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Última atualização: 30/09/2017

Capítulo 1


“Em paz, eu digo que eu sou o antigo do que vai adiante. Sem mais, eu fico onde estou, prefiro continuar distante...” – Resposta, Skank.


A noite estava fria, o vento forte fazia com que as folhas das árvores balançassem violentamente, indicando que certamente uma chuva intensa começaria a cair a qualquer minuto. Embora a temperatura estivesse baixa, frio era o que eu menos sentia naquele momento, haja vista que eu não parava um minuto sequer, pois me desdobrava entre colocar champagne nas luxuosas taças de cristal e arrumar os quitutes sofisticados na bandeja, a fim de que todos fossem levados dali pelos garçons e garçonetes contratados para aquele típico evento da classe alta. Olhei aquela cozinha abarrotada de pessoas que corriam de um lado para o outro, todas focadas em fazer o seu trabalho da maneira mais impecável possível, levando em conta que aquela era mais uma das tantas exímias festas da brilhante e popular família , conhecida por sua tradição no ramo de advocacia, onde Kyara e Henrico formavam o casal mais prestigiado nesta área.
Kyara é a advogada mais influente na área de Direito de Família, onde possui muito reconhecimento atuando com divórcios litigiosos – divórcios que ocorrem de forma não amigável, ou seja, onde há conflitos na vida conjugal e isso resulta em uma ação judicial – e já recebeu diversos prêmios, sendo, também, sócia de um renomado escritório. Henrico é advogado criminalista e dono de um dos mais poderosos escritórios de advocacia do país, adquirindo reconhecimento defendendo – e ganhando – casos famosos que obtinham cobertura jornalística, portanto, sendo recorrentemente citado pela mídia. Os dois tinham um filho, , que também decidiu seguir carreira em Direito, tendo se formado há pouco mais de três anos. Eles eram, definitivamente, louváveis neste quesito.
Olhei para o lado e vi que a minha mãe passava a mão na testa e suspirava, cansada, enquanto terminava de cortar alguns tomates. Fui até ela e gentilmente peguei a faca de sua mão, recebendo um olhar confuso em resposta ao meu ato.
- Deixa que eu faço isso, mãe. Senta um pouco – falei, já começando a cortar os tomates em pequenos cubinhos.
- Não precisa, filha. Você já está ajudando muito, nem era pra você estar fazendo isso. E toma cuidado, a faca está afiada – ela argumentou, tentando pegar a faca da minha mão, porém, eu a impedi.
- Você acha que eu sou tão desastrada a ponto de não conseguir cortar alguns tomates? – ela me olhou com deboche, como se nem precisasse me responder.
Fitei-a boquiaberta.
- Eu quero ajudar, não seja teimosa, dona – soltei uma risadinha com a cara resignada dela, já sabendo que eu não desistiria. Observei-a sentando-se em um dos bancos espalhados pela enorme cozinha e voltei a minha tarefa anterior, tomando cuidado para não me cortar.
Minha mãe trabalhava há muito tempo como cozinheira na casa dos , possuo diversas lembranças de vê-la cozinhar enquanto eu desenhava ou fazia lição sentada na mesa. Após a morte do meu pai, passei a acompanhá-la ao seu local trabalho diariamente. No momento em que comecei a escolinha, minha mãe me levava e, de lá, seguia para o trabalho; Já na volta, uma amiga dela me buscava e ia junto comigo até a mansão, o que se tornou desnecessário ao passo em que eu completava mais idade, adquirindo a possibilidade de ir e vir sozinha. Nesse tempo, eu via poucas vezes andando pela casa, afinal, ele sempre tinha diversas atividades para fazer, e comumente ouvia-se a dona Kyara o apressando para a aula de natação, hipismo, violão e tudo mais o que você pode imaginar.
Eu nunca consegui entender essa fixação que gente rica tem de enfiar os filhos em milhões de tarefas.
Com a morte do meu pai, a nossa situação financeira foi de mal a pior, chegando ao ponto em que nós corríamos risco de sermos despejadas da nossa casa devido à falta de pagamento do aluguel. Aquela época foi horrível, eu ainda era criança, não entendia ao certo o que havia de errado, contudo, via a minha mãe constantemente desesperada e sofrendo para conseguir quitar as dívidas. Isso não era possível somente com o seu salário, então, a dona Kyara ofereceu a casa dos fundos da mansão para que nós morássemos, contanto que isso não atrapalhasse o rendimento da minha mãe no trabalho. Era um anexo, tipo uma casa de caseiro que localizava-se aos fundos da moradia principal. Ela prontamente aceitou e moramos aqui até hoje. O dinheiro que ia para o aluguel e outras despesas fora investido na minha educação junto a uma quantia que ficava em uma poupança da qual meu pai deixara para mim, exatamente para este propósito, e, com isso, no primeiro ano do ensino médio, pude entrar em um ótimo e renomado colégio. No começo eu tive bastante dificuldade para conseguir acompanhar o ritmo do ensino – que era extremamente puxado – e, outra situação bem chata se deu ao fato de ter que lidar com os meus colegas de classe e até alunos de outros períodos. A grande maioria – se não todos – os alunos do colégio usufruíam de uma excelente vida financeira e viviam confortavelmente, e quando me questionavam a respeito da ocupação dos meus pais, eu ficava insegura em dizer-lhes que eu era bem diferente deles neste aspecto, afinal, as pessoas não sabiam lidar com desigualdades sociais e isso originava piadinhas e comentários maldosos. Mesmo assim, eu decidia falar, pois jamais tive vergonha da minha mãe ou de sua profissão.
Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio havia acabado de entrar na faculdade, optando por não se mudar para estudar em outro lugar, haja vista que, nessa época, a dona Kyara desenvolveu sérios problemas de saúde e, como o senhor Henrico viaja constantemente para fora do país, não quis deixar a mãe sozinha. passou em Direito em uma ótima faculdade – uma das melhores do país e que se localizava na cidade –, sendo, coincidentemente, a faculdade da qual eu sempre quis fazer parte. Tendo isso em mente, estudei muito, atormentei meus professores, fiquei dia e noite focada nos livros – muitas vezes levando bronca da minha mãe pela minha falta de descanso – e, finalmente, consegui a minha tão sonhada vaga. Agora eu me encontrava caminhando para o fim do curso de Psicologia, ansiando cada vez mais pelo dia em que eu concluiria a faculdade e, claro, pelo dia da minha tão sonhada formatura.
Eu terminava de cortar o último tomate no momento em que o bendito escorregou, fazendo a faca ir de encontro ao meu dedo indicador, formando um corte um tanto quanto feio. Soltei um murmuro de dor, vendo que o sangue saía descontroladamente do corte ao mesmo tempo em que sentia uma ardência latejante nele.
- , o que foi que eu te disse? – minha mãe brotou ao meu lado, olhando minuciosamente o meu dedo machucado.
- O tomate escorregou – choraminguei fazendo uma careta de dor, indo para a pia a fim de lavar o sangue.
- Toma, coloca esse papel pra controlar o sangramento – ela me entregou o papel e eu o enrolei no dedo – vou procurar um band-aid e mertiolate.
- , será que você poderia me ajudar aqui? – uma moça pediu, apontando para um amontoado de panelas.
- Tudo bem, mãe. Deixa que eu vou procurar – saí da cozinha e segui para o pequeno banheiro que ficava perto da área de serviço.
Abri os armários e busquei por todos os lugares, não encontrando nem o band-aid, tampouco o mertiolate. Bufei, segurando o papel mais firmemente em meu dedo e fui para a despensa onde ficavam os medicamentos e produtos para banheiro. Abri a porta e entrei no local, iniciando novamente a minha busca, sentindo o meu dedo latejar cada vez mais. Estava distraída mexendo nas prateleiras até que percebi uma movimentação no lugar. Virei-me e dei um pulinho idiota de susto ao ver que alguém havia entrado.
estava parado perto da porta, me olhando com a maior cara de interrogação possível.
Ele vestia uma blusa social justa da cor branca e as mangas estavam dobradas nos cotovelos; a gravata e a calça jeans eram pretas e, o sapato social, marrom escuro. Seu cabelo continha uma mistura de charme e rebeldia. Estava bonito e...
Opa, espera aí.
Mas o quê...?
É, eu estava o analisando demais.
Franzi o cenho com a minha atitude e saí do mundo da lua, voltando à realidade.
Percebi que o seu olhar encontrava-se direcionado para algo, segui a sua observação e vi que ele encarava o meu dedo machucado onde o papel estava amassado e manchado de sangue. Por instinto, eu recolhi a mão e lancei-lhe um sorriso sem graça quando ele voltou a me encarar com a sua costumeira expressão séria. Virei-me novamente para a prateleira, agradecendo aos céus por finalmente encontrar o band-aid e o mertiolate. Peguei ambos e ainda estava parado perto da porta, passando os olhos pelas prateleiras, parecendo perdido ao procurar por algo enquanto me esperava sair, já que o lugar não era grande o suficiente para nós dois.
- Eu posso ajudar? – perguntei sutilmente a ele, que desviou os olhos da despensa e voltou a me fitar.
- Não, pode ir – sua voz grossa sutilmente rouca fez-se presente.
Assenti e saí, querendo fazer o curativo o mais rápido possível.
- Ta tudo bem? – a voz grave soou novamente. Parei de andar e olhei pra trás, confusa. Ele permanecia parado perto da porta, porém, agora, suas mãos estavam no bolso de sua calça e o seu semblante permanecia sério. Percebendo que eu não entendia sobre o que ele estava falando, apontou com a cabeça para o meu dedo machucado.
- Ah, sim. Tudo bem. É só um cortezinho – respondi abanando com a mão como se aquilo não fosse nada. Percebendo o seu silêncio, sorri em despedida, pronta para, definitivamente, sair de lá. Ele retribuiu com um aceno de cabeça e eu voltei a andar, apressada para cuidar do corte e tornar a ajudar a minha mãe.
Eu morava aqui há muitos anos, e, em todo esse tempo, o máximo que e eu falávamos um para o outro era “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Bom... Às vezes ele também me perguntava se eu sabia onde estava algo.
De vez em quando eu tinha a impressão de que ele não ia muito com a minha cara, e a ideia de incomodá-lo me deixava incomodada.
passava o dia inteiro no escritório e eu, na faculdade. Aos sábados, eu trabalhava meio período em uma loja de discos, chegando à tarde, e dificilmente via o carro de na garagem. Terminei de colocar o band-aid no meu dedo e parei com os devaneios, voltando para a cozinha e encontrando todos da mesma forma: trabalhando.
- Pensei que tivesse se perdido pelos cômodos – minha mãe comentou em um tom brincalhão.
- Fiquei procurando as coisas, tive que ir até a despensa – respondi – O que eu faço agora? – indaguei olhando em volta.
- Por enquanto nada, filha. Pode descansar. Se eu precisar de algo, te chamo – ela preparava alguns quitutes que pareciam maravilhosos. Eu peguei um e recebi um olhar repreendedor. Ri e olhei pela janela, percebendo que, como previsto, uma chuva tórrida começava a cair.
De longe, ouvia-se a melodia suave de alguma canção. Fui à sala de jantar e me aproximei cuidadosamente da porta que dava para a enorme sala de estar, onde a festa acontecia. Tentei ficar o mais escondida possível, dado que não desejava parecer curiosa ou intrometida. Eu apenas gostava de apreciar o ambiente e as sempre lindas decorações que eram criadas. Diversas pessoas encontravam-se distribuídas por ali, todas em seus trajes luxuosos, rindo e conversando, como no mais perfeito comercial de leite em pó. Os garçons circulavam entre os convidados com bastante habilidade, tudo na mais primorosa ordem enquanto distribuíam canapés e bebidas, servindo e entregando taças a quem não tivesse uma. Continuei passando os olhos pelo local, parando em um seleto grupo de pessoas, e, no meio delas, estavam e sua namorada, Cassie. Eles comunicavam-se com os outros distribuindo sorrisos e risadas.
estava despojadamente com um dos braços ao redor dos ombros dela, que, por sua vez, mantinha um dos próprios braços envoltos na cintura dele. Dei um sorriso frouxo e suspirei, focando a minha atenção em outro lugar.
- Você nunca ouviu falar que espiar é feio? – uma voz soprou em meus ouvidos, me fazendo pular sobressaltada devido ao susto. Olhei para trás imediatamente e, quando vi de quem se tratava, rolei os olhos. Tratava-se de , melhor amigo do . - Não tinha uma frase menos clichê do que essa? – rebati, fazendo a maior cara de tédio que consegui.
- Boa noite, . Aproveitando a festa? – ele parou na minha frente com um sorriso enviesado carregado de prepotência. Respirei fundo.
- Quem não deve estar aproveitando a festa é você, já que teve que vir aqui me encher o saco – lancei-lhe um olhar de desprezo, cruzando os braços e continuando a olhar o evento, ignorando , que estava ao meu lado.
- Ouch, como você está arisca. Assim eu fico magoado – retrucou com um tom que emanava falsa ofensa. Revirei os olhos e resolvi que era melhor sair dali. Dei as costas e andei em direção à cozinha, não sem antes ouvi-lo dizer pela última vez: – Já vai? A minha presença te afeta tanto assim?
Parei no meio do caminho, direcionando-lhe um olhar atravessado e um sorriso cheio de desdém.
- Pra me afetar tanto assim – frisei – a sua presença teria que me afetar pelo menos um pouco, o que não é o caso. Eu simplesmente não costumo dar atenção ao que nada me acrescenta – sorri cinicamente enquanto ele me fitava com a feição zombeteira e voltei para cozinha sem olhar pra trás.
O resto da noite seguiu normalmente. Permaneci tão ocupada que nem mesmo havia notado em como as horas passaram rápido. Olhei no relógio de parede e me assustei ao ver que ele marcava 2h35min. Os responsáveis pela limpeza da cozinha já guardavam os utensílios dos quais estavam fora do lugar, asseando, ensaboando e varrendo a fim de deixar a cozinha impecavelmente limpa.
- , filha. Pode ir pra casa, você trabalhou hoje. Eu vou ficar aqui e terminar de ajudar – minha mãe disse, aparentando estar tão cansada quanto eu, ao passo que secava a louça. Neguei com a cabeça, pegando o prato que ela acabara de secar e guardando-o.
- Vocês duas já podem ir, tem mais gente pra ajudar aqui – Judith apareceu em nossa frente, sorrindo ternamente. Ela era uma simpática senhora que ocasionalmente auxiliava nas festas e na cozinha, e eu a tinha como uma avó. Minha mãe abriu a boca para contradizer, porém, Judith levantou uma mão, mostrando a palma da mesma como se dissesse que não aceitaria ser contestada. Sorrimos para ela e nos despedimos do restante das pessoas que ali estavam, saindo pelos fundos e seguindo para a nossa casa. A temperatura parecia ter caído um pouco mais após a chuva ter cessado, e tudo o que eu pensava era na minha cama quentinha. Assim que me viu, Bento, o cachorro de , veio correndo em minha direção, esfregando-se na minha perna pedindo carinho. Ele era um pastor alemão extremamente carinhoso e não podia me ver que não desgrudava de mim.
- Olha só quem apareceu! Você sabe que o seu dono vai pirar quando perceber que você saiu e molhou as patas, não é? – falei pra ele enquanto acariciava atrás de suas orelhas. Bento me encarava como se me entendesse, e eu podia jurar que esse cachorro começaria a falar algum dia. Sério. Olhei pra frente e percebi que e Cassie despediam-se de , que entrava em seu carro, pronto para ir embora. e eram melhores amigos há anos, na época em que me mudei pra cá, eles já eram próximos e faziam tudo juntos – Vai lá com o seu dono que ele está te procurando, amanhã eu prometo que brinco com você – Bento tombou a cabeça para o lado e não se moveu – Vai, olha lá ele vindo – ri e acariciei suas costas, enxergando, de longe, vindo ao encontro do seu cachorro, que me olhou uma última vez, finalmente correndo para o dono.
Ele passou as mãos na cabeça do cão, fitando suas patas e falando algo que eu não pude escutar. Os dois seguiram para dentro da mansão acompanhados de Cassie, que os aguardava do lado de fora. Presumi que ela provavelmente dormiria lá. Senti a brisa gélida bater contra o meu rosto e apressei-me para entrar em casa, já percebendo o meu nariz esfriar devido ao frio. Tomei um banho quente e cai na cama, adormecendo velozmente.



Capítulo 2


O esperado é só o começo, mas é o inesperado que muda nossas vidas. – Meredith Grey.


O domingo havia amanhecido ensolarado, embora a temperatura não estivesse alta. O céu estava limpo e extremamente azul, nem parecendo que uma forte chuva caíra na noite anterior. Eu brincava com Bento no gramado descampado há horas, já me sentia cansada e com dor nas pernas – sedentarismo mandou olá, – não vendo um mísero sinal de exaustão no pastor alemão, que procurava a bolinha que eu acabara de jogar. A casa estava vazia, pois, mais cedo, todos foram tomar café da manhã fora e acompanhar o senhor Henrico ao aeroporto, pois ele viajaria dali a poucas horas.
- Não, Bento! Na lama não. – corri para tentar alcançá-lo e impedi-lo de ir para o jardim, caso o contrário, o estrago seria muito feio. – BENTO, VOCÊ QUER ME VER MORTA? VOLTA AQ... – ia terminar de gritar pelo cão que corria feliz em direção ao seu destino proibido, até que tropecei nos meus pés, caindo igual abacate cai do pé. Como em um passo mágica, Bento parou imediatamente de correr e olhou para trás, e acredite, se cachorro desse risada, ele estaria rindo. Eu estava estatelada no chão sentindo as minhas roupas sujas com a grama ainda úmida da noite de ontem. O cão veio em minha direção, sentando-se na minha frente, e eu bufei, visto que ele finalmente parou de correr, mas eu precisei levar um tombo feio para que isso acontecesse.
- Está satisfeito? Hoje o Taz-Mania* possuiu você ou coisa do tipo? – e lá estava eu, batendo papo com um cachorro que me observava como se eu fosse louca, enquanto permanecia jogada na grama, bem do jeito que caí. – até que é gostoso ficar deitada aqui, sabe? Acho que dá pra te entender. – virei de barriga pra cima, me rendendo, já que as minhas roupas encontravam-se sujas de qualquer forma, e encarei o céu límpido. Bento deitou-se ao meu lado e eu comecei a acariciá-lo. Não sei por quanto tempo fiquei daquela forma, me sentindo totalmente relaxada, porém, despertei subitamente ao ouvir aquela voz grave, que parecia estar perto demais.
- Bento! – chamou, atraindo a atenção do cachorro que levantou a cabeça com as orelhas arqueadas. Ergui-me rapidamente, passando as mãos na minha roupa repleta de grama, um tanto quanto atordoada. estava com uma roupa de corrida e a coleira do Bento em mãos, alternando o seu olhar entre mim e o cão, já posto de pé ao meu lado. Ele fez o típico cumprimento acenando a cabeça e eu lhe respondi com um sorriso, já saindo dali quando repentinamente senti um tranco no meu corpo e mais uma vez o baque do chão. Bento pulou em mim, me levando a cair de bunda, começando a me farejar e intercalando o ato com lambidas frenéticas no meu rosto. O que tinha dado naquele cachorro? Eu fui pega totalmente de surpresa e só conseguia tapar o rosto e rir, tentando me levantar e me liberar do cão eufórico.
- Bento, para! – falava e tentava, com dificuldade, afastá-lo. Vendo que seu cachorro não pararia tão cedo, ele veio por trás de mim, passando seus braços por debaixo dos meus e me levantando de uma vez só e, no ato, as minhas costas bateram contra o seu peitoral, nos fazendo cambalear um pouco para trás. Como se percebesse o meu embaraço, Bento parou com a exaltação e passou a encarar a mim e , que me soltou delicadamente, indo colocar a coleira nele. Passei a mão nos meus cabelos na tentativa de ajeitá-los um pouco, ainda atônita.
- O que te deu, hein, cara? – perguntou para o cão, que fingia que nem era com ele e pousou seus olhos em mim. – Ele machucou você? – questionou, me analisando, e eu neguei.
- Não, ele só está um pouco agitado hoje. – respondi e ele concordou com um maneio de cabeça.
- Vou cansá-lo mais um pouco, então. – deu um singelo sorriso ladino. – tem grama no seu rosto. – avisou e saiu com um Bento saltitante. Eu dei um sobressalto, passando as mãos nas bochechas rapidamente, já vendo os dois se afastarem e começar o seu cooper com o pastor alemão. E novamente a cena de comercial estava lá.
Voltei para casa e encontrei minha mãe estudando algumas receitas de bolo, que era o que ela mais gostava de fazer.
- Que bom que você está em casa. – comemorei ao vê-la sentada lendo.
- Consegui terminar tudo mais cedo. – sorriu satisfeita. – o que aconteceu com você? Está toda suja de grama e terra. – disse, me analisando.
- O Bento estava feliz demais e me fez ir de encontro com o chão duas vezes. – ri, indo em direção ao banheiro, afinal, precisava urgentemente de um banho.

**

Assim como o domingo chegou rápido, passou na mesma proporção. A segunda-feira iniciou-se preguiçosa como de costume, e cafeína era o que me mantinha desperta àquela manhã. Estávamos na última aula e aguardávamos o professor chegar, durante esse tempo eu conversava com , minha melhor amiga e colega de sala. Nós nos conhecemos no primeiro dia de aula da faculdade, não nos desgrudando desde então. Ela era uma pessoa incrível. Embora tenha a mesma condição financeira de e a maioria das pessoas que eu conhecia, nunca torcera o nariz ou me tratou com indiferença por saber que a minha classe social estava muito abaixo da dela. Parece absurdo ficar feliz por algo que deveria ser normal – saber lidar com diferenças, principalmente diferenças sociais – no entanto, pode acreditar... Não é.
- Como foi a festa dos ? Ontem a Cassie postou essa foto com o questionou, levantando o celular para que eu visse a fotografia dos dois abraçados. Cheguei à conclusão de que ele deveria sorrir mais, uma vez que ele ficava ainda mais bonito enquanto sorria. Torci o nariz e dei de ombros.
- Foi como todas as outras festas, inclusive a parte em que o aparece e tenta me irritar de alguma forma. – falei e vi a feição da minha amiga se transformar de calma, para raivosa. Ela detestava o e eu não a culpava.
- O que aquele traste fez dessa vez?
- Ele apareceu perguntando se eu estava aproveitando a festa, todo cínico. Eu dei uma resposta ignorante e ele começou com aquele papinho de que a presença dele me afeta – fiz uma cara de desgosto e me acompanhou.
- E o que você disse?
- Mantive a pose e basicamente respondi que não me afetava e que eu não perdia tempo com o que nada me acrescentava.
- Amiga, que baita frase efeito. Adorei! – ela exclamou, batendo palminhas. Ri e continuei.
- Eu quero distância do – falei, soando firme. – a parte de mim que se afetava por ele desapareceu, tudo o que eu sinto é desprezo. – finalizei, sentindo a tão conhecida mágoa ressoar pela minha voz. sorriu em compreensão e colocou a mão por cima da minha, acariciando-a.
- Está certíssima, . Estou orgulhosa de você! – disse sorrindo e eu sorri de volta em agradecimento.
O professor entrou na sala e todos ficaram em silêncio. – finalmente – dando início a tão esperada última aula.

**

’s POV

- Esse relatório está incompleto, Thompson – chamei a atenção de um dos advogados do escritório pela milésima vez. Meu pai deixava os documentos de diversos casos sob minha responsabilidade sempre que ele viajava, o que eu sabia que gerava inúmeros comentários sobre eu ter preferência ou abusar do poder, já que era filho do dono. Não me importava com isso, afinal, eu era realmente muito bom no que fazia, e, conhecendo o meu pai – que venerava seu trabalho como um bom workaholic* – ele não me deixaria no comando de nada caso soubesse que eu não possuía competência para tal. Eu também detinha consciência de que todos – senão a maioria – das pessoas me denegriam pelas minhas costas por eu repreendê-los. Bom, se você percebe que algo está errado, ou extremamente longe do seu melhor, você toma as devidas providências, não é mesmo? O mais interessante de tudo é que essas mesmas pessoas que me criticam em minha ausência, puxam meu saco quando estou presente. Incoerente? Eu sei. Olhei no meu relógio de pulso e vi que a hora do almoço se aproximava, agradecendo mentalmente por isso, pois sentia leves pontadas na cabeça, indicando que ela começaria a doer a qualquer momento. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para Cassie, minha namorada, avisando que a pegaria dali a 30 minutos para almoçarmos juntos, como fora combinado hoje mais cedo. Poucos segundos depois, recebi sua resposta.

Desculpa, amor. A redação está uma loucura e eu vou almoçar por aqui mesmo. Remarcado pra amanhã?

Suspirei, já vendo que teria que comer sozinho.

Tudo bem, princesa. Bom trabalho ;)

Levantei-me, guardando o celular no bolso do meu terno e pegando minha carteira junto às chaves do carro, saindo para almoçar. Cassie era filha de um dos amigos do meu pai e havíamos nos conhecido em um dos eventos que sempre ocorrem nesse meio dos negócios. Para mim, eles serviam apenas para exibição e para manter futuros contatos lucrativos, contudo, como funcionava, eu apenas me mantinha neutro. A minha família a adorava, sempre comentando em quão sortudo eu era por ter ao meu lado alguém de tão boa índole e vinda de um meio tão influente. A verdade é que eu estava pouco me fodendo a respeito do renome da sua família – coincidentemente também de advogados –, visto que estava com Cassie porque gostava dela, e só. Eu sabia que o nosso namoro era pertinente para os meus pais, uma vez que eles jogavam variadas indiretas sobre como seria incrível se nós nos casássemos, concedendo uma oportunidade para a expansão do escritório junto a família da minha namorada, iniciando uma poderosa sociedade. Ouvir tudo aquilo me deixava extremamente desconfortável, dando a entender que o meu relacionamento não passava de negócio para eles.
Resolvi que almoçaria em um belo restaurante localizado próximo a minha antiga faculdade, já sentindo falta da refeição maravilhosa da qual eles serviam. Passei com o carro na frente do campus, sendo atingido em cheio pela nostalgia provinda daquele lugar. Percorria os olhos pela rua distraidamente, até que avistei uma figura conhecida. Era , filha da , a mulher que trabalhava como cozinheira lá em casa. Ela conversava descontraída com uma garota que caminhava ao seu lado, rindo vez ou outra, carregando vários livros em seus braços e uma bolsa enorme nos ombros. Imediatamente fiz uma careta ao imaginar como aquilo estaria pesado. Eu não possuía opinião a seu respeito, tão pouco sabia algo sobre a sua vida, porém, ela parecia uma boa garota. Pelo que já pude observar, ela era bem reservada, um tanto quanto desastrada - pra não falar desajeitada –, adorava meu cachorro e eu havia acabado de descobrir que a sua risada despertava uma imensa vontade de rir junto. Ela era normal, comum. Definitivamente existia alguma coisa instigante nela, o seu conjunto certamente a tornava interessante. Franzi o cenho posteriormente a essa constatação, percebendo que a estudara por tempo demais, ouvindo ao longe o som estranhamente engraçado de sua gargalhada, fazendo-me rir também. Balancei a cabeça e acelerei com o carro em direção ao restaurante, já com o pensamento no processo de um importante caso do qual eu estava acompanhando.

**

’s POV

Puta merda, puta merda, puta merda.
Eu corria de um lado para o outro no meu quarto, pegando as primeiras peças de roupa que eu via na frente e vestindo-as desajeitadamente, tentando escovar os dentes ao mesmo tempo em que juntava o material da faculdade. Eu havia passado a noite anterior trabalhando até tarde no meu projeto do TCC e acabei indo dormir altas horas da madrugada, motivando o meu atraso no dia de hoje. Acordei com a minha mãe me chamando para perguntar se eu me sentia bem e se iria à aula, visto que o horário passara e eu ainda não tinha levantado. Como possuía carro, ela me buscava em frente ao condomínio – que não era longe de sua casa – e íamos juntas para a faculdade, entretanto, nem as suas ligações conseguiram me acordar.
Despertei em um pulo sentindo-me totalmente desatinada e permanecia dessa forma, agora, olhando o meu reflexo no espelho e querendo chorar ao ver o desastre capilar do qual eu me encontrava. Aproveitei o tempo frio e peguei uma touca a fim de disfarçar – ao menos um pouco – aquela situação horrível na minha cabeça e empenhei-me em ignorar a minha cara que se encontrava tão ruim quanto o meu cabelo, jogando a bolsa nos ombros e pegando os livros de qualquer jeito. Praguejei a chuva torrencial que caía, tremendo ao sentir uma forte rajada do vento gélido me atingir em cheio. Disparei porta afora correndo como se a minha vida dependesse disso, ao passo que buscava equilibrar o guarda chuva em minhas mãos também ocupada pelos livros e lutava para não deixar a minha bolsa cair dos meus ombros. Aquela cena deveria estar ridícula por muitos motivos.
1 – Eu parecia uma pata correndo.
2 – Eu estava correndo enquanto meus livros desequilibravam-se das minhas mãos.
3 – O meu guarda-chuva mais me molhava do que me protegia.
4 – A minha aparência se assemelhava com a aparência de alguém que havia acabado de sair da boca de um cachorro. Eu sei que isso não é possível, mas tente imaginar algo parecido. É bem ruim, não é? Sim, é.
Essas eram somente algumas das razões, as outras eu perdi no meio do caminho quando percebi que um carro acompanhava a minha corrida ridícula. Torci para quem quer que estivesse o dirigindo não inventasse de passar por uma poça d’água, me deixando ainda mais molhada e piorando o que já estava ruim. Tive a sensação de que aquele carro não me era estranho, confirmando a minha constatação ao ver o motorista do mesmo.
.
Eu estranhei aquilo e decidi continuar o meu caminho enquanto meio-que-andava-meio-que-corria, não sabendo o que ele queria. Rir da minha situação? Tudo bem, que vá em frente. Ele abaixou os vidros à medida que eu o observava de canto de olho.
- Ei! ! – ele gritou e eu parei. O encarei com cara de paisagem, tentando enxergá-lo em meio à chuva grossa – entra! – Vi que ele destravou a porta do carro e franzi o cenho em total confusão. Desde quando ele me oferecia carona?
- O quê? – respondi em um misto de incredulidade e dúvida, aumentando o tom de voz para que me ouvisse devido ao barulho da chuva. Este, me fitava com o típico semblante que exalava seriedade.
- Entra! – repetiu. Permaneci com a mesma feição confusa já achando que aquele dia estava totalmente do avesso.
- Ahn... Não, está tudo bem. Obrigada – respondi sorrindo sem mostrar os dentes e voltei a andar, me encolhendo devido ao frio.
- Não parece que está – ele retrucou com um tom cínico. Respirei fundo e coloquei o sorriso mais convincente que eu tinha no rosto, pronta para dizer-lhe que eu podia me virar, porém, um trovão estrondoso ecoou e me fez pular, fechando os olhos em aflição. Quando os abri, vi que me observava com uma expressão debochada. Era estranho vê-lo com outra feição que não fosse séria, e, naquele instante, eu decidi que não gostava desse deboche explícito em seu rosto. Mais um trovão ecoou e eu me peguei em um dilema. Ou eu mantinha a minha teimosia em tacto e perdia a prova, ou cedia e aguentaria alguns minutos embaraçosos estando no mesmo carro que .
Eu não podia perder a prova e já estava atrasada o suficiente.
Suspirei derrotada e fechei o guarda-chuva, correndo e entrando no veículo rapidamente.
deu partida e um clima totalmente esquisito tomou conta do local, exatamente como eu previ. Após enrolar o guarda-chuva em sua capinha, coloquei-o dentro da minha bolsa, temendo que eu molhasse o estofado do banco e estragasse alguma coisa muito cara. O carro estava quentinho e eu finalmente sentia os meus dedos novamente, quase sorri de alívio, se não fosse... Bem, se não fosse essa situação inusitada e o aroma agradável do perfume de , que invadiu as minhas narinas. Minha bota encontrava-se encharcada e eu encolhi os ombros, acanhada.
- Estou molhando o carpete. – murmurei pesarosa.
- Não tem problema. – respondeu sem mover os olhos da rua. - Você vai pra faculdade, não é?
- Sim. – a minha fala deixava transparecer toda a minha introversão mesmo que eu tentasse não soar tão pouco à vontade. pareceu não ligar, apenas assentiu e continuou dirigindo tranquilamente. Eu desviei meus olhos da paisagem borrada pelo movimento do carro e pela chuva, observando-o de canto de olho. Ele vestia uma blusa social branca, seu terno era preto – perfeitamente alinhado ao seu corpo –, a gravata vinho contrastava com as cores escuras e, por cima, um casaco também da cor preta finalizava o seu visual de maneira esplêndida. Parei de examiná-lo como uma idiota e voltei a minha atenção à rua banhada pelas grossas gotas de chuva. Eu estava imersa em pensamentos até que o seu celular tocou, tirando-me do torpor do qual eu me encontrava. colocou em seu ouvido um aparelho para atendê-lo, aceitando a ligação em seguida.
- Bom dia, amor. – ele saudou a pessoa do outro lado da linha. Obviamente essa pessoa tratava-se de Cassie. Imediatamente me senti desconfortável, afinal de contas, presenciava um diálogo pessoal. – De novo? Sei... Entendi. Fazer o quê, né? Não, amor. A gente conversa mais tarde, ok? Estou dirigindo. Beijo. – finalizou a ligação e deu um suspiro resignado. Ele parecia incomodado. Eu olhava as minhas unhas como se elas fossem muito importantes e dignas da minha atenção, agradecendo mentalmente no momento em que reconheci o campus da faculdade.
estacionou e destravou a porta do carro, mexendo em seu celular ao mesmo tempo em que aguardava para que eu saísse. Eu desprendi meu cinto, arrumando com pressa a minha bolsa e os livros em meus braços.
- Obrigada. – virei-me para ele e sorri amigavelmente. Ele desviou os olhos do celular e me olhou.
- Por nada.
Sorri mais uma vez e saí do carro fechando a porta atrás de mim, vendo-o dar partida e sumir do meu campo de visão segundos depois. Corri em direção a minha sala, não sem antes notar um grupo de pessoas me fitando e cochichando. As ignorei e continuei correndo, torcendo para que a professora me deixasse fazer a prova mesmo estando extremamente atrasada.

**

’s POV

Eu elaborava a tese de defesa do meu cliente estudando minuciosamente todos os argumentos que poderiam ser utilizados a fim de conseguir sua absolvição. Este seria o meu primeiro caso com cobertura da mídia, e isso estava me deixando um tanto quanto nervoso, afinal, a acusação leva uma vantagem muito grande, visto que é mais fácil acusar do que defender. Lee Feldmann era empresário e havia sido acusado de assassinar o banqueiro Mason Zummack, mas estava bem nítido que por trás disso havia alguém querendo incriminá-lo por meio de uma falsa acusação, e eu não permitiria que uma condenação injusta levasse um inocente para a cadeia. Eu havia conseguido uma revogação da sua prisão preventiva, porém, ele ficaria em prisão domiciliar até o dia do julgamento. Larguei os papeis sob a mesa por alguns segundos e apoiei os cotovelos nela. Massageei as têmporas e soltei um suspiro cansado, repassando tudo o que me fora dito a respeito do dia do assassinato de Mason.
O crime ocorrera em um sítio afastado da cidade, onde acontecia uma festa que reunia diversos empresários extremamente bem sucedidos. Todos foram interrogados e nada que eu pudesse usar a meu favor foi dito, o que só me deixava cada vez mais nervoso, pois encontraram a arma do crime no estofado do carro do meu cliente. As câmeras, que seriam de extrema ajuda, pararam de funcionar no início do evento, só deixando pior o que já estava ruim. O culpado estava presente naquela noite e era um dos empresários convidados, e eu, com certeza, iria pegá-lo. Encontrava-me focado neste caso desde o momento em que pisei no escritório hoje mais cedo, logo após deixar na faculdade. A cena cujo eu presenciei esta manhã saindo do condomínio só não fora mais engraçada, porque a situação da garota era realmente de dar pena. Ela corria totalmente atrapalhada conforme a forte carga d’água caía e fazia o seu guarda-chuva tornar-se inútil, os seus livros escorregavam de sua mão e eu podia apostar que aquela bolsa despencaria no chão a qualquer instante. Pressupus que perdera a hora, o que só confirmou a minha suspeita ao ver a sua cara de sono ao me encarar com o semblante repleto de confusão. Comovido pelo que avistei, ofereci uma carona a ela, que, para minha surpresa, relutou em aceitar. Seu embaraço estava evidente na forma como fixou o olhar na janela e só o desfez para mexer em suas unhas, claramente sem jeito por estar ali comigo. Eu não a condenava, a sua atitude era plenamente cabível levando em conta que a nossa socialização era um tanto quanto limitada. Cassie desmarcara novamente seu almoço comigo, pois hoje era aniversário de uma amiga sua, que planejou uma reunião no mesmo horário. Apesar de me sentir frustrado, disse que estava tudo bem, e, ao ser questionado pela minha namorada sobre eu estar chateado, neguei. Inclusive porque não adiantaria nada, de qualquer forma. No fim, eu almocei sozinho novamente e me enfiei em minha sala a tarde inteira.
Batidas na porta me tiraram do meu pequeno devaneio. Murmurei um “entra” e a figura de Thompson fez-se presente.
- Com licença, . Vim saber se você quer algum auxílio com o caso do Lee Feldmann. Deve estar difícil conseguir formular algo já que é a sua primeira defesa importante – ele ofertou e embora eu estivesse agradecido por sua boa vontade em ajudar, senti-me ofendido com o “deve estar difícil”. Não estava fácil, porém, nada que eu não estivesse apto a resolver.
- Obrigado, Thompson. Não será preciso, tenho tudo sob controle por aqui. – sorri em agradecimento e educadamente recusei.
- Fico a disposição para qualquer eventualidade. – eu assenti e ele retirou-se sem demora. Fitei os papeis e tornei a lê-los, ignorando a dor de cabeça que insistia em me incomodar.

**

22hrs15 min.
Saí do escritório mais tarde do que planejava. Dirigi com destino à minha casa implorando mentalmente por um banho quente seguido da minha cama, tendo meus ombros rígidos e uma sensação incômoda de peso tomar conta dessa mesma região. Embora estivesse esgotado pelo cansaço, grande parte de mim vibrava por ter conseguido pontuar diversos detalhes importantes na tese do caso Feldmann. Decidi que marcaria uma reunião com o meu cliente a fim de acertar o que não havia ficado claro nas conversas anteriores, auxiliando-o sobre como deveria se portar dali em diante até o dia da audiência de seu julgamento. Logo que cheguei, estranhei o fato de Bento não vir ao meu encontro como ele normalmente fazia no momento em que eu estacionava o carro, e, procurando pelos arredores da residência, o avistei deitado ao lado de , que estava sentada em um banco de madeira localizado na pequena varanda da modesta casa em que morava com sua mãe. Uma coberta encontrava-se enrolada em seu corpo e também cobria o meu cachorro. Ela lia alguma coisa, passando o marca texto em algumas palavras. Lembrei-me do dia no qual a minha mãe deu a notícia de que as duas se mudariam para cá, ocupando o que antes era apenas um lugar que eu utilizava para as sociais com os meus amigos no início da minha adolescência.

FLASHBACK

Sexta feira à noite geralmente significava uma coisa: As habituais reuniões que ocorriam sempre na casa aos fundos da minha. , eu e mais alguns amigos do colégio nos juntávamos para fazer o que qualquer adolescente fazia: merda nenhuma que prestasse. Nós decidíamos sobre quem iria até a minha casa com objetivo de pegar cerveja – escondido – no bar do meu pai, e, naquele momento, era a minha vez. Eu caminhava sorrateiramente pela sala, até que a minha mãe simplesmente surgiu do nada, quase me matando do coração.
- Onde você está indo, ? – questionou com o seu olhar desconfiado. Eu paralisei ali mesmo e respirei fundo, tentando achar uma desculpa cabível.
- Eu? Ah... Eu estava procurando a . Queria saber se os sanduíches estão prontos. – respondi na maior naturalidade possível, agradecendo pela desculpa repentina que eu acabara de inventar. Minha mãe continuou me fitando intrigada, mas pareceu se convencer. Segurei-me para não soltar um suspiro aliviado.
- Os sanduíches estão na cozinha – frisou. – e a já foi embora. Gostaria de falar sobre isso com você, aliás. Preciso que você tire suas coisas da casa perto da piscina.
Olhei-a ultrajado, não acreditando no que ela havia acabado de dizer.
- Por quê? Como assim? – questionei mal humorado.
- A está com alguns problemas, então ofereci a casa da piscina para que ela e a sua filha morassem. – explicou e isso não diminuiu a minha revolta.
- E o que eu tenho a ver com isso? Onde eu vou fazer as reuniões com os meus amigos?
- Não fale assim, . – repreendeu-me com o tom de voz duro e eu encolhi um pouco os ombros. Quando minha mãe ficava brava era de dar medo em qualquer um e eu imaginei que isso a ajudava muito no seu trabalho. – você e seus amigos podem fazer isso em outro lugar, eu não posso ficar sem cozinheira. Ela tinha vários problemas para resolver e faltava demais, essa foi a única saída, então não quero mais ouvir qualquer relutância da sua parte.
Suspirei derrotado, sem ter como argumentar.
- Eu tenho até quando pra esvaziar a casa?
- Até domingo. – assenti desanimado e fui dar a notícia aos garotos.
Naquele final de semana, no domingo, para ser mais exato, conheci . A garota mais nova de semblante envergonhado me encarava com curiosidade e abaixava o olhar vez ou outra, enquanto eu devolvia o olhar, porém, emburrado.


FIM DE FLASHBACK


Balancei a cabeça em negação, quase rindo por meu egoísmo naquela época e agradecendo pela minha mudança de valores. Aproximei-me um pouco até ficar visível para o meu cachorro, que, assim que me avistou, levantou a cabeça com as orelhas arqueadas e começou a balançar o seu rabo energeticamente, porém, não desceu do banco. Coloquei as mãos no bolso da minha calça e ergui uma sobrancelha, sem entender.
Eu era dono de um traíra.
- Ei, o que foi? Por que você ficou agitad... – iniciou a fala, mas deixou a frase morrer ao desviar a sua atenção das folhas e acompanhar o olhar do Bento, dando de cara comigo ali.
- Depois de mim, você é a única que ele obedece e é carinhoso desse jeito. – comentei. Ela olhou para o cão que ainda balançava o seu rabo alegremente, porém, agora deitado e relaxado com a cabeça sob suas patas dianteiras.
- Ele é uma ótima companhia. – acariciou por trás de suas orelhas e sorriu. Eu concordei com a cabeça.
- Bento, vem! - bati a mão em minha perna algumas vezes para chamar sua atenção e fazê-lo vir até mim. Ele olhou para e pulou do banco, andando em minha direção. Às vezes eu achava que esse cachorro começaria a falar. – Boa noite. – eu disse, já virando as costas com Bento ao meu encalço.
- Boa noite. – respondeu com a voz suave.
Entrei em casa e me deparei com a minha mãe na sala, lendo um livro sentada na poltrona em que ficava habitualmente.
- Oi, mãe. – depositei um beijo em seu rosto e sentei-me no sofá a sua frente.
- Oi, filho. Chegou agora? – perguntou, me observando por cima do livro.
- Agora a pouco. – respondi, jogando a cabeça no encosto do sofá e afrouxando a gravata que parecia querer me sufocar – e você? Chegou do escritório há muito tempo?
- Sim, cheguei há algumas horas.
- Não está se esforçando demais, certo? O doutor deu ordens claras para você se cansar o mínimo possível. – a adverti me referindo aos seus desmaios recorrentes.
- Eu estou bem, filho. Ficaria pior estando em casa ser fazer nada. Agora me responda... O que você estava falando com a filha da ? – levantei a cabeça e a olhei sem entender. Como ela havia visto? Eu não me importava que ela visse, não tinha nada a esconder, porém, chamar a minha atenção por algo tão banal me parecia bem incoerente.
- Fui buscar o Bento que estava com ela. – continuei a encarando curioso e meio incerto sobre a sua pergunta repentina.
- Hm. Desde quando vocês conversam?
- Eu não posso ter pelo menos uma convivência normal com alguém que mora aqui há anos? – ela abaixou seu livro, deixando-o repousando em seu colo e me fitou com os olhos cerrados.
- Não estou te entendendo, . Pra que ter qualquer tipo de convivência com a filha da cozinheira?
Endireitei-me no sofá, passando as mãos no rosto em sinal de cansaço.
- Você me deu educação, dona Kyara. E o nome dela é . – adverti vendo a sua expressão se contrair, estarrecida. – não é como se nós fôssemos amigos, eu só não vejo motivos para não ser ao menos civilizado.
- Você já sabe o que eu penso, não vou me desgastar sobre isso. O seu pai volta amanhã, a propósito.
- Tudo bem. – levantei-me e fui até ela, deixando um beijo no topo de sua cabeça, sem um pingo de paciência para a sua vaidade. – vou para o meu quarto, estou cansado. Boa noite.
- Boa noite, filho.
Entrei em meu quarto já tirando as minhas roupas, avistando Bento deitado ao pé da minha cama.
- Agora você quer ficar perto de mim, né, pilantra? – brinquei, passando a mão por seu pelo macio e fui em direção ao banheiro, terminando de me despir. Joguei-me debaixo do chuveiro constatando que os meus músculos relaxavam conforme a água quente caía sob o meu corpo. Terminei o banho alguns minutos depois e vesti uma boxer qualquer, finalmente deitando na minha cama. Olhei meu celular e estranhei ao ver que constava uma chamada não atendida de um número privado, afinal, eu não costumava receber esse tipo de ligação, porém, resolvi ignorar, imaginando que talvez tivesse sido engano. Ao conferir que não havia recebido nenhuma mensagem de Cassie, presumi que ela já estivesse dormindo, então optei por apenas enviar-lhe boa noite. Deixei meu aparelho em cima do criado mudo e me arrumei na cama, tentando ficar confortável. Não demorou muito e eu peguei no sono.


*Taz-Mania: Taz (ou no original, Tasmanian Devil) é um personagem dos desenhos animados Looney Tunes. Taz é um diabo-da-tasmânia, que se locomove num redemoinho e devora tudo que vê pela frente.

*Workaholic: Que ou quem é viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.




Capítulo 3


’s POV

Os dias passaram voando e com a faculdade tomando grande parte do meu tempo, eu nem percebi. O sábado estava agradável e o tempo encontrava-se firme, nos possibilitando de sair por aí com roupas leves e confortáveis. Eu voltava pra casa ansiando por um banho após um dia tranquilo na loja de discos da qual eu trabalhava. Nada como meu notebook, algumas besteiras para comer e uns bons filmes. Sim, meu sábado à noite seria dessa forma e eu não via problema algum nisso. Eu havia recebido o meu pagamento e me sentia radiante por ser capaz de contribuir com as despesas e, ainda por cima, por estar depositando mais da metade do meu salário em uma conta que eu havia aberto com o intuito de possuir dinheiro o suficiente para que conseguíssemos um lugar para morar. Claro que a minha mãe não sabia dessa última parte, caso contrário, não teria a mínima graça. Os não fariam nenhum evento naquele final de semana, isso significava que o sossego reinaria e que eu não teria nenhum dedo ferido enquanto cortava seja lá o que for.
Meu humor estava magnífico, quase podia ouvir os passarinhos cantando e uma música feliz da Lilly Allen tocar ao passo que entrava na mansão e seguia a caminho de casa, entretanto, senti o meu sorriso esvair-se a partir do momento em que me deparei com um grupo de pessoas na área da piscina.
Alguns amigos do encontravam-se por ali. Este, estava sentado em uma das espreguiçadeiras do local com Cassie no meio de suas pernas. Ele usava um óculos escuro que caía ridiculamente bem em seu rosto, seus músculos expostos formavam um conjunto perfeito com todo o seu corpo e eu me senti uma completa pateta por admirá-lo tão deslumbrada daquela forma. Engoli em seco e balancei a cabeça para espantar aquelas sensações excêntricas. Patética, . Patética. Dentro da piscina o resto do pessoal conversava bebericando suas bebidas servidas em taças cristalinas, rindo de alguma coisa que falara. Expirei e resolvi prosseguir o meu caminho sabendo que teria que passar por lá. Comecei a andar o mais despreocupadamente possível, porém, já sentia olhares sobre mim.
- Ei, gracinha – fechei meus olhos, desacreditando que iria mesmo me infernizar na frente de todo mundo. Fingi que não ouvi, continuando os meus passos até a minha casa, mas era óbvio que ele não desistiria – Ficou surda? Ou só sabe interagir com utensílios de cozinha? – ele zombou se achando engraçado. Ouvi a risada dos demais ali presentes e senti meu sangue ferver.
Se ele queria me irritar, conseguiu.
Parei de andar imediatamente e o encarei, demonstrando que eu não via graça alguma naquilo. Senti meu rosto esquentar de raiva e a minha expressão com certeza transparecia a repulsa proveniente daquele comentário ridículo. Notei que não dava risada, sua feição era séria, quase rigorosa, e ele agora olhava em minha direção com a testa minimamente franzida. Desviei o meu olhar da figura dele e tornei a encarar , que estampava um sorriso petulante direcionado a mim.
- Você está falando comigo? – questionei ao mesmo tempo em que estreitei os olhos.
- Tem mais alguma cozinheira aqui? – ele saiu da piscina, vindo em minha direção, e, pelo bem dele, seria bom que mantivesse distância – Já que você está aqui, pega alguma coisa pra nós comermos – Fechei minhas mãos em punho, tentando – inutilmente – controlar a raiva.
A tensão que se formou era nítida, praticamente palpável, a atenção de todos estava voltada para nós dois e cada vez em que eu via o divertimento nos olhos dos amiguinhos imbecis do , mais eu previa que iria perder completamente a cabeça.
- Não me lembro de trabalhar pra você. Se estiver com fome, vá você mesmo buscar alguma coisa, nem eu, nem a minha mãe somos pagas pra te servir. A única pessoa que tem o direito de dar ordens aqui é o – falei entredentes apontando o dedo bem no meio do rosto de , que riu sarcasticamente.
- Quem você pensa que é pra falar o que eu devo ou não fazer, gracinha? – ele tentou tocar em meu rosto e foi prontamente impedido pela minha mão que empurrou a sua bruscamente.
- , já chega! - o repreendeu com o tom de voz duro. Levantou-se irritado da espreguiçadeira e andou em nossa direção.
- E quem você – frisei – pensa que é? Não toca em mim – alertei.
- Lembro de uma época em que você quase implorava pra que eu te tocasse – aproximou-se do meu ouvido e sussurrou em um tom sórdido para que só eu o ouvisse.
Eu não possuída mais o controle dos meus movimentos e nem das minhas ações, a fúria me regeu e a palma da minha mão acertou em cheio o rosto do homem a minha frente, fazendo um estalo intenso soar e um ardor tomar conta do local no qual entrou em contato com a sua pele. Ele cambaleou para trás com a mão pousada na zona onde o tapa fora dado, olhando-me indignado. Milésimos de segundos depois já se localizava onde nós estávamos, empurrando pelos ombros para que ele se afastasse.
- Cara, para de se comportar feito moleque! Quantos anos você tem?! – ele advertiu, sua voz sempre grave estava alterada. Eu o olhava um tanto quanto surpresa pela sua reação, não estava esperando que ele se metesse, quanto mais chamar a atenção do seu amigo.
- Eu só estava brincando com ela! – rebateu, tirando a mão do rosto e eu pude ver a marca dos meus dedos na sua bochecha. Quase sorri por aquilo. Cassie olhava a situação boquiaberta, assim como os outros. Ela veio até nós e puxou para a piscina novamente, não sem antes me lançar um olhar de reprovação.
- Alguém pode me explicar o que acabou de acontecer aqui? – dona Kyara fez-se presente, não parecendo nada feliz. Eu imediatamente congelei – , você acabou de dar um tapa em um convidado? – ela me olhou indignada.
- Não, senhora. Não foi as... – comecei, gesticulando totalmente aflita.
– Eu não quero saber como foi! Você não está aqui para destratar ninguém, coloque-se em seu lugar – a minha revolta só aumentava conforme a senhora falava. Aquilo era tão injusto.
Eu estava pronta para rebater, contudo, lembrei-me que não podia prejudicar a minha mãe e o seu emprego, muito menos podíamos ser expulsas da “nossa” moradia.
- Mãe, ela não teve culpa – interpôs – deixa isso pra lá, eu resolvo.
- Você está falando sério? Ela acabou de bater em um amigo seu! – dona Kyara advertiu, estupefata. Eu alternava o olhar entre mãe e filho, sem saber como agir.
- Eu sei, mas já falei que eu resolvo – ele se contrapôs, decidido.
- , venha comigo – a senhora ignorou o filho e ordenou, me lançando um olhar superior antes de andar em direção à sua casa. Respirei fundo antes de acompanhá-la, entretanto, fui impedida ao sentir as mãos de tocarem delicadamente o meu pulso, refreando os meus passos. Parei de andar e o encarei, encontrando a sua feição determinada e compreensiva, me passando segurança.
- Tudo bem, se eu não for com ela vai ser pior. Eu assumo o que fiz, você não precisa se envolver nisso – expliquei, tentando soar calma – seus amigos e sua namorada estão olhando, acho que você deveria voltar – o informei e ele virou-se ligeiramente, vendo que todos nos fitavam.
agora se encontrava sentado na espreguiçadeira posteriormente ocupada por e Cassie e nos assistia com o seu cenho franzido em insatisfação. Cassie, ainda que evidentemente incomodada, somente observava com os braços cruzados, sem sair do lugar. À essa altura a senhora distanciava-se cada vez mais, sequer reparando que eu não a acompanhava.
- , vai pra casa tranquila. Eu vi o que aconteceu aqui, o amigo é meu, eu assumo o compromisso de falar com ela – indicou a dona Kyara com a cabeça. Mais uma vez a sua fala soou determinada, transmitindo firmeza pelo seu olhar atencioso.
- Se eu não for a minha mãe é quem vai escutar – contestei.
- Não vai, fica calma. Pode ir.
Dei um suspiro cansado e assenti sem ter muito o que fazer e torcendo para que as consequencias disso tudo não tomassem proporções desagradáveis.
- Obrigada, você realmente não precisava fazer isso – sorri agradecida e notei que esta era a segunda vez em que eu o agradecia em menos de uma semana. apenas balançou a cabeça como se não houvesse feito nada demais.

Direcionei-me à minha casa extremamente desanimada e frustrada, amaldiçoando por ter acabado com o meu bom humor, além de ter criado todo esse drama desnecessário quando tudo o que ele deveria fazer era fingir que eu não existo, tal como já havia feito tantas outras vezes. Joguei a minha bolsa em um canto da sala e pulei no sofá, fechando os olhos e sentindo o meu corpo relaxar, apesar da minha cabeça me torturar com uma dor desagradável. De repente me recordei do dia em que falara comigo pela primeira vez.

FLASHBACK

Encarava esgotada a terceira página de exercícios de matemática, sentindo o meu pulso doer de tanto escrever, anotar e apagar. Estava sentada em uma pequena mesinha que eu havia colocado na varanda para que estudar nos dias quentes ficasse mais agradável. Havia passado a tarde toda estudando, o último ano do colégio estava extremamente puxado e eu fazia o máximo para conseguir absorver todas as matérias, haja vista que tudo o que eu desejava era entrar na faculdade no ano seguinte. Apoiei a cabeça em uma das minhas mãos e suspirei, observando a noite cair.
- SE ESSA PORRA DE CAIXA NÃO ESTIVER AQUI EU VOU SOCAR A SUA CARA – ouvi alguém gritando e arrumei a postura, franzindo o cenho e procurando de onde vinha aquela voz. Notei um amigo do , se eu bem lembrava – olhando por todo o lugar a procura de algo, até que ele percebeu a minha presença ali. Lançou-me um sorriso aberto e se aproximou, sentando-se ao meu lado sem pedir permissão. O encarei estranhando o seu comportamento e ele manteve o seu sorriso charmoso.
– Olá – ele falou.
- Oi... – respondi meio hesitante.
- , não é? Sou o . Acho que você já sabe disso, mas vamos começar de novo, o que acha? – disparou a falar e questionou galanteador. Eu levantei uma sobrancelha em dúvida a respeito de seu comportamento.
- Okay... – respondi e vi o seu sorriso alargar – mais – Está procurando alguma coisa?
- Não mais. Quer ajuda com isso? Via muito esse tipo de coisa no colégio – ofereceu-se e eu neguei.
- Obrigada, mas não precisa. Estão te esperando, você deveria voltar – o avisei.
- Faz de conta que eu estou procurando o que eles pediram – piscou – Vamos lá, te vejo de vez em quando e nós nunca conversamos!
Suspirei mais uma vez, derrotada, e decidi conversar com para que ele decidisse sair dali e me deixar sozinha novamente.
Mal sabia eu que ele faria isso com bastante frequência.

FIM DE FLASHBACK


Respirei fundo e fitei o teto, ainda buscando entender as últimas ações do , que em nada condiziam com as atitudes das pessoas ao seu redor cujo eu estava acostumada a lidar. O máximo que eu achei que ele faria seria ficar na dele, como sempre esteve, ainda que nenhuma provocação tenha chegado tão longe como a de minutos atrás a ponto dele necessitar intervir. Na maioria das vezes ele somente me olhava com aquela expressão fechada e ignorava a situação toda, eu não fazia questão alguma que ele falasse absolutamente nada dado que eu sabia e conseguia me virar sozinha e nunca esperei coisa alguma dele. Os meus sentimentos em relação a sempre foram confusos, eu costumava passar grande parte do meu tempo vendo-o imerso em sua vida perfeita, entretanto, comecei a admirá-lo quando percebi que ele não era vazio como eu pensava. Ele era uma pessoa muito gentil, embora quase sempre sério. Os sutis sorrisos educados que ele me lançava ao me cumprimentar faziam com que eu me sentisse uma babaca. Sempre o observava em cada uma de suas conquistas, e, durante todo esse tempo, eu torci secretamente por ele.
Eu torço.
Era difícil pra mim mesma admitir que eu sentia algo pelo filho da patroa da minha mãe, afinal, nós somos como água e óleo, totalmente diferentes em nossas vivências. Tudo piorou no momento em que ele começou a namorar. Após isso, eu simplesmente guardei tudo o que eu sentia e resolvi que a minha vida não poderia parar devido a um sentimento bobo, porém, eu sabia que racionalizar toda essa situação seria inútil, pois, no fundo, eu nunca deixei de gostar de . Não realmente. Venho sofrendo calada desde então, agindo como se nada me afetasse.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei deitada daquele modo olhando para o teto e me sentindo aflita cada vez que tentava imaginar o que estaria acontecendo na casa dos , mas o barulho da porta se abrindo chamou a minha atenção. Minha mãe fez-se presente no recinto e eu me levantei de imediato arrumando o meu corpo no sofá.
- Oi, filha – sentou-se ao meu lado, sorrindo. Eu tentei sorrir de volta, porém, deve ter saído algo mais semelhante a uma careta.
- Oi... Como foi hoje? – perguntei incerta.
- Foi tudo bem, menos cansativo do que outros dias. Todos irão sair hoje à noite, então vou poder descansar bastante – ela respondeu, reparei o ânimo presente em sua voz. Permaneci a fitando meio desconfiada, não fazendo ideia do que acontecera logo após eu ter vindo para casa e deixado falar sabe-se lá o que para a dona Kyara – , eu ouvi o e a senhora discutindo, e, no meio da conversa, surgiu o seu nome. Filha, você deu um tapa no ? No amigo do filho da patroa? – sua fala era comedida, eu suspirei e encolhi os ombros, averiguando as palavras antes de proferi-las.
- Foi uma situação muito infantil, mas ele ultrapassou os limites. Não vou deixar ninguém pisar em mim ou desrespeitar o que você faz – justifiquei.
Minha mãe sorriu ternamente e assentiu.
- Eu te entendo, mas você precisa controlar o seu temperamento, . O meu emprego não pode ficar em risco, nós não temos pra onde ir.
- Sim, estou ciente disso. Não estava planejando dar um tapa nele, foi involuntário – confessei a contragosto e voltei a relaxar o corpo no encosto do sofá.
- O te defendeu para a dona Kyara, ela estava soltando fogo pela boca – virei-me curiosa por essa constatação.
- O que ele falou?
- Não escutei muito bem, mas ele disse que a culpa não foi sua e que o foi imprudente. Achei uma atitude bem íntegra – assenti vagarosamente, passando a encarar um ponto qualquer da sala.
- Filha, tente ficar longe deles, tudo bem? – minha mãe me pediu, tocando as minhas mãos antes levantar-se.
- Eu sempre fiquei – afirmei, ignorando o sentimento de culpa que se apossou de mim, afinal, eu sabia que nem sempre obtive sucesso nessas tentativas. A assisti andar até o seu quarto e fechei os meus olhos por alguns momentos, desejando o sossego que eu tanto almejei durante o dia todo. Liguei a TV enquanto preparava algo para que minha mãe e eu comêssemos, decidindo por fazer um macarrão a bolonhesa. Olhava distraidamente um filme qualquer que passava, até que o toque estridente do meu celular soou. Corri até a bancada e peguei o aparelho, vendo o nome de mostrar-se na tela.
- Olá! – sua voz animada cantarolou do outro lado da linha fazendo-me rir.
- Uau, que ânimo é esse? – indaguei à medida que mexia o macarrão.
- Ânimo de alguém que tem uma intimação para você. Não aceito uma resposta negativa, – expirei já esperando alguma proposta mirabolante da minha amiga.
- Aceito qualquer coisa desde que isso não envolva ter que sair de casa – avisei, ouvindo um resmungo seu.
- Amorzinho, eu já disse que você não tem escolha. Chega desse marasmo aos finais de semana! O Paolo Herzog organizou uma festa maravilhosa no triplex dele, você vai comigo nem que eu precise te arrastar – ela soou firme e eu bufei, vendo a minha noite de descanso indo por água abaixo.
- , eu não tenho estruturas para sediar esse evento – ela riu – o que significa que eu não tenho roupa apropriada. E eu nem conheço esse cara, só você.
- Você é a minha companhia, boba. Relaxa, ele não vai se importar. E sobre a roupa... Não seja por isso! Passo aí em vinte minutos e você se arruma aqui em casa.
- Você não vai desistir, não é?
- Nunca.
- Okay – dei-me por vencida e precisei tirar o celular do ouvido devido a sua comemoração fervorosa.
- Tchauzinho, daqui a pouco eu estou aí na frente do condomínio.
- Tudo bem, coisinha irritante – minha amiga persistente soltou um xingamento e desligou.
Apressei-me em finalizar o preparo do macarrão e bati na porta do quarto da minha mãe, ouvindo um “entra” em resposta.
- Mãe, daqui a pouco o macarrão vai estar pronto – coloquei a cabeça pra dentro do quarto, vendo-a ler algum livro do qual eu não consegui identificar.
- Hmm você fez a sua especialidade na cozinha? O macarrão a bolonhesa? – questionou risonha e eu rolei os olhos, rindo também.
- Especialidade porque é a única coisa que eu sei fazer direito?
- É você quem está falando – a fitei em falso espanto.
- A vem me buscar daqui a pouco, ela quer que eu a acompanhe em uma festa – torci o nariz – Tudo bem se eu for?
- Mas é claro, filha! Vai se divertir – sorriu docemente e eu fiz o mesmo, saindo do quarto em seguida. Desliguei o fogo do macarrão e corri para o meu quarto, escolhendo uma roupa qualquer para ir à casa de , colocando a minha nécessaire e mais algumas coisas das quais eu precisaria dentro da bolsa e fui em direção ao quarto da minha mãe para me despedir.
- Já estou indo, daqui a pouco a chega – adentrei o local e depositei um beijo no seu rosto – o macarrão já está pronto, aliás.
- Obrigada, filha. Toma cuidado.
- Pode deixar, dona – acenei com as mãos e sai, pegando a minha bolsa e andando apressadamente porta afora.
Após minutos de caminhada pude enxergar o carro da garota que acenava freneticamente na minha direção. Fui ao seu encontro e entrei no veículo, automaticamente me sentindo alegre pela sua animação ao dar partida.
- Isso tudo é saudade de mim? – indaguei, recebendo uma careta em resposta. Tão madura.
- Não abuse do meu bom humor. Grata – ri, balançando a cabeça em concordância.
- Por falar em bom humor, você não tem noção do que aconteceu hoje – fez um sinal para que eu prosseguisse – Bom... Eu dei um tapa no , o o repreendeu, a dona Kyara chamou a minha atenção e só não fez mais porque o não deixou. Basicamente é isso – falei de uma vez e agradeci aos meus anjos da guarda por estarmos paradas no farol, pois a reação daquela que eu chamava de melhor amiga fora assustadoramente engraçada.
- O QUÊ? VOCÊ O QUÊ? – gargalhei da cara que ela agora me olhava. Os olhos arregalados e a boca em um perfeito ‘o’.
- Eu dei um tapa no – ri, me recordando da cena – Ele me provocou na frente do , da Cassie e dos outros amiguinhos idiotas. Eu não me controlei e quando dei por mim a minha mão já havia ido de encontro ao seu rosto.
- Eu.te.amo – falou pausadamente – Sério. Conta isso direito!
Concordei e comecei a contar detalhe por detalhe de toda a confusão que ocorrera algumas horas mais cedo. A cada palavra que eu proferia soltava um palavrão e eu tinha que mandá-la calar a boca de minuto em minuto para que eu fosse capaz de falar. A verdade é que eu sentia que, de alguma forma, estava em débito com o .

(...)


- Então foi isso. Eu não sei o que ele disse, mas, por enquanto, ficou por isso mesmo. Óbvio que mais cedo ou mais tarde isso virá à tona, porém, ele adiou, sabe-se lá como – finalizei, saindo do carro ao notar que havíamos chegado.
- Então quer dizer que não é tão frígido assim? Ou esnobe? Não sei se fico mais feliz ou chocada – minha amiga concluiu, caminhando até o elevador de seu prédio comigo ao seu encalço.
- Às vezes ele aparenta ser meio insuportável, mas é um cara legal. O foi justo hoje, mas ele me defendendo ou não, eu continuaria certa. Talvez não em ter batido no , mas sim, em me defender – me joguei na cama macia de assim que entramos no seu quarto maravilhoso. Eu sempre disse a ela que daria para fazer uma festa só naquele cômodo.
- Você acha que ele e a Cassie discutiram depois dele ter tomado a frente da situação? – perguntou, se jogando ao meu lado na cama.
- Não sei. Não consegui distinguir se a sua expressão de descontentamento era com o ou pelo contexto.
- O é um otário. É um homem que se comporta feito adolescente.
- Concordo. Não consigo entender essa necessidade de me infernizar sempre que pode – disse, realmente tentando entender o que ele pretendia com aquele tipo de atitude ridícula.
- Ele começou com isso depois que vocês pararam de se ver, não é? – ela comentou e eu assenti – Definitivamente não dá pra entender. Talvez ele ache que é engraçado quando age assim – indicou uma possibilidade e eu contorci o meu rosto em descontentamento.
- Ele tem tantos amigos e nenhum deles serve para avisar que a sua forma de se comportar é deplorável.
- Só o – ela completou e eu apenas permaneci encarando o teto.
- Eu vou tomar banho, sinta-se à vontade para usar qualquer banheiro pra tomar o seu e pegar o que você quiser do meu armário – minha amiga levantou-se e se dirigiu ao banheiro.
Eu apenas assenti e me sentei na cama, torcendo para que o desânimo que eu sentia desaparecesse a fim de que eu aproveitasse a noite da melhor forma possível.





Capítulo 4


’s POV

Eu me sentia extremamente sem paciência.
O que era para ser um dia agradável na companhia dos meus amigos acabou se transformando em um stress que poderia – e deveria – ser evitado, se não fosse e a sua infantilidade. Falar daquela forma com a foi desprezível, ela havia ficado desestruturada e eu me incomodei com o pesar em suas feições enquanto ouvira as provocações do meu amigo, por isso, decidi intervir, embora tenha sido tarde demais levando em conta o tapa que a garota deu nele. Para ser sincero, fiquei admirado com a sua coragem em falar daquela forma tão confiante.
Geralmente eu presenciava as provocações de direcionadas a ela, que sempre rebatia dignamente, e tudo o que eu fazia era observar o seu posicionamento diante do comportamento imaturo do meu amigo – comportamento este que eu reprovava plenamente – Eu já pensei em repreendê-lo diversas vezes, entretanto, habitualmente tomava as rédeas da situação e se defendia muito bem, era interessante saber que aquela garota que aparentava ser tão serena possuía a língua tão afiada.
Hoje, porém, a situação saiu do controle, dando para notar que definitivamente havia passado de todos os limites. Queria entender o que o levava a implicar tanto assim com ela, afinal, isso acontecia há um bom tempo. Com toda aquela briga, acabei discutindo com a minha mãe. Fiquei aproximadamente duas horas tentando convencê-la de que o provocara todo aquele alvoroço e que depois eu conversaria com para chamar-lhe a atenção.
Claro que eu não o faria.
Como se não bastasse isso, Cassie e eu discutimos exatamente pelo mesmo motivo. Ela não gostou da minha intromissão na discussão e esgotou o pouco de bom humor que me restava, me ignorando pelo resto do dia e atendendo as minhas ligações no começo da noite somente porque tínhamos uma festa para ir. Eu dirigia a caminho do local com a minha namorada emburrada ao meu lado mesmo após inúmeras tentativas vindas da minha parte para que nós ficássemos bem novamente. A olhei de soslaio e suspirei, irritado ao ver sua expressão fechada.
- Cassie, nós já conversamos. Você vai continuar assim até quando? – questionei, tentando, pela milésima vez, fazê-la parar com aquilo.
- Até quando eu quiser ficar. Ainda não consegui entender o motivo de você ter se intrometido naquele showzinho – seu tom de voz era rude e eu já estava cansado de repetir mil vezes a mesma coisa.
- Porra, eu vou ter que te falar de novo? – perdi a paciência novamente, vendo-a me olhar boquiaberta – Eu não podia deixar a briga acontecer na minha casa. E muito menos podia permitir que alguém fosse destratado daquela forma.
- A questão não é essa, mas o que foi aquela conversinha que vocês tiveram? Parecia até que eram amigos – soltei um longo suspiro, procurando manter a calma.
- Nós não somos, mas eu não vejo nada demais em manter uma boa relação com ela, afinal, a mãe dela trabalha na minha casa há anos e, você querendo ou não, ela mora lá. Não era ela quem deveria ouvir, Cassie. Não é porque a minha mãe paga o salário da mãe dela e ofereceu casa pras duas, que ela tem que ser tratada mal – se eu queria melhorar a situação, falhei com louvor. Minha namorada agora me fitava descrente no que eu havia dito e, conhecendo aquela expressão, ela se encontrava furiosa.
- Oi? – seu tom de voz subiu – Desculpa, eu acho que não entendi direito. Você acabou de falar que quer ser amiguinho da empregadinha? – senti o seu olhar queimar sobre mim. Apertei as mãos no volante, perdendo as contas de quantas vezes respirei fundo e a encarei, sério.
- Cassie, cansei. Não vou mais falar sobre isso e nem me desgastar – finalizei, saindo do carro em seguida. Cassie fez o mesmo, porém, batendo a porta. Entramos no elevador semelhante a dois desconhecidos, eu ficava cada vez mais impaciente com o clima entre nós dois.
Chegamos no andar do incrível apartamento do meu amigo e eu toquei a campainha, revelando, alguns segundos depois, um Paolo já meio alegre e com um sorriso enorme no rosto. Ele levantou os braços quase fazendo a sua bebida derramar do copo, vindo em minha direção e me dando um abraço meio torto dando tapinhas em minhas costas. - Olha se não é o admirável e a linda Cassie Privost! O casal mais ilustre dos casais! – ele saudou com a voz arrastada e eu gargalhei. Cassie deu um sorriso amarelo.
- E ai, Herzog? Tanto tempo sem me ver e me recebe bêbado? Você é um merda, hein? – Paolo sorriu embriagado e mostrou o dedo do meio, nos dando passagem para entrar.
A festa tinha como intuito comemorar a sua mudança para o triplex que ele havia comprado recentemente. O lugar já se encontrava tomado por diversas pessoas, muitas delas também conhecidas minhas. Andamos até a cobertura, tão cheia como o lado de dentro do apartamento, tendo ampla visão de boa parte da cidade. Uma música alta e animada tomava conta do ambiente, algumas pessoas aproveitavam a piscina aquecida e, no bar, alguns barman’s faziam acrobacias com drinks.
- Vou pegar algo para beber – Cassie avisou e saiu sem ao menos esperar a minha resposta. Passei as mãos no cabelo impacientemente.
- Você viu? A trouxe aquela amiga dela. A que mora de favor na casa dos – ouvi alguém falar o meu sobrenome e virei-me, percebendo que a conversa vinha de um grupo de garotas atrás de mim.
- ! Oi! – uma delas me cumprimentou. Eu dei um aceno de cabeça e Cassie surgiu ao meu lado parecendo empolgada com a presença delas. Elas imediatamente emendaram uma conversa animada indo para outro lugar e eu percebi que seria ignorado a porra da noite toda. Peguei algo no bar e encostei-me ali mesmo, conversando com uma pessoa ou outra e observando a minha namorada fingir que eu não existia. Passei os olhos pelo lugar tomando o meu drink despreocupadamente, até que parei em alguém familiar. Estreitei o olhar e reconheci junto com uma garota que eu via ocasionalmente com ela, uma amiga da faculdade, se eu bem me lembrava. Paolo conversava entusiasmado com a sua amiga e ela apenas observava, claramente tentando acompanhar o ritmo dos dois. Franzi o cenho nitidamente confuso. De onde eles se conheciam?
Os meus olhos involuntariamente pairaram na figura da e dei uma leve levantada de sobrancelha ao analisá-la.
Ela usava uma saia longa que ia até a altura do seu estomago e era aberta em um lado de sua perna, deixando-a a mostra. A barra da blusa de alcinha chegava próxima ao começo da saia e permitia que o seu colo também ficasse à mostra. Assim como suas roupas, o salto também era preto. A maquiagem era mais forte do que ela costuma usar e o batom era de um vermelho quase vinho. Como se notasse que alguém a observava, subitamente olhou para o lado e o seu olhar chocou-se com o meu, me deixando em uma situação embaraçosa. Não tendo muita opção, acenei com a cabeça em uma espécie de cumprimento. Ela retribuiu com um breve sorriso e sumiu do meu campo de visão assim que a sua amiga a puxou para dentro. Tomei mais um gole do meu drink e passei a minha mão livre pela nuca, pego de surpresa por encarar durante alguns segundos a garota que antes se encontrava à minha frente.

A festa ficava cada vez mais animada, a piscina estava mais cheia, a música permanecia alta e eu provavelmente havia conversado com metade das pessoas que ali se encontravam.
Porém, eu estava fodido da vida.
Muito fodido.
Cassie praticamente fingia que não me conhecia e me ignorava todas as vezes em que eu tentava falar com ela. Era surreal. Ela tinha o direito de ficar brava, eu não podia mudar isso, entretanto, aquela atitude birrenta excedia todos os limites. Estava encostado na sacada de vidro e imaginei que a minha expressão não era das melhores, pois o Paolo vinha me perguntar se estava tudo bem de cinco em cinco minutos, mesmo eu afirmando em todas elas. Avistei Cassie chegando perto de mim e a acompanhei com o olhar conforme ela se aproximava.
- Vou embora com a Suzi e dormirei na casa dela – avisou como se não fosse nada demais me lançando um sorriso petulante.
Dei uma risada de escárnio e a olhei incrédulo.
- Você não está falando sério.
- Pode apostar que eu estou – retrucou com o sorriso perdurando em seu rosto.
- Mas que caralho, Cassie! Para com essa merda, já deu. Olha só o que você está fazendo – disse, tentando controlar o tom de voz, embora soubesse que a minha expressão esbanjava irritação. Minha namorada me olhava com os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada, parecendo irredutível.
- Já decidi, . Só vim te avisar. Não vou pra sua casa – respirei fundo e esfreguei as mãos no rosto em um nítido sinal de cansaço. A encarei e assenti vagarosamente, olhando para o lado com um sorriso cético e tornando a encará-la.
- Faz o que você quiser, cansei, de verdade. Estou admirado com esse seu comportamento infantil – terminei de falar e nem esperei sua resposta. Dei-lhe as costas e segui em direção ao bar, pedindo um Negroni* ao barman. Olhei para trás e Cassie já não estava mais lá.

