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Última atualização: 27/05/2017

Capítulo 1


“Em paz, eu digo que eu sou o antigo do que vai adiante. Sem mais, eu fico onde estou, prefiro continuar distante...” – Resposta, Skank.


A noite estava fria, o vento forte fazia com que as folhas das árvores balançassem violentamente, indicando que certamente uma chuva intensa começaria a cair a qualquer minuto. Embora a temperatura estivesse baixa, frio era o que eu menos sentia naquele momento, haja vista que eu não parava um minuto sequer, pois me desdobrava entre colocar champagne nas luxuosas taças de cristal e arrumar os quitutes sofisticados na bandeja, a fim de que todos fossem levados dali pelos garçons e garçonetes contratados para aquele típico evento da classe alta. Olhei aquela cozinha abarrotada de pessoas que corriam de um lado para o outro, todas focadas em fazer o seu trabalho da maneira mais impecável possível, levando em conta que aquela era mais uma das tantas exímias festas da brilhante e popular família , conhecida por sua tradição no ramo de advocacia, onde Kyara e Henrico formavam o casal mais prestigiado nesta área.
Kyara é a advogada mais influente na área de Direito de Família, onde possui muito reconhecimento atuando com divórcios litigiosos – divórcios que ocorrem de forma não amigável, ou seja, onde há conflitos na vida conjugal e isso resulta em uma ação judicial – e já recebeu diversos prêmios, sendo, também, sócia de um renomado escritório. Henrico é advogado criminalista e dono de um dos mais poderosos escritórios de advocacia do país, adquirindo reconhecimento defendendo – e ganhando – casos famosos que obtinham cobertura jornalística, portanto, sendo recorrentemente citado pela mídia. Os dois tinham um filho, , que também decidiu seguir carreira em Direito, tendo se formado há pouco mais de três anos. Eles eram, definitivamente, louváveis neste quesito.
Olhei para o lado e vi que a minha mãe passava a mão na testa e suspirava, cansada, enquanto terminava de cortar alguns tomates. Fui até ela e gentilmente peguei a faca de sua mão, recebendo um olhar confuso em resposta ao meu ato.
- Deixa que eu faço isso, mãe. Senta um pouco – falei, já começando a cortar os tomates em pequenos cubinhos.
- Não precisa, filha. Você já está ajudando muito, nem era pra você estar fazendo isso. E toma cuidado, a faca está afiada – ela argumentou, tentando pegar a faca da minha mão, porém, eu a impedi.
- Você acha que eu sou tão desastrada a ponto de não conseguir cortar alguns tomates? – ela me olhou com deboche, como se nem precisasse me responder.
Fitei-a boquiaberta.
- Eu quero ajudar, não seja teimosa, dona – soltei uma risadinha com a cara resignada dela, já sabendo que eu não desistiria. Observei-a sentando-se em um dos bancos espalhados pela enorme cozinha e voltei a minha tarefa anterior, tomando cuidado para não me cortar.
Minha mãe trabalhava há muito tempo como cozinheira na casa dos , possuo diversas lembranças de vê-la cozinhar enquanto eu desenhava ou fazia lição sentada na mesa. Após a morte do meu pai, passei a acompanhá-la ao seu local trabalho diariamente. No momento em que comecei a escolinha, minha mãe me levava e, de lá, seguia para o trabalho; Já na volta, uma amiga dela me buscava e ia junto comigo até a mansão, o que se tornou desnecessário ao passo em que eu completava mais idade, adquirindo a possibilidade de ir e vir sozinha. Nesse tempo, eu via poucas vezes andando pela casa, afinal, ele sempre tinha diversas atividades para fazer, e comumente ouvia-se a dona Kyara o apressando para a aula de natação, hipismo, violão e tudo mais o que você pode imaginar.
Eu nunca consegui entender essa fixação que gente rica tem de enfiar os filhos em milhões de tarefas.
Com a morte do meu pai, a nossa situação financeira foi de mal a pior, chegando ao ponto em que nós corríamos risco de sermos despejadas da nossa casa devido à falta de pagamento do aluguel. Aquela época foi horrível, eu ainda era criança, não entendia ao certo o que havia de errado, contudo, via a minha mãe constantemente desesperada e sofrendo para conseguir quitar as dívidas. Isso não era possível somente com o seu salário, então, a dona Kyara ofereceu a casa dos fundos da mansão para que nós morássemos, contanto que isso não atrapalhasse o rendimento da minha mãe no trabalho. Era um anexo, tipo uma casa de caseiro que localizava-se aos fundos da moradia principal. Ela prontamente aceitou e moramos aqui até hoje. O dinheiro que ia para o aluguel e outras despesas fora investido na minha educação junto a uma quantia que ficava em uma poupança da qual meu pai deixara para mim, exatamente para este propósito, e, com isso, no primeiro ano do ensino médio, pude entrar em um ótimo e renomado colégio. No começo eu tive bastante dificuldade para conseguir acompanhar o ritmo do ensino – que era extremamente puxado – e, outra situação bem chata se deu ao fato de ter que lidar com os meus colegas de classe e até alunos de outros períodos. A grande maioria – se não todos – os alunos do colégio usufruíam de uma excelente vida financeira e viviam confortavelmente, e quando me questionavam a respeito da ocupação dos meus pais, eu ficava insegura em dizer-lhes que eu era bem diferente deles neste aspecto, afinal, as pessoas não sabiam lidar com desigualdades sociais e isso originava piadinhas e comentários maldosos. Mesmo assim, eu decidia falar, pois jamais tive vergonha da minha mãe ou de sua profissão.
Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio havia acabado de entrar na faculdade, optando por não se mudar para estudar em outro lugar, haja vista que, nessa época, a dona Kyara desenvolveu sérios problemas de saúde e, como o senhor Henrico viaja constantemente para fora do país, não quis deixar a mãe sozinha. passou em Direito em uma ótima faculdade – uma das melhores do país e que se localizava na cidade –, sendo, coincidentemente, a faculdade da qual eu sempre quis fazer parte. Tendo isso em mente, estudei muito, atormentei meus professores, fiquei dia e noite focada nos livros – muitas vezes levando bronca da minha mãe pela minha falta de descanso – e, finalmente, consegui a minha tão sonhada vaga. Agora eu me encontrava caminhando para o fim do curso de Psicologia, ansiando cada vez mais pelo dia em que eu concluiria a faculdade e, claro, pelo dia da minha tão sonhada formatura.
Eu terminava de cortar o último tomate no momento em que o bendito escorregou, fazendo a faca ir de encontro ao meu dedo indicador, formando um corte um tanto quanto feio. Soltei um murmuro de dor, vendo que o sangue saía descontroladamente do corte ao mesmo tempo em que sentia uma ardência latejante nele.
- , o que foi que eu te disse? – minha mãe brotou ao meu lado, olhando minuciosamente o meu dedo machucado.
- O tomate escorregou – choraminguei fazendo uma careta de dor, indo para a pia a fim de lavar o sangue.
- Toma, coloca esse papel pra controlar o sangramento – ela me entregou o papel e eu o enrolei no dedo – vou procurar um band-aid e mertiolate.
- , será que você poderia me ajudar aqui? – uma moça pediu, apontando para um amontoado de panelas.
- Tudo bem, mãe. Deixa que eu vou procurar – saí da cozinha e segui para o pequeno banheiro que ficava perto da área de serviço.
Abri os armários e busquei por todos os lugares, não encontrando nem o band-aid, tampouco o mertiolate. Bufei, segurando o papel mais firmemente em meu dedo e fui para a despensa onde ficavam os medicamentos e produtos para banheiro. Abri a porta e entrei no local, iniciando novamente a minha busca, sentindo o meu dedo latejar cada vez mais. Estava distraída mexendo nas prateleiras até que percebi uma movimentação no lugar. Virei-me e dei um pulinho idiota de susto ao ver que alguém havia entrado.
estava parado perto da porta, me olhando com a maior cara de interrogação possível.
Ele vestia uma blusa social justa da cor branca e as mangas estavam dobradas nos cotovelos; a gravata e a calça jeans eram pretas e, o sapato social, marrom escuro. Seu cabelo continha uma mistura de charme e rebeldia. Estava bonito e...
Opa, espera aí.
Mas o quê...?
É, eu estava o analisando demais.
Franzi o cenho com a minha atitude e saí do mundo da lua, voltando à realidade.
Percebi que o seu olhar encontrava-se direcionado para algo, segui a sua observação e vi que ele encarava o meu dedo machucado onde o papel estava amassado e manchado de sangue. Por instinto, eu recolhi a mão e lancei-lhe um sorriso sem graça quando ele voltou a me encarar com a sua costumeira expressão séria. Virei-me novamente para a prateleira, agradecendo aos céus por finalmente encontrar o band-aid e o mertiolate. Peguei ambos e ainda estava parado perto da porta, passando os olhos pelas prateleiras, parecendo perdido ao procurar por algo enquanto me esperava sair, já que o lugar não era grande o suficiente para nós dois.
- Eu posso ajudar? – perguntei sutilmente a ele, que desviou os olhos da despensa e voltou a me fitar.
- Não, pode ir – sua voz grossa sutilmente rouca fez-se presente.
Assenti e saí, querendo fazer o curativo o mais rápido possível.
- Ta tudo bem? – a voz grave soou novamente. Parei de andar e olhei pra trás, confusa. Ele permanecia parado perto da porta, porém, agora, suas mãos estavam no bolso de sua calça e o seu semblante permanecia sério. Percebendo que eu não entendia sobre o que ele estava falando, apontou com a cabeça para o meu dedo machucado.
- Ah, sim. Tudo bem. É só um cortezinho – respondi abanando com a mão como se aquilo não fosse nada. Percebendo o seu silêncio, sorri em despedida, pronta para, definitivamente, sair de lá. Ele retribuiu com um aceno de cabeça e eu voltei a andar, apressada para cuidar do corte e tornar a ajudar a minha mãe.
Eu morava aqui há muitos anos, e, em todo esse tempo, o máximo que e eu falávamos um para o outro era “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Bom... Às vezes ele também me perguntava se eu sabia onde estava algo.
De vez em quando eu tinha a impressão de que ele não ia muito com a minha cara, e a ideia de incomodá-lo me deixava incomodada.
passava o dia inteiro no escritório e eu, na faculdade. Aos sábados, eu trabalhava meio período em uma loja de discos, chegando à tarde, e dificilmente via o carro de na garagem. Terminei de colocar o band-aid no meu dedo e parei com os devaneios, voltando para a cozinha e encontrando todos da mesma forma: trabalhando.
- Pensei que tivesse se perdido pelos cômodos – minha mãe comentou em um tom brincalhão.
- Fiquei procurando as coisas, tive que ir até a despensa – respondi – O que eu faço agora? – indaguei olhando em volta.
- Por enquanto nada, filha. Pode descansar. Se eu precisar de algo, te chamo – ela preparava alguns quitutes que pareciam maravilhosos. Eu peguei um e recebi um olhar repreendedor. Ri e olhei pela janela, percebendo que, como previsto, uma chuva tórrida começava a cair.
De longe, ouvia-se a melodia suave de alguma canção. Fui à sala de jantar e me aproximei cuidadosamente da porta que dava para a enorme sala de estar, onde a festa acontecia. Tentei ficar o mais escondida possível, dado que não desejava parecer curiosa ou intrometida. Eu apenas gostava de apreciar o ambiente e as sempre lindas decorações que eram criadas. Diversas pessoas encontravam-se distribuídas por ali, todas em seus trajes luxuosos, rindo e conversando, como no mais perfeito comercial de leite em pó. Os garçons circulavam entre os convidados com bastante habilidade, tudo na mais primorosa ordem enquanto distribuíam canapés e bebidas, servindo e entregando taças a quem não tivesse uma. Continuei passando os olhos pelo local, parando em um seleto grupo de pessoas, e, no meio delas, estavam e sua namorada, Cassie. Eles comunicavam-se com os outros distribuindo sorrisos e risadas.
estava despojadamente com um dos braços ao redor dos ombros dela, que, por sua vez, mantinha um dos próprios braços envoltos na cintura dele. Dei um sorriso frouxo e suspirei, focando a minha atenção em outro lugar.
- Você nunca ouviu falar que espiar é feio? – uma voz soprou em meus ouvidos, me fazendo pular sobressaltada devido ao susto. Olhei para trás imediatamente e, quando vi de quem se tratava, rolei os olhos. Tratava-se de , melhor amigo do . - Não tinha uma frase menos clichê do que essa? – rebati, fazendo a maior cara de tédio que consegui.
- Boa noite, . Aproveitando a festa? – ele parou na minha frente com um sorriso enviesado carregado de prepotência. Respirei fundo.
- Quem não deve estar aproveitando a festa é você, já que teve que vir aqui me encher o saco – lancei-lhe um olhar de desprezo, cruzando os braços e continuando a olhar o evento, ignorando , que estava ao meu lado.
- Ouch, como você está arisca. Assim eu fico magoado – retrucou com um tom que emanava falsa ofensa. Revirei os olhos e resolvi que era melhor sair dali. Dei as costas e andei em direção à cozinha, não sem antes ouvi-lo dizer pela última vez: – Já vai? A minha presença te afeta tanto assim?
Parei no meio do caminho, direcionando-lhe um olhar atravessado e um sorriso cheio de desdém.
- Pra me afetar tanto assim – frisei – a sua presença teria que me afetar pelo menos um pouco, o que não é o caso. Eu simplesmente não costumo dar atenção ao que nada me acrescenta – sorri cinicamente enquanto ele me fitava com a feição zombeteira e voltei para cozinha sem olhar pra trás.
O resto da noite seguiu normalmente. Permaneci tão ocupada que nem mesmo havia notado em como as horas passaram rápido. Olhei no relógio de parede e me assustei ao ver que ele marcava 2h35min. Os responsáveis pela limpeza da cozinha já guardavam os utensílios dos quais estavam fora do lugar, asseando, ensaboando e varrendo a fim de deixar a cozinha impecavelmente limpa.
- , filha. Pode ir pra casa, você trabalhou hoje. Eu vou ficar aqui e terminar de ajudar – minha mãe disse, aparentando estar tão cansada quanto eu, ao passo que secava a louça. Neguei com a cabeça, pegando o prato que ela acabara de secar e guardando-o.
- Vocês duas já podem ir, tem mais gente pra ajudar aqui – Judith apareceu em nossa frente, sorrindo ternamente. Ela era uma simpática senhora que ocasionalmente auxiliava nas festas e na cozinha, e eu a tinha como uma avó. Minha mãe abriu a boca para contradizer, porém, Judith levantou uma mão, mostrando a palma da mesma como se dissesse que não aceitaria ser contestada. Sorrimos para ela e nos despedimos do restante das pessoas que ali estavam, saindo pelos fundos e seguindo para a nossa casa. A temperatura parecia ter caído um pouco mais após a chuva ter cessado, e tudo o que eu pensava era na minha cama quentinha. Assim que me viu, Bento, o cachorro de , veio correndo em minha direção, esfregando-se na minha perna pedindo carinho. Ele era um pastor alemão extremamente carinhoso e não podia me ver que não desgrudava de mim.
- Olha só quem apareceu! Você sabe que o seu dono vai pirar quando perceber que você saiu e molhou as patas, não é? – falei pra ele enquanto acariciava atrás de suas orelhas. Bento me encarava como se me entendesse, e eu podia jurar que esse cachorro começaria a falar algum dia. Sério. Olhei pra frente e percebi que e Cassie despediam-se de , que entrava em seu carro, pronto para ir embora. e eram melhores amigos há anos, na época em que me mudei pra cá, eles já eram próximos e faziam tudo juntos – Vai lá com o seu dono que ele está te procurando, amanhã eu prometo que brinco com você – Bento tombou a cabeça para o lado e não se moveu – Vai, olha lá ele vindo – ri e acariciei suas costas, enxergando, de longe, vindo ao encontro do seu cachorro, que me olhou uma última vez, finalmente correndo para o dono.
Ele passou as mãos na cabeça do cão, fitando suas patas e falando algo que eu não pude escutar. Os dois seguiram para dentro da mansão acompanhados de Cassie, que os aguardava do lado de fora. Presumi que ela provavelmente dormiria lá. Senti a brisa gélida bater contra o meu rosto e apressei-me para entrar em casa, já percebendo o meu nariz esfriar devido ao frio. Tomei um banho quente e cai na cama, adormecendo velozmente.



Capítulo 2


O esperado é só o começo, mas é o inesperado que muda nossas vidas. – Meredith Grey.


O domingo havia amanhecido ensolarado, embora a temperatura não estivesse alta. O céu estava limpo e extremamente azul, nem parecendo que uma forte chuva caíra na noite anterior. Eu brincava com Bento no gramado descampado há horas, já me sentia cansada e com dor nas pernas – sedentarismo mandou olá, – não vendo um mísero sinal de exaustão no pastor alemão, que procurava a bolinha que eu acabara de jogar. A casa estava vazia, pois, mais cedo, todos foram tomar café da manhã fora e acompanhar o senhor Henrico ao aeroporto, pois ele viajaria dali a poucas horas.
- Não, Bento! Na lama não. – corri para tentar alcançá-lo e impedi-lo de ir para o jardim, caso o contrário, o estrago seria muito feio. – BENTO, VOCÊ QUER ME VER MORTA? VOLTA AQ... – ia terminar de gritar pelo cão que corria feliz em direção ao seu destino proibido, até que tropecei nos meus pés, caindo igual abacate cai do pé. Como em um passo mágica, Bento parou imediatamente de correr e olhou para trás, e acredite, se cachorro desse risada, ele estaria rindo. Eu estava estatelada no chão sentindo as minhas roupas sujas com a grama ainda úmida da noite de ontem. O cão veio em minha direção, sentando-se na minha frente, e eu bufei, visto que ele finalmente parou de correr, mas eu precisei levar um tombo feio para que isso acontecesse.
- Está satisfeito? Hoje o Taz-Mania* possuiu você ou coisa do tipo? – e lá estava eu, batendo papo com um cachorro que me observava como se eu fosse louca, enquanto permanecia jogada na grama, bem do jeito que caí. – até que é gostoso ficar deitada aqui, sabe? Acho que dá pra te entender. – virei de barriga pra cima, me rendendo, já que as minhas roupas encontravam-se sujas de qualquer forma, e encarei o céu límpido. Bento deitou-se ao meu lado e eu comecei a acariciá-lo. Não sei por quanto tempo fiquei daquela forma, me sentindo totalmente relaxada, porém, despertei subitamente ao ouvir aquela voz grave, que parecia estar perto demais.
- Bento! – chamou, atraindo a atenção do cachorro que levantou a cabeça com as orelhas arqueadas. Ergui-me rapidamente, passando as mãos na minha roupa repleta de grama, um tanto quanto atordoada. estava com uma roupa de corrida e a coleira do Bento em mãos, alternando o seu olhar entre mim e o cão, já posto de pé ao meu lado. Ele fez o típico cumprimento acenando a cabeça e eu lhe respondi com um sorriso, já saindo dali quando repentinamente senti um tranco no meu corpo e mais uma vez o baque do chão. Bento pulou em mim, me levando a cair de bunda, começando a me farejar e intercalando o ato com lambidas frenéticas no meu rosto. O que tinha dado naquele cachorro? Eu fui pega totalmente de surpresa e só conseguia tapar o rosto e rir, tentando me levantar e me liberar do cão eufórico.
- Bento, para! – falava e tentava, com dificuldade, afastá-lo. Vendo que seu cachorro não pararia tão cedo, ele veio por trás de mim, passando seus braços por debaixo dos meus e me levantando de uma vez só e, no ato, as minhas costas bateram contra o seu peitoral, nos fazendo cambalear um pouco para trás. Como se percebesse o meu embaraço, Bento parou com a exaltação e passou a encarar a mim e , que me soltou delicadamente, indo colocar a coleira nele. Passei a mão nos meus cabelos na tentativa de ajeitá-los um pouco, ainda atônita.
- O que te deu, hein, cara? – perguntou para o cão, que fingia que nem era com ele e pousou seus olhos em mim. – Ele machucou você? – questionou, me analisando, e eu neguei.
- Não, ele só está um pouco agitado hoje. – respondi e ele concordou com um maneio de cabeça.
- Vou cansá-lo mais um pouco, então. – deu um singelo sorriso ladino. – tem grama no seu rosto. – avisou e saiu com um Bento saltitante. Eu dei um sobressalto, passando as mãos nas bochechas rapidamente, já vendo os dois se afastarem e começar o seu cooper com o pastor alemão. E novamente a cena de comercial estava lá.
Voltei para casa e encontrei minha mãe estudando algumas receitas de bolo, que era o que ela mais gostava de fazer.
- Que bom que você está em casa. – comemorei ao vê-la sentada lendo.
- Consegui terminar tudo mais cedo. – sorriu satisfeita. – o que aconteceu com você? Está toda suja de grama e terra. – disse, me analisando.
- O Bento estava feliz demais e me fez ir de encontro com o chão duas vezes. – ri, indo em direção ao banheiro, afinal, precisava urgentemente de um banho.

**

Assim como o domingo chegou rápido, passou na mesma proporção. A segunda-feira iniciou-se preguiçosa como de costume, e cafeína era o que me mantinha desperta àquela manhã. Estávamos na última aula e aguardávamos o professor chegar, durante esse tempo eu conversava com , minha melhor amiga e colega de sala. Nós nos conhecemos no primeiro dia de aula da faculdade, não nos desgrudando desde então. Ela era uma pessoa incrível. Embora tenha a mesma condição financeira de e a maioria das pessoas que eu conhecia, nunca torcera o nariz ou me tratou com indiferença por saber que a minha classe social estava muito abaixo da dela. Parece absurdo ficar feliz por algo que deveria ser normal – saber lidar com diferenças, principalmente diferenças sociais – no entanto, pode acreditar... Não é.
- Como foi a festa dos ? Ontem a Cassie postou essa foto com o questionou, levantando o celular para que eu visse a fotografia dos dois abraçados. Cheguei à conclusão de que ele deveria sorrir mais, uma vez que ele ficava ainda mais bonito enquanto sorria. Torci o nariz e dei de ombros.
- Foi como todas as outras festas, inclusive a parte em que o aparece e tenta me irritar de alguma forma. – falei e vi a feição da minha amiga se transformar de calma, para raivosa. Ela detestava o e eu não a culpava.
- O que aquele traste fez dessa vez?
- Ele apareceu perguntando se eu estava aproveitando a festa, todo cínico. Eu dei uma resposta ignorante e ele começou com aquele papinho de que a presença dele me afeta – fiz uma cara de desgosto e me acompanhou.
- E o que você disse?
- Mantive a pose e basicamente respondi que não me afetava e que eu não perdia tempo com o que nada me acrescentava.
- Amiga, que baita frase efeito. Adorei! – ela exclamou, batendo palminhas. Ri e continuei.
- Eu quero distância do – falei, soando firme. – a parte de mim que se afetava por ele desapareceu, tudo o que eu sinto é desprezo. – finalizei, sentindo a tão conhecida mágoa ressoar pela minha voz. sorriu em compreensão e colocou a mão por cima da minha, acariciando-a.
- Está certíssima, . Estou orgulhosa de você! – disse sorrindo e eu sorri de volta em agradecimento.
O professor entrou na sala e todos ficaram em silêncio. – finalmente – dando início a tão esperada última aula.

**

’s POV

- Esse relatório está incompleto, Thompson – chamei a atenção de um dos advogados do escritório pela milésima vez. Meu pai deixava os documentos de diversos casos sob minha responsabilidade sempre que ele viajava, o que eu sabia que gerava inúmeros comentários sobre eu ter preferência ou abusar do poder, já que era filho do dono. Não me importava com isso, afinal, eu era realmente muito bom no que fazia, e, conhecendo o meu pai – que venerava seu trabalho como um bom workaholic* – ele não me deixaria no comando de nada caso soubesse que eu não possuía competência para tal. Eu também detinha consciência de que todos – senão a maioria – das pessoas me denegriam pelas minhas costas por eu repreendê-los. Bom, se você percebe que algo está errado, ou extremamente longe do seu melhor, você toma as devidas providências, não é mesmo? O mais interessante de tudo é que essas mesmas pessoas que me criticam em minha ausência, puxam meu saco quando estou presente. Incoerente? Eu sei. Olhei no meu relógio de pulso e vi que a hora do almoço se aproximava, agradecendo mentalmente por isso, pois sentia leves pontadas na cabeça, indicando que ela começaria a doer a qualquer momento. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para Cassie, minha namorada, avisando que a pegaria dali a 30 minutos para almoçarmos juntos, como fora combinado hoje mais cedo. Poucos segundos depois, recebi sua resposta.

Desculpa, amor. A redação está uma loucura e eu vou almoçar por aqui mesmo. Remarcado pra amanhã?

Suspirei, já vendo que teria que comer sozinho.

Tudo bem, princesa. Bom trabalho ;)

Levantei-me, guardando o celular no bolso do meu terno e pegando minha carteira junto às chaves do carro, saindo para almoçar. Cassie era filha de um dos amigos do meu pai e havíamos nos conhecido em um dos eventos que sempre ocorrem nesse meio dos negócios. Para mim, eles serviam apenas para exibição e para manter futuros contatos lucrativos, contudo, como funcionava, eu apenas me mantinha neutro. A minha família a adorava, sempre comentando em quão sortudo eu era por ter ao meu lado alguém de tão boa índole e vinda de um meio tão influente. A verdade é que eu estava pouco me fodendo a respeito do renome da sua família – coincidentemente também de advogados –, visto que estava com Cassie porque gostava dela, e só. Eu sabia que o nosso namoro era pertinente para os meus pais, uma vez que eles jogavam variadas indiretas sobre como seria incrível se nós nos casássemos, concedendo uma oportunidade para a expansão do escritório junto a família da minha namorada, iniciando uma poderosa sociedade. Ouvir tudo aquilo me deixava extremamente desconfortável, dando a entender que o meu relacionamento não passava de negócio para eles.
Resolvi que almoçaria em um belo restaurante localizado próximo a minha antiga faculdade, já sentindo falta da refeição maravilhosa da qual eles serviam. Passei com o carro na frente do campus, sendo atingido em cheio pela nostalgia provinda daquele lugar. Percorria os olhos pela rua distraidamente, até que avistei uma figura conhecida. Era , filha da , a mulher que trabalhava como cozinheira lá em casa. Ela conversava descontraída com uma garota que caminhava ao seu lado, rindo vez ou outra, carregando vários livros em seus braços e uma bolsa enorme nos ombros. Imediatamente fiz uma careta ao imaginar como aquilo estaria pesado. Eu não possuía opinião a seu respeito, tão pouco sabia algo sobre a sua vida, porém, ela parecia uma boa garota. Pelo que já pude observar, ela era bem reservada, um tanto quanto desastrada - pra não falar desajeitada –, adorava meu cachorro e eu havia acabado de descobrir que a sua risada despertava uma imensa vontade de rir junto. Ela era normal, comum. Definitivamente existia alguma coisa instigante nela, o seu conjunto certamente a tornava interessante. Franzi o cenho posteriormente a essa constatação, percebendo que a estudara por tempo demais, ouvindo ao longe o som estranhamente engraçado de sua gargalhada, fazendo-me rir também. Balancei a cabeça e acelerei com o carro em direção ao restaurante, já com o pensamento no processo de um importante caso do qual eu estava acompanhando.

