish está vindo. – Identifiquei a voz da minha mãe ecoar agoniada ainda um tanto quanto distante. Um cheiro forte de álcool adentrou as minhas narinas e eu franzi o cenho, abrindo os olhos com certa dificuldade. Extremamente confusa e fraca, identifiquei Judith com um pano posicionado rente ao meu nariz. Eu estava deitada na minha cama e, assim que notou o meu despertar, minha mãe se aproximou angustiada, sentando-se na ponta do colchão.
- , graças a Deus! – Exclamou, me estudando inquieta. Aos poucos fui me recordando do que ocorrera e me assustei ao a tomar conhecimento de que eu havia desmaiado. – Vou pegar um copo d’água para você. – Ela avisou, levantando-se tal qual um foguete, deixando o quarto. Judith falou algo com alguém que também encontrava-se ali e a seguiu. Virei a cabeça e não pude evitar que a minha expressão se contorcesse em surpresa no momento em que enxerguei parado próximo a cama com as mãos no bolso da calça e o olhar analítico em mim. Ele deu um passo com a finalidade de chegar mais perto e eu ergui o tronco para me sentar, sendo auxiliada por , que ajeitou o travesseiro atrás das minhas costas.
- Como está se sentindo? – Indagou, me observando atento.
- Como se tivesse sido atropelada por um tanque de guerra. – Reclamei e ele riu fraco. – Eu caí muito feio? – Perguntei sem saber se a dor nas minhas costas se referia à gripe ou ao tombo.
- Não foi algo legal de se ver, para ser honesto. Está com dor?
- Um pouco... – Revelei e ele assentiu, me estudando com a fisionomia tensa.
- Você pegou muita friagem no dia em que o Bento fugiu, devia ter voltado para casa.
- Isso estava fora de cogitação. – Afirmei convicta.
- Eu sei, você deixou isso bem claro. – proferiu com certa obviedade em sua expressão e eu dei de ombros. Minha mãe retornou ao quarto e me entregou o copo com água, beberiquei o líquido com o inconveniente da minha garganta impedindo que eu tomasse mais do que dois pequenos goles e lhe entreguei o objeto de vidro, a agradecendo.
- Obrigada pela ajuda, . Não queremos incomodar, pode ir pra casa. – Disse ela.
- Não precisa agradecer, . Avise-me caso necessite de alguma coisa, por favor. – pediu, me lançando um olhar preocupado. A mulher apenas assentiu, ainda parecendo apreensiva. – Boa noite.
- Boa noite. Obrigada mais uma vez. – Ele negou com a cabeça e, novamente, cravou os olhos nos meus.
- Melhoras.
- Obrigada. – Falei, sustentando o seu olhar. deixou o quarto e eu continuei fitando o local, absorta em mil questionamentos. – Mãe, por ele estava aqui? – Questionei sem entender muito bem a sua presença, pois a única coisa da qual eu me recordava era de sua voz no momento em que eu me senti zonza.
- O te trouxe até aqui. Você me assustou, filha. Eu o vi com você no colo através da janela da cozinha e quase morri de pavor. – Explicou e eu apenas escutei, inapta a expressar qualquer coisa, logo ouvindo algumas batidas na porta.
- Deve ser o Doutor. Vou recebê-lo. – Concordei enfraquecida e voltei a me deitar, me encolhendo por debaixo das cobertas. Alguns minutos depois, a figura do Doutor Elish passou pela porta na companhia da minha mãe.
- Boa noite, . O que temos aqui? – Perguntou ele, retirando um termômetro infravermelho de sua bolsa.
- Acho que peguei uma gripe forte. – Respondi em meio a um espirro. O homem encostou o objeto em minha testa na região acima da sobrancelha e o aparelho apitou.
- Hm... Trinta e nove graus. Diga-me o que está sentindo e a quanto tempo, por favor. – Doutor Elish pediu, colocando o estetoscópio no lado esquerdo do meu peito.
- Minha cabeça e o meu corpo doem, inclusive a minha garganta. – Ele assentiu.
- Relaxe e respire normalmente. – Requisitou e eu o fiz. – Certo. Você pode se sentar, ?
- Claro. – Ergui o corpo e me sentei na cama.
- Sente-se com as costas retas e respire normalmente. – O estetoscópio foi situado na parte superior do meu tronco de ambos os lados enquanto eu fazia o que me foi pedido. Em seguida, ele o levou as minhas costas, também examinando-a.
Durante o tempo em que era investigada minuciosamente pelo Doutor Elish, fitei o local do qual encontrava-se posteriormente, sentindo um calafrio ao me recordar do modo como ele me observava.
Porém, dessa vez, o calafrio não foi proveniente da gripe.

FLASHBACK.

O ambiente alegre da casa dos de nada combinavam com a tristeza que eu sentia. Eles comemoravam mais um caso do qual a Dona Kyara ganhara, resultando em muitos jornalistas em volta do condomínio. Sentada do lado de fora da mansão, ouvia-se apenas o som da música que ecoava pelo ambiente em meio ao falatório das pessoas ali dentro. Minha mãe estava trabalhando, ocupada na cozinha, e eu, sem ter o que fazer, prostrei-me no lugar em que eu havia me sentado, suspirando em pesar.
Era o meu aniversário, entretanto, não parecia somente como um dia normal. Estava mais solitário do que qualquer outro. As amizades que eu possuía no colégio não eram tão próximas para que eu as convidasse para comemorar de alguma forma, com isso, decidi não fazer nada. Meu celular apitou e um fio de esperança foi aceso quando vi o nome de na tela do aparelho.

“Ei, aniversariante ;) sinto muito por não poder passar a noite com você. Compenso outro dia, prometo. Beijos.”