’s POV

Passava das três horas da manhã, eu sentia os meus pés doendo devido ao salto alto e aquele ambiente me deixava desconfortável por conta de alguns olhares tortos dos quais eu recebia. A festa estava muito boa, eu não podia negar, entretanto, aquele não era o meu mundo. Aquele luxo todo chegava a ser surreal! Sério, quem compra um triplex para morar sozinho? Nunca iria entender, mas quem sou eu para contestar, não é mesmo? tagarelava com um cara e era notável que eles flertavam um com o outro, então, fiz um sinal para ela indicando que iria dar uma volta com a evidente intenção de deixar os dois sozinhos. Andei pelo deslumbrante apartamento contemplando todo o requinte do local, dos móveis que certamente valiam milhões, até uma extensa parede de vidro. Parei ali admirando a paisagem encantadora da cidade naquela madrugada, maravilhava com as luzes formando pequenos pontos brilhantes vistos daqui de cima.
- Você viu? Acho que o e a Cassie brigaram – ouvi no instante em que duas garotas aproximaram-se de mim.
- Eles estavam discutindo, ela passou a festa toda longe dele.
- Ela foi embora com a Suzi e o deixou aqui. Deve ter sido sério – as duas saíram e eu me perguntei o motivo de todos cuidarem tanto do relacionamento alheio.
Prossegui a minha caminhada, descendo para o segundo andar e imediatamente me senti melhor ao ver que não havia praticamente ninguém naquela parte. Andei até a área recebendo uma lufada de ar fresco e sorri com o ato. Eu tinha a intenção de ir até a sacada, porém, parei ao ver algo estranho. Cerrei os olhos, podendo enxergar que também estava ali.
Porém, não aparentava estar nada bem.
Ele encontrava-se sentado – largado, melhor dizendo – encostado na parede, os braços apoiados em seus joelhos e a cabeça baixa entre as suas pernas. Uma garrafa de alguma bebida localizava-se ao seu lado completamente vazia. Então o que eu ouvira minutos atrás era verdade... Cassie já não estava mais na festa. não percebeu a minha presença e eu permaneci onde estava, incerta sobre o que fazer. Levantou a cabeça e passou as mãos em seu rosto, parecendo atônito, e a abaixou novamente em seguida. Mordi o lábio, ainda em dúvida, mas resolvi ir até ele apenas para saber se ele precisava de ajuda. A meu ver, sim, ele precisava. Aproximei-me dele e me agachei ao seu lado, tocando-lhe de leve no antebraço.
- ? – ele levantou a cabeça e me olhou desorientado. Sua expressão carregava mau humor e eu quase me arrependi por ter me aproximado – Ahn... você... – perdi totalmente o rumo da minha fala devido a sua feição severa, me amaldiçoando por ter sequer me preocupado. Um sorriso arrogante brotou de seus lábios.
- Nós não estamos em casa, você não precisa ser prestativa aqui – falou com a voz meio arrastada e um tanto insolente. Notei que também ela parecia mais rouca. Eu rapidamente tirei a minha mão de seu antebraço. Ele acompanhou o movimento com o olhar tornando a me fitar seriamente. Ergui-me novamente completamente surpresa e até chateada pela sua atitude ignorante.
É o que você ganha tentando ser legal.
- Desculpe, não quis incomodar – disse apressada, me virando e andando a passos rápidos para sair de lá.
- EI! – sua voz arrastada fez-se audível – Espera! – pediu. Eu parei e me virei ligeiramente para olhá-lo – Desculpa – ele me encarava com os olhos levemente semicerrados na tentativa de me enxergar melhor e a sua expressão transmitia culpa.
Eu apenas assenti e fiz menção de voltar a andar, quando fui impedida mais uma vez no momento em que ele esforçou-se para levantar, apoiando a mão na parede. cambaleou, quase indo de encontro ao chão. Corri em sua direção e o ajudei a se equilibrar, por pouco não caindo também haja vista que ele era maior do que eu.
Peguei um de seus braços, passando-os pelos meus ombros e envolvi um dos meus em volta da sua cintura, o guiando – com muita dificuldade, devo acrescentar – em passos trôpegos até um dos bancos espalhados pelo lugar. Ele se sentou e apoiou-se no encosto do banco, jogando a cabeça para trás enquanto passava uma mão nos cabelos, bagunçando-os. Pisquei algumas vezes a fim de parar de admirá-lo e achei melhor deixá-lo sozinho.
- Eu não quis ser grosso – falou repentinamente. Eu voltei a minha atenção a ele, que permanecia de olhos fechados e com a cabeça para trás – Não quero mais uma pessoa brava comigo – finalizou com a mesma voz arrastada. Encarava-o sem expressão, não sabendo ao certo como lidar com um meio bêbado e que provavelmente havia brigado com a namorada.
De repente eu me senti culpada, pressupondo que eles discutiram ainda pelo episódio envolvendo e a mim.
- Ah... Não tem problema – continuei ali parada igual a uma planta em um dilema interno entre sair ou ficar onde eu me encontrava – Quer que eu chame o seu amigo? – indaguei, achando que o amigo dele seria o indicado a estar com ele ali, já que a namorada havia ido embora.
- Se ele não estiver pior do que eu... Pode chamar – deu um sorriso bêbado e eu passei as mãos no meu cabelo pensando no que fazer.
Murmurei um “ok” e saí à procura do tal Paolo, já cansada em ter que andar por aquele apartamento gigantesco. Olhava ao meu redor buscando-o em todos os lugares, me perguntando também onde estaria. Cerca de meia hora depois, o encontrei, contudo, ele estava com uma garota ao seu encalço e eles iam para um corredor, provavelmente em direção a algum quarto.
Bufei, vendo que teria que ficar sozinha, pois nem minha amiga eu encontrava. Bom, eu estava devendo uma para o , de qualquer forma. Peguei uma água gelada no bar e voltei, me deparando com ele da mesma forma em que eu havia o deixado. Sentei-me ao seu lado e lhe ofereci a água, que agradeceu e aceitou. Apoiei meu cotovelo na minha perna e coloquei a cabeça sob a minha mão, encarando a paisagem proporcionada pela cobertura do segundo andar.
O silêncio se instalou no ambiente e eu o olhei de soslaio, vendo que ele, assim como eu, contemplava a visão perdido em pensamentos. Não sei por quanto tempo permanecemos assim, entretanto, a quietude foi quebrada pelo som do toque de seu celular. Ainda com um pouco de dificuldade, ele pegou o aparelho do bolso de sua calça e atendeu sem ao menos ver quem era.
- Alô?... Alô? – repetiu. Vendo que não era respondido, ele encarou a tela do celular e franziu o cenho, guardando-o logo depois.
O silêncio novamente fez-se presente e, embora não fosse de todo incômodo, ainda me deixava inquieta.
- Eu sei que não é da minha conta, mas não acho uma boa ideia você voltar para casa dirigindo – ele desviou a atenção da vista à frente e me fitou, fazendo com que o seu olhar encontrasse com o meu, que o encarava. A meia luz iluminava o seu rosto, os seus olhos opacos pareciam querer desvendar os meus através da ausência de som. Por alguns instantes eu me senti desconcertada, a sua análise curiosa e silenciosa fez algo se desorganizar dentro de mim e eu queria muito que, seja lá o que fosse, parasse imediatamente. Como em um lampejo voltou a se concentrar no horizonte de prédio e luzes, quebrando aquele estranho contato visual. Eu pisquei algumas vezes também voltando à realidade e sentindo o meu rosto esquentar.
- Vou pedir um táxi e amanhã venho buscar o carro – respondeu a minha pergunta anterior, tomando o último gole da água que eu havia lhe trazido.
Eu assenti silenciosamente e resolvi que era hora de sair dali e procurar pela , apesar de ter uma noção sobre onde – e com quem – ela estava.
Droga, não queria ser empata foda.
Meu celular apitou e eu o tirei da pequena bolsa de mão da qual eu carregava, vendo uma nova mensagem da minha amiga, que parecia ter lido a minha mente.

“Amiga, desculpa ter sumido, mas eu preciso falar com você... To com o Adrian e quero demais ir pra casa dele, mas só vou se você não se importar.”

Li sua mensagem e dei uma risadinha, logo digitando a resposta.

“Tudo bem, pode ir. Eu pego um taxi ou espero o metrô abrir. Juízo, sua safada.”

“Nada disso. Vamos no carro dele, então pega o meu e vai para minha casa ou para a sua, você quem sabe. As minhas chaves estão com você, mesmo. Só me avisa e, caso decida ir para a sua casa, amanhã eu passo lá. Beijinhos e juízo eu sempre tive.”

Balancei a cabeça negativamente, ainda rindo e guardei o aparelho, decidindo ir para a minha casa. Olhei para , que digitava algo em seu celular, e mordi o lábio. Se eu iria para o mesmo lugar que ele, não custava oferecer carona, não é mesmo? Questão de educação e tudo mais. Levantei-me, atraindo sua atenção.
- Eu já estou indo... – falei e ele assentiu – Ah... Eu vou pra casa com o carro da minha amiga, se você quiser, pode ir comigo. Se nós vamos para o mesmo lugar, não vejo necessidade de você pegar um taxi – concluí um pouco rápido demais e riu, também se levantando.
- Tudo bem, eu vou aceitar – disse, colocando as mãos no bolso como de costume. Sorri e saímos de lá.
Fiquei aliviada por não ter ninguém espalhado pelos cômodos conforme nós passávamos em direção a saída, não seria nada legal pensarem besteira por verem a mim e saindo da festa juntos. E seria menos legal ainda se Cassie soubesse por meio de alguém maldoso, pois tudo o que eu não queria era causar mais problemas a ele e até mesmo à ela.
Chegamos à garagem e entramos no carro, em nenhum momento quebrando o silêncio que rotineiramente nos envolvia.
Eu dirigia focada na rua temendo que algo acontecesse com o carro de , mesmo que não houvesse quase nenhum carro ou pessoa em lugar algum, prevenir é sempre bom. Pela minha visão periférica vi que olhava despreocupadamente para frente, batucando levemente em sua perna a melodia de uma música qualquer que soava pelo rádio.
- Cadê a sua amiga? – perguntou repentinamente, quase me assustando.
- Digamos que está ocupada e eu fiquei responsável pelo carro dela – deixei o “ocupada” subentendido e ri, ouvindo-o me acompanhar no riso.
- Entendi.
O silêncio novamente se instalou e, ao pararmos no farol vermelho, fez uma cara estranha demonstrando desconfiança e franziu o cenho, olhando pelo retrovisor. O encarei e olhei para trás, não vendo ninguém perto de nós.
- O que foi? – questionei, tornando a olhá-lo. Ele balançou a cabeça e tirou os olhos do retrovisor.
- Nada. Faróis são perigosos essa hora, é sempre bom ficar alerta – ele respondeu, dando uma última encarada no retrovisor. Dei de ombros, voltando a dirigir no momento em que o farol abriu. Minutos depois, chegamos em casa. Como era um condomínio fechado, não via problema em estacionar na rua. Feito isso, descemos e seguimos para casa. Fomos recebidos por um Bento contente, que correu em nossa direção fazendo festa com a nossa presença. Ri e rapidamente passei a mão em sua cabeça, andando para a parte de trás da residência.
- Obrigado – ouvi falar e me virei. Ele estava parado com a porta entreaberta e me encarava com aquela expressão séria.
- Por nada – sorri e voltei seguir meu caminho, louca para tirar os saltos que machucavam os meus pés.

(...)

- , eu não aguento mais! – exclamou, apoiando a cabeça por cima das inúmeras folhas espalhadas pela mesa. Eram cerca de cinco horas da tarde e nós estávamos trabalhando no projeto do nosso TCC.
Eu havia dormido o suficiente, diferente da garota a minha frente, que estava a personificação do desastre. Após a noite agitada com o tal do Adrian, ele a levou para casa e, de acordo com ela, havia dormido por apenas três horas, logo vindo buscar o seu carro e trazer as minhas coisas que estavam em sua casa. Aproveitando isso, resolvemos adiantar alguns tópicos do nosso projeto. Certo que nós perdemos boas horas antes de realmente começá-lo, já que eu a fiz contar – quase – tudo da noite anterior.
E ela também.
E quando eu digo também, é porque ela me fez falar da minha companhia de fim de festa: .
- Passar a noite acordada se divertindo com o gato da festa você aguenta, né? – lancei-lhe um olhar malicioso e ela devolveu com o seu dedo do meio.
- Não vamos misturar diversão com trabalho, don’t kill my vibe – pegou um dos bolinhos que a minha mãe fizera e o abocanhou de uma vez só, me arrancando uma risada.
- E ainda é sem educação.
- A sua mãe é uma linda e esses bolinhos estão di-vi-nos. Você é ruim e está querendo que os meus neurônios explodam – fez drama e eu taquei uma bolinha de papel nela – Ai, meu Deus – ela exclamou, olhando boquiaberta através da janela que dava visão para o descampado perto da piscina.
- O que foi? – segui o seu olhar e encontrei o que tanto a deixou daquela forma.
brincava com o Bento.
Sem camisa.
Apenas com shorts de corrida.
Como a gente se concentra assim, céus?
E por que tudo o que ele faz se assemelha a um comercial MUITO bem feito de alguma coisa MUITO boa?
Senti o olhar de sobre mim e me recompus, encontrando-a me encarando com uma sobrancelha arqueada e um sorriso malicioso igual ao que eu lhe dera minutos atrás.
- Tem baba escorrendo, – brincou e eu voltei a olhar para a tela do notebook, ignorando-a.
- Se concentre nos livros, por favor.
- Estou concentrada – se defendeu – Mas ele deve ter ficado bem chateado com a Cassie, né? Eu vi que ela o ignorou a noite toda e foi embora com as amigas.
- Sim, eu ouvi umas garotas falando antes de encontrá-lo.
- Você não sente nada pelo ? – indagou e eu a olhei sem entender – Sabe... Você costumava gostar dele...
- , aquilo já passou – menti.
- Tudo bem, mas eu estou falando de agora. Você não sente nada? Nem atração? – insistiu e eu bufei.
- Mesmo que eu sinta algo, isso não muda o fato de que nós não temos nada a ver. E ele tem uma namorada. Eu nunca – dei ênfase – me intrometeria no relacionamento de alguém, nunca me envolveria com alguém comprometido, quero distância de gente assim. O que eu não quero pra mim, também não quero para outra garota. A Cassie faz bem para o . E mesmo que ele não tivesse namorada, ele nunca me veria de outra forma. Não tem motivo algum para considerar essas possibilidades, a realidade é outra, entende? – assentiu ao passo que me analisava.
Odiava o quão bem ela me conhecia.
- Você não precisa ser indiferente sobre isso comigo, você sabe. E você também sabe que por mais que tente agir como se não ligasse, a mim você não engana. , você não manda nos seus sentimentos. Não é porque você gosta do , que vai atrapalhar o namoro dos dois. Na verdade, eu sinto muito por te ver assim, nunca conseguindo realmente seguir em frente.
- Eu sei – suspirei rabiscando qualquer coisa em uma folha aleatória – Já chega, okay?
- Certo, não está mais aqui quem falou – ela levantou as mãos em sinal de rendição – já acabamos por aqui? – me olhou de forma pidona e eu ri rolando os olhos.
- Acabamos, sua morta. Já adiantamos muita coisa.
- Ótimo. Eu vou para a minha casa porque não existe nada que eu deseje mais nesse momento do que dormir – ela se levantou e eu a acompanhei. Passamos no quarto da minha mãe para que se despedisse e fomos em direção a saída, vendo que estava, agora, acompanhado de Cassie, que parecia ter acabado de chegar. Eles estavam abraçados e a forma afetuosa como ele acariciava os cabelos dela fez o meu estômago afundar.
- Parece que eles se acertaram – comentou e eu apenas assenti – Tchau, amorzinho. Até amanhã.
- Tchau, gata. Até! Vê se recupera as energias – demos um abraço rápido e ouvi a minha amiga rindo.
- Difícil, sabe? Haja descanso – gargalhei ao passo que a via entrar no carro lançando-me uma piscadela e dando partida.
No meio do percurso até a minha casa olhei para o lado casualmente ao escutar o latido do Bento, vendo procurar com os olhos a causa de seu latido. Seus olhos encontraram-se com os meus e ele lançou-me um sorriso fraco, quase imperceptível. Fiz o mesmo e ele entrou em casa logo após Cassie, sumindo do meu campo de visão.

Negroni: Bebida clássica onde mistura-se gim e vermut.



Capítulo 5


"E quando você se perde, tens duas opções: Achar a pessoa que você é, dentro de você, ou perdê-la completamente." - One Tree Hill


’s POV

Durante a minha infância, eu achava o máximo assistir filmes de ação e ver os personagens correndo, lutando e realizando as mais inacreditáveis fugas. Adorava a forma como as reviravoltas ocorriam, via as tramóias dos vilões e a vitória dos mocinhos, e, apesar de não entender muita coisa, achava tudo muito interessante. Agora, já adulto, percebo que nada é tão maravilhoso quanto parece. Desde o momento em que eu peguei o caso Zummarck, venho recebido estranhas ligações de um número privado, e elas acontecem em diversas horas do dia. A última ocorreu em uma madrugada. Eu não sabia ao certo se estava apenas paranóico, contudo, ao estar no carro acompanhado da , tive a impressão de ver uma moto um pouco atrás de nós. Eu olhava intrigado para a tela do meu celular, refletindo sobre os motivos que levariam alguém a me espionar, já tendo uma ideia.
Esperaria pelo próximo passo de seja lá quem for e tomaria as medidas cabíveis para este tipo de situação. Ninguém conseguiria me amedrontar. Encostei-me na cadeira e olhei para o teto, me sentindo um tanto quanto ridículo ao lembrar-me de ter exagerado na bebida na festa do Paolo, tendo que ser ajudado pela , que me encontrou naquele estado. Eu não estava muito mal, mas também não estava cem por cento bem.
Ela havia me ajudado muito e eu fui momentaneamente ignorante, eu tinha a péssima mania de descontar a raiva no primeiro que aparecesse, e, naquele instante, a garota a minha frente fora essa pessoa. Mesmo depois disso impediu que eu desse com a cara no chão, e isso foi muito legal da parte dela, confesso. Tenho percebido que ela é definitivamente uma boa garota e a sua companhia é prazerosa.
- . – despertei dos meus pensamentos ao ver meu pai parado a minha frente, com o semblante sério.
- Sim? – perguntei ainda meio perdido.
- Quero que você chame os pais da Cassie para jantar em nossa casa amanhã. – ele ordenou e eu franzi o cenho.
- Pra quê?
- É necessário um motivo para que os pais da sua namorada jantem conosco? – ele indagou aparentemente impaciente. Suspirei e neguei com a cabeça. Arrumei a minha postura na cadeira e juntei as mãos em cima da mesa, adotando uma posição mais firme. Era claro que havia um motivo por trás disso tudo, e esse motivo era o interesse na tão sonhada sociedade entre eles.
- Eu vou fingir que vocês não estão usando o meu relacionamento para fins lucrativos. – disse e vi a sua feição se tornar mais séria. Não me abalei.
- Não te criei para que você seja um cabeça-dura, . Saiba pensar como um homem de negócios e junte o útil ao agradável, não me faça perder a paciência.
- Esse jantar será única e exclusivamente para que ambos puxem o saco um do outro e enfiem um noivado goela abaixo em nós dois. Nossa família não precisa disso e eu não tenho pretensão de me casar agora. – finalizei com firmeza na voz sem alterar a minha posição decidida. Meu pai estreitou os olhos, claramente irritado.
- Não seja um moleque teimoso. Eu espero que isso não tenha nada a ver com a filha da cozinheira. – nesse momento eu o olhei em dúvida. O que a tinha a ver com isso? – você não percebe, mas eu te observo. Vi vocês dois chegando juntos de sei lá onde. Te vi olhando para ela. Eu percebo as coisas antes delas acontecerem, não se atreva a ter nenhuma atitude imbecil e faça o que eu estou mandando. – eu o encarava totalmente estupefato. Eram diversas informações a serem digeridas e eu só conseguia sentir a minha cabeça explodir.
- Isso não pode ser sério, pai. – levantei-me da cadeira passando as mãos nos cabelos, visivelmente nervoso. – tira essa ideia absurda da cabeça! Eu estou com a Cassie e gosto dela, a só me deu uma carona.
- Não subestime a minha inteligência!
- Pense o que quiser, isso foi a coisa mais sem sentido que você já disse. Eu vou marcar a porra do jantar! – exasperei, cansado. Meu pai me encarou sem expressão e a sua atitude superior fez-se presente. Ele me lançou um último olhar imponente e seguiu para fora da minha sala.
- Obrigado, filho. Sabia que podia contar com você. – concluiu, fechando a porta atrás de si.
Eu me joguei na cadeira e esfreguei as mãos no rosto, me sentindo irritado e com a cabeça a ponto de explodir. Que merda de argumento foi aquele? Ainda não havia entendido a razão de ter mencionado a nisso tudo. Eu somente não desejava me casar tão cedo, existiam outras coisas mais importantes no momento, isso não tinha nada a ver com ninguém. Não gosto que tomem decisões por mim, eu não sou mais um moleque e, não só posso, como vou tomar as minhas próprias atitudes no que diz respeito a minha vida. Eu havia acabado de fazer as pazes com a Cassie após todo aquele drama, e, apesar de aparentemente estar tudo bem, ela ainda parecia incomodada. Pedi para que a secretária trouxesse um remédio a fim de amenizar a dor excruciante na minha cabeça e digitei uma mensagem para a minha namorada, realizando o convite para o jantar de amanhã.

**

A noite do jantar havia chegado e o meu humor estava péssimo. Meus pais, os pais de Cassie e nós dois, estávamos sentados à farta mesa, o ambiente regado ao mais explícito puxa-saquismo. Esse tipo de situação era recorrente, porém, naquela noite, tudo passava dos limites. O assunto “noivado” fora abordado incontáveis vezes, e, agora, minha mãe e a mãe da minha namorada mostravam animadas uma revista de vestidos de noiva para Cassie, que parecia tão desconfortável quanto eu.
- Certo, já chega. Assim vocês vão assustá-la. – forcei um sorriso e puxei-a para perto de mim, que quase comemorou de alívio.
- Imagina, filho. Estávamos apenas olhando. Tenho que dizer, Cassie, você ficaria magnífica em um Mauro Adami*, querida. – minha mãe disse, sorrindo vaidosamente.
- Seria de ótimo gosto, certamente deveríamos providenciar isso quando chegar a hora. – o pai da minha namorada complementou. Eu tomei o meu champagne em um só gole, recebendo um olhar repreensivo do meu pai e até mesmo de Cassie.
- Vamos com calma, nós ainda nem noivamos. – tentei argumentar de maneira despretensiosa.
- Não demorará a acontecer, espero. – meu pai sorriu, porém, eu podia ver uma sutil ameaça em seu sorriso.
- Vejo uma esplendorosa parceria entre nós, – o pai de Cassie levantou a taça para o meu, fazendo o tilintar proveniente do brinde ecoar pelo local. – Me diga , como vai o seu primeiro caso de grande visibilidade? – ele indagou. – Já está sentindo a pressão popular por seu cliente ter sido acusado de assassinar uma figura importante?
- Tudo está encaminhando da melhor forma possível, senhor Privost. Quanto mais grave é um crime, maior é o clamor público por uma condenação rápida e rigorosa. E quanto maior é o clamor público e a pressa em se julgar, maior a necessidade de se cumprir rigorosamente a lei a fim de se evitar julgamentos precipitados e condenações injustas. – finalizei, ignorando o seu sorriso arrogante.
- Perfeito. Um genro de sucesso era tudo o que eu desejava. – lancei-lhe um sorriso sem mostrar os dentes e assenti em agradecimento.
- Não esperávamos menos do herdeiro do império que é o escritório de advocacia dos . – a senhora Privost disse e eu respirei fundo, sufocado por toda aquela pressão desnecessária.
Levantei o olhar da minha taça recém esvaziada e enxerguei se aproximar com uma bandeja onde estavam algumas xícaras contendo café, imagino eu. Ela depositava cada xícara na mesa concentrada no que fazia, não olhando para o lado ou para qualquer direção que não fosse a da bandeja.
- Espere um momento. – minha mãe interpôs, fazendo parar o que estava fazendo. – não foi essa louça que eu pedi. Quero o jogo de café em porcelana pintado com ouro. Trate de trocar.
Todos da mesa olharam para a garota, que recolheu a xícara que estava prestes a colocar na mesa. Notei que ela deu um pequeno suspiro e, com a expressão vazia, assentiu, retirando as outras peças que já encontravam-se na frente de cada pessoa. Eu apenas a acompanhava discretamente com o olhar, lamentando por minha mãe tratá-la com tamanha arrogância.
- Desculpe, senhora. Com licença. – retirou-se rapidamente e eu encarei a sempre imponente senhora com uma feição descontente, já sabendo que aquela era exatamente a louça da qual ela pedira, contudo, estava se vingando ainda pelo episódio com .
- Às vezes nós precisamos ser duros, caso contrário vira rotina entre os empregados realizarem as tarefas de modo errado. – esclareceu, recendo murmúrios em concordância.
- Não podemos dar moleza para essa gente, querida. Te entendo perfeitamente, a faxineira da nossa casa não sabe que é imprescindível que as minhas Chanel sejam guardadas em dust bags*. - a senhora Privost complementou dramaticamente. Eu desejava mais do que qualquer coisa que aquele jantar acabasse logo.
Eles iniciam um assunto irrelevante a respeito de como patrões sofriam e eu fiz uso da minha audição seletiva para não ter que escutar aquela conversa descartável.
- Você poderia disfarçar melhor que não quer se casar agora, . – Cassie falou próxima a mim e eu a fitei com uma sobrancelha arqueada.
- Eu não falei nada demais. E você também não quer, não vejo motivos para você ter ficado irritada. – respondi, vendo-a bufar e rolar os olhos.
- Não quero mesmo, mas não precisa deixar explícito para todo mundo. Parece até que tem algo de errado comigo. – comentou emburrada e eu não pude segurar o riso.
- O problema é esse? Amor, para de besteira. Seguindo esse seu raciocínio, também teria algo de errado comigo, já que você, assim como eu, não quer se casar agora. – tentei tocar-lhe o rosto, mas ela esquivou-se. Fechei os olhos e respirei fundo, pedindo paciência aos céus. – Eu não quero brigar, Cassie. Ainda mais por algo tão banal. Estamos na presença dos nossos pais, dá um tempo. – alertei-a. Ela permaneceu imóvel e eu desisti, já desprovido de qualquer tranquilidade que seria necessária para lidar com os seus chiliques.
retornou ao recinto com o suposto jogo de café correto, tornando a depositá-los na mesa. Ao chegar à minha vez, a voz da minha mãe fez-se presente novamente, assustando-a e levando a tremer a sua mão que segurava a xícara, derrubando um pouco do conteúdo quente em minha perna. Dei um pulo devido ao susto e ao sentir o calor atingir a minha pele. Peguei um guardanapo de tecido e o coloquei no local, vendo me encarar apavorada e Cassie resmungar algo com ela.
- Mas será possível que você não consegue fazer nada direito? – minha mãe advertiu, aumentando o tom de voz. A garota encolheu os ombros, ainda me olhando assustada.
- Foi apenas um pingo, não tem problema. – disse na tentativa de apaziguar a situação. Eu estava puto com as atitudes da minha mãe, que se comportava tal como uma adolescente birrenta, fazendo tudo propositalmente a fim de testar .
- D-desculpa, eu... Eu me assustei e... – ela procurava se explicar ao passo que gesticulava, assim como fez no dia em que dera um tapa em .
- Calma, está tudo bem. – falei mais uma vez.
- Não está tudo bem, definitivamente não está. Vou me resolver com a sua mãe depois. Saia daqui antes que você estrague alguma coisa. Nem se atreva a ir para a cozinha, quero você longe dessa casa. ANDA! – ralhou para a garota, que engoliu em seco e murmurou um “desculpe” novamente, deixando o cômodo a passos apressados.
Esfreguei as têmporas, exausto. Ouvia as queixas dos demais presentes e elas não passavam de barulhos longínquos.
Eu havia me desligado e permaneceria assim para não explodir e mandar tudo para a puta que o pariu.

Ao fim do jantar, nos despedimos de Cassie e sua família. Meu pai fez menção de falar comigo, entretanto, eu levantei a mão em um pedido mudo para que ele não prosseguisse.
- Eu não quero ouvir mais nada. Fiz a merda que vocês queriam, então, só por hoje, eu peço... Não.falem.comigo. – disse pausadamente, dando as costas com a intenção de sair dali.
- Isso são modos, ? – meu pai me repreendeu. Virei-me e os encarei, a impaciência expressa em meu rosto.
- Eu só queria saber uma coisa... – girei o calcanhar, voltando a ficar de frente para eles. - vocês acham que eu tenho quantos anos? Querem resolver quando eu vou me casar, como vai ser, o que eu vou fazer... CHEGA! – me exaltei. Senti mais uma pontada de dor na minha cabeça. – Mãe, que cena ridícula foi aquela com a ? Você ultrapassou todos os limites do bom senso! Eu ainda não saí daqui por SUA causa, porque quando o pai viaja, tenho medo de te deixar sozinha devido aos seus desmaios. Meu apartamento está lá, fechado! Eu não sou mais um moleque, não é porque eu moro com vocês que vocês podem controlar a MINHA vida. – finalizei, passando uma mão pela nuca em um claro sinal de nervosismo. Meus pais continuavam imóveis e inabaláveis, como se assistissem algo banal. Bufei negando com a cabeça, desacreditando no que eles haviam se tornado. – Boa noite pra vocês. – segui para os fundos da casa, rumando até o único lugar daquela casa que eu tinha sossego.
Caminhei a passos lentos até o vasto jardim da casa, onde se encontravam alguns bancos, entre eles, um banco balanço do qual eu ocasionalmente utilizava para relaxar. Desde pequeno aquele sempre fora o meu espaço preferido por diversos motivos, um deles se dava pelo fato de ser afastado da casa. Era como uma esfera particular de tranquilidade. Em uma parte do jardim encontrava-se uma fonte, e, a sua frente, uma pequena cabana rodeada de flores. Eu realmente gostava de lá. Acendi um cigarro ao passo que me aproximava do meu destino. Era um hábito que me fazia relaxar em meus momentos de tensão. Ao chegar naquela área, avistei sentada no banco, mexendo os pés quase imperceptivelmente, fazendo-o balançar um pouco. Seu olhar estava perdido em alguma parte do ambiente e ela parecia estar imersa em pensamentos, não notando a minha presença ali. Encostei-me no batente do banco que ela encontrava-se sentada, dando uma tragada em meu cigarro, soltando a fumaça vagarosamente, atraindo a atenção de com o ato, que deu um sobressalto de susto. Abaixei um pouco a cabeça para fitá-la e não consegui conter um meio sorriso devido ao seu pulinho.
Coloquei minha mão livre no bolso da calça e voltei a olhar para frente, dando mais um trago no cigarro e observando despreocupadamente uma árvore qualquer.
- Desculpe, não te vi chegar. – ela quebrou o silêncio levantando-se em um pulo, fazendo menção de ir embora. Arqueei uma sobrancelha sem entender o motivo dela querer sair de onde estava só porque eu havia chegado.
- Não precisa sair daqui. – falei calmamente e virou-se para me olhar. – não está atrapalhando. A não ser que você se incomode com a fumaça. – finalizei, vendo-a me encarar meio ressabiada. Sustentei o seu olhar por alguns segundos, aproveitando para estudá-la neste período de tempo. Desde o cabelo que chicoteava devido ao vento, até as suas feições marcantes e simultaneamente delicadas. Passei os olhos por seus braços soltos ao lado de seu corpo e os lábios cerrados, voltando a me concentrar em seu rosto.
- Eu te queimei? – ouvi-a indagar e despertei, tentando me situar sobre o que ela falava. – eu devia ter prestado atenção, sinto muito. – Sua expressão estava contraída em preocupação, alternando sua análise entre mim e a minha calça onde ela derrubara o café anteriormente. Sorri fraco, negando.
- Você não teve culpa. Sinto muito pelo escândalo ridículo de antes. – comentei sobre toda aquela cena, realmente incomodado com a postura da minha mãe diante a ela. sorriu rápido e suave, ainda com os lábios cerrados, dando de ombros.
- Tudo bem. Já foi, de qualquer forma. – disse simplesmente. Ela falava olhando nos olhos, uma característica que eu admirava bastante.
O silêncio se instalou novamente.
Ela voltou a sentar-se no banco e eu permaneci encostado ao batente dele, ambos encarando algo a nossa frente.
- Pelo visto eu não sou o único a gostar daqui. – mencionei, sentindo o seu olhar sob mim.
- Não tem como não gostar, não é? É tão bonito e calmo. – falou de uma maneira encantada, quase infantil. Foi a minha vez de fitá-la por alguns instantes, tendo a visão de seus cabelos e uma parte de seu rosto, vendo-a observar as flores como se elas fossem a coisa mais incrível que ela já vira. – Sabe... – começou hesitante, colocando uma mecha de seu cabelo para trás. Eu fixei o meu olhar nela, que, por sua vez, contemplava o jardim. – você não me parece arrogante. – franzi o cenho, não entendendo onde ela queria chegar. – digo... você nunca me tratou com superioridade como as outras pessoas. Obrigada. – ela levantou a cabeça para me fitar. Seu sorriso tímido transmitia sinceridade e ela também sorria com os olhos. Fui pego de surpresa por sua constatação repentina, naquele momento eu apenas a fitava de volta com o cenho minimamente arqueado.
Eu nunca fiz mais do que a minha obrigação como alguém decente, não entendia como as pessoas agiam de forma tão mesquinha umas com as outras só visando a condição financeira delas. Isso não deveria separar ninguém. Ela provavelmente concluíra isso ao perceber que eu não ajo igual aos os meus pais, e eu me orgulho disso. Orgulho-me de saber separar as coisas e de conseguir me distinguir deles, de não ter me tornado dependente dessa mania de exibição, dessa segregação referindo-se a quanto você possui na sua conta bancária.
já havia desviado o olhar do meu e voltado a sua atenção ao jardim e eu nem havia me tocado, já que permanecia a encarando feito um otário.
- Não mereço agradecimento por isso, eu não sou diferente de ninguém para tratar alguém dessa forma. – finalmente concluí e os nossos olhares tornaram a se encontrar. Ela assentiu e eu tornei a olhar para frente.
- Já estou indo. – percebi que ela já estava de pé. – boa noite, . - Boa noite, . – lançou-me um sorriso doce e acenou com as mãos, começando sua caminhada até a sua casa.
A acompanhei com o olhar até que ela sumisse do meu campo de visão, dando o último trago no meu cigarro.
era, com certeza, uma pessoa intrigante.

Mauro Adami: Estilista de vestidos de noiva. Seus vestidos estão entre os dez mais caros do mundo.
Dust bags: Saquinhos de tecido que servem para envolver as it bags.




Capítulo 6


"A vida é cheia de mudanças. Às vezes elas são dolorosas, outras vezes são lindas e, na maioria das vezes, ambas as coisas." - Smallville.


- Tenha uma boa tarde, senhora Harnett. – despedi-me da minha última paciente do estágio da faculdade e suspirei cansada, jogando os braços na mesa à minha frente e apoiando a minha cabeça sobre eles.
Eu amava muito a profissão da qual escolhi, não via a hora de receber o meu diploma e fazer todas as coisas necessárias para, enfim, exercer o meu papel como profissional, porém, o cansaço do final do curso unia-se com o cansaço das provas, trabalhos, projeto de TCC, atendimentos do estágio, trabalho na casa dos e o meu trabalho de meio período aos sábados, resultando em um acumulado de exaustão. Peguei as minhas coisas e saí da sala às pressas, pois ainda teria que encontrar na biblioteca para finalizar um trabalho. Ao chegar ao ressinto, a avistei sentada em uma mesa lendo algo em seu celular, concentrada. Aproximei-me e me sentei ao seu lado, assustando-a.
- Quer me matar do coração? Nem te vi chegar. – falou com a mão sob o peito devido ao recente susto. Ri e neguei.
- O que você está lendo aí tão concentrada, hein? – questionei em um tom malicioso, inclinando a cabeça para ver a tela do seu celular. Ela riu e virou a tela do aparelho, me impedindo de ler o que estava escrito.
- Para de ser curiosa. – abri a boca incrédula. – eu vou sair com o Adrian hoje. – fez uma cara sapeca e eu ri novamente.
- Parece que o rolo está ficando sério... Preciso analisá-lo melhor. – alertei em tom de ameaça.
- Calma, ainda estamos no período de conhecer o território.
- Acho que vocês já conhecem bem o território um do outro, se é que você me entende. – constatei casualmente enquanto abria o caderno e ela me olhou boquiaberta, rindo em seguida.
- Cala a boca, vamos começar logo esse trabalho.
- Contra fatos não há argumentos. – concluí, recebendo um olhar divertido da minha amiga.

(...)


Finalizamos o trabalho algumas horas depois com uma inquieta olhando o relógio de cinco em cinco minutos. A olhei impaciente, colocando a mão em cima da sua perna que balançava freneticamente, a fim de pará-la.
- Okay, Cinderela. Pode ir, eu arrumo tudo isso. – disse, apontando para a mesa repleta de papéis, livros e canetas.
- Jura? – ela fez uma cara de cachorrinho e eu ri assentindo. – Nossa, muito obrigada! Eu te amo, sério. – me abraçou forte, quase me esmagando. Debati-me em seus braços quase sem ar.
- Vai logo antes que eu me arrependa.
- Você é maravilhosa! Tchau, monamour. – me abraçou pela última vez, saindo quase que correndo da biblioteca, nem dando tempo para que eu lhe respondesse. Balancei a cabeça negativamente, rindo enquanto guardava os materiais e arrumava aquela bagunça. Ao acabar, coloquei minha bolsa no ombro e juntei os livros em minhas mãos, despedindo-me da bibliotecária e caminhando calmamente até a saída faculdade. Já havia anoitecido, o campus encontrava-se vazio e a brisa gélida da noite fez com que eu me encolhesse um pouco sob o meu casaco, apressando o passo para chegar mais rápido ao ponto de ônibus. Senti alguém tocando os meus ombros e me virei alarmada, dando de cara com a última pessoa que eu esperava encontrar.
.
Franzi o cenho, claramente confusa pela sua presença.
olhou para os lados remexendo-se em desconforto e me encarou, o olhar vagando pelo meu e seguindo até os meus lábios entreabertos pela surpresa. Ergui uma sobrancelha demonstrando o meu incomodo e ele finalmente se tocou que teria que explicar o que queria comigo naquele momento.
- Seu tapa deixou o meu rosto dolorido por um tempão, sabia? – ele começou e eu revirei os olhos sem a mínima paciência para os joguinhos dele.
- Eu deveria ter dado outro. Geralmente você é um babaca, mas naquele dia você passou dos limites. – praticamente cuspi as palavras ao homem a minha frente, que deu um sorriso enviesado. – bom, não sei o que diabos você está fazendo aqui, mas eu estou indo embora. – virei as costas e fiz menção de andar, porém, pôs-se a minha frente.
- Eu vim dizer que foi mal por aquilo. – começou e eu o cerrei os olhos, estranhando a sua atitude. – naquele dia eu até estava disposto a falar que você não teve culpa, mas o fez as honras, não é? – notei um sarcasmo em seu tom de voz e não entendi o que ele queria dizer daquela forma.
- Aonde você quer chegar com isso? – indaguei já impaciente.
- Não quero chegar a lugar algum, só fiz uma constatação.
- Agradeço por compartilhar a sua constatação comigo. Se você já terminou, eu realmente preciso ir embora.
- Eu te levo. – ele se ofereceu e eu ri ironicamente.
- O que te faz pensar que eu vou entrar no seu carro? Enlouqueceu? – falei, já andando e ele me acompanhou. Eu gostaria de saber qual era a merda do problema de e o motivo dele ter resolvido tentar agir como uma pessoa decente do nada. Como se não bastasse, achando mesmo que eu aceitaria a sua carona.
- Para, ! Vim aqui me redimir, esquecer o tapa que você me deu e você dá dessas? – parei de andar abruptamente e o fitei totalmente desacreditada no que acabara de ouvir.
- Você é idiota ou o quê? Quer que eu te dê um biscoitinho por ter tido uma atitude adequada e ser digno pelo menos uma vez na vida? Não preciso da sua carona, obrigada. – dei sinal para o meu ônibus que milagrosamente passara naquele instante e entrei no veículo. Olhei rapidamente pela janela e avistei parado desconcertado no mesmo lugar. Sentei-me em um banco e respirei fundo, lembrando-me do fatídico momento em que nós dois nos aproximamos pra valer.

FLASHBACK

A noite estava quente e o calor fazia com que pequenas gotículas de suor aparecessem na minha testa. Eu estava na varanda de casa e via, ao longe, os amigos de rindo e conversando, enquanto ele abraçava uma garota e falava algo em seu ouvido. Tentei não me afetar com os beijos e abraços dos dois, decidindo enterrar qualquer resquício de sentimento que viesse a surgir.
- Você não está mais conseguindo disfarçar. – pulei de susto ao ouvir alguém falando ao meu lado. Olhei para a direção da voz e vi parado encarando o mesmo ponto do qual eu encarava anteriormente. A partir do dia em que nós começamos a nos falar, flertava comigo sempre que podia, até que chegou um momento em que sucumbir já era quase impossível. Nós acabamos ficando e isso meio que virou rotina, e, apesar de tudo, eu me sentia bem com ele. Franzi o cenho sem entender como eu não havia o escutado chegar.
- Como é? – indaguei confusa, recebendo um olhar cínico de que emanava obviedade sobre a sua afirmação anterior.
- A sua cara para o te entrega.
- Para de viajar, . – levantei-me de súbito e me assustei quando ele me pegou pela cintura, me levando para uma parte escondida da minha casa. – o que é isso? Está louco? – o encarei estupefata e ele me prensou à parede, sorrindo sacana.
- Uma hora ou outra o vai pedir a Cassie em namoro, gracinha. Desiste. – suas palavras me acertaram e eu tentei não transparecer o pequeno incômodo que queria surgir em algum lugar de mim. O olhei com a maior cara de “e daí?” e ele riu ironicamente. – Vamos fazer assim. – ele começou, distribuindo beijos lânguidos pelo meu maxilar, fazendo com que eu me arrepiasse de imediato. Encostou a boca no meu ouvido e tornou a falar. – vou dar uma passadinha em uma festa hoje, e, depois disso, venho te buscar pra gente ver um filme lá em casa. O que acha? Diz que vai dormir na casa de uma amiga. – finalizou, dando uma ligeira mordida no lóbulo da minha orelha e eu suspirei pesadamente.
Negar não estava nos meus planos.
- Por que eu não posso ir à festa com você e de lá nós saímos? – indaguei ingênua e ele bagunçou os cabelos olhando para os lados rapidamente, voltando a me fitar.
- Vai ser rapidinho, não tem necessidade de você ir. – explicou e eu o encarei desconfiada, porém, topei.
- Tudo bem. – sorriu e colou meu corpo ao seu, levando uma de suas mãos até minha nuca puxando-me para si, colando seus lábios aos meus de uma maneira quase erótica.

Naquela noite, eu não prestei atenção no filme.
Esqueci dos meus estranhos sentimentos a respeito de .
Não me liguei aos detalhes que quase me mostravam em letras garrafais que era cilada.
Naquela noite, eu tive a minha primeira vez.


FIM DE FLASHBACK


Balancei a cabeça para afastar aquelas memórias e ri sem humor ao me lembrar de quão estúpida eu era. No início, ficar com não envolvia nada fora atração, entretanto, o nosso envolvimento começou a evoluir.
De beijos, para amassos.
De amassos, para sexo.
De sexo, para momentos afetuosos com direito a abraços e a dormir juntos.
Conforme o tempo passava, fui adquirindo sentimentos por ele, chegando até a conseguir esquecer a incógnita que eu me encontrava acerca do . Eu não notava que era feita de otária, não notava que ele sempre tinha uma desculpa para não sair comigo em público, não notava que ele nunca me apresentava para os seus amigos por vergonha de mim. Por vergonha de admitir que estava saindo com a filha da empregada de um dos seus amigos.
Desci do ônibus e entrei no condomínio, cumprimentando o porteiro e seguindo em direção a mansão. Notei carros desconhecidos na garagem e franzi o cenho, tentando me lembrar se haveria algum evento na residência dos . Deixei meus livros em cima da minha cama ao entrar em casa e segui para o local de trabalho da minha mãe, encontrando-a servindo café em algumas xícaras.
- Oi, mãe. – dei-lhe um beijo na bochecha.
- Oi, filha. Como foi na faculdade? – perguntou, despejando café na última xícara.
- Foi tudo bem. Está acontecendo alguma coisa aqui hoje?
- Nada demais, só uma reunião com alguns advogados. – respondeu, agora picando alguns pimentões. O interfone da cozinha tocou e ela me olhou em um pedido mudo para que eu o atendesse. Tirei o aparelho da base e coloquei-o no ouvido.
- Luna, traga o café para o escritório.
A voz do senhor soou e eu fiz uma careta pelo seu tom. Dava medo.
- Senhor , minha mãe está ocupada com os preparativos do jantar, mas o café já está pronto.
- Ótimo, traga você então.
Ele desligou e eu torci o nariz, não conseguindo entender como era tão educado tendo pais tão rudes.
- Vou levar o café para eles. – anunciei para minha mãe que me olhou meio ressabiada.
- Certo. Só seja cuidadosa. – pediu e eu fiz um joinha com a mão, pegando cautelosamente a bandeja e seguindo rumo à sala de reuniões, agradecendo por ela se localizar no térreo. Ser estabanada não combinava com escadas.
Dei algumas batidas na porta e ela se abriu, revelando um que aparentava estar cansado. Fitamo-nos por alguns instantes e eu dei um sorriso tímido, que foi retribuído com o seu característico aceno de cabeça. Ele deu espaço para que eu passasse e eu entrei na sala murmurando um “com licença.” Havia três pessoas ali fora e o seu pai. Duas mulheres e um homem.
- Preste atenção dessa vez. – o senhor ordenou e eu assenti temerosa em fazer alguma coisa errada. – Thompson, a pasta está com você? – ele indagou a um homem que aparentava ter aproximadamente uns quarenta anos, que lhe entregou o objeto preto lotado de documentos.
Eu servia as xícaras para cada um cuidadosamente e sentia o olhar de alguém queimando sobre mim. Ao terminar, descobri de quem se tratava. encontrava-se encostado na porta com os braços e as pernas cruzadas e me fitava sério. Não de maneira severa, mas sim, de uma maneira... Analítica? Pisquei algumas vezes me sentindo perdida diante de sua avaliação e voltei a minha atenção aos demais presentes no recinto.
- O senhor deseja mais alguma coisa? – indaguei ao senhor , que negou com a cabeça e abanou a mão para que eu saísse. Virei-me e me dirigi à saída da sala, passando por e notando que ele encarava um ponto qualquer do local, não me olhando mais. Senti a porta sendo fechada atrás de mim e retornei à cozinha, depositando a bandeja na pia.
- Quer ajuda? – perguntei a minha mãe, que mexia algo nas panelas.
- Não, . Estou acabando aqui e já, já vou para casa. Pode ir primeiro. – disse sorrindo.
- Vou fazer algo para nós comermos, ta? – falei, já indo para a porta que dava no quintal. Minha mãe respondeu um “obrigada” e então eu saí. Cheguei em casa e tomei um banho rápido, já iniciando os preparativos para a janta.
Meus pensamentos insistiam em ir de encontro a um destino proibido chamado , o que me fazia bufar em impaciência e quase amassar as folhas que eu lavava para preparar a salada. Durante um bom tempo eu havia conseguido esconder as sensações que ele me causava, não me importava se era apenas um estado de negação ou se eu estava me enganando, enquanto eu conseguisse agir como se nunca houvesse sentido nada, as coisas ficariam bem. E tudo estava indo muito bem, obrigada, até essa nossa pequena aproximação repentina estragar tudo. Se já era complicado o suficiente quando ele não conversava comigo, imagina agora, que ele definitivamente resolveu bancar o mister simpatia – do jeito dele, claro –. Eu consigo claramente enxergar o meu anjo da guarda tendo uma baita de uma discussão com o meu cupido teimoso e bem desprovido de bom senso, devo acrescentar. Balancei a cabeça me amaldiçoando por estar refletindo sobre esse assunto e foquei no preparo da janta, que era bem mais importante, haja vista que o meu estômago gritava por comida.

**

’s POV

Suspirei aliviado ao fim da reunião. Afrouxei minha gravata e encostei-me a cadeira, observando todos ali presentes guardarem os documentos em suas pastas. Recolhi alguns papeis à minha frente e levantei-me, armazenando-os em uma gaveta, e notei Thompson vir ao meu encontro.
- Dia longo, hein, ? – começou e eu apenas assenti, ainda organizando a papelada na gaveta. – Quem era aquela bonitinha que serviu os cafés? Vi você olhando pra ela, hein. – falou casualmente, como se fôssemos velhos amigos. Parei o que eu fazia e o encarei com a sobrancelha arqueada, notoriamente demonstrando o meu desagradado diante a sua intromissão.
- Não acho que nós sejamos próximos para que você se dirija a mim dessa forma, Thompson. – censurei-o, vendo a sua expressão despreocupada tornar-se impactada. Fechei a gaveta e saí, deixando o homem ainda me fitando um tanto quanto colérico. Foda-se. Despedi-me dos demais que também saíam da sala e segui para o meu quarto, indo direto para o banheiro, necessitando de uma ducha e de descanso.

**

Eu caminhava a passos firmes em direção ao escritório da casa do meu cliente, que me esperava sentado atrás de sua mesa, visivelmente abatido. Visitaria Lee Feldman para deixá-lo ciente sobre todos os procedimentos a respeito do andamento do caso, como eu sempre fazia. Cumprimentei-o e me sentei à sua frente.
- Sr. Feldman, eu entrei em contato com todos os presentes na festa no dia do crime, porém, nenhum deles aceitou comentar absolutamente nada sobre o que acontecera. Se alguém me desse um depoimento a respeito da sua localização no momento do assassinato, nós teríamos um álibi que seria indubitável para provar a sua inocência.
- Como assim? De todos os convidados, ninguém quis falar nada? Eu estava o tempo todo no salão principal! Isso é uma barbaridade! – ele exaltou, visivelmente nervoso. Respirei fundo antes de continuar.
- As pessoas desejam se envolver o mínimo possível nesses casos por diversos motivos. Eu investiguei cada um dos empresários convidados, muitos deles possuem pendências com a justiça, seria um despropósito para eles participarem desse fato, nem que seja por meio de um simples depoimento. Ninguém quer se envolver.
- E agora? – Felman questionou, passando as mãos pela cabeça. Eu precisava fazer com que alguém de dentro daquele evento conversasse comigo, caso contrário, as coisas poderiam ficar complicadas.
- Vou dar um jeito de conseguir um depoimento a seu favor. Por enquanto, preciso que você me passe todas as notas fiscais da sua empresa dos últimos anos. Demonstrando que todas as suas atividades são legais, será um argumento a mais para provar que você não teria motivos para cometer um homicídio. – ele assentiu veemente.
- Doutor , sei do que falo, por isso, peço para que você tome cuidado. – franzi o cenho ao passo que o ouvia. – a maioria das pessoas que participaram do evento são corruptas. Durante todo esse tempo eu me mantive perto apenas para me proteger, afinal, o ditado que diz “mantenha os seus amigos por perto, e os seus inimigos, mais ainda” é totalmente verídico. – assenti vagarosamente. As ligações estranhas que eu andava recebendo me atingiram em cheio, e eu comecei a ligar os fatos. Precisava dar um jeito nisso antes que tudo piorasse.
- Não se preocupe, senhor Feldman. Serei cauteloso. Quero que se concentre no dia da festa e anote tudo o que se lembrar, todos os detalhes de todos os indivíduos. O que fizeram, o que disseram, tudo. Volto daqui duas semanas para recolher as notas fiscais e as suas anotações, ok?
- Certo. Muito obrigado. – levantamo-nos e nos cumprimentamos com um aperto de mãos.
- Vamos pegar quem fez isso. – falei com firmeza. – até mais, senhor Feldman.
- Até. – ele respondeu e eu dei um breve aceno de cabeça, passando pelos guardas e caminhando porta afora da casa.
Passei as mãos pelo cabelo, me sentindo tenso. Esse caso me deixava cada dia mais apreensivo, e o fato de ser ameaçado pelo responsável dessa situação toda transformava tudo em uma merda completa. Sabia que eu precisaria andar alarmado e redobrar o cuidado, contudo, se esse maldito acha que vai me amedrontar, está completamente enganado. Entrei no meu carro e peguei o meu celular, atendendo sem ao menos olhar em seu visor.
- Alô?
- Se você presa pela sua vida, largue o caso do Mason Zummack. – uma voz robótica soou do outro lado da linha e eu dei um sobressalto, olhando para todos os lados e pelo retrovisor.
Antes que eu pudesse responder, a ligação foi terminada.
Engoli a seco e bati a mão no volante, sentindo meu sangue correr rápido em minhas veias.
É oficial.
Eu estava sendo ameaçado.



Capítulo 7


Mas eu espero que você se reestruture, porque eu não posso me apaixonar sem você. - Zara Larsson - I Can't Fall In Love Without You.


’s POV

Eu sentia que a minha cabeça doía cada vez mais.
O meu nível de estresse com certeza estava nas alturas, eu não conseguia pensar em nada que não fosse a porra da ligação que eu recebi durante a manhã. Eu precisava pensar com calma e colocar todas as minhas ideias no lugar antes de fazer qualquer coisa que seja, afinal, agora a minha integridade física também corria perigo.
Sair do caso estava totalmente fora de cogitação.
Pedir proteção não seria muito inteligente, pois só provocaria quem quer que estivesse por trás disso tudo.
Pelo menos por hora, eu iria continuar a fazer o que estava fazendo e agir como se nada estivesse acontecendo.
Meu celular tocou e eu me senti inquieto, quase suspirando aliviado ao ver o número de Cassie piscando na tela.
- Por que você sumiu o dia todo, ? – mal coloquei o aparelho no ouvido e a voz estridente e raivosa da minha namorada soou. Fechei os olhos e levei minhas mãos às têmporas. Tudo o que eu não precisava era de mais uma discussão.
- Oi, Cassie. – minha voz soou entediada. – Eu fiquei ocupado o dia todo, desculpe. – a minha cabeça encontrava-se a mil e eu realmente havia me esquecido de ligar para a minha namorada, que parecia uma fera do outro lado da ligação.
- Sinto muito? Só isso? O que tanto você tem pra fazer que não pode ao menos dar sinal de vida?
- Eu tenho um caso fodido pra cuidar, Cassie. Só isso – respondi ríspido, já prevendo outra briga.
- Onde você estava de manhã?
- Na casa do meu cliente. – ouvia-a bufar e revirei os olhos.
- Você vive pra esse caso vinte e quatro horas por dia, eu não aguento mais! – ela esbravejou e eu perdi a calma.
- Meu trabalho NÃO É brincadeira. Eu tenho que ser sério e responsável com o meu cliente, com o caso e com as pessoas a PORRA DO TEMPO TODO. Eu tive um dia de merda, o mínimo que eu esperava de você era compreensão!
- Eu não tenho culpa se o seu trabalho te consome, não venha descontar em mim!
- Você só me ligou pra brigar? Porque ultimamente é só isso que você anda fazendo. – afirmei e a ouvi reclamar, começando a fazer um escândalo do outro lado da linha. Bufei e a cortei. – Já que você anda gostando de fazer birra, faça sozinha. Boa noite. – desliguei e praticamente joguei meu celular na mesa.
Será possível que eu não vou poder ter paz em momento nenhum?
- , preciso falar com você. – meu pai entrou em minha sala e eu recebi a resposta para a minha pergunta.
Não, eu não iria ter paz em momento nenhum.
- O que aconteceu? – questionei, já esperando alguma notícia que me deixaria mais puto do que eu me encontrava.
- Eu irei viajar amanhã e não poderei comparecer a uma reunião em outro estado no sábado, então você comparecerá por mim. – ele disse. Viajar não seria ruim, afinal. Mesmo que seja para uma reunião de negócios. Eu assenti e ele continuou. – Vou deixar todas as informações com a secretária, pegue com ela depois. – assenti novamente, sem ter o que falar.
- Mais alguma coisa? – perguntei e meu pai negou.
- Vou ficar aqui por mais algum tempo, pode ir pra casa. – terminou e saiu.
Peguei meu terno, recolhi as minhas coisas e saí, acenando com a cabeça para algumas pessoas ali. Entrei no meu carro e dei partida. Meu pescoço doía feito o inferno e eu sentia um mal-estar horrível. Foquei na rua a minha frente desejando chegar logo em casa, uma vez que não estava muito bem.

Desci do carro e decidi não entrar em casa. Segui direto para o jardim, único lugar que eu conseguia me acalmar. Peguei um maço de cigarros, retirando um de dentro dele e o acendendo. Dei uma longa tragada enquanto caminhava em meio às plantas, e a cena que eu vi ao chegar ao meu destino fora quase como a de um dejavú, se não fosse pela presença do meu cachorro. Assim como há poucos dias, estava sentada no banco. Dessa vez, ela abraçava as suas pernas que encontravam-se encolhidas junto à seu corpo e a sua cabeça repousava em seus joelhos. Ela não parecia bem. Aproximei-me, chamando a atenção de Bento, que levantou a cabeça para me observar. A garota acompanhou o olhar do cão ao seu lado e parou em mim, sua expressão vaga me fitou por poucos segundos ao passo que eu me aproximava, voltando a olhar para frente rapidamente. Bento desceu do banco e deitou-se ali pelo chão, deixando vazio o lugar ao lado de . Sentei-me ali e ela nem se moveu.
Silêncio.
Dei outra tragada em meu cigarro, soltando a fumaça vagarosamente.
Olhei de esguelha, não tendo muita visão de seu rosto, pois seu cabelo caía sobre ele. Ela esfregou a mão pela sua face depressa, gesto esse que não passou despercebido por mim.
Ergui uma sobrancelha. Ela estava... Chorando?
Caralho.
Achei melhor permanecer em silêncio.
Passaram-se alguns minutos e eu me estiquei para jogar o meu cigarro em um lixo ali perto, tornando a fitar a garota ao meu lado, que parecia ter parado de chorar, embora não tivesse movido um músculo sequer durante todo esse tempo.
- Dia difícil? – questionei despretensiosamente, sentindo o seu olhar sobre mim.
- Um pouco. – sua voz suave estava um pouco rouca, o que só confirmou o que eu já sabia. Ela realmente havia chorado. – E o seu?
- Você não sabe o quanto – ri sem humor. Ela deu um sorriso frouxo e o habitual silêncio fez-se presente mais uma vez.
Um lado meu queria perguntar-lhe se estava tudo bem.
O outro, que consistia na minha parte estressada, queria apenas ficar em paz e não ouvir a respeito dos problemas de ninguém, afinal de contas, já possuía os próprios para se preocupar.
A minha parte estressada ganhou e eu apenas resolvi não dizer nada, levando em conta que nós não tínhamos intimidade para conversar a respeito das nossas dificuldades. Apoiei as minhas costas no encosto do banco e joguei a cabeça um pouco para trás, respirando fundo. Fechei meus olhos e permaneci dessa forma por alguns minutos, logo sentindo um olhar sobre mim. Os abri e encontrei uma me fitando curiosa. A garota enrubesceu e eu ergui uma sobrancelha, quase achando graça do jeito que ela ficara, vendo-a virar o rosto para frente rapidamente ao notar que eu não me encontrava mais de olhos fechados e também a encarava curioso. Senti uma forte pontada na cabeça e levei minhas mãos ao local, me curvando um pouco devido a dor, chamando a atenção de .
- Você está bem? – ela indagou, me olhando receosa. Assenti e ela estreitou os olhos, como se não acreditasse no que eu lhe dissera. – Tem certeza?
- Sim, é só uma dor de cabeça. Logo passa. – ela afirmou vagarosamente ainda me analisando, e eu me perguntei se estava com cara de dor ou algo do tipo. – Você também não me parece estar bem. – concluí, mudando o foco da conversa para ela, visto que seus olhos levemente vermelhos indicavam o seu recente choro. Ela comprimiu os lábios e torceu o nariz, o olhar se tornou vago novamente. De repente me senti mal por ter tocado no assunto.
- É aniversário do meu pai... – Lembrava ligeiramente da minha mãe comentando sobre o pai de , que falecera quando ela ainda era pequena. Esse fora o principal motivo para que elas passassem a morar aqui. Sem saber o que dizer, apenas a encarei e falei o que ela já devia estar cansada de ouvir.
- Sinto muito. – proferi com sinceridade, fitando seus olhos vermelhos, que me fitavam de volta. Eu queria ter algo melhor para dizer, porém nada me vinha à cabeça. Nunca havia perdido alguém, não fazia ideia de como lidar com isso. sorriu agradecida e notei que o seu rosto encontrava-se corado. Ela cortou o contato visual e olhou para as suas mãos juntas em seu colo, levando-me a olhar para frente, contemplando o verde das árvores que chacoalhavam devido à ventania daquela noite.
O silêncio era acolhedor, não tinha nada de estranho.
Eu me sentia confortável, apesar do maldito mal-estar permanecer me incomodando. Fui desperto pelo rabo do Bento batendo no meu rosto e a risada divertida da fez-se presente. Pisquei os olhos, atônito, e percebi que o meu cachorro subira no banco, acomodando-se entre mim e a garota ao meu lado. Sua cabeça estava no colo dela e o seu corpo, no meu.
- Ele não tem noção do próprio tamanho. – disse, rindo. Acompanhei a sua risada, concordando.
- Definitivamente não tem. Ele toma conta da maior parte da minha cama e só dorme se tiver um travesseiro pra ele. – A garota riu ainda mais e eu comprovei que a sua gargalhada definitivamente dava vontade de gargalhar junto, pois foi exatamente o que eu fiz.
- O Bento é um cachorro humano, eu acho que um dia ele vai falar. – ela constatou, acariciando a cabeça do cão que dormia tranquilamente.
- Eu também tenho essa impressão.
- Sempre quis ter um cachorro. Quando eu ia ganhar o meu, tudo aconteceu e nós tivemos que nos mudar pra cá. – comentou casualmente, ainda concentrada no Bento.
- Deve ter sido difícil. – pressupus, e ela assentiu.
- Me sinto culpada até hoje por ter ocupado a casa que você usava. – confessou e a sua expressão era de pesar. – Sempre achei que você guardasse uma espécie de ódio de mim por isso. – um sorriso sem graça perdurava em seu rosto e mais uma vez o rubor em sua face apareceu. Arqueei uma sobrancelha e soltei um riso abafado, fitando-a zombeteiramente.
- Como é? – perguntei e ela deu de ombros, visivelmente encabulada.
- No dia em que a sua mãe nos apresentou você estava com uma cara péssima. – concluiu receosa e eu assenti, me recordando da raiva que eu sentira por ficar sem o local que eu utilizava para me encontrar com os meus amigos.
- Eu fiquei bem puto mesmo. – comecei sério, vendo-a se retrair mais. Segurei o meu riso e de repente a ideia de provocá-la me pareceu divertida. – Me lembro desse dia. Você se escondia o tempo todo atrás da sua mãe. – ela me encarou, as bochechas adquirindo cada vez mais um tom rosado. – Mas era coisa de adolescente. Eu não te odeio. – terminei despreocupadamente e ri, lançando uma piscadela em sua direção. Ela negou com a cabeça, acompanhando o meu riso.
- Que ótimo, vou poder dormir em paz. – disse, me fitando ironicamente e eu sustentei o seu olhar da mesma forma, levantando uma sobrancelha com um leve sorriso sarcástico brincando nos lábios.
Repentinamente parecíamos bons amigos conversando e eu, surpreendentemente, me senti bem pela primeira vez no dia.
Continuamos outro assunto, que se emendou em outro e mais outro. Após tantos anos morando no mesmo lugar, eu finalmente conheci um pouco melhor a garota que sempre me fora indiferente. Após um dia fodido de tão ruim, eu me permiti rir autenticamente e consegui, por pelo menos por algumas horas, deixar os problemas de lado.

’s POV

Sexta-feira, que dia maravilhoso.
Mais maravilhoso ainda era o fato de não precisar ir trabalhar amanhã, pois seria o meu dia de folga já que o senhor Jordan – dono da loja – iria testar o novo assistente contratado para me ajudar nas tarefas. Eu estava mais morta de sono do que o normal e sabia exatamente o motivo: Havia ficado até tarde conversando com na noite anterior. Falar com ele como se fôssemos bons amigos me deixou surpresa, eu nunca imaginaria que o papo fluísse tão naturalmente ao conversar com alguém, principalmente quando esse alguém é sempre tão fechado. Durante o dia todo me senti idiotamente feliz e me abominava por isso, eu abominava esses sentimentos que nunca iam embora completamente.
Assim que entrei em casa, vi que minha mãe dobrava algumas roupas e as colocava dentro de uma pequena mala.
- Mãe, pra que tudo isso? – perguntei, vendo algumas blusas em cima do sofá.
- Vou viajar com a dona Kyara, filha. Saímos daqui a pouco. – respondeu, depositando as últimas peças de roupa na mala. Franzi o cenho, claramente confusa.
- Como assim? Pra onde?
- Ela tem algumas consultas em outra cidade e eu irei acompanhá-la. O Senhor Henrico viajou hoje à tarde e o viajará amanhã. – explicou e eu assenti em compreensão.
- Quando vocês voltam?
- Domingo à noite. – olhou no relógio e fechou a mala. – O taxi deve estar próximo. Te ligo assim que nós chegarmos, ok? – disse, caminhando para fora de casa e eu segui a seu encalço. Minha mãe me deu um abraço e eu retribuí.
- Tudo bem. Boa viagem! – nos separamos e sorri para o seu aceno, correspondendo-o e vendo-a andar em direção a mansão dos .
Entrei em casa e fechei a porta atrás de mim, seguindo para o banheiro. Tomei um banho maravilhoso e preparei um lanche, ansiando pela maratona de séries que me aguardava.

Acordei totalmente e estranhamente disposta naquela manhã. Havia limpado a casa toda, feito algumas atividades da faculdade e enviado uma parte do projeto do TCC para . Depois de tomar um banho de lavar a alma, almocei e resolvi ler um livro na varanda. Sentei-me no banco que ali ficava e, quando estava prestes a iniciar a minha leitura, notei algo estranho. O carro de encontrava-se na garagem. Talvez ele tenha decidido ir até o aeroporto de taxi. Dei de ombros e voltei a minha atenção ao meu livro, entretanto, dessa vez, fui interrompida por Bento, que surgiu à minha frente, me assustando.
- Quer me matar do coração? – ri e acariciei sua cabeça, mas ele não se deitou ao meu lado como sempre fazia. O cão latiu e permaneceu ali, balançando o rabo energicamente e com as orelhas erguidas em alerta. Juntei as sobrancelhas, estranhando o seu estado agitado. – O que foi? Você está estranho, Bento. – mais um latido. Levantei-me e ele pulou em mim, jogando suas duas patas dianteiras no meu corpo, quase me derrubando. Em seguida, correu em direção à casa dos . Fiquei parada e confusa encarando o lugar pelo qual o cão entrou, não sabendo o que fazer. Em meio a passos incertos, segui para a mansão apenas para me certificar de que estava tudo bem, tirando meu celular do bolso e o segurando firme em minhas mãos, temendo que alguém estranho estivesse ali. Por mais seguro que o condomínio seja, desconfiança nunca seria demais. Entrei na casa pelos fundos como eu sempre fazia, passando pela cozinha e andando rumo à sala de jantar. Tudo encontrava-se em um silêncio sepulcral, não havia nenhum empregado em lugar algum, já que o senhor e a senhora os dispensavam sempre que iam viajar. Parei na sala e olhei em volta, me sentindo perdida.
- Onde esse cachorro se meteu? – bufei aborrecida. Ouvi um latido e virei meu corpo em direção ao som, vendo Bento no topo da escada. – Achei você! Desce daí, vem me fazer companh... – fui interrompida por mais um latido. Franzi o cenho e resolvi subir, visto que ele nem se mexeu. Subi as escadas vagarosamente e de forma receosa, e quando coloquei o pé no último degrau, Bento correu corredor à dentro, entrando em disparada em um cômodo.
Se eu bem me lembrava, se tratava do quarto do .
Parei novamente, o receio era gritante.
Eu não iria entrar lá.
Mas por que o Bento estava tão agitado?
Me mantive oscilando entre ir ou não, meus passos eram curtos e vacilavam ao passo em que eu andava vagarosamente naquele enorme corredor. Quando alcancei a metade do caminho, ouvi um urro abafado. Dei um sobressalto e finalmente decidi andar apressada até o quarto.
Ao chegar lá arregalei os olhos, assustada.
encontrava-se sentado no chão.
Urrando de dor.
Ele se inclinava pra frente com as duas mãos na cabeça e os seus olhos se apertavam com força.
Outro urro, dessa vez mais alto, invadiu os meus ouvidos. Eu corri até e me abaixei em sua frente, totalmente desesperada.
- ! – ele abriu minimamente os olhos para me fitar, os fechando rapidamente. Ele estava pálido e eu angustiada.
- , eu... Argh. – grunhiu e parou de falar, se inclinando mais. O apoiei em meu corpo e, com muita dificuldade, o coloquei em sua cama. – Deita aqui, eu vou ligar para o Doutor Elish. – saí em disparada para o escritório, onde eu sabia que havia vários números de telefone. Doutor Elish era um médico do condomínio e amigo da família. Recorrentemente atendia à senhora devido aos seus desmaios, tendo até mesmo atendido a mim e a minha mãe. Folheei a agenda com pressa e encontrei seu contato, discando os números pelo meu celular. Eu corri de volta ao quarto enquanto aguardava ser atendida, e, após alguns toques, ouvi a voz calma do senhor do outro lado da linha.
- Doutor Elish falando.
- Doutor, é a , da residência dos . Eu... Eu não sei o que fazer, o está muito mal, parece estar com muita dor e... Ele está apertando a cabeç... – Calma, . – fui interrompida por seu tom de voz terno. – Eu estou saindo de um plantão e daqui a pouco chego aí, tudo bem? Por enquanto, me escute. – respirei fundo e esperei que ele continuasse, passando a mão nos cabelos em nervosismo ao ver se contorcendo daquela forma.
- Primeiro, verifique para mim se ele está quente. – fiz o que me foi pedido e, delicadamente, coloquei minha mão livre em sua testa.
- Não, Doutor. Ele está suando frio, apenas.
- Certo. Agora, feche a cortina. Deixe o ambiente escuro, tudo bem? – eu andava apressada pelo quarto, fechando a cortina que cobria a enorme janela do quarto de . Olhei para ele, que continuava com as mãos na cabeça e os olhos fechados.
Grunhiu novamente, se revirando na cama, e eu, aflita, senti o meu coração apertar.
- Pronto. E agora? – questionei, sentando-me no espaço vago da cama, sem tirar os olhos do homem à minha frente.
- Pegue uma bolsa de água ou um pano e mergulhe na água fria. Feito isso, ponha na testa dele. Estou a caminho.
- Tudo bem. Obrigada, Doutor – falei, já descendo as escadas, quase tropeçando nos meus próprios pés.
Finalizei a ligação e, sem paciência para procurar a bolsa de água, peguei um pano limpo em uma gaveta e o molhei na água fria. Retornei ao quarto igual a um furacão, tornando a me sentar ao lado de , e, com destreza, peguei a sua mão que encontrava-se em sua testa e a retirei de lá, depositando o pano dobrado no local. Estava tão absorta no que fazia que não notei que ainda a segurava. Olhei para minha mão por cima da sua e engoli a seco. As conhecidas borboletas fizeram-se presente. Quando eu fiz menção de retirá-la de lá, virou a sua palma e a segurou com firmeza, dando um breve aperto, provavelmente por causa da dor.
- Calma, o Doutor está chegando. – falei quase em um sussurro, usando a mão livre para arrumar o pano em sua testa.
Bento estava deitado no pé da cama com a cabeça apoiada nas patas dianteiras, observando tudo atentamente. Parei para admirar o quão inteligente aquele cachorro era, afinal, se não fosse por ele, provavelmente teria algo mais grave, haja vista que ninguém o veria passar mal. Alguns minutos depois, ouvi a campainha tocar. Com pesar, soltei a mão de e desci velozmente para atender a porta, vendo a feição sempre serena do médico a minha frente me trazer alívio.
- Obrigada por vir, Doutor. – disse, dando espaço para que ele passasse e fechando a porta, já seguindo para o quarto de .
- Não precisa agradecer. – ele sorriu, seguindo a meu encalço. Entramos no quarto pouco iluminado e o Doutor Elish foi em direção ao homem inquieto deitado na cama. Eu permaneci próxima a cama com os braços cruzados e me sentindo perdida.
- , é o Doutor Elish. Eu sei que você está com muita dor, mas eu preciso que você responda algumas perguntas, tudo bem? – ele assentiu. – Vamos lá... Diga-me o que está sentindo.
Após um longo suspiro, ele começou:
- Minha cabeça... Está latejando de dor...
- Ok. Piora quando você abre os olhos? – assentiu novamente. – E o que acontece no momento em que os abre?
- Eu vejo alguns... Pontos brilhantes e manchas escuras. Meu braço está dormente. – ele reclamou com a voz rouca, sentando-se na cama ao inclinar-se para frente devido a uma pontada em sua cabeça. Eu fui para o seu lado, apavorada, e o fiz deitar novamente. - , você precisa ficar deitado. – falei suavemente para não piorar a sua dor, enquanto o Doutor Elish anotava algo em um bloquinho de papel. Ele abriu os olhos minimamente e me fitou com a expressão contorcida em dor, e, mais uma vez, senti o meu coração apertar. Não suportava ver alguém sofrendo, e, quando esse alguém se tratava de , a situação piorava. – Feche os olhos, está bem? Ficar com eles abertos vai piorar. – aconselhei em um sussurro. O vi fechar os olhos e o Doutor parou suas anotações.
- Há quanto tempo você está sentindo essas dores, ?
- Há algumas semanas.
- O que você tem é uma crise forte de enxaqueca com aura, que refere-se a uma intensa dor de cabeça com sensibilidade à luz e à barulhos. A manifestação mais comum da enxaqueca com aura é a chamada aura visual, que pode se apresentar como flashes de luz, manchas escuras em forma de mosaico ou imagens brilhantes em ziguezague, e também pode ocorrer dormências ou formigamentos em apenas um lado do corpo, que é o que você está sentindo. Durante uma crise o paciente não suporta ambientes barulhentos e muito iluminados, e, apesar de existirem vários fatores desencadeantes de uma enxaqueca, o gatilho mais importante é, sem dúvida, o estresse emocional. – O Doutor Elish falava calmamente e eu ouvia tudo extremamente atenta. – Por hora, não há necessidade de ir ao hospital. Vou medicá-lo e passar algumas prescrições, entretanto, irei encaminhá-lo a um Neurologista que poderá obter um diagnóstico mais aprofundado. – ele disse, procurando algo em sua bolsa e retirando uma cartela de comprimidos dela.
- Vou pegar um copo d’água. – avisei e saí do quarto em passos velozes até a cozinha. Peguei um copo e despejei o líquido gelado nele, subindo rapidamente e o entregando a que encontrava-se sentado com o comprimido em mãos.
Ele o tomou e respirou fundo.
- Eu tenho uma reunião, preciso viajar, não posso ficar em casa. – alertou visivelmente preocupado.
- Sinto lhe dizer, meu rapaz, porém, você terá que remarcar seus compromissos. O ideal é que se deite e fique em repouso absoluto, nada de estresse. – fechou a cara e, meio a contragosto, voltou a se deitar. – o medicamento não demorará a fazer efeito, recomendo que durma, descanse e resolva as suas pendências depois. – Terminando de dizer isso, ele virou-se para mim. – Eu tenho que fazer algumas visitas domiciliares, então preciso ir. Não se preocupe, a crise está controlada. – explicou e eu assenti, saindo do quarto acompanhada com o simpático senhor. Fiz um sinal com a mão para Bento, que não queria sair de perto da cama de . O Doutor deu uma risada baixa ao meu lado e eu suspirei derrotada, vendo que ele não sairia de lá. Deixei a porta do cômodo encostada e segui até a saída com o Doutor.
- Muito obrigada, Doutor Elish. Desculpe se te incomodei. – falei, recebendo um sorriso quase paternal em resposta.
- Não se preocupe, . Me ligue se acontecer alguma coisa, tudo bem? Só queria te pedir para aguardar até que o acorde, apenas para se certificar de que ele estará bem.
- Pode deixar, ficarei aqui até ele acordar. – retribuí o sorriso e acenei ao ver o senhor assentir e entrar em seu carro.
Voltei para dentro da mansão e fiquei parada na sala tal como um vaso de planta.
O que eu iria fazer?
Bom, eu deveria ligar para alguém próximo a .
O problema era que eu não tinha o telefone de ninguém.
Será que a sabia o número da Cassie? Com certeza seria mais apropriado se ela ficasse com ele.
Peguei meu celular e disquei o número da minha amiga. Alguns “tu’s” depois, ela atendeu.
- Olá, amorzinha! – disse com o seu típico tom animado.
- Oi, mi amor! Tudo bem?
- Tudo ótimo! E você, como está? Já sentindo a minha falta? – indagou convencida e eu ri.
- Sim, preciso ouvir a sua voz para animar o meu sábado. – gargalhou e eu continuei. – Na verdade, preciso mesmo é saber se você tem o telefone da Cassie.
- Oi? Pra que você quer o telefone dela?
- O teve uma crise de enxaqueca extremamente forte e todo mundo viajou. Eu chamei o médico do condomínio, que o atendeu, mas eu não sou a pessoa mais apta para estar aqui, entende? Queria avisar a Cassie.
- Caramba, ! Mas está tudo bem?
- Sim, agora está.
- Infelizmente eu não tenho o telefone dela, desculpe. – sua voz soou pesarosa. – Porém, vou perguntar pra alguns conhecidos meus e te passo o número caso eu consiga, okay? Talvez o Paolo tenha.
- Obrigada, amiga! Vou esperar.
- Por nada, sweetie. Beijo.
- Beijo.
Finalizei a ligação e suspirei, sentindo a adrenalina baixar e um pequeno cansaço se apossar do meu corpo. Vivenciar fortes emoções em menos de uma hora dá uma baita moleza. Sentei-me no sofá e apoiei a cabeça em minhas mãos, ainda meio atônita e com os costumeiros sentimentos irritantes me importunando. Ver o frágil daquela forma foi desesperador. Quão estressante seria a sua rotina para que ele tenha ficado doente?
Cerca de uma hora depois – de muito tédio, devo acrescentar – meu celular apitou, indicando uma nova mensagem de .