**

’s POV

Puta merda, puta merda, puta merda.
Eu corria de um lado para o outro no meu quarto, pegando as primeiras peças de roupa que eu via na frente e vestindo-as desajeitadamente, tentando escovar os dentes ao mesmo tempo em que juntava o material da faculdade. Eu havia passado a noite anterior trabalhando até tarde no meu projeto do TCC e acabei indo dormir altas horas da madrugada, motivando o meu atraso no dia de hoje. Acordei com a minha mãe me chamando para perguntar se eu me sentia bem e se iria à aula, visto que o horário passara e eu ainda não tinha levantado. Como possuía carro, ela me buscava em frente ao condomínio – que não era longe de sua casa – e íamos juntas para a faculdade, entretanto, nem as suas ligações conseguiram me acordar.
Despertei em um pulo sentindo-me totalmente desatinada e permanecia dessa forma, agora, olhando o meu reflexo no espelho e querendo chorar ao ver o desastre capilar do qual eu me encontrava. Aproveitei o tempo frio e peguei uma touca a fim de disfarçar – ao menos um pouco – aquela situação horrível na minha cabeça e empenhei-me em ignorar a minha cara que se encontrava tão ruim quanto o meu cabelo, jogando a bolsa nos ombros e pegando os livros de qualquer jeito. Praguejei a chuva torrencial que caía, tremendo ao sentir uma forte rajada do vento gélido me atingir em cheio. Disparei porta afora correndo como se a minha vida dependesse disso, ao passo que buscava equilibrar o guarda chuva em minhas mãos também ocupada pelos livros e lutava para não deixar a minha bolsa cair dos meus ombros. Aquela cena deveria estar ridícula por muitos motivos.
1 – Eu parecia uma pata correndo.
2 – Eu estava correndo enquanto meus livros desequilibravam-se das minhas mãos.
3 – O meu guarda-chuva mais me molhava do que me protegia.
4 – A minha aparência se assemelhava com a aparência de alguém que havia acabado de sair da boca de um cachorro. Eu sei que isso não é possível, mas tente imaginar algo parecido. É bem ruim, não é? Sim, é.
Essas eram somente algumas das razões, as outras eu perdi no meio do caminho quando percebi que um carro acompanhava a minha corrida ridícula. Torci para quem quer que estivesse o dirigindo não inventasse de passar por uma poça d’água, me deixando ainda mais molhada e piorando o que já estava ruim. Tive a sensação de que aquele carro não me era estranho, confirmando a minha constatação ao ver o motorista do mesmo.
.
Eu estranhei aquilo e decidi continuar o meu caminho enquanto meio-que-andava-meio-que-corria, não sabendo o que ele queria. Rir da minha situação? Tudo bem, que vá em frente. Ele abaixou os vidros à medida que eu o observava de canto de olho.
- Ei! ! – ele gritou e eu parei. O encarei com cara de paisagem, tentando enxergá-lo em meio à chuva grossa – entra! – Vi que ele destravou a porta do carro e franzi o cenho em total confusão. Desde quando ele me oferecia carona?
- O quê? – respondi em um misto de incredulidade e dúvida, aumentando o tom de voz para que me ouvisse devido ao barulho da chuva. Este, me fitava com o típico semblante que exalava seriedade.
- Entra! – repetiu. Permaneci com a mesma feição confusa já achando que aquele dia estava totalmente do avesso.
- Ahn... Não, está tudo bem. Obrigada – respondi sorrindo sem mostrar os dentes e voltei a andar, me encolhendo devido ao frio.
- Não parece que está – ele retrucou com um tom cínico. Respirei fundo e coloquei o sorriso mais convincente que eu tinha no rosto, pronta para dizer-lhe que eu podia me virar, porém, um trovão estrondoso ecoou e me fez pular, fechando os olhos em aflição. Quando os abri, vi que me observava com uma expressão debochada. Era estranho vê-lo com outra feição que não fosse séria, e, naquele instante, eu decidi que não gostava desse deboche explícito em seu rosto. Mais um trovão ecoou e eu me peguei em um dilema. Ou eu mantinha a minha teimosia em tacto e perdia a prova, ou cedia e aguentaria alguns minutos embaraçosos estando no mesmo carro que .
Eu não podia perder a prova e já estava atrasada o suficiente.
Suspirei derrotada e fechei o guarda-chuva, correndo e entrando no veículo rapidamente.
deu partida e um clima totalmente esquisito tomou conta do local, exatamente como eu previ. Após enrolar o guarda-chuva em sua capinha, coloquei-o dentro da minha bolsa, temendo que eu molhasse o estofado do banco e estragasse alguma coisa muito cara. O carro estava quentinho e eu finalmente sentia os meus dedos novamente, quase sorri de alívio, se não fosse... Bem, se não fosse essa situação inusitada e o aroma agradável do perfume de , que invadiu as minhas narinas. Minha bota encontrava-se encharcada e eu encolhi os ombros, acanhada.
- Estou molhando o carpete. – murmurei pesarosa.
- Não tem problema. – respondeu sem mover os olhos da rua. - Você vai pra faculdade, não é?
- Sim. – a minha fala deixava transparecer toda a minha introversão mesmo que eu tentasse não soar tão pouco à vontade. pareceu não ligar, apenas assentiu e continuou dirigindo tranquilamente. Eu desviei meus olhos da paisagem borrada pelo movimento do carro e pela chuva, observando-o de canto de olho. Ele vestia uma blusa social branca, seu terno era preto – perfeitamente alinhado ao seu corpo –, a gravata vinho contrastava com as cores escuras e, por cima, um casaco também da cor preta finalizava o seu visual de maneira esplêndida. Parei de examiná-lo como uma idiota e voltei a minha atenção à rua banhada pelas grossas gotas de chuva. Eu estava imersa em pensamentos até que o seu celular tocou, tirando-me do torpor do qual eu me encontrava. colocou em seu ouvido um aparelho para atendê-lo, aceitando a ligação em seguida.
- Bom dia, amor. – ele saudou a pessoa do outro lado da linha. Obviamente essa pessoa tratava-se de Cassie. Imediatamente me senti desconfortável, afinal de contas, presenciava um diálogo pessoal. – De novo? Sei... Entendi. Fazer o quê, né? Não, amor. A gente conversa mais tarde, ok? Estou dirigindo. Beijo. – finalizou a ligação e deu um suspiro resignado. Ele parecia incomodado. Eu olhava as minhas unhas como se elas fossem muito importantes e dignas da minha atenção, agradecendo mentalmente no momento em que reconheci o campus da faculdade.
estacionou e destravou a porta do carro, mexendo em seu celular ao mesmo tempo em que aguardava para que eu saísse. Eu desprendi meu cinto, arrumando com pressa a minha bolsa e os livros em meus braços.
- Obrigada. – virei-me para ele e sorri amigavelmente. Ele desviou os olhos do celular e me olhou.
- Por nada.
Sorri mais uma vez e saí do carro fechando a porta atrás de mim, vendo-o dar partida e sumir do meu campo de visão segundos depois. Corri em direção a minha sala, não sem antes notar um grupo de pessoas me fitando e cochichando. As ignorei e continuei correndo, torcendo para que a professora me deixasse fazer a prova mesmo estando extremamente atrasada.

**

’s POV

Eu elaborava a tese de defesa do meu cliente estudando minuciosamente todos os argumentos que poderiam ser utilizados a fim de conseguir sua absolvição. Este seria o meu primeiro caso com cobertura da mídia, e isso estava me deixando um tanto quanto nervoso, afinal, a acusação leva uma vantagem muito grande, visto que é mais fácil acusar do que defender. Lee Feldmann era empresário e havia sido acusado de assassinar o banqueiro Mason Zummack, mas estava bem nítido que por trás disso havia alguém querendo incriminá-lo por meio de uma falsa acusação, e eu não permitiria que uma condenação injusta levasse um inocente para a cadeia. Eu havia conseguido uma revogação da sua prisão preventiva, porém, ele ficaria em prisão domiciliar até o dia do julgamento. Larguei os papeis sob a mesa por alguns segundos e apoiei os cotovelos nela. Massageei as têmporas e soltei um suspiro cansado, repassando tudo o que me fora dito a respeito do dia do assassinato de Mason.
O crime ocorrera em um sítio afastado da cidade, onde acontecia uma festa que reunia diversos empresários extremamente bem sucedidos. Todos foram interrogados e nada que eu pudesse usar a meu favor foi dito, o que só me deixava cada vez mais nervoso, pois encontraram a arma do crime no estofado do carro do meu cliente. As câmeras, que seriam de extrema ajuda, pararam de funcionar no início do evento, só deixando pior o que já estava ruim. O culpado estava presente naquela noite e era um dos empresários convidados, e eu, com certeza, iria pegá-lo. Encontrava-me focado neste caso desde o momento em que pisei no escritório hoje mais cedo, logo após deixar na faculdade. A cena cujo eu presenciei esta manhã saindo do condomínio só não fora mais engraçada, porque a situação da garota era realmente de dar pena. Ela corria totalmente atrapalhada conforme a forte carga d’água caía e fazia o seu guarda-chuva tornar-se inútil, os seus livros escorregavam de sua mão e eu podia apostar que aquela bolsa despencaria no chão a qualquer instante. Pressupus que perdera a hora, o que só confirmou a minha suspeita ao ver a sua cara de sono ao me encarar com o semblante repleto de confusão. Comovido pelo que avistei, ofereci uma carona a ela, que, para minha surpresa, relutou em aceitar. Seu embaraço estava evidente na forma como fixou o olhar na janela e só o desfez para mexer em suas unhas, claramente sem jeito por estar ali comigo. Eu não a condenava, a sua atitude era plenamente cabível levando em conta que a nossa socialização era um tanto quanto limitada. Cassie desmarcara novamente seu almoço comigo, pois hoje era aniversário de uma amiga sua, que planejou uma reunião no mesmo horário. Apesar de me sentir frustrado, disse que estava tudo bem, e, ao ser questionado pela minha namorada sobre eu estar chateado, neguei. Inclusive porque não adiantaria nada, de qualquer forma. No fim, eu almocei sozinho novamente e me enfiei em minha sala a tarde inteira.
Batidas na porta me tiraram do meu pequeno devaneio. Murmurei um “entra” e a figura de Thompson fez-se presente.
- Com licença, . Vim saber se você quer algum auxílio com o caso do Lee Feldmann. Deve estar difícil conseguir formular algo já que é a sua primeira defesa importante – ele ofertou e embora eu estivesse agradecido por sua boa vontade em ajudar, senti-me ofendido com o “deve estar difícil”. Não estava fácil, porém, nada que eu não estivesse apto a resolver.
- Obrigado, Thompson. Não será preciso, tenho tudo sob controle por aqui. – sorri em agradecimento e educadamente recusei.
- Fico a disposição para qualquer eventualidade. – eu assenti e ele retirou-se sem demora. Fitei os papeis e tornei a lê-los, ignorando a dor de cabeça que insistia em me incomodar.

**

22hrs15 min.
Saí do escritório mais tarde do que planejava. Dirigi com destino à minha casa implorando mentalmente por um banho quente seguido da minha cama, tendo meus ombros rígidos e uma sensação incômoda de peso tomar conta dessa mesma região. Embora estivesse esgotado pelo cansaço, grande parte de mim vibrava por ter conseguido pontuar diversos detalhes importantes na tese do caso Feldmann. Decidi que marcaria uma reunião com o meu cliente a fim de acertar o que não havia ficado claro nas conversas anteriores, auxiliando-o sobre como deveria se portar dali em diante até o dia da audiência de seu julgamento. Logo que cheguei, estranhei o fato de Bento não vir ao meu encontro como ele normalmente fazia no momento em que eu estacionava o carro, e, procurando pelos arredores da residência, o avistei deitado ao lado de , que estava sentada em um banco de madeira localizado na pequena varanda da modesta casa em que morava com sua mãe. Uma coberta encontrava-se enrolada em seu corpo e também cobria o meu cachorro. Ela lia alguma coisa, passando o marca texto em algumas palavras. Lembrei-me do dia no qual a minha mãe deu a notícia de que as duas se mudariam para cá, ocupando o que antes era apenas um lugar que eu utilizava para as sociais com os meus amigos no início da minha adolescência.

FLASHBACK

Sexta feira à noite geralmente significava uma coisa: As habituais reuniões que ocorriam sempre na casa aos fundos da minha. , eu e mais alguns amigos do colégio nos juntávamos para fazer o que qualquer adolescente fazia: merda nenhuma que prestasse. Nós decidíamos sobre quem iria até a minha casa com objetivo de pegar cerveja – escondido – no bar do meu pai, e, naquele momento, era a minha vez. Eu caminhava sorrateiramente pela sala, até que a minha mãe simplesmente surgiu do nada, quase me matando do coração.
- Onde você está indo, ? – questionou com o seu olhar desconfiado. Eu paralisei ali mesmo e respirei fundo, tentando achar uma desculpa cabível.
- Eu? Ah... Eu estava procurando a . Queria saber se os sanduíches estão prontos. – respondi na maior naturalidade possível, agradecendo pela desculpa repentina que eu acabara de inventar. Minha mãe continuou me fitando intrigada, mas pareceu se convencer. Segurei-me para não soltar um suspiro aliviado.
- Os sanduíches estão na cozinha – frisou. – e a já foi embora. Gostaria de falar sobre isso com você, aliás. Preciso que você tire suas coisas da casa perto da piscina.
Olhei-a ultrajado, não acreditando no que ela havia acabado de dizer.
- Por quê? Como assim? – questionei mal humorado.
- A está com alguns problemas, então ofereci a casa da piscina para que ela e a sua filha morassem. – explicou e isso não diminuiu a minha revolta.
- E o que eu tenho a ver com isso? Onde eu vou fazer as reuniões com os meus amigos?
- Não fale assim, . – repreendeu-me com o tom de voz duro e eu encolhi um pouco os ombros. Quando minha mãe ficava brava era de dar medo em qualquer um e eu imaginei que isso a ajudava muito no seu trabalho. – você e seus amigos podem fazer isso em outro lugar, eu não posso ficar sem cozinheira. Ela tinha vários problemas para resolver e faltava demais, essa foi a única saída, então não quero mais ouvir qualquer relutância da sua parte.
Suspirei derrotado, sem ter como argumentar.
- Eu tenho até quando pra esvaziar a casa?
- Até domingo. – assenti desanimado e fui dar a notícia aos garotos.
Naquele final de semana, no domingo, para ser mais exato, conheci . A garota mais nova de semblante envergonhado me encarava com curiosidade e abaixava o olhar vez ou outra, enquanto eu devolvia o olhar, porém, emburrado.


FIM DE FLASHBACK


Balancei a cabeça em negação, quase rindo por meu egoísmo naquela época e agradecendo pela minha mudança de valores. Aproximei-me um pouco até ficar visível para o meu cachorro, que, assim que me avistou, levantou a cabeça com as orelhas arqueadas e começou a balançar o seu rabo energeticamente, porém, não desceu do banco. Coloquei as mãos no bolso da minha calça e ergui uma sobrancelha, sem entender.
Eu era dono de um traíra.
- Ei, o que foi? Por que você ficou agitad... – iniciou a fala, mas deixou a frase morrer ao desviar a sua atenção das folhas e acompanhar o olhar do Bento, dando de cara comigo ali.
- Depois de mim, você é a única que ele obedece e é carinhoso desse jeito. – comentei. Ela olhou para o cão que ainda balançava o seu rabo alegremente, porém, agora deitado e relaxado com a cabeça sob suas patas dianteiras.
- Ele é uma ótima companhia. – acariciou por trás de suas orelhas e sorriu. Eu concordei com a cabeça.
- Bento, vem! - bati a mão em minha perna algumas vezes para chamar sua atenção e fazê-lo vir até mim. Ele olhou para e pulou do banco, andando em minha direção. Às vezes eu achava que esse cachorro começaria a falar. – Boa noite. – eu disse, já virando as costas com Bento ao meu encalço.
- Boa noite. – respondeu com a voz suave.
Entrei em casa e me deparei com a minha mãe na sala, lendo um livro sentada na poltrona em que ficava habitualmente.
- Oi, mãe. – depositei um beijo em seu rosto e sentei-me no sofá a sua frente.
- Oi, filho. Chegou agora? – perguntou, me observando por cima do livro.
- Agora a pouco. – respondi, jogando a cabeça no encosto do sofá e afrouxando a gravata que parecia querer me sufocar – e você? Chegou do escritório há muito tempo?
- Sim, cheguei há algumas horas.
- Não está se esforçando demais, certo? O doutor deu ordens claras para você se cansar o mínimo possível. – a adverti me referindo aos seus desmaios recorrentes.
- Eu estou bem, filho. Ficaria pior estando em casa ser fazer nada. Agora me responda... O que você estava falando com a filha da ? – levantei a cabeça e a olhei sem entender. Como ela havia visto? Eu não me importava que ela visse, não tinha nada a esconder, porém, chamar a minha atenção por algo tão banal me parecia bem incoerente.
- Fui buscar o Bento que estava com ela. – continuei a encarando curioso e meio incerto sobre a sua pergunta repentina.
- Hm. Desde quando vocês conversam?
- Eu não posso ter pelo menos uma convivência normal com alguém que mora aqui há anos? – ela abaixou seu livro, deixando-o repousando em seu colo e me fitou com os olhos cerrados.
- Não estou te entendendo, . Pra que ter qualquer tipo de convivência com a filha da cozinheira?
Endireitei-me no sofá, passando as mãos no rosto em sinal de cansaço.
- Você me deu educação, dona Kyara. E o nome dela é . – adverti vendo a sua expressão se contrair, estarrecida. – não é como se nós fôssemos amigos, eu só não vejo motivos para não ser ao menos civilizado.
- Você já sabe o que eu penso, não vou me desgastar sobre isso. O seu pai volta amanhã, a propósito.
- Tudo bem. – levantei-me e fui até ela, deixando um beijo no topo de sua cabeça, sem um pingo de paciência para a sua vaidade. – vou para o meu quarto, estou cansado. Boa noite.
- Boa noite, filho.
Entrei em meu quarto já tirando as minhas roupas, avistando Bento deitado ao pé da minha cama.
- Agora você quer ficar perto de mim, né, pilantra? – brinquei, passando a mão por seu pelo macio e fui em direção ao banheiro, terminando de me despir. Joguei-me debaixo do chuveiro constatando que os meus músculos relaxavam conforme a água quente caía sob o meu corpo. Terminei o banho alguns minutos depois e vesti uma boxer qualquer, finalmente deitando na minha cama. Olhei meu celular e estranhei ao ver que constava uma chamada não atendida de um número privado, afinal, eu não costumava receber esse tipo de ligação, porém, resolvi ignorar, imaginando que talvez tivesse sido engano. Ao conferir que não havia recebido nenhuma mensagem de Cassie, presumi que ela já estivesse dormindo, então optei por apenas enviar-lhe boa noite. Deixei meu aparelho em cima do criado mudo e me arrumei na cama, tentando ficar confortável. Não demorou muito e eu peguei no sono.


*Taz-Mania: Taz (ou no original, Tasmanian Devil) é um personagem dos desenhos animados Looney Tunes. Taz é um diabo-da-tasmânia, que se locomove num redemoinho e devora tudo que vê pela frente.

*Workaholic: Que ou quem é viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.




Capítulo 3


’s POV

Os dias passaram voando e com a faculdade tomando grande parte do meu tempo, eu nem percebi. O sábado estava agradável e o tempo encontrava-se firme, nos possibilitando de sair por aí com roupas leves e confortáveis. Eu voltava pra casa ansiando por um banho após um dia tranquilo na loja de discos da qual eu trabalhava. Nada como meu notebook, algumas besteiras para comer e uns bons filmes. Sim, meu sábado à noite seria dessa forma e eu não via problema algum nisso. Eu havia recebido o meu pagamento e me sentia radiante por ser capaz de contribuir com as despesas e, ainda por cima, por estar depositando mais da metade do meu salário em uma conta que eu havia aberto com o intuito de possuir dinheiro o suficiente para que conseguíssemos um lugar para morar. Claro que a minha mãe não sabia dessa última parte, caso contrário, não teria a mínima graça. Os não fariam nenhum evento naquele final de semana, isso significava que o sossego reinaria e que eu não teria nenhum dedo ferido enquanto cortava seja lá o que for.
Meu humor estava magnífico, quase podia ouvir os passarinhos cantando e uma música feliz da Lilly Allen tocar ao passo que entrava na mansão e seguia a caminho de casa, entretanto, senti o meu sorriso esvair-se a partir do momento em que me deparei com um grupo de pessoas na área da piscina.
Alguns amigos do encontravam-se por ali. Este, estava sentado em uma das espreguiçadeiras do local com Cassie no meio de suas pernas. Ele usava um óculos escuro que caía ridiculamente bem em seu rosto, seus músculos expostos formavam um conjunto perfeito com todo o seu corpo e eu me senti uma completa pateta por admirá-lo tão deslumbrada daquela forma. Engoli em seco e balancei a cabeça para espantar aquelas sensações excêntricas. Patética, . Patética. Dentro da piscina o resto do pessoal conversava bebericando suas bebidas servidas em taças cristalinas, rindo de alguma coisa que falara. Expirei e resolvi prosseguir o meu caminho sabendo que teria que passar por lá. Comecei a andar o mais despreocupadamente possível, porém, já sentia olhares sobre mim.
- Ei, gracinha – fechei meus olhos, desacreditando que iria mesmo me infernizar na frente de todo mundo. Fingi que não ouvi, continuando os meus passos até a minha casa, mas era óbvio que ele não desistiria – Ficou surda? Ou só sabe interagir com utensílios de cozinha? – ele zombou se achando engraçado. Ouvi a risada dos demais ali presentes e senti meu sangue ferver.
Se ele queria me irritar, conseguiu.
Parei de andar imediatamente e o encarei, demonstrando que eu não via graça alguma naquilo. Senti meu rosto esquentar de raiva e a minha expressão com certeza transparecia a repulsa proveniente daquele comentário ridículo. Notei que não dava risada, sua feição era séria, quase rigorosa, e ele agora olhava em minha direção com a testa minimamente franzida. Desviei o meu olhar da figura dele e tornei a encarar , que estampava um sorriso petulante direcionado a mim.
- Você está falando comigo? – questionei ao mesmo tempo em que estreitei os olhos.
- Tem mais alguma cozinheira aqui? – ele saiu da piscina, vindo em minha direção, e, pelo bem dele, seria bom que mantivesse distância – Já que você está aqui, pega alguma coisa pra nós comermos – Fechei minhas mãos em punho, tentando – inutilmente – controlar a raiva.
A tensão que se formou era nítida, praticamente palpável, a atenção de todos estava voltada para nós dois e cada vez em que eu via o divertimento nos olhos dos amiguinhos imbecis do , mais eu previa que iria perder completamente a cabeça.
- Não me lembro de trabalhar pra você. Se estiver com fome, vá você mesmo buscar alguma coisa, nem eu, nem a minha mãe somos pagas pra te servir. A única pessoa que tem o direito de dar ordens aqui é o – falei entredentes apontando o dedo bem no meio do rosto de , que riu sarcasticamente.
- Quem você pensa que é pra falar o que eu devo ou não fazer, gracinha? – ele tentou tocar em meu rosto e foi prontamente impedido pela minha mão que empurrou a sua bruscamente.
- , já chega! - o repreendeu com o tom de voz duro. Levantou-se irritado da espreguiçadeira e andou em nossa direção.
- E quem você – frisei – pensa que é? Não toca em mim – alertei.
- Lembro de uma época em que você quase implorava pra que eu te tocasse – aproximou-se do meu ouvido e sussurrou em um tom sórdido para que só eu o ouvisse.
Eu não possuída mais o controle dos meus movimentos e nem das minhas ações, a fúria me regeu e a palma da minha mão acertou em cheio o rosto do homem a minha frente, fazendo um estalo intenso soar e um ardor tomar conta do local no qual entrou em contato com a sua pele. Ele cambaleou para trás com a mão pousada na zona onde o tapa fora dado, olhando-me indignado. Milésimos de segundos depois já se localizava onde nós estávamos, empurrando pelos ombros para que ele se afastasse.
- Cara, para de se comportar feito moleque! Quantos anos você tem?! – ele advertiu, sua voz sempre grave estava alterada. Eu o olhava um tanto quanto surpresa pela sua reação, não estava esperando que ele se metesse, quanto mais chamar a atenção do seu amigo.
- Eu só estava brincando com ela! – rebateu, tirando a mão do rosto e eu pude ver a marca dos meus dedos na sua bochecha. Quase sorri por aquilo. Cassie olhava a situação boquiaberta, assim como os outros. Ela veio até nós e puxou para a piscina novamente, não sem antes me lançar um olhar de reprovação.
- Alguém pode me explicar o que acabou de acontecer aqui? – dona Kyara fez-se presente, não parecendo nada feliz. Eu imediatamente congelei – , você acabou de dar um tapa em um convidado? – ela me olhou indignada.
- Não, senhora. Não foi as... – comecei, gesticulando totalmente aflita.
– Eu não quero saber como foi! Você não está aqui para destratar ninguém, coloque-se em seu lugar – a minha revolta só aumentava conforme a senhora falava. Aquilo era tão injusto.
Eu estava pronta para rebater, contudo, lembrei-me que não podia prejudicar a minha mãe e o seu emprego, muito menos podíamos ser expulsas da “nossa” moradia.
- Mãe, ela não teve culpa – interpôs – deixa isso pra lá, eu resolvo.
- Você está falando sério? Ela acabou de bater em um amigo seu! – dona Kyara advertiu, estupefata. Eu alternava o olhar entre mãe e filho, sem saber como agir.
- Eu sei, mas já falei que eu resolvo – ele se contrapôs, decidido.
- , venha comigo – a senhora ignorou o filho e ordenou, me lançando um olhar superior antes de andar em direção à sua casa. Respirei fundo antes de acompanhá-la, entretanto, fui impedida ao sentir as mãos de tocarem delicadamente o meu pulso, refreando os meus passos. Parei de andar e o encarei, encontrando a sua feição determinada e compreensiva, me passando segurança.
- Tudo bem, se eu não for com ela vai ser pior. Eu assumo o que fiz, você não precisa se envolver nisso – expliquei, tentando soar calma – seus amigos e sua namorada estão olhando, acho que você deveria voltar – o informei e ele virou-se ligeiramente, vendo que todos nos fitavam.
agora se encontrava sentado na espreguiçadeira posteriormente ocupada por e Cassie e nos assistia com o seu cenho franzido em insatisfação. Cassie, ainda que evidentemente incomodada, somente observava com os braços cruzados, sem sair do lugar. À essa altura a senhora distanciava-se cada vez mais, sequer reparando que eu não a acompanhava.
- , vai pra casa tranquila. Eu vi o que aconteceu aqui, o amigo é meu, eu assumo o compromisso de falar com ela – indicou a dona Kyara com a cabeça. Mais uma vez a sua fala soou determinada, transmitindo firmeza pelo seu olhar atencioso.
- Se eu não for a minha mãe é quem vai escutar – contestei.
- Não vai, fica calma. Pode ir.
Dei um suspiro cansado e assenti sem ter muito o que fazer e torcendo para que as consequencias disso tudo não tomassem proporções desagradáveis.
- Obrigada, você realmente não precisava fazer isso – sorri agradecida e notei que esta era a segunda vez em que eu o agradecia em menos de uma semana. apenas balançou a cabeça como se não houvesse feito nada demais.

Direcionei-me à minha casa extremamente desanimada e frustrada, amaldiçoando por ter acabado com o meu bom humor, além de ter criado todo esse drama desnecessário quando tudo o que ele deveria fazer era fingir que eu não existo, tal como já havia feito tantas outras vezes. Joguei a minha bolsa em um canto da sala e pulei no sofá, fechando os olhos e sentindo o meu corpo relaxar, apesar da minha cabeça me torturar com uma dor desagradável. De repente me recordei do dia em que falara comigo pela primeira vez.

FLASHBACK

Encarava esgotada a terceira página de exercícios de matemática, sentindo o meu pulso doer de tanto escrever, anotar e apagar. Estava sentada em uma pequena mesinha que eu havia colocado na varanda para que estudar nos dias quentes ficasse mais agradável. Havia passado a tarde toda estudando, o último ano do colégio estava extremamente puxado e eu fazia o máximo para conseguir absorver todas as matérias, haja vista que tudo o que eu desejava era entrar na faculdade no ano seguinte. Apoiei a cabeça em uma das minhas mãos e suspirei, observando a noite cair.
- SE ESSA PORRA DE CAIXA NÃO ESTIVER AQUI EU VOU SOCAR A SUA CARA – ouvi alguém gritando e arrumei a postura, franzindo o cenho e procurando de onde vinha aquela voz. Notei um amigo do , se eu bem lembrava – olhando por todo o lugar a procura de algo, até que ele percebeu a minha presença ali. Lançou-me um sorriso aberto e se aproximou, sentando-se ao meu lado sem pedir permissão. O encarei estranhando o seu comportamento e ele manteve o seu sorriso charmoso.
– Olá – ele falou.
- Oi... – respondi meio hesitante.
- , não é? Sou o . Acho que você já sabe disso, mas vamos começar de novo, o que acha? – disparou a falar e questionou galanteador. Eu levantei uma sobrancelha em dúvida a respeito de seu comportamento.
- Okay... – respondi e vi o seu sorriso alargar – mais – Está procurando alguma coisa?
- Não mais. Quer ajuda com isso? Via muito esse tipo de coisa no colégio – ofereceu-se e eu neguei.
- Obrigada, mas não precisa. Estão te esperando, você deveria voltar – o avisei.
- Faz de conta que eu estou procurando o que eles pediram – piscou – Vamos lá, te vejo de vez em quando e nós nunca conversamos!
Suspirei mais uma vez, derrotada, e decidi conversar com para que ele decidisse sair dali e me deixar sozinha novamente.
Mal sabia eu que ele faria isso com bastante frequência.