A esperança se dissipou em um piscar de olhos, dando espaço para que o desânimo voltasse com força total. Inquieta devido ao tédio, levantei-me e fui até a cozinha a fim de dar uma olhada no que acontecia e me disponibilizar para ajudar, caso fosse preciso. O tédio estava me matando.
- É o seu aniversário, filha. Você não vai fazer nada. – Minha mãe me repreendeu sorrindo. Revirei os olhos, sorrindo também.
- Não assinei nenhuma cláusura que dizia que aniversariantes não podem ser úteis no dia do próprio aniversário.
- Eu acabei de inventar – ela piscou e seguiu em direção à dispensa, me deixando com cara de taxo. Voltei ao lugar em que eu estava sentada minutos antes e sorri ao ver que Bento deitou-se ao meu lado.
- Então você vai ser o meu companheiro de aniversário? Tudo bem por mim. – dei de ombros e ri ao ver o cão balançar o rabo alegremente. Ouvi um barulho que parecia próximo de onde eu me encontrava, vendo um estupidamente lindo tomando o seu drink vagarosamente enquanto fitava a paisagem do jardim um pouco mais afastado de nós. Continuei quieta acariciando o Pastor Alemão esperando que entrasse em sua casa, entretanto, fui pega de surpresa ao ouvir a sua voz quebrar o silêncio, demonstrando que ele havia me visto ali.
- É o seu aniversário? – Questionou ele sem tirar os olhos do campo, porém, eu me virei para olhá-lo, um tanto pasma por ele ter falado comigo. Isso raramente acontecia.
- Sim.
- E você pretende comemorar sentada aí? – me olhou com uma sobrancelha arqueada e eu dei de ombros, assentindo.
- Digamos que os meus amigos não colaboraram comigo.
- Hm.
O silêncio se fez presente e eu não me atrevi a falar mais nada. De canto de olho notei abaixar-se e pegar algo do chão, ficando de pé novamente e vindo ao meu encontro.
- Parabéns. – O olhei surpreendida e franzi o cenho em espanto quando vi que ele me estendia uma das flores simples que enfeitavam aquela parte da casa. Após alguns segundos de paralisia devido ao choque, voltei ao mundo real e a peguei.
- Obrigada. – Agradeci ainda atônita. fez um sinal como se demonstrasse que não havia feito nada demais e voltou para a mansão, me deixando estarrecida admirando a singela flor em minhas mãos.

FIM DE FLASHBACK.


Sorri com a lembrança, me recordando que eu ainda possuía aquela flor no meio de um livro, lugar em que eu havia escolhido para guardá-la.

’s POV

Sentado no sofá da sala de estar e com um copo de whisky em mãos, eu refletia sobre os últimos meses e também tentava baixar a adrenalina após o susto que me dera. Vê-la desfalecendo repentinamente bem à minha frente me colocou em um estado de apreensão imediato e, naquele momento, a única coisa que passou pela minha cabeça foi correr até ela e erguê-la em meus braços, pouco me importando com a conversa junto a Thompson e Stenfield. Talvez a culpa por ter uma parcela de responsabilidade por seu estado atual tenha ocasionado tamanha angústia em mim, sensação que ainda não havia cessado totalmente. Ouvi passos se aproximarem e levantei a cabeça, vendo meu pai se aproximar e, calado, também se servir de uma dose de whisky. Ele se sentou na poltrona a minha frente e me encarou.
- Como a garota está? – Perguntou sem realmente demonstrar muito interesse.
- Presumo que bem. Até onde eu vi, chamaram o médico. – Respondi, bebericando o líquido amargo contido no copo, ouvindo meu pai murmurar um “hm” sem tirar os olhos analíticos de mim. – Algo errado? – Questionei incomodado com a sua avaliação silenciosa.
- Você não acha que essa sua preocupação – frisou em tom desdenhoso. – não foi um tanto quanto exagerada, ? – Óbvio que o senhor Henrico não resolvera sentar-se comigo para simplesmente conversar. Como sempre, a sua aproximação possuía um interesse. Emiti um riso sem humor dotado de sarcasmo e balancei a cabeça negativamente, sem vontade alguma de responder-lhe algo. – Falei com o pai da Cassie, hoje. Ele nos convidou para um jantar nesse final de semana. – Comentou e eu passei uma mão pelos cabelos, imaginando que ambos não tinham conhecimento sobre o nosso término.
- Tudo bem se vocês quiserem ir – falei me referindo a ele e a minha mãe. –, mas eu não vou. – Meu pai franziu o cenho sem entender e eu prossegui, prevendo que o inferno estava prestes a começar. – Nós terminamos.
A expressão dele transformou-se em algo indecifrável.
Seus olhos semicerrados me estudaram de uma forma gélida repleta de arrogância como se eu fosse insignificante, e, sem desviar a atenção sobre mim, deu um sucinto gole em sua bebida.
- Devo perguntar o motivo ou é só uma de suas decisões estúpidas? – Indagou calmo e eu ri em escárnio.
- A única coisa que deve fazer é respeitar a minha decisão. – Concluí, finalizando a minha bebida e me levantei com o intuito de sair dali.
- Muita cautela com o que você faz, . A nossa família não se empenhou em construir um nome e reputação de respeito para que tudo vá para o lixo devido às suas decisões. – Frisou em descaso. – Tem noção do que elas implicam? – Parei no batente da porta e virei-me para o homem aprumado em sua poltrona.
- Essa em especial implica que eu não tenho mais nada a ver com os Privost. A sua ganância pode custar caro, pai. Sei exatamente o que o meu relacionamento com a Cassie significava e nós não precisamos disso.
- Não ache que você pode fazer o que quiser. Não irei permitir. – Sua voz transmitia um tom ditatorial pretensioso do qual eu já havia me acostumado. Lancei-lhe um último olhar inexpressivo e me retirei do cômodo enraivecido com tamanha tirania.
Subi para o meu quarto e tomei um longo banho quente, logo me jogando na cama. Senti a parte ao meu lado do colchão afundar e sorri fraco ao ver Bento ali se aconchegando por cima das cobertas. Através da cortina entreaberta pude ter uma visão distante da casa dos fundos, da qual encontrava-se com todas as luzes apagadas.
Senti os meus olhos pesarem durante o tempo em que encarava a moradia, me perguntando se estava bem.