, não consegui o número da Cassie e o Paolo não entende”

Droga.
Passei as mãos no cabelo e olhei em volta, incomodada.
Lembrei do livro que eu iria começar a ler mais cedo e levantei-me com a intenção de ir buscá-lo. O peguei de cima do banco onde eu o havia deixado anteriormente e voltei para a sala da mansão, sentando-me novamente no sofá e começando a minha leitura até que acordasse.

Uma hora.
Duas.
Três.
Havia acabado de ler o livro e chequei as horas em meu relógio. 17hrs13min. Será que havia acordado? Saí da sala e subi as escadas pela milésima vez no dia, e, quando cheguei perto do quarto de , parei ao ouvir a sua voz. Ele parecia estar em uma ligação.
- (...) Não fui, cara. Tive uma porra de crise de enxaqueca, cancelei tudo (...) Sim, estou legal (...) Eu já liguei pra Cassie umas dez vezes e ela não me atende, é foda (...) Eu ia chamá-la para ficar aqui comigo (...) Sei lá, não nos falamos desde quinta (...) Beleza, se der aparece aqui (...) Tchau.
Mordi o lábio me sentindo sem graça. Bom, pelo menos ele parecia estar bem. Terminei o caminho e bati na porta que eu outrora havia deixado encostada. Ouvi um “entra” e, hesitante, a abri, encontrando sentado na cama encarando o celular em sua mão com uma feição séria e eu diria que também desapontada.
Não entrei, permaneci parada na entrada do cômodo e ele levantou seu olhar até mim.
- Oi... – comecei. – Você está melhor? – ele assentiu.
- Obrigado pelo que você fez, . Mesmo.
- Não precisa agradecer. – sorri. – o Doutor deixou o remédio em cima da cômoda e as recomendações escritas naquele papel. – apontei para o local e dirigiu a sua atenção até o lugar em que eu indicara com o dedo, voltando a me encarar atentamente. – Tente não se esforçar demais e não me assustar de novo. – brinquei e ele riu, concordando.
- Desculpe, não irá mais acontecer... Eu espero. – lançou-me um riso fraco.
- Não está sentindo mais nada?
- Não, estou bem.
- Então eu vou te deixar descansar. Caso você se sinta mal, eu estarei em casa. – avisei sob o seu olhar minucioso.
- Certo. Não se preocupe, pode ir.
Sorri pela última vez lançando-lhe um “tchauzinho” com as mãos, saindo do quarto e sentindo o seu olhar queimar em minhas costas.
Senti uma brisa suave bater em meu rosto assim que me retirei da casa dos e respirei fundo, encostando-me a um pilar.
Eu só queria não sentir o que eu sentia.



Capítulo 8


“O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação." - Carl Jung.


’s POV

- E ai? – cumprimentei , dando espaço para que ele entrasse.
- Puta merda, você está horrível. Tem certeza de que melhorou? – ele disse, me analisando de maneira exagerada.
- Vai se foder – ri e me sentei no sofá, prestando atenção em um jogo qualquer que passava na televisão e o meu amigo se jogou na poltrona à minha frente sem cerimônia, entrelaçando as mãos atrás da cabeça com o seu usual jeito despreocupado.
- Sério, me fala direito o que te deu.
- Nem eu sei. Eu acordei meio mal e foi piorando conforme eu arrumava as minhas coisas pra viagem.
- E como você fez com a reunião que o seu pai disse pra você ir? – indagou e eu passei as mãos no rosto em cansaço, já prevendo a reação que o Senhor Henrico teria ao saber que eu não fui à viagem.
- Cara, eu mandei uma advogada de lá do escritório pra ir no meu lugar.
- Ser filho do patrão tem várias vantagens, meu amigo. – ele brincou e eu assenti com certa aversão. A verdade é que eu odiava esse título de “filho do patrão”, isso tirava todos os meus méritos sobre o espaço que eu estava conquistando no meio da advocacia.
- Ele vai ficar puto, mas eu estava sem condições de enfrentar uma viagem e encarar uma reunião. Ainda bem que a me ajudou e...
– Como é? – me interrompeu surpreso e eu franzi o cenho sem entender.
– Como é o quê? – perguntei e o vi se remexer, olhando para o lado. Continuei não compreendendo.
- ? O que ela estava fazendo aqui?
- Ela mora aqui? – respondi como se fosse óbvio.
- Digo... Aqui, dentro da sua casa. Como ela soube que você estava mal?
- Não faço ideia. Mas isso não vem ao caso, cara. Pra que esse espanto todo? A é uma garota legal, você que faz questão de ser um otário com ela. – ressaltei e vi a sua expressão fechar. Ele riu irônico em seguida.
- Virou defensor dos fracos e oprimidos mesmo?
- Não, só queria entender o motivo da sua birra infantil com alguém que nunca te fez nada. – respondi seco e levantou as mãos em rendição. - Wow, calma aí, bad boy. Não está mais aqui em falou da sua nova protegida. – enfatizou debochado. Eu permaneci o olhando de forma séria e com uma sobrancelha erguida. Percebendo que eu não havia gostado do rumo da conversa, ele continuou. – Mudando de assunto, e a Cassie? Conseguiu falar com ela?
- Não. – bufei. – Está cada vez mais difícil de lidar com as suas irritações, estou ficando de saco cheio.
- Até onde eu sei, ela está em uma festa com a Suzi. – disse e eu estreitei os olhos, indignado.
- É brincadeira, né?
- Não, eu vi um post da Suzi no SnapChat e a Cassie estava junto. – informou. Tudo o que eu consegui fazer foi rir incrédulo, balançando a cabeça em negação.
- Eu estou a porra do dia INTEIRO tentando falar com ela! – peguei meu celular e, revoltado, disquei o número da minha namorada, esperando que ela atendesse.
- Calma, cara. Você não pode se estressar. – meu amigo avisou.
Não me importei, afinal, eu já me encontrava totalmente furioso. Após alguns toques, finalmente ouvi a voz de Cassie soar em meio a uma agitação de pessoas, conversando e uma música alta ao fundo.
- O que é? Lembrou que tem namorada? – zombou sarcástica e eu ri em escárnio.
- EU lembrei que tenho namorada? Cassie, eu te ligo todos os dias, o tempo todo, e VOCÊ não me atende! Não banque a vítima! – bradei irritadiço, andando de um lado para o outro, vendo gesticular para que eu me acalmasse.
Pro inferno a calma.
- Por que eu te atenderia? Pra você desligar na minha cara de novo?
- Isso foi na quinta-feira, eu mandei mensagem me desculpando, puta que o pariu! Qual é o seu problema? Seu temperamento está ACABANDO com o nosso namoro! – ouvi sua risada e aquilo só me irritou ainda mais.
Se é que seria possível.
- O seu descaso está acabando com o nosso namoro, ! Esse seu caso idiota é mais importante do que eu! – lá vamos nós de novo.
- Eu não estou acreditando no que estou ouvindo, Cassie. Você – frisei. – está se ouvindo? Não se faça de desentendida, você sabe muito bem que as nossas brigas não acontecem só por causa do MEU TRABALHO! Você cria uma atitude sobre qualquer coisa! – exclamei, esgotado daquilo. A essa altura eu já andava pela casa, deixando na sala.
- VOCÊ É A RAZÃO PELA QUAL EU SEMPRE CRIO UMA ATITUDE! – minha namorada explodiu e foi a minha vez de rir, irônico.
- Você está me cobrando atenção, então vamos lá... A festa com a sua amiga está boa? O otário aqui te ligou a merda do dia todo, sabe por quê? Porque eu queria que você ficasse comigo, já que eu não fui viajar! – a ouvi resmungar e continuei. – Você se importa tanto que eu te avisei que viajaria e você não me deu UMA RESPOSTA! – terminei, passando nervosamente a mão livre pelos cabelos.
Silêncio.
Após alguns segundos, a voz de Cassie fez-se audível novamente.
- Você é engraçado, . Só vê o seu lado, não é mesmo?
- Me diz quando eu deixei de tentar te entender, porque eu não me lembro. O que você está falando não faz o menor sentido e você sabe disso. – debrucei-me na sacada, me sentindo tenso. Torci pra não ter outra crise infernal de enxaqueca.
- Não acho que você se importe, sinceramente.
- Se eu não me importasse eu não estaria tentando conversar com você, que, por sinal, está em uma porra de uma festa! – por mais que eu tentasse, todas as minhas palavras saíam ríspidas, demonstrando quão irado eu me encontrava.
- Quer saber, ? Tchau. Esse papo não está nos levando a lugar algum. – minha namorada disse e eu balancei a cabeça, desacreditando que ela iria mesmo continuar a se comportar daquela maneira.
- Beleza, Cassie. Você quem sabe. Tchau. Eu cansei de discutir com você, cansei de todas essas brigas. Cansei de tudo isso.
- O que você quer dizer com isso? – questionou afobada.
- Quero dizer que eu não estou a fim de falar com você. Depois a gente conversa. Tchau. – ouvi-a responder um “okay” e terminar a ligação. Encarei um ponto qualquer a minha frente, inexpressivo. Eu não conseguia entender o que havia de errado com a Cassie. Nosso relacionamento nunca foi perfeito, óbvio. Sempre tivemos nossos desentendimentos, entretanto, de uns tempos pra cá, as brigas tornaram-se frequentes e isso estava desgastando a nossa convivência ao ponto de me fazer repensar se esse namoro ainda valia à pena. Eu não iria permanecer preso a algo repleto de brigas, falta de compreensão e de comunicação.
Relacionamento não é isso.
Não um saudável, pelo menos.
Senti uma presença ao meu lado e avistei, pelo canto do olho, perto de mim.
- Se resolveram?
- Não.
- Contou pra ela que você estava mal?
- Também não. Foda-se, cara. Que relevância isso tem? Sinceramente, não vejo muito futuro pra nós dois. – respondi cansado.
- Você vai terminar com ela? – ele questionou assustado.
- Não sei. Ficar nessa guerra é exaustivo, eu estou cansado de discutir. O problema é essa merda toda, tudo pra ela é motivo de briga.
- Boa sorte com isso, meu caro. Você vai precisar. Bom, eu vou passar na festa que a gata da Suzi está, afinal, os trabalhos não irão se iniciar sozinhos – meu amigo deu um sorriso sacana e eu ri, assentindo.
- Vai lá, cara. Valeu por vir – o cumprimentei com um meio abraço.
- Relaxa. Falo alguma coisa pra Cassie caso encontre com ela?
- Não, deixa quieto.
- Beleza. Até mais, grande . – despediu-se pela última vez e saiu.
Continuei apoiado na sacada, aproveitando a noite amena que fazia e tentei não pensar em problema algum – e eles eram muitos. Olhei para o lado e tive a visão da casa aos fundos da minha, cujo as luzes encontravam-se acesas. havia sido bastante atenciosa comigo, tê-la por perto em uma situação como a de hoje foi reconfortante, ela era definitivamente alguém amigável. Entrei em casa e resolvi assistir alguma coisa na TV, já que, aparentemente, a minha noite se resumiria somente a isso.

**

- Então deu tudo certo na reunião? (...) Compreendo (...) Obrigado, Doutora Bazan. Irei aguardar o seu relatório (...) Até. - finalizei a ligação após falar brevemente com a advogada da qual eu havia mandado à reunião em meu lugar e levantei-me do sofá, ainda me sentindo um pouco abatido devido a medicação. Peguei a minha pasta de documentos e caminhei até a área externa que dava acesso à varanda a fim de aproveitar o clima agradável da noite para ler alguns processos, me sentei na poltrona que ali se encontrava e, previamente a iniciar a minha tarefa anteriormente planejada, olhei casualmente através do vidro da extensa janela de correr e avistei, de longe, caminhar cheia de sacolas e pacotes de mercado em suas mãos, esforçando-se para andar e enxergar entre todas aquelas embalagens. Ela seguia rumo à sua casa com aparente complicação em meio a passos desordenados, então, com o intuito de ajudá-la, me ergui e fui até onde a garota se encontrava.
- Ei, deixe-me te ajudar. – ofereci a , que levantou o olhar curioso dentre os pacotes. Eu quase ri de seu esforço em tentar me avistar.
- Obrigada, mas... está tudo... sob controle. – ela respondeu com dificuldade enquanto tentava subir o único degrau contido no início da varanda de sua casa. Ri e neguei com a cabeça frente a sua teimosia.
- As sacolas estão quase te engolindo. – ressaltei irônico, ouvindo-a resmungar algo. Seu pé topou com o degrau rápido demais para que um desastre fosse impedido, com isso, todas as compras contidas na embalagem desabaram no chão. praguejou, abaixando-se e eu fiz o mesmo, recolhendo os objetos espalhados por ali.
- Obrigada. – ela sorriu encabulada e colocou uma lata de molho de volta na sacola. – Aparentemente, a gravidade me odeia. – resmungou de um jeito bem humorado, arrancando um breve riso de mim.
- Receio que seja uma relação difícil.
- Infelizmente. – riu e se levantou, dessa vez, com menos pacotes em mãos, já que eu segurava alguns. Abriu a porta de sua casa e fez um sinal para que eu entrasse e a acompanhasse até a mesa, onde depositou as compras que carregava. Eu já não me recordava tão bem daquele local que fora cenário de diversos acontecimentos da minha infância e adolescência.
- Quanto tempo que eu não venho aqui... – comentei arbitrariamente enquanto observava tudo de modo sucinto, parado na cozinha em conceito aberto com as mãos no bolso da minha calça. A garota que antes guardava algumas coisas no armário virou-se para me olhar com uma expressão serena.
- Sinta-se em casa. – gracejou sarcástica, eu a olhei e arqueei uma sobrancelha rindo fraco de sua piada pífia. Varri o lugar com os olhos, observando atentamente os diversos quadros espalhados pela parede e parei em um retrato onde , sua mãe e mais algumas pessoas posavam sorridentes e descontraídas para a foto. Ela acompanhou o meu olhar e sorriu.
- É a minha família por parte de pai. – explicou. A encarei meio confuso e ela apontou para o porta retrato que eu fitava anteriormente. Assenti em compreensão.
- E a família da sua mãe? – perguntei em um ato impensado, notando a garota torcer o nariz e dar de ombros. – Desculpe a intromissão.
- Não, tudo bem! – ela sorriu. – É que a nossa relação é meio... Inexistente. A minha mãe engravidou de mim muito cedo e os pais dela não aceitaram, viraram as costas e a expulsaram de casa. Pelo que eu sei, eles eram bem conservadores.
- Você nunca viu os seus avós?
- Não. Nós não temos contato. – sua feição terna transparecia uma sutil tristeza em meio ao seu sorriso cabisbaixo, o que causou um incômodo inusitado em mim. – Mas não tem problema, porque embora a família do meu pai more em outra cidade, temos uma relação ótima, então não é o fim do mundo. - Ela recobrou o genuíno sorriso habitual e virou-se para a pia com a finalidade de lavar não sei o quê. Ao pressionar a válvula da torneira, o jato de água saiu com muita pressão, esguichando o líquido por todo o lugar. – inclusive em , que deu um gritinho afetado enquanto tentava conter o jato desordenado.
O que não surtiu efeito algum, haja vista que o encaixe da válvula havia se soltado.
Corri até lá e tentei encaixá-lo de volta enquanto esforçava-se na tarefa de controlar o aguaceiro desenfreado que ensopava a nós dois e a cozinha em uma cena quase patética protagonizada por ambos.
- Você sabe onde fica o fornecimento de água da pia? – questionei, virando o rosto para evitar que a água espirrasse em mim.
- Ali embaixo. – ela repetiu o meu ato e apontou com a cabeça em direção a parte debaixo do lavatório. Abaixei-me e localizei o registro individual, fechando ambas as válvulas rapidamente. Ergui-me novamente assim que o fluxo de água fora interrompido, vendo retirar as mãos da torneira completamente encharcada, assim como eu. – Como isso aconteceu? – questionou para si mesma durante o tempo em que contemplava desolada a peça que se soltou da torneira em sua mão.
- Queria ter a resposta para a sua pergunta. – respondi, passando a mão em meu cabelo molhado. Ela olhou o chão tomado por água e suspirou.
- Vou ficar até amanhã arrumando essa zona. – reclamou irritadiça, retirando um pano de dentro de uma das gavetas, esfregando-o no chão. – Obrigada pela ajuda com as compras e com o registro, – levantou os olhos para me olhar e sorriu. – não vou mais tomar o seu tempo.
Ver aquela bagunça e sozinha para limpar tudo me deu pena. Em um ato voluntário, agachei-me e peguei um dos panos que a garota retirou da gaveta, secando uma parte do piso molhado.
- O que você está fazendo? – indagou exasperada ao me ver com o pano em mãos e eu a fitei com o uma sobrancelha arqueada.
- Acho que parece óbvio, não é? – retruquei irônico.
- , há poucas horas você mal conseguia manter os olhos abertos. Não deveria fazer esforço, você ouviu o Doutor! – repreendeu inconformada. A encarei em puro tédio sem conseguir reprimir o sorriso ladino em meus lábios.
- Estou secando um chão, não disputando uma maratona. – franziu o cenho ultrajada com a minha resposta.
- Não acho que seja adequado que você faça isso.
- Eu posso saber o motivo? – questionei crítico, já imaginando o que viria a seguir.
- Porque... Você não faz essas coisas. – explicou embaraçada, gesticulando em direção aos panos e ao chão. Franzi o cenho, quase ofendido com a sua fala.
- Até onde eu sei, eu tenho mãos e todos os membros que me possibilitam executar qualquer tipo de tarefa, . Não entendi o seu ponto. – Rebati ácido. Ela suspirou e tocou as têmporas por poucos segundos, tornando a me olhar.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Não, não entendi. Por que eu não faço “essas coisas?” – Insisti. bufou impaciente.
- Quer mesmo que eu esclareça? Achei que só o lugar em que você vive já deixasse subentendido. – Revidou, tombando ligeiramente a cabeça para o lado com um sorriso nos cantos de seus lábios.
Permaneci com a expressão descontente e fechada.
- Você supôs uma característica da minha personalidade somente tomando como base o meu estilo de vida? , eu não sou assim.
- Eu sei que não. – o sorriso continuava lá, porém, agora mais meigo. – Mas ainda assim é estranho, sabe? Não disse por mal.
- Deixe-me ajudar, tudo bem? – falei, cravando a minha atenção em seus olhos atentos. – Eu quero. – suspirou mais uma vez e assentiu com a guarda mais baixa, me fitando da mesma forma.
- Certo. Você quem sabe. – abaixou o olhar e tornou a mover o pano no piso. Durante milésimos de segundos encarei o nada onde, anteriormente, os olhos contemplativos de me estudavam e passei uma mão em minha nuca, inquieto.
Franzi o cenho outra vez e resolvi voltar à situação anterior, secando a possa d’água do piso.

Após alguns minutos focados no chão, pegou o rodo e começou a puxar o resto da água. Com isso, apanhei outro pano e resolvi enxugar os respingos de água que caíram nos armários. Incomodado com a camisa molhada, retirei-a e a coloquei no balcão, imediatamente me sentindo melhor sem o tecido colado em meu corpo.
- , você pode me dizer onde tem outro pano? – perguntei, voltando a minha atenção à garota que encontrava-se ruborizada. Ela piscou algumas vezes aparentando estar aturdida e eu ergui uma sobrancelha sem entender. – Está tudo bem?
- Sim! Claro, estou bem. – falou, sorrindo e assentindo freneticamente enquanto sacudia o pano que ela usava para enxugar o chão. – Vou procurar, só um instan...Ai!
Enquanto chacoalhava o tecido, bateu a ponta dele em um de seus olhos, automaticamente o soltando e levando as mãos no lugar atingido.
E foi naquele momento que eu tive certeza: Ela era a pessoa mais desastrada que eu conhecia.
Levantei-me em um pulo e fui até ela, que permanecia resmungando baixinho apertando o local.
- Ei, calma! Não faça pressão, só vai piorar. – disse, retirando sua mão dali. Seu olho ferido continuava firmemente fechado.
- Mas está ardendo! – reclamou em um murmúrio desconsolado, quase adorável, se não fosse aquela situação.
- Vem cá. – A guiei gentilmente até onde eu lembrava ser o banheiro e abri a torneira de lá. – Deixe cair bastante água nos olhos.
fez o que lhe foi dito e, em seguida, desligou a válvula, ainda com o olho baixo, embora já conseguisse o abrir mesmo que minimamente.
- Está muito ruim? – questionou preocupada.
- Não. Deixe-me ver. – pedi, me aproximando dela. Apoiei minha mão em seu rosto e toquei o olho machucado com cuidado, notando apenas uma leve vermelhidão no local.
E também notei a respiração pesada de bater contra o meu rosto.
Desviei a minha concentração do lugar atingido pelo pano e a fixei na garota imóvel à minha frente, que me fitava de uma forma que eu não conseguia identificar.
De acordo com a física, a força de atração recíproca é chamada de força elétrica, e essa sucinta explicação descrevia todo aquele instante. Repentinamente algo me atraiu para os olhos de , algo do qual era difícil desviar. Ela escorreu seus olhos pelos meus e desceu até a minha mão pousada em seu rosto, voltando a me analisar. Uma merda de agitação inusitada se fez presente, algo que eu não soube identificar, contudo, que aumentava na proporção em que eu estudava a face delicada da garota atenta à minha frente.
Que diabos eu estava pensando?
Franzi o cenho totalmente confuso e sem reação e, como se pudesse ler os meus pensamentos, quebrou aquela atmosfera inexplicável.
- Eu acho que posso terminar tudo sozinha agora. – Em um gesto de puro reflexo, ela tocou quase que imperceptivelmente o meu tórax desnudo em um pedido mudo para que eu me afastasse. Reprimi a contração naquela área em resposta àquele ato e me afastei rapidamente. A sua voz baixa mais pareceu um sopro em meus ouvidos.
- Certo... Tudo bem. – Limitei-me a dizer.
- Obrigada pela ajuda.
- Por nada. – acenei com a cabeça e ela me lançou um “tchauzinho” com as mãos. Dei as costas e saí do cômodo, passei pela cozinha para pegar a minha blusa e a joguei de qualquer jeito em meu ombro, me retirando da residência completamente perdido.
Mas que porra foi aquela?
Esfreguei o cabelo e, logo após, o rosto, na tentativa de me situar.
Recolhi todas as folhas que eu havia deixado na poltrona da área externa e as guardei na pasta, rumando para dentro de casa me sentindo nervoso e irritado.

O domingo estava mais monótono do que de costume.
Havia andado com Bento, ligado para o Senhor Feldmann e estudado alguns casos pendentes, dedicado ao máximo a evitar evocar os flashes a respeito da estranha e aleatória cena da noite anterior.
Como sempre, Cassie encontrava-se fazendo as mesmas birras infantis de sempre e não me atendia ou sequer visualizava as minhas mensagens.
Pro inferno ela e suas atitudes imaturas. Não era como se eu fizesse muita questão, para ser sincero.
Somente vi durante o tempo em que ela recebera o encanador que concertaria a pia de sua casa e, após isso, não a avistei durante o resto do dia. Isso não era habitual dela, já que sempre brincava com Bento todos os domingos.
Ouvi uns burburinhos vindos do andar de baixo e saí do escritório, identificando a voz da minha mãe. Desci as escadas e a encontrei falando com , que somente ouvia e assentia. A mulher sorriu para mim e eu acenei para ela, que fez menção de subir as escadas com as malas.
- ! – a chamei e ela virou-se.
- Sim, senhor?
- Deixe as malas aí e vá para casa. Eu mesmo as levo.
- Não, tudo bem. Eu posso fazer isso. – Ela argumentou prestativa e eu neguei.
- Eu faço. Só vá descansar. – olhou para minha mãe, que apenas balançou as mãos, permitindo que ela se retirasse.
- Obrigada. – a mulher sorriu terna –. Boa noite.
- Boa noite, .
- Boa noite. – minha mãe respondeu e ausentou-se, deixando a mim e a Dona Kyara a sós.
- O que houve com você, ? O seu pai me ligou enfurecido com mil reclamações a seu respeito! – ela exclamou alarmada e eu massageei as têmporas em cansaço só de imaginar o que aconteceria ao encontrar meu pai.
- Boa noite, mãe. – cumprimentei irônico, vendo-a revirar os olhos. – Não pude ir à reunião, tive uma crise de enxaqueca.
- Desde quando você tem enxaqueca? – minha mãe questionou preocupada.
- Desde ontem, aparentemente.
- Está tudo bem? Como você foi ao médico?
- Estou bem, tenho uma consulta com o neurologista amanhã. O Doutor Elish veio aqui e me atendeu.
- E o que ele disse?
- Não me recordo direito, ele falou com a . – Respondi e imediatamente notei a sua expressão de dúvida.
- Com a ? Por qual motivo?
- Ela me ajudou e foi ela quem ligou para o Doutor. – expliquei calmamente, pedindo aos céus que a minha mãe –que cerrou os olhos no mesmo instante em que eu lhe dissera a última frase- não implicasse com isso.
Ao que tudo indica, os céus me ouviram, pois a sempre argumentadora Dona Kyara somente assentiu em silêncio.
- Seu pai chega amanhã e vai direto para o escritório. – assenti sem animação.
- Como foi a viagem? E as consultas?
- Tudo normal, estou bem. – falou sem mais detalhes e eu arqueei a sobrancelha com a falta de informação. – Irei me recolher, faça o mesmo e tente ter uma boa noite de sono. – Depositou um afago em meus ombros e subiu as escadas.
Passei as mãos pelos cabelos e respirei fundo, desejando pular o dia de merda que se aproximava ao passo em que o domingo se encerrava.

(...)


- Você é um irresponsável! Como pode deixar de ir a uma reunião importante da qual eu te deixei encarregado, ? – meu pai bradou pela enésima vez naquela segunda-feira chuvosa e, para variar, estressante. Havia acabado de voltar da consulta com o neurologista e segui direto para o escritório. Tudo o que eu queria era um pouco de sossego.
Queria.
- Pai – comecei, reunindo toda a paciência que eu lutava para não perder. – Eu tive uma crise forte de enxaqueca, já te expliquei. O Doutor Elish me atendeu em casa e não permitiu com que eu viajasse.
- Que se dane! Uma dorzinha de cabeça, francamente. – com muito custo ignorei a sua reclamação. Só eu sei a dor do caralho que eu senti.
- Aconteceu alguma coisa de errado na reunião? Eu mandei a Doutora Bazan no meu lugar, ela é de confiança.
- Sorte a sua que deu tudo certo, mas isso não justifica a sua falta de bom senso. – queixou-se com o seu olhar de reprovação.
Permaneci com a postura impassível.
- Desculpe-me, pai. Da próxima vez eu darei um jeito de agendar a minha crise, que tal? – falei debochado, dando um sorriso cínico. Meu pai estreitou os olhos na minha direção como se aquilo fosse me partir em mil pedaços.
- Não brinque com a minha paciência, . Da próxima vez eu te coloco pra fora daqui sem remorso algum por você ser meu filho. – ameaçou e eu ergui uma sobrancelha devido às suas palavras.
- Não se preocupe, senhor . Eu sou muito bom no que faço e o senhor sabe disso. Não estou aqui somente por ser seu filho. – concluí sob a análise séria do meu pai. Ele apenas virou as costas e saiu, finalmente me deixando sozinho em minha sala para que eu começasse a pesquisa a respeito de cada pessoa que estava na festa em que o crime contra Mason Zummack ocorrera. Eu iria conseguir ao menos um depoimento a favor do meu cliente e ameaça alguma dificultaria o meu sucesso nesse caso maldito.
Era uma questão de honra.

Eu havia ficado o dia inteiro naquela incessante pesquisa. Pedi para que entregassem o meu almoço em minha sala e não desgrudei do computador um minuto sequer. Depois de várias horas lendo e relendo a respeito de todos os convidados da festa, eu pude, enfim, suspirar aliviado. Consegui ótimas informações sobre um empresário em especial, e, a julgar pela sua ficha, ele definitivamente concordaria em me ajudar. Desliguei o aparelho e olhei no relógio, me assustando com a hora. 21hrs15min. Juntei as minhas coisas e peguei o meu terno, me dirigindo para fora do escritório, que se encontrava quase vazio. Despedi-me de algumas pessoas por ali e segui para o estacionamento olhando atentamente para todos os lados, certificando-me de que nada de estranho estivesse no local. Eu passei a ter cuidado redobrado enquanto andava por aí. Entrei no meu carro e dei partida em direção a minha casa, dirigindo calmamente ao passo que tamborilava meus dedos no volante ao som da música baixa que soava pelo rádio. Alguns minutos depois, já terminava de estacionar o veículo na garagem, sendo recepcionado pelo meu cachorro, que pulava energicamente em mim, como sempre.
- Beleza, amigão? – o saudei, acariciando sua cabeça. Ainda sentia o gosto horrível da medicação pra maldita enxaqueca na minha boca. Precisava de água. Segui pela parte de trás da casa com a finalidade de entrar pelos fundos em direção a cozinha, e, assim que o fiz, me deparei com uma cena um tanto quanto cômica.
lavava louça distraidamente enquanto ouvia música pelos fones, murmurando a melodia e fazendo uma dancinha que, se não fosse tão engraçada, seria até interessante.
Encostei-me no batente da porta e cruzei os braços, encarando de modo divertido a garota à minha frente, que ainda não havia notado a minha presença no local. Quando ela virou-se para pegar o pano de prato, deu de cara comigo ali, olhando-a com a sobrancelha arqueada e um sorriso brincando em meus lábios. Vi o seu rosto se contorcer de susto e imediatamente adquirir um tom vermelho, ficando petrificada ao mesmo tempo que me fitava totalmente desconcertada.
- Você é a pessoa mais animada que eu já vi lavando uma louça. – brinquei, ainda na mesma posição a observando. estava quase roxa e eu ri, fazendo-a rir comigo em meio ao seu acanhamento.
- Cada um se diverte do jeito que pode. – deu de ombros ainda rindo e eu concordei, saindo da porta e andando até a geladeira em busca de um copo d’água. – deixa que eu pego pra você. – ela falou ao me ver pegando um copo e abrir a geladeira.
- Não precisa. Pode continuar dançando se você quiser, não quis atrapalhar. – gracejei, tomando calmamente o líquido gelado, e, olhando de soslaio, pude vê-la estreitar os olhos na minha direção. Murmurou um “que engraçado” quase inaudível que me fez rir brevemente e virou-se pra frente, secando a pia. A vi bocejar e coçar os olhos, ainda limpando o lugar. Fui até lá e depositei o copo ali, fazendo um sinal com a mão para que ela parasse de fazer aquilo, recebendo um olhar confuso em resposta ao meu ato quando ela se virou para me encarar.
- Quer alguma coisa? – indagou desorientada e eu neguei com a cabeça.
- Você não precisa fazer isso.
- Fazer... O quê? – continuou me olhando como se eu fosse louco e eu delicadamente peguei o pano de suas mãos, colocando-o em outro lugar enquanto a garota acompanhava os meus movimentos com o cenho franzido.
- Limpar, . Você não recebe pra isso e eu sempre te vejo pra lá e pra cá servindo, arrumando... Não é o seu emprego.
- Mas é o da minha mãe. Se eu não ajudá-la ela dorme e acorda nessa cozinha. – respondeu ríspida e eu levantei uma sobrancelha, não esperando esse tipo de atitude. Ela abaixou o olhar por alguns segundos e respirou fundo, voltando a me fitar com os olhos cansados. – Desculpe. É que você não entende, sabe?
Lá vamos nós.
- Eu entendo que a minha mãe está abusando do poder dela com vocês e isso não é certo - falei, não quebrando o nosso contato visual.
- Existem muitas coisas que não são certas, , mas nem por isso nós deixamos de fazê-las. – me lançou um sorriso fraco, quase doce, e eu não soube o que dizer. Na verdade, eu até saberia, entretanto, me limitei a assentir vagarosamente e continuar estudando o seu olhar, que parecia fazer o mesmo, assim como há dois dias.
E a porra do dejavú me atingiu em cheio.
Seus olhos – anteriormente focados nos meus – viajaram pelo meu rosto com uma calma quase torturante, e então, pararam no espaço entre nós. Só nesse momento eu percebi que, no instante em que se virou para falar comigo, a distância que nos separava diminuiu. Franzi a testa, embaraçado, e me distanciei dela, que deu as costas e voltou a mexer em sei lá o que na pia.
Um silêncio constrangedor tomou conta do lugar até que adentrou na cozinha com uma bandeja em mãos e duas xícaras postas nela. Intrigada, passou os olhos pela filha e por mim. Coloquei as mãos no bolso da calça acenando com a cabeça e lhe desejando “boa noite” que me foi respondido de modo simpático, como ela sempre fora.
- Está precisando de algo, ? – questionou e eu neguei com a cabeça.
- Não, só vim beber um copo d’água, obrigado. – falei, já seguindo para a saída do local. – Boa noite, . – disse para a garota que desviou a atenção da louça para mim.
- Boa noite. – sorriu amigável.
Saí de lá e, ao chegar na sala, parei no meio do caminho.
Minha mãe e Cassie conversavam sentadas no sofá.
- ! Olha que surpresa boa. – minha mãe disse, referindo-se à Cassie, que apenas deu um sorriso fechado.
- Estou vendo. – respondi ainda encarando as duas.
- Bom, vou deixá-los a sós. – ela disse, levantando-se. – Fique à vontade, querida. Até mais. – falou para minha namorada, logo desaparecendo do cômodo. Permaneci parado olhando sério para Cassie, que levantou-se ressabiada.
- O me contou que você passou mal no sábado. Como você está? – me perguntou, andando vagarosamente ao meu encontro.
- Estou melhor. – falei seco. Eu estava puto com ela e sem paciência alguma para DR, além de não sentir disposição alguma para uma reconciliação.
- Nós podemos subir para conversarmos? – indagou e eu suspirei, bagunçando os cabelos.
- Acho tudo pode ser falado aqui.
- Por favor. – insistiu em suplício. Cedi e fiz um sinal para que ela me acompanhasse.
Subimos as escadas em silêncio, e, chegando ao meu quarto, fechei a porta e joguei o terno em qualquer canto, vendo Cassie sentar-se na ponta da minha cama. Encostei-me em uma cômoda e cruzei os braços, encarando-a e esperando com que ela começasse a dizer o que queria.
- Podemos ficar em paz? Sem brigar?
- Eu que te pergunto, Cassie. Podemos? – rebati.
- Eu devia ter te atendido. – falou e eu assenti. – Você foi ao médico?
- Fui. Fiz uns exames, mas está tudo bem.
- Que bom, fico aliviada.
Silêncio de novo.
Eu estava esperando um pedido claro de desculpas, porém, se tratando de Cassie, vir até a minha casa para conversar possivelmente já exigiu um grande esforço dela.
O problema é que eu já havia me cansado desse tipo de situação e eu não me sentia mais da mesma forma sobre muitas coisas. Sentimentos mudam, pessoas mudam, o desgaste nos fazer mudar. Eu só não sabia até quando insistiria no nosso relacionamento.
- Cassie, você ficou em uma festa mesmo quando eu te liguei inúmeras vezes e te enviei inúmeras mensagens! Tem noção da merda que isso é?
- Eu estava com raiva! – ela se defendeu e eu baguncei os cabelos em um sinal de puro nervosismo.
- Então "estar com raiva" é uma justificativa para agir de forma desprezível?
- Não vamos começar, eu vim aqui para que nós possamos nos resolver. – minha namorada falou e eu apenas assenti.
- Vou tomar um banho, já volto. – falei, indo em direção ao banheiro.
Despi-me e entrei no chuveiro, respirando fundo ao sentir a água morna em contato com a minha pele. Alheio a tudo, deixei com que os pensamentos fossem parar em quem eu menos esperava: . Era sempre muito agradável conversar com ela e eu me sentia bem ao seu lado, como se houvesse compreensão entre nós. O assunto fluía de forma agradável, o humor geralmente estava presente e algum tipo de sentimento mútuo fazia com que eu gostasse de estar ao seu lado. A nossa aproximação repentina foi estranha, porém, me fazia bem. Nós sempre estivemos tão perto um do outro, entretanto, nunca nos conhecemos realmente. Era bom saber que isso estava mudando de uns tempos pra cá.
E, pra ser sincero, estava me agradando.
Lembrei da recente cena que ela protagonizara na cozinha enquanto dançava e cantava e ri fraco, balançando a cabeça. Ouvi um ruído vindo de algum lugar e me virei, vendo Cassie à minha frente nua e com uma expressão maliciosa.
- Tenho um ótimo jeito de nós selarmos o nosso acordo de paz. – disse enquanto se aproximava.
Não falei nada, apenas a puxei para debaixo do chuveiro e grudei o seu corpo contra a parede fria, notando-a se arrepiar.
- Então me mostre o quanto você quer se redimir. – disse no seu ouvido, mordiscando o seu lóbulo e soltando um gemido baixo ao senti-la arranhar as minhas costas.
Eu gostaria de acreditar que estava tudo bem e até poderia pensar que as coisas realmente se resolveriam, entretanto, enquanto beijava Cassie ali, debaixo do chuveiro, um lado da minha cabeça ficava repetindo que tapar o sol com a peneira não adiantaria mais.
Havia algo muito errado.

**

’s POV

Os últimos dias haviam sido demais para mim.
Bastava que eu fechasse os olhos e a cena do banheiro vinha à minha mente sem pestanejar, e, mesmo que eu me esforçasse para guardar aquele momento em meu baú mental de coisas relacionadas ao tudo o que eu conseguia era sentir o toque de suas mãos causarem uma corrente elétrica em meu rosto.
Aliás, que tipo de pessoa idiota bate um pano no olho, pelo amor de Deus?
Eu sou esse tipo de pessoa idiota.
O último tipo de pessoa idiota, a rainha mor* das pessoas idiotas. Eu estava tão distraída retirando o restante de água do chão que não havia notado e a sua brilhante ideia de ficar descamisado na minha cozinha.
Todo molhado.
Dada a situação, ara mais do que óbvio que eu passaria algum tipo de vergonha. E como se não bastasse, mais uma vez, o clima esquisito entre nós retornou também naquele instante. Há poucos minutos, para ser mais exata. Tentar compreender já não era mais uma opção, haja vista que eu voltaria às mesmas respostas de sempre: Não existia nada a ser compreendido. Ainda moderadamente encabulada com o pequeno incidente envolvendo a mim e estendi a mão em direção a minha mãe em um pedido mudo para que ela me entregasse a bandeja que ela segurava, para que assim eu pudesse lavá-la juntamente com as xícaras postas sob a pia. Terminando de fazê-lo, olhei em direção a mulher ao meu lado vendo-a pegar uma vassoura com a finalidade de iniciar a limpeza do chão, notando, também, que ela encontrava-se mais exausta do que eu no momento que espirrou e pousou uma mão em seu quadril, descansando por alguns instantes.
- Está tudo bem? - questionei preocupada, indo até ela e retirando a vassoura de suas mãos.
- Sim. É só um resfriado chegando. – respondeu, tentando pegar o objeto de volta.
- Você deveria ir descansar, mãe. Só falta varrer e encerar o chão, certo? – ela assentiu – Então deixa que eu faço.
- ... – Nem mais um piu, Dona . Tchauzinho, já deu a sua hora. – brinquei pegando em seus ombros e gentilmente a levei para a porta. Ela negou com a cabeça e riu.
- Obrigada, filha. Não demore, sim? Você acorda cedo amanhã.
- Não se preocupe comigo. Vá se deitar, tenho tudo sob controle por aqui. – falei. Minha mãe concordou e retirou-se, caminhando encolhida pelo frio em direção à nossa casa.
Voltei à cozinha e dei início à limpeza, varrendo todos os cantos do cômodo, levando um bom tempo somente naquela etapa. Enquanto eu finalizava o processo de encerar o chão, ouvi um ruído de passos se aproximando. Ergui-me parcialmente em um ato automático e inesperadamente encontrei Cassie ali, usando apenas uma camisa – que decerto pertencia ao – me encarando de forma inexpressiva. Como se nem houvesse me visto, ela abriu a geladeira e pegou uma garrafinha d'água, saindo logo depois e ignorando a minha presença.
Empaquei durante alguns segundos fitando a porta pela qual Cassie havia acabado de sair. Meu estômago afundou e eu senti a tão conhecida desolação tomar conta de mim por saber exatamente o que aquela blusa em seu corpo significava. Eu nunca me acostumaria.
Como eu disse, não havia nada para ser compreendido.
Suspirei pesarosa e, desanimada, concluí a limpeza do piso que agora encontrava-se devidamente polido, me retirando dali com rapidez até a minha casa, querendo apenas uma boa noite de sono.

**

Na manhã seguinte despertei antes mesmo do alarme tocar, o que indicou que o dia já havia começado errado.
Eu definitivamente poderia ter lindos sonhos naqueles dez minutos de sono restantes.
Levantei-me da cama e me arrastei em direção ao banheiro, sonolenta demais para raciocinar direito àquela hora do dia. Após terminar de me arrumar, topei com a minha mãe na cozinha e me espantei ao ver a sua face abatida.
- Bom dia, filha. – ela cumprimentou-me e a voz rouca denunciou o seu estado.
- Bom dia. Acho que alguém não acordou muito bem hoje. – presumi tomando um grande gole de café e devorando um pedaço de bolo.
- A gripe realmente me pegou, meu corpo todo dói. – reclamou fatigada mal tocando no café da manhã. Franzi o nariz, não gostando nada de vê-la assim.
- Você deveria tomar algo e tentar dormir mais um pouco.
- Nem pensar! Tenho muita coisa para fazer hoje. – mais um espirro fez-se audível e eu a encarei em puro tédio, demonstrando que ela definitivamente não teria condição alguma de sequer pegar em uma colher.
- O que você precisa preparar agora na casa dos ? - É necessário que a mesa do café esteja posta às sete e meia. – respondeu e eu chequei o horário em meu relógio de pulso. Se eu me apressasse, talvez conseguisse servir em seu lugar. Não faria bem para ela esforçar-se tanto estando tão debilitada.
- Certo. Explique como você faz e eu vou até lá. – me ofereci, imediatamente escutando os resmungos e desacordos da minha mãe. Apoiei uma de minhas mãos em meu queixo aguardando que o seu discurso de discordância se encerrasse, sem sinal algum de que eu a ouviria e deixaria essa ideia pra lá. Eu só teria que servir o café da manhã, afinal. Não era nenhum bicho de sete cabeças, eu já havia feito isso outras vezes e em outras circunstâncias. – Pronto? – indaguei tediosa ao ouvi-la terminar de falar, recebendo um olhar de repreensão em resposta. – Mãe, é sério, olha como você está. Durma mais um pouco, eu organizo o café da manhã. Não é difícil. Contanto que tudo esteja em seu devido lugar, a senhora não irá reclamar.
- , você já me ajudou ontem. Você não deve fazer esse tipo de coisa.
- E por que não? Faço porque quero, não gosto de te ver se matando naquela casa. Você começou como cozinheira, mas agora faz de tudo, sendo que existem mais dez funcionários aqui!
- Faço o que me pedem, filha. É o que nós temos por enquanto. – notei a tristeza na entonação de sua voz e aquilo cortou o meu coração a ponto de despertar em mim uma pequena vontade de chorar. Puxei o ar tentando me recompor e assenti.
- Eu sei. – respondi em um fio de voz. Eu queria tanto melhorar a nossa vida para nos tirar daqui. – Agora vá se deitar e deixa que eu me viro, é sério. – Peguei a minha bolsa e, já parada na porta, contemplei minha mãe negando com a cabeça no emblemático sinal que ela fazia ao dizer “que eu não tinha jeito”.
- Há essa hora o Cícero já deve estar retornando da padaria. Coloque os pães na cesta e leve-os à mesa. Tem bolo no forno, o deixei pronto ontem à noite. Peça para que ele te ajude a pegar tudo – assenti absorvendo a sua explicação. Dei-lhe um beijo no rosto e me despedi, caminhando não muito animada rumo à mansão.
Abri a porta da entrada de serviço sorrindo largo quando avistei Bento deitado ali, balançando o seu rabo animadamente ao me ver.
- Bom dia! – o cumprimentei acariciando seu pêlo sempre macio. – Não vou poder brincar com você, me desculpe. Tenho coisas para fazer. – lamentei, indo lavar as mãos e iniciando a minha a preparação para o café. O Pastor continuou deitado somente me encarando.
- Ei, ! Bom dia, mocinha. – Cícero adentrou o lugar com o seu típico jeito de avô, carregando consigo algumas sacolas. Ele era um senhor de cinquenta e poucos anos extremamente simpático que sempre andava sorrindo por aí. Assim como minha mãe, ele também trabalhava para os há anos, porém, como uma espécie de mordomo.
- Bom dia! Como o senhor está? – sorri largo para ele indo ajudá-lo com as sacolas, depositando-as em cima da mesa e já retirando os pães de lá.
- Estou bem, obrigado! O que faz aqui? Você irá se atrasar para a aula, menina! – O senhor informou exasperado me arrancando uma risada.
- Minha mãe acordou um pouco indisposta essa manhã, então me prontifiquei a servir o café hoje. – expliquei enquanto regulava a cafeteira, que logo iniciou o seu trabalho.
- Oh. O que ela tem?
- Gripe – fiz uma careta, tirando os frios da geladeira.
- Vou fazer um chá que é tiro e queda e levar para ela. – Cícero expressou animado ao meu encalço, eu ri e o agradeci enquanto andávamos até a área em que os tomavam café da manhã, me ajudando com os preparativos da mesa e deixando tudo arrumado. Retornamos à cozinha – que àquela altura já emanava o delicioso cheiro de café por todo o cômodo –, aguardando que a máquina concluísse o restante de sua função.
- Será ótimo, muito obrigada – agradeci gentilmente. A senhora adentrou a cozinha e nós imediatamente paramos de conversar. O cheiro forte do perfume adocicado substituiu o aroma da cafeína, preenchendo o ambiente. Sempre aprumada em seus saltos elegantes, me fitou duvidosa e eu arrumei a postura, pronta para dar as devidas explicações.
- Bom dia. Onde está sua mãe? – indagou nitidamente não sabendo o motivo de eu estar ali.
- Bom dia, senhora. Ela não está se sentindo muito bem, por isso vim servir o café no lugar dela. A mesa já está posta, a propósito. – Dona Kyara pareceu avaliar as minhas palavras por alguns segundos, assentindo vagarosamente.
- Ela pretende se ausentar durante o dia inteiro?
- Não senhora. Só precisou descansar mais um pouco. – expliquei meticulosa, temendo que a mulher resmungasse alguma coisa.
O que surpreendentemente não ocorreu.
A senhora assentiu mais uma vez e deu às costas, rumando para fora da cozinha. Cícero e eu nos entreolhamos ressabiados, relaxando a postura.
- Podemos dizer que ela está de bom humor ou é muito cedo para isso? – o senhor perguntou fazendo graça.
- Acho que é muito cedo para concluirmos algo do tipo. – respondi baixo, como se falássemos um segredo muito importante, rindo junto a ele. – Tudo bem, eu levo o que resta. – coloquei o avental desajeitadamente em minha cintura, apanhando cafeteira e a cesta de pães em seguida. – Obrigada pela ajuda – sorri novamente e Cícero apenas fez um gesto com as mãos.
Deixei a cozinha percorrendo calmamente o caminho até o local recém arrumado, reunindo toda a concentração necessária para que nada fosse derrubado. Surgi no repartimento das dependências daquela parte da casa e parei no meio do caminho quando enxerguei todos sentados na mesa conversando tranquilamente.
E quando eu digo “todos”, me refiro ao senhor Henrico, a senhora Kyara, e Cassie.
Aquilo era a confirmação de que o dia REALMENTE seria um saco.
beijou Cassie rapidamente e sorriu, até que o seu olhar se conectou ao meu. Seu sorriso vacilou e nos fitamos por milésimos de segundos que, para mim, poderiam ser comparados com horas. Tentei me recompor –mesmo com a sensação ruim de aperto no peito– e retomei os meus passos, não o encarando mais. Desejei “bom dia” e resolvi focalizar toda a minha atenção nas xícaras à minha frente, deixando –cuidadosamente– a cesta com os pães em cima da mesa.
- Lembra da nossa estadia em Dubrovnik*? Que local maravilhoso! – Dona Kyara falou em meio a um assunto sobre viagens ou coisa do tipo.
- Claro! Como se esquecer da Muralha de Dubrovnik?* Talvez vocês dois devessem repetir aquela viagem, inclusive. – senhor Henrico disse para o filho.
Momentaneamente levantei o olhar com a finalidade de alcançar o açúcar e mais uma vez meus olhos esbarraram rapidamente com os de .
- É uma ideia maravilhosa, não acha, amor? – Cassie se voltou para ele, que aparentava estar alheio ao assunto. Ele piscou algumas vezes ambientando-se da conversa, mas nada respondeu.
Mesmo assim, meu peito apertou.
Terminei de servi-los e pedi licença, logo deixando o recinto tentando não transparecer que eu realmente queria sair de lá. Adentrei a cozinha e Cícero mantinha-se ali organizando alguma coisa em uma caderneta, por um triz de fazer os olhos saltarem de suas órbitas quando me viu.
- O que você ainda está fazendo aqui? Vá para a aula, menina! Eu recolho a mesa assim que todos terminarem de comer!
- Imagina, eu esper...
– Anda, anda! – Cícero me interrompeu. – Você já está atrasada, .
- O senhor tem certeza? Eu posso esperar e...
! – fui interrompida mais uma vez.
- Tudo bem, tudo bem. – coloquei as mãos para o salto, me rendendo. – Muito obrigada, de verdade! – dei-lhe um abraço meio desajeitado, ouvindo-o rir. Tirei o avental em meio a movimentos um tanto quanto desengonçados, peguei a minha bolsa e meu material e zarpei porta afora quase tropeçando em meus pés durante o tempo em que eu marchava apressadamente pelo quintal, sendo seguida por um Bento ligado nos 220 que provavelmente estava pensando que eu corria para brincar com ele.
- Eu juro que preferia brincar de correr esse quintal inteiro a ter que ir para a aula, mas, infelizmente, vamos ter que deixar isso pra depois. – disse com pesar ao Pastor Alemão, que parou assim que chegamos ao portão – Se comporte ok? Prometo lhe trazer um presente hoje. – o acariciei me sentindo uma mãe que deixa o filho na escolhinha pela primeira vez. Bento me encarou com os olhinhos desanimados e as orelhas baixas e eu quase dei meia volta para ficar com ele. Tornei a correr pelas ruas do condomínio agradecendo a todos os santos por não haver muitas pessoas pelo caminho vendo aquela cena ridícula, e até o porteiro me olhou estranho no momento em que eu passei feito o Flash através da portaria.
Quando eu disse que o dia iria ser um saco, não era brincadeira. Faltava pouco, muito pouco para eu chegar ao ponto de ônibus, e, como em toda boa Lei de Murphy*, o meu ônibus passou naquele instante.
A minha manhã certamente se assemelhava a uma parte de um filme de comédia romântica bem do ruim.
A propósito, eu era a mocinha que via o amor da vida dela combinando uma viagem cara junto da namorada maravilhosa.
C’est la vie*, meus amigos.
Praguejei alto e sentei derrotada no banco da parada de ônibus, quase tendo uma síncope durante o tempo de espera do próximo transporte. Minutos depois ele finalmente chegou, impedindo que eu tivesse um ataque ali mesmo. Logo que eu cheguei na faculdade disparei até a minha sala, dando de cara com a professora que saía após o término da primeira aula. Sorri fraco para ela e adentrei a classe, vendo me fitar com mil questões estampadas em sua face confusa.
- O que houve? – ela perguntou assim que eu me enterrei em minha cadeira. Joguei os braços por cima da mesa e enfiei a minha cabeça entre eles como se aquilo fosse fazer com que eu me sentisse melhor.
- Mu djia stá um pucu du avissu. – disse com a voz abafada devido a minha posição.
- Como é? , não entendi nada .– levantei a cabeça e respirei fundo, encarando a minha amiga preocupada.
- Eu disse que o meu dia está um pouco do avesso. – fez um sinal com as mãos, me incentivando a continuar. – Primeiro: – enumerei com o dedo indicador – Acordei minutos antes do despertador tocar; Segundo: – agora foi a vez de levantar o dedo médio – Minha mãe está doente; Terceiro: – ergui o anelar – fui servir o café para que ela descansasse e o casal vinte estava na mesa; Quarto: – mostrei o dedo mindinho – perdi o ônibus quando estava chegando no ponto; Quinto: – exibi o polegar – me atrasei e levei falta – finalizei. torceu o nariz e assentiu.
- O que a sua mãe tem?
- Gripe. Aparentemente não é nada demais, mas eu fico preocupada de qualquer forma, entende?
- Claro, eu compreendo. E sobre o e a Cassie...?
- Ah. – suspirei – Ela dormiu lá, além disso, a vi com a blusa dele ontem à noite enquanto eu limpava a cozinha. Hoje de manhã eles estavam falando sobre fazer uma viagem e não sei mais o quê. – concluí emburrada. Mais emburrada comigo por ainda sentir esse tipo de coisa, do que propriamente pela situação com os dois.
- ...
- Eu sei. Já era pra eu ter me conformado.
- Sim. Mas eu entendo que é difícil, não estou te condenando. Principalmente pelo que aconteceu no sábado. – pontuou se referindo ao pequeno “acidente” com a torneira da cozinha, onde eu corri para falar com assim que deixou a sua antiga casa de reuniões, que agora, era a minha moradia.
- Está tudo bem, eu já aceitei o fato de que o meu cupido me odeia muito. – resmunguei, fazendo rir.
O professor da aula seguinte entrou na sala e nós nos endireitamos em nossas mesas, prestando atenção no que ele falava.

**

Ao chegar em casa no fim do dia e checar se minha mãe havia melhorado, cumpri minha promessa feita pela manhã e decidi brincar com Bento, que estava eufórico com o Scooby-Doo de plástico, sua mais nova aquisição cujo eu me vi obrigada a obter assim que avistei na vitrine da loja. E bem, lá estava eu, fingindo – pela milésima vez – lançar o cachorro de plástico.
- Certo, eu vou jogar, ok? – ameacei com o brinquedo em minhas mãos. O Pastor Alemão me olhava em expectativa na espera que eu jogasse o bichinho para que ele pegasse, então – para a alegria dele – o fiz. Bento saiu em disparada pelo quintal e eu gargalhei de seu empenho em procurar o objeto como se fosse a coisa mais importante do mundo, vindo todo orgulhoso com o Scooby na boca no momento em que o achou.
- (...) Até agora eu não sei o que eu fiz de errado, mas enfim, não vou mais ficar nessas discussões ridículas. Não tenho condições (...) – enquanto aguardava Bento regressar de sua caça ao Scooby-Doo, ouvi de longe a conhecida voz grave de soar mal humorada. Franzi o cenho, olhando ao redor em um movimento automático para identificar de onde o som vinha. (...) - Faz um favor? Não vamos nos falar mais. (...) Cassie, tudo bem, eu entendi. – Bento retornou com o brinquedo pronto para mais um round de corrida, entretanto, ao invés de entregá-lo para mim, ele parou com as orelhas arqueadas ao ouvir a voz do dono e olhou em alerta na direção por onde o som vinha. (...) - Estou cansado e acredito que você também. (...) Cassie? Alô? Porra! bradou, parecendo mal humorado e eu fiz uma careta ao ouvi-lo praguejar irritado. Em seguida, ele saiu por trás da parede com a expressão não muito agradável, deu poucos passos enquanto encarava o celular e levantou o olhar, encontrando a mim – e o Bento – parados ali. Pisquei algumas vezes tentando buscando algo para dizer-lhe que explicasse a minha cara de tonta observando-o e que não parecesse que eu estava ouvindo a sua conversa, porém, nada me parecia adequado.
- Boa noite. – cumprimentou-me, desviando sua atenção para o Pastor Alemão que pulou em suas pernas com o brinquedo na boca.
- Boa noite. – respondi meio encabulada olhando-o acariciar seu cão. Ele pegou o Scooby e o analisou com o cenho franzido. – Ahn, eu comprei para brincar com o Bento. Espero que você não se importe. – esclareci e ele negou.
- Só estava tentando lembrar se eu já havia o visto antes, agora está explicado. – ele riu fraco e jogou o brinquedo para o Pastor, que saiu desembestado mais uma vez. Retirou um maço de tabacos do bolso e acendeu o cigarro calmamente, encostando-se à parede. Seu celular apitou em sua mão, ele cravou seus olhos no aparelho formando uma feição carrancuda enquanto lia algo que provavelmente o desagradou e, em seguida, o guardou.
Silêncio.
A única coisa que se ouvia eram os passos do Pastor Alemão elétrico que corria pra lá e pra cá animado demais pra quem já havia brincado bastante, contudo, não se esgotava nunca. Visto que o cão se entreteve sozinho, achei que o melhor a se fazer era ir para casa.
- Acho que ele não precisa mais de mim, – brinquei, apontando com a cabeça para o cão. – então já vou. – comuniquei a . Ele pareceu despertar de algum devaneio e me fitou sério, aparentando oscilar a respeito de algo. Desviou o olhar, mexeu nos cabelos daquele jeito que me deixava desnorteada e tornou a me observar, passando a língua pelos lábios rapidamente de um jeito natural que, se fosse proposital, não seria tão hipnotizante quanto aquele ato despretensioso.
Céus, ele era sem educação de tão lindo.
Gostar de alguém é um negócio estranho, porque a pessoa está lá apenas respirando e você pensa: “Puta merda, que ser humano maravilhoso.”
Ainda relutante, , enfim, disse alguma coisa.
- Não sei qual é o nosso nível de proximidade. – ele iniciou e eu estranhei, o encarando com a maior cara de nada possível –, mas... Você me parece ser a única pessoa com a qual eu consigo conversar de maneira decente. – riu sem humor. Paralisei sem entender a razão de sua confissão aleatória, sentindo o meu coração bater descompassado ainda assimilando a atitude imprevista dele, que finalizou o seu cigarro calmamente como se tivesse acabado de falar que gosta de pão.
- Que bom... – respondi incerta, sem ter a menor noção do que dizer. O homem à minha frente assentiu encarando um ponto qualquer do quintal, acendendo outro cigarro. Franzi o cenho em um gesto automático e o ato foi captado por , pois ele riu sarcástico enquanto soprava a fumaça, fazendo-a dissipar com o vento.
- Mau hábito. – comentou após a longa tragada. – Eu sei.
- O seu pulmão deve te odiar.
- Culpado. – declarou e riu fraco em um humor quase melancólico. – Você tem que ir, não é? Não quero te segurar aqui.
- Tudo bem. – sorri. –. Acho que eu posso ficar mais um pouco e conversar de maneira decente. – disse me referindo a sua revelação, notando um sorriso enviesado surgir por entre seus lábios através de seu olhar com uma de suas sobrancelhas arqueadas.
- Sua mãe está bem? Ouvi que ela estava indisposta hoje. – questionou.
- Sim, está. É só o início de uma gripe. – respondi me sentando ao lado de Bento, que aconchegou sua cabeça em meu colo. O homem – em pé e apoiado na parede – murmurou um “hm”, logo prosseguindo com a conversa.
- Imaginei que havia algo errado quando te vi hoje de manhã no café.
- Não é nada demais, ela está um pouco melhor. A Judith ficou no lugar dela.
- Não me refiro apenas à sua mãe. – levantei a cabeça a fim de olhá-lo em um ato explícito indicando que eu me encontrava confusa. manteve a sua postura contemplativa encarando o quintal. – Você não me parecia bem.
Eu tive vontade de rir.
Porém, rir de nervoso.
O meu desejo era dizer: “Como você se sentiria vendo a pessoa que você gosta com outro?”.
Mas eu não podia fazer isso e nem iria.
Ele não tem culpa, Cassie não tem culpa. A culpa era inteiramente minha.
Eu preciso bancar os meus sentimentos e aceitar as coisas como elas são, afinal.
Limite-me a sorrir tristemente e balançar a cabeça.
- É apenas cansaço.
- A faculdade está muito pesada? – perguntou.
- Um pouco. Não tenho dormido muito. – falei, e, embora fosse apenas uma desculpa à sua constatação, aquilo realmente era verdade.
- Você faz algo depois da aula? – indagou novamente.
- Faço triagem em uma clínica psicológica da faculdade. – não consegui deixar de sorrir ao dizer isso. Levantei-me e me encostei à parede.
- Estou me questionando sobre quantas vezes já perguntaram se você analisa todo mundo que conhece. – comentou, causando um riso em mim.
- Eu perdi as contas há tempos, é a primeira coisa que dizem! Ou senão falam: “Não começa a ler meus pensamentos, hein?!” – narrei com uma voz afetada e foi a vez de rir. – Eu ainda não tenho esses poderes, sabe?
- Em algum momento você já me analisou, ? – o tom sarcástico e sério contrastava com a brincadeira implícita na pergunta de , que me observava com a sobrancelha minimamente arqueada. Devolvi o seu olhar segurando o riso.
- É melhor eu não te contar todos os detalhes para você não me julgar. – fiz a maior cara de deboche que eu consegui.
- Como advogado, os detalhes me interessam bastante. – rebateu desafiador e piscou, voltando a olhar para frente com um sorrisinho sarcástico em seus lábios ocupados pelo cigarro.
- Pode ter certeza que só nessa conversa entre nós eu já fiz um tour pela sua psiquê. – falei em pura ironia, vendo a expressão de tornar-se divertida.
- Fique à vontade e volte sempre.
- Isso fez eu me sentir um espírito que tem a permissão de te possuir. – comentei em meio a uma careta e a gargalhada do homem à minha frente ecoou pelo ambiente.
- Isso foi péssimo, . – Acompanhei a sua gargalhada e dei de ombros.
- E a enxaqueca? Não sentiu mais nenhuma dor?
- Não. Ela está controlada.
- Que bom. – sorri. – Eu acho que já vou.
- Tudo bem. – assentiu. – Vejo você depois.
- Está bem. – dei um sorriso tímido e acenei, dando-lhe as costas sem dizer mais nada. Caminhei até minha casa e adentrei, me sentindo extremamente cansada. Desejei boa noite à minha mãe e segui em direção ao banheiro.
Um banho quente sempre proporcionava diversos benefícios aos meus pensamentos conflituosos e corpo exausto.

’s POV

Seis e cinquenta e cinco da tarde.
Enquanto eu dirigia em direção à academia após mais um dia cansativo no escritório, me peguei pensando a respeito das ligações das quais eu havia recebido no último mês. Por hora, eu não tive mais nenhuma surpresa desagradável, o que só me deixava cada vez mais em dúvida sobre a procedência das ameaças.
Por que elas ocorreram?
Elas ainda ocorreriam?
Quem estaria por trás disso?
Tudo era suspeito demais para que fosse deixado de lado. Entreguei o carro para o manobrista do estacionamento e entrei na academia, seguindo direto para o vestiário a fim de tirar o terno e colocar a roupa do treino. Feito isso, caminhei até o local onde Paolo e eu nos exercitávamos, logo o encontrando sentado no aparelho de musculação.
- Grande !
- E aí, Herzog? – o cumprimentei dando-lhe um breve tapinha nas costas e me dirigi até o equipamento, iniciando a minha atividade física.
- Fiquei sabendo que você estava enfermo esse final de semana. – ele disse em seu usual tom de fazer graça.
- É, eu fiquei meio mal. Como você soube? – perguntei desconfiado, já que não falei com Paolo durante o final de semana.
- A comentou comigo. – meu amigo respondeu e eu interrompi o meu exercício, direcionando o meu olhar duvidoso a ele.
- Quem?
- Uma amiga minha, ela estava na festa que eu dei no meu apartamento e também estava acompanhada daquela garota que mora na sua casa... Como é mesmo o nome dela? – questionou pensativo.
- ? - Isso! – puxei pela memória e me recordei sobre quem Paolo se referia.
- Isso não explica muita coisa. – afirmei tentando encaixar as informações que o meu amigo dava.
- Ai, ... Sempre querendo saber de tudo nos mínimos detalhes. – ele revirou os olhos de forma teatral e eu permaneci o encarando em um pedido mudo para que prosseguisse. – Eu vi uma ligação perdida da , quando retornei algumas horas depois, ela me explicou o que aconteceu e disse que a havia pedido o telefone da Cassie. – franzi o cenho diante de sua última fala.
- Pra que ela queria o número da Cassie?
- Eu sei lá, cara. Eu que te pergunto! – Paolo rebateu visivelmente curioso e eu neguei com a cabeça, demonstrando estar tão desorientado quanto ele.
- Ela me ajudou quando eu passei mal.
- Hm. E por que a Cassie não estava lá? – dei um riso repleto de escárnio, atraindo a atenção do meu amigo.
- Raros são os momentos em que nós estamos juntos. – respondi enquanto jogava um pouco de água no rosto.
- Ué. Como assim, ?
- Nosso namoro está uma merda. – confessar isso em voz alta me fez perceber quão cansado daquele relacionamento eu me encontrava. Me sentei no aparelho de musculação do qual eu utilizava e Paolo fez o mesmo.
- Pô, cara. Uma merda quanto?
- Acho que não tem mais clima, nós brigamos por absolutamente tudo.
- Eu percebi algo estranho na festa, realmente. – Paolo reparou e eu assenti.
- A relação já não é mais a mesma há tempos, certamente a tendência é piorar.
- Meu amigo, eu costumo ser bem objetivo quando o assunto é esse. Se você gosta dela, tenta melhorar o que vocês têm. Se não, termine isso e volte para a vida boêmia, pois ela nunca te rejeita – Paolo gracejou e eu dei um riso irônico anasalado. – Se está tão insuportável assim, por que continuar com isso? – ele avaliou assertivo e a sua declaração me fez refletir imediatamente.
A única coisa que eu sentia com Cassie era a sensação de estar cumprindo uma obrigação.
Notando o meu silêncio, Paolo prosseguiu. – Você está nesse namoro só por causa da bagagem que mantém os dois juntos?
Eram diversas perguntas sobre algo que eu ainda não havia sequer considerado. Tudo o que eu fiz foi permanecer com as mãos juntas frente ao rosto e permanecer calado.
- Faça o que você achar melhor, irmão. Mas não se prenda a algo que te trás infelicidade. – Paolo deu algumas batidinhas amigáveis em meus ombros e tornou a exercitar-se. Levantei-me e fiz o mesmo.
- Desde quando você virou a Oprah? – questionei sarcástico, recebendo um dedo do meio em resposta.
- Vá se foder, . Estou tentando ajudar. – ele disse em meio a risos e eu o acompanhei.
Aquela conversa havia esclarecido mais coisas do que eu imaginei.