FIM DE FLASHBACK


Respirei fundo e fitei o teto, ainda buscando entender as últimas ações do , que em nada condiziam com as atitudes das pessoas ao seu redor cujo eu estava acostumada a lidar. O máximo que eu achei que ele faria seria ficar na dele, como sempre esteve, ainda que nenhuma provocação tenha chegado tão longe como a de minutos atrás a ponto dele necessitar intervir. Na maioria das vezes ele somente me olhava com aquela expressão fechada e ignorava a situação toda, eu não fazia questão alguma que ele falasse absolutamente nada dado que eu sabia e conseguia me virar sozinha e nunca esperei coisa alguma dele. Os meus sentimentos em relação a sempre foram confusos, eu costumava passar grande parte do meu tempo vendo-o imerso em sua vida perfeita, entretanto, comecei a admirá-lo quando percebi que ele não era vazio como eu pensava. Ele era uma pessoa muito gentil, embora quase sempre sério. Os sutis sorrisos educados que ele me lançava ao me cumprimentar faziam com que eu me sentisse uma babaca. Sempre o observava em cada uma de suas conquistas, e, durante todo esse tempo, eu torci secretamente por ele.
Eu torço.
Era difícil pra mim mesma admitir que eu sentia algo pelo filho da patroa da minha mãe, afinal, nós somos como água e óleo, totalmente diferentes em nossas vivências. Tudo piorou no momento em que ele começou a namorar. Após isso, eu simplesmente guardei tudo o que eu sentia e resolvi que a minha vida não poderia parar devido a um sentimento bobo, porém, eu sabia que racionalizar toda essa situação seria inútil, pois, no fundo, eu nunca deixei de gostar de . Não realmente. Venho sofrendo calada desde então, agindo como se nada me afetasse.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei deitada daquele modo olhando para o teto e me sentindo aflita cada vez que tentava imaginar o que estaria acontecendo na casa dos , mas o barulho da porta se abrindo chamou a minha atenção. Minha mãe fez-se presente no recinto e eu me levantei de imediato arrumando o meu corpo no sofá.
- Oi, filha – sentou-se ao meu lado, sorrindo. Eu tentei sorrir de volta, porém, deve ter saído algo mais semelhante a uma careta.
- Oi... Como foi hoje? – perguntei incerta.
- Foi tudo bem, menos cansativo do que outros dias. Todos irão sair hoje à noite, então vou poder descansar bastante – ela respondeu, reparei o ânimo presente em sua voz. Permaneci a fitando meio desconfiada, não fazendo ideia do que acontecera logo após eu ter vindo para casa e deixado falar sabe-se lá o que para a dona Kyara – , eu ouvi o e a senhora discutindo, e, no meio da conversa, surgiu o seu nome. Filha, você deu um tapa no ? No amigo do filho da patroa? – sua fala era comedida, eu suspirei e encolhi os ombros, averiguando as palavras antes de proferi-las.
- Foi uma situação muito infantil, mas ele ultrapassou os limites. Não vou deixar ninguém pisar em mim ou desrespeitar o que você faz – justifiquei.
Minha mãe sorriu ternamente e assentiu.
- Eu te entendo, mas você precisa controlar o seu temperamento, . O meu emprego não pode ficar em risco, nós não temos pra onde ir.
- Sim, estou ciente disso. Não estava planejando dar um tapa nele, foi involuntário – confessei a contragosto e voltei a relaxar o corpo no encosto do sofá.
- O te defendeu para a dona Kyara, ela estava soltando fogo pela boca – virei-me curiosa por essa constatação.
- O que ele falou?
- Não escutei muito bem, mas ele disse que a culpa não foi sua e que o foi imprudente. Achei uma atitude bem íntegra – assenti vagarosamente, passando a encarar um ponto qualquer da sala.
- Filha, tente ficar longe deles, tudo bem? – minha mãe me pediu, tocando as minhas mãos antes levantar-se.
- Eu sempre fiquei – afirmei, ignorando o sentimento de culpa que se apossou de mim, afinal, eu sabia que nem sempre obtive sucesso nessas tentativas. A assisti andar até o seu quarto e fechei os meus olhos por alguns momentos, desejando o sossego que eu tanto almejei durante o dia todo. Liguei a TV enquanto preparava algo para que minha mãe e eu comêssemos, decidindo por fazer um macarrão a bolonhesa. Olhava distraidamente um filme qualquer que passava, até que o toque estridente do meu celular soou. Corri até a bancada e peguei o aparelho, vendo o nome de mostrar-se na tela.
- Olá! – sua voz animada cantarolou do outro lado da linha fazendo-me rir.
- Uau, que ânimo é esse? – indaguei à medida que mexia o macarrão.
- Ânimo de alguém que tem uma intimação para você. Não aceito uma resposta negativa, – expirei já esperando alguma proposta mirabolante da minha amiga.
- Aceito qualquer coisa desde que isso não envolva ter que sair de casa – avisei, ouvindo um resmungo seu.
- Amorzinho, eu já disse que você não tem escolha. Chega desse marasmo aos finais de semana! O Paolo Herzog organizou uma festa maravilhosa no triplex dele, você vai comigo nem que eu precise te arrastar – ela soou firme e eu bufei, vendo a minha noite de descanso indo por água abaixo.
- , eu não tenho estruturas para sediar esse evento – ela riu – o que significa que eu não tenho roupa apropriada. E eu nem conheço esse cara, só você.
- Você é a minha companhia, boba. Relaxa, ele não vai se importar. E sobre a roupa... Não seja por isso! Passo aí em vinte minutos e você se arruma aqui em casa.
- Você não vai desistir, não é?
- Nunca.
- Okay – dei-me por vencida e precisei tirar o celular do ouvido devido a sua comemoração fervorosa.
- Tchauzinho, daqui a pouco eu estou aí na frente do condomínio.
- Tudo bem, coisinha irritante – minha amiga persistente soltou um xingamento e desligou.
Apressei-me em finalizar o preparo do macarrão e bati na porta do quarto da minha mãe, ouvindo um “entra” em resposta.
- Mãe, daqui a pouco o macarrão vai estar pronto – coloquei a cabeça pra dentro do quarto, vendo-a ler algum livro do qual eu não consegui identificar.
- Hmm você fez a sua especialidade na cozinha? O macarrão a bolonhesa? – questionou risonha e eu rolei os olhos, rindo também.
- Especialidade porque é a única coisa que eu sei fazer direito?
- É você quem está falando – a fitei em falso espanto.
- A vem me buscar daqui a pouco, ela quer que eu a acompanhe em uma festa – torci o nariz – Tudo bem se eu for?
- Mas é claro, filha! Vai se divertir – sorriu docemente e eu fiz o mesmo, saindo do quarto em seguida. Desliguei o fogo do macarrão e corri para o meu quarto, escolhendo uma roupa qualquer para ir à casa de , colocando a minha nécessaire e mais algumas coisas das quais eu precisaria dentro da bolsa e fui em direção ao quarto da minha mãe para me despedir.
- Já estou indo, daqui a pouco a chega – adentrei o local e depositei um beijo no seu rosto – o macarrão já está pronto, aliás.
- Obrigada, filha. Toma cuidado.
- Pode deixar, dona – acenei com as mãos e sai, pegando a minha bolsa e andando apressadamente porta afora.
Após minutos de caminhada pude enxergar o carro da garota que acenava freneticamente na minha direção. Fui ao seu encontro e entrei no veículo, automaticamente me sentindo alegre pela sua animação ao dar partida.
- Isso tudo é saudade de mim? – indaguei, recebendo uma careta em resposta. Tão madura.
- Não abuse do meu bom humor. Grata – ri, balançando a cabeça em concordância.
- Por falar em bom humor, você não tem noção do que aconteceu hoje – fez um sinal para que eu prosseguisse – Bom... Eu dei um tapa no , o o repreendeu, a dona Kyara chamou a minha atenção e só não fez mais porque o não deixou. Basicamente é isso – falei de uma vez e agradeci aos meus anjos da guarda por estarmos paradas no farol, pois a reação daquela que eu chamava de melhor amiga fora assustadoramente engraçada.
- O QUÊ? VOCÊ O QUÊ? – gargalhei da cara que ela agora me olhava. Os olhos arregalados e a boca em um perfeito ‘o’.
- Eu dei um tapa no – ri, me recordando da cena – Ele me provocou na frente do , da Cassie e dos outros amiguinhos idiotas. Eu não me controlei e quando dei por mim a minha mão já havia ido de encontro ao seu rosto.
- Eu.te.amo – falou pausadamente – Sério. Conta isso direito!
Concordei e comecei a contar detalhe por detalhe de toda a confusão que ocorrera algumas horas mais cedo. A cada palavra que eu proferia soltava um palavrão e eu tinha que mandá-la calar a boca de minuto em minuto para que eu fosse capaz de falar. A verdade é que eu sentia que, de alguma forma, estava em débito com o .

(...)


- Então foi isso. Eu não sei o que ele disse, mas, por enquanto, ficou por isso mesmo. Óbvio que mais cedo ou mais tarde isso virá à tona, porém, ele adiou, sabe-se lá como – finalizei, saindo do carro ao notar que havíamos chegado.
- Então quer dizer que não é tão frígido assim? Ou esnobe? Não sei se fico mais feliz ou chocada – minha amiga concluiu, caminhando até o elevador de seu prédio comigo ao seu encalço.
- Às vezes ele aparenta ser meio insuportável, mas é um cara legal. O foi justo hoje, mas ele me defendendo ou não, eu continuaria certa. Talvez não em ter batido no , mas sim, em me defender – me joguei na cama macia de assim que entramos no seu quarto maravilhoso. Eu sempre disse a ela que daria para fazer uma festa só naquele cômodo.
- Você acha que ele e a Cassie discutiram depois dele ter tomado a frente da situação? – perguntou, se jogando ao meu lado na cama.
- Não sei. Não consegui distinguir se a sua expressão de descontentamento era com o ou pelo contexto.
- O é um otário. É um homem que se comporta feito adolescente.
- Concordo. Não consigo entender essa necessidade de me infernizar sempre que pode – disse, realmente tentando entender o que ele pretendia com aquele tipo de atitude ridícula.
- Ele começou com isso depois que vocês pararam de se ver, não é? – ela comentou e eu assenti – Definitivamente não dá pra entender. Talvez ele ache que é engraçado quando age assim – indicou uma possibilidade e eu contorci o meu rosto em descontentamento.
- Ele tem tantos amigos e nenhum deles serve para avisar que a sua forma de se comportar é deplorável.
- Só o – ela completou e eu apenas permaneci encarando o teto.
- Eu vou tomar banho, sinta-se à vontade para usar qualquer banheiro pra tomar o seu e pegar o que você quiser do meu armário – minha amiga levantou-se e se dirigiu ao banheiro.
Eu apenas assenti e me sentei na cama, torcendo para que o desânimo que eu sentia desaparecesse a fim de que eu aproveitasse a noite da melhor forma possível.





Capítulo 4


’s POV

Eu me sentia extremamente sem paciência.
O que era para ser um dia agradável na companhia dos meus amigos acabou se transformando em um stress que poderia – e deveria – ser evitado, se não fosse e a sua infantilidade. Falar daquela forma com a foi desprezível, ela havia ficado desestruturada e eu me incomodei com o pesar em suas feições enquanto ouvira as provocações do meu amigo, por isso, decidi intervir, embora tenha sido tarde demais levando em conta o tapa que a garota deu nele. Para ser sincero, fiquei admirado com a sua coragem em falar daquela forma tão confiante.
Geralmente eu presenciava as provocações de direcionadas a ela, que sempre rebatia dignamente, e tudo o que eu fazia era observar o seu posicionamento diante do comportamento imaturo do meu amigo – comportamento este que eu reprovava plenamente – Eu já pensei em repreendê-lo diversas vezes, entretanto, habitualmente tomava as rédeas da situação e se defendia muito bem, era interessante saber que aquela garota que aparentava ser tão serena possuía a língua tão afiada.
Hoje, porém, a situação saiu do controle, dando para notar que definitivamente havia passado de todos os limites. Queria entender o que o levava a implicar tanto assim com ela, afinal, isso acontecia há um bom tempo. Com toda aquela briga, acabei discutindo com a minha mãe. Fiquei aproximadamente duas horas tentando convencê-la de que o provocara todo aquele alvoroço e que depois eu conversaria com para chamar-lhe a atenção.
Claro que eu não o faria.
Como se não bastasse isso, Cassie e eu discutimos exatamente pelo mesmo motivo. Ela não gostou da minha intromissão na discussão e esgotou o pouco de bom humor que me restava, me ignorando pelo resto do dia e atendendo as minhas ligações no começo da noite somente porque tínhamos uma festa para ir. Eu dirigia a caminho do local com a minha namorada emburrada ao meu lado mesmo após inúmeras tentativas vindas da minha parte para que nós ficássemos bem novamente. A olhei de soslaio e suspirei, irritado ao ver sua expressão fechada.
- Cassie, nós já conversamos. Você vai continuar assim até quando? – questionei, tentando, pela milésima vez, fazê-la parar com aquilo.
- Até quando eu quiser ficar. Ainda não consegui entender o motivo de você ter se intrometido naquele showzinho – seu tom de voz era rude e eu já estava cansado de repetir mil vezes a mesma coisa.
- Porra, eu vou ter que te falar de novo? – perdi a paciência novamente, vendo-a me olhar boquiaberta – Eu não podia deixar a briga acontecer na minha casa. E muito menos podia permitir que alguém fosse destratado daquela forma.
- A questão não é essa, mas o que foi aquela conversinha que vocês tiveram? Parecia até que eram amigos – soltei um longo suspiro, procurando manter a calma.
- Nós não somos, mas eu não vejo nada demais em manter uma boa relação com ela, afinal, a mãe dela trabalha na minha casa há anos e, você querendo ou não, ela mora lá. Não era ela quem deveria ouvir, Cassie. Não é porque a minha mãe paga o salário da mãe dela e ofereceu casa pras duas, que ela tem que ser tratada mal – se eu queria melhorar a situação, falhei com louvor. Minha namorada agora me fitava descrente no que eu havia dito e, conhecendo aquela expressão, ela se encontrava furiosa.
- Oi? – seu tom de voz subiu – Desculpa, eu acho que não entendi direito. Você acabou de falar que quer ser amiguinho da empregadinha? – senti o seu olhar queimar sobre mim. Apertei as mãos no volante, perdendo as contas de quantas vezes respirei fundo e a encarei, sério.
- Cassie, cansei. Não vou mais falar sobre isso e nem me desgastar – finalizei, saindo do carro em seguida. Cassie fez o mesmo, porém, batendo a porta. Entramos no elevador semelhante a dois desconhecidos, eu ficava cada vez mais impaciente com o clima entre nós dois.
Chegamos no andar do incrível apartamento do meu amigo e eu toquei a campainha, revelando, alguns segundos depois, um Paolo já meio alegre e com um sorriso enorme no rosto. Ele levantou os braços quase fazendo a sua bebida derramar do copo, vindo em minha direção e me dando um abraço meio torto dando tapinhas em minhas costas. - Olha se não é o admirável e a linda Cassie Privost! O casal mais ilustre dos casais! – ele saudou com a voz arrastada e eu gargalhei. Cassie deu um sorriso amarelo.
- E ai, Herzog? Tanto tempo sem me ver e me recebe bêbado? Você é um merda, hein? – Paolo sorriu embriagado e mostrou o dedo do meio, nos dando passagem para entrar.
A festa tinha como intuito comemorar a sua mudança para o triplex que ele havia comprado recentemente. O lugar já se encontrava tomado por diversas pessoas, muitas delas também conhecidas minhas. Andamos até a cobertura, tão cheia como o lado de dentro do apartamento, tendo ampla visão de boa parte da cidade. Uma música alta e animada tomava conta do ambiente, algumas pessoas aproveitavam a piscina aquecida e, no bar, alguns barman’s faziam acrobacias com drinks.
- Vou pegar algo para beber – Cassie avisou e saiu sem ao menos esperar a minha resposta. Passei as mãos no cabelo impacientemente.
- Você viu? A trouxe aquela amiga dela. A que mora de favor na casa dos – ouvi alguém falar o meu sobrenome e virei-me, percebendo que a conversa vinha de um grupo de garotas atrás de mim.
- ! Oi! – uma delas me cumprimentou. Eu dei um aceno de cabeça e Cassie surgiu ao meu lado parecendo empolgada com a presença delas. Elas imediatamente emendaram uma conversa animada indo para outro lugar e eu percebi que seria ignorado a porra da noite toda. Peguei algo no bar e encostei-me ali mesmo, conversando com uma pessoa ou outra e observando a minha namorada fingir que eu não existia. Passei os olhos pelo lugar tomando o meu drink despreocupadamente, até que parei em alguém familiar. Estreitei o olhar e reconheci junto com uma garota que eu via ocasionalmente com ela, uma amiga da faculdade, se eu bem me lembrava. Paolo conversava entusiasmado com a sua amiga e ela apenas observava, claramente tentando acompanhar o ritmo dos dois. Franzi o cenho nitidamente confuso. De onde eles se conheciam?
Os meus olhos involuntariamente pairaram na figura da e dei uma leve levantada de sobrancelha ao analisá-la.
Ela usava uma saia longa que ia até a altura do seu estomago e era aberta em um lado de sua perna, deixando-a a mostra. A barra da blusa de alcinha chegava próxima ao começo da saia e permitia que o seu colo também ficasse à mostra. Assim como suas roupas, o salto também era preto. A maquiagem era mais forte do que ela costuma usar e o batom era de um vermelho quase vinho. Como se notasse que alguém a observava, subitamente olhou para o lado e o seu olhar chocou-se com o meu, me deixando em uma situação embaraçosa. Não tendo muita opção, acenei com a cabeça em uma espécie de cumprimento. Ela retribuiu com um breve sorriso e sumiu do meu campo de visão assim que a sua amiga a puxou para dentro. Tomei mais um gole do meu drink e passei a minha mão livre pela nuca, pego de surpresa por encarar durante alguns segundos a garota que antes se encontrava à minha frente.

A festa ficava cada vez mais animada, a piscina estava mais cheia, a música permanecia alta e eu provavelmente havia conversado com metade das pessoas que ali se encontravam.
Porém, eu estava fodido da vida.
Muito fodido.
Cassie praticamente fingia que não me conhecia e me ignorava todas as vezes em que eu tentava falar com ela. Era surreal. Ela tinha o direito de ficar brava, eu não podia mudar isso, entretanto, aquela atitude birrenta excedia todos os limites. Estava encostado na sacada de vidro e imaginei que a minha expressão não era das melhores, pois o Paolo vinha me perguntar se estava tudo bem de cinco em cinco minutos, mesmo eu afirmando em todas elas. Avistei Cassie chegando perto de mim e a acompanhei com o olhar conforme ela se aproximava.
- Vou embora com a Suzi e dormirei na casa dela – avisou como se não fosse nada demais me lançando um sorriso petulante.
Dei uma risada de escárnio e a olhei incrédulo.
- Você não está falando sério.
- Pode apostar que eu estou – retrucou com o sorriso perdurando em seu rosto.
- Mas que caralho, Cassie! Para com essa merda, já deu. Olha só o que você está fazendo – disse, tentando controlar o tom de voz, embora soubesse que a minha expressão esbanjava irritação. Minha namorada me olhava com os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada, parecendo irredutível.
- Já decidi, . Só vim te avisar. Não vou pra sua casa – respirei fundo e esfreguei as mãos no rosto em um nítido sinal de cansaço. A encarei e assenti vagarosamente, olhando para o lado com um sorriso cético e tornando a encará-la.
- Faz o que você quiser, cansei, de verdade. Estou admirado com esse seu comportamento infantil – terminei de falar e nem esperei sua resposta. Dei-lhe as costas e segui em direção ao bar, pedindo um Negroni* ao barman. Olhei para trás e Cassie já não estava mais lá.

’s POV

Passava das três horas da manhã, eu sentia os meus pés doendo devido ao salto alto e aquele ambiente me deixava desconfortável por conta de alguns olhares tortos dos quais eu recebia. A festa estava muito boa, eu não podia negar, entretanto, aquele não era o meu mundo. Aquele luxo todo chegava a ser surreal! Sério, quem compra um triplex para morar sozinho? Nunca iria entender, mas quem sou eu para contestar, não é mesmo? tagarelava com um cara e era notável que eles flertavam um com o outro, então, fiz um sinal para ela indicando que iria dar uma volta com a evidente intenção de deixar os dois sozinhos. Andei pelo deslumbrante apartamento contemplando todo o requinte do local, dos móveis que certamente valiam milhões, até uma extensa parede de vidro. Parei ali admirando a paisagem encantadora da cidade naquela madrugada, maravilhava com as luzes formando pequenos pontos brilhantes vistos daqui de cima.
- Você viu? Acho que o e a Cassie brigaram – ouvi no instante em que duas garotas aproximaram-se de mim.
- Eles estavam discutindo, ela passou a festa toda longe dele.
- Ela foi embora com a Suzi e o deixou aqui. Deve ter sido sério – as duas saíram e eu me perguntei o motivo de todos cuidarem tanto do relacionamento alheio.
Prossegui a minha caminhada, descendo para o segundo andar e imediatamente me senti melhor ao ver que não havia praticamente ninguém naquela parte. Andei até a área recebendo uma lufada de ar fresco e sorri com o ato. Eu tinha a intenção de ir até a sacada, porém, parei ao ver algo estranho. Cerrei os olhos, podendo enxergar que também estava ali.
Porém, não aparentava estar nada bem.
Ele encontrava-se sentado – largado, melhor dizendo – encostado na parede, os braços apoiados em seus joelhos e a cabeça baixa entre as suas pernas. Uma garrafa de alguma bebida localizava-se ao seu lado completamente vazia. Então o que eu ouvira minutos atrás era verdade... Cassie já não estava mais na festa. não percebeu a minha presença e eu permaneci onde estava, incerta sobre o que fazer. Levantou a cabeça e passou as mãos em seu rosto, parecendo atônito, e a abaixou novamente em seguida. Mordi o lábio, ainda em dúvida, mas resolvi ir até ele apenas para saber se ele precisava de ajuda. A meu ver, sim, ele precisava. Aproximei-me dele e me agachei ao seu lado, tocando-lhe de leve no antebraço.
- ? – ele levantou a cabeça e me olhou desorientado. Sua expressão carregava mau humor e eu quase me arrependi por ter me aproximado – Ahn... você... – perdi totalmente o rumo da minha fala devido a sua feição severa, me amaldiçoando por ter sequer me preocupado. Um sorriso arrogante brotou de seus lábios.
- Nós não estamos em casa, você não precisa ser prestativa aqui – falou com a voz meio arrastada e um tanto insolente. Notei que também ela parecia mais rouca. Eu rapidamente tirei a minha mão de seu antebraço. Ele acompanhou o movimento com o olhar tornando a me fitar seriamente. Ergui-me novamente completamente surpresa e até chateada pela sua atitude ignorante.
É o que você ganha tentando ser legal.
- Desculpe, não quis incomodar – disse apressada, me virando e andando a passos rápidos para sair de lá.
- EI! – sua voz arrastada fez-se audível – Espera! – pediu. Eu parei e me virei ligeiramente para olhá-lo – Desculpa – ele me encarava com os olhos levemente semicerrados na tentativa de me enxergar melhor e a sua expressão transmitia culpa.
Eu apenas assenti e fiz menção de voltar a andar, quando fui impedida mais uma vez no momento em que ele esforçou-se para levantar, apoiando a mão na parede. cambaleou, quase indo de encontro ao chão. Corri em sua direção e o ajudei a se equilibrar, por pouco não caindo também haja vista que ele era maior do que eu.
Peguei um de seus braços, passando-os pelos meus ombros e envolvi um dos meus em volta da sua cintura, o guiando – com muita dificuldade, devo acrescentar – em passos trôpegos até um dos bancos espalhados pelo lugar. Ele se sentou e apoiou-se no encosto do banco, jogando a cabeça para trás enquanto passava uma mão nos cabelos, bagunçando-os. Pisquei algumas vezes a fim de parar de admirá-lo e achei melhor deixá-lo sozinho.
- Eu não quis ser grosso – falou repentinamente. Eu voltei a minha atenção a ele, que permanecia de olhos fechados e com a cabeça para trás – Não quero mais uma pessoa brava comigo – finalizou com a mesma voz arrastada. Encarava-o sem expressão, não sabendo ao certo como lidar com um meio bêbado e que provavelmente havia brigado com a namorada.
De repente eu me senti culpada, pressupondo que eles discutiram ainda pelo episódio envolvendo e a mim.
- Ah... Não tem problema – continuei ali parada igual a uma planta em um dilema interno entre sair ou ficar onde eu me encontrava – Quer que eu chame o seu amigo? – indaguei, achando que o amigo dele seria o indicado a estar com ele ali, já que a namorada havia ido embora.
- Se ele não estiver pior do que eu... Pode chamar – deu um sorriso bêbado e eu passei as mãos no meu cabelo pensando no que fazer.
Murmurei um “ok” e saí à procura do tal Paolo, já cansada em ter que andar por aquele apartamento gigantesco. Olhava ao meu redor buscando-o em todos os lugares, me perguntando também onde estaria. Cerca de meia hora depois, o encontrei, contudo, ele estava com uma garota ao seu encalço e eles iam para um corredor, provavelmente em direção a algum quarto.
Bufei, vendo que teria que ficar sozinha, pois nem minha amiga eu encontrava. Bom, eu estava devendo uma para o , de qualquer forma. Peguei uma água gelada no bar e voltei, me deparando com ele da mesma forma em que eu havia o deixado. Sentei-me ao seu lado e lhe ofereci a água, que agradeceu e aceitou. Apoiei meu cotovelo na minha perna e coloquei a cabeça sob a minha mão, encarando a paisagem proporcionada pela cobertura do segundo andar.
O silêncio se instalou no ambiente e eu o olhei de soslaio, vendo que ele, assim como eu, contemplava a visão perdido em pensamentos. Não sei por quanto tempo permanecemos assim, entretanto, a quietude foi quebrada pelo som do toque de seu celular. Ainda com um pouco de dificuldade, ele pegou o aparelho do bolso de sua calça e atendeu sem ao menos ver quem era.
- Alô?... Alô? – repetiu. Vendo que não era respondido, ele encarou a tela do celular e franziu o cenho, guardando-o logo depois.
O silêncio novamente fez-se presente e, embora não fosse de todo incômodo, ainda me deixava inquieta.
- Eu sei que não é da minha conta, mas não acho uma boa ideia você voltar para casa dirigindo – ele desviou a atenção da vista à frente e me fitou, fazendo com que o seu olhar encontrasse com o meu, que o encarava. A meia luz iluminava o seu rosto, os seus olhos opacos pareciam querer desvendar os meus através da ausência de som. Por alguns instantes eu me senti desconcertada, a sua análise curiosa e silenciosa fez algo se desorganizar dentro de mim e eu queria muito que, seja lá o que fosse, parasse imediatamente. Como em um lampejo voltou a se concentrar no horizonte de prédio e luzes, quebrando aquele estranho contato visual. Eu pisquei algumas vezes também voltando à realidade e sentindo o meu rosto esquentar.
- Vou pedir um táxi e amanhã venho buscar o carro – respondeu a minha pergunta anterior, tomando o último gole da água que eu havia lhe trazido.
Eu assenti silenciosamente e resolvi que era hora de sair dali e procurar pela , apesar de ter uma noção sobre onde – e com quem – ela estava.
Droga, não queria ser empata foda.
Meu celular apitou e eu o tirei da pequena bolsa de mão da qual eu carregava, vendo uma nova mensagem da minha amiga, que parecia ter lido a minha mente.

“Amiga, desculpa ter sumido, mas eu preciso falar com você... To com o Adrian e quero demais ir pra casa dele, mas só vou se você não se importar.”

Li sua mensagem e dei uma risadinha, logo digitando a resposta.

“Tudo bem, pode ir. Eu pego um taxi ou espero o metrô abrir. Juízo, sua safada.”

“Nada disso. Vamos no carro dele, então pega o meu e vai para minha casa ou para a sua, você quem sabe. As minhas chaves estão com você, mesmo. Só me avisa e, caso decida ir para a sua casa, amanhã eu passo lá. Beijinhos e juízo eu sempre tive.”

Balancei a cabeça negativamente, ainda rindo e guardei o aparelho, decidindo ir para a minha casa. Olhei para , que digitava algo em seu celular, e mordi o lábio. Se eu iria para o mesmo lugar que ele, não custava oferecer carona, não é mesmo? Questão de educação e tudo mais. Levantei-me, atraindo sua atenção.
- Eu já estou indo... – falei e ele assentiu – Ah... Eu vou pra casa com o carro da minha amiga, se você quiser, pode ir comigo. Se nós vamos para o mesmo lugar, não vejo necessidade de você pegar um taxi – concluí um pouco rápido demais e riu, também se levantando.
- Tudo bem, eu vou aceitar – disse, colocando as mãos no bolso como de costume. Sorri e saímos de lá.
Fiquei aliviada por não ter ninguém espalhado pelos cômodos conforme nós passávamos em direção a saída, não seria nada legal pensarem besteira por verem a mim e saindo da festa juntos. E seria menos legal ainda se Cassie soubesse por meio de alguém maldoso, pois tudo o que eu não queria era causar mais problemas a ele e até mesmo à ela.
Chegamos à garagem e entramos no carro, em nenhum momento quebrando o silêncio que rotineiramente nos envolvia.
Eu dirigia focada na rua temendo que algo acontecesse com o carro de , mesmo que não houvesse quase nenhum carro ou pessoa em lugar algum, prevenir é sempre bom. Pela minha visão periférica vi que olhava despreocupadamente para frente, batucando levemente em sua perna a melodia de uma música qualquer que soava pelo rádio.
- Cadê a sua amiga? – perguntou repentinamente, quase me assustando.
- Digamos que está ocupada e eu fiquei responsável pelo carro dela – deixei o “ocupada” subentendido e ri, ouvindo-o me acompanhar no riso.
- Entendi.
O silêncio novamente se instalou e, ao pararmos no farol vermelho, fez uma cara estranha demonstrando desconfiança e franziu o cenho, olhando pelo retrovisor. O encarei e olhei para trás, não vendo ninguém perto de nós.
- O que foi? – questionei, tornando a olhá-lo. Ele balançou a cabeça e tirou os olhos do retrovisor.
- Nada. Faróis são perigosos essa hora, é sempre bom ficar alerta – ele respondeu, dando uma última encarada no retrovisor. Dei de ombros, voltando a dirigir no momento em que o farol abriu. Minutos depois, chegamos em casa. Como era um condomínio fechado, não via problema em estacionar na rua. Feito isso, descemos e seguimos para casa. Fomos recebidos por um Bento contente, que correu em nossa direção fazendo festa com a nossa presença. Ri e rapidamente passei a mão em sua cabeça, andando para a parte de trás da residência.
- Obrigado – ouvi falar e me virei. Ele estava parado com a porta entreaberta e me encarava com aquela expressão séria.
- Por nada – sorri e voltei seguir meu caminho, louca para tirar os saltos que machucavam os meus pés.

(...)