**

Adentrei o escritório naquela manhã com uma lista mental de coisas que eu deveria fazer. Conforme andava e distribuía “bom dia” para as pessoas que encontrava pelo caminho, notei Bridget – secretária encarregada de cuidar da minha agenda – vir ao meu encontro acompanhando os meus passos.
- Bom dia. – Desejei parando na porta da minha sala. – Algo para mim?
- Bom dia, senhor . Um homem ligou para cá e pediu para falar com o senhor, mas como ainda não havia chegado, anotei o recado. – Ela explicou. Fiz um sinal para que a mulher entrasse na sala, haja vista que eu não gostava de tratar dos meus assuntos profissionais fora dela. Bridget o fez e eu fechei a porta atrás de mim, sentando-me atrás de minha mesa, apontando a cadeira em sua frente para que ela fizesse o mesmo.
- Sim...? – Pedi para que continuasse enquanto eu retirava alguns papeis da minha pasta.
- Ele não quis se identificar, senhor. – Levantei o olhar e franzi o cenho. – Apenas deixou o seu telefone de contato e pediu para que retornasse o mais rápido possível. – Bridget entregou-me o papel do qual continha apenas um número de telefone. O encarei desconfiado e assenti, deixando-o em cima da minha mesa.
- Mais alguma coisa?
- Não. Apenas isso.
- Certo... Obrigado. – Disse a Bridget, que respondeu um “por nada” e levantou-se, se retirando da sala.
Peguei o papel e o observei novamente, me sentindo tenso ao imaginar que isso teria algo a ver com as ameaças que eu recebi. Tirei o telefone do gancho e disquei os números contidos na folha, percebendo a apreensão aumentar cada vez que o barulho da chamada ecoava pelo aparelho.
- Pronto? – Uma voz masculina soou e não havia sinal algum do conhecido efeito robótico nela.
- Sou , advogado de defesa. Recebi uma ligação requisitando retorno a esse número e gostaria de saber sobre o que se trata. – Expliquei.
- Bom dia, . Desculpe por não ter deixado o meu nome. Sou Otto Zucker, fotógrafo. Trabalhei na festa onde o crime com Mason Zummack ocorreu e creio que eu possa ajudá-lo com o caso. – Disse ele da forma mais direta possível, sem rodeios. Surpreso e receoso, digitei seu nome navegador de pesquisa e confirmei a sua identidade.
- Bom dia, Otto. Agradeço o seu contato. Antes de qualquer coisa, preciso que você seja mais específico, por favor. – Pedi.
- Eu fui o fotógrafo da festa e talvez possua algum material útil para você. Nós podemos nos encontrar? – Otto sugeriu. Mesmo achando tudo aquilo muito estranho, decidi arriscar. Eu não podia recusar nada que servisse a meu favor.
- Claro. Você tem disponibilidade de vir ao escritório agora? – Falei curioso demais para marcar um horário.
- Posso sim. – Concordou ele. Uma onda de euforia tomou conta de mim e, embora a situação fosse estranha demais, eu gostaria de pagar para ver. – Chego aí em mais ou menos meia hora. – Franzi o cenho sem entender como ele estipulou um horário.
- Otto, você possui o endereço do escritório?
- Creio que todos saibam onde o escritório dos se localiza. – Respondeu ele como se eu houvesse falado uma coisa extremamente idiota. – Moro próximo, então não devo demorar. Até. – Sem dar chance alguma para que eu o respondesse, ele finalizou a ligação. Encarei o telefone em minhas mãos com o cenho franzido em pura desconfiança e dúvida, sem saber ao certo se esse cara realmente gostaria me ajudar. Disquei o número da recepção e pedi para que liberassem a entrada de Otto assim que ele chegasse, não antes de recomendar uma revista precisa antecipadamente a sua entrada no prédio, afinal, eu ainda me encontrava em alerta sobre as ameaças que, estranhamente, haviam parado de acontecer.
Pouco mais de meia hora depois, Bridget anunciou a sua chegada. Pedi para que ele fosse liberado e a porta da minha sala foi aberta, onde o homem um pouco mais jovem do que eu adentrou. Apontei a cadeira em um pedido mudo para que ele se sentasse e ele o fez.
- Muito prazer, Otto. – Cumprimentei-o com um firme aperto de mãos.
- O prazer é meu. – Ele retribuiu de forma vigorosa, passando confiança através daquele ato.
- Então vamos lá... Já que aparentemente estamos indo direto ao ponto, serei objetivo em minhas perguntas. Qual é o seu interesse em colaborar com o caso sendo que já depôs? – Indaguei preciso.
- Eu não sabia se era o certo, estava com medo. Entretanto, quero justiça. Mason era o meu padrinho. – Otto revelou ressentido, me deixando surpreso com a sua confissão. – A noite do seu assassinato foi um pesadelo. Eu estava trabalhando naquele local e não fui capaz de ser útil! – Ele bradou e eu assenti com pesar, compadecido com a sua dor.
- Sinto muito pela sua perda e aprecio a sua boa vontade, Otto, contudo, preciso te deixar ciente de que existe muita coisa envolvida nesse caso. Não é simples e muito menos seguro. – Informei, me referindo a tudo que andava me acontecendo.
- Você precisa de evidências, eu posso consegui-las. Eu quero justiça, você pode consegui-la. É uma troca de interesses. – Rebateu irredutível e eu suspirei, ponderando por alguns segundos.
- Certo. – Concordei – Quero ter acesso a absolutamente todo material fotográfico da festa. Alguns ficaram com você, não é? – Ele assentiu.
- Eu ia postá-las no site da Associação dos Empresários, mas fui proibido por motivos óbvios.
- Tudo bem. O importante é que elas estão com você. Otto, não faça nada sem me consultar, fui claro? E tome cuidado. – Avisei e ele concordou. – Vou te dar o meu número de serviço caso precise de algo.
Finalizamos mais alguns pontos da conversa e nos despedimos.
Ainda meio perplexo, passei as mãos pelo rosto, me sentindo feliz e até esperançoso com o aparecimento de Otto, embora temesse que ele recebesse as mesmas ameaças que eu, haja vista que ele era da família da vítima e cederia o material daquela noite. Liguei para o meu cliente e o deixei atualizado a respeito dos acontecimentos da manhã, ouvindo-o soar aliviado através do telefone.
Ouvi algumas batidas na porta e murmurei um “entra” enquanto lia alguns processos. Desviei os olhos das folhas e enxerguei Bridget ali.
- Desculpe incomodá-lo. O senhor Henrico terá uma viagem de última hora e lhe pediu para pegar uma pasta na casa de vocês. Ele sairá às duas e meia, porém, está em uma reunião no momento. – Assenti, checando o horário em meu relógio de pulso. 12hrs22min.
- Ele especificou qual era a pasta?
- Sim. Disse que ela está em cima da mesa do escritório. – Informou.
- Obrigado, Bridget. Caso ele fale com você, diga que já estou indo. – Levantei-me e recolhi as minhas chaves, saindo da sala junto à mulher, que rumou até o seu local de trabalho. Peguei o elevador e segui até o estacionamento, entrando no carro e dando partida.