’s POV

Que semana exaustiva.
Eu só queria dormir por um mês inteiro para que, talvez – eu disse talvez – fique disposta novamente. Eu dormia no máximo duas horas por noite completamente cercada de livros, trabalhos, provas, estágio, monografia e tudo o que eu tinha direito.
Eu não vivia.
Como se não bastasse tudo isso, também passei a ir todos os dias da semana para a loja de discos, pois fiquei encarregada de ensinar o trabalho para Vicenzo, que fora contratado para me ajudar. Ele era bem empenhado e bastante divertido, embora tenha cara de quem estoura balões de criancinhas nos parques. Vicenzo cursou dois anos de engenharia e largou para dedicar-se à sua banda, assumindo que o trabalho na RR – Retrô Record’s era apenas para passar o tempo, como um robby. Pois é.
Terminei de guardar as minhas coisas na bolsa ao fim do expediente quase cantarolando de felicidade por ser sexta feira e por ter recebido a ótima notícia de que não precisaria trabalhar no dia seguinte, já que a filha do senhor Sewell. – meu chefe – iria se casar.
- Fica, vai ter bolo. – Vicenzo surgiu em um salto ao meu lado e eu pulei de susto com a típica expressão “você quer que eu tenha um ataque do coração?”.
- Nem que você me oferecesse um bolo inteiro de sorvete eu não ficaria. Hoje quem fecha a loja é você – disse vendo-o fazer um bico e murmurar um “droga, era a minha cartada final”. Ri e coloquei uma mão em seus ombros, o confortando em meio àquele falso drama.
- Sinto muito, esse dia chega pra todos.
- Já que você recusou bolo, então aqui vai mais uma oferta – falou daquele jeito despreocupado, encostando o cotovelo no balcão e apoiando a cabeça em sua mão, me olhando de um jeito infantil que eu sabia que era proposital. Cruzei os braços e levantei o cenho, esperando-o dizer sobre o que se tratava a tal oferta – amanhã à noite a minha banda vai tocar em um barzinho, e você, senhorita, está convidada.
- Ah, Vicenzo. Seria ótimo, mas eu tenho muita coisa pra fazer. Fora que estou bem cansada – lamentei.
- Qual é, ! Para de ser semi-morta, faz suas coisas durante o dia e aproveite a noite – me olhou em puro tédio e eu torci o nariz, imaginando uma balança onde eu equilibraria as minhas prioridades x vontades. Não seria ruim ir vê-lo tocar, eu queria muito ir, porém, lembrar-me das inúmeras tarefas ainda inacabadas da faculdade me atingia como um balde de água fria.
- Fica pra próxima, sério.
- Por favoooooor. – pediu de um jeito arrastado fazendo bico e eu rolei os olhos, rindo. Ele era a personificação da frase “não julgue um livro pela capa.” Quem o via com aquele jeito “foda-se você” no maior estilo roqueiro baderneiro, não imaginaria a pessoa extrovertida que Vicenzo era.
Eu pensava enquanto era analisada em expectativa.
- Dessa vez você ganhou. – ele comemorou com o braço levantado no melhor estilo John Bender em “Clube dos Cinco” e deu um sorriso de coringa, me fazendo gargalhar.
- Sabia que você não perderia essa oportunidade, cara .
- Eu não quero menos do que uma guitarra quebrada nessa apresentação memorável, senhor rockstar – o ameacei, fazendo-o rir.
- Não se ensina o padre a rezar a missa. Seu número, senhorita. – esticou o celular na minha frente e eu anotei, entregando a aparelho assim que o fiz.
- Certo, agora eu preciso ir. – acenei pra ele, que fez reverência. Balancei a cabeça rindo e segui porta afora rumo a minha casa, aliviada pelo fim do expediente.
Caminhando distraidamente já dentro do condomínio, notei, de longe, que o salão utilizado para as reuniões de moradores encontrava-se cheio – provavelmente por esse motivo. O burburinho de pessoas em sua área externa indicava que a reunião já havia acabado, ao passo em que eu chegava perto do lugar, notei que uma garotinha – que não devia ter mais do que quatro anos de idade – estava parada na calçada aparentando estar um tanto quanto assustada. Estranhando a situação, aproximei-me dela com cautela, vendo-a se retrair assim que captou a minha presença. Abaixei-me com a intenção de ficar de seu tamanho, sorrindo amigável para a pequena e demonstrando que não faria nada com ela.
- Oi. – comecei. – ursinho legal – falei, me referindo ao brinquedo envolto em seus bracinhos. A menina olhou ressabiada para ele e, logo depois, para mim, sem exprimir reação nenhuma. – Qual é o nome dele? – tentei novamente.
- Senhor Bubu. – ela respondeu em um murmurinho. Sorri diante de sua resposta.
- Nome legal! Oi, senhor Bubu. – cumprimentei-o, rindo internamente da cena. – E o seu nome? Qual é?
- Lavínia. – abraçou mais o urso enquanto me olhava curiosa.
- Lavínia! Que nome mais lindo. O que você está fazendo aqui sozinha? – questionei querendo apertar aquela coisinha fofa com feição de choro.
- Eu estava com a Val porque a mamãe ficou ocupada, daí eu corri pra mostrar a plantinha pro Senhor Bubu, só que a mamãe disse pra eu ficar perto da Val, mas eu não fiquei – Lavínia falava meio atrapalhada e parecia preocupada. Permaneci atenta às suas palavras me perguntando quem era Val. A babá, talvez? – perdi a Val e a mamãe vai ficar brava – seus olhinhos se encheram de água e eu morri de pena do serzinho.
- A sua mamãe não vai ficar brava com você, não precisa chorar. – sorri carinhosa para ela – Se você me disser quem é a Val, eu levo você e o senhor Bubu até ela. Que tal? – sugeri à pequena, que permaneceu ponderar por alguns instantes. Obviamente haveria relutância de sua parte, afinal, eu era uma estranha. Por fim, Lavínia assentiu. Estendi a minha mão, sentindo a sua mãozinha vir de encontro com a minha – Me avise caso você veja a Val, tudo bem? – pedi enquanto andávamos até o salão de reuniões. Poucos minutos depois, uma moça de meia idade vestida de branco surgiu à nossa frente com a expressão apavorada, colocando uma mão em seu peito expressando alívio ao nos ver. Certamente ela era a Val, a babá.
A mulher correu em nossa direção, falando várias coisas para a menininha ao meu lado. Coisas que eu não consegui prestar atenção, afinal de contas, outra mulher encontrava-se ali proferindo mil resmungos e reclamações, todos dirigidos a babá. A julgar por sua aparência – que se assemelhava com a de Lavínia –, a mulher em questão se tratava da mãe da pequena.
- Como você pôde perder a minha filha de vista, sua irresponsável? Eu não te pago pra isso! – ela ralhava sem parar. Eu permaneci ali parada sem saber muito bem se simplesmente saía ou se esperava alguém me dizer algo, afinal, Lavínia ainda segurava a minha mão – e você? Quem é? – a minha presença finalmente foi notada, porém, torci o nariz devido ao tom de voz dirigido a mim. No instante em que eu abri a boca para respondê-la, ela me cortou enquanto me analisava. – Espera... Já te vi na casa dos . Você é a filha da cozinheira deles, não é?
- Sou . – frisei. – e sim, a minha mãe trabalha para eles. Encontrei a sua filha aqui perto e me ofereci para procurar vocês.
- O que eu disse sobre ir com estranhos, Lavínia? – a mulher bronqueou com a pequena, que se encolheu fazendo um bico enorme. Meu coração apertou, entretanto, a sua mãe não estava errada, afinal.
- Sinto muito, não irá acontecer novamente, senhora. – a tal de Val falou.
- Claro que não irá! Vou te colocar no olho da rua. – abaixei-me ignorando a discussão das duas e sorri mais uma vez para Lavínia.
- Está tudo bem agora, a sua mamãe só ficou preocupada com você. A obedeça e não saia de perto da pessoa que estiver cuidando de você, certo? – ela assentiu com a carinha um pouco melhor.
- (...) Você é só uma empregada, eu te pago para fazer o serviço direito – desviei a minha atenção da pequena à minha frente ao ouvir essa frase – não quero ouvir os seus argumentos inúteis. Aqui você não pensa, não fala, não faz nada que não seja me obedecer, ouviu bem? Isso se eu não te demitir! – levantei-me e observei Val, que assentia encolhida e olhando para baixo. Senti-me mal ao vê-la acuada daquele jeito.
Eu deveria me meter? Não.
Eu me meti? Sim.
Não conseguia ver uma cena tão familiar e simplesmente ficar quieta.
- Senhora, não tiro a sua razão por estar brava, mas falar dessa forma não me parece correto. – manifestei de forma calma visando amenizar aquele clima ruim. A mulher cravou os olhos semicerrados em mim e eu pude perceber claramente o seu descontentamento.
- A empregada é minha e eu falo como eu bem entender, não se intrometa. – respirei fundo tentando não perder a paciência. Ainda bem que eu estava acostumada a lidar com a Dona Kyara, portanto, qualquer outro chilique de madame seria fichinha para mim.
- Seres humanos não pertencem a seres humanos, ela é a sua funcionária, não instrumento de posse. – a frase escapou mais ácida do que eu gostaria, entretanto, não me arrependi por tê-la dito.
- Você não deveria nem estar aqui e acha mesmo que pode me dar lição de moral? – sustentei o seu olhar sem vacilar. Algumas pessoas já olhavam para a pequena confusão instalada e, naquele momento, avistei se aproximar de nós e parar ao lado da mulher ostensiva, que magicamente mudou a sua feição assim que reparou a presença dele ali.
- Boa noite. Algo errado aqui? – questionou impassível, parando os olhos por pouco tempo na babá, que se encontrava acuada e notavelmente temerosa. desviou o olhar da figura amuada e me fitou. Fiz uma pequena careta, demonstrando que algo não ia bem.
- ! Boa noite! – de repente a mãe de Lavínia havia se transformado na pessoa mais simpática do mundo. Ergui a sobrancelha – quase – me divertindo com a sua súbita mudança de humor. – Não há nada de errado, só um pequeno probleminha do qual já estou resolvendo!
- Talvez a senhora devesse continuar de onde parou e explicar a ele, que... Como é mesmo? Ah! Que a empregada é sua e você fala com ela como bem entender. – sorri irônica para a mulher que aparentava ter levado um banho de água fria.
- Dar uma bronca usando a sua posição hierárquica para humilhar sem sequer deixar o funcionário se defender não me parece um probleminha, Senhora Keller. – o homem argumentou com uma ironia quase palpável. Ainda com o cenho arqueado. – agora transmitindo satisfação ao notar a mulher a minha frente totalmente desestabilizada – a encarei sarcasticamente com os braços cruzados e um singelo sorriso brotando em meus lábios.
- N-não, creio que houve um engano! – a mãe de Lavínia se defendeu, exasperada. – Só estávamos conversando, afinal, ela perdeu a minha filha de vista!
- Há outros métodos de chamar a atenção de um funcionário sem denegri-lo. – afirmou e eu toquei delicadamente nos ombros de Val em um ato de conforto ao notar a preocupação evidente em seu olhar.
A babá me olhou consternada e eu lancei-lhe um sorriso amigável na afirmação muda de que as coisas estavam sob controle. Senti-me mal ao imaginar que ela provavelmente precisava muito do emprego, situação que muito se assemelhava com a minha e com a da minha mãe.
- Não sei o que ocorreu, porém, o seu comportamento pode lhe acarretar um processo por danos morais. – A mãe da pequena, que brincava próxima ao local de onde nos encontrávamos, estava atônita e visivelmente nervosa. Ela me fitou irritada e eu mais uma vez sustei o seu olhar.
- Certo. Só peça para essa mocinha não se intrometer no que não lhe diz respeito, ela não é nada aqui! – ralhou afetada. A expressão de tornou-se severa e eu revirei os olhos.
- Desculpe-me, senhora, mas a minha intenção não era desrespeitá-la, somente fazê-la enxergar que não se deve tratar alguém daquele jeito. – falei, sentindo que, se pudesse, a mulher me queimaria apenas com a sua visão enfurecida.
- E você está certa. – afirmou, compactuando com o que eu acabara de dizer. – Irei reforçar outra vez, Senhora Keller. Trate sua funcionária com respeito, por favor. E resolva assuntos de interesse profissional em locais reservados. – então virou-se para Val, que encontrava-se ao meu lado ainda preocupada – Me procure caso precise, certo? – ele disse prestativo e Val sorriu ligeiramente, assentindo incerta devido à presença de sua patroa, que nos observava insatisfeita.
Enquanto falava mais alguma coisa com a mulher, me voltei para a babá a fim de reforçar o diálogo que era tema da “pequena” discussão.
- Fique calma, eu entendo que o seu emprego é extremamente importante, mas não permita que te tratem mal. É errado. – aconselhei.
- Eu não posso perder esse trabalho, por isso não falo nada. - É compreensível, eu passo por algo semelhante, acredite em mim. Só peço para que procure o Doutor caso isso insista em acontecer.
- Obrigada. – Val lançou-me um sorriso leve e eu notei gratidão nele. Retribuí e me aproximei da pequena que agora estava abraçada às pernas de sua babá, despedindo-me dela – e de seu ursinho também, logicamente.
Ergui-me novamente e percebi que também aparentava ter finalizado a sua conversa com a mãe de Lavínia. Ele veio até mim e fez sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse, depositando uma mão na base das minhas costas, gentilmente me guiando em direção à saída do salão, despertando um leve arrepio em minha pele.
Inferno.
- Mas será possível que todas as pessoas desse lugar são insuportáveis? Céus! – me queixei indignada. me examinou com uma sobrancelha arqueada e um modesto sorriso zombeteiro moldou-se em seus lábios, causando um riso instantâneo em mim. – Certo, não todas, – frisei – só a grande maioria. – consertei e foi a vez de rir, negando com a cabeça em divertimento.
- O que aconteceu exatamente? – questionou curioso.
- Pelo que eu entendi, a babá se distraiu e a menininha saiu correndo para brincar. Coisa de criança, sabe? – ele assentiu. – Eu a encontrei e a levei de volta, o resto você deve ter visto.
- Você tem imã para confusão, não é? – interrogou em tom de brincadeira, me causando uma singela risada.
- É um talento natural.
- Não é todo mundo que faz o que você fez e defende alguém. Foi bem bacana.
- Eu não falei a metade do que eu queria, tive medo da babá ser prejudicada. Além do mais, eu não tenho voz aqui. Aparentemente você só é alguém se a sua conta bancária possuir vários zeros – me queixei insatisfeita, sentindo o olhar de em mim.
- Dinheiro nenhum compra o seu caráter, . É raro encontrar alguém como você e é bom saber que eu tenho alguém assim por perto. – ele declarou naturalmente enquanto andava com as mãos no bolso de sua calça social.
Eu imediatamente o olhei à procura de algo em sua feição serena que demonstrasse o que ele quis dizer, entretanto, tive apenas uma visão panorâmica de seu rosto que não esboçava absolutamente nada. O coração acelerado denunciava a ligeira felicidade que eu sentia por uma frase tão simples, mas extremamente significativa. Meu raciocínio tornou-se desordenado, tudo o que vinha à mente eram vários macaquinhos batendo pratos e tudo isso devido a uma mísera frase.
Uma SIMPLES frase.
- Ahn... Obrigada. – agradeci um tanto incerta. não disse mais nada e eu resolvi me manter quieta. Seguimos o resto do caminho em silêncio e somente nos despedimos ao chegarmos em nosso destino.
entrou na mansão.
Eu segui para os fundos.

Mor: É um adjetivo na língua portuguesa, considerado a forma abreviada de “maior” e bastante utilizado em palavras compostas: causa-mor, capitão-mor e etc. Quando determinada palavra é seguida de “mor”, esta atribuí ao termo um sentido de grandiosidade. Por exemplo, falar que um indivíduo é o capitão-mor significa que ele é a maior autoridade entre todos os outros capitães.

Dubrovnik: É uma cidade costeira da Croácia e também está na lista de um dos destinos mais caros para se viajar.

Muralha de Dubrovnik: Famoso ponto turístico da cidade de Dubrovnik.

Lei de Murphy: É um ditado popular da cultura ocidental que normalmente é citada como: "Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível". Ela é comumente citada por: "Se algo pode dar errado, dará."

C'est la vie: "É a vida". Expressão francesa que indica conformismo.




Capítulo 9


"Eu estou esperando pacientemente mesmo que o tempo esteja passando lentamente. Eu tenho uma vaga e eu queria que você soubesse que você é aquele que foi feito para mim." Make It To Me - Sam Smith.

’s POV

- Bom dia, ! – Barret, o motorista, me cumprimentou ao me ver estendendo algumas roupas no varal naquela manhã de sábado ensolarada e um tanto quanto quente.
- Ei! Como vai, Barret? Aproveitou as férias? – perguntei sorridente. Barret era um homem de meia idade que se parecia muito com o Mario Bros* e possuía uma simpatia contagiante. Motorista de confiança dos , ele já trabalhava no ofício há mais de vinte anos – palavras dele –.
- Com certeza! Não está percebendo o meu bronzeado? – brincou, apontando para o próprio rosto e eu gargalhei concordando. – É melhor eu me apressar, a senhora não costuma tolerar atrasos. – Barret disse, já se retirando enquanto acenava para mim, que retribui o ato.
- Tenha um bom dia! – desejei, aumentando o tom de voz para que ele me ouvisse, recebendo um “igualmente” em resposta.
Voltei a focalizar a minha atenção no restante das roupas, até que ouvi um barulho longínquo vindo da área em que a piscina se localizava.
encontrava-se ali, parcialmente deitado em uma espreguiçadeira enquanto lia algo compenetrado. O torso desnudo parecia reluzir contra a luz do sol ao passo em que a sua bermuda deixava à mostra a barra de sua cueca preta.
Eu já não sabia dizer se o calor que eu sentia era proveniente da temperatura elevada.
Sacudi a cabeça e voltei a me concentrar no varal a minha frente, terminando de dependurar a última peça de roupa. Durante o momento em que eu retornava à minha casa, avistei a senhora saindo da mansão com seu enorme óculos de sol posto de forma elegante em seu rosto sempre erguido. Sua cabeça fez um breve movimento de análise em mim, me fitando de cima abaixo rapidamente antes de prosseguir o seu caminho e adentrar o carro que lhe aguardava, onde Barret fechou as portas do veículo, logo entrando no mesmo e dando partida. Suspirei e retomei os meus passos, afinal, ainda possuía algumas coisas a fazer antes de me encontrar com Vicenzo.

(...)


- Não é um encontro! – exclamei pela milésima vez para , que encontrava-se eufórica do outro lado da ligação desde que eu lhe contei que iria ver a banda de Vicenzo tocar hoje à noite.
- Mas deveria ser! Encare como um, então. Tire um pouco o da cabeça e vá transar, sweetie. – falou e eu ri alto, fazendo-a reclamar. – Sério, ! Não estou dizendo que isso irá te fazer esquecê-lo porque né... Já vimos que isso é meio difícil. Mas se distraia! E nada melhor do que um certo roqueiro gostoso pra esse tipo de coisa.– minha amiga aconselhou e, ainda em meio à risos, eu assenti, mesmo que ela não pudesse ver.
Eu sabia que ela estava certa, de qualquer forma. tinha uma namorada linda, estava feliz. Eu não podia me privar das coisas, pois, enquanto eu suspirava pelos cantos por ele, ele vivia a sua vida. Não era justo comigo.
- Caso surja alguma oportunidade, eu aproveitarei.
- ISSO! comemorou animada. – Senti firmeza.
- Conselho absorvido, agora eu vou terminar o questionário que é pra semana que vem. Beijos, amorzinho.
- Beijos e termina logo isso aí pra você se preparar para o seu encontro-não-encontro.
- Pode deixar – ri e desliguei, voltando a minha atenção aos papéis a minha frente.

Cabelo? Check.
Acessórios? Check.
Maquiagem? Ótima.
Cabelo? A gente faz o que pode.
Mentira, até que estava legal.
Roupa, sapatos, perfume... Tudo ok.

Peguei a pequena bolsinha em cima da minha cama, coloquei tudo o que eu precisava dentro dela e saí, comemorando internamente pela noite estar agradável, seguindo para a casa dos para me despedir da minha mãe. Abri a porta de serviço e adentrei a cozinha, vendo-a mexer algo na panela. Estava com um cheiro ótimo.
- Mãe, estou indo. – disse, tocando-lhe o braço. Ela virou-se e me olhou com um enorme sorriso.
- , você está linda!
- Jura? Obrigada. – dei uma volta fazendo graça.
- , você sabe onde est... – entrou no cômodo de súbito e parou repentinamente, fazendo com que eu também parasse a minha voltinha desengonçada. Ele estava arrumado e o cheiro forte do seu perfume me atingiu em cheio. Seus olhos me analisaram momentaneamente (o suficiente pra me fazer corar) e voltaram-se a minha mãe, que tinha uma expressão intrigada no rosto – ... Onde está a camisa que eu te entreguei hoje? – finalizou a pergunta.
- Ah, claro! Só um minuto que eu vou pegá-la para você. – saiu em passos largos até a área de serviço, nos deixando a sós.
colocou as mãos nos bolsos e me fitou.
- Oi. – ele disse, simplesmente.
- Oi. – respondi, me sentindo idiota por saber que ainda me encontrava com o rosto ruborizado.
Silêncio.
E entre esse silêncio, eu só conseguia mentalizar: “Para me olhar, puta merda. Para de me olhar, eu IMPLORO.”
Droga de .
Minha mãe voltou à cozinha com a tal camisa, entregando-a a ele. Ouvi meu celular apitar, provavelmente sendo Vicenzo avisando que já se encontrava na frente do condomínio. Hora perfeita pra eu sair dali.
- Tchau, mãe. – disse, vendo-a sorrir e dizer um “divirta-se”. – Tchau, . – despedi-me, sorrindo. - Tchau. – Respondeu daquele jeito sério com aquele olhar que me deixava desnorteada.
Virei as costas e saí de lá, respirando fundo. Como era possível sentir-se sufocando só pelo olhar de alguém?
Eu andava a passos firmes – e irritados – rumando para fora do condomínio com o perfume de impregnado no meu nariz. Eu estava cansada de agir como uma boba quando o assunto era ele. Toda essa irritação só fez com que eu afirmasse uma coisa pra mim mesma: Se Vicenzo desse algum indício de querer algo comigo, eu não hesitaria. Desfiz a carranca assim que avistei o próprio parado encostado a uma moto e sorri assim que ele pousou os olhos de mim. Vicenzo usava um coturno preto, uma calça jeans também preta com uma blusa quadriculada amarrada na cintura e uma regata surrada. Todas as suas – muitas – tatuagens estavam à mostra e eu consegui ter uma melhor visão delas. Ele assoviou um “fiu fiu” e desencostou-se da moto, batendo palmas.
- Ora se alguém não encarnou o “vestida para matar” hoje...
- Ok, já pode parar. – ri meio envergonhada, encarando a moto atrás dele. Sim, eu tinha um pouco de medo delas. Velocidade demais, equilíbrio de menos.
- Suas fortes emoções começam por aqui, gatinha. – sorriu largo e me entregou um capacete, oferecendo sua mão a fim de que eu me apoiasse para subir na moto.
- Você vai devagar com isso aí, né? – questionei meio receosa, apontando para aquele negócio bonito e perigoso e Vicenzo gargalhou.
- Depende... Você vai querer com emoção ou sem emoção? – indagou brincalhão e eu o olhei aborrecida tentando segurar o riso. Ele levantou as mãos em rendição. – Tudo bem... – chegou muito perto de mim. – Eu deixo as emoções pra depois. – falou no meu ouvido e eu me arrepiei. O encarei com a sobrancelha arqueada e peguei sua mão, enfim subindo na moto. Vicenzo também subiu, colocando o seu capacete e, antes de eu colocar o meu, avistei a Maserati preta de sair do condomínio. Nossos olhares se encontraram por poucos segundos até que ele rapidamente desviou, olhando para a rua à sua frente, sumindo do meu campo de visão em seguida. Coloquei o capacete e agarrei a cintura de Vicenzo como àqueles agarradinhos de lápis, logo ouvindo a sua risada.
- Fica difícil pilotar uma moto estando com falta de ar, . – Falou em meio a risadas e eu o acompanhei, sem graça.
- Desculpe.
- Estou brincando. Pode agarrar à vontade. – não tive tempo de esboçar uma reação, pois, após dizer isso, ele arrancou com a moto.
Eu fechei os meus olhos de imediato ao sentir o vento passar por mim como um vendaval. Arrisquei abrir um olho e vi a paisagem voar em borrões e isso me fez os fechar tão rápido quanto eu os abri. Permaneci assim durante o caminho todo, praticamente grudada nas costas de Vicenzo, até que, um tempo depois, ele parou. Desgrudei-me dele e olhei em volta, tirando o capacete enquanto passava a mão nos meus cabelos. Estávamos em frente a um pub bem estilo grunge. Sua fachada era vermelha e nela piscava os dizeres “S.D.R” que eu supus serem de “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll”. Vicenzo desceu da moto e me estendeu a mão para que eu também descesse, e assim o fiz. Ele guardou os capacetes e colocou os braços em volta dos meus ombros desinibidamente, sorrindo pra mim daquele jeito de coringa. Eu iria seguir o protocolo, então apenas sorri de volta e o acompanhei até dentro do local.
E, sério, que lugar incrível era aquele?
Seu interior era todo revestido de madeira com diversos pôsteres de todas as bandas imagináveis pelas paredes, a luz era baixa e meio vermelha assim como os detalhes do pub. Havia um bar enorme em um canto, vários bancos rodeavam aquela parte – já lotada de pessoas – e o extenso palco ocupava a parte dos fundos. Vicenzo cumprimentava todo mundo animadamente comigo junto a ele, até que chegamos em um grupo de pessoas, parando ali. Eu me sentia um pouco introvertida no meio de tanta gente que eu nunca havia visto na vida e tudo piorou quando elas nos olharam. Vicenzo os apresentou como sendo os seus companheiros de banda e falou o nome de cada um – cujo eu esqueci no instante seguinte –, também me apresentando a eles. Em um piscar de olhos ele já estava com duas long necks nas mãos, entregando-me uma, e eu aceitei de bom grado. Após alguns minutos de conversa, notei que as pessoas presentes na roda começaram a se dispersar em direção ao palco, onde certamente iriam tocar dali a alguns instantes.
- Espero que você esteja pronta para o show, gatinha. – Vicenzo piscou e seguiu os seus amigos. Eu me ajeitei na no banco em que me encontrava sentada, curiosa e ansiosa para vê-lo cantar.
As luzes do palco se acenderam e eles posicionaram-se cada um seu devido lugar, prontos para iniciarem a apresentação. No instante em que eu ouvi a voz de Vicenzo, quase caí pra trás.
Ele era incrível.
A primeira música da qual eles tocaram fora Hey do Pixies, e, tenho que admitir, o meu companheiro de trabalho estava absolutamente sexy, exatamente como a canção pedia. Ele fechava os olhos a cada som que saía de sua boca, agarrando a sua blusa e a puxando em revolta. Ele cantava de uma forma quase agressiva, envolvendo todos ao seu redor, incluindo a mim, que se encontrava vidrada no grupo a minha frente. Ao finalizarem a canção uma calorosa salva de palmas foi direcionada a banda, que agradeceu e logo começou mais um cover. Vicenzo pegou um violão e arrumou o microfone, então, a melodia acústica de Like a Stone soou pelo animado pub.

(Nota: Coloque a música Like a Stone do Audioslave para tocar, ou, se preferir, clique aqui e acompanhe a leitura com o cover (recomendável).


On a cobweb afternoon, in a room full of emptiness
(Em uma tarde suave, num quarto cheio de vazio)
By a freeway, I confess I was lost in the pages
(Abertamente, confesso que estava perdido nas páginas)
Of a book full of death, reading how we'll die alone
(De um livro cheio de morte, lendo como nós vamos morrer sozinhos)
And if we're good, we'll lay to rest, anywhere we want to go
(E se formos bons, nos deitaremos pra descansar em qualquer lugar que quisermos ir)

Vicenzo cantava calmamente tocando o violão como se aquilo fosse algo pífio para ele, tamanha a naturalidade de seus movimentos. Ele continuava a fechar os olhos vez ou outra, concentrado, e, quando os abria, lançava aquele sorriso de coringa para o público, que se encontrava naquela vibe tão maravilhosa da qual todos estávamos envoltos.

In your house, I long to be
(Em sua casa, eu quero estar)
Room by room, patiently
(Quarto por quarto, pacientemente)
I'll wait for you there, like a stone
(Vou esperar por você lá, como uma pedra)
I'll wait for you there, alone
(Vou esperar por você lá, sozinho)


Neste momento ele olhou na minha direção e sorriu sacana, entoando a canção sem desviar a atenção de mim, que ri e balancei a cabeça em negação. O vocalista lançou outra piscadela e tornou a fechar os olhos, dedilhando o violão com extrema habilidade.

And on my deathbed, I will pray to the gods and the angels
(Em meu leito de morte, vou rezar aos deuses e aos anjos)
Like a pagan, to anyone who will take me to heaven
(Como um pagão, para qualquer um que me leve ao paraíso)
To a place I recall, I was there so long ago
(Para um lugar do qual me lembro, estive lá já faz muito tempo)
The sky was bruised, the wine was bled and there you led me on
(O céu estava ferido, o vinho era sangue e lá você me conduziu)

Enquanto ouvia a agradável melodia provinda da voz de Vicenzo, fui transmitida a uma dimensão muito conhecido por mim, sendo ela, onde se localizava os meus corriqueiros pensamentos a respeito de . Eu me encontrava em um lugar completamente agradável com uma pessoa divertida, contudo, aquela minha parte trouxa insistia em pensar no cara que era inalcançável para mim.

In your house, I long to be
(Em sua casa, eu quero estar)
Room by room, patiently
(Quarto por quarto, pacientemente)
I'll wait for you there, like a stone
(Vou esperar por você lá, como uma pedra)

O aperto no peito ao saber que ele provavelmente estaria com Cassie me fez respirar fundo em resignação, cansada de me sentir tão intoxicada por alguém que jamais estaria comigo. Eu queria poder tocá-lo, queria poder sentir o seu perfume mais de perto, queria saber como é o seu toque por entre os meus cabelos e pelo meu corpo, e, por mais errado que isso soasse, admitir tais vontades me deixava quase em um estado de nirvana. Eu estava prendendo um sentimento que gritava para ser expresso.

I'll wait for you there, alone
(Vou esperar por você lá, sozinho)
And on I read, until the day was gone
(E assim eu li, até o dia acabar)
And I sat in regret, of all the things I've done
(E me sentei arrependido, por todas as coisas que fiz)
For all that I've blessed and all that I've wronged
(Por todos que abençoei e por todos que ofendi)
In dreams until my death, I will wander on
(Em sonhos até minha morte, irei vagar)


Voltei à realidade no momento em que a canção estava acabando, piscando algumas vezes e voltando a concentrar a minha atenção no palco.

In your house, I long to be
(Em sua casa, eu quero estar)
Room by room, patiently
(Quarto por quarto, pacientemente)
I'll wait for you there, like a stone
(Vou esperar por você lá, como uma pedra)
I'll wait for you there, alone
(Vou esperar por você lá, sozinho)

Vicenzo finalizou a música e, mais uma vez, a eufórica salva de palmas soou pelo ambiente animado. Ele agradeceu e deixou o violão encostado em um canto do cenário, vindo em minha direção com um sorriso enorme. Quando estava perto o suficiente, bati palmas com a expressão em nítida admiração.
- Gostei de ver, rockstar. – Ele fez uma reverência e colocou um braço ao meu lado, me deixando parcialmente encurralada. Tentei não demonstrar nenhuma reação, mas aquilo era um tanto quanto estranho pra mim. Não ruim, mas diferente.
- O pessoal está indo lá pra casa, bora? – Perguntou mais próximo de mim do que o normal. Ele me encarava de um modo carregado de segundas intenções e eu sabia muito bem onde aquela noite acabaria.
E quer saber? Eu não iria me opor.
- Claro, por que não? – aceitei, me levantando.
- Exatamente! Não existe motivo pra que você recuse o meu convite. – Passou os braços pelos meus ombros como no momento em que chegamos ao pub e seguimos para fora do local. Eu já começava a fazer o meu mantra pra subir naquela moto de novo. Vi os amigos de Vicenzo entrarem em uma caminhonete e voltei a me sentar naquele pesadelo, colocando o capacete e agarrando o homem à minha frente como se a minha vida dependesse daquilo. Bem, e dependia.
Ele arrancou e eu fechei os olhos, torcendo para que a sua casa não fosse longe. Após alguns minutos percebi que, para meu alívio, a moto havia parado. Retirei aquele treco pesado da minha cabeça e desci – meio tropeçando – enquanto olhava o pequeno prédio a minha frente. Ele possuía cinco andares e se assemelhava àqueles prédios antigos. Sua fachada era rústica e não havia porteiro, somente um extenso portão preto com grossas grades. Vicenzo pegou uma chave em meio ao seu chaveiro lotado de coisas penduradas e abriu a entrada, dando espaço para que todos entrassem. Seus amigos subiram as escadarias e Vicenzo pegou na minha mão, levando-me consigo escada acima de modo animado, como sempre.
- Caiam fora, seus putos, senão ninguém entra. – Ele disse, empurrando alguns de seus amigos da frente da sua porta, destrancando-a. Todos entraram e, no instante em que eu fui fazer o mesmo, ele se colocou na passagem, impedindo-me de adentrar o local. Parei de súbito e o olhei sem entender. – Opa, gatinha. Foi mal, mas você só conseguirá a autorização pra conhecer o domínio do imperador se pagar pedágio. – Terminou de dizer. Seu sorriso largo contrastava com a expressão maliciosa que ele carregava durante o tempo em que fitava os meus lábios descaradamente.
- Oh, mil perdões, grande imperador. – Fiz uma reverência esquisita e meu colega gargalhou. – Pode me dizer que tipo de pagamento é esse? – O questionei da forma mais inocente que consegui, entrando no seu jogo.
- Não só pode como vai saber. – Vicenzo disse, chegando perto de mim sustentando o meu olhar, deixando a boca próxima à minha e colocando as mãos em minha cintura. Puxou-me, grudando o meu corpo no seu, seus braços estavam envoltos ali de maneira firme, então, inclinou-se minimamente pra frente, juntando nossos lábios. Posicionei as mãos em sua nuca ao passo que a sua língua alisava a minha sem pressa, ofegando quando ele movimentou o meu quadril um pouco para cima fazendo-o chocar-se libidinosamente contra o seu. Mordisquei o seu lábio inferior e ele grunhiu, sorrindo em meio ao beijo. Eu sentia que o ambiente estava quente e só me lembrei de que estávamos na porta do seu apartamento quando um de seus amigos gritou de lá de dentro.
- Que putaria é essa aí? O quarto está perto, vão pra lá! – zombou e nós nos afastamos em meio a risos.
- Pedágio pago, senhorita. É um prazer fazer negócios com você. – Vicenzo falou lançando-me uma piscadela e abriu caminho para mim. Ri e pisquei de volta, entrando em sua casa com ele ao meu encalço. O seu apartamento era o mais clichê possível se tratando de um membro de uma banda de rock. O lugar era amplo com o ambiente integrado estilo cozinha americana, separando a sala da cozinha por um balcão. Havia pôsteres para todos os lados cobrindo as paredes – onde a televisão estava suspensa em uma delas – um sofá de couro preto ocupava o núcleo da sala e, a sua frente, localizava-se uma mesinha de centro de madeira escura. Garrafas de cerveja encontravam-se jogadas por todos os cantos, junto a algumas caixas de pizza. Típico.
- Mi casa és tu casa. – ele disse abrindo os braços mostrando tudo ao seu redor. – Aceita uma bebida?
- Aceito sim, obrigada. – Respondi sorrindo, parada no meio do seu apartamento igual a uma planta. Eu me sentia um pouco sem jeito estando ali, então me limitei a ficar em um canto enquanto todos bebiam, conversavam e ouviam um rock pesado que alguém havia acabado de colocar. Vicenzo me entregou uma garrafa de cerveja e se pôs ao meu lado com o braço por cima dos meus ombros, me guiando para o sofá onde todos se encontravam.
- Então, . O Vicenzo contou que você mora no Town Place, o famoso condomínio de burgueses. O que uma garota de classe alta está fazendo saindo com pessoas como nós? Querendo ser rebelde? – Bernard, o baterista da banda, perguntou de forma cínica. A primeira impressão que eu tive a respeito dos amigos de Vicenzo foi a de que eles eram como qualquer outro grupo de pessoas que têm amizade, nada demais. Agora, eu já sentia uma pequena repulsa por este cara em questão.
Definitivamente não gostei de seu tom.
- Moro no Town Place, sim. Mas não porque eu sou de classe alta, e sim, porque a minha mãe trabalha pra uma família de lá. Essa época de querer ser rebelde já passou há um bom tempo, pelo menos pra mim, então as suas conclusões estão bastante precipitadas. – Rebati igualmente cínica, lançando-lhe um sorriso falso e ouvindo alguns assovios devido a minha resposta.
- Eu te falei que ela trabalha comigo, cara. – Vicenzo disse, notando que a minha feição não era das melhores. Tomei um gole da cerveja em minhas mãos e adotei uma postura serena, torcendo para que eu passasse a me divertir naquela social na casa do vocalista ao meu lado, que já conversava empolgado.

Muita música.
Muita fumaça.
Muita gente.
Muita bebida.
Eu estava me sentindo em um clipe do Green Day.
E juro, tinha um cara que era A CÓPIA do Billie Joe naquele apartamento, e, se eu não estivesse sóbria, certamente iria pessoalmente checar se não era ele mesmo ali.
O recinto havia enchido de gente de uma hora pra outra, tudo o que eu fazia era conversar com uma ou outra pessoa simpática – e chapada – o suficiente que parava ao meu lado para filosofar sobre o formato da fumaça que saía da sua boca. Nem beber eu estava bebendo. Vicenzo perambulava pela casa com o seu jeito enérgico, dando atenção para cada convidado seu, fazendo piadas, cantando e tudo mais. Eu balançava a cabeça sutilmente ao ritmo de My Girl (Where Did You Sleep Last Night) do Nirvana que soava alta pela caixa de som, Vicenzo tinha realmente muita sorte daquele prédio estar praticamente desabitado, caso contrário, as suas festinhas certamente seriam proibidas por vizinhos furiosos. A figura do meu colega surgiu a minha frente, ele sorriu e acariciou a minha cintura, encostando-me na parede.
- Algo me diz que você está querendo companhia. – Falou em meu ouvido, provocando um leve arrepio.
- E como você chegou a essa suposição?
- Eu estava te olhando do outro canto da sala e acho que nós temos muito a ver, saca? Só que eu ainda não sei muito bem se isso é verdade, eu deveria te beijar pra ter certeza – respondeu com cara de pensativo e eu ri.
- Então vou acabar com essa sua dúvida fatídica. – Me inclinei e puxei a sua camisa, tomando os seus lábios com os meus, movimentando-os com intensidade. Vicenzo apertou a minha cintura, tocando a lateral do meu corpo enquanto subia até a minha nuca, pousando sua mão ali enquanto me pressionava contra a parede. Parei o beijo de súbito e dei um sorriso torto pela cara do vocalista, que me encarava atordoado com os lábios avermelhados entreabertos. Aproximei minha boca da sua novamente ao passo que levava a minha mão até o seu pescoço, o arranhando sutilmente, vendo-o fechar os olhos e puxar levemente os cabelos da minha nuca. A minha mão livre passeava pelos seus braços tatuados e eu passei a minha língua suavemente por entre os seus lábios, arfando quando Vicenzo a prendeu de maneira suave por entre os seus dentes, acariciando-a com a sua própria língua. Ele a soltou e retomamos o beijo, dessa vez, mais sedento. Sua boca massageava a minha voluptuosamente e eu correspondia da mesma forma, me sentindo cada vez mais quente e descontando toda a excitação em seus braços tatuados e seu pescoço, percorrendo a região com as unhas até chegar a sua nuca, onde eu dei um breve puxão nos fios dos seus cabelos, ouvindo-o grunhir e pressionar mais o quadril contra o meu. Senti o volume no meio das suas pernas e coloquei a minha perna entre a sua, desejando mais contato.
- Tenho certeza de que a gente pode fazer isso melhor no meu quarto. – Soprou em meus ouvidos com a voz ofegante. Gemi baixo ao senti-lo lamber de leve a minha orelha e puncionar o seu quadril pra frente, aumentando a fricção entre as nossas intimidades.
- Não tenho dúvidas. – Respondi arfante e Vicenzo sorriu malicioso, pegando a minha mão. Andamos por um pequeno corredor e entramos no cômodo, que eu até tentei observar, porém, fui impedida quando senti o baque do meu corpo contra a porta. Arqueei as costas ao notar que a língua de Vicenzo transitava vagarosamente pelo meu pescoço, sua mão puxou a minha coxa para que ela ficasse na altura do seu quadril e a acariciou até sua parte interna, chegando perto de um lugar que, àquela altura, ansiava por ser tocado. Dei um impulso e, com isso, fiquei com ambas as pernas ao seu redor, suspirando enquanto ele apertava as minhas coxas e beijava energicamente o meu pescoço. Fui desencostada da porta e senti o colchão macio atrás de mim, notando que estávamos na cama de Vicenzo. Chutamos nossos sapatos de qualquer jeito e aproveitei para pegar na barra da sua camiseta, erguendo-a rapidamente. Ato finalizado por ele, que a tirou. Seu peitoral tatuado subia e descia de forma descompassada e eu aproveitei para analisá-lo melhor, passando os olhos pelo seu corpo e constatando que o calor – que já era intenso – havia aumentado. Vicenzo desceu a minha saia e a tirou com pressa, tendo visão plena da minha calcinha. Ele me encarou e sorriu perverso, se encaixando entre as minhas pernas e voltando a me beijar com voracidade ao passo que eu me empenhava em passar as unhas por toda extensão das suas costas, levando as minhas mãos até o cós da sua calça, incomodada com a peça de roupa que insistia em atrapalhar o nosso contato mais intenso. Vicenzo se livrou dela e investiu o seu quadril contra o meu, possibilitando que o toque entre as nossas intimidades fosse sentido de forma vigorosa. Arfei ao notar quão excitados nós nos encontrávamos, colocando os braços para cima ao perceber que Vicenzo erguia a minha blusa, jogando-a no chão com as outras vestimentas.
- Você foi de vestida pra matar, para despida pra me fazer enfartar. – Ele disse e eu gargalhei da sua frase ridícula.
- Cala a boca antes que eu levante daqui e vá embora. – Falei, ainda rindo.
- Você não vai querer ir antes da verdadeira diversão começar. – O vocalista sussurrou acariciando a parte interna da minha coxa, perto demais o local que mais precisava de atenção no momento.
Eu precisava disso, certo?
Eu precisava me distrair, viver.
estava certa, afinal.

**

- Nós realmente sabemos nos divertir... Porra! – Vicenzo exclamou e eu ri, o empurrando de leve pelos ombros e notando que o barulho da casa havia diminuído.
- Acho que a galera está começando a ir embora. – Deduzi e ele assentiu.
- Você não vai querer ir embora agora, né? – Vicenzo se virou pra mim e me olhou com cara de pidão, formando um bico com os lábios. Bem dramático. Segurei a risada, o encarando de volta enquanto estreitava os olhos e fazia uma cara de pensativa.
- Não sei... Depende... Preciso de uma boa razão pra poder ficar.
- Que tal essa? – Ele abriu os braços mostrando a si mesmo e eu ri.
- Eu estava pensando em algo como você arrumar as prateleiras da loja na segunda pra eu não precisar fazer isso no sábado que vem... – Respondi travessa e Vicenzo abriu a boca em falso espanto, mostrando-se indignado.
- , você está me chantageando?
- Não, eu estou negociando. – Respondi ainda com aquele sorriso exagerado enquanto fitava Vicenzo, que me encarava desconfiado, embora estivesse perceptível que ele segurava o riso.
- Acho que organizar umas prateleiras não vai me fazer mal. – Ele piscou, demonstrando que o resto da madrugada seria bem agitada para nós dois.

’s POV

O cômodo silencioso transparecia o clima pouco vivaz entre mim e Cassie.
Sentado na cama de seu quarto enquanto a aguardava terminar de se arrumar, eu observava cada ponto daquele local que já fora o território de noites incríveis entre nós dois, momentos felizes que agora eram somente fragmentos de um relacionamento do qual já havia sido prazeroso.
Como havíamos chegado a esse ponto?
Qual era a minha parcela de culpa nessa relação desgastada?
É difícil se dar conta de que você já não se sente mais da mesma forma sobre alguém que outrora fez parte de sua vida com tanto afinco.
Eu sentia um carinho muito grande por Cassie, contudo, tal sentimento parecia não ser o suficiente para carregar um namoro, pois esse carinho se resumia unicamente ao reconhecimento e gratidão por tudo o que passamos nesses anos. Talvez eu devesse continuar a viver a minha vida como eu sempre vivi a fim de evitar eventuais conflitos, porém, isso é o que mais me assusta. Ser infeliz.
Despertei de meu devaneio assim que Cassie surgiu por entre a porta do banheiro devidamente arrumada. Ela veio ao meu encontro e virou-se de costas.
- Pode fechar o zíper, por favor?
- Claro. – Levantei-me de sua cama e juntei as duas partes do fecho.
- Obrigada. Já podemos ir. – Disse, pegando a sua bolsa e caminhando porta afora. Apenas assenti ainda que ela não pudesse ver a minha ação e a acompanhei, novamente percebendo a falta de diálogo ali.
Entramos no carro ambos mudos bem como recém conhecidos, o que só me incomodou mais. Deixei que a melodia baixa da música que soava pelo rádio invadisse o sepulcro daquele momento, afinal de contas, era isso que parecíamos.
Dois mortos.
A harmonia de What’s Left do Three Doors Down repercutiu ironicamente, quase como um soco de verdades espalhadas por cada palavra que o Brad Arnold cantava.

“É hora de eu deixar você ir, é o que temos de fazer. É hora de desistir disso, eu acho que nós já sabíamos. Não resta nada para nós falarmos, não resta nada para provar.”


Timing perfeito, não é mesmo?
A vida é uma sucessão de eventos debochados que zombam bem à sua frente, lhe restando somente aceitar que talvez nada possa ser feito a não ser aceitar as regras do jogo.
Ao chegarmos ao nosso destino, ajudei Cassie a descer do carro e entreguei o veículo para o manobrista. Ela juntou sua mão à minha e firmou um sorriso largo no segundo em que colocamos os pés no extenso e bem decorado salão espelhado, onde diversos pilares feitos de bronze estruturavam a ornamentação da festa já lotada dos habituais convidados influentes de sempre. Diferente de Cassie, que sorria simpática para todos que nos cumprimentavam, eu mantive a minha feição séria e usual.
- e Cassie Privost! Estou lisonjeada em vê-los aqui. – Sadie Kimsey, esposa do prefeito, saudou.
- Boa noite, senhora Kimsey. É uma honra participar desse evento. – Sorri formalmente e juntei às mãos – anteriormente entrelaçadas às de Cassie – em frente ao corpo, inclinando minimamente o tronco para frente.
- Obrigada por nos convidar, lisonjeados estamos nós. – Cassie fez o mesmo ato que eu.
- Por favor, sintam-se à vontade. Quero pedir desculpas em nome do meu marido devido à sua ausência. Ele não deve demorar.
- Não se preocupe, é um grande acontecimento social, é comum que existam muitas pessoas a cumprimentar. Estamos bem, agradeço a solicitude da Senhora. – Falei em um gesto cortês e recebi um sorriso cordial em resposta.
- Obrigada. Devo atender ao resto dos convidados. Novamente, fiquem à vontade. – Cassie e eu agradecemos ao passo em que a mulher bem apessoada se afastava de nós. Peguei um copo de whisky no instante em que o garçom parou à nossa frente e tomei um gole considerável do líquido ardente. Eu precisaria de um pouco de álcool no sangue para enfrentar a noite.
Meu pai havia defendido o prefeito – Senhor Kimsey – de uma acusação a respeito de pagamento de propina ao Senador, o que, obviamente, causou grande abalo político na época. Após o ganho do caso, o poder e reconhecimento que nos foi conferido resultaram em grandes clientes corporativos e um aumento exorbitante na margem de lucro do escritório.
E, também, causou um aumento de bajulações.
- Não exagere na bebida. – Cassie repreendeu-me ao meu lado.
- Não irei. Só preciso relaxar, estar aqui não me agrada muito.
- O que te agrada ultimamente, ? – Ela rebateu enquanto sorria para as pessoas que nos cumprimentavam de longe.
- Receber respostas que não sejam atravessadas. – Contrapus satírico recebendo um olhar irritado de Cassie.
Andamos pelo salão por bons minutos, conversando esporadicamente com alguns convidados espalhados pelo local, onde garçons caminhavam concentrados entre o mar de pessoas ao mesmo tempo em que o suave som do piano ecoava de modo aprazível por ali.

- Não estou sendo injusto, mas veja bem. Não podemos deixar que as minorias estabeleçam regras à maioria. – Nos encontrávamos em uma roda composta por sete pessoas em uma conversa que anteriormente possuía como pauta “viagens”, entretanto, de repente, o assunto virou uma disseminação de egocentrismo advindo de conhecidos meus. Quieto, beberiquei o champagne em minhas mãos, somente observando até onde eles iriam.
- A regra é clara: Se eu detenho o capital, eu administro como irei obter os lucros. – Duncan, uma antiga colega, se posicionou. Eu arqueei uma sobrancelha, incomodado com tantas opiniões enfadonhas.
- É até pretensão dessas pessoas em achar que as coisas irão mudar, sinceramente. – Meghan pronunciou e eu ri sarcástico, atraindo a atenção de todos.
- Óbvio que as chamadas minorias não são ouvidas, afinal, nós estamos em um sistema que cria e mantém a desigualdade social. Toda força de trabalho delas são direcionadas para o enriquecimento dos patrões, que, cada vez mais, obtém o poder para que a manutenção desse sistema permaneça. – Argumentei consistente, tomando mais um gole da minha bebida enquanto recebia olhares contrariados.
- Sendo você quem é, muito me admira que se importe com isso. A vida é assim, uns têm, outros buscam ter da forma que podem. É a lei da sobrevivência. – Duncan disse.
- Sua família está no topo da lista das pessoas mais ricas do país, . Poupe-nos desse papo barato. – Regan, um antigo amigo de faculdade, advertiu irônico e eu ri cínico.
- O discurso de vocês é baseado na dominação e consequentemente na exploração, não esperem que eu me cale. – rebati ácido.
- O é o defensor dos fracos e oprimidos, pensa que pode mudar o mundo fazendo trabalhos voluntários de advocacia por aí. Eu sempre digo a ele que isso é irrelevante. – Cassie falou em um tom de puro deboche que fez o meu sangue subir ao passo em que os outros presentes riam. Franzi o cenho em sua direção notavelmente irado com a sua piada estúpida.
Eu tinha uma regra clara de convivência e ela era extremamente importante: Nunca, em hipótese alguma, faça pouco caso de algo que é importante para mim.
E, com aquele comentário de merda, Cassie havia ultrapassado todos os limites.
Ela entrelaçou seu braço ao meu, porém, não esbocei reação alguma. Todos já se encontravam imersos em outro assunto enquanto eu permaneci calado observando a concentração de pessoas no salão.
- O que você tem? – Cassie sussurrou ao meu lado me olhando sem entender. Sorri de lado de modo sarcástico e a fitei. Antes de eu conseguir respondê-la, ouvi meu nome sendo chamado.
- ? – Me virei, vendo um homem robusto de meia idade se aproximar. Assenti e ele prosseguiu – O Senhor Kimsey deseja vê-lo.
- Certo. Já volto. – falei para Cassie, que apenas concordou com a cabeça, voltando a sua atenção à conversa da roda.
Segui o homem por entre as pessoas, andando até um local mais afastado onde algumas mesas encontravam-se postas aleatoriamente. Ao chegar a uma em especial, avistei o Senhor e a Senhora Kimsey sentados junto a mais alguns homens e mulheres. Assim que me viu, ele sorriu de modo cordial e levantou-se.
- , que bom vê-lo! Suponho que a minha esposa já desculpou-se em meu nome por não aparecer antes.
- Boa noite, Senhor Kimsey. Boa noite, senhoras e senhores. – pronunciei aos demais. – É muito bom vê-lo também. – Disse, apertando a sua mão em um cumprimento firme. – Não se preocupe com isso, como eu falei à Senhora Kimsey, um evento de grande porte demanda muita atenção.
- Suponho que vocês saibam quem é este rapaz. – O prefeito voltou-se aos demais convidados sentados à mesa, que assentiram sorridentes. Eu mantive a postura comedida com um leve sorriso perdurado em meus lábios.
- , filho de Kyara e Henrico e um advogado brilhante. Sua família inventou a advocacia neste país junto aos Privost, meu caro. – Um dos homens ali presente falou e eu agradeci. – Estou acompanhando o caso Zummack, a propósito. Você vem fazendo um ótimo trabalho. – Completou.
- Muito obrigado pelas palavras. Eu apenas cumpro a minha função. – Respondi me sentindo feliz pelo reconhecimento.
- Mande lembranças aos seus pais. – O Senhor Kimsey pediu. – Não irei lhe prender aqui, somente quis cumprimentá-lo.
- Nunca será um incômodo, Senhor. – Menti. O meio da política era sujo e manter as aparências quanto a isso era sim algo desagradável. – Tenham uma boa noite. – Desejei para as pessoas dali. – Boa noite, Senhor e Senhora Kimsey. Mais uma vez, obrigado pelo convite. Com licença. – Pedi e me retirei de lá. Caminhei ao lado contrário do local em que eu me encontrava e encostei-me em um pilar do lado de fora do salão, procurando inspirar outra coisa que não fosse a essência de Clive Christian* que emanava por todo o lugar. Apanhei um maço de cigarros do bolso e retirei um de lá. O acendi e traguei profundamente enquanto varria toda a extensão do ambiente com os olhos. Parei onde eu anteriormente estava e cravei meus olhos em Cassie, que ainda conversava com as pessoas na roda, bebericando o líquido escarlate inserido na taça em suas mãos.
Eu já não conseguia mais me enxergar ao seu lado.
Permaneci ali até finalizar o cigarro e, após isso, percorri o caminho de volta até o meu destino anterior.
- Onde você estava? Quero ir embora. – Cassie proferiu no momento em que eu me pus ao seu lado.
- O Senhor Kimsey queria me ver. – Respondi seco, concordando com o seu pedido. A minha social ali já havia sido feita. Despedimo-nos de nossos conhecidos e seguimos em silêncio até o carro, que me foi entregue pelo manobrista.
Eu dirigia calado e concentrado na rua à minha frente ainda me sentindo irritado pela brincadeira infame que Cassie fizera diante de pessoas que sequer eram nossos amigos. Como se adivinhasse que eu não queria papo, ela se manifestou.
- Por que você está com essa cara? – Questionou desentendida.
- Você realmente não sabe? – Retruquei irônico. – Você ridicularizou algo que tem importância para mim na frente de pessoas que não sabem o mínimo da nossa vida. Da minha vida. – Expus, tentando conter a irritação em meu tom de voz. Cassie riu e aquilo despertou a ira que até então eu tentava controlar.
- Por Deus, . Eu só fiz uma brincadeira! Por acaso falei alguma mentira? – Foi a minha vez de rir.

(Nota: Coloque a música Sexed Up do Robbie Williams para tocar!)


- Foda-se o que você falou, Cassie! Eu nunca te pedi para aceitar ou concordar com as coisas pelas quais eu acredito, contanto que houvesse respeito pelas minhas escolhas! – Bradei enquanto me aproximava de sua casa, apertando o volante com uma força desnecessária.
- Não seja ridículo! Você está fazendo uma tempestade em copo d’água, francamente. – Ela proferiu com certa incredulidade, saindo do automóvel assim que eu o estacionei em sua garagem. Repeti o ato, irritantemente consciente de que o desgaste da nossa relação estava a ponto de explodir em mais uma briga.
- Acho que essa é uma característica que nós possuímos em comum, não é mesmo? – Rebati desdenhoso. Entramos em sua sala e Cassie virou-se de súbito, me encarando incrédula.
- O que você disse? – Indagou com o tom de voz ameaçador. Os olhos semicerrados demonstravam o ressentimento pela minha frase e creio que a minha expressão não estava diferente.
Durante os instantes em que nós nos encarávamos em pura decepção, uma avalanche de lembranças e sentimentos vieram à tona. Todos os momentos felizes que Cassie e eu havíamos passado pareciam distantes, como se houvessem ocorrido há muitos anos. As discussões por trivialidades deram espaço para outras e mais outras, transformando tudo em uma bola de neve. Suspirei pesado e esfreguei as mãos em meu rosto em um claro sinal de cansaço e tornei a olhá-la.
- Todo esse tempo, tudo o que eu fiz foi tentar ser compreensivo. Eu não estou tentando me eximir da culpa pelo nosso relacionamento estar dessa forma, mas eu definitivamente não aguento mais. – Confessei abatido. O olhar de Cassie tornou-se surpreso e eu diria que até assustado.
- Como assim não aguenta mais? Do que você está falando, ? – Questionou exasperada, se aproximando de mim.
- Quando foi que o nosso namoro se tornou maçante? Quando foi que tudo o que eu faço passou a te irritar e vice e versa? – A minha pergunta saiu como uma súplica. Ninguém iniciava uma relação pensando em seu fim, porém, quando ele se aproximava, disfarçar e encobrir a situação já não era uma opção. Cassie abriu e fechou a boca diversas vezes, procurando o que dizer.
- Você acha que o nosso namoro se tornou maçante? – Ela indagou magoada.
- E não se tornou? – Devolvi a pergunta. – Para pra pensar nesses últimos meses, Cassie.
- Vamos lá... Se for para jogar as cartas na mesa, então eu jogarei. Você parece se esquecer de todas as vezes que me deixou de lado por causa do seu trabalho. Lembra quando você optou por fazer o doutorado direto?* Quantas vezes você simplesmente se esqueceu de mim?! Eu SEMPRE aguentei calada! – Cassie desabafou e eu imediatamente me senti mal por saber que aquilo era verdade.
- Eu tenho consciência da minha parcela de culpa nisso tudo e eu peço desculpas a você – reconheci. –, mas nós não conseguimos ficar perto um do outro sem brigar! Que relação é essa?
- Uma relação que VOCÊ ajudou a estragar. – Cassie ralhou e eu bufei, mexendo nos cabelos nervosamente.
- Eu aceito e reconheço os meus erros, por que você não pode fazer o mesmo?
- Porque eu não teria errado se você não tivesse também! – Ela aumentou o tom de voz.
Estava cada vez mais difícil tentar conversar.
- É sobre isso que eu estou falando! Você NUNCA assume que errou, sendo que a culpa NÃO É SÓ MINHA! Consegue se recordar de suas reclamações sem sentido? Das vezes em que você simplesmente não fez esforço NENHUM para me compreender? Do dia em você ignorou as minhas ligações e foi para uma porra de festa? Eu posso ficar aqui até amanhã enumerando as suas falhas! – finalizei irritado, notando Cassie me observar com o cenho arqueado e os braços cruzados.
- Reveja os seus conceitos, sou EU quem deveria reclamar! Talvez se eu te ignorasse você passaria a me dar mais atenção! – Cassie reclamou apontando o dedo para mim.
- É só sobre isso, não é? Sobre você receber atenção, apenas sobre você! Saia da sua bolha e passe a perceber o mundo a sua volta, não é difícil! Esses joguinhos não levam ninguém a nada.
- Estou vendo que não, você simplesmente não se importa. – Ela se aproximou de mim com a feição ressentida. Eu permaneci no mesmo lugar, sustentando o seu olhar.
- Talvez seja a hora de nós sermos claros um com o outro.
- Do que você está falando? – Indagou atônita.
- Não quero mais discutir em vão. – Admiti consumido por aquele clima hostil.
- Eu não estou assimilando muito bem aonde você quer chegar. – Cassie falou apreensiva.
Suspirei e, mais uma vez, passei as mãos pelos cabelos.
- Isso não está mais funcionando, eu já não me sinto da mesma forma. – Revelei olhando fixamente para a sua feição perplexa. Seus olhos se arregalaram por breves segundos até a expressão assustada ser substituída pelo escárnio.
- , você... – ela riu sarcástica. – Não, você não está fazendo o que eu acho que está fazendo. – Mantive a minha posição inalterada enquanto Cassie ria nervosa.
- Estou sim. – Respondi determinado e ela riu alto.
- Qual é o motivo dessa decisão repentina? Você quer terminar comigo por causa de algumas discussões? É sério? – A expressão dotada de escárnio retornou e eu fechei os olhos por milésimos de segundos, os abrindo em seguida. Respirei fundo e neguei com a cabeça.
Não seria fácil.
- Não é somente pelas discussões, mas por tudo. Pelo acúmulo de mágoas, pelo cansaço e por perceber que estamos nos machucando! Eu...
– PARA! – fui interrompido pelo seu tom de voz elevado. Seus olhos vermelhos denunciaram seu choro comedido, porém, eu sabia que ela não permitiria que as lágrimas caíssem.
- Você não vai fazer isso – ela riu mais uma vez –, você não quer fazer isso! É RIDÍCULO!
- Cassie, não torne isso mais difícil do que já está sendo. – Pedi com pesar.
- Estava tudo bem até hoje mais cedo! QUAL É O SEU PROBLEMA?
- Não estava tudo bem! Você sabe que não estava!
- Então é assim? – Cassie me fitou com desdém enquanto o sorriso carregado de escárnio perdurava em seus lábios – Espero que você saiba o que está fazendo e saiba também que irá se arrepender. Você é realmente hilário – mais uma risada. Franzi o cenho sem entender, ouvindo-a prosseguir. – Sempre andando por aí com essa pose de prepotente, dono da razão. , o homem correto e benevolente, profissional íntegro que a todo o momento vive a vida de todo mundo, menos a própria. Um homem que não sabe o que fazer com tudo o que possui. Você vive a sua vida monótona como um robô programado para fazer as mesmas coisas todos os dias! – Cassie praticamente cuspia as palavras repletas de um menosprezo quase palpável. Ainda parado, eu a observava com seriedade tendo o cenho franzido em um aspecto carregado de reprovação às palavras dirigidas a mim. Não obstante, ela persistiu. – Continue apontando o seu dedo a todo mundo menos a si, amor. Eu não irei me compadecer quando souber que o seu copo de whisky e o seu cigarro se tornaram a sua única companhia. – Finalizou debochada. Eu assenti vagarosamente, ainda assimilando tamanho desapreço. Após o seu discurso, somente tive mais certeza de que estava fazendo o certo.
- Você não é diferente de mim, Cassie. Tente não ficar presa à sua arrogância e boa sorte. A forma como eu irei lidar com a minha vida não é mais problema seu, amor. – Concluí sarcástico e lhe dei as costas, pronto para sumir dali.
- NÃO FAZ ISSO! ACABOU? – Ela perguntou indignada, tocando em meu braço para que eu me virasse. Apenas virei a cabeça e a encarei por cima dos ombros, dando de cara com a sua fisionomia colérica e vermelha.
- Acabou a porra toda. – Com isso, saí, deixando Cassie para trás.
Deixando muita coisa para trás.
Atordoado, entrei em meu carro e bati a porta com força, socando o volante em um ato impensado. Apoiei as minhas mãos em minha cabeça e fechei os olhos na tentativa de recuperar – ao menos um pouco – a minha sanidade.
O que aconteceria de agora em diante?
Após tanto tempo com alguém, dar-se conta de que está sozinho transmite uma sensação estranha de vazio. As palavras de Cassie ecoavam de modo desordenado em minha mente, e, por mais que elas doessem, saber que existia verdade em tudo aquilo que me foi dito era desconfortável. Eu havia feito a coisa certa, entretanto, o singelo alívio em meus ombros não era maior do que o peso da grande carga emocional de nossa discussão.
Dei partida no automóvel em direção a minha casa me sentindo uma pilha de nervos.

Porém, eu também sentia que uma parte de mim encontrava-se aliviada.


’s POV

Iluminação demais.
Conforto de menos.
Cerrei os olhos em meio à claridade e senti um peso na minha barriga. Direcionei a minha atenção ao que me incomodava e vi o braço de Vicenzo jogado em cima de mim, enquanto ele dormia extremamente torto ao meu lado, quase me derrubando da cama. Franzi o cenho observando ao redor, procurando com os olhos algum relógio para eu me situar sobre que horas eram. Percebi uma movimentação e o meu corpo foi puxado de encontro ao corpo do meu colega de trabalho que já se encontrava acordado e, como sempre, elétrico.
- Ora ora, pensei que você seria sorrateira e iria embora sem se despedir. – Vicenzo disse me encarando brincalhão e eu ri, negando com a cabeça.
- Eu não sou clichê desse jeito, meu amigo. – Me desprendi do seu abraço e me levantei, começando a procurar as minhas roupas no chão e me vestindo.
- Que ótimo, se você fosse embora, iria perder o meu incrível café da manhã à base de pizza gelada e refrigerante. – Ele colocou os braços atrás da cabeça e falou todo orgulhoso, me fazendo rir novamente. Peguei o meu celular na bolsa e chequei à hora. 11hrs15 da manhã.
- Desculpe te desapontar, mas eu vou perder o seu incrível café da manhã. Preciso ir pra casa. – Informei e Vicenzo revirou os olhos de modo teatral, tornando a me olhar.
- Você me chateia, gata. Não acredito que você recusando o meu café da manhã super romântico. – O vocalista se pôs de pé preguiçosamente, caminhando a passos lentos até o que eu imaginei que seria o banheiro.
- Entendo que eu tenho uma personalidade magnética e que você não quer ficar longe de mim, mas, se isso te conforta, amanhã eu vou passar na loja pra deixar umas encomendas do senhor Jordan e você verá o meu rostinho. – Brinquei e a cabeça de Vicenzo fez-se presente pela porta do banheiro.
- Eu criei um monstro – ele constatou negando com a cabeça e riu. – Vou tomar um banho e te levo pra casa, beleza?
- Tudo bem. – Assenti sorrindo e voltei a mexer no celular despreocupada.
- Bom, essa é a hora em que você fala “quer que eu te acompanhe?” – Tirei os olhos do aparelho e gargalhei ao ver a cara de tédio da qual Vicenzo me olhava.
- Como eu já disse, não sou clichê. Pode tomar o seu banho à vontade. – Me deitei na cama, abrindo um joguinho qualquer no meu celular e me assustei ao ver que o meu colega de trabalho se pôs por cima de mim, tirando o aparelho das minhas mãos. Ele me encarava com um sorriso desafiador e, devo dizer, estava sexy.
Principalmente com aquelas tatuagens espalhadas pelo seu corpo.
Vicenzo se aproximou de mim e tomou os meus lábios com certa voracidade, puxando-os e entrelaçando a língua na minha. Quando eu fiz menção de levar as minhas mãos até os seus cabelos, ele se afastou de súbito, me deixando desnorteada e brava ao ver a sua feição zombeteira.
- Idiota. – Joguei um travesseiro nele, que gargalhou alto e se enfiou novamente no banheiro.
Eu me sentia feliz pela minha amizade com Vicenzo, nós nos demos bem logo de cara e ele era uma pessoa fácil de lidar. Era bom ter alguém assim por perto, totalmente desencanado com tudo e que transmitia uma leveza incrível, como se fôssemos amigos há tempos.
E que é ótimo na cama, acho muito importante pontuar esse fato.
A noite passada havia sido muito boa, consegui me distrair e aproveitar sem pensar demais – o que eu costumava fazer com bastante frequência –, posso dizer que me deixar levar pelo momento foi libertador. Eu precisava me dar mais chances e sabia disso. Como a disse: Eu tinha que me distrair, tirar o da cabeça ao menos um pouco.
Certa vez, eu li a seguinte frase: “Tem sempre aquela pessoa, uma só, que possui um passe-livre, uma carta branca na sua vida. Que vai, volta, vai de novo e nunca irá parar de ser o que é pra você. Alguém pelo qual você nunca conseguirá deixar de ter sentimentos” e, no meu caso, acho que é verdade. E, nossa, como eu gostaria que não fosse. Você já se sentiu estúpida por sentir algo? Já tentou racionalizar a situação de todas as formas, entretanto, só conseguiu dar nós e mais nós na sua mente?
Sério, é desesperador.
Estava tão imersa em minhas divagações que perdi no joguinho. Droga. Xinguei baixo e ouvi a risada de Vicenzo ecoar pelo quarto, me trazendo de volta à realidade.
- O quê? – Perguntei, não entendendo o motivo de seu riso.
- Você é estranha. – Ele falou e eu cerrei os olhos diante da sua constatação. – Mas de um jeito legal, relaxa. – Terminou em meio a um sorriso e eu assenti, ainda o encarando desconfiada.
Levantei-me da cama pegando a minha bolsa e o segui para fora do quarto, fazendo uma careta no instante em que eu vi a zona da qual o apartamento se encontrava.
- Eu não deveria fazer isso porque você acabou de me chamar de estranha, mas você quer ajuda pra arrumar isso? – Disse apontando para o local com cara de aversão.
- Nah, de boa. Depois eu vejo o que eu faço com isso. – Respondeu despreocupado e eu dei de ombros.
Saímos do seu apartamento e descemos as escadas – não sem antes Vicenzo me parar de cinco em cinco segundos para me beijar ou fazer alguma gracinha – Chegando até a saída, onde eu logo fiz uma careta ao ver a moto dele na rua. Lá vamos nós novamente.
- Ainda te faço perder o medo da minha belezinha.
- Não tenho muita certeza disso. – Falei incerta, colocando o capacete e agarrando forte a sua cintura, reprimindo um gritinho idiota no momento em que senti a velocidade da moto ricochetear em meu corpo.
Permaneci desse mesmo jeito durante todo o percurso, suspirando aliviada quando Vicenzo parou a moto na frente do condomínio. Tirei o capacete e o entreguei ao vocalista, que também havia tirado o seu ao descer da moto para me ajudar a fazer o mesmo.
- Obrigada por ontem, adorei a noite. – sorri meio sem graça. – e obrigada por me trazer em casa.
- Eu que agradeço. – ele piscou. – Estou sempre à disposição. – Ele se aproximou e colou os seus lábios nos meus, iniciando um beijo que durou alguns segundos. Sorri novamente e me afastei, aguardando Vicenzo se preparar para partir. Assim que o fez, me virei e entrei no condomínio, andando calmamente em direção à moradia dos , sorrindo satisfeita pelo tempo ameno daquele domingo.
As crianças corriam pelo parque, babás passeavam com os bebês e uma ou outra pessoa corria com os cachorros. Era um dia agradável. Entrei na mansão e me direcionei até minha casa, encontrando tudo no mais intrínseco silêncio, o que indicava que minha mãe estava trabalhando. Segui para o banho a fim de tirar a sensação de “noite anterior” e, enquanto a água caía pelo meu corpo em um ato relaxante, ri fraco ao me recordar da minha noite com Vicenzo. Havia sido muito divertido ficar com ele e me distrair um pouco, e o fato de saber que a amizade que nós construímos permaneceria igual, me deixava tranquila.
Após desligar o chuveiro e colocar uma roupa confortável, resolvi procurar minha mãe no único lugar possível: Na cozinha dos .
Ao chegar no cômodo, avistei Judith mexendo algo em uma tigela, tão compenetrada no que fazia que não notou a minha presença ali. Aproximei-me da mulher e ela levantou a cabeça, sorrindo largo ao me ver.
- , querida!
- Oi, Judith! – Correspondi o sorriso na mesma intensidade. – Que massa bonita! O que é? – perguntei curiosa, checando o seu conteúdo de perto.
- Bolo de vinho tinto com chocolate. – Respondeu, revirando aquela mistura maravilhosa e eu assenti admirada. – A sua mãe foi ao mercado, mas não deve demorar.
- Ah, obrigada! Não a vi em casa e imaginei que ela estivesse aqui. Qual é a quantidade de vinho necessária para que o gosto não fique forte? – Indaguei interessada na receita com o olhar fixo no conteúdo homogêneo contido no recipiente.
- Somente um cop... Oh! – Ela fez uma cara de assustada e eu a encarei confusa. – , ainda bem que você me lembrou! Esqueci de pegar o vinho! – Ri fraco de seu desespero e levantei-me.
- Tudo bem, eu pego. – Me ofereci, vendo a mulher a minha frente expressar gratidão em um sorriso singelo.
- Obrigada, querida. Você sabe onde as bebidas ficam, certo? Na adega de vinhos no fundo do bar, lá embaixo. Pode pegar qualquer um. – Judith explicou. Murmurei um “ok” e saí em direção ao último – Ou seria primeiro? Nunca soube muito bem, sempre me perdia um pouco naquela casa enorme – andar em busca da bebida. Desci o último degrau que dava acesso à entrada do bar e parei de súbito no exato momento em que vi uma figura muito conhecida sentada ali. estava mexendo em seu celular totalmente distraído e eu praguejei mentalmente, haja vista que, para chegar até a adega, teria que passar em sua frente.
Vamos lá, .
Respira.
Finja que não o viu e apenas ande.
Ok.
Levantei a cabeça e retomei os meus passos, quase comemorando o fato de que não havia percebido a minha presença até a metade do cômodo percorrido por mim, entretanto, a minha alegria não durou muito. No instante em que eu abri a porta da adega, o ruído produzido pelo ato chamou a atenção dele, que parou de mexer em seu aparelho e encarou o local de onde o barulho viera, rindo enviesado quando me encontrou parada com uma mão na maçaneta e a maior expressão de taxo no rosto.
- Ora, ora... Onde estão os seus modos, ? Ia passar por mim sem me cumprimentar? – indagou irônico e pretensioso, levantando do banco e vindo até mim. Fechei a cara adotando uma expressão carrancuda e abri a porta, ignorando totalmente a sua fala. Adentrei a adega, me encolhendo um pouco devido a temperatura um pouco mais baixa do local, olhando o ambiente acolhedor repleto de vinhos nas prateleiras. Claro que não desistiria. Encostado na porta com o olhar esnobe e satírico, ele persistiu. – Você deve estar feliz, não é mesmo? – indagou ácido. Mesmo não desejando, o olhei totalmente perdida.
- Por que não estaria? Do que você está falando? – Perguntei demonstrando que não fazia ideia do que ele insinuava. riu sarcástico e eu permaneci séria.
- Ah, você não sabe? Então irei te atualizar das novidades! e Cassie terminaram.
A minha cara foi no chão. Eu me mantive parada com a garrafa de vinho nas mãos, sem saber o que dizer. Terminaram? Como? Pisquei algumas vezes com o intuito de me situar, vendo me encarar cínico. – Cadê o sorriso, ? – questionou satírico. – Você sempre quis isso, certo?
- Cala a boca! Você não sabe nada sobre mim, nunca soube. – Respondi, me aproximando dele. Meu tom de voz contido expressava a mágoa que eu guardava. – Recolha-se em sua insignificância e pare de dirigir a palavra a mim, . Eu nunca ficaria feliz com a infelicidade de outra pessoa, não sou você. – Cuspi as palavras carregadas de desdém. Ele estreitou os olhos e sustentou o meu olhar.
- Você ainda guarda algum sentimento por mim aí dentro. – Afirmou e foi a minha vez de estreitar os olhos, tamanha prepotência de sua parte. – Se não guardasse, não ficaria tão arisca quando eu estou perto. – deu um passo à frente e eu, um para trás.
- Pare com essa justificativa de ego, não seja egocêntrico. Você já parou para pensar que quando uma pessoa demonstra que a sua presença incomoda, é porque incomoda mesmo? Não sou apta a joguinhos e você sabe muito bem isso. – Desabafei sem cortar o contato visual enquanto apenas me fitava inexpressivo. Voltei a avançar o passo que outrora eu recuei e, em um ato louco de coragem, me aproximei de seu ouvido. – Eu não te quero perto de mim, ouviu bem? – Soprei e ri internamente ao vê-lo se arrepiar. – Você fez a sua escolha quando decidiu que eu não era boa o suficiente somente por não ter dinheiro, e quer saber? Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo. – Tornei a fitá-lo, muito perto de seu rosto. Era exatamente o que eu queria. Eu queria que ele sentisse e visse que a garotinha boba que ele iludia não estava mais ali. – Eu sou boa o suficiente e não é uma nota de papel que molda caráter que vai mudar isso. – Descarreguei bem a sua frente, me sentindo mais leve. parecia surpreso com a minha atitude e, embora até eu estivesse surpresa comigo mesma, permaneci impassível. Seus olhos cerraram mais uma vez, porém, antes mesmo de ouvi-lo proferir algo, a voz de soou no ambiente.
- O que você está fazendo aí, cara? – Ele perguntou não me enxergando ali. Afastei-me de sentindo meu coração acelerado. Estava nervosa devido a nossa pseudo lavagem de roupa suja. virou-se e eu consegui ver e ser vista por , que arqueou o cenho assim que os nossos olhares se encontraram. – Algo errado por aqui? – Ele questionou desconfiado com as duas mãos escondidas no bolso de sua calça, cravando a sua feição severa em , que já encontrava-se fora da adega. Notei que o seu rosto aparentava cansaço ao mesmo tempo em que parecia abatido e eu logo liguei uma coisa com a outra, confirmando o que eu soube anteriormente. O seu relacionamento havia chegado ao fim. Vê-lo daquela forma me deixou angustiada.
- Não, não, . Só estava cumprimentando a . – disse, me lançando um sorriso enviesado. Eu não correspondi. Pelo contrário, continuei séria. prendeu a sua atenção em mim e me analisou minuciosamente, como se tentasse comprovar a afirmação do amigo.
Eu nada disse, apenas iniciei a minha caminhada rumo à saída daquele cômodo sufocante.
Logo que eu passei na frente dos dois, tocou suavemente o meu braço, ato que me fez parar no meio do caminho.
- Tudo bem? – Questionou ele, quase me fazendo derreter devido a sua aproximação para falar comigo a fim de certificar-se de que as coisas estavam sob controle, afinal, ele conhecia o amigo que tinha.
- Sim... – Minha voz saiu um tanto quanto trêmula. – Só vim pegar essa garrafa para a Judith. – Respondi, levantando o vinho que encontrava-se em minhas mãos. apenas assistia tudo de braços cruzados com a feição colérica.
Babaca.
assentiu vagarosamente, perdurando o contato dos seus olhos nos meus por mais alguns segundos, até que se afastou. Sorri fraco para ele e retomei os meus passos sem ao menos olhar na cara de .
Após me retirar do lugar, sorri abobalhada e orgulhosa da minha atitude.
A frase “You go, girl!”* ecoava em minha mente em letras iluminadas e garrafais ao me recordar de sua cara de taxo ao ouvir cada palavra proferida por mim, o que me valeu o dia.
Retornei à cozinha e entreguei a garrafa de vinho à Judith, que, agora, estava acompanhada da minha mãe, ambas preparando as suas respectivas receitas.
- Oi, filha! Chegou há muito tempo? – Perguntou ela após eu lhe dar um beijo na bochecha.
- Um pouquinho. Vim te procurar, mas Judith me avisou que você estava no mercado.
- Como foi o passeio? – Minha mãe questionou com um olhar malicioso e eu a encarei boquiaberta, sentindo o meu rosto esquentar. Judith riu, me encarando da mesma forma.
- Hm, passeio, hein? – A mulher brincou e eu ri, abanando com as mãos para que elas parassem.
- Fui ver a banda de um amigo tocar. Apenas isso. – Expliquei convicta. As duas mulheres se entreolharam divertidas e deram de ombros segurando o riso, o que me fez rir.
- Francamente vocês duas! Vou para casa estudar que eu ganho mais. – Disse em meio a risos e despedi-me, negando com a cabeça.
Ao chegar em casa, sentei-me na mesa de casa com os diversos livros espalhados já prevendo que seria complicado focar em algo.

FLASHBACK.

Cansada após uma maratona de estudos, eu aproveitava o meu merecido descanso sentada na cadeira de balanço localizada na varanda de casa. Olhei em direção a mansão dos e sorri automaticamente ao ver encostado na parede, de costas para mim. Levantei-me animada, me aproximando dele passo a passo com o intuito de assustá-lo, entretanto, parei de súbito ao notar que ele falava ao telefone.
- Estou na casa do , mas posso ver o que faremos quando eu sair daqui. – ele disse e eu imediatamente franzi o cenho com a sua fala. – Sim, pode ser. Nos falamos depois. Beijo. – Finalizou a ligação e virou-se, dando de cara comigo ali o encarando de forma suspeita. deu um pequeno sobressalto devido ao susto e riu, vindo em minha direção.
- O que você vai fazer quando sair daqui? – Perguntei de braços cruzados, desconfiada. - Meu chefe queria me ver. – Ele disse e eu ri.
- Em um sábado à noite? E você fala “beijo” para o seu chefe? – Indaguei irônica, vendo-o rolar os olhos.
- O dever chama a qualquer hora. E eu estava falando com a secretária dele, que é uma amiga minha. – Explicou ele, perto o suficiente para que nossas respirações se confundissem. Continuei o encarando em dúvida, pensando se engolia ou não aquela historinha esquisita. – Qual é, . Para com isso! – Falou, acariciando o meu rosto. Eu respirei fundo, me odiando por sentir-me arrepiar com o seu toque. – Se eu pudesse, cancelaria com ele para ficar com você. – disse com os lábios perto dos meus, me beijando ligeiramente por um breve momento. Respirei fundo e me afastei, deixando-o confuso.
- Não me incomoda que você tenha compromisso com o seu trabalho, mas me incomoda o fato de achar que você me evita em certos momentos. Momentos sociais, por exemplo. – Confessei magoada e ele suspirou.
- De onde você tirou isso?
- Das suas atitudes quando eu estou perto. Você simplesmente finge que não me conhece na frente das pessoas do seu círculo social. – Afirmei o avaliando.
- É impressão sua.
- Não, não é. Não sou boba. – Declarei ofendida e dei-lhe as costas, logo sendo interrompida por um alarmado.
- Ei, ei! Espera aí, não faz assim... – Pediu manhoso, me trazendo para perto de si. Ele me encarou daquela forma sórdida e eu abaixei a guarda automaticamente, tendo vontade de socá-lo. Ele acariciou o meu rosto mais uma vez e encostou seus lábios nos meus superficialmente, puxando-os brevemente com os seus dentes. Suspirei, subindo uma de minhas mãos por sua nuca, depositando-as ali. Inclinei a cabeça para frente e aprofundei o contato de nossas bocas, ato aprovado por , que me apertou em seus braços no instante em que sua língua enrolou-se à minha. – Vou cancelar a reunião. Quero ficar com você.
Mesmo contra a minha vontade, ele o fez.
A mesma desculpa foi-se usada e, para todos, eu iria apenas dormir na casa de uma amiga.
Como em todas as outras vezes, cedi ao seu charme barato.

FIM DE FLASHBACK.


Apoiei o meu rosto entre as minhas mãos e ri incrédula tamanha a minha burrice naquela época não tão distante.
Apesar de tudo, eu me sentia feliz por ter aprendido muito e crescido com tudo aquilo. A submissa e tonta não existia mais e eu não poderia estar mais orgulhosa. Como diria a rainha Beyoncé: Who run the world? Girls! O que significava que homem nenhum merece que desperdicemos o nosso tempo e a nossa saúde mental.
Abri o livro, torcendo para que eu conseguisse me concentrar na matéria, haja vista que a minha cabeça teimava em focar somente em uma coisa: O término entre e Cassie.