- , eu não aguento mais! – exclamou, apoiando a cabeça por cima das inúmeras folhas espalhadas pela mesa. Eram cerca de cinco horas da tarde e nós estávamos trabalhando no projeto do nosso TCC.
Eu havia dormido o suficiente, diferente da garota a minha frente, que estava a personificação do desastre. Após a noite agitada com o tal do Adrian, ele a levou para casa e, de acordo com ela, havia dormido por apenas três horas, logo vindo buscar o seu carro e trazer as minhas coisas que estavam em sua casa. Aproveitando isso, resolvemos adiantar alguns tópicos do nosso projeto. Certo que nós perdemos boas horas antes de realmente começá-lo, já que eu a fiz contar – quase – tudo da noite anterior.
E ela também.
E quando eu digo também, é porque ela me fez falar da minha companhia de fim de festa: .
- Passar a noite acordada se divertindo com o gato da festa você aguenta, né? – lancei-lhe um olhar malicioso e ela devolveu com o seu dedo do meio.
- Não vamos misturar diversão com trabalho, don’t kill my vibe – pegou um dos bolinhos que a minha mãe fizera e o abocanhou de uma vez só, me arrancando uma risada.
- E ainda é sem educação.
- A sua mãe é uma linda e esses bolinhos estão di-vi-nos. Você é ruim e está querendo que os meus neurônios explodam – fez drama e eu taquei uma bolinha de papel nela – Ai, meu Deus – ela exclamou, olhando boquiaberta através da janela que dava visão para o descampado perto da piscina.
- O que foi? – segui o seu olhar e encontrei o que tanto a deixou daquela forma.
brincava com o Bento.
Sem camisa.
Apenas com shorts de corrida.
Como a gente se concentra assim, céus?
E por que tudo o que ele faz se assemelha a um comercial MUITO bem feito de alguma coisa MUITO boa?
Senti o olhar de sobre mim e me recompus, encontrando-a me encarando com uma sobrancelha arqueada e um sorriso malicioso igual ao que eu lhe dera minutos atrás.
- Tem baba escorrendo, – brincou e eu voltei a olhar para a tela do notebook, ignorando-a.
- Se concentre nos livros, por favor.
- Estou concentrada – se defendeu – Mas ele deve ter ficado bem chateado com a Cassie, né? Eu vi que ela o ignorou a noite toda e foi embora com as amigas.
- Sim, eu ouvi umas garotas falando antes de encontrá-lo.
- Você não sente nada pelo ? – indagou e eu a olhei sem entender – Sabe... Você costumava gostar dele...
- , aquilo já passou – menti.
- Tudo bem, mas eu estou falando de agora. Você não sente nada? Nem atração? – insistiu e eu bufei.
- Mesmo que eu sinta algo, isso não muda o fato de que nós não temos nada a ver. E ele tem uma namorada. Eu nunca – dei ênfase – me intrometeria no relacionamento de alguém, nunca me envolveria com alguém comprometido, quero distância de gente assim. O que eu não quero pra mim, também não quero para outra garota. A Cassie faz bem para o . E mesmo que ele não tivesse namorada, ele nunca me veria de outra forma. Não tem motivo algum para considerar essas possibilidades, a realidade é outra, entende? – assentiu ao passo que me analisava.
Odiava o quão bem ela me conhecia.
- Você não precisa ser indiferente sobre isso comigo, você sabe. E você também sabe que por mais que tente agir como se não ligasse, a mim você não engana. , você não manda nos seus sentimentos. Não é porque você gosta do , que vai atrapalhar o namoro dos dois. Na verdade, eu sinto muito por te ver assim, nunca conseguindo realmente seguir em frente.
- Eu sei – suspirei rabiscando qualquer coisa em uma folha aleatória – Já chega, okay?
- Certo, não está mais aqui quem falou – ela levantou as mãos em sinal de rendição – já acabamos por aqui? – me olhou de forma pidona e eu ri rolando os olhos.
- Acabamos, sua morta. Já adiantamos muita coisa.
- Ótimo. Eu vou para a minha casa porque não existe nada que eu deseje mais nesse momento do que dormir – ela se levantou e eu a acompanhei. Passamos no quarto da minha mãe para que se despedisse e fomos em direção a saída, vendo que estava, agora, acompanhado de Cassie, que parecia ter acabado de chegar. Eles estavam abraçados e a forma afetuosa como ele acariciava os cabelos dela fez o meu estômago afundar.
- Parece que eles se acertaram – comentou e eu apenas assenti – Tchau, amorzinho. Até amanhã.
- Tchau, gata. Até! Vê se recupera as energias – demos um abraço rápido e ouvi a minha amiga rindo.
- Difícil, sabe? Haja descanso – gargalhei ao passo que a via entrar no carro lançando-me uma piscadela e dando partida.
No meio do percurso até a minha casa olhei para o lado casualmente ao escutar o latido do Bento, vendo procurar com os olhos a causa de seu latido. Seus olhos encontraram-se com os meus e ele lançou-me um sorriso fraco, quase imperceptível. Fiz o mesmo e ele entrou em casa logo após Cassie, sumindo do meu campo de visão.

Negroni: Bebida clássica onde mistura-se gim e vermut.



Capítulo 5


"E quando você se perde, tens duas opções: Achar a pessoa que você é, dentro de você, ou perdê-la completamente." - One Tree Hill


’s POV

Durante a minha infância, eu achava o máximo assistir filmes de ação e ver os personagens correndo, lutando e realizando as mais inacreditáveis fugas. Adorava a forma como as reviravoltas ocorriam, via as tramóias dos vilões e a vitória dos mocinhos, e, apesar de não entender muita coisa, achava tudo muito interessante. Agora, já adulto, percebo que nada é tão maravilhoso quanto parece. Desde o momento em que eu peguei o caso Zummarck, venho recebido estranhas ligações de um número privado, e elas acontecem em diversas horas do dia. A última ocorreu em uma madrugada. Eu não sabia ao certo se estava apenas paranóico, contudo, ao estar no carro acompanhado da , tive a impressão de ver uma moto um pouco atrás de nós. Eu olhava intrigado para a tela do meu celular, refletindo sobre os motivos que levariam alguém a me espionar, já tendo uma ideia.
Esperaria pelo próximo passo de seja lá quem for e tomaria as medidas cabíveis para este tipo de situação. Ninguém conseguiria me amedrontar. Encostei-me na cadeira e olhei para o teto, me sentindo um tanto quanto ridículo ao lembrar-me de ter exagerado na bebida na festa do Paolo, tendo que ser ajudado pela , que me encontrou naquele estado. Eu não estava muito mal, mas também não estava cem por cento bem.
Ela havia me ajudado muito e eu fui momentaneamente ignorante, eu tinha a péssima mania de descontar a raiva no primeiro que aparecesse, e, naquele instante, a garota a minha frente fora essa pessoa. Mesmo depois disso impediu que eu desse com a cara no chão, e isso foi muito legal da parte dela, confesso. Tenho percebido que ela é definitivamente uma boa garota e a sua companhia é prazerosa.
- . – despertei dos meus pensamentos ao ver meu pai parado a minha frente, com o semblante sério.
- Sim? – perguntei ainda meio perdido.
- Quero que você chame os pais da Cassie para jantar em nossa casa amanhã. – ele ordenou e eu franzi o cenho.
- Pra quê?
- É necessário um motivo para que os pais da sua namorada jantem conosco? – ele indagou aparentemente impaciente. Suspirei e neguei com a cabeça. Arrumei a minha postura na cadeira e juntei as mãos em cima da mesa, adotando uma posição mais firme. Era claro que havia um motivo por trás disso tudo, e esse motivo era o interesse na tão sonhada sociedade entre eles.
- Eu vou fingir que vocês não estão usando o meu relacionamento para fins lucrativos. – disse e vi a sua feição se tornar mais séria. Não me abalei.
- Não te criei para que você seja um cabeça-dura, . Saiba pensar como um homem de negócios e junte o útil ao agradável, não me faça perder a paciência.
- Esse jantar será única e exclusivamente para que ambos puxem o saco um do outro e enfiem um noivado goela abaixo em nós dois. Nossa família não precisa disso e eu não tenho pretensão de me casar agora. – finalizei com firmeza na voz sem alterar a minha posição decidida. Meu pai estreitou os olhos, claramente irritado.
- Não seja um moleque teimoso. Eu espero que isso não tenha nada a ver com a filha da cozinheira. – nesse momento eu o olhei em dúvida. O que a tinha a ver com isso? – você não percebe, mas eu te observo. Vi vocês dois chegando juntos de sei lá onde. Te vi olhando para ela. Eu percebo as coisas antes delas acontecerem, não se atreva a ter nenhuma atitude imbecil e faça o que eu estou mandando. – eu o encarava totalmente estupefato. Eram diversas informações a serem digeridas e eu só conseguia sentir a minha cabeça explodir.
- Isso não pode ser sério, pai. – levantei-me da cadeira passando as mãos nos cabelos, visivelmente nervoso. – tira essa ideia absurda da cabeça! Eu estou com a Cassie e gosto dela, a só me deu uma carona.
- Não subestime a minha inteligência!
- Pense o que quiser, isso foi a coisa mais sem sentido que você já disse. Eu vou marcar a porra do jantar! – exasperei, cansado. Meu pai me encarou sem expressão e a sua atitude superior fez-se presente. Ele me lançou um último olhar imponente e seguiu para fora da minha sala.
- Obrigado, filho. Sabia que podia contar com você. – concluiu, fechando a porta atrás de si.
Eu me joguei na cadeira e esfreguei as mãos no rosto, me sentindo irritado e com a cabeça a ponto de explodir. Que merda de argumento foi aquele? Ainda não havia entendido a razão de ter mencionado a nisso tudo. Eu somente não desejava me casar tão cedo, existiam outras coisas mais importantes no momento, isso não tinha nada a ver com ninguém. Não gosto que tomem decisões por mim, eu não sou mais um moleque e, não só posso, como vou tomar as minhas próprias atitudes no que diz respeito a minha vida. Eu havia acabado de fazer as pazes com a Cassie após todo aquele drama, e, apesar de aparentemente estar tudo bem, ela ainda parecia incomodada. Pedi para que a secretária trouxesse um remédio a fim de amenizar a dor excruciante na minha cabeça e digitei uma mensagem para a minha namorada, realizando o convite para o jantar de amanhã.

**

A noite do jantar havia chegado e o meu humor estava péssimo. Meus pais, os pais de Cassie e nós dois, estávamos sentados à farta mesa, o ambiente regado ao mais explícito puxa-saquismo. Esse tipo de situação era recorrente, porém, naquela noite, tudo passava dos limites. O assunto “noivado” fora abordado incontáveis vezes, e, agora, minha mãe e a mãe da minha namorada mostravam animadas uma revista de vestidos de noiva para Cassie, que parecia tão desconfortável quanto eu.
- Certo, já chega. Assim vocês vão assustá-la. – forcei um sorriso e puxei-a para perto de mim, que quase comemorou de alívio.
- Imagina, filho. Estávamos apenas olhando. Tenho que dizer, Cassie, você ficaria magnífica em um Mauro Adami*, querida. – minha mãe disse, sorrindo vaidosamente.
- Seria de ótimo gosto, certamente deveríamos providenciar isso quando chegar a hora. – o pai da minha namorada complementou. Eu tomei o meu champagne em um só gole, recebendo um olhar repreensivo do meu pai e até mesmo de Cassie.
- Vamos com calma, nós ainda nem noivamos. – tentei argumentar de maneira despretensiosa.
- Não demorará a acontecer, espero. – meu pai sorriu, porém, eu podia ver uma sutil ameaça em seu sorriso.
- Vejo uma esplendorosa parceria entre nós, – o pai de Cassie levantou a taça para o meu, fazendo o tilintar proveniente do brinde ecoar pelo local. – Me diga , como vai o seu primeiro caso de grande visibilidade? – ele indagou. – Já está sentindo a pressão popular por seu cliente ter sido acusado de assassinar uma figura importante?
- Tudo está encaminhando da melhor forma possível, senhor Privost. Quanto mais grave é um crime, maior é o clamor público por uma condenação rápida e rigorosa. E quanto maior é o clamor público e a pressa em se julgar, maior a necessidade de se cumprir rigorosamente a lei a fim de se evitar julgamentos precipitados e condenações injustas. – finalizei, ignorando o seu sorriso arrogante.
- Perfeito. Um genro de sucesso era tudo o que eu desejava. – lancei-lhe um sorriso sem mostrar os dentes e assenti em agradecimento.
- Não esperávamos menos do herdeiro do império que é o escritório de advocacia dos . – a senhora Privost disse e eu respirei fundo, sufocado por toda aquela pressão desnecessária.
Levantei o olhar da minha taça recém esvaziada e enxerguei se aproximar com uma bandeja onde estavam algumas xícaras contendo café, imagino eu. Ela depositava cada xícara na mesa concentrada no que fazia, não olhando para o lado ou para qualquer direção que não fosse a da bandeja.
- Espere um momento. – minha mãe interpôs, fazendo parar o que estava fazendo. – não foi essa louça que eu pedi. Quero o jogo de café em porcelana pintado com ouro. Trate de trocar.
Todos da mesa olharam para a garota, que recolheu a xícara que estava prestes a colocar na mesa. Notei que ela deu um pequeno suspiro e, com a expressão vazia, assentiu, retirando as outras peças que já encontravam-se na frente de cada pessoa. Eu apenas a acompanhava discretamente com o olhar, lamentando por minha mãe tratá-la com tamanha arrogância.
- Desculpe, senhora. Com licença. – retirou-se rapidamente e eu encarei a sempre imponente senhora com uma feição descontente, já sabendo que aquela era exatamente a louça da qual ela pedira, contudo, estava se vingando ainda pelo episódio com .
- Às vezes nós precisamos ser duros, caso contrário vira rotina entre os empregados realizarem as tarefas de modo errado. – esclareceu, recendo murmúrios em concordância.
- Não podemos dar moleza para essa gente, querida. Te entendo perfeitamente, a faxineira da nossa casa não sabe que é imprescindível que as minhas Chanel sejam guardadas em dust bags*. - a senhora Privost complementou dramaticamente. Eu desejava mais do que qualquer coisa que aquele jantar acabasse logo.
Eles iniciam um assunto irrelevante a respeito de como patrões sofriam e eu fiz uso da minha audição seletiva para não ter que escutar aquela conversa descartável.
- Você poderia disfarçar melhor que não quer se casar agora, . – Cassie falou próxima a mim e eu a fitei com uma sobrancelha arqueada.
- Eu não falei nada demais. E você também não quer, não vejo motivos para você ter ficado irritada. – respondi, vendo-a bufar e rolar os olhos.
- Não quero mesmo, mas não precisa deixar explícito para todo mundo. Parece até que tem algo de errado comigo. – comentou emburrada e eu não pude segurar o riso.
- O problema é esse? Amor, para de besteira. Seguindo esse seu raciocínio, também teria algo de errado comigo, já que você, assim como eu, não quer se casar agora. – tentei tocar-lhe o rosto, mas ela esquivou-se. Fechei os olhos e respirei fundo, pedindo paciência aos céus. – Eu não quero brigar, Cassie. Ainda mais por algo tão banal. Estamos na presença dos nossos pais, dá um tempo. – alertei-a. Ela permaneceu imóvel e eu desisti, já desprovido de qualquer tranquilidade que seria necessária para lidar com os seus chiliques.
retornou ao recinto com o suposto jogo de café correto, tornando a depositá-los na mesa. Ao chegar à minha vez, a voz da minha mãe fez-se presente novamente, assustando-a e levando a tremer a sua mão que segurava a xícara, derrubando um pouco do conteúdo quente em minha perna. Dei um pulo devido ao susto e ao sentir o calor atingir a minha pele. Peguei um guardanapo de tecido e o coloquei no local, vendo me encarar apavorada e Cassie resmungar algo com ela.
- Mas será possível que você não consegue fazer nada direito? – minha mãe advertiu, aumentando o tom de voz. A garota encolheu os ombros, ainda me olhando assustada.
- Foi apenas um pingo, não tem problema. – disse na tentativa de apaziguar a situação. Eu estava puto com as atitudes da minha mãe, que se comportava tal como uma adolescente birrenta, fazendo tudo propositalmente a fim de testar .
- D-desculpa, eu... Eu me assustei e... – ela procurava se explicar ao passo que gesticulava, assim como fez no dia em que dera um tapa em .
- Calma, está tudo bem. – falei mais uma vez.
- Não está tudo bem, definitivamente não está. Vou me resolver com a sua mãe depois. Saia daqui antes que você estrague alguma coisa. Nem se atreva a ir para a cozinha, quero você longe dessa casa. ANDA! – ralhou para a garota, que engoliu em seco e murmurou um “desculpe” novamente, deixando o cômodo a passos apressados.
Esfreguei as têmporas, exausto. Ouvia as queixas dos demais presentes e elas não passavam de barulhos longínquos.
Eu havia me desligado e permaneceria assim para não explodir e mandar tudo para a puta que o pariu.

Ao fim do jantar, nos despedimos de Cassie e sua família. Meu pai fez menção de falar comigo, entretanto, eu levantei a mão em um pedido mudo para que ele não prosseguisse.
- Eu não quero ouvir mais nada. Fiz a merda que vocês queriam, então, só por hoje, eu peço... Não.falem.comigo. – disse pausadamente, dando as costas com a intenção de sair dali.
- Isso são modos, ? – meu pai me repreendeu. Virei-me e os encarei, a impaciência expressa em meu rosto.
- Eu só queria saber uma coisa... – girei o calcanhar, voltando a ficar de frente para eles. - vocês acham que eu tenho quantos anos? Querem resolver quando eu vou me casar, como vai ser, o que eu vou fazer... CHEGA! – me exaltei. Senti mais uma pontada de dor na minha cabeça. – Mãe, que cena ridícula foi aquela com a ? Você ultrapassou todos os limites do bom senso! Eu ainda não saí daqui por SUA causa, porque quando o pai viaja, tenho medo de te deixar sozinha devido aos seus desmaios. Meu apartamento está lá, fechado! Eu não sou mais um moleque, não é porque eu moro com vocês que vocês podem controlar a MINHA vida. – finalizei, passando uma mão pela nuca em um claro sinal de nervosismo. Meus pais continuavam imóveis e inabaláveis, como se assistissem algo banal. Bufei negando com a cabeça, desacreditando no que eles haviam se tornado. – Boa noite pra vocês. – segui para os fundos da casa, rumando até o único lugar daquela casa que eu tinha sossego.
Caminhei a passos lentos até o vasto jardim da casa, onde se encontravam alguns bancos, entre eles, um banco balanço do qual eu ocasionalmente utilizava para relaxar. Desde pequeno aquele sempre fora o meu espaço preferido por diversos motivos, um deles se dava pelo fato de ser afastado da casa. Era como uma esfera particular de tranquilidade. Em uma parte do jardim encontrava-se uma fonte, e, a sua frente, uma pequena cabana rodeada de flores. Eu realmente gostava de lá. Acendi um cigarro ao passo que me aproximava do meu destino. Era um hábito que me fazia relaxar em meus momentos de tensão. Ao chegar naquela área, avistei sentada no banco, mexendo os pés quase imperceptivelmente, fazendo-o balançar um pouco. Seu olhar estava perdido em alguma parte do ambiente e ela parecia estar imersa em pensamentos, não notando a minha presença ali. Encostei-me no batente do banco que ela encontrava-se sentada, dando uma tragada em meu cigarro, soltando a fumaça vagarosamente, atraindo a atenção de com o ato, que deu um sobressalto de susto. Abaixei um pouco a cabeça para fitá-la e não consegui conter um meio sorriso devido ao seu pulinho.
Coloquei minha mão livre no bolso da calça e voltei a olhar para frente, dando mais um trago no cigarro e observando despreocupadamente uma árvore qualquer.
- Desculpe, não te vi chegar. – ela quebrou o silêncio levantando-se em um pulo, fazendo menção de ir embora. Arqueei uma sobrancelha sem entender o motivo dela querer sair de onde estava só porque eu havia chegado.
- Não precisa sair daqui. – falei calmamente e virou-se para me olhar. – não está atrapalhando. A não ser que você se incomode com a fumaça. – finalizei, vendo-a me encarar meio ressabiada. Sustentei o seu olhar por alguns segundos, aproveitando para estudá-la neste período de tempo. Desde o cabelo que chicoteava devido ao vento, até as suas feições marcantes e simultaneamente delicadas. Passei os olhos por seus braços soltos ao lado de seu corpo e os lábios cerrados, voltando a me concentrar em seu rosto.
- Eu te queimei? – ouvi-a indagar e despertei, tentando me situar sobre o que ela falava. – eu devia ter prestado atenção, sinto muito. – Sua expressão estava contraída em preocupação, alternando sua análise entre mim e a minha calça onde ela derrubara o café anteriormente. Sorri fraco, negando.
- Você não teve culpa. Sinto muito pelo escândalo ridículo de antes. – comentei sobre toda aquela cena, realmente incomodado com a postura da minha mãe diante a ela. sorriu rápido e suave, ainda com os lábios cerrados, dando de ombros.
- Tudo bem. Já foi, de qualquer forma. – disse simplesmente. Ela falava olhando nos olhos, uma característica que eu admirava bastante.
O silêncio se instalou novamente.
Ela voltou a sentar-se no banco e eu permaneci encostado ao batente dele, ambos encarando algo a nossa frente.
- Pelo visto eu não sou o único a gostar daqui. – mencionei, sentindo o seu olhar sob mim.
- Não tem como não gostar, não é? É tão bonito e calmo. – falou de uma maneira encantada, quase infantil. Foi a minha vez de fitá-la por alguns instantes, tendo a visão de seus cabelos e uma parte de seu rosto, vendo-a observar as flores como se elas fossem a coisa mais incrível que ela já vira. – Sabe... – começou hesitante, colocando uma mecha de seu cabelo para trás. Eu fixei o meu olhar nela, que, por sua vez, contemplava o jardim. – você não me parece arrogante. – franzi o cenho, não entendendo onde ela queria chegar. – digo... você nunca me tratou com superioridade como as outras pessoas. Obrigada. – ela levantou a cabeça para me fitar. Seu sorriso tímido transmitia sinceridade e ela também sorria com os olhos. Fui pego de surpresa por sua constatação repentina, naquele momento eu apenas a fitava de volta com o cenho minimamente arqueado.
Eu nunca fiz mais do que a minha obrigação como alguém decente, não entendia como as pessoas agiam de forma tão mesquinha umas com as outras só visando a condição financeira delas. Isso não deveria separar ninguém. Ela provavelmente concluíra isso ao perceber que eu não ajo igual aos os meus pais, e eu me orgulho disso. Orgulho-me de saber separar as coisas e de conseguir me distinguir deles, de não ter me tornado dependente dessa mania de exibição, dessa segregação referindo-se a quanto você possui na sua conta bancária.
já havia desviado o olhar do meu e voltado a sua atenção ao jardim e eu nem havia me tocado, já que permanecia a encarando feito um otário.
- Não mereço agradecimento por isso, eu não sou diferente de ninguém para tratar alguém dessa forma. – finalmente concluí e os nossos olhares tornaram a se encontrar. Ela assentiu e eu tornei a olhar para frente.
- Já estou indo. – percebi que ela já estava de pé. – boa noite, . - Boa noite, . – lançou-me um sorriso doce e acenou com as mãos, começando sua caminhada até a sua casa.
A acompanhei com o olhar até que ela sumisse do meu campo de visão, dando o último trago no meu cigarro.
era, com certeza, uma pessoa intrigante.

Mauro Adami: Estilista de vestidos de noiva. Seus vestidos estão entre os dez mais caros do mundo.
Dust bags: Saquinhos de tecido que servem para envolver as it bags.




Capítulo 6


"A vida é cheia de mudanças. Às vezes elas são dolorosas, outras vezes são lindas e, na maioria das vezes, ambas as coisas." - Smallville.


- Tenha uma boa tarde, senhora Harnett. – despedi-me da minha última paciente do estágio da faculdade e suspirei cansada, jogando os braços na mesa à minha frente e apoiando a minha cabeça sobre eles.
Eu amava muito a profissão da qual escolhi, não via a hora de receber o meu diploma e fazer todas as coisas necessárias para, enfim, exercer o meu papel como profissional, porém, o cansaço do final do curso unia-se com o cansaço das provas, trabalhos, projeto de TCC, atendimentos do estágio, trabalho na casa dos e o meu trabalho de meio período aos sábados, resultando em um acumulado de exaustão. Peguei as minhas coisas e saí da sala às pressas, pois ainda teria que encontrar na biblioteca para finalizar um trabalho. Ao chegar ao ressinto, a avistei sentada em uma mesa lendo algo em seu celular, concentrada. Aproximei-me e me sentei ao seu lado, assustando-a.
- Quer me matar do coração? Nem te vi chegar. – falou com a mão sob o peito devido ao recente susto. Ri e neguei.
- O que você está lendo aí tão concentrada, hein? – questionei em um tom malicioso, inclinando a cabeça para ver a tela do seu celular. Ela riu e virou a tela do aparelho, me impedindo de ler o que estava escrito.
- Para de ser curiosa. – abri a boca incrédula. – eu vou sair com o Adrian hoje. – fez uma cara sapeca e eu ri novamente.
- Parece que o rolo está ficando sério... Preciso analisá-lo melhor. – alertei em tom de ameaça.
- Calma, ainda estamos no período de conhecer o território.
- Acho que vocês já conhecem bem o território um do outro, se é que você me entende. – constatei casualmente enquanto abria o caderno e ela me olhou boquiaberta, rindo em seguida.
- Cala a boca, vamos começar logo esse trabalho.
- Contra fatos não há argumentos. – concluí, recebendo um olhar divertido da minha amiga.

(...)


Finalizamos o trabalho algumas horas depois com uma inquieta olhando o relógio de cinco em cinco minutos. A olhei impaciente, colocando a mão em cima da sua perna que balançava freneticamente, a fim de pará-la.
- Okay, Cinderela. Pode ir, eu arrumo tudo isso. – disse, apontando para a mesa repleta de papéis, livros e canetas.
- Jura? – ela fez uma cara de cachorrinho e eu ri assentindo. – Nossa, muito obrigada! Eu te amo, sério. – me abraçou forte, quase me esmagando. Debati-me em seus braços quase sem ar.
- Vai logo antes que eu me arrependa.
- Você é maravilhosa! Tchau, monamour. – me abraçou pela última vez, saindo quase que correndo da biblioteca, nem dando tempo para que eu lhe respondesse. Balancei a cabeça negativamente, rindo enquanto guardava os materiais e arrumava aquela bagunça. Ao acabar, coloquei minha bolsa no ombro e juntei os livros em minhas mãos, despedindo-me da bibliotecária e caminhando calmamente até a saída faculdade. Já havia anoitecido, o campus encontrava-se vazio e a brisa gélida da noite fez com que eu me encolhesse um pouco sob o meu casaco, apressando o passo para chegar mais rápido ao ponto de ônibus. Senti alguém tocando os meus ombros e me virei alarmada, dando de cara com a última pessoa que eu esperava encontrar.
.
Franzi o cenho, claramente confusa pela sua presença.
olhou para os lados remexendo-se em desconforto e me encarou, o olhar vagando pelo meu e seguindo até os meus lábios entreabertos pela surpresa. Ergui uma sobrancelha demonstrando o meu incomodo e ele finalmente se tocou que teria que explicar o que queria comigo naquele momento.
- Seu tapa deixou o meu rosto dolorido por um tempão, sabia? – ele começou e eu revirei os olhos sem a mínima paciência para os joguinhos dele.
- Eu deveria ter dado outro. Geralmente você é um babaca, mas naquele dia você passou dos limites. – praticamente cuspi as palavras ao homem a minha frente, que deu um sorriso enviesado. – bom, não sei o que diabos você está fazendo aqui, mas eu estou indo embora. – virei as costas e fiz menção de andar, porém, pôs-se a minha frente.
- Eu vim dizer que foi mal por aquilo. – começou e eu o cerrei os olhos, estranhando a sua atitude. – naquele dia eu até estava disposto a falar que você não teve culpa, mas o fez as honras, não é? – notei um sarcasmo em seu tom de voz e não entendi o que ele queria dizer daquela forma.
- Aonde você quer chegar com isso? – indaguei já impaciente.
- Não quero chegar a lugar algum, só fiz uma constatação.
- Agradeço por compartilhar a sua constatação comigo. Se você já terminou, eu realmente preciso ir embora.
- Eu te levo. – ele se ofereceu e eu ri ironicamente.
- O que te faz pensar que eu vou entrar no seu carro? Enlouqueceu? – falei, já andando e ele me acompanhou. Eu gostaria de saber qual era a merda do problema de e o motivo dele ter resolvido tentar agir como uma pessoa decente do nada. Como se não bastasse, achando mesmo que eu aceitaria a sua carona.
- Para, ! Vim aqui me redimir, esquecer o tapa que você me deu e você dá dessas? – parei de andar abruptamente e o fitei totalmente desacreditada no que acabara de ouvir.
- Você é idiota ou o quê? Quer que eu te dê um biscoitinho por ter tido uma atitude adequada e ser digno pelo menos uma vez na vida? Não preciso da sua carona, obrigada. – dei sinal para o meu ônibus que milagrosamente passara naquele instante e entrei no veículo. Olhei rapidamente pela janela e avistei parado desconcertado no mesmo lugar. Sentei-me em um banco e respirei fundo, lembrando-me do fatídico momento em que nós dois nos aproximamos pra valer.

FLASHBACK

A noite estava quente e o calor fazia com que pequenas gotículas de suor aparecessem na minha testa. Eu estava na varanda de casa e via, ao longe, os amigos de rindo e conversando, enquanto ele abraçava uma garota e falava algo em seu ouvido. Tentei não me afetar com os beijos e abraços dos dois, decidindo enterrar qualquer resquício de sentimento que viesse a surgir.
- Você não está mais conseguindo disfarçar. – pulei de susto ao ouvir alguém falando ao meu lado. Olhei para a direção da voz e vi parado encarando o mesmo ponto do qual eu encarava anteriormente. A partir do dia em que nós começamos a nos falar, flertava comigo sempre que podia, até que chegou um momento em que sucumbir já era quase impossível. Nós acabamos ficando e isso meio que virou rotina, e, apesar de tudo, eu me sentia bem com ele. Franzi o cenho sem entender como eu não havia o escutado chegar.
- Como é? – indaguei confusa, recebendo um olhar cínico de que emanava obviedade sobre a sua afirmação anterior.
- A sua cara para o te entrega.
- Para de viajar, . – levantei-me de súbito e me assustei quando ele me pegou pela cintura, me levando para uma parte escondida da minha casa. – o que é isso? Está louco? – o encarei estupefata e ele me prensou à parede, sorrindo sacana.
- Uma hora ou outra o vai pedir a Cassie em namoro, gracinha. Desiste. – suas palavras me acertaram e eu tentei não transparecer o pequeno incômodo que queria surgir em algum lugar de mim. O olhei com a maior cara de “e daí?” e ele riu ironicamente. – Vamos fazer assim. – ele começou, distribuindo beijos lânguidos pelo meu maxilar, fazendo com que eu me arrepiasse de imediato. Encostou a boca no meu ouvido e tornou a falar. – vou dar uma passadinha em uma festa hoje, e, depois disso, venho te buscar pra gente ver um filme lá em casa. O que acha? Diz que vai dormir na casa de uma amiga. – finalizou, dando uma ligeira mordida no lóbulo da minha orelha e eu suspirei pesadamente.
Negar não estava nos meus planos.
- Por que eu não posso ir à festa com você e de lá nós saímos? – indaguei ingênua e ele bagunçou os cabelos olhando para os lados rapidamente, voltando a me fitar.
- Vai ser rapidinho, não tem necessidade de você ir. – explicou e eu o encarei desconfiada, porém, topei.
- Tudo bem. – sorriu e colou meu corpo ao seu, levando uma de suas mãos até minha nuca puxando-me para si, colando seus lábios aos meus de uma maneira quase erótica.