Ao chegar ao meu destino, estacionei o veículo de qualquer jeito a fim de não perder muito tempo. Cumprimentei Cícero e o homem contratado para consertar o buraco pelo qual Bento havia fugido e entrei em casa, caminhando direto para o escritório, agradecendo aos céus pela pasta estar exatamente no lugar que deveria. Bento surgiu do nada e veio ao meu encontro balançando o rabo energicamente, contente por me ver àquela hora do dia. Abaixei-me e o acariciei brevemente, logo tornando a fazer o meu caminho.
Coloquei a pasta no banco do passageiro e, quando fiz menção de entrar em meu carro, parei e fitei a casa dos fundos.
Sem pensar demais, andei até lá. Parei em frente a porta e ponderei por alguns segundos, sem saber exatamente se deveria bater ou simplesmente dar a volta e ir embora. Não tive muito tempo para decidir, já que Bento latiu animado ao reconhecer o ambiente em que estávamos. Lancei-lhe um olhar repreendedor e dei duas batidas na porta, colocando as minhas mãos no bolso da calça após o meu ato.
- Eu ia bater, não precisava chamar a atenção. – Sussurrei para o Pastor Alemão, que sentou-se ao meu lado com a postura ereta em expectativa. Ri fraco para ele e ouvi um ruído de chave sendo girada pela fechadura, revelando uma ainda com a fisionomia um tanto quanto cansada, embora bem menos abatida. Ela pousou os olhos no Bento – que latiu mais uma vez –, e depois os pousou em mim, significativamente confusa.
Nem eu sabia ao certo que porra fui fazer ali.
- Oi. – Disse ela, quebrando aquele clima desconfortável.
- Oi. – Respondi. abaixou-se e acariciou o cão enérgico por alguns segundos, recobrando a postura em seguida. – Tive que passar em casa e vim saber como você está. – Esclareci e ela deu um sorriso tímido.
- Estou melhorando. O Doutor Elish me receitou um anticongestionante e alguns anti-flamatórios, além de ter que ficar de molho em casa. – Fez uma breve careta e eu ri fraco. – Obrigada pela preocupação. – Comentou com o sorriso perdurando seus lábios e eu neguei.
- Indiretamente a culpa foi minha por você ter ficado assim. E também foi uma devolução de favores pelo dia em que eu fiquei mal. – Dei-lhe uma piscadela e ela assentiu, adquirindo um rubor nas maçãs do rosto.
- Não foi culpa sua, . Fui eu quem quis te fazer companhia e iria de novo. Gosto muito desse pestinha. – gracejou, voltando a acariciar Bento. – Foi ele quem me “avisou” – fez aspas com os dedos – que você estava mal naquele dia. – Ela disse e eu franzi o cenho.
- Como é?
- Ele estava tão agitado que me obrigou a entrar na sua casa para verificar o que estava acontecendo. Um dia esse cachorro vai falar. – Brincou, me arrancando uma risada.
- Acredito que sim. – Olhei em meu relógio e constei que deveria retornar ao escritório. – Preciso ir.
- Tudo bem.
- Até mais. – Falei, recendo um aceno em resposta.
- Até. Bom trabalho. – desejou sorrindo e eu repeti o seu ato.
Regressei ao meu destino anterior e adentrei o carro tomando o rumo de volta ao prédio do escritório com algo estranhamente desordenado em minha cabeça.