’s POV

Sentei-me no banco do bar junto a e o olhei com uma sobrancelha arqueada, estranhando o clima entre ele e . Eu o conhecia bem o suficiente e já havia presenciado cenas protagonizadas por ele e suas brincadeiras infantis direcionadas a ela, o que não me agradava. Meu amigo me encarou de volta e devolveu a expressão duvidosa, rindo desdenhoso ao notar a minha feição séria.
- O quê? Vai brigar comigo por estar perto da sua protegida? – Perguntou sarcástico e eu não mudei de expressão.
- Depende. Você fez algo para que eu tome tal atitude? – Retruquei com um tom de voz cortante e ele franziu o cenho.
- Cuidado, . Com essa reação pode fazer parecer que você está a fim dela. – advertiu zombeteiro e eu cerrei os olhos.
- Qual é a sua, cara? – Indaguei cético, sem entender a sua atitude implicante sempre que o assunto era . balançou a cabeça com um sorriso de lado e tomou um gole da bebida em suas mãos.
- Vai com calma, . Agora que você está solteiro terá mais disponibilidade para relaxar. – falou risonho e eu assenti, encarando o copo a minha frente. – Não tem chance de vocês voltarem?
- Não. – Respondi decidido.
- Vocês eram um casal foda, as pessoas quase faziam reverência quando vocês passavam. – Ele pontuou, gesticulando de forma exagerada e eu me limitei a continuar bebendo. – Não entendo essa sua cara de merda, foi você quem terminou, por que está desse jeito?
- Você tem noção da encheção de saco que isso vai ocasionar para o meu lado quando todo mundo souber? A minha família vai acabar com a porra da minha paciência. – Disse já cansado do que viria com esse término de namoro.
- Ouvi por aí que você e Cassie iam noivar e tudo.
- É o que todos queriam, menos nós dois.
- Você é louco! Cara, você perdeu a Cassie Privost. – expressou descrente negando com a cabeça. Esfreguei o rosto com as mãos, já incomodado com aquele assunto.
- Já chega de falar sobre isso. – Finalizei o assunto e o meu amigo ergueu as mãos em rendição, iniciando uma conversa sobre outro tópico.

(...)


Segunda-feira era sinônimo de correria.
Eu andava a passos firmes rumo à sala da casa do meu cliente, onde comumente nos encontrávamos. Sentia-me tenso devido ao estresse do percurso, afinal, eu poderia receber alguma ligação suspeita a qualquer momento, porém, eu sabia que precisava ter sangue frio para lidar com esse tipo de situação. Adentrei o cômodo sendo cumprimentado por um Lee Feldmann visivelmente apreensivo, provavelmente angustiado e ansiando por novidades à respeito do seu caso. Ele fez um sinal para que eu me sentasse e eu o fiz.
- Senhor Feldmann, tenho boas notícias. – Ao dizer-lhe isso vi a expressão do homem à minha frente se iluminar, então, prossegui. – Fiz algumas pesquisas e notei um nome interessante em meio aos convidados. Sandro Averbuck. Esse nome lhe remete algo?
- Sim, ele é um empresário muito respeitado em nosso meio, porém, andava sumido devido a boatos sobre a procedência duvidosa referente aos seus negócios.
- Pois bem. Consegui informações extremamente interessantes sobre esses boatos. Há indícios de que ele comete crime de Gestão Fraudulenta*, então, tentarei coletar um depoimento a seu favor utilizando essas evidências.
- Doutor , isso é um sopro de esperança em meio a essa tempestade de coisas ruins! – Ele exclamou animado e eu assenti satisfeito.
- Tenho certeza de que ele aceitará, com paciência tudo irá se encaixar exatamente como nós desejamos. À propósito, o senhor fez as anotações das quais eu lhe pedi?
- Claro, claro! Aqui estão – Meu cliente remexeu uma gaveta e retirou de lá um envelope, entregando o papel para mim.
- Obrigado. Irei analisar as anotações com calma, comparando-as com os depoimentos já prestados e tentarei encontrar furos nos mesmos. – Falei, guardando o documento em minha pasta.
- Tomara que dê tudo certo. – O senhor deu um suspiro cansado e eu o encarei na tentativa de passar-lhe confiança com o ato.
- Vai dar! As coisas estão se encaixando. Mesmo vagarosamente, as provas estão aparecendo.
- Eu juro que não cometi esse crime, Doutor – Feldmann assegurou em meio a uma súplica, fazendo-me manear a cabeça em compreensão.
- Sei que não, senhor Feldmann. Por isso estou aqui. Tem muita coisa errada nessa história e eu vou provar. O senhor não será condenado injustamente, fique tranquilo.
- Obrigado, meu jovem. – Ele disse parecendo esgotado e eu senti pena. Apesar de ser um poderoso empresário, Lee Feldmann era um senhor muito sereno e vê-lo tão fragilizado era de uma tristeza incômoda. Sua família morava fora do país e não havia ninguém por perto para apoiá-lo.
- Não agradeça, só estou fazendo o meu trabalho.
- Doutor , deixe-me perguntar algo que está me deixando preocupado. – Começou e eu o encorajei a prosseguir com a sua fala. – Você está bem, certo? Não há nada de estranho acontecendo com você? – Respirei pesado ao ouvir o seu questionamento. Eu não contaria das ameaças para o meu cliente, isso poderia desestabiliza-lo e não seria nada bom para o andamento do caso. Limitei-me a negar com a cabeça.
- Não. Está tudo bem. – menti. – por agora, necessito que você se concentre somente no caso. Qualquer coisa é de extrema importância, nenhuma informação ou acontecimento é irrelevante.
- Tudo bem. Obrigado novamente. Como eu já havia lhe dito, sei bem como esse meio funciona. Tome cuidado.
- Eu sei me cuidar, agradeço a sua preocupação. – Levantei-me e me despedi de meu cliente com um aperto de mãos – Qualquer novidade, irei te ligar. E me ligue caso o senhor tiver algo de novo para falar.
- Farei isso.
Assenti e virei-me, me retirando da sala. Coloquei meus óculos escuros e, atento, olhei para todos os lados enquanto caminhava firmemente para o meu carro, não demonstrando receio algum. Entrei no veículo e logo dei partida em direção ao escritório, louco para analisar as anotações de Lee Feldmann e entrar em contato com o famoso Sandro Averbuck.


(...)


Naquele instante, eu me sentia aliviado. Horas passaram-se desde o momento em que eu saíra da casa do Senhor Feldmann e eu ainda não havia recebido um telefonema estranho sequer. As anotações que me foram entregues seriam de uma importância primordial, eu estava eufórico e feliz por tudo estar se encaixando. Se o Sandro Averbuck colaborasse conosco, seria a cereja do bolo. Meu celular apitou e eu o peguei, vendo o nome de Cassie piscar na tela. Esfreguei o rosto em sinal de cansaço e ouvi a porta do meu escritório se abrindo, revelando um imponente Senhor , que me fitava sem expressão.
- Preciso do relatório do caso do Lee Feldmann.
- Tudo bem. Pra quando?
- Pra ontem. – Disse seco e eu assenti, juntando alguns papeis em cima da mesa. Percebi que o homem ainda me observava e parei o que eu estava fazendo, o olhando curioso – Mais alguma coisa?
- Esse caso é "primordial" para a ascensão da sua carreira e para o escritório, . Não me decepcione.
- Não precisa me lembrar do que eu já sei. – Respondi duro e tornei a organizar os documentos, ignorando a presença do meu pai ali.
- Acho bom que não precise. – Respondeu e saiu, simplesmente. Respirei fundo, aliviado pelo assunto do término do meu namoro ainda não ter caído em seus ouvidos e guardei o endereço do Averbuck em minha pasta, tendo em mente que eu entraria em contato com ele ainda naquela semana. Tomei meu aparelho em mãos novamente e abri a mensagem de Cassie.

"Não sei se a situação de sábado foi apenas mais uma de nossas brigas ou se nós realmente não estamos mais juntos."


Suspirei e resolvi não responder. Acho que ela entenderia.
Recolhi as minhas coisas e segui para fora da sala, trombando em alguém no instante em que eu parei frente ao elevador.
- Caralho. – Resmunguei raivoso, vendo a minha pasta caída aberta no chão.
- Desculpe, – Thompson disse meio desesperado, recolhendo minhas folhas do chão.
Obvio que seria ele.
- Tudo bem, pode deixar isso aí. – Falei, pegando o objeto caído. O observei e ele encontrava-se com o papel onde continha o endereço do Averbuck em mãos. Tirei-o dele sem esperar que ele me entregasse e o coloquei de volta na pasta.
- Alguma dúvida sobre algum caso? – Questionei com um leve cinismo devido a sua curiosidade e Thompson imediatamente negou.
- Não, claro que não. Já está de saída?
- Sim. Até amanhã. – Disse entrando no elevador.
- Até. – O homem respondeu e as portas do local fecharam-se. Encostei-me à parede e afrouxei a gravata, suspirando totalmente esgotado. Ouvi o toque do meu celular e automaticamente gelei, pegando o aparelho do meu bolso. Vi o nome do Paolo no visor e quase sorri de alívio.
- E aí, irmão. – O cumprimentei.
- Beleza, grande ?
- Beleza, cara. E aí? – Respondi, abrindo a porta do carro e entrando no veículo, colocando o aparelho para ligações em meu ouvido.
- Tudo certo. Cara, você precisa salvar a minha vida. – Paolo começou e eu resmunguei algo para que ele continuasse. – Sabe aquela loja de discos que fica no caminho do seu condomínio?
- Você não vai me pedir pra passar lá, né? – Questionei, já sabendo a resposta.
- Quer que eu peça com carinho? Porque eu peço, meu caro. O desespero está grande. – meu amigo brincou e eu ri, balançando a cabeça.
- Você só me fode, puta merda. O que você quer de lá? – Perguntei já me dirigindo para a tal loja.
- Eu fiquei de pegar umas encomendas pra um cliente meu, mas estou preso no escritório. Preciso levá-las ainda hoje.
- A próxima rodada de whiskey vai ser por sua conta, Erzog. Passo aí em meia hora com a porra da encomenda.
- Você é o meu herói, .
- Sempre soube – ri e terminei a ligação, não sem antes escutar um xingamento vindo do meu amigo. Alguns minutos depois estacionei em frente à tal loja, não deixando de notar quão hipster o local era. Tudo no ambiente gritava àquela coisa de vintage. Passei pela porta, que fez um barulho irritante de sino e franzi o cenho ao ver ali, rindo animadamente acompanhada de um cara.
Cara que eu reconheci como o mesmo que estava com ela na frente do condomínio no sábado. O som da entrada chamou a atenção de ambos, que direcionaram a atenção para mim conforme eu me aproximava da bancada. ficou séria e parecia surpresa pela minha presença ali.
- Boa noite. – Falei para o cara do balcão, que respondeu e começou a digitar algo no computador. – Oi, . - cumprimentei-a sorrindo brevemente e ela correspondeu o ato.
- Oi... Posso ajudá-lo? – Questionou simpática e eu devo ter feito uma cara de dúvida extremamente óbvia, porque a garota riu e continuou. – Eu trabalho aqui.
- Ah, sim. – Acompanhei o seu riso e passei a mão na nuca, olhando em volta em dúvida sobre o que o Paolo queria que eu pegasse. – Eu vim buscar uma encomenda em nome de Paolo Herzog. Ele está preso no trabalho e me pediu pra vir.
- Hm... Certo. Deixe-me ver lá atrás, só um minuto. – virou o calcanhar com a intenção de andar até os fundos da loja, porém, foi impedida pelo cara que também se encontrava ali conosco. Apertei um pouco os olhos para ler e identificar o seu nome através do singelo crachá em seu pescoço.
Vicenzo.
- Relaxa, lindinha. Eu vejo lá pra você. – Disse e saiu do local, me lançando um olhar analítico. Ergui o cenho sem entender e parei para observar o lugar mais uma vez. – Não sabia que você trabalhava aqui. – Comentei, quebrando silêncio.
- Surpresa! – Ela cantarolou fazendo graça, me arrancando uma risada. – Trabalho aqui há um tempo.
- Parece ser bem tranquilo. – Pressupus, olhando-a mexer em alguns discos postos em fila em uma prateleira. Mais à frente havia outra prateleira enorme, cheia de livros e revistas em quadrinhos antigas, todas muito bem organizadas e limpas, e eu percebi que, em meio a elas, estavam algumas das quais eu costumava ler quando mais novo. Uma sensação boa de nostalgia me atingiu e eu me peguei refletindo sobre a quanto tempo eu não ia a lugares simples e agradáveis como aquele. seguiu o meu olhar e fez um sinal para que eu a seguisse até a tal prateleira. Assim o fiz.
- Pode olhar à vontade. Esse é o meu lugar preferido daqui, eu amo essas revistas. – Disse, pegando uma em mãos e a foliando sorridente. Também peguei uma e sorri levemente, me sentindo feliz com as lembranças que me tomavam a cada folha que eu passava.
- Eu não fazia ideia de que essas revistas ainda existiam.
- São meio raras, mas existem, sim. O meu chefe as compra em leilões, e, às vezes, faz troca pela internet.
- Se eu trabalhasse aqui, iria passar o dia todo lendo. – Ri e ela fez o mesmo, fazendo uma cara travessa.
- Vou confessar pra você que às vezes é isso que eu faço. – Falou como se fosse uma criança que faz coisa errada e eu ri novamente. Era engraçado como eu ria com bastante frequência quando estava com .
- Eu passo tanto tempo preso no escritório e em lugares sérios que me esqueço sobre como as coisas simples podem nos fazer bem. – Confessei distraído, pegando duas revistas e recebendo um olhar reconfortante da garota ao meu lado.
- Você não precisa se esquecer de viver, sabe? – Ela começou e eu tirei os olhos da revista para encará-la. - uma coisa que eu aprendi, é que nada vale a nossa paz. Nem o nosso emprego dos sonhos, nada. Se você não se sente feliz e não para pra apreciar as coisas ao seu redor, o que você tem se torna vazio. – terminou casualmente e voltou a mexer nas revistas. Eu permaneci a encarando em silêncio, admirado com o que ela acabara de me falar.
- É esse pacote aqui? – O tal Vicenzo apareceu carregando um pacote colorido.
- Sim, esse mesmo! Foi o que eu trouxe hoje. – Pegou o objeto e passou os olhos por ele, conferindo se tudo estava certo. – Olha, geralmente nós só entregamos a encomenda para o destinatário, mas como eu sei que vocês se conhecem e são amigos, vou deixar você levá-la, tudo bem? Só preciso que você diga para o Paolo vir até aqui o mais rápido possível para assinar a lista de entrega.
- Tudo bem. Eu vou levar essas duas. – Coloquei as revistas em cima do balcão e o colega de as pegou, fazendo o procedimento de pagamento. Ela sorriu para mim e fez um sinal com a mão para que eu a esperasse, saindo dali rapidamente. Levantei a sobrancelha em dúvida e peguei a sacola de papel com a minha compra, vendo a garota voltar rapidamente com uma revista em mãos.
- Se você vai ler essas duas, vai precisar dessa também. – Entregou-me a revista e eu a peguei, passando os olhos pela capa e voltando a fitar uma sorridente. – Pode ler com calma, não precisa de pressa para devolver.
- Obrigado. – Sorri ligeiramente, guardando a revista junto às outras recém compradas. – assim que eu terminar de lê-las, te digo o que eu achei.
- Aguardo o seu feedback. – Respondeu, colocando uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olhei para o lado e balancei a cabeça em um “tchau” mudo para o homem que outrora me atendera. Ele correspondeu sem muito ânimo, voltando a sua atenção para o computador a sua frente.
- Então eu já vou... Obrigado por liberar a encomenda e pelas revistas.
- Não precisa agradecer.
- Tchau, .
- Tchau. – Respondeu simplesmente e eu virei as costas, deixando a loja ao som do sino que ecoava sempre que alguém passava pela porta.
Coloquei a encomenda do meu amigo no banco da frente junto à sacola com as revistas e entrei no carro, seguindo para o local de trabalho do Paolo com o pensamento vagando no me dissera.
Eu estava me esquecendo de viver? Qual era o preço de todo esse prestígio?
E, o mais importante: Eu me sentia feliz?


’s POV

Distante, eu encarava a porta da loja da qual saíra recentemente.
- Isso foi quase como uma cena daquelas comédias românticas chatas pra caralho. – Vicenzo disse repentinamente, me fazendo acordar pra vida e olhá-lo em dúvida.
- Do que exatamente você está falando?
- De você e do playboy engomadinho. – Respondeu com tédio e eu pisquei várias vezes, perdida diante da sua recente constatação. – Quem é? Você olha pra ele como se ele fosse instalar a paz mundial.
- O quê? NÃO! – Disse exasperada, recebendo um olhar irônico do meu colega. Me recompus, totalmente sem graça. – Ele é só o filho dos patrões da minha mãe e nós conversamos às vezes. Nada demais.
- Tudo demais. Qual é, ! Você é péssima pra disfarçar. – Vicenzo riu como se eu fosse a piada mais engraçada do universo e eu continuei parada o encarando de braços cruzados e desconcertada. – Sabia que tinha algo de muito estranho acontecendo nesse coraçãozinho pra que você não ainda não tenha caído de amores por mim. – Meu colega constatou e foi a minha vez de rir, lançando-lhe o dedo do meio.
- Você é péssimo e isso não é da sua conta. – Disse por fim, passando por ele e indo até os fundos da loja para pegar a minha bolsa.
E é claro que o Vicenzo não desistiria, pois ele veio ao meu encalço.
- Se você quiser a gente marca uma reunião pra falar das coisas do coração. Eu levo sorvete. Esse tipo de coisa adianta, né? Vamos lá, lindinha! Eu sou um ótimo ouvinte e você ainda pode me usar pra fazer sexo, eu realmente não me importo. Eu definitivamente não me importo. – Vicenzo tagarelava atrás de mim e, não importava o quanto eu o ignorasse, ele falava mais e mais. Bufei e parei de andar, virando pra trás e o olhando aborrecida.
- Você parece um pernilongo irritante, pelo amor de Deus. – Ralhei impaciente e Vicenzo deu o seu sorriso de coringa. Rolei os olhos e suspirei cansada, passando as mãos pelo rosto.
- Tudo bem, eu conto. Mas, por favor, não me interrompa. – O homem assentiu fervorosamente e fez um zíper com as mãos, como se estivesse fechando a boca.
- Vou fechar a loja e já volto. – Ele avisou, saindo do cômodo às pressas, me deixando ali com cara de nada. Após alguns instantes a figura tatuada retornou, sentando-se no pequeno sofá ao meu lado. – Pronto, coração. Eu sou o seu grilo falante, conte-me o que te aflige – Vicenzo fez graça e eu ri, fazendo um sinal como pedido mudo para que ele se calasse. - Aquele é o , eu o conheço desde quando nós éramos mais novos. Minha mãe e eu fomos morar na casa dele em troca dos serviços dela, e eu gosto dele há algum tempo – comecei. Eu mexia nos dedos, sem graça conforme explicava ao meu colega toda a situação envolvendo os meus sentimentos sobre o , enquanto o vocalista me ouvia atentamente. A única pessoa que me ouvia falar a respeito disso era a , e, embora fosse estranho confessar para outrem sobre a forma que eu me sentia, também era um alívio. Dividir as cargas emocionais nunca seria ruim.
Assim que eu terminei toda a história, encarei Vicenzo, que me observava sereno.
- Porra! – ele exclamou – Eu não sei se você é muito apaixonada ou muito tonta, sinceramente. – Falou abruptamente e eu cerrei os olhos, notavelmente brava. – Calma, me deixa continuar. – Pediu e eu cruzei os braços, ainda o fitando com os olhos cerrados. – Pode não parecer, mas eu imagino que seja uma puta situação foda, ainda mais porque vocês se aproximaram e estão construindo uma amizade ou sei lá o quê. Eu poderia te dizer pra esquecer essa merda toda e vir pros meus braços – brincou. Eu dei uma gargalhada e ele continuou – Só que se fosse fácil você já teria feito.
- Sim. – respondi num muxoxo. – parece drama, mas é que eu vejo que ele está cercado de gente ruim, entende? Isso me preocupa. Se você gosta de alguém, você se preocupa, não tem jeito. E eu o sinto tão triste, tão desgastado... Ainda mais agora que ele terminou o namoro. Eu nunca desejei que isso acontecesse, juro. – Confessei e, naquele momento, vi que Vicenzo me estudava com carinho. Ele emanava compreensão e foi muito bom me sentir compreendida por mais alguém. - Na verdade, eu sempre achei que ele e namorada fossem muito felizes, o típico casal de comercial de margarina. As aparências definitivamente enganam.
- Não posso dizer que vai dar tudo certo porque seria te iludir, mas cara, não se envergonha de sentir uma parada tão bonita. Mesmo eu achando um puta desperdício de tempo, sendo bem sincero. – Encolhi os ombros e suspirei, sabendo que, realmente, era um desperdício de tempo gostar do –. Se você acha que ser amiga do playba vai te fazer sentir melhor, então seja. Faça o bem de alguma forma, lindinha – Vicenzo finalizou e eu segui o olhando meio estupefata, afinal, não esperava que ele fosse tão bom ombro amigo.
Do jeito dele, mas enfim.
- Eu não sabia que você era tão bom ouvinte.
- Eu tenho muitas qualidades, você que, infelizmente, não as enxerga. – Fez cara de sofrido e eu ri, o empurrando pelos ombros.
- Sério, obrigada por não me julgar.
- Todos estamos fodidos neste mundo, gatinha. Não cabe a ninguém julgar ninguém. – O vocalista lançou-me uma piscadela e levantou-se. Fiz o mesmo. – Vou fechar a loja e te levo pra casa.
- Que altruísta, gostei de ver! – Ri e o segui pelo lugar para ajudá-lo me sentindo leve por ter aberto o jogo a respeito dos meus sentimentos pelo .
**

Após chegar em casa e tomar um banho relaxante, me sentei em frente à janela do meu quarto com uma xícara de chá em mãos, encarando o extenso gramado a diante. A noite caiu e com ela, a temperatura. O tempo havia fechado, demonstrando que uma tempestade não tardaria a chegar. Tomei um gole do chá e franzi o cenho ao ouvir o som de batidas na porta. A minha mãe já estava em seu quarto, então quem poderia ser? Levantei-me e segui para a entrada da casa, me surpreendendo ao dar de cara com um aflito bem na minha frente. - Desculpa bater aqui a essa hora, , mas você viu o Bento? – Ele soltou de uma vez e eu neguei com a cabeça, realmente estranhando o fato de que não havia o visto hoje.
- Não, não o vi. Ele não está dentro de casa?
- Não, já procurei em todos os lugares. Não sei mais onde olhar. – Falou apreensivo, passando a mão pelos cabelos de forma preocupada.
O Bento nunca havia feito isso, sempre vinha animado ao meu encontro ou ao encontro de no momento em que nos via, o que me fez estranhar esse desaparecimento repentino.
- Eu te ajudo a procurá-lo. – Disse, pegando o meu casaco atrás da porta juntamente com o celular, saindo apressadamente ao encalço de , que não negou a ajuda.
- Ele nunca some assim, isso não é normal.– Falou, olhando através dos arbustos do jardim. Eu estava angustiada, a ideia de algo acontecer àquele cachorro me deixava quase à beira de prantos.
- Não tem como ele ter ido muito longe, alguém teria visto. – Observei atentamente ao redor, não tendo sinal algum do cão. Avistei Barret saindo do carro e fui até ele exasperada.
- Barret! Você viu o Bento? – Perguntei desesperada ao homem, o assustando.
- Não vi, ! O que houve? – Ele indagou preocupado.
- Ele sumiu!
- Acalme-se, tudo bem? Eu vou procurar por aqui e aviso a você ou ao senhor caso o encontre.
- Tudo bem... Obrigada. – Falei em um muxoxo, recebendo um pequeno afago nos ombros. Retornei ao jardim vendo entrar no pequeno casebre dali e sair com uma lanterna em mãos.
- Eu vou procurá-lo pelo condomínio, não precisa vir. – O homem declarou e eu neguei, nem cogitando a ideia de ficar em casa enquanto o Bento estava sumido.
Antes de respondê-lo, algo chamou a minha atenção.
Caminhei até a cerca posta perto do muro e cerrei os olhos com o que vi.
Um buraco enorme – provavelmente cavado por Bento – lotado de ossos e brinquedos semi-enterrados tomava conta de boa parte da parede de concreto, que estava quebrada, tendo somente uma tela como proteção.
Da qual não estava protegendo absolutamente nada.
- Olha isso aqui! – alertei , que se aproximou e respirou fundo, nervoso.
- Eu pensei que isso já estivesse concertado. – Ele ralhou tocando na tela mordida.
- Pelo menos sabemos que ele fugiu. Irei procurá-lo com você, em hipótese alguma eu vou ficar sossegada enquanto o Bento não aparecer. – Expus a minha vontade com convicção já caminhando rumo à saída da mansão, notando me acompanhar ao passo em que seguíamos passando os olhos em todos os lugares possíveis, hora ou outra gritando o nome do cachorro – do qual estava me deixando cada vez mais apavorada –. A forte ventania ricocheteava os meus cabelos, que batiam violentamente sob a intensa corrente de ar. Encolhi-me sob o meu casaco durante o momento em que aguardava pedir informação a um dos guardas do condomínio, que afirmou não ter visto o Pastor Alemão passar por ali. Ele voltou ainda mais nervoso, a expressão séria deixava evidente que algo estava errado.

(...)


Duas horas andando.
Três horas andando.
O tempo passava e a minha voz já se encontrava rouca de tanto gritar o nome do Bento junto ao , porém, em nada adiantava. Uma garoa intensa começava a cair e a temperatura devia ter despencado uns cinco graus, pois o casaco que eu vestia já não era mais o suficiente para amenizar o contato da brisa gélida com o meu corpo. Perto de mim, um desolado esfregou o rosto murmurando um “porra”, descarregando parte da sua frustração. Eu queria acalmá-lo, porém, não me encontrava muito diferente. Minhas mãos tremiam e eu sabia muito bem que não era devido ao frio, e sim, pelo medo de algo ter acontecido com o meu companheiro de todos os dias. De repente, senti os meus olhos arderem. Eu não podia chorar, afinal, isso só deixaria o ainda mais desesperado, contudo, não conseguia evitar. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto gelado e eu a limpei rapidamente, movimento que não passara despercebido pelo , que me olhou de soslaio. Abracei o meu corpo na tentativa de me esquentar e segui andando, dando um pequeno pulinho no instante em que o estrondo de um trovão fez-se presente junto a um raio, assustando-me. A garoa começava a se transformar em chuva, me deixando desolada.
- , vai pra casa. O tempo está muito ruim e você já me ajudou demais. – disse carinhosamente, pondo uma de suas mãos em meu ombro e passando o polegar suavemente por ele. Acompanhei o gesto com o olhar e o fitei. Ele aparentava estar tão triste quanto eu.
Só queria sentir o peso do Bento sob o meu colo.
Droga, onde ele havia se metido? Eu não podia perdê-lo.
Outra lágrima escapou, seguidamente de outra e mais outra.
Sem que eu pudesse controlar, já estava chorando.
Passei a manga da blusa pelos olhos, tentando – inutilmente – contê-las, fungando e negando com a cabeça, demonstrando que eu não iria a lugar algum. se aproximou e, cuidadosamente, contornou a minha cintura com um braço, passando o outro pelas minhas costas, me puxando cuidadosamente contra o seu corpo para um abraço acolhedor enquanto afagava os meus cabelos. O abracei pela cintura e funguei mais uma vez, me amaldiçoando por, no momento, estar mais atrapalhando do que ajudando.
- Não vou pra casa. Quero achá-lo, . – Argumentei com a cabeça enfiada em seu peitoral, sentindo o carinho em meio aos meus fios desalinhados pela ventania. Era como se o seu calor corporal fosse transferido para o meu, pois eu me sentia quente e confortável entre o seu abraço forte.
Mais um trovão ecoou.
- Nós iremos. Eu sei que iremos.
- Era pra eu estar te apoiando, não o contrário. – Falei com a voz abafada e o senti rir levemente.
- Você gosta muito do Bento, está tudo bem. Só não queria que você se desgastasse, amanhã você tem aula. – Ele disse preocupado e, ao constatar o meu coração acelerando, acordei pra vida, tirando a cabeça do seu peitoral. levou as duas mãos até o meu rosto e conduziu os polegares até a minha bochecha, limpando com destreza alguns resquícios de lágrimas que permaneceram ali, escorrendo os olhos preocupados até os meus. Ele soltou o meu rosto e eu desfiz o abraço. De repente o frio havia voltado com força total.
- Não estou pensando na aula no momento.
Meu cabelo encontrava-se molhado pela garoa vigorosa e estava igual. Tornei a abraçar o meu corpo e franzi o cenho quando vi que o homem retirava o seu casaco pesado, o jogando em meus ombros.
- Se você vai continuar procurando comigo, usa o casaco pelo menos. – Disse e me deu as costas, continuando a andar e me deixando com cara de taxo.
- , não precisa! Você vai ficar sem? De jeito nenhum! – Tirei o blusão dos meus ombros e caminhei apressada atrás dele, sendo prontamente ignorada.
- Não perguntei se você quer, . Coloca isso de novo. E a chuva finalmente fez-se presente.
- Você ficou doido? Olha o frio que está fazendo! E está chovendo! – Eu demonstrava toda a minha incredulidade perante a atitude de , que andava e me ignorava como se eu fosse uma criança.
Ele parou de súbito e me encarou com tédio.
- Só fica com o casaco. Eu estou bem. – Dito isso, voltou a andar, direcionando a luz da lanterna nos locais mais escuros da rua. Murmurei um “tudo bem” aborrecida e o segui.
Estávamos próximos a uma espécie de floresta localizada em uma parte afastada do condomínio, olhei para os lados e avistei um segurança dentro da guarita. Corri até lá em meio ao aguaceiro que caía do céu e fui recebida com um olhar questionador.
- Oi... Com licença – comecei. – O senhor pode me dar uma informação?
- Claro. Aconteceu algo? Precisa de ajuda?
- Não. Digo... Sim, preciso de ajuda. Por acaso um Pastor Alemão andou por aqui hoje?
O guarda estreitou os olhos, parecendo tentar puxar pela memória alguma lembrança a respeito da pergunta proferida por mim. Eu o encarava em expectativa, torcendo para que ele soubesse de alguma coisa.
- Na verdade, eu vi sim. – Ao ouvir isso, devo ter sorrido a ponto de rasgar o meu rosto. – Há umas horas eu vi um cachorro passar por aqui e ir em direção a floresta. Quando eu ia atrás dele para procurar uma identificação, ele sumiu. Não podia sair daqui pra procurar, então não fiz nada. – Justificou e eu quase não dei importância, só queria correr por entre aquelas árvores e encontrar o Bento.
- Tudo bem, não importa. Muito obrigada. – Falei eufórica, mal dando tempo para ouvi-lo terminar de falar. Saí correndo até , que aguardava mais atrás, sério e com os braços cruzados, hora ou outra varrendo a rua com os olhos atentos. – Ele viu! Tenho certeza de que era o Bento! – Exclamei animada e o homem a minha frente descruzou os braços com a expressão um pouco mais leve.
- O que ele disse?
- Que viu um cachorro indo em direção a floresta há algumas horas.
- E como ele não avisa ninguém? Mas que caralho! – resmungou andando velozmente ao local por onde o cão havia passado.
- Ele disse que não podia sair pra procurar. – Expliquei acompanhando os seus passos rápidos, estudando com cuidado toda a imensidão de árvores e mato, ignorando quão temível aquele lugar era e a série de resmungos de .
Outro trovão.
Mais chuva.
Mais vento.
As blusas já não faziam mais diferença, porém, a adrenalina era tanta que não me permitia sentir frio. Ignorei a sessão de espirros que saíam de mim assim como ignorei os olhares incisivos do . Olhares esses que gritavam “eu te avisei”. Andávamos com cuidado em meio ao matagal, nossos olhos estudavam todo o local com a ajuda da luz da lanterna. Eu não fazia ideia de que horas eram, tampouco como eu iria acordar cedo no dia seguinte, entretanto, achar o Pastor Alemão era a única coisa que importava para mim.
- BENTO?! – gritou. Parei junto a ele observando atentamente qualquer movimentação que poderia surgir, estreitando os olhos ao notar algo deitado mais à frente.
- , ilumina ali. – Pedi, apontando para a tal coisa. Ele obedeceu e eu quase chorei de alívio ao dar de cara com Bento deitado embaixo de um arbusto. O cão estava amuado, as orelhas baixas e o focinho apoiado nas patas dianteiras demonstravam que algo não estava bem. Corremos até ele e abaixou-se diante do cachorro, que ergueu as orelhas assim que nos viu.
- Que droga, cara! Você deu um susto na gente. – o acariciou e falou para o Pastor Alemão, que apenas permaneceu nos olhando. Abaixei-me junto a e sorri, passando a mão pela cabeça do Bento.
- Nunca mais faz isso. – O abracei cuidadosamente pelo pescoço, sentindo uma sensação maravilhosa de felicidade tomar conta de mim. O cão tremia e eu me afastei, olhando para sem saber o que fazer.
- Acho que ele está machucado. – O homem considerou. Segui o seu olhar e soltei um pequeno murmuro de espanto ao ver a pata ensanguentada. – Vou ter que levá-lo ao veterinário.
- Eu vou com você. Busca o carro e eu fico aqui com ele. – Sugeri, percebendo ponderar. – , não tem como levá-lo estando ferido, o caminho é longo. Além do mais, alguém tem que ficar com ele no banco de trás. E eu já estou molhada, não me importo.
Ele suspirou contrariado e bagunçou os cabelos encharcados.
- Certo. Eu vou correndo buscar o carro, fique com a lanterna. Já volto. – Falou me fitando daquela forma penetrante e eu me limitei a assentir. – Fica de boa aí, amigão. Vamos cuidar dessa pata. – Acariciou Bento e saiu correndo por entre as árvores.
Tirei o casaco que outrora me fora dado e, mesmo sabendo que não adiantaria de muita coisa, cobri o cachorro para que ele não tomasse mais chuva. Encolhi-me, finalmente sentindo o frio me atingir em cheio e outra sessão de espirros vir com força. Tentei focar apenas no cão à minha frente para não olhar ao redor e ficar com – mais – medo daquele local cem por cento propício para um filme de terror.
- Você nos assustou tanto, seu pestinha. – Comecei para o Bento, que me encarava atentamente como se soubesse que tinha feito algo errado. – Achei que algo ruim houvesse acontecido com você, quase fiquei louca. – Acariciei por trás de suas orelhas cravando a minha atenção de forma preocupada em sua pata machucada. Respirei fundo, empenhada em não me apavorar. Continuei fazendo carinho no cão ao meu lado enquanto acompanhava a chuva que, agora, transformava-se novamente em garoa, constatando que eu estava encharcada e com muito, muito frio.
E espirrando cada vez mais.
Depois de alguns longos minutos a silhueta de surgiu por entre a luz da lanterna, trazendo consigo uma coberta e outro casaco.
- Veste isso. – Entregou-me o casaco e eu aceitei sem pestanejar, afinal, estava quase passando mal de frio.
- Obrigada – Falei, o ajudando a enrolar Bento na coberta que ele havia trazido. Feito isso, pegou o cão no colo – que chorou um pouco com a movimentação – e eu o segui logo atrás, iluminando o caminho. Agradeci mentalmente pelo carro não estar longe e abri a porta de trás do veículo, entrando no mesmo e auxiliando para que ele colocasse o Pastor Alemão no banco. Feito isso ele fechou a porta e rapidamente adentrou o carro, o ligando e dando partida, seguindo às pressas em direção ao veterinário. Peguei meu celular no bolso do casaco que eu usava por baixo do casaco do e chequei as horas.
00hrs35min.
Digitei uma mensagem para minha mãe explicando rapidamente o que havia ocorrido e guardei o aparelho novamente.
Soltei um espirro e me encarou pelo retrovisor.
- Você devia ter ficado em casa, .
- E você devia parar de se preocupar tanto, eu estou bem. – Respondi sorrindo, devolvendo o olhar pelo retrovisor. O homem ergueu uma sobrancelha, ressabiado.
- Por que você é tão teimosa?
- Por que você teima comigo? – Retruquei também, arqueando uma sobrancelha, vendo-o revirar os olhos e soltar uma risadinha irônica.
- Só seria teimosia se eu não estivesse certo.
- Estar certo é relativo. – De repente a nossa “discussão” tornou-se interessantemente divertida, e até o cachorro ao meu lado revezava o olhar entre mim e o seu dono, que dirigia atentamente com o sorriso irônico perdurando em seu rosto bem-proporcionado.
- Nem tudo é relativo. 2 + 2 são 4 e isso independe de qualquer condição. Tudo o que é objetivo, não é relativo. Você estar espirrando é mais do que objetivo pra mim.
- Não sou uma operação matemática. Você não pode dizer que o que eu sinto é objetivo, porque isso não pode ser experimentado por qualquer outra pessoa. É uma experiência subjetiva, não objetiva. – parou no farol vermelho à nossa frente e me estudou mais uma vez pelo retrovisor. Eu não desviei de seu olhar, ainda que sentisse o meu estômago afundar.
- Então o que você está sentindo? – Ele questionou com seriedade e, embora a sua pergunta não tenha sido com segundas intenções, mexeu exatamente com esse meu lado.
O lado emocional.
O lado que queria falar na cara dele que eu sentia mais do que ele poderia imaginar.
Ao invés disso, me limitei a sorrir e dar de ombros.
- Nada. Não estou sentindo nada.
assentiu e voltou a dirigir quando o farol abriu. O silêncio se instalou no veículo e eu soltei o ar que até então eu nem sabia que estava prendendo, enquanto sentia o meu coração ficar pequenininho.
Finalmente chegamos ao veterinário, a grande clínica de dois andares possuía um letreiro em neón escrito “Aberta 24 horas” com o desenho de vários animais em volta. pegou Bento no banco de trás e eu saí logo atrás dele, entrando no local extremamente organizado. A simpática atendente nos recebeu com um sorriso enorme no rosto, desviando o olhar para o Pastor Alemão enrolado na coberta, mudando a expressão para preocupada em segundos.
- Boa noite. A Doutora Vermont está de plantão hoje? – questionou.
- Está sim, venham comigo, por favor. O que houve com ele? – Ela indagou enquanto nós a seguíamos em direção ao consultório.
- Ele fugiu e machucou a pata, não sabemos ao certo. – O homem respondeu, carregando o cão e parando em frente à sala ao passo em que a mulher simpática batia em uma porta cheia de desenhos de cachorros, gatos e pássaros. Ela colocou a cabeça pra dentro e trocou algumas palavras com quem eu imagino que seja a Veterinária.
- Pode entrar. – Avisou a , que assentiu. – Eu preciso fazer a ficha dele, será que você poderia vir comigo enquanto esse garotão é atendido? – Perguntou para mim, acariciando Bento. Concordei imediatamente, trocando um rápido olhar com , que entrou na sala.
Segui a atendente até a recepção e preenchi a ficha do Bento, finalizando alguns minutos depois.
- Obrigada, querida. Pode ir até o consultório, se você quiser.
- Ah, claro. Vou sim. – disse sorrindo e me levantando da cadeira. – É só virar à direita e seguir reto, certo? - Isso mesmo. – A sorridente mulher afirmou solícita. Assenti e fui em direção ao consultório, batendo na porta desenhada e ouvindo um “pode entrar” em seguida.
- Com licença. – Pedi, entrando na sala no instante em que a Doutora terminava de enfaixar a pata outrora machucada do cão, que localizava-se deitado na maca com ao seu lado o acariciando.
- Fique à vontade. – A Doutora Vermont cumprimentou-me simpática e eu sorri para ela em agradecimento.
- Ele está bem? – Perguntei a .
- Está sim. Provavelmente feriu a pata em algum espinho, mas de resto, não houve nada demais.
- Que ótimo.
- Prontinho. O garotão aqui está novinho em folha! Volte em dez dias pra que eu tire a faixa da pata dele, certo? – A veterinária pediu enquanto dava um biscoito pra cachorro para o Bento, que balançava o rabo, contente. Era tão bom vê-lo assim.
- Pode deixar. Obrigado, Doutora Vermont. – apertou a sua mão e eu fiz o mesmo após ele, me despedindo. Saímos do consultório com o Pastor Alemão na coleira, já conseguindo andar com o curativo feito. Acenei um “tchau” para a atendente e me dirigi ao carro, parando quando apontou o banco da frente com a cabeça, indicando que eu podia me sentar ali.
- Tudo bem, eu vou atrás para certificar de que ele ficará quieto.
- Você quem sabe. – Deu de ombros e entrou no veículo, dando partida assim que eu me ajeitei no banco de trás junto a um Bento mais animado.
- Fica quieto, você acabou de sair do médico. – Pedi ao cachorro, que enfim se deitou e apoiou a cabeça em meu colo.
O silêncio se fez presente no recinto e eu fixei a minha cabeça no encosto do banco traseiro, respirando fundo e fechando os olhos por alguns momentos, percebendo que o cansaço definitivamente tomara conta do meu corpo – e com ele, uma pequena e incômoda dor de cabeça –. Uma música baixa ecoava pelo som do veículo e, sem que eu notasse, o sono repentinamente chegou, me desligando por completo.

Mario Bros: É um personagem fictício da franquia e série de jogos eletrônicos Mario da Nintendo.

Clive Christian: Reconhecida como a fragrância mais cara do mundo, custando em torno de US$ 215.000 (R$ 354.000).

Doutorado direto: O doutorado direto se caracteriza como um curso de pós-graduação com as mesmas características daquele considerado convencional, diferenciando apenas na forma de ingresso. Processo em que o aluno decide se candidatar ao Doutorado sem ter cursado o Mestrado.

You go, girl!: Vai nessa, garota! Expressão geralmente usada como forma de encorajamento.

Gestão Fraudulenta: Caracteriza-se pela ilicitude dos atos praticados pelos responsáveis pela gestão empresarial, exteriorizada por manobras ardilosas e pela prática consciente de fraudes. Ao administrar ou gerir instituição financeira, o sujeito ativo o faz de forma fraudulenta, ou seja, meio enganoso, com má-fé e intuito de ludibriar.





"Quando eu estou perdendo o meu controle, a cidade gira ao redor. Você é a única que sabe, você desacelera isso." - Look After You - The Fray.

’s POV

Ao estacionar em casa, me virei para avisar que havíamos chegado, porém, não proferi palavra alguma. A imagem que eu vi praticamente me obrigou a permanecer calado enquanto fitava a figura adormecida da garota com o meu cachorro em seu colo, em um sono aparentemente pesado. Ela vestia o meu casaco – que ficava enorme em seu corpo – e a sua respiração calma transpassava por entre os seus lábios entreabertos, expressando a tranquilidade de seu adormecimento. Os cabelos emaranhados se espalhavam por entre o seu rosto sereno, deixando a cena inexplicavelmente encantadora. Franzi o cenho frente à minha análise e saí do meu estado de torpor momentâneo. Retirei o cinto e me pus para fora do carro, o contornei e abri a porta do mesmo, acordando o Pastor Alemão, que me encarou como se me amaldiçoasse por tê-lo despertado. dormia tão profundamente que me senti mal por ter que acordá-la. Coloquei a metade do corpo para dentro do carro e me inclinei a fim de alcançá-la.
- . – comecei, tocando-a delicadamente no ombro. A garota se mexeu, porém, não recobrou a consciência. – , chegamos. – tornei a tocá-la no mesmo local, me aproximando um pouco mais. Ela finalmente despertou, virando o rosto na tentativa de encontrar de onde vinha a voz. No ato, a sua face ficou de frente para minha, e eu me amaldiçoei por ter chegado mais perto. Demos de cara um com o outro, mais perto do que eu queria e imaginaria que ficaríamos. Eu estava sem saber como reagir diante do olhar confuso de , que me encarava totalmente perdida e imóvel. Passei os meus olhos pela sua expressão desorientada e ela então se pronunciou.
- Desculpe, eu peguei no sono. – Ela falou contra o meu rosto junto à respiração entrecortada e eu senti a sua frase ser dita por meio de um sopro do qual foi de encontro com a minha face. Sua voz soou acanhada através do silêncio e estava levemente rouca e, por um momento, me esqueci de que eu deveria me distanciar dela.
- Não tem problema. – Respondi, com o cenho levemente franzido devido à situação enquanto permanecíamos próximos. – Eu te chamei algumas vezes e você não ouviu. – Expliquei. Me senti desorientado por estar novamente em uma circunstância como aquela e afastei-me imediatamente, retirando o dorso do carro totalmente aturdido e sem graça. Respirei fundo na pretensão de entender por que o atual cenário insistia em ocorrer, pois ele sempre vinha acompanhado de uma tensão inusitada. saiu do veículo rapidamente após Bento mover-se de seu colo e também retirou-se do carro. Eu me encontrava um tanto quanto constrangido pelo acontecimento anterior e ela parecia estar da mesma forma, pois se mexeu desconfortável no mesmo momento em que tirava o meu casaco, me entregando assim que terminou de removê-lo de seu corpo. - Obrigada pelo casaco.
- Obrigado pela ajuda. – A garota sorriu, negando com a cabeça e demonstrando que não precisava agradecer.
- Pode me chamar caso precise, o importante é que deu tudo certo.
- Sim, ainda bem.
- Então... Boa noite. Ou bom dia, não sei. – Brincou, me arrancando um sutil riso.
- Só é bom dia se eu já dormi, então boa noite. – Foi a vez dela de soltar um risinho e assentir, concordando.
- Corrigindo... Boa noite, .
- Boa noite, .
Sorriu mais uma vez e deu as costas, fazendo o caminho até a casa dos fundos enquanto se abraçava, encolhida ao sentir a brisa gelada. Fiquei ali parado, com as mãos no bolso da calça até que ela sumisse de vista e entrei em casa sendo acompanhado pelo cão que mancava um pouco. Subi para o meu quarto e me joguei embaixo do chuveiro após me despir, aliviado ao sentir a água quente escorrer pelo meu corpo. Passei as mãos pelo rosto ainda confuso, querendo mandar pro inferno a minha mente no momento em que ela reproduziu a imagem de me fitando daquela forma tão cautelosa. Terminei meu banho e coloquei uma boxer aleatória que se encontrava na gaveta, me deitei e encarei o teto em meio à escuridão. A adrenalina da noite baixava conforme eu relaxava e eu tentei não pensar em absolutamente nada.
Nem em trabalho.
Nem na merda da qual eu estava me envolvendo com esse caso.
Nem nas ameaças das quais eu ainda não sabia como lidar.
Nem no término do meu namoro.
Absolutamente nada.
Às vezes eu só queria ter um pouco de paz e esquecer o peso de todas as coisas que assolavam a tranquilidade que eu quase nunca possuía. Respirei fundo e fechei os olhos, exausto demais para refletir a respeito de qualquer outra coisa e me permiti pegar no sono.

(...)


Na manhã seguinte eu estava entre o fodido e o esgotado. Não sentia tanto cansaço desde quando decidi fazer o doutorado imediatamente após o término da faculdade, o que exigiu muitas noites em claro. Eu claramente havia perdido essa habilidade, já que me encontrava acabado. Como se eu já não estivesse mal o suficiente, o estresse me pegou em cheio, pois absolutamente nada estava dando certo naquele dia no escritório. Não havia conseguido falar com Sandro Averbuck e eu não podia mais perder tempo, afinal, os dias corriam e o julgamento do meu cliente não demoraria a acontecer. Apoiei meus cotovelos em cima da mesa e passei as mãos em meu rosto, totalmente exausto e preocupado. Todos da festa já haviam sido chamados para depor e era óbvio que alguém estava mentindo, não saber como chegar nesse alguém me causava aflição e só fazia parecer que eu não estava fazendo o meu trabalho da maneira correta.
O assassino de Mason Zummack havia sido extremamente meticuloso e inteligente, entretanto, ele não seria mais inteligente do que eu. O laudo do crime ainda não havia sido entregue ao juiz e isso só me deixava ainda mais de mãos atadas, haja vista que as informações contidas nele seriam de extrema importância para mim, já que eu havia indicado um assistente para apresentar quesitos* no laudo da perícia. Folheei mais alguns arquivos do caso, fiz ligações, estudei processos de outros casos e nem vi a hora passar. Fui desperto pelo alarme do meu celular que me avisava que era hora de eu tomar o maldito remédio para enxaqueca. Recolhi os meus pertences e saí da minha sala, trancando-a em seguida e encontrando Thompson ainda no escritório. Enquanto tomava o último gole de água e engolia aquele comprimido ruim pra cacete, observei, de longe, o homem que falava atentamente ao telefone, quase de forma furtiva. Ele encerrou a ligação e anotou algo em uma caderneta, guardando-a em uma gaveta e a fechando com chave logo em seguida. Franzi o cenho e joguei o copo na lixeira mais próxima, me retirando do local com uma nota mental para prestar mais atenção no que Thompson fazia.

Eu dirigia tranquilamente pelas ruas calmas do bairro não tão comumente visitado por mim.
O bairro no qual meu apartamento ficava e onde eu passaria a minha noite.
Decidi adiar a minha mudança desde o momento em que a minha mãe passou a ter desmaios frequentes ocasionados por problemas cardíacos, com isso, resolvi permanecer na casa dos meus pais a fim certificar de que ela estaria bem, haja vista que o meu pai raramente possuía tempo para assuntos que não envolviam o escritório. Talvez fosse a hora de finalmente me mudar, levando em conta de que a saúde da minha mãe já havia melhorado e os desmaios nunca mais ocorreram. O imóvel já se encontrava totalmente mobilhado e alguns pertences meus também já localizavam-se no apartamento, deixando-o totalmente pronto para morar. Há muito tempo o desejo de ter o meu espaço tornou-se necessidade, afinal, o senhor e a senhora detinham a irritante habilidade de querer controlar a minha vida, o que pioraria agora que Cassie e eu não estávamos mais juntos.
Estacionei o carro na garagem do prédio e, antes de sair do automóvel, abri o porta luvas e peguei as revistas que eu comprei com , caminhando para o elevador logo em seguida. Cheguei ao andar do meu apartamento e adentrei o local, sentindo um alivio por estar em um lugar só meu. Tudo estava arrumado exatamente da forma como eu gostava e queria. Os móveis, a cor das paredes, os objetos que compunham o ambiente, enfim... Tudo. Aquele era o meu lar.
Após sair do banho, liguei a TV em um canal aleatório e pedi algo para comer, totalmente sem vontade alguma de cozinhar algo. Me joguei no sofá e apoiei a minha cabeça em seu encosto, sendo atingido de imediato pela sensação prazerosa de conforto e sossego, me mantendo daquela forma até que a comida chegasse.
Alguns minutos depois, fui tirado do meu estado de semi-sono assim que o interfone apitou, anunciando o entregador. Exausto demais para descer até a portaria, autorizei a sua entrada e recebi o rapaz, peguei as sacolas e dei-lhe uma gorjeta, fechando a porta assim que ele saíra. Enquanto comia, meus olhos pousaram nas três revistas postas sobre a mesinha. Puxei uma e comecei a lê-la, repentinamente refletindo sobre a frase da qual me dissera no dia em que eu a vi em seu trabalho: “Se você não se sente feliz e não para pra apreciar as coisas ao seu redor, o que você tem se torna vazio”. Ela tinha razão e era exatamente o que estava acontecendo comigo. As conversas com eram sempre estimulantes, a garota sabia exatamente como desenvolver um assunto e a sua presença deixava o ambiente leve como se você a conhecesse há tempos. Eu nunca imaginei que ela fosse assim, tudo o que eu sabia era que eu gostava de sua companhia. O modo como ela me ajudou com o Bento, como ela tentou me animar ao me mostrar as revistas, as conversas que havíamos tido até então e até o jeito engraçado e adorável que ela dormiu em meu carro, todos esses momentos invadiram a minha mente como uma enchente de pensamentos. Principalmente aquele em que eu calculei mal o espaço entre nós, não esperando que ela se virasse e ficasse tão perto. Perto o suficiente para que eu me sentisse desconcertado durante o instante em que fitava a sua expressão confusa e sonolenta. Deixei esses pensamentos de lado e foquei em terminar de comer, entretido na história que me arremetia a momentos bons da minha infância.

Não sei ao certo quanto tempo permaneci lendo, contudo, fui desperto pelo barulho incessante da campainha. Confuso, levantei-me e segui até a porta, estranhando o desespero de seja lá quem fosse que apertava a sineta desesperadamente. Ao observar pelo olho mágico e constatar que era Cassie, estranhei mais ainda. Abri a porta sem entender o motivo de sua presença e recebi um olhar inexpressivo da mulher à minha frente.
Percebendo a minha expressão de dúvida, ela se pronunciou.
- Liguei na sua casa e me disseram que você não estava, imaginei que estivesse aqui. Eu posso entrar? – Cassie perguntou com seriedade e eu ponderei por alguns segundos. Passei uma mão pela minha nuca e abri passagem para ela, que entrou e se posicionou a alguns passos de distância de mim.
- Aconteceu alguma coisa? – Indaguei preocupado. Ela cravou os olhos frios em mim e negou com a cabeça.
- Te enviei uma mensagem há alguns dias. Obrigada pela resposta. – Cassie ironizou ríspida e eu respirei fundo.
- Não tinha o que dizer, as coisas ficaram bem claras naquele dia.
- Discordo. Eu ainda estou com muitas dúvidas a respeito de diversos pontos. – Ela disse seca e eu permaneci calado, a incentivando a prosseguir. – O nosso término me pareceu repentino e fora de contexto, .
- Cass... – Comecei, avaliando o que dizer para não tornar a conversa uma discussão. – A nossa relação já não era mais a mesma. Eu não estava feliz. – Pontuei com sinceridade, vendo-a assentir vagarosamente.
- Sua certeza ao acabar com tudo foi de uma frieza invejável.
- Não fui frio, fui franco. Nós passamos ótimos momentos juntos, mas eu precisava ser honesto com você e comigo também. – Esclareci com calma.
- Sabe... Hoje eu fui ao La Frontière jantar com as meninas, e eu soube de algo muito interessante. – Cassie iniciou. Eu ergui uma sobrancelha em um sinal claro de que não havia entendido a relevância daquela informação. – Não vai me perguntar o que é?
- Não acho que seja da minha conta.
- Pois bem, eu lhe direi mesmo assim. – Ela adotou uma postura mais severa e um sinal de alerta soou sobre mim. - Viram você deixando a filha da cozinheira na faculdade! Olha só que notícia maravilhosa, ! Eu fiquei extremamente feliz em saber que o meu até então namorado dava carona pra outra! – O sarcasmo gritante evidenciava a sua ira e eu esfreguei o rosto, incrédulo com a capacidade que as pessoas possuíam de fazer intriga a respeito da vida dos outros.
- Cassie, isso faz tempo. Foi apenas uma carona, não teve relevância alguma.
- Não teve? – ela riu em puro escárnio. – Em que mundo você vive?
- Eu realmente a deixei na faculdade, mas foi só naquele dia, fiz como um favor. Estava chovendo e eu fiquei com dó. – Expliquei. Respirei fundo e passei as mãos pelo rosto pela milésima vez naquele dia, buscando toda a calma que eu precisava para conversar.
- Você terminou comigo por causa dela? – Indagou, semicerrando os olhos. Eu franzi o cenho totalmente desconcertado perante a sua pergunta infundada, afinal, nada tinha a ver com a deterioração do nosso relacionamento.
- Claro que não, Cassie! Não confunda as coisas, nós terminamos por diversas desavenças, por cansaço, enfim... Ninguém teve nada a ver com isso!
- Sinceramente, eu tenho as minhas dúvidas. Você já notou como aquela garota te olha, ? E você ainda a deixa entrar no seu carro? – Ela questionou nervosa e eu só consegui rir, achando o rumo da conversa absolutamente sem noção alguma.
- Como é? Na boa, Cassie. Que papo é esse? – Perguntei em meio a risos, o que só a deixou mais brava.
- Ah, você não percebeu? – Foi a sua vez de rir, porém, sarcástica. – Pois EU percebi! Nunca entendi muito bem, mas não me importava, afinal de contas, a garota é uma coitada. – Cassie debochou e eu cruzei os braços adotando uma expressão fechada, desaprovando o modo como ela se referiu à . – Agora, saber que você andou praticando a sua política de salvador dos fracos e oprimidos com ELA foi demais pra mim! O que mais você fez pelas minhas costas? O que mais você não me contou?
- Eu não fiz nada pelas suas costas! Nunca menti para você e nunca te enganei, Cassie. Não te contei porque sabia que você ficaria puta da vida, o que aconteceu de qualquer forma. – Soltei um riso sem humor.
- Eu não acredito em você. – Expressou acusadora e eu dei de ombros, sério.
- Acredite no que você quiser, Cassie. A minha consciência está limpa. – Ela me lançou um olhar gelado pela última vez e pegou a sua bolsa de cima do sofá, rumando até porta com a cabeça erguida em sua habitual pose vaidosa. Fechou a porta atrás de si e eu continuei em pé encarando o local pelo qual ela saíra, extremamente perdido pelo episódio de momentos antes, divagando sobre o que me fora dito.
Eu só queria saber de onde Cassie havia tirado que me olhava de forma diferente, pois não conseguia ver qualquer ato inusitado vindo dela.
Encarei a revista da qual eu lia anteriormente e me peguei refletindo sobre aquela informação imprevisível.

’s POV

- Eu ainda estou chocada com isso do e da Cassie, eles sempre passaram uma imagem tão perfeita. – disse enquanto mexia o seu café naquela tarde gélida. Eu assenti e beberiquei meu chocolate quente, imediatamente o sentindo descer rasgando pela minha garganta dolorida.
- Você realmente nunca sabe o que se passa na vida de alguém. – Comentei com a voz anasalada devido ao nariz entupido e concordou.
- Como você está se sentindo sobre tudo isso? – Ela perguntou me olhando atenta e eu dei de ombros.
- Nós estamos próximos, mas... Não sei. – Bufei esfregando as mãos no rosto. – Eu tenho medo de confundir a nossa proximidade e ver sinais onde não existe nada, eu sou expert nesse tipo de coisa. Ele acabou de terminar um relacionamento, eu fiquei triste por ele e... Argh, não sei! – Ralhei e imitei o meu gesto anterior, ouvindo rir fraco.
- Seja sincera. Você não ficou nem um pouco feliz com esse término? – Suspirei e ponderei um pouco na resposta.
- Feliz não é bem a palavra... É complicado. É uma situação chata para ambos, mas não vou ser hipócrita em dizer que eu não senti algo aliviar dentro de mim, porque eu senti. – Esclareci e concordou em compreensão. – Mas enfim... E como você e o Adrian estão? – Indaguei mudando de assunto com um sorriso travesso e ela sorriu largo.
- Melhor impossível! Não quero apressar nada, mas estou gostando muito. – Ela sorriu, me fazendo sorrir também – Já conheci a família dele, então deve ser sério. O aniversário dele está chegando e eu estou pensando em organizar uma festa surpresa. – Minha amiga falou com um sorriso bobo. Eu a acompanhei, sentindo uma felicidade extrema por vê-la tão contente.
- Que linda, toda apaixonadinha! – Brinquei, recebendo uma careta em resposta. Cerrei os olhos e senti uma pressão no meu nariz, expulsando o ar de forma violenta por eles em um forte espirro que produziu um mal estar completamente incômodo por todo o meu corpo, junto a uma dor de cabeça péssima. me estudou preocupada enquanto eu puxava o ar com dificuldade, tendo a impressão de que a quantidade de oxigênio que entrava em meus pulmões era insuficiente.
- , você não acha melhor ir ao médico? Ou ir para casa? Você mal comeu o dia todo! – Expôs preocupada e eu neguei.
- Ainda temos pacientes, não posso te deixar atendê-los sozinha.
- Você sabe que não tem problema nenhum. – Insistiu.
- Eu sei, amore mio. Mas eu vou ficar, não estou tão mal assim. – Outro espirro. me repreendeu com o olhar, porém, a ignorei e me obriguei a tomar mais um gole do líquido já morno em minha xícara, forçando um sorriso a ela, que não pareceu convencida de que eu estava bem.
E não estava mesmo.

Senti a minha garganta doer e o mal estar piorar no decorrer do dia, e, como se não bastasse, uma tosse chata fez-se presente. Mesmo com a sensação de que cairia dura a qualquer momento, finalizei os atendimentos do dia junto a , que me deixou em casa com mil recomendações e avisos para comunicá-la caso eu piorasse. Conforme eu me aproximava do caminho que levava à casa dos fundos, percebi uma movimentação diferente por ali, já imaginando que provavelmente algo estaria acontecendo na mansão dos . Avistei Cícero acenando para mim e sorri, acenando de volta. Ele fez um sinal para que eu parasse e eu o fiz, aguardando-o vir ao meu encontro, bem humorado como sempre.
- Olá, mocinha! Como você está? – Perguntou e logo cerrou os olhos ao me analisar por poucos segundos. – Soube que não muito bem. – Completou e eu ri fraco, assentindo.
- Estou um pouco gripada, mas estou bem. E o senhor?
- Tudo ótimo comigo. Se quiser, eu faço o mesmo remédio que dei para a sua mãe quando ela adoeceu. Ela melhorou rapidinho! – Ofereceu animado, me fazendo rir.
- Eu detesto ficar doente, com certeza vou querer a sua receita mágica, minha mãe realmente ficou ótima! – Falei, tentando acompanhar o seu ânimo ao mesmo tempo em que me empenhava em ignorar os calafrios que subiam pelo meu corpo dolorido e o frio descomunal que eu sentia.
- Pode deixar, mocinha! Amanhã mesmo peço para a sua mãe lhe entregar. Por falar nisso, ela pediu para que você fosse até a cozinha da mansão assim que chegasse.
- Ah, claro. Obrigada por me avisar. – Sorri para Cícero, que fez o mesmo.
- É melhor eu ir, não posso perder meu ônibus. Melhoras, menina! – Ele desejou, tornando a acenar em despedida.
- Obrigada! Boa volta para casa e vá com cuidado. – Disse, observando a figura do senhor se afastar conforme caminhava. No instante em que eu fiz menção de começar a andar, uma leve tontura me fez parar instantaneamente. Fechei os olhos por breves segundos para me situar e tentei respirar fundo, falhando miseravelmente em consequencia da falta de ar. Os abri e, verificando que eu já me encontrava normal, retomei os meus passos até a entrada de serviço da mansão em meio a espirros e uma tosse do inferno.
Adentrei o cômodo, logo constatando que realmente algo estava acontecendo na casa, visto que Judith e minha mãe estavam concentradas em seus afazeres.
- Olá... – Anunciei, chamando a atenção de ambas.
- Oi, filha. Está tudo bem? – Questionou enquanto me analisava preocupada.
- Sim, estou bem. – Falei, sendo desmentida pela minha voz anasalada e provavelmente pela minha expressão cansada. A feição da minha mãe tornou-se questionadora e eu soltei uma risadinha. – Certo... Já estive melhor. – Confessei.
- Talvez devêssemos chamar o Doutor Elish. – Judith sugeriu.
- Não precisa! É só uma gripe. – Aleguei, achando aquilo tudo exagerado demais. – Vou descansar e amanhã com certeza acordarei melhor. – Minha cabeça deu uma pontada extremamente forte e eu reprimi uma careta ao passo em que a saliva descia com dificuldade pela minha garganta. Outro calafrio atingiu o meu corpo e eu me encolhi pelo frio, constatando que uma gotícula de suor totalmente aleatória se formava em minha testa. Passei a mão por ela, a retirando dali rapidamente enquanto minha mãe e Judith trocavam algumas palavras sobre mim, porém, não consegui distinguir muito bem o rumo da conversa.
- Vá para casa, filha. Estou quase terminando aqui e logo irei também. O senhor Henrico deu uma reunião que acabou agora a pouco, então não demorarei. – Sem muita força para dizer-lhe qualquer coisa, apenas concordei. Despedi-me de Judith rapidamente e me pus para fora da cozinha com uma sensação horrível de dor misturada com a tontura que voltara com força total. Olhei para o lado e vislumbrei um pouco mais afastado conversando com mais dois homens – sendo um deles já visto por mim na última reunião –. Ele levantou ligeiramente o olhar e me avistou, lançando-me um sorriso quase imperceptível e um moderado aceno com a cabeça. Sorri fraco e fiz menção de prosseguir o meu caminho, contudo, a minha visão tornou-se embaraçada e uma fraqueza descomunal me abateu de súbito. Parei instantaneamente e pisquei diversas vezes com o intuito de recobrar a capacidade de enxergar corretamente, não obtendo sucesso algum. Percebi o meu corpo estremecer e as pernas vacilarem, e, sem demora, o baque do chão foi sentido dolorosamente por mim. Sem perder a consciência por completo e tomada por uma confusão mental, constatei que fui erguida por alguém e, de longe, ouvi vozes difusas ao meu redor.
- Ela está com febre. – Reconheci a entonação grave de soar alarmada. Os sons tornaram-se cada dez mais inaudíveis e eu apaguei completamente.

(...)


- O Doutor Elish está vindo. – Identifiquei a voz da minha mãe ecoar agoniada ainda um tanto quanto distante. Um cheiro forte de álcool adentrou as minhas narinas e eu franzi o cenho, abrindo os olhos com certa dificuldade. Extremamente confusa e fraca, identifiquei Judith com um pano posicionado rente ao meu nariz. Eu estava deitada na minha cama e, assim que notou o meu despertar, minha mãe se aproximou angustiada, sentando-se na ponta do colchão.
- , graças a Deus! – Exclamou, me estudando inquieta. Aos poucos fui me recordando do que ocorrera e me assustei ao a tomar conhecimento de que eu havia desmaiado. – Vou pegar um copo d’água para você. – Ela avisou, levantando-se tal qual um foguete, deixando o quarto. Judith falou algo com alguém que também encontrava-se ali e a seguiu. Virei a cabeça e não pude evitar que a minha expressão se contorcesse em surpresa no momento em que enxerguei parado próximo a cama com as mãos no bolso da calça e o olhar analítico em mim. Ele deu um passo com a finalidade de chegar mais perto e eu ergui o tronco para me sentar, sendo auxiliada por , que ajeitou o travesseiro atrás das minhas costas.
- Como está se sentindo? – Indagou, me observando atento.
- Como se tivesse sido atropelada por um tanque de guerra. – Reclamei e ele riu fraco. – Eu caí muito feio? – Perguntei sem saber se a dor nas minhas costas se referia à gripe ou ao tombo.
- Não foi algo legal de se ver, para ser honesto. Está com dor?
- Um pouco... – Revelei e ele assentiu, me estudando com a fisionomia tensa.
- Você pegou muita friagem no dia em que o Bento fugiu, devia ter voltado para casa.
- Isso estava fora de cogitação. – Afirmei convicta.
- Eu sei, você deixou isso bem claro. – proferiu com certa obviedade em sua expressão e eu dei de ombros. Minha mãe retornou ao quarto e me entregou o copo com água, beberiquei o líquido com o inconveniente da minha garganta impedindo que eu tomasse mais do que dois pequenos goles e lhe entreguei o objeto de vidro, a agradecendo.
- Obrigada pela ajuda, . Não queremos incomodar, pode ir pra casa. – Disse ela.
- Não precisa agradecer, . Avise-me caso necessite de alguma coisa, por favor. – pediu, me lançando um olhar preocupado. A mulher apenas assentiu, ainda parecendo apreensiva. – Boa noite.
- Boa noite. Obrigada mais uma vez. – Ele negou com a cabeça e, novamente, cravou os olhos nos meus.
- Melhoras.
- Obrigada. – Falei, sustentando o seu olhar. deixou o quarto e eu continuei fitando o local, absorta em mil questionamentos. – Mãe, por ele estava aqui? – Questionei sem entender muito bem a sua presença, pois a única coisa da qual eu me recordava era de sua voz no momento em que eu me senti zonza.
- O te trouxe até aqui. Você me assustou, filha. Eu o vi com você no colo através da janela da cozinha e quase morri de pavor. – Explicou e eu apenas escutei, inapta a expressar qualquer coisa, logo ouvindo algumas batidas na porta.
- Deve ser o Doutor. Vou recebê-lo. – Concordei enfraquecida e voltei a me deitar, me encolhendo por debaixo das cobertas. Alguns minutos depois, a figura do Doutor Elish passou pela porta na companhia da minha mãe.
- Boa noite, . O que temos aqui? – Perguntou ele, retirando um termômetro infravermelho de sua bolsa.
- Acho que peguei uma gripe forte. – Respondi em meio a um espirro. O homem encostou o objeto em minha testa na região acima da sobrancelha e o aparelho apitou.
- Hm... Trinta e nove graus. Diga-me o que está sentindo e a quanto tempo, por favor. – Doutor Elish pediu, colocando o estetoscópio no lado esquerdo do meu peito.
- Minha cabeça e o meu corpo doem, inclusive a minha garganta. – Ele assentiu.
- Relaxe e respire normalmente. – Requisitou e eu o fiz. – Certo. Você pode se sentar, ?
- Claro. – Ergui o corpo e me sentei na cama.
- Sente-se com as costas retas e respire normalmente. – O estetoscópio foi situado na parte superior do meu tronco de ambos os lados enquanto eu fazia o que me foi pedido. Em seguida, ele o levou as minhas costas, também examinando-a.
Durante o tempo em que era investigada minuciosamente pelo Doutor Elish, fitei o local do qual encontrava-se posteriormente, sentindo um calafrio ao me recordar do modo como ele me observava.
Porém, dessa vez, o calafrio não foi proveniente da gripe.

FLASHBACK.

O ambiente alegre da casa dos de nada combinavam com a tristeza que eu sentia. Eles comemoravam mais um caso do qual a Dona Kyara ganhara, resultando em muitos jornalistas em volta do condomínio. Sentada do lado de fora da mansão, ouvia-se apenas o som da música que ecoava pelo ambiente em meio ao falatório das pessoas ali dentro. Minha mãe estava trabalhando, ocupada na cozinha, e eu, sem ter o que fazer, prostrei-me no lugar em que eu havia me sentado, suspirando em pesar.
Era o meu aniversário, entretanto, não parecia somente como um dia normal. Estava mais solitário do que qualquer outro. As amizades que eu possuía no colégio não eram tão próximas para que eu as convidasse para comemorar de alguma forma, com isso, decidi não fazer nada. Meu celular apitou e um fio de esperança foi aceso quando vi o nome de na tela do aparelho.

“Ei, aniversariante ;) sinto muito por não poder passar a noite com você. Compenso outro dia, prometo. Beijos.”

A esperança se dissipou em um piscar de olhos, dando espaço para que o desânimo voltasse com força total. Inquieta devido ao tédio, levantei-me e fui até a cozinha a fim de dar uma olhada no que acontecia e me disponibilizar para ajudar, caso fosse preciso. O tédio estava me matando.
- É o seu aniversário, filha. Você não vai fazer nada. – Minha mãe me repreendeu sorrindo. Revirei os olhos, sorrindo também.
- Não assinei nenhuma cláusura que dizia que aniversariantes não podem ser úteis no dia do próprio aniversário.
- Eu acabei de inventar – ela piscou e seguiu em direção à dispensa, me deixando com cara de taxo. Voltei ao lugar em que eu estava sentada minutos antes e sorri ao ver que Bento deitou-se ao meu lado.
- Então você vai ser o meu companheiro de aniversário? Tudo bem por mim. – dei de ombros e ri ao ver o cão balançar o rabo alegremente. Ouvi um barulho que parecia próximo de onde eu me encontrava, vendo um estupidamente lindo tomando o seu drink vagarosamente enquanto fitava a paisagem do jardim um pouco mais afastado de nós. Continuei quieta acariciando o Pastor Alemão esperando que entrasse em sua casa, entretanto, fui pega de surpresa ao ouvir a sua voz quebrar o silêncio, demonstrando que ele havia me visto ali.
- É o seu aniversário? – Questionou ele sem tirar os olhos do campo, porém, eu me virei para olhá-lo, um tanto pasma por ele ter falado comigo. Isso raramente acontecia.
- Sim.
- E você pretende comemorar sentada aí? – me olhou com uma sobrancelha arqueada e eu dei de ombros, assentindo.
- Digamos que os meus amigos não colaboraram comigo.
- Hm.
O silêncio se fez presente e eu não me atrevi a falar mais nada. De canto de olho notei abaixar-se e pegar algo do chão, ficando de pé novamente e vindo ao meu encontro.
- Parabéns. – O olhei surpreendida e franzi o cenho em espanto quando vi que ele me estendia uma das flores simples que enfeitavam aquela parte da casa. Após alguns segundos de paralisia devido ao choque, voltei ao mundo real e a peguei.
- Obrigada. – Agradeci ainda atônita. fez um sinal como se demonstrasse que não havia feito nada demais e voltou para a mansão, me deixando estarrecida admirando a singela flor em minhas mãos.

FIM DE FLASHBACK.


Sorri com a lembrança, me recordando que eu ainda possuía aquela flor no meio de um livro, lugar em que eu havia escolhido para guardá-la.

’s POV

Sentado no sofá da sala de estar e com um copo de whisky em mãos, eu refletia sobre os últimos meses e também tentava baixar a adrenalina após o susto que me dera. Vê-la desfalecendo repentinamente bem à minha frente me colocou em um estado de apreensão imediato e, naquele momento, a única coisa que passou pela minha cabeça foi correr até ela e erguê-la em meus braços, pouco me importando com a conversa junto a Thompson e Stenfield. Talvez a culpa por ter uma parcela de responsabilidade por seu estado atual tenha ocasionado tamanha angústia em mim, sensação que ainda não havia cessado totalmente. Ouvi passos se aproximarem e levantei a cabeça, vendo meu pai se aproximar e, calado, também se servir de uma dose de whisky. Ele se sentou na poltrona a minha frente e me encarou.
- Como a garota está? – Perguntou sem realmente demonstrar muito interesse.
- Presumo que bem. Até onde eu vi, chamaram o médico. – Respondi, bebericando o líquido amargo contido no copo, ouvindo meu pai murmurar um “hm” sem tirar os olhos analíticos de mim. – Algo errado? – Questionei incomodado com a sua avaliação silenciosa.
- Você não acha que essa sua preocupação – frisou em tom desdenhoso. – não foi um tanto quanto exagerada, ? – Óbvio que o senhor Henrico não resolvera sentar-se comigo para simplesmente conversar. Como sempre, a sua aproximação possuía um interesse. Emiti um riso sem humor dotado de sarcasmo e balancei a cabeça negativamente, sem vontade alguma de responder-lhe algo. – Falei com o pai da Cassie, hoje. Ele nos convidou para um jantar nesse final de semana. – Comentou e eu passei uma mão pelos cabelos, imaginando que ambos não tinham conhecimento sobre o nosso término.
- Tudo bem se vocês quiserem ir – falei me referindo a ele e a minha mãe. –, mas eu não vou. – Meu pai franziu o cenho sem entender e eu prossegui, prevendo que o inferno estava prestes a começar. – Nós terminamos.
A expressão dele transformou-se em algo indecifrável.
Seus olhos semicerrados me estudaram de uma forma gélida repleta de arrogância como se eu fosse insignificante, e, sem desviar a atenção sobre mim, deu um sucinto gole em sua bebida.
- Devo perguntar o motivo ou é só uma de suas decisões estúpidas? – Indagou calmo e eu ri em escárnio.
- A única coisa que deve fazer é respeitar a minha decisão. – Concluí, finalizando a minha bebida e me levantei com o intuito de sair dali.
- Muita cautela com o que você faz, . A nossa família não se empenhou em construir um nome e reputação de respeito para que tudo vá para o lixo devido às suas decisões. – Frisou em descaso. – Tem noção do que elas implicam? – Parei no batente da porta e virei-me para o homem aprumado em sua poltrona.
- Essa em especial implica que eu não tenho mais nada a ver com os Privost. A sua ganância pode custar caro, pai. Sei exatamente o que o meu relacionamento com a Cassie significava e nós não precisamos disso.
- Não ache que você pode fazer o que quiser. Não irei permitir. – Sua voz transmitia um tom ditatorial pretensioso do qual eu já havia me acostumado. Lancei-lhe um último olhar inexpressivo e me retirei do cômodo enraivecido com tamanha tirania.
Subi para o meu quarto e tomei um longo banho quente, logo me jogando na cama. Senti a parte ao meu lado do colchão afundar e sorri fraco ao ver Bento ali se aconchegando por cima das cobertas. Através da cortina entreaberta pude ter uma visão distante da casa dos fundos, da qual encontrava-se com todas as luzes apagadas.
Senti os meus olhos pesarem durante o tempo em que encarava a moradia, me perguntando se estava bem.