Naquela noite, eu não prestei atenção no filme.
Esqueci dos meus estranhos sentimentos a respeito de .
Não me liguei aos detalhes que quase me mostravam em letras garrafais que era cilada.
Naquela noite, eu tive a minha primeira vez.


FIM DE FLASHBACK


Balancei a cabeça para afastar aquelas memórias e ri sem humor ao me lembrar de quão estúpida eu era. No início, ficar com não envolvia nada fora atração, entretanto, o nosso envolvimento começou a evoluir.
De beijos, para amassos.
De amassos, para sexo.
De sexo, para momentos afetuosos com direito a abraços e a dormir juntos.
Conforme o tempo passava, fui adquirindo sentimentos por ele, chegando até a conseguir esquecer a incógnita que eu me encontrava acerca do . Eu não notava que era feita de otária, não notava que ele sempre tinha uma desculpa para não sair comigo em público, não notava que ele nunca me apresentava para os seus amigos por vergonha de mim. Por vergonha de admitir que estava saindo com a filha da empregada de um dos seus amigos.
Desci do ônibus e entrei no condomínio, cumprimentando o porteiro e seguindo em direção a mansão. Notei carros desconhecidos na garagem e franzi o cenho, tentando me lembrar se haveria algum evento na residência dos . Deixei meus livros em cima da minha cama ao entrar em casa e segui para o local de trabalho da minha mãe, encontrando-a servindo café em algumas xícaras.
- Oi, mãe. – dei-lhe um beijo na bochecha.
- Oi, filha. Como foi na faculdade? – perguntou, despejando café na última xícara.
- Foi tudo bem. Está acontecendo alguma coisa aqui hoje?
- Nada demais, só uma reunião com alguns advogados. – respondeu, agora picando alguns pimentões. O interfone da cozinha tocou e ela me olhou em um pedido mudo para que eu o atendesse. Tirei o aparelho da base e coloquei-o no ouvido.
- Luna, traga o café para o escritório.
A voz do senhor soou e eu fiz uma careta pelo seu tom. Dava medo.
- Senhor , minha mãe está ocupada com os preparativos do jantar, mas o café já está pronto.
- Ótimo, traga você então.
Ele desligou e eu torci o nariz, não conseguindo entender como era tão educado tendo pais tão rudes.
- Vou levar o café para eles. – anunciei para minha mãe que me olhou meio ressabiada.
- Certo. Só seja cuidadosa. – pediu e eu fiz um joinha com a mão, pegando cautelosamente a bandeja e seguindo rumo à sala de reuniões, agradecendo por ela se localizar no térreo. Ser estabanada não combinava com escadas.
Dei algumas batidas na porta e ela se abriu, revelando um que aparentava estar cansado. Fitamo-nos por alguns instantes e eu dei um sorriso tímido, que foi retribuído com o seu característico aceno de cabeça. Ele deu espaço para que eu passasse e eu entrei na sala murmurando um “com licença.” Havia três pessoas ali fora e o seu pai. Duas mulheres e um homem.
- Preste atenção dessa vez. – o senhor ordenou e eu assenti temerosa em fazer alguma coisa errada. – Thompson, a pasta está com você? – ele indagou a um homem que aparentava ter aproximadamente uns quarenta anos, que lhe entregou o objeto preto lotado de documentos.
Eu servia as xícaras para cada um cuidadosamente e sentia o olhar de alguém queimando sobre mim. Ao terminar, descobri de quem se tratava. encontrava-se encostado na porta com os braços e as pernas cruzadas e me fitava sério. Não de maneira severa, mas sim, de uma maneira... Analítica? Pisquei algumas vezes me sentindo perdida diante de sua avaliação e voltei a minha atenção aos demais presentes no recinto.
- O senhor deseja mais alguma coisa? – indaguei ao senhor , que negou com a cabeça e abanou a mão para que eu saísse. Virei-me e me dirigi à saída da sala, passando por e notando que ele encarava um ponto qualquer do local, não me olhando mais. Senti a porta sendo fechada atrás de mim e retornei à cozinha, depositando a bandeja na pia.
- Quer ajuda? – perguntei a minha mãe, que mexia algo nas panelas.
- Não, . Estou acabando aqui e já, já vou para casa. Pode ir primeiro. – disse sorrindo.
- Vou fazer algo para nós comermos, ta? – falei, já indo para a porta que dava no quintal. Minha mãe respondeu um “obrigada” e então eu saí. Cheguei em casa e tomei um banho rápido, já iniciando os preparativos para a janta.
Meus pensamentos insistiam em ir de encontro a um destino proibido chamado , o que me fazia bufar em impaciência e quase amassar as folhas que eu lavava para preparar a salada. Durante um bom tempo eu havia conseguido esconder as sensações que ele me causava, não me importava se era apenas um estado de negação ou se eu estava me enganando, enquanto eu conseguisse agir como se nunca houvesse sentido nada, as coisas ficariam bem. E tudo estava indo muito bem, obrigada, até essa nossa pequena aproximação repentina estragar tudo. Se já era complicado o suficiente quando ele não conversava comigo, imagina agora, que ele definitivamente resolveu bancar o mister simpatia – do jeito dele, claro –. Eu consigo claramente enxergar o meu anjo da guarda tendo uma baita de uma discussão com o meu cupido teimoso e bem desprovido de bom senso, devo acrescentar. Balancei a cabeça me amaldiçoando por estar refletindo sobre esse assunto e foquei no preparo da janta, que era bem mais importante, haja vista que o meu estômago gritava por comida.

**

’s POV

Suspirei aliviado ao fim da reunião. Afrouxei minha gravata e encostei-me a cadeira, observando todos ali presentes guardarem os documentos em suas pastas. Recolhi alguns papeis à minha frente e levantei-me, armazenando-os em uma gaveta, e notei Thompson vir ao meu encontro.
- Dia longo, hein, ? – começou e eu apenas assenti, ainda organizando a papelada na gaveta. – Quem era aquela bonitinha que serviu os cafés? Vi você olhando pra ela, hein. – falou casualmente, como se fôssemos velhos amigos. Parei o que eu fazia e o encarei com a sobrancelha arqueada, notoriamente demonstrando o meu desagradado diante a sua intromissão.
- Não acho que nós sejamos próximos para que você se dirija a mim dessa forma, Thompson. – censurei-o, vendo a sua expressão despreocupada tornar-se impactada. Fechei a gaveta e saí, deixando o homem ainda me fitando um tanto quanto colérico. Foda-se. Despedi-me dos demais que também saíam da sala e segui para o meu quarto, indo direto para o banheiro, necessitando de uma ducha e de descanso.

**

Eu caminhava a passos firmes em direção ao escritório da casa do meu cliente, que me esperava sentado atrás de sua mesa, visivelmente abatido. Visitaria Lee Feldman para deixá-lo ciente sobre todos os procedimentos a respeito do andamento do caso, como eu sempre fazia. Cumprimentei-o e me sentei à sua frente.
- Sr. Feldman, eu entrei em contato com todos os presentes na festa no dia do crime, porém, nenhum deles aceitou comentar absolutamente nada sobre o que acontecera. Se alguém me desse um depoimento a respeito da sua localização no momento do assassinato, nós teríamos um álibi que seria indubitável para provar a sua inocência.
- Como assim? De todos os convidados, ninguém quis falar nada? Eu estava o tempo todo no salão principal! Isso é uma barbaridade! – ele exaltou, visivelmente nervoso. Respirei fundo antes de continuar.
- As pessoas desejam se envolver o mínimo possível nesses casos por diversos motivos. Eu investiguei cada um dos empresários convidados, muitos deles possuem pendências com a justiça, seria um despropósito para eles participarem desse fato, nem que seja por meio de um simples depoimento. Ninguém quer se envolver.
- E agora? – Felman questionou, passando as mãos pela cabeça. Eu precisava fazer com que alguém de dentro daquele evento conversasse comigo, caso contrário, as coisas poderiam ficar complicadas.
- Vou dar um jeito de conseguir um depoimento a seu favor. Por enquanto, preciso que você me passe todas as notas fiscais da sua empresa dos últimos anos. Demonstrando que todas as suas atividades são legais, será um argumento a mais para provar que você não teria motivos para cometer um homicídio. – ele assentiu veemente.
- Doutor , sei do que falo, por isso, peço para que você tome cuidado. – franzi o cenho ao passo que o ouvia. – a maioria das pessoas que participaram do evento são corruptas. Durante todo esse tempo eu me mantive perto apenas para me proteger, afinal, o ditado que diz “mantenha os seus amigos por perto, e os seus inimigos, mais ainda” é totalmente verídico. – assenti vagarosamente. As ligações estranhas que eu andava recebendo me atingiram em cheio, e eu comecei a ligar os fatos. Precisava dar um jeito nisso antes que tudo piorasse.
- Não se preocupe, senhor Feldman. Serei cauteloso. Quero que se concentre no dia da festa e anote tudo o que se lembrar, todos os detalhes de todos os indivíduos. O que fizeram, o que disseram, tudo. Volto daqui duas semanas para recolher as notas fiscais e as suas anotações, ok?
- Certo. Muito obrigado. – levantamo-nos e nos cumprimentamos com um aperto de mãos.
- Vamos pegar quem fez isso. – falei com firmeza. – até mais, senhor Feldman.
- Até. – ele respondeu e eu dei um breve aceno de cabeça, passando pelos guardas e caminhando porta afora da casa.
Passei as mãos pelo cabelo, me sentindo tenso. Esse caso me deixava cada dia mais apreensivo, e o fato de ser ameaçado pelo responsável dessa situação toda transformava tudo em uma merda completa. Sabia que eu precisaria andar alarmado e redobrar o cuidado, contudo, se esse maldito acha que vai me amedrontar, está completamente enganado. Entrei no meu carro e peguei o meu celular, atendendo sem ao menos olhar em seu visor.
- Alô?
- Se você presa pela sua vida, largue o caso do Mason Zummack. – uma voz robótica soou do outro lado da linha e eu dei um sobressalto, olhando para todos os lados e pelo retrovisor.
Antes que eu pudesse responder, a ligação foi terminada.
Engoli a seco e bati a mão no volante, sentindo meu sangue correr rápido em minhas veias.
É oficial.
Eu estava sendo ameaçado.



Capítulo 7


Mas eu espero que você se reestruture, porque eu não posso me apaixonar sem você. - Zara Larsson - I Can't Fall In Love Without You.


’s POV

Eu sentia que a minha cabeça doía cada vez mais.
O meu nível de estresse com certeza estava nas alturas, eu não conseguia pensar em nada que não fosse a porra da ligação que eu recebi durante a manhã. Eu precisava pensar com calma e colocar todas as minhas ideias no lugar antes de fazer qualquer coisa que seja, afinal, agora a minha integridade física também corria perigo.
Sair do caso estava totalmente fora de cogitação.
Pedir proteção não seria muito inteligente, pois só provocaria quem quer que estivesse por trás disso tudo.
Pelo menos por hora, eu iria continuar a fazer o que estava fazendo e agir como se nada estivesse acontecendo.
Meu celular tocou e eu me senti inquieto, quase suspirando aliviado ao ver o número de Cassie piscando na tela.
- Por que você sumiu o dia todo, ? – mal coloquei o aparelho no ouvido e a voz estridente e raivosa da minha namorada soou. Fechei os olhos e levei minhas mãos às têmporas. Tudo o que eu não precisava era de mais uma discussão.
- Oi, Cassie. – minha voz soou entediada. – Eu fiquei ocupado o dia todo, desculpe. – a minha cabeça encontrava-se a mil e eu realmente havia me esquecido de ligar para a minha namorada, que parecia uma fera do outro lado da ligação.
- Sinto muito? Só isso? O que tanto você tem pra fazer que não pode ao menos dar sinal de vida?
- Eu tenho um caso fodido pra cuidar, Cassie. Só isso – respondi ríspido, já prevendo outra briga.
- Onde você estava de manhã?
- Na casa do meu cliente. – ouvia-a bufar e revirei os olhos.
- Você vive pra esse caso vinte e quatro horas por dia, eu não aguento mais! – ela esbravejou e eu perdi a calma.
- Meu trabalho NÃO É brincadeira. Eu tenho que ser sério e responsável com o meu cliente, com o caso e com as pessoas a PORRA DO TEMPO TODO. Eu tive um dia de merda, o mínimo que eu esperava de você era compreensão!
- Eu não tenho culpa se o seu trabalho te consome, não venha descontar em mim!
- Você só me ligou pra brigar? Porque ultimamente é só isso que você anda fazendo. – afirmei e a ouvi reclamar, começando a fazer um escândalo do outro lado da linha. Bufei e a cortei. – Já que você anda gostando de fazer birra, faça sozinha. Boa noite. – desliguei e praticamente joguei meu celular na mesa.
Será possível que eu não vou poder ter paz em momento nenhum?
- , preciso falar com você. – meu pai entrou em minha sala e eu recebi a resposta para a minha pergunta.
Não, eu não iria ter paz em momento nenhum.
- O que aconteceu? – questionei, já esperando alguma notícia que me deixaria mais puto do que eu me encontrava.
- Eu irei viajar amanhã e não poderei comparecer a uma reunião em outro estado no sábado, então você comparecerá por mim. – ele disse. Viajar não seria ruim, afinal. Mesmo que seja para uma reunião de negócios. Eu assenti e ele continuou. – Vou deixar todas as informações com a secretária, pegue com ela depois. – assenti novamente, sem ter o que falar.
- Mais alguma coisa? – perguntei e meu pai negou.
- Vou ficar aqui por mais algum tempo, pode ir pra casa. – terminou e saiu.
Peguei meu terno, recolhi as minhas coisas e saí, acenando com a cabeça para algumas pessoas ali. Entrei no meu carro e dei partida. Meu pescoço doía feito o inferno e eu sentia um mal-estar horrível. Foquei na rua a minha frente desejando chegar logo em casa, uma vez que não estava muito bem.

Desci do carro e decidi não entrar em casa. Segui direto para o jardim, único lugar que eu conseguia me acalmar. Peguei um maço de cigarros, retirando um de dentro dele e o acendendo. Dei uma longa tragada enquanto caminhava em meio às plantas, e a cena que eu vi ao chegar ao meu destino fora quase como a de um dejavú, se não fosse pela presença do meu cachorro. Assim como há poucos dias, estava sentada no banco. Dessa vez, ela abraçava as suas pernas que encontravam-se encolhidas junto à seu corpo e a sua cabeça repousava em seus joelhos. Ela não parecia bem. Aproximei-me, chamando a atenção de Bento, que levantou a cabeça para me observar. A garota acompanhou o olhar do cão ao seu lado e parou em mim, sua expressão vaga me fitou por poucos segundos ao passo que eu me aproximava, voltando a olhar para frente rapidamente. Bento desceu do banco e deitou-se ali pelo chão, deixando vazio o lugar ao lado de . Sentei-me ali e ela nem se moveu.
Silêncio.
Dei outra tragada em meu cigarro, soltando a fumaça vagarosamente.
Olhei de esguelha, não tendo muita visão de seu rosto, pois seu cabelo caía sobre ele. Ela esfregou a mão pela sua face depressa, gesto esse que não passou despercebido por mim.
Ergui uma sobrancelha. Ela estava... Chorando?
Caralho.
Achei melhor permanecer em silêncio.
Passaram-se alguns minutos e eu me estiquei para jogar o meu cigarro em um lixo ali perto, tornando a fitar a garota ao meu lado, que parecia ter parado de chorar, embora não tivesse movido um músculo sequer durante todo esse tempo.
- Dia difícil? – questionei despretensiosamente, sentindo o seu olhar sobre mim.
- Um pouco. – sua voz suave estava um pouco rouca, o que só confirmou o que eu já sabia. Ela realmente havia chorado. – E o seu?
- Você não sabe o quanto – ri sem humor. Ela deu um sorriso frouxo e o habitual silêncio fez-se presente mais uma vez.
Um lado meu queria perguntar-lhe se estava tudo bem.
O outro, que consistia na minha parte estressada, queria apenas ficar em paz e não ouvir a respeito dos problemas de ninguém, afinal de contas, já possuía os próprios para se preocupar.
A minha parte estressada ganhou e eu apenas resolvi não dizer nada, levando em conta que nós não tínhamos intimidade para conversar a respeito das nossas dificuldades. Apoiei as minhas costas no encosto do banco e joguei a cabeça um pouco para trás, respirando fundo. Fechei meus olhos e permaneci dessa forma por alguns minutos, logo sentindo um olhar sobre mim. Os abri e encontrei uma me fitando curiosa. A garota enrubesceu e eu ergui uma sobrancelha, quase achando graça do jeito que ela ficara, vendo-a virar o rosto para frente rapidamente ao notar que eu não me encontrava mais de olhos fechados e também a encarava curioso. Senti uma forte pontada na cabeça e levei minhas mãos ao local, me curvando um pouco devido a dor, chamando a atenção de .
- Você está bem? – ela indagou, me olhando receosa. Assenti e ela estreitou os olhos, como se não acreditasse no que eu lhe dissera. – Tem certeza?
- Sim, é só uma dor de cabeça. Logo passa. – ela afirmou vagarosamente ainda me analisando, e eu me perguntei se estava com cara de dor ou algo do tipo. – Você também não me parece estar bem. – concluí, mudando o foco da conversa para ela, visto que seus olhos levemente vermelhos indicavam o seu recente choro. Ela comprimiu os lábios e torceu o nariz, o olhar se tornou vago novamente. De repente me senti mal por ter tocado no assunto.
- É aniversário do meu pai... – Lembrava ligeiramente da minha mãe comentando sobre o pai de , que falecera quando ela ainda era pequena. Esse fora o principal motivo para que elas passassem a morar aqui. Sem saber o que dizer, apenas a encarei e falei o que ela já devia estar cansada de ouvir.
- Sinto muito. – proferi com sinceridade, fitando seus olhos vermelhos, que me fitavam de volta. Eu queria ter algo melhor para dizer, porém nada me vinha à cabeça. Nunca havia perdido alguém, não fazia ideia de como lidar com isso. sorriu agradecida e notei que o seu rosto encontrava-se corado. Ela cortou o contato visual e olhou para as suas mãos juntas em seu colo, levando-me a olhar para frente, contemplando o verde das árvores que chacoalhavam devido à ventania daquela noite.
O silêncio era acolhedor, não tinha nada de estranho.
Eu me sentia confortável, apesar do maldito mal-estar permanecer me incomodando. Fui desperto pelo rabo do Bento batendo no meu rosto e a risada divertida da fez-se presente. Pisquei os olhos, atônito, e percebi que o meu cachorro subira no banco, acomodando-se entre mim e a garota ao meu lado. Sua cabeça estava no colo dela e o seu corpo, no meu.
- Ele não tem noção do próprio tamanho. – disse, rindo. Acompanhei a sua risada, concordando.
- Definitivamente não tem. Ele toma conta da maior parte da minha cama e só dorme se tiver um travesseiro pra ele. – A garota riu ainda mais e eu comprovei que a sua gargalhada definitivamente dava vontade de gargalhar junto, pois foi exatamente o que eu fiz.
- O Bento é um cachorro humano, eu acho que um dia ele vai falar. – ela constatou, acariciando a cabeça do cão que dormia tranquilamente.
- Eu também tenho essa impressão.
- Sempre quis ter um cachorro. Quando eu ia ganhar o meu, tudo aconteceu e nós tivemos que nos mudar pra cá. – comentou casualmente, ainda concentrada no Bento.
- Deve ter sido difícil. – pressupus, e ela assentiu.
- Me sinto culpada até hoje por ter ocupado a casa que você usava. – confessou e a sua expressão era de pesar. – Sempre achei que você guardasse uma espécie de ódio de mim por isso. – um sorriso sem graça perdurava em seu rosto e mais uma vez o rubor em sua face apareceu. Arqueei uma sobrancelha e soltei um riso abafado, fitando-a zombeteiramente.
- Como é? – perguntei e ela deu de ombros, visivelmente encabulada.
- No dia em que a sua mãe nos apresentou você estava com uma cara péssima. – concluiu receosa e eu assenti, me recordando da raiva que eu sentira por ficar sem o local que eu utilizava para me encontrar com os meus amigos.
- Eu fiquei bem puto mesmo. – comecei sério, vendo-a se retrair mais. Segurei o meu riso e de repente a ideia de provocá-la me pareceu divertida. – Me lembro desse dia. Você se escondia o tempo todo atrás da sua mãe. – ela me encarou, as bochechas adquirindo cada vez mais um tom rosado. – Mas era coisa de adolescente. Eu não te odeio. – terminei despreocupadamente e ri, lançando uma piscadela em sua direção. Ela negou com a cabeça, acompanhando o meu riso.
- Que ótimo, vou poder dormir em paz. – disse, me fitando ironicamente e eu sustentei o seu olhar da mesma forma, levantando uma sobrancelha com um leve sorriso sarcástico brincando nos lábios.
Repentinamente parecíamos bons amigos conversando e eu, surpreendentemente, me senti bem pela primeira vez no dia.
Continuamos outro assunto, que se emendou em outro e mais outro. Após tantos anos morando no mesmo lugar, eu finalmente conheci um pouco melhor a garota que sempre me fora indiferente. Após um dia fodido de tão ruim, eu me permiti rir autenticamente e consegui, por pelo menos por algumas horas, deixar os problemas de lado.

’s POV

Sexta-feira, que dia maravilhoso.
Mais maravilhoso ainda era o fato de não precisar ir trabalhar amanhã, pois seria o meu dia de folga já que o senhor Jordan – dono da loja – iria testar o novo assistente contratado para me ajudar nas tarefas. Eu estava mais morta de sono do que o normal e sabia exatamente o motivo: Havia ficado até tarde conversando com na noite anterior. Falar com ele como se fôssemos bons amigos me deixou surpresa, eu nunca imaginaria que o papo fluísse tão naturalmente ao conversar com alguém, principalmente quando esse alguém é sempre tão fechado. Durante o dia todo me senti idiotamente feliz e me abominava por isso, eu abominava esses sentimentos que nunca iam embora completamente.
Assim que entrei em casa, vi que minha mãe dobrava algumas roupas e as colocava dentro de uma pequena mala.
- Mãe, pra que tudo isso? – perguntei, vendo algumas blusas em cima do sofá.
- Vou viajar com a dona Kyara, filha. Saímos daqui a pouco. – respondeu, depositando as últimas peças de roupa na mala. Franzi o cenho, claramente confusa.
- Como assim? Pra onde?
- Ela tem algumas consultas em outra cidade e eu irei acompanhá-la. O Senhor Henrico viajou hoje à tarde e o viajará amanhã. – explicou e eu assenti em compreensão.
- Quando vocês voltam?
- Domingo à noite. – olhou no relógio e fechou a mala. – O taxi deve estar próximo. Te ligo assim que nós chegarmos, ok? – disse, caminhando para fora de casa e eu segui a seu encalço. Minha mãe me deu um abraço e eu retribuí.
- Tudo bem. Boa viagem! – nos separamos e sorri para o seu aceno, correspondendo-o e vendo-a andar em direção a mansão dos .
Entrei em casa e fechei a porta atrás de mim, seguindo para o banheiro. Tomei um banho maravilhoso e preparei um lanche, ansiando pela maratona de séries que me aguardava.