Seis e trinta e cinco da tarde.
O escritório nunca me pareceu tão sufocante quanto naquele momento, o som da chamada em espera ecoava em um barulho irritante pelo celular durante o tempo em que eu aguardava a secretária do Sandro Averbuck retornar com a informação que eu tanto queria a respeito dele.
Um ruído soou através da saída de som do aparelho e logo a voz da mulher fez-se audível.
- Doutor , o senhor Averbuck lhe atenderá na segunda-feira? que vem, às quatro e meia da tarde. Tudo bem para o senhor?
Sorri extremamente satisfeito. Era essa notícia que eu tanto esperava para que toda minha semana valesse à pena.
- Perfeito.
- Certo, o seu horário está marcado. Há mais alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor?
- Não, obrigado. Por hora é só isso.
- Ok. Tenha uma boa noite, Doutor .
- Boa noite.
Desliguei a ligação e encostei-me em minha cadeira com um sorriso largo no rosto. Aparentemente as coisas estavam começando a clarear no caso Zummack, já que o depoimento que Sandro me concederia seria de extrema importância para que eu conseguisse informações preciosas para a defesa do meu cliente. Recolhi meus pertences e tranquei o meu escritório, despedi-me de algumas pessoas que ali estavam e segui rumo à saída do prédio estupidamente cansado, todavia, muito satisfeito.
Senti meu celular vibrar no meu bolso e o atendi sem prestar muita atenção no visor.
- Olá, . Sentiu a minha falta? – Parei de andar de súbito e um frio amedrontador subiu pela minha espinha, me congelando por completo. A voz robótica debochou do outro lado da ligação e eu rapidamente olhei para todos os lados em alerta com um ódio crescente tomando conta de mim. Eu precisava recuperar a minha frieza e me manter calmo.
- O que você quer? – Questionei ríspido e obtive um riso zombeteiro em resposta.
- Eu queria mesmo era disparar uma bala bem no meio da sua testa, porém, como sou uma ótima pessoa, decidi te dar a chance de desistir do caso. O que acha? – Andei a passos rápidos até o meu carro e entrei nele, sentindo a minha respiração cada vez mais pesada. Passei a mão nos meus cabelos em puro desespero e fechei os olhos com força, esforçando-me para não permitir que a angústia tomasse conta de mim.
- Você não sabe com quem está lidando. Aproveite bem a sua liberdade, porque ela não irá durar muito. – Declarei enraivecido e mais um riso fez-se audível.
- Gosto de jogos e estou disposto a jogar com você, .
- Encontrou alguém que gosta de jogos tanto quanto você, meus parabéns. Escute bem o que eu vou lhe dizer... – Comecei em um tom de voz mais baixo e ameaçador – Eu morro, mas irei te ver atrás das grades, ouviu bem? Tem uma coisa que você não sabe... Sou extremamente competitivo e o meu maior prêmio será te jogar em uma cela de três metros! – Vociferei entredentes.
- Uau, gostei. Desafio aceito, . Não sou a pessoa mais adepta a regras, porém, eu lhe apresentarei a única: Não quero sonhar – ele frisou. – que a polícia esteja envolvida nisso. Pode ter certeza de que eu saberei se o herdeiro mais poderoso país – ressaltou debochado e o ódio só aumentou – anda infringindo o regulamento. Que os jogos se iniciem, começarei mexendo um peão e temo que você irá perder uma peça. Boa sorte. – A ligação foi finalizada.
- MAS QUE PORRA! – Explodi exasperado, socando o volante.
Observei o celular em minhas mãos com a adrenalina a mil, onde ela se misturou com o ódio, o temor e o espanto. Joguei o aparelho no banco do passageiro e apoiei os cotovelos no volante, esfregando o rosto com as mãos na tentativa de descarregar toda aquela sensação horrível que assolava o meu corpo inteiro, deixando-o praticamente paralisado.

“Começarei mexendo um peão e temo que você irá perder uma peça.”

De repente, eu não temi apenas por mim. Eu temi por todos que estavam ao meu redor, por todos que faziam parte da minha vida e por todos que estavam envolvidos no caso.
Eu sabia que demonstrar medo só fortaleceria seja lá quem estivesse por trás dessa merda toda. O sádico maldito possuía prazer em brincar de Deus.
A ira correu pelo meu sangue produzindo um sórdido sorriso ladino em meus lábios.

A situação havia acabado de transformar-se em um inferno e eu me deleitaria a conviver com o demônio.

Pisei no acelerador sem me preocupar com os 120 km que o ponteiro do painel do velocímetro indicava, somente desejava chegar em casa o mais rápido possível e colocar as ideias no lugar, pois naquele momento, tudo encontrava-se uma bagunça. Por mais que soubesse dos riscos ao pegar o caso Zummack, nunca imaginei que as coisas poderiam chegar a esse ponto.
Eu corria risco de vida.
Expirei impaciente, observando a ponta dos meus dedos ficarem brancas devido à exagerada aplicação de força entre eles e o volante. Diminuí a velocidade do veículo assim que entrei no condomínio e estacionei o carro na garagem, deixando-o e caminhando feito um foguete ao transpassar a porta de entrada de casa. Coloquei o pé na escada com a intenção de subir até o meu quarto, entretanto, parei imediatamente ao ver o meu pai parado na entrada da sala de estar.
- , temos visita. – Ele avisou com seriedade.
- Estou sem o mínimo de disposição para receber alguém, diga que eu estou ocupado ou que quiser dizer. – Falei áspero e o homem não moveu um músculo sequer.
- Não perguntei se você deseja recebê-lo, apenas lhe informei. Venha até aqui. – Abri a boca para confrontá-lo, contudo, fui interrompido pela figura do senhor Privost, que surgiu ao lado do meu pai. O homem sorriu astuto e levantou a taça em suas mãos.
- Ora, . Não irá nos acompanhar? – Questionou ele. Meu pai sorriu vitorioso e eu trinquei o maxilar pela raiva, assentindo a contragosto.
- Claro, senhor Privost. Tomarei uma taça com vocês. – Falei regressando um passo e caminhei até a sala de estar na companhia dos dois homens. Servi-me de uma taça de champagne e encostei-me em um pilar daquela dependência da casa, cruzando os braços com o objeto cristalino em mãos, meramente ouvindo o diálogo que ecoava pelo cômodo sem intenção nenhuma de participar dele.
- Está mais calado do que o habitual, . – Senhor Privost comentou analítico. Desviei a minha atenção do ponto do qual eu encarava e o olhei.
- É apenas cansaço. – Respondi, vendo-o assentir.
- anda trabalhando arduamente no caso Zummack. Creio que teremos uma grande vitória. – Meu pai esclareceu envaidecido e eu nada disse.
- Estupendo. O brasão dos e dos Privost certamente ganhará ainda mais força. – Franzi o cenho. Era óbvio que ele ainda não sabia que eu não namorava mais com a filha dele.
- Desculpe-me, senhor Privost. Receio que eu terei que atualizá-lo dos últimos acontecimentos. Cassie e eu rompemos. – Notifiquei e a expressão do homem estarreceu em completo choque. Os olhos do meu pai faiscaram de raiva e eu reprimi um riso ladino.
- C-como? Como isso aconteceu?! Ela não falou absolutamente nada nem para mim nem para a mãe! – Meu ex-sogro falou notavelmente nervoso.
- Eu também fiquei sabendo recentemente, Russell, porém, creio que logo eles se resolverão. – Meu pai tentou amenizar a situação me lançando um olhar duro e eu levantei a taça em um ato sarcástico, negando com a cabeça em seguida, demonstrando que aquilo não ocorreria.
- Estou torcendo para que isso aconteça. Os negócios tendem a ir bem quando todo o resto vai bem, não é? – Russell falou e eu semicerrei os olhos. Não sabia ao certo quem ele pensava que era, já que a minha família não necessitava da sua para absolutamente nada.
Finalizei a minha bebida e sorri cordial para os dois homens.
- Estou realmente exausto, irei subir para o meu quarto. Tenham uma boa noite. – Desejei, cortando qualquer chance de uma continuidade no assunto. – E foi um prazer vê-lo, senhor Privost. – Finalizei, ouvindo-o retribuir a minha fala.
Retirei-me da sala e fui direto para o meu destino anterior.
Meu corpo sobrecarregado doía como o inferno, resultado das últimas horas tensas das quais eu havia vivenciado. Por um momento agradeci pela ausência da minha mãe nos últimos dias em consequência de uma viagem a trabalho, afinal, se ela estivesse presente, a dor de cabeça seria em dobro.