**

Adentrei o escritório naquela manhã com uma lista mental de coisas que eu deveria fazer. Conforme andava e distribuía “bom dia” para as pessoas que encontrava pelo caminho, notei Bridget – secretária encarregada de cuidar da minha agenda – vir ao meu encontro acompanhando os meus passos.
- Bom dia. – Desejei parando na porta da minha sala. – Algo para mim?
- Bom dia, senhor . Um homem ligou para cá e pediu para falar com o senhor, mas como ainda não havia chegado, anotei o recado. – Ela explicou. Fiz um sinal para que a mulher entrasse na sala, haja vista que eu não gostava de tratar dos meus assuntos profissionais fora dela. Bridget o fez e eu fechei a porta atrás de mim, sentando-me atrás de minha mesa, apontando a cadeira em sua frente para que ela fizesse o mesmo.
- Sim...? – Pedi para que continuasse enquanto eu retirava alguns papeis da minha pasta.
- Ele não quis se identificar, senhor. – Levantei o olhar e franzi o cenho. – Apenas deixou o seu telefone de contato e pediu para que retornasse o mais rápido possível. – Bridget entregou-me o papel do qual continha apenas um número de telefone. O encarei desconfiado e assenti, deixando-o em cima da minha mesa.
- Mais alguma coisa?
- Não. Apenas isso.
- Certo... Obrigado. – Disse a Bridget, que respondeu um “por nada” e levantou-se, se retirando da sala.
Peguei o papel e o observei novamente, me sentindo tenso ao imaginar que isso teria algo a ver com as ameaças que eu recebi. Tirei o telefone do gancho e disquei os números contidos na folha, percebendo a apreensão aumentar cada vez que o barulho da chamada ecoava pelo aparelho.
- Pronto? – Uma voz masculina soou e não havia sinal algum do conhecido efeito robótico nela.
- Sou , advogado de defesa. Recebi uma ligação requisitando retorno a esse número e gostaria de saber sobre o que se trata. – Expliquei.
- Bom dia, . Desculpe por não ter deixado o meu nome. Sou Otto Zucker, fotógrafo. Trabalhei na festa onde o crime com Mason Zummack ocorreu e creio que eu possa ajudá-lo com o caso. – Disse ele da forma mais direta possível, sem rodeios. Surpreso e receoso, digitei seu nome navegador de pesquisa e confirmei a sua identidade.
- Bom dia, Otto. Agradeço o seu contato. Antes de qualquer coisa, preciso que você seja mais específico, por favor. – Pedi.
- Eu fui o fotógrafo da festa e talvez possua algum material útil para você. Nós podemos nos encontrar? – Otto sugeriu. Mesmo achando tudo aquilo muito estranho, decidi arriscar. Eu não podia recusar nada que servisse a meu favor.
- Claro. Você tem disponibilidade de vir ao escritório agora? – Falei curioso demais para marcar um horário.
- Posso sim. – Concordou ele. Uma onda de euforia tomou conta de mim e, embora a situação fosse estranha demais, eu gostaria de pagar para ver. – Chego aí em mais ou menos meia hora. – Franzi o cenho sem entender como ele estipulou um horário.
- Otto, você possui o endereço do escritório?
- Creio que todos saibam onde o escritório dos se localiza. – Respondeu ele como se eu houvesse falado uma coisa extremamente idiota. – Moro próximo, então não devo demorar. Até. – Sem dar chance alguma para que eu o respondesse, ele finalizou a ligação. Encarei o telefone em minhas mãos com o cenho franzido em pura desconfiança e dúvida, sem saber ao certo se esse cara realmente gostaria me ajudar. Disquei o número da recepção e pedi para que liberassem a entrada de Otto assim que ele chegasse, não antes de recomendar uma revista precisa antecipadamente a sua entrada no prédio, afinal, eu ainda me encontrava em alerta sobre as ameaças que, estranhamente, haviam parado de acontecer.
Pouco mais de meia hora depois, Bridget anunciou a sua chegada. Pedi para que ele fosse liberado e a porta da minha sala foi aberta, onde o homem um pouco mais jovem do que eu adentrou. Apontei a cadeira em um pedido mudo para que ele se sentasse e ele o fez.
- Muito prazer, Otto. – Cumprimentei-o com um firme aperto de mãos.
- O prazer é meu. – Ele retribuiu de forma vigorosa, passando confiança através daquele ato.
- Então vamos lá... Já que aparentemente estamos indo direto ao ponto, serei objetivo em minhas perguntas. Qual é o seu interesse em colaborar com o caso sendo que já depôs? – Indaguei preciso.
- Eu não sabia se era o certo, estava com medo. Entretanto, quero justiça. Mason era o meu padrinho. – Otto revelou ressentido, me deixando surpreso com a sua confissão. – A noite do seu assassinato foi um pesadelo. Eu estava trabalhando naquele local e não fui capaz de ser útil! – Ele bradou e eu assenti com pesar, compadecido com a sua dor.
- Sinto muito pela sua perda e aprecio a sua boa vontade, Otto, contudo, preciso te deixar ciente de que existe muita coisa envolvida nesse caso. Não é simples e muito menos seguro. – Informei, me referindo a tudo que andava me acontecendo.
- Você precisa de evidências, eu posso consegui-las. Eu quero justiça, você pode consegui-la. É uma troca de interesses. – Rebateu irredutível e eu suspirei, ponderando por alguns segundos.
- Certo. – Concordei – Quero ter acesso a absolutamente todo material fotográfico da festa. Alguns ficaram com você, não é? – Ele assentiu.
- Eu ia postá-las no site da Associação dos Empresários, mas fui proibido por motivos óbvios.
- Tudo bem. O importante é que elas estão com você. Otto, não faça nada sem me consultar, fui claro? E tome cuidado. – Avisei e ele concordou. – Vou te dar o meu número de serviço caso precise de algo.
Finalizamos mais alguns pontos da conversa e nos despedimos.
Ainda meio perplexo, passei as mãos pelo rosto, me sentindo feliz e até esperançoso com o aparecimento de Otto, embora temesse que ele recebesse as mesmas ameaças que eu, haja vista que ele era da família da vítima e cederia o material daquela noite. Liguei para o meu cliente e o deixei atualizado a respeito dos acontecimentos da manhã, ouvindo-o soar aliviado através do telefone.
Ouvi algumas batidas na porta e murmurei um “entra” enquanto lia alguns processos. Desviei os olhos das folhas e enxerguei Bridget ali.
- Desculpe incomodá-lo. O senhor Henrico terá uma viagem de última hora e lhe pediu para pegar uma pasta na casa de vocês. Ele sairá às duas e meia, porém, está em uma reunião no momento. – Assenti, checando o horário em meu relógio de pulso. 12hrs22min.
- Ele especificou qual era a pasta?
- Sim. Disse que ela está em cima da mesa do escritório. – Informou.
- Obrigado, Bridget. Caso ele fale com você, diga que já estou indo. – Levantei-me e recolhi as minhas chaves, saindo da sala junto à mulher, que rumou até o seu local de trabalho. Peguei o elevador e segui até o estacionamento, entrando no carro e dando partida.

Ao chegar ao meu destino, estacionei o veículo de qualquer jeito a fim de não perder muito tempo. Cumprimentei Cícero e o homem contratado para consertar o buraco pelo qual Bento havia fugido e entrei em casa, caminhando direto para o escritório, agradecendo aos céus pela pasta estar exatamente no lugar que deveria. Bento surgiu do nada e veio ao meu encontro balançando o rabo energicamente, contente por me ver àquela hora do dia. Abaixei-me e o acariciei brevemente, logo tornando a fazer o meu caminho.
Coloquei a pasta no banco do passageiro e, quando fiz menção de entrar em meu carro, parei e fitei a casa dos fundos.
Sem pensar demais, andei até lá. Parei em frente a porta e ponderei por alguns segundos, sem saber exatamente se deveria bater ou simplesmente dar a volta e ir embora. Não tive muito tempo para decidir, já que Bento latiu animado ao reconhecer o ambiente em que estávamos. Lancei-lhe um olhar repreendedor e dei duas batidas na porta, colocando as minhas mãos no bolso da calça após o meu ato.
- Eu ia bater, não precisava chamar a atenção. – Sussurrei para o Pastor Alemão, que sentou-se ao meu lado com a postura ereta em expectativa. Ri fraco para ele e ouvi um ruído de chave sendo girada pela fechadura, revelando uma ainda com a fisionomia um tanto quanto cansada, embora bem menos abatida. Ela pousou os olhos no Bento – que latiu mais uma vez –, e depois os pousou em mim, significativamente confusa.
Nem eu sabia ao certo que porra fui fazer ali.
- Oi. – Disse ela, quebrando aquele clima desconfortável.
- Oi. – Respondi. abaixou-se e acariciou o cão enérgico por alguns segundos, recobrando a postura em seguida. – Tive que passar em casa e vim saber como você está. – Esclareci e ela deu um sorriso tímido.
- Estou melhorando. O Doutor Elish me receitou um anticongestionante e alguns anti-flamatórios, além de ter que ficar de molho em casa. – Fez uma breve careta e eu ri fraco. – Obrigada pela preocupação. – Comentou com o sorriso perdurando seus lábios e eu neguei.
- Indiretamente a culpa foi minha por você ter ficado assim. E também foi uma devolução de favores pelo dia em que eu fiquei mal. – Dei-lhe uma piscadela e ela assentiu, adquirindo um rubor nas maçãs do rosto.
- Não foi culpa sua, . Fui eu quem quis te fazer companhia e iria de novo. Gosto muito desse pestinha. – gracejou, voltando a acariciar Bento. – Foi ele quem me “avisou” – fez aspas com os dedos – que você estava mal naquele dia. – Ela disse e eu franzi o cenho.
- Como é?
- Ele estava tão agitado que me obrigou a entrar na sua casa para verificar o que estava acontecendo. Um dia esse cachorro vai falar. – Brincou, me arrancando uma risada.
- Acredito que sim. – Olhei em meu relógio e constei que deveria retornar ao escritório. – Preciso ir.
- Tudo bem.
- Até mais. – Falei, recendo um aceno em resposta.
- Até. Bom trabalho. – desejou sorrindo e eu repeti o seu ato.
Regressei ao meu destino anterior e adentrei o carro tomando o rumo de volta ao prédio do escritório com algo estranhamente desordenado em minha cabeça.

Seis e trinta e cinco da tarde.
O escritório nunca me pareceu tão sufocante quanto naquele momento, o som da chamada em espera ecoava em um barulho irritante pelo celular durante o tempo em que eu aguardava a secretária do Sandro Averbuck retornar com a informação que eu tanto queria a respeito dele.
Um ruído soou através da saída de som do aparelho e logo a voz da mulher fez-se audível.
- Doutor , o senhor Averbuck lhe atenderá na segunda-feira? que vem, às quatro e meia da tarde. Tudo bem para o senhor?
Sorri extremamente satisfeito. Era essa notícia que eu tanto esperava para que toda minha semana valesse à pena.
- Perfeito.
- Certo, o seu horário está marcado. Há mais alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor?
- Não, obrigado. Por hora é só isso.
- Ok. Tenha uma boa noite, Doutor .
- Boa noite.
Desliguei a ligação e encostei-me em minha cadeira com um sorriso largo no rosto. Aparentemente as coisas estavam começando a clarear no caso Zummack, já que o depoimento que Sandro me concederia seria de extrema importância para que eu conseguisse informações preciosas para a defesa do meu cliente. Recolhi meus pertences e tranquei o meu escritório, despedi-me de algumas pessoas que ali estavam e segui rumo à saída do prédio estupidamente cansado, todavia, muito satisfeito.
Senti meu celular vibrar no meu bolso e o atendi sem prestar muita atenção no visor.
- Olá, . Sentiu a minha falta? – Parei de andar de súbito e um frio amedrontador subiu pela minha espinha, me congelando por completo. A voz robótica debochou do outro lado da ligação e eu rapidamente olhei para todos os lados em alerta com um ódio crescente tomando conta de mim. Eu precisava recuperar a minha frieza e me manter calmo.
- O que você quer? – Questionei ríspido e obtive um riso zombeteiro em resposta.
- Eu queria mesmo era disparar uma bala bem no meio da sua testa, porém, como sou uma ótima pessoa, decidi te dar a chance de desistir do caso. O que acha? – Andei a passos rápidos até o meu carro e entrei nele, sentindo a minha respiração cada vez mais pesada. Passei a mão nos meus cabelos em puro desespero e fechei os olhos com força, esforçando-me para não permitir que a angústia tomasse conta de mim.
- Você não sabe com quem está lidando. Aproveite bem a sua liberdade, porque ela não irá durar muito. – Declarei enraivecido e mais um riso fez-se audível.
- Gosto de jogos e estou disposto a jogar com você, .
- Encontrou alguém que gosta de jogos tanto quanto você, meus parabéns. Escute bem o que eu vou lhe dizer... – Comecei em um tom de voz mais baixo e ameaçador – Eu morro, mas irei te ver atrás das grades, ouviu bem? Tem uma coisa que você não sabe... Sou extremamente competitivo e o meu maior prêmio será te jogar em uma cela de três metros! – Vociferei entredentes.
- Uau, gostei. Desafio aceito, . Não sou a pessoa mais adepta a regras, porém, eu lhe apresentarei a única: Não quero sonhar – ele frisou. – que a polícia esteja envolvida nisso. Pode ter certeza de que eu saberei se o herdeiro mais poderoso país – ressaltou debochado e o ódio só aumentou – anda infringindo o regulamento. Que os jogos se iniciem, começarei mexendo um peão e temo que você irá perder uma peça. Boa sorte. – A ligação foi finalizada.
- MAS QUE PORRA! – Explodi exasperado, socando o volante.
Observei o celular em minhas mãos com a adrenalina a mil, onde ela se misturou com o ódio, o temor e o espanto. Joguei o aparelho no banco do passageiro e apoiei os cotovelos no volante, esfregando o rosto com as mãos na tentativa de descarregar toda aquela sensação horrível que assolava o meu corpo inteiro, deixando-o praticamente paralisado.

“Começarei mexendo um peão e temo que você irá perder uma peça.”

De repente, eu não temi apenas por mim. Eu temi por todos que estavam ao meu redor, por todos que faziam parte da minha vida e por todos que estavam envolvidos no caso.
Eu sabia que demonstrar medo só fortaleceria seja lá quem estivesse por trás dessa merda toda. O sádico maldito possuía prazer em brincar de Deus.
A ira correu pelo meu sangue produzindo um sórdido sorriso ladino em meus lábios.

A situação havia acabado de transformar-se em um inferno e eu me deleitaria a conviver com o demônio.

Pisei no acelerador sem me preocupar com os 120 km que o ponteiro do painel do velocímetro indicava, somente desejava chegar em casa o mais rápido possível e colocar as ideias no lugar, pois naquele momento, tudo encontrava-se uma bagunça. Por mais que soubesse dos riscos ao pegar o caso Zummack, nunca imaginei que as coisas poderiam chegar a esse ponto.
Eu corria risco de vida.
Expirei impaciente, observando a ponta dos meus dedos ficarem brancas devido à exagerada aplicação de força entre eles e o volante. Diminuí a velocidade do veículo assim que entrei no condomínio e estacionei o carro na garagem, deixando-o e caminhando feito um foguete ao transpassar a porta de entrada de casa. Coloquei o pé na escada com a intenção de subir até o meu quarto, entretanto, parei imediatamente ao ver o meu pai parado na entrada da sala de estar.
- , temos visita. – Ele avisou com seriedade.
- Estou sem o mínimo de disposição para receber alguém, diga que eu estou ocupado ou que quiser dizer. – Falei áspero e o homem não moveu um músculo sequer.
- Não perguntei se você deseja recebê-lo, apenas lhe informei. Venha até aqui. – Abri a boca para confrontá-lo, contudo, fui interrompido pela figura do senhor Privost, que surgiu ao lado do meu pai. O homem sorriu astuto e levantou a taça em suas mãos.
- Ora, . Não irá nos acompanhar? – Questionou ele. Meu pai sorriu vitorioso e eu trinquei o maxilar pela raiva, assentindo a contragosto.
- Claro, senhor Privost. Tomarei uma taça com vocês. – Falei regressando um passo e caminhei até a sala de estar na companhia dos dois homens. Servi-me de uma taça de champagne e encostei-me em um pilar daquela dependência da casa, cruzando os braços com o objeto cristalino em mãos, meramente ouvindo o diálogo que ecoava pelo cômodo sem intenção nenhuma de participar dele.
- Está mais calado do que o habitual, . – Senhor Privost comentou analítico. Desviei a minha atenção do ponto do qual eu encarava e o olhei.
- É apenas cansaço. – Respondi, vendo-o assentir.
- anda trabalhando arduamente no caso Zummack. Creio que teremos uma grande vitória. – Meu pai esclareceu envaidecido e eu nada disse.
- Estupendo. O brasão dos e dos Privost certamente ganhará ainda mais força. – Franzi o cenho. Era óbvio que ele ainda não sabia que eu não namorava mais com a filha dele.
- Desculpe-me, senhor Privost. Receio que eu terei que atualizá-lo dos últimos acontecimentos. Cassie e eu rompemos. – Notifiquei e a expressão do homem estarreceu em completo choque. Os olhos do meu pai faiscaram de raiva e eu reprimi um riso ladino.
- C-como? Como isso aconteceu?! Ela não falou absolutamente nada nem para mim nem para a mãe! – Meu ex-sogro falou notavelmente nervoso.
- Eu também fiquei sabendo recentemente, Russell, porém, creio que logo eles se resolverão. – Meu pai tentou amenizar a situação me lançando um olhar duro e eu levantei a taça em um ato sarcástico, negando com a cabeça em seguida, demonstrando que aquilo não ocorreria.
- Estou torcendo para que isso aconteça. Os negócios tendem a ir bem quando todo o resto vai bem, não é? – Russell falou e eu semicerrei os olhos. Não sabia ao certo quem ele pensava que era, já que a minha família não necessitava da sua para absolutamente nada.
Finalizei a minha bebida e sorri cordial para os dois homens.
- Estou realmente exausto, irei subir para o meu quarto. Tenham uma boa noite. – Desejei, cortando qualquer chance de uma continuidade no assunto. – E foi um prazer vê-lo, senhor Privost. – Finalizei, ouvindo-o retribuir a minha fala.
Retirei-me da sala e fui direto para o meu destino anterior.
Meu corpo sobrecarregado doía como o inferno, resultado das últimas horas tensas das quais eu havia vivenciado. Por um momento agradeci pela ausência da minha mãe nos últimos dias em consequência de uma viagem a trabalho, afinal, se ela estivesse presente, a dor de cabeça seria em dobro.

Nunca a sensação de que tempos difíceis se aproximavam foi tão forte.
E eu estaria pronto para eles.

’s POV

Após três dias de repouso total, o sábado chegou com uma explosão de alegria. Fui trabalhar com um sorriso enorme no rosto por finalmente estar liberada a sair de casa e retomar a minha rotina, fora que parar de sentir como uma morta viva também era maravilhoso.
Parei em frente à loja já enxergando Vicenzo ali dentro, que deu seu habitual sorriso de coringa ao me ver. Ergui a mão a fim de empurrar a porta e ele fez um sinal para que eu esperasse. Franzi o cenho vendo a figurada animada e sorridente vir até mim, abrindo-a e fazendo reverência em seguida.
- Mademoiselle.* – Dei uma gargalhada e entrei no local, imitando o seu ato.
- Bonjour monsieur.* – Disse, ouvindo-o rir.
- Você fala francês? – Questionou ele com uma feição de espanto.
- Ei, por que essa cara? – Perguntei falsamente ofendida e Vicenzo ergueu as mãos se eximindo da culpa.
- Por nada, por nada! Já disse que eu amo croissant? – Indagou galante e eu gargalhei.
- Que bom pra você, porque na verdade eu não falo não. Vi essa frase em um filme e achei chique, você apenas me deu abertura para utilizá-la. – Dei de ombros sorrindo travessa.
- Ufa, porque na verdade eu detesto croissant. – Confessou e eu empurrei-lhe pelos ombros, ainda rindo.
- Melhorou da gripe? Posso chegar perto de você sem ter o risco de ficar enfermo? Tenho que trabalhar em uma festa hoje e não posso ficar doente.
- Não, ainda tenho muitos vírus prontos para habitar esse seu corpinho tatuado. – Cheguei perto dele com a intenção de abraçá-lo e, ao contrário do que eu esperava, o vocalista abriu os próprios braços. Parei e o encarei com cara de tédio.
- Você é ridículo. – Falei tentando não rir. – Vai tocar com a banda nessa festa?
- Nunca recusarei os seus abraços, gata. Aceito os seus vírus de bom grado. – Vicenzo brincou e eu finalmente ri, fazendo uma careta. – E não. Na verdade, vou fazer um freela de bartender. – Explicou e eu o encarei curiosa.
- Você sabe fazer isso?
- Sei fazer várias coisas e terei muito prazer em lhe mostrar todas. – Comentou malicioso. Gargalhei e neguei com a cabeça. Um cliente entrou no estabelecimento e paramos de gracejar um com o outro, começando a trabalhar.

- Sobe aí, lindinha. – Meu colega pediu ao final do expediente, apontando com a cabeça para o espaço livre atrás de si. Torci o nariz e encarei aquela coisa da qual eu não era muito fã. – Creio que você já esteja se familiarizando com ela. Vem, sobe. – Pediu referindo-se a moto. Suspirei e peguei o capacete de suas mãos, colocando-o e agarrando a cintura de Vicenzo, que, como sempre, riu.
A sensação do vento batendo em meu corpo foi imediatamente sentida enquanto ele pilotava. Apertei ainda mais o seu corpo e me encolhi, permanecendo dessa forma até chegarmos em nosso destino.
- Prontinho. Chegou viva e sem faltar nenhum pedaço.
- Vitória do dia. – Disse. Retirei o capacete e lhe entreguei.
- Ué, o que será que aconteceu no país das maravilhas? – Vicenzo perguntou assim que estacionou o carro em frente ao condomínio, notando vários jornalistas amontoados ali perto na tentativa de entrevistar alguém.
- Não faço ideia. – Semicerrei os olhos em curiosidade, desejando enxergar quem era a pessoa tão requisitada pelos repórteres. Esforcei-me um pouco mais e me surpreendi quando vi que localizava-se no ponto central da roda de indivíduos afobados com seus microfones, competindo pela atenção do homem imponente que falava com uma calma invejável em meio àquele furor. Alguns seguranças também estavam ao seu redor e perto de seu carro, estacionado um pouco mais ao lado da confusão.
- Parece que o seu príncipe é a estrela da vez. – Proferiu irônico.
vestia um terno escuro visivelmente caro, que, como se fosse algum tipo de protocolo, caía ridiculamente bem em seu corpo, acrescentando os óculos escuros que o deixava – ainda mais – charmoso, protegendo seus olhos da claridade do fim de tarde. O cabelo propositalmente arrumado para parecer desalinhado completava a cena de comercial e eu mordi o lábio. Ouvi um risinho sarcástico e desviei os olhos de , dando de cara com o olhar debochado de Vicenzo. – Não acredito que eu estou vendo um conto de fadas moderno bem em frente aos meus olhos. – Expressou de modo teatral e eu ri.
- Cala a boca. – Falei, descendo da moto. – Obrigada pela carona.
- A seu dispor, Cinderela. – Brincou. Rolei os olhos reprimindo o riso e acenei para o vocalista, que mandou um beijo e arrancou com a moto.
Vicenzo era um caso sério.
Caminhei para dentro do condomínio e após alguns minutos andando, entrei na mansão, sendo recebida, como sempre, por um Bento alegre.
- Olha só quem está quase parando de mancar! – Abaixei-me acariciando o cão virado de barriga pra cima. – Hoje eu vi um ossinho de brinquedo na vitrine de um petshop e achei a sua cara. Quando eu receber o meu pagamento vou comprá-lo pra você. Eu ando te mimando muito, aliás. – Ri e dei-lhe um último afago atrás de suas orelhas. Levantei-me e me dirigi para casa dos a fim de cumprimentar a minha mãe, seguindo rumo à nossa casa em seguida. Durante o tempo em que eu caminhava alheia, ouvi um barulho de carro e me virei brevemente, reparando que estacionava o veículo na garagem. Ele saiu do automóvel e fez a mesma coisa que eu fizera momentos antes com Bento no instante em que o cão se aproximou do dono, esfregando-se em suas pernas. Ao recobrar a sua postura, olhou para frente e se deparou comigo o observando. Cumprimentou-me com o seu aceno de cabeça característico e eu sorri, como sempre fazia. Parecia um ritual. Segundos depois, ele quebrou o nosso – estranho – contato visual, entrando na mansão, também me acordando do transe em que eu me encontrava. Abri a porta de casa indo direto para o banho, cansada demais para pensar em qualquer outra coisa que não envolvesse uma xícara de leite quente e uma roupa quentinha.

**



“A tipologia psicológica não tem a finalidade, em si bastante inútil, de dividir as pessoas em categorias; significa, antes, uma psicologia crítica que possibilite a investigação e ordenação metódicas dos materiais empíricos relacionados à psique. É, em primeiro lugar, instrumento crítico para o pesquisador em psicologia que precisa de certos pontos de vista e diretrizes para colocar ordem na profusão quase caótica das experiências individuais.*”
Eu me empenhava em tentar ler a matéria da prova da próxima semana, entretanto, não conseguia me concentrar de forma alguma. Peguei o livro e segui porta afora em direção ao lugar cujo eu mais gostava daquela casa: o jardim onde se encontrava o banco-balanço. Eu não ia lá há alguns dias e já sentia falta da paz que aquele ambiente exalava. A noite fria não era um impedimento para que eu me sentasse ali, esquecendo do mundo durante o momento que eu lia ou simplesmente apreciava as flores maravilhosas espalhadas por toda área verde. Enquanto eu me aproximava do meu destino, parei de súbito no meio do caminho assim que vi que alguém havia chegado primeiro do que eu.
estava sentado no banco parecendo absorto em pensamentos durante o tempo que tragava lentamente o seu cigarro, produzindo uma fumaça que fora solta na mesma lentidão que a tragada. Os olhos cansados denunciavam que aquele provavelmente era o seu momento – talvez único no dia – de relaxar. A minha intenção era dar as costas e voltar pra casa, entretanto, a gravidade era uma grande inimiga minha, e ela, mais uma vez, atrapalhou os meus planos. Dei um passo para trás e pisei em falso em um graveto – que produziu um barulho irritante –, me desequilibrando e fazendo com que eu desse alguns passinhos ridículos e atrapalhados para o lado na tentativa de recuperar o equilíbrio e não cair de bunda no chão, atraindo a atenção de , que me olhou com a sobrancelha arqueada.
E segurando o riso.
Senti o meu rosto esquentar e desejei que as plantas me sugassem para debaixo da terra, o que, infelizmente, não aconteceu. Tive que encarar o homem que ainda me fitava divertido com aquela maldita expressão satírica no seu maldito rosto bonito.
- Você sabe mesmo fazer uma entrada triunfal. – Fez graça e eu apenas lancei-lhe um riso totalmente falso, o que fez finalmente rir.
- Que bom que eu te divirto. – Falei meio emburrada, tirando uma folha presa debaixo da minha bota. Constatei que ele observava o livro em minhas mãos, tornando a focalizar o seu olhar em mim.
- Veio levar o livro para passear ou você ia ficar aqui, mas desistiu ao me ver? – indagou mais direto impossível, voltando à sua posição anterior, mirando a paisagem do jardim e fumando tranquilamente.
- Vi que você estava pensativo e achei que seria melhor te deixar sozinho. – Admiti um tanto quanto embaraçada, vendo-o negar com a cabeça.
- Já falei que não precisa disso, . Pode ficar. Acho que esse é o nosso local para desestressar, afinal de contas. – Ele soltou um riso frouxo e eu o acompanhei, concordando. Sentei-me no banco observando-o de esguelha, sentindo uma atmosfera incomum no ar. – Você está melhor? – Perguntou, me analisando rapidamente antes de tornar a olhar para frente e eu estranhei o seu comportamento esquivo.
- Estou sim.
- Que bom.
Silêncio.
Atenta, estudei a sua face séria que contemplava um ponto qualquer daquele campo tão extenso. Diferente de todas as vezes, a sua postura não encontrava-se relaxada ou apenas normal.
O seu corpo parecia tenso.

(Escute Worldstop do Roy English a partir daqui).


Fitei o seu rosto mal humorado e notei olheiras abaixo dos seus olhos vermelhos, dando-o uma aparência de exaustão. Imediatamente algo se revirou dentro de mim. Ele sempre aparentou ser feliz com tudo o que tinha. O que o deixava tão insatisfeito? Por que o seu semblante carregava tanto pesar, mesmo quando sorria? Perdi-me em pensamentos, não notando que eu o fitava durante o meu devaneio. Os cabelos – sempre desalinhados – escondidos por uma touca e o moletom preto em nada combinavam com os ternos de alta costura que ele usava no dia-a-dia, contudo, parecia mais à vontade daquela forma. E, por Deus, ele conseguia ficar lindo até assim.
- Está tudo bem? – não me olhou. Somente assentiu e não moveu um músculo. Ver o seu olhar tão perdido era desconsolador. Talvez eu devesse deixá-lo sozinho.
Fiz menção de levantar-me do banco, contudo, sequer me movi dele quando me fitou, quase me assustando tamanha angústia em seu rosto.
- Não vai. – Ele pediu e eu pisquei algumas vezes, perdida com a súplica em meio ao seu tom de voz sempre grave. Voltei a me ajeitar no banco ainda o observando sem entender. tornou a olhar para frente da mesma forma que encontrava-se anteriormente. – Eu... Eu não quero ficar sozinho. – Cada palavra proferida por ele soava como uma confissão que tornava o meu coração pequeno. Ele abaixou um pouco a cabeça e, em silêncio, eu apenas o ouvi. – Desculpe por não estar sendo uma boa companhia, mas eu realmente queria a sua presença aqui.
As minhas mãos trêmulas e geladas suavam ininterruptamente em um nervosismo que produzia fortes batidas no meu coração acelerado. Aproximei-me de sua figura cabisbaixa perto o suficiente para fitá-lo melhor.
Seus olhos vermelhos ativaram uma onda de coragem até então desconhecida por mim, que me conduziu a erguer uma de minhas mãos e posicioná-la em seu rosto, levantando-o e fazendo-o olhar para mim. A fisionomia aflita denunciou que ele definitivamente não situava-se em seu estado normal. “Desvie o olhar, ” era o que o anjinho sentado em meus ombros provavelmente diria em meio àquela nova atmosfera permeando a mim e , que escorria os seus olhos por todo o meu rosto minuciosamente, retomando o contato visual após a sua breve avaliação. Imóvel, eu somente o fitava de volta, tentando entender o que se passava conosco naquele momento tão singular. Meu corpo imediatamente reagiu no exato momento em que, pela primeira vez, os seus olhos desceram até os meus lábios entreabertos, os fitando com uma atenção incontestável. O ar transpassava com dificuldade entre eles, embora o meu peito fizesse movimentos rápidos de sobe e desce tamanho nervosismo. Ele voltou a cravar os olhos cansados – porém sérios –, nos meus, escorrendo-os por eles analiticamente. Sem que eu percebesse, ambos já estávamos extremamente próximos e eu me perguntei se ele podia ouvir as minhas palpitações por sentir a sua respiração bater contra a minha boca. Encarei os seus lábios rosados pelo frio e passou a sua língua por eles, o que me deixou em um estado de urgência.
- Eu não sei decerto o que está acontecendo – começou e, a cada palavra que ele proferia, os seus lábios encostavam-se levemente nos meus em uma provocação despropositada, me incendiando por dentro – mas você pode se afastar se quiser. – Terminou com a voz baixa e rouca, me olhando intensamente. Sem tirar os olhos dos seus, eu neguei.
- Eu não quero. – Admiti. A minha voz saiu fraca, porém firme. Eu não estava apta a sucumbir à vontade sufocante de tê-lo ao menos naquele momento. deu um sorriso discreto e, com uma calma desesperadora, cessou a nossa distância no momento em que a sua boca quente e macia tocou delicadamente a minha, onde ambos apreciaram a textura uma da outra.
A sensação era deliciosamente sufocante.
Era como a realização de algo até então utópico.
Ele abriu os lábios minimamente e os encaixou nos meus de uma maneira cheia de vigor e eu reprimi um murmúrio de aprovação ao senti-lo pousar uma de suas mãos grandes na minha nuca e outra em meu rosto, em uma atitude de proteção prazerosa demais para se expressar por meio de palavras. Abri a minha boca diminutamente e um suspiro escapou ao sentir a língua de movimentar-se vagarosamente contra a minha, no qual nossos lábios acompanhavam os movimentos lentamente, contudo, sem deixar de ser enérgico. Posicionei a minha outra mão livre em seu rosto e o acariciei, sentindo o meu coração explodir ao notá-lo sorrir brevemente e os seus ombros relaxarem. O beijo foi se aprofundando gradativamente e eu não queria parar. As nossas bocas se exploravam e se conheciam com um vigor intenso demais para que fosse interrompido; Elas chocavam-se e se descobriam formando uma luxúria cada vez mais vívida, tornando os movimentos do beijo mais e mais insuficientes. Dei uma leve mordida em seus lábios e o meu corpo ferveu – mais – assim que o ouvi gemer dentro da minha boca, embrenhando os seus dedos pelo meu cabelo e puxando parcialmente alguns fios a partir da minha nuca.
Diminuímos a velocidade do beijo progressivamente, tornando a nos beijar de forma lenta até que ficássemos somente com os lábios encostados, ambos com a respiração extremamente desregulada, contudo, ainda assim, sem nos separarmos. As minhas mãos geladas permaneceram em seu rosto e, as suas, continuaram na minha nuca e em minha face ruborizada.
Nos olhamos estudando cada parte da face um do outro e faíscas rondaram todo o ambiente.
Meu coração batia rápido com o seu perfume impregnado em meu corpo e nariz. Eu podia ouvir o sangue pulsando em minhas veias em uma explosão de energia.
Não importa o que aconteceria depois. Aquele momento fez-se eterno e era só isso que importava para mim.

“Yeah I said you make my whole world stop. Cause you love me and you don't stop. Make my whole world stop...”

Quesitos: Determinada a realização do exame, a autoridade policial ou judiciária e as partes podem formular quesitos, ou seja, perguntas pertinentes à perícia e que versem sobre pontos a serem esclarecidos.

Mademoiselle: Palavra francesa que significa moça/mulher/senhorita.

Bonjour monsieur: Bom dia, senhor.

Tipologia Psicológica: Trecho tirado do livro "Tipos Psicologicos" de Carl Jung.






“Eu tenho cem milhões de razões para ir embora, mas querido, eu só preciso de uma boa razão para ficar” Million Reasons – Lady Gaga.


’s POV

O frio na barriga que eu sentia era descomunal e as batidas aceleradas do meu coração eufórico soavam como tambores em meus ouvidos. Eu estava totalmente atordoada pelo que havia acabado de acontecer e não parecia diferente de mim enquanto ambos nos fitávamos inexpressivos, ainda com a respiração um tanto quanto irregular. Como se houvesse sido desperto por algo que lhe devolvesse à consciência, ele fitou os meus lábios rapidamente pela última vez e retirou suas mãos de mim com uma lentidão quase contraditória à sua ação, o que me obrigou a fazer o mesmo e parar de tocar o seu rosto e nuca, recolhendo as minhas próprias mãos. Afastamo-nos um pouco até que o espaço do qual nos separava fosse considerado normal e cortou o nosso contato visual. Eu me forcei a olhar para frente e, de soslaio, o vi apoiar os cotovelos nos joelhos e passar uma mão em seu pescoço em um claro sinal de confusão.
- Desculpa, . Eu... Eu não sei o que aconteceu. – se manifestou e eu imediatamente o olhei, sentindo como se tivesse tomado um banho de água fria.
“Desculpa?”
“Eu não sei o que aconteceu?”
Bom, até onde eu sei, nós nos beijamos.
- Foi um ato consensual, não precisa se desculpar. – Soltei sem pensar, levando a virar o rosto e me olhar.
Não se pede desculpas depois de um beijo! Ainda mais depois de um beijo em que outra pessoa em questão deixa claro que queria.
O clima estranho permeou o ambiente e a única coisa que eu conseguia fazer era me esforçar para ficar calma e normalizar os meus batimentos cardíacos durante o tempo em que era observada por um analítico.
– Vou entrar... Não deveria estar pegando essa friagem. – Tomei coragem e me levantei, com as pernas ainda moderadamente bambas e dei poucos passos.
- . – A sua voz grave me fez parar, com isso, me virei para olhá-lo. – Eu não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós. – Confessou ele, aparentando estar realmente preocupado com a questão. Forcei-me a sorrir e dei a resposta mais irônica que eu podia ter dado, embora o sarcasmo estivesse implícito na frase.
- Estranhas por qual motivo? Não aconteceu nada. – Finalizei, ainda sorrindo fraco e tornei a andar, tendo a plena certeza de que eu era observada conforme me afastava.
Deixei o sorriso morrer e fui atingida por diversos sentimentos.
Raiva, felicidade, tristeza, excitação...
Tudo se misturava de um modo que me deixava sem saber ao certo o que pensar.
Por que ele havia pedido desculpas?
Entrei em casa como um furacão, acabando por assustar a minha mãe, que deu um pequeno pulinho de susto ao me ver.
- , o que houve? – Perguntou ela sobressaltada, estranhando o meu comportamento. Voltei a sorrir e neguei com a cabeça, tentando disfarçar o meu embaraço.
- Nada não. Eu estava brincando de fugir do Bento. – Menti junto à primeira coisa que me veio à cabeça. Tirei as minhas botas de forma desajeitada e fui até a mulher que me fitava desconfiada, depositando um beijo em sua testa. – Vou me deitar, tudo bem?
- Vai lá, filha. Boa noite.
- Boa noite. – Saí da sala e segui para o meu quarto. Fechei a porta e me joguei na cama, fitando o teto ainda sentindo as malditas e clichês borboletas no estômago.
Não consegui conter o pequeno sorriso que brotou em meus lábios ao relembrar a cena de minutos antes. Deixei todos os sentimentos contrários à felicidade para trás por alguns instantes e me permiti suspirar e sorrir verdadeiramente, ainda com a sensação dos lábios de nos meus. Suas mãos embrenhadas nos meus cabelos, o modo como tomou meu rosto para si, seu gosto, a intensidade dos movimentos, tudo foi perfeito. Mais perfeito do que eu imaginava.
Eu nunca pensei que algo assim pudesse acontecer e a ficha parecia não cair nunca.
Embora o seu pedido de desculpas houvesse sido um fator atenuante para que eu me sentisse desanimada e até brava, o meu estúpido coração insistia em pular como uma pipoca doida diante a tudo o que ocorrera entre mim e o cara que me tirava dos eixos como ninguém mais.

(...)

- Oi, mi amor! Que saudade de você! – disse de modo efusivo assim que eu abri a porta da minha casa.
- Óbvio que você está com saudade, estranho seria se não estivesse. – Brinquei, revidando o seu abraço e ouvindo-a me xingar. Ri e dei passagem para que ela entrasse.
- Não faça com que o arrependimento caia sobre mim por ter trazido as anotações e as xerox das aulas que você perdeu. – Ameaçou com os olhos estreitos em minha direção. Levantei as mãos em rendição e a minha amiga sorriu satisfeita. colocou os papeis em cima da mesa de centro e sentou-se no sofá.
- Eu perdi muita coisa? – Questionei, mexendo nas folhas.
- Hm, nada de muito relevante, na verdade. A senhora Simopicci passou um trabalho e eu peguei um tema para você.
- Trabalho sobre o quê?
- Variáveis da família e o seu impacto sobre o desenvolvimento infantil. Anotei tudo em um desses papéis. – Respondeu e eu assenti.
- Qual é o meu tema?
- A educação de crianças residentes em abrigos. – Ouch. Criança era o meu ponto fraco, porém, estava satisfeita. Com certeza daria para desenvolver um trabalho interessante.
- Obrigada por ajudar a sua amiga que estava doentinha. – Disse, abraçando-a forte propositalmente, sendo afastada de imediato por uma risonha.
- Okay, sweetie. Sem mais contatos efusivos por hoje.
- Se fosse o Adrian você não reclamaria. – Apontei em falso aborrecimento ainda ouvindo a gargalhada da minha amiga.
- Ah, que amor! Você está com ciúme!
- Não. Estou apenas comentando um pequeno fato. – Expressei casualmente, lendo um dos papeis dos quais ela trouxera.
- Por falar nisso, o Paolo pediu que eu o ajudasse a preparar a festa surpresa dele.
- E você precisará de ajuda, o que significa que eu estou inclusa nesses preparativos. – Completei rindo e assentiu. - Quando vai ser?
- Sábado que vem. Já contratei um assistente de eventos, mas algumas coisas eu mesma terei que fazer.
- Claro que eu irei te ajudar, tudo pela felicidade dos dois pombinhos. – Falei de um modo teatral, vendo-a revirar os olhos.
- O seu livro de Tipologia Psicológica está fácil aí? Preciso dar uma olhada nele. – Pediu e eu assenti, me levantando com a intenção de ir ao meu quarto buscá-lo.
Até que eu parei de súbito ao me lembrar de um pequeno detalhe.
Eu não havia o trazido de volta na noite anterior.
Notando a minha provável cara de nada, se manifestou.
- Empacou por qual motivo? – Questionou me fitando curiosa e eu passei a mão pelo cabelo, me amaldiçoando pela minha falta de atenção.
- Será que você pode esperar só um minutinho? Preciso ir ao jardim e eu juro que explico assim que eu voltar. – Disse rumando em passos ligeiros até a porta. Minha amiga apenas assentiu claramente não compreendendo nada. Saí e segui rapidamente até aquele ambiente que fora cenário do meu desalinho sentimental, franzindo o cenho em desentendimento ao notar a ausência do livro no banco. Será que o havia pegado? Ou Bento?
Ah, merda. O Bento não.
Se isso tiver acontecido, a probabilidade do livro não existir mais era muito alta.
Voltei para casa, confusa, e me sentei ao lado da minha amiga curiosa.
- O que exatamente você tem para me explicar, dona ? E cadê o livro? – Indagou interessada e eu me preparei para sua reação em relação ao que eu iria lhe dizer a seguir. Mordi o lábio e a fitei tentando conter o ligeiro sorriso que teimava em querer dar as caras.
- Eu esqueci o livro no jardim ontem à noite. – comecei e fui incentivada a prosseguir por uma claramente impaciente.
- E...?
- Das suas uma. Ou o Bento o destruiu, ou ele está com o . – E, como eu esperava, ela piscou diversas em pura confusão.
- E por que o seu livro estaria com o ?
- Você quer a história completa ou só o que interessa?
- O que você acha? – Questionou agitada e eu ri.
- Certo... – respirei fundo e continuei. – e eu nos beijamos. – Soltei de uma vez.
O queixo da minha amiga caiu.
E quando eu digo caiu, é porque ele, definitivamente, poderia parar no chão caso isso fosse possível.
Ela piscou diversas vezes novamente e permaneceu me fitando por longos segundos, totalmente imóvel e pasma.
Franziu o cenho; desfranziu.
Abriu a boca; fechou.
Riu; ficou séria.
Tudo em menos de um minuto.
- Como... Espera... O quê? – Perguntou atônita.
- Isso mesmo que você ouviu. – Respondi, sentindo o rosto esquentar apenas por tocar no assunto.
- Explica isso agora! E com detalhes! – Pediu exasperada e eu ri, iniciando a história e me atentando a não perder nada, vendo prestes a ter um ataque do meu lado.

(...)


- AI MEU DEUS! – Exclamou. – Eu não sei o que dizer! Estou chocada, preciso digerir essa informação! – Disse, gesticulando de maneira exagerada com o espanto explícito em seu rosto. – Quem deu o primeiro passo? Quem demonstrou interesse? – Suplicou alterada.
- Ele estava meio pra baixo e...
– E você quis animá-lo com a sua boquinha! That’s my girl!* – me interrompeu maliciosa e eu a repreendi com o olhar. Ela murmurou um “desculpe” e eu prossegui.
– E eu ia deixá-lo a sós. Na primeira vez, ele me viu e disse que tudo bem se eu ficasse. Na segunda, ele pediu para que eu não saísse porque ele não queria ficar sozinho. Quando eu dei por mim... Bem, o resto você já sabe. – Concluí, enxergando uma eufórica.
- E depois? O que houve?
- O clima ficou estranho e ele se desculpou. – Respondi desanimada.
- Ah, . Não é a melhor coisa a se ouvir, mas pensa... Foi uma coisa totalmente inesperada, ele acabou de terminar um namoro... Existem vários fatores nisso tudo. – Expressou e eu assenti, sabendo que ela estava certa.
Eu seguiria agindo como se nada houvesse acontecido.
O assunto seguiu fazendo com que a tarde passasse rápido, como sempre ocorria durante o tempo em que eu me encontrava acompanhada de .

(...)

Após me despedir da minha amiga, me concentrei em tentar adivinhar aonde o meu livro poderia estar. Procurei no jardim e em boa parte do quintal, não encontrando nem resquício de suas folhas. Eu teria que perguntar a sobre o seu paradeiro, no fim das contas.
Já em casa, decidi focar nas matérias das quais havia perdido, lendo os textos e passando a limpo todo o conteúdo para o meu caderno. Fui interrompida pelo som da campainha e me levantei da mesa a fim de atender a porta. A abri e contive a minha feição surpresa ao ver parado bem a minha frente. Fitamos-nos por um curto período de tempo e, dessa vez, o frio na barriga foi mais intenso comparado às vezes anteriores, levando em conta que, agora, nós havíamos ultrapassado alguns limites em nossa convivência.
- Oi. – Ele quebrou o silêncio com um breve sorriso ladino em seus lábios.
Eu precisava focar em qualquer coisa que não fossem eles.
- Olá. – Respondi, ignorando as sensações que faziam o meu corpo corresponder de forma automática.
- Você esqueceu o seu livro no jardim. – Disse , entregando-o para mim.
- Obrigada, eu estava mesmo o procurando. Fiquei com medo do Bento ter achado e destruído. – Ri olhando o livro em minhas mãos e me acompanhou.
- Tinha uma flor no meio do livro, ela caiu quando eu a peguei. – Comentou e eu senti o meu rosto esquentar no mesmo instante, pois a flor em questão era exatamente a que ele havia me dado de aniversário há algum tempo. Encabulada, o ouvi prosseguir. – Como eu não sabia em que página ela estava, coloquei logo no início.
- Ah... Claro. Agradeço. – Respondi extremamente sem-graça, me perguntando se ele se lembrava da procedência da flor. – Você podia tê-lo entregado para minha mãe, não precisava se incomodar. – Falei sem me tocar que a frase poderia soar como uma atitude evasiva minha a seu respeito, dando a entender que eu não desejava vê-lo. nada disse. Apenas franziu brevemente o cenho e guardou as duas mãos no bolso da calça, fixando os olhos atentos nos meus. A sua feição séria juntamente com uma sobrancelha minimamente arqueada era quase pornográfica e eu queria muito simplesmente virar as costas e entrar em casa, porém, tudo o que eu consegui fazer foi sustentar aquela situação. Como se o universo houvesse me escutado, dona Kyara estava entrando em casa naquele exato momento. Ela parou e lançou os olhos gélidos e fulminantes em minha direção ao ver ali, que não possuía conhecimento que a mãe nos observava, curiosa. Aquela era uma ótima motivação para que eu conseguisse cortar o clima inusitado entre mim e o homem a minha frente, que insistia em dificultar a minha vida quando me estudava daquela forma.
- Hm... Eu vou entrar. Tenho bastante matéria para estudar. – Comuniquei e assentiu. – Obrigada de novo por ter salvado o meu livro.
- Por nada. – Ele deu alguns passos para trás e lançou-me uma piscadela, despertando em mim uma vontade imensa de jogar o livro em seu rosto bonito para cuidar logo em seguida. Deu-me as costas e seguiu calmamente o caminho da mansão, me deixando ali com cara de tonta. Dona Kyara já não se encontrava mais onde anteriormente estava e eu suspirei, cansada de tentar compreender tudo o que acontecia ao meu redor.

’s POV

Qual era a porra do meu problema?
A sensação incômoda de que eu havia perdido todo o controle da situação com era constante, e eu ainda não sabia como lidar com o fato de que algumas coisas pareciam estar estranhas demais após o beijo. Talvez eu somente tivesse me deixado levar por um momento de fraqueza e confundido uma possível amizade com algo a mais, talvez a minha fragilidade momentânea tenha me levado a desejar estar mais perto dela – que é alguém cujo a presença me passa um conforto imenso –, talvez eu esteja fodido por insistir em querer encontrar uma explicação para algo tão inesperado que me deixou com mais dúvidas do que eu gostaria. Eu tomei a atitude, eu desejei a sua presença, eu me senti atraído pela garota que, até alguns meses atrás, passava praticamente despercebida por mim. Naquele instante, tomado por uma atmosfera excêntrica, eu quis saber como era o seu gosto. E, o que mais me assustava nisso, era o fato de que em momento algum eu me arrependi da minha decisão. Eu aproveitei o momento devagar, sem me preocupar com o que aconteceria a seguir. Não me afobei, não pensei sobre os próximos passos, simplesmente desfrutei da estranha – porém deliciosa – sensação que os seus lábios nos meus me proporcionou. E, merda, eu não devia ter lhe pedido desculpas. Eu só não queria que a nossa relação mudasse, mesmo tendo a plena consciência de que algo já não permanecia o mesmo.

“Você já notou como aquela garota te olha?”

A frase que Cassie havia me dito veio em minha mente e mais uma dúvida surgiu em mim, junto à cena antecedente ao beijo.

“Eu não sei decerto o que está acontecendo, mas você pode se afastar se quiser.”
“Eu não quero.”

Inquieto, passei a mão pelo cabelo com a mente abarrotada por mil questões que somente se acumulavam. Eu não deveria me importar com isso, eu deveria seguir a minha vida como se nada tivesse acontecido, afinal, eu possuía muitas outras coisas para me preocupar. Na teoria, era fácil.
Ouvi um barulho atrás de mim e me virei, notando a minha mãe ali, parada na entrada da área externa.
- Você deveria largar essa porcaria, . – Disse ela, referindo-se ao cigarro entre os meus dedos. Assenti e dei mais uma tragada nele.
- Como foi a viagem? – Indaguei, olhando a sua figura aprumada no mesmo local.
- Ótima. Soube que fomos convidados para um jantar nos Privost, infelizmente tive que ficar fora mais do que o planejado.
-Sim, foi uma pena. – Respondi sem vontade de me prolongar naquele assunto.
- Trouxe um presente para a Cassie e fiquei ciente de algumas novidades, aliás. – Falou e eu imediatamente captei sobre o que essas novidades referiam-se.
- É mesmo? Quais? – Perguntei retoricamente.
- Seu pai me contou que você e ela terminaram. O que houve? Vocês se davam tão bem! – Exclamou em pesar. Permaneci olhando para frente sem dar muita atenção a sua queixa. - Dávamos. Não mais.
- Cassie é articulada, vem de uma família com brasão, tem pais influentes... Não consigo entender, francamente. – Expirei impaciente e olhei a mulher ao meu lado, demonstrando que o seu argumento não fazia sentido algum.
- Isso deveria bastar em um relacionamento? – Retruquei, vendo-a me lançar um olhar superior.
- Espero que vocês se resolvam logo, formam um belo casal.
- Não iremos. – Avisei e me virei com a intenção de sair dali e cortar o papo.
- Suponho que você saiba quão influente a nossa família é. Não permita que nada manche a nossa reputação. – Minha mãe comentou com um tom advertido contido em sua frase.
Parei e a encarei.
- Há algo que você queira me dizer? – Indaguei sem compreender.
- Há algo que você queira me dizer, ? – Rebateu, me analisando friamente e eu franzi o cenho.
- Deveria ter? – Ela sustentou a sua análise e negou ainda me observando. – Então boa noite.
- Boa noite, filho. – Olhei-a intrigado e retomei os meus passos, estranhando o seu comportamento relativamente tranquilo em relação ao término do meu namoro.

(...)

Entrei no escritório naquela típica manhã de segunda-feira e me dirigi até a minha sala, pronto para iniciar mais um dia de trabalho. Peguei o telefone a fim de confirmar a visita que mais tarde eu faria a Sandro Averbuck e, após algum tempo esperando para ser atendido, a linha caiu. Estranhei e tentei novamente enquanto ligava o notebook, abri o navegador e logo a página de notícias tomou a tela. Passei os olhos por cima de uma matéria ou outra e estagnei assim que li uma em especial.

“Empresário é morto a tiros após sequestro.”

A foto de Sandro Averbuck encontrava-se estampada ao lado da chamada da reportagem. Nervoso, cliquei no link e fui redirecionado para a matéria completa.

“O empresário Sandro Averbuck, de 49 anos, morreu após ser sequestrado e baleado, na madrugada desta segunda, na estrada próxima a Chácara Shalom, altura do número 5.000. O homem era empresário e fundador da companhia Averbuck Kalanick com atuação no setor de construção civil e telecomunicação, alcançando a 28º posição no ranking dos 60 empresários mais poderosos do país. A vítima foi encontrada em uma aérea de mata, próxima dali, baleada e em estado grave. O empresário foi levado para o Hospital Johns Health, mas morreu pouco depois de dar entrada. A polícia quer descobrir quem teria contratado os suspeitos do homicídio, dos quais ainda não foram identificados.”

Puta que o pariu.
Não podia ser verdade.
Fechei a tela do notebook com força, apoiei os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos. O sangue corria rápido pelas minhas veias e, mais uma vez, eu me encontrava em um profundo estado de tensão. As minhas mãos geladas contrastavam com a temperatura quente do meu rosto, que esquentava gradualmente na medida em que eu me estressava cada vez mais.
Sandro Averbuck havia sido morto.
Uma das minhas possíveis testemunhas fora assassinada.
Fui tomado por uma desordem em meus pensamentos enquanto era bombardeado por inúmeros questionamentos, frustrado e angustiado demais para pensar com clareza. O meu celular apitou indicando uma nova mensagem e, tomado por uma fúria descomunal, a abri. O número restrito já indicava sobre o que se tratava.

“Bom dia, . Ou nem tão bom assim, não é? Dei a minha cartada e parece que você realmente perdeu uma peça importante. Preste atenção no jogo, . Eu estou com a vantagem. Até a próxima.”

- VAI PRO INFERNO, MALDITO!
Enraivecido, joguei o telefone contra a parede e vi o aparelho se espatifar em pedaços, pouco me fodendo com o estrago feito. As minhas mãos percorriam o meu cabelo em um ato de completa desinquietação, fui invadido por um sinal de alerta e decidi agir. Peguei as chaves do meu carro e saí em disparada porta afora, sem me importar com os olhares assombrados de todos os presentes no escritório.
Entrei no veículo e acelerei enquanto focava em me acalmar e não perder totalmente a cabeça. A primeira coisa que eu precisava fazer era deixar Otto em segurança, haja vista que ele certamente era um alvo fácil devido a sua importância no caso, tanto por ser um parente da vítima, quanto pela sua disponibilidade em oferecer o material do dia do crime. Estacionei em frente à entrada de seu apartamento e toquei a campainha, logo vendo a sua figura confusa aparecer diante às grades da entrada.
- Me faça perguntas depois, tudo bem? Preciso falar com você. – O homem assentiu e liberou a minha passagem. Calados, seguimos até o seu apartamento e adentramos.
- Sente-se, . Deseja algo?
- Não, obrigado. Vim lhe dar algumas informações e, também, recomendações. – Otto franziu o cenho e sentou-se à minha frente. Juntei as mãos frente ao meu corpo e recobrei um pouco da minha calma, assumindo a minha pose profissional. – Uma possível testemunha foi assassinada nessa madrugada. – Informei, vendo o seu semblante transformar-se em espanto e pânico. – Quando eu lhe disse que as coisas eram mais sérias do que aparentavam, não estava brincando. Você tem ligação com a vítima e estava presente no dia do crime, dessa forma, irei colocá-lo sob proteção do estado. Tenha cuidado em absolutamente todos os passos que tomar e evite andar sozinho. – Expliquei e ele concordou, centrado no que eu lhe dizia.
- E agora? Quão importante essa testemunha era?
- Importante como uma testemunha tem que ser. Eu vou dar um jeito nisso depois, por hora, preciso que você não se arrisque. Eu lhe farei visitas para que você evite sair de casa, portanto, quando encontrar qualquer coisa nas fotografias ou necessitar discorrer a respeito do caso, me ligue. – Finalizei. O semblante de Otto tornou-se pensativo e ele cerrou os olhos em minha direção.
- Partindo do princípio que uma testemunha foi assassinada e que eu estou correndo certo risco nisso tudo, você, como advogado, também se encontra suscetível e corre perigo. – Analisou ele. – Seja sincero, Doutor . Algo já está acontecendo, certo? – Respirei fundo e resolvi que o melhor seria ser sincero.
- Ando recebendo algumas ameaças via telefone, sim. Mas tenho recursos para lidar com esse tipo de situação.
- Isso é perigoso, você precisa fazer algo! Bloquear o número, contatar alguém, qualquer coisa! – Otto exclamou exacerbado e eu fiz um sinal para que ele se acalmasse.
- Cortar ou tentar cortar meios de comunicação só vai me deixar perdido quanto aos seus passos. Irei permanecer em contato com a pessoa e contratar alguns seguranças a paisana tanto para mim, quanto para as pessoas ao meu redor, e tentarei descobrir como a informação que Sandro Averbuck iria me receber, vazou. A polícia ficará fora disso por enquanto, pois a confiança de seja lá quem for que estiver comandando isso tudo, é de extrema importância. – Terminei conciso. Ainda que visivelmente apavorado, Otto aceitou.
- Tem certeza de que esse caso será solucionado? – Questionou.
- Não possuo dúvidas quanto a isso, Otto. Eu irei pegar quem está por trás disso tudo. – Afirmei convincente. – Preciso retornar ao escritório. Faça o que eu lhe disse e não se esqueça de nada do que eu falei. – Pedi me levantando.
- Certo. Obrigado, . – Disse ele em meio a um aperto de mãos, do qual foi correspondido por mim com firmeza. Saí do apartamento e voltei ao meu carro, não totalmente calmo, contudo, mais racional. Entrei em minha sala após regressar da casa de Otto e encontrei o meu pai sentado no sofá que ali se localizava. Estranhando a sua presença, fechei a porta e atrai a atenção do homem mais sério do que de costume, com o telefone quebrado em mãos. Encostei-me em minha mesa e cruzei os braços, fitando-o em seguida.
- Pode me explicar o que houve aqui? – Perguntou apontando para o aparelho. Respirei fundo e assenti.
- Não está sabendo? Sandro Averbuck foi assassinado. – Expliquei. Sua expressão endureceu em espanto.
- Quando?
- Hoje de madrugada. Presumo que tenha alguém vazando informações do escritório.
- Assassinatos e queimas de arquivo ocorrem com frequência, . Não há ninguém que vazaria o que acontece aqui dentro, ninguém seria louco o suficiente para mexer com esse escritório e o poder que ele impõe. – Ergueu-se e me encarou de modo duro. Sem paciência para argumentar, apenas assenti.
- Só peço uma única coisa: Não quero que mais ninguém tenha acesso a absolutamente nada referido ao caso Zummack. – Após alguns segundos sendo estudado pelo olhar rígido do homem a minha frente, ele concordou com a cabeça.
- Chega de baderna. Isso é um local de trabalho. – Alertou e saiu porta afora.
Por hora, entraria em contato com o Senhor Feldmann e providenciaria os seguranças que ficariam encarregados da proteção de todas as pessoas envolvidas comigo.
Continuaria a fazer o meu trabalho e agiria normalmente.
Ninguém conseguiria me intimidar.

’s POV

Aquela segunda-feira estava excepcionalmente anormal de tão boa.
Havia tirado uma ótima nota na prova e conseguido uma vaga em um abrigo de crianças a fim de iniciar o meu trabalho. Iria fazer as visitações em dias alternados conforme a minha agenda permitisse, tendo em vista que o estágio durante a semana e o trabalho de meio período na loja de discos aos sábados dificultavam um pouco a minha possibilidade de possuir um dia todo livre.
fora embora assim que a supervisão acabara, pois estava uma pilha de nervos com a festa no final de semana e o seu respectivo preparativo. Permaneci na biblioteca redigindo os relatórios dos atendimentos do dia, considerando que atrasos na entrega para o supervisor acarretariam na diminuição da minha nota, o que consequentemente me levaria a perder a minha bolsa integral. Juntei os livros e cadernos de cima da mesa e me retirei da biblioteca quase corcunda devido ao peso dos materiais, me assustando na hora em que notei o céu escuro tomar o lugar da claridade anterior. Olhei o ponto de ônibus do qual eu costumava esperar o transporte e fiz uma careta ao vê-lo vazio, o que me fez desistir de ficar ali. Quase ninguém da faculdade usava ônibus, muito menos naquele horário. Dei meia volta e resolvi pegar o metrô, afinal, a estação era sempre mais movimentada e provavelmente estaria mais cheia do que o local em questão. Decidida e apressada, caminhei-quase-correndo até o meu destino. O ruim de sentir-se vulnerável é que isso abria as portas da imaginação e da paranoia, nos levando a ter a sensação de que alguém nos seguia ou nos observava, e comigo não foi diferente. Somente diminui o passo quando alcancei uma mulher que também andava por ali sozinha. Olhamo-nos cúmplices e continuamos andando lado a lado em um ato de solidariedade uma com a outra, já que andar sozinha em uma rua pouco movimentada não poderia ser considerado algo muito seguro, e quase suspirei de alívio ao ver a placa de entrada do metrô.
Sorri por dentro ao finalmente ver o seu vagão – vazio – se aproximando e me sentei em um de seus bancos, peguei um livro e o abri com a finalidade de lê-lo para que o tempo passasse mais rápido, hora ou outra desviando a atenção das folhas para me certificar de que não perderia a minha parada. Alguns minutos depois, cheguei à estação desejada e agradeci aos céus por ela não ser longe do condomínio. Cumprimentei o porteiro e segui para casa com um cansaço descomunal tomando conta do meu corpo exausto.
- , você demorou! Estava quase te ligando. – Disse minha mãe ao me ver passando pela porta.
- Desculpe, estava tão ocupada que me esqueci de avisar que demoraria. Fiquei na biblioteca fazendo relatórios e não vi a hora passar. – Me joguei no sofá e notei a mulher ao meu lado com o semblante chateado. Ajeitei a postura e lhe encarei preocupada.
- Aconteceu alguma coisa? – Indaguei, a analisando.
- Não, filha. Hoje é aniversário da sua avó, mas ela não me atendeu. – Respondeu em meio a um suspiro resignado. Torci o nariz e encostei a cabeça em seus ombros, tentando confortá-la.
- Diminuir o rancor no coração seria um bom presente pra ela. – Comentei casualmente, ocasionando um pequeno riso na minha mãe.
- A minha parte eu fiz, paciência se não deu certo.
- Exatamente! Problema é deles, estão perdendo a melhor neta do mundo e uma filha espetacular. – Depositei um beijo em seu rosto e me levantei, vendo-a sorrir. Desejei-lhe boa noite e fui para o meu quarto praticamente me arrastando. A minha janela propiciava uma visão fragmentada do quarto de , cujo as luzes encontravam-se acesas. Não perdi muito tempo encarando o local e segui para o banho, pretendendo pensar em qualquer coisa que não fosse ele.

(...)

Parada do lado de fora da secretaria do campus, aguardava finalizar a sua conversa com a coordenadora do nosso curso, distraída com o celular em minhas mãos em um joguinho qualquer. Havíamos sido dispensadas da supervisão do dia, com isso, iria até o shopping com a minha amiga para que ela comprasse algumas coisas da festa de sábado. Senti um leve cutucão em meus ombros e me virei em um ato automático, enxergando uma senhora muito bem arrumada e com a fisionomia simpática me observar em meio a um sorriso sereno.
- Desculpe-me se lhe assustei, querida. Você me dar uma informação? – Indagou amigável e eu lhe devolvi o sorriso, assentindo.
- Claro! Em que posso ajudá-la?
- É o meu primeiro dia lecionando neste campus e ainda não memorizei nada – ela riu. –, gostaria de saber a localização da secretaria, por favor.
- É bem aqui! – Respondi apontando para porta ao meu lado. – Até hoje eu me perco, não se preocupe. – Ri, sendo acompanhada pela simpática senhora –. Seja bem vinda, aliás!
- Muito obrigada, querida! Se todos os alunos daqui forem iguais a você, eu com certeza serei. – Agradeceu amável. saiu da sala e encarou a mim e a senhora a minha frente. – Vou me apressar, ainda tenho algumas aulas para preparar. Até mais, tenham uma boa tarde! – Desejou gentilmente. e eu sorrimos, vendo-a sumir ao fechar a porta.
- Quem é? – Perguntou curiosa.
- Acho que é uma nova professora, pelo jeito hoje é o primeiro dia dela. – Falei enquanto andávamos em direção ao seu carro. Ela murmurou um “hm” e entramos no veículo, direcionando-nos até o centro comercial à medida que conversávamos animadamente durante o trajeto.

- Amiga, você e o Paolo já decidiram mais ou menos quantas pessoas irão? – Perguntei ao vê-la colocar algumas mercadorias no carrinho do qual eu guiava. Estávamos em uma loja extremamente sofisticada, onde até a caneta que se encontrava no caixa parecia custar mais do que eu ganho trabalhando por meses, produzindo em mim um pequeno medo de esbarrar em qualquer coisa que fosse.
- Bom, o Paolo disse que não muitas, mas como estamos falando do Paolo, é provável que ocorra totalmente o contrário. – Explicou, me fazendo rir. – Vamos fechar o The Lamp Shades, nesse caso, não vejo problema se forem muitos convidados.
- Uau... Esse lugar é bem... – Frescurento? É, eu sei. – completou. – Por mim, a festa seria na minha casa, porém, deixei que o Paolo escolhesse o local, contanto que eu pudesse planejar a decoração. – Concluiu. Assenti percorrendo os olhos pelo ambiente, me perguntando como alguém em sã consciência paga absurdos por uma estátua de enfeite.
- Vermelho ou cinza? – Questionou com um adorno de mesa em cada mão. Torci o nariz para ambos, desaprovando-os.
- Nenhum. Prefiro o transparente. – Opinei. cerrou os olhos mirando um e outro e concordou, deixando os dois de lado.
- Certo, agora faltam apenas os balões. Vamos pagar isso e ir para a próxima loja. – Minha amiga compenetrada falou, olhando para a lista em seu celular. Bati continência e ri ao notá-la revirar os olhos.

- Ficar na supervisão é menos cansativo do que andar com você, as minhas pernas vão cair! – Reclamei exausta, me jogando no banco do passageiro. riu e ocupou o lugar ao meu lado.
- Você é uma sedentária, . Nem andamos muito. – Disse dando de ombros. Fitei-a boquiaberta e chequei as horas em meu relógio de pulso, o que só assegurou a minha queixa. Passamos mais de cinco horas dentro daquele lugar que só fez com que eu me sentisse mais pobre.
- Me lembre de vestir uma roupa de academia quando for sair com você, assim eu paro de ser sedentária e faço exercício junto. – Brinquei e gargalhamos. Percebi que o rádio encontrava-se sintonizado em uma estação aleatória de notícias e inclinei-me a fim de mudar, porém, descontinuei o ato quando ouvi o radialista anunciar um sobrenome mais do que conhecido por mim.

“(...) O empresário foi morto na madrugada de segunda-feira e a polícia está apurando o caso. Há indícios de que o seu assassinato possua uma correlação com o homicídio de Mason Zummack, caso do qual o escritório de advocacia atua desde o ocorrido...”

parou no sinal e nos entreolhamos ressabiadas.
Estaria trabalhando neste caso em especial? E seria esse o motivo de tamanho estresse por parte dele? De repente lembrei-me dos repórteres disputando a sua atenção em frente ao condomínio e algumas coisas começaram a se encaixar.

- Que horror. – Minha amiga proferiu em meio a uma entonação intimidada. Retomou o que eu estava prestes a fazer anteriormente e trocou para estação de música. – O está no meio disso?
- Não sei, não acompanho esse tipo de notícia. – Limitei-me a essa resposta, levando em conta que eu realmente não tinha certeza de nada.
- Vocês se falaram depois do ocorrido?
- Sim. Ele estava com o meu livro e foi devolvê-lo. – Respondi e arqueou o cenho com um sorriso mínimo querendo surgir por entre os seus lábios cerrados.
- Sei... Devolver... – Brincou maliciosa e eu ri, revirando os olhos. – Foi estranho ou vocês ficaram numa boa?
- Definitivamente não foi normal. Pelo menos não para mim. Foi somente um beijo, na teoria eu deveria deixar pra lá, mas a prática está bem difícil. – Confessei em meio a um suspiro resignado, recebendo um rápido olhar compreensivo da minha amiga ao meu lado.
- Você sabe que ele provavelmente estará na festa, não é? – Questionou parecendo preocupada e eu assenti.
- Nós somos adultos e estamos lidando com isso. Na verdade, quem precisa lidar sou eu. O não parece ter se importado muito, de qualquer forma. – Reconheci moderadamente chateada.
- Não fale assim, . Nós nunca sabemos o que outro está pensando! Não espere nada, mas também não aja de forma tão negativa. – aconselhou atenciosa. Sorri para ela e assenti. Seguimos o resto do caminho conversando a respeito de outros assuntos e eu momentaneamente me desliguei desse em questão.

**

Eu queria muito que os dias tivessem mais do que vinte e quatro horas.
Eram muitas responsabilidades e compromissos para pouco tempo disponível, sobretudo agora que eu possuía mais um trabalho em desenvolvimento juntamente às visitas ocasionais na instituição da qual escolhi. Havia tido a minha primeira experiência de observação na sexta-feira e saí de lá satisfeita com o material inicial obtido no dia, embora o meu coração tenha ficado pequenininho levando em conta o local do qual eu visitara. As crianças eram completamente carinhosas e eu fui muito bem recebida, o que só facilitou a execução da minha tarefa.
O dia da festa chegou e, com ele, a minha usual preguiça de socializar. Veja bem, eu geralmente gosto muito de papear e tudo mais, entretanto, nesse evento em particular, a minha vontade dissipou mais rápido do que o meu salário no final do mês. E não, o nada tinha a ver com isso. Não o via desde o dia em que ele me devolvera o livro, o que só confirmou que as coisas estavam corridas tanto para mim, quanto para ele. Quanto ao aniversário: Eu só queria comer e dormir o final de semana inteiro, entretanto, não podia fazer desfeita e simplesmente não comparecer à festa surpresa do Adrian, que sempre fora muito educado e simpático comigo nas poucas vezes que nos vimos.
- Uma flor pelos seus pensamentos. – Vicenzo brotou a minha frente, me fazendo dar um pulinho de susto. Ele gargalhou e eu o fuzilei com o olhar, segurando o riso ao ouvir a sua risada bizarra e engraçada soar pela loja.
- Será que tem algum modo de você aparecer sem aumentar a minha pressão arterial? – Perguntei com a mão no peito, ainda meio assombrada com a sua chegada repentina.
- Perdão, lindinha. Eu costumo causar esse efeito nas pessoas. – Zombou convencido e acariciou a minha bochecha rapidamente. Acompanhei a sua risada e o olhei irônica.
- Seu ego permite que você passe pela porta?
- Eu prefiro usar o termo amor próprio. – Disse ele, apoiando os cotovelos na bancada e o rosto nas mãos, me fitando de um jeito infantil.
- Eu prefiro quando você está calado. – Admiti implicante. Vicenzo deu o seu sorriso de coringa e eu reconheci uma pitada de malícia nele.
- Gostei bastante do jeito que você me fez calar a boca aquele dia. – Falou maldoso e o meu rosto esquentou de imediato. Balancei a cabeça e ri.
- Pelo menos funcionou. – Dei de ombros e ele murmurou um “Oh se deu”. – Você vai ficar até mais tarde hoje? – Ignorei o seu olhar pervertido e questionei enquanto pegava a minha bolsa.
- O dever me chama e eu atendo. – Respondeu com tédio.
- Bom trabalho, então. – Falei e fiz um breve “peixinho” com a sua boca que continha um bico desanimado nela. – Espero que sobreviva sem mim. – Expressei e parei na porta com o rosto virado para a sua figura dramática escorada no balcão.
- Não posso te garantir isso. – Mandei-lhe um “tchauzinho” e me coloquei porta afora, seguindo sonolenta até o ponto de ônibus que me levaria para casa.
Ao chegar, acariciei o pêlo do Bento, que, como sempre, se encontrava mais hidratado do que o meu cabelo e perdi alguns minutos brincando com o meu Pastor Alemão favorito. Entrei em minha moradia pensando como eu conseguiria dormir cinco horas em duas, na medida em que me servia de um sanduíche enorme e um copo de suco. Notei um papel grudado na geladeira e o peguei, logo notando que se tratava de um bilhete deixado pela minha mãe.

“Filha, precisei ir até a outra cidade junto à Judith. A senhora nos pediu para que participássemos de uma palestra a respeito de iguarias importadas, portanto, voltaremos amanhã de manhã. Se cuide e me ligue caso precise.
Beijos.”

Suspirei e deixei o papel em cima da mesa, caminhando alegre até o meu quarto em seguida, onde eu me enfiei debaixo das cobertas como se aquilo fosse a última coisa que eu faria na vida. Coloquei o celular para despertar dali a duas horas e fechei meus olhos pesados, indo diretamente para os braços de Morpheu.

A situação não era nada favorável.
A cena muito menos.
Sentada no meio de uma imensidão de roupas, eu fitava as peças desolada por não encontrar o que vestir. Peguei o celular e entrei na galeria de fotos do site onde a comemoração ocorreria, bufando em descontentamento no instante em que vi aquelas pessoas absurdamente bem arrumadas como se estivessem em uma seção de fotos para a Vogue.
Céus, por que sair de roupão não era socialmente aceito?
Enfiei-me dentro do meu armário, fuçando e tentando montar algum conjunto de peças decente com o que eu possuía por ali. Após muita luta, escolhi algo apresentável e corri para me arrumar, haja vista que não demoraria a me buscar.