Acordei totalmente e estranhamente disposta naquela manhã. Havia limpado a casa toda, feito algumas atividades da faculdade e enviado uma parte do projeto do TCC para . Depois de tomar um banho de lavar a alma, almocei e resolvi ler um livro na varanda. Sentei-me no banco que ali ficava e, quando estava prestes a iniciar a minha leitura, notei algo estranho. O carro de encontrava-se na garagem. Talvez ele tenha decidido ir até o aeroporto de taxi. Dei de ombros e voltei a minha atenção ao meu livro, entretanto, dessa vez, fui interrompida por Bento, que surgiu à minha frente, me assustando.
- Quer me matar do coração? – ri e acariciei sua cabeça, mas ele não se deitou ao meu lado como sempre fazia. O cão latiu e permaneceu ali, balançando o rabo energicamente e com as orelhas erguidas em alerta. Juntei as sobrancelhas, estranhando o seu estado agitado. – O que foi? Você está estranho, Bento. – mais um latido. Levantei-me e ele pulou em mim, jogando suas duas patas dianteiras no meu corpo, quase me derrubando. Em seguida, correu em direção à casa dos . Fiquei parada e confusa encarando o lugar pelo qual o cão entrou, não sabendo o que fazer. Em meio a passos incertos, segui para a mansão apenas para me certificar de que estava tudo bem, tirando meu celular do bolso e o segurando firme em minhas mãos, temendo que alguém estranho estivesse ali. Por mais seguro que o condomínio seja, desconfiança nunca seria demais. Entrei na casa pelos fundos como eu sempre fazia, passando pela cozinha e andando rumo à sala de jantar. Tudo encontrava-se em um silêncio sepulcral, não havia nenhum empregado em lugar algum, já que o senhor e a senhora os dispensavam sempre que iam viajar. Parei na sala e olhei em volta, me sentindo perdida.
- Onde esse cachorro se meteu? – bufei aborrecida. Ouvi um latido e virei meu corpo em direção ao som, vendo Bento no topo da escada. – Achei você! Desce daí, vem me fazer companh... – fui interrompida por mais um latido. Franzi o cenho e resolvi subir, visto que ele nem se mexeu. Subi as escadas vagarosamente e de forma receosa, e quando coloquei o pé no último degrau, Bento correu corredor à dentro, entrando em disparada em um cômodo.
Se eu bem me lembrava, se tratava do quarto do .
Parei novamente, o receio era gritante.
Eu não iria entrar lá.
Mas por que o Bento estava tão agitado?
Me mantive oscilando entre ir ou não, meus passos eram curtos e vacilavam ao passo em que eu andava vagarosamente naquele enorme corredor. Quando alcancei a metade do caminho, ouvi um urro abafado. Dei um sobressalto e finalmente decidi andar apressada até o quarto.
Ao chegar lá arregalei os olhos, assustada.
encontrava-se sentado no chão.
Urrando de dor.
Ele se inclinava pra frente com as duas mãos na cabeça e os seus olhos se apertavam com força.
Outro urro, dessa vez mais alto, invadiu os meus ouvidos. Eu corri até e me abaixei em sua frente, totalmente desesperada.
- ! – ele abriu minimamente os olhos para me fitar, os fechando rapidamente. Ele estava pálido e eu angustiada.
- , eu... Argh. – grunhiu e parou de falar, se inclinando mais. O apoiei em meu corpo e, com muita dificuldade, o coloquei em sua cama. – Deita aqui, eu vou ligar para o Doutor Elish. – saí em disparada para o escritório, onde eu sabia que havia vários números de telefone. Doutor Elish era um médico do condomínio e amigo da família. Recorrentemente atendia à senhora devido aos seus desmaios, tendo até mesmo atendido a mim e a minha mãe. Folheei a agenda com pressa e encontrei seu contato, discando os números pelo meu celular. Eu corri de volta ao quarto enquanto aguardava ser atendida, e, após alguns toques, ouvi a voz calma do senhor do outro lado da linha.
- Doutor Elish falando.
- Doutor, é a , da residência dos . Eu... Eu não sei o que fazer, o está muito mal, parece estar com muita dor e... Ele está apertando a cabeç... – Calma, . – fui interrompida por seu tom de voz terno. – Eu estou saindo de um plantão e daqui a pouco chego aí, tudo bem? Por enquanto, me escute. – respirei fundo e esperei que ele continuasse, passando a mão nos cabelos em nervosismo ao ver se contorcendo daquela forma.
- Primeiro, verifique para mim se ele está quente. – fiz o que me foi pedido e, delicadamente, coloquei minha mão livre em sua testa.
- Não, Doutor. Ele está suando frio, apenas.
- Certo. Agora, feche a cortina. Deixe o ambiente escuro, tudo bem? – eu andava apressada pelo quarto, fechando a cortina que cobria a enorme janela do quarto de . Olhei para ele, que continuava com as mãos na cabeça e os olhos fechados.
Grunhiu novamente, se revirando na cama, e eu, aflita, senti o meu coração apertar.
- Pronto. E agora? – questionei, sentando-me no espaço vago da cama, sem tirar os olhos do homem à minha frente.
- Pegue uma bolsa de água ou um pano e mergulhe na água fria. Feito isso, ponha na testa dele. Estou a caminho.
- Tudo bem. Obrigada, Doutor – falei, já descendo as escadas, quase tropeçando nos meus próprios pés.
Finalizei a ligação e, sem paciência para procurar a bolsa de água, peguei um pano limpo em uma gaveta e o molhei na água fria. Retornei ao quarto igual a um furacão, tornando a me sentar ao lado de , e, com destreza, peguei a sua mão que encontrava-se em sua testa e a retirei de lá, depositando o pano dobrado no local. Estava tão absorta no que fazia que não notei que ainda a segurava. Olhei para minha mão por cima da sua e engoli a seco. As conhecidas borboletas fizeram-se presente. Quando eu fiz menção de retirá-la de lá, virou a sua palma e a segurou com firmeza, dando um breve aperto, provavelmente por causa da dor.
- Calma, o Doutor está chegando. – falei quase em um sussurro, usando a mão livre para arrumar o pano em sua testa.
Bento estava deitado no pé da cama com a cabeça apoiada nas patas dianteiras, observando tudo atentamente. Parei para admirar o quão inteligente aquele cachorro era, afinal, se não fosse por ele, provavelmente teria algo mais grave, haja vista que ninguém o veria passar mal. Alguns minutos depois, ouvi a campainha tocar. Com pesar, soltei a mão de e desci velozmente para atender a porta, vendo a feição sempre serena do médico a minha frente me trazer alívio.
- Obrigada por vir, Doutor. – disse, dando espaço para que ele passasse e fechando a porta, já seguindo para o quarto de .
- Não precisa agradecer. – ele sorriu, seguindo a meu encalço. Entramos no quarto pouco iluminado e o Doutor Elish foi em direção ao homem inquieto deitado na cama. Eu permaneci próxima a cama com os braços cruzados e me sentindo perdida.
- , é o Doutor Elish. Eu sei que você está com muita dor, mas eu preciso que você responda algumas perguntas, tudo bem? – ele assentiu. – Vamos lá... Diga-me o que está sentindo.
Após um longo suspiro, ele começou:
- Minha cabeça... Está latejando de dor...
- Ok. Piora quando você abre os olhos? – assentiu novamente. – E o que acontece no momento em que os abre?
- Eu vejo alguns... Pontos brilhantes e manchas escuras. Meu braço está dormente. – ele reclamou com a voz rouca, sentando-se na cama ao inclinar-se para frente devido a uma pontada em sua cabeça. Eu fui para o seu lado, apavorada, e o fiz deitar novamente. - , você precisa ficar deitado. – falei suavemente para não piorar a sua dor, enquanto o Doutor Elish anotava algo em um bloquinho de papel. Ele abriu os olhos minimamente e me fitou com a expressão contorcida em dor, e, mais uma vez, senti o meu coração apertar. Não suportava ver alguém sofrendo, e, quando esse alguém se tratava de , a situação piorava. – Feche os olhos, está bem? Ficar com eles abertos vai piorar. – aconselhei em um sussurro. O vi fechar os olhos e o Doutor parou suas anotações.
- Há quanto tempo você está sentindo essas dores, ?
- Há algumas semanas.
- O que você tem é uma crise forte de enxaqueca com aura, que refere-se a uma intensa dor de cabeça com sensibilidade à luz e à barulhos. A manifestação mais comum da enxaqueca com aura é a chamada aura visual, que pode se apresentar como flashes de luz, manchas escuras em forma de mosaico ou imagens brilhantes em ziguezague, e também pode ocorrer dormências ou formigamentos em apenas um lado do corpo, que é o que você está sentindo. Durante uma crise o paciente não suporta ambientes barulhentos e muito iluminados, e, apesar de existirem vários fatores desencadeantes de uma enxaqueca, o gatilho mais importante é, sem dúvida, o estresse emocional. – O Doutor Elish falava calmamente e eu ouvia tudo extremamente atenta. – Por hora, não há necessidade de ir ao hospital. Vou medicá-lo e passar algumas prescrições, entretanto, irei encaminhá-lo a um Neurologista que poderá obter um diagnóstico mais aprofundado. – ele disse, procurando algo em sua bolsa e retirando uma cartela de comprimidos dela.
- Vou pegar um copo d’água. – avisei e saí do quarto em passos velozes até a cozinha. Peguei um copo e despejei o líquido gelado nele, subindo rapidamente e o entregando a que encontrava-se sentado com o comprimido em mãos.
Ele o tomou e respirou fundo.
- Eu tenho uma reunião, preciso viajar, não posso ficar em casa. – alertou visivelmente preocupado.
- Sinto lhe dizer, meu rapaz, porém, você terá que remarcar seus compromissos. O ideal é que se deite e fique em repouso absoluto, nada de estresse. – fechou a cara e, meio a contragosto, voltou a se deitar. – o medicamento não demorará a fazer efeito, recomendo que durma, descanse e resolva as suas pendências depois. – Terminando de dizer isso, ele virou-se para mim. – Eu tenho que fazer algumas visitas domiciliares, então preciso ir. Não se preocupe, a crise está controlada. – explicou e eu assenti, saindo do quarto acompanhada com o simpático senhor. Fiz um sinal com a mão para Bento, que não queria sair de perto da cama de . O Doutor deu uma risada baixa ao meu lado e eu suspirei derrotada, vendo que ele não sairia de lá. Deixei a porta do cômodo encostada e segui até a saída com o Doutor.
- Muito obrigada, Doutor Elish. Desculpe se te incomodei. – falei, recebendo um sorriso quase paternal em resposta.
- Não se preocupe, . Me ligue se acontecer alguma coisa, tudo bem? Só queria te pedir para aguardar até que o acorde, apenas para se certificar de que ele estará bem.
- Pode deixar, ficarei aqui até ele acordar. – retribuí o sorriso e acenei ao ver o senhor assentir e entrar em seu carro.
Voltei para dentro da mansão e fiquei parada na sala tal como um vaso de planta.
O que eu iria fazer?
Bom, eu deveria ligar para alguém próximo a .
O problema era que eu não tinha o telefone de ninguém.
Será que a sabia o número da Cassie? Com certeza seria mais apropriado se ela ficasse com ele.
Peguei meu celular e disquei o número da minha amiga. Alguns “tu’s” depois, ela atendeu.
- Olá, amorzinha! – disse com o seu típico tom animado.
- Oi, mi amor! Tudo bem?
- Tudo ótimo! E você, como está? Já sentindo a minha falta? – indagou convencida e eu ri.
- Sim, preciso ouvir a sua voz para animar o meu sábado. – gargalhou e eu continuei. – Na verdade, preciso mesmo é saber se você tem o telefone da Cassie.
- Oi? Pra que você quer o telefone dela?
- O teve uma crise de enxaqueca extremamente forte e todo mundo viajou. Eu chamei o médico do condomínio, que o atendeu, mas eu não sou a pessoa mais apta para estar aqui, entende? Queria avisar a Cassie.
- Caramba, ! Mas está tudo bem?
- Sim, agora está.
- Infelizmente eu não tenho o telefone dela, desculpe. – sua voz soou pesarosa. – Porém, vou perguntar pra alguns conhecidos meus e te passo o número caso eu consiga, okay? Talvez o Paolo tenha.
- Obrigada, amiga! Vou esperar.
- Por nada, sweetie. Beijo.
- Beijo.
Finalizei a ligação e suspirei, sentindo a adrenalina baixar e um pequeno cansaço se apossar do meu corpo. Vivenciar fortes emoções em menos de uma hora dá uma baita moleza. Sentei-me no sofá e apoiei a cabeça em minhas mãos, ainda meio atônita e com os costumeiros sentimentos irritantes me importunando. Ver o frágil daquela forma foi desesperador. Quão estressante seria a sua rotina para que ele tenha ficado doente?
Cerca de uma hora depois – de muito tédio, devo acrescentar – meu celular apitou, indicando uma nova mensagem de .

, não consegui o número da Cassie e o Paolo não entende”

Droga.
Passei as mãos no cabelo e olhei em volta, incomodada.
Lembrei do livro que eu iria começar a ler mais cedo e levantei-me com a intenção de ir buscá-lo. O peguei de cima do banco onde eu o havia deixado anteriormente e voltei para a sala da mansão, sentando-me novamente no sofá e começando a minha leitura até que acordasse.

Uma hora.
Duas.
Três.
Havia acabado de ler o livro e chequei as horas em meu relógio. 17hrs13min. Será que havia acordado? Saí da sala e subi as escadas pela milésima vez no dia, e, quando cheguei perto do quarto de , parei ao ouvir a sua voz. Ele parecia estar em uma ligação.
- (...) Não fui, cara. Tive uma porra de crise de enxaqueca, cancelei tudo (...) Sim, estou legal (...) Eu já liguei pra Cassie umas dez vezes e ela não me atende, é foda (...) Eu ia chamá-la para ficar aqui comigo (...) Sei lá, não nos falamos desde quinta (...) Beleza, se der aparece aqui (...) Tchau.
Mordi o lábio me sentindo sem graça. Bom, pelo menos ele parecia estar bem. Terminei o caminho e bati na porta que eu outrora havia deixado encostada. Ouvi um “entra” e, hesitante, a abri, encontrando sentado na cama encarando o celular em sua mão com uma feição séria e eu diria que também desapontada.
Não entrei, permaneci parada na entrada do cômodo e ele levantou seu olhar até mim.
- Oi... – comecei. – Você está melhor? – ele assentiu.
- Obrigado pelo que você fez, . Mesmo.
- Não precisa agradecer. – sorri. – o Doutor deixou o remédio em cima da cômoda e as recomendações escritas naquele papel. – apontei para o local e dirigiu a sua atenção até o lugar em que eu indicara com o dedo, voltando a me encarar atentamente. – Tente não se esforçar demais e não me assustar de novo. – brinquei e ele riu, concordando.
- Desculpe, não irá mais acontecer... Eu espero. – lançou-me um riso fraco.
- Não está sentindo mais nada?
- Não, estou bem.
- Então eu vou te deixar descansar. Caso você se sinta mal, eu estarei em casa. – avisei sob o seu olhar minucioso.
- Certo. Não se preocupe, pode ir.
Sorri pela última vez lançando-lhe um “tchauzinho” com as mãos, saindo do quarto e sentindo o seu olhar queimar em minhas costas.
Senti uma brisa suave bater em meu rosto assim que me retirei da casa dos e respirei fundo, encostando-me a um pilar.
Eu só queria não sentir o que eu sentia.



Capítulo 8


“O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação." - Carl Jung.


’s POV

- E ai? – cumprimentei , dando espaço para que ele entrasse.
- Puta merda, você está horrível. Tem certeza de que melhorou? – ele disse, me analisando de maneira exagerada.
- Vai se foder – ri e me sentei no sofá, prestando atenção em um jogo qualquer que passava na televisão e o meu amigo se jogou na poltrona à minha frente sem cerimônia, entrelaçando as mãos atrás da cabeça com o seu usual jeito despreocupado.
- Sério, me fala direito o que te deu.
- Nem eu sei. Eu acordei meio mal e foi piorando conforme eu arrumava as minhas coisas pra viagem.
- E como você fez com a reunião que o seu pai disse pra você ir? – indagou e eu passei as mãos no rosto em cansaço, já prevendo a reação que o Senhor Henrico teria ao saber que eu não fui à viagem.
- Cara, eu mandei uma advogada de lá do escritório pra ir no meu lugar.
- Ser filho do patrão tem várias vantagens, meu amigo. – ele brincou e eu assenti com certa aversão. A verdade é que eu odiava esse título de “filho do patrão”, isso tirava todos os meus méritos sobre o espaço que eu estava conquistando no meio da advocacia.
- Ele vai ficar puto, mas eu estava sem condições de enfrentar uma viagem e encarar uma reunião. Ainda bem que a me ajudou e...
– Como é? – me interrompeu surpreso e eu franzi o cenho sem entender.
– Como é o quê? – perguntei e o vi se remexer, olhando para o lado. Continuei não compreendendo.
- ? O que ela estava fazendo aqui?
- Ela mora aqui? – respondi como se fosse óbvio.
- Digo... Aqui, dentro da sua casa. Como ela soube que você estava mal?
- Não faço ideia. Mas isso não vem ao caso, cara. Pra que esse espanto todo? A é uma garota legal, você que faz questão de ser um otário com ela. – ressaltei e vi a sua expressão fechar. Ele riu irônico em seguida.
- Virou defensor dos fracos e oprimidos mesmo?
- Não, só queria entender o motivo da sua birra infantil com alguém que nunca te fez nada. – respondi seco e levantou as mãos em rendição. - Wow, calma aí, bad boy. Não está mais aqui em falou da sua nova protegida. – enfatizou debochado. Eu permaneci o olhando de forma séria e com uma sobrancelha erguida. Percebendo que eu não havia gostado do rumo da conversa, ele continuou. – Mudando de assunto, e a Cassie? Conseguiu falar com ela?
- Não. – bufei. – Está cada vez mais difícil de lidar com as suas irritações, estou ficando de saco cheio.
- Até onde eu sei, ela está em uma festa com a Suzi. – disse e eu estreitei os olhos, indignado.
- É brincadeira, né?
- Não, eu vi um post da Suzi no SnapChat e a Cassie estava junto. – informou. Tudo o que eu consegui fazer foi rir incrédulo, balançando a cabeça em negação.
- Eu estou a porra do dia INTEIRO tentando falar com ela! – peguei meu celular e, revoltado, disquei o número da minha namorada, esperando que ela atendesse.
- Calma, cara. Você não pode se estressar. – meu amigo avisou.
Não me importei, afinal, eu já me encontrava totalmente furioso. Após alguns toques, finalmente ouvi a voz de Cassie soar em meio a uma agitação de pessoas, conversando e uma música alta ao fundo.
- O que é? Lembrou que tem namorada? – zombou sarcástica e eu ri em escárnio.
- EU lembrei que tenho namorada? Cassie, eu te ligo todos os dias, o tempo todo, e VOCÊ não me atende! Não banque a vítima! – bradei irritadiço, andando de um lado para o outro, vendo gesticular para que eu me acalmasse.
Pro inferno a calma.
- Por que eu te atenderia? Pra você desligar na minha cara de novo?
- Isso foi na quinta-feira, eu mandei mensagem me desculpando, puta que o pariu! Qual é o seu problema? Seu temperamento está ACABANDO com o nosso namoro! – ouvi sua risada e aquilo só me irritou ainda mais.
Se é que seria possível.
- O seu descaso está acabando com o nosso namoro, ! Esse seu caso idiota é mais importante do que eu! – lá vamos nós de novo.
- Eu não estou acreditando no que estou ouvindo, Cassie. Você – frisei. – está se ouvindo? Não se faça de desentendida, você sabe muito bem que as nossas brigas não acontecem só por causa do MEU TRABALHO! Você cria uma atitude sobre qualquer coisa! – exclamei, esgotado daquilo. A essa altura eu já andava pela casa, deixando na sala.
- VOCÊ É A RAZÃO PELA QUAL EU SEMPRE CRIO UMA ATITUDE! – minha namorada explodiu e foi a minha vez de rir, irônico.
- Você está me cobrando atenção, então vamos lá... A festa com a sua amiga está boa? O otário aqui te ligou a merda do dia todo, sabe por quê? Porque eu queria que você ficasse comigo, já que eu não fui viajar! – a ouvi resmungar e continuei. – Você se importa tanto que eu te avisei que viajaria e você não me deu UMA RESPOSTA! – terminei, passando nervosamente a mão livre pelos cabelos.
Silêncio.
Após alguns segundos, a voz de Cassie fez-se audível novamente.
- Você é engraçado, . Só vê o seu lado, não é mesmo?
- Me diz quando eu deixei de tentar te entender, porque eu não me lembro. O que você está falando não faz o menor sentido e você sabe disso. – debrucei-me na sacada, me sentindo tenso. Torci pra não ter outra crise infernal de enxaqueca.
- Não acho que você se importe, sinceramente.
- Se eu não me importasse eu não estaria tentando conversar com você, que, por sinal, está em uma porra de uma festa! – por mais que eu tentasse, todas as minhas palavras saíam ríspidas, demonstrando quão irado eu me encontrava.
- Quer saber, ? Tchau. Esse papo não está nos levando a lugar algum. – minha namorada disse e eu balancei a cabeça, desacreditando que ela iria mesmo continuar a se comportar daquela maneira.
- Beleza, Cassie. Você quem sabe. Tchau. Eu cansei de discutir com você, cansei de todas essas brigas. Cansei de tudo isso.
- O que você quer dizer com isso? – questionou afobada.
- Quero dizer que eu não estou a fim de falar com você. Depois a gente conversa. Tchau. – ouvi-a responder um “okay” e terminar a ligação. Encarei um ponto qualquer a minha frente, inexpressivo. Eu não conseguia entender o que havia de errado com a Cassie. Nosso relacionamento nunca foi perfeito, óbvio. Sempre tivemos nossos desentendimentos, entretanto, de uns tempos pra cá, as brigas tornaram-se frequentes e isso estava desgastando a nossa convivência ao ponto de me fazer repensar se esse namoro ainda valia à pena. Eu não iria permanecer preso a algo repleto de brigas, falta de compreensão e de comunicação.
Relacionamento não é isso.
Não um saudável, pelo menos.
Senti uma presença ao meu lado e avistei, pelo canto do olho, perto de mim.
- Se resolveram?
- Não.
- Contou pra ela que você estava mal?
- Também não. Foda-se, cara. Que relevância isso tem? Sinceramente, não vejo muito futuro pra nós dois. – respondi cansado.
- Você vai terminar com ela? – ele questionou assustado.
- Não sei. Ficar nessa guerra é exaustivo, eu estou cansado de discutir. O problema é essa merda toda, tudo pra ela é motivo de briga.
- Boa sorte com isso, meu caro. Você vai precisar. Bom, eu vou passar na festa que a gata da Suzi está, afinal, os trabalhos não irão se iniciar sozinhos – meu amigo deu um sorriso sacana e eu ri, assentindo.
- Vai lá, cara. Valeu por vir – o cumprimentei com um meio abraço.
- Relaxa. Falo alguma coisa pra Cassie caso encontre com ela?
- Não, deixa quieto.
- Beleza. Até mais, grande . – despediu-se pela última vez e saiu.
Continuei apoiado na sacada, aproveitando a noite amena que fazia e tentei não pensar em problema algum – e eles eram muitos. Olhei para o lado e tive a visão da casa aos fundos da minha, cujo as luzes encontravam-se acesas. havia sido bastante atenciosa comigo, tê-la por perto em uma situação como a de hoje foi reconfortante, ela era definitivamente alguém amigável. Entrei em casa e resolvi assistir alguma coisa na TV, já que, aparentemente, a minha noite se resumiria somente a isso.

**

- Então deu tudo certo na reunião? (...) Compreendo (...) Obrigado, Doutora Bazan. Irei aguardar o seu relatório (...) Até. - finalizei a ligação após falar brevemente com a advogada da qual eu havia mandado à reunião em meu lugar e levantei-me do sofá, ainda me sentindo um pouco abatido devido a medicação. Peguei a minha pasta de documentos e caminhei até a área externa que dava acesso à varanda a fim de aproveitar o clima agradável da noite para ler alguns processos, me sentei na poltrona que ali se encontrava e, previamente a iniciar a minha tarefa anteriormente planejada, olhei casualmente através do vidro da extensa janela de correr e avistei, de longe, caminhar cheia de sacolas e pacotes de mercado em suas mãos, esforçando-se para andar e enxergar entre todas aquelas embalagens. Ela seguia rumo à sua casa com aparente complicação em meio a passos desordenados, então, com o intuito de ajudá-la, me ergui e fui até onde a garota se encontrava.
- Ei, deixe-me te ajudar. – ofereci a , que levantou o olhar curioso dentre os pacotes. Eu quase ri de seu esforço em tentar me avistar.
- Obrigada, mas... está tudo... sob controle. – ela respondeu com dificuldade enquanto tentava subir o único degrau contido no início da varanda de sua casa. Ri e neguei com a cabeça frente a sua teimosia.
- As sacolas estão quase te engolindo. – ressaltei irônico, ouvindo-a resmungar algo. Seu pé topou com o degrau rápido demais para que um desastre fosse impedido, com isso, todas as compras contidas na embalagem desabaram no chão. praguejou, abaixando-se e eu fiz o mesmo, recolhendo os objetos espalhados por ali.
- Obrigada. – ela sorriu encabulada e colocou uma lata de molho de volta na sacola. – Aparentemente, a gravidade me odeia. – resmungou de um jeito bem humorado, arrancando um breve riso de mim.
- Receio que seja uma relação difícil.
- Infelizmente. – riu e se levantou, dessa vez, com menos pacotes em mãos, já que eu segurava alguns. Abriu a porta de sua casa e fez um sinal para que eu entrasse e a acompanhasse até a mesa, onde depositou as compras que carregava. Eu já não me recordava tão bem daquele local que fora cenário de diversos acontecimentos da minha infância e adolescência.
- Quanto tempo que eu não venho aqui... – comentei arbitrariamente enquanto observava tudo de modo sucinto, parado na cozinha em conceito aberto com as mãos no bolso da minha calça. A garota que antes guardava algumas coisas no armário virou-se para me olhar com uma expressão serena.
- Sinta-se em casa. – gracejou sarcástica, eu a olhei e arqueei uma sobrancelha rindo fraco de sua piada pífia. Varri o lugar com os olhos, observando atentamente os diversos quadros espalhados pela parede e parei em um retrato onde , sua mãe e mais algumas pessoas posavam sorridentes e descontraídas para a foto. Ela acompanhou o meu olhar e sorriu.
- É a minha família por parte de pai. – explicou. A encarei meio confuso e ela apontou para o porta retrato que eu fitava anteriormente. Assenti em compreensão.
- E a família da sua mãe? – perguntei em um ato impensado, notando a garota torcer o nariz e dar de ombros. – Desculpe a intromissão.
- Não, tudo bem! – ela sorriu. – É que a nossa relação é meio... Inexistente. A minha mãe engravidou de mim muito cedo e os pais dela não aceitaram, viraram as costas e a expulsaram de casa. Pelo que eu sei, eles eram bem conservadores.
- Você nunca viu os seus avós?
- Não. Nós não temos contato. – sua feição terna transparecia uma sutil tristeza em meio ao seu sorriso cabisbaixo, o que causou um incômodo inusitado em mim. – Mas não tem problema, porque embora a família do meu pai more em outra cidade, temos uma relação ótima, então não é o fim do mundo. - Ela recobrou o genuíno sorriso habitual e virou-se para a pia com a finalidade de lavar não sei o quê. Ao pressionar a válvula da torneira, o jato de água saiu com muita pressão, esguichando o líquido por todo o lugar. – inclusive em , que deu um gritinho afetado enquanto tentava conter o jato desordenado.
O que não surtiu efeito algum, haja vista que o encaixe da válvula havia se soltado.
Corri até lá e tentei encaixá-lo de volta enquanto esforçava-se na tarefa de controlar o aguaceiro desenfreado que ensopava a nós dois e a cozinha em uma cena quase patética protagonizada por ambos.
- Você sabe onde fica o fornecimento de água da pia? – questionei, virando o rosto para evitar que a água espirrasse em mim.
- Ali embaixo. – ela repetiu o meu ato e apontou com a cabeça em direção a parte debaixo do lavatório. Abaixei-me e localizei o registro individual, fechando ambas as válvulas rapidamente. Ergui-me novamente assim que o fluxo de água fora interrompido, vendo retirar as mãos da torneira completamente encharcada, assim como eu. – Como isso aconteceu? – questionou para si mesma durante o tempo em que contemplava desolada a peça que se soltou da torneira em sua mão.
- Queria ter a resposta para a sua pergunta. – respondi, passando a mão em meu cabelo molhado. Ela olhou o chão tomado por água e suspirou.
- Vou ficar até amanhã arrumando essa zona. – reclamou irritadiça, retirando um pano de dentro de uma das gavetas, esfregando-o no chão. – Obrigada pela ajuda com as compras e com o registro, – levantou os olhos para me olhar e sorriu. – não vou mais tomar o seu tempo.
Ver aquela bagunça e sozinha para limpar tudo me deu pena. Em um ato voluntário, agachei-me e peguei um dos panos que a garota retirou da gaveta, secando uma parte do piso molhado.
- O que você está fazendo? – indagou exasperada ao me ver com o pano em mãos e eu a fitei com o uma sobrancelha arqueada.
- Acho que parece óbvio, não é? – retruquei irônico.
- , há poucas horas você mal conseguia manter os olhos abertos. Não deveria fazer esforço, você ouviu o Doutor! – repreendeu inconformada. A encarei em puro tédio sem conseguir reprimir o sorriso ladino em meus lábios.
- Estou secando um chão, não disputando uma maratona. – franziu o cenho ultrajada com a minha resposta.
- Não acho que seja adequado que você faça isso.
- Eu posso saber o motivo? – questionei crítico, já imaginando o que viria a seguir.
- Porque... Você não faz essas coisas. – explicou embaraçada, gesticulando em direção aos panos e ao chão. Franzi o cenho, quase ofendido com a sua fala.
- Até onde eu sei, eu tenho mãos e todos os membros que me possibilitam executar qualquer tipo de tarefa, . Não entendi o seu ponto. – Rebati ácido. Ela suspirou e tocou as têmporas por poucos segundos, tornando a me olhar.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Não, não entendi. Por que eu não faço “essas coisas?” – Insisti. bufou impaciente.
- Quer mesmo que eu esclareça? Achei que só o lugar em que você vive já deixasse subentendido. – Revidou, tombando ligeiramente a cabeça para o lado com um sorriso nos cantos de seus lábios.
Permaneci com a expressão descontente e fechada.
- Você supôs uma característica da minha personalidade somente tomando como base o meu estilo de vida? , eu não sou assim.
- Eu sei que não. – o sorriso continuava lá, porém, agora mais meigo. – Mas ainda assim é estranho, sabe? Não disse por mal.
- Deixe-me ajudar, tudo bem? – falei, cravando a minha atenção em seus olhos atentos. – Eu quero. – suspirou mais uma vez e assentiu com a guarda mais baixa, me fitando da mesma forma.
- Certo. Você quem sabe. – abaixou o olhar e tornou a mover o pano no piso. Durante milésimos de segundos encarei o nada onde, anteriormente, os olhos contemplativos de me estudavam e passei uma mão em minha nuca, inquieto.
Franzi o cenho outra vez e resolvi voltar à situação anterior, secando a possa d’água do piso.

Após alguns minutos focados no chão, pegou o rodo e começou a puxar o resto da água. Com isso, apanhei outro pano e resolvi enxugar os respingos de água que caíram nos armários. Incomodado com a camisa molhada, retirei-a e a coloquei no balcão, imediatamente me sentindo melhor sem o tecido colado em meu corpo.
- , você pode me dizer onde tem outro pano? – perguntei, voltando a minha atenção à garota que encontrava-se ruborizada. Ela piscou algumas vezes aparentando estar aturdida e eu ergui uma sobrancelha sem entender. – Está tudo bem?
- Sim! Claro, estou bem. – falou, sorrindo e assentindo freneticamente enquanto sacudia o pano que ela usava para enxugar o chão. – Vou procurar, só um instan...Ai!
Enquanto chacoalhava o tecido, bateu a ponta dele em um de seus olhos, automaticamente o soltando e levando as mãos no lugar atingido.
E foi naquele momento que eu tive certeza: Ela era a pessoa mais desastrada que eu conhecia.
Levantei-me em um pulo e fui até ela, que permanecia resmungando baixinho apertando o local.
- Ei, calma! Não faça pressão, só vai piorar. – disse, retirando sua mão dali. Seu olho ferido continuava firmemente fechado.
- Mas está ardendo! – reclamou em um murmúrio desconsolado, quase adorável, se não fosse aquela situação.
- Vem cá. – A guiei gentilmente até onde eu lembrava ser o banheiro e abri a torneira de lá. – Deixe cair bastante água nos olhos.
fez o que lhe foi dito e, em seguida, desligou a válvula, ainda com o olho baixo, embora já conseguisse o abrir mesmo que minimamente.
- Está muito ruim? – questionou preocupada.
- Não. Deixe-me ver. – pedi, me aproximando dela. Apoiei minha mão em seu rosto e toquei o olho machucado com cuidado, notando apenas uma leve vermelhidão no local.
E também notei a respiração pesada de bater contra o meu rosto.
Desviei a minha concentração do lugar atingido pelo pano e a fixei na garota imóvel à minha frente, que me fitava de uma forma que eu não conseguia identificar.
De acordo com a física, a força de atração recíproca é chamada de força elétrica, e essa sucinta explicação descrevia todo aquele instante. Repentinamente algo me atraiu para os olhos de , algo do qual era difícil desviar. Ela escorreu seus olhos pelos meus e desceu até a minha mão pousada em seu rosto, voltando a me analisar. Uma merda de agitação inusitada se fez presente, algo que eu não soube identificar, contudo, que aumentava na proporção em que eu estudava a face delicada da garota atenta à minha frente.
Que diabos eu estava pensando?
Franzi o cenho totalmente confuso e sem reação e, como se pudesse ler os meus pensamentos, quebrou aquela atmosfera inexplicável.
- Eu acho que posso terminar tudo sozinha agora. – Em um gesto de puro reflexo, ela tocou quase que imperceptivelmente o meu tórax desnudo em um pedido mudo para que eu me afastasse. Reprimi a contração naquela área em resposta àquele ato e me afastei rapidamente. A sua voz baixa mais pareceu um sopro em meus ouvidos.
- Certo... Tudo bem. – Limitei-me a dizer.
- Obrigada pela ajuda.
- Por nada. – acenei com a cabeça e ela me lançou um “tchauzinho” com as mãos. Dei as costas e saí do cômodo, passei pela cozinha para pegar a minha blusa e a joguei de qualquer jeito em meu ombro, me retirando da residência completamente perdido.
Mas que porra foi aquela?
Esfreguei o cabelo e, logo após, o rosto, na tentativa de me situar.
Recolhi todas as folhas que eu havia deixado na poltrona da área externa e as guardei na pasta, rumando para dentro de casa me sentindo nervoso e irritado.