Nunca a sensação de que tempos difíceis se aproximavam foi tão forte.
E eu estaria pronto para eles.

’s POV

Após três dias de repouso total, o sábado chegou com uma explosão de alegria. Fui trabalhar com um sorriso enorme no rosto por finalmente estar liberada a sair de casa e retomar a minha rotina, fora que parar de sentir como uma morta viva também era maravilhoso.
Parei em frente à loja já enxergando Vicenzo ali dentro, que deu seu habitual sorriso de coringa ao me ver. Ergui a mão a fim de empurrar a porta e ele fez um sinal para que eu esperasse. Franzi o cenho vendo a figurada animada e sorridente vir até mim, abrindo-a e fazendo reverência em seguida.
- Mademoiselle.* – Dei uma gargalhada e entrei no local, imitando o seu ato.
- Bonjour monsieur.* – Disse, ouvindo-o rir.
- Você fala francês? – Questionou ele com uma feição de espanto.
- Ei, por que essa cara? – Perguntei falsamente ofendida e Vicenzo ergueu as mãos se eximindo da culpa.
- Por nada, por nada! Já disse que eu amo croissant? – Indagou galante e eu gargalhei.
- Que bom pra você, porque na verdade eu não falo não. Vi essa frase em um filme e achei chique, você apenas me deu abertura para utilizá-la. – Dei de ombros sorrindo travessa.
- Ufa, porque na verdade eu detesto croissant. – Confessou e eu empurrei-lhe pelos ombros, ainda rindo.
- Melhorou da gripe? Posso chegar perto de você sem ter o risco de ficar enfermo? Tenho que trabalhar em uma festa hoje e não posso ficar doente.
- Não, ainda tenho muitos vírus prontos para habitar esse seu corpinho tatuado. – Cheguei perto dele com a intenção de abraçá-lo e, ao contrário do que eu esperava, o vocalista abriu os próprios braços. Parei e o encarei com cara de tédio.
- Você é ridículo. – Falei tentando não rir. – Vai tocar com a banda nessa festa?
- Nunca recusarei os seus abraços, gata. Aceito os seus vírus de bom grado. – Vicenzo brincou e eu finalmente ri, fazendo uma careta. – E não. Na verdade, vou fazer um freela de bartender. – Explicou e eu o encarei curiosa.
- Você sabe fazer isso?
- Sei fazer várias coisas e terei muito prazer em lhe mostrar todas. – Comentou malicioso. Gargalhei e neguei com a cabeça. Um cliente entrou no estabelecimento e paramos de gracejar um com o outro, começando a trabalhar.

- Sobe aí, lindinha. – Meu colega pediu ao final do expediente, apontando com a cabeça para o espaço livre atrás de si. Torci o nariz e encarei aquela coisa da qual eu não era muito fã. – Creio que você já esteja se familiarizando com ela. Vem, sobe. – Pediu referindo-se a moto. Suspirei e peguei o capacete de suas mãos, colocando-o e agarrando a cintura de Vicenzo, que, como sempre, riu.
A sensação do vento batendo em meu corpo foi imediatamente sentida enquanto ele pilotava. Apertei ainda mais o seu corpo e me encolhi, permanecendo dessa forma até chegarmos em nosso destino.
- Prontinho. Chegou viva e sem faltar nenhum pedaço.
- Vitória do dia. – Disse. Retirei o capacete e lhe entreguei.
- Ué, o que será que aconteceu no país das maravilhas? – Vicenzo perguntou assim que estacionou o carro em frente ao condomínio, notando vários jornalistas amontoados ali perto na tentativa de entrevistar alguém.
- Não faço ideia. – Semicerrei os olhos em curiosidade, desejando enxergar quem era a pessoa tão requisitada pelos repórteres. Esforcei-me um pouco mais e me surpreendi quando vi que localizava-se no ponto central da roda de indivíduos afobados com seus microfones, competindo pela atenção do homem imponente que falava com uma calma invejável em meio àquele furor. Alguns seguranças também estavam ao seu redor e perto de seu carro, estacionado um pouco mais ao lado da confusão.
- Parece que o seu príncipe é a estrela da vez. – Proferiu irônico.
vestia um terno escuro visivelmente caro, que, como se fosse algum tipo de protocolo, caía ridiculamente bem em seu corpo, acrescentando os óculos escuros que o deixava – ainda mais – charmoso, protegendo seus olhos da claridade do fim de tarde. O cabelo propositalmente arrumado para parecer desalinhado completava a cena de comercial e eu mordi o lábio. Ouvi um risinho sarcástico e desviei os olhos de , dando de cara com o olhar debochado de Vicenzo. – Não acredito que eu estou vendo um conto de fadas moderno bem em frente aos meus olhos. – Expressou de modo teatral e eu ri.
- Cala a boca. – Falei, descendo da moto. – Obrigada pela carona.
- A seu dispor, Cinderela. – Brincou. Rolei os olhos reprimindo o riso e acenei para o vocalista, que mandou um beijo e arrancou com a moto.
Vicenzo era um caso sério.
Caminhei para dentro do condomínio e após alguns minutos andando, entrei na mansão, sendo recebida, como sempre, por um Bento alegre.
- Olha só quem está quase parando de mancar! – Abaixei-me acariciando o cão virado de barriga pra cima. – Hoje eu vi um ossinho de brinquedo na vitrine de um petshop e achei a sua cara. Quando eu receber o meu pagamento vou comprá-lo pra você. Eu ando te mimando muito, aliás. – Ri e dei-lhe um último afago atrás de suas orelhas. Levantei-me e me dirigi para casa dos a fim de cumprimentar a minha mãe, seguindo rumo à nossa casa em seguida. Durante o tempo em que eu caminhava alheia, ouvi um barulho de carro e me virei brevemente, reparando que estacionava o veículo na garagem. Ele saiu do automóvel e fez a mesma coisa que eu fizera momentos antes com Bento no instante em que o cão se aproximou do dono, esfregando-se em suas pernas. Ao recobrar a sua postura, olhou para frente e se deparou comigo o observando. Cumprimentou-me com o seu aceno de cabeça característico e eu sorri, como sempre fazia. Parecia um ritual. Segundos depois, ele quebrou o nosso – estranho – contato visual, entrando na mansão, também me acordando do transe em que eu me encontrava. Abri a porta de casa indo direto para o banho, cansada demais para pensar em qualquer outra coisa que não envolvesse uma xícara de leite quente e uma roupa quentinha.