- Uau, que gata. – Falei à minha amiga no momento em que adentrei em seu carro. Ela jogou os cabelos e piscou, fazendo graça.
- Eu preciso caprichar, né? Sou a acompanhante do aniversariante. – Disse vaidosa e me olhou ligeiramente. – Parece que eu não sou a única que caprichou aqui. – Gracejou marota. Ri e fiz uma auto-observação, ainda me sentindo um tanto quanto insegura devido a minha escolha de vestimenta.
- Jura? Porque eu estou me achando meio simples. – Falei hesitante.
- Para de besteira! Você está linda, . – Advertiu e eu sorri em agradecimento.
- Após te deixar no The Lamps, vou me encontrar com o Adrian e levá-lo pra lá como se fosse somente um date qualquer. – disse como se anotasse a informação mentalmente. – Tudo bem pra você ficar lá até que eu volte, amiga? – Indagou incerta. Abanei as mãos em um sinal claro de que não me importaria.
- A decoração ficou boa?
- Ficou incrível! Escolhemos muito bem! – Respondeu animada. – Acho que vou largar psicologia e ir para design de interiores. – Brincou rindo e eu a acompanhei.
- Já chegou bastante gente?
- Sim, praticamente todo mundo. Você está perguntando por perguntar ou existe alguma curiosidade por alguém em especial, dona ? – Questionou travessa. A fitei tentando não ficar na defensiva e dei de ombros, direcionando a minha atenção para as minhas unhas.
- Pode parar com as besteiras que passam por essa sua cabecinha, ouviu? Eu perguntei por perguntar. – Expressei indiferente, ouvindo rir.
- Mentirosa. E não, o ainda não chegou, se é isso o que você quer saber. – Cerrei meus olhos para a minha amiga, que permaneceu com o sorrisinho em seus lábios. Ela parou em frente ao local muito bem iluminado e glamoroso, cujo encontrava-se apenas com os seguranças e manobristas ali na frente. A fachada elegante era composta por diversos desenhos abstratos de formatos variados na madeira maciça, dando um estilo moderno e despojado àquela parte do local junto às luzes brancas ao redor do mesmo. Um dos manobristas veio até o automóvel com a intenção de exercer o seu ofício, entretanto, fez um sinal de que não precisaria de seu serviço.
- Tudo bem, só vim deixá-la e já volto. – Falou amigável para o homem, que assentiu e deu a volta no veículo a fim de abrir a porta para mim, o que não dera muito certo, pois eu já havia o feito.
Eu definitivamente não estava acostumada com essas coisas.
- Eu lhe ajudo, senhorita. – Pronunciou ele, dando a mão para que eu terminasse de descer. Sorri e aceitei, afinal, os meus sapatos deixavam a minha capacidade de andar um bocado limitada.
- Muito obrigada. – Disse ao homem, que limitou-se a balançar a cabeça. fez um sinal para a hostess* e acenou para mim, dando partida logo depois. Ajeitei-me e passei pela mulher bem-arrumada, que sorriu e pediu para que o enorme segurança me liberasse. Eu andava incerta pelo extenso corredor de luzes baixas, já ouvindo o som distante da música ambiente e várias vozes abafadas tomarem conta do lugar. Parei na entrada e levantei o cenho em admiração, tamanha a beleza de tudo aquilo. O bar era escuro e cheio de sombras, dando uma sensação de mistério ao recinto, que era todo composto por madeira também escura, onde uma lareira embutida completava a composição do espaço fascinante com o ar íntimo e aconchegante. Passei pela entrada e, como eu esperava, muitas pessoas – todas bem-postas – tomavam conta de todos os cantos, conversando despreocupadamente. Algumas sentadas nos bancos próximos ao balcão, outras nas mesas colocadas estrategicamente de modo aleatório por ali e, o resto, provavelmente em outras partes do local grande demais para que eu desbravasse em pouco tempo. O garçom parou à minha frente e eu peguei uma bebida verde e bonita contida em um copo chique demais unicamente para um drink. O agradeci e beberiquei o líquido esverdeado, sentindo um gosto absolutamente maravilhoso de hortelã com baunilha.
Se o céu tivesse um sabor, definitivamente seria aquele.
Encostei-me em um canto e, como eu previ, estava me sentindo deslocada. Avistei Paolo diante de mim e ele abriu um sorriso largo ao me enxergar, caminhando até mim em seguida.
- Ei! Tudo bem? – Cumprimentou-me animado.
- Tudo ótimo. – Sorri. – Lugar legal, vocês têm bom gosto. – Comentei mais deslumbrada do que eu gostaria e Paolo riu.
- É incrível mesmo. Imagino que você não tenha visto o resto, então posso dizer que isso é só o começo. – Comentou entusiasmado. – A foi buscar o Adrian?
- Foi sim. Acho que eles não devem demorar.
- Ótimo, então vou chamar o resto do pessoal que está espalhado por aí. Você pode ficar de olho no seu celular caso eu não veja o meu? Ela ficou de me mandar mensagem quando estivesse perto. – Pediu amigável e eu assenti.
- Ah, acho que você não vai mais ficar sozinha. O chegou! – Paolo manifestou contente.
Eu queria controlar a forma pela qual eu reagia às coisas – reagia a ele, para ser mais específica –, contudo, sempre falhava. E falhei mais uma vez naquele instante. Meu estômago deu uma reviravolta e eu já não sabia se a sensação de frio em minhas mãos correspondia à bebida gelada ou ao olhar que me lançou durante o tempo em que passou os olhos pelo meu corpo todo. Começou dos pés, subiu até as cochas, seios e parou em meu rosto, no qual cravou a atenção enquanto andava em uma calma sedutora além da medida para alguém que se encontrava somente caminhando. Parou para falar com as pessoas que o cumprimentaram e retomou os passos, finalmente chegando até nós.
Lindo é pouco, mas muito pouco para descrevê-lo. A calça jeans de lavagem escura combinava com o sapato também escuro e com a blusa preta dobrada até os cotovelos, detestavelmente aberta por quatro botões, o que poderia causar um ataque do coração a quem olhasse – tipo eu –. O cabelo – sempre propositalmente arrumado em uma junção de desalinho e um jeito formal, como se parecesse que o homem havia acabado de sair de um jantar de negócios –, agora apresentava-se um pouco mais despojado e, como se não fosse o suficiente, o seu perfume forte invadiu a minha narina como um soco de sensações gostosas e intensas demais para que eu não imaginasse aquele cheiro impregnado em minhas roupas. E aquele corpo robusto imprensando o meu naquelas paredes escuras.
Terminou a sua breve conversa com Paolo e se virou para mim, que, agora, tentava ao máximo recuperar a capacidade de raciocínio após toda aquela seção de análise.
- Não sabia que te encontraria aqui. – Falou com as mãos nos bolsos da calça e um quase imperceptível sorriso brincando em seus lábios. Sorri e dei de ombros.
- O aniversário é do Adrian, mas quem teve a surpresa foi você, aparentemente. – Retruquei ostentando o mesmo sorriso que ele, vendo-o arquear uma sobrancelha de forma desafiadora.
- O imprevisível me agrada. – Constatou perspicaz.
As coisas definitivamente estavam esquisitas. Havia uma tensão fora do comum interpondo-se entre mim e , um tipo de tensão que gerava um arrepio por todo o meu corpo.
Paolo atraiu a nossa atenção a partir de um pigarro e foi a partir deste ato que eu me lembrei que ele também encontrava-se ali.
- Bom, já que vocês estão se entendendo bem aqui, eu vou fazer o meu papel de familiar do aniversariante e colocar ordem na festa. A já está chegando. – Avisou, se distanciando, sem dar tempo para que nós o respondêssemos. Bebi um gole do meu drink esquecido e cruzei os braços, tendo plena consciência de que aquele ato significava restrição, entretanto, eu só desejava confortar a mim mesma. Eu gostaria – e muito – que chegasse perto, contudo, sabia que o meu desejo dificilmente seria realizado. Ele pegou uma bebida e, bem como eu, encarou as demais pessoas da festa, agora mais cheia, levando em conta que Paolo avisara a respeito da chegada de e Adrian.
- Como vai? – Quebrou o silêncio. Não atrevemos a nos olhar.
- Bem. Bastante ocupada... E você?
- O mesmo. – Respondeu e eu murmurei um “hm”. Um homem do qual se situava em uma pequena rodinha social chamou , que acenou com a cabeça e me fitou.
- Não, eu não me importo se você for até lá. Estou bem aqui, não precisa se sentir obrigado a me fazer companhia. – Disse sorrindo, demonstrando que não havia hostilidade em minha frase. Eu estava sendo sincera, no fim das contas. arqueou uma sobrancelha e riu sem humor, o que evidenciou que a minha tentativa de não soar hostil não surtiu muito efeito.
- O que te leva a pensar que eu estou aqui por obrigação, ? – Indagou ofendido, fitando dentro dos meus olhos e eu correspondi o seu ato.
- Educação, talvez. Não sei. Mas queria deixar claro que você não precisa se prender a uma situação. – Expliquei, constatando que ele manteve a expressão ultrajada.
- Após esse tempo de convivência eu achei que não precisávamos mais desse receio todo. – Suspirei, todavia, não desviei o nosso intenso contato visual.
- Não é receio, é bom senso. E... Não vamos entrar nesse contexto, . – Ri fraco e neguei com a cabeça. – Faça o que quiser e não se importe comigo, tudo bem? – Finalizei. Ele assentiu vagarosamente e, mais uma vez, deu um sorriso sarcástico, olhando para o lado rapidamente e restabelecendo o contato mútuo de nossos olhares em seguida.
- Um pouco tarde para isso, não é mesmo? – Retrucou irônico. A sua fala me pegou totalmente desprevenida e eu demonstrei isso pela cara que eu devo ter feito. Abri a boca a fim de respondê-lo, porém, não fazia ideia do que falar. O que diabos ele quis dizer com aquilo? Pisquei algumas vezes e a vontade de jogar em sua cara tudo o que eu sentia veio como um furacão, junto a uma onda de coragem da qual eu nunca tinha experimentado até o momento, mas que só aumentava à proporção em que agia de maneira tão confusa. A meu ver, o incidente do beijo havia mudado algumas coisas entre nós, e eu não já não conseguia saber até que ponto essa mudança chegaria.
- O que voc... – Eles chegaram! – Paolo interrompeu a minha fala. Olhei para frente e percebi todos os convidados se aproximando da entrada, inclusive , que me lançou um olhar vigoroso antes de se afastar até a roda de pessoas na qual fora chamado anteriormente. Engoli a seco e virei o líquido esverdeado de uma vez só, sem me preocupar com o teor alcoólico da bebida.
e Adrian adentraram o local e o grito de “surpresa” ecoou pelo ambiente, surpreendendo o acompanhante da minha amiga, que riu como se não acreditasse no que via. Ele a abraçou e deu-lhe um singelo selinho, ação que me fez soltar um sorriso bobo e ao mesmo tempo satisfeito ao enxergar tão feliz. Ela o deixou cumprimentando todos os convidados e veio até mim.
- Vocês são tão fofos que dá vontade de abraçar e nunca mais soltar. – Confessei maravilhada, ouvindo a sua risada ao meu lado.
- Ele nem desconfiou! Obrigada pela ajuda, . Eu não teria conseguido sem você para me auxiliar. – Proferiu terna e eu sorri.
- Não precisa agradecer, o importante é que deu tudo certo!
- Sim! E eu quero muito te mostrar o resto do lugar, vem comigo. – me puxou pela mão e praticamente me arrastou bar afora, e, caramba, a cada pedaço do estabelecimento que eu via, mais apaixonada pela sua decoração e estrutura eu ficava.
Peguei mais um copo do drink verde e gostoso e me juntei ao grupo onde , Adrian e mais outras pessoas se encontravam.

**

O som ambiente aumentava conforme a iluminação projetada era diminuída gradativamente, dando ao recinto um ar intimista e misterioso. A minha cota de bebida se estendeu sem que eu percebesse, sendo uma válvula de escape devido ao assunto em pauta na pequena roda, do qual não me era familiar. Viagens internacionais e hotéis cinco estrela infelizmente não faziam parte da minha realidade de duas estrelas. Quieta, eu ouvia os relatos de todos a respeito da conversa em questão, chocada só de imaginar como seria viver tendo tanto dinheiro assim.
- Então... , certo? – Um homem me chamou. Assenti e ele prosseguiu. – Conte-nos sobre algo que você já fez. Algum lugar que visitou, o que mais gostou... – Pediu. A minha primeira reação foi soltar uma risadinha; A segunda foi dar de ombros.
- O máximo que eu fiz foi viajar até a cidade vizinha. – Relatei em tom de brincadeira. e Adrian riram verdadeiramente, contudo, os outros somente sorriram amarelo, concordando com a cabeça aparentemente abismados com o fato de que eu nunca havia feito nada semelhante ao que era discutido. Notei fitar um lugar em específico parecendo assustada e segui o seu olhar, desejando não tê-lo feito quando a figura de se materializou na entrada.
- O que esse cara está fazendo aqui? – Ela cochichou para mim e eu neguei embasbacada. Adrian acenou para ele e minha amiga e eu nos entreolhamos nervosas conforme ele falava com todos.
- Beleza, cara? Pensei que você não viria! – Adrian disse a e eu entrei em um estado de negação, custando a acreditar que eles eram amigos.
- Não podia deixar de comparecer, amigo. – me encarou satírico e logo se pronunciou.
- Uau, não sabia que vocês se conheciam. – Falou com um sorriso forçado.
- Conheci através do ! – Adrian justificou animado, iniciando um discurso sobre como a adolescência deles fora magnífica. Eu foquei a minha concentração em um canto aleatório, nem um pouco tolerante à presença de . Paolo se aproximou de nós e fez uma cara não muito agradável no instante em que olhou para ele, o que me fez imaginar que eu não era a única da qual não participava do fã clube do homem em questão. e eu trocamos olhares novamente e, aproveitando a distração de todos, fiz um sinal para a minha amiga, indicando que eu iria para outro lugar. Ela assentiu e eu sai de fininho, decidida a explorar melhor a área.
Eu não fugiria de e não era essa a questão, haja vista que ele era indiferente. Na verdade, fugir de qualquer pessoa que fosse definitivamente não fazia o meu perfil, porém, eu possuía uma simples filosofia, onde manter a minha sanidade mental era prioridade: “Evitarás toda e qualquer oportunidade de passar raiva.” Se você pode evitar estresse, você evita.
Fui até o jardim que compunha uma parte do bar no andar de cima e admirei tudo com extremo encanto, tomando consciência também de que o álcool ingerido por mim já começava a se manifestar em minha visão minimamente turva, agregada a uma pequena sensação de leveza. Nada fora do normal, eu me encontrava noventa e cinco por cento sóbria.
Cerrei os olhos para uma parte até então não observada e descobri, entre algumas folhas, outro lado do ambiente através de uma parede de vidro que parecia dar vista para o subsolo do bar. As paredes eram forradas com diversas colagens cercadas por luzes verdes, azuis e laranjas entre a parede escura, produzindo um contraste neon hipnotizador. Cerrei os olhos a fim de enxergar melhor as pessoas que ali estavam e um solavanco me atingiu em cheio ao alcançar nada mais, nada menos, que . Ele conversava com uma mulher e parecia bem compenetrado durante o tempo em que ela tocava-lhe o braço e ria, sinal mais do que claro de flerte. Puxei o oxigênio para sanar a sensação de falta de ar e ri irônica, balançando a cabeça em descrença e me achando o ser humano mais otário da face da terra.
O achando o ser humano mais otário da face da terra.
Saí dali e, brava, marchei até a bancada de bebidas, afinal, era a única coisa que eu tinha para fazer.
- Como é o nome disso? – Perguntei ao barman, apontando para o líquido azul no copo do qual ele mexia.
- Blue Hawaii*.
- Ótimo! Vou querer esse negócio do Hawaii. – Solicitei, arrancando uma risada do homem atrás do balcão. Com uma destreza invejável, ele colocou os ingredientes na coqueteleira e bateu bem, despejando-o no copo long drink junto à soda, decorando tudo segundo o tema pedido.
- Prontinho, senhorita. Aproveite o sabor do Hawaii! – Entregou-me a bebida e eu sorri largo, o agradecendo. Tomei um gole do fluido azulado e entrei em uma batalha interna a fim de decidir qual drink era o meu favorito dentre os dois dos quais eu experimentara até então.

Quinto copo?
Sexto?
Talvez eu tenha perdido as contas no sétimo.
Aquilo era bom. Muito bom.
Estranhamente feliz e imersa ao que acontecia a minha volta, eu mexia distraidamente no guarda-chuva de enfeite do copo sem me importar com nada. Deixei de varrer o terraço à procura de por volta do quarto drink, pensando em todos os palavrões possíveis nas vezes em que ele surgia na minha mente. Eu estava me divertindo sozinha e aproveitando a minha própria companhia, tudo mantinha-se muito bem, obrigada.
- Está sozinha? – Um homem me perguntou. Eu sabia que ele encontrava-se ao meu lado, só não sabia há quanto tempo. Virei-me eufórica para a figura bem-posta e levantei o meu líquido alcoólico.
- Não, estou acompanhada do Blue Hawaii. – Respondi vibrante, mostrando a bebida. Ele gargalhou.
- Tenho certeza de que eu posso ser uma companhia mais agradável. – Ofereceu-se e a minha reação foi a única possível. Arqueei uma sobrancelha e o encarei irônica, franzindo o cenho ao constatar que ele tentava sensualizar passando a língua nos lábios.
Eu queria me controlar e dizer “não”, entretanto, a euforia tomou conta de mim e das minhas ações e, ao invés de recusar, eu ri.
A gargalhada saía incontrolavelmente e eu ao menos compreendia o porquê de estar rindo tanto, tampouco o homem, que me observava como se eu fosse uma louca.
- Você quer uma manteiga de cacau? Está com os lábios ressecados? – Perguntei zombeteira, sem ter controle do que saía pela minha boca. Eu só falava tudo o que me vinha à mente. Ele franziu o cenho e retirou-se abruptamente do balcão, falando palavras das quais eu não consegui compreender. E nem desejava.
Virei o resto do licor e levantei-me com certa dificuldade. Ri sozinha devido à desorientação e segui até o banheiro do andar, rindo mais uma vez ao perceber a ausência de movimento ali. Encarei o meu reflexo no espelho e forcei a visão embaraçada com o intuito de me enxergar, o que não foi possível. Peguei a chave de casa e saí do toalete. As luzes baixas tornaram-se um agravante à ausência da minha capacidade visual, provocando um tranco em meu corpo contra outro corpo. Atônita, procurei a pessoa responsável pelo meu cambaleamento, preferindo não ter encontrado. segurou o meu braço, evitando a minha queda e, ao detectar que era eu quem ele sustentava, sorriu debochado.
- Cuidado com o chão, gracinha. – Zombou. Cerrei os olhos e puxei o meu braço, cambaleando outra vez. – Não te vi mais depois que eu cheguei, isso tornou a minha noite meio chata, sabia? – Questionou e eu franzi o cenho, confusa em consequência da tontura.
Borrões, muitos borrões.
O rosto de formou imagens tremidas e distorcidas absolutamente engraçadas.
Gargalhei e não fui capaz de ver a sua feição. Eu só queria rir.
- Você é pa.té.ti.co. – Falei com dificuldade. Constatei algo sólido atrás de mim e me virei ligeiramente, franzindo o cenho mais uma vez ao mirar a parede às minhas costas. Pisquei diversas vezes atenta ao rosto de , pretendendo focar nele e percebendo que ele encontrava-se sério assim que eu obtive sucesso em minha tentativa.
- Você sempre foi fraca pra bebidas. – Observou, me estudando. Rolei os olhos e enviei um comando mental a mim mesma para sair dali, entretanto, não consegui realizar tal tarefa motora.
- Corte o papinho sentimentalista, . – Bradei, decidida a tentar falar direito.
- Por que bebeu tanto? Viu o acompanhado e ficou revoltadinha? – Fechei a cara e ri irônica logo após.
- Eu não baseio as minhas ações em homem nenhum, bebi porque eu quis. – Por fim proferi a frase certa, ainda que arrastada e continuou me contemplando de maneira estranha.
- Sinto a sua falta. – Admitiu repentinamente. Acho que o meu nível de embriaguez estava bem alto, pois não era possível ter escutado aquilo. Apertei os meus olhos e o fitei desorientada, deixando a risada escapar pela milésima vez. Ele levou a sua mão até a minha bochecha quente e aproximou a boca da minha. Acompanhei os seus movimentos assustada e transtornada demais para ter uma reação. – Falo sério. – Exprimiu muito próximo dos meus lábios. Neguei com a cabeça e ri sem humor.
- Estou um pouco alta, não burra ou com amnésia. – Proclamei ríspida e o afastei de um jeito torto, trocando os pés quando dei alguns passos para longe dele. – Vamos fazer um acordo: Não olhe para mim, só passe reto que eu farei o mesmo. – Terminei, empenhada em sair dali. Dei-lhe as costas e caminhei com esforço em direção à saída. provavelmente aproveitaria o aniversário de Adrian junto a ele e eu não a atrapalharia.
- Moça, está tudo bem? – Um segurança me perguntou assim que eu passei por ele. Parei de andar e o fitei com um sorriso débil.
- Claro! Estou ótima! – Respondi animada. O homem pareceu não se convencer. – Pode dizer as horas, por favor?
- São cinco e quinze da manhã, senhorita. Quer que eu chame um taxi? – Ofereceu. Gargalhei e neguei. Só se eu pagasse o motorista com um rim.
- Obrigada, mas eu sou adepta ao metrô. Bom dia e até mais! – Despedi-me efusiva, contudo, interrompi os meus passos ao sentir falta de algo em minhas mãos.
Onde estavam as minhas chaves?

’s POV

A minha semana havia sido infernal e o meu propósito na festa do meu amigo era apenas me distrair de toda a merda que rondava a minha vida, porém, o contratempo da presença de gerou em mim uma infinidade de questões incorporadas a uma inquietude fora do comum, resultando na falha total dos meus planos. Na minha cabeça tudo situava-se na mais perfeita ordem, o que me levava a crer que seria fácil ver a garota sem que eu me sentisse confuso, entretanto, aquilo foi um ledo engano.
Após o nosso pequeno embate, onde o comportamento esquivo de deixou bem claro que algo não estava normal, fui tomado por inúmeras dúvidas a respeito de suas atitudes das quais não permitiam com que eu compreendesse qual era o real problema. Ou se existia um problema. Foi somente em meio à conversa com Betsy – uma antiga colega da época do colégio –, que eu definitivamente consegui direcionar os meus pensamentos a outra coisa que não fosse , fato esse que começava a me irritar.
Logo após me despedir dos meus amigos com a intenção de ir embora, Betsy passou a mão em minhas costas e se colocou à minha frente, repuxando os lábios cheios e vermelhos num sorriso envolvente.
- Eu também já vou. Talvez você queira conhecer o meu apartamento novo... – Soltou despretensiosa, me encarando de modo lascivo sem vacilar. Arqueei uma sobrancelha sem muita surpresa, afinal, percebi as segundas intenções na mulher em vários momentos no decorrer da noite. Um lado meu desejava unicamente chegar ao meu apartamento e desmaiar em minha cama; Já o outro lado, o lado mais impulsivo do qual eu raramente ouvia, insistia em gritar que eu necessitava de distração a fim de tirar da cabeça. Mesmo sabendo que essa não era a atitude mais correta a se tomar, foi a que falou mais alto.
- Claro. Será um prazer. – Lancei-lhe um sorriso ladino e a sua expressão se iluminou. Fiz um sinal com a cabeça e toquei-lhe a cintura, dando espaço para que ela andasse a minha frente.
- Vou com o meu carro e você me segue, certo? – Betsy sugeriu e eu assenti.
No momento em que passamos pela saída e paramos com o propósito de aguardar os nossos respectivos veículos, reconheci uma voz extremamente familiar, embora relativamente enrolada. Olhei para o lado e franzi o cenho em pura desorientação ao ver ali, gesticulando afobada para o segurança.
- Só um minuto. – Pedi a Betsy, que concordou sem dizer nada. Fui até a garota ainda sem entender o que ocorria e notei que ela não encontrava-se em seu estado de consciência habitual. – , o que está fazendo? – Questionei, assustando-a. Ela virou-se abruptamente e não me pareceu muito feliz.
- Falando com o segurança? – Devolveu a pergunta em tom de obviedade e a sua fala denunciou a sua embriaguez. A encarei sério e ela não demorou a me ignorar, voltando a comunicar-se com o homem inexpressivo. – Tem certeza de que não encontraram nada? – Indagou lastimosa e ele assentiu. – Droga! Tudo bem, obrigada. – Agradeceu e deu as costas, iniciando a sua caminhada não retilínea. A alcancei e toquei-lhe o antebraço, chamando a sua atenção. Seus olhos vidrados e vermelhos cravaram-se nos meus, me causando um impacto imediato, acarretando um arrepio automático em meu corpo por apenas imaginá-la andando sozinha naquele estado. – O que você quer, ? Eu estou indo para casa. – Explicou atrapalhada e eu neguei com a cabeça, analisando-a com seriedade.
- A pé e desse jeito? – Rebati irônico e ela rolou as órbitas, cruzando os braços.
- Transporte público existe, sabia? – Comentou satírica, o que estava começando a me tirar do sério. Estreitei a minha expressão mal humorada vendo-a imitar o meu ato, e a corriqueira tensão instalou-se acerca de nós mais uma vez. Suspirei e passei as mãos pelo cabelo pedindo serenidade aos céus.
- , esse caminho é deserto. Cadê a sua amiga?
- Está com o Adrian. Não vou ser empata foda, volto de metrô, sem problemas. – Expressou e olhou por trás dos meus ombros, rindo sarcástica em seguida. – Pode voltar e prosseguir com seja lá o que você for fazer agora, eu sei me virar. – Finalizou ácida e eu franzi o cenho, perdendo as contas de quantas vezes executei tal ação . Virei meu corpo ligeiramente e Betsy nos encarava indecifrável.
O que era toda aquela hostilidade provinda de ?
- Eu te levo pra casa. – Ofereci e a risada da garota diante de mim fez-se audível novamente.
- Como eu já disse... Não vou ser empata foda. – Repetiu perto de mim com o tom de voz brando e eu, já sem paciência alguma, fui ao encontro de Betsy.
- Virou babá, ? – Indagou desdenhosa.
- Creio que os nossos planos terão que ser cancelados. – Informei e a mulher assentiu presunçosa. – Uma amiga minha não está muito bem.
- Sem problemas. O meu apartamento continuará lá. – Piscou. – Foi bom te ver.
- Digo o mesmo. – Falei, vendo-a seguir o caminho até o seu carro em passos felinos. Regressei para perto de , que ouvia atentamente algo que a hostess lhe dizia.
- (...) Entraremos em contato caso o seu objeto seja localizado. – Ela agradeceu e me olhou.
- Eu perdi as minhas chaves, antes que você pergunte. – Proferiu tediosa. Coloquei as minhas mãos nos bolsos da minha calça e cravejei a minha atenção em seu olhar baixo.
- E como você pretende entrar em casa? Até onde eu sei, sua mãe viajou. – Analisei. A garota pareceu se tocar desse detalhe e suspirou, erguendo os ombros. – Eu espero ela chegar. – Ri sem humor devido a sua teimosia. Ela cambaleou minimamente para o lado e eu a segurei pela cintura.
- Só me escute. – Praticamente supliquei. – É perigoso andar sozinha a essa hora, . Você não está cem por cento sã e não tem como entrar em casa. Venha comigo, por favor. – Disse o mais calmo que eu pude. Ela olhou para o lado e pareceu ponderar por alguns minutos.
- Achei que você estivesse ocupado. – Exprimiu em um muxoxo bêbado. Sorri fraco e neguei. Deu-se por vencida através de mais um suspiro resignado e eu, que ainda me encontrava com as mãos apoiadas em sua cintura, aproveitei para guiá-la junto a mim até o meu carro. Abri a porta e a ajudei a adentrar o automóvel, me inclinando para colocar o cinto nela. O aroma suave de rum proveniente de seu hálito quente bateu contra o meu rosto e eu me concentrei em ignorar aquilo, dando partida assim que me sentei ao seu lado.
- Eu mesma podia colocá-lo. – Murmurou a contragosto. Revirei os olhos da rua e os pousei nela, que mantinha os braços cruzados na altura do peito enquanto fitava a paisagem pela janela. Balancei a cabeça e tornei a dirigir atentamente.

Minutos após um caminho demasiado silencioso, estacionei na garagem do condomínio e me retirei do carro, ajudando uma atrapalhada a fazer o mesmo. Apoiei o seu corpo quente no meu e andamos em direção ao elevador, tudo na mais extrema ausência de som.
Entramos no apartamento e ela olhou em volta, analisando o local com uma feição engraçada.
- Esse lugar é tão grande que me admira não precisar de visto para entrar nele. – Comentou simples, arrancando uma gargalhada minha. – Você usa GPS para se locomover aqui?
- Não, . – Falei, ainda rindo. – Vou pegar um copo d’água pra você. – Avisei, deixando-a sentada no sofá, ouvindo um “cuidado pra não se perder” em resposta. Entreguei-lhe o copo e, em pé diante da garota, estudei a sua figura atenciosamente. Notando que estava sendo observada, ela se mexeu desconfortável, despertando-me de meu devaneio.
- Obrigada. – Disse. Peguei o objeto de vidro e o pousei em uma mesinha qualquer.
- Como você está se sentindo?
- Está tudo girando. – Deu uma risadinha.
- Na verdade, você está bêbada. – Complementei. – Vem, vou levá-la até o quarto. – levantou-se com a minha ajuda e, com certa dificuldade, subimos os degraus até o segundo andar durante o tempo em que ela gargalhava sozinha cada vez que tropeçava em seus próprios pés. Abri a porta do meu dormitório e, hesitante, ela me acompanhou, sentando na minha cama. Torceu o nariz e me encarou séria, como se averiguasse algo.
- Isso é muito esquisito. – Alegou concisa. Suspirei e afirmei. – Sabe o que eu acho engraçado? – Interrogou com a cabeça tombada para o lado. Arqueei uma sobrancelha e ela prosseguiu. – Você é realmente muito bom em disfarçar e agir como se nada tivesse acontecido. – Levantou-se e, em meio a tropeços, se aproximou. Sem reação e pego totalmente de surpresa, a olhei sem compreender.
- ... – Comecei, porém, fui interrompido.
- Deixe-me falar, . – Paralisou a minha frente. Eu sabia que o seu teor alcoólico é quem comandava as suas ações, haja vista que ela não costumava agir dessa forma quando sóbria. – O que você quis dizer no começo da festa? É um pouco tarde pra quê? – Indagou firme e eu passei as mãos pelo cabelo, nervoso.
- Não é o momento certo para falarmos disso. Durma um pouco.
- Eu quero falar agora. – A olhei fixamente e o ambiente tornou-se pesado. – Por que as coisas sempre ficam... Assim, quando estamos perto um do outro? – Permaneci calado, admirando todo o seu rosto. – Por que uma hora você age como se... Como se importasse, e na outra, simplesmente parece indiferente? – Suas indagações foram disparadas. Com o semblante carregado e o maxilar travado, me limitei a fitá-la. Aquilo também era uma incógnita para mim. – Me responda, . – Outro passo. O seu corpo encostou-se no meu e um arrepio me tomou por completo ao sentir os seus seios subindo e descendo conforme o seu tórax ditava o ritmo dos movimentos. Prendi a respiração, petrificado.
- , você não está totalmente sensata para termos essa conversa. – Falei, vendo-a rolar os olhos.
- Estou bem ciente das minhas faculdades mentais. – Afirmou, mesmo sabendo que, definitivamente, não estava. Continuei quieto. – Veja isso como uma oportunidade de me dizer o que quiser! Existe a hipótese de que eu não vá me lembrar, afinal. – Expeli o ar com força, cansado.
- Por que você está fazendo isso, ?
- Porque eu não sou uma garotinha boba com a qual você pode agir da maneira que desejar. Acha que pode me beijar a hora que quiser, falar coisas aleatórias e tudo bem, porque eu vou me comportar tal como um fantoche? – Soprou contra os meus lábios. – Pois você está errado! Você terminou um relacionamento recentemente, . Eu entendo que existe toda uma carência no meio diss...
– Não termine. – A cortei firme e ela parou de falar, me encarando. – Eu não sou um moleque, não faço jogos e jamais me aproximaria de alguém... De você, apenas por carência, o que nem é o caso. Eu não sei que porra está acontecendo comigo, tudo bem?! Eu não queria que as coisas mudassem, mas mudaram. Merda, ! Você está FODENDO com a minha cabeça! – Esbravejei, exausto. – É difícil assimilar isso tudo, há alguns meses eu mal sabia que você existia! – Concluí com a respiração acelerada, assim como ela. A garota piscou atônita e eu sorri enviesado. – Satisfeita?
Nada foi dito. olhou para baixo e tornou a me observar logo após o seu breve ato. Levou uma de suas mãos até a minha face e a mapeou delicadamente. Fechei os olhos rapidamente e os abri, vendo-a concentrada em todos os detalhes do meu rosto. Peguei a sua mão e a segurei cuidadoso, colocando-a para baixo. – Acho melhor você se deitar. – Ela assentiu meio a contragosto.
- Será que eu irei me lembrar disso? – Perguntou quase num sussurro.
- Seria bom que sim. – Segurei o seu rosto e encostei os meus lábios em sua testa por um curto período de tempo. Afastei-me de sua figura imóvel e lhe mandei uma piscadela, saindo do quarto em seguida.

Extasiado, esfreguei o rosto em completo desatino.
O errado nunca me pareceu tão certo como naquele momento.


Hostess: É uma profissão. Uma espécie de recepcionista de restaurantes, bares, eventos, festas, discotecas ou hotéis.

That's my girl: Essa é a minha garota!

Blue Hawaii: Coquetel tropical feito de rum, suco de abacaxi, curaçao, mistura agridoce e, às vezes, vodka também.






"Eu não quero ser seu amigo, eu quero beijar o seu pescoço." – Falling for you - The 1975.

’s POV

Ai, meu Deus.
Essa foi a primeira frase que me veio à cabeça no exato momento em que eu abri os olhos.
Estar de ressaca por si só já era horrível, agora, estar com a ressaca puramente dita, em conjunto com ressaca moral, era de querer sumir do mapa.
Eu possuía flashes de diversas cenas da noite anterior, entretanto, a cena que eu mais desejava apagar da memória estava lá, intacta, detalhada e vivaz. Como eu pude ter falado tudo aquilo para o ? Merda, merda, merda.
Sentei-me na cama e levei minhas mãos à cabeça, enjoada e sentindo o mundo girando ao meu redor enquanto toda bebida que eu havia consumido remexia-se em meu estômago, ocasionando uma vontade descomunal de colocar tudo para fora. Expirei profundamente e a realidade bateu na minha cara quando o aroma do perfume de invadiu o meu olfato, despertando-me em um choque imediato. Alarmada, olhei em volta e observei minuciosamente o imenso e organizado cômodo, logo percebendo que o lugar gritava o nome dele, tamanha a afinidade com a sua identidade contida em seu aspecto exterior. A vergonha tomou conta de mim e a ideia de pular da janela não me pareceu tão absurda ao constatar que eu teria que olhar para o após o meu pequeno show, além do fato de que ele também havia falado muita coisa.
E as coisas ditas não poderiam ser ignoradas.

“Você está fodendo com a minha cabeça...”


Ele realmente falou isso. Ele definitivamente falou isso. O rum não deturpou a maneira da qual eu experienciei toda a situação. Não aquela.
Levantei-me calmamente e, zonza, procurei pelos meus sapatos. Cambaleante e com a cabeça a ponto de explodir, os peguei e decidi que carregá-los por aí seria mais seguro do que calçá-los e levar um tombo vexatório. Eu já teria que lidar com vergonha o suficiente. Passei minha mão livre em meu rosto, tentando melhorar a minha aparência que certamente deveria estar terrível e fiz o mesmo com o meu cabelo, desistindo de fazer milagre à medida que o meu dedo se enroscava pelos fios revoltos. Suspirei uma, duas, três vezes durante o tempo em que fazia um mantra com a finalidade de me acalmar e agir normalmente.
Foco, . Enfrente o acontecimento como a mulher sensata que você é.
É, eu bebi além da conta, sim. E falei demais, também. E daí? Quem nunca, não é mesmo?
Encarei a porta moderna e a dúvida surgiu. Eu puxava, empurrava ou arrastava? Rico tinha uma mania de dificultar até o processo de abrir e fechar. Como era mesmo o nome daquilo? Porta pivolante, pirolante... Pivotante! Não podia negar que era maravilhosa. Movi o puxador prateado para frente e a porta se abriu, revelando um extenso corredor adiante. Incerta, segui a minha intuição e caminhei por sua dimensão, torcendo para que eu não me perdesse devido à amplitude do apartamento, atravessando alguns cômodos até me defrontar com a escada que levava até o andar debaixo.
E nenhum sinal de .
Desci as escadas e a cada degrau superado, a minha hesitação aumentava. Meus olhos alcançaram a mesinha de centro da sala e eu sorri ao ver as revistas das quais emprestei a ele em cima da mesma; Saber que ele realmente estava as lendo me deixou feliz. Vi a minha bolsa no mesmo local e fui até lá, retirando o meu celular de dentro dela. Sem bateria. Droga. Verifiquei ao redor e nenhum sinal do homem. Reparei que uma janela ampla encontrava-se aberta e andei em sua direção, vislumbrando no que eu notei ser uma espécie de cobertura, onde a vista abrangente e deslumbrante do horizonte tornava-se um quadro perfeito a quem a contemplava. Bem como , que estava sentado numa poltrona, focado no jornal em suas mãos. E, para o meu completo desespero, sem camisa; A sua vestimenta se resumia meramente a uma calça de moletom cinza chumbo e eu, que pensei que o cenário da paisagem era incrível a ponto de observá-la por horas, me peguei perdida na figura de tirar o fôlego e muito mais interessante do que a vista à minha frente.
Talvez eu tenha o observado além da conta, pois ele retirou os olhos do papel e os direcionou a mim de forma certeira, onde eu obtive a visão de sua face moderadamente amassada pelo sono, acompanhada dos cabelos desalinhados, o que o deixava adorável. Senti o meu rosto esquentar e a vontade de regurgitar todo álcool consumido voltou com força total, contudo, eu já não sabia se tal sensação se dava pela ressaca maldita ou pela troca de olhares com o homem que me estudava com uma cautela agonizante. Respirei fundo, rezando para que eu não passasse mal e pagasse mico na presença de , porque, aí sim, eu iria querer desaparecer da face da terra.
- Boa tarde. – Disse ele, deixando o jornal de lado. “Boa tarde?” Céus, que horas eram?
- Boa tarde. – Respondi totalmente sem graça, parada igual uma múmia.
- Está se sentindo bem? – Perguntou. Torci o nariz e me mexi incômoda, assentindo mesmo tendo plena certeza de que a minha fisionomia denunciava o meu estado deplorável. Como eu esperava, fez uma expressão de quem não acreditava em nenhuma palavra proferida por mim. – Você está mais verde do que essa planta, . – Afirmou, referindo-se à samambaia localizada perto da churrasqueira. Ele se levantou e eu impedi uma mordida no lábio por ver tudo aquilo revelado assim, logo após acordar. A calça estava poucos dedos abaixo da cintura, deixando a barra da cueca preta à mostra como se fosse um comercial de roupa íntima ou aquelas propagandas sem pé nem cabeça de perfumes importados, nas quais as pessoas bonitas faziam somente o papel de embelezar a cena que, a meu ver, não obtinha sentido algum.
- Eu estou bem. – Lembrei de dizer ao vê-lo a alguns passos de distância.
- Quer comer algo? Ou um remédio?
- Vou aceitar o remédio. – Fiz uma careta e riu fraco.
- Sente-se aqui que eu irei buscá-lo. – Pediu, já se colocando para fora da área e eu precisei visualizar a sua imagem de costas. Seu dorso largo com limites bem determinados pareciam combinar bastante com as minhas unhas e, ainda que eu estivesse com a cabeça pesada, mal estar, enjoada e com todos os – desagradáveis – efeitos fisiológicos que seguem depois de um episódio de bebedeira, eu ainda sabia apreciar algo bom quando via. Sentei-me em um sofá macio, apoiei os cotovelos na minha perna e a o rosto nas mãos, tão tonta como eu acordei. Respirei fundo mais uma vez e fechei os olhos, desejando um banho e a minha cama. Senti uma mão tocar os meus ombros e levantei o olhar, encarando que carregava consigo um copo d’água e um comprimido. Peguei ambos e engoli a cápsula amarga, tomando o líquido gelado em questão de segundos. A minha boca seca agradeceu veemente por aquilo.
- Obrigada. – Falei a ele, que balançou a cabeça.
- Talvez fosse bom que você tentasse comer algo. – Presumiu, me estudando cuidadoso. Contorci a minha feição em desgosto só de imaginar alguma coisa que não fosse líquida entrando no meu estômago, o que foi o suficiente para que assentisse em compreensão.
- Ahn... Desculpe-me se eu fiz algo ridículo ontem. Não sei ao certo o que houve. – Comecei, constrangida. Eu não iria tocar na última – e única parte da noite – da qual eu me recordava nitidamente, pois, como sempre, fingir que nada havia acontecido sempre me parecia uma saída mais praticável, levando em conta também que eu não estava disposta o suficiente para tocar no assunto. cravejou o semblante atento em mim, mas não disse nada. – Obrigada por ter me ajudado, eu realmente não me recordo de muita coisa. – Terminei, vendo-o permanecer na mesma pose, inexpressivo além do que eu considerava normal. Fitamo-nos durante incontáveis minutos e a impressão que eu possuía era que, no fundo, ambos sabíamos que não perduraríamos na atitude blasé mediante aquele tópico em questão.
Contudo, por hora, aconteceria exatamente isso.
- Não se desculpe e nem agradeça. – Ele se manifestou. – Você não fez nada demais. – Assenti embaraçada e o silêncio não demorou a se fazer presente. Um trovão ecoou imponente e eu me dei conta de que o céu carregado anunciava um temporal se armando em meio à escuridão. - Vai chover. – Constatei. O brando aroma antecedente à chuva penetrou o meu olfato e eu senti a costumeira calmaria que ele me proporcionava. Sentado ao meu lado e encarando a paisagem assim como eu, concordou. Juntei as pernas e as abracei, apreciando a vastidão cinzenta que, por vezes, iluminava-se em virtude de um relâmpago.
- Se importa? – O homem questionou prestes a acender um cigarro. Dei de ombros e neguei.
- Eu, não. Mas os seus pulmões certamente sim. – Gracejei e ele arqueou uma sobrancelha, zombeteiro.
- Você não tem hábitos ruins, ? – Instigou interessado e eu o fitei. Os lábios repuxados em um sorriso sucinto salientaram a sátira velada na pergunta recém feita.
Ah, eu com certeza tinha.
E possuir sentimentos por você é um deles, querido.
- Beber demais e acordar em um quarto que não é o meu. – Não consegui segurar e falei de uma só vez, atraindo a atenção de . Sustentando o sorriso conciso e o cenho arqueado, o homem me encarou com o cigarro na boca de um jeito que me obrigou a prender o ar. Ele ainda estava sem camisa e, Deus, os arrepios que deram sinal de vida por todo o meu corpo não escondiam o que se passava na minha mente naquele momento. tragou o tabaco e, calmamente, soltou a fumaça para frente com o risinho ladino e teimoso perdurando em sua face.
- Dependendo do contexto, não sei se isso pode ser encarado como um mau hábito. – Avaliou despretensioso e o rubor fez-se presente em minha face.
Mas que diabos...?
Ele estava começando a brincar com fogo e eu não negaria a me queimar.
A chuva havia chegado de maneira sutil e, sem demora, intensificou-se gradualmente. Os raios e trovões ressoavam estrondosos e, embora boa parte da cobertura possuísse uma marquise da qual impedia que a água chegasse até nós, a ventania excessiva permitia que algumas gotas nos molhasse vez ou outra. Aquele era o menor dos problemas, afinal. De fato, eu precisava daquilo para me esfriar um pouco.
- E qual seria esse contexto, ? – Questionei, forçando ingenuidade. Ele finalizou o cigarro e o deixou em um cinzeiro ali perto, tudo na maior tranquilidade. Voltou os olhos despudorados até a minha figura sinicamente inocente e os percorreu pelos meus a ponto de soltar faísca. Uma forte rajada de vento nos acertou e eu me encolhi, apesar de sentir calor em meu interior. levantou-se sem proferir palavra nenhuma e fez um sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse; Assim o fiz. Ele deu espaço a fim de que eu passasse primeiro e, após isso, adentrou a sala, fechando a janela em seguida. Eu já estava me sentindo uma completa babaca por ter entrado em seu jogo, no entanto, quando a sua presença foi sentida logo atrás de mim, um sinal de alerta soou como se me avisasse que aquilo não seria deixado ao relento como as situações entre mim e costumavam ficar.
- Não sei se eu sou bom para explicar. – A voz grave soou perto demais. Seu hálito quente bateu contra o meu ouvido e eu estremeci. Virei-me e fiquei de frente para ele, que me observava preciso.
- Eu sou boa para entender. – Rebati firme. Todos os efeitos da minha embriaguez dissiparam-se em uma rapidez surpreendente; Tudo o que eu sentia era excitação. E expectativa. deu um passo para frente e eu, em provocação, recuei, sentindo as minhas costas escorarem na pilastra atrás de mim. Engoli a seco no momento em que ele se aproximou totalmente, encostando o seu tórax desnudo em meu corpo sem cortar o nosso intenso contato visual. Percebi um cílio em seu rosto e, delicadamente, toquei nele, onde respirou pesadamente por efeito do meu toque. Retirei-o de lá e sorri. – Faça um pedido. – Mostrei o pêlo. Ele sorriu ardiloso com o canto dos lábios e soprou suavemente o meu dedo, fazendo a pestana voar. Reclinou-se e levou a boca de forma libidinosa até a minha orelha, deixando-me em estado de urgência e o meu corpo febril; Seus braços pararam rente a minha cintura, um de cada lado, aprisionando-me entre ele. O barulho da chuva não impedia que o som de nossas respirações densas fossem ouvidas; Na verdade, parecia instigar as nossas ações.
- O que eu desejei chegou mais rápido do que eu esperava. – Sussurrou, acumulando uma sensação de prazer em meu baixo ventre. Arfei e grudou os nossos corpos de súbito; A sensação de sua pele quente em contato com a minha me levou a um frenesi inexplicável enquanto o meu peito subia e descia rapidamente. O meu decote permitia que uma parte dos meus seios roçasse demasiadamente em seu tronco rijo, o que o agradou, visto que ele levou uma de suas mãos até a minha nuca, enchendo a palma com os fios do meu cabelo, onde deu um leve puxão que me fez gemer baixinho em aprovação. Contornei toda a extensão de suas costas com as minhas mãos, passando levemente as unhas por ela de cima para baixo até chegar a sua lombar, região na qual intensifiquei tanto a pressão do meu toque, quanto das minhas unhas. Pousei os dedos na barra de sua calça, deixando-os raspar levemente em suas entradas, instantaneamente ouvindo ofegar e se contrair. – ... – Começou suplicante, a voz rouca ainda direcionada ao meu ouvido sensível incendiou partes das quais eu nem sabia que poderiam ser estimuladas. – Não provoca. – Rosnou. Apertou a minha cintura em um toque grosso e, com a mão embrenhada em meus fios emaranhados, coordenou o movimento para que eu ficasse face a face com ele. Era óbvio que ele desejava sim que eu o fizesse. Mordi o lábio e encobri um sorriso de satisfação ao notá-lo responder às minhas ações. A sua íris transbordava luxúria e a minha não devia estar diferente. conduziu a minha cabeça ligeiramente para o lado e roçou o nariz em meu pescoço intercalando o ato com o lábio; A sua língua percorreu a pele exposta de modo lânguido e vagaroso demais para alguém tão em chamas como eu, que possuía convicção de que iria explodir, aproveitando para descontar tudo no dorso dele. aumentou a agilidade dos movimentos beijando o meu pescoço e se locomovendo em direção ao colo sem pudor algum. Eu não conseguia controlar os murmúrios que escapavam da minha boca e levei as minhas mãos até o seu cabelo, passei meus dedos entre os seus fios e os puxei com gosto, me deliciando com a sensação de sua língua passeando próxima aos meus seios desprotegidos pela brecha da blusa.
Mais contato. Eu necessitava de mais.
Coloquei as minhas mãos em seus ombros e imediatamente entendeu o que eu queria. Dei um impulso e ele me imprensou – ainda mais – de encontro ao pilar durante o tempo em que segurou ambas as minhas coxas com firmeza, sustentando o meu peso quando eu contornei o seu quadril com as minhas pernas e entrelacei os braços em seu pescoço. Encaramo-nos atentamente, estudando e analisando as reações um do outro minuciosamente, os dois respirando acelerado e com dificuldade.
- O que nós estamos fazendo? – Indaguei com a voz baixa e vacilante, atônita devido ao que ocorria. Eu não desejava pensar ou refletir a respeito da loucura que tudo aquilo significava, os meus sentimentos encontravam-se alvoroçados e os batimentos do meu coração causavam a impressão de que ele sairia pela minha boca a qualquer instante, porém, não dava para ignorar o fato de que tudo era muito estranho. negou com a cabeça aparentando estar perdido, assim como eu.
- Nós estamos ultrapassando alguns limites aqui. – Respondeu enrouquecido, muito perto da minha boca.
Um trovão ensurdecedor reverberou o ambiente.
- Estamos. – Limitei-me a dizer, descendo a minha atenção até os seus lábios convidativos.
- Você liga?
- Não.
- Nem eu. – Falou sem refutar. Afixou a pressão em minhas coxas e eu pulsei em estado ebulição quando senti o contato mais abundante entre nós junto a um volume já significativamente perceptível no meio de suas pernas, que foi de encontro à minha parte já suplicante por atenção. Arfei e esfregou nossos lábios de maneira suave com os olhos fixos nos meus, usando sua língua para massagear a minha boca e abri-la. Capturei o seu lábio inferior e ele fechou os olhos, respirando pesado. No instante em que íamos aprofundar a conexão de nossas bocas, o som irritante da campainha ecoou pelo cômodo me fazendo praguejar e amaldiçoar mentalmente quem quer que fosse. e eu nos encaramos perdidos e ofegantes por termos sido despertos de todo aquele clima único do qual nos encontrávamos, absortos além da conta para dar importância ao ruído provindo do outro lado da porta.
A sineta soou mais uma vez.
- Eu acho melhor você... – Comecei, desnorteada.
- É. Eu vou atender. – Ele completou visivelmente atordoado, soltando as minhas coxas e me ajudando a descer de seu colo. A sensação de incompletude me atingiu em cheio e eu agradeci por ainda estar me amparando, pois as minhas pernas bambas não eram o suficiente para sustentar o meu corpo trêmulo e extremamente vulnerável ao toque do homem, que me fitava sério. Retirei as minhas mãos de sua nuca e ele se afastou, caminhando até a porta.
Passei as mãos estremecidas pelo rosto com o coração acelerado a ponto de me obrigar a respirar e inspirar diversas vezes a fim de acalmá-lo ao menos um pouco, sem acreditar no que estava acontecendo. No que estava prestes a acontecer. puxou a maçaneta e bagunçou os cabelos, cumprimentando a pessoa à sua frente e eu imediatamente cerrei os olhos e desejei não escutar o que eu escutei naquele minuto.
Não podia ser verdade.
A voz de repercutiu e adentrou os meus tímpanos me fazendo querer arrancá-los só para não ouvi-lo.
- Você está acompanhado, cara? – O ouvi perguntar, zombeteiro. – Está esquisito. – permaneceu inexpressivo e eu não soube como agir nem o que pensar. Continuei ali parada com cara de nada, torcendo para que fosse embora. Era azar demais vê-lo duas vezes em menos de vinte e quatro horas.
- Eu me esqueci que você viria, foi mal. Vou pegar o aparelho e já volto. – Avisou já fazendo menção de sair, entretanto, parou quando se expressou novamente.
- Qual é, . Não vai me convidar para entrar? Nem vai me apresentar à bonitinha que está aqui? – Seu tom de voz me enojou. Não obstante, ele prosseguiu a falar desembestado. – É a Betsy? Ou rolou um remember com a Cassie? – Meu estômago revirou e, em um movimento rápido demais tanto para mim, quando para , adentrou a sala. – Eu prometo que só irei falar oi e vou embora assim que você trouxer o... – Ele deixou a fala morrer assim que me enxergou parada ali. Voltei a respirar rápido tamanho o nervosismo e os seus olhos cerraram-se no que eu reconheci como incredulidade. emitiu uma risada dotada de escárnio e o raio do qual clareou o apartamento só tornou toda a cena ainda mais teatral. – Uau, por essa eu não esperava! – Exclamou chocado. Eu mantive a posição inabalável e suspirou, fechando os olhos e tocando a própria testa por breves segundos. – Sempre inovando, hein, ? – Zombou sem tirar os olhos coléricos de mim e eu franzi o cenho, sem paciência para lidar com ele.
- Não começa, . – repreendeu ríspido. Eu havia ido do céu ao inferno.
- Seria uma falta de educação imperdoável da minha parte não cumprimentá-la. – Sua fala saía saturada de deboche, o que era até engraçado. Eu revirei as órbitas, demonstrando indiferença.
- Não se incomode em falar comigo, eu posso viver sem isso. – Proferi com um sorriso mais do que falso.
- Eu realmente atrapalhei algo? Sinto muito, amigo. – Ignorou a minha frase e virou-se para , que arqueou a sobrancelha com a feição carrancuda.
- Não lhe devo satisfação de nada.
- Ouch. Desculpe. – Ergueu as mãos em rendição. – Bom, você pode pegar o bridge?* Tenho uma reunião amanhã e já vi que me intrometi demais por aqui. – disse a , que trocou um breve olhar ressabiado comigo. Sustentei-o com o propósito de demonstrar que estava tudo bem e ele retirou-se do cômodo, subindo as escadas para o segundo andar.
- Parece que você finalmente conseguiu, meus parabéns. – A voz cínica fez-se audível novamente. Cruzei os braços e lancei-lhe um olhar gélido.
- Comporte-se como o adulto que você é e saiba se colocar em seu lugar. – Ralhei seca.
- Você sabe que ele acabou um namoro recentemente, não é, ? Seja esperta e não se deixe encantar por pouca coisa. – pronunciou arrogante.
- Nada disso é da sua conta. Não sei o que se passa pela sua cabeça para você achar que pode me dizer como viver a minha vida, sinceramente.
- Sou amigo dele e passei um bom tempo com você, ou já se esqueceu? – Indagou petulante e eu perdi a paciência.
- E a última parte significa que você sabe muito bem como fazer os outros de idiota, não é? Sua experiência neste quesito é bem vasta, mas não se preocupe, porque eu já não sou mais a mesma. Não se intrometa. – Bronqueei irritada e ele riu sem humor. retornou ao recinto com uma caixinha em mãos e a entregou para .
- Valeu, cara. Agora irei me retirar para não atrapalhar ainda mais. – Avisou satírico. – Tchau, . Pense bem no que eu lhe disse. – Aconselhou irônico e franziu o cenho, movendo os olhos de mim para o amigo, que agora já se localizava fora do apartamento. O meu interior se revirou em inquietude e, quando a porta foi fechada, passei a ser observada pelo homem a minha frente com uma atenção desmedida.
- “Pense bem no que eu lhe disse?” – Ele reproduziu a frase de . Engoli a seco e neguei com a cabeça.
- Bobagem, como sempre. Nada que valha à pena ser comentado. – Cortei o assunto e ele assentiu intrigado.
Silêncio.
- Vou tomar um banho rápido e vamos para casa, tudo bem?
- Claro. – Sorri. sumiu do meu campo de visão e eu me sentei no sofá, observando a chuva torrencial pela extensa janela de vidro com cada centímetro do meu corpo ainda em ebulição, resquícios do acontecimento de minutos atrás. O céu começava a dar espaço para o crepúsculo, indicando que o período de transição do dia para a noite se iniciava. Peguei a minha bolsa e tentei, mais uma vez, ligar o meu celular, não obtendo êxito algum. Bufei e me apoiei no encosto do sofá, permitindo que o barulho dos trovões trouxesse consigo a serenidade que eu necessitava após as eventualidades que andavam sucedendo a minha vida.
Era tudo tão inacreditável, eu nunca sequer cogitei a hipótese de um dia estar na situação da qual eu me encontrava: Confusa por ter me envolvido com além do que poderia ser considerado normal, se for ter em mente o fato de que ele sempre aparentou ser inalcançável para mim. Eu não sabia se desfrutava do momento, ou se racionalizava sobre os problemas que esse envolvimento inusitado acarretaria. Eu mal sabia se eu poderia arriscar a chamar...Isso de envolvimento.
Por mais que doesse admitir, estava certo. acabara de sair de um longo relacionamento, e, embora eu não soubesse o que havia ocorrido para que o rompimento se procedesse, sabia que desfazer-se dos fragmentos de uma relação não costumava ser tão fácil assim. Alguns minutos depois, reapareceu na sala com os cabelos úmidos e o aroma inconfundível de seu perfume alastrou-se pelo ambiente antes mesmo dele terminar de descer as escadarias, ao passo que sacudia os fios recém molhados. Ele ergueu os olhos e deu de cara comigo o olhando tal qual uma perfeita pateta, e eu, envergonhada por ter sido pega no ato, virei o rosto em seguida com o rubor tomando conta da minha face.
- Podemos ir? – Questionou ele, pegando algumas coisas de cima da mesinha. Levantei-me e assenti, calçando meus sapatos e recolhendo a minha bolsa. abriu a porta e esperou que eu passasse para fazer o mesmo, trancando-a e caminhando comigo ao seu lado até o elevador em meio a um silêncio cômodo.
- Você pretende se mudar pra cá? – Perguntei, quebrando a ausência de som.
- Sim. Não sei ao certo quando, mas estou me programando para isso. – Respondeu enquanto seguíamos até o seu carro. Sibilei um “hm” e agradeci quando abriu a porta do veículo para mim, logo sentando-se no banco do motorista e dando partida. O pára-brisas iniciou o seu trabalho no momento em que a ininterrupta chuva bateu contra o vidro, produzindo um forte barulho. Por mais que eu estivesse feliz por sair daquela atmosfera nociva da qual a mansão possuía, não pude negar que senti um pequeno aperto no peito por saber que, indubitavelmente, Bento estaria incluso na mudança. Eu sentiria falta dele.
Eu sentiria falta deles.
A melodia de uma música aleatória tocava suave e eu focalizei a minha atenção nos borrões da paisagem, desligada e absorta nas gotas que formavam vários contornos indefinidos. Certa vez, eu li em uma revista que os seres humanos detinham uma rede de neurônios especializada em reconhecer olhares, sendo, substancialmente, um detector do qual dispara um alarme cerebral no instante em que você percebe que está sendo observado. Naquele minuto, o meu “radar” foi ativado, com isso, mudei a direção da minha visão e vi que me fitava de soslaio, retomando o foco para a pista molhada rapidamente.
O programa da rádio entrou no comercial e o minuto de notícias deu início às informações a respeito da bolsa de valores, acontecimentos recentes e importantes em alguma parte do mundo e, por último, na morte do empresário que outrora ouvi junto à .

“Ainda sobre o assassinato de Sandro Averbuck: Há uma série de investigações acontecendo e nenhuma pista está excluída, além de operações policiais...”


Notei a postura de enrijecer e ele imediatamente desligou o aparelho.
Franzi minimamente o cenho e, um tanto quanto cismada, tornei a apreciar a carga d’água vinda do dilúvio incessante.
- Talvez seja melhor que eu não entre com você. – Proferi hesitante quando nos aproximamos do condomínio, acarretando uma feição de confusão no homem ao meu lado. – Sabe... Alguém pode ver e isso não seria bom. – Completei e não mudou sua fisionomia cética.
- Você está com medo que interpretem mal e isso caia sobre a sua mãe, é isso? – Perguntou direto e eu assenti. – Não se preocupe, tudo bem? Não precisa sair por isso, . – Consolidou. Suspirei e, a contragosto, concordei. Adentramos a mansão e saímos do automóvel, e eu, claro, olhei para todos os lados à procura da presença de seja lá quem fosse. Um alívio descomunal me acertou ao constatar que o carro usado por Barret não se encontrava ali, o que significava que, pelo menos a Senhora , não estava em casa.
Sorri largo no instante em que Bento surgiu eufórico, embolando-se nas minhas pernas e nas de em uma felicidade contagiante.
- E aí, carinha?! – Ele saudou o cão, abaixando-se com a finalidade de acariciá-lo. Fiz o mesmo, recebendo uma lambida certeira bem no meio da minha bochecha, o que fez rir. Não tive tempo de exprimir reação alguma, haja vista que Bento apoiou as patas dianteiras em meus ombros, ocasionando um impulso que me fez cair de bunda no chão; riu mais, jogando a cabeça para trás pela gargalhada. Cerrei os olhos em sua direção mesmo estando nítido que eu segurava o riso.
- Você está achando engraçado? – Questionei em tom de ameaça e ele assentiu zombeteiro. Engatinhei até um brinquedo jogado por ali e me aproximei de . – Bento! – Chamei-o. – Pega! – Ordenei e arremessei o objeto de plástico no colo de , que mal conseguiu reagir. O Pastor Alemão pegou o dono de surpresa e se lançou de encontro ao seu corpo, que desequilibrou-se e também caiu. Foi a minha vez de gargalhar e receber um olhar incrédulo enquanto o homem era atacado com lambidas frenéticas.
- Não sabia que você era vingativa, . – Falou satírico tentando controlar o cão e eu dei de ombros, sorrindo travessa.
- Ele realmente sabe dar boas vindas. – Comentei, rindo da indecisão de Bento que olhava para mim e para , não sabendo com quem brincar. – A pata dele já está boa.
- Sim. Vou levá-lo ao veterinário antes que ele arranque a faixa sozinho.
- Estou surpresa que isso ainda não tenha acontecido. – Disse risonha.
- Ainda bem que ele gasta parte da energia com você. – Falou com o sorriso sereno que permaneceu após a sua sucessão de risadas.
- E eu sempre acabo no chão. – Avaliei divertida. ergueu-se e pegou em minhas mãos, ajudando-me a me levantar. Encaramo-nos por breves segundos e eu decidi que era hora de ir pra casa. – Obrigada novamente por ontem. – Sorri torto e ele negou com a cabeça.
- Por nada. – Acariciei a pelagem de Bento uma última vez e acenei, enxergando o cão e seu dono lado a lado a me olhar. Dei às costas e saí da garagem às pressas, correndo em meio ao temporal que não cessava um momento sequer.
Os poucos minutos percorridos por mim foram o suficiente para que eu me molhasse significavelmente, praguejando ao sentir a ventania gelada entrar em contato com a minha pele molhada. Entrei em casa e, seguidamente, encontrei minha mãe sentada na sala enquanto lia. Ela levantou os olhos do livro e a sua expressão externou alívio ao me ver.
- , que demora! – Queixou-se. – Eu estava começando a ficar preocupada! – Torci o nariz, não sabendo por onde começar.
- Desculpe, fiquei sem bateria. – Lamentei, pegando a toalha da qual ela me estendera.
- Eu sei, liguei para a e ela me avisou que vocês estavam juntas. – Falou e eu quase franzi o cenho pela informação recebida, entretanto, teria que sustentar o que lhe fora dito pela minha amiga. – Preste mais atenção da próxima vez, por favor.
- Ah... C-claro... Eu me distraí com a festa. – Menti e a sensação ruim por estar encobertando os verdadeiros fatos me acertou como um soco no estômago.
- Tudo bem, filha. Como foi o aniversário? – Perguntou voltando a se sentar.
- Foi ótimo, o lugar era lindo. E a palestra?
- Ah, eu adorei! A senhora quer que nós façamos um cardápio especial para o seu aniversário, então aprendemos todos os macetes dos pratos. Foi bem interessante. – Explicou satisfeita e eu assenti.
- Que bom! Vocês irão arrasar, como sempre. – Pisquei. – Tudo bem se eu não ficar aqui com você? Preciso de um banho. – Falei demonstrando o meu estado para a mulher à minha frente, que sorriu e concordou.
- É um favor que você me faz, está molhando todo o chão. – Proferiu com uma careta e eu ri, sibilando um “desculpe” e me dirigindo ao meu quarto a fim de colocar o celular no carregador.
Deixei-o tomando carga e corri para o banheiro, despindo-me com certa dificuldade devido à roupa molhada grudada em meu corpo, dando pulinhos atrapalhados durante o tempo em que lutava para me livrar da minha calça. Feito isso, enfiei-me debaixo da água quente e relaxei, ao passo que todo ligeiro traço da não tão presente ressaca fosse por ralo abaixo; E, claro, revivi mentalmente todos os momentos com , mesmo lutando para impedir que isso acontecesse. Minutos depois, finalizei meu banho e enrolei-me no roupão, retornando ao quarto e pegando meu aparelho já ligado.
Sentei-me na cama e me assustei com as notificações contidas nele.
Dez ligações da minha mãe.
Quinze mensagens de texto e sete ligações perdidas da . Meu Deus. Ela vai me matar.
Mensagens no grupo da faculdade;
Mais algumas da minha mãe;
Grupo da família do meu pai;
Mais mensagens da ;
E uma foto enviada pelo Vicenzo;
A abri e gargalhei ao ver uma imagem sua na frente de um espelho com um treco verde no rosto inteiro.
Deixei para responder tudo depois e respirei fundo, preparando os meus ouvidos que, certamente, ouviriam uma baita bronca da minha amiga. Disquei o seu número e, após poucos toques, sua voz exasperada bradou sem pestanejar.
- Graças a Deus, ! Onde você se enfiou?! – Questionou sem respirar e eu ligeiramente afastei o celular do meu ouvido.
- Desculpe, desculpe, desculpe. – Pedi, antes mesmo de começar a me explicar. – A minha bateria acabou, não consegui falar com ninguém.
- Eu percebi! Você sumiu da festa, onde esteve?! São muitas coisas a serem esclarecidas, espero que você saiba. Eu quase morri de preocupação! – Tornou a falar, indignada. Fechei os olhos e apoiei as minhas mãos na testa.
- Eu sei... Eu fiquei no último andar e acabei bebendo demais, não me lembro muito bem. – Soltei num muxoxo. – Perdi as minhas chaves e foi uma confusão! Eu não quis te atrapalhar e resolvi ir embora de metrô. – reclamou e eu ignorei. – aí o apareceu e...
– Espera. – Ela me interrompeu. – Até onde eu vi, ele saiu com uma mulher. – Discorreu e eu concordei meio a contragosto, mesmo que a minha amiga não pudesse visualizar tal ação.
- Sim, mas ele achou que não seria uma boa ideia eu voltar sozinha, não sei ao certo o que houve, mas aceitei ir para o seu apartamento porque eu estava sem a minha chave e não conseguiria entrar em casa. – Terminei hesitante, percebendo um silêncio profundo do outro lado da linha.
- , por que você não falou comigo? Não atrapalharia em nada! Como assim “aceitei ir para o seu apartamento?” – Imitou a minha fala de um jeito engraçado, ainda que eu soubesse que nada ali era dito em tom de brincadeira. – Eu fiquei louca de preocupação e menti para a sua mãe enquanto você se atracava com o ?! Eu espero que não, porque você estava bêbada e eu o mataria. – Ameaçou aborrecida e eu logo tratei de clarear as informações.
- NÃO! – Exaltei-me. Constatando o meu tom de voz alto, controlei-me e continuei. – Óbvio que não, ! Pelo contrário, ele não encostou em mim. Não aconteceu nada, ele ficou em outro lugar e deixou o próprio quarto para que eu dormisse, inclusive. – Elucidei, ouvindo-a resmungar um “Ah”. – Porém...
- Porém...? – Encorajou-me impaciente.
- Porém, eu meio que falei o que não devia e talvez tenha revelado coisas demais. – Mordi o lábio e a vergonha me assolou mais uma vez. – , o também disse tanta coisa, eu estou confusa demais! – Confessei aflita.
- Calma, amiga. O que ele disse?
- Disse que eu estou fodendo com a cabeça dele! – Exclamei vacilante. A frase em questão fazia a minha mente dar voltas infinitas em direção a lugar algum.
- Uau...
- E tem mais! Nós quase... Bem, nós demos uns amassos hoje. – Falei tentando parecer o mais desafetada possível, contudo, terminei por soar balbuciante.
- COMO É? – Minha amiga praticamente gritou e eu, novamente, precisei afastar o celular do ouvido com uma careta em meu rosto. - Tudo o que nós falamos se torna ambíguo, é como se não conseguíssemos permanecer perto um do outro sem que um clima esquisito surja, sabe?
- Eu costumo chamar isso de tensão sexual. deduziu e eu ri, achando o termo muito cabível à circunstância.
- Seja lá o que for, está nos enlouquecendo. Só não fomos até o fim porque, adivinha... O apareceu. – Falei, permitindo que o tédio tomasse a frase.
- Eu não acredito! O que aquele babaca foi fazer lá?
- Ele foi pegar alguma coisa, não entendi direito.
- Imagino o climão que deve ter ficado... – Presumiu e eu concordei. – ... Eu juro que não quero te desanimar, mas como amiga, acho importante te recordar de que o recém rompeu com a Cassie. Tome cuidado, tudo bem? Não vá muito ao céu, seja racional. – Aconselhou e eu suspirei, afinal, já havia ouvido algo semelhante.
- Eu sei, tenho consciência disso. Não estou sonhando acordada ou coisa do tipo.
- Fico aliviada. Você já pensou na hipótese de contar para ele a respeito dos seus sentimentos?
- Às vezes dá vontade, sabe? Ao menos acabaria com essa situação e eu seguiria em frente. – Revelei cansada. Eu não me permitia sentir plenamente a felicidade de possuir perto de mim, pois havia coisas demais implicadas neste tema.
- Também não precisa ser pessimista, . Só perguntei porque sei que você guarda isso há bastante tempo, entende? enunciou compreensiva como sempre.
- Sabe o que eu acho? – Ela murmurou para que eu prosseguisse. – Alguém deveria fazer uma série da minha vida! Alô, Netflix, está perdendo a chance! – Dramatizei me jogando de costas em minha cama e a minha amiga gargalhou do outro lado da ligação. – Eu preciso desligar, ainda estou de roupão e toalha na cabeça. – Informei com o pano enrolado nos meus cabelos.
- Certo, senhorita novela mexicana. Até, sweetie.
- Até, mi amor. – Terminei a chamada e expirei o ar pesadamente, tão perdida como jamais estive.

**

Duas bolsas pesadas em meus ombros e dois cadernos grossos em minhas mãos não me impediram de perambular pelo campus da faculdade atrás de um livro sobre desenvolvimento infantil, o que seria de grande ajuda para o meu trabalho recém iniciado. Aproveitaria o fato de não possuir pacientes naquela segunda-feira úmida para desenvolver a observação e coleta de dados da semana na instituição, haja vista que tempo não era algo do qual eu poderia desperdiçar. Com o material já sob minha posse, caminhei com a finalidade de me retirar das dependências da faculdade, entretanto, a figura visivelmente atrapalhada da senhora que outrora falara comigo na porta da secretaria captou a minha atenção. Ela aparentava estar mais sobrecarregada do que eu, pois equilibrava – com dificuldade – diversas pastas, folhas e cadernos em suas mãos ocupadas, juntamente com uma bolsa normal e outra, de rodinhas, da qual arrastava com resistência. Fui até a mulher e abaixei-me a fim de pegar um papel que ela deixara cair, recebendo um sorriso grato pelo meu ato.
- Eu tenho um anjo nessa faculdade! – Falou agradecida e eu ri.
- A senhora quer ajuda? Tem espaço para mais um livro aqui. – Disse, exibindo meu braço ocupado pelos meus materiais.
- Tem certeza, querida? Você não me parece diferente de mim. – Proferiu, me analisando hesitante.
- Claro, não tem problema senhora...? – Deixei a pergunta no ar, pegando um livro quase caído entre os outros sustentados por ela.
- Yvonne. Desculpe-me, não me apresentei! Como você se chama, querida? – Questionou amável enquanto andávamos até a saída.
- . – Sorri. – A senhora veio lecionar aqui?
- Sim, meu filho me recomendou esta universidade e coincidiu de haver uma vaga aberta para professor. Dou aula de pedagogia.
- Que legal, é uma área maravilhosa!
- É sim! E você cursa o que, ? – Perguntou atenciosa.
- Psicologia! – Respondi animada, vendo um sorriso amigável brotar em seu rosto.
- Você realmente tem um jeitinho de psicóloga! – Declarou vivaz. Senti-me feliz em ouvir aquilo, pois passava segurança a respeito do tipo de profissional que eu seria. – Meu filho veio me buscar, já o vejo ali parado! – Comunicou e eu segui o seu olhar até um homem de meia idade – entre os quarenta e cinco ou cinquenta anos –, vestido formalmente e com aparência séria. Aproximamo-nos do veículo prateado e elegante e o homem recobrou a postura assim que nos viu, indo até nós duas e ajudando a mãe, retirando os objetos acadêmicos de suas mãos.
- Obrigada, filho. – Disse ela, pegando o seu livro que se encontrava comigo para entregar a ele, que os colocou no porta-malas. – E obrigada para você também, querida. – Disse gentil e eu sorri, negando com a cabeça.
- Não precisa agradecer! – Expressei sorridente. O homem fechou o compartimento do carro e voltou-se a nós, finalmente esboçando uma expressão. Ele sorriu polido e dirigiu-se a mim.
- Desculpe a falta de educação. Sou Carl, obrigado por ajudar a minha mãe. – Proferiu educado.
- Por nada. Bem, preciso ir... Dia cheio... – Proferi divertida. – Tenham uma boa tarde!
- Pra você também, . Até mais! – A senhora Yvonne pronunciou acenando. Retribuí o gesto e dei-lhes às costas, iniciando o caminho da instituição.