O domingo estava mais monótono do que de costume.
Havia andado com Bento, ligado para o Senhor Feldmann e estudado alguns casos pendentes, dedicado ao máximo a evitar evocar os flashes a respeito da estranha e aleatória cena da noite anterior.
Como sempre, Cassie encontrava-se fazendo as mesmas birras infantis de sempre e não me atendia ou sequer visualizava as minhas mensagens.
Pro inferno ela e suas atitudes imaturas. Não era como se eu fizesse muita questão, para ser sincero.
Somente vi durante o tempo em que ela recebera o encanador que concertaria a pia de sua casa e, após isso, não a avistei durante o resto do dia. Isso não era habitual dela, já que sempre brincava com Bento todos os domingos.
Ouvi uns burburinhos vindos do andar de baixo e saí do escritório, identificando a voz da minha mãe. Desci as escadas e a encontrei falando com , que somente ouvia e assentia. A mulher sorriu para mim e eu acenei para ela, que fez menção de subir as escadas com as malas.
- ! – a chamei e ela virou-se.
- Sim, senhor?
- Deixe as malas aí e vá para casa. Eu mesmo as levo.
- Não, tudo bem. Eu posso fazer isso. – Ela argumentou prestativa e eu neguei.
- Eu faço. Só vá descansar. – olhou para minha mãe, que apenas balançou as mãos, permitindo que ela se retirasse.
- Obrigada. – a mulher sorriu terna –. Boa noite.
- Boa noite, .
- Boa noite. – minha mãe respondeu e ausentou-se, deixando a mim e a Dona Kyara a sós.
- O que houve com você, ? O seu pai me ligou enfurecido com mil reclamações a seu respeito! – ela exclamou alarmada e eu massageei as têmporas em cansaço só de imaginar o que aconteceria ao encontrar meu pai.
- Boa noite, mãe. – cumprimentei irônico, vendo-a revirar os olhos. – Não pude ir à reunião, tive uma crise de enxaqueca.
- Desde quando você tem enxaqueca? – minha mãe questionou preocupada.
- Desde ontem, aparentemente.
- Está tudo bem? Como você foi ao médico?
- Estou bem, tenho uma consulta com o neurologista amanhã. O Doutor Elish veio aqui e me atendeu.
- E o que ele disse?
- Não me recordo direito, ele falou com a . – Respondi e imediatamente notei a sua expressão de dúvida.
- Com a ? Por qual motivo?
- Ela me ajudou e foi ela quem ligou para o Doutor. – expliquei calmamente, pedindo aos céus que a minha mãe –que cerrou os olhos no mesmo instante em que eu lhe dissera a última frase- não implicasse com isso.
Ao que tudo indica, os céus me ouviram, pois a sempre argumentadora Dona Kyara somente assentiu em silêncio.
- Seu pai chega amanhã e vai direto para o escritório. – assenti sem animação.
- Como foi a viagem? E as consultas?
- Tudo normal, estou bem. – falou sem mais detalhes e eu arqueei a sobrancelha com a falta de informação. – Irei me recolher, faça o mesmo e tente ter uma boa noite de sono. – Depositou um afago em meus ombros e subiu as escadas.
Passei as mãos pelos cabelos e respirei fundo, desejando pular o dia de merda que se aproximava ao passo em que o domingo se encerrava.

(...)


- Você é um irresponsável! Como pode deixar de ir a uma reunião importante da qual eu te deixei encarregado, ? – meu pai bradou pela enésima vez naquela segunda-feira chuvosa e, para variar, estressante. Havia acabado de voltar da consulta com o neurologista e segui direto para o escritório. Tudo o que eu queria era um pouco de sossego.
Queria.
- Pai – comecei, reunindo toda a paciência que eu lutava para não perder. – Eu tive uma crise forte de enxaqueca, já te expliquei. O Doutor Elish me atendeu em casa e não permitiu com que eu viajasse.
- Que se dane! Uma dorzinha de cabeça, francamente. – com muito custo ignorei a sua reclamação. Só eu sei a dor do caralho que eu senti.
- Aconteceu alguma coisa de errado na reunião? Eu mandei a Doutora Bazan no meu lugar, ela é de confiança.
- Sorte a sua que deu tudo certo, mas isso não justifica a sua falta de bom senso. – queixou-se com o seu olhar de reprovação.
Permaneci com a postura impassível.
- Desculpe-me, pai. Da próxima vez eu darei um jeito de agendar a minha crise, que tal? – falei debochado, dando um sorriso cínico. Meu pai estreitou os olhos na minha direção como se aquilo fosse me partir em mil pedaços.
- Não brinque com a minha paciência, . Da próxima vez eu te coloco pra fora daqui sem remorso algum por você ser meu filho. – ameaçou e eu ergui uma sobrancelha devido às suas palavras.
- Não se preocupe, senhor . Eu sou muito bom no que faço e o senhor sabe disso. Não estou aqui somente por ser seu filho. – concluí sob a análise séria do meu pai. Ele apenas virou as costas e saiu, finalmente me deixando sozinho em minha sala para que eu começasse a pesquisa a respeito de cada pessoa que estava na festa em que o crime contra Mason Zummack ocorrera. Eu iria conseguir ao menos um depoimento a favor do meu cliente e ameaça alguma dificultaria o meu sucesso nesse caso maldito.
Era uma questão de honra.

Eu havia ficado o dia inteiro naquela incessante pesquisa. Pedi para que entregassem o meu almoço em minha sala e não desgrudei do computador um minuto sequer. Depois de várias horas lendo e relendo a respeito de todos os convidados da festa, eu pude, enfim, suspirar aliviado. Consegui ótimas informações sobre um empresário em especial, e, a julgar pela sua ficha, ele definitivamente concordaria em me ajudar. Desliguei o aparelho e olhei no relógio, me assustando com a hora. 21hrs15min. Juntei as minhas coisas e peguei o meu terno, me dirigindo para fora do escritório, que se encontrava quase vazio. Despedi-me de algumas pessoas por ali e segui para o estacionamento olhando atentamente para todos os lados, certificando-me de que nada de estranho estivesse no local. Eu passei a ter cuidado redobrado enquanto andava por aí. Entrei no meu carro e dei partida em direção a minha casa, dirigindo calmamente ao passo que tamborilava meus dedos no volante ao som da música baixa que soava pelo rádio. Alguns minutos depois, já terminava de estacionar o veículo na garagem, sendo recepcionado pelo meu cachorro, que pulava energicamente em mim, como sempre.
- Beleza, amigão? – o saudei, acariciando sua cabeça. Ainda sentia o gosto horrível da medicação pra maldita enxaqueca na minha boca. Precisava de água. Segui pela parte de trás da casa com a finalidade de entrar pelos fundos em direção a cozinha, e, assim que o fiz, me deparei com uma cena um tanto quanto cômica.
lavava louça distraidamente enquanto ouvia música pelos fones, murmurando a melodia e fazendo uma dancinha que, se não fosse tão engraçada, seria até interessante.
Encostei-me no batente da porta e cruzei os braços, encarando de modo divertido a garota à minha frente, que ainda não havia notado a minha presença no local. Quando ela virou-se para pegar o pano de prato, deu de cara comigo ali, olhando-a com a sobrancelha arqueada e um sorriso brincando em meus lábios. Vi o seu rosto se contorcer de susto e imediatamente adquirir um tom vermelho, ficando petrificada ao mesmo tempo que me fitava totalmente desconcertada.
- Você é a pessoa mais animada que eu já vi lavando uma louça. – brinquei, ainda na mesma posição a observando. estava quase roxa e eu ri, fazendo-a rir comigo em meio ao seu acanhamento.
- Cada um se diverte do jeito que pode. – deu de ombros ainda rindo e eu concordei, saindo da porta e andando até a geladeira em busca de um copo d’água. – deixa que eu pego pra você. – ela falou ao me ver pegando um copo e abrir a geladeira.
- Não precisa. Pode continuar dançando se você quiser, não quis atrapalhar. – gracejei, tomando calmamente o líquido gelado, e, olhando de soslaio, pude vê-la estreitar os olhos na minha direção. Murmurou um “que engraçado” quase inaudível que me fez rir brevemente e virou-se pra frente, secando a pia. A vi bocejar e coçar os olhos, ainda limpando o lugar. Fui até lá e depositei o copo ali, fazendo um sinal com a mão para que ela parasse de fazer aquilo, recebendo um olhar confuso em resposta ao meu ato quando ela se virou para me encarar.
- Quer alguma coisa? – indagou desorientada e eu neguei com a cabeça.
- Você não precisa fazer isso.
- Fazer... O quê? – continuou me olhando como se eu fosse louco e eu delicadamente peguei o pano de suas mãos, colocando-o em outro lugar enquanto a garota acompanhava os meus movimentos com o cenho franzido.
- Limpar, . Você não recebe pra isso e eu sempre te vejo pra lá e pra cá servindo, arrumando... Não é o seu emprego.
- Mas é o da minha mãe. Se eu não ajudá-la ela dorme e acorda nessa cozinha. – respondeu ríspida e eu levantei uma sobrancelha, não esperando esse tipo de atitude. Ela abaixou o olhar por alguns segundos e respirou fundo, voltando a me fitar com os olhos cansados. – Desculpe. É que você não entende, sabe?
Lá vamos nós.
- Eu entendo que a minha mãe está abusando do poder dela com vocês e isso não é certo - falei, não quebrando o nosso contato visual.
- Existem muitas coisas que não são certas, , mas nem por isso nós deixamos de fazê-las. – me lançou um sorriso fraco, quase doce, e eu não soube o que dizer. Na verdade, eu até saberia, entretanto, me limitei a assentir vagarosamente e continuar estudando o seu olhar, que parecia fazer o mesmo, assim como há dois dias.
E a porra do dejavú me atingiu em cheio.
Seus olhos – anteriormente focados nos meus – viajaram pelo meu rosto com uma calma quase torturante, e então, pararam no espaço entre nós. Só nesse momento eu percebi que, no instante em que se virou para falar comigo, a distância que nos separava diminuiu. Franzi a testa, embaraçado, e me distanciei dela, que deu as costas e voltou a mexer em sei lá o que na pia.
Um silêncio constrangedor tomou conta do lugar até que adentrou na cozinha com uma bandeja em mãos e duas xícaras postas nela. Intrigada, passou os olhos pela filha e por mim. Coloquei as mãos no bolso da calça acenando com a cabeça e lhe desejando “boa noite” que me foi respondido de modo simpático, como ela sempre fora.
- Está precisando de algo, ? – questionou e eu neguei com a cabeça.
- Não, só vim beber um copo d’água, obrigado. – falei, já seguindo para a saída do local. – Boa noite, . – disse para a garota que desviou a atenção da louça para mim.
- Boa noite. – sorriu amigável.
Saí de lá e, ao chegar na sala, parei no meio do caminho.
Minha mãe e Cassie conversavam sentadas no sofá.
- ! Olha que surpresa boa. – minha mãe disse, referindo-se à Cassie, que apenas deu um sorriso fechado.
- Estou vendo. – respondi ainda encarando as duas.
- Bom, vou deixá-los a sós. – ela disse, levantando-se. – Fique à vontade, querida. Até mais. – falou para minha namorada, logo desaparecendo do cômodo. Permaneci parado olhando sério para Cassie, que levantou-se ressabiada.
- O me contou que você passou mal no sábado. Como você está? – me perguntou, andando vagarosamente ao meu encontro.
- Estou melhor. – falei seco. Eu estava puto com ela e sem paciência alguma para DR, além de não sentir disposição alguma para uma reconciliação.
- Nós podemos subir para conversarmos? – indagou e eu suspirei, bagunçando os cabelos.
- Acho tudo pode ser falado aqui.
- Por favor. – insistiu em suplício. Cedi e fiz um sinal para que ela me acompanhasse.
Subimos as escadas em silêncio, e, chegando ao meu quarto, fechei a porta e joguei o terno em qualquer canto, vendo Cassie sentar-se na ponta da minha cama. Encostei-me em uma cômoda e cruzei os braços, encarando-a e esperando com que ela começasse a dizer o que queria.
- Podemos ficar em paz? Sem brigar?
- Eu que te pergunto, Cassie. Podemos? – rebati.
- Eu devia ter te atendido. – falou e eu assenti. – Você foi ao médico?
- Fui. Fiz uns exames, mas está tudo bem.
- Que bom, fico aliviada.
Silêncio de novo.
Eu estava esperando um pedido claro de desculpas, porém, se tratando de Cassie, vir até a minha casa para conversar possivelmente já exigiu um grande esforço dela.
O problema é que eu já havia me cansado desse tipo de situação e eu não me sentia mais da mesma forma sobre muitas coisas. Sentimentos mudam, pessoas mudam, o desgaste nos fazer mudar. Eu só não sabia até quando insistiria no nosso relacionamento.
- Cassie, você ficou em uma festa mesmo quando eu te liguei inúmeras vezes e te enviei inúmeras mensagens! Tem noção da merda que isso é?
- Eu estava com raiva! – ela se defendeu e eu baguncei os cabelos em um sinal de puro nervosismo.
- Então "estar com raiva" é uma justificativa para agir de forma desprezível?
- Não vamos começar, eu vim aqui para que nós possamos nos resolver. – minha namorada falou e eu apenas assenti.
- Vou tomar um banho, já volto. – falei, indo em direção ao banheiro.
Despi-me e entrei no chuveiro, respirando fundo ao sentir a água morna em contato com a minha pele. Alheio a tudo, deixei com que os pensamentos fossem parar em quem eu menos esperava: . Era sempre muito agradável conversar com ela e eu me sentia bem ao seu lado, como se houvesse compreensão entre nós. O assunto fluía de forma agradável, o humor geralmente estava presente e algum tipo de sentimento mútuo fazia com que eu gostasse de estar ao seu lado. A nossa aproximação repentina foi estranha, porém, me fazia bem. Nós sempre estivemos tão perto um do outro, entretanto, nunca nos conhecemos realmente. Era bom saber que isso estava mudando de uns tempos pra cá.
E, pra ser sincero, estava me agradando.
Lembrei da recente cena que ela protagonizara na cozinha enquanto dançava e cantava e ri fraco, balançando a cabeça. Ouvi um ruído vindo de algum lugar e me virei, vendo Cassie à minha frente nua e com uma expressão maliciosa.
- Tenho um ótimo jeito de nós selarmos o nosso acordo de paz. – disse enquanto se aproximava.
Não falei nada, apenas a puxei para debaixo do chuveiro e grudei o seu corpo contra a parede fria, notando-a se arrepiar.
- Então me mostre o quanto você quer se redimir. – disse no seu ouvido, mordiscando o seu lóbulo e soltando um gemido baixo ao senti-la arranhar as minhas costas.
Eu gostaria de acreditar que estava tudo bem e até poderia pensar que as coisas realmente se resolveriam, entretanto, enquanto beijava Cassie ali, debaixo do chuveiro, um lado da minha cabeça ficava repetindo que tapar o sol com a peneira não adiantaria mais.
Havia algo muito errado.

**

’s POV

Os últimos dias haviam sido demais para mim.
Bastava que eu fechasse os olhos e a cena do banheiro vinha à minha mente sem pestanejar, e, mesmo que eu me esforçasse para guardar aquele momento em meu baú mental de coisas relacionadas ao tudo o que eu conseguia era sentir o toque de suas mãos causarem uma corrente elétrica em meu rosto.
Aliás, que tipo de pessoa idiota bate um pano no olho, pelo amor de Deus?
Eu sou esse tipo de pessoa idiota.
O último tipo de pessoa idiota, a rainha mor* das pessoas idiotas. Eu estava tão distraída retirando o restante de água do chão que não havia notado e a sua brilhante ideia de ficar descamisado na minha cozinha.
Todo molhado.
Dada a situação, ara mais do que óbvio que eu passaria algum tipo de vergonha. E como se não bastasse, mais uma vez, o clima esquisito entre nós retornou também naquele instante. Há poucos minutos, para ser mais exata. Tentar compreender já não era mais uma opção, haja vista que eu voltaria às mesmas respostas de sempre: Não existia nada a ser compreendido. Ainda moderadamente encabulada com o pequeno incidente envolvendo a mim e estendi a mão em direção a minha mãe em um pedido mudo para que ela me entregasse a bandeja que ela segurava, para que assim eu pudesse lavá-la juntamente com as xícaras postas sob a pia. Terminando de fazê-lo, olhei em direção a mulher ao meu lado vendo-a pegar uma vassoura com a finalidade de iniciar a limpeza do chão, notando, também, que ela encontrava-se mais exausta do que eu no momento que espirrou e pousou uma mão em seu quadril, descansando por alguns instantes.
- Está tudo bem? - questionei preocupada, indo até ela e retirando a vassoura de suas mãos.
- Sim. É só um resfriado chegando. – respondeu, tentando pegar o objeto de volta.
- Você deveria ir descansar, mãe. Só falta varrer e encerar o chão, certo? – ela assentiu – Então deixa que eu faço.
- ... – Nem mais um piu, Dona . Tchauzinho, já deu a sua hora. – brinquei pegando em seus ombros e gentilmente a levei para a porta. Ela negou com a cabeça e riu.
- Obrigada, filha. Não demore, sim? Você acorda cedo amanhã.
- Não se preocupe comigo. Vá se deitar, tenho tudo sob controle por aqui. – falei. Minha mãe concordou e retirou-se, caminhando encolhida pelo frio em direção à nossa casa.
Voltei à cozinha e dei início à limpeza, varrendo todos os cantos do cômodo, levando um bom tempo somente naquela etapa. Enquanto eu finalizava o processo de encerar o chão, ouvi um ruído de passos se aproximando. Ergui-me parcialmente em um ato automático e inesperadamente encontrei Cassie ali, usando apenas uma camisa – que decerto pertencia ao – me encarando de forma inexpressiva. Como se nem houvesse me visto, ela abriu a geladeira e pegou uma garrafinha d'água, saindo logo depois e ignorando a minha presença.
Empaquei durante alguns segundos fitando a porta pela qual Cassie havia acabado de sair. Meu estômago afundou e eu senti a tão conhecida desolação tomar conta de mim por saber exatamente o que aquela blusa em seu corpo significava. Eu nunca me acostumaria.
Como eu disse, não havia nada para ser compreendido.
Suspirei pesarosa e, desanimada, concluí a limpeza do piso que agora encontrava-se devidamente polido, me retirando dali com rapidez até a minha casa, querendo apenas uma boa noite de sono.

**

Na manhã seguinte despertei antes mesmo do alarme tocar, o que indicou que o dia já havia começado errado.
Eu definitivamente poderia ter lindos sonhos naqueles dez minutos de sono restantes.
Levantei-me da cama e me arrastei em direção ao banheiro, sonolenta demais para raciocinar direito àquela hora do dia. Após terminar de me arrumar, topei com a minha mãe na cozinha e me espantei ao ver a sua face abatida.
- Bom dia, filha. – ela cumprimentou-me e a voz rouca denunciou o seu estado.
- Bom dia. Acho que alguém não acordou muito bem hoje. – presumi tomando um grande gole de café e devorando um pedaço de bolo.
- A gripe realmente me pegou, meu corpo todo dói. – reclamou fatigada mal tocando no café da manhã. Franzi o nariz, não gostando nada de vê-la assim.
- Você deveria tomar algo e tentar dormir mais um pouco.
- Nem pensar! Tenho muita coisa para fazer hoje. – mais um espirro fez-se audível e eu a encarei em puro tédio, demonstrando que ela definitivamente não teria condição alguma de sequer pegar em uma colher.
- O que você precisa preparar agora na casa dos ? - É necessário que a mesa do café esteja posta às sete e meia. – respondeu e eu chequei o horário em meu relógio de pulso. Se eu me apressasse, talvez conseguisse servir em seu lugar. Não faria bem para ela esforçar-se tanto estando tão debilitada.
- Certo. Explique como você faz e eu vou até lá. – me ofereci, imediatamente escutando os resmungos e desacordos da minha mãe. Apoiei uma de minhas mãos em meu queixo aguardando que o seu discurso de discordância se encerrasse, sem sinal algum de que eu a ouviria e deixaria essa ideia pra lá. Eu só teria que servir o café da manhã, afinal. Não era nenhum bicho de sete cabeças, eu já havia feito isso outras vezes e em outras circunstâncias. – Pronto? – indaguei tediosa ao ouvi-la terminar de falar, recebendo um olhar de repreensão em resposta. – Mãe, é sério, olha como você está. Durma mais um pouco, eu organizo o café da manhã. Não é difícil. Contanto que tudo esteja em seu devido lugar, a senhora não irá reclamar.
- , você já me ajudou ontem. Você não deve fazer esse tipo de coisa.
- E por que não? Faço porque quero, não gosto de te ver se matando naquela casa. Você começou como cozinheira, mas agora faz de tudo, sendo que existem mais dez funcionários aqui!
- Faço o que me pedem, filha. É o que nós temos por enquanto. – notei a tristeza na entonação de sua voz e aquilo cortou o meu coração a ponto de despertar em mim uma pequena vontade de chorar. Puxei o ar tentando me recompor e assenti.
- Eu sei. – respondi em um fio de voz. Eu queria tanto melhorar a nossa vida para nos tirar daqui. – Agora vá se deitar e deixa que eu me viro, é sério. – Peguei a minha bolsa e, já parada na porta, contemplei minha mãe negando com a cabeça no emblemático sinal que ela fazia ao dizer “que eu não tinha jeito”.
- Há essa hora o Cícero já deve estar retornando da padaria. Coloque os pães na cesta e leve-os à mesa. Tem bolo no forno, o deixei pronto ontem à noite. Peça para que ele te ajude a pegar tudo – assenti absorvendo a sua explicação. Dei-lhe um beijo no rosto e me despedi, caminhando não muito animada rumo à mansão.
Abri a porta da entrada de serviço sorrindo largo quando avistei Bento deitado ali, balançando o seu rabo animadamente ao me ver.
- Bom dia! – o cumprimentei acariciando seu pêlo sempre macio. – Não vou poder brincar com você, me desculpe. Tenho coisas para fazer. – lamentei, indo lavar as mãos e iniciando a minha a preparação para o café. O Pastor continuou deitado somente me encarando.
- Ei, ! Bom dia, mocinha. – Cícero adentrou o lugar com o seu típico jeito de avô, carregando consigo algumas sacolas. Ele era um senhor de cinquenta e poucos anos extremamente simpático que sempre andava sorrindo por aí. Assim como minha mãe, ele também trabalhava para os há anos, porém, como uma espécie de mordomo.
- Bom dia! Como o senhor está? – sorri largo para ele indo ajudá-lo com as sacolas, depositando-as em cima da mesa e já retirando os pães de lá.
- Estou bem, obrigado! O que faz aqui? Você irá se atrasar para a aula, menina! – O senhor informou exasperado me arrancando uma risada.
- Minha mãe acordou um pouco indisposta essa manhã, então me prontifiquei a servir o café hoje. – expliquei enquanto regulava a cafeteira, que logo iniciou o seu trabalho.
- Oh. O que ela tem?
- Gripe – fiz uma careta, tirando os frios da geladeira.
- Vou fazer um chá que é tiro e queda e levar para ela. – Cícero expressou animado ao meu encalço, eu ri e o agradeci enquanto andávamos até a área em que os tomavam café da manhã, me ajudando com os preparativos da mesa e deixando tudo arrumado. Retornamos à cozinha – que àquela altura já emanava o delicioso cheiro de café por todo o cômodo –, aguardando que a máquina concluísse o restante de sua função.
- Será ótimo, muito obrigada – agradeci gentilmente. A senhora adentrou a cozinha e nós imediatamente paramos de conversar. O cheiro forte do perfume adocicado substituiu o aroma da cafeína, preenchendo o ambiente. Sempre aprumada em seus saltos elegantes, me fitou duvidosa e eu arrumei a postura, pronta para dar as devidas explicações.
- Bom dia. Onde está sua mãe? – indagou nitidamente não sabendo o motivo de eu estar ali.
- Bom dia, senhora. Ela não está se sentindo muito bem, por isso vim servir o café no lugar dela. A mesa já está posta, a propósito. – Dona Kyara pareceu avaliar as minhas palavras por alguns segundos, assentindo vagarosamente.
- Ela pretende se ausentar durante o dia inteiro?
- Não senhora. Só precisou descansar mais um pouco. – expliquei meticulosa, temendo que a mulher resmungasse alguma coisa.
O que surpreendentemente não ocorreu.
A senhora assentiu mais uma vez e deu às costas, rumando para fora da cozinha. Cícero e eu nos entreolhamos ressabiados, relaxando a postura.
- Podemos dizer que ela está de bom humor ou é muito cedo para isso? – o senhor perguntou fazendo graça.
- Acho que é muito cedo para concluirmos algo do tipo. – respondi baixo, como se falássemos um segredo muito importante, rindo junto a ele. – Tudo bem, eu levo o que resta. – coloquei o avental desajeitadamente em minha cintura, apanhando cafeteira e a cesta de pães em seguida. – Obrigada pela ajuda – sorri novamente e Cícero apenas fez um gesto com as mãos.
Deixei a cozinha percorrendo calmamente o caminho até o local recém arrumado, reunindo toda a concentração necessária para que nada fosse derrubado. Surgi no repartimento das dependências daquela parte da casa e parei no meio do caminho quando enxerguei todos sentados na mesa conversando tranquilamente.
E quando eu digo “todos”, me refiro ao senhor Henrico, a senhora Kyara, e Cassie.
Aquilo era a confirmação de que o dia REALMENTE seria um saco.
beijou Cassie rapidamente e sorriu, até que o seu olhar se conectou ao meu. Seu sorriso vacilou e nos fitamos por milésimos de segundos que, para mim, poderiam ser comparados com horas. Tentei me recompor –mesmo com a sensação ruim de aperto no peito– e retomei os meus passos, não o encarando mais. Desejei “bom dia” e resolvi focalizar toda a minha atenção nas xícaras à minha frente, deixando –cuidadosamente– a cesta com os pães em cima da mesa.
- Lembra da nossa estadia em Dubrovnik*? Que local maravilhoso! – Dona Kyara falou em meio a um assunto sobre viagens ou coisa do tipo.
- Claro! Como se esquecer da Muralha de Dubrovnik?* Talvez vocês dois devessem repetir aquela viagem, inclusive. – senhor Henrico disse para o filho.
Momentaneamente levantei o olhar com a finalidade de alcançar o açúcar e mais uma vez meus olhos esbarraram rapidamente com os de .
- É uma ideia maravilhosa, não acha, amor? – Cassie se voltou para ele, que aparentava estar alheio ao assunto. Ele piscou algumas vezes ambientando-se da conversa, mas nada respondeu.
Mesmo assim, meu peito apertou.
Terminei de servi-los e pedi licença, logo deixando o recinto tentando não transparecer que eu realmente queria sair de lá. Adentrei a cozinha e Cícero mantinha-se ali organizando alguma coisa em uma caderneta, por um triz de fazer os olhos saltarem de suas órbitas quando me viu.
- O que você ainda está fazendo aqui? Vá para a aula, menina! Eu recolho a mesa assim que todos terminarem de comer!
- Imagina, eu esper...
– Anda, anda! – Cícero me interrompeu. – Você já está atrasada, .
- O senhor tem certeza? Eu posso esperar e...
! – fui interrompida mais uma vez.
- Tudo bem, tudo bem. – coloquei as mãos para o salto, me rendendo. – Muito obrigada, de verdade! – dei-lhe um abraço meio desajeitado, ouvindo-o rir. Tirei o avental em meio a movimentos um tanto quanto desengonçados, peguei a minha bolsa e meu material e zarpei porta afora quase tropeçando em meus pés durante o tempo em que eu marchava apressadamente pelo quintal, sendo seguida por um Bento ligado nos 220 que provavelmente estava pensando que eu corria para brincar com ele.
- Eu juro que preferia brincar de correr esse quintal inteiro a ter que ir para a aula, mas, infelizmente, vamos ter que deixar isso pra depois. – disse com pesar ao Pastor Alemão, que parou assim que chegamos ao portão – Se comporte ok? Prometo lhe trazer um presente hoje. – o acariciei me sentindo uma mãe que deixa o filho na escolhinha pela primeira vez. Bento me encarou com os olhinhos desanimados e as orelhas baixas e eu quase dei meia volta para ficar com ele. Tornei a correr pelas ruas do condomínio agradecendo a todos os santos por não haver muitas pessoas pelo caminho vendo aquela cena ridícula, e até o porteiro me olhou estranho no momento em que eu passei feito o Flash através da portaria.
Quando eu disse que o dia iria ser um saco, não era brincadeira. Faltava pouco, muito pouco para eu chegar ao ponto de ônibus, e, como em toda boa Lei de Murphy*, o meu ônibus passou naquele instante.
A minha manhã certamente se assemelhava a uma parte de um filme de comédia romântica bem do ruim.
A propósito, eu era a mocinha que via o amor da vida dela combinando uma viagem cara junto da namorada maravilhosa.
C’est la vie*, meus amigos.
Praguejei alto e sentei derrotada no banco da parada de ônibus, quase tendo uma síncope durante o tempo de espera do próximo transporte. Minutos depois ele finalmente chegou, impedindo que eu tivesse um ataque ali mesmo. Logo que eu cheguei na faculdade disparei até a minha sala, dando de cara com a professora que saía após o término da primeira aula. Sorri fraco para ela e adentrei a classe, vendo me fitar com mil questões estampadas em sua face confusa.
- O que houve? – ela perguntou assim que eu me enterrei em minha cadeira. Joguei os braços por cima da mesa e enfiei a minha cabeça entre eles como se aquilo fosse fazer com que eu me sentisse melhor.
- Mu djia stá um pucu du avissu. – disse com a voz abafada devido a minha posição.
- Como é? , não entendi nada .– levantei a cabeça e respirei fundo, encarando a minha amiga preocupada.
- Eu disse que o meu dia está um pouco do avesso. – fez um sinal com as mãos, me incentivando a continuar. – Primeiro: – enumerei com o dedo indicador – Acordei minutos antes do despertador tocar; Segundo: – agora foi a vez de levantar o dedo médio – Minha mãe está doente; Terceiro: – ergui o anelar – fui servir o café para que ela descansasse e o casal vinte estava na mesa; Quarto: – mostrei o dedo mindinho – perdi o ônibus quando estava chegando no ponto; Quinto: – exibi o polegar – me atrasei e levei falta – finalizei. torceu o nariz e assentiu.
- O que a sua mãe tem?
- Gripe. Aparentemente não é nada demais, mas eu fico preocupada de qualquer forma, entende?
- Claro, eu compreendo. E sobre o e a Cassie...?
- Ah. – suspirei – Ela dormiu lá, além disso, a vi com a blusa dele ontem à noite enquanto eu limpava a cozinha. Hoje de manhã eles estavam falando sobre fazer uma viagem e não sei mais o quê. – concluí emburrada. Mais emburrada comigo por ainda sentir esse tipo de coisa, do que propriamente pela situação com os dois.
- ...
- Eu sei. Já era pra eu ter me conformado.
- Sim. Mas eu entendo que é difícil, não estou te condenando. Principalmente pelo que aconteceu no sábado. – pontuou se referindo ao pequeno “acidente” com a torneira da cozinha, onde eu corri para falar com assim que deixou a sua antiga casa de reuniões, que agora, era a minha moradia.
- Está tudo bem, eu já aceitei o fato de que o meu cupido me odeia muito. – resmunguei, fazendo rir.
O professor da aula seguinte entrou na sala e nós nos endireitamos em nossas mesas, prestando atenção no que ele falava.