**



“A tipologia psicológica não tem a finalidade, em si bastante inútil, de dividir as pessoas em categorias; significa, antes, uma psicologia crítica que possibilite a investigação e ordenação metódicas dos materiais empíricos relacionados à psique. É, em primeiro lugar, instrumento crítico para o pesquisador em psicologia que precisa de certos pontos de vista e diretrizes para colocar ordem na profusão quase caótica das experiências individuais.*”
Eu me empenhava em tentar ler a matéria da prova da próxima semana, entretanto, não conseguia me concentrar de forma alguma. Peguei o livro e segui porta afora em direção ao lugar cujo eu mais gostava daquela casa: o jardim onde se encontrava o banco-balanço. Eu não ia lá há alguns dias e já sentia falta da paz que aquele ambiente exalava. A noite fria não era um impedimento para que eu me sentasse ali, esquecendo do mundo durante o momento que eu lia ou simplesmente apreciava as flores maravilhosas espalhadas por toda área verde. Enquanto eu me aproximava do meu destino, parei de súbito no meio do caminho assim que vi que alguém havia chegado primeiro do que eu.
estava sentado no banco parecendo absorto em pensamentos durante o tempo que tragava lentamente o seu cigarro, produzindo uma fumaça que fora solta na mesma lentidão que a tragada. Os olhos cansados denunciavam que aquele provavelmente era o seu momento – talvez único no dia – de relaxar. A minha intenção era dar as costas e voltar pra casa, entretanto, a gravidade era uma grande inimiga minha, e ela, mais uma vez, atrapalhou os meus planos. Dei um passo para trás e pisei em falso em um graveto – que produziu um barulho irritante –, me desequilibrando e fazendo com que eu desse alguns passinhos ridículos e atrapalhados para o lado na tentativa de recuperar o equilíbrio e não cair de bunda no chão, atraindo a atenção de , que me olhou com a sobrancelha arqueada.
E segurando o riso.
Senti o meu rosto esquentar e desejei que as plantas me sugassem para debaixo da terra, o que, infelizmente, não aconteceu. Tive que encarar o homem que ainda me fitava divertido com aquela maldita expressão satírica no seu maldito rosto bonito.
- Você sabe mesmo fazer uma entrada triunfal. – Fez graça e eu apenas lancei-lhe um riso totalmente falso, o que fez finalmente rir.
- Que bom que eu te divirto. – Falei meio emburrada, tirando uma folha presa debaixo da minha bota. Constatei que ele observava o livro em minhas mãos, tornando a focalizar o seu olhar em mim.
- Veio levar o livro para passear ou você ia ficar aqui, mas desistiu ao me ver? – indagou mais direto impossível, voltando à sua posição anterior, mirando a paisagem do jardim e fumando tranquilamente.
- Vi que você estava pensativo e achei que seria melhor te deixar sozinho. – Admiti um tanto quanto embaraçada, vendo-o negar com a cabeça.
- Já falei que não precisa disso, . Pode ficar. Acho que esse é o nosso local para desestressar, afinal de contas. – Ele soltou um riso frouxo e eu o acompanhei, concordando. Sentei-me no banco observando-o de esguelha, sentindo uma atmosfera incomum no ar. – Você está melhor? – Perguntou, me analisando rapidamente antes de tornar a olhar para frente e eu estranhei o seu comportamento esquivo.
- Estou sim.
- Que bom.
Silêncio.
Atenta, estudei a sua face séria que contemplava um ponto qualquer daquele campo tão extenso. Diferente de todas as vezes, a sua postura não encontrava-se relaxada ou apenas normal.
O seu corpo parecia tenso.

(Escute Worldstop do Roy English a partir daqui).