- Seja bem-vinda novamente, . Como foi a sua primeira experiência aqui? Não conseguimos conversar na semana passada, sinto muito. Tive uma reunião e bagunçou o meu horário. – Magnólia, diretora do abrigo, explicou-se, sentando-se na cadeira atrás da mesa localizada em sua singela sala.
- Eu imagino, não se preocupe. Eu adorei, as crianças são uns amores! – Comuniquei entusiasmada.
- Fico feliz. Elas saíram da aula e estão finalizando o almoço, logo em seguida terão uma atividade lúdica*. Trish, a nossa instrutora, esclarecerá melhor todo processo. Você a conheceu no seu primeiro dia, não é? – Assenti – Maravilha! Alguma pergunta?
- Não, está tudo esclarecido. Obrigada pela disposição, Magnólia. – Falei me levantando e apertando-lhe a mão em um cumprimento.
- Qualquer coisa, pode me procurar. – A mulher sorriu e eu correspondi. Pedi licença e me retirei do recinto, caminhando até o pátio atenta em todos os detalhes rústicos do orfanato. Avistei um grupo de crianças correndo no extenso espaço de concreto e Trish surgiu logo atrás delas, gargalhando. Trish era uma mulher em torno de seus trinta e poucos anos trazia que consigo uma aura leve como eu nunca havia visto antes, o que tornava a sua companhia algo extremamente agradável, mesmo tendo a conhecido somente há poucos dias. Assim que me viu, ela acenou animada e fez um sinal para que eu me aproximasse.
- Ei, como vai, ? – Indagou enquanto andávamos atrás dos pequenos eufóricos.
- Muito bem! E você?
- Estou ótima! A Magnólia já te falou sobre a atividade de hoje? – Indagou quando paramos no local repleto de cartolinas, giz de cera, lápis de cor, massinhas, canetinhas e todo tipo de material usado para colorir.
- Comentou por cima, mas sei que elas farão uma atividade lúdica e parecem bastante contentes por isso. – Mencionei rindo da alegria em que as crianças se encontravam ao se darem conta de que brincariam com tudo aquilo.
- Você ainda não as viu no auge da felicidade. – Trish riu comigo. – A atividade se chama “espaço para criar” e ela consiste basicamente em despertar a criatividade e a expressão de ideias. É uma boa forma de ampliar os conhecimentos da criança sobre si e sobre o outro. – Ela explicava com calma e eu a ouvia, atenta. – Eu vou apresentar os materiais à turma, pode ficar à vontade para fazer a sua observação. – Informou simpática e eu sorri agradecida, vendo-a se afastar e um serzinho em especial se aproximar.
- Você voltou! – Archie, um garotinho de cinco anos e simplesmente a coisa mais fofa do mundo - que grudou em mim na visita da semana anterior - exclamou, entre surpresa e euforia.
- Mas é claro que eu voltei! Eu disse que voltaria. – Sorri para o pequeno que me encarava festivo.
- Nós vamos desenhar e brincar de massinha! Vem também! – Disse ele, já me puxando pela mão. – Ela vai me ver desenhando! – Saiu gritando para os coleguinhas, que apenas me fitaram curiosos.
Eu tinha consciência de que uma pessoa estranha ao ambiente despertaria hesitação nas crianças, o que acarretaria em uma aproximação não tão rápida vinda delas, porém, Archie fora o oposto e agiu como se a minha presença ali fosse algo corriqueiro. O pequeno parou e sentou-se no chão onde os outros estavam posicionados em um círculo, dando batidinhas ao seu lado para que eu o acompanhasse. Troquei um ligeiro olhar com Trish, que sorriu consentindo a minha participação na atividade. Sentei-me onde ele marcava com a sua mãozinha, recebendo outro sorriso de derreter o coração em resposta. Trish começou a explicar o que eles fariam, com isso, Archie me olhou e eu fiz um sinal de “shhh”, do qual foi imitado por ele durante o tempo em que nos entreolhamos cúmplices. Antes mesmo de iniciar a observação na instituição, eu havia decidido por não anotar nada enquanto estivesse nos domínios do abrigo, haja vista que tal ação poderia afastar e ocasionar estranhamento por parte das crianças, algo que naturalmente já aconteceria.
Após as orientações dadas por Trish, a turma deu início às suas criações, e eu, passei a olhar atentamente tudo o que elas faziam, suas atitudes e formas de lidar com os colegas e a tarefa imposta. Um tempo depois, as crianças começaram a entregar e mostrar a própria arte. Umas, feitas de massinha; Outras, feitas à tela com tintas; E a maioria, executada nas cartolinas. Olhei para o lado e notei que Archie finalizava o acabamento de seu segundo desenho. Ao concluir o seu trabalho, ele me fitou orgulhoso.
- Que lindo, Archie! Você é muito talentoso. Pode explicar os seus desenhos para mim? – Perguntei e o garotinho assentiu veemente.
- Espera aí que eu vou chamar a Trish! – Levantou-se rapidamente e correu até a mulher, que fora puxada pelas mãos até onde eu estava. – Olha o meu! – Ele falou animado, apontando para as duas cartolinas recém pintadas.
- Uau, acho que temos um grande artista por aqui! Fale sobre elas para nós. – Trish pediu amável.
- O primeiro é um dragão e um cavaleiro! – Explicou ele, apontando para cada traço feito. Percebi linhas pesadas e mais alguns detalhes que chamaram a minha atenção. Eu estudei aquilo e reconheci indicadores emocionais em toda a figura. – O segundo eu fiz pra ela! – Apontou para mim e eu sorri, surpreendida pelo seu gesto. – É um barco no mar com veleiro e um monte de flores! E tem um arco-íris! – Demonstrou empolgado.
- Muito obrigada, Archie! Eu amei o presente, vou guardá-lo em um lugar muito especial no meu quarto. – Anunciei com o coração quentinho e o rosto do pequeno se iluminou.
- Jura?!
- Juro! Está lindo. – Afirmei, pegando a cartolina e olhando a ilustração mais de perto.
- Parabéns, você fez um belo trabalho! – Trish pronunciou de modo doce. – Agora vá ajudar os seus colegas a guardar tudo nas caixas, está bem? – Pediu e ele assentiu, correndo para se juntar ao resto do grupo.
- Ele é adorável! É costumeiro de sua personalidade ser tão receptivo assim? – Perguntei à mulher posta ao meu lado, que concordou.
- Sim, Archie destoa um pouco dos outros. Geralmente crianças institucionalizadas apresentam relutância em qualquer tipo de aproximação, pois existe o medo da decepção, entretanto, Archie age ao contrário com a finalidade de tentar atrair a companhia de alguém que lhe passa segurança. A mãe dele o deixou aqui há dois anos e falou diretamente com a Magnólia. Pediu para que cuidássemos dele e assegurou que voltaria. – Atenta, eu prestava atenção em Trish, que prosseguiu. – Foi extremamente complicado. Ele tinha três aninhos na época e nessa idade a criança acorda choramingando e pedindo a mãe. Nada o acalmava. Ele demorava a dormir e despertava em diversos momentos durante a noite. Archie é carinhoso com todos, mas devo dizer que com você é um pouco mais intenso. – Falou e eu a encarei sem entender. – Quando a mãe dele o deixou aqui, ela aparentava ter mais ou menos a sua idade. Vocês até se assemelham um pouco fisicamente. Talvez Archie sinta tanta falta dela, que a vê em você. – Terminou com um sorriso fraco e eu paralisei. Um buraco havia se aberto em meu peito e a sensação de tristeza foi sufocante. Inexpressiva, encarei o garotinho de longe. Percebendo o meu abatimento, a mulher se pronunciou mais uma vez. – Desculpe, não quis te deixar impressionada. – Emitiu pesarosa e eu neguei.
- Não se preocupe. – Tentei sorrir. – Fico feliz em saber que ele se sente seguro quando eu estou perto, mesmo sendo por esse motivo.
- Sim. E não se sinta mal por se compadecer com as crianças. Pode acreditar, estar aqui é um exercício diário de fortalecimento mental. – Revelou afagando os meus ombros e eu concordei, murcha. Olhei em meu relógio e constatei que o meu horário havia acabado.
- Obrigada por hoje, Trish. Foi muito divertido. – Declarei satisfeita, recebendo um sorriso afetuoso em resposta.
- Que bom que gostou! Te espero na semana que vem. – Expôs gentil. Archie nos fitou e correu até mim.
- Você vai embora? – Questionou tristonho com o rostinho contorcido em angústia. Agachei-me a fim de ficar da sua altura.
- Eu preciso ir. – Lamentei. – Mas eu voltarei! Eu voltei hoje, não voltei? – Perguntei e ele assentiu desanimado. – Então! Trate de colocar um sorriso nesse rostinho fofo. – Cutuquei a sua barriga e ele riu. – Dê-me o seu dedinho. – Pedi, fechando as mãos e só deixando o meu dedo mínimo à mostra. Archie observou a minha ação por alguns segundos e imitou meio torto. Entrelacei-os e olhei para o pequeno melancólico à minha frente. – Este é o nosso sinal da promessa, tudo bem? Se eu fiz isso, terei que retornar. – Ele pareceu gostar da ideia, visto que o seu semblante melhorou.
- Então ‘tá! Vou aprender uma brincadeira nova pra quando você voltar! – Disse com o seu ânimo habitual e eu concordei com a cabeça.
- Aprenda direitinho para me ensinar na próxima! – Descruzamos os dedos e eu me levantei. – Até mais, Archie. Lembre-se do nosso trato, ouviu?
- Sim, eu vou lembrar! – Exclamou eufórico. Sorri e acenei, tanto para ele, quanto para Trish, seguindo para a saída do orfanato. Expirei ainda mexida com a história de Archie e senti os olhos arderem. Droga, eu sabia que teria que ser forte para frequentar um abrigo, entretanto, não esperava ficar tão próxima de uma criança em tão pouco tempo como fiquei de Archie. Segurando o choro, caminhei para casa com um nó na garganta do qual me incomodou durante o caminho inteiro.

**

Cheguei à mansão e não me senti apta a conversar com ninguém. Dei um oi rápido para minha mãe, que, como de costume, trabalhava na cozinha dos , e rumei até a nossa casa absorta em pensamentos. Tomei um banho e coloquei uma roupa confortável, afinal, ainda teria que fazer o relatório da visitação do dia e desenvolver alguns tópicos do trabalho. Peguei meus materiais e sentei-me na área de casa, focada em fazer ao menos metade do que eu havia planejado.
Mal escrevi um parágrafo e a frase de Trish ecoou em minha mente mais uma vez.

“Talvez Archie sinta tanta falta dela, que a vê em você.”

Retirei o seu desenho da minha bolsa e as lágrimas das quais eu segurei no decorrer do dia caíram teimosas pelo meu rosto. Eu não fiz questão de reprimi-las. Elas escorriam ininterruptamente tendo a minha total permissão, como se o fato de tê-las omitido piorasse a intensidade do pranto silencioso. Analisei a ilustração, recordando-me de sua face orgulhosa ao terminar a sua arte. Bento brotou à minha frente e eu dei um sobressalto, levando a minha atenção ao Pastor Alemão sentado com o rabo balançando freneticamente. Vi que a faixa não se encontrava mais em sua pata e sorri para ele.
- Bom menino, recuperou-se direitinho! – Acariciei atrás de suas orelhas arqueadas. Um perfume extremamente conhecido invadiu o meu olfato e eu subi o olhar apenas para confirmar a veracidade de tal aroma característico. parou diante de mim e eu rapidamente procurei secar os resquícios de choro de minha feição que certamente entregava o meu pranto. Ele se aproximou e eu cortei o contato visual, focando no cão enrolado em minhas pernas. – O curativo foi retirado, que ótimo! Ele está bem? – Desembestei a falar, sem olhá-lo.
- Sim, tudo certo. E você, como está? – Devolveu a pergunta e eu suspirei, não sabendo se o fitava ou não. Resolvi fazê-lo, vendo o seu semblante sério me estudar curioso.
- Bem. – Falei e continuou a me estudar. Ele desviou o foco até o desenho de Archie e eu sorri. – Estou fazendo um trabalho num orfanato e ganhei de um garotinho. – Expliquei.
- Posso ver? – Pediu. Assenti e entreguei-lhe a cartolina.
- Hoje foi a minha segunda visita ao lugar, mas já fiquei muito próxima dele, que me deu esse presente. Ele só tem cinco anos, mas é tão esperto! Uma criança adorável. – Disparei sem me dar conta. devolveu-me o papel e eu mordi o lábio sem graça. – Desculpe, eu não tenho parada. – Ri e o homem negou com a cabeça, sorrindo fraco.
- É bacana te ver falando sobre algo que gosta. A cara de choro melhorou, inclusive. – Meu rosto esquentou e um lado da minha cabeça repetiu, de forma constante, um: “Levante-se daí e agarre este homem”. Não era o lado mais esperto da minha mente e muito provavelmente se tratava da parte do meu cérebro que me fez colocar rum no meu organismo até despejar tudo que eu havia dito para em seu apartamento. Acordei pra vida e concordei, embaraçada.
- Fiquei um pouco sensibilizada com a situação. O nome dele é Archie. – Comecei. – A instrutora me contou um pouco de sua história... Ele foi deixado no orfanato há dois anos e, de acordo com ela, a mãe dele possuía mais ou menos a minha idade quando o levou até lá.
- Como ela sabe? – questionou interessado e aquilo me fez sorrir por dentro. Era bom sentir que ele se importava com o que eu dizia.
- A mãe de Archie falou diretamente com a diretora. Ela prometeu que voltaria. – O homem assentiu em compreensão.
- Deve ser mais difícil dessa forma... Conviver com a mãe e de repente não tê-la mais por perto. – Comentou e eu concordei.
- Ela deve ter tido os próprios motivos, não cabe a mim julgá-la. Nem a ninguém, na verdade. Mas dá um aperto no peito, sabe? É um assunto tão delicado... – Expus, controlando as minhas emoções a fim de não deixar com que as lágrimas presas em meus olhos rolassem. agachou-se em minha frente e me fitou atento. Pisquei e uma gota teimosa rolou pela minha bochecha, sendo impedida de chegar até o fim do meu rosto no instante em que ele posicionou sua mão quente em minha face, limpando-a delicadamente com o seu polegar. Estarrecida, me mantive em meio ao nosso contato visual tomado pela ternura inigualável que nos cercava. Meu corpo todo tremeu em expectativa, enquanto o meu estômago parecia estar em festa tamanho o nervosismo a respeito da conduta de .
- Tenho certeza de que você fará um trabalho incrível. – Afirmou e os seus lábios curvaram-se minimamente em um sorriso terno, o que me fez sorrir também. Ele levantou-se e eu murchei.
Droga.
De longe, avistei minha mãe locomovendo-se em nossa direção. Ela franziu o cenho ao notar que eu não estava sozinha e eu me remexi, incomodada.
- Boa noite, . – Cumprimentou, me lançando um rápido olhar inquisitivo.
- Boa noite, . – Respondeu ele, sereno.
- Aconteceu algo? – Minha mãe indagou a nós dois. Neguei veemente, pretendendo não demonstrar o meu nervosismo.
- Não! Só estamos conversando. – Pronunciei e ela assentiu ressabiada. continuou em sua pose tranquila com as mãos nos bolsos da calça social.
- Certo... Vou entrar. Até amanhã, . – Disse para o homem, que acenou com a cabeça.
- Até, . Bom descanso. – Minha mãe sorriu e agradeceu, seguindo porta adentro. Um silêncio esquisito instalou-se e se virou para mim.
- Também já vou... – Anunciou e eu assenti. Ele tornou a chegar perto e eu prendi a respiração quando sua mão foi levada até a minha nuca e os seus lábios encostaram-se levemente em minha testa, permanecendo ali por alguns segundos. Fechei os olhos durante o feito e, mesmo não desejando, os abri ao senti-lo se distanciar. – Durma bem e boa aula amanhã. – Desejou, dando alguns passos para trás ainda me fitando.
- Obrigada... – Agradeci atônita. – Bom trabalho... Amanhã. – Ele lançou um sorriso ladino e fez sinal para que Bento o seguisse. O cão levantou-se e eu o acariciei antes de vê-lo andar pomposo até o dono, que virou-se, caminhando lado a lado com o Pastor Alemão.
Apanhei o meu material e entrei em casa, deixando tudo em cima da mesa.
Talvez ali eu conseguisse me concentrar melhor.
Minha mãe apareceu com uma toalha na cabeça e pegou um copo d’água, fixando os olhos avaliativos nos meus.
- Você e o conversam, filha? – Perguntou despretensiosa e a sua questão provocou uma expressão de dúvida em meu rosto.
- Sim... Digo, de vez em quando. Por que, dona ? – Indaguei. Ela levantou as mãos, fazendo graça.
- Por nada... Só achei estranho. – Comentou. Resolvi ficar calada. – Bom, vou me deitar.
- Tudo bem. A minha noite será um pouco atarefada. – Indiquei o meu caderno com o dedo e ela riu.
- Descanse, . Não adianta nada virar a noite estudando e estar morta no dia seguinte. – Advertiu afagando os meus cabelos. – Boa noite.
- Boa noite, mãe. Prometo que irei dormir! – Comuniquei, recebendo um olhar divertido ao passo em que ela sumia entre o corredor. Meu celular apitou e eu o apanhei, desconhecendo o número contido na tela. Abri a mensagem e franzi o cenho ao ver que se tratava de um número desconhecido e, principalmente, pelo conteúdo na mensagem.

“Só pra você saber: Eu ainda tenho o seu número.”

Desconfiada, respondi.

“Quem é?”

“Pelo jeito eu sou o único.”

“Quem é?” – Insisti já impaciente.

“Faça um esforço, gracinha.” – Revirei os olhos ao perceber que se tratava de .

Recoloquei o aparelho em cima da mesa e abri meu caderno, ignorando a mensagem. Minutos depois, ele apitou de novo.

“Suponho que você tenha adivinhado. Aparentemente eu estou por fora das novidades, devo dizer que fiquei mais do que surpreso em te ver no apartamento do .”

Bufei e a minha vontade foi de entrar pelo celular e esganá-lo, tamanha sua petulância. Respirei fundo e respondi.

“Felizmente o que eu faço não é da sua conta. Apague o meu número, você já deveria ter feito isso.”

Em questão de segundos veio a sua resposta.

“Não é da minha conta, mas já foi um dia. Boa noite, .”

Expirei aborrecida e deixei o aparelho de lado, recordando-me que, mesmo sendo indiferente para mim no momento atual, já me havia me feito feliz de alguma forma antes de se mostrar uma pessoa da qual eu possuía repulsa.

FLASHBACK.
Confortável, eu admirava a paisagem das ruas naquela noite amena. Desviei a atenção da janela e me fitou impassível, esticando um de seus braços livres para que ficássemos abraçados enquanto ele dirigia. Sorri e ajeitei-me ao seu lado, encostando minha cabeça em seu peitoral. depositou um beijo no topo da mesma e uma onda de serenidade fez com que o meu coração aquecesse diante daquele gesto, desse modo, permanecemos unidos e em silêncio pelo resto do caminho até o seu flat. Chegamos ao nosso destino e adentramos o local, onde eu imediatamente avistei o sofá do jeito que eu gostava, com travesseiros e cobertas em cima dele. Corri até lá e me joguei no estofado do móvel aconchegante com uma feição satisfeita, fazendo rir.
- O que você quer fazer hoje? – Indaguei a ele, que se deitou junto a mim, trazendo-me para o seu corpo.
- Quero ficar com você. – Respondeu olhando dentro dos meus olhos e eu enrubesci. Acariciei o seu rosto e sorri.
- Uau, como você está carinhoso hoje. – Brinquei. Ele rolou as órbitas mesmo com o sorriso perdurando em sua feição divertida.
- Eu sou carinhoso, gracinha. Apenas tenho os meus momentos. – Comentou e eu concordei irônica. – Eu quero ficar com você. – Reafirmou e eu parei de rir aos poucos, estudando a sua expressão séria. Tomei-o para mim com as duas mãos em cada lado de sua face e me aproximei totalmente, sentindo-o colar nossos corpos no ato. Encostei meu lábio no seu e ele o abriu vagarosamente, tocando a sua língua calmamente na minha em um breve beijo calmo, que foi transformado em um longo selinho. Abri meus olhos e a mesma serenidade me atingiu ao ver ainda com os olhos fechados e um singelo sorriso na boca antes ocupada pela minha. Ele me fitou e foi a minha vez de sorrir.
- Acho que eu também quero ficar com você. – Zombei e mordi o lábio ao senti-lo apertar a minha cintura e passar o nariz suavemente em meu pescoço.
- Acha? – Provocou mordiscando o lóbulo da minha orelha e eu tentei não vacilar.
- A-acho. – Falhei. Suspirando pesado quando ele colocou a mão por dentro da minha blusa.
- Hm... E o que eu faço para que você tenha certeza? – Perguntou em meu ouvido e o calor do qual me invadiu fez com que as minhas roupas me incomodassem. Passei uma perna por cima de seu corpo e fiquei em cima dele, que aprovou a minha ação com um sorriso malicioso.
- Tire essa camisa. – Praticamente ordenei, e a sua feição maliciosa intensificou-se.
- Ajude-me a tirar. – Pediu com uma seriedade hipnotizante. Mordi o lábio mais uma vez e toquei a barra de sua blusa, provocando-o durante o tempo em que subia a vestimenta e deixava com que os meus dedos percorressem a sua pele junto ao pedaço de pano, que rapidamente parou no chão, deixando a mostra toda a sua estrutura corporal. Sorri satisfeita ao vê-lo arrepiado. - Espera! – Falou sentando-se comigo ainda em seu colo e eu franzi o cenho, vendo-o se esticar até uma mesinha ao lado do sofá.
- Está um pouquinho cedo pra que você pegue a camisinha, não? – Questionei achando aquilo muito estranho e ele riu.
- Não é isso, engraçadinha. – Retornou à postura anterior e entregou-me uma chave. Encarei-o sem entender.
- É pra eu guardar em algum lugar? – Perguntei, fitando o objeto dourado em minhas mãos.
- Sim, com você. – Respondeu e eu o olhei confusa. – Estou te dando essa chave, . – Afirmou. Pisquei algumas vezes, estupefata em ouvir o que eu estava ouvindo.
- O quê... Por quê?! – Voltei a indagar, extremamente atônita.
- Caso você queira vir antes pra cá e eu esteja em alguma reunião. – Explicou, porém, eu não consegui esboçar reação alguma. Surpresa, somente continuei ali, quieta e com cara de idiota.
- , eu... É sério? – Pronunciei boquiaberta.
- Sim. – Respondeu ele, simplesmente. Finalmente me deixei sorrir de maneira genuína e o abracei pelo pescoço, depositando vários selinhos em seus lábios.
- Eu quero ficar com você. – Confessei o observando concisa. Ele me puxou pela nuca e chocou sua boca na minha comigo ainda em seu colo.
FIM DE FLASHBACK.

Ri sem humor pela lembrança indevida.
definitivamente sabia fingir muito bem.
Passei a observar as folhas em cima da mesa, pedindo aos deuses da concentração para me ajudarem a direcionar o meu foco às tarefas.

’s POV

Eu costumava pensar que possuía respostas para tudo. E, se não possuía, era questão de tempo até que eu as conseguisse.
Alguma vez você já olhou para os olhos de alguém e sentiu-se atordoado? Como se só a presença da pessoa fizesse com que tudo ao seu redor se tornasse mais leve? Embora tivesse passado um bom tempo com Cassie, nunca havia experienciado algo semelhante, e isso estava me deixando louco. Como racionalizar uma coisa que você sequer compreende? Como entender essa coisa se você ao menos sabe o que se passa consigo?
Ter em meu apartamento e ouvir o que ela me dissera, foi como uma enxurrada de incógnitas implantadas em minha mente, e, por mais que eu me esforçasse para simplesmente deixá-las de lado, estava mais do que nítido para mim quão mexido eu me encontrava a respeito da garota que bagunçou totalmente a minha cabeça como eu nunca imaginei que aconteceria. Senti-la tão perto naquela tarde posterior à festa só ressaltou o que eu já presumia: Algo nela me deixava em meio a um forte sentimento de plenitude e sair da inércia da qual a sua presença me colocava parecia impossível. Sua pele contra a minha fora capaz de transmitir tamanho calor que eu já não conseguia raciocinar, somente desejava tê-la mais perto e descobrir mais a respeito daquela sensação tão nova e ao mesmo tempo tão completa. Aquela mesma sensação de prazer gritante a cada centímetro do meu corpo que reagia ao seu toque, que não apresentava restrições diante da atmosfera abrasadora da qual nos encontrávamos.
Eu estava fodido.
Tão fodido e imerso naquele momento, que me esqueci completamente do combinado feito com . Se ele não tivesse aparecido a fim de buscar o equipamento emprestado por mim, e eu teríamos ido bem longe. Merda, como eu amaldiçoei o meu amigo por nos ter interrompido. E me amaldiçoei por ter liberado a sua entrada antes mesmo que ele chegasse.
Era mais do que óbvio que após o beijo tudo mudou entre nós. Eu, que cometi o engano de pensar que tal situação não significaria nada para mim, agora me pegava com a incessante necessidade de estar cada vez mais próximo de .
Ela, que sempre esteve ali, porém nunca se fez presente;
Ela, que sempre passou despercebida diante dos meus olhos;
A garota da qual eu não fazia questão de parar para observar com calma;
me encantou aos poucos e eu nem mesmo me dei conta disso.
Expirei transtornado e buzinei pela milésima vez, estressado com o trânsito infernal naquela manhã. A época de chuva havia chegado e trouxe com ela a maior necessidade das pessoas em retirar os automóveis da garagem, afinal, o conforto do próprio carro era melhor do que se aventurar no aguaceiro que caía na rua. Aproveitando a falta de movimento, apanhei meu celular e disquei os números do encarregado por cuidar dos seguranças dos quais contratei sem que absolutamente ninguém – exceto Otto – soubesse.
- Raziel Shafer? – Indaguei ao ouvir o ruído da ligação sendo atendida.
- Sim. Estava esperando a sua ligação, . Já selecionei os meus melhores homens e dei-lhes as instruções passadas por você.
- Ótimo. Sigilo total é prioridade para mim, então, por favor, que nada saia daqui, entendido? – Pedi firme.
- Sigilo é o que prevalece em meu trabalho. – Rebateu determinado. – Já mandei três seguranças à paisana até a rua onde Otto Zucker mora, dois estarão próximos ao escritório e mais dois ficarão junto aos seus pais. Mando mais alguém até você?
- Não. Por ora, é somente o que eu preciso. Obrigado, Raziel. – Falei, aliviado por constatar que os veículos começavam a andar.
- Precisando de algo, é só me contatar. – A chamada foi finalizada e eu segui até a casa de Otto, onde averiguaríamos algumas fotografias da noite do crime.

Estacionei o carro na esquina da casa de Otto e toquei a sineta, aguardando-o surgir por entre as grades de entrada. Ele olhou curioso para a avenida e subimos até o seu apartamento em silêncio, adentrando o local sem proferirmos uma palavra sequer por questão de prevenção.
- Bom dia, . Obrigado por vir. – Cumprimentamo-nos com um aperto de mãos e ele apontou para o sofá. Sentei-me ali e avistei o seu notebook aberto em cima de uma pequena mesinha de centro, junto a uma câmera e alguns materiais fotográficos.
- Bom dia. Desculpe-me pelo atraso, o trânsito estava um caos. – Disse e ele negou com a cabeça, sentando-se ao meu lado.
- Época de chuva é complicada. Antes de começarmos, me sane uma dúvida... – Começou e eu o encarei, esperando-o prosseguir. – Os seguranças já estão cientes do que terão que fazer? Já foram comunicados?
- Sim, eles estarão pela sua rua e sabem o que é preciso saber para executar o trabalho requerido. – Falei e Otto assentiu. – Mas isso não muda o fato de que você precisa se cuidar. O alerta continua: Evite sair de casa em horários onde o movimento de pessoas seja fraco.
- Certo... Recebeu mais alguma ligação? – Questionou cismado e eu neguei.
- Vamos ao que interessa. O que temos aqui? – Perguntei, fitando a imagem a minha frente.
- Bom, por algum motivo, estão faltando algumas fotos em meu cartão de memória. Levará um tempo até que eu as recupere, portanto, não teremos muita coisa por agora. – Explicou. Suspirei e o ouvi continuar. – Separei as fotografias em que o seu cliente aparece, e são muitas.
- Ótimo. Podemos ligar o horário das fotos tiradas com a hora em que o assassinato ocorreu. – Averiguei atento a todos os detalhes do retrato. – Se conseguirmos uma imagem que comprove a presença de Lee Feldmann no momento em que o crime foi cometido, ele terá um álibi. – Refleti disposto.
- E será um suspeito a menos. – Otto completou.
- O juiz ainda não recebeu o laudo pericial, então terei que entrar em contato com o instituto responsável e cobrar um posicionamento. – Manifestei, iniciando a anotação das horas em que o meu cliente encontrava-se nas fotos a fim de comparar posteriormente.
- Tendo o laudo em mãos, várias questões podem ser esclarecida, certo? – O homem perguntou esperançoso e eu assenti.
- Sem ele eu não posso fazer muita coisa, mas creio que demos um grande passo, ainda que essas imagens não mostrem nada demais, apenas várias pessoas em uma festa. – Concluí analisando cada convidado. – Carl Deiner nutria laços com o seu padrinho? – Questionei ao ver uma foto em que Mason Zumack, Lee Feldmann e Carl Deiner posavam juntos. Carl era um grande e respeitado empresário do setor de tecnologia, tendo inclusive participado de algumas festas em minha casa.
- Sim. Os três costumavam ser bem próximos, na realidade. – Otto explicou e eu assenti vagarosamente. Teria que confrontar o meu cliente a respeito da informação recém adquirida e que me fora ocultada. – Ele é uma ótima pessoa, certamente deseja tanto a resolução deste caso quanto eu. – Consolidou com apreço e eu nada disse, embora possuísse uma boa impressão de Carl, que sempre fora um homem íntegro.
- Bom, já acabamos por hoje. – Aleguei, guardando as anotações em minha pasta. – Caso os dados de seu cartão de memória fiquem disponíveis, me ligue.
- Com certeza o farei. Obrigado novamente, Doutor . – Falou, apertando as minhas mãos em despedida.
- Não agradeça. Qualquer eventualidade, falo com você. Até mais, Otto. – Despedi-me, indo em direção às escadas.
Saí de seu apartamento e, mesmo não desejando, uma onda de receio me atingiu enquanto adentrava o meu carro. Não dava para saber a que momento a próxima ligação viria, e eu detinha consciência de que ela viria, cedo ou tarde. Retirei o meu celular do bolso com o intuito de marcar um encontro com o senhor Feldmann, que não demorou em atender a minha chamada.
- Bom dia, . Como vai? – Saudou ao aceitar a ligação.
- Bom dia. Vou bem, obrigado. E o senhor? – Devolvi a pergunta, ajeitando o espelho a fim de que eu pudesse ter uma boa visão da parte traseira do meu automóvel.
- Tudo certo, na medida do possível. Alguma novidade?
- Na verdade, eu gostaria de marcar um encontro para manhã. Apareceram alguns tópicos a serem discutidos.
- Oh, claro. Estou disponível agora, caso queira. – Consentiu solícito.
- Seria perfeito. Chego aí em meia hora, tudo bem?
- Sim, está marcado. Deixarei os seguranças avisados.
- Certo. Obrigado, senhor Feldmann. Nos vemos daqui a pouco. – Expus e o homem despediu-se, terminando o telefonema. Dirigi-me em direção a sua casa com a cabeça repleta de pensamentos e questionamentos, enquanto tentava achar uma relação entre as fotos e os horários em que elas foram tiradas.
Identifiquei-me na portaria do condomínio e estacionei na garagem da casa do meu cliente, cumprimentando os seguranças com um aceno de cabeça. Adentrei o mesmo escritório do qual ele sempre me recebia e o avistei ali sentado, já me aguardando.
- Bom dia, doutor . Sente-se, por favor. Gostaria de alguma coisa para beber? – Perguntou atencioso e eu recusei, educado. – Algo sério aconteceu? – Questionou sentando-se à minha frente.
- Não, está tudo encaminhando. Eu gostaria de tirar algumas dúvidas com o senhor, na verdade. – Expus impassível.
- Sem problemas, pode dizer. – Incentivou-me e eu prossegui.
- O senhor conhece Otto Zucker? – Indaguei direto.
- Conheço, claro! Mason era padrinho dele, um ótimo rapaz. Por que a pergunta?
- Bom, ele me procurou e pediu para que eu o permitisse me ajudar com possíveis evidências do caso. O senhor provavelmente sabe que Otto era o fotógrafo da festa, desse modo, ele possuía algumas fotos da noite do homicídio e eu as vi hoje mais cedo, inclusive vi uma imagem da qual Mason, você e Carl Deiner posavam juntos. Otto me contou que vocês eram muito próximos, eu deveria saber dessa informação. – Disse e a feição do homem se contorceu em culpa.
- Eu não fazia ideia de que isso era relevante, doutor . Mil perdões! – Desculpou-se aturdido e eu neguei, pedindo-lhe calma.
- Não se preocupe. O senhor precisa falar absolutamente tudo para mim, tudo bem? – É de extrema importância que eu esteja ciente até do que lhe parece insignificante. – Falei e ele assentiu.
- Nós três éramos bem próximos, Carl está arrasado com isso. Perdeu um amigo e o outro, por acaso, foi acusado de matá-lo. – Alegou cheio de pesar. – Eu encontrei o corpo do Mason, tem noção?! – Perguntou lastimoso e eu permaneci o encarando com seriedade.
- Eu imagino que seja difícil, e é por isso que estou aqui. Assim que o laudo ficar pronto, o analisarei e irei comparar o horário das fotografias com a hora do assassinato. Caso houver uma imagem em que o senhor esteja presente no instante em que o crime ocorreu, terá um álibi e será absolvido. – Informei e o meu cliente, por fim, demonstrou um sinal de alívio.
- Espero que dê tudo certo. – Senhor Feldmann expressou notavelmente cansado.
- Eu também. – Manifestei. – Estou trabalhando em sua tese de negativa de autoria*, não hesite em me comunicar caso disponha de alguma informação, certo? – Indaguei e o homem balançou a cabeça, de acordo.
- Seja sincero... Levando em conta o que temos até agora, quais são as minhas chances de absolvição?
- Não posso lhe afirmar, não gosto de trabalhar com hipóteses. Apenas saiba que eu estou cem por cento neste caso e estou fazendo tudo o que é do meu alcance para que o senhor seja absolvido. Nenhum cliente meu foi ou será acusado injustamente. – Declamei convicto. – Era somente isso que eu gostaria de esclarecer. Obrigado por me receber. – Levantei-me e apertei a sua mão em despedida.
- Eu que agradeço, doutor . Você é um pouco mais velho do que o meu neto e já me passa tamanha confiança, é admirável. – Mencionou carismático e eu sorri em agradecimento.
- Fico feliz que tenha essa impressão sobre mim, é uma honra. Até mais, senhor Feldmann. – Despedi-me, rumando até a saída de sua casa. Entrei em meu carro e respirei fundo. O dia mal havia começado e a minha mente já trabalhava em alto grau. Passei as mãos no rosto e dei partida no veículo, dirigindo até o escritório durante o tempo em que eu produzia um lembrete cerebral sobre as tarefas e casos a serem cuidados assim que eu chegasse ao meu destino.

**

Exausto não caberia para explicar quão cansado eu me encontrava.
Encostado na parede do elevador, eu afrouxei a minha gravata que parecia me enforcar àquela altura da noite. Senti meu celular vibrar e o retirei do meu bolso com a merda da sensação de receio que sempre me rodeava ao ouvir o aparelho tocar, contudo, respirei despreocupado ao ver uma nova mensagem de .

“E ai, grande ?! Passa aqui em casa para buscar o bridge e tomar um whisky.”

Eu definitivamente estava precisando de um happy hour.

“Beleza, cara. Estou a caminho.”

Guardei-o de volta em minha calça e me direcionei até a casa do meu amigo, desejando somente relaxar um pouco.

- E não é que ele veio mesmo?! – zombou assim que abriu a porta de seu loft e deu passagem para que eu entrasse. Entregou-me um copo com o líquido já inserido nele e nos cumprimentamos com um meio abraço.
- Gostei da recepção. – Rebati erguendo o objeto de vidro.
- Eu não brinco em serviço, meu caro. – Respondeu rindo. – Saiu do escritório agora?
- Sim. Estou morto. – Falei, sentando-me em uma poltrona localizada em sua sala. – O bridge funcionou na reunião?
- Funcionou, ajudou bastante. Valeu. – Agradeceu e eu neguei com a cabeça. – Um acionista do exterior vendeu um lote de ações e a empresa comprou.
- Bacana, cara. Deve ter sido um puta negócio. – Disse, sentindo o corpo relaxar ao engolir o álcool, que desceu abrasando a minha garganta.
- Foi. A minha conta bancária agradeceu veemente. – Gracejou envaidecido e eu ri fraco.
- Quem diria que aquele pirralho irritante seria um homem de negócios... – Brinquei e recebi um dedo do meio do meu amigo.
- Nós sempre possuímos uma boa lábia. Você foi para o Direito, e eu, para as transações comerciais. – pontuou imodesto e eu tive que compactuar com a sua fala. – Cara, a toda hora passa na TV sobre aquele caso pesado no qual você está trabalhando... Como andam as coisas? – perguntou meticuloso. Passei a mão pelos cabelos e suspirei, sem a mínima vontade de tocar nessa questão.

- Ah, aquilo que você viu... Nada resolvido. É bem complexo.
- Caso o seu cliente seja absolvido, a sua carreira vai decolar. O nome da sua família irá aos céus, vocês serão os deuses da advocacia! – Afirmou empolgado e eu me limitei a assentir.
- Vai começar o jogo dos Knicks*, liga aí. – Mudei o rumo do diálogo para o jogo de basquete que estava prestes a se iniciar. colocou no canal de esportes e demos princípio aos comentários a respeito do sistema tático de ambos os times, bem como fazíamos desde adolescentes.

**

- (...) O Irving* pode até ir para o Knicks, mas só pelo Melo* não rola. Vão ter que achar outro time ou envolver o Porzingis*. – Comentei no final do jogo.
- O Knicks não está disposto a vender o Porzingis, mas a troca pode implicar um terceiro time. – argumentou e eu concordei. – O Warriors consegue parar o Knicks nessa temporada?
- Eu acho que não.
- É, estou com você, amigo. – falou, desligando a televisão. – Então... Eu achei que você estava com a Betsy no aniversário do Adrian. – Avaliou indiferente.
- Sim, estava. Mas a estava meio mal e eu...
– E você resolveu levá-la para o seu apartamento? – Meu amigo me interrompeu debochado e eu arqueei uma sobrancelha, desaprovando totalmente a sua intromissão.
- Não com essa intenção. A garota estava bêbada, . Não viaja. – Ralhei e ele riu sarcástico.
- E no dia seguinte ela também estava? – Tornou a questionar. Respirei fundo e neguei, não gostando de sua intervenção no que não lhe dizia respeito.
- Cara, na boa, esquece isso. – Pedi, tentando me manter paciente. Ainda assim, perseverou.
- Esquecer? Ora, o todo poderoso está pegando a filha da cozinheira e não vai contar para o melhor amigo? – Queixou-se sarcástico e a minha boa vontade em continuar calmo se dissipou. O encarei mal-humorado, não gostando nem um pouco do jeito como ele se referiu à .
- Eu já disse que não lhe devo satisfações e ela tem nome, assim como a mãe. – Repreendi irritado e isso pareceu estimular mais o meu amigo, que riu desdenhoso.
- Uau, já está defendendo a sua protegida? Parece que eu perdi muita coisa... – Zombou e eu senti o meu maxilar enrijecer através da cólera da qual começava a me deixar mais enraivecido.
- , qual é a porra do seu problema com a ? – Indaguei entredentes. Ele estendeu as mãos, eximindo-se da culpa.
- Problema algum, apenas estou chateado por você me esconder uma coisa tão surpreendente como essa. Você tem a mulher que quiser, vai mesmo perder tempo com uma ninguém? – E aquela foi a gota d’água. Cheguei perto de e o encarei furioso, cravando a minha expressão imutável na sua.
- Eu vou deixar uma coisa bem clara... Não é porque somos amigos, que você pode falar e fazer o que quiser, ouviu? Controle o seu temperamento e não ouse desprezá-la. – Adverti, ouvindo-o assoviar surpreso.
- Se eu fosse você, não colocaria a mão fogo... – Informou e eu franzi o cenho.
- Sobre o que está falando especificamente?
- Como você disse... Não é da minha conta. Estou apenas te dando um toque, é o meu papel de amigo. – Deu de ombros desinteressado, contudo, eu prossegui querendo compreender.
- , por que você muda completamente quando o assunto é a ? Cara, de verdade, que implicância é essa? – Perguntei e o notei rir cínico.
- Fala sério, . Você acha que eu vou me preocupar com o que aquela garota faz? Leve-a para o seu apartamento e fodam à vontade. – Terminou e deu às costas, guardando a garrafa de whisky junto às outras bebidas.
- Ei, vai com calma aí. Não sei a razão da sua atitude, mas pega leve. – Recriminei. virou-se e eu estranhei a feição mal humorada em seu rosto.
- Perdão por mencionar a sua queridinha, . – Disse em um tom extremamente ácido. – Divirta-se, eu não tenho nada com isso. – Expirei sem paciência alguma e assenti.
- Exatamente. E você não deve se meter ou ironizar nada, muito menos dar permissão. Estou indo nessa, valeu pelo convite. – Avisei, saindo porta afora. respondeu um “até” e eu caminhei até o elevador ainda não entendendo o comportamento anormal dele. Comportamento esse do qual eu desconhecia a origem.
Eu não me recordava ao certo quando ele passou a se portar tal como um adolescente arrogante, entretanto, sabia que a sua postura irritante diante de já perdurava há algum tempo, mesmo não sendo sempre assim até uns anos atrás. O meu sangue simplesmente subia ao vê-lo referir-se a ela com tamanho menosprezo, e eu torcia para que a minha benevolência não desaparecesse, pois, caso isso ocorresse, as coisas não ficariam boas entre mim e o meu amigo.
Já a caminho de casa, deixei com que o meu foco se direcionasse plenamente nas ruas desprovidas de pessoas, ligando o meu sinal de alerta para qualquer movimento suspeito que pudesse se suceder por ali.
O que, felizmente, não houve.
Cheguei ao meu destino e tomei um banho revigorante, me jogando em minha cama sem demora.

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Aquela quarta-feira estava tranquila comparada aos dias cheios dos quais eu geralmente possuía. Respondi alguns e-mails – entre eles, um convite para dar uma palestra em minha antiga faculdade na semana seguinte – e havia passado o resto da manhã elaborando relatórios após uma breve conversa com o juiz responsável pelo caso Zummack, onde pedi um parecer a respeito do laudo pericial. Lamentavelmente, o prazo fixado por ele ainda demoraria a chegar, o que significava que, por ora, eu me manteria sem muito que analisar.
Naquele momento, me encontrava no final de uma audiência de conciliação* em consequência de um acidente de trânsito, ouvindo atentamente as palavras proferidas pelo conciliador depois da assinatura dos papeis, afirmando o acordo entre Lexie – minha cliente – e o homem envolvido na causa.
- A vigência* dessa conciliação começa a partir de quando? – Fui questionado por Lexie.
- A partir do momento em que o juiz homologar*. – Expliquei e ela assentiu.
- Os senhores estão em plena concordância em razão das decisões tomadas neste acordo? – O conciliador indagou para ambos, que afirmaram. – Agradeço por terem participado da audiência, dou este caso como finalizado. – Ele encerrou e concluímos o feito com um aperto de mãos, retirando-nos da sala localizada no fórum.
- Muito obrigada pelo serviço prestado, Doutor . – Lexie pronunciou.
- Não tem o que agradecer, é o meu trabalho. Qualquer dúvida me contate. – Respondi solícito e ela sorriu, concordando. Despedi-me e deixei o local, logo sendo impactado pelo vento gélido do fim da tarde.
Afrouxei a gravata ao adentrar o meu carro e permiti que o meu corpo e mente descansasse por alguns minutos no âmbito de paz do veículo, agradecendo pelo fim do expediente. Dirigi o caminho inteiro no mais profundo silêncio, desejando somente aproveitá-lo sem que nada me atrapalhasse até chegar em casa. Estacionei na garagem e saí dali, caminhando despreocupadamente até o jardim enquanto retirava um maço de cigarros do bolso da calça.
- ! – Ouvi a voz de Cícero soar atrás de mim e me virei.
- Oi, Cícero. Precisa de algo? – Perguntei ao senhor, que sorriu e negou.
- Não, está tudo bem. A sua mãe pediu para que você fosse até a área externa. – Informou e eu assenti.
- Obrigado por me avisar. Mais alguma coisa?
- Somente isso. – Falou simpático. Acenei com a cabeça e me direcionei até o lugar que me fora dito, encontrando a minha mãe saindo de lá.
- Ah, que bom que você chegou, filho. Já estava com a pretensão de te procurar, mas vejo que Cícero lhe passou o meu recado. – Disse, aproximando-se de mim.
- Sim, acabei de me encontrar com ele. O que houve? – Questionei, notando o seu bom humor.
- Você tem uma visita. – Anunciou e eu franzi o cenho, afinal, não estava esperando ninguém.
- Visita? De quem se trata?
- Acho melhor que você mesmo veja. Estarei no meu escritório. – Depositou um afago em meus ombros e se retirou. Caminhei até a área e imediatamente compreendi a felicidade da mulher que acabara de afastar-se. Cassie encontrava-se sentada ali, observando tranquilamente a extensão do quintal. Percebendo a minha presença, ela se levantou, me encarando com um sorriso pacato enquanto eu andava até ela, não compreendendo a sua motivação em vir até a minha moradia.
- Oi. – Cassie imitiu, quebrando o silêncio entre nós.
- Oi. Como vai, Cass? – Indaguei, parando ao seu lado.
- Bem... Ando um pouco ocupada na redação. E você, como está?
- Um pouco ocupado no escritório, mas bem. – Proferi, assemelhando às respostas. – Qual o motivo da visita?
- A sua mãe me ligou e pediu para que eu viesse até aqui a fim de buscar um presente que ela comprou para mim. – Comunicou e eu balancei a cabeça vagarosamente, murmurando um “hm”. – Aproveitei e fiquei mais um pouco para te ver. – A olhei e passei a mão nos cabelos, não obtendo uma argumentação imediata para formular diante do que me fora dito. Percebendo a minha falta de palavras, ela mudou de assunto. – Estou produzindo uma matéria sobre orfanatos na cidade, perdi as contas de quantas vezes quis te ligar para contar... No começo eu odiei, mas estou levando como crescimento pessoal, sabe? – Eu apenas a observava durante o seu discurso, ouvindo-a prosseguir. – Confesso que é um choque de realidade. – Declarou e eu, no mesmo instante, me lembrei de , que estava executando um trabalho com o mesmo tema.
- Fico feliz, de verdade. Você é uma ótima jornalista e tem uma bela carreira pela frente. – Expressei, realmente contente por Cassie entrar em contato com uma realidade diferente da dela.
- Não nos vemos desde o dia em que eu fui ao seu apartamento... É como se fizesse anos. – Comentou, me fitando intensamente.
- Não temos motivo para nos vermos sempre, não é? – Tentei soar agradável, visto que não possuía intenção em ser seco, porém, precisava deixar claro de que não tínhamos mais nada um com o outro, tampouco a possibilidade de reatar. Cassie chegou mais perto e eu arqueei uma sobrancelha pela sua ação.
- Você não sente a minha falta? – Indagou concisa e eu suspirei, negando.
- O nosso relacionamento se desgastou, não era certo insistir em algo fadado ao fracasso. – Expliquei, vendo-a permanecer me encarando inexpressiva.
- Você sente a minha falta ou não, ? – Tornou a perguntar. Esfreguei a têmpora e, mais uma vez, fiz um sinal de negativo com a cabeça.
- Não dessa forma.
- Quando foi que ficar comigo se tornou tão ruim? – Interrogou sentida. Expirei e fixei minha atenção em seu rosto magoado.
- A questão não é essa. Você sabe que a nossa convivência já não era mais a mesma há um bom tempo e o nosso namoro virou um relacionamento de aparências. – Expus com a calma que a situação pedia, a fim de evitar que a conversa seguisse um rumo hostil.
- Eu posso não te amar, mas isso não impede de querer ficar com você. Pelo jeito as nossas vontades não coincidem, não é mesmo? – Cassie rebateu ressentida.
- Elas não coincidiam há um tempo, Cass. – Acariciei o seu cabelo e ela assentiu.
- Só mais uma coisa... – Ela disse, e, sem que eu pudesse raciocinar, a senti acabar com o espaço entre nós, levando a sua mão até o meu rosto e colando os seus lábios nos meus em um selinho demorado, que viria a se tornar um beijo, caso eu não tivesse a afastado delicadamente, deixando-a notavelmente frustrada. Sem pretensão alguma, olhei para o lado e me surpreendi ao ver parada mais à frente, com as mãos lotadas de livros e a habitual bolsa grande em seus ombros, olhando diretamente para mim. Percebendo que eu havia reparado que ela se encontrava ali, ela desviou a atenção rapidamente e locomoveu-se em passos ágeis até a sua casa, entrando sem demora e me deixando com uma inusitada sensação ruim. Retomei o meu foco à Cassie, que me fitava desconcertada. Respirei fundo e iniciei o meu diálogo.
- Cass... Eu tenho um carinho enorme por você e grande consideração pelo que já passamos juntos, mas apenas isso. Não dá mais, tudo bem? Acabou. – Frisei convicto e ela finalmente se afastou, ainda que contrariada.
- Certo... Eu entendi, . Foi a minha última tentativa, você me conhece e sabe que eu não sou de insistir.
- Sim, e estou de acordo com isso. – Aprovei a sua frase e Cassie assentiu, virando-se para pegar uma caixa mediana de cima da pequena mesa localizada atrás dela.
- Até mais e boa noite. – Despediu-se forçando um sorriso e saiu da área externa, sumindo do meu campo de visão.
Passei as mãos no rosto e bufei, cansado. Sentei-me em uma das poltronas que ali ficavam e eu acendi um cigarro, tragando-o como se o ato tivesse a capacidade de fazer sumir a tal sensação esquisita.
Permaneci mirando o nada por não sei quanto tempo, contudo, despertei ao ver sair com um saco preto em mãos, o deixando dentro do compartimento fixado à parte mais afastada da casa. De longe, enxerguei Bento correr até ela, que se abaixou para brincar com o cão saltitante. O Pastor Alemão ergueu a cabeça e detectou a minha presença mais afastada, iniciando uma onda de latidos enérgicos que obrigou a seguir o som agudo à procura do que o deixava tão agitado, logo me alcançando com o seu olhar.
Ao contrário do que lhe era usual, a garota não sorriu ou acenou. Ela simplesmente voltou a prestar atenção no Bento como se nem houvesse me visto, me ignorando prontamente. Tal atitude não era normal, o que me motivou a levantar-me e rumar ao lugar em que e o meu cachorro se encontravam. Agachei-me ao me aproximar de ambos e o Pastor Alemão deitou-se de barriga para cima, pedindo carinho naquela região. Ouvi um risinho provindo da garota ao meu lado, contudo, ela não falou comigo ou sequer me olhou.
- Tudo bem? – Perguntei a ela, que estava focada na barriga de um Bento esticado no gramado.
- Tudo. – Restringiu a sua fala àquela palavra, proferida de forma seca. Ergui uma sobrancelha, fitando-a mesmo que não fosse correspondido, afinal, o seu cabelo cobria a lateral de seu rosto, impossibilitando que eu vislumbrasse uma possível feição de mal humor. ergueu-se e fez menção de deslocar-se dali, porém, levantei-me de imediato e a alcancei antes que ela se afastasse. Toquei suavemente em seu pulso e ela se virou inexpressiva. Aqueles olhos gélidos que transpassaram das minhas mãos até a minha face não lhe eram característicos. – O que você tem? – Interroguei sem rodeios. A garota afastou a mão que era levemente tocada pelos meus dedos e eu tive certeza de que algo não estava certo.
- Nada. Estou apenas indo pra casa. – Respondeu como se fosse algo banal e eu neguei.
- Acho que eu já vi o bastante de você e posso me dar ao luxo de dizer que esse não é o seu normal. – Rebati sério e sustentou a minha expressão.
- Talvez você não tenha visto o suficiente, . As pessoas têm dias em que não desejam falar com ninguém, sabia? – Falou ácida e eu cerrei os olhos.
- Mas isso não significa que você precisa me tratar como se não me conhecesse. – Declarei injuriado. – Qual é o problema?
Silêncio.
pareceu ponderar por alguns instantes, então, sua feição fria converteu-se em algo bem próximo ao pesar.
- Nós ultrapassamos drasticamente alguns limites, não é? Eu não acho que isso seja certo. Devíamos manter distância. – Revelou impremeditável, me pegando de surpresa. Uma merda de pressão estranha assolou o meu peito.
Eu definitivamente possuía consciência sobre o que ela se referia.
Fixei os meus olhos analíticos nos seus, procurando algum vestígio de hesitação em sua decisão repentina, todavia, só me deparei com o vazio.
- Como assim, ? – Questionei atordoado. Ela desviou os olhos para baixo e por milésimos de segundos notei a sua postura defensiva vacilar, retornando velozmente em seguida. Tornou a me encarar e riu sem humor.
- Você é filho dos patrões da minha mãe e tem uma relação estranha com a... – Fez uma pausa, averiguando o que ia falar – Sua ex namorada, ou sei lá o que vocês são. – Franzi o cenho devido às suas palavras, entretanto, sabia que o que dissera era fruto do que ela certamente havia visto mais cedo. – Nós sempre fomos distantes, mas eu gost... – Ela pareceu refrear o que ia dizer. Balançou a cabeça em negação e deixou a frase morrer.
- Mas você...? – Encorajei confuso e o seu rosto ruborizou. – ... – Tentei esclarecer o acontecimento com Cassie, no entanto, fui interrompido.
- Olha... Entrar em um relacionamento não foi algo que aconteceu da noite para o dia, e sair dele dará trabalho, pode acreditar que eu compreendo. Eu só não vou ficar no meio disso, tudo bem? Sempre que nós estamos perto um do outro, eu sinto como se... Como se uma coisa fora do comum não nos permitisse agir apenas como amigos. – Confessou relutante. Eu concordava com ela nesse aspecto. – Todo mundo precisa de um tempo para processar os fatos e entender direito o que aconteceu pelo término do namoro, com você não é diferente. – Ela disparava quase sem respirar, gesticulando energicamente. Eu somente a ouvia querendo lhe dizer mil coisas, porém, não conseguia proferir uma palavra sequer. – Nós confundimos as coisas. – Concluiu me observando intensamente. Assenti devagar, sentindo uma porra de solavanco estranho no estômago.
- Você formulou uma justificativa bem rápida, não é? Nós fizemos paredes de vidro e aparentemente elas estão sendo quebradas. – Articulei cínico.
- Somos de mundos diferentes, . – alegou sentida e eu ri nervoso. Nervoso por não compreender o motivo de me importar com o a garota falava; nervoso por não saber quando foi que nos colocamos naquela situação; nervoso por estar nervoso.
- Porra, ! – Bradei e passei as mãos nos cabelos. – E daí?! As nossas diferenças comandam as nossas vidas? Não podemos ser próximos por causa delas? Aliás... Não faça parecer que eu tenho culpa por isso!
- NÃO QUERO FAZER COM QUE VOCÊ SE SINTA CULPADO! – Ela alterou o tom de voz e eu me surpreendi ao vê-la assim pela primeira vez. – Mas... Não é assim que as coisas funcionam. – Proferiu com a entoação normal em meio a um riso bucólico e eu concordei, já sem paciência.
- É isso que você acha? – Indaguei, estudando todo o seu rosto tomado por uma tristeza que me fazia querer mandar para o inferno tudo o que fora dito e confrontá-la a respeito de sua conduta inesperada. – também me avaliava, aparentando considerar, contudo, assentiu. – Ótimo. Acho que estamos entendidos. – Afastei-me um pouco, notando as orbes da garota ganharem uma coloração avermelhada.
Caralho, o que diabos estava acontecendo comigo? Conosco?
Continuei sem me mover, assistindo a garota dar às costas e marchar sentido à sua casa. A ventania violenta indicava que um temporal se aproximava, trazendo consigo a queda da temperatura da qual mal havia subido. Olhei para baixo e Bento encontrava-se sentado com as orelhas baixas, de maneira que parecia compreender o que havia se sucedido.
- Vem, garoto. Vamos entrar. – Chamei o cão, que me seguiu.
Se achava que seria melhor que nos afastássemos, assim o faríamos.

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’s POV

Decepção: s.f. Sentimento de desgosto, de mágoa ou de desalento; sensação de tristeza; circunstância emocional de melancolia; ausência de alegria.

Arrependimento: s.m. Lamentar-se por comportamentos, atitudes ou decisões já tomadas.

Eu era uma mistura de ambos.
Não era justo que eu me sentisse desse jeito, certo? Eu fiz o melhor para mim, não fiz? No momento em que vi junto à Cassie naquela noite, o meu coração pareceu diminuir progressivamente a cada bombeada que ele exercia, onde o aperto no peito só não foi maior do que a sensação horrível de decepção. Decepção comigo por ter sido avisada e, mesmo assim, ter acreditado que, talvez, existia uma possibilidade de ser correspondida de alguma forma; Decepção em sentir que eu fui somente uma distração para nos momentos em que o nosso contato se intensificou e, a pior decepção de todas: A que gritava na minha cara que esse meu surto não tinha fundamento nenhum, afinal de contas, nós não éramos nada. Nunca fomos. Por essa razão, decidi que ficar longe seria o melhor a ser feito. É o que eu costumo achar de “revés temporário para uma melhoria a longo prazo”. Afastar-se dele será doloroso e uma tarefa árdua, porém, consistirá em um ato de cuidado pelo meu bem-estar. Dizem que afeição é presença na ausência, e eu era a prova viva de que tal frase era verídica, pois nenhuma pessoa experimentava isso mais do que eu.
O meu arrependimento se dava pelo fato de não ter conseguido me abrir com relação aos meus sentimentos na hora em que eu obtive a chance. E, droga, eu cheguei perto de deixar escapar. Guardar aquilo comigo estava me sufocando e eu já não sabia até quando eu seria capaz de deixar tudo armazenado dentro de mim.
Os dias que se seguiram se resumiram à rotina de sempre, exceto pelo estágio da grade curricular, do qual só voltaríamos a ter na quinta-feira. Com isso, o que me restou foi a faculdade e o trabalho na Retrô Record’s, onde eu passei a ir durante o tempo em que teria às tardes “livres”. Vicenzo havia conseguido me animar e arrancar várias risadas durante o dia, o que foi ótimo. A visita no orfanato fora remarcada para a semana seguinte e Magnólia não entrou em detalhes, o que me deixou em uma agonia tremenda pela saudade de Archie, haja vista que eu prometi que não demoraria a voltar.
Devo salientar que sim, topei com algumas vezes, e eu preferia ficar sem vê-lo a captar a tensão e a indiferença que permearam o ambiente, uma vez que fora como na época em que o nosso convívio era inexistente. “Bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” e “oi”, todos regados de apatia acompanhados de trocas de olhares discretas e frias.
Queria dizer que a minha segunda-feira estava excepcional e que o sol raiava no céu límpido, entretanto, nada disso seria verdade. A escuridão impedia que qualquer resquício de claridade surgisse em meio às nuvens carregadas, onde o vendaval impetuoso produzia estrondos amedrontadores unidos ao uivo da brava ventania. Ao que tudo indicava, a época de chuva seria intensa. Na sala de aula, eu me dedicava em responder o questionário preparatório para a prova de segunda-feira seguinte, invejando , que não deu o ar da graça na faculdade. Decerto a minha amiga encontrava-se em sua cama quentinha aproveitando a temperatura por um triz de tornar-se negativa.
Tudo bem, . Foco na prova de ética.

Leia as afirmativas e assinale a sequência correta.

Art. 7° - O psicólogo poderá intervir na prestação de serviços psicológicos que estejam sendo efetuados por outro profissional, nas seguintes situações:

A-) A pedido do profissional responsável pelo serviço; X
Hm... Não.

B-) Em caso de emergência ou risco ao beneficiário ou usuário do serviço, quando dará imediata ciência profissional; V
Corretíssimo.

C-) Quando informado por qualquer das partes, da interrupção voluntária e definitiva do serviço; X
Não...

D-) Quando se tratar de um trabalho multiprofissional e a intervenção fizer parte da metodologia adotada. X

É mais do que óbvio que a alternativa correta é a B, eu só preciso escrever a...
– Senhorita ? – Meu professor me chamou e, sobressaltada, levantei o olhar da folha até ele, que me encarava divertido. – A aula acabou. – Informou. Pisquei algumas vezes e varri o recinto com os olhos, comprovando o seu aviso ao constatar que somente eu permanecia na sala.
- Ah. – Soei, sem graça. – Não percebi. – Ri fraco e guardei o meu material, dando um pequeno pulinho de susto ao ouvir o estrondo do trovão ecoar e estremecer o chão. Despedi-me do homem e saí, recebendo uma lufada de ar gelado ao chegar à parte aberta do campus, vendo diversos alunos correndo até o estacionamento. O temporal me obrigou a ficar escondida nas dependências cobertas do prédio contemplando o aguaceiro tenebroso, dei um passo para trás quando a fonte luminosa da descarga elétrica provinda de um raio abrangeu o céu, mesclando-se junto à caligem da ausência de luz. Encolhi-me e ajeitei a minha touca, sem saber o que fazer.
Como eu conseguiria chegar até o ponto de ônibus? O meu guarda-chuva não duraria cinco minutos! Enxerguei um conjunto de pessoas saindo do auditório e um conglomerado de calouros vibrantes em volta de alguém, que eu não pude identificar graças aos indivíduos em torno do elemento desconhecido. Forcei a visão e o meu coração acelerou instantaneamente ao distinguir quem era o causador de tanto furor.
.
Sua vestimenta se resumia ao preto. O sapato, o terno e o sobretudo, todos fornidos da ausência de cor, deixava-o com um ar de advogado sério que levava a minha libido às alturas, sem contar os cabelos arrumados em um penteado mesclado entre o formal e o rebelde, com o qual o seu traje finalizava com louvor.
- Você viu quem está aqui? – Uma colega de sala brotou do meu lado. – . – Falou sem esperar que eu lhe respondesse.
- É, eu vi... Meio difícil não notar. – Disse, me referindo à multidão diante de nós duas.
- Literalmente. – Sua fala saiu com duplo sentido e eu ri. – Me disseram que ele veio dar uma palestra para os alunos de Direito. – Explicou. – O é um gentleman* assim mesmo ou é só fachada? – Perguntou admirada. Suspirei sem perceber e assenti.
- Sim, ele é a personificação de gentleman. – Falei alheia, apreciando a visão de exercendo a sua conduta aplicada enquanto buscava atender a todos que requisitavam a sua atenção.
- Gostaria de ficar aqui cultuando esse Deus Grego, mas tenho que verificar se o meu carro não saiu boiando. Tchau, .
- Tchau, acho que você terá que ir nadando até o estacionamento. – Brinquei, ouvindo-a rir durante o tempo em que se afastava.
Outro trovão repercutiu dessa vez mais forte, fazendo com que todos olhassem alarmados para o céu, do qual passava a impressão de que eram seis horas da tarde, e não uma. Maneei a cabeça em direção ao meu ponto de foco anterior e dei encontro com os olhos de apontados em minha direção. Prendi a respiração, mantendo aquele contato visual inexpressivo enquanto sentia as minhas mãos suarem em nervosismo por tê-lo me analisando furtivamente. Ele pareceu despertar e quebrou a nossa conexão ocular, virando-se para frente a fim de falar com um dos professores. Suspirei em um muxoxo e sentei-me em um banco encostado na parede, pegando o meu celular com a finalidade de avisar a Vicenzo que eu demoraria. Aos poucos as pessoas iam dispersando do campus mesmo que o temporal não tivesse cessado, e eu já imaginava quão divertida a minha tarde seria estando presa na faculdade. Bufei e abracei as minhas pernas, apoiando o queixo no joelho em uma clara pose de tédio, congelando nas dependências vazias da universidade.
- ? – Eu poderia ouvir aquela voz grave a quilômetros de distância, que ainda assim reconheceria. Ergui a cabeça e o vi diante de mim com a sua pose impassível e as mãos nos bolsos laterais do sobretudo de bom gosto.
- Oi. – Sorri fraco. Ele não expressou nada.
- Vai ficar por aqui?
- Sim. Pelo menos até esse vendaval cessar um pouco. – Falei, me assustando pela milésima vez com a claridade dos raios. – Tenho que ir trabalhar.
- Talvez demore pra que isso aconteça, venha comigo. – Era um pedido simples, porém, a minha libido muito vívida me fez entender que se tratava de uma ordem. A sua voz rouca fazia tudo parecer uma ordem, até se falasse “me passe o sal” soaria dessa forma. Olhei o tempo ruim e refleti por poucos segundos. Não havia por que não aceitar, era apenas uma carona, no fim das contas, e eu realmente precisava dela. Expirei fundo e assenti sem pensar demais.
- Obrigada, irá me ajudar bastante. – Agradeci com um ligeiro sorriso e ele, como sempre, negou com a cabeça, apontando para que eu o acompanhasse.
Um segurança surgiu repentinamente antes que chegássemos até a parte descoberta do recinto e posicionou um guarda-chuva que mais parecia um guarda-sol sobre nós. Estranhei aquilo e sorri para o homem enquanto proferiu um “obrigado”, apoiando sua mão na base das minhas costas à medida que caminhávamos lado a lado com o propósito de não nos molharmos. Não muito. A porta do carro foi aberta e eu entrei rapidamente, notando entrar no lado oposto. Sem falar uma palavra sequer, ele deu partida. A única coisa ouvida era o ruído proveniente do pára-brisa do veículo, que trabalhava sem parar. As folhas das árvores balançavam drasticamente e por um momento eu tive medo de que uma delas caísse, fechando os olhos e me encolhendo toda vez que os lampejos dos relâmpagos apareciam entre o céu tomado pela escuridão absoluta. Eu gostava muito de trovões, mas odiava raios, contudo, o clima esquisito que assolava aquele automóvel me fazia questionar se andar no meio do temporal horrendo era menos pior do que estar ali, imersa a energia pesada e à atmosfera formal, onde fazia parecer que e eu havíamos voltado aos tempos em que não possuíamos nenhum contato ou proximidade.
- Vou por outro caminho, está bem? A via principal está interditada. – Avisou robótico sem desviar os olhos atentos da estrada.
- Tudo bem. – Respondi simplesmente.
Eu olhava pela janela e não conseguia ver nada que não fosse o branco denso das gotas d’água violentas que caíam no vidro, mal conseguindo distinguir onde nós estávamos.
Após bons minutos parados no trânsito, desviamos do engarrafamento e voltamos a prosseguir pela rodovia agora vazia, até que um barulho atípico e um tranco fizeram com que girasse o volante a fim de manter o carro em linha reta enquanto tirava o pé do acelerador. Ele parou o veículo no acostamento e eu franzi o cenho sem compreender o que tinha ocorrido.
- Caralho! – Praguejou mal humorado, olhando através do retrovisor externo à procura do que havia feito aquele estrondo. Fiz a mesma coisa e cerrei os olhos ao avistar uma enorme abertura na superfície um pouco mais atrás de nós.
- Acho que você passou por cima de um buraco. – Comuniquei e ele endireitou o retrovisor interno, confirmando o que eu lhe dissera. apoiou os cotovelos no volante e passou as mãos pelos cabelos, bufando em aborrecimento. Eu poderia estar diferente dele, entretanto, a ausência de movimentação na via me deixou levemente preocupada.
O que acentuou quando eu apanhei o meu celular e notei que estava sem sinal.
O homem irritadiço ao meu lado retirou o seu aparelho do bolso e a expressão carrancuda que tomou conta de seu rosto deixou claro que, assim como o meu celular, o seu também estava fora de área.
- Não é possível! – bateu as mãos no volante, nervoso. Eu não sabia o que dizer ou o que fazer, visto que a camada de água na pista era consideravelmente abundante e tornava inviável a possibilidade de sair do automóvel para verificar o estrago.
- Com certeza alguém vai passar por aqui em algum momento. – Afirmei tentando ser positiva, atraindo a atenção de para mim pela primeira vez durante o período em que nos encontrávamos no carro.
O som da trovoada poderia ser comparado ao impacto de seu olhar.
- Infelizmente a minha reunião não esperará que alguém apareça. – Ralhou impaciente e eu me segurei para não rolar os olhos.
- Você tem outra opção senão aguardar? Eu também tenho os meus compromissos, mas ficar com raiva não irá adiantar. – Pronunciei tranquila. Ele me encarou por pouco tempo e assentiu devagar com o maxilar travado. Ligou o pisca alerta, encostou um cotovelo na porta e apoiou a cabeça nas mãos, usando a outra palma livre para mexer em seu aparelho.
Mais silêncio.
Recostei-me no banco e deixei que o som da chuva me distraísse, olhando de soslaio em meus inúmeros momentos de fraqueza. Tudo naquele carro cheirava a ele e o seu perfume não permitia com que eu pensasse direito. Fitei-o de esguelha novamente e fui pega no ato no instante em que o homem pareceu notar que era observado e virou a cabeça, encontrando os nossos olhares. Diferente de todo aquele tempo, a sua pose indiferente não estava mais lá. Agora, eu era encarada pelo sem armaduras. O sem defensivas. A sua feição serena, ainda que habitualmente séria, demonstrava que, nem se quiséssemos, poderíamos agir como se a conexão que nos unia fosse inexistente. Ela definitivamente não era. Respirando pesado e absorta na forma em que era estudada minuciosamente por ele, eu me peguei considerando a hipótese de ignorar todos os sinais que avisavam em letras garrafais e neon para não insistir nesse sentimento a respeito de e somente continuar com o plano de me manter afastada, todavia, era impossível. Parecia ser impossível.

(Escute After All da Nikki Flores a partir daqui).

- Estranho como nós sempre acabamos nos encontrando de alguma forma. – Interrompi a ausência de som, notando a minha voz soar baixa e um tanto quanto rouca.
- Costumo pensar que o corpo atrai o que a mente censura. – A sua frase mordaz me acertou como um golpe seco e direto. Engoli a seco e abaixei o olhar por poucos segundos, retornando a fazer contato visual em seguida. – Por que você não consegue ficar perto de mim sem desviar o olhar, ? – Questionou fixando a íris na minha. Ele seria capaz de me desvendar somente com tal gesto, se quisesse.
- Não faça perguntas que não podem ser respondidas. – Rebati quase em tom de súplica. Mais um pouco e eu jogaria tudo na cara dele.
- Toda pergunta pode ser respondida, basta que você queira. – Disse, obstinado. Expirei fundo e neguei.
- Por que você se importa?! – Minha pergunta saiu repleta de cansaço. – , nós passamos boa parte de nossas vidas sem olharmos um para o outro, como é possível que de repente você ligue se está perto de mim ou não? Se eu desvio o olhar ou não? – Interroguei de uma vez. Eu queria respostas, queria que ele sanasse as minhas inúmeras dúvidas. O seu olhar se intensificou e eu me arrepiei.
- Não foi de repente e você sabe disso, .
- Me responda. – Pedi. Foi a vez de negar.
- Por que você quis se afastar de mim? – Indagou firme. – O que eu te fiz? – Eu precisava falar. Eu tinha que falar. Petrificada com as inquisições, permaneci calada e julgando o que deveria ser feito.
Era agora. Inspirei boa quantidade de ar com a intenção de tomar coragem e acabar logo com aquilo.
- Porque... Porque eu não aguento mais fingir que não sinto nada quando estou perto de você! – Soltei de uma vez e franziu o cenho. – Porque é difícil saber que eu não me encaixo na sua vida; Porque eu passei tanto tempo imaginando como seria estar perto de você, que quando finalmente estive, entrei em pânico! – Senti os meus olhos arderem, porém, não parei. – Porque a convivência com você me faz... fazia bem, e imaginar que a sensação é unilateral me fez desejar que nós nunca tivéssemos nos aproximado! Porque eu me recordo de tudo o que você e eu dissemos no seu apartamento; Porque eu me sinto uma idiota por sentir isso tudo; Porque eu estou exausta de tentar compreender e decifrar todas as suas frases enigmáticas! – Fiz uma pausa com a respiração rápida e o coração acelerado a ponto de sair pela boca. Eu sabia que os meus olhos encontravam-se marejados e eu não me importava nem um pouco. estava perplexo, me observando com a feição estarrecida contorcida em confusão. Engoli a seco e senti uma lágrima de alívio descer pela minha bochecha.
- , eu... – Ele tentou falar, mas o impedi.
- Eu não acabei. Você não queria ouvir? Então ouça. – O homem se calou. – Porque existe alguém que se encaixa e que é perfeita para você; Porque eu... Eu procurei porquês, mas nem todos os motivos do mundo vão me fazer entender o que está acontecendo. – Concluí. – Pronto. Está feliz? – Perguntei abalada. Pasmo, continuou a me fitar.
Cortei o contato visual e me ajeitei no banco, passando as mãos pelo rosto, sentindo que ele me estudava.
- Olhe pra mim, . – Gelei ao ser chamada pelo meu apelido. Fiz o que me foi pedido, sentindo as minhas mãos suarem de nervoso.
- Eu sinto muito por não ter percebido, causar-lhe essa agonia era a última coisa que eu queria, mas saiba que você tirou conclusões precipitadas a respeito de diversos pontos. De fato, eu costumava não ligar muito pra você, e porra, eu gostaria demais de ter continuado dessa forma, porque você bagunçou tudo! – Bradou e eu permaneci o encarando, surpresa. – Me aproximar de você foi uma das, senão a única coisa boa que aconteceu comigo! Foda-se de quem eu sou filho, foda-se as leis sociais! Eu não sei como, mas eu quero você perto de mim, . – A sensação era de choque. Ouvir o que acabara de sair da boca de não era, nem de longe, o que eu esperava. O meu interior se agitou mais do que a chuva que caía lá fora e eu ri fraco, aturdida.
- Mas e a... – Parei no começo da frase no momento em que levou uma mão até o meu rosto e se inclinou na minha direção, chegando perto o suficiente para que os nossos rostos ficassem no mesmo nível.
- Esquece isso. O que você viu foi um mal entendido do qual eu já resolvi. – Explicou determinado. – Eu quero que você apague todos esses receios que desenvolveram os seus porquês. – Firmou com a voz baixa e rouca contra o meu rosto. A atmosfera que nos ligava transmitia uma calmaria e uma química quase palpável. – Lembra quando eu me desculpei pelo beijo? Esquece aquela merda. Eu não senti muito. Na verdade, eu não sinto muito e não queria realmente me desculpar porque não havia nada para ser desculpado. Porra, , a minha vontade era ter te beijado de novo, mas a minha mente confusa pra cacete fodeu com tudo! – despejou e eu pisquei algumas vezes, abismada demais para assimilar tudo aquilo. Sem raciocinar além do que me era possível, falei a única coisa que devia ser falada.
- Então beije agora. – Soprei contra os seus lábios, que arquearam-se em um sorriso satisfeito. fez um carinho gostoso na minha nuca e eu imediatamente fechei os olhos, sentindo o seu nariz tocar delicadamente o meu em um gesto que me derreteu por completo. Peguei o seu rosto com as duas mãos e guiei os meus polegares em movimentos delicados pela sua pele, exprimindo, naquele ato, um pouco da feição que eu sentia por ele. Seus lábios entreabertos tocaram os meus e prorrogamos tal ação por alguns segundos, apenas usufruindo da sensação de termos um ao outro tão perto. Notei-o sorrir e foi o bastante para que a atitude de enfim avivá-los partisse de mim. Inclinei-me minimamente para senti-lo junto do meu corpo e movi o meu lábio superior em seu inferior apenas o necessário para sentir uma breve tensão entre eles em uma provocação que não durou. - Sem provocar, . – repreendeu com os orbes faiscantes cravados nos meus, grudando nossas bocas com urgência. Ri e pendi a cabeça moderadamente para o lado, abri ligeiramente a boca e soltei um suspiro de aprovação ao sentir a sua língua quente enrolar-se na minha com uma profundidade que expressava quão desejado aquele instante era.
Diferente do primeiro beijo, esse continha avidez. Nós não explorávamos ambos os lábios, nós desfrutávamos deles. Deslizei os meus dedos até o seu cabelo e soltei um murmúrio de volúpia quando ele embrenhou os próprios em meus fios, conduzindo as nossas ações e fazendo com que a minha touca caísse por ali. A mão livre que anteriormente segurava a minha face desceu firmemente até a minha cintura, onde passou o braço de modo vigoroso, fincando o meu corpo no seu enquanto o frio era substituído pelo calor que emanava de nós dois e de nossos lábios sedentos por mais.
Ele prendeu a minha língua com os dentes superficialmente e eu deixei com que um gemido escapasse, arranhei a sua nuca e escorreguei a mão que encontrava-se em seu rosto até o peitoral coberto pelo pano grosso do sobretudo, agarrando o tecido com vontade. Saber o que havia por debaixo daquelas roupas só me irritou mais por elas estarem ali. As nossas respirações densas e ruidosas faziam os vidros do carro embaçar gradativamente, e, mesmo necessitando de ar, eu não queria parar. A luxúria dos lábios de percorrendo os meus ora lenta, ora rapidamente, era demais para sequer cogitar em interromper o movimento torturante de sua língua deslizando provocativa pela minha, e eu aumentei a pressão dos meus dedos em seu pescoço que, a essa altura, já devia ter ganhado uma coloração avermelhada.
grunhiu e, lentamente, desceu a mão antes colocada na minha cintura e a levou até a minha coxa, logo resolvi erguê-la, posicionando-a rente ao seu quadril. O homem acariciou a sua parte interna e ambos ofegamos com as bocas coladas.
Inesperadamente, ele as descolou e me puxou contra si, me conduzindo consigo para o banco do motorista, ato que permitiu com que eu sentasse em seu colo e sentisse a sua excitação proeminente desenhada através do pano fino de sua calça social. Sua mão estava posicionada na minha nuca e os dedos entre os meus cabelos. Fui tomada por um frenesi e a excitação me fez descontar o tesão em seus ombros, onde eu segurei com força, escondendo a cabeça na curvatura de seu pescoço. Notei que ele se arrepiou no momento em que o meu hálito bateu contra a sua derme e, antes de tomar qualquer atitude que nos levasse ao êxtase total, o encarei.
Nossas respirações descompassadas se misturaram e, ao ser fitada seriamente por enquanto sentia o seu afago em meus fios bagunçados, eu tive certeza:
Ali era o meu lugar.


Bridge: Meio tecnológico que permite a comunicação e a interação de pessoas; faz o trabalho de mixar o som dos participantes de uma conferência.

Uma atividade lúdica: É uma atividade de entretenimento, que dá prazer e diverte as pessoas envolvidas. O conceito de atividades lúdicas está relacionado com o ludismo, ou seja, atividade relacionadas com jogos e com o ato de brincar.

Tese de negativa de autoria: Faz parte da defesa do réu ao alegar inocência.

Knicks: O New York Knicks é um time de basquete da National Basketball Association.

Irving: Kyrie Andrew Irving é um jogador profissional de basquete que atua pelo Cleveland.

Melo: Carmelo Kyam Anthony, apelidado de "Melo", é um jogador norte-americano de basquete profissional que atua pelo New York Knicks da NBA.

Porzingis: Kristaps Porzingis é um basquetebolista profissional letão que atualmente defende o New York Knicks na NBA.

Audiência de conciliação: Nesta audiência, as partes envolvidas vão conversar e tentar fechar acordo, sob orientação do conciliador. Caso cheguem a um acordo, o caso é resolvido de forma mais rápida e amigável.

Vigência: Tempo durante o qual o acordo tem validade.

Homologar: Confirmar, legitimar ou aprovar por uma autoridade judicial.

Gentleman: Homem de fino trato, de boa educação.






Continua...



Nota da Autora: Parece que o beijo entre os dois despertou mais coisas do que ambos imaginavam, não é? O otp está surgindo, os sentimentos estão aflorando e tudo só tente a ficar ainda mais... Interessante! Rs. Obrigada pelos comentários tão fofos, aliás. Fico extremamente feliz com cada um deles! <3333
Qualquer coisa, me procurem no grupo da fic ou no ask fm! Deixei os links ali embaixo. Até a próxima! <3

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