**

Ao chegar em casa no fim do dia e checar se minha mãe havia melhorado, cumpri minha promessa feita pela manhã e decidi brincar com Bento, que estava eufórico com o Scooby-Doo de plástico, sua mais nova aquisição cujo eu me vi obrigada a obter assim que avistei na vitrine da loja. E bem, lá estava eu, fingindo – pela milésima vez – lançar o cachorro de plástico.
- Certo, eu vou jogar, ok? – ameacei com o brinquedo em minhas mãos. O Pastor Alemão me olhava em expectativa na espera que eu jogasse o bichinho para que ele pegasse, então – para a alegria dele – o fiz. Bento saiu em disparada pelo quintal e eu gargalhei de seu empenho em procurar o objeto como se fosse a coisa mais importante do mundo, vindo todo orgulhoso com o Scooby na boca no momento em que o achou.
- (...) Até agora eu não sei o que eu fiz de errado, mas enfim, não vou mais ficar nessas discussões ridículas. Não tenho condições (...) – enquanto aguardava Bento regressar de sua caça ao Scooby-Doo, ouvi de longe a conhecida voz grave de soar mal humorada. Franzi o cenho, olhando ao redor em um movimento automático para identificar de onde o som vinha. (...) - Faz um favor? Não vamos nos falar mais. (...) Cassie, tudo bem, eu entendi. – Bento retornou com o brinquedo pronto para mais um round de corrida, entretanto, ao invés de entregá-lo para mim, ele parou com as orelhas arqueadas ao ouvir a voz do dono e olhou em alerta na direção por onde o som vinha. (...) - Estou cansado e acredito que você também. (...) Cassie? Alô? Porra! bradou, parecendo mal humorado e eu fiz uma careta ao ouvi-lo praguejar irritado. Em seguida, ele saiu por trás da parede com a expressão não muito agradável, deu poucos passos enquanto encarava o celular e levantou o olhar, encontrando a mim – e o Bento – parados ali. Pisquei algumas vezes tentando buscando algo para dizer-lhe que explicasse a minha cara de tonta observando-o e que não parecesse que eu estava ouvindo a sua conversa, porém, nada me parecia adequado.
- Boa noite. – cumprimentou-me, desviando sua atenção para o Pastor Alemão que pulou em suas pernas com o brinquedo na boca.
- Boa noite. – respondi meio encabulada olhando-o acariciar seu cão. Ele pegou o Scooby e o analisou com o cenho franzido. – Ahn, eu comprei para brincar com o Bento. Espero que você não se importe. – esclareci e ele negou.
- Só estava tentando lembrar se eu já havia o visto antes, agora está explicado. – ele riu fraco e jogou o brinquedo para o Pastor, que saiu desembestado mais uma vez. Retirou um maço de tabacos do bolso e acendeu o cigarro calmamente, encostando-se à parede. Seu celular apitou em sua mão, ele cravou seus olhos no aparelho formando uma feição carrancuda enquanto lia algo que provavelmente o desagradou e, em seguida, o guardou.
Silêncio.
A única coisa que se ouvia eram os passos do Pastor Alemão elétrico que corria pra lá e pra cá animado demais pra quem já havia brincado bastante, contudo, não se esgotava nunca. Visto que o cão se entreteve sozinho, achei que o melhor a se fazer era ir para casa.
- Acho que ele não precisa mais de mim, – brinquei, apontando com a cabeça para o cão. – então já vou. – comuniquei a . Ele pareceu despertar de algum devaneio e me fitou sério, aparentando oscilar a respeito de algo. Desviou o olhar, mexeu nos cabelos daquele jeito que me deixava desnorteada e tornou a me observar, passando a língua pelos lábios rapidamente de um jeito natural que, se fosse proposital, não seria tão hipnotizante quanto aquele ato despretensioso.
Céus, ele era sem educação de tão lindo.
Gostar de alguém é um negócio estranho, porque a pessoa está lá apenas respirando e você pensa: “Puta merda, que ser humano maravilhoso.”
Ainda relutante, , enfim, disse alguma coisa.
- Não sei qual é o nosso nível de proximidade. – ele iniciou e eu estranhei, o encarando com a maior cara de nada possível –, mas... Você me parece ser a única pessoa com a qual eu consigo conversar de maneira decente. – riu sem humor. Paralisei sem entender a razão de sua confissão aleatória, sentindo o meu coração bater descompassado ainda assimilando a atitude imprevista dele, que finalizou o seu cigarro calmamente como se tivesse acabado de falar que gosta de pão.
- Que bom... – respondi incerta, sem ter a menor noção do que dizer. O homem à minha frente assentiu encarando um ponto qualquer do quintal, acendendo outro cigarro. Franzi o cenho em um gesto automático e o ato foi captado por , pois ele riu sarcástico enquanto soprava a fumaça, fazendo-a dissipar com o vento.
- Mau hábito. – comentou após a longa tragada. – Eu sei.
- O seu pulmão deve te odiar.
- Culpado. – declarou e riu fraco em um humor quase melancólico. – Você tem que ir, não é? Não quero te segurar aqui.
- Tudo bem. – sorri. –. Acho que eu posso ficar mais um pouco e conversar de maneira decente. – disse me referindo a sua revelação, notando um sorriso enviesado surgir por entre seus lábios através de seu olhar com uma de suas sobrancelhas arqueadas.
- Sua mãe está bem? Ouvi que ela estava indisposta hoje. – questionou.
- Sim, está. É só o início de uma gripe. – respondi me sentando ao lado de Bento, que aconchegou sua cabeça em meu colo. O homem – em pé e apoiado na parede – murmurou um “hm”, logo prosseguindo com a conversa.
- Imaginei que havia algo errado quando te vi hoje de manhã no café.
- Não é nada demais, ela está um pouco melhor. A Judith ficou no lugar dela.
- Não me refiro apenas à sua mãe. – levantei a cabeça a fim de olhá-lo em um ato explícito indicando que eu me encontrava confusa. manteve a sua postura contemplativa encarando o quintal. – Você não me parecia bem.
Eu tive vontade de rir.
Porém, rir de nervoso.
O meu desejo era dizer: “Como você se sentiria vendo a pessoa que você gosta com outro?”.
Mas eu não podia fazer isso e nem iria.
Ele não tem culpa, Cassie não tem culpa. A culpa era inteiramente minha.
Eu preciso bancar os meus sentimentos e aceitar as coisas como elas são, afinal.
Limite-me a sorrir tristemente e balançar a cabeça.
- É apenas cansaço.
- A faculdade está muito pesada? – perguntou.
- Um pouco. Não tenho dormido muito. – falei, e, embora fosse apenas uma desculpa à sua constatação, aquilo realmente era verdade.
- Você faz algo depois da aula? – indagou novamente.
- Faço triagem em uma clínica psicológica da faculdade. – não consegui deixar de sorrir ao dizer isso. Levantei-me e me encostei à parede.
- Estou me questionando sobre quantas vezes já perguntaram se você analisa todo mundo que conhece. – comentou, causando um riso em mim.
- Eu perdi as contas há tempos, é a primeira coisa que dizem! Ou senão falam: “Não começa a ler meus pensamentos, hein?!” – narrei com uma voz afetada e foi a vez de rir. – Eu ainda não tenho esses poderes, sabe?
- Em algum momento você já me analisou, ? – o tom sarcástico e sério contrastava com a brincadeira implícita na pergunta de , que me observava com a sobrancelha minimamente arqueada. Devolvi o seu olhar segurando o riso.
- É melhor eu não te contar todos os detalhes para você não me julgar. – fiz a maior cara de deboche que eu consegui.
- Como advogado, os detalhes me interessam bastante. – rebateu desafiador e piscou, voltando a olhar para frente com um sorrisinho sarcástico em seus lábios ocupados pelo cigarro.
- Pode ter certeza que só nessa conversa entre nós eu já fiz um tour pela sua psiquê. – falei em pura ironia, vendo a expressão de tornar-se divertida.
- Fique à vontade e volte sempre.
- Isso fez eu me sentir um espírito que tem a permissão de te possuir. – comentei em meio a uma careta e a gargalhada do homem à minha frente ecoou pelo ambiente.
- Isso foi péssimo, . – Acompanhei a sua gargalhada e dei de ombros.
- E a enxaqueca? Não sentiu mais nenhuma dor?
- Não. Ela está controlada.
- Que bom. – sorri. – Eu acho que já vou.
- Tudo bem. – assentiu. – Vejo você depois.
- Está bem. – dei um sorriso tímido e acenei, dando-lhe as costas sem dizer mais nada. Caminhei até minha casa e adentrei, me sentindo extremamente cansada. Desejei boa noite à minha mãe e segui em direção ao banheiro.
Um banho quente sempre proporcionava diversos benefícios aos meus pensamentos conflituosos e corpo exausto.

’s POV

Seis e cinquenta e cinco da tarde.
Enquanto eu dirigia em direção à academia após mais um dia cansativo no escritório, me peguei pensando a respeito das ligações das quais eu havia recebido no último mês. Por hora, eu não tive mais nenhuma surpresa desagradável, o que só me deixava cada vez mais em dúvida sobre a procedência das ameaças.
Por que elas ocorreram?
Elas ainda ocorreriam?
Quem estaria por trás disso?
Tudo era suspeito demais para que fosse deixado de lado. Entreguei o carro para o manobrista do estacionamento e entrei na academia, seguindo direto para o vestiário a fim de tirar o terno e colocar a roupa do treino. Feito isso, caminhei até o local onde Paolo e eu nos exercitávamos, logo o encontrando sentado no aparelho de musculação.
- Grande !
- E aí, Herzog? – o cumprimentei dando-lhe um breve tapinha nas costas e me dirigi até o equipamento, iniciando a minha atividade física.
- Fiquei sabendo que você estava enfermo esse final de semana. – ele disse em seu usual tom de fazer graça.
- É, eu fiquei meio mal. Como você soube? – perguntei desconfiado, já que não falei com Paolo durante o final de semana.
- A comentou comigo. – meu amigo respondeu e eu interrompi o meu exercício, direcionando o meu olhar duvidoso a ele.
- Quem?
- Uma amiga minha, ela estava na festa que eu dei no meu apartamento e também estava acompanhada daquela garota que mora na sua casa... Como é mesmo o nome dela? – questionou pensativo.
- ? - Isso! – puxei pela memória e me recordei sobre quem Paolo se referia.
- Isso não explica muita coisa. – afirmei tentando encaixar as informações que o meu amigo dava.
- Ai, ... Sempre querendo saber de tudo nos mínimos detalhes. – ele revirou os olhos de forma teatral e eu permaneci o encarando em um pedido mudo para que prosseguisse. – Eu vi uma ligação perdida da , quando retornei algumas horas depois, ela me explicou o que aconteceu e disse que a havia pedido o telefone da Cassie. – franzi o cenho diante de sua última fala.
- Pra que ela queria o número da Cassie?
- Eu sei lá, cara. Eu que te pergunto! – Paolo rebateu visivelmente curioso e eu neguei com a cabeça, demonstrando estar tão desorientado quanto ele.
- Ela me ajudou quando eu passei mal.
- Hm. E por que a Cassie não estava lá? – dei um riso repleto de escárnio, atraindo a atenção do meu amigo.
- Raros são os momentos em que nós estamos juntos. – respondi enquanto jogava um pouco de água no rosto.
- Ué. Como assim, ?
- Nosso namoro está uma merda. – confessar isso em voz alta me fez perceber quão cansado daquele relacionamento eu me encontrava. Me sentei no aparelho de musculação do qual eu utilizava e Paolo fez o mesmo.
- Pô, cara. Uma merda quanto?
- Acho que não tem mais clima, nós brigamos por absolutamente tudo.
- Eu percebi algo estranho na festa, realmente. – Paolo reparou e eu assenti.
- A relação já não é mais a mesma há tempos, certamente a tendência é piorar.
- Meu amigo, eu costumo ser bem objetivo quando o assunto é esse. Se você gosta dela, tenta melhorar o que vocês têm. Se não, termine isso e volte para a vida boêmia, pois ela nunca te rejeita – Paolo gracejou e eu dei um riso irônico anasalado. – Se está tão insuportável assim, por que continuar com isso? – ele avaliou assertivo e a sua declaração me fez refletir imediatamente.
A única coisa que eu sentia com Cassie era a sensação de estar cumprindo uma obrigação.
Notando o meu silêncio, Paolo prosseguiu. – Você está nesse namoro só por causa da bagagem que mantém os dois juntos?
Eram diversas perguntas sobre algo que eu ainda não havia sequer considerado. Tudo o que eu fiz foi permanecer com as mãos juntas frente ao rosto e permanecer calado.
- Faça o que você achar melhor, irmão. Mas não se prenda a algo que te trás infelicidade. – Paolo deu algumas batidinhas amigáveis em meus ombros e tornou a exercitar-se. Levantei-me e fiz o mesmo.
- Desde quando você virou a Oprah? – questionei sarcástico, recebendo um dedo do meio em resposta.
- Vá se foder, . Estou tentando ajudar. – ele disse em meio a risos e eu o acompanhei.
Aquela conversa havia esclarecido mais coisas do que eu imaginei.

’s POV

Que semana exaustiva.
Eu só queria dormir por um mês inteiro para que, talvez – eu disse talvez – fique disposta novamente. Eu dormia no máximo duas horas por noite completamente cercada de livros, trabalhos, provas, estágio, monografia e tudo o que eu tinha direito.
Eu não vivia.
Como se não bastasse tudo isso, também passei a ir todos os dias da semana para a loja de discos, pois fiquei encarregada de ensinar o trabalho para Vicenzo, que fora contratado para me ajudar. Ele era bem empenhado e bastante divertido, embora tenha cara de quem estoura balões de criancinhas nos parques. Vicenzo cursou dois anos de engenharia e largou para dedicar-se à sua banda, assumindo que o trabalho na RR – Retrô Record’s era apenas para passar o tempo, como um robby. Pois é.
Terminei de guardar as minhas coisas na bolsa ao fim do expediente quase cantarolando de felicidade por ser sexta feira e por ter recebido a ótima notícia de que não precisaria trabalhar no dia seguinte, já que a filha do senhor Sewell. – meu chefe – iria se casar.
- Fica, vai ter bolo. – Vicenzo surgiu em um salto ao meu lado e eu pulei de susto com a típica expressão “você quer que eu tenha um ataque do coração?”.
- Nem que você me oferecesse um bolo inteiro de sorvete eu não ficaria. Hoje quem fecha a loja é você – disse vendo-o fazer um bico e murmurar um “droga, era a minha cartada final”. Ri e coloquei uma mão em seus ombros, o confortando em meio àquele falso drama.
- Sinto muito, esse dia chega pra todos.
- Já que você recusou bolo, então aqui vai mais uma oferta – falou daquele jeito despreocupado, encostando o cotovelo no balcão e apoiando a cabeça em sua mão, me olhando de um jeito infantil que eu sabia que era proposital. Cruzei os braços e levantei o cenho, esperando-o dizer sobre o que se tratava a tal oferta – amanhã à noite a minha banda vai tocar em um barzinho, e você, senhorita, está convidada.
- Ah, Vicenzo. Seria ótimo, mas eu tenho muita coisa pra fazer. Fora que estou bem cansada – lamentei.
- Qual é, ! Para de ser semi-morta, faz suas coisas durante o dia e aproveite a noite – me olhou em puro tédio e eu torci o nariz, imaginando uma balança onde eu equilibraria as minhas prioridades x vontades. Não seria ruim ir vê-lo tocar, eu queria muito ir, porém, lembrar-me das inúmeras tarefas ainda inacabadas da faculdade me atingia como um balde de água fria.
- Fica pra próxima, sério.
- Por favoooooor. – pediu de um jeito arrastado fazendo bico e eu rolei os olhos, rindo. Ele era a personificação da frase “não julgue um livro pela capa.” Quem o via com aquele jeito “foda-se você” no maior estilo roqueiro baderneiro, não imaginaria a pessoa extrovertida que Vicenzo era.
Eu pensava enquanto era analisada em expectativa.
- Dessa vez você ganhou. – ele comemorou com o braço levantado no melhor estilo John Bender em “Clube dos Cinco” e deu um sorriso de coringa, me fazendo gargalhar.
- Sabia que você não perderia essa oportunidade, cara .
- Eu não quero menos do que uma guitarra quebrada nessa apresentação memorável, senhor rockstar – o ameacei, fazendo-o rir.
- Não se ensina o padre a rezar a missa. Seu número, senhorita. – esticou o celular na minha frente e eu anotei, entregando a aparelho assim que o fiz.
- Certo, agora eu preciso ir. – acenei pra ele, que fez reverência. Balancei a cabeça rindo e segui porta afora rumo a minha casa, aliviada pelo fim do expediente.
Caminhando distraidamente já dentro do condomínio, notei, de longe, que o salão utilizado para as reuniões de moradores encontrava-se cheio – provavelmente por esse motivo. O burburinho de pessoas em sua área externa indicava que a reunião já havia acabado, ao passo em que eu chegava perto do lugar, notei que uma garotinha – que não devia ter mais do que quatro anos de idade – estava parada na calçada aparentando estar um tanto quanto assustada. Estranhando a situação, aproximei-me dela com cautela, vendo-a se retrair assim que captou a minha presença. Abaixei-me com a intenção de ficar de seu tamanho, sorrindo amigável para a pequena e demonstrando que não faria nada com ela.
- Oi. – comecei. – ursinho legal – falei, me referindo ao brinquedo envolto em seus bracinhos. A menina olhou ressabiada para ele e, logo depois, para mim, sem exprimir reação nenhuma. – Qual é o nome dele? – tentei novamente.
- Senhor Bubu. – ela respondeu em um murmurinho. Sorri diante de sua resposta.
- Nome legal! Oi, senhor Bubu. – cumprimentei-o, rindo internamente da cena. – E o seu nome? Qual é?
- Lavínia. – abraçou mais o urso enquanto me olhava curiosa.
- Lavínia! Que nome mais lindo. O que você está fazendo aqui sozinha? – questionei querendo apertar aquela coisinha fofa com feição de choro.
- Eu estava com a Val porque a mamãe ficou ocupada, daí eu corri pra mostrar a plantinha pro Senhor Bubu, só que a mamãe disse pra eu ficar perto da Val, mas eu não fiquei – Lavínia falava meio atrapalhada e parecia preocupada. Permaneci atenta às suas palavras me perguntando quem era Val. A babá, talvez? – perdi a Val e a mamãe vai ficar brava – seus olhinhos se encheram de água e eu morri de pena do serzinho.
- A sua mamãe não vai ficar brava com você, não precisa chorar. – sorri carinhosa para ela – Se você me disser quem é a Val, eu levo você e o senhor Bubu até ela. Que tal? – sugeri à pequena, que permaneceu ponderar por alguns instantes. Obviamente haveria relutância de sua parte, afinal, eu era uma estranha. Por fim, Lavínia assentiu. Estendi a minha mão, sentindo a sua mãozinha vir de encontro com a minha – Me avise caso você veja a Val, tudo bem? – pedi enquanto andávamos até o salão de reuniões. Poucos minutos depois, uma moça de meia idade vestida de branco surgiu à nossa frente com a expressão apavorada, colocando uma mão em seu peito expressando alívio ao nos ver. Certamente ela era a Val, a babá.
A mulher correu em nossa direção, falando várias coisas para a menininha ao meu lado. Coisas que eu não consegui prestar atenção, afinal de contas, outra mulher encontrava-se ali proferindo mil resmungos e reclamações, todos dirigidos a babá. A julgar por sua aparência – que se assemelhava com a de Lavínia –, a mulher em questão se tratava da mãe da pequena.
- Como você pôde perder a minha filha de vista, sua irresponsável? Eu não te pago pra isso! – ela ralhava sem parar. Eu permaneci ali parada sem saber muito bem se simplesmente saía ou se esperava alguém me dizer algo, afinal, Lavínia ainda segurava a minha mão – e você? Quem é? – a minha presença finalmente foi notada, porém, torci o nariz devido ao tom de voz dirigido a mim. No instante em que eu abri a boca para respondê-la, ela me cortou enquanto me analisava. – Espera... Já te vi na casa dos . Você é a filha da cozinheira deles, não é?
- Sou . – frisei. – e sim, a minha mãe trabalha para eles. Encontrei a sua filha aqui perto e me ofereci para procurar vocês.
- O que eu disse sobre ir com estranhos, Lavínia? – a mulher bronqueou com a pequena, que se encolheu fazendo um bico enorme. Meu coração apertou, entretanto, a sua mãe não estava errada, afinal.
- Sinto muito, não irá acontecer novamente, senhora. – a tal de Val falou.
- Claro que não irá! Vou te colocar no olho da rua. – abaixei-me ignorando a discussão das duas e sorri mais uma vez para Lavínia.
- Está tudo bem agora, a sua mamãe só ficou preocupada com você. A obedeça e não saia de perto da pessoa que estiver cuidando de você, certo? – ela assentiu com a carinha um pouco melhor.
- (...) Você é só uma empregada, eu te pago para fazer o serviço direito – desviei a minha atenção da pequena à minha frente ao ouvir essa frase – não quero ouvir os seus argumentos inúteis. Aqui você não pensa, não fala, não faz nada que não seja me obedecer, ouviu bem? Isso se eu não te demitir! – levantei-me e observei Val, que assentia encolhida e olhando para baixo. Senti-me mal ao vê-la acuada daquele jeito.
Eu deveria me meter? Não.
Eu me meti? Sim.
Não conseguia ver uma cena tão familiar e simplesmente ficar quieta.
- Senhora, não tiro a sua razão por estar brava, mas falar dessa forma não me parece correto. – manifestei de forma calma visando amenizar aquele clima ruim. A mulher cravou os olhos semicerrados em mim e eu pude perceber claramente o seu descontentamento.
- A empregada é minha e eu falo como eu bem entender, não se intrometa. – respirei fundo tentando não perder a paciência. Ainda bem que eu estava acostumada a lidar com a Dona Kyara, portanto, qualquer outro chilique de madame seria fichinha para mim.
- Seres humanos não pertencem a seres humanos, ela é a sua funcionária, não instrumento de posse. – a frase escapou mais ácida do que eu gostaria, entretanto, não me arrependi por tê-la dito.
- Você não deveria nem estar aqui e acha mesmo que pode me dar lição de moral? – sustentei o seu olhar sem vacilar. Algumas pessoas já olhavam para a pequena confusão instalada e, naquele momento, avistei se aproximar de nós e parar ao lado da mulher ostensiva, que magicamente mudou a sua feição assim que reparou a presença dele ali.
- Boa noite. Algo errado aqui? – questionou impassível, parando os olhos por pouco tempo na babá, que se encontrava acuada e notavelmente temerosa. desviou o olhar da figura amuada e me fitou. Fiz uma pequena careta, demonstrando que algo não ia bem.
- ! Boa noite! – de repente a mãe de Lavínia havia se transformado na pessoa mais simpática do mundo. Ergui a sobrancelha – quase – me divertindo com a sua súbita mudança de humor. – Não há nada de errado, só um pequeno probleminha do qual já estou resolvendo!
- Talvez a senhora devesse continuar de onde parou e explicar a ele, que... Como é mesmo? Ah! Que a empregada é sua e você fala com ela como bem entender. – sorri irônica para a mulher que aparentava ter levado um banho de água fria.
- Dar uma bronca usando a sua posição hierárquica para humilhar sem sequer deixar o funcionário se defender não me parece um probleminha, Senhora Keller. – o homem argumentou com uma ironia quase palpável. Ainda com o cenho arqueado. – agora transmitindo satisfação ao notar a mulher a minha frente totalmente desestabilizada – a encarei sarcasticamente com os braços cruzados e um singelo sorriso brotando em meus lábios.
- N-não, creio que houve um engano! – a mãe de Lavínia se defendeu, exasperada. – Só estávamos conversando, afinal, ela perdeu a minha filha de vista!
- Há outros métodos de chamar a atenção de um funcionário sem denegri-lo. – afirmou e eu toquei delicadamente nos ombros de Val em um ato de conforto ao notar a preocupação evidente em seu olhar.
A babá me olhou consternada e eu lancei-lhe um sorriso amigável na afirmação muda de que as coisas estavam sob controle. Senti-me mal ao imaginar que ela provavelmente precisava muito do emprego, situação que muito se assemelhava com a minha e com a da minha mãe.
- Não sei o que ocorreu, porém, o seu comportamento pode lhe acarretar um processo por danos morais. – A mãe da pequena, que brincava próxima ao local de onde nos encontrávamos, estava atônita e visivelmente nervosa. Ela me fitou irritada e eu mais uma vez sustei o seu olhar.
- Certo. Só peça para essa mocinha não se intrometer no que não lhe diz respeito, ela não é nada aqui! – ralhou afetada. A expressão de tornou-se severa e eu revirei os olhos.
- Desculpe-me, senhora, mas a minha intenção não era desrespeitá-la, somente fazê-la enxergar que não se deve tratar alguém daquele jeito. – falei, sentindo que, se pudesse, a mulher me queimaria apenas com a sua visão enfurecida.
- E você está certa. – afirmou, compactuando com o que eu acabara de dizer. – Irei reforçar outra vez, Senhora Keller. Trate sua funcionária com respeito, por favor. E resolva assuntos de interesse profissional em locais reservados. – então virou-se para Val, que encontrava-se ao meu lado ainda preocupada – Me procure caso precise, certo? – ele disse prestativo e Val sorriu ligeiramente, assentindo incerta devido à presença de sua patroa, que nos observava insatisfeita.
Enquanto falava mais alguma coisa com a mulher, me voltei para a babá a fim de reforçar o diálogo que era tema da “pequena” discussão.
- Fique calma, eu entendo que o seu emprego é extremamente importante, mas não permita que te tratem mal. É errado. – aconselhei.
- Eu não posso perder esse trabalho, por isso não falo nada. - É compreensível, eu passo por algo semelhante, acredite em mim. Só peço para que procure o Doutor caso isso insista em acontecer.
- Obrigada. – Val lançou-me um sorriso leve e eu notei gratidão nele. Retribuí e me aproximei da pequena que agora estava abraçada às pernas de sua babá, despedindo-me dela – e de seu ursinho também, logicamente.
Ergui-me novamente e percebi que também aparentava ter finalizado a sua conversa com a mãe de Lavínia. Ele veio até mim e fez sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse, depositando uma mão na base das minhas costas, gentilmente me guiando em direção à saída do salão, despertando um leve arrepio em minha pele.
Inferno.
- Mas será possível que todas as pessoas desse lugar são insuportáveis? Céus! – me queixei indignada. me examinou com uma sobrancelha arqueada e um modesto sorriso zombeteiro moldou-se em seus lábios, causando um riso instantâneo em mim. – Certo, não todas, – frisei – só a grande maioria. – consertei e foi a vez de rir, negando com a cabeça em divertimento.
- O que aconteceu exatamente? – questionou curioso.
- Pelo que eu entendi, a babá se distraiu e a menininha saiu correndo para brincar. Coisa de criança, sabe? – ele assentiu. – Eu a encontrei e a levei de volta, o resto você deve ter visto.
- Você tem imã para confusão, não é? – interrogou em tom de brincadeira, me causando uma singela risada.
- É um talento natural.
- Não é todo mundo que faz o que você fez e defende alguém. Foi bem bacana.
- Eu não falei a metade do que eu queria, tive medo da babá ser prejudicada. Além do mais, eu não tenho voz aqui. Aparentemente você só é alguém se a sua conta bancária possuir vários zeros – me queixei insatisfeita, sentindo o olhar de em mim.
- Dinheiro nenhum compra o seu caráter, . É raro encontrar alguém como você e é bom saber que eu tenho alguém assim por perto. – ele declarou naturalmente enquanto andava com as mãos no bolso de sua calça social.
Eu imediatamente o olhei à procura de algo em sua feição serena que demonstrasse o que ele quis dizer, entretanto, tive apenas uma visão panorâmica de seu rosto que não esboçava absolutamente nada. O coração acelerado denunciava a ligeira felicidade que eu sentia por uma frase tão simples, mas extremamente significativa. Meu raciocínio tornou-se desordenado, tudo o que vinha à mente eram vários macaquinhos batendo pratos e tudo isso devido a uma mísera frase.
Uma SIMPLES frase.
- Ahn... Obrigada. – agradeci um tanto incerta. não disse mais nada e eu resolvi me manter quieta. Seguimos o resto do caminho em silêncio e somente nos despedimos ao chegarmos em nosso destino.
entrou na mansão.
Eu segui para os fundos.

Mor: É um adjetivo na língua portuguesa, considerado a forma abreviada de “maior” e bastante utilizado em palavras compostas: causa-mor, capitão-mor e etc. Quando determinada palavra é seguida de “mor”, esta atribuí ao termo um sentido de grandiosidade. Por exemplo, falar que um indivíduo é o capitão-mor significa que ele é a maior autoridade entre todos os outros capitães.

Dubrovnik: É uma cidade costeira da Croácia e também está na lista de um dos destinos mais caros para se viajar.

Muralha de Dubrovnik: Famoso ponto turístico da cidade de Dubrovnik.

Lei de Murphy: É um ditado popular da cultura ocidental que normalmente é citada como: "Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível". Ela é comumente citada por: "Se algo pode dar errado, dará."

C'est la vie: "É a vida". Expressão francesa que indica conformismo.




Continua...



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