Fitei o seu rosto mal humorado e notei olheiras abaixo dos seus olhos vermelhos, dando-o uma aparência de exaustão. Imediatamente algo se revirou dentro de mim. Ele sempre aparentou ser feliz com tudo o que tinha. O que o deixava tão insatisfeito? Por que o seu semblante carregava tanto pesar, mesmo quando sorria? Perdi-me em pensamentos, não notando que eu o fitava durante o meu devaneio. Os cabelos – sempre desalinhados – escondidos por uma touca e o moletom preto em nada combinavam com os ternos de alta costura que ele usava no dia-a-dia, contudo, parecia mais à vontade daquela forma. E, por Deus, ele conseguia ficar lindo até assim.
- Está tudo bem? – não me olhou. Somente assentiu e não moveu um músculo. Ver o seu olhar tão perdido era desconsolador. Talvez eu devesse deixá-lo sozinho.
Fiz menção de levantar-me do banco, contudo, sequer me movi dele quando me fitou, quase me assustando tamanha angústia em seu rosto.
- Não vai. – Ele pediu e eu pisquei algumas vezes, perdida com a súplica em meio ao seu tom de voz sempre grave. Voltei a me ajeitar no banco ainda o observando sem entender. tornou a olhar para frente da mesma forma que encontrava-se anteriormente. – Eu... Eu não quero ficar sozinho. – Cada palavra proferida por ele soava como uma confissão que tornava o meu coração pequeno. Ele abaixou um pouco a cabeça e, em silêncio, eu apenas o ouvi. – Desculpe por não estar sendo uma boa companhia, mas eu realmente queria a sua presença aqui.
As minhas mãos trêmulas e geladas suavam ininterruptamente em um nervosismo que produzia fortes batidas no meu coração acelerado. Aproximei-me de sua figura cabisbaixa perto o suficiente para fitá-lo melhor.
Seus olhos vermelhos ativaram uma onda de coragem até então desconhecida por mim, que me conduziu a erguer uma de minhas mãos e posicioná-la em seu rosto, levantando-o e fazendo-o olhar para mim. A fisionomia aflita denunciou que ele definitivamente não situava-se em seu estado normal. “Desvie o olhar, ” era o que o anjinho sentado em meus ombros provavelmente diria em meio àquela nova atmosfera permeando a mim e , que escorria os seus olhos por todo o meu rosto minuciosamente, retomando o contato visual após a sua breve avaliação. Imóvel, eu somente o fitava de volta, tentando entender o que se passava conosco naquele momento tão singular. Meu corpo imediatamente reagiu no exato momento em que, pela primeira vez, os seus olhos desceram até os meus lábios entreabertos, os fitando com uma atenção incontestável. O ar transpassava com dificuldade entre eles, embora o meu peito fizesse movimentos rápidos de sobe e desce tamanho nervosismo. Ele voltou a cravar os olhos cansados – porém sérios –, nos meus, escorrendo-os por eles analiticamente. Sem que eu percebesse, ambos já estávamos extremamente próximos e eu me perguntei se ele podia ouvir as minhas palpitações por sentir a sua respiração bater contra a minha boca. Encarei os seus lábios rosados pelo frio e passou a sua língua por eles, o que me deixou em um estado de urgência.
- Eu não sei decerto o que está acontecendo – começou e, a cada palavra que ele proferia, os seus lábios encostavam-se levemente nos meus em uma provocação despropositada, me incendiando por dentro – mas você pode se afastar se quiser. – Terminou com a voz baixa e rouca, me olhando intensamente. Sem tirar os olhos dos seus, eu neguei.
- Eu não quero. – Admiti. A minha voz saiu fraca, porém firme. Eu não estava apta a sucumbir à vontade sufocante de tê-lo ao menos naquele momento. deu um sorriso discreto e, com uma calma desesperadora, cessou a nossa distância no momento em que a sua boca quente e macia tocou delicadamente a minha, onde ambos apreciaram a textura uma da outra.
A sensação era deliciosamente sufocante.
Era como a realização de algo até então utópico.
Ele abriu os lábios minimamente e os encaixou nos meus de uma maneira cheia de vigor e eu reprimi um murmúrio de aprovação ao senti-lo pousar uma de suas mãos grandes na minha nuca e outra em meu rosto, em uma atitude de proteção prazerosa demais para se expressar por meio de palavras. Abri a minha boca diminutamente e um suspiro escapou ao sentir a língua de movimentar-se vagarosamente contra a minha, no qual nossos lábios acompanhavam os movimentos lentamente, contudo, sem deixar de ser enérgico. Posicionei a minha outra mão livre em seu rosto e o acariciei, sentindo o meu coração explodir ao notá-lo sorrir brevemente e os seus ombros relaxarem. O beijo foi se aprofundando gradativamente e eu não queria parar. As nossas bocas se exploravam e se conheciam com um vigor intenso demais para que fosse interrompido; Elas chocavam-se e se descobriam formando uma luxúria cada vez mais vívida, tornando os movimentos do beijo mais e mais insuficientes. Dei uma leve mordida em seus lábios e o meu corpo ferveu – mais – assim que o ouvi gemer dentro da minha boca, embrenhando os seus dedos pelo meu cabelo e puxando parcialmente alguns fios a partir da minha nuca.
Diminuímos a velocidade do beijo progressivamente, tornando a nos beijar de forma lenta até que ficássemos somente com os lábios encostados, ambos com a respiração extremamente desregulada, contudo, ainda assim, sem nos separarmos. As minhas mãos geladas permaneceram em seu rosto e, as suas, continuaram na minha nuca e em minha face ruborizada.
Nos olhamos estudando cada parte da face um do outro e faíscas rondaram todo o ambiente.
Meu coração batia rápido com o seu perfume impregnado em meu corpo e nariz. Eu podia ouvir o sangue pulsando em minhas veias em uma explosão de energia.
Não importa o que aconteceria depois. Aquele momento fez-se eterno e era só isso que importava para mim.

“Yeah I said you make my whole world stop. Cause you love me and you don't stop. Make my whole world stop...”

Quesitos: Determinada a realização do exame, a autoridade policial ou judiciária e as partes podem formular quesitos, ou seja, perguntas pertinentes à perícia e que versem sobre pontos a serem esclarecidos.

Mademoiselle: Palavra francesa que significa moça/mulher/senhorita.

Bonjour monsieur: Bom dia, senhor.

Tipologia Psicológica: Trecho tirado do livro "Tipos Psicologicos" de Carl Jung.




Continua...



Nota da Autora: OLHA SÓ O BEIJO DO OTP!!!!!!!! É TEEEEETRA!!!! Hahahaha Finalmente, né, mores?
Qualquer coisa, me procurem no grupo da fic ou no ask fm! Deixei os links ali embaixo. Até a próxima! <3

Grupo da Fic | Ask.Fm